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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TERROR NO LÍBANO / Mary Stewart
TERROR NO LÍBANO / Mary Stewart

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

Este conto é livremente baseado na história da vida de Lady Hester Stanhope. Tentei resumir ao máximo minhas referências, mas, para os que se interessam, a lista de livros da página 76 servirá como guia e também como registro das minhas fontes principais. Meu reco­nhecimento pelas informações colhidas nos livros Viagens pela Arábia Deserta, de Doughty, e Síria e Líbano, de Robin Fedden.

Resta acrescentar aqui um esclarecimento: em uma história dessa espécie, é inevitável a menção de autori­dades, que são referidas aqui pelo cargo, e não pelo nome. Quaisquer referências a órgãos governamentais, ministros de gabinete, autoridades de fronteira, etc. são feitas pura­mente para finalidades da história e não se referem aos verdadeiros titulares desses cargos, vivos ou mortos. Além disto, embora o vale Adônis exista, o Nahr el-Sal'q, com o povoado e o palácio de Dar Ibrahim, é pura ficção.

Gostaria, também, de agradecer a todos os amigos, de Edimburgo a Damasco, que me prestaram uma ajuda tão generosa.

 

 

 

 

Encontrei-o na rua chamada Reta.

Eu saíra da loja escura para o sol deslumbrante de Damasco, com os braços cheios de peças de seda. A princípio, não vi coisa alguma, pois o sol batia em cheio nos meus olhos e ele se achava à sombra, no ponto exato em que a rua Reta se transforma em um túnel sombrio sob o elevado teto de ferro corrugado.

A rua achava-se apinhada de gente. Alguém parou diante de mim para tirar uma fotografia. Uma turba de jovens passou por ali, olhando-me e fazendo comentários em árabe, pontilhados de "senhorita", "olá" e "adeus", em inglês. Um jumentinho cinzento passou por mim, caminhando com dificuldade sob uma carga de legumes que deveria ter umas três vezes a sua largura. Um táxi passou roçando em mim, tão perto que dei um passo atrás, entrando na soleira da porta da loja, e o dono da mesma, atrás de mim, estendeu uma das mãos a fim de proteger as suas preciosas peças de seda. O táxi seguiu adiante, buzinando, des­viou-se do jumentinho, separou em dois um compacto grupo de crianças como um navio separa a água do mar e depois seguiu, sem diminuir a velocidade, rumo ao gargalo de garrafa onde a rua se estreitava abruptamente, passando entre duas fileiras de tendas salientes.

Foi então que eu o vi. Ele estava de pé, de cabeça curvada, diante de uma tenda de joalheiro, revirando uma pequena quin­quilharia dourada na mão. Ao ouvir a buzina aguda do táxi, ergueu o olhar e saiu rapidamente do caminho. O passo o fez sair da sombra escura e ficar banhado em cheio pelo sol, e, ao ver quem era, meu coração deu um salto no peito. Eu tivera conhecimento de que ele se achava nesta parte do mundo, e acho que encontrá-lo aqui no meio de Damasco era o mesmo que topar com ele em qualquer outra parte do mundo, mas fiquei lá de pé, à luz do Sol, olhando de olhos arregalados, e creio que até um tanto sem expressão, para o perfil do homem que eu não via há quatro anos; no entanto, um perfil que reconheci logo. O perfil de um homem que estava tão inevitavelmente presente em Damasco.

O táxi desapareceu no túnel negro do beco estreito com um ruído de engrenagens e outro berro da buzina. Entre nós dois, a rua suja e quente achava-se vazia. Uma das pfças de seda me escapuliu das mãos e fiz um movimento ligeiro para agarrá-la, e pude segurá-la, em uma cascata de tecido vermelho cor de sangue, pouco antes de o pano chegar ao chão imundo. Meu movimento e o vermelho vivo devem ter-lhe atraído a atenção, pois ele virou a cabeça e nossos olhares se encontraram. Vi seus olhos arregalarem-se, depois ele deixou cair na banca do joa­lheiro o objeto dourado, e, ignorando a torrente de mau inglês americano que o homem gritava no seu encalço, atravessou a rua, na minha direção. Os anos rolaram para trás mais depressa do que a seda carmesim, enquanto ele dizia, exatamente com a. entonação com que um menino cumprimentara diariamente a menina mais nova que o adorava:

        Oh, olá... É você?

Eu não era mais uma menina. Hoje, tinha vinte e dois anos de idade, e este era meu único primo, Charles, que eu, é claro, não mais adorava. Não sei por quê, pareceu-me importante deixar isto claro. Tentei imitar seu tom de voz, mas consegui, apenas, imprimir à minha voz uma falsa calma.

Olá. Que prazer em vê-lo. Como você cresceu!

Não é mesmo? E agora, faço a barba quase toda semana. Sorriu para mim e, de repente, não era mais o menino que eu conhecera. Christy, meu bem, foi tão bom encontrá-la! Diacho... Que é que você está fazendo aqui?

Você não sabia que eu estava em Damasco?

Eu sabia que você ia vir, mas não consegui descobrir quando. O que eu perguntei foi o que está fazendo aqui sozinha. Você não está em excursão turística com uma turma?

Ah, estou — confirmei — mas me separei deles. Mamãe lhe contou a respeito?

Ela contou a minha mãe, que me passou a informação, mas ninguém parecia saber muito claramente o que você estava fa­zendo ou quando você chegaria aqui, nem mesmo onde ficaria hospedada. Você já devia ter sabido que eu gostaria de estar na sua companhia. Não costuma dar seu endereço a ninguém?

Mas eu dei o endereço.

Você deu à sua mãe o nome de um hotel, mas estava errado. Quando telefonei para lá, eles me disseram que seu grupo de excursionistas fora para Jerusalém, e eu estava informado por mamãe de que você se encontrava em Damasco. Você disfarça bem a sua pista, jovem Christy.

Sinto muito, disse. — Se eu tivesse sabido que haveria possibilidade de vê-lo antes de Beirute... Nosso itinerário foi mudado, só isto. A mudança tem relação com a reserva de pas­sagens de avião, e por isto estamos fazendo a excursão de trás para diante, e eles tiveram de arranjar outro hotel em Damasco. Que maçada! Partiremos para Beirute amanhã! Já estamos em Damasco há três dias. Você está aqui há muito tempo?

Só desde ontem. O homem com quem tenho de falar em Damasco só virá para casa no sábado, mas quando me disseram que você estava para chegar vim direto para cá. Talvez tenha sido bom o fato de eles terem invertido a sua excursão... Afinal de contas, você não precisa muito de ir amanhã, precisa? Vou ter de esperar aqui até o fim da semana; portanto, por que não se separa do grupo de excursionistas? Visitaremos Damasco juntos e depois eu a levarei a Beirute... Você não é obrigada a ficar com eles, não é mesmo? — E olhou-me de cima para baixo, er­guendo as sobrancelhas. — De qualquer forma, por que está fazendo uma excursão conjunta? Conhecendo-a como a conheço, acho que isso não seria de se esperar de você.

Tem razão, mas de repente me deu vontade de conhecer esta parte do mundo, que eu ignorava completamente, e as excursões em conjunto facilitam tanto. .. Fazem tudo para o excursionista: reserva em hotéis, ônibus para transporte de um ponto para outro, e fornecem guias que falam árabe e tudo o mais. Eu não poderia ter vindo sozinha, é claro. ..

Não vejo por que não poderia. E não olhe para mim com esses olhos grandes de mocinha indefesa. Se algum dia houve uma pequena capaz de cuidar de si mesma, essa garota é você.

Oh, claro, Faixa Preta no enésimo grau, assim "sou eu. — Olhei-o com prazer. Oh, Charles, creia ou não, é maravilhoso revê-lo! Felizmente, sua mãe conseguiu comunicar-se com você e lhe dizer que eu viria aqui! Estou com saudades de você e gostaria muito de passar algum tempo em sua companhia, mas não pode ser. Já planejei ficar em Beirute, depois que o resto do meu grupo de excursionistas voltar para casa, no sábado, e acho que vou executar meu plano. Você fez boa viagem? Foi uma excursão e tanto, com a Robbie, não foi?

Mais ou menos. Andei vendo o mundo e apurando o meu árabe, antes de vir trabalhar em Beirute. A coisa foi divertida... Atravessamos a França, de carro, e de lá mandamos o automóvel de navio para Tânger, de onde seguimos, atravessando toda a África do Norte. Robbie teve de ir para sua casa, no Cairo, e eu vim sozinho para cá. Foi no Cairo que recebi a carta de mamãe, dizendo que você viria fazer esta viagem. Por isto, vim diretamente para cá, na esperança de ainda encontrá-la em Damasco.

Você disse que tinha de falar com alguém aqui? Assunto de negócios ?

Em parte, sim. Mas para que ficarmos parados aqui? Este lugar cheira mal, e a qualquer instante acabaremos sendo atropelados por algum destes jumentos. Vamos tomar chá juntos.

Gostaria muito, mas onde é que você vai encontrar chá em plena Damasco?

Na casa em que me acho hospedado, que até parece um palácio das Mil e Uma Noites E ele sorriu. Não estou hos­pedado em hotel, e sim na casa de um tal Ben Sifara, que eu conheci em Oxford. Não sei se você ouviu menção ao nome do pai dele. Faz parte do grupo VIPs de Damasco. É pessoa muito importante e conhece todo mundo. Negocia com tudo que se possa imaginar, tem um irmão que é banqueiro em Beirute, e um cunhado que é, nada mais nada menos, do que Ministro do Interior deste país. Aqui, uma família como a dele é cha­mada de "gente bem", o que corresponde a "podre de rica" na Síria.

Você vai indo bem, e neste passo acabará conseguindo fazer que inscrevam o nome da nossa família no rol dos importantes.

Mas isto já foi feito. E meu primo falou em um tom de voz de ironia aguda. Minha família, composta de banqueiros comerciais, fora rica durante três gerações, e era de surpreender a maneira como muitas pessoas estavam dispostas a esquecer o sangue muito misturado — para não dizer bastardo — que corria nas veias dos Mansels. Tive de rir.

Esse tal homem deve ser um contato comercial do papai e do tio Chas, não é?

Sim. Ben me fez prometer procurá-lo, se algum dia eu viesse à Síria, e papai insistiu para eu entrar em contato com ele, e por isto aqui estou eu.

Ótimo. Bem, eu vou com você. Espere só um instante, até eu comprar um corte de seda. — Olhei para o tecido brilhante que tinha nos braços. — Mas há uma dificuldade... Qual dessas fazendas devo levar?

        Se quiser que eu seja franco, não gostei de nenhuma delas.

Meu primo ergueu uma dobra, apalpou o pano, franziu o cenho, com cara de quem não gostou, e deixou-o cair. — O tecido é bom, mas o vermelho é uma cor viva demais, não é? Correria o risco de ser atacada por algum touro bravo... — E o azul?

Não, não serviria para você, meu amor. Não tenho preferência pela cor azul, e gosto que as minhas pequenas se vistam com tecidos que eu aprecio.

Olhei-o friamente.

Só por isto, comprarei um corte das duas fazendas e mandarei fazer um vestido listrado... e no sentido horizontal. Não compreendo o que você quer dizer. Elas pareciam bonitas lá dentro da loja.

Tinham de parecer... Eles mantêm a loja às escuras, de propósito.

Pois bem, quero um tecido para um roupão caseiro. Talvez à meia-luz...? Isto é, o padrão é bonito e tipicamente oriental...?

Não.

O que me aborrece em você — falei, com azedume — é que algumas vezes você tem razão. Que é que estava comprando naquele beco sujo? Um anel para Emily?

Uma jóia para meu amor, é claro. Uma conta azul para meu carro.

Uma conta azul para o seu...? Uma conta azul para seu carro? Ora, nessa eu não creio, mesmo Charles riu.

        Você não sabia? As contas azuis afastam o mau olhado. São usadas por todos os camelos e jumentos. Portanto, por que não usá-las no carro? Algumas vezes, se consegue encontrar algumas de uma cor azul-turquesa linda. Mas não preciso comprar agora. Sempre haverá tempo para isto. Você quer mesmo comprar seda? Mas fique sabendo que qualquer coisa que você comprar lá na Inglaterra será tão boa quanto a que adquirir aqui, e, além disso, não terá o trabalho de carregar.

O dono da loja, que se achava logo atrás de mim e de cuja presença nós dois nos esquecêramos completamente, disse nesta altura, com justificável amargura:

A coisa ia bem antes de o senhor chegar. A senhora teve um ótimo gosto.

Claro que teve — falou meu primo. — Mas o senhor não pode esperar que eu aprove um roupão com um vermelho tão vivo ou um azul-profundo. Se tiver alguma coisa mais adequada, é bom ir mostrando logo.

A expressão fisionômica do homem tornou-se mais amena e demonstrou satisfação e compreensão. E, enquanto contemplava as roupas do meu primo — evidentemente caras — já foi prevendo que faria uma boa venda.

Compreendo. Perdoe, freguês. O senhor é o marido desta senhora.

Ainda não — falou Charles. — Venha, Christy, vamos entrar para fazer a compra, e depois iremos para um lugar onde possamos conversar. Meu carro está na praça no fim desta rua. Por falar nisso, onde está o grupo com quem você veio?

Não sei, perdi-me deles. Nós acabáramos de visitar a Grande Mesquita, depois começamos a andar ao longo do mer­cado. Parei a fim de ver os artigos expostos nas tendas, e de repente eles sumiram.

E você os deixou ir? Eles não vão dar uma batida no mercado com um punhado de cães de caça, quando derem pela sua falta?

Talvez. — Juntei as peças de seda e virei-me rumo à soleira da porta. — Charles, se houvesse alguma peça de pano bem branco e bonito...

        Falando sério.. . Não é melhor telefonar para o hotel? Dei de ombros, com indiferença.

        Duvido que eles sintam minha falta antes do jantar. Nesta altura, já estão habituados a me verem afastar-me do grupo.

Continua sendo a mesma pequena estragada pelos mimos que eu amo?

Não gosto de andar em turmas. Em todo caso, não tem o direito de falar de mim. O papai sempre disse que você foi estragado pelos mimos que recebeu, e sei que isso é a pura verdade.

Ah, sim. O querido tio Chris — disse meu primo, calmamente, seguindo-me para dentro da caverna escura que era a loja.

No fim, acabei mesmo comprando um pano branco, um brocado lindo que, para grande surpresa minha, Charles desen­terrou de uma prateleira esquecida e sombria que o dono da loja não me mostrara antes. Além disso, era mais barato do que os que eu já tinha visto. E também não me surpreendi ao ver Charles falando com o dono da loja e com o auxiliar deste em um árabe lento, mas razoavelmente fluente. Meu primo podia (co­mo meus pais diziam com freqüência um ao outro) ser um rapaz "estragado pelos mimos", mas o que ninguém nunca lhe negara fora o fato de ser bastante inteligente quando assim o queria, o que era (conforme meus pais insistiam) uma vez por mês, e mesmo assim quando era para servir aos seus interesses.

Ao chegarmos à praça, seguidos pelo empregado da loja, que trazia à seda comprada, o carro de Charles pôde ser imediatamente reconhecido. Não pelo seu modelo ou pela cor, já que nenhum dos dois podia ser visto, mas pela multidão de meninos que o cercava e que era compacta. Quando pude vê-lo, verifiquei que era uma Porsche 911, modelo especial. E, como eu gostava do meu primo e o conhecia bem, logo lhe dei corda para falar naquilo de que ele gostava.

        Que lindo! É muito possante?

Charles me deu as informações sobre o carro. Abriu a tampa do motor e me mostrou. Quase desmontou o carro. Os meninos adoraram. Foram aumentando em número, ficavam olhando, boquiabertos, e talvez entendendo mais do que eu da carroçaria MacPherson, dos pára-choques mais baixos, das cilindradas, da força de arrancada, dos amortecedores independentes... Deixei aquelas frases cheias de gosto tomarem conta de mim e fiquei observando o rosto e as mãos de meu primo, enquanto me lem­brava de outras vezes: o trem elétrico, o primeiro relógio de pulso, a bicicleta...

Charles endireitou o corpo, puxou dois meninos para trás, de cima do motor, e fechou a tampa. Pagou e despediu os dois meninos maiores, que estiveram, presumivelmente, tomando conta do carro, e deu ao rapaz da loja uma gorjeta gorda, que o fez disparar uma torrente de agradecimentos. Depois, partimos de carro.

Que foi que ele disse?

Apenas um "obrigado". Ou, em outras palavras: "Que a bênção de Alá caia sobre ti, sobre teus filhos e sobre os filhos dos teus filhos." O carro saiu com segurança da praça entulhada e seguiu ao longo de uma rua estreita e com dois sulcos profundos no chão, com os amortecedores especiais trabalhando a todo vapor. E por falar em mulher, filhos e netos... Supo­nho que eu e você ainda continuamos noivos, não é?

À falta de coisa melhor, acho que continuamos. Mas creio que você mesmo rompeu nosso noivado, por escrito, quando co­nheceu aquela mulher loura... Ela era modelo. Como era mesmo o nome dela? A que parecia uma loura fatal.

Samantha? Ela era muito elegante.

Ah, claro. Elas têm de ser assim, não é mesmo? Para poderem usar aquelas roupas "avançadas" ajoelhadas dentro do mar ou fantasias de garrafas de Coca-Cola ou coisas assim. Onde foi parar Samantha?

Talvez já tenha encontrado o seu príncipe encantado, mas eu escapei dessa vez.

Bem, isso foi há séculos atrás... Logo depois da última vez em que nos encontramos. Não há mais nenhuma para me atrapalhar? Não conseguirá me convencer de que virou santo e permaneceu santo durante quatro anos...

Ora, brincadeira tem hora...E Charles reduziu a marcha do carro, virou para a esquerda e seguiu lentamente por outro beco imundo, que teria uma largura total de um metro e meio. Mas, na verdade, assim foi. Virtualmente, bem entendido.

Compreendo. O que houve com Emily?

Diacho! Quem é Emily ?

Não era Emily? No ano passado. Tenho certeza de que mamãe disse que ela se chamava Emily... Ou seria Myrtle? Você arranja namoradas com cada nome...

Acho que nenhuma delas tinha um nome pior do que Christabel.

Ri novamente.

Quanto a isto, você tem toda razão.

No que me toca disse meu primo eu e você continuamos prometidos um ao outro desde o berço. O lindo trato continua de pé, e meu tetravô, Rosenbaum que descanse em paz pode parar de virar na sua sepultura caiada de branco a partir de agora. Portanto...

Cuidado com aquele cachorrinho!

Fique sossegada. Eu o vi... Pelo menos, a Porsche o viu. Isso é assunto superado. O nosso também é.

Você sempre pensa que eu serei sua, não é? Só porque fiquei fiel a você na adolescência, quando você ainda usava calças curtas...

Ora, não havia probabilidades de você namorar outro falou meu primo. Você era gordinha como um filhote de leão-marinho. Acho que você melhorou muito. — Dirigiu-me um olhar lateral, sumário e fraternal, com uma apreciação menos sexual do que a de um juiz de concursos de cães. Na verdade, você está bastante linda, priminha, e esse vestido me agrada. Mas... fulmine minhas esperanças, se este for o meu destino. Há outro na sua vida?

Eu sorri.

Tome cuidado, meu amor, ou você descobrirá que gosta mesmo de mim e vai ter de vender seu carro para me comprar um anel de noivado.

Eu topo, disse ele, em tom brincalhão. Chegamos.

A Porsche diminuiu a velocidade e saiu da rua, em ângulo reto, entrando em um pequeno pátio sujo, onde o sol ofuscante batia na poeira, e dois gatos dormiam placidamente em uma pilha de latas de gasolina. Em um canto via-se uma sombra cor de anil, para onde Charles levou o carro, com pouco esforço.

        Entrada da frente, à moda de Damasco. Parece um sonho encantado, não é? Vamos entrar.

A princípio, aquele pátio não tinha cara de ser entrada de coisa nenhuma. Era pequeno, abafado pelas suas paredes altas e claras, que refletiam a luz do Sol, ofuscante. Cheirava a galinhas e a urina choca. Mas, de um lado, uma passagem em forma de arco era bloqueada por uma porta cuja madeira empenada ainda resistia, pendurada nas dobradiças e na maçaneta de ferro batido, um sinal de um esplendor do passado. Charles abriu a porta e deixou à mostra um corredor, que ia dar na outra extremidade, em um arco de luz. Nós entramos.

A luz vinha de um segundo pátio, desta vez um retângulo do tamanho aproximado de uma quadra de tênis, que apresentava arcos mouriscos em três lados, sustentando uma galeria sombria. No quarto, no fim do pátio, uma plataforma elevada de terraço, atrás de um arco tríplice, que formava uma espécie de palco ou saleta interna. Nos fundos e lateralmente, nessa espécie de estrado, viam-se bancos largos, encostados à parede, e reconheci o "divã", ou lugar onde os orientais costumam-se reunir para conversar. Até nas casas orientais modernas de hoje as salas de estar são arrumadas desta maneira, de forma tradi­cional, com cadeiras e sofás encostados à parede, em três lados do cômodo. Viam-se mesas baixas diante dos sofás. No meio do pátio, erguia-se uma fonte; tinha o fundo forrado de azulejos brancos e azuis, e a coluna em miniatura era enfeitada de mo­saicos verdes, azuis e dourados, que brilhavam. Um pombo ar­rulhou em alguma parte; viam-se, aqui e ali, laranjeiras, em grupos, e no ponto em que a fonte rumorejava notei um lampejo de nadadeira dourada. O pátio era muito fresco e cheirava a flor de laranjeira.

Venha para o divã convidou Charles. Sim, não é lindo? As construções árabes têm algo muito especial. .. São todas poesia, paixão e romance, mas nem por isto desmerecem em elegância... Como a literatura deles... Mas você devia ver a mobília; parece que meu quarto de dormir foi feito com os restos da alcova particular do Barba Azul.

Sei a que se refere. Eu vi algumas peças raras naqueles quartos acolhedores do palácio Azem... Todas encastoadas de madrepérolas, como sarampo, ou então no puro estilo vitoriano, e feitas de bambus com artrite. Mas, Charles, os tapetes! Veja aqueles ali... E o tapete azul que há no sofá... E eu posso mesmo me sentar nele?

Sente-se, vá. Acho que Ben não tardará a chegar, mas, enquanto isso, conforme ele não pára de me dizer, a casa dele é minha, e portando. . .   Que é que você vai tomar? Chá?

Acho que prefiro café. Que é que você faz para trazerem o que pede ? Bate palmas e chama o eunuco?

É mais ou menos isto. Na mesa feia e trabalhada que havia diante de mim, via-se uma pequena campainha de latão. Charles pegou a campainha e agitou-a, e depois caminhou inquieto ele fora sempre inquieto descendo os degraus e indo até à fonte, esperando. Sentei-me sobre o lindo tapete azul, recostei-me nas almofadas e fiquei observando-o.

Não, Charles não mudara. Diziam que, quando crianças, eu e Charles éramos muito parecidos. Na verdade, quando éramos pequenos, todos julgavam que fôssemos "irmãos gêmeos". Isso deixava Charles furioso, pois, naquela época, ele era agressiva­mente masculino, mas para mim, adorando tolamente meu esperto priminho como só o pode fazer uma menina, era um prazer. À medida que fomos crescendo, a semelhança, é claro, foi su­mindo. Ainda havia as parecenças básicas: os cabelos escuros, as maçãs do rosto salientes típicas da raça eslava, o nariz ligeira­mente aquilino, os olhos cinzentos e a silhueta elegante. Agora, Charles estava alguns centímetros mais alto do que eu, e ficara com os ombros mais largos, mas aparentemente perdera aquela agressiva masculinidade da adolescência, que se transformara em uma elegância propositadamente indiferente que lhe caía muito bem, e, por estranho que pareça, não era menos máscula. Nas suas viagens pela África do Norte, Charles ficara com a pele trigueira, e isso fazia seus olhos parecerem mais claros do que os meus. Mas talvez esta impressão tenha sido apenas conseqüência do contraste com as pestanas negras, que eram (injustiça da na­tureza) mais compridas e mais densas do que as minhas. Seja como for, os olhos de Charles eram belos, de um cinza-escuro e com pestanas espessas. Achei que, ocasionalmente, a semelhança entre nós dois poderia ainda ser impressionante: o modo de virar a cabeça, uma entonação de voz, um gesto de mão. Sem dúvida, uma coisa que tínhamos em comum e que reconhecíamos pron­tamente era o fato de sermos ambos "estragados pelos mimos". Outra, uma vivacidade irreverente que se podia tornar perversa, uma arrogância que não derivava de nenhum orgulho de coisas realizadas, mas era infelizmente resultante de termos tido tudo demais e demasiado cedo na vida. Uma rejeição ferozmente autoconsciente de quaisquer vínculos pessoais (inclusive os das nossas famílias), a que chamávamos de independência, mas que, na verdade, era um medo quase mórbido de sermos de alguém; e algo a que chamávamos de sensitividade, o que talvez signifi­casse apenas que éramos sensíveis demais, o que se pode consi­derar um defeito.

Talvez eu deva explicar, neste ponto, que as relações entre mim e Charles eram, ao mesmo tempo, mais íntimas e mais dis­tantes do que geralmente o são entre primos. Em primeiro lugar, não éramos primos em primeiro grau e sim em segundo, tendo em comum, apenas, um avô; segundo, fôramos criados juntos quase desde nosso nascimento, e, sem dúvida, desde os tempos em que o ser humano começa a ter memória. Não me lembrava de época nenhuma em que eu não tivesse partilhado de tudo com meu primo Charles.

Seu pai, Henry Mansel, fora o membro mais velho do nosso ramo inglês da família, sendo os outros membros do sexo mas­culino seus primos, os dois irmãos gêmeos, Charles e Christopher. Este último, que era o gêmeo mais novo, era meu pai. Charles não tivera filhos, e por isto, quando Henry Mansel e a esposa deste sofreram um acidente marítimo fatal, poucos meses depois do nascimento de Charles, filho do casal, meu tio adotou o bebê a fim de criá-lo como filho. Como não nos lembrávamos de outras pessoas adultas, é evidente que eu e o jovem Charles sempre consideráramos seus pais adotivos como seus pais verdadeiros, e acho que foi um grande choque para meu primo quando lhe lembraram, ao se aproximar ele da maioridade, o fato de que talvez tomasse posse da herança do seu pai nos corredores privados de poder da família. Uma acentuada semelhança de traços de família ajudou a transpor a distância. Henry Mansel tinha saído muito semelhante aos seus primos, e eles — nossos "pais", segundo imaginávamos — eram gêmeos idênticos que tinham sido, quase até a época em que se casaram, tanto inseparáveis como impos­síveis de serem distinguidos um do outro. Na verdade, os dois tinham-se casado no mesmo dia, tendo escolhido garotas que, embora não fossem parentes uma da outra, eram muito pare­cidas fisicamente, como ainda se podia ver. Felizmente, as duas senhoras Mansels gostavam muito uma da outra, pois, quando a morte de Henry deixou vaga a casa da família, em Kent, e Charles tomou posse dela, seu irmão construiu uma casa para si mesmo a apenas dois quilômetros da morada de Charles. Assim o filho adotivo de Charles e a filha de Christopher tinham sido criados juntos até quatro anos atrás, quando Christopher exportara sua família — eu e mamãe — para Los Angeles, de cujo paraíso terrestre nós costumáramos fugir, de vez em quando, para ficar na casa de Charles, já que nossa casa fora deixada vazia, à espera do fim da guerra. Mas minhas visitas àquela casa nunca haviam coincidido com as do meu primo. Nas suas férias de Oxford, Charles passara o tempo viajando no exterior, divertindo-se em "dar uma espiada no mundo", conforme ele mesmo dizia, e gozando a salada de idiomas que fazia parte da nossa herança de uma árvore genealógica misturada, tipo vira-lata, e que o jovem Charles pretendia usar quando entrasse para tra­balhar em um dos bancos da família nos continentes. Eu não tivera pretensões tão elevadas. Ao voltar de Los Angeles, não trouxera nada para casa, exceto um gosto americano pelas boas roupas, um sotaque que perdi logo que pude, e três anos de experiência do mundo frenético da televisão comercial americana, onde eu trabalhara algum tempo como aprendiz de assistente de produtor, em uma pequena firma chamada Sunshine Television íncorporated, na santa ignorância de que, como a maior parte das companhias, nas referências, ela era chamada pelas suas iniciais, S. T. Inc.

Agora, aqui estávamos novamente, eu e meu primo, na mesma situação, sem nenhum esforço. Não que nós tivéssemos sido, como nossos pais, inseparáveis, pois isto era impossível. O que nos mantinha juntos com tanta facilidade fora, por paradoxal que pareça, uma espécie de rejeição mútua. Cada um de nós reco­nhecera no outro uma recusa de ser de alguém, e respeitávamos essa decisão. Isto tornara tolerável — e até engraçada — a surrada brincadeira de família a respeito do nosso noivado, e do "casa­mento de conveniência" que tornaria a colocar Charles no seu lugar, sem nenhum embaraço legal, e manteria o dinheiro na família, no melhor figurino tradicional dos casamentos entre so­beranos para conservar dinastias e fortunas. Nós dois nunca sou­bemos — nem nos permitiram saber — se a idéia do casamento era ou não apenas uma brincadeira. Eu ouvira meu pai bater na tecla de que as características de família já eram bastante ruins em um indivíduo só, mas que, tomadas em dois, seriam mortíferas. E tio Charles retrucava que, uma vez que minha mãe era em parte irlandesa e a de Charles meio austríaca e meio russa, e sua avó paterna era francesa, os filhos que nasceram seriam fortes o bastante para se casarem, e que se poderiam casar mesmo que fossem primos em primeiro grau. Além disso, havia na nossa árvore genealógica também um judeu polonês, um dinamarquês e um alemão entre nossos vários antepassados, e nos considerá­vamos ingleses, o que era bem justo.

Para mim e para Charles, que desde a infância estávamos habituados a este acasalamento hipotético e cordial, tipo dinastia antiga, o assunto tinha pouco interesse. Na verdade, não ocorrera a nenhum dos dois a idéia de que um pudesse exercer atração sexual sobre o outro. Considerando-nos mutuamente como irmão e irmã, tínhamos acompanhado igualmente divertidos e zombe­teiros as primeiras aventuras românticas um do outro.

Nossos namoricos eram rápidos e inevitáveis. Mais cedo ou mais tarde, a garota começava a querer mandar em Charles e ele desaparecia para nunca mais voltar. Ou então meu namorado perdia o encanto, Charles dizia alguma coisa menos do que im­perdoável a respeito dele, eu retrucava, furiosamente, depois ria e concordava, e a vida era novamente completa.

E nossos pais respectivos nos criavam amorosamente durante todas essas peripécias, davam-nos dinheiro, ouviam o que impor­tava e esqueciam o resto, talvez porque desejassem a liberdade para nós com tanta ansiedade quanto nós pensávamos que dese­jávamos ficar livres da sua tutela. O resultado foi que nós os procurávamos, a intervalos, como abelhas que voltam para a colméia, e éramos felizes. Talvez eles vissem, mais claramente do que o podíamos ver eu e Charles, na segurança básica das nossas vidas, que produzia a inquietação de Charles e a minha indecisão, nada mais do que a realização de sondagens fora do porto. Talvez eles pudessem ver até, através de tudo aquilo, o fim que acon­teceria.

Mas aqui estávamos nós, novamente na estaca zero. Um jovem árabe, vestido de branco, trouxe uma bandeja contendo um vaso de cobre com um trabalho de cinzelamento complicado e duas xícaras azuis e pequenas, que colocou na mesa, diante de mim. Disse alguma coisa a Charles e retirou-se. Meu primo subiu rapidamente os degraus que levavam ao divã e sentou-se a meu lado.

Ele me comunicou que Ben não virá agora. Chegará só à noite. Vamos, pode servir o chá.

A mãe dele também está ausente?

Ela morreu. É a irmã do pai dele quem dirige a casa, mas ela vive retirada, como eles dizem. Não, não em um harém, e, portanto não faça essa cara de curiosidade e de esperança; ela apenas faz uma sesta muito prolongada e só aparece na hora do jantar. Você quer fumar?

Agora, não. Fumo pouco, apenas de vez em quando, para impressionar. Uma tolice. Céus, que cigarro é esse? Cigarro turco? Contém algum entorpecente?

Não, são cigarros absolutamente inofensivos, egípcios. Parecem horríveis, não é? Bem, agora me conte o que andou fazendo.

Charles pegou a xícara de café forte que lhe passei e recostou-se no assento coberto de seda, esperando com ansiedade.

Quatro anos de mexericos são muito tempo para se contar tudo, e eu e Charles não trocáramos cartas. Acho que já se pas­sara mais de uma hora, e o Sol já se movera, deixando mais da metade do pátio na sombra, antes que meu primo esticasse os músculos, apagasse outro cigarro egípcio e dissesse:

Escute, prima, para que ficar com o seu grupo de turistas? Não quer mudar de idéia e separar-se agora? Fique até domingo, e eu a levarei de carro até lá... O vale Barada é lindo, e a estrada é muito boa.

Agradeço muito, mas prefiro ficar com eles. Nós iremos mesmo de carro, e no caminho visitaremos Baalbek.

Eu a levaria lá.

Seria ótimo, mas já está tudo combinado, e, na verdade, estou até de malas prontas, e você sabe, há essa história tola de vistos nos passaportes, aqui. O meu tem data de amanhã, e há a exigência de passaporte em grupo, e fizeram tanto escarcéu quando eu disse que ia ficar, depois que o grupo partir para a Inglaterra, no próximo sábado, que acho que não poderei en­frentar tanta confusão novamente. Eu irei...

Está bem, então nos veremos em Beirute. Onde é que você ficará hospedada?

Pensei em mudar-me para o Phoenicia, assim que ficar sozinha.

Irei para junto de você lá. Reserve um apartamento para mim, sim? Eu lhe telefono antes de partir de Damasco. Que foi que você planejou fazer com o tempo de sobra, afora — creio eu — ir a Dar Ibrahim?

Dar Ibrahim — repeti, sem expressão na voz.

A casa da tia Harriet. O nome é esse, sem dúvida você sabe... Fica sobre o Nahr Ibrahim, isto é, o rio Adônis.

Eu. . . Sim, eu sabia, mas me esqueci. Céus, a tia Harriet... Nunca pensei que.. . Fica perto de Beirute, então?

A uns cinqüenta quilômetros de Beirute, ao longo da estrada da costa, rumo à nascente do Adônis. A estrada segue subindo pela crista do lado norte do vale, e em algum ponto entre Tourzaya e Qartaba há um rio afluente chamado Nahr el-Sal'q, que desce e vai desaguar no Adônis. Dar Ibrahim fica na metade do vale, onde os dois rios se encontram.

Você já esteve lá?

Não, mas pretendo visitar aquele lugar. Você quer mesmo dizer que não havia pensado nisto?

Nem por sombra. Sem dúvida, eu pretendia subir o vale Adônis e ver a fonte onde fica a cascata, e o templo de sei-lá-o-quê, e o lugar onde Vênus e Adônis se encontraram... Na verdade, eu estava pensando em alugar um carro para uma viagem curta no domingo, depois da partida do grupo... Mas, para ser sincera, esquecera-me completamente da tia Harriet. Eu mal me lembro dela. Nós estávamos em Los Angeles na última vez em que ela esteve na nossa casa, e antes disso foi... Céus! Deve ter sido há uns quinze anos! E mamãe nunca disse nada a respeito desta casa da tia Harriet. O nome era Dar Ibrahim, não era? Mas talvez seja apenas porque mamãe sabe tão pouca geografia quanto eu, e ignorava que Beirute ficava tão perto da casa da titia. — Coloquei minha xícara na mesinha. — Fica no vale Adônis? Bem, talvez eu vá com você, quando nada para ver o lugar e contar a papai como ele é. Tenho certeza de que papai achará que nem tudo está perdido para mim, quando eu lhe contar que fui até lá para colocar flores no túmulo da nossa velha tia.

        Talvez ela lhe desse um pontapé, se você tentasse — falou Charles. — Ela está bem viva. Você está um tanto "por fora" das coisas da família, não é?

Arregalei os olhos.

        Viva? Tia Harriet? Ora, é você quem está "por fora". Ela morreu depois do Ano Novo.

Charles riu.

Não foi ela quem morreu. Se está pensando em testa­mento, pode esquecer isso. Nos últimos anos, Harriet tem manda­do um testamento de seis em seis meses. Tio Chris não recebeu a famosa carta da titia, renunciando a sua nacionalidade britânica e finalmente isolando-se e deixando uma ninharia para todos? Cortou a todos, exceto a minha humilde pessoa. — E Charles sorriu. — E eu deveria ficar como herdeiro dos Cães de Caça de Gabriel e do seu exemplar do Alcorão, porque demonstrei sinais de ter um "interesse razoável pelas verdadeiras civilizações do mundo". Era por isso que eu estava aprendendo árabe. De certa forma — acrescentou meu primo, pensativo — ela deve ainda ser muito inocente, se acha que Mansel e Mansel se interessam por qualquer coisa, seja o que for, exceto pelas mais básicas de todas as razões possíveis.

Escute, pare com isto, você está brincando comigo.

A respeito dos testamentos e de tudo o mais? Absolutamente. Ela renunciou a nós eni lindos termos vitorianos bem claros. As cartas dela foram bem definitivas. Falavam na família, em Deus, na Grã-Bretanha, em tudo. Bem... Talvez não exata­mente em Deus, mas ela ia virar maometana, e se não poderíamos fazer o favor de mandar-lhe um pedreiro inglês de confiança para construir um cemitério particular onde ela pudesse descansar para sempre na paz de Alá, entre seus amados cães, e também para informarmos à redação do Times de que o jornal da edição de além-mar era fino demais e que, por isto, ela não podia resolver as palavras cruzadas direito, e que gostaria de que eles usassem um papel mais grosso.

Ora, você não pode estar falando sério.

Sério como uma coruja disse meu primo: Juro que tudo que eu disse é a pura verdade.

Diacho ! E que são, afinal, os Cães de Caça de Gabriel?

Não se lembra deles ? Não, acho que não se lembra.

Parece que me lembro da frase, só isso. Não faz parte de uma história?

Uma lenda que havia no livro que chamávamos de Contos das Terras Nórdicas, ou coisa parecida. Consta que os Cães de Gabriel são um bando de cães que correm acompanhando a Morte, e quando alguém está para morrer ouve os cães uivarem junto à casa, à noite. Acho que a idéia deve ter vindo dos gansos selvagens. Já os ouviu grasnar? Parecem um bando de cães de caça, grasnando lá no alto, e o nome deles, antigamente, em inglês, era "catraca tagarela", que em nossa lingua parece com "Gabriel", pois é gabble ratchet. Algumas vezes tenho imaginado que "Ga­briel", neste caso, deve ter vindo de gabble, pois, afinal de contas, Gabriel não era o anjo da morte... — E olhou de relance para o outro lado. Você estremeceu. Está com frio?

Não. Deve ter sido um deles que grasnou em cima do meu túmulo. Que têm eles a ver com a tia Harriet?

Na verdade, nada, exceto que ela possuía um par de cães pequineses de porcelana, que eu cobiçava, e que batizei com o nome de Cães de Caça de Gabriel, pois eram parecidos com a ilustração do livro.

Um par de.. . Oh, não, você deve estar doido varrido. Isso é esquisofrenia. .. Ninguém neste mundo pode querer ter uma Porsche tipo esporte e ao mesmo tempo um par de cães de porcelana ! Não creio nisso.

Meu primo riu.

Porcelana de verdade, Christy, meu bem... Veio direto da China.. . São da melhor porcelana Ming, e talvez tenham sido raridades de museu. Devem valer uma fortuna hoje em dia. Mas, já que tive o bom gosto de me apaixonar por eles aos seis aninhos de idade e como tia Harriet teve o gosto melhor ainda de cair de amores por mim na mesma época, ela prometeu dá-los a mim. E, embora aparenta estar doida varrida agora, parece ter-se lembrado. Charles fez um movimento inquieto. Oh, não compreende? O que importa, na verdade, não são as esta­tuetas, que serão apenas um pretexto, só isto.

Para você ir vê-la?

Sim.

Finalmente, vai começar a pensar no bem-estar da sua família? disse eu, ironicamente, mas Charles não riu nem negou, ao contrário do que eu esperava. Dirigiu-me um olhar esquisito, de través, por sob as pestanas compridas, e disse apenas:

Não quero perder a oportunidade. Parece um conjunto de coisas tão intrigante...

Bem, claro que irei com você, apenas por curiosidade, e tomara que ela ainda se lembre de você, pois tenho certeza abso­luta de que não se recordará de mim. A titia deve ter pelo menos cem anos de idade.

Juro que não tem mais nem um dia do que oitenta anos, e está em pleno gozo das faculdades mentais. Ela é uma lenda local. Anda a galope, a cavalo, pelo campo, seguida por um bando de cães, e abate tudo que pode para comer.

Eu me lembro da titia muito bem... Quem poderia esquecer-se dela ? Quando ela ficou conosco, naquela época, levou oito cães Rei Charles.

Agora, são chamados de fox terriers tibetanos e galgos cinzentos persas, os cães de caça que a princesa árabe usa para caçar. Ah, a titia até exagerou. Virou árabe, e um árabe do sexo mas­culino. Veste-se como um emir, fuma cachimbo turco, chamado narguilé, jamais fala com ninguém, exceto à noite, e mora nesse grande palácio sujo...

Palácio ? — disse eu, espantada. Quem ela pensa que é? Alguma Lady Hester Stanhope?

Exatamentef isso. Acho que ela se imagina uma nobre. Até chama a si mesma de Lady Harriet e, como eu e você sabemos, nós temos tido muita coisa esquisita na nossa família, mas nunca uma lady. — E ficou olhando fixamente, com um olhar nada lisonjeiro. Que é que você sabe de Lady Hester Stanhope?

Eu não lhe contei ? Quando passamos o último Natal na sua casa, eles me puseram no seu quarto, e li alguns dos seus livros. Vdcê tem muitos livros sobre o Oriente Médio. Você leu, realmente, toda aquela poesia e aqueles livros árabes? E também o Alcorão ?

Do princípio ao fim.

Bem, pode-se dizer que foi sua biblioteca que me deu a idéia de ver esta parte do mundo. Eu e você sempre gostamos das mesmas coisas, não é? Ou talvez se possa dizer que eu sempre ia aonde você ia.. . Eu tivera sempre idéias românticas acerca de Petra, Damasco e Palmira, mas nunca pensei que um dia real­mente viria aqui. Depois, vi o anúncio desta viagem turística, e por isto resolvi fazer parte, andar por aqui à vontade e depois ficar no Líbano, conhecendo mais coisas. Uma delas era Djoun, a casa de Lady Hester Stanhope.

Agora, não passa de ruínas.

Eu sei, mas mesmo assim achei que ia gostar de vê-las. Ela foi a maior, não foi? Li tudo que você possuía a respeito dessa mulher, e foi uma leitura bem divertida, comparada com alguns dos seus outros livros. Tive gripe logo depois do Natal e fiquei presa dentro de casa quinze dias, e mamãe não teve tempo para andar pelas livrarias procurando mais leitura do meu gosto.

Charles sorriu, sem se deixar enganar.

Não faça tanta força para não ser esperta. Não sou um dos seus louros dotados de muitos músculos e poucos miolos.

Claro que não — disse.

Nossos olhares se encontraram. Houve um breve silêncio, durante o qual o ruído da fonte pareceu intenso demais. Depois, meu primo levantou-se e estendeu uma das mãos.

        Venha ver os lírios-d'água, agora que o Sol se pôs. Eles se fecham, enquanto a pessoa os olha.

Eu o segui para o pátio, onde agora havia uma sombra fresca. Os lírios eram de um azul-pálido, presos a caules duros, a alguns centímetros acima da água, onde suas folhas lustrosas cobriam a superfície quieta como ladrilhos cor de jade. Nadadeiras dou­radas brilhavam aqui e ali, abaixo deles, e uma abelha dourada espirrava água na beirada da folha. Uma pétala de um azul-escuro se fechou, depois outra, até que, um por um, os lírios foram colocando o seu "turbante", ficando rígidos e quietos para passarem a noite. Outra abelha retardatária, quase presa por uma flor que se fechou, lutou furiosamente e conseguiu sair; depois, partiu voando qual uma bala.

Fiquei observando, um tanto distraída, a mente ainda ocupada com os recentes fragmentos de informações que Charles adiantara, o quadro intrigante da senhora idosa excêntrica que saíra há tanto tempo da realidade da família para virar uma lenda. O quadro que Charles acabara de me descrever da velha toldou-se e misturou-se, na minha imaginação, com os vivos esboços mentais que eu fizera durante aquele período de Natal de leitura forçada. Era verdade que eu achara alguns dos livros de Charles uma leitura pesada, mas a narrativa da excentricidade de Lady Hester fora extremamente agradável de ler, para não dizer atraente.         

Lady Hester fora para o Oriente Médio no princípio do século dezoito. Era filha de um duque, nos tempos em que os títulos eram importantes para quase tudo, uma mulher autori­tária e masculinizada, que, como sobrinha de Pitt, estava também acostumada a conseqüências políticas. Depois de perambular bas­tante com um séquito que incluía amante, escravos e um médico, resolvera estabelecer-se na Síria (como era na época) e, com o tempo, comprou uma fortaleza perto de Djoun, não longe de Sidon. Lá, essa mulher à moda oriental, trajando-se como um emir turco, dirigia sua fortaleza de criados, guardas albadianos, escravos pretos, companheiros, e um médico, algumas vezes com uma barra de ferro e sempre com um chicote. Sua fortaleza, em­poleirada no alto de uma colina, foi descrita por um contempo­râneo como "um palácio encantado", e em si mesmo era um mundo de pátios, corredores tão complicados quanto um quebra-cabeças chinês, jardins cercados de muros, dos quais só se podia aproximar por meio de escadas tortuosas, saídas secretas cortadas na rocha, por onde os espiões da Lady entravam e saíam, todo o exotismo, com fontes murmurantes e jardins de vegetação luxu­riante. Era um cenário criado propositadamente com base na terra maravilhosa das Mil e Uma Noites, com todas as proprie­dades fantásticas de um conto da Carochinha solidamente à mão. Rosas e jasmins, escravos pretos mudos e rouxinóis, camelos e gatos sagrados e cavalos árabes, tudo isto ela possuía. Destemida, completamente egoísta, arrogante e excêntrica, e, com o passar dos anos, mudando da excentricidade para a megalomania, intro­meteu-se na política local, desafiou os emires e colocou-se — com algum sucesso acima da lei. Finalmente, parece ter acreditado no seu destino místico como Rainha do Oriente, que um dia entraria coroada em Jerusalém, ao lado do novo Messias.

O fim veio como vem para os que são resolutos, poderosos e solitários: ela morreu sozinha, velha e indigente, a fortuna gasta, sua fortaleza apodrecendo ao seu redor, os criados roubando-a e não a servindo bem. Mas deixou juntamente com suas dívidas uma lenda que vive até hoje.

Sem dúvida, era intrigante pensar que essa lenda continuava persistindo, de certa forma, na pessoa da minha tia Harriet. Pelo que sabia desta senhora, eu achava que ela (independente da sua classificação) encaixaria muito bem no papel. Possuía riqueza, considerável dose de personalidade e algum estudo, e viajara por todo o mundo, com um séquito que, embora não fosse nem tão grande nem tão importante quanto o de Lady Hester Stanhope, em 1820, provocara quase tanta encrenca e celeuma quanto o de Stanhope, cem anos mais tarde. Ela se casara com um arqueólogo, Ernest Boyd, e dali em diante o acompanhou nas suas viagens a serviço, ficando presente e (é preciso confessar) dirigindo suas escavações, desde o Camboja até o vale do Eufrates. Após a morte de Boyd, Harriet deixou o trabalho ativo e voltou para a Ingla­terra, mas continuou a se interessar profundamente pelo Oriente Médio, e financiou uma ou duas expedições que lhe mexiam com a fantasia. Dois anos suportando o clima ruim da Inglaterra tinham sido o bastante. Harriet dera adeus à família (ao que eu me lembrasse, essa foi a sua última visita) e fora para o Líbano, onde comprara seu refúgio no alto da colina e se estabelecera (segundo nos escrevera ela) para escrever um livro.

Desta fortaleza ela saíra uma vez, há quatro anos, pouco depois que eu e minha mãe seguíramos para Los Angeles. Ela fora à Inglaterra — segundo suas declarações — para regularizar seus negócios, o que significava transferir para o Líbano a sua fortuna considerável, arranjar um companheiro para a sua cade­linha Dalila, de raça tibetana, que andava muito danada da vida (segundo dissera Charles), e deixar a Inglaterra para sempre. Fora essa a última vez em que eu ouvira falar em Harriet. Se ela realmente escrevera alguma coisa durante os seus quinze anos de exílio, ninguém tinha nenhuma idéia, exceto pelas modifi­cações ocasionais do seu testamento, que a família lia com prazer e depois esquecia. Parecia que nós nos podíamos sair tão bem, sem tia Harriet, como podia ela passar sem nós. Naturalmente, não havia nenhum ressentimento de nenhuma das partes; minha tia apenas personificava em si a preferência marcante de isolamento que caracterizava os membros da família.

Por isto, eu ainda olhava em dúvida para meu primo.

Você acha que ela o receberá?

Oh, ela me receberá, sim "— afirmou ele, calmamente. — Minha mãe sempre foi muito sarcástica a respeito da inclinação da minha tia pelos jovens, mas não vejo nenhum motivo por que não nos devamos aproveitar disso. E, se eu disser a ela que fui lá exigir meus direitos, isto é, os Cães de Caça de Gabriel, ela ficará satisfeita; Harriet sempre gostou de pessoas que defendem os seus direitos. Se eu conseguir chegar a Beirute por volta da noite de domingo, que tal marcarmos um encontro para segun­da-feira?

Concordo. Parece intrigante, se eu pensasse que se poderia acreditar em uma só palavra do que você está dizendo.

É a pura verdade. Ou pelo menos, é uma verdade tão pura quanto se poderá conseguir neste país — prometeu meu primo. Não sabe o que dizem sobre ele? Que este é um país onde tudo pode acontecer, "um país de prodígios"... E Charles citou a referência: "Os homens que habitam este país de prodígios os habitantes das pedras e dos desertos cuja imaginação tem um colorido mais alto e, no entanto, mais nebuloso do que o horizonte das suas areias e dos seus mares, agem segundo a palavra de Maómé e de Lady Hester Stanhope. Gostam de estar em contato com os astros, com as profecias, com os mi­lagres e com a intuição do gênio."

Quem disse isso?

Lamartine.

Isto faz crer que até tia Harriet poderia ser normal. Estou impaciente para ver isto de perto. Mas, agora, preciso ir embora. Olhei de relance para meu relógio. Céus, já é hora do jantar.

Tenho certeza de que Ben gostaria de que você ficasse. Ele não tarda a chegar... Você não pode ficar?

Gostaria muito, mas temos de partir cedo amanhã, e ainda me falta fazer muita coisa. — Curvei-me a fim de pegar minha bolsa de mão. E você vai levar-me de carro para o hotel, rapaz, e nada de enganos. Não me aventurarei a atravessar as ruas escuras de Damasco, nem por sua causa nem por causa de nin­guém, mesmo que pudesse encontrar o caminho de volta, coisa que duvido. A não ser que você me empreste a Porsche...?

Há alguns riscos que estou disposto a correr falou meu primo. E outros que não estou. Levá-la-ei de volta... Vamos.

Atravessamos o pátio juntos, em silêncio. Alguém talvez o rapaz árabe devia ter trazido um lampião, que colocara em um nicho perto da porta. Era uma lâmpada tipo Aladim, feita de algum metal cor de prata, que talvez durante o dia fosse muito feia, mas que, ao crepúsculo e com aquelas chamas cor de laranja, parecia linda. O retângulo de um azul-profundo do céu lá em cima do pátio aberto já estava ficando pontilhado de estrelas reluzentes. Não havia aquela difusão feia dfe clarão de luzes da cidade, para estragar o veludo profundo do céu; embora estivesse pendendo sobre a riqueza e as luzes da superpovoada Damasco, falava do deserto e da vastidão do vazio e do silêncio que ficavam além da última palmeira. O próprio pátio estava em silêncio. O murmúrio distante do tráfego da cidade, que não seria mais alto do que o zumbido dentro de uma concha marinha, formava um fundo musical para este lugar sossegado, onde o gorgolejo da fonte era o único ruído que se podia ouvir. O poço no deserto. Um peixe moveu-se sob a superfície e um lampejo dourado, surpreendido pela luz do lampião, pareceu frisar a beleza da água viva. Era quase possível ouvir o peixe nadando. Um pássaro ajeitou-se por entre os ramos de uma árvore, chilreando, para dormir.

Está ouvindo? É uma pombinha — disse a voz de Charles, e mesmo assim me assustou, apesar de ter falado em voz baixa. — Diz o poeta que ela passa a vida inteira chamando o seu amado: "Yusuf, Yusuf", até que sua voz se transforma em um soluço. Então, eu lhe telefonarei na noite de sábado, para o Phoenicia, comunicando-lhe quando vou chegar.

Ficarei aguardando. Só espero que, depois de tudo isto, nós possamos ter nossa diversão de história das Mil e Uma Noites, em Dar Ibrahim. Oh, talvez você tenha esta oportunidade, pois é um homem fascinante... Mas haverá a mínima possibilidade de que ela queira falar também comigo?

Harriet ficará muito contente em vê-la — disse meu primo, generosamente. — Diacho, eu também fiquei muito satisfeito de revê-la...

Ora, você está saindo do seu costume, fazendo-me elogios assim — falei, precedendo-o rumo à porta de saída.

 

                   Adônis,

                   Que vive no Líbano,

                   No Líbano rochoso, onde viceja

                   Sua anêmona vermelha.

                           James Elroy Flecker: Santorin

 

Acho que eu supusera que Charles estivera exagerando sobre a lenda de Dar Ibrahim, mas parecia que ele tinha razão. Veri­fiquei que era bastante fácil conseguir notícias da minha tia ex­cêntrica em Beirute. Na verdade, mesmo que eu nunca tivesse ouvido falar a seu respeito, ela me haveria sido referida.

Aconteceu no sábado, no dia em que o grupo de excursionistas partiu para Londres, e em que me mudei para o Phoenicia, a fim de planejar minha breve independência e para esperar meu primo. Decidi aproveitar o resto do sábado para ajeitar o cabelo e fazer umas compras; depois, no domingo, eu pretendia alugar um carro com motorista para fazer uma viagem ao interior do Líbano, até às nascentes do rio Adônis.

Foi quando me dirigi à mesa da recepção, no hotel, para pedir ao recepcionista que arranjasse um motorista com carro, que tive notícias da minha tia.

O recepcionista do hotel apoiou minha idéia de maneira entusiástica, quase conseguindo ocultar seus pensamentos pessoais a respeito dos caprichos inexplicáveis dos turistas. Se uma jovem mulher estava disposta a pagar a despesa de um automóvel com motorista para viajar tanto e ver alguns povoados sujos e uma cascata, então claro que ele a ajudaria... e (notei o hábil exame das minhas roupas, do número do meu apartamento e da pro­vável despesa que eu teria no hotel) quanto mais caro o auto­móvel, melhor.

E me disseram — acrescentei — que lá nas nascentes do rio Adônis ficam as ruínas de um velho templo romano, e outro menor, um tanto mais perto, que talvez eu possa visitar.

Ahn? — fez o recepcionista, e depois, mudando apressadamente seu tom de voz. — Sim, é claro, templos. — Escreveu alguma coisa, passando a responsabilidade a outro, com algum alívio. — Direi ao motorista para incluí-los no itinerário.

Faça o favor...   E onde é que se pode almoçar?

O homem achou que agora, sim, eu estava falando em alguma coisa importante. Havia o famoso hotel de veraneio... Sem dúvida, eu ouvira falar nele, não é? Onde eu podia fazer uma excelente refeição, e com música. Oh, sim, havia música em todos os quartos, música contínua, vinte e quatro horas por dia, gravada em fitas, no caso de o silêncio das montanhas deixar o turista deprimido. Havia, também, uma piscina e tênis.

        E depois, é claro, se a senhorita fizer um ligeiro desvio na sua excursão, poderá ver Dar Ibrahim, na volta.

O homem interpretou mal a surpresa que apareceu no meu rosto e explicou depressa:

Não ouviu falar nisso? Oh, Dar Ibrahim é um palácio onde mora uma senhora inglesa, uma Lady, muito idosa, que outrora foi famosa. Ela comprou o tal palácio quando este estava caindo aos pedaços e encheu-o de coisas bonitas e tornou a plantar jardins lá, e nos velhos tempos ela recebia hóspedes famosos. Naquela época, os turistas tinham permissão para visitar certas partes do palácio, como hoje se podem visitar os castelos Beit ed-Din e dos Cruzados. Mas, agora, ela está muito velha e, se­gundo dizem, um tanto... — E ele fez uma careta eloqüente e tocou na testa. — No momento, o castelo está fechado, e ela não recebe ninguém, e jamais sai do palácio. Mas me disseram que era um lugar encantador, e eu mesmo já a vi saindo a cavalo com seus criados... Mas tudo isso mudou. Ela está muito velha e há muito tempo que ninguém mais a vê.

Há quanto tempo?

O homem estendeu as mãos.

Seis meses, um ano, não sei ao certo.

Mas ela continua vivendo lá?

Sem dúvida. Acho que ouvi um boato de que a velha tem um amante, mas isso deve ser falso. Creio que a Lady ainda tem dois ou três criados, e uma vez por mês são mandados supri­mentos de Beirute para Sal'q o povoado mais próximo do castelo e de lá levados no lombo de mulas.

Não há estrada ?

Não. A estrada segue ao longo da cordilheira, acima do vale, e para ir do povoado a Dar Ibrahim é preciso ir a pé ou então de mula E o homem sorriu. Eu não estava sugerindo que a senhorita fizesse isso, pois agora não mais vale a pena, uma vez que não se pode entrar no castelo. Estava apenas recomen­dando a vista. É linda. Em todo caso, Dar Ibrahim parece melhor visto de longe.

Para ser franca, eu já ouvira falar daquele lugar disse eu, para sondar o homem. Acho que conheço alguns parentes da tal senhora idosa, na Inglaterra. Tinha pensado em tentar falar com ela. Imaginara que talvez pudesse escrever-lhe um bilhete pedindo para visitá-la. Alguma coisa não sei bem o quê — impediu-me de explicar ao recepcionista que eu era pa­renta da tal senhora idosa que se tornara uma lenda do lugar.

O homem sacudiu a cabeça, como se duvidasse do êxito da minha tentativa, mas, com um brilho de curiosidade nos olhos, que me revelou que talvez eu tivesse feito bem em não declarar que era sobrinha de Harriet:

Acho que a senhorita poderia tentar. Mas creio que, quando ela recebesse o bilhete, ou quando a senhorita recebesse uma resposta... Há um porteiro no portão E o homem deu de ombros. Mas dizem que o porteiro não deixa ninguém entrar. Recebe as mercadorias encomendadas e as paga, e, se houver cartas, ou se a patroa escreveu cartas para remeter, elas são en­tregues nessa hora. Mas faz bastante tempo que ela não tem recebido ninguém, afora o médico.

Médico ? Ela está doente?

Não, acho que não está mais. Ouvi dizer que esteve enferma, no ano passado, há cerca de seis meses, no outono, e o médico ia lá todos os dias. Mas já sarou e agora passa bem de saúde.

Titia deveria estar mesmo muito bem de saúde pensei para redigir outro testamento peremptório no Natal.

O médico era de Beirute?

Sim, um médico inglês.

E você sabe o nome dele? — acrescentei, um tanto à guisa de desculpa: Já que não a posso ver, pelo menos poderia con­seguir notícias dela, por intermédio do médico.

O recepcionista não conseguiu lembrar-se do nome do médico, mas prometeu descobri-lo para mim, e, realmente, na vez seguinte em que passei pela recepção ele o tinha pronto. Era um tal Dr. Henry Grafton, com um endereço em alguma parte perto da Praça dos Mártires. Agradeci-lhe e subi para meu quarto, onde peguei o catálogo telefônico e procurei Grafton, H. L.

Encontrei o número do telefone. Após alguma dificuldade, consegui comunicar-me com o número, e uma voz de homem respondeu em árabe, mas, quando nos entendemos, por meio do seu excelente francês e passamos para o seu inglês, ainda melhor, ele me decepcionou. O Dr. Grafton não estava em casa. Deixara Beirute havia já algum tempo. Sim, para sempre. Se ele me podia ajudar?

Estou fazendo apenas algumas indagações a respeito de uma parenta minha — expliquei. — Uma senhora Boyd. Disse­ram-me que ela era cliente do Dr. Grafton, e que ele tratou da aludida pessoa há alguns meses antes de ele ir embora de Beirute. Estou imaginando se por acaso ela agora não faz parte da sua clientela. Acontece que...

Senhora Boyd? — E a voz mostrou que seu dono ficara intrigado. — Não temos nenhuma cliente com esse nome, infe­lizmente. Qual é .o endereço dela ?

Ela mora fora de Beirute, em um lugar chamado Dar Ibrahim. Creio que é perto de um povoado de nome Sal'q.

Dar Ibrahim? — E a voz tornou-se apressada. — Refere-se a Lady Harriet?

Ora, sim, eu... acho que sim — falei, sentindo-me um tanto tola. — E-Eu me esquecera... Sim, é claro, Lady Harriet.

Ao que eu saiba, ela está bem — disse a voz. — Mas não é minha cliente. Normalmente, eu a teria atendido, depois que Grafton foi embora, mas ela me escreveu, dizendo que não pre­cisava dos meus serviços. — Notei uma ponta de diversão na voz, que me deu vontade de perguntar por que ela não precisava mais dos serviços do médico, mas não era possível. Talvez tivesse sido uma carta renunciando ao mundo, aos ingleses e à profissão médica, ou pelo menos outro testamento. — Posso saber quem está falando? — perguntou a voz.

A sobrinha de Lady Harriet. Meu nome é Christabel Mansel. Vim ao Líbano de férias, e eu... nenhum de nós tem tido notícias da nossa tia, já há algum tempo. Na verdade, cheguei a pensar que ela tivesse morrido. Mas, depois, Blibe que estava viva, e alguém aqui no hotel — estou hospedada no Phoenicia — disse-me que o Dr. Grafton fora médico da minha tia, e por isso resolvi telefonar para tentar obter informações a seu respeito. — O senhor diz que o Dr. Grafton foi embora de Beirute. Seria possível entrar em contato com ele?

Infelizmente, não. Ele voltou para Londres.

Compreendo. Bem, muito obrigada. Talvez eu tente pessoalmente encontrá-la.

Houve uma ligeira pausa do outro lado da linha. Depois, a voz disse, em um tom propositadamente indiferente:

Dizem que ela mora muito longe.

Sim — falei. — Já sei disso. Mas, em todo caso, obrigada por sua ajuda. Adeuzinho.

Adeus — disse a voz.

Achava-me sorrindo quando desliguei o telefone. O que se notava, implícito na agradável voz, era o equivalente a: "e quero desejar-lhe boa sorte, britânicamente".

Naquela noite. Charles telefonou, dizendo que o pai de Ben ia chegar depois da data prevista, e que por isso ele, Charles, não poderia chegar antes da noite de domingo, e que talvez tivesse de chegar mesmo depois disso.

Mas, em nome de todos os deuses ao mesmo tempo — falou ele, de forma impressionante — estarei com você na segunda-feira, ou morrerei tentando.

Não faça isso — falei — pelo menos, até que você tenha comprado sua barba azul. Você me disse que neste país tudo pode acontecer.

Não mencionei minhas indagações a respeito da tia Harriet, nem lhe contei que estava começando a ficar tremendamente curiosa a respeito da eremita excêntrica de Dar Ibrahim.

 

O recepcionista do hotel fizera tudo para me conseguir uma viagem bem cara. O automóvel era um carro americano enorme, com muitos acessórios, ar condicionado, contas azuis para afastar o mau olhado, e até, pendurado na vidraça, um extrato do Al­corão, que dizia: "Deposita tua confiança em Deus."

Além disso, o carro tinha, também, um altímetro. Não acreditei muito nisso até que o motorista, um jovem cheio de viva­cidade e de rosto esperto, chamado Hamid, me disse que íamos subir do nível do mar até uns dois mil e quinhentos metros de altitude, já que as nascentes do Adônis ficavam no Alto Líbano, nas montanhas. Sentei-me ao lado dele, no banco dianteiro do carro, e fiquei observando o altímetro, fascinada e divertida, quando nos afastamos da costa, em Bibló, e começamos a subir.

Hamid subestimara a força que a máquina teria de fazer para subir as montanhas. A princípio, a estrada era suportável, e subia, atravessando povoados e plantações em terrenos em forma de platôs, onde macieiras, plantadas com cuidadoso espaçamento, se erguiam no meio de plantações comuns, e crianças de olhos escuros brincavam no meio das galinhas e da poeira. Mas, depois de algum tempo, a estrada afastava-se das pequenas colônias verdes e subia, mais íngreme, através do último cinturão de plan­tações, antes que o gado reclamasse o solo pedregoso. Aqui também, em todo canto abrigado, um açude bem feito irrigava o solo, cuidadosamente adubado, e as árvores frutíferas mostravam uma floração parca. Nas plantações menos protegidas, cresciam as hastes verdes de cereais, quase abafadas pelas flores da prima­vera, que cresciam em toda parte, na beira da estrada, nos muros das plantações e até embaixo das pedras. Hamid parou o carro, sorridente e bem-humorado, e me deixou examinar as flores, tomada de encantamento: orquídeas, pálidos ciclames, um enorme gerânio de azul-intenso, a tulipa persa, de pétalas escarlates, e a anémona vermelha, que floresce para Adônis.

Pouco depois, saíramos do trecho de plantações e corríamos ao longo de montanhas acidentadas, e a única flor passou a ser a vassoura amarela. O ar, de uma clareza cristalina, contrastava maravilhosamente com o ar pesado da costa. De vez em quando, víamos um rebanho de ovelhas de aparência oriental, de lã creme ou cor de mel, ou então malhadas de branco e preto, movendo-se com as orelhas caídas e de cabeça baixa, como se estivessem sempre à procura de capim. Cabras de pelo luzidio e negro pastavam com elas, e cada rebanho ficava bem perto do pastor, uma figura solitária de pé, enrolado no seu albornoz, os braços cruzados sobre o cajado, olhando-os fixamente enquanto passávamos.

A estrada subia. A agulha do altímetro movia-se firmemente para a direita. O ar tornou-se de uma frescura picante. A vege­tação de vassoura amarela ficou para baixo, e na beira da estreita estrada viam-se tufos de folhas finas e cinzentas entre as pedras. O carro contornava assustadoramente as curvas com pedras que ameaçavam ruir, e do outro lado um abismo hiante se abria, no ponto em que as gralhas e os corvos saltitavam e brigavam, lá embaixo.

E então, de repente, surgiu espaço de ambos os lados. Estávamos correndo ao longo do espinhaço de uma montanha tão exposta que estonteava, de onde se descortinava um panorama de rochas brancas e distância azul, e crista após crista de mon­tanha coberta de matagais, até o mar; e, muito ao fundo, para a nossa direita, de um verde-gelo, reluzindo e ocultando-se e luzindo novamente, enquanto corria e penetrava na sua garganta grande e coberta de florestas, o Nahr Ibrahim, o rio Adônis.

Pouco depois, passando por gargantas rochosas que aqui e ali impediam a passagem da luz do Sol e permitiam que macieiras pequenas vicejassem com o pé metido no meio das anêmonas vermelhas, chegamos à própria nascente do rio Adônis.

Essa nascente tem sido qual magia, desde tempos imemoriais. Para o povo primitivo de uma terra sedenta, a vista da torrente branca, que irrompia da stia caverna negra e caía sobre um ro­chedo maciço e batido pelo sol, sugeria sabe que deuses, demônios, poderes e terror. Sem dúvida, sugeria também fertilidade... O rio leva a vida consigo, em uma extensão de cinqüenta quilômetros de montanhas cobertas de água. E, no ponto em que a água irrompe da rocha, a escavação é subitamente verde e cheia de árvores e de arbustos florescentes, e as anémonas vermelhas cres­cem ao longo da torrente lateral.

E aqui, viajando na esteira fantasmagórica de Ísis, de Ishtar e de Astarte e da Grande Mãe, que foi Demetér, Dia e Cybele das Torres, veio Afrodite, para se apaixonar pelo pastor sírio Adônis, e para se deitar com ele por entre as flores. E aqui o javali matou-o e, no lugar onde seu sangue correu, até hoje, toda primavera, as águas do Adônis correm vermelhas até o mar. Agora, a escavação está vazia, exceto pelo fato de as cabras pretas dormirem ao sol no. piso arruinado do templo de Afrodite, e contra o rumor da torrente o ruído sonolento dos sinos das cabras nos vem claro e agudo aos ouvidos. Os trapos que flutuam da árvore sagrada são amarrados lá como petições à última Lady do lugar, Mary.

Mesmo sem as lendas, teria sido emocionante. Com elas, a cena da água branca e da rocha esbraseada, das ruínas maciças e das flores vivas que o vento do outono agita era alguma coisa do outro mundo. E, enquanto saíamos eventualmente da escavação para a trilha mal se poderia chamar aquilo de estrada que nos levaria para Beirute por um caminho diferente, a cena teve o seu toque final de fantasia oriental.

A alguma distância e fora da vista da escavação do Adônis, algumas casas árabes esparsas ao longo do rio. Uma trilha, que era um arranhão branco na rocha, saía de lá, em ângulo com a estrada. E subindo por essa trilha, a passo lento, ia um cavalo árabe alazão, o albornoz branco do cavaleiro inflado pelo movi­mento, como uma vela, a cor escarlate e prateada do bridão pis­cando ao sol. Nas pegadas do cavalo, trotavam dois lindos cães de caça, castanhos, com pelos compridos e sedosos, os cães de caça salukis, que eram usados pelos príncipes orientais para caçar gazelas.

Uma curva da estrada ocultou-os e de repente chegou a hora do almoço.

Tornamos a ver o cavaleiro, quando descíamos pelo outro lado do vale. Passáramos mais de uma hora almoçando, e o cava­leiro devia ter usado trilhas que serviam de atalhos para mil curvas difíceis que um carro tinha de fazer. Enquanto seguíamos por entre despenhadeiros na direção de algum povoado minúsculo em um vale elevado e perdido, onde a neve jazia não muito acima de nós, vi o cavaleiro lá embaixo, conduzindo seu cavalo a pé, atravessando uma passagem que mal se podia ver e que o levava por um campo de girassóis que lhe ia até à altura das coxas. Os cães eram invisíveis por sob as folhas grossas e em formato de coração. Depois, eles seguiram correndo, adiante dele, e pene­traram em uma curva mais baixa da estrada, o cavalo começando a trotar atrás deles. O ar era tão claro, que pude ouvir o tinido dos guizos do bridão acima do ruído surdo dos cascos na poeira.

As casas de teto achatado do povoado ocultaram-no da nossa vista.

 

Paramos no povoado para comprar laranjas.

A idéia foi de Hamid. Poderíamos tê-las comprado em uma das inúmeras tendas na estrada, à saída de Beirute, mas Hamid disse que as daqui eram especiais, acabadas de colher nas árvores e quentes do calor do Sol e divinamente maduras.

E eu as comprarei para a senhorita como presente disse ele, parando o carro à sombra de uma amoreira e contornando o veículo para abrir a porta para mim.

Era evidente que o povoado era pobre; as casas não passavam de choupanas, feitas com tijolos de barro, mas eram cobertas de trepadeiras, e cada uma aparecia, com seu telhado achatado, no meio dos seus terrenos cobertos de cereais e de frutas. Parte da fertilidade da deusa derramara-se sobre o lugar, apesar da sua altitude. Devia estar abrigado da maior parte dos ventos, e não faltaria umidade, quando a neve se derretesse. A água, cuidado­sãmente acumulada, ficava depositada em cisternas quadradas, sob os choupos prateados e sem folhas, e o povoado que não passava de um punhado de casas em um anfiteatro natural pro­tegido do vento era cheio de botões de frutas, não só as árvores lustrosas e encantadoras, carregadas de flores e frutos cerosos de laranjas e limões, mas de peras da neve e o cor-de-rosa vivo da amêndoa, e por toda parte a maçã, também rosada, a fruta básica do Líbano.

O sol estava quente. Um punhado de crianças se juntara ao redor do carro, olhando-nos fixamente; eram muito pequenas e um tanto bonitas, com seus cabelos pretos e enormes olhos escuros, e com sua curiosidade. O lugar parecia morto, com a quietude da tarde. Não havia ninguém nos campos; se houvesse um bar, seria apenas em algum quarto escuro de uma daquelas casas. E não vi mulheres. Afora as crianças, as galinhas magras ciscando e um burrico de aparência miserável, com marcas de cordas, a única criatura que se movia era um velhote, sentado ao sol, fu­mando um cachimbo. Na realidade, dificilmente se poderia dizer que ele se estava movendo. Parecia estar fumando quase ador­mecido, e seus olhos se viravam para cima e meio cegos para Hamid, enquanto este último o cumprimentava e lhe fazia uma pergunta em árabe, talvez sobre quem nos venderia as frutas que pendiam das lindas árvores.

O velhote esperou meio minuto, enquanto a pergunta lhe penetrava no cérebro, depois tirou o cachimbo da boca, virou a cabeça uns três graus, cuspiu na poeira, de maneira tal que me deu nojo, e murmurou alguma coisa para si mesmo. Depois, seus olhos readquiriram aquela expressão míope e fixa, firman-do-se no nada, e o cachimbo lhe voltou para a boca.

Hamid sorriu para mim, fez um gesto de indiferença com os ombros e disse:

Volto daqui a pouco E desapareceu em uma porta escura.

Atravessei a rua, seguida pelas crianças. Na beira da estrada havia um muro de dois metros de altura, e ao que parecia segu­rava todo o platô em que a aldeia era construída. Abaixo disto ficavam as plantações, onde eu vira o cavaleiro do cavalo alazão. Os girassóis eram altos demais e plantados muito juntos, para permiti­rem a linda profusão de flores que eu vira na parte mais baixa das colinas, mas havia íris do mato ao pé do paredão, e uma flor azul como um pequeno lírio, e, como gotas reluzentes de sangue, entre as raízes dos girassóis, pude ver as anêmonas vermelhas.

Desci, no que fui acompanhada pelas crianças. Ajudei-as, levantando-as até a última, um menino de uns três anos, meio nu. Limpei as mãos nas minhas roupas e procurei flores.

As crianças ajudaram. Um menino de olhos grandes, usando um colete sujo e nada mais, arrancou um punhado de cravos para mim, e o menino de três anos apareceu com duas flores dentes-de-leão. Houve muita conversa, em árabe e em inglês com o menino menor, e grunhidos seculares, e todos nós compreendemos bem um ao outro. A coisa mais clara a respeito do assunto era que se esperava que eu desse alguma coisa mais substancial em troca da companhia e das flores.

        Um xelim — disse Hamid, acima de mim, em tom divertido.

Olhei para cima. O menino estava de pé, na beira da estrada.

Tem certeza? Parece muito pouco. Eles são seis...

É o bastante.

Parecia que Hamid tinha razão. As crianças agarraram as moedas e desapareceram por cima do muro mais depressa do que tinham descido e sem nenhuma ajuda, exceto o menorzinho, que foi ajudado a transpor a parte superior por Hamid, que lhe limpou a poeira da roupa e lhe deu uma palmadinha nas nádegas nuas. Hamid virou-se novamente para mim.

A senhorita pode descer? Algumas das pedras não estão muito firmes.

Não importa. Não vou saltar o muro. Descerei e irei ao seu encontro na estrada, quando você chegar lá. Você conseguiu as laranjas?

Sim. Pois bem, então. Não se apresse. Estarei à sua espera lá embaixo.

A trilha onde eu vira o cavaleiro ficava fora do caminho, tinha um meio metro de largura e descia muito íngreme, através dos girassóis, e ia dar no terraço lá embaixo, por meio de dois ou três lances de escada. As flores enormes, de cabeças pesadas, estavam-se virando para o outro lado, de frente para o sul, e a trilha era uma fenda profunda entre plantas da altura de um metro e oitenta. Agora, vi que elas eram plantadas com intervalo de um metro uma da outra, e entre elas algumas outras plantas, de folhas verdes e hastes de flores marrons, que lutavam contra as malvas e os lóios para alcançar a luz do Sol. Nos pontos em que o cavalo passara, as folhas pendiam, esmagadas e amarrotadas, e acima do cheiro de mel dos girassóis sentia-se o odor limpo e almiscarado das urtigas.

Segui na direção da estrada. Na brecha do paredão, que levava ao último platô, os girassóis cediam lugar a uma plantação de milho. Erguendo-se como uma sentinela no ponto em que as plantações se separavam, havia uma figueira, que estava justamente enchendo-se de botões. Seus galhos prateados erguiam os botões contra o céu claro com uma graça encantadora e, contra o caule áspero do seu tronco, agarrava-se uma planta semelhante a um cipó, com flores vermelhas como anémonas. Parei para colher um. O cipó era forte, e quando eu o arranquei do tronco da árvore apareceu alguma coisa embaixo. No caule prateado que surgiu, garatujado em vermelho, via-se um desenho de cão em disparada. O desenho era tosco, mas vivo; era, sem dúvida, um galgo de pelos compridos, com uma cauda em forma de pena. Um saluk.

Sem dúvida, é fato comprovado que, quando alguma coisa nos chama a atenção, volta novamente várias vezes, muitas vezes com a alarmante experiência da coincidência ou mesmo do des­tino. Sem dúvida, parecia que, uma vez que Charles os tinha mencionado, os galgos iam-me perseguir por todo o Líbano, mas não havia nada de estranho nisto, pois na Inglaterra as pessoas costumam ser perseguidas por coisas muito mais banais. Desci à estrada.

Hamid achava-se sentado sobre um muro baixo, na beira da estrada, ao lado do carro, fumando. Levantou-se depressa, mas eu lhe fiz um aceno para que se sentasse.

Não se preocupe. Acabe de fumar seu cigarro.

Quer chupar uma laranja?

Quero, sim. Obrigada. Oh, são lindas ! Tem toda razão, lá em Beirute não há laranjas assim... Hamid, por que se plantam girassóis, aqui no Líbano?

Para obter óleo. Os girassóis dão um óleo muito bom para cozinhar, e agora o governo construiu uma fábrica para fazer também margarina a partir dessa planta, e oferece um bom preço pela colheita. Faz parte de uma campanha oficial para extinguir a plantação de haxixe.

Mas, haxixe é entorpecente. Não é o mesmo que maconha? Céus! Isso também dá aqui?

Oh, sim. Nunca viu maconha? É o mesmo cânhamo que é plantado na Inglaterra, para fazer cordas, mas é só nos países quentes que o cânhamo contém a droga. No passado, sempre foi cultivado muito cânhamo aqui nestas montanhas. É o clima adequado para isto, e ainda há lugares aonde os inspetores não vão.

        Inspetores?

O homem confirmou, com um aceno de cabeça.

        Os agentes do governo. Agora, eles estão ansiosos para controlar a plantação de maconha. Certa quantidade é plantada legalmente, para uso como remédio, e é preciso ter licença para cada estágio da plantação e do crescimento. O cultivo do cânhamo é submetido a rigoroso controle, mas tem sido sempre bastante fácil, para os camponeses destes sertões, cultivarem mais do que declaram, ou fazerem as colheitas antes da vinda dos inspetores. Vamos? — E abriu a porta do carro para mim.

No conjunto, aquele fora um dia estranho e vertiginoso, e as coisas pareciam estar saindo como eu queria. Pareceu-me o clímax inevitável que, ao entrar no carro, eu dissesse, de forma decidida:

        Você disse que me mostraria Dar Ibrahim, a caminho de Beirute. Se houver tempo, gostaria de ir lá hoje. Você se importaria?

 

Por volta das quatro horas, contornamos uma curva fechada e entramos no povoado de Sal'q. Hamid parou o carro ao lado de um paredão baixo, além do qual o terreno caía e nos propor­cionava outro daqueles panoramas lindos do vale Adônis.

— Lá está — disse Hamid.

Olhei para onde o árabe apontava. Aqui, o vale era largo, e o rio, magnífico e fluindo ligeiro, abria caminho para si mesmo entre margens cobertas de denso arvoredo. De algum ponto à nossa esquerda, além da mesquita do pequeno povoado, descia o rio afluente para ir ao encontro do Adônis no vale lá no fundo. Entre as duas torrentes, uma língua de terra, elevada e em forma de cunha, projetava-se como um navio de proa alta, pelo centro do vale, e, na sua ponta, como uma coroa no penhasco, acima das águas, que se encontravam com estrondo, estendia-se o palácio, um punhado aparentemente grande de prédios, que iam para trás, a partir da beirada do promontório, para se estender sobre uma área bem grande do platô. Mas ou menos na parte traseira do prédio, o terreno caía violentamente, transformando-se em uma pequena plataforma escarpada, indo até o nível do platô, e aqui o paredão do palácio se erguia quase diretamente das rochas. Perto do cume, pude ver janelas, uma fileira de arcos ornamen­tados, olhando para fora, na direção do povoado, mas, afora essas aberturas e também por pequenas aberturas que pareciam ser pouco mais do que orifícios de ventilação, os paredões não pos­suíam janelas, e eram brancos e nus ao sol. Na direção dos fundos do palácio, o verde de árvores enormes aparecia dentro das pa­redes. Lá fora, estendendo-se para trás, na direção das raízes das montanhas que dividiam as gargantas do Adônis e do seu afluente, o platô aparecia, aberto, pedregoso e nu, como um vale de ossos secos.

Parecia não haver outro jeito de chegar lá, exceto descendo uma trilha rochosa ao longo do lado de um rio afluente.

Hamid estava explicando isto.

        E é preciso atravessar a água, no fundo — falou ele. — Há um vau de água rasa, mas algumas vezes, na primavera, quando chove, mesmo ali o rio é muito profundo e rápido, e cobre as pedras em que se costuma pisar. Mas hoje pode-se passar. A senhorita quer, mesmo, ir? Então, irei também, para lhe mostrar o caminho.

Não me pareceu que seria muito fácil perder o rumo. Eu podia ver o caminho até o fundo da colina, e — enxergo muito bem — podia ver até o vau, do ponto em que me encontrava. Devia ter havido uma ponte de pedra lá, em certa época, pois os pilares em ruínas eram inconfundíveis. E, sem dúvida, para além desses, também seria impossível confundir a trilha que subia para o palácio.

Olhei para Hamid, nas suas calças imaculadamente passadas, de andar na cidade, e na sua camisa de um branco impecável.

        É muita bondade sua, mas não é preciso ter esse trabalho. Não poderei errar o caminho. Se prefere ficar aqui com o carro, e talvez arranjar alguma coisa para beber, no povoado, algum café, ou talvez uma cerveja... — Olhei ao redor, para o amon­toado de cabanas que constituíam Sal'q, que não prometia muita coisa.

Hamid sorriu.

Há, sim, mas, embora agradeça muito, não quero nada hoje. Vou lá embaixo com a senhorita. É longe para uma dama ir sozinha e, além disso, acho que o porteiro do palácio fala só árabe. A senhorita teria dificuldade em se comunicar com ele...

Oh, é verdade, acho que sim. Bem, muito obrigada, agradeceria muito se você fosse comigo. O terreno parece mesmo muito acidentado. Seria bom se tivéssemos asas.

Hamid trancou o carro e deixou as chaves caírem dentro do bolso.

- Vamos por aqui.

A trilha contornava a mesquita, passava pelo pequeno cemitério, com suas curiosas pedras moslemitas; os pilares finos, com seus turbantes de pedra, que indicavam túmulos de homens e as esteias entalhadas em forma de lótus, para as mulheres. O mi­narete caiado de branco erguia-se lindamente contra o céu quente de uma cor pálida. Além do canto em ruínas da parede do cemi­tério, a trilha virava de repente colina abaixo, em ziguezagues íngremes e traiçoeiros, com pedras soltas. O Sol já passara há muito do zênite, mas ainda castigava ferozmente este lado do vale. Em breve, tínhamos deixado para trás os platôs mais baixos do povoado, onde a encosta da colina era íngreme demais e dema­siado rochosa para que pudesse haver outras plantas, a não ser cipós. Algum penhasco deveria estar ocultando a torrente, pois não ouvíamos nenhum ruído. O silêncio era profundo. O vale parecia estar cheio do mesmo silêncio quente e seco.

Ao virarmos uma curva do caminho, espantamos um rebanho de cabras, pretas e marrons, de pelos longos e sedosos, orelhas caídas, enormes chifres e olhos amarelados, sonolentos e perversos. Estiveram pastando sabe Deus o quê, no rochedo nu, e dormiam ao sol. Eram umas trinta, e suas caras estreitas e espertas, observando-nos de forma consciente e sem nenhum medo, davam a impressão de que não era um rebanho de animais possuídos pelo homem, e sim um punhado de seres humanos que tivessem o direito de viver aqui. Quando uma delas se levantou, calmamente, e caminhou em passos largos até o meio da trilha, não discuti com ela. Saí da trilha e contornei sua presença. O animal nem se deu ao trabalho de mover a cabeça.      

Eu estivera certa a respeito da velha ponte. O afluente (que Hamid me disse chamar-se Nahr el-Sal'q) não era largo, comparado com o Adônis, mas, em certa época do ano, chegava a alcançar sete metros de largura, com uma correnteza veloz, rasa em alguns lugares, onde havia calhaus brancos, e em outros caindo turbulentamente e fazendo espuma, sobre rochedos rachados, ou redemoinhando mais profundamente em uma série de poços verde-escuros que deviam ser de um metro e vinte de profun­didade. Na outra margem, a água era limitada por um rochedo baixo, talvez de um metro e sessenta de altura, do qual a ponte partira antigamente. Ainda se podiam ver os alicerces da ponte, através da água límpida. No lado em que nós nos achávamos, restava pouco mais do que uma pilha de pedras grandes e quadradas, algumas das quais tinham sido removidas e colocadas toscamente na água, para servir de degraus, colocadas de metro em metro.

        Dizem que outrora havia aqui uma ponte... Uma ponte romana — disse Hamid. — Estas são ainda as pedras velhas. A senhorita pode ir até lá?

Hamid segurou minha mão para ajudar-me a atravessar, depois seguiu na frente diretamente para o pé do rochedo, onde vi uma trilha que subia serpeante através do emaranhado de figueiras do mato e das vassouras amarelas, em direção à cabeça do promontório.

A subida era íngreme, mas não difícil, e era evidente que podia ser galgada por mulas ou mesmo cavalos. Não vimos nenhum outro sinal de vida, afora lagartos e lagartixas que an­davam pelo rochedo. Não havia nenhum ruído, exceto o da água que corria lá embaixo de nós, e o som dos nossos passos e de nossa respiração.

Ao sairmos no alto do penhasco e vermos os paredões sem aberturas no palácio diante de nós, tive a estranha impressão de que o prédio achava-se completamente morto e abandonado, e de que era um palácio fantasma. Parecia impossível que alguém morasse ali; pelo menos, alguém que eu conhecesse. Achei evi­dente que ninguém que fizesse parte da minha família, extraor­dinária, mas vital, poderia trancar-se ali, nesse cemitério im­ponente...

Quando parei a fim de recuperar o fôlego, contemplando as paredes de um branco-pálido, e o portão de bronze, trancado a chave, surpreendi-me lembrando da última vez em que vira tia Harriet. Era uma recordação confusa de criança... O pomar em casa, na época do outono, e de uma daquelas ventanias de setembro, com as folhas farfalhando e as maçãs caindo no chão úmido. O céu achava-se cheio de nuvens da tarde e a passarada ansiava para voltar para os ninhos. Lembrei-me da voz de tia Harriet, áspera, em resposta a alguma coisa que Charles dissera...

        Costumava haver um sino ao lado do portão. Diga-me o que deseja que eu fale, e se o velhote não estiver dormindo, talvez consigamos que ele leve o recado — falou Hamid, alegre­mente, indo na minha frente, sobre as pedras empoeiradas, em direção ao portão.

 

       Esta estalagem em ruínas. ..

  1. Fitzgerald: Rubaiyat, de Omar Khayyam de Naishapur

 

O portão principal de folhas duplas de bronze com rebites, sob um arco de um trabalho complexo era, a princípio, um espetáculo muito impressionante. Mas, quando a pessoa se apro­ximava dele, podia ver que a pesada aldrava sumira do seu gonzo e que o trabalho de entalhe já fora reduzido a quase nada pela erosão do vento. As paredes, altas e sem janelas, mostravam, aqui e ali, os restos de alguma decoração colorida, padrões fan­tasmagóricos de mosaicos e mármore quebrado coberto de massa e pintado com uma cor de ocre clara que o sol forte cozera até transformar em cor branca. Via-se uma campainha presa ao lado direito do portão.

Hamid puxou o cabo. Distintamente, no silêncio, pudemos ouvir o estalido dos fios, enquanto estes se distendiam, centímetro a centímetro, para puxar a campainha. Segundos depois, com um guincho e um estiramento de molas, o sino soou, em som oco, do lado de dentro do portão, muito perto. Enquanto o eco corria pelo bronze, um cão latiu em alguma parte. Depois disso, fez-se novamente silêncio.

Hamid acabara de erguer novamente a mão para tornar a puxar o sino, quando ouvimos um ruído de passos. Ou não foram exatamente passos; apenas o arrastar leve de sandálias em um piso empoeirado, depois o barulho de mãos mexendo no outro lado do portão. Não nos surpreendemos ao ouvir o ruído pesado de ferrolhos sendo puxados para trás, ou pelo fato de o portão ranger tétricamente ao se abrir.

Olhei para Hamid e vi no seu rosto a mesma expressão de expectativa que devia haver no meu. Depois de tal preparação, quem quer que nos abrisse aquele portão só poderia ser uma figura de pesadelo.

Mas não era. Era até melhor do que as melhores perspec­tivas poderiam fazer supor. Uma folha alta de bronze estalou e se abriu lentamente sobre uma passagem que parecia, em contraste com a luz do sol do lugar em que nos achávamos, ser muito escura. Na fenda cautelosa que fora aberta, pudemos ver uma figura magra e curvada, vestida de branco. Por um instante louco — tal fora o suspense tipicamente à la Hitchcock que precedera o seu aparecimento — pensei que o homem não tivesse rosto; depois, vi que o rosto era escuro, quase preto, e que, contra o fundo também preto da passagem que ficava atrás dele, só suas roupas brancas apareciam.

O homem olhou para a luz. Era um sujeito um tanto velho, de ombros curvados, a pele marcada de rugas como uma ameixa sob as dobras da touca árabe, a kaffiyeh. Os olhos, de beiradas vermelhas e empapuçados, contra a luz, tinham uma tonalidade acinzentada que denotava neles a presença de catarata. O homem piscou os olhos e balbuciou alguma coisa para Hamid, que eu supus fosse árabe, e começou a fechar o portão.

        Um instante. Espere. — Hamid passou por mim e entrou pela brecha do portão, com um passo ligeiro, e apoiou um dos ombros fortes e jovens contra o portão. Já me informara o que pretendia dizer. O árabe que ele falou pareceu-me um recado urgente. — Não se trata de uma visitante comum, e sim de uma pessoa da família da Lady, que você não pode expulsar da porta. Ouça.

O homem idoso parou um instante, incerto, e Hamid prosseguiu.

        Meu nome é Hamid Khalil, e sou de Beirute, e trouxe esta senhorita para falar com a sua patroa. Sabemos que a velha Lady não recebe mais visitas, mas esta jovem é inglesa, e filha do filho do irmão da Lady. Portanto, você tem de ir contar à Lady que a Srta. Christy Mansel veio da Inglaterra para visitá-la... Senhorita Christy Mansel, que traz saudações dos seus parentes da Inglaterra.

O porteiro ficou olhando fixamente, com uma cara de imbecil, quase como se não tivesse ouvido nada. Comecei a imaginar se ele não era surdo. Nisso, vi que o homem estava olhando para mim, e que uma espécie de curiosidade ia-se formando nos olhos mortiços. Mas o árabe sacudiu a cabeça, e novamente lhe saiu dos lábios um daqueles ruídos estranhos, que agora notei serem a luta de alguém com grande dificuldade para falar.

Hamid sacudiu um ombro na minha direção, de maneira opressiva.

- Não nos contaram nem a metade, hem? "Nada de comunicação com o exterior" é a palavra de ordem... Este homem é quase mudo. Mas acho que não é surdo, e, portanto ouso dizer, de alguma forma, ele recebe as mensagens. Ainda não preci­samos desesperar.

- Infelizmente, não sou dessa opinião.

Hamid riu e virou-se novamente para o velho, que, gorgolejando e falando baixinho, estivera fazendo vagas tentativas para fechar a porta contra o ombro do resoluto rapaz, que agora já usava o pé a fim de impedir o fechamento do portão. Hamid ergueu a voz e tornou a falar, em tom ríspido. Mesmo sem traduzir para mim o que dizia, o sentido de suas palavras era evidente.

        Escute, pare de brincar com o portão; não iremos embora até que você leve a mensagem à sua patroa ou mande alguém que possa falar conosco. .. Ah, melhorou! Já compreendeu direito? Srta. Christy Mansel, filha do filho do irmão da Lady, veio da Inglaterra para vê-la, mesmo que apenas por alguns mo­mentos. Ficou claro? Agora, vá dar o recado.

Não havia dúvida alguma de que o velho podia ouvir. Agora a curiosidade aberta apareceu no rosto que avançou para diante, no pescoço magro e velho, para me olhar fixamente, mas assim mesmo o homem não fez nenhuma tentativa para ir dar o recado ou para nos convidar a entrar. Sacudiu violentamente a cabeça, falando alguma coisa com Hamid e segurando a beirada do portão com o que parecia ser um misto de teimosia e de apreensão.

Tive de intervir, um pouco inquieta e um tanto nauseada:

Escute, Hamid, talvez não devêssemos... Isto é, forçar assim a entrada... É evidente que ele recebeu ordens, e parece estar com um medo danado de ter de desobedecer a elas. Talvez se eu apenas escrevesse um bilhete...

Se formos embora agora, jamais entrará neste palácio. Não é da sua tia que ele está com medo. Ao que posso depreender, ele receia certo médico. "O doutor disse para não deixar ninguém entrar".

O doutor?

Não se preocupe — falou ele, rapidamente. — Posso estar enganado, e mal consigo compreendê-lo, mas achei que foi isso que ele disse. Espere um instante. ..

Mais uma saraivada de árabe, e novamente as sílabas horrivelmente gaguejadas pelo homem. Flocos de baba lhe tinham aparecido nos cantos da boca, e ele sacudia violentamente a ca­beça, e até, em parte, afrouxou o modo como agarrava a folha do portão com as duas mãos, enxotando-nos como se faz com as galinhas.

        Por favor.. .   — falei.

Hamid silenciou o velho com uma palavra cortante e um gesto.

        Sim?

        Hamid — falei eu, em tom decisivo. — Isto resolve o assunto. Insisto em entrar. Se eu não puder falar com minha tia, falarei com o médico, se ele estiver presente. Se não estiver, então alguém poderá escrever o nome e o endereço dele para mim, e irei procurá-lo imediatamente. Diga-lhe que eu insisto. E, se quiser, pode dizer-lhe que minha família poderá arranjar uma encrenca danada, se acontecer alguma coisa com a minha tia. — E acrescentei: — E, por caridade, se houver alguém aqui que possa falar conosco, que venha depressa.

        Vou dizer isto a ele.

Não tenho nenhuma idéia de como Hamid realmente exprimiu minhas exigências, mas, depois de mais alguns minutos de discussão, o porteiro, os olhos, cobertos de um película, vol­tados para o alto, em uma expressão hedionda, e as palmas das mãos jogadas para fora, a fim de afastar de si toda responsabi­lidade, finalmente escancarou o portão e nos deixou entrar.

Hamid me dirigiu uma piscada rápida de olho, enquanto se afastava para me dar passagem.

Eu disse a ele que a senhorita estava exausta da caminhada de Sal'q e que se recusava a esperar do lado de fora, ao sol. Duvido que tornássemos a vê-lo, se eu o tivesse deixado fechar o portão.

Também acho. Por favor, entre comigo, sim? Alguma coisa me diz que não sou bem-vinda.

Eu não a deixaria por nada neste mundo — falou Hamid, em tom de consolo. — Só espero que a senhorita encontre a velha Lady bem de saúde... E eu posso muito bem estar enganado no tocante ao que aquele velho faquir me disse. Bem, pelo menos estamos do lado de dentro... Isto já é alguma coisa para contar aos filhos dos meus filhos.

Atrás de nós, o portão fechou-se, com um estalido, e ouvi­ram-se os ruídos de mau agouro - dos ferrolhos sendo corridos calmamente. Quando meus olhos se ajustaram à semi-escuridão, na verdade, não estávamos em um corredor, mas sim em um túnel alto, de teto de barris, de uns cinco metros de comprimento, que ia terminar em outra porta pesada. Em cada um dos lados do túnel via-se uma porta menor. Uma delas achava-se aberta, e à luz mortiça de uma janelinha na parede interna vi uma cama de rodinhas coberta com roupas de cama em farrapos. Sem dúvida, devia ser o alojamento do porteiro. A porta defronte a este pequeno quarto apresentava-se fechada e com um cadeado.

O ancião abriu a porta que ficava na extremidade do túnel, deixando entrar um jato de luz brilhante. Nós o seguimos e pe­netramos em um pátio grande.

Este devia ser o pátio externo do palácio antigo, o midan, onde o povo do Emir se reunia com presentes ou com petições, e onde seus soldados exibiam sua habilidade de cavaleiros, com competições e combates simulados, ou em que entravam a cavalo, para desmontar, depois de uma batalha ou de uma caçada. Sob os arcos dos três lados havia prédios que deviam ter sido cocheiras e depósitos de arreios e talvez alojamentos para soldados; no quarto lado, à nossa esquerda, quando entramos, via-se uma parede alta, além da qual divisei um clarão de verde. Nos tempos do apogeu do castelo, com a correria dos criados, o tropel dos cavalos e o ruído das armas, aquele devia ter sido um lugar impressionante. Agora, achava-se silencioso e vazio, mas a terra revolvida denotava a presença de animais, e o lugar cheirava a cavalos.

O porteiro não parou aqui. Levou-nos para a direita, atravessando o pátio e passando sob uma arcada, varando outra porta, que ia dar em uma passagem escura. Seguindo por essa passagem, suas roupas brancas farfalharam confusamente adiante de nós. Consegui ver, de relance, passagens indo para a esquerda e para a direita, e portas, algumas das quais dando para aposentos tão escuros que não se via nada lá dentro; mas em um deles uma espécie de clarabóia lançava um clarão sobre uma pilha de sacos e de caixotes e um punhado de cadeiras quebradas. A passagem fazia três curvas em ângulo reto, através deste labirinto, antes de nos levar para fora, para outro pátio, desta vez pequeno, e pouco mais do que um poço de iluminação, com grades curvas, e uma parede maciça contra a qual havia uma pilha de madeiras apoiada. Quando passávamos, vi, por um canto do olho, um movimento ligeiro, que, quando olhei novamente para lá, cessara. Não vi nada. Mas eu sabia que era um rato.

Outro corredor e mais portas, algumas das quais abertas e dando para cômodos sujos e em ruínas. O palácio todo tinha o ar de algo abandonado há muito tempo, e onde só viviam ratos, camundongos e aranhas. Todos os pisos apresentavam-se imundos, com fendas nos ladrilhos decorativos; os mosaicos das paredes es­tavam sem brilho e avariados, as grades das janelas partidas, as vergas soltas. Um silêncio pesado e poeirento pairava sobre tudo, como um cobertor cinzento. Lembro-me de que, ao passarmos por uma parede em ruínas, um prego enferrujado caiu do seu alvéolo, com um tinido que me fez dar um salto, e o ruído da massa que caiu depois disto pareceu uma lufada de vento nas folhas secas.

Aquilo estava muito longe do "lugar encantado" que minha imaginação, muito mais poderosa do que a razão, me levara a esperar. Comecei a imaginar, com nervos tensos, o que eu devia esperar no fim desta busca. "Um punhado de doidos varridos" fora o veredicto de Charles, e parecera, quando ele o dera, apenas levemente cômico; mas, seguindo o andar de passos ar­rastados do guia ao longo de outro corredor, com suas portas caindo aos pedaços e seus corredores escuros, seus pisos desiguais, o bolor dos séculos, que fazia tudo parecer podre, comecei, muito fervorosamente, a ficar arrependida de ter ido ali. A perspectiva de ficar cara a cara com a pessoa que representava a senilidade e a passividade e talvez a doença, e que deveria viver no meio desta podridão como uma aranha vive no meio de uma velha e poeirenta teia, só conseguia encher-me de consternação.

De repente, saímos para outro pátio. Nesta altura, eu já perdera completamente a noção de direção, mas, pelo fato de estar vendo as cristas montanhosas cobertas de vegetação, para além dos telhados, imaginei que estávamos em algum ponto na direção da parte dos fundos do castelo.

Este pátio devia ser de uns dezoito metros quadrados, em tempos idos devia ter sido tão ornamental quanto aquele em Damasco onde eu e Charles conversáramos; mas, como tudo o mais, estava também caindo aos pedaços. Em dias melhores, tivera piso de mármore, arcos cobertos de ladrilho azul e lindos pilares, além de um poço ao centro. Ao pé de cada coluna, via-se um vaso de mármore para cultivar plantas. Esses vasos ainda se achavam cheios de terra, mas agora só se viam dentro deles capim e uns botões bem fechados e acinzentados. Um tamariz alto e fino pendia sobre a coroa partida do poço. Em alguma parte, uma cigarra cantava suavemente. Cardos cinzentos cresciam nas fendas do piso e o poço apresentava-se vazio.

Perto da arcada, para um lado, localizava-se a costumeira alcova, na sombra, onde, acima de um único degrau, ficava o estrado, com assentos em três lados. Eu teria desconfiado de qualquer almofada que me fosse oferecida naquele lugar, mas precisava ter ficado preocupada: os bancos eram de mármore estofamento. Aqui, o porteiro indicou que nos devíamos sentar. Depois, com outra saraivada grotesca de palavras guturais lançadas a Hamid, virou-se e se afastou. O silêncio voltou, rom­pido apenas pelo zunido da cigarra.

        Quer fumar ? — perguntou Hamid, tirando um maço de cigarros do bolso. Acendeu o meu e depois tornou a voltar para a luz do Sol do pátio, onde se agachou, com as costas apoiadas a uma pilastra, estreitando os olhos, em uma atitude distraída, contra a luz brilhante do céu, onde as árvores que ficavam além da parede meneavam sua folhagem verde.

        Que fará, se ela não a quiser receber?

Irei embora, depois de falar com o médico.

O árabe virou a cabeça.

Sinto muito... A senhorita está aflita. Hesitei.

Na verdade, não estou. Eu mal a conheço, e tenho certeza de que ela não se lembrará de mim. Passou a maior parte da vida no Oriente, até seu marido morrer, e depois disso viveu na Inglaterra apenas dois anos, época em que eu era muito pequena. Minha tia partiu de lá há quinze anos, de uma vez por todas, quando eu tinha sete anos de idade. Não a tenho visto desde o tempo em que ela foi lá se despedir. Não me surpreenderia se ela mandasse um recado, agora, dizendo que nem sequer se lembra do meu nome. Isto é, se o faquir levar o recado direito... Será que ele é capaz de transmitir um recado? Como sujeito incapaz de se comunicar, ele tira o primeiro lugar, disparado, não acha? Devia servir na Corte Real Inglesa...

Mas, sem dúvida, a sua rainha não... Ah, lá está ele — disse Hamid, levantando-se. — E queira Alá que tenha trazido alguém em sua companhia.

Esse "alguém" era um jovem, um europeu, alto e magro e vestido com desleixo, com os cabelos claros que o sol tornara louros, e olhos cinzentos. O rapaz tinha o ar ligeiramente confuso de quem acaba de acordar de um sono profundo, e de repente me lembrei de ter ouvido dizer que minha tia costumava dormir de dia e andar de noite. Talvez seus empregados também dor­missem de dia... Parou um instante na sombra, antes de dis­pensar o porteiro com um gesto, depois avançou para o sol. Eu o vi apertar os olhos, como se a luz inteçsa o importunasse, en­quanto se aproximava lentamente e com aparente relutância sobre o piso partido. Parecia ter uns vinte e quatro anos de idade.

Tinha uma voz bem amável e, além disso, falava inglês.

Boa tarde. Infelizmente, não sei como se chama. Pelo que o Jassim me disse, a senhorita tem uma mensagem urgente para Lady Harriet, não é? Quer confiá-la a mim?

O senhor é inglês? Oh, bem...E me levantei. Não é exatamente uma mensagem. Meu nome é Christy Mansel, e a Sra. Boyd Lady Harriet é minha tia. Estou passando as férias em Beirute, e alguém me disse que minha tia ainda vivia aqui em Dar Ibrahim, e por isto vim vê-la. Tenho certeza de que nossa família, na Inglaterra, ficará muito contente de ter notícias dela. Portanto, se ela quiser dedicar-me alguns minutos, ficarei muito contente em vê-la.

O homem mostrou-se surpreso e, segundo me pareceu, colocou-se em guarda.

Uma sobrinha? Christy, é o seu nome, não é? Ela nunca me falou em ninguém com esse nome.

E deveria ter falado? — talvez minha voz fosse um tanto mordaz. Suponho que o senhor more aqui... Qual é o seu nome?

Moro, sim. Meu nome é Lethman, John Lethman. Pode-se dizer que eu... que eu cuido da sua tia.

Então, o senhor é o médico?

Devo ter falado em tom de voz ríspido, pois o rapaz pareceu ter sido colhido de surpresa.

Não entendi...

Sinto muito, foi só porque acho que o senhor parece... Bem, eu esperava alguém mais idoso. O porteiro disse ao meu motorista que "o doutor" não permitiria que ninguém visse minha tia, e foi assim que eu soube da sua presença aqui. Isto é... Se é que ele se referia ao senhor.

Acho que se referia a mim, sim... — E apertou a testa com as costas da mão, sacudindo violentamente a cabeça, como se para despertar, e me dirigiu um sorriso rápido e embaraçado. Seus olhos continuavam parecendo enevoados e fora de foco. Eram cinzentos e de pupilas largas e com aparência de olhos de míope. Desculpe, estou um tanto sonolento... Estava dormindo.

- Nesse caso, peço desculpas. Quando um turista está viajando, esquece-se do hábito da sesta... Sinto muito, Sr. Lethman. Acontece, apenas, que, quando o porteiro disse que "o doutor" estava aqui, comecei a pensar que minha tia devia estar doente. Isto é. Se o senhor tiver de morar aqui...

_ Escute — falou o rapaz. — É melhor esclarecermos tudo isto. Não sou doutor, a não ser que se queira contar meio curso de medicina psicológica como doutorado... — E me lançou um olhar rápido. — Também não se preocupe com isto, pois não estou aqui como médico! Sua tia está de saúde perfeita, e na verdade minha função, aqui, é apenas a de supervisionar os criados árabes e dirigir as coisas em geral, e lhe fornecer um pouco de companhia e conversar com ela. Não "tenho" de morar aqui, de forma alguma, no sentido referido pela senhorita. Acon­teceu, apenas, que vim ao Líbano fazer umas pesquisas para um livro que tencionava escrever, e fiquei preso neste castelo por um dia, por uma dessas tempestades repentinas que de vez em quando acontecem aqui, e sua tia me deu pousada, e uma coisa levou a outra, e eu fiquei. — Seu sorriso possuía alguma coisa que me dizia que o homem estava fazendo sondagens comigo, mas era estranhamente desarmante, e por isto achei que eu podia fornecer, com toda facilidade, as partes que faltavam daquela história. E ele acrescentou: — Se pode imaginar um lugar melhor para se escrever, diga-me.. .

Eu poderia sugerir um milhão de lugares melhores em que ele poderia escrever, mas não disse isso. Limitei-me a perguntar:

        Há quanto tempo está aqui?

Há quase um ano. Cheguei no mês de julho do ano passado.

Hum... Bem, é um alívio saber que ela está bem. Então, eu poderei vê-la, não é mesmo?

O homem hesitou, evidentemente a pique de dizer alguma coisa, depois tornou a repetir aquela sacudida esquisita de cabeça e correu a mão por cima da testa, quase como se estivesse afas­tando algum sofrimento físico, como uma dor de cabeça. Vi Hamid observá-lo com curiosidade.

        Escute — falei. — Se tem alguma coisa a me dizer, pode falar. Mas vamos sentar-nos, sim?

O rapaz me seguiu para a sombra do divã e nos sentamos. Entrelacei meus dedos ao redor de um joelho e me virei para olhar para Lethman. O homem continuava parecendo pouco à vontade, embora não no sentido físico; seu corpo comprido pa­recia bastante relaxado, e ele tinha as mãos frouxas nos joelhos. Mas suas sobrancelhas achavam-se apertadas em um nó de preocupação.

Há quanto tempo não tem notícias da sua tia? — per­guntou ele, finalmente.

Bem... Quanto a mim mesma, nunca tive notícias dela. Na verdade, só me lembro de tê-la visto três vezes na minha vida, e da última vez foi quando eu tinha uns sete anos de idade, mas de vez em quando minha família tem notícias da titia. Acho que, pouco antes do Natal do ano passado, ela lhe mandou uma carta. Ela escrevia como quem estava em pleno gozo das suas faculdades mentais. Mas não dava grandes novidades.

Tive a impressão de que o rapaz sabia a que me referia, mas ele não sorriu. Estava olhando para as próprias mãos, de cenho franzido.

Só perguntei porque... — uma pausa, e depois, de re­pente, ele ergueu o olhar. — Christy Mansel, o que a senhorita e sua família sabem a respeito do modo como sua tia vive?

Suponho que sabemos muito pouco, exceto as coisas evidentes: que talvez ela esteja ficando um tanto mais excêntrica, à medida que envelhece, e que tem vivido aqui há tanto tempo, que não é mais provável que ela queira voltar para a Inglaterra. O senhor já deve ter percebido que nossa família nunca se im­portou muito com os laços familiares e coisas assim, e que, natu­ralmente, em tempos recentes, tia Harriet resolveu romper de vez com tudo que a prendia à Inglaterra... Era quase exclusi­vamente sobre isto que suas cartas falavam, nas poucas vezes em que escrevia. Mas não pense que os parentes dela se importavam, pois a verdade é o inverso. Ela pode fazer o que bem entender. Mas, desde que cheguei aqui, tenho ouvido muito mais coisas a respeito da titia, e acho que agora a excentricidade está muito diferente... Isto é, toda esta imitação de Lady Stanhope. É mesmo verdade? Titia vive realmente assim ? Sr. Lethman, minha tia não está doida, está?

        Não, oh, não — disse ele, rapidamente. O rapaz parecia imensamente aliviado. — Estava perguntando a mim mesmo se a senhorita conheceria a história. Não seria muito fácil tentar explicar do início, mas se a senhorita conhece a história Stanhope isto facilita tudo. Não direi que sua tia resolveu propositada­mente ser uma "Dama do Líbano", mas, quando se estabeleceu aqui em Dar Ibrahim, ela o fez de maneira imponente, e várias pessoas fizeram a comparação entre ela e Lady Stanhope, e então

8ua tia descobriu que a velha lenda Stanhope ainda se achava muito viva entre os árabes do interior, e ela mesma conseguiu obter muitos benefícios deste fato, em forma de serviços e de influência e... a senhorita sabe, em forma dos vários subprodutos da fama. Foram os habitantes locais que começaram a chamá-la de "Lady Harriet", e o cognome pegou. Acho que a princípio sua tia se divertiu com isto, mas com a continuação da coisa descobriu que lhe seria útil ser famosa, e de certa forma o foi mesmo. A coisa foi crescendo e chegou a um ponto em que não podia mais ser parada, e foi até além do ponto em que ela poderia tratá-la como uma brincadeira, mesmo para seu foro Intimo. Não sei se pode entender isto...

Acho que posso — falei. — Ela não podia mais se livrar da coisa, e, portanto resolveu viver a lenda.

É isso mesmo. E também ela não queria livrar-se da lenda. Sua tia já vivera aqui muito tempo, e de certa forma já consi­derava este país como sua pátria, e de maneira curiosa sinto que ela acha que tem uma espécie de direito à lenda. — O homem sorriu, o primeiro sorriso de diversão legítima. — Se quer saber a verdade, acho que ela tem muita coisa em comum com a pessoa que está imitando. Bem, ela começou a se divertir com a idéia, e tirava muito prazer dos pormenores pitorescos: saía a cavalo, levando cães de caça e falcões, por exemplo, deixando que Dar Ibrahim fosse novamente usado como ponto de parada de cara­vanas a caminho do Alto e do Baixo Nilo para o mar, e recebendo, de vez em quando, "visitantes ilustres", na maior parte arqueó­logos, creio eu, que conheciam seu marido e o trabalho deste. Sua tia se imiscuiu até um pouco na política, e já há algum tempo ela vem ameaçando — embora eu ache que não passa de "onda" — tornar-se muçulmana. — Fez uma pausa. — E então, é claro, quando surgi de repente na sua vida, ela ficou muito contente. Eu iria ser o "médico residente", que tivera parte tão destacada na história Stanhope... Sabe que Lady Hester Stanhope man­tinha um médico no castelo, em Djoun? Bem... Quando nossa "Lady Harriet" me tomou a seu serviço, e descobriu que eu tinha metade de um curso de Medicina, achou que isso vinha a calhar maravilhosamente. Por isto, recebi um título de cortesia, que impressiona os criados árabes, mas o que eu realmente faço aqui é fornecer companhia à sua tia. Acho dispensável acrescentar que, se ela realmente precisasse de cuidados médicos, eu os obteria em Beirute.

Quem é o médico de minha tia, agora que o Dr. Grafton foi embora?

Dr. Grafton? — O homem falou em tom inexpressivo, e olhei surpreendida para ele.

Sim, não o conhece? Claro, ele cuidou da minha tia há seis meses e o senhor já deveria estar aqui nessa época.

Oh, sim, eu estava, e imaginava, apenas, como foi que a senhorita soube o nome dele.

Alguém no hotel em que estou hospedada informou-me a respeito de Dar Ibrahim, e disse que minha tia estivera doente no outono passado; por isso, consegui que esse alguém descobrisse quem era o médico de Harriet, e telefonei a ele para lhe pedir notícias dela. E então fui informada de que o médico da titia deixara Beirute. Portanto, quem é seu médico, agora?

Há algum tempo que ela não tem mais precisado de médico, coisa que digo com satisfação. No momento, ela está com um pouco de prevenção contra os médicos de Beirute, mas, se for necessário, eu a farei ver a conveniência de consultar um. — E ele sorriu. — Não se preocupe. .. Zelo por ela muito bem, e dirijo isto aqui para ela da melhor maneira possível. E, se estiver pensando na atmosfera de hotel barato que reina aqui e que viu até agora, dir-lhe-ei que temos no palácio cinco pátios, dois jardins, três banhos turcos, uma mesquita, cocheiras para cinqüenta cavalos e doze camelos, vários quilômetros de corre­dores, inclusive umas duas passagens secretas, e, quanto a simples quartos, eu jamais consegui contá-los todos. Uso um radar para ir do pátio do príncipe ao harém.

Desculpe — disse, sorrindo. — Terei estado olhando para a poeira do chão? Vocês não têm escravos para combinar com a decoração do castelo?

Só eu e mais três pessoas: Jassim, o porteiro, uma moça chamada Halide, e Nasirulla, o irmão de Halide, que mora no povoado e trabalha aqui durante o dia. No momento, estamo-nos arranjando muito bem, pois a Lady, atualmente, vive de maneira muito simples. Posso dizer-lhe que a parte do palácio em que ela vive é mais bem cuidada do que esta aqui. Halide é uma boa moça e trata muito bem de sua tia. A senhorita não precisa preocupar-se com ela.

Eu disse que estava preocupada? Não tive intenção de deixá-lo na defensiva, desta maneira. Que foi que eu disse? Tenho certeza de que tia Harriet está-se divertindo muito sendo Lady do Líbano, e alegra-me que o senhor esteja aqui para cuidar dela. Desejo, apenas, vê-la cinco minutos, para poder dar no­tícias completas à minha família.

Outra daquelas pausas. Aqui estávamos nós pensei de volta à estaca zero.

Lethman mudou o peso, no banco duro, para o outro lado do corpo, e me olhou de soslaio.

        Sim, pois a questão é exatamente esta, entende ? Acontece que nós recebemos ordens de afastar todos que venham aqui, e seu olhar caiu novamente para suas mãos tudo que ela me disse acerca da sua família não me deu motivos para achar que ela fará exceção a este respeito.

Sorri.

Não ponho a culpa no senhor ou nela. Mas não podemos deixar que ela mesma resolva isto ? Suponho que tia Harriet não saiba que estou aqui... Ou Jassim levou essa notícia a ela?

Jassim ainda não falou com ela. Veio diretamente a mim. Na verdade, ele é capaz de transmitir mensagens com maior faci­lidade do que a senhorita pensa, mas não compreendeu o seu nome. Eu mesmo só tive certeza de quem a senhorita era, quando vim falar-lhe. Confesso que ele não é grande coisa como men­sageiro. Poder-se-ia chamá-lo de uma obra de caridade da sua tia, como também no meu caso, mas Jassim é muito útil como por­teiro, para afastar gente indesejável, e hoje em dia não é fácil convencer empregados a viverem aqui. Os salários oferecidos são baixos. A Lady tem pouco dinheiro...

Havia alguma coisa esquisita na maneira como ele disse isso, olhando para mim, firmemente, com aqueles olhos curiosamente fora de foco. Notei que seu globo ocular tinha o humor aquoso injetado de sangue, e o homem estava com cara de quem não tinha dormido nada, mas parecia, agora, bem descansado, o corpo alto e magro relaxado no banco de mármore, como se este fosse revestido de grossas almofadas de seda e tapetes persas. Ele tra­java calças cinzentas leves e uma camisa azul tipo esporte, ne­nhuma delas cara, mas usava, no pulso, um magnífico relógio de ouro, sem dúvida comprado em Beirute. Surpreendi-me lem­brando do que Charles dissera a respeito da inclinação de tia Harriet para os homens jovens, e em algum outro canto da minha mente surgiu a frase "influência indevida". Mas eu ignorei isto. Afinal de contas, era de somenos importância. Se tia Harriet conseguira arranjar um jovem para dirigir seu palácio em ruínas e dar-lhe a companhia de que ela precisava, tanto melhor para ela. Principalmente, se fosse verdade que restava muito pouco dinheiro. Fiquei imaginando até onde isto seria verdade, e se o Sr. Lethman encarara o súbito aparecimento de uma parenta como uma ameaça à sua posição íntima com "Lady Harriet".

Nesse caso, meu primo Charles seria ainda menos bem-vindo do que eu, pois era jovem e bonitão. Resolvi não mencionar Charles antes de estar pessoalmente com minha tia.

John Lethman ia dizendo:

Em todo caso, Jassim ainda não teria podido ver sua tia. Geralmente, ela dorme durante boa parte do dia. A exemplo da mulher cuja vida imita, ela anda de noite e dorme de dia... Portanto, se a senhorita puder esperar um pouco mais, irei falar com sua tia e ela poderá externar-se sobre se quer ou não re­cebê-la... Geralmente, Halide vai acordá-la por volta das seis horas.

Claro que esperarei disse. — Isto é, se você não se importar, Hamid...?

De forma alguma respondeu Hamid, sem se mover.

Seguiu-se ligeira pausa. Lethman olhou de relance de Hamid para mim, e depois novamente para Hamid; em seguida consultou seu relógio.

Bem, está combinado. Não tardará muito, e então ve­remos. Outra pausa. O homem pigarreou. Acho que tenho obrigação de avisá-la... Claro que farei tudo que puder, mas não posso garantir nada. Harriet é velha, algumas vezes se esquece de pessoas e de nomes, e é o que poderíamos chamar de... "difícil". E, em alguns dias, está pior do que em outros.

E hoje está ruim?

O homem fez uma careta.

Não está muito boa.

Bem, se ela não quiser mesmo me receber, então irei embora... Mas diga-lhe que voltarei quando ela quiser, quando se estiver sentindo melhor. Ficarei em Beirute pelo menos até o meio da semana, e poderia ficar mais ainda. Eu ia telefonar, em breve, para contar à minha família meus planos, e seria muito bom se pudesse dar-lhes notícias dela. Na verdade, papai talvez me telefone hoje à noite.

Hoje à noite ? A senhorita não me entendeu ? Eu quis dizer literalmente, quando afirmei que ela anda só à noite. Geralmente, parece que acorda e que alcança a sua melhor disposição entre dez horas e meia-noite, e depois disso, com freqüência, fica acordada a noite inteira. Quando acontece receber alguém, é nesse horário...

Céus! Ela é mesmo difícil, hem ? Então, se eu quiser falar com ela, terei de ficar aqui a noite inteira ?

        Em todo caso, até bem tarde da noite. Poderia ficar?

_ Eu poderia, mas não posso fazer meu motorista ficar aqui até amanhã cedo. Pode dar-me hospedagem? Tem um quarto vago? — Eu quis dizer: "um quarto onde se possa, realmente, dormir", e, portanto a pergunta não foi tão absurda quanto possa parecer. O Sr. Lethman ficou considerando os méritos da per­gunta. Houve uma curta pausa, depois ele disse, de maneira bem agradável:

        Sem dúvida, nós poderíamos arranjar-lhe um. Olhei para Hamid, do outro lado.

Você se importa? Podemos ver o que minha tia tem a dizer, e, se eu tiver realmente de esperar, para vê-la mais tarde, quer voltar sem mim? Poderia ir a meu hotel e comunicar-lhes que terei de passar a noite aqui... E você estará livre amanhã?

Para a senhorita, sim.

É muita bondade sua — disse eu, agradecida. — Obrigada. Neste caso, poderia voltar para me buscar, novamente, amanhã cedo? Espere no povoado. Não precisa ter o trabalho de vir até o portão.

Claro que virei até o portão — disse Hamid. — Não se preocupe com isso. Mas não me agrada ir embora agora e deixá-la aqui...

Nada me acontecerá. E preciso muito falar com minha tia...

Compreendo que precise. Sinto muito. Sei que não é da minha conta, mas, sem dúvida, seria possível convencê-la a receber a senhorita agora, alguns minutos, e depois eu poderia levá-la de volta ao hotel.

De repente, o Sr. Lethman distendeu o corpo. Sua voz possuía um cansaço e uma exasperação legítimos.

Escutem, sinto muito tudo isto. Não estou dificultando as coisas apenas para me divertir. Na verdade, estou detestando a situação em que me pareço ter colocado, tendo de fazê-la perder tempo, quando a senhorita pode achar que não tenho nada a ver com o assunto. . .

Eu não estava pensando exatamente isso — falei. — E o senhor tem uma função aqui, não é verdade? Isto é, a casa é da minha tia e se o convidou para viver aqui, assim é, e ponto final. Embora o senhor não seja oficialmente seu médico, acho que se poderia dizer que é seu mordomo, ou coisa assim.

Um mordomo da melhor qualidade, de meias amarelas, ligas e tudo. — Notei-lhe na voz algo que não me agradou, e que sumiu logo. O homem seguiu sua observação com outro daqueles seus sorrisos desconcertantes. — Mas a situação não é nada normal, de qualquer forma que se queira encará-la. Acho que me acostumei com isto, e em todo caso este é um país estranho, onde a pessoa aprende a aceitar quase qualquer coisa. Mas compreendo que deve parecer muito exótico para quem, como a senhorita, vem a ele pela primeira vez. Foi o que senti logo que ela me recebeu. A Lady usa os antigos aposentos do Emir, e que cha­mamos de pátio do príncipe, e um velho sofá no seu quarto de dormir. Este é mantido totalmente às escuras, a maior parte do tempo. A tal Lady Stanhope também fazia isso, por pura vaidade. Não sei qual é o motivo da sua tia. Talvez não seja este, pode ser que seja apenas imitação; mas eu me lembro de quando fui levado lá pela primeira vez, à meia-noite, de que fiquei imagi­nando em que covil de doidos eu fora bater com os costados. E ultimamente ela deu para... — E parou de falar, parecendo examinar a ponta de um sapato com grande atenção. — A senhorita se lembra bem da sua tia?

Não me lembro muito bem. Minha impressão é de que ela era alta e morena e de que possuía olhos penetrantes e pretos e que usava roupas pretas que esvoaçavam ao seu redor como os xales da Rainha Branca. Ela possuía mesmo um xale, e costu­mava prender um alfinete de brilhantes nele. Lembro-me de que minha mãe dizia que os brilhantes dela eram sujos. Achei isso engraçado, não sei por quê.

Diamantes? Infelizmente, acho que eles já foram vendidos há muito tempo. Nunca vi nenhum... — E achei que ele disse isso como quem lamenta um fato. — Na verdade, ela não é muito alta, embora eu suponha que uma criança a acharia alta. E agora, quanto às suas roupas, elas também fazem parte da lenda.

Oh, eu sei, ela parece um homem oriental. Ora, por que não? — e atirei as mãos dos meus joelhos e endireitei uma perna vestida de calça. — Afinal de contas, eu me visto à européia.

Não me deixei enganar — disse o Sr. Lethman, com o primeiro calor humano real que ele mostrou. A expressão preo­cupada tornara-se um tanto mais leve. O homem levantou-se. — Bem, vou ver como estão as coisas. Tentarei convencê-la a recebê-la imediatamente. Talvez ela o faça, e a receba de braços abertos, mas, se não o fizer, podemos dar um jeito de a senhorita passar a noite aqui. Está bem?

Está bem.

        Então, ótimo. Até já...

O homem sorriu de maneira maquinal e depois nos deixou. Fui até o poço e sentei-me na coroa, ao lado de Hamid.

Você ouviu tudo aquilo?

A maior parte — disse Hamid. — É o que se poderia chamar de uma boa encrenca, hem? Quer fumar?

Agora, não, obrigada. Eu só fumo de vez em quando.

Ele fuma.

Que quer dizer?

Haxixe.

Fiquei olhando fixamente para o homem.

        Não...   Fuma, mesmo? Como é que você sabe?

O homem fez um gesto de indiferença com os ombros.

        Não notou os olhos dele? E outros sinais... Acaba-se conhecendo as pessoas assim. Ele tinha estado fumando quando chegamos.

Então, era por isto que ele estava tão sonolento e com uma cara de quem se achava no outro mundo! Disse que estivera dormindo, e me fez pensar que era apenas a sesta. Pensei que talvez ele tivesse passado parte da noite acordado com minha tia. Fumando maconha! Então, foi por isso que ele ficou aborrecido pelo fato de ser interrompido!

        Acho que ele não ficou aborrecido por isto. Quem fuma maconha, às vezes, se sente calmo e bem-humorado, e não se sabe o que se está fazendo. Lethman está tendo dificuldade em pensar. Algumas vezes, eu também fumo maconha; todos no Líbano fumam essa droga.

Você fuma?

Hamid sorriu.

Não fumo maconha quando estou guiando, fique sossegada. E, mesmo assim, fumo pouco, sei o que faço, e a droga é perigosa. Afeta as pessoas de formas diferentes, e quando se descobre o efeito que ela produziu sobre nós, algumas vezes é tarde demais. Ouviu-o dizer que estava escrevendo um livro? Se ele ficar aqui e fumar maconha, jamais escreverá o livro. Durante anos, ficará achando que vai começar no dia seguinte, e que será o melhor livro do mundo..., mas nunca dará início ao trabalho. É isto que a maconha faz: dá à pessoa visões e lhe tira o desejo de traduzi-las. Lethman acabará como aquele por­teiro velho, tossindo ao sol e tendo sonhos fantásticos... Que fará a senhorita, se ele voltar e disser que a velha Lady não quer recebê-la?

Ainda não sei ao certo...

Pois ouça o que eu faria. Se o homem disser que ela não quer recebê-la, diga-lhe que deseja ouvir isso da boca da sua própria tia. Se ele não quiser permitir isto, então lhe diga que só pode aceitar tal ordem de um médico de verdade, e que a senhorita deseja que ela seja examinada imediatamente por um médico de Beirute. Oh, poderá fazer isto de maneira muito agradável. Pergunte a ele qual o médico que ele recomenda, e a que horas, amanhã, será conveniente marcar a consulta. Depois, diga-me e eu a trarei aqui com o médico.

Não havia muita expressão na sua voz, mas olhei fixamente para ele.

Que está insinuando, com isto?

Nada — E tornou a fazer um movimento indiferente com os ombros. — Parece-me que aqui as coisas são feitas segundo as ordens de Lethman, e apenas temos sua palavra sobre o fato de que resta pouco dinheiro à sua tia. Ela — e repito — era uma pessoa muito rica.

Mas nossa família não se importa com... — E parei. Era evidente que era inútil explicar a Hamid que ninguém queria que tia Harriet lhe desse seu dinheiro. Que desejávamos apenas que ela se divertisse bem com o seu emprego. Em todo caso, aqui havia outras considerações em jogo além de dinheiro. Eu disse, lentamente:

Se é verdade que ela está na plena posse das suas facul­dades mentais, eu diria que talvez ela possa cuidar de si mesma, e também tenho plena certeza de que, desta maneira, poderá dispor de seus velhos diamantes imundos da melhor maneira que lhe aprouver. Talvez Lethman tenha razão ao dizer que ela já os vendeu e gastou o dinheiro.

É bem provável. — Não sei se o tom de voz seco de Hamid estava pensando na economia que — como era evidente — reinava naquele palácio, ou se no relógio de ouro de John Lethman. O motorista acrescentou: — Não estou insinuando nada, mas vivo pensando em coisas ruins e suspeitas.

Eu também sou desconfiada por natureza. E, se ele realmente anda fumando maconha, isto é, haxixe... — E respirei fundo. — Está resolvido. Insistirei em ver a titia, diga ele o que disser. Lamento muito tê-lo mantido parado, assim. Você tem sido muito paciente.

- A senhorita está pagando o aluguel do carro durante todo o dia, e ficar sentado ao sol, fumando, economiza gasolina. Tive de rir.

_ Realmente, você tem razão. E também ao dizer que prever minha tia. Se for preciso, insistirei em vê-la.

        Não é preciso.

Dei um salto. Eu não ouvira John Lethman voltar, mas lá estava ele, tendo Jassim atrás de si, aproximando-se rapidamente ao longo do lado de sombra da arcada, e com uma aparência de quem tem pressa. Achei que ele devia ter acabado de entreter uma conversa animada com minha tia. Pelo menos, agora ele parecia cem por cento acordado e até cheio de vivacidade.

Ela me receberá?

Sim, ela a receberá, mas, infelizmente, terá de ser logo mais, esta noite. — E fez um gesto, como se pedisse desculpas. _ Sinto muito... Tentei convencê-la, mas, conforme lhe disse, hoje ela não está em um dia favorável, e, portanto eu não quis insistir. Ultimamente, ela tem tido um pouco de asma. Não é motivo para preocupações, mas algumas vezes isso a impede de dormir. Sua tia não quer nem ouvir falar em chamar médico. E, que ainda temos a receita prescrita no outono do ano pas­sado, não insisti com ela. De certa forma, a dificuldade está no remédio e não na doença. Sua tia acha o remédio deprimente. Para dizer a verdade, a idéia de uma visita sua a animou bastante.

Isto é maravilhoso. Prometo não a cansar.

Já combinou tudo com seu motorista? Vou preparar um quarto para a senhorita, antes de voltar para junto da sua tia.

Já combinamos tudo. Hamid voltará amanhã para me buscar.

Ótimo — disse Lethman, como se fosse sincero ao falar. — Bem, se quiser vir comigo, Jassim mostrará a seu motorista o caminho de volta ao portão.

Enquanto me despedia de Hamid, notei que Jassim olhava para mim como se estivesse com uma vontade louca de me mandar embora também. Mas acabou penetrando nas sombras, arrastando os pés, e Hamid, com um alegre aceno de mão para mim, seguiu-o.

John Lethman me guiou na direção oposta, rumo aos fundos do palácio.

        Então, afinal de contas, não foi tão difícil conven­cê-la, hem?

De forma alguma — confessou ele. — O difícil foi fazê-la lembrar-se da senhorita. Para ser franco, ela não conseguiu recordar-se de muita coisa a seu respeito, mas agora está ansiosa para vê-la.

Tive a impressão de que ela estaria. Acho que é pura curiosidade...

Lethman olhou-me com o que parecia ser uma expressão de surpresa.

Bem... Sim, poder-se-ia dizer isso. A senhorita não se importa, não é?

E por que iria importar-me? O motivo não interessa, contanto que eu a veja. Ela vai-me receber... Em todo caso, o que ela sente para resolver receber-me é justo. Na sua opinião, qual é o principal motivo que me leva a visitar Dar Ibrahim?

Bem, eu... Sim, é claro. — E pareceu desconcertado.

Que há com o senhor? Por Deus, isto o deixou chocado?

Não, mas... A senhorita é uma pequena muito fora do comum, não é?

Só porque insisto no que eu quero, ou porque não creio que os parentes são obrigados a gostar uns dos outros, mesmo contra a vontade? Não é fora do comum. Acontece, apenas, que a maior parte das pessoas não confessa isso. — E ri. — Ah, sim. Gosto de viver minha vida, mas reconheço o direito alheio de fazer o mesmo. É esta a minha única virtude.

Mas e se a opinião alheia não for igual à sua?

Ah.. . Se estou mesmo resolvida a fazer uma coisa, toco para diante, a todo vapor, sem olhar mais nada. Mas estou sempre disposta a discutir o assunto. Onde vou ficar alojada?

No harém.

Bem... Isto é que é me pôr no meu lugar, hem? Tran­cada a sete chaves?

Mais ou menos isto. Pelo menos, todas as janelas têm grades! — E me dirigiu um sorriso, de repente encantador. — É só porque é a melhor parte do palácio, creia... Podemos ser anfitriões recalcitrantes, mas, assim que resolvemos dar hospeda­gem a alguém, nós o fazemos segundo o melhor figurino. Aco­modações de primeira classe, para compensar a má acolhida. Sabia que Lady Hester Stanhope classificava seus hóspedes segundo sua condição e importância social? Acho que os hóspedes de terceira classe passavam uma noite horrível.

_ É verdade. É muita bondade sua classificar-me como hóspede de primeira grandeza, embora eu lhe esteja dando tanto trabalho.

Ora, não me dá nenhum trabalho. Na verdade, alegra-me que fique... Sua tia não é a única pessoa que gosta de companhia... Fiquei muito aliviado pelo fato de ela ter encarado as coisas desta maneira, e porque não tive de discutir com a senho­rita. Tenho certeza de que sua visita fará muito bem à sua tia... Na verdade, não posso deixar de achar que seria muito bom se ela viesse a gostar muito da senhorita e insistisse para que ficasse aqui algumas semanas. Assim, a senhorita poderá sentar-se à sua cabeceira e ler o Alcorão para ela até três horas da madru­gada, dando-me uma noite de folga.

É isto que o senhor faz aqui?

Isto e outras coisas. Devo sugerir isto à sua tia? Quanto tempo poderá ficar?

Amanhã cedo eu lhe digo.

O homem riu e abriu um portão de madeira, que pendia, um tanto torto, sob um arco coberto de ervas daninhas.

        Aqui dentro — disse ele, e me deixou passar na sua frente.

 

               E também um jardim junto à fonte...

  1. Fitzgerald: Rubaiyat, de Omar Khayyam

 

        Oh! — disse, e fiquei imóvel.

John Lethman fechou o portão atrás de si e veio postar-se ao meu lado.

        Gostou dos aposentos?

Se gostei! — E respirei fundo. — Que é que fun­cionava aqui?

Oh, isto era apenas o jardim do harém. Infelizmente, está muito abandonado...

Realmente, estava abandonado, mas nisto é que consistia parte da sua beleza. Depois de ter passado a tarde vendo pedras castigadas pelo sol e ruínas empoeiradas, o turbilhão de verdura e de flores e de água fresca era maravilhoso.

O pátio seguia o padrão normal dos outros: um retângulo com o piso forrado de ladrilhos decorativos, enfeitado de flores e de arbustos, com um poço no centro, cercado por arcadas cheias de sombra, das quais saíam os vários quartos e salas. Mas este pátio era enorme. Parecia que os quartos do harém e o jardim tomavam toda a largura do palácio, estendendo-se bastante para trás, por sobre a superfície achatada do platô. Em três lados deste vasto espaço corriam os arcos das pilastras compridas, lançando seus desenhos caprichosos de luz e sombra sobre os vãos das portas do que tinham sido os aposentos das mulheres. No quarto lado para o norte, a série de colunas seguia com o paredão externo onde uma fileira de arcos delicados olhava para fora, do outro lado do Nahr el-Sal'q, em direção ao povoado e às neves distantes do Alto Líbano. Embora essas janelas fossem altas, possuíam grades pesadas, com faixas metálicas tão próximas umas das outras, que mal se poderia passar a mão por entre elas.

No espaço cercado por essas colunas, há muito tempo algum mestre no assunto encravara um grande jardim no melhor estilo, e conseguira levar água para baixo, colhendo-a em alguma fonte elevada, para regar as árvores e as flores e para encher a fonte, que desta vez não era ornamental, mas apenas uma lagoa, larga, quase um lago, em cujo centro ficava uma ilhota, coroada por um punhado de árvores. No meio do bosque, no centro das árvores, vi de relance o lampejo de ladrilhos dourados: o teto de um prédio em miniatura, como uma casa exótica de verão ou uma construção dispendiosa e perfeitamente dispensável. Era um quiosque no melhor estilo persa, com uma cúpula em forma de cone, pilastras decorativas, arcos treliçados e degraus de escada rasos e partidos.

Outrora, tinha existido uma ponte que levava até à ilha, ponte essa leve e bonita. Mas, agora, à metade do caminho, abria-se um vazio hiante, de uns dois metros e meio de largura. O próprio lago era coberto de folhas densas de lírio, e na beirada os íris tinham-se espalhado e transformado em espessos batalhões de hastes. Ao redor de toda a beirada havia um passeio largo, onde as avencas e as roseiras bravas jogavam para o alto os seus ramos, sobre as lajes rachadas. Dos telhados de ripas das arcadas e por entre os pilares, o jasmim, as três-marias purpurinas e as rosas pendiam, entrelaçados como teias de aranha, e toda cornija estava coberta de estrume de pássaros e era completamente super­lotada de pombos, que emitiam o seu "Yusuf, Yusuf", como seres loucos. O contraste, formado pelo desenho do lago retangular, os arcos graciosos e o quiosque elegante e a vegetação natural e desordenada que os invadira, era emocionante e atraente. Como um quadro persa formal que perdesse o controle.

        Não há aqui nenhuma erva daninha fora de lugar — falei.

        É lindo! E pensar que quase cheguei a ter pena das pobres mulheres. Bem, isto resolve o assunto, Sr. Lethman. Amanhã, mudar-me-ei para cá para passar uma boa temporada. Quanto tempo vocês querem-me suportar aqui?

        Espere até ver seu quarto, antes de assumir compromissos

        disse ele, seguindo na frente.

O quarto ficava a meio caminho ao longo do lado sul do jardim. Era um aposento simples e quadrado, com teto alto e piso de mármore enxadrezado. Nas paredes, mosaicos decorativos, em painéis cor azul e dourada, contendo textos escritos em árabe. Ao contrário dos cômodos que eu vira até então, este era limpo e bem iluminado por uma janela tríplice, da qual se avistava niti­damente a garganta do Adônis. A janela tinha grades, mas não tão pesadas quanto as que davam para o platô. E isto, por mo­tivos evidentes: a parede externa do harém, ao que parecia, erguia-se a pique da beira da rocha, acima do rio.

        O quarto de dormir fica pegado a este. — disse John Lethman. — E o banheiro é o cômodo seguinte. Quando digo "banheiro", quero dizer, é claro, tudo: um hammam, quartos para banho turco, salas para massagens, e o resto. — E Lethman sorriu. — Mas imagine só... Não temos vapor d’água.

        Existe água quente aqui?

        Ora, não graceje... Mas há água corrente, que tiramos da neve, e pode usá-la à vontade. — O sorriso desvaneceu-se, e depois ele olhou para mim com uma expressão de leve dúvida. — É um grande ato de bravura sua, ficar aqui. Não estamos preparados para receber alguém como a senhorita...

        Estou gostando — disse, e era sincera.

Suponho que, seja lá o que for, esta parte do palácio deve parecer-lhe algo como uma coisa tirada de um romance como As Mil e Uma Noites, não é? Desejo sinceramente que a senho­rita não perca a sua ilusão a respeito... Infelizmente, o quarto de dormir ainda não está preparado. Mandarei Halide arrumá-lo daqui a pouco, e lhe trazer algumas toalhas. Deseja mais alguma coisa?

Só uma escova de dentes, e acho que deve haver isto aqui. Não se preocupe muito comigo, eu estava só gracejando. Servirá muito bem por uma noite, se houver maçã no jantar... Espero que o regime alimentar da titia inclua o jantar...

O homem riu.

        Não perca a coragem. Além disto, você ficará contente de saber que Halide não me alimenta com a comida da sua tia! Infelizmente, agora terei de deixá-la. — Olhou de relance para o relógio de pulso. — Tenho certeza de que você gostará de beber alguma coisa. Vou-lhe mandar uma bebida, imediatamente. Breve estará escuro e você não poderá visitar o palácio, mas vá para onde quiser, exceto para os aposentos do príncipe, é claro, e se a senhorita perder o rumo eu ou Halide estaremos lá a fim de fazê-la voltar.

        Obrigada, mas ficarei aqui. O jardim é lindo.

        Então, voltarei para junto da senhorita dentro de meia hora, e nós comeremos.

Quanto Lethman se retirou, sentei-me nas almofadas do divã, espiando para fora, por sobre a garganta onde um resto de luz do dia tingia o cimo das árvores de ouro. Lá embaixo, as sombras tornavam-se mais profundas, indo da púrpura ao preto. Logo seria noite. De repente, notei que me sentia cansada e tive espe­ranças de que, quando Halide viesse com a bebida, esta não fosse o licor árabe convencional de receber visitas.

Não era, e não foi trazida por Halide, e sim por um árabe jovem e atarracado, que talvez fosse Nasirulla, o irmão de Halide. Como Jassim, trajava roupas brancas e entrou silenciosamente, com uma bandeja que continha um lampião aceso, dois copos e uma garrafa do vinho dourado de Bk'aa. É um vinho excelente, seco e leve, e talvez o melhor que o Líbano produz, e ele não poderia ter trazido nada que me agradasse tanto beber, no mo­mento, Minha opinião a respeito do Sr. John Lethman melhorou cem por cento.

Quando falei com Nasirulla, ele me olhou de lado, sacudiu a cabeça e disse alguma coisa em árabe. Depois, fixou a lampião em um nicho, perto da porta, fez a clássica mesura de cumprimento árabe e retirou-se.

 

Com a chegada do lampião, a escuridão, como sempre acontece, pareceu cair rapidamente. Poucos minutos após a retirada de Nasirulla, o céu azul além das janelas transformou-se em negra escuridão, e por volta das sete horas estava totalmente negro.

Fiquei encolhida no banco junto à janela, bebericando o vinho dourado e imaginando o que a noite me traria.

O silêncio era quase absoluto. O céu da noite era como um veludo negro salpicado de estrelas grandes; e, como se fosse real­mente uma cortina de veludo, todo som ficou isolado, até o leve murmúrio das águas do rio lá embaixo da minha janela. No jardim, os pombos haviam silenciado e nem uma leve brisa mexia com a folhagem das árvores de copas densas. Pela porta aberta, vinha-me o cheiro de jasmim e de rosas, além do de outras flores de cheiro forte, e, por sob esses cheiros exóticos, como uma es­pécie de lembrete, o odor adocicado das águas estagnadas da lagoa.

John Lethman voltou quando eram umas sete e quarenta e cinco da noite, e com ele vinha Nasirulla, trazendo o jantar, em uma bandeja. O repasto consistia de sopa, que vinha em uma grande garrafa térmica, escaldante, e um prato chamado shawarma, isto é, carne de cabrito, temperada com vinagre, limão, cebola e sementes de cardamomo. Havia também uma travessa de salada, um prato feito com manteiga pálida e metade de um queijo de leite de cabra, uma pilha de pão integral e algumas maçãs e outra garrafa de vinho. Nasirulla colocou a refeição sobre a mesa baixa, disse alguma coisa a Lethman e retirou-se.

        Se chama a isto de simplesmente viver, pode contar comigo — gracejei.

O homem riu.

Eu não disse à senhorita que Halide cuida bem da minha alimentação? Por falar nisso, Nasirulla disse que Halide já foi arrumar o seu quarto de dormir.

Estou-lhe dando muito trabalho. Por exemplo, por ter mandado vir o jantar tão longe... Geralmente, onde é que o senhor come?

Aqui, com freqüência. — E acrescentou, em tom de desculpa: — Talvez a senhorita acabe descobrindo, e, portanto vou logo contar-lhe: estes são os meus aposentos. Não, ouça, por favor... Eu ia mesmo dormir do outro lado do castelo esta noite; portanto, nem sequer pense que nos está atrapalhando a vida.

Ora, Sr. Lethman, nem sei o que dizer! Tirá-lo dos seus aposentos!

Mas John Lethman interrompeu meus protestos, servindo a sopa e me entregando a minha em um canecão com alça, redondo, com um pedaço de pão árabe, e depois encheu novamente meu copo de vinho. Parecia, até, que estava tentando compensar o fato de ter antes relutado em me admitir no castelo. Ou talvez, já que Lady Harriet resolvera hospedar-me, a tradicional hospi­talidade árabe tivesse de ser respeitada, e parecia que nada que ele e seus criados pudessem fazer para tornar confortável minha estada ali era demais. Qualquer semelhança entre meu anfitrião, agora todo amabilidades, e o rapaz sonolento ou dopado que nos recebera naquele mesmo dia à tarde seria mera coincidência. John parecia estar fazendo tudo que podia para me entreter, e conversamos de maneira agradável durante toda a refeição.

Ele conhecia bastante a respeito da história daquele palácio, e foi muito divertido o que me contou a respeito do que chamava de "corte barata" de Dar Ibrahim, mas notei que ele disse muito pouco a respeito da própria tia Harriet, e por trás da sua reserva pensei ter sentido respeito e amizade. Podia ser que John zom­basse de outras coisas, e, por mais que minha tia fosse um motivo de riso, ele não zombou da sua patroa, e gostei mais dele por isto. Sem dúvida, ele se interessava por tudo que eu lhe pudesse dizer

espeíto da nossa família. A única coisa que me abstive propositadamente de lhe contar foi sobre a presença de Charles e o fato de que meu primo também pretendia visitar titia. Eu queria aguardar um bom momento para contar à tia Harriet oessoalmente que ele desejava falar com ela, e assim superar toda dificuldade de qualquer persuasão em segunda mão. Não que se Charles tivesse razão fosse preciso persuadir minha tia. Se ela concordara tão prontamente em receber-me — de quem ela mal devia lembrar-se — então Charles, que era o sobrinho predileto, estava praticamente admitido para a visita.

Halide trouxe café às nove horas da noite, com a informação de que Nasirulla já voltara para o povoado e de que meu quarto de dormir estava pronto.

Halide não era muito parecida fisicamente com o irmão. Era mais jovem e de compleição mais delicada. Era uma árabe de pele morena, mais cor de nogueira do que azeitona, com enormes olhos escuros, pescoço fino e mãos delicadas. Usava um vestido de seda de um verde-bronzeado, um material de aparência rica e de cor sofisticada; os olhos eram sombreados de preto, de maneira muito elegante. E sob a seda fina ela usava ou eu muito me enganava um porta-seios muito francês, de meia concha. Como grande parte das mulheres árabes, usava nos braços sua conta bancária, isto é, tudo que possuía, em forma de finos braceletes de ouro. Esta moça não era nenhuma donzela árabe simples, e se é que eu era capaz de julgar direito não estava economizando seus carinhos. Enquanto comunicava a John Lethman, em inglês, que o quarto estava pronto, olhou para mim por sua vez, e a mensagem foi transmitida, bem claramente, de mulher para mulher, sem necessidade de palavras, fossem elas em esquimó ou em chinês: "Não creio que ele se dignasse sequer olhar para você, pois você está muito deselegante, com essas calças compridas e largas, mas não se atravesse no meu caminho, do contrário eu a farei arrepender-se."

Depois, com os olhos negros humildemente baixados, ela disse a John Lethman, no seu inglês lindo e com ligeiro sotaque:

A Lady manda dizer que gostaria de vê-lo novamente, quando o senhor acabar de tomar o seu café.

Halide saiu e deixou a porta aberta. Fiquei observando sua figura esguia e graciosa desaparecer nas sombras da arcada, para além da luz difusa lançada pelo lampião; mas achei que ela não ma muito longe. Pouco depois, vi que eu tinha razão: no ponto em que as águas do lago refletiam um leve cinzento do céu cheio de estrelas, vi um movimento. Halide estava esperando entre os arbustos, na beira da água, talvez nos observando através da porta aberta.

John Lethman não fez nenhuma menção de fechá-la. Já que ele mostrou estar ansioso para acabar de tomar seu café e atender ao chamado da patroa, apressei-me também com o meu.

Pouco depois, John levantou-se.

Lamento muito ter de deixá-la agora, mas voltarei logo que ela me permita, e a levarei até lá. Tem certeza de que ficará bem aqui?

Por que não? Não se preocupe comigo, ficarei bem. Vou arranjar um livro para ler.

É claro, leia o que quiser. Pode-se aumentar com facili­dade a intensidade da luz do lampião, e ela não está muito forte; Halide fará isso para a senhorita.

Lethman virou a cabeça, em um movimento violento, quando um sino tocou em algum ponto no interior dos prédios, soando muito agudo dentro da noite silenciosa. E, de algum ponto, mais próximo, assustado pelo tinido violento e prolongado do sino, veio o latido repentino e furioso de cães. A julgar pelos latidos, eram animais grandes, dentro do prédio e bem perto dali.

Ei! Que foi que aconteceu? — perguntei, assustada.

Apenas a sua tia, que ficou impaciente. Desculpe, tenho de ir andando. Voltarei para buscá-la, logo que puder.

Mas e os cães?

Oh, isso não é nada. Eles sempre fazem um barulho da­nado quando soa o sino. Não se preocupe com eles, eu os farei calar antes de vir buscá-la.

Fazê-los calar? Então, eles estão soltos no palácio? Pela maneira de latir, parecem perigosos.

Bem, eles são cães de vigia, e precisam ser ferozes. Mas só são soltos à noite, e não podem penetrar no harém. É só a senhorita manter a porta principal fechada. Estará completamente segura, não é a noite em que será comida viva... Pelo menos, não pelos cães.

John Lethman retirou-se. Ouvi o portão de madeira fechar-se às suas costas, e pouco depois ouvi sua voz chamando os cães pelos nomes. Os latidos pararam e tornou a reinar silêncio. Nisto, vi Halide destacando-se na soleira da porta, no seu vestido de seda verde.

        Se quiser vir comigo, mostrar-lhe-ei o seu quarto.

A moça árabe acendera outro lampião para mim, no quarto de dormir, colocando-o em cima de uma prateleira perto da cama.

 

Este quarto era igual ao outro, mas parecia um tanto maior, por não conter mobília alguma, e sim apenas uma cama estreita de armação de ferro, uma cadeira de bambu de aparência frágil e uma horrível cômoda, pintada de preto, que apresentava um espelho lindo, envernizado, e uma velha caixa de latão, amassada, com alças metálicas e a inscrição S. S. Yangtse Maid. O piso e os bancos do divã que davam para o estrado eram desprovidos de tapetes. A cama era arrumada com lençóis e roupa branca irlandeses, amarelados e não muito bem passados, e a colcha ver­melha e trabalhada cobria o que parecia ser o colchão mais duro e melhor para a saúde que havia em todo o mundo.

Não me ocorreu que isso fosse obra de Halide; teria de haver muito mais elegância oriental a respeito de qualquer dos seus assuntos. Teria sido a isso que John Lethman se referira, ao dizer que ia "dormir do outro lado"?

No entanto, não foi esse pensamento que me fez dizer:

        Desalojei o Sr. Lethman, não é? Onde é que ele vai dormir?

Halide deu de ombros, em um gesto não muito insolente.

        Quarto, aqui, é o que não falta.

Quando não respondi, ela me olhou de relance, talvez um tanto contrafeita, e acrescentou, com uma tentativa de ser amável, arrancada com evidente dificuldade:

Ele passa a maior parte das noites com a patroa. Talvez durma de manhã.

Oh, bem, talvez eu não tenha causado tanto transtorno quanto imaginava. — E sorri para Halide. — Mas creio que estou dando muito trabalho a você, por ter de trocar as roupas de cama de um quarto para o outro.

Halide não me contradisse, segundo o figurino da hospitalidade, mas talvez isto se devesse ao fato de que seu inglês não estivesse à altura de uma escaramuça de delicadezas.

Já viu o banheiro?

Sim, obrigada. A água é potável?

Sim, mas havia água para beber na bandeja do jantar. Vou deixá-la aqui. Se houver mais alguma coisa...?

— Acho que não há, obrigada. Tudo parece muito bom, e tenho certeza de que passarei uma boa noite. Oh, faça o favor de me ensinar a aumentar a intensidade da luz do lampião... O Sr. Lethman disse que talvez eu quisesse ler algum livro, en­quanto espero.

Lá no outro aposento, Halide me atendeu, baixando o lam­pião e colocando-o em cima da mesa, entre os livros. Agradeci-lhe e examinei os volumes, enquanto Halide começava a empilhar os pratos usados na bandeja. A árabe não disse mais nada, mas vi como ela me observava, e achei que não era só imaginação quando lhe notei uma profunda hostilidade naqueles olhares rápidos e de través. Já agora irritada, e desejando que ela acabasse logo de recolher os pratos e fosse embora, concentrei-me na tarefa de escolher um livro para ler. Os que havia não eram nada pro­missores como leitura leve para passar uma ou duas horas. Uma gramática de árabe, alguns livros sobre o Líbano e a Síria, que eu já lera durante minha convalescença no quarto de Charles, e uma coleção que devia representar o trabalho escolar diário de John Lethman: alguns volumes (que eu também conhecia) sobre a Lady do Líbano original: Joan Haslip e Roundell e Buckingham de Seda, e os três antigos livros do diário do Dr. Meryon a respeito da sua temível patroa. Examinei os títulos dos livros. Como imaginara, eram de tia Harriet, que talvez tivessem sido emprestados recentemente ao seu "mordomo" para que este os estudasse com vagar... Fui vendo a fileira de livros. Castelos de Cruzados, de T. W. Lawrence, O Islã, de Guillaume, O Alcorão para Todos, e outros, e todos de tia Harriet. Nenhum livro de Medicina, que talvez fosse pesado demais para carregar ao sair em campo para trabalhar. Os únicos livros que traziam o nome de John Lethman — e me pareceram bem interessantes — eram The Mind Changers, de Huxley, The Golden Bough, de Frazer, e um exemplar bem recente do livro de Théophile Gautier, Le Club des Hachachiens. Nenhuma novela, exceto Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky, e The Tiger in the Smoke, de Margery Allingham.

O último volume da fileira era De Quincey. Virei as páginas, distraidamente, enquanto Halide empilhava os pratos na bandeja, fazendo mais barulho do que era necessário.

 

"O viciado em ópio não perde nada da sua sensibilidade moral nem das suas aspirações; deseja e anseia, com o ardor de sempre, realizar o que ele julga possível, e sente que tem de cumprir o seu dever; mas sua apreensão intelectual do que é possível é infinitamente mais forte do que o seu poder, não apenas de execução, mas também de tentativa de execu­ção. Fica esmagado sob o peso dos pesadelos..."

 

Quanto mais se procura modificar o que se diz a este respeito, mais se consegue apenas dizer a mesma coisa. Era exatamente o que Hamid dissera. Recoloquei o pesadelo do ópio no lugar, enquanto Halide levantava a bandeja e a levava para a porta.

        Vou fechá-la para você — falei, movendo-me para fazer o que propusera, mas Halide parou na soleira da porta e virou-se para mim.

        Você é mesmo filha do filho do irmão da Lady? Fiquei pensando na pergunta, enquanto ela me olhava fixa­mente, do outro lado dos pratos.

Sim.

Seu pai também está aqui no Líbano?

Não.

Ele já morreu?

Não — disse, surpresa. — Por quê?

Então, você viaja sozinha?

Por que não?

Halide ignorou isto também. Só lhe interessava saber algu­mas coisas, que eu não podia atinar com o que era, mas que, evidentemente, era muito importante para ela.

Você... Você vai ficar muito tempo aqui?

A curiosidade me fez dizer uma inverdade.

Todo o tempo que a titia me deixar ficar.

        Sua tia não está passando muito bem — falou ela, rapidamente. — Terá de ir embora amanhã cedo.

Ergui a sobrancelha, estranhando aquilo.

Isto é ela quem terá de determinar, você não acha? — e acrescentei, com uma inocência que ocultava uma chispa de malícia:

Mas, é claro, em um lugar tão grande, não preciso atrapalhá-la. O Sr. Lethman me convidou a ficar aqui o tempo que eu quiser.

Os olhos negros fuzilaram, no sei se de alarma ou de raiva.

        Mas isso não é possível! Ele...

Nisto, a campainha da tia Harriet tornou a romper o si­lêncio. Ela tocou de maneira imperativa e intensa, parecendo muito mal-humorada. Mais longe, mas evidentemente ainda à solta, os cães vigias latiram. A moça assustou-se, com tanta violência que os objetos colocados em cima da bandeja chocalharam.

Salva pelo gongo — disse eu. — Que é que você ia dizendo?

Não, nada. Preciso ir embora! — depois, quase feroz­mente, quando fiz uma tentativa de segui-la e de abrir o portão principal: — Não, pode deixar. Eu me arranjo sozinha, eu me arranjo!

O portão fechou-se atrás dela. Fiquei olhando, pensativa, depois que a moça passou. Realmente, salva pela campainha. Achei que podia tirar o resto das conclusões. Eu não sabia que para John Lethman minha tia representava lucros, mas eu tinha certeza de que, para Halide, John Lethman era de capital impor­tância geral. E não sabia ao certo que ligação isso teria com tia Harriet. Voltei à estante de livros.

Seria bom poder registrar que eu era a espécie de pessoa que escolheria o livro de Dostoievsky, de Huxley ou mesmo The Golden Bough, e enroscar-me-ia com ele para uma noite mara­vilhosa de leitura. Mas, quando John Lethman veio buscar-me, conforme prometera, encontrou-me com alguns capítulos lidos do livro The Tiger in the Smoke, e em parte desejando que eu tivesse escolhido alguma coisa menos emocionante para uma noite na ala deserta de um palácio em ruínas.

O homem vinha armado, não de um lampião a óleo, e sim de uma enorme e poderosa lanterna elétrica.

        Pronta? — perguntou ele.

Levou-me de volta ao pátio, onde eu e Hamid esperáramos, mas lá virou para a direita, afastando-se do portão principal, seguindo na direção em que eu o vira indo para junto de tia Harriet. O lugar era vasto, muito maior do que eu supusera. Parecia que iríamos caminhar eternamente ao longo de corredores, cantos redondos, escadas que subiam, escadas que desciam, e atravessando pelo menos mais dois pequenos pátios, no primeiro dos quais gotejava água, o que mostrava que nem todos os poços haviam secado. Enquanto atravessávamos o segundo, ouvi, de trás de uma porta fechada, um ruído semelhante a um arranhão, seguido por um ganido profundo que me fez saltar.

        Fique sossegada... Eu não disse à senhorita que ia fazê-los silenciar? — E acenou com a lanterna momentaneamente rumo à porta, e no espaço que ficava sob a mesma vi o focinho reluzente de um cão, farejando o ar. — Sofia! Estrela! Quietos! Cuidado, Srta. Mansel, a soleira da porta está quebrada neste ponto. Este é o jardim do príncipe.

Não sei ao certo o que eu esperara. Pelo menos, alguma coisa tão grandiosa quanto o jardim do harém, mas, na verdade, o jardim do príncipe era muito pequeno. O ar estava pesado com o cheiro de jasmim e, à luz da lanterna, vi, de relance, um muro baixo que poderia conter um poço, mas o jardim parecia ser pouco mais do que um pátio retangular com um ou dois can­teiros de flores e algumas árvores. John Lethman iluminou as lajes rachadas com a luz da tocha, mas poderia ter poupado a si mesmo o trabalho, pois, de uma soleira aberta de porta, a meio caminho do jardim, a luz se derramava entre duas pequenas árvores. Era apenas a luz difusa e alaranjada de um lampião como o que havia no meu próprio quarto, mas, na escuridão profunda, parecia muito viva.

John Lethman parou um instante na soleira da porta, para me dar passagem. De repente, sua voz soou diferente, tensa, cheia de deferência e a circunspecção.

Lady Harriet, eu trouxe a Srta. Mansel.

Passei por ele e penetrei no quarto.

 

             Houve

             Uma lingua de luz, um jato de chama;

             E Christabel viu o olho da Lady,

             E nada mais ela viu!

  1. T. Coleridge: Christabel

 

O divã do príncipe era enorme, e nele predominava o que eu só posso chamar de imundície luxuriante. O piso era de mármore colorido, pontilhado, aqui e ali, de tapetes persas, tudo muito sujo. As paredes eram forradas de mosaicos decorativos trabalhados, cada painel emoldurando, em pedra moída, um nicho onde deveria ter havido uma estátua ou um lampião, mas que agora estava vazio, se não se levassem em conta papelões, papel, livros, vidros de remédio e tocos de vela que havia lá. No centro do piso, a fonte fora toscamente coberta de tábuas, e agora servia como mesa, em que havia uma bandeja grande de prata acinzentada, contendo uma pilha de pratos e os restos de uma refeição recente. Ao lado disto, no chão, via-se uma travessa vazia, com o rótulo de CÃO. Encostada à parede, via-se uma cômoda, feita de mogno reluzente, sobre a qual havia inúmeras garrafas e caixas. Uma ou duas surradas cadeiras de cozinha, sobre um estrado semelhante a um trono, em verniz chinês, com­pletavam a mobília do lado mais baixo da sala. Via-se poeira por toda parte.

Um arco largo, de pedra, delicadamente cinzelado, emoldu­rando três degraus rasos, dividia a seção inferior da parte superior do divã. Colocada ao fundo, a um canto do quarto superior ou plataforma, ficava uma cama enorme, que outrora devia ter sido uma peça de luxo, com pernas em formas de garras de dragão, uma cabeceira alta e trabalhada. E, pendente do teto, acima dela, uma espécie de dispositivo dourado, semelhante a um pássaro, que, segundo constava, devia ter segurado os cortinados da cama nas suas garras. Agora, uma asa do pássaro apresentava-se que­brada, o dourado achava-se sujo e rachado, e das garras pendiam só duas cortinas de veludo poído, que poderiam ter sido de qualquer cor, desde o vermelho-escuro ao preto, e que caíam em dobras grandes dos dois lados da cabeceira da cama, quase ocultando, com suas dobras pesadas de sombras, a figura que se achava lá recostada em um punhado de cobertores e colchas.

A luz que fluíra tão generosamente para fora do lampião do jardim quase não penetrava nos cantos superiores do quarto. A iluminação vinha de uma velha lâmpada a óleo, que ficava entre os pratos de jantar. E, quando passei por ela, aproximando-me da cama, minha sombra pareceu saltar de forma monstruosa adiante de mim, e depois subir pelos degraus do divã para acres­centar mais uma camada de escuridão à penumbra grotesca do canto.

Pois, sem dúvida, ela era grotesca. Eu esperara encontrar tia Harriet muito diferente das recordações distantes que uma criança tinha a seu respeito, mas não tão exótica como estava. Conforme eu dissera a John Lethman, eu retivera apenas uma lembrança confusa de uma mulher alta e de nariz adunco, de cabelos que iam ficando grisalhos e olhos pretos vivos, que discutia ferozmente com meu pai, que intimidava minha mãe nos assuntos referentes ao jardim, e que tinha o hábito de dar a mim e ao Charles presentes tão exóticos, e de ignorar-nos com­pletamente nos intervalos dos mesmos. Mesmo que ela se hou­vesse vestido da maneira como se vestira quinze anos antes, eu não a teria reconhecido. John Lethman me avisara de que ela devia ter encolhido, e, realmente, assim acontecera. E, embora eu achasse que teria reconhecido o nariz protuberante e os olhos negros, que me espiavam das sombras dos cortinados da cama, nada — nem mesmo os avisos de Lethman — me havia preparado para o completo exotismo da figura que estava lá sentada como um Buda, envolta em seda colorida e gesticulando com uma das mãos pálidas e grandes para eu avançar.

Se eu não tivesse sabido quem ela era, sem dúvida a teria tomado por algum homem oriental vestido de maneira fantástica. Titia usava uma espécie de camisola de dormir de seda natural, e por cima disto um casaco largo de veludo escarlate, e enfeites dourados, e sobre tudo isto ainda um xale de casimira. Mas essas roupas — apesar da maciez e do luxo dos tecidos — tinham um ar nitidamente masculino. Sua pele apresentava ligeira palidez e seus lábios eram exangues e afundados na boca, mas os olhos negros e as sobrancelhas densas davam vida ao rosto cheio e oval, e não demonstravam nada dos sinais de decrepitude que acompanham a velhice. Titia passara pó-de-arroz no rosto, farta­mente e sem nenhum cuidado, e um pouco dele caíra sobre o veludo escarlate. Acima deste rosto curiosamente hermafrodita ela passara um altíssimo turbante branco, que, escorregando um pouco para um lado, deixou à mostra o que, por um instante, eu, chocada, imaginei ser um crânio careca. Depois, compreendi que ela devia ter raspado a cabeça. Era de esperar-se isto, se ela usava habitualmente o turbante espesso, mas, não sei por quê, era o toque final de grotesco.

Um objeto deveria ter servido para identificá-la: o anel da mão esquerda. Este era inconfundivelmente tão grande e tão brilhante quanto na minha meninice. Lembrei-me, também, do quanto eu e Charles ficáramos impressionados pelo modo como minha mãe e meu pai falavam do anel. Era um rubi riquíssimo, finamente cortado, do tamanho de uma unha de polegar, e já naquele tempo era de valor imenso. Tinha sido presente de algum monarca de Bagdá, e ela o usava sempre em suas mãos grandes, hábeis e um tanto masculinas. O rubi brilhou, à luz do lampião, quando, um tanto ofegante por efeito da asma, ela me fez sinal para que me aproximasse mais.

Não sei se era esperado que eu a beijasse. A idéia era um tanto repelente, mas outro brilho do rubi, apontando para um tamborete perto do pé da cama, me fez parar, com o que fiquei satisfeita.

        Olá, tia Harriet...   Como está passando?

        Bem. .. Você é Christy, hem? — A voz, fina, pouco mais do que um murmúrio, continha uma respiração forçada e ofegante, mas os olhos negros eram bastante vivos e curiosos. — Sente-se e deixe-me olhá-la. Hum... Sim, você sempre foi uma coisinha linda. Agora, é uma beldade e tanto, não é? Continua solteira?

Sim...

Então, está na hora de casar.

Tenha dó... Tenho só vinte dois anos de idade!

        Só isso? Tinha-me esquecido... John me diz que estou sempre esquecendo coisas. Ele lhe contou que eu me havia esque­cido de você?

        Disse que era bem provável.

        Era de se esperar. John está sempre tentando insinuar que estou ficando caduca. — Titia lançou um olhar dardejante na direção de John Lethman, que me seguira escada acima e agora se achava de pé aos pés da cama. Ficou observando minha tia firmemente, e achei que, também, inquieto. O olhar agudo da titia voltou para mim. Mas não seria de surpreender se eu a tivesse esquecido. Há quanto tempo eu não a via ?

Quinze anos.

Hum... Sim. Deve ter sido isso. Bem, agora, que a estou vendo bem, sei que a teria reconhecido. Você parece com seu pai. Como vai ele?

Oh, vai muito bem, obrigada.

E manda-me recomendações, suponho eu?

O tom de voz, ainda agudo, era propositadamente provo­cante. Olhei calmamente para minha tia.

Tenho certeza de que, se soubesse que eu viria aqui, ele teria mandado lembranças.

Hum...E sentou-se de repente no seu canto, contra a pilha de travesseiros, refugiando-se nas suas tapeçarias, com os pequenos movimentos de uma galinha choca deitando-se sobre seus ovos. Achei que o monossílabo não foi destituído de apre­ciação. E o resto dos parentes?

Todos bem. Ficarão muito contentes quando souberem que consegui vê-la e que a encontrei bem de saúde.

Sem dúvida. Ninguém poderia ter dito que aquele cochicho seco fosse dè alguém caduco. Uma família atenciosa, os Mansels, não acha? Então? — E novamente, como eu não dissesse nada: Então, menina?

Sentei-me mais desempeñada no meu banco. Era muito desconfortável.

        Não sei o que deseja que eu diga, tia Harriet. Se pensa que devíamos ter vindo visitá-la antes, poderia sempre ter-nos convidado, não é? Mas, como não convidou, a senhora sabe muito bem que nos esteve mandando todos para o inferno, não é? Duas vezes por ano, durante quinze anos. E, se me desculpa por dizer isto, não fui recebida exatamente de braços abertos, hoje ! — e acrescentei, em tom incisivo: Em todo caso, a se­nhora também é uma Mansel. Não me pode dizer que minha família não lhe escreve com a freqüência com que a senhora lhe escreve, mesmo que seja apenas para lhe agradecer pela última edição do seu testamento!

Os olhos negros brilharam intensamente.

Meu testamento? Ah! Então, é isso! Veio tentar herdar alguma coisa, hem?

Bem, eu teria dificuldades, já que a senhora ainda está viva, não é? E, além disso, seria viajar muito para herdar uma miséria... — disse eu, sorridente. — Mas, se quiser dar-me essa miséria aqui e agora, não tornarei a importuná-la.

Não lhe pude ver a expressão, mas só os olhos, sombreados sob o cenho e o turbante, observando-me de cima dos travesseiros. Percebi John Lethman, de relance, em parte divertido e em parte apreensivo, enquanto ela se moveu, de repente, pu­xando as cobertas.

Por eles, eu poderia ter morrido aqui, que nem se impor­tariam comigo... Todos eles.

Escute — falei, e depois parei. Charles dera a entender que nossa tia gostava de ser desafiada, e, sem dúvida, até agora ela estivera só tentando provocar-me. Mas a tia Harriet de que eu me lembrava não teria falado assim, nem sequer para provocar uma réplica. Quinze anos parecem muito tempo a uma pessoa jovem: talvez para os adultos também sejam uma vida inteira. Eu devia estar-me sentindo não contrafeita e irritada, mas apenas compadecida.

Eu disse, rapidamente:

        Tia Harriet, por favor, não fale assim! A senhora deve saber muito bem que, se houvesse alguma coisa que a senhora quisesse — alguma coisa de que a senhora precisasse — bastaria a senhora dizer ao papai, ou ao tio Chas, ou a qualquer de nós I Minha família esteve nos Estados Unidos durante quatro anos, e acho que estamos um tanto sem contato, mas, em todo caso, era só ao tio Chas que a senhora escrevia, e ele me disse... Isto é, eu pensava que a senhora sempre deixou tão claro que desejava ficar aqui, viver a vida à sua vontade... — E fiz vim gesto vago e grandioso, que abarcou o quarto abandonado e mais além, nos confins escuros do palácio adormecido. — Sem dúvida, a senhora deveria saber que, se precisasse de alguma coisa... Se estivesse doente... Se quisesse realmente que alguém viesse aqui, ou necessitasse de qualquer espécie de ajuda...

No fundo do canto sombrio, o volume humano que havia sob as cobertas achava-se tão imóvel, que hesitei. O lampião estivera com a luz bem baixa, mas, agora, algum capricho do vento ou desigualdade do controle lançou para o alto uma língua de luz, e vi o brilho rápido dos seus olhos. Não estava louca nem doente. O instinto que me induzira a ter pena da minha tia estava certo.

- Tia Harriet! — disse eu, francamente. — Está gracejando comigo? Isto é, está-me provocando? Sabe muito bem que está dizendo asneiras!

        Hum! Asneiras, hein? Quer dizer, então, que meus parentes são dedicados?

_ Bem, a senhora sabe como são os parentes! Acho que os nossos não são diferentes dos outros! A senhora sabe muito bem que poderia deixar-nos de herança apenas um punhado de moedas, mas que, ainda assim, não deixaríamos de ser seus parentes!

        Ouviu isso, John?

Lethman estava com um aspecto de quem se sentia muito contrafeito. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu cortei logo:

        A senhora sabe muito bem o que eu quero dizer! Apenas que, se a senhora precisasse de alguma coisa, ou que, se algo lhe acontecesse... Bem, de Londres a Beirute são apenas seis horas de avião, e alguém viria aqui e cuidaria da senhora, antes que a senhora soubesse se queria ou não essa ajuda. Papai sempre diz que uma família deve ser unida assim, porque constitui um seguro coletivo; enquanto a pessoa está viva e passando bem, a família parece não tomar conhecimento dela. Mas basta alguma coisa ir mal, para a família tomar conta. Veja o caso do tio Chas, quando seu primo Henry morreu 1 Papai disse que eles nem pensaram no assunto, já consideraram coisa garantida. Céus, eu faço o que quero, e ninguém me impede de ir aonde eu desejo, mas sei muito bem que, se eu estivesse com uma encrenca mínima pela frente e se telefonasse ao papai, ele viria para aqui a jato! — Olhei para John Lethman, que se achava de pé, hesitei e depois acrescentei, em tom decisivo: — E também não provoque o Sr. Lethman. Não importa o que diga a mim, mas é bom eu deixar uma coisa bem clara, aqui e agora, embora talvez eu esteja falando sem ser consultada... Todos ficarão muito contentes pelo fato de ele estar aqui com a senhora. Portanto, é bom tratá-lo bem, porque quanto mais tempo ele ficar, melhor! E não pense que a estamos esquecendo... Apenas a estamos deixando viver a vida que deseja levar, e a senhora parece estar indo muito bem, se posso dizer!

Agora, titia estava rindo abertamente, as cobertas arqueando com sua respiração asmática. A mão grande subiu e o rubi cintilou.

        Pois bem, menina, eu a estava provocando! Você é de briga, não é? Eu sempre gostei de gente que briga. Não facilitou as minhas visitas; assim, já tenho trabalho demais. E, diga o que disser, já estou ficando velha. Você insistiu muito para me ver, não insistiu ? Se está tão cheia desse seu lema de "viver e deixar viver", então por que veio ? Sorri.

        A senhora ficaria aborrecida se eu dissesse que foi porque tenho sentimento de família. Digamos que foi curiosidade.

        Que foi que lhe disseram, para você ficar tão curiosa?

        Que foi que me disseram? Deve estar brincando ! Acho que a senhora ficou tão habituada a morar em um lugar assim e a se cercar de lendas, como uma... Bem, como uma...

       ... Bela Adormecida Supervelha ?

Tive de rir.

Acertou em cheio! Quero dizer, sim, se quiser descrever a coisa desta maneira! Mas, falando seriamente, a senhora sabe que é famosa ! Todos falam a seu respeito. A senhora é um dos pontos de atração turística do Líbano. Mesmo que não fosse sua parenta, ter-me-iam falado muito sobre sua pessoa e me teria sentido tentada a passar por aqui e a ver Dar Ibrahim. Portanto, quando compreendi que possuía um pretexto muito bom para vir vê-la, e cheguei até a forçar a entrada no palácio, seria preciso usar óleo escaldante para me impedir.

Anote isto, John: precisamos é de óleo fervente. Hum, você é uma Mansel até às pontas das garras! Então, todos falam a meu respeito, não é ? E quem são "todos"?

Oh, foi apenas alguém no hotel de Beirute. Eu estava planejando uma viagem de automóvel...

Hotel? Com quem você estava tagarelando em um hotel em Beirute ? — E, pelo modo como titia falou, era como se fosse uma referência a um bordel do Cairo.

Não estava batendo papo com ele. Acontece que era o recepcionista do hotel. Eu estava planejando uma viagem de carro para ver as nascentes do Adônis, em Afka, e ele me disse que passaria perto de Dar Ibrahim, e...

Que hotel?

O Phoenicia.

Esse hotel é novo e ainda não existia quando você esteve em Beirute disse John Lethman. Era a primeira vez que ele falava. Ainda parecia pouco à vontade. É o hotel grande de que lhe falei, e que fica no porto.

- Phoenicia, hem? Pois bem, prossiga. Que era que vocês estavam falando a meu respeito no hotel?

- Na verdade, pouca coisa — disse. — O empregado do hotel não sabia que eu era sua sobrinha. Estava apenas me di­zendo que este lugar era interessante, e que eu deveria pedir ao motorista para voltar por Sal'q e parar aqui para que eu visse o palácio. Então, eu disse a ele que conhecia a sua família — embora não lhe contasse quem sou — e perguntei como a senhora estava e se ele ouvira alguma coisa a seu respeito.

        E que foi que ele disse a você?

        Só que, ao que constava, a senhora estava muito bem de saúde, mas que havia muito tempo que a senhora não saía do palácio, que estivera doente há algum tempo e que mandara chamar um médico de Beirute...

        Ele sabia disso?

Bem, deve ter saído em todos os jornais I Afinal de contas, a senhora é uma das lendas do lugar 1 O Sr. Lethman não lhe contou que eu telefonei para a casa do médico, a fim de obter notícias suas...

Sim, sim, ele me contou. Mas isso não teria adiantado nada. Aquele médico era um idiota. Foi bom ele ter ido embora, foi uma boa coisa... Agora, está muito melhor, muito melhor. — O xale escorregara e ela o puxou com um misto de irritação e impaciência, de repente rabugenta, e eu a ouvi murmurando em voz baixa algo que parecia: — Telefonar para perguntar a meu respeito... e tagarelando sobre mim em hotéis — em uma voz tão baixa, que, de repente, não era nem aguda nem seca, mas vaga e confusa. Sua cabeça tremeu e o turbante deslocou-se mais ainda, expondo um pouco mais o crânio raspado.

Olhei para o outro lado, com repulsa, embora tentasse não demonstrar o que sentia. Mas para todo lado que eu olhasse havia um lembrete de excentricidade e de desleixo; até o punhado de vidros de remédio que se achavam em cima da cômoda apresentavam-se empoeirados, e a poeira fazia ruído sob meus sapatos, quando eu movia os pés no piso. Embora grande, o quarto estava abafado e eu sentia coceira na pele. De repente, tive uma vontade louca de fugir para o ar livre.

Christy... Christy... — E o murmúrio asmático me fez voltar novamente a atenção para minha tia. — Nome idiota para uma moça. É uma abreviatura... Qual é o nome todo?

Christabel. Foi o nome mais aproximado que eles encontraram de Christopher.

        Ah — E titia remexeu novamente nas cobertas. Tive a impressão aguda de que os olhos que me observavam das sombras eram os olhos de uma pessoa mentalmente sã. Que ela apenas fingia estar esquecida e decrépita quando isto lhe convinha. A impressão não era agradável. — De que estávamos falando? — quis saber ela.

Foi com dificuldade que voltei à realidade.

Sobre o Dr. Grafton.

Eu não estive doente; o homem era um idiota. Não tenho nenhuma doença no peito, de forma alguma... Em todo caso, ele foi embora do Líbano. Não houve mexericos sobre ele, tam­bém, John? Algum escândalo? Ele não voltou para Londres?

Acho que voltou — confirmou Lethman.

Foi o eles me disseram, quando telefonei para o consul­tório médico — informei. — Não me disseram mais nada a res­peito dele.

Hum — falou titia, e a malícia seca voltara à sua voz. — Nesta altura, ele já deve ter pendurado uma placa de médico em Londres, bem no centro da cidade, e já deve estar novamente enganando os incautos e fazendo fortuna.

Nunca ouvi falar em nenhum escândalo, mas, realmente, ele foi embora. Dizem que o médico que o substituiu é muito bom. — John Lethman lançou-me um olhar rápido e significa­tivo, depois inclinou-se para diante. — Agora, não acha que de­veria descansar um pouco, Lady Harriet? São horas de tomar seus comprimidos. Portanto, se me permitir, tocarei a campainha, chamando Halide, e eu mesmo levarei a Srta. Mansel de volta...

Não — disse tia Harriet, em tom decidido.

Mas, Lady Harriet...

Não insista, rapaz, eu já disse. Não vou tomar os comprimidos, ainda, pois eles me dão sono. Você sabe que não gosto de tomá-los. Não me sinto nem um pouco cansada, e estou gos­tando da visita da moça. Fique onde está, menina, e fale comigo. Divirta-me Diga-me onde tem estado e o que esteve fazendo. Há quanto tempo chegou a Beirute?

Cheguei na noite de sexta-feira. Vim com uma turma de turistas...

E comecei a falar-lhe da viagem, tornando a narrativa o mais divertida que pude. Não ficaria aborrecida quando a entrevista terminasse, mas a velhota parecia ter ficado novamente entusi­asmada, e não tinha nenhuma intenção de deixar que John

Lethman, fosse qual fosse o pretexto, me tirasse dali, até que eu tivesse tocado no assunto da visita de Charles. Meu primo certa­mente não quereria perder este bizarro conjunto de coisas, e certamente não desanimaria com o que eu lhe contaria. De pas­sagem, fiquei imaginando por que a titia não se referira a ele na nossa conversa, mas logo descobriria isto, e ficaria a cargo do meu primo vencer a oposição, para entrar, se quisesse visitá-la.

Por isto, não mencionei o nome dele e falei a respeito de Pedra, de Palmira e de Jerash, enquanto tia Harriet escutava e fazia comentários, aparentemente divertindo-se muito, e John Lethman esperava em silêncio, remexendo, impaciente, nos cor­tinados da cama, e virando a cabeça de uma para outra de nós, como alguém assistindo a uma partida final de tênis no campeo­nato de Wimbledon.

Quando me achava no meio da descrição de Palmira, ela me assustou, puxando de repente uma corda que acionava uma campainha, corda esta que ficava pendurada entre as cortinas da cama. Ouviu-se em todo o prédio o eco da campainha e depois o ruído dos latidos dos cães de caça. Parei de falar, mas titia disse, em voz quase áspera:

Prossiga. Pelo menos, você sabe falar. Visitou os túmulos das colinas?

Céus... Sim, estávamos em uma excursão guiada, e tivemos de visitar aquele lugar. Suponho que não se deva dizer isto a uma arqueóloga, mas acho que todos os túmulos são iguais...

É uma grande verdade. Que foi feito do grupo de turistas?

Eles voltaram para Londres na manhã de sábado.

Então, agora você ficou sozinha? Isso é conveniente?

Eu ri.

Por que não ? Sei cuidar de mim. E, na verdade...

Não duvido muito disso. Onde está aquela garota imbecil?

Ela gritou isto a John Lethman, de repente, e o homem saltou de pé.

Halide? Ela não pode estar longe. Se quiser as suas pílulas, eu posso.

Não é isto que eu quero. Já disse que ainda não as vou tomar. Quero o meu cachimbo.

Mas, Lady Harriet...

Ah, aí está você! Raios! Onde andou metida?

Halide atravessou depressa a parte mais baixa do quarto. Não podia ter estado longe quando a campainha soou, mas respirava ofegante, como se tivesse vindo correndo. Mostrava-se pálida e parecia amedrontada. Nem sequer olhou para mim, enquanto atravessava o piso e subia os degraus, rumo à cama.

        A senhora tocou a campainha?

        Claro que toquei — disse tia Harriet, irritada. — Quero meu cachimbo.

Halide olhou, incerta, de Lady Harriet para John Lethman e novamente para titia, e a velhota fez um daqueles movimentos de impaciência na cama e gritou:

Então? Então?

Por favor, traga o cachimbo para ela — disse Lethman.

A moça árabe lançou outro olhar assustado à cama e desceu a escada correndo, dirigindo-se à cômoda. Olhei com surpresa para Halide. Até então, ela não me fizera supor que se assustaria com qualquer coisa, e não era fácil compreender como minha tia poderia assustá-la, privada dos meios usados por Lady Stanhope, que mantinha sempre um chicote e um porrete ao lado da sua cama, para usar contra seus escravos, e que, quando o serviço era mal feito, fazia todos eles — inclusive seu médico — tomarem um purgante chamado de Bebida Negra, administrado à força. Olhei para "Lady Harriet". Achava-se sentada, inclinada para diante, como um duende oriental, no seu ninho de sedas e de cobertores, e poderia — achei eu — inspirar nervosismo, mas não medo. Contudo, meu olhar percebeu alguma coisa na parede acima da cama. Havia duas séries de cabides de madeira ali, meio ocultos pelas cortinas da cama, e do outro lado deles via-se um cajado, e no outro um rifle. Pisquei os olhos, ao ver o rifle, incrédula. Sem dúvida, deveria haver limites, em pleno século vinte, ao que se podia fazer, mesmo aqui...?

Resolvi dar o fora daquele quarto o mais depressa possível. Achei que me sentia mais cansada do que a princípio julgara. Ou talvez fosse a comida exótica do jantar... Enquanto me preparava a fim de continuar com a história, ouvi tia Harriet dizer, em tom de voz completamente agradável:

        Só um cachimbo pequeno, minha querida. E quero o bocal de âmbar.

A moça, apressando-se, com os dedos desajeitados, abriu uma caixa de madeira que parecia conter fumo e bocal de cachimbos. Levou o bocal para a cama e afixou-o ao tubo do aparelho que os árabes chamavam de narguilé, ou tubo que faz borbulhas. Quando ela saiu da vista da tia Harriet, passando por trás das cortinas da cama, eu a vi lançar um rápido olhar indagador a Tohn Lethman, e receber um aceno afirmativo de cabeça, um tanto irritado. Então, era este o motivo do seu nervosismo; ela se encontrava na situação peculiar e embaraçosa da criada que recebe da patroa a ordem de fazer uma coisa que ela sabe que o patrão desaprovaria.

Lethman disse, ao meu ouvido:

        Não lhe posso oferecer um cigarro. Receio que sua tia não deixe ninguém fumar aqui dentro, só mesmo ela. Em todo caso, ela só aprova o consumo do seu tabaco de ervas. Infelizmente, tem um cheiro horrível.

        Não importa, não quero fumar.

        Que é que vocês estão cochichando, aí? — indagou tia Harriet, em tom agudo, olhando para nós dois. — Vamos, divir­ta-me. .. Que foi que você fez em Damasco? Suponho que deva ter andado pela Grande Mesquita, como todo turista idiota.

Exatamente como os turistas idiotas, tia Harriet.

Está zombando de mim, menina ?

Não estou, não. É que, de certa forma, eu considero todo turista um tanto idiota. Vê o que precisa e o que não precisa...

Isto é verdade. O mundo muda, mas os turistas são sempre iguais. Você gostou de Damasco? — indagou ela, fumando o seu cachimbo.

Mais ou menos. Não tive tempo suficiente para andar sozinha. Mas lá me aconteceu uma coisa muito boa... Encontrei Charles.

Charles? — E sua voz era aguda, e achei que vi Halide e John Lethman olharem um para o outro novamente, com rapidez. — Aqui? — indagou tia Harriet. — Que é isto, afinal de contas? Uma convenção de família? Raios! Que é que meu sobrinho estava fazendo em Damasco?

Oh, não era o tio Chas — falei, depressa. — Refiro-me a Charles, meu primo... O meu "irmão gêmeo". Ele também está de férias no Oriente Médio. Deveria vir aqui, em minha companhia, para visitá-la, mas só estará no Líbano amanhã, e receio que me antecipei a ele. Na verdade, foi ele quem me mandou vê-la; está ansioso para vir, pessoalmente, e talvez eu nunca me tivesse atrevido a insistir para vir aqui, se ele não tivesse reco­mendado tanto.

Houve silêncio. O cachimbo gorgolejava de forma um tanto nauseante, e titia piscou na minha direção, através da fumaça. O ar, dentro do quarto, ficou mais penetrante e mais abafado do que nunca, e eu senti ondas de calor passarem sobre minha pele. Endireitei o corpo no meu banquinho desconfortável.

A senhora... A senhora se lembra de Charles, tia Harriet? A senhora não o deve ter esquecido, embora já não se lembrasse de mim... Ele foi sempre o seu sobrinho predileto.

Claro que não me esqueci dele. Como poderia tê-lo esquecido? Charles era um menino bonito, e eu sempre gostei de meninos bonitos.

Tive de rir.

Sabe de uma coisa? Eu costumava ter ciúmes dele. Lem­bra-se daquela vez? Na última ocasião em que a vi, quando a senhora veio para ficar, e trouxe o papagaio e todos os cães, e me deu um leque de marfim, e deu a Charles o turíbulo e o jogo de armar, e ele incendiou o quiosque, e papai ficou tão furioso que disse que ia mandá-lo para casa, mas a senhora disse que, se ele fosse, a senhora também iria, porque o resto da família era muito maçante, e que tudo que Charles fazia parecia uma ação ruim neste mundo insípido...? Só me lembro disso porque agora faz parte das citações da família.

Sim, eu me lembro. Como o tempo passa... Algumas vezes depressa, de outras lentamente... e as coisas de que nos lembramos... e as coisas de que nos esquecemos. Um menino bonito... Sim, sim. Titia fumou algum tempo em silêncio, acenando a cabeça, como se para si mesma, depois entregou o bocal do cachimbo a Halide, sem olhar para esta. Os olhos negros tornaram a erguer-se e fixaram-se em mim. Você é parecida com ele.

Acho que sou. Agora, que somos crescidos, a semelhança diminuiu bastante, embora eu ache que a senhora se lembra dele, por tê-lo visto há poucos anos. Alguma coisa da semelhança deve ter ficado. Eu e ele somos da mesma cor...

Muito parecida com ele. Era como se ela não me ti­vesse ouvido. Titia continuava acenando a cabeça para si mesma, os olhos negros velados e distantes, as mãos segurando o xale, sem firmeza.

Lady Harriet disse John Lethman, de repente. Agora, preciso insistir em que tome seus comprimidos e descanse um pouco. A Srta. Mansel...

Claro falei, levantando-me. Se tia Harriet me disser o que devo dizer a Charles...

Pode apresentar-lhe lembranças. Sua voz era áspera como o farfalhar de folhas secas.

Mas...E eu olhei para ela um tanto sem expressão no rosto. Não o quer receber? Ele ficará hospedado em Beirute, comigo, no Pnoenicia, talvez amanhã. Charles pode vir vê-la ? Se não for importuno, ele pode vir amanhã à noitinha, depois do jantar, e esperar até que a senhora possa recebê-lo... Charles tem carro próprio e não precisaria ficar, ao contrário do que acontece comigo. Eu gostaria muito de vir com ele e de tornar a vê-la, mas se duas pessoas forem demais...

Não.

Quer dizer, então, que podemos vir os dois? Oh, é maravilhoso! Então...

Digo-lhe que não o quero ver. Já a recebi e foi um prazer, mas basta. Você pode levar minhas notícias aos meus sobrinhos Charles e Christopher, e dê-se por satisfeita com isto.

Quando abri a boca, ela ergueu a mão direita e acrescentou, em tom de voz mais bondoso:

Talvez tudo isto lhe pareça esquisito, mas sou uma mulher idosa e escolhi meu modo de viver, e parece-me que a única coisa boa que a idade traz é o direito de sermos tão arbitrários quanto quisermos, e de vivermos como queremos enquanto se pode. Por mais que você possa achar isto aqui desconfortável e exótico, é disto que eu gosto, e pode dizer ao pessoal lá de casa que estou perfeitamente bem, e muito contente com meu modo de vida e com o isolamento que comprei quando adquiri este castelo de paredes elevadas, aquele surdo-mudo do portão e arranjei os serviços de Halide, que não é boa criada. Portanto, não quero mais protestos.

Mas Charles ficará desesperadamente decepcionado! E, além disso, ficará furioso comigo pelo fato de eu ter vindo antes dele, usurpando-lhe o lugar nesta entrevista, por assim dizer. A senhora era o parente de quem ele mais gostava. E na verdade, acho que é muito importante, para ele, vê-la. Não sei se a senhora está a par, mas há um plano para abrirmos uma filial do banco em Beirute, e talvez Charles vá trabalhar lá... Portanto, sei que, aproveitando a sua estada, Charles vai fazer todos os contatos...

Não.

Tia Harriet...

        Tenho dito falou ela, um tanto à moda de uma rainha, com um gesto cintilante do rubi, que tinha a finalidade de ful­minar meus protestos, efeito que ela conseguiu produzir.

Desisti.

Pois bem, vou dizer a Charles. Ele ficará contente de saber que a encontrei tão bem de saúde. Haverá alguma coisa que a senhora gostaria que lhe mandássemos da Inglaterra? Livros, por exemplo?

Posso comprar tudo que quiser, menina, obrigada. Agora, estou cansada e você pode retirar-se. Leve meus recados à família, mas não pense que quero receber um punhado de cartas, pois não quero. Não as responderei. Quando eu morrer, John lhes comunicará. Não, não precisa beijar-me. Você é uma linda moça c gostei muito da sua visita, mas agora vá embora.

Eu também gostei. Obrigada por me haver recebido. Boa noite, tia Harriet.

Boa noite. John, volte diretamente para cá, depois de levá-la a seu quarto. Halide ! Aquela pequena idiota vai levar a noite inteira a trazer as pílulas? Ah, aí está você. Não se esqueça do que eu disse, John. Volte diretamente para cá.

Está bem concordou John Lethman, parecendo aliviado. Ele já me levara até metade do caminho em direção à porta.

Como despedida final, tinha a nota estranha de uma indiferença que parecia exatamente adequada. Parei um instante na soleira da porta e olhei de relance para trás. Halide achava-se novamente na cômoda, colocando na mão alguma coisa que ten­tava tirar de um vidrinho. Pouco além, atrás do brilho alaranjado do lampião, a cama era uma obscuridade elevada. Quando Halide se virou para subir mais uma vez a escada, alguma coisa se moveu nas sombras negras, ao pé da cama. Algo pequeno, cinzento e de movimento rápido. Por um momento de arrepiar cabelo, pensei que havia ratos no quarto de dormir. Mas, então, vi o animal que saltou na cama, e a mão grande e pálida saiu de trás da cortina para acariciar o bichano. Era um gato de meia-idade.

Achei que o gato era, também, meio selvagem. Quando Halide sentou-se na beirada da cama, o animal saltou para o lado e sumiu de vista. A moça árabe, reluzindo no seu vestido de seda verde, curvou-se para diante, na direção da figura oculta da velha. Estava-lhe oferecendo água em uma taça de haste alta e trabalhada. A cena parecia algo distante no tempo e fantástico, como se fizesse parte de um drama exótico, representado em um palco mal iluminado de teatro. Não poderia ter nada a ver comigo, com Charles e com a realidade.

Virei-me e sai depressa, na esteira do lampião que John segurava.

A luz bruxuleou e subiu um instante, iluminando meu rosto.

        Que é ? Está com frio?

Não, não é nada. Respirei fundo. É maravilhoso sair para o ar puro. O senhor acertou quanto àquele fumo, é fedorento demais.

Mas foi só isso? Tive a impressão de que a entrevista deixou-a aborrecida.

Acho que, de certa forma, deixou confessei. Devo dizer que achei a coisa um tanto esquisita, e não foi exatamente fácil conversar com titia.

        Em que sentido?

Bem, céus...! Oh, mas acho que o senhor está acostu­mado com isto... Minha tia está inconsistente, esquecida, e no início tentou provocar-me... E... Bem, ela parece tão exótica, e aquele cachimbo. .. Infelizmente, acho que fui um tanto sem tato uma ou duas vezes, mas eu sempre soube que titia não tinha muito tempo para conversa fiada, e achei que talvez fosse melhor dizer logo a verdade, simplesmente. Pensei que eu a tinha dei­xado aborrecida, naquela hora em que ela começou a falar bai­xinho, censurando-me, mas isto não aconteceu, não é?

Ela não se aborrece à toa. Pode crer em mim, sua tia foi sincera ao dizer que gostou de falar com a senhorita.

Achei que ele fora um tanto ríspido e lacônico. Mas quais­quer reflexões azedas que eu pudesse ter tido a respeito disto ficaram abaladas, quando John disse:

Gostaria de que me tivesse falado antes do seu primo Charles. Talvez assim eu tivesse conseguido convencê-la...

Sim, foi tolice minha não ter falado. Creio que desejei, primeiro, fazer uma sondagem da situação. Acha que ela pode mudar de idéia?

Só Deus sabe. Francamente, não tenho a mínima idéia. Assim que sua tia toma uma decisão, é difícil dissuadi-la. Algumas vezes, acho que ela só é teimosa por puro prazer... Não sei por quê, de repente, ela se firmou na decisão de não receber o sobrinho.

Nem eu. Ela o adorava... Charles era o único membro da família de quem ela gostava. E acrescentei, pesarosa:

Bem, Charles ficará furioso comigo por ter usurpado o seu direito, que é o que pareço ter feito, só Deus sabe como! Meu primo está, realmente, ansioso para vê-la... e não apenas por curiosi­dade, como acontece no meu caso. Não sei o que ele vai dizer. Titia deve ter falado nele ultimamente, não é?

        Ah, sim. Se eu soubesse que Charles estava por perto... Cuidado com este degrau. Quanto tempo seu primo vai ficar no Líbano?

        Não sei...

        Bem, se ele tiver tempo, diga-lhe que espere alguns dias, pelo menos até o meio da semana. Farei o que puder, e entrarei em contato com vocês no hotel.

Parecia que eu não podia fazer mais nada, exceto confiar nos seus bons ofícios.

Obrigada — disse. — Vou dar o recado a ele. Sei que titia mudará de idéia, quando tiver tempo para pensar direito no assunto.

Coisas mais estranhas têm acontecido — falou John Lethman, um tanto lacônicamente.

 

             Tuas promessas são como os jardins de Adônis,

             Que um dia floriram e frutificaram.

                         Shakespeare: / Henry VI

 

À noite, choveu muito.

Eu voltara para meus aposentos entre uma e meia e duas horas da madrugada. Nessa hora, a noite estivera seca, muito preta e perfeitamente silenciosa, sem nada que fizesse adivinhar a tempestade que desabaria. John Lethman me levou até à porta do meu quarto de dormir, onde eu deixara o lampião a óleo aceso, deu-me boa noite e retirou-se. Levei o lampião até o hammam, lavei-me o melhor que pude, em um fio de água fria, e depois voltei para meu quarto. Não havia chave, mas vi uma pesada barra de madeira ao lado da porta. Deixei a tranca cair cuidadosamente no seu lugar. Depois, tirei as roupas de fora, baixei a chama do meu lampião, sem muita habilidade, apaguei as velas e meti-me na cama.

Embora a hora fosse avançada e eu me sentisse cansada, fiquei acordada algum tempo, rememorando repetidas vezes a cena. Imaginei a mim mesma dizendo a Charles, a minha mãe e a meu pai, e, não sei por que, minhas palavras não me soavam bem. "Ela parecia exótica, doente, está muito velha, ficou esqui­sita naquele palácio velho..." mas nenhuma dessas frases parecia encaixar no tom insólito da entrevista. E, se ela fosse realmente se recusar a receber Charles...

Bem, mas esse problema era de Charles e não meu. Adormeci. Não sei ao certo se foi o clarão dos relâmpagos ou a trovoada quase simultânea que me fez acordar, mas, quando me movi na cama e abri os olhos, o ruído da chuva parecia sufocar tudo o mais. Nunca ouvi uma chuva tão forte. Era uma tempestade sem vento. Apenas o estalido dos trovões e as brechas que os coriscos riscavam no céu negro. Sentei-me na cama para olhar. Os arcos da janela bruxuleavam de forma dramática contra a tempestade lá fora, e os quadrados de grade trabalhada delineavam-se repe­tidas vezes, com suas perspectivas violentamente inclinadas de preto e branco. Através da janela, que eu abrira, o cheiro das flores invadiu o quarto, como outra tempestade, despertado viva­mente pela chuva. Com o aroma das flores veio também boa quantidade de chuva, atingindo o peitoril e batendo no chão com pancadas fortes de gotas grandes.

Com relutância, saí da cama e fui descalça, pisando no chão muito frio, fechar a janela. Enquanto eu tentava encontrar o ferrolho, na escuridão momentânea, meu braço ficou encharcado quase até o ombro pela chuva violenta. Fechei a janela, batendo o ferrolho com força, e, enquanto lutava para fazer isto, ouvi, vindo da direção do portão principal, o uivo lamentoso de um cão grande.

O uivo do cão é dos sons mais estranhos. Traz consigo a recordação de lobos e chacais, com o peso de um número incon­tável de morte e de desgraças. O uivo do primeiro cão ergueu-se, em um lamento latejante, e pouco depois o uivo de outro, desta vez trinado, fez-lhe companhia. Eram, é claro, os cães encarre­gados de vigiar o palácio, aborrecidos com a tempestade; mas senti minha mão, instintivamente, ficar rígida no cabo do fer­rolho da janela, enquanto eu permanecia ouvindo, sentindo tremores frios me subirem pelo corpo todo. Depois, tranquei a janela e tentei pegar uma toalha a fim de enxugar o braço molhado.

Não admira que se dissesse que um cão que uiva preveja a morte... Enquanto eu enxugava o braço e o ombro, ia pensando na lenda que Charles me relembrara, dos Cães de Gabriel, a ma­tilha da morte, perseguindo as vítimas através dos céus... Sem dúvida, o inferno parecia ter-se desencadeado lá fora, a todo vapor. Nos velhos tempos, alguém que estivesse no palácio po­deria ter imaginado que, realmente, os cães de caça da tempestade estariam agourando a vida de alguém.

Mas isto fora nos velhos tempos. Naquela época, as pessoas eram supersticiosas e teriam acreditado em coisas assim... Enquanto que, agora... Ora, tolice, não havia nada errado...

Joguei a toalha para um lado e voltei para a cama.

Uns cinco segundos depois, descobri algo muito mais perturbador do que os Cães de Gabriel. O telhado estava com go­teira. E o pior era que o vazamento ficava no canto logo acima da minha cama.

Só descobri isto — já que estava escuro — do modo mais simples, que foi o de voltar para a cama e cair bem em cima de uma poça d’água, e recebendo, no mesmo instante, um forte pingo d’água em cheio na minha nuca. Ele foi seguido por vários outros, sem parar...

Voltei para o mármore frio e comecei freneticamente a procurar meus sapatos. Os relâmpagos cometeram a perversidade de cessar quase tão de repente quanto tinham começado, e agora reinava completa escuridão. Acabei encontrando um sapato e saltitei com ele no pé, à procura do outro, mas não o consegui encontrar. Eu precisava acender o lampião. Para isto, é claro, eu teria de encontrar minha bolsa de mão, e os fósforos que — esperava eu — haveria nela. E, quando eu o tivesse feito, mais uns três litros de água se teriam entornado na minha cama. Acho que teria sido sensato arrastar a cama para outro lugar, afas­tando-a do ponto em que havia a goteira, antes de começar a procurar meus objetos, mas, pelo que eu vira ao andar pelo palácio, as camas ali eram todas pesadas e eu não poderia afastá-la, no escuro. Por isto, andei apalpando à meu redor, enquanto praguejava, procurando meus fósforos, até encontrá-los, e depois levei mais cinco minutos para conseguir acender o lampião a óleo.

Assim que o quarto ficou iluminado, em poucos segundos encontrei o outro sapato e vesti uma peça de roupa para cobrir minha nudez. Depois, afastei a cama da parede. Esta andou ar­ranhando o mármore, com um ruído surdo. Quando a cama ficou totalmente fora da goteira, a água começou a gotejar no piso de mármore. Foi só alguns minutos depois que vim a descobrir que a goteira era muito forte. A chuva cessara.

Voltei à janela. A tempestade parara tão de repente como se tivessem fechado a torneira da qual ela emanava. Eu já podia ver estrelas no firmamento. Abri parte da janela e notei que, na onda da tempestade, viera uma brisa leve, que estava impe­lindo as nuvens para longe e assobiando entre as árvores da gar­ganta. Após o frio da tempestade, o vento era quente, e deixei a janela aberta. Depois, virei-me para enfrentar meu problema.

A maior parte das roupas de cama ainda estava seca, tendo sido empurrada para fora da goteira quando eu saltara da cama. Tirei-as da cama, coloquei-as na parte seca do banco próximo à janela e depois, cambaleante, virei o colchão para o outro lado. Era feito de crinas de cavalo e muito grosso, com uma capa recente de algodão cru, e só pude esperar que ele resistisse o resto da noite antes que a umidade passasse para o outro lado. Co­loquei de lado os lençóis encharcados, recoloquei as roupas de cama enxutas no lugar, desliguei o lampião e deitei-me, vestida e com sapatos, a fim de passar o resto da noite.

Mas não consegui dormir. A goteira que pingava sem cessar no piso a meu lado parecia um ruído de tambor de guerra. Suportei aquilo talvez uns dez minutos, depois compreendi que, se não conseguisse parar aquilo, não poderia dormir. Uma vez mais, saí da cama, apalpei no escuro e encontrei o lençol encharcado, e o coloquei embaixo da pingadeira. No abençoado silêncio que se seguiu, outro ruído vindo de fora me chegou aos ouvidos, e endireitei o corpo e fiquei ouvindo.

Agora, não eram os cães da morte, que se achavam quietos. Era um pássaro, cantando no jardim, um canto alto e cheio, que ecoava da água e das paredes que cercavam o pátio. Outro se juntou a ele. E depois um terceiro, cataratas de som enchendo o ar puro.

Tirei a tranca da porta e segui pela galeria.

A superfície do lago apresentava um brilho leve, mais claro do que a luz difusa das estrelas que ela refletia. Salpicos de água da chuva batiam com intermitência nas águas do lago, vindos dos arbustos, impelidos pelo vento. O canto dos rouxinóis enchia o jardim, saindo do emaranhado de trepadeiras encharcadas e reluzentes.

Dois pombos brancos saíram como um foguete de seu poleiro, na arcada ocidental, e desapareceram, batendo as asas, sobre minha cabeça. Alguma coisa ou alguém movia-se na escuridão, sob os arcos. Um homem, caminhando sob a galeria. Movia-se muito lentamente, e em face do ruído dos pássaros e do farfalhar das folhas, eu não o podia ouvir, mas não era nenhum árabe vestido de branco. Devia ser John Lethman. Talvez tivesse vindo ver se eu precisava de alguma coisa, em virtude da tempestade.

Esperei mais alguns momentos, mas ele não veio, e não vi mais nada. Voltei, pisando suavemente, para meu quarto, fechei minha porta contra os rouxinóis e voltei para a cama.

 

Acordei com alguém batendo na porta e o Sol inundando meu quarto de luz.

Era Halide, com minha refeição matinal, um prato de pão integral, um pedaço de queijo, a costumeira geléia de damasco e um enorme bule de café. A moça árabe parecia cansada e ainda me olhava de soslaio com aquele olhar sombrio, mas não fez ne­nhum comentário sobre a desordem do quarto, o lençol enchar­cado no chão, nem mesmo a respeito da cama, que se afastara mais de um metro e vinte centímetros da parede. Quando lhe agradeci pela bandeja de comestíveis e lhe disse alguma coisa acerca da noite tempestuosa, ela se limitou a confirmar, sombria­mente, com um gesto de cabeça, e saiu.

Mas tudo o mais era alegre nesta manhã, até o hammam, com a luz do Sol penetrando em cataratas pelos vitrais azuis e âmbar do teto, e iluminando as bacias de alabastro e as paredes de mármore claro com uma luz ondulante e quase aquosa. A água gotejava — mais fria do que nunca — saindo da boca de um delfim para uma concha de prata. Lavei o rosto e as mãos, voltei para meu quarto e me vesti, depois carreguei a bacia para fora, para a luz deslumbrante do Sol, na beirada do poço.

O calor dourado e o céu azul e elevado dificultavam lembrar-me da tempestuosa noite anterior, mas, aqui e ali, na alameda, onde as lajes tinham afundado, ou nos poços cavados ao redor das raízes das árvores para captar a água da chuva, a água continuava brilhando, com alguns centímetros de profundidade. As ervas daninhas que havia entre as pedras já pareciam ter nova­mente crescido, as flores estavam mais vivas e os arbustos luzidios e refrescados. Até a água do poço estava mais clara, e ao lado dela um pavão, de pé, contemplava sua imagem, com a cauda bem distendida, parecendo inteiramente artificial, como alguma coisa saída de uma gravura de livro, ou um pássaro empalhado e encastoado de brilhantes. Havia outro pássaro, pequeno e dou­rado, empoleirado sobre um laurel cor-de-rosa. O pequeno quiosque da ilha, recém-lavado pela água da chuva, exibia uma cúpula dourada e um clarão de ladrilhos de um azul-vivo. Um dos rou­xinóis cantava, fazendo serão por entre as rosas.

Perguntei a mim mesma por que John Lethman teria saído da cama, ontem à noite.

Meia hora depois, o mordomo da titia apareceu. Não demonstrava ter ficado afetado pelas suas excursões noturnas. Pa­recia alerta e totalmente acordado, tendo o aspecto mortiço sumido dos seus olhos, que agora se apresentavam de um cinzento-claro, e muito brilhante. Movia-se com energia e precisão e me cumprimentou quase alegremente.

        Bom dia.

        Oh, olá... Chegou bem na hora. — Saí da minha porta, com minha bagagem — uma bolsa de mão — pronta para ir embora. — Eu estava justamente pensando em ir à sua procura, com a esperança de que os cães estivessem presos.

Sempre ficam presos durante o dia. Eles a acordaram, ontem à noite? Infelizmente, houve uma tempestade tremenda. A senhorita dormiu a noite inteira? — E aqui seus olhos, pas­saram por mim e contemplaram a desordem do quarto. Ca­ramba! a coisa aqui esteve feia, hem? Que aconteceu ? Não me diga... O telhado estava com goteira?

Claro que estava ri eu. Afinal de contas, o senhor resolveu achar que eu era de terceira classe, hem? Não, estou só gracejando. Tirei a cama de debaixo da goteira e consegui dormir um pouco. Mas o colchão ficou todo molhado...

Isto não importa, secará em cinco minutos, assim que for colocado ao sol. Sinto muito, a calha do telhado deve ter ficado entupida novamente. Nasirulla jurou que a havia limpado. Con­seguiu mesmo dormir ?

Muito bem, obrigada. Não se preocupe, há males que vêm para bem...

Quer dizer, então...?

Que, se eu não tivesse dormido aqui, a vítima da goteira teria sido o senhor...

Isto é bem verdade. Mas a sua presença aqui encanta a todos. Sua tia ficou muito animada, ontem, depois que a senho­rita a deixou.

Não diga... Eu não a cansei?

Pelo contrário. Ela continuou conversando comigo muito tempo depois de a senhorita ter ido embora.

Não há mudança nenhuma a respeito de Charles, não é?

Ainda não, infelizmente, mas é preciso dar-lhe um pouco de tempo. A senhorita já está pronta? Vamos? — E seguimos rumo ao portão.

Ela o fez ficar acordado até tarde da noite? — indaguei. Parece duro, ficar tanto tempo sem dormir e ter de trabalhar durante o dia...

Não muito. Fui para a cama antes da tempestade.

A tempestade o fez acordar, não fez?

De forma alguma. E ele riu. E não pense que abandono o meu dever. Sua tia gosta muito de tempestades. Ela daria uma katisha maravilhosa.

Mas para quem tem mentalidade científica não há nada que seja formidável na queda de um punhado de coriscos? — citei eu, e o ouvi rir novamente, baixinho, para si mesmo. Bem, ela tem razão, eu também gostei da procela. Pelo menos, dos resultados da chuva. O jardim ficou maravilhoso.

Percebi um olhar de soslaio rápido.

A senhorita saiu?

Só por um instante. Saí para ouvir os rouxinóis. Oh, olhe para as flores! Será por causa da tempestade? Outros males que vêm para bem?

Estávamos atravessando o pequeno pátio onde eu e Hamid esperáramos no dia anterior. Aqui, também, a chuva lavara com­pletamente o lugar, e os pilares de mármore luziam, brancos, ao sol. Aos pés deles, os cochos eram um clarão de anémonas ver­melhas, escancaradas, abertas e reluzentes como sangue fresco no capim comprido.

Meus jardins Adônis — disse John Lethman.

Seu o quê?

Jardins Adônis. Suponho que a senhorita conhece a his­tória de Adônis, não é?

Sei que Afrodite foi ao encontro dele no Líbano e que ele morreu lá, e que toda primavera seu sangue mancha o rio, o qual corre, vermelho, para o mar. Que é, ferro na água?

Sim. É uma das histórias de ressurreição da primavera, como o mito de Perséfone ou de Osíris. Adônis era o deus do milho, o deus da fertilidade, e ele morre e ressuscita. Os "jardins Adônis" são — poder-se-ia dizer — os pequenos símbolos pessoais da morte e da ressurreição. E são, também, magia simpática, pois as pessoas que os plantavam, e forçavam as sementes e flores para crescerem tão depressa quanto possível, pensavam que estavam ajudando a colheita do ano. As flores e ervas germinavam, defi­nhavam e morriam em poucos dias, e depois os "jardins", com a imagem do deus, eram pegados, com as mulheres lamentando-se e loucas de pesar, e levados para o mar, onde eram jogados nas águas. Vê? Aqui, tudo estava misturado com o culto de Dionísio e de Osíris, e pelos ritos de Átis, e ainda persiste, só em formas puras e bonitas. E isto, em todo o mundo, creia ou não. — E parou um instante, com o olhar cravado em mim. — Desculpe, foi uma conferência e tanto.

Estou gostando, prossiga. Por que plantou os jardins aqui?

Não há motivo algum, exceto que esta é a época adequada do ano, e é muito interessante ver com que rapidez eles crescem e morrem, aqui no próprio vale de Adônis. Não acha interessante?

Acho. É a idéia romântica que me atrai mais do que tudo. Mas por que para o senhor? Isto é, o que Adônis & Cia. têm a ver com a medicina psicológica? Ou isso foi idéia de tia Harriet?

Oh, não, eu já lhe disse que ia escrever um livro...

Eu estava interessado na psicologia da posse religiosa, e estou abordando alguns aspectos das religiões místicas do Oriente Próximo... O mito de Orfeu, o de Dionísio e a história de Adônis nos seus vários aspectos. É só isso. Tenho alguns assuntos locais muito interessantes. — John sorriu, talvez um tanto enver­gonhado. — Mas, na verdade, não desisti do livro. Logo que eu sair daqui, irei para os povoados das montanhas. Se a senhorita ficar aqui até lá, poderá...

Cavalgar?

Agora, estávamos no midan, o grande pátio de entrada. John fez um sinal de cabeça para o outro lado do pátio.

        Ainda há um cavalo aqui. Sabe que sua tia costumava montar, até dois anos atrás? Ela é realmente notável... Ei! A porta continua fechada. Nasirulla ainda não chegou. — Olhou de relance para seu relógio de pulso. — Nasirulla está atrasado. Vou demorar meio minuto, enquanto a abro e deixo Kasha res­pirar um pouco.

John abriu a meia porta e tornou a prendê-la na parede, com uma tranca de madeira que parecia estar um tanto podre. No interior semi-escuro um cavalo estava cochilando em pé, a cabeça baixa e as orelhas caídas. Um alazão árabe.

        O senhor usa roupas árabes de montar quando sai a cavalo? — quis saber eu.

John mostrou-se surpreso.

Geralmente, uso. São mais frescas. Por quê? Espere um instante... A senhorita não disse que fora às nascentes do Adônis, ontem? Viu-me lá em cima?

Sim, em alguma aldeia além da catarata. Reconheci o cavalo. O senhor estava com os cães em sua companhia — sorri. — Parecia muito romântico, principalmente com os galgos salukis. O senhor divertiu-me muito...

E agora estraguei o quadro? Afinal de contas, não sou um emir árabe, com seu falcão e seus cães de caça, perseguindo uma gazela. Apenas um desocupado que encontrou um refúgio preguiçoso ao sol e talvez nunca tenha coragem suficiente para sair dele.

Não respondi, pelo simples motivo de que não sabia como responder. As palavras dele eram amargas, mas ditas sem nenhum tom de ressentimento. E, mesmo que eu tivesse desejado, não havia nenhuma resposta consoladora para dar. John Lethman devia saber, tão bem quanto eu, que seu emprego morreria com Lady Harriet. Ou não? Estaria ele jogando uma parada que valeria o próprio castelo, e uma "toca preguiçosa para esquentar sol" de sua propriedade? John dissera que aquele era "um lugar maravilhoso para se escrever"; e, por mais que eu pudesse dis­cordar dele, ocorriam-me lugares piores para um homem sem ambição se estabelecer, para levar uma vida diletante em um clima delicioso, e com uma virgem do paraíso de quebra... Talvez acontecesse que o abandono do castelo se devesse não à falta de dinheiro, e sim à idade ou à indiferença. John Lethman poderia muito bem saber que devia haver recursos financeiros, não só para arrumar parte do palácio com todo conforto, mas até para fugir dele, se fosse preciso. Não era um mau emprego...

Achávamo-nos no portão. Não havia nem sinal de Jassim, e por isto John Lethman puxou para trás os ferrolhos pesados e abriu a porta de bronze. Lá fora, o Sol dardejava seus raios sobre o platô rochoso. Não se via ninguém lá fora.

Seu motorista ainda não chegou — disse John. — Se prefere voltar e esperar lá dentro...

Agradeço muito, mas acho que vou caminhar ao encontro dele. E obrigada por tudo que fez, Sr. Lethman. — Estendi a mão, que ele segurou, mas, quando eu ia seguir adiante, ele afirmou que tanto ele como tia Harriet tinham gostado muito da minha visita.

E farei realmente o que puder, para que ela receba seu primo, mas se eu não conseguir... — hesitou, seus olhos claros toparam com os meus, e ele afastou o olhar... — Espero que não fique muito zangada comigo por isto.

Ora, isto não é da minha conta. Não tenho nada com a maneira de viver da minha tia, e se Charles estiver realmente muito desejoso de falar com ela caberá a ele dar um jeito de conseguir isso. Então, adeus, e novamente obrigada. E espero que o livro seja bom.

O enorme portão fechou-se. O palácio cerrava-se mais uma vez atrás de mim, as paredes silenciosas de pedra cozida refletindo o clarão da rocha branca lá embaixo. Diante de mim, o vale estendia-se em todo o brilho forte da manhã.

O sol achava-se atrás de mim, e a trilha do rochedo estava à sombra. Aqui também notava-se logo o efeito da chuva da noite anterior. Até o cheiro das pedras era mais fresco, e a poeira se transformara em lama, que secava rapidamente, rachada em milhares de pontos. Eu seria capaz de jurar que havia botões frescos nas figueiras que ficavam diante do rochedo. Fiquei ima­ginando se veria Hamid atravessando para vir a meu encontro, quando chegasse ao pé do rochedo.

Mas não havia sinal do motorista, e ao chegar ao Nahr el-Sal'q vi o motivo disso: o rio tinha transbordado.

A ventania atuara também aqui, e desta vez para piorar as coisas. Devia ter havido, na área de captação de águas, uma precipitação mais forte do que a que tivéramos no vale. Poderia, até, ter-se juntado à neve que se derretia no alto das montanhas e que descia em grande quantidade vale abaixo, pois o Nahr el-Sal'q parecia ter subido pelo menos setenta centímetros e descia o vale, transformado em uma caudal violenta. No ponto em que, no dia anterior, a pilha de pedras que tinham flanqueado a velha ponte romana tinha ficado pelo menos trinta centímetros fora da água, agora não se podia ver nada além do branco zan­gado de água dividida, enquanto o rio, cheio de lama vermelha, descia em cascata ao encontro do rio Adônis.

Há alguma coisa, em todos nós, que não pode aceitar tranqüilamente a mudança repentina de circunstâncias. Não me parecia possível que eu estivesse realmente isolada do lado errado do rio. Ele devia ainda continuar como estivera ontem, ligeiro, mas claro e fácil de ser atravessado, se fosse possível encontrar o lugar certo. Fiquei de pé lá na beirada rochosa do rio, que esta manhã parecia mal poder conter o assalto da água redemoinhante, e olhei fixamente ao meu redor, desalentada. Devia ter sido por isto que Nasirulla não viera trabalhar, esta manhã. Mesmo que Hamid tivesse vindo buscar-me — e ainda não havia nem sinal dele — não poderia atravessar o rio, como eu também não podia. Achava-me aprisionada aqui, entre a torrente furiosa do Nahr el-Sal'q e a torrente, maior ainda, do Adônis. Se eu não con­seguisse atravessar o vale entre os dois, e passar para o outro lado, em algum lugar onde a correnteza fosse bem mais estreita, sem dúvida estava presa ali. Achei que, assim que a cheia começasse a ceder, as águas desceriam com a mesma rapidez com que tinham subido, mas não tinha nenhum meio de saber quando isso aconteceria.

Nesse ínterim, Hamid sem dúvida viria da aldeia buscar-me, e portanto a única alternativa era eu ficar sentada ao lado da tor­rente e esperar o aparecimento dele. Atrás de mim, o palácio, afastando-se da cabeça do rochedo, era invisível, mas pouco adiante eu via claramente a aldeia, suspensa bem alto ao longo da beira do vale. Olhei ao meu redor, encontrei um rochedo achatado lindamente lavado pelas águas da chuva, e sentei-me a fim de esperar.

Foi então que vi o menino.

Eu seria capaz de jurar que não houvera nenhum movimento. Parecera-me que um instante eu estivera olhando fixamente para a água da torrente e além desta, vendo a margem de pedra ao sol, enfeitada por um punhado de arbustos verdes. No instante seguinte, surpreendi-me olhando diretamente para um menino, robusto e rústico, no seu cafetã simples. O menino devia ter entre doze e quinze anos de idade. Achava-se descalço, a cabeça também não tinha chapéu e era coberta por uns cabelos fartos e escuros, em desalinho. A pele era de um castanho-escuro. Acha­va-se de pé, ao lado de uma moita, apoiado em um cajado, imóvel.

Parecia estar olhando diretamente para mim. Depois de hesitar um instante, levantei-me do meu pedregulho e voltei para a margem do rio. O menino continuou imóvel.

        Ei, menino! Você fala inglês? — minha voz foi abafada pelo ruído das águas que corriam entre nós dois, e me levantei e tornei a tentar. Você está-me ouvindo?

O menino fez um sinal afirmativo de cabeça. Notei, admi­rada, que era um aceno de cabeça cheio de dignidade, que se poderia ter esperado de um ator, mas não de um pastorzinho. Pois agora notei que ele era pastor; uma ou duas das cabras que eu vira ontem moviam-se lentamente à vontade, pela encosta atrás do menino, comendo as folhas esparsas, enquanto andavam. Depois, com um movimento que era todo de menino e sem ne­nhuma dignidade, ele fincou sua vara de madeira no chão ro­choso e saltou para o seu lado. Agora, estaríamos apenas a uns sete metros um do outro, mas tendo entre nós todo o fragor do Nahr el-Sal'q.

Experimentei novamente.

Onde posso atravessar o rio?

Desta vez, ele sacudiu a cabeça.

Amanhã.

        Eu não disse "quando", e sim "onde"! — Mas, na ver­dade, o menino já respondera à minha pergunta. A dedução era clara. O vau do rio, talvez o único lugar onde se poderia atraves­sar, era aqui, e o rio levaria vinte e quatro horas para baixar de nível.

Minha consternação deve ter parecido evidente. O menino acenou com o cajado na direção do rio, correnteza acima, rumo aos rochedos muito altos que barravam a cabeça do vale, e depois para baixo, para onde os dois rios corriam juntos, em uma con­fusão de espuma branca manchada de vermelho.

Ruim! — gritou ele. — Tudo ruim 1 Você fica aqui — De repente, sorriu, um sorriso muito infantil, mostrando duas falhas nos dentes brancos. — Você está hospedada com a Lady, não é? Com a irmã do pai do seu pai?

Meu...? — E tornei a repetir o que ele dissera. O me­nino tinha razão. E, naturalmente, fora Nasirulla quem espa­lhara a notícia. E agora, todos no povoado já deviam saber disso. — Sim. Você mora no povoado?

Fez um gesto, não na direção do povoado, e sim do panorama rochoso e das cabras.

        Moro aqui.

        Você pode arranjar uma mula? Um burrinho? — Eu pensara no cavalo de John Lethman, mas deixaria isso como último recurso. — Eu lhe pagaria bem! — gritei.

O menino tornou a sacudir a cabeça.

        Não há mula, e o jumento é pequeno demais. Vocês dois morreriam afogados. O rio é perigoso. — Depois de pensar um instante, o menino acrescentou, à guisa de explicação: — Ontem à noite choveu.

        Você deve estar brincando.

O menino compreendeu o significado, embora não me pudesse ter ouvido. O sorriso com falha de dentes tornou a luzir em sua boca, e depois ele apontou na direção do povoado. Eu não o vira olhar naquela direção, mas, quando olhei, vi Hamid, uma figura alta e esguia, trajando calças de um azul-escuro e camisa azul cor de aço, sair do meio da densa sombra sob o muro de sustentação que segurava a aldeia no alto do penhasco e co­meçar a descer a trilha.

Virei-me para o menino.

As cabras continuavam lá, ainda pastando. O rio estrugia; a aldeia distante parecia tremer, sob a onda de calor; mas ali na margem rochosa, não havia sinal algum de nenhum menino. Só as rochas cobertas de água, luzindo ao sol, e no lugar em que o menino estivera de pé uma cabra peluda e preta olhava para mim com dois olhos frios e amarelados.

"Um país onde tudo poderia acontecer."

Por todos os deuses juntos disse eu, em voz alta. Gostaria que você cumprisse essa promessa, meu caro primo, aqui e agora, e não estou brincando.

Uns dez segundos depois, descobri que o pequeno vulto ao longe não era Hamid, e sim o próprio Charles, descendo depressa a encosta do morro, vindo na minha direção.

 

             Enquanto o suave Adônis corria da sua rocha nativa

             Para o mar, purpurino...

                     Milton: Paraíso Perdido

 

Sem dúvida, realmente um país onde tudo pode acontecer. Depois da minha noite acidentada entre os personagens de contos da carochinha do palácio: pavões, criados mudos, jardins de harém... nenhum toque de mágica poderia surpreender-me. O que me espantou levemente foi eu ter distinguido imediatamente Charles de Hamid, pois a distância não era pequena. Distin­guira-o imediatamente, e com uma onda tão pronta e tão calma de prazer.

Fiquei sentada ao sol, em cima do meu rochedo, observando-o.

Quando Charles se encontrava ainda a alguma distância, alguma coisa pareceu ter-lhe prendido a atenção, pois ele parou e se virou, aparentemente para se dirigir a um trecho de sombra, sob uma cerrada moita poeirenta. Enquanto eu observava, o trecho de sombra virou uma cabra preta, e agachado ao lado dela, de pernas cruzadas a seu lado, o pastorzinho, o cajado ainda caído a seus pés, na poeira. A conversa durou só um minuto ou dois, e então o menino se levantou e os dois desceram juntos rumo à margem do rio.

Aproximei-me novamente da beirada do rio, e ficamos de pé, contemplando-nos mutuamente, tendo entre nós os sete metros de águas turbulentas e avermelhadas.

        Olá! - falou Charles.

Olá! — gritei. E depois, uma afirmação desnecessária: Estamos encrencados. É uma cheia relâmpago.

É o que parece. Bem feito para você. Usurpou os meus direitos. Como vai tia Harriet ?

        Muito bem. Você chegou cedo. Como conseguiu?

        Vim hoje cedo. Lá no hotel me informaram. Estive com seu motorista, e lhe disse que viria buscá-la.

- É mesmo? Ótimo, pois venha buscar-me...! Oh, Charles, o menino diz que a cheia cederá só amanhã. Que vamos fazer?

        Irei para a sua margem — falou meu primo.

        Você não pode! É muito fundo. Ontem à noite choveu em Beirute?

        Ahn? Repita isso!

Choveu? — disse eu, gesticulando rumo ao céu sem nuvens.

Choveu?

Não sei por que vamos ficar aqui, a sete metros um do outro, gesticulando e gritando como dois bobos e falando a res­peito do tempo — disse Charles, começando a desabotoar a camisa.

Charles, você não pode! — gritei, alarmada. — E não adiantaria nada, mesmo que você pudesse atravessar...

Você pode olhar ou deixar de olhar, como quiser — falou meu primo. — Lembra-se dos bons tempos, em que costumávamos tomar banho juntos? Não se preocupe, eu darei um jeito de passar para o outro lado.

Estou impaciente para vê-lo afogar-se — falei, com rispidez. — Mas, se você ao menos me desse atenção...!

Charles parou de desabotoar a camisa e olhou para mim, indagador: — Diga...

Dei uma espiada rápida por cima do ombro. Parecia errado estarmos gritando nossos negócios particulares ali em pleno vale, mas eu só podia ver o emaranhado de arbustos e de árvores do rochedo atrás de mim. O palácio ficava fora de vista, e nada se movia na trilha.

        Não adiantará nada você atravessar — gritei. — Ela disse que não o vai receber.

Ela não me quer ver?

Confirmei com a cabeça.

Por que não?

Fiz um gesto.

Não lhe posso dizer aqui, mas ela não quer.

Então, diga-me quando.

        Nunca... Foi o que ela disse. Ela não o quer ver mais, Charles, sinto muito...

        Ela disse mesmo isso a você?

        Sim, e parecia um tanto... — E aqui minha garganta, dolorida de tanto gritar, fez-me parar e tossir.

Vi Charles fazer um movimento de intensa irritação, depois ele se virou para o menino que se achava de pé atrás dele, perto da cabra preta. Eu me esquecera completamente do garoto. Não sei por que não contei com ele como platéia para nossa conversa, considerando-o tão importante quanto as cabras, as pedras ou as rochas.

Pelos gestos do menino, ajudando pelo bastão com que apontava, parecia claro que Charles o estivera interrogando. E, pouco depois, Charles voltou-se para mim e tornou a gritar.

O menino diz que eu posso atravessar em um ponto mais acima.

Ele me disse que não havia nenhum ponto para atraves­sar o rio.

Eu ainda posso fazer umas duas coisas que você não pode — retrucou ele. — Em todo caso... não podemos ficar aqui gri­tando coisas íntimas a respeito de tia Harriet, por cima de sete metros de águas de inundação. — Um gesto indicou o palácio, invisível, acima de mim, no alto do rochedo. — Não posso atra­vessar aqui, mas preciso falar com você. Ahmad diz que há um lugar, rio acima, onde se pode passar. Você pode subir ao longo da beira do rio, do seu lado?

Vou tentar.

Virei-me e comecei a subir pelo meu lado do rio. Não havia nenhuma trilha, e aqui a água passava bem perto, sob o rochedo, e, portanto era difícil avançar, e também dificultado por umas moitas densas de arbustos e de pequenas árvores. Em breve, perdi de vista Charles e seu guia, enquanto lutava para avançar no meio de arbustos e de pedras, com a atenção voltada apenas para não cair.

O Nahr el-Sal'q parecia fluir na maior parte do seu comprimento em uma garganta bem cheia de árvores. Estas, junto com o terreno acidentado, tornavam-me impossível ficar sempre à vista da água. Vi de relance, mais umas duas vezes, Charles e o menino, e depois os dois sumiram, aparentemente seguindo alguma trilha tortuosa de cabras, para o meio das moitas.

Fui seguindo lentamente e de maneira penosa ao longo do meu lado da garganta, na extensão de um quilômetro, para en­contrar a torrente fazendo uma curva e seu leito penetrando pro­fundamente em uma garganta mais estreita, onde as águas caíam de poço em poço, em uma série de corredeiras, profundas e velo­zes. Charles e o menino reapareceram aqui, a trilha deles, aparente­mente, passando acima da torrente, mas embora a caudal fosse estreita neste ponto, e cheia de rochas em toda parte, ainda assim não havia nenhum lugar onde me parecesse poder ser atravessada em segurança. E quanto mais estreita a garganta, mais veloz e mais violentas eram as águas, de modo que toda espécie de comu­nicação era impossível, afora a feita por meio de gestos.

O menino continuava apontando rio acima, em uma espécie de gesto patético. Charles estendeu as mãos na minha direção e ergueu o polegar, em um gesto de encorajamento. Nós seguimos o caminho penosamente, separados apenas pelas águas tur­bulentas.

Deve ter sido após dois quilômetros de penosa marcha que o leito da torrente se erguia e fazia uma curva final, e corria, por assim dizer, apertado contra o rochedo.

Na verdade, o rio saía diretamente do rochedo. A fonte que alimentava o Nahr el-Sal'q era quase uma miniatura da fonte do Adônis, saltando de repente para a luz do Sol, saindo de um rombo enorme na rocha nua, que bloqueava a parte superior da garganta. Era muito menor, menos dramático e menos impres­sionante.

A fonte, um jato de água de um verde-gelo, saía do rochedo com um trovão que ecoava, ampliado, precipitava-se em um poço escachoante, depois descia violentamente entre os pedre­gulhos brancos da garganta. Alguns arbustos pendentes, enchar­cados e cobertos de espuma, oscilavam à brisa provocada pela água em queda livre. O sol castigava o rochedo, no ponto em que a água esguichava, iluminando a cascata, transformando-a em um clarão brilhante, mas, lá embaixo, no ponto em que nos achávamos, o lugar estava nas sombras e o vento provocado pela torrente era gélido.

Olhei consternada à meu redor. Se lá embaixo no vau a passagem já era difícil, e pior na garganta, aqui era impossível. O trovão das águas, ampliado doze vezes pelos seus próprios ecos, passava de rocha em rocha, de modo que, embora Charles e eu estivéssemos separados apenas por uns três metros de distância, não poderíamos ter ouvido nada do que o outro dissesse. Além disso, eu não via nenhum modo de travessia. Passar a torrente neste ponto teria sido suicídio, e acima da cachoeira se erguia um rochedo impressionante, da altura de uma catedral, batido pelo sol.

Era para esse rochedo que o menino apontava, e pouco depois, para meu alarme, Charles se aproximou da rocha. Foi então que me lembrei de que escalar rochas fora outra das formas com que (vide meu pai) meu primo estivera tentando passar o tempo na Europa. Acalmei-me. Pude apenas rezar para que ele (vide minha mãe) tivesse empregado seu tempo de forma eficiente.

Parecia que tinha. Não tenho idéia se, de fato, foi uma escalada fácil, ou se meu primo apenas fez parecer que foi, mas a coisa andou muito depressa. Charles subiu com muito cuidado, pois, em alguns pontos, a rocha estava molhada ou solta, mas dentro em pouco ele estava do meu lado do Nahr el-Sal'q. Charles desceu o último trecho quase escorregando, e veio cair em segu­rança ao meu lado.

        Olá, Afrodite.

Adônis, suponho eu... Prazer em revê-lo, mas se tiver alguma idéia de guiar meus passos trôpegos na direção do paredão norte do Eiger com você, pode imaginar coisa melhor. Não vou topar.

Não arriscaria o meu próprio pescoço precioso tentando. Não, receio que você não possa sair daqui hoje, querida prima. Aqui está muito frio, não está? E uma barulheira infernal... Vamos para o sol e para um lugar onde possamos conversar?

Sim, por Deus, vamos. Devo dizer que parece que é termos trabalho demais ir para lá apenas para conversar.

Ah, com você vale a pena falou meu primo. Espere um instante, vou dizer ao menino... Onde está ele? Você o viu ir embora?

Ora, você não adivinhou ? Aquilo não era um menino, e sim um duende. Aparece e fica invisível quando bem quer.

É bem provável concordou Charles, calmamente. Bem, ele aparecerá quando quiser uma gorjeta.

Segui Charles para fora da ravina, e em breve saímos em um pequeno platô rochoso onde o sol batia em cheio.

Aqui, também, a semelhança com a nascente do Adônis era impressionante, pois no platô ficavam as ruínas de algum templo antigo. Agora, não restava mais nada, senão os degraus íngremes do pórtico, um trecho de piso quebrado, e dois pilares ainda de pé. Originalmente, devia ter sido um templo pequeno, talvez um templo secundário dos deuses maiores de Afka, construído na fonte tributária, e agora se achava coberto de ervas daninhas, esquecido e sem dramaticidade. Tufos de alguma flor amarela cresciam entre as pedras, e na metade da subida havia uma pi-lastra, cuja argamassa caíra em um buraco, e onde um falcão fizera um ninho sujo, literalmente coberto de estrume branco.

Mas, de alguma forma, as pedras romanas quadradas, de aspecto masculino, encaixavam naquele panorama bravio com uma es­pécie de beleza.

Os degraus nos forneciam um assento à sombra de uma das colunas. O estrondo da cachoeira era isolado pelos lados da gar­ganta, e o silêncio era intenso.

Charles tirou cigarros do bolso e me ofereceu um.

Não, obrigada. Oh, Charles, estou muito contente pelo fato de você ter vindo! Que vou fazer? Não posso escalar aquele penhasco horrível, e o fauno me disse que a água não descerá antes de amanhã.

É, ele tem razão. Na verdade, há outro jeito. Ele me disse que há uma espécie de trilha subindo para as montanhas, perto de Afka, mas é muito longe, e se eu tivesse de levar o carro à estrada para ir ao seu encontro, você teria de ir sozinha, e jamais a encontraria. Acho que o menino poderia atravessar e servir de guia a você, mas talvez jamais conseguiríamos encontrar o lugar certo, pois essa região é cheia de trilhas.

E talvez cheia de javalis e tribos de nativos perigosos. Nada — disse eu, francamente — me fará subir às montanhas do Alto Líbano... Nada.

E eu concordo. — Meu primo reclinou-se para trás, preguiçosamente, contra a coluna, e soprou fumaça em direção ao sol. — Se a água não tiver descido antes do anoitecer, haverá só uma coisa a fazer: voltar para o palácio. — Ele me olhou de lado, com o cenho franzido. — Era isso que eu estava esperando fazer. Que história é essa de ela não me querer receber?

Ela apenas disse que não ia recebê-lo, e na verdade nem eu estou com muita vontade de voltar lá. Daqui a pouco eu lhe contarei tudo... Mas escute, não pude compreender por que você estava gritando comigo lá no vau... Você disse que tinha falado com Hamid, meu motorista. Ele devia ter vindo buscar-me hoje cedo.

Sim, falei com ele, e tudo está explicado. Eu vim no lugar dele. Você sabia que o pai de Ben se atrasou na viagem e que só poderia chegar em casa no domingo, isto é, ontem. Bem, ele tornou a telefonar ontem à noite, para dizer que não viria, pois tinha de ir a Alepo e talvez a Homs, e não sabia ao certo quando chegaria em casa. Por isso, eu disse a Ben que voltaria lá mais tarde, mas que desejava vir diretamente para Beirute, enquanto você ainda se achava aqui. Não tentei telefonar para você ontem à noite porque já era muito tarde quando ele me telefonou, e parti hoje bem cedo... Isto é, logo de madrugada. A estrada achava-se completamente livre, e por isso vim pelo vale Barada com a velocidade do som, e passei em vinte minutos pela fiscalização de fronteira, o que deve ter sido um recorde de todos os tempos para eles. Cheguei a Beirute por volta das oito horas da manhã. Seu motorista achava-se no saguão do hotel quando entrei e perguntei por você, e ele me disse que você passara a noite aqui no castelo e que ele prometera vir buscá-la. Por isto, eu disse a ele que não se desse a esse trabalho, pois eu mesmo viria buscá-la.

Contanto que ele não tenha perdido outro contrato por minha causa.

Não se preocupe, eu paguei a ele disse Charles. Tenho certeza de que ele arranjará outro contrato, pois o Phoenicia está sempre cheio de hóspedes querendo automóveis para excursões. Hamid pareceu ter ficado bastante satisfeito.

Então, tudo está bem. Hamid é um bom sujeito, sabe? Ontem, passei um dia ótimo.

Charles jogou as cinzas do cigarro em um montão de ervas daninhas.

Foi para ouvir isto que vim. Depois de todo o trabalho que tivemos para poder conversar direito, tomara que o que você vai-me contar seja bom. Por que usurpou os meus direitos, jovem Christy? Tia Harriet ficou tão aborrecida com você, que resolveu não receber mais ninguém?

Talvez. E me sentei. Oh, há tanta coisa para con­tar-lhe! Na verdade, não tive intenção nenhuma de ir ao palácio, mas, quando chegamos ao povoado, Hamid parou o carro, e o palácio parecia tão próximo, tão exótico e tão romântico, e, natu­ralmente, nunca me ocorreu que ela se recusaria a nos receber. Veja lá embaixo... Pode-se vê-lo daqui, também. Não parece lindo ? Tem o encanto das lendas antigas! Mas está caindo aos pedaços...!

Realmente, deste ponto elevado podia-se ver a extremidade do promontório no qual se erguia o palácio. Não deveria ficar a mais de mil e duzentos metros de distância, e naquele ar trans­parente e limpo até os galhos das árvores copadas eram clara­mente visíveis.

Estávamos contemplando, lá de cima, os fundos do palácio. Pude ver o paredão alto e nu e, lá dentro, os arcos com tetos de canteiros, cercando o brilho do lago. Um pouco mais distante, o harém estendia o punhado de tetos e de pátios, cuja disposição, ainda agora, eu não podia adivinhar. De longe, o lugar parecia completamente deserto, como uma ruína de castelo exposta ao sol.

        Está vendo o pátio verde e o lago? — falei. Aquilo é o harém onde eu dormi.

Muito adequado disse Charles. E tia Harriet?

Ela mora no pátio do príncipe.

        Era de se esperar. Bem, fale-me a respeito da sua visita. Hamid me disse que você os pegou de surpresa, mas acabou conseguindo fazer a visita.

        É, e foi só depois da meia-noite que consegui falar com titia.

Então, contei-lhe a história, sem omitir nada de que me pudesse lembrar.

Meu primo me ouviu até o fim, sem me interromper. Depois, remexeu-se, deixou cair o toco de cigarro cuidadosamente ao lado do seu pé, na pedra, e esmagou-o. Em seguida, olhou para mim, de cenho franzido.

        Uma história e tanto, hem? Bem, nós esperávamos uma situação esquisita, não é? Mas é ainda mais exótica do que você pensa.

        Que quer dizer com isto?

        Ela lhe pareceu mentalmente sã? — indagou ele, sem expressão na voz.

Tenho lido muito a respeito de momentos de "revelação". Esses momentos pareciam ser repentinos: as luzes ofuscantes da estrada para Damasco, cataratas que caem dos olhos, e assim por diante. Eu nem sequer pensara muito nisto, exceto para classificar vagamente o assunto como um "milagre", uma coisa que acon­tecia na Bíblia ou em algum outro texto importante, e não nor­malmente não na vida real de forma alguma. Porém, de certa forma menor e muito pessoal, agora tive uma revelação.

Lá estava meu primo, o mesmo rapaz que eu conhecera durante vinte e dois anos, olhando para mim e fazendo uma per­gunta. Eu o conhecera desde quando podia lembrar-me. Tomara banho junto com ele, vira-o levar surras. Zombara dele quando ele caíra do muro do pomar e chorara. Discutira sexo com ele na idade em que não tínhamos segredos físicos um com o outro. Mais tarde, quando passamos a ter, eu o olhara com uma indife­rença e uma tolerância familiares. No outro dia, ao me encontrar com ele na rua Reta, eu ficara contente, mas não fora de mim de prazer.

E agora, aqui, de repente, Charles virava a cabeça, olhava para mim e me fazia uma pergunta, e eu via, como se nunca os tivesse visto antes, os olhos cinzentos de pestanas compridas, os cabelos bem cortados, fartos e lisos, a pequena cova sob o queixo, toda a inteligência viva e todo o humor e a força do rosto do homem.

Que há com você? — perguntou ele irritado.

Nada. Que foi que você disse?

Perguntei a você se tia Harriet lhe pareceu mental­mente sã.

Ah! — E foi então que desci das nuvens. — Sim, claro que pareceu! Eu disse a você que ela se mostrou exótica e caprichosa e que esquecia as coisas, e que foi muito desagradável e agressiva de certa forma, porém... — Hesitei. — Não sei explicar bem o que quero dizer, mas sei que ela me pareceu mentalmente sã. Por mais exótico que fosse o seu modo de vestir, e tudo o mais... Charles, o olhar da titia era o de uma pessoa mental­mente sadia.

Charles confirmou de cabeça.

É a isto que eu me refiro. Espere, você ainda não ouviu o meu lado da história.

Seu lado da história? Quer dizer, com isto, que soube de mais coisas a respeito de titia, desde que nos encontramos?

Sem dúvida. Na sexta-feira, telefonei à minha família, para comunicar que ia partir de Damasco para Beirute. Con­tei-lhes meu encontro com você, e que íamos passar juntos dois ou três dias e que íamos visitar tia Harriet. Perguntei se tinham algum recado para ela, ou coisa assim. Bem, minha mãe disse que recebera uma carta de titia.

Olhei para ele, espantada.

Uma carta? Foi outro testamento, ou coisa assim?

Não, uma carta. Chegou há três semanas, enquanto eu estava na África do Norte. Deve ter sido depois que você partiu. Mamãe me escreveu uma carta para falar a respeito do assunto, e, quando telefonei, ela me disse que a carta estaria à minha espera, aos cuidados de Cook, em Beirute. Além disso, ela man­dara também a carta de tia Harriet para lá. — Enfiou sua mão no bolso interno.

Você a recebeu?

Apanhei-a hoje cedo. Espere até lê-la, e então me diga se faz sentido.

E me entregou a carta. Era escrita em um papel áspero que poderia ter servido de papel de embrulho, e a caligrafia era cheia de rabiscos e de garranchos, como se tivesse sido escrita com uma pena de cauda de ave, o que devia ter realmente acontecido. Mas era perfeitamente legível.

 

"Querido Sobrinho

No mês passado, recebi uma carta do amigo e colega do meu finado marido, Humphrey Ford, que, segundo você se lembrará, esteve conosco em Resada, em 1949, e novamente em 1953 e 1954. Disse-me que recentemente recebeu a notícia de que Charles, o filho de Henry, seu filho adotivo, está atualmente estudando idiomas do Oriente Médio, com a in­tenção (acredita ele) de abraçar a profissão do meu finado marido. O pobre Howard não pôde explicar isto claramente pelo fato — lamentável — de que está ficando um tanto caduco, mas me informou que o jovem Chas este ano virá à Síria. Se ele quiser me visitar, marcarei uma entrevista para recebê-lo. Como você sabe, não aprovo a liberdade com que os jovens são criados hoje em dia, e o seu filho é o que minha querida mãe teria chamado de um incorrigível, mas um rapaz inteligente, e eu gostaria muito de estar com ele. Há muita coisa aqui que poderá interessá-lo, no estudo da vida e dos costumes orientais.

Eu vivo muito bem, com um pequeno número de em­pregados, que são muito atenciosos e com um homem do povoado, que cuida dos cães. Samson não crê que o Dr. Young Chas ainda se lembre dele.

Lembranças à sua esposa e também ao meu outro so­brinho e esposa. A menina, nesta altura, já deve estar muito crescida. É uma coisinha estranha, mas tão parecida com o menino que pode ser chamada de bonita.

Sua afetuosa tia, Harriet Boyd.

 

Post Scriptum — O Times continua muito fino, e por isto acho que as suas reclamações deviam ter sido mais enérgicas.

Post Post Scriptum. Comprei um excelente mausoléu aqui.

Li toda a carta uma vez, depois tornei a lê-la toda, mais lentamente, e acho que minha boca ficou aberta o tempo todo. Depois, olhei para meu primo, de olhos arregalados. Charles achava-se recostado à coluna, com a cabeça para trás, os olhos apertados sob as pestanas compridas, observando-me.

Então?

Mas Charles... Quando foi que ela... A carta tem data? Há uma garatuja na parte superior, mas não a consigo ler.

É grafia árabe — disse ele, em tom incisivo. — Escrita em fevereiro. Pelo carimbo dos correios, parece que não foi postada imediatamente, e não a mandou por via aérea, e por isto a carta levou quase três semanas para chegar ao destino. Mas o impor­tante não é isto. Sem dúvida, ela foi escrita antes do testamento do Natal. Você diria ou não que isto é um convite aberto a uma visita nossa?

Claro que diria. Dois meses atrás? Bem, é evidente que aconteceu alguma coisa que a fez mudar de idéia.

John Lethman?

Você acha que isto é possível? — indaguei.

Não o tendo visto, não posso saber. Como é ele?

Alto e um tanto magro, e caminha com os ombros um pouco caídos. Olhos claros...

Minha querida menina, o tipo físico do homem não me interessa. Você diria que ele parece uma pessoa honesta?

Ora, como posso saber?

É verdade que ninguém traz estrela na testa, mas que impressão você teve dele?

Não foi ruim. Eu já disse a você que, a princípio, ele foi um tanto antipático, mas, se Hamid tem razão, Lethman não estava em perfeito controle de si mesmo, e nesse caso é evidente que ele estava fazendo o que Lady Harriet lhe mandou fazer. Mas, depois de falar com ela, atendeu-me muito bem. Talvez titia lhe tenha dito que ele não teria nada a temer de uma pe­quena exótica, por mais que ela se parecesse com o rapaz bonitão.

Charles não sorriu.

Então, você pensou que talvez ele pudesse estar prepa­rando a cama para dormir?

Esse pensamento cruzou minha cabeça — confessei — e foi sugerido por Hamid. Eu e ele concordamos em que tínhamos uma natureza desconfiada. Isso importa?

Dificilmente, já que a idéia é tanto de Lethman quanto de tia Harriet.

Acho que você não precisa preocupar-se com isso. Tive a impressão de que ela fazia exatamente o que queria, durante todo o tempo. Duvido que Lethman pudesse impedi-la de fazer aquilo que quer.

Contanto que isso seja verdade...

Juro que é. É inútil tentar fazer suposições sem nenhuma base. Ela mudou de idéia desde que escreveu a tal carta. É per­feitamente possível que ela se tivesse esquecido do quanto você foi terrível em criança... As pessoas esquecem.

Algum dia, você precisa falar-me a esse respeito. E mexeu-se. — Oh, meu Deus, não me importa o que ela ande tramando ou o que pretenda fazer, contanto que ela consiga que as coisas andem conforme seus desejos. Apenas fico preocupado pelo fato de titia ser muito velha e viver sozinha, tendo apenas a companhia do tal sujeito, de quem não sabemos nada. E o que você disse acerca do vício de maconha também não me alegrou muito. O tal Lethman pode estar bem agora, mas está no mau caminho. E tornou a mover-se, inquieto. Sem dúvida, se ela vive há tanto tempo aqui, já está habituada com os "macetes" do lugar, e você diz que teve a impressão de que ela é capaz de lidar bem com Lethman. . .

Sem nenhuma dificuldade.

Sim. Mas eu gostaria de ver isso pessoalmente. Você tem de confessar que o que houve ontem à noite está em violento desacordo com esta carta da titia.

Ora, mas teria de estar. Ela sempre teve um modo muito irregular de agir.

É verdade, mas titia não explicou o motivo por que vetou minha visita ao castelo?

        Não. Sinceramente, tive a impressão de que, tendo-me visto, ela satisfez sua curiosidade e agora quer voltar à sua vida de sempre, seja ela qual for. Como já lhe disse, titia parecia normal durante longos instantes, e depois, de repente, ficava com uma cara de quem estava muito distante dali e dizia as coisas mais esquisitas. Foi a primeira vez que estive com alguém que é maluco, e portanto não saberia distinguir uma pessoa mental­mente sadia de um doido, mas acho que nossa tia não está doida, e sim apenas um tanto distraída. Só lhe posso dizer que John Lethman me agradou muito, e que tia Harriet parecia perfeita­mente feliz e satisfeita, e não estava doente. Apenas chiava um pouco no peito, em virtude da asma. Quanto a saber em que ela estava pensando, não se esqueça de que eu mal a conhecia. Seja como for, na ocasião eu também não me estava sentindo muito bem, talvez por causa daquele fumo horrível que ela usava, e também do ruído um tanto nauseante que o narguilé fazia. Oh... E me esqueci completamente, Charles. Havia um gato no quarto, e eu não sabia disso. Devia estar escondido atrás das cortinas da cama. Eu estava sentindo uma coisa esquisita, e pensei que fosse só o efeito do quarto abafado, mas devia ser por causa disso.

        Gato? — E ele afastou vivamente a cabeça da coluna. Foi sua vez de me olhar, de olhos arregalados. Meu Deus, você disse que havia um gato lá?

Senti-me mais lisonjeada do que outra coisa ao ouvir a blasfêmia. Então, Charles não se esquecera de que eu tinha um verdadeiro horror aos gatos ?

Ninguém pode explicar uma aversão gratuita. E a aversão a gatos forte é algo tão grotesco, que até parece incrível. Admiro os gatos e gosto muito do aspecto deles. Ver gravuras de gatos é para mim um prazer. Mas não posso ficar na mesma sala com eles, e nas raras ocasiões em que tentei vencer meu medo e tocar em um gato, isto quase me fez adoecer. Os gatos são o meu pesadelo. Quando eu era criança, na escola, meus amiguinhos descobriram esta minha fobia e me fecharam em uma sala com o gatinho do colégio. Vinte minutos depois, histérica, fui salva por alguém. Foi a única coisa vulnerável, em mim, com que Charles, mesmo nas suas piores crises de garoto levado, nunca me torturou. Charles não tem aversão aos gatos, mas é tão íntimo que compreende.

Sorri para Charles.

        Não, ainda não perdi essa aversão. Não sei se a pessoa acaba-se libertando dessa fobia. Vi o gato quando eu ia saindo do quarto. Ele surgiu furtivamente de detrás dos reposteiros e saltou na cama, ao lado de tia Harriet, e esta começou a acariciá-lo. Não poderia ter estado lá o tempo todo, do contrário eu me haveria sentido mal antes daquilo, e teria adivinhado. Ocor­reu-me que talvez houvesse outra porta, dando para o quarto, que eu não tivesse notado. O raciocínio diz que devia haver, em um quarto grande como o de titia.

O rapaz ficou calado. Voltei a estudar a carta que tinha na mão.

        Quem é Humphrey Ford?

Quem? Ah, a carta. Sim. É professor de estudos orientais. É velho como Matusalém. Era amigo do meu avô, isto é, do meu verdadeiro avô, e não do seu. Pode-se dizer que é um velho caduco. Tinha a fama de dar a aula inaugural da universidade, e depois afastar-se para a Arábia Saudita, para uma licença-prêmio permanente. Isto foi antes da minha época, louvado seja Alá, mas ainda estava na universidade, e uma ou duas vezes eu e ele fizemos juntos a refeição matinal, e até, de vez em quando, ele me reconhecia na rua. Um velhote agradável.

Por que você mesmo não lhe disse que viria aqui?

Eu não tinha certeza sobre quando chegaria, e achei que seria melhor vir de surpresa, já que estava em Beirute.

E Samson? Será um nome de gato ?

De cão. Um terrier tibetano. Ela o comprou na última vez em que esteve na Inglaterra... Ele pertencia a um dos primos Boyds que morreu, e ela o trouxe para aqui, como companheiro para Dalila. A princípio, o cão era chamado de Wu ou de Pu ou alguma coisa parecida com isto, em tibetano, mas nossa tia o trocou por Sansão. Adivinhe por quê...

É sutil demais para mim. — E lhe devolvi a carta. — Eu nunca vi os cães, que estão sempre trancados, só sendo soltos à noite. John Lethman disse que eles eram perigosos.

Se Sansão não gosta dele, talvez ele estivesse protegendo a si próprio, e não a você. — Meu primo dobrou a carta e recolocou-a no bolso. Tive a impressão de que ele estava falando ligeiramente a esmo. — Aquele cachorro era um animal selvagem, se bem me lembro, exceto com as pessoas da família. Ele não a teria atacado: não dizem que há alguma coisa, na voz das pessoas da família, ou no cheiro, que eles reconhecem, mesmo que nunca tenham visto a pessoa antes?

É mesmo? — E entrelacei os dedos das duas mãos ao redor de um dos joelhos e reclinei-me para trás com o rosto erguido para o céu. — Sabe, Charles? Aquela carta poderia ser uma arma de dois gumes... Se ela se tinha esquecido do que havia na carta, quando me recebeu, talvez agora já se tenha esquecido de que mandou dizer para você não a vir visitar. Compreende o que quero dizer? Em todo caso, como já lhe contei, John Lethman disse que falaria com ela, e se estiver de boa-fé vai falar. Mesmo que ele ou ambos estejam de má-fé, Lethman não ousará ignorar a sua pessoa. Achei que ele não pretendia igno­rá-lo. Falou em entrar em contato com você. Nesse caso, você poderá mostrar a carta da tia Harriet e obrigá-lo a deixar que você a veja.

Acho que sim. Mas sua voz era distante e meu primo estava tendo dificuldade em acender outro cigarro.

Ora... Por que não volta comigo até lá, agora, já que estou realmente presa deste lado do rio e tenho de voltar para o castelo ? Podemos mostrar a carta a John agora mesmo, e ver se você pode falar à força com titia, logo à noite. John não poderá impedi-lo, se você estiver no portão. .. Charles, está me ouvindo?

Acho que não estava. Olhava para longe, para o vale dis­tante, na direção do palácio.

        Veja lá embaixo.

A princípio, não pude ver nada, exceto as ruínas do palácio, cochilando ao sol, o padrão deslumbrante de pedras coberto de sombras violentas, e o verde de árvores distantes, acinzentado pela névoa de calor. Não havia nuvens para se moverem nem vento que as movesse. Nenhum ruído.

Foi então que vi o que Charles estivera observando. A alguma distância do palácio, entre as rochas e os arbustos emaranhados que marcavam a orla da garganta do Adônis, houve um movi­mento, que pouco depois revelou ser um homem vestido à moda árabe, seguindo lentamente, a pé, na direção do castelo. Mas se conseguia distingui-lo da vegetação, pois suas roupas eram cor de poeira e o pano que lhe protegia a cabeça era marrom. E, se eu e Charles não fôssemos ambos dotados da faculdade de ver muito longe, duvido que o pudéssemos distinguir. O homem andava muito lentamente, desaparecendo de vez em quando, à medida que seu caminho o levava para trás das rochas ou o fazia atravessar os arbustos densos. Mas, pouco depois, ele saiu na rocha nua do platô, atrás do palácio. Levava um cajado na mão e parecia carregar uma espécie de saco sobre o ombro.

Parece um peregrino disse eu. Bem... Se está indo para o palácio, vai ter uma decepção, e não vejo para onde ele possa estar indo, senão para o castelo. O menino pastor deve ter razão, existe um caminho lá.

Teria de haver, não é? — disse meu primo. Nunca lhe ocorreu imaginar como foi que John Lethman chegou ao palácio antes de você, ontem?

Como sou tola, nem pensei nisto. Sim, e eu agora me lembro; ouvi dizer que o palácio ficava na velha trilha de camelos que vai do Alto Líbano até o mar. Nesse caso, deve haver uma trilha razoável. — Sorri para meu primo. — Mas não para mim, Charles, meu bem.

        Pelo contrário — falou meu primo. — Começo a achar que... Um instante, não perca aquele homem de vista.

O "peregrino" alcançara o paredão dos fundos do palácio. Mas, em vez de virar para o norte, a fim de seguir ao longo da parede do harém, dirigiu-se para o lado oposto, seguindo para o canto onde as paredes saíam quase a pique dos rochedos da garganta do Adônis. Havia um punhado de árvores marcando o ponto, e foi lá que ele desapareceu.

        Mas ele não pode contornar por aquele lado! — exclamei.

        Era para lá que meu quarto de dormir dava. O rochedo ter­mina no rio, e o ângulo é de noventa graus.

        O homem tem encontro marcado com alguém — disse Charles.

Apertei os olhos, para protegê-los do clarão do sol. Depois, vi, entre as árvores, o árabe e outro homem, trajado à européia. Os dois homens saíram lentamente e ficaram debaixo das árvores, evidentemente entretidos em conversar, e ficaram lá de pé, duas figuras minúsculas na beirada da sombra irregular.

É John Lethman? — indagou Charles.

Deve ser. Parece que há uma terceira pessoa. Tenho certeza de que vi alguém mais se mover entre as árvores. E está vestida de branco.

Sim, outro árabe. Suponho que deve ser Jassim, o porteiro.

Ou Nasirulla... Oh, não, eu me esqueci, Nasirulla não veio trabalhar, hoje, por causa da cheia do rio. Deve ser Jassim.

        Franzi o cenho. — Não compreendo. . . Eles estiveram o tempo todo à espera do homem, lá embaixo? Não estive observando. Mas, se eles tivessem vindo do portão da frente do castelo, nós os teríamos visto...

Há um caminho para contornar o castelo?

Sim, pelo lado norte, abaixo da arcada do harém. A trilha atravessa as árvores, acima do Nahr el-Sal'q, e segue ao longo da parede do palácio.

Se eles tivessem vindo por lá, sem dúvida nós os teríamos visto. Não, é evidente que deve haver uma porta nos fundos. O raciocínio revela que tem de existir. Deve estar oculta lá, entre aquelas árvores.

Uma entrada secreta? — falei. — Acho que você tem razão. Veja, ele já entregou o saco que trouxe, seja lá o que for. Agora, está indo embora. Eles nos verão, se olharem para cá?

De modo algum. Estamos na sombra desta coluna e, além disto, o sol dará nos olhos deles. Quisera ter um par de binóculos de campo, pois assim eu veria o tal John Lethman. Sim, ele já vai embora. Repare os outros. Aposto em que não os veremos desaparecer.

Reduzida a proporções diminutas pela distância, a cena possuía um aspecto curioso de coisa imaginária. Em um instante, parecera haver três homens de pé ao lado das árvores, sob o paredão, e depois, no instante seguinte, o árabe que viera a pé se virara e estava voltando lentamente entre as rochas, e os outros dois tinham sumido sob a sombra das árvores.

Esperamos, em silêncio. O árabe desaparecera e os outros dois não tinham mais saído do bosque. Sem dúvida, ali deveria haver uma entrada secreta para o palácio. O ar apresentava-se puro e transparente e as cores eram vivas, mas ainda assim o bosque ficava muito longe. Pensei, primeiro com cansaço e depois com irritação, na longa caminhada de volta, a pé, pela garganta do Nahr el-Sal'q.

Sinceramente, não gostaria de voltar para lá — disse, de repente. — Não podemos dar um jeito?

Então, você prefere experimentar seguir pela estrada dos peregrinos, até o Alto Líbano?

Não, mas você poderia dar um jeito de me levar através do Eiger, não é? Pareceu-me muito fácil.

Pareceu? — E Charles sorriu, sem fazer mais nenhum comentário.

Você não poderia?

Não, amor, não poderia. Além disso, não levaria, mesmo que pudesse. Vejo claro o desejo de Alá de que você volte para Dar Ibrahim e, desta vez, o desejo de Alá chegou na hora exata. E com isto quero dizer que ele coincide com o meu. Você vai voltar... e eu vou com você.

Vai? Então, não vai mostrar a John Lethman a carta agora, para que ele o deixe entrar?

Não. John Lethman não tem nada a ver com isso. Quem vai-me deixar entrar é você.

Sentei-me de repente.

        Se você quer dizer o que penso que quer dizer...

Talvez. Há uma entrada nos fundos, uma passagem.

E daí? — perguntei, em tom agudo.

Estive pensando... — E ele falou lentamente, com os olhos ainda fixos no palácio. — O lugar onde nos encontramos hoje cedo, o vau... fica fora da vista do palácio?

Sim, mas, Charles...

Eles já viram seu motorista, mas a mim nunca, ninguém me viu, e em todo caso eles não estão à minha espera, como você também não estava. Se eles a estivessem observando, hoje de manhã, tudo que teriam visto seria você seguindo até o rio para ir encontrar-se com o motorista, que ficou de descer do povoado. Não é isto?

Sim... Mas você não pode fazer isto, Charles! Você está mesmo pensando em...?

Claro que estou. Agora, cale o bico e ouça. Quero entrar no palácio para ver exatamente o que se passa lá, e desejo entrar agora e não esperar a problemática boa vontade de Lethman. Pois bem, parece que esta cheia do rio me forneceu uma opor­tunidade providencial; é o desejo de Alá, claro como água da fonte. A parte que você vai tomar nisso é simples e direta. Volte agora para o palácio, toque a campainha para chamar Jassim novamente e conte-lhe o que é mais ou menos a verdade. Que você não pôde atravessar o rio, e que seu motorista também não o conseguiu. Mas que você subiu ao longo da margem do Nahr el-Sal'q até onde pôde, o mesmo tendo feito o seu motorista, para ver se havia um lugar aonde atravessar as águas. Você foi até à nascente do rio, e não encontrou nenhum lugar que desse pas­sagem, mesmo com a ajuda do motorista. — E sorriu. — Até aqui, é a pura verdade. Por isto, você mandou seu motorista voltar para Beirute e vir novamente amanhã, quando talvez as águas do rio já tenham baixado. Além disso, você mandou o motorista levar um recado para seu primo Charles, dizendo que você ia passar mais uma noite no castelo e que amanhã iria para junto dele, no Phoenicia.

Mas, Charles...

Eles não podem recusar-se a deixá-la entrar. Na verdade, pareceu-me que John Lethman ficou muito satisfeito com sua presença no castelo. E quem o culparia por isso? Se você tivesse de viver naquele castelo, receberia de muito bom grado até o filho do Frankenstein...

Obrigada.

De nada. Portanto, volte para lá. Você me disse que pode andar pelo palácio e ir aonde quiser, menos aos aposentos do príncipe. Pois use dessa liberdade. Desta vez, você terá várias horas para ficar no palácio durante o dia. Tente encontrar a tal porta dos fundos; você disse que ela fica do lado em que você dormiu.

Tem de ficar. Eu já lhe contei que, ontem à noite, um homem atravessou o pátio do harém. Seja quem for, juro que não passou defronte ao meu quarto para chegar à porta principal; portanto, deve ter entrado e saído por outra passagem. Mas... Está falando sério? Você pretende mesmo entrar no castelo sem obter licença?

Por que não? Se você conseguir encontrar a porta, deixe-a aberta logo à noite, depois de escurecer, e Maomé irá à montanha.

E se eu não a conseguir encontrar?

Então, teremos de imaginar outro jeito para eu entrar. Não há janelas de frente para o platô... Não, vejo que não há. Bem, mas você disse que havia uma arcada do lado norte, de frente para o povoado, e uma trilha sob ela?

Há, sim, mas todas as janelas têm grades. Não se esqueça de que aquilo era um harém...

Você disse que o castelo está caindo ao pedaços. Não existe nenhuma grade podre ou quebrada? Ou não será possível partir uma delas?

Acho que sim. Mas as grades ficam lá no alto da parede, e...

Ora, eu posso escalar a parede — retrucou Charles. — Se ela estiver precisando de conserto, então deve conter muitos pontos de apoio. Eu sempre tive vontade de escalar uma parede para entrar em um harém.

Não duvido. Mas por que não tenta, primeiro, entrar pela via normal? Entraria comigo, pelo portão principal...

Porque, se minha tentativa falhar, talvez eles não a deixem entrar também, e então não haveria probabilidades de eu entrar lá clandestinamente. E, em qualquer dos casos, prefiro que Lethman não me veja.

Fiz menção de perguntar o motivo, mas vi a cara do meu primo e achei que seria desperdiçar tempo e fôlego. Conheço Charles. Em vez disso, perguntei:

        Bem, assim que você entrar, que faremos? E se eles o agarrarem lá dentro?

        O pior que pode acontecer é um atrito ou, no máximo, uma briga com John Lethman, e correrei esse risco. Pelo menos, poderei ver tia Harriet, quando nada para ela me passar um carão.

Olhei para meu primo.

Não entendo. Isto é, curiosidade é uma coisa, mas esta onda repentina de dedicação... Não, Charles, não compreendo. É tudo muito nobre e muito bonito, mas você não pode fazer tal coisa.

Não posso? Raciocine comigo. Você tem de voltar logo à noite para dormir lá. Mas seria perigoso você estar lá sozinha. Com minha presença lá, esse perigo ficará muito menor... Não concorda?

Nas circunstâncias — confessei — gostaria muito que o filho do Frankenstein estivesse lá.

        Obrigado. Bem, então, minha doce Christabel... Claro que opus outros protestos, e é evidente que ele acabou

vencendo, como sempre acontecia. Além disto, seu último argu­mento foi o mais convincente de todos. Por mais "romântica" que minha última noite em Dar Ibrahim tivesse sido, eu não tinha nenhum desejo de repeti-la sozinha.

Então, está combinado. — Charles levantou-se, resolutamente. — Agora, voltarei para o outro lado do rio e na hora devida, se eles estiverem interessados, me verão seguindo na di­reção do povoado. Agora, você disse que acabou de jantar cerca das dez horas da noite, e que tia Harriet mandou buscá-la por volta da meia-noite. Para o caso de ela resolver recebê-la nova­mente, estarei na entrada secreta do palácio de dez e meia da noite em diante. Se você não tiver conseguido deixar a porta secreta aberta, "latirei" duas vezes, como uma raposa, embaixo do muro, e, se o caminho estiver livre para eu saltar, você deverá fazer o sinal de caminho livre, pendurando uma toalha, ou uma peça qualquer de roupa, na janela, ou então alguma coisa de cor clara que eu possa ver bem. Sei que parece um drama de ópera barata, mas geralmente são as idéias simples que dão mais resul­tado. Na verdade, se fosse possível escalar, eu preferiria a janela, se os cães costumarem rondar o palácio à noite.

Meus Deus, é verdade. Eu me esquecera disto... Não sei se eu poderia fazer alguma coisa para contê-los. Se John Lethman vier buscar-me para tornar a ver minha tia, talvez ele os prenda, mas, do contrário...

Não se preocupe, porém temos de correr o risco. O pa­lácio é muito grande...

E o pastorzinho?

Acho que é fácil comprar o silêncio dele. Você não concorda ?

Tenho certeza absoluta de que você poderá fazê-lo — declarei eu.

E não há ninguém no povoado que possa atravessar o rio para ir comunicar que uma Porsche branca ficou na rua da aldeia o dia inteiro. Por falar nisto, esperarei algum tempo até ter a certeza de que eles a deixaram entrar novamente no palácio. Se não deixarem, volte para o vau e imaginaremos outro plano. Mas tenho certeza de que vão deixar.

Você não terá de fazer nenhum sacrifício. Quanto a mim, terei de passar outra noite sem ter sequer uma camisola de dormir.

A culpa disso não é minha, é o desejo de Alá. Eu lhe levarei uma escova de dentes logo à noite, mas quero ser mico de circo se eu conseguir atravessar o paredão rochoso carregando uma camisola de dormir. Peça uma camisola emprestada à tia Harriet.

E, com esta nota de inadequado consolo, Charles seguiu na minha frente, rumo à cachoeira e à garganta estreita.

 

                   Mas quem te revelará quem é o visitante noturno?

                                 Alcorão: Sura lxxxvi

 

Tudo se passou exatamente como Charles o teria desejado. Talvez Jassim tenha pensado que era Nasirulla quem estava tocando a campainha para entrar, pois abriu imediatamente o portão, e quando viu quem era deixou-me entrar apenas com uma careta sombria, e, em um instante ou dois, eu estava expli­cando as circunstâncias a John Lethman.

Se ele ficou aborrecido com minha volta, soube ocultar seu aborrecimento muito bem.

Como fui imbecil em não ter previsto que isso acontecesse, principalmente pelo fato de Nasirulla não ter aparecido para trabalhar. Já sucedeu muitas vezes, depois de uma chuvarada como a de ontem à noite, principalmente quando a neve está derretendo. Claro que a senhorita deve ficar. Subiu mesmo ao longo da margem do rio, para tentar encontrar um lugar para atravessá-lo?

Sim, fui até à nascente, ou pelo menos suponho que seja a nascente do rio. É uma espécie de cachoeira que sai diretamente do rochedo. O motorista pensou que talvez houvesse um jeito de eu atravessar, se ele me ajudasse, mas seria necessário que eu fosse alpinista, e resolvi não correr o risco. Por isto, desistimos, e eu voltei para cá.

        O motorista voltou para Beirute?

Confirmei, com um aceno de cabeça.

        Hamid disse que não havia probabilidades de as águas descerem antes de amanhã. Por isto, encarreguei-o de transmitir um recado ao meu primo Charles, para este não vir aqui, porque tia Harriet não estava bem de saúde e não podia recebê-lo. E acrescentei: Em todo caso, foi assim que eu mandei dizer. Quando estiver pessoalmente com ele, darei explicações melhores. Vai dizer a ela que eu voltei?

John hesitou, depois ergueu a mão, sorrindo.

        Não sei ao certo. Vamos deixar a decisão para quando ela acordar, está bem ?

        O senhor é cauteloso, hem?

        Exatamente. Volte para seu jardim, Srta. Mansel. Chegou na hora do almoço.

Se Jassim conseguira transmitir a notícia a Halide ou se esta normalmente teria comido na companhia de John Lethman, eu não saberia dizer. Poucos minutos depois que ele me levara de volta ao meu quarto, no pátio do harém, a moça chegou com uma bandeja contendo refeição para duas pessoas, batendo com ela violentamente na mesa, com maus modos, e depois ficou olhando-me com cara de assassina e dirigindo uma rápida tor­rente de impropérios contra John Lethman, em árabe, e parecia uma gata brava prestes a brigar.

John ouviu calmamente, interrompendo só uma vez, com ligeira irritação, e finalmente, com uma olhada para seu relógio de pulso, fez uma declaração que pareceu satisfazer Halide. Em todo caso, a observação do homem a fez silenciar e ir embora, com outra olhada na minha direção e um farfalhar de roupas pretas. Nesta manhã, nada de sedas bonitas, conforme notei, e nada de pinturas; apenas um vestido de trabalho, de um preto-desbotado, e até um tanto sujo. Pensei, um pouco irritada mas divertida, que, se ela pensava que eu seria sua concorrente, não precisava contar comigo. Havia vinte e quatro horas que eu não me lavava nem me arrumava, e devia, agora, estar ainda pior, depois de ter subido e descido ao longo da margem do Nahr el-Sal'q; mas não era exatamente possível explicar que, fosse como fosse, eu não concorreria com ela.

John Lethman estava com um aspecto de pessoa embaraçada.

        Sinto muito. Tome alguma coisa.

Trouxe um copo de vinho e o entregou a mim. Quando peguei o copo, nossas mãos se tocaram. A dele era de um castanho-avermelhado e a minha de um castanho-pálido, mas ambas da raça branca. Talvez, afinal de contas, Halide tivesse razão.

        Pobre Halide falei, bebericando meu vinho. Era o mesmo vinho de ontem, fresco e dourado. E acrescentei, depres­sa: Não é justo, já que ela tem tanta coisa a fazer. Ela ficaria ofendida, se eu deixasse uma gratificação para ela? Hoje de manhã, não o fiz porque não tinha certeza.

Ofendida? — E havia um ligeiro nervosismo na sua voz. - Não se pode ofender um árabe com dinheiro.

Que coisa sensata — disse, e tirei, de um prato, um saboroso bolo de carne no meio de um punhado de arroz. — Acaso a catarata que vi no cume do Nahr el-Sal'q tem alguma coisa a ver com o culto a Adônis de que o senhor me falou?

Na verdade, não tem, embora haja um templo menor, perto dali, que, segundo se acredita, era uma filial do templo de Vênus, em Afka. Para vê-lo, seria preciso sair da garganta. .. Não o viu, não é? Ele não vale uma viagem especialmente para isso...

O resto da refeição transcorreu de maneira agradável, e me foi fácil mantê-lo falando em assuntos impessoais, para grande alívio meu. Eu não queria exagerar minha capacidade de enganar os outros, e meu recente encontro com Charles estava ainda vivo demais na minha memória. Era melhor evitar continuar falando em assuntos de família, e eu não estava ansiosa para insistir em ter outra entrevista com tia Harriet. E neste ponto parecia pro­vável que os interesses de John Lethman coincidissem com os meus.

Logo que acabamos de almoçar, John levantou-se. Se eu não me importava... Ele tinha de ir cuidar de umas coisas... Se eu lhe desse licença, agora... Eu o dispensei depressa, quase com demasiada ansiedade. O jardim estava quente, com o calor da tarde, e eu ia ficar lá sentada, segundo lhe disse, cochilando com um livro nas mãos. E poderia eu depois andar um pouco pelo palácio? Não que eu quisesse ir ao pátio do príncipe, é claro, mas poderia ir aos outros lugares? Tão fascinante... Talvez eu nunca mais voltasse ali. .. E, é claro, eu nem por sonho pensaria em importunar tia Harriet... Nem sequer ela precisaria saber que eu ainda estava no castelo...

E separamo-nos, com uma nota mútua de contido alívio. Depois que John fora embora, levando consigo a bandeja, tirei algumas almofadas de cima do banco da janela e levei-as para o jardim, onde me instalei, na beirada do poço, à sombra de um tamarindo.

Havia silêncio quase absoluto. As árvores pendiam, com a folhagem imóvel, as flores murchavam, ao calor. Perto de mim, um lagarto grande dormia, imóvel, não se movendo nem mesmo quando uma codorniz passou por ele para ir aninhar-se na poeira, com as asas estendidas. Na ponte quebrada, o pavão exibia-se, muito animado, a uma companheira que nem sequer o estava olhando. Em alguma parte no meio das flores três-marias, que cobriam a arcada, um pássaro cantou, e reconheci o rei da noite anterior, o rouxinol. Não sei como, ele não cantava da mesma forma como o fizera sob a pressão da tempestade e das estrelas. Alguns tentilhões e um pombo começaram a concorrer com ele, e o rouxinol, com um trinado que mais parecia um bocejo, desistiu. E achei que ele fez bem. Adormeci.

Foi cerca de uma hora depois que acordei, e o calor sono­lento parecia ter tomado conta de todo o castelo. Agora o silêncio era absoluto. Quando me levantei das almofadas, o lagarto sumiu de vista, mas a codorna não tirou a cabeça de debaixo da asa. Saí para fazer uma exploração.

Não há necessidade de descrever aqui, com pormenores, minhas andanças daquela tarde. Era pouco provável que houvesse outro portão externo abrindo-se para os alojamentos das mulheres, mas a entrada secreta ficava nos fundos, e, uma vez que o pátio do harém, com seus quartos e seu enorme jardim, se estendia em toda a largura do palácio, na parte dos fundos, era evidente que minha busca teria de começar por ali. Agora, aparentemente, a entrada secreta estava oculta nas árvores, no ângulo extremo do lado sul. Quando olhei para fora do meu quarto de dormir, pela janela, pude ver o cume das árvores, onde elas se projetavam para além do canto. Estavam no mesmo nível que o peitoril da minha janela. Na verdade, o harém ficava um andar e meio acima do nível do platô. A entrada secreta deveria dar para algum corredor abaixo do platô, ou ficar ao nível do pé de um lance de escada.

Uma busca ao longo da arcada oriental e dentro do hammam, no canto, convenceu-me de que não havia nenhuma escada lá, nem uma porta que pudesse levar a uma escada, e por isto, depois de algum tempo, saí do harém para investigar nos prédios do palácio.

Tenho certeza de que o castelo não era tão grande quanto eu supunha, mas havia tantas escadas tortuosas, tantos corredores escuros e estreitos, tantos quartos pequenos que davam um para o outro, aparentemente sem ordem — muitos deles em completa desordem, apodrecidos pelos anos — que em breve perdi todo senso de direção e comecei a andar a esmo. Toda vez em que eu chegava a uma janela, olhava para fora, a fim de me orientar, mas muitos dos quartos eram iluminados apenas por clarabóias, ou por estreitas janelas que davam para corredores. Aqui e ali, uma janela abria-se para os arredores. Realmente, um pequeno pátio possuía uma arcada aberta que dava diretamente em cima da garganta Adônis, com uma vista magnífica de montanhas co­bertas de neve mais além, e de uma encosta abrupta que descia para o rio lá embaixo. Lembro-me de que uma janela do andar térreo dava para o norte, ficando na extremidade de um corredor negro, de onde se avistava o povoado; mas essa janela tinha grades, e ao lado dela ficavam mais duas portas, com grades por dentro, que davam para o que, sem dificuldade, reconheci como sendo celas de prisão.

Após andar a esmo durante quase duas horas, ficando com as mãos e os sapatos imundos de poeira, nem por sonho consegui encontrar porta alguma que pudesse ser a tal entrada secreta, nem escada que me levasse para lá. Sem dúvida, durante minhas andanças eu encontrara várias portas trancadas. A mais promis­sora delas ficava do lado leste do midan, uma porta alta com uma abertura para ventilação. Havia grades na abertura. Mas quando, depois de notar que não havia ninguém por perto, guindei-me à abertura, para dar uma espiada rápida, pude ver apenas um pátio ou dois de piso coberto de pedras redondas, que levavam para a escuridão, aparentemente ao nível e na direção errada. Não havia sinais de escada, e, seja como for, a porta achava-se fechada com um cadeado. Havia, é claro, escadas com fartura, que levavam, aparentemente, a esmo, de um nível a outro, mas não encontrei nada que pudesse definitivamente ser chamado de andar de porão ou andar inferior. O lance mais longo de escada tinha apenas doze degraus, e levava a uma galeria que cercava uma câmara que ecoava muito e com tamanho suficiente para servir de salão de baile, onde os pardais faziam ninhos no teto, e onde as três-marias tinham penetrado, através dos arcos da ja­nela. Estes, que corriam ao longo da galeria na altura dos joelhos, iluminavam os dois lados compridos da câmara, uma fileira dando para o sul e a outra para dentro, sobre um corredor, que não tinha mais nenhuma iluminação. Jatos quentes de luz do Sol atravessavam em diagonal, entrando pelos arcos externos; o ruído da água vinda da garganta lá embaixo me chegava aos ouvidos como pouco mais que um murmúrio.

Quatro e quarenta e cinco. Movi-me para o lado interno e de sombra da galeria e sentei-me um tanto cansada em um peitoril profundo, para repousar. Ou a tal "entrada secreta" era pura imaginação, ou era muito bem escondida de mim por uma das portas trancadas. Minha busca só podia ser superficial, mas eu não ousei levá-la mais adiante. Não tivéramos sorte e, afinal de contas, Charles teria de entrar pela janela. E isto é bem feito para ele — pensei, irritada, enquanto batia nas minhas calças compridas a fim de tirar a poeira.

Sob certo aspecto, eu tivera sorte: não encontrara ninguém a tarde inteira, embora ocupada em espiar por janelas, e eu tivera sempre o cuidado de manter sempre o ar inocente de quem está andando à toa e vendo o castelo. Realmente, várias vezes imaginei se os cães de caça estariam soltos, e se o fato de eles me terem visto em companhia de John Lethman os faria tra­tar-me amistosamente. Mas não precisava ter-me preocupado, pois não os vi. Se continuavam fechados no pequeno pátio, não davam sinais de vida. Sem dúvida, eles também tinham adormecido, com o calor da tarde.

Minha atenção foi despertada pelo ruído de uma porta que se abria em alguma parte abaixo de mim, no extremo oposto do corredor. A sesta acabara, o castelo ia acordando. Era melhor eu voltar para meu quarto, pois alguém poderia ir levar chá para mim.

Passos leves na pedra e o brilho de seda escarlate. Halide parou um instante na soleira da porta, olhando para trás para falar suavemente com alguém que continuava no quarto, as mãos morenas e esguias ajustando languidamente o cinto dourado que trazia à cintura. Livrara-se das roupas de criada; desta vez, o vestido era cor escarlate, sobre um verde-pálido, e suas sandálias douradas tinham saltos altos e frente recurvada, no melhor estilo persa. A beldade estava novamente bem vestida, e mais linda do que nunca.

E estava vestida assim para um homem. Foi a voz de John Lethman que lhe respondeu, lá de dentro do quarto, e um mo­mento depois ele a seguia até à porta. Usava um roupão árabe comprido, de seda branca, aberto na cintura, e tinha os pés nus. Tudo indicava que ele acabara de acordar.

Agora, já era tarde demais para eu me mover sem ser vista, e por isto fiquei quieta.

A moça árabe disse mais alguma coisa e riu, e John puxou-a na sua direção, ainda meio sonolento, e deu uma resposta com a boca encostada aos seus cabelos.

Fui afastando-me da janela, lentamente, na esperança de que os dois, entretidos, não percebessem meu movimento. Mas, quase imediatamente, um ruído, agora familiar, mas quase chocante no silêncio sonolento, fez-me gelar e ficar colada ao peitoril da janela. A campainha do divã do príncipe. E, depois dela, inevitavel­mente, os latidos dos cães de guarda.

Não sei o que eu esperara que acontecesse em seguida: talvez alguma reação de Halide, como o medo que ela demonstrara na noite anterior; sem dúvida, uma corrida para atender aos arro­gantes chamados. Mas nada disto aconteceu. Os dois ergueram as cabeças, mas ficaram onde se achavam. Halide, segundo me pareceu, mostrou-se ligeiramente assustada, e dirigiu uma per­gunta a John Lethman. Este deu uma resposta curta, e a moça riu. A jovem disparou uma saraivada de palavras árabes, ponti­lhadas pelo riso, e depois também começou a rir, e os cães vigias pararam de latir. Em seguida, o homem empurrou a moça para longe de si, com um gesto e um movimento de cabeça que, evi­dentemente, significavam: "É melhor você ir", e, ainda rindo, ela ergueu a mão para jogar para o alto os cabelos que caíram na testa do homem, beijou-o e foi embora, mas sem pressa.

Não fiz nenhuma tentativa para me mover. Fiquei onde estava, olhando fixamente para Halide. E, pela primeira vez desde que Charles fizera sua proposta fantástica de penetrar na­quela noite no castelo, às ocultas, alegrei-me muito por isto. Estava impaciente para lhe contar a cena que presenciara. Halide estivera usando o anel de rubi de tia Harriet. Não havia dúvidas a este respeito. Quando a moça árabe ergueu a mão para afastar os cabelos de John Lethman, a luz, saindo de algum lugar no quarto atrás do homem, iluminara bem a jóia, não deixando nenhuma possibilidade de confusões. E Halide rira quando a campainha tocara, e fora atender, mas sem pressa.

Fiquei olhando fixamente, enquanto a moça árabe se afas­tava, mordendo um dos meus lábios. De repente, lembrei-me nitidamente da cena da noite anterior: minha velha tia toda en­volta em lã e seda na sua cama luxuosa; a seu lado, Halide, observando o tempo todo com uma expressão cautelosa, e atrás de mim John Lethman...

O rapaz voltou para dentro do quarto e fechou a porta. Esperei três minutos e depois desci da galeria, sem fazer barulho, e voltei para o pátio do harém.

 

A princípio, pensei que o plano de alternativa de Charles — o plano da "ópera barata" — estava também condenado a fracassar. Na última hora entre a luz do dia e a escuridão — entre seis e sete horas da noite — explorei a arcada do lado norte do lago. Tendo sempre o cuidado de fingir que apenas me interes­sava pela vista-lá fora, andei de janela em janela, examinando as grades e o estado da pedra onde as peças metálicas se achavam cravadas. Eram todas fortes e firmes. Tão firmes, que eu não podia fazer nada, e a única que não tinha grades fora fechada com persianas pesadas. Aqui e ali, é verdade, uma barra estava quebrada ou entortada, ou a beirada da barra enferrujara e safra da pedra; mas a grade era feita de quadrados de dezessete cen­tímetros de lado, e só o espaço de metade de uma janela permi­tiria a passagem de um corpo. Tal espaço vago não existia, e não havia nada que pudesse deixar passar qualquer coisa maior do que um gato ou um cão pequeno e ágil.

E, se tivesse havido — pensei, amargamente, surpreendida com minha própria decepção — teria sido tapado de alguma forma. Eu e Charles fôramos demasiado otimistas. Afinal de contas, o castelo era um lugar isolado e titia tinha fama de ser muito rica. Portanto, era razoável, fosse como fosse o interior do prédio, que as grades que protegiam as únicas janelas de acesso fossem sempre consertadas.

Envergonha-me dizer que eu ficara lá de pé durante cinco minutos, olhando fixamente para as janelas gradeadas e imagi­nando o que deveria fazer em seguida, quando a idéia me atin­giu com toda a força e a linda simplicidade da maçã caindo na cabeça de Newton. Uma das janelas, a última, fora tapada com uma persiana de madeira.

E era de se presumir que uma persiana colocada pelo lado de dentro pudesse também ser retirada pelo mesmo lado.

Corri ao longo do corredor e contemplei ansiosamente a persiana, à luz que agora era muito reduzida.

À primeira vista, a janela provisória de tábuas me pareceu horrivelmente forte. Abas de madeira, fortes, com pregos do ta­manho de rebites, estavam fechadas com segurança dos dois lados de portas duplas, e sobre tudo isto via-se pregada uma tábua pesada, para segurá-las. Mas, quando a examinei mais detida­mente, apalpando os pregos que seguravam tudo no lugar, des­cobri, para minha alegria, que não se tratava de pregos e sim de parafusos, de cabeça grande, que eu achava que poderia retirar. Sem dúvida, no meio dos objetos diversos que havia ali, jogados por toda parte, deveria haver alguma coisa que servisse para esse trabalho...

Não tive de procurar muito. A maior parte dos quartos achava-se vazia, alguns até abertos, para arejar, com portas quebradas ou abertas. Mas a três portas ao longo do corredor me lembrei de um quarto que — quando literalmente abri caminho para encontrar a tal entrada secreta — parecera-me uma oficina cheia de objetos.

Em tempos idos, fora um quarto de dormir, mas teria servido só de quarto de quarta classe no pior dos hotéis. A cama balouçante, a mesa quebrada e cada centímetro do chão empoeirado estavam cobertos com um punhado de objetos aparentemente inúteis. Passei por entre uma sela de camelo, uma velha máquina de costura e duas espadas, chegando a uma cômoda onde me lembrava de ter visto uma faca de abrir cartas, ao lado de uma pilha de livros empoeirados.

A faca era boa e pesada, e deveria servir maravilhosamente para fazer o serviço. Levei-a até à porta e soprei, para tirar a poeira, e descobri que não se tratava de nenhuma faca de abrir cartas, e sim de uma adaga legítima, uma arma branca com um cabo finamente entalhado e uma lâmina de aço da melhor têm­pera. Voltei correndo para a janela fechada com as tábuas.

O parafuso que tentei tirar primeiro estava enferrujado e penetrara profundamente na madeira; por isto, após alguns mi­nutos de luta com ele, desisti e ataquei outro. Este, embora duro a princípio, acabou saindo. Fui para a outra extremidade. A barra de madeira ficara pendendo inclinada, e tive de ficar na ponta dos pés a fim de trabalhar nos dois outros parafusos, mas, depois de alguma dificuldade, tirei um deles e o outro se movia bem frouxamente. Deixei-o lá. Ainda não era chegada a hora de abrir o vão, antes que John Lethman se tivesse retirado. Não me preocupei com o parafuso enferrujado; se eu libertasse uma extremidade da tábua, poderia tirá-la, usando o parafuso enfer­rujado como gonzo, e deixá-la pendurada lá.

Não era provável que dessem pela falta da adaga. Ocultei-a embaixo das almofadas da janela existentes no meu quarto, fui até à fonte, para me lavar, e voltei para meu quarto na hora exata para me encontrar com Jassim carregando um lampião aceso, uma garrafa de vinho, com um bilhete que dizia que John Lethman tinha de ir jantar com tia Harriet, mas que me trariam o jantar às nove horas da noite e que me viria ver às dez horas, para verificar se não me faltava mais nada.

O bilhete concluía: "Não contei a ela que a senhorita voltou. Achei que não era a ocasião própria. Tenho certeza de que a senhorita compreenderá."

Pensei ter compreendido muito bem. Guardei o bilhete na minha bolsa de mão e olhei com nojo para a garrafa de vinho. Eu teria dado uma fortuna por uma xícara de chá.

John Lethman veio, conforme prometera, e ficou tagarelando por meia hora, retirando-se pouco depois das dez e meia e levando consigo a bandeja do jantar. Em algum momento, depois das onze horas da noite, tornei a ouvir o chamado furioso da cam­painha de tia Harriet, e em algum ponto do palácio o ruído de uma porta que batia. Depois, silêncio. Desliguei meu lampião, sentei-me algum tempo, para deixar meus olhos se acostumarem à escuridão, depois abri a porta do meu quarto e saí para o jardim.

A noite estava quente e perfumada, o céu negro, com aquele negrume claro que só se imagina existir no espaço. Penduradas nele, as estrelas apinhadas pareciam enormes, do tamanho de margaridas grandes, e a Lua estava no quarto crescente. Aqui e ali, sua luz arrancava reflexos da superfície do lago. Dois rou­xinóis cantavam em animada competição, em uma espécie de dueto angelical, pontilhado pelos ruídos ásperos das rãs do poço. Na sombra de uma coluna, quase caí em cima de uma pavoa adormecida, que fugiu, gorgolejando, entre as pilastras, assus­tando um punhado de perdizes das pedras, que explodiram, por sua vez, reclamando, pelos arbustos. Algumas rãs mergulharam na água, com um ruído semelhante ao estalido de rolhas de champanha.

Ao todo, foi um sucesso geral bem grande, e quando cheguei à persiana fiquei esperando, com todos os nervos tensos, que os cães de vigia começassem a latir, para completar o coro infernal. Esperei dois minutos e depois comecei a trabalhar na janela.

O parafuso cedeu facilmente quando o ataquei com a adaga, e baixei a barra de madeira.

Eu receava que as persianas estivessem presas de algum jeito, mas a da direita se moveu quando a puxei, e finalmente abriu-se com um rangido de dobradiças enferrujadas que pareceu um grito dentro da noite silenciosa. Assustada, empurrei-a para trás em direção à parede e fiquei esperando, com os ouvidos atentos. Nada, nem mesmo os rouxinóis se fizeram ouvir, parecendo estar sufocados.

Tanto melhor. Abri o outro lado e inclinei-me para fora.

E pude inclinar-me para fora à vontade. Exceto por alguns centímetros de ferro caindo aos pedaços que saía da pedra, em alguns pontos, a grade desaparecera completamente. Inclinei-me sobre o peitoril e forcei os olhos para ver.

A janela ficava a uns dez metros do solo, e bem embaixo dela corria a trilha que orlava o paredão norte do palácio. Para além da trilha, o solo rochoso tombava, em uma suave margem coberta de arbustos, árvores raquíticas, e alguns choupos finos que pendiam na beirada da queda para o Nahr el-Sal'q. Para a esquerda, pude ver o denso bosque de sicómoros que sombreava o cume da trilha do rochedo e ia até o vau.

Não havia nada alto por perto, em forma de árvores, exceto os choupos, altos e finos, mas nos quais era impossível subir, e não havia jeito de subir pelos paredões; mas eu achava que Charles poderia ter razão, e as paredes em ruínas do palácio lhe oferecessem pontos de apoio para os pés. Eu não podia ver muito bem ao luar, mas aqui e ali, abaixo de mim, alguma coisa pene­trava ou rompia a linha da massa, indicando que samambaias e outras plantas tinham tirado a massa de entre as pedras, e a parte de baixo, embora lisa, parecia áspera bastante para for­necer pontos de apoio a um alpinista hábil.

Bem, isso era lá com meu primo. Forcei os olhos, para ver se notava algum movimento, ou mesmo talvez o breve clarão de uma tocha, mas não vi nada. Para além das formas próximas das árvores, tudo era escuridão, uma escuridão larga e imóvel, onde as formas mais pretas apareciam, mas nada se podia ver claramente, exceto as luzes enfileiradas do povoado e o brilho distante da neve sob a lua nova. Charles teria de fazer a escalada no alto do Nahr el-Sal'q com o luar ou à luz da tocha, e mesmo essa escalada talvez fosse fácil, em comparação com a deste pa­redão a pique que havia embaixo de mim, onde meu primo não ousaria usar a lanterna. De repente, perguntei a mim mesma se, por acaso, não haveria uma corda na sala de despejo, ou em algum outro lugar no pátio. Se houvesse, talvez um dos pedaços de ferro que se projetavam da parede tivesse resistência suficiente para suportá-la. Pendurei minha toalha branca por cima do peitoril da janela, como sinal de que o caminho se achava livre, e virei-me para voltar depressa ao longo da galeria.

Alguma coisa se moveu nos arbustos perto da extremidade da ponte quebrada. Não era um dos pavões; o que se movera era grande demais, e se movera com certa consciência. Fiquei quieta, o coração disparando a bater, de repente. Avancei ao longo das moitas que estalavam, e mil cheiros me vieram às na­rinas, como um tempero agudo de folhas esmagadas. Nisto, o animal saiu lentamente para o pátio, ao luar, e ficou de pé, olhando fixamente para mim. Era um dos cães que vigiavam o castelo. Quase imediatamente, ouvi um ruído de coisa caindo na água, seguido pelo arranhar ligeiro de patas na pedra, e o outro cão veio na minha direção, correndo ao longo da orla do lago.

Fiquei onde me encontrava, gélida. Acho que não tive imediatamente a idéia de ter medo dos cães; supus que John Lethman estivesse com eles, aproximando-se pelo jardim. O que me assus­tava era o pensamento da janela reveladora atrás de mim, com meu sinal de caminho livre pendurado do lado de fora da aber­tura, convidando Charles para subir...

O segundo cão parara ao lado do primeiro, e os dois, ombro a ombro, ficaram rígidos, as cabeças no alto e as orelhas em pé. Pareciam muito grandes e muito atentos. Achavam-se entre mim e meu quarto de dormir. Apesar da situação crítica, teria dado um dinheiro considerável para ouvir a voz de John Lethman chamá-los para dentro.

Mas ele não estava por perto. Os dois deviam estar rondando sozinhos. Fiquei imaginando, alguns segundos, como teriam eles penetrado no harém. Lethman devia ter deixado aberta a porta principal quando fora embora com a bandeja do jantar, e eu cometera a tolice de não ir ver se ela estava fechada. Natural­mente, se eles latissem, Charles ouviria e ficaria avisado. Ou, se eles me atacassem, eu gritaria por John Lethman e Charles ficaria prevenido...

Meu único recurso era ficar perfeitamente imóvel e olhar fixamente para os dois cães. O luar lhes batia em cheio nos olhos, sendo refletido com um intenso brilho. Tinham as duas orelhas bem em pé, as cabeças estreitas e compridas dando-lhes o aspecto de animais de presa, como raposas.

        Cãezinhos bons disse eu, com falsidade, estendendo a mão, com relutância.

Houve uma pausa horrível. Depois, um deles, o maior dos dois, soltou um ganido súbito e fino, e vi suas orelhas inclinarem-se para o lado. Com uma espécie de alívio e tonta, notei que a cauda emplumada estava acenando para mim. O cão menor pareceu seguir o exemplo do companheiro. Suas orelhas tom­baram para trás, a cabeça da cadela baixou e ela avançou, aba­nando a cauda.

O alívio me fez ficar com os joelhos trêmulos. Sentei-me na beira de um vaso de pedra contendo flores de fumo e disse, arque­jante, sem fôlego:

        Cão bonzinho, oh, cão bonzinho! Aqui, companheiros, aqui... e, por favor, não façam barulho...Como se chamariam eles? A muito custo, lembrei-me de que seus nomes eram Sofia e Estrela. Estrela! — chamei. Sofia! Venham para cá...   Isto...   Fiquem quietos, brutamontes, idiotas grandes e peludos... Cães vigias, uma conversa fiada! Oh, cão horrível, você está molhado...

E o casal de cães ficou encantado. Fizemos umas brincadeiras bem silenciosas entre nós, até que tive certeza absoluta de que poderia manejá-los sem perigo, e depois me levantei, pegando-os pelas coleiras, pronta para pô-los para fora e assim deixar o caminho livre para Charles.

Agora, vamos embora, companheiros. É bom vocês voltarem para o trabalho, seus brutos perigosos. Daqui a pouco, vai entrar "larápio" no palácio, e quero que vocês estejam fora daqui.

Naquele exato momento, diretamente debaixo do paredão norte, ouvi o sinal de Charles, o latido duplo e agudo de uma raposa dos montes.

Naturalmente, os salukis também o ouviram. Levantaram a cabeça e senti o maior o cão ficar rígido. Mas acho que o sinal lhes pareceu o latido razoavelmente convincente de uma raposa e ainda por cima estrangeira pois, quando tornei a agarrá-los pelas coleiras, murmurando baixinho, para acalmá-los, eles deixaram que eu os puxasse na direção do portão.

Ambos eram tão altos, que eu não precisava caminhar curvada, mas me apressei ao longo da trilha com uma das mãos na coleira de cada um dos dois animais. Isto é, tentei seguir depressa adiante, mas os dois devem ter ouvido um som qualquer na extremidade mais distante do jardim, e ficaram tão intrigados que deixaram a cabeça pender pesadamente contra as coleiras, olhando para trás, de vez em quando soltando sons guturais pela garganta, de modo que eu esperava o alarme para qualquer ins­tante. Mas não houve nenhum alarme, e finalmente cheguei com eles ao portão, para encontrá-lo, contra toda expectativa, firme­mente fechado.

Não houve tempo para parar a fim de imaginar como fora que os dois cães tinham penetrado ali; talvez houvesse muitos buracos nos muros, conhecidos muito bem por eles. Concentrei-me em tentar abrir o portão. Foi uma luta, segurar os dois cães e ao mesmo tempo abrir o portão, mas acabei conseguindo fazer isto, e com uma palmadinha final amigável coloquei os dois cães para fora, fechei firmemente o portão atrás deles e corri o fer­rolho no lugar.

Por um instante, tudo foi novamente silêncio. Os sons vindos do fim do jardim tinham parado. No entanto, forçando os olhos, pensei ter visto um movimento nas sombras, ao longe. Um ins­tante depois, ouvi o passo macio. Charles entrara no castelo.

Eu partira para ir ao encontro de Charles, quando, para meu horror, ouvi os cães começarem a latir e a uivar do lado de fora do portão. Os arranhões ansiosos das patas na madeira faziam um escândalo tão grande quanto um tropel de cavalos a galope. Ainda me pareciam absurdamente amigáveis — amigáveis demais. Parecia que até o larápio que se achava lá fora gostou muito da barulheira. Agora, eu o podia ver bastante claramente, vindo rapidamente na minha direção, ao longo da frente das pilastras da arcada leste.

Corri ao seu encontro.

        Sinto muito, mas são os cães, os danados dos cães! Não sei como, eles entraram aqui, e estão fazendo um barulhão, e não sei o que fazer com eles!

Parei de repente. A figura sombria chegara junto de mim.

        Lamento sinceramente — disse ele. — Os cães a assustaram? O idiota do Jassim deixou uma porta aberta e eles pas­saram por lá.

O recém-chegado não era Charles. Era John Lethman.

 

                 Que do meu metal básico possa ser feita uma chave,

                 Que abra a porta...

  1. Fitzgerald: Rubaiyat, Omar Khayyam

 

Talvez o fato de que a escuridão estivesse ocultando a expressão do meu rosto fosse providencial. Houve uma pausa longa e terrível, enquanto eu não conseguia pensar no que dizer. Fiz uma recapitulação mental desesperada do que dissera ao saudá-lo, e achei que não podia ter revelado muita coisa, do contrário ele não teria falado de maneira tão natural. Teria demonstrado surpresa. Agradeci ao bom Alá o fato de não o ter chamado de "Charles", e escolhi o ataque como o melhor meio de defesa.

        Como foi que o senhor pôde entrar aqui, afinal?

Pensei que ele hesitou um instante. Depois, notei-lhe um movimento de cabeça.

Há uma porta naquele canto mais distante. À senhorita não a encontrou, nas suas andanças?

Não. Ela estava aberta?

Infelizmente, estava. É uma porta que nós quase nunca usamos, e que dá apenas para um punhado de quartos vazios entre este ponto e o pátio do príncipe. Talvez os aposentos dele, e os seus escravos pessoais fossem mantidos lá, outrora. E deu uma risada curta. Agora, não serve nem para escravos, pois aqui só existem ratos. Talvez tenha sido por isto que os cães passaram correndo... Normalmente, não os deixamos aproxi­marem-se dos aposentos do príncipe, mas Jassim deve ter deixado uma porta aberta em algum ponto. Eles a assustaram?

O homem falava suavemente, como, creio eu, se faz em uma noite silenciosa, por instinto. Mas eu só estava prestando atenção em parte ao que ele ia dizendo. Imaginava se os ruídos que eu ouvira antes tinham sido mesmo os da subida de Charles, ou se foram apenas da aproximação de John Lethman. Se fossem feitos por John, Charles também os teria ouvido, e esperaria no sopé do muro, ou poderia irromper na janela a qualquer instante?

Procurei falar no meu tom de voz normal.

        Nem um pouco. Por que o senhor me disse, afinal, que eles eram ferozes? São até muito mansos...

John riu novamente, um pouco fácil demais.

Algumas vezes, eles o são. Mas vejo que a senhorita conseguiu pô-los para fora...

Talvez eles me tenham reconhecido como alguém da família. .. Ou então me viram em sua companhia ontem, e por isto sabem que tenho permissão de entrar no castelo. Há só aqueles dois? Titia não tinha mais alguns cães pequenos de estimação ?

Sua tia possuía um punhado de spaniels e alguns terriers. O último deles morreu no mês passado. Se ele estivesse vivo, a senhorita teria passado um mau bocado... Ele não era nada "de estimação"... Escute, lamento muito o que houve. Imagino que a senhorita não estava na cama, não é?

Não. Estava justamente pensando em ir dormir. Tinha acabado de apagar o lampião e saí para o jardim. Está sentindo o cheiro do jasmim e das flores de fumo? E será que as rosas nunca dormem? — Fui seguindo resolutamente para o portão, enquanto falava, e ele foi comigo. — Por falar nisto, o senhor também não costuma dormir? Estava andando a esmo ou apenas tentando encontrar os cães?

As duas coisas. Estava imaginando se a senhorita estaria com esperanças de tornar a falar com sua tia.

Não. Sinceramente, não foi por isto que fiquei acordada até agora. Nem pense nisto, Sr. Lethman, compreendo perfeitamente. Boa noite.

Até amanhã. E não se preocupe, os cães não tornarão a importuná-la. Fechei a porta à chave e vou trancar esta também.

        Eu mesmo a trancarei — prometi.

O portão fechou-se atrás dele. Os cães soltaram latidos estrangulados de boas-vindas, e depois os ruídos sumiram no labi­rinto do palácio. Pelo menos, o desconcertante e pequeno inter­ludio me havia dado um pretexto seguro para trancar o portão do harém pelo lado de dentro. A chave girou com um estalido metálico que me tranqüilizou e tornei a fugir na direção da janela aberta.

Mas estava escrito que eu não dormiria, naquela noite, sem ter mais um choque. Eu já havia caminhado dois terços do caminho de volta para o lado da água, quando um "Christy", dito em voz abafada, fez-me parar de repente, e uma sombra saiu de um vão de porta escuro e se materializou aos meus olhos: era meu primo.

Fiquei ofegante e virei-me furiosa contra ele, e bastante injustamente.

Seu maluco, você quase me matou de susto! Pensei que... Quando foi que você entrou?

Pouco antes de ele entrar.

Ah, então você o viu?

Sim... Era Lethman?

Sim. Ele entrou por uma porta no canto mais distante. Os cães devem ter...

Não veio de porta alguma. Surgiu da ilha — falou Charles, em tom incisivo.

Da ilha? Ora, mas é impossível!

Pois eu o vi. Ouvi alguns ruídos esquisitos quando me achava na metade da subida do paredão, e por isso subi com muita cautela e dei uma boa espiada por cima do peitoril, antes de entrar pela janela. Eu a vi seguindo ao longo da alameda com os dois cães. Deixei-a chegar até à extremidade mais dis­tante, depois não pude ficar muito tempo mais, e por isto me guindei e entrei pela janela. Depois, eu vi John atravessando a ponte.

Mas...   Tem certeza?

Ora, é claro. O homem passou a pouco mais de um metro de mim. Você sabe, eu enxergo e ouço muito bem... Depois que ele passou, voltei para um dos quartos e me escondi.

Mas, se ele esteve o tempo todo na ilha, deve ter visto quando abri a janela. Fiz um barulhão para abrir a persiana de madeira. John deve ter imaginado por que eu estava desimpe­dindo o vão da janela. Portanto, por que ele não me atacou, ou esperou um pouco mais para ver o que eu estava tramando? Charles, isto não me agrada! Está muito bem dizermos que mesmo que você fosse capturado não aconteceria nada de grave, mas este é um lugar da espécie em que não hesitariam em dar um tiro em uma pessoa ou em varar um homem com uma lança. E por que ele não esperou? Por que não agiu ?

Menina, não fique tão alarmada. Se Lethman a tivesse visto na janela, ter-lhe-ia perguntado o que você estava fazendo, e ele a teria impedido de fazer aquilo, fosse qual fosse o motivo alegado por você. Portanto, é evidente que ele não a viu.

Acho que deve ter sido assim... — e acrescentei, depressa: — Agora, pensando bem... sim, os cães poderiam ter estado na ilha. Vi o Estrela — o grande — perto da ponte, e quando Sofia chegou ouvi um ruído na água, e ela estava toda molhada. Talvez John Lethman os tenha ouvido lá e tenha ido buscá-los... Não, não deve ter sido assim, porque nesse caso ele ter-me-ia visto. Mas igualmente ter-me-ia visto se tivesse entrado por uma porta do canto. Teria passado por mim quando me achasse na janela. Oh, desisto! Charles, afinal de contas, que estará acontecendo real­mente neste castelo? Por que ele mentiria ?

Não sei. Mas, quando soubermos, saberemos o motivo. Há mesmo uma porta lá no canto ?

Não sei, não vi nenhuma. Mas lá existe muito mato, e realmente não procurei lá, pois é improvável que um lugar assim seja o da entrada secreta.

Então, vamos dar uma espiada lá? Lethman entrou aqui de alguma forma, não entrou? E não foi pela porta principal. E, se ele esteve o tempo todo na ilha, e não lhe perguntou o que você fazia na janela, quero saber qual o motivo disso. Por acaso o portão principal se tranca a chave?

Já o tranquei.

E você me ajudou muito, doce Christy. Que é aquilo?

Um pavão. Tenha cuidado, Charles, eles estão dormindo.

Então, vamos saindo sem fazer barulho. Você é capaz de ver no escuro, meu amor?

Nesta altura, já sou — falei. — E, por falar nisto, John Lethman também pode ver no escuro. Seria de se esperar que ele estivesse usando uma lanterna para rondar este lugar, não é? Suponho que não lhe deu na telha a idéia de trazer uma, hem?

Você me faz injustiças umas após outra. Você me trata como um Brutus. Mas não a usaremos, enquanto pudermos seguir sem ela.

Esta noite você está com a corda toda, hem?

- Estou inebriado com a sua presença. Além disso, estou gostando...

        Na verdade, eu também estou, agora que você está aqui.

        Cuidado disse meu primo. Há um obstáculo perto do seu pára-choque mais próximo. Puxou para trás um pedaço de pau que se achava no meu caminho e passou o braço ao redor dos meus ombros, com naturalidade, para me guiar pelo caminho. Lá está a tal porta, creio eu disse meu primo.

Onde ? Charles apontou.

Sob a erva luxuriante, que não sei o que seja.

—        Seu campônio ignorante, aquilo é jasmim. Aqui está muito escuro, você ainda não pode usar a lanterna ? Isto é... Ah !

        Que quer dizer esse "ah"?

- Veja falei.

Charles olhou. Mal pôde evitar ver o que eu lhe indicara. Sem dúvida, havia uma porta, e estava caindo aos pedaços, mas nada nem seres humanos nem cães passava por ali há muito tempo. As ervas daninhas cresciam na altura de quarenta centí­metros diante dela, e as dobradiças pareciam carretéis de lã, tão densamente se achavam cobertas de teias de aranha.

Ah, realmente falou meu primo. E há, também, uma linda teia atravessada no sentido da largura da porta, para o caso de que pudéssemos pensar que tivesse sido aberta para o outro lado. Mas que maçada, não se poupou nenhuma frase feita... Mas as coisas só se tornam batidas porque são o modo mais ade­quado de se dizer alguma coisa. Não esta porta não tem sido aberta desde que o velho emir freqüentava o harém, em 1875. E a passagem depois foi selada pelas aranhas. Portanto, o nosso amigo John Lethman não passou por aqui. Bem isto eu garanto.

Mas não pode haver um jeito de vir da ilha para cá! — falei, em tom de voz inexpressivo.

Mas podemos dar uma espiada disse Charles, de forma razoável. Ah! — E o jato de luz da lanterna, estreito, claro e concentrado, iluminou as ervas daninhas no pé do muro, dei­xando aparecer uma lápide, uma pequena laje achatada cravada nos tijolos, com um nome profundamente entalhado: Jazid.

Um cemitério, nada mais nada menos disse Charles, e deixou a luz da lanterna deslizar uns cinqüenta centímetros para o lado. Outra lápide, outra inscrição: Omar.

— Por Deus, levante a lanterna! — exclamei. — Você quis mesmo dizer que isto é um cemitério? Aqui? Mas tem razão, vejo nomes de homens... Não podem ser...

Parei de falar. A luz revelara outro nome: Ernie.

Charles...

Então, é isto. Eu me lembro muito bem de Ernie.

Por Deus, fale sério 1 — disse eu, exasperada. — Você sabe muito bem que o tio Ernest, que chamavam de Ernie...

Não, não, o cachorro. Ele era um dos spaniels Rei Charles que tia Harriet possuía logo que veio para cá. Não se lembra do Ernie? Titia sempre dizia que lhe dera o nome de Ernest, que era seu irmão, porque o cão se esquecia de tudo, menos de comer. — O próprio Charles parecia muito distraído, como se estivesse fazendo um esforço mental, mas com relação a um as­sunto diferente daquele a que se referia no momento. A luz da lanterna moveu-se para um ponto mais adiante.

— Você ainda não entendeu ? Isto aqui é o cemitério dos cães de estimação da titia. Nell, Susette, Jamie, e ainda os spaniels... Haydée, Laloux, que são nomes mais orientais... Ah, aqui está ela. Dalila...   Pobre Dalila! Estão todos aqui.

Mas não o devem ter enterrado aqui...

Qual deles?

Sansão. John Lethman diz que o cão morreu no mês passado. Escute, temos de passar a noite toda em um cemitério de cachorros? Que é que você está procurando, afinal?

A luz da lanterna seguiu ao longo do muro, não encontrando nada além de um emaranhado de folhas e as faces das flores, pálidas como defuntos. — Nada — disse Charles.

Então, vamos embora daqui.

Já vou, meu bem. — Charles desligou a lanterna, com um estalido, e afastou um punhado de caules de folhas para que eu passasse. — Suponho que o que estamos ouvindo seja um rouxinol, cantando até rebentar... Diacho! Meu suéter deve estar em farrapos, de tanto ficar espetada nos espinhos destas rosas...

Que é preciso para você ficar romântico?

Um dia eu conto a você. Pode atravessar isto?

"Isto" era a ponte. O luar fraco que se refletia da água lá embaixo tornava claramente visível o vão livre da ponte quebrada; a distância não era tão grande quanto eu pensava: talvez uma altura de um metro e sessenta centímetros. Charles saltou na frente, com facilidade, e me agarrou no alto quando saltei atrás dele. E em breve, de mãos dadas, eu saía cautelosamente da ponte e ia para a margem rochosa da ilha.

Esta era muito pequena, não passando de um punhado de rochas dispostas com arte, plantada de arbustos que há muito tinham tomado conta de tudo, mas colocadas de forma a dirigir o olhar para o bosque de árvores copadas de uma espécie que não reconheci e que pendiam sobre o quiosque. Este, como eu já disse, era um pequeno pavilhão de verão, um prédio circular com pilastras finas que sustentavam uma cúpula dourada. A porta era um arco aberto, e para os lados, entre as colunas, vigas entre­laçadas de pedra carcomida formavam desenhos fantásticos nos pontos iluminados pelo luar. Degraus largos e rasos levavam da margem para cima, e uma trepadeira densa pendia sobre a en­trada, escurecendo o interior. Meu primo soltou minha mão, puxou para um lado parte da folhagem e ligou sua lanterna. Com um bater de asas e um farfalhar, dois pombos voaram para fora, por cima da cabeça dele, fazendo-o abaixar-se e praguejar, e depois meu primo entrou na frente.

O interior estava vazio, exceto por uma pequena bacia hexagonal no centro do piso, onde outrora devia ter existido uma fonte. Um peixe verde, um azinhavre maciço, apresentava-se, de boca escancarada, sobre a água estagnada, que mal refletia a luz da lanterna. Em dois lados, o piso era forrado de largos divãs semicirculares, sem almofadas e imundos, cobertos de gravetos e de fezes de pássaros. A parede que ficava defronte à entrada era maciça e pintada de canto a canto. Charles iluminou a parede.

A pintura era no estilo persa, e não no árabe, pois pude ver árvores com frutas e flores, e figuras sentadas embaixo delas, vestidas com ricas roupas azuis e verdes, e alguma coisa que podia ter sido um leopardo, em plena caçada, saltando sobre uma gazela, em um solo dourado. Acho que, à luz do dia, como tudo o mais ali, ela seria desbotada e suja, mas no rico tom amarelo da lanterna parecia encantadora.

A cena era em três painéis, um tríptico dividido em três troncos, rígidos e formais, seguindo a linha das colunas que emol­duravam a seção de parede. Em uma orla do painel central, de alto a baixo, no lado do tronco, aparecia uma linha preta.

        Aqui vamos nós falou Charles, aproximando-se da pintura.

        Você quer dizer que isto é uma porta?

Charles não deu nenhuma resposta. Estava brincando de iluminar o quadro com a luz, a mão seguindo o jato luminoso, deslizando e batendo na superfície da parede. Depois, soltou um grunhido de satisfação. Do meio de uma árvore pintada de ala­ranjado, uma seção de folhas pareceu sair na sua mão: os gonzos de uma porta. Charles virou a folha da porta e puxou. O painel pintado abriu sobre dobradiças silenciosas, o que denotava uso constante, mostrando atrás dele um espaço escuro.

Notei que meu coração disparou a bater depressa. Uma porta secreta não pode deixar de ser emocionante, e num ambi­ente assim...

Para onde levará esta porta? — E depois, quando Charles fez um gesto pedindo silêncio e apontou com o polegar para baixo, eu disse em um cochicho que ameaçava sufocar a si mesmo, por efeito da emoção súbita: — Você não quer dizer que é uma passagem subterrânea, não é?

Que mais poderia ser? Você está notando que esta parede é lisa, mas, se olharmos nos fundos deste lugar, no bosque, desco­briremos que a parede externa segue a curva do resto, e que o prédio é circular. — E riu à minha expressão fisionômica. — Não é tão surpreendente assim; estes velhos palácios tinham um número enorme de passagens secretas. Isso era de se esperar, nos velhos tempos, quando se dormia com guardas armados ao redor da cama e só se comia depois que dois escravos experimen­tavam a comida, para ver se ela estava envenenada. — E acres­centou: — Isto era o harém. O emir deveria ter uma escada secreta para vir aqui, é claro.

Meu Deus, e isso agora! Faltam-nos apenas um tapete mágico, um gênio e uma lâmpada maravilhosa.

Charles sorriu.

Não perca as esperanças... Talvez ainda possamos en­contrar essas coisas. — A luz brincou na porta. — Deve ter sido assim que ele entrou, e os cães também. Nesse caso, talvez a porta se abra muito bem pelo lado de dentro, mas não confio nisto, e não quero ficar trancado aqui para sempre. Vamos ar­ranjar alguma coisa para abri-la, sim?

Lá embaixo? — perguntei, alarmada. — Você não vai descer, vai?

Por que não? Você pode resistir à tentação?

Com facilidade, não. Isso é muito emocionante, Charles, querido, mas não devíamos. Parece errado...

Pois é justamente isso. Se fosse a escada dos fundos lá de casa, você não se importaria com ela. O que a deixa emocionada é toda essa história de romance das Mil e Uma Noites.

Acho que é verdade. Está vendo? — Eu disse isto quando Charles iluminou a escuridão com a lanterna e se passou por cima do peitoril.

Perfeitamente. Há uma escada de degraus íngremes aqui, em bom estado, e até razoavelmente limpa.

- Não creio — falei, enquanto lhe segurava a mão estendida e passava cuidadosamente por cima do peitoril, atrás do meu primo.

Mas era verdade. Logo do lado de dentro da porta pintada, a escada seguia íngreme para baixo, em espiral, ao redor de uma coluna central. Esta parecia ser ricamente trabalhada, e na parede externa e curva havia mais pinturas, semelhantes à que se via na porta. Apesar da pouca luz, vi os vultos de troncos de árvores e de galhos verdes entrelaçados, além de um piso claro com padrão de flores onde um camelo em disparada, curiosamente alongado por efeito da curva da parede, carregava um cavaleiro bigodudo, um guerreiro meneando um sabre, enquanto uma mulher tocava cítara, despreocupadamente. Sem dúvida, devia ser uma escada importante, uma escada real, o caminho usado pelo príncipe para chegar ao harém. Devia ser seu caminho usual, e de nenhuma forma secreto. Apenas sua escada particular, tão ricamente deco­rada e tão atraente quanto os seus próprios aposentos. Na ver­dade, o pavilhão era o andar superior de uma torre circular de haste de pedra que penetrara no centro do lago e varara a rocha maciça na qual o jardim fora construído.

Vem comigo? — disse Charles.

Não, não, espere... — E me apoiei na sua mão. — Você não compreendeu? Se isto for a escada que liga o harém aos aposentos do príncipe, isto significa que iremos chegar aos apo­sentos da tia Harriet, e ela deve estar bem acordada, a estas horas, em companhia de John Lethman, que lhe deve estar lendo alguma coisa em voz alta, da vigésima sétima sura do Alcorão.

Charles parou.

Você tem razão. Mas a escada deve, também, conduzir a outros lugares.

Deve?

Os cães vieram por aqui. Duvido que os deixassem andar a esmo pelo quarto da titia, à noite, e portanto devem ter vindo de outro lugar. E, além disso, ainda não imaginou que isto pode ser o caminho para a estrada secreta?

        Naturalmente! A entrada secreta fica em nível inferior! Mas não acha que devíamos esperar um pouco? Se nos encontrarmos com alguém...

        Devo confessar que prefiro não encontrar falou Charles.

        Você tem razão, devemos esperar um pouco. E voltou comigo para o pavilhão, e atrás dele a porta pintada fechou-se silencio­samente, sobre uma almofada de ar. Novamente ao luar, que fazia desenhos caprichosos em tudo, era relativamente fácil ver o caminho. Charles desligou a lanterna. A que horas tia Harriet se deita?

Não sei ao certo disse. Mas John Lethman talvez ainda fique mais um pouco na companhia dela. Você vai tentar falar com ela quando John for embora?

Acho que não. A não ser que fosse urgente. Eu não faria isto desta forma. Já seria demais, e ela poderia até ter um ataque do coração, assim em plena noite. Não. Se ela me receber, um dia, terá de ser pelos meios usuais, durante o dia, pelo portão da frente e com um pedido formal de entrevista. Mas, pelo que aconteceu até agora, não tenho vontade nenhuma de ir embora sem dar uma boa olhada em tudo aqui. E você?

Eu também não. Em todo caso, já tenho de passar o resto da noite aqui, é preferível que você a passe comigo.

Quanta paixão disse meu primo, tranqüilamente. Agora, achávamo-nos na ponte, e Charles parou um instante e apurou os ouvidos, esticando o pescoço. O lugar estava totalmente silen­cioso. Nenhuma sombra se movia. Charles começou a atravessar lentamente a ponte, seguido por mim.

        Você não vai sair deste pátio? — murmurei, rapidamente.

        Os cães vão fazer um barulho danado...

Não. Não estou interessado na parte do palácio que eles a deixaram ver, e sim apenas na parte que ocultaram aos seus olhos. Daqui deste lado, o trecho sem ponte parece mais largo, não é ? Acha que pode saltar, se eu a segurar?

Posso tentar. Você disse "eles", Charles ? Você não está transformando isto em um mistério maior do que era preciso? Não há, na verdade, nenhum motivo para supor...

Talvez não. Pode ser que eu esteja enganado. Mais tarde veremos quem tem razão. Agora, pule. Saltei, escorregando ao bater com os pés do outro lado; Charles me segurou. Era ridículo que só agora eu notasse o quanto meu primo era forte. Descemos da ponte e atravessamos os arbustos farfalhantes.

_ Só para o caso de não encontrarmos a passagem secreta lá embaixo — disse meu primo — agora iremos dar uma espiada na minha outra saída, está bem? Vi uma corda naquele quarto que está cheio de coisas velhas... Pelo menos, pensei ter visto. Facilitaria muito a minha descida.

Eu também pensei que talvez houvesse uma corda lá. Quando eu ia averiguar isto, os cães me encontraram. Você acha que foi também por ali que John Lethman entrou, vindo pela ilha, ontem à noite?

Você pode apostar tudo que tiver em que foi — disse Charles, em breves palavras.

Mas por que ele não disse isso? Por que mentiu? O fato será importante?

Só se ele não queria que você soubesse que havia um caminho por sob o lago.

Você quer dizer que John temia que eu procurasse diretamente tia Harriet, para falar com ela, sem que ele soubesse?

Talvez. Mas parece que seria ele dar-se a um trabalho enorme por uma coisa que, afinal, não teria importado tanto, você não acha?

Acho que sim. E, afinal de contas, eu poderia tê-lo encontrado sozinha. John não me impediu de andar à vontade pelo castelo, examinando tudo.

Nós tínhamos chegado à alameda calçada de lajes. Depois da escuridão do pavilhão e dos arbustos que pendiam sobre nós, aqui parecia claro. Alguma coisa farfalhou ao correr no meio da matagal, cacarejando. Vi Charles me olhar de banda.

Por que você não foi à ilha antes? Eu teria imaginado que essa seria a primeira coisa que você faria. É muito romântica.

Tive essa intenção, mas quando cheguei à ponte... — E fiz uma pausa. — Sim, eu entendo. Você diz que era isso que Lethman esperava? Talvez eu pudesse ter saltado o vão quebrado da ponte, mas achei que não valia a pena.

Pois é justamente isso. John Lethman achou que você só iria à ilha, tendo o trabalho de saltar o vão caído da ponte, se tivesse um motivo forte para isto, coisa que você não tinha. Por­tanto, ele achou que você não se daria a esse trabalho. E, mesmo que tivesse saltado para o outro lado, você jamais teria imaginado que a parede pintada contivesse uma porta secreta.

Mas, se ele achava tão importante eu não encontrar a escada secreta, então por que me instalou aqui no pátio? Talvez seja porque o único quarto de dormir em condições satisfatórias fica aqui, mas, se era importante para eles...

        Só porque é o harém, e porque foi feito em forma de prisão. Talvez haja inúmeros meios de entrar e sair das outras partes do palácio, e por isto ele tinha de instalá-la aqui e lhe contar a história boba a respeito de os cães de vigia serem ferozes, para você não pensar em sair daqui. Além disso — acrescentou Charles, sem se mostrar nem um pouco preocupado com isso — sem dúvida nós descobriremos que há outra porta no pé da escada em espiral, a que Jassim deixou aberta para os cães pas­sarem; e, agora, certamente a tal porta deve estar fechada à chave.

Olhei de relance para Charles, mas ele não ligou a lanterna e não lhe pude ver o rosto.

E se descobrirmos a porta?

Bem... — disse meu primo, e deixou a coisa assim.

        Você não seria capaz de arrombar o cadeado? Ele riu.

Esta é a primeira nota de admiração sincera que ouvi de você, desde que mandei a porta do sótão pelos ares com carbureto. Christy, minha querida, você nasceu para ser amante de ban­queiro. Pode crer em mim, abrir cadeados é uma habilidade que praticamente todos os Mansels têm de possuir.

Bem, naturalmente. Mas... — Fiz uma pausa, e depois prossegui, lentamente: — Tudo isto me leva a crer que, realmente, alguma coisa suspeita se passa neste castelo... Ainda não tive tempo de lhe contar, mas, hoje à tarde, vi Halide usando o anel de rubi de tia Harriet. Lembra-se do tal anel? E ela e John Lethman estão tendo um caso amoroso, sem dar muita atenção à tia Harriet... E isto me pareceu esquisito, depois de ontem à noite, quando os dois foram tão atenciosos com nossa tia, diante de mim.

Então eu lhe falei, muito depressa, da pequena cena que presenciara esta tarde. Charles parara para ouvir, e contra o luar pude ver sua cabeça inclinada, ouvindo atentamente; mas, quando terminei, ele não fez nenhum comentário, limitando-se a seguir adiante ao longo da galeria.

Eu o segui.

        E por que ele mentiu a mim? — insisti. — Deve ter havido algum motivo para as mentiras sobre o modo como ele e os cães entram no pátio... Oh, esta noite ele não tocou nessa tecla, mas antes frisou muito a circunstância de os cães serem ferozes e de e era perigoso eu andar por aí a esmo. E insistiu muito no fato de que os dois cães ficam soltos à noite.

Talvez quisesse que você ficasse limitada ao seu próprio pátio, enquanto ele fazia amor com a jovem árabe.

Nada disso — falei, em tom incisivo. — John esteve namorando a tarde inteira, apesar da minha presença no pátio do harém. Em todo caso, o palácio é grande bastante e ele não se importou com isto. Charles, Halide estava realmente usando o anel, e acho que...

Silêncio um instante, quero ligar a lanterna. Você está ouvindo alguma coisa?

Não.

Então, fique aqui e de ouvidos atentos, enquanto vou procurar uma corda.

Charles desapareceu na porta que dava para a sala de depósito.

Olhei na sua direção, pensativa. Eu não o via há quatro anos, mas ainda lhe conhecia todos os tons de voz tão bem quanto os meus próprios. Devia ter tido algum motivo para me ocultar o que estava pensando. Havia alguma coisa de que ele sabia, ou algo que supunha, que não estava querendo partilhar comigo. Charles estivera procurando tapear-me muito bem, mas, ainda assim, era tapeação.

Ah! — disse ele, de dentro da sala.

Encontrou uma corda?

É demasiado curta e fraca demais, porém servirá. Segure a lanterna, enquanto eu a experimento, sim? Céus, como está suja... Bem, eu não me arriscaria a usá-la em uma excursão de alpinismo, mas deve ajudar-me a descer pela parede, se não en­contrarmos uma saída nos fundos.

E Charles saiu do quarto, batendo as mãos para tirar a poeira que havia nelas.

E agora, vou lavar as mãos e esperar. Aguardaremos uma hora, sim? Contanto que eu possa sair daqui e dar o fora antes do amanhecer... É até possível que o Nahr el-Sal'q tenha baixado o suficiente quando tiver clareado o dia, e assim poderei poupar muito trabalho, atravessando-o diretamente, antes que alguém me veja.

Onde deixou seu carro, desta vez?

Deixei-o a uns seiscentos metros do povoado. Naquele ponto existe uma pequena pedreira, onde pude sair da estrada e ocultar o carro. Ocorreu-me a idéia de dormir nele e vir à sua procura amanhã cedo, mas havia sempre o risco de que alguém pudesse vê-lo de madrugada, e Nasirulla traria a notícia para o palácio, antes que você estivesse fora daqui. E, se um dia tiver de me avistar com tia Harriet, não quero ter de dar explicações embaraçosas... Por isto, deixei um bilhete para Hamid, a fim de que ele venha buscá-la amanhã, às nove e meia, e irei para Beirute, onde ficarei à sua espera. E, agora, mostre-me seu ba­nheiro, minha Christy, e ficaremos ouvindo os rouxinóis, en­quanto preparo minhas gazuas.

 

               — Oh! Pise de leve — disse Christabel.

                           — S. T. Coleridge: Christabel

 

Mas as gazuas acabaram não sendo necessárias.

Quando tornamos a partir, a lua subira um pouco mais no céu, livrando-se das árvores da ilha, e à sua débil luz nós trans­pusemos uma vez mais a ponte e seguimos para o pavilhão. A porta pintada girou para fora, silenciosamente, e Charles a calçou com uma pedra. A luz da lanterna penetrou adiante de nós na escuridão, enquanto entrávamos delicadamente e começávamos a descer a escada em espiral.

As pinturas deslizaram e passaram por nós, espectrais, à luz que se movia. Cúpulas e minaretes, ciprestes iguais a pontas de lanças, gazelas, falcões, corcéis árabes, árvores frutíferas e pássaros cantando...   E, no fundo, uma porta.

Fechada, naturalmente. Parecia maciça e intransponível, àquela luz débil, mas, para minha surpresa, quando Charles es­tendeu a mão e a puxou de leve, cautelosamente, ela cedeu com facilidade, e com o mesmo silêncio da porta lubrificada que ficava na parte de cima. Então, vi que o ferrolho tinha sumido, e no ponto em que estivera o cadeado original havia agora um painel de madeira, rachado. Sem dúvida, aquele cadeado reben­tado fazia parte do lugar da história... A porta fora presa nova­mente, em tempos mais recentes, por meio de um cadeado e de um grampo, mas um cadeado só tem a força dos seus suportes, e estes, como o resto dos objetos do palácio, estavam podres. O cadeado continuava no lugar e trancado, mas de um lado o grampo fora arrancado do umbral, que caía aos pedaços, e pendia lá, com um alvéolo ainda segurando o parafuso inútil, e o outro vazio.

Então, fora assim que os cães tinham passado. Parecia provável que eles mesmos tivessem partido a corrente, e esta noite, já que, do contrário, sem dúvida ela teria sido novamente con­sertada. E o dano, evidentemente, era recente, pois lascas de madeira e serragem espalhavam-se pelo chão, e quando Charles baixou a lanterna percebi o brilho do parafuso caído.

        Tivemos sorte — disse ele, baixinho.

        Tanto melhor para os Cães de Gabriel — falei, também em tom de voz abafado.

Meu primo sorriu e fez um aceno de cabeça. Eu o segui, na ponta dos pés, e atravessamos a porta.

Esta era muito escura, uma grande passagem em arco, com um teto curvo e cheio de barrotes, onde a luz da lanterna parecia pouco mais do que um jato impertinente de luz. Achávamo-nos na extremidade de uma espécie de junção em forma de "T", sob uma cúpula formada por arcos cruzados. Nossa porta fechava uma extremidade da haste superior do "T". A alguns metros de nós, à esquerda, um arco aberto levava para fora, para a escuridão, uma espécie de passagem, pela qual se formava uma corrente de ar. Para a frente, em linha reta, e fechando a barra superior do "T", havia outra porta. Como o portão principal do palácio, essa porta era de bronze, seus painéis elaboradamente trabalhados e sua superfície — apesar da idade e de estar danificada — guardava ainda a beleza sedosa do metal trabalhado à mão. Dos dois lados da porta havia cantoneiras enfeitadas de ferro, que outrora deviam ter contido tochas, e sob estas vimos nichos na parede, na altura de dois metros a partir do chão, parecendo guaritas. O próprio arco era entalhado e continha sinais de tinta que descascava.

        Deve ser a porta do príncipe — cochichei. — Você estava com a razão, é o caminho baixo do harém. Veja se está fechado a chave.

Mas Charles sacudiu a cabeça e tirou o jato da lanterna de cima da porta, voltando-o para a passagem à esquerda.

        Primeiro, vamos cuidar da linha de retirada — falou ele, baixinho. — Aposto em que a porta secreta fica nesta direção. Que é que diz? Vamos ver?

O túnel era longo e curvo, não muito nivelado, e muito escuro. Avançamos lentamente. Até onde eu podia ver, as paredes eram de pedra tosca. Aqui não havia pinturas, e a certos intervalos encontravam-se suportes de ferro destinados a tochas. O piso também era tosco: lajes grandes de pavimentação, com beiradas de pedras miúdas, muito gastas, sujas e traiçoeiras, cheias de buracos. Em certa altura, um ruído na escuridão me fez parar e agarrar o braço de Charles, mas o rato, ou seja, lá o que for já tinha fugido, sem que eu o visse. A passagem seguia, agora, para a esquerda, subia um pouco e encontrava-se com outra, em ângulo reto.

Paramos na encruzilhada. Nossa passagem era a haste principal de outro "T", dessa vez com a cabeça atravessada por uma passagem maior. Charles desligou a lanterna e ficamos de pé um instante, ouvindo. Aqui, o ar era mais fresco, e foi fácil imaginar que este corredor abria-se para o ar livre, na parte superior. Depois, vindo não sei de onde, em algum ponto à direita, ouvi, debilmente, os latidos e uivos dos cães.

Charles iluminou aquele lado, por breves instantes, com a lanterna, para mostrar o piso áspero do túnel subindo em degraus largos e muito rasos.

        Talvez este túnel suba até o portão que você viu no rnidan, o que significa, se muito não me engano... — E virou o jato de luz para a esquerda, e quase imediatamente a luz pa­receu focalizar alguma coisa que jazia no meio do caminho em subida. Uma esteira esparsa de estrume, de cavalo ou de mula. — Não estou enganado — disse ele. — Por aqui.

Uns dois minutos depois, estávamos espiando, através do bosque, para a margem da garganta Adônis.

O portão secreto era construído na pedra maciça. Penetrava profundamente nela, e abaixo do nível do platô atrás do palácio. Uma rampa íngreme ia do nível da rocha e descia até à garganta, através do bosque, e no meio das raízes de sicômoros, ao mesmo nível da verga, estendendo as ramagens nuas até além da queda da garganta Adônis. A rampa tinha largura suficiente para dar passagem a um animal de carga carregdo, e o portão era muito bem feito, reforçado, em excelente estado de conservação, e tinha tranca e fechadura.

        Está vendo? — disse meu primo. — Apenas do tamanho suficiente para dar passagem a um cavalo ou a uma mula — uma porta de emergência — e depois a longa passagem levando por sob o harém e subindo até o midan. Bem... Isto nos poupará uma escalada, graças a Alá. Foi muita bondade deles deixarem a chave na fechadura. Torne a entrar... Não, não corra os ferrolhos. Acho que vamos deixá-lo encostado, mas sem o trancar, nem a chave nem a ferrolho. — Lá dentro, com o portão nova­mente fechado, Charles consultou seu relógio. — Já passa das duas horas., Eles não podem ficar acordados a noite inteira, não é?

        Se ainda houver alguém acordado, deve ser só tia Harriet.

        Sim — falou meu primo. — Bem...

Charles estava olhando para o chão, brincando com o botão do interruptor da lanterna elétrica. Quando esta foi novamente ligada, vi-lhe a expressão do rosto. Era abstrata, até indefinida. De repente, ele ergueu o olhar.

Vamos voltar agora?

Voltar? Para a porta do príncipe? Ela também deve estar trancada a chave, creio eu. — Devia haver alguma coisa, nos velhos segredos do lugar, que se fazia agora sentir; surpreendi-me quase falando com alívio, e vi que Charles me dirigia outro olhar rápido.

É possível, mas duvido que eles tenham fechado o castelo por dentro, por assim dizer. Christy...

Que é?

Você quer prosseguir?

Prosseguir? — Já tínhamos alcançado a primeira ramificação do "T" e varamos para o lado que levava para o castelo. — Voltar para aqui, não é isto que você quer dizer? Não podemos ir para nenhum outro lugar...

Refiro-me à porta do príncipe. Ou você preferiria voltar para o harém?

Você prefere?

Não, agora não. Mas, se você preferir cair fora e deixar o resto por minha conta...

Faça-me um favor, sim? Não tenho medo de John Lethman, mesmo que você tenha.

Charles ia falando alguma coisa, mas, ao que parece, pensou melhor e depois sorriu, dizendo, apenas:

        Avante, meus valentes — em francês, e prosseguimos.

E a porta do príncipe não se achava fechada a chave. Abriu-se, sem ruído, e além dela ficava um corredor comprido e de teto em forma de abóboda, escuro como breu, muito silencioso e totalmente vazio. Charles parou um instante. A luz da lan­terna parecia estar quase perdida na escuridão à nossa frente. Achei que Charles hesitou um instante, e depois avançou. Eu o segui.

O corredor, como a escada em espiral, outrora fora ricamente decorado, mas, embora estivesse varrido e razoavelmente limpo, por baixo estava em más condições, e as paisagens pintadas nas paredes apresentavam-se desbotadas e descascando, e, mesmo à luz da lanterna, podia-se ver que estavam muito sujas. O piso era de mármore, revestido de um acolchoado pardacento, no qual nossos passos não faziam nenhum ruído. O ar era parado, morto e cheirava a poeira.

Nos dois lados, a intervalos, havia vãos de porta da espécie que me era familiar de quando das minhas andanças pelo palácio, na maior parte aberturas escuras, onde portas partidas pendiam, abertas para o vazio ou para um confuso amontoado de objetos. Charles iluminou com a lanterna um cômodo vazio, que parecia conter apenas vasos de barro.

Aqui há só quarenta ladrões — gracejou ele.

Que era que você esperava?

Só Deus sabe... E aqui está a caverna de Aladim. Vamos dar uma espiada rápida.

A princípio, não descobri o que lhe chamara a atenção. O cômodo parecia conter a mesma série sortida de objetos que havia no "depósito" do harém: mobília, enfeites, teias de aranha... O mesmo amontoado de objetos abandonados no decurso de muitos anos. Sobre uma cômoda em pandarecos, via-se uma pilha de livros, um tanto menos empoeirada do que o resto dos outros objetos.

A luz da lanterna iluminou aquelas coisas inservíveis, e os dedos curiosos de Charles. Meu primo virou para cima o volume maior.

Foi o que eu imaginei.

Que é isso?

O dicionário Chamber.

O livro abrira-se em sua mão. Olhei para ele, à luz da lanterna.

Tão útil... Você sabe que este dicionário tem até uma parte que se refere a palavras cruzadas?

Sei, sim. — Fechou o livro, com uma nuvenzinha de poeira, e apanhou outro.

Este era menor do que o dicionário, mas possuía um aspecto de obra mais importante, com capa de couro grosso, que, sob sua fina camada de poeira, parecia ser muito trabalhado. Charles me entregou delicadamente o livro, e depois, quando ele soprou a poeira, para tirá-la, vi um brilho dourado.

Que é isto?

É um exemplar do Alcorão, e muito bonito. Dê uma olhada.

O papel era grosso e parecia caro, pelo tato, e a escrita árabe, linda em si mesma, era ainda realçada pelos desenhos decorativos que encimavam as suras, isto é, os capítulos. Sem dúvida, não era a espécie de livro que eu teria esperado que alguém jogasse em um quarto empoeirado e esquecesse.

Charles colocou-o no chão, sem comentário, e a luz foi passada mais além, por sobre os velhos objetos. De repente, eu a fiz parar.

        Está vendo o que eu vejo?

A princípio, entre os velhos objetos anônimos e cobertos de pó, consegui distinguir apenas a forma de um velho violino que­brado, algo que podia ter sido um par de patins e um emaranhado de tiras de couro, de baldes e de borlas, que, como acabei verificando, constituíam dois freios para cavalo. Atrás destes, e meio ocultos, viam-se dois objetos empoeirados, que pareciam enfeites: cães de porcelana.

Mesmo assim, olhei fixamente para as duas estatuetas uns cinco segundos, antes de compreender.

Charles! Não me diga que são os seus Cães de Gabriel.

Realmente, são. — Charles ajoelhou-se na poeira, ao lado do emaranhado de couro. — Segure a lanterna, sim?

Fiz o que ele pedia e o vi levantar cuidadosamente os freios para um lado e pegar uma das estatuetas nas mãos. Notei, muito admirada, a delicadeza, quase a reverência, com que meu primo segurava o objeto. Tirou um lenço do bolso e começou a espanar a poeira.

Lentamente, a estatueta foi adquirindo forma. Era um ani­mal que tanto podia representar um leão como um cachorro, de uns quinze centímetros de altura, feito de porcelana de um amarelo-vivo, com um brilho intenso. Achava-se sentado nos quartos traseiros, com uma pata para baixo e a outra pousada delicada­mente sobre uma bola gasta. A cabeça achava-se inclinada sobre um ombro, o olhar fixo, as orelhas para trás, a boca larga, em um "sorriso" de cão. Possuía uma crina densa e ondulante, e sua cauda, em forma de pluma, enrolava-se às suas costas. Tinha o ar de alegre vigilância, uma espécie de ferocidade brincalhona. A companheira do animal, que se achava ainda no soalho, o pelo luzidio coberto de poeira, tinha um filhote sob a pata, em vez de uma bola.

Meus Deus... Quem teria imaginado isto? — disse Charles, baixinho. — Que acha das estatuetas? 

Ora, não pergunte a mim. Não entendo destas coisas. Afinal de contas, são mesmo cães ?

        São o que se conhece como cães de Fo, ou leões budistas. Parece que ninguém sabe ao certo que espécie de animais eles eram.

        Quem era Fo?

O próprio Buda. Estes são os únicos animais, na mito­logia budista, que têm permissão para matar, e assim mesmo em defesa do Senhor Buda. São, oficialmente, os guardiães do templo. — Charles revirou as estatuetas reluzentes nas mãos. O rosto rechonchudo e enrugado sorria como um cão pequinês por cima da bonita bola.

Você sabe — disse — que tenho a impressão de que me lembro destas estatuetas? Mas por que você acha que elas foram jogadas aqui ? Isto é, eu teria pensado que...

Sim — concordou Charles. Recolocou no chão a estatueta de cachorro e tirou a lanterna da minha mão. Tive a impressão de que Charles não ouvira uma única palavra do que eu dissera. — Vamos continuar executando nosso programa?

Sem esperar resposta, e sem nenhum outro olhar para os outros objetos do cômodo, Charles voltou depressa para o corredor.

Aqui havia silêncio e escuridão, e o cheiro abafado do ar empoeirado e parado. As árvores da pintura de paisagem desbotada passaram, deslizando, pontilhadas por estradas escuras, semelhantes a cavernas, e cômodos vazios. Depois, à nossa frente, o corredor fazia uma ligeira curva para a esquerda, e do lado de fora da curva a tocha revelou outro vão de porta, da mesma forma de arco que o resto tinha, mas muito diferente. Aqui não havia nenhuma caverna vazia, nem madeira podre e oscilante. O arco era bloqueado por uma porta de carvalho, novinha em folha e maciça como um navio, e, além de estar muito bem fechada, achava-se também trancada com um cadeado novo de latão.

A luz parou um instante sobre essa porta, depois seguiu para a porta seguinte. Aqui, novamente, via-se um cadeado.

        As verdadeiras câmaras do tesouro, hem? — disse eu, baixinho.

Meu primo não respondeu. A luz seguiu lentamente, chegando ao espaço vago para ventilação, acima da porta, e tornou a descer, fixando-se no que havia ao lado dela. Charles foi até lá para examinar os objetos, e eu o segui.

Entre as duas portas, empilhadas contra a parede, viam-se umas doze latas, do tamanho de latas de gasolina, de um amarelo­ brilhante e cora uma espécie de desenho. Quando a luz da lan­terna as iluminou, vi na mais próxima, em letras negras e bonitas: o melhor óleo de cozinha.   Ideal para Fritadas, Maionese, Salada. E, abaixo disto, mais alguma coisa. Parei. A luz voltou depressa para mim.

Que é?

Nas latas — disse eu, piscando à luz da lanterna, que tornou a sair do meu rosto e voltou para a pilha de latas junto à porta. — Acabo de notar... Não me lembro onde vi aquilo antes. Ah, sim, já sei! Não é nada, Charles, só aquele desenho nas latas, em vermelho, o cão em disparada.

E que é que tem isto?

Nada, creio eu. Não é importante. Apenas digo que já o vi antes.

Onde?

Olhei surpresa para ele. Charles pareceu interessado, e até bastante.

Na tarde de domingo, lá no povoado onde Hamid me levou. Eu contei a você, não contei? A plantação de girassóis com o pequeno sinal no tronco da árvore, o cão vermelho que eu achei parecido com um saluki.

Era igual a este aqui?

Acho que era.

Curvamo-nos, juntos, e agora, sob o desenho do cão em disparada, pude ver, em letras menores: Marca Cão de Caça. É a melhor qualidade. Cuidado com as imitações.

Sal'q — disse meu primo, um tanto para si mesmo. A luz da lanterna caía em cheio sobre a lata. Meu primo parecia distraído.

Que foi que você disse?

Você sabia que é assim que se diz "cão de caça"? A palavra saluki è a árabe selugi ou slughi, e significa "cão de caça". Acho que o Nahr el-Sal'q é uma corruptela que significa "Rio do Cão de Caça". Em outras palavras, é um produto local. É o mesmo que você viu no campo?

Exatamente igual. — Endireitei o corpo. — Deve mesmo ser produto local... Óleo de girassol, creio eu, e o que vi era um marco da plantação. Acho que li em algum lugar que os camponeses usam marcas como aquelas nas suas plantações... Creio que é sensato, já que muitos deles não sabem ler. Céus, este óleo deve dar para uns dez anos! Que é que você acha que eles vão fazer com ele?

Charles levantou uma das latas e recolocou-a no chão.

        Vazia — disse ele, e virou-se para o outro lado. Olhei curiosa para meu primo. _ Por que está assim tão interessado?

        Não aqui — disse Charles. — Não agora. Vamos terminar isto, sim? E é melhor pararmos de conversar.

Quando contornamos a curva do corredor, seguindo cautelosamente, vimos uma escada, a uns trinta metros de nós, bem larga, levando para cima, para um patamar, e outro arco tra­balhado. A porta achava-se aberta, mas no seu lugar pendia uma cortina pesada, fechando o arco. E na orla da cortina via-se uma luz. Paramos de chofre, escutando. Até nossa respiração me pa­recia alta, no ar parado. Mas nada se moveu e nenhum ruído veio de detrás da cortina.

Cobrindo cuidadosamente a lanterna com os dedos das mãos, de modo a que só uma estreita faixa de luz se projetasse na direção da cortina, Charles subiu a escada e seguiu lentamente para diante, atravessando o patamar e chegando ao vão da porta. E parou ao lado da cortina, comigo a seu lado. Agora, a lanterna achava-se desligada, sendo a única luz a faixa na orla da cortina.

Ainda nenhum ruído. Mas, agora, eu sentia o cheiro curiosamente penetrante do fumo usado por tia Harriet. Devíamos estar no divã do príncipe. Talvez ela se achasse muito perto de nós. Titia devia ter estado lendo — pensei eu — e deveria ter ador­mecido em cima do livro. Não lhe pude ouvir a respiração, mas o quarto era tão grande, e se a titia houvesse fechado as cortinas antes de adormecer...

Meu primo estendeu a mão, furtivamente, e afastou a beirada da cortina uns quatro centímetros. Chegou um olho à fenda formada e curvou-se para espiar.

Sem dúvida, era o quarto de dormir do príncipe. E esta era, realmente, a cortina que ficava atrás da cama da tia Harriet.

Havia muito pouca luz no quarto; a faixa que se fixava na orla da cortina apenas parecera clara em comparação com o contraste formado pela escuridão do lugar onde nos achávamos. O lampião estava em cima da mesa, com a chama regulada bem baixa, um minúsculo jato de luz. Mas eu conhecia o quarto e podia ver claramente. Encontrava-se exatamente como na noite anterior; a cadeira de verniz vermelha, os pratos sujos em cima da mesa, o amontoado de objetos em cima da cômoda, o prato, no chão, cheio até à metade de leite para o gato, e em cima da cama...

Por um instante fiquei sem fôlego, ao pensamento de que tia Harriet também se achava lá, a um metro de nós, sentada onde estivera na noite anterior, no seu ninho de xales e de sedas; e foi então que notei que o quarto estava vazio. O canto escuro junto à cabeceira continha apenas o punhado de cobertores, e o vermelho de sua camisola de dormir e o volume do seu xale.

Um instante depois, senti novamente a onda fria de náusea e o tremor no corpo, quando o gato ergueu a cabeça e nos olhou de cima da cama. Charles o viu no mesmo instante em que eu o divisei e, enquanto eu recuava assustada, ele deixou a cortina cair e veio para junto de mim. Seus braços passaram ao redor da minha cintura.

Fique sossegada, ele não vem para cá.

Tem certeza?

Absoluta. Você não corre perigo, meu amor, acalme-se.

Eu tremia e meus braços retesaram-se. A parte superior da minha cabeça latejava.

        Dê-me um instante para me refazer — pedi — e depois iremos embora.

Charles me segurou um instante assim, até que parei de tremer, e senti o frio deixar meu corpo. Aquilo ali estava muito escuro e quieto. Pelo ruído da sua respiração, compreendi que Charles virara o rosto para o outro lado e estava olhando e ou­vindo. Charles voltou-se novamente para mim, e eu o senti res­pirar fundo para falar, e depois, com um movimento repentino mas furtivo, seu rosto encostou-se aos meus cabelos.

Christy...

Que é?

Uma pequena pausa. Ele deixou escapar o fôlego, movendo meus cabelos.

Nada. Já está bem?

Sim.

Então, vamos.

        Você... Você não quer mesmo esperar para falar com titia? Não creio que...

Não, esqueça isso. Vamos voltar.

Sinto muito, Charles.

- E tem motivo para isto. — Seu cochicho era ligeiramente zombeteiro. — Tenha coragem, meu bem, o gato não a pode comer. Seja uma menina valente. Charles não deixará que o gato mau a pegue.

O terror cedeu e eu ri.

Grande e corajoso Charles — falei. — E se encontrarmos cães ferozes? Já estou recuperada, obrigada.

Está mesmo? Então, vamos dar o expediente da noite por encerrado. Volte para seu quarto, menina.

 

A porta pintada achava-se ainda aberta, calçada com a pedra, e o ar fora do pavilhão era maravilhosamente fresco e doce. Atra­vessamos a ponte até chegarmos ao ponto em que ela caíra, e saltei depois de Charles. Este não me soltou imediatamente.

Christy... — disse ele, baixinho e suavemente. — Há uma coisa que preciso contar a você.

Eu sabia. Notei que você estava ocultando alguma coisa de mim. Que é?

Não é bem isso. Não que eu saiba de alguma coisa. Di­gamos que estive concebendo um palpite louco. E sei que há alguma coisa muito suspeita nisto tudo, e não estou gostando nada. Mas — e quero que entenda bem isto — não lhe direi nada aqui e agora.

        Por que não?

Pelo simples fato de que você terá de ficar neste lugar até amanhã cedo, e eu não. Agora, ouça, Christy... Você tem de se encontrar com John Lethman e de ser amável para com ele e tem de portar-se de maneira normal. E talvez tia Harriet queira vê-la novamente antes de você ir embora, e. ..

Agir de maneira normal para com John Lethman. Então, você desconfia dele?

Como eu já disse, é apenas um palpite maluco. Mas você tem de ficar aqui...

Então, quanto menos eu souber, melhor? — disse eu, de forma zombeteira. — Isto é conversa fiada sua, meu caro Charles! Ora, como poderei "assumir" um ar inocente? Estou sendo ino­cente o tempo todo! Não tente enlouquecer-me! Se a coisa ficar preta, quem estará metida nela serei eu, e não você! Vamos, você tem de me contar! Acha que John Lethman é amante de tia Harriet, ou coisa semelhante?

        Céus! — disse Charles. — Se fosse só isso...

É claro que insisti, mas Charles permaneceu irredutível. Algum tempo depois, ele me deixou e preparou-se para saltar novamente a fenda da ponte.

        Por que você tem de voltar assim? — indaguei. — Por que não desce agora pela janela, com a corda?

Charles sacudiu a cabeça.

Por aqui é mais fácil. Feche o vão da janela agora, para que não haja coisa alguma que chame atenção, sim? Mas ainda não recoloque a tranca, por via das dúvidas. Agora, vou embora. Vá para a cama. Amanhã cedo nos encontraremos no hotel. — E Charles pareceu hesitar. — Você não está com medo, está?

Com medo? Ora, e por que deveria estar com medo?

Bem, já que você não está... — disse Charles, e foi embora.

 

               Eles atravessaram o pátio: estavam muito contentes.

               Tão livres do perigo, livres do medo.

 

  1. T. Coleridge: Christabel

 

Pensei que não passaria bem a noite, mas adormeci profundamente e dormi até à hora da refeição matinal; acordei em uma linda manhã e com a paz cheia de sol do jardim do harém, com o burburinho da água no ponto em que ela era tocada por uma brisa leve e com os pássaros cantando.

Assim mesmo, lembro-me de que despertei não por causa da paz e do romantismo do lugar, mas em virtude da inconsistência de alguma coisa nevoenta, a leve sombra de apreensão que cobria o dia que me aguardava. Mesmo compreendendo que isto era apenas, talvez, resultado das suspeitas de Charles a respeito de John Lethman, que eu teria de encontrar esta manhã, e que o resto do dia seria passado na companhia do próprio Charles, eu ainda achava que o pátio do harém, todo o palácio trancado no seu vale quente, me afligia com uma claustrofobia terrível. Levantei-me cedo e engoli meu café, rapidamente, inquieta e ansiosa para sair daquele lugar e voltar para hotel e para a vida, as cores e o movimento vulgar de Beirute. .. e para junto de Charles.

Hamid ficara de vir apanhar-me às nove e meia da manhã, mas mal passava das oito e meia quando acabei de tomar meu café, que Nasirulla trouxera, demorei-me alguns minutos, para uma última olhada no jardim, com o sol incidindo fortemente na cúpula dourada do pavilhão, e depois saí pelo caminho normal do harém.

Minha primeira apreensão fora eliminada quando Nasirulla chegara com minha refeição matinal. Se ele estava aqui, então era porque esta manhã já se podia transpor o rio. Resolvi ir imediatamente e seguir até o povoado, ao encontro de Hamid lá em cima. Eu tentara dar a entender a Nasirulla, por meio de sinais, que desejava partir cedo e, embora ele tivesse apenas olhado fixamente para mim, sem sorrir e sem nenhum sinal de me haver compreendido, deve ter dito a John Lethman, pois encontrei este saindo ao meu encontro no segundo pátio, onde as anémonas e os jardins Adônis já haviam murchado e morrido, em um dia de calor.

Achei que esta manhã ele estaria mal-humorado, e imaginei se era possível dizer a mesma coisa à meu respeito.

A senhorita levantou-se cedo — observou Lethman.

Acho que devo ter dormido preocupada com o estado do vau do rio. Mas acho que tudo está bem e que já poderei passar para o outro lado, não é?

Ah, sim. Afinal de contas, depois de tanto barulho e de tanta excursão, a senhorita conseguiu dormir bem?

Depois do... Ah, os cães. Sim, obrigada. O senhor tran­cou os pobres bichos? Confesso que, a princípio, fiquei um tanto assustada, mas eles ficaram bem comportados, e esse será só um episódio romântico em que pensar, depois. Mas não são assim com todos, não é verdade?

Claro que não. A senhorita deve ter alguma atração especial. — E seus olhos foram iluminados por um sorriso que não consegui classificar. — Não diria que eles sejam exatamente ferozes, mas são bons cães de vigia, uma vez que fazem um ba­rulho danado ao verem alguma coisa fora do comum. Realmente, eu os prendi, e talvez isso tenha sido um erro.

Não tive vontade de lhe perguntar o motivo disso, mas John fez uma pausa, como se esperasse que eu lhe perguntasse e, sem dúvida, seria a pergunta natural. Pelo menos, a pausa me deu tempo para controlar minha expressão fisionômica.

Por quê?

Eu os devia ter deixado ficar de ronda. Nós encontramos o portão lateral aberto. Alguém poderia ter entrado durante a noite.

O portão lateral? Então, existe um?

Há uma abertura no platô, nos fundos do palácio. Com isso, e tendo os cães penetrado no harém, Jassim parece ter-se divertido muito ontem.

Mas alguém teria entrado? — perguntei, em tom indiferente. — Certamente, o senhor não encontrou nenhum sinal de que tenha havido invasão do palácio, espero eu...

Oh, não. Acontece, apenas, que sou desconfiado por natureza, principalmente desde que vim morar neste país. A que horas o seu motorista vai chegar?

Às nove menti eu. Mas achei bom ir ao encontro dele no povoado. Vocês foram muito amáveis em me hospedar até agora. Sei que já lhe agradeci tudo ontem, mas agora pode aceitar meus agradecimentos em dobro.

        É um prazer. Bem, vou levá-la até o portão.

Hoje, Lethman nem se deu ao trabalho de fazer-me crer que minha permanência lá fora mesmo um prazer. A calma que ele demonstrara no dia anterior sumira completamente e o homem parecia nervoso e inquieto. Fez-me atravessar o pequeno pátio com passos rápidos e nervosos, e mão direita subindo aos olhos naquele gesto que eu notara no primeiro dia, e seus olhos estavam injetados de sangue. Notei que Lethman não olhava para mim, mas ficava com o rosto virado para o outro lado, como se emba­raçado ou envergonhado. Fiquei imaginando se estaria atormen­tado pela vontade de fumar um pouco e por isto olhava para o outro lado, embaraçado.

Os seus jardins Adônis estão morrendo.

Sim. Bem, era de se esperar isto.

É claro. A titia não sabe que voltei?

Não.

        Bem, eu não esperava mesmo que o senhor contasse a ela. Mas não tem importância. Apenas perguntava a mim mesma se ela disse alguma coisa a respeito do meu primo.

        Nem uma palavra.

Agora, John ia diretamente ao que interessava, economizando palavras. Bem, agora ele não me devia nada mais, senão deixar que eu fugisse dali. E, longe de impedir isto, Lethman achava-se tão ansioso para se livrar de mim quanto eu de sair dali. Lethman saiu pelo portão principal comigo e me acompanhou até à beirada do platô, onde ficou de pé, vendo-me começar a descer a trilha. Quando alcancei o vau, olhei para trás e ainda o vi lá, de pé, observando-me, como se para ter certeza da minha partida.

Virei pela segunda vez as costas a Dar Ibrahim e parti cautelosamente, pisando nas lajes do vau.

Agora, estas se achavam bem em destaque, e já secas, mas as águas que redemoinhavam ao redor delas eram mais fortes do que da última vez em que eu atravessara o vau, e corriam, ver­raelhas como ferro, e vermelhas como sangue, para o Adônis morto. Gravetos, folhas, flores escarlates, tudo isto tinha sido car­regado pela correnteza e depositado com os outros detritos, nas duas margens. Duas das cabras pastavam ao acaso no meio dos detritos, mas não consegui ver nem sinal do menino pastor. Quando alcancei o outro lado do rio e segui ao longo da margem rochosa, avistei Hamid desta vez inconfundivelmente, Hamid descendo a trilha na minha direção.

Encontramo-nos à sombra da figueira, onde mais três das cabras dormiam, em um montão de poeira. Depois de trocados os cumprimentos, eu lhe fiz a pergunta que estivera martelando na minha cabeça desde que Nasirulla me trouxera o café.

        Você viu meu primo hoje de manhã?

Não respondeu o jovem árabe, e sorriu. Ele é muito parecido com a senhorita, não é ? Eu teria imaginado que os dois fossem irmãos.

Na verdade, ele é meu primo em segundo grau, mas, quando crianças, todos pensavam que éramos "irmãos gêmeos". Os membros da família Mansel são muito parecidos uns com os outros. Você não cruzou com um carro modelo esporte, quando veio de Beirute ? Ou não viu um, estacionado em algum lugar?

Hoje de manhã ? Não vi nada na estrada, exceto um carro preto, com um motorista árabe e um Lond-Rover, com padres maronitas. — E o árabe olhou-me com curiosidade. Conheço o carro do seu primo. Eu o vi ontem. Quer dizer, então, que ele também passou a noite no palácio ?

Fiz um aceno afirmativo de cabeça.

        Isto significa que talvez ele tenha escapado antes de ser visto. Que alívio... Hamid, prometa não contar a ninguém. Na verdade, minha tia não sabe que ele esteve lá. Ela me viu na noite de domingo e depois eu lhe contarei mas declarou que não receberia meu primo Charles, e que ele não precisava dar-se ao trabalho de vir a Dar Ibrahim. Bem, você sabe que meu primo chegou, de carro, de Damasco, ontem de manhã, e veio para encontrar-se comigo, mas o rio estava em cheia, e por isto eu tive de ficar outra noite. Foi em parte por causa disso que meu primo concebeu um plano para penetrar no palácio e dar uma espiada pessoalmente. E, prosseguindo, expliquei-lhe rapi­damente os acontecimentos principais: o encontro no templo e os planos para penetrar no palácio sem ninguém ver. Depois de ajudá-lo a entrar, nós fizemos um exame lá dentro. Não tor­namos a ver nossa tia, e meu primo não achou conveniente chegar à presença dela à força. Por isto, voltei para a cama e ele saiu pela entrada dos fundos. Eu estava só desejando que ele tivesse ido embora com seu carro antes que alguém o visse.

- Eu não o vi. — Hamid, embora claramente intrigado com a minha história, contentou-se em me tranqüilizar: — É uma Porsche, não é ? Acho que não precisa preocupar-se. Conheço a pedreira a que se refere, e creio que teria notado, se o carro ainda estivesse lá quando passei.

Estivéramos subindo enquanto conversávamos. Agora, vi o que estava procurando: uma faixa de sombra sob uma árvore, a uns dez metros dali, onde meia dúzia de cabras se achavam, de pé ou deitadas, olhando para nós com uma cara de tédio e de altivez. Entre elas, o pastorzinho, sorridente e com seus cabelos fartos, achava-se sentado na terra, as pernas cruzadas, mastigando um pedaço de pão com a mesma espécie de fisionomia caceteada apresentada pelas cabras.

        Ah, aí está você! — disse eu.

Estou sempre aqui. — Foi o que ele respondeu, com uma espécie de simplicidade cósmica em que se podia acreditar pron­tamente.

Tudo bem — disse eu a Hamid, que se mostrara ligeiramente assustado. — É apenas o pastor de cabras.

Eu nunca o vi. — E olhou para o menino, desconfiado. — Se ele viu seu primo, Sr ta. Mansel, todo o povoado já deve saber, nesta altura, que o Sr. Charles passou a noite em Dar Ibrahim.

Acho que não. Tenho um palpite de que este menino não é de transmitir boatos... Em todo caso, se Nasirulla tivesse sabido, pode apostar em que o Sr. Lethman teria tido alguma coisa para dizer hoje cedo. — E interroguei o pastor. — Ahmad, você viu o inglês sair de Dar Ibrahim, hoje cedo?

Sim.

A que horas?

Pouco depois do amanhecer.

Deve ter sido por volta das quatro horas — falou Hamid.

        Ele deve ter ficado mais um pouco, depois que nos separamos. Por quê? Contudo... — Virei-me novamente para o menino. — Ele passou por aqui para ir para a aldeia?

— Sim. Foi buscar o carro branco que estava na pedreira, à beira da estrada.

O olhar de Hamid encontrou-se com o meu. Eu ri e ele deu de ombros, sem dizer nada.

        Você o ouviu partir de carro? — perguntei, e o menino confirmou, com um aceno de cabeça, e depois apontou com a mão, na direção de Beirute.

Fiquei surpreendida com minha sensação de alívio.

        Ele falou com você?

        Não. Eu estava ali. — E um movimento de cabeça pareceu indicar um montão inacessível de rochas a uns quatrocentos metros dali. — Ele veio do portão, existente nos fundos do palácio.

Não havia curiosidade na voz do menino, mas ele me observava atentamente. Olhei para ele, pensativa.

E isso foi muito cedo? Antes que mais alguém o visse? Um aceno afirmativo de cabeça.

Ninguém mais o viu?

Ninguém, só eu.

        E tenho certeza de que você já se esqueceu de que o viu, não é, Ahmad ? Ou que havia um carro?

Seguiu-se um clarão de dentes brancos, cravados no pão.

        Já me esqueci de tudo.

Tirei algumas notas da minha bolsa de mão, mas, embora seus olhos negros me observassem atentamente, o menino não fez nenhum movimento. Hesitei. Não tinha nenhum desejo de ofen­der-lhe a dignidade. Pus as notas na rocha ao lado dele e coloquei uma pequena pedra em cima, para que o vento não as carregasse.

        Muito obrigada — falei. — Que Alá o proteja.

Antes de eu ter dado mais de dois passos, afastando-me, notei um movimento de braços e pernas morenos, uma poeirada e, quando olhei novamente, as notas tinham sumido dentro do seu albornoz. Parecia que a dignidade vinha em segundo lugar. O primeiro era ocupado pelo bom senso.

        Guardei o dinheiro para as cabras não o comerem — explicou cuidadosamente o menino, e depois, em uma torrente de árabe que Hamid, sorridente, traduziu para mim, enquanto se­guíamos ao longo da trilha: — E que as bênçãos de Alá caiam sobre ti e teus filhos e os filhos dos teus filhos e os netos dos teus netos, até a última geração da tua casa...

 

Achei estranho encontrar o hotel com a mesma aparência, isto porque me parecia ter passado séculos fora, como a Bela

Adormecida, em um mundo de contos da carochinha. Na portaria, ainda encontrei o mesmo recepcionista de serviço, e ele me sorriu e levantou a mão, dizendo alguma coisa, mas eu o in­terrompi:

- Mais tarde, por favor. — E passei diretamente por ele, indo até o elevador, tendo só dois pensamentos em mente: tirar as roupas e entrar em um banho delicioso antes de falar com mais ninguém, ou sequer antes de pensar em Charles.

Foi ótimo estar de volta ao meu apartamento de hotel, arejado, moderno, impessoal e de um conforto esplêndido, jogar minhas roupas sujas no piso do banheiro e entrar no banho. O telefone tocou duas vezes enquanto eu me lavava, e uma vez alguém bateu na porta de fora, mas ignorei os chamados sem esforço, afundei toda feliz, durante um tempo perigoso, em uma solução concentrada de óleos para banho, e depois saí languida­mente, enxuguei-me e vesti cuidadosamente a roupa mais fresca que possuía — branca e amarela, e muito alegre — e depois tele­fonei para a portaria, pedindo café e uma ligação para meu primo.

Mas nesse ponto, finalmente, o rapaz da recepção conseguiu falar comigo, ligeiramente zangado e talvez, em decorrência disto, satisfeito pelo fato de poder decepcionar-me. O Sr. Mansel não estava no hotel. O recepcionista quisera informar-me disto. Ten­tara dar-me a carta de Charles Mansel, mas eu não esperara... Depois, ele telefonara duas vezes, mas eu não atendera. Uma carta? Sim, o Sr. Mansel me deixara uma carta, para me ser entregue logo que eu chegasse... Sim, naturalmente, Srta. Mansel, a carta já fora mandada para cima, para seu apartamento. Quando eu não atendera ao telefone, ele mesmo mandara um menino com a carta. Eu não atendera também à porta, e por isto o moço de recados enfiara a carta por baixo da porta...

A carta estava no pequeno saguão do apartamento, branca, sobre o tapete azul, assustadora como um sinal de alarme. Agar­rei-a e carreguei-a para um lugar bem claro.

Não sei ao certo o que eu esperara. Mesmo depois dos acontecimentos da noite anterior, eu só podia encarar a situação existente no palácio de tia Harriet como altamente esquisita, mas minha decepção por não ter visto imediatamente meu primo foi tão grande, que rasguei o envelope, muito furiosa e irritada, e olhei a carta como se esperasse que fosse uma obscenidade de autor anônimo, ou, pelo menos, alguma coisa falsificada.

Mas era, inconfundivelmente, a caligrafia do meu primo. E era uma carta simples, calma e que me deixou furiosa. Dizia:

 

"Cara Prima

Sinto muito a respeito disto, pois não há nada que me haveria agradado mais do que estar na sua companhia, hoje cedo, depois de você ter voltado para o hotel, para que você me contasse tudo. Estou interessado, principalmente, em saber se John Lethman a deixou falar novamente com tia Harriet. Quase fui surpreendido depois que a deixei. Tia Harriet veio pelo corredor subterrâneo com a moça, quando eu ia saindo ao pé da escada em espiral. Consegui escon­der-me a tempo, mas ainda pude vê-la de relance. Como você disse, atualmente titia está transformada em uma figurinha difícil, mas parecia bastante viva e falava sem cessar com a empregada árabe. Senti-me muito tentado a sair do esconderijo e bater um papo com ela ali mesmo, mas as duas poderiam levar um susto danado, e por isto fiquei onde me achava até as duas passarem pela porta do príncipe, e depois saí de lá. Não tive dificuldades. Apanhei meu carro e vim para cá, sem ter visto ninguém. Não quis entrar no hotel ao amanhecer, e por isto tomei café em um bar e telefonei para Alepo, a fim de tentar falar com o pai de Ben. Disseram-me que ele partira para Homs e que devia voltar hoje para casa.

É neste ponto que você vai ficar furiosa comigo, principalmente depois das desconfianças que lhe manifestei. Talvez eu esteja totalmente enganado a esse respeito. Uma coisa que eu a ouvi dizer a Halide me permitiu compreender certos fatos. Depois eu telefono dizendo quando nos iremos encontrar. Mas ainda há um problema, e a única pessoa que pode resolvê-lo é o pai de Ben, e acho que ele vai partir novamente para Medina quase imediatamente. Portanto, fui para Damasco a fim de falar com ele antes que o homem viaje. Sinto muito isto, pois sei que você ficará furiosa co­migo, mas tenha paciência. Voltarei logo que puder. Ama­nhã, talvez, ou quinta-feira pela manhã. Espere por mim até lá, e afie as garras. Mas, por favor, não faça mais nada... Continue hospedada no hotel e quando eu voltar nós dois vamo-nos divertir. E acho — se minha idéia der resultado — que, afinal de contas, me acabarei entrevistando com tia Harriet.

Com amor e um beijo.

Charles"

 

Li duas vezes a carta, achei que minhas garras serviriam muito bem como estavam, e que Charles tinha sorte de estar na metade da estrada para Damasco neste momento; depois servi café para mim, em uma xícara, sentei-me e peguei o telefone. Um dos dois primos era, é claro, completamente independente, e há vários anos era dono do seu próprio nariz. Tinha vinte e dois anos e vinha de uma família que se declarava indiferente. Não precisava de conselhos nem de ajuda, e não gostava muito de tia Harriet...

Mas seria bom contar tudo ao papai. Apenas para me di­vertir, é claro. Pedi uma ligação internacional para Christopher Mansel, na firma Mansel, em Londres, e sentei-me para esperar que ficasse pronta, tomando café e fingindo ler O Oriente Médio, de Hachette, e observar o azul imutável do céu acima dos arra­nha-céus de concreto daquela cidade em transformação.

 

O conselho de papai foi breve e direto.

Espere a volta de Charles.

Mas, papai...

Bem, que é que você queria fazer?

Não sei. Acho que não é isto. Acontece, apenas, que estou furiosa com Charles. Ele poderia ter-me esperado! É tão peculiar dele, agir com esse egoísmo...

Claro — concordou meu pai. — Mas, se ele estava ansioso para falar com o pai de Ben antes que este viajasse, não poderia tê-la esperado, poderia?

Mas, que urgência é essa de falar com o pai de Ben? Quem é o pai dele? Seria de esperar que, se ele precisasse de um contato urgente, poderia recorrer a algum dos nossos funcionários em Beirute...

Seguiu-se uma breve pausa.

Não tenho dúvida de que Charles tem suas razões — falou meu pai. — Você sabe se ele já fez contatos lá?

Não, a não ser que ele tivesse dado alguns telefonemas rápidos hoje de manhã. Acho que ele poderia ter falado com alguém ontem, mas não me contou.

Compreendo.

Devo entrar em contato com nossa gente?

Se você quiser... Mas acho melhor deixar os assuntos de família por conta de Charles.

Elegê-lo chefe dos assuntos de família? Esta é boa.

É um motivo tão bom quanto outro qualquer — disse meu pai, tranqüilamente.

Está bem — falei. — E um dos motivos que me levam a concordar é que não sei para onde ele foi com essa pressa toda, principalmente se as desconfianças dele deram em nada...

Você me contou tudo que ele disse na carta que deixou para você?

Sim.

Então, acho que o sensato é parar de pensar nisso. O rapaz sabe o que está fazendo, e deixou bem claro um ponto.

Que ponto?

Que não quero que você faça alguma asneira, minha filha, só porque está pensando muito em Charles — disse meu pai, francamente. — Esqueça-o e continue a fazer o seu turismo, e telefone-lhe logo à noite, para descobrir o que ele anda tramando. Nem sonhe em voltar ao palácio sem ele... Christy?

Não desliguei. Pode falar.

Você me entendeu bem?

Sim — disse. — Diacho, papai, os homens são todos iguais. O senhor continua na Idade da Pedra. Sei cuidar muito bem de mim mesma, e sei que o senhor sabe disso. Afinal de contas, que há de errado? Por que não devo ir novamente ao castelo, se tiver vontade de ir?

Você tem vontade?

Bem... não tenho.

Então, tente não ser mais idiota do que a natureza a fez — falou meu pai, em tom severo. — Como é que você está de dinheiro?

Ainda tenho dinheiro suficiente, obrigada. Mas, papai, o senhor não acha realmente...?

A telefonista interferiu, em uma voz sem inflexão, e deu o aviso mecânico:

O tempo está esgotado. Quer uma extensão de tempo?

Sim — falei, prontamente.

Não — contrariou meu pai. — Agora, vá-se divertir, mi­nha filha, e espere seu primo. Ao que eu veja, não existe nada errado, mas eu preferia que você estivesse com o Charles, só isto. Ele tem muito bom senso.

- Pensei que ele fosse um rapaz estragado pelos mimos e vivesse para se divertir. Não foi o que o senhor sempre disse dele?

- Se isso não mostra bom senso, então não sei mais o que ostraria.

- E eu não mostro?

- Meu Deus, você não mostra. Você saiu à sua mãe — disse meu pai.

- Bem, graças a Deus por isto — falei, com azedume, ri, papai também, e desligou.

Por algum motivo absurdo, sentindo-me aliviada e muito alegre, desliguei o telefone e passei ao sério trabalho de me maquilar e de arrumar os cabelos e de pensar no almoço.

A princípio, eu tivera a intenção de ver Beirute sozinha e à vontade, e era, realmente, idiotice pensar que estava aborrecida por me haverem deixado fazer isto. Em todo caso, não havia mais nada para fazer, esta tarde. Saí para fazer turismo.

As ruas estreitas de Beirute são sujas, entupidas de gente e quase tão opressivas quanto os becos de Londres. Embora minha estada recente em Dar Ibrahim e muita coisa que eu lera a res­peito de Beirute me houvessem feito esperar encontrar, aqui, romance e emoções, tenho de relatar que não aconteceu nada, exceto que pisei em um monte de peixes podres e estraguei uma sandália, e quando perguntei o nome de um estranho pó azul que se achava em um pequeno saco, esperando que fosse, no mínimo, haxixe ou ópio cru, disseram-me que era outra coisa. Mas o beco dos Ourives era melhor, e gostei muito de um colar de turquesas enormes, e quase resolvi agir como Halide, pois aquelas pedras eram tão lindas e tão baratas, e os braceletes finos brilhavam tanto, estendidos em fileiras, ao longo das hastes colo­cadas nas janelas. Mas eu soube resistir à tentação e com o tempo acabei saindo na praça dos Mártires apenas com um tubo de creme para as mãos e uma turquesa montada em ouro que com­prei para servir de figa na Porsche de Charles, antes de me lembrar que estava furiosa com ele e que quanto antes o Olho Mau o pegasse, tanto mais eu gostaria, e que eu teria sorte se nunca mais tivesse notícias dele.

Já era noitinha, pouco depois do crepúsculo. Talves Charles já tivesse chegado a Damasco. Podia ser que houvesse telefonado... Entrei em um táxi e pouco depois estava a poucos metros do meu hotel.

A primeira pessoa que vi foi Hamid, inclinado graciosamente sobre o balcão, conversando com o recepcionista. Desta vez, 0 recepcionista era outro, mas Hamid sorriu do outro lado do saguão, para mim, e disse alguma coisa ao homem, e antes que eu tivesse atravessado rumo ao balcão, o recepcionista já examinara o escaninho correspondente ao número do meu aparta­mento e agora sacudia a cabeça. Não, não havia recados.

Acho que minha expressão fisionômica deve ter-me denunciado, pois Hamid perguntou, depressa:

A senhorita estava esperando alguma notícia importante?

Só de meu primo. Não o vejo desde ontem à noite.

        Ah, é? Ele não estava aqui no hotel quando voltamos, hoje cedo?

Já havia partido para Damasco — informei.

Para Damasco?

Confirmei, com um aceno de cabeça.

        Havia uma carta para mim, quando voltei para o hotel, hoje de manhã. Charles tivera de partir cedo. Achei que talvez ele pudesse estar lá, nesta altura, e que me houvesse telefonado... Que é?

Esta última pergunta foi dirigida ao recepcionista, que estivera respondendo a umas perguntas de um árabe de rosto tris­tonho vestido com um tarbuche vermelho, e que agora pedia minha atenção.

Sinto muito, Srta. Mansel. Ouvi o que estava dizendo, e imagino se terá havido um engano. Houve um telefonema de Damasco, hoje, mais cedo. Pensei que era para o Sr. Mansel, mas poderia ter sido para a Srta. Mansel. — E o homem estendeu as mãos, em um gesto de desalento. — Sinto muito...

Ah. Bem, mesmo que fosse para mim — falei, de maneira razoável — eu não estava aqui... Acabo de chegar. A que horas aconteceu isso?

Não há muito tempo. Talvez uma hora. Eu acabara de entrar de serviço.

Hum... Bem, muito obrigada, deve ter sido esse o telefonema. Não se preocupe, não era coisa importante... E, se for, ele poderá telefonar novamente. Acho que não deixou nú­mero de telefone, deixou?

        Acho que não, mas vou averiguar.

Puxou uma tira de papel do escaninho correspondente ao apartamento de Charles e o entregou a mim. Dizia, apenas, que houvera um telefonema de Damasco, às 05:05, mas não havia nenhum nome no papel, e também nenhum número de telefone.

Devolvi o papelzinho.

Bem, eu não vou tornar a sair do hotel, esta noite, e, portanto, se ele tornar a telefonar, você me localizará, não é?

Naturalmente. Direi imediatamente à telefonista. — Pegou o telefone e começou a falar em árabe.

Se a senhorita soubesse onde está hospedado — disse Hamid — poderia ligar para ele agora.

Pois é exatamente isto, eu não sei onde Charles está. Ele foi ver um amigo, e agora acaba de me ocorrer que me esqueci do sobrenome completamente... Nem consigo lembrar-me de que já o tenha ouvido. Até visitei a casa, mas não sei qual é o endereço. — E ri. — Mas eu poderia descobrir, se desse uns tele­fonemas. Eles têm parentes em Beirute, e há um cunhado do amigo de Charles que é ministro do Gabinete. Ministro do In­terior, nem sei lá o que é isto.

Entre outras coisas, a polícia — falou Hamid, alegremente. — E deve ser muito fácil encontrá-lo. Deseja que eu faça indagações?

Não, não precisa ter esse trabalho. Prefiro não os importunar. Meu primo tornará a telefonar.

        Ele vai voltar para Beirute?

Na quarta ou quinta-feira... Charles não tinha certeza do dia exato.

Srta. Mansel. — Era o recepcionista. — Tivemos sorte. O telefonema tornou a vir enquanto eu falava com a telefonista. É para o Sr. Mansel, mas, quando o homem que telefonou soube que ele não estava no hotel, perguntou pela senhorita. Está espe­rando na linha.

        Não é meu primo? Está bem, onde é que eu atendo?

— Naquela cabina ali, por favor.

A cabina era aberta e só não se conseguia ouvir o que se dizia lá dentro quando a pessoa que falava se inclinava muito para o interior, mas, na verdade, atuava como uma câmara de eco e projetava a voz da pessoa para fora. Ao lado da cabina, duas mulheres inglesas falavam sobre as ruínas de Byblos, um grupo de americanos conversava a respeito de comida e, na cabina ao lado da minha, o árabe de cara triste estava, ao que parecia, fracassando na tentativa de conseguir a ligação desejada, e falava em árabe. Tapei o ouvido livre com a outra mão e tentei falar ao telefone.

Quem falava era Ben, e com o vozerio passou-se algum tempo antes que conseguíssemos identificar um ao outro, e então houve uma surpresa.

        Charles? Aqui? Em todo caso, ainda não chegou. A que horas ele saiu daí?

        Não sei ao certo, mas foi cedo. Ele não lhe telefonou?

Não. Não que não seja agradável vê-lo novamente. Mas ele não a poderia ter esperado para trazê-la também ?

Teria sido ótimo, mas acho que Charles desejava falar com seu pai sobre um assunto muito urgente, e não queria chegar aí depois que ele tivesse partido.

Pois é exatamente sobre isto que eu queria falar com seu primo. Meu pai deve chegar em casa amanhã, vindo de Homs. Nós o esperamos para jantar. Prometi que avisaria Charles...

Mas ele disse, com toda certeza... — falei, intrigada. — Oh, bem, Charles deve ter-se enganado.

        Enganado a respeito de quê?

        Nada. Desculpe. Estou no saguão do hotel, e estão fa­zendo um barulho danado atrás de mim. Parece que Charles fez confusão quanto ao dia da chegada do seu pai. Ele pensa que seu pai vai chegar em casa hoje. Então, afinal de contas, ele poderia ter esperado, em vez de viajar sem mim! Escute, desculpe importuná-lo, mas seria possível pedir-lhe para me telefonar, logo que chegue aí, se é que vai chegar?

        Claro, direi a ele. A senhorita está preocupada?

        Não, nem um pouco — falei. — Apenas danada da vida. O homem riu.

        Escute, tive uma idéia. Há muito tempo desejo conhecê-la, e sei que meu pai também gostaria de conhecê-la. Portanto, por que não vem para cá, encontrar-se com Charles aqui ? Assim, poderia tomar parte na conversa... Ficaria dois ou três dias, eu mesmo lhe mostraria Damasco. E, se Charles não aparecer, tanto melhor. Que me diz?

        Parece muito tentador.

        Bem, por que não? A tentação só adianta quando não se resiste a ela. Venha... Você tem carro?

- Eu... Não, não tenho. Tenho usado um carro alugado... Hesitei. — Sabe — acrescentei, lentamente. — Acho que eu gos­taria de ir, se você tem certeza...?

Claro que tenho certeza. — Sem dúvida, o homem era sincero, e parecia desejar muito minha ida. — Seria um enorme prazer tê-la aqui. Sinto muito não a ter visto quando você esteve aqui em casa, e sei que meu pai ficará muito contente. Então, está combinado! Nós a esperaremos. Você conseguiu ver a Lady do Líbano?

A...? Ah, esqueci-me de que você sabia disso. Sim, eu a vi, mas Charles não foi recebido por ela. Para dizer a verdade, Charles ficou um tanto aborrecido com isto, e surgiram algumas dúvidas, sobre as quais, creio eu, ele quer falar com seu pai. Charles está fazendo muito mistério sobre isso. Eu e Charles tivemos uma aventura interessante lá, mas é melhor eu não lhe contar isto pelo telefone.

Você me deixa curioso. Espero que não queira dizer com isto que tenha havido encrencas...

Oh, não, mas Charles pareceu ter achado que havia alguma coisa suspeita lá. Mostrou-se muito misterioso a respeito do as­sunto, e agora partiu sem me dizer nada, e é por isto que estou tão furiosa com ele.

O homem riu.

Vou dizer a ele.

Como se ele se importasse com isto!

Bem, nós dois conseguiremos arrancar-lhe o segredo. Gostaria muito de saber de tudo a respeito da Dar Ibrahim! Então, eu a verei amanhã? Você tem o endereço?

Céus, não... Não tenho! Que é que vai pensar de mim? Um instante, pronto. Tenho um lápis. Pode falar... O nome, qual é? Obrigada... E o número do telefone, por via das dúvidas? Sim, já anotei tudo. Vou ler para você conferir, está bem? Pronto... Confere? ótimo, meu motorista o en­contrará. É muita amabilidade sua, vou adorar. Importa a que horas eu chegue?

Nem um pouco. Ficaremos à sua espera, e desta vez você irá ver a verdadeira Damasco.

Nesta altura, a ligação foi interrompida. Atrás de mim, as senhoras inglesas tinham mudado de assunto. Agora, conversavam sobre as ruínas de Krak des Chevaliers, os americanos continua­vam falando de comida e o árabe na cabina pegada à minha agarrava-se a seu fone, olhando-me com inveja. Olhei para o homem, com pena dele, e saí da minha cabina.

Hamid ainda se achava junto ao balcão da recepção.

Não era o telefonema que a senhorita queria?

De certa forma, era. Quem telefonou foi uma das pessoas com quem meu primo quer falar em Damasco. Disse-me que Charles ainda não chegou lá. Talvez me telefone mais tarde, quando chegar.

Mandarei para seu apartamento — prometeu o recep­cionista.

Obrigada — disse eu, e me virei para Hamid. — Você tem compromisso para amanhã?

Ainda não. A senhorita precisa de mim?

Quer levar-me a Damasco? Vou falar pessoalmente com eles. O nome da família é Sifara, e aí está o endereço. Você poderá encontrá-lo?

Sem dúvida.

Não voltarei no mesmo dia, mas, é claro, pagarei a você a viagem de volta.

A senhorita já me pagou por muita coisa que não fiz. Não, não se preocupe, darei um jeito de trazer alguém que venha de Damasco para Beirute. É uma coisa normal, e nós fazemos isto toda semana. A que horas devo buscá-la, então?

Às dez horas da manhã, por favor.

E se seu primo telefonar?

Ele que telefone — disse. — Mesmo assim, irei para Da­masco.

Mas Charles não telefonou naquela noite.

 

             Mas, será colhido de surpresa.

  1. Fitzgerald: Rubaiyat, de Ornar Khayyam

 

E também pela manhã não houve telefonema algum.

Cheguei a pegar três vezes o papel onde tinha garatujado o seu telefone, e três vezes peguei o fone. E o mesmo número de vezes deixei-o novamente no lugar. Se Charles quisesse telefo­nar-me que me telefonasse. Se não quisesse, eu não ia importu­ná-lo. Para mim, tinham-se acabado os tempos em que eu seguia nas águas de Charles. Tinham-se acabado definitivamente.

Além disso, não adiantaria telefonar, pois eu iria a Damasco...

Deixei o telefone e desci para o saguão do hotel.

A manhã apresentava-se quente e sem nuvens. O carro, grande e familiar, parou diante do hotel, às dez horas, e eu entrei e me sentei ao lado do motorista. Hamid, impecável como sempre na sua camisa alvíssima, dirigiu-me um cumprimento alegre e afastou o carro do meio-fio, penetrando no tráfego de Bab-Edriss e das ruas estreitas atrás da Grande Mesquista, para alcançar a longa curva da estrada de Damasco, afastando-se da costa e atra­vessando os parques de verão, chegando aos contrafortes das montanhas do Líbano. Pouco além de Bar Elias, a estrada se bifurca, seguindo rumo norte, para Baalbek, e para sudoeste, para a encruzilhada, cuja ramificação esquerda leva para Wadi el Harrir e para o passo entre monte Hermon e o Djebel de Xeque Mandour, onde fica a fronteira.

Eu já cruzara esta fronteira antes, indo na direção inversa, com meus colegas de turismo, de Damasco para Beirute, e por isto achava-me preparada para a longa espera, para o rastejar de ponte em ponte, para as paradas maçantes e para o frenesi de desconfianças que suscitam as fronteiras dos países árabes, todos irmãos. Éramos o quarto veículo da fila, do lado libanês. Mas, a duzentos metros, do outro lado da terra de ninguém, pude ver uma fila enorme de veículos que seguiam para o norte, inclusive um ônibus, esperando, expostos ao calor e à poeira, enquanto não ficavam livres da fiscalização síria.

Hamid pegou os documentos do carro e meu passaporte e desapareceu dentro das guaritas de concreto que serviam de posto fronteiriço. O primeiro carro atravessou a barreira, parou nova­mente para o exame de carro e para o suborno do guarda fron­teiriço e seguiu lentamente, para repetir a operação do outro lado. Quinze minutos depois, foi seguido pelo outro. Agora, restava só um veículo à nossa frente. Fazia muito calor dentro do carro parado. Saltei, escalei a margem da estrada e encontrei um pedregulho menos empoeirado do que os outros, no qual me sentei. O hotel me fornecera uma cesta com sanduíches. Levei um, que agora comecei a comer, até que meu olhar caiu sobre um cão magro que chegara à margem da estrada, abaixo de mim, e me contemplava ansiosamente, a uns dois metros. Estendi o resto do sanduíche. O cachorro olhou para ele com uma vontade louca de comê-lo, mas não se atreveu a aproximar-se mais. Fiz menção de jogá-lo para o animal, mas ao primeiro movimento da minha mão ele se encolheu e afastou-se violentamente. Levan­tei-me devagar, dei dois passos ao longo da estrada, depois voltei os poucos passos que me separavam do carro. Sempre me obser­vando, o cão avançou lentamente, com todos os ossos aparecendo sob a pele suja, e começou a comer o resto de sanduíche. Aba­nando a cauda, agradeceu-me.

        Estava gostoso? — disse eu, delicadamente, apesar da minha raiva pela espera, e o olhar do cão rolou para o alto e o branco dos seus olhos apareceu, enquanto ele tornava a abanar a cauda. Esta se achava tão presa a seu corpo, que só a ponta se movia, de tão suja, e desconfiei de que era a primeira vez que a movia, há anos. Vi que o sanduíche seguinte era de galinha, e devia estar delicioso. Coloquei-o no chão de terra. O cachorro agarrou-o nos dentes, agora mais confiante, mais, ainda no ato de abocanhá-lo, virou-se e fugiu. Olhei ao redor. Hamid deixara os postos da guarda fronteiriça e aproximava-se do carro.

Eu estava com minha porta meio aberta, quando notei que ele sacudia a cabeça.

        Infelizmente, deve haver alguma coisa errada. Eles dizem que não podemos passar.

        Não podemos passar? Ora... E por quê?

Dizem que seu passaporte não está em ordem.

Mas isso é asneira! Claro que está em ordem! Segundo eles, que é que ele tem de errado?

Hamid falava em tom de desculpa e infeliz.

        Não há visto de entrada para o Líbano... Na verdade, o fiscal diz que não há visto de saída da Síria. Que, oficialmente, a senhorita não está no país, e, portanto, ele não a pode deixar sair dele.

Fiquei olhando, encabulada, ainda sem entender direito.

Não estou oficialmente no... Raios! Mas como foi que ele acha que vim parar aqui? Por um passe de mágica?

Não creio que ele tenha pensado isso. Acha que deve ter havido algum engano, mas aqui ele não o pode corrigir.

Ora, esta é boa! — disse furiosa. — Você tem o passaporte aí? Posso vê-lo? Diacho, eu passei por esta mesma fronteira na sexta-feira, e deve haver um carimbo... Hamid, por que o alfabeto de vocês é tão horrível? Você já examinou o passaporte?

Examinei, sim, e, infelizmente, ele tem razão, Srta. Mansel. Não há carimbo...

Como havia poucos carimbos no meu passaporte, minha busca apressada não levou muito tempo, e, realmente, parecia que o fiscal tinha razão. Ergui o olhar, sem confessar que o engano — fosse qual fosse — pudesse impedir-me de ir a Damasco.

Mas eu repito, eu passei aqui na sexta-feira. Eles devem tê-lo carimbado naquele dia, não é? Se não o carimbaram, então o erro foi deles. Entreguei o passaporte e eles me deixaram passar... Você disse ao homem que passei por aqui na sexta-feira?

Disse-lhe que a senhorita veio recentemente de Damasco. Eu não sabia ao certo em que dia foi.

Vim com um grupo, em cinco carros... vinte e duas pessoas, e um mensageiro especial inglês. Isso foi na sexta-feira, por volta de meio-dia. Se for o mesmo homem que esteve de serviço naquele dia, talvez ele se lembre de que passamos por aqui, e, em todo caso, eles devem ter o registro. E o estafeta tinha uma lista; devia constar meu nome nela. Quer fazer o favor de voltar lá e de lhe dizer isto ?

Claro que lhe direi. Mas acho que aí é que está a dificuldade; se a senhorita veio com um grupo de turistas, sem dúvida seu nome estava no passaporte de grupo, a "lista" que o seu estafeta mostrou. Não é sempre que eles carimbam os passaportes individuais desses grupos, que só são carimbados quando a pessoa pede. A senhorita não pediu que o carimbassem, pediu?

Claro que não pedi, nem sequer pensei nisso. Acho que nosso mensageiro devia ter previsto a dificuldade. Ele sabia que eu ia ficar no Líbano... Mas escute, Hamid, isto é tolice! Claro que eles têm de saber que eu não poderia estar aqui ilegal­mente! Eles conhecem a você e a seu carro, pois você passa sempre por aqui 1

Toda semana. Oh, sim, eles me conhecem... Eu posso passar, e meu carro também, pois nossos documentos acham-se em ordem. Infelizmente, acho que a senhorita não pode. O regula­mento é muito severo.

Parece uma estupidez! — falei, zangada. — É como as brigas entre Inglaterra e Escócia. Acho que, atualmente, quanto menor o país mais escarcéu ele faz... Sinto muito, Hamid, não tive intenção de ser rude. É que isto me deixa tão fula de raiva... Faz um calor danado. Desculpe.

Não precisa desculpar-se — disse Hamid, em tom generoso e sincero. Sua fisionomia tinha uma expressão simpática e preo­cupada. — Mas ele voltará amanhã, não é?

Quem?

Seu primo.

Ora, eu nem estava pensando em meu primo — disse, em tom ríspido. Mas estava, é claro, e Hamid soubera disso antes que eu compreendesse o fato. Sentia-me vulnerável, uma impres­são que era nova para mim, e inteiramente desagradável.

Sei que estas barreiras de fiscalização de fronteira são cacetes para os estrangeiros — ia dizendo ele. — Mas nós temos problemas aqui e, infelizmente, problemas sérios. Entre outras coisas, há um grande volume de contrabando... Não me com­preenda mal, não digo que ninguém pense que a senhorita é contrabandista, mas o regulamento foi feito e tem de ser cumpri­do, e, infelizmente, a senhorita está fora dele.

Ora, e que contrabando nós dois traríamos? Temos cara de quem traz armas, bebidas ou coisa assim ? É até ridículo...

Bebidas, não, mas nós poderíamos estar trazendo entorpecentes.

Carreguei o cenho.

        Entorpecentes? Acho que isso seria possível. Esqueci-me do lugar em que me encontro. Um dos livros do meu primo dizia que era o "mercado negro da maconha".

Hamid riu.

        É o que diz o livro? Sim, infelizmente Beirute tem — digamos assim — má fama sob alguns aspectos. E, também, lamento dizer que não é só maconha. Na Turquia e no Irã se nlanta ópio, que é levado de contrabando para o mar. Como la lhe disse, agora a fiscalização sobre os entorpecentes vai ficando cada vez mais rígida. A Assembléia-Geral das Repúblicas Árabes Unidas tem feito reclamações aos governos, e as punições estão mais severas, e, como vê, as coisas na fronteira não são nada fáceis.

Acho que compreendo que eles têm de ser severos. Mas, sem dúvida, não precisam importunar os turistas por causa disso, não é?

Têm aparecido alguns turistas fazendo contrabando de entorpecentes. Ainda há pouco tempo, dois estudantes ingleses foram presos e se descobriu que eram culpados. Não leu isto nos jornais ?

Sacudi a cabeça, em sinal negativo.

Que foi feito deles ? Qual é o castigo ?

Para eles, a prisão. Ainda estão em Beirute. Antigamente, a sentença era só de três anos, mas agora é longa, e com trabalho forçado. Para um libanês, isto significaria, além da sentença, a perda dos direitos civis e o registro nos arquivos da polícia como traficante de entorpecentes. E, nos outros países, o castigo é muito pior. Na Turquia, por exemplo, o castigo é a morte... E também no Egito, agora, e no Irã, Viu como a coisa foi levada a sério ?

Mas pensei que você tivesse dito, no outro dia, que não se leva isto a sério no Oriente Médio. Pelo menos, você deu a entender que ninguém achava errado fumar maconha.

Quando um governo toma uma medida e leva uma coisa a sério, pode-se logo notar que o problema não é moral, e sim econômico — disse Hamid, cinicamente. No Egito, por exemplo, o problema é muito sério... O viciado em maconha não produz nada, pois fica incapacitado para o trabalho. E o governo tem andado muito preocupado a respeito das importações ilegais da droga, oriunda do Líbano, e por isto faz reclamações junto à Assembléia Nacional. E, infelizmente, no momento, todos nós temos de tomar conhecimento do que o Egito pensa e deseja. E ele sorriu. Portanto, vê como as coisas estão difíceis? E difíceis estão também para os fiscais. Está vendo o ônibus?

Graças aos céus, o ônibus desligara o motor e achava-se parado junto à barreira do Líbano. Os passageiros tinham descido e estavam de pé, por perto, enquanto seus documentos eram examinados. Todos eles tinham o ar fatalista de pessoas dispostas a perder o dia inteiro, e era fácil ver o motivo, pois em cima do ônibus, empilhados como os objetos de uma pessoa flagelada que foge de uma desgraça qualquer, achavam-se os pertences de todos que iam a bordo do coletivo. Parecia haver poltronas estofadas e colchões, junto com tapetes, amarrados de roupas, malas sujas de lona, que outrora já tinham sido despachadas com o rótulo da Air France ou da B. O. A. C, e um engradado cheio de gali­nhas muito infelizes.

        Eles têm de examinar tudo aquilo — explicou Hamid.

        Por causa de alguns pacotes de entorpecentes? — indaguei. — Não me diga isto...

Hamid riu.

Mas sim. Algumas vezes, encontram mais do que alguns pacotes. E há centenas de meios de disfarçar e transportar maconha. Ainda na semana passada, um homem foi detido. Dizia ser sapateiro, e junto com as ferramentas de sapateiro havia uma valise grande cheia de solas de couro para sapatos. Mas tratava-se de maconha, moída muito fina e depois plasmada em forma de solas. Algumas vezes, parece goma, geléia ou estrume de ovelhas.

Bem — disse eu. — Acho que alguém que seja apanhado levando uma valise cheia de estrume de ovelhas na fronteira tem de ser preso imediatamente.

É verdade — falou Hamid, sério. — Bem, se quiser eu vou lá explicar a respeito do passaporte em grupo. Quer es­perar aqui?

Se não se importa, irei com você, e falarei pessoalmente com eles. Algum deles fala inglês?

        Duvido, mas eu servirei de intérprete.

O interior da guarita era pequeno e muito abafado, e estava cheia de homens com uniformes cor de oliva, todos falando ao mesmo tempo. O vozerio cessou quando entrei, e um homem de uniforme — atarracado — atrás do balcão ergueu os olhos, em sinal de desespero, e sacudiu a cabeça. Expliquei e Hamid tra­duziu, e o oficial ouviu o melhor que pôde, enquanto outros carros iam-se acumulando do lado de fora, e os motoristas pro­curavam abrir caminho rumo ao balcão, com seus documentos dobrados. As moscas zumbiam no calor da tarde, e o cheiro de suor, de tinta e de tabaco turco era quase visível no ar.

Mas foi inútil. O oficial foi gentil, mas firme. Fez um aceno afirmativo de cabeça, compreensivamente, enquanto eu explicava, e até teve pena de mim, mas não podia fazer nada. E o assunto ficou claro. Não havia carimbo de entrada; então, como podia ele carimbar uma saída ? Sentia muito, mas não era possível; tinha de cumprir as ordens recebidas. Que lamentava muito, mas que lei é lei.

Ficou bem evidente que o homem não estava fazendo aquilo, me criar embaraços, e que fora paciente e delicado em face de uma situação bem desagradável para ele. Acabei desistindo, antes que eu também perdesse a calma, naquele calor danado, agradeci ao homem e lutei para abrir caminho a fim de sair da guarita.

Depois do contato com o ar fétido lá de dentro, o ar de fora pareceu-me quase fresco. Caminhei até o carro, imaginando, muito aborrecida, o que deveria fazer. Voltar, é claro, pois não havia alternativa. Tudo que eu podia fazer era dar um jeito de salvar o dia e aproveitar o tempo, pedindo a Hamid para me levar a algum lugar para dar um passeio. Iria a Baalbek... Eu já vira Baalbek antes, com o grupo de turistas de que fizera parte, mas fora um programa muito apertado. Talvez se subís­semos o vale do Bk'aa, indo devagar, eu pudesse ver Baalbek novamente e depois voltar para Beirute pela estrada das mon­tanhas. .. Quando voltasse para o hotel, poderia telefonar a Ben. Não havia pressa disso, e lhe contaria o que me acontecera. Era decepcionante e até dava para enfurecer, mas na verdade não era imprescindível minha ida lá.

Mas o pior é que era importante.

Meu olhar encontrou o de Hamid, e eu disse, de repente:

        Sei que talvez eu o veja amanhã, mas desejava vê-lo hoje, agora, o mais breve possível. Não me pergunte por quê, não lhe sei dizer, em forma de palavras conexas, mas... — E dei de ombros e estendi as mãos, em um gesto muito pouco inglês, mas que para os árabes deveria ser muito familiar.

Hamid disse, rapidamente:

        Então, acha que ele está em apuros?

Oh, não, não é nada disso. Como poderia ele estar? Como eu já disse, não sei explicar. Bem, se não podemos passar, não podemos, e pronto, e não adianta ficarmos aqui, falando o dia inteiro, não é ? Teremos de voltar, e telefonarei a Damasco quan­do voltar para o hotel. Obrigado por ter sido tão paciente comigo, Hamid... É muita bondade sua ter tanto trabalho por minha causa. Oh, meu Deus, espere um instante... Esqueci-me. Você já havia combinado trazer alguém de Damasco? Que acontecerá, se não puder chegar lá a tempo para apanhar as pessoas?

Não importa. Em todo caso, eu só deveria voltar de lá amanhã. Posso telefonar, e outra pessoa apanhará os meus fre­gueses. — Abriu a porta do carro para mim. — Não pense mais nisto, o dia de hoje é seu. Para onde mais posso levá-la? A senhorita já viu Baalbek? Hesitei.

Acho que já é um tanto tarde para seguirmos para Homs, não é?

Não é, mas lá também existe fronteira...

Diacho. É mesmo. Estamos encrencados, hem? Bem, se acha mesmo que não tem importância e que outro poderá trazer os seus fregueses de Damasco, então gostaria de ver Baalbek novamente, sozinha, com tempo de sobra. — Mas, quando eu ia entrando no carro, tive outra idéia, e parei um instante. — Sabe de uma coisa? Pensando bem, teremos de voltar para Beirute. Que vai acontecer quando eu quiser deixar o país e voltar para Londres? Terei de arranjar novo passaporte, ou ir procurar o cônsul e fazer indagações sobre esse maldito carimbo de saída, ou coisa assim? Se vamos ter dificuldades, talvez levasse muito tempo. É bom eu fazer isso imediatamente.

Acho que tem razão, mas não creio que isso seja da alçada de seu cônsul. Acho que teremos de procurar o Chefe da Segurança em Beirute e arranjar outro visto. Se quiser esperar mais um pouco, irei lá perguntar ao oficial de serviço o que deve ser feito. E quem sabe? Talvez não seja muito demorado. Talvez até possamos voltar e chegar a Damasco por volta do anoitecer.

Nem mesmo eu estava esperando a onda de prazer e de alívio que isso me deu. Sorri para ele.

Oh, sim, isto seria maravilhoso, e você ainda poderia apanhar os passageiros, na volta. Mil vezes obrigada, Hamid, você é muito bonzinho.

Por um sorriso assim — falou Hamid — eu estaria disposto a ser, até, muito ruinzinho! Seu primo tem sorte.

E desapareceu dentro das guaritas.

O carro estava parecendo um forno, e por isto fiquei espe­rando do lado de fora, na estrada. O ônibus — cujo letreiro dizia Baalbek — fora descarregado, e a bagagem empoeirada achava-se largada na poeira e sendo examinada pelos fiscais, suaremos e carrancudos. Um ou dois jovens aproximaram-se mais um pouco, para me verem de perto.

Olhei para o outro lado, para os casebres da fiscalização. Pela porta aberta, pude ver a multidão lá dentro, ao redor do balcão, vociferando e acotovelando-se. Hamid iria demorar algum tempo. Saí do lado do carro e tornei a escalar o morro acima da estrada.


 

Desta vez, subi mais alto, saindo da poeira e da fumaça de gasolina, mas ainda mantendo o carro à vista e diretamente abaixo de mim. Neste ponto, a estrada passava por um corte raso, e quase imediatamente quando subi me vi em um lugar de ar mais fresco e havia capim e flores por perto.

Não havia aqui a profusão de flores que eu vira ao longo da estrada de Afka, mas a encosta do morro era bastante verde, com capim ralo ondulando ao vento, e os arbustos verdes de cardos e punhados de uma flor branca que, de longe, pareciam geada. Acima de tudo isto, em contraste violento, ofuscante, acima do terreno meio rochoso, via-se a cascata dourada da vas­soura. E por toda parte, projetando-se para cima, atravessando as flores semelhantes a cãs, viam-se alteias, aquelas plantas simples e familiares do jardim de chalé inglês, vermelhas, amarelas e brancas, crescendo com toda profusão entre as rochas de uma encosta de morro no Líbano.

E a uns quatrocentos metros dali, onde as mesmas alteias e a vassoura floresciam acima das mesmas pedras, ficava a Síria.

Acho que eu subira uns trinta metros, e aqui de cima podia ver para além da terra de ninguém, além do posto sírio da fron­teira, até onde a estrada fazia uma curva acentuada sob um pe­nhasco rochoso e caía, atravessando as águas, no fundo do vale.

Como sempre acontece neste país sem água, o verdor das árvores e as plantações acompanhavam as águas, e o rio seguia serpenteante para o sul, no meio de um emaranhado de árvores, milho e cipós, que se agrupavam ao longo do fundo do vale. Aqui e ali, como veios verdes que aparecem em uma folha seca, os pequenos riachos tributários desciam para desaguar na tor­rente principal. Pude ver, talvez a uns quatrocentos metros da fronteira síria, um desses afluentes, serpeando através da encosta nua da montanha, com sua fita verdejante, seus poucos trechos de milharais, os caules dos choupos, brancos como ossos, com folhas novas embranquecendo ao vento, e a trilha poirenta onde um jumento caminhava, com uma mulher seguindo a seu lado, levando um jarro na cabeça. Eu a estava observando descuidadamente, quando de repente fiquei rígida e olhei fixamente, agora muito atenta, para o ponto em que aquela trilha poeirenta encontrava a estrada principal.

Pouco fora da estrada havia um pequeno grupo de árvores. E sob essas árvores via-se alguma coisa metálica e branca. Um carro. Um carro familiar, estacionado lá, à sombra, de frente para o sul.

Acho que já disse antes que posso enxergar muito longe. Não me foram precisos mais de dois minutos para me convencer de que era mesmo a Porsche de Charles. A cortina de folhas não me permitia ver se ele se achava dentro do carro, mas em breve eu tinha quase certeza de que percebera um leve movimento para além dos arbustos.

Virei-me e comecei a seguir apressadamente para a estrada, chegando com um ruído surdo, ao saltar na terra, ao lado do carro, no instante em que Hamid ia saindo de uma das guaritas.

Hamid foi logo dizendo, sem preâmbulos:

        Acho que tudo irá bem. É mesmo à Segurança que temos de nos dirigir. Então, vamos voltar agora mesmo... Aconteceu alguma coisa?

Eu ficara sem fôlego, por efeito da emoção e da descida do morro íngreme.

Vi o carro do Charles, meu primo! Acha-se estacionado a quatrocentos metros, do outro lado da fronteira. Fui até ali — e apontei para cima — e pode-se ver, por cima daquele penhasco, na direção do rio, que está lá, estacionado atrás de algumas árvores. Será que Ben lhe disse que eu viria e ele está à minha espera?

Talvez, mas para mim isso não faz muito sentido. Tem certeza de que é mesmo o carro dele? — perguntou Hamid.

Plena certeza. Em todo caso, é uma Porsche branca, e não pode haver muitas por aqui. Deve ser a dele!

Está de frente para que direção?

Para o sul.

Perto de nós, a cancela fechou-se com uma pancada surda atrás de um carro que ia para o sul, e o árabe que a vigiava sentou-se no chão, ao lado dela, e acendeu outro cigarro. Para além da fronteira mais distante, o sol causticante maltratava os pára-brisas dos carros. Franzi o cenho ao olhar para o clarão.

        Mas você tem razão, isso não faz sentido. Se Charles estivesse ansioso para me ver, ter-me-ia esperado ontem, ou então teria telefonado, e não deixaria a coisa entregue ao acaso de me encontrar ou não pela estrada. Mas que estará fazendo aqui no meio do caminho ? Se realmente chegou a Damasco ontem à noite, não seria de esperar que estivesse de volta antes de falar com o Sr. Sifara, antes que este chegasse em casa, e Ben lhe teria dito que eu ia para lá. Em todo caso, o carro se acha de frente para o sul.

Harnid disse, lentamente:

- Estive pensando... Talvez ele esteja indo de Homs para sul. A senhorita não disse que esse amigo dele, o tal Sifara, era de Homs? É possível que seu primo tenha ficado sabendo disto, ao telefonar para Damasco, e por isto foi a Homs, em vez de ir a Damasco.

- E passou a noite de ontem lá? Acho que sim... Mas, então, por que ele não voltou a Beirute hoje cedo? Seria de esperar, mesmo que ele ainda tenha negócios a resolver em Da­masco, que teria vindo buscar-me, ou pelo menos telefonado.

Talvez tenha telefonado. Se telefonou hoje cedo, de Homs, e soube que a senhorita fora para Damasco, então talvez tenha resolvido vir de carro por aqui, em vez de seguir pela es­trada do deserto, para alcançá-la na fronteira. Se lhe disseram que a senhorita ainda não passou por aqui, talvez então tenha resolvido estacionar o carro e esperá-la.

Acho que sim... Ou pode ser, também, puro acaso, e então meu primo teria vindo por aqui a fim de evitar a estrada do deserto. E agora isso acontece! — Olhei para a estrada de terra, agoniada e frustrada. — Talvez ele vá embora a qualquer instante, e não posso nem sequer chegar onde ele se encontra para dizer-lhe que estou aqui.

A senhorita não pode — falou Hamid — mas eu posso. — E sorriu, para tranqüilizar-me. — Não se preocupe, Srta. Mansel, é muito fácil. Irei agora e procurarei seu primo.

        Você? Você faria isto?

Ora, mas é claro. Direi a ele que a senhorita está aqui, e que não pode cruzar a fronteira. Talvez ele queira voltar e levá-la pessoalmente à Secretaria de Segurança, em Beirute, e, se ele o fizer, eu irei diretamente para Damasco apanhar meus passageiros de volta. Do contrário, voltarei com a senhorita. Não se importa de ficar aqui?

Claro que não. Não sei como agradecer-lhe. Sim, você tem razão, vamos depressa, caso ele venha. Levarei o resto dos meus sanduíches para o alto do morro e esperarei lá.

E leve também sua bolsa de mão... e o agasalho, caso precise dele. — E estava apanhando estas coisas no carro. — O café também, sim? E frutas... Pronto. Se houver muita gente na fronteira, talvez a senhorita tenha de esperar muito.

Por favor, não se preocupe comigo. Em todo caso, poderei ver lá de cima.

Seu primo corre muito com o carro?

Algumas vezes, corre — falei. — Por quê?

Porque ele, não sabendo que a senhorita se acha aqui, poderia já ter ido embora.

E você tentaria alcançá-lo?

Se me parecesse possível. Agora, pode carregar estas coisas? Acho bom eu partir imediatamente.

        Claro que posso. Não me espere, vá embora. Hamid entrou no carro e ligou o motor.

A senhorita disse que estava estacionado atrás de árvores? Posso vê-lo da estrada? Exatamente onde?

A uns quatrocentos metros depois da outra fronteira, no meio de umas árvores à direita da estrada, e pouco além de uma ponte em arco. Você não pode deixar de vê-lo. Pronto, o ca­minho está livre, você pode atravessar. E muitíssimo obrigada, Hamid...

Por favor, não agradeça. Estou às suas ordens... — Um sorriso, um aceno rápido de mão e o carro partiu. Subi para o meu poleiro, acima da estrada, arquejante.

A Porsche continuava lá. Deixei cair minhas coisas no meio das flores e protegi meus olhos para observar. Já que o carro do meu primo continuava lá, meu temor de que ele tivesse parado apenas para comer alguma coisa e depois novamente seguir viagem devia ser infundado. Ou meu primo parara a fim de fazer uma refeição demorada ou então estaria à minha espera.

Espiei para baixo, para o trecho de estrada que ficava imediatamente embaixo de mim. A segunda barreira libanesa já estava levantando a cancela para Hamid passar, e o grande carro passou como um navio, os vidros das janelas despedindo chispas de luz, chegando ao trecho da terra de ninguém. Parou na bar­reira síria e vi Hamid saltar e correr à guarita a fim de mostrar seus documentos. Já que ele estava sozinho e passava sempre por ali, sem dúvida eles o deixariam seguir sem mais delongas.

Olhei para a Porsche, do outro lado.

Justamente a tempo de ver o carro branco arrancar das árvores como um galgo, girar para a direita, fazendo uma curva que arrancou poeira, e disparar pela estrada, rumo a Damasco. Segundos depois, ouvi o ruído de uma mudança para alta velo­cidade, quando ele passou por cima da ponte.

Mas, quando o ruído chegou aos meus ouvidos, o carro já tinha sumido de vista.

 

Não sei quanto tempo devo ter ficado lá no alto da colina batida pelo vento, olhando fixamente para o trecho vazio de es­trada, onde o carro branco estivera. Era como se eu tivesse sido erguida no vácuo da sua esteira, para cair, atordoada na poeira desta.

Procurei controlar-me e olhei para o ponto em que Hamid se achava, a ver se ele estava fazendo progressos.

Ele já estava na segunda barreira síria, e mostrava documentos — os do carro, talvez — na janela do automóvel. O homem de serviço pegou os documentos, olhou para eles, de relance, e devol­veu-os. Uma gorjeta mudou de mãos e segundos depois a cancela era levantada, e o carro passou e ganhou velocidade, seguindo pela estrada até sumir de vista atrás do penhasco.

Acho que Hamid devia estar só uns quatro minutos atrás da Porsche. Em poucos segundos, seu carro reaparecera no trecho de estrada que ia para a ponte, e eu vi o cogumelo de poeira erguer-se, enquanto ele freava e parava o carro grande junto ao grupo de árvores. Saltou, deve ter visto logo que a coberta não tinha tamanho bastante para cobrir completamente a Porsche, e virou-se as mãos em conchas, protegendo os olhos, para olhar vale abaixo. Ficou assim só um segundo ou dois, antes de saltar novamente no carro, bater a porta e partir novamente, atravessar a ponte e sumir de vista, ao longo da estrada tortuosa.

Achei que Hamid avistara o carro branco seguindo ao longo da estrada à nossa frente. E eu não sabia quanto tempo ele levaria para alcançar o outro veículo. Achei que um motorista profissional, que devia conhecer a estrada como a palma da sua mão, talvez conseguisse tirar a vantagem inicial levada por Char­les, e até a diferença de desempenho entre o carro da cidade e o carro esporte. Quatro minutos são muito tempo, em uma es­trada, mas, se Charles estivesse com pressa, não teria parado tanto tempo no bosque. A arrancada de carro de corrida devia ter sido só em virtude de um entusiasmo inicial. A esta altura, talvez Charles já estivesse guiando mais devagar, admirando, muito contente da vida, as alteias que cobriam as vertentes do Djebel de Xeque Mandour.

Sentei-me ao lado de uma moita de vassouras que cheirava a mel do mato, e comi meu almoço. Eles me haviam dado (além dos bolinhos de carne) um embrulho de azeitonas pretas e um pedaço de queijo branco e cremoso, uns pastéis recheados de salsichas e tempero árabe. Quando eu me fartara de comer e comecei a devorar um pêssego, a estrada abaixo de mim achava-se livre de carros, exceto outro ônibus — desta vez seguindo para o sul — e o encarregado da cancela já estava avançado no seu cochilo. Olhei de relance para meu relógio. Uma e meia. E ainda não se via na estrada nem Hamid nem Charles.

E às duas horas a estrada continuava vazia. E também às duas e meia.

E eu não pude tirar uma soneca, apesar de estar entre flores e na sombra. Dois dos jovens árabes que estiveram vadiando perto das guaritas tinham resolvido, finalmente, depois de uma conferência, em meio a sorrisos, confabulação que notei mas fingi não ver, subir para virem falar comigo. Talvez tivessem sido impelidos apenas pela curiosidade, mas só sabiam umas quatro palavras de inglês americano, e eu não falava nada de árabe, e por isso eles ficaram por perto, sorrindo e olhando-me fixamente, até que fiquei irritada e comecei a apanhar minhas coisas.

Achei que sabia o que devia ter acontecido. Hamid, iludido pelo meu desabafo de raiva com a demora, imaginara que eu estava temendo pela segurança de Charles, e vira encrencas onde eu via apenas aborrecimento. Ou ele ainda estava tentando reso­lutamente alcançar a Porsche, ou houvera alguma dificuldade que retardara o carro na viagem de volta para me apanhar. E, se eu continuasse esperando e nenhum dos dois viesse, eu não teria probabilidades de voltar para Beirute a tempo de ir à Secretaria de Segurança arranjar um visto, e estaria com a vida atrasada.

Por isto, quando um dos jovens árabes, com um riso malicioso, sentou-se a um metro de mim, em um pedregulho coberto de poeira e disse, pela décima segunda vez: "Nova York? Londres? Senhorita — E depois fez, em árabe, uma observação que fez seu companheiro rir muito, e no mesmo instante em que eu via um ônibus com o letreiro Baalbek parar lá embaixo, apanhei minhas coisas e disse um "adeus", delicado e final, e desci a encosta do morro na direção da estrada.

O cachorro magro estava deitado à sombra de um carro estacionado. Observou-me, reconhecendo-me, mas, ao que parecia, sem muita esperança. Deixei cair a seu lado os últimos bolinhos de carne, ao passar por ele, e o vi agarrá-los com os dentes e sair correndo da frente dos rapazes árabes, que também iam des­cendo o morro. A multidão de passageiros do ônibus estava de pé, no calor, olhando, indiferente, enquanto os homens da fisca­lização examinavam os pertences daquela pobre gente. Alguém lhes examinava os documentos, sem muito ânimo. O encarregado da cancela deixou outro carro passar, depois tornou a adormecer. Ninguém se importava muito com coisa alguma. Até os dois jovens árabes tinham desistido de me perseguir.

Entrei nas guaritas, onde fui recebida pelo olhar ligeiramente esgazeado e totalmente hostil do cavalheiro de pele cor de azeitona atrás do balcão. Demorou alguns minutos até eu conseguir en­contrar, no meio da multidão, alguém que soubesse inglês o bas­tante para traduzir o que eu queria dizer, mas finalmente consegui.

A que horas o ônibus chega a Baalbek? — indaguei.

Três e meia.

Há um que vá daqui direto a Beirute?

Sim, há.

A que horas?

Cinco. — E um gesto de indiferença com os ombros. — Talvez um pouco mais tarde. Chega lá às seis horas.

Pensei um instante. Baalbek ficava bem fora do caminho direto para Beirute, mas haveria uma boa probabilidade de arranjar um carro lá e de seguir pela estrada mais curta diretamente para Beirute, atravessando as montanhas. Assim, eu estaria lá muito antes do problemático ônibus das cinco horas. Em todo caso, eu não desejava ficar ali sentada mais duas horas. Até o ônibus seria preferível.

Haverá um táxi para se alugar, ou um carro de aluguel, em Baalbek?

Claro. — Mas o homem sublinhou a palavra com um movimento indiferente de ombros. — Bem, a senhorita compreende, o dia já vai avançado, mas é possível...

— Onde encontro os táxis?

        Nos templos ou na rua principal. Ou pergunte no hotel Adônis, onde o ônibus pára.

Lembrei-me do hotel Adônis. Fora onde o nosso grupo de excursionistas almoçara na sexta-feira, e o gerente, segundo me lembrava, falara um inglês razoavelmente bom.

Onde fica a Secretaria de Segurança, em Beirute? — indaguei.

Na rua Badaro.

        A que horas a repartição fecha?

Mas aqui houve uma dificuldade.

À uma da tarde — foi a primeira resposta desalentadora. E depois, outro disse:

Mas abre novamente às cinco e fecha às oito da noite. Não, não, é até às sete. — E depois, com vários movimentos indiferentes de ombros: — Ora, quem sabe lá?

Já que o "sabe lá" era o palpite mais exato de todos que eu ouvira, desisti de fazer perguntas e resolvi deixar um recado.

        Se meu motorista ou outra pessoa qualquer voltar e perguntar por mim, diga-lhe que voltei para Beirute, a fim de ir à rua Badaro, à Secretaria de Segurança, e depois irei para meu hotel, o Phoenicia. Esperarei lá. Entendido?

Todos disseram que estava entendido, e por isso agradeci e saí.

O motor do ônibus achava-se funcionando e uma nuvem de fumaça negra escapava pelo cano de descarga. Não houve mais do que o tempo de dar uma espiada rápida na direção da estrada para ver se uma Porsche branca ou um táxi preto aparecia, e depois entrei no ônibus. Seis segundos depois, com um forte ronco, um tremor e uma nuvem de fumaça preta, partíamos para Bar Elias e para a estrada de Bk'aa para Baalbek.

Foi uma viagem horrível, e teve de acabar onde o ônibus fazia ponto final, em uma rua suja e quente, perto dos templos em ruínas, e diante da porta de entrada do hotel Adônis.

Saltei do ônibus, alisando minha saia amarrotada com a forte impressão de que estava desalojando um montão de pulgas. O ônibus partiu, os outros passageiros dispersaram-se e a fumaceira imunda e negra sumiu lentamente no ar. A rua ficou vazia, exceto por um carro grande e luzidio estacionado junto ao meio-fio, e pouco além dele, em chocante contraste, um camelo se erguia toda a sua falsa imponência, com um árabe imundo segurando-o pelo cabresto.

Agora, o árabe investiu contra mim, com uma aguda torrente de árabe, intercalada de algumas palavras em inglês, do que deduzi que ele me estava oferecendo uma viagem de camelo pela bagatela de cinco libras esterlinas. Livrei-me do homem com alguma dificuldade, recusei sua proposta de me deixar posar para uma fotografia, ao lado do camelo, por apenas dez xelins, e subi correndo a escada do hotel.

Tive sorte de encontrar o gerente que falava inglês e que não estava ausente, conforme poderia ter acontecido, ou fazendo a sesta. Encontrei-o no pequeno pátio coberto de cascalho, que servia de restaurante ao ar livre, sentado com um companheiro a uma das mesas, sob os pinheiros, tomando cerveja. Era um árabe miúdo e de rosto redondo, dono de uma fina linha de bigode e de vários objetos de ouro de Beirute nas mãos e nas roupas. Seu companheiro, que a princípio eu mal notei, parecia inglês.

O gerente levantou-se e veio depressa atender-me.

Senhora... Senhorita ? Voltou novamente? Mas pensei que seu grupo já tivesse partido do Líbano...

Céus. O senhor me reconheceu ? — exclamei. O homem estava-se curvando para beijar minha mão e aparentemente muito satisfeito. Pensar-se-ia que eu havia passado um mês no melhor apartamento do hotel, e não apenas me limitara a com­prar uma bebida para levar com o grupo, alguns dias atrás. — Que memória tem o senhor! Eu teria pensado que o senhor recebe tanto turista, que nem sequer os vê mais!

Como poderia eu esquecê-la, senhorita? — A mesura, o olhar galante, garantiram-me, sem nenhuma ofensa, que o homem falava sinceramente. E acrescentou, em tom franco: — Quanto a isto, estou aqui apenas desde o começo da estação de turismo, e até agora me lembro de todos os meus hóspedes. Por favor, não quer sentar-se? Se quiser fazer-nos companhia, será um prazer.

Mas eu finquei pé.

Não, muito obrigada... Quero pedir uma informação. Hoje, estou aqui sozinha e desejo uma ajuda e por isto o procurei.

Pois não. Por favor, diga-me. Claro, eu a servirei no que a senhorita precisar.

Era evidente que o homem falava sério, mas, para minha consternação, logo que comecei a explicar minha dificuldade, e falei em carro, ele fez uma careta de dúvida e um gesto de impos­sibilidade.

        Farei o que puder, é claro... mas, nesta hora do dia, os carros locais já estão fora, servindo a turistas. Talvez encontre algum no templo... A senhorita fala árabe?

        Não.

Então, mandarei alguém em sua companhia para ajudá-la. Talvez ainda haja algum táxi lá. Se não, talvez eu possa arranjar um. Talvez algum dos meus amigos... É urgente?

Bem, quero chegar a Beirute o mais depressa que for possível.

Então, por favor, não se preocupe, senhorita. Claro que farei o que puder. Alegra-me que tenha vindo procurar-me para ajudá-la. Só não ofereço para telefonar pedindo um carro porque ainda há dez minutos tive dificuldade em arranjar um para um dos meus hóspedes. Mas dentro de uns vinte minutos ou meia hora poderemos tentar novamente.

Desculpe...Era o companheiro do gerente quem fa­lava. Eu me esquecera completamente dele, e virei-me, surpresa, enquanto ele colocava seu copo em cima da mesa e se levantava. Ouvi casualmente a conversa. Se está mesmo com urgência de chegar a Beirute, e se houver dificuldade, vou para lá e teria prazer em lhe oferecer uma carona.

Ora, obrigada...E fui colhida um tanto de surpresa, mas o gerente interveio depressa, parecendo aliviado e satisfeito.

Claro, seria excelente ! Uma ótima idéia. Posso apresen­tá-los? Este é o Sr. Lovell. Infelizmente, não sei como a senhorita se chama...

        Srta. Mansel. Muito prazer, Sr. Lovell...

        O prazer é todo meu...Sua voz era inglesa e denotava pertencer a um homem culto. Era um homem de altura inferior k média, beirando os quarenta anos de idade, com um rosto que o sol tornara de um bronzeado à árabe, e cabelos escuros já fi­cando ralos na testa. Apresentava-se bem vestido, com terno cin­zento e camisa de seda, e usava óculos escuros de aros grossos e pesados. Havia algo nele vagamente familiar, e achei que já devia tê-lo encontrado em algum lugar.

No instante em que o pensamento atravessava minha mente, ele sorriu e confirmou.

        Na verdade, já nos encontramos antes, embora sem sermos apresentados, e suponho que a senhorita não se lembre.

_ Infelizmente, não me lembro, mas tenho a impressão de que já o vi. Onde foi?

        Em Damasco, na semana passada. Foi na quarta ou quinta-feira... Sim, na quinta, na Grande Mesquita. A senhorita estava com um grupo de turistas, não estava? Eu estivera conversando com o guia da excursão, enquanto vocês admiravam os tapetes, e então ele teve de intervir em um incidente internacional de somenos importância, e eu e a senhorita trocamos algumas pa­lavras durante o tal incidente. Claro, a senhorita não se lembra, não havia motivo para se lembrar. Mas, diga-me... No fim das contas, aquela senhora atarracada deixou que lhe tirassem os sapatos?

Tive de rir.

Oh, é a isso que se refere ao dizer "incidente interna­cional"! Sim, ela deixou os sapatos e até confessou que ela também não desejaria ver quem viesse de fora pisar naqueles tapetes com os sapatos sujos com que veio da rua, se a casa fosse sua. Foi uma cena e tanto, não foi? Pensei ter reconhecido sua voz. Então, foi isso.

Está sozinha, hoje?

Sim. Na verdade, não vou fazer um drama do que houve, mas é por isso que estou aqui, presa, procurando um carro. Então, o senhor vai diretamente para Beirute?

Claro. — Moveu uma das mãos, quadrada e bem cuidada, para indicar o carro estacionado na beira da estrada, abaixo da parede do jardim. Agora, vi que era um Renault preto, tendo ao volante um árabe de aspecto impassível, com suas roupas nativas e um turbante branco. — Se eu puder ajudá-la, será um prazer. Pretendia partir, mesmo, dentro de poucos minutos. Naturalmente, se a senhorita preferir ficar mais algum tempo, para ver as atrações turísticas do lugar, talvez o Sr. Najjar possa ajudá-la a arranjar um táxi, mais tarde, embora seja problemá­tico. — E sorriu. — Qualquer outro dia, eu teria muito prazer em lhe mostrar Baalbek, mas acontece que hoje tenho um com­promisso inadiável na cidade, e por isso vou partir agora mesmo.

É muita bondade sua, e gostaria muito de ir com o senhor — falei. — Já vi tudo que havia para ver em Baalbek... Estive aqui com o grupo de turistas, na sexta-feira, mas, em todo caso, voltarei aqui logo que puder.

Então, vamos?

O gerente foi conosco até o carro, e o motorista árabe con­tornou o veículo a fim de abrir a porta traseira, e o Sr. Lovell me deu a mão para eu entrar, falou com o homem, em árabe, e instalou-se ao meu lado. Despedimo-nos do gerente e o carro partiu.

Seguimos pelas ruas estreitas com rapidez e habilidade, depois o carro adquiriu velocidade, ao longo da estrada para Beirute. Em poucos minutos, passáramos pelas últimas casas que se esten­diam, achatadas, entre seus jardins, e para a nossa direita a série de colinas e de vales estendia-se ao sol da tarde, brilhante. O ar que entrava pela janela aberta era fresco e reconfortante. Reclinei-me no banco, satisfeita da vida.

        Oh, depois de andar naquele ônibus, isto aqui é um paraíso! Já andou em um dos ônibus locais?

O homem riu.

        Não. Alá seja louvado, nunca.

        Devo avisá-lo para ficar bem longe de mim, até eu tomar um banho.

        Correrei o risco. Onde se acha hospedada, em Beirute?

        No Phoenicia. Mas não se preocupe com isso. Poderei tomar um táxi em qualquer ponto em que o senhor me deixar.

        Não é nenhum trabalho... Vamos passar por lá.

Obrigada, assim mesmo, mas, na verdade, primeiro terei de ir à rua Badaro. Não sei onde ela fica... O senhor sabe?

Sim, naturalmente. Bem, isso é ainda mais fácil, pois fica praticamente no caminho. A rua Badaro vem dar nesta estrada, pouco antes do Museu Nacional. Se entrarmos pelas ruas laterais quando chegarmos à cidade, podemos passar por lá, e eu a dei­xarei onde a senhorita quer ir.

        Muito obrigada.

Sua voz não traía nenhuma curiosidade. O homem me lançara um breve olhar — que não pude classificar, em virtude dos óculos escuros — quando falei na rua Badaro, e achei que, sem dúvida, ele devia saber que lá ficava a Secretaria de Segurança, mas o homem ou era tão indiferente ou fino demais para me perguntar a respeito dos meus problemas. Limitou-se a indagar:

        Que foi feito do grupo de turistas?

        Oh, não me separei deles hoje! Fiquei apenas sem automóvel e entregue à sua boa vontade porque me faltava um carimbo de entrada no Líbano e meu táxi teve de seguir adiante... Isto é, precisei de mandar meu motorista a Damasco, embora eu ficasse sujeita a ter de voltar para Beirute como pudesse. Na verdade, o grupo de turistas partiu no sábado, e, de certa forma, é esse o motivo da minha dificuldade. — Expli­quei em breves palavras o que acontecera com o visto da fisca­lização de barreira.

Compreendo. Mas que coisa sem jeito. Suponho que agora terá de arranjar novo visto no passaporte, não é? Então, quer ir à Segurança, na rua Badaro, não é mesmo ?

Sim. — A contragosto, lancei um olhar preocupado para o meu relógio. — Tem alguma idéia de que horas são?

O homem não me respondeu imediatamente, mas eu o vi lançar um olhar de relance para seu relógio de pulso, depois inclinou-se para diante e disse alguma coisa em árabe ao moto­rista. O carro grande avançou macio, aumentando a velocidade. O Sr. Lovell sorriu para mim.

        Tudo irá bem. Em todo caso, talvez eu possa ajudá-la. Deixe de se preocupar.

        O senhor? Então, conhece alguém lá?

Conheço, sim. Compreendo como o engano ocorreu. Não foi culpa de ninguém, e duvido que haja alguma dificuldade para a senhorita obter outro visto no seu passaporte. Infelizmente, acho que terá de pagar mais meia coroa e esperar até que eles preencham alguns formulários em triplicata, mas será só isso. Portanto, agora fique calma, até chegarmos lá. Prometo que tudo sairá bem. E, se a senhorita quiser, irei na sua companhia até ficar tudo resolvido.

Oh. O senhor faria mesmo isto? E não tem pressa de chegar ao lugar para onde vai? É muita bondade sua. — E comecei a gaguejar, em uma espécie de alívio e confusão.

Não fale nisso — disse ele, calmamente. — A senhorita fuma?

Não... Bem, algumas vezes eu fumo. Obrigada, vou aceitar um cigarro. Oh, são turcos?

Não, são sírios. Os melhores que há. Vamos, experi­mente um.

Tirei um cigarro, que ele acendeu para mim. O motorista, que durante todo o tempo não dissera nada, já estava fumando. O Sr. Lovell acendeu um cigarro para si e recostou-se no banco, a meu lado. Notei que seu isqueiro era de ouro e de luxo, e a cigarreira também. De ouro pesado eram as abotoaduras da sua camisa de seda, com uma superfície deliberadamente granulada. Um homem de peso e medida. Talvez até alguma figura impor­tante...   Tinha jeito disso. Comecei a imaginar se, por acaso, eu não teria encontrado o contato útil, em Beirute, de que eu tinha falado com papai. Realmente, agora parecia que eu podia parar de me preocupar com o visto do meu passaporte.

O homem ficou em silêncio, um tanto virado para o outro lado a fim de espiar pela sua janela. Continuamos sentados, fumando em silêncio, enquanto o carro possante seguia silenciosamente para o sul e para oeste, e depois subia pelo passo do Líbano e começava a descer rumo à planície distante que levava a Beirute. Fiquei contente de sentar-me recostada no banco do carro e de parar de pensar. Este era um intervalo, uma parada do tempo, um momento de me sentir relaxada, antes do esforço seguinte. E este seria facilitado pelo agradável e competente Sr. Lovell.

Só nesse momento eu me senti calma, a forte tensão derretendo-se como manteiga. Sentia os músculos, os nervos e o cé­rebro descansados. Foi só assim que compreendi o quanto estivera tensa e nervosa, e do quanto me atormentara para enfrentar uma coisa que não devia ser nada mais do que pura imaginação minha. Alguma coisa que eu deixara Hamid sentir e ver, porque ele adivinhara meus pensamentos, e assim eu fora deixada entregue à minha própria sorte. Enquanto isto, o carro seguia velozmente adiante, e o sol dardejava sobre a janela do veículo e a brisa movia a cinza do meu cigarro e carregava a fumaça do mesmo para longe, em pequenos véus azuis, e fiquei satisfeita de levantar a mão, preguiçosamente, para afastá-la dos meus olhos, depois deixei a mão cair, de palma para cima, no meu colo, enquanto me reclinava para trás, tranqüila, sem pensar.

O homem que seguia a meu lado, aparentemente tão calmo quanto eu, estava virado para o lado oposto, olhando fixamente para o panorama, do seu lado do carro. Nesse ponto, o morro íngreme afastava-se da estrada, em uma descida abrupta de ver­dura pontilhada de pedras grandes, chegando à extensão escura de floresta até à água reluzente lá embaixo. Para além do rio cercado de floresta, a terra subia novamente, atravessando plan­tações em forma de terraços, cobertas de cores dourada e verde, seguindo por um dourado mais escuro até chegar a alguns morros cobertos de pedras, e também de pontos cinzentos de neve. Os choupos ao longo da orla da estrada cintilavam e piscavam, à nossa passagem, como postes telegráficos, nus e rendilhados contra a neve distante e o céu azul e quente.

— Meu Deus!

O Sr. Lovell, que estivera olhando para fora quase em ati­tude sonhadora, agora ficou rígido e atento, tirou os óculos escuros, esticou o pescoço mais para diante e protegeu os olhos com a mão a fim de olhar para baixo, para a encosta da montanha.

- Que é?

        Não é nada importante... Estava admirando a paisagem linda. E não é tão deslocada, como se poderia pensar. O ho­mem deu uma risada breve. E, naturalmente, o romantismo dos velhos tempos ainda sobrevive. Haroun Al Raschid, os per­fumes da Arábia, o sangue e as rosas. Lá embaixo vai passando um árabe, com um par de galgos persas... Você os conhece? São salukis, animais lindos. Como isso é romântico.

No momento, não entendi o que ele queria dizer com aquilo. Estava mexendo no cinzeiro, no banco traseiro do carro, diante de mim, tentando apagar meu cigarro.

        Aquele homem deve ter um falcão no punho acrescentou ele. Talvez tenha, mas está longe demais para eu ver.

Ergui rapidamente o olhar.

        O senhor disse que é um cavaleiro com dois salukis? Aqui?

Devia ser pura coincidência, é claro. Devíamos estar muito longe, do outro lado de Beirute, e Dar Ibrahim achava-se muito distante dali. Não podiam ser John Lethman e os seus salukis. Mas era uma coincidência bastante estranha, que me fez sentar-me no banco, de repente, e dizer:

        Onde? Posso ver?

Tive de inclinar-me sobre o homem para ver montanha abaixo. Ele reclinou-se para trás, a fim de me deixar fazer isso, indicando um ponto muito abaixo de nós e um tanto afastado da estrada.

O carro estava saindo facilmente de uma curva. A estrada não era delimitada nem por cercas nem por muros, sendo o acostamento apenas um metro de barro seco, onde os cardos cres­ciam entre os choupos, e além aparecia a íngreme encosta de montanha. Espiei para baixo.

        Não consigo ver nada. Qual é a cor do cavalo?

        Alazão claro. E tornou a apontar. Lá, veja, entrando naquele bosque. Depressa. O homem está vestido de branco, Está vendo?

Esforcei-me para ver o lugar para onde sua mão direita apontava. Quando me inclinei sobre seu corpo, seu braço esquerdo passou silenciosamente ao redor da minha cintura e me segurou com força.

Por um instante, pensei que ele me estivesse firmando em virtude do balanço do carro na curva. E depois, quando seu braço fez mais força contra mim, compreendi que estava tentando agarrar-me e fiz força, procurando livrar-me do braço do homem. Ele me segurou, fazendo uma força férrea com o braço, enquanto agora sua mão me agarrava o braço e o imobilizava. Com meu corpo apertado de encontro ao dele, meu braço direito achava-se preso.

        Se você ficar quieta, não a machucarei.

A voz, agora quase um cochicho, era reconhecível. Os olhos, também, se descobriram e olhavam fixamente dentro dos meus. O nariz comprido, o rosto cor de oliva, que pareceria pálido à luz de um lampião...

Mas era loucura. Era maluquice supor que John Lethman estaria cavalgando ali, a sessenta quilômetros de Dar Ibrahim, e era loucura ainda maior supor que minha tia Harriet, disfarçada em um homem de quarenta e poucos anos, me estivesse segurando ferozmente com uma das mãos, enquanto a outra apa­receu um objeto brilhante...

Dei um grito. O motorista árabe continuou guiando, tranqüilamente, sem ao menos virar a cabeça para olhar para trás. Tirou uma das mãos do volante, a fim de bater a cinza do seu cigarro em um cinzeiro sob o painel de instrumentos.

        Que está fazendo? Quem é você? — Ofegante e torcendo-me nas suas mãos, lutei com todas as forças que pude, e o carro oscilou, inclinando-se bastante na curva seguinte. Mas não vinha nada. Não havia nenhum veículo na estrada.

A oscilação estonteante do carro nas curvas, com despenhadeiros de um lado e céu aberto do outro, como a fuga de um animal arisco em uma tarde clara e vazia; o bruxuleio das sombras dos choupos que passavam como chicotadas; o silêncio obstinado do motorista árabe, que parecia recusar-se a ouvir o que se passava ali... Tudo isso combinou de maneira curiosa­mente misericordiosa para me isolar do pesadelo que não podia — de forma alguma — estar acontecendo.

O homem estava sorrindo. A poucos centímetros do meu rosto, seus dentes pareciam tétricos como em uma cena de filme de terror. Os olhos da tia Harriet piscavam e coriscavam, en­quanto o homem lutava para me segurar.

        Quem é você? — Foi um último esforço meu, arquejante, à beira da histeria, e vi que ele reconheceu o fato. Sua voz era suave. O homem, agora, tinha-me em seu poder, imóvel, inerte.

        Agora, é claro, você se lembra. Eu disse a você que já nos havíamos encontrado antes, mas que não fôramos devidamente apresentados. Meu nome é Henry Lovell Grafton, se é que deseja sabê-lo todo... Significa alguma coisa para você? Sim, pensei que significaria. E agora, fique quieta, do contrário eu a machucarei.

Ao dizer isso, sua mão baixou para meu braço nu. Senti uma fisgada no braço, seguida de uma dor aguda, e depois o objeto foi retirado. O homem deixou a seringa de injeções cair dentro do seu próprio bolso e depois tornou a sorrir, segurando­-me com força.

        É pentotal disse ele. Ser médico tem suas vantagens. Agora, vai ficar acordada exatamente durante dez segundos só, Srta. Christabel Mansel.

 

       ... E também não sei quanto tempo se passou

                   (Pois fiquei um período longo em transe).

  1. T. Coleridge: Christabel

 

Eu iria verificar que o Dr. Henry Grafton tinha o costume de superestimar as coisas. Demorei apenas sete segundos a perder os sentidos, e quando acordei já era quase noite e senti que me achava encerrada em um aposento estreito e pequeno, sem janelas, e iluminado apenas por uma abertura gradeada lá no alto da parede acima da porta.

A princípio, naturalmente, o despertar me pareceu normal. Abri os olhos enevoados e deparei com uma parede escura, onde sombras se moviam ligeiramente como trapos carregados pelo vento. Fazia calor e havia silêncio ali. Um silêncio pesado e abafado, que lentamente me transmitiu a impressão de estar presa dentro de quatro paredes. Um leve bater de asas, como uma mariposa contra uma vidraça, alcançou minha consciência, através das camadas de sono provocado por um entorpecente. Eu precisava dar um jeito de soltar o pobre animalzinho. Era pre­ciso abrir a janela para entrar ar...

Mas ainda não; ainda não me moveria. Meu corpo estava frouxo e pesado, minha cabeça doía e eu sentia frio. Sentir frio tinha suas compensações, pois, quando levei a mão à minha testa latejante, ela me pareceu úmida, fria e confortante. Descobri que me achava deitada sobre cobertores. Puxei dois deles sobre meu corpo e virei-me de rosto para baixo, as mãos frias contra as faces e a testa. A pesada lassidão da droga ainda me dominava, e de forma vaga tudo agora era vago fiquei satisfeita com isso. Eu tinha uma idéia de que alguma coisa grande, escura e ter­rificante esvoaçava perto de mim, sem que eu a pudesse alcançar; mas alguma coisa em mim se recusava ainda a enfrentar o fato. Examinei minha mente confusa, fechei os olhos contra os cober­tores e pensei em dormir...

Não tenho idéia de quanto tempo isso durou antes que eu voltasse à consciência pela segunda vez: imagino que não tenha sido muito.

Desta vez, a volta à consciência foi definitiva e também assustadora. De repente, achava-me completamente acordada e totalmente ciente do que acontecera. Sabia, até, onde me achava. Estava novamente em Dar Ibrahim. O cheiro me revelou isto, segundos antes que meu cérebro sintonizasse com meus sentidos: o ar parado, a poeira, o cheiro de óleo de lampião e o odor agudo e indefinível do tabaco fumado por tia Harriet. Achava-me em um dos depósitos que ficavam sob o lago do harém, atrás de uma daquelas portas maciças e bem fechadas na passagem sub­terrânea onde eu e Charles tínhamos feito explorações para encontrar os aposentos do príncipe...

Era isso. Esse era o pensamento tagarela que estivera esperando a minha volta do mundo dos mortos; o pensamento que eu estivera recusando a enfrentar.

A entrevista no divã do príncipe. Tia Harriet. Henry Grafton... Só me podia ocorrer um motivo para a palhaçada grotesca de Henry Grafton a fim de eliminar minha curiosidade, pelo abandono das duas preciosas estatuetas chinesas e até pelo fato de eu ter visto o anel de tia Harriet no dedo de Halide, além do descaso pelos seus preciosos livros. Acontecera alguma coisa a minha tia, coisa esta que aquela quadrilha estava fazendo tudo para ocultar. Não devia estar apenas doente, ou mesmo louca, pois eles deviam ter sabido que não precisavam temer sua família no tocante ao que o testamento da velha dispunha. E, fosse qual fosse a posição de Lethman e de Halide, eu achava que isto não era da conta de Henry Grafton. E, sem dúvida, os riscos eram grandes demais, comparados com as recompensas. Nem podia ela ser prisioneira, como eu o era; não houvera nenhuma tentativa para me impedir de andar à vontade pelo castelo, de dia.

Então, minha tia deveria estar morta. E, por algum motivo, eles tinham de ocultar sua morte. No momento, com a pele vermelha de frio, naquela masmorra sem ar, só me ocorria um motivo para isso. Mas, fosse qual fosse ele, que exigira a palha­çada toda e as entrevistas à meia-noite, e agora a operação com­plicada que me trouxera de volta ao palácio, eu logo iria des­cobrir, a duras penas.

E Charles, que, aparentemente, desconfiara da verdade, sabe Deus como, no momento achava-se a muitas dezenas de quilô­metros dali, seguindo para Damasco, perseguido pelo carro de Hamid. Mesmo que Hamid o alcançasse e o convencesse a voltar para me buscar, algum tempo se passaria antes que meu primo descobrisse uma pista que o levasse a encontrar meu paradeiro. Ninguém daria pela minha falta no Phoenicia, e Ben dissera que eu poderia ir para sua casa quando quisesse...

Christy Mansel, desaparecida sem deixar rastos.

Como tia Harriet e seu cãozinho, Sansão. Ou como os Cães de Gabriel, trancados para sempre na poeira do palácio que apodrecia...

Que azar, o entorpecente reduzir-me tanto as forças, quando eu mais precisava delas. Achava-me transformada em um montão de nervos frouxos e músculos relaxados. Forcei a natureza e sentei-me, tentando olhar à meu redor.

Aos poucos, o lugar foi adquirindo forma. Um metro de piso coberto de poeira, iluminado pela luz difusa, um teto baixo coberto de teias de aranha, uma nesga de áspera parede de pedra, onde um montão de couro e metais — um arreio, talvez — pendia de um gancho enferrujado. Lá de fora tornou a vir o ruído farfalhante, o barulho de um pavio em um lampião a óleo. A luz débil bruxuleou através da pequena grade e foi apagar-se a um ou dois metros, em completa escuridão, onde, debilmente iluminadas, se podiam ver, empilhadas, as formas de caixotes, caixas e latas pequenas, como as de gasolina...

Sem dúvida, eu acertara a respeito do lugar em que me encontrava. A entrada de ventilação devia dar para a luz do lam­pião do corredor subterrâneo, e a porta abaixo dele devia ser uma daquelas portas fortes e gradeadas, com os cadeados resis­tentes que eu e Charles víramos. Seria impossível arrombar a porta. E havia, é claro, a janela.

O silêncio era profundo, denso e sufocante como a quietude absoluta que se encontra nas cavernas. Fiquei imóvel, ouvindo. Meu corpo estava rígido e doía em alguns pontos, como se hou­vesse contusões nele, mas a dor de cabeça sumira, para ser seguida por uma agudeza que no momento era pior e mais dolorosa, uma impressão de rapidez, uma vivacidade leve e uma vulnerabilidade de estourar os nervos, como uma lesma que tivesse sido arrancada do seu caramujo e que desejasse apenas voltar para dentro dele.

O silêncio era completo. Não havia nenhum jeito de saber se ainda havia alguém no palácio. Pensar-se-ia que eu fora enterrada viva.

A cena penetrou no meu cérebro sem que eu pensasse nela, e depois me atingiu como um dardo envenenado, quando, com ela, veio a visão rápida da rocha acima de mim, as toneladas de pedra e terra, com a pesada camada de água em cima dela. Tudo feito pelo homem, tudo falível. Talvez já podre, como podre estava o resto do palácio. O peso devia ser terrível. Se houvesse a mínima falha nas rochas lá, acima de mim, o mínimo desli­zamento de terra...

Foi então, com a pele eriçada de terror, que ouvi, no silêncio abafado, o tique-taque da água penetrando na terra.

Levantei-me de um salto, rígida e suando, antes que o bom senso me dissesse o que estava acontecendo, como uma lufada de ar fresco. O tique-taque era apenas do meu relógio. Estiquei-me na ponta dos pés, perto da porta, erguendo meu punho no alto, na direção do orifício de ventilação. Eu mal pude vê-lo. O mostrador do relógio foi como um rosto amigo, o tique-taque familiar me trouxe o controle dos nervos e o conhecimento de que faltavam poucos minutos para as seis horas. Quando eu aceitara a carona do traiçoeiro Henry Grafton eram apenas quatro horas da tarde. Eu passara mais de doze horas inconsciente.

Encostei uma das mãos na porta e, embora soubesse que não adiantaria nada, tentei empurrá-la. O ferrolho subiu com facilidade, mas a porta não se moveu nem um milímetro. Isto já era uma conclusão tão prevista, que não senti nenhuma emoção ao constatar o fato. O tempo todo eu estivera consciente do esforço positivo envolvido em afastar da mente a imagem das toneladas de rocha e de água que faziam força acima da minha cabeça.

O ruído que eu estivera temendo ainda há pouco veio como o aparecimento de um pesadelo: uma chave na fechadura.

Quando a porta se abriu, lentamente, sem ruído, achava-me sentada, um tanto controlada, na cama, tentando ocultar, com as costas desempeñadas e o rosto impassível, que não poderia ter confiado nas forças das minhas pernas para ficar de pé. Meus lábios achavam-se secos e meu coração batia loucamente. Eu não tinha nenhuma idéia do que iriam fazer comigo, mas estava com medo.

Eram John Lethman, trazendo um lampião, e atrás dele Halide, como sempre com uma bandeja. Senti o cheiro de sopa e de café logo que a porta se abriu. Se eu tivesse pensado em alimentos, estaria com muito apetite, mas ao contrário. Lethman colocou o lampião em um nicho da parede e a moça árabe passou por ele e foi colocar a bandeja sobre um caixote. Deixou os olhos bem pintados deslizarem para o lado, a fim de me olhar, e vi satisfação neles. O sorriso chegou-lhe ao canto dos lábios, em uma ruga maliciosa. A seda do seu vestido brilhava, orlada de ouro, e nisso me lembrei de como devia estar minha apa­rência, toda em desalinho, por ter estado deitada na cama, e com as roupas amarrotadas. Ignorei-a completamente e disse de repente a Lethman:

Que foi feito dela?

Dela, quem?

        Minha tia Harriet, é claro. Não tente continuar fazendo mistério. Sei que seu horrível amigo estava-se fazendo passar por minha tia... Onde está ela?

        Morta.

        Morta ? — disse eu, em tom agudo. — Foi assassinada... Não é isto que o senhor quer dizer?

Por um canto do olho, vi que as sedas de Halide brilhavam quando ela se moveu, e Lethman se virou depressa a fim de olhar para mim. Estava de costas para o lampião, e eu não o podia ver claramente, mas sua voz tinha uma ponta de nervosismo.

Não seja melodramática. Naturalmente, que eu não quis dizer tal coisa. Ela morreu de morte natural.

Melodramática! Vejam quem está falando. Ora, com estas masmorras subterrâneas, seu falso encanto e com a falsa dama lá em cima, com suas técnicas de Caçador de Escravas Brancas... Morte natural, uma conversa. — disse, zangada. — Seja exato. De que morreu minha tia, e quando?

Não vou responder a nenhuma pergunta — falou ele, rigidamente. — O Dr. Grafton era o médico da sua tia, e ele dará as explicações.

        Por Deus, que tem de dar — respondi.

Lethman estivera caminhando rumo à porta, mas meu tom de voz o fez voltar-se novamente para me encarar. Agora ficou iluminado pela luz. Vi no seu rosto uma espécie de reavaliação, até mesmo um certo alarme, e o homem abriu a boca, para dizer alguma coisa, depois tornou a fechá-la, sem nada falar. Achei que ele parecia nervoso como sua voz, uma expressão abatida, com os olhos empapuçados, que traía o sono de que ele se achava tomado, e rugas que eu não notara antes e que não deviam existir ali. O que sem dúvida não devia estar ali antes eram uma escoriação inchada no canto da sua boca e uma feia marca como um vergão que ia do rosto até à orelha. Eu estava notando estas coisas, quando Halide disse, em voz rápida e venenosa:

        Não deixe que ela lhe fale nesse tom de voz. Aqui é você quem manda.

Eu ri.

        É o que parece, não é? Para início de conversa, quem é que tem mandado em vocês dois ? E pensam que sou a única em apuros? Pois vocês vão ver uma coisa. E lhes garanto que será bom para vocês me ouvirem e me tirarem daqui. Gostaria de ir agora. Imediatamente, por favor.

Lethman soltou um suspiro, não sei se de raiva ou de esforço. Sua voz era deliberadamente controlada.

Tenho certeza de que a senhorita gostaria, mas mesmo assim ficará aqui. O Dr. Grafton a verá depois.

Ele me verá agora. Depois que eu me houver lavado. E, além disso, quero que me devolvam minha bolsa de mão.

Está ao lado da cama. Agora, pare de ser idiota, e faça o que nós mandarmos. Aí está alguma comida. Agora, nós vamos embora, e, se tiver juízo, ficará bem quietinha. Se ficar bem comportada, não lhe acontecerá nenhum mal. Pronto, Halide.

Não quero comida nenhuma! — gritei, zangada. — Quer parar de se comportar como um carcereiro e me levar a um banheiro?

Mais tarde. — E Halide foi passando por ele, com um olhar final para mim que me deu vontade de lhe dar um bofetão no rosto. John Lethman estava-se retirando e fechando a porta.

Levantei-me e disse, em tom agudo:

Não seja bobo, John Lethman. Quero ir ao reservado. Sabe, quero ir ao lavatório, ao W. C.... Tenho de dizer o que preciso fazer?

Ah. — Parou um instante e vi, com prazer, que ele ficou novamente embaraçado. Parecia evidente que o homem esperara, e até se preparara, para uma cena em que eu me declararia ultra­jada e até receosa, e não esperava que eu reagisse de forma tão positiva diante da sua intromissão na minha vida. Finalmente, ele disse, muito sem jeito: — Oh, bem, é melhor vir conosco. Mas não tente fugir. E, além disso, seria perder tempo. ..

E não adianta gritar pedindo socorro, porque o senhor tem cem guardas núbios por perto? — E conclui a ameaça, de forma tão zombeteira, que foi para ele como um soco entre os olhos e o fez ficar com o moral abatido. — Vamos, Chefe dos Crentes, saia dessa e me leve logo à privada.

O homem não respondeu nada. Ri novamente e passei por ele. Minha saída foi estragada pelo fato de que tropecei, em virtude da pouca luz, em uma laje quebrada, e minha cabeça girou com o efeito da droga que me aplicaram. John me segurou pelo braço e controlei o impulso de me livrar dele com uma sacudidela. Primeiro, porque eu precisava apoiar-me em alguém, e depois porque talvez ele estivesse resolvido a me segurar, e eu poderia virar a situação, aceitando o gesto como de solicitude. Portanto, agradeci-lhe e lhe permiti que me escoltasse até o ba­nheiro. Não sei se Halide nos seguiu, pois não olhei para seu lado.

Eu acertara em cheio. Este era o corredor sob o lago, e minha porta era um dos depósitos fechados à chave. Lá estava a pilha de latas, do lado de fora do depósito. John Lethman me levou escada acima, na direção do quarto de tia Harriet. Quando alcançamos a pesada cortina e ele a afastou para deixar aparecer a cama, soltei uma exclamação de surpresa.

Não finja que não conhecia o caminho — disse ele, com azedume.

Não estou fingindo nada — falei. E era verdade. O que me espantara era a luz. Não era de manhã cedo, conforme eu pensara, e sim uma hora qualquer da tarde, seis horas de um dia cheio de sol. E devia ser o mesmo dia em que eu partira para Damasco, ou meu relógio poderia ter parado. O pentotal me deixara sem sentidos apenas por duas horas.

John Lethman atravessou cuidadosamente o quarto, até junto do estrado, e me puxou atrás de si.

Surpreende-me que ainda seja dia — falei. — Parece ter-se passado um mês desde que estive ao ar livre e em companhia agradável. Diga-me uma coisa, Sr. Lethman... Como foi que me trouxeram para cá ? Não me diga que me carregaram para o povoado em plena luz do dia.

O carro não foi a Beirute nem a Sal'q. Há uma estrada que passa por Zahle, e depois dela uma trilha que pode ser usada por automóveis, atrás da entrada do vale. A senhorita teve de ser carregada só em uma extensão de dois quilômetros, depois que o carro não pôde mais avançar.

Pela trilha atrás do palácio? Então, deve ser por isto que estou com o corpo todo dolorido. Fui trazida de mula?

Embora pareça absurdo, acho que naquele instante eu me achava mais zangada do que durante todo o ocorrido. Zangada e envergonhada. Havia humilhação ao saber que aqueles homens haviam pegado no meu corpo inerte. Até então, o pensamento disto me fez desejar correr e me esconder. Mais tarde, porém, a raiva ajudaria.

        O banheiro fica nesta direção — falou ele.

Era a porta pegada, que abria para o jardim do príncipe. Fugi para o labirinto do hammarn como um coelho que corre para entrar em uma toca segura.

Nos bons tempos, fora uma instalação sanitária mais sun­tuosa do que as que havia nos aposentos reservados às mulheres. As paredes eram de alabastro, e a luz saía de cima, em todos os cômodos, de losangos de vidro colorido, atirando jóias de âmbar e de jade sobre os pisos rosados. A luz do Sol, como que emude­cida diante de tanta beleza, luzia entre o labirinto das colunas cor de pêssego como a luz que atravessa uma concha transparente; e o murmúrio da água, gotejando através dos canais rasos e caindo nas banheiras de mármore, ecoava como o mar nos corredores de uma caverna subterrânea.

O contato fresco da água, a luz, a vista ofuscante do pequeno jardim, quando eu atravessara o hammam, apagaram imediata­mente o pesadelo de claustrofobia da minha prisão. Segui meu caminho, atravessando o conjunto de cômodos, até o centro do labirinto fresco de pedras. Aqui, a água chapinhava e brilhava ao cair em uma concha enegrecida, que outrora fora prata, e um fauno de pedra destacava-se, inclinando-se para fora, com uma taça finíssima de alabastro. Tirei a taça das mãos da estátua, enchi a vasilha, bebi a água e depois, tirando toda a minha roupa menos as calcinhas, lavei-me deliciosamente na água fria, enxugando-me com meus porta-seios. A luz do Sol, caindo em tor­rentes com as suas hastes cor de âmbar e de ametista, parecia encharcar meu corpo como óleo, amenizando a rigidez das esco­riações. Sacudi meu vestido e tornei a colocá-lo no corpo, arrumei meu rosto e meus cabelos e, por último, enxuguei meus pés e calcei as sandálias novamente. Joguei o porta-seios encharcado em um canto, tomei mais um pouco de água, lavei a taça do fauno e depois saí para me encontrar com John Lethman.

O homem achava-se sentado na beirada da fonte seca. Antes, eu só vira este jardim à noite, e agora não vi mais que de relance um tufo de rosas amarelas e uma densa moita de madressilvas, acima de colunas quebradas. John Lethman levantou-se depressa e fez menção de começar a falar, mas eu o interrompi de forma abrupta.

        Nem por sonhos pense que me poderá levar novamente para aquele cômodo imundo. Se o tal Dr. Grafton quiser falar comigo, que o faça aqui mesmo. Além disso, poderá falar comigo agora, à luz do dia. Não precisa mais fingir que passa metade da noite acordado, e portanto pode jogar fora aquele turbante e aquela camisola ridículos. Passei por ele e penetrei no quarto de dormir da tia Harriet, e disse, por cima do ombro: E, se quiser que eu coma alguma coisa, mande aquela pequena árabe trazer para cá.

John Lethman hesitou, depois pensei que ele fosse insistir. Mas ele falou, apenas:

Contanto que a senhorita compreenda que esta parte do palácio está fechada a sete chaves. Se tentasse fugir, não iria longe. E, mesmo que fosse, os cães a achariam.

E me esquartejariam, membro por membro ? Essa é boa. disse eu, zombeteira, com uma risada.

Atravessei o cômodo, até onde se achava a cadeira de verniz vermelho e sentei-me, com as maneiras mais displicentes que pude fingir, enquanto Lethman, com uma expressão de profunda aversão por mim, subiu o estrado a fim de acionar a campainha.

O chamado familiar retiniu e foi repetido pelo eco dos vários cômodos e, como sempre, a barulheira dos cães agitou o ar, aca­bando com o silêncio da tarde. Não sei por quê, os latidos dos cães foram reconfortantes. Os Cães de Gabriel estavam do meu lado. Os cães de tia Harriet tinham reconhecido minha voz e o passo do meu primo, e agora eu compreendia, quando um pensamento repentino iluminou minha mente como um relâm­pago, que talvez eles não gostassem "do doutor", como Sansão não gostara, e por isso eram mantidos trancados, exceto quando de guarda, à noite, para impedir que a abelhuda Srta. Mansel fizesse das suas.

Antes que os ecos do sino tivessem morrido, as cortinas da cama foram afastadas violentamente e Henry Grafton atravessou a porta particular, como um gênio saindo da lâmpada maravi­lhosa, e disse, furioso:

        Raios! Onde foi parar a moça ? A porta está escanca­rada, e se ela chegar ao portão principal aquele imbecil talvez já se tenha esquecido das ordens recebidas e a deixe sair e até a ajude com um endereço a gás néon.

        Fique sossegado falou Lethman. Ela está aqui.

Dr. Grafton parou de chofre, como alguém que viesse correndo e topasse com um arame farpado, e girou nos calcanhares, ficando de frente para o ponto em que me achava, sentada numa cadeira de espaldar alto. Por um instante desagradável, pensei que ele me viria agarrar, mas, com um esforço, limitou-se a mimar-me com um olhar curioso, que não me agradou de forma alguma.

        Que é que ela está fazendo aqui? — perguntou a John Lethman, sem tirar o olhar de cima de mim.

        Ela pediu para ir ao banheiro.

Ah. — A simples necessidade fisiológica pareceu deixar Henry Grafton tão desconcertado quanto deixara ao próprio John Lethman. O homem ficou muito embaraçado, lá na beirada do estrado, aparentemente sem saber o que fazer, enquanto eu permanecia sentada na cadeira, indiferente, tentando parecer vários graus mais fria do que um cubo de gelo, e preparando-me para lutar a cada centímetro do caminho, se eles tentassem me­ter-me novamente naquela masmorra imunda.

Você chamou? — perguntou Halide, da porta do jardim. Pelo menos, suponho que tinha sido isso que ela tenha dito, pois falou em árabe. Usava o anel de tia Harriet.

Olhava para Grafton, mas eu respondi em inglês.

        Sim, quem chamou fui eu. Não a chamei, mas, já que você está aqui, poderia ir buscar aquela bandeja para mim. Não quero a sopa, mas comerei o queijo e o pão, e também aceito uma xícara de café, enquanto falo com ele.

Ela me xingou em árabe — agora não precisava mais fingir — e virou-se furiosa para os dois homens:

Vocês não a vão deixar ficar aqui, vão? Por que não a levam novamente para a cela e a trancam outra vez? Por que a deixam ficar aqui sentada, assim, dando ordens? Quem pensa ela que é? Não é ninguém, estou dizendo... Ninguém, e muito em breve ela saberá disso! Quando nós a levarmos para...

Escute, Halide — disse John Lethman, sem muita convicção, mas ela o ignorou e virou-se para Grafton, furiosa.

Você também tem medo dela? Por quê? Vocês não ousam deixá-la lá? Então, por que não lhe dão outra dose da droga e a põem em outra prisão? Ou por que não a amarram? Eu a amarraria!

Ora, cale o bico — disse eu, cansada. — Pode deixar a bandeja, não morrerei de fome. Mas pare de gritar e de me fazer sentir como um kismet extra, sim? E traga o café. Pode aquecê-lo novamente, antes de trazê-lo. Não gosto de café frio.

Se olhar matasse, o que ela me dirigiu em seguida me haveria fulminado, e fiquei satisfeita por merecê-lo. A moça árabe girou nos calcanhares, novamente, na direção de Grafton, fervendo como uma chaleira, mas o médico a fez parar de falar.

        Cale a boca e faça o que ela mandou. John, por Deus, você não consegue fazer esta mulher ter um pouco de bom senso? Já era tempo... — Disse a Halide alguma coisa, em árabe, em tom mais conciliatório, e houve uma breve troca de palavras que pareceu acalmá-la. Algum tempo depois, ela se retirou, com uma careta.

John Lethman suspirou, metade de alívio e metade de raiva.

Desculpe. Há vários dias que ela tem estado nervosa assim. Quando chegar a hora, ela acabará aprendendo. — Deu uma pancadinha no rosto, franziu o cenho e deu outra palmadinha no rosto. — Devo levar a Srta. Mansel de volta?

Por enquanto, não. Pode retirar-se. Falarei com ela, e depois... — E concluiu a frase em árabe, e John Lethman confirmou com um gesto de cabeça. Sua resposta foi muda e hor­rível. Limitou-se a passar a aresta da mão fechada na garganta, em um gesto criminoso, e Henry Grafton riu.

        Se você puder — falou ele, em inglês. — Pois bem, pode ir. Lethman saiu. Tive vontade de manter a pequena iniciativa

que pudesse ter, e por isso falei sem demora. Minha voz saiu áspera, elevada e nervosa, e, para surpresa minha, muito possante.

        Bem. .. Pode começar a falar, Dr. Grafton. O senhor tem muito que explicar...

 

               Portanto, enterrem-me em algum jardim perfumado.

  1. Fitzgerald: Rubaiyat, de Omar Khayyam

 

Grafton demorou um instante a começar a responder. Ficou lá de pé, olhando-me sob as pálpebras caídas, ainda com aquele olhar de quem avalia, quase clínico. Seus olhos eram escuros e brilhantes como melaço, e, em contraste, suas pálpebras pesadas pareciam densas e cerosas. A pele ao redor dos olhos era cas­tanha, como ameixas supermaduras.

Então ? — disse eu, em tom incisivo.

O homem sorriu.

A senhorita é combativa. Eu a admiro por isso.

        O senhor me deixa muito emocionada. Sente-se e fale logo. O médico desceu do estrado e atravessou o cômodo, chegando a uma cadeira que estava encostada à parede. Trocara o terno social por um par de calças escuras e uma camisa russa de gola alta, cor verde-oliva, que o fazia parecer mais pálido e não con­tribuía nada para disfarçar-lhe o porte de homem baixo e cor­pulento. Parecia muito forte, com um pescoço musculoso, como o de um touro. Minha rudeza não o atingiu. Seus modos eram perfeitamente educados, até agradáveis, quando ele trouxe a ca­deira e sentou-se diante de mim.

Quer um cigarro?

Não, obrigada.

Ele a ajudará a controlar os nervos.

Quem disse que meus nervos estão descontrolados?

Ora, vamos, Srta. Mansel, pensei que era uma pessoa realista.

Espero que seja. Pois bem. Veja, minha mão está tre­mendo. Isto o deixa satisfeito?

De forma alguma. — O homem acendeu meu cigarro e sacudiu o fósforo para apagá-lo. — Lamento ter agido como o fiz. Por favor, tenha certeza de que não lhe desejo fazer nenhum mal. Fui obrigado a trazê-la aqui para falar com a senhorita.

Foi obrigado...? — E arregalei os olhos para olhá-lo. — Ora, não me faça rir, Dr. Grafton! O senhor poderia muito bem ter falado comigo no carro. Ou poderia ter falado comigo antes de eu deixar Dar Ibrahim, se é que pretendia deixar cair a más­cara. — Reclinei-me para trás, fumando meu cigarro. O gesto ajudou a dar-me o toque extra de confiança de que eu precisava, e senti meus nervos começarem a se relaxar. — Devo dizer que o senhor fica muito melhor representando o papel de "tia". Agora, compreendo perfeitamente por que o senhor só se avistava com seus visitantes à meia-noite. O senhor e seu quarto ficavam muito melhor no escuro.

No tocante ao quarto, sem dúvida que isto era verdade. O que à luz do lampião poderia ter passado por andrajos român­ticos, à luz do dia aparecia claramente como sujeira e relaxa­mento. As cortinas da cama eram imundas e cheias de rasgões, e a mesa, ao lado da cama, era sórdida ao extremo, coberta de copos e pratos sujos e continha um pires cheio de pontas de cigarro.

        Bem... — falei, ainda em tom agressivo. — Vamos ouvir a história. E, por favor, comece do princípio. Que aconteceu à tia Harriet?

O homem olhou francamente para mim e estendeu a mão, em tom de desculpa.

Pode saber que estou disposto a lhe contar tudo. Con­fesso que a senhorita tem todos os motivos para estar desconfiada e zangada, mas creia que estou fazendo tudo isto por sua causa, e daqui a pouco vou-lhe explicar. No tocante à sua tia, não precisa ter nenhuma preocupação. Ela morreu de forma tranqüila. Naturalmente, a senhorita sabe que eu era médico de sua tia. Eu e John estivemos o tempo todo com ela.

Quando foi que ela morreu?

Há uns quinze dias.

De quê?

Srta. Mansel, sua tia já tinha mais de oitenta anos de idade.

Tinha, sim, mas tem de ter havido uma causa para a morte. Que foi? Coração? A asma de que ela sofria? Simples abandono?

Vi que o homem apertou ligeiramente os lábios, mas respondeu com a mesma agradável aparência de franqueza.


- A asma era pura ficção, Srta. Mansel. Só me foi difícil disfarçar a voz. Quando John me disse como a senhorita tinha sido insistente em me ver, e compreendemos que talvez fosse impossível dissuadi-la, inventamos uma história que permitiria falar em voz muito baixa. E, como a senhorita deve ter compre­endido agora, o quadro que eu tive de lhe apresentar, de uma senhora idosa, esquecida das coisas e muito exótica, estava longe da verdade. Sua tia esteve na plena posse de suas faculdades mentais, enquanto viveu.

Então, de que morreu ela?

Em primeiro lugar, por causa do coração. Ela teve um ligeiro ataque das coronárias, no outono passado, e outro em fevereiro... depois que vim morar aqui no castelo. Como a senhorita sabe, ela era difícil de comer, e ultimamente tinha doenças periódicas do estômago, que aumentou a tensão do co­ração. Sua tia teve um desses ataques gástricos há três semanas, um ataque violento, e seu coração não suportou. Aí está a his­tória, da maneira mais simples que eu sei contar. Mas, repito, sua tia contava mais de oitenta anos de idade. Seria difícil es­perar que ela tivesse escapado.

Por um instante, eu não disse nada, puxando fumaça do meu cigarro e olhando fixamente para o homem. Depois, eu quis saber, de repente:

Onde está o atestado de óbito? O senhor fez um?

Sim, deixei um assinado, para os registros. Pode vê-lo, quando quiser.

Não vou acreditar em uma palavra do que estiver escrito nele. O senhor ocultou a morte de minha tia, o senhor, John Lethman e a moça árabe. Até pode-se dizer que vocês tiveram muito trabalho para conseguir isso. Por quê?

O homem fez um gesto de desalento com a mão.

        Sabem os céus que eu não a censuro. Nas circunstâncias, eu também não acreditaria em nada. Mas o simples fato é que, longe de querer ficar livre da sua tia, fiz muito — na verdade, fiz até demais — para mantê-la viva. Não lhe peço para acreditar quando lhe digo que eu gostava dela, mas talvez a senhorita acredite quando eu lhe disser que sua morte era muito incon­veniente para mim, vindo quando veio, e poderia ter-me custado uma fortuna. Portanto, eu tinha um motivo básico para mantê-la viva. — E jogou cinza no chão. — Daí, o mistério e a comédia, que explicarei em um instante. Eu não queria que advogados ou a família invadissem o palácio, e por isso não comuniquei a morte de sua tia, e deixamos o povo das redondezas pensar que ela ainda estava viva.

        E, então, meu primo e eu aparecemos, no momento mais indesejável. Compreendo. Mas no momento em que vocês iam perpetrar que crime, Dr. Grafton? Seria melhor o senhor contar do início, não acha?

O homem recostou-se na sua cadeira.

        Muito bem. Fui médico da sua tia durante uns seis anos, e nos quatro últimos anos eu vinha aqui uma vez por quinzena, e algumas vezes até com mais freqüência. Sua tia estava muito lúcida e muito ativa para sua idade, mas, de certa forma, era uma pessoa que tinha doenças imaginárias. Além disso, ela era idosa, e acho que, apesar da sua fanática independência, era um tanto solitária. E, vivendo sozinha como vivia, com os criados árabes, acho que deve ter sofrido alguma terrível doença ou aci­dente que a deixou completamente à... a cargo deles.

Pensei que ele estivera para dizer "à mercê deles". Pensei em Halide, usando o enorme rubi, em Nasirulla, atarracado, truculento e sombrio, ou em Jassim, o débil mental.

Ah, é? - falei.

Portanto, eu lhe fazia uma visita regular, e isto a deixava sossegada... Além disso, ela gostava da companhia de um com­patriota. Posso dizer que eu também gostava dessas visitas. Sua tia costumava ser muito divertida quando estava em forma.

E John Lethman? Ele me apresentou uma versão de como veio parar aqui, mas não sei se foi verdadeira.

Ah, sim, uma das poucas ocasiões em que John conseguiu pensar depressa. Creio que a senhorita deve ter adivinhado que ele sabe tanto quanto a senhorita a respeito de Medicina Psiquiá­trica. Ele é arqueólogo.

Eu... Ah, compreendo. Daí, o interesse de minha tia por ele. Lembro-me de ter-me sentido um tanto surpresa quando ele empregou certo termo tipicamente de Arqueologia... Eu devia ter visto logo. Mas, e os jardins Adônis?

São legítimos. Pode-se dizer que foram premissa dele. O artigo que ele estava escrevendo era sobre o culto a Adônis, e acho que foi isso que sugeriu o exercício da psicologia mórbida, a tolice de "êxtase religioso" que ele lhe referiu quando encur­ralado. Nada ruim, hem? Afora isto, acho que ele lhe disse a verdade. Ele estava viajando e fazendo pesquisas para o jornal em que trabalha, tendo acampado perto do pequeno templo do palácio, e um dia foi surpreendido por uma tempestade — como aconteceu com a senhorita — e veio para Dar Ibrahim. Sua tia começou a gostar dele e convidou-o para ficar enquanto ele escrevia seu artigo, e sem que fosse dito muito mais por nenhuma das partes ele ficou morando aqui e começou a dirigir o palácio para ela. Devo dizer que fiquei muito satisfeito quando John resolveu estabelecer-se aqui. Isso tornou meu tra­balho muito mais fácil. — Houve uma sombra de sorriso que não me agradou. O homem tornou a bater a cinza do cigarro no chão, delicadamente. — Um ótimo rapaz.

E útil?

Oh, sem dúvida. Ele me facilitou muito as coisas, mo­rando aqui. A Lady o considerava muito.

Tenho certeza disso. Mas eu quis dizer que ele era útil ao senhor.

As pálpebras pesadas levantaram-se. O homem fez um leve movimento de ombros.

Oh, sim, para mim. Acho-o um excelente sócio no meu... negócio.

Sim... Bem, vamos a isto agora. O seu negócio. O senhor tem estado em Dar Ibrahim desde que saiu de Beirute? Sim, deve ser isto. O senhor era o "médico residente", e não John Lethman. O senhor era o "médico" a que Jassim estava-se refe­rindo quando Hamid e eu chegamos ao portão... John Lethman se recuperou depressa dessa! Mas eu fiquei intrigada, porque os cães gostavam dele.

Os cães?

Oh, não importa. Ela mandou uma carta para casa, em fevereiro, não mandou? Ela disse que seu cão "não suportava o médico".

Oh, sim, foi aquele cachorro danado que eu... que morreu... Sim, realmente, eu era o "médico residente". Isso fazia parte da lenda Stanhope, conforme a senhorita talvez saiba; sua tia gostava de ter o seu próprio "Dr. Meryon" às suas ordens. — E o homem não parecia satisfeito com a idéia. — O preço a pagar era pequeno. Ela possuía direito à sua própria lenda, muito embora eu não me visse muito bem no papel daquele homem infeliz submetido dia e noite àquele egoísmo monstruoso.

Não me diga que a pobre tia Harriet o elegeu ministro do seu egoísmo monstruoso dia e noite. Mesmo que ela o tivesse feito — o que parece provável — já que ela era uma Mansel, ela possuía, também, senso de humor.

        Não tente encontrar motivos para mim. Eu já lhe disse que eu gostava dela. — O homem deu um sorriso torcido. — Embora eu deva confessar que sua tia esteve dificultando um pouco as coisas nos últimos dois anos. Algumas vezes, representar esse papel costumava ser um tanto duro.

Olhei de relance por cima da cama, para onde um rifle pendia do cabide, na parede, ao lado do pedaço de pau.

        Seria demais esperar que ela realmente o usasse contra Halide?

O homem riu, um riso bem legítimo.

De vez em quando, ela jogava coisas em Jassim, mas só isso. E a senhorita não deve censurar muito Halide. Ela está trabalhando com muito afinco para obter o que deseja.

John Lethman? Ou Dar Ibrahim? Ambos sagrados, isso eu lhe garanto. — Inclinei-me para diante a fim de apagar meu cigarro no pires. Depois, olhei um instante para o médico. — Sabe, acho que acredito no senhor a respeito de minha tia... Isto é, duvido que o senhor tivesse tido intenção de lhe fazer algum mal. Para início de conversa, o senhor não parece preo­cupado pelo que ela possa ter escrito em suas cartas... A não ser que o senhor lhe tenha lido e censurado todas as cartas, e duvido que o tenha feito, já que acho que ela possuía liberdade de falar com os habitantes do povoado e com os portadores das mercadorias encomendadas no vilarejo. É evidente que o senhor nunca lhe viu a última carta convidando Charles a visitá-la, e também não viu a carta de Humphrey Ford.

Fiquei esperando, em parte, que ele perguntasse de que eu estava falando, mas o homem não perguntou. Estava-me obser­vando furtivamente.

E estou inclinado a achar que John Lethman também não fez nenhum mal a ela; mas, e os criados? Tem certeza absoluta de que Halide não teve um bom motivo para desejar ficar livre da velha?

Não, não, isto é tolice. Algumas vezes, sua tia costumava ser muito severa com os criados, que têm a tendência de ficar à toa, se não são dirigidos, mas gostava da moça.

Não foi exatamente isso que eu sugeri.

E Halide cuidava dela com grande dedicação. Como eu lhe disse, sua tia, às vezes, mostrava-se difícil, e as sessões da madrugada eram realmente um fardo. — Ele acenou com a mão. — Estes cômodos... Eles só começaram a ser mal cuidados depois da morte dela, pode ficar sabendo. Nós os limpamos, um tanto superficialmente, porque desejávamos usá-los — eles eram, natu­ralmente, os cômodos mais bem conservados e os mais centrais, mas não houve tempo para limpá-los de maneira adequada antes que a senhorita os visse. — Uma olhada para os móveis. _ Nós ficamos satisfeitos com a escuridão por vários motivos. Oh, este lugar sempre foi mal cuidado, e ela gostava de viver na desordem, mas os quartos eram bem arrumados quando sua tia vivia... Meu Deus, tinham de ser. Mas, daí a sugerir que Halide detestava sua tia o bastante para. .. Não, Srta. Mansel.

O homem parou de falar, quando Halide entrou com a bandeja. A moça colocou a bandeja perto de mim, em cima da mesa, com ligeiro ruído, e depois, sem olhar para nenhum de nós dois e sem dizer nada, saiu diretamente do quarto. Ela me tomara ao pé da letra e trouxera só o café. Estava um pouco fraco, mas quente e fresco. Enchi uma xícara e bebi um pouco, depois me senti melhor.

Além disso — falou Henry Grafton — o que se aplica a John e a Halide, aplica-se também a mim. Eles tinham mais motivos para querer Lady Harriet viva do que morta.

O que significa que eles também fazem parte do plano, não é?

        Pode-se dizer isso.

        Minha tia deixou testamento? — perguntei, de repente. O homem sorriu.

Ela fazia testamentos toda semana. Afora as palavras cruzadas, fazer testamentos era sua diversão predileta.

Eu já sabia disso. Algumas vezes, recebíamos cópias dos testamentos. Que aconteceu a todos eles?

Devem estar por aí. — O homem pareceu despreocupado. — Ela costumava ocultá-los nos lugares mais estranhos. Receio que este não seja exatamente um lugar para procurar, mas pode tentar à vontade.

Devo ter-me mostrado surpresa.

        Quer dizer que me deixará dar busca no palácio?

        Mas é claro. Na verdade, até é possível que agora a propriedade pertença à senhorita... Ou, mais provavelmente, à seu primo.

        Ou a John Lethman?

O homem me dirigiu um olhar apressado.

        Como a senhorita mesma disse, sua tia gostava muito de seu primo.

Outra das suas excentricidades...

Uma excentricidade muito comum. Mas, infelizmente, pouca coisa deve restar de valor. Talvez haja algumas lembranças pessoais que a senhorita queira salvar do caos e, como eu disse, pode tentar à vontade.

        Tais como o anel que Halide usa?

O homem pareceu surpreso.

O anel de granada? A senhorita quereria o anel ? Sem dúvida, era a jóia predileta de sua tia. Ela o usava sempre, mas pensei que ela o tivesse dado de presente a Halide... Bem, é claro... Talvez Halide não se importe. ..

Dr. Grafton, peço o favor de não pensar que vim aqui atrás das coisas da minha finada tia, mas o anel tem o que se chama de "valor estimativo", e tenho certeza absoluta de que a família lutará para recuperá-lo. Além disso, ela queria que ele fosse meu. Se ela o deu de presente a Halide, então deveria estar maluca, e nenhum tribunal deixará a jóia com Halide.

        É muito valioso?

        Não sei nada a respeito do valor de granadas falei, momentaneamente fiel à verdade mas pode crer em mim, que não é apenas um presente para uma criada, por mais dedicada que esta seja. O anel pertencia a minha bisavó e eu o quero de volta.

        Então, vai tê-lo. Vou falar com Halide.

        Diga-lhe que darei a ela outro objeto, para substituir o anel.

Coloquei a xícara em cima da mesa. Houve uma pausa. Um besouro entrou voando pela porta aberta e clara, esvoaçou no quarto por alguns instantes e depois saiu voando. De repente, senti-me muito cansada, como se não estivesse mais em condições de conversar. Eu acreditava nele... E, se eu acreditava naquele homem, o resto não fazia sentido?

        Pois bem falei, finalmente. Então, chegamos ao que aconteceu depois da morte de titia. Mas, antes de prosseguirmos, quer mostrar-me onde ela foi enterrada?

O médico levantou-se.

        Pois não. Ela está aqui no jardim do príncipe, como foi sempre seu desejo.

Grafton me guiou, em direção ao pequeno pátio, passando pela fonte seca, atravessando trechos de sol e de sombra e entre canteiros de terra torrada pelo sol, onde, no início da primavera, deveria haver tulipas persas e outras flores. Por cima do alto muro externo surgia um emaranhado de jasmins brancos e, ao lado deles, uma cascata de rosas amarelas formava uma cortina ofuscante. O perfume era maravilhoso. Na sombra lançada pelas flores havia uma pedra branca, achatada, sem nenhuma inscrição, e à sua cabeceira via-se o turbante de pedra do moslemita morto. Olhei para isto, em silêncio, por um instante.

O túmulo dela é este?

Sim.

Não tem nome?

Não houve tempo.

O senhor deve saber, tão bem quanto eu, que isto é um túmulo de homem.

O médico fez um movimento súbito, contido imediatamente, mas senti um tremor de apreensão, quando meu corpo se tornou novamente rígido e atento. Este era o mesmo homem que me agredira selvagemente no carro, que estava agindo em conexão com algum golpe baixo, e devia ser em virtude de um grande lucro... Em algum lugar, não muito abaixo da superfície, pouco abaixo da pele suarenta, por trás dos olhos negros e brilhantes, parecendo petróleo, havia alguma coisa menos calma e menos agradável do que o Dr. Henry Grafton gostaria que eu acre­ditasse.

Mas ele disse, com o que pareceu um tom de voz delicado e divertido:

        Não, na verdade não posso permitir que pense que eu tenha feito nada mais! A senhorita sabe claro que sabe que sua tia gostava de vestir-se como um homem e que até se comportava como homem. Acho que isso lhe dava uma liberdade nos países árabes que uma mulher normalmente não poderia ter. Quando ela era mais jovem, os árabes a chamavam de "príncipe", porque ela montava como homem, e por causa dos cavalos que sua tia gostava de ter. E ela planejou aquilo e fez um gesto na direção do túmulo pouco tempo antes de morrer. Sem dúvida, fazia parte da mesma idéia.

Olhei em silêncio para a fina coluna com seu turbante entalhado. De tudo que eu vira, este era o símbolo mais exótico e mais estrangeiro. Pensei nas pedras cobertas de liquens do velho pátio de igreja da minha terra natal, nos grandes elmos, nos teixos, perto do portão, e nas gralhas que o vento arrastava e que fazia passarem perto das torres, nas tardes de ventania. Um chuveiro de pétalas amarelas caiu sobre as pedras nuas e quentes, e um lagarto passou correndo, palpitou lá por um instante, observan-do-nos, e depois sumiu.

"Comprei um excelente mausoléu aqui."

        Que foi que disse? — indagou Henry Grafton.

        Desculpe, não notei que havia falado em voz alta. Tem razão, é isso que ela queria. E, pelo menos, ela está com os amigos.

        Amigos?

        No jardim pegado. Os cães, cujos túmulos eu vi.

Virei-me e me afastei. A impressão de cansaço persistia. O calor, pesado e perfumado, o ruído das abelhas, talvez ainda os efeitos da injeção e da tensão daquele dia estivessem pesando sobre mim.

Volte para dentro e saia do sol. Seus olhos escuros espiavam para mim. Pareciam muito fixos. A senhorita está bem?

Muito bem. Um tanto flutuante, mas não é desagradável. Aquilo era só pentotal?

Só. A senhorita não ficou sem sentidos muito tempo, e a droga é inofensiva. Vamos.

A sala pareceu-me relativamente fresca depois do calor abafado do jardim. Sentei-me, aliviada, na cadeira envernizada e reclinei-me para trás. Os cantos do cômodo estavam nadando na sombra. Henry Grafton tirou um copo de cima da mesa e encheu-o de água.

        Beba isto. Melhorou? Agora, fume outro cigarro. A se­nhorita vai melhorar...

Peguei automaticamente o cigarro e Grafton acendeu-o para mim e depois afastou-se a fim de tirar sua cadeira da faixa de luz do sol que agora iluminava aquele trecho do quarto, depois tornou a sentar-se.

Apoiei as mãos na madeira laqueada e entalhada dos braços da poltrona. De alguma forma, o toque prático de solicitude mudara o tom da entrevista; o gesto de médico para paciente pusera-o novamente, de maneira sutil, a cavaleiro. Fiz um esforço, através do cansaço que tomava conta de mim, para reassumir o tom frio de acusação e de ataque.

        Pois bem, Dr. Grafton. A primeira parte do interrogatório terminou. Por enquanto, aceitarei a hipótese de que minha tia morreu de morte natural, e de que o senhor fez tudo que pôde para salvá-la. Agora, chegamos ao ponto de perguntar por que o senhor ocultou o fato, que foi que o senhor chamou de "mis­tério e comédia"... e o que fez comigo. O senhor ainda tem muito que explicar. Prossiga...

O homem olhou um instante para suas mãos, entrelaçadas no seu colo. Depois, ergueu os olhos.

Quando a senhorita telefonou para minha casa e lhe disseram que eu fora embora do país, falaram-lhe alguma coisa a meu respeito?

Não exatamente, mas nas entrelinhas eu li que devia haver alguma encrenca. Acho que o senhor estava numa enras­cada qualquer.

É verdade, eu estava em apuros, e por isso dei o fora enquanto podia. Há muitos lugares em que eu prefiro estar, em vez de ir para uma prisão libanesa.

        A coisa foi grave assim?

        Oh, bastante. Eu estava comprando e vendendo certas drogas medicinais ilegalmente. Aqui é mais fácil a pessoa matar alguém sem ser castigada, do que negociar com entorpecentes.

        O senhor não seria apenas deportado?

        Isso não teria adiantado nada. Na verdade, sou de natu­ralidade turca, e lá os castigos por essa falta são ainda piores. Mas saiba, apenas, que tive de fugir depressa, antes que eles me agarrassem. Mas eu possuía propriedades no país, e não queria ir embora sem as vender. Naturalmente, eu temia que um dia isso viesse a acontecer, e já preparara as coisas. Dar Ibrahim fora meu centro de operações e — digamos assim — meu depósito de mercadorias, por algum tempo, e durante os meses mais recentes eu conseguira... — um brilho dos olhos castanhos e uma pe­quena pausa — atrair o interesse de John. Portanto, a fuga foi bastante fácil. Fui levado para o aeroporto e comprei passagem, dando meu nome para a lista de passageiros. Depois, alguém tomou meu lugar no avião. Se a senhorita conhece o aeroporto daqui, sabe que se pode fazer isso. John estava à espera no aeroporto e me trouxe de carro para cá, pela estrada menos usada — como eu a trouxe hoje — e depois vim para Dar Ibrahim a pé. Sua tia estava à minha espera. Naturalmente, eu não lhe contara a verdade. Inventei para ela uma história de um aborto ilegal e de obter drogas sem licença para certos clientes meus mais pobres. Como Lady Stanhope, sua tia votava o maior desprezo pelas leis deste país, e por isso me recebeu aqui e me deixou ficar no castelo, em sigilo. Ficou encantada pelo fato de ter seu médico aqui, permanentemente, para consultá-la, e falava demais tam­bera sobre si mesma, e assim nem se lembrava de ser curiosa em relação a outras pessoas. Quanto aos criados, Halide estava de olho em John como seu único modo de sair de Sal'q e seu irmão já era meu empregado. Não era preciso comprar o silêncio de Jassim, que é quase mudo: só depois de muito lidar com ele é que se consegue entender uma palavra em doze das que ele diz, e em todo caso ele é idiota demais e nem sabe o que se passa aqui. Logo, aqui estava eu, com uma boa base de onde trabalhar e com a ajuda de John, como agente externo para começar a vender minhas propriedades. Tudo ia às mil maravilhas. Nenhuma suspeita, o negócio andando como um relógio, o dinheiro en­trando, e devendo eu, finalmente, partir do país no fim do verão...

O homem fez uma pausa. Inclinei-me para diante, para jogar cinza no pires. Errei a pontaria e a cinza foi parar em cima da mesa, engrossando a sujeira.

O médico prosseguiu:

        Então, há uma quinzena sua tia morre. Meus Deus, e a senhorita ainda pensou que eu a matara ! Passei nove horas completas na cabeceira da cama de sua tia ali mesmo lutando por sua vida como um tigre... — E enxugou o lábio superior. Bem, aí está. Ela morreu, e sua morte poderia ter escanca­rado as portas e eu seria jogado aos leões. No fim, resolvemos agir com a cabeça é assim que se diz hoje em dia ? — e manter em segredo a morte de sua tia. Achamos que ninguém desco­briria o fato, no decurso das duas semanas necessárias à liquidação da atual operação. Eu não podia ter esperanças de manter a coisa em segredo por muito mais tempo do que isso, e os riscos eram grandes demais. Tínhamos de reduzir nossas perdas e pla­nejar uma fuga completa sem demora, mas conseguimos fazer isto. Só não contávamos com o seu aparecimento. Nada que sua tia dissera nos fazia prever que teríamos uma parente dedicada batendo na nossa porta dentro de um dia ou dois. Mas a senho­rita chegou, e logo no momento menos oportuno.

O Sol já quase se pusera, e seus últimos raios lançavam um halo brilhante sobre meus pés. A luz do Sol iluminava a poeira que havia no ar. Fiquei observando, um tanto distraída, essas partículas de pó. Para além do seu rápido clarão, o homem sen­tado na outra cadeira parecia estranhamente distante.

        A princípio, pensamos que seria fácil dissuadi-la de ver sua tia falou ele mas a senhorita é uma garota persistente e corajosa. Conseguiu convencer John, e nós tememos que, se fi­casse realmente preocupada, poderia voltar com advogados, man­dados de busca e coisas assim. Portanto que não teríamos muito a perder se tentássemos a pantomima, e se parecesse satisfazê-la, a senhorita poderia guardar silêncio pelos poucos dias de que precisávamos para dar o fora. Era uma idéia desesperada, mas achei que talvez eu conseguisse iludi-la, na semi-escuridão, prin­cipalmente com as roupas de homem que sua tia usava. Na ver­dade, foram aquelas roupas de sua tia que me deram a idéia. Se nos recusássemos a deixá-la ver sua tia, a senhorita poderia imaginar que ela estava doente, ou que John a estivesse impedindo de vê-la por interesses pessoais, e se a senhorita ficasse desconfiada o bastante para trazer um médico ou um advogado de Beirute, estaríamos fritos. Tentamos, portanto, e deu re­sultado.

Confirmei, com um aceno de cabeça, rememorando a entrevista; o cochicho áspero disfarçando a voz do homem, o apare­cimento grotesco e rápido do crânio careca, sob o turbante, a boca afundada, da qual o médico devia ter tirado os dentes infe­riores da dentadura postiça, os olhos negros e vivos. O nervosismo de Halide e o fato de John Lethman ter ficado observando, cauteloso, e seu olhar incerto, que não se devera a nenhum dos motivos que eu imaginara naquela noite.

        Agora, compreendo tudo disse eu. Toda aquela conversa de John Lethman, ao jantar... Ele eslava descobrindo o que podia a respeito de nossa família, a fim de que tudo encaixasse, pois poderia haver algumas coisas que tia Harriet não lhe tivesse contado. Vocês sabiam que eu não a via desde que eu era criança, e portanto acharam que me poderiam enganar, mas Charles a vira recentemente, e portanto, é claro, a "grande tia Harriet" não o receberia. Oh, sim, foi um golpe bem hábil, Dr. Grafton. Soprei uma grande nuvem de fumaça para o alto, entre nós dois. E, na verdade, o senhor até gostou da brinca­deira. John Lethman tentou fazer-me sair depressa, e sabem os céus que eu teria ido, mas o senhor não me quis deixar ir, pois estava-se divertindo demais em me enganar.

O homem estava sorrindo. Era grotesco. Aquela era a cara de tia Harriet, como eu pensara nela, vista vagamente através da fumaça e da linha poeirenta de luz do Sol, distante como alguma coisa que se veja pelo lado errado de um telescópio.

        Portanto, o senhor me enganou direitinho falei. O truque deu resultado, e vocês afastaram Charles com grande faci­lidade, e certamente, depois que fui embora do castelo, vocês estavam em segurança. .. Portanto, por que me trazer novamente para cá ? Eu fora embora, muito contente da vida, não é? Por que me arrastar novamente para cá, assim?

        Porque nós não tínhamos afastado seu primo, e a senhorita sabe disso muito bem. Oh, não faça essa cara de inocente, não lhe fica bem. Quer que eu lhe conte o que aconteceu? Na primeira vez em que a senhorita saiu daqui, não foi o seu motorista quem foi ao seu encontro, e sim seu primo. E vocês dois arqui­tetaram um plano, para que Charles entrasse aqui na noite de segunda-feira. Ele veio, e vocês exploraram o castelo juntos. Sim, minha querida, esse olhar fixo é muito mais legítimo.

Como é que o senhor sabe de tudo isso?

O seu precioso primo me contou pessoalmente.

Não falei nada. Limitei-me a ficar olhando fixamente para o homem. Não conseguia entender direito o que ele estava dizendo. O quarto parecia estar girando a meu redor, a fumaça e a poeira deslumbrando-me como um nevoeiro.

Naquela noite, depois que a senhorita voltou para seu quarto, seu primo deveria ter saído pelo portão dos fundos, o portão da montanha, não é? — E a voz de Grafton era suave como um creme. — Bem, ele não saiu. Eu e John o surpreendemos no túnel abaixo deste quarto, tentando forçar uma das portas fechadas a cadeado. Não adiantou muito ele negar quem era, pois vocês dois são muito parecidos, não é mesmo? Por­tanto, nós o capturamos. Seu primo tem estado trancado na prisão do palácio, desde então. Não se surpreende de saber que o palácio tem uma prisão própria? Infelizmente, havia só uma cela em condições de ser usada, lá, e por isso, quando a senhorita também foi capturada, nós tivemos de usar aquele depósito para guardá-la.

Aqui? Charles aqui ? Não creio no que está dizendo. Não pode ser! — E meu cérebro parecia estar tateando, como alguém que apalpa as paredes de um quarto cheio de fumaça, sem ter certeza da direção em que se encontra a porta ou a que distância fica a janela. Acho que levei uma das mãos à testa. — O senhor está mentindo. Sabe muito bem disso. Charles me escreveu uma carta, e a deixou em Beirute para mim. Foi a Damasco, encontrar com o pai de Ben... Não, foi a Alepo. E nós o vimos. Sim, nós o vimos na estrada...

Sem dúvida... Realmente, Charles escreveu uma carta. Foi ele próprio quem sugeriu isto. Se ele não a tivesse escrito, para garantir que a senhorita se manteria longe de Dar Ibrahim e não começasse a procurá-lo quando ele não aparecesse no Hotel phoenicia, não poderíamos tê-la deixado ir embora, na manhã seguinte.

Por que deixaram?

Seu motorista — disse ele, em tom incisivo — e seu hotel. Seu primo observou que era mais fácil deixá-la ir embora do que nos arriscarmos a que alguém viesse aqui e nos interrogasse. Além disso, conforme ele nos disse, a senhorita pensava ter visto sua tia viva e com saúde, e poderia ajudar a espalhar a crença de que ela estava normal.

Portanto, foi ele quem escreveu a carta — e todas aquelas mentiras caprichadas — e até fingiu que a vira e a reconhecera... Estive pensando nisto, e achei que ele deve tê-lo visto e que tam­bém foi enganado, como eu o fui... Então, aquela carta foi escrita com a finalidade de me afastar daqui?

Exatamente.

Fiquei calada. A conversa parecia não ter muita coisa mais a ver comigo. O médico continuava sorrindo, enquanto eu olhava fixamente para ele, perplexa, e percebi seu sorriso tornar-se mais largo. Os dentes superiores eram naturais; os incisivos eram amarelados e compridos. Agora, ele estava falando e fragmentos de informações iam caindo, como um papel rasgado, cujos pe­daços fossem encaixando, formando um desenho louco: John Lethman, sem dúvida o "inglês" visto ao longe pelo pequeno pastor, guiara a Porsche até Beirute, naquela manhã, ocultara-a no quintal de alguém, acordara um homem cujo nome parecia ser Yusuf, e lhe dera a carta, depois Yusuf o trouxera de volta ao castelo e mais tarde entregara a carta no hotel, e depois foram-me tapear.. .

Mas a senhorita, minha cara menina, não saiu da linha de tiro. Deixou bem evidente que ia fazer algumas perguntas bem embaraçosas e fez contatos perigosos lá fora. Chegou até a tele­fonar para a Inglaterra. E, pelo que nosso agente ouviu da sua conversa telefônica com Damasco, resolvemos capturá-la.

O árabe do tarbuche vermelho. Estava na cabina pegada à minha. — Eu disse isso a mim mesma e não a ele.

Claro. Bem, já que a senhorita tornou públicos os seus planos e que o raio do seu motorista já estava lá, e não queríamos que ninguém fosse atraído para Dar Ibrahim, resolvemos levá-la para o outro lado da fronteira e depois fazê-la sumir. Tudo muito fácil, sem grande mal feito... Seu carro parado, vocês roubados, seus papéis tirados e o carro destruído... Em algum lugar além de Antilíbano — pensamos - ou até na direção de

Qatana. Yusuf achava que poderia imobilizá-los durante o tempo suficiente. Portanto, ele saiu na Porsche e levou-a para o outro lado da fronteira, a fim de esperar. O carro era a isca, é claro. A senhorita o teria seguido...

        Hamid ! Se vocês maltrataram Hamid...

Não sofrerá nada, se for sensato. A maior parte dos árabes é sensata, quando acha que vale a pena. — E riu. — A princípio, pensei que o fato de vocês serem detidos na fronteira atrapalharia lodos os nossos planos, mas deu resultados maravilhosos. Vocês não me viram, mas eu me achava lá, e vi o que aconteceu. Meu motorista seguiu o seu até as guaritas da fronteira e ouviu tudo, e por isso mandei-o para o outro lado, dizer a Yusuf para seguir para o sul e livrar-se do carro do seu primo, mas quis o acaso que a senhorita mesma visse o carro, lá de cima da estrada, e desceu correndo para pedir a seu motorista que atravessasse a fronteira e o seguisse. Meu motorista voltou e contou que cru­zara com o seu motorista na fronteira. Um vez que nem seu motorista nem a Porsche voltaram, depreende-se que Yusuf deve tê-lo feito mudar de idéia, ou simplesmente executou o plano original e o deixou acalmando-se até amanhã, em algum lugar. Não podemos deixá-lo aproximar-se de um telefone, isso a senho­rita deve compreender. — E emitiu um pequeno grunhido de satisfação. — Depois disso, foi tão fácil que nem chego a acre­ditar. A senhorita disse a todos que pudessem ouvi-la que ia para o hotel Adônis arranjar um carro para Beirute, e, portanto limitei-me a chegar lá primeiro e esperar que a senhorita chegasse. O gerente do hotel é novo, e por isso não havia receio de que ele me reconhecesse. Mas tenho certeza de que, quando a senhorita aparecesse, ele se lembraria de mim pelo resto da vida. Jamais teria aceitado uma carona de alguém que a apanhasse na estrada, mas alguém que a senhorita conhecesse no hotel, alguém a quem fosse apresentada pelo nome... — E novamente o tal sorriso. — Espero que tenha apreciado o toque a respeito da Grande Mesquita, hem? A senhorita se lembra de que contou tudo à sua "titia" a respeito dela?

Muito hábil. O senhor é muito esperto. Tem um pe­queno império, com todos os seus espiões, seus motoristas e seus carros. Alguma coisa está dando bons resultados e bons lucros. Não me sorria deste jeito, seu sujeito traiçoeiro e sujo. Que foi que vocês fizeram com Charles?

Já lhe disse. Está trancado numa cela. — E o sorriso sumiu.

        Vocês o machucaram?

Ontem à noite, houve uma pequena pancadaria.

Vocês tentaram espancar Charles ? Não admira que John Lethman estivesse com cara de quem andou levando uns bofetões. Ontem, pensei que ele estivesse com o rosto machucado, e agora, pensando bem, lembro-me de que ele procurava evitar que eu olhasse um dos lados do seu rosto. Os planos estão dando todos certos, não estão? Pobre do meu Charles. E coitada de minha tia ! Ele o machucou muito?

O sorriso sumira completamente. O homem enrubescera muito, e notei que a veia da sua têmpora começou a latejar.

Ele não tocou em mim. Eu empunhava um revólver. Confesso que John não briga muito bem, mas ele é viciado em en­torpecentes.

Entorpecentes? — Acho que nem consegui fazer a pergunta. Apenas fiz uma cara de quem pergunta isso. Agora, Grafton tornara a afastar-se de mim. O quarto estava nas sombras. Surpreendi-me avançando com dificuldade e espiando o lugar para onde ele fora. Confusamente, compreendi que devia estar cheia de preocupação por causa de Charles e temendo pela minha própria pessoa. Mas não conseguia firmar meu pensamento. Minha cabeça girava. Tudo rodava a meu redor. Meu cérebro flutuou, levantando-me com ele da cadeira e subindo na direção dos cantos altos e escuros do quarto.

De repente, o homem estava perto, gigantesco. Saíra da sua cadeira e se achava de pé, a meu lado, acima de mim. Sua voz era ameaçadora.

        Sim, entorpecentes, sua ricaça mimada. Entorpecentes. Eu disse "remédios", não disse ? Há uma fortuna em maconha indiana depositada aqui nos porões, à espera de ser apanhada, esta noite, e outra fortuna crescendo nos campos acima de Laklouk, que seria colhida se sua tia não tivesse morrido, e se eu pudesse ter ficado até a colheita. O homem respirou fundo. E não só maconha. Na Turquia e no Irã planta-se ópio, não sabia ? Isto é que é mercadoria... Ópio, morfina, heroína... E eu tenho uma série de homens trabalhando para levar entorpecentes através da Turquia, o que está dando um resultado excelente, e tudo do que preciso para o êxito total é um pouco de tempo e o isolamento que temos aqui em Dar Ibrahim...

Eu estivera querendo apagar meu cigarro no pires, mas este se achava muito longe, e o esforço era demasiado. O toco de cigarro caiu dos meus dedos para o chão. Pareceu cair em câmara lenta e não fiz nenhuma tentativa para recuperá-lo Apenas fiquei lá sentada, olhando para baixo, para minha própria mão, que parecia muito longe de mim e totalmente independente do meu corpo.

... E foi só isso que fizemos, até a senhorita chegar. O cômodo pegado ao depósito em que a senhorita ficou presa é nosso laboratório. Temos estado trabalhando como escravos, des­pachando os entorpecentes, desde que chegou a última remessa. Ah, tivemos de embalar tudo, este ano, e de mudar de base. .. Aqueles patifes da Divisão de Entorpecentes das Nações Unidas têm apertado o cerco, e a Assembléia Nacional está prometendo dificultar as coisas ao máximo neste país, no ano vindouro... E, naturalmente, uma vez que a velha morreu, Dar Ibrahim de­veria encerrar suas atividades, de qualquer maneira. É a hora de bater em retirada... A caravana passa esta noite... — Sua voz sumiu e eu o ouvi rir novamente. Curvou-se e pegou o toco de cigarro, jogando-o no pires. Seu rosto aproximou-se do meu.

Sente-se um tanto aérea, não é? Não é capaz de fixar idéias... Lá no carro a senhorita fumou um cigarro de maconha, e aqui fumou mais dois, minha linda, e agora vai voltar para aquele pequeno cômodo a fim de dormir para o efeito passar. .. Até a noite terminar.

Tive vontade de poder reagir. Tinha de reagir. Fragmentos de quadros estavam lá, na escuridão cheia de fumaça, como sonhos orlados de luz. O corpo frouxo de John Lethman, o rosto jovem e derrotado, com os olhos encovados. A moça árabe, olhando-me ferozmente. A plantação de maconha, com o rótulo do galgo em disparada. Os caixotes no subterrâneo. Mas eles se dissolveram e ouvi uma batida leve, que acabei descobrindo ser do meu próprio coração, e a voz de alguém que se aproximava e se afastava, no ar latejante, como o bater de um tambor, e saí de tudo isso, achando-me segura e no alto. Flutuando, com a leveza, a força e a beleza de um anjo, entre as teias de aranha do teto, enquanto que, lá embaixo, no quarto mal iluminado, havia uma jovem sentada em uma cadeira laqueada, vermelha, o corpo relaxado e sonolento, em seu vestido simples e caro, o rosto pálido, as maçãs do rosto destacadas por uma fina camada de umidade, um sorriso vago na boca. Seus cabelos eram escuros e bem cortados. Seus braços eram queimados de sol, as mãos compridas e finas, um dos pulsos pesava, com um bracelete de ouro que custara oitenta libras... Ele a chamara de garota mimada. Agora, ela o olhava e piscava os olhos. Possuía olhos muito grandes, orlados de cor escura, que ficavam ainda maiores por efeito da maquilagem, e agora em decorrência do entorpe­cente. .. Pobre menina estragada pelos mimos, ela se achava em perigo, e não podia defender-se, não que isso me importasse. E nem sequer parecia estar com medo...

Nem mesmo quando John Lethman entrou em silêncio, flutuando como outra sombra, em câmara lenta, andando sobre o piso mal iluminado, para inclinar-se sobre a moça e perguntar a Henry Grafton, como se não tivesse nenhuma importância:

Ela está sem sentidos, não é?

Dois cigarros. Está nocauteada. E o rapaz?

        Sem sentidos. A cela está cheia de fumaça azulada e ele desmaiado. Lá não haverá dificuldades.

Henry Grafton riu.

        Não haverá dificuldades em nenhum lugar. Estamos em segurança até acabar a operação. E você, jovem John, limitar-se-á à sua dose diária. Pela sua cara, já consumiu a sua ração, não é? Pois não vai ter mais. Oh, você pode fumar, se quiser, mas não me venha pedir entorpecentes de primeira, porque não o receberá até que esta carga esteja em segurança em Beirute. Você me ouviu? Sim. Pode levá-la de volta ao cárcere.

John Lethman curvou-se sobre a cadeira. A moça moveu a cabeça, sonolenta, e sorriu para ele, com os olhos enevoados. Parecia estar tentando falar, mas não conseguiu. Sua cabeça caiu frouxamente para trás.

Caramba! — disse John Lethman. — Ela me agrada mais assim.

Quer dizer com isto que ela é bonita demais para ter uma língua ferina? Concordo, Meu Deus, que família! Ela me faz lembrar a velhota, nos seus dias ruins. Bem, ela pediu tudo que está recebendo. Pode levá-la daqui. Infelizmente, acho que terá de carregá-la.

Lethman inclinou-se sobre a cadeira laqueada. Quando ele tocou em mim, parte dos efeitos da droga deve ter passado. Desci do lugar em que estava flutuando e entrei no corpo que se achava na cadeira, no momento em que ele me puxou para diante, a fim de passar o braço ao redor do meu corpo e me levantar. Consegui dizer lentamente e com o que eu pensava ser uma enorme dose de dignidade:

        Eu posso andar, e muito bem, obrigada.

        Claro que não pode — falou ele, com impaciência. — Vamos, não a machucarei, não tenha medo.

— De você? — falei. — Não me faça rir.

John mordeu o lábio, puxou-me para fora da cadeira e me colocou em cima do ombro, para me carregar. Envergonho-me de dizer que estraguei toda essa cena heróica rindo como uma idiota, de cabeça para baixo, durante todo o trajeto de volta para minha masmorra.

 

       Realmente, nós custamos caro, mas somos colheita proibida.

                             Alcorão: Sura lvi

 

Eu dissera que Grafton possuía um império, e não me enganara muito. As pistas disto estavam lá, só que eu não estava em condições de usá-las; e, agora, eu tinha todos os pedaços do quebra-cabeça nas mãos.

Tinham-se passado várias horas. Meu relógio dizia que dentro de dois minutos seriam onze horas da noite. O tempo passara como um sonho, literalmente falando; passara como a fumaça dos cigarros que me fizeram ficar dopada. Agora, eu me sentia com bases firmes, mas firmes demais. Achava-me de volta à cama da prisão, sentada sobre as cobertas, segurando minha cabeça, que doía. Não era mais a moça descuidada e de ossos moles, mas uma jovem mulher com uma ressaca danada, ainda na posse razoável de seus cinco sentidos, e todos eles com medo, e com todas as provas do perigo bem diante dos olhos.

Desta vez, eles me haviam deixado luz. Lá no alto, no seu nicho, o lampião de três ramificações erguia seu jato de chama. Ao lado da cama havia um jarro com água e um copo. Bebi e senti na boca um gosto como se alguém a estivesse misturando com soda cáustica. Tentei passar minhas pernas por cima da cama para pisar no chão. Pude sentir o chão, o que já devia significar alguma coisa. Não tentei nenhum movimento violento, como, por exemplo, o de me sentar, mas fiquei sentada lá, segu­rando a cabeça no corpo, e delicadamente, o mais delicadamente que pude, deixando meus olhos fixaram-se em diversos pontos, à luz movediça...

O cômodo em que me achava era muito maior do que eu imaginara, estendendo-se para trás, nas sombras. Depois do amon­toado de mobília quebrada e dos tapetes e arreios empilhados, que seriam tudo que se poderia ver do corredor, agora eu reparei que o lugar estava abarrotado de caixotes de madeira, caixas de papelão e latas pequenas. Achei que algumas daquelas embala­gens deviam conter mercadorias legítimas, remessas verdadeiras de algum artigo, como óleo para cozinha, a fim de disfarçar os entorpecentes. Mas, se uma pequena fração daquelas embalagens contivesse maconha ou ópio, o que havia ali daria para comprar várias vezes a caverna dos Quarenta Ladrões. Pensei nos estrumes de ovelhas, sugeridos por Hamid, mas, não sei por quê, não achei mais graça naquilo.

Nas caixas de papelão que ficavam mais perto de mim, o desenho do cão em disparada se destacava mais nitidamente, com o aviso em inglês, escrito errado, embaixo do cão: "A melhor qualidade. Cuidado com as imitações." Isto fazia o último pe­daço do quebra-cabeça encaixar no lugar, e a história complicada de Henry Grafton, com todas as suas lacunas e evasões, tornou-se, com esta última nota explicativa, muito clara. A maconha, plan­tada copiosamente nas montanhas; John Lethman observando as plantações, ou negociando com os plantadores da erva, ou então arranjando a remessa por meio de camponeses, sendo talvez, um deles, o homem que vimos aproximando-se do portão secreto dos fundos do palácio. Dar Ibrahim deve ter sido usado como o centro do tráfico proibido durante algum tempo, e talvez tivesse até sido usado durante muito tempo antes que a velha Lady se mudasse para lá. Era o depósito perfeito e também o esconderijo ideal para alguém na situação crítica de Henry Grafton: a fortaleza solitária do alto da colina, mantida pela mulher de personalidade forte que se recusava a receber visitas e que já havia (conforme Lady Hester, que ela imitava), uma ou duas vezes, desafiado a lei e talvez a voltasse a desafiar em benefício de um amigo. Eu não podia acreditar que minha tia tivesse ocultado Henry Grafton se ela houvesse sabido que ele era traficante de entorpecentes, mas, sem dúvida, a história narrada por ele fora bastante plau­sível, e igualmente plausível fora a narrativa das "experiências" que ele e John Lethman tinham feito no depósito subterrâneo. E o papel representado pelo próprio John Lethman em tudo aquilo tornou-se pateticamente claro. Talvez John Lethman ti­vesse começado aquilo de modo bastante inocente, convencido, pelo inescrupuloso Grafton, de que fumar maconha de vez em quando não lhe faria nenhum mal; e depois aos poucos, de modo inevitável, ficou preso nas garras da droga que garantiria sua dependência e sua ajuda contínua. Não fora minha tia a vítima neste caso, e eu me achava convencida, por todos os motivos, de que Grafton jamais teria desejado ver-se livre dela. A vítima era John Lethman.

E eu temia muito que estivesse prestes a haver mais duas ítimas. Henry Grafton podia continuar insistindo em que ele não pretendia fazer nenhum mal a mim e a meu primo, mas sei que muita gente tem sido assassinada por muito menos do que uma fortuna em entorpecentes, e uma possível ameaça de pena de morte (já que Grafton era naturalizado turco) se as duas pessoas encarceradas fugissem. Grafton devia saber que eu e meu primo iríamos à polícia, denunciá-lo, logo que pudéssemos. No entanto, ele tinha dado informações a mim e certamente, também a meu primo, com uma profusão de detalhes que me aterrorizava. Quer nós dois já tivéssemos ou não compreendido isso, ele teria de nos matar, a ambos, se quisesse salvar a pele.

A porta devia ser muito espessa. Eu não ouvira nenhum ruído de movimento no corredor, mas a porta se abriu de repente para revelar Halide, lá, de pé, e, como sempre, com uma bandeja nas mãos. Não havia ninguém com ela, e a moça árabe conseguiu ficar com a bandeja em uma só das mãos, enquanto abria a porta, e portanto compreendi que meus captores sabiam em que estado a maconha me deixaria. Agora, Halide ficou abrindo a porta com um dos ombros, enquanto me olhava com o desprezo e a hostilidade costumeiros.

        Então, você está acordada. Aqui está a sua comida. E não pense que pode passar por mim e fugir, porque o único jeito de sair daqui é pelo portão dos fundos, que a estas horas se acha fechado à chave, e Jassim se encontra no pátio de fora, e os homens estão no quarto da Lady.

Eu a olhei com azedume.

Se você soubesse o quanto isto soa engraçado em inglês...

Quê? — perguntou ela, em francês.

        Não importa. — Comparada com a graça e a elegância com que a jovem árabe se achava vestida — novamente em seda verde — eu me senti muito mal vestida, horrível. E achei que o truque do banheiro não tornaria a surtir efeito. Não fiz ne­nhuma tentativa para me colocar de pé, mas a observei, enquanto a moça veio da porta, graciosamente, e colocou a bandeja sobre um caixote, com uma pancada que fez a louça chocalhar.

Halide...

Que é?

Acho que você sabe o que eles — os homens — estão fazendo, e por que trancaram a mim e a meu primo, não é?

Oh, sim, John... — e ela referiu-se ao rapaz com um floreio — me conta tudo.

Você tem sorte. Ele lhe contou qual é o castigo por trá­fico ilegal de maconha e de entorpecentes, aqui neste fim de mundo?

Quê? — Outra vez em francês.

Mesmo neste canto sujo deste mundo vil? Mesmo em Beirute? John não a avisou do que a policia faria com você e com seu irmão, se eles descobrissem o que se passa em Dar Ibrahim?

Oh, sim. — E ela sorriu. — Todos sabem disto. Todos fazem isto, aqui no Líbano. Durante muitos anos, antes da chegada do doutor aqui, meu irmão já trazia haxixe das montanhas. São só os homens corajosos que trazem maconha das montanhas para o mar.

Achei que seria esperar demais, conseguir que aquela mente primitiva visse nisto alguma coisa mais do que uma espécie de façanha de Robin Hood, símbolo de bravura. Ao camponês, a maconha trazia prazer e dinheiro. Se um governo pouco razoável resolvesse proibir seu plantio para finalidades particulares, então era preciso enganar o governo. A coisa era simples. Era a mesma mentalidade que, nas sociedades mais sofisticadas, Supõe que o imposto de renda e as leis que coíbem o excesso de velocidade devem ser infringidos.

Você não precisa ter medo — disse-me Halide, com desprezo. — Acho que eles não a vão matar.

Não tenho medo — falei. Enfrentei o olhar de desdém com toda a firmeza que pude usar. — Mas acho que é bom você ter medo, Halide. Não... Escute, não creio que você tenha entendido direito o que se passa aqui, e também não tenho muita certeza de que John Lethman saiba direito em que se meteu. Não é apenas o caso de você e seus amigos fumarem de vez em quando um pouco de maconha, ou de seu irmão trocar alguns tiros com a polícia local ao levar a erva para o mar. Não é mais isto. Trata-se de um negócio de vulto, e os governos de todos os países responsáveis estão ansiosos para acabar com esse tráfico ilegal. Você espera fugir com seu John quando esta remessa tiver sido feita e ele houver recebido sua parte do dinheiro? Para onde vocês poderão ir? Para a Síria é impossível... Eles os capturariam sem demora. Para a Turquia, também não. .. Lá, a pena para isso é de morte. O mesmo se aplica ao Irã, ao Egiio e a todos os outros países do Oriente Médio. E não pense, tam­bém, que ele poderá levá-la para a Inglaterra, porque vocês serão presos lá, assim que eu e meu primo abrirmos a boca.

Talvez vocês dois fiquem aqui durante muito tempo.

Isso é tolice falei. Você sabe, tão bem quanto eu, que a qualquer instante a polícia de Damasco começará a nos procurar, e onde a nossa pista os levaria primeiro, senão a Dar Ibrahim ? O Dr. Grafton terá sorte se conseguir levar os entor­pecentes daqui.

Conseguirá, sim. Acho que você não sabe que horas são, não é ? É quase meia-noite de quarta-feira. A caravana já está a caminho daqui. O palácio estará vazio ao raiar do dia.

Eu. .. Suponho que estará falei, lentamente. Eu per­dera a noção do tempo. Levei uma das mãos à testa, apertando a têmpora com a parte inferior da mesma, como se isto pudesse clarear meus pensamentos. Pelo menos, a dor de cabeça sumira. Ouça, Halide, escute o que tenho a dizer. E tire essa expressão do rosto, não estou implorando nada a você. Estou oferecendo algo a você e a John Lethman, porque ele não passa de um sujeito inconsciente do que está fazendo, e porque você não tem discernimento para pensar muito melhor do que ele. Minha familia e a do meu primo é de gente rica e influente. É claro que eu não lhes posso oferecer tanto dinheiro quanto vocês ga­nhariam por ajudar Grafton nesta operação ilegal, mas posso oferecer-lhes alguma ajuda, de que acho que vocês vão precisar muito. Não conheço as leis do país de vocês, mas, se soltarem a mim e a meu primo agora, e se você e John quisessem depor contra o Dr. Grafton, e a polícia detivesse o carregamento de entorpecentes, acho que eles não processariam nem a você, nem a seu irmão nem a John Lethman.

Eu a estivera observando enquanto falava, mas seu rosto estava virado para o outro lado, livre da luz do lampião, e eu não podia ver se minhas palavras estavam produzindo algum efeito. Hesitei. Sem dúvida, seria inútil começar a falar a res­peito do que era certo ou errado, ou do motivo que me levava a ter interesse que não fosse estritamente pessoal em impedir que a carga chegasse ao mar. Acrescentei, em voz sem inflexão:

Não sei se seu governo daria ou não um prémio pelas informações, mas, em todo caso, eu faria minha família dar di­nheiro a vocês dois.

Você. E o desprezo intenso que havia na sua voz tornou essa palavra um insulto. Não a estou ouvindo. Toda esta história de polícia, de governos e de leis. Você não passa de uma mulher imbecil, tão estúpida que nem consegue arranjar um homem 1 Quem é você ? — E cuspiu no chão, junto a meus pés.

Isto foi o bastante. Minha cabeça ficou milagrosamente clara, como se a adrenalina subisse de jato para onde devia subir. Eu ri.

        Na verdade, já tenho um homem. Há vinte e dois anos que tenho um homem, e ele é neto do irmão mais velho de sua patroa. E, portanto, neste momento ele já deve ser dono de metade deste palácio e de tudo que existe nele. Portanto, para começar, minha desagradável menina árabe — porque, apesar dos seus esforços, eu não defenderia nem ajudaria John Lethman, por nada neste mundo — você pode devolver-me o anel de minha tia. E posso avisá-la de que o seu amigo da onça, o Dr. Grafton, a obrigará a devolver a jóia, mesmo que você não a entregue a mim. Vamos, fantoche, entregue-me o anel.

Era evidente que Grafton já havia falado com ela. O rosto da árabe ficou escuro e por um instante eu a vi encolher a mão e ocultá-la nas dobras do vestido de seda. Depois, com um gesto brusco, tirou o anel do dedo.

        Tome. Mas só porque eu quero entregar. Não vale nada. Tome isto, sua filha da...

E jogou-o em minha direção, com um gesto de uma imperatriz que joga uma migalha a um mendigo. Com uma precisão que a jovem árabe nunca mais seria capaz de repetir, o anel foi cair dentro da terrina de sopa.

        Bem — disse eu, alegremente. — Assim, o anel ficará desinfetado. Ou será melhor eu esterilizá-lo? Nunca vi as cozinhas do palácio, mas, quando eu era hóspede, tinha de confiar na limpeza delas. Mas agora, que sou prisioneira, não preciso comer o que não me agrada, não é?

Inclinei-me e tirei o garfo da bandeja, pesquei o anel de rubi da tia Harriet, tirando-o da sopa, mergulhei-o no copo d’água e enxuguei-o no guardanapo que viera na bandeja. Depois, notei o silêncio e ergui os olhos.

Quando Halide tornou a falar, reparei que ela ficara muito mais delicada.

Você quer a comida?

Oh, não vou comer tudo, apenas pão e queijo. Obrigada pelo anel. — E enfiei-o no dedo.

Não quer a sopa? O anel estava limpo... Ele...

Tenho certeza de que estava. Eu não teria agido de ma­neira rude, se você, minha orgulhosa beldade, não me tivesse chamado de filha da... Não que a filha se importasse, mas a mãe talvez não gostasse, se a ouvisse. Não, Halide, não quero a sopa.

Era evidente que Halide não compreendera o que eu quisera dizer.   Entendera apenas a primeira e a última frase.

        Então, deixe-me trazer-lhe mais...   Por favor.

Olhei surpreendida para a jovem árabe, depois a surpresa transformou-se em um olhar fixo. Para começar, parecera-me esquisito que ela se tivesse proposto a me agradar, mas o último pedido contivera uma nota de ansiedade, uma nota quase suplicante.

Claro que trarei outra sopa. Não é nenhum trabalho. Agora, a qualquer instante, eles virão para começar a carregar os caixotes armazenados aqui, e você será colocada na mesma cela em que está o homem. Portanto, precisa comer enquanto pode. Por favor, deixe-me trazer a sopa! — Havia alguma coisa de desprezível na ansiedade, no curvamento automático dos ombros e na posição relaxada do queixo e no estender das palmas das mãos para cima, que de repente falou mais claramente, do que qualquer documentário poderia ter falado, de gerações e gerações de escravidão e de chicote.

É bondade sua, mas não é preciso, mesmo. — Notei, com desprezo por mim mesma, que minha própria reação também era previsível. Enquanto ela foi insolente, eu me mostrei zangada e desagradável; logo que a jovem árabe voltara para seu lugar, consegui ser delicada. — Não quero a sopa, obrigada. Comerei só o pão e o queijo.

        Então, vou levar a sopa de volta, por via das dúvidas. ..

        Não, não precisa ter esse trabalho. Mas gostaria de que você fosse diretamente falar com o Dr. Grafton...

Não cheguei a concluir a frase. Ambas estendemos o braço ao mesmo tempo, Halide para tirar a terrina da bandeja e eu para detê-la, e, por um instante, nossos olhares se cruzaram, bem perto um do outro.

Nisto, avancei a mão e lhe agarrei o pulso antes que ela pudesse tirar a terrina. Sua expressão, e o pequeno suspiro que ela soltou, revelaram-me que — por incrível que parecesse — eu acertara.

Que há na sopa? — perguntei.

Largue-me.

Que há na sopa?

Nada. É apenas sopa, eu mesma a fiz...

Tenho certeza disso. Que foi que você colocou nela ? Mais um pouco de maconha para eu continuar dormindo, ou coisa pior?

Não sei de que você está falando 1 Repito, não coloquei nada na sopa ! Apenas galinha, temperos, legumes, e...

... E umas duas gotas de veneno, para melhorar o pa­ladar, não é?

A moça recuou vivamente, e eu a soltei e me levantei da cama. Nós duas éramos bem altas, mas eu me senti a mais alta das duas e tomada de um desprezo gélido e de uma raiva surda. Há alguma coisa que nos enfurece mais do que amedronta em uma tentativa de envenenamento. O fato de a pessoa ainda estar viva para reagir contra a tentativa, significa que o perigo passou, e acho que o alívio da pessoa a esse fracasso explode em forma de desdém pelo envenenador e em uma raiva imensa contra o sujo estratagema usado.

        Então? — falei, bem baixinho.

        Não, não foi. Não! Como pode cometer a tolice de imaginar isto? Veneno? Onde é que eu arranjaria veneno?

As palavras foram cortadas por uma expressão de surpresa, quando Henry Grafton disse, da soleira da porta atrás da moça:

        Que é isso? Quem está falando em veneno?

Halide girou nos calcanhares para encará-lo, as mãos estendidas, como se para afastar o homem, o corpo ainda curvado naquela posição inclinada que ainda se vê nas estatuetas de marfim do Japão, representando mulheres. Sua boca abriu-se muito e sua língua lambeu os lábios, mas a moça ficou calada. Os olhos dele passaram por ela e se fixaram em mim.

        Fui eu falei. Esta beldade oriental parece ter colocado alguma coisa na minha sopa, e agora tem medo de que se descubra o que foi. Por acaso foi por ordem sua?

        Não seja tola. Ergui o cenho.

        Entorpecentes, sim, mas veneno, nunca? Ora, o senhor e o seu juramento de Hipócrates... Talvez ela lhe revele qual o veneno usado e qual o motivo... Ou quer levar o líquido para analisá-lo no seu laboratório, que é pegado a este cômodo?

O médico olhou fixamente para mim, só por um breve instante, e depois seus olhos foram para a bandeja.

        A senhorita já havia começado a tomar a sopa? indagou ele, algum tempo depois.

Não, do contrário eu me estaria contorcendo em dores ali no chão.

Então, como sabe que existe veneno na sopa?

Não sei, foi um palpite inspirado. Mas Halide mostrou-se muito ansiosa para que eu a tomasse, apesar do fato de que, até agora, não se tivesse importado muito com o meu bem-estar. Jogou o anel na sopa, por puro acaso, e quando eu lhe disse que não mais queria a sopa, ela ficou aborrecida. Foi então que eu desconfiei. Não me pergunte como, mas apostaria vinte contra um que a sopa está envenenada, e não me diga que não é da minha opinião. Olhe para Halide. E, quanto ao lugar onde ela obteve o veneno, não tem ela um quarto cheio dele, às suas ordens, todas aquelas drogas que eram de tia Harriet? Pergunte a ela. — E fiz um gesto de cabeça para a moça silenciosa. — Pergunte à Srta. Bórgia aqui. Talvez ao senhor ela confesse.

Muito antes de eu ter acabado de falar, a atenção do médico voltara-se para Halide, os olhos negros brilhantes e ameaçadores como um pedaço de pau coberto de óleo. Tive um instante de grande alívio ao notar que, em uma noite de várias pressões, Grafton ainda tivesse tempo para levar este caso tão a sério; isto só deveria realmente significar que, realmente, ele não queria que nenhum mal acontecesse a mim nem a Charles. Mas a expres­são dos seus olhos, quando o homem olhou para Halide, e o evidente terror dos olhos da moça, me surpreenderam. As mãos dela achavam-se apertadas com força na base do pescoço, agar­rando fortemente a seda do vestido, como se para se aquecer.

        Isto é verdade?

Halide sacudiu a cabeça, depois reencontrou a própria voz.

São tudo mentiras, só mentiras. Por que iria eu envene­ná-la? Não há nada na sopa... Só a carne, os temperos, a ce­bola, o zafaram. ..

Então — disse Henry Grafton — você não se oporia a tomar a sopa, não é mesmo?

E, antes que eu soubesse o que o homem estava preten­dendo fazer, ele tirara a terrina da bandeja e já avançava com ela na direção da moça, ao nível da boca de Halide.

Acho que soltei uma exclamação de espanto e disse, em voz débil:

        Oh, não. — Achei que aquilo era demais, uma situação tão típica e grotesca de um conto das Mil e Uma Noites, um melodrama oriental que voltasse absurdamente à vida. — Por

Deus — falei. — Por que não chama os cães e os faz provarem a sopa ? Não é isto que manda o figurino? Céus! Pare com isso, retiro a queixa.

Nessa altura, eu parei de falar, quando compreendi, agora séria, que o melodrama estava levando o Dr. Grafton para longe da porta do quarto, à medida que a moça recuava diante dele. E havia uma espingarda na parede, acima da cama da titia, que eu poderia tentar pegar antes que eles me agarrassem. ..

Nenhum dos dois me deu a mínima atenção. Halide fora recuando até ficar de costas contra uma pilha de caixotes, além da cama, e suas mãos subiram diante do seu corpo para afastar a terrina. O homem recuou depressa, a fim de impedir que a jovem árabe entornasse a sopa.

Bem, por que não toma a sopa? Deverei crer que esta tolice é verdade?

Não, não, claro que não é verdade! A inglesa está dizendo isto apenas porque me odeia! Juro. Se quiser, juro até sobre a cabeça do meu pai! Onde é que eu arranjaria veneno?

Considerando que o quarto de minha tia parece uma farmácia — disse eu, secamente — seria de se esperar que lá exista de tudo.

Grafton não olhou para mim quando falei; toda a sua aten­ção estava concentrada na moça, que olhava fixamente para o homem como um coelho hipnotizado, que a qualquer instante poderia meter-se em um esconderijo qualquer, entre as caixas em­pilhadas. Aproximei-me um pouco mais da soleira da porta.

        Por que não a obriga a confessar? — indaguei.

Não vi nenhum movimento, mas a moça árabe deve ter sentido que Grafton pretendia fazer justamente isso, pois de repente cedeu.

Pois bem, já que não quer crer em mim! Realmente, eu coloquei alguma coisa na sopa, e queria que ela a tomasse, mas não é veneno. É só um purgante, para lhe dar dores e fazer passar mal. Ela é uma vigarista muito da ordinária, e você me fez devolver o anel, quando ela já é rica e, naturalmente, não tentei matá-la, mas eu a odeio e coloquei o óleo na sopa apenas para que ela sofresse um pouco... Só um pouquinho... — Sua voz lhe faltou e pareceu estrangulada um instante, um tanto derro­tada pelo silêncio pesado e abafado da masmorra.

Que gracinha. — falei, e agora me achava a dois saltos da porta. — Então, você me tranca com Charles e me deixa entregue à minha sorte, não é?

Nenhum dos dois pareceu me ouvir. Ela concluiu, em um ímpeto:

        E, se quiser que eu a tome, eu tomarei, para lhe provar que é verdade... Mas esta noite você vai precisar de mim para ajudá-lo e a John. Portanto, vamos dar a sopa a um cão ou a Jassim, ou a alguém que não tenha importância, para que você veja...

O rosto de Grafton ficou inchado, e aquela veia estufou e recomeçou a latejar. Nenhum dos dois se preocupou mais comigo; o que quer que se passava entre os dois me excluía completamente, e eu fiquei parada lá, observando, agora receosa de mover-me e de dirigir aquela concentração de fúria novamente contra mi­nha pessoa.

Onde foi que você obteve o purgante? — perguntou ele, em voz controlada.

Esqueci-me. Talvez no quarto dela... Já o tenho usado durante muito tempo... Todos aqueles vidros...

Sei que não havia purgantes no quarto da Lady. Não me venha com esta, você não o tirou de lá. Providenciei para que não deixassem nenhum remédio perigoso jogado lá, e depois que Lady Harriet teve seus ataques de doença eu examinei tudo que havia lá, para ver se ela se estava intoxicando. Vamos, que foi que você colocou na sopa? Você arranjou a droga no povoado, ou foi alguma beberagem que você mesma preparou ?

Não... Não foi nada, estou dizendo. Foi um remédio que o John tinha. Tirei-o do quarto dele.

De John? Acho que é mentira sua. Você disse "óleo". Refere-se a óleo de rícino?

Não, não, repito que não sei o que era ! Era um vidro preto. Por que não pergunta a John? Ele lhe dirá que o re­médio era inofensivo! Disse que tinha um gosto forte, e como eu costumava usar um excesso de tempero e pimenta...

Quando foi a primeira vez que você o usou ? Quando estive fora, perto de Chiba?

Sim, sim, mas por que faz esta cara para mim? Não foi nada, uma gota ou duas, e depois um pequeno enjôo... A dor não era forte... E depois ela ficava tão quieta e tão boazinha...

Agora, eu não me moveria por nada, apesar de a porta estar aberta. A terrina começara a tremer nas mãos do médico, e sua voz tinha aquela tensão de fio esticado, prestes a rebentar, mas a moça não pareceu reconhecer esses sinais. Halide parara de parecer alarmada e deixara cair as mãos, para torcê-las na saia do seu vestido, olhando para ele, sombria e desafiadora. Não sei até que ponto, durante aquela troca de palavras, eu compreendera que eles não estavam mais falando acerca de mim, e sim de minha tia Harriet.

Quieta e boazinha! — repetiu o homem, em voz sem nenhuma expressão. Compreendo. Meu Deus... Agora, começo a compreender... Isso acontecia sempre que eu me ausentava do palácio?

Não sempre. Algumas vezes, quando ela ficava insuportável. Ora, para que falar nisso? O remédio não fez nenhum mal à velhota! Você sabe como eu a tratava bem. Sabe como eu tinha trabalhado e cuidado dela durante todos aqueles meses, e de como a velha tocava a campainha dia e noite, e eu tinha de estar sempre disposta a trabalhar e a pajeá-la, sempre pronta para ir correndo buscar as coisas que ela queria, e fazer comida es­pecial... Mas eu não teria feito mal a ela, você sabe disso. Eu só lhe dava umas duas gotas, e depois eu tratava dela até ela ficar boa, e mais tarde havia paz durante alguns dias.

E ela lhe ficava agradecida. Sim, é claro. Você é esperta, Halide. Foi então que ela lhe deu o anel de presente? Que foi mais que ela lhe deu?

Muitas coisas! E queria mesmo que eu ficasse com os objetos! Ela disse isso ! Você não os tirará de mim... Você não se atreve, pois eu os dei a meu pai e a meu irmão, que os guardarão. E então, quando eu me tornar uma lady inglesa...

O homem falou por entre dentes.

Você matou a velha. Não compreende isto nem mesmo agora, sua ordinária idiota ?

Não a matei! — E sua voz era cheia de raiva enorme. Como pode dizer isso? Era apenas um remédio, estou dizendo, e tirei-o da cômoda que há no quarto do John... Você sabe, a velha caixa de remédios que o marido da Lady levava nas suas expedições de arqueologia. ..

Aquela coleção pré-histórica? Só Deus sabe o que havia nela. Então John sabia o que você fazia?

Não, estou dizendo que quem tirou o remédio fui eu! Mas perguntei a ele o que era, antes de usá-lo. Eu não o teria usado, se não soubesse que não havia perigo ! Não era veneno! Ele disse que era um purgante, feito da semente de certa planta... Sim, uma planta purgativa... Lembro-me disto porque as pa­lavras escritas no rótulo eram as mesmas e. ..

O médico estivera cheirando a terrina que segurava na mão. Agora, arquejou, como se estivesse sufocado.

Então, é isto. É óleo de cróton, e duvido que mesmo o velho Boyd tivesse usado isto nos últimos cinqüenta anos, exceto para camelos. "Umas duas gotas." Esta é boa! Umas vinte gotas dariam para matar um cavalo sadio! E você deu essa droga a uma mulher idosa e doente...

Isso não lhe fez nenhum mal. Você sabe disso! Dei o remédio a ela três vezes, e ela melhorou. ..

E da última vez — falou Henry Grafton, muito baixinho, com o tom metálico da voz começando a tremer — ela tivera um ataque das coronárias apenas três semanas antes. E assim ela morreu... e, se você não tivesse metido a sua colher de pau no assunto, hoje ela estaria viva e não teríamos estas pessoas nos atormentando, e todo o nosso trabalho teria saído com muita facilidade. E agora eu poderia ir embora com uma fortuna e teria tempo para outra colheita de maconha... Mas você. .. Você. . .

E jogou a sopa, com terrina e tudo, no rosto da mulher, em um acesso de cega raiva.

A sopa já não estava quente, mas era gordurosa e a atingiu em cheio nos olhos. E a terrina se partiu. Devia ser de louça muito fina, pois não se espatifou nos caixotes atrás de Halide, mas sim no seu rosto. Passou-se um segundo de silêncio antes que a jovem árabe gritasse, e o grito saiu abafado, porque parte da matéria pegajosa lhe penetrou na boca e na garganta e a sufocou. Depois, o corpo de Halide curvou-se, e ela começou a vomitar e a sentir-se sufocada, e o sangue lhe saiu do rosto em um esguicho e misturou-se com o líquido nauseante e verde da sopa.

Grafton girou o braço, como se para lhe dar um soco. Soltei um grito de protesto e saltei para diante, como se para lhe agarrar o braço.

        Basta! Por caridade!

O homem puxou o braço e torceu o corpo para se livrar de mim. O movimento foi violento e eu, impelida pelo seu ombro, recuei cambaleando, joguei a bandeja para o alto e quase caí de encontro à porta. O rosto do homem adquirira um curioso tom vermelho-escuro, e ele bufava de raiva. Não sei se ele a teria atingido de novo, mas alguma coisa brilhou na mão da moça e esta avançou, com um salto de gata, com as unhas e uma faca na mão, e tentou atingir-lhe o rosto.

O homem era ligeiro de pés, como a maior parte dos homens de baixa estatura é, e acho que foi puro reflexo, rápido demais para ele poder ter pensado, o que o fez saltar para trás, livrando-se das unhas aguçadas e da faca que a jovem árabe tirara não sei de onde, com uma lâmina afiada de Damasco. Halide atacou e a faca brilhou. Grafton não trazia nenhuma arma — quem precisaria de arma contra mim? — e por isto tentou tirar do ca­bide a primeira coisa que conseguiu agarrar. Acho que ele ten­tara agarrar o chicote que se achava sobre a pilha de arreios de camelo, mas sua mão errou por centímetros e o que ele agarrou e com que respondeu ao ataque traiçoeiro não foi o chicote flexível, e sim a espora afiada, muito pesada e cruel.

A espora atingiu a moça na têmpora. Halide pareceu do­brar-se ao meio, como se importante mola do seu corpo tivesse sido quebrada. Halide ainda se inclinou para diante, mas as garras e a faca ficaram longe do homem, e ela foi desmoronando, junta por junta, até se transformar em um montão informe aos pés de Grafton. A faca caiu antes da queda final do corpo, com um pequeno tinido metálico, no chão do cômodo. Depois, a parte superior do corpo de Halide tombou e ela bateu com a cabeça na pedra, com um estalido surdo e final.

No silêncio, ouvi novamente o lampião chiando como uma pobre mariposa colhida em uma armadilha.

Meus joelhos pareciam feitos de manteiga. Voltei a flutuar na névoa que me envolvia, indefesa e inerte. Lembrei-me de que tive de me empurrar para longe da porta, para ir até onde se achava o corpo de Halide.

Esquecera-me de que Grafton era médico. Antes que eu tivesse sequer começado a me mover, o homem já estava ajoelhado ao lado do corpo caído.