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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TRÊS SEMANAS COM O MEU IRMÃO / N. e M. Sparks
TRÊS SEMANAS COM O MEU IRMÃO / N. e M. Sparks

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TRÊS SEMANAS COM O MEU IRMÃO

 

Este livro foi escrito por causa de uma brochura que recebi, pelo correio, na Primavera de 2002.

Fora um dia normal em casa da família Sparks. Passara boa parte da manhã e do princípio da tarde a trabalhar no meu romance O Sorriso das Estrelas, o trabalho não me correra bem e estava desejoso que o dia chegasse ao fim. Não escrevera tanto quanto pensara, nem fazia ideia daquilo que iria escrever na manhã seguinte. Não estava, por isso, na melhor das disposições quando, finalmente, desliguei o computador e dei por concluído o trabalho do dia.

Não é fácil viver com um escritor. Sabia-o porque a minha mulher já me tinha informado desta realidade e voltou a fazê-lo naquele dia. Para ser franco, não é a afirmação mais agradável para se ouvir e, embora fosse fácil pôr-me na defensiva, acabei por perceber que discutir o assunto com ela não resolvia coisa alguma. Em vez disso, tinha aprendido a olhá-la nos olhos, ao mesmo tempo que lhe respondia com aquelas palavras mágicas que qualquer mulher deseja ouvir:

- Meu amor, tens toda a razão.

Haverá quem pense que, por eu ser um autor relativamente bem sucedido, escrever é uma tarefa que faço sem esforço. Muitas pessoas imaginam que ocupo apenas umas poucas horas do dia a “escrevinhar as ideias à medida que me vão ocorrendo”, o que me deixaria o resto do tempo livre para descansar à beira da piscina, a discutir com a minha mulher as nossas próximas férias num lugar exótico.

Na realidade, a nossa maneira de viver não difere muito da de qualquer família normal da classe média. Não dispomos de um quadro de pessoal doméstico nem fazemos grandes viagens e, embora tenhamos uma piscina no jardim das traseiras, rodeada de cadeiras de descanso, já não me recordo da última vez em que as cadeiras foram usadas; e não são usadas porque, durante o dia, nem eu nem a minha mulher dispomos de muito tempo para ficarmos sentados sem fazer nada. Eu, por causa do meu trabalho. Ela, por causa da família. Ou, para ser mais preciso, por causa dos nossos filhos.

É que temos cinco. Não seria um número exagerado se vivêssemos na época dos pioneiros mas, nos nossos dias, já é suficiente para sermos olhados de esguelha. No ano passado, durante uma viagem, aconteceu que travámos conhecimento com outro casal jovem. A conversa é como as cerejas e o problema dos filhos acabou por surgir. O casal tinha dois filhos e mencionou-os pelos nomes; a minha mulher engasgou-se com os nomes dos nossos.

Por momentos a conversa parou, enquanto a outra mulher procurava assegurar-se de que nos estava a ouvir bem.

- Têm cinco filhos? - acabou por perguntar.

- Temos.

A outra pousou uma mão simpática no ombro da minha mulher.

- Perderam o juízo?

Os nossos rapazes têm doze, dez e quatro anos; temos duas gémeas que vão a caminho dos três anos. Apesar de não saber muito acerca do mundo, sei que os filhos têm uma forma engraçada de nos obrigar a sermos objectivos. Os mais velhos sabem que me ocupo a escrever romances, embora por vezes tenha as minhas dúvidas de que eles compreendam o que significa criar uma obra de ficção. Por exemplo: durante uma aula de apresentação, foi perguntado ao meu filho de dez anos qual era a profissão do pai, ao que ele, enchendo o peito de ar, respondeu: “O meu pai passa o dia a brincar com o computador!” O mais velho, por sua vez, já declarou por diversas vezes - com o ar mais solene - que: “Escrever é fácil. Difícil é dactilografar.”

Como acontece com muitos escritores, trabalho em casa, mas as semelhanças acabam aí. O meu escritório não é um qualquer santuário situado no recato de um andar alto; em vez disso, a porta abre directamente para a sala de estar. Já li que muitos escritores necessitam de uma casa sossegada para se concentrarem, mas eu tenho a sorte de não precisar de silêncio para trabalhar. É uma boa característica, pois suponho que, sem ela, nunca conseguiria escrever nada. Gostaria que compreendessem que a minha casa é um pandemónio de actividade, desde a altura em que a minha mulher e eu saltamos da cama, até ao momento que nos deixamos cair nela, no final do dia. Passar o dia na nossa casa é tarefa capaz de esgotar qualquer pessoa. Para começar, os miúdos têm energia. Reservas e mais reservas de energia. Energia em quantidades “assombrosas”. Multiplicada por cinco, seria energia suficiente para iluminar a cidade de Cleveland. E os miúdos, por qualquer processo mágico, alimentam a energia uns dos outros, cada um reflecte a energia dos outros, como se fosse um espelho. E é preciso não esquecer o contributo dos três cães e que até a própria casa parece concorrer para a energia geral. Um dia normal inclui: pelo menos um filho doente, brinquedos espalhados de uma ponta à outra da sala que, como por magia, reaparecem logo depois de terem sido arrumados, cães a ladrar, crianças que riem, o telefone a tocar, entregas e envios de encomendas por correio expresso, trabalhos escolares perdidos, aparelhos avariados, projectos escolares para o dia seguinte que os nossos filhos, por qualquer motivo, só nos dão a conhecer no último momento, treinos de basebol, treinos de ginástica, treinos de futebol, treinos de Tae Kwon Do, chegadas e partidas de técnicos de reparação de qualquer coisa, portas a bater, crianças a correr pelo corredor, crianças que atiram coisas, crianças que choram por terem caído, crianças que nos abraçam, ou crianças que choram por precisarem dos pais “naquele preciso momento”. Quando os meus sogros nos deixam, após uma semana de estada junto de nós, o caminho para o aeroporto parece-lhes demasiado longo. Levam os olhos inchados e mostram a expressão assarapantada dos veteranos que conseguiram sobreviver ao desembarque na praia de Omaha. Em vez de me dizer adeus, o meu sogro abana a cabeça e sussurra-me: “Boa sorte! Vais precisar de muita!”

A minha mulher aceita como normal toda esta actividade em casa. É paciente e raramente se enerva. Na maior parte dos casos, parece até vivê-la “com prazer”. A minha mulher, tenho de o admitir, é uma santa.

Ou talvez seja apenas “maluca”.

 

Cá em casa, a abertura do correio está por minha conta. É, afinal, uma tarefa indispensável, que, no decurso da nossa vida de casados, se transformou em mais um daqueles pequenos encargos que me vieram parar às mãos.

Recebi aquela brochura, pelo correio, num dia igual a qualquer outro. Lexie tinha seis meses, estava constipado e não deixava que a mãe o deitasse, Miles tinha pintado a cauda do cão com tinta fluorescente e passeava orgulhosamente a sua obra, Ryan precisava de estudar para um teste mas esquecera-se do manual na escola, pelo que decidiu “resolver” o problema e gastou todo o papel higiénico que conseguiu enfiar pela

sanita abaixo, Landon andava, uma vez mais, a pintar as paredes. Só não consigo recordar o que Savannah estava a fazer mas seria algo de perturbador, pois, apenas com seis meses de idade, já estava a aprender com os irmãos. A isto há que acrescentar a televisão com o som alto, os ruídos da cozinha, o ladrar dos cães, os telefones a tocar, tudo a concorrer para um barulho caótico que parecia tornar-se insuportável. Suspeitei que até a minha santa esposa deveria estar muito perto dos limites. Afastando-me do computador, respirei bem fundo e pus-me de pé. Ao passar pela sala de estar, passei uma vista de olhos por aquele mundo maluco e, com aquele instinto que só os homens possuem, descobri de imediato o que era preciso fazer. Pigarreei, atraí por momentos a atenção de todos e anunciei calmamente:

- Vou ver se o carteiro já veio.

Instantes depois, saía porta fora.

Como a nossa casa se encontra afastada da estrada, é habitual levarmos cinco minutos para ir à caixa do correio e voltar. A barafunda desapareceu no preciso momento em que fechei a porta atrás de mim. Caminhei lentamente, a saborear o silêncio.

Uma vez de volta a casa, verifiquei que a minha mulher tentava limpar a saia, suja de bolo e saliva, enquanto segurava simultaneamente as duas bebés. Landon estava junto dela, de pé, a tentar chamar a atenção da mãe, que ainda fazia o possível para ajudar os dois filhos mais velhos nos trabalhos escolares. Ao ver a maneira eficiente como ela se descartava de tantas tarefas ao mesmo tempo, senti o coração inchar de orgulho; ergui o maço de correspondência, de maneira a que ela o pudesse ver, e anunciei:

- Fui buscar o correio.

Olhou para mim, de baixo para cima:

- Nem sei o que faria sem ti! - respondeu. - A tua ajuda é preciosa.

Assenti.

- Só faço a minha obrigação. Não tens de me agradecer.

Como todas as pessoas, recebo a minha quota de lixo postal. Separei o que era importante daquilo que seria deitado fora. Paguei facturas, dei uma vista de olhos pelos artigos de umas revistas e estava a preparar-me para guardar tudo quando reparei num folheto que, inicialmente, pusera na pilha do lixo. Vinha da associação de alunos da Universidade de Notre Dame e anunciava uma viagem por “Terras dos Adoradores do Céu”. A excursão chamava-se “Céu e Terra” e daria a volta ao mundo, durante um período de três semanas, em Janeiro e Fevereiro de 2003.

Interessante, pensei, ao começar a folhear a brochura. A viagem

- num jacto alugado - incluiria excursões às ruínas dos Malas da Guatemala e dos Incas do Peru, às estátuas gigantes da ilha de Páscoa e às ilhas Cook, na Polinésia. Haveria também visitas a Ayers Rock, na Austrália; a Angkor Vat, aos Campos da Morte e ao Museu do Holocausto de Phnom Penh, no Camboja; ao Taj Mahal e ao forte ambarino de Jaipur, na índia; às igrejas escavadas na rocha, de Lalibela, na Etiópia; ao Hipogeu e a outros templos antigos da ilha de Malta; e, finalmente, se as condições climatéricas o permitissem, uma possibilidade de observar as auroras boreais em Tromso, uma localidade situada 480 quilómetros a norte do Círculo Polar Árctico.

Já em criança me sentia fascinado pelas culturas antigas e pelas terras longínquas e, ao ler a descrição de cada uma das visitas propostas, a propósito da maioria delas dei comigo a pensar: “Sempre desejei ver isto.” Era uma oportunidade única de fazer a viagem da minha vida, de ir a lugares que me povoavam a imaginação desde os tempos de menino. No entanto, quando acabei de ler o prospecto, suspirei e pensei: “Talvez um dia...”.

Na altura, não podia ser, não dispunha de tempo. Três semanas afastado dos miúdos? Longe da minha mulher? Sem pegar no trabalho?

Impossível. Era ridículo, melhor seria esquecer o episódio. Coloquei o folheto no fim da pilha.

Mas havia um problema: não conseguia esquecer-me da excursão.

É que eu sou um realista; e pensei que, no futuro, a Cat (abreviatura de Cathy) e eu teríamos oportunidades de viajar. No entanto, embora soubesse que, um dia, poderia convencer a minha mulher a visitar o Taj Mahal ou Angkor Vat, não alimentava quaisquer ilusões de a persuadir a ir à ilha de Páscoa, à Etiópia ou às florestas da Guatemala. Por estarem tão fora de mão e haver tantas outras coisas para ver, e tantos lugares aonde ir, as visitas a áreas remotas nunca deixarão de ser incluídas no capítulo de “talvez um dia”... Um dia que, quase de certeza, nunca chegará.

Porém, recorrendo a um golpe cruel, talvez a pudesse levar a visitar tudo de uma só vez; e assim, dez minutos mais tarde, uma vez desaparecida a cacofonia da sala de estar, que terminara tão misteriosamente como tinha começado, encontrava-me na cozinha na companhia da minha mulher, com a brochura aberta em cima da bancada. Como um miúdo a descrever o seu acampamento de Verão, fui apontando os pormenores mais significativos e a minha mulher, que havia muito se habituara às minhas fantasias, limitava-se a ouvir as minhas divagações. Quando terminei, fez um aceno de cabeça.

- Hum!... - foi o único comentário.

- Isso significa concordância ou discordância?

- Nem uma coisa nem outra. Só gostaria de saber os motivos que

te levam a mostrar-me isso tudo. Não me parece que possamos ir.

- Eu sei. Mesmo assim, pensei que gostarias de dar uma vista de

olhos.

A minha mulher, que me conhece melhor do que qualquer outra pessoa, sabia que o motivo não era apenas aquele.

- Hum! - repetiu.

Dois dias depois, acompanhava a minha mulher num passeio pelo bairro. Os miúdos mais velhos iam à nossa frente, os outros três seguiam em carrinhos, e aproveitei para levantar de novo a questão da viagem.

- Estive a pensar na excursão - disse, com ar desprendido.

- Que excursão?

- Aquela viagem à volta do mundo. A do folheto que te mostrei.

- Porquê?

Respirei fundo:

- Bem... gostarias de ir?

Ela deu mais uns passos antes de responder:

- É claro que gostaria de ir. Parece uma maravilha, mas não é possível. Não posso estar longe das crianças durante três semanas. E se acontece alguma coisa? Numa emergência, não teremos qualquer hipótese de regresso atempado. Quantos voos há para um lugar como a ilha de Páscoa? Lexie e Savannah ainda são bebés e precisam de mim. Todos precisam de mim... - admitiu, com a voz embargada. - É provável que outras mães fossem, mas eu não.

Assenti. Sabia de antemão qual seria a resposta dela.

- Não te importarias se eu fosse?

Olhou-me por cima do ombro. Eu viajava muito por causa do trabalho, gastava dois a três meses em cada ano em viagens de promoção dos livros e tais viagens eram sempre difíceis de suportar pela família. Mesmo que nem sempre estivesse disposto a mergulhar de cabeça no caos, não sou completamente inútil nas coisas da casa. A Cat tem uma vida social que a afasta de casa com certa frequência; uma vez por outra, toma o pequeno-almoço com as amigas, faz trabalho regular voluntário na escola, frequenta o ginásio, joga bunco com um grupo de senhoras conhecidas e passeia; ambos sabemos que, para não dar em doida, ela precisa de sair de casa. Nessas alturas, assumo o meu papel de pai solteiro. Porém, logo que me ausento, torna-se-lhe difícil, ou mesmo impossível, fazer qualquer coisa fora de casa. O que não é nada bom para a sanidade mental da minha mulher.

Além disso, os miúdos gostam que estejamos ambos presentes. Quando saio, e admitindo que isso é possível, o caos aumenta, como que a encher o espaço que eu deixei vazio. Nem é necessário dizer que a minha mulher está farta das minhas viagens. Compreende que elas fazem parte do meu trabalho, o que não significa que as aprecie.

Nesta perspectiva, a minha pergunta era perigosa.

- É realmente importante para ti? - acabou por perguntar.

Respondi-lhe com toda a franqueza:

- Não. Se não quiseres que vá, não vou. Mas gostaria de ir.

- E irias sozinho?

Acenei que não.

- Na realidade, estava a pensar em ir com o Micah - respondi,

referindo-me ao meu irmão.

Caminhámos em silêncio durante um bocado, até que ela me

olhou de frente:

- Penso que seria uma excelente ideia!

Depois de regressarmos do passeio, e ainda sem querer acreditar totalmente, dirigi-me ao escritório para ligar para o meu irmão, que vive na Califórnia.

Ouvi o telefone a tocar, um som mais distante que o de um telefone fixo. O Micah nunca atende o telefone de casa; quando quero falar com ele, tenho de ligar para o telemóvel.

- Ei! Nicky - gorjeou. - O que é que se passa?

Apesar da idade, o meu irmão continua a chamar-me pelo meu nome de criança. Efectivamente, até ao quinto ano, sempre me chamaram Nicky.

- Descobri uma coisa em que poderás estar interessado.

- Diz lá!

- Recebi um folheto pelo correio e... de qualquer das formas, para não me alongar demasiado, gostaria de saber se estás interessado em acompanhar-me numa viagem à volta do mundo. Em janeiro.

- Que género de viagem?

Passei os minutos seguintes a descrever-lhe os pontos de maior interesse, a folhear a brochura enquanto falava. Quando terminei, registou-se um silêncio do outro lado do fio.

- Estás a falar a sério? - indagou. - E a Cat deixa-te ir?

- Disse que sim - hesitei. - Escuta, sei que é uma decisão importante e por isso não preciso que me respondas já. Ainda dispomos de muito tempo para confirmar a viagem. Só quis que pensasses no assunto. Quero dizer, sei que tens de discutir a questão com a Christine. Três semanas é muito tempo.

Christine é a mulher do meu irmão; como ruído de fundo, ouvia-se o choro fraco da filha recém-nascida, a Peyton.

- Tenho a certeza de que estará de acordo. Mas vou falar com ela e depois ligo-te.

- Queres que te envie o folheto?

- Pois, claro - respondeu Micah. - Não achas que devo saber para onde vamos?

- Envio-o, hoje mesmo, por correio expresso - concordei. - Sabes uma coisa?

- O que é?

- Vai ser a viagem das nossas vidas.

À distância, quase consegui vê-lo sorrir.

- Estou certo que sim, maninho. Vai ser, de certeza.

Despedimo-nos e, já depois de desligar o telefone, fiquei a olhar os retratos de família com que ornamento as estantes do escritório. Na maior parte, são fotografias dos miúdos; vi os meus filhos como meninos e bebés; havia uma fotografia com os cinco, tirada pelo Natal, poucos meses antes. Ao lado desta, estava uma fotografia da Cathy e, num repente, peguei na moldura, a pensar no sacrifício que ela acabava de fazer.

Não. Era evidente que não estava entusiasmada com aquela ausência de três semanas. Nem a entusiasmava a ideia de não me ter junto dela, para a ajudar a cuidar dos cinco filhos; enquanto eu passeava pelo mundo, ela ficaria a suportar o fardo por inteiro.

Então, que motivo a levara a dizer sim?

Como já afirmei, a minha mulher compreende-me melhor do que qualquer outra pessoa; e sabia que o meu desejo imperioso tinha mais a ver com a vontade de estar junto do meu irmão do que com a própria viagem.

Esta é, portanto, uma história de irmãos.

É a história do Micah e de mim, além de ser também uma história da nossa família. Uma história de tristeza e de alegria, de esperança e de solidariedade. É a história das maneiras como nos tornámos adultos, das modificações por que passámos e dos caminhos diferentes que seguimos, mas, conseguindo, de certo modo, tornarmo-nos ainda mais chegados. É, por outras palavras, a história de duas viagens; uma viagem que me levou, e ao meu irmão, a lugares exóticos espalhados pelo mundo, e de uma outra, a de toda uma vida, que nos tornou os melhores dos amigos.

 

Muitas histórias encerram uma lição simples e a história da nossa família não constitui excepção. Para poupar os leitores, faço um pequeno resumo.

Para começar, nós, os filhos, fomos concebidos. A lição, pelo menos segundo a versão da minha mãe católica, é a seguinte:

- Nunca se esqueçam - avisou, - de que, diga a igreja o que

disser, o método do calendário não funciona.

Eu tinha doze anos e fiquei a olhar para ela:

- Está a dizer que todos nós somos “acidentes”?

- Pois estou. Todos, um por um.

- Mas acidentes agradáveis, ou não?

Sorriu.

- Do género mais agradável.

Porém, depois de ouvir esta história, não sabia muito bem o que pensar. Por um lado, era óbvio que a minha mãe não lamentava ter tido filhos. Por outro, ver-me como um acidente, ou poder imaginar que a minha súbita aparição neste mundo se devia a umas taças de champanhe a mais, não era bom para o meu amor-próprio. Mesmo assim, serviu para eu passar a ver as coisas com maior clareza, pois sempre procurara imaginar o motivo que levara os meus pais a não pensarem melhor antes de terem filhos, embora, verdade seja dita, também não tivesse a certeza de que eles estivessem preparados para o casamento.

Os meus pais nasceram no mesmo ano, em 1942, e como tínhamos acabado de entrar na Segunda Guerra Mundial, os meus avós serviram ambos nas forças armadas. O meu avô paterno era oficial de carreira; o meu pai, Patrick Michael Sparks, passou a infância em bolandas, de uma base militar para outra, quase sempre educado pela mãe. Era o mais velho de cinco irmãos, extremamente inteligente e estudou num colégio interno, em Inglaterra, até ser admitido na Universidade de Creighton, em Omaha, Nebraska. Foi ali que conheceu a minha mãe - Jill Emma Marie Thoene.

Também era a filha mais velha. Tinha três irmãos e irmãs mais novos; passou a maior parte dos anos de crescimento em Nebraska, onde adquiriu a paixão pelos cavalos, que iria durar toda a sua vida. O pai era um empresário que no decurso da vida se envolvera em diversos negócios. Quando a minha mãe era adolescente, era proprietário de um cinema em Lyons, vila com umas centenas de habitantes, aninhada ao lado da estrada, no meio de terras de cultivo. De acordo com a minha mãe, o cinema fora uma das razões que a obrigaram a estudar num colégio interno. Segundo queria fazer crer, fora enviada para longe por ter sido apanhada a beijar um rapaz. Porém, quando lhe fiz perguntas acerca do caso, a minha avó rejeitou a história energicamente:

- A tua mãe sempre gostou de contar histórias - revelou. - Era capaz de inventar as coisas mais estranhas, apenas para provocar a reacção dos outros miúdos.

- Sendo assim, por que é que a mandou para o colégio interno?

- Por causa dos homicídios - explicou a avó. - Na altura, foram assassinadas muitas raparigas de Lyons.

Percebi.

De qualquer das formas, quando saiu do internato, a minha mãe matriculou-se na Universidade de Creighton, tal como o meu pai; suponho que foram as similitudes entre as suas vidas que lhes despertaram o interesse mútuo. Qualquer que fosse o motivo, começaram a namorar no primeiro ano e acabaram por se apaixonar. Namoraram pouco mais de um ano e casaram-se a 31 de Agosto de 1963, ambos com 21 anos de idade, antes do início do último ano do curso.

Meses depois, o método do calendário falhou e a mãe aprendeu a primeira das suas três lições. Micah nasceu no dia 1 de Dezembro de 1964. Na Primavera, estava novamente grávida e eu vim a seguir, no dia 31 de Dezembro de 1965. Na Primavera seguinte, ficou grávida da minha irmã, a Dana, e decidiu que, a partir daquela altura, seria ela a encarregar-se do controlo dos nascimentos.

Concluída a licenciatura, o meu pai decidiu-se por um mestrado em gestão, na Universidade de Minnesota e, no início do Outono de 1966, a família mudou-se para perto de Watertown. A minha irmã Dana nasceu, tal como eu, a 31 de Dezembro. A mãe ficou em casa para cuidar de nós, enquanto o marido frequentava a universidade durante o dia para, à noite, servir num bar.

Como os meus pais não podiam pagar rendas altas, vivíamos a vários quilómetros da cidade, numa velha casa rural que, era a minha mãe que o jurava, estava assombrada. Anos mais tarde, contou-me que, a altas horas da noite, costumava ver e ouvir coisas - choros, gargalhadas e conversas murmuradas - mas que, mal se levantava para ver como nós estávamos, os ruídos desapareciam.

Uma explicação razoável era que a mãe sofria de alucinações. Não por ser maluca - a mãe foi provavelmente a pessoa mais estável que conheci - mas por ter passado os primeiros anos de casada num mundo nebuloso de completa exaustão. E não falo daquele tipo de exaustão que alguém consegue remediar se ficar mais algum tempo na cama, durante uns dias. Estou a referir-me a um tipo de total exaustão física, mental e emocional que faz a pessoa ter o aspecto de quem foi obrigado a andar às voltas, preso pelas orelhas, antes de ser deixado cair na mesa da cozinha, mesmo em frente da família. A sua vida deve ter sido um verdadeiro inferno. Com 25 anos de idade e três filhos que ainda usavam fraldas de pano, ficou completamente isolada durante dois anos, se exceptuarmos as visitas que a mãe lhe fez. Não havia familiares próximos para darem uma ajuda, éramos pobres e vivíamos no meio de coisa nenhuma. A mãe nem podia aventurar-se numa ida à cidade mais próxima, pois o pai levava o carro para a universidade e para o emprego. Acrescente-se um par de invernos do Minnesota, em que a neve chegou, literalmente, ao telhado, subtraia-se a eterna falta de tempo do marido, some-se o choro e os gritos intermináveis de bebés e crianças que mal andavam, e nem assim poderemos imaginar como a minha mãe se sentiria desesperada. Do meu pai não podia esperar muitas ajudas; naquela altura da vida, ele não estava em condições de a ajudar fosse no que fosse. Muitas vezes tenho pensado nos motivos que o levavam a não procurar um emprego normal, mas ele apenas fazia o que podia para conciliar o trabalho, a frequência das aulas e o tempo de estudo. Saía de casa logo pela manhã e regressava bastante depois de toda a família ter ido para a cama. Portanto, excluindo os três filhos pequenos, a mãe não tinha mais ninguém com quem conversar. Devia passar dias, ou talvez semanas, sem conseguir participar de uma única conversa entre adultos.

Por ser o mais velho, a mãe atribuía ao Micah responsabilidades excessivas para tão tenra idade, responsabilidades que eu nunca pensaria atribuir a um dos meus filhos. A minha mãe sempre procurou meter na cabeça dos filhos os antigos valores do Médio Oeste, pelo que as obrigações do meu irmão mais velho não tardaram a ser impostas: “Haja o que houver, tens a obrigação de tomar conta do teu irmão e da tua irmã”. E, embora só tivesse três anos, ele conseguiu. Ajudou a dar-nos de comer, a mim e à minha irmã, deu-nos banho, guiou os nossos passos incertos através do quintal da casa. Nos álbuns da família existem fotografias de Micah a embalar a irmã e a dar-lhe o biberão, apesar de ser pouco maior do que ela. Acabei por compreender que ele até foi beneficiado pela situação, pois não se perde nada com a prática do sentido de responsabilidade. Não é um sentimento que apareça de súbito, só por termos necessidade dele. Contudo, penso que, por ser frequentemente tratado como adulto, Micah se convenceu de que era adulto e que tinha certos direitos. Suponho que a situação lhe criou um sentimento quase adulto de teimosia, que se manifestou muito antes de ele ir para a escola.

Efectivamente, a minha mais antiga lembrança envolve o meu irmão. Eu tinha dois anos e meio, Micah era um ano mais velho, estávamos num fim-de-semana do final do Verão e a erva tinha mais de trinta centímetros de altura. O meu pai preparava-se para a cortar e já tinha retirado o aparador do barracão. Acontece que o meu irmão era doido pelo aparador de relva e lembro-me vagamente de o ouvir pedir ao pai que o deixasse cortar as ervas, muito embora não tivesse força suficiente para empurrar a máquina. O pai recusou, mas o meu irmão, com os seus quinze quilos de peso, não conseguia ver a lógica da situação. Nem, segundo me disse mais tarde, estava disposto a conformar-se com um tal disparate.

Nas suas próprias palavras:

- Decidi fugir.

Pois, sei o que estão a pensar. Com três anos e meio, nunca poderia ir longe. O meu filho mais velho, o Miles, quando tinha a mesma idade também costumava ameaçar-nos com a fuga, o que nos levou, à Cathy e a mim, a responder-lhe: “Avança. Mas tens de ter a certeza de não passar da esquina”. Sendo uma criança meiga e tímida, Miles nunca passaria além da esquina, até onde eu e a mãe o podíamos vigiar através da janela da cozinha.

Mas o meu irmão era diferente. O seu raciocínio deveria ser mais ou menos este: “Vou fugir para bem longe e, como costumo tomar conta dos meus irmãos, acho que tenho de os levar comigo”.

E assim fez. Meteu a nossa irmã, de apenas dezoito meses, no carrinho, pegou-me na mão e, escondendo-se com as sebes para escapar à detecção dos nossos pais, começou a conduzir-nos para a vila. A vila, é bom que se diga, ficava a três quilómetros de distância e o único caminho para lá chegar obrigava ao atravessamento de uma estrada com duas faixas de rodagem.

E quase conseguimos. Recordo-me de caminhar por entre os campos com ervas da minha altura, a observar a explosão de cores das borboletas naquele céu de Verão. Pareceu-nos que estávamos condenados a caminhar eternamente, mas conseguimos atingir a estrada. E ficámos ali, na berma da estrada - três crianças de menos de quatro anos e, note-se, uma delas ainda de fraldas - atingidos por poderosas deslocações de ar provocados pelos camiões e automóveis que passavam por nós a mais de cem quilómetros por hora, a pouco mais de cinquenta centímetros de distância. Recordo-me do meu irmão ter dito: “Quando eu te disser, tens de correr depressa”, dos sons das buzinas e do guinchar de pneus que se seguiram à ordem de “Corre!”, dos meus passos incertos ao atravessar a estrada, a tentar acompanhá-lo.

Depois disso, as recordações são menos nítidas. Lembro-me de me sentir cansado e de ter fome, e de acabar por subir para o carrinho onde ia a minha irmã, enquanto Micah nos arrastava, como um chefe de matilha a arrastar o trenó através das neves do Alasca. Era giro, era uma aventura. E, apesar de tudo, sentia-me em segurança. Micah tomaria conta de mim e a nossa mãe nunca deixava de me ordenar: “Faz o que o teu irmão mandar! “

Já então, fazia o que me mandavam. Ao contrário do meu irmão, cresci a fazer o que me mandavam.

Recordo-me de que, algum tempo depois, atravessámos uma ponte e subimos um monte; uma vez chegados lá acima, avistámos o vale onde se espraiava a vila. Anos mais tarde, apercebi-me de que devemos ter caminhado durante várias horas, pois pernas pequenas como as nossas não conseguiriam grandes velocidades; também me recordo vagamente de o Micah nos prometer um gelado. Foi então que ouvimos os gritos e, olhando por cima do ombro, vi a nossa mãe, a correr pela estrada acima. Gritava-nos que parássemos, ao mesmo tempo que brandia o mata-moscas por cima da cabeça.

Era o instrumento que usava para nos castigar. O mata-moscas!

O meu irmão odiava o mata-moscas.

Micah era, sem sombra de dúvida, o alvo mais frequente do mata-moscas. A mamã gostava do objecto pois, embora fizesse barulho, não magoava verdadeiramente quando batia por cima da fralda ou das calças. O que interessava era o som, cada pancada parecia o rebentar de um balão; ainda hoje, sinto uma espécie de sentimento de vingança quando o uso em casa para matar insectos.

Não foi preciso muito tempo para que Micah tentasse uma nova fuga. Meteu-se num sarilho qualquer, mas desta vez foi o papá que resolveu utilizar o mata-moscas. Por aquela altura, o Micah já estava farto daquele tipo de castigo e, por isso, quando viu que o pai ia pegar no mata-moscas disse com firmeza:

- Não vai bater-me com isso!

O pai voltou-se, de mata-moscas em punho e esse foi o momento que Micah escolheu para arrancar. Sentado na sala, vi o meu irmão de quatro anos passar a correr por mim, vindo da cozinha, e lançar-se escada acima, com o pai a persegui-lo a curta distância. Ouvi os sons de pés no primeiro andar e apercebi-me de que no quarto o meu irmão se entregava a diversas acrobacias desconhecidas, para, momentos depois, zarpar escada abaixo, passar novamente por mim, seguindo para a cozinha até sair pela porta das traseiras, correndo com uma velocidade que eu nunca lhe conhecera.

A soprar com falta de ar - fumou durante toda a vida - o papá desceu a escada de roldão e foi atrás dele. Durante horas, não vi nenhum deles. Depois de escurecer, quando já estava na cama, vi a mamã a trazer o Micah para o nosso quarto. Depois de o deitar e lhe ajeitar a roupa, beijou-o na face. Apesar da escuridão, notei que ele estava nojento; cheirava a poeira e parecia ter passado as últimas horas debaixo da terra. Logo que a mãe saiu, perguntei ao Micah o que tinha acontecido.

- Disse-lhe que ele não ia bater-me com aquilo - respondeu.

- E bateu?

- Não. Não conseguiu agarrar-me. E depois não foi capaz de me encontrar.

Sorri, a pensar: “Eu sabia que conseguias.”

 

O telefone tocou uns dias depois de eu ter enviado as informações sobre a excursão ao Micah. Estava no escritório, sentado à secretária, a lutar com outro dia de escrita difícil e o meu irmão começou a falar mal levantei o auscultador.

- Esta viagem é... espantosa! - exclamou. -já viste bem aonde vamos? Vamos à ilha de Páscoa e ao Camboja! Visitamos o Taj Mahal! Vamos ao deserto australiano!

- Eu sei. Não é fantástico?

- Mais do que fantástico. É esmagador! Reparaste que vamos viajar num trenó puxado por cães, na Noruega?

- Sim, eu sei...

- E passear em cima de elefantes, na índia!

- Eu sei...

- E vamos a África! À África, meu Deus!

- Eu sei...

- Vai ser fantástico!

- Presumo que a Christine disse que podias ir?

- Eu disse-te que ia.

- Eu sei. Mas a Christine aprova a ideia?

- Não se pode dizer que esteja muito entusiasmada, mas concordou. Quero dizer... África! Índia! Camboja! Com o meu irmão? O que é que ela havia de dizer?

Podia ter dito que não, pensei. Tinham dois filhos: Peyton, com apenas dois meses, e Alli, com nove anos; e Micah estava a planear uma viagem a começar menos de um mês depois do primeiro aniversário de Peyton. Contudo, como acontecia com Cathy, eu tinha a certeza de que Christine percebera que Micah precisava de estar comigo, tanto quanto eu precisava de estar com ele, embora por razões diferentes. Como irmãos, tínhamo-nos habituado a depender um do outro em alturas de crise, uma dependência que ainda se tornara mais intensa quando crescemos. Apoiávamo-nos mutuamente quando enfrentávamos problemas de ordem emocional, vivíamos os bons e os maus momentos de cada um. Aprendêramos muito acerca de cada um de nós e, embora seja normal a existência de intimidade entre irmãos, comigo e com o Micah o sentimento era ainda mais profundo. O som da voz dele nunca deixava de me recordar da infância que passámos juntos, o seu riso provocava o inevitável ressurgir de memórias distantes, imagens de há muito esquecidas que emergiam sem aviso, como bandeiras agitadas pela brisa.

- Nick? Está? Ainda estás aí?

- Sim, estou aqui. Estava só a pensar.

- Sobre o quê? Sobre a viagem?

- Não - confessei. - Estava a pensar sobre as nossas aventuras de miúdos.

- Em Minnesota?

- Não. Em Los Angeles.

- Como é que foste recordar-te disso?

- Não sei muito bem - admiti. - Acontece, por vezes.

 

Em 1969, trocámos os invernos rigorosos de Minnesota por Inglewood, na Califórnia. O

papá fora aceite para fazer o programa de doutoramento na Universidade do Sul da Califórnia e mudámo-nos para uma espécie de bairro social. Incrustada no centro de Los Angeles, a comunidade onde vivíamos ainda tinha presentes as terríveis memórias dos motins de Watts, em 1965. Éramos uma das poucas famílias brancas no prédio degradado de apartamentos, a que chamávamos lar, sabendo que os nossos vizinhos mais próximos incluíam prostitutas, traficantes de drogas e membros de bandos de rua.

Era uma casa minúscula, com dois quartos, sala e cozinha, mas tenho a certeza de que a mamã a considerava uma enorme melhoria em relação à vida que levara em Minnesota. Mesmo que continuasse longe do apoio dos familiares, pela primeira vez, em dois anos, tinha vizinhos com quem podia falar, mesmo que fossem diferentes das gentes com quem fora criada em Nebraska. Também podia deslocar-se à loja e comprar as mercearias ou, pelo menos, sair de casa e ver sinais de vida humana.

É normal que os filhos olhem os pais com reverência e eu, em criança, não era diferente. Com olhos castanhos-escuros, cabelo escuro e pele leitosa, achava a minha mãe bonita. Apesar das dificuldades que enfrentámos em pequenos, não me recordo de ela ter descarregado as suas frustrações sobre os filhos. Era uma daquelas mulheres nascidas para ser mães e amava os filhos incondicionalmente; em muitos aspectos, nós éramos toda a sua vida. Sorria mais do que qualquer outra pessoa que conheci. Não com esses sorrisos postiços, que parecem forçados e nos causam calafrios. Os sorrisos da mamã eram genuínos e despertavam-me o desejo de me aninhar nos seus braços, que estavam sempre abertos para nós.

O meu pai, pelo contrário, de certa maneira permanecia um mistério para mim. De cabelo louro arruivado, tinha sardas e fazia queimaduras de sol com facilidade. Entre nós, era o único apreciador de música. Tocava harmónica e guitarra, além de assobiar compulsivamente quando se sentia cansado, o que parecia estar sempre a acontecer. Não que o pudéssemos censurar. Em Los Angeles adoptara a mesma rotina que tinha em Minnesota: aulas, estudo e trabalho nocturno como porteiro e barman, para que pudéssemos satisfazer as necessidades básicas da vida. Mesmo assim, para equilibrar o orçamento, tinha de contar com a ajuda dos pais dele e da mulher.

Quando estava em casa, era vulgar estar preocupado a ponto de parecer ausente. A memória mais constante que guardo do meu pai é de o ver sentado à mesa, de cabeça inclinada para um livro. Um verdadeiro intelectual, não era o género de pai que gostasse de brincar com filhos, de andar de bicicleta ou dar passeios a pé; como, porém, nunca vivemos experiências diferentes, também não nos preocupávamos. Pelo contrário, o seu objectivo, pelo menos para nós, os filhos, era ser o ganha-pão e o disciplinador. Quando passávamos das marcas, o que acontecia com excessiva frequência, a mamã ameaçava-nos de que informaria o papá, logo que ele chegasse a casa. Não sei por quê, mas a simples ameaça deixava-nos aterrados; suponho que tal acontecia por não o conhecermos bem.

Os anos passados em Minnesota tinham cimentado a amizade entre os irmãos. Durante anos, Micah, Dana e eu éramos os únicos amigos com que cada um de nós podia contar, uma situação que se manteve em Los Angeles. Partilhávamos o mesmo quarto, brincávamos com os mesmos brinquedos e estávamos quase sempre juntos. Nas manhãs de sábado, enroscávamo-nos à volta do televisor para vermos desenhos animados e podíamos passar horas a fio a imitar personagens da agora defunta série de cowboys, de Johnny West. Entre os bonecos tínhamos figuras de acção, como o G.I. Joe, a Família West (Johnny, Jane e os miúdos), soldados (General Custer e o Capitão Maddox), um foragido (Sam Cobra) e índios (Geronimo, Chefe Cherokee e Aguja Lutadora), além de fortes, vagões do Oeste, cavalos e manadas de vacas. Ao longo dos anos, devemos ter juntado três ou quatro exemplares de cada componente dos jogos. Brincávamos com as figuras, incluindo-as em aventuras sucessivas, até se desfazerem.

Como a minha irmã era a mais nova, ficava mais em casa a fazer companhia à mãe, enquanto Micah e eu começámos gradualmente a descobrir o mundo exterior. Os nossos pais pareciam acreditar - com bastante ingenuidade, penso eu - que, juntos, estaríamos em segurança, quaisquer que fossem os perigos da rua e começaram a deixar-nos explorar as proximidades da casa antes de eu chegar aos cinco anos. A única exigência era estarmos em casa à hora do jantar. Nem o papá nem a mamã se deram ao trabalho de estabelecer limites geográficos para as nossas excursões, desde que cumpríssemos a nossa parte; aquela liberdade foi aproveitada ao máximo. Eu ia para onde o meu irmão fosse, sempre atrás dele, com o Micah a ser cada vez mais o meu herói. Passámos as tardes a explorar edifícios de apartamentos a cair, ou a confraternizar com as raparigas da vizinhança, que estacionavam nos passeios a incentivar os possíveis clientes. Passámos horas sem fim a observar rapazes que reparavam carros no parque de estacionamento, outras vezes sentávamo-nos nas escadas com vários bandos de rapazes que bebiam cerveja e se entretinham com as namoradas. Era divertido, havia sempre alguma coisa para ver ou para fazer e por vezes ouviam-se tiros, mas longe. Não me lembro de nos termos assustado com eles.

Por qualquer razão, estávamos em segurança naquele bairro. Suponho que toda a gente, incluindo os membros dos bandos, sabia que não representávamos qualquer ameaça e que possivelmente éramos ainda mais pobres do que eles. Éramos desesperadamente pobres. Em miúdos fomos criados com leite em pó, batatas e papas de aveia. Só quando fui para a escola é que aprendi que no estado natural o leite é um líquido. Nunca comíamos fora, não visitávamos museus, não íamos a bailes, nem ao cinema. O carro que o papá comprou para ir para o trabalho e para a universidade custou menos de cem dólares. Quando fomos para a escola, tínhamos umas botas e um par de calças por ano; quando se rompiam, a mamã colocava-lhes um remendo; e ia pondo sempre mais remendos, até as nossas calças parecerem ter sido munidas, na origem, de joelheiras. Os poucos brinquedos, quase só Tinkertoys, Lincoln Logs e as figuras da Família West, já mencionadas, eram prendas de anos ou de Natal; habituámo-nos a não pedir nada que víssemos quando íamos ao supermercado com a mamã.

Só agora me apercebo de que provavelmente vivíamos abaixo da linha de pobreza. É certo que, na altura, não sabíamos disso e, para ser franco, não estávamos interessados em sabê-lo. E a mamã não aceitava quaisquer das nossas queixas. Era uma adepta intransigente da firmeza. Detestava lamúrias, detestava queixas, detestava desculpas e sempre procurou erradicar estes traços da personalidade dos filhos. Se alguma vez disséssemos qualquer coisa do género “Mas eu quero aquilo!”, obtínhamos sempre a mesma resposta. Encolhia os ombros e dizia calmamente: “Recolhe as garras, tigre. O que desejas e o que apanhas são quase sempre duas coisas completamente distintas”.

As suas opiniões acerca da “firmeza” fariam tremer muitos dos pais dos nossos dias. Quando o Micah foi para a escola, por exemplo, o transporte em autocarros escolares estava a ser usado para forçar a integração racial nas escolas urbanas. Resultado: não podia frequentar a escola que existia na rua onde morávamos; em vez disso, tinha de caminhar quase dois quilómetros até à paragem do autocarro, atravessando avenidas com tráfego intenso e bairros onde imperava a violência, sem contar com um atalho que atravessava uma lixeira. No primeiro dia da escola infantil, a mamã acompanhou-o até à paragem do autocarro; no dia seguinte, foi sozinho. Passada uma semana, queixou-se à mamã de que umas raparigas mais crescidas, talvez do sétimo ano, o tinham encurralado na lixeira e lhe tinham roubado o dinheiro para o leite. E tinham-no ameaçado: se não lhes levasse uma moeda de cinco cêntimos em cada dia, batiam-lhe.

- Disseram que me darão uma tareia das grandes! - concluiu Micah, a chorar.

Um pai ou uma mãe têm diversas maneiras de tratar uma situação deste tipo. Por exemplo: a mamã podia começar a acompanhá-lo regularmente à escola, ou acompanhá-lo um dia, enfrentar as raparigas e ameaçá-las com a polícia se ocorresse outro incidente. Podia procurar saber quem eram os pais delas e falar com eles ou encontrar alguém que desse uma boleia ao filho. Talvez até pudesse falar com alguém da escola.

Nada que se ajustasse à mamã. Em vez disso, depois de Micah ter contado a sua história, levantou-se da mesa e ausentou-se da sala durante alguns minutos. Quando regressou, trazia na mão uma velha lancheira, ferrugenta e amolgada, que tinha usado na infância.

- Amanhã, meto-te o almoço aqui dentro, em vez de o levares num saco de papel - começou, - e se elas tentarem tirar-te o dinheiro, toma balanço e bate-lhes com isto. Assim...

Erguendo o braço como se fosse uma domadora de leões, começou a descrever círculos largos com a lancheira, a demonstrar como se fazia, enquanto o Micah se mantinha sentado, a observar.

No dia seguinte, o meu irmão de seis anos de idade, a transportar a velha lancheira, marchou a caminho da escola. E, como tinham ameaçado fazer, as raparigas cercaram-no quando ele se recusou a dar-lhes a moeda exigida. Quando a primeira avançou, Micah fez exactamente com a mãe lhe tinha ensinado.

Nessa noite, no quarto, Micah relatou-me o que tinha acontecido.

- Rodei com quanta força tinha - explicou.

- Não estavas com medo?

Acenou que sim, de lábios cerrados.

- Mas continuei a rodar a lancheira e a bater-lhes até fugirem, a chorar.

Resta acrescentar que as raparigas não voltaram a incomodá-lo.

 

Em 1971, voltámos a mudar de casa, desta vez para Playa del Rey, outro bairro de Los Angeles. Por motivos óbvios (os tiros nocturnos começaram a soar excessivamente perto), os nossos pais acharam que o local era mais seguro para nós do que Inglewood.

Entretanto, eu tinha iniciado a pré-primária mas, como havia um

ano a separar-nos e a cidade de Los Angeles prosseguia a mesma política de transportes escolares, eu e o Micah ficámos em escolas diferentes. Se os alunos da minha turma se pareciam com os que se poderiam encontrar num subúrbio de uma cidade de Iowa, Micah era levado para uma escola da cidade, sendo a única criança branca da turma.

Apesar disso, passávamos as tardes juntos e a fazer o mesmo que fazíamos em Inglewood, como um par de miúdos sem medo do mundo. Saíamos do nosso complexo de apartamentos e íamos para onde nos apetecia, durante horas; caminhávamos vários quilómetros até à marina, onde ficávamos a admirar os barcos ancorados, ou subíamos pelos pilares dos viadutos da estrada, ou pelos postes da electricidade, à procura de ovos de pássaros, quando não decidíamos explorar casas vagas, desmoronadas ou queimadas pelo fogo à procura de qualquer coisa interessante que tivesse sido abandonada. Outras vezes, seguíamos pelas traseiras do nosso complexo de apartamentos, atravessávamos umas quantas avenidas e saltávamos algumas cercas para visitar a escola secundária. No final da tarde, o local costumava estar vazio e nós adorávamos os grandes espaços ao ar livre, muito mais vastos do que os das nossas escolas elementares. Corríamos, jogávamos às escondidas ou limitávamo-nos a percorrer os corredores a espreitar as salas vazias. Um dia, descobrimos um corvo em cima de uma árvore e ficámos logo cativados. Começámos a segui-lo enquanto saltava de uma árvore para outra. Depois desse dia, sempre que íamos até à escola, procurávamos o corvo e quase sempre o encontrávamos. Depois de o chamarmos durante um bocado, íamos fazer qualquer outra coisa. Porém, não tardávamos a avistar novamente o corvo numa das árvores próximas do lugar onde de momento estivéssemos a brincar. Passado pouco tempo, não havia lugar da escola onde não víssemos o corvo. Andava sempre à nossa volta. Depressa nos apercebemos de que o corvo nos seguia.

Começámos a dar-lhe comida. Se lançássemos umas migalhas para o chão, o corvo mergulhava, comia e voava para a árvore. Pouco a pouco, começou a demorar-se o suficiente para permitir a nossa aproximação. Depois, começámos a trazer-lhe passas e a ave passou a confiar mais em nós. Chegámos ao ponto de pormos a passa de uva ao alcance da mão e o corvo não hesitava e vinha comê-la. Para nosso espanto, o pássaro tinha-se tornado uma espécie de animal doméstico e começámos a pensar nele como tal. Levámos a máquina fotográfica da mamã e conseguimos grandes planos do corvo, que mostrávamos, cheios de orgulho, depois de as fotografias terem sido reveladas. E até lhe demos um nome: Blackie. O Blackie era formidável. O Blackie era giro. O Blackie, viemos depois a descobrir, era um monstro.

Tão interessados no corvo, viemos a descobrir que ele estava ainda mais interessado em nós. Especialmente no nosso cabelo. Como éramos louros, os nossos cabelos brilhavam ao sol e os corvos, segundo aprendemos mais tarde, adoram tudo o que brilha. Os corvos também constroem ninhos. Juntando as duas coisas, pode imaginar-se o que aconteceu de seguida.

Uma tarde, estávamos na escola quando, de repente, o Blackie veio a voar na nossa direcção, mergulhando sobre as nossas cabeças, uma e outra vez, obrigando-nos a fugir. O Blackie seguiu-nos. A envergadura das asas do corvo parecia ter aumentado extraordinariamente de um dia para o outro; não tardámos a ter de correr, a gritar para salvarmos a vida, enquanto o Blackie zunia por cima das nossas cabeças. Escondemo-nos durante algum tempo perto de umas máquinas, a tentarmos descobrir a maneira de voltarmos para casa; acabámos por sair do esconderijo e, vendo o caminho livre, corremos para casa.

Não conseguia acompanhar a passada do Micah e pouco a pouco fui ficando para trás. Num instante, o Blackie mergulhou e pousou na minha cabeça, a coisa mais aterradora que alguma vez acontecera na minha ainda curta vida. Entrei em pânico, incapaz de respirar ou de mover qualquer músculo. Sentia as garras do corvo a rasgarem-me a cabeça e, como que para aumentar o horror, a ave começou a vibrar-me fortes bicadas, com a cabeça a descer e a subir como as bombas dos poços de petróleo de Oklahoma. Gritei. O Blackie bicou com mais força. E assim continuou: bicada, grito, bicada, grito, bicada, grito, bicada, grito. Era como se o corvo tentasse por todos os meios abrir-me um buraco na cabeça para me sugar os miolos.

Recordo-me vagamente de ver o meu irmão voltar para trás, lá de longe, pois só se apercebera do regresso do corvo depois do meu primeiro grito. Rodando sobre os calcanhares, Micah correu para mim, gritando-me que me defendesse da ave, mas eu sentia a cabeça oca e ficara imobilizado. Tudo o que conseguia fazer era ficar para ali, com o Blackie a matar-me, bicada a bicada.

É claro que Micah soube o que devia fazer. A gritar e a agitar os braços energicamente, conseguiu que a demoníaca ave deixasse de me bicar o couro cabeludo. Depois, como o Blackie continuou a mergulhar sobre nós, Micah despiu a camisa e agitou-a à nossa volta, como se fosse uma bandeira. Finalmente, o Blackie refugiou-se nas árvores.

No caminho para casa senti-me embaraçado por ter tido tanto medo. O Micah não tivera medo. O Micah tinha tratado do Blackie quando eu entrei em pânico. O Micah lutou, enquanto eu me deixei ficar paralisado. Acabei por crer que, ao contrário de mim, o Micah podia fazer tudo o que fosse preciso. E, enquanto me esforçava por lhe acompanhar a passada, desejei, mais do que nunca, ser exactamente como ele.

 

Depois de confirmados os lugares na excursão à volta do mundo, eu e o Micah entregámo-nos aos necessários preparativos. Entre outras coisas, precisámos de diversas vacinas, incluindo as da febre amarela e das hepatites A e B, bem como os passaportes e vistos para a índia, Etiópia e Camboja.

Com a Primavera a acabar para dar lugar ao Verão, falei muitas vezes com o meu irmão, mas, fenómeno estranho, quanto mais falávamos mais divergiam as nossas expectativas a respeito da aventura que se aproximava. Enquanto o Micah demonstrava um entusiasmo crescente em relação aos lugares que íamos visitar, eu ficava cada vez mais ansioso por causa da partida; quando me ligava para falar da viagem, eu dava comigo a evitar o assunto.

Chamem-lhe o arrependimento do consumidor, mas, gradualmente, fui encarando a ideia de que cometera um erro ao decidir comprar a viagem. Por mais excitante que a ideia fosse, por mais que desejasse visitar todos aqueles lugares, não me imaginava a andar por fora durante semanas. Entre o trabalho e a família, parecia-me que, desde há séculos, nunca me sobrara tempo para nada. Se a minha casa era um lugar caótico, a minha carreira era ainda mais atarefada; a ideia de viajar por prazer não só me aumentava a ansiedade, como também me fazia sentir complexos de culpa. Se podia dispensar um mês, por que não passá-lo com os miúdos? Ou com a minha mulher? Se o tempo mal chegava para tudo, como diabo podia pensar em ficar um mês por fora, em viagem de turismo.

Naquela viagem, tudo me parecia errado. Porém, se soubessem a situação em que eu estava em 2002, os leitores compreenderiam os motivos da minha preocupação.

Gosto de pensar que a vida é como uma corrente de água, com rápidos e quedas de água. Na vida de qualquer pessoa existem períodos em que tudo parece flutuar calmamente. Seguimos na nossa canoa, a remar sem pressas, a apreciar a paisagem. Um dia corre para o seguinte, faz-se o que é preciso e, sem se saber bem como, ainda resta tempo para descansar. Depois, a corrente começa a fluir mais depressa, ainda é possível controlar tudo, mas já é necessário um pouco mais de esforço. A seguir, vêm os rápidos e, de súbito, tudo se torna mais difícil. Pode surgir um novo projecto de trabalho, talvez adoeça uma pessoa de família, podemos ter de nos mudar ou ser despedidos do emprego. Quaisquer que sejam as razões, nestes períodos só pensamos em dirigir a canoa, em nos mantermos a flutuar. De

manhã, logo ao acordarmos, sentimos que já estamos atrasados, pois, para fazer tudo o que é necessário, cada dia é uma nova correria frenética, um novo contra-relógio. E, depois, os rápidos fazem-nos correr ainda mais depressa, temos de ir com a corrente. “Temos de”, “precisamos de”, “não temos escolha”. Continuamos em frente, sempre em frente. Lá mais adiante, ouve-se o estrondear da catarata e convencemo-nos de que só nos resta remar ainda com mais energia. Temos de passar por aqueles rápidos e, seja como for, atingir águas calmas. A não ser assim, vamos ser engolidos pela catarata.

Era aí que eu estava no ano de 2002: no meio dos rápidos, a manobrar com frenesim, com a catarata a aproximar-se. Mentalmente. Fisicamente. Emocionalmente. E já por ali andara nos três anos anteriores.

Não me orgulho disso. Não é um sinal de êxito. É uma vida sem qualquer equilíbrio e, a longo prazo, a catarata acabará por nos apanhar. Agora sei isso. O problema é que não o sabia naquela altura.

No entanto, a minha mulher compreendeu a situação. Cat é uma daquelas pessoas para quem é fácil manter o equilíbrio. Não é apenas uma mãe atenciosa, pois tem dezenas de amigas com quem fala regularmente. É dedicada à família e, no entanto, ocupada como estava (cinco filhos, três deles com menos de dois anos, são o suficiente para manter qualquer mãe ocupada), passava os seus dias sem aquele sentimento de aflição a que eu não conseguia escapar. Ela, mais do que ninguém, sabia que eu necessitava de um escape; também sabia que a minha inclinação natural seria negar que precisava dele e que, de repente, arranjaria uma desculpa para não fazer a viagem. Ou pior: recusar-me-ia a desfrutá-la, mesmo se fosse.

Uma noite, já deitada, fez-me perguntas acerca da viagem e voltei a resmungar as minhas dúvidas sobre o assunto.

Virou-se na cama e olhou-me de frente:

- Vais divertir-te - salientou. - E precisas de ir. Nunca fizeste nada de semelhante.

- Eu sei. Mas, na realidade, a altura não é boa.

- A altura boa nunca chegará. Vais estar sempre muito ocupado.

Faz parte do teu carácter.

- Não faz nada.

- É claro que faz. De facto, nunca te permites pensar em não

estares muito ocupado.

- Só nos últimos dois anos.

Cathy abanou a cabeça:

- Não, meu querido. Andaste sempre muito ocupado, desde que

te conheço. Não podes passar sem isso. - Achas que não?

- Acho.

Pensei melhor:

- Nos próximos dois anos vou estar realmente muito ocupado.

Mas, depois, vou trabalhar menos. Dentro de uns dois anos, acho que

terei tempo para uma viagem destas.

- Disseste o mesmo há uns dois anos.

- Disse?

- Pois disseste.

Fiz uma pausa.

- Acho que estava enganado. Mas, desta vez, tenho a certeza de que não estou.

Ao meu lado, ouvi a minha mulher suspirar.

A despeito das palavras dela, a sensação de angústia que sentia tornou-se ainda maior com a aproximação do Outono. O Micah, tal como a minha mulher, sentiu a minha hesitação ao falarmos pelo telefone e começou a ligar-me com maior frequência, fazendo o que podia para me animar.

- Olá, Nick! - dizia-me ao telefone. - Recebeste a encomenda que a TCS nos mandou?

A TCS era a agência de viagens encarregada da excursão. Estava no escritório, a trabalhar no meu novo romance: Laços Que Perduram; as duas caixas, recebidas havia duas semanas, estavam a um canto; ainda não lhes tocara.

- Recebi, mas ainda não a abri.

- Porquê?

- Ainda não tive tempo.

- Pois bem, arranja-o - redarguiu. - Enviaram um material bem interessante. Mandaram um blusão, uma mochila e uma mala, além de outros utensílios. Há também um itinerário...

- Vou abrir as caixas neste fim-de-semana.

- Devias abri-las já - insistiu. - De facto, penso que já lhes

devias ter enviado um dos atestados médicos. E tens de decidir qual o lugar que desejas visitar na Guatemala. Tens de escolher entre as ruínas e o mercado da cidade. Tens de mandar a informação até ao final da semana.

Fechei os olhos, descontente por ter arranjado mais um motivo de preocupação.

- Está bem. Vou tratar disso esta noite, se puder.

Houve uma longa pausa do outro lado.

- O que é que se passa contigo? - perguntou o Micah.

- Nada - respondi.

- Não pareces muito entusiasmado com isto.

- Mas vou animar. Quando chegar a altura da partida. Ainda não tive tempo para pensar nisso, tenho tido muito trabalho. Ficarei mais entusiasmado com o aproximar da hora da partida. De momento, estou assoberbado de trabalho.

O Micah respirou fundo:

- Estás a cometer um erro.

- O que é que pretendes dizer?

- Ainda não percebeste? - perguntou. - A expectativa é a parte essencial de toda a viagem. A excitação da partida, os lugares a ver, as pessoas que vamos encontrar. Tudo isso faz parte do gozo.

- Eu sei. Mas...

Ele não me deixou prosseguir.

- Não estás a ouvir o que digo, maninho. Nunca te esqueças de que o entusiasmo é uma parte importante da vida. O trabalho é importante, a família é importante, mas, sem entusiasmo, não te fica nada. Se te recusas a antever o gozo, estás a enganar-te a ti próprio.

Fechei os olhos, sabendo que ele tinha razão, mas ainda imerso no mar das minhas obrigações.

- Acontece apenas que, de momento, tenho outras prioridades.

- Essa é uma parte do teu problema - alvitrou, na sua voz calma. - Tens sempre outras prioridades.

 

Enquanto a curiosidade se tornou um dos aspectos regulares do início da vida escolar do Micah, eu descobri que adorava a escola. Tudo foi fácil no meu primeiro ano: a professora era amorosa, os miúdos simpáticos e nada me pareceu difícil de aprender. No entanto, por ser um ano mais velho, o Micah continuava adiantado em relação a mim na maioria das matérias. Ou, pelo menos, eu partia desse princípio.

Os nossos pais inscreveram-nos nos Escuteiros Infantis e um dos nossos projectos foi construir um foguete de madeira, impulsionado por uma carga de COZ e mantido em posição por um arame, que depois pusemos a concurso com outros foguetes feitos por outros escuteiros. O Micah e eu fomos sozinhos até ao centro recreativo, uma caminhada de cerca de três quilómetros, ambos nervosos acerca da nossa participação. O meu foguete perdeu na primeira partida. Mas o Micah ganhou a primeira partida e continuou a ganhar. O seu foguete acabou por ficar em segundo lugar no conjunto das provas, o que me fez sentir simultaneamente orgulho e inveja em relação a ele. Era a primeira vez que experimentava aquele sentimento de inveja em relação ao meu irmão, um sentimento que aumentou quando ele recebeu uma braçadeira vermelha como prémio, por entre grandes aplausos. Apercebi-me de que ele podia fazer tudo melhor do que eu. Entretanto, também recebi uma braçadeira, que foi dada a todos os participantes que, como eu, não se tinham classificado, mas melhor seria que não ma tivessem dado. Ainda estava a aprender letras e sons, já sabia ler palavras pequenas, mas muitas vezes não compreendia as palavras mais compridas. Não fazia ideia do que dizia a braçadeira; só

sabia que tinha sido dada aos escuteiros a quem as provas não tinham corrido bem.

Mesmo assim, fiz um esforço para tentar ler o que dizia a braçadeira. Tinha duas palavras e a primeira era “Menção”. Consegui lê-la sem grande esforço, mas a segunda não fazia muito sentido, pelo que tentei vocalizá-la. Começava por HO, tinha um R no meio, e terminava em SA... Os meus lábios começaram a formar a palavra e, de repente, senti-me desfalecer.

“Oh, não!”, pensei. “Não pode ser...”

Recomecei a tentativa de ler a palavra. Mas não havia dúvidas, estava ali, para toda a gente ver.

A palavra começou a rodar e finalmente entendi. Claro, pensei, fazia sentido. Senti um nó no estômago e quis chorar. Lá longe, no meio dos vencedores, vi o meu irmão a exibir com orgulho o foguete e a braçadeira que ganhara. Quanto aos outros, os que eram como eu, tinham tido a actuação que a braçadeira mencionava. Horrorosa. Tinham-me dado uma braçadeira que dizia “Menção Horrorosa”.

Não me recordo de ter saído de lá mas não me esqueci do regresso a casa. O Micah viu que eu estava perturbado mas continuei a abanar a cabeça sempre que ele me perguntava o que tinha. Finalmente, quando o desgosto se tornou insuportável, atirei-lhe com a braçadeira.

- Vês! - gritei. - A minha prova foi horrorosa. É o que diz a braçadeira.

- A braçadeira não diz isso.

- Então, lê!

Começou a soletrar a palavra, a tentar vocalizá-la, como eu tinha feito; depois, lentamente, olhou para mim, como se também ele estivesse prestes a chorar.

- Não é justo - murmurou.

Oh!... Não! Eu tinha razão. Apercebi-me de que estivera a alimentar a esperança de ter lido mal. De que tinha cometido um erro. Mas não tinha e senti que a barragem que me continha as emoções estava prestes a rebentar.

- Fiz o melhor que podia... Não podia fazer melhor... - tartamudeei e, logo de seguida, comecei a chorar. Sentia os ombros agitarem-se com violência e o Micah a pôr-me um braço à volta dos ombros, chegando-me para ele.

- Eu sei. E o teu foguete não era horroroso.

- Mas eles disseram que era.

- Quem se interessa com o que eles dizem? Eu achei que o teu foguete era um dos melhores.

- Não achaste nada.

- É claro que achei. Fizeste um bom trabalho. Estou orgulhoso pelo teu foguete. E nunca mais volto aos Escuteiros Infantis. Depois do que eles te fizeram, não volto lá.

Nem sei se as palavras dele me fizeram sentir melhor ou pior; só sabia que precisava dele.

Por aquela altura, eu queria pôr a questão para trás das costas, mas o Micah não pensava assim.

- Não posso acreditar que tenham dito que foste horroroso - continuou a resmungar e, de cada vez que o dizia, os ombros tremiam-me ainda mais.

Quando chegámos a casa, encontrámos a mãe na cozinha a preparar o jantar. Voltou-se para nós.

- Olá, pessoal! Como é que correram as coisas?

Durante algum tempo nenhum de nós abriu a boca. O Micah mostrou a braçadeira que ganhara, com a mão em baixo, como que embaraçado.

- Fiquei em segundo lugar - informou.

A mamã pegou na braçadeira e levantou-a bem alto.

- Caramba! Parabéns! Um segundo lugar!

- Quase ganhava - acrescentou o Micah. - Bem, o segundo lugar é fantástico. E tu, Nick?

Encolhi os ombros, sem responder, a tentar conter as lágrimas. A expressão dela suavizou-se.

- Não conseguiste uma braçadeira?

Acenei que sim.

- Conseguiste uma braçadeira?

Voltei a acenar que sim.

- Mas não interessa.

- É claro que interessa. Posso vê-la? - Neguei com a cabeça. - Por que não, meu amor?

- Porque - acabei por dizer, começando a ir-me abaixo. - Diz

que eu fui horroroso!

Cerrei as pálpebras numa vã tentativa de as conter, mas as lágrimas irromperam.

- Não diz nada disso - informou a mamã.

- Diz, diz sim senhora - interrompeu o Micah. - Diz que foi horroroso.

Comecei a soluçar ainda mais e a mamã abraçou-me.

- Posso vê-la?

Talvez fosse a segurança que sentia nos braços da minha mãe, mas acabei por reunir a coragem de meter a mão no bolso para tirar de lá a braçadeira amachucada. A mamã deu-lhe uma olhadela e usou um dedo para me obrigar a levantar o queixo para ela.

- Não diz horrorosa - informou. - O que aqui está escrito é honrosa. Isto é bom, doçura. Diz aqui que ficaram satisfeitos com o teu trabalho. Fizeste um trabalho honroso.

De princípio, não tive a certeza de estar a ouvir bem. Porém, passados momentos, quando ela soletrou a palavra, senti-me bastante melhor. No entanto, em parte, preferia nunca ter recebido qualquer braçadeira.

 

Em 1971, a região de Los Angeles foi abalada por uma série de tremores de terra. O primeiro aconteceu a meio da noite e recordo-me de ter acordado e de sentir a cama a tremer violentamente, como se alguém estivesse a tentar fazer-me cair.

A Dana acordou quase ao mesmo tempo e começou a gritar. Eu ouvia o ribombar e o som das paredes a estalar, vi os brinquedos a cair. O chão vibrava, parecia quase líquido e pensei que não fazia ideia do que estava a acontecer. Sabia que não era coisa boa e suspeitei de que corríamos perigo. O Micah também percebeu o mesmo e saltou da cama para nos proteger, a mim e à nossa irmã. Estava a conduzir-nos para o centro do quarto, para nos aconchegarmos, quando o pai entrou de roldão pelo quarto. Estava nu e de olhos esbugalhados. Nenhum de nós o vira nu, pelo que a visão dele enquadrado pela porta foi ainda mais chocante do que tudo o que nos estava a acontecer. A mamã vinha logo atrás mas, ao contrário do marido, vestia uma camisa de dormir. Já dentro do quarto, rodearam-nos e forçaram-nos a ir para o chão, onde ficámos todos, bem juntos. A seguir, na tentativa de nos protegerem do entulho que caía, ambos se deitaram por cima de nós.

O solo continuava a ressoar, as paredes continuavam a oscilar, mas havia algo de calmante no facto de estarmos amontoados, como uma família. Por mais aterradora que a situação me parecesse, recordo-me de que, subitamente, senti que não ia suceder-nos nada de mal e que, não sabia muito bem como, aquele sinal evidente de amor parental e de preocupação connosco seria suficiente para nos proteger. Só quando vi os estragos na televisão é que me apercebi bem da gravidade da situação. Por toda a cidade havia edifícios derrubados e as auto-estradas abriram fendas. A magnitude do sismo foi avaliada em 7,2 da escala de Richter, fazendo dele um dos tremores de terra mais violentos alguma vez sofridos naquela zona.

Para o meu irmão e para mim, o sismo obrigou-nos a inspeccionar pessoalmente os prejuízos, pelo que passámos os dias seguintes a inspeccionar e a procurar, como se fôssemos funcionários da FEMA (Agência Federal de Controlo de Situações de Emergência). Talvez fosse uma maneira de expulsarmos o medo do nosso sistema e, durante o dia, parecia resultar. Porém, à noite, deitados nas camas, sentíamos dificuldade em adormecer e tínhamos pesadelos.

Depois do grande sismo, as réplicas continuaram durante vários dias. A princípio, os nossos pais continuaram a correr para o quarto dos filhos, como tinham feito na primeira noite. Porém, com a continuação das réplicas, a resposta deles tornou-se mais lenta, até que deixaram de vir ver o que se passava connosco. Depois disso, começámos nós a correr para o quarto deles.

No meio de uma nova réplica, voámos para o quarto deles, saltámos como peixes desde os pés da cama e ouvimos o ar escapar-se dos pulmões dos nossos pais quando lhes aterrámos em cima do peito. O papá, obviamente cansado por ser acordado a meio da noite, deu importância à exortação da mamã:

- Faz qualquer coisa, Mike! - e decidiu, de uma vez por todas, pôr cobro à situação. Saltou da cama para o meio do quarto e nu, uma vez mais (mas agora já estávamos habituados a vê-lo assim), começou a executar o que parecia ser uma dança índia a pedir chuva. A agitar os braços acima da cabeça, andava em círculos, e cantava:

- Pára, tremor de terra. Pára, oh, ei, poderoso tremor de terra vai-te embora... - e, no momento em que deixou de andar à roda, repentinamente, o chão deixou de tremer.

Ficámos a olhar para ele, embasbacados. Ainda apavorados, vimo-lo regressar à cama e mandar-nos embora.

Suponho que não é necessário explicar a importância de uma cena daquelas em mentes infantis; depois de termos regressado às nossas camas, o significado tornou-se claro, tanto para o meu irmão como para mim. Coincidência? Julgo que não!

Como o Micah explicou solenemente:

- O papá tem poderes mágicos.

O que, valha a verdade, nos fez olhar para o nosso pai de uma perspectiva completamente diferente, vê-lo a uma nova e excitante luz e, tenho de o dizer, quando voltei à escola não fiz segredo do que acontecera. Os meus colegas de turma também ficaram espantados.

Para além de fazer parar os tremores de terra, o papá também era capaz de fazer parar a chuva. Nem sempre, é bom que se diga; só quando íamos de carro e durante períodos muito curtos de tempo. A intensidade da chuva não era importante, pois, enquanto seguíamos pela estrada, o papá olhava-nos por cima do ombro e por vezes perguntava se estávamos preparados para sentir a chuva parar. Se dizíamos que sim, mandava que fechássemos os olhos, lembrando-nos que não podíamos espreitar, e, no momento certo, ordenava “Pára”, e a chuva deixava de cair. O silêncio era absoluto durante um segundo, não se ouvia a chuva a bater no tejadilho, para, subitamente, recomeçar de novo a bater. Como ele explicava: “Fazer parar a chuva obriga a um enorme dispêndio de energia. Não é coisa que se possa fazer durante muito tempo”.

Uns anos mais tarde, reparei que o meu pai só parecia dispor de tais poderes quando estávamos prestes a passar por debaixo de uma ponte ou de um viaduto.

 

Em 1972, a situação da família começou a mudar. Então, com a minha irmã no jardim infantil, a mamã pôde começar a trabalhar, de modo que, acabada a escola, ficávamos sozinhos. Havia uma vizinha idosa que supostamente tomava conta de nós, mas era raro que o fizesse. Em vez disso, subíamos até ao apartamento dela, dizíamos que já estávamos em casa e não lhe ligávamos mais importância durante o resto da tarde. Uma situação que também lhe convinha. Era uma guardiã do tipo “chamem-me só em casos graves, não quero perder a telenovela” e, além do mais, estávamos tão habituados a ter as tardes por nossa conta que não precisávamos de ter alguém para nos vigiar.

Quando éramos pequenos, tanto eu como o meu irmão sofremos um número extremamente elevado de acidentes, o que não é de surpreender. Quanto a mim, um adolescente partiu-me a cabeça com uma pedrada (o que provocou o envolvimento da polícia e uma visita do meu pai, que ameaçou o dito adolescente com danos físicos importantes se a situação se repetisse), perdi dois dentes quando estava a aprender a andar de bicicleta, magoei os dois pulsos e os dois tornozelos e quase cortei um dedo com um caco de vidro. O meu irmão teve acidentes do mesmo género, mas talvez tenham sido mais frequentes e mais graves.

Mesmo assim, se exceptuarmos as vacinas obrigatórias, raramente fomos levados a médicos ou a dentistas. Quando digo raramente, quero dizer “talvez uma vez, quando havia fortes possibilidades de morrermos”. Tinha dezoito anos quando, pela primeira vez, pus os pés num consultório de dentista. Por vezes, ficava a pensar na quantidade de sangue que seria preciso perder para levar os meus pais a ceder e a decidirem levar-me a um posto médico. Não tinham razões de ordem religiosa para evitarem os tratamentos médicos, apenas pensavam que procurar os cuidados de saúde era não só uma perda de tempo como também incorrer em gastos que eles não tinham capacidade financeira para suportar. Acrescente-se a tudo isto a necessidade de sermos duros e chegámos à situação, eu e o meu irmão, de só vermos médicos na televisão. Recordo-me, por exemplo, de que depois de ter sido atingido pela pedra, fiquei com o rosto literalmente coberto de sangue. Não via bem e mal consegui cambalear até casa.

- Amanhã, estás são que nem um pêro - concluiu a mamã, depois de observar a ferida. - Tens a cabeça dura.

Felizmente, a minha cabeça era realmente dura e conseguiu sarar por si própria.

Contudo, foi por essa altura que a minha irmã sofreu um ataque de epiglotite, uma inflamação potencialmente fatal da epiglote. Nem eu nem o Micah sabíamos exactamente o que estava a acontecer com a nossa irmã naquela manhã; só sabíamos que ardia de febre, estava pálida, delirava e tinha vomitado durante a noite. Os nossos pais, que sabiam distinguir o que era uma verdadeira emergência, apressaram-se a levá-la ao hospital. Infelizmente, na falta de um seguro de saúde, o hospital exigiu um depósito de duzentos dólares, pelo que, depois de lá deixar a família, o papá largou a toda a velocidade, para ir à procura de quem lhe emprestasse aquela importância.

A mamã foi com a Dana para dentro do hospital e mandou que esperássemos junto de uma árvore, à entrada do parque de estacionamento.

- Só podem ir daqui até ali, e ali - apontou, a desenhar uma sebe imaginária com uns quinze metros quadrados. Mesmo naquela idade, reconhecemos o medo na voz da mamã e já tínhamos suficiente sensatez para agir exactamente como ela mandou.

Estava um dia quente, talvez a temperatura rondasse os 38° C. Fomos deixados para li, sem comida nem água e, para afastarmos o calor da ideia, passámos as horas seguintes a trepar à árvore e a caminhar no interior da nossa sebe imaginária. Inventámos um jogo que nos levava até aos limites da vedação imaginária, sem passarmos para lá da linha. A dada altura, tropecei e caí em cima da linha. Recordo que me levantei rapidamente, mas a ideia de ter desobedecido à minha mãe, acrescida do cansaço que ja sentíamos, trouxe-me lágrimas aos olhos. Como sempre, naquele tipo de situações, tinha lá o meu irmão para me confortar; com o braço dele à volta dos meus ombros, resolvemos sentar-nos à sombra, para passarmos o que nos pareciam ser horas intermináveis.

A dada altura, perguntei:

- Achas que a Dana vai morrer?

- Não - respondeu.

- O que é que ela tem?

- Não sei.

- Então, como é que sabes que não vai morrer?

- Porque não vai. Eu sei que não.

Olhei-o de lado.

- A mamã parecia assustada. O papá também.

Concordou com um aceno de cabeça.

- Não quero que ela morra - declarei.

Era a primeira vez que enfrentava uma situação daquelas e senti medo. Como família, tínhamos pouco, mas sempre contáramos uns com os outros. Mesmo sendo mais pequena e não poder, por isso, meter-se em aventuras como eu e o Micah, a Dana estava já a demonstrar alguns dos melhores aspectos da personalidade da mãe. Mostrava-se sempre alegre; soltava gargalhadas, sorria e era a minha melhor amiga, nos dias em que não andava junto do meu irmão. Tal como eu, adorava o jogo de Johnny West e, à noite, passávamos horas a jogar.

Eu e o Micah formávamos um quadro triste e curioso, ali, naquele parque de estacionamento. Pessoas desconhecidas viam-nos logo que saíam dos carros para irem visitar algum doente; voltavam, horas depois, e notavam que continuávamos sentados no mesmo lugar. Houve quem nos oferecesse refrescos e comida, mas abanámos as cabeças e afirmámos que estávamos bem. Havíamos sido ensinados a não aceitar nada de ninguém.

Um pouco mais tarde, quando o meu irmão estava a trepar a árvore, desequilibrou-se e caiu no pavimento. Caiu sobre o pulso e gritou; quando me mostrou o braço, vi que o pulso começava a inchar e a ficar arroxeado. Trocámos impressões, pusemos a hipótese de ele ter o pulso partido. Chegámos a pensar em desobedecer à mamã, em entrar no hospital para lhe contar o que tinha acontecido; não sabíamos se o braço teria de ser engessado.

Contudo, não saímos do mesmo sítio. Não podíamos. No final, acabámos por saber que a minha irmã estava salva e descobrimos que o pulso do Micah tinha uma luxação, não estava partido, mas na altura não sabíamos de nada. Por isso, permanecemos sentados, de coração pesado pelo medo, sozinhos; pouco falámos durante o resto da tarde.

 

Depois de ouvir as recriminações do Micah por não estar a encarar com o devido entusiasmo a ideia de ir viajar à volta do mundo, desliguei o telefone e fiquei a pensar no que o meu irmão acabara de me dizer. No que a Cat andava a dizer-me. No que o meu agente andava a dizer-me. Naquilo que, de facto, toda a gente me dizia acerca da viagem, sempre que eu a mencionava. A despeito dos argumentos lógicos, apesar de a ideia ter sido minha, a perspectiva

de iniciar a viagem continuava a não me provocar qualquer entusiasmo.

Não se dava o caso de eu estar a passar os meus dias num estado de tristeza e abatimento. Para ser franco, andava muito atarefado e retirava uma tremenda satisfação de tudo o que estava a fazer. A minha mulher tinha razão: eu estava muito ocupado por gostar de estar muito ocupado. Cismava que, provavelmente, o meu problema estava no facto de concentrar todas as minhas energias só em três ocupações - pai, marido e escritor - que me deixavam pouco tempo para quaisquer outras actividades. Desde que tudo se enquadrasse naquelas pequenas divisórias, bem arrumadas, que construíra para mim mesmo, eu sentia que dominava a situação. Não me limitava a fazer coisas, sentia-me bem. No entanto, como tudo o que conseguia fazer estava contido naquelas mesmas ocupações, a ideia de ultrapassar os limites das divisórias e fazer coisas novas, como viajar, partir à aventura ou passar três semanas com o meu irmão, não só me parecia impossível, mas também um compromisso de que eventualmente viria a arrepender-me. E num raro momento de claridade, num ano caracterizado pela nebulosidade, de súbito, apercebi-me de que tinha começado a impor-me limites demasiado estreitos.

Se não conseguia encontrar excitação na ideia de fazer uma viagem à volta do mundo, que espécie de pessoa era eu? Nem eu sabia. Só sabia que não queria ficar assim para sempre. De uma forma ou de outra, precisava de readquirir o meu equilíbrio.

Existem, como se sabe, milhares de livros e de programas que nos sugerem métodos para endireitarmos a vida, além de especialistas de todo o género que se gabam de ter as respostas. Porém, instintivamente, quis esclarecer as situações com a única pessoa que tinha vivido as mesmas situações de vida que eu vivera: o meu irmão.

Durante os três últimos anos, o Micah também tivera as suas lutas pessoais, especialmente acerca da fé. Deixara praticamente de rezar e a religião tornara-se um tema em que não se sentia à vontade. A mulher dele, a Christine, dera-me conta das suas preocupações em mais de uma ocasião, pois era devotada às suas crenças cristãs, tal como Micah já fora; lentamente, comecei a compreender que, de certa forma, aquela era uma oportunidade de nos ajudarmos um ao outro. E, assim, comecei a encarar a excursão segundo uma nova perspectiva: seria menos uma viagem à volta do mundo e mais uma viagem para redescobrir quem eu era e as maneiras como me tinha tornado no que era.

Quando reflectia sobre a minha infância, quase sempre a recordava

com uma luz sem sombras, como se as bordas escuras nunca tivessem existido. Ou, a existirem, eram algo de que me podia vangloriar, uma espécie de menções honrosas. Com a passagem dos anos, situações perigosas transformaram-se em anedotas divertidas; momentos dolorosos deram origem a narrativas carregadas de inocência. No passado, quando me perguntavam como eram os meus pais, a resposta habitual era que a minha mãe e o meu pai eram pessoas comuns e normais,

como normal fora a minha infância. Contudo, ultimamente tenho

vindo a aperceber-me de que, embora parcialmente verdadeiros, os meus comentários continham a sua dose de falsidade; e só depois de terem nascido os meus próprios filhos é que comecei a compreender as pressões constantes que afligiam os meus pais. Ter filhos é uma fonte de preocupações e não tenho dúvidas de que os nossos pais, apesar da liberdade que nos concediam, tinham preocupações constantes connosco. Contudo, se criar filhos é uma tarefa difícil, aprendi que o casamento representa um desafio ainda maior e, quanto a isso, o dos meus pais não foi excepção.

No início de 1972, os meus pais lutavam para conservar o lar intacto. Éramos crianças e não nos apercebíamos dos pormenores; só sabíamos que o papá passara a assobiar constantemente, o que era um sinal de mau agouro. No meu pai, o som daquelas melodias sem nome, que subia e descia, representava um primeiro sinal que nós, os filhos, nos habituáramos a detectar, de que ele estava furioso.

Numa segunda fase, resmungava e assobiava enquanto andava em círculos e se recusava a falar fosse com quem fosse. A terceira fase significava o cerrar dos lábios e, na quarta, começava a ficar vermelho. Por vezes, conseguia parar uma eventual progressão para o lançamento da bomba nuclear, mas, se atingia a quinta fase, aquela em que enrolava a língua por cima dos dentes inferiores, de modo a deixá-la fora da boca e mantida naquela posição pelos dentes de cima, os filhos sabiam que chegara a altura de se decidirem: ou fugiam ou escondiam-se. Sabíamos que ia pegar no cinto, que tinha substituído o mata-moscas como instrumento de punição.

Apesar de ainda serem raros, estes momentos estavam a acontecer com frequência crescente. Olhando para trás, não consigo atribuir-lhe as culpas. Em 1963, era um jovem estudante, mal alimentado e recém-casado; nove anos mais tarde, continuava a ser um estudante mal alimentado, mas entretanto contraíra a responsabilidade de prover as necessidades de uma família de cinco pessoas. O trabalho obrigava-o a ir estudando a passo de tartaruga, e tentar escrever uma dissertação com três filhos a usarem o apartamento como espaço de recreio era suficiente para pôr qualquer pessoa maluca.

Por sua vez, a mamã continuava a adorar-nos sem equívocos. Quando a seguíamos até à loja ou quando ela nos levava à igreja, estava sempre disposta a manifestar o seu orgulho perante alguém que estivesse por perto. Era dotada de uma fantástica capacidade para esquecer o quanto, por vezes, conseguíamos ser maus, mas a capacidade de perdoar era temperada pela própria força de vontade que sempre procurara instilar-nos. Por mais bravios que nos tornássemos, por mais que nos afastássemos nas nossas aventuras, para mim e para o meu irmão nunca houve dúvidas sobre quem mandava. Se a mamã nos mandava estar em casa à hora do jantar, nós cumpríamos a ordem. Se nos mandava limpar o nosso quarto, encetávamos a tarefa logo de seguida. E se fizéssemos asneira, ela faria tudo para que corrigíssemos o erro imediatamente. Quando o julgava necessário, defendia-nos como uma fera. Quando a professora deu uma bofetada no Micah, pela tarde, a mamã irrompeu pela escola e arrastou-me, a mim e ao meu irmão atrás dela.

- Se volta a bater num dos meus filhos, chamo a polícia e mando-a prender. Não volte a tocar nos meus filhos.

A caminho da saída, eu e o Micah vínhamos de peito inchado, como dois galos, a pensar: “Toma lá, velha bruxa. A mamã mostrou-te quem é que manda...”

- Mamã, tu és a maior - cantarolou Micah. A mãe voltou-se

para ele e encostou-lhe um dedo na cara.

- Não quero que te passe pela cabeça que eu desconheço o motivo

por que ela te bateu. Se calhar, mereceste a bofetada. E se alguma vez

voltares a falar com ela no mesmo tom, eu me encarregarei de te

demonstrar o que é levar uma verdadeira bofetada.

- Está bem, mamã.

- Sabes que te adoro, não sabes?

- Sei, mamã.

- Sabes que estarei sempre pronta a defender-te, não sabes?

- Sei, mamã.

- Mas nem por isso deixo de estar desapontada contigo. E vais

ficar de castigo.

Micah ficou de castigo, mas o desapontamento dela foi o pior de

tudo. Odiávamos desapontá-la.

 

A despeito das pressões a que os nossos pais estavam sujeitos, à medida que fomos crescendo, o papá foi ficando mais à vontade connosco. Por vezes, quando estava a dar um filme de terror na televisão - ele adorava filmes de terror - deixava que lhe saltássemos para o colo; acabámos por saborear tais momentos como iguarias esquisitas que, na verdade, eram. Naturalmente, tornámo-nos grandes especialistas em métodos apropriados para matar vampiros e lobisomens, na expectativa de a nossa família alguma vez ter de enfrentar um desses seres. O meu irmão e eu arranjámos uma colecção de estacas de madeira, que mantínhamos debaixo da cama.

Em momentos que se foram tornando cada vez mais raros, o papá também costumava tocar guitarra para nós. Produzia um som fluido e seguro; um dia, ao serão, informou-nos de que tinha pertencido a uma banda.

Era tremendo pensar que o meu pai tinha tocado numa banda. Para nós, os filhos, significava que o papá, para além de ter poderes mágicos, também era giro, o que era bem mais importante para nós. Afinal, sempre nos acháramos giros e sempre pensáramos que os nossos pais também o eram. Porém, agora tínhamos a “prova”.

- A minha banda não era lá muito conhecida - tentou explicar, mas não acreditámos nele. Por que motivo havíamos de acreditar? Os factos não falavam por si? Tinha tocado numa banda. Cantava e tocava como um profissional. E tinha vivido em Inglaterra. Não era óbvio? Ao fim de algum tempo, acho que nos tínhamos convencido de que o papá, além de conhecer o Paul McCartney e o John Lenon pessoalmente, tivera um papel nada de desprezar no êxito dos dois músicos. E era o nosso pai.

Para além de vermos filmes fantasmagóricos, ouvi-lo tocar tornou-se a nossa actividade preferida sempre que ele estava presente. Habitualmente, estávamos na sala entregues às nossas tropelias até o ouvirmos começar a dedilhar a guitarra. Era o sinal para acalmarmos, não tardando que fôssemos ocupar os nossos lugares aos pés dele.

Nunca se apressava. Tinha o cuidado de verificar se a afinação estava perfeita. Raramente cantava de início - penso que se tratava de timidez; em vez disso, limitava-se a dedilhar umas quantas canções, controlando o ritmo com a batida do pé no chão. Movia os dedos com espantosa rapidez, como se fosse guiado por forças desconhecidas e sorria quando olhava para nós, por vezes a fazer trejeitos com as sobrancelhas.

Acabaria por cantar e nós ficávamos, extasiados, a ouvi-lo até ao fim. E se, eventualmente, ele acabasse por tocar alguma coisa dos Beatles, os três irmãos olhavam uns para os outros, a partilharem a mesma ideia: “Estás a ver, eu disse-te que ele os conhecia”.

 

Talvez como resposta às crescentes tensões lá em casa - na altura, os meus pais tinham começado a discutir acerca de qualquer coisa, desde o dinheiro ao distanciamento emocional do papá das nossas vidas, discussões que frequentemente a deixavam a chorar - a mamã começou a vir ao nosso quarto à hora de irmos dormir e ficava um bocado deitada com cada um de nós. Embora na altura não a tivesse compreendido, por ver naquela atitude apenas uma maneira, mais uma, de nos demonstrar o seu amor, agora penso que ela usava aqueles momentos para fugir, por curtos momentos que fosse, ao stress do casamento. Enquanto estava deitada junto de cada um de nós, perguntava como nos tinha corrido o dia e nós murmurávamos as nossas respostas, dando-lhe a conhecer tudo o que nos tinha passado pela cabeça. Falávamos de Deus, da escola e dos amigos e, embora por vezes ela também falasse, na maior parte dos dias deixava-nos discorrer, saltar de um assunto para outro. A mamã era quente e macia, como uma almofada aquecida, e naqueles momentos roubados aos outros sentíamo-nos no paraíso.

Mais tarde, o papá começou a vir ajeitar-nos os cobertores. Na maioria dos dias, como ele chegava a casa muito tarde, já estávamos a dormir, mas acordava-nos sempre, porque a porta rangia quando ele a abria e a luz do corredor entrava pelo quarto. Por vezes, para ver o que ele ia fazer, eu fingia que estava a dormir. Mas o papá tinha uma rotina que seguia sempre, estivéssemos ou não a dormir. Ia de uma cama à outra, ajeitava-nos as roupas à volta do pescoço e dava-nos umas palmadinhas carinhosas na cabeça. Depois, ficava uns momentos de pé, antes de se debruçar e nos beijar numa face. No final do dia, mostrava um ar cansado e os pêlos da barba pareciam lixa. A cheirar a Old Spice e a tabaco, murmurava, numa voz calma e para cada um de nós:

- Adoro-te!

Só então sentia que o meu dia estava completo. Quente e confortável, não acordaria em toda a noite.

Nesse ano, talvez por os nossos pais perceberem que as discussões entre eles estavam a afectar os filhos, experimentámos o único milagre das nossas curtas vidas. Acordei com a minha irmã a abanar-me para que acordasse.

- Vem depressa - pediu, - nem vais acreditar no que eu vi.

- O que é?

- Despacha-te. Depressa. Já acordei o Micah.

A esfregar os olhos, corri porta fora, atrás do Micah e da Dana. De súbito, detiveram-se e, quando o Micah se virou, vi-lhe os olhos esbugalhados de espanto. Apontou para a mesa da cozinha.

- Como é que estes brinquedos vieram aqui parar? - perguntei.

- O que quererá dizer? - perguntou a Dana.

- Não faz sentido - acrescentou o Micah. - Não estamos no Natal, nem fazemos anos.

Subimos para cima das cadeiras e ficámos a olhar. Era óbvio que queríamos tocar-lhes, mas não o fizemos. Não conseguimos. A sua chegada inesperada deixara-nos aturdidos.

- Acham que a mamã e o papá os compraram para a festa de aniversário de alguém? - perguntei.

- Acho que não - respondeu o Micah.

- Talvez sejam para nós - alvitrou a Dana.

- Não sejas ridícula. Os pais não compram coisas para os filhos sem haver um motivo - respondeu o Micah, sem pestanejar.

- Pois é, Dana - acrescentei. - É como uma regra ou coisa assim.

Contudo, estavam ali, diante de nós. A tentar-nos. E se fossem para nós? Não, era impossível.

A espada fascinava-me. Seria tão fácil tocar-lhe e a mão começou a deslizar para diante.

- Não faças isso - avisou o Micah. - A mamã e o papá ficarão furiosos se tocares nisso.

- Eu penso que são para nós - sugeriu novamente a Dana.

- Não são nada - respondeu o Micah, mas também ele não conseguia tirar os olhos dos brinquedos. A Dana também continuava de olhos fixos neles.

- Talvez fosse melhor irmos perguntar à mamã e ao papá - ponderou a Dana.

- Não vou entrar no quarto deles - advertiu o Micah. - Estão

a dormir. Sabes bem como eles ficam furiosos quando os acordamos.

- Eu também não vou lá - concordei, a abanar a cabeça.

- Eu vou - decidiu a Dana, ao levantar-se da mesa. Mesmo

hesitando um pouco, desapareceu no interior do quarto dos pais.

- É uma miúda corajosa - comentou o Micah.

- Espero que não se tenha metido num grande sarilho - sussurrei.

Ficámos à espera dos gritos mas, que coisa estranha, não ouvimos nada. Dana apareceu à porta do quarto, fechou-a, e disparou escada abaixo.

- Estavam a dormir?

Muito excitada, a Dana abanou a cabeça e aproximou-se da mesa.

- Não, a mamã estava acordada. Disse que os brinquedos são para

nós. Disse que foi ela quem os trouxe para casa, para nós.

Por momentos, tudo o que consegui fazer foi olhar. Ouvi o que ela

disse, mas não conseguia convencer-me.

- De maneira nenhuma!

- Foi ela que disse.

- Nesse caso, podemos brincar com eles?

- Acho que sim.

- Tens a certeza? Dana, tu tens de ter a certeza do que estás a dizer.

- A mamã disse-me - insistiu.

Voltámos a olhar para a mesa e, com mãos trémulas, agarrámo-los. Nas minhas mãos, a espada parecia não ter peso. Era novinha em folha. E não havia motivo para aquilo.

Dana pegou na coroa e colocou-a cuidadosamente na cabeça. Micah pegou na outra espada e afastou-se da mesa. Cortou o ar com ela e sorriu.

- Embora! - gritou. - Vamos brincar lá para fora!

- Queres brincar a quê? - indagou a Dana.

- Tu és a princesa e nós seremos os cavaleiros. Vamos proteger-te!

- Contra quem?

- Contra os dragões e os tipos malvados. Vamos embora, vamos procurar um castelo!

- Não seria melhor irmo-nos vestir? Ainda estamos de pijama.

-já vamos - respondeu o Micah, sem se preocupar em esconder a impaciência. - Primeiro, vamos brincar! E não te esqueças, como foste tu quem perguntou à mamã e ao papá, podes dar-nos ordens. Nós somos os teus protectores!

E foi o que fizemos. Brincámos durante horas, a proteger a nossa irmã das maldades. Eu e o Micah matámos uma multidão de criaturas imaginárias. Dana tratava-nos por Sir Micah e Sir Nicky e nesse dia salvámos a sua vida vezes sem conta; na vida real, estivera quase a morrer; na nossa imaginação, tal não voltaria a acontecer.

De regresso a casa, ela deu-nos as mãos.

- Com os meus cavaleiros, estarei sempre em segurança - afirmou. - Adoro-vos, a ambos!

Durante semanas, os alcunhas que ela nos pusera mantiveram-se; e, da mesma maneira que os nossos pais pareciam proteger a Dana, tanto o Micah como eu começámos a sentir a necessidade de fazer o mesmo. Ao contrário de nós, ela era calma e amorosa. Ao contrário de nós, parecia contente com o mundo que a rodeava. A Dana era a nossa princesa e decidimos que nunca deixaríamos de a proteger.

 

Os anos passaram e as discussões entre os nossos pais eram cada vez mais frequentes.

Era habitual que as zaragatas acontecessem à noite, depois de termos ido para a cama. Estaríamos a dormir profundamente quando a elevação das vozes nos fazia acordar. Um a um, o meu irmão, a minha irmã e eu sentávamo-nos nas camas e ficávamos a ouvir; cada imprecação era um sobressalto que nos fazia olhar uns para os outros, a querer que eles parassem, sem desejarmos mais nada do que voltarmos a ser felizes. As zaragatas duravam uma hora, ou mais. Uma e outra vez, a Dana e eu procurávamos os olhos do Micah, à procura de respostas, mas estávamos num mundo que nem ele conseguia compreender.

- Por que é que estão zangados? - perguntava a Dana.

- Não sei - respondia o Micah.

- Quem é que começou? - indagava eu.

- Julgo que os crescidos não lutam assim. Acho que eles começam ao mesmo tempo.

- Por que é que eles não se beijam e acabam com a discussão? - choramingava a Dana.

- Não sei.

- E se rezássemos?

O Micah estava de acordo; rezávamos e ficávamos à escuta, a tentar perceber se as nossas preces tinham sido correspondidas. Umas vezes eram, outras não, mas, de qualquer maneira, acabávamos sempre por nos voltarmos a deitar, mesmo contra a nossa vontade. A olharmos o tecto, seguíamos o desenho das sombras, mais assustados do que alguma vez nos tínhamos sentido a ver os filmes de terror do nosso pai.

 

Fort Lauderdale, Florida 22 a 23 de Janeiro

 

Nos dias que antecederam o início da viagem, eu e a minha mulher começámos a comprar tudo aquilo que precisava de levar comigo. A agência tinha pedido que metesse tudo numa única mala, ao mesmo tempo que informava que eu devia ir preparado para condições de tempo de todos os géneros. Mais fácil de dizer do que de fazer, considerando que começávamos pelo Hemisfério Sul, no Verão, com temperaturas que, na Austrália, andariam perto dos 40 graus, para no final da viagem, na Noruega, nos encontrarmos quase 500 quilómetros acima do Círculo Polar Árctico.

Depois havia diversos produtos de conforto que, na sua maioria, se compram com facilidade nos Estados Unidos, mas são menos acessíveis em terras do Camboja ou da Etiópia, dois dos países em que o rendimento médio dos habitantes é inferior a 500 dólares por ano. Acabei por comprar três pares de calças, três calções e seis camisas, além de roupa interior e todos os artigos que julguei necessários. Também comprei um par de sapatos robustos, feitos de couro e borracha sintética.

Além disso, assinei contratos para dispor de telefone por satélite durante toda a viagem, mas fui avisado de que nem sempre podia contar com ele. Por ir a locais pouco acessíveis e devido às variações do terreno e à posição sempre variável em relação ao satélite, a recepção de chamadas seria impossível na maioria dos casos. E embora me fosse possível falar à Cathy, os voos e as mudanças constantes de fuso horário tornariam difíceis os contactos regulares. Coube tudo na mala e fiquei com espaço livre no saco de mão, pois sabia que iria comprando algumas recordações ao longo da viagem.

 

O volume de trabalho não diminuíra coisa que se visse: um romance, que já deveria ter sido entregue, ainda ia a meio e não via como poderia continuar a história. Aquela sensação tinha começado a perseguir-me, a ponto de à noite não conseguir adormecer, mas prometi à Cathy que não ia trabalhar no romance. No entanto, escondi um caderno de notas na mala de viagem, só para o caso de mudar de ideias.

Durante a última semana passei o máximo de tempo com os miúdos, sempre a tentar esquecer-me de que estar junto dos meus filhos ainda me atrasava mais o trabalho que tinha entre mãos. Na noite anterior à partida, Cat e eu fizemos um jantar de despedida. Ao meio-dia do dia seguinte ela conduziu-me ao aeroporto. Embora a viagem à volta do mundo só tivesse início na sexta-feira, 24 de Janeiro, o meu irmão e eu seguimos para Fort Lauderdale com dois dias de antecedência e combinámos o encontro no aeroporto.

- Pronto, está feito - resumi, a ver se fazia despertar o meu próprio entusiasmo pela excursão. Apesar de tudo, não estava muito excitado com a ideia de partir. Chegado àquele ponto, suponho que a minha ambivalência se havia tornado um hábito.

- Não te esqueceste de nada, pois não? - inquiriu Cat. - Passaporte, telefone, dinheiro...

- Tenho tudo.

Ela assentiu.

- Diverte-te!

- Vou tentar. Abracei-a. - Amo-te, Cat.

- Eu também te amo.

- Beija os miúdos por mim, todas as noites.

- Fica descansado.

- Tenta não trabalhares muito enquanto eu estiver fora.

Ela riu-se, estava a pensar dizer-me o mesmo.

- Com isto, ficas em dívida comigo, como sabes. Nem te passa

pela cabeça o quanto é que ficas a dever-me.

- Eu sei. Sei perfeitamente que durante uns meses tenho de me

esquecer do saldo do cartão de crédito.

- Julgo que deves pensar em termos de anos - redarguiu. - Ou

até de décadas.

Trocámos um último beijo. Durante o voo, não consegui deixar de pensar em Cat e na sorte que tivera ao casar com ela. As antevisões da viagem nem me passaram pela cabeça.

Cheguei a Fort Lauderdale cerca de duas horas mais tarde, com céu limpo. Recolhi a mala e esperei pelo meu irmão no sector de bagagens do aeroporto. Telefonei à Cat a dizer que tinha chegado e depois sentei-me num dos bancos, à espera dele.

O Micab chegou meia hora depois e não me foi difícil vê-lo a caminhar pela sala do aeroporto. Alto e louro, tinha a tendência para se destacar no meio da multidão. Logo que me descobriu do outro lado do terminal de bagagens, agitou as duas mãos acima da cabeça. Sabia o que estava para vir e encolhi-me de medo.

- NICKY, MEU IRMÃO! FINALMENTE CHEGUEI! PODE COMEÇAR A FESTA!

A voz dele ressoou pelo terminal. Os estranhos encararam-no estupidamente e olharam na minha direcção. Senti todos aqueles olhos focados em mim.

- É óbvio que o meu irmão não regula lá muito bem - murmurei. Uns momentos depois, no meio de uma multidão que apressadamente abrira uma clareira para nós, estávamos a abraçar-nos.

- Micah, pareces estar em grande forma!

- Bebi uns copos no avião - respondeu, bem-disposto. - Para

me preparar.

Logo que desfizemos o abraço os olhos dele pareceram brilhar ainda mais.

- Consegues acreditar que estamos mesmo a caminho? - perguntou. - A nossa aventura começa dentro de dois dias - prosseguiu. - Ainda não sentes o entusiasmo?

- É claro que sinto.

- Não, não sentes. Esta - disse, a apontar para si próprio - é a

imagem do entusiasmo. Tu não pareces entusiasmado.

- Estou excitado por dentro.

Ele rolou os olhos.

- Como é que correu o teu voo?

- Bem. E o teu?

- Fantástico! Viajei com umas pessoas catitas. Falei-lhes da excursão. Nem queriam acreditar. Já telefonaste à Cat, a dizer que chegaste?

Assenti.

- Falei com ela há alguns minutos. Queres que ligue para a

Christine?

- já ligo. Primeiro, tenho de me descontrair. De esticar as pernas

durante algum tempo. Tenho de me pôr em forma, como sabes. Nas

próximas semanas, vou ter de fazer uns quilómetros a pé.

- Vais?

- Não te contei - começou, com a voz a aumentar sempre de

volume - que vou DAR A VOLTA AO MUNDO COM O MEU IRMÃO?

A multidão afastou-se ainda mais, algumas pessoas sentiam-se mesmo assustadas.

- Eh! Tens fome? - perguntou, de repente.

- Comia qualquer coisa.

- Pois, bem, estou esfomeado. Queres ir comer qualquer coisa depois de deixarmos a bagagem no hotel?

- De acordo!

Finalmente, o carrocel das bagagens deu sinal de vida e entreguei-me à tarefa de descortinar a mala dele, no meio de tantas, até que ele apontou:

- Aquela ali. A vermelha.

Era, sem sombra de dúvida, a maior mala que eu alguma vez vira, um verdadeiro monstro. Tinha, pelo menos, o dobro do tamanho da minha, mas estava a rebentar pelas costuras e fazia uma grande barriga no meio. O Micah precisou das duas mãos e de um par de grunhidos para a recuperar. Quando ele a pôs de pé, para poder arrastá-la em cima das rodas, pareceu-me ainda mais volumosa.

- Ora bem, estou pronto - disse, satisfeito. - Vamos. - Tens a certeza de que trouxeste o suficiente. - Trouxe tudo aquilo de que preciso. Olhei para a mala.

- Parece que conseguiste meter um animal aí dentro.

- Há uma coisa que aprendi: quando se viaja nunca se leva

material a mais.

- Sempre me convenci do contrário. Micah sorriu.

- Não, isso não passa de um mito propagado pelas companhias de aviação. Durante a viagem, quando se te acabar alguma coisa, não te preocupes. Eu divido as minhas coisas contigo.

 

Descobrimos um restaurante na baixa de Fort Lauderdale, onde

pudemos comer no exterior e ficar a ver as pessoas que deambulavam

pela rua e entravam nos bares.

Dissemos uns disparates, até que o Micah fez uma pausa. Recostando-se na cadeira, encarou-me de olhos semicerrados.

- Não estás cá, pois não? Onde é que estavas, quero dizer? - Estou a chegar.

- Já pensaste que podes estar com uma depressão.

- Não estou deprimido. Só estou atarefado.

- É de família, como sabes. Alguns dos nossos familiares sofrem

de depressão.

- Eu não estou deprimido.

- Eles estão a tomar medicamentos. Talvez te fizessem bem.

- Não preciso de medicamentos. - Nicky, o sentimento de negação é prejudicial.

- Não estou em negação.

- Vês o que quero dizer? Isso é negação.

- És um chato, sabias?

- Sabia. É o que a Christine me diz.

- É uma mulher esperta.

- Lá isso é. Mas não está aqui e, de momento, estamos a falar de

ti. Por isso, maninho, essa depressão deve-se a quê? Decididamente, não estás entusiasmado com a viagem e estamos prestes a partir. Fala comigo. Faz de conta que sou o teu psiquiatra.

- Não estou deprimido - repeti. - Como te disse, estou cheio

de trabalho. Não fazes ideia do que tenho para fazer. Só que... não é a

melhor altura para uma coisa destas.

- Isso não é verdade - replicou o Micah, a abanar a cabeça. - Estás a deixar que a vida te domine, quando devia ser ao contrário.

É esse o grande segredo. Temos de escolher o género de vida que queremos viver.

- Estás sempre a dizer isso.

- Porque é verdade. Servindo-me de ti como exemplo, estás afogado em trabalho por estares atrasado no cumprimento dos prazos e queres recuperar, não é assim?

- Exactamente.

- E o que é que acontece se falhares o prazo? Não vais ser despedido, pois não?

- Não, mas...

O Micah resolveu acabar a frase por mim:

- Mas pensas que vai acontecer uma desgraça. Portanto, por outras palavras, estás a fazer uma escolha. E qualquer que seja a tua escolha, aceita-a, mas não deixes que ela te domine. Na mesma ordem de ideias, podes entusiasmar-te ou não com a viagem. A decisão é tua, inteiramente.

Olhei para o lado, a abanar a cabeça.

- Nem sempre é assim tão fácil - murmurei lentamente. - Não

podemos escolher tudo. Por vezes, a vida troca-nos as voltas. -Julgas que não sei isso? - perguntou, em voz baixa. - Escuta, como muito bem sabes, esta viagem vai ser fantástica. Só tens de aguardar mais um pouco. Depois de acabar, vais olhar para trás e vais sentir-te feliz por teres vindo. E nessa altura terás de agradecer-me por te ter trazido.

- Eu é que te convidei para vires, recordas-te?

Ele concordou:

- Ah, pois foste! Tens razão. Bem, nesse caso, sê um bom anfitrião e deixa de beber do meu copo.

Voltou-se, a tentar despertar a atenção do empregado de mesa.

- Este homem precisa de uma bebida.

Apesar de tudo, soltei uma gargalhada.

 

Talvez fossem os estímulos do meu irmão, ou talvez fosse o cocktail; qualquer que fosse o motivo, a ideia de partir começava a agradar-me cada vez mais. Afinal, ter ou não ter tempo para ir era agora um dado irrelevante; e a boa disposição do Micah era contagiosa. O meu irmão sempre exercera aquele género de influência sobre mim. Com a sua confiança e o seu ar folgazão, era um sucesso em qualquer festa e já tinha sido padrinho em seis casamentos. Seis.

No dia seguinte, fomos à agência e confirmámos a nossa presença. Inscrevemo-nos, entregámos os passaportes e recebemos as etiquetas para as bagagens. Eram grandes, cor-de-rosa e numeradas, de maneira que o pessoal da agência pudesse ter a certeza de que não ficaria nenhuma mala para trás. Um dos pormenores agradáveis da excursão, percebemos depois, era a agência encarregar-se de tudo o que dizia respeito à bagagem. Só tínhamos de pôr as malas no exterior do hotel, na hora marcada.

Passámos a tarde a descansar junto da piscina e, mais tarde, assistimos a uma festa de boas-vindas e a um jantar da organização. Foi a primeira oportunidade de conhecermos os nossos companheiros de viagem.

A excursão incluía oitenta e seis pessoas, na sua maioria bastante mais velhos do que o Micah ou do que eu. Iniciámos o processo gradual de conhecimento dos restantes excursionistas.

Juntámo-nos e conversámos em pequenos grupos e, pouco a pouco, fomo-nos encaminhando para o salão de baile, onde tinham sido postas as mesas. Enquanto comíamos, fomos apresentados ao pessoal da agência; alguns seguiam viagem connosco, para haver a certeza de que iria tudo correr bem. Também fomos apresentados a especialistas convidados para a ocasião e a Ji11 Hannah, a médica que trataria de quaisquer problemas de saúde que pudessem surgir.

Poucos anos mais velha do que nós, tinha o sorriso fácil e acabaria por se tornar uma das nossas melhores amigas durante a viagem. Ainda bem que ficou sentada à nossa mesa.

- Que conselhos é que nos da! - perguntei.

- Não comer vegetais ou saladas, por mais interessante que seja o

hotel.

- Por causa dos fertilizantes usados na agricultura?

- Não - respondeu. - Por serem lavadas na água da terra, que

nunca sabemos se foi purificada.

- Mais alguma coisa?

- Também não utilizem água da torneira para lavar os dentes.

Tomadas estas precauções, é provável que passem muito bem. Mais

tarde, quando chegar a minha vez de falar, vou fazer as mesmas

recomendações aos restantes membros do grupo. Mas posso assegurar-vos de que metade das pessoas não vão ligar ao que eu digo e talvez

acabem por adoecer. Ninguém deseja adoecer numa viagem destas.

Acreditem. Não é brincadeira nenhuma.

Enquanto ela falava, reparei que olhava alternadamente para mim

e para o Micah.

- São irmãos, não são? - Assentimos. - Gémeos?

Na verdade, achámos muita graça à pergunta. Neguei com um

movimento de cabeça.

- Não.

- Mas você é mais velho, não é?

- Não, o mais velho é ele - respondi, a sorrir.

O Micah inclinou-se num cumprimento, parecendo encantado com

o comentário da médica. Apreciava o facto de, quando estávamos

juntos, toda a gente julgar que ele era mais novo do que eu.

- Sempre lhe disse que devia ter mais cuidado com ele - esclareceu o Micah.

Ela sorriu.

- São casados?

- Ambos - respondi.

- Por que motivo viajam juntos, sem as respectivas mulheres?

Explicámos que tínhamos filhos e mostrámos fotografias das famílias. Finalmente, a médica voltou a olhar para nós.

- Acho fantástico que façam esta viagem juntos. Os irmãos nem

sempre são tão amigos como deveriam. Foram sempre assim amigos?

Hesitei.

- Nem sempre - acabei por admitir.

 

A meio do ano escolar, mudamo-nos para Urand lsland, no estado de Nebraska. Ou melhor, mudou-se toda a família, com excepção do meu pai. Na altura, a mamã disse-nos que saíamos para que o papá pudesse concluir a dissertação; fomos viver num pequeno duplex, junto da casa dos nossos avós maternos. Embora o papá concluísse a dissertação nesse mesmo ano, ele e a mamã estavam, de facto, separados. No entanto, passaram anos antes que soubéssemos a verdade acerca da separação. A mamã não se importava de guardar segredos se pensasse que a verdade nos magoaria.

Grand Island era uma pequena cidade sonolenta, encravada no centro do estado de Nebraska, um lugar totalmente diferente de Los Angeles. As casas eram separadas por grandes quintais e a escola elementar que frequentávamos ficava mesmo em frente da casa dos nossos avós. Ao contrário das escolas que havíamos frequentado, a Gates Elementary dispunha de enormes relvados, de campos de basebol e, no ponto mais afastado, logo a seguir aos terrenos da escola, havia carris, onde passavam comboios com regularidade.

Não foi preciso muito tempo para o meu irmão e eu começarmos a colocar pequenas moedas nos carris, esperando a passagem do comboio que as ia achatar, mas, ao contrário do que sucedia em Los Angeles, não havia muito mais que fazer para quem costumava andar à aventura e a meter-se em sarilhos. Não havia edifícios vagos ou queimados em que pudéssemos construir fortes, não havia pontes para escalar e, embora existissem corvos, nenhum deles ousou atacar-nos. Como acontecia em Los Angeles, a mamã arranjou um emprego, desta vez como assistente de um optometrista; depois da escola, íamos para casa dos avós. A avó fazia-nos batidos de chocolate e tostas com canela (o lanche mais esquisito do mundo); depois, brincávamos no quintal ou íamos para a cave, onde o nosso tio Joe guardava a sua colecção de modelos de aeroplanos. Talvez tivesse mais de uma centena de modelos, incluindo Spitfires e Zeros japoneses, e o nosso tio tinha-os montados como se, um dia, acabassem expostos num museu. As pinturas eram perfeitas, cuidadas ao mínimo pormenor, e, embora não nos fosse permitido mexer nos aviões, passávamos horas a olhar para eles.

Entrar numa nova escola a meio do ano é sempre complicado; durante as primeiras semanas o meu irmão e eu passámos a maioria das tardes juntos, como fazíamos em Los Angeles. Descobrimos os parques onde podíamos andar de bicicleta; na maioria das vezes, víamos dezenas de miúdos, alguns das nossas turmas, entretidos em jogos. Um mês depois, continuavam lá, a escorregar pelos montes abaixo.

Porém, naquela idade as diterenças entre nós começaram a notar-se. Micah era mais alto, mais robusto e mais atlético do que eu, e parecia não ter medo de nada. Encarou a mudança como uma nova aventura, fez amigos com facilidade e comportava-se com uma confiança que eu considerava enganosa. Eu sempre fora mais pequeno, menos atlético e também mais inseguro. E vivia sempre preocupado. Preocupava-me com a possibilidade de arranjar trapalhadas, com a obtenção de boas notas e com aquilo que as outras pessoas poderiam pensar de mim. Procurava fazer tudo certinho e brincar com os miúdos que devia. E, embora conseguisse fazer novos amigos, levei bastante mais tempo a adaptar-me ao novo meio.

Quando a Primavera se sucedeu ao Inverno, o Micah começou a precisar cada vez menos da minha companhia; quando tentava acompanhá-lo, começou a tratar-me como um incómodo. Ele passara a preferir a companhia de Kurt Grimminger, um rapaz da sua turma que tinha uma quinta logo à saída da cidade. Ia para lá quase todas as tardes e passavam o tempo a praticar luta no silo do milho, a conduzir tractores, a montar cavalos e a incomodar os porcos e as vacas com espingardas de pressão de ar. Em casa, à hora do jantar, Micah contava-nos histórias, uma seguida de outra. Não conseguia deixar de sentir inveja, pois, o que quer que eu tivesse feito durante o dia, nunca parecia tão excitante como aquilo que o meu irmão andara a fazer.

Foi por essa altura que tivemos a nossa primeira luta. Não recordo o motivo da discussão, mas uma palavra levou a outra e os punhos entraram em acção. Ele assentou-me um soco no estômago, o que me deixou sem fôlego, e atirou-me ao chão. Não tardou a lançar-se para cima de mim e recebi uma saraivada de golpes. Não consegui defender-me, encaixei socos sucessivos. Depois, só me recordo do som dos gritos da minha mãe. Levantou o Micah, aplicou-lhe um bofetão e mandou-o para o quarto. Ele safou-se, a caminho de casa, e enquanto eu lutava para me levantar a mamã agarrou-me pelo braço.

- O que é que aconteceu?

- Ele odeia-me! - gritei.

Mesmo então, não soube o que era pior: a dor ou a humilhação; quando a mamã tentou confortar-me, soltei o braço que ela me agarrava.

- Largue-me!

Girei sobre os calcanhares e corri.

Não sabia para onde ia, só sabia que não queria falar com quem quer que fosse. Não queria ver ninguém. Não queria ser pequeno, não queria viver em Nebraska e não queria que tivessem pena de mim. Só desejava que as coisas voltassem a ser como tinham sido; continuei a andar sem parar, como se alimentasse a esperança de ver o tempo andar para trás.

Mais tarde, dei comigo junto dos carris, a alguma distância de casa. Sentei-me debaixo de uma árvore, à espera do comboio. Os comboios andavam sempre dentro do horário e eu sabia que passavam com intervalos de uma hora. Impus a mim próprio que ficaria sentado até passarem dois. Porém, quando passaram, mal dei por eles. Em vez de estar a observá-los, fiquei sentado, com a cara escondida nas mãos, com os ombros a estremecer com os soluços, a desejar que aquela luta nunca tivesse acontecido, a chorar como nunca tinha chorado.

Senti os olhos da família cravados em mim, quando, finalmente, cheguei à porta. Já era escuro e todos estavam sentados à mesa, mas a mamã pareceu compreender que eu não tinha fome e limitou-se a um aceno de cabeça quando lhe perguntei se podia ir para o meu quarto. Ou, melhor, para o nosso quarto. Nós, os três irmãos, continuávamos a partilhar o mesmo quarto; no escuro, deitei-me na cama e fiquei a olhar na direcção do tecto.

Sentia-me confuso, mesmo que a fúria estivesse a desvanecer-se. Disse a mim próprio que desejava estar só, que era preferível tratar os meus sentimentos à minha maneira, mas não conseguia afastar o desejo de ver a mamã entrar pelo quarto adentro. Como a maioria das crianças, acreditava que a atenção era praticamente igual ao amor e que, se entre os três filhos a mamã me dispensasse menos da primeira, estava também a dar-me menos amor. Afinal, o Micah sempre fora tratado como um adulto e, como fora o primeiro a experimentar tudo, desde o andar até ao meter-se em sarilhos, recebeu sempre a atenção que é reservada a quem está à frente da fila. Por outro lado, a minha irmã, simultaneamente a mais nova e a única rapariga, tinha, na prática, privilégios a dobrar. Passava mais tempo com a mãe do que eu ou o meu irmão, tinha menos obrigações, raramente se metia em sarilhos, e era a única de nós que tinha mais de um par de sapatos ao mesmo tempo, com a desculpa de que “era rapariga”.

Acontecia sentir-me cada vez mais posto de lado.

Ninguém bateu à porta e, ao fim de uma hora, estava a sentir uma imensa pena de mim próprio.

- Entre - pedi, ao sentar-me na cama, a tentar imaginar o que a mamã iria dizer-me. Porém, quando a porta se abriu, não foi a mamã que entrou no quarto, foi a Dana.

- Olá! - saudou.

- Olá! - respondi, a olhar por cima do ombro dela. - A mamã

não vem cá?

- Não sei. Mandou-me perguntar se tens fome.

- Não - menti.

A minha irmã aproximou-se e sentou-se na cama. Com os compridos cabelos louros apartados ao meio, pele clara e sardas, parecia a Jan

Brady dos primeiros episódios da série The Brady Bunch.

- Dói-te o estômago?

- Não.

- Ainda estás zangado com o Micah?

- Não. Nunca mais me interesso por ele.

- Oh!

- Quero dizer, ele não se interessa por mim, certo?

- Certo.

- E a mamã também não.

- Interessa, sim. A mamã adora-te.

- Preocupou-se enquanto andei lá por fora?

- Não. Sabia que estavas bem. Mas adora-te.

Deixei descair os ombros.

- Ninguém gosta de mim.

- Eu adoro-te.

Embora a minha irmã parecesse totalmente sincera, não estava

com disposição para ouvir aquilo.

- Eia, obrigado.

- Mas não foi por isso que vim aqui. Quero dizer, não vim cá para

falar disso.

- Eu disse que não tinha fome.

- Também não vim cá para te perguntar isso.

- Então, o que é que vieste cá fazer?

Pôs um braço à volta da minha cintura.

- Vim dizer-te que se o Micah já não quiser ser o teu melhor amigo, ficarei muito feliz por ser a tua melhor amiga.

- Não preciso de amigos.

- Está bem.

Olhei à volta do quarto e acabei por soltar um suspiro.

- Queres brincar com o jogo do Johnny West?

- Está bem.

 

Durante os meses seguintes, com o Micah a passar mais tempo com os amigos, comecei a andar mais com a minha irmã. Não era tão excitante como o Micah, mas embora nunca quisesse saltar das árvores altas, era espantosamente fácil lidar com ela. Mesmo assim, por vezes era demasiado duro com a Dana e frequentemente ela acabava a chorar e eu a pedir-lhe que não contasse nada à mamã.

Apesar dos meus pedidos, contava. A Dana contava tudo à mãe, mesmo que não o fizesse para me meter em trabalhos, de onde resultava que a mamã me olhava com ar sombrio, para me encarregar de mais umas quantas tarefas.

Sem a presença do nosso pai, sem o terror implícito no sistema de defesa sempre activo, o meu irmão começou a tentar perceber até onde podia esticar a corda. Ficava fora até mais tarde do que devia, respondia mal à mãe e, com a avançada idade de nove anos, começou a tentar agir como um adolescente.

Não deve ter sido fácil para a mamã. Tinha 30 anos de idade, trabalhava a tempo inteiro e estava só; a última coisa de que precisava era que nós os três lhe arranjássemos preocupações “adicionais” (o contrário das “normais” ou “sofríveis”). Passou a ser mais dura com o Micah, que começou a responder-lhe ainda pior, mas, aos nove anos, o meu irmão não era adversário à altura da mamã. Ela acreditava tanto na cenoura como no pau e manejava ambas as coisas com destreza, como o samurai a usar a espada. Não tinha escrúpulos de consciência quando fazia afirmações do género: “Fui eu quem te trouxe a este mundo e diabos me levem se não sou capaz de te tirar de cá”, para, pouco depois, ser mais doce que o açúcar e abrir os braços para o abraçar.

Também não modificara as suas ideias acerca da afeição entre irmãos. Por exemplo: se lhe agradava que a minha irmã e eu estivéssemos a passar mais tempo juntos, também reconhecia que as relações entre mim e o Micah se tinham alterado. Alguns teriam considerado a nova rivalidade entre nós como uma fase passageira, mas a mamã não a apreciou e não parecia disposta a suportá-la. Começou a fazer comentários do género “Como nunca deixareis de ser irmãos, é melhor que agora se tratem bem”, ou “Os amigos aparecem e desaparecem, os irmãos e irmãs nunca se separam”. Embora o meu irmão e eu a ouvíssemos, sendo até provável que a compreendêssemos de uma forma instintiva, continuámos a discutir, a lutar um com o outro e a seguir caminhos divergentes.

Contudo, certa noite, quando nos estávamos a preparar para ir para a cama, a mamã foi ao nosso quarto. O Micah e eu tínhamos andado envolvidos noutra luta, pela manhã, por eu lhe ter derrubado a bicicleta; um puro acidente. A mamã não se referira ao incidente durante o jantar e supus que, daquela vez, tivesse decidido esquecer o caso. Ajudou-nos nas nossas orações, como sempre fazia; depois, ao apagar as luzes, sentou-se na cama do Micah quando ele estava a deslizar para dentro dos lençóis. Ouvi-os sussurrar durante o que me pareceu ser muito tempo e fiquei a tentar imaginar o que estariam a dizer. A seguir, para minha surpresa, a mamã veio sentar-se junto de mim.

Inclinando-se para mim, passou-me a mão pelo cabelo e sorriu com doçura. Então, sussurrou-me:

- Diz-me três coisas simpáticas que a Dana fez hoje para ti. Qualquer coisa. Pode ser grande ou pequena.

Fiquei surpreendido com a questão, mas as respostas não foram difíceis:

-jogou comigo, deixou-me ver o meu programa na televisão e ajudou-me a limpar os brinquedos.

A mamã sorriu.

- Agora fala-me de três coisas simpáticas que o Micah te tenha feito hoje.

Esta questão, tinha de o admitir, era um pouco mais difícil.

- Ele hoje não fez nada simpático por mim.

- Pensa bem. Pode ter havido qualquer coisa.

- Foi mau durante todo o dia.

- Não foi contigo para a escola?

- Foi.

- Nesse caso, já temos uma coisa. Pensa em mais duas.

- Não me bateu com demasiada força quando lhe fiz cair a bicicleta.

A mamã não tinha a certeza de poder aceitar aquela, mas acabou por concordar.

- Já são duas.

- E...

Fiquei perplexo. Não havia mais nada, absolutamente nada, a dizer. Levei muito tempo a descobrir um pormenor qualquer, mas não me recordo do que acabei por dizer. Julgo que tentei inventar qualquer coisa, a mamã aceitou a resposta, deu-me um beijo, desejou-me boa noite e foi para junto da cama da Dana. A minha irmã não precisou de mais de dez segundos para responder às mesmas perguntas e logo depois a mamã saiu de mansinho.

No escuro, estava a virar-me e a fechar os olhos, quando ouvi a voz do Micah.

- Nicky?

- O que é?

- Desculpa ter-te batido hoje.

- Não faz mal. E eu peço desculpa por ter feito cair a tua bicicleta.

Por momentos, fez-se silêncio, que foi interrompido pela Dana:

- E agora, não se sentem ambos melhor?

Noite após noite a mamã fazia-nos recordar três gestos bonitos de cada um dos nossos irmãos e, em cada noite, acabávamos por ter alguma coisa para lhe contar.

E, para minha surpresa, o meu irmão e eu começámos a espaçar cada vez mais as nossas desavenças.

Talvez fosse demasiado difícil compor as coisas; só que, passado algum tempo, tudo começou a parecer-nos mais fácil, não só sermos mais simpáticos como também reparar que estavam a ser simpáticos connosco.

Acabámos o ano escolar; eu completei o segundo ano e Micah o terceiro. Em junho, o avô decidiu substituir o telhado da casa, um empreendimento em que, foi ele quem decidiu, Micah e eu podíamos ajudar. O nosso conhecimento sobre construção de telhados e a nossa experiência de lidar com ferramentas podia resumir-se a uma simples palavra: zero. Mas logo decidimos que era um pormenor que não deixaríamos de ultrapassar. Afinal, tratava-se de algo de novo, de outra aventura, e durante umas duas semanas aprendemos a arte de pregar pregos, até ficarmos com bolhas nas mãos e nos dedos.

Trabalhámos durante uma das mais severas ondas de calor das nossas ainda curtas vidas. As temperaturas aproximaram-se dos 40 graus e a humidade era insuportável. Mais de uma vez, sentados no telhado da casa que parecia arder, sentimo-nos prestes a desfalecer. Contudo, se o avô não tinha problemas de consciência por nos pôr a trabalhar perto da beira do telhado, não éramos nós que os teríamos.

Se eu escapei ileso, e ganhei sete dólares por duas semanas de trabalho, o meu irmão teve menos sorte. Uma tarde, durante um período de descanso, decidiu mudar a escada, que lhe parecia estar a estorvar. Só não sabia que o cortador de telhas (uma ferramenta pesada, afiada, parecida com uma tesoura) tinha sido deixada junto do degrau cimeiro. Quando Micah tentou afastar a escada, o cortador de telhas deslizou e veio por ali abaixo como uma bomba. Atingiu-o a dois ou três centímetros da testa. Segundos depois, tinha a cabeça coberta de sangue.

O Micah gritou e o avô correu para ele.

- Parece bastante fundo - avaliou, com ar severo. Passado um instante, decidiu-se: - É melhor ir buscar a mangueira.

Não tardou que a água da mangueira escorresse pela cabeça do meu irmão. Aquele, diga-se de passagem, foi todo o tratamento médico que ele recebeu naquele dia. Não foi visto por um médico nem levado ao hospital. Nem teve folga durante o resto do dia. Recordo-me de ver a água ficar cor-de-rosa ao passar pela cabeça do Micah, satisfeito por ele ter a “cabeça dura”, como eu.

 

Na altura do recomeço das aulas, no Outono, já me tinha habituado à vida em Nebraska. Ia bastante bem na escola, até então nunca tinha recebido uma classificação inferior a A, e tinha-me tornado amigo de outros miúdos da turma. As tardes eram passadas a jogar futebol mas, na medida em que o calor do Verão começava a dar lugar ao frio do Outono, a nossa vida ia sofrer nova alteração.

Um dia, à hora do jantar, a mamã informou-nos:

- Vamos voltar para a Califórnia. Vamo-nos embora umas semanas antes do Natal.

Os nossos pais haviam-se reconciliado (embora, na altura, ainda não nos tivéssemos apercebido de que eles estavam separados) e o meu pai tinha aceitado um lugar de professor na Universidade da Califórnia, em Sacramento, onde daria aulas de gestão.

A nossa vida em Nebraska acabava tão abruptamente como tinha começado.

 

Yaxhd e Tikal, Guatemala 24 e 25 de Janeiro

Na manhã de sexta-feira, o Micah e eu aterrámos na Guatemala e entrámos num mundo totalmente distinto do que tínhamos deixado para trás.

Depois da passagem pela alfândega, o grupo foi acomodado em pequenos autocarros e seguimos para Petén, passando por bairros de lata e pequenas aldeias que pareciam construídas de materiais amontoados ao acaso. De certa maneira, era como recuar no tempo e tentei imaginar aquilo que os conquistadores espanhóis terão pensado ao chegar a esta zona. Foram os primeiros a descobrir as ruínas daquela que fora uma florescente civilização, cujas grandes cidades incluíam templos que se erguiam a mais de setenta metros de altura, contra o fundo composto pela densa folhagem da floresta.

Interessava-me pela civilização maia desde que, ainda criança, lera algo sobre ela e sabia que os Maias tinham atingido níveis intelectuais sem paralelo no Novo Mundo. Na sua Idade de Ouro, entre 300 e 900 da nossa era, esta civilização abrangia a Península de lucatão, o Sul do México, Belize, a Guatemala, algumas regiões das Honduras e de El Salvador. A cultura atingiu o zénite entre as florestas e pântanos de Petén, na Guatemala, onde foram erigidas as cidades de Yaxhá e Tikal.

Aquela civilização era um modelo de contrastes; com uma cultura por vezes brutal, que se entregava a sacrifícios humanos, os Maias, mil anos antes dos Europeus, já conheciam o conceito de zero e faziam cálculos com números da ordem das centenas de milhões. Os seus conhecimentos de matemática permitiram-lhes calcular a posição das

estrelas, prever com exactidão os eclipses lunares e criar um calendário de 365 dias, mas a lenda afirma que não conheciam o uso da roda.

Chegámos à Reserva da Biosfera Maia, o vasto parque de Petén em que se situam as ruínas e onde nos foi fornecido um almoço ao ar livre, numa tenda instalada junto do lago. Continuámos a tarefa de irmos conhecendo os companheiros de viagem, a maioria dos quais já tinha viajado bastante mais do que o Micah ou do que eu. Voltámos à estrada uma hora mais tarde e seguimos para Yaxhá.

Yaxhá é o nome de uma lagoa e da cidade que, há mais de 1500 anos, foi construída entre as suas margens e a floresta. Yaxhá chegou a ser a terceira maior cidade do império maia; fica a cerca de trinta quilómetros de Tikal, a maior e mais importante cidade santa. Contudo, quando chegámos só vimos árvores e caminhos de terra a serpentear por entre os morros. Ouviam-se os bugios pretos, mas como ruído de fundo, pois, de tão espessa, a folhagem que tínhamos por cima da cabeça não nos permitia enxergá-los.

O nosso guia começou a falar da cidade e da cultura maia e foi apontando para várias direcções. Eu não via nada. Enquanto ele continuava a falar, olhei para o Micah, que se limitou a encolher os ombros. Quando o guia indagou se havia perguntas, levantei o braço:

- Mas quando é que lá chegamos? - perguntei. - A Yaxhá, quero eu dizer?

- É onde estamos neste momento - respondeu.

- Mas, onde é que estão as construções?

Apontou para os montes que nos rodeavam.

- Em qualquer direcção que aponte - respondeu. - O que está a ver não são morros. Por debaixo de cada um deles existe um edifício ou um templo.

As árvores desta parte da floresta, aprendemos, dão folhas três vezes por ano. Quando caem, as folhas formam uma camada de folhagem que acaba por dar origem a uma nova camada de solo. Essa camada alimenta as árvores nascentes, que poderão vir a crescer até se tornarem árvores de grande porte. As árvores crescem, vivem e morrem, para que outras cresçam no seu lugar. A floresta engoliu as construções, uma por uma.

A informação não nos surpreendeu. A cidade foi abandonada há mil anos, que originaram três mil camadas de folhas densamente compactadas de folhas e raízes, o que permitiu o crescimento descontrolado da floresta. Havia razões para não conseguirmos ver a cidade.

Mas estávamos enganados. Efectivamente, várias zonas de Yaxhá haviam sido totalmente restauradas pelos arqueólogos, menos de oitenta anos antes, da mesma forma que Tikal tinha vindo a ser restaurada. A floresta foi limpa e dezenas de edifícios e templos totalmente postos a descoberto. Porém, como as ruínas começassem a destruir lentamente as construções havia poucas restauradas, e devido à escassez de fundos que pudesse obviar à sua destruição, o Governo não teve outro remédio senão permitir que a floresta se apoderasse uma vez mais de Yaxhá, em benefício de Tikal.

O Micah começou a olhar à volta, com a expressão maravilhada própria de uma criança.

- Consegues acreditar que toda esta vegetação se desenvolveu em apenas oitenta anos? - perguntou-me. - Foi durante a vida dos nossos avós.

- Não posso crer.

- Gostaria de saber qual será o aspecto disto daqui a oitocentos anos.

- Provavelmente estará igual, não achas? - alvitrei. - Só os morros é que serão um pouco mais altos.

- Julgo que sim - anuiu, a semicerrar os olhos para tentar ver através da floresta espessa. - Como diabo é que alguém conseguiu descobrir um lugar destes? Quero dizer, quando vejo um morro de terra não penso automaticamente que há uma pirâmide por debaixo dele.

Pus-lhe um braço à volta da cintura.

- É por isso que não és arqueólogo - sentenciei.

O guia começou a levar-nos por um carreiro e, ao mesmo tempo, ia descrevendo diversos aspectos da cidade. O meu irmão e eu fechávamos o grupo, de cabeças a girar de um lado para o outro. De súbito, ele começou a esfregar as mãos; o que acontecia sempre que estava excitado.

- Nick, acreditas que estamos aqui? Numa cidade maia submersa na floresta da Guatemala? Apenas há seis horas, estávamos em Fort Lauderdale, a comer!

- Não parece real, pois não?

- Não - concordou. - E digo-te mais - prosseguiu, a apontar para o que o rodeava. - Nunca imaginei que viesse a sentir-me tão excitado só de olhar para um monte de terra.

Minutos depois entrámos no que antes fora uma praça; diante de nós erguia-se o único templo que fora totalmente escavado e, pela primeira vez, tomámos consciência do género de coisas que íamos ver durante a viagem. Com a forma de um trapézio preto e cinzento, o tempo erguia-se mais de trinta metros para o alto. O guia informou que fora abandonado à volta do ano 900 d. C., uns seiscentos anos antes da chegada de Colombo. O que significava que o período de tempo decorrido entre o abandono do templo e a chegada de Colombo era igual ao tempo que passou desde a chegada do navegador à América, uma conclusão que me fascinou. Postas em confronto com o fluxo e refluxo da História, com a emergência e a queda das civilizações, as minhas preocupações correntes pareceram-me minúsculas.

Também o meu irmão estava a examinar com grande interesse o templo que tínhamos diante de nós, embora os seus pensamentos fossem ligeiramente diferentes dos meus.

- Repara na altura! Tenho de escalar aquela coisa!

Foi o que fizemos, com autorização do guia. No lado mais afastado do templo, havia um conjunto instável de pranchas de madeira em mau estado, colocadas a distâncias irregulares e mantidas no lugar por uma corda. O meu irmão e eu fomos os primeiros a chegar ao topo e, durante uns quantos minutos, tivemos o lugar só para nós.

O céu estava toldado por nuvens negras que se acumulavam no horizonte distante. Por detrás de nós, avistava-se a lagoa e a densidade impenetrável da floresta que se estendia uns cinquenta quilómetros em cada direcção. A visão através da copa das árvores era impossível, mas conseguimos avistar os pináculos de três ou quatro pirâmides que espreitavam acima da folhagem, como se tentassem alcançar o céu. E, com excepção do som da nossa respiração, um pouco alterada pela subida, havia um silêncio total, absoluto. Os lados da pirâmide pareciam cair a pique e a aproximação da beira da parede provocou-me uma espécie de vertigem. Mesmo assim, nem o Micah nem eu conseguimos deixar de sorrir. Tínhamos iniciado a viagem das nossas vidas havia apenas umas horas; agora, estávamos em cima do que parecia ser o tecto do mundo, num lugar que sempre sonháramos ver.

- Tira-me uma fotografia - pediu o Micah, de repente. - A Christine vai adorar!

- Se ela tivesse vindo, achas que subiria até cá acima?

- Nem penses. Detesta as alturas. Teria sido mais uma daquelas pessoas que vemos lá em baixo - explicou, a apontar para o sítio onde estávamos antes da subida. - E a Cathy?

- Também não aprecia as alturas, mas acabaria por subir. No entanto, não se chegaria tanto à borda.

Tirei-lhe a fotografia e ele tirou a minha. Tirámos mais uma, cada um. E continuámos a olhar, maravilhados, mesmo quando fui buscar o telefone por satélite à mochila.

- Tenho de ligar à Cat - expliquei, a sentir a necessidade de partilhar aquele deslumbramento com ela. Marquei o número e ouvi o telefone começar a tocar. Um espanto! Estava a fazer uma chamada do meio de coisa nenhuma. Quando ela atendeu, as minhas palavras foram: - Estou no topo de um templo maia, no meio da floresta! - e ouvi a Cathy respirar com a mesma excitação que eu estava a sentir.

- É fantástico? - perguntou.

Olhei à minha volta, maravilhado.

- É incrível. Só poderia ser melhor se estivesses aqui comigo.

- Ah! Também tenho saudades de ti.

Depois de eu desligar, Micah pediu-me o telefone para ligar à Christine. Infelizmente, ela não estava em casa e, desapontado, desligou, depois de deixar uma mensagem.

Um minuto depois, com a chegada do resto do grupo, o nosso momento de solidão acabou.

Nessa noite, houve uma recepção no hotel, seguida de jantar. Uma refeição no sistema de bufete e, a despeito dos avisos acerca das saladas e dos vegetais crus, vimos muitas pessoas a comê-los. E, tal como a médica previra, dentro de dias adoeceu mais de uma dezena; alguns ficaram doentes durante a maior parte da viagem.

Jantámos na companhia de Bob e Kate Devlin, que dividiam o seu

tempo entre o Connecticut e a cidade de Nova Iorque, e com quem nos relacionámos facilmente. Tinham dois filhos mais ou menos da nossa idade e disseram que nós lhes fazíamos lembrar os seus miúdos. Para nós, o relacionamento também se revestiu de aspectos pessoais.

- A Kate não te faz recordar a mamã? - perguntou o Micah, quando estávamos a sair da sala.

- Pois faz - respondi, espantado por ele ter estado a pensar exactamente como eu.

Perdidos em reflexões, pouco falámos durante o resto do serão.

 

Por ser o centro principal da vida maia, Tikal foi declarada Património Mundial pela UNESCO. A descoberta, escavação e reparação prosseguem há décadas e, a despeito do número de visitantes, manter a floresta sob controlo exige o trabalho de um pequeno exército.

Houve um tempo em que a zona envolvente de Tikal albergou 100 mil pessoas, cuja protecção e modo de vida dependiam inteiramente da cidade. Porém, em finais do século X, a civilização começou a desintegrar-se. Quanto ao motivo, existem várias teorias: excesso de população, guerras, derrota da classe dominante, seca, fome, esgotamento da produtividade dos solos ou simples descontentamento das populações que as levou a procurar a protecção de tribos invasoras. Mas, na vida de poucas gerações, a cidade foi completamente abandonada e a população dispersou-se pelos campos. O aparecimento e a súbita queda dos Maias ainda hoje é considerado um dos grandes mistérios da História; era nisso que eu pensava enquanto nos dirigíamos para a cidade.

As ruínas de Tikal são compostas por cerca de três mil estruturas, incluindo palácios, templos, tribunais, recintos de jogos, praças e terraços, construídas ao longo de um período de seiscentos anos. Portanto, algumas secções são sensivelmente mais velhas do que outras e é possível observar as mudanças por que passou a arquitectura maia, o que também permite que os arqueólogos estabeleçam a datação correcta de outros monumentos maias espalhados pela América Central e pelo México.

Contudo, foram as aras sacrificiais que intrigaram o meu irmão. Eram altares em que as pessoas eram mortas como oferendas aos deuses. O nosso guia maia estava a dissertar sobre as razões históricas e culturais da existência das aras; a certa altura, o Micah inclinou-se para diante e sussurrou:

- Haja alguém que me tire uma fotografia deitado em cima do altar, enquanto tu finges apunhalar-me. Não será giro?

Na verdade, achei a ideia um tanto mórbida mas, embora com

relutância, concordei. Passei a máquina a outra pessoa e pusemo-nos em posição. No preciso momento em que a fotografia ia ser tirada, o guia correu para nós, a agitar os braços para que parássemos.

- Não, não! - gritou, de rosto vermelho. - Ninguém se pode deitar nos altares ou tirar fotografias! Os altares têm um profundo significado religioso.

- Eu sei - retorquiu o Micah, - e é por isso que quero a fotografia.

- Não é autorizado!

- Só uma fotografia.

- Não!

- Vá lá! - implorou, a sorrir. - Só uma. Não contamos a ninguém.

Embora eu soltasse uma gargalhada, o guia encarou-nos com um olhar furibundo. Era um maia, como a maioria dos guatemaltecos que vivem na zona, e creio que julgou que estávamos a insultar o seu povo e a sua cultura. Quando viu que não lhe arrancaria o mais leve sorriso, embora com relutância, o Micah levantou-se. Quando recomeçámos a andar, na cauda do grupo, abanei a cabeça.

- Onde é que tu vais buscar essas ideias? - perguntei, incrédulo. Riu-se.

- O tipo não apreciou muito a ideia, pois não?

Abanei a cabeça.

- Pareceu bastante zangado, tal como as pessoas que dirigem a excursão. Estás a insultar a cultura deles. Vais meter-nos em sarilhos.

- Oh, eles vão ultrapassar isso. Nem se lembrarão mais do caso.

Mas lembraram-se. Uma hora mais tarde, uma das pessoas que trabalhava para a agência de viagens pôs-se ao nosso lado enquanto caminhávamos. Teria uns dez anos a mais do que nós e já se ocupara de numerosas excursões. Tinha desenvolvido a capacidade de avaliar rapidamente as pessoas.

- Estão ambos a preparar-se para provocar complicações nesta excursão, não é verdade? - observou.

 

Percorremos a que antes fora a avenida principal de entrada em Tikal e visitámos um palácio, com os bugios pretos a soltar os seus gritos de aviso por cima das nossas cabeças. Dali, seguimos para a praça principal.

Há duas pirâmides na praça principal, uma em cada ponta. Estão entre as mais fotografadas de todas as pirâmides maias. Os turistas são mantidos afastados de uma delas, mas podem escalar a outra.

No topo, a vista era de cortar a respiração. Finalmente, o Micah conseguiu apanhar a Christine ao telefone e quando acabou de falar sentámo-nos na borda da pirâmide, com os pés a balouçar no vazio. O solo ficava a centenas de metros mais abaixo e conseguíamos ver as restantes pessoas espalhadas pela antiga praça, juntas em pequenos grupos. Como houve poucos candidatos à subida, ficámos com o lugar só para nós.

- Então, como é que está a Christine? - perguntei.

- Está bem. Diz que sente a minha falta.

- Como é que tem corrido a vida lá em casa?

Sorriu.

- Ela está a ficar um bocado maluca. Ao contrário da Cat, não está habituada a que eu esteja fora de casa. Não deixou de me dizer que não tem mãos a medir, que nunca mais parou desde que eu saí para o aeroporto. Disse que foram quatro dias de inferno e que vai ligar à Cathy, à procura de apoio moral.

Tive de sorrir.

- Diz-lhe para ligar quando os miúdos mais velhos estiverem na escola. De outra forma, a Cat não vai conseguir falar com ela. Quando os cinco estão em casa aquilo é um pandemónio. Especialmente entre as cinco e as nove da noite. É quando os mais pequenos se sentem cansados, os mais velhos resmungam por terem de fazer os trabalhos escolares, ela começa a fazer o jantar e, sem se saber como, consegue orientar todos os filhos. Depois disso, chega a hora do banho e, se alguma vez tivesses tentado fazer que cinco miúdos tomassem banho em simultâneo, saberias que não é um trabalho para descontrair. Só que ela encara tudo aquilo com um excelente ânimo. É uma grande esposa mas, como mãe, é um génio.

Micah pôs-me um braço à volta do ombro.

- Fizemos bons casamentos, não foi?

- Pois fizemos - admiti. - Acho que foi o que aprendemos com a mamã. Quero dizer, quando nos casámos sabíamos o que queríamos. Ambos casámos com mulheres inteligentes e de grande coração, que adoram os filhos inequivocamente. Foi o que a mamã nos ensinou.

- No fundo, estás a querer dizer que casei com a minha mãe?

- Ambos o fizemos.

Ergueu uma sobrancelha.

- E com o papá, aprendemos o quê?

- A gerir a cólera? - alvitrei. - Recordas-te, o movimento da língua?

Ele riu-se.

- Ah, sim, era extraordinário, não era? Parecia verdadeiramente aterrador quando fazia aquilo. Ainda me provoca pesadelos - confessou, a olhar de lado para mim. - Contei-te que uma vez fiz aquilo à Alli? Só para ver como ela reagia.

- E?

- Fugiu, aos gritos, e trancou-se no quarto.

Soltei uma gargalhada.

- Não, o que penso que aprendi com o papá foi o gosto pelo estudo - admiti, passados momentos.

- Também penso o mesmo. Quando cresci, pensei que a mamã era esperta. Muito esperta. Mas o papá... movia-se num universo muito próprio.

- Faziam um grande casal, não faziam?

- Sim - concordou Micah. - E restabeleceram o equilíbrio entre nós. Se eles não se tivessem reconciliado, depois daquela estada em Grand Island sabe-se lá que futuro nos estaria reservado.

A 1 de Dezembro de 1974, a família foi reunida na Califórnia, em Fair Oaks, um subúrbio a nordeste de Sacramento. Minutos depois da nossa chegada, o papá ligou o televisor para ver Kolchak: The Night Stalker [Demónios da Noite], uma série de terror, banal, mas que se via com agrado, e era, sem dúvida, a sua preferida. Sentámo-nos os três no sofá, junto do papá, a comer pipocas e a ver algo de medonho no ecrã, como se acreditássemos nunca termos estado afastados dele.

A habitação - outra casa alugada, pois claro - tinha quatro quartos, um luxo quase inacreditável para as nossas mentes jovens, mas não deixei de reparar que o meu pai tinha ocupado uma das divisões para lhe servir de escritório. Com o quarto principal obviamente ocupado, ficavam dois quartos para nós, os três filhos; a mamã desde logo decidiu que seria a minha irmã a ter quarto próprio, por “ser rapariga”.

Como o primeiro período lectivo estava a terminar, os nossos pais decidiram que só iríamos à escola no início do segundo, depois do Ano Novo. Também compraram uma cadela, uma doberman pinscher chamada Brandy, e como fazíamos sempre que mudávamos de casa, o meu irmão e eu começámos a explorar as vizinhanças, desta vez acompanhados da cadela. A nossa rua acabava depois de passarmos umas poucas casas, terminando no que havia de mais parecido com uma paisagem natural, e o nosso primeiro instinto foi “conhecer o terreno”. Hoje, Fair Oaks está quase totalmente coberta de construções mas, na altura, havia grandes espaços abertos e montes, uma casa abandonada e árvores para trepar, tudo aquilo de que os rapazes pequenos necessitam para as suas brincadeiras. Ainda melhor, na mesma rua viviam mais miúdos da nossa idade. Quase todos os nossos vizinhos tinham levado um estilo de vida nómada semelhante ao nosso; portanto, o facto de sermos os miúdos que acabavam de chegar ao bairro não se revelou muito importante. Durante a tarde, brincavam na rua e, pouco a pouco, o meu irmão e eu passámos a dar-nos com eles. E, como já acontecera em Nebraska, o Micah começou a deixar-me para trás, preferindo a companhia dos novos amigos.

 

A despeito de se terem reunido, os meus pais continuaram a viver vidas bastante independentes. A mamã, que tinha arranjado um novo emprego de assistente de optometria, levantava-se ao mesmo tempo que nós e levava-nos à escola, enquanto o meu pai ficava ainda a dormir; depois de sair do emprego, ela chegava a uma casa vazia, pois, duas ou três vezes por semana, ele tinha aulas à noite. Nas noites em que não tinha de dar aulas, tinha de preparar exercícios e exames, ou ler, na tentativa de se manter actualizado na disciplina que ensinava.

Como a todos os professores universitários, também lhe era exigido que publicasse trabalhos; era frequente ouvi-lo a escrever à máquina, fechado no escritório. Uma vez por outra, a mamã e o papá podiam encontrar-se na cozinha mas, regra geral, pareciam passar pouco tempo juntos.

Embora fosse fácil supor que não apreciavam a companhia um do outro - nenhum parecia desviar-se do seu caminho para procurar aproximar-se do parceiro - tinham uma relação confortável. Ao jantar, na mesa de cozinha, contavam piadas e riam-se; por vezes, quando não se apercebiam de que eu estava a observar, cheguei a ver o papá a fazer festas no rabo da mamã. Se, na maioria das ocasiões, não se mostravam abertamente carinhosos, também não pareciam carentes, dominadores ou ciumentos. Nunca ouvi qualquer deles dizer algo de negativo acerca do outro e raramente voltei a ouvi-los discutir. Tinham conseguido enterrar o passado, com mais facilidade do que a maioria das pessoas, e pareciam representar exactamente aquilo de que o outro necessitava.

Até àquela altura, tinham passado uma vida de sacrifícios, o que, penso, também os unia. Afinal, nenhum deles estava a desfrutar a vida com que sonhara. O papá desejaria uma vida com menos pressões e menos problemas financeiros; embora não procurasse grandes riquezas, por vezes deixava-se abater pelas lutas diárias para manter a família à tona de água. Também não antevia grandes mudanças futuras, uma ideia bastante penosa. A mamã não era diferente. Uma vez encontrei-a a chorar, no quarto, uma descoberta que me deixou aterrado. Era tão impróprio dela que, também eu, rompi em soluços, o que a levou a abraçar-me.

- Estava para aqui a pensar como seria belo viver no campo, como acontecia quando eu era pequena - explicou. - Podia ser uma casinha pequena, onde fôssemos montar a cavalo nos fins-de-semana... seria maravilhoso. Gostaria que tivéssemos conseguido proporcionar-vos esse tipo de vida.

Os sonhos são arrasadores sempre que não se convertem em realidades. Porém, na maioria dos casos, são os sonhos simples os que provocam maior sofrimento, por parecerem tão pessoais, tão razoáveis, tão fáceis de realizar. Aquelas coisas que a pessoa está sempre prestes a tocar, mas nunca suficientemente perto para as possuir, uma situação capaz de destruir a vontade.

Quanto a Micah e a mim, durante os quatro anos seguintes as nossas vidas seguiram caminhos relativamente distintos. Ele continuou a abrir as asas e a fazer novos amigos com facilidade. A minha irmã também arranjou boas amigas e uma delas depressa se transformou quase numa irmã. Eu, porém, fui menos feliz com as amizades, não exclusivamente por qualquer defeito meu (pelo menos, gosto de pensar assim) mas apenas por falta de sorte.

No terceiro ano, o meu melhor amigo foi o Tim; no quarto, foi transferido para a escola paroquial e, depois disso, os nossos caminhos raramente voltaram a cruzar-se. O meu melhor amigo no quarto ano foi o Andy; no quinto, foi transferido para a escola paroquial e também não voltei a vê-lo. O meu melhor amigo do quinto ano foi o Warren; quando chegou o sexto ano, foi viver para a Austrália. No sexto ano foi o Kevin; no ano seguinte, quando fomos para a escola secundária, nunca tivemos uma única aula juntos.

Por sua vez, o Micah teve muito mais sorte. As amizades que fez tornaram-se ainda mais fortes com a passagem dos anos. Tal como o Micah, os seus amigos tendiam a ser temerários; passavam as tardes e os fins-de-semana nos campos perto da nossa casa ou no rio American, afastado uns quilómetros.

Entretanto, comecei a encontrar crescente prazer no acto solitário da leitura. Como não tínhamos possibilidades de comprar livros e a biblioteca local era muito pequena, com um número relativamente pequeno de títulos, não tinha muito por onde escolher e tive de me contentar com a Encyclopaedia Britannica, que havia lá em casa. Sem saber bem o que queria, comecei pelo primeiro volume e, durante os dois anos seguintes, li todo o conjunto de vinte e seis volumes, todas as entradas, uma a uma. Quando terminei, voltei a ler tudo do princípio. A seguir, li a Bíblia de uma ponta à outra.

Com isto não quero dizer que passasse todo o tempo, ou a maior parte do tempo, a ler. Como éramos (uma vez mais) miúdos à solta depois da escola, o mundo exterior à casa era uma tentação constante e havia ocasiões em que o grupo de amigos do Micah se juntava ao meu grupo, quase dando a ideia de que voltávamos aos tempos

antigos.

Gostávamos de brincar com as armas de pressão de ar que os pais nos tinham dado pelo Natal. Um prazer que, suponho, é comum a todos os rapazes da nossa idade; fora do comum era aquilo que fazíamos com elas. No essencial, o meu irmão e eu, mais alguém que fosse suficientemente estúpido para nos acompanhar, depressa aprendemos que atirar contra o outro era muito mais excitante do que atirar ao alvo, pelo que concebemos um jogo muito simples. Alguém gritava “Começar” e todos corríamos por entre as árvores, ou para dentro da casa abandonada, e começávamos a dar caça aos outros. Não havia equipas, cada um tratava de si, e também não havia um verdadeiro fim do jogo. Continuávamos a esconder-nos, a procurar os outros e a atirar sobre eles até à hora do jantar, quando toda a gente tinha de ir para casa. Só havia duas regras: não atirar contra o rosto e só se podia dar duas bombadas na espingarda (o que limitava um pouco a velocidade de saída do chumbo); mas, mais do que regras estritamente observadas, eram simples “regras de conduta”. Por conseguinte, todos faziam batota. Sentia-se uma alegria perversa em atirar contra um outro, em ouvi-lo gritar, em vê-lo andar às voltas a tentar ver-se livre dos bagos de chumbo. Como se sabe, quem vai à guerra dá e leva, e as marcas ficaram-me no corpo durante muitos anos. Em muitos casos, mais do que aqueles que consigo recordar, cada um de nós teve de extrair chumbos que haviam penetrado na pele.

Contudo, os piores ferimentos pareciam sempre reservados para o Micah. Em parte, por ser ele quem pressionava mais, quem queria ir sempre mais além. Uma vez em que brincava com a pressão de ar numa casa abandonada e cheia de lixo, pensou que seria engraçado acabar de partir o vidro de uma janela. Suponho que pretendeu imitar o que costumava ver fazer na televisão, mas ninguém o avisara de que a televisão usa um tipo de vidro especial que não se fragmenta em lascas. Seja como for, depois de partir o resto do vidro e atirar a alguém que andava à volta da casa, julgou chegada a altura de procurar novo esconderijo e começou a deslocar-se.

De seguida, ouviu um barulho de qualquer coisa a partir-se, uma espécie de esguicho, e notou que o barulho vinha do sapato. Pensou que tivesse pisado uma poça de qualquer líquido desconhecido e continuou a andar, sem ligar importância ao som.

Como ele depois contou:

- Mas apercebi-me de que o som parecia aumentar. Quando olhei para o sapato reparei que a meia estava a ficar cor-de-rosa e que o sapato estava molhado. É óbvio, disse para mim mesmo, que pisei vinho deixado aqui por quaisquer adolescentes. E continuei: um passo, um esguicho, um passo, um esguicho. Também notei que o pé estava a ficar molhado e, de repente, pensei que talvez me tivesse cortado no vidro partido. Por isso, sentei-me e tirei o sapato. Tanto a meia como o sapato estavam encharcados de sangue e, de súbito, vi o sangue brotar de um golpe no tornozelo, mais parecendo água a correr de um fontanário. Gorgolejava a cada batida do pulso. Olhando para trás, reconheço que devo ter cortado, ou pelo menos picado, uma artéria, porque, na realidade, o sangue gorgolejava.

Gritou pelos amigos, que chegaram a correr. Recorrendo à meia ensanguentada, fizeram-lhe um torniquete no tornozelo; com a ajuda deles, o Micah conseguiu chegar a casa e pedir ajuda à mamã.

Como era fim-de-semana, ela estava em casa e examinou a ferida que sujou de sangue toda a cobertura de linóleo da cozinha.

- Tem muito mau aspecto - avaliou, calmamente. E, como sempre, sabia exactamente o que fazer.

Colocou-lhe um penso rápido.

Depois, ordenou que o Micah pusesse a mão em cima do penso e sugeriu que ele devia descansar, antes de voltar a sair para a brincadeira.

Por muito traquinas que fôssemos, a mamã fazia questão de nos levar à igreja todos os domingos, um costume que manteve depois do nosso regresso à Califórnia. Não era raro que o meu irmão e eu nos sentíssemos aborrecidos e começássemos a dar beliscões um ao outro. Contudo, o que dava gozo era a imposição de o atingido ter de se manter firme, enquanto o atacante tinha de parecer imóvel, para não sermos apanhados pela mamã.

A Dana não era grande apreciadora deste jogo e, embora a minha mãe não soubesse o que se passava, a minha irmã não deixava escapar nada. Levava as idas à igreja muito a sério, porque a mamã o fazia, suponho, e a Dana queria ser como ela; no intervalo entre as orações, repreendia-nos com o olhar, a mandar-nos parar com a brincadeira.

A Dana adorava a oração. Rezava pela manhã e rezava à noite. Pedia a Deus que concedesse bênçãos a todas as pessoas que conhecia, uma de cada vez. Rezava pelos familiares e amigos, pelos cães, gatos e animais do jardim zoológico. Rezava para se tornar mais simpática e mais paciente, apesar de não carecer de ajuda em qualquer destes aspectos. Parecia completamente à vontade neste mundo e tinha o dom de fazer felizes as pessoas que a rodeavam. Na sua maneira gentil, calmamente, tinha-se transformado na rocha a que o meu irmão e eu nos agarrávamos sempre que a infelicidade nos batia à porta.

No entanto, por muito que a Dana adorasse a igreja e a oração, era ela a culpada de nunca chegarmos a tempo à missa. Era habitual entrarmos com um atraso de dez minutos, já depois de toda a congregação estar sentada. O atraso não me afectava (como já disse, aborrecia-me com frequência), mas não me agradava a maneira como toda a gente se voltava enquanto andávamos à procura de espaço para nos sentarmos. Em momentos como aqueles, desejaria que a Dana fosse mais parecida comigo e com o Micah, pelo menos nesse aspecto.

A Dana, a despeito das suas qualidades maravilhosas, não era muito activa. De manhã, ao acordar, não se levantava logo de seguida. Em vez disso, ficava sentada na cama, de pernas cruzadas, a olhar para o vazio, com ar sonhador e desorientado. Mantinha-se naquela posição durante vinte minutos (“a acordar”, como ela dizia) e só depois começaria a preparar-se para sair. Comia devagar, vestia-se com lentidão, gastava muito tempo a pentear-se. Quando a mamã chamava, eu e o Micah ficávamos prontos em poucos minutos, mas a Dana levava o seu tempo. O Micah e eu íamos a pé para a escola mas, quase todos os dias, a mamã tinha de levar a minha irmã para ela não chegar atrasada. Por vezes, conseguia pôr-nos malucos, mas nunca se deixou influenciar pelas nossas queixas.

- Acontece que as pessoas são diferentes - costumava observar, com serenidade, sempre que a admoestávamos. E a mamã nunca deixou que os atrasos da filha a incomodassem. Como nos explicava:

- Ela só necessita de um pouco mais de tempo para se aprontar.

- Porquê? - perguntaríamos, eu ou o Micah.

- Porque é rapariga.

Oh!

No entanto, uma vez por outra, a Dana tinha os seus momentos de traquinice. Nas nossas únicas férias passadas no campo, no Verão de 1976, a família enfiou-se dentro da carrinha Volkswagen, o único carro que tivemos entre 1974 e 1982, e passámos umas semanas a viajar pelo Oeste. Visitámos o Deserto Pintado e Taos, no Novo México, antes de chegarmos, finalmente, ao Grand Canyon. Uma das maiores paisagens do mundo, sem dúvida, mas como crianças que éramos não a apreciámos grandemente. Contudo, aproveitando uma sugestão da minha irmã, decidimos que seria muito mais engraçado passarmos para lá das cordas que delimitavam o espaço reservado aos turistas e aproximarmo-nos da borda instável e esboroada da parede da garganta, enquanto os nossos pais se afastavam para irem comprar o almoço. Chegados ali, descobrimos uma pequena saliência, cerca de um metro mais abaixo.

- Vamos até lá - sugeriu a Dana.

O Micah e eu entreolhámo-nos, observámos a saliência e encolhemos os ombros. E concordámos. Ou melhor, pensámos, por que não? Não deveria ser muito perigoso. A saliência não parecia muito instável.

De qualquer forma, descemos e sentámo-nos na saliência durante uns minutos, três crianças com as pernas a oscilar no vazio. Lá muito em baixo, víamos o rio Colorado a insinuar-se por entre as rochas da garganta e os falcões que pairavam abaixo de nós. Os diversos estratos de rocha pareciam formar um arco-íris vertical finamente matizado. Contudo, passado pouco tempo, deixámos de achar graça àquilo.

- Eh! - exclamou a Dana. - Tive uma ideia. Vamos fingir que escorregámos da beira da garganta para assustarmos as pessoas.

Impressionados, o Micah e eu voltámos a trocar olhares. Normalmente, aquela poderia ter sido uma ideia nossa.

- Está bem - respondemos, em uníssono.

Depois, deitados na saliência, levantámo-nos com lentidão e fizemos a cabeça e as mãos aparecerem na beira do abismo. A princípio, ninguém reparou em nós. Para lá das cordas, a cerca de dez metros, vimos um grupo de pessoas que tiravam fotografias e olhavam em todas as direcções, maravilhadas com a beleza do lugar. A um sinal da Dana, começámos a gritar por socorro, com quanta força tínhamos.

As cabeças viraram-se de súbito na nossa direcção e as pessoas viram o que pareciam ser três crianças pequenas a tentarem fincar as unhas na terra, na tentativa de se aguentarem. Uma senhora idosa desmaiou, outra levou a mão ao peito, uma outra enterrou os dedos no braço do marido. Ninguém sabia o que fazer. Continuaram a olhar para nós, de olhos esbugalhados e cheios de medo, paralisados pelo choque e pelo horror.

Finalmente, um homem libertou-se do encantamento em que caíra e já estava a agachar-se para passar por debaixo da corda, no preciso momento em que vimos a mamã a correr para nós.

É provável que consigam adivinhar o que aconteceu de seguida.

- Fiquem onde estão para eu tirar uma fotografia! - gritou a mamã.

Por muito engraçado que tivesse sido, não pudemos permanecer no Grand Canyon. Uns minutos mais tarde, a nossa família foi convidada a sair.

- Imediatamente! - como o guarda do parque nos informou, com toda a amabilidade.

Seis meses mais tarde, o meu irmão e eu vimos as nossas espingardas de pressão de ar serem confiscadas pelo xerife. Não por causa das guerras com as armas de pressão, mas porque o meu irmão foi um pouco longe de mais. Em resumo, aconteceu o seguinte: numa tarde em que não havia guerra, o Micah recrutou uns quantos miúdos do primeiro ano para um jogo diferente. Ordenou-lhes que se agachassem e puxassem as bainhas das calças para fora, de forma que ele pudesse ver através do tecido.

- Não se mexam, não quero atingi-los acidentalmente nas pernas - explicou o Micah com toda a paciência. - Só pretendo afinar a minha pontaria.

Contudo, como disse, o xerife veio e levou a espingarda.

Uma semana depois, voltou e levou também a minha. O meu irmão tinha-a usado para fazer uns buracos nas janelas dos vizinhos.

E foi assim que os nossos dias de brincar às guerras chegaram ao fim.

 

Lima, Peru

Domingo, 26 de Janeiro

Chegada a altura de dizermos adeus à Guatemala, embarcámos no avião e voámos até ao nosso próximo destino: Lima, capital do Peru, uma cidade de oito milhões de habitantes, um terço da população do país. Lima foi capital do império espanhol da América do Sul, que englobava o Equador, a Colômbia, a Bolívia, o Chile e o Peru e, durante os séculos XVI, xviI e xvIIi esteve entre as cidades mais ricas e luxuosas do mundo. Contudo, exploração, mau governo e falta de planeamento acabaram por enfraquecer o império espanhol, levando à derrota das forças espanholas às mãos de Simón Bolívar, em 1824. Uma sucessão de governos, durante 175 anos, levou finalmente às eleições democráticas de 1980, mais um motivo de ansiedade para mim, desejoso de ver o que se estava a passar.

Lima sofria uma vaga de calor na altura em que aterrámos. Era Verão na América do Sul e a temperatura era muito mais elevada do que na Guatemala. Embarcámos em autocarros e a agência forneceu-nos garrafas de água, apresentando-nos os guias locais, os que nos iriam falar da cultura e da história dos lugares a visitar. Também nos foi entregue um rádio e um auricular, que sintonizámos na mesma frequência do rádio do guia. Assim, mesmo a uma distância de trinta metros, continuávamos a ouvir tudo o que ele dizia.

Quando chegámos, a praça principal estava apinhada de gente. É um dos poucos espaços abertos no centro da cidade; de traça colonial, é atravessada em todas as direcções por passeios em curva que delimitam canteiros de flores plantadas de fresco. As crianças brincavam nos relvados e fontanários, procurando manter-se frescas naquela fornalha. Outras tentavam por todos os meios vender-nos lembranças, depois de rodearem o nosso grupo logo que saímos do autocarro.

Tirámos fotografias do palácio presidencial e da catedral onde Francisco Pizarro foi sepultado. De Pizarro sabia que era uma das figuras históricas constantes de uma longa lista cuja reputação depende muito da perspectiva de cada crítico; conhecido em Espanha como explorador, foi ele que capturou Atahualpa, o chefe dos Incas. Depois de exigir, e receber, uma sala cheia de ouro como resgate, não tardou a executar o rei, não sem que antes tivesse reduzido os nativos à escravidão. Não consegui deixar de pensar no que os descendentes dos Incas pensarão daquela sepultura construída num local consagrado pela Igreja.

Dali, seguimos para a Casa Aliaga, situada logo a seguir à praça principal. A casa é um dos mais espantosos exemplos da primitiva arquitectura espanhola da cidade, mas, vista do exterior, integra-se nas outras construções do quarteirão onde se situa. Quem não souber que a casa está lá, pode passar sem reparar nela.

Porém, para lá da entrada, existe um mundo de nos deixar tontos.

A Casa Aliaga está na posse da família Aliaga há mais de quatrocentos anos; ainda hoje é ocupada por membros da família. Construída à maneira das casas das fazendas, as divisões dão para um pátio descoberto, onde uma figueira estende os seus mais de trinta metros em direcção ao céu. Também alberga uma das melhores colecções de pintura de toda a América do Sul. Como a casa é demasiado grande e de manutenção muito cara, os Aliaga abrem as portas aos turistas e foi assim que Micah e eu pudemos percorrer todas aquelas salas, sempre de olhos bem abertos. Tudo, com excepção das paredes de estuque - corrimões, aros de portas, cornijas e balaustradas - foi talhado com figuras complicadas e todos os espaços de parede disponíveis foram cobertos de quadros. As mobílias, na sua maior parte dos séculos XVII e XVIII, eram tão ornadas que tornavam impossível a focagem das máquinas fotográficas.

Depois de percorrermos parte da casa, Micah virou-se para mim, a perguntar:

- Fazias ideia de que pudesse ser assim?

- Não. Aquela árvore... bem, na verdade é tudo... é incrível.

- Aposto que estás a registar algumas excelentes ideias para a próxima vez que remodelares a casa, ou não?

Ri-me.

- Tenho de admitir que seria agradável poder expor pinturas de

antepassados famosos.

- Se tivéssemos alguns, queres tu dizer.

- Exactamente. Quando a família Aliaga andava a construir esta casa, é provável que os nossos antepassados estivessem a cravar ferraduras ou a trabalhar no campo.

Ele assentiu e olhou à volta. O nosso grupo tinha-se dispersado pelas diversas divisões da casa.

- Mas, sê honesto, gostarias de viver aqui?

Neguei com a cabeça.

- Não. É... inacreditável, mas não é, de maneira nenhuma, o meu estilo. E a manutenção deve ser suficiente para tirar o sono aos proprietários.

- Percebo o que queres dizer. Imaginas quanto tempo é preciso para aspirar o pó a uma casa destas? A Christine morria.

O pessoal da agência começou a juntar-nos, a contar as cabeças para ter a certeza de que ninguém se perdera. Depois de sairmos da Casa Aliaga, voltámos ao autocarro e seguimos para o hotel.

Aquela seria a rotina das semanas seguintes. Embora uma excursão como a nossa tenha as suas vantagens, em muitos dos lugares visitados o horário cuidadosamente estabelecido não permite hesitações nem explorações por conta própria.

Era a noite da Super Bowl. Os Tampa Bay Buccaneers jogavam contra os Oakland Raiders, um jogo a que alguns membros do nosso grupo gostariam de assistir, o Micah incluído. Como vivia em Sacramento, os Raiders eram a sua equipa preferida e até já tinha assistido, ao vivo, a alguns dos jogos do ano. Não sabíamos se o jogo seria transmitido no Peru e notou-se um suspiro de alívio quando o pessoal da agência de viagens confirmou a transmissão. O jogo seria transmitido por satélite e visível no bar, cujo aparelho ficaria sintonizado durante todo o jogo; segundo me pareceu, aquilo obrigara o pessoal da agência a negociar arduamente; poucos peruanos se preocuparão com a Super Bowl e para mostrarem aquele jogo não poderiam transmitir um jogo de futebol, esse sim, verdadeiramente importante para eles.

Por desejarmos um bom lugar, o Micah e eu fomos dos primeiros a chegar e começámos a mandar vir o que é tradicional comer e beber antes dos jogos. Pouco a pouco, foram chegando outras pessoas. Metade da assistência era a favor de Tampa, a outra metade preferia Oakland e, chegada a hora do jogo começar, o bar do hotel parecia-se com um estabelecimento similar de qualquer cidade dos Estados Unidos. Não havia lugar para mais ninguém à volta da sala.

Não houve qualquer espectáculo antes do jogo; em vez disso, cinco

minutos antes da hora marcada, perdemos a imagem uma ou duas

vezes; quando a recuperámos, as equipas estavam alinhadas para o

pontapé de saída.

- Estás a ver, tudo o que estamos a fazer é novidade - gabou-se

Micah. - Sê franco, conheces alguém que já tenha visto a Super Bowl

em Lima?

- Não, ninguém - admiti.

- Já estás mais entusiasmado?

- Estou a tomar fôlego - respondi.

- Estás a pensar no trabalho?

- Não. Estou apenas a pensar no jogo.

Acenou-me com uma batata frita.

- Óptimo. Ainda podes alimentar esperanças.

- Levanta o som! - alguém gritou lá de trás. - Aqui no fundo

não se ouve nada!

O empregado do bar usou o controlo remoto e o volume de som

começou a aumentar. Com isso, começámos a entender os sons nossos

conhecidos. Ouvimos o rugir da multidão, os nomes dos jogadores à

medida que foram apresentados no estádio, até o lançar da moeda ao

ar. Só então, se fizeram ouvir os primeiros comentários.

Toda a gente se inclinou para diante.

- Que raio estão eles a dizer? - gritou alguém.

- Não sei - respondeu outra voz. - Penso que estão a fazer o

anúncio em... espanhol.

Claro, fazia todo o sentido se pensássemos um pouco.

- Em espanhol?

- É a língua oficial do Peru - informou o Micah. - E da

Espanha.

Ninguém lhe achou graça.

- Pensei que chegava via satélite - resmungou um fulano. - A

partir dos States. Talvez esteja em inglês, noutro canal.

O empregado do bar tentou outros canais, nada feito. Espanhol,

ou nada.

Debrucei-me para o lado do Micah.

-- Agora sim, tens uma história para contar - zombei. - Não só

viste a tua equipa preferida jogar a Super Bowl, sentado em Lima, no

Peru, mas podes também dizer que ouviste o jogo em espanhol.

- Agora estás a entrar na onda. Era exactamente isso que eu me

preparava para dizer.

Instalámo-nos para ver o jogo. Os Raiders não estavam a jogar bem e depressa se atrasaram no marcador. Os aplausos do Micah tornaram-se menos frequentes; ao intervalo, mostrava-se desiludido.

- Deves ter fé - aconselhei.

- Sinto que estou a perdê-la.

- Ouvi falar disso - afirmei, a recordar a conversa que tivera com a minha cunhada Christine. - Então, continuas a evitar a igreja?

Sorriu, mas não olhou para mim. Fé e religião eram dois temas que abordávamos com frequência, mesmo quando éramos pequenos. Contudo, desde que o Micah se casara, o assunto aparecia mais vezes na nossa conversa. Christine não era católica e, em vez de irem à missa, assistiam a um serviço religioso cristão sem denominação especial. Em vez da missa que eu prefiro, que tem uma tradição arreigada, que regista apenas ligeiras alterações entre uma semana e outra, o Micah apreciava um serviço menos rígido e que deixasse mais espaço para a reflexão pessoal. Ou, para falar com maior clareza, essas foram as razões que apresentou ao explicar-me a mudança. Porém, em dias mais recentes, até essas diferenças pareciam ser importantes.

- Deixa-me adivinhar. A Christine pediu-te que aproveitasses a viagem para me falar do assunto, não pediu?

Não respondi. O Micah remexeu-se na cadeira.

- Vou à igreja, às vezes. Mas só por isso ser do agrado da Christine. Acha importante que eu vá, por causa dos miúdos.

- E?

- E o quê?

- Estás a conseguir algum resultado?

- Na verdade, não.

- Mas ainda rezas?

- Há três anos que não rezo.

Uma vida sem oração é algo que não me passa pela cabeça. De certa maneira, estive dependente da oração durante todo o tempo que ele tem passado a evitá-la.

- Não sentes que te falta qualquer coisa?

- Não rezo porque não resulta - respondeu apressadamente. - A oração não resolve coisa alguma. O que é mau não deixa de acontecer.

- Então, não achas que ajuda a ultrapassar esses momentos mais difíceis?

Não me respondeu e aquele silêncio deu-me a saber que ele não queria falar do assunto. Pelo menos, ainda não queria.

 

Afinal, o jogo foi um fiasco. Tampa Bay tinha o jogo na mão e o

Micah e eu deixámos o bar, antes de começar a segunda parte, e fomos

treinar para o ginásio do hotel. Corremos e levantámos pesos; a seguir, fomos para o quarto e deixámo-nos cair nas camas.

- Lamento a derrota da tua equipa.

- Não me interessa muito - respondeu. - Não sou como tu costumavas ser. Recordas-te? Quando eras miúdo? Costumavas chorar sempre que os Vikings perdiam.

Os Minnesota Vikings foram a equipa preferida da minha fase de crescimento; tinha-a escolhido por ser lá que a Dana nasceu.

- Recordo. Fiquei de rastos quando perderam a Super Bowl.

- Qual? Perderam um monte delas.

- Obrigado por me lembrares.

- Não tens de quê - zombou. - Sabes que ficavas maluco

quando se tratava dos Vikings, não sabes?

- Eu sei. Tinha tendência para exagerar numa série de coisas.

- Ainda tens.

- Todos temos os nossos problemas. Até tu.

- Isso não é verdade. Sou totalmente feliz. Ainda não notaste? Fui

eu quem, graças à minha personalidade extrovertida, apenas há uns

dias, te ergui das profundezas do desespero.

Esbugalhei os olhos.

- Apenas por estarmos na excursão. Tens de te recordar de que

entrar numa coisa destas sempre foi mais próprio de ti do que de

mim. Crescestes à procura de aventuras. Andavas sempre em busca

delas. Eu limitava-me a seguir-te, a tentar que não me metesses em

encrencas muito grandes.

Mostrou os dentes num sorriso.

- Costumava meter-me em trabalhos, não era?

- Na verdade, arranjaste muitos. Especialmente quando se tratava de armas.

Um clarão de reminiscências passou-lhe pelo rosto.

- Sabes, ainda não consigo perceber o que acontecia. Não era um

miúdo mau. Procurava apenas divertir-me.

Sorri, a pensar: “E conseguiste, sem dúvida”.

 

Os nossos pais, sendo as pessoas sensatas e maravilhosas que eram, acabaram por se aperceber de que os dois filhos não eram seres responsáveis quando estavam em causa armas de pressão de ar. Por muito que implorássemos, recusaram-se a comprar-nos outras. Nem aceitaram a ideia de nos comprarem rifles, uma solução de compromisso. Em vez disso, deram-nos arcos e flechas.

Divertimo-nos com aqueles arcos. A pontaria não era muito boa, mas o que perdíamos em precisão, ganhávamos na velocidade que imprimíamos ao projéctil. Podíamos mandar aquelas setas a zunir até ficarem praticamente enterradas nos troncos das árvores. O meu irmão fazia-o com um pouco mais de destreza e acabou por conseguir atingir alvos de tamanho razoável, a distâncias de dez metros, em pelo menos cinco por cento das tentativas, contra os meus três por cento.

- Eh! Vamos pôr uma maçã em cima da tua cabeça e eu tento tirá-la de lá - acabou por sugerir o Micah.

- Tenho uma ideia melhor - respondi, - vamos pôr uma maçã em cima da tua cabeça.

- Hum! Talvez não seja muito boa ideia.

Um dia, quando andávamos pelo bosque com os arcos e as flechas, uma das flechas errou o alvo e seguiu na direcção de um grupo de operários que estavam a construir uma casa. (A construção de novas casas tinha-se iniciado em força depois da nossa mudança para ali.) A seta nem caiu muito perto dos trabalhadores, mas também não foi muito longe; um dos carpinteiros ficou bastante zangado connosco, mesmo depois de tentarmos explicar-lhe que fora um acidente.

- Nem pensem que vão andar por aqui a atirar flechas - ameaçou e, ainda pior, recusou-se a devolver a flecha, por mais que lhe pedíssemos. Como dispúnhamos apenas de três flechas, a perda de uma era um acidente grave.

O meu irmão e eu afastámo-nos sem reagir, dirigindo-nos para o morro, de onde voltaríamos à nossa rua, mas estávamos revoltados. Quando atingimos o cimo do morro, o Micah decidiu que não estava disposto a acatar ordens de um estranho qualquer, especialmente de um homem que se recusara a devolver-lhe a flecha.

Como explicou:

- Ele não pode dar-me ordens!

O meu irmão carregou uma seta e esticou o arco, inclinando-se para trás com a intenção de atirar para o céu, num gesto de desafio, uma espécie de “toma lá!”. Lançou a flecha que zuniu em direcção ao céu, alta, cada vez mais alta, até ser um ponto minúsculo.

Como é evidente, não contara com a ligeira brisa da tarde. Nem o meu irmão conseguiu atirar directamente para cima, embora, Deus é minha testemunha, essa fosse a sua intenção. Em vez disso, a seta foi lançada num ângulo que a levou a desviar-se um pouco, na direcção da casa em construção (e dos trabalhadores) na base do morro; a partir daí o vento encarregou-se do resto. Vi a flecha mudar de rumo e senti

um aperto no peito quando me apercebi da direcção que ela tinha

tomado.

- Micah, aquela flecha vai na direcção que eu penso?

- Oh, não... não... NÃO, NÃÃÃOOO!!!

O meu irmão, que empalidecera, tal como eu, dava pulos como quem queria exprimir a mais veemente negativa, como se esperasse alterar o que era óbvio. Ficámos a observar o arco descendente da seta, que caía em direcção ao trabalhador que nos tinha confiscado a outra. Se o Micah tivesse feito pontaria, se a tentativa fosse propositada, não teria qualquer possibilidade de lançar uma flecha a duas centenas de metros e com tamanha precisão.

- NÃÃÃOOO... NÃÃÃOOO!!! - gritava Micah, que continuava aos pulos.

Vi a flecha descer ao inferno, mais convencido, a cada segundo que passava, de que íamos matar o homem. Nunca me sentira tão aterrorizado. O tempo parecia ter começado a andar mais devagar; tudo se movia com uma temível determinação. Sabia que íamos acabar no reformatório para delinquentes juvenis; ou na própria prisão.

Seria o fim.

A flecha atingiu o solo, a menos de trinta centímetros do sítio onde o homem estava a manejar uma pá, caindo sobre um monte de pó. Perturbado, deveras assustado, o homem saltou para o lado.

- Oh, graças a Deus! - murmurou o Micah, ao soltar um grande suspiro. Sorriu.

- Bem podes agradecer a Deus - concordei. - Foi por pouco.

Como era óbvio, naquela idade, e naquele preciso momento, não conseguíamos adivinhar a maneira como o trabalhador iria reagir perante aquele incidente. Ao contrário de nós, ele não ficara nada satisfeito. Num momento estava a trabalhar, no minuto seguinte quase era morto por uma seta lançada do topo do morro por dois miúdos. Não, não estava satisfeito, de maneira nenhuma. Estava enfurecido! Mesmo à distância de quase duzentos metros, vimo-lo erguer os olhos para nós, atirar com a pá e começar a dirigir-se para o camião.

- Achas que chegou a altura de fugirmos? - perguntei, ao virar-me para o Micah.

Mas ele já não estava ao meu lado, corria na direcção da nossa rua, com as pernas a mexerem-se a uma velocidade que eu nunca tinha visto.

Corri atrás dele; trinta segundos depois, quando já ia a atravessar o relvado dos nossos vizinhos, olhei por cima do ombro e vi o camião travar junto à orla do bosque; e também vi o homem saltar do camião e começar a perseguir-nos, agora a pé.

Oh, não lhe foi difícil apanhar-nos e, de perto, parecia ainda mais furioso do que ao longe. O nosso pai também ficou furioso quando soube da história; fomos proibidos de sair durante duas semanas. Pior ainda: para o fim da tarde, o xerife veio e confiscou os arcos e as flechas.

 

Com excepção daquela única excursão ao Grand Canyon, as nossas férias eram passadas com pessoas de família, em San Diego.

Por quaisquer motivos, a maioria dos nossos familiares, tanto maternos como paternos, tinha-se mudado para lá e, por conseguinte, podíamos ir visitá-los e gozar da praia sem gastarmos muito dinheiro. Uma coisa excelente, devo acrescentar, para uma família que não dispunha de fundos para gastar em turismo.

Fazíamos a viagem de carro, dez horas de estrada, os três apertados no bando traseiro da carrinha Volkswagen, juntamente com a Brandy (a nossa cadela doberman) e bagagem variada. Embora tivéssemos de parar duas vezes, para reabastecimento, fazíamos a viagem de dez horas sem comprarmos comida ou bebidas; em vez disso, as nossas refeições consistiam em sanduíches de fiambre, batatas fritas e limonada que a mamã levava de casa.

Eram umas grandes viagens. Os nossos pais não exigiam que puséssemos os cintos (ficaram realmente surpreendidos com esta revelação?) e líamos, jogávamos ou lutávamos no banco traseiro, enquanto percorríamos a N5, a caminho da casa da avó Sparks. Não era o género de luta em que se dá um beliscão a sorrir; eram lutas a sério, completas, com golpes de tesoura ao pescoço, socos, torção de braços e pernas, tudo acompanhado de gritos e lágrimas. Habitualmente, os nossos pais ignoravam a situação durante algum tempo, mas por vezes chegávamos ao ponto que provocaria uma olhadela do papá por cima do ombro e o grito de “Deixem de abanar a maldita carrinha!”, o que iniciava a inevitável contagem decrescente do alerta de segurança, que parecia nunca conseguirmos evitar. E ficávamos sempre a olhar para o nosso pai, como se ele tivesse espigas de milho a crescer nas orelhas, a tentar descobrir o que poderia ter despertado a sua ira.

- A culpa foi tua - sibilaria o Micah. - Não devias ter gritado.

- Mas estavas a magoar-me - protestaria eu.

- Tens de te habituar a ser mais forte.

- Estavas a torcer-me a orelha! Pensei que ias arrancá-la!

- Estás a exagerar.

- És um idiota.

Nesta altura, ele semicerrava os olhos:

- O que é que me chamaste?

A Dana resolvia intervir, de boa vontade:

- Chamou-te idiota.

O Micah rosnava:

- já te digo quem é o idiota...

Chegados a este ponto, recomeçávamos o combate. Costumo dizer às pessoas que nunca percorremos a estrada para San Diego; na maioria dos casos, a carrinha parecia saltar até lá.

Quando visitávamos os nossos familiares era como se “o campo descesse à cidade”. Normalmente eram famílias com situações financeiras superiores à nossa e, logo que chegávamos, entrávamos casa dentro à procura dos quartos dos nossos primos. Sabíamos que para lá daquelas portas estava o próprio paraíso; ficávamos um momento a olhar, maravilhados, sentindo pequenas lágrimas a quererem sair-nos dos cantos dos olhos.

- Eli! O que é isto? - perguntaríamos, a agarrar qualquer coisa. Não tardávamos a agitar as peças, a tentar descobrir o que era.

- É novo. É uma grua de construção e funciona a pilhas - informaria o nosso primo, a impar de orgulho. - Pode montar casas, a partir do nada...

Zás!

O primo ficaria paralisado de horror ao ver o brinquedo feito em dois.

- O que é que aconteceu? - perguntávamos.

- Tu... tu... partiste o brinquedo - choramingava o miúdo.

- Oh, desculpa. Hum!.., para que serve esta coisa?

- É o novo carro com controlo electrónico melhorado, completo com...

Zás!

- Oh, desculpa - diríamos de novo. - E isto, para que é?

Uma vez partidos os brinquedos (sempre nos maravilhávamos por tantos acidentes poderem acontecer em tão pouco tempo), tentávamos brincar com os primos. Não que eles encarassem o que fazíamos como um jogo. Não fazíamos nada com eles que não fizéssemos em nossa casa; para nós, era uma brincadeira normal, mas para eles era uma tortura quase sem fim. Nenhum deles, segundo parecia, vivera uma infância como a nossa, isto é, sem verdadeiras normas. Por exemplo: divertíamo-nos imenso a enrolar os mais pequenos num tapete até eles ficarem presos e sufocados, incapazes de se mexerem. Então, o meu irmão e eu saltávamos, um de cada vez, de cima do sofá para o

sítio onde eles estavam, e gritávamos “Bingo!” sempre que acertávamos em cheio. Outras vezes, obrigávamos a que mergulhassem na piscina - um mergulho total, durante muito, muito tempo - até quase morrerem afogados. Havia ocasiões em que tentávamos ensinar os primos a baterem forte, fazendo a demonstração nos próprios braços deles.

- Não, assim não. Leva o braço atrás e usa bem os nós dos dedos, Assim...

Zumba!

O único problema com aquelas estadas juntos dos primos, e custa-me admiti-lo por serem da minha família, era eles revelarem-se uns chorões. Enquanto estávamos lá não deixavam de chorar. Nem sei como os pais deles conseguiam suportar aquilo.

De qualquer das formas, a estada chegava ao fim e era tempo de partirmos. Caminhávamos para a carrinha e voltávamo-nos para vermos os nossos primos, brancos como a cal, com os bracitos cobertos de nódoas negras.

A despedida era feita em voz alta:

- Até para o ano!

Mais tarde, no caminho de regresso a casa da avó, o meu irmão perguntaria:

- Que cara era aquela, a que tinham quando nos viemos embora?

- Estás a falar dos piscares de olhos, de eles arquearem as sobrancelhas e inclinarem a cabeça de repente para um lado?

- Pois.

- Não sei. Deve ser um tique facial qualquer.

O Micah abanava a cabeça.

- Pobres miúdos. Não estavam assim quando chegámos. Foi coisa que lhes deu subitamente.

Só por si, as viagens também eram verdadeiras aventuras. De uma das vezes que partimos para San Diego o meu pai levava 21 dólares na carteira. Isso mesmo, o total que conseguira arranjar para levar toda a família de férias durante uma semana. Por azar, a carrinha avariou-se nas montanhas Tehachapi, cerca de uma hora de viagem a norte de Los Angeles. Fomos rebocados até à única estação de serviço existente nos arredores, onde foi detectada uma fuga de óleo. A peça sobressalente levaria pelo menos uma semana a chegar, mas o mecânico achou que com uma soldadura, que faria naquela mesma noite, poderíamos seguir viagem e chegar ao nosso destino. Como é evidente, a reparação custava dinheiro, uma coisa de que o papá não dispunha.

O papá tinha uma relação engraçada, quase contraditória, com o dinheiro. Suponho que ele queria poder dispor de mais mas, chegada a hora de transformar o desejo em decisão, não tinha ideia do que era necessário fazer para ganhar mais. Mesmo que nunca desejasse pensar em dinheiro, a situação da família forçava-o a pensar nele constantemente. Tudo tinha de ser orçamentado e aquela avaria não estava prevista no orçamento. Dizer que ficou zangado não chega; metia medo, ultrapassou a fase de segurança e passou directamente para a fase de lançamento da bomba nuclear. Ligou para San Diego e falou com a mãe, que prometeu enviar um vale telegráfico com o dinheiro necessário à reparação, mas a carrinha só ficaria pronta no dia seguinte. Passou o dia a andar para diante e para trás, a assobiar a canção dos mortos, com a língua dobrada para fora da boca.

Para o final da tarde, comemos a última das sanduíches e as batatas fritas e bebemos a limonada que restava, o que deixou o pai ainda mais furioso. Sem dinheiro para comprar comida, ou para pagarmos o hotel, acabámos por passar a noite na parte de trás da carrinha, juntamente com a cadela. Quando acordámos, também não havia dinheiro para o pequeno-almoço; só voltaríamos a comer depois de chegarmos a San Diego, durante a tarde do dia seguinte.

No entanto, aquela não foi a parte pior das férias. Nem aquela em que mais se manifestou a fúria do papá. Quando penso naquela viagem, as minhas recordações centram-se sempre no primeiro dia, no que aconteceu uma hora, ou pouco mais, depois de chegarmos à oficina.

Como disse, o papá estava mais do que furioso; tínhamos aprendido que em momentos daqueles era melhor que nos mantivéssemos distantes dele. Sem mais nada para fazer, Micah, Dana e eu decidimos ver o que a vila tinha para nos oferecer, mas depressa nos apercebemos de que não era muito. Nem se poderia dizer que aquilo fosse uma verdadeira vila, era mais um local, já então degradado, de descanso. Era quente como uma fornalha e tinha apenas uns quantos prédios decrépitos, alinhados de cada lado da estrada, nos dois sentidos, sem uma única sombra. Nem existia café nem restaurante que tivesse um televisor num canto, o que nos poderia ajudar a passar o tempo.

Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente aborrecido. Felizmente, não tardámos a encontrar um cão que parecia merecedor da nossa atenção. Passámos uns momentos a acariciá-lo e o animal mostrou-se incrivelmente amistoso, mexido e feliz; começámos a chamar-lhe Sparky (por causa do nosso nome, é claro). Passado algum tempo, pôs-se de pé e vimo-lo afastar-se a trote, de língua pendente, parecendo feliz como um pónei. Olhou para trás, para nós, a rir-se (ainda hoje acredito nisso) e correu para a estrada onde, no mesmo instante, foi atropelado por um automóvel que circulava a cem quilómetros à hora.

Vimos os pormenores todos. Ouvimos o estrondo e ficámos a ver o cão fazer uma pirueta que nada tinha de natural, antes de voar na nossa direcção, com o sangue a espirrar-lhe da boca, para vir aterrar a menos de um metro de nós. O carro abrandou um pouco mas não parou. A família que transportava pareceu tão horrorizada como nós. Passados uns momentos, depois de gemer, estremecer e soltar um último suspiro, o Sparky morreu aos nossos pés. Com o papá tão furioso e a mamã a tentar acalmá-lo, para enfrentarmos aquele horror fizemos o que sempre tínhamos feito: abraçámo-nos os três, como irmãos. Apenas três crianças pequenas, abraçadas na berma de uma estrada, a chorar e a tentarem compreender como é que aquelas coisas terríveis podiam acontecer.

 

Peru: Cuzco e Machu Picchu 27 e 28 de Janeiro

Depois da breve paragem em Lima, preparámo-nos para seguirmos para Cuzco, o mais antigo estabelecimento permanente do Hemisfério Ocidental, a antiga capital do império inca. Com uma população de 275 mil almas, é uma cidade resplendente de casas de adobe, telhados de telha vermelha, sinuosas ruas calcetadas, catedrais magníficas e mercados ao ar livre; ao voarmos por cima da cidade, eu e o Micah sentimo-nos comovidos com tanta beleza.

Durante o voo, tínhamos sido avisados da existência do mal da altitude. Aninhada nos Andes, Cuzco está situada a 3500 metros de altitude, pelo que fomos aconselhados a caminhar pausadamente quando saíssemos do avião. Os funcionários da agência de viagens encontravam-se colocados em diversos pontos do terminal e repetiam os avisos, à medida que o nosso grupo ia passando.

- Vão com calma. Não se cansem. Caminhem devagarinho.

- Dir-se-ia que vamos escalar o monte Everest - sussurrou o Micah, - e não a passar pelo terminal de um aeroporto.

Assenti, concordando que tudo aquilo parecia ridículo. Talvez algumas pessoas se sentissem afectadas, mas nós éramos jovens e estávamos em relativa boa forma. Sem ligarmos aos avisos, caminhámos no nosso passo normal e acabámos por ter de esperar que todos os outros chegassem junto dos autocarros.

No entanto, enquanto esperávamos notei um ar preocupado no rosto do Micah. Respirou profundamente, várias vezes.

- Sabes, acho que estou a senti-la - anunciou.

- A sério?

- Um pouco. Parece que me está a pôr um pouco... esquisito.

Afinal, acabámos por nos sentir, ambos, verdadeiramente esquisitos, como se tivéssemos abusado da cerveja. Por qualquer razão, começámos a soltar risadinhas e não conseguíamos parar. Com o autocarro já em andamento, tudo nos parecia extremamente engraçado; as roupas que as pessoas vestiam, os buracos e o calcetado da estrada que faziam as nossas vozes vibrar e, especialmente o nome do lugar para onde nos dirigíamos: Sacsayhuaman.

Quando pronunciado correctamente - Socsi Vumam - soava como “sexy woman” dito por uma pessoa com sotaque russo. Dado o nosso estado de aturdimento, não conseguíamos esquecer o pormenor. Nem parecíamos capazes de falar de outra coisa.

- Mal consigo esperar para ver a mulher sexy - dizia o Micah, e o meu cérebro carente de oxigénio fazia-me redobrar o riso.

- Gostaria de saber onde vamos encontrar a mulher sexy - acrescentou ele. - Sabes que para mim não há nada melhor do que uma mulher sexy.

- Por favor... cala-te, está bem? - implorei.

- Quero realmente, realmente, realmente montar uma mulher sexy. Sabes que o Peru é famoso por ter mulheres muito sexy?

Eu já tinha lágrimas nos olhos.

Almoçámos no hotel, em Cuzco. Um antigo mosteiro, ficaria assinalado como um dos hotéis mais interessantes de toda a viagem. Como a Casa Aliaga, foi construído à volta de um pátio central, mas em escala muito maior. A construção original é de 1640, mas as salas foram modificadas para permitir a entrada do oxigénio. Como o Micah observou quando entrámos no vestíbulo:

- Isto é ainda melhor do que uma mulher sexy.

 

À tarde, depois de as risadas terem parado, conseguimos ir visitar a fortaleza inca. Não era bem aquilo de que estávamos à espera. Situada num planalto largo e aberto, a dominar Cuzco, é cercada de muros de pedra, parecendo mais um anfiteatro do que uma fortaleza. Os muros foram construídos com gigantescos blocos de granito e as pedras foram cortadas com uma precisão tal que, ainda hoje, é impossível enfiar uma folha de papel nos espaços entre elas.

Por cima de nós, as nuvens pesadas davam à paisagem um ar de mau agouro. Percorremos a área na companhia de Bob e Kate Devlin, de quem rapidamente nos tornáramos amigos. Enquanto ouvíamos o guia falar acerca da intrincada construção de pedra, informaram-nos de que tinham comemorado havia pouco tempo o 45º aniversário do seu casamento. Um pouco depois, quando o Micah e eu nos afastámos um pouco, vimos, mais longe, o Bob e a Kate juntos. Por momentos, ficámos a observá-los.

- Parecem felizes, não parecem? - perguntou o Micah.

- Pois parecem. E julgo que parecem felizes porque são realmente felizes.

- Quarenta anos é muito tempo. Têm mais anos de casados do que eu tenho de vida.

- O mesmo que acontece com muitos dos nossos companheiros de viagem.

- Qual é, na tua opinião, o segredo de um casamento duradouro? - indagou o Micah.

- Não sei se existe algum segredo. Os casais são todos diferentes. O que funciona para um pode não funcionar para outro.

- Eu sei. Mas se tivesses de salientar um pormenor, qual é que escolherias?

Hesitei. Por cima de mim, o céu parecia desenhado a carvão; as nuvens corriam, mudavam de cor e assumiam novas formas a cada minuto que passava.

- Dedicação - acabei por decidir. - Ambas as pessoas têm de ser dedicadas. Penso que se duas pessoas forem dedicadas ao casamento, se desejarem realmente que ele funcione, acabarão por encontrar a maneira de o fazer funcionar. Aconteça o que acontecer na vida. Se casares com alguém que não for dedicado, ou se tu não o fores, o casamento não resistirá quando qualquer coisa correr mal. O casamento não é brincadeira nenhuma.

- Hum! - foi a resposta do Micah.

- E tu? Qual é que pensas que é o segredo?

- Não faço ideia. Estou casado só há quatro anos. Mas, para mim e para a Christine, penso que é a comunicação. Quando falamos dos assuntos e somos realmente francos um com o outro, tudo é fantástico entre nós. Quando guardamos as coisas para nós, as dores e os ressentimentos acumulam-se e acabamos a zaragatear.

Não fiz qualquer comentário.

- O quê? Não consideras a comunicação importante?

Encolhi os ombros.

- De que serve conversar se nenhum de vós for realmente dedicado? Se um de vós tiver um caso, ou se começar a viciar-se em drogas, ou a insultar o outro, a simples conversa não suprime o desgosto. Nem repõe o sentimento de dedicação que se perdeu. Ao cabo e ao resto, o casamento resume-se a actos. Julgo que as pessoas falam demasiado daquilo que as preocupa, em vez de se limitarem a fazer aquelas pequenas coisas que podem fortalecer o casamento. Tens de perceber o que o teu cônjuge precisa que faças, e fazê-lo. E tens de evitar fazer aquelas coisas que prejudiquem a relação. Se o cônjuge agir da mesma maneira, o teu casamento conseguirá resistir a tudo.

O Micah sorriu.

- Como tu e a Cat?

- Acertaste - respondi calmamente. - Como eu e a Cat.

 

Depois da fortaleza de Sacsayhuaman, regressámos para visitar a catedral de Cuzco, cuja riqueza desafia a imaginação. Maior do St. Patrick, em Nova Iorque, a catedral alberga centenas de frescos e quadros a óleo que representam figuras religiosas, enquanto o ouro e a prata brilham por toda a parte, não só nos maciços altares forrados de metais preciosos, mas também nas paredes. Quando pensamos que os espanhóis enviaram a maior parte da riqueza para Espanha, torna-se fácil perceber o motivo que levou Pizarro a procurar com tanto afinco a derrota dos Incas.

Por mais fascinante que a igreja fosse, o Micah parecia ter uma fixação por um determinado aspecto. Com algum esforço, conseguiu chamar a atenção do guia.

- Onde é que está o quadro em que Jesus está a comer a cobaia? - perguntou.

Segundo nos informaram, no Peru as cobaias não são consideradas animais de estimação. Em vez disso, consideradas uma iguaria, são comidas, grelhadas, em certas ocasiões especiais. Quando os primeiros missionários espanhóis estavam a trabalhar na conversão dos Incas ao cristianismo, para tornar a religião mais aceitável por parte dos nativos tiveram de operar uma simbiose com a cultura local. Assim, quando os missionários encomendaram uma pintura da última Ceia, não é de pensar que tivessem ficado muito surpreendidos por o pintor ter escolhido a cobaia como alimento de Jesus.

Não tardou que pudéssemos ver o quadro de Jesus Cristo rodeado pelos discípulos. Para além do pão e do vinho, no prato que tinha à frente, lá estava a cobaia grelhada.

Enquanto estávamos a admirar o quadro, o Micah inclinou-se para mim e segredou-me:

- Sabias que a turma da Alli tem uma cobaia por mascote?

- Ah, sim?

- É. Ela vai adorar isto.

Sem mais ninguém notar, conseguiu fotografar o quadro.

Museus.

A qualquer lado aonde fôssemos, éramos levados a visitar museus, de modo a podermos observar os artefactos representativos da história de cada povo. Para ser franco, alguns revelaram-se bastante enfadonhos. Aprendemos, por exemplo, que praticamente todos os povos do passado dispunham de - surpresa! - cerâmica; por conseguinte, passámos imenso tempo a ver potes e tigelas. Por maiores que sejam as diferenças em que pensemos, passado algum tempo a excitação era a mesma que sentiríamos ao observar os potes e as tigelas que guardamos no armário da nossa própria cozinha. Mas os nossos guias adoravam potes e tigelas. Parecia que podiam passar horas a falar de potes e tigelas. Falavam com reverência dos seus potes e tigelas.

- E este... este é o pote que usavam para guardar água! - informavam. - E aquele, ali, reparem na diferença com aquele, que era usado para guardar vinho! Conseguem notar as diferenças de forma e de cor? Até o tamanho é diferente! É fantástico podermos verificar até que ponto esta civilização tinha evoluído. Líquidos diferentes, potes diferentes! Imaginem!

- Uf! - repetia o Micah. - Imaginem!

- Estou a tentar - acrescentava eu.

- Líquidos diferentes! Potes diferentes!

- Um difícil problema mental, não é?

Uma vez por outra, aprendíamos coisas verdadeiramente intrigantes. Os ossos, por exemplo, quase sempre nos faziam parar. E as armas. E as caveiras. Especialmente as caveiras. No museu de Cuzco vimos uma colecção de caveiras que estavam alinhadas numa vitrina. Embora as informações estivessem em espanhol, conseguimos decifrar parte delas e ler a palavra “cirurgia”.

O guia não estava tão entusiasmado como nós em relação às caveiras e à ideia de haver ali sinais de uma cirurgia primitiva. Pareceu querer desvalorizar aquilo que o Micah e eu estávamos a ver, como se, de certa forma, estivéssemos a pôr em dúvida a civilidade dos primitivos Incas.

- Isso não tem importância - desculpou-se. - Vamos, deixem que lhes apresente estes potes e tigelas. Ainda temos mais que ver, lá à frente.

- Já o apanhamos - respondemos.

Percebemos que os Incas operavam o cérebro, uma ideia que nos fascinou. Ainda se viam os buracos que tinham aberto nos ossos dos crânios. Eram grandes como moedas de 25 cêntimos de dólar e, pelo número e variações de colocação dos buracos, não constituiriam uma prática fora do comum. Ao olharmos para eles, tentávamos imaginar o sofrimento dos pacientes ou o que o chefe lhes diria ao explicar a necessidade de se sujeitarem à operação.

“Hum, tens andado deprimido, não tens? Bom, estou convencido de que os espíritos animais se esconderam entre as tuas orelhas. Penso que será melhor tirá-los de lá.”

“Está bem, chefe. Desde que saiba o que tem a fazer.”

“É claro que sei o que faço. Não viste os nossos potes e tigelas? Ora bem, passa-me esse osso de jaguar, deita-te sobre essa rocha e deixa-me escavar um pouco.”

“Está bem, chefe.”

 

Na manhã seguinte fomos conduzidos à estação principal de Cuzco, para percorrermos o lendário vale de Urubamba, a caminho de Machu Picchu. Os guias tinham afirmado que as paisagens do vale estavam entre as mais belas do mundo e a nossa viagem oferecia tudo o que a publicidade proclamava, ou ainda mais. Micah e eu passámos três horas e meia colados aos vidros das janelas, a observar os altos desfiladeiros de granito e a olhar, maravilhados, o rio que por vezes parecia quase ao alcance da mão. A espaços, avistavam-se ruínas dos Incas, construções que se tinham desmoronado por falta de reparação: uma parede aqui, um palheiro mais adiante.

Ultrapassado o vale, quando começámos a subir os Andes, o azul do céu começou a dar lugar às nuvens inchadas de humidade. As florestas transformaram os Andes em manchas verdes e desembarcámos numa aldeia de construção periclitante, nas margens do rio Urubamba, que na altura era uma torrente caudalosa. À chuva, percorremos uma rua estreita, ocupada por uma multidão de vendedores, que também servia de mercado da povoação. Dali, tomámos um autocarro que nos levaria através de estradas sinuosas que terminavam em Machu Picchu, a mais de 320O metros de altitude.

Quando Hiram Bingham chegou ao Peru, em 1911, a lenda de uma cidade inca perdida nos Andes era por muitos considerada simples folclore. Disposto a provar a sua existência, Bingham contratou guias locais e preparou uma expedição para encontrar a cidade. Os guias foram contratados por se supor que conheciam a localização e, depois de o levarem a percorrer o vale, acabaram por conduzi-lo à base de uma montanha rochosa, cujo pico estava envolto em nuvens. Ao subirem, ele e a equipa encontraram um grupo de nativos, que lhes anunciaram que “as casas estavam a seguir a uma curva do caminho”. Poucos minutos mais tarde, Bingham deu com as ruínas da lendária cidade, que se presume tenha albergado 2500 pessoas. Até à data, ninguém encontrou um motivo para a construção da cidade. Poderá ter servido como posto avançado de defesa contra os saqueadores espanhóis; outros elementos descobertos parecem dar a entender que se tratava de um lugar de repouso do rei, uma espécie de refúgio de férias. Também há autores que destacam as provas de que a cidade poderia ter sido ocupada por uma maioria de mulheres, o que veio complicar ainda mais as teorias. De certeza, sabe-se que o lugar foi abandonado pouco depois da chegada dos espanhóis.

Quando Micah e eu saltámos do autocarro, começámos por não conseguir ver nada devido ao nevoeiro. Porém, seguindo ao longo da borda de um desfiladeiro, as ruínas começaram a aparecer lentamente, como se fossem sendo destapadas. Primeiro, não havia nada de nítido; as imagens formaram-se pouco a pouco. Depois, de repente, avistámos tudo e o que vimos foi suficiente para nos reduzir ao silêncio.

Parte do impacte de Machu Picchu deve-se ao local estranho em que foi construída; se algumas das ruínas nos aparecem no topo da montanha, outras parecem nascer directamente das faces laterais do penhasco. Os terraços parecem degraus gigantes cavados na face do penedo e, logo atrás deles, construídos com blocos de granito, aparecem as habitações e os templos dos antigos Incas. Os telhados originais, feitos de madeira e colmo, há muito que desapareceram, mas ainda se notam as estruturas. A interligar as casas, foram construídas escadarias íngremes entre os edifícios. A povoação tinha diversos locais de culto, com zonas ao ar livre e aras para os sacrifícios. Estávamos rodeados pelas encostas luxuriantes dos Andes. Fragmentos de nuvens esgueiravam-se por entre os picos. Se Tikal nos tinha impressionado, a arquitectura de Machu Picchu deixou-nos sem palavras. Seria a minha paragem preferida, em toda a viagem.

Percorremos as ruínas acompanhados de um guia que nos falou da história e da cultura do lugar. Porém, a espaços, senti-me forçado a afastar-me do grupo, apenas para ficar só durante algum tempo. Aquele era o género de lugar que merecia ser “vivido”, não apenas visitado. Micah sentiu o mesmo. A certa altura, sentámo-nos à beira de uma ruína, com as pernas pendentes, a sorver aquela paisagem fantástica, sem que algum de nós desejasse quebrar o silêncio.

Ainda continuámos a explorar as ruínas durante mais algumas horas. Segundo o programa, a visita acabava com o almoço no restaurante local. Micah e eu teríamos preferido permanecer naquele lugar, mas o horário da excursão não o permitiu e, de má vontade, fomos juntar-nos aos outros.

Depois do almoço, voltámos ao hotel de Cuzco, onde chegámos logo após o anoitecer. Um dos conferencistas da excursão ligou-nos para o quarto, a pedir que descêssemos; quando chegámos, vimos o que ele mandara vir de um restaurante local.

Cobaia assada.

- Venham cá, vamos experimentar isto. Pedi a um dos guias que a fosse buscar a um restaurante daqui. Tiraremos fotografias.

A visão fez-me sentir enjoado. Apoiei-me no Micah.

- Ainda tem a cabeça. E as garras.

Micah encolheu os ombros.

- É considerada uma iguaria. Além do mais, a pintura indica que

foi isto que serviram na última Ceia.

- Não estás a pensar comer aquilo, pois não?

- Talvez experimente... é a minha única oportunidade. Vou aproveitar. Não me parece que sirvam este prato lá na nossa terra.

- A sério? Vais dar uma dentada?

- julgo que não posso deixar de o fazer. Olha, faz-me um favor.

- O que é?

- Tira uma fotografia. Para a Alli.

- Isso é ignóbil. Ela vai sentir-se mal.

- Não, não vai. Vai achar graça. E também te tiro a fotografia a

provares o petisco.

- Eu?

- Claro. Não posso deixar que desperdices um momento como

este. Como costuma dizer-se: “Em Roma, sê...”

Voltei a olhar a cobaia.

- Sinto-me bastante agoniado só de pensar nisso.

- É por isso que eu estou aqui. Para te ajudar a provar coisas

novas. Para te descontraíres.

 - Obrigadinho.

- Eia! - exclamou, encolhendo os ombros: - Para que servem os irmãos? Vá, prepara a máquina fotográfica.

Assim fiz e tirei a fotografia do Micah a comer. Ele fez o mesmo para mim quando tirei um pedacinho, com o estômago a arder como

se fosse um candeeiro que tomasse anfetaminas.

- Ora bem, não foi assim tão mau, pois não?

- Acho que vou vomitar - admiti.

Riu-se e pôs-me um braço à volta dos ombros.

- Vê a situação nestes termos: foi apenas um gesto estúpido numa longa sucessão de asneiras que já fizemos. E desta vez nem sequer fizemos nada de perigoso.

 

Durante aqueles primeiros anos em Fair Oaks, mesmo quando começámos a testar a nossa coragem em manobras perigosas, continuámos a afastar-nos um do outro. Micah passava mais tempo junto dos seus amigos e eu passava mais tempo com os meus. Uma vez por outra, os nossos amigos encontrar-se-iam no mesmo sítio, mas não era a situação mais frequente.

No entanto, houve certos ritos de passagem que ambos tivemos de ultrapassar, embora em alturas diferentes. Com os campos e os bosques da vizinhança a desaparecerem para dar lugar a novas construções, ambos começámos a passar mais tempo no rio próximo. Havia trilhos para bicicletas e locais para praticar skimboard (parecido com o esqui aquático, mas a prancha é mais larga e amarra-se a uma árvore da margem do rio, em vez de se prender a um barco; a corrente mantém-nos de pé). Também existia uma ponte para peões, que atravessava o rio a uns catorze metros acima do nível da água; um dos rituais consistia em saltar da ponte e mergulhar nas águas geladas do rio. Uma má entrada na água e ficava-se completamente sem fôlego. Saltei pela primeira vez quando tinha dez anos; um ano antes, o Micah fizera o mesmo. Mais tarde, saltei da vedação que havia sobre a ponte (destinada, pois claro, a evitar que os nadadores saltassem), o que acrescentava mais três metros à altura do salto. O Micah também fizera o mesmo, muito antes de mim. Contudo, a nossa actividade preferida era a corda elástica, uma brincadeira que durava horas. A corda era presa ao centro da ponte e esticada, tendo uma prancha na outra ponta. Saltávamos da ponte, com a prancha presa entre as pernas e, agarrados à corda, sentíamos a força da gravidade ao deslizarmos sobre a água a uns 130 quilómetros por hora, antes de sermos atirados de volta para a ponte. Era perigoso, era ilegal e não era raro que o xerife viesse confiscar a corda. Ao fazê-lo, olhava para mim ou para o meu irmão e, por vezes, perguntava:

- Não vos conheço já?

- Não vejo como - respondíamos, com ar inocente.

O Micah e eu também escalávamos as escarpas existentes na margem do rio. Eram cortadas quase a pique e a terra era instável; ambos caíamos, com certa frequência, por vezes de alturas superiores a três metros, arriscados a partir os tornozelos e as pernas. Uma vez, quase perdi um dedo numa dessas escaladas; o golpe na falange foi profundo, mas a minha mãe disse que não me preocupasse, pois ela sabia exactamente o que fazer. (Colocou um penso rápido sobre a ferida.)

No entanto, na maioria das vezes, o Micah e eu não estávamos juntos naquelas aventuras. Se eu ia ao rio uma vez por outra, o Micah estava lá quase todos os dias. Se eu saltava uma vez da ponte, o Micah saltaria dez vezes e arranjaria maneira de tornar o salto mais perigoso, como quando teve a ideia de saltar de bicicleta. Se eu ia a casa de um amigo à segunda-feira, o Micah estaria em casa de um amigo todas as tardes. Resumindo: o Micah era simplesmente “superior” em tudo, incluindo nos transtornos que começava a causar. Embora fosse um estudante relativamente bom, continuava a entrar em discussões com os professores e em lutas com os restantes alunos, obrigando a que os meus pais fossem chamados ao gabinete do director umas três vezes por ano, pelo menos. Eu, pelo contrário, passava os anos a obter óptimas classificações nos exames e a conseguir prémios especiais, sempre a ouvir os professores comentarem: “És muito mais fácil de aturar do que o teu irmão”. E passava o tempo a ler. Não só enciclopédias e a Bíblia, mas também atlas e almanaques. Pode dizer-se que devorava os livros mas, por mais estranho que pareça, sentia que toda a informação, por mais obscura e irrelevante, era assimilada. Quando andava pelo sexto ano, era um prodígio com os pormenores: se alguém apontasse para qualquer país do mundo, eu conseguia recitar as respectivas estatísticas, dizer qual era a capital e as principais exportações, ou alinhar os meses segundo a pluviosidade média. Contudo, não eram coisas capazes de impressionar os miúdos da minha idade.

Podia acontecer que nos juntássemos num grupo, durante o intervalo, e algum dos meus colegas perguntasse a outro:

- Eh!, como é que correu o acampamento em Yosemite?

- Oh, foi fantástico. Eu e o meu pai levámos uma tenda e fomos à pesca. Meu, nem imaginas a quantidade de peixe que apanhámos. E também vimos as sequóias. Meu, são as maiores árvores que alguma vez vi.

- Andaste à volta da Half Dome? - perguntava outro.

- Não, mas o meu pai disse que poderemos fazer isso na próxima

viagem. Ele diz que deve ser um espanto.

- Pois é. Fiz isso no ano passado com o meu pai. Foi muito giro. Entretanto, por me verem muito calado, à parte, alguém tentava

incluir-me na conversa.

- Eh!, Nick, alguma vez estiveste em Yosemite?

- Não, ainda não - respondia eu. - Mas sabiam que, ainda antes de ter sido criado o parque nacional, em 1890, a terra tinha sido colocada à guarda do estado de Califórnia por uma lei aprovada pelo Congresso, em 1864, que foi assinada por Abraham Lincoln? Poder-se-ia pensar que no auge da Guerra Civil o Presidente não teria tempo para pensar nessas coisas, mas ele fê-lo. E, afinal, foi a colocação dessas terras sob tutela que preparou o terreno para a criação do primeiro parque nacional, o de Yellowstone, em 1872. E sabiam que a catarata de Yosemite, a quinta mais alta do mundo, com 748 metros, é, na realidade, composta por três quedas de água distintas? Ou que...

Os meus amigos começariam a olhar para o lado, mas eu continuava.

Era isso. Eu era o Senhor Popularidade.

Também a minha irmã estava a desenvolver a sua própria personalidade. Tal como eu, tinha um relacionamento fácil com os professores, embora as classificações dela andassem à volta do C em quase todas as disciplinas. Conquanto os meus pais fossem ambos licenciados e considerassem a educação importante - a mamã preparou-se para o ensino elementar e o papá era professor universitário - nenhum parecia importar-se com os resultados obtidos pela minha irmã. Não a estimulavam para que estudasse mais, não a ajudavam nos estudos, nem se preocupavam se ela chegava a casa com más classificações, e isto por uma única razão: “era rapariga.”

Contudo, não deixaram de lhe proporcionar lições de hipismo, pensando tratar-se de uma aptidão que, a longo prazo, viria a revelar-se útil.

Quanto melhores resultados obtinha na escola, mais me esforçava por fazer ainda melhor, quando mais não fosse para me destacar em relação aos meus irmãos. De certa maneira, acreditava que, assim, os meus pais me dariam a atenção que era concedida automaticamente ao meu irmão e à minha irmã. Se o Micah recebia atenções por ser o mais velho e a Dana as recebia por ser a única rapariga, eu também procurava ser distinguido por uma qualidade, por qualquer coisa. Ansiava por momentos em que pudesse ser o centro das atenções quando estávamos a jantar mas, por mais que fizesse, as atenções recebidas nunca me pareciam suficientes. Se nunca pus em dúvida o amor dos meus pais por mim, não conseguia deixar de pensar que, se a mamã tivesse de fazer a escolha de Sofia, eu seria o sacrificado para salvar os outros dois. Uma conclusão terrível - agora, como pai, sei que atenção não é o mesmo que amor - mas o sentimento mantinha-se. Pior, desenvolvi uma acuidade crescente para reparar naquelas situações. No Outono, quando chegava a altura de comprar roupas novas para a escola, davam-me duas ou três coisas novas e as que tinham deixado de servir ao Micah; tanto o Micah como a Dana recebiam mais coisas do que eu. E a mamã, mesmo quando reparava na minha reacção, limitava-se a encolher os ombros e a dizer: “Para ti, as roupas do Micah são novas.” A medida que fui crescendo os meus pais pareciam-me incapazes de perceber a forma como uma criança julgaria as acções deles.

Nunca esquecerei o Natal em que, ao acordarmos, encontrámos três bicicletas debaixo da árvore. Para nós, o Natal era, de longe, o dia mais excitante do ano, porque nos restantes raramente conseguíamos o que pretendíamos. Contávamos os dias que faltavam e mantínhamos conversas infindáveis sobre aquilo que desejávamos; nesse ano, as bicicletas estavam no topo da lista. As bicicletas significavam liberdade e alegria; as que tínhamos estavam inutilizáveis pelo desgaste e pela idade. Quando nos dirigimos à sala, as luzes da árvore brilhavam

e ficámos a olhar, maravilhados, as nossas prendas.

A bicicleta do Micah era nova e brilhava.

A bicicleta da Dana era nova e brilhava.

A minha bicicleta... brilhava.

Pensei, por momentos, que também era nova. Mas... então, muito lentamente, comecei a reconhecê-la, apesar da pintura nova. Como se vivesse um pesadelo, apercebi-me de que os meus pais me tinham dado a minha velha bicicleta, embora reparada. A reparação teria certamente custado dinheiro mas, mesmo assim, fui esmagado pela sensação de me terem dado uma prenda que já era minha, enquanto o Micah e a Dana tinham recebido prendas novas.

De uma das vezes que trouxe as minhas notas, que os nossos pais costumavam colar na porta do frigorífico, esperei ansiosamente a chegada da mamã para lhe mostrar os resultados do meu trabalho. Quando as viu, a mamã disse que estava orgulhosa; porém, ao acordar na manhã seguinte, verifiquei que as notas tinham sido descoladas e metidas na gaveta. Quando perguntei à mamã qual o motivo, respondeu-me que o fizera para “não ferir os sentimentos dos outros filhos”.

Depois disso, as notas nunca mais foram afixadas. Provavelmente, e só mais tarde me apercebi disso, o Micah e a Dana também teriam sentimentos de insegurança.

Apesar de por vezes me sentir menosprezado por ela, adorava a minha mãe. O que, nunca é demais repeti-lo, acontecia com todos os que a conheciam, incluindo todos os meus amigos e a nossa cadela: a Brandy, que com os seus 36 quilos de peso saltava e deitava-se no colo da mamã quando ela se sentava na sala, a ler.

Pela sua maneira de ser, era difícil não gostar da mamã. Andava sempre bem-disposta, por muito má que a situação se apresentasse, e fazia espírito acerca de coisas que a maioria das pessoas acharia insuportável. Por exemplo: a mamã trabalhava (como faziam muitas outras mães), mas tinha de ir para o emprego de bicicleta. Quer chovesse a potes quer a temperatura fosse de 35 graus, a mamã vestia-se para ir trabalhar, montava a bicicleta e começava a pedalar para percorrer os mais de seis quilómetros que a separavam do consultório. A bicicleta tinha um cesto no guiador e mais dois atrás do selim; depois do trabalho, ia de bicicleta ao supermercado, enchia-os de tudo o que precisava e seguia para casa. E sempre - repito, sempre - chegava à porta de casa com um ar radiante. Por mais difícil que tivesse sido o dia de trabalho, por mais calor que houvesse, por mais afogueada ou encharcada que estivesse, dava a ideia de ser a pessoa mais feliz do mundo e de que a vida não poderia correr-lhe melhor.

- Olá, malta! Bons olhos vos vejam! Nem calculam o quanto senti a vossa falta durante todo o dia!

Depois, dirigia-se a cada um de nós, a saber como nos tinha corrido o dia. E, um por um, o Micah, a Dana e eu íamos dando as nossas informações enquanto ela começava a fazer o jantar.

Também tinha o riso fácil. A minha mãe podia rir-se de tudo, o que naturalmente atraía as pessoas. Não era Pollyanna, mas parecia pensar a vida como um conjunto de boas e más situações; e não valia a pena gastar energias com as más, pois elas seriam inevitáveis e acabariam por ter um fim.

A minha mãe também parecia conhecer os pais de toda a gente; quando eu travava conhecimento com alguém, era frequente que o meu novo amigo se referisse ao facto de a sua mãe gostar de se dar com a minha. Sempre me pareceu um mistério, pois a mamã não tinha vida social. Quase todas as noites e fins-de-semana eram passados em casa, na nossa companhia, e almoçava sozinha. A propósito, devo esclarecer que os meus pais não tinham amigos comuns, não saíam juntos para nada que se parecesse uma saída de namorados. Durante os meus anos de crescimento, recordo-me apenas de uma ocasião em que os meus pais foram juntos a uma festa; foi um choque tremendo para nós quando eles anunciaram, como se fosse a coisa mais natural, que iam sair à noite. Na altura, eu tinha 13 anos e, logo que eles saíram, o Micah, a Dana e eu fizemos uma reunião para debater aquele acontecimento extraordinário. “Vão deixar-nos entregues a nós próprios? O que é que eles estarão a pensar? Somos apenas uns miúdos!”. (Aqui estávamos a esquecer-nos de que ficávamos entregues a nós próprios todos os dias... mas quem é que recorre à lógica quando está cheio de pena de si mesmo?)

Assim sendo, como é que as pessoas a conheciam? Verifiquei que muitos dos pais dos meus novos amigos eram atendidos pela mamã no consultório do optometrista e costumavam conversar com ela. Mas não se tratava apenas de conversa para passar o tempo; a mamã tinha um jeito especial de levar as pessoas a abrirem-se com ela. As pessoas contavam-lhe tudo, era um verdadeiro oráculo de Fair Oaks e, uma vez por outra, quando eu mencionava um novo amigo, ela abanaria a cabeça e diria algo do género: “Ele pode cá vir, mas tu não podes ir a casa dele. Eu sei o que se passa naquela casa.”

No entanto, para mim a mamã era e será sempre um enigma. Embora soubesse que me amava, não conseguia encontrar explicação para o facto de ela não reconhecer os meus êxitos. Embora os filhos fossem a sua razão de viver, deixava-nos à solta em lugares perigosos, empenhados em brincadeiras perigosas. Estas inconsistências sempre foram um enigma para mim e, mesmo agora, não consigo explicá-las muito bem. Desisti, desde há muito, de perceber as suas motivações; no entanto, a haver um fio condutor na maneira como nos criou, esse foi a sua recusa em permitir que qualquer de nós se apiedasse de si próprio. Conseguiu-o graças a um estilo insano de argumentação, em que os três princípios seguintes eram repetidos em diversas sequências:

A. A vida é tua + um comentário de carácter social.

B. O que se deseja e o que se consegue obter são quase sempre duas coisas inteiramente distintas.

C. Nunca foi dito que a vida é justa.

A título de exemplo, vejamos uma discussão entre mim e ela, tinha eu 11 anos:

- Quero inscrever-me na equipa de futebol - anunciei. - Vai haver um campeonato e todos os meus amigos vão jogar.

- A vida é tua - respondeu. - Mas não quero ser responsável por andares de muletas durante toda a vida por teres destroçado um joelho em criança. E, além do mais, não temos dinheiro para isso.

- Mas eu quero.

- O que se deseja e o que se consegue obter são quase sempre duas coisas inteiramente distintas.

- Não é justo. Está sempre a dizer isso.

Encolheu os ombros:

- Nunca foi dito que a vida é justa.

Fiz uma pausa para tentar nova abordagem.

- Não me vou magoar, se é isso que a preocupa.

Mediu-me dos pés à cabeça:

- Com a tua estatura? Vais magoar-te, de certeza. Eu conheço os jogadores de futebol. Para eles, não serás mais do que uma mosca no pára-brisas. És demasiado pequeno.

Naquilo tinha razão. Eu era pequeno.

- Bem gostaria de ser mais alto. Como os meus amigos.

Acariciou-me o ombro com uma mão consoladora:

- Oh, meu amor, nunca foi dito que a vida é justa.

- Eu sei. Mas, mesmo assim...

- Só quero que te lembres do que te digo, está bem? - acrescentou, numa voz suavizada pela afeição maternal: - Mais tarde, sempre que te sentires desapontado com qualquer coisa, o que eu digo vai ajudar-te. O que se deseja e aquilo que se consegue obter são quase sempre duas coisas inteiramente distintas.

- Talvez tenha razão. Talvez eu deva tentar outro desporto.

A mamã presenteou-me com um sorriso terno, como se finalmente tivesse sido convencida:

- Olha, faz como quiseres. A vida é tua.

Quanto mais velho, mais odiava aquelas discussões, porque perdia sempre. No entanto, lá no fundo, nunca conseguia ultrapassar o sentimento de que, provavelmente, a mamã tinha razão. Afinal, ela estava a transmitir-me o que a experiência lhe ensinara.

 

Ilha de Páscoa, Chile 29 e 30 de Janeiro

A ilha de Páscoa apareceu lentamente no campo de visão da janela do avião, um cenário remoto e exótico que serviu para sublinhar ainda mais o facto de estarmos tão afastados da nossa paisagem habitual.

Como a maioria das ilhas do Pacífico Sul, a ilha de Páscoa foi colonizada pelos Polinésios. No entanto, por estar tão afastada do resto da Polinésia habitada - situada a 3500 quilómetros da costa do Chile, é a mais remota ilha habitada do mundo - os primitivos povoadores deram origem a uma cultura própria, onde se inclui a escultura das estátuas gigantes conhecidas por Moai.

De todos os lugares mencionados na brochura original, a ilha de Páscoa era para mim o mais intrigante. Tinha-me informado acerca dos Moai e, desde os meus tempos de menino, desejava ver as estátuas. Por se tratar de um lugar tão remoto, compreendi que aquela excursão poderia ser a única oportunidade de alguma vez vir a pôr os pés na ilha. Estiquei o pescoço, a olhar pela janela, enquanto o avião descrevia uma curva larga, a preparar-se para a aterragem.

O que me impressionou de imediato foi a escassez de árvores. Suponho que tinha imaginado a ilha coberta de palmeiras e de floresta virgem tão típicas do Sul do Pacífico, mas, em vez disso, a maior parte da ilha era coberta de prados, como se uma parte do Kansas tivesse sido largada no meio do oceano. Mais adiante, iríamos saber, através dos arqueólogos, que a ausência de árvores explica em parte a história cultural da ilha de Páscoa; porém, à primeira vista, só me recordo de quão estranha a paisagem me pareceu.

Outro pormenor interessante acerca da ilha de Páscoa é o fuso horário onde se situa. Como voávamos para ocidente, íamos atravessar fusos horários e perder um dia no nosso caminho para a Austrália, mas isso também nos permitia aumentar a duração dos dias. Se partíssemos às dez horas, por exemplo, e voássemos durante cinco horas, chegaríamos ao nosso destino apenas três horas depois da partida, medidas pelo tempo local. Mas como a ilha pertence ao Chile, usa a hora da costa oriental dos Estados Unidos (a mesma hora de Nova Iorque e Miami, embora esteja situada a oeste da Califórnia); fomos informados de que o Sol não se poria antes das 22h45.

O jantar foi servido ao ar livre; depois, alguns dos excursionistas foram até à beira-mar e instalaram-se em cima de uma escarpa a ver o Sol afundar-se no oceano. As ondas esmagavam-se com violência contra as rochas, formando colunas de água que subiam a mais de quinze metros. Para ocidente, o céu ficou rubro e cor-de-rosa, antes de se colorir com o vermelho mais vivo que eu alguma vez tinha visto. A seguir, desceu sobre nós uma escuridão impenetrável.

O Micah e eu estávamos sentados lado a lado, a observar tudo, quando ele se virou para mim.

- Julgo saber qual é o teu problema - afirmou.

- Qual problema?

- O motivo de andares constantemente sob stress.

- Porque é que continuas a falar do mesmo assunto? Estou aqui, a gozar o meu primeiro pôr-do-sol do Sul do Pacífico e tu insistes com as tuas análises psicológicas?

- O teu problema - continuou, sem ligar à minha resposta - é que precisas de mais amigos.

- Eu tenho amigos. Tenho uma quantidade de amigos.

- Homens?

- Sim.

- Mas fazes alguma coisa com eles? Sais com eles? Vais à pesca, andas de barco com eles?

- As vezes.

- As vezes, ou raramente?

Hesitei.

- Ora bem, não convivemos muito. É que não posso. Se quisesse ter tempo para passar com os amigos, teria de passar menos tempo com a família. Tenho demasiados filhos para poder pensar nisso. Além disso, a maioria dos meus amigos também tem filhos. Não sou só eu a não ter muito tempo para andar na paródia.

- Mas devias ter. Para andar na paródia. Nem sempre, é claro, mas devias tentar fazê-lo com maior frequência. Como eu faço. Passei a fazer parte de uma equipa de futebol de salão e jogamos todas as quintas-feiras. Somos apenas um grupo de amigos que procura divertir-se. Devias fazer algo de semelhante.

- Não temos nenhum campeonato de futebol de salão. Vivo numa pequena cidade, recordas-te?

- Não tem de ser futebol. Podes fazer qualquer outra coisa. O que importa é que devias fazer qualquer coisa. As relações humanas são o mais importante da vida e os amigos são parte integrante delas.

Sorri.

- Por que é que tenho a impressão de que tu pensas que a solução de

todos os meus problemas é parecer-me mais contigo?

- Hum!, se a carapuça te serve.

Encolheu os ombros e eu soltei uma gargalhada.

- Continuas a pensar que tens de tomar conta de mim, não é?

- Só quando me convenço de que necessitas de ajuda, maninho.

- E se eu começasse a falar-te de Deus, por pensar que essa conversa te seria útil?

- Avança - respondeu. - Sou todo ouvidos.

Acima de mim, o céu cintilava de estrelas agrupadas em constelações que eu não reconhecia e as palavras brotaram quase sem que desse por isso.

- “Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais tentados mais do que podem as vossas forças, antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar.”

Ele olhou para mim. A despeito da escuridão, vi-o franzir o sobrolho.

- “Primeira Epístola aos Corintios” - informei. - Capítulo 10.

- Impressionante.

Encolhi os ombros.

- Sempre gostei deste versículo. Recorda-me a história das pegadas, tu sabes, aquela em que Deus caminha pela praia na companhia de um homem. As cenas da vida do homem projectam-se no céu e, durante a projecção dos transes mais dolorosos da vida do homem, este vê apenas um conjunto de pegadas. Não por Deus o ter abandonado quando o homem precisava... mas por Deus estar a carregar o homem às costas.

O Micah manteve-se uns momentos calado.

- Assim, és de opinião que Ele não nos abandonou?

- Sou. E não penso que Ele queira que tu o abandones.

Na manhã seguinte, partimos para ir ver a primeira das estátuas gigantes conhecidas como Moai, que se encontrava a poucos minutos de caminho do hotel, mesmo junto à costa. Se soubéssemos para onde olhar, poderíamos tê-la visto da janela do hotel.

Enquanto rodávamos nas carrinhas com os arqueólogos que ganhavam a vida a estudá-las, fomos informados de que em tempos houvera umas catorze tribos na ilha, cada uma com o seu chefe. Foram esses líderes que ordenaram a escultura das estátuas a partir da rocha vulcânica - na sua maioria, eram feitas de modo a parecerem-se com os chefes - e, no decorrer do tempo, as estátuas foram sendo cada vez maiores, com cada um dos chefes a tentar impressionar o povo com a sua própria importância. Algumas das Moai pesam trinta toneladas e têm mais de doze metros de altura; uma estátua inacabada mede vinte metros e estima-se que pese quase cinquenta toneladas.

Mais tarde, fomos informados dos motivos da inexistência de árvores.

Quando foi colonizada, a ilha de Páscoa parecia-se com outras ilhas do Pacífico, mas com o aumento da população as árvores tornaram-se o mais utilizado de todos os recursos naturais. Foram usadas na construção de casas e como combustível para cozinhar; as árvores maiores foram utilizadas para deslocar as Moai. Durante as migrações polinésias do passado, quando uma ilha tinha excesso de população, as pessoas metiam-se nas suas canoas e partiam em busca de novos territórios; como a ilha de Páscoa estava tão isolada, a partir dali não havia para onde ir. Habitantes em excesso e uso desordenado dos recursos naturais levaram à eclosão de guerras civis, que continuaram durante gerações. Durante todo o processo, as árvores continuaram a ser derrubadas. No final, a maioria delas tinha desaparecido e as populações tiveram de queimar tudo o que puderam, incluindo as casas e as canoas, para continuarem a cozinhar. A pesca à beira-mar tornou-se a única fonte de alimento, mas suspeita-se que “La Niña” tenha arrefecido as águas à volta da ilha. Durou dois anos, matando boa parte da fauna dos recifes e o peixe tornou-se menos abundante. Os habitantes acabaram por recorrer ao canibalismo.

Com o tempo, nasceram algumas palmeiras mas, para acelerar o processo de florestação, foram importadas palmeiras adultas da ilha de Tahiti. Aconteceu, porém, que tais árvores estavam doentes e secaram todas, acabando por contaminar e matar a maior parte das palmeiras que ainda havia na ilha. Actualmente, há uns poucos lugares onde ainda florescem.

A primeira estátua que vimos deixou-nos fascinados. O que também aconteceu com a segunda e a terceira. Quando chegámos junto da quarta e da quinta, a sensação de novidade começou a desvanecer-se. Embora os arqueólogos locais assegurassem que cada uma era diferente, para os meus olhos pouco treinados todas pareciam praticamente iguais: buracos dos olhos, grandes orelhas, narizes e bocas, tudo esculpido em lava.

A seguir visitámos a pedreira vulcânica, onde foram esculpidas. Para lá chegar é preciso atravessar a ilha, pelo que a distância a que as estátuas foram transportadas acabou por se revelar ainda mais impressionante do que as próprias estátuas. Enquanto rodávamos, tentei imaginar quantas pessoas teriam sido necessárias para mover uma só estátua; deveriam ser às centenas.

Durante a deslocação até à pedreira onde as estátuas Moai foram esculpidas vimos, de cada lado da estrada, prados abertos e luxuriantes. E vimos também manadas de cavalos de aspecto selvagem.

Na ilha de Páscoa, os cavalos eram símbolos de prosperidade. Foram importados em finais do século XIX; porém, dado o isolamento da ilha, a importação de rações atingia preços proibitivos. Os donos deixaram os cavalos à solta, para que eles pudessem alimentar-se nos prados naturais. Os animais que vimos tinham músculos flexíveis e as crinas brilhavam ao sol, o que levou o Micah a tirar-lhes uma fotografia.

O vulcão ergue-se a mais de 400 metros de altura; à volta da base o solo está pejado de estátuas abandonadas. Algumas estão de lado, outras meio sepultadas ao longo de um caminho que leva ao outro lado da ilha. Na pedreira propriamente dita, há outras que foram abandonadas em várias fases de acabamento. Uma vez mais, não conseguimos respostas sobre o motivo; especulou-se com as guerras mas, como aconteceu em muitos dos lugares onde fomos, não se sabe ao certo. Ali, para todos os efeitos parecia que os trabalhadores tinham acabado a sua jornada e que tinham a intenção de voltar no dia seguinte.

Para se chegar ao cume do vulcão é preciso percorrer um carreiro sinuoso e cerca de um terço das pessoas do nosso grupo conseguiram lá chegar. Lá de cima, é possível observar a curvatura da Terra; o Micah e eu fomos os primeiros a chegar. Sob um céu azul e sem nuvens, com uma temperatura na casa dos 2O graus, o passeio foi agradável. Nada à nossa volta, a não ser a extensão do mar sem fim; tentei imaginar como os primeiros polinésios tinham conseguido sobreviver na imensidade do Pacífico durante o tempo que levaram

até descobrir a ilha.

Tirámos fotografias no cimo do vulcão e depois sentámo-nos numa rocha cortada a pique. Enquanto descansávamos, o Micah pegou na fotografia que tinha tirado à manada de cavalos e ficou a olhar para ela.

- A mamã adoraria esta - observou. - Teria desejado emoldurá-la.

- Sem dúvida - respondi. - E a Dana também.

- Recordas-te de quando tivemos aquelas lições de hipismo?

- Na verdade, não. Tu e a Dana é que tiveram essas lições, recordas-te?

- Sim, mas porque é que não foste connosco?

- Porque não havia dinheiro suficiente e vocês os dois estavam

mais entusiasmados com a ideia do que eu.

Micah pôs o braço à volta dos meus ombros.

- O infeliz irmão do meio. Sempre com a sensação de ser posto de lado.

- Não me sentia posto de lado. Eu era posto de lado.

- Não, não eras. A mamã e o papá sempre tiveram orgulho em ti. Costumavam dizer-me que eu tinha de conseguir fazer melhor na escola, ser como tu.

- Foi por isso que tiraram o boletim das minhas notas da porta do frigorífico, não foi?

- Não fizeram nada disso.

- Sim, fizeram.

- A sério?

- A sério.

- Não me recordo disso.

- Não tens um motivo para te recordares.

Riu-se.

- A maneira como a memória funciona é engraçada, não é? Recordamos coisas diferentes, especialmente as que nos atemorizaram, o género de eventos de que as pessoas falam quando se deitam no sofá e conversam com o psicanalista. Lembro-me de um Natal em que pedi uma alta-fidelidade e uns auscultadores. Não queria uma das grandes, apenas um aparelho que pusesse no meu quarto. Devia ter uns 12 anos e implorei que me dessem aquilo. Devo ter andado a perseguir a mamã durante meses e, na manhã do Dia de Natal, recordo que me levantei e fui ver: lá estavam, debaixo da árvore, os auscultadores e o aparelho. Havia um bilhete que dizia “para o Micah”. Fiquei tão excitado. Era o melhor presente que recebera até então. A mamã apareceu e quando principiava a agradecer-lhe ela começou a dizer: não, não, não. “Só os auscultadores é que são teus. A alta-fidelidade é para toda a família”. Fiquei destroçado, era a única coisa que eu queria. Além disso, sem a alta-fidelidade, para que servem uns auscultadores? É como ter só um sapato.

- Por vezes, os nossos pais eram malucos, não eram?

- Por vezes? Sim. Pode dizer-se que sim.

Fiquei sentado durante uns momentos, em silêncio e a reflectir sobre o passado. Pouco a pouco, as pessoas começaram a abandonar o cume do vulcão; a excursão tinha um horário a cumprir.

- Anda daí - acabei por dizer. - Vamos embora. Ainda temos de ver mais algumas estátuas.

Quando olhei para o Micah, achei-o estranhamente contemplativo. Percebi que, de súbito, também ele começara a reflectir sobre o passado. Tinha os olhos postos no horizonte e contrariou-me, na sua voz calma:

- Não. Ficamos aqui mais uns minutos. Depois, vamos.

Fixei os olhos na direcção do horizonte, seguindo o olhar do meu irmão.

- Como queiras.

Depois de descermos o monte do vulcão, dirigimo-nos ao local mais fotografado da ilha de Páscoa.

Gigantescas estátuas Moai, umas vinte, encontram-se alinhadas ao longo da orla costeira. Todas tinham sido derrubadas e algumas reduzidas a pó, num processo que durou até há poucos anos. Os arqueólogos que nos acompanhavam como guias tinham ajudado a repará-las e também a recolocá-las na posição erecta.

Aquelas eram, pensei, as estátuas que Jakob Roggeveen, um almirante holandês, deve ter visto quando se tornou o primeiro europeu a avistar a ilha, na véspera do domingo de Páscoa de 1722. Segundo a lenda, o almirante começou por pensar que a ilha era habitada por gigantes. Só quando se aproximou da praia é que se apercebeu da presença de homens de estatura normal a trabalhar entre as estátuas.

Contudo, as estátuas nunca foram completamente restauradas. Segundo nos disseram, na altura em que foram esculpidas todas as estátuas receberam olhos. Esculpidos em madeira, foram pintados e tinham pupilas, mas acabaram por se degradar e ficaram apenas os buracos que dão às estátuas aquele aspecto espectral.

- Quem sabe se não voltarão a colocar-lhes os olhos? - perguntou o Micah. - Puseram-nas de pé, por isso não devemos concluir que acham que as estátuas não devem ser perturbadas.

- Não faço ideia. Talvez pensem que os turistas poderiam enervar-se.

Ele encarou as estátuas.

- Não me enervaria mesmo nada.

- Nem eu.

Fez uma pausa.

- Penso que os olhos lhes dariam melhor aspecto.

- Também eu.

- Talvez devêssemos iniciar um movimento. Podíamos chamar-lhe “Olhos Para as Estátuas”.

- Soa bem. Avança!

Mas ele continuou a olhar:

- A verdade é que penso que ficariam melhor, não achas?

Ao lado do Micah, apercebi-me de que em certas alturas falávamos

um para o outro não por termos algo de importante a comunicar, mas

simplesmente por cada um de nós gostar de ouvir a voz do outro.

 

Depois de tirarmos fotografias, voltámos às carrinhas e seguimos para Anakena, uma enseada com uma praia de areia branca que ostenta um dos poucos palmeirais ainda existentes na ilha. Pela primeira vez, vimos uma parte da ilha com aparência tropical; um antigo Moai parecia estar de guarda à entrada da praia, para observar os banhistas.

Depois de um churrasco na praia, o Micah, eu e mais algumas pessoas fomos dar um mergulho. Por aquela altura, o nosso grupo começava a ser formado por várias cliques. Havia os aventureiros que pretendiam experimentar tudo; outros pareciam encarar as visitas como inconveniências que tinham de suportar nos intervalos entre as refeições e as festas. Algumas das posições tinham a ver com a idade, outras eram reflexo da maneira de ser das pessoas. O Micah e eu alinhávamos no grupo dos aventureiros; preferíamos os passeios de “passada larga” aos passeios de “passada curta”, pelo que a oportunidade de mergulhar no Pacífico era algo que nunca perderíamos. Embora de somenos importância, seria outro numa longa lista de eventos em que, juntos, tomaríamos parte, “pela primeira vez”.

- Eles nem fazem ideia do que perdem, pois não? - observou o

Micah, a dirigir-se a mim e a apontar para os que tinham ficado sentados na praia.

- É provável que não seja importante para eles. Muitas destas pessoas já fizeram viagens deste género.

- É provável - admitiu. - Mas também pode acontecer que nunca as tenham feito. Algumas pessoas não sabem, pura e simplesmente, como devem divertir-se. Nem querem saber.

Subitamente alerta, olhei para o Micah, a tentar descobrir se ele estaria a referir-se a mim.

 

No sétimo ano, o Micah foi para a Barrett Junior High School e continuámos a crescer separados. A minha irmã e eu, pelo contrário, éramos cada vez mais chegados. A Dana estava sempre a rir-se e tinha um feitio tão amoroso que quase me fazia sentir culpado de eu ser como era. Raramente se zangava e por vezes ouvia-a contar à mãe o quanto se sentia orgulhosa de nós. Para ela, o Micah e eu éramos incapazes de fazer mal e, sempre que éramos postos de castigo, a nossa irmã seria a primeira a ir ao quarto para ouvir as nossas queixas acerca da injustiça que os nossos pais tinham cometido ao castigarem-nos.

A minha irmã parecia saber sempre o que me ia na alma; era a única pessoa a perceber que a procura da excelência na escola tinha mais a ver com o meu complexo de inferioridade do que com qualquer amor especial pelo estudo. Por vezes pedia-me que a ajudasse nos trabalhos escolares e usava essas oportunidades para aumentar o meu nível de autoconfiança.

- Gostaria de ser inteligente como tu - costumava dizer, ou: - A mamã e o papá estão tão satisfeitos com as tuas notas.

Ao crescer, a Dana foi a única com direito a festa de aniversário porque, como a mamã dizia, “era rapariga”. O que não teria nada de insuportável - nem o Micah nem eu alguma vez pedimos uma festa de anos - mas, como eu e a minha irmã fazíamos anos no mesmo dia, sempre achei estranho que fizessem uma festa só para ela, enquanto eu era deixado de fora. Contudo, se a minha mãe não conseguia perceber uma coisa tão simples, a Dana percebia e, em cada ano, ia ao meu quarto na manhã do nosso aniversário e sentava-se na borda da minha cama. Desperto com o afundar do colchão, perguntava-lhe o que estava a fazer ali.

E ela começava a cantar: - Parabéns a você...

A seguir, era eu quem cantava para ela; durante anos, aquele foi o nosso ritual secreto. Cantávamos um para o outro, só nós os dois, e nunca ninguém soube de nada. Era o nosso segredo, continuaria a sê-lo por muitos anos, e depois de cantarmos um para o outro, ficávamos a falar durante um bocado. Contava-lhe tudo: esperanças e medos, lutas e êxitos; e a Dana fazia o mesmo comigo.

Quando ela tinha doze anos, perguntei-lhe.

- O que é que queres ser quando fores crescida? O que é que mais

desejas na vida?

Com um sorriso sonhador, a minha irmã olhou à volta do quarto.

- Quero casar e quero ter filhos. E desejo ter cavalos.

Um desejo que herdara da mãe. Mais do que tudo o que existia no

mundo, a mamã sempre desejou ser dona de um cavalo. Ao crescer,

tivera um cavalo chamado Tempo e muitas vezes falava do animal e dos

seus maravilhosos passeios que dera com ele.

- Só isso? - perguntei.

- Só isso. É tudo o que desejo da vida.

- Não desejas ser rica ou famosa, nem fazer coisas excitantes?

- Não. Isso fica para ti e para o Micah.

- Mas não vais aborrecer-te com essa vida?

Respondeu-me com toda a convicção:

- Não. Não vou aborrecer-me.

Soube então que a minha irmã não era um emaranhado complicado

de nervos como eu. Quando ela saiu do quarto percebi que, a não

poder ser como o Micah, gostaria de ser como ela.

 

No ano seguinte, quando entrei na Barrett Junior High School, passei a viajar no autocarro com o Micah, mas nunca nos sentávamos juntos, nem sequer falávamos. Os do oitavo ano ocupavam um território totalmente distinto do dos caloiros do sétimo. Eram os “grandes homens” da escola e os nossos caminhos raramente se cruzavam, quer nos corredores quer nos intervalos. Depois da escola, e também nos fins-de-semana, o Micah corria para junto dos seus amigos, enquanto eu ficava a competir em diversas provas de atletismo. Era bom atleta, nada de extraordinário, e não consegui grandes distinções, nem nos campos de futebol nem nas pistas de atletismo.

No ano seguinte, o Micah entrou no curso secundário e passámos a andar separados, durante o período das aulas e depois da saída da escola. Chegado àquele ponto já me habituara a ser independente.

A meio do meu oitavo ano escolar, em 1978, houve nova mudança da família, desta vez para a única casa de que os meus pais foram proprietários.

Nós próprios fizemos a mudança. Quem é que precisa de pagar a uma empresa de mudanças quando dispõe de um par de rapazes fortes e de uma carrinha Volkswagen? Assim, dia após dia, carregámos toda a mobília na parte de trás da carrinha e descarregámo-la na casa nova.

Mas as carrinhas Volkswagen não foram concebidas para cargas

excepcionalmente pesadas e nem eu nem o meu irmão nos preocupávamos muito com o que metíamos dentro da nossa. Podíamos encher toda a parte traseira com os livros do papá, até não haver um centímetro disponível. Talvez pesassem meia tonelada, o que obrigava a traseira da carrinha a ir demasiado baixa. Entretanto, o nariz do veículo apontava para cima, como alguém que olhasse um horizonte distante.

- Mamã, já carregámos tudo.

A mamã ficou a olhar para a carrinha.

- Dá a ideia de que está empenada. Parece que um dos pneus não

tarda a rebentar.

- É por causa do peso na traseira. Endireita-se logo que a descarregarmos.

- Achas que se pode conduzir com segurança? - perguntou a mamã. Para quê perguntar-nos, como é que poderíamos saber? Nem o Micah nem eu tínhamos carta de condução.

- É claro que pode. Por que não havia de poder?

A boa notícia foi que a carrinha conseguiu chegar à casa nova. A má notícia foi que, mesmo depois de descarregada, a carrinha não voltou a endireitar-se. Nunca mais. Tínhamos destruído quaisquer apoios da parte traseira.

- A frente ainda está a apontar para cima, ou é apenas impressão minha?

- Talvez não estejamos a olhar do ângulo correcto. Pode ser que o piso não seja direito.

Inclinámos as cabeças, inspeccionámos toda a carrinha, verificámos o nivelamento da rua.

- Julgo que partimos qualquer coisa - acabou por admitir a mamã.

- Nada disso - respondemos -, está tudo bem, só precisa de

algum tempo para voltar ao normal.

- O vosso pai vai ficar furioso.

- Nem vai dar por nada - assegurámos. - Mas, mesmo que

veja, não nos preocupa.

É claro que o papá viu e a contagem decrescente do estado de alerta começou logo que ele chegou a casa, embora tivéssemos sido suficientemente espertos e já estivéssemos longe. Graças a Deus, quando voltámos a casa, ele já estava calmo, pois a carrinha parecia andar bem, apesar daquele aspecto esquisito. E, se andava bem, isso queria dizer que não havia motivo para a mandar reparar. A reparação exigia o gasto de dinheiro que não tínhamos. Assim, a carrinha nunca foi reparada e rodou durante mais três anos, até ser trocada por um novo modelo, bastante melhorado, da Volkswagen. Durante esse tempo percorremos a cidade com ela, mais parecendo que estávamos a transportar baleias bebés para o jardim zoológico.

A nova casa era pequena. Tinha um só piso e uma garagem adaptada, quatro quartos, escritório, sala e cozinha. Duas das divisões (o escritório e o quarto principal) tinham sido adaptados de parte da garagem. Tratava-se de uma construção com vinte e cinco anos, a precisar de reparações urgentes. Mesmo com a conversão de parte da garagem, ocupava menos de 120 metros quadrados.

Contudo, para nós era enorme. Cada um - o Micah, a Dana e eu - passou a ter o seu próprio quarto e a poder decorá-lo à sua maneira. A mamã sentira um tremendo orgulho por, finalmente, habitar uma casa a que podia chamar sua e iria passar os anos seguintes em consertos e a marcar aquele lugar com alguns dos traços da sua personalidade. Havia dezasseis paredes, cada uma pintada de cor diferente; a mamã mudava a cor das paredes mais vezes do que a maioria das pessoas muda de escova de dentes; todos os fins-de-semana, antes de podermos ir brincar, o Micah e eu tínhamos de terminar a “lista” de tarefas que a mamã destinara a cada um de nós. Passávamos as manhãs de sábado a construir vedações, a pintar paredes, uma e outra vez, a plantar árvores e arbustos, a limpar os armários da cozinha e a executar todos os trabalhos de que se lembrava que tínhamos de fazer enquanto ela estava no emprego.

Como a família dispunha de pouco dinheiro para gastos daquele tipo, o processo foi moroso. Para construir a vedação, por exemplo, a mamã teve de comprar doze tábuas por semana, o máximo que podia gastar. Levou cerca de cinco meses a acumular toda a madeira necessária para a construção da sebe mas, graças a Deus, o trabalho era grátis;

pelo menos essa era a opinião dela. O Micah e eu, certamente para

aproveitar a experiência que havíamos adquirido em Nebraska, fomos encarregados de construir a vedação; e construímo-la. Acabou por ser notoriamente desigual em altura, seguia os desníveis do terreno em vez de ser alinhada pelos topos, o que ficou a dever-se à nossa convicção de que a mamã deveria ter pensado no assunto antes de nos entregar o trabalho.

Partindo do princípio de que nós continuaríamos a fazer a maior parte dos trabalhos de melhoria da casa, os nossos pais começaram a oferecer-nos ferramentas pelo Natal. Era uma maneira de matarem dois coelhos de uma só cajadada. Não só recebíamos coisas de que não estávamos à espera (como poderia eu estar a contar com um martelo como prenda de Natal se não desejava nenhum?), como ainda se poupava dinheiro. Era muito melhor do que voltarem a dar-nos armas. Numa manhã de Natal, já tarde, sentei-me ao lado do Micah, no sofá.

- O que é que tu pensas do Natal deste ano? - perguntou ele.

- Foi fantástico, para um carpinteiro - respondi, a apontar para as minhas prendas. - O que é que eu vou fazer com um maço de madeira? Pretenderão que eu comece a fazer mobílias?

O Micah abanou a cabeça e respirou fundo.

- Pois, sei o que queres dizer. Mas, ao menos, deram-te um monte de ferramentas. Eu recebi um serrote. A mamã pretenderá que eu use aquilo para fazer o quê? Por amor de Deus, eu queria um par de Levi's.

Ficámos sentados, em silêncio.

- Os nossos pais são esquisitos, não achas? - perguntei.

O Micah não respondeu. Quando me voltei para ele, vi-o de olhos

fixos no serrote.

- O que é?

Abanou a cabeça, de cenho franzido.

- Nada, na verdade. Aqui na caixa diz que esta coisa pode serrar

madeiras duras, como carvalho.

- E então?

- No meu quarto não há madeira de carvalho?

- Acho que sim.

Ficou a reflectir no assunto.

- E estarias de acordo se eu dissesse que os nossos pais são um pouco violentos?

- Absolutamente - concordei. - Parecem guardas do Gulag.

Piscou os olhos, como se, de súbito, lhe tivesse aparecido um marciano.

- Nick, de que é que tu estás a falar?

- Não interessa.

- Sabes, por vezes também és esquisito.

Já ouvira aquilo muitas vezes.

- Eu sei. O que é que ias dizer?

- Bom, e se tirássemos partido desta ferramenta?

- Em que é que estás a pensar?

Debruçou-se para mim e sussurrou-me o plano; tive de admitir

que ele pensara uma coisa em grande. E se bem o disse melhor o fez:

logo que os nossos pais saíram para o trabalho (nós ainda estávamos em férias), o meu irmão usou o serrote para abrir um buraco no fundo do armário do seu quarto, que abria directamente para o espaço livre por debaixo da casa. Por conseguinte, depois de nos julgarem na cama, poderíamos deslizar para fora de casa, através do quarto dele, sem que os nossos pais tivessem conhecimento.

E não deixámos de o fazer.

Foi por esta altura que a mamã decidiu que estava cansada de trabalhar em horário completo, além de cozinhar e fazer os restantes trabalhos em casa. O papá foi mobilizado para o posto de chefe de cozinha.

Recordo-me de ter sabido a novidade numa tarde, ao regressar da escola, e fui ingénuo ao ponto de acreditar que o meu pai estava entusiasmado com a solução. Informou-nos que iria cozinhar uma das suas receitas preferidas, um prato que costumava comer quando era criança. Proibiu-nos a entrada na cozinha, para não podermos ver o que ele estava a preparar.

- É uma surpresa.

Nem o Micah, nem a Dana, nem eu sabíamos o que pensar. A única comida que vira o papá preparar sozinho fora um prato de moelas de galinha. Nada de asas, de pernas ou de peitos, apenas moelas. O papá adorava aquelas coisas. Fritava um montão delas e, embora acabássemos por gostar do prato, era óbvio que as moelas não entravam no menu daquela noite.

Fritar moelas, ou fritar outra coisa qualquer, enchia a cozinha de um odor agradável. Mas só nos cheirava a queimado, a algo esturrado, como se tivesse caído no lume e, mais do que uma vez, ouvi o papá praguejar e correr a abrir o postigo das traseiras, para que o fumo da cozinha se dissipasse. Depois, abrindo uma fresta da porta da sala, dizia: “Vocês vão adorar este prato!”, ou “Cozinhar para vós vai ser fantástico! Ardo em desejos de partilhar as receitas com os meus filhos! Já começo a tomar o gosto a isto! “

Por fim, depois de proferir mais três ou quatro pragas, chamou-nos para a mesa. A mamã ainda não tinha regressado do trabalho e ocupámos os nossos lugares. O papá tirou a comida do fogão e pô-la diante de nós.

Havia duas coisas. Um prato de tostas e... e...

Olhámos mais de perto, mas continuámos na mesma. Estava num tacho, o que quer que fosse. Qualquer coisa cinzenta, castanha e grumosa, como molho de carne, com bocados de gordura preta. A colher estava pousada no líquido que solidificava lentamente.

Talvez tenha ficado um bocadinho queimado, mas deve estar óptimo. Comam.

Ninguém se mexeu.

- Papá, o que é isto? - acabou por perguntar a Dana.

- Feijões - foi a resposta. - Cozinhei-os segundo uma receita secreta.

Voltámos a olhar para o tacho. Não se parecia nada com feijões. E tampouco o cheiro era próprio dos feijões. O cheiro era quase... não natural. Fazia lembrar qualquer coisa que o cão tivesse comido, algo parcialmente digerido e voltado a servir. Mas, muito bem, feijões e tostas e...

- Qual é o prato principal? - perguntei.

- O que é que pretendes dizer?

- Um hambúrguer? Ou galinha?

- Não é necessário. Não com este prato.

- Que prato é este? - indagou Micah.

- Feijões em tosta - respondeu o papá, impante de orgulho.

- A mamã nunca vos fez este prato, pois não?

Olhámos uns para os outros e abanámos as cabeças. O papá estendeu a mão para o tacho.

- Quem vai ser o primeiro?

Nem eu nem o Micah mexemos um músculo. Finalmente, a Dana

aclarou a garganta.

- Começo eu, papá.

Os olhos dele brilharam. Colocou uma tosta no prato dela e começou a tirar a comida do tacho. Era espessa e dura, o papá tinha de fazer força com a colher. O cheiro foi-se tornando ainda pior com o remexer da substância. Vi o papá torcer o nariz.

- Como já disse, talvez tenha ficado um pouco queimado - esclareceu. - Mas deve estar óptimo. Experimentem.

- O papá também vai comer? - perguntou Dana.

- Não, comam os três. Eu fico a ver. Os meus filhos ainda estão a crescer e necessitam de muita energia. Micah?

O papá voltou a mergulhar a colher no tacho, a sorrir enquanto mexia os feijões, como se estivesse a tentar partir um bloco de gelado.

- Não, obrigado. Combinei jantar em casa do Mark. Não quero perder o apetite.

- Por que não me avisaste?

- Acho que me esqueci. Mas, é verdade, são horas de me preparar.

Há dez minutos que deveria lá estar.

Levantou-se rapidamente e desapareceu.

- Muito bem. Come tu, Nick!

- Ah, sim - murmurei, a erguer o prato. Coloquei um pedaço de tosta no prato; a substância gordurosa de feijões queimados caiu em cima da tosta como se fosse uma bola de basebol, esteve quase a rolar e a cair em cima da mesa.

- Espalha-a um pouco - sugeriu o papá. - Fica melhor.

A minha irmã e eu começámos a picar a comida, a tentar espalhá-la pelo prato, sem o conseguirmos e aterrados com a ideia de que íamos comer aquilo. Porém, no momento em que parecia que não poderíamos aguentar mais, a mamã apareceu à porta da cozinha.

- Olá, malta! Como é que estão? Que bom ver-vos aqui... - parou, e ficou a cheirar o ar. - Que diabo de pivete é este?

- É o jantar - esclareceu o meu pai. - Despacha-te. Estamos à tua espera.

Aproximou-se da mesa, deu uma olhadela à comida e disse:

- Meus filhos, levem esses pratos para o lava-louça.

- Mas... - começou o papá.

- Não há nenhum mas. Vou fazer esparguete. E vocês, meus filhos, não preferem esparguete?

Concordámos com grandes acenos de cabeça e saltámos da mesa.

- Muito bem. Tirem as mercearias do cesto. Fica pronto em poucos minutos.

Por qualquer razão, o meu pai não pareceu nada aborrecido. De facto, penso que ele concebeu todo aquele esquema, pois, a partir daquela noite foi proibido de cozinhar para nós. E, sempre que a mamã protestava por ele não assumir maiores responsabilidades domésticas, o papá poderia sempre responder:

- Eu tentei. Mas não me deixaste...

 

Falando na generalidade, na nossa casa a comida tornou-se uma espécie de obsessão. Por não podermos dispor das mesmas iguarias que pareciam ao alcance das outras crianças - biscoitos, doces, etc. - desenvolvemos uma mentalidade de alarves, que se manifestava logo que dispúnhamos de oportunidade. Por exemplo: se fôssemos a casa de alguém devorávamos tudo o que podíamos, comendo até parecermos prestes a rebentar. Para nós, não era nada comermos trinta ou quarenta bolachas de chocolate, a seguir umas às outras. Por vezes, deixávamos os nossos amigos nos seus quartos, esgueirávamo-nos para a cozinha, assaltávamos as caixas de bolos e comíamos ainda mais.

Acontecia o mesmo sempre que a mamã cometia a tolice de comprar qualquer coisa doce. Cereais, por exemplo. Por norma, lá em casa havia apenas Cheeraos. Se a mamã comprava Froot Loops ou 1rix, logo de seguida comíamos a embalagem toda. Só parávamos quando despejávamos a caixa, não deixávamos nada para a manhã seguinte. Pensávamos: “Se não como agora, comem os outros, tenho direito ao meu quinhão”. Comíamos até nos doer o estômago. Uma vez, depois de cada um de nós ter comido cinco grandes tigelas de Froot Loops em menos de meia hora, o Micah e eu estávamos sentados no sofá, de barrigas esticadas.

- Acho que ainda há o suficiente para encher uma tigela - alvitrou o Micah.

- Eu sei. Estava agora mesmo a pensar nisso.

- Devemos deixá-la para a Dana?

- Não. De maneira nenhuma. Da última vez foi ela quem comeu

a última tigela.

- Estava a pensar o mesmo. Mas sinto-me tão cheio. Não consigo comer mais.

Tentámos instalarmo-nos confortavelmente. Finalmente, o Micah virou-se para mim.

- Queres dividir? Metade para cada um?

- Quero.

O meu pai também era guloso. Tinha sempre bolachas de chocolate em casa mas, conhecendo-nos bem, escondia-as no escritório.

Por isso, assaltávamos o escritório, à procura dos doces. Costumávamos encontrá-las passados poucos minutos e tirávamos uma ou duas bolachas cada um, de modo que ele não desse por falta delas. Mas voltávamos uma segunda ou uma terceira vez, sempre a ajeitarmos as bolachas para que a embalagem não parecesse mexida. Quando chegava a hora de o papá regressar do trabalho só restavam umas bolachas partidas.

A segurar o saco praticamente vazio em frente do nariz, olhava as migalhas, de olhos esbugalhados.

- Abutres! Os meus filhos são abutres selvagens! - gritava; depois ouvíamo-lo a procurar as chaves. Quando as encontrava, metia-se no carro e dirigia-se à loja mais próxima para comprar outra embalagem. Do interior do escritório, ficava a olhar-nos, com olhos maus, durante todo o serão.

No dia seguinte, recomeçávamos a busca do saco de doces. E, uma vez encontrado, comíamos compulsivamente, até restarem apenas uma ou duas bolachas partidas.

- Abutres! - voltaríamos a ouvi-lo gritar. - São um bando de abutres selvagens!

 

Rarotonga, Ilhas Cook 31 de Janeiro

Na nossa última manhã na ilha de Páscoa, levantámo-nos cedo e acabámos o pequeno-almoço quando o sol estava a despontar.

Estar a pé de madrugada tinha-se tornado normal na nossa excursão. Por hábito, o pequeno-almoço era às 6h30 e juntávamo-nos no átrio antes das oito horas para iniciarmos as visitas programadas. Eram precisas duas horas para deslocar o grupo para qualquer lado; com quase noventa pessoas e duas centenas de malas, parecíamos mais uma caravana de deslocação lenta do que uma força rápida de ataque. A partida para o avião costumava acontecer por volta das dez horas; por essa altura, já estaríamos levantados havia cinco horas e ainda não teríamos feito coisa que se visse.

Levantar cedo, jantar tarde, passar longas horas nas visitas e muitas horas de viagem nos sete dias anteriores tinham deixado marcas; na altura da partida da ilha de Páscoa, os excursionistas mostravam-se, na sua maioria, cansados. Contudo, havíamos percorrido apenas um terço da viagem.

O voo para Rarotonga, a maior ilha do arquipélago do Sul do Pacífico conhecido como ilhas Cook, demorou sete horas; a voar para ocidente, recuperámos algumas dessas horas e aterrámos ao princípio da tarde. Não havia visitas programadas; em vez disso, tínhamos o resto do dia por nossa conta e partíamos na manhã seguinte para a Austrália. A paragem em Rarotonga serviu para dividir ao meio o voo de catorze horas entre a ilha de Páscoa e Ayers Rock.

Rarotonga estava enevoada quando saímos do avião e sentimos mais calor do que havíamos sentido na ilha de Páscoa. Era um dia normal na una: ceu azul cheio de nuvens vaporosas que anunciavam chuva para a tarde, alto nível de humidade e uma brisa suave, mas constante. Em si, a ilha é bonita; a estrada principal circula à volta da ilha e vemos os picos centrais envoltos em nuvens e cobertos de vegetação densa. Tal como a ilha de Páscoa, foi originalmente colonizada por povos polinésios, mas talvez seja mais famosa por causa do capitão Bligh e dos revoltosos do navio Bounty que ficaram isolados na ilha em finais do século XVIII.

O grupo dispersou-se depois da chegada ao hotel. Alguns foram almoçar, outros foram para os quartos dormir um pouco. Mas também houve quem fosse até à praia e quem se instalasse à volta da piscina; poucos se decidiram pelo mergulho. O Micah e eu decidimos alugar motoretas e fomos dar uma volta pela ilha.

A ilha tem cerca de quarenta quilómetros de circunferência e, tal como em Inglaterra, a circulação faz-se pelo lado oposto ao que estamos habituados a usar nos Estados Unidos. Embora levássemos algum tempo a habituar-nos, as estradas tinham pouco movimento e lá fomos andando, a parar aqui e ali para fazermos fotografias. Os palmeirais estendiam-se até onde a vista alcançava e demos connosco a pensar se a ilha de Páscoa já teria sido assim. A ideia deixou-nos algo tristes. A ilha de Páscoa mostrara-se austera e adorável à sua maneira; a diferença entre as duas ilhas era abissal.

As ilhas Cook são famosas pelas pérolas negras e tanto o Micah como eu comprámos algumas para levarmos às nossas mulheres. Na semana anterior, o Micah tinha falado duas vezes com a Christine e eu fiz quatro chamadas para a Cat. Nenhuma das conversas durara mais do que uns minutos. As vidas delas estavam a ser mais febris do que era habitual, mas continuavam a seguir as mesmas rotinas; quase parecia impossível termos visitado tantos lugares desde a última vez que as víramos.

Há algo de calmante quando rodamos com o vento a bater-nos na cara e, ao dar a volta à ilha, senti o espírito libertar-se. Parte da sensação devia-se ao facto de andar por ali, na companhia do Micah, sem nenhum de nós ter horários a cumprir. Pensei na nossa infância, nos lugares onde vivemos e nas coisas que fizemos. Tentei pensar no que os meus filhos estariam a fazer e revi a imagem da Cathy quando, pela manhã, se sentava diante do espelho.

E, melhor do que tudo, durante o passeio não pensei em trabalho, nem por um breve instante. Finalmente, pela primeira vez em muitos anos, comecei a sentir que estava em férias.

O meu irmão e eu comprámos umas garrafas de água e parámos

numa das praias públicas, do outro lado da ilha. As praias eram rodeadas de bancos de corais e as ondas baixavam ligeiramente antes de se esmagarem contra eles. Eu e o Micah éramos os únicos banhistas e da praia não conseguíamos ver as casas. Sem o som do tráfego que passava pela estrada, atrás de nós, seria fácil acreditar que éramos as únicas pessoas presentes na ilha. Durante muito tempo, limitámo-nos a ficar sentados e a observar as ondas.

O oceano apresentava-se com um ligeiro azul-turquesa e do nosso ponto de observação era possível ver o fundo do mar. Seguíamos com os olhos os cardumes de peixes coloridos que passavam. Muitas das ilhas do Sul do Pacífico têm espécies próprias; em Hawaii e nas Fiji existem peixes que só se encontram ali e dei comigo a pensar se não estaria a ver espécies que não voltaria a encontrar.

- Ora bem - raciocinou o Micah, - valeu a pena virmos a Rarotonga. Bela praia, tempo magnífico, liberdade. Consegues imaginar coisa melhor?

- Nada de parecido com as nossas férias no Grand Canyon, não achas?

Sorriu.

- Essa foi uma viagem fantástica, não foi?

- Sim, fantástica - respondi.

- Foi horrível - corrigiu. - Eras demasiado pequeno para te recordares do que realmente aconteceu. Para o final, o nosso pai estava quase maluco. Ele conduzia durante todo o dia, víamos umas paisagens e acampávamos para passar a noite dentro do Volkswagen por não termos dinheiro para pagar hotéis. E deves lembrar-te de que não tínhamos ar condicionado. Atravessámos o deserto em pleno Verão, com o sol a dardejar através da janelas e a queimar-nos no interior da carrinha. Assámos dia e noite, além de passarmos os dias a protestar. Lutávamos um com o outro até os nossos corpos ficarem escorregadios por causa do suor e não parávamos de berrar. O papá andava bastante acabrunhado.

Mostrei-me incrédulo:

- O nosso pai? O valentão? Deves estar a pensar noutra pessoa qualquer.

Soltou uma gargalhada.

- Penso que recordamos esses momentos de cólera do pai por ele ser um homem tão sossegado. Metade do tempo nem sabia se ele estava em casa e, de repente, zás! O papá deixava de ser o papá, subitamente passava a ser o papão. Recordas-te de quando nos levou a ver o filme Alien - O Regresso, na noite de estreia, por ter ouvido dizer que se tratava do filme mais assustador que alguma vez fora feito? Ou quando vimos Salem's Lot na televisão? Que idade tínhamos? Uns onze anos?

- Mais ou menos.

- Deixarias a Alli ver esse género de filmes? Quero dizer, daqui a uns anos?

Alli, a enteada do Micah tinha dez anos.

- Nem pensar. A Christine matava-me. Nem me deixa levar vídeos desse género para casa.

- A Cathy pensa o mesmo - informei, a respirar fundo. - já te disse que aluguei O Segredo da Bala de Prata para o Miles?

- Não. O que é isso?

- É aquele filme sobre lobisomens, baseado num romance de Stephen King. Pensei que o Miles gostasse de o ver na minha companhia. Era o que o papá costumava fazer, não era? Por isso, deixei-o ver.

- E?

- Teve pesadelos durante meses. A Cathy ficou absolutamente lívida, deitou-me olhares de reprovação que nem consegues imaginar; ainda me recorda o caso sempre que levo o Miles ao cinema. “Será melhor que ele não venha a ter pesadelos”, avisa, e “Se os tiver, és tu quem tem de ficar toda a noite ao lado dele”.

O Micah sorriu.

- As nossas mulheres e os nossos filhos parecem não apreciar uma boa história de terror, como nós.

- É uma pena - admiti. - Tudo o que desejava era partilhar com o Miles algo que o meu pai partilhou comigo quando eu estava a crescer. É como ir à pesca, jogar à bola ou visitar um museu.

- Concordo inteiramente contigo, maninho - disse o Micah ao pôr um braço à volta dos meus ombros. - Temos de dar esse crédito ao papá. Ensinou-nos a apreciar as coisas importantes da vida.

 

Regressados ao hotel, decidimos ir praticar mergulho.

Embora eu já tivesse praticado mergulho nas Caraíbas e em Hawai, nunca me impressionara tanto como naquele dia. Na água quente e límpida nadavam milhares de estrelas-do-mar azuis, bicudas e peixes coloridos dos bancos de corais, notando-se uma ligeira corrente que permitia que me mantivesse à superfície da água pouco profunda sem necessidade de grande esforço. Sobre as nossas cabeças, o céu enchera-se de nuvens, deixando que andássemos a descoberto sem apanharmos um escaldão; deixámo-nos ficar dentro de água, mesmo depois de ter começado a chover.

Mais tarde, jantámos no pátio descoberto do hotel. Estávamos a tentar decidir o que fazer no resto do dia; sem nada planeado, parecia um desperdício irmos enfiar-nos no quarto. O empregado do bar, que também nos servia à mesa, recomendou uma volta pelos bares e informou que, se nos inscrevêssemos, uma carrinha viria buscar-nos ao hotel, cerca das oito da noite.

Uma volta pelos bares é isso mesmo: a carrinha vem buscar-nos e leva-nos de um bar para outro, durante todo o serão. Beber ou não beber, acaba por não ser a questão mais importante. Ao longo dos anos, tenho visitado diversos países e aprendi que, se não virmos as pessoas num ambiente descontraído, a fazer coisas que fazem normalmente, não podemos dizer que compreendemos esse país. Quase todas as pessoas que conheci em tais situações revelaram-se amistosas; na sua maioria, as pessoas que encontramos por esse mundo fora gostam de praticar o seu inglês e de ouvir falar da América. Com todos os seus excessos, o meu país é um lugar que os estrangeiros acham encantador e intrigante; adoram certos pormenores e detestam outros, mas ninguém deixa de ter a sua opinião sobre ele. Ao mesmo tempo, sinto-me sempre admirado por as pessoas serem tão semelhantes, qualquer que seja o local onde vivem. Por toda a parte, as pessoas pretendem não só melhorar a sua vida pessoal, mas também que os filhos disponham de mais oportunidades do que elas tiveram. Os políticos são quase sempre pouco estimados; bem como os demagogos, da direita e da esquerda.

O empregado do bar não era diferente, e embora se mostrasse desapontado por a excursão não incluir uma passagem pela Nova Zelândia, país de onde era natural, não deixou de acrescentar que já tinha visitado os Estados Unidos.

- Ah, sim! - exclamou o Micah. - Onde é que esteve?

- Estive em Los Angeles, São Francisco, Seattle, Las Vegas, Denver, Dallas, Nova Orleães, Chicago, Detroit, Filadélfia e Nova Iorque. Passei um Verão a percorrer o país.

- Viu o Grand Canyon? - inquiriu o Micah.

- E claro - respondeu. - Achei-o fantástico. E também o monte Rushmore. E as sequóias gigantes. Magníficas. O lugar de que gostei mais foi Las Vegas.

- Ganhou dinheiro em Las Vegas? - perguntei.

- Não, perdi. Joguei nas máquinas, sabe? Foi engraçado. É a mais louca das cidades. Adoro-a. Já lá estiveram?

Claro - respondeu o Micah. - De Sacramento até lá é pouco mais de uma hora de voo.

O empregado do bar abanou a cabeça, com um ar de felicidade a perpassar-lhe pelo rosto.

- Costumo dizer às pessoas que, se querem conhecer a América, devem ir a Las Vegas. As luzes, os espectáculos, a excitação - aquilo é a América.

Jill Hannah, a médica, juntou-se a nós quando estávamos a jantar. Tinha andado muito atarefada nos últimos dias, pois muitos dos viajantes estavam a sofrer de males do estômago. Como todos nós, parecia num estado de letargia e franziu o cenho quando a informámos de que íamos sair à noite.

- Não estão cansados?

- Um pouco - respondeu o Micah. - Mas devia vir também. Vai ser engraçado.

- Obrigada, mas vou para a cama. Vai mais alguém convosco? - Veremos - respondeu o Micah. - Daqui a pouco, vamos perguntar.

Não nos surpreendemos quando a maioria disse que não, por mais tentadoras que parecessem as nossas propostas. Devemos ter falado com umas duas dezenas de pessoas, mas só o Charles, um dos conferencistas presentes na excursão, disse que ia. Combinámos esperar por ele no átrio, às vinte horas.

- Vamos só dormir uma pequena soneca - informou o Micah, - e encontramo-nos de seguida.

Voltámos para o quarto, deitámo-nos e adormecemos profundamente; só acordámos na manhã seguinte.

Ao pequeno-almoço, Charles acercou-se da nossa mesa:

- Onde é que se meteram ontem à noite? Estive à vossa espera. Estava tudo preparado para um serão fantástico.

O Micah mostrou-se algo embaraçado:

- Temos de lhe pedir desculpa.

- Não quero crer que os manos Sparks pudessem ter-se sentido cansados.

- Por vezes - acrescentou o Micah, - é uma doença que afecta os melhores.

Depois de Charles nos ter deixado, voltei-me para o Micah:

- Nem posso acreditar que dormimos a noite toda. Não te parece que estamos a ficar velhos?

- Sei o que estás a querer dizer. Quando andava na universidade parecia que nunca me poderia sentir cansado. Podia ficar a pé durante toda a noite. Era um exagerado.

- Na universidade? - zombei. - Quem é que pretendes enganar? Já eras um exagerado quando andavas na escola secundária.

 

Em 1979, o Micah foi para a escola secundária e, durante os dois anos seguintes, o meu irmão teve um relacionamento bem escasso com o resto da família. Chegara à idade em que começava a questionar abertamente a autoridade dos pais e agia em conformidade. Contudo, como seria de esperar, o Micah pisou o risco e exagerou, mesmo considerando que estava na adolescência. Embebedava-se junto do rio e a mamã encontrou marijuana nos bolsos das calças dele, o que lhe valeu um mês sem sair de casa e a ameaça de inscrição num colégio militar. Quando tinha quinze anos, o Micah apareceu em casa com uma orelha furada; graças a uma nova ameaça com o colégio militar, a mamã forçou-o a tirar o brinco.

A mamã estava sempre a ameaçar-nos com o colégio militar. Tanto ela como o papá tinham estudado em colégios internos e cada um deles contava as respectivas histórias de terror, que acabavam sempre com a expressão: “mas, ao menos, não era um colégio militar”. Em crianças, tais instituições inspiravam-nos um verdadeiro terror, acreditávamos que tinham sido criadas pelo próprio Satanás. Mas o Micah cada vez ligava menos ao que os pais diziam, além de se ter apercebido de que nunca o mandariam para um desses colégios, porque a família não tinha posses para isso. Portanto, o seu comportamento ia de mal a pior. Durante o primeiro ano, o ambiente em casa esteve extremamente tenso; a minha irmã e eu ficávamos muitas vezes espantados com a maneira de levantar a voz, tanto à mamã como ao papá.

A imagem é importante para a maioria dos adolescentes e o Micah não era excepção. Estava cansado de ser pobre e, ainda pior, de se mostrar pobre. Aos dezasseis anos arranjou emprego a lavar pratos numa loja de gelados e começou a juntar dinheiro. Comprou um carro usado e aprendeu a repará-lo, comprou roupas novas e começou a namorar. Depressa teve uma relação séria com uma rapariga chamada Juli e começou a passar junto dela todo o tempo disponível. A mamã

não achava que fosse boa ideia ter um namoro sério numa idade

daquelas, mais um tema de discussão entre eles. Uma vez, apanhou-os a dormir no quarto do Micah e foi um pandemónio. Não me recordo de ter visto a minha mãe tão furiosa.

Foi mais ou menos por essa altura que a mamã decidiu invadir o escritório do marido. O meu pai sempre fora irrelevante em tudo o que se relacionara com a nossa educação, mas a mamã entendeu que não podia continuar a dispensar a ajuda do marido.

- Criei-os até este ponto - anunciou. - Agora chegou a tua vez.

O meu pai limitou-se a um sinal de concordância. Talvez tenha pensado que a tarefa era um pouco mais fácil do que cozinhar ou arrumar a casa.

Depois disso, lembro-me de muitas noites em que vi o Micah sentado no escritório do pai, a conversar. O papá era dotado de uma inteligência excepcional e passava quase todo o tempo a ler. Ensinava teorias do comportamento e de gestão na Universidade da Califórnia em Sacramento e lia todos os livros publicados sobre essas matérias. Não estou a exagerar. Em qualquer altura, tinha milhares de livros no escritório - alinhados em prateleiras, empilhados no chão, guardados em caixas - e ele já os lera todos. Todas as noites, encontrava-o com os pés assentes na secretária, a ler. Lia com uma velocidade espantosa; em média, acabava um ou dois livros por noite, sem deixar de tomar notas enquanto prosseguia a leitura. O horário dele era diferente do de todos nós. Como leccionava à tarde, era normal que ficasse acordado até às cinco horas da manhã, para depois dormir até ao meio-dia.

Embora mantivesse a porta do escritório sempre aberta, todos sabíamos que o papá preferia estar só. Era um ouvinte calmo e atento; quando o via em conversa com os colegas, ficava sempre fascinado por verificar o quanto eles o adoravam. O meu pai deixava que qualquer pessoa discorresse longamente, sem sentir necessidade de a interromper. E também não dava conselhos, a não ser que alguém os pedisse. Em vez disso, esclarecia os assuntos, reordenava o que ouvira de maneira a que o interlocutor se centrasse no problema e acabasse por resolvê-lo sozinho.

Quando falava com o Micah - e, mais tarde, quando falava comigo - seguia sempre o mesmo esquema. Perguntava o que se passava a respeito de determinada situação e ficava a ouvir as nossas explicações. E quanto mais falássemos - eu ou o Micah -, mais tempo ele ficava calado. Por vezes, aquela espécie de monólogo prolongava-se quase uma hora. Era normal sairmos do escritório mais esclarecidos e com a convicção de que ele era a pessoa mais inteligente que alguma vez encontráramos.

Afinal, o nosso pai transmitiu-nos três regras de ouro que devíamos aplicar durante toda a adolescência. Eram elas:

A. Se conduzires não bebas.

B. Não engravides nenhuma rapariga.

C. Respeita a hora de recolher: meia-noite no primeiro ano, au

mentando meia hora por cada ano passado na escola.

O meu pai, é bom que se diga, fora muito esperto ao definir-nos aquelas três regras e na altura em que o fez. Não tardávamos a atingir a idade em que qualquer delas se podia tornar problemática, mas como já estávamos a segui-las, na altura pareceram-nos inteiramente razoáveis. Além do mais, ao chegarmos à adolescência estávamos de tal forma habituados à liberdade que, maior pressão do que aquela pareceria pouco viável (pouca e vinda demasiado tarde) e levaria, sem sombra de dúvida, à rebelião aberta. Contudo, como as normas pareciam bem pensadas, o Micah concordou com a sua aplicação.

O Micah, tenho de o dizer, seguiu aquelas regras e apenas aquelas. Tudo o resto era, segundo parecia, território a explorar; e durante os dois anos seguintes ele continuou a forçar os limites. Recordo-me de, em inúmeras noites, ouvir os meus pais a queixarem-se dele.

- Está cada dia mais indomável - diria um. - O que é que

vamos fazer?

Seguia-se um longo silêncio.

- Não sei - era a resposta mais frequente do outro.

 

Esse ano também trouxe mudanças para mim. Comecei a praticar atletismo de competição e, sem ser excepcional, era um dos melhores principiantes da minha equipa. O que não diz muito, se pensarmos que nas corridas de fundo éramos apenas uma mão-cheia.

Mesmo assim, eu adorava o atletismo e o destino quis que vivesse em Fair Oaks uma verdadeira lenda deste desporto: Billy Mills, um índio sioux da tribos dos Oglala, que ganhou a medalha de ouro dos 10000 metros nos jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Ainda é considerado a maior surpresa da história do atletismo nos jogos Olímpicos. É o único americano que venceu os 10000 metros nas Olimpíadas e, para deixar prova do seu talento para a posteridade, no ano seguinte bateu o recorde da prova. Uns anos antes, tinha lido um artigo sobre ele, num dos vários almanaques que devorei quando era criança, e ficara fascinado com a sua história. Fiquei deslumbrado quando soube que ele vivia em Fair Oakes e recordo-me de ter corrido à cozinha para dar a novidade à minha mãe.

- Oh, o Billy! - exclamou, com um aceno de compreensão. - Conheço-o e conheço a mulher dele, a Par.

Abri ainda mais os olhos:

- A sério?

- Sim - respondeu, como se fosse a coisa mais natural. - Compram os óculos no nosso estabelecimento. São umas pessoas maravilhosas.

Não consegui mais do que ficar a olhar para ela, a pensar que estava ao lado de uma pessoa que, na realidade, tinha falado com um genuíno herói americano. Ficava excitado sempre que o via entrar no supermercado (tinha fixado as feições dele) ou num restaurante, mas nunca consegui reunir coragem para lhe falar. Quando soube que na escola secundária local se disputavam provas de carácter informal, quis lá ir por suspeitar que ele poderia estar presente. E acertei; lá estava ele; quando o vi, senti-me transfigurado. Observei como andava e pensei: “É assim que caminha o homem mais rápido do mundo”; e tentei imitá-lo. Nem é preciso dizer que pretendia impressioná-lo com o meu talento mas, para ser franco, nunca o consegui. Billy tinha três filhas e a mais nova também era atleta. Porém, ao contrário do que acontecia comigo, ela era fantástica e nunca perdeu uma corrida.

Conhecer os feitos de Billy levou-me às leituras acerca de outros grandes corredores. Sonhava correr como Henry Rono, Sebastian Coe ou Steve Ovett, mas não passei daí, do sonho. No entanto, entrei para a equipa de atletismo e pouco a pouco tornei-me amigo de Harold Kuphaldt, um júnior que também fazia parte da equipa.

Tal como Billy, Harold era quase uma lenda, embora a nível da escola secundária. Harold era um dos corredores mais rápidos de todo o país (tinha o melhor tempo nacional nas duas milhas e durante algum tempo foi detentor do recorde nacional de juniores nesta distância) e eu idolatrava-o de longe, como acontecia em relação ao Billy. Porém, havia um fosso enorme entre a vida de um caloiro e a dos alunos dos anos mais avançados. No entanto, numa tarde, perto do final da temporada, a equipa estava a correr junta e dei comigo a correr ao lado de Harold. Fomos conversando, até que ele acabou por se calar.

- Tenho-te observado a correr - admitiu Harold, depois de seguir algum tempo em silêncio. - Se trabalhares, podes ir longe. Não és apenas bom, és fantástico. Nasceste para isto.

Para além daquilo, não me recordo de mais nada sobre a corrida. Pareceu-me que flutuava, que era levado pelas palavras que ele dissera. Ninguém poderia dirigir-me palavras mais significativas do que aquelas. As palavras de Harold não só alimentaram as minhas fantasias como também tocaram no mais profundo do meu ser, no coração daquela pessoa que estava sempre a implorar a aprovação dos pais. “Posso ser fantástico”, disse ele. “Nasci para...”

Naquele momento, decidi que aquelas palavras viriam a ser consideradas proféticas; em vez de passar o Verão a flanar, como de costume, decidi treinar. Treinei muito, mais do que treinara durante a temporada normal, e, quanto mais trabalhava mais desejava trabalhar. Corria duas vezes por dia, por vezes com temperaturas perto dos 40 graus, e era frequente correr até vomitar de exaustão. A despeito das palavras de Harold, eu não era um corredor nato, mas o que me faltava em talento era compensado pela vontade e pelo esforço.

Entretanto, o meu irmão trabalhava e ganhava dinheiro; assentara nos últimos dois anos e tornava-se rapidamente um homem. E um homem bonito. Combinando a confiança e o encanto naturais, depressa se tornou irresistível para o sexo oposto. O facto de ter namorada certa, não parecia ser importante; as raparigas juntavam-se à volta dele ou admiravam-no de longe. No essencial, o meu irmão era um magnete para as miúdas.

O que não acontecia comigo. Era mais baixo do que o Micah, magro de braços e pernas, e não possuía a autoconfiança do meu irmão. Também não me interessava muito. Correr proporcionava-me a oportunidade de me distinguir, desde que trabalhasse o suficiente, e comecei a concentrar-me na pista de corridas, com exclusão de tudo o resto.

Bem, de quase tudo. Partilhava inteiramente das preocupações dos nossos pais acerca do Micah. Para o final do Verão, depois de grandes esforços, convenci-o a juntar-se a mim na equipa de corta-mato. A equipa, capitaneada por Harold, era considerada uma das melhores da Califórnia e iria participar em provas, tanto na zona de São Francisco e em Los Angeles, onde, depois das corridas, teríamos oportunidades de visitar parques de diversões e de dar passeios, coisas que normalmente não podíamos fazer por falta de dinheiro e de motivo. Tentei convencê-lo:

- Tudo o que tens de fazer é correr o suficiente para ficares entre os sete primeiros; vamos divertir-nos mais do que alguma vez imaginaste.

Acabou por se deixar convencer. Depois de ter começado a treinar, rapidamente passou a figurar entre os sete primeiros. A nossa equipa tornou-se invencível e, na maioria dos casos, o mesmo aconteceu com o Harold. Batia recordes das pistas em quase todas as corridas e terminou em segundo lugar nos campeonatos nacionais de estudantes do ensino secundário.

Embora o Micah não se concentrasse nas corridas como eu, com a minha determinação de me exceder, mesmo assim, modificou-se para melhor. Fazia parte de uma equipa, uma equipa que contava com ele e surpreendentemente, atendendo à forma como tinha sido criado, levou a responsabilidade a sério. Pouco a pouco, foi fazendo menos desacatos e, quanto mais vitoriosa a equipa se tornava, mais ele se orgulhava de fazer parte do grupo. Não parecia afectado pelo facto de eu ser mais rápido do que ele; na verdade, era sempre o primeiro a dar-me os parabéns pela minha prova.

Contudo, para mim o mais importante era voltarmos a andar juntos, o que não acontecera durante anos. E, ainda melhor, estávamos a gostar disso.

O meu ano de caloiro representou uma viragem. Não só aprendi a adorar o desporto e a corrida mas também, pela primeira vez, consegui ser superior ao meu irmão em termos físicos.

Em simultâneo, continuei empenhado na obtenção de boas notas. Infelizmente, esse empenho estava a transformar-se numa obsessão: não queria apenas obter a classificação máxima, queria ser o melhor aluno em cada uma das disciplinas.

Também comecei a devorar romances. A minha mãe, tal como o meu pai, era uma leitora ávida e ia à biblioteca duas vezes por mês. Trazia entre seis a oito livros de cada vez e lia-os todos; apreciava de forma muito especial as obras de James Herriot e de Dick Francis. Quanto a mim, descobri os clássicos: Dom Quixote, O Retorno de Um Nativo, Crime e Castigo, Ulisses, Emma e Grandes Esperanças, entre outros, e comecei a apreciar as obras de Stephen King. Como fora criado a ver velhos filmes de terror, este autor dizia-me qualquer coisa e esperava com ansiedade cada nova obra que publicava.

Foi também no primeiro ano que tive a minha primeira namorada a sério. Chamava-se Lisa e, como eu, praticava corta-mato. Era um ano mais nova do que eu e, por ironia do destino, era filha de Billy Mills, o herói da minha infância.

Namorámos durante os quatro anos seguintes; apaixonei-me pela Lisa e pela família dela. Num aspecto, pelo menos, Billy e Pat eram diferentes dos meus pais: pareciam genuinamente agradados com os meus sucessos. Além disso, Billy falava comigo sobre treino e sobre os meus objectivos, levando-me a acreditar que era capaz de os alcançar.

A minha vida estava a ficar mais ocupada; com a escola, as corridas, os trabalhos de casa e a Lisa, não me ficava muito tempo para outras actividades. Também não tinha dinheiro e comecei a aperceber-me de que a situação não favorecia em nada o namoro. Como os nossos pais não nos davam mesadas, nem abriam os cordões à bolsa se quiséssemos ir ao cinema, decidi seguir o caminho do meu irmão e, para além de tudo o que tinha para fazer, arranjei um emprego a lavar pratos no mesmo restaurante em que o Micah trabalhava. De início, duas vezes por semana, trabalhava até à hora de fechar; dentro de poucos meses, estava a trabalhar trinta e cinco horas por semana e tinha sido promovido a ajudante dos empregados de mesa. Acabei por ser empregado de mesa e, entre ordenado e gorjetas, conseguia uma soma interessante para um estudante do curso secundário. Cada minuto, de cada dia, estava programado, desde as sete da manhã até cerca da meia-noite, sete dias por semana; um horário que se manteve praticamente inalterado até acabar o curso, dois anos mais tarde.

 

Nas nossas corridas de treino, eu e o Micah falávamos muitas vezes

tanto do passado como do futuro; numas ocasiões falávamos dos nossos sonhos, noutras o assunto era o dinheiro.

- Alguma vez deixaste de pensar na nossa pobreza quando éramos

mais pequenos? - perguntou-me.

- já me aconteceu. Mas, para ser franco, só há uns dois anos é que

me apercebi de que éramos realmente pobres.

- Odeio ser pobre - respondeu. - Sempre odiei. Não sei o que

vou fazer quando for crescido, mas não vou ser pobre. Quero ser

milionário aos 35 anos de idade. Não sei como, mas é isso que vou

fazer.

- Vais conseguir.

- E tu?

Sorri.

- Quero ser milionário aos 30.

O Micah não respondeu. Seguíamos em passada certa, com os pés

a assentarem no chão com um ritmo quase perfeito.

- O quê?- acabei por perguntar. - Achas que não vou conseguir?

- Não sei - respondeu. - Penso apenas que 35 é mais realista.

- Nesse caso, o que é que vais fazer para o conseguires?

- Quem sabe? E tu?

- Não faço a mínima ideia.

 

O meu irmão e eu corríamos juntos, trabalhávamos no mesmo local e nos nossos tempos livres começámos a andar com os mesmos amigos. Harold, Mike Lee (outro membro da equipa de corta-mato), Tracy Yeates (campeão de luta do estado de Califórnia), Micah e eu atribuíramos a nós próprios o nome de Mission Gang.

Apesar da nossa reputação genérica de estudantes-atletas modelo, a nossa vida era do tipo da do protagonista de O Médico e o Monstro. Foi nessa altura que me embebedei pela primeira vez e gozávamos imenso com o uso de material pirotécnico de maneiras não inteiramente inteligentes, nem legais. Com regularidade, fazíamos explodir as caixas de correio dos amigos, pulando de alegria quando elas saltavam no ar com um grande estampido. Também decorávamos as casas dos amigos com tanto papel higiénico que mais parecia ter nevado na noite anterior. Uma vez, por alturas do Natal, entrámos numa rua em que todas as casas estavam decoradas com luzes intermitentes. Durante as duas horas seguintes, a julgar-nos muito engraçados, desenroscámos todas as lâmpadas e levámo-las connosco. Enchemos seis sacos dos usados para o lixo com as lâmpadas e as casas ficaram às escuras. Não encontro uma explicação cabal para aqueles actos. Foram criancices de que sinto vergonha, mas penso que, se tivéssemos a possibilidade de recuar no tempo, acabaríamos por voltar a fazer as mesmas asneiras.

Devido ao tempo que passávamos juntos, o meu irmão e eu voltámos a ser íntimos. Contudo, por essa altura a nossa relação tinha mudado. Já não éramos simples irmãos, tínhamo-nos tornado bons amigos. A partir do meu ano de caloiro, nunca mais tivemos desavenças nem voltámos a lutar um com o outro.

Na Primavera, eu e o Micah competimos nas mesmas provas e o meu treino começou a dar dividendos. Comigo a fazer o primeiro percurso e Harold a fazer o do meio, batemos recorde atrás de recorde e a nossa equipa de estafetas acabou por fazer o tempo mais rápido do país. Harold venceu o campeonato estadual das duas milhas e o meu tempo nos 800 metros foi dos melhores a nível nacional, entre todos os estudantes do segundo ano.

Da família, só tinha lá o Micah para me aplaudir. Os meus pais raramente assistiam às provas; efectivamente, em toda a minha carreira, só me viram correr uma vez, num dia em que bati um recorde.

Embora haja quem ache esquisita esta falta de interesse dos meus pais, a questão nunca me preocupou. Afinal, eles também não vinham ver o Micah correr, nem assistiam aos treinos da Dana. O mais importante era estarmos a agir por nossa conta; como havia tanto tempo estávamos entregues a nós próprios, também não esperávamos que viessem assistir àquele género de eventos; penso que todos nós percebemos que os nossos pais andavam tão atarefados durante a semana - trabalhar, arrumar a casa, cumprir as obrigações diárias, tomar conta dos filhos e lutar com as dificuldades financeiras - que não parecia justo pedir-lhes que nos dedicassem também os fins-de-semana, quando todos compreendíamos que podiam dedicar-se a outras actividades mais relaxantes.

A minha mãe, por exemplo, adorava trabalhar no quintal ou em casa; nada a tornava mais feliz do que plantar árvores e arbustos, ou pintar uma das divisões da casa. Sempre que regressava de uma prova, encontrava-a com restos de tinta na cara e com as calças tão manchadas como as de qualquer pintor profissional. O meu pai, por sua vez, usava o fim-de-semana para pôr o trabalho em dia, numa casa em silêncio, e adorava arrumar, e voltar a arrumar, os livros nas estantes. Não havia dúvidas de que era agradável, uma vez por outra, passar algum tempo numa casa silenciosa. Se tiravam partido da nossa ausência para passarem tempo juntos, foi coisa que nenhum dos filhos veio a saber. Os nossos pais eram muito ciosos em tudo o que dizia respeito às relações entre eles e não nos falavam muito da forma como passavam os dias. E nenhum de nós se mostrava interessado em lhes perguntar.

 

O Micah treinou juntamente comigo durante o Verão seguinte e como estudante sénior tornou-se um dos melhores corredores da região. Em muitas provas acabávamos entre os três primeiros, mas nunca levou o treino tão a sério como eu.

Acabado o curso secundário, matriculou-se na Universidade da Califórnia em Sacramento e passou a dedicar-se aos prazeres da vida. Namorou uma sucessão de raparigas bonitas, fazia esqui nos fins-de-semana, começou a praticar snowboarding e apaixonou-se pelo ciclismo de montanha. Andava de barco e fazia esqui aquático, passava semanas em São Francisco, no lago Tahoe ou em Yosemite. Dedicou-se à descida dos rápidos em canoa e acabou por dominar tão bem este desporto que se tornou guia. Era membro de uma tripulação de vela que entrava em provas durante os fins-de-semana. Mudou-se para um apartamento próximo da universidade e acompanhava outros estudantes a bares e a discotecas. Segundo parecia, fazia qualquer coisa nova em cada fim-de-semana, qualquer coisa excitante, encantado com a sua nova liberdade. Ao mesmo tempo, ia aguentando as notas e trabalhava como administrativo numa firma de compra e venda de propriedades.

Pelo meu lado, passei o meu último ano do secundário numa pilha de nervos. Obter boas notas tinha-se tornado uma obsessão; estava em condições de me tornar o melhor aluno do curso e não queria que essa honra me escapasse no último momento. Além disso, sabia que se tudo me continuasse a correr de feição tinha a possibilidade de obter uma bolsa de estudos, um objectivo que tinha estabelecido para mim mesmo, mas faltava-me receber uma proposta, o que não aconteceria antes de Abril. Continuava a trabalhar trinta e cinco horas por semana e a passar com a namorada todo o meu tempo livre. O stress acumulado em todas estas actividades provocava-me terríveis períodos de insónia e sentia-me constantemente enervado.

Em parte, invejava a vida que o Micah levava. Admirava-o por ter uma vida relativamente simples, sem a preocupação de obter resultados. Nos corredores da escola, ouvia os colegas descreverem os seus fins-de-semana em Folsom Lake, ou o quanto se tinham divertido a esquiar em Squaw Valley. Talvez eu devesse divertir-me mais, dizia-me uma voz interior, mas, sempre que a ouvia, fazia um esforço para a esquecer. Abanando a cabeça, diria a mim mesmo que não dispunha de tempo, que não podia arriscar-me a sofrer um acidente, que estava demasiado perto da meta para desistir.

Contudo, não me sentia muito feliz. Os meus objectivos tinham-se tornado fins em si mesmos e não havia grande alegria na tentativa de os alcançar. No entanto, consegui sobreviver. E tal como que desejava, fui o melhor aluno do curso. Um mês antes, após ter corrido um dos 800 metros mais rápidos de todo o país, tinha aceitado uma bolsa de estudo desportiva para a Universidade de Notre Dame. Três meses mais tarde, estava a viver em South Bend, estado de Indiana, a mais de três mil quilómetros da única família que conhecera.

 

Em parte, não desejava ir para a universidade. Quem vive uma infância como a minha, é forçado a criar laços fortes com a família. Os meus irmãos, o Micah e a Dana, tinham sido, juntamente com os meus pais, as únicas constantes da minha vida e, embora soubesse que tal era inevitável, deixar de viver junto deles ainda era uma ideia algo assustadora.

Conquanto tenha escrito extensivamente acerca do Micah e de mim, não quero deixar a impressão de que dava menos importância à minha irmã. Nos primeiros anos, brincava com ela quase tanto como brincava com o Micah, embora de formas diferentes. Ela foi sempre a confidente das minhas aventuras; era a pessoa que me ouvia logo que surgiam problemas entre mim e a Lisa. Com o tempo, acabei por conversar com a minha irmã sobre tudo o que dizia respeito ao meu processo de crescimento e ela, mais do que qualquer outra pessoa, parecia compreender as razões que me levaram a ser a pessoa que sou. Melhor ainda: a minha irmã adorava-me e parecia ser a única pessoa capaz de me ajudar a avaliar qualquer assunto. As minhas lutas sempre foram as suas e as dela sempre foram as minhas. Se perguntarem ao meu irmão, ele dirá exactamente as mesmas coisas acerca dela, pois ela mantinha o mesmo tipo de relacionamento com os dois irmãos.

Para finais do meu último ano na escola secundária, recordo-me de ter ouvido a minha irmã a chorar, fechada no quarto. Depois de bater, entrei e encontrei-a sentada na cama, a cara escondida nas mãos.

- O que é que correu mal? - perguntei ao sentar-me ao lado dela.

- Tudo.

- Não me digas. O que é que aconteceu?

- Odeio a minha vida.

- Porquê?

- Porque não sou como tu e como o Micah.

- Não percebo.

- Vocês, ambos, têm tudo. São bons em tudo. Têm bons amigos, são bons nos desportos, conseguem boas notas. São populares e ambos têm namoradas. Toda a gente vos conhece, todos querem ser parecidos convosco. Não me posso comparar contigo em nada. Parece que não sou filha dos mesmos pais.

- Tu sempre foste a melhor - respondi. - És a pessoa mais amorosa que alguma vez conheci.

- E depois? Ninguém se interessa por essas coisas.

Agarrei-lhe a mão.

- O que é que está realmente a preocupar-te?

Não queria responder-me. Em silêncio, olhei à volta do quarto; como muitas adolescentes, tinha as paredes forradas com fotografias recortadas de revistas. Em cima da cómoda, tinha disposto uma colecção de sinos e cavalos de cerâmica. Havia também uma Bíblia na mesa de cabeceira, junto de um rosário, e um crucifixo na parede, por cima da cama. Levou muito tempo a recompor-se, até conseguir falar.

- A Holly foi convidada para o baile da escola.

- Bom para ela, não é?

Como não me respondeu, apercebi-me do motivo por que estava triste e senti um baque no coração.

- E estás triste por ninguém te ter convidado?

Recomeçou a chorar e pus-lhe um braço à volta dos ombros.

- Vou fazer com que te convidem - disse, a confortá-la. - És uma rapariga fantástica. És bonita e simpática; não foste convidada porque eles são demasiado estúpidos e não conseguem saber o que perdem.

- Tu não compreendes - lamentou-se. - Tu e o Micah... bem, todas as raparigas vos acham bonitos. Estão sempre a lembrar-me que sou uma felizarda por ter irmãos assim. Mas é difícil... quero dizer, ninguém me diz que sou bonita.

- Tu és bonita - insisti.

- Não, não sou. Sou vulgar. Vejo isso sempre que olho para o espelho.

Continuou a chorar e recusou-se a falar mais do assunto. Finalmente, ao sair do quarto dela, apercebi-me de que a minha irmã lutava com os mesmos sentimentos de insegurança que toda a gente sentia. Passara a vida a escondê-los de todos. Todavia, ao afastar-me eu sabia que ela ia ser convidada; não lhe fizera uma promessa vã.

Porém, com a passagem dos dias sem aparecer um rapaz montado num cavalo para ser o seu cavaleiro de armadura reluzente, a dor e o ar desapontado tornaram-se evidentes para mim. Mortificava-me pensar que ninguém parecia perceber como ela era especial, do muito amor que tinha para oferecer a quem se dignasse pedir-lho. Adorava a minha irmã da mesma forma que sempre adorara o meu irmão e, como acho que também sucedia com os meus pais, sentia a necessidade de a proteger.

Portanto, numa noite, quando faltava cerca de uma semana para o

baile, fui ao quarto da Dana. Se as suas amigas pensavam que eu era

bonito, se pensavam que eu era popular, então era chegada a altura de

toda a gente ver a forma como nos podíamos divertir juntos. Para mim,

pouco interessava que fôssemos irmão e irmã; sentir-me-ia orgulhoso

por ser visto na companhia dela e queria que todo o mundo o soubesse.

- Dana - comecei, com ar grave, - queres ir ao baile comigo?

- Não sejas parvo - respondeu.

- Vamos divertir-nos - prometi. - Levo-te a jantar num bom

restaurante, alugo uma limusina e dançaremos durante toda a noite.

Vai ser a tua melhor festa de sempre.

Sorriu mas acenou que não com a cabeça.

- Não, está tudo bem. De qualquer das formas, eu não quero ir.

Já ultrapassei isso. Não me interessa.

Hesitei, queria ter a certeza de que ela não queria mesmo ir.

- Tens a certeza? Significaria muito para mim.

- Sim, tenho a certeza. Mas obrigada por me convidares.

Olhei para ela.

- Sabes que estás a despedaçar-me o coração, não sabes?

Soltou uma pequena gargalhada.

- Que engraçado! O Micah disse exactamente o mesmo. - O que é que estás a dizer? - Ele também me convidou para o baile. Ontem.

- E também não vais com ele?

- Não.

Rodeou-me com os braços e apertou-me num abraço. E depois

beijou-me na face.

- Mas quero que saibam, ambos, que são os melhores irmãos que

uma rapariga pode ter. Sinto tanto orgulho quando penso nos dois.

Sou a rapariga mais feliz do mundo e amo-vos muito, aos dois.

Senti um nó na garganta:

- Oh, Dana, eu também te amo muito.

 

Ayers Rock, Austrália 2 e 3 de Fevereiro

Quem nunca viajou pelo Pacífico não se apercebe de quanto o oceano é grande. Voámos quatro horas para chegar à ilha de Páscoa e viajámos mais sete horas até Rarotonga. Atingirmos Brisbane, na Austrália, exigiu mais sete horas de avião, durante as quais atravessámos a linha internacional da data e, dali, ainda gastámos mais três horas para chegarmos finalmente a Ayers Rock, no Parque Nacional de Uluru-Kata Tjuta, em pleno deserto australiano.

A passagem da linha internacional da data apenas serviu para tornar a viagem mais longa. E uma sensação estranha, a de nos apercebermos de que um dia foi riscado da nossa vida. E não só isso, pois, como a nossa paragem em Brisbane foi de duas horas, no total passámos mais de doze horas em viagem; uma ideia esquisita, considerando que, ao começarmos, já tínhamos percorrido metade do oceano.

Quando chegámos ao hotel, todos nós aparentávamos estar esgotados. Na recepção era possível contratar excursões para o dia seguinte. Como toda a gente iria a Ayers Rock durante a tarde, a manhã ficava livre. Podíamos, por exemplo, alugar uma Harley e explorar por conta própria a região circundante, ou alugar um helicóptero para um voo sobre as Olgas: um maciço de rochedos e ravinas existente perto de Ayers Rock. Também havia um circuito a pé através de parte das Olgas e um passeio a Ayers Rock ao nascer do sol, que obrigava a sair do hotel antes do amanhecer.

Embora eu e o meu irmão quiséssemos dormir, conseguimos acordar a tempo de nos juntarmos à expedição da manhã. O deserto

estava frio e escuro como breu; sem luzes, foi possível vermos milhares de estrelas, ou seriam milhões. O nosso autocarro foi um dos muitos que percorreu o caminho durante aquela manhã; soubemos, mais tarde, que o nosso hotel era suficientemente grande para acomodar três mil hóspedes. O que não seria nada de especial no meio de uma cidade como Orlando, ou Chicago, torna-se motivo de espanto em pleno deserto australiano. Segundo fomos informados, a cada momento, o próprio hotel tem mais população do que qualquer cidade existente num raio de centenas de quilómetros, em qualquer direcção.

Ayers Rock é o maior monólito, ou rochedo singular, de todo o mundo. Com cerca de oito quilómetros de circunferência, eleva-se a uma altura de cerca de 300 metros e a parte subterrânea atinge uma profundidade de quase cinco quilómetros. No negrume de antes de amanhecer, Ayers Rock apareceu-nos como uma simples mancha escura, quase impossível de ver a menos que estivéssemos a olhar directamente para o penedo. O nosso grupo de pessoas estremunhadas saltou do autocarro e seguimos aos tropeções até ao miradouro.

Chegou o momento de a luz brilhar no horizonte e o seu alastramento obrigou-nos a fixar os olhos no rochedo. Formado por calcário de granulação grossa, rico em feldspatos, Ayers Rock deveria variar consoante a hora do dia e as condições atmosféricas. Contudo, pelo menos de início, foi-nos difícil perceber o motivo de tanta gente achar o rochedo fascinante; não vimos aquele brilho flamejante que o tornou famoso. O meu irmão e eu tirámos fotografias, depois mais fotografias, e começámos a sentir um certo desapontamento. Porém, o sol subiu o suficiente para iluminar o céu do Oriente e, no preciso momento em que estávamos a concluir que a reputação de Ayers Rock era mais propaganda do que realidade, o fenómeno aconteceu.

O sol atingiu o rochedo de forma que este começou a tornar-se vermelho, como um enorme bloco de carvão incandescente. E, durante os minutos seguintes, tudo o que o Micah e eu conseguimos fazer foi olhar, a pensar que aquele era o espectáculo mais extraordinário a que alguma vez tínhamos assistido.

O Micah e eu optámos pela excursão de helicóptero, em vez do passeio a pé pelas Olgas, e às oito da manhã estávamos de novo no aeroporto, prontos a descolar.

Havia, como viemos a descobrir, uma boa razão para levantarmos voo tão cedo. Quando chegámos, já estava calor - afinal, era Verão no deserto - e a carlinga do helicóptero servia apenas para tornar o calor ainda mais intenso. Com cinco pessoas a acotovelarem-se lá dentro, momentos depois de iniciado o voo toda a gente transpirava.

Estivemos no ar pouco mais de trinta minutos, mas conseguimos ver paisagens impossíveis de enxergar por outros meios. Voámos em círculo sobre Ayers Rock e atravessámos as Olgas; observámos camelos selvagens que trilhavam o deserto. Na Austrália havia, segundo fomos informados, milhares de camelos selvagens. Não são animais indígenas; os primeiros foram importados para porem a sua capacidade de sobrevivência ao serviço dos primeiros povoadores do deserto. Alguns fugiram e procriaram; com o tempo, o seu número aumentou. Actualmente, estão a ser reexportados para o Médio Oriente.

A conversa era impossível por causa do barulho do motor e da rotação das pás. No entanto, sempre que olhei para o Micah vi-o a sorrir, sem parar.

 

Regressados da excursão de helicóptero, tivemos algum tempo livre até ao almoço; decidimo-nos por uma corrida à volta do hotel.

Com milhares de quilómetros acumulados nas pernas ao longo da vida, correr pareceu-nos a coisa mais natural. Começando por uma corrida lenta, não tardou que as passadas entrassem num ritmo sincronizado.

- Dá a ideia de que regressámos aos velhos tempos - alvitrei. - Parece que voltámos à escola secundária.

- Ia justamente a pensar nisso.

- Actualmente, corres com frequência?

- Não corro muitas vezes - respondeu. Continuava com a respiração certa. - Corro quando jogo futebol mas, se tento fazê-lo todos os dias, fico com dores nas costas.

- Sei o que isso é. Costumava correr mais de trinta quilómetros em cada domingo, mas actualmente só o posso fazer em imaginação. Se consigo fazer seis quilómetros, já me dou por satisfeito.

- É por estarmos a ficar mais velhos - resmungou o Micah. - já pensaste que a festa do vigésimo aniversário da conclusão do meu curso é daqui a uns meses?

- Vais assistir?

- Julgo que sim. Vai ser engraçado revê-los a todos. Quando penso na escola secundária, penso no Mike, no Harold, em ti e no Tracy. Aquilo é que era vida.

Durante um bocado só ouvi o som das nossas passadas no caminho de terra batida.

- Recordas-te de uma vez em que foste namorar, numa saída a quatro juntamente com o Harold e a namorada dele? Quando o Tracy e eu vos encontrámos e vos mandámos descer os vidros da janela do carro para podermos enfiar um projéctil dentro do carro?

Soltei uma gargalhada.

- Como poderia esquecer? Aquela coisa explodiu aos nossos pés, pregando-nos um susto de morte.

- São essas as recordações que guardo da ocasião - acrescentou o Micah. - Aqueles tipos eram fantásticos e ainda hoje falo com eles regularmente. É difícil aceitar que tudo se tenha passado já lá vão vinte anos.

 

Depois do almoço e de um duche, dirigimo-nos para Ayers Rock com o resto do grupo. Na altura, a luminosidade era implacável. A temperatura chegara aos 38 graus e, com o Sol mesmo a pique, Ayers Rock tinha a cor do calcário, nada de especial. As moscas enchiam o ar; tínhamos de fazer movimentos constantes para evitar que nos aterrassem nos lábios ou nas pestanas, nos braços ou nas costas. Havia ali triliões de moscas. Os turistas pareciam sofrer de uma qualquer doença de pele.

Durante as horas seguintes, o autocarro parou em diversos locais à volta de Ayers Rock, considerado um lugar sagrado para os aborígenes. Saíamos do autocarro, ouvíamos uma história e regressávamos aos nossos lugares. Fomos levados a cavernas com pinturas e a um poço de abastecimento de água, onde tivemos de ouvir conferências intermináveis sobre a história dos aborígenes.

Na terceira ou quarta paragem, voltei-me para dizer qualquer coisa ao Micah. Ele tinha os olhos vidrados e perdidos no vazio. Tínhamos estado a ouvir uma história acerca de uma das fendas do cimo do rochedo. Falava de um espírito guerreiro que se perdera no deserto, onde tivera de se bater com outro espírito e, não se sabe como, as marcas do combate ficaram impressas na rocha. Marcas que acabaram por permitir que o povo descobrisse onde se encontrava a mina de água; bastou procurarem a dita imagem na rocha para ficarem a saber que a água estava por perto. A história era mais ou menos assim. O calor abrasador punha-me tonto, o que tornava difícil a compreensão de todos os pormenores da lenda.

- Já reparaste que quanto menos interessante for o assunto mais as pessoas desejam falar dele? - suspirou o Micah, a tentar afastar as moscas à palmada.

- Deixa lá. Trata-se de uma cultura de que não sabemos nada.

- Não sabemos nada dela porque é aborrecida.

- Não é nada aborrecida.

- É apenas um grande rochedo no meio do deserto.

- E as cores?

- Ao amanhecer, vimos as cores. À luz do dia é um grande rochedo. De manhã quase era comido pelas moscas e senti-me quase assado pelo sol, enquanto agora tenho de ouvir histórias intermináveis que falam de combates entre espíritos.

- Não te espanta que as pessoas tenham conseguido sobreviver, durante milhares de anos, num sítio destes?

- Espanta-me que nunca se tenham ido embora. O quê? Estás a pretender dizer-me que nenhuns aborígenes foram até à costa, que nunca viram as praias nem sentiram a brisa do mar enquanto pescavam o que haviam de comer ao jantar e diziam para si mesmos: “Hum!, não estará na altura de pensar em mudar-me?”

- Julgo que o calor está a afectar-te o raciocínio.

- Pois está. Sinto-me a morrer. Parece que já sinto os bútios por cima da cabeça, à espera de me apanharem desprevenido.

 

No mesmo dia, mais tarde, fomos a Ayers Rock pela terceira vez. Teríamos a oportunidade de ver a mudança de cores ao pôr-do-sol.

- Começo a ter a impressão de que por estes lados há pouco que fazer, a não ser olhar embasbacado para o rochedo - confidenciou o Micah.

- Não é assim tão mau - redargui. - Ouvi dizer que esta noite tocarão música aborígene.

- Bravo! - exclamou, a levar as mãos ao alto. - Como é que vou conseguir esperar?

Contudo, o serão acabou por ser um dos mais memoráveis de toda a viagem. Começou por um cocktail - e, sim senhor, com toda a gente a olhar para Ayers Rock quando o Sol começou a descer - mas depois fomos levados para uma clareira onde tinham posto as mesas, com toalhas de pano, velas e belos arranjos florais. O pôr-do-sol foi belo e a comida estava deliciosa. Entre outras coisas, o bufete apresentava carnes de canguru e de crocodilo cortadas aos pedaços e cozinhadas na perfeição. A temperatura descera e até as moscas pareciam ter desaparecido.

Jantámos no deserto sob um céu que ia escurecendo lentamente; a seu tempo, as estrelas apareceram em toda a sua pujança. Depois, as velas foram apagadas e o astrónomo começou a falar. Usando uma lanterna para apontar as diversas regiões do firmamento, descreveu o mundo que havia lá em cima.

Não só o céu estava suficientemente escuro e limpo para permitir identificar algumas estrelas da Via Láctea, mas também, por nos encontrarmos no Hemisfério Sul, era um céu totalmente estranho para nós. Ficámos encantados. Em vez da Ursa Maior e da Polar (a Estrela do Norte), vimos o Cruzeiro do Sul e soubemos como os marinheiros o utilizavam na navegação. Júpiter havia décadas que não se encontrava tão próximo da Terra e brilhava intensamente no céu. Também Saturno estava visível e, pela primeira vez, consegui ver os dois planetas ao mesmo tempo. Ainda melhor, descobrimos que a agência tinha alugado telescópios. Naquela noite, vi as luas de Júpiter e os anéis de Saturno, que conhecia dos livros mas nunca vira através das lentes. Para o Micah, era também a primeira vez.

No caminho de regresso ao hotel, recostou-se no assento, a verdadeira imagem do contentamento.

- A manhã foi fantástica e o serão foi o melhor que passámos nesta excursão.

- No entanto, passávamos bem sem a tarde, não é?

Sorriu sem descerrar os olhos.

- Estás a ler-me a mente, maninho.

Também me recostei e fechei os olhos. No autocarro, ninguém falava; na sua maioria, os excursionistas pareciam descontraídos como nós. No silêncio, deixei a mente divagar. Os anos haviam passado tão depressa que não podia deixar de sentir uma certa irrealidade na minha vida, como se estivesse a observá-la com os olhos de qualquer outra pessoa. Talvez fosse por causa do serão que acabávamos de passar, ou talvez fosse apenas exaustão, mas, de súbito, no meio daquela terra estranha, não me vi como um escritor de 37 anos de idade, ou como marido, ou até como pai de cinco filhos. Em vez disso, parecia-me que acabava de nascer e que perante mim se abria um futuro incerto, uma sensação semelhante à que senti quando saí do avião em South Bend, estado de Indiana, em Agosto de 1984.

 

O meu primeiro ano em Notre Dame constituiu um verdadeiro desafio. Pela primeira vez na vida, não era o mais inteligente da turma e os estudos eram muito mais exigentes do que eu pensara. Estudava uma média de quatro horas por dia e não conseguia resultados tão bons como esperava; durante os quatro anos seguintes, o número de horas diárias de estudo iria sempre aumentar.

Era-me difícil viver longe de casa. Sentia saudades da família e dos amigos, da Lisa, e não me dava bem com o meu novo colega de quarto. Pior do que tudo: na segunda semana após a chegada, magoei o tendão de aquiles, tentei treinar apesar das dores e contraí uma tendinite grave. A zona do tendão inchou até ficar do tamanho de uma bola de golfe. De acordo com os médicos, a única cura era parar de correr imediatamente.

Naquela altura, o desporto tinha-se tornado a coisa mais importante da minha vida e a ideia de parar contrariava tudo aquilo em que eu acreditava. O meu sonho era seguir as pisadas de Billy Mill, representar os Estados Unidos nos jogos Olímpicos e ganhar a medalha de ouro. Agora sei que, mesmo que não tivesse contraído aquela lesão, o sonho era inatingível. Era o mesmo que alimentar o sonho de voar.

Como disse, era um bom corredor, não era um corredor excepcional. Não tinha a velocidade natural nem a resistência necessárias para ser um atleta de classe mundial; é certo que, por treinar mais do que a maioria dos alunos do secundário, conseguira bons resultados. Só compreendi estas verdades com a passagem do tempo; na altura, a lesão foi devastadora. Pela primeira vez na vida, senti que podia falhar.

A lesão apoquentou-me durante o Outono; no Inverno, houve uma pequena melhoria, antes de voltar a lesionar-me. Foi por essa altura que eu e a Lisa acabámos o namoro, dois apaixonados da escola secundária vencidos pela distância que nos separava. A escola continuava a ser um desafio, em parte por eu ter a cabeça noutro sítio qualquer.

Acabei por conseguir cumprir parte da temporada de pista e até bati um recorde da universidade, como membro de uma equipa de estafetas. Foi a minha última prova daquele ano. Quando acabei a corrida mal conseguia andar. O tendão de Aquiles estava do tamanho de um limão; qualquer movimento provocava uma dor excruciante; sempre que dava um passo, o tendão rangia como uma dobradiça ferrugenta. Ao ir para casa nas férias de Verão, saí do avião em muletas.

 

Senti-me muito mal durante as primeiras semanas de Verão. Não tinha emprego, nem namorada e, por o meu irmão se ter mudado, também não tinha companheiro para dar umas voltas. Além disso, os médicos tinham proibido qualquer corrida durante um período de três meses, o que só serviria para me atrasar em relação aos restantes concorrentes.

A mamã tentava arranjar pretextos para me animar. Pelo menos, era assim que lhes chamava. “Pinta a sala de estar”, alvitrou, “vais sentir-te mais animado”, ou: “Passa a porta à lixa para eu a poder pintar de outra cor. Ajuda-te a passar o tempo.”

Se as ideias dela resultassem, eu seria o rapaz mais feliz deste planeta. Limitava-me, porém, a andar pela casa, com roupas sujas de tinta, a trabalhar durante todo o dia em variados projectos, a resmungar que queria era correr e a tentar perceber as razões que levavam Deus a não me ajudar e a não ouvir as minhas súplicas. Em meados de Junho, já a mamã se sentia exasperada com a minha atitude e, ao ouvir-me lamentar a minha pouca sorte pela centésima vez, quando estava sentado à mesa da cozinha, acabou por abanar a cabeça, e dizer:

- O teu problema é o aborrecimento. Precisas de arranjar qualquer coisa para fazer.

- A única coisa que desejo fazer é correr.

- E se não puderes?

- Onde é que pretendes chegar?

- O que acontecerá se a tua lesão nunca se curar? Ou se, mesmo que melhore, não conseguires treinar como desejas, com medo de te lesionares outra vez? Não queres passar o resto da vida sem fazer nada?

- Mamã...

- Eh!, só estou a falar do que é óbvio. Sei que não é justo, mas nunca ouvi dizer que a vida fosse justa. - Baixei a cabeça sobre a mesa. - Oh, não - continuou, com voz firme, - não vais ficar para aí sentado sem fazer nada. Não amues. Faz qualquer coisa por ti.

- Faço o quê?

- A vida é tua.

Frustrado, levantei a cabeça:

- Mamã...

- Eu não sei - acrescentou, com um encolher de ombros. Depois, olhou para mim e proferiu as palavras que acabariam por mudar a minha vida: - Olha, escreve um livro.

Nunca, até àquele momento, pensara em escrever. É verdade que passava a vida a ler, mas sentar-me e inventar toda uma história? Uma ideia perfeitamente ridícula. Não sabia nada do ofício de escritor, não ardia em desejos de ver as minhas palavras impressas. Nunca tivera uma lição de escrita criativa, nunca tinha escrito para o livro de curso ou para o jornal da escola, nem suspeitara alguma vez de possuir um talento oculto para compor uma prosa. Contudo, e mesmo sabendo tudo isso, a ideia tinha o seu interesse e dei comigo a responder:

- Está bem!

Na manhã seguinte, sentei-me diante da máquina de escrever do meu pai, coloquei uma folha de papel e comecei a escrever. Escolhi o romance de terror e inventei um personagem que causava mortes em qualquer Lugar aonde fosse. Seis semanas e cerca de trezentas páginas mais tarde, depois de escrever sete horas por dia, a obra estava completa. Ainda hoje me recordo de escrever a última frase e de um sentimento de missão cumprida como nunca tinha sentido até então.

O único problema era o próprio livro. Era horrível e eu sabia-o. Era atroz, em qualquer sentido da palavra mas, ao cabo e ao resto, que interessava isso? Não tinha a intenção de publicá-lo; só o tinha escrito para ver se era capaz. Já então sabia que existe uma grande diferença entre começar um romance e terminá-lo. Mas tive uma surpresa ainda maior: na verdade, o trabalho agradou-me.

Tinha 19 anos de idade e tornara-me escritor por acidente. Estranha, a forma como as coisas acontecem na vida!

 

Como vivia oito meses por ano afastado de casa, o meu irmão e eu

tínhamos pouco tempo para conviver. O Micah continuava a aproveitar os fins-de-semana para experimentar coisas novas e excitantes. Entretanto, a lesão continuava a atormentar-me; não fiz pista nem corta-mato, mas concentrei-me na preparação do regresso.

No ano anterior fizera bons amigos entre os restantes caloiros, alguns dos quais também faziam parte da equipa de atletismo, e foi deles que passei a depender para sobreviver a mais um ano difícil. No entanto, com a ida para a universidade aprendera uma coisa. A minha dependência em relação à família era menor que a dos meus irmãos. A Dana era caloira na universidade mas continuava a viver em casa; embora o Micah tivesse o seu próprio apartamento, continuava a ir a casa três ou quatro vezes por semana. Parecia estar lá sempre que eu ligava para casa.

Pouco depois de eu ter saído para frequentar o primeiro ano, a mamã informou-me de que a Brandy não estava bem. Tinha 12 anos, não muitos para certas raças, mas uma idade avançada para uma doberman; pela voz, vi que a mamã estava preocupada. Adorava a cadela, como todos nós; quando lhe fiz mais perguntas sobre o animal, mostrou-se ligeiramente evasiva.

- Bom, perdeu um pouco de peso e parece ter piorado da artrite.

Quando voltei a casa para as férias a seguir ao primeiro período, fiquei chocado com o aspecto da Brandy. Estivera dois meses sem a ver mas, durante esse período, ela deixara de ser um animal relativamente saudável para passar a ser um esqueleto ambulante. Tinha o estômago metido para dentro e eu conseguia contar-lhe as costelas, mesmo que estivesse sentado do lado oposto da sala. Quando se aproximou lentamente de mim, pude ver-lhe os olhos felizes por me ter reconhecido. A cauda, esquelética e quase sem pêlo, agitou-se num débil cumprimento. Ajoelhei-me e afaguei-a com suavidade, a senti-la tremer debaixo da minha mão. Senti um nó na garganta.

Passei a maior parte dos dois dias seguintes na companhia da cadela, sentado ao lado dela e a dar-lhe palmadinhas. Já sabia que o animal não chegaria ao Natal; falava-lhe calmamente ao ouvido, a recordar-lhe todas as nossas aventuras quando estávamos ambos a crescer.

No dia anterior ao meu regresso a Notre Dame, encontrámos a

Brandy morta.

O Micah e eu contivemos as lágrimas e fomos buscar a nossa irmã. A Dana não procurou armar-se em forte e desatou de imediato a chorar. Foram os soluços dela que obrigaram o meu irmão e eu a chorar também; um pouco mais tarde, com olhos ainda marejados de lágrimas, abrimos uma cova no quintal das traseiras e enterrámo-la. Tinha desaparecido, só deixando para trás as memórias que nós guardaríamos para sempre.

- Esperou que estivesses em casa - afirmou o Micah, com ar convicto. - Acho que sabia que estavas de regresso e quis ver-te uma última vez.

Anos mais tarde, descobrimos a verdade acerca da morte da cadela. A Brandy, soubemos depois, não morreu durante o sono. Tinha morrido, na mesma manhã, no consultório do veterinário, com a minha mãe a segurá-la para lhe ser administrada a injecção final. Depois, a mamã levou-a para casa e, enquanto ainda estávamos a dormir, foi colocar a cadela na cama. Não quis que soubéssemos que a cadela tinha sido abatida; quis que pensássemos que a Brandy morrera pacificamente enquanto dormia. A mamã sabia que ficaríamos devastados com a ideia de pôr o animal a dormir, pensou que era importante proteger os nossos sentimentos.

Apesar de já sermos crescidos, mesmo que sempre tivesse acentuado a necessidade de sermos firmes, não deixou que a morte da Brandy se tornasse ainda mais dolorosa para nós.

 

No segundo ano da universidade, fui operado ao tendão de Aquiles e ao pé. Tanto o tendão de Aquiles como o feixe plantar (um tendão que corre ao longo da planta do pé) tinham sido gravemente afectados pelo treino intensivo. Era provável que não voltasse a correr. Como continuava a alimentar o sonho, empenhei-me na reabilitação e, em Julho, recomecei a fazer corrida ligeira sem sentir dores. Treinei muito e depressa consegui superar os meus tempos anteriores; no segundo treino pesado do dia, por exemplo, corria oito quilómetros em pouco mais de 23 minutos e mantinha a respiração controlada.

Contudo, em Outubro, a dor voltou e fui injectado com cortisona na zona da antiga lesão. Como o anti-inflamatório tornou aquela zona insensível, continuei a correr. Quando a dor reapareceu, seis semanas mais tarde, fiz outra injecção de cortisona. Passado pouco tempo estava a ser injectado todos os meses mas, mesmo assim, consegui uma época razoável. Chegado o Verão, precisava de injecções semanais para continuar a treinar; tinha feito cerca de trinta injecções desde a operação; tinha de me preparar para a minha última época. Tanto o tendão de Aquiles como o feixe plantar estavam inchados. Recordo-me de um dia em que coxeava a caminho da pista para mais um treino e, de repente, decidi com toda a lucidez que não podia voltar a fazer aquilo.

Pendurei as sapatilhas para sempre, a sentir tristeza e, facto estranho, com um certo alívio. Com a excepção de um recorde escolar batido, que detenho passados dezanove anos, falhei todos os outros objectivos que me tinha proposto alcançar. Porém, a despeito de a corrida ter sido o fio condutor da minha vida nos sete anos anteriores, compreendi que sobreviveria sem o atletismo.

Tinha dado o meu melhor e não deveria ter acabado assim. E se tivesse de fazer tudo de novo, decerto que o faria, mesmo que voltasse a não realizar o meu sonho. Quando alimentamos um sonho, apreendemos a conhecer-nos. Aprendemos a conhecer as nossas capacidades e os nossos limites, e o valor do trabalho árduo e da persistência.

Quando falei ao meu pai na decisão que tomara, partilhando com ele o desapontamento que sentia e também o alívio de ter conseguido finalmente tomar uma decisão, ele pôs-me um braço à volta dos ombros.

- Toda a gente tem sonhos. E se os teus não se realizaram como pretendias, não me sinto menos orgulhoso de ti. Na sua maioria, as pessoas nem sequer tentam.

 

Nesse ano, a mamã conseguiu finalmente o cavalo com que sempre sonhara. Uma égua árabe de três anos de idade, a que pôs o nome de Chinook.

A Chinook era guardada num estábulo que havia perto do rio American e a mamã ia alimentá-la duas vezes por dia, antes e depois do trabalho. Passava horas a escovar-lhe o pêlo, a limpar o estábulo e depois a sujidade das próprias unhas.

Apesar de haver pistas de hipismo ao longo do rio, decorreram alguns meses antes que a minha mãe pudesse montar. A Chinook passara a maior parte da vida numa pastagem (em companhia de um bode) e nunca tivera nada de parecido com uma sela em cima do lombo, uma das razões para a mamã ter dinheiro suficiente para a comprar. Era extremamente nervosa, como muitos cavalos árabes, mas a mamã tinha um talento natural para a acalmar. Não tardou que a Chinook deixasse que lhe pusessem a sela; mal se habituou à sela, a mamã saltou-lhe para cima. A égua não pareceu apreciar a ideia, mas a mamã era paciente e nunca me esqueço da alegria da voz dela, num dia em que me telefonou.

- Esta manhã, montei a Chinook durante horas! - anunciou. - Nem calculas como foi maravilhoso!

- Fico feliz por ti, mamã - foi a minha resposta. A minha mãe vivera uma vida de sacrifícios, com os seus desejos sempre em segundo lugar em relação aos nossos. Não podia deixar de sentir que era chegada a altura de ela conseguir dispor de algo que a tornasse feliz.

Mais tarde, viria a adquirir um segundo cavalo, chamado Napoleon. Este era um animal de bom feitio e de reacções previsíveis; o tipo de cavalo perfeito para o meu pai. E, para minha surpresa, ele concordou em montar.

Embora o meu pai nunca se tivesse sentido confortável na sela, penso que foi uma forma de mostrar que desejava investir no casamento. Anos de afastamento emocional tinham afectado a relação deles e o Micah dizia com frequência que a mamã estivera várias vezes a atingir o ponto de ruptura. Se, antes, quis manter o casamento para salvaguarda dos filhos, agora era frequente perguntar-se, em voz alta, se não seria mais feliz sem a companhia do marido. Não sei se algum deles chegou a pensar seriamente no divórcio. Sei, no entanto, que a mamã proferia a palavra com frequência crescente, tanto ao telefone como em casa. E o meu pai ouvia-a, sem sombra de dúvida.

A reaproximação é sempre difícil; e muitas vezes, quando o afastamento foi aumentando ao longo dos anos, é praticamente impossível. No entanto, os passeios a cavalo deram aos meus pais a possibilidade de a conseguirem e, pouco a pouco, pareceram apreciar a renovação do sentimento de camaradagem entre eles.

 

O meu irmão continuava a viver a sua existência descuidada. Depois da formatura, em 1987, ele e um amigo foram para a Europa e gastaram quase um mês a percorrer a Espanha, a França e a Itália em bicicleta. Depois do regresso, contou muitas histórias acerca da aventura e seguiu para as montanhas, para praticar a descida dos rios em canoa.

Em Agosto começou a trabalhar a tempo inteiro numa firma de compra e venda de propriedades; continuou a namorar energicamente. Em cada quinzena levava uma namorada a casa, para conhecer os meus pais, e cada uma das raparigas parecia estar louca por ele. A certa altura, a mamã anunciou-me pelo telefone que ele tinha levado a mesma rapariga duas vezes. Para o Micah, em muitos anos, aquela era a situação que mais se aproximava de um namoro estável. E quando a levou lá uma terceira vez, penso que a mamã julgou tratar-se de um caso sério.

Em Notre Dame, eu estava prestes a concluir a formação em gestão financeira, com a esperança de frequentar a Faculdade de Direito após a licenciatura. Em Março de 1988, eu e uns amigos decidimos ir de carro à Florida para assinalar as nossas últimas férias da Páscoa. Como o pai de um dos meus companheiros de quarto era proprietário de um condomínio na ilha Sanibel, optámos por ir para lá em vez de escolhermos os destinos habituais, como Daytona ou Fort Lauderdale.

Na segunda noite da nossa estada, reparei numa mulher que atravessava o parque de estacionamento do condomínio na companhia de duas amigas.

Era atraente, um aspecto comum a quase toda a gente depois de se passar uma tarde na cidade, e depressa me saiu do pensamento. Contudo, momentos depois, quando eu estava a chegar ao átrio na companhia dos meus amigos, ouvimos vozes a chamar-nos, vindas do corredor exterior do sexto piso.

- Eh!, rapazes, também estão hospedados aqui?

Olhámos para cima e reparei nas três raparigas que vira havia pouco.

- Estamos - respondemos.

- Ora bem, tínhamos combinado um encontro com uns amigos, mas eles ainda não chegaram, e temos mesmo de ir à casa de banho. Podemos usar a vossa?

- Com certeza - gritámos. - Estamos no oitavo piso.

Subiram, apresentaram-se como finalistas da Universidade de New Hampshire e deixámo-las entrar para se servirem da casa de banho. Momentos depois, encontrámo-nos com as três na cozinha, mas os meus olhos continuaram colados na mulher em que reparara primeiro. De perto, tinha os olhos mais belos que eu alguma vez vira, de uma cor tão pouco habitual que nem pareciam verdadeiros. Não conseguia deixar de olhar para eles.

- Olá! - acabei por cumprimentar. - Sou o Nick.

Sorriu.

- Olá, Nick. Eu sou a Cathy.

Adoraria dizer-vos que a atracção inicial foi mútua, mas estaria a

mentir se o fizesse. As raparigas ficaram no nosso quarto durante meia hora e a seguir convidaram-nos a descer até ao quarto dos amigos. Enquanto lá estivemos, consegui o número de telefone delas através de uma das amigas da Cathy, a quem prometi ligar no dia seguinte a perguntar se queria ir para a praia existente nas traseiras do condomínio.

Quando decidiram juntar-se a nós na manhã seguinte, fiquei nitidamente nervoso com a hipótese de voltar a ver a Cathy. Esperava ter-lhe causado uma boa impressão e, quando a vi na praia, juntamente com as amigas, a dirigir-se para mim, levantei-me de imediato.

- Olá! - saudei, impulsivamente, - ainda bem que conseguiram vir.

Ao que a Cathy respondeu:

- Oh, olá, eu sou a Cathy. Não nos conhecemos na noite passada, pois não?

A despeito da mossa no ego, não estava disposto a desistir. Acabámos por conversar durante várias horas. Quando falaram em ir a uma discoteca das proximidades, convenci os meus companheiros de quarto a irmos logo para lá e atrelei-me de imediato à Cathy. Depois de dançarmos durante uma hora, inclinei-me para ela e disse:

- Sabes que um dia havemos de nos casar?

Ela limitou-se a soltar uma gargalhada de descrença:

- julgo que precisas de mais uma cerveja.

Como pudera saber tão rapidamente que ela era a mulher ideal para mim? Foi um momento esquisito de intuição, mas posso afirmar com toda a franqueza que soube.

Tínhamos muito em comum. Tal como eu, ela era finalista da licenciatura em gestão. Era católica como eu e frequentava a igreja todos os domingos. Era também uma filha do meio, embora num grupo de quatro. Como eu, tinha um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Os seus pais, como os meus, tinham sido pobres antes de conseguirem ascender à classe média, nunca tinham sido divorciados e, suprema coincidência, partilhavam o aniversário de casamento com os meus (31 de Agosto). Também era atleta (campeã estadual de ginástica). Desejava ter filhos, como eu, e preferia ficar em casa a criá-los, como eu esperava que a minha mulher viesse um dia a fazer.

Porém, mais do que tudo, o que me atraiu nela foi a sua maneira de ser. Ria-se muito e era fácil começar a gostar de alguém que via o lado cómico de cada situação. Também era inteligente, lera muito e falava bem, gostava de ouvir e tinha confiança nos seus princípios. E, além do mais, era cordial. Tratava os meus amigos como se fossem amigos de longa data, sorria e saudava tanto as crianças como os idosos. Parecia genuinamente interessada em todas as pessoas.

Tinha-lhe detectado todos aqueles predicados e, enquanto dançávamos, dei comigo a pensar que ela era tudo o que eu desejava numa companheira para toda a vida.

Depois de regressar a Notre Dame, liguei ao meu irmão, a informar:

- Micah, encontrei a rapariga com quem vou casar.

- Quando? Onde? Não foste apenas passar uns dias de férias?

- Pois fui. Conhecia-a lá.

- Trouxa - redarguiu, - estavas a passar as férias da Páscoa.

Para que diabo é que pensas que serve o casamento?

- Espera até a conheceres.

- Mas eram as férias da Páscoa!

- Eu sei - respondi alegremente. - Não é fantástico?

 

Nos dois meses anteriores à conclusão da licenciatura, escrevi uma centena de cartas à Cathy. Ela foi visitar-me duas vezes a Notre Dame e, no dia da cerimónia de graduação, os meus pais também foram, pela primeira vez, ver-me à universidade. Enquanto lhes mostrava o lugar onde tinha vivido os quatro anos mais recentes, falei principalmente da Cathy e do que ela tinha representado para mim durante os dois meses finais de estudos. Depois da cerimónia, enquanto os meus pais tomaram o avião para casa, eu segui para New Hampshire para assistir à cerimónia de graduação da Cathy. Fui apresentado aos pais dela e, dez dias depois, levei-a a Sacramento, para ela conhecer os meus.

Os meus pais receberam-na com abraços espontâneos e a Cathy

ficou na cozinha, a falar com a mamã durante uma hora. Nessa noite,

depois de ela ter ido para a cama, a minha mãe declarou:

- A Cathy é maravilhosa. É ainda melhor do que tu dizias. Senti o coração prestes a rebentar.

- Ainda bem que gostou dela, mamã - foi tudo o que consegui

dizer.

 

Em Maio de 1988, concluída a licenciatura, o meu primeiro pensamento foi: “E agora?”

Durante anos, fora simultaneamente estudante e atleta e perseguira os meus objectivos com uma tenacidade inabalável. Tinha feito o que mandavam, tinha obedecido às normas. Porém, de uma assentada, ambos os mundos tinham ficado para trás e dei comigo à deriva. Não fazia ideia de quem era, do que desejava fazer ou aonde o futuro ia conduzir-me. Sempre acreditara que, por seguir as normas, o mundo criaria um caminho para mim. Mas o mundo parecia não se importar minimamente comigo.

A despeito de me ter licenciado com as melhores notas, não fui aceite em nenhuma das faculdades de direito onde pretendi matricular-me, uma porta fechada ainda antes de se abrir. Todos os meus amigos aceitaram empregos em empresas de Nova Iorque ou de Chicago, mas esses empregos tendiam a estar localizados perto dos lugares onde eles tinham crescido. Também eu desejava ir para casa e, com a cabeça cheia de ideias nebulosas quanto ao futuro, dei comigo dentro de um avião com destino a Sacramento. O meu primeiro emprego foi a servir à mesa. Mesmo com uma licenciatura, aceitei um emprego a ganhar o salário mínimo.

Entretanto, comecei a informar-me sobre carreiras, a tentar descobrir um trabalho que me interessasse. Embora confuso, não me sentia especialmente preocupado e, na altura em que a Cathy se mudou para Sacramento, em Agosto, tomara a decisão de tentar as minhas aptidões como avaliador de bens imóveis. Por essa altura, o Micah e eu comprámos duas pequenas casas de aluguer, numa área degradada da cidade, procedemos a reparações e alugámo-las. No pouco tempo que me sobrava, escrevi um novo romance, com o título The Royal Murders, um policial clássico. Sabia, no entanto, que não era suficientemente bom para ser publicado.

Comecei a trabalhar, durante o dia como avaliador estagiário para uma empresa local, enquanto à noite continuava a servir à mesa e a escrever; acabei por conseguir juntar dinheiro para comprar um anel com um pequeno brilhante. No dia do aniversário da Cathy, a 12 de Outubro de 1988, de joelho em terra, propus-lhe casamento e ela aceitou.

Uns dias depois, convidei o Micah para meu padrinho, a pensar que ele estivera a meu lado durante a nossa juventude e que continuaria a estar a meu lado, para onde quer que fosse que o destino nos mandasse.

 

Angkor, Camboja 4 e 5 de Fevereiro

Os templos de Angkor, no Camboja, que ocupam uma área de 300 quilómetros quadrados, foram construídos entre os anos 879 e 1191 da nossa era, durante o apogeu do Império Khmer. Descobriu-se mais de uma centena de templos que já estiveram rodeados de cidades, a partir das quais os reis khmers governaram uma vasta porção do Sudeste da Ásia, que incluía a Birmânia, a Tailândia, o Laos, o Vietname, o Sul da China e o Camboja. Reinaram durante quase cinco séculos, até 1432, ano em que os Siameses (ou Tal) saquearam Angkor e a capital foi deslocada para sul, para Phnom Penh. Angkor nunca readquiriu o anterior estatuto e acabou por entrar em decadência e permitir que a floresta virgem a invadisse progressivamente. Angkor entrou na lenda - as pessoas que viram as ruínas afirmaram que tinham sido construídas pelos deuses - e alguns exploradores aventureiros idos da Europa divulgaram histórias das famosas ruínas entre os seus pares. Foi preciso esperar até 1860, por Henri Mouhot, o explorador francês que voltou a chamar a atenção do mundo para Angkor.

Os exploradores franceses ficaram encantados com as ruínas e deram início a um assinalável esforço de restauração. Porém, tudo o que restava de Angkor eram os próprios templos, que são considerados uma das mais importantes manifestações arquitectónicas da Humanidade. As cidades, com edifícios construídos de madeira, havia muito que se tinham desmoronado e desaparecido no seio da floresta invasora.

Na sua grande maioria, os templos da região de Angkor são influenciados pelo hinduísmo; os restantes são budistas. Ambos estes sistemas de crenças prevaleciam no Império Khmer na altura da construção e havia uma certa alternância entre os dirigentes, ora hindus ora budistas, que as construções teriam forçosamente de reflectir. No entanto, as variações na arquitectura são ligeiras; a maior parte das construções têm no centro um templo com a forma de uma montanha estilizada, rodeado de muros circulares ou quadrados, ou terraços, que por sua vez são rodeados por um fosso ou por um muro envolvente.

Angkor Wat, que à letra significa “Cidade-Templo”, não é apenas o maior templo do complexo de Angkor, é também o maior monumento religioso do mundo. Construído durante a primeira metade do século xIi por Suryavarman Ii, é considerado o zénite da arquitectura khmer. As esculturas dos muros exteriores representam importantes cenas da literatura hindu, bem como acontecimentos registados durante o reinado de Suryavarman II, com grande riqueza e exactidão de pormenores. Para estudar e compreender totalmente as esculturas em relevo - em muros com quatro metros de altura e mais de um quilómetro de comprimento - seriam precisos anos. Há livros que lhes são inteiramente dedicados e esta obra não tem o intuito de as comentar.

Como se costuma dizer, é preciso ver para crer.

 

 

Para chegarmos ao Camboja tivemos de suportar mais sete horas de voo; começava a aperceber-me de quanto era difícil uma viagem à volta do mundo. No final da viagem, teríamos voado 58 mil quilómetros, o equivalente a três dias inteiros passados no ar.

Ao chegar ao Camboja, não sabia muito bem o que me esperava. Embora tivesse estado em Hong Kong e na Coreia para disputar provas de atletismo, não ia preparado para uma cidade como Phnom Penh, onde aterrámos. Fui tomado por uma sensação estranha, um misto de curiosidade e de tristeza. As ruas principais fervilhavam de gente como acontece em muitas cidades à volta do mundo, mas, em vez de automóveis, as pessoas conduziam scooters. Por detrás de casas modestas erguiam-se novos arranha-céus envidraçados; por cada homem vestido de fato completo, via-se outro que perdera uma perna no rebentamento de uma das minas que continuam enterradas pelos campos. Para onde olhasse, tinha de reparar nas contradições do país: uma terra em luta para se desligar do passado como condição para assegurar um futuro mais próspero.

A nossa paragem em Phnom Penh foi de curta duração. Do programa constavam visitas ao Museu Nacional e ao Palácio Real; depois, voltaríamos ao aeroporto para voarmos para Angkor.

Na minha opinião, o Museu Nacional também se pode considerar representativo do Camboja. Do lado de fora dos portões, havia numerosos mendigos, que estendiam a mão aos turistas e lhes pediam uma moeda; lá dentro, viam-se outras recordações da guerra que durante décadas tinha devastado o país. Embora o museu se encontrasse cheio de objectos valiosos e imagens de vários deuses hindus (Shiva, Vishnu e Brama), nenhuma das janelas tinha vidros. Todo o recheio interior estava à mercê dos elementos; as janelas tinham sido destruídas durante a guerra, um quarto de século antes, e não havia dinheiro para substituí-las. Poucos, ou nenhuns, dos objectos expostos estavam fixados aos pedestais; tinham sido ali colocados, pura e simplesmente. Na sua maioria, as imagens apresentavam-se partidas e o estuque em mau estado das paredes estava cravejado de buracos de balas. O tecto mostrava manchas de humidade que também desciam pelas paredes.

No entanto, os guias falavam com orgulho do seu museu, da cultura e da alma do seu povo; chegada a altura de partir, tanto eu como o meu irmão nos sentíamos subjugados. O Camboja pareceu-nos o mais estranho e incompreensível de todos os lugares onde tínhamos estado até àquela altura; ambos nos sentimos deslocados.

Depois percorremos o Palácio Real que, na realidade, é um conjunto de cerca de vinte edifícios e templos, tudo rodeado por um muro, com as dimensões de um quarteirão citadino. Um dos edifícios é o palácio propriamente dito, onde o Rei vive; outro é o Salão das Recepções, uma estrutura magnífica com altos tectos pintados, uma longa carpete vermelha e colunas sublimes, onde os dignitários são recebidos em audiência pelo Rei. Num templo próximo, ainda nos terrenos do palácio, vimos o gigantesco Buda de Prata. Ao contrário do sucedido com muitos dos símbolos da cultura, escapara às destruições provocadas pela guerra e parecia ocupar um lugar central no coração dos cambojanos, pois encontrava-se rodeado por centenas de pequenas oferendas, constituídas por raminhos de flores.

A paragem em Phnom Penh durou menos de três horas, embora nos tivesse parecido muito mais longa. Ajoujados pelo peso do passado, seguimos a caminho das florestas de Angkor, onde chegaríamos logo depois do sol posto.

 

A estrada principal que sai do aeroporto conduz simultaneamente aos templos e aos enormes hotéis erigidos na antiga floresta. O esplendor de alguns daqueles estabelecimentos é desconcertante (seriam considerados hotéis de cinco estrelas em qualquer país do mundo). Estruturas refulgentes, rodeadas de jardins bem desenhados e de iluminação suave. Palmeiras altas como torres e sebes viçosas bordejavam os caminhos de entrada; as flores brotavam de todos os lados para onde olhássemos. Meia dúzia de hotéis a reclamarem diárias que custam mais do que ganha o cambojano comum durante um ano inteiro; alguns dispõem de centros de saúde e de salões de beleza; todos têm restaurantes de categoria, onde é obrigatório o fato completo.

Tudo isto, enquanto na estrada em frente passam as pessoas em bicicletas e scooters.

No hotel, fomos informados de que estava planeada uma excursão a Angkor Wat, logo ao nascer do sol. A maior parte das pessoas, o Micah incluído, resolveu não participar. Foi a primeira e a única excursão de toda a viagem em que não estivemos juntos. E, tirando uns momentos aqui ou ali, era a primeira vez, nas duas últimas semanas, em que nos encontrávamos afastados um do outro.

Na viagem de autocarro, um dos membros do grupo perguntou-me como é que estávamos a dar-nos.

- Muito bem - respondi. - É fácil viajar com uma pessoa como o Micah.

- Não o incomoda? Não o aborrece passar todo o tempo com ele?

Reflecti um pouco e apercebi-me de que o caso poderia parecer estranho.

- Na verdade, não. Parece que desejamos quase sempre as mesmas coisas, que os desejos de um se adaptam aos do outro.

- É espantoso - comentou o meu companheiro, sem deixar de abanar a cabeça. - Os dois entendem-se melhor do que a maioria dos casais. Se os observar de perto, poderá constatar que começa a notar-se um certo cansaço em alguns deles.

 

Estava ansioso por ver Angkor Wat. Para se chegar à estrutura principal - um quadrado com o alto templo-montanha, três cercaduras quadrangulares concêntricas e um muro exterior com cerca de 270 metros de comprimento, tudo rodeado por um fosso gigantesco - atravessa-se um longo passadiço; dirigimo-nos para o muro exterior. Logo que o atravessámos, o guia pediu-nos que parássemos. A escuridão não nos permitia ver o que quer que fosse.

A seu tempo, o céu para lá do templo começou a tingir-se de vermelho, a seguir foi-se tornando cor de laranja e finalmente amarelo. Contra o céu que ia mudando de cor, o templo era apenas esboçado pelo jogo de sombras que não permitiam distinguir a sua verdadeira forma. Mas não consegui tirar os olhos dele. Mesmo à distância, e embora já a conhecesse através de leituras, a dimensão de Angkor Wat obrigou-me a parar. Se fosse de construção recente seria considerado enorme. Quando foi construído, há oitocentos anos, deve ter constituído um verdadeiro desafio à imaginação.

Ficámos ali o tempo suficiente para o céu passar de amarelo a azul, altura em que regressámos ao autocarro. Enquanto rodávamos, os campos à volta de Angkor estavam a voltar à vida. As estradas encheram-se de scooters que ziguezagueavam às cegas à volta do pesado autocarro. Não me pareceu que existissem regras de trânsito; as pessoas conduziam nos dois sentidos, entravam e saíam da fila de trânsito, viravam inesperadamente, mas, sem se saber como, o sistema parecia funcionar.

À sua maneira, os condutores de scooters eram quase tão impressionantes como Angkor Wat. Aprendemos que a maioria daqueles veículos era de produção chinesa e que cada um custava à volta de 600 dólares. Eram a versão cambojana do Chevy Suburban.

- Vão quatro pessoas naquela scooter! - exclamou um dos meus companheiros de viagem, provocando a deslocação de todos os restantes para junto de uma janela, para verem o fenómeno.

- Acolá, vai outra com cinco! - anunciou outro, e todos nos deslocámos para o outro lado do autocarro.

- Eu contei seis!

- Não pode ser!

- Ali! Olhem!

E olhámos. Olhámos embasbacados para uma scooter que transportava seis pessoas; ia devagar, mas movia-se, e ziguezagueava como todas as outras.

- Nem vão acreditar nisto - acabou alguém por dizer. - À nossa frente. Olhem bem.

- O que é?

Ele apontou.

- Conto sete, em cima daquela.

E tinha razão. Um homem ia sentado no meio e parecia levar os filhos. Duas meninas pequenas iam sentadas atrás do pai, três outras crianças pequenas iam à frente. O último, que parecia ser o mais pequeno, um rapaz que teria uns cinco anos, ia empoleirado nos ombros do pai. Todas as crianças vestiam uniformes, dando a ideia de estarmos a ver um pai a levar os filhos à escola.

Enquanto durou o percurso a caminho do hotel, toda a gente procurou, sem êxito, encontrar uma scooter que transportasse oito pessoas. Como se, naquele ambiente memorável, sete não fossem suficientes.

Devido ao calor e à humidade do país, o dia foi dividido em dois períodos. Pela manhã, visitaríamos os outros templos e demais pontos de interesse: Ta Prohm, Bayon e o Terraço dos Elefantes. Depois do almoço, passaríamos algumas horas no hotel. Mais para o final da tarde, visitaríamos Angkor Wat.

A primeira paragem foi em Ta Prohm, no que seria eleito o nosso templo preferido, apesar da grandiosidade de Angkor Wat. Não é grande e encontrava-se muito arruinado, mas o crescimento da floresta intrigou-nos. Envoltas na sombra, as gigantescas raízes das figueiras e o algodão de palmeira enredavam-se nos portais e irrompiam das paredes como se emanassem dos próprios troncos. Era como se a floresta tivesse sido surpreendida no próprio acto de devorar o templo, como em tempos tinha devorado todos os outros.

As raízes são imparáveis. Embora fossem as gigantes a captarem primeiro a nossa atenção, uma inspecção mais cuidada revelou a existência de raízes mais finas que tentavam forçar o caminho por entre os blocos de pedra; com o tempo, o bloco acabaria certamente por se soltar. Num par de décadas, aqueles blocos encontrar-se-ão junto do número imenso de pedras que nos rodeavam na altura.

A despeito do estado lastimoso de conservação, o templo, sem se saber bem como, mantinha a sua forma original. Como todos os templos que iríamos ver, tinha quatro muros quadrados concêntricos (que, na realidade, são túneis) que rodeiam um templo-montanha; pouco a pouco, encontrámos o caminho através das ruínas e em direcção ao centro. Ao contrário de tantos outros lugares que visitámos, logo que dobrávamos uma esquina deixávamos de ver os nossos companheiros.

- Isto é fantástico! - exclamou o Micah. - Espantoso, não é?

- Faz-me recordar o Indiana Jones e a viagem pelo “Temple of Doom” na Disneylândia.

- És tão incuravelmente americano - protestei.

- Achas que sim? Olha, também poderia ser o cenário para um filme. Como se alguém tivesse imaginado qual seria o aspecto de um templo em ruínas. Para ser real, parece demasiado real.

- Demasiado real para ser real?

- Exactamente - assentiu. - Como se alguém o tivesse planeado.

Quarenta minutos depois, estávamos de regresso ao autocarro, a caminho da paragem seguinte: Bayon. Ali, a floresta tinha sido cortada e podemos chegar facilmente às ruínas. Ao contrário do calor australiano, o calor de Angkor era intensificado pela humidade. Os mosquitos estavam por toda a parte e tivemos de recorrer ao repelente de insectos.

Quando comparado com Ta Prohm, Bayon não tem nada de notável. Tem a mesma configuração dos outros templos, embora fosse ali que vimos os primeiros exemplares dos relevos que deram fama a estes lugares. A pedra calcária revelou diversas figuras, cada uma das quais acompanhada da sua história.

Contudo, as histórias eram difíceis de entender. De todas as línguas com que já tínhamos contactado durante a viagem, a do Camboja parecia a mais afastada da nossa. Os sons são tão diferentes que tornam incompreensíveis as palavras mais simples. Por isso, mesmo que os guias falassem inglês, havia dificuldades com os sotaques pesados e com as longas pausas que os guias cambojanos faziam para procurar as palavras adequadas. Nós sentíamos dificuldades para os perceber, mas eles também as sentiam para compreender o que lhes dizíamos.

- Por que é que lhes chamam esculturas em relevo, em vez de esculturas? - perguntou o Micah.

- Bom... estas são... na verdade esculturas em relevo - respondeu o nosso guia com um sorriso complacente.

- Mas porquê em relevo?

- Está a ver? - perguntou, a apontar para o muro. - Esculturas em relevo - acrescentou, a acentuar cuidadosamente a palavra “relevo”.

- Ah! - concluiu Micah ao descobrir que nunca se entenderiam. - Mesmo assim, obrigado.

O guia inclinou-se num cumprimento:

- Não tem de quê.

 

O sol estava a pino e atacava em força quando finalmente chegámos ao Terraço dos Elefantes. Foi-nos dito que os reis costumavam sentar-se em cima do muro - no essencial, uma parede espessa com elefantes esculpidos - para assistir a espectáculos que se realizavam na praça à sua frente.

- Que género de espectáculos? - perguntou o Micah. - Como os... bem...

- Teatro? - Não...

- Circo? - alvitrou o Micah.

- Isso, o circo. Com os acrobatas no... no... - o guia agitou a mão,

a tentar dizer por mímica o que não conseguia dizer por palavras. - Trapézio?

- Sim. Trapézio. E também havia mulheres... que... - o guia deu um passo, a agitar os quadris.

- Dançarinas?

- Sim, dançarinas. E... e...

- Elefantes? - sugeriu o Micah.

- Não, elefantes não.

 

O intervalo de três horas que nos foi concedido no regresso ao hotel foi devidamente apreciado. Antes de seguirmos para Angkor Wat, eu e o Micah fizemos uns exercícios, almoçámos e dormimos um pouco. Tinham-nos repetido por mais de uma vez que as duas horas de que dispúnhamos para a visita não permitiriam que apreciássemos devidamente o monumento.

Como viemos a perceber, eles tinham razão, dado o tamanho e a importância do templo. No entanto, a menos que o visitante conheça bem as histórias que contam acerca do deus hindu Vishnu e tenha a paciência de aprender a forma como essas histórias foram representadas em figuras, duas horas é tempo mais do que suficiente. Um dos especialistas contratados pela agência de viagens estava absolutamente fascinado pelos altos relevos de Angkor Wat, que tinha estudado profundamente. Ficou muito excitado logo que chegámos junto da muralha principal, depois de termos percorrido o passadiço de acesso. Enquanto nos dedicávamos a fotografar pormenores dos relevos - de uma espantosa riqueza de pormenores, tenho de o admitir - o nosso especialista detinha-se depois de dar uns poucos passos e ia apontando para diversas secções do muro, para as descrever com pormenores ainda mais abundantes, com uma voz que ressoava de entusiasmo.

Para ser franco, as explicações só serviram para nos confundir.

- Agora, isto aqui - diria ele, - representa a travessia do rio

por Vishnu. Vejam onde ele se encontra. Estão a ver o templo, em primeiro plano?

Nós semicerrávamos os olhos, procurávamos o templo e acabávamos por achá-lo, a pensar “até agora, percebo tudo”. Mas, infelizmente, o especialista continuava.

- Como provavelmente sabem, o templo que está por detrás dele representa o cosmos como se o seu centro fosse o Monte Meru; por outras palavras, é o modelo do universo num microcosmo! Esta, como tudo o que respeita a Angkor Wat, é a mesma representação! E todos estes relevos têm por fonte o Ramayana e o Mahabharata, sem esquecer o Bhagavad-Gita, o que, se pensarmos bem, é absolutamente extraordinário. Além disso, se andarmos um pouco mais, veremos também cenas da vida do próprio Suryavarman II que, segundo parece, decidiu identificar-se com Rama e Krishna, as encarnações de Vishnu, transformando-se, assim, num Devaraja! Poderemos imaginar o que Jayavarman II pensaria disso, especialmente depois de ter derrotado os Chams. Oh, e apenas um passo mais adiante, veremos o famoso relevo que representa o mito da renovação cósmica, também conhecida por Encrespar do Mar de Leite!

Por aquela altura, os olhos do Micah já tinham adquirido o brilho habitual.

- Leite?

- Foi isso que ele disse.

- O que é que isso quererá dizer? - continuou. - E quem é o Rama, e que diabo é um Devaraja?

- Queres que lhe pergunte?

- Não - respondeu apressadamente. - Se não lhe perguntarem nada, talvez ele se despache - acrescentou e fez uma pausa. - Será que ele pensa que nos interessamos por toda esta conversa acerca de Shiva?

- Vishnu. O homem está a falar do deus Vishnu.

- Qualquer que ele seja - respondeu. - Só quero dizer que não percebi patavina disto, que não me vou lembrar de nada do que estou a ouvir. É demasiado, isto é, o muro tem três metros de altura e rodeia todo o templo. Tem mais de quilómetro e meio de comprimento. É espantoso como monumento arquitectónico e percebo os motivos por que levou dez anos a ser construído. Porém, a menos que só penses neste género de coisas, as esculturas parecem um friso contínuo.

- Esculturas em relevo - emendei. Em relevo.

- Como queiras.

Entretanto, cada vez mais excitado, o nosso especialista continuava a falar.

- E reparem, lá fora, nas quatro cabeças de mármore acima do muro exterior! Estão a vê-las? Pensamos que representam os Guardiães dos Quatro Pontos Cardeais, ou podem mesmo ser representações de Bodhisattva Avalokiteshvara!

Quando chegámos ao centro de Angkor Wat e nos detivemos junto da base do templo-montanha, o nosso especialista ainda continuava a todo o gás.

- É interessante comparar as correntes mahayana e theravada do budismo, mas, para compreender o processo histórico, não nos podemos esquecer de que o animismo ainda era uma corrente importante no primitivo império khmer; a crença em Neak Ta, por exemplo. Talvez tenham reparado em Naga, o deus serpente, junto à entrada? Este...

Foi aqui que o Micah resolveu interrompê-lo:

- Desculpe!

O         especialista interrompeu o discurso:

- Faça favor!

O         Micah apontou para o templo-montanha:

- Podemos subir aquela coisa?

 

Passámos a hora seguinte a explorar as ruínas por nossa conta. Subimos a escadaria abrupta e em mau estado, percorremos os corredores empedrados, posámos para fotografias e observámos Angkor Wat dos pontos mais elevados que conseguimos alcançar.

- Espero que não tenhamos de fazer um teste sobre este tema - observou Micah quando regressávamos pelo passadiço. - Eu chumbava, de certeza.

- Tu e eu, chumbávamos ambos.

Fez uma pausa.

- Já te apercebeste de que andamos por fora há duas semanas?

- Nem parece que é há tanto tempo.

- Reconheço isto com uma certa tristeza. Andei meses a sonhar

com esta viagem e já fizemos mais de metade. Tudo está a correr tão

depressa.

- Os sonhos são coisas estranhas - observei. - Desejas qualquer coisa desesperadamente, consegues obtê-la e, tão subitamente como a conseguiste, ela desaparece. É como o atletismo: todo aquele treino para dois minutos de pista. O segredo, penso ter aprendido, está em gozar o processo de lá chegar.

- Estás a dar-me lições de filosofia?

- Não - tive de admitir. - Estou a falar só para não estar calado.

- Óptimo. Para um dia, já tive uma dose suficiente de filosofia. Caminhámos um pouco mais.

- Sentes saudades da Christine? - perguntei.

- Sinto. E também dos miúdos. E tu?

Assenti.

- Sinto saudades desde que parti.

 

Casámo-nos em Manchester, New Hampshire, a terra natal da Cathy. Nos seis meses antecedentes, ela teve de preparar tudo estando a viver no outro extremo do país. Só foi a casa duas vezes; eu começara a perceber que a minha noiva, quando havia necessidade, era uma mulher muito eficiente.

O casamento foi celebrado a 22 de julho de 1989, na igreja que ela tinha frequentado durante toda a vida e não consegui afastar os olhos dela enquanto o pai a conduzia ao altar. Os olhos brilhavam-lhe por baixo do véu e as mãos tremiam-lhe ligeiramente quando as tomei nas minhas. Mal me recordo da cerimónia. Só guardo na memória o momento em que lhe enfiei a aliança no dedo. O copo-d'água constitui outra memória difusa e estávamos ambos exaustos quando chegámos ao Hawai para iniciarmos a lua-de-mel. A viagem de núpcias fora um presente de Billy e Par Mills, que se tinham habituado a gostar tanto da Cathy quanto eu. A Lisa, que há muito encontrara um novo companheiro para a vida, começou a referir-se jocosamente a mim como “o ex-namorado que nunca se afastou”.

Como a cerimónia e o copo-d'água se realizaram do outro lado do país, poucos dos meus amigos puderam assistir. Contudo, a minha mãe resolveu dar uma festa em nossa honra, em Sacramento. Decorou o quintal das traseiras, fez um bolo, pôs comida e cerveja à disposição dos convidados e todos os meus conhecidos de infância passaram por lá para me saudar. A festa prolongou-se por várias horas e em certos aspectos foi mais interessante do que a festa original. Tinha regressado da lua-de-mel em Maui; juntamente com o    Micah, era proprietário de duas propriedades arrendadas e acabara

o meu terceiro romance que, tal como os dois primeiros, aguardava publicação. Sentia-me entusiasmado com a profissão que ia iniciar e estava profundamente apaixonado pela minha mulher. Foi, ainda hoje penso assim, uma das melhores tardes, e um dos melhores verões, de toda a minha vida.

Se assim se pode dizer, a minha mãe estava ainda mais excitada do que nós. No decurso da festa, falou em deixar o emprego. Agora que tínhamos saído da universidade, e com o meu pai a ganhar mais do que nunca, não havia motivo para ela continuar a ir diariamente para o    emprego. Já trabalhara o suficiente, declarou, e pretendia passar o tempo com a família e a passear a cavalo com o marido.

- De facto - disse, de olhos a brilhar de contentamento, - no próximo fim-de-semana vamos passear novamente.

Na noite de sexta-feira seguinte, apenas seis semanas depois de estarmos casados, a Cathy e eu fomos a um churrasco em casa dos meus pais. Éramos os únicos filhos presentes. O Micah estava em Cancun e só chegaria a casa na manhã de sábado, enquanto a Dana estava em Los Angeles com o namorado. Foi um serão calmo. Cozinhámos e jantámos; mais tarde, instalámo-nos na sala para ver um filme. Como estava a fazer-se tarde, disse à minha mãe que tínhamos

de ir para casa, beijei-a na face e deixei-a sentada no sofá.

- Talvez passemos por cá amanhã à noite.

- Está bem - respondeu. - Gostaríamos que viessem. Vão com cuidado.

Despedi-me:

- Adeusinho, mamã.

Pelo meio-dia de sábado, os meus pais seguiam a cavalo pelos trilhos que correm ao longo do rio American. Como na maioria dos dias de Agosto no vale de Sacramento, a temperatura andava pelos 32 graus e o ar estava seco e calmo. Havia apenas umas nuvens a salpicar o horizonte; os meus pais fizeram um piquenique numa das muitas áreas de sombra que se encontram no parque. Um pouco depois, recomeçaram o passeio a cavalo; porém, devido ao calor, os cavalos não seguiam a trote nem a galope. Em vez disso, os meus pais conduziram-nos num andamento lento e foram apreciando a paisagem, com pequenas conversas de vez em quando.

Quando o rio faz uma curva, o trilho torna-se mais estreito e o meu pai seguiu à frente com o Napoleon, logo seguido da minha mãe com a Chinook. De acordo com o meu pai, em seguida não aconteceu nada de extraordinário; não houve ruídos súbitos, não apareceu qualquer cobra, nada que pudesse assustar os cavalos. Notou que havia algumas pedras no trilho de terra; em alguns pontos notava-se uma ligeira inclinação mas, uma vez mais, nada que pudesse perturbar o andamento de qualquer dos cavalos. Na realidade, o cavalo e a égua, e milhares de outros cavalos ao longo dos anos, já tinham passado pelo mesmo sítio umas dezenas de vezes.

Contudo, naquele dia e por qualquer razão, a Chinook tropeçou.

Estava na cozinha quando o telefone tocou. Ao responder, notei que o meu pai estava sem fôlego, quase a desfalecer.

- A mãe sofreu um acidente... - começou. - Caiu da égua... Levaram-na para o Centro Médico Davis, da Universidade da Califórnia...

- Como é que ela está?

- Não sei. Não sei - respondeu numa voz simultaneamente assustada e robótica. - Tive de trazer os cavalos de volta. Ainda não falei com o médico... Tenho de ir agora para lá...

- Já vou a caminho.

Cathy e eu dirigimo-nos para o hospital, aterrados e a tentar convencer-nos a nós próprios de que não acontecera nada de grave. Logo que chegámos às urgências, procurámos que a enfermeira de serviço nos prestasse informações.

Depois de consultar umas notas e de ter ido falar com alguém, voltou para junto de nós.

- A sua mãe está na cirurgia - informou. - Pensa-se que sofreu uma ruptura do baço. E é provável que tenha um braço fracturado.

Suspirei de alívio; sabia que, apesar de graves, aqueles ferimentos não eram necessariamente fatais. Momentos depois, Mike Marotte, um velho amigo da escola secundária que praticou corta-mato comigo, entrou por ali dentro a correr.

- O que é que estás aqui a fazer? - perguntei.

- Ia a correr pelo trilho e vi um grupo de pessoas, em que reconheci o teu pai. Ajudei-o a trazer os cavalos de volta e vim de lá directamente para aqui. O que é que se passa com a tua mãe?

O Mike, tal como todos os meus amigos, adorava a minha mãe e parecia tão assustado quanto eu.

- Não sei - respondi. - Dizem que houve uma ruptura do baço, mas ainda ninguém veio falar comigo. Mas, tu estavas lá? Foi grave? Como é que ela ficou?

- Não estava consciente. É tudo o que sei. O helicóptero chegou uns dois minutos depois de mim.

Parecia-me que o mundo começara a rodar em câmara lenta.

- Precisas de alguma coisa? É necessário avisar alguém?

Dei-lhe os números de telefone de pessoas das famílias do pai e da mãe.

- Diz-lhes o que aconteceu e pede-lhes que avisem os outros.

Mike tomou nota dos números.

- E descobre o Micah - pedi. - A viagem dele, de Cancun, estava marcada para esta tarde. Vem a caminho de São Francisco.

- Em que companhia?

- Não sei.

- Qual é a hora de chegada?

- Não sei. Faz o que puderes... E tenta encontrar a Dana. Está em Los Angeles com o Mike Lee.

O Mike assentiu.

- Fica descansado. Eu encarrego-me disso.

O meu pai chegou minutos depois, pálido e trémulo. Disse-lhe o que sabia e ele desatou a chorar. Abracei-o com força e momentos depois ele balbuciou, a lutar contra as lágrimas:

- Agora, já estou bem. Estou bem.

Sentámo-nos e os minutos foram passando, sem uma palavra. Dez. Vinte. Tentei ler uma revista, mas não conseguia concentrar-me nas palavras. A Cathy, que estava sentada ao meu lado, com a mão apoiada na minha coxa, chegou-se mais para o sogro. Ele punha-se de pé e dava uns passos, depois voltava a sentar-se. E a seguir repetia os mesmos movimentos.

Entretanto, tinham passado quarenta minutos e ninguém sabia o que se passava.

 

O Micah acabava de sair do avião quando ouviu chamar pelo seu nome através do sistema de informações do Aeroporto Internacional

de São Francisco; pediam-lhe que se dirigisse a um dos telefones

grátis do serviço de informações.

- Por favor, dirija-se directamente ao Centro Médico Davis, da Universidade da Califórnia - ouviu uma voz dizer do outro lado da linha.

- O que é que se passa?

- É tudo o que a mensagem diz.

Subitamente em pânico, saltou para uma limusina, por não haver

táxi disponível, e dirigiu-se a casa de um amigo, onde tinha guardado

o carro durante o fim-de-semana. Estava a duas horas de Sacramento.

 

Passada uma hora, um homem de maneiras polidas, de fato completo, dirigiu-se a nós.

- Mr. Sparks?

Pusemo-nos todos de pé, a tentar adivinhar se o homem seria médico. Disse que não era.

- Colaboro com o hospital, como advogado - informou. - Sei que isto é penoso, mas façam o favor de me acompanhar.

Seguimo-lo até uma pequena sala de espera; éramos a única família na sala. Parecia que estava reservada para nós. O ar estava opressivo; sentia um peso no peito, ainda antes dele falar.

- A sua esposa sofreu uma hemorragia cerebral - informou o funcionário, dirigindo-se ao meu pai. A voz era amável e via-se que lamentava o que acontecera.

As lágrimas voltaram aos olhos do meu pai:

- Mas ela vai ficar bem? - conseguiu balbuciar, numa voz a ficar progressivamente mais fraca; notei o pedido implícito nas palavras dele: - Por favor... por favor... diga-me que ela vai ficar bem...

- Lamento muito - sussurrou o homem, - mas a situação não parece boa.

A sala começou a rodar; não conseguia tirar os olhos dele.

- Não vai morrer, pois não? - tartamudeei.

- Lamento muito - repetiu o homem e, embora ele permanecesse junto de nós, não me lembro de ter ouvido mais nada. Tudo o que recordo é ter abraçado a Cathy e o meu pai. De os ter chegado para mim, a chorar como nunca tinha chorado antes.

A Dana fora informada; ia apanhar o primeiro avião com destino a Sacramento. Telefonei a alguns familiares e contei-lhes o que estava a acontecer; ouvi-os desatar a chorar, um por um, e prometerem chegar junto de mim o mais depressa possível.

Os minutos arrastavam-se, como se estivéssemos a viver numa cápsula do tempo. Nós os três fomo-nos abaixo e recuperámos vezes sem conta. Passou uma hora antes de nos deixarem ver a minha mãe. Quando entrámos no quarto vimos que tinha a máscara de oxigénio colocada e estava a receber soros; ouvia-se o coração artificial a bater num ritmo certo.

Por momentos, pareceu-me que ela estava a dormir e, apesar de saber o que estava a acontecer, mesmo assim, agarrei-me à esperança e rezei para que acontecesse um milagre.

 

Para a noite, o rosto da minha mãe começou a inchar. Os soros eram necessários para prevenir danos nos órgãos, no caso de decidirmos doá-los; pouco a pouco, ia-se parecendo menos com a minha mãe.

Tinham chegado algumas pessoas de família e havia outras a caminho. Todos tinham entrado no quarto, mas não conseguiram permanecer muito tempo. Estar junto da minha mãe era insuportável, porque ela já não estava ali - a minha mãe sempre fora uma mulher cheia de vida - mas não parecia correcto que as pessoas permanecessem no corredor. Cada um de nós entrava e saía, a tentar pensar numa alternativa menos terrível.

Chegaram mais pessoas de família. O corredor começava a encher-se também com os amigos. As pessoas olhavam umas para as outras, à procura de apoio. Eu não queria acreditar no que estava a acontecer; ninguém queria. A Cathy nunca saiu do meu lado e nunca deixou de apertar a minha mão na sua, mas eu sentia-me constantemente impelido a voltar para junto da minha mãe.

Numa altura em que não estava mais ninguém no quarto, fechei a porta. Logo de seguida, os meus olhos velaram-se de lágrimas. Peguei na mão dela para lhe sentir o calor, como sempre fizera. Beijei-lhe as costas da mão. Tinha a voz rouca e, embora tivesse chorado durante toda a tarde, não conseguia conter as lágrimas sempre que estava junto dela. Parecia bonita, a despeito do inchaço; só desejava, de todo o coração, vê-la abrir os olhos; só pretendia que abrisse os olhos.

- Mamã, por favor - sussurrei-lhe através das lágrimas. - Por favor. Se queres sair disto, tens de o fazer depressa, está bem? O tempo está a escoar-se. Tenta, por favor, está bem... aperta a minha mão. Todos precisamos de ti...

Apoiei a cabeça no peito da mamã, a chorar alto, sentindo que dentro de mim também estava a morrer qualquer coisa.

 

O Micah chegou e, logo que o vi, lancei-me nos braços dele a chorar. A Dana chegou uma hora depois do Micah. Gritava; as dela, eram as lágrimas de quem não perdia apenas uma mãe, perdia também a melhor amiga. Na devida altura, eu e o meu irmão conduzimo-la ao quarto. Já a tínhamos avisado do inchaço, mas a Dana não aguentou ao ver o aspecto da mãe. A nossa mãe parecia irreal, uma estranha para os nossos olhos.

- Não parece a mamã - sussurrou a Dana.

O Micah apertou-a bem.

- Olha-lhe para as mãos, Dana - disse, baixinho. - Limita-te a olhar-lhe para as mãos. Não mudaram. É através das mãos que ainda podes ver a mamã.

- Oh, mamã - gritou Dana. - Oh, mamã, por favor, volta para nós.

Mas a mamã não pôde atender as nossas súplicas. A mulher que tinha feito tantos sacrifícios em vida, que amara os filhos mais do que qualquer outra mãe conseguiria, cujos órgãos iriam ser aproveitados para salvar a vida de três pessoas, morreu a 4 de Setembro de 1989.

Tinha 47 anos de idade.

 

Phnom Penh, Camboja 6 de Fevereiro

Depois de passarmos dois dias em Angkor, regressámos a Phnom Penh de avião, desta vez para visitarmos o Museu do Holocausto e irmos aos Campos da Morte.

O museu está localizado no centro de Phnom Penh, cidade que foi tomada pelos Khmers Vermelhos em 1975. Pol Pot, o líder do partido, esperava criar um estado comunista perfeito e ordenou a evacuação total da cidade. Um milhão de pessoas foram obrigadas a deslocar-se para as zonas rurais. Quase só ocupada pelos soldados comunistas, cuja média de idades era de doze anos, grande parte de Phnom Penh transformou-se numa cidade fantasma.

Com o abandono do Vietname pelas tropas dos Estados Unidos, e sem que qualquer outro país se dispusesse a intervir, Pol Por iniciou o seu sangrento reinado. O seu primeiro acto foi fazer regressar à cidade todas as pessoas com instrução; depois disso, ordenou que fossem executadas. A tortura tornou-se uma maneira de viver e morrer para milhares de pessoas. A partir de certa altura, para poupar o custo das balas, na sua maioria as pessoas passaram a ser mortas com violentas pancadas na nuca, dadas com grossas canas de bambu. Durante os anos seguintes, mais de um milhão de pessoas foram mortas, quer devido a execuções quer à dureza dos trabalhos forçados nos agora famosos Campos da Morte.

Durante o voo, o Micah e eu pensámos no que iríamos ver com um certo grau de ambivalência. Embora quiséssemos ver o museu e os Campos da Morte, a excitação era temperada pela apreensão. Este lugar, ao contrário de muitos que visitámos, não fazia parte da história antiga; era parte da história moderna, era a terra onde se tinham desenrolado acontecimentos que as pessoas desejavam esquecer, apesar de saberem que nunca os poderiam pôr para trás das costas.

Do exterior, não vimos no Museu do Holocausto qualquer pormenor que o distinguisse. Um edifício de dois pisos, com galerias, à beira da rua principal, tinha o aspecto próprio da escola secundária para que fora construído. Porém, como para contrariar o seu aspecto inócuo, havia o arame farpado que ainda o rodeava; era naquele local que Pol Por torturava as suas vítimas.

O nosso guia, segundo nos informou, tinha estudado ali e, antes de nos conduzir à exposição, presenteou-nos com um gesto desconcertante, quase surrealista, ao apontar para a sua antiga sala de aulas.

Vimos toda uma série de horrores, como a sala onde usavam a corrente eléctrica para torturar as vítimas; outras divisões mostravam aparelhos igualmente horrendos. As salas não haviam sido alteradas desde a libertação de Phnom Penh, pelo que, tanto no chão como nas paredes, ainda eram visíveis as manchas de sangue.

Muito do que vimos naquele dia pareceu-nos inacreditável; o facto de muitos dos soldados dos Khmers Vermelhos serem crianças era demasiado pavoroso para se ter em conta. Foi-nos dito que os soldados vermelhos despachavam as vítimas sem remorsos e com uma eficiência de verdadeiros especialistas; crianças a matarem mães e pais, além de outras crianças, batendo-lhes na nuca com uma cana. O meu filho mais velho era mais ou menos da mesma idade daqueles soldados, o que me deu vontade de vomitar.

Nas paredes havia fotografias das vítimas. Algumas mostravam prisioneiros a ser torturados; outras mostravam os cadáveres desenterrados dos Campos da Morte. Em cada ponta da sala principal, havia dois pequenos altares onde eram guardadas as caveiras que tinham sido descobertas nos campos depois da fuga dos guardas. Numa das paredes vimos um quadro em que um rapazinho, vestido com um uniforme de soldado, ataca e mata uma vítima nos Campos da Morte. Fomos informados de que o pintor do quadro perdeu lá a família.

Nenhum dos meus companheiros de viagem parecia ter o que quer que fosse a dizer. Em silêncio, passávamos de um quadro para outro, a abanar a cabeça e a falar para dentro. Horroroso. Demoníaco. Lamentável. Repugnante.

Alguns dos membros do grupo tiveram de sair; a violência tornava-se insuportável.

- Perdeu alguém da sua família? - perguntei ao guarda, logo que pude.

Quando respondeu, fê-lo com voz átona, como se a pergunta já lhe tivesse sido feita milhares de vezes e a resposta lhe saísse mecanicamente. Ao mesmo tempo, não procurou esconder o que parecia uma incredulidade imensa ante o som das suas próprias palavras.

- Sim, perdi a família quase toda. A minha mulher, o meu pai e a minha mãe. Os avós. Todas as tias e tios.

- Tinha irmãos?

- Sim, um irmão mais novo.

- Ainda é vivo?

- Não sei. Não o vejo desde a guerra. Era membro dos Khmers Vermelhos.

Seguimos para os arredores de Phnom Penh, para os Campos da Morte. De cada lado da estrada poeirenta, havia casas decrépitas; a meio de uma rua vimos uma fábrica de roupas e dezenas de mulheres à volta, sentadas na terra, a almoçar.

Impossível de reconhecer para quem não estiver familiarizado com o local, o Campo da Morte pareceu-nos apenas um campo sulcado de regos, em tudo semelhante aos outros campos por onde acabáramos de passar. Muito mais pequeno do que eu tinha imaginado, prolongava-se, talvez, uns cem metros para cada lado. No centro, apenas podia reconhecer-se um templo erigido em honra dos mortos.

Durante as duas horas seguintes, andámos de um lado para o outro; íamos de um lugar onde tinham sido encontradas cem vítimas, para outro onde haviam sido achadas duzentas. Noutro ponto, fomos informados de que os esqueletos descobertos haviam sido enterrados sem cabeças, o que tornou impossível saber quantos ali jaziam. Só neste campo tinham morrido milhares de pessoas; os números exactos são impossíveis de calcular com um certo grau de certeza.

O Micah e eu limitámo-nos a andar por ali, em silêncio, sentindo-nos tristes e nauseados. Por fim, fomos conduzidos até junto do templo e entrámos.

Pintado de branco, tinha pouco mais de três metros de lado e doze de altura, o que o fazia parecer-se com um marco. Não fazíamos ideia do que nos esperava, mas o que encontrámos deixou-nos petrificados. Vimos prateleiras protegidas por vidros que cobriam toda a parede do fundo do templo, até ao tecto, onde estavam empilhadas milhares e milhares de caveiras.

No caminho de regresso ao autocarro, o Micah resumiu os meus próprios sentimentos em três palavras simples:

- Foi um inferno.

Na mais estranha das sequências com que nos brindaram durante a excursão, a seguir à visita aos Campos da Morte, que me deixou nauseado para o resto do dia, levaram-nos ao Mercado Russo para passarmos umas horas entregues à frivolidade das compras.

O Camboja, como muitos outros países asiáticos, levou a arte da

pirataria à perfeição; o Mercado Russo, um edifício onde se acumula

vam centenas de vendedores que ofereciam tudo, desde cassetes piratas de DVD a roupas também de imitação. As cassetes de DVD custavam três dólares e as calças de ganga, supostamente da marca GAP, eram vendidas por metade disso.

O mercado estava à cunha; parecia que todos os turistas de visita ao país tinham sabido da existência do mercado e haviam decidido visitá-lo à mesma hora. Apesar de no nosso grupo a maioria das pessoas dispor de meios para poder comprar o produto genuíno nos Estados Unidos, quase toda a gente deixou o mercado com sacos cheios de pechinchas.

 

Na nossa última noite em Phnom Penh não houve qualquer festa, pelo que fomos aconselhados a reservar mesa num dos restaurantes do hotel onde ficámos, que se gabava de servir alguns dos melhores pratos do Camboja. Naturalmente, eu e o Micah esquecemo-nos de fazer a reserva e acabámos por comer num dos recantos mais modestos onde o hotel servia comida. Estava quase vazio e despachámos a refeição em meia hora.

Embora desapontados de início, a refeição acabou por nos deixar satisfeitos. Naquela noite, tanto quanto pudemos saber, tudo correu mal nas cozinhas. Todas as pessoas que fizeram reservas tiveram de esperar horas pela refeição. Fornos avariados, cozinheiros que ficaram em casa, pratos trocados, a Lei de Murphy em todo o seu esplendor. As entradas levaram uma hora e meia a chegar à mesa; o prato principal seguiu-se, duas horas depois. Em determinadas circunstâncias, talvez as pessoas não se tivessem revoltado, mas já tínhamos treze dias de viagem. As pessoas andavam cansadas e no dia seguinte teríamos de nos levantar cedo, pois devíamos partir para Jaipur logo pela manhã. Numa noite em que todos ansiavam por um sono de oito horas, como eu e o Micah fizemos, a maioria teve de se contentar com menos de cinco horas de descanso.

No quarto, o Micah e eu assistimos uma vez mais ao Croc Hunter. Juntamente com a CNN, Croc Hunter era o único espectáculo em língua inglesa que conseguíamos encontrar. Sempre que ligávamos a televisão, em qualquer país, lá estava o Croc Hunter. Chegados ao Camboja, aquilo já se tornara uma piada requentada entre

nós; pelas nossas contas, tratava-se do programa mais visto em

todo o mundo.

- Oh, não é uma beleza, esta cobra? - diria Steve Irwin, o

sempre entusiasta apresentador australiano. - Repare-se nas cores.

Oh, é magnífica, não acham? Esta pequena beldade é perigosa; com

uma dentada pode matar uma dezena de homens!

- Este tipo não regula bem - comentou o Micah.

- É sempre assim - respondi. - Os meus filhos nunca se

cansam de o ver.

O Micah manteve-se calado durante tanto tempo que pensei que

teria adormecido. Todavia, quando me virei para ele vi que tinha os

olhos postos no tecto.

- Em que é que estás a pensar? - perguntei. Levou bastante tempo a responder.

- Naquilo que vimos hoje. No início da manhã. O museu, os

Campos da Morte.

- Foi um horror, não foi?

- Sem dúvida.

Quando voltou a falar, fê-lo em voz sumida.

- Fez-me sentir triste. Triste pelas pessoas daqui, triste com o

que se passa no mundo. Triste acerca de tudo. E vazio, também. Foi

tudo tão inútil. Não deviam acontecer coisas destas - reflectiu.

Hesitou. - Fez-me recordar o que senti quando a mamã morreu. Olhei para ele, não totalmente surpreendido com o comentário.

Sempre que um de nós estava triste, a conversa derivava sempre para

o mesmo tema: a nossa família.

- Já te apercebeste de que quase todos os participantes da nossa

excursão têm mais idade do que ela tinha quando morreu? - perguntou. - Nem posso acreditar que aconteceu já lá vão treze anos. Não

parece ter sido há tanto tempo.

- Pois não - concordei.

- Já pensaste que, dentro de menos de dez anos, seremos tão velhos

como a mamã era quando morreu? E o Peyton terá apenas onze anos. - Mantive-me calado. O Micah respirou fundo, antes de prosseguir. - É estranho. Quando penso na mamã, é como se ela nunca tivesse envelhecido. Na minha cabeça, quero eu dizer. Quando penso nela, imagino-a sempre com o aspecto que ela tinha na última vez em

que a vi. Nem consigo imaginar como é que seria agora... - mas a voz traiu-o. Não prosseguiu antes de conseguir recompor-se: - Sabes o que eu lamento? - Olhei para ele, na expectativa. - Não ter tido a possibilidade de me despedir dela. Tu e a Cathy ainda puderam dizer-lhe adeus. Estava atrasado, quando saí para ir a Cancun e nem me passou pela cabeça telefonar-lhe. E quando voltei a vê-la já não era a mamã que estava à minha frente, estávamos a falar na doação dos órgãos dela. Foi tudo tão... irreal. Fico destroçado quando penso que, depois de tantos sacrifícios que fez por nós, ela nunca teve a alegria de pegar nos netos, nunca soube que te tornaste escritor, nunca teve a oportunidade de conhecer a Christine nem os miúdos. A mamã teria sido uma avó fantástica...

De olhos fixos no vazio, não pôde prosseguir.

Com voz calma, consegui responder-lhe:

- Também sinto a falta dela.

 

Os meses que se seguiram à morte da minha mãe foram de tentativas vacilantes na procura de uma certa normalidade. Na família, ninguém parecia saber como reagir ou o que fazer. O Micah, a Dana e eu procurámos apoiar-nos mutuamente e ajudar o nosso pai. Parecia que, sempre que um de nós começava a chorar, os outros não conseguiam reprimir as lágrimas. Por isso, cada um chegou à conclusão de que não deveria chorar mais. E não voltámos a fazê-lo, a não ser que estivéssemos sós.

A mamã partira mas, coisa estranha, havia alturas em que nos parecia que não. Em casa, tudo tinha a marca da minha mãe: a arrumação das especiarias no armário, a colocação das fotografias nas estantes, as cores das paredes, o robe deixado nas costas de uma cadeira do quarto. Para qualquer lado que olhássemos, deparávamos com lembranças dela; havia momentos em que ficava parado na cozinha e, subitamente, tinha a impressão de que a mamã estava atrás de mim. Nessas alturas, suplicava que não se tratasse de imaginação minha. Procurava sinais - movimentos detectados pelos cantos dos olhos, talvez, ou ramos de árvores agitados pela brisa. Torturava-me na procura de uma prova de que ela ainda estava entre nós. Mas não havia nada.

Contudo, se a casa era uma recordação constante da minha mãe, também começou a revelar-nos como tinha ficado vazia após a morte dela. Não havia energia naquela casa, nenhuma vivacidade, as paredes tinham deixado de ecoar com os risos da minha mãe. Houve alturas em que pensámos modificar a disposição da mobília ou em remover dali os sinais mais gritantes da presença dela. A mala de mão, por exemplo. Durante anos, teve o hábito de a colocar num cesto que havia junto à porta; meses depois de ter falecido, ainda ninguém conseguira reunir forças para a meter no roupeiro ou até de a abrir para ver o que continha. Sabíamos o que iríamos encontrar: fotografias da família, cartas da mãe dela, o batom e coisas pessoais sem valor. Coisas tão pessoais, tão... da mamã... que ninguém ousava mexer-lhes com receio de, mesmo sem querer, atraiçoar a sua memória. Não queríamos esquecê-la e, num certo sentido, aquelas eram as únicas coisas que nos tinha deixado. Parecia que a mala de mão se tornara uma súplica silenciosa a pedir o seu regresso.

Nesse ano não celebrámos o Natal em casa; foi a primeira vez que passámos a festa em casa de pessoas de família. E embora nos sentíssemos em boa companhia, nenhum de nós conseguia afastar a sensação de vazio do coração. A mamã tinha partido e o Natal naquela casa não voltaria a ser o mesmo.

 

A Cat e eu começámos a viver o nosso primeiro ano de casamento, ao mesmo tempo que fazíamos o que podíamos para tomar conta do meu pai. Destinámos as quintas-feiras para o levarmos ao cinema ou a jantar.

O Micah e a Dana decidiram alugar um apartamento para ambos. Ficava apenas a uns dois quilómetros de casa e, tal como a Cat e eu,

pensaram que era uma boa ideia não perderem o pai de vista. Se a

morte da mamã tinha sido difícil para nós, revelou-se bem mais difícil para o nosso pai. Embora sem poder afirmar que compreendia o relacionamento entre eles, os meus pais tinham vivido vinte e sete anos juntos, até que o mundo dele foi totalmente alterado pelo falecimento da mulher.

Passou a viver por instinto. Desde o dia do funeral passou a vestir-se de preto, só de preto. A princípio, pensámos tratar-se de uma fase transitória mas, com a passagem dos meses, começámos a perceber que, sem a mulher, o nosso pai se sentia perdido. Dependia da mamã, tanto como nós. Como tinham casado muito jovens, o meu pai não tinha experiência de viver sozinho, ou até do que significava ser adulto sem ter a mulher a seu lado. O meu pai perdeu a melhor amiga, a amante, a confidente e a esposa. Contudo, como se isso não fosse suficiente, perdeu também o único género de vida que sabia viver. Teve de aprender a cozinhar e a tratar da casa, a escolher tudo sozinho. Perdeu uma boa fatia do rendimento familiar e teve de aprender a fazer contas. E ainda teve de aprender a relacionar-se com os filhos, que tinham sido criados quase só com a mãe. Amávamos o nosso pai e ele amava-nos, mas avia alturas que ele parecia saber muito pouco acerca de nós, tal como nós sabíamos muito pouco sobre ele. À nossa maneira, cada um de nós fez o que pôde para preencher o vazio que a esposa deixara na vida dele e, um por um, começámos lentamente a sermos os substitutos de tudo o que a minha mãe fora para ele.

O Micah tornou-se o seu confidente, o único dos filhos com quem ele falava verdadeiramente. O meu pai sempre admirara o Micah, pelas mesmas razões que eu também o admirava, e esse sentimento tornou-se ainda mais forte depois da morte da minha mãe. Penso que o Micah possuía muitos dos dons de que o pai sempre se sentira carente: era bonito e carismático, confiante e popular. De certa maneira, julgo que ele começou a procurar a aprovação do meu irmão. Tomava poucas decisões sem ter pedido a opinião do Micah e ouvia as últimas aventuras dele com um piscar de olhos orgulhoso. A Cat tornou-se sua confidente; gostou dela desde a primeira vez em que a viu e, sempre que passávamos lá por casa, os dois entretinham-se a conversar. Bebiam licores e cozinhavam juntos, diziam piadas e riam-se, e nas alturas difíceis, sempre que precisava de um ombro para se apoiar, o meu pai voltava-se para a nora. E a Cat correspondeu e dava-lhe sempre as respostas necessárias. O papá também se dedicou a tomar conta da Dana. Ajudava-a a pagar as contas, comprou-lhe um carro, tratou-lhe do seguro de saúde; com o tempo, ela passou a acompanhá-lo no tratamento dos cavalos. Segundo parecia, o pai não estava apenas a fazer aquilo que pensava que a minha mãe faria, pois, ao ajudar a Dana estava também a procurar motivação para continuar a enfrentar a vida. Quanto a mim, também comecei a ter de desempenhar uma tarefa que antes fora da minha mãe, mas tratava-se de uma situação que eu nunca desejaria a ninguém. Com os horários apertados quando andava na escola secundária, com a ida para a universidade e o começo da vida com Cathy, tinha-me tornado menos dependente dos meus pais, uma situação que se mantinha desde a idade de 16 anos. Talvez que o meu pai também se tivesse apercebido disso, porque com a passagem das semanas e dos meses tornei-me a válvula de escape da sua cólera e das suas angústias.

Com o tempo, o meu pai começou a agir como se me desprezasse; se lhe perguntava se precisava de ajuda com as contas, acusava-me de tentar roubá-lo. Se lhe limpava a casa, acusava-me de pensar que ele, além de precisar de ajuda, era também um estúpido inútil. Se deixava a minha cadela cocker spaniel lá em casa - uma coisa que a Cat e eu fazíamos desde que a comprámos - acusava-me de estar a abusar

dele. Quando ia visitá-lo na companhia da Kathy, havia muitas noites em que se recusava a dirigir-me a palavra; em vez de falar comigo, ficava na cozinha a falar e a rir-se com a Cat, enquanto eu permanecia sozinho na sala. Esta situação foi-se degradando continuamente.

Sabia que ele não me odiava, que não se sentia bem, que tinha de lutar ainda mais do que os filhos. Sabia que ele precisava de um escape para a sua cólera e as suas angústias e que, lá no fundo, me amava a

despeito das palavras que me dirigia e da maneira como me tratava.

Porém, mesmo que percebesse o que estava a acontecer, tinha de procurar o conforto dos braços da minha mulher, enquanto procurara descobrir o que tinha feito para merecer toda aquela hostilidade.

O meu irmão e eu fizemos o possível para mantermos o nosso relacionamento e para termos vidas independentes. A carreira do Micah no negócio imobiliário progredia a bom ritmo; e a minha pequena indústria - fabricava braçadeiras ortopédicas para o pulso, especialmente para quem padecia da síndroma do túnel carpal - estava a arrancar lentamente. Como acontece com muitos jovens, pensei saber mais de negócios do que na realidade sabia e não tardei a acumular débitos no cartão de crédito que excediam largamente os nossos rendimentos, o meu e o da Cat, combinados. Apesar de ter andado durante meses a trabalhar dia e noite, a minha mulher e eu mal ganhávamos para viver e tínhamos dúvidas de que pudéssemos aguentar a situação durante muito mais tempo. Durante o primeiro ano de casados fomos postos à prova em todos os sentidos; felizmente para a Cat e para mim, as provações serviram para fortalecer ainda mais a nossa união.

Nos momentos mais difíceis, quando tentava encontrar fundos para pagar a renda e pôr comida na mesa, voltava-me para o Micah. Tratava-me a piza e cerveja, e conversávamos. Afinal, decidimos vender as duas casas que tínhamos comprado e estavam alugadas. O lucro obtido foi suficiente para a Cat e eu saldarmos as dívidas e, pouco a pouco, comecei a conseguir inverter a situação e pôr a minha pequena empresa a dar lucros. Mesmo assim, só para equilibrarmos o orçamento, tive de manter o lugar de empregado de mesa e a minha mulher teve de continuar a trabalhar.

Por sua vez, o Micah continuava a fazer parecer que a vida era fácil. Namorava, divertia-se durante os fins-de-semana e era um excelente profissional. Quando a Cathy e eu saíamos com ele, nunca fazíamos ideia de qual seria a sua companhia dessa noite. Muitas das mulheres mal o conheciam e, no entanto, pareciam tão enamoradas dele como eu estava da Cathy. Porém, embora parecesse bem à superfície, estava preocupado com o pai. O nosso pai continuava a passar um mau bocado e o Micah tinha tomado para si o manto da liderança da nossa família. Como o pai falava mais com ele do que comigo ou com a Dana, só o Micah parecia compreender a profundidade do desgosto dele. Numa noite em que saímos juntos, no Verão de 1990, não pude deixar de notar que o meu irmão estava especialmente preocupado.

- O que é que se passa? - perguntei.

- Estou preocupado com o pai.

Embora eu também estivesse preocupado, sabia que as minhas razões de preocupação eram diferentes das dele. Comigo, o papá agia irracionalmente; com o Micah, parecia totalmente racional. Nenhuma das situações me parecia normal.

- Porquê? - indaguei.

- Por ele não conseguir esquecer-se da mamã. Já passaram quase nove meses, mas ele continua a chorar todas as noites, até conseguir adormecer. E também está a ficar mais irascível.

Eu não sabia o que dizer.

- E, como sabes, continua a vestir-se de preto, mas está pior. Desfez-se de todas as roupas e substituiu-as de forma a que só tenha roupas pretas para vestir. E nunca sai de casa, excepto para ir trabalhar. Sei que sente saudades da mamã, mas todos nós as sentimos. E a mamã gostaria que ele fosse feliz, mesmo sem ela. Ela gostaria que ele fosse forte.

- Na tua opinião, devemos fazer o quê?

- Não sei.

- Queres que eu e a Cathy tentemos falar com ele?

Embora soubesse que não me ouviria, ele estava a ficar mais dependente da companhia da minha mulher.

- Não vai servir de nada. Eu já tentei. Convidei-o por diversas vezes, mas nunca me deu saída. E quando o visito em casa, não quer ir aonde quer que seja. Alguma vez foi ao teu apartamento, alguma vez te visitou, ou visitou a Cat?

- Não.

O Micah abanou a cabeça.

- Não devia afastar-se do mundo. Só consegue piorar as coisas. Só

vai conseguir sentir-se ainda mais só.

- Já lhe disseste isso?

- Não tenho feito outra coisa.

- E ele responde o quê?

- Que se sente bem.

Com a aproximação do primeiro aniversário da morte da mamã, o meu pai começou a emergir lentamente do casulo que ele próprio tinha construído à sua volta. Embora continuasse a vestir-se de preto, o Micah, a Dana e eu tínhamos conseguido convencê-lo a juntar-se a nós para apreciarmos espectáculos de danças populares, e as saídas nocturnas pareceram animá-lo um pouco. Lenta mas seguramente, começou a readquirir o seu feitio de sempre; mesmo comigo, já não parecia ser tão amargo.

De qualquer das formas, segundo parecia, tínhamos sobrevivido ao nosso primeiro ano de orfandade.

Ia o Outono adiantado quando soubemos que a Cathy estava grávida e, como todos os futuros pais, começámos a fazer planos para o bebé, enquanto aguardávamos o momento de o podermos ver através da ecografia.

A Cathy levou a gravidez muito a sério. Tinha cuidado com o que comia, fazia exercício e aprendeu a viver com os enjoos matinais, que a afectavam antes de sair para o trabalho. A pele dela começou a irradiar o brilho de uma futura mãe. Demos a notícia à família e aos amigos; toda a gente, incluindo o meu pai, ficou encantada com a notícia. Com efeito, o meu pai mostrou uma satisfação que já não lhe víamos havia muito, muito tempo.

Quando a gravidez atingiu as doze semanas, fomos à clínica para lhe ser feita a ecografia. Fiquei a segurar a mão da Cathy enquanto a técnica lhe aplicava o gel e manejava o aparelho de ultra-sons.

- Ele aqui está - anunciou a técnica passado pouco tempo, e tanto eu como a Cathy olhámos maravilhados para o ecrã.

A imagem era minúscula, como não podia deixar de ser, e não se parecia nada com um bebé. Mesmo assim, era a primeira visão que tínhamos dele e a Cathy apertou a minha mão na sua e sorriu.

A técnica continuou a tentar encontrar um ângulo de visão melhor; momentos depois, vimo-la franzir a testa.

- O que é? - indagou a Cathy.

- Não tenho a certeza - respondeu a técnica. Forçou-se a sorrir. - Peço desculpa, mas tenho de sair por um instante - pediu, e saiu da sala.

Não sabíamos o que pensar; não sabíamos se a situação era normal ou inesperada. Uns minutos depois, entrou o médico.

- Há algum problema? - perguntou a Cathy.

- Deixe-me ver - respondeu o médico. Por momentos, enquanto a técnica fazia deslizar o aparelho, ambos ficaram a olhar o ecrã. A técnica apontou qualquer coisa e falou baixinho ao ouvido do médico. Ele sussurrou uma resposta. Nenhum respondeu às nossas perguntas. O médico mostrava um ar grave.

- Há um problema, não há? - inquiriu a Cathy.

- Lamento. Mas não consigo ouvir o batimento do coração.

A Cat rompeu em soluços; pouco depois, conduzia-a para fora da sala. O nosso bebé tinha morrido sem motivo aparente, tal como acontecera à nossa mãe. Uns dias mais tarde, a Cat foi sujeita a uma intervenção chamada dilatação e curetagem. Depois da intervenção, quando era conduzida numa cadeira de rodas, tudo o que conseguiu fazer foi limpar as lágrimas; não havia nada que eu pudesse fazer para lhe aliviar a dor.

Mais tarde, nos braços do Micah, também eu chorei.

A Cat e eu passámos os meses seguintes preocupados com a possibilidade de não conseguirmos ter filhos. Não sabíamos quanto tempo tinha de passar até ela ficar novamente grávida, nem sabíamos se ela poderia levar a gravidez até ao fim. Tínhamos sido informados que os abortos espontâneos eram acidentes comuns; toda a gente parecia conhecer alguém que já passara por aquela situação; todos tentavam animar-nos e diziam que na próxima vez tudo iria correr bem. Sabíamos que as intenções das pessoas eram as melhores e também sabíamos que diziam a verdade. Mas também estávamos bem cientes de que havia histórias diferentes, aquelas que não acabavam bem, e a Cat não conseguia suportar a ideia de nunca poder ser mãe. Passámos outro Natal triste e no dia do meu aniversário, quando fiz 25 anos, a minha irmã telefonou a cantar-me os Parabéns a Você. Quando me perguntou o que é que eu desejava, só consegui pensar numa coisa.

 

As nossas orações voltaram a ser ouvidas no final de Janeiro de 1991 mas, daquela vez, guardámos o segredo só para nós. Não pretendíamos uma repetição do que acontecera antes, mas em Abril foi-nos dito que o bebé estava a desenvolver-se com normalidade e, finalmente, decidimos dar a boa notícia. A barriga da Cathy continuou a crescer durante o Verão; passou horas a procurar um nome para pôr ao

bebé e a ler What to Expect When You're Expecting [O Que Esperar Quando Estiver de Esperanças].

Mas os problemas da vida continuaram a cair sobre nós, um após outro, sem descanso. Apesar dos dois empregos, ou três se contássemos com o da Cat, continuávamos a lutar com dificuldades financeiras e não conseguíamos levantar a cabeça. A Kathy tinha seguro de doença da empresa, que cobria as despesas de maternidade, mas foi dispensada no princípio do Verão, quando estava grávida de quatro meses. Quando a nossa cachorra cocker spaniel passou os sete quilos de peso fomos despejados do nosso apartamento e tivemos de arranjar um novo lugar para viver. O nosso carro ficou sem conserto e o único que pudemos comprar para o substituir tinha 20 anos de idade e mais de 160 mil quilómetros marcados. O IRS decidiu fiscalizar os meus rendimentos dos três anos precedentes, tanto os do negócio como os do trabalho; embora viesse a ser ilibado de qualquer acusação, a tensão de ter dois empregos e de juntar os documentos necessários - queriam recibos de tudo - tornaram-me o Verão ainda mais difícil.

Não sei como, consegui arranjar tempo para escrever um livro, com o título Uma Viagem Espiritual, em colaboração com Billy Mills. Embora viesse a tornar-se o meu primeiro livro publicado, não alimentei ilusões de que a publicação se devesse à qualidade da escrita. O seu principal mérito era a parceria com o Billy.

Em Setembro, logo que começaram as contracções, corremos para o hospital. Foi um trabalho rápido; a Cat dilatou depressa e estava quase pronta para dar à luz no momento em que chegámos ao hospital. O bebé estava em posição incorrecta e a Cat sofria imenso. Houve um sururu para preparar a sala mas, momentos depois da chegada do

médico, subitamente, o coração do bebé diminuiu a frequência dos

batimentos.

Pelas expressões dos médicos e enfermeiras vi que a situação era grave. Encarei a possibilidade de perdermos outro bebé.

De repente, o mundo pareceu afundar-se à minha volta; só conseguia pensar na Cat e no bebé que ela transportava no ventre. Há um tipo de pânico próprio daquelas situações, uma aflição que parece apertar-nos o coração com uma sensação de fracasso absoluto. Mal me recordo da tremenda actividade que começou logo que o médico entrou em acção; fiquei de lado, a rezar como nunca tinha rezado antes.

O médico era bom; momentos depois, eu era pai. Mas a pele do bebé estava cinzenta e, durante o que me pareceu uma eternidade, não se ouviu qualquer som. Mais tarde, soubemos que vinha anémico e que tinha perdido sangue pelo cordão umbilical. Mas, na altura, só queria ouvir o grito da vida.

E ele soltou-o, depois de me fazer esperar uma eternidade.

Dentro de poucos minutos, minutos daqueles que parecem ter mais de sessenta segundos, o médico assegurou-nos que o bebé ficaria bem; pela primeira vez, ao aperceber-me de que era pai, consegui descontrair-me. A Cat segurava o filho de encontro ao peito. Escolhemos o nome de Miles Andrew e o Micah foi a primeira pessoa a quem dei a notícia.

- Sou pai! - gritei para o microfone. - Tenho um filho!

O Micah soltou um grito de alegria:

- Parabéns, Paizinho! Como é que passa a mamã?

- Está muito bem e, graças a Deus, o bebé também. Tens de cá

vir! Tens de ver o miúdo! É tão bonito!

Ele riu-se de novo.

- Vou já para aí, maninho.

Foi o primeiro a chegar ao hospital e, depois de dar uma olhadela

ao Miles, virou-se para mim.

- Como é que pode ser, é parecidíssimo comigo.

Apliquei-lhe uma palmada nas costas.

- Querias ter essa sorte. Tu podes ser bonito, mas não chegas aos

calcanhares desta coisinha miúda!

 

Apesar da nova vida, da paternidade em que mergulhei subitamente, o meu irmão e eu continuámos a arranjar tempo para estarmos juntos. Durante algum tempo deu-me uma ajuda no negócio ortopédico, que, no final do ano, acabei por me decidir a vender. Com uma criança em casa, precisava de algo mais estável e, no início de 1992, arranjei um emprego de delegado de propaganda médica dos Laboratórios Lederle. Era a primeira vez na minha vida em que oficialmente ganhava um salário superior ao mínimo nacional. Tinha 26 anos de idade.

Contudo, se o bebé e a minha nova vida eram suficientes para me permitir lidar com a memória da mamã, o meu pai continuava a alternar períodos bons e maus. A boa disposição que mostrara durante o Verão dera lugar ao pânico que, por sua vez, se transformou em optimismo. Nestas condições, nunca sabíamos o que esperar quando íamos visitá-lo e tanto eu como o Micah nos perguntávamos se o nosso pai não seria um maníaco-depressivo.

Também a minha irmã parecia estar a passar por uma fase negativa, a lutar para se encontrar, um problema que afecta muitos adultos jovens. Sem nunca chegar a ser uma boa aluna, abandonou a universidade para se empregar a tempo inteiro, para deixar o emprego umas duas semanas depois. A partir daí, andou a saltar de um emprego para outro, trabalhando como empregada de mesa, como instrutora de aeróbica, como recepcionista num solário. Ela e o Micah voltaram a viver em apartamentos separados e o nosso pai ajudava-a a pagar a renda. Também estava a passar por uma transformação física. Ao entrar na casa dos vinte anos tornara-se uma beleza. De um momento para o outro, passara a ser bastante popular entre o sexo oposto, mas, tal como o Micah, parecia trocar frequentemente de namorado.

Numa noite, interpelei o Micah:

- O que é que se passa com os dois?

- O que é que pretendes saber?

- Tu e a Dana. Não será possível manterem um namorado durante um mês?

- Namorei a Juli e a Cindy durante anos.

- Em metade do tempo em que dizes tê-las namorado, estavam realmente afastados e andavas a namorar outras. E acabaste por não ficar com qualquer delas.

Sorriu.

- Nick, nem toda a gente gosta de estar casada aos 23 anos.

- Não fiz planos para casar tão cedo. Apenas aconteceu que conheci a Cathy.

- Não precisavas de ir casar com ela logo de seguida.

- Precisava, sim. Sabes o que me disse quando decidiu vir viver para a Califórnia? Quando a fui buscar ao aeroporto?

Disse que não com a cabeça.

- Quando nos encontrámos no aeroporto, comecei a dizer-lhe coisas realmente bonitas; tu sabes, disse-lhe quanto a amava, como estava feliz por ela ter vindo morar para cá, quanto apreciava a sua coragem.

De qualquer das formas, deixou-me acabar, para depois sorrir.

- Também te amo, Nick. E estou satisfeita por estar aqui. Mas vamos lá acertar as agulhas. Por mais que te ame, não vou abandonar a minha família por uma relação que pode ser apenas temporária.

- O que é que isso quer dizer? - perguntei-lhe.

Deu-me umas palmadinhas no peito e declarou:

- Tens seis meses para me propores casamento; se não o fizeres, volto para casa.

O Micah arregalou os olhos:

- Ela disse-te isso?

- Disse.

Soltou uma gargalhada.

- Adoro aquela rapariga. Não aceita conversa fiada de quem quer que seja, pois não?

- Não.

- Nick, fizeste o que devias. Não conseguias arranjar melhor.

- Eu sei. Porém, como estava a perguntar-te: e tu?

- Nick, é muito simples. Ainda não encontrei a minha Cathy.

Mas, quando a encontrar, caso-me com ela e ganho juízo.

 

Em 1992, três anos após a morte da mamã, cada um de nós tinha de certo modo encontrado a maneira de continuar. Eu arranjara família e uma nova carreira; a Dana tinha um novo namorado e regressara à universidade. O Micah continuava a namorar e a passar fins-de-semana excitantes, um a seguir ao outro. Embora o nosso pai continuasse a vestir-se de preto, as mudanças de humor estavam a tornar-se menos frequentes e até pensara em voltar a namorar. A nossa família, tanto quanto se podia ver, estava pouco a pouco a readquirir uma certa normalidade.

Em Outubro, a Cathy e eu acabámos por decidir que seria melhor mudarmo-nos. Embora adorássemos a Califórnia, os aspectos práticos impediam-nos de ter a vida que queríamos proporcionar ao nosso filho. O meu salário, embora decente, não era suficiente para nos permitir viver no tipo de ambiente que a Cathy desejava proporcionar ao Miles. E, devido à rápida escalada dos gastos em habitação, não antevíamos mudanças futuras.

Suponho que, tanto a Cat como eu, procurávamos a nossa oportunidade de viver o sonho americano. Sonhávamos com uma casa a que pudéssemos chamar nossa, com um jardim de dimensões decentes para os nossos filhos, com um churrasco nas traseiras. Tudo coisas elementares, mas as coisas elementares estavam fora do nosso alcance e, após longas conversas com a Cat, decidi-me a falar ao meu chefe e a pedir a transferência para a zona do Sudeste do país. O chefe não pareceu entusiasmado com a ideia; eu só tinha oito meses de trabalho na empresa, completara recentemente o período de formação e estava a sair-me bem na zona que me fora atribuída. O chefe não queria recomeçar o processo de admissão, pois existe sempre o risco de o novo empregado não corresponder. E, como não poderia deixar de ser, a minha zona sofreria uma quebra enquanto durasse a formação do meu substituto.

Nessa noite, telefonei ao Micah.

- Micah, queres um emprego como vendedor de medicamentos?

Para mim, a proposta fazia todo o sentido. Tínhamos corrido juntos, servido à mesa juntos, tínhamos sido co-proprietários de casas e ele também colaborara na pequena empresa fundada por mim. Até éramos algo parecidos.

Por momentos, o Micah ficou perplexo. Estava a sair-se bem no negócio imobiliário, mas o trabalho rendia apenas comissões e era dominado por grandes empresas. Como trabalhava numa firma pequena, conseguir novos clientes implicava canseiras infindas e ele estava a ficar cansado da maneira como a empresa tentava reter o mais possível o dinheiro que lhe era devido.

- O que é que estás a querer dizer-me? - acabou por perguntar.

- Se eu for transferido, apresento-te ao meu chefe, poderás conseguir uma entrevista com ele e és admitido, de certeza.

- Achas que sim?

- Tenho a certeza.

O Micah dormiu sobre o assunto e ligou-me na manhã seguinte.

- Nick, acho que desejo ser delegado de propaganda médica.

Dito e feito! Depois de me ser atribuída uma nova zona, em New Bern, estado de Carolina do Norte, o meu irmão foi admitido, tomou conta da minha antiga zona de Sacramento e entreguei-lhes as chaves do carro da empresa.

Entretanto, a Cat e eu iniciámos o processo de preparação para uma nova vida, do outro lado do país.

 

No princípio de Novembro, menos de uma semana depois de o Micah ter aceitado o emprego, eu estava em casa, a iniciar o lento processo de empacotar as nossas coisas, quando recebi uma chamada urgente do meu pai.

- Tens de ir já para o hospital! - exclamou subitamente o meu pai. Estava sem fôlego e confuso, uma repetição do terrível acontecimento de três anos antes. - Está no Metodista. Sabes onde é? O Bob levou-a para lá há uns minutos.

Sabia que o Bob era o namorado da Dana, mas a mensagem truncada do meu pai não fazia sentido.

- Quem? Estás a falar da Dana? Ela está bem?

- A Dana... está no hospital...

- Está bem? - repeti.

- Não sei... Tenho de ir para lá...

De repente, aquela sensação de repetição começou a dar-me volta à cabeça.

- Sabes o que aconteceu? Se ela sofreu algum acidente?

- Não sei... Acho que não... O Bob diz que ela teve uma espécie de convulsão... Não sei mais nada... O Micah já vai a caminho... Vou agora para lá.

No hospital, o Bob contou-me o que tinha acontecido. Ele vivia num rancho, em Elk Grove, e trabalhava com o camião de distribuição de um armazenista local de rações para cavalos e gado bovino. Mais alto e mais pesado do que o Micah ou eu, usava botas de vaqueiro e já tinha entrado em competições em rodeos, a montar animais em pêlo. Nunca o vira tão assustado como naquele momento.

- Depois de acordar, sentia dificuldade em falar - esclareceu. - Misturava tudo, a conversa dela não fazia sentido. Por isso, meti-a no carro e vim para o hospital. No caminho, pôs os olhos em alvo e começou a ter convulsões. Continuava a ter convulsões quando aqui chegámos. Levaram-na para dentro e não a vejo desde então.

 

Embora estivéssemos noutro hospital, este evocou-me estranhas reminiscências do outro, daquele onde a minha mãe morreu. Os nossos sentimentos eram semelhantes enquanto vagueávamos pelo corredor, à espera de sabermos o que estava a acontecer. E o quarto onde vi a minha irmã também era semelhante.

A Dana estava cansada quando a vimos; fora medicada para as convulsões e tinha os olhos baixos. Tal como nós, estava assustada e não sabia mais do que nós acerca do que sucedera. No entanto, para além da exaustão, parecia estar bem. Conseguia juntar as pontas dos dedos ao polegar, lembrava-se do que tinha acontecido na noite anterior. E também se recordava de se ter apercebido de que algo não estava bem, logo que acordou.

- Recordo-me de tentar falar - começou, com ar de embriagada. - Recordo-me de ouvir as palavras que proferia, mas eram palavras sem sentido. Por isso, tentava repeti-las, mas voltava a acontecer-me o mesmo. E o cheiro. Havia um cheiro realmente mau. Foi nessa altura que o Bob resolveu meter-me no carro. Depois disso, não consigo recordar-me de mais nada.

Mais tarde, o médico informou-nos que a Dana sofrera um ataque epiléptico mas, quando pressionado, não quis entrar em especulações sobre os motivos do ataque; precisava dos resultados dos exames. Sugeriu que seria melhor deixá-la descansar um pouco.

Fui o último a levantar-me para sair; depois de os outros terem deixado o quarto, a Dana pediu-me que ficasse.

- Nick - pediu -, diz-me a verdade. Quero saber o que se passa. Por que é que tive a convulsão?

- Existem muitas causas possíveis - respondi. - Se fosse a ti…

Esquadrinhou a minha cara, a acreditar em mim, a querer saber.

A minha irmã sabia que eu lhe diria sempre a verdade.

- Na verdade, pode ser tudo. Uma alergia súbita. Tensão nervosa. Talvez sejas epiléptica, sem que as convulsões aparecessem até agora. Tumor do cérebro. Talvez tenhas comido algo que te fez mal. Desidratação. Houve qualquer coisa que fez o teu corpo descontrolar-se durante algum tempo. Há muita gente que tem convulsões. Na realidade, as convulsões são bastante comuns.

Olhou para mim, a concentrar-se na causa a que eu gostaria que ela não tivesse prestado atenção.

- Tumor do cérebro? - perguntou, com calma.

Encolhi os ombros.

- Pode provocar convulsões mas, acredita-me, não há nada que nos leve a pensar que tens um. Eu diria que é a causa menos provável de entre todas as que mencionei.

Baixou os olhos para o regaço.

- Não quero um tumor no cérebro - afirmou.

Tentei tranquilizá-la, com a esperança de conseguir esconder o medo que sentia.

- Não te preocupes. Como te disse, não é provável que a causa seja essa.

 

Nas semanas seguintes, a Dana foi sujeita a uma série de exames. Os médicos não conseguiam dar com a doença. As tomografias computorizadas não foram conclusivas, mas também não voltou a ter convulsões, parecendo-nos que o pior tinha passado. No entanto, a incerteza afectava-nos a todos; para começar, continuávamos sem saber a causa das convulsões.

Chegara também a altura de nos mudarmos para a Carolina do Norte.

Desde que a Dana fora levada para o hospital, a Cat e eu tínhamos falado do assunto por diversas vezes; ela sugeriu que talvez devêssemos ficar, mesmo que isso implicasse eu ter de procurar um novo emprego. A Cat dizia que era provável a Dana vir a precisar de nós. Podíamos congelar os nossos sonhos durante algum tempo. Pelo menos, até sabermos o que estava a acontecer.

Era uma daquelas escolhas que temos de fazer na vida, sem dispormos de uma opção ideal.

- Deixa-me falar com o Micah - acabei por decidir. - Deixa-me ouvir o que ele pensa.

Naquela noite, depois de lhe exprimir o sentimento de culpa que

sentia por me afastar, ele pôs-me um braço à volta dos ombros:

- Não há nada que possas fazer pela Dana - afiançou. - Nem

sequer sabemos qual é o problema. Mas tens de pensar na tua família.

Agora tens um filho. Tens de fazer o que achas que é melhor para ele.

Não consegui olhá-lo de frente.

- Não sei...

- Eu tomo conta da Dana. Estou aqui, o papá também. Se precisarmos de ti, metes-te num avião.

- Mesmo assim, não me parece correcto partir, num momento destes.

- Também não gosto de te ver partir - confessou. Depois, com um sorriso, acrescentou: - Mas, Nick, nunca te esqueças. O que se deseja e o que se consegue são quase sempre duas coisas inteiramente distintas.

 

Poucos dias antes do Natal de 1992, a Cathy seguiu com o bebé para a Carolina do Norte, para aguardar o camião das mudanças; eu

ainda fiquei para dar a conhecer a zona ao meu irmão e para o

apresentar a numerosos médicos. Como o nosso apartamento tinha sido despejado, na noite anterior à partida, dormi no meu velho quarto, em casa do meu pai.

O Micah veio ajudar-me a carregar o que restava, pois eu decidira atravessar o país de automóvel. Reparei que trazia uns calções meus; como vestíamos o mesmo número, há muitos anos que nos servíamos das roupas pertencentes ao outro.

O meu irmão tinha trabalhado alguns verões a carregar camiões para a Consolidated Freightways e sabia como arrumar as bagagens de forma a que não se estragassem na viagem. Com excepção do banco do condutor, o carro ia completamente cheio. Estávamos junto da porta quando chegou a hora da despedida; já tinha dito adeus à Dana e ao meu pai. Era tempo de partir e tanto o Micah como eu o sabíamos.

Aquela casa encerrava recordações aos milhares; mentalmente, conseguia ouvir a minha mãe a rir-se na cozinha e ver os meus irmãos sentados à mesa. Pela segunda vez na vida, estava a deixar a família para trás, mas desta vez era diferente. Da última vez que partira, era um adolescente; agora tinha família própria; sabia que não ia regressar.

- Parece aquela vez em que carregámos o Volkswagen para nos mudarmos para aqui, não parece?

- Está bem cheio. Contudo, desta vez não parece empenado. Quanto tempo vais levar até lá?

- Uns quatro dias.

- Tem cuidado.

- Vou ter.

Abraçámo-nos.

- Vou sentir a tua falta - confessei.

- E eu vou sentir a tua.

- Adoro-te, Micah.

Ele abraçou-me com mais força.

- Eu também te adoro, maninho.

Quando nos apartámos, senti a chegada das lágrimas, mas tentei retê-las. Nos últimos três anos, tínhamo-nos tornado bastante dependentes um do outro, mas eu tentei diminuir a importância do que estava a acontecer. Disse para mim mesmo que estava apenas a mudar de casa; não se punha a hipótese de não nos tornarmos a ver. Eu viria visitá-lo e ele iria ver-me. Podíamos conversar pelo telefone.

- Trazes uns calções meus - adverti-o, só para dizer qualquer coisa.

- Devolvo-tos amanhã - respondeu ele, sem pensar. E, logo de seguida acrescentou: - Não devolvo. Amanhã já cá não estás. Não posso devolvê-los.

Dito isto, o Micah começou a chorar e abraçou-se novamente a mim.

- Tudo bem, Micah - sussurrei, a começar também a chorar. - Vai correr tudo bem.

Minutos depois, embora com os olhos desfocados pelas lágrimas, vi a imagem dele no retrovisor a ficar mais pequena. Estava parado no relvado, a forçar um sorriso e a acenar um lento adeus.

 

Jaipur e Agra, índia 7 e 8 de Fevereiro

Aterrámos em Jaipur, cidade do Norte da índia, com dois milhões e meio de habitantes, capital do estado de Rajastão. Famosa pelas fortalezas, palácios e cultura vivaz, Jaipur é frequentemente referida como a “Cidade Cor-de-Rosa” e constitui o centro comercial da

maior parte do Rajastão rural.

Embora sem saber o que nos esperava, depressa nos convencemos de que a índia era um país diferente de todos os outros. Depois de termos apresentado os passaportes em três locais diferentes, tomámos lugar no autocarro que nos ia levar de Jaipur até ao Forte Ambarino, que dantes fora a residência do marajá.

O nosso guia falava um inglês perfeito, com sotaque indiano, e enquanto atravessávamos Jaipur informou-nos que a cidade era considerada uma das mais belas de toda a índia. Também parecia acreditar no que dizia. Durante os quarenta minutos que levámos até chegar ao destino, apontou os diversos monumentos e explicou o seu significado. Segundo conseguimos perceber, as suas palavras preferidas eram Jaipur, bela e cor-de-rosa. Qualquer descrição continha ou terminava numa variação do mote seguinte:

- Jaipur. Bela cidade. Jaipur. A cidade cor-de-rosa. Vejam. Não vêem como é bela? A paisagem é bela e os edifícios da cidade antiga são pintados de cor-de-rosa. Jaipur é a cidade cor-de-rosa. Jaipur é a cidade bela.

Entretanto, o Micah e eu olhávamos, embasbacados, pela janela.

Havia gente por todo o lado. Os passeios e as ruas estavam congestionados e o autocarro onde seguíamos partilhava a rua com peões, scooters, bicicletas, camelos, elefantes, burros e carroças puxadas por muares, cada veículo a mover-se a uma velocidade diferente e a ziguezaguear por entre o trânsito. As vacas, sagradas segundo a religião hindu, vagueavam à solta pela cidade, a meterem o nariz nos montes de lixo, juntamente com cães e cabras.

A pobreza atingiu-nos violentamente. Tendas em farrapos e barracas construídas com tábuas apodrecidas ou quaisquer materiais deitados fora, eram o abrigo de milhares de pessoas. Alinhavam-se ao longo da via principal e de todas as ruas laterais por onde passámos. Pessoas vestidas de andrajos estavam por toda a parte, e dezenas, ou mesmo centenas, dormiam na borda dos passeios. Havia pessoas a defecar e a urinar à vista de todos, mas ninguém, excepto nós, parecia reparar nisso. O cheiro do gasóleo provocava tonturas.

Entretanto, o nosso guia continuava.

- Reparem nas casas luxuosas escondidas pelos muros. Não vêem como são belas? Na cidade velha todos os edifícios são cor-de-rosa. Jaipur é a cidade cor-de-rosa. Jaipur é a cidade bela.

O Micah debruçou-se para o meu lado.

- Diz lá outra vez: onde é que ficam as casas luxuosas?

- Penso que ele disse que é por detrás daqueles muros.

- Por detrás das barracas, quer ele dizer.

- sim.

- E esta é uma bela cidade? O homem deve estar maluco.

Neste ponto, um dos membros da excursão, que ia sentado no banco a seguir ao nosso, inclinou-se para diante.

- Na verdade - começou, - Jaipur é rica quando comparada com outras cidades da índia. Podem imaginar o aspecto de Calcutá e Bombaim.

- Pior do que isto? - indagou o Micah.

- Muito pior. Acredite ou não, Jaipur é a cidade bela.

Depois desta conversa, limitámo-nos a olhar pelas janelas, a tentar perceber como é que as pessoas podiam sobreviver assim.

 

O Forte Ambarino, situado a dez quilómetros da cidade, foi construído no cume de um monte e está rodeado de picos e vales facilmente defensáveis, que o tornavam ideal para a protecção do marajá.

Na base do forte, fomos divididos em grupos de quatro e percorremos de elefante a estrada, comprida e sinuosa, que acaba num grande largo onde se situa a entrada para o forte propriamente dito.

Levou algum tempo a reunir todo o grupo junto dos portões.

Foram precisos vinte elefantes e os animais movem-se com lentidão.

O Micah e eu depressa nos apercebemos de que os vendedores indianos eram ainda mais agressivos que os do Peru. Aglomeravam-se à nossa volta em grupos de quatro a seis, todos a exibir ninharias, cada um a pedir por elas menos dinheiro que o vizinho. Não servia de nada dizer que não ou voltar-lhes as costas; seguiam-nos, cada um a berrar mais alto para nos chamar a atenção. Se recusássemos uma primeira abordagem, chegavam-se mais para nós e gritavam ainda mais alto. A medida que foram chegando junto aos portões, os nossos companheiros de viagem foram-se juntando em círculo defensivo, de costas para a multidão, a fazerem o possível para ignorar a gritaria. Os vendedores mantiveram a pressão durante mais de meia hora. No final, seguiram o grupo até à porta.

 

Durante a hora seguinte percorremos o forte, maravilhando-nos com aquela mistura de arquitecturas hindu e muçulmana. Vimos pátios espaçosos e de lindas vistas, quadros a óleo e frescos de alta qualidade, além dos apartamentos individuais destinados às concubinas do marajá. Tirámos fotografias em frente de um grande jardim dotado de um engenhoso sistema de irrigação para permitir que haja flores durante todo o ano; depois, subimos aos andares superiores, de onde pudemos apreciar a localização do forte em termos defensivos.

Porém, o que mais nos impressionou foi o Salão dos Espelhos. Foi o nosso primeiro contacto com os elaborados trabalhos em mármore que tornaram a fortaleza famosa; vendo-os de perto, tivemos de os considerar um trabalho de qualidade superior a tudo o que víramos até então. Construído ao longo de dez anos por milhares de trabalhadores, o Salão dos Espelhos tem paredes de mármore, com dezenas de milhares de pedras preciosas e semipreciosas incrustadas, bem como milhares de espelhos minúsculos. Segundo nos disseram, pela noite, o marajá era entretido, à luz das velas, em frente do salão, onde as pedras preciosas e os espelhos reflectiriam a luz suave. Se os relevos de Angkor Wat se mostraram ricos de pormenores, até eu percebo que o trabalho em mármore é muito mais difícil. Cada uma das milhares de gemas incrustadas ajustava-se perfeitamente à parede de mármore.

- É incrível - sussurrou o Micah. - Mas acho que é quase um exagero. Um pouco espalhafatoso para o meu gosto.

- Bom, isso não faz diferença. Não acredito que consigas encontrar alguém capaz de executar trabalhos deste género. A menos, é claro, que te mudes para a índia.

- Não me parece que tal venha a acontecer.

Depois de deixarmos a fortaleza, fomos observando sucessivos bairros de lata, passámos por um portão e, de uma maneira que só a índia nos consegue surpreender, encontrámo-nos no paraíso.

O hotel já fora um palácio pertencente ao marajá. Os quartos eram dispostos como cabanas e os caminhos estavam impecáveis. Uma exuberância de árvores, fontes, carreiros sinuosos e flores; havia também termas com centro de saúde, campos de ténis, ginásio e piscina. Os empregados eram profissionais e eficientes; bastava olharmos na direcção de um deles; corriam para nós a perguntar se precisávamos de alguma coisa. Todos os participantes da excursão foram acompanhados aos respectivos quartos por funcionários que não só lhes explicaram as características dos quartos com excepcional clareza, como também se ofereceram para tratar da roupa e engraxar os sapatos, com a promessa de que tudo seria devolvido num par de horas. Foi o hotel mais luxuoso onde ficámos durante toda a viagem; contudo, por mais agradável que fosse, nem eu nem o Micah nos conseguíamos abstrair da realidade que sabíamos existir fora dos portões.

No final do dia, houve mais um cocktail e enrolaram-nos um turbante na cabeça para irmos visitar o Palácio da Cidade. Ali, fomos recebidos com honras reais; grupos de guardas permaneciam em sentido ao lado de camelos, cavalos brancos e elefantes, que tinham sido enfeitados para nos receber. Jantámos e assistimos a uma exibição de artistas tradicionais indianos, mas fora um dia cansativo e tanto o Micah como eu só desejávamos regressar ao hotel para nos deixarmos cair na cama.

 

De manhã, tínhamos duas escolhas: podíamos ir visitar o museu e diversas áreas de compras ou ficar no hotel.

O Micah e eu decidimo-nos pelo hotel. Nenhum de nós desejava deixar o verdadeiro santuário onde estávamos e, pela primeira vez em duas semanas, não fizemos absolutamente nada. À tarde, de óculos escuros e calção de banho, o Micah encontrava-se deitado numa cadeira de repouso, perto da piscina.

- Ora bem, era mesmo disto que eu estava a precisar.

- Compreendo o que queres dizer - concordei. - Mas não consigo libertar-me de um certo sentimento de culpa. Talvez seja a minha derradeira oportunidade de ver a índia e estamos para aqui, deitados junto da piscina do hotel.

- Querias mesmo visitar mais um museu e ir às compras?

- Não. Só estou a dizer que me sinto culpado.

- Estás sempre a sentir-te culpado. Esse é o teu problema.

- Pensava que o meu problema era não ter amigos suficientes.

- Também tens esse.

Abri os braços a fingir-me muito agradecido.

- Micah, é por isso que gosto tanto de ti. Estás sempre preparado

para uma crítica construtiva.

- Gosto de ajudar. Além disso, depois da morte da mamã alguém

tinha de cuidar de ti.

- Ela era insubstituível.

- Sabes o que ela representava? - reflectiu o Micah. - Era como o cubo da roda da nossa família e todos nós éramos os raios. E quando ela desapareceu, desapareceu o centro da nossa vida. Julgo que esse foi o motivo de sentirmos tanto a perda. Não tínhamos apenas perdido a nossa mãe, também nos tínhamos tornado uma família diferente. Penso que essa foi a razão de tu, a Dana e eu nos termos reunido de novo.

- E quanto ao pai?

- Não sei - respondeu. - A perda da mamã foi uma parte do problema, mas continuo a pensar que ele sofria de doença maníaca-depressiva. Enquanto foi viva, penso que a mamã conseguiu controlar o humor dele. Depois que ela partiu, bem, o pai também perdeu o seu ponto de referência.

- Achas que foi um bom pai? Quando estávamos a crescer, entenda-se?

- Foi, em certos aspectos. Menos bom noutros. Contudo, se atendermos ao que os filhos vieram a ser, temos de dizer que tivemos bons pais. Somos felizes no casamento, bem-sucedidos na profissão, eticamente saudáveis e continuamos a ser bons irmãos. Se, mais tarde, os teus filhos puderem dizer o mesmo, não acharás que fizeste um bom trabalho enquanto pai?

- Sem dúvida - anuí.

 

De manhã, embarcámos no avião para Agra, onde íamos visitar o Taj Mahal.

Para lá das janelas do autocarro, o ambiente era o mesmo que tínhamos encontrado em Jaipur, com duas diferenças importantes: o ar encontrava-se muito mais poluído e havia mais ruas de terra.

Por causa da poluição, houve necessidade de mudarmos de autocarro; para chegar junto do Taj Mahal, tivemos de percorrer cerca de três quilómetros em autocarros de tracção eléctrica e acabámos por ter de os deixar a cerca de quatrocentos metros dos portões do monumento.

Daquele ponto ainda não se avistava o Taj Mahal. O que muita gente não sabe é que, na realidade, o Taj faz parte de um conjunto muito maior. Voltámos a ter de esperar numa longa bicha, desta vez para que os nossos sacos fossem revistados, para haver a certeza de que não levávamos armas ou explosivos. Finalmente, entrámos no complexo e, mesmo então, continuávamos a não conseguir ver o monumento.

Em fila, tivemos de percorrer um longo caminho, flanqueados de ambos os lados por edifícios, na sua maioria apartamentos destinados aos convidados de Shah Jahan. Mais adiante, à direita, notámos uma grande estrutura em tijolo, que serve de portão ornamental e, para entrar, mais uma vez tivemos de formar uma fila para sermos revistados.

Mas, ultrapassado o portão, tivemos finalmente a primeira visão do que muita gente considera o mais belo monumento alguma vez construído para celebrar o amor.

O Taj Mahal foi começado a construir por Shah Jahan, um imperador da dinastia Mogul, em memória da segunda esposa, Mumtaz Mahal, que morreu ao dar à luz o décimo quarto filho do monarca. Trata-se, portanto, de um mausoléu. O cenotáfio, incrustado de jóias, encontra-se no interior, perto da tumba do marido. O Taj é um dos monumentos mais simétricos alguma vez construídos: o cenotáfio de Mumtaz encontra-se mesmo no centro da cúpula, as quatro torres dos cantos estão exactamente à mesma distância da cúpula e têm exactamente a mesma altura.

O Taj Mahal levou 22 anos a ser construído, com materiais trazidos de todas as partes da Índia e da Ásia Central, graças ao trabalho de 20 mil homens e mil elefantes. É considerado um símbolo do amor eterno, mas Shah Jahan passou ali pouco tempo. Logo depois da sua conclusão, o filho de Shah Jahan e de Mumtaz depôs o imperador e pô-lo a ferros na Grande Fortaleza Vermelha, a alguns quilómetros de distância. Embora o imperador deposto pudesse ver o Taj Mahal da sua cela, nunca mais foi autorizado a pôr o pé no mausoléu.

Do ponto onde estávamos, não parecia real; tendo por fundo um céu escuro e poluído, o mármore brilhava intensamente e a imagem do mausoléu era reflectida pelo enorme espelho de água que se estende à sua frente. Ao verem fotografias do Taj Mahal (que significa “Palácio da Coroa”) muitas pessoas crêem que é construído de mármore branco, liso e sem adornos; só vistos de perto é que os pormenores de cada bloco de mármore se tornam notados. Tal como o Salão dos Espelhos, mas numa escala muito maior, o Taj Mahal é adornado com pedras preciosas e semipreciosas, incrustadas de modo a formarem desenhos de flores e vides. Depois de tirarmos fotografias, percorremos o monumento e estudámos a sua fachada monumental.

- Ora bem, há aqui uma quantidade de mármore - apreciou sucintamente o Micah.

Passámos pouco mais de uma hora no Taj Mahal e ficámos surpreendidos por ser tempo suficiente. Afinal, o monumento é uma cripta; lá dentro, pouco mais há do que a pequena sala onde Mumtaz e eventualmente Shah Jahan estão sepultados, sendo certo que a maior atenção deve ser dedicada aos pormenores que têm a ver com os blocos de mármore utilizados na construção. E são espantosos; no entanto, como o Taj Mahal foi construído com perfeita exactidão matemática, os pormenores artísticos são, curiosamente, pouco inspiradores. Se encontramos um desenho de um lado, o mesmo desenho está mecanicamente reproduzido no lado oposto. Mesmo sendo uma maravilha de construção, torna-se estranhamente monótono.

Tanto o Micah como eu ficámos fascinados com o facto de o filho de Shah Jahan ter aprisionado o pai até ao fim da vida e de nunca mais o ter deixado pôr o pé no Taj Mahal, a cripta da sua própria mãe.

- Vês - começou o Micah, com um aceno de quem sabe. - Era exactamente isto que eu queria dizer. O nosso foi muito melhor pai do que o velho Shah Jahan deve ter sido. O filho odiava-o.

Fiz um aceno de concordância. E, no entanto, ao olhar o maciço monumento construído em honra de Mumtaz, não estava a pensar no meu pai, estava a pensar na minha irmã.

 

Em janeiro de 1993, menos de três semanas depois de me ter mudado para a Carolina do Norte, tive de regressar à Califórnia.

Logo depois do dia de Ano Novo, a minha irmã foi consultar outro médico, que ordenou uma nova ressonância magnética, feita num hospital diferente. Na altura, a tecnologia dos aparelhos de ressonância magnética estava a evoluir rapidamente e as novas máquinas conseguiam imagens que não estavam ao alcance dos aparelhos precedentes. Segundo nos disseram, a Dana fora examinada numa máquina antiquada; uma nova imagem poderia dar a resposta.

A Dana estava deitada, puseram-lhe protectores nos ouvidos e a maca foi empurrada para dentro do aparelho. Trata-se de uma máquina ruidosa, os barulhos assemelham-se ao bater de uma colher numa panela; horas depois, a imagem estava revelada. E mostrava, tão certa como a claridade do dia, a existência de qualquer coisa que não deveria estar ali. Segundo fomos informados, a Dana tinha um tumor no cérebro.

De imediato, foi marcada a operação no Hospital Universitário de São Francisco e eu segui para lá, para me juntar ao Micah e ao meu pai. Na noite anterior, no hotel, o Micah e eu tentámos manter o moral elevado, mas o papá passou todo o tempo numa enorme tensão. Só quando ficámos sós é que eu e o Micah pudemos dar largas aos nossos medos e preocupações.

A nossa irmã, a nossa irmãzinha pequena, tinha um tumor no cérebro. Como se perder a nossa mãe não tivesse sido suficiente, tínhamos de enfrentar aquela situação.

A intervenção cirúrgica fora marcada para o princípio da manhã e, ainda antes das sete horas, levámos a Dana para o hospital. Porém, devido aos horários apertados, a operação só começou perto do meio-dia, fazendo daquele dia um dos mais longos das nossas vidas. O cirurgião só veio falar connosco às sete horas da tarde.

Informou que a operação tinha corrido bem e que tinha removido o que pudera do tumor. Não fora possível removê-lo na totalidade. Parte do tumor tinha-se disseminado para zonas profundas do cérebro e algumas metástases estavam interligadas com áreas do cérebro que desempenham funções vitais. O cirurgião esclareceu-nos de que, se removesse todas as ramificações do tumor, a Dana passaria a viver como um vegetal.

O médico levou muito tempo a explicar o verdadeiro estado da Dana numa linguagem que nós pudéssemos entender. Quisemos saber pormenores: qual a parte do tumor que fora deixada, onde se localizava, qual o efeito que teria a longo prazo; porém, como viríamos a descobrir, muitas vezes a cirurgia do cérebro é mais uma questão de julgamento do que de regras.

- Quando ela recuperar - anunciou o médico, - vai começar a tomar medicamentos para as convulsões e será tratada com radiações. Esperamos que o tratamento elimine a parte do tumor que ficou, as metástases que não pudemos extirpar.

- E se as radiações não resultarem? Nesse caso, faz-se o quê? Uma nova operação?

O médico negou com um movimento de cabeça.

- Esperemos que a radiação resulte. Como disse, não poderia chegar a algumas partes do tumor sem fazer piorar a saúde da doente.

- Que hipóteses é que ela tem? Vai conseguir ultrapassar a situação?

- Depende do tipo de tumor. Estamos agora a proceder à biópsia. Alguns tumores são mais susceptíveis à radiação do que outros. Alguns desenvolvem-se rapidamente, outros não. Não o poderemos saber antes de conhecermos o resultado do exame. Mas se o tumor for susceptível, a radiação deverá solucionar o problema.

- Então, ainda há possibilidades de ela poder fazer uma vida normal?

O médico hesitou:

- Quase normal. - Esperámos, a tentar perceber o que ele pretendia dizer-nos. O médico resolveu continuar: - A medicação contra as convulsões é contra-indicada em caso de gravidez, pois pode causar malformações no feto.

Nova pausa. O Micah e eu trocámos olhares, já sabendo o que viria de seguida.

- O mais provável - acrescentou o médico -, é que nunca venha a ter filhos.

Nenhum de nós falou durante muito tempo.

- Quando é que podemos vê-la? - acabei por perguntar.

- Amanhã. Está a dormir e talvez seja melhor deixá-la descansar.

Nessa noite, o Micah e eu dormimos no mesmo quarto de hotel. Ou melhor, tentámos dormir. Passei a maior parte da noite de olhos postos no tecto, a pensar numa conversa que eu e a Dana tivéramos no dia do nosso aniversário, havia muitos anos. “Quero casar-me e quero ter filhos... “, dissera a minha irmã.

“Só isso?”

“Só isso. É tudo o que desejo da vida. “

A lembrança quase me despedaçou o coração.

 

Quando a vimos, a cabeça da minha irmã estava completamente coberta de ligaduras. Dormiu a maior parte do tempo e, ao acordar, parecia embriagada. Os olhos não se fixavam em nada, os movimentos eram letárgicos.

- A operação... correu... bem? - gaguejou. A voz era apenas um sussurro.

- Correu optimamente, minha querida - mentiu o Micah. - Oh... bom...

- Adoro-te doçura - disse eu.

- Adoro-vos... a ambos. - E voltou a adormecer.

Uma semana depois, recebemos os resultados da biópsia. No essencial, dizia que a minha irmã apresentava três tipos de células cancerosas no cérebro: oligodendroglioma, astrocitoma e gliobastoma multiforme; tudo tumores de crescimento rápido que se espalham à maneira das teias de aranha, só parcialmente susceptíveis à radiação e à quimioterapia.

Por mais pormenores que aprendêssemos acerca de tumores, havia um que não conseguíamos tirar da cabeça. Embora todos pudessem ser mortais, um deles era especialmente maligno. Ao fim de cinco anos, a taxa de sobrevivência dos doentes com gliobastoma multiforme era inferior a dois por cento.

A minha irmã acabava de fazer 26 anos.

 

Regressei a casa três dias depois, na manhã em que a minha irmã ia ter alta do hospital. Para além de saber que ia fazer radioterapia, a Dana começou a tomar o medicamento contra as convulsões. Com a  cabeça ainda ligada, iniciou o longo processo de cura. Durante semanas, não consegui libertar-me do sentimento de culpa por não estar junto dela. Tive de o compensar com o trabalho.

Mas a vida continuava, trazendo consigo novas fontes de stress. O meu novo chefe começou de imediato a pressionar-me para que obtivesse resultados; a Cat e eu comprámos a nossa primeira casa. No curto espaço de três meses, tínhamos trocado de casa, eu mudara de emprego, compráramos uma casa e iniciáramos o processo de a decorar, sem deixar de me preocupar incessantemente com a saúde da minha irmã.

E não era tudo. O diagnóstico da Dana fora demasiado para o pai e a minha mudança para a Carolina do Norte pareceu servir apenas para alimentar a cólera e a culpa que ele sentia dentro de si. Quando lhe falei da nova casa, por exemplo, respondeu-me sucintamente que eu faria melhor se não ficasse à espera de ajuda para o pagamento inicial. Quando ligava, falava apenas com a minha mulher; habitualmente, eu ficava de lado, à espera de poder também falar com ele, até ouvir a Cathy dizer: “Bom, o Nick está aqui. Quer dar-lhe uma palavrinha?” Havia uma longa pausa, até a Cat continuar: “Oh, está bem; então, adeus. Adeusinho, papá. Adoro-o.”

Depois, lentamente, colocava o auscultador no descanso.

- Não quis falar comigo? - perguntava eu.

- Não é nada contigo - murmurava a Cat, e abraçava-me. - Está apenas assustado.

Com a Dana.

O meu pai tomou atitudes corajosas. Levava-a às consultas e, em Abril, quando ela começou o tratamento com radiações, levou-a para casa. A radioterapia provocava-lhe náuseas e fê-la perder muito cabelo, mas mostrava-se alegre sempre que eu lhe ligava. A minha irmã, uma eterna optimista, sabia que ia curar-se.

- Nick, tenho rezado muito - disse-me um dia. - E julgo que está a resultar. Parece que sinto os tumores a morrer. Gosto de os imaginar a gritar na agonia, quando estão a morrer.

- Tenho a certeza de que vão morrer. Tu és jovem e forte.

- Também vais rezar por mim?

- Não precisas de pedir, Dana. Todos os dias rezo por ti.

- Obrigada.

- Como é que o papá está a portar-se?

- Tem sido fantástico. Nem podes imaginar como tem sido prestável. Faz-me sopa e até me comprou um televisor com controlo remoto, para eu não ter de me levantar quando quiser mudar de canal.

- Óptimo. Ainda bem.

- E tu, como tens passado? Tens alguma novidade excitante?

Hesitei. Havia qualquer coisa, mas não sabia se devia responder-lhe. Como poderia dizer-lhe? Ao mesmo tempo, não ignorava que a minha irmã acabaria por vir a saber; outras pessoas da família, incluindo o Micah, já sabiam.

Acabei por decidir informá-la:

- Bem, acabámos de descobrir que a Cat está novamente grávida.

O bebé deve nascer em Setembro.

A Dana permaneceu calada durante muito tempo.

- Isso é maravilhoso - acabou por dizer. A voz era de uma

pessoa derrotada. - Fico feliz por ambos.

 

- Disseste-lhe? - perguntou o Micah uns minutos mais tarde. - Sim, disse-lhe.

- Como é que reagiu?

- Mais ou menos como eu esperava.

- Terrível, não é? Acho que daria uma excelente mãe. É exactamente como era a nossa mãe.

Não respondi; na realidade, não havia nada para dizer.

- Tenho andado a pensar em ti - acrescentou o Micah, depois

de uma pausa. - E na maneira como as coisas têm vindo a acontecer-te nos últimos tempos.

- O que é que pretendes dizer?

- Estou a falar de altos e baixos. Primeiro, casaste-te e tiveste um incrível momento de euforia. Seis semanas depois, morre a mamã e não poderias descer mais baixo. A Cat engravida pela primeira vez, depois tem um aborto. Tu e a Cat tomam a decisão de se mudarem e ficas excitado ante a perspectiva de iniciares uma nova vida; um mês depois, a Dana sofre a convulsão e descobrimos que tem um tumor no cérebro. Depois, sabes que a Cathy está novamente grávida; ao mesmo tempo, sabemos que a Dana não poderá ter filhos e que não é provável que viva mais de cinco anos. É como se vivesses numa montanha russa, sempre a subir e a descer, sem conseguires atingir uma zona plana. Para ti, tem havido uma sucessão de altos mais altos e de baixos mais baixos.

- Poderia dizer o mesmo de ti - alvitrei calmamente. - E também do pai.

- Eu sei - contrapôs. - É como se não pudéssemos saborear a alegria dos momentos altos.

 

A Dana terminou a radioterapia a meio do Verão e fez uma TAC que não revelou sinais do tumor. Os médicos mostraram-se optimistas, o cabelo da minha irmã começou a crescer lentamente e, pela primeira vez desde a convulsão, conseguimos atirar as nossas preocupações para trás das costas.

Com a melhoria da minha irmã, o comportamento do pai a meu respeito também mudou para melhor. Voltou a falar comigo pelo telefone; hesitante de início, uma reaproximação lenta. No entanto, continuou a manter conversas prolongadas com a Cat e soubemos que até tinha recomeçado a namorar.

Dizia que encontrara uma mulher e que gostava muito dela.

A Dana também estava a dar-se bem com o Bob; depois da operação a relação tinha passado por dificuldades.

E o Micah, como sempre, continuava florescente, escapava-se durante longos fins-de-semana e evitava relações comprometedoras.

O Ryan nasceu em Setembro de 1993, mas não pude estar no hospital para o ver nascer. Estava a trabalhar fora da cidade, uma reunião a que não podia faltar e as águas da Cat rebentaram quando a reunião estava a acabar. Só iria ver o meu filho no dia seguinte.

Em Novembro, a família reuniu-se no Texas para passarmos o Dia de Acção de Graças com o tio Monty, o irmão mais novo do meu pai que, para minha surpresa, pareceu genuinamente feliz. Estava apaixonado, segundo nos informou, e nós, os filhos, ficámos satisfeitos por ele ter, finalmente, encontrado uma pessoa com quem gostasse de estar. No entanto, estas notícias acerca do nosso pai pareceram-nos menos importantes do que outras coisas que viemos a descobrir nessa viagem.

A Dana informou-nos de que tinha rompido novamente com o Bob. Não ficámos muito admirados; as dificuldades provocadas pela doença recente seriam suficientes para pôr à prova qualquer relação.

- Oh! - recordo-me de ter exclamado, - é pena. Eu gosto do Bob.

- Mas há mais - acrescentou a Dana. - O que é?

Sorriu, com um ligeiríssimo encolher de ombros.

- Estou grávida - informou. Não soube o que havia de dizer. - Não te preocupes. Deixei de tomar a medicação contra as convulsões.

Porém, ainda não era tudo. Na nossa família, como eu começava lentamente a perceber, havia sempre mais qualquer coisa. Não havia apenas aquela preocupação, que nos iria perseguir durante os sete meses seguintes, por a Dana estar a pôr a sua saúde em perigo; ela estava também a caminho de se tornar uma mãe solteira. E não tardou a sabermos que esperava gémeos.

Depois, para aumentar as nossas preocupações, logo depois do Natal, o nosso pai informou abruptamente a filha de que ela tinha de sair de casa, apesar de saber que a Dana não tinha para onde ir.

Embora não comentasse a desconfiança, intimamente comecei a pensar se, além da psicose maníaca-depressiva, o meu pai não sofreria de outras doenças mentais.

Em Dezembro, o meu pai descobriu que a mulher com quem andava envolvido, a primeira mulher com quem se relacionara após a morte da mamã, não estava devidamente divorciada. Encontrava-se apenas separada do marido e tinha andado a extorquir ao meu pai o pouco dinheiro que ele possuía. Quando a relação chegou ao fim, ele estava profundamente endividado. Quando não tinha mais nada para dar à mulher, esta cortou todos os contactos. Não sei se o meu pai continuou a telefonar à mulher até ela se cansar da persistência dele, ou se se tratou de um simples acidente, mas o marido acabou por ter conhecimento da relação. Era um polícia corpulento e ameaçou fisicamente o meu pai no caminho de acesso à casa. O meu pai temeu pela vida e ficou aterrorizado com a ameaça.

Creio que foi esta sucessão de eventos, todos na altura do Natal, que acabou por deixá-lo emocionalmente de rastos.

A partir de então, entrou numa espiral descendente, que o tempo apenas foi tornando mais difícil. Tornou-se azedo, no humor e nas decisões; já não era apenas um homem zangado, ficou paranóico. Como não podia pedir a protecção da Polícia (de que lhe serviria?) comprou armas e munições. Ordenou à minha irmã que saísse de casa e comprou um cão chamado Flame.

Flame, um pastor alemão, tinha começado por ser treinado para as forças policiais, mas, dado o seu carácter volátil, não pudera ser usado nesse tipo de tarefas. Embora dedicado ao meu pai, o cão enervava todas as outras pessoas. Uivava e mordia, era inconveniente e indigno de confiança. Aquele feitio irascível, combinado com a instabilidade do meu pai, formaram uma mistura perigosa.

Durante os primeiros meses de 1994, eu e o meu irmão mantivemos longas conversas pelo telefone, tanto sobre a Dana como sobre o nosso pai, a tentarmos descobrir o que poderíamos fazer, se pudéssemos fazer qualquer coisa.

- Achas que deveria convidar a Dana para viver comigo? - perguntei.

- Nick, não pode ser - respondeu Micah. - Os médicos dela estão aqui.

- E quanto ao papá?

- Ela nem sequer põe a hipótese de voltar para casa. E, para te ser franco, também não desejo que ela vá viver para lá. O pai está a ficar mesmo esquisito. E com o cão... não. A Dana não pode viver ali. Com filhos, não.

- Não pode ficar contigo?

- Já lhe propus isso, mas ela não quer. Diz que consegue controlar a situação. A Olga, a amiga dela, tem um pequeno quarto que a Dana pode alugar.

A Olga vivia na velha casa da quinta onde guardávamos os cavalos; conhecia a Dana há muitos anos.

- E como é que vai sobreviver? Não tem emprego, nem marido, nem dinheiro, tem um tumor no cérebro...

- Eu sei. Tentei fazer-lhe ver isso.

- O que é que ela respondeu?

- Diz que consegue resolver as coisas. Não está nada preocupada. Está entusiasmada com a ideia de ter filhos.

- Como é que consegue não estar preocupada? E se tiver uma convulsão, sem ninguém por perto para a ajudar?

- Tem fé de que vai correr tudo bem.

Hesitei.

- E achas que é suficiente?

- Não sei - respondeu.

Graças a Deus, a minha irmã chegou sem problemas ao fim da gravidez e, em Maio de 1994, deu à luz dois gémeos saudáveis, a que pôs os nomes de Cody e Cole. Uma semana depois do parto, voltou a tomar os medicamentos contra as convulsões e começou a tratar dos bebés no quarto atravancado a que chamava o seu lar. O Micah e eu começámos a mandar-lhe dinheiro e conseguiu sobreviver, não se sabe bem como. A Dana e os gémeos dormiram no chão, num colchão desdobrável, durante quatro meses; todavia, para final do Verão, a minha irmã reconciliou-se com o Bob e decidiu ir viver com ele, para os filhos poderem estar com o pai. Para nossa surpresa, só lhe falou da gravidez depois de os gémeos terem nascido.

Durante este período, o meu pai devotou a maior parte do tempo disponível a treinar o cão. Apesar de a Dana estar de boa saúde, a cólera dele tornou-se ainda mais profunda. Naquele período de seis meses começou a afastar-se da sua família, que era grande. Recusou chamadas da mãe, do pai e dos irmãos; se lhe escrevessem, devolvia as cartas sem as abrir. Não comentava comigo, nem com o Micah ou a Dana, as razões que o tinham levado a afastar-se da família. Se lhe perguntássemos o que estava a passar-se, ficava furioso connosco, passava de imediato à fase do bombardeamento nuclear e, através dos dentes cerrados, dizia-nos que não era “da nossa conta”. Por qualquer razão, começara a culpar a família por todos os problemas que lhe tinham atormentado a vida. Porém, como naquela altura a minha própria vida já tinha passado por tantos altos e baixos, convenci-me, sem saber como, de que ele também conseguiria ultrapassar aquele mau momento.

Como depois vim a saber, foi também naquele período que o meu pai começou a tratar-se com um psiquiatra, uma decisão que tanto o meu irmão como eu pensámos que o poderia ajudar. Mas o meu pai, como eu parecia ser o único a reconhecer, havia muitos anos que levava uma vida dupla. Conseguia enganar as pessoas e acho que até conseguia enganar o psiquiatra. Em vez de pôr o meu pai a tomar antidepressivos, medicamentos que penso o ajudariam, o médico receitou-lhe Valium, o que ainda o deprimiu mais.

Com a Dana e o Bob juntos, os gémeos saudáveis e o pai a limitar os contactos connosco, embora nunca os interrompesse totalmente, o Micah concentrou-se no trabalho, subiu na empresa e continuou a namorar.

Quanto a mim, a mais de cinco mil quilómetros da família, a vida continuou no ritmo habitual, com uma ligeira diferença. Logo depois de a Cat e eu termos celebrado o quinto aniversário do nosso casamento, e usando os avós da minha mulher como inspiração, recomecei a escrever.

Nos anos de 1993 e 1994, apesar da distância, eu e o meu irmão vimo-nos com uma certa frequência. A companhia farmacêutica para a qual ambos trabalhávamos fazia reuniões de vendas para promover os novos medicamentos que ia lançando no mercado. Além disso, as acções de formação realizavam-se na sede, em New Jersey, e o Micah e eu assistíamos inevitavelmente às mesmas sessões. Também me visitou na Carolina do Norte e eu ia à Califórnia, pelo menos uma vez por ano. Como sempre, a conversa girava à volta do nosso pai e da Dana. Como o Micah era o veículo que eu usava para acompanhar a vida da família, sentia a necessidade de conversar com ele. E como eu era a única pessoa com quem podia falar à vontade, ele também sentia a necessidade de conversar comigo.

Em finais de 1994, quando estávamos numa convenção anual de vendas, vieram à baila os mesmos assuntos.

- Como é que está o pai? - perguntei.

- Quem sabe? Mas julgo que encontrou alguém e que anda outra vez a namorar.

- Costuma ir ver os gémeos?

- Não, nunca foi.

- Já lhe perguntaste por quê?

- Prefere passar o fim-de-semana com o cão.

- Não foi ele que disse isso.

- Não usou tantas palavras, mas age como tal. Parece que o cão e a nova mulher são as suas únicas preocupações.

- Nenhuma palavra acerca dos motivos por que não fala com a família?

- Nada.

- Mas anda a namorar?

- Anda. Consegues crer numa coisa assim? Por vezes, penso que ele está melhor. Porém, quando vês a totalidade do quadro... Espero que ele consiga sair da situação mas, desta vez, não estou muito certo disso. Parece sempre demasiado encolerizado.

- E a Dana?

- Os bebés mantêm-na entretida. A última TAC foi boa. Não há sinais do tumor. Mas devias ver os rapazes. São tão bonitos. Quase me fazem desejar ter filhos.

- Quase?

- Ainda não - emendou rapidamente. - Dentro de uns anos, quero eu dizer.

Soltei uma gargalhada.

- Olha lá, o que é que pensas dos boatos sobre fusões e compras de empresas que temos ouvido ultimamente? - perguntou o Micah.

Tínhamos ouvido dizer que a American Cyanamid, uma empresa associada da Lederle, estaria à venda e todos os participantes da convenção se mostravam preocupados com a possibilidade de perderem os empregos.

- Sabe-se lá. Acontecerá o que tiver de ser. Depois de tudo o que temos passado, tenho a certeza de que aterraremos de pé.

Menos de duas semanas depois da convenção, soubemos que a empresa ia ser adquirida pela American Home Products. Em janeiro, a companhia iniciou o lento processo de reestruturação; para conservar o emprego, tive de me mudar para Greenville, Carolina do Sul. Quanto ao Micah, ofereceram-lhe um lugar a sul de Los Angeles. Enquanto eu aceitei a transferência, embora com relutância, o meu irmão decidiu deixar a companhia.

- Não posso aceitar - comentou comigo. - Esta é a minha terra, além disso, não posso deixar a Dana e o papá.

- O que é que vais fazer?

- É provável que regresse ao ramo imobiliário, para ver o que acontece. Como é que vai o teu romance?

- Está quase pronto. Não está revisto.

- Vais tentar publicá-lo?

- julgo que sim.

- É melhor que os outros dois que escreveste?

- Isso terá de se ver.

- Eh! Talvez também não fiques muito tempo no ramo farmaceutico.

Respirei fundo:

- É possível. Veremos o que vai passar-se. Já desisti de prever o futuro.

 

Lalibela, Etiópia 9 e 10 de Fevereiro

Começámos pela manhã em Jaipur, voámos até Agra para vermos o Taj Mahal e, mais para o final da tarde, voltámos a embarcar no avião que nos levaria até Adis Abeba, na Etiópia. Chegámos tarde; quando aterrámos era noite cerrada.

Mesmo de noite, Adis Abeba surpreendeu-nos. As nossas ideias sobre a Etiópia baseavam-se em grande parte no que víamos na televisão, ou no que líamos nos jornais, e suponho que imaginávamos uma cidade semelhante a Phnom Penh, ou até a Jaipur. No entanto, descobrimos que Adis Abeba se parecia muito mais com Lima e ficámos surpreendidos com a sua atmosfera cosmopolita. Longos canteiros de relva bem aparada alinhavam-se ao longo da artéria principal, as ruas estavam limpas, bem iluminadas e eram usadas apenas por automóveis e, pela primeira vez em várias semanas, vimos elementos da cultura americana: cartazes a anunciar a Coca-Cola e as roupas da GAP.

O nosso guia falava um inglês excelente e quando lhe chamámos a atenção para a limpeza da cidade, inclinou-se em sinal de agradecimento.

- Sim. Adis Abeba é uma cidade moderna. Mas, normalmente, não está tão limpa.

- O que é que pretende dizer?

- Na semana passada, houve aqui uma grande conferência, em que estiveram representados todos os países africanos. Para causar boa impressão, o Governo passou semanas a limpar a cidade.

Mesmo assim, uma operação dessas tem os seus limites. Adis Abeba, pelo menos à superfície, parecia incrivelmente, quase provocadoramente, mais rica do que as cidades que tínhamos visitado nas semanas anteriores.

 

De manhã, fomos levados novamente ao aeroporto e embarcámos em dois pequenos aviões com motores de hélice, para voarmos para Lalibela.

Lalibela é a sede espiritual da Igreja Ortodoxa da Abissínia (ou Etiópia), mas é mais famosa pelas caves monolíticas escavadas durante o século xiii. A sua construção foi ordenada pelo rei Lalibela; com o trabalho de 40 mil escravos, onze igrejas foram escavadas na rocha. O que torna as igrejas únicas é a circunstância de nenhuma delas se elevar acima do chão; é que foram completamente escavadas na terra, de modo a que os tectos ficassem ao nível do solo.

O aeroporto onde desembarcámos está situado no meio de coisa nenhuma e rodeado pelos picos das terras altas da Etiópia. Para além do aeroporto, não se avistava qualquer outra construção e a terra fez-nos lembrar o Sul do estado de Nevada, perto das Montanhas Rochosas. Poucas árvores cresciam no solo rochoso e os arbustos rasteiros dominavam o vale, até onde os olhos alcançavam.

Fomos informados de que Lalibela ficava a cerca de 40 quilómetros dali, a 3200 metros de altitude. A estrada sinuosa, asfaltada, atravessa o vale e segue pelo cume das montanhas; levámos uma hora a chegar ao nosso destino e não vimos qualquer outro veículo.

No entanto, encontrámos um rapazinho de cerca de dez anos, a uns 13 quilómetros de Lalibela. Caminhava pela estrada a arrastar um monstruoso saco de serapilheira cheio de carvão, que tinha a intenção de vender na cidade. O saco, mais alto e mais largo do que a criança, tinha-lhe sido atado às costas e parecia conter várias vezes o peso do próprio rapaz. Ao ver o autocarro a passar, sorriu e acenou-nos um cumprimento, antes de prosseguir a caminhada para a cidade.

A maior parte da cidade de Lalibela está situada longe da estrada principal, cresce ao longo de estradas de terra batida, cheias de buracos. As casas de telhados de colmo e paredes de adobe têm poucas janelas com vidraças para mostrar, mas a cidade gaba-se da existência de muitos lugares onde se pode comer, de pequenas lojas familiares e de muitos lugares onde os turistas podem comprar lembranças. Quase todas as pessoas que encontrámos vestiam roupas ocidentais. Ao longo das ruas, havia numerosas mesas com toalhas de pano, a oferecerem T-shirts, na sua maioria enfeitadas com emblemas americanos. Para todos os efeitos e propósitos, a cidade de Lalibela era uma armadilha para os turistas.

Os nossos autocarros pararam junto das igrejas escavadas na rocha, mas logo que pusemos o pé em terra fomos cercados por miúdos; ao contrário do que acontecera em muitos dos lugares que visitámos, estes não tinham nada para vender. Só pediam dinheiro; cada criança que se aproximava de nós contava que precisava do dinheiro para ir à escola ou para comprar os livros de que necessitava para levar para a escola que estava a frequentar.

Acabavam por ser afastados por guardas etíopes que agitavam bastões.

Lalibela era um dos lugares menos conhecidos do programa de visitas; poucos sabiam o que nos esperava. Foi um desapontamento. A grande carga de trabalho exigida pela construção foi posta em evidência logo na primeira igreja que visitámos. Era bastante maior do que tínhamos imaginado; tinha pelo menos 18 metros de comprimento e 12 de largura, e estava rodeada por um andaime moderno que suportava um telhado suplementar.

- O telhado é para prevenir infiltrações - informou o guia, - e para evitar o desmoronamento das igrejas.

Passámos as duas horas seguintes a vaguear de uma igreja para a seguinte. O interior das igrejas era escuro. Poucas dispunham de janelas e, embora houvesse umas lâmpadas fluorescentes, a sua luz mal atravessava a escuridão. O chão era liso, polido por oito séculos de uso que lhe haviam dado a planura própria de uma pista de gelo. Como as igrejas continuavam abertas ao culto, parte do chão estava coberto de tapetes para oração. Infelizmente, não o cobriam na totalidade, pelo que, para evitarmos as quedas, caminhávamos com lentidão, como cegos num local desconhecido.

No total, passámos três horas em Lalibela. Para o final da visita, o Micah e eu apartámo-nos do grupo para fazermos umas fotografias; como as igrejas eram diferentes de tudo o que tínhamos visto até então - eram escavadas na pedra, em vez de serem construídas em pedra - tentámos encontrar pontos de focagem, de onde pudéssemos captar aquela sua característica tão invulgar.

As visitas aos templos tinham deixado o Micah estranhamente silencioso; quando vínhamos de volta, foi sentar-se num miradouro, de onde se avistava todo o local. Fui juntar-me a ele.

- Então, o que é que pensas deste lugar? - indagou.

- Valeu a pena, se é isso que queres saber.

- Não são muito parecidas com as que temos nas nossas terras, pois não? Não penso que os nossos filhos apreciassem a ideia de assistirem de pé aos serviços religiosos.

Sorriu.

- Estás satisfeito por ainda ires à missa?

- Por comparação com o quê?

- Com a ideia de frequentares outra igreja cristã.

Fiquei uns momentos a pensar.

- Sim - respondi. - Estou. Como a Cat também é católica,

nunca pensámos em mudar.

- Gosto da igreja que frequento agora. Ou que costumava frequentar.

- Porquê?

- Não sei. Julgo que me sentia apenas aborrecido por a missa me parecer sempre igual. E não conseguia ver qualquer relação entre os sermões e a minha vida. Penso que a igreja devia fazer-nos sentir perto de Deus, mas não estava a conseguir o que queria. Consegui-o na nova igreja, durante algum tempo.

- Achas que poderás voltar a sentir o mesmo?

- Não sei. Ultimamente não me tenho sentido... perto de Deus. Já nem tenho a certeza de que acredito em Deus.

- A sério?

- Não tem nada a ver com a ideia. Penso que Deus existe, mas não tenho a certeza de que desempenhe um papel activo neste mundo. Penso que Ele se limitou a pôr isto tudo em movimento e que depois se sentou, a ver o que ia acontecer.

- Hum! Continua.

- Como é óbvio, não é isso que nos dizem na igreja. Na igreja, devemos orar e dar graças a Deus mas, como já te disse, cheguei à conclusão de que a oração não serve de nada. E, durante muito tempo, não foi fácil encontrar motivos para me mostrar agradecido. Tivemos de ultrapassar grandes obstáculos, um a seguir a outro. Não nos deram tempo para respirar. E toda a gente me dizia que fosse forte, que tudo acabaria por se compor. - Sabia que o Micah não estava à espera que eu lhe respondesse. - E, passado algum tempo, parece que fui sacudido. Em que é que acredito verdadeiramente? Segui os mandamentos, acreditei em Jesus, frequentei a igreja e nunca deixei de rezar. E quando precisei realmente da ajuda de Deus, a única resposta que obtive foi que ninguém se incomoda. Eu não queria que Deus me desse força para enfrentar o que estava a acontecer, eu queria que Deus pusesse fim ao que estava a acontecer. E Deus não fez nada. Por isso, afastei-me. Não disse nada. Quando se trata de questões de fé, a melhor resposta é não dizer nada, a menos que nos façam uma pergunta directa.

- Nunca sentiste o mesmo? - perguntou o Micah.

- Senti - respondi. - Sempre.

- Mas não te afectou do mesmo modo que a mim?

- Não.

- Porquê?

Respirei fundo:

- Não sei. Julgo que, para começar, não julguei Deus responsável

pelas desgraças que nos estavam a acontecer. As coisas aconteceram.

E se Deus não as tinha provocado, devo ter julgado que não esperava

que Ele as resolvesse.

O Micah assentiu, e acrescentou:

- Continuo a entristecer-me com tudo o que aconteceu. Uma vez

por outra, sou atacado por esta tristeza. Há ocasiões em que preciso de

vários dias para ultrapassar esta amargura.

Pus-lhe um braço à volta dos ombros.

- Comigo acontece a mesma coisa.

- E fazes o quê?

Encolhi os ombros.

- Trabalho.

Riu-se.

- Pois é. As tuas alternativas estão todas baralhadas.

- As tuas também. Trabalho, espiritualidade, família, amizades,

saúde, se ignorares alguma delas acabarás por sofrer.

- Estás a pretender dizer que eu sou tão mau como tu?

- Pois, claro. - respondi. - Somos irmãos. Quando pressionados, reagimos de modos diferentes mas, para te ser franco, julgo que

as nossas situações são mais semelhantes do que tu pensas. Passámos

pelos mesmos transes, não foi?

 

No início de 1995, a minha irmã estava em remissão havia dois anos e tinha sido mãe. As tomografias continuavam a ser boas. As nossas preocupações diminuíam em cada mês que passava. Simultaneamente, nós, os três irmãos, estávamos cada vez mais preocupados com o nosso pai.

Fora do emprego, o seu comportamento estava a piorar. Mesmo endividado, continuava a gastar dinheiro à toa; remodelou a casa, comprou um carro novo e, sempre que falava connosco pelo telefone, o cão Flame parecia ser o único assunto em que estava interessado. Apesar de ter uma nova namorada, todo o seu mundo parecia girar à volta do cão.

O afastamento em relação a família continuava; eu recebia chamadas frequentes de pessoas de família que queriam saber o que estava a passar-se, mas não tinha resposta; só podia dizer-lhes que percebia tanto como eles o que estava a acontecer. Mostrava-se distante e agressivo sempre que eu ligava, as conversas com a Cat eram agora mais curtas e a Dana estava ocupada com os gémeos e vivia no outro extremo da cidade, o que não facilitava os contactos entre pai e filha.

Até o Micah estava a sentir dificuldades para perceber o evoluir da situação. Quando pressionado, o pai era capaz de jurar que nunca fora mais feliz, que o trabalho lhe estava a correr bem, que adorava os seus fins-de-semana em companhia do cão e da namorada. Contudo, vinte minutos mais tarde, muito depois de o Micah lhe ter perguntado como se sentia e ter passado a falar de outros assuntos, o pai irritava-se e lançava-se numa diatribe:

- De qualquer modo, não tens nada a ver com a minha vida; assim sendo, por que é que não te pões a mexer daqui para fora?

Bizarro. Doloroso. Preocupante.

No entanto, a Cat e eu estávamos tão afastados que só uns anos mais tarde viemos a saber tudo o que se passou. Fomos obrigados a nova mudança e tínhamos dois meninos para criar. Durante os dois primeiros meses, a Cat teve de ficar em New Bern para tentar vender a casa, enquanto eu estava a viver em Greenville, num pequeno apartamento. Durante o dia, trabalhava para criar uma nova zona; à noite, dava umas voltas à procura de uma casa que pudéssemos comprar. Nos fins-de-semana regressava a casa, quando não era a Cat que ia a Greenville para ver as casas que eu tinha encontrado.

Em finais de Maio, finalmente, mudámo-nos para a nova casa de Greenville e gastámos as primeiras semanas a conhecer os vizinhos, a aprender a andar pela cidade e a estabelecer novas amizades. O Miles sempre fora de trato fácil e simpático; conheceu muitos miúdos e frequentemente brincava com eles. Ryan, com menos de dois anos, ainda estava a aprender a andar. Ainda não falava e mostrava-se muito mais introvertido. Revelava pouca da curiosidade que o Miles já denotava quando tinha a mesma idade e muitas vezes parecia ausente. Gritava de terror sempre que o púnhamos no carrinho e raramente respondia quando procurávamos despertar-lhe a atenção. Quando discutimos o assunto com o pediatra, ele disse-nos que não estivéssemos preocupados, que o crescimento do Ryan seria normal:

- Ainda não tem dois anos. É preciso dar-lhe um pouco mais de tempo.

 

Em julho, iniciei o processo de busca de um agente literário; enviei vinte e cinco cartas de apresentação e a primeira agente a responder, Theresa Park, mostrava-se disposta a trabalhar comigo no romance; os restantes vinte e quatro acabaram por passar ao lado do projecto. Em Outubro de 1995, o romance estava pronto, não havia nada a acrescentar-lhe.

Sem ter em conta as preocupações com o meu pai e com a mudança, o ano tinha decorrido calmamente. A minha irmã tinha feito outra TAC negativa (era examinada todos os trimestres) e o meu irmão estava a sair-se bem no ramo imobiliário. Embora a vida pessoal do meu pai fosse tumultuosa, a sua vida profissional decorria aparentemente sem sobressaltos. Durante um curto período de tempo até pareceu que tudo decorria com normalidade; agora, ao olhar para trás, percebo que era apenas a bonança que antecede a força bruta da tempestade.

 

Embora tanto a minha agente como eu próprio depositássemos grandes esperanças na forma como o romance iria ser recebido, as esperanças eram uma coisa e a realidade era outra. Ficaria satisfeito se conseguisse um avanço que chegasse para pagar as facturas do cartão de crédito, ou talvez para comprar um carro decente para a minha mulher. Qualquer ajuda seria bem-vinda; o nosso modo de vida era típico da classe média e as nossas preocupações financeiras eram semelhantes às dos nossos vizinhos; a casa estava hipotecada por 125 mil dólares.

O romance, com o título O Diário da Nossa Paixão, foi enviado aos editores numa quinta e numa sexta-feira; na segunda-feira, li uma mensagem que a minha agente tinha deixado no voice-mail do telefone da empresa; pedia-me que lhe ligasse. Foi um pouco antes do meio-dia e estava a preparar-me para ir almoçar no consultório de um médico. Tinha comprado toda a comida, preparado a mesa e só esperava que os médicos acabassem a consulta da manhã para eu poder falar-lhes da eficácia dos antibióticos e dos medicamentos contra a tensão arterial fabricados pela Lederle.

Usando o telefone do consultório, liguei à agente e ela foi direita ao assunto.

- Tem uma oferta da Warner Books - começou. Pareceu-me um pouco excitada.

- E?

- A Warner Books está disposta a oferecer um milhão de dólares pelo livro - anunciou.

pestanejei, a pressionar o auscultador contra a orelha. A pensar que não tinha percebido bem, pedi-lhe que repetisse o que acabava de dizer. Foi o que ela fez e eu deixei-me cair numa cadeira; se a cadeira ali não estivesse teria caído no chão.

De um só golpe, a menos de dois meses do meu trigésimo aniversário, percebi que acabara de me tornar milionário.

Qual deveria ser a minha reacção perante uma situação daquelas?

Não fazia ideia e a Cat também não. No entanto, devo dizer que,

mesmo tendo obrigado a agente a repetir o número não duas mas três vezes, continuei a pôr a hipótese de, por qualquer motivo, ter percebido mal. Mas, minutos depois, a agente voltou a ligar e informou-me de que o negócio estava fechado.

Liguei de imediato para a Cat, mas ela não estava. Nem o Micah, que se encontrava fora da cidade. Nem a Dana. Nem o meu pai. Nenhum deles estava em casa e, quando ainda tinha a novidade a borbulhar-me dentro da cabeça, os médicos começaram a chegar para o almoço. Apesar da notícia tremenda que acabara de receber, consegui, não sei bem como, falar com eles acerca de medicamentos.

Mais tarde, quando a consegui encontrar, deixei a Cat boquiaberta. Quando se excitava, o sotaque de New Hampshire da minha mulher vinha à superfície.

- A sério? - gritou. - Estás a brincar comigo!

- Não estou nada! - gritei também.

Até o meu pai, depois de me ouvir, pareceu genuinamente excitado; depois de falar com ele, passei uma boa parte do serão ao telefone, a falar com diversos familiares. O Micah foi quase a última pessoa com quem falei naquele dia; depois de lhe ter dado a notícia, ficou em silêncio durante um bocado.

- Estás a brincar comigo - acabou por dizer.

- Parece mentira, não parece?

- Um milhão de dólares? Por um livro que tu escreveste?

- Não consegues acreditar?

- Não, de momento, mas deixa-me pensar um segundo - pediu, a respirar fundo para o microfone. - Isso é... incrível... - murmurou, antes de fazer nova pausa.

Por mais íntimos que fôssemos, não éramos totalmente imunes à rivalidade entre irmãos. Desde que acabámos o curso secundário e nos diversos empregos, o Micah sempre fora mais bem sucedido do que eu. O que sempre fora considerado normal por ambos; ele

era o irmão mais velho e, tirando a escola e a pista de atletismo, sempre tivera mais êxito, em tudo. Ficou feliz por mim, mas eu sabia que, em parte, gostaria de ser ele a poder dar-me uma notícia daquelas.

Mas o Micah conseguiu ultrapassar tudo isso; as palavras que proferiu em seguida calaram mais fundo do que tudo o que as outras pessoas me tinham dito.

- Tenho orgulho em ti, maninho.

- Obrigado, Micah.

- Agora só falta um pormenor.

- Qual é?

- Tens de me ajudar a descobrir a maneira de ganhar o meu milhão. Já fizeste o teu, de modo que agora é chegada a minha vez.

 

Embora a soma de dinheiro parecesse capaz de causar vertigens, decidi manter o emprego de delegado de propaganda médica. Não sabia como o livro iria comportar-se depois de publicado, nem sabia se conseguiria escrever mais algum. A Cat e eu encarámos a sorte inesperada da mesma maneira que aceitaríamos o primeiro prémio da lotaria. Só gastámos a parte correspondente às compras de um Ford Explorer usado e de um anel de noivado para a Cat, e à liquidação do saldo devedor do cartão de crédito. Os anos de pobreza tinham-nos tornado extremamente cautelosos. Decidimos que o dinheiro seria aplicado em três áreas: pagamento da hipoteca, fundo para a educação universitária dos miúdos e plano de poupança para a reforma.

Mesmo assim, os meses de Novembro e Dezembro foram excitantes. Tanta coisa nova: clubes de leitores e venda de direitos para o estrangeiro, a venda à New Line Cinema dos direitos para um filme, o próprio processo de revisão; todos os dias tinha qualquer coisa de novo, qualquer coisa estimulante para partilhar com a Cat.

Todavia, tirando estas conversas, as nossas vidas seguiam o seu curso normal. Passou o Dia de Acção de Graças; passou o Natal. A TAC da Dana voltou a ser boa, uma sobrevivência de três anos, e ela ligou-me no dia do aniversário para me cantar os parabéns. Também soubemos que o nosso pai continuava a sair com a namorada e que parecia entender-se com ela.

Em janeiro de 1999, o Miles tinha quatro anos e meio e o Ryan era dois anos mais novo. Um dia, levámos o Miles ao médico, para preparar a operação às amígdalas, marcada para o dia seguinte. Enquanto o médico falava com o Miles, o Ryan deixou-se estar, muito quieto, entre mim e a Cat. A consulta não foi demorada. Quando o médico tentou envolver o Ryan na conversa, este não disse nada.

O que não nos surpreendeu, nem à Cat nem a mim. O Ryan ainda não falava, explicámos, e o médico limitou-se a um aceno de cabeça. No entanto, antes de sairmos, perguntou-nos se poderia falar com o Ryan durante uns minutos.

- Com certeza - anuímos, sem nos determos para pensar. Julgámos que deveria querer dar um rebuçado ao garoto ou mostrar-lhe alguns dos brinquedos que tinha no gabinete.

Todavia, achámos estranho que a porta do gabinete do médico se mantivesse fechada durante mais de dez minutos. Quando abriu a porta para dar passagem ao Ryan, não pudemos deixar de reparar no ar apreensivo do médico.

- O que é que se passa? - indaguei. Conhecia bem o médico; havia meses que vinha ao consultório dele na qualidade de delegado de propaganda médica e considerava-o um bom amigo.

- Estive uns minutos com o Ryan, a ver umas coisas...

Fez uma pausa e respirou fundo. Olhou para o Ryan e depois para nós.

- Penso - disse lentamente - que o Ryan pode ser autista.

Penso que o Ryan pode ser autista.

Tudo o que a Cat e eu pudemos fazer foi olhar para o médico. Senti um nó no estômago e, de repente, pareceu-me ter dificuldade em respirar. O sangue desapareceu das faces da Cat e as paredes da sala pareceram avançar sobre nós. O Ryan mantinha-se ao nosso lado, de expressão parada e olhos fixos algures. Sabíamos que não falava, a nossa preocupação até nos levara a chamar a atenção do pediatra, mas ele conseguira convencer-nos de que não havia motivo de alarme. Fora-nos dito que era uma fase. Que o nosso filho ficaria bem.

Mas, aquilo?

Eram, ainda hoje penso assim, algumas das mais assustadoras palavras que os pais poderiam ouvir. Ambos sabíamos o que era o autismo. Quem é que não viu o filme Encontro de Irmãos? Ou não leu artigos sobre autismo em revistas ou viu programas sobre o assunto na televisão? Olhei para o Ryan. Não era o nosso filho? O nosso menino? O nosso bebé?

Não, pensei de imediato, o médico estava enganado. O Ryan não era autista. Não podia ser. Era saudável. Não ia acreditar numa coisa daquelas. Não podia acreditar. Mas... Lá no fundo, eu sabia que havia qualquer coisa que não estava bem. Tanto a Cat como eu o sabíamos havia muitos meses. Mas nunca imaginámos que se tratasse de uma situação tão grave. Não podia ser aquilo. “Oh!, não. Por favor, meu Deus, isso não!”

- O que é que quer dizer? - gaguejei.

- Trata-se de um distúrbio...

- Eu sei o que é. Mas, porquê?... Como...?

Pacientemente, o médico explicou as conclusões a que tinha chegado enquanto estivera fechado no gabinete. Ausência de contacto visual. Ausência de entendimento. Incapacidade em falar. Concentração intensa em objectos coloridos. Ausência de aptidões motoras.

Sentíamos um torpor ao ouvi-lo. Já sabíamos tudo aquilo; conhecíamos o nosso filho. Só não sabíamos o significado.

- Será capaz de recuperar?

- Não sei.

- O que é que devemos fazer?

- Precisa de ser examinado. Na cidade existe um centro de análise do desenvolvimento; eles poderão esclarecer melhor as vossas dúvidas.

Já em casa, a Cat e eu demos connosco de olhos fixos no Ryan, que estava calmamente sentado na sala, e sentimo-nos levados por uma enorme onda de emoções.

Negação. Culpa. Cólera. Medo. Desamparo.

Passámos o resto da tarde à procura de razões para acreditarmos naquilo que o médico nos tinha dito e de razões para não acreditarmos. Falámos do Ryan e naquilo em que tínhamos reparado ao longo dos meses. Andámos para trás e para diante durante horas, a falar, a preocupar-nos, a chorar, sentados ao lado do Ryan, querendo convencer-nos de que não havia nada de errado nele, mas sabendo que, de certo modo, havia. Tendo esperança. Orando. Suplicando.

Naquela noite, quando liguei para o Micah, mal consegui explicar-lhe o que tinha acontecido. As mãos tremiam-me quando peguei no auscultador. Sentia a garganta seca e não consegui dizer as palavras sem chorar.

- Jesus! - exclamou Micah. - Tens a certeza?

- Não. Não temos a certeza seja do que for. Terá de ser examinado.

- O que é que pretendes que eu faça?

Comecei a chorar.

-Micah... eu...

- Queres que vá aí? Ajudar-vos a ultrapassar esse momento? Queres que me informe sobre a pessoa que deves consultar? Farei tudo o que for preciso.

- Não - respondi. - Deixa-te estar. Ainda não sabemos o que fazer.

- Sinto que devia fazer qualquer coisa.

- Olha, reza pelo Ryan, está bem? Podes fazer isso por ele?

- Vou rezar por todos vós - prometeu. - Vou começar a rezar

agora mesmo.

 

Dos dois meses seguintes só me recordo de um sentimento, umas vezes importuno outras esmagador, de preocupação com o meu filho. Por vezes, não conseguia pensar em mais nada; em outras alturas, quando estava a fazer qualquer outra coisa, de súbito, tinha uma sensação esquisita de que algo estava... errado para, passados momentos, me aperceber de que, sem querer, estava a pensar no meu filho.

O pavor. Tinha penetrado na nossa casa, tinha-se infiltrado por todos os recantos e fendas das nossas vidas.

A Cat passou as semanas e os meses seguintes a levar e a trazer o Ryan, a consultar diversos médicos. Havia longas listas de espera, precisámos de seis semanas para termos uma avaliação inicial e recordo-me de estar no gabinete do médico, à espera das palavras que não desejava ouvir.

- Embora tenha 30 meses de idade, neste momento mostra o

desenvolvimento e as aptidões de uma criança de 14 meses. E existem

outros problemas. Ausência de contacto visual, por exemplo.

- O que é que está a pretender dizer-nos?

- Penso que há uma possibilidade muito forte de ele ser autista.

- E vai recuperar?

- Não sei.

- O que é que podemos fazer em casa?

- Não sei.

Nunca obtínhamos respostas. Contudo, em cada nova consulta de avaliação, recomendavam um novo exame. Outra espera de seis semanas; uma vez mais, não conseguíamos pensar em mais nada até que chegasse o dia.

Na segunda avaliação, em finais de Abril, depois de três longos meses de preocupações, encontrávamo-nos sentados no gabinete de outro médico, que folheou o processo do Ryan, antes de olhar para nós.

- Lamento - começou, - mas penso que talvez tenhamos cometido um erro. Não cremos que o Ryan seja autista, embora possa apresentar traços autistas.

- Isso significa o quê?

- Pensamos que ele pode sofrer de uma perturbação pervasiva do

desenvolvimento.

- Nesse caso, poderá ter cura?

- Não sei.

- Há alguma coisa que possamos fazer?

- Não sei. No entanto, para já, julgo aconselhável outro exame.

Um exame especializado à audição. Queremos ter a certeza de que ele

ouve os sons correctamente.

Passou mais um mês. Outro período de preocupações. Outro

exame. Outra consulta com um médico.

- Lamento, mas admito que estivéssemos enganados. Não pensamos que o Ryan sofra de perturbação pervasiva do desenvolvimento.

- Então sofre de quê?

- O Ryan - acrescentou o médico - é profundamente surdo.

Olhei para o médico.

- Nesse caso, por que motivo volta a cabeça quando se liga o ar

condicionado?

- Ah sim, ele faz isso? - perguntou o médico. - Bom, então

temos de lhe fazer outro exame.

Exames. É tudo o que sabem recomendar.

Fez-se um novo teste de audição, um exame ao ouvido interior.

Um mês depois, voltámos a falar com o médico.

- O senhor tinha razão - admitiu ele. - O Ryan ouve.

- Então, o que é que se passa?

- O problema com o seu filho é ele ser profundamente atrasado,

com a síndroma do défice de audição.

- Não é nada atrasado - redargui. - É esperto. Recorda-se de

tudo.

Sem saberem o que fazer, recomendaram mais um exame.

Depois disso, no exame seguinte, voltaram ao autismo, embora o

caracterizassem como fraco. Na consulta seguinte, fizeram a agulha

para o diagnóstico de perturbação pervasiva do desenvolvimento. Dito de outra forma, ninguém sabia o que se passava com o nosso filho. Ninguém era capaz de nos recomendar qualquer modo de agirmos. Ninguém sabia dizer-nos se ele poderia melhorar. Ninguém era capaz de nos dizer fosse o que fosse.

A minha mulher vivia a luta quotidiana com maior intensidade do que eu. Durante o dia, enquanto eu ia trabalhar, era ela que levava o Ryan de uma avaliação para outra; à noite, era ela quem tomava conta dos miúdos para eu ficar a escrever. Contudo, no pouco tempo que tinha livre, comecei a colher informações acerca das perturbações do desenvolvimento infantil. Li um livro, depois outro e mais outro. Num par de meses tinha lido quarenta livros, que abrangiam todo o leque de perturbações possíveis, mais umas duas centenas de relatórios clínicos que estabeleciam diversas terapias. Era a minha maneira de lutar, de lidar com o desconhecido, de tentar encontrar uma maneira de compreender o meu filho. Andava à procura de qualquer coisa, da ponta do fio que me pudesse levar à resposta.

No final de Agosto, o Ryan celebraria o seu terceiro aniversário. A última avaliação mostrava pouca, ou nenhuma, melhoria. Agora, em vez de ter as aptidões próprias de uma criança de 14 meses, tinha as aptidões próprias de uma criança de 15 meses.

Por outras palavras, depois de oito meses de correrias de um consultório médico para outro, e depois de dezenas de exames e de avaliações, o Ryan estava ainda mais afastado do seu grupo etário do que estava quando descobrimos que ele tinha um problema. E continuava a não falar.

Por maiores que fossem as minhas preocupações, continuei a vender produtos farmacêuticos durante o dia e, chegado ao princípio do Verão, tinha começado a trabalhar num segundo romance. A trabalhar durante o serão e a inspirar-me nas lutas do meu pai com os desgostos, comecei a escrever As Palavras Que Nunca Te Direi. A escrita era uma espécie de válvula de escape, pois, enquanto escrevia, deixava de pensar no Ryan.

O Micah e eu tivemos contactos frequentes durante os primeiros meses de 1996. Era com o meu irmão que eu falava dos meus medos e ele estava sempre pronto a ouvir-me. Ao mesmo tempo, o Micah estava a progredir na vida. Em Abril de 1996, telefonou-me a informar que decidira pôr termo à sua carreira no negócio imobiliário.

- Estou a pensar comprar uma empresa - informou-me, pelo telefone.

- De que género?

- Um empresa industrial. Armários para garagens, conjuntos de estantes e armários para armazenagem e exposição e sistemas informáticos pessoais.

- O que é que sabes acerca disso?

- Nada. Mas o proprietário actual ensina-me.

- Boa ideia.

- Há só um pormenor.

- Qual é?

- Podes emprestar-me algum dinheiro? Estarei em condições de

te pagar dentro de alguns meses.

Depois de ele me dizer a soma, só tive uma ligeira hesitação.

- Podes contar com isso.

- Obrigado. - Depois, numa voz mais calma, perguntou: - Como é que está o Ryan?

Em toda a família, o Micah era a única pessoa que nunca se esquecia de perguntar.

Todavia, houve dois motivos de satisfação durante a primeira metade de 1996. Uma vez mais, a minha irmã passou triunfante pelo exame radiológico e parecia perfeitamente saudável. Em vez de cansada, como seria normal em quem tinha de tratar de dois gémeos com dois anos, mostrava-se alegre e raramente falávamos da saúde dela.

Também o meu pai, finalmente, parecia ter encontrado o seu caminho. À medida que o ano de 1996 avançava, falava menos do cão e começou a abrir-se mais acerca da mulher com quem tinha uma relação. Também falava do trabalho - o trabalho era a única parte da vida em que ele continuava a funcionar com normalidade - e, chegado o Verão, começou a ouvir as minhas súplicas para que voltasse a falar com a família.

- Eles sentem saudades de si. Estão preocupados consigo.

- Eu sei - admitiu. - E vou voltar a falar com eles. Mas, primeiro, tenho de me preparar.

Julgo que a hesitação do meu pai tinha mais a ver com o medo da maneira como a sua tentativa de reconciliação poderia ser recebida do que com a cólera que ainda pudesse sentir. Acabou por pôr de lado todos os receios e telefonou ao irmão. Mais tarde, o tio Monty disse-me que o meu pai fora praticamente o único a falar, que se tinha embrulhado um pouco, mas, terminado o telefonema, tinha chorado. Adorava o irmão, sentia a falta dele e havia muito que queria ouvir o som da voz do meu pai, embora naquele caso se tratasse mais de um discurso do que de uma conversa. Fora um passo que o meu pai tinha de dar, não só pelo irmão mas também por si próprio; à medida que o Verão avançava, foram falando com maior frequência. Depois de saber o que se tinha passado, disse ao meu pai que sentia orgulho nele e, pela primeira vez, ele pareceu sensibilizado com as minhas palavras.

- Adoro-o, papá - sussurrei.

- Eu também te adoro.

Duas semanas mais tarde, telefonou para me dar outra notícia.

- Vou-me casar - anunciou.

 

- Nick, tu vais gostar dela - disse-me o Micah, pelo telefone. Tinha feito a chamada para saber a opinião dele acerca da mulher

com quem o nosso pai ia casar. Nunca a vira, ao contrário do meu

irmão. - E acho que será boa para o papá.

- Ele parece mais feliz.

- Penso que está - concordou o Micah. - Na semana passada,

até foi ver a Dana e os gémeos.

- É bom sinal. Já passaram sete longos anos desde a morte da mamã.

- Pois é. Pobre homem, começava a duvidar de que ele conseguisse ultrapassar a situação. Sabes que telefonou ao tio Monty?

- Sei. Estou contente. Ele precisa da família. Sempre precisou.

Como é que vai o teu negócio?

- É duro. Tenho trabalhado dia e noite, mas estou a ver resultados. As vendas têm aumentado todos os meses.

- Parabéns.

Fez uma pausa.

- Há ainda outra coisa.

- O que é?

- Penso que finalmente encontrei a minha Cathy - anunciou. - Mas chama-se Christine.

- A sério? Fantástico!

- Nick, acho que vais adorá-la.

- Parece que o caso é sério.

- É sério.

- Pois, mas é sério o quê? O casamento ou o Micah?

- As duas coisas.

Arregalei os olhos. Se ele não queria fazer espírito sobre o caso, percebi que já obtivera a resposta.

- Óptimo, isso é bom para ti. Ardo em desejos de a conhecer.

 

Dois dias depois de o meu pai me anunciar que ia casar-se, e um mês antes da publicação de O Diário da Nossa Paixão, vimos, em casa, o programa 48 Hours, da CBS. Um dos produtores do programa, Andrew Cohen, tinha lido uma cópia provisória do livro no princípio do Verão e decidira fazer um programa com o título “The Making of a Best Seller”. Para além de me filmar, também andaram todo o Verão a filmar na Warner Books: assistindo a reuniões de marketing, entrevistando Larry Kirshbaum, presidente-executivo da Warner Books, Maureen Egen, a presidente, e Jamie Raab, o meu editor, para além de filmarem uma tertúlia literária (composta de desconhecidos) que discutiria o romance.

Vieram a minha casa numa quinta-feira; dois dias depois, no sábado, eu devia estar em Los Angeles para assistir ao jantar da Southern California Booksellers Association [Associação dos Livreiros do Sul da Califórnia], que seria o primeiro evento promocional da minha carreira.

Eu estava, como é fácil de imaginar, numa pilha de nervos.

O produtor e a equipa chegaram ao princípio da manhã e estiveram comigo durante todo o dia.

Filmaram-me na vida normal de casa e a trabalhar, a pivot Erin Moriarity, fez-me várias entrevistas durante o dia sobre o processo de escrita e sobre a hipótese de o livro vir a ser um êxito. Embora Erin e Andrew tivessem saído no final da tarde para apanharem o avião para Nova Iorque, a equipa de filmagens ficou lá em casa para obter mais algumas imagens do meu trabalho num novo romance. Cerca das 21 horas, comigo a olhar para a câmara e a escrever no computador, a Cathy entrou no escritório com o telefone na mão.

- É o Micah - anunciou.

- Não podes dizer-lhe para voltar a ligar daqui a cerca de meia hora?

- Quer falar contigo agora mesmo - respondeu. - É importante.

- O que é?

- Não sei. Mas parece preocupado.

Peguei no telefone e senti as câmaras todas viradas para mim.

- Olá, Micah. O que se passa?

- É o pai - respondeu. Falava em voz baixa e confusa.

- O que é que lhe aconteceu?

- Recebi uma chamada de uma esquadra de Polícia, de perto de Reno. Teve um acidente com o carro. Acabei de falar com o hospital para onde o levaram.

Ouviu-o respirar fundo. Sabia que não devia dizer nada. Só se ouvia o rodar das bobinas das câmaras do programa 48 Hours.

- Nick, ele morreu - disse o Micah, com voz calma.

- Quem? - perguntei, embora já soubesse a resposta.

- O pai. O nosso pai morreu há uma hora.

Fiquei petrificado. Os olhos velaram-se-me de lágrimas no mesmo instante em que o Micah começou a chorar.

- A Dana e eu vamos para lá - acrescentou o Micah. - Acabei de falar com ela e vou buscá-la. Sei que está morto, mas temos de ir vê-lo.

- Oh... Micah...

- Eu sei... Tenho de ir...

Desliguei o telefone. A Cat não tirou os olhos de mim enquanto durou a conversa.

- O que foi? - perguntou.

Contei-lhe. A minha mulher desatou a chorar e abriu os braços para me abraçar. Por detrás de nós, a câmara de filmar parou. Apercebi-me de que tudo ficara registado em filme, mas os operadores de câmara foram suficientemente sensíveis para arrumarem as suas coisas e saírem.

 

Fiquei a pé durante a maior parte da noite, a conversar com a Cat e a chorar. A meio da noite, o meu irmão telefonou para dizer que ele e a Dana estavam no hospital e já tinham visto o corpo do pai.

- Não posso acreditar que partiu - lamentou o Micah. Estava claramente afectado. - Ainda falei com ele na noite passada, agora não voltarei a falar.

- Como é que a Dana está a reagir?

- Terrível. Ainda não parou de chorar desde que aqui chegámos, mas vamo-nos embora dentro de minutos. Quero dizer... não sei o que mais posso fazer.

- Gostaria de estar agora convosco.

- Eu também gostaria que estivesses - respondeu. Fez uma

pausa. - Quando é que estarás disponível?

- Não sei. Logo que possa. Neste fim-de-semana, tenho de ir a

Califórnia para um jantar de livreiros, mas posso cancelar... Meu

Deus, ainda não consigo acreditar.

- Parece irreal, não parece?

E ambos recomeçámos a chorar.

O Micah voltou a telefonar pela manhã. Conversámos e notei que estava mais calmo.

- Nick, tenho estado a pensar na tua viagem de promoção - acabou por dizer.

- Eu também.

- Vais continuar com o plano inicial, não vais?

- Duvido. Como é que posso?

- Tens de continuar - aconselhou, com voz mais grave.

- Não me parece certo...

- O papá sentiria orgulho por teres escrito o livro - atalhou. - Seria o primeiro a insistir que fosses. Saberia avaliar quanto essa viagem de promoção é importante. É o teu primeiro livro. Talvez seja a tua única oportunidade.

- Mas... não sei se consigo.

- É claro que consegues. Vais conseguir. Sei que amavas o pai e ele sabe que o amavas. Ele também te amava. Mas tens também de ter em conta a tua família. Tanto a mamã como o papá gostariam que fosses.

Depois de desligar, fiquei a reflectir sobre o que ele me tinha dito. O Micah tinha, e não tinha, razão. Compreendi as razões dele, mas, ao mesmo tempo, achei que estava a ser... insensível. Era como se tentasse escolher entre os meus sonhos de futuro e o respeito pelo meu pai. Se ficasse em casa, alguma vez me seria dada outra oportunidade? E isso interessava?

E se decidisse ir, aconteceria o quê? Se alguém me perguntasse se estava a apreciar a viagem, se estava excitado com o que estava a acontecer-me, que diabo é que eu poderia responder?

Uma pergunta sem resposta fácil.

Discuti o assunto com a Cat, com a Dana e novamente com o Micah, e com outras pessoas da família. Falei com a minha agente, com o homem das relações públicas, com o editor. Todos me disseram que podia cancelar a viagem, se assim o entendesse. Afinal, embora com relutância, decidi ir. No entanto, fi-lo com um enorme sentimento de culpa. Não conseguia afastar a ideia de estar a ser desrespeitoso para com a memória do meu pai.

Andrew Cohen, o produtor do programa, falou comigo logo depois. Consternado, expressou sinceras condolências e eu pedi-lhe que não usasse a parte do filme em que era anunciada a morte do meu pai. Ambos sabíamos que o programa atingiria níveis mais elevados de audiência se aquela parte fosse transmitida, mas o Andrew não hesitou e decidiu que as imagens seriam arquivadas. Apesar da angústia provocada pela morte do meu pai, deparei, uma vez mais, com a bondade das pessoas.

Viajei para a Califórnia com um nó no estômago e consegui assistir ao jantar. Do serão só me ficou uma sensação de desencarnação, como se observasse o que estava a acontecer através dos olhos de qualquer outra pessoa. Faziam-me perguntas sobre o novo livro e eu respondia automaticamente, a dizer as coisas que se esperava que dissesse. Porém, enquanto falava só conseguia pensar na morte do meu pai, julgava tudo aquilo errado e ansiava por me juntar aos meus irmãos.

 

A semana que se seguiu ao jantar foi passada em Sacramento, na companhia dos meus irmãos. O Micah e eu ficámos na casa da família, que, de súbito, se assemelhava a uma simples concha vazia. Ao mesmo tempo, nada parecia ter mudado. Havia uma chávena de café em cima da bancada da cozinha, leite fresco no frigorífico. A correspondência continuava a chegar e a que o Micah trouxera para dentro já formava uma pilha em cima da mesa. A relva estava aparada de fresco. Era fácil imaginar que o nosso pai chegaria dentro de minutos, ou até que a mamã se encontrava na cozinha a preparar o jantar. As memórias dos dois continuavam vivas e, enquanto percorríamos juntos todas as divisões da casa, nenhum de nós sentiu necessidade de falar.

Sentia-me exausto. A mãe. A irmã. O pai. O filho mais novo. Demasiadas preocupações para tão pouco tempo. O Micah mostrava uma expressão tão cansada quanto a minha.

Tratámos do funeral. As pessoas de família começaram a chegar. Toda a gente em estado de choque e o tio Monty não conseguia deixar de chorar. Nem nós.

O nosso pai foi sepultado perto da mulher e juntaram-se as mesmas pessoas que, sete anos antes, tinham vindo assistir ao primeiro enterro. O tio Jack falou antes do corpo ser descido à sepultura e fez o mais simpático elogio fúnebre que me recordo de ter ouvido. O afastamento tinha magoado a maioria dos familiares, mas estes não tinham deixado de gostar do meu pai. Junto à campa, a Cat e eu demos as mãos, como fizeram o Bob e a Dana, o Micah e a Christine.

Enquanto assistia ao funeral, pensei o seguinte:

“O meu pai foi um bom homem. Um homem gentil. Mas a morte da mulher magoou-o e a doença da filha também. Passou os sete últimos anos de vida a combater a tristeza, num mundo que passara a ser estranho para ele. Sim, muitas vezes deixou-se dominar pela cólera; e também pela amargura. Mas era o meu pai e tinha ajudado a criar os filhos. E não só o respeitava por isso, como também o amava. Tinha estimulado a nossa independência, mostrara-nos o valor da educação e ensinara-nos a encarar o mundo com curiosidade. Mais importante ainda: ajudara-nos, aos três, a sermos bons irmãos, o que eu considero a melhor de todas as dádivas. Não podia exigir mais de um pai. Quem poderia, na verdade?”

Pouco depois, o Micah, a Dana e eu encontrámo-nos os três defronte da urna, de braços entrelaçados, para dizermos um último adeus. Já estávamos a sentir saudades. Com o dia a chegar rapidamente ao fim, estávamos juntos e simultaneamente sós, como os irmãos órfãos se sentem sempre.

 

Depois do funeral, eu e a Cat ficámos mais uns dias na Califórnia. O Miles já tinha idade suficiente para perceber o que tinha acontecido; o Ryan não entendia o que quer que fosse.

Naquele ano, a Cat e eu cerrámos fileiras sempre que se tratava da doença do Ryan. Acreditávamos que só ela e eu percebíamos até que ponto aquele ano constituiu um desafio e, naqueles primeiros tempos de luta, dividimos as pessoas em dois grupos: o dos bons e o dos maus. Os que eram simpáticos para o Ryan e aqueles que o ignoravam.

Vivíamos na ilusão de que ele era uma criança como as outras. Não se ria muito, não olhava para as pessoas que falavam com ele, nem percebia o que elas estavam a dizer-lhe. No entanto, a única coisa que queríamos para o Ryan era que ele fosse aceite.

Era um menino amoroso. Uma criança simpática. E quem tivesse paciência, e se esforçasse, podia apreciar as brincadeiras com ele. Mas ninguém, para além da Cat e de mim, tentou esse esforço. Ao contrário do Miles, o Ryan não tinha amigos; ao contrário do que sucedia com o Miles, nenhum dos filhos dos vizinhos queria brincar com ele. Ao contrário do Miles, nunca era convidado para festas de aniversário. Ao contrário do que sucedia com o Miles, ninguém procurava falar com ele. Os adultos, infelizmente, comportavam-se de modo semelhante. Na maioria das situações limitavam-se a ignorá-lo, mas por vezes era pior, pois consideravam a falta de interesse da criança uma ofensa pessoal. “Não gosta de mim”, diziam alguns dos vizinhos. Durante a semana, até alguns familiares pareciam ignorá-lo - juntando mais alguma tensão a uma semana já de si tensa. A Cat e eu tínhamos de morder a língua para não gritarmos: “É preciso tentar!”.

Na verdade, o que queríamos dizer era: “Por favor, alguém que tente. Amamo-lo tanto e não fazem ideia de quanto nos preocupamos com ele”.

Embora dividíssemos as pessoas em dois grupos, guardávamos estas reflexões para nós. Tínhamos tratado os problemas do Ryan sem ajuda e assim continuaríamos a fazer. Não pretendíamos que as pessoas tivessem pena dele ou de nós; queríamos que amassem o Ryan como nós o amávamos. Mesmo que ele não fosse perfeito.

Dois dias depois do funeral, a Cat e eu fomos comprar uns géneros de mercearia. O Micah oferecera-se para ficar com o Miles e com o Ryan e, quando saímos, deixámo-lo no escritório, a folhear uns papéis do nosso pai. Contudo, ao regressarmos, o Micah já não se encontrava sentado à secretária.

Estava na sala, entregue a uma divertida luta com o Ryan e, mais importante do que isso, o meu filho ria às gargalhadas. Às gargalhadas.

Um som incrível, que não seria mais alegre se tivesse sido enviado pelo próprio Céu; tudo o que pudemos fazer, a Cat e eu, foi ficar a ver.

- Olá, malta! - exclamou o Micah, como não se passasse nada de extraordinário, - estávamos só a brincar um pouco.

O Micah não precisara que lhe dissessem como a Cat e eu nos sentíamos. O Micah já sabia.

 

A viagem de promoção do livro durou três meses. A Cat ficou sozinha com os filhos, a ter de transportar o Ryan de um consultório médico para outro, e aquele ano de exaustão estava a provocar estragos no nosso casamento.

A tensão entre mim e a Cat não teve nenhuma causa específica; em grande parte derivava do facto de, como casal, quase desde o momento em que disséramos o “sim”, termos sido obrigados a saltar de uma crise para outra. Em vez de ser um estado de felicidade permanente, a nossa vida de casados talvez tivesse mais a ver com uma versão maldosa de um campo de manobras; as emoções teriam de ser canalizadas para qualquer lado. No meu caso, foram canalizadas para a Cat e, no caso dela, foram canalizadas para mim. O nosso matrimónio estava já a sofrer uma pressão tremenda quando os problemas do Ryan se tornaram o ponto de ruptura.

Embora as minhas preocupações fossem tremendas, não eram nada comparadas com as da minha mulher. Julgo ser algo que tem a ver com a maternidade. Trata-se de uma resposta quase instintiva; trouxera o Ryan no ventre, tinha-o alimentado em bebé, e, enquanto eu trabalhava fora de casa, fora ela quem tivera de cuidar dele em cada minuto de cada dia.

Com a aproximação da quadra festiva do Natal, parecíamos incapazes de desfrutar a presença do outro da forma que nos era habitual. Também discutíamos mais. Sabia que a minha mulher não merecia um período de descanso, ela precisava de um período de descanso. Tinha estado de serviço permanente durante os três meses em que eu andara a viajar e, chegado o Natal, dei-lhe de presente uma viagem ao Hawai. Ela passaria uma semana com uma amiga, eu ficaria em casa a tomar conta dos filhos.

Uma solução que poderá parecer esquisita a algumas pessoas (se estávamos com problemas, não seria melhor que fôssemos ambos?), mas a resposta é fácil. Alguém teria de ficar em casa a cuidar do Ryan. Não havia família próxima que pudesse ajudar, nem vizinhos desejosos de serem prestáveis, ninguém, de facto, a quem o confiar durante uma semana. Se a minha mulher precisava de usar a viagem para se descontrair, eu teria de ficar em casa. E foi o que fiz.

Contudo, enquanto ela estava ausente, embrenhámo-nos numa discussão, através do telefone. Foram trocadas palavras azedas, nenhum de nós tratou o outro muito bem e berrámos acusações. Finalmente, a Cat fez com que me calasse.

- Escuta - acabou por me dizer. - Sei que tiveste um ano difícil. Mas queres saber como é que foi o meu ano? - perguntou, antes de fazer uma pausa para tomar fôlego. - Acordo todas as manhãs a pensar no Ryan. Olho para o meu lindo filho, um filho que amo mais do que a própria vida, e pergunto a mim mesma se ele alguma vez terá um amigo. Pergunto a mim mesma se chegará a falar, a ir para a escola, ou a brincar como as outras crianças. Pergunto-me se alguma vez terá uma namorada, ou carta de condução, ou se irá ao baile de finalistas. Até me pergunto se virá a casar-se. E passo os dias ao volante, a levá-lo de um médico a outro, sem que qualquer deles consiga dizer-me o que se passa, sem que me digam o que devo fazer. O meu filho vai fazer quatro anos dentro de pouco tempo e nem sei se ele me ama. Penso nisto quando acordo, penso nisto durante todo o dia e penso nisto quando me vou deitar. Por causa dele, acordo a chorar a meio da noite - prosseguiu, prestes a perder a voz. - O meu ano foi todo assim.

Quando ela terminou fiquei sem saber o que havia de dizer. Estava, é claro, preocupado com o nosso filho. Porém, e dói-me ter de admiti-lo, as minhas preocupações não eram como as dela. Eu tinha distribuído as minhas preocupações entre o Ryan, o meu pai, a Dana e o meu romance, enquanto ela as concentrou no nosso filho. Elas tinham-se tornado todo o seu mundo.

Era a primeira vez que me apercebia da profundidade do desespero

que a Cat estava a suportar e senti náuseas por ter sido eu a iniciar a

discussão.

- Desculpa - implorei, em voz baixa. - Não fazia ideia de como estavas a sentir-te.

Senti-a torcer o nariz do outro lado do fio.

- Amor? - sussurrei.

- O que é?

- Um dia fiz o voto de te amar para sempre, agora acho que chegou a altura de fazer um outro. Prometo, juro, que vou curar o nosso filho.

No dia seguinte, como o Miles estava a passar o dia em casa de um vizinho, fui aos armazéns Wal-Mart e comprei uma mesa e uma cadeira baixas. Comprei o conjunto porque tinha um cinto de segurança com o qual podia prender o meu filho à cadeira. Depois, armado com todos os conhecimentos adquiridos nas leituras do ano anterior, prendi o Ryan à cadeira, abri um livro com gravuras e apontei para a fotografia de uma maçã; a segurar um pedacinho de chocolate na outra mão, a recompensa, disse, em voz alta, a palavra Maçã. Depois repeti-a. Outra vez. Mais outra vez.

Maçã. Maçã. Maçã. Maçã. Maçã. Repeti a palavra, a desejar que o meu filho falasse. Não sabia de nada que alguma vez tivesse desejado com mais fervor; concentrei-me, limitei-me, todo o meu mundo se centrou no meu filho e na sua capacidade de dizer uma simples palavra.

Passados poucos minutos, o Ryan mostrou-se aborrecido. Depois, começou a mexer-se e a ficar agitado. Passados mais alguns minutos, começou a chorar, a tentar libertar-se da cadeira. Depois do choro, veio a cólera. Uma cólera furiosa. Gritou e agitou os punhos, tentou arrancar os cabelos. Procurou arrancar a pele dos braços com os dentes. Uivou e gritou como se estivesse possesso.

Agarrei-lhe as mãos, mantive-as espalmadas no tampo da mesa para evitar que ele se ferisse, e disse:

- Maçã. Maçã. Maçã.

Uma e outra vez. E ele gritava, gritava, gritava. E eu voltava ao princípio. E ele voltava a gritar.

Passadas duas horas conseguiu dizer me.

Depois de quatro horas, conseguiu dizer ma.

Passadas seis horas, seis horas de gritos frustrantes, de partir o coração, o meu filho conseguiu dizer, num fio de voz: maça.

Maçã.

Fiquei um bom bocado a olhar para ele. Tinha sido um trabalho tão longo, tão cansativo, que cheguei a duvidar de que ele conseguisse. Pensei não ter ouvido bem e repeti a palavra uma vez mais. Ryan repetiu-a também e, logo que o fez, levantei-me de um salto e comecei a dançar à volta da sala, a pular de alegria. Fui até junto do Ryan e abracei-o; embora não correspondesse ao meu gesto de afecto, voltou a dizer a palavra.

Só então comecei a chorar.

Ouvir o som da voz dele, a sua voz, sem choros, grunhidos ou gritos, era de perder a respiração. Era a voz dos anjos, agradável como a música. Mas, mais importante do que isso, subitamente eu soube que o Ryan podia aprender. E depois percebi que aquele tinha sido o maior feito de toda a minha vida. A Cat e eu tínhamos passado mais de um ano a tentar perceber o que devíamos fazer com o Ryan, se ele teria possibilidades de melhorar, e, ao ouvi-lo dizer uma simples palavra, eu soube que a possibilidade existia.

Aquela palavra deu-me esperança; até chegar o momento, não me tinha apercebido de que a perdera totalmente.

Não tinha ilusões de que seria fácil trabalhar com o Ryan e de que ele iria mostrar melhorias imediatas. Sabia que o caminho iria ser longo e frustrante, mas ele era meu filho.

O meu filho podia aprender.

Sabia que tinha de percorrer com ele cada passo do caminho, por mais longo que ele fosse. Tomando o seu pequeno rosto nas minhas mãos, e embora soubesse que ele não me entenderia, sussurrei:

- Tu e eu vamos levar isto até ao fim, está bem? Não vou desistir, nem deixar que tu desistas. E vais ficar óptimo.

No dia seguinte, trabalhei com o Ryan durante mais seis horas e nessa noite telefonei à Cat, de férias no Hawai. Voltei a pedir-lhe desculpa pela nossa discussão e passei o telefone ao Miles para ele poder falar com a mãe. Quando voltei a pegar no auscultador, disse, como por acaso:

- A propósito, o Ryan tem uma coisa para te dizer.

Pus o auscultador junto da orelha dele, peguei num pedaço de chocolate e mostrei-lhe o que pretendia que ele dissesse. E ele disse para o bocal:

- Gosto ti.

Gosto de ti. Foram as primeiras palavras que Cat ouviu da boca dele.

Nessa noite, tomei a decisão de deixar o meu emprego de delegado de propaganda médica, mas também percebi a necessidade de ter um segundo emprego. Para além de escrever os meus romances, durante os três anos seguintes trabalhei com o Ryan três horas por dia, sete dias por semana. E, no final, acabaria por ensiná-lo a falar, num passo lento, doloroso, de cada vez.

Não foi fácil. As melhoras do Ryan não foram rápidas. Tratou-se de um processo horrivelmente frustrante. Não foram dois passos para diante, um passo para trás; parecia mais um passo adiante, depois o regresso quase ao ponto de partida, a que se seguia andar para os lados durante algum tempo, depois o regresso a um ponto ainda mais atrasado do que aquele em que estávamos no início, para, finalmente, se registar um ligeiro avanço. Meses depois de termos começado, o Ryan começou a papaguear palavras; conseguia dizer quase tudo, mas não fazia ideia do que estava a dizer ou daquilo para que as palavras serviam. Para ele, não passavam de sons que lhe permitiam comer um pedaço de chocolate. Foram precisos muitos meses de esforços para o fazer compreender que a palavra maçã significava qualquer coisa.

Havia problemas de comportamento. Ausência de contacto visual. Deficiências motoras. Fobia aos alimentos. Treino para o ensinar a usar o bacio. A Cat e eu tivemos de trabalhar com ele todas estas áreas. Por exemplo: ele sentia verdadeiro terror de ir à casa de banho. Para que, finalmente, aprendesse a servir-se do bacio, tinha de o despir, de fazê-lo beber copo atrás de copo de sumo e ficar sentado com ele na casa de banho, a ensinar-lhe tudo, a despeito dos seus medos. Durante oito horas seguidas.

Embora o trabalho construtivo com o Ryan me consumisse três horas diárias, não quis que a experiência se ficasse pela simples conquista de objectivos. Logo, o meu trabalho com ele não se limitava à aprendizagem; uma hora diária era dedicada só às coisas que ele queria fazer. Brincávamos, dávamos passeios, coloríamos bonecos, tudo o que o fazia feliz.

Contudo, também não podia esquecer-me de que tinha outro filho. Recordava-me de, em criança, acreditar que a atenção era igual ao amor e, por isso, não queria que o Miles crescesse a sentir-se tão posto de lado como eu me sentira na idade dele. Também passava horas com o Miles, a fazer o que lhe agradava. Andávamos de bicicleta e batíamos bolas, ensinei as equipas de futebol dele, até acabámos por ter lições conjuntas de tae kwon do.

É verdade, os meus filhos tinham-se tornado uma segunda vocação.

 

Em Maio de 1997, regressámos a New Bern e começámos a remodelar a casa onde ainda vivemos. Tratou-se de um importante projecto de construção, que levou meses mas, na altura, a mudança e a remodelação, mais o stress que lhes estava associado, quase pareceram trabalhos simples.

A Cat e eu continuámos a trabalhar com o Ryan. Em Agosto, terminei o meu segundo romance: As Palavras Que Nunca Te Direi; mais tarde, a minha irmã telefonou a dizer que ia casar-se com o Bob. Pouco depois, também e o Micah e a Christine decidiram dar o nó. O negócio do Micah continuava a progredir e tinha até criado uma nova empresa que montava centros de diversão.

Embora a Dana voltasse a ter dores de cabeça, um problema que sempre a afectara, mesmo antes de lhe ser diagnosticado o tumor, as tomografias continuavam a dar resultados negativos. Tinham passado quase cinco anos desde a operação, um ponto em que tecnicamente se considerava curada. A Dana casou-se numa bonita cerimónia realizada no Hawai. Por um momento, um simples momento, tudo parecia correr bem no mundo da minha irmã. Conseguira a vida com que sempre sonhara; estava casada, tinha filhos e até um rancho onde mantinha os cavalos.

Depois, subitamente, ainda durante a lua-de-mel, a Dana sofreu uma nova convulsão. E quando regressou, a TAC mostrava qualquer coisa que deixara de mostrar havia alguns anos.

O tumor do cérebro da minha irmã estava de novo a crescer.

 

La Valetta, Malta 11 e 12 de Fevereiro

Nos dias precedentes, desde a manhã da nossa viagem a Agra, tínhamos passado um total de cinco horas a visitar o Taj Mahal e Lalibela. Entretanto, o tempo passado em voo era mais do dobro.

Graças a este abrandamento nas visitas e às horas de viagem acumuladas, tanto o Micah como eu nos sentíamos preguiçosos na altura em que aterrámos. No entanto, com o seu ar europeu, Malta despertou-nos de imediato.

A ilha apresentou-se deslumbrante, com as suas montanhas brancas a descerem para o Mediterrâneo. Desembarcámos sob um céu frio e claro de Inverno, sem nuvens; foi a nossa primeira paragem com temperatura baixa, pelo que, depois de envergarmos os blusões, seguimos em autocarros para cumprirmos o programa de visitas.

Por causa do número de pessoas fomos divididos em três grupos; o

nosso começava pelo Hipogeu, um complexo subterrâneo de templos descoberto em 1902, onde foram encontrados os restos mortais de setecentas pessoas. O complexo forma um labirinto, engloba câmaras dispostas em três níveis e desce a uma profundidade de 12 metros. Datando de cerca de 3600 a. C., o conjunto é bastante mais antigo do que as Pirâmides ou Stonehenge. É, com efeito, a mais antiga construção conhecida, de qualquer tipo, em todo o mundo, e foi escavada na rocha calcária graças ao uso das ferramentas mais simples, feitas de osso, sílex e outras rochas duras.

Juntamente com outros monumentos de Malta que visitámos - o templo Tarxien, com a mais antiga estátua de uma divindade, e os templos megalíticos de superfície, as mais antigas construções de pedra descobertas até hoje - o Hipogeu representa uma das primeiras civilizações avançadas da História. Contudo, não se sabe quem foi

o povo primitivo que a construiu, de onde veio, o que lhe aconteceu

ou para onde foi. Uma civilização que parece ter desaparecido tão misteriosamente como apareceu.

A despeito da história fascinante dos seus habitantes perdidos, foi a própria Malta que mais despertou a atenção do Micah. Ao seguirmos por estradas pavimentadas em que toda a gente obedecia às leis do trânsito (o que, naquela altura da viagem, já nos parecia estranho), reparei que ele sorria.

- Sabes o que é que isto me faz recordar? - perguntou.

- O que é?

- A minha viagem a Itália - respondeu. - Logo depois de ter acabado a universidade, quando eu e o Tracy andámos por aí de bicicleta. O aspecto era exactamente este. Bom, era parecido, pelo menos. Aquela viagem foi o máximo.

Fingi surpresa.

- Deveras? Explorar, conhecer novas gentes, andar na paródia? Não me parece nada próprio de ti.

Sorriu, sem dúvida a pensar nos velhos tempos do Mission Gang.

- Alguma vez te contei o que aconteceu quando chegámos à Europa?

Neguei com a cabeça.

- Ora bem, o Tracy e eu viemos de avião até Madrid, mas como tínhamos quilómetros de bónus em companhias diferentes, não fizemos a viagem juntos. Estava previsto que aterrássemos mais ou menos à mesma hora; porém, quando me dirigi à porta para o receber, verifiquei que ele não viera no avião. O problema era que o Tracy tinha tudo na mala dele: guia, moradas, mapas, até as ferramentas de que necessitava para montar a minha bicicleta de montanha. E estava num país estrangeiro. Ninguém falava inglês, eu não sabia ler os sinais, nem conseguia saber a quem devia perguntar a razão por que o Tracy não tinha chegado. Nem sequer fazia ideia da distância a que a cidade ficava do aeroporto.

- O que é que fizeste?

- Acabei por encontrar um tipo que falava inglês e me ajudou. Soube que o Tracy se tinha atrasado, perdera o avião e que chegaria no dia seguinte. Mas eu continuava sem ter para onde ir. Na altura, ainda não tinha cartão de crédito. Finalmente, encontrei dois mecânicos que me ajudaram a montar a bicicleta; depois que eles me indicaram a direcção da cidade, comecei a pedalar. Levei uma hora a chegar ao centro da cidade e continuava sem saber para onde ir, nem onde iria dormir. A certa altura, encontrei um Hard Kock Cate e, pensando encontrar alguma coisa em inglês, fui comprar comida. Daí em diante as coisas tornaram-se um pouco mais fáceis.

- Porquê?

Encolheu os ombros.

- Perguntei à empregada de mesa se queria sair comigo à noite. Portanto, fui namorar.

Um pouco mais tarde, o Micah voltou-se para mim. Tinha estado muito ocupado a filmar a viagem de autocarro; quando regressou a casa, dispunha de seis horas de gravações de vídeo que nunca chegaria a ver. Contudo, durante toda a viagem dir-se-ia que estava a preparar um documentário.

- Ei, Nick, alguma vez ouviste falar no Hipogeu?

Assenti.

- Li umas coisas.

- Não se trata de uma tumba?

- Em grande parte. Mas é a mais antiga até agora descoberta. Por isso é especial.

Pareceu perdido em reflexões.

- Sabes do que é que pretendo uma fotografia.

- De quê?

- Uma fotografia de mim deitado na tumba. Sabes, a fingir que

estou morto. Não achas que seria giro?

- Julgo que seria de muito mau gosto.

Fez um gesto com a mão.

- Mau gosto, giro, é tudo a mesma coisa.

Pobre do Micah! Não ia ter a mínima oportunidade de ser fotografado por entre o pó e os restos mortais microscópicos dos seres humanos sepultados, em tempos, no Hipogeu.

O Hipogeu mostrou-se totalmente diferente de todos os monumentos que visitáramos até ao momento. Para começar, localiza-se por debaixo de um edifício sem nada de notável no exterior. Poderia ser um restaurante, uma empresa ou uma casa de habitação, como os prédios que o flanqueiam dos dois lados; só soube que era um museu depois de ler as palavras inscritas nas portas envidraçadas.

Lá dentro, fomos recebidos por um guia de ar muito sério, que nos explicou o que iríamos ver. No essencial, o Hipogeu encontrava-se isolado para prevenir a degradação provocada pelos elementos. Devíamos descer a escada com cuidado para não batermos com a cabeça. Seríamos informados dos locais onde os restos mortais foram descobertos. Começaríamos por ver um pequeno filme sobre o local. As visitas duravam uma hora, tínhamos de nos manter juntos e de andar depressa. Devíamos evitar as interrupções, pois não havia tempo para responder às perguntas. Não seríamos autorizados a tirar fotografias. Se o fizéssemos, as máquinas fotográficas seriam confiscadas.

- O homem parece um guarda prisional - murmurou o Micah. - Nem vestígios de um sorriso.

- Quem? O “Senhor Amável”?

- Penso que está a tirar-nos as medidas, a tentar descobrir quem vai e quem não vai obedecer às normas.

- Julgo que ele sabe que fazes parte do segundo grupo. Não tira os olhos de ti.

- Sim, já notei isso mesmo. Para um tipo tão feliz, é realmente bastante perspicaz.

 

Fomos conduzidos a uma sala com ar condicionado, em que tudo dependia do computador e das câmaras de vídeo, para vermos o filme. Não tínhamos voto na matéria. O filme era obrigatório. O nosso guia estava atento.

Resumindo, durante os quinze minutos seguintes, aprendemos o seguinte: pouca coisa. Que ninguém sabia quem tinha construído o Hipogeu. Ninguém sabia por quê. Ninguém sabia o que aconteceu às pessoas que o construíram. Ninguém sabia de onde tinham vindo. Ninguém sabia os motivos por que tinha sido construído daquela forma. Ninguém sabia descrever a civilização a que pertencera. Tudo o que sabiam era que tinha sido construído muito antes das Pirâmides.

As luzes voltaram a acender-se.

- Por favor, sigam por aqui - anunciou o guia. - Vamos. Vamos, começaremos a visita dentro de um minuto. Não dispomos de muito tempo; por isso, tentem manter-se juntos. Não façam demasiadas perguntas que só servirão para nos atrasar.

E, com estas palavras, fomos conduzidos ao interior do Hipogeu que é, no essencial, uma caverna; não fomos autorizados a tocar em nada. Descemos por uma rampa que fora colocada quinze centímetros acima do chão e ouvimos o guia falar, sem interrupção, durante os quarenta minutos seguintes. Foi o que aprendemos. Não foi muito.

Tudo o que o homem dissera parecia tirado do filme.

Mesmo assim, andar por entre as ruínas mais antigas da humanidade foi um momento significativo. A que se deve acrescentar o ar grave com que o nosso grupo fez a visita. O guia conseguira intimidar toda a gente. É uma sensação algo irreal a de estar numa caverna com vinte pessoas, muitas das quais se haviam tornado nossas amigas, e não ouvir o mais simples sussurro durante um longo período de tempo. Tratou-se da visita mais silenciosa de toda a viagem.

Dali seguimos para as ruínas do complexo Tarxien, localizado em

plena baixa da cidade. Contudo, em vez de sermos obrigados a entrar

num edifício, desta vez fomos levados para um terreno vazio de

construções, em que estavam espalhadas algumas pedras de grandes

dimensões. Machu Picchu não era, de certeza.

- Então, é isto? - indagou o Micah.

- Vá lá, não protestes. Não é assim tão mau. Pelo menos, agora

podes usar a câmara de vídeo.

- Não há nada que filmar. Isto tem um ar... melancólico. Quanto

tempo é que devemos ficar aqui?

- Julgo que será uma hora.

- É muito tempo, tendo em conta que ninguém sabe seja o

que for.

Ele tinha razão; foi uma hora muito comprida, apesar de termos um novo guia, uma pessoa que, na verdade, parecia ter prazer em nos ver. Cada descrição começava com a frase “Penso que isto pode ser uma de duas coisas...”, ou “Não temos a certeza absoluta da utilidade disto... “.

Também começámos a ouvir com frequência a palavra “réplica”. Como: - Isto é uma réplica do pilar, que pensamos que deve ter sido importante porque...

Passados uns minutos, e depois de uma dúzia de “réplicas”, pelo

menos, o Micah levantou a mão.

- Está continuamente a usar a palavra “réplica” - observou.

- Pois estou - confirmou o guia. - Trata-se de uma réplica.

- Quer dizer que não é verdadeiro?

- Não, o verdadeiro pilar está no museu. A maioria das peças

descobertas foram removidas para o interior dos museus, para não

sofrerem mais danos.

- E todas essas coisas que acaba de nos mostrar?

- Também são réplicas. Mas foram trabalhadas de forma a parecerem exactamente as peças originais - esclareceu o resplandecente guia. - Não é espantoso?

- Quais destas ruínas são réplicas?

O guia olhou à volta.

- Quase tudo o que podemos ver. Mas podemos atestar o maravilhoso trabalho que fizeram - acrescentou. - Por exemplo: este muro pode ter tido uma de duas utilidades...

O Micah e eu não tardámos a perder o interesse. Na realidade, não estávamos a ver as ruínas do complexo de Tarxien, estávamos a olhar para... imitações. Era como se o Museu do Louvre nos mostrasse uma fotografia da Mona Lisa, em vez de nos mostrar o quadro original.

- Não quero crer que isto não seja real - continuou o Micah, a olhar à sua volta. - É como o cenário para um filme.

- Exactamente - acrescentei, - e, para te ser franco, nem é um cenário de grande qualidade.

 

Naquela noite ficámos livres para jantar e o Micah e eu escolhemos um restaurante perto do hotel, onde serviam piza e cerveja. Como acontecia sempre que estávamos juntos, demos connosco a recordar a infância.

- Recordas-te do Blackie? - perguntou o Micah.

- O pássaro do diabo? Como é que poderia esquecê-lo? Que lembrança...

Soltámos sonoras gargalhadas.

- Ou aquela vez em que carregámos tantos livros na carrinha que ela parecia rebentar...

- Ou quando fingimos que estávamos a cair para uma ravina no Grand Canyon...

Rimo-nos ainda mais.

- Ou a guerra das pressões de ar, daquela vez em que te atingi nas costas e tivemos de usar a faca de cortar a carne para extrair os chumbos, que estavam muito fundos...

- Ou quando eu e o Mark derrubámos a caixa do correio e aqueles tipos nos deram uma tareia...

- Ou quando o avô que lavou a cabeça com o jacto da mangueira...

- Não te esqueças dos famigerados tratamentos com os pensos rápidos...

Contámos as mesmas histórias que contamos sempre; por qualquer razão, não parecemos cansar-nos de as contar. Ao verem-nos dobrados e a dar palmadas nos joelhos, as pessoas sentadas nas outras mesas não tiravam os olhos de nós, a tentarem perceber onde é que estava a graça.

Só nós é que sabemos. As nossas histórias são engraçadas porque as vivemos e porque conseguimos viver para as recordar. Quanto pior o incidente, mais engraçada a história se tornou com o passar dos anos.

O Micah acabou por sossegar. Ficou-lhe aquele brilho terno, quase interior, nos olhos.

- Foram bons tempos - disse, à laia de conclusão. Assenti.

- Os melhores!

 

Após o jantar, aventurámo-nos numa ida ao casino. Jogámos ao vinte-e-um (o Micah ganhou e eu perdi) e embora o casino fosse mais pequeno, e menos ruidoso, dos que os de Reno ou de Las Vegas, tivemos a agradável surpresa de descobrir que haveria um espectáculo musical. O homem que dava as cartas assegurou-nos que o grupo musical era bom e muito popular.

- São da terra. Há anos que tocam aqui.

- Ouvir música maltesa será interessante. Não poderei gabar-me de já a ter ouvido - observou o Micah.

- Hoje o espectáculo terá muita gente. Esperamos uma multidão, para mais tarde. Também poderão dançar.

O Micah sorri.

- Cada vez me parece melhor.

Mais tarde, por detrás de nós, ouvimos a banda a preparar-se para actuar; não nos voltámos por estarmos concentrados no jogo. Minutos depois, ouvimos os primeiros acordes e, enquanto estávamos a tentar identificar a música, o vocalista começou a cantar os versos de Coward of the County.

Kenny Rogers? Rodámos as cabeças, mal podendo acreditar. Ali, num casino luxuoso de Malta, estava uma banda da terra, mas com chapéus de vaqueiro. A cantar música country-western americana, a marcar o ritmo com o bater das botas no soalho. A audiência aplaudia e cantava. O Micah e eu trocámos olhares e desatámos à gargalhada.

Momentos depois, encolhemos os ombros um para o outro, como quem pergunta “por que não?”, e começámos a cantar, juntando-nos ao coro do resto da multidão.

Justamente quando pensávamos que tínhamos a viagem toda bem planeada, aconteceu-nos uma coisa daquelas. Descobrimos que o mundo é uma permanente caixa de surpresas. Nunca, nem que vivesse um milhão de anos, me imaginaria a entoar uma canção de Kenny Rogers, com sotaque maltês, ainda por cima.

De manhã, fomos visitar Hagar Qim, outro conjunto de réplicas de ruínas. Sentámo-nos perto de um penhasco, pois, como nada do que estava exposto era verdadeiro, a paisagem era bem mais interessante do que o próprio monumento. O lugar era, contudo, excelente para fazer fotografias.

Dali, seguimos para a visita a duas das mais importantes catedrais medievais de Malta; locais espantosos, como Cuzco. Com elevados tectos ogivais, enormes altares dourados e centenas de pinturas, tudo com uma extraordinária riqueza de ornamentação. Na sua maioria, os pavimentos são de mármore; cada pedra é, na realidade, a cobertura de uma tumba onde foram sepultados diversos cavaleiros.

O almoço foi servido num café junto ao mar, comida tradicional maltesa, com bastante marisco fresco e pão. Terminado o almoço, fomos visitar a cidadela de Mdina. Originalmente construída para servir de fortaleza, num plano elevado, a vários quilómetros de distância da principal cidade de La Valletta, tem ruas calcetadas e gaba-se de dispor de um miradouro de onde é possível ver uma grande parte da ilha.

É também em Mdina que estão as Catacumbas de São Paulo, a nossa última visita do dia. As catacumbas serviram para sepultar centenas, ou talvez milhares, de cidadãos malteses e, ao contrário do Hipogeu, fomos autorizados a tocar em tudo e a fotografar o que quiséssemos. Nas paredes de rocha foram escavadas centenas de criptas, agora vazias. Anos antes, os restos mortais haviam sido removidos e enterrados em cemitérios.

Como não podia deixar de ser, o Micah ergueu a mão.

- Posso tirar uma fotografia numa das criptas?

O         guia olhou para ele, como se o considerasse maluco.

- Se quiser, pode... julgo eu. Até hoje, ninguém fez um pedido desses.

- A sério? Há quantos anos é que trabalha aqui?

- Dezassete.

O         Micah piscou-me um olho.

- Estás a perceber o que isto significa? - sussurrou-me.

- O que é?

- Poderei ser eu a primeira pessoa a fazer isto - acrescentou. - Depois dos mortos, está bem de ver.

Arrastou-se lá para dentro, a sorrir, enquanto eu tirei a fotografia.

 

Enquanto percorríamos as ruas empedradas que iam da Mdina até ao sítio onde estava o autocarro, o Micah ia observando tudo à nossa volta.

- Julgo que a Christine gostaria de Malta.

- E dos outros sítios aonde fomos?

Virou a cabeça para mim.

- Nunca conseguirias arrastá-la até à índia ou até à Etiópia.

Nem, talvez, até à ilha de Páscoa. Para ela, visitar países estrangeiros

significa ir a Londres ou a Paris.

Sorri.

- Acho que a Cat teria gostado de todos os lugares onde estivemos. Mas como nunca veio à Europa, provavelmente é onde iremos primeiro.

- Quando os miúdos forem mais crescidos, queres tu dizer.

- É claro. Com filhos tão pequenos não me parece que a viagem fosse muito agradável.

- Sabes o que devíamos fazer? No próximo Verão, devíamos alugar uma grande casa em Itália e levarmos as duas famílias para lá. Podíamos fazer da casa a base, de onde partiríamos para visitar o país.

- Veremos.

- Não te parece que seja uma boa ideia?

- Acho a ideia excelente. Mas também não penso que seja muito fácil de pôr em prática. E não o digo só por causa dos meus cinco filhos. Até lá, é provável que tenhas outro bebé.

- É possível que tenhas razão. P