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Transformações / Danielle Stel
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Transformações

 

          

 

            — Doutor Hallam. Doutor Peter Hallam. Doutor Hallam. Unidade Cardiovascular de Cuidados Intensivos, doutor Hallam.

            A voz continuava a chamar mecanicamente, enquanto Peter Hallam atravessava num passo apressado o átrio do Hospital Central, sem se deter para responder à chamada, uma vez que a sua equipe já sabia que ele ia a caminho. Franziu a testa ao premir o botão do elevador que o levaria ao sexto andar, com todos os seus pensamentos concentrados nas informações que recebera pelo telefone, há cerca de vinte minutos.

            Havia várias semanas que aguardavam por aquele doador e, naquele momento, quase já era tarde demais. Quase. Quando as portas do elevador se abriram e ele se encaminhou rapidamente para a sala das enfermeiras da Unidade Cardiovascular de Cuidados Intensivos, a sua mente começara a funcionar a toda a velocidade.

            — Já mandaram a Sally Block para cima? — perguntou.

            Uma das enfermeiras soergueu o olhar, parecendo ficar em sentido quando os seus olhos se cruzaram com os do médico. Havia algo no seu interior que se sobressaltava um pouco sempre que o via. Existia qualquer coisa acerca daquele homem que era infinitamente impressionante; era alto, esguio, de cabelos grisalhos; os olhos eram azuis e falava com suavidade. O Dr. Hallam tinha o aspecto dos médicos presentes nos romances que as mulheres preferem. Havia nele algo que poderia ser considerado como intrinsecamente generoso e gentil, sem contudo deixar de dar a impressão de ser uma pessoa de grande virilidade. Esse aspecto poderia ser comparado à aura de um cavalo de corridas, extraordinariamente bem treinado, que fosse impulsivo ao sentir o jugo das rédeas, desejando seguir com maior velocidade, até mais longe. Querendo fazer mais. A lutar contra o tempo para conquistar o impossível que ficava para lá da esperança. Roubando apenas uma vida à morte. Um homem. Uma mulher. Uma criança. Mais uma. Muitas vezes era ele que saía vencedor. Frequentemente, mas nem sempre. Quando assim acontecia, sentia-se perturbado. Mais do que isso, ficava magoado. Era a causa das rugas que tinha por baixo dos olhos, da tristeza que se adivinhava no mais profundo do seu ser.

            Não era suficiente o fato de Peter Hallam operar verdadeiros milagres quase todos os dias. Desejava mais do que isso, queria oportunidades mais vantajosas. O objetivo do Dr. Hallam era salvar todos os que lhe passavam pelas mãos, e não havia maneira de conseguir atingir essa meta cem por cento.

            — Sim, senhor doutor — respondeu rapidamente a enfermeira com um aceno de cabeça. — Ela foi para cima agora mesmo.

            — Estava pronta? — Aquele era outro fator que lhe era característico.

            A enfermeira sentiu-se admirada ao ouvir aquela pergunta. Compreendeu de imediato o que ele queria dizer com a palavra pronta; não se referia à solução intravenosa aplicada no braço da doente, nem tão pouco aludia ao sedativo ligeiro que lhe fora administrado, antes de ela ter saído do quarto numa cadeira de rodas, para ser conduzida ao bloco operatório.

            O médico pretendia saber em que é que a doente tinha estado a pensar, como é que se sentia, quem é que falara com ela e quem é que a acompanhara. Era seu desejo que cada um dos seus doentes soubesse, antecipadamente, aquilo que teria pela frente, até que ponto é que a equipe médica estava disposta a trabalhar. Também queria que todos os seus doentes compreendessem o quanto os médicos se preocupavam, a forma como tentariam esforçadamente salvar todas as vidas. Desejava que cada um deles se encontrasse preparado para entrar na batalha com ele próprio. Se eles não acreditarem com toda a convicção que têm uma oportunidade de lutar no momento em que entram ali, isso significa que logo de início se encontram perdidos para nós. 

            A enfermeira tinha-o ouvido dizer exatamente aquelas palavras aos seus alunos. Sabia que ele falara com toda a convicção. O Dr. Hallam costumava lutar com todas as fibras do seu ser, o que lhe custava bastante; apesar disso, considerava que valia a pena. Os resultados que o médico conseguira obter ao longo dos últimos cinco anos haviam sido surpreendentes, salvo em alguns casos raros e excepcionais. Essas exceções revestiam-se de um profundo significado para Peter Hallam, o qual encarava fosse o que fosse dessa maneira. Ele era um homem notável, de uma grande intensidade de caráter, além de ser brilhante e tão bem-parecido, recordou a enfermeira a si própria esboçando um sorriso ao vê-lo afastar-se num passo apressado, seguindo em direção um pequeno ascensor situado no corredor por detrás dela, e que o conduziria rapidamente até a um piso mais acima, deixando-o do lado de fora do bloco operatório, onde ele e a sua equipe costumavam realizar operações cardiovasculares, assim como transplantes do coração. Ocasionalmente, também executavam naquela sala operatória um tipo mais comum de cirurgia ao coração; todavia, tal não se verificava com muita freqüência. Na maioria das vezes, o que acontecia era Peter Hallam e a sua equipe realizarem intervenções cirúrgicas de grande envergadura, à semelhança da que iria ser efetuada naquela mesma noite.

            Sally Block era uma jovem mulher de vinte e dois anos, a qual vivera a maior parte da sua vida de adulta numa situação de invalidez, aleijada devido à febre reumática que lhe fora diagnosticada em criança. Ao longo da sua existência sofrera múltiplas substituições de válvulas, acompanhadas por toda uma gama de medicação de várias ordens.

            O Dr. Hallam, em conjunto com os seus associados, havia chegado à conclusão, semanas antes de Sally ter sido admitida no Hospital Central, que um transplante seria a única solução apropriada ao caso dela. No entanto e até a data, não fora possível encontrar um doador adequado. Até precisamente aquela noite, às duas e trinta da manhã, altura em que um grupo de delinqüentes juvenis tinha decidido organizar a sua competição particular de aceleração de automóveis, no vale San Fernando; dois deles haviam morrido na ocasião do impacto e, depois de vários telefonemas de caráter comercial, provenientes da eficiente organização que localizava e distribuía os órgãos de doadores, Peter Hallam ficou sabendo que já tinha um bom coração para transplantar. Antes disso, fizera vários telefonemas para todos os hospitais situados na zona sul da Califórnia, tentando encontrar um doador para Sally e agora, finalmente, estava na posse de um; isto é, se Sally conseguisse sobreviver à intervenção cirúrgica e desde que o seu organismo não sabotasse a operação que os médicos se propunham efetuar, ao rejeitar o novo coração que iria substituir o seu.

            O Dr. Hallam despiu a roupa com que chegara ao hospital e, sem mais perda de tempo, vestiu o fato largo de algodão verde, próprio para o bloco operatório, que mais parecia um pijama; em seguida, lavou e esfregou cuidadosamente as mãos e os braços, tendo sido ajudado pelos assistentes de cirurgia, que lhe colocaram a máscara que lhe cobria o nariz e a boca, assim como uma touca para os cabelos. Mais três médicos e dois estagiários seguiram-lhe o exemplo, o mesmo acontecendo com um grupo de enfermeiras. Não obstante todos aqueles preparativos, Peter Hallam pareceu não se aperceber da presença dos outros quando entrou na sala de operação. Os seus olhos começaram imediatamente à procura de Sally Block, que se encontrava estendida em silêncio sobre a mesa operatória.

            Os olhos da doente estavam fixos nas fortes luzes colocadas por cima dela. Até mesmo naquela situação que lhe era desfavorável, vestida com uma bata esterilizada e tendo os cabelos compridos e louros metidos dentro de uma touca de algodão verde, continuava a ser bonita. Sally não só era uma jovem lindíssima, como também um ser humano íntegro e generoso. Desejava com todo o desespero tirar um curso de artes plásticas, poder freqüentar uma universidade, ir a um baile de formatura, ser beijada, ter filhos.

            Sally reconheceu o médico, apesar da touca e da máscara que ele usava, tendo-lhe sorrido meio inconsciente por causa do efeito da medicação que lhe fora ministrada.

            — Olá! — saudou ela com um aspecto frágil; os seus olhos eram enormes naquele rosto tão debilitado. Parecia uma boneca de porcelana quebrada, à espera que ele a reparasse.

            — Olá, Sally! Como é que está a sentir-se?

            — Esquisita — redargüiu ela.

            Os seus olhos mostraram-se agitados durante breves instantes, após o que sorriu para aquela expressão que lhe era tão familiar. Ao longo das últimas semanas, Sally ficara a conhecer o médico melhor do que conhecera qualquer outra pessoa nos últimos anos. Peter Hallam abrira-lhe as portas da esperança e do carinho, ao proporcionar-lhe cuidados médicos; toda aquela sensação de isolamento e solidão que sentira ao longo de tantos anos parecia-lhe agora ser bastante menos aguda.

            — Durante estas horas mais próximas vamos estar muito ocupados. Tudo o que a Sally tem a fazer é ficar aí sossegadinha e passar pelas brasas. — Com estas palavras, ele olhou para a doente e em seguida observou os monitores próximos de si, após o que voltou a concentrar a sua atenção em Sally.

            — Sente-se assustada?

            — Um pouco — admitiu ela.

            No entanto, o Dr. Hallam sabia que a sua doente se encontrava bem preparada. Passara várias semanas a explicar-lhe o intrincado processo cirúrgico, tendo-a também advertido dos perigos da medicação pré-operatória. Naquele momento, Sally sabia o que devia esperar; o grande momento havia chegado finalmente. Era quase como se estivessem preparados para ajudar um novo ser a nascer. Para o médico era como se ele próprio se preparasse para assistir ao seu nascimento, quase como se ela estivesse prestes a surgir da sua alma, da ponta dos seus dedos, enquanto ele lutaria para lhe salvar a vida.

            Os médicos anestesistas aproximaram-se mais da cabeça de Sally, procurando o olhar de Peter Hallam, que acenou lentamente com a cabeça, sorrindo de novo à sua doente.

            — Até já — despediu-se Peter.

            A diferença é que não seria já. O mais certo era decorrerem umas cinco ou seis horas antes de ela voltar a estar consciente, o que não aconteceria por completo quando se encontrasse sob observação na sala de recuperação pós-operatória, antes de ser conduzida para a Unidade de Cuidados Intensivos.

            — Vai estar presente quando eu acordar da anestesia? — perguntou Sally com as sobrancelhas franzidas, o que fez com que o Dr. Hallam acenasse afirmativamente com toda a rapidez.

            — Pode ter a certeza de que estarei. Quando acordar, eu estarei ao seu lado, tal como agora me encontro aqui. — Naquele momento, fez um gesto na direção do anestesista, e os olhos de Sally agitaram-se, ficando cerrados durante breves instantes, sob o efeito do sedativo que lhe haviam ministrado anteriormente. O pentotal fora administrado por via intravenosa no braço de Sally Block. Uns momentos mais tarde adormecera e após breves minutos teve início o delicado processo cirúrgico.

            Ao longo de várias horas, Peter Hallam trabalhou esforçadamente para lhe colocar o novo coração; no seu rosto espelhava-se uma expressão maravilhada de triunfo ao ver o músculo começar a bombear o sangue. Durante uma fração de segundos, os olhos dele cruzaram-se com os da enfermeira que se encontrava à sua frente e, por baixo da máscara, esboçou um sorriso.

            — Desta já ela escapou — comentou o cirurgião.

            No entanto, a enfermeira sabia bem que tinham conseguido ganhar somente o primeiro assalto. Ainda restava ver se o organismo de Sally aceitaria ou rejeitaria o novo coração. E, à semelhança do que acontecia com todos os doentes sujeitos ao transplante de qualquer lugar, as hipóteses de recuperação não eram excessivas. No entanto, eram muito melhores do que teriam sido se Sally não houvesse sido submetida àquela intervenção cirúrgica. No caso dela, tal como acontecia com todas as pessoas que Peter Hallam operava, aquela era a única esperança de sobrevivência que lhe restava.

            Às nove e quinze minutos daquela mesma manhã, Sally Block foi conduzida para a sala de recuperação, ao mesmo tempo em que o Dr. Hallam fazia a primeira pausa desde as quatro e trinta da madrugada. Ainda decorreria mais algum tempo antes de o efeito da anestesia ter se dissipado, o que lhe permitia tempo para beber uma chávena de café e para poder ficar a sós com os seus próprios pensamentos. Os transplantes como o que ele fizera em Sally deixavam-no absolutamente extenuado.

            — A operação foi espetacular, doutor! — cumprimentou-o um jovem estagiário que se aproximou com uma expressão de grande admiração.

            Peter serviu-se de uma chávena de café simples e voltou-se para o jovem.

            — Muito obrigado — agradeceu com um sorriso enquanto lhe ocorria o quanto aquele jovem médico estagiário se parecia com o seu próprio filho.

            Para ele teria tido uma satisfação extraordinária se Mark tivesse mostrado ambições no campo da Medicina; todavia, o filho já fizera outros planos que tinham a ver com uma faculdade de Gestão ou de Direito. Mark pretendia fazer parte de um mundo bastante mais alargado do que aquele em que ele próprio se movimentava. O filho tivera oportunidade de observar ao longo dos anos o quanto o pai havia dado generosamente de si próprio e o que lhe custava de cada vez que um dos seus doentes, submetido ao transplante de um rim, acabava por falecer. Aquilo não era para o jovem. Peter semicerrou os olhos enquanto bebia um gole do café simples, pensando que talvez a decisão de Mark tivesse sido a mais acertada. Pouco depois, voltou a concentrar a sua atenção no jovem estagiário.

            — Foi a primeira operação desta natureza a que assistiu?

            — Foi a segunda. Nessa também foi ao senhor que coube o papel de cirurgião.

            De uma maneira estranha, a palavra papel parecia ser a mais apropriada àquela situação. Em ambos os transplantes, estivera envolvida a maior carga de dramatização teatral a que o jovem médico alguma vez assistira. Existira mais tensão e drama no bloco operatório do que ele experimentara ao longo de toda a sua vida; observar Peter Hallam a operar era como assistir a um bailado de Nijinsky. Aquele cirurgião era do melhor que existia na sua profissão.

            — Em sua opinião, como é que ela irá reagir?

            — Ainda é demasiado cedo para se poder aventar qualquer prognóstico. Tenho esperanças de que terá uma boa recuperação — respondeu Peter, rezando em silêncio para que houvesse verdade no que acabara de dizer.

            Algum tempo depois, vestiu uma outra bata esterilizada por cima das roupas de cirurgia e dirigiu-se para a sala de recuperação pós- operatória. Deixou o café do lado de fora e, em passos silenciosos, foi sentar-se numa das cadeiras junto da cama onde Sally estava deitada. Encontrava-se presente uma enfermeira, assim como uma bateria de monitores que vigiavam cada exalação de Sally; até o momento, parecia que tudo estava a correr pelo melhor. Os problemas, na hipótese de se verificarem, começariam a surgir um pouco mais tarde, a não ser que, como era evidente, tudo tivesse começado a correr mal desde o início da intervenção. O que também já tinha acontecido ao Dr. Hallam. Mas não desta vez. Desta vez não. Por favor, Deus do céu, agora não. A ela não. Era tão jovem! Não que ele se sentisse de maneira diferente se Sally tivesse cinqüenta e cinco anos em vez de vinte e dois.

            Quando perdera a mulher, reagira exatamente da mesma maneira. Naquele momento, estava sentado ali a olhar para Sally, tentando não ver um rosto diferente, numa ocasião diversa. E, contudo, apesar de todos os seus esforços era o que acontecia sempre. Continuava a vê-la como ela estivera durante aquelas últimas horas: sem oferecer luta, distanciada dele. Nem sequer lhe havia permitido tentar. Apesar de tudo o que Peter na ocasião dissera e a intensidade com que tentara convencê-la. Tinha surgido um doador. No entanto, ela recusara essa oferta. Nessa noite, Peter dera murros de frustração na parede do quarto onde ela estivera internada.

Tinha ido para casa de automóvel, percorrendo a auto- estrada a cento e setenta quilômetros por hora. Quando o mandaram parar por excesso de velocidade, não se preocupou com coisa alguma. Naquelas circunstâncias, não havia fosse o que fosse que pudesse incomodá-lo, exceto ela e aquilo que a mulher não lhe permitira fazer. O Dr. Hallam havia mostrado um comportamento tão estranho que o polícia da patrulha que o detivera o obrigara a sair do carro e percorrer uma linha reta. Mas ele não estava embriagado; encontrava-se entorpecido pelo sofrimento que o assolava. Tinham-lhe permitido que e fosse embora, acompanhado por uma repreensão e uma multa pesada; quando chegou à casa, começou a percorrê-la sem qualquer objetivo, enquanto pensava na mulher enferma e sofria por sua causa, sentindo uma enorme necessidade de tudo o que ela lhe tinha podido dar e que nunca mais daria. Perguntava a si mesmo se seria capaz de continuar a viver sem ela.

            Naquela época, até mesmo os filhos lhe tinham dado a impressão de serem seres remotos e distantes. Todos os seus pensamentos se concentravam em Anne. Ela fora uma pessoa forte durante muito tempo e por causa dela Peter Hallam amadurecera ao longo dos anos de vida em comum. A mulher instilara-lhe uma espécie de força interior, à qual ele recorria constantemente, da mesma forma que se apoiava na sua própria capacidade profissional. E, bruscamente, tudo isso se tinha desvanecido. Naquela noite, Peter Hallam deixara-se ficar sentado, sentindo-se aterrorizado, sozinho e assustado, como se fosse uma criança pequena. De súbito, com o despontar da alvorada, sentira-se atraído por um chamamento irresistível. Era forçoso que voltasse para junto de Anne. Tinha de abraçá-la uma vez mais. Era imperativo que lhe dissesse tudo aquilo que anteriormente jamais lhe dissera. Regressara ao hospital com toda a rapidez que lhe foi possível, tendo entrado em silêncio no quarto de Anne e dispensado a enfermeira que a vigiava; foi ele próprio quem se ocupou dessa tarefa, segurando-lhe a mão com todo o carinho e afastando-lhe suavemente os cabelos que lhe caíam sobre a testa pálida. Naquela altura, Anne tinha o aspecto de uma boneca de porcelana muito frágil e, exatamente antes da manhã entrar pelo quarto adentro, abriu os olhos.

            — Peter. — O som da sua voz enfraquecida não passara de um mero murmúrio a quebrar o silêncio.

            — Amo-te, Anne. — dissera-lhe ele com os olhos marejados de lágrimas.

            Quisera gritar-lhe: Não me deixes! Ela sorrira com aquele ar mágico que sempre tivera o condão de lhe encher o coração; pouco depois tinha partido, com a facilidade de um suspiro, fazendo com que Peter se tivesse sentido horrivelmente despojado, a olhar para o vazio. Por que motivo se recusara ela a lutar? O que a levara a não querer que o marido tentasse salvá-la? Porque é que ele próprio se sentia incapaz de aceitar aquilo que as outras pessoas eram obrigadas a aceitar dele todos os dias? Mas, naquele momento, não era capaz de fazê-lo.

            Quando da morte da mulher, o Dr. Hallam tinha-se levantado da cadeira e deixara-se ficar a observá-la com fixidez, enquanto soluçava de mansinho, até que um dos seus colegas o levara para fora do quarto. Alguém tinha se encarregado de levá-lo à casa e de metê-lo na cama; e, de uma maneira que para ele continuava a ser incompreensível, conseguira ultrapassar os dias e as semanas seguintes, executando tudo o que era esperado dele. Porém, toda aquela época lhe parecera um sonho horrível passado debaixo de água, da qual ele emergia somente de vez em quando, até que, por fim, se apercebeu do quão desesperadamente os filhos tinham necessidade do pai. Com lentidão, Peter começou a regressar ao mundo dos vivos; três semanas mais tarde, recomeçara a sua atividade profissional. No entanto, nesse momento tinha sentido que havia algo que lhe faltava. Tratava-se de qualquer coisa que para si fora da maior importância, e que se traduzia na presença de Anne. Ela nunca se mantinha afastada dos seus pensamentos durante muito tempo. Entrava neles mil vezes ao dia, quando ele saía de casa para ir trabalhar, enquanto saía e entrava nos quartos dos seus doentes, sempre que se dirigia para o bloco operatório ou ainda quando entrava no automóvel ao fim do dia, para regressar a casa. Ao chegar à porta da frente, parecia que uma faca se lhe espetava no coração de todas as vezes que entrava em casa, sabendo antecipadamente que ela não estaria lá para saudá-lo.

            Tudo aquilo acontecera havia pouco mais de um ano e, apesar de o sofrimento ter abrandado de intensidade, ainda não desaparecera por completo. De uma maneira ou de outra, Peter suspeitava que aquela dor jamais o abandonaria. Apenas se sentia capaz de continuar com o seu trabalho, dando o melhor de si mesmo às pessoas que a ele recorriam, solicitando-lhe a sua ajuda. E é claro que ainda havia Matthew, Mark e Pam. Graças a Deus, continuava a poder contar com eles. Sem a companhia dos filhos, jamais teria sido capaz de sobreviver. Todavia, conseguira, chegara até ali e continuaria a viver, mas de uma maneira tão diferente... Sem a presença de Anne.

            Peter permaneceu sentado, envolto pela tranqüilidade que reinava na sala de recuperação, com as pernas compridas estendidas à sua frente, o rosto com uma expressão tensa, enquanto observava Sally; por fim, os olhos da doente abriram-se durante breves instantes, percorrendo a sala com uma expressão desnorteada.

            — Sally. Sally, sou eu, o Peter Hallam. Estou aqui e a Sally está ótima — assegurou o cirurgião. “Pelo menos, de momento” pensou, mas não partilhou esse pensamento com ela; tão pouco se permitiu pensar muito sobre o assunto. Sally estava viva e até então tinha passado bem. Iria continuar a viver. O médico estava disposto a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para que tal viesse a verificar-se.

            Peter manteve-se sentado à beira da cama de Sally durante mais uma hora, a observá-la e a falar com ela sempre que recobrava a consciência, tendo mesmo sido brindado com o esboço de um sorriso vago e um pouco a medo, antes de tê-la deixado um pouco depois da uma da tarde. Nessa altura, foi até ao refeitório para comer um sanduíche, após o que regressou ao seu gabinete por alguns momentos, antes de iniciar a ronda aos seus doentes hospitalizados, por volta das dezesseis horas.

            Às dezessete e trinta já se encontrava a rolar pela auto-estrada, a caminho de casa; uma vez mais, a imagem de Anne preenchia-lhe os pensamentos. Continuava a ser-lhe extremamente difícil acreditar que ela não estaria à sua espera quando chegasse em casa. Quando é que ele deixaria de esperar encontrá-la de novo? Havia cerca de seis meses que Peter tinha perguntado a um amigo: “Quando é que poderei finalmente compreender o que é que se passou?” O sofrimento que se abatera sobre ele ao longo do último ano e meio tinha dado origem a uma certa vulnerabilidade que se refletia no seu rosto. Essa expressão não existia antes; aquele sofrimento tão visível provocado pela perda, pela saudade e pela dor amarga que se instalara na sua alma. Anteriormente, a sua fisionomia costumava refletir somente força e confiança, o que se traduzia numa certeza de que nada poderia vir a correr-lhe mal. Nessa altura da sua vida, tivera três filhos perfeitos e uma mulher inesquecível, o que era complementado por uma carreira que dominava, como poucos homens o conseguiam fazer. Havia conseguido chegar ao topo, não através de métodos brutais, mas sim de uma maneira maravilhosa; adorava encontrar-se naquela posição. E agora, o que? Para onde poderia ir, e com quem?

 

            Ao mesmo tempo em que Sally Block se encontrava de cama, no seu quarto na Unidade de Cuidados Intensivos, do Hospital Central de Los Angeles, as luzes num estúdio de televisão em Nova Iorque começaram a brilhar com uma luminescência muito especial. Delas irradiava uma brancura ofuscante, a qual trazia à mente a imagem das salas destinadas aos interrogatórios, características dos filmes de série B. Fora do espaço iluminado, o ambiente no estúdio era de frialdade, devido à correntes de ar.

            Apesar disso, diretamente por baixo daquelas luzes tão fortes, quase conseguia sentir-se a pele a distender-se sob o efeito do calor e da luminosidade. Todo o ambiente que reinava naquela sala se conjugava para que houvesse uma concentração sobre o objeto que era iluminado pelos projetores; todos os focos de luz convergiam num só, intensificando-se de momento a momento, ao ponto de até mesmo as pessoas que se encontravam presentes se sentirem como que atraídas para o centro, onde se via um estrado pouco elevado e com uma saliência estreita. Também havia uma mesa que nada tinha de impressionante, com um tampo de fórmica, e um pano azul-garrido onde se via um único logotipo. No entanto, não era o logotipo que despertava mais a atenção; era sim o cadeirão vazio que mais se assemelhava a um trono que aguardasse o seu rei ou rainha.

            A andar de um lado para o outro da sala estavam técnicos, operadores de câmara, um maquiador, um cabeleireiro, dois assistentes do realizador, um encenador, os curiosos, as pessoas importantes, as necessárias e os demais que por ali perambulavam sem qualquer objetivo específico. Toda aquela gente se aproximava cada vez mais do estrado vazio, da mesa por detrás da qual ninguém se sentava, enquanto o feixe luminoso dos projetores pairava de forma reveladora sobre todo aquele conjunto de pessoas e objetos.

            — Cinco minutos! — Era o aviso familiar numa cena habitual; no entanto, as notícias da noite revestiam-se de um certo ar de espetáculo. Aquela atmosfera era trespassada por uma vaga aura circense, acompanhada da magia e do brilhantismo projetados pelas luzes esbranquiçadas. Havia uma mistura de poder e mistério que envolvia todos os presentes; os corações pulsavam um tudo-nada mais apressados ao som das palavras:

            — Cinco minutos! — Em seguida: — Três! — Depois: — Dois!

            As mesmas palavras que se teria ouvido num corredor dos bastidores de um teatro na Broadway ou em Londres, na altura em que uma qualquer grande senhora do palco fizesse a sua entrada.

            Nada do que ali se passava era assim tão espetacular; os membros das equipes de trabalho que permaneciam de pé usavam calças de ganga e calçavam sapatos de tênis; apesar da vulgaridade do vestuário, não deixava de existir no ar aquela sensação de magia, os murmúrios, a espera.

            Esses aspectos foram sentidos por Melanie Adams, quando, num passo decidido, subiu ao estrado do estúdio. Como era hábito, a sua entrada foi sincronizada na perfeição. Dispunha de exatamente cem segundos antes de irem para o ar. Uma centena de segundos para passar outra vista de olhos pelos seus apontamentos, observando o rosto do realizador com o propósito de descortinar alguma coisa que houvesse surgido no último minuto e de que ela devesse tomar conhecimento, enquanto contava em silêncio para si mesma com o intuito de se acalmar.

            Como de costume, o dia de trabalho fora longo. Melanie realizara a última entrevista relativa a um programa especial, cujo tema versava as crianças maltratadas. O assunto não era dos mais bonitos; contudo, ela tinha-o abordado com o tato adequado à situação. Ainda assim, por volta das dezoito horas, o dia havia começado a cobrar os seus dividendos.

            Cinco. Os dedos estendidos e erguidos no ar pelo assistente de realização, numa contagem final. Quatro, três, dois, um.

            — Boa noite — saudou ela com o sorriso experiente que jamais refletia um aspecto mecanizado, emoldurado pelos cabelos de um tom de conhaque que brilhavam sob as luzes.

            — Eu sou a Melanie Adams e tenho o prazer de vos apresentar o noticiário desta noite.

            O presidente fizera um discurso, havia uma crise militar no Brasil, a bolsa de valores sofrera uma descida acentuada e, naquela mesma manhã, um político local fora assaltado na rua, em plena luz do dia, quando se preparava para sair de casa. Além destas, existiam outras notícias a serem difundidas e o programa noticioso continuou a um bom ritmo, como aliás acontecia sempre. Toda a postura de Melanie refletia uma expressão credível de competência que fazia com que os índices de audiência subissem em flecha e lhe conferia um enorme magnetismo.

            Mel era uma pessoa conhecida a nível nacional já havia bem mais de cinco anos; não que inicialmente tivesse planejado isso. Na altura em que decidira desistir da faculdade, onde estudava Ciências Políticas, para dar à luz as gêmeas, tinha apenas dezenove anos. Isso, porém, parecia-lhe ter acontecido havia muito tempo. Durante os últimos cinco anos, a televisão fora o fulcro de toda a sua vida. A televisão e as gêmeas. Na sua vida existiam alguns passatempos; contudo a sua carreira profissional e as filhas vinham sempre em primeiro lugar.

            Depois de terem saído do ar, Melanie reuniu os apontamentos que colocara sobre a mesa e, como sempre, o realizador mostrava uma expressão de satisfação.

            — Boa apresentação, Mel!

            — Obrigada — retorquiu ela.

            Havia um certo ar de distância fria que emanava da sua pessoa e que ocultava o que em tempos havia sido timidez e que agora não passava simplesmente de uma atitude reservada. Havia demasiadas pessoas que se mostravam curiosas em relação à sua pessoa, fazendo perguntas constrangedoras ou bisbilhotando.

            Naquele momento, ela era Melanie Adams, um nome que possuía um certo toque de magia. “Eu conheço-a!” “Já a vi a apresentar o noticiário!” Hoje em dia sentia uma sensação estranha quando ia ao supermercado fazer compras, quando ia a uma loja comprar um vestido ou mesmo quando se limitava a andar pela rua na companhia das filhas. Inesperadamente, as pessoas ficavam a olhar fixamente para ela; e, embora no exterior Melanie Adams se mostrasse sempre senhora de si mesma, bem no seu âmago continuava a sentir-se pouco à vontade.

            Mel dirigia-se para o seu gabinete, com a intenção de retirar um pouco do excesso de maquiagem e ir buscar a mala de mão antes de abandonar o estúdio, quando foi detida pelo editor do noticiário.

            — Pode vir aqui por uns segundos, Mel? — pediu ele com a habitual expressão mortificada e distraída.

            Melanie gemeu interiormente. “Vir aqui por uns segundos” poderia significar uma reportagem que a manteria afastada de sua casa durante toda a noite. Normalmente, além de ser a apresentadora principal do noticiário da noite, tratava apenas das reportagens de maior relevo, as notícias mais importantes de última hora ou os programas especiais. Todavia, naquele momento, apenas Deus sabia o que eles tinham em reserva para ela e, verdade fosse dita, Melanie não se encontrava com disposição. Chegara a um ponto da sua carreira em que já adquirira uma maneira de estar sobejamente profissional que lhe permitia não demonstrar fadiga, a não ser em ocasiões muito raras. No entanto, o programa especial acerca das crianças maltratadas extenuara-a, independentemente do ar alerta e enérgico que pudesse continuar a aparentar, graças à maquiagem.

            — Sim? O que é que se passa? — perguntou Mel.

            — Quero mostrar-te uma coisa — respondeu o editor do noticiário, agarrando um cassete de vídeo que inseriu no aparelho reprodutor. — Apresentamos isto no noticiário das treze. Não me pareceu que fosse suficientemente importante para ser exibido no noticiário da noite. Apesar disso, acho que poderia vir a ser uma história interessante a que pudesses dar seguimento — continuou ele.

            Mel concentrou a sua atenção no aparelho de vídeo quando a fita começou a passar; o que viu foi uma entrevista com uma menina de nove anos, a qual necessitava desesperadamente de um transplante do coração sem que, todavia, até a data os pais houvessem conseguido encontrar um doador. Os vizinhos haviam decidido formar um fundo especial a favor de Pattie Lou Jones, uma rapariguinha adorável de raça negra, que conseguia conquistar de imediato o coração de qualquer pessoa.

            À medida que a entrevista se aproximava da sua conclusão, Melanie quase lamentava ter visto o filme. Tratava-se apenas de mais um ser humano por quem sentir dó, com quem se preocupar e pelo qual não podia fazer-se rigorosamente nada. As crianças que tinham surgido no seu programa especial sobre os maus tratos também lhe haviam provocado a mesma reação. Por que razão é que a gente da estação de televisão não lhe podia dar um bom escândalo, de preferência de natureza política, logo a seguir ao outro programa? Não tinha qualquer necessidade de sentir outra vez aquele gênero de sofrimento.

            — Sim — disse Melanie, virando uns olhos cansados na direção do homem que, entretanto retirava a cassete do aparelho. — E então?

            — Pensei apenas que poderia dar um programa especial de interesse para ti, Mel. Acompanhar a criança durante algum tempo, ver o que é que consegues fazer por ela. Investigar quais os médicos dispostos a observar Pattie Lou.

            — Oh, por amor de Deus, Jack! Por que é que isso tem de calhar-me a mim? O que é que eu sou? Uma espécie de novo departamento para a segurança social das crianças?  — redargüiu ela. A sua expressão era de cansaço; as rugas pequeníssimas ao canto dos olhos começaram a aparecer. Tivera um dia demasiado longo, pois fora obrigada a sair de casa às seis horas da manhã.

            — Ouve — continuou o homem, que parecia sentir-se tão cansado quanto ela própria. — Isto pode vir a ser um tema quente. Se conseguíssemos que a estação ajudasse os pais da Pattie Lou a encontrar um médico que se interesse pela situação da criança, talvez fosse possível acompanhá-la durante o transplante do coração. Com os diabos, Mel! Isto é que são notícias!

            Melanie começou a abanar lentamente a cabeça, mostrando ceticismo. De fato, eram notícias. Todavia, não deixavam de ter o seu aspecto macabro.

            — Já falaste com a família acerca do assunto? — perguntou ela.

            — Não, mas tenho a certeza de que os pais se sentiriam entusiasmados com a idéia.

            — Nunca se sabe. Por vezes, as pessoas preferem tratar dos seus próprios problemas sem quaisquer interferências. É muito possível que não lhes agrade a idéia de servirem a Pattie Lou durante o noticiário da noite — acrescentou Mel.

            — E porque não? Hoje se dispuseram a falar conosco — continuou Jack. Mel acenou de novo com a cabeça. — Porque é que amanhã não falas com alguns dos cirurgiões mais importantes de cardiologia para saberes qual é a sua opinião? Alguns sentem prazer em mostrar-se em público. Depois de falares com eles, poderias telefonar aos pais desta criança.

            — Vou ver o que posso fazer, Jack. Ainda tenho de terminar o meu programa sobre as crianças maltratadas — argumentou Melanie.

            — Estava convencido de que hoje tinhas dado esse assunto por encerrado — retorquiu ele imediatamente, com um semblante irritado.

            — Já acabei. Mas quero ver como é que a notícia fica montada antes de ir para o ar.

            — Mas que grande treta! Isso não faz parte das tuas funções. Começa mas é a trabalhar nisto. Verá que vai ser um programa mais importante do que o das crianças maltratadas — insistiu Jack.

            Mais importante do que queimar com fósforos uma criança de apenas dois anos? Ou que cortar a orelha de outra com quatro? Continuavam a existir algumas ocasiões em que aquela atividade jornalística a enojava.

            — Vê lá o que é que podes fazer, Mel — finalizou o editor.

            — Muito bem, Jack. De acordo. Vou ver o que é que consigo fazer. — prometeu Mel.

            “Olá, senhor doutor, o meu nome é Melanie Adams e gostaria muito de saber se está na disposição de efetuar o transplante de um coração em uma menina de nove anos. Possivelmente sem cobrar quaisquer honorários à família. E depois, não poderíamos assistir a essa intervenção cirúrgica, para assim podermos pespegar consigo e com a rapariguinha em tudo o que seja noticiário?” pensava Melanie enquanto se dirigia apressadamente para o seu gabinete, mantendo baixa a cabeça onde os pensamentos fervilhavam e quase colidindo com um homem alto de cabelos negros.

            — Ora viva! Mas que ar tão feliz que tu tens hoje! Apresentar o noticiário deve ser muito divertido — comentou mordaz.

            Aquela voz profunda que fora treinada havia muito tempo como locutor de rádio fez com que ela erguesse os olhos do chão e sorrisse ao deparar com um velho amigo.

            — Olá, Grant. O que é que andas a fazer por aqui a estas horas? — inquiriu Melanie.

            Grant Buckley apresentava um talk show que ia para o ar todas as noites depois das últimas notícias. Ele era uma das personalidades mais controversas daquela cadeia de televisão, mas nutria um grande carinho por Mel, o que a levava a considerá-lo, há bastante tempo, um dos seus amigos mais chegados.

            — Tive de vir ao estúdio examinar alguns cassetes de vídeo que pretendo apresentar no programa de hoje. E quanto a ti? Já passa um bocado da tua hora, não é verdade?

            Habitualmente, àquela hora já ela costumava ter ido embora; no entanto, a história acerca de Pattie Lou Jones prendera-a no estúdio durante mais meia hora.

            — Hoje fizeram o favor de me guardar um mimo muito especial — respondeu Melanie. — Pretendem que eu arranje o transplante de um coração para uma criança. O trivial, nada de muito elaborado. — Algumas das nuvens que lhe haviam ensombrado o rosto começaram a desaparecer quando fixou os olhos do amigo.

            Grant era um indivíduo incrivelmente brilhante, um bom amigo e um homem atraente; todas as mulheres que trabalhavam naquela rede de televisão sentiam uma inveja óbvia da amizade que ambos partilhavam. O relacionamento entre os dois nunca fora além da amizade, embora de tempos a tempos se ouvissem vários rumores sem que qualquer deles merecesse a mínima veracidade. Serviam apenas para divertir tanto Grant como Mel, sempre que abordavam aquele assunto enquanto tomavam algumas bebidas depois do trabalho.

            — Sendo assim, onde é que está a novidade? Como é que correu o programa especial que fizeste sobre as crianças maltratadas? — perguntou Grant.

            Os olhos dela adquiriram uma expressão de seriedade quando se cruzaram com os dele.

            — Foi muito difícil de fazer, mas a história resultou muito bem.

            — Não há dúvida de que tens um jeito muito especial para agarrares nos casos mais difíceis.

            — Ou é isso ou são eles que me escolhem. É o que se passa com este caso do transplante cardíaco que, supostamente, tenho de arranjar.

            — Está a falar a sério? — De início, Grant pensara que ela tinha estado de brincadeira.

            — Eu não, mas aparentemente, o Jack Owens está. Tens alguma idéia brilhante?

            Grant franziu o sobrolho enquanto se concentrava nos seus pensamentos.

            — No ano passado fiz um programa sobre esse mesmo assunto, onde apresentei algumas pessoas bastante interessantes — continuou Grant. — Vou procurar os nomes no meu ficheiro. Assim de repente, surge-me à memória o nome de dois deles, mas havia mais. Vou ver o que é que posso fazer, Mel. Quando é que precisas deste material?

            — Ontem — respondeu ela com um sorriso. Grant despenteou-lhe os cabelos, sabendo de antemão que ela não voltaria a ir para o ar naquela noite.

            — Queres ir comer um hambúrguer antes de ires para casa?

            — É melhor não. Tenho de regressar à casa para junto das minhas filhas.

            — Essas duas — disse ele, revirando os olhos; conhecia-as bem. O próprio Grant tinha três filhas, de três mulheres diferentes, mas não eram gêmeas, nem tão aventureiras como as duas raparigas de Mel. — O que é que elas têm andado a fazer ultimamente?

            — O costume. Esta semana, a Val já se apaixonou quatro vezes, enquanto a Jess continua a trabalhar para tirar apenas vintes nos pontos. Os esforços combinados das duas tornam-me difícil conservar os cabelos ruivos, que gradualmente vão sendo substituídos por grisalhos.

            Melanie acabara de fazer trinta e cinco anos, mas pelo seu aspecto, poderia concluir-se que uma década desses anos ficara perdida algures. Não obstante todas as responsabilidades com que era obrigada a arcar, não aparentava ter a idade que tinha, apesar de por vezes sentir a carga pesada que a sua profissão lhe colocava sobre os ombros, mas que mesmo assim ela adorava, a despeito das crises de várias naturezas que lhe haviam surgido na vida ao longo dos anos.

            Grant tinha conhecimento da maior parte desses problemas, o que permitira a Melanie ter chorado no seu ombro em mais do que uma ocasião, fosse por causa de uma qualquer desilusão no trabalho ou devido a um caso amoroso que dera para o torto. Destes últimos não tinham existido muitos; Mel era bastante cuidadosa acerca dos homens com quem se relacionava e esforçava-se por manter a sua vida privada fora do alcance da curiosidade do público. Para além disso, receava envolver-se com algum depois de ter sido abandonada pelo pai das gêmeas, antes mesmo de estas terem nascido.

            O marido dissera-lhe que não desejava ter filhos, e falara a sério. Tinham casado assim que ambos haviam concluído o curso liceal e ido para a Universidade da Colúmbia. Quando Melanie o informou de que estava grávida, o homem nem sequer quisera ouvir quaisquer argumentos.

            — Livra-te disso — ripostou ele com uma expressão empedernida; Melanie continuava a recordar-se do seu tom de voz.

            — Não vou fazer isso. A criança é nossa. A tua atitude não está certa.

            — É muito mais errado estragarmos a nossa vida — retorquira ele na altura.

            Conseqüentemente, optara por tentar estragar a vida dela. Tinha decidido ir para o México de férias na companhia de outra rapariga e quando regressou anunciou que estavam divorciados. Falsificara a assinatura da mulher na petição de divórcio e Melanie ficara tão chocada que não soubera como argumentar. Os pais gostariam que ela oferecesse luta ao marido; contudo, não lhe parecera que tivesse qualquer possibilidade. Sentia-se muito ferida por causa do comportamento dele e receosa perante a perspectiva de se encontrar sozinha quando do nascimento do bebê, o qual se veio a verificar serem dois. Durante algum tempo, os pais haviam dado o seu contributo, mas Mel decidira continuar com a sua vida de uma maneira independente; procurara emprego, tendo-se visto obrigada a fazer tudo o que lhe era possível, desde o trabalho de secretariado até a venda porta a porta dos produtos de uma empresa fabricante de vitaminas. Por último, conseguira empregar-se como recepcionista de uma cadeia televisiva, tendo finalmente acabado por ser colocada numa sala de secretariado onde as notícias eram datilografadas.

            Entretanto, as gêmeas tinham conseguido florescer através de todas aquelas atribulações, embora a ascensão profissional de Melanie não tivesse sido fácil, nem tão pouco rápida; apesar disso, os vários dias passados a datilografar o que os outros escreviam deram-lhe a oportunidade de vir a descobrir o que desejava fazer na vida. Os programas de natureza política eram os que mais despertavam o seu interesse; traziam-lhe à memória os seus tempos de faculdade, antes de toda a sua vida ter sofrido tantas alterações. Aquilo que mais pretendia era começar a redigir os noticiários. Ofereceu-se numerosas vezes para aquela posição, até que acabou por compreender que o seu desejo não se transformaria em realidade, se continuasse a viver na cidade de Nova Iorque.

            Primeiro decidiu mudar-se para Buffalo, em seguida para Chicago, tendo acabado por regressar de novo a Nova Iorque, onde finalmente conseguira arranjar trabalho como redatora de notícias. Aquela situação manteve-se até que a sorte a bafejou. Alguns dos membros da direção começaram a prestar-lhe atenção e um deles mandou-a para o estúdio. Melanie ficou horrorizada, mas não lhe restou qualquer alternativa. Era uma questão de fazer o que eles lhe diziam ou ser despedida, e isso não podia dar-se ao luxo de fazer. Tinha duas filhas pequenas para sustentar, o pai delas nunca havia contribuído com um único tostão, e deixara-a sozinha, a braços com todas as dificuldades inerentes àquela situação. Melanie conseguira obter muito. Tudo o que mais ambicionava era ter o suficiente para as filhas, não albergando quaisquer sonhos de glória, nem tão pouco o desejo de apresentar as notícias que ela própria escrevia. Mas, de súbito, ali estava ela, no ecrã de um televisor, e o mais engraçado foi verificar que isso lhe proporcionava uma sensação deveras agradável.

            Depois disso, fora enviada para Filadélfia com o propósito de adquirir mais experiência e regressou de novo a Chicago para uma breve estada. Em seguida, fora enviada para Washington e, por fim, regressara à casa. Pelas estimativas dos responsáveis da direção, Melanie fora preparada de forma adequada e não andavam muito longe da verdade. Era uma mulher forte, poderosa e interessante, além de ser uma imagem maravilhosa que ia todas as noites para o ar e que dava prazer ver. Parecia combinar a honestidade com a compaixão e a inteligência, ao ponto de por vezes chegar quase a esquecer-se do seu aspecto encantador e atraente.

            Quando fez vinte e oito anos, Melanie encontrava-se muito próxima do topo da sua carreira, apresentando as notícias no telejornal da noite, de parceria com um colega. Aos trinta anos, rescindiu o contrato e mudou-se para outra cadeia de televisão e, de repente, ali estava ela a apresentar o noticiário da noite sozinha. Os índices de audiência começaram a subir em flecha, não tendo parado desde então.

            Desde essa época que Melanie trabalhava afincadamente, o que lhe proporcionou a reputação bem merecida de ser uma das mulheres mais importantes no mundo das notícias. Mais ainda, era uma pessoa por quem os outros sentiam estima. Naquele momento, sentia-se em segurança. Os dias de escassez havia muito que tinham ficado para trás, assim como a luta dia-a-dia a tentar fazer com que o dinheiro chegasse para tudo.

            Se fossem vivos, os pais ter-se-iam sentido extremamente orgulhosos da filha. De vez em quando, Melanie interrogava-se em relação ao que o pai das gêmeas pensaria do seu êxito profissional: se lamentaria tê-la abandonado ou se chegaria mesmo a pensar nisso. Nunca mais tinha ouvido falar dele. No entanto, o ex-marido conseguira imprimir a sua marca nela, uma marca que se havia esbatido, mas que ao longo dos anos não desaparecera por completo.

            Era uma marca que a mantinha em estado de alerta, senão de sofrimento, o que se traduzia no receio de se ligar em demasia a outro homem, de vir a acreditar em excesso. Mel receava vir a amar alguém demais, à exceção das gêmeas. Aquela sua atitude levara-a a envolver-se em alguns relacionamentos infelizes, com homens que se sentiam atraídos pelo que ela era ou que se serviam da sua maneira de ser distanciada e fria para se divertirem a seu bel-prazer; da última vez que tal acontecera, tinha sido com um homem casado. De início e de acordo com a perspectiva de Melanie, aquela relação parecera-lhe ideal, uma vez que ele não pretendia mais da relação do que ela própria. Não tinha quaisquer intenções de voltar a casar. Sem a ajuda de qualquer pessoa, conseguira alcançar tudo aquilo que mais almejara: sucesso, segurança, a educação das suas filhas e uma casa em que adorava viver.

            — Que necessidade é que eu tenho de me casar outra vez? — perguntara ela a Grant numa ocasião qualquer. No entanto, o amigo mantivera-se crítico em relação àquele assunto.

            — Talvez não precises, mas isso não quer dizer que não devas arranjar alguém que seja livre — retorquira ele com insistência e firmeza.

            — Por que razão? Que diferença é que isso faria?

            — A única diferença que poderá fazer, minha amiga, é que vais acabar por passar todos os Natais, férias, aniversários e fins-de-semana sozinha, enquanto ele se deixa ficar todo feliz junto da mulher e dos filhos.

            — Talvez tenhas razão, mas para ele eu sou especial. Sou o caviar e não o bife com batatas fritas.

            — Está completamente errada, Mel. Tu é que sofrerás com esse tipo de situação.

            Viera a ficar provado que Grant tinha toda a razão. Com o passar do tempo, ela acabara por sofrer exatamente pelas razões que Grant mais receara e o fim daquela relação fora terrível e doloroso; Melanie sentira-se desolada durante várias semanas, isolando-se de todos.

            — Da próxima vez, é preferível que dê ouvidos ao tio Grant. Eu sei como são essas coisas — dissera ele então.

            Conhecia-a bastante bem e sabia que Melanie tinha erguido paredes em redor de si própria. Haviam-se conhecido há quase dez anos, quando ela já se encontrava em plena ascensão profissional. Naquela altura, Grant apercebera-se de imediato de que se encontrava em presença de uma nova estrela nos céus dos noticiários televisivos; mais do que isso: gostava de Melanie como ser humano e como amiga. Esse afeto era o suficiente para não desejar prejudicar o relacionamento que existia entre ambos. Haviam tomado todas as precauções para nunca se envolverem emocionalmente. Grant já fora casado por três vezes e mantinha uma coleção de mulheres temporárias, com as quais gostava de passar as suas noites. Contudo, Melanie tinha para ele muito mais significado do que todas as outras. Existia uma grande amizade entre os dois e, no que dizia respeito a Grant, era importante não atraiçoar a confiança que essa situação implicava. Mel fora atraiçoada antes, e ele não pretendia ser o homem que a magoaria de novo.

            — A verdade é que, minha querida, a maior parte dos homens é uma merda — confessara-lhe ele numa noite que já ia bastante adiantada, depois de tê-la entrevistado no seu programa, o que fora bastante divertido. Depois, ambos haviam saído para tomar uma bebida, tendo acabado por ficar no Elaine's até às três da manhã.

            — O que é que te leva a dizer isso? — perguntou Melanie; subitamente aparecera-lhe no olhar uma expressão distanciada e cautelosa. Melanie conhecia um homem que se ajustava àquela classificação, mas era triste pensar que todos procediam da mesma maneira.

            — Porque são poucos os que estão dispostos a retribuir todas as coisas boas que lhes são proporcionadas — explicou Grant. — Querem uma mulher que os ame de alma e coração, mas guardam ciosamente uma parte importante para si próprios. Precisas é de um homem que esteja disposto a dar-te tanto amor como tu a ele.

            — Por que motivo pensas que eu ainda tenho assim tanto amor para dar? — redargüiu Melanie, tentando apresentar um ar brincalhão, mas ele não se mostrou convencido. A antiga dor continuava dentro dela, distanciada, mas sem se ter desvanecido de todo.

            Grant perguntava a si próprio se alguma vez desapareceria.

            — Conheço-te demasiado bem, Mel. Melhor do que te conheces a ti própria.

            — E estás convencido de que me sinto desejosa de encontrar o homem certo? — perguntou ela com uma gargalhada que fez com que ele esboçasse um sorriso.

            — Não. Em minha opinião, tens um medo de morte que isso venha a acontecer — contrapôs Grant.

            — Acertaste — admitiu Melanie.

            — É possível que isso fosse bom para ti.

            — Por que? Sinto-me feliz sozinha.

            — Mas que grande treta! — exclamou Grant. — Ninguém é feliz assim, de verdade.

            — Eu tenho as gêmeas.

            — Isso não é a mesma coisa.

            — Tu sentes-te feliz e vives sozinho — retrucou ela com um encolher de ombros.

            Procurou os olhos dele sem ter bem a certeza do que iria encontrar; sentiu-se surpreendida ao observar um vago sentimento de solidão. Costumava surgir à noite; tal como um lobisomem, era uma emoção que se mantinha oculta durante o dia.

            Até mesmo o ilustre Grant era um ser humano como todos os outros.

            — Se eu me sentisse assim tão feliz sozinho, nunca teria casado três vezes — adiantou ele em defesa do seu argumento.

            Ambos se riram com aquela observação; a noite já ia longa e ele acabou por deixá-la à porta de casa, despedindo-se com um beijo amigável na face de Melanie.

            De quando em vez, ela interrogava-se sobre como seria um envolvimento amoroso com o amigo, mas sabia de antemão que essa situação iria arruinar a amizade existente entre os dois, e ambos queriam evitar a todo o custo que isso acontecesse. Aquele relacionamento era demasiado agradável.

            No corredor onde se situava o seu gabinete, Melanie olhava para ele e, apesar de se sentir cansada, estava satisfeita por ver aquele rosto amigo ao fim de um longo dia de trabalho. Grant dava-lhe algo que mais ninguém conseguia. As gêmeas ainda eram pequenas e exigiam muito da mãe, tinham necessidades constantes de amor, de disciplina e da imposição de limites, de patins novos para o gelo e de calças de ganga de marca. Por seu lado, Grant possuía a capacidade de devolver qualquer coisa à sua alma e, na realidade, não existia mais ninguém que fizesse isso.

            — A oferta desse hambúrguer fica para amanhã à noite — continuou Melanie.

            — Não posso — retorquiu ele, abanando a cabeça num gesto de pesar. — Tenho um encontro marcado com um par de mamas sensacionais.

            Melanie revirou os olhos como se estivesse a lidar com uma criança que não tinha emenda.

            — És o homem mais perverso que eu conheço.

            — Sim.

            — E orgulhoso dessa faceta.

            — Tens toda a razão — aquiesceu ele.

            Melanie sorriu e olhou para o relógio de pulso.

            — É melhor pôr-me a mexer e ir para casa, antes que a Raquel feche a porta à chave, tirana como ela é.

            Havia sete anos que ela tinha a mesma governanta. Raquel era uma bênção para as raparigas, mas mantinha-as com rédeas curtas. Nutria uma enorme simpatia por Grant e havia já muitos anos tentava fazer com que Mel se envolvesse com ele.

            — Diz à Raquel que lhe mando um beijinho.

            — Vou mas é dizer-lhe que cheguei atrasada por tua culpa — retorquiu Melanie.

            — Muito bem. Amanhã te entrego a lista com o nome dos cirurgiões de cardiologia de que te falei. Vais estar aqui?

            — Sim, como de costume.

            — Eu telefono-te — prometeu ele.

            — Obrigada — agradeceu Mel, soprando-lhe um beijo.

            Grant começou a afastar-se e Melanie foi para o gabinete, agarrando na mala de mão com um breve olhar para o relógio. Já eram dezenove e trinta e certamente que Raquel iria ter um fanico. Correu pelas escadas abaixo e quando chegou à rua fez sinal a um táxi; quinze minutos depois o motorista virava na Rua Setenta e Nove.

            — Já cheguei! — gritou Melanie para o silêncio, enquanto atravessava o vestíbulo da frente.

            O chão era revestido de mármore branco e as paredes estavam cobertas por um papel com flores delicadas. Assim que alguém entrava naquela casa, não podia deixar de sentir a atmosfera cordial e elegante que dela emanava. Devido à existência daquelas cores alegres, dos grandes ramos de flores nas jarras e dos toques de amarelo e tons de pastel que se viam por todo o lado, tinha-se imediatamente uma sensação de alegria. Aquela casa sempre tivera o condão de proporcionar uma enorme satisfação a Grant Buckley. Era por de mais evidente que se tratava de um espaço habitado por uma mulher. Se algum homem decidisse fazer daquela a sua casa, seria necessário que se começasse de raiz a fazer outra decoração.

            No vestíbulo da frente via-se um enorme bengaleiro antigo de madeira atulhado com os chapéus de Melanie e com os que as duas raparigas mais gostavam de usar.

            A sala de estar fora decorada em tons suaves de pêssego, com sofás fundos de seda, que convidavam as pessoas a nunca desejarem levantar-se deles. As janelas tinham uns cortinados de um delicado moiré e pendiam em dobras fartas, apanhadas por cordões de seda, enquanto as paredes estavam pintadas do mesmo tom suave de pêssego, com frisos e rodapés beges, havendo ainda vários quadros em tons pastel espalhados por toda a parte.

            Melanie deixou-se afundar no sofá, soltando um suspiro de contentamento; aquele era o cenário perfeito para a sua pele acetinada e para os seus cabelos de um vermelho flamejante. O quarto de Melanie fora decorado em tons suaves de azul, a sala de jantar em branco, enquanto os tons usados na cozinha eram o laranja, o amarelo e o azul. No lar de Melanie reinava uma atmosfera alegre, que fazia com que se desejasse percorrer as várias dependências demoradamente. Era uma casa elegante, mas não em demasia, e chique, mas não ao ponto de fazer com que uma pessoa receasse sentar-se.

            Tratava-se de uma casa pequena, mas perfeita para elas. A sala de estar e a de jantar, bem como a cozinha situavam-se no rés-do-chão; o quarto de Melanie, assim como o seu escritório e o quarto de vestir eram no primeiro andar; no andar acima, ficavam os dois quartos espaçosos e soalheiros das duas filhas. Não havia um centímetro de espaço que não estivesse utilizado, nem qualquer objeto a mais naquele lar. No entanto, sendo apenas para elas, era exatamente do tamanho certo, tal como Melanie percebera na primeira ocasião em que vira a casa, tendo-se apaixonado por ela logo no mesmo dia.

            Dirigiu-se em passos apressados pelas escadas acima, até ao quarto das filhas, apercebendo-se de uma ligeira dor nas costas. Sem dúvida tivera um dia muito comprido. Não se deteve no seu próprio quarto, sabendo de antemão o que é que estaria à sua espera: uma pilha de correspondência que não sentia qualquer desejo de abrir, na sua maioria contas de despesas com as raparigas, além de várias outras cartas. Naquele momento, não era aquilo que a interessava. Desejava ver as gêmeas.

            No segundo andar, encontrou as portas dos dois quartos fechadas, mas a música soava tão alto que ainda ia a meio das escadas e já sentia o coração a ribombar.

            — Deus do céu, Jess! — gritou Melanie, tentando sobrepor-se àquela algazarra musical. — Baixa o som dessa coisa!

            — O quê? — perguntou a rapariga alta e magricela de cabelos ruivos que se encontrava estendida na cama, virando-se na direção da porta. À sua volta viam-se livros da escola espalhados. Jess tinha o auscultador do telefone encostado à orelha. Acenou à mãe e continuou a falar ao telefone.

            — Por acaso não tens exames?

            A filha fez um gesto afirmativo em silêncio e o rosto de Melanie começou a exibir uma expressão de severidade.

            Das duas gêmeas, Jessica era a que sempre se mostrava mais diligente nos estudos; porém, ultimamente, as suas notas haviam baixado. Andava aborrecida e o romance que mantivera ao longo de todo o ano acabara por ir por água abaixo. Para Melanie isso não servia de desculpa e a filha, fosse como fosse, continuava a ser obrigada a estudar para os exames, agora ainda mais do que antes.

            — Vamos lá, desliga o telefone, Jess. — Melanie deixou-se ficar de pé e encostou-se à secretária, com os braços cruzados. Jessica mostrou-se aborrecida, disse algo incompreensível ao telefone, após o que desligou, olhando para a mãe com uma expressão de grosseria declarada e indisfarçável.  — Agora, desliga essa coisa imediatamente!

            Jessica descruzou com lentidão as pernas compridas, saindo da cama e dirigindo-se para a aparelhagem estereofônica; com um gesto da cabeça lançou a sua vasta cabeleira acobreada para trás, afastando-a dos ombros.

            — Eu estava só a fazer um intervalo — justificou-se ela.

            — Durante quanto tempo?

            — Oh, por amor de Deus! Que mais é que agora sou obrigada a fazer? Marcar as horas num relógio de ponto?

            — A tua atitude não é razoável, Jess. Podes ter toda a liberdade de que precisares — retorquiu a mãe. — Mas a realidade é que as tuas últimas notas...

            — Eu sei, eu sei muito bem. Durante mais quanto tempo é que vou ter de ouvir falar nesse assunto?

            — Até que as notas melhorem — respondeu Melanie, peremptória; não parecia impressionada pelo discurso da filha.

            Desde o fim do seu romance com um jovem chamado John, que Jessica andava com os nervos em franja. Provavelmente, teria sido isso que afetara as suas notas na escola pela primeira vez. No entanto, Melanie pressentia que aquela situação já tinha começado a melhorar, mas ainda não achava que estivesse na altura de abrandar a sua atitude em relação à filha, pelo menos até se sentir segura de que tudo voltara ao normal.

            — Como é que foi o teu dia? — perguntou, passando um braço à volta dos ombros de Jessica e acariciando-lhe os cabelos. A música fora desligada e o quarto parecia estar mergulhado num silêncio estranho.

            — Foi bom. E o teu? Correu bem?

            — Não foi mau — respondeu Melanie.

            Jessica sorriu, ficando muito parecida com Melanie, quando esta tinha a idade da filha. A sua silhueta era mais angulosa do que a da mãe nessa altura e, mesmo descalça, já media mais cinco centímetros do que Melanie; no entanto, muitas das facetas desta refletiam-se na rapariga, criando uma aproximação pouco freqüente entre mãe e filha. Por vezes, não necessitavam de trocar qualquer palavra para se compreenderem. Noutras ocasiões quando a amizade que as unia explodia por causa das similaridades de caráter, isso fazia com que fossem quase demasiado unidas.

            — Vi a peça que fizeste no noticiário da noite, acerca da legislação para as crianças incapacitadas.

            — O que é que te pareceu? — inquiriu Melanie, que gostava de conhecer a opinião das filhas, especialmente a de Jess. Ela era inteligente e muito direta com as palavras, ao contrário da sua gêmea, mais generosa e menos crítica, mais terna em muitos aspectos.

            — Pareceu-me bastante boa, mas não suficientemente dura — respondeu Jessica.

            — Não há dúvida de que é muito difícil agradar-te — retorquiu Mel. Mas aquilo também acontecia em relação aos seus patrocinadores.

            Jessica olhou para a mãe com um sorriso, acompanhado de um encolher de ombros.

            — Foste tu que me ensinaste a questionar aquilo que ouço e a ser exigente com respeito às notícias — recordou a filha.

            — Eu fiz isso? — As duas trocaram um sorriso termo e cúmplice. Melanie sentia-se orgulhosa de Jess, a qual por seu turno também se sentia orgulhosa da mãe. Ambas as gêmeas tinham orgulho nela e achavam-na uma mãe extraordinária. As três haviam partilhado alguns anos bem difíceis. Isso as aproximara bastante.

‘           Mãe e filha trocaram outro olhar demorado. De certa forma, Melanie era apenas um tudo-nada mais afetuosa do que a sua filha mais velha. Mas era fruto de outra geração, de um outro estilo de vida e de um mundo diferente. E, tendo em consideração a época em que tinha nascido, Melanie conseguira ir longe. No entanto, estava certa de que Jessica conseguiria ir ainda mais longe; seguiria em frente ainda com maior determinação do que aquela que ela própria mostrara.

            — Onde é que está a Valerie?

            — No quarto dela — replicou Jessica.

            — Como é que vão as coisas na escola?

            — Vão bem. — Todavia, a mãe pareceu ver uma expressão um pouco desanimada; Jessica, adivinhando os pensamentos dela, procurou de novo os seus olhos. — Hoje vi o John.

            — E como é que te sentiste?

            — Doeu cá dentro.

            Melanie acenou com a cabeça e sentou-se na beira da cama, sentindo-se grata pela franqueza de diálogo que ambas sempre haviam partilhado.

            — O que é que ele disse?

            — Só disse olá. Não sei bem, ouvi dizer que ele anda com outra rapariga qualquer.

            — Isso deve ser difícil para ti. — Naquela altura já tinha passado quase um mês e Melanie sabia que aquele fora o primeiro grande desgosto que Jessica sofrera desde que começara a escola.

            A rapariga sempre fora uma das melhores da turma, rodeada de amigos e amigas, e tivera sempre atrás de si os melhores rapazes da escola desde que fizera treze anos. Pouco lhe faltava para completar os dezesseis anos quando sofreu o primeiro desgosto de amor.

            Nessa ocasião, doera quase tanto a Melanie assistir ao desgosto da filha como à própria Jess.

            — Já te esqueceste das ocasiões em que ele costumava enervar-te?

            — Costumava? — retorquiu Jessica, mostrando-se surpreendida.

            — Sim, minha menina. Recordas-te daquele dia em que ele apareceu uma hora atrasado para te levar a uma festa? De quando foi esquiar com os amigos, em vez de te levar ao jogo de futebol? Daquela vez em que... — Melanie recordava-se de todos aqueles incidentes. Mantinha-se bem a par da vida das filhas.

Jessica sorriu.

            — Okay, okay — concordou ela. — Portanto, ele é um estupor. De qualquer forma, gosto dele.

            — Dele ou de teres alguém que se interesse por ti? — perguntou Melanie.

            Fez-se um momento de silêncio no quarto e Jessica olhou para a mãe com uma expressão de surpresa.

            — Sabes, mamãe. Não tenho bem a certeza — admitiu. Sentia-se um pouco atordoada. Aquela incerteza constituía uma revelação para a rapariga.

            — Não é caso para te sentires sozinha — continuou Melanie com um sorriso. — Metade dos relacionamentos que existem em todo o mundo mantêm-se exatamente por esse mesmo motivo.

            Jessica fitou a mãe demoradamente; tinha conhecimento do quão difíceis eram os padrões que a mãe impunha a si própria, o quanto ela tinha sofrido, as precauções que tomava para não se envolver no plano sentimental. Às vezes, aquela atitude fazia com que Jess sentisse pena da mãe. Melanie necessitava da companhia de um homem. Havia algum tempo, a filha sentira-se esperançada de que essa pessoa fosse Grant, mas há já muito que se apercebera de que o destino não queria que assim fosse. Antes de poder acrescentar qualquer coisa mais, a porta abriu-se e Valerie entrou no quarto.

            — Olá, mamãe! — Após aquela saudação, viu a expressão de seriedade que tanto uma como a outra mostravam. — Querem que me vá embora?

            — Não — respondeu Melanie com rapidez, abanando a cabeça. — Olá, meu amor.

            Com um sorriso, Valerie inclinou-se para poder dar um beijo à mãe, que continuava sentada na beira da cama.

            Tinha umas feições tão diferentes das de Melanie e de Jessica que qualquer pessoa poderia perguntar se eram da mesma família. Era mais baixa do que a mãe e a gêmea, mas possuía um corpo de formas voluptuosas que fazia com que os homens se babassem quando ela passava. Os seus seios eram grandes e generosos, tinha uma cintura muito fina, ancas arredondadas, pernas bem feitas e uma farta cabeleira loura que quase lhe chegava à cintura. Havia ocasiões em que Melanie não podia deixar de observar as reações que a sua filha provocava nos homens e que a enfureciam visivelmente. Até mesmo Grant se mostrara bastante surpreendido ao vê-la, ainda não havia muito tempo.

            — Por amor de Deus, Mel, põe um saco a tapar a cabeça dessa miúda até ela fazer vinte e cinco anos. Caso contrário, vai enlouquecer os homens todos da vizinhança.

            Melanie, porém, respondera-lhe com um sorriso pesaroso.

            — Não me parece que o fato de pô-lo somente a tapar-lhe a cabeça venha a ter qualquer efeito — retorquira ela.

            Mantinha-se muito atenta em relação a Valerie, mais ainda do que com Jessica, uma vez que parecia fácil adivinhar de imediato que Valerie era demasiado aberta e muito ingênua. Mostrava-se esperta, mas não tão inteligente quanto Jess; grande parte do seu encanto residia no fato de se manter quase totalmente alheia ao efeito que provocava. Entrava e saía com toda a despreocupação de uma sala, com o à-vontade e a atitude de uma criança de três anos, deixando os homens com a respiração ofegante depois de ter saído, enquanto, como se não fosse nada com ela, ia aos seus afazeres.

            Na escola era sempre Jessica quem se mantinha de olho na irmã e, atualmente, essa vigilância era ainda mais apertada. Jess dava-se bem conta do aspecto físico da irmã e Valerie tinha duas mães a vigiá-la.

            — Esta noite, vimos-te no noticiário. Estiveste muito bem — disse Val.

            Mas ao contrário da irmã, não explicou por que razão; não analisou nem criticou e, de uma maneira engraçada, aquilo que se passava dentro da cabeça de Jessica proporcionava-lhe uma beleza que era quase maior do que a da sua deslumbrante irmã gêmea. Juntas, formavam um par inigualável: uma de cabelos ruivos, alta e esbelta, a outra loura, com umas formas muito voluptuosas. — Esta noite jantas conosco?

            — Com certeza que sim. Recusei um convite do Grant para poder jantar com vocês duas — afirmou a mãe.

            — Por que é que não o trouxeste contigo? — perguntou Val cheia de pena.

            — Porque às vezes gosto de desfrutar da vossa companhia sem a presença de mais ninguém. Posso estar com ele em qualquer outra altura — respondeu Melanie.

            Valerie encolheu os ombros e Jessica acenou com a cabeça. Naquele instante, Raquel chamou-as pelo intercomunicador para que fossem para baixo. Val foi a primeira a dirigir-se para o aparelho na parede.

            — Está bem, vamos já — disse ela, voltando-se para a mãe e irmã. — O jantar está pronto e a Raquel parece estar toda lixada.

            — Val! — exclamou Melanie. — Não uses essa linguagem.

            — E por que não? Toda a gente fala assim.

            — Isso não é razão que justifique que tu o faças. — Com estas palavras da mãe, o trio começou a descer as escadas, enquanto tagarelavam acerca do que lhes acontecera naquele dia. Mel contou-lhes tudo sobre o programa acerca das crianças maltratadas, falando-lhes mesmo da história de Pattie Lou Jones, a menina necessitada de um transplante do coração, para a qual Melanie fora encarregada de encontrar solução, ou pelo menos tentar.

            — Como é que vai conseguir fazer isso, mamãe? — perguntou Jess, intrigada. Adorava histórias daquele gênero e, em sua opinião, a mãe conseguia escrevê-las e apresentá-las extremamente bem.

            — O Grant prometeu dar-me alguns nomes. No ano passado apresentou um programa em que participaram quatro dos maiores especialistas em transplantes do coração e as pessoas do departamento de pesquisa da televisão também poderão facultar-me algumas pistas.

            — Deve dar um bom programa.

            — A mim parece-me repulsivo — declarou Valerie com uma expressão de desagrado enquanto entravam na sala de jantar, onde Raquel as brindou com cara de poucos amigos.

            — Estão convencidas de que eu vou ficar à vossa espera toda a noite? — resmungou ela em voz alta, apressando-se a sair pela porta de mola, ao mesmo tempo em que mãe e filhas trocavam um sorriso.

            — Ela dava em maluca se não pudesse protestar — segredou Jessica a ambas, o que lhes provocou um riso que desapareceu, dando lugar a umas caras sérias porque Raquel entretanto regressara, trazendo uma travessa com rosbife.

            — Tem ótimo aspecto, Raquel! — elogiou Val sem perder tempo, tendo sido a primeira a servir-se.

            — Huummm — resmungou a governanta, que saiu de novo para regressar com batatas assadas e brócolis que ainda fumegavam.

            As três instalaram-se à mesa para partilhar um jantar calmo e uma noite tranqüila passada em casa. Aquele era o único lugar na vida de Melanie onde ela podia libertar-se total e completamente das notícias.

 

            — Sally? Sally?

            A doente tinha passado o dia a acordar por escassos momentos para logo a seguir voltar a perder a consciência. Peter Hallam fora ao seu quarto umas cinco ou seis vezes. Era apenas o segundo dia a seguir à cirurgia, pelo que era difícil prever como seria a recuperação; no entanto, o médico era forçado a admitir que não se encontrava totalmente satisfeito. Por fim, Sally abriu os olhos e, reconhecendo-o, brindou-o com um sorriso caloroso. Peter puxou uma cadeira e sentou-se, agarrando-lhe a mão.

            — Como é que está a sentir-se hoje?

            — Não estou muito bem — respondeu ela num murmúrio.

            — Ainda é demasiado cedo — retorquiu o médico com um acenar de cabeça. — Vai ver que a cada dia que passar se sentirá mais forte. — Peter parecia estar a tentar instilar-lhe a sua própria força através do tom de voz e das palavras, mas ela começou a abanar a cabeça com lentidão, num sinal de desânimo. — Já alguma vez lhe menti? — perguntou o cirurgião.

            Sally abanou a cabeça de novo e falou outra vez, apesar do tubo nasogástrico lhe provocar desconforto, arranhando-lhe o fundo da garganta.

            — Não vai resultar — continuou ela a medo.

            — Se a Sally o desejar de verdade, vai ver que resultará — assegurou-lhe Peter. Sentiu que tudo o que havia dentro de si começava a ficar sob pressão. Ela não podia dar-se ao luxo de pensar daquela maneira. Muito menos naquele momento tão crítico da sua vida.

            — O meu organismo vai rejeitar o coração — continuou Sally numa voz sussurrada.

            O médico abanou a cabeça com obstinação, sentindo um músculo do maxilar a contrair-se. Raios, porque estaria ela pronta a desistir? E como é que sabia? Fora precisamente aquilo que o médico receara o dia todo. Apesar desse risco,

            Sally não deveria desistir de lutar pela sua vida. Não podia. Caramba, era o que se tinha passado com Anne! Por que motivo é que elas perdiam subitamente toda a vontade de lutar? Fora a batalha mais encarniçada que tivera de enfrentar. Pior do que a medicação, que a rejeição e as infecções. Conseguiam lidar com tudo isso até certo ponto, mas apenas se o doente tivesse vontade de viver. Se acreditasse que viveria. Sem esse desejo, tudo estaria votado ao fracasso.

            — A Sally está a recuperar muito bem — asseverou Peter. As suas palavras estavam imbuídas de determinação e firmeza. Ficou sentado à cabeceira da sua doente durante mais de uma hora, segurando-lhe na mão.

            Em seguida, foi fazer a ronda aos outros doentes; em todos os quartos em que entrava, concentrava toda a sua atenção no doente que examinava, passando tanto tempo quanto era necessário para lhe explicar as intervenções cirúrgicas que seriam realizadas dentro em pouco ou a falar das que já haviam tido lugar. O tema abordado era a forma como os doentes se sentiam, o porque do seu estado, as reações que os medicamentos, nomeadamente os corticóides, haviam provocado ou qual o efeito secundário que poderiam vir a ter.

            Depois de concluída a ronda, regressou de novo ao quarto de Sally, mas esta estava a dormir uma vez mais. Peter deixou-se ficar junto dela durante muito tempo, enquanto a observava atentamente. Não lhe agradava aquilo que via. Ela tinha razão; o médico sentia-o no mais fundo do seu ser. O organismo de Sally entrara num processo de rejeição do coração que lhe fora doado, e não havia razão para que tal estivesse a acontecer. Existira compatibilidade entre o órgão doado e o organismo de Sally. No entanto, Peter sentia instintivamente que a intervenção cirúrgica fora demasiado tardia para aquela doente. Saiu do quarto e foi invadido por um sentimento de perda iminente que lhe pesava sobre os ombros como se fosse um fardo de chumbo.

            O Dr. Hallam dirigiu-se para o pequeno cubículo que lhe servia de gabinete sempre que se encontrava naquele piso do hospital e ligou para o seu outro gabinete, perguntando se necessitavam da sua presença.

            — Está tudo bem, senhor doutor — informou uma voz com um timbre que denotava eficiência. — Acabou de chegar para si um telefonema, de Nova Iorque.

            — Quem era? — perguntou o cirurgião sem parecer demasiado interessado naquela chamada; o mais provável era ter sido um outro cirurgião a pedir a sua opinião num caso difícil, mas os seus pensamentos estavam preenchidos por Sally Block; Peter tinha esperança de que, fosse qual fosse o motivo do telefonema, este pudesse ficar para mais tarde.

            — A Melanie Adams, do noticiário do Canal Quatro — esclareceram do outro lado da linha.

            Até mesmo Peter sabia quem ela era, apesar de por vezes se manter extremamente afastado do mundo exterior. Não era capaz de compreender o que a teria levado a telefonar-lhe.

            — Ela disse-lhe o que é que pretendia? — perguntou.

            — Não quis dizer, pelo menos não entrou em pormenores. Disse somente que era urgente, qualquer coisa acerca de uma menina.

            Ao ouvir aquilo, Peter soergueu uma sobrancelha; até mesmo as mulheres que trabalhavam nos noticiários da televisão tinham filhos. Talvez aquele telefonema se relacionasse com um filho de Melanie. Anotou o número de telefone que ela deixara, olhou para o relógio de pulso e começou a fazer a ligação.

            Quem atendeu do outro lado da linha transferiu a chamada de imediato.

            Melanie atravessou a correr a parte da sala da redação para atender o telefone.

            — Doutor Hallam? — perguntou ela com a respiração ofegante.

            Do outro lado, a voz de Peter era máscula e profunda.

            — O próprio. Deram-me um recado, dizendo que a senhora tinha telefonado.

            — Telefonei, sim. Não estava à espera de que me ligasse com tanta prontidão. O nosso departamento de pesquisa facultou-me o seu nome — começou Melanie a explicar. Além disso, ela já ouvira o nome do médico em diversas ocasiões, mas como este vivia na Costa Oeste, não lhe ocorrera entrar em contato com ele.

            Os quatro nomes que Grant lhe dera não lhe haviam produzido quaisquer resultados positivos. Nenhum estava disposto a realizar a intervenção cirúrgica na pequenita de raça negra. A publicidade assustava-os em demasia, além de que a operação teria de ser efetuada a título gratuito. Melanie também já tinha telefonado a um cirurgião de alguma nomeada que vivia em Chicago e fora informada de que o médico se encontrava presentemente na Inglaterra e na Escócia a efetuar um circuito de palestras. Em poucas palavras, explicou ao Dr. Hallam a situação da pequenita e o médico fez-lhe algumas perguntas pertinentes; naquele momento, Melanie já se encontrava preparada para poder responder. Inteirara-se de bastante num só dia, ao falar com os outros quatro médicos.

            — Pelo que me diz, parece ser um caso bastante interessante — observou Peter. — O que é que a senhora tem a ganhar com este assunto? — perguntou abruptamente.

            Melanie ficou sem fôlego; era difícil responder àquela pergunta.

            — À primeira vista, doutor, uma reportagem para a minha cadeia de televisão acerca de um médico que é capaz de sentir compaixão de uma menina desesperadamente doente e, por último, de como é que os transplantes se efetuam.

            — Tudo isso faz sentido, embora eu não tenha bem a certeza se o aspecto da publicidade me agrada. Além do mais, é extremamente difícil encontrar um doador para uma criança. O mais provável seria tentarmos algo um pouco mais fora do vulgar.

            — O que é que pretende dizer com isso? — perguntou Melanie, intrigada.

            — Tudo depende da gravidade do estado da pequenita. Primeiro gostaria de poder examiná-la. É muito possível que decidamos reparar o seu próprio coração que depois voltaremos a colocar dentro do peito.

            Melanie franziu a testa. Aquele processo poderia criar uma verdadeira celeuma.

            — Parece-lhe que esse método resultaria? — inquiriu ela pouco convencida.

            — Às vezes obtemos bons resultados. Os médicos dela são da opinião de que não haverá riscos se ela tiver de viajar? — acrescentou Peter.

            — Não sei. Tenho de me informar. Isso quer dizer que estaria preparado para operá-la?

            — Talvez sim. Mas por causa dela e não por si. — Uma vez mais, Peter Hallam expressava-se com toda a franqueza, mas Mel não o levava a mal. O médico estava a prontificar-se a operar a criança e não a oferecer-se para um espetáculo no noticiário. Ela respeitava-o por aquela atitude.

            — Está pronto a conceder-nos uma entrevista?

            — Sim — respondeu ele, expressando-se sem mostrar qualquer apreensão. — Apenas desejo deixar bem clara a razão que me levaria a fazer essa intervenção cirúrgica. Além de médico, também sou um cirurgião empenhado naquilo que faço. Não pretendo transformar toda esta situação num circo.

            — Eu nunca lhe faria uma coisa dessas — retorquiu Melanie. Peter já tinha visto as reportagens dela na televisão, o que o levava a acreditar que o que ela dissera era verdade. — Apesar disso, gostaria muito de entrevistá-lo. E se decidir fazer o transplante de Pattie Lou, a operação seria o começo de uma reportagem bastante interessante.

            — Acerca de que? De mim? — perguntou Peter, chocado, como se aquela hipótese jamais lhe houvesse ocorrido.

            Do outro lado da linha, Melanie sorriu. Seria possível que ele não se apercebesse do quanto o seu nome era conhecido? Estaria tão envolvido no seu trabalho que realmente não se dava conta desse fato? Talvez não prestasse grande atenção a esse aspecto da sua vida profissional. Aquela possibilidade intrigava Melanie.

            — Se preferir, o tema seria a cirurgia cardiovascular e os transplantes de uma maneira geral — acrescentou ela.

            — Prefiro, sim — respondeu Peter.

            Melanie pressentiu um sorriso na voz dele e continuou a conversa.

            — Isso poderia arranjar-se. E quanto à Pattie Lou? — inquiriu.

            — Dê-me o nome do médico dela. Vou telefonar e veremos o que é que consigo ficar a saber a partir deste momento.

            Se o estado de saúde da pequenita permitir uma operação, ela será enviada para aqui e depois logo se vê o que é que se pode fazer. — Nessa altura ocorreu-lhe outro pensamento. — Os pais dela estão de acordo com tudo isto?

            — Parece-me que sim. Mas também preciso falar com eles. Eu sou uma espécie de casamenteira em todo este assunto — retorquiu Melanie com um sorriso.

            — Aparentemente, assim é. Bom, pelo menos é por uma boa causa. Espero que possamos ajudar essa criança.

            — Também eu. — Fez-se um pequeno silêncio entre eles e Melanie sentiu, como por milagre, que tinha ido parar nas mãos certas, bem como Pattie Lou. — Quer que eu volte a telefonar-lhe ou telefona o senhor?

            — Neste momento, estou a braços com uma situação crítica no hospital. Telefono-lhe eu. — Subitamente, Peter exprimia-se outra vez num tom de grande seriedade, como se estivesse abstraído do assunto que ambos haviam discutido.

            Melanie agradeceu-lhe uma vez mais, após o que ele desligou o telefone.

            Naquela mesma tarde, Melanie foi visitar os Jones e a filha que estava tão desesperadamente doente; Pattie Lou conquistava o coração de qualquer pessoa e os pais mostraram-se encantados perante a ínfima hipótese de esperança que Melanie lhes oferecera. Os seus meios financeiros eram pouco abundantes, mas permitiam-lhes custear o bilhete de avião até Los Angeles, pelo menos para a viagem de um dos progenitores e o pai da criança disse de imediato que seria preferível que a mulher acompanhasse a filha. Tinham mais filhos em casa, todos mais velhos do que a criança que sofria do coração, e Mr. Jones pensava que poderiam desvencilhar-se sem a presença da mãe. Mrs. Jones começou a chorar. Os olhos do marido também estavam umedecidos quando se despediu de Melanie.

            Duas horas depois de ela ter regressado ao seu gabinete, o Dr. Peter Hallam telefonou outra vez. Já falara com os médicos de Pattie Lou e, de acordo com o prognóstico destes, valia a pena correr os riscos inerentes da viagem. Era a única esperança que restava à pequenita. Peter Hallam estava na disposição de aceitar o caso.

            Depois de ter visto Pattie Lou naquela mesma tarde, Melanie sentiu de imediato as lágrimas a assomarem-lhe aos olhos. Quando voltou a falar, a sua voz estava enrouquecida de emoção.

            — Não há dúvida de que o senhor é um homem muito generoso.

            — Muito agradecido — retorquiu Peter com um sorriso.

            — Daqui a quanto tempo acha que consegue arranjar as coisas para que ela possa viajar?

            — Não tenho a certeza. Vou por o pessoal da televisão a tratar de todos os pormenores. Quando é que quer que ela chegue ao hospital?

            — A julgar pelo que os médicos dela dizem, não me parece que amanhã seja cedo demais.

            — Vou ver o que posso fazer. — Melanie olhou para o relógio; estava quase na hora do noticiário da noite. — Dentro de algumas horas voltaremos a entrar em contato consigo e, doutor Hallam, estou-lhe muito agradecida.

            — Não me agradeça. Faz parte do meu trabalho. Só espero que nos compreendamos acerca de todo este assunto. Estou pronto a operar gratuitamente, para bem da criança. No entanto, não permitirei a presença de câmaras no bloco operatório. Aquilo que a senhora tem a haver é uma entrevista depois de estar tudo terminado. Estamos de acordo?

            — De acordo — retrucou Melanie. Em seguida, não conseguiu resistir à tentação de conseguir algo mais. Tinha uma obrigação para com a cadeia televisiva onde trabalhava, para já não mencionar para com os patrocinadores. — Será que podemos entrevistá-lo, focando também outros casos?

            — Concretamente em que aspectos? — indagou ele. Naquele momento, a voz do médico dava a impressão de uma grande desconfiança em relação a Melanie.

            — Gostaria muito de fazer uma reportagem sobre o transplante de corações, enquanto estiver aí consigo, doutor. Vê qualquer inconveniente nisso? — perguntou.

            Talvez ele tivesse alguma opinião preconcebida a seu respeito. Esperava que assim não fosse; no entanto, nunca se sabia. Talvez o Dr. Hallam detestasse a maneira como ela apresentava o noticiário. Ao fim e ao cabo, também era difundido na Califórnia, pelo que ela não poderia ser-lhe totalmente desconhecida.

            É claro que não era esse o caso. Os receios de Melanie não tinham qualquer fundamento, como verificou quando ele concordou com a sua proposta.

            — É claro que estou de acordo. Não há qualquer problema no que me pede.

            Houve um momento de silêncio, quebrado por Peter.

            — É estranho discutir-se uma vida em termos de uma reportagem. — Pensava em Sally, prestes a atravessar um processo de rejeição maciça. Ela não era uma história, mas sim uma rapariga de vinte e dois anos; uma vida humana, tal como aquela criança em Nova Iorque.

            — Quer acredite, quer não, mesmo depois de todos estes anos, ainda me é bastante difícil abordar este gênero de assunto nesses termos — retorquiu Melanie, respirando fundo, ao mesmo tempo em que se interrogava se ele estaria a pensar que ela era uma pessoa empedernida. Mas a realidade era que as notícias, por vezes, eram mesmo assim. — Eu entro em contato consigo mais tarde, para lhe dizer quando é que chegamos.

            — Vou preparar tudo aqui no hospital para receber a criança.

            — Muito obrigada, doutor.

            — Não são necessários quaisquer agradecimentos; tudo isto faz parte do meu trabalho, Mistress Adams.

            Melanie pensou que se tratava de uma tarefa muito mais nobre do que a difusão televisiva. Depois de ter desligado o telefone, começou a pensar no que ele dissera, enquanto tratava do que era necessário fazer para que Pattie Lou, acompanhada da mãe, pudesse partir para a Califórnia.

            Em menos de uma hora já tinha tratado de tudo, desde a ambulância que as levaria de casa até ao aeroporto, a assistência especial durante o vôo, uma enfermeira para acompanhar Pattie Lou, a qual seria remunerada pela cadeia de televisão, uma equipe de filmagens que se lhes reuniria desde a partida, acompanhando-as ao longo do percurso até a Califórnia. Melanie também tratou de arranjar uma equipe similar que continuaria com elas em Los Angeles; tratara ainda das reservas no hotel para si própria, sem esquecer a mãe de Pattie Lou, assim como a equipe de filmagens.

            Tudo o que lhe restava fazer era informar o Dr. Peter Hallam de todos aqueles preparativos; Melanie deixou uma mensagem nos serviços do hospital onde o médico operava. Aparentemente, ele não se encontrava disponível quando ela voltou a ligar algumas horas mais tarde. Naquela mesma noite, Melanie informou as gêmeas de que iria para a Califórnia durante alguns dias.

            — Para que? — Como de costume, Jessica fora a primeira a perguntar, e Melanie explicou a ambas as filhas o que estava a passar-se.

            — Ena, mamãe! Está a tornar-te uma verdadeira paramédica — comentou Val, divertida.

            Melanie voltou-se para ela, soltando um suspiro de cansaço.

            — Esta noite é como me sinto. Apesar dos inconvenientes, tudo isto deverá proporcionar uma boa história.

            Outra vez aquela palavra: história, em paralelo com uma vida humana. O que é que aconteceria se fosse Valerie ou Jessica que se encontrassem naquela situação? Numa situação dessas, como é que ela se sentiria? Até que ponto é que isso seria uma história para si? Sentiu-se arrepiada por dentro com aquele pensamento, compreendendo uma vez mais a reação do Dr. Peter Hallam ao ouvir o termo. Melanie também perguntou a si mesma o que é que sentiria ao conhecê-lo pessoalmente; interrogava-se se ele seria uma pessoa simpática, com quem fosse fácil trabalhar, ou se seria terrivelmente egocêntrico. Ao telefone não lhe parecera que o fosse, mas sabia que a maioria dos cardiocirurgiões gozava daquela reputação. Todavia, Peter dera-lhe a impressão de ser diferente. Embora não o conhecesse, Melanie tinha gostado da sua maneira de falar, além de respeitar profundamente a vontade que o médico mostrara em ajudar Pattie Lou Jones.

            — Está com um ar cansado mamãe — comentou Jessica, que tinha estado a olhar fixamente para a mãe.

            — E estou — concordou Melanie.

            — Amanhã a que horas é que te vais embora? — perguntou a filha.

            As gêmeas já estavam acostumadas às suas idas e vindas, sentindo-se bem na companhia de Raquel quando a mãe se ausentava. Sempre que Melanie tinha de ir para fora, a governanta ficava com as gêmeas; quando isso acontecia nunca era por muito tempo.

            — Estou a pensar em sair de casa às seis e meia da manhã. O nosso vôo está marcado para as nove e combinei encontrar-me com a equipe de filmagens à porta da casa dos Jones. Imagino que terei de me levantar às cinco horas.

            — Que horror! — As duas raparigas fizeram uma careta e Melanie esboçou um sorriso.

            — Exatamente. É uma vida que nem sempre é tão atraente como parece, não é verdade, meninas?

            — Podes crer — retorquiu Val com rapidez.

            Ambas conheciam todos os aspectos da carreira da mãe, o quanto ela trabalhava e com que freqüência ficara de pé à porta da Casa Branca, a gelar sob tempestades de neve; como cobrira também acontecimentos hediondos em selvas distantes, assassínios políticos e outros eventos de natureza cruel. Ambas as filhas a respeitavam ainda mais por essas circunstâncias, embora nenhuma das duas lhe invejasse a profissão nem ansiasse por uma carreira semelhante. Val pensava que gostaria apenas de se casar, enquanto Jess estava decidida a seguir Medicina.

Depois do jantar, Melanie acompanhou as duas até ao andar de cima, fez a mala para a viagem até a Costa Oeste e foi para a cama cedo. Segundos depois de ter desligado a luz da mesa-de-cabeceira, Grant telefonou-lhe para lhe perguntar se a lista que lhe dera de manhã com o nome dos médicos tinha servido para alguma coisa.

            — Nenhum deles se prontificou a dar o seu contributo, mas o departamento de pesquisa da estação deu-me o número de telefone do doutor Peter Hallam. Telefonei-lhe para Los Angeles e amanhã temos um vôo marcado para irmos até lá.

            — Tu e a miúda? — Grant parecia ter ficado surpreendido.

            — E com a mãe e uma equipe de filmagens.

            — O circo completo.

            — Tenho a impressão de que foi assim que o Hallam se sentiu, ao tomar conhecimento destes preparativos. — De fato, o médico até tinha utilizado a mesma palavra.

            — Estou admirado por ele ter concordado.

            — Ao telefone pareceu-me ser uma pessoa bastante simpática.

            — É o que as pessoas dizem de uma maneira geral. Com certeza que ele não tem necessidade da publicidade, apesar de manter em público um perfil mais modesto do que os outros cirurgiões da sua especialidade. Em minha opinião, isso se deve a uma escolha sua. Ele deu-te autorização para filmar a operação da miúda?

            — Não — respondeu Melanie. — Mas prometeu-me uma entrevista para depois da intervenção. Além do mais, nunca se sabe, até é possível que ele mude de idéia depois de nós chegarmos a Los Angeles.

            — Talvez sim. Telefona-me quando regressares, miúda, e tenta não te meteres em sarilhos.

            Era o seu conselho habitual e Melanie sorriu enquanto voltava a desligar o candeeiro alguns minutos mais tarde.

            Entretanto, na zona oposta do país, Peter Hallam não sorria. O organismo de Sally Block iniciara um processo de franca rejeição e, no espaço de uma hora, ela tinha entrado em coma. O médico ficou junto da doente até perto da meia-noite, saindo do quarto somente para falar com a mãe da rapariga até que, finalmente, permitiu à pesarosa senhora que se lhe juntasse à cabeceira da filha.

            Não existia qualquer razão para que assim não fosse. O receio de a doente vir a contrair uma infecção deixara de ter a mínima relevância e, à uma hora daquela madrugada, hora de Los Angeles, Sally Block faleceu sem ter voltado a recobrar a consciência para poder ver a mãe ou o médico em que tanto havia confiado. A mãe saiu do quarto em silêncio, arrasada, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces abaixo. A guerra de Sally chegara ao fim. O Dr. Peter Hallam assinou a certidão de óbito, após o que foi para casa e sentou-se no seu gabinete, completamente às escuras a fitar a noite e a pensar em Sally e Anne, assim como noutras pessoas que haviam passado pela mesma situação.

            Duas horas mais tarde, no momento em que Melanie saía de casa para se dirigir ao apartamento dos Jones, em Nova Iorque, ele encontrava-se ainda no mesmo lugar. Naquela altura, Peter Hallam nem sequer pensava em Pattie Lou Jones, nem tão pouco em Melanie Adams, somente em Sally, a bonita rapariga loura de vinte e dois anos que agora desaparecera, da mesma maneira que Anne. Como tantos outros. Em seguida, lentamente, sentindo o peso do mundo sobre os seus ombros, Peter dirigiu-se para as escadas e subiu até o quarto, fechando a porta e sentando-se na cama, no meio do silêncio que reinava por toda a casa.

            — Lamento tanto!

            As palavras foram sussurradas e ele nem sequer tinha a certeza a quem é que se destinavam: à sua mulher, aos filhos, a Sally, aos pais dela, a ele próprio. Pouco depois, as lágrimas surgiram, caindo suavemente enquanto ele se deitava no meio da escuridão, lamentando no mais fundo da sua alma aquilo que não havia sido capaz de fazer daquela vez. Naquela ocasião não lhe fora possível, mas da próxima vez... Talvez da próxima vez... E foi então que, finalmente, Pattie Lou entrou nos seus pensamentos. Não lhe restava nada a fazer além de tentar de novo. Houve algo, bem no seu âmago, que se agitou perante aquela perspectiva.

 

            O avião descolou do Aeroporto J. F. Kennedy, levando a bordo Melanie, a equipe de filmagens, a enfermeira, Pattie Lou e a mãe, todos eles em segurança, sentados numa seção da primeira classe, interdita ao resto dos passageiros do avião. Pattie recebia soro por via intravenosa e a enfermeira que a assistia parecia ser extremamente eficiente. Fora recomendada pelo próprio médico que prestara assistência à Pattie.

            Melanie deu consigo a rezar, pedindo que dali até chegarem a Los Angeles não acontecesse nada fora do normal. Uma vez chegados, ela sabia que estariam nas mãos competentes do Dr. Peter Hallam, mas, antes disso, a idéia que Mel fazia de um pesadelo era serem forçados a aterrar em Kansas com uma criança a morrer e a sofrer de uma paragem cardíaca, antes de conseguirem chegar junto do médico na Califórnia. Rezava fervorosamente para que tal não viesse a suceder.

            Fizeram uma viagem tranqüila até Los Angeles, para cujo aeroporto o Dr. Hallam enviara dois membros da sua equipe, que os aguardavam com uma ambulância. Pattie Lou, acompanhada da mãe, seguiu no veículo para o Hospital Central. De acordo com o que fora combinado previamente, Melanie não foi com elas.

            Peter queria permitir à criança tempo suficiente para se ambientar, sem que houvesse qualquer interferência, tendo concordado em encontrar-se com Melanie no refeitório, às sete horas da manhã do dia seguinte. Nessa altura, pô-la-ia ao corrente da situação de Pattie Lou, assim como a informaria quanto à forma como planeavam tratá-la.

            Melanie poderia levar consigo um bloco de apontamentos e um gravador; no entanto, durante esse encontro, estava interdita a presença da equipe de filmagens. A entrevista oficial teria lugar mais tarde. Apesar de todas aquelas restrições, Mel chegou à conclusão de que se sentia grata pela pausa, que lhe permitia manter-se afastada de toda aquela tensão clínica, e seguiu para o hotel, de onde telefonou às gêmeas. Tomou um duche, trocou de roupa e decidiu dar uma volta pelas proximidades do hotel, desfrutando da agradável temperatura primaveril, com os seus pensamentos centrados em Peter Hallam. Sentia uma curiosidade enorme em conhecer o cirurgião. Às seis horas da manhã seguinte, levantou-se apressadamente e seguiu no automóvel alugado para o hospital.

            Os saltos dos sapatos de Melanie batiam ritmadamente no chão de azulejos enquanto virava à esquerda depois de ter percorrido um corredor que parecia não ter fim. Passou por dois empregados da limpeza que arrastavam esfregonas molhadas atrás de si. Os homens observavam-na com uma expressão apreciativa até ela se ter detido do lado de fora da cafetaria para ler a placa. Depois, empurrou as portas duplas.

            Chegou-lhe às narinas o aroma rico de café acabado de fazer. Enquanto Melanie percorria com o olhar a sala brilhantemente iluminada, ficou surpreendida ao ver o número de pessoas que ali se encontrava àquela hora da manhã.

            Nas mesas, viam-se enfermeiras entre turnos a tomar café e o pequeno-almoço, alguns estagiários a fazer um intervalo, médicos internos que davam por terminada uma noite longa com uma refeição quente ou um sanduíche, além de uma ou duas pessoas, que não pertenciam ao corpo clínico, sentadas nas mesas fora da zona central do refeitório, mostrando um semblante acabrunhado e que deviam ter permanecido acordadas durante toda a noite, à espera de notícias de amigos ou familiares gravemente doentes.

            Havia também uma mulher que chorava de mansinho, limpando os olhos com um lenço, na companhia de outra mais jovem que também chorava, apesar de tentar consolar a outra. Era uma cena estranha e cheia de contrastes: o cansaço silencioso dos jovens médicos, a tagarelice e jovialidade das enfermeiras, a tristeza e a tensão sentida pelas pessoas que estavam de visita a doentes e, como ruído de fundo, o entrechocar dos tabuleiros e o ruído da água fumegante que se espalhava pela louça suja no interior das eficientes máquinas de lavar.

            Aquela sala assemelhava-se a um centro de operações de uma qualquer cidade moderna e estranha, o posto de comando de uma nave a atravessar o espaço, totalmente divorciada do resto do mundo.

            Enquanto Melanie observava o que se passava à sua volta, perguntava a si mesma qual seria a figura de bata branca que corresponderia a Peter Hallam. Havia uns quantos homens de meia-idade com batas brancas, que conferenciavam com toda a solenidade sentados a uma mesa a comer bolos e a beber café; mas, de certa forma, nenhum deles se ajustava à idéia que Melanie havia formado dele e nenhum se aproximara dela. Pelo menos, o médico sabia qual era o aspecto físico dela.

            — Mistress Adams?

            Sentiu-se sobressaltada pela voz que soara diretamente por detrás de si e rodou sobre o salto de um sapato, ficando de frente para ele.

            — Sim?

            — Eu sou Peter Hallam — apresentou-se o médico, estendendo uma mão fria e vigorosa.

            Enquanto Melanie lhe apertava a mão, deu consigo a erguer o olhar para aquele rosto de traços marcados, bem-parecido e de contornos perfeitos, pertencente a um homem de olhos azuis e de cabelos grisalhos. Nos seus olhos bailava um sorriso que contudo não chegava aos lábios. Não obstante as conversas que tinham mantido ao telefone, ele não era nada como ela esperara encontrar. Melanie havia concebido uma imagem mental do cirurgião completamente diferente.

            Ele era muito mais alto e tinha uma constituição física tão avantajada que os ombros ameaçavam não caber na bata branca bem passada a ferro que usava por cima da camisa azul, complementada por uma gravata escura e calças cinzentas; adivinhava-se imediatamente que jogara futebol nos seus tempos de faculdade.

            — Já está à espera há muito tempo?

            — Não, de maneira nenhuma — redargüiu Melanie e seguiu-o até uma mesa, sentindo-se menos em controle da situação do que teria desejado. Estava acostumada a provocar um certo impacto nas pessoas com quem falava e, naquela situação, tinha a impressão de que estava simplesmente a ser arrastada por ele. Aquele homem tinha um magnetismo extraordinário.

            — Toma café? — perguntou Peter.

            — Sim, por favor — aceitou ela.

            Os olhos de ambos cruzaram-se e prenderam-se, cada um deles a perguntar a si próprio o que encontraria no outro: um amigo ou inimigo, um apoiante ou um opositor. Contudo, pelo menos de momento, os dois tinham uma coisa em comum: Pattie Lou Jones. Melanie estava ansiosa por lhe fazer perguntas sobre a criança.

            — Nata e açúcar? — acrescentou o Dr. Hallam.

            — Não, obrigada — respondeu Mel, fazendo menção de se juntar à fila de pessoas que esperava para encomendar; Peter, com um gesto da mão, indicou-lhe que se sentasse.

            — Não se incomode. Não me demoro. Fique aqui a reservar a mesa. — Peter sorriu e Melanie sentiu algo suave a invadi-la. O médico parecia ser uma pessoa simpática; pouco depois, ele regressou à mesa, trazendo um tabuleiro com duas chávenas fumegantes, dois copos de sumo de laranja e algumas torradas. — Eu não sabia se a senhora já tinha tomado o pequeno-almoço — disse ele. Havia qualquer coisa naquele homem que era fundamentalmente íntegro e honesto.

            Melanie deu consigo a gostar do médico de imediato.

            — Muito obrigada — agradeceu ela, sorrindo-lhe e, sem conseguir conter-se por mais tempo, acrescentou: — Como é que está a Pattie Lou?

            — Ontem à noite adaptou-se muitíssimo bem. É uma pequenita muito corajosa. Nem sequer foi necessário que a mãe permanecesse junto dela — afirmou Peter.

            Não obstante o que ele acabara de dizer, Mel suspeitava que o fato de a criança se ter sentido tão bem era devido às boas-vindas que Peter Hallam e a sua equipe lhe haviam dado; estava certa disso. Para o cirurgião, o bem-estar mental dos seus doentes era da maior importância, o que era extraordinariamente raro num médico.

            Depois de Pattie Lou ter chegado ao hospital, Peter havia passado várias horas na sua companhia, tentando conhecê-la enquanto pessoa, não apenas como um conjunto de dados.

            Com Sally morta, não tinha qualquer outro doente em estado crítico a quem tivesse de prestar assistência e, naquele momento, não pensava em Sally, só em Pattie Lou.

            — Que hipóteses é que ela tem, doutor? — Melanie sentia-se ansiosa por conhecer a opinião dele e esperava que o     prognóstico fosse positivo.

            — Gostaria de poder dizer-lhe que são boas, mas essa não é a realidade. Acho que o termo razoável se adequa mais à avaliação do seu estado clínico.

            Mel acenou com a cabeça, mostrando uma expressão sombria enquanto bebia o seu café.

            — Sempre vai para a frente com um transplante do coração?

            — Se conseguirmos encontrar um doador, o que não me parece que seja muito provável. Os doadores compatíveis com crianças são muito raros, Mistress Adams. Parece-me que o meu primeiro prognóstico estava certo. É preferível reparar o seu próprio coração, da melhor maneira que nos for possível, aplicando-lhe talvez uma válvula de porco, que irá substituir aquela que se encontra em más condições.

            — A válvula de um porco?! — Aquele pensamento enervava-a um pouco.

            — É o que me parece — afirmou ele com um aceno de cabeça. — Ou essa ou de uma ovelha. — A utilização de válvulas de animais há muito que era comum, pelo menos no que dizia respeito a Peter.

            — Quando? — continuou Melanie.

            O cirurgião suspirou e semicerrou os olhos, a pensar no       assunto enquanto ela o observava.

            — Hoje vamos fazer-lhe uma grande quantidade de análises e exames, e é possível que amanhã procedamos à intervenção cirúrgica.

            — Ela estará em condições de sobreviver à operação?

            — Parece-me que sim — respondeu Peter.

            Os olhos de ambos encontraram-se e prenderam-se durante bastante tempo. Naquela atividade não existiam garantias. Nunca se tinha a certeza absoluta de que se sairia vencedor: a única realidade eram as perdas. Era duro viver com aquela certeza, dia após dia. Melanie admirava o que ele se propunha fazer. Sentiu uma grande necessidade de lhe dar a conhecer os seus pensamentos; mas, de certa maneira, parecia-lhe que essa atitude da sua parte seria uma declaração demasiado pessoal, o que a levou a manter-se calada, cingindo a conversa ao assunto de Pattie Lou e da reportagem. Ao fim de algum tempo, Peter começou a olhar interrogativamente para Melanie. Ela mostrava-se tão interessada, tão humana. Era mais do que uma simples repórter.

            — Qual é o seu interesse em todo este assunto, Mistress Adams? Somente outra história ou trata-se de algo mais?

            — A Pattie Lou é uma pequenita muito especial, doutor. É difícil não nos interessarmos pela sua sorte — respondeu Melanie.

            — Preocupa-se sempre assim tanto acerca dos assuntos que noticia? Deve ser bastante cansativo — continuou Peter.

            — Não é o que se passa consigo, doutor? Preocupa-se com todos eles?

            — Quase sempre — respondeu Peter.

            Estava a ser sincero e era fácil acreditar no que ele dizia. Um doente que não o interessasse profundamente seria uma exceção bastante rara. Melanie já se apercebera disso. Nesse momento, Peter fitou-a com um sorriso de curiosidade; ela mantinha as mãos entrelaçadas sobre o regaço enquanto o observava.

            — Não trouxe o seu bloco de apontamentos. Isso significa que não está a gravar a nossa conversa?

            — Não — respondeu Melanie com um sorriso, abanando lentamente a cabeça. — Não estou. Acho preferível que nos conheçamos melhor.

            Aquela possibilidade deixou Peter deveras intrigado e não foi capaz de resistir a fazer outra pergunta.

            — Por que?

            — Porque farei um melhor trabalho de reportagem acerca do que o senhor faz neste hospital, se souber mais a seu respeito. Não a escrever no papel ou a gravar, mas sim a observar, a ouvir, a conhecê-lo.

            Melanie era eficiente em tudo o que fazia, o que Peter pressentiu. Era bastante conhecida no seu ramo de atividade; podia-se mesmo dizer que era uma estrela, uma verdadeira profissional como poucas. Isso agradava a Peter Hallam. Era o mesmo que estar perfeitamente equiparado com um adversário num desporto competitivo, o que o excitava, levando-o a fazer uma oferta que não havia planeado.

            — Gostaria de me acompanhar enquanto faço a ronda aos meus doentes esta manhã? Este convite deve-se apenas ao interesse que possa ter para si — acrescentou ele.

            Os olhos de Melanie iluminaram-se. Sentia-se lisonjeada por aquela oferta inesperada e esperava que tal significasse que ele simpatizara com ela ou, melhor ainda, que já tinha começado mesmo a confiar nela. Isso era importante para que a reportagem corresse bem e sem quaisquer obstáculos.

            — Terei o maior prazer nisso, doutor. — Melanie deixou que a sua expressão lhe indicasse o quanto se sentia sensibilizada pela oferta dele.

            — Podia tratar-me por Peter.

            — Se me tratar por Mel — replicou ela. Trocaram um sorriso cúmplice.

            — De acordo — anuiu o médico, tocando-lhe no ombro quando se levantou.

            Melanie pôs-se de pé sem mais delongas, sentindo-se excitada perante a perspectiva de acompanhá-lo durante a ronda aos doentes. Tratava-se de uma oportunidade rara, pela qual se sentia agradecida.

            Enquanto saíam do refeitório, Peter voltou-se de novo para Melanie e desta feita exibia um sorriso.

            — Os meus doentes vão ficar muito impressionados ao vê-la aqui no hospital, Mel. Tenho a certeza de que todos eles já a viram na televisão.

            Aquele comentário surpreendeu-a, e ela esboçou um sorriso.

            — Duvido muito — afirmou Melanie, que tinha sempre um ar de modéstia, o que levava a que aqueles que com ela conviviam estivessem sempre a provocá-la, muito em especial Grant e as filhas.

            Desta vez, Peter riu-se abertamente dela.

            — Sabe bem que não é uma figura anônima. Os doentes do coração também vêem as notícias da televisão.

            — Parto sempre do princípio que as pessoas não me reconhecem fora da televisão — retorquiu Melanie.

            — Aposto que não é assim. — Peter sorriu uma vez mais e Melanie assentiu.

            O médico sentia-se intrigado pelo fato de Melanie não ter permitido que o êxito lhe tivesse subido à cabeça ao longo de todos aqueles anos. Tinha esperado alguém com uma personalidade bastante diversa.

            — Em qualquer dos casos, doutor Hallam — continuou ela — aqui, o senhor é que é a estrela e com todo o direito.

            — Os olhos dela brilhavam de franca admiração; daquela feita, foi a vez de ele mostrar uma expressão de humildade semelhante à que ela exibira.

            — Não se pode dizer que eu seja uma estrela, Mel — disse ele, muito sério. — Limito-me a trabalhar neste hospital, fazendo parte de uma equipe extraordinariamente eficiente. Acredite no que lhe digo: os meus doentes vão ficar mais entusiasmados com a sua presença do que comigo, e com toda a razão. Far-lhes-á bem ver um rosto novo. — Peter carregou no botão para chamar o elevador e quando entraram premiu o do sexto andar, misturando-se com um grupo de médicos de bata branca e enfermeiras de faces frescas. Estava na hora da mudança de turno. — Gostaria de lhe dizer que sempre gostei das suas opiniões e da forma como realiza uma reportagem — acrescentou Peter, falando em voz baixa, enquanto o ascensor ia parando em todos os pisos. Melanie reparou em duas enfermeiras que a observavam com discrição. — Aprecio a sua abordagem direta e sincera das notícias. Acho que foi por isso que aceitei a sua proposta.

            — Fosse qual fosse o motivo, estou muito satisfeita com a sua decisão — retorquiu Melanie. — A Pattie Lou precisa desesperadamente de si.

            Peter acenou sem poder discordar. Contudo, naquele momento, havia mais alguma coisa. Tinha-se aberto com ela, dispondo-se a dar uma entrevista para uma cadeia de televisão; quando ambos se sentaram no seu cubículo no sexto andar, alguns minutos mais tarde, Peter olhou para Mel com uma expressão de franqueza e tentou explicar-lhe os riscos e os perigos que envolviam os transplantes. Avisou-a de que existia a probabilidade de ela, depois de concluir a reportagem, vir a ter sentimentos negativos em relação àquele tipo de intervenção cirúrgica. Era uma possibilidade em que Peter pensara antes de aceder à entrevista; contudo, encontrava-se disposto a correr o risco. Havia mais a ganhar ao dizer-se abertamente tudo à imprensa do que ao tentar escamotear certos aspectos e, se Melanie trabalhasse o assunto de maneira apropriada, poderia conquistar de uma forma significativa a opinião pública. No entanto, ela ficou surpreendida ao tomar conhecimento dos riscos e das probabilidades de sucesso.

            — Está a pretender dizer-me que poderei chegar à conclusão de que os transplantes do coração não são uma idéia muito boa? — perguntou Melanie. — É isso que está a dizer-me, Peter?

            — Pode ser que isso aconteça, embora fosse uma opinião muito idiota — respondeu o cirurgião. — A realidade é que os doentes submetidos a este gênero de transplantes viriam em qualquer dos casos a morrer e dentro de pouco tempo. O que nós lhes proporcionamos é uma oportunidade que, verdade seja dita, nem sempre é muito boa. Os riscos são elevados e, na maior parte das vezes, as hipóteses de êxito são bastante fracas, mas existe essa oportunidade e é ao doente que cabe decidir. Algumas pessoas preferem não ter de passar por essa prova — continuou Peter — e decidem não correr riscos. É uma opção que eu respeito, mas, se me permitirem, eu tento sempre. É o mínimo que qualquer pessoa pode fazer. Não sou apologista de se fazer um transplante em todos os doentes — acrescentou ele — isso seria uma loucura. No entanto, o fato é que para alguns é a solução ideal e, neste momento, temos uma enorme necessidade de abrir portas novas no campo da cirurgia de transplantes. Não podemos funcionar única e exclusivamente com os doadores de corações humanos, dado que precisamos de mais do que os que se encontram disponíveis. Por isso, andamos às apalpadelas à procura de novos caminhos e é esse processo a que o público resiste liminarmente. Certas pessoas pensam que estamos a tentar fazer o papel de Deus — continuou Peter — o que não é o caso. Tentamos apenas salvar vidas, dando o nosso melhor. É tão simples como isso. — Peter levantou-se e Melanie seguiu-lhe o exemplo; do alto da sua considerável estatura, ele ficou a olhar para ela. — Quando chegar ao fim do dia, diga-me o que é que pensa acerca deste assunto, sem se esquecer de referir se discorda dos objetivos que tentamos alcançar. De fato. — Peter semicerrou os olhos e fitou o rosto de Melanie. — Estou particularmente interessado em saber a sua opinião. A Mel é uma mulher inteligente, mas relativamente ignorante em relação a este assunto. Está a entrar nele sem saber o que vai ver. Diga-me no caso de se sentir chocada, consternada ou mesmo se não aprovar. — Enquanto saíam do cubículo, ocorreu outro pensamento à mente de Peter. — Diga-me uma coisa, Mel, por acaso já terá alguma opinião preconcebida? — perguntou ele, observando a expressão dela enquanto caminhavam; viu que Melanie franzia a testa.

            — Sinceramente, não sei bem — redargüiu ela. — É evidente que, basicamente, estou convencida de que tudo o que o Peter faz tem uma lógica. Mas sou forçada a admitir que as hipóteses de êxito de que falou me assustam um pouco. As perspectivas de sobrevivência são bastante reduzidas.

            O Dr. Peter Hallam olhou-a intensamente.

            — Aquilo que para si pode parecer pouco razoável poderá ser a última réstia de esperança para uma mulher, homem ou criança, às portas da morte. É possível que, para eles, até mesmo dois meses, dois dias, duas horas mais de vida, valham a pena. É claro que essas probabilidades são tão escassas que também me assustam. Mas que outra escolha é que temos? Neste momento, isto é o melhor de que dispomos.

            Melanie anuiu com um gesto de cabeça e acompanhou-o pelo corredor, pensando em Pattie Lou; observou o médico a examinar a papeleta dos seus doentes, mostrando uma expressão atenta com o sobrolho franzido, e fazendo perguntas à medida que ia lendo os resultados de análises e exames. Vezes sem conta, Melanie ouviu os nomes dos fármacos que eram ministrados aos doentes sujeitos a um transplante do coração, e que serviam para minimizar a rejeição do novo órgão. Começou a tomar nota de algumas perguntas que desejava fazer ao médico sobre os riscos inerentes àqueles medicamentos e os seus efeitos secundários na personalidade e mente dos doentes.

            Subitamente, Melanie viu Peter Hallam levantar-se da cadeira onde estivera sentado e dirigir-se em passos rápidos para o corredor. Foi atrás dele durante algum tempo, mas deteve-se sem estar certa se ele quereria ou não que ela o acompanhasse; como se tivesse sentido essa hesitação, Peter, com um gesto da mão, deu-lhe a entender que se aproximasse.

            — Vamos — disse ele, apontando para uma pilha de batas brancas que se encontravam num carrinho estreito de aço inoxidável, indicando-lhe que agarrasse uma, o que ela fez enquanto seguiam apressadamente; alcançou-o quando ainda estava a vestir a bata com uma certa dificuldade.

            Peter tinha os braços cheios de relatórios médicos; ia acompanhado por uma enfermeira e dois estagiários, que o seguiam respeitosamente, mantendo-se alguns passos atrás.

            O dia de Peter Hallam tinha começado. Esboçou um sorriso na direção de Melanie e empurrou a primeira porta, abrindo-a de par em par e entrando no quarto de um homem de idade. Este fora submetido a um quádruplo by-pass havia duas semanas, e afirmava que se sentia como se fosse de novo um rapazinho. Não tinha muito o aspecto de um rapaz; continuava bastante fatigado e a sua expressão era um pouco pálida. Depois de terem saído do quarto daquele doente, Peter assegurou-lhe que o homem iria ficar bom.

            Entraram no quarto a seguir, onde Melanie sentiu bruscamente um aperto no coração. Deu consigo a olhar para o rosto de um rapazinho com uma enfermidade congênita nos pulmões e no coração; ainda não fora sujeito a qualquer intervenção cirúrgica. Tinha uma farfalheira horrível e uma notória falta de respiração. O seu tamanho era o de uma criança de cinco ou seis anos, mas uma olhadela à papeleta que se encontrava aos pés da cama indicou a Melanie que ele já fizera dez anos.

            Os médicos andavam a considerar um transplante do coração e dos pulmões na criança, mas como até a data haviam sido realizados tão poucos, estavam convencidos de que seria prematuro tentar levar a cabo esse tipo de operação numa criança de tão pouca idade. Para o manterem vivo, haviam recorrido a algumas medidas intermédias.

            Melanie viu Peter sentar-se numa cadeira junto à cabeceira da cama e falar demoradamente com o rapazinho. Mais do que uma vez, ela teve de lutar contra as lágrimas e voltar-se para que a criança não reparasse nos seus olhos umedecidos. Peter tocou-lhe no ombro de novo quando saíram do quarto; daquela vez, num gesto que pretendia confortá-la.

            Continuaram a fazer a ronda aos doentes, entrando no quarto de um homem a quem havia sido colocado um coração de plástico, o qual, veio Melanie a descobrir, funcionava através de ar. Aquele doente sofria de uma grave infecção, o que ocorria por vezes. Levando em consideração as hipóteses e as circunstâncias que rodeavam aquele tipo de doentes, tudo constituía um risco, uma ameaça ou um problema. O perigo pairava por toda a parte, no interior dos seus próprios corpos, que tão debilitados se encontravam, e até mesmo no ar. Um dos maiores receios dos médicos era o aparecimento de uma infecção, que era quase impossível evitar, dado o seu estado de debilidade.

            Em seguida, visitaram outro doente, este em estado de coma; depois de ter falado por breves instantes com a enfermeira, Peter não tardou a abandonar aquele quarto. Havia ainda dois homens de rosto muito inchado que haviam sido submetidos a um transplante do coração naquele mesmo ano. Graças ao material que tinha lido, Melanie sabia que, com muita freqüência, a prescrição de esteróides produzia aquele efeito secundário que acabava por ser controlado. Inesperadamente todas aquelas pessoas ganharam significado e, naquele momento, tornou-se para si ainda mais real o fato de as probabilidades de sucesso serem tão ínfimas.             Pouco depois, quando se sentaram de novo no cubículo, Peter respondia a algumas das perguntas que Melanie tinha preparado. E, quando olhou para o relógio ficou surpreendida ao verificar que já era quase meio-dia. Havia quatro horas que faziam a ronda ao hospital e, provavelmente, tinham visitado cerca de vinte doentes.

            — As probabilidades? — Peter olhou para ela por cima da sua chávena de café. — Os doentes que são submetidos ao transplante de corações têm sessenta e cinco por cento de probabilidades de viverem durante um ano depois de a intervenção cirúrgica ter sido efetuada. O que, grosso modo, de duas hipóteses em cada três de que consigam sobreviver durante esse período de tempo.

            — E mais do que isso? — perguntou Melanie.

            O Dr. Hallam suspirou; detestava estatísticas. Todos os dias se empenhava numa luta feroz contra elas.

            — Ora bem, o melhor que podemos prever traduz-se em cerca de cinqüenta por cento de hipóteses durante cinco anos — replicou Peter.

            — E depois disso? — insistiu Melanie. Naquele momento tirava apontamentos, sentindo-se perplexa ao ouvir os números daquelas estatísticas, mas sem poder deixar de simpatizar com o tom de desafio na voz dele.

            — Por agora, o que acabei de lhe dizer é tudo. Não conseguimos obter resultados melhores do que esses.

            Peter proferiu aquelas palavras com uma expressão de quem lamentava aquela realidade e, em simultâneo, ambos começaram a pensar em Pattie Lou, desejando que as perspectivas da criança fossem mais risonhas do que aquelas. Ela tinha direito a muito mais. Todos tinham. Perante aquela situação, uma pessoa ficava quase tentada a perguntar qual era o objetivo de tudo aquilo, mas, se fosse a nossa vida ou a de um filho que estivesse em jogo, seria que não nos agarraríamos a qualquer oportunidade, nem que fosse por um dia, uma semana ou mesmo um ano?

            — Por que motivo é que morrem tão prematuramente? — continuou Melanie com uma expressão de desânimo.

            — Na maior parte das situações, é o organismo que entra num processo de rejeição, seja sob que forma for. Pode ser uma rejeição direta e linear ou também o engrossamento das artérias, que levará a um ataque cardíaco. Um transplante poderá acelerar esse processo. Além disso — acrescentou Peter — o outro grande problema com que nos debatemos são as infecções. Estes doentes são mais atreitos a elas do que quaisquer outros.

            — E não existe nada que possa fazer? — perguntou Melanie, como se tudo dependesse dele.

            Estava a visualisá-lo no papel de Deus, à semelhança daquilo que alguns dos seus doentes faziam. Aquela atitude não era justa; no entanto, parecia que tudo se encontrava nas mãos do médico, ainda que não fosse esse o caso. De certa forma, ela desejava que pudesse ser assim. Tudo seria muito mais simples. Peter era um homem íntegro e procederia da forma mais adequada, se tal estivesse ao seu alcance.

            — Neste momento, não há mais nada que possamos fazer, apesar de alguns dos novos medicamentos poderem vir a alterar esta situação. Ultimamente temos vindo a utilizar alguns dos mais recentes e isso pode ajudar. Aquilo que temos de manter em mente. — Peter falava-lhe com suavidade, quase como se ela fosse uma criança. — é que estes doentes não teriam a mínima hipótese sem o transplante de um coração novo. Portanto, o que quer que seja que lhes possa ser proporcionado é uma bênção. Os doentes apercebem-se desta situação. Se desejarem viver, estão dispostos a tentar qualquer coisa.

            — O que é que isso significa exatamente? — indagou Melanie.

            — Alguns não querem continuar. Não têm vontade de passar por uma operação desta natureza — respondeu Peter e, fazendo um gesto na direção das papeletas, recostou-se para trás, mantendo na mão a chávena de café. — Não sei se sabe que é necessária muita coragem.

            Naquele momento, Melanie também se apercebia de outra coisa. Peter Hallam tinha muita coragem. Era uma espécie de toureiro que na arena se defrontava com um touro chamado Morte, numa tentativa desesperada para lhe roubar homens, mulheres e crianças. Perguntou a si mesma quantas vezes os seus desejos haviam saído gorados pela morte de doentes com quem se preocupara. Notava-se que ele era um homem que se interessava verdadeiramente pelos outros.

            A voz de Peter, suavizou-se de repente, como se tivesse ouvido os pensamentos dela.

            — A minha mulher decidiu não aproveitar essa oportunidade — disse, baixando o olhar ao ver que Melanie o fitava, imóvel.

            O que é que ele dissera? A mulher? Então, ele ergueu o rosto e adivinhou o choque que lhe provocara; os seus olhos prenderam-se aos de Melanie. Não estavam umedecidos, mas ela observou o sofrimento que pairava naquele olhar e que lhe dava a conhecer algo do caráter dele.

            — Ela sofria de hipertensão pulmonar primária. Não sei se isto significa alguma coisa para si ou não. É uma doença que deteriora os pulmões e depois o coração, sendo necessário efetuar um transplante do coração e dos pulmões. Nessa época, apenas se haviam efetuado duas operações desse gênero em todo o mundo, e nenhuma delas aqui. É evidente que não teria sido eu a levar a cabo essa intervenção cirúrgica. — Peter suspirou e inclinou-se para a frente. — A minha mulher teria sido operada por um dos meus colegas, assistido pelos outros membros da equipe ou, então, poderíamos tê-la levado até junto de qualquer um dos maiores cirurgiões de todo o mundo, mas ela recusou a operação com toda a tranqüilidade. Desejava morrer tal como estava, sem ser obrigada a fazer com que eu ou os nossos filhos, assim como ela própria, passássemos pelas agonias que sabia que os meus doentes sofriam, para depois acabarem por morrer ao fim de seis meses, de um ano ou no máximo dois. Enfrentou toda essa situação com uma calma aterradora. — Naquela altura, Melanie reparou que ele tinha os olhos umedecidos. — Nunca conheci uma pessoa como ela. Manteve-se absolutamente tranqüila durante toda a doença, até o fim. — A voz de Peter ficou embargada por breves instantes. — Aconteceu tudo há um ano e meio. Ela tinha apenas quarenta e dois anos.

            Peter olhou para Melanie sem tentar ocultar os seus sentimentos; o silêncio que reinava naquele pequeno espaço era ensurdecedor.

            — É possível que tivéssemos podido alterar tudo o que aconteceu, mas não durante muito tempo. — Naquele momento, o tom de voz dele era mais profissional. — No ano passado, eu próprio fiz dois transplantes do coração e dos pulmões. Por motivos óbvios, estou bastante empenhado nessas operações. Não existe qualquer razão que as impeça de resultarem, o que com o tempo virá a acontecer.

            Era demasiado tarde para a sua mulher. Mas, no seu íntimo, ele jamais desistiria da luta, como se ainda pudesse convencê-la a deixá-lo tentar. Melanie observava-o, condoída, apercebendo-se daquilo por que ele havia passado e da sua impotência.

            — Quantos filhos tem? — perguntou Melanie com suavidade.

            — Três. O Mark tem dezessete anos, a Pamela vai fazer catorze em junho e o Matthew tem apenas seis anos. — Peter Hallam sorriu ao pensar nos filhos e olhou para Mel. São todos miúdos excelentes, mas o Matthew é do mais engraçado que existe. — Suspirou e levantou-se da cadeira. Apesar de a morte da mãe ter sido dura para todos, ele foi o que a sentiu mais. A Pam está na idade em que precisa verdadeiramente da mãe e, até certo ponto, o apoio que eu lhe posso proporcionar é bastante limitado. Todos os dias tento chegar cedo a casa, mas há sempre uma crise ou outra que surge quando menos se espera. Quando se está sozinho, é extremamente difícil proporcionar-lhes tudo o que eles necessitam.

            — Eu sei bem como isso é — retorquiu Melanie. — Também tenho esse problema.

            Peter voltou-se para ela, olhando-a bem nos olhos, com uma expressão de quem não ouvira o que ela tinha acabado de dizer.

            — A minha mulher poderia, pelo menos, ter-nos dado uma oportunidade — continuou ele.

            — E o mais provável teria sido ela já não pertencer ao mundo dos vivos. Deve ser uma situação extremamente difícil de aceitar.

            Peter acenou com a cabeça em movimentos lentos, olhando para ela com um semblante pesaroso.

            — Assim é. — Então, como se de repente tivesse ficado chocado consigo mesmo por tudo o que confidenciara, agarrou nas papeletas dos seus doentes, como se pretendesse voltar a colocar de novo uma barreira entre os dois. — Peço-lhe muita desculpa. Não sei o que é que me levou a confidenciar-lhe tudo isto.

            No entanto, Melanie não estava surpreendida; estava habituada a que as pessoas se abrissem consigo. A única diferença foi que daquela vez essa situação acontecera mais rapidamente do que era habitual. Peter, com um sorriso, tentou pôr a conversa para trás das costas.

            — Proponho irmos até ao fundo do corredor fazer uma visita à Pattie.

            Melanie aquiesceu com um acenar de cabeça, ainda profundamente comovida por tudo o que acabara de ouvir. Naquele momento, era-lhe quase impossível encontrar as palavras adequadas. Quase se sentiu aliviada perante a idéia de ver a criança que trouxera consigo de Nova Iorque. Pattie Lou ficou radiante com a visita deles, o que fez com que Melanie se recordasse do motivo por que se encontrava ali. Passaram cerca de meia hora numa conversa agradável com a criança e, enquanto Peter lia os resultados das análises, o seu rosto mostrava uma expressão de satisfação. Pouco depois, dirigiu-se à menina com um semblante paternal.

            — Sabes que amanhã é o nosso grande dia.

            — De verdade? — Os olhos da pequenita abriram-se mais, mostrando uma expressão que tanto refletia entusiasmo como insegurança.

            — Vamos trabalhar no teu coração, Pattie, e vamos fazer com que fique tão bom como se fosse novo.

            — E depois já posso jogar basebol? — Aquela pergunta fez assomar um sorriso aos lábios de Peter e Melanie.

            — É isso que tu queres?

            — Sim, senhor! — respondeu a criança com um grande entusiasmo.

            — Vamos ver o que é que se pode fazer.

            Em seguida, Peter começou a explicar-lhe a operação do dia seguinte, com todo o cuidado e em termos que ela pudesse compreender facilmente e, apesar de parecer apreensiva, era evidente que não se encontrava demasiado receosa. Via-se que a criança já sentia carinho pelo Dr. Peter Hallam. Quando ambos saíram do quarto, Pattie Lou mostrou-se pesarosa. Peter olhou para o relógio; já passava das treze e trinta.

            — E que tal se fôssemos almoçar? Já deve estar a morrer de fome — sugeriu ele.

            — Não falta muito — retorquiu Melanie com um sorriso. — Mas fiquei tão interessada no que vi que ainda não tive tempo para pensar em comida.

            — Também eu.

            Peter pareceu satisfeito com a resposta dela; saíram do hospital, aliviados por respirar ar fresco. Sugeriu um almoço rápido, com o que Mel concordou enquanto se dirigiam para o automóvel do médico.

            — Costuma trabalhar tanto como hoje? — perguntou ela. Ele sorriu.

            — A maior parte das vezes. Não é possível gozarem-se muito tempo livre quando se tem uma profissão como a minha. Não nos podemos dar ao luxo de lhe voltarmos às costas, nem sequer por um dia.

            — E a sua equipe? Não pode partilhar as responsabilidades de tudo isto? — inquiriu Melanie. De outra forma, o fardo seria demasiado pesado.

            — É claro que partilho — respondeu Peter.

            Todavia, algo na maneira como ele respondeu fez com que Melanie duvidasse das suas palavras. A impressão com que ficara foi a de que o cirurgião costumava chamar a si o maior quinhão das responsabilidades, e que gostava disso.

            — O que é que os seus filhos pensam em relação ao seu trabalho?

            Peter pensou durante algum tempo antes de responder.

            — Para lhe ser franco, não tenho bem a certeza. O Mark quer seguir Direito e a Pam todos os dias muda de idéia, especialmente agora. E o Matthew é demasiado pequeno para fazer a mínima idéia daquilo que deseja fazer quando crescer, isto é, além de dizer que quer ser canalizador, profissão por que optou no ano passado — disse Peter, soltando uma gargalhada. — Calculo que é isso que eu sou, não é verdade? — comentou com uma careta risonha. — Um canalizador!

            Ambos desataram a rir.

            O sol brilhava sobre ambos, e Melanie reparou que Peter ficava com um ar mais jovem ao ar livre. De repente, quase conseguia imaginá-lo na companhia dos filhos.

            — Onde é que havemos de ir almoçar? — perguntou ele sorrindo do cimo da sua grande altura, obviamente confortável nos seus domínios.

            Mas não se tratava apenas disso. Havia algo mais. Naquela altura, existia um novo laço de amizade entre os dois. Peter havia aberto a sua alma, mostrando-lhe o que lhe ia no íntimo, ao falar-lhe de Anne. Como resultado, sentia-se mais livre do que se sentira havia muito tempo. Quase desejava celebrar a leveza de espírito que lhe invadia o coração.

            Melanie percebeu isso e sorriu-lhe. Era notável ele lidar diariamente com a vida e a morte. Ela viera a Los Angeles com o propósito de lhe entregar uma criança doente e num estado desesperado. E, no entanto, no meio de toda aquela situação, a verdade era que ambos continuavam a ser jovens e a estar vivos, aproximando-se lentamente do início de uma amizade. E não tão lentamente como isso. Havia qualquer coisa em Peter que lhe trazia à memória a franqueza que ela sentira quando conhecera Grant; Melanie, porém, apercebia-se de que sentia algo mais por aquele homem. Aos olhos dela, Peter era bastante atraente; era forte, meigo, vulnerável, franco e modesto, apesar do enorme êxito profissional. Era um homem invulgar e, enquanto observava Melanie, Peter Hallam pensava as mesmas coisas em relação a ela. Estava satisfeito por tê-la convidado para almoçar. Ambos mereciam aquela pausa. Tanto um como o outro trabalhavam esforçadamente, cumprindo com as suas responsabilidades, pelo que não parecia despropositado que, naquele momento, se concedessem um pequeno intervalo. Melanie disse a si mesma que aquela refeição em conjunto contribuiria de forma positiva para a entrevista.

            — Conhece bem Los Angeles? — perguntou ele.

            — Nem por isso. Quando cá venho é sempre em trabalho e ando constantemente a correr de um lugar para o outro até ir-me embora. Nunca tenho tempo suficiente para refeições calmas e alongadas. — Peter sorriu. Com ele acontecia o mesmo, mas, naquele dia, um almoço sem restrições de tempo parecia-lhe ser o mais indicado. Também sentia que fizera uma nova amizade. Melanie ergueu o olhar e sorriu-lhe. — Tenho a impressão de que o Peter normalmente não sai do hospital para almoçar, não será verdade?

            — De quando em vez, saio — respondeu Peter com um sorriso. — Tenho por hábito almoçar por aqui — continuou ele, fazendo um gesto na direção do hospital atrás deles, após o que se deteve junto do automóvel.

            Melanie viu um Mercedes bastante espaçoso com pintura cinzento-prateada, o que a surpreendeu. A viatura tinha pouco a ver com o que ela conhecia dele.

            Peter adivinhou-lhe o pensamento.

            — Foi uma oferta que fiz à Anne há dois anos — explicou com calma, mas desta vez pressentia-se na sua voz um abrandamento da dor. — A maior parte das vezes, desloco-me no meu próprio automóvel, um pequeno BMW, mas neste momento está na oficina. Em casa tenho uma pequena station que é utilizada pela minha governanta e pelo Mark.

            — A pessoa que trata das crianças é eficiente? — perguntou Melanie. Eram apenas duas pessoas normais que se dirigiam para Lilshire Boulevard.

            — É fabulosa! — respondeu Peter e, continuando a conduzir, olhou para Melanie por breves instantes, sorrindo. — Sem ela, eu estaria perdido. É uma senhora de origem alemã que está conosco desde que a Pam nasceu. Quando do nascimento do Mark, foi a Anne que tratou dele, mas na altura em que a Pamela nasceu, ela já tinha problemas de coração, razão por que contratamos esta governanta para cuidar do bebê. De início era para ficar apenas durante seis meses — sorriu de novo, virando-se para Mel — e isso aconteceu há catorze anos. Hoje em dia, ela é uma bênção para a nossa família. — Peter hesitou muito ligeiramente. — Depois de a Anne nos ter deixado. — Já começara a habituar-se a falar acerca do assunto.

            Melanie agarrou naquele tema para dar andamento à conversa.

            — Eu tenho uma governanta oriunda da América Central, que é uma mulher maravilhosa e que me ajuda muito em casa com as minhas filhas.

            — Que idade é que elas têm?

            — Quase dezesseis. Fazem anos em junho.

            — Ambas? — perguntou Peter com uma expressão de surpresa que provocou uma gargalhada em Melanie.

            — Sim. São gêmeas.

            — Idênticas? — Peter sorriu com aquela idéia.

            — Não. Uma é esbelta e tem cabelos ruivos. As pessoas dizem que é parecida comigo, mas eu não tenho a certeza de que assim seja. Quanto à outra, sei que não se parece comigo em nada: é loura e tem um corpo voluptuoso, o que faz com que me sinta doente de cada vez que ela sai à rua.

            Melanie sorriu e Peter deu uma gargalhada ao ouvir a descrição que ela fazia da filha.

            — Nos últimos dois anos cheguei à conclusão de que é mais fácil educar os rapazes — disse Peter, mas o sorriso que esboçara desapareceu ao pensar em Pam. — A minha filha tinha doze anos e meio quando a Anne morreu. Calculo que a perda da mãe em conjunto com a entrada na puberdade foi quase demais para ela — acrescentou ele, suspirando. — Estou convencido de que o período da adolescência é difícil para qualquer criança. No entanto, quando o Mark tinha a idade dela, correu tudo com mais facilidade. Ele teve-nos a ambos.

            — Imagino que isso tenha feito bastante diferença — redargüiu Melanie.

            Fez-se uma longa pausa, e Peter procurou o olhar dela.

            — Vive sozinha com as gêmeas? — Tinha a impressão de que ela já referira aquele assunto, ou não?

            — Vivo sozinha com elas desde que elas nasceram — respondeu Melanie com um aceno de cabeça.

            — O pai das suas filhas morreu? — Peter parecia sofrer por ela. Era o gênero de homem que mostraria simpatia pela dor dos outros.

            — Não. — A voz de Mel era tranqüila. — Abandonou-me. Disse que nunca quisera ter filhos e falava muito a sério. Assim que eu lhe disse que estava grávida, foi o fim do nosso casamento. Nem sequer chegou a ver as gêmeas.

            Peter Hallam ficou chocado ao ouvir aquilo. Não conseguia imaginar que alguém se comportasse daquela maneira.

            — Para si deve ter sido uma situação terrível, Mel. Com certeza que ainda era muito jovem.

            Ela acenou e sorriu. Naquela altura, aquele assunto já não a fazia sofrer. Não era mais do que uma memória esbatida. Um simples fato da sua vida.

            — Tinha dezenove anos.

            — Meu Deus, como é que foi capaz de se desvencilhar sozinha? Os seus pais ajudaram-na?

            — Durante algum tempo. Quando as minhas filhas nasceram, desisti da faculdade. Ao fim de algum tempo, consegui arranjar um emprego. Na realidade, pode-se dizer que foram muitos empregos — continuou ela com um sorriso nos lábios. — Acabei por ir ocupar o lugar de recepcionista de uma cadeia de televisão, em Nova Iorque. A seguir a isso, fui datilógrafa na redação das notícias e o resto, calculo, já é história. — Naquela altura da sua existência, Melanie revia o passado sem grandes sobressaltos.

            Apesar da forma fácil como Melanie falava, Peter adivinhava o quão duramente ela tivera de lutar para subir na vida. O mais espantoso era o fato de Melanie não ter sido afetada de uma maneira negativa. Não era uma pessoa amarga e endurecida, encarava o passado com realismo e de uma maneira tranqüila; no fim, tinha acabado por atingir os seus objetivos. Encontrava-se no topo da sua carreira e não se queixava da subida.

            — A julgar pela maneira como fala agora, dá a impressão de que tudo foi muito simples, mas tenho a certeza de que, por vezes, deve ter sido um verdadeiro pesadelo — disse Peter.

            — Acho que sim. — Melanie suspirou e observou a cidade através da janela do automóvel em movimento. — Para lhe dizer a verdade, sou obrigada a confessar que hoje em dia é-me um pouco difícil recordar essa época. É engraçado! Quando se atravessa uma situação dessas, existem ocasiões em que se pensa que não se é capaz de sobreviver a todos os problemas, mas, de uma maneira ou de outra, lá se vai conseguindo e, quando se olha para trás, nada nos parece tão difícil como na realidade foi.

            Enquanto a ouvia, Peter perguntava a si próprio se haveria de chegar o dia em que ele sentiria o mesmo quanto à perda de Anne. Naquele momento, tinha dúvidas de que isso fosse possível.

            — Sabe, uma das coisas que mais me custa, Mel, é compreender que jamais poderei ser pai e mãe para os meus filhos. Eles têm necessidade da presença de ambos, especialmente a Pamela.

            — Não pode exigir uma coisa dessas a si mesmo. O Peter é somente o pai e dá o seu melhor. Mais do que isso é impossível fazer.

            — Calculo que assim seja — aquiesceu Peter, embora não parecesse muito convencido. Uma vez mais, olhou de relance na direção de Melanie. — Já alguma vez pensou em voltar a casar, para bem das suas filhas?

            Para Melanie a situação era bastante diferente, dizia ele a si mesmo, ela não era forçada a ultrapassar a recordação de uma pessoa que amara; era possível que houvesse amado o marido, mas tinha o recurso da câmera a que se agarrar e, nesse aspecto, era bastante mais livre do que ele. Para além disso, já se passara muito mais tempo sobre o desgosto que sentira.

            — Não me parece que o casamento seja para mim — respondeu Melanie. — Estou convencida de que as minhas filhas agora já compreenderam isso. Costumavam incomodar-me bastantes vezes com esse assunto, quando eram mais novas. E, sim, é um fato que houve ocasiões em que me senti culpada. No entanto, estou convencida de que foi preferível que vivêssemos sozinhas do que com um homem que não fosse o adequado. O mais engraçado é que... — Melanie sorriu com alguma timidez. — Às vezes dou comigo a pensar que prefiro que seja assim. Neste momento, não estou bem certa de como é que me adaptaria a alguém que partilhasse as raparigas comigo. Talvez esta maneira de pensar seja horrível, mas por vezes é assim que eu sinto. Imagino que, à medida que foram crescendo, me tornei muito possessiva em relação às minhas filhas.

            — O que é compreensível, uma vez que tem vivido sempre com elas durante todos estes anos — concordou Peter,  recostando-se mais para trás para observar Melanie.

            — É possível que a Jessica e a Val sejam a melhor coisa que existe na minha vida. São duas meninas extraordinárias — disse ela, muito mãe galinha, enquanto trocavam um sorriso.

            Peter saiu do automóvel para lhe abrir a porta. Melanie desceu para o passeio, soerguendo o olhar com um sorriso. Encontravam-se na luxuosa zona de Beverly Hills, somente à distância de dois quarteirões da ilustre Rodeo Drive. Mel olhou à sua volta.

            O Bistro Gardens era um restaurante magnífico, cuja sala parecia combinar a arte nova com uma enorme abundância de plantas que ladeavam a passagem que dava acesso ao pátio ao ar livre; para onde quer que olhasse, Melanie só via pessoas ricas, de aspecto sofisticado, vestidas de acordo com a última moda. O movimento próprio da hora do almoço continuava a ser bastante intenso. Deparou com rostos conhecidos sentados a várias mesas: estrelas de cinema, uma apresentadora da televisão já de certa idade, assim como um gigante do meio literário que apenas publicava best-sellers. Então, bruscamente, enquanto olhava em redor, Melanie reparou que os olhares das pessoas se concentravam em si, e viu duas mulheres segredarem algo para uma terceira.

            Nessa altura, o chefe de mesa aproximou-se de Peter, exibindo um sorriso nos lábios e olhando também para Mel.

            — Bem-vindo, senhor doutor. Olá, Mistress Adams, é muito agradável ter de novo o prazer da vossa companhia.

            — Melanie não se recordava de alguma vez ter visto o homem; todavia, era evidente que ele sabia quem ela era e desejava que isso fosse do seu conhecimento. Seguiu-o divertida até uma mesa protegida por um guarda-sol, situada no pátio.

            Peter fitava-a com uma expressão interrogativa.

            — É costume as pessoas reconhecerem-na sempre?

            — Nem por isso. Depende do sítio onde eu estiver. Imagino que num lugar destes é natural que seja reconhecida pelas pessoas. — Melanie observou as mesas cheias que se encontravam à sua volta.

            O Bistro Gardens era frequentado pelos endinheirados, pelas celebridades, pela gente chique e pelas pessoas de sucesso; numa palavra, era um restaurante que costumava acolher nomes importantes.

            Melanie sorriu de novo para Peter.

            — A sensação é a mesma quando se está na companhia do doutor Hallam no hospital, onde toda a gente não se cansava de olhar para si. Tudo depende do lugar onde nos encontramos.

            — Suponho que sim — aquiesceu Peter.

            No entanto, nunca se tinha apercebido de que olhassem fixamente para si. Naquele mesmo momento, reparou que algumas pessoas não despregavam os olhos de Melanie e que ela não se mostrava desconcertada. Dava a impressão de estar alheia às atenções que despertava.

            — Este restaurante é magnífico — começou ela, soltando um suspiro de satisfação ao sentir aquela temperatura agradável e sentando-se de forma a que o sol lhe batesse no rosto. Dava a impressão de que ali se estava em pleno verão e não se tinha a sensação de estar encurralado numa cidade, o que podia acontecer em Nova Iorque. Melanie cerrou os olhos, desfrutando dos raios solares.            — Tudo isto é perfeito — acrescentou e olhou de novo à sua volta. — Estou-lhe muito agradecida por me ter trazido a este restaurante.

            Com um sorriso, Peter recostou-se na sua cadeira.

            — Não me pareceu que o refeitório do hospital se coadunasse bem com o seu estilo.

            — Aí é que você se engana. Quando estou a trabalhar, a maior parte das vezes não saio para almoçar. Mas é isso mesmo que faz com que um almoço destes seja uma ocasião especial. No estúdio não tenho muito tempo para comer, nem para me recordar dos prazeres que um lugar maravilhoso como este pode proporcionar.

            — Isso também acontece comigo — retorquiu Peter. Trocaram um sorriso rasgado, e Melanie soergueu uma sobrancelha.

            — Acha que trabalhamos demais, doutor?

            — Receio bem que sim, mas parece-me que ambos gostamos muito das nossas profissões. Isso ajuda bastante — respondeu Peter.

            — Sem dúvida que sim — concordou Melanie com uma expressão de grande tranqüilidade. Peter sentia-se mais satisfeito do que ao longo de quase dois anos. Ao observar o médico, Melanie deu-se conta uma vez mais de que sentia admiração pela sua maneira de ser. — Hoje ainda tenciona regressar ao hospital?

            — É claro que sim. Quero fazer mais exames em Pattie Lou — retorquiu ele.

            Ao ouvir aquelas palavras, Mel franziu a testa, pensando na criança.

            — A operação vai custar-lhe muito? — inquiriu Mel.

            — Vamos fazê-la da melhor maneira possível. A sua única oportunidade é uma intervenção cirúrgica.

            — Continua a pensar em extrair o coração, repará-lo e depois voltar a colocá-lo dentro dela? — perguntou Melanie.

            — Parece-me que é a melhor solução. Há semanas que não aparecem doadores compatíveis com ela, e a situação pode arrastar-se por mais alguns meses. Existe uma grande escassez de doadores para os adultos, em que se verifica um maior índice de compatibilidade. A nossa média de transplantes do coração cifra-se entre os vinte e cinco e trinta por ano. Tal como pôde verificar durante a ronda de hoje ao hospital, fazemos essencialmente by-passes. O resto são intervenções cirúrgicas muito melindrosas, as quais não efetuamos em grande número, embora como é evidente, seja dessas que se ouve falar na imprensa.

            — Peter, por que motivo tencionam utilizar uma válvula de porco? — perguntou Melanie, mostrando uma expressão intrigada, enquanto bebia um pequeno gole do vinho branco que o empregado de mesa entretanto servira. Chegou à conclusão de que cada vez se sentia mais fascinada pelo trabalho dele e, independentemente da reportagem que a levara àquela cidade, desejava ficar a saber mais.

            — Ao usarmos as válvulas de animais não temos necessidade de tornar o sangue menos espesso, o que no caso dela é uma verdadeira vantagem. Utilizamos constantemente válvulas de animais, uma vez que os índices de rejeição são francamente inexistentes.

            — É possível utilizar um coração inteiro de animal? — inquiriu Melanie.

            Peter abanou a cabeça com rapidez.

            — Não existe qualquer hipótese. A rejeição por parte do organismo do doente seria imediata. O corpo humano é uma máquina maravilhosa e complexa — explicou Peter.

            Melanie assentiu, pensando naquela criança de raça negra.

            — Espero que sejam capazes de pô-la boa.

            — É essa a minha esperança. Neste preciso momento, temos mais três casos que aguardam doadores.

            — Qual é o vosso critério para determinarem quem é que tem a primazia? — continuou Melanie.

            — O doente que apresentar mais fatores de compatibilidade. Não pode haver mais de treze quilogramas e meio de diferença entre o doador e o receptor. Não podemos colocar o coração de uma jovem de quarenta e cinco quilos num homem de cem ou vice-versa. Na primeira das hipóteses, o órgão não agüentaria o peso do homem e, na segunda, não caberia no corpo.

            Melanie abanou a cabeça, sentindo uma admiração enorme pelo que ele fazia.

            — Aquilo que faz, meu amigo, é absolutamente espantoso.

            — Também continuo a sentir-me surpreendido — disse Peter. — Não tanto pelo meu papel no processo cirúrgico como pelos aspectos verdadeiramente miraculosos que envolvem todo este processo. Eu tenho paixão pelo meu trabalho e imagino que isso seja uma grande ajuda.

            Melanie observou Peter atentamente durante alguns momentos; em seguida, olhou de relance à sua volta para a multidão elegante que freqüentava o restaurante, após o que voltou a concentrar-se nele. Peter envergava um casaco de linho azul-escuro por cima de uma camisa de um azul mais claro. Melanie concluiu que o médico tinha um ar desportivo, mas distinto.

            — É bom gostarmos do nosso trabalho, não acha? — perguntou Melanie. Peter sorriu ao ouvir as palavras dela. Partilhavam a paixão pelo trabalho. Sem mais nem menos, Melanie deu consigo a pensar em Anne. — A sua mulher trabalhava?

            — Não — respondeu Peter, recordando-se do apoio constante que Anne sempre lhe tinha dado. Fora uma mulher com um caráter e personalidade muito diferentes das de Mel, mas, naquela época, ele precisara que ela fosse assim. — Não. Não trabalhava — repetiu. — Estava em casa a tratar das crianças, o que fez com que elas sofressem mais com a sua morte. — Por sua vez, naquele momento Peter também estava curioso em relação a Melanie. — Acha que as suas filhas se ressentem por causa da sua carreira profissional, Mel?

            — Espero bem que não — respondeu ela, tentando falar-lhe com franqueza. — Talvez de quando em vez, mas tenho a impressão de que gostam do meu trabalho. — Esboçou um sorriso que a fazia parecer uma rapariguinha. — Provavelmente, o que eu faço impressiona os amigos e amigas das minhas filhas, o que, como é evidente, lhes agrada bastante.

            — Espere até os meus filhos saberem que eu estive a almoçar consigo — retorquiu Peter.

            Ambos começaram a rir-se e, quando a conta veio para a mesa, Peter pagou ambas as refeições. Foi com alguma pena que se levantaram da mesa, lamentando serem forçados a sair do restaurante e a por fim àquela conversa tão agradável.

            Melanie espreguiçou-se quando já se encontravam dentro do automóvel.

            — Estou cheia de preguiça — comentou, sorrindo-lhe com uma expressão de felicidade. — Aqui parece que já é verão. — Ainda decorria o mês de maio, mas ter-lhe-ia agradado poder estender-se à beira de uma piscina.

            Enquanto ligava o motor do automóvel, Peter pensou nas férias.

            — Este ano vamos para Aspen, como aliás é nosso costume. Onde é que costuma passar as suas férias de verão, Mel?

            — Vamos todos os anos para Martha's Vineyard.

            — E que tal é? — perguntou Peter.

            Melanie semicerrou os olhos e apoiou o queixo na palma da mão.

            — É um pouco como voltar a ser uma criança, ou brincar a imitar Huckleberry Finn. Vai-se para todo o lado de calções, anda-se todo o dia descalço e as crianças passam a vida na praia. As casas na ilha têm todas o mesmo aspecto. São do tipo onde costumavam viver as nossas avós ou tias-avós, que nós visitávamos quando éramos crianças. Eu adoro ir para lá — acrescentou Melanie — porque enquanto lá estou, não sou obrigada a impressionar quem quer que seja. Não tenho de me vestir formalmente, nem visitar seja quem for se tal não me apetecer. Muito simplesmente, posso fazer o que me der na real gana. Todos os anos passamos lá dois meses.

            — E consegue tirar tantas férias no seu emprego? — Peter parecia surpreendido.

            — Presentemente, existe essa cláusula no meu contrato de trabalho. Costumava ser um mês, mas durante os últimos três anos passaram a ser dois.

            — Nada mau. Talvez seja disso que eu estou a precisar — replicou ele.

            — Dois meses em Martha's Vineyard? — Melanie pareceu ficar encantada com aquela perspectiva. — Iria adorar, Peter! Trata-se de um lugar absolutamente maravilhoso e cheio de magia.

            Peter sorriu ao ver a expressão do rosto dela e, pela primeira vez, apercebeu-se da textura dos seus cabelos. Brilhavam como se fosse cetim sob a luz do sol e, bruscamente, perguntou a si mesmo qual seria a sensação se lhes tocasse.

            — Referia-me a acrescentar uma cláusula semelhante ao meu contrato — continuou ele, tentando afastar do seu pensamento, assim como do olhar, aquele cabelo tão cintilante e de um tom de cobre avermelhado. Os olhos dela eram de um verde que ele jamais havia visto. Quase que se assemelhavam a esmeraldas pontilhadas por partículas douradas. Melanie era uma mulher maravilhosa e ele sentiu algo a agitar-se no seu íntimo.

            Levou-a de novo para o hospital, tentando manter a conversa centrada em Pattie Lou. No decorrer das últimas horas, tinham-se aproximado bastante um do outro, talvez até demais, o que até certo ponto preocupava Peter. Começou a pensar que atraiçoara Anne, por causa do que estava a sentir por Melanie. Quando entraram no hospital, ela perguntou a si própria o que o teria levado, de repente, a mostrar-se tão distante e frio.

 

            Na manhã seguinte, Melanie saiu do hotel precisamente às seis e trinta, tendo seguido de imediato para o Hospital Central, onde encontrou a mãe de Pattie Lou sentada numa cadeira de plástico no corredor do lado de fora do quarto da filha. Mostrava-se bastante tensa e silenciosa; Mel sentou-se com gestos lentos na cadeira ao lado de Mrs. Jones. A intervenção cirúrgica estava marcada para as sete e trinta.

            — Quer que vá buscar-lhe uma chávena de café, Pearl? — ofereceu-se Mel.

            — Não, obrigada — declinou a mulher, sorrindo a Melanie com um semblante de quem parecia carregar o peso de todo o mundo sobre os seus ombros frágeis. — Quero agradecer-lhe tudo o que tem feito por nós, Mel. Se não fossem os seus esforços, hoje nem sequer estaríamos aqui.

            — Não tem nada a ver comigo. A cadeia de televisão é que proporcionou a vossa vinda.

            — Não estou assim tão certa disso — retorquiu Pearl, olhando para Melanie. — Por aquilo que sei, foi a senhora quem contatou o doutor Peter Hallam e tratou de tudo para que pudéssemos vir.

            — Só espero que ele possa ajudar a sua filha, Pearl.

            — Também é essa a minha esperança. — Os seus olhos encheram-se de lágrimas e ela virou o rosto para o outro lado.

            Melanie tocou-lhe no ombro num gesto que pretendia incutir-lhe coragem.

            — Há alguma coisa que eu possa fazer por si? — perguntou Mel.

            Como resposta, Pearl Jones limitou-se a abanar a cabeça, levando um lenço aos olhos. Nessa mesma manhã, já tivera oportunidade de ver Pattie Lou; naquele momento, o pessoal da equipe médica preparava a criança para a operação. Dez minutos mais tarde Peter Hallam apareceu no corredor, pronto para meter mãos ao trabalho, mostrando-se bem alerta, apesar da hora tão matutina.

            — Muito bom dia, Mistress Jones, Mel. — Sem dizer mais nada, entrou no quarto da sua doente.

            Uns momentos mais tarde, ouviram um pequeno choramingar que vinha de dentro do quarto e Pearl Jones contraiu-se visivelmente na cadeira, começando a falar quase como se estivesse a dirigir-se a si própria.

            — Disseram-me que não podia entrar enquanto a preparavam para a operação. — As mãos tremiam-lhe e começou a amarfanhar o lenço.

            Melanie agarrou com firmeza numa das mãos de Mrs. Jones.

            — Ela vai ficar boa, Pearl. Tem de esperar com paciência.

            Quando acabou de falar, as enfermeiras saíram do quarto, empurrando uma maca aonde a criança vinha deitada. O Dr. Peter Hallam caminhava ao lado dela. Já haviam começado a dar-lhe soro, tendo-lhe também inserido o tubo nasogástrico de aspecto tão sinistro.

            Pearl fez-se forte ao dirigir-se em passos rápidos para junto da filha, debruçando-se para beijá-la. Tinha os olhos brilhantes devido às lágrimas que os marejavam, mas, apesar da emoção que sentia, conseguiu falar com Pattie Lou numa voz firme e calma.

            — Gosto muito de ti, minha querida. Dentro de pouco tempo ver-nos-emos outra vez.

            O Dr. Peter Hallam sorriu às duas e fez uma festa amigável no ombro de Pearl, olhando de relance na direção de Melanie. Durante breves instantes, houve algo rápido e carregado de eletricidade que atravessou ambos. Sem mais demoras, o cirurgião dedicou toda a sua atenção a Pattie Lou. A criança, que tinha as faces pálidas, mostrava-se ligeiramente atordoada por causa de uma injeção que acabara de lhe ser dada; olhou para a mãe e, em seguida, fitou Peter e Melanie. O Dr. Hallam fez um gesto às enfermeiras e a maca começou a rolar lentamente pelo corredor a fora. Peter não largou a mão de Pattie Lou. Pearl e Melanie seguiam mesmo atrás do médico. Momentos mais tarde, a criança entrava no elevador com destino ao bloco operatório situado no piso acima.

            Pearl deixou-se ficar a olhar, sem ver, para as portas do ascensor, após o que se voltou para Mel; os seus ombros estremeciam.

            — Oh, meu Deus! — exclamou ela.

            Durante alguns momentos, as duas mulheres abraçaram-se. Em seguida, regressaram às respectivas cadeiras, dando início à longa espera.

            A manhã parecia não ter fim e foi preenchida por breves trocas de palavras, longos momentos de silêncio, várias chávenas de café, grandes caminhadas pelo corredor, e pela espera; uma espera que parecia interminável, até que, finalmente, Peter Hallam reapareceu. Melanie susteve a respiração, enquanto procurava os olhos dele. A mulher que se sentava a seu lado ficou imobilizada, a aguardar as notícias que ele lhe daria.

            Contudo, Peter sorria ao dirigir-se para elas e, quando chegou junto da mãe de Pattie Lou, o seu rosto tinha uma expressão radiante.

            — A operação correu muito bem, Mistress Jones, e a Pattie Lou está bem.

            Pearl recomeçou a tremer e, de repente, caiu-lhe nos braços a chorar convulsivamente.

            — Oh, meu Deus! A minha menina. Meu Deus!

            — Estou a dizer-lhe a verdade — asseverou ele. — Correu tudo muitíssimo bem.

            — Não lhe parece que o organismo dela vá rejeitar a válvula que lhe colocou no coração? — perguntou ela, olhando para o médico com um semblante preocupado.

            — As válvulas não são rejeitadas, Mistress Jones — explicou o cirurgião com um sorriso nos lábios — e o trabalho de reparação que efetuamos no coração da sua filha correu às mil maravilhas. É claro que ainda é demasiado cedo para termos a certeza absoluta de que tudo correrá bem, mas, neste momento, tudo parece estar a correr pelo melhor.

            Melanie sentiu os joelhos a tremer enquanto observava os dois, e deixou-se cair pesadamente sobre a cadeira. As quatro horas e meia de espera haviam sido as mais longas de toda a sua vida. Começara a gostar muito da pequenita. Então sorriu a Peter, que olhou para ela.

O médico parecia radiante e sentou-se ao lado de Melanie.

            — Quem me dera que a Mel pudesse ter assistido — disse ele.

            — Também eu — disse Melanie. No entanto, Peter proibira-a de estar presente durante a operação e fora inflexível quanto à presença de uma equipe de filmagens.

            — Talvez noutra ocasião, Mel. — Lentamente, ele ia-lhe abrindo todas as suas portas secretas. — E o que é que lhe parece se tratássemos da nossa entrevista esta tarde? — Peter tinha-lhe prometido que ela teria lugar depois da intervenção cirúrgica de Pattie Lou, sem contudo especificar a hora.

            — Eu informo a equipe de filmagens — respondeu Melanie, mas perguntou-lhe, preocupada: — Tem a certeza que não é demasiado cansativo para si?

            — Que diabo, não! — respondeu ele com uma careta risonha.

            Parecia um rapaz que tivesse acabado de ganhar um jogo de basebol. Aquela operação compensava-o por todas as outras vezes. Melanie esperava sinceramente que o estado de saúde de Pattie Lou não começasse a deteriorar-se, deitando por terra todas as esperanças que ambos tinham. A mãe entretanto afastara-se, tendo ido telefonar ao marido que ficara em Nova Iorque; Melanie e Peter estavam sós.

            — Mel, de verdade que correu tudo muito bem.

            — Fico muito contente por isso — retorquiu ela.

            — Também eu — afirmou Peter e olhou para o relógio de pulso. — Está na hora de fazer a ronda aos meus doentes e depois vou telefonar para o meu gabinete, mas por volta das três da tarde posso estar à sua disposição. O que é que acha dessa hora para a entrevista?

            — Vou saber quanto tempo é que a equipe de filmagens precisa para chegar ao hospital — respondeu Melanie. Mantinham-se à espera e preparados havia dois dias. Estava quase certa de que não haveria qualquer impedimento. — Não me parece que haja problema algum. Onde é que pretende que a entrevista se faça?

            — No meu gabinete? — sugeriu Peter depois de ter pensado por breves instantes.

            — Boa idéia. O mais provável é eles chegarem por volta das duas, para instalarem antecipadamente o material.

            — Quanto tempo é que calcula que será necessário? — continuou Peter.

            — Tanto quanto estiver disposto a conceder-nos. Parece-lhe que duas horas seja demasiado? — perguntou Melanie.

            — Por mim, está ótimo — anuiu ele.

            Naquele momento Melanie lembrou-se de outra coisa.

            — E quanto à Pattie Lou? Haverá alguma possibilidade de podermos filmá-la hoje, durante alguns minutos?

            O Dr. Hallam franziu o sobrolho e começou a abanar a cabeça.

            — Não me parece, Mel. Talvez amanhã, mas apenas durante dois minutos, isto é, se ela recuperar tão bem como julgo que acontecerá. Mas escusado será dizer que toda a equipe será obrigada a usar roupas esterilizadas, e deverá ser uma filmagem curta.

            — Não vejo qualquer inconveniente nisso — assegurou Melanie, começando a tomar alguns apontamentos rápidos num bloco que trazia sempre dentro da mala de mão. Naquela mesma tarde, tencionava entrevistar Pearl Jones, em seguida Peter e na manhã seguinte seria a vez de Pattie Lou.

            No dia seguinte, a equipe de filmagens também poderia filmar alguns dos aspectos gerais do hospital, o que concluiria o trabalho que os trouxera a Los Angeles. Ela poderia apanhar o último vôo da noite para Nova Iorque, no dia seguinte. Fim da história. E talvez dentro de um ou dois meses já lhes fosse possível realizarem uma entrevista mais alargada com Pattie Lou, para se inteirarem do seu estado de saúde e da forma como estava a correr a vida da criança. Ainda era um pouco prematuro estar a pensar nisso. O fulcro da reportagem poderia ser feito agora e teria um grande impacto quando fosse apresentado no noticiário da noite.

            Nesse momento, Melanie olhou para Peter.

            — Um dia destes, gostaria imenso de poder fazer uma reportagem especial acerca de si — disse ela.

            Peter sorriu com uma certa benevolência, ainda satisfeito com o êxito da operação da criança naquele dia.

            — Talvez isso se possa arranjar numa ocasião qualquer. Nunca fui muito apologista desse gênero de coisa — retorquiu ele.

            — Na minha opinião, é importante que as pessoas tomem conhecimento de como é que se processam os transplantes e a cirurgia cardíaca de uma maneira geral — justificou Melanie.

            — Também penso assim. No entanto, isso terá de ser feito da maneira adequada e na altura certa — acrescentou Peter. Melanie acenou com a cabeça num gesto de aquiescência e ele deu-lhe uma pequena palmada na mão, levantando-se. — Nesse caso, encontramo-nos no meu gabinete por volta das catorze horas, Mel.

            — Até às quinze não teremos necessidade de incomodá-lo. Diga apenas à sua secretária qual o sítio onde deseja ser entrevistado e nós trataremos do resto.

            — Ótimo — redargüiu ele, após o que se dirigiu apressadamente para a sala das enfermeiras, onde foi buscar alguns relatórios, e momentos mais tarde desaparecia.

            Melanie ficou sozinha no corredor, a recordar a longa espera por que tinham passado, sentindo-se invadida por uma grande sensação de alívio. Ao fim de algum tempo, dirigiu-se para os telefones públicos e acenou a Pearl, a qual chorava e ria ao mesmo tempo, enquanto falava num outro telefone. Melanie combinou com a equipe de filmagens entrevistarem Pearl Jones às treze horas. Essa entrevista poderia ter lugar num canto do átrio do hospital, de forma a que ela não fosse forçada a afastar-se muito de Pattie Lou.

            Melanie olhou para o relógio e, mentalmente, organizou todo o plano de trabalho. Às catorze horas, subiriam até ao complexo onde se situava o gabinete de Peter e preparariam tudo para a entrevista com ele. Não previa qualquer problema com as entrevistas, e começou a pensar em regressar na noite seguinte a casa, onde as gêmeas a esperavam. Fora uma boa história, e Melanie só estivera fora durante três dias, apesar de lhe parecer mais que tinham sido três semanas. Desceu as escadas e ficou à espera da equipe de filmagens. Os técnicos chegaram pontualmente e começaram a entrevistar Pearl Jones, que se mostrou profundamente agradecida e muitíssimo emocionada. A entrevista decorreu sem quaisquer incidentes, tendo sido delineada com antecedência por Melanie, enquanto comia à pressa um sanduíche e bebia uma chávena de chá.

            Às duas da tarde foram para o gabinete de Peter e às quinze horas, com toda a pontualidade, já estavam preparados para a sua chegada. O gabinete que ele ocupava tinha duas paredes cobertas de livros de medicina do chão ao teto; as outras paredes eram revestidas por painéis de uma madeira de um tom rosado muito agradável. O médico encontrava-se sentado por detrás de uma mesa de madeira maciça e, mostrando-se entusiasmado, começou a falar com Melanie acerca das ciladas que existiam na sua profissão, dos perigos, dos receios que eram efetivamente uma realidade, assim como da esperança que também proporcionavam às pessoas. Foi bastante prudente na abordagem que fez dos riscos e das hipóteses de êxito, mas, uma vez que os doentes submetidos a transplantes não tinham qualquer outra esperança, os riscos que corriam quase parecia valerem a pena, e as poucas perspectivas de recuperação eram melhores do que nenhumas.

            — E a respeito dos doentes que decidiram não aproveitar essas hipóteses? — Melanie falava numa voz suave, esperando que aquela pergunta não o afetasse muito, causando-lhe demasiado sofrimento.

            — Esses morrem — respondeu Peter com tranqüilidade.

            Fez-se uma breve pausa e, quando ele recomeçou a falar, referiu-se especificamente à intervenção cirúrgica a que Pattie Lou fora submetida. O cirurgião começou a desenhar alguns diagramas, a fim de poder explicar com maior clareza o processo utilizado, mostrando um domínio perfeito do método cirúrgico enquanto o descrevia tanto para a câmera como para a Mel.

            Quando finalmente deram a entrevista por terminada, eram quase dezessete horas, e Peter pareceu ficar aliviado. O seu dia tinha sido bastante longo e ele sentia-se cansado, em parte devido àquela entrevista que se alongara por duas horas.

            — A Mel faz o seu trabalho muito bem, minha amiga — afirmou ele.

            Melanie gostou daquele elogio e sorriu quando os operadores de câmera desligaram as luzes. Estes também se sentiam satisfeitos com o que tinham conseguido. O médico expusera o assunto de forma adequada, e Melanie soube instintivamente que haviam conseguido exatamente aquilo de que ela necessitava para a reportagem a ser apresentada no noticiário. Teria a duração de quinze minutos e, naquele momento, ela sentia-se tão entusiasmada que mal podia esperar para ver a gravação que tinham em cassete. Peter Hallam fora bastante eloqüente e estivera à vontade.

            — Eu também diria que o Peter faz isto muito bem. Esteve lindamente ao longo de toda a entrevista — disse Melanie.

            — Estava com receio de usar uma linguagem demasiado técnica ou de me envolver em demasia no plano emocional.

            — Peter franziu o sobrolho.

            — Correu tudo lindamente — asseverou ela com um abanar de cabeça.

            O que também se verificara durante a entrevista com Pearl Jones. A mulher chorara e rira, mas depois de se ter recomposto, havia começado a descrever o que fora a vida da criança ao longo dos últimos nove anos. A despeito desse aspecto negativo, se a intervenção cirúrgica viesse a ser um êxito tão grande como Peter antevira, os corações dos telespectadores seriam inegavelmente conquistados por Pattie Lou, tal como acontecera tanto a Melanie como a Peter Hallem. Fosse como fosse, era impossível resistir a qualquer criança doente, e Pattie Lou encontrava-se envolta numa espécie de luminosidade mágica, talvez por ter estado tão enferma durante tanto tempo, ou talvez porque aquela fosse a sua maneira de ser. Nos últimos nove anos, a criança fora acarinhada por inúmeras demonstrações de um amor constante.

            Peter observava Melanie a dar instruções à sua equipe de filmagens; os seus olhos espelhavam a franca admiração que sentia por ela, à semelhança do que acontecia sempre que Mel olhava para o médico. A linha de pensamento deste foi interrompida pela chegada de uma enfermeira, a qual começou a falar com ele em voz baixa; Peter franziu o sobrolho no momento em que Mel se virou para ele; sentiu o coração a cair-lhe aos pés. Não foi capaz de resistir ao impulso de ir até junto deles para lhes perguntar se havia algum problema com o estado de saúde de Pattie Lou.

            Peter abanou a cabeça com rapidez, contrariando aquele receio.

            — Não, ela está ótima. Um dos meus colegas esteve com ela há uma hora. Isto é outra situação. Acabou de ser admitida mais uma doente que precisa de um transplante do coração. Trata-se de um caso urgente. Necessita de um doador neste momento e nós não temos forma de socorrê-la — esclareceu Peter. Melanie sentiu-se imediatamente envolvida naquele novo problema, que carecia de uma solução rápida. Ele olhou de relance para ela. — Tenho de ir embora. Então, num impulso, voltou-se para Mel. — Quer vir comigo?

            — Ir consigo ver a doente?

            Peter acenou rapidamente que sim e Melanie sentiu-se agradada por ele lhe ter perguntado.

            — Com certeza, mas não explique quem é — respondeu o cirurgião. — Eu posso sempre justificar a sua presença, apresentando-a como fazendo parte do corpo clínico de um hospital da zona leste. — Peter esboçou um breve sorriso. — A menos que venha a ser reconhecida. Só não desejo que a família fique transtornada ou que possam pensar que eu estou a explorar o caso. — Aquela fora uma das razões que fizera com que ele se tivesse mantido desde sempre afastado de qualquer publicidade.

            — Com certeza, isso não será problema. — Melanie agarrou na mala, disse algumas palavras ao seu pessoal de filmagens e, na companhia de Peter, dirigiu-se em passos rápidos para o automóvel. Escassos momentos depois, encontravam-se no complexo central do hospital, no sexto andar, a percorrer rapidamente o corredor em direção do quarto da nova doente.

            Peter abriu a porta para que Melanie passasse e ela ficou espantada com o que viu. À sua frente, encontrava-se uma rapariga de vinte e nove anos, notavelmente bonita.

            Os seus cabelos eram de um louro esmaecido e emolduravam uns olhos enormes e tristes. A pele era do branco-cremoso mais maravilhoso que Melanie alguma vez vira. A rapariga, à medida que cada um deles se apresentava, parecia absorver todas as feições daqueles rostos, como se tivesse de se recordar de cada par de olhos, do menor traço fisionômico. Começou a sorrir e, num ápice, o seu aspecto transformou-se, ficando muito mais jovem.

            O coração de Melanie sentiu-se imediatamente conquistado por ela. O que é que aquela rapariga tão adorável estava a fazer naquele lugar tão aterrador? Alguém já lhe colocara uma espessa ligadura à volta do braço, de forma a cobrir a região onde haviam sido feitas as incisões que permitiam chegar às artérias de onde fora extraída uma enorme quantidade de sangue; o outro braço encontrava-se cheio de nódoas negras, devido à administração de uma solução por via intravenosa havia somente alguns dias. No entanto e de uma maneira estranha, uma pessoa esquecia-se de tudo isso ao ouvi-la falar. A rapariga tinha uma voz suave com uma cadência musical, apesar de Lhe ser difícil respirar, e parecera ter ficado satisfeita por conhecê-los, tendo mesmo dito algo engraçado a Melanie ao serem apresentadas, após o que continuou a conversar com Peter.

            Inesperadamente, Mel deu consigo a rezar para que se pudesse encontrar com a maior brevidade possível um coração compatível com ela. Como é que todas aquelas pessoas poderiam estar numa situação tão desesperada? O que é que havia de errado no mundo que impiedosamente atingia toda aquela gente, que morria pouco a pouco por causa dos seus corações cada vez mais fracos, enquanto outras cavavam valas, escalavam montanhas, dançavam e faziam esqui? Por que razão é que tinham sido enganados quando ainda eram tão jovens? Aquilo não lhe parecia justo. Porém no rosto da rapariga não se via qualquer ressentimento. Chamava-se Marie Dupret e explicou que os seus pais eram franceses.

            — É um nome maravilhoso — comentou Peter com um sorriso.  — Mas mais do que isso, Marie é uma rapariga lindíssima.

            — Muito obrigada, doutor Hallam.

            Ao ouvir aquelas palavras, Melanie reparou que ela tinha um ligeiro sotaque característico das gentes do Sul.

            Momentos mais tarde, Marie comentou que crescera em Nova Orleães, mas que vivia em Los Angeles há quase cinco anos.

            — Gostaria muito de poder regressar um dia a Nova Orleães. — A maneira como ela falava era um encanto para o ouvido. Marie sorriu de novo a Peter. — Isto é, depois de o nosso bom médico me ter remendado. — Fitou-o com um olhar inquiridor, ao mesmo tempo em que o seu sorriso se desvanecia, deixando adivinhar a preocupação e o sofrimento que a invadiam. — Dentro de quanto tempo é que calcula que isso possa vir a acontecer?

            Com a exceção de Deus, ninguém tinha resposta para aquela pergunta, tal como todos sabiam, incluindo a própria Marie.

            — Esperemos que dentro em breve — respondeu Peter. O timbre da sua voz era animador, instilando confiança. Continuou a conversar tranquilizando-a e explicou-lhe também o que é que iriam fazer-lhe naquele mesmo dia.

            Marie não parecia assustada com os incontáveis exames e análises a que teria de ser sujeita, mas continuava a insistir em regressar às questões de fundo, falando enquanto mantinha os seus enormes olhos azuis erguidos para o médico numa expressão de súplica, como se fosse uma condenada que aguardasse pelo fim da sua vida na cela que antecedia a morte, procurando perdão por um crime que não havia cometido.

            — Durante os próximos dias, Marie, vai andar muito ocupada — disse Peter, sorrindo-lhe de novo e dando-lhe uma pancadinha amigável no braço. — Amanhã de manhã venho cá outra vez, para ver como é que está a passar e, se lhe ocorrer mais alguma coisa que queira perguntar-me poderá fazê-lo nessa altura.

            Marie agradeceu-lhe e, acompanhado por Melanie, o médico saiu do quarto.

            Uma vez mais, esta se sentiu perplexa ao verificar o terror que cada um daqueles doentes sentia. Perguntava a si mesma quem é que Marie teria que lhe segurasse na mão e pressentiu que aquela mulher jovem se encontrava sozinha na vida. Não fosse esse o caso, o marido ou a família não teriam estado presentes naquele momento? Em todos os outros quartos se viam cônjuges e familiares ou, na falta destes, pelo menos algum amigo. Não era o que se passava em relação à Marie, que parecia sentir-se tão dependente de Peter. Enquanto percorriam o corredor, Melanie teve a sensação de que haviam abandonado Marie. Quando desciam as escadas, ergueu o olhar para Peter, mostrando uma expressão de tristeza.

            — O que é que irá acontecer-lhe?

            — Temos de encontrar um doador o mais rapidamente possível — respondeu o médico, preocupado. Recordou-se então da presença de Melanie. — Estou satisfeito por ter acedido a vir comigo.

            — Também eu — redargüiu ela. — A Marie parece ser uma rapariga tão simpática.

            Peter concordou com um aceno. Para ele, isso se passava com todos os doentes, fossem estes homens, mulheres ou crianças. Estavam todos muito dependentes dele. Peter ter-se-ia assustado se começasse a pensar em demasia naquele assunto. Isso raramente acontecia. Fazia o que podia por essas pessoas embora, por vezes, apenas pudesse fazer muito pouco.

            Durante os últimos dias, Melanie interrogara-se sobre como Peter conseguia suportar aquele fardo, tendo pela frente tantas vidas em perigo e tão pouca esperança nas mãos. Apesar disso, naquele homem não se lobrigava o mais ínfimo traço de desolação. Quase se assemelhava a um transmissor de esperança e, uma vez mais, Melanie apercebeu-se de quanto o admirava.

            — Isto é que tem sido um dia, não é verdade, Mel? — perguntou Peter, sorrindo enquanto saíam do hospital, caminhando lado a lado.

            — Não sei como é que consegue fazer isto dia após dia. Se estivesse no seu lugar, morreria ao fim de dois anos. Não — interrompeu-se Melanie, sorrindo-lhe — reduza isso para duas semanas. Meu Deus, Peter, a responsabilidade e a tensão! Vai do bloco operatório para junto da cama dos doentes, passando pelo seu gabinete, para depois recomeçar tudo de novo. Estamos a falar de pessoas que não sofrem apenas de joanetes. Cada uma é um caso de vida ou de morte. — tornou a lembrar-se de Marie Dupret. — Como aquela rapariga.

            — É isso que faz com que a minha profissão valha a pena. Quando se consegue vencer. — Ambos pensaram ao mesmo tempo em Pattie Lou. O último boletim clínico do dia fora otimista.

            — Sim, mas não deixa de ser incrivelmente duro para si — continuou ela. — E, para culminar tudo o mais, foi obrigado a conceder-me uma entrevista de duas horas.

            — Isso foi uma coisa que me deu prazer — afirmou Peter com um sorriso; apesar daquelas palavras, parte da sua mente continuava concentrada na imagem de Marie. Examinara os relatórios médicos, os quais mostravam que os seus colegas estavam bem inteirados da situação clínica. O aspecto principal daquele caso dependia de encontrar ou não a tempo um doador; não havia nada que ele pudesse fazer quanto a isso, para além de rezar.

            Melanie deu consigo a pensar também no mesmo assunto.

            — Acha que será possível encontrar um doador para a Marie? — perguntou ela.

            — Não sei qual a resposta a essa pergunta. Tenho esperanças de que sim. Ela não tem muito mais tempo — respondeu Peter, pensando que o mesmo se passava com todos os doentes na mesma situação, o que era o pior de tudo. Limitavam-se a aguardar que alguém morresse e lhes proporcionasse a bênção da vida, sem o que estariam condenados.

            — Também espero que sim. — Mel respirou fundo, inalando o ar da primavera enquanto olhava para o automóvel que alugara. — Bem... — continuou ela, estendendo a mão.

            — Imagino que por hoje é tudo. Pelo menos para mim. Depois de um dia como o de hoje, espero que você consiga descansar alguma coisa.

            — É o que faço sempre quando chego a casa e vejo os meus filhos — disse Peter.

            — Não sei como é que pode dizer uma coisa dessas, se eles forem minimamente parecidos com as minhas filhas — retorquiu Melanie e riu-se. — Regra geral, depois de um dia terrível de dezoito horas de trabalho cansativo, arrasto-me até a casa e a Val está dividida entre dois rapazes e tem impreterivelmente de discutir comigo o problema. A Jess tem um trabalho de ciências, com pelo menos cinqüenta páginas, que sou obrigada a ler nessa mesma noite. Ambas falam comigo ao mesmo tempo e eu explodo e depois me arrependo disso. Esta é a parte mais difícil da ausência de um pai. Não existe outra pessoa com quem se possa partilhar o fardo, independentemente do quanto nos sintamos extenuados quando chegamos a casa.

            Peter sorriu. O que ela acabara de dizer era-lhe familiar.

            — Existe um pouco de verdade no que está a dizer, Mel — retrucou ele. — Em minha casa, esses problemas são causados pela Pam e pelo Matt. O Mark já é bastante independente.

            — Quantos anos é que ele tem? — perguntou Melanie.

            — Quase dezoito — respondeu ele. De repente, ocorreu-lhe uma idéia. Peter olhou para Melanie e esboçou um sorriso a medo; ambos continuavam no parque de estacionamento. Passavam quinze minutos das seis da tarde. — E que tal se agora viesse comigo até minha casa? Ainda poderia nadar um pouco e depois jantaria conosco.

            — Eu não posso incomodá-lo dessa forma. — Mas ficou sensibilizada com a atenção que ele lhe demonstrava.

            — E por que não? Não é agradável regressar a um quarto de hotel, Mel. Por que não vem comigo? Não costumamos jantar tarde, o que lhe permitirá estar de volta ao seu hotel por volta das nove horas.

            Melanie não sabia bem porque, mas sentia-se tentada a aceitar aquela sugestão.

            — Não lhe parece que os seus filhos podem preferir ter a sua companhia só para eles? — indagou ela.

            — Não. Acho que eles vão ficar entusiasmados por terem a oportunidade de conhecê-la.

            — Não dê demasiada importância a isso — disse Melanie. Apesar de tudo, de repente a idéia parecia-lhe deveras tentadora. — De verdade que não se sente demasiado fatigado?

            — De maneira nenhuma. Venha comigo, Mel, vai ver que será um jantar divertido.

            — No que me diz respeito não tenho qualquer dúvida — retorquiu ela com um sorriso. — Devo ir atrás de si no meu carro?

            — Por que é que não o deixa estacionado aqui? — sugeriu Peter.

            — Nesse caso, depois será obrigado a trazer-me. Ou então posso chamar um táxi.

            — Eu trago-a. Assim terei oportunidade de ver como é que a Pattie Lou está a recuperar.

            — O Peter nunca pára? — Melanie sorriu e entrou para o automóvel, satisfeita.

            — Não, e consigo acontece o mesmo. — O médico parecia tão satisfeito como ela, ao saírem do parque de estacionamento do hospital, seguindo em direção a Bel-Air.

            Melanie recostou-se para trás e soltou um suspiro, quando atravessavam os enormes portões negros de ferro forjado que davam acesso à zona de Bel-Air.

            — Esta área é tão agradável — comentou ela, tendo a sensação de que seguiam pelo campo, ao rodar naquela estrada com lombas e curvas inesperadas, e vendo de relance aquelas vivendas palacianas abrigadas dos olhares indiscretos.

            — É essa a razão por que me agrada viver aqui. Não compreendo como é que é capaz de suportar Nova Iorque — retrucou Peter.

            — O tipo de vida empolgante que se vive lá faz com que valha a pena — retorquiu Melanie com uma careta risonha.

            — Essa existência agrada-lhe mesmo, Mel?

            — Sim. Gosto muito da minha casa, do meu trabalho, da cidade e dos meus amigos. Sinto-me absolutamente conquistada por Nova Iorque e, na realidade, não me parece que conseguisse viver noutro lugar qualquer — afirmou Melanie.

            Ao acabar de proferir aquelas palavras, apercebeu-se de repente de que, ao fim e ao cabo, a perspectiva de regressar a casa no dia seguinte não era assim tão má como temera. A cidade de Nova Iorque era onde ela pertencia, não obstante o quanto pudesse gostar de Los Angeles, e apesar de toda a admiração que sentia por Peter. Quando ele olhou uma vez mais de relance para ela, apercebeu-se de que a sua atitude era descontraída. Descreveu uma última curva para a esquerda, entrando numa alameda muito bem cuidada que dava acesso a uma vivenda bastante grande, de traços arquitetônicos maravilhosos ao estilo francês, rodeada por árvores bem podadas e por canteiros com flores. A imagem daquela casa assemelhava-se a algo reproduzido num postal de França. Melanie olhou em volta, surpreendida. Não era nada o gênero de casa que ela esperara que Peter tivesse. Imaginara que ele vivia numa habitação mais rústica ou mesmo do estilo das casas dos ranchos. No entanto, quando ele parou o automóvel, Melanie reparou que a vivenda que tinha à sua frente era na realidade muito elegante.

            — É maravilhosa, Peter — disse ela, observando a mansarda sob o telhado na expectativa de avistar crianças à janela, mas não havia nenhuma à vista.

            — Parece ter ficado surpreendida — observou ele, rindo-se.

            — Não — retorquiu Mel, corando a contragosto. — Só que não tem muito a ver consigo.

            — Inicialmente não tinha — confirmou Peter, sorrindo de novo. — A Anne foi a responsável pela arquitetura da casa. Foi construída precisamente antes do nascimento do Matthew.

            — Não há dúvida de que é uma bela mansão, Peter — continuou ela, chegando à conclusão que descobrira uma outra faceta de Peter.

            — Muito bem, vamos entrar — disse ele e abriu a porta do automóvel. — Entremos. Quero apresentar-lhe os miúdos. O mais provável é estarem todos na piscina, acompanhados de muitos amigos. Prepare-se.

            Ambos saíram do automóvel, e Melanie olhou à sua volta. Era tudo muito diferente da casa de cidade onde ela habitava em Nova Iorque; apesar disso, era bastante interessante poder ver como é que ele vivia. Seguiu atrás de Peter para o interior da vivenda. Estava curiosa perante a perspectiva de conhecer os filhos do Dr. Hallam, perguntando a si própria se seriam acentuadamente diferentes das gêmeas.

 

            Peter meteu a chave à porta, abriu-a e entrou num vestíbulo cujo chão era revestido a mármore negro e branco, formando um padrão clássico, em forma de diamante. Nas paredes viam-se candelabros fixos de cristal. Uma das peças de mobiliário era um console de mármore negro, com pernas douradas estilo Luís XVI, sobre a qual fora colocada uma jarra de cristal repleta de flores acabadas de colher e de onde emanava uma fragrância primaveril.

Melanie observava tudo ao seu redor. Tudo aquilo era completamente diverso do que ela esperara encontrar. Peter parecia ser tão descontraído e despretensioso que nunca lhe passara pela cabeça que ele pudesse viver numa casa recheada de peças de mobiliário francês antigo e requintado. Mas essa era a realidade. Não que se tratasse de opulência vulgar; todavia, era bastante evidente que tudo aquilo fora muito dispendioso.

            Em seguida, Melanie lançou uma espreitadela à sala de estar que também se encontrava mobiliada num estilo semelhante. Os tecidos delicados com que os cadeirões eram forrados consistiam, na sua maior parte, de brocados em tons de bege. As paredes estavam primorosamente pintadas em várias tonalidades de creme, sendo os frisos do teto em tons mais claros e com motivos intrincados, realçados pela pintura em bege e branco. Melanie continuava desconcertada, enquanto examinava tudo ao seu redor.

            Peter conduziu-a para o seu escritório, convidando-a a sentar-se. Aquela sala era decorada em vermelhos, profundos e ricos, com cadeiras antigas estilo inglês, vendo-se ainda um sofá comprido de couro; nas paredes estavam pendurados alguns quadros que reproduziam cenas de caça emoldurados na maior perfeição.

            — Parece muito surpreendida, Mel — comentou Peter que se mostrava bastante divertido.

            Melanie abanou a cabeça e soltou uma risada.

            — Não se trata disso — disse ela. — O que acontece é que eu o imaginei a viver num ambiente muito diferente deste. Mas é uma casa magnífica.

            — A Anne freqüentou a Sorbonne durante dois anos e, depois disso, permaneceu em França mais outros dois anos. Na minha opinião, isso deixou uma marca permanente nos seus gostos. — Peter olhou em volta como se estivesse a ver a mulher de novo. — No entanto, não posso queixar-me. A decoração dos andares de cima é menos formal. Daqui a pouco mostro-lhe as outras dependências. — Sentou-se à sua mesa de trabalho e começou a ler as mensagens escritas num bloco de apontamentos, girou a cadeira para ficar de frente para ela e, repentinamente, deu uma palmada na testa como se lhe houvesse ocorrido algo. — Que diabo! Esqueci-me de lhe sugerir que passasse pelo seu hotel, para ir buscar um fato de banho. — Então, observou Melanie de olhar semicerrado. — Talvez a Pam possa dar uma ajuda. Gostaria de ir nadar?

            Para Melanie tudo aquilo era espantoso. Haviam passado todo o dia no hospital, o qual terminara numa entrevista. Peter operara Pattie Lou e, subitamente, ali se encontravam os dois a contemplar a hipótese de irem nadar, como se não tivessem feito coisa nenhuma durante todo o dia. Era o suficiente para confundir as idéias de qualquer pessoa, mas tudo parecia normal naquela situação. Talvez fosse aquilo que lhe permitia sobreviver, pensou Melanie.

            Peter levantou-se da cadeira e levou-a até um pátio revestido de pedra, à volta de uma grande piscina oval; Mel sentiu-se mais à vontade naquele lugar. Havia pelo menos uma dúzia de adolescentes, e um rapazinho todo molhado e a pingar, a correr. A gritaria que faziam era ensurdecedora. Estranhamente, ela não se apercebera daquele barulho enquanto tinha estado dentro de casa. Riu-se ao observar as brincadeiras com que eles se entretinham. Os rapazes exibiam-se, empurrando-se para dentro de água, onde jogavam pólo aquático numa das extremidades, enquanto na outra se encavalitavam nos ombros uns dos outros, acabando por caírem na água. Várias raparigas de formas generosas observavam a cena. Peter estava a alguma distância da água, mas foi salpicado enquanto batia palmas, sem que ninguém lhe prestasse a mínima atenção, até que, de súbito, o rapazinho correu para ele e rodeou-lhe as pernas com os braços, deixando marcas molhadas nas calças; Peter baixou o olhar com um sorriso rasgado.

            — Olá, papai. Vem para dentro da piscina.

            — Olá, Matt. Posso mudar de roupa primeiro? — perguntou Peter.

            — Com certeza. — Pai e filho trocaram um olhar afetuoso. Ele era um rapazinho adorável, de aspecto traquinas, com o cabelo louro aclarado pelo sol e sem os dentes da frente.

            — Gostaria de te apresentar uma amiga — continuou Peter, voltando-se para Melanie, que se aproximou dos dois. O pequenito era a cara chapada do pai e, quando ele sorriu, viu que lhe tinham caído os dois dentes do meio. Era a criança mais engraçada que alguma vez conhecera. — Matthew, esta é a minha amiga Melanie Adams. Mel, este é o Matt. — A criança franziu o sobrolho e Peter fez uma careta risonha. — Peço desculpa, Matthew Hallam — corrigiu ele.

            — Muito prazer — disse o rapazinho, estendendo-lhe uma pequena mão molhada, que Mel apertou com toda a formalidade, recordando-se por breves instantes de como é que as gêmeas haviam sido quando tinham aquela idade. Isso acontecera havia dez anos, apesar de em certas ocasiões lhe parecer que apenas passara um momento.

            — Onde é que está a tua irmã, Matt? — perguntou Peter, olhando em volta. À primeira vista, tinha a impressão de que via somente os amigos de Mark em volta da piscina, mas ainda não fora capaz de atrair a atenção do filho mais velho, o qual naquele momento atirava duas raparigas para dentro da água, após o que se pôs às cavalitas de um amigo. Todos eles se divertiam à grande, enquanto Mel observava as suas brincadeiras.

            — Ela foi para o quarto — informou Matt com um olhar de desprezo no rosto. — O mais certo é estar a falar ao telefone.

            — Num dia como o de hoje? — perguntou Peter, surpreendido. — A tua irmã tem estado dentro de casa o dia todo?

            — A maior parte do tempo — retorquiu o rapazinho a revirar os olhos, enquanto olhava para o pai e para Melanie.

            — Ela é tão parva. — Peter sabia que ele passava alguns maus bocados por causa de Pam. Em determinadas alturas todos eles passavam pelo mesmo; no entanto, a filha estava a atravessar um período difícil, particularmente devido ao fato de viver no seio de uma família formada na sua totalidade, com a exceção dela mesma, por homens.

            — Vou até lá investigar o que é que ela está a fazer — disse Peter, olhando para o filho. — Por favor, anda com cuidado à volta da piscina.

            — Eu tenho cautela — garantiu o garoto.

            — Onde é que está Mistress Hahn? — acrescentou Peter.

            — Foi agora mesmo lá dentro, mas eu estou bem, papai. A sério.

            Como se desejasse ilustrar a sua afirmação, Matt começou a correr e deu um salto para dentro da piscina, salpicando os dois dos pés à cabeça. Melanie deu um salto para trás e começou a rir a bandeiras despregadas, enquanto Peter a fitava com uma expressão de quem pedia desculpa, e Matt vinha à superfície da água.

            — Matthew, queres fazer o favor de não... — Mas a pequena cabeça submergiu de novo na água da piscina. O rapazinho começou a nadar debaixo da água como se fosse um peixe e dirigiu-se para o local onde os outros se encontravam, exatamente no momento em que Mark reparou na presença do pai e de Melanie e soltou um grito, acenando-lhes. Tinha a constituição física do pai, a mesma estatura, os mesmos membros alongados e a mesma graciosidade.

            — Olá, pai!

            Peter apontou para o filho mais novo que continuava a nadar na direção de Mark; o rapaz mais velho acenou com a cabeça num gesto de compreensão, prendendo a criança nos braços quando esta veio à tona da água. Disse-lhe qualquer coisa e afastou-o do local onde os amigos continuavam a jogar, para que não se magoasse.

            Ao ver aquilo, Peter concluiu que estava tudo sob controle e ambos se dirigiram para o interior da casa.

            — Já está toda encharcada?

            De fato assim era, mas ela não se incomodava com isso. Era um alívio poder esquecer-se da seriedade que pontuara a primeira parte daquele dia.

            — Isto já seca.

            — Às vezes arrependo-me de ter feito o raio daquela piscina. Metade da vizinhança passa os seus fins-de-semana aqui.

            — Deve ser ótimo para as crianças.

            — E é — retorquiu Peter com um aceno de cabeça. — Mas é raro eu conseguir nadar um pouco em paz e sossego, exceto quando eles estão na escola. Quando tenho tempo, de vez em quando venho a casa almoçar.

            — Quando é que isso acontece? — perguntou Melanie num tom de brincadeira. Inesperadamente, todos pareciam muito bem-dispostos.

            — Cerca de uma vez por ano — respondeu Peter com uma gargalhada.

            — Foi o que eu pensei — retorquiu ela. Então, ocorreu-lhe à mente a imagem de Matt com o seu sorriso desdentado. — Acho que estou apaixonada pelo seu filho mais novo.

            — Ele é uma criança estupenda — retrucou Peter, satisfeito. Depois lembrou-se do filho mais velho. — O mesmo acontece com o Mark. É um rapaz tão responsável que por vezes me sinto assustado.

            — Eu também tenho uma que é assim. A Jessica, a gêmea mais velha.

            — Qual das duas é? — perguntou Peter, intrigado. — A que se parece consigo?

            — Como é que se lembra disso? — interrogou ela com uma expressão de surpresa.

            — Eu recordo-me de tudo o que me dizem, Mel. Isso é da maior importância na minha profissão. Um pequeno pormenor esquecido, uma pista ou uma indicação, tudo ajuda quando uma pessoa é constantemente forçada a tentar derrotar a morte. Não me posso dar ao luxo de esquecer o que quer que seja. — Era a primeira vez que admitira abertamente a existência da sua extraordinária capacidade profissional e Melanie fitou-o com interesse, enquanto seguia atrás dele para dentro de casa, para uma sala espaçosa banhada de sol, mobiliada com grandes cadeirões de vime branco, sofás do mesmo material, uma aparelhagem estereofônica e um televisor com um ecrã enorme. Naquela sala, também havia algumas palmeiras com cerca de três metros de altura, cujas copas frondosas tocavam no teto. Dava a impressão de ser uma sala bastante aprazível, onde uma pessoa se pudesse sentar num dia soalheiro.

            Naquela dependência, Melanie deparou inesperadamente com meia dúzia de fotografias de Anne espalhadas por vários sítios, dentro de molduras prateadas, a jogar tênis, junto de Peter em frente ao Museu do Louvre, com um bebê ao colo, a posar com os filhos todos junto de uma árvore de Natal. O tempo parecia ter parado e Melanie ficou fascinada pelo rosto dela, pelos seus cabelos louros e por aqueles enormes olhos azuis. Anne fora uma mulher atraente, com um corpo atlético, adelgaçado e alto. Em certos aspectos, ela e Peter assemelhavam-se. A julgar por aquelas fotografias, ela parecia ser a parceira ideal para ele. Bruscamente, apercebeu-se de que Peter permanecia ao seu lado, a olhar também para uma das fotografias.

            — Por vezes, é difícil acreditar que ela desapareceu — disse num tom de voz onde se adivinhava uma ternura enorme.

            — Imagino — comentou Melanie, sem saber bem o que mais haveria de dizer, mas continuou: — Todavia, de certa forma ela continua a viver no seu coração, nos seus pensamentos e através dos filhos que deixou. — Tanto um como o outro sabiam que aquilo não era a mesma coisa, mas era tudo o que restara de Anne. Isso e aquela casa que fora decorada tanto a seu gosto. Melanie inspecionou de novo a sala onde ambos se encontravam; contrastava bastante com a formalidade da sala de estar e do escritório de Peter, que vira inicialmente. — Para que é que utiliza esta sala, Peter? — perguntou, curiosa. Aquele espaço era bastante feminino.

            — Os miúdos vêm muitas vezes para aqui e, apesar da decoração ser na sua maior parte feita em tons de branco, aqui não podem fazer muitos estragos — respondeu ele. Naquela altura, Melanie reparou numa secretária de vime colocada de frente para a piscina. — A Anne costumava vir para aqui muitas vezes. Quando estou em casa, passo a maior parte do tempo no escritório ou lá em cima. — Com estas palavras, Peter fez um gesto na direção do vestíbulo. — Venha comigo que eu mostro-lhe o resto da casa. Vamos ver se conseguimos descobrir a Pamela.

            No andar de cima, uma vez mais, todas as peças de mobiliário eram formais e no estilo francês. O chão dos corredores era em granito bege claro e nas extremidades haviam sido dispostas credências de um tom que se coadunava com a decoração; dos tetos pendiam uns candelabros maravilhosos de cobre, também de origem francesa. Naquele andar havia ainda uma outra sala de estar menor, mas igualmente formal, decorada em tons suaves de azul. Viam-se veludos e sedas, assim como uma lareira de mármore, enquanto nas paredes havia alguns candeeiros fixos e do teto pendia um lustre de cristal. Os cortinados eram de seda azul-pálida com orlas amarelo-claras e azuis e estavam apanhados, mantendo-se presos à parede por peças de latão, de forma a permitir que se desfrutasse de uma vista da piscina. Mais à frente, existia um pequeno escritório decorado em rosa-velho, mas Peter franziu a testa quando passaram pela porta daquela dependência, o que fez que Melanie pensasse imediatamente que aquela sala não era utilizada. Não apenas isso, mas também que pertencera a Anne.

            A sala seguinte era uma biblioteca decorada com o maior bom gosto em verde-escuro, a qual era obviamente a sala de estar de Peter. Viam-se paredes e mais paredes pejadas de livros, e sobre a mesa havia uma pequena montanha caótica formada por vários papéis. Numa das paredes estava pendurado um quadro a óleo, que retratava Anne. Existiam ainda umas portas duplas de correr que davam acesso ao quarto de casal, onde Peter dormia agora sozinho. Era todo decorado com sedas de tom bege, cômodas francesas, um bonito sofá comprido, vendo-se ainda o mesmo tipo de candeeiros de parede e cortinados fartos; toda aquela decoração era complementada por outro lustre suntuoso. Havia algo estranho que impregnava aquele quarto e que fazia com que uma pessoa tivesse vontade de se despir para dançar num desafio a toda a formalidade. Tudo aquilo era excessivo, apesar de bonito, e quanto mais Melanie observava, mais se convencia de que aquilo não tinha muito a ver com a personalidade de Peter.

            Subiram outro lanço de escadas e chegaram a um piso onde tudo era alegre e colorido, e as portas abertas deixavam ver três quartos espaçosos e soalheiros que obviamente pertenciam a crianças. No chão do de Matthew, havia brinquedos desarrumados e espalhados, enquanto as portas entreabertas do de Mark mostravam um interior onde imperava o caos; a terceira porta mantinha-se encostada e tudo o que Melanie conseguia lobrigar era uma enorme cama branca encimada por um dossel, ao lado da qual se viam no chão as costas de uma mulher deitada de lado. Ao ouvir o som dos passos deles a percorrer o corredor, ela voltou-se e pôs-se de pé, murmurando umas palavras ininteligíveis ao telefone, após o que desligou o aparelho. Melanie ficou admirada ao verificar que ela era alta e parecia bastante mais velha. Se aquela era a filha do meio, era difícil acreditar que ainda não tivesse catorze anos. Era alta, magra e loura, com madeixas da cor do trigo, à semelhança de Valerie, e uns olhos enormes azuis que tinham uma expressão sonhadora. Mas, acima de tudo, era muito parecida com a mãe que Melanie vira nas fotografias.

            — O que é que estás a fazer cá dentro? — perguntou Peter, procurando os olhos da filha; Mel pressentiu a tensão que existia entre ambos.

            — Precisava telefonar a uma amiga.

            — Não te podias ter servido do telefone da piscina?

            Pamela não respondeu ao pai de imediato; depois encolheu os ombros.

            — E então? — perguntou ela.

            Peter ignorou o comentário e voltou-se para Melanie.

            — Gostaria de lhe apresentar a minha filha, Pam. Pamela, esta é Melanie Adams, a senhora de Nova Iorque que apresenta o noticiário e de quem eu te falei.

            — Eu sei quem ela é — retorquiu Pamela sem que de início estendesse a mão, mas Melanie fê-lo e a rapariga acabou por lha apertar.

            Perante aquela atitude da filha, o pai começara a fervilhar por dentro. Nunca desejara que a relação de ambos fosse assim, mas era o que acontecia sempre. A filha fazia invariavelmente qualquer coisa que o aborrecia, sendo grosseira para com os seus amigos, fazendo sempre ponto de honra em não cooperar, mesmo quando não existia justificação para tal. Por que, com todos os diabos, por que? Todos eles se sentiam tristes devido à morte de Anne, mas o que é que a levaria a descarregar para cima do pai? Já há ano e meio que Pamela se comportava assim e, atualmente, estava ainda pior do que antes. Peter dizia a si mesmo que aquela atitude de desafio se devia à idade, que era uma fase passageira, embora por vezes duvidasse disso.

            — Será que podias emprestar um fato de banho à Melanie, Pam? Ela deixou o seu no hotel.

            Uma vez mais, a rapariga hesitou durante uma fração de segundos.

            — Com certeza. Acho que posso. Ela é... — Hesitou na busca da palavra adequada; sem dúvida que Mel não tinha um corpo avantajado; no entanto, não era tão esguia como Pamela. — Ela é maior do que eu — prosseguiu Pam, apercebendo-se de algo mais. O olhar que o pai e Melanie trocaram não lhe agradou. Ou, para se ser mais exato, desagradou-lhe acintosamente a maneira como o pai tinha olhado para Mel.

            Esta compreendeu o que se estava a passar e sorriu com suavidade para a rapariga.

            — Se preferes não me emprestar o fato de banho não existe qualquer problema.

            — Não, por mim estou de acordo — assegurou Pam enquanto os seus olhos perscrutavam o rosto de Mel. — Parece diferente da imagem que mostra na televisão. — Nos olhos dela não se via o mínimo vestígio de um sorriso.

            — Ai sim? — perguntou Melanie, esboçando um sorriso perante aquela jovem ligeiramente desconcertante, mas muito atraente. Não era nada parecida com Peter e a sua fisionomia continuava a mostrar uma infantilidade indefinível, apesar das pernas compridas, do busto desenvolvido e de um corpo que já a despojara da sua idade cronológica. — As minhas filhas estão sempre a dizer-me que eu pareço mais velha na televisão.

            — Sim. É mais ou menos isso — concordou Pamela. — Fica com um aspecto mais sério.

            — Imagino que seja isso que elas pretendem dizer — acrescentou Melanie.

            Os três permaneciam de pé naquele bonito quarto branco, e Pamela não despregava os olhos de Melanie, como se estivesse à procura no seu rosto de uma resposta a qualquer pergunta por formular.

            — Que idade têm as suas filhas?

            — Em julho vão fazer dezesseis anos.

            — As duas na mesma data? — perguntou Pam, confusa.

            — São gêmeas — respondeu Melanie, com um sorriso nos lábios.

            — Ah, são? Isso é giro! São parecidas uma com a outra? — indagou Pamela.

            — De maneira nenhuma. São bivitelinas.

            — Pensava que isso se aplicava somente no caso de animais — continuou a rapariga.

Melanie sorriu de novo, e Pamela corou.

            — Isso significa que não são gêmeas idênticas ou univitelinas, mas o termo é confuso — acrescentou Mel.

            — Como é que elas são? — Pam parecia fascinada pelas gêmeas de Melanie.

            — São iguais a todas as raparigas de dezesseis anos — respondeu ela, rindo-se. — São elas que me mantêm na linha. Uma é ruiva tal como eu, enquanto a outra tem cabelos louros. Chamam-se Jessica e Valerie, ambas adoram ir a festas e têm montes de amigos e amigas.

            — Onde é que vive? — continuou a rapariga.

            Peter observava atentamente o diálogo que as duas mantinham, sem dizer fosse o que fosse.

            — Em Nova Iorque, numa pequena casa de cidade. — Naquela altura, Melanie sorriu a Peter. — É muito diferente desta. — Em seguida, voltou a concentrar a sua atenção em Pam. — Tu tens uma casa maravilhosa, e deve ser muito agradável ter uma piscina.

            — É bom — retorquiu Pam, mostrando-se pouco entusiasmada e encolhendo os ombros, num gesto de indiferença. — Ou está cheia dos amigos detestáveis do meu irmão ou, então, o Matthew entretém-se a fazer xixi para dentro da água. — Ela parecia aborrecida e Melanie riu-se.

            No entanto, Peter não parecia nada satisfeito.

            — Pam! Não devias dizer isso e, além do mais, não é verdade.

            — É sim. Há uma hora que o fedelho voltou a fazer o mesmo, assim que Mistress Hahn veio para dentro de casa. E precisamente da borda da piscina. Pelo menos podia fazer isso enquanto está dentro de água a nadar.

            Melanie foi forçada a conter uma gargalhada.

            — Vou falar com o Matt sobre esse assunto — retorquiu Peter, corado.

            — O mais provável é os amigos do Mark fazerem a mesma coisa — continuou Pamela. Era evidente que não gostava muito dos dois irmãos. Pouco depois, foi à procura de um fato de banho para emprestar a Mel, regressando com um branco, que calculou lhe pudesse servir.

            Melanie agradeceu-lhe e olhou de novo em volta.

            — Tu tens um quarto adorável, Pam.

            — Foi a minha mãe que o decorou, precisamente antes de... — Faltaram-lhe as palavras; no seu olhar via-se uma grande tristeza. Ao fim de pouco tempo, Pamela fitou o pai com uma expressão de desafio. — É a única dependência nesta casa que é toda minha.

            Melanie sentiu pena da rapariga. Esta parecia muito infeliz e às avessas com os que a rodeavam. Não era capaz de lhes dar a perceber o seu sofrimento, apenas a raiva que a invadia, como se a família fosse responsável por lhe terem arrancado a mãe.

            — Deve ser muito agradável poderes partilhar este quarto com as tuas amigas — observou Melanie, pensando nas filhas, assim como nas amigas que costumavam sentar-se no chão do quarto, a ouvir discos e a falar de rapazes, rindo-se e trocando segredos umas com as outras, segredos que as filhas acabavam sempre por partilhar com ela.

            Parecia serem bastante diferentes daquela rapariga hostil e um pouco desajeitada, com corpo de mulher e a mente de criança. Ela atravessava um período difícil e Mel apercebeu-se de que Peter tinha bastante com que se preocupar. Não admirava pois que ele tentasse chegar cedo a casa todos os dias. Com uma criança de seis anos carente de amor, um jovem quase adulto que era preciso vigiar e uma adolescente tão infeliz, a casa necessitava de algo mais do que os cuidados de uma governanta; também precisava de um pai e de uma mãe. Melanie compreendia agora por que motivo Peter sentia uma necessidade tão desesperada de estar com os filhos e qual a razão que o levava a pensar que por vezes não se encontrava à altura daquela tarefa. Não que fosse esse o caso, mas o fato era que os três filhos tinham uma enorme necessidade do pai, e também de algo mais, pelo menos no que dizia respeito àquela criança. Melanie deu consigo a desejar estender-lhe a mão, abraçá-la com força e poder dizer-lhe que tudo se haveria de compor.

            Como se adivinhasse os pensamentos de Melanie, Pam deu um passo atrás, afastando-se dela.

            — Ora bem, então encontramo-nos lá em baixo daqui a pouco. — Era a maneira de a jovem os convidar a deixarem-na sozinha.

            Peter encaminhou-se com lentidão para a porta do quarto.

            — Também desces, Pam? — perguntou.

            — Sim — respondeu a filha, algo relutante.

            — Não me parece acertado que passes a tarde toda encafuada no teu quarto — disse o pai com firmeza, mas ela parecia inclinada a discutir com ele. Melanie não lhe invejava o papel que era obrigado a desempenhar com a filha. Não era fácil lidar com aquela rapariga, pelo menos naquela altura.

            — Vais para baixo dentro em pouco?

            — Sim! — respondeu Pamela com uma atitude ainda mais beligerante do que antes.

            Melanie e Peter saíram do quarto e ela seguiu-o, descendo as escadas. Junto ao seu quarto, Peter abriu a porta que dava para um bonito quarto de hóspedes em tons de azul e branco.

            — Pode mudar de roupa aqui, Mel.

            Peter não fez qualquer comentário a respeito da atitude de Pamela e, dez minutos mais tarde, quando Melanie saiu do quarto, ele parecia mais descontraído. Levou-a até a sala com o mobiliário de vime pintado a branco. Oculto por umas portas brancas lacadas, havia um frigorífico de onde ele tirou duas latas de cerveja, oferecendo uma delas a Melanie, enquanto com a outra mão retirava dois copos de uma prateleira e lhe indicava, com um gesto, que se sentasse.

            — Já agora esperamos mais alguns minutos até que os miúdos se sintam cansados.

            Melanie olhou através da janela e verificou que os adolescentes já tinham começado a abandonar a piscina, reparando então no quanto Peter era bem-parecido, mesmo descalço, com calções de banho azul-escuros e uma T-shirt de algodão. Não tinha qualquer semelhança com o homem que ela entrevistara ao longo dos últimos dois dias. Dava a impressão de ser uma pessoa completamente diferente. Um comum mortal, pensou Melanie, sorrindo enquanto ele a observava. Pouco depois, Peter adquiriu uma expressão de seriedade ao pensar na criança que deixara no andar de cima.

            — A Pamela é uma rapariga difícil — disse. — Enquanto a mãe foi viva, ela era de trato dócil. Mas agora, umas vezes é muito possessiva em relação a mim, e outras parece que nos odeia a todos. Acha que ninguém consegue compreender o que ela está a sentir e, atualmente, comporta-se como se estivesse a viver em pleno campo inimigo. — Enquanto bebia a sua cerveja, Peter suspirou com um sorriso fatigado.

            — Às vezes, também não é fácil para os irmãos.

            — Acho é que ela precisa de uma grande dose de amor e carinho de todos vocês e em especial de si.

            — Eu sei. Mas ela culpa-nos de tudo e mais alguma coisa. E, bem. — Peter interrompeu-se, algo constrangido. — Por vezes, a minha filha torna-se uma pessoa difícil de amar. Eu compreendo bem os motivos que a levam a proceder dessa maneira, mas os rapazes não são capazes de entender. Pelo menos, nem sempre. — Desde que se conheciam era a primeira vez que Peter admitia perante Melanie o problema que a filha constituía para si.

            — Ela há de mudar — retorquiu ela. — Dê-lhe tempo.

            — Já passaram quase dois anos — replicou ele com um suspiro de amargura.

            Melanie não ousou dizer-lhe o que é que lhe ia no pensamento. Haviam decorrido quase dois anos, no entanto, as fotografias de Anne continuavam espalhadas pela casa, bem à vista. Nada naquela casa fora tocado, desde que Anne morrera, e o próprio Peter comportava-se como se ela tivesse falecido naquela mesma semana. Como é que poderia esperar que a criança se ajustasse à realidade, se ele próprio o não tinha feito? Continuava a reprovar-se por não ter sido capaz de convencer Anne, como se agora alguma coisa pudesse ser alterada.

            — Eu sei. Tem toda a razão. Eu também continuo demasiado apegado ao passado.

            — Talvez quando conseguir fechar a porta do passado, ela também faça o mesmo — disse Melanie num tom de voz suave e, sem que ele se apercebesse, os seus olhos desviaram-se para a fotografia mais próxima de Anne. De súbito, Mel perguntou algo que tinha prometido a si mesma não dizer. — Por que motivo é que não muda de casa?

            — Sair daqui? — replicou Peter, chocado. — Por que motivo?

            — Para que possam começar de novo. Poderia ser um alívio para todos — respondeu ela.

            Peter foi rápido a abanar a cabeça, repudiando aquela sugestão.

            — Não me parece que isso seja boa idéia — contrapôs ele. — Calculo que seria mais perturbador do que útil, quero dizer, mudarmo-nos para uma casa nova. Pelo menos, aqui, sentimo-nos todos bem e estamos felizes.

            — Estarão? — perguntou Mel não parecendo muito convencida e compreendendo que ele se mantinha preso ao passado, da mesma forma que Pamela. Perguntou a si própria se os dois rapazes sentiriam a mesma coisa; nesse momento, entrou na sala uma mulher forte, de uniforme branco, que ficou a olhar para os dois e, muito em especial, para Melanie. Os seus traços fisionômicos mostravam a passagem do tempo, e tinha as mãos engelhadas por muitos anos de trabalho duro. Contudo, os seus olhos eram brilhantes e vivos, parecendo abarcar tudo de uma só vez.

            — Boa tarde, senhor doutor. — Dava a impressão de que dizia a palavra doutor como se estivesse a dizer Deus.

            Melanie sorriu, compreendendo imediatamente de quem é que se tratava, e Peter levantou-se para fazer as apresentações. Ela era a governanta indispensável de quem ele falara antes, a preciosa Mrs. Hahn, que apertou a mão de Melanie de forma quase brutal enquanto examinava aquela ruiva bonita, de fato de banho emprestado, e que ela reconheceu de imediato pertencer a Pamela.

            A governanta sabia tudo o que se passava naquela casa, quem lá ia, quem saía, onde iam e por que razão. Era especialmente cuidadosa no que dizia respeito à Pamela. Já tinha havido problemas que bastassem com a jovem no ano em que a mãe morrera, pois ela alimentara-se muito mal durante seis meses, e depois vomitava após cada refeição. Porém, pelo menos naquele momento, o problema encontrava-se sob controle e Pam estava muito melhor do que antes. No entanto, Hilda Hahn sabia que a rapariga tinha passado por um período bastante difícil e que precisava da vigilância de uma mulher, o que era uma das razões por que Mrs. Hahn se encontrava naquela casa.

            A governanta observou Melanie com toda a atenção e concluiu que esta parecia ser simpática. Sabia quem era Melanie, e que andava a fazer uma reportagem acerca do trabalho do médico. Esperara que ela fosse arrogante, mas não parecia ser esse o caso.

            — Tenho muito prazer em conhecê-la, minha senhora.

            A governanta mostrava-se formal e mantinha os lábios cerrados, sem retribuir o sorriso de Melanie, que esteve prestes a soltar uma gargalhada quando comparou mentalmente aquela governanta a Raquel. Na realidade, nas casas de ambos, quase tudo era diferente, desde as empregadas até a decoração, passando pelos respectivos filhos; porém, apesar de todos esses contrastes, Melanie tinha a sensação de que ambos tinham muito em comum.

            — Posso servir-lhe um chá gelado? — perguntou Mrs. Hahn, olhando com reprovação para as cervejas, o que fez com que Melanie se sentisse uma criança travessa.

            — Não, muito obrigada — respondeu, sorrindo de novo, o que não produziu o mínimo efeito na mulher.

            Com um breve acenar de cabeça, Hilda Hahn retirou-se para os seus domínios atrás da porta de mola que dava acesso à cozinha, à despensa e à saleta onde a família costumava tomar o pequeno-almoço, e ao seu pequeno apartamento nas traseiras. Sentia-se extremamente confortável naquele lar. Quando Mrs. Hallam mandara construir a casa, prometera a Hilda que ela haveria de ter as suas próprias acomodações, e cumprira. Mrs. Hallam fora uma patroa muito boa, costumava dizer a governanta muitas vezes, e tornou a repeti-lo mais tarde, quando serviu o jantar, de forma a que Melanie a ouvisse.

            Mel reparou no brilho que inundava os olhos de Pam sempre que Mrs. Hahn mencionava o nome da mãe. Dava a impressão de que todos se empenhavam numa luta renhida para recuperar a presença da falecida, apesar de já terem decorrido quase dois anos sobre a sua morte. Uma pessoa quase ficava com vontade de lhes prestar o favor de arrumar as fotografias, fazer-lhes as malas e mudá-los para outra casa. Continuavam todos a demonstrar uma tão grande devoção pela falecida, como se aguardassem a cada minuto que ela regressasse a casa, e isso deu-lhe vontade de lhes dizer que ela jamais haveria de voltar. Cada um dos membros daquela família devia dar continuidade às suas vidas.

            Os dois rapazes, pelo menos aparentemente, pareciam mais ajustados à morte da mãe. Matthew ainda era tão pequeno na altura em que ela morrera que as recordações que ainda mantinha da sua presença já tinham começado a desvanecer-se, pelo que não lhe foi difícil trepar de boa vontade para o colo de Melanie depois de terem nadado juntos; ela falou-lhe das gêmeas. À semelhança de Pam, o rapazinho mostrou-se fascinado com a idéia de existirem irmãs gêmeas, querendo saber como é que elas eram. Por seu lado, Mark parecia ser um adolescente esperto, de dezessete anos, e de trato fácil. Nos seus olhos havia uma expressão de sabedoria, talvez demasiada para a sua idade; no entanto, o rapaz aparentava estar feliz, enquanto tagarelava tanto com Peter como com Melanie. A única altura em que se mostrou irritado foi quando Pamela chegou e começou a reclamar pelo fato de os seus amigos continuarem na piscina. Parecia que estava prestes a estourar uma discussão entre os dois, até que Peter decidiu intervir.

            — Vamos lá a ver, vocês os dois. Hoje temos uma convidada. De fato, temos até vários convidados. — Após estas palavras, olhou com severidade para a filha e em seguida para os amigos de Mark.

            Só restavam dois rapazes e uma rapariga, que se encontravam calmamente sentados no chão a conversar enquanto secavam o cabelo.

            Parecia que Pam se ressentia da presença de alguém em sua casa, com a exceção de Peter, dos irmãos e de Mrs. Hahn. A rapariga resolvera o problema de Melanie, ao ignorar a sua presença quase por completo desde que ela chegara à piscina, salvo quando lhe lançava alguns olhares furtivos cheios de curiosidade, em especial sempre que Peter falava com ela. Era como se pretendesse assegurar-se de que entre ambos não havia nada, mas algo no seu íntimo lhe dizia que o perigo rondava por perto.

            — Não   verdade, Pam? — Peter estivera a falar acerca da escola da filha, mas ela não despregava os olhos de Melanie, sem ouvir uma palavra do que o pai dissera.

            — O que? — perguntou Pamela.

            — Estava a dizer que o programa de atletismo na tua escola é extraordinário, e que no ano passado ganhaste dois prémios de corrida em pista. Além de que vocês também têm acesso a alguns dos melhores estábulos desta zona.

            Era uma escola muito diferente daquela onde as filhas de Melanie andavam, esta última uma escola urbana bastante sofisticada. O estilo de vida em Los Angeles centrava-se muito mais nas atividades ao ar livre do que era hábito na Costa Leste.

            — Gostas da tua escola, Pam? — perguntou-lhe Melanie num tom de voz suave.

            — Não é má. Gosto das minhas amigas.

            Ao ouvir a irmã, Mark revirou os olhos em sinal de desaprovação; Pamela agarrou imediatamente a deixa.

            — O que é que queres dizer?

            — Que tens por amigas um bando de raparigas estúpidas, arrogantes e anoréxicas.

            Aquela palavra enfureceu-a.

            — Eu não sou anoréxica, bolas! — retorquiu ela aos guinchos, levantando-se de um salto.

            Peter começava a ficar cansado de tanta discussão.

            — Parem já com isso, vocês os dois! — Em seguida, dirigiu-se a Mark. — O teu comentário foi cruel e desnecessário.

            — Peço desculpa — redargüiu Mark com humildade.

            Ele sabia muito bem que aquela expressão passara a ser tabu, embora continuasse convencido de que a irmã não estava completamente curada. Na sua opinião, a magreza de Pam era pouco natural, apesar de tudo o que o pai e ela pudessem dizer em contrário. Com uma expressão de quem pedia desculpa, Mark olhou para Melanie, antes de se afastar para se juntar aos amigos.

            Pamela foi para dentro de casa seguida por Matthew, à procura de qualquer coisa para comer. Durante longos instantes, Peter ficou a olhar atentamente para a piscina, após o que concentrou a sua atenção em Melanie.

            — Imagino que a cena que acabou de presenciar não possa ser considerada das mais pacíficas. — Parecia magoado devido ao procedimento e às palavras dos filhos, como se pensasse que era o responsável pela discussão que haviam travado e pelo sofrimento que ambos sentiam. — Lamento muito que tenha assistido a esta situação confrangedora, Mel — desculpou-se.

            — Não se incomode com isso. Não pense que com as minhas filhas é sempre tudo pacífico — retorquiu ela, apesar de nem sequer conseguir recordar-se da última ocasião em que as gêmeas tivessem discutido. Aquela família estava a atravessar um período de crise e Pam parecia ser uma jovem extremamente infeliz.

            Peter suspirou e recostou-se na cadeira, fitando a água da piscina.

            — Imagino que os meus filhos acabarão por se acalmar. No próximo ano, o Mark sairá de casa para tirar um curso universitário — continuou ele. Mas o problema não era Mark, mas sim Pam, a qual não iria a parte alguma durante os anos mais próximos. Peter olhou de novo para Melanie. — A Pam foi a que sofreu mais com a morte da mãe. — Isso era facilmente detectável; todavia, ele próprio sofrera muito e continuava a sofrer.

            Melanie acreditava que ele precisava era de uma mulher que substituísse Anne, com a qual pudesse partilhar o seu fardo. Tanto Peter como os filhos precisavam disso. Era triste vê-lo tão sozinho. Era uma pessoa inteligente e atraente, capaz e com uma personalidade forte; tinha muito a oferecer a qualquer mulher. Sentada ali, ao lado dele, Melanie sorria a si mesma, pensando em Raquel e nas suas filhas; quase conseguia ouvi-las a perguntar: “E tu, mamãe? Ele é giro? Por que é que não saíste com ele?” Por que não a tinha convidado. Subitamente ocorreu-lhe um pensamento: se ele a convidasse para sair, aceitaria ela esse convite, caso a oportunidade surgisse? Era engraçado pensar nesse assunto, enquanto ambos estavam sentados lado a lado junto da piscina. Peter mostrava-se completamente diferente dos homens com quem ela se relacionara antes, que eram inadequados. Melanie tinha preferido que assim fosse. Naquele momento, era forçada a admitir que Peter era diferente. Era um homem franco e verdadeiro, uma pessoa que se equiparava a si própria. Mais importante ainda, sentia-se atraída por ele. Isso tê-la-ia assustado, caso não estivesse de partida no dia seguinte.

            — Em que é que estava a pensar agora mesmo? — A voz de Peter era suave, harmonizando-se com o sol que brilhava naquele fim de tarde. Melanie, com um sorriso, ocultou-lhe os seus pensamentos.

            — Nada de importância — respondeu Melanie.

            Não existia a mínima justificativa para falar dos homens que haviam feito parte da sua vida nem partilhar aquilo que pensava dele. Entre os dois não havia nada de caráter pessoal e, contudo, existia uma presença imperceptível que Mel sentia quando se encontrava próxima de Peter. Era quase como que uma ilusão, como se o conhecesse melhor do que realmente era o caso. Havia algo de muito vulnerável naquele homem e de que Melanie gostava bastante. Levando em consideração quem era e o que fazia, Peter continuava a ser uma pessoa extremamente humana e, agora que tinha oportunidade de o ver no seu ambiente familiar, Melanie sentia ainda mais afeto por ele.

            — A Mel tem estado a milhões de quilômetros daqui — comentou Peter.

            — Não. Não estava assim tão longe. Pensava em algumas coisas relativas à minha vida em Nova Iorque; no meu trabalho... nas minhas filhas...

            — Deve ser difícil para si ter de viajar por exigências da sua profissão — acrescentou ele.     

            — Por vezes, é. Mas as minhas filhas compreendem isso e já se habituaram à situação. Além disso, a Raquel olha por elas quando eu estou ausente de casa.

            — Como é que é a sua governanta? — perguntou Peter, que mostrava uma curiosidade insaciável em relação a tudo o que dissesse respeito à vida de Melanie.

            — Não é nada parecida com Mistress Hahn — disse ela, olhando-o com um sorriso. — Na realidade, estava a pensar como as nossas vidas são diferentes, pelo menos no que respeita aos aspectos exteriores.

            — Como assim?

            — Temos, por exemplo, as nossas casas. A sua é muito mais formal do que a minha — exemplificou Melanie com uma gargalhada. — Eu diria que a minha, quando comparada com a sua, é assim uma espécie de galinheiro. É evidente que é a habitação de uma mulher — continuou Mel, lançando um olhar à vivenda. — Por outro lado, a sua é muito maior e mais clássica. O mesmo se aplica a Mistress Hahn. A Raquel parece que nunca aprendeu a pentear o cabelo, o seu uniforme anda permanentemente mal abotoado e ela passa a vida a dar-me respostas tortas. Apesar disso, sentimos um grande carinho por ela, além de que é uma pessoa maravilhosa com as gêmeas.

            Peter sorriu ao ouvir a descrição.             

            — Como é que é a sua casa?     

            — Cheia de luz, muito alegre e pequena. Exatamente aquilo de que eu e as minhas filhas precisamos. Comprei-a a alguns anos e, na altura, estava muito receosa por assumir um compromisso dessa natureza, mas não me arrependi. — Peter acenou em silêncio, pensando nas responsabilidades que Melanie fora forçada a assumir sozinha. Era uma das facetas dela que ele mais admirava. Havia muito naquela mulher que lhe agradava bastante. No entanto, sentia-se intrigado pela sua maneira de ser, tão diversa da de Anne.        

            Nessa altura, Melanie sorriu-lhe.

            — Um dia destes, tem de ir visitar-me a Nova Iorque.

            — Qualquer dia. — Apesar da resposta vaga, Peter desejou que esse dia não estivesse muito longe, sem compreender bem porque Ela era a primeira pessoa em muito tempo com quem ele se havia aberto com toda a franqueza.

            Antes de ele ter oportunidade de acrescentar mais alguma coisa, Matthew regressou com um prato cheio de biscoitos acabados de fazer e, sem pensar duas vezes, instalou-se ao lado de Melanie, oferecendo-se para partilhar com ela os seus biscoitos. As suas faces e as pequenas mãos gorduchas estavam cobertas de migalhas, tendo algumas caído sobre Melanie, a qual pareceu não se sentir incomodada por isso. Para ela, os rapazinhos da idade de Matt constituíam uma novidade. Conversaram acerca da escola dele e do seu melhor amigo. Peter ouviu-os durante algum tempo e depois decidiu ir nadar um pouco. Quando saiu da piscina, os dois continuavam profundamente embrenhados na sua conversa. Entretanto, Matt aninhara-se no colo de Mel, parecendo muito feliz no sítio onde se encontrava.

            Quando Peter saiu da piscina, deteve-se no cimo dos degraus por breves instantes, ficando a olhar para ambos com um sorriso cheio de tristeza. O pequenito precisava de alguém como Melanie, todos eles precisavam e, pela primeira vez em quase dois anos, apercebeu-se de tudo o que faltava na sua vida. No momento em que este pensamento lhe ocorreu, Peter afastou-o de imediato e, num passo apressado, juntou-se aos dois. Pelo caminho agarrou numa toalha que estava em cima de uma mesa e começou a secar o cabelo, como se tentasse varrer da cabeça os novos pensamentos que o assolavam.

            Entretanto, os amigos de Mark foram-se embora, pelo que este se juntou a Melanie e a Matthew, sentando-se na cadeira de Peter, que estava desocupada.

            — Espero que os meus amigos não tenham dado consigo em doida — disse ele, sorrindo-lhe com timidez. — Às vezes, descontrolam-se um pouco.

            Melanie sorriu ao pensar nas amigas de Val e Jess; de tempos a tempos pouco faltava para que lhe destruíssem a casa.

            — Pareceram-me ser ótimos rapazes — retorquiu ela por fim.

            — Diga isso ao meu pai. — Mark brindou-a com um sorriso apreciador, esforçando-se por não reparar no aspecto sensual que Melanie tinha com o fato de banho da irmã.

            — O que é que disseste? Invocaste de novo o meu nome em vão? — perguntou Peter.

            Mark olhou para o pai com uma expressão de vítima.           

            Gostava da nova amiga do pai e as suas amigas tinham ficado extraordinariamente impressionadas ao verem que a famosa Melanie Adams estivera na piscina da sua casa.

            — Mistress Adams acha que o meu grupo de amigos não é assim tão mau como isso.

            — Ela está apenas a ser bem-educada. Não acredites numa palavra.

            — Não é verdade. Devia ver os amigos da Jessica e da Valerie. Uma vez, elas deram uma festa e alguém, por acidente, pegou fogo a uma cadeira.

            — Oh, meu Deus! — exclamou Peter, com uma careta, enquanto Mark se limitava a esboçar um sorriso.

            Achava Melanie tão natural, franca e simpática, nada parecida com uma estrela da televisão. Se Mel tivesse sido capaz de adivinhar os pensamentos de Mark, ter-se-ia rido. Nunca pensava em si própria daquela maneira, como uma estrela de televisão; nem as gêmeas.

            — O que é que aconteceu depois disso? — perguntou Mark.

            — Pu-las de castigo durante dois meses. Mas, passado um, levantei as restrições.

            — Tiveram muita sorte por não terem ido para um reformatório de menores — retorquiu Peter.

            Mark e Melanie trocaram um sorriso cúmplice, enquanto Matthew, indiferente à conversa, se encostava um pouco mais a ela, para que Melanie não se esquecesse da sua existência. Gentilmente, começou a acariciar-lhe o cabelo; o rapazinho não parecia estar incomodado por ela ter deixado de conversar apenas com ele. Sabia que, à sua maneira, Melanie continuava a prestar-lhe toda a sua atenção. Precisamente nesse momento, ela olhou para a casa e reparou em Pamela,

            À janela do seu quarto, tentando não ser vista ao observá-los. Os olhos de ambas encontraram-se e mantiveram-se presos por breves instantes; momentos depois, Pam desaparecia da janela.

            Melanie interrogou-se sobre o motivo por que a rapariga não regressara à piscina. Dava a impressão de querer ser deixada à margem. Ou talvez desejasse o pai apenas para si, não estando disposta a partilhá-lo com Melanie nem tão-pouco com os irmãos. Desejava dizer algo a Peter sobre aquele assunto; no entanto, não lhe agradava interferir num assunto de tanta delicadeza.

            Entretanto, a conversa ligeira e divertida que os quatro mantinham prosseguiu até ter começado a soprar uma brisa leve, que fez com que todos começassem a sentir um pouco de frio. Naquela altura, já passava bastante das seis da tarde e Mel viu as horas, apercebendo-se de que dentro em pouco deveria ir-se embora. Eram quase horas do jantar e Peter reparara que ela tinha olhado para o relógio de pulso.

            — Mel, ainda não tomou banho. Por que é que não vai dar umas braçadas, para depois começarmos a comer? Mistress Hahn vai ficar furiosa se nos atrasarmos para o jantar.

            Tudo aquilo lhe parecia tão mecanizado, gerido até o último minuto; sem que fosse necessário dizer-lhe, Melanie adivinhou que aquele modo de viver fora um legado de Anne, a qual havia gerido a sua casa como se esta fosse uma máquina bem lubrificada. Não era nada o estilo de Mel, mas não deixava de ser impressionante. E em parte fora isso que os ajudara a sobreviver à sua morte, embora agora uma mudança fosse o mais benéfico. Os velhos hábitos eram difíceis de perder, muito em especial no que dizia respeito a Peter e a Mrs. Hahn.

            Momentos depois as crianças foram-se embora e Melanie mergulhou elegantemente na piscina, enquanto Peter a observava. Ela era uma pessoa que agradava ter à nossa volta, além de ser uma satisfação para o olhar. Peter sentiu-se invadido de novo por um enorme desejo ao vê-la a deslizar através da água com uma enorme perícia e facilidade, até que finalmente regressou para junto dele; tinha os cabelos molhados e os olhos brilhantes; nos lábios via-se um sorriso de felicidade que se destinava somente a ele.

            — O Peter tinha razão. Era disto mesmo que eu estava necessitada — disse Melanie.

            — Eu tenho sempre razão. E também está a precisar jantar na nossa companhia — retorquiu Peter.

            Mel tomou a decisão de ser franca com ele.

            — Espero que as crianças não se sintam demasiado incomodadas pela minha presença. — Já conseguira ler muita coisa nos olhos de Pam. Bastante mais do que Peter teria desejado que ela visse. — Não me parece que eles saibam como é que devem interpretar a minha presença nesta casa.

            O olhar de ambos cruzou-se por momento. Peter aproximou-se da beira da piscina e sentou-se, incapaz de opor resistência ao que sentia ou àquilo que tinha para dizer.

            — O mesmo se passa comigo — retrucou ele sem despregar os olhos dela, sentindo-se perplexo ao ouvir as suas próprias palavras.

            Subitamente, Melanie ficou com uma expressão assustada.

            — Peter. — Interrompeu-se e, sem saber porque, sentiu que naquele momento lhe poderia dizer algo mais acerca de si própria, falar das suas velhas cicatrizes emocionais, do medo que nunca a abandonava, do receio que sentia em poder vir a envolver-se em demasia com qualquer homem.

            Ambos pressentiam no seu íntimo que qualquer coisa de estranho estava a acontecer aos dois.

            — Peço-lhe desculpa. O meu comentário foi despropositado — disse ele.

            — Não tenho bem a certeza de que tenha sido, mas... Peter... — Então enquanto ela afastava o olhar à procura das palavras que lhe faltavam, avistou Pam à janela, que logo desapareceu. — Não é meu desejo intrometer-me na sua vida — continuou Melanie.

            — E por que não? — perguntou Peter.

            Melanie respirou fundo, içando-se para fora da piscina.

            Peter quase se engasgou ao reparar naquelas pernas compridas e esbeltas que saíam do fato de banho branco. Daquela vez, afastou o olhar, mas sentiu-se invadido por uma vaga de emoção.

            — Desde que a Anne desapareceu da sua vida, houve mais alguma mulher?

            Peter compreendeu o que é que ela pretendia dizer e abanou a cabeça.

            — Não. Não da maneira que está a pensar.

            — Nesse caso, por que razão é que nesta altura se haverá de aborrecer toda a gente?

            — Quem é que está aborrecido? — perguntou Peter, mostrando-se surpreendido.

            Melanie decidiu ser franca e direta.

            — A Pam — redargüiu Melanie sem hesitar.

            — Isso não tem nada a ver consigo, Mel — afirmou ele com um fundo suspiro. — Os últimos dois anos têm sido muito difíceis para a minha filha.

            — Eu compreendo isso — prosseguiu ela. — No entanto, a realidade é que eu vivo a cerca de cinco mil quilômetros de distância, e não me parece muito plausível que nos voltemos a encontrar de novo, pelo menos nestes tempos mais próximos. Aquilo em que estamos empenhados, a entrevista para a reportagem acerca do seu trabalho, é uma coisa estimulante para ambos. Quando as pessoas se encontram numa situação semelhante, é natural que tenham reações estranhas. É como se fôssemos lançados à deriva num navio sem timoneiro, e a tendência é para nos aproximarmos uns dos outros. Mas amanhã a entrevista terá sido concluída e eu regressarei a casa. — Parecia triste.

            — Sendo assim, que mal é que poderá advir de um simples jantar? — insistiu Peter.

            Ela deixou-se estar sentada ao lado dele, pensativa.

            — Não sei. O meu único desejo é não fazer algo de que venha a arrepender-me. — Melanie olhou de novo para Peter, apercebendo-se de que ele também se sentia triste. Tudo aquilo era complicado. Gostavam um do outro, quase demais, mas de que valia isso?

            — Na minha opinião, está a fazer uma tempestade num copo de água, Mel. — A voz dele era profunda e um pouco enrouquecida.

            — Estarei? — Os olhos de Melanie não abandonavam os dele e daquela vez Peter sorriu.

            — Não. Talvez eu esteja. Parece— me que gosto muito de si, Mel.

            — Eu também gosto de si.

            — Não existe qualquer mal nisso, desde que não nos deixemos levar pelas nossas fantasias. — Todavia, inesperadamente, ela desejou que se deixassem levar.

            Era inegável que se tratava de uma loucura; ali estavam eles, sentados à beira da piscina, enquanto falavam de algo que nunca acontecera e que nunca aconteceria, e contudo, havia ali qualquer coisa. Melanie não conseguia decidir se aquela situação não passava de uma ilusão criada pelo fato de terem trabalhado lado a lado ao longo de dois dias ou, se pelo contrário, era real. Não havia forma de saber e, no dia seguinte, ela teria partido para Nova Iorque. Talvez não houvesse mal algum numa mera refeição.

            Peter baixou de novo o olhar e fitou-a, falando com ternura.

            — Sinto-me contente por estar aqui, Mel. — Parecia Matt a falar, o que a levou a sorrir.

            — Também eu — retorquiu ela.

            Durante uma longa pausa os seus olhares encontraram-se e Mel sentiu um arrepio. Havia algo de mágico naquele homem.

            Peter também dava a impressão de partilhar aquela sensação. Pôs-se de pé, esboçando um sorriso e estendeu-lhe a mão com uma expressão quase de timidez.

            Melanie sorriu-lhe e seguiu-o até ao interior da casa, satisfeita por ter decidido ficar. Regressou ao quarto de hóspedes para mudar de roupa e passou o fato de banho por água, após o que subiu até o outro andar com o intuito de devolvê-lo a Pam. Prendera o cabelo molhado num carrapito e a única maquiagem que aplicara ao seu rosto ligeiramente bronzeado tinha sido um pouco de rímel e batom. Não existiam muitas mulheres da sua idade que ficassem com tão bom aspecto com uma quase total ausência de maquiagem. Encontrou Pamela sentada no seu quarto, a ouvir um cassete com uma expressão sonhadora no rosto. Pareceu ficar surpreendida pela presença de Melanie, que entretanto batera à porta que estava aberta antes de entrar no quarto.

            — Olá, Pam. Obrigada pelo fato de banho. Queres que o leve para a tua casa de banho?

            — Com certeza. Está bem. Obrigada — retorquiu ela, hesitante, levantando-se e sentindo-se um tudo-nada desajeitada na presença de Melanie, a qual foi de novo invadida por uma vontade imensa e quase incontrolável de abraçar aquela rapariguinha, apesar da sua altura. Bem no seu íntimo, Pam continuava a ser uma criança solitária e infeliz.

            — Gosto dessa música. A minha filha Valerie também tem esse cassete.

            — Qual é ela? — perguntou Pamela, mostrando-se de novo intrigada.

            — A loura — respondeu Melanie.

            — Ela é simpática?

            — Espero bem que sim — retorquiu Mel, soltando uma gargalhada. — Talvez um dia destes, se fores com o teu pai a Nova Iorque, possas vir a conhecê-las.

            — Gostaria de lá ir um dia — disse a rapariga, sentando-se de novo sobre a cama. — Mas é muito raro irmos para fora. O papai não pode deixar o trabalho no hospital. Há sempre alguém que necessita da sua presença. Exceto durante duas semanas no verão e, mesmo assim, ele não pensa noutra coisa a não ser no hospital e está sempre a telefonar para lá de duas em duas horas. Costumamos ir para Aspen — disse ela com uma expressão de desinteresse.      Melanie observou-a. Nos seus olhos via muita dor. Parecia precisar ser incentivada, acarinhada. Melanie tinha a impressão de que a presença de uma mulher poderia produzir maravilhas naquela rapariga. Alguém que a amasse e que ocupasse o lugar deixado pela mãe. A criança tinha saudades de Anne e, apesar de toda a resistência que pudesse opor a alguém que entrasse na sua vida, era disso que ela mais necessitava. Aquele pau seco que era a mulher alemã que se encontrava lá embaixo, não lhe poderia dar amor e, embora Peter fizesse o seu melhor, Pam necessitava de algo mais.

            — Aspen deve ser um lugar bastante agradável. — Melanie lutava para abrir uma porta entre ela e a rapariga. Numa ou duas ocasiões pareceu-lhe avistar um raio de esperança, mas não tinha a certeza disso.

            — Sim, não é mau. Mas a verdade é que me aborreço quando vamos para lá.

            — Onde é que preferias ir passar as férias? — acrescentou Mel.

            — Para a praia. Para o México. Europa. Nova Iorque... Não sei bem, para um lugar que fosse giro. — Sorriu com uma certa hesitação, olhando para Melanie. — Para algum lugar onde costumam ir pessoas interessantes e não apenas os amantes da natureza e os que gostam de andar a pé pelas montanhas — disse Pam com uma careta. — Uma verdadeira chatice.

            — Nós costumamos ir para Martha's Vineyard todos os verões — declarou Melanie com um sorriso. — Para a praia. Não se pode dizer que seja muito excitante, mas não deixa de ser agradável. Talvez um dia surja a oportunidade de nos fazeres uma visita, enquanto lá estivermos a passar férias.

            Ao ouvir aquilo, Pamela mostrou de novo uma expressão desconfiada e, antes que Melanie pudesse acrescentar algo mais, Matthew entrou de rompante no quarto.

            — Sai daqui, parvalhão! — ripostou Pam, levantando-se de um salto, como se pretendesse proteger os seus domínios.

            — És uma grande idiota! — exclamou o irmão, mais irritado do que magoado, olhando possessivamente para Melanie. — O papai manda dizer que o jantar está pronto e que temos que ir para baixo. — O pequenito deixou-se ficar, à espera de a acompanhar até a sala de jantar, o que impediu Melanie de passar mais algum tempo a sós com Pam, para assegurar que o convite não fora mais do que uma sugestão amigável da sua parte e não um prenúncio de alguma coisa que se pudesse interpor entre a rapariguinha e o pai.

            Mark juntou-se-lhes nas escadas; ele e a irmã não pararam de se espicaçar enquanto Matthew acelerava o seu pequeno passo, para se manter a par de Melanie.

            Peter já se encontrava à espera na sala de jantar e Mel reparou imediatamente na sua expressão de sofrimento. Contudo, Peter recompôs-se logo. Aquela cena deveria ter-lhe parecido familiar, algo que ele não via há muito tempo.

            — Eles fizeram-na refém lá em cima? Eu tinha receio de que isso pudesse acontecer.

            — Não, eu estive apenas a conversar com a Pam — respondeu Melanie.

            Peter mostrou-se agradado ao ouvir aquilo. Todos se sentaram à mesa, enquanto ela hesitava sem saber bem onde é que se deveria sentar. Com presteza, Peter afastou a cadeira à sua direita.

            Ao ver aquilo, Pam exibiu uma expressão de choque e quase se levantou. Estava sentada à cabeceira da mesa, de frente para Peter e ladeada pelos rapazes.

            — Esse lugar... — começou Pamela a dizer.

            — Não interessa! — A voz do pai era firme, e Melanie apercebeu-se de imediato do que é que ele tinha feito. Sentara-a no lugar que costumava ser o da falecida mulher; desejou que ele não tivesse procedido daquela maneira. Na sala fez-se um silêncio longo e pesado. Mrs. Hahn ficou a olhar com fixidez quando entrou e Melanie olhou para Peter com uma expressão implorativa. — Está tudo bem, Mel — sossegou-a ele, abrangendo os outros com um único olhar, após o que a conversação foi retomada. Momentos depois, na sala de jantar faziam-se ouvir os barulhos habituais, ao mesmo tempo em que todos davam início à refeição com a sopa fria de agrião que Mrs. Hahn preparara.

            A refeição decorreu de forma agradável, o que provou que Peter estivera com a razão do seu lado. Não havia qualquer necessidade de transformar aquilo num acontecimento significativo. Depois de terminado o jantar, ele e Melanie tomaram o café na sala de estar e as crianças foram para cima; só voltou a vê-las quando estava pronta para se ir embora. Pam, muito formal, apertou-lhe a mão. Melanie ficou com a impressão de que ela se sentia aliviada por vê-la partir. Mark pediu-lhe um autógrafo, e Matthew lançou os braços à volta do seu pescoço, implorando-lhe que ficasse.

            — Não posso, mas prometo que te mando um postal de Nova Iorque.

            — Isso não é a mesma coisa — argumentou o pequenito com os olhos marejados de lágrimas. Ele tinha razão, mas era o melhor que ela podia fazer. Abraçou-o durante alguns momentos e beijou-o ternamente na face, acariciando-lhe o cabelo.

            — Talvez um dia destes me faças uma visita em Nova Iorque.

            Apesar daquelas palavras, quando Matt olhou para ela, ambos sabiam que era muito pouco provável que isso viesse a acontecer nos tempos mais próximos, se é que alguma vez aconteceria. Melanie sentiu imensa pena do rapazinho. Quando finalmente se foi embora e ambos começaram a afastar-se de casa, seguindo no automóvel de Peter, Matthew continuou a acenar até o carro ter desaparecido da sua vista. Melanie estava prestes a chorar.

            — Sinto-me tão mal por deixá-lo naquele estado — disse ela e olhou para Peter, comovido com o que via nos olhos dela; estendeu o braço, dando-lhe uma pancadinha na mão, como se pretendesse confortá-la. Era a primeira vez que se tocavam fisicamente, e ele sentiu um frêmito a percorrer-lhe o braço. Com rapidez retirou a mão, enquanto Melanie afastava o olhar.      — Matt é um rapazinho esplêndido. Todos eles são ótimos.

            Até mesmo Pam, pensava ela. Tinha gostado dos três, lamentando tudo aquilo porque tinham passado, da mesma forma que sentia pena de Peter. Melanie suspirou suavemente e acrescentou:

            — Estou satisfeita por ter ficado para jantar.

            — Também eu. A Mel fez-nos bem a todos. Há anos que não tínhamos uma refeição que tanto nos agradasse.

            Melanie sabia exatamente há quanto tempo. Aquela família vivia numa espécie de sepultura e, uma vez mais, deu consigo a pensar que ele deveria vender a casa, mas não se atreveu a dizer-lhe. Em vez disso, voltou-se para Peter a pensar outra vez nas crianças.

            — Obrigada por ter me convidado a ir a sua casa — disse Mel.

            — Estou contente por ter acedido — retorquiu Peter.

            — Eu também — retribuiu ela.

            O parque de estacionamento do hospital surgiu depressa demais. Estavam do lado de fora do automóvel dela sem saberem bem o que haveriam de dizer um ao outro.

            — Uma vez mais, muito obrigada, Peter. O tempo que passei em sua casa foi deveras agradável. — Melanie tomou mentalmente nota de enviar flores no dia seguinte, e talvez algo especial para as crianças, se tivesse tempo para ir às compras antes de partir para Nova Iorque. Também tinha de comprar prendas para as filhas.

            — Muito obrigado, Mel. — Peter olhou-a nos olhos durante um longo momento, após o que deram um aperto de mão. — Então, encontramo-nos amanhã.

            Melanie iria filmar Pattie Lou durante breves instantes antes de se ir embora e essa seria a última oportunidade de o ver.

            — Uma vez mais, muito obrigada — repetiu Melanie.

            — Boa noite, Mel — despediu-se ele com um sorriso, dirigindo-se para o hospital com a intenção de ainda fazer uma última visita a Pattie Lou.

 

            No dia seguinte, a pequena filmagem a Pattie Lou na Unidade de Cuidados Intensivos processou-se sem qualquer problema. Apesar da intervenção cirúrgica e dos tubos, ela já apresentava um aspecto infinitamente mais saudável do que nos dias que tinham antecedido a operação, o que deixou Melanie perplexa. Quase que se poderia dizer que Peter havia conseguido efetuar uma cura milagrosa. Não se permitiu conjecturar por quanto tempo é que aquela situação se manteria. Ainda que fosse somente por alguns anos, sempre seria preferível a escassos dias. Com o exemplo vivo que Pattie Lou representava, Melanie sentia-se completamente conquistada por Peter Hallam.

            Pouco depois de ter deixado a pequenita, Mel viu-o no corredor. A equipe de filmagens já havia partido e Melanie preparava-se para se despedir de Pearl. Ainda tinha de pagar a conta do hotel e de tratar de uns assuntos em Beverly Hills, incluindo comprar algumas lembranças para oferecer às filhas. Levava-lhes qualquer coisa sempre que possível. Era uma espécie de tradição que se vinha mantendo ao longo dos anos. Conseqüentemente, naquele momento estava a preparar-se para passar uma hora em Rodeo Drive a fazer compras.

            — Olá! — Peter tinha um aspecto jovial como se não tivesse trabalhado toda a manhã — O que é que se prepara para fazer hoje?

            — Apenas concluir umas quantas coisas — respondeu Melanie com um sorriso nos lábios. — Acabei agora mesmo de ver a Pattie Lou. Ela está com um ótimo aspecto.

            — É verdade. — A expressão dele não podia ser mais radiante, parecia um galo orgulhoso. — Também a vi esta manhã. — De fato, estivera com ela por duas vezes, apesar de não ter mencionado isso a Melanie. Não queria preocupá-la, não fosse ela pensar que haveria algo a correr mal.

            — Tinha a intenção de lhe telefonar esta tarde, para lhe agradecer o jantar de ontem. Para mim foi muito agradável.

            — A medo, procurou os olhos de Peter, perguntando a si própria o que é que lá encontraria.

            — As crianças adoraram conhecê-la, Mel.

            — Eu também gostei de conhecê-las. — Mas não conseguiu deixar de se questionar sobre como teria Pam reagido quando ele regressara a casa depois de tê-la deixado.

            Reparou que Peter a olhava com uma expressão melancólica e perguntou a si própria se haveria alguma coisa que não estivesse bem.

            Peter pareceu hesitar, antes de se decidir a falar.

            — Está com muita pressa? — perguntou ele.

            — Para dizer a verdade, nem por isso. O meu vôo só está previsto para as dez da noite. — Melanie não mencionou os planos que fizera de ir às compras em Rodeo Drive. Aquilo parecia-lhe ser demasiado frívolo naquele lugar, onde se lutava por vidas humanas. — Por que pergunta?

            — Lembrei-me que talvez gostasse de visitar a Marie Dupret outra vez.

            Melanie podia ver que aquela rapariga já adquirira algum significado para o médico. Era o seu pequeno pássaro ferido mais recente.

            — Como é que ela está hoje? — perguntou, observando os olhos dele e perguntando a si própria como é que um único homem conseguia preocupar-se tanto com os outros. Mas Peter era assim e isso era evidente em tudo o que ele dizia e fazia.

            — Mais ou menos na mesma. Estamos a fazer o possível para encontrar um doador compatível.

            — Espero sinceramente que surja um dentro em pouco — retorquiu Melanie; uma vez mais aquele pensamento parecia-lhe algo de macabro, visto que alguém teria de morrer para que tal pudesse concretizar-se. Pouco depois, Mel acompanhou Peter até ao quarto de Marie.

            A doente tinha um aspecto mais pálido e de maior fraqueza do que no dia anterior. Peter sentou-se à beira da cama e começou a falar com ela, muito calmo e num tom de voz quase de intimidade, o qual excluía todos os que pudessem estar no quarto, salvo eles próprios. Dava a impressão de que entre os dois havia uma comunicação muito especial e, por uma fração de segundos, Melanie perguntou a si mesma se o médico se sentiria atraído pela doente. Mas o comportamento dele para com Marie era desprovido de quaisquer cambiantes de natureza amorosa; estava apenas preocupado com ela e parecia até que os dois se conheciam havia anos, o que Melanie sabia perfeitamente não ser o caso. Refletia apenas a existência de uma extraordinária afinidade entre os dois, induzida pela relação médico-doente. Algum tempo depois, Marie pareceu sentir-se muito mais tranqüila do que antes, e os seus olhos procuraram os de Melanie.

            — Estou-lhe muito agradecida por ter vindo visitar-me outra vez, Mistress Adams. — Marie estava tão débil e pálida que se previa que ela não viveria durante muito mais tempo sem o transplante. Tudo indicava que o seu estado de saúde havia piorado desde o dia anterior. Melanie sentiu um aperto no coração quando se aproximou daquela jovem mulher.

            — Esta noite regresso a Nova Iorque, Marie. Mas estarei desejosa de receber boas notícias suas.

            Durante bastante tempo, a jovem, de uma palidez translúcida, não proferiu palavra, e depois esboçou um sorriso triste.

            — Obrigada — agradeceu. Em seguida, perante o olhar de Peter, permitiu que os seus medos lhe levassem a melhor, e duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces abaixo. — Não sei se vamos encontrar um doador a tempo.

            — Nesse caso, será obrigada a manter-se viva, não é verdade? — interveio Peter. O seu olhar era tão intenso que, ao abarcar a doente parecia que ele pretendia instilar-lhe vida, forçando-a a desejar viver.

            Melanie tinha a impressão de que seria capaz de tocar na força magnética que existia entre os dois.

            — Tudo se irá resolver da melhor maneira — tranqüilizou ela, agarrando a mão de Marie, sentindo-se surpreendida pela sua frialdade. A rapariga praticamente não tinha circulação sanguínea, o que lhe provocava aquela lividez azulada. — Sei que será assim — assegurou Melanie.

            Marie olhou para ela, parecendo demasiado enfraquecida para se poder mover.

            — Parece-lhe que sim? — perguntou Marie Dupret.

            Melanie acenou que sim, lutando contra as lágrimas que teimavam em assomar-lhe aos olhos. Tinha uma sensação aterradora de que aquela jovem não conseguiria sobreviver e deu consigo a rezar por ela em silêncio quando saíram do quarto. Já na segurança que o corredor lhe oferecia, voltou-se para Peter com um olhar preocupado.

            — Poderá ela agüentar até o Peter encontrar um doador? — perguntou Mel, mas naquele momento duvidava que isso fosse possível.

            Até mesmo Peter parecia sentir-se desanimado e pouco seguro. Tinha um aspecto exausto, o que era raro acontecer.

            — Espero bem que sim — respondeu ele. — Tudo depende da rapidez com que isso acontecer.

            Melanie não formulou a pergunta que era óbvia: “E se não acontecer?”, uma vez que a resposta era fácil de adivinhar, pelo estado de saúde da doente. Era a rapariga mais frágil e delicada que Melanie já vira e parecia um milagre que ela ainda continuasse viva.

            — Espero ardentemente que tudo lhe corra bem — disse ela com convicção.

            Peter olhou-a com intensidade e acenou com a cabeça.

            — Também eu. Há ocasiões em que os fatores emocionais dão um contributo positivo — acrescentou ele. — Mais logo tenciono vir vê-la de novo e as enfermeiras mantêm-na sob apertada vigilância, não apenas através dos monitores. O problema é que a Marie não tem qualquer família chegada, nem sequer parentes afastados. Por vezes acontece que as pessoas que se encontram sozinhas no mundo têm menos razões para desejarem continuar a viver. É nossa obrigação instilar-lhes essa força de querer, por todos os meios ao nosso alcance. No entanto, o desenrolar da situação não depende de nós.

            Queria aquilo dizer que dependeria dela? A responsabilidade seria daquela jovem de aspecto tão frágil, que teria de ter a força de vontade necessária para desejar continuar a viver? Melanie tinha a impressão de que isso seria pedir-lhe demais. Manteve-se em silêncio enquanto, num passo quase arrastado, acompanhou Peter até a sala das enfermeiras, onde estivera anteriormente. Não existia qualquer justificação para que continuasse no hospital. Peter Hallam tinha o seu trabalho e ela devia dar prosseguimento aos planos que fizera, apesar de essa perspectiva não a entusiasmar por aí além. Naquele momento, Melanie desejava permanecer por ali. Sentia vontade de vigiar Pattie Lou, de falar com Pearl Jones, de rezar pelo bem-estar de Marie e visitar outros dos doentes que vira no dia anterior. Todavia, naquela altura suspeitava de que o fulcro da questão não se centrava em qualquer daquelas pessoas. A razão daquele seu desejo traduzia-se no próprio Peter. Melanie já não queria afastar-se dele.

            O cirurgião dava a impressão de se ter apercebido do que Mel sentia. Afastou-se das enfermeiras e largou as papeletas dos doentes, aproximando-se do lugar onde ela se sentara.

            — Eu acompanho-a até lá embaixo, Mel — ofereceu-se.

            — Obrigada — disse ela sem recusar a companhia dele.

            Desejava estar a sós com ele; no entanto, nem sequer sabia por que motivo. Talvez essa vontade se devesse somente à maneira de proceder do médico, à forma como ele se sentava à cabeceira dos seus doentes, ao calor humano que irradiava dele. Contudo, Melanie sabia que existia algo mais. Sentia-se extraordinariamente atraída pela personalidade daquele homem, mas com que finalidade? Vivia em Nova Iorque e ele em Los Angeles. E se, por acaso, vivessem na mesma cidade? Nem sequer tinha uma resposta adequada para essa pergunta.

            Entretanto, Peter acompanhou-a até ao parque de estacionamento do hospital, onde ela deixara o seu automóvel.

            Melanie virou-se para ele.

            — Uma vez mais, quero agradecer-lhe por tudo.

            — Por que razão? — perguntou Peter.

            — Por ter salvo a vida de Pattie Lou.

            — Eu fiz isso por ela e não por si.

            — Nesse caso, por tudo o resto. O interesse que mostrou, o tempo que me concedeu, a sua cooperação, o almoço, o jantar. — Bruscamente, Melanie sentiu que as palavras lhe faltavam.

            Peter parecia divertido perante a hesitação dela.

            — Existe mais alguma coisa que gostasse de acrescentar? O café que tomamos no corredor? — inquiriu ele.

            — Está bem, está bem. — Ela sorriu-lhe e ele agarrou-lhe na mão.

            — Eu é que devia agradecer-lhe, Mel. Fez muito por mim. No espaço de dois anos, foi a primeira pessoa com quem eu me abri. Estou-lhe muito grato por isso. — Em seguida, antes que ela tivesse oportunidade de responder, acrescentou: — Um dia destes, dê-me licença que lhe telefone para Nova Iorque ou estarei a ser despropositado?

            — De maneira nenhuma. Terei todo o prazer em que me telefone. — O coração de Melanie começou a bater em sobressalto; tinha a sensação de que era uma rapariguinha muito jovem.

            — Nesse caso, telefonar-lhe-ei. Faça uma boa viagem de regresso.

            Uma vez mais, Peter apertou-lhe a mão e, em seguida, voltou-se e acenou-lhe, após o que se afastou. Tão simples como isso. Enquanto conduzia o automóvel na direção de Rodeo Drive, Melanie não foi capaz de se impedir de pensar se alguma vez voltaria a vê-lo.

 

            Naquela tarde, enquanto fazia as suas últimas compras, Melanie compreendeu que era forçada a afastar Peter dos seus pensamentos vezes sem conta. Não fazia sentido que pensasse tanto nele. Ao fim e ao cabo, que significado é que ele tinha para si? Tratava-se de um homem interessante, que fora objeto de uma entrevista para uma reportagem e nada mais, independentemente do quanto pudesse ser atraente. Tentou preencher a sua mente com Val e Jess, mas era inútil; a despeito dos seus esforços, a imagem dele continuava a surgir-lhe na cabeça. Quando, às oito da noite, meteu as malas no porta-bagagens de um táxi que a levaria ao aeroporto, continuava a pensar no médico e, de repente, passou-lhe pela mente uma visão clara de Pamela, uma rapariguinha cheia de problemas, solitária e com o coração destroçado.

            — Merda! — continuou Melanie em voz alta.

            O taxista olhou para trás.

            — Passa-se alguma coisa?

            Melanie riu-se, abanando a cabeça.

            — Desculpe. Estava a pensar noutra coisa.

            O homem acenou com um semblante de neutralidade. Fosse como fosse, já tinha ouvido um pouco de tudo e, desde que ela lhe desse uma gorjeta decente, nada mais lhe interessava; Melanie não lhe gorou as expectativas. Para o taxista nada mais tinha importância.

            Já no aeroporto, ela dirigiu-se ao balcão e despachou a bagagem; em seguida, comprou três revistas e sentou-se perto da porta de embarque, à espera que chamassem pelo seu vôo. Já eram nove horas da noite e, dentro de cinco minutos, os passageiros do vôo começariam a embarcar. Olhou à volta e apercebeu-se de que o avião ficaria cheio, mas, como de costume, Melanie viajaria em primeira classe, pelo que o vôo não seria assim tão mau. Começou a folhear as revistas, enquanto esperava pela chamada, mantendo-se atenta ao número dos vôos. Era o último daquele dia com destino a Nova Iorque, o qual era familiarmente apelidado de olhos vermelhos, porque era assim que as pessoas chegavam às seis horas da manhã, com os olhos congestionados e exaustas. No entanto, tinha a vantagem de não se perder um dia inteiro a viajar.

            Enquanto prestava atenção ao altifalante, de repente ficou perplexa. Pareceu-lhe que tinham chamado pelo seu nome, mas imaginou que se enganara. O vôo foi chamado e Melanie esperou que a primeira vaga de passageiros entrasse a bordo do avião. Pouco depois, agarrou na pasta e no saco que levava consigo e colocou-se na fila, tendo o bilhete e o cartão de embarque na mão, e foi então que ouviu de novo o seu nome. Daquela vez, teve a certeza que não era fruto da sua imaginação.

            — Melanie Adams, é favor dirigir-se ao telefone branco. Melanie Adams, o telefone branco. Por favor. Melanie Adams.

            Olhando para o relógio para ver quanto tempo é que lhe restava, correu para um telefone branco que se encontrava numa parede um pouco afastada e agarrou no auscultador, identificando-se à telefonista que a atendeu.

            — Está lá, daqui fala Melanie Adams. Estou em crer que me chamou através do altifalante há pouco. — Pousou as malas no chão junto dos pés e começou a ouvir atentamente o que lhe diziam.

            — Chegou um telefonema para si de um tal doutor Peter Hallam. Se puder, ele pede que lhe telefone imediatamente.

            A seguir, a telefonista deu a Melanie o número de telefone de casa do médico.

            Repetiu-o para si mesma enquanto se dirigia à cabina telefônica mais próxima, à procura de moedas dentro da mala de mão, ao mesmo tempo em que verificava as horas num relógio grande suspenso do teto. Restavam-lhe cinco minutos para poder embarcar e não poderia de maneira nenhuma perder aquele vôo. Na manhã seguinte, tinha impreterivelmente de estar em Nova Iorque. Depois de ter encontrado a moeda, Melanie inseriu-a na ranhura e marcou o número.

            — Está lá?

            O coração de Mel batia com força quando ele atendeu, interrogando-se acerca dos motivos que o haviam levado a telefonar-lhe para o aeroporto.

            — Peter, daqui fala Melanie, restam-me apenas dois minutos para poder embarcar.

            — Eu também não disponho de muito mais tempo do que isso. — A sua voz soava tensa. — Acabamos de saber que há um doador compatível com a Marie Dupret. Neste momento, já estou de saída para o hospital e pensei em informá-la, na hipótese de estar interessada em ficar por cá mais algum tempo.

            Os pensamentos de Melanie corriam velozmente enquanto ouvia o que Peter lhe dizia; por uma fração de segundos, sentiu-se decepcionada. De início pensara que ele lhe tinha telefonado com o propósito de se despedir, mas naquele momento sentia a adrenalina a fluir-lhe através do organismo, ao pensar no transplante do coração. Agora Marie tinha uma hipótese de viver.

            — Não sabia se estaria disposta a alterar os seus planos — continuou Peter. — No entanto, pareceu-me que deveria informá-la se fosse esse o caso. Nem sequer tinha a certeza de qual era a companhia aérea do seu vôo, de maneira que adivinhei ao acaso. — O palpite dele provou ser correto.

            — Apanhou-me por uma unha negra — retorquiu Melanie, franzindo a testa. — Permite-nos que filmemos o transplante? — Seria um acréscimo sensacional à reportagem, além de que lhe proporcionaria uma justificação da sua permanência em Los Angeles durante mais um dia.

            — De acordo — anuiu Peter, depois de uma longa pausa. — Consegue arranjar uma equipe de filmagens que possa dirigir-se imediatamente ao hospital?

            — Posso tentar — respondeu Melanie. — Tenho de obter autorização de Nova Iorque para poder ficar mais tempo.     — O tempo de que necessitaria para telefonar poderia custar-lhe aquele vôo. — Não sei o que é que poderei fazer. Seja de que maneira for, deixar-lhe-ei uma mensagem no hospital.

            — Ótimo. Agora tenho de me ir embora. Até mais tarde.

            O tom de voz de Peter era formal e brusco, como se estivesse a tratar de um negócio; desligou sem mais qualquer palavra.

            Melanie deixou-se ficar alguns instantes na cabina telefônica, a alinhar os seus pensamentos. A primeira medida que teria de tomar era falar com a supervisora de terra que se encontrava de serviço à porta de embarque. Não era a primeira vez que fazia aquilo e, se a sorte estivesse do seu lado, eles deteriam o vôo durante cinco ou dez minutos, o que lhe permitiria o tempo necessário para telefonar para Nova Iorque. Só esperava conseguir contatar alguém na estação de televisão, com responsabilidade suficiente para lhe garantir a autorização. Sem mais delongas, Melanie agarrou no saco de viagem e na pasta, desatando a correr para a porta de embarque, onde encontrou a supervisora de terra; começou a explicar quem era, ao mesmo tempo em que exibia o cartão de imprensa da cadeia de televisão.

            — É possível deter o vôo durante dez minutos por minha causa? — perguntou Melanie. — Tenho de telefonar para Nova Iorque devido a uma grande reportagem.

            A supervisora não se mostrou muito satisfeita, mas era freqüente as companhias de aviação fazerem favores especiais às pessoas da categoria de Melanie como, por exemplo, arranjarem-lhes lugar em vôos lotados, ainda que isso significasse impedirem o embarque de qualquer outro passageiro, que não tinha a mínima suspeita do que se estava a passar, ou então, atrasarem um vôo que se preparava para decolar, como era o caso.

            — Concedo-lhe dez minutos, mas devo dizer que muito mais do que isso é impossível. — Era extremamente dispendioso para as companhias aéreas fazerem coisas daquele gênero. A supervisora voltou às costas a Melanie e começou a falar através de um pequeno transmissor portátil que trazia consigo.

            Entretanto, Mel correu para um telefone público, efetuando o telefonema com o seu cartão de crédito. A telefonista passou imediatamente a chamada para a sala da redação; no entanto, foram precisos quatro minutos preciosos até se encontrar um assistente de produção e um diretor de reportagens que pudessem discutir o assunto com Mel ao telefone.

            — O que é que se passa?

            — Um verdadeiro furo! Uma das pessoas que entrevistei era uma doente à espera de um transplante. Acabei de receber um telefonema do doutor Hallam a dizer-me que tinham encontrado um doador e que a vão operar agora. Posso ficar e levar uma equipe de filmagens para o Hospital Central, a fim de filmarmos a operação? — Melanie estava quase sem respiração devido ao entusiasmo que sentia e de ter corrido até ao telefone.

            — Não o filmaste antes no bloco operatório?

            — Não — respondeu ela, sustendo a respiração, sabendo que aquela pergunta poderia decidir tudo.

            — Nesse caso, podes ficar. Mas amanhã à noite põe-te a mexer e só podes parar em Nova Iorque.

            — Sim senhor — retorquiu Melanie e, fazendo uma careta risonha enquanto desligava o telefone, começou a dirigir-se num passo apressado para a porta de embarque.

            Disse à supervisora que não seguia naquele vôo, após o que telefonou para a estação local da cadeia de televisão, pedindo que lhe enviassem uma equipe de filmagens. Em seguida, dirigiu-se apressadamente para a saída do aeroporto, a fim de apanhar um táxi, esperando que a companhia de aviação lhe guardasse a bagagem em Nova Iorque, tal como havia prometido.

            Quando Melanie chegou ao hospital, a equipe de filmagens já se encontrava à sua espera no átrio; subiram no elevador para o piso do bloco operatório. Antes de vestirem roupas de cirurgia e de colocarem máscaras e toucas, todos se lavaram escrupulosamente. Tinha-lhes sido designado um canto na sala, no qual seriam obrigados a instalar o equipamento de filmagem e de onde não poderiam sair. Apesar das restrições, Melanie mostrou-se irredutível, dizendo que teriam de agir de acordo com os regulamentos; sentia-se extremamente grata por Peter ter permitido a sua presença na sala de operações, pelo que não tinha intenções de abusar daquele privilégio.

            Por fim, Marie fez a sua entrada na sala de operações, deitada numa maca com as proteções laterais levantadas. Mantinha os olhos cerrados e a sua tez estava de uma palidez que era prenúncio de morte. Não executou qualquer movimento até Peter ter entrado; este já envergara as roupas adequadas à intervenção cirúrgica. O cirurgião começou a falar com a sua doente. Naquela altura, Peter Hallam nem sequer pareceu dar pela presença de Melanie, embora tivesse olhado uma vez de relance para a equipe de filmagens, dando a impressão de que se sentia satisfeito por permanecerem no lugar que lhes fora previamente designado. Pouco depois, todo aquele processo teve o seu início, enquanto Mel observava tudo com uma expressão de fascínio no rosto.

            Peter olhava constantemente para os monitores, após o que começou a dar uma série de instruções à sua equipe. Todos os membros do corpo clínico se movimentavam em uníssono, como se executassem uma dança intrincada com as mãos, passando-lhe instrumentos cirúrgicos que iam sendo retirados de um tabuleiro enorme.

            Quando fizeram a primeira incisão, Melanie desviou o olhar; porém, depois disso, sentiu-se mesmerizada pela intensidade daquela cena e, hora após hora, permaneceu ali a observar com toda a atenção, enquanto rezava em silêncio pela vida de Marie. A equipe médica trabalhava sem se deter, com a finalidade de substituir o seu coração moribundo por um novo, que pertencera a uma jovem mulher que morrera apenas algumas horas antes. A observação da forma como os médicos retiravam do peito o coração deteriorado, colocando-o dentro de uma bacia de aço inoxidável, era fascinante.

            Melanie nem sequer sentia a respiração acelerada ao ver os cirurgiões baixarem o novo coração até o interior da cavidade que tinham posto a descoberto, com as válvulas, artérias e demais vasos sanguíneos a serem ligados ao órgão através do trabalho daquelas mãos que se movimentavam continuamente e com toda a agilidade sobre o peito da jovem. Susteve a respiração e então, subitamente, os monitores regressaram de novo à vida e as pulsações do coração, que eram vigiadas através dos monitores, fizeram-se ouvir na sala de operações, como se fossem as batidas de um tambor. A equipe deu um grito de celebração. Era realmente extraordinário o que os médicos tinham acabado de fazer. O coração, que permanecera inanimado após a morte da sua doadora, tinha adquirido vida de novo ao ser colocado dentro do corpo de Marie Dupret.

            Depois daquela fase, a intervenção cirúrgica prosseguiu por mais duas horas, até que, finalmente, a última incisão foi suturada e Peter afastou-se da mesa de operações; tinha as costas e o peito encharcados em suor e os braços doridos devido àquele trabalho minucioso. Observou os membros da sua equipe a empurrarem com lentidão a maca que levava Marie para fora do bloco operatório, conduzindo-a para um cubículo próximo, onde seria mantida sob vigilância constante, durante várias horas. No decorrer das próximas seis ou oito horas, ele próprio ficaria ali, para se certificar de que tudo se encontrava a correr pelo melhor. Naquele momento, dava a impressão de que a situação se encontrava sob controle. Peter saiu para o corredor onde respirou profundamente.

            Entretanto Melanie foi atrás dele, sentindo as pernas a vacilarem. Observá-lo a trabalhar constituíra uma experiência empolgante e estava-lhe muito grata por ele lhe ter telefonado para o aeroporto. Peter trocou algumas palavras com os colegas, ainda com as roupas de cirurgia, depois de ter tirado a máscara que lançara para cima de uma mesa e, durante alguns minutos, Melanie falou com os membros da sua equipe de filmagens. Estavam prontos para regressar a casa, sentindo-se extremamente impressionados com o que tinham acabado de presenciar.

            — Bolas, aquele tipo é mesmo bom! — comentou o chefe da equipe de filmagens, despindo a bata azul e acendendo um cigarro, para logo de seguida se interrogar quanto à sensatez do que acabara de fazer, apenas conseguindo pensar no que haviam acabado de registrar em filme; continuava a ter na mente aquelas mãos em constante movimento, o trabalho a dois, por vezes dois pares de mãos em conjunto, sem que se detivessem por um segundo, enquanto agarravam em pequenas seções de tecidos que necessitavam de ser reparados e manuseavam veias pouco mais espessas do que um fio de cabelo. — É isto que faz com que acreditemos em milagres — acrescentou ele, olhando para Melanie com uma expressão de incredulidade, enquanto lhe apertava a mão. — Foi muito agradável trabalhar consigo.

            — Eu é que vos estou muito agradecida por terem conseguido chegar ao hospital com tanta rapidez — retorquiu ela com um sorriso, após o que ambos começaram a rever alguns apontamentos.

            O homem disse-lhe que no dia seguinte o filme já estaria em Nova Iorque, para que pudesse ser montado juntamente com o outro material que ela já tinha em seu poder. Em seguida, o chefe da equipe de filmagens e os restantes membros foram-se embora, e Melanie foi trocar de roupa. Ficou surpreendida ao ver que Peter também envergava o vestuário com que fora para o hospital. Sem saber bem por que motivo, ficara com a impressão de que o médico iria permanecer na sala de operações, envergando as roupas de cirurgião. Mel não sabia explicar bem o que é que a levara a imaginar aquilo. Não deixava de ser estranho vê-lo de novo como um comum mortal.

            — Como é que correu a operação? — perguntou Melanie quando ambos se encaminhavam para o corredor. Tinha a sensação de que nunca chegara a sair do hospital e algo no mais fundo do seu íntimo sobressaltou-se, ao ver Peter de novo.

            — Até o momento está tudo bem, apesar das próximas vinte e quatro horas serem cruciais para Marie — respondeu ele. — É imprescindível que vigiemos a evolução do seu estado clínico. Antes de iniciarmos a operação, ela estava terrivelmente enfraquecida. Reparou naquele coração? Assemelhava-se a um bocado de pedra; não tinha absolutamente mais nada a dar. Não me parece que ela tivesse a mínima hipótese de sobreviver por mais vinte e quatro horas. Marie teve uma sorte dos diabos por termos conseguido arranjar aquela doadora a tempo.

            Doadora... doadora. Sem rosto. Sem nome. Sem passado... muito simplesmente doadora, um coração anônimo a bater no corpo de uma pessoa conhecida com um rosto como o de Marie. Melanie ainda tinha uma certa dificuldade em absorver aquele conceito, a despeito do fato de ter tido a oportunidade de observar toda a intervenção cirúrgica ao longo de quatro horas. Olhou para o relógio e ficou surpreendida ao verificar que já passava bastante das seis horas da manhã— quando olhou para fora verificou que o sol começara a despontar. A noite tinha passado num ápice e Marie continuava viva.

            — A Mel deve estar exausta — comentou Peter, olhando para ela com toda a atenção e reparando nas olheiras escuras que tinham começado a aparecer. — Permanecer na sala de operações como simples observador é mais cansativo do que quando se está a operar.

            — Duvido muito dessa sua teoria — disse Melanie e contra a sua vontade, bocejou e perguntou a si mesma como é que Marie se sentiria quando despertasse da anestesia.

            Aquela fase seria a pior e ela não invejava a doente. Depois da intervenção cirúrgica, Marie ainda seria obrigada a passar por um mau bocado, mesmo mais do que sofrera anteriormente. O seu organismo deveria absorver os medicamentos tendo de lutar contra o processo de rejeição e possíveis infecções, para não mencionar as dores provocadas pela incisão que lhe fora feita a toda a largura do peito para os médicos a poderem operar. Mel sentiu-se estremecer devido ao horror que aquele pensamento lhe provocava.

            Peter apercebeu-se de que ela começava a empalidecer e, sem qualquer hesitação, empurrou-a para a cadeira mais próxima. Já tivera bastantes oportunidades de observar aqueles sintomas e apercebeu-se deles antes mesmo de Melanie compreender que estava prestes a desmaiar. Suavemente empurrou-lhe a cabeça na direção dos joelhos, servindo-se das suas mãos poderosas; Mel ficou demasiado surpreendida para dizer fosse o que fosse.

            — Respire fundo, devagar e depois solte o ar através da boca — explicou o médico.

            Ela preparava-se para fazer um comentário jocoso, mas subitamente apercebeu-se de que estava a sentir-se demasiado nauseada para conseguir falar; depois de se ter recomposto, olhou para Peter, perplexa.

            — Nem sequer me apercebi de que ia sentir-me mal.

            — Talvez não, minha amiga, mas o fato é que há pouco a sua pele adquiriu um tom esverdeado deveras interessante. Deve ir até lá embaixo comer qualquer coisa e em seguida regressar ao seu hotel para dormir. — Foi então que lhe ocorreu que ela já deixara o hotel, o que significava que não tinha um quarto onde ficar. — Por que não vai para minha casa descansar um pouco? Mistress Hahn poderá instalá-la no quarto de hóspedes e as crianças nem se darão conta da sua presença. — Olhou para o relógio. Faltavam poucos minutos para as sete. — Eu telefono-lhe a avisá-la da sua chegada.

            — Não. Não faça isso. Eu posso regressar ao hotel onde estive — retorquiu Melanie.

            — Isso é um disparate! Por que razão é que há de dar-se a esse trabalho, quando pode muito bem dormir em minha casa? — acrescentou Peter. — Ninguém a incomodará durante o dia todo.

            Era uma oferta generosa; no entanto, Melanie não sabia se seria a mais acertada. Porém, quando se levantou da cadeira, verificou que se sentia demasiado fatigada para argumentar com ele ou até mesmo para telefonar para o hotel a fim de marcar um quarto. Quando Peter se dirigiu para uma mesa e agarrou num telefone, ela deixou-se ficar a observá-lo como se fosse uma criança exausta. Depois do telefonema, ele aproximou-se dela de novo com uma aparência tão fresca como a que tivera na manhã anterior, embora também tivesse passado a noite toda sem dormir. Peter parecia estar habituado àquela rotina, além de que continuava muito excitado por causa do êxito da operação.

            — Mistress Hahn estará à sua espera quando a Mel chegar a minha casa. As crianças não se levantam da cama antes das oito, exceto o Mark, que já saiu de casa. — Peter olhou à sua volta e descobriu uma enfermeira com quem falou rapidamente, após o que foi de novo para junto de Melanie.

            — Está tudo a correr bem com a Marie e eu vou consigo até lá embaixo para colocá-la num táxi. Depois volto aqui para examinar a Marie.

            — Não é preciso. É um disparate. — redargüiu Melanie, constrangida. Toda aquela situação era ridícula; já fizera reportagens sobre assassínios em massa, guerras e agora, tinha a sensação de que todo o seu corpo se preparava para derreter. Sentiu-se grata pelo braço que Peter lhe oferecera enquanto a conduzia pelas escadas abaixo. — Devo estar a ficar velha — comentou Melanie com um sorriso pesaroso, quando aguardava a chegada de um táxi. — Não deveria sentir-me assim tão fatigada.

            — Trata-se apenas de uma questão de enfraquecimento. Todos nós acabamos mais cedo ou mais tarde por senti-lo. O que acontece é que ainda não me atingiu — replicou ele.

            — Quando surgir, o que é que fará?

            — Fico sossegado e tenciono dormir no hospital durante algumas horas, isto é se tiver oportunidade para isso. Ontem à noite, depois de lhe ter telefonado para o aeroporto, liguei à minha secretária e disse-lhe que cancelasse tudo o que tinha agendado para hoje. Esta manhã, outro dos médicos da equipe substituir-me-á e à tarde eu próprio farei a ronda aos meus doentes. — Melanie sabia que Peter deveria estar prestes a cair de cansaço, embora não o mostrasse. O médico estava tão dinâmico e ativo como algumas horas antes. Peter olhou para ela enquanto se inclinava para ajudá-la a sentar-se dentro do táxi. — Quando é que está a pensar regressar a Nova Iorque?

            — É necessário que volte esta noite. Não me permitem que fique nem mais um dia — respondeu Melanie.

            Peter acenou com a cabeça, satisfeito por ter conseguido contatá-la na noite anterior, antes de ela ter embarcado no avião.

            — De qualquer das maneiras, não haverá mais nada para filmar, Mel — acrescentou ele. — A partir de agora, o nosso trabalho limita-se a vigiar e a tentar dosar corretamente os medicamentos para níveis que a Marie consiga tolerar. Ontem à noite viu tudo o que havia para ver.

            Melanie fixou os olhos de Peter.

            — Estou-lhe muito agradecida por nos ter permitido assistir e filmar a operação.

            — A sua presença foi muito agradável. Agora vá-se embora e durma um pouco.

            Peter deu ao motorista do táxi o seu endereço e fechou a porta antes de o veículo desaparecer no meio do trânsito de Los Angeles, seguindo em direção a Bel-Air. Enquanto a observava a afastar-se, sentiu-se inesperadamente satisfeito por ela ainda não ter partido e por saber que dentro de algumas horas voltariam a encontrar-se. Sentia-se tão confuso quanto Melanie a respeito dos seus sentimentos. Mas não havia dúvida de que sentia algo por ela. Isso era certo.

 

            Na casa em Bel-Air, Mrs. Hahn permanecia junto da janela, aguardando a chegada de Melanie. Quando esta chegou, saudou-a com um olá emitido de má vontade e subiu as escadas com ela, acompanhando-a até ao quarto de hóspedes. Mel agradeceu-lhe e ficou a olhar para o que a rodeava; sentia-se esfaimada e a cair de cansaço e ansiava por um bom banho quente de imersão. Contudo, estava demasiado exausta para fazer fosse o que fosse. Deixou cair ao lado da cama a pasta e o saco de viagem, perguntando-se se o resto da bagagem estaria à sua espera quando chegasse a Nova Iorque, mas, naquele momento, a realidade é que não estava muito preocupada com isso. Completamente vestida, deitou-se em cima da cama e começou a dormitar, sonhando com Marie e com Peter, quando ouviu uma pancada suave na porta do quarto. Virou-se para o outro lado, forçando-se a despertar.

            — Sim? — perguntou.

            Era Mrs. Hahn que trazia um pequeno tabuleiro de vime.

            — O senhor doutor acha que deveria comer alguma coisa — disse a governanta.          Melanie sentiu-se como uma doente, ao olhar para o prato onde fumegavam ovos mexidos, algumas torradas e uma caneca cheia de chocolate quente, cujo aroma lhe subiu às narinas e se espalhou por todo o quarto.

            — Não lhe trouxe café para que pudesse dormir melhor.

            — Muitíssimo obrigada — agradeceu Melanie.

             Sentia-se constrangida por ter alguém a servi-la na cama, mas, por outro lado, a comida tinha um aspecto extremamente apetitoso; sentou-se à beira do leito, com o casaco amarrotado; a blusa cheia de vincos e os cabelos despenteados, uma vez que não se tinha despido antes de se deitar.

            Sem proferir mais qualquer palavra, Mrs. Hahn pousou o tabuleiro numa pequena mesa-de-cabeceira e saiu do quarto.

            Entretanto Melanie começara a devorar os ovos mexidos e as torradas, esfomeada. Pouco depois, começou a ouvir o ruído abafado de passos no andar de cima, interrogando-se sobre se seria Matthew ou Pamela a prepararem-se para a escola. No entanto, não tinha forças suficientes para se comportar com educação, indo ao andar de cima para cumprimentá-los. Acabou de beber o chocolate quente, comeu o resto da torrada e voltou a deitar-se, com a sensação de que estava saciada e exausta; sentia-se satisfeita com a noite de trabalho. Permaneceu deitada de costas e cerrou os olhos com a cabeça apoiada nos braços.

            Quando acordou já eram três da tarde. Olhou para o relógio de pulso e ficou admirada. Pôs-se em pé de um salto, mas lembrou-se de que não teria de ir a parte alguma. Perguntou a si mesma o que é que Mrs. Hahn haveria de pensar por ela ter dormido o dia todo. As crianças também deveriam estar a chegar em casa a qualquer minuto. Quando finalmente adormecera, tinham elas acabado de se levantar, preparando-se para a escola. Pouco depois, enquanto andava de um lado para o outro no quarto, perguntou a si própria como é que Marie teria passado as últimas sete horas.

            Entretanto, reparou num telefone sobre uma mesa no outro lado do quarto e descalça, só com as meias, aproximou-se do aparelho, ao mesmo tempo em que inspecionava as roupas todas amarrotadas que ainda vestia. Ligou imediatamente para o hospital e pediu que lhe ligassem ao piso da cirurgia. Quando a atenderam, disse que pretendia falar com o Dr. Hallam. A mulher que a atendeu informou-a de que de momento o médico não podia atender ao telefone. Melanie imaginou que ele também estivesse a dormir.

            — Estou a telefonar para saber como   que se encontra Marie Dupret, a doente que ontem   noite recebeu um transplante do coração. — Do outro lado da linha fez-se silêncio. — Daqui fala Melanie Adams. Durante a operação eu estive no bloco operatório.

Não teve necessidade de acrescentar nada mais. Toda a gente no hospital sabia quem ela era, e que o motivo da sua presença se devia ao fato de estar a fazer uma reportagem acerca do Dr. Peter Hallam e de Pattie Lou Jones.

            — Aguarde só um momento, por favor. — A voz expressava-se de maneira concisa.

            Melanie aguardou e, alguns instantes mais tarde, ouviu uma voz que lhe era familiar.

            — Já está acordada? — perguntou Peter.

            — Não muito, mas sinto-me mortificada por ter dormido quase toda a tarde.

            — Tretas. Estava a precisar de descansar — atalhou ele. — Quando saiu do hospital, por pouco não desmaiou. Mistress Hahn preparou-lhe alguma coisa de comer?

            — Com certeza que sim. A sua casa é o melhor hotel da cidade — respondeu Melanie, sorrindo ao olhar à sua volta e observando aquele quarto tão bem decorado e confortável; uma vez mais, calculou que tudo aquilo fora obra de Anne.

            — Como é que está a Marie?

            — Está a se recuperar de uma maneira esplêndida. — A voz de Peter ecoava de satisfação. — Ontem à noite não me foi possível dispor do tempo necessário para lhe explicar, mas utilizamos uma nova técnica que deu bons resultados. Mais tarde eu desenho-lhe alguns esboços que exemplifiquem melhor o processo a que estou a referir-me. No entanto, por agora basta dizer-lhe que até o momento está tudo a correr da melhor maneira possível. Em qualquer dos casos, somente depois de decorrida pelo menos uma semana é que saberemos se existirá algum problema de rejeição.

            — Daqui a quanto tempo é que lhe parece que ela esteja fora de perigo? — continuou Melanie.

            — Algum tempo — retorquiu Peter. Melanie sabia que seria pelo resto da sua vida. — Estamos convencidos de que ela irá sair-se muito bem. A Marie reunia todas as condições para que a operação seja um êxito.

            — Espero que ela não defraude as suas expectativas — desejou ela.

            — Também eu — acrescentou Peter.

            Melanie admirou-se uma vez mais ao verificar o quão pouco ele chamava a si os louros pelo sucesso daquela operação; não conseguia impedir-se de sentir uma grande admiração por aquele homem.

            — Conseguiu dormir alguma coisa? — perguntou ela.

            — Um pouco. — A resposta dele era vaga. — Decidi que seria eu próprio a fazer esta manhã a ronda aos meus doentes e depois disso deitei-me um bocado. Provavelmente esta noite irei cedo para casa, o que me permitirá jantar com os miúdos. Nessa altura já poderei deixar outra pessoa encarregada dos meus doentes no hospital. — Naquele momento ocorreu-lhe um pensamento. — Encontramo-nos nessa altura, Mel. — O tom da voz de Peter era tão caloroso e amigável que fez com que ela de súbito sentisse uma grande vontade de voltar a vê-lo.

            — Os seus filhos vão ficar fartos da minha presença — disse Melanie.

            — Duvido muito disso. Vão ficar todos satisfeitos por a Mel ainda se encontrar por aqui, e o mesmo se passa comigo. A que horas é que é o seu vôo? Ou ainda não teve oportunidade de pensar nisso? — perguntou Peter.

            — Imagino que apanharei o mesmo vôo esta noite. — Melanie sentia-se suficientemente descansada para poder suportar os olhos vermelhos, depois de ter dormido durante quase todo o dia. — Vou ter de sair daqui por volta das oito horas.

            — Esse horário enquadra-se perfeitamente no nosso. Mistress Hahn tem por hábito servir-nos o jantar sempre às sete da noite e, se tudo correr bem no hospital, penso chegar a casa por volta das seis. No caso de surgir algum imprevisto, eu telefono-lhe.

            Durante breves instantes, Melanie quase conseguia imaginá-lo a dizer exatamente as mesmas palavras a Anne. Ouvi-lo provocou-lhe uma sensação de estranheza, como se ela estivesse a tentar ocupar o lugar da mulher que morrera. Ralhou consigo mesma por causa daquele disparate, enquanto Peter desligava o telefone, depois de se despedir. Não havia nada de invulgar no que ele acabara de dizer e Melanie sentiu-se irritada consigo própria por ter, uma vez mais, dado largas à sua imaginação.

            Para tentar não pensar em Peter, entrou na casa de banho e abriu a água na força máxima, depois de ter estendido as roupas que usara sobre a cama; colocou-se debaixo da água envolta pelo vapor. Ocorreu-lhe então que podia aproveitar para nadar na piscina; todavia, ainda não lhe apetecia sair do quarto. Melanie necessitava de mais algum tempo para despertar completamente e para aclarar as idéias. Fora uma noite muito longa. Quando saiu do chuveiro lembrou-se de que tinha de telefonar para o estúdio em Nova Iorque e depois para Raquel.

            Na noite anterior, Melanie pedira ao diretor do noticiário que telefonasse para sua casa, avisando que ela não seguia no avião da noite, e esperava que ele não se tivesse esquecido do seu recado. Raquel confirmou-lhe isso quando ligou para casa. As filhas tinham ficado tristes ao saberem que a mãe não regressara naquela manhã, mas Melanie prometeu-lhes que na manhã seguinte estaria sem falta em Nova Iorque. Em seguida, ligou para a sala da redação da estação de televisão, para informá-los de que estava tudo bem. Assegurou-lhes que o transplante do coração fora coroado do maior êxito e que tinham conseguido filmar todos os momentos da operação.

            — Rapazes, vai ser uma reportagem estrondosa! Vocês vão ver — afirmou ela.

            — De acordo. Vai ser bom ter-te de novo no estúdio, Melanie.

            No entanto, ela não estava inteiramente de acordo. Não se sentia ansiosa por deixar Los Angeles ou Peter, parecia-lhe que existia ali um grande número de razões a prendê-la: Pattie Lou, Peter, Marie. Sabia bem que todas elas não passavam de meras desculpas; ainda assim, não lhe apetecia partir.

            Largou o telefone e começou a vestir-se. Pouco depois, saiu do quarto e foi à procura de Mrs. Hahn. Encontrou-a na cozinha, a assar carne para o jantar daquela noite. Melanie agradeceu-lhe outra vez o pequeno-almoço que ela lhe levara à cama, e desculpou-se por ter dormido quase todo o dia.

            Mrs. Hahn não deu mostras de estar muito interessada no que ela dizia.

            — O senhor doutor disse que foi para isso que a senhora veio para cá. Quer que lhe arranje alguma coisa para comer?

            A mulher era eficiente, mas carecia de cordialidade e havia algo de intimidativo na maneira como ela falava e se movimentava.

            Decididamente, Mrs. Hahn não era a espécie de governanta que Mel desejaria que convivesse com as suas filhas e não compreendia como é que Peter a aceitava tão bem. Ele parecia-lhe ser um homem caloroso e dada a ausência da mulher... Mas, uma vez mais, recordou-se de que Mrs. Hahn fora contratada por Anne. A sagrada Anne.

            Melanie declinou a oferta de comida e decidiu-se por uma chávena de café simples e ela mesma fez uma torrada. Em seguida, foi sentar-se no jardim de inverno que tinha muita luminosidade, ainda mais realçada pelo mobiliário de vime pintado de branco.

            Na opinião de Melanie, aquela era a sala mais soalheira da casa e na qual se sentia mais confortavelmente. A formalidade das outras dependências deixava-a pouco à vontade, o que não acontecia com aquela sala; estendeu-se num sofá comprido e começou a comer a torrada, olhando para a vista tranqüila que a piscina lhe proporcionava. Nem sequer ouviu o som de passos, não fazendo a mínima idéia de que não estava sozinha, até ouvir a voz.

            — O que é que está a fazer aqui?

            Melanie deu um salto, sentindo-se sobressaltada e entornando café numa perna; graças às calças de gabardina preta, não se queimou. Quando se virou na direção da voz, deparou com Pam.

            — Olá. Pregaste-me um susto de morte! — disse Mel com um sorriso que não foi retribuído.

            — Pensei que já estava em Nova Iorque.

            — Estive prestes a partir, mas decidi ficar para assistir a um transplante que o teu pai fez ontem à noite. Foi extraordinário. — Os olhos de Melanie iluminaram-se ao recordar-se de novo das mãos ágeis de Peter; no entanto, a filha do médico mostrava-se pouco impressionada e bastante mal-humorada.

            — Oh, sim — retorquiu Pam, desinteressada.

            — Como é que foi a escola hoje, Pam? — continuou Melanie.

            — Esta era a sala preferida da minha mãe — replicou a rapariga, olhando-a fixamente.

— Compreendo porque. A mim também me agrada porque recebe muita luz do sol. — Mas aquele comentário apenas viera reforçar o constrangimento que existia entre as duas, tal como fora intenção de Pamela.

            A rapariga sentou-se com movimentos lentos no outro lado da sala, em frente de Mel e a olhar através da janela.

            — Ela costumava sentar-se aqui todos os dias e ficava a ver-me a brincar na piscina — acrescentou Pam. A sala encontrava-se bem posicionada para isso, além de ser um local agradável para se estar.

            Melanie observava a expressão de Pamela, não lhe escapando a tristeza que aquele rosto refletia. Decidiu pegar o touro pelos cornos.

            — Tenho certeza de que sentes imensas saudades da tua mãe — disse ela.

            Houve algo que endureceu nas faces da rapariga, a qual levou muito tempo a replicar.

            — A minha mãe poderia ter sido operada, mas não confiava no meu pai para lhe fazer a operação.

            Aquilo era uma coisa brutal de se dizer e, por dentro, Melanie encolheu-se toda ao considerar a hipótese de a rapariga pensar naqueles moldes quanto à decisão que Anne tomara.

            — Não me parece que tenha sido tão simples como isso — argumentou Melanie.

            — O que é que a senhora sabe acerca deste assunto, exceto o que ele lhe disse? — ripostou Pam, levantando-se de um salto.

            — Tratava-se de uma escolha que a tua mãe tinha todo o direito de fazer. — Melanie dava-se conta de que estava a entrar em terrenos extremamente delicados. — Existem ocasiões em que é bastante difícil compreender os motivos que levam as pessoas a fazer determinadas coisas.

            — Em qualquer dos casos, ele não poderia tê-la salvo — contrapôs Pam, que começara a andar de um lado para o outro na sala, denotando nervosismo. Melanie observava-a. — Nesta altura já ela teria morrido, mesmo que o transplante do coração se tivesse realizado — concluiu.

            Melanie acenou lentamente com a cabeça; era bastante plausível que assim fosse.

            — O que é que terias preferido que a tua mãe tivesse decidido? — perguntou ela.

            Pam encolheu os ombros e afastou-se.

            Mel reparou que os ombros da rapariga estremeciam. Sem pensar duas vezes, aproximou-se dela.

            — Pam. — Lentamente, Melanie virou-a de frente para si e viu as lágrimas a correrem pelas suas faces; suavemente, abraçou-a e deixou-a chorar à vontade. Pam manteve-se encostada a Mel durante alguns minutos, enquanto esta lhe acariciava os cabelos com gestos suaves. — Lamento muito, Pamela.

            — Sim. Também eu — retorquiu a jovem, afastando-se bruscamente e sentando-se de novo, enquanto limpava as lágrimas com a manga. Olhou outra vez para Melanie com uma expressão cheia de sofrimento. — Eu gostava tanto da minha mãe!

            — Tenho a certeza de que ela também sentia muito amor por ti — afirmou Mel.

            — Então, por que motivo é que ela não tentou? Pelo menos poderia ter estado junto de nós até agora.

            — Não sei qual é a resposta a essa pergunta. Talvez ninguém saiba. Tenho a impressão de que o teu pai faz a si próprio a mesma pergunta vezes sem conta, mas vocês têm de continuar com a vossa vida — continuou Melanie. — Apesar do sofrimento que sentem, não vos resta nada mais a fazer.

            Pam acenou com a cabeça em silêncio e fitou Melanie.

            — Durante algum tempo, recusei-me a comer. Imagino que também desejava morrer. Pelo menos foi essa a conclusão a que o psiquiatra chegou. O Mark é da opinião de que eu procedi assim apenas para irritar o papai, mas não é verdade. Foi mais forte do que eu.

            — O teu pai compreende isso — retrucou Melanie. — Sentes-te melhor agora em relação a essa situação do que nessa altura?

            — Às vezes — respondeu Pam. — Não sei bem.

            Melanie pouco podia fazer ou dizer para aliviar tanto sofrimento. Podia apenas oferecer a sua amizade. Pamela tinha dois irmãos e nenhum deles a poderia ajudar muito, uma governanta alemã que era dura que nem uma pedra, incapaz de oferecer carinho, e um pai que se encontrava sempre demasiado ocupado a salvar a vida das outras pessoas. Aquela criança necessitava de outra pessoa, mas quem? Durante alguns instantes, Melanie desejou poder estar presente para ajudá-la no que pudesse, mas tinha a sua própria vida a cerca de cinco mil quilômetros de distância, as suas próprias filhas e os seus problemas, para já não falar na sua profissão.

            — Sabes, Pam, teria o maior prazer em que me visitasses em Nova Iorque, um dia destes.

            — O mais certo era as suas filhas pensarem que eu sou uma parva. Os meus irmãos acham que eu sou estúpida.

            Pamela fungou ruidosamente e ficou com a expressão de uma criancinha.

            — Espero que elas sejam suficientemente inteligentes para não terem atitudes dessas — retorquiu Melanie com um sorriso pleno de suavidade. — Os rapazes nem sempre compreendem o que se passa com os outros. O Mark está a atravessar a sua própria fase de crescimento, com todos os ajustes que é obrigado a fazer, e o Matthew é demasiado pequeno para te poder dar apoio.

            — Não, não sou — disse uma vozinha esganiçada. Nenhuma delas tinha dado pela sua presença na sala. Matt acabara de chegar da escola; quem o trouxera fora uma das mães que se revezavam no transporte das crianças. — Sei fazer a minha cama, tomo banho sozinho e sei aquecer sopa — acrescentou ele, sentindo-se ofendido. Melanie sorriu-lhe e até mesmo Pam se riu ao ouvir o irmão.

            — Eu sei que és um menino muito bem-comportado — afirmou Mel.

            — Voltou para cá? — perguntou Matt, mostrando-se satisfeito ao aproximar-se dela e sentando-se numa cadeira próxima.

            — Não, só me vou embora um pouco mais tarde do que tinha pensado. Como é que foi o teu dia, meu amigo? — perguntou Melanie.

            — Bastante bom — respondeu o rapazinho, olhando fixamente para a irmã. — Por que é que estás a chorar outra vez? — Antes de Pam ter tido oportunidade de responder, Matthew virou-se para Melanie. — Ela passa a vida a chorar. As raparigas são parvas.

            — Não são, não. Toda a gente chora. Até os homens crescidos — asseverou Mel.

            — O meu papai nunca chora — continuou Matt, cheio de orgulho.

            Melanie perguntou a si mesma se Peter representaria o papel de homem muito másculo perante o filho.

            — Aposto que ele também chora — insistiu ela.

            — Não — retorquiu o rapazinho num tom de firmeza.

            Naquela altura, Pam decidiu intervir na conversa.

            — Chora, sim. Eu vi-o, uma vez. Depois de... — Mas não chegou a concluir o seu pensamento. Não eram necessárias palavras. Todos eles compreendiam o que é que ela pretendera dizer.

            Matt olhou para a irmã com uma expressão de grande intensidade.

            — Isso não é verdade. Ele é duro e o Mark também é — defendeu o garoto.

            Naquele momento, Mrs. Hahn entrou na sala, e insistiu para que o rapazito a acompanhasse para lavar as mãos e o rosto. Ele fez todos os seus esforços para lhe resistir, mas não havia maneira de demovê-la.

            Melanie e Pamela ficaram de novo a sós.

            — Pam. — Mel agarrou-lhe na mão. — Se houver alguma coisa que eu possa fazer por ti, se precisares de uma amiga, por favor telefona-me. Antes de me ir embora vou deixar-te o meu número de telefone. Podes ligar para minha casa, a pagar no destinatário, sempre que queiras. Eu não me importo que as pessoas desabafem comigo e, além do mais, Nova Iorque não é assim tão longe.

            Pamela olhou para ela como quem pretendia certificar-se de que falava sinceramente, e em seguida acenou com a cabeça.

            — Obrigada — agradeceu a rapariga.

            — Estou a ser sincera. Podes dispor sempre de mim.

            — Agora tenho de ir fazer os meus trabalhos de casa — disse Pamela, levantando-se. — Vai-se embora dentro de pouco tempo? — perguntou ainda, num misto de quem desejava que assim não fosse e o contrário; os seus sentimentos eram confusos, não sabendo bem o que sentia por Melanie.

            — Parto para Nova Iorque hoje à noite. O mais provável é ficar por aqui até às oito — respondeu ela.

            — Fica para jantar conosco? — inquiriu a jovem com uma expressão irritada.

            Melanie recordou-se do que ela dissera.

            — Talvez. Não tenho a certeza. Sentir-te-ias muito incomodada se eu jantasse em tua casa?

            — Não — respondeu Pamela. À entrada da sala, voltou-se e perguntou: — Quer que eu lhe empreste outra vez o meu fato de banho?

            — Parece-me que hoje não vou aproveitar a tua oferta, mas de qualquer forma agradeço-te.

            — Com certeza. — Com um gesto de cabeça, Pam saiu da sala.

            Alguns minutos mais tarde, Matthew regressou, trazendo dois livros que queria que Melanie lhe lesse. Era por demais evidente que tanto ele como a irmã sentiam uma enorme carência afetiva. O pequenito manteve Mel entretida e ocupada até Peter chegar e foi então que, finalmente, o dia começou a cobrar a sua dívida.

            Estava pálido e fatigado e ela sentiu pena dele. Tinha muito a fazer naquela casa, com os filhos a sentirem necessidades tão diversas, ao mesmo tempo em que a sua profissão exigia tanto das suas energias e do seu tempo. Surpreendente era o fato de ainda lhe restar alguma para dedicar aos filhos.

            — Qual é o estado da Marie? — perguntou Melanie com uma expressão de preocupação.

            Peter esboçou um sorriso extenuado.

            — O seu estado é muito satisfatório. Por acaso, o Matthew deu consigo em doida durante toda a tarde?

            — De maneira nenhuma. E tive uma conversa muito agradável com a Pam.

            A resposta de Melanie desconcertou Peter.

            — Ora bem, isso já é alguma coisa. Apetece-lhe tomar uma bebida na sala de estar?

            — Com certeza — retorquiu ela, aceitando o convite e acompanhando-o. Uma vez mais, Mel pediu-lhe desculpa por ter invadido a sua casa.

            — O que está a dizer é ridículo — contrapôs Peter. Tenho a certeza de que a noite de ontem foi cansativa para si. Por que razão é que não haveria de ficar aqui por um dia?

            — A oferta foi extremamente simpática da sua parte — replicou Melanie.

            — Ótimo! — retorquiu Peter com um sorriso e oferecendo-lhe um copo de vinho. — A Mel também o é.

            Parecia de novo mais meigo; à semelhança da filha, Peter parecia manter uma atitude alternadamente fria e calorosa em relação a Melanie, mas ela sentia as mesmas emoções em conflito e não sabia bem como lidar com elas. Limitou-se a olhá-lo nos olhos e a beber um pequeno gole do vinho. Ambos começaram a conversar sobre os assuntos do dia-a-dia do hospital, lugar que para ela já era familiar.

            Antes de terminarem a segunda bebida, Mrs. Hahn bateu na porta com firmeza.

            — O jantar está servido, senhor doutor — anunciou a governanta.

            — Muito obrigado — agradeceu Peter, erguendo-se. Melanie imitou-o e seguiram lado a lado para a sala de jantar, onde Pam, Matt e Mark se lhes reuniram ao fim de breves instantes, tendo este chegado a casa não havia muito tempo.

            Uma vez mais, Melanie viu-se no meio da conversa familiar do dia-a-dia. Sentia-se surpreendentemente à vontade na companhia deles e, quando chegou a hora de se ir embora para apanhar o avião, sentiu realmente pena de deixá-los. Abraçou Pamela, deu um beijo de despedida a Matthew e apertou a mão de Mark, não se esquecendo de agradecer a Mrs. Hahn, e teve realmente a sensação de que estava a despedir-se de velhos amigos. Então concentrou a sua atenção em Peter e apertou-lhe a mão.

            — Uma vez mais, obrigada. De todos estes últimos dias, o de hoje foi o melhor — afirmou, olhando para as crianças que se mantinham perto, após o que se voltou para Peter. E agora é melhor telefonar a um táxi, caso contrário, terão de me aturar durante mais tempo.

            — Não diga disparates. Eu vou levá-la ao aeroporto — disse ele num tom de voz que não admitia qualquer recusa.

            — Nem pensar nisso. O Peter também esteve em pé a noite inteira e não dormiu o dia todo como eu.

            — Dormi o suficiente. Vamos lá e deixe-se de disparates — retorquiu Peter. — Onde é que está a sua mala?

            — Espero bem que esteja em Nova Iorque à minha espera — respondeu Melanie com uma gargalhada. Ele mostrou-se admirado e Mel explicou. — Ontem à noite, quando telefonou, eu já tinha despachado a bagagem para o avião.

            Ao ouvir aquilo, Peter soltou uma gargalhada sonora.

            — A Mel encara as situações adversas de bom humor — disse ele.

            — Com as roupas um pouco amarrotadas, mas bem-humorada. Não teria perdido a oportunidade que me deu por nada deste mundo — retrucou Melanie, olhando para as calças de gabardina amarrotadas, e das quais se havia esquecido ao longo das últimas horas. Naquele lugar, o estado do seu vestuário não lhe parecia importante. — Mas não seja teimoso. Deixe- me chamar um táxi — insistiu Melanie enquanto olhava para o relógio; passavam quinze minutos das oito. — Tenho de sair já.

            Peter tirou da algibeira as chaves do automóvel e acenou-lhe com elas.

            — Despache-se! Vamo-nos embora — retorquiu ele, voltando-se para os filhos e para Mrs. Hahn. — Se telefonarem do hospital, digam que estarei em casa dentro de uma ou duas horas. Levo o meu pager, o que significa que se alguém tiver necessidade de me contatar poderá fazê-lo com facilidade.

            Queria jogar pelo seguro e telefonou para o hospital para saber qual o estado de saúde de Pattie Lou e de Marie Dupret, antes de saírem de casa. O médico de serviço responsável pelas duas doentes informou-o de que ambas se encontravam bem. Concluído aquele assunto, Peter acompanhou Melanie até a porta, de onde esta acenou às crianças uma última vez, após o que ambos se dirigiram para o automóvel.

            Melanie tinha a sensação de que alguém tomava as decisões por si; no entanto, isso era uma mudança agradável da rotina.

            — Existe uma particularidade acerca de si, doutor. Tenho a impressão de que está a tomar decisões por mim e nem sequer posso dizer que me apeteça pôr quaisquer objeções à sua atitude.

            — Suponho que essa minha faceta se deva ao fato de estar muito habituado a dar ordens — retorquiu Peter com uma gargalhada. — E a ser obedecido — concluiu com um sorriso.

            — Também eu — continuou Melanie com uma careta risonha. — No entanto, sou forçada a admitir que, até certo ponto, é agradável receber ordens de alguém para variar, até mesmo no que diz respeito a uma coisa tão simples como chamar ou não um táxi.

            — É o mínimo que posso fazer. Nos últimos quatro dias a Mel tem sido quase a minha sombra e tenho a impressão de que fez um trabalho maravilhoso.

            — Não diga isso até ver o filme depois de terminado.

            — A julgar pela maneira como trabalha, estou certo de que assim será — acrescentou Peter.

            — Isso é ter muita fé no meu trabalho. Não estou certa de merecer tanta confiança.

            — Sim, merece — retorquiu ele, olhando para ela. Mudando de assunto, como é que foi a sua conversa com a Pam? — perguntou, franzindo o sobrolho.

            — Muito comovente — respondeu Melanie com um suspiro. — A sua filha não é uma criança muito feliz, não é verdade?

            — Infelizmente, é verdade — admitiu Peter.

            — Ela atormenta-se por causa da Anne. — Era estranho pronunciar o nome daquela que fora a mulher dele; saía-lhe dos lábios de uma forma esquisita. — Acho que com o decorrer do tempo ela conseguirá ultrapassar a dor que sente pela falta da mãe. Precisa é de falar com alguém que compreenda aquilo por que está a passar.

            — A Pam tem consultas regulares com um psiquiatra — retorquiu Peter na defensiva.

            — Ela precisa de mais do que isso. E... — Melanie hesitou por uma fração de segundos, tendo decidido seguir em frente. — Mistress Hahn não parece ser uma pessoa muito calorosa.

            — E não é. Pelo menos à primeira vista, mas eu não duvido de que ela sente carinho pelos meus filhos, além de ser extremamente competente.

            — A Pam necessita de alguém com quem possa abrir-se, e o Matt também.

            — E o que é que me sugere? — perguntou ele com um tom de voz amargo. — Que procure uma mulher com quem me casar, apenas por causa deles?

            — Não. Se levar uma vida normal, no devido tempo encontrará alguém de quem goste.

            — Isso não faz parte dos meus planos para o futuro — ripostou Peter e Melanie viu que ele contraía o maxilar; apercebeu-se de que ambos se sentiam mais fatigados do que supunham.

            — E por que não? Já esteve casado antes e foi feliz. Não há nada que o impeça de se casar de novo e de voltar a sentir essa mesma felicidade.

            — Nunca voltaria a ser o mesmo — argumentou Peter, olhando-a com tristeza. — A realidade é que não tenho a mínima vontade de voltar a casar-me.

            — O Peter não pode ficar sozinho para o resto da vida — acrescentou Melanie.

            — Por que não? A Mel nunca mais voltou a casar-se. Por que motivo haveria eu de fazê-lo? — contrapôs Peter.

            Melanie foi forçada a admitir que ele tinha uma certa razão.            

            — Eu não sou do tipo de casar, mas o Peter é.

            — Essa é boa! — retorquiu Peter com uma gargalhada sonora. — Pode dizer-me por que?

            — Acontece que é assim. Estou demasiado envolvida no meu trabalho para me prender de novo a um marido.

            — Não acredito nisso. Acho que tem é medo — continuou ele.

            Ao ouvir aquilo, Melanie sentiu-se hesitante; ele tocara num nervo.

            — Medo? — retrucou ela com um ar surpreendido, sabendo que ele talvez tivesse razão. — De que?

            — De se comprometer, do amor, de se sentir demasiado próxima de alguém. Não tenho a certeza do motivo, uma vez que não a conheço muito bem — respondeu Peter.

            Não havia dúvida de que ele conseguira ver algo do que lhe ia no íntimo. Melanie não proferiu palavra durante bastante tempo; deixou-se ficar a olhar fixamente para as sombras da noite, enquanto o automóvel continuava a rodar.

            — Acho que tem razão — admitiu ela por fim, voltando-se para ele. — Mas já estou demasiado velha para poder alterar agora a minha maneira de ser.

            — Aos trinta e dois, trinta e quatro, trinta e cinco anos... seja qual for a idade que tem? O que está a dizer é um disparate — asseverou Peter.

            — Não, não é. E tenho trinta e cinco anos — redargüiu com um sorriso. — Mas acontece que a minha vida me agrada da forma como a vivo.

            — Quando as suas filhas saírem de casa, não lhe agradará tanto assim.

            — Isso é uma coisa com que o Peter também deveria preocupar-se. Contudo, no seu caso existe uma particularidade: os seus filhos têm necessidade de alguém neste momento, e o Peter também — disse Melanie, começando a rir-se inesperadamente ao olhar para Peter. — Isto é de doidos. Aqui estamos nós quase aos gritos insistindo que cada um de nós deveria voltar a casar. E mal nos conhecemos!

            Peter olhou de relance para ela, com uma expressão um tanto perplexa.

            — O estranho é eu sentir que nos conhecemos. Tenho a impressão de que há anos que convivemos um com o outro — afirmou Peter.

            — Eu também tenho a mesma sensação — retorquiu ela com um ar pensativo — mas sou obrigada a reconhecer que tudo isto é um pouco irracional. — De súbito, pareceu a ambos que tinham chegado ao aeroporto com demasiada rapidez.

            Entraram no meio da multidão e das luzes brilhantes. Peter gratificara um dos porteiros para poder deixar o automóvel estacionado junto ao passeio da entrada, o que lhe permitiu acompanhar Melanie até ao interior, lamentando que não tivessem tido mais tempo para poderem conversar a sós. Depois da noite anterior, ele sentia-se ainda mais próximo dela. Era como se houvessem partilhado qualquer coisa de especial: a salvação da vida de uma jovem mulher. Tinha a impressão de que ambos se haviam transformado em parceiros de combate ou em algo mais, e lamentava que ela fosse obrigada a partir naquele momento.

            — Cá estamos. Depois não se esqueça de me dizer como é que o filme ficou — pediu Peter. Enquanto esperavam que o vôo fosse anunciado através do altifalante, ambos permaneciam junto da porta de embarque, sem saberem bem o que dizer um ao outro.

            Melanie desejava ser abraçada por ele.

            — Não me esquecerei — assegurou ela. — Tenha cuidado consigo e dê um beijo às crianças por mim. — Aquela cena parecia déja vue, mas de forma mais pungente do que anteriormente. — O mesmo para a Marie e a Pattie Lou concluiu Melanie num tom de voz terno.

            — Tenha cuidado consigo, Mel, e não trabalhe em demasia — aconselhou Peter.

            — O mesmo para si — retribuiu ela.

            Os olhos dele procuravam os dela e não encontrava palavras que descrevessem o que lhe ia no âmago; não sabia o que deveria fazer a seguir. Ali no aeroporto, não podiam desfrutar de qualquer espécie de privacidade, e ele continuava a ter uma grande incerteza em relação aos seus sentimentos para com Melanie.

            — Estou-lhe eternamente agradecida por tudo. — Depois daquelas palavras, ela desconcertou-o ao dar-lhe um beijo de fugida na face, após o que atravessou a porta de embarque num passo rápido, acenando-lhe uma última vez.

            Peter deixou-se ficar imobilizado a olhar fixamente para o lugar onde ela desaparecera, mas naquele momento o seu pager entrou em funcionamento; procurou apressadamente o telefone mais próximo. Não poderia aguardar que o avião se deslocasse. Telefonou para o hospital de onde o informaram que o médico de serviço tinha uma dúvida quanto ao estado de Marie, a quem surgira um pouco de febre. O médico precisava saber se Peter desejava prescrever qualquer alteração na dosagem de algum dos medicamentos que lhe estavam a ser ministrados. Indicou as alterações necessárias, após o que se dirigiu para o carro. Os seus pensamentos eram preenchidos por Melanie e não por Marie, enquanto o aparelho decolava e se erguia no ar, qual gigante prateado.

            Naquele preciso momento, Melanie olhava para baixo, observando os inúmeros parques de estacionamento, e perguntava a si mesma onde é que ele estaria naquela altura e se alguma vez voltaria a vê-lo ou aos filhos. Não existia qualquer dúvida na sua mente. Estava triste por ser obrigada a partir e mais triste ainda por ter de regressar a casa. Naquela noite, nem sequer tentou convencer-se de que aquele sentimento não era verdadeiro. Limitou-se a olhar com fixidez através da pequena janela do avião, a pensar em Peter e nos últimos quatro dias, sabendo de antemão que gostava demasiado dele e que isso não a levaria a parte alguma. Levavam vidas diferentes em mundos diferentes, em cidades que distavam uma da outra cerca de cinco mil quilômetros, e essa era a realidade dos fatos. Nada disso viria alguma vez a alterar-se.

 

            O vôo até Nova Iorque decorreu sem qualquer incidente. Melanie tirou da pasta um bloco para tomar alguns apontamentos relativos aos últimos quatro dias, enquanto ainda estavam frescos na sua cabeça. Havia um certo número de aspectos que ela pretendia focar nos comentários da reportagem. Depois daquela tarefa concluída e sentindo-se finalmente extenuada, fechou o bloco de apontamentos e recostou a cabeça, cerrando os olhos. A hospedeira de bordo já lhe tinha oferecido cocktails, vinho e champanhe por diversas vezes, mas ela recusara. Queria ficar a sós com os seus pensamentos. Por fim, deixou-se adormecer durante as últimas horas do vôo. A viagem da Costa Oeste para a Costa Leste fazia-se sempre com demasiada rapidez para se poder descansar grande coisa. Devido aos ventos que sopravam da retaguarda e que empurravam o avião, fazendo-o seguir em frente a uma velocidade maior, chegaram a Nova Iorque em pouco menos de seis horas. Melanie acordou de novo com o som da comunicação de que se encontravam prestes a aterrar, ao mesmo tempo em que uma hospedeira de bordo lhe tocava no braço, pedindo-lhe que apertasse o cinto de segurança antes da aterragem.

            — Muito obrigada — agradeceu Melanie, olhando para ela, ensonada e, contendo um bocejo, cumpriu as instruções que lhe foram dadas; em seguida, abriu a mala de mão e tirou um pente.

            Sentia-se como se houvesse usado as mesmas roupas durante vários dias, interrogando-se de novo sobre se encontraria a bagagem à sua espera em Nova Iorque. Melanie tinha a sensação de que fora há uma eternidade que estivera prestes a entrar a bordo do avião em Los Angeles, havia cerca de trinta horas, tendo sido impedida de o fazer pelo telefonema de Peter. Uma vez mais, os seus pensamentos concentravam-se na sua imagem. Quando cerrou os olhos, pareceu-lhe que o rosto dele adquiria vida; algum tempo depois forçou-se a abri-los quando sentiu que o aparelho tocava na pista de aterragem do aeroporto em Nova Iorque.

            Melanie chegara à sua cidade. Tinha uma montanha de trabalho a fazer para os noticiários e para a reportagem sobre Peter e Pattie Lou, já para não mencionar tudo o que a aguardava em relação às filhas. Era importante que desse seguimento à sua própria vida e, todavia, parecia estar com pena de ter regressado. Desejava ter ficado mais tempo em Los Angeles, mas não houvera necessidade para tal e nunca teria sido capaz de encontrar uma justificação que pudesse apresentar à cadeia de televisão onde trabalhava, em Nova Iorque.

            Na área de serviços especiais de entrega de bagagens no aeroporto, Melanie encontrou a sua mala, levantou-a, saiu do edifício, chamou um táxi e seguiu a grande velocidade para o centro da cidade. Àquela hora da manhã, praticamente não havia trânsito e o sol lançava os seus raios dourados que se refletiam nos vidros das janelas dos arranha-céus da cidade. Enquanto o táxi atravessava a ponte e se dirigia para sul por East River Drive, Melanie sentiu algo a agitar-se dentro de si. Nova Iorque tinha o condão de lhe provocar sempre aquela reação. Não havia dúvida de que era uma cidade esplêndida.

            Inesperadamente, deu consigo a pensar que afinal não era assim tão mau estar de volta a casa. Era ali que pertencia e aquela era a sua cidade. Enquanto sorria para si mesma, reparou que o motorista do táxi a observava através do espelho retrovisor com uma expressão de curiosidade. À semelhança do que acontecia muitas vezes com estranhos, o rosto de Melanie parecia familiar ao homem, apesar de ele não ser capaz de identificá-la. Talvez já a tivesse transportado no seu veículo noutra ocasião, pensava ele com os seus botões ou, então, era possível que fosse casada com algum homem importante, um político ou uma estrela de cinema e ele já a tivesse visto nos noticiários. O homem tinha a certeza de que já vira aquele rosto anteriormente, mas não sabia onde.

            — Esteve fora muito tempo? — perguntou o taxista ao mesmo tempo em que vasculhava a memória.

            — Só durante alguns dias, na Costa Oeste — respondeu Melanie.

            — Sim — retorquiu ele, acenando com a cabeça e virando à direita na Rua Setenta e Nove, em direção a oeste. — Uma vez fui até lá. Mas não há outra cidade como Nova Iorque.

            Melanie sorriu; os nova-iorquinos eram uma raça de gente muito especial, leais à sua cidade até as últimas conseqüências, apesar da caca dos cães, do lixo que invadia as ruas, do índice de criminalidade, da poluição, do excesso de população e da miríade de desvantagens e pecados característicos daquela cidade. No entanto, possuía uma qualidade que não se encontrava em mais parte alguma, uma espécie de energia que tocava as pessoas no mais íntimo de si próprias. Até mesmo naquele momento, Melanie sentia essa mística ao observar a cidade a adquirir vida, depois de passada a noite, enquanto percorria velozmente as suas ruas.

            — É uma grande cidade — afirmou o motorista, dando de novo realce à paixão que sentia pela sua terra.

            Melanie acenou a cabeça, concordando com ele.

            — Não há dúvida de que assim é — aquiesceu ela, pensando subitamente que na realidade estava bastante contente por ter regressado e, quando o táxi parou em frente da sua casa, sentiu-se feliz.

            Estava ansiosa por voltar a ver as filhas. Pagou ao taxista e levou a bagagem para dentro, deixando-a no vestíbulo da entrada, após o que subiu as escadas para ver as gêmeas. Ambas se encontravam a dormir e Melanie entrou em silêncio no quarto de Jessica, sentando-se na beira da cama e ficando a olhar para a filha. Os cabelos dela, que mais pareciam labaredas estavam espalhados pela almofada, como se fosse um lençol vermelho-escuro. Jessica mexeu-se ao ouvir a voz da mãe e abriu um olho.

            — Olá, minha preguiçosa — disse Melanie, debruçando-se para lhe beijar a face.

            Jessica sorriu.

            — Olá, mamãe. Até que enfim, chegaste — retorquiu, sentando-se na cama e espreguiçando-se, após o que abraçou a mãe com um sorriso ensonado. — Como é que correu a viagem?

            — Bem. É bom estar de volta a casa. — E falava a sério. Já deixara a Califórnia para trás, assim             como Peter Hallam, Marie Dupret, o Hospital Central e tudo o que fizera desde que tinha saído de Nova Iorque. — Conseguimos fazer um filme espantoso.

            — Pudeste assistir a alguma operação? — perguntou Jessica, mostrando-se imediatamente intrigada. A rapariga teria dado qualquer coisa para poder ter estado presente, embora a sua gêmea tivesse empalidecido só de pensar nisso.

            — Sim. Fiquei mais um dia, porque ontem à noite tive a possibilidade de ver os médicos a fazerem um transplante do coração. Não, foi na noite anterior. — Naquele momento, Melanie ainda tinha as horas todas confundidas na sua cabeça, o que a fez sorrir. — Fosse quando fosse, foi um êxito. Tratou-se de uma experiência extraordinária, Jess.

            — Depois posso ver o filme? — perguntou a filha.

            — É claro que sim. Até podes ir ao estúdio antes de apresentarmos a reportagem.

            — Obrigada, mamãe — agradeceu Jessica, saindo da cama com movimentos lentos, e as suas pernas compridas pareciam ainda mais alongadas, por baixo da curta camisa de dormir cor-de-rosa.

            Melanie saiu do quarto para ir ver a outra filha. Valerie encontrava-se completamente coberta pelo cobertor, mergulhada num sono profundo, e foram necessários vários puxões e pancadas suaves para que ela despertasse. Por fim, foi obrigada a afastar o cobertor para trás e a abaná-la por cima do lençol.

            Finalmente e a muito custo, Valerie acordou com um resmungo ensonado.

            — Pára com isso, Jess... — resmungou, mas, quando abriu os olhos e viu a mãe em lugar da irmã, mostrou-se surpreendida e confusa. — Por que é que estás em casa?

            — A isso é que eu chamo boas-vindas! Acho que ainda vivo aqui — disse Melanie na brincadeira.

            Valerie fez uma careta risonha e virou-se para o outro lado.

            — Esqueci-me de que regressavas hoje.

            — Nesse caso, o que é que planeavas fazer? Dormir o dia todo e faltar à escola? — perguntou Melanie apesar de na realidade não se preocupar com essa hipótese no que dizia respeito às duas filhas, embora por vezes Valerie fosse a menos responsável de ambas.

            — É uma boa idéia. Ao fim e ao cabo, o ano escolar está quase a chegar ao fim.

            — Sendo assim, o que é que me dizes a aguentares-te por lá durante mais duas semanas?

            — Ai, mamãe! — Valerie tentou voltar a adormecer, mas Melanie começou a fazer-lhe cócegas. — Pára com isso! — exclamou ela, sentando-se na cama, para se poder defender das mãos da mãe.

            Esta sabia quais eram as regiões do corpo onde a filha sentia mais cócegas e, um minuto mais tarde, as duas riam às gargalhadas; Val continuava a gritar quando Jessica entrou no quarto e, num movimento rápido, saltou para cima da cama com o propósito de ajudar a mãe.

Algum tempo depois, iniciava-se uma batalha de almofadas, a qual foi começada por Valerie que tentava defender-se das duas. Momentos depois, mãe e filhas deixaram-se ficar deitadas em cima da cama, a rirem-se, com a respiração entrecortada. 

            Melanie sentiu-se emocionada. O que quer que fizesse, fosse onde fosse, o regresso a casa para junto das filhas era sempre uma sensação compensadora. Quase ao mesmo tempo, deu consigo a pensar em Pam e como a sua existência era tão diferente da das suas filhas. A vida daquela jovem seria muito mais feliz se se assemelhasse à das gêmeas.            

            Depois de as duas raparigas se terem vestido e enquanto tomavam o pequeno-almoço, Melanie falou-lhes dos filhos de Peter Hallam, especialmente de Pamela, e as gêmeas ficaram cheias de pena depois de a mãe lhes ter explicado as circunstâncias da morte de Anne.

            — Deve ser uma situação bastante difícil para ela — disse Valerie que era das duas a que mais se compadecera. Depois sorriu, perguntando: — Como é que é o irmão dela? Aposto que é giro.

            — Val... — retorquiu Jessica com um olhar de reprovação. — Nestes últimos tempos, só pensas nisso.

            — E o que é que isso tem de mais? Aposto que ele é giro — retrucou a irmã.

            — Que é que interessa se é ou não? Ele não vive aqui. O mais provável é existirem muitos rapazes giros em Los Angeles. Diz-me em que é que isso te vai afetar em Nova Iorque? — perguntou Jessica, irritada, o que Melanie achou divertido.

            Depois de ter acabado o seu chá, dirigiu-se a Valerie.

            — Isso quer dizer que já esgotaste o fornecimento de rapazes em Nova Iorque?

            — Há sempre lugar para mais um — respondeu Val, rindo-se.

            — Não sou capaz de entender como é que consegues recordar-te do nome deles — continuou a mãe.

            — Não me parece que ela consiga — acrescentou Jessica com rapidez.

            Naquele assunto em especial, não aprovava a maneira de ser de Val. Jess era mais como Melanie, independente e fria, mostrando-se cautelosa no que dizia respeito ao relacionamento com rapazes; por vezes, era demasiado acautelada, ao ponto de chegar a preocupar a mãe, cujo estilo de vida deixara uma marca indelével naquela filha. Talvez mesmo em ambas as gêmeas. Possivelmente, era por essa razão que Valerie se mostrava sempre tão ansiosa quanto à possibilidade de não ter um namorado. Não tencionava acabar como Melanie.

            — Toda ela é carinhas meigas e sorrisos derretidos para os rapazes que encontra nos corredores da escola — continuou Jessica. — Não me parece que eles se sintam muito incomodados pelo fato de ela se esquecer dos seus nomes.

            Em ocasiões como aquela, essas palavras transmitiam mais reprovação do que ciúme, tal como Melanie sabia. A paixão que Val tinha pelo sexo oposto era, na opinião de Jessica, uma atitude leviana. Jess costumava andar mais preocupada com trabalhos e projetos da escola, mas também já tivera a sua quota-parte de namorados, como a mãe lhe recordou com gentileza depois de Valerie ter saído da sala para ir buscar os livros que tencionava levar para a escola.

            — Eu sei que assim é, mas às vezes ela comporta-se como se não tivesse um mínimo de juízo — acrescentou Jessica pouco depois. — A Val só pensa em rapazes, mamãe.

            — Verás que dentro de alguns anos ela há de ultrapassar essa fase — retorquiu Melanie.

            — Sim — retorquiu Jessica com um encolher de ombros. — Talvez.

            Pouco depois, as duas irmãs apressavam-se a sair de casa para a escola, que se situava na Rua Noventa e Um, perto da Quinta Avenida, a uma distância de dez quarteirões. Melanie ficou sozinha para desfazer as malas e para reunir os seus pensamentos. Naquele dia, pretendia chegar cedo à estação de televisão para rever os apontamentos. Eram dez horas, e tinha acabado de sair do chuveiro quando ouviu o telefone a tocar. Atendeu-o ainda toda molhada e a pingar água no chão.

            Era Grant e a voz dele fez com que lhe assomasse um sorriso aos lábios.

            — Com que então estás de volta. Já tinha começado a pensar que te tinhas ido embora de vez — disse ele.

            — Não foi nada de tão dramático como isso, apesar de o último dia ter tido uma grande dose de dramatização — replicou Melanie. — Os médicos encontraram um doador para uma doente que se encontrava às portas da morte e eu perdi o vôo para poder voltar ao hospital e assistir à operação.

            — O teu estômago é infinitamente mais forte do que o meu — retorquiu Grant.

            — Não estou bem certa disso. De qualquer das maneiras, tratou-se de uma experiência fascinante — acrescentou Melanie e, uma vez mais, a imagem de Peter atravessou-lhe a mente. — Levando tudo em consideração, pode-se dizer que foi uma viagem bastante frutuosa. E tu, como é que estás?

            — Na mesma. Telefonei algumas vezes às tuas filhas, para saber se estava tudo a correr bem e elas estavam ótimas. No entanto, receio muito que não seja capaz de manter-me a par da vida social delas — declarou Grant.

            — Também eu não — retorquiu Melanie. — Mas foi simpático da tua parte teres telefonado.

            — Eu tinha-te dito que o faria. — Grant parecia feliz ao ouvir a voz dela, Melanie sentia o mesmo. — Como é que está a pequenita que levaste para o hospital?

            — Está ótima. Da última vez em que a vi, parecia estar novinha em folha. Só te posso dizer que foi espantoso, Grant.

            — E quanto ao bom do médico que tratou de tudo? Ele também era espantoso? — perguntou Grant, como se conseguisse pressentir o que lhe ia na alma.

            Melanie sentia-se um pouco ridícula ao considerar a idéia de partilhar com ele o que sentia. Já estava demasiado velha para aquilo. As atrações amorosas tão repentinas como aquela ficavam melhor em alguém da idade de Valerie.

            — Era um homem interessante — disse ela.

            — É tudo? Um dos cirurgiões mais proeminentes do país, e isso é tudo o que tens a dizer acerca dele? — perguntou Grant e, de súbito, começou a rir-se. Ele conhecia-a bem demais. — Ou dar-se-á o caso de haver algo mais que não me queiras dizer?

            — Não existe nada mais. O que acontece é que os últimos dias foram muito empolgantes — retorquiu Melanie, desejando guardar para si própria os sentimentos em relação a Peter Hallam. Não valia a pena partilhá-los com quem quer que fosse, nem mesmo com o seu amigo Grant. O mais provável seria ela não voltar a encontrar-se com o médico, pelo que aquelas palavras ficariam melhor se nunca fossem proferidas.

            — Bom, quando te instalares de novo, Mel, dê-me um telefonema para combinarmos ir tomar um copo.

            — Está combinado — concordou Melanie mas, naquele momento, nem sequer sentia vontade de aceder ao convite. Permanecia no mundo das nuvens e não lhe apetecia sair dele, pelo menos por enquanto.

            — Até depois, miúda — despediu-se Grant, acrescentando depois de uma pausa: — Estou contente por teres regressado.

            — Obrigada, eu também — retorquiu ela apesar de ser mentira. Nem a excitação de se encontrar de novo em Nova Iorque conseguia conquistá-la daquela vez.

            Ao sair de casa, Melanie olhou para o relógio e verificou que já eram onze horas. Àquela hora, Peter deveria estar no bloco operatório. Sem qualquer razão aparente, sentiu-se invadida por uma enorme vontade de telefonar para o hospital para saber como estava Marie. Resistiu àquele impulso. Era necessário que voltasse a entrar na rotina do seu dia-a-dia profissional. Não podia chamar a si todos os problemas dos outros como se fossem os seus. O coração de Marie Dupret, os filhos de Peter Hallam, a vida vazia e solitária de Pamela, o pequeno Matthew com os seus enormes olhos azuis. De súbito, sentiu saudades deles todos.

            Melanie expulsou-os com determinação dos seus pensamentos, chamou um táxi e seguiu em direção à baixa, observando aquela cidade que tanto amava, as pessoas que iam às compras ao Bloomingdale's, que desciam pelas entradas das estações do metropolitano, que chamavam táxis ou entravam e saíam num passo apressado dos arranha-céus, a caminho dos seus empregos. O simples fato de se encontrar ali lhe dava a sensação de que fazia parte de um filme, sentia-se eufórica e cheia de energia apesar de ter dormido muito pouco na noite anterior. Entrou na redação do estúdio com um sorriso de felicidade a aflorar-lhe os lábios.

            — O que é que se passa contigo? — perguntou num resmungo o diretor das notícias, ao passar por ela apressadamente, levando duas caixas com filmes.

            — Sinto-me feliz por estar de regresso — respondeu Melanie.

            — Doida — resmungou o homem, abanando a cabeça enquanto desaparecia.

            Sobre a sua secretária, Melanie encontrou uma pilha de correspondência, de memorandos internos, de resumos de peças dos noticiários que não tinha visto enquanto estivera ausente. Pouco depois saiu para o corredor com o propósito de ver alguns dos telex que estavam a chegar naquela altura. Tinha havido um terremoto no Brasil, uma inundação em Itália que provocara a morte de cento e sessenta e quatro pessoas, e o presidente tencionava ir às Bahamas passar um fim-de-semana prolongado a pescar. As notícias do dia não parecia serem nem particularmente más nem boas; quando a sua secretária lhe veio dizer que tinha um telefonema, Melanie regressou ao seu gabinete e agarrou no telefone sem se sentar, atendendo de uma forma vaga e distraída, ao mesmo tempo em que olhava de relance para os memorandos sobre a mesa.

            — Daqui fala Adams.

            Fez-se uma pausa, como se ela houvesse desconcertado o seu interlocutor com aquelas palavras bruscas e foi então que ouviu na linha os ruídos característicos de uma chamada interurbana. Mas nem sequer teve tempo para se perguntar quem é que estaria do outro lado.

            — Telefonei em má altura?

            Melanie reconheceu imediatamente a voz e sentou-se, surpreendida por ele ter telefonado. Era muito possível que depois de ter tido tempo para pensar, começasse a sentir-se preocupado por causa da reportagem.

            — De maneira nenhuma. Como é que está? — perguntou ela num tom de voz suave.

            No outro lado da linha, Peter sentiu uma agitação que lhe era familiar desde que se conheciam.

            — Eu estou ótimo. Hoje acabei de operar mais cedo e achei que devia telefonar-lhe para saber se tinha chegado bem. Encontrou a sua bagagem em Nova Iorque? — perguntou ele com algum nervosismo.

            Melanie sentia-se satisfeita com aquele telefonema.

            — Estava à minha espera — respondeu. — E a Marie? Como é que ela está? — Ocorreu-lhe que talvez Peter lhe tivesse telefonado para lhe dar más notícias.

            — Ótima. Hoje perguntou por si e a Pattie Lou também. Devo dizer-lhe que ela se transformou na estrela do hospital.

            Os olhos de Melanie ficaram marejados de lágrimas e, uma vez mais, sentiu o mesmo que sentira a bordo do avião; desejou poder estar em Los Angeles e não em Nova Iorque.

            — Diga-lhe que eu mando um grande beijinho. Talvez lhe telefone quando ela já estiver mais forte.

            — Ela haveria de ficar muito satisfeita com isso — retorquiu Peter. — E como é que estão as suas filhas? — Ele dava a impressão de que estava a tentar arranjar qualquer coisa que lhe permitisse continuar a conversa; ao aperceber-se disso, Melanie sentiu-se confusa e sensibilizada.

            — Estão ótimas. Acho que enquanto estive fora, a Valerie se apaixonou mais umas quantas vezes, ao passo que a Jess está cheia de inveja por eu ter tido a oportunidade de assistir a um transplante do coração. Das duas, ela é a que tem mais juízo.

            — A Jessica é a que tenciona seguir Medicina, não é verdade? — perguntou Peter, surpreendendo-a por não se ter esquecido daquele pormenor, o que a fez sorrir.

            — É essa mesmo. Esta manhã, pregou um grande sermão à irmã por ela se ter apaixonado seis vezes numa só semana.

            No seu pequeno cubículo do hospital, Peter deu uma gargalhada. Transferira o custo do telefonema para a conta do seu telefone em casa.

            — Costumávamos ter o mesmo problema em relação ao Mark, quando ele tinha mais ou menos a idade da Pam. Mas apesar disso, ele assentou nestes últimos anos.

            — Ah, mas espere pelo Matthew! — retorquiu Melanie, rindo-se. — Esse seu filho vai ser um verdadeiro galã, adorado pelas mulheres.

            — Desconfio que tem razão — disse Peter, rindo-se também.

            Entretanto, fez-se uma pausa agradável e foi Melanie quem a interrompeu.

            — Como é que está a Pam? — inquiriu ela.

            — Está bem. Nada de novo — respondeu Peter com um suspiro. — Sabe, parece-me que a conversa que ela teve consigo lhe fez bem. Pelo menos pôde se comunicar com outra pessoa que não Mistress Hahn.

            Melanie não se atreveu a dizer-lhe qual era a sua opinião sobre aquela mulher de coração de gelo. Não se achava com direito a isso.

            — Eu também gostei muito de falar com ela — retrucou, pensando que as carências afetivas da rapariguinha eram extremamente desesperadas e nela havia uma grande cólera à qual era necessário dar vazão. Não resistiu a perguntar-lhe: — Eles já receberam os pequenos embrulhos que lhes mandei?

            — Embrulhos? — indagou Peter, surpreendido. — Mandou-lhes prendas? Não devia ter-se incomodado com isso.

            — Não fui capaz de resistir — redargüiu ela. — Encontrei algo que me pareceu ser perfeito para a Pam, e não podia deixar o Matthew e o Mark de mãos a abanar. Além do mais, eles foram muito tolerantes, quando eu lhes invadi a casa. Tal como o Peter reconheceu, não se têm dado com muitas pessoas desde que... durante o último ano e meio — atalhou Melanie, apressando-se a preencher aquela pausa constrangedora. — Conseqüentemente a minha presença deve ter sido estranha para os seus filhos. O mínimo que eu podia fazer era enviar-lhes uma pequena surpresa como prova do meu apreço pela sua hospitalidade.

            Peter sentiu-se comovido pela atenção que ela tivera para com os filhos; a sua voz suavizou-se.

            — Volto a repetir que não precisava de se incomodar com isso, Mel. Tivemos todo o prazer na sua companhia — afirmou ele.

            Melanie teve a sensação de que as palavras de Peter quase lhe acariciavam as faces e sentiu-se enrubescer. Sentia-se muito próxima dele, mesmo numa simples conversa ao telefone, havendo entre ambos uma distância de cinco mil quilômetros. Contra a sua vontade, deu consigo a pensar nele outra vez de uma maneira que não desejava. Era-lhe quase impossível não se sentir atraída por Peter. Era simultaneamente vulnerável e forte, humilde e bondoso, e fazia milagres. Aquela combinação atraía Melanie. Sempre gostara de homens com uma personalidade vincada, embora muitas vezes se afastasse deles. Tornava-se mais fácil manter um envolvimento com pessoas mais obscuras do que Peter.

            — Devo dizer-lhe que tive imenso prazer em trabalhar consigo. — Melanie não sabia bem o que dizer e continuava sem perceber a razão que o levara a telefonar-lhe.

            — A Mel tirou-me as palavras da boca. Foi para lhe dizer isso mesmo que eu lhe telefonei. Inicialmente, senti-me bastante apreensivo com respeito à entrevista. Mas não me fez arrepender de ter concordado com ela. Todo o pessoal do hospital está satisfeito com a reportagem. — Mas não tanto como ele estava, embora não lhe dissesse.

            — Espere até poder ver tudo em filme. Só desejo que goste tanto nessa altura como agora — retorquiu ela.

            — Sei antecipadamente que vai agradar-me.

            — Estou-lhe muito agradecida pela fé que deposita em mim — retrucou Melanie com sinceridade, mas também havia algo mais nas suas palavras.

            — Não é só isso, Mel, eu... — Peter não sabia como havia de pôr em palavras o que lhe ia no coração. Perguntou a si mesmo se aquele telefonema teria sido sensato. Melanie era uma mulher a quem as pessoas tinham por hábito pedir autógrafos e que aparecia regularmente numa cadeia de televisão nacional. — Acontece que eu gosto muito de si. Depois de ter feito aquela confissão, Peter sentiu-se constrangido como se fosse um rapaz de quinze anos; os dois sorriram: um em Los Angeles e o outro em Nova Iorque.

            — Eu também gosto muito de si — retorquiu ela. Talvez tudo fosse assim tão fácil sem qualquer maldade. Por que razão é que ela estaria a lutar tão fortemente contra os seus sentimentos? — Deu-me imenso prazer trabalhar consigo, gostei muito de conhecer os seus filhos e a sua casa — acrescentou Melanie. Naquele momento, apercebeu-se de algo mais. — Acho que fiquei especialmente comovida pelo fato de me ter permitido entrar na sua vida familiar e pessoal.

            — Imagino que me senti em segurança ao deixar que tal acontecesse consigo — replicou Peter. — Não tinha planeado que as coisas viessem a ter essa evolução. Na realidade, eu disse a mim próprio, antes da sua chegada, que não iria partilhar consigo o que quer que fosse da minha vida pessoal... ou da Anne...

            — Estou satisfeita por ter mudado de idéias — atalhou Melanie apressadamente.

            — Eu também... acho que tratou o assunto da Pattie Lou de uma maneira extraordinária.

            — Obrigada, Peter. — Gostara do que ele dissera. O problema era que gostava de tudo naquele homem.

            Então, ouviu-o a suspirar suavemente do outro lado da linha.

            — Muito bem, parece-me que o melhor será permitir que regresse ao seu trabalho. Nem sequer tinha a certeza de que estivesse no estúdio, depois de ontem à noite ter seguido no “olhos vermelhos”.

            No seu gabinete, Melanie riu-se.

            — A vida tem de continuar e às dezoito horas tenho de apresentar um noticiário. Quando telefonou, eu estava a ver as notícias que tinham acabado de chegar.

            — Espero não ter interrompido nada de importante.

            — É a mesma coisa que observar os teleimpressores. Ao fim de algum tempo uma pessoa deixa de ver aquilo para que está a olhar. Pelo menos até o momento, hoje não aconteceu nada de muito relevante no mundo.

            — Aqui passa-se mais ou menos o mesmo. Agora vou para o meu gabinete. Tenho de pôr-me a par de muitos assuntos que fui forçado a descurar nos últimos dias para poder vigiar a Pattie Lou e a Marie — acrescentou Peter.

            Haviam regressado às suas vidas rotineiras, ao trabalho, aos filhos e às responsabilidades e, uma vez mais, Melanie deu-se conta do quanto tinha em comum com ele. Peter era forçado a carregar aos ombros tanto como ela própria; podia mesmo dizer-se que o seu fardo era ainda maior. Para ela era um conforto saber que existiam outras pessoas no mundo obrigadas a assumir responsabilidades de natureza tão exigente como a sua.

            — Sabe, até certo ponto é agradável saber que existe alguém que trabalha tão esforçadamente como eu — disse Melanie.

            Peter sentiu-se esquisito ao ouvir o que ela dissera. Desde que se conheciam que ele próprio pensara o mesmo em relação a ela. Com Anne, houvera ocasiões em que se sentira incomodado ao verificar que tudo o que ocupava o tempo da mulher era decorar vezes sem conta a casa e comprar antiguidades, fazer parte da Associação de Pais e Professores e servir de motorista às crianças.

            — Não pretendi ser presunçosa — continuou Melanie — uma vez que o meu trabalho não inclui salvar vidas, mas, ainda assim, não deixa de ser diabolicamente exigente, e a maior parte das pessoas não consegue compreender isso. Há algumas noites em que, quando saio do estúdio, sinto o cérebro em papa. Não estou capaz de dizer uma palavra inteligente mesmo que a minha vida dependesse disso. — Era uma das muitas razões por que nunca se sentira tentada a casar de novo. Não tinha a certeza de que pudesse ser capaz de atender às necessidades de um casamento.

            — Sei precisamente o que quer dizer — retorquiu Peter, sentindo-se tão aliviado como ela. — Mas, por outro lado, existem ocasiões em que é duro não ter alguém com quem partilhar a nossa vida.

            — Não se pode dizer que eu alguma vez tenha tido esse privilégio. Estou praticamente sozinha desde que comecei a sair-me bem profissionalmente. Acho que é mais fácil desta maneira.

            — Sim. — aquiesceu Peter, não muito convencido. Mas, nesse caso, também não se tem uma pessoa com quem se possa partilhar os triunfos. — Anne sempre fora boa nisso e a partilhar as tragédias e o sofrimento que se passavam no hospital. Ela nunca tivera uma vida tão cheia como a dele, mas por outro lado, talvez isso lhe tivesse proporcionado liberdade para o poder apoiar.

            Era-lhe difícil imaginar ter uma mulher com uma carreira profissional, apesar de ter sido sempre um grande admirador dos casais que trabalhavam duramente, médicos casados com médicas, advogadas casadas com bancários, professores e cientistas. A combinação era ideal, proporcionando a cada um dos elementos do casal um novo ímpeto, embora por vezes pudesse desgostá-los ainda mais.

            — Eu não estou de posse das respostas a todas estas questões, minha amiga — continuou Peter. — Sei apenas que não é tarefa fácil estar-se sozinho.

            — Nem tão-pouco quando se é casado — retorquiu Melanie com convicção.

            — Não, mas não deixa de ter as suas vantagens — afirmou Peter, sentindo-se seguro do que dizia. Especialmente, quando olhava para os seus filhos.

            — Calculo que existe alguma verdade nisso. Eu própria não tenho as respostas. Só sei que é agradável poder conversar com alguém que compreende o que é trabalhar que nem uma escrava e depois regressar a casa ao fim do dia e ser-se obrigado a desempenhar o papel de dois progenitores, em vez de apenas um — asseverou Melanie.

            Houvera alturas em que ela estivera prestes a admitir que não era capaz de levar aquela tarefa a bom termo, mas acabara por ser bem sucedida. O seu emprego estava seguro, tivera um êxito enorme na sua profissão, as suas filhas eram felizes e bem-comportadas.

            — A Mel fez um bom trabalho — afirmou Peter.

            Aquelas palavras tinham mais significado para Melanie do que qualquer outra coisa que ele pudesse ter dito.

            — Também o Peter — retribuiu ela por sua vez. A voz de Melanie tinha a delicadeza da seda para os ouvidos de Peter.

            — Mas eu só estou sozinho há ano e meio — continuou ele. — A Mel há já quinze anos. Isso significa alguma coisa.

            — Apenas uns quantos cabelos grisalhos a mais — retrucou Melanie, rindo-se suavemente. Naquele momento, um dos redatores chegou à porta do gabinete e fez-lhe um sinal. Por gestos, deu-lhe a entender que iria ter com ele dentro de alguns minutos, após o que o homem desapareceu. — Bem, parece-me que eles querem que eu faça algum trabalho por estas bandas. Um dos redatores acabou de sair daqui. Espero que a visita dele signifique que o nosso filme já chegou de Los Angeles.

            — Com tanta rapidez? — perguntou Peter.

            — É complicado explicar, mas fazem tudo através de computadores — continuou Melanie. — No espaço de um dia recebemos o material em Nova Iorque. Mais tarde digo-lhe como é que ficou.

            — Gostaria muito — assegurou ele.

            — Muito obrigada por ter telefonado, Peter — disse Mel. — Tenho saudades de todos vocês. — A palavra “todos” dava à expressão um caráter seguro. Queria dizer que ela não sentia apenas saudades dele. Era como se estivesse a ouvir Valerie ou Jessica a falarem ao telefone com os namorados. Aquele pensamento fez com que se repreendesse, apesar de ter esboçado um sorriso. — Dentro em pouco voltaremos a falar-nos.

            — Ótimo! Nós também temos saudades suas — replicou Peter. O “nós” em lugar do eu. Ambos estavam a jogar o mesmo jogo, sem que qualquer deles compreendesse a razão para tal; todavia, ainda não se encontravam preparados para avançar mais. — Tenha cuidado consigo.

            — Obrigada. O Peter também — retribuiu Melanie. Ambos desligaram e ela deixou-se ficar sentada à secretária a pensar em Peter. Tudo aquilo era uma loucura, mas a realidade era que se sentia excitada por ele ter telefonado.

            Estava tão entusiasmada como uma rapariguinha. Pouco depois percorreu o corredor, dirigindo-se para o laboratório onde eram montados os filmes; nos lábios levava um sorriso rasgado que não conseguia desfazer. Um sorriso que não a deixou até o início da projeção do filme. Viu-se a olhar para Peter e pouco mais adiante, também surgiram Pattie Lou, Pearl Jones e até mesmo Marie, que às duas horas da manhã fora submetida ao transplante do coração. De cada vez que Peter falava, Melanie sentia as batidas do seu coração a acelerarem; todas as vezes que a câmera apresentava um grande plano do rosto do médico, não podia deixar de reparar no carinho e na franqueza que se refletia nos olhos dele. Quando finalmente ligaram as luzes da sala, verificou que estava quase sem respiração. Acabara de ver a projeção de uma reportagem magnífica.

            No atual estado de pré-montagem, o filme alongava-se por diversas horas; necessitava de muito trabalho de montagem e de cortes. Contudo, ao deixar a sala, Melanie só conseguia pensar nele.

 

            Naquela noite, Melanie apresentou pela primeira vez o noticiário desde que regressara, e tudo decorreu com a mesma normalidade de sempre. Saiu do ar com o sorriso agradável e profissional que as pessoas reconheciam em qualquer parte dos Estados Unidos e, enquanto saía do estúdio, não se lembrou que o Dr. Peter Hallam estivera a vê-la com toda a atenção, sentado na sala da sua casa em Los Angeles onde costumava tomar o pequeno-almoço. A meio do noticiário, Pamela havia entrado na sala, tendo ficado de pé a olhar fixamente para o ecrã do televisor. Peter nem sequer se tinha apercebido da presença da filha.

            — Alguém disparou contra o presidente ou qualquer coisa assim, papai? — perguntou Pam.

            Peter olhou para ela com uma expressão enfadada. Tivera um longo dia de trabalho e pretendia continuar a ver Mel antes que ela saísse do ar. Já a tinha visto a apresentar o noticiário em ocasiões anteriores, mas nunca desde que se conheciam. Teve a impressão de que o fato de poder vê-la depois do telefonema daquele mesmo dia era de uma importância vital.

            — Pam, daqui a pouco eu vou ao teu quarto. Agora só quero ficar sozinho enquanto vejo as notícias.

            Durante um longo momento, Pamela deixou-se ficar à entrada da sala, dividida entre os seus próprios sentimentos de cólera e de atração em relação à Melanie. Quando a conhecera tinha gostado dela, mas não lhe agradava o ar do pai sempre que a via.

            — Sim, com certeza. Está bem — aquiesceu ela.

            No entanto, Peter não reparou na expressão do rosto da filha quando esta saiu da sala onde ele ficou a olhar fixamente para o televisor, enquanto Melanie dava o noticiário por concluído. Permaneceu sentado durante mais alguns instantes, após o que desligou o aparelho e subiu as escadas para dar boa-noite aos filhos. Estava verdadeiramente exausto. Naquela tarde, passara duas horas junto de Marie no hospital. O seu organismo parecia estar a desenvolver uma infecção, apresentando também algumas reações negativas à medicação. Era uma reação esperada, embora difícil. E, em Nova Iorque, Melanie dirigia-se apressadamente para casa depois de ter apresentado o noticiário. Jantou com as filhas e em seguida regressou ao estúdio para apresentar o programa das vinte e três horas. Pela primeira vez, desde que tinha regressado de Los Angeles, encontrou Grant.

            Ele tinha ficado no estúdio À espera que ela acabasse a apresentação do noticiário.

            — Esta noite estiveste muito bem — cumprimentou ele, fitando-a com um sorriso cordial e apercebendo-se de como Melanie estava fatigada. Mas também reparou noutra coisa: algo que não estivera presente anteriormente; uma espécie de brilho. — Estás a conseguir agüentar com tão poucas horas de sono?

            — Estou a começar a entrar em colapso — admitiu Melanie com um sorriso de cansaço, mas apesar de tudo, sentia-se satisfeita por tê-lo encontrado.

            — Ora bem, vai para casa e tenta descansar — aconselhou Grant.

            — Sim papai! — retorquiu Melanie num tom jocoso.

            — Tenho idade suficiente para o ser. Portanto, tem atenção ao que fazes.

            — Sim, senhor! — anuiu ela, dando uma gargalhada. Alguns minutos depois abandonou o estúdio e, já no táxi, começou a dormitar.

            Ao chegar a casa, Mel subiu as escadas até o quarto, despiu-se e deixou a roupa caída no chão ao lado da cama, passados cinco minutos, já dormia a sono solto, nua e tranqüila entre os lençóis frescos. Finalmente, tinha a cabeça vazia de quaisquer outros pensamentos. Até ao princípio da tarde seguinte não fez qualquer movimento, altura em que foi acordada pela campainha do telefone. Quando atendeu, Melanie ouviu de novo a voz de Peter.

            — Bom dia. É muito cedo para lhe telefonar? — perguntou ele.

            — De maneira nenhuma — respondeu ela enquanto continha um bocejo e olhava de relance para o relógio sobre a mesa-de-cabeceira. Na Costa Oeste, onde Peter estava eram dez horas e dez minutos. — Como é que vai a vida em Los Angeles?

            — Atarefada. Tenho dois triplos by-passes agendados para hoje — respondeu Peter.

            — Como é que a Pattie Lou e a Marie têm passado? — perguntou Melanie, sentando-se na cama do seu quarto em Nova Iorque e olhando à sua volta.

            — Ambas se encontram de boa saúde, embora a Pattie Lou esteja melhor do que a Marie — retorquiu Peter. A intervenção cirúrgica a que ela se submetera fora um triunfo para o médico. — Mas, mais importante do que isso, como é que está?

            — Quer que lhe responda com franqueza? — perguntou Melanie com um sorriso. — Sinto-me como se já tivesse morrido.

            — Devia descansar mais. Trabalha em demasia, Melanie.

            — Olha quem fala! — retrucou ela, tentando fingir que o fato de ele ter telefonado era uma coisa banal, mas bem no seu íntimo estava toda entusiasmada. — Seja como for, dentro de pouco tempo entro de férias.

            — De verdade? — indagou Peter, surpreendido por ela não ter mencionado aquele assunto antes, compreendendo no entanto que, durante os poucos dias que Melanie passara em Los Angeles, não tinha havido tempo para aquele tipo de conversas. — Para onde é que tenciona ir?

            — Para as Bermudas — respondeu ela, satisfeita.

            Havia muito tempo que ansiava por aquelas férias. Uma das produtoras da televisão propusera-lhe alugar a sua casa por alguns dias. Como não coincidiam com as férias das gêmeas, ela tinha decidido ir sozinha.

            Quando Peter voltou a falar, havia um certo nervosismo na sua voz.

            — Vai com alguns amigos? — inquiriu ele.

            — Não. Vou sozinha.

            — A sério? — retorquiu ele num timbre de voz onde se adivinhava alívio e perplexidade. — Mas que senhora tão independente que é! — Admirava-a por isso. Ele próprio ainda não se encontrava preparado para ter férias sozinho.

            Ter-se-ia sentido perdido sem a presença dos filhos, agora que Anne havia falecido. Mas a realidade era que Melanie vivia sozinha havia muito mais tempo do que ele.

            — Pensei que poderia passar uns dias divertidos. As minhas filhas estão com uns ciúmes infernais por não poderem ir. Mas têm os seus amigos e nessa mesma semana há uma grande festa de fim de curso.

            — Eu também sinto ciúmes — declarou Peter.

            — Não é caso para isso. O mais provável é eu passar uns dias muito aborrecidos — acrescentou Melanie, pensando que, se os pudesse passar na companhia dele, tal não se verificaria. Obrigou aquele pensamento a abandonar-lhe a cabeça. — Mas vão fazer-me bem.

            — Sim, isso é uma verdade — admitiu Peter sem se sentir ressentido com ela por causa dessa viagem. Apesar de a idéia ser uma loucura, o que mais desejava era poder acompanhá-la. No entanto, eram quase dois desconhecidos.

            Continuaram a falar ao telefone durante mais algum tempo, até chegar o momento de ele ser forçado a ir para o bloco operatório. Por seu lado, Melanie pretendia ir ao estúdio de televisão ver os técnicos montar algumas partes do filme relativo à reportagem que fizera de Peter.

 

            Na quarta-feira seguinte, o telefone começou a tocar no preciso momento em que Melanie se preparava para sair de casa. Estava com pressa de chegar ao Bloomingdale's. Tinha de comprar mais fatos de banho para levar na viagem às Bermudas, que estava marcada para essa mesma semana. Inspecionara os que comprara no verão anterior e chegara à conclusão de que todos haviam perdido a elasticidade e tinham as cores desbotadas. Durante os dois meses de verão, só vestia fatos de banho, pelo que o aspecto deles não era muito notável.

            — Está lá? — perguntou Melanie quando atendeu.

            — Sim, sou eu — respondeu a voz de Grant.

            — O que é que se passa? — perguntou ela. — Estava de saída para ir comprar uns quantos fatos de banho para a viagem. — Sentia-se ansiosa. Partiria dali a dois dias. — Queres que te compre alguma coisa? Vou ao Bloomingdale's.

            — Não, mas obrigado. Tinha-me esquecido que ias de férias. Precisas de um mordomo ou de um secretário enquanto estiveres ausente?

            — Não, mas agradeço-te na mesma — retorquiu Melanie, sorrindo ao telefone.

            Então Grant apercebeu-se do pouco que a tinha visto desde que ela regressara de Los Angeles.

            — Só queria fazer-te uma pergunta acerca da Marcia Evans — continuou Grant. Estava a referir-se à grande dama do teatro clássico, uma vez que Melanie lhe fizera uma entrevista bastante íntima, havia mais ou menos seis meses. — Ela vai estar presente no meu programa desta noite.

            — Desejo-te muita sorte — redargüiu Melanie, encolhendo-se toda por dentro. — Ela é um autêntico dragão.

            — Merda! — exclamou Grant. — Foi exatamente isso que pensei. E o produtor teve a coragem de me afirmar que não havia qualquer razão para eu me preocupar. Tens algumas dicas que me permitam sobreviver?

            — Leva contigo os primeiros socorros e não te esqueças do antídoto contra as mordidelas de serpentes. Ela é a mulher mais venenosa que alguma vez conheci. Não a chateies, porque, caso contrário, verás como ela te ataca.

            — Isso é uma grande ajuda — retrucou Grant sem se mostrar muito agradado e sentindo-se furioso com o seu produtor por lhe ter arranjado aquela entrevista.

            — Enquanto estiver a fazer compras, pensarei mais sobre o assunto e quando chegar a casa telefono-te — ofereceu-se Melanie.

            — Queres jantar comigo logo à noite para me dares um pouco de coragem? — convidou Grant.

            — Porque é que não passas antes por minha casa e assim também poderás ver as gêmeas? — sugeriu ela.

            — Vou tentar fazer isso — respondeu ele com um sorriso rasgado — isto é, se entretanto não surgir nenhum contratempo.

            — Tu e as mamas, Grant! — exclamou Melanie com uma gargalhada.

            — Não posso evitar ser um homem fraco. Telefono-te mais tarde, miúda.

            — Está bem — concordou ela, desligando o telefone e dando uma última olhadela ao espelho, enquanto agarrava na mala de mão.

            Melanie usava um vestido branco de linho, um casaco de seda negra e um par de sapatos de verniz branco e preto, que comprara no ano anterior em Roma. Estava bastante elegante e sentia-se satisfeita com a sua aparência. Durante uma semana tinham trabalhado freneticamente no estúdio da televisão, a fim de concluir a montagem do filme com a entrevista a Peter Hallam e a Pattie Lou Jones; à medida que o trabalho progredia, cada vez lhe agradava mais o material que haviam conseguido recolher. A história estava a ficar cada vez mais interessante. Quando chegou à porta, o telefone recomeçou a tocar e Melanie sentiu-se tentada a não atender. O mais provável era ser o maldito do responsável pela montagem a dizer-lhe que fosse já para o estúdio. Ao menos uma vez, ela desejava poder dispor de algum tempo para si própria, o que lhe permitiria fazer as suas compras. O aparelho continuava a tocar com tanta persistência que Melanie desistiu da idéia de não atender e dirigiu-se de novo para a sala de estar, agarrando no telefone branco oculto num nicho.

            — Sim? — perguntou Mel à espera e sentindo-se receosa ao pensar que ouviria de novo a voz do técnico. Naquela manhã, o homem já havia ligado por duas vezes. Mas não era ele. Uma vez mais, ouviu a voz de Peter Hallam.

            — Olá, Mel — saudou ele, um pouco hesitante, ao ouvir o tom ríspido de Melanie.

            Aquela reação fez com que se sentisse embaraçada.

            — Olá, Peter. Lamento muito se fui desagradável. Estava preparada para sair de casa. Mas interrompeu-se, sentindo-se rejuvenescida de novo e nervosa, tal como acontecera nas outras ocasiões em que ele tinha telefonado. Peter conseguia produzir um efeito estranho nela, que parecia anular a sensação de triunfo por uma carreira profissional repleta de sucesso assim como a sua autoconfiança. Sempre que falava com Peter, Melanie voltava a ser de novo uma rapariguinha... ou talvez, apenas uma mulher. — É bom ouvir de novo a sua voz — continuou ela, dado que havia alguns dias que ele não lhe ligava. — Como é que está a Marie? — Ocorreu-lhe que talvez ele estivesse a telefonar para lhe dar más notícias.

            Pelo contrário, Peter sossegou-a de imediato.

            — Está muito melhor. Ontem à noite tivemos um problema, o que me levou a pensar que ela estivesse prestes a entrar num processo de rejeição, mas agora está tudo de novo sob controle. Alteramos-lhe a medicação. Estamos mesmo convencidos de que dentro de algumas semanas ela poderá voltar para casa — concluiu o médico.

            Aquilo era algo a que Melanie gostaria de assistir, mas não justificava uma viagem até a Costa Oeste, e o seu produtor nunca a autorizaria a viajar apenas com esse propósito.

            — E as crianças? — perguntou Melanie.

            — Estão ótimas. Eu apenas queria saber como é que a Mel estava. Telefonei para o seu gabinete, mas disseram-me que não se encontrava lá — continuou Peter.

            — Estou apenas a fazer gazeta — disse ela com uma risada, sentindo-se feliz e de coração leve. — É neste fim-de-semana que vou para as Bermudas e preciso fazer algumas compras.

            — Aí está uma perspectiva que parece ser bastante agradável — retorquiu ele. — Eu e os miúdos vamos ficar por aqui durante este fim-de-semana. O Mark vai entrar num torneio de tênis e o Matthew foi convidado para uma festa de anos.

            — As minhas filhas vão à festa de que lhe falei e depois irão para Cape Cod com uma amiga e com os pais desta — disse Melanie por sua vez. Ambos davam a impressão de ocultar os sentimentos que tinham um pelo outro atrás das conversas que mantinham sobre os respectivos filhos. Melanie deu consigo a perguntar a si própria como é que ele estaria, independentemente de Pamela, Mark ou Matthew. Num impulso, decidiu perguntar-lhe: — E o Peter? Está bem? Não tem trabalhado muito?

            — É claro que tenho — respondeu ele, rindo-se da pergunta, apesar de se sentir satisfeito por Mel ter perguntado. — Não saberia proceder de outra forma, ainda que o quisesse, e tenho a certeza de que o mesmo aconteceria consigo.

            — É verdade — retrucou Melanie. — Quando eu for velha e estiver toda enrugada, sendo forçada a aposentar-me, não saberei o que fazer todas as manhãs.

            — Verá que há de pensar em alguma coisa — assegurou-lhe Peter.

            — Sim. Talvez numa operação na cabeça. — Aquele comentário provocou uma gargalhada em ambos.

            Melanie decidiu sentar-se e a idéia de ir ao Bloomingdale's comprar os fatos de banho apagou-se por completo da sua memória.

            — Para lhe ser franca, acho que quando chegar essa altura gostaria muito de começar a escrever um livro.

            — Sobre que assunto? — perguntou ele.

            — As minhas memórias — respondeu ela na brincadeira.

            — Não acredito! De verdade? — redargüiu Peter incrédulo.

            Não era freqüente Melanie confessar os seus sonhos a qualquer pessoa, mas era-lhe fácil dialogar com ele.

            — Ainda não sei bem. Mas tenho a impressão de que gostaria de escrever um livro sobre a situação da mulher na carreira jornalística. De início, esta profissão foi bastante difícil para mim — admitiu ela. — Embora agora as coisas se tenham tornado bastante mais fáceis, a realidade é que nem sempre foram assim. As pessoas, de uma maneira geral, ressentem-se muito quando alguém consegue alcançar êxito. Em parte sentem-se tão satisfeitas como chateadas. Tem sido bastante interessante lidar com essa situação, e acho que muitas mulheres podem identificar-se com ela. Não é relevante que se trabalhe na minha atividade ou noutra qualquer. O fulcro da questão é a ascensão, e eu sei o que isso é, o esforço que é necessário fazer e o que acontece quando chegamos lá em cima.

            — Pelo que está a dizer-me, acho que vai ser um best-seller.

            — Talvez não, mas ainda assim gostaria de tentar escrevê-lo — retorquiu Melanie.

            — Eu sempre desejei escrever um livro sobre cirurgia cardiovascular que pudesse ser entendido pelos leigos e que explicasse de que trata esse tipo de intervenção cirúrgica, aquilo que há a esperar, o que deve ser exigido de um médico, quais os riscos que se correm em certas situações específicas — confidenciou Peter. — Não sei bem se o assunto poderia vir a ter algum interesse para as pessoas, mas o fato é que existe muita gente que não se encontra preparada e é prejudicada pelos seus médicos.

            — Ora isso me parece ser uma idéia muito interessante — afirmou Melanie, sentindo-se impressionada e acreditando na necessidade da existência de um livro naqueles moldes. Deveria ser bastante interessante ver como é que Peter abordaria um tema daquela natureza.

            — Talvez nós devêssemos fugir juntos para o sul do Pacífico, a fim de podermos escrever os nossos livros. Quando as crianças forem adultas — acrescentou ele.

            — E por que é que haveríamos de esperar? — Era uma fantasia divertida, que lhe trouxe de repente à memória a sua viagem para as Bermudas. — Nunca estive no sul do Pacífico. — Já estivera nas Bermudas. Era uma região tropical não muito distanciada, mas pouco excitante. Talvez isso se devesse ao fato de a perspectiva de ir sozinha não a entusiasmar por aí além. E seria que Peter a entusiasmava? Melanie tinha medo de responder a essa pergunta.

            — Eu sempre tive vontade de ir a Bora-Bora — confessou ele. — Mas nunca consigo afastar-me dos meus doentes durante tempo suficiente para que a viagem valha a pena.

            — Talvez, bem no fundo, não deseje fazer isso — retorquiu Melanie.

            Anne também o havia acusado do mesmo, e o mais provável era que fosse verdade.

            — Talvez tenha razão — anuiu ele. Era-lhe fácil falar francamente com ela. — Vou guardar essa viagem para depois de me aposentar. — Guardara muita coisa e, agora que Anne tinha desaparecido da sua vida, nunca mais partilharia nada com ela. Peter adiara tanta coisa para mais tarde, e agora arrependia-se. Não existia mais tarde. Pelo menos para ele e para a sua falecida mulher. Interrogava-se quanto à sensatez de continuar a adiar constantemente as coisas. E se viesse a sofrer um ataque do coração, se morresse, se... — Talvez me decida a ir antes da reforma — concluiu Peter em voz alta.

            — Faça isso. Acho que deve a si próprio uma recompensa — acrescentou Melanie.

            Mas qual? Ultimamente, tudo o que ele mais desejava era estar na companhia dela.

            — Sente-se entusiasmada com a viagem, Mel?

            — Sim e não — foi a resposta dela. Já estivera sozinha em locais românticos em ocasiões anteriores, e chegara à conclusão de que isso tinha as suas desvantagens.

            — Não se esqueça de me enviar um postal — pediu Peter.

            — Assim farei — prometeu Melanie.

            — É melhor desligar — disse ele, pouco depois. — Quando regressar da sua viagem, telefone-me. E descanse!

            — O Peter tem tanta necessidade disso como eu. Provavelmente, ainda mais.

            — Duvido muito — replicou Peter.

            Naquele momento, Melanie olhou para o relógio de pulso, perguntando a si mesma de onde é que ele lhe estaria a telefonar. Na Califórnia eram nove e trinta da manhã.

            — Hoje não está a operar?

            — Não. Na última quarta-feira de todos os meses costumamos efetuar reuniões para pôr toda a equipe médica ao corrente das novas técnicas e maneiras de operar. Discutimos o que está a ser feito em todos os hospitais do país e os objetivos que cada um de nós tentou alcançar nas intervenções cirúrgicas realizadas ao longo do último mês.

            — Quem me dera ter tido conhecimento dessas reuniões! Adoraria ter filmado uma — disse Mel, apesar de ter material suficiente para a reportagem.

            — Costumamos começar às dez horas e nesses dias termino a ronda aos meus doentes mais cedo do que é hábito. Este telefonema é uma recompensa que já ando a prometer a mim mesmo há alguns dias — continuou Peter num timbre de voz agarotado. Era-lhe fácil dizer coisas daquele teor ao telefone. De repente sentiu-se grato pela distância que naquele momento existia entre ambos.

            — Sinto-me muito lisonjeada com as suas palavras — asseverou Melanie.

            Peter desejava dizer-lhe que ela deveria realmente sentir-se assim, uma vez que ele nunca havia telefonado a uma mulher com o propósito de manter uma conversação semelhante àquela desde que casara com Anne, mas ficou calado.

            — Também me ocorreu diversas vezes telefonar-lhe para saber o estado de saúde da Marie, mas a diferença horária foi sempre um impedimento — afirmou Melanie.

            — Isso também me aconteceu. Seja como for, estou contente por ter decidido ligar-lhe. Passe um fim-de-semana agradável nas Bermudas — desejou-lhe Peter.

            — Muito obrigada. Também espero que o seu seja bom. Quando regressar, dou-lhe uma apitadela — prometeu Melanie. Era a primeira vez que fazia uma promessa daquele teor e já se sentia ansiosa pelo seu cumprimento. — A propósito, o nosso filme está a ficar sensacional.

            — Fico muito satisfeito com isso — retorquiu Peter, esboçando um sorriso caloroso. Mas essa não havia sido a razão que o levara a telefonar-lhe. — Tenha cuidado consigo, Mel.

            — Ligo-lhe na semana que vem — prometeu Melanie, sentindo inesperadamente que se tinha estabelecido entre ambos um elo de união que não existira antes. Quando se dirigiu ao Bloomingdale's, viu-se invadida por uma sensação de juventude, de entusiasmo e de despreocupação.

            Já na loja, experimentou dois fatos de banho azuis, um preto e um vermelho; o vermelho nunca havia sido uma cor que a favorecesse devido à cor dos seus cabelos, o que a levou a decidir-se por um azul-marinho e por outro preto. Ambos eram um tudo-nada ousados, mas naquele dia ela sentia-se exótica. Enquanto permanecia junto do balcão à espera que alguém a atendesse para poder pagar, já com o cartão de crédito na mão e com os dois fatos de banho, avistou uma mulher banhada em lágrimas que se aproximava rapidamente de si.

            — O presidente foi alvejado! — gritava ela para quem a quisesse ouvir. — Foi atingido no peito e nas costas e encontra-se às portas da morte!

            Todas as pessoas que naquele momento se encontravam presentes no estabelecimento pareceram subitamente trespassadas por um choque elétrico, enquanto aos gritos passavam aquela informação umas às outras e começavam a correr como se pelo fato de se movimentarem com frenesi pudessem dar algum contributo positivo numa situação daquelas. Por seu lado, Melanie, em obediência a um reflexo, largou os fatos de banho sobre o balcão e, a correr, desceu três lanços de escadas, após o que saiu velozmente porta fora. Entrou no primeiro táxi que lhe apareceu à frente e, quase sem respiração, deu ao motorista a morada da estação de televisão. Quando já se encontravam a caminho, pediu ao motorista que ligasse a telefonia. Tanto ela como o homem permaneceram em silêncio, enquanto se inteiravam das notícias. Naquele momento, ninguém parecia saber ao certo se o presidente se encontrava vivo ou morto. Passara o dia em Los Angeles, numa reunião com o governador da Califórnia, e com outros dirigentes estaduais naquela cidade. Alguns momentos antes, fora levado apressadamente numa ambulância para o hospital, devido à gravidade dos ferimentos que sofrera, e dois homens dos Serviços Secretos jaziam mortos no pavimento, perto do local onde ele tinha sido alvejado. No momento em que colocou uma nota de dez dólares nas mãos do motorista, o rosto de Melanie estava pálido.

            Depois irrompeu pelas portas duplas que davam acesso ao interior do edifício da cadeia de televisão. Deparou com uma cena de caos absoluto desde o átrio até a sala de redação e, quando se dirigiu num passo apressado para a mesa de trabalho do diretor da redação, este a olhou com uma expressão de alívio.

            — Graças a Deus! Tinha esperanças de que aparecesses, Melanie — disse o homem.

            — Vim a correr desde o Bloomingdale's — retorquiu ela, sentindo a impressão de que fora isso que acontecera, e que o teria feito sem dúvida alguma se a tal se tivesse visto obrigada. Sabia que o único lugar onde naquele momento deveria estar era precisamente no estúdio.

            — Quero que entres no ar de imediato para apresentares os boletins noticiosos especiais — continuou ele, observando o vestuário que ela tinha e que lhe pareceu ótimo, apesar de naquela situação se estar absolutamente nas tintas se ela tivesse aparecido nua. — Vai já pôr um pouco de maquiagem. Podes abotoar o casaco um pouco mais? O vestido é demasiado branco para a câmera.

            — Com certeza. Há já alguma novidade?

            — Nada ainda. Ele continua na sala de operações e a única coisa que sabemos é que o seu estado de saúde é grave, Mel.

            — Merda! — exclamou Melanie, correndo para o seu gabinete onde guardava os produtos de maquiagem.

            Cinco minutos mais tarde encontrava-se de volta à redação; entretanto, já penteara os cabelos e vinha maquiada, tendo também abotoado o casaco. Estava pronta a entrar no ar. O produtor seguiu atrás dela até o estúdio e entregou-lhe uma pilha de papéis para que os lesse rapidamente, uma vez que não havia tempo a perder. Alguns instantes depois, Melanie olhou para o homem com uma expressão acabrunhada.

            — A situação não parece nada boa, não é verdade? — perguntou ela.

            O presidente fora alvejado no peito com três tiros, suspeitando-se de que a coluna vertebral tivesse sido afetada, a julgar pelo que diziam os relatórios anteriores. Ainda que ele conseguisse sobreviver, ficaria paralisado ou, pior ainda, poderia transformar-se num vegetal. Fora internado no Hospital Central e, naquele momento, era submetido a uma intervenção cirúrgica. De repente, Melanie lembrou-se de tentar saber se Peter Hallam saberia algo de que a imprensa não estivesse ao corrente, mas não teve tempo de lhe telefonar antes de entrar no ar.

            Dirigiu-se apressadamente para a sua mesa no estúdio e começou a improvisar para as câmaras enquanto permanecia sob as luzes dos projetores, sentindo o calor que irradiava deles; começou a apresentar os boletins noticiosos à medida que estes iam surgindo. Toda a programação habitual fora interrompida para poderem apresentar as notícias que chegavam constantemente, apesar de não haver ainda muito a dizer. Melanie foi obrigada a fazer render as informações que possuía durante grande parte daquela tarde, sem ter feito qualquer intervalo durante três horas consecutivas, altura em que foi substituída por um dos outros pivots, um homem que costumava apresentar os noticiários aos fins-de-semana.

            Todos haviam sido chamados ao estúdio. Rapidamente, organizaram-se algumas trocas de impressões intermináveis, em que se aventava todo o tipo de conjecturas ao vivo. Entre a chegada dos relatórios provenientes da Costa Oeste, os apresentadores entravam em contacto direto com os repórteres que se encontravam em Los Angeles, no átrio do Hospital Central, um local que tão familiar era a Melanie. Enquanto ouvia as notícias que continuavam a chegar, tudo que desejava naquele momento era poder estar lá. Por volta das dezoito horas, as notícias continuavam a não ser conclusivas, informando apenas que o presidente continuava vivo e que, sobrevivera à operação. Teriam de se contentar com aquele jogo da espera, à semelhança da primeira dama, a qual naquele momento se encontrava a bordo de um avião com destino a Los Angeles, que deveria aterrar dali a uma hora.

            Melanie apresentou o seu noticiário habitual das dezoito horas, o qual como era evidente cobriu quase exclusivamente as notícias que vinham de Los Angeles, e, quando saiu do ar, o produtor encontrava-se à sua espera para falar com ela.

            — Melanie — começou ele com uma expressão sombria entregando-lhe outra pilha de papéis — quero que vás para o hospital. — Durante breves instantes, ela sentiu-se atordoada. — Vai para casa, embala as tuas coisas e depois volta aqui para apresentares o noticiário das vinte e três horas. Assim que terminares, segues diretamente para o aeroporto. Já tratamos de marcar lugar num vôo e a primeira coisa que vais fazer amanhã de manhã assim que lá chegares é começar a relatar o que se está a passar em Los Angeles. Nessa altura, apenas Deus saberá o que é que terá acontecido. — O homem que alvejara o presidente já se encontrava detido e a sua história era constantemente transmitida, intercalada com entrevistas feitas aos cirurgiões de maior notoriedade do país. Estes expressavam a sua opinião quanto às hipóteses de sobrevivência do presidente.

            — Estás disposta a fazer o que te peço? — perguntou o produtor.

            Ambos sabiam que a pergunta era retórica. Não lhe restava qualquer alternativa; era para isso que lhe pagavam: para cobrir emergências de âmbito nacional. Mentalmente, Melanie passou em revista a lista de coisas que tinha a fazer. Sabia por experiências anteriores que Raquel tomaria conta das filhas e teria oportunidade de falar com elas quando fosse a casa fazer as malas, entre os dois noticiários.

            Quando chegou, Melanie deparou com as gêmeas e com Raquel lavadas em lágrimas em frente do televisor.

            Jessica foi a primeira a aproximar-se da mãe.

            — O que é que irá acontecer, mamãe? — perguntou a filha ao mesmo tempo em que a governanta assoava ruidosamente o nariz.

            — Ainda não sabemos — respondeu Mel, após o que começou a informá-las das novidades. — Tenho de ir para a Califórnia ainda esta noite. Vocês ficam bem? — indagou, dirigindo-se a Raquel, apesar de saber de antemão que a resposta seria afirmativa.

            — É claro que sim — respondeu a governanta com uma expressão de quem se sentia quase insultada.

            — Regressarei logo que isto tudo chegue a uma conclusão — assegurou Melanie depois de ter feito as malas.

            Deu um beijo a todas e apressou-se a voltar ao edifício da estação televisiva, onde apresentaria as últimas notícias. Assim que saiu do ar, deixou o estúdio acompanhada por dois polícias que haviam sido designados para a escoltar até junto de um carro-patrulha, que se encontrava estacionado na rua. Ouviram atentamente as notícias difundidas pela rádio enquanto seguiam para o aeroporto a grande velocidade, com as sirenas a soarem estridentemente. A meia-noite e quinze, chegaram ao Aeroporto J.F.K. e, dez minutos depois de Melanie ter entrado a bordo, o avião descolou.

            Enquanto atravessavam os céus do país, as hospedeiras entregaram-lhe por diversas vezes boletins que iam sendo recebidos pelos pilotos e enviados pelos coordenadores de tráfego aéreo que se encontravam nas torres de comando. O presidente continuava vivo, apesar de não haver maneira de saber por quanto tempo. Aquela noite pareceu não ter fim, até que, finalmente, Melanie aterrou no aeroporto da cidade, sentindo-se verdadeiramente extenuada. À sua espera, encontrava-se outra escolta da Polícia, e ela decidiu seguir de imediato para o Hospital Central antes de ir ao hotel dormir algumas horas. Teria de começar a trabalhar às sete da manhã e já eram quatro horas.

            Quando chegou ao hospital, não havia mais novidades, e chegou ao hotel pouco antes das cinco da manhã. Calculou que ainda poderia dormir cerca de uma hora antes de se apresentar ao trabalho. Seria obrigada a beber uma grande quantidade de café simples. Pediu à telefonista do hotel que a acordasse com receio de poder adormecer. Haviam lhe reservado um quarto num hotel onde nunca se alojara, mas ficava perto do hospital. De súbito, apercebeu-se da estranheza daquela situação que a forçara a regressar a Los Angeles ao fim de tão pouco tempo, interrogando-se sobre se teria oportunidade de encontrar-se com Peter. Talvez depois de todo aquele assunto chegar ao fim. A não ser, é claro, que o presidente morresse.

            Melanie poderia ser forçada a seguir para Washington ao mesmo tempo em que o Air Force One  para assistir às exéquias.

            Se fosse esse o caso, não teria quaisquer hipóteses de se encontrar com Peter. Esperava que, para bem do presidente, isso não viesse a concretizar-se. E tinha uma enorme vontade de ver Peter durante os dias mais próximos. Perguntava a si mesma se ele saberia da sua presença na cidade.

            Quando a telefonista do hotel ligou, Melanie despertou imediatamente; todos os seus sentidos estavam em estado de alerta, apesar de sentir os membros doridos como se não tivesse dormido nada. Teria de funcionar à base de café simples e da sua energia nervosa. Não era a primeira vez que se via numa situação daquele gênero, e sabia que daquela vez também conseguiria levar a sua missão a bom termo. Melanie começou a vestir-se com gestos apressados, tendo optado por um vestido cinzento e sapatos pretos de salto alto. Às seis e trinta da manhã já se encontrava fora do hotel, seguindo num carro da Polícia que a deixou no hospital dez minutos mais tarde, onde foi posta ao corrente das últimas notícias, a fim de poder entrar no ar. Naquele momento já eram quase dez horas em Nova Iorque e havia já algumas horas que a zona leste do país aguardava ansiosamente por notícias.

‘           Avistou a equipe de filmagens com que tinha trabalhado antes, bem como cerca de outros cinqüenta operadores de câmara e mais duas dúzias de repórteres. Tinham assentado arraiais no átrio, enquanto um porta-voz do hospital lhes ia transmitindo os boletins clínicos de meia em meia hora. Finalmente, às oito horas, sessenta minutos depois de Melanie ter entrado no ar, apresentando um ar de austeridade impressionante, as primeiras boas notícias chegaram junto da imprensa.

            O presidente encontrava-se consciente e a sua medula não havia sido cortada nem tão-pouco atingida. A fazer fé no que os médicos podiam concluir até o momento, se o presidente conseguisse sobreviver, não ficaria paralisado e não se verificara qualquer lesão cerebral. No entanto, continuava em estado crítico. A sua sobrevivência ainda não era um dado adquirido e, três horas mais tarde, a primeira-dama juntou-se aos membros da imprensa, dirigindo umas breves palavras à nação.

            Melanie conseguiu que ela lhe concedesse três minutos e a pobre mulher tinha uma expressão de grande sofrimento e de um imenso cansaço, mas falou com voz firme e uma postura cheia de dignidade. O coração dos americanos estava com a mulher do presidente quando os seus olhos se marejaram de lágrimas, apesar de a sua voz nunca ter vacilado. Mel deixou-a falar fazendo-lhe apenas algumas perguntas, depois de lhe dizer que toda a nação rezava com ela pelo bem-estar do marido. Alguns minutos mais tarde e de uma maneira miraculosa, conseguiu falar durante breves instantes com o cirurgião que operara o presidente.

            Por volta das dezoito horas daquela mesma noite, não se verificava qualquer alteração adicional, e Melanie foi substituída por um apresentador local que trabalhava para a mesma cadeia de televisão. Concederam-lhe cinco horas para regressar ao hotel e poder dormir, se tal lhe fosse possível. Porém, naquela altura, Melanie sentia-se tão excitada pelos acontecimentos do dia que não foi capaz de conciliar o sono quando chegou à cama. Deixou-se ficar deitada no escuro, a pensar num milhar de coisas diferentes; de repente agarrou o telefone e ligou um número local.

            Mrs. Hahn atendeu do outro lado da linha e, sem qualquer preâmbulo amigável, Melanie perguntou por Peter, o qual atendeu instantes depois.

            — Mel?

            — Olá. Estou exausta e não sei se digo coisa com coisa, mas só queria dizer-lhe que estou em Los Angeles — informou ela.

            Peter esboçou um sorriso de ternura. A voz dela denotava um cansaço enorme.

            — Recorda-se de mim? — perguntou ele. — Eu também trabalho no Hospital Central. Para já não mencionar que também temos televisão. Hoje já a vi por duas vezes, apesar de não conseguir ver-me. Está a agüentar-se bem?

            — Hei de sobreviver — respondeu Melanie. — Já estou habituada a este tipo de situação. Ao fim de algum tempo, só precisamos pôr o corpo a funcionar através do piloto automático e esperar que não choquemos contra uma parede qualquer, ao procurarmos uma casa de banho.

            — Onde é que está neste momento? — perguntou Peter.

            Melanie disse-lhe o nome do hotel. Peter sentiu-se surpreendido por, uma vez mais, se encontrarem tão próximos um do outro. Era forçado a admitir que, apesar das circunstâncias trágicas, aquela proximidade lhe agradava, embora não tivesse a certeza de que poderiam voltar a encontrar-se.

            — Há alguma coisa que eu possa fazer por si? — continuou ele.

            — Neste momento, não — respondeu Melanie. — Mas se houver, não hesitarei em dizer-lhe.

            Peter sentiu-se um perfeito idiota ao fazer-lhe a pergunta seguinte, mas não foi capaz de se conter.

            — Existe alguma possibilidade de que nos possamos encontrar em qualquer altura? Quero dizer, além de nos vermos num átrio repleto de membros da imprensa e da televisão?

            — Ainda não sei. Tudo depende muito da evolução da situação — respondeu Melanie, soltando um suspiro profundo. — O que é que lhe parece que vai acontecer, Peter? Quais são as verdadeiras hipóteses de sobrevivência do presidente? — Ter-lhe-ia feito a pergunta antes; no entanto, sentia-se tão exausta que só naquele momento é que lhe ocorrera fazê-la.

            — São boas, mas tudo depende do seu estado de saúde antes do acidente. O coração não foi afetado, senão teriam requerido a minha presença. Quando os médicos o operaram, eu encontrava-me no bloco operatório para o que desse e viesse, mas a minha intervenção não foi necessária.

            Os relatórios que Melanie recebera não haviam referido aquilo, mas suspeitava que existisse muita coisa que naquele momento não estava a ser revelada. Tudo o que a imprensa sabia a fundo era o que dizia respeito ao passado do atirador: um homem de vinte e cinco anos, que passara os últimos cinco anos internado num hospício. Dois meses antes tinha confessado à irmã que iria assassinar o presidente. Nessa ocasião, ninguém o levara a sério, uma vez que o homem se mostrava convencido de que o seu companheiro de quarto no hospício era nada mais nada menos do que Deus, e que a chefe das enfermeiras era Marilyn Monroe. Ninguém pensava que ele soubesse ao certo quem era o presidente. No entanto, veio a provar-se que sabia o suficiente para ter estado prestes a matá-lo. E era provável que viesse a concretizar o seu intento.

            —Amanhã saberemos muito mais, Mel — continuou Peter.

            — Se conseguir obter alguma informação sigilosa, importa-se de me telefonar?

            — Pode ficar descansada quanto a isso. Mas agora porque não tenta dormir um pouco, antes de se transformar na próxima doente? — sugeriu ele.

            — Vou tentar, mas o problema é que estou tão excitada que não consigo adormecer.

            — Experimente. Feche os olhos e descanse. Não pense em adormecer. — A voz de Peter acariciava-a e ela sentiu-se satisfeita por ter decidido telefonar-lhe. — Quer boleia para o hospital amanhã de manhã — perguntou ele.

            — Amanhã? — retorquiu Melanie com uma gargalhada. — Esta noite ainda tenho de lá ir às vinte e três horas.

            — Isso não é humano! — exclamou Peter com indignação.

            — Alvejar o presidente também não o é — disse ela.

            Ambos estavam de acordo. Pouco depois, Melanie desligou o aparelho, satisfeita. Esperava apenas que pudessem encontrar-se, antes de partir de Los Angeles. Teria muita pena se se fosse embora sem poder ver Peter, mas isso era uma possibilidade. Enquanto se virava para o outro lado na sua cama de hotel rezou para que tal não acontecesse.

 

            Na sexta-feira seguinte, Melanie e o resto dos membros da imprensa passaram um dia cheio de ansiedade, no átrio do Hospital Central. Havia meia dúzia de moços de recados encarregados de fornecerem sanduíches e cafés aos jornalistas; periodicamente, estes iam para o ar a fim de fornecerem às respectivas estações emissoras os últimos boletins clínicos do presidente. No entanto, não se verificara qualquer alteração até às dezenove horas daquele dia. Depois de ter recomeçado o seu trabalho às vinte e três horas da quinta-feira anterior, Melanie só saiu do hospital às vinte horas da sexta-feira seguinte, tão cansada que a sua cabeça latejava e os olhos ardiam-lhe. Encaminhou-se para o parque de estacionamento e, quando se sentou ao volante do automóvel, que alguém havia alugado na noite anterior para seu uso, sentiu a visão tão desfocada que teve medo de rodar a chave e regressar ao hotel. A voz que ouviu parecia chegar-lhe de um espesso manto de nevoeiro; voltou-se para ver quem é que se encontrava ao lado do automóvel e lhe dirigia a palavra.

            — Não está em condições de conduzir, Mistress Adams.

            De início, Melanie pensou que fosse um polícia, mas, quando prestou mais atenção, viu um rosto familiar que a fez sorrir. Mel encostou a cabeça para trás. A janela estava completamente aberta: precisaria de muito ar fresco para não adormecer ao volante na viagem de regresso ao hotel.

            — Ora bem, raios me partam! O que é que está a fazer aqui? — perguntou ela. Apesar da sua exaustão, ainda conseguia ver o azul-profundo dos olhos dele; era-lhe extremamente confortante vê-lo ali, perto de si.

            — Eu trabalho aqui ou já se tinha esquecido desse pormenor? — retorquiu Peter.

            — Mas não é um bocado tarde para ainda não ter ido para casa? — acrescentou Melanie.

            Peter acenou com a cabeça e ficou a observar-lhe a expressão dos olhos; viu que ela também ficara feliz por encontrá-lo, apesar de se sentir demasiado fatigada para fazer qualquer movimento.

            — Chegue-se para lá. Eu levo-a até ao hotel.

            — Não diga disparates, eu estou bem — disse Melanie.

            — Necessito apenas de...

            — Ouça o que lhe digo e seja prática, Mel — replicou Peter, cortando-lhe a palavra. — Com o presidente hospitalizado aqui, se a Mel estatelar o automóvel contra uma árvore, nas urgências não haverá pessoa alguma que lhe faça sequer um penso. Todo o pessoal médico deste hospital foi destacado para prestar assistência única e exclusivamente ao presidente. Portanto, vamos poupar a nós próprios uma grande dor de cabeça, e deixe-me levá-la ao hotel. Estamos de acordo? — concluiu Peter com determinação.

            Melanie nem sequer tinha a força necessária para lhe opor resistência. Limitou-se a sorrir como se fosse uma criança cansada ao fim de um dia de brincadeiras e aquiesceu com um gesto de cabeça, deslizando para o lugar do passageiro.

            — Menina bonita — disse Peter.

            Observou-a para ver se as suas palavras tinham sido bem aceitas e ficou aliviado ao ver que assim era. Melanie olhava para o vazio e não parecia sentir-se incomodada pelo fato de ele ter assumido o controle da situação. Peter conduziu habilmente por entre o tráfego de Los Angeles, ainda bastante intenso àquela hora e, de vez em quando, olhava de relance para Melanie. Por fim, falou de novo:

             — Sente-se bem, Mel?

            — Estou apenas derreada. Depois de ter dormido um pouco, estarei de novo em forma.

            — A que horas é que tem de recomeçar a trabalhar? — indagou ele.

            — Só às seis da manhã de amanhã, graças a Deus — retorquiu Melanie. — Por acaso sabe de alguma coisa quanto ao estado de saúde do presidente? — perguntou ela pouco depois, sentando-se um pouco mais a direito no assento do automóvel. Como resposta, Peter limitou-se a abanar a cabeça. — Merda! — exclamou Melanie. — Espero que ele consiga safar-se desta.

            — Esse é o desejo de todos os cidadãos deste país, incluindo o meu. Uma pessoa sente-se muito impotente numa situação como esta. Mas por acaso ele teve uma sorte dos diabos. Podia ter morrido logo. De fato, a julgar pelas radiografias que tive oportunidade de examinar, foi por uma unha negra. O presidente esteve a uma fração de milímetros de perder a vida ou as faculdades ou, na melhor das hipóteses, a capacidade de poder movimentar-se do pescoço para baixo. Se a bala tivesse feito ricochete numa trajetória ligeiramente diferente... — Peter não teve necessidade de concluir a frase. Os cirurgiões que haviam operado o presidente eram seus amigos, o que lhe permitia manter-se bem informado de toda aquela situação trágica.

            — Eu tenho imensa pena da mulher — retrucou Melanie. — Ela está a ser muito corajosa e não perdeu ainda a esperança. — A primeira-dama já não era uma mulher jovem e os últimos dois dias tinham posto à prova a sua capacidade de resistência.

            — Não sei se sabe, mas ela tem problemas cardíacos — disse Peter. — Não se trata de uma coisa por aí além, mas esta não é exatamente a situação emocional que o médico lhe teria recomendado.

            — Pelo menos, o Peter está perto dela, no caso de surgir qualquer problema — disse Melanie com um sorriso cansado, olhando para ele. Sem saber como nem porque, sentiu-se grata por ele também se encontrar junto de si. Nunca teria sido capaz de ter conduzido incólume por entre o tráfego daquela auto-estrada. Na altura em que estacionavam à frente do hotel, Melanie disse-lhe isso.

            — Não seja disparatada. Eu nunca a teria deixado conduzir nesse estado — declarou Peter.

            — Tenho muita sorte por o Peter ter aparecido quando eu saía do hospital — redargüiu Melanie, sentindo-se um pouco mais animada, ainda que apenas ligeiramente. Até ao momento, não se dera conta de que Peter tinha estado à sua espera, uma vez que antecipara aquele problema. Desejara fazer aquilo por ela, e sentia-se satisfeito por ter procedido dessa forma. — Estou-lhe muitíssimo agradecida, Peter — continuou ela.

            Ambos saíram do automóvel e ele baixou o olhar para Melanie.

            — Está em condições de entrar sozinha no hotel? — perguntou com alguma preocupação.

            Melanie sorriu perante a preocupação dele. Há anos que não via ninguém preocupar-se assim com ela.

            — Eu estou bem — assegurou ela. — Posso perfeitamente caminhar, o que não posso é conduzir. — Mas tê-lo-ia feito, se a tal se visse obrigada.

            — Amanhã de manhã venho buscá-la. Às seis menos um quarto está bem para si? — perguntou Peter.

            — Não posso permitir que faça isso — recusou Mel.

            — E por que não? Normalmente, eu estaria no hospital por volta das seis e meia. Que diferença é que trinta minutos podem fazer? — argumentou ele.

            — A sério, eu posso conduzir — respondeu Melanie, sentindo-se quase embaraçada pela atenção que ele lhe dedicava.

            Peter, contudo, manteve-se irredutível.

            — Não estou a ver por que motivo é que deveria ir sozinha para o hospital — insistiu.

            — Como é que vai agora para casa? — perguntou ela.

            — Não se preocupe com isso. Vou apanhar um táxi até ao parque de estacionamento do hospital, onde deixei o meu automóvel. Estou completamente desperto. A Mel é que se encontra mais morta do que viva, e vê-se que mal se consegue agüentar de pé.

            — Oh, Peter. Eu não tive intenção de... — Com um bocejo, Melanie interrompeu-se, dando uma gargalhada.

            — Sim? Há mais alguma coisa que pretenda dizer ao seu público? — perguntou Peter na brincadeira, o que fez com que ela lamentasse o fato de se sentir tão extenuada.

            — Só quero agradecer-lhe — continuou ela. O olhar dos dois encontrou-se e ficou preso. — É tão agradável vê-lo de novo.

            — Não, não é. Nem sequer é capaz de ver. Tanto quanto sabe, apareceu-lhe um estranho que a trouxe ao hotel — concluiu Peter, conduzindo-a gentilmente para a porta do edifício e acompanhando-a até ao vestíbulo.

            — Todos os estranhos deveriam ser assim tão simpáticos — murmurou Melanie baixinho.

            — Agora seja boazinha, meta-se no elevador até ao seu quarto e veja se dorme. Já comeu? — perguntou ele.

            — O suficiente. Neste momento, aquilo que mais desejo é a minha cama. Pensando melhor, qualquer cama serve — retorquiu Melanie. Até mesmo o chão começava a parecer-lhe apetecível.

            Peter carregou no botão de chamada do ascensor e empurrou-a com suavidade para o interior antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, após o que retrocedeu e se despediu.

            — Até amanhã de manhã.

            Melanie teria objetado, mas as portas fecharam-se e o elevador deixou-a no andar onde se situava o seu quarto. Tudo o que tinha a fazer era dar alguns passos até a porta, abri-la, voltar a fechá-la e dirigir-se para a cama. Fez tudo isso com gestos mecanizados que mais pareciam de um robô. Nem sequer se deu ao trabalho de despir a roupa; porém, antes de adormecer ligou para a telefonista do hotel, pedindo que a acordassem às cinco da manhã. Adormeceu e teve a sensação de que no momento seguinte o telefone começou a tocar.

            — São cinco horas, Mistress Adams.

            — Já? — perguntou Melanie numa voz enrouquecida e ensonada. Obrigou-se a despertar, enquanto se sentava com o auscultador na mão. — Ouviu algumas notícias? O presidente ainda está vivo?

            — Estou em crer que sim. — Se não fosse esse o caso, já lhe teriam telefonado do hospital ou da cadeia de televisão em Los Angeles.

            Melanie desligou e marcou o número da estação televisiva local. Ficou a saber que o presidente continuava vivo e que desde a noite anterior não tinham surgido mais novidades. O seu estado de saúde permanecia estável, apesar de crítico. Em seguida, dirigiu-se para o chuveiro. Ainda era demasiado cedo para poder pedir que lhe levassem café ao quarto. Faltavam vinte minutos para as seis quando Melanie desceu e ficou à porta do hotel a pensar que deveria ter insistido na noite anterior para que Peter não a fosse buscar. Não existia qualquer razão que justificasse ele andar a fazer de seu motorista. Realmente, era um disparate.

            Pontualmente às cinco e quarenta e cinco, ele chegou ao hotel e abriu a porta do automóvel para que Melanie entrasse. Peter parecia estar completamente desperto. E, enquanto ela se sentava ao seu lado, ofereceu-lhe uma termo que continha café.

            — Meu bom Deus, este é o melhor serviço de limusine que alguma vez tive — comentou Melanie.

            — Nesse saco estão alguns sanduíches — disse Peter, indicando com um sorriso um saco de papel castanho no chão da viatura. — Bom-dia! — saudou. Tinha calculado acertadamente que ela não havia jantado na noite anterior. Fora ele mesmo a preparar os sanduíches que lhe trouxera.

            — É bastante agradável ter um amigo em Los Angeles — declarou Melanie depois de dar uma dentada num sanduíche de peru em pão de forma, recostando-se no banco do Mercedes, com a chávena de café na mão, grata pela atenção que Peter lhe dispensava. — Isto é que é vida — afirmou, olhando para ele com um sorriso tímido. — Não sei bem porque, mas, quando parti de Los Angeles há duas semanas, tinha a impressão de que realmente não voltaríamos a ver-nos de novo. Ou pelo menos durante muito tempo.

            — Foi isso que eu também pensei. Só lamento que o nosso reencontro fosse proporcionado por uma tragédia como esta. No entanto, estou satisfeito por estar aqui, Mel.

            — Quer saber uma coisa? — perguntou ela, bebendo outro gole do café fumegante. — Eu também sinto o mesmo. É uma coisa horrível de se dizer, dadas as circunstâncias que me trouxeram à cidade. Mas, não sei bem Melanie interrompeu-se e afastou o olhar durante alguns instantes, depois do que voltou a concentrar a sua atenção em Peter. Tenho pensado muito em si desde que regressei a Nova Iorque e não sei bem ainda qual o motivo. Talvez o meu regresso aqui me ajude a esclarecer as idéias.

            Peter acenou com a cabeça. Também ele se debatera com o mesmo problema.

            — É-me bastante difícil explicar-lhe aquilo que tenho sentido nestes últimos dias. Estou sempre com uma vontade constante de lhe telefonar, para lhe contar as coisas que me acontecem, para lhe dar as últimas notícias do estado de saúde de Marie... Ou para lhe falar de uma qualquer operação que tenhamos acabado de fazer... Ou ainda acerca de algo que um dos miúdos tenha dito ou feito.

            — Acho que, nos últimos tempos, o Peter se tem sentido terrivelmente sozinho e eu abri-lhe uma porta. Agora não sabe o que é que há de fazer com ela — disse Melanie com um ar pensativo e Peter assentiu com a cabeça. — Mas o mais engraçado é que eu também não sei. Também me abriu uma porta e eu continuei a pensar em si quando fui para casa. Fiquei tão contente quando me telefonou pela primeira vez!

            — Não tive qualquer alternativa — retorquiu Peter. — Senti que era obrigado a ligar-lhe.

            — Mas por que? — perguntou ela.

            Ambos procuravam respostas que nenhum deles possuía.

            — Não sei, Mel. Na realidade, para mim foi um alívio enorme saber que estava de volta. Talvez desta vez eu consiga descobrir aquilo que pretendo dizer-lhe — continuou ele.

            — Ou também é possível que não me atreva a confessá-lo... Melanie, porém, teve a audácia de lhe fazer a pergunta mais difícil.

            — E isso o assusta?

            — Sim — respondeu Peter com uma voz que vacilava, sem olhar para ela enquanto continuava a conduzir o automóvel. — Assusta-me e muito.

            — Se lhe serve de alguma consolação, devo dizer-lhe que também tenho medo.

            — Mas por que motivo? — indagou ele, olhando para ela com uma expressão de perplexidade. — A Mel há já muitos anos que enfrenta o mundo sozinha. Sabe bem o que é que anda a fazer, enquanto eu não sei.

            — Esse é exatamente o fulcro da questão. Há quinze anos que vivo sozinha. Nunca permiti que homem algum se aproximasse demais. Se o fizesse, eu afastava-me dele sem qualquer hesitação. No entanto, existe algo em si... Não sei bem o que pensar acerca de si, mas o fato é que me senti irresistivelmente atraída por si, durante a última vez que estive em Los Angeles.

            Peter parou o automóvel no parque de estacionamento do Hospital Central e olhou para o rosto de Melanie.

            — Para além da minha falecida mulher, a Mel é a primeira mulher em vinte anos por quem me sinto atraído. Este sentimento assusta-me muito, Mel.

            — Por que razão?

            — Não sei — respondeu Peter. — Mas é assim. Desde que a Anne morreu que eu me tenho afastado da vida. E agora já não sei se quero continuar a proceder assim.

            Ambos se deixaram ficar sentados durante longos momentos, e Melanie foi a primeira a quebrar o silêncio.

            — Por que é que nós não nos limitamos a aguardar até vermos o que acontecerá? Não é aconselhável forçar o que quer que seja. Até a data, nenhum de nós arriscou fosse o que fosse. O Peter fez-me uns quantos telefonemas e eu encontro-me aqui porque o presidente foi alvejado. De momento, não há mais nada — finalizou Melanie, tentando assegurar-se do que acabara de dizer, pretendendo que ele fizesse o mesmo; porém, nenhum deles parecia muito convencido.

            — Tem a certeza de que isso é tudo? — perguntou Peter com uma expressão de ternura nos olhos.

            — Não. Não tenho — respondeu ela com um sorriso. Aí é que está o problema. Mas, talvez se levarmos as coisas com calma, não nos sintamos assustados com o que está a passar-se.

            — Espero não assustá-la, Mel — acrescentou Peter por sua vez. — Gosto demasiado de si para desejar incutir-lhe o mínimo receio, levando-a a afastar-se de mim.

            — Eu assusto-me mais a mim mesma do que o Peter alguma vez conseguiria fazer. Nunca foi minha intenção permitir que alguém voltasse a fazer-me sofrer, nem tão-pouco depender de alguém para além de mim própria. Erigi à minha volta os muros de uma fortaleza e, se permitir a entrada de alguém, essa pessoa poderá destruir tudo o que construí ao longo da minha vida. Levou-me muito tempo a alcançar tudo o que tenho.

            Peter viu que nos seus olhos havia algumas lágrimas.

            — Eu nunca a magoarei, Mel, nunca, desde que isso esteja ao meu alcance. Pelo contrário, gostaria de aliviá-la de parte do fardo que é obrigada a carregar.

            — Não tenho a certeza de querer desistir disso — retrucou Melanie.

            — E eu não tenho a certeza de estar preparado para carregá-lo.

            — Não faz mal. É melhor assim — disse Mel, recostando-se durante breves instantes, antes de ser obrigada a deixá-lo. — O único contra é vivermos tão longe um do outro. O Peter aqui... e eu lá. Desta forma, nunca chegaremos a descobrir seja o que for.

            — Talvez o consigamos durante esta sua estada — replicou Peter com um timbre de esperança na sua voz.

            Melanie abanou a cabeça, desanimada.

            — Isso é muito pouco provável enquanto eu estiver a trabalhar tantas horas.

            No entanto, ele não estava disposto a ser desencorajado. Pelo menos, ainda não. Tinha uma enorme necessidade de descobrir o que sentia por aquela mulher, que tanto o atraía.

            Olhou para aqueles enormes olhos verdes, de que se recordara tanto durante a sua ausência.

            — Da última vez que aqui esteve, acompanhou-me sempre enquanto eu trabalhava. Desta vez, permita que eu me coloque à sua disposição, tanto quanto me for possível. Talvez possamos ter algum tempo livre para conversarmos.

            — Essa idéia agrada-me — retorquiu Melanie. — Mas aviso-o de que vai ter uma surpresa. Neste momento estou a trabalhar noite e dia.

            — Isso é o que veremos. Depois de terminar no bloco operatório e de ter feito a ronda aos meus doentes; vou tentar arrancá-la do átrio do hospital. Talvez possamos ir comer um sanduíche — retorquiu ele.

            Aquela sugestão satisfazia Melanie, apesar de não saber se disporia do tempo necessário para o que ele sugerira.

            — Farei o possível para poder ir. Mas, Peter, tem de compreender que talvez não consiga afastar-me.

            — Eu compreendo isso — tranqüilizou-a ele e então, pela primeira vez desde que se tinham reencontrado, Peter tocou-lhe na mão. — Não há problema, Mel. Eu estou aqui e não tenciono ir a parte alguma.

            Mas talvez ela tivesse de ir. Em silêncio, ambos esperavam que essa possibilidade não se verificasse demasiado cedo.

            — Obrigada pela boleia, Peter — agradeceu Melanie com um sorriso, agradando-lhe sentir a mão dele na sua.

            — Ao seu serviço, minha senhora — retorquiu ele na brincadeira, saindo do automóvel para lhe abrir a porta; momentos mais tarde, ambos eram engolidos pela multidão que se apinhava no átrio do hospital.

            Peter virou-se para trás, olhando uma última vez para Melanie, mas ela já se embrenhara numa conversa com outros colegas menos importantes que haviam permanecido durante a noite no hospital, e as portas do elevador fecharam-se, impedindo que ela o avistasse de novo.

            As notícias que Melanie recebera deram-lhe alguma esperança. O presidente continuava vivo e, trinta minutos antes, um porta-voz do hospital anunciara à imprensa que se haviam registrado melhorias no seu estado de saúde.

            Às oito horas, a primeira-dama regressou. Encontrava-se hospedada no Hotel Bel-Air e, quando chegou, vinha rodeada de agentes dos Serviços de Segurança, os quais abriram caminho pelo vestíbulo. Era absolutamente impossível a alguém aproximar-se da mulher do presidente, apesar de Melanie e alguns dos seus colegas terem tentado. A pobre mulher parecia muito abatida e Mel sentiu pena dela. Às oito e meia, entrou no ar, efetuando uma transmissão para Nova Iorque, e depois às nove para as notícias do meio-dia, hora de lá. Tudo o que ela podia dizer à nação era que o presidente continuava vivo. Ao longo do dia, fora reunindo os boletins médicos à medida que estes lhe iam sendo facultados, sem ter um momento para poder pensar na sua própria vida ou em Peter Hallam.

            Melanie não voltou a vê-lo até às três da tarde, altura em que ele inesperadamente surgiu junto de si, com um aspecto impressionante na sua impecável bata branca e, num ápice, foi rodeado pela imprensa. Estes pensaram que o médico trazia mais notícias. Foi quase impossível a Peter fazer-se ouvir acima do barulho, para poder explicar que estava ali apenas para ver uma amiga e não como profissional de saúde. Por fim, Peter e Melanie conseguiram escapulir para um canto, o que levou alguns dos jornalistas a pressuporem que ela conseguira um furo, ficando em vantagem em relação aos colegas.

            Por fim, num gesto de quase desespero, Peter despiu a bata branca e largou-a atrás de um caixote do lixo no átrio do hospital.

            — Credo, cheguei a pensar que iam atacar-me! — queixou-se ele.

            — Era o que fariam se a oportunidade surgisse. Lamento muito o sucedido — disse Mel com um sorriso de fadiga. Já estava a trabalhar a nove horas consecutivas e a única comida que ingerira tinha sido o sanduíche que ele lhe oferecera de manhã, embora tivesse bebido litros de café.

            — Comeu alguma coisa? — perguntou Peter.

            — Ainda não.

            — Pode largar o trabalho?

            — Tenho de estar pronta a entrar no ar dentro de dez minutos para apresentar o noticiário das seis, hora de Nova Iorque — respondeu Melanie, olhando para o relógio de pulso. — Mas, depois disso, devo poder tirar algum tempo.

            — Durante quanto tempo mais é que tem de ficar no hospital? — continuou Peter.

            — Por mais algumas horas. O mais certo é poder sair por volta das dezoito horas. Se for forçada a isso, posso sempre regressar às oito da noite, a fim de apresentar as notícias das onze, hora de Nova Iorque.           De fato, o mais provável é que isso venha a acontecer. Mas, depois disso, espero poder dar o dia por terminado, a não ser que surja algo de inesperado.

            Peter ficou a pensar durante alguns momentos.

            — A minha sugestão é ir-me embora agora e voltar aqui às seis da tarde para a vir buscar. Poderemos ir a qualquer sítio sossegado para jantar. Desta forma, poderei trazê-la de volta ao hospital, a tempo de apresentar o noticiário e depois a levo até ao seu hotel.

            — Nessa altura, já devo estar mais morta do que viva e talvez adormeça em cima do prato.

            — Não me importo. Já antes pus pessoas a dormir durante um jantar — retorquiu ele na brincadeira. — Pelo menos, desta feita poderei convencer-me que é capaz de haver uma justificação para o seu comportamento — acrescentou com um sorriso, sentindo uma enorme vontade de tomá-la nos braços.

            — Gostaria muito de me encontrar consigo esta noite — disse Melanie, esboçando um sorriso.

            — Ótimo. Nesse caso está combinado. Até mais logo, às seis! — despediu-se Peter, seguindo num passo apressado para o seu gabinete.

            Exatamente três horas mais tarde regressou ao átrio. Nessa altura, já Melanie tinha umas olheiras escuras e, quando entrou no automóvel, Peter viu que ela estava exausta.

            Melanie olhou para ele com um sorriso cansado.

            — Não sei se sabe, Peter, mas qualquer atração que possa sentir por mim neste momento é pura necrofilia.

            Ele riu-se ao imaginar aquela sugestão horrorosa, fazendo uma careta.

            — O que disse é absolutamente macabro.

            — É como eu me sinto — afirmou Melanie. — Como é que foi o seu dia de trabalho?

            — Ótimo. Como é que o presidente está esta noite? — perguntou ele, imaginando que, naquela fase, ela já sabia mais do que ele próprio. Estivera demasiado ocupado com os seus doentes para pensar noutra pessoa.

            — Continua a agüentar bem. Começo a convencer-me de que é capaz de escapar desta, uma vez que conseguiu sobreviver até agora. Qual é a sua opinião? — perguntou Melanie.

            — Penso que poderá ter razão — retorquiu o médico com um sorriso nos lábios. — Só espero que ele não decida levantar-se amanhã de manhã, obrigando-a a apanhar um avião de volta a casa.

            — Não me parece que de momento haja alguma probabilidade de isso vir a suceder, não acha?

            — Francamente, acho — declarou Peter satisfeito, olhando para Melanie, enquanto conduzia o automóvel que os levaria a um restaurante não muito distanciado do hospital.

            — A propósito, como é que estão os seus filhos? — perguntou ela.

            — Bem. Já sabem que a Mel se encontra na cidade, uma vez que a vêem nos noticiários, mas ainda não tive oportunidade de lhes dizer que me tinha encontrado consigo.

            Melanie ficou em silêncio durante alguns instantes.

            — Talvez fosse melhor não lhes dizer.

            — E por que não? — inquiriu ele surpreendido.

            — Podem ficar nervosas. As crianças têm um poder de detecção notável. Eu sei que isso se passa com as minhas filhas, em especial com a Jess. Consigo ocultar qualquer assunto da Valerie durante algum tempo por ela andar sempre tão envolvida nas coisas do seu dia-a-dia — continuou Melanie. — Mas a Jess possui instintivamente o poder de detectar as coisas antes de estas terem lugar.

            — Às vezes a Pam também é assim, mas os rapazes são diferentes — redargüiu Peter.

            — Exatamente. E a sua filha já tem bastantes coisas que a preocupem, sem que haja necessidade que o faça por causa de mim — retorquiu Melanie.

            — O que é que a leva a pensar que ela poderia sentir-se preocupada? — perguntou ele intrigado.

            — E o Peter, por que é que há de pensar que isso não pode acontecer? Pense bem. Durante os últimos dois anos, o mundo dela ficou virado do avesso, mas pelo menos, sabe que o tem a si. E não houve outras mulheres que pudessem competir com ela, pelo menos na sua mente. De repente, eu entro em cena e constituo uma ameaça imediata — explicou Melanie.

            — Que motivo a leva a pensar assim? — perguntou Peter.

            — Eu sou uma mulher. Ela é uma rapariga e o Peter é o pai dela. Pertence-lhe.

            — O fato de eu me sentir interessado em alguém não iria alterar isso — retorquiu Peter.

            — Iria sim, de forma tênue. Tenho a certeza de que, quando a sua mulher estava viva, a relação que tinha com a sua filha era muito diferente. Dispunha de menos tempo para ela, tinha outras coisas a fazer. Agora pertence-lhe por inteiro, ou quase. Alterar essa situação, por causa de uma estranha, não vai agradar-lhe muito.

            Peter parecia pensativo quando estacionou o automóvel em frente de um pequeno restaurante italiano.

            — Nunca pensei nesse assunto à luz dessa perspectiva disse ele, esboçando um breve sorriso. — Mas nunca foi necessário. Talvez eu deva ser um pouco mais cuidadoso no que lhe digo.

            — Acho que sim — anuiu ela com uma careta risonha.

            — Que diabo! É muito possível que o Peter não me queira ver outra vez depois destes dias mais próximos. Está prestes a poder observar-me no meu pior. Depois de vários dias a dormir pouco, começo a cair aos bocados.

            — É o que acontece a todos nós — retrucou Peter.

            — Nunca pensei que isso também lhe acontecesse — disse ela. — Apesar de todas as suas responsabilidades, parece agüentar-se miraculosamente.

            — Também tenho os meus limites — retorquiu ele.

            — Comigo passa-se o mesmo, mas o problema é que os atingi há já dois dias — acrescentou Melanie.

            — Vamos entrar. Precisa comer qualquer coisa. Isso ajudará — contrapôs Peter, enquanto entravam no restaurante, onde o chefe de mesa os encaminhou para uma mesa sossegada. — Bebe vinho, Mel?

            — Se beber, é certo e sabido que vou desfalecer em cima do prato — respondeu ela com um vigoroso abanar de cabeça.

            Soltou uma gargalhada e mandou vir um pequeno bife. Já nem sequer tinha fome, mas sabia que as proteínas lhe fariam bem. Ambos desfrutaram do jantar e da conversa trivial. Melanie estava espantada por se sentir tão à vontade na companhia do médico. Peter parecia interessado no seu trabalho e ela já sabia bastante do dele. A conversa foi descontraída e estimulante. No fim da refeição e enquanto o café era servido, Melanie recostou-se na cadeira, satisfeita e saciada.

            — Peter é uma verdadeira dádiva de Deus — acrescentou ela. — Sabia disso?

            — Eu também estou a sentir muito prazer no nosso jantar — reciprocou Peter.

            — Quando vim a Los Angeles não esperava nada que me viesse a acontecer uma coisa destas — disse Melanie.

            — Eu sei — retorquiu Peter com um sorriso. — Estava convencida de que, nesta altura, já estaria nas Bermudas.

            — Era hoje que eu deveria ter partido? — Melanie perdera a noção do tempo e nem sequer tinha telefonado às filhas desde que chegara, mas sabia que elas haveriam de compreender. De qualquer das formas, as gêmeas tinham ido para Cape Cod passar o fim-de-semana prolongado. Nem sequer se dera conta de que esses dias de descanso já haviam começado, mas de fato assim era. Tinha a sensação de que já se encontrava em Los Angeles havia várias semanas. De certa forma, desejava que assim fosse. Jamais sentira o que sentia naquele momento. Regra geral, toda a vida de Melanie se centrava em Nova Iorque, mas não naquele momento. A vida dela encontrava-se em Los Angeles.

            — Lamento que tenha perdido a viagem para as Bermudas, Mel.

            — Eu não — retrucou ela, olhando francamente para Peter. — Aqui é onde eu prefiro estar.

            Peter não sabia ao certo como é que haveria de responder àquilo, pelo que optou por lhe agarrar na mão.

            — Sinto-me feliz por ter voltado, Mel. Lamento apenas que seja obrigada a trabalhar tanto.

            Os olhos dela fitavam-no com uma expressão de extrema intensidade.

            — É um preço pequeno a pagar para poder encontrá-lo outra vez.

            — Estou certo de que o presidente não é dessa opinião — acrescentou Peter sem conseguir reprimir um pensamento de tristeza.

            Ficaram ambos sérios e depois Melanie, a contragosto, olhou para o relógio. Estava na hora de regressar ao trabalho. Peter ofereceu-se para acompanhá-la ao hospital, dizendo que esperaria por ela, mas Melanie começou a protestar.

            — Posso muito bem apanhar um táxi depois da apresentação do noticiário das onze horas — assegurou ela. O que correspondia aproximadamente às vinte horas em Los Angeles.

            — Já disse o que tinha a dizer. Enquanto cá estiver serei o seu motorista. — Depois ficou um pouco constrangido. — A não ser que prefira que assim não seja.

            Daquela vez, foi Melanie quem estendeu a mão para agarrar a dele.

            — Adoro a sua sugestão — asseverou ela.

            — Ótimo.

            Pagaram a conta e saíram do restaurante, regressando ao hospital a horas de ela anunciar aos telespectadores de Nova Iorque que o presidente tinha um pouco de temperatura, o que seria de esperar. Meia hora depois, Peter conduziu-a ao hotel e deixou-a à entrada, prometendo que iria buscá-la à mesma hora na manhã seguinte. Uma vez mais, Melanie subiu no elevador até ao seu quarto e deitou-se imediatamente. Mas, naquela noite levou mais tempo até conseguir adormecer, e, quando ele telefonou trinta minutos mais tarde, ainda se encontrava acordada.

            — Está lá? — atendeu Melanie, receando que fossem más novas quanto ao estado do presidente.

            — Sou eu — anunciou Peter. Ao ouvir a voz dele, Mel soltou um suspiro de alívio, informando-o da razão. — Peço desculpa se a assustei.

            — Não tem importância. Passa-se alguma coisa de errado? — perguntou Melanie.

            — Não — respondeu Peter; ela quase conseguia ouvir a respiração dele ao telefone. — Queria dizer-lhe apenas que a acho uma pessoa maravilhosa. — Ele próprio se sentiu surpreendido ao ouvir as palavras que acabara de proferir e ao sentir o coração a bater mais depressa.

            Melanie sentou-se na cama, nervosa e satisfeita.

            — Eu cheguei à mesma conclusão acerca de si da primeira vez que aqui estive — retorquiu ela.

            Peter corou e sentiu-se um idiota, e ela sorriu; falaram de trivialidades durante algum tempo, até que acabaram por desligar, ambos excitados, felizes e assustados como dois adolescentes. Haviam começado a dar pequenos passos no desconhecido e ainda não era tarde demais para poderem retroceder, mas o equilíbrio tornava-se cada vez mais difícil com o decorrer de cada dia. Nenhum dos dois conseguia adivinhar o que aconteceria quando Melanie fosse forçada a regressar a Nova Iorque; todavia, era demasiado cedo para começarem a preocupar-se com isso. Naquele momento, limitavam-se a desfrutar do prazer de caminharem no desconhecido.

            — Boa noite, Mel. Até amanhã.

            Ela ainda conseguia ouvir a voz de Peter a soar-lhe aos ouvidos quando se deitou e tentou adormecer no escuro. Sentia-se como se tivesse sido convidada para o baile de finalistas pelo rapaz mais atraente das redondezas. Era engraçada a maneira como a companhia dele a fazia sentir-se de novo tão jovem.

 

            Na manhã seguinte, Peter foi buscá-la de novo ao hotel, deixando-a no hospital, onde a informaram que o estado de saúde do presidente apresentava ligeiras melhoras. E, pela primeira vez nos últimos dias, Melanie descobriu que podia dispor de alguns minutos para si própria a meio do dia. Telefonou para a Unidade Cardiovascular, perguntando se haveria possibilidade de visitar Marie Dupret. Subiu no elevador até o sexto piso e quando entrou no quarto deu com ela sentada na cama, com um aspecto bonito apesar da palidez. Reparou que as suas faces se tinham arredondado um pouco. Sentindo pena, Melanie apercebeu-se de que aquele inchaço pouco natural se devia à ingestão dos medicamentos e que já começara a instalar-se. No entanto, os olhos da doente brilhavam, e ela pareceu ficar satisfeita com a visita de Melanie.

            — O que é que está a fazer aqui? — perguntou-lhe Marie, erguendo um olhar de perplexidade ao vê-la entrar no quarto. Nos seus braços ainda se viam alguns dos tubos que serviam para a administração de soluções por via intravenosa, mas parecia mais saudável do que nos dias anteriores ao transplante.

            — Vim visitá-la, mas tenho de confessar que não vim de propósito de Nova Iorque. Há já alguns dias que estou no átrio do hospital, por causa do que aconteceu ao presidente — explicou Melanie.

            Marie assentiu com uma expressão de gravidade.

            — Que coisa tão terrível! Ele está melhor? — perguntou ela.

            — Hoje já — confirmou Melanie. — Mas ainda não está fora de perigo. — De repente apercebeu-se da sua falta de tato, uma vez que Marie também ainda não estava fora de perigo. Sorriu com ternura à jovem mulher, a qual era apenas alguns anos mais nova do que a própria Melanie, e cuja vida se mantinha num equilíbrio tão delicado. — Ele não tem tanta sorte como a Marie.

            — Isso é porque não é um dos doentes do doutor Peter Hallam — retorquiu a doente, exibindo um brilho carinhoso nos seus olhos ao proferir o nome do médico.

            Melanie compreendeu o que estava a passar-se. Peter Hallam havia-se transformado numa espécie de deus para aquela jovem e ela suspeitava que Marie tinha uma paixonite por ele. Não se tratava de um acontecimento invulgar, dada a dependência que ela tinha do médico, acrescida do fato de ele lhe ter salvo a vida com o transplante do coração.

            No entanto, só um pouco mais tarde, quando o próprio Peter entrou no quarto, tendo corado ao deparar com a presença de Melanie, é que ela se apercebeu de algo mais: da extraordinária comunicação que existia entre o médico e a doente. Ele sentou-se ao lado da cama de Marie e falou-lhe na sua voz meiga e tranqüila e foi como se todas as pessoas que estivessem no quarto desaparecessem, restando apenas os dois.

            Melanie sentiu-se uma intrusa e decidiu sair pouco depois, regressando para junto da imprensa, no átrio do hospital. Não voltou a ver Peter até a hora em que ele foi buscá-la para acompanhá-la ao hotel. À semelhança do que acontecera na noite anterior, Melanie tinha direito a uma pausa de duas horas, após o que teria de regressar ao hospital às vinte horas para apresentar uma reportagem direta para o noticiário das onze, hora de Nova Iorque. Já se encontravam a caminho do restaurante onde iam jantar quando Melanie falou em Marie.

            — Ela idolatra-o, Peter.

            — Não seja disparatada. A Marie não é diferente de qualquer outra das minhas doentes. — Mas compreendia onde é que Melanie quisera chegar; existia uma ligação muito especial entre ele e todos os seus doentes, e talvez essa união fosse mais forte em relação a Marie, a qual não tinha ninguém que estivesse à cabeceira da sua cama. — Ela é simpática, Mel, e necessita de falar com alguém enquanto estiver a passar por esta situação tão trágica. Quando se é obrigado a permanecer deitado numa cama de hospital todo o dia, começa-se a pensar e, por vezes, pensa-se demais. Ela precisa desabafar com alguém tudo o que lhe vai na alma — disse ele.

            — E o Peter é muito paciente — retorquiu Melanie com um sorriso nos lábios, perguntando a si mesma como é que ele era capaz de proceder daquela forma. Peter entregava-se de corpo e alma, e dava o seu coração, o seu tempo e a sua paciência. Para ela, isso era incrível.

            A meio do jantar, o pager do médico apitou e ele teve de regressar ao hospital devido a uma situação de emergência.

            — É alguma coisa com a Marie? — quis saber Melanie, enquanto voltavam à pressa para o automóvel.

            — Não — respondeu ele, abanando a cabeça. — Trata-se de um homem que foi hospitalizado ontem à noite. Necessita desesperadamente de um coração, e ainda não conseguimos localizar um doador — explicou Peter. Aquele era o eterno problema: a ausência de um coração quando a necessidade era tão premente.

            — Acha que ele conseguirá agüentar-se? — perguntou Melanie.

            — Não sei, mas espero que sim — respondeu Peter, enquanto se desvencilhava com destreza por entre o trânsito, tendo conseguido chegar ao hospital em menos de dez minutos.

            Foi a última vez que Melanie o viu naquela noite. Algum tempo depois e antes de apresentar o noticiário, foi informada de que tinha uma mensagem para si no átrio do hospital. Ficou inteirada de que o Dr. Hallam teria de operar durante várias horas. Melanie perguntou a si própria se aquilo significava que haviam encontrado um doador ou se Peter tentava remediar a situação com os meios que tinha ao seu alcance. Algum tempo depois regressou sozinha ao hotel num táxi e sentiu-se surpresa ao verificar que sentia muitas saudades dele. Tomou um banho quente de imersão e ficou sentada na banheira, a olhar com uma expressão vazia para a parede de azulejos, arrependendo-se de lhe ter falado sobre Marie. Tinha visto algo no rosto da jovem mulher ao dizer o nome do médico, e o tom de voz dele refletira uma intimidade tão grande que quase a fizera sentir ciúmes.

            Por volta das nove e meia, já se encontrava na cama, e dormiu profundamente até às cinco horas da manhã seguinte, altura em que recebeu a habitual chamada de despertar.

            Às cinco e quarenta e cinco, Peter já se encontrava à entrada do hotel, tal como nos últimos dias. Mas naquela manhã tinha uma expressão abatida e de cansaço.

            — Olá! — saudou Melanie enquanto entrava apressadamente no automóvel e, durante uns breves instantes, esteve prestes a ter uma reação que não passava de um mero reflexo. Quase se inclinou para ele com o propósito de lhe dar um beijo na face, mas no último instante deteve-se. Procurou os olhos dele e apercebeu-se imediatamente de que havia algo que correra mal.

            — O Peter está bem? — perguntou.

            — Estou ótimo — respondeu Peter.

            — Como é que se passou a noite de ontem? — insistiu ela, não acreditando no que ele lhe respondera.

            — Não fomos capazes de salvá-lo — respondeu Peter por fim, ligando a ignição da viatura, e Melanie ficou a olhar para o seu perfil. Havia algo de duro e solitário na expressão dos seus olhos. — Demos o nosso melhor, mas a doença já estava num estado demasiado adiantado.

            Bruscamente, Melanie apercebeu-se de algo que lhe passara despercebido até então.

            — O Peter não tem de me convencer — disse ela. — Sei o quanto se esforçou para salvá-lo.

            — Sim. Talvez precise de me convencer a mim mesmo. — Naquela altura, Peter estendeu a mão e tocou-lhe no braço.

            — Peter...

            — Peço-lhe desculpa, Mel — retorquiu ele, olhando para ela de relance com um sorriso que espelhava uma tristeza enorme. Melanie desejou poder fazer alguma coisa para aliviar aquele desânimo, mas não sabia o que.

            — Não faça isso a si mesmo — aconselhou-o ela.

            — Sim — resmungou Peter. — Ele tinha uma mulher ainda jovem e três filhos — continuou ele, cinco minutos mais tarde.

            — Pare de se culpar — repreendeu Melanie.

            — Quem é que eu devo culpar? — perguntou ele, virando-se para ela com uma expressão de cólera repentina.

            — Por acaso já lhe ocorreu que não é Deus? Que não tem motivos para se sentir culpado? Que não tem em seu poder a bênção da vida? — Eram palavras duras, mas reparou que ele estava a ouvi-la com toda a atenção. — Não está em suas mãos, independentemente da sua competência.

            — Este doente teria sido um candidato perfeito a um transplante do coração, se eu tivesse conseguido encontrar um doador.

            — Mas não encontrou. Acabou-se. Dê o assunto por encerrado — retorquiu Melanie. Pouco depois chegavam ao parque de estacionamento do hospital e ele olhou para ela.

            — A Mel tem razão e eu compreendo isso. Ao fim de todos estes anos não deveria punir-me, mas em situações destas é o que faço sempre — retrucou Peter com um suspiro quase inaudível. — Ainda tem tempo para tomar um café? — perguntou ele. Havia algo de reconfortante na presença de Melanie, e ele precisava muito de ser confortado.

            Melanie olhou para o relógio e franziu a testa.

            — Com certeza. Vou só dizer que já cheguei. O mais provável é não haver nada de novo — adiantou ela. Mas quando entrou no átrio do hospital, ficou a saber que havia novidades.

            O último boletim médico iria ser transmitido dentro de três minutos pela cadeia de televisão. O estado de saúde do presidente já não era considerado crítico. Quando as boas notícias foram anunciadas, ouviu-se um grito de contentamento no átrio do hospital. Para a maior parte dos jornalistas, aquilo significava que poderiam regressar a suas casas dentro em pouco.

            Melanie entrou no ar para apresentar as notícias na Costa Leste, enquanto Peter a observava. Ao mesmo tempo em que todo o país se regozijava, ela e Peter sentiam-se estranhamente deprimidos. Os seus olhares encontraram-se quando ela saiu do ar.

            — Isto quer dizer que agora vai ter de partir? — perguntou ele num sussurro.

            — Ainda não. E acabei de receber um memorando — respondeu Melanie. — Querem que eu ainda hoje entreviste a primeira-dama, isto é, se tal for possível.

            Naquele preciso momento, Peter foi chamado pelo pager e teve de deixá-la.

            Melanie enviou um bilhete para um dos pisos superiores do hospital, dirigido à mulher do presidente, a qual, durante a hospitalização do marido, dormira num quarto junto do dele. Um pouco mais tarde, veio a resposta. A primeira-dama concederia a Melanie uma entrevista em exclusivo ao meio-dia, numa sala privada do terceiro andar, o que a impediria de poder almoçar com Peter. Apesar de se sentir decepcionada, a entrevista correu bem e ficou satisfeita com o resultado. Nessa mesma tarde, o porta-voz do hospital leu um outro boletim médico bastante encorajador. O presidente conseguira escapar daquele golpe. Ao fim desse mesmo dia, Peter acompanhou-a para comerem qualquer coisa, uma vez que a atmosfera de tensão vivida por causa do estado de saúde do presidente havia desaparecido em parte.

            — Como é que foi o seu dia? — perguntou ela, encostando-se, exausta, ao banco do carro, enquanto olhava para ele com um sorriso nos lábios. — O meu foi de morrer, mas as coisas estão a melhorar.

            — Eu não parei o dia todo. A Marie manda-lhe cumprimentos.

            — Retribua — disse Melanie, mas preocupada com outros assuntos. Perguntou a si própria quando é que teria de partir. Corria um rumor de que dentro de alguns dias o presidente iria ser transferido para o Hospital Lalter Reed em Washington, D.C.; no entanto, a primeira-dama não quisera ou não pudera confirmar esse rumor.

            — Em que é que está a pensar, Mel? — perguntou Peter.

            Ela reparou que ele se mostrava menos deprimido do que naquela manhã. Sorriu.

            — Em dez mil assuntos ao mesmo tempo — retorquiu ela. — Ouvimos dizer que vão transferir o presidente dentro de poucos dias. Parece-lhe que realmente vão mudá-lo de hospital?

            — Nesta altura, correriam um grande risco, mas, se o seu estado de saúde continuar a registrar melhoras, dentro em pouco poderão fazê-lo. E podem transportar todo o equipamento necessário a bordo do Air Force One — explicou Peter, sem mostrar grande entusiasmo perante aquela perspectiva.

            Melanie partilhava do mesmo desânimo. Apesar disso, durante o jantar, puseram aquela idéia para trás das costas, e Peter contou-lhe algumas histórias engraçadas passadas com Matthew quando ele tinha dois ou três anos, alguns episódios ridículos que haviam acontecido no hospital, durante os seus tempos de estagiário. Riram-se que nem duas crianças e quando ele a levou ao hospital, poucos minutos antes das oito horas, Melanie teve alguma dificuldade em apresentar o noticiário com uma expressão de seriedade no rosto. Surpreendentemente, ambos continuavam muito bem-dispostos quando, trinta minutos mais tarde, saíram do hospital. Juntos, estavam sempre animados e sentiam que a vida valia a pena ser vivida.

            — Quer ir a minha casa tomar uma bebida? — convidou Peter sem ter vontade de deixá-la naquele momento, lembrando-se que ela poderia partir dentro de poucos dias. Desejava desfrutar ao máximo da sua presença.

            — Não me parece que seja aconselhável — respondeu Melanie. — Continuo a pensar que isso aborreceria os seus filhos.

            — E quanto a mim? Não terei eu o direito de convidar uma amiga a ir a minha casa?

            — Claro que sim. Mas, quando levamos alguém ao nosso lar, isso pode tornar-se num grande problema — respondeu ela. — Como é que julga que a Pam reagiria se me encontrasse outra vez?

            — Talvez ela seja forçada a fazer esse ajustamento — disse Peter.

            — Acha que vale a pena, só por alguns dias? — perguntou Melanie. — Em vez disso, porque não vem tomar uma bebida ao meu hotel? A decoração é feia como o pecado, mas o bar não parece ser mau. — Nenhum deles estava interessado em beber. Apenas desejavam sentar-se e poder conversar durante horas a fio, até estarem prestes a tombar de exaustão.

            — Sabe, eu podia ficar sentado aqui, a conversar consigo durante toda a noite — asseverou Peter.

            Continuava a sentir-se um pouco atordoado pelo grande número de emoções contraditórias que sentia por ela: excitação e proximidade, tudo ao mesmo tempo. Mas, fosse o que fosse, era algo de que não conseguia saciar-se. A presença de Melanie Adams na sua vida era viciante. Não conseguia libertar-se e não sabia o que fazer.

            — Eu tenho a mesma impressão, e o mais engraçado é que, apesar de mal nos conhecermos, tenho a sensação de que já o conheço há muitos anos.

            Nunca gostara tanto de falar com qualquer outra pessoa, o que ainda lhe causava algum receio, quando se permitia pensar nisso. Era um tema que nenhum deles desejava discutir, mas em que ambos pensavam. Naquela noite, Melanie era a menos cansada dos dois. Fitou Peter enquanto bebiam o segundo irish cofee. As bebidas ajudavam a suavizar os problemas. Era a mistura do café com uísque que produzia aquele resultado, ajudada pelo efeito inebriante que cada um deles provocava no outro.

            — Quando regressar a Nova Iorque, vou ter umas saudades loucas de si — continuou Melanie com ousadia.

            Peter observou-a atentamente por cima do seu copo.

            — Comigo vai acontecer o mesmo. Quando a deixei esta manhã no hospital, estava a pensar precisamente nisso. Aquilo que me disse acerca do meu doente tinha toda a razão de ser. Conseguiu fazer com que o meu dia melhorasse e animou-me. Eu estava prestes a descontrolar-me. Vai parecer-me estranho deixar de vir buscá-la ao hotel todos os dias às seis da manhã.

            — Até é possível que volte a poder desfrutar de algum tempo para si próprio, e para passar com os seus filhos. Eles já começaram a queixar-se? — perguntou Melanie.

            — Parecem andar muito embrenhados nas suas próprias vidas.

            — Da mesma forma que as minhas gêmeas — retorquiu Melanie, pensando que elas deveriam regressar de Cape Cod naquela noite. — Tenho de telefonar-lhes, isto é, se conseguir calcular a diferença horária como deve ser. Quando acordo já elas saíram para a escola, e quando regresso ao hotel já elas estão a dormir.

            — Dentro de pouco tempo poderá regressar a casa — retorquiu Peter com tristeza.

            Melanie manteve-se calada durante algum tempo.

            — A vida que eu levo é uma loucura, Peter — disse ela por fim, olhando diretamente para ele, como se quisesse saber qual a sua opinião sobre aquele assunto.

            — Mas suspeito que a deixa realizada. Tanto a Mel como eu parecemos viver sem fazer qualquer pausa, mas isso não é assim tão mau, se gostarmos do nosso trabalho.

            — Sempre achei isso — retorquiu Melanie, esboçando um sorriso, e Peter agarrou-lhe na mão que estava sobre a mesa. Era o único contato físico que existira entre ambos, mas naquela altura já era um gesto com que se sentiam à vontade. — Obrigada por tudo o que fez por mim, Peter.

            — Tudo o que? Tê-la levado e trazido do hospital umas quantas vezes? Isso não foi nada.

            — No entanto, foi muito agradável — retorquiu Melanie com um sorriso que Peter retribuiu.

            — Para mim também. Vai ser estranho quando tiver partido, Mel.

            — O mais provável é eu ficar à porta da minha casa em Nova Iorque às cinco e quarenta e cinco da manhã, à espera que você contorne a esquina no seu Mercedes — disse ela com uma gargalhada.

            — Quem me dera! — disse Peter.

            Ambos ficaram em silêncio enquanto o empregado de mesa trouxe a conta. Ele pagou e dirigiram-se lentamente para o átrio. Já era tarde e tinham de levantar-se cedo na manhã seguinte. Quando se despediram, Melanie desejou que não fossem obrigados a separarem-se.

            — Até amanhã, Peter — despediu-se ela.

            O cirurgião assentiu e acenou com a mão quando as portas do elevador começaram a fechar-se. Durante a viagem, pensou em Melanie e perguntou a si próprio como é que a sua vida voltaria a ser sem a presença dela. Enquanto se despia, Peter tentou não pensar nisso.

            Por seu turno, no quarto de hotel, Melanie ficou durante bastante tempo à janela a olhar para a rua, enquanto pensava em Peter e nas coisas que haviam dito um ao outro ao longo dos últimos dias. Inesperadamente, sentiu-se sozinha como nunca se sentira antes. Não tinha a mínima vontade de regressar a Nova Iorque, o que era uma autêntica loucura. Sentira o mesmo da outra vez que estivera em Los Angeles, mas agora sentia-o com mais intensidade.

            Melanie foi para a cama com a sensação pouco tranqüilizadora de que Peter conseguira afetar a sua vida mais do que desejara. No entanto, quando se encontrava na sua companhia não pensava nisso. Limitava-se a conversar com ele como se o conhecesse há muitos anos. Melanie questionava-se sobre se aquela sensação seria devida ao jeito que ele tinha para falar com as pessoas.

            Naquela noite, dormiu mal. Ficou aliviada ao avistar Peter na manhã seguinte. Entrou rapidamente no automóvel e fizeram a viagem habitual até ao hospital, enquanto conversaram sem constrangimentos.

            De repente Peter começou a rir-se, voltando-se para ela.

            — Isto é assim uma espécie de casamento, não é verdade?

            — O que? — retorquiu Melanie, sentindo-se empalidecer.

            — O fato de irmos juntos para o trabalho todos os dias — explicou Peter com alguma timidez. — Tenho uma confissão a fazer-lhe. Se existem coisas que me dão prazer, uma delas é a rotina. Sou uma criatura de hábitos.

            — Também eu — redargüiu Melanie, rindo-se e sentindo-se melhor de novo. Durante alguns instantes o medo apoderara-se dela. Recostou-se para trás e viu que se aproximavam do hospital. — Pergunto a mim mesma que notícias estarão à minha espera.

            O estado de saúde do presidente continuava a progredir de maneira favorável e os jornalistas estavam apenas à espera que comunicassem a sua transferência para outro hospital.

            Contudo, quando foi anunciado naquela manhã que o presidente iria para Washington no dia seguinte, a bordo do Air Force One, acompanhado por uma equipe de médicos, Melanie ficou atordoada, como se tivesse levado um forte murro no peito. Durante breves instantes ficou sem respiração e soltou um não que mal se ouviu. Mas era verdade. O presidente ia-se embora.

            Entretanto, no átrio do hospital, o caos instalou-se de novo. Inúmeros boletins noticiosos foram para o ar, bem como várias entrevistas aos médicos. Melanie teve de fazer uma dúzia de telefonemas para Nova Iorque. Os seus superiores tentavam arranjar-lhe uma autorização para seguir a bordo do Air Force One, mas até o momento, tudo o que se sabia era que só seis jornalistas teriam autorização para viajar com o presidente. Melanie passou o dia todo a rezar para não ser uma dessas pessoas afortunadas. Infelizmente, às cinco da tarde recebeu um telefonema de Nova Iorque. Estava entre as seis. A partida fora prevista para o meio-dia do dia seguinte. Ela deveria estar no hospital às nove horas, a fim de poder cobrir todos os preparativos. Quando se encontrou com Peter naquela noite no parque de estacionamento do hospital, toda a postura do seu corpo refletia o desânimo que lhe ia na alma.

            — O que é que se passa, Mel? — perguntou o médico, pressentindo imediatamente que havia algum problema.

            Ele próprio passara um dia extenuante. Estivera quatro horas na sala de operações a colocar um coração de plástico num doente. Inicialmente, não quisera fazê-lo. Mas naquele caso, não restava outra opção. A equipe médica já havia recorrido a todas as alternativas possíveis, uma vez que não existia qualquer probabilidade de encontrar um doador a tempo de permitir um transplante. Peter sabia muito bem os riscos que estavam a correr quanto à ocorrência de infecções.

            Além do mais, naquele dia, Marie também tivera uma série de complicações. Peter, contudo, optou por não falar a Melanie dos seus problemas, ao ver que ela o olhava desolada.

            — Amanhã vou-me embora — anunciou ela.

            — Merda! — exclamou ele, olhando para Mel e abanando a cabeça num gesto de impotência. — Ambos sabíamos que não ficaria em Los Angeles para sempre. — Foram-lhe necessários alguns minutos para recobrar a compostura. Pouco depois, ligou a ignição do automóvel. — Esta noite ainda tem de voltar ao hospital?

            — Não, só às nove de amanhã.

            Ele sorriu mais animado, olhando-a com carinho.

            — Nesse caso, proponho que vá para o hotel, a fim de descansar durante algum tempo, mude de roupa se lhe apetecer e depois levá-la-ei a um restaurante agradável. O que é que me diz a esta sugestão?

            — Sim — aceitou Melanie. — Tem a certeza de que não está cansado? — perguntou ao reparar pela primeira vez desde que se tinham encontrado que ele tinha uma expressão fatigada.

            — De maneira nenhuma. É o que me apetece fazer. Gostaria de ir de novo ao Bistro?

            — Sim — respondeu ela, esboçando finalmente um sorriso. — O único lugar onde eu não quero ir é para Nova Iorque. Não acha que isto é horrível?

            Estava ausente havia uma semana, mas tinha a sensação de que se ausentara havia já um ano; de súbito, a sua vida em Nova Iorque parecia muito distante. Os noticiários das seis e das onze, a sua rotina diária. Naquele preciso momento, tudo aquilo que constituíra uma parte integrante da sua vida deixara de ter relevância.

            Quando subiu no elevador para ir ao quarto mudar de roupa, continuava a sentir-se deprimida. A única coisa que lhe deu alguma alegria foi ver Peter de novo, quando ele a foi buscar às dezenove e trinta. Usava um fato de flanela cinzento-escuro com um casaco assertoado, e ela pensou que nunca tinha visto um homem tão bem-parecido. Tudo o que ela própria tinha para vestir era um vestido de seda bege e um casaco da mesma cor em seda que trouxera para usar quando estivesse no ar, mas que ainda não fora utilizado.

            Os dois formavam um casal muito elegante e distinto ao entrarem no Bistro. O chefe de mesa conduziu-os a uma mesa situada num lugar acolhedor. Peter mandou vir as bebidas e o empregado levou-lhes a ardósia onde a ementa estava escrita a giz. Melanie não tinha muito apetite. Tudo o que lhe apetecia fazer era conversar e ficar junto de Peter. Ao longo da noite, apeteceu-lhe em diversas ocasiões agarrar-se a ele. Finalmente, depois do bolo de chocolate e do café, ele mandou vir conhaque para ambos. Olhou-a com uma enorme tristeza.

            — Quem me dera que não se fosse embora, Mel.

            — Também eu. Sei que isso parece uma loucura, mas esta última semana foi extremamente agradável, apesar de tantas horas de trabalho — retorquiu Melanie.

            — A Mel há de regressar — continuou Peter, pensando que só Deus sabia quando.

            Quando o fora entrevistar, havia mais de um ano que não ia a Los Angeles. Fora um acaso infeliz que ditara aquela segunda viagem tão pouco tempo depois.

            — Só desejava que não vivêssemos tão afastados um do outro — disse Melanie com uma expressão de desânimo, como se fosse uma rapariguinha forçada a separar-se da sua melhor amiga.

            Peter sorriu-lhe e colocou um braço por cima dos ombros.

            — Também eu queria que assim fosse — retorquiu ele.

            — Mas tenciono telefonar-lhe. — E depois, o que é que aconteceria?

            Era impossível ter resposta para aquelas perguntas. Viviam em zonas opostas do país, cada um deles tinha filhos, casas, carreiras e amigos. Nada daquilo poderia ser metido dentro de uma mala de viagem e levado para outro sítio. Os telefonemas e as visitas ocasionais teriam de bastar tanto a Melanie como a Peter. Enquanto passeavam ao longo de Rodeo Drive depois do jantar, ela deu consigo a pensar que aquela situação era quase insuportável.

            — Quem dera que as nossas vidas fossem diferentes, Peter!

            — De verdade? — perguntou ele, surpreendido com as palavras dela. — Como?

            — Pelo menos podíamos ter tido a sorte de viver na mesma cidade.

            — Nisso estou inteiramente de acordo. Mas, de resto, eu diria que tivemos sorte em nos conhecermos. Isso enriqueceu muito a minha vida.

            — A minha também — retorquiu ela com um sorriso apertando-lhe mais a mão enquanto caminhavam, cada um mergulhado nos seus próprios pensamentos.

            — Isto por aqui vai ficar muito solitário depois de a Mel partir — disse Peter, baixando o olhar para ela e continuando de mãos dadas. Apesar de ter ouvido as suas próprias palavras, custava-lhe a acreditar que as tivesse proferido, mas assim fora e a realidade era que, naquele momento, já não receava tanto os seus sentimentos. O conhaque ajudava e a semana que partilhara com Melanie havia sido como uma prenda inesperada que lhe fora oferecida. Com o passar de cada dia, Peter sentia mais carinho por ela, pelo que a perspectiva de vê-la partir deprimia-o bastante, muito mais do que alguma vez esperara.

            Por fim, começaram a dirigir-se com lentidão para o automóvel. Peter levou-a até o hotel e deixaram-se ficar sentados dentro do veículo, sob a luz de um candeeiro de rua, enquanto olhavam um para o outro.

            — Haverá possibilidades de nos encontrarmos amanhã, Mel? — perguntou Peter.

            — Só tenho de estar no hospital às nove horas — respondeu ela.

            — Às sete, devo entrar no bloco operatório. A que horas é que o avião do presidente parte?

            — Ao meio-dia — respondeu Melanie.

            — Nesse caso, imagino que não nos veremos mais antes da sua partida — redargüiu ele. Ambos ficaram sentados em silêncio, tristes, a olharem um para o outro. Peter inclinou-se para Melanie, segurou o rosto dela nas suas mãos e beijou-a. Melanie cerrou os olhos e sentiu os lábios a derreterem-se entre os dele. Quando Peter parou de beijá-la, sentiu-se entontecida e agarrou-se a ele durante um longo momento. Pouco depois, Melanie olhou para Peter e acariciou-lhe o rosto com a ponta dos dedos, percorrendo a linha dos lábios enquanto ele os beijava.

            — Vou ter muitas saudades tuas, Mel.

            — E eu de ti — retrucou Melanie.

            — Eu telefono-te — disse ele de novo, perguntando-se uma vez mais o que iria acontecer-lhes. Continuava a não ter respostas.

            Sem dizer mais nada, Peter puxou-a para si e abraçou-a durante muito tempo. Finalmente, acompanhou- a até ao vestíbulo do hotel, beijando-a uma última vez antes de ela entrar no elevador. Em passos lentos, dirigiu-se para o automóvel e seguiu para casa, sentindo um aperto no coração que não sentia desde que havia perdido Anne. Tinha dito a si mesmo que não queria voltar a experimentar aquela sensação. Sentia-se assustado ao perceber o quanto gostava de Melanie. Tudo seria bastante mais fácil se ele não tivesse deixado chegar os seus sentimentos àquele ponto.

 

            No dia seguinte, quando Melanie chegou ao hospital, subiu no elevador acompanhada por dois membros da equipe de filmagens e trocou umas breves palavras com a primeira-dama, enquanto prosseguiam os preparativos para a partida do presidente. Estava previsto deixarem o hospital às dez horas para chegarem ao Aeroporto Internacional de Los Angeles um pouco antes das onze. Logo que possível, o avião levantaria vôo. O presidente registrava melhoras evidentes, mas a primeira-dama estava extremamente preocupada. Apesar de o estado dele ter estabilizado, era difícil prever o que poderia acontecer durante o vôo. Não obstante as possíveis complicações, ele pretendia regressar a Washington, e os seus médicos haviam autorizado a viagem.

            Depois de terminada a entrevista, Melanie esperou no corredor durante quarenta e cinco minutos até o presidente sair do quarto, deitado numa maca. Acenou com a mão às enfermeiras e demais pessoal médico que se encontrava alinhado no corredor, sorrindo corajosamente enquanto dizia em voz baixa algumas palavras de despedida. O seu rosto ainda estava muito pálido, tinha várias ligaduras no peito e, no braço via-se um tubo para administração intravenosa. Havia uma grande quantidade de agentes dos Serviços Secretos à volta da maca, bem como vários médicos e enfermeiras que o acompanhariam até Washington.

            Melanie seguia atrás a uma distância respeitosa, descendo para o átrio noutro elevador, onde se reuniu aos outros jornalistas selecionados para viajarem a bordo do Air Force One.

            Seguiriam à parte numa limusine que fora designada para o seu transporte. Melanie entrou no veículo com um último olhar para o Hospital Central. Gostaria de ter deixado uma mensagem para Peter na recepção, mas não houvera tempo nem oportunidade. Momentos depois seguiam a grande velocidade em direção ao aeroporto.

            — Como é que ele te pareceu? — perguntou-lhe o jornalista que ia sentado ao seu lado, enquanto verificava alguns apontamentos e acendia um cigarro apenas com uma mão.    Formavam um grupo de profissionais tranqüilos, mas não deixava de se sentir uma certa tensão e eletricidade no ar. Fora uma semana interminável para todos e estavam ansiosos por chegar a casa. Assim que aterrassem em Washington, a maior parte deles regressaria logo às cidades onde trabalhavam. A cadeia de televisão de Melanie já lhe havia reservado um lugar num vôo para Nova Iorque, que partiria às dez horas daquela mesma noite. Às onze, estaria alguém à sua espera em La Guardia, com o fim de conduzi-la a casa.

            De certa forma, ela sentia-se como se estivesse prestes a regressar à sua cidade vinda de um outro planeta. Porém, naquele momento, não se encontrava absolutamente segura de que desejasse voltar a casa. Os seus pensamentos centravam-se nas palavras de Peter, no seu rosto e na sua família.

            — O que? — Não ouvira a pergunta do repórter.

            — Perguntei-te como é que achaste o presidente? — repetiu o colega mais velho, irritado.

            Melanie semicerrou os olhos, tentando concentrar-se na imagem do presidente deitado na maca.

            — Péssimo. Mas está vivo — respondeu ela por fim.

            E, a menos que acontecesse qualquer coisa de drástico durante o vôo para a Costa Leste ou que surgissem complicações graves, era pouco provável que ele viesse a morrer. O presidente era um homem com muita sorte, tal como a imprensa e a televisão se tinham fartado de repetir. Outros presidentes não haviam tido tanta sorte como este, quando das tentativas de assassínio.

            Ao longo do percurso até ao aeroporto, os repórteres entretiveram-se com as suas conversas triviais e habituais, contando anedotas porcas e trocando bisbilhotices, assim como novidades antigas. Ninguém oferecia nada sem ter uma contrapartida; no entanto, aquela viagem não foi tão tensa como a que os levara à cidade de Los Angeles. Melanie reviu os acontecimentos da última semana e a viagem que lhe permitira conhecer Peter. Perguntou a si própria quando é que voltaria a vê-lo. Não era capaz de imaginar a hipótese de uma outra viagem num futuro próximo e, ao aperceber-se disso, sentiu-se deprimida.

            O repórter que ia sentado ao seu lado olhou outra vez de relance para ela.

            — Pelo teu aspecto, dir-se-ia que a última semana te correu mal, Melanie.

            — Não — respondeu ela e abanou a cabeça, desviando o olhar. — Estou apenas cansada.

            — Quem é que não está?

            Trinta minutos mais tarde, entraram a bordo do avião e sentaram-se na zona reservada aos passageiros, na retaguarda. Na área da frente, havia sido montado uma espécie de sala-hospital para acolher o presidente, e nenhum dos jornalistas tinha autorização para se aproximar daquela zona. Mais ou menos de hora a hora ao longo de todo o vôo, o secretário informava os jornalistas do estado de saúde do presidente. A viagem decorreu sem qualquer percalço e o avião aterrou em Washington quatro horas e trinta minutos depois da partida. Uma hora depois disso, o presidente já se encontrava instalado no Hospital Lalter Reed.

            Subitamente, Melanie compreendeu que para si estava tudo acabado. O correspondente da cadeia de televisão em Washington fora esperar o avião ao aeroporto; depois de ter acompanhado o presidente até ao hospital juntamente com os outros colegas que também tinham vindo de Los Angeles e de ter falado de novo com a primeira-dama por breves instantes, Melanie saiu do edifício e entrou na limusine que a aguardava, tendo regressado ao aeroporto. Sentou-se e esperou pelo vôo que dali a uma hora a levaria a Nova Iorque, sentindo-se em choque. A última semana começava a parecer-lhe não ter passado de um mero sonho, e interrogou-se se não teria imaginado a existência de Peter, assim como o tempo que passara na sua companhia.

            Ao fim de algum tempo, levantou-se e dirigiu-se num passo lento para uma cabina telefônica, situada junto de uma porta de embarque; inseriu uma moeda na ranhura e pediu uma chamada para sua casa a pagar no destino.

            Jessica atendeu ao telefone e, por uns instantes, Melanie sentiu os olhos alagados de lágrimas, apercebendo-se até que ponto é que se sentia exausta.

            — Olá, Jess.

            — Olá, mamãe! Já chegaste a Nova Iorque? — perguntou a filha, parecendo de novo uma criancinha com uma voz muito excitada.

            — Quase, minha querida. Estou no aeroporto em Washington — respondeu a mãe. — Devo chegar a casa por volta das onze e meia. Meu Deus, tenho a impressão de que estive ausente durante um ano!

            — Temos tido umas saudades loucas de ti — disse Jessica sem sequer repreender a mãe por não ter telefonado para casa antes. Sabia que ela tinha trabalhado muito. — Estás bem?

            — Exausta. Mal posso esperar para chegar a casa. Mas não fiquem acordadas. Quando chegar, vou logo para a cama sem querer saber de mais nada — continuou Melanie.

            Naquele momento não era somente a fadiga que a abatia. Começava a sentir uma espécie de depressão ao dar-se conta da distância que a separava de Peter. Reconhecia que a sua atitude era um disparate. Todavia, aparentemente não era capaz de pôr um travão nos seus sentimentos.

            — Estás a brincar? — Do outro lado da linha, Jess parecia indignada. — Há uma semana que não te vemos! É claro que vamos esperar por ti. Levamos-te ao colo pelas escadas acima, se for preciso.

            Enquanto sorria ao telefone, os olhos de Melanie encheram-se de lágrimas.

            — Adoro-te, Jessica — disse ela à filha. — Como é que está a Val?

            — Está bem. Temos muitas saudades tuas — respondeu a filha.

            — E eu de vocês, minha querida — retorquiu ela.

            Mas algo importante acontecera durante a sua estada na Califórnia. Havia muita coisa em que tinha de pensar para poder arrumar as suas idéias e as únicas pessoas que desejava ver naquele momento eram as filhas.

            Ambas estavam à sua espera na sala de estar quando chegou a casa. Abraçaram-na, felizes por terem a mãe de novo junto delas. Ao olhar em volta, Melanie concluiu que a sua casa nunca lhe parecera tão agradável como naquele momento, nem as filhas.

            — Como é bom estar de volta, meninas! — exclamou ela, mas uma pequena parte de si dizia-lhe que não era.

            Parte de Melanie desejava estar a cinco mil quilômetros de distância, a jantar com Peter. No entanto, agora tudo aquilo tinha ficado para trás e era necessário que ela o esquecesse, pelo menos de momento.

            — Deve ter sido horrível, mamãe. Pelo que nós vimos nas notícias, parecia que nunca estavas fora do átrio do hospital.

            — Era muito raro, exceto durante algumas horas, de vez em quando, para poder dormir. — disse Melanie enquanto pensava no tempo passado na companhia de Peter. Olhou para as filhas, quase à espera que elas reparassem que havia qualquer coisa de diferente em si. Mas isso não aconteceu. Não havia nada que pudesse ser observado, exceto o que sentia bem no fundo do coração, e mantinha isso bem escondido. — Vocês duas comportaram-se como deve ser durante a semana? — perguntou a mãe. Val trouxe-lhe uma coca-cola, e ela sorriu, grata, à filha de formas voluptuosas.

            — Obrigada, amor. Em seguida fez uma cara risonha e perguntou: — Estás apaixonada outra vez, minha menina?

            — Ainda não — respondeu Valerie, rindo-se da pergunta da mãe. — Mas estou a tratar do assunto.

            Melanie revirou os olhos. As três ficaram a conversar durante bastante tempo. Quando finalmente foram para os quartos já era uma da manhã. À porta do quarto da mãe, as gêmeas deram-lhe um beijo de boa-noite, após o que subiram as escadas, indo para os respectivos quartos. Melanie começou a tirar as roupas da mala de viagem, para depois tomar um duche bem quente. Quando olhou de novo para o relógio já eram duas da madrugada. Onze horas na Costa Oeste. De repente, tudo o que parecia ter importância era o local onde Peter se encontrava e o que estaria a fazer. Mel sentia-se dividida. Tinha de viver a sua vida em Nova Iorque, mas deixara uma parte do seu ser a cinco mil quilômetros de distância. Seria uma maneira difícil de viver, pelo menos de momento, e continuava a ter necessidade de arrumar as suas idéias, para descobrir qual o significado que tudo aquilo tinha para si. Qual a importância que Peter Hallam tinha na sua vida. Todavia, bem no seu íntimo, Melanie já sabia.

 

            Na manhã seguinte, Melanie foi acordada por um telefonema de Grant antes do meio-dia; a voz dele fê-la sorrir enquanto se virava para o outro lado na cama, e olhava para o sol daquele dia soalheiro de Junho.

            — Bem-vinda a casa, velha amiga. Como é que estava Los Angeles? — inquiriu ele.

            — Oh, encantadora — respondeu Mel com um sorriso e a espreguiçar-se. — Não fiz mais nada além de ficar todo o dia sentada na piscina, a bronzear-me. — Ambos começaram a rir-se, sabendo bem o inferno que haviam sido os últimos dias. — E tu? Como é que tens passado?

            — Atarefado, amalucado, o habitual — respondeu Grant.

            — E quanto a ti?

            — O que é que te parece, dada toda aquela loucura que se viveu em Los Angeles? — retorquiu Melanie.

            — Se queres saber a minha opinião, acho que deves estar meio morta — disse ele, embora a julgar pela sua maneira de falar, Mel não desse essa impressão.

            — Tens toda a razão. Estou meio morta.

            — Hoje vens trabalhar? — perguntou Grant.

            — Só à noite, para apresentar o noticiário das dezoito horas. Não me parece que antes disso tenha coragem de ir para a redação.

            — É justo. Vou tentar dar pela tua chegada. Tive saudades tuas, miúda. Achas que terás algum tempo para tomarmos uma bebida? — acrescentou Grant.

            Tempo de fato tinha, apesar de a vontade não ser muita. Melanie continuava a querer dispor de algum tempo para si própria, a fim de ordenar as idéias. E, de momento, não se sentia inclinada a contar o que quer que fosse a Grant sobre Peter.

            — Esta noite não, meu querido. Talvez para a semana que vem — respondeu por fim Melanie.

            — De acordo. Vemo-nos mais tarde, Mel — disse ele, despedindo-se.

            Enquanto saía da cama e se espreguiçava, pensou em Grant e sorriu. Tinha muita sorte por ter um amigo como aquele. Quando se dirigia à casa de banho para pôr a água do duche a correr, ouviu a campainha do telefone. Deduziu que talvez fosse ele de novo. Não havia muita gente que tivesse o hábito de lhe telefonar para casa ao meio-dia, além de que muito poucas pessoas sabiam que ela já tinha regressado da Costa Oeste. Essa informação apenas seria do conhecimento geral quando fosse vista no noticiário dessa noite. Melanie atendeu ao telefone, franzindo a testa, intrigada; aproximou-se da mesa completamente nua, enquanto olhava para o jardim das traseiras da casa.

            — Está lá?

            — Olá, Mel!

            Ele parecia nervoso, e o coração dela deu um salto enorme no peito, ao ouvi-lo. Era Peter.

            — Não sabia se te apanharia em casa. Tenho muito pouco tempo para estar ao telefone, mas seja como for decidi telefonar-te. Chegaste bem a Nova Iorque? — indagou ele.

            — Sim. Muito bem! As palavras de Melanie saíam-lhe dos lábios a custo; cerrou os olhos para poder ouvir melhor a voz dele.

            — Fizemos um pequeno intervalo entre as operações de hoje, e eu só queria dizer que sinto muitas saudades tuas — acrescentou Peter. Com uma frase curta, ele conseguira a proeza de, uma vez mais, pôr o coração dela aos pulos. Melanie não proferiu palavra. — Mel?

            — Sim. Estava apenas a pensar. — retorquiu ela, um pouco hesitante. Em seguida, decidiu abandonar todas as precauções e sentou-se, suspirando profundamente. — Também eu tenho saudades tuas. Não há dúvida de que conseguiu virar a minha vida do avesso, senhor doutor.

            — A sério? — perguntou Peter, aliviado.

            Ela produzia o mesmo efeito nele. Na noite anterior mal fora capaz de conciliar o sono, mas não se tinha atrevido a telefonar-lhe com receio de acordá-la. Sabia o quão fatigada Melanie estava quando partira de Los Angeles.

            — Já te apercebeste até que ponto toda esta situação é disparatada, Peter? Só Deus sabe quando é que voltaremos a ter a oportunidade de nos encontrarmos de novo, e aqui estamos... como dois adolescentes apaixonados.

            Mas Melanie estava de novo feliz. Tudo o que desejara fora ouvir a voz de Peter.

            — É assim que clarificas a nossa relação? — perguntou ele, rindo-se perante a escolha das palavras que ela utilizara. — Como dois adolescentes? Duvido que assim seja!

            — O que é que te parece? — perguntou Melanie, sem saber bem de que resposta estava à espera, sentindo-se um pouco assustada pelo que podia ouvir. Não se encontrava preparada emocionalmente para grandes declarações apaixonadas da parte dele, mas por seu lado, Peter não estava preparado para fazê-las. Ela continuava a salvo de um amor avassalador. No entanto, o pior de tudo era que Melanie nem sequer tinha a certeza de desejar ficar a salvo das demonstrações amorosas de Peter.

            — Parece-me que tens razão — respondeu ele. — Pareço um adolescente apaixonado, não é verdade?

            Ambos desataram a rir, e ela sentiu-se de novo como se fosse uma criança. De todas as vezes que falavam, ele provocava-lhe aquela reação. Peter era apenas nove anos mais velho do que ela.

            — A propósito, como é que estão as tuas filhas?

            — Ótimas. E a tua trupe? — perguntou Melanie.

            — Não estão mal. O Matthew queixou-se ontem à noite de que nunca me via. Neste fim de semana, se eu conseguir escapar-me do hospital, tencionamos ir pescar ou qualquer coisa do gênero. No entanto, tudo depende da forma como irá decorrer uma operação que já tenho marcada.

            — De que é que se trata? — quis saber Melanie.

            — É um triplo by-pass, mas não deve haver qualquer complicação — respondeu Peter, enquanto olhava para o relógio de parede, na pequena sala. — A propósito, tenho de voltar ao banco operatório e lavar-me outra vez, antes de iniciar a operação. Vou pensar em ti, Melanie.

            — É melhor não fazeres isso, pensa antes no doente — redargüiu ela, com um sorriso nos lábios. — Por este andar, o melhor é eu começar a concluir o noticiário dizendo: "e muito boa noite, Peter, onde quer que estejas".

            — Sabes onde eu estou — protestou ele. Mas a sua voz era tão meiga, que Melanie sentiu um grande aperto no coração

            — Sim. A cinco mil quilômetros de distância — retorquiu ela com uma expressão de tristeza.

            — Porque é que não vens cá passar o fim-de-semana? — sugeriu Peter.

            — Estás doido? Ainda mal acabei de chegar de Los Angeles! — Mas ela adorava a idéia, apesar da impossibilidade de vir a concretizar-se.

            — Isso foi diferente, estiveste aqui em trabalho. Tira uns dias de férias e vem visitar-nos — insistiu Peter.

            — Assim, sem mais nem menos? — perguntou ela, divertida.

            — Com certeza. Por que não? — redargüiu ele.

            No entanto, Melanie suspeitava que ambos se teriam sentido aterrorizados se ela aceitasse aquela sugestão. Ainda não estava preparada para dar um passo tão importante.

            — É possível que o que lhe vou dizer seja um choque para si, doutor Hallam, mas acontece que eu tenho uma vida aqui, assim como duas filhas.

            — E tiras férias todos os anos nos meses de julho e agosto. Foste tu própria quem me disse — adiantou Peter.

            — Traz as tuas filhas para uma visita à Disneylândia ou qualquer coisa no gênero.

            — Nesse caso, por que não vais tu visitar-nos em Martha's Vineyard? — perguntou Melanie por sua vez. Ambos sabiam que estavam a jogar um com o outro, mas era agradável fazê-lo.

            — Antes disso, minha boa amiga, tenho de fazer um triplo by-pass — disse Peter. Estava concluído o primeiro assalto.

            — Boa sorte. E muito obrigada por teres telefonado — agradeceu Melanie.

            — Telefono-te mais tarde, Mel. Esta noite vais estar em casa? — indagou Peter.

            — Tenciono vir a casa entre os noticiários.

            — Então, ligo-te nessa altura — concluiu ele.

            Peter cumpriu o prometido, e Melanie sentiu de novo o coração em sobressalto. Tinha acabado de jantar na companhia das filhas e, por seu lado, ele acabara de chegar a casa, vindo do hospital. O telefonema deixou-a eufórica, até que foi forçada a sair para apresentar o noticiário das vinte e três horas. Uma vez mais, repetiu a si mesma que tudo aquilo não passava de uma loucura. Tentou várias vezes concentrar-se nas notícias, enquanto as apresentava no pequeno ecrã, e conseguiu-o até sair do ar. A despeito disso, quando encontrou Grant do lado de fora do estúdio, Melanie tinha um ar perturbado.

            — Olá, Mel. Passa-se alguma coisa? — perguntou ele. Preparava-se para entrar no ar dentro de quinze minutos, o que não lhe deixava muito tempo para poder conversar.

            — Não. Por que é que perguntas? — inquiriu ela.

            — Não sei, tens um aspecto estranho. Sentes-te bem? — continuou Grant.

            — Claro que sim — respondeu Melanie. Mas nos seus olhos havia uma expressão sonhadora, e Grant achou que ela parecia estar muito longe dali.

            Subitamente, compreendeu o que é que estava a passar-se. Já tinha visto nos olhos dela, numa ocasião anterior, uma expressão semelhante, embora Melanie não se tivesse mostrado afetada com tanta intensidade como naquele momento. Perguntou a si próprio quem seria o homem, sem conseguir descobrir como é que ela tinha arranjado tempo para se apaixonar. Ou onde. Em Nova Iorque ou em Los Angeles? Grant sentia-se um pouco intrigado. Melanie parecia estar a viver num mundo diferente.

            — Vai para casa e dorme, miúda — aconselhou ele. — Tens todo o aspecto de quem ainda não sabe bem o que é que anda a fazer.

            — Imagino que sim — retorquiu Melanie, sorrindo-lhe.

            Viu-o dirigir-se para o estúdio que ela acabara de deixar. Apercebeu-se de que o telefonema de Peter naquele dia a tinha feito recordar o passado. Como diabo é que conseguiria concentrar-se de novo no trabalho? Mal era capaz de coordenar os seus pensamentos de uma forma coerente.

            Apanhou um táxi para casa e abriu a porta. As filhas já se encontravam na cama a dormir, e Raquel havia tirado uns dias de folga para compensar a semana anterior. Deitou-se ao comprido no sofá da sala de estar, a pensar na sua vida. Também considerou a sugestão que Peter lhe fizera para que fosse a Los Angeles, mas chegou à conclusão de que essa viagem seria um disparate. A única atitude sensata seria deixar-se ficar por Nova Iorque durante as semanas mais próximas, até chegar a altura de ir para Martha's Vineyard. Talvez nessa ocasião conseguisse pôr as suas idéias em ordem, à semelhança do que acontecia todos os anos. Naquele ambiente tão diferente, as coisas voltariam a entrar na ordem, com a ajuda do sol e do mar e da vida totalmente descontraída que levava quando lá passava férias.

 

            — Estão todas prontas? — gritou Melanie do vestíbulo do rés-do-chão, dirigindo-se às filhas que estavam no andar de cima.

            Olhou à sua volta uma última vez. Preparava-se para fechar a casa de Nova Iorque durante o verão. As duas malas grandes de viagem que continham as suas coisas já se encontravam à porta, juntamente com três raquetas de tênis e dois amplos chapéus de palha que pertenciam às filhas. Mel levava o seu na cabeça. A pequena mala verde de Raquel também estava preparada para seguir viagem. Todos         os anos, a governanta passava seis semanas com elas, passando as restantes duas sozinha em Nova Iorque.  

            — Vamos lá, meninas! Temos de estar no aeroporto dentro de trinta minutos! — disse Melanie, dando pressa às gêmeas, embora soubesse que chegariam a tempo, uma vez que teriam de ir apenas até o aeroporto de La Guardia.

            Todos os anos, a partida para férias era rodeada de um grande entusiasmo e sentiu-se de novo uma rapariguinha quando seguiam para Martha's Vineyard. Na noite anterior apresentara o último noticiário até depois das férias. Depois de Grant ter acabado de apresentar o seu programa, ambos tinham saído para tomarem uma bebida, a fim de celebrarem a libertação temporária do trabalho de Melanie. Haviam estado ambos muito descontraídos, apesar de ele continuar a ler nos olhos dela a confusão que lhe ia na alma. Ultimamente, Melanie mostrara-se fatigada e nervosa. Andava a trabalhar muitas horas na televisão; acabara a reportagem que fizera em Los Angeles, tendo ainda feito duas entrevistas importantes e concluído uma outra reportagem, antes das férias. Esse material seria transmitido durante o verão. Como era seu hábito, Melanie executara conscientemente o seu trabalho, o que nos últimos tempos parecia ser mais difícil.

            Grant tinha fortes suspeitas de que aquela situação se devia ao estado emocional em que ela se encontrava, embora continuasse sem ter conhecimento de qualquer pormenor.

            A realidade era que Peter telefonava a Melanie todos os dias. Todavia, esta continuava a não saber o que é que poderia advir de tudo aquilo. Nos últimos tempos também tivera uma preocupação adicional relativa ao seu contrato de trabalho, o qual supostamente deveria ser renovado em outubro. A cadeia de televisão atravessava uma fase de muitas alterações de caráter político a nível interno, havendo rumores da entrada de um novo acionista majoritário. Somente Deus sabia o que é que isso significaria. Na noite em que saíram, e para sua grande tranqüilidade, Grant assegurou-lhe que não existia absolutamente qualquer motivo para ela se preocupa, e Peter disse-lhe a mesma coisa quando partilhou os seus receios com ele. No entanto, aquele assunto não lhe saíra da cabeça. Naquele momento, todos esses problemas poderiam ser afastados da sua mente, pelo menos durante dois meses. Melanie tencionava não dedicar um único pensamento ao trabalho, o mesmo acontecendo em relação a Peter ou Grant. Limitar-se-ia muito simplesmente a seguir viagem para Martha's Vineyard com o propósito de descansar na companhia das filhas. O que não se concretizaria se estas últimas não se despachassem, disse ela a si própria enquanto aguardava juntamente com Raquel no vestíbulo da frente. Finalmente, as raparigas começaram a descer ruidosamente as escadas, carregando nos braços vários sacos, jogos e livros. Val também trazia um enorme urso de pelúcia.

            — Val! Por amor de Deus! — começou a mãe a objetar.

            — Mamãe, tenho de levá-lo. Foi o Josh que mo deu na semana passada e os pais dele têm uma casa em Chappaquiddick. Portanto, o mais certo é ele decidir visitar-nos e se eu não...

            — Está bem. De acordo. Mas, por favor, junta essa tralha toda e vamos a despachar, porque o táxi está à nossa espera. De outra forma nunca mais chegaremos ao aeroporto — apressou Melanie.

            Ir de viagem com as filhas era sempre um desafio. Felizmente, o motorista do táxi conseguiu enfiar quase tudo dentro do porta-bagagens, o que, diga-se de passagem, foi uma façanha. Por fim, o táxi arrancou com Melanie e as filhas sentadas no assento de trás. Valerie levava ao colo o enorme urso, enquanto Raquel se sentava à frente com os chapéus e as raquetas de tênis. Ao longo do caminho até o aeroporto de La Guardia, Melanie ia verificando mentalmente uma lista, assegurando-se de que fechara à chave o portão do jardim, assim como todas as janelas, que ligara o alarme e que não se tinha esquecido de desligar o gás. Existia sempre aquela sensação de mal-estar, sem se saber ao certo se no último instante algo fora esquecido. Apesar disso, na altura em que entraram a bordo do avião, todas se mostravam bastante alegres e, quando o aparelho decolou, Melanie sentiu um alívio que não experimentava havia várias semanas, como se estivesse a deixar todas as dúvidas em Nova Iorque, sabendo antecipadamente que iria encontrar paz e sossego na pequena ilha de Martha's Vineyard.

            Peter continuara a telefonar-lhe uma ou duas vezes por dia e, independentemente do quanto Melanie gostava das conversas que mantinham, não deixava de se atormentar por causa delas. Por que motivo é que ele telefonava? Quando é que voltariam a encontrar-se? E, por último, qual era o objetivo de tudo aquilo? Peter reconhecia que sentia a mesma confusão. No entanto, ambos pareciam incapazes de pôr um travão àquela situação que, inexoravelmente, ia avançando em direção a um objetivo indefinido, que continuava a assustar ambos, pelo que faziam o possível para evitar aquele assunto tão melindroso. Limitavam-se a temas mais banais, embora de vez em quando admitissem que sentiam saudades um do outro. Mas por que razão, perguntava Melanie a si própria com freqüência, é que eu tenho tantas saudades dele? Invariavelmente a resposta a essas perguntas fugia-lhe ou então não a desejava encontrar.

            — Mamãe, achas que a minha bicicleta ainda está em condições ou já estará ferrugenta? — perguntou Valerie no avião com um olhar ausente, enquanto abraçava o urso e exibia uma expressão de felicidade. Um homem que ia sentado na outra fileira de assentos, olhava para ela, fascinado.

            Melanie sentiu-se satisfeita por não lhe ter permitido vestir os calções azuis que ela usara ao pequeno-almoço e que ameaçara usar durante a viagem aérea até a casa de férias.

            — Não sei, meu amor. Quando chegarmos, veremos como é que as coisas estão — respondeu a mãe.

            A senhora a quem alugavam a casa todos os anos permitia-lhes que deixassem algumas coisas na cave de um verão para o outro.

            Quando chegaram a Boston, alugaram um automóvel e seguiram para Loods Hole, onde apanharam o barco que fazia a travessia até Vineyard Haven. O barco era a parte da viagem que elas mais apreciavam. Ficavam com a impressão de que deixavam para trás o mundo da realidade, assim como todas as responsabilidades que o acompanhavam. Melanie ficou sozinha durante alguns minutos junto à amurada, deixando que o vento lhe açoitasse os cabelos; há vários meses que não se sentia tão liberta. Apercebeu-se do quanto estava necessitada de umas férias, enquanto desfrutava daqueles breves instantes de solidão, antes de as filhas irem à sua procura. Haviam deixado Raquel a falar com um homem no tombadilho inferior e, quando finalmente a governanta se lhes juntou, começaram a troçar dela por causa daquele interregno.

            Naquele momento, Melanie deu consigo a rir-se ao lembrar-se de Mrs. Hahn; era-lhe impossível imaginar alguém a fazer troça daquela mulher, e muito menos imaginá-la a namoriscar com um desconhecido num barco. Apesar de Raquel ser bastante independente, tinham um grande carinho por ela. Foi com uma enorme satisfação que viu Jessica dar um grande abraço à governanta, na altura em que o barco atracava na ilha. Até mesmo Raquel sorriu perante aquele gesto de ternura. Na opinião de todas, aquele lugar era um autêntico paraíso e, no momento em que chegaram à casa em Chilmark, que tão familiar lhes era, as gêmeas desataram a correr descalças em direção à praia, seguindo uma atrás da outra até tão longe quanto lhes foi possível, enquanto Melanie as observava.

            Não se verificaram dificuldades maiores para se instalarem, à semelhança do que acontecia todos os anos e, ao fim do dia, parecia que as quatro já haviam chegado há um mês. As poucas horas que tinham passado na praia naquela mesma tarde deixaram-lhes as faces rosadas. Arrumaram tudo o que tinham trazido nas malas, e o urso de pelúcia foi instalado numa cadeira de baloiço que havia no quarto de Valerie. A casa estava mobiliada de uma maneira acolhedora, apesar de não haver peça alguma que se pudesse classificar de rebuscada. Tinha o aspecto de ser a casa de uma avó, com um alpendre onde se encontrava uma cadeira de baloiço feita de vime. Todas as dependências estavam decoradas com cortinas garridas de algodão estampado. Nos primeiros dias, persistia sempre um ligeiro cheiro a bafio que, ao fim de algum tempo, acabava por desaparecer sem que se voltasse a notar. Até mesmo aquele pormenor fazia parte da sensação de familiaridade que sentiam sempre que se encontravam em Chilmark. Passavam os verões naquele lugar desde que as gêmeas eram crianças e, tal como Melanie explicou a Peter quando ele lhe telefonou naquela mesma noite, Chilmark fazia parte do seu lar.

            — Elas adoram estar aqui, exatamente como eu — disse Melanie.

            — Tudo isso lembra muito a Nova Inglaterra, Mel — retorquiu ele, tentando imaginar o local pela descrição que ela fizera. Praias extensas de areias brancas, um estilo de vida informal em que predominavam os calções, as camisolas de algodão e os pés descalços, alguns intelectuais oriundos de Nova Iorque que tinham por hábito reunir-se de tempos a tempos em jantares de lagosta e em mariscadas. Entretanto, Peter acrescentou: — Nós vamos todos os anos para a montanha, para Aspen. — O ambiente nas montanhas era muito diferente do que reinava em Martha's Vineyard, mas a forma como ele descrevia aquela estância de esqui tornava-a deveras intrigante. — Por que é que não vais lá passar uns dias com as tuas filhas? — sugeriu ele. — Estamos a pensar em ir durante os primeiros dez dias de Agosto.

            — Não conseguiria arrancá-las daqui nem que lhes pagasse um milhão de dólares, ou lhes prometesse um encontro com a estrela de rodeio que elas preferem. Isto é... — respondeu Melanie, mas reconsiderou a última hipótese e ambos começaram a rir.

            Tinham um relacionamento ao telefone que era fácil de manter, mas que não deixava de parecer extremamente irreal em determinadas ocasiões. Eram vozes sem corpo que viviam na linha do telefone, noite após noite, sem nunca se aproximarem demasiado.

            — Suponho que não me seria possível arrancar-te daí — continuou Peter.

            — Duvido muito — concordou Melanie. Naquele momento fez-se um estranho silêncio e ela aguardou, perguntando a si própria o que lhe iria na mente. Mas quando Peter retomou a palavra dava a impressão de que estivera na brincadeira.

            — É uma pena — disse ele.

            — O que? — redargüiu Melanie, pensando que ele não fazia qualquer sentido. Sentia-se maravilhosamente descontraída depois do jantar. Não lhe apetecia estar com charadas ao telefone; contudo, era óbvio que Peter estava com disposição para brincar.

            — Que não queiras sair daí — continuou ele.

            — Por que é que dizes isso? — Melanie sentia a cabeça a latejar. Peter estava a provocar-lhe um estranho nervosismo.

            — Porque vai realizar-se uma conferência em Nova Iorque, em que participará um grupo de cirurgiões de toda a Costa Leste, e eu fui convidado para ser um dos oradores. Terá lugar no Hospital Columbia Presbyterian — finalizou Peter.

            Melanie ficou calada durante alguns instantes, contendo a respiração, após o que começou a falar apressadamente.

            — De verdade? E vais? — perguntou ela.

            — Poderia ir. É o tipo de coisa em que eu normalmente me recusaria a participar, muito em especial nesta altura do ano. O calor que faz em Nova Iorque no mês de julho é insuportável, mas pensei que talvez e dadas às circunstâncias... — continuou Peter, corando intensamente do outro lado da linha.

            Melanie sentiu a respiração mais célere.

            — Peter! Vais à conferência?

            Ele riu-se, divertido com a atitude de ambos. Não havia dúvida de que pareciam duas crianças.

            — Precisamente às quinze horas de hoje informei-os de que aceitava o convite. E com relação a ti e a Martha's Vineyard?

            — Merda! — exclamou Melanie, olhando para a sala com uma careta bem-humorada. — Acabamos de chegar à ilha.

            — Preferes que eu não vá? — perguntou ele com rapidez. — Não sou obrigado a ir.

            — Por amor de Deus! Não sejas idiota. Durante quanto tempo é que pensas que podemos continuar assim? A falarmos ao telefone duas vezes por dia, sem nunca nos vermos?

— retrucou Melanie.

            Haviam passado duas semanas e meia desde que ela deixara a Califórnia, apesar de tanto um como o outro terem a sensação de que haviam sido três anos. Tinham necessidade de se encontrar outra vez, quanto mais não fosse para tentar esclarecer alguns dos sentimentos.

            — Foi o que eu também pensei. Portanto... — Peter não acabou a frase, rindo-se de novo, satisfeito perante a perspectiva daquela viagem.

            — Quando é que chegas? — perguntou Melanie.

            — Na próxima terça-feira — respondeu ele e acrescentou com uma voz terna: — Quem me dera que fosse já amanhã!

            — Também eu — disse Melanie e em seguida soltou um assobio. — Faltam só seis dias!

            — Eu sei — retorquiu Peter com um sorriso; sentia-se tão excitado como uma criança a quem tivessem oferecido um novo brinquedo. — Reservaram-me um quarto no Hotel Plaza — acrescentou.

            Porém, naquele momento, Melanie lembrou-se de uma coisa. Sentia-se hesitante em lhe dar voz, com receio de poder colocar ambos numa posição pouco agradável; todavia, se fossem capazes de lidar com aquela situação, esta poderia resultar a contento de todos.

            — Por que é que não ficas em nossa casa? As gêmeas não estão lá e terias o andar delas só para ti. Seria muito mais confortável do que ficar alojado num hotel — sugeriu Melanie.

            Ao ouvir aquela proposta, Peter ficou em silêncio por alguns momentos, enquanto considerava todos os prós e os contras à semelhança do que ela fizera antes de formular o convite. O fato de ficarem sob o mesmo teto poderia ser um pouco embaraçoso, sendo quase um compromisso... Mas num andar separado.

            — Tens a certeza de que não te importas? — perguntou Peter, hesitante. — Seria mais fácil para mim, mas não tenho intenção de provocar qualquer incômodo ou... — Interrompeu-se, sem saber o que dizer.

            Melanie começou a rir-se ao aperceber-se do constrangimento dele, e estendeu-se na cama, continuando a manter o auscultador junto do ouvido.

            — A idéia deixa-me igualmente nervosa — continuou ela. — Mas, cos diabos, ambos somos adultos e podemos lidar muito bem com uma situação destas.

            — Achas que sim? — perguntou Peter, esboçando um sorriso ao telefone. Não tinha a certeza de ser capaz. E tu? Consegues deixar as tuas filhas sozinhas?

            — A Raquel veio conosco, o que significa que elas ficarão bem entregues — retorquiu Melanie, sentindo-se subitamente muito excitada pela ida dele a Nova Iorque. — Oh, Peter, mal consigo esperar!

            — O mesmo se passa comigo!

            Os seis dias seguintes pareceram arrastar-se de maneira insuportável. Falavam ao telefone duas ou três vezes ao dia, o que deu azo a que, por fim, Raquel começasse a desconfiar que havia alguém importante na vida de Melanie. Por seu lado, as gêmeas pareceram não reparar em nada de anormal.

            Na noite de domingo seguinte, Melanie mencionou casualmente que tinha de ir a Nova Iorque por uns dias, tencionando partir na terça-feira de manhã. Aquela notícia foi acolhida com olhos arregalados e bocas abertas. Durante o período de férias, ela nunca se tinha deslocado a Nova Iorque, fosse para o que fosse, exceção feita no ano em que Jessica partira um braço, tendo ela insistido para que a filha fosse observada por um ortopedista da cidade. Nessa ocasião, haviam ficado apenas dois dias, e o motivo justificara terem-se ausentado da ilha. Melanie comunicou-lhes que só regressaria na sexta-feira à tarde, o que significava que estaria ausente quatro dias. Tanto as filhas como a governanta achavam difícil acreditar que ela se dispusesse a ausentar-se; no entanto Mel insistiu, argumentando que tinham surgido alguns problemas no acabamento de uma reportagem que de veria ser apresentada na sua ausência, o que a obrigava a ir ao estúdio para assistir à montagem do filme.

            Naquela mesma noite, quando voltaram à praia para se encontrar com alguns amigos e fazer uma fogueira, as gêmeas continuavam muito admiradas com a decisão da mãe.

            Por seu lado, Raquel observava-a com olhos inteligentes enquanto levantavam a mesa.

            — Estou a ver que desta vez é a sério, não é? — perguntou a governanta.

            Melanie esquivou-se ao olhar dela, agarrando numa pilha de pratos sujos que levou para a cozinha.

            — De que é que está a falar? — perguntou ela, fazendo-se desentendida.

            — A mim não me consegue enganar. Arranjou um novo namorado — continuou Raquel.

            — O que está a dizer não tem a mínima ponta de verdade. A pessoa em questão foi objeto de uma entrevista que eu fiz há tempos — justificou-se Melanie, continuando a evitar olhar de frente para a governanta, sabendo que se o fizesse não seria capaz de a convencer. — Vigie as meninas enquanto eu estiver ausente, especialmente a Valerie. Reparei que o rapaz dos Jacob já está muito crescido e, de cada vez que a encontra, baba-se todo.

            — Esteja descansada que ele não vai fazer-lhe mal algum. Eu vou ficar de olho no rapaz — sossegou-a a governanta, mas ficou a observar Melanie que, entretanto, se retirou para o seu quarto, ao mesmo tempo em que Raquel se dirigia para a cozinha e acendia um cigarro, com um sorriso cúmplice. Era evidente que ela não tinha coisa alguma em comum com Mrs. Hahn, mas era uma mulher inteligente e adorava aquela família.

            Na manhã da terça-feira seguinte, Melanie apanhou o barco que fazia a travessia até Boston, de onde seguiu num avião para Nova Iorque. Chegou ao aeroporto às dezesseis horas da mesma tarde, o que lhe deu tempo suficiente para arejar a casa, ligar o ar condicionado e, em seguida, ir à loja da esquina comprar flores frescas, assim como alguma comida de que pudessem necessitar. O vôo de Peter só deveria chegar às nove da noite, mas, à cautela, Melanie saiu de casa por volta das dezenove e trinta, rumo ao aeroporto. Foi uma sorte ter decidido ir com bastante antecedência, porque o trânsito era intenso e havia muitos automóveis nas bermas devido ao sobreaquecimento dos motores. Só chegou ao aeroporto às vinte e quarenta e cinco.

            Mel dirigiu-se num passo apressado para a porta por onde ele deveria desembarcar, tendo ficado à espera a bater o pé com nervosismo durante os trinta minutos seguintes, uma vez que o avião estava quinze minutos atrasado.

            Exatamente às vinte e uma horas e quinze minutos, o enorme pássaro prateado começou a aproximar-se da porta da manga de desembarque, através da qual os passageiros foram surgindo. Melanie observava atentamente as pessoas que iam saindo, bronzeadas pelo sol da Califórnia; usavam chapéus de palha e tinham as pernas desnudadas, mostrando um tom dourado. Os homens envergavam camisas de seda desabotoadas até a cintura, o que permitia ver fios de ouro à volta do pescoço. De súbito, Mel avistou um homem que não se assemelhava em nada aos outros, o qual envergava um fato de linho bege por cima de uma camisa azul; esta indumentária era complementada por uma gravata azul-marinho. Peter tinha os cabelos ligeiramente descoloridos pelo sol e o seu rosto estava bronzeado. No entanto, o seu aspecto era de austeridade ao encaminhar-se para o sítio onde ela se encontrava, olhando-a do alto da sua estatura elevada e dando-lhe um beijo sem qualquer hesitação. Permaneceram no mesmo lugar durante o que pareceu ser uma eternidade, enquanto as pessoas passavam à sua volta como se fossem um rio a passar por entre rochas.

            Peter olhou para Melanie e esboçou um sorriso.

            — Olá — saudou ele.

            — Como foi o vôo? — perguntou ela.

            — Não tão agradável como isto — redargüiu ele com uma careta risonha, após o que, de mãos dadas, se dirigiram para o terminal das bagagens. Saíram do aeroporto e chamaram um táxi. Enquanto seguiam para casa dela, beijaram-se vezes sem conta e Melanie perguntava a si mesma como é que havia sobrevivido até então sem a presença dele. — Estás muito bonita, Mel — comentou Peter, ao observar a pele bronzeada que fazia realçar os olhos verdes e os cabelos acobreados, onde ela colocara uma flor.

            Mel usava um vestido de seda branca e sandálias de salto alto da mesma cor. Apresentava um aspecto saudável e feliz, de onde emanava uma aura estival; ao fitarem-no, os seus olhos pareciam querer absorvê-lo, dando a impressão de que ela esperara por Peter ao longo de toda a vida.

            — Devo dizer-te que não vinha a Nova Iorque há anos — disse ele a olhar para a paisagem desprovida de beleza, enquanto seguiam para o centro da cidade. Abanou a cabeça. — Costumo recusar este tipo de convites, mas desta vez... — continuou Peter, encolhendo os ombros e inclinando-se na direção de Melanie para beijá-la de novo.

            Esta não tinha esperado que ele se comportasse de maneira tão ousada, nem previra que a sua própria reação fosse tão receptiva. No entanto, as intermináveis conversas telefônicas tinham-nos aproximado bastante. Naquela altura conheciam-se havia somente dois meses; contudo, parecia-lhes que se tinham encontrado pela primeira vez havia dois anos ou talvez mais.

            — Sinto-me muito satisfeita por não teres recusado o convite desta vez — retorquiu Melanie com um sorriso; depois olhou para a estrada. — Tens fome? — perguntou ela.

            — Nem por isso — respondeu Peter para quem eram apenas seis e quarenta e cinco, apesar de, pela hora de Nova Iorque, faltarem poucos minutos para as vinte e duas horas.

            — Tenho alguma comida em casa — acrescentou Melanie. — Mas se preferires podemos ir a qualquer sítio comer alguma coisa.

            — Faremos o que te apetecer — replicou Peter que não era capaz de despregar os olhos do rosto dela. Tudo o mais lhe abandonou a mente enquanto lhe agarrava na mão. Estou tão feliz por poder ver-te de novo, Mel. — Tinha a impressão de que o fato de se encontrarem de novo juntos era quase irreal.

            — Tudo isto parece quase um sonho, não é verdade? — comentou Melanie, esboçando um sorriso.

            — É. O melhor sonho que eu tenho de há muitos anos a esta parte. — Ficaram em silêncio durante algum tempo. Pouco depois, ele sorriu e acariciou-lhe o pescoço. — Cheguei à conclusão de que te devia pelo menos uma viagem até a Costa Leste. Ao fim e ao cabo, já foste duas vezes a Los Angeles.

            No entanto fora necessária uma justificativa para que ele se decidisse a viajar até Nova Iorque. Peter não tinha apanhado um avião com o único propósito de visitá-la. Contudo havia que reconhecer que aquele pretexto tornava a situação bastante mais fácil para ambos. Assim poderiam aproximar-se mais um pouco.

            — Não há dúvida de que o presidente se recuperou de uma maneira notável — continuou Peter.

            — Decorreram apenas cinco semanas, e ele já anda a pé e consegue mesmo trabalhar algumas horas por dia. — Melanie abanou a cabeça, ainda perplexa. Naquele momento ocorreu-lhe outra coisa. — A propósito, como é que está a Marie?

            — O estado de saúde dela é razoável — respondeu Peter, enrugando a testa. Afastou aquela preocupação dos seus pensamentos. — Deixei dois médicos a cuidarem dela durante a minha ausência. Ficou em boas mãos, mas passou um mau bocado por causa dos corticóides. Neste momento, as faces dela estão inchadas como uma lua cheia e nada podemos fazer quanto a isso. Já tentamos tudo o que estava ao nosso alcance. Apesar de todo o desconforto, a Marie nunca se queixa — acrescentou Peter, olhando Melanie com uma expressão de tristeza. — Quem me dera que as coisas não fossem tão difíceis para ela!

            Durante algum tempo, Melanie tentou concentrar os seus pensamentos na imagem de Marie, mas só conseguia pensar em Peter. Tudo o mais lhe parecia irreal. Os filhos, os doentes, as guerras e os programas de televisão. Só eles contavam.

            O automóvel entrou na Drive', e ao fim de algum tempo, virou na Rua Noventa e Seis. Peter ia observando as ruas que percorriam, sentindo curiosidade quanto à zona da cidade onde Melanie habitava, perguntando a si próprio como seria a sua casa; em suma, desejando saber tudo o que dissesse respeito a ela. Sob certos aspectos, ele já sabia muita coisa em relação à maneira como ela pensava e sentia, mas desconhecia ainda o ambiente onde ela vivia.

            Finalmente chegaram e Melanie sorriu ao recordar-se da primeira vez que vira a casa de Peter em Bel-Air, e ficara surpreendida pelo seu ar formal. Sabia antecipadamente que Peter chegaria à conclusão de que a sua casa era muito diferente, e não se enganou.

            Ele mostrou-se encantado ao entrar, sentiu o aroma das flores que ela comprara, olhou para as cores vivas e para o pequeno jardim que era tão agradável. Virou-se para ela com um sorriso, delicado.

            — Esta casa é a tua cara, Mel. Eu já sabia que não poderia ser de outra forma — comentou ele, colocando as mãos na cintura de Melanie e sorrindo.

            — Gostas dela?

            — Adoro-a — confirmou Peter.

            Anda daí, para eu te mostrar o resto — disse ela, agarrando-lhe na mão e começando a subir as escadas.

            Quando chegaram ao seu quarto, ambos ficaram junto à porta durante algum tempo, seguindo depois para o pequeno escritório e para o quarto de uma das gêmeas, onde já tinha tudo preparado para ele. Mel colocara jarras c