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Quando Hal Shelburn o viu, no instante em que seu filho Dennis o tirou de uma caixa de papelão que contivera ração para cães Ralston-Purina e havia sido empurrada para o canto mais distante, debaixo do beiral do sótão, ficou tomado por tal sensação de horror e medo que, por um momento, julgou-se prestes a gritar. Colocou um punho sobre a boca, como para reter o grito... e então apenas tossiu sobre o punho. Terry e Dennis nada haviam percebido, mas Petey olhou em torno, momentaneamente curioso.
— Que barato! — exclamou Dennis, em tom respeitoso.
O próprio Hal raramente agora recebia o mesmo tom da parte do filho. Dennis já estava com doze anos.
— O que é isso? — perguntou Petey. Olhou novamente para o pai, antes de voltar os olhos para a coisa que o irmão mais velho havia descoberto. — O que é isso, papai?
— É um macaco, miolo-mole — disse Dennis. — Será que nunca viu um macaco antes?
— Não chame seu irmão de miolo-mole — disse Terry automaticamente, começando a examinar uma caixa cheia de cortinas. As cortinas estavam escorregadias de bolor, e ela as largou bruscamente. — Irrk!
— Posso ficar com ele, papai? — perguntou Petey.
Petey tinha nove anos.
— Ei, de que está falando? — exclamou Dennis. — Eu o achei!
— Meninos, por favor — disse Terry. — Estou ficando com dor de cabeça!
Hal parecia não ouvi-los. O macaco cintilou para ele, das mãos de seu filho mais velho, exibindo-lhe o velho e familiar sorriso. O mesmo sorriso que assombrara seus pesadelos em criança, assombrando-os a tal ponto, que tivera de...
Lá fora, levantou-se uma fria rajada de vento e, por um instante, lábios sem carne alguma sopraram uma prolongada nota, através da velha e enferrujada calha externa.
Petey chegou mais para perto do pai, os olhos movendo-se inquietamente pelo rústico teto do sótão, através do qual salientavam-se cabeças de pregos.
— O que foi isso, papai? — perguntou, quando o assobio morreu para um zumbido gutural.
— Apenas o vento — respondeu Hal, ainda olhando para o macaco. Seus címbalos, crescentes de latão, em vez de círculos completos, à luminosidade mortiça da única lâmpada nua, permaneciam imóveis, talvez a trinta centímetros de distância, e ele acrescentou, automaticamente: — O vento pode assobiar, mas não consegue cantar.
Percebeu então que repetia uma frase do Tio Will e sentiu-se arrepiar. A nota repetiu-se, o vento procedendo do Lago Cristal, em prolongada e tonitroante investida, para então tremular na calha. Meia dúzia de pequenas rajadas lançaram o frio ar de outubro no rosto de Hal — Céus, aquele lugar era tão semelhante ao armário dos fundos, na casa em Hartfold, que todos poderiam ter sido transportados trinta anos atrás no tempo.
Não quero pensar nisso.
Só que agora, naturalmente, era tudo em que ele podia pensar.
No armário dos fundos, onde encontrei esse maldito macaco, naquela mesma caixa.
Terry se distanciara, a fim de examinar um caixote cheio de bugigangas, caminhando agachada, porque a inclinação do beiral era muito acentuada.
— Não gosto dele — disse Petey, e procurou a mão de Hal. — Dennis que fique com ele, se quiser. Podemos ir embora, papai?
— Está com medo de fantasmas, seu galinha morta? — perguntou Dennis.
— Dennis, pare com isso! — exclamou Terry, com ar ausente. Apanhou uma xícara de transparente porcelana, com um motivo chinês. — Que linda! Que...
Hal viu que Dennis encontrara a chave de dar corda, nas costas do macaco. O terror voou através dele, em asas soturnas.
— Não faça isso!
A frase lhe saiu mais brusca do que pretendia e já arrancara o macaco das mãos de Dennis, antes de realmente ter consciência do que fazia. Dennis olhou em torno, espantado. Terry também havia olhado por sobre o ombro, enquanto Petey erguia o rosto para o pai. Durante um momento, ficaram todos em silêncio, e o vento tornou a assobiar, em tom muito grave desta vez, como um desagradável convite.
— Quero dizer, provavelmente a corda está quebrada — disse Hal.
Ela costumava estar quebrada... exceto quando não queria estar.
— Bem, não precisava arrancá-lo da minha mão — disse Dennis.
— Cale a boca, Dennis!
Dennis pestanejou e, por um instante, pareceu quase nervoso. Há muito tempo que o pai não lhe falava naquele tom. Não, desde que perdera o emprego na National Aerodyne, na Califórnia, dois anos antes, e se tinham mudado para o Texas. Dennis resolveu não insistir... por enquanto. Virou-se para a caixa de ração para cães e começou a esmiuçá-la novamente, mas o resto de seu conteúdo era pura quinquilharia. Brinquedos quebrados, sangrando molas e recheios.
O vento agora ficara mais alto, ululando, em vez de assobiar. O sótão começou a estalar maciamente, produzindo um ruído semelhante ao de pisadas.
— Vamos, papai? — pediu Petey, alto apenas para que o pai o ouvisse.
— Certo — disse Hal. — Vamos embora Terry.
— Ainda não acabei com isto...
— Eu disse para irmos.
Foi a vez dela se voltar, para fitá-lo com espanto.
Eles haviam tomado dois quartos vizinhos em um motel. Às dez daquela noite, os meninos dormiam em seu quarto e Terry dormia no outro. Ela tomara dois Valiums, no trajeto de volta de casa, em Casco. Para evitar que os nervos a deixassem com enxaqueca. Ultimamente, ela vinha tomando um bocado de Valium. Tudo começara mais ou menos na época em que a National Aerodyne havia despedido Hal. Nos dois últimos anos ele vinha trabalhando para a Texas Instrumento — o que significava 4.000 dólares anuais a menos, mas era um emprego. Ele disse a Terry que estavam com sorte.
Ela concordou. Havia muitos arquitetos, desenhistas de software, desempregados, explicara Hal. Ela concordou. A firma em Arnette era tão boa quanto a de Fresno, disse ele. Ela concordou, mas Hal pensou que a concordância de Terry a tudo era uma mentira.
Além do mais, estava perdendo Dennis. Podia sentir que o menino se distanciava, alcançando uma prematura velocidade de fuga. Até logo, Dennis, adeus, estranho, foi bom estar no mesmo trem com você. Terry achava que o menino andava fumando maconha, porque algumas vezes tinha sentido o cheiro. Você precisa falar com ele. Hal.
E ele concordara, só que até então não tinha falado.
Os meninos dormiam. Terry dormia. Hal foi para o banheiro, trancou a porta, sentou-se sobre a tampa fechada da privada e olhou para o macaco.
Odiava a sensação que ele dava a seu tato, com aquele macio pêlo espesso e castanho, já careca em alguns pontos. Odiava seu sorriso — esse macaco sorri igualzinho a um negro, havia dito Tio Will certa vez, mas ele não sorria como um negro ou qualquer coisa humana. Seu sorriso era todo dentes, e quando se dava a corda, os lábios mexiam, os dentes pareciam maiores, tornavam-se dentes de vampiro, os lábios repuxavam-se e os címbalos tocavam, macaco idiota, estúpido macaco de corda, estúpido, estúpido...
Deixou-o cair. Suas mãos tremiam e o deixaram cair.
A chave da corda produziu um estalido no banheiro ladrilhado, ao bater contra o chão.
O som pareceu muito alto, em meio à quietude. O macaco sorria para ele, com seus densos olhos ambarinos, olhos de boneca, repletos de um brilho idiota, seus címbalos de latão como que prestes a atacar uma marcha, para alguma banda do inferno. No fundo, estavam inscritas as palavras MADE IN HONG KONG.
— Você não pode estar aqui — sussurrou Hal. — Eu o joguei no fundo do poço, quando tinha nove anos.
O macaco sorriu para ele.
Lá fora, na noite, uma soturna rajada de vento sacudiu o motel.
Bill, irmão de Hal, foi encontrá-los com sua esposa Collete, em casa do Tio Will e Tia Ida, no dia seguinte.
— Já lhe passou pela cabeça que uma morte na família é, de fato, uma terrível maneira de renovar-se um parentesco? — perguntou Bill, com um leve sorriso.
Havia recebido esse nome em homenagem ao Tio Will. Will e Bill, campeões do rodeyo, costumava dizer o Tio Will, desmanchando os cabelos de Bill. Aquele era um de seus ditos... como o de que o vento pode assobiar, mas não consegue cantar. Tio Will falecera seis anos antes, e Tia Ida ficara morando ali, sozinha, até que um ataque cardíaco a levara, justamente na semana anterior. Uma morte súbita, havia dito Bill, ao dar a notícia a Hal, em um telefonema interurbano. Como se ele pudesse saber; como se alguém pudesse saber... Ela morrera sozinha.
— Hã-hã — respondeu Hal. — Já me passou pela cabeça.
Olharam juntos para a casa, o lar onde haviam terminado de crescer. O pai de ambos, um marujo mercante, simplesmente desaparecera quando eles eram pequeninos, como que da própria face da terra. Bill alegava recordar-se vagamente do pai, porém Hal não tinha a menor lembrança dele. A mãe morrera quando Bill tinha dez anos e Hal oito.
Então, Tia Ida os trouxera para ali, em um ônibus Greyhound que partia de Hartford. E ali haviam sido criados, dali tinham ido para a universidade. Aquele havia sido o lar do qual sentiam saudades. Bill continuara no Maine e agora tinha uma próspera banca de advocacia em Portland.
Hal viu que Petey vagava na direção do emaranhado de amoras-pretas, que ficava no lado leste da casa, em louca profusão.
— Fique longe daí, Petey! — gritou.
Petey olhou para trás, questionante. Hal sentiu-se invadir por uma onda de puro amor pelo menino... e, de repente, tornou a pensar no macaco.
— Por que, papai?
— O velho poço fica por aí, em algum lugar — Bill disse. — O curioso é que nem me lembro de onde. Seu pai tem razão, Petey — é um bom lugar para se ficar longe dele. Os espinheiros farão um belo trabalho em você. Não é mesmo, Hal?
— Correto — disse Hal, automaticamente.
Petey afastou-se, sem olhar para trás, começando a descer a rampa que ia dar na pequena faixa de praia, onde Dennis atirava pedras sobre a água. Hal sentiu que algo em seu peito afrouxava-se um pouco.
Bill podia ter esquecido a localização do velho poço, mas quando a tarde ia avançada, Hal o encontrou sem vacilar, abrindo caminho com os ombros entre a galharia que rasgou seu velho blusão de flanela e que lhe procurava os olhos. Chegou ao poço e ficou perto dele, respirando forte, olhando para as tábuas empenadas e apodrecidas que o cobriam. Após um momento de debate, ajoelhou-se (seus joelhos dispararam tiros gêmeos de pistola) e moveu duas tábuas para um lado.
Do fundo daquela garganta molhada e forrada de pedras, um rosto afogado olhou para ele, com olhos esbugalhados, a boca careteando. Um gemido escapou de sua boca. Um gemido alto, apenas no coração, onde quase se tornava um grito.
Era o seu próprio rosto, na água escura do poço.
Não o do macaco. Por um momento, Hal pensou que fosse o do macaco.
Estava trêmulo. Todo o seu corpo tremia.
— Eu o joguei dentro do poço. Eu o joguei dentro do poço, por favor, Deus, não me deixe, fui louco, eu o joguei dentro do poço.
O poço havia secado no verão em que Johnny McCabe morrera, um ano depois que Bill e Hal tinham vindo morar com Tio Will e Tia Ida. Tio Will fizera um empréstimo no banco para mandar perfurar um poço artesiano, de maneira que as amoras-pretas vicejaram desordenamente em torno do buraco do velho poço. O poço seco.
Exceto que a água voltara. Como o macaco.
Desta vez, a recordação não podia ser negada. Hal sentou-se ali, impotente, deixando a memória falar, tentando lidar com ela, controlá-la como um surfista, ao cavalgar uma onda mostro que o esmagará, se ele cair fora da prancha, apenas tentando atravessá-la, para que ela fosse embora outra vez.
Ele se esgueirara até ali com o macaco, no final daquele verão, com as amoras-pretas em plena maturação, desprendendo um cheiro forte e enjoativo. Ninguém ia lá para colhê-las, embora a Tia Ida às vezes chegasse até a orla das amoreiras, um verdadeiro matagal, e colhesse um punhado delas em seu avental. Junto ao poço, as amoras-pretas tinham amadurecido e passado do ponto, algumas apodreciam, deixando fluir um líquido branco e grosso, como pus, enquanto os grilos cantavam alucinadamente, na grama alta sob as amoreiras, soltando seu grito interminável: Riiiii ....
Os espinhos o feriram, produziram pontos de sangue em suas faces e braços nus. Ele não fez qualquer esforço para fugir às espetadelas. Estivera cego de terror — tão cego, que por centímetros não tropeçara nas tábuas carcomidas que cobriam o poço, talvez por centímetros não despencando nove metros, até o fundo lodoso do poço. Havia girado os braços para recuperar o equilíbrio, e mais espinhos lhe marcaram os braços. Essa lembrança é que o levara a chamar Petey de volta bruscamente.
Aquele era o dia em que Johnny McCabe morrera — seu melhor amigo. Johnny estivera subindo os degraus da escada de mão para a casa em cima da árvore, que havia em seu quintal. Eles dois haviam passado muitas horas daquele verão lá em cima, brincando de pirata, avistando galeões de faz-de-conta no lago, preparando os canhões para a ação, içando as velas auxiliares (o que quer que fossem elas), preparando-se para a abordagem.
Johnny subia para a casa da árvore, como havia feito mil vezes antes, quando o degrau logo abaixo do alçapão, no fundo da casa, escapara de sua mão. Ele despencara nove metros até o solo, quebrara o pescoço e o macaco era o culpado disso, o macaco, o maldito e odioso macaco. Quando o telefone tocou, quando a boca de Tia Ida se entreabriu formando um O de horror, enquanto sua amiga Milly, residente na estrada mais abaixo lhe dava a notícia, quando Tia Ida disse: "Venha até o alpendre, Hal, tenho que lhe dar uma notícia ruim..." ele havia pensado, com repugnado horror, O macaco! O que foi que o macaco fez agora?
Não houvera reflexo de seu rosto, capturado no fundo do poço, no dia em que jogou o macaco lá dentro, apenas seixos e o fedor da lama molhada. Ele havia olhado para o macaco, jazendo sobre a grama eriçada que crescia entre o labirinto das amoras-pretas, seus címbalos suspensos, os enormes dentes sorridentes, entre os lábios alargados em ângulo, o pêlo faltando em faixas calvas e sarnentas, aqui e ali, seus olhos vidrados.
— Odeio você! — sibilou para o macaco.
Envolveu as mãos em torno daquele corpo odioso, sentindo o pêlo espesso ranger. O macaco lhe sorriu, quando o ergueu diante do rosto.
— Vamos! — ordenou, começando a chorar, pela primeira vez naquele dia. Sacudiu-o. Os címbalos suspensos retiniram baixinho. O macaco estragava tudo que era bom. Tudo. — Vamos, toque-os! Toque-os!
O macaco apenas sorriu.
— Vamos, toque-os! — Sua voz elevou-se histericamente. — Bicho nojento, bicho nojento, comece a tocá-los! Estou ordenando! ORDENO DUAS VEZES!
Seus olhos castanho-amarelados. Seus enormes dentes sorridentes.
Ele o jogou então no fundo do poço, louco de dor e terror. Viu-o dar dois volteios enquanto caía, um acrobata simiano fazendo um truque, enquanto o sol brilhava uma última vez naqueles címbalos. Ele caiu no fundo com um baque e isso deve ter feito seu mecanismo funcionar, porque repentinamente, os címbalos começaram a bater. Suas batidas firmes, deliberadas e quase inaudíveis, chegaram até seus ouvidos, ecoando e ricocheteando na garganta de pedra do poço morto: jang jang jang jang...
Hal levou as duas mãos à boca e, por um momento, viu-o lá embaixo, talvez apenas com os olhos da imaginação... jazendo na lama, os olhos brilhando para o pequeno círculo de seu rosto de menino a espiar pela borda do poço (como que marcando aquele rosto para sempre), lábios expandindo-se e contraindo-se em torno dos dentes risonhos, os címbalos entrechocando-se, um engraçado macaco de corda.
Jang jang jang jang, quem é que está morto? Jang jang jang jang, é Johnny McCabe, caindo de olhos abertos, dando seu próprio salto acrobático, enquanto cai através do luminoso ar das férias de verão, com o degrau solto ainda nas mãos, até bater no chão com um único e amargo baque, o sangue escorrendo de seu nariz, da boca e dos olhos abertos? É Johnny. Hal? Ou é você?
Gemendo, Hal empurrou as tábuas sobre o buraco, com lascas de madeira penetrando em suas mãos, pouco se incomodando, só tomando consciência delas bem mais tarde. E, ainda assim, continuava a ouvi-lo, mesmo através das tábuas, um som agora sufocado e talvez ainda pior por isso: o macaco estava lá embaixo, no escuro forrado de pedras, batendo seus címbalos e contorcendo o corpo repulsivo, o som subindo, como sons ouvidos em um sonho.
Jang jang jang jang, quem está morto desta vez?
Lutando, ele abriu caminho através do matagal das amoras-pretas. Os espinhos traçaram novas linhas de sangue, o qual fluía vivamente por seu rosto, enquanto as bardanas lhe aderiam às bainhas do jeans. Caiu uma vez ao comprido, as orelhas ainda retinindo, como se o som o seguisse. Tio Will o encontrou mais tarde na garagem, soluçando e sentado em um pneu velho. O homem pensou que o menino chorava pelo amigo morto.
Claro que ele chorava por Johnny, mas também chorava no paroxismo do terror.
Hal atirara o macaco no fundo do poço, durante a tarde. Naquela noite, quando o crepúsculo intrometeu-se através de um brilhante manto de nevoeiro junto ao solo, um carro que corria rápido demais para a reduzida visibilidade na estrada, atropelara o gato Manx da Tia Ida e seguira em frente. Havia tripas espalhadas por toda parte. Bill vomitara, mas Hal apenas tinha virado o rosto, um rosto pálido e tenso, ouvindo os soluços da Tia Ida (a perda do gato, aliada à notícia sobre o garoto McCabe, desencadeara nela um acesso de choro quase histérico, praticamente se passando umas duas horas, ante que o Tio Will conseguisse acalmá-la de todo), como que a quilômetros de distância. No fundo de seu coração, boiava uma gélida e exultante alegria. Aquela não fora a sua vez. Tinha sido o gato Manx da Tia Ida, não ele, nem seu irmão Bill ou o Tio Will (apenas dois campeões do rodayo). E agora o macaco se fora, estava no fundo do poço, e um velho gato Manx, com micuins nos ouvidos, não era um preço muito alto a pagar. Se o macaco quisesse tocar seus címbalos infernais agora, que tocasse. Podia tocá-los e chocalhá-los para os besouros e insetos rastejantes, as coisas escuras que moravam na goela soturna do poço. Ele apodreceria lá embaixo. Suas engrenagens, rodas e molas odientas enferrujariam lá no fundo. O macaco morreria lá.
Na lama e escuridão. As aranhas lhe teceriam uma mortalha.
Contudo... ele voltara.
Lentamente, Hal tornou a cobrir o poço, justamente como havia feito naquele dia e, em seus ouvidos, ouviu o eco fantástico dos címbalos do macaco: Jang jang jang jang, quem morreu, Hal? É Terry? Dennis? É Petey, Hal? Ele é o seu favorito, não é? Não é ele?
Jang jang jang...
— Largue isso!
Petey sobressaltou-se e deixou o macaco cair. Por um momento de pesadelo, Hal pensou que iria acontecer, que a queda ativaria o mecanismo e que os címbalos começariam a tocar, a entrechocar-se.
— Papai, você me assustou.
— Desculpe. Eu só... não queria que você brincasse com isso.
Os outros tinham ido a um cinema e ele pensou que seria o primeiro a chegar ao motel.
Contudo, ficou mais tempo do que pretendia na casa que fora o seu lar; as velhas, odiosas memórias, pareciam mover-se em sua própria e eterna zona de tempo.
Terry estava sentada perto de Dennis, vendo Os montanheses Beierly. Ela fitava a velha e granulosa impressão com uma concentração fixa e estupidificada, que falava de uma dosagem recente de Valium. Dennis lia uma revista de rock, como Culture Club na capa. Petey, sentado de penas cruzadas no carpete, manipulava o macaco.
— Isto não funciona, de jeito nenhum — disse Petey.
Então, está explicado por que Dennis o deixou ficar com o macaco, pensou Hal. Ficou envergonhado e irritado consigo mesmo. Sentia essa descontrolada hostilidade contra Dennis cada vez com maior freqüência, porém, em resultado ficava humilhado e repugnado... impotente.
— Não — falou. — Está muito velho. Vou jogá-lo fora. Vamos, dê-me esse macaco.
Estendeu a mão. Parecendo perturbado, Petey entregou-lhe o brinquedo.
— Papai está ficando um perfeito esquizofrênico — disse Dennis para a mãe.
Hal havia cruzado o aposento, antes mesmo de perceber que o tinha feito, o macaco em uma das mãos, parecendo sorrir aprovadoramente. Segurando Dennis pela camisa, arrancou-o da cadeira. Houve um som ronronado, quando uma costura se rasgou em alguma parte. Dennis ficou quase comicamente chocado. Sua revista Rock Wave caiu ao chão.
— Ei!
— Você, venha aqui comigo — disse Hal severamente, empurrando o filho para a porta de comunicação entre os dois aposentos.
— Hal! — Terry quase gritou.
Petey apenas esbugalhou os olhos. Hal empurrou Dennis para o outro quarto, bateu a porta e então pressionou o garoto contra ela. Dennis começava a parecer assustado.
— Você está ficando um problema com sua língua — disse Hal.
— Largue-me! Você rasgou minha camisa, você...
Hal tornou a apertar o garoto contra a porta.
— Sim, senhor — disse. — Um verdadeiro problema com essa língua. Aprendeu isso na escola? Ou lá nos fundos, onde os alunos fumam?
Dennis ficou vermelho, o rosto momentaneamente transtornado pela culpa.
— Eu não estaria naquela escola ordinária, se não tivessem posto você na rua! — explodiu ele.
Hal pressionou novamente o filho contra a porta.
— Eu não fui posto na rua, fui dispensado, como sabe muito bem, e dispenso suas piadinhas a respeito! Você está com problemas? Bem-vindo ao mundo, Dennis. Apenas não jogue todos eles em cima de mim. Você está comento. Está com seu traseiro aquecido. Tem doze anos de idade e, com doze anos, eu não preciso... não preciso de... de droga nenhuma sua! — Hal pontuava cada frase com safanões para diante, até os narizes de ambos quase se tocarem. Então empurrou o garoto, batendo-o contra a porta.
Hal não o empurrava com dureza suficiente para machuar, mas Dennis estava assustado — seu pai não lhe batera desde que tinham vindo para o Texas — e agora ele começou a chorar, em soluços fortes, zurrados e estentóreos de criança pequena.
— Vamos, pode me bater! — gritou para Hal, o rosto torcido e descomposto. — Pode me bater se quiser, eu sei o quanto me odeia!
— Eu não o odeio, pelo contrário. Gosto demais de você, Dennis, mas sou seu pai. Você tem que me respeitar ou terei de surrá-lo para que me respeite!
Dennis tentou libertar-se. Hal puxou o garoto para si e o abraçou. Dennis lutou por um momento, mas então encostou o rosto no peito do pai e chorou, como se exausto. Era o tipo de choro que Hal não ouvia em anos, de nenhum de seus filhos. Fechou os olhos, percebendo que também se sentia exausto.
Terry começou a esmurrar o outro lado da porta.
— Pare com isso, Hal! Seja lá o que for que estiver fazendo com ele, pare!
— Eu não o estou matando — disse Hal. — Vá embora, Terry.
— Você não...
— Está tudo bem, mãe — disse Dennis, a voz abafada contra o peito de Hal.
Hal pôde sentir o silêncio perplexo da esposa por um momento, e então ela se foi. Ele tornou a olhar para o filho.
— Sinto muito ter dito aquela coisa sobre você, papai — disse Dennis, com relutância.
— Está bem. Aceito e agradeço suas desculpas. Quando voltarmos para a casa semana que vem, vou esperar dois ou três dias, e então vasculhar todas as suas gavetas, Dennis. Se houver nelas alguma coisa que não quer que eu veja, acho melhor livrar-se dela.
A onda de culpa novamente. Dennis baixou os olhos e limpou o ranho com as costas da mão.
— Posso ir agora? — perguntou, de novo soando taciturno.
— Claro — disse Hal, e o soltou.
Preciso levá-lo para acampar na primavera, só nós dois. Pescaremos um pouco, como o Tio Will costumava fazer comigo e com Bill. Tenho que me aproximar dele. Preciso tentar.
Hal sentou-se na cama, no quarto vazio, e olhou para o macaco. Você nunca mais estará perto dele, Hal, seu sorriso parecia dizer. Fique certo disso. Voltei para cuidar da situação, como você sempre soube que eu voltaria — um dia qualquer.
Hal largou o macaco e cobriu os olhos com uma das mãos.
Nessa noite, enquanto escovava os dentes no banheiro, Hal pensou. Era a mesma caixa.
Como é que ele podia estar na mesma caixa?
A escova desviou-se para cima, machucando-lhe a gengiva. Ele pestanejou.
Ele tinha quatro anos e Bill seis, a primeira vez que viu o macaco. O desaparecido pai de ambos havia comprado uma casa em Hartford e ela fora deles, livre e clara, totalmente paga, antes que ele morresse ou caísse em um buraco no meio do mundo ou onde quer que fosse. A mãe dos dois trabalhara como secretária na Holmes Aircraft, a fábrica de helicópteros nas cercanias de Westville. Uma série de baby sitters cuidava dos meninos, embora fosse principalmente com Hal que elas se preocupavam durante o dia — Bill estava no primeiro grau, entrara na escola. Nenhuma das sitters ficava lá muito tempo.
Quando não apareciam grávidas e casavam com os namorados, iam trabalhar na Holmes ou então a Sra. Shelburn descobria que elas davam em cima de sua garrafa de sherry ou de brandy, guardadas no aparador para ocasiões especiais. Em sua maioria, eram jovens ignorantes, que pareciam apenas querer comer ou dormir. Nenhuma delas se preocupava em ler para Hal, como sua mãe lia.
Naquele longo inverno, a sitter era uma moça negra, corpulenta e maneirosa, chamada Beulah. Paparicava Hal, quando a mãe dele estava nos arredores, beliscando-o às vezes, quando ela não estava. Ainda assim, Hal sentira certa afeição por Beulah que, de vez em quando, lia para ele uma história horripilante de suas revistas de confissões ou de contos verídicos de detetives ("A Morte Chegou para a Loura Voluptuosa", entoava Beulah ominosamente, no sonolento silêncio da sala de estar durante o dia, enquanto jogava na boca outra taça de manteiga de amendoim Reese e Hal estudava solenemente as fotos granulosas do tablóide, bebendo leite em sua Xícara dos Desejos). A afeição tornava pior o que acontecera.
Ele encontrou o macaco em um nublado e frio dia de março. A neve caía esporadicamente no outro lado das janelas e Beulah adormecera no sofá, com um exemplar de Minha História aberto sobre seu busto admirável.
Hal se esgueirara até o armário nos fundos da casa, a fim de espiar as coisas de seu pai.
Aquele armário era um espaço de guardados que ocupava o comprimento do segundo andar, no lado esquerdo, um espaço extra, que nunca fora acabado. Entrava-se nele por uma portinhola — realmente uma portinha minúscula — que ficava no quarto dos meninos, no lado de Bill. Ambos gostavam de ir lá, embora fosse gélido no inverno e, no verão, quente o bastante para extrair dos poros um balde de suor. Comprido e estreito, de certa forma aconchegante, o armário dos fundos era cheio de fascinantes quinquilharias.
Pouco importando para quantas coisas se olhasse, tinha-se a impressão de que nunca se olhara para tudo. Ele e Bill haviam passado tardes inteiras de sábado ali, mal se falando, tirando coisas de caixas, examinando-as, revirando-as nas mãos, para poderem absorver sua realidade única, depois as deixando de lado. Agora, Hal se perguntava se ele e Bill não estariam tentando, da melhor maneira que podiam, de algum modo estabelecer contato com o pai desaparecido.
Ele havia sido marinheiro mercante, com certificado de navegador. Aquele armário guardava pilhas de cartas marítimas, algumas marcadas com círculos perfeitos (e a covinha da ponta aguçada do compasso no centro de cada um). Havia vinte volumes de algo intitulado Guia de Baron para a Navegação. Um par de binóculos tortos, que faziam os olhos ficarem quentes e esquisitos, quando se olhava por eles durante muito tempo. Havia coisas turísticas de uma dúzia de portos — bonecas hula-hula de borracha, um chapéu côco com uma faixa rasgada que dizia YOU PICK A GIRL AND I'LL PICCADILLY, um globo de vidro com uma diminuta Torre Eiffel no interior... Havia envelopes com selos estrangeiros, cheios de selos cuidadosamente guardados, também contendo moedas estrangeiras; havia amostras de rochas da ilha havaiana de Mauí, de um tom negro e aparência vidrenta — pesadas e, de certa forma, amedrontadoras — e discos engraçados, em língua estrangeira.
Naquele dia, com a neve caindo hipnoticamente do teto, logo acima de sua cabeça, Hal abriu caminho até a extremidade mais distante do armário da parede dos fundos, moveu uma caixa para um lado e viu uma outra atrás dela — uma caixa de Ralston-Purina.
Espiando sobre o topo, havia dois olhos vidrados cor de avelã. Assustaram-no e ele recuou um instante, o coração em disparada, como se houvesse descoberto um mortífero pigmeu. Então, viu seu silêncio, o vítreo daqueles olhos, e percebeu que era alguma espécie de brinquedo. Moveu-se novamente para diante e o tirou da caixa com cuidado.
O brinquedo sorriu seu sorriso imemorial à claridade amarelada, um sorriso cheio de dentes, seus címbalos distanciados.
Deliciado, Hal o virou de um lado para outro, sentindo as asperezas de seu pêlo enroscado. Aquele riso engraçado o alegrou. Contudo, não haveria algo mais? Um sentimento quase instintivo de repugnância, chegando e sumindo quase antes de percebê-lo? Talvez fosse isso, mas com uma recordação antiga, tão antiga como aquela, tinha-se que tomar cuidado, não acreditar muito na memória. Velhas lembranças podem mentir. Só que... não tinha ele visto a mesma expressão no rosto de Petey, lá no sótão do antigo lar?
Hal descobrira a chave no fim das costas do brinquedo e a girara. Ela girara com demasiada facilidade, não houvera os estalidos da corda se enrolando. Quebrada, portanto. Quebrada, mas ainda girando.
Ele o levara consigo, para fora do armário. Queria brincar com o macaco.
— O que é que tem aí, Hal? — perguntou Beulah, despertando de sua soneca.
— Nada — respondeu Hal. — Eu o achei.
Colocou-o na prateleira em seu lado do quarto. O brinquedo ficou em cima de seus livros de Lassie para colorir, sorrindo, fitando o espaço, címbalos imóveis. Estava quebrado, mas ria assim mesmo. Naquela noite, Hal acordou de um sonho inquieto, com a bexiga cheia, e levantou-se para ir ao banheiro no corredor. No outro lado do quarto, Bill era um monte enovelado de cobertas que respiravam.
Hal voltou, quase dormindo outra vez... e o macaco começou repentinamente a tocar os címbalos na escuridão.
Jang jang jang jang...
Despertou de todo, como se lhe houvessem batido no rosto com uma toalha fria e molhada. Seu coração deu um trêmulo salto de surpresa, enquanto um guincho diminuto, como o de um camundongo, escapava-lhe da garganta. Virou-se para o macaco, de olhos arregalados, lábios tremendo.
Jang jang jang jang...
O brinquedo girava e saltava na prateleira. Seus lábios se estiravam e fechavam, estiravam e fechavam, hediondamente jubilosos, revelando dentes enormes e carnívoros.
— Pare! — sussurrou Hal.
Seu irmão se virou e proferiu um único e sonoro resfolegar. Tudo o mais estava silencioso... exceto pelo macaco. Seus címbalos batiam e entrechocavam-se, certamente acordariam seu irmão, sua mãe, o mundo inteiro. Acordariam os mortos.
Jang jang jang jang...
Hal caminhou para ele, desejando pará-lo de algum modo, talvez colocando a mão entre seus címbalos, até a corda terminar, mas então o macaco parou sozinho. Os címbalos se juntaram uma última vez — jang! — e então se afastaram lentamente, para sua posição original. O latão cintilou nas sombras. Os dentes amarelo-sujos do macaco sorriram.
A casa tornou a ficar em silêncio. Sua mãe se virou na cama e ecoou o único ressonar de Bill. Hal voltou para sua cama e puxou as cobertas, o coração batendo depressa, enquanto pensava: Amanhã vou levar ele para o armário outra vez. Não quero esse macaco.
Na manhã seguinte, entretanto, ele esqueceu inteiramente de devolver o macaco ao armário, porque sua mãe não foi trabalhar. Beulah estava morta. A mãe não lhes contou exatamente o que ocorrera. "Foi um acidente, apenas um terrível acidente", foi tudo quanto disse. Naquela tarde, contudo, Bill comprou um jornal ao voltar para casa da escola e contrabandeou a página quatro para seu quarto, debaixo da camisa. Bill leu vacilantemente a notícia para Hal, enquanto a mãe deles preparava o jantar na cozinha, mas Hal conseguiu ler o título sozinho DUAS MORTES NO TIROTEIRO DO APARTAMENTO. Beulah McCaffery, de 19 anos, e Sally Tremont, de 20, haviam sido mortas a tiros pelo namorado da Srta. McCaffery, Leonard White, de 25 anos, em seguida a uma discussão sobre quem sairia para ir apanhar um pedido de comida chinesa. A Srta. Tremont falecera no Pronto-Socorro de Hartford. Beulah McCaffery fora declarada morta no local.
Era como se Beulah simplesmente houvesse desaparecido para uma de suas próprias revistas de detetives, pensou Hal Shelburn, enquanto um calafrio lhe percorria a espinha e depois oprimia seu coração. Então, percebeu que o tiroteio acontecera ao mesmo tempo em que o macaco...
— Hal? — era a voz sonolenta de Terry. — Não vem para a cama?
Ele cuspiu pasta de dentes na pia e enxaguou a boca.
— Já vou — respondeu.
Havia guardado o macaco em sua pasta, anteriormente, e a trancara. Dentro de dois ou três dias voariam de volta ao Texas. Só que, antes disso, ele se livraria para sempre da maldita coisa.
De algum modo.
— Você foi muito rude com Dennis esta tarde — disse Terry, no escuro.
— Acho que Dennis estava bem precisando disso. Ele tem andado muito aéreo. Não quero que comece a descambar.
— Psicologicamente, bater no garoto não é uma maneira muito produtiva...
— Eu não bati nele, Terry — pelo amor de Deus!
— ...de afirmar a autoridade paterna...
— Oh, não me venha com essa merda de encontro-de-grupos — disse Hal, ainda irritado.
— Dá para ver que você não quer discutir o caso — retorquiu ela, em tom frio.
— Falei a ele, também, para tirar a droga de dentro de casa.
— Falou? — Ela agora parecia apreensiva. — E como ele aceitou isso? O que respondeu?
— Ora, vamos, Terry! O que ele poderia dizer? Você está demitido?
— O que há com você, Hal? Não costuma ser assim — o que há de errado?
— Nada — disse ele, pensando no macaco trancado em sua pasta. Poderia ouvi-lo, se começasse a tocar seus címbalos? Sim, claro que ouviria. Um som abafado, mas audível. Chocalhando a tragédia para alguém, como chocalhara para Beulah, Johnny McCabe e Daisy, o cão do Tio Will. Jang jang jang, é você, Hal? — Estive sob demasiada tensão.
— Espero que isso seja tudo, porque não gosto de você agindo assim, como agora.
— Não? — As palavras então lhe escaparam, antes que pudesse detê-las; aliás, nem mesmo quis detê-las: — Sendo assim, engula um Valium e tudo ficará ótimo novamente.
Ouviu-a respirar fundo e exalar o ar tremulamente. Depois, ela começou a chorar. Podia tê-la consolado (talvez), mas parecia não existir conforto nele. Havia demasiado terror.
Tudo se arranjaria quando o macaco se fosse novamente, desta vez para sempre. Por favor, meu Deus, que ele se vá para sempre!
Ficou acordado até bem tarde, até a madrugada começar a acinzentar o ar lá fora.
Contudo achou que já sabia o que fazer.
Bill achara o macaco da segunda vez.
Isso foi cerca de ano e meio após Beulah McCaffery haver sido declarada Morta no Local. Estavam no verão. Hal tinha acabado o jardim de infância.
Estivera brincando, quando a mãe o chamou.
— Vá lavar as mãos, Senor, você está sujo como um porquinho.
Ela se achava na varanda, bebendo chá gelado e lendo um livro. Eram as suas férias; tivera duas semanas de folga.
Hal passou apenas ligeiramente as mãos na água fria e imprimiu sujeira na toalha de enxugar.
— Onde está Bill?
— Lá em cima. Diga a ele para arrumar seu lado do quarto. Está uma verdadeira bagunça.
Adorando ser o mensageiro de notícias desagradáveis em tais questões, Hal não esperou segunda ordem. Bill estava sentado no chão. A portinhola que dava entrada ao armário dos fundos encontrava-se escancarada. Ele tinha o macaco nas mãos.
— Isso não funciona — disse Hal imediatamente.
Estava apreensivo, embora mal se lembrasse daquela noite em que, ao voltar do banheiro, o macaco de repente começara a bater seus címbalos. Uma semana ou mais depois disso, tivera um pesadelo com o macaco e Beulah — não recordava bem o que tinha sido — e despertara chorando, por um momento pensando que o peso macio em seu peito era o macaco, que ele abriria os olhos e o veria dando-lhe um sorriso.
Naturalmente, o peso macio havia sido apenas seu travesseiro, agarrado com amedrontadora pressão. Sua mãe viera acalmá-lo com um gole de água e duas aspirinas laranja-claro infantis, aqueles Valiums para épocas perturbadas da infância. Ela julgara que a notícia da morte de Beulah fora a causa do pesadelo. Estava certa, mas não da maneira como havia imaginado.
Hal pouco se lembrava disto agora, porém o macaco continuava a amedrontá-lo, particularmente seus címbalos. E seus dentes.
— Eu sei — respondeu Bill, jogando o macaco a um lado. — É um imbecil. O brinquedo caiu em cima da cama de Bill, olhando para o teto, com os címbalos afastados. Hal não gostou de vê-lo ali. — Vamos ao Teddy's comprar pirulitos?
— Já gastei minha mesada — disse Hal. — Além disso, mamãe mandou dizer para você arrumar seu lado do quarto.
— Faço a arrumação mais tarde — replicou Bill. — E posso emprestar um níquel a você, se você quiser.
Bill costumava enganá-lo algumas vezes e, ocasionalmente, dava-lhe rasteiras ou pancadas, sem nenhum motivo particular mas, em geral, portava-se bem com ele.
— Claro — respondeu Hal, agradecido. — Só que, primeiro, vou botar esse macaco quebrado no armário, está bem?
— Nada disso — falou Bill, levantando-se. — Vamos logo!
Hal foi. Bill tinha um temperamento mutável e, se ele perdesse tempo guardando o macaco, podia perder também seu pirulito. Foram ao Teddy's e compraram os pirulitos, além dos mais raros, os de uvas-do-monte. Depois foram até a Reitoria, onde alguns garotos jogavam uma partida de beisebol. Hal era pequeno demais para jogar, mas ficou sentado bem além do perímetro das faltas, chupando seu pirulito de uvas-do-monte e devolvendo bolas perdidas aos meninos maiores. Quando voltaram para casa estava quase escuro, e a mãe o censurou por deixar marcas de mãos sujas na toalha, também brigando com Bill por não arrumar seu lado do quarto. Depois do jantar, eles viram TV e, quando tudo isso aconteceu, Hal esquecera inteiramente o macaco. De algum modo, o brinquedo encontrou caminho para a prateleira de Bill, onde ficou ao lado do retrato autografado de Bill Boyd, propriedade de seu irmão. Foi onde permaneceu, por quase dois anos.
Quando Hal completou sete anos, as baby-sitters se tinham tornado uma despesa desnecessária, de modo que a cada manhã, a despedida de sua mãe era: "Bill, tome conta de seu irmão!"
Naquele dia, entretanto, Bill teve que ficar na escola depois da aula e Hal voltou para casa sozinho, parando em cada esquina até não ver absolutamente nenhum trânsito vindo em uma e outra direção, depois atravessando a rua depressa, de ombros curvados, como um soldado de infantaria cruzando a terra de ninguém. Entrou em casa com a chave colocada debaixo do capacho e foi imediatamente à geladeira, para um copo de leite. Pegou a garrafa, mas então ela lhe escorregou entre os dedos e estilhaçou-se em pedacinhos no chão, os fragmentos de vidro voando para todos os lados.
Jang jang jang jang, soou no andar de cima, no quarto dele e de Bill. Jang jang jang, oi, Hal! Bem-vindo ao lar! E, por falar nisso, Hal, é você? É a sua vez? Eles vão encontrá-lo Morto no Local?
Ele ficou parado e imóvel, olhando para o vidro quebrado e a poça de leite, cheio de um terror que não conseguia ter nome ou compreender. Um terror que simplesmente o dominava, parecendo fluir de seus poros.
Virou-se e correu ao andar de cima, ao quarto dos dois. O macaco estava na prateleira de Bill, parecia fitá-lo. Havia derrubado a foto autografada de Bill Boyd, agora caída com a frente para baixo, em cima da cama de Bill. O macaco saltitava, sorria e batia seus címbalos. Hal aproximou-se dele lentamente, não querendo ir, mas incapaz de ficar distante. Os címbalos afastavam-se, depois se chocavam e tornavam a afastar-se. À medida que se aproximava, podia ouvir a corda girando nas entranhas do brinquedo:
Abruptamente, com um grito de repugnância e terror, Hal deu-lhe um tapa, como se dá um tapa em um inseto, derrubando-o da prateleira. O macaco bateu no travesseiro de Bill e dali caiu ao chão, os címbalos ainda chocalhando, jang jang jang, os lábios flexionando-se e fechando-se, enquanto jazia de costas em um retalho ensolarado de fins de abril.
Hal o chutou com seu tênis, chutou-o com toda a força que pôde, desta vez o grito saído de sua garganta sendo de pura fúria. O macaco de corda deslizou através do piso, chocou-se contra a parede e ficou silencioso. Parado, Hal olhava para ele, os punhos fechados, o coração em disparada. O macaco lhe sorria descaradamente, com um pontinho de sol queimando em um olho de vidro. Chute-me o quanto quiser, ele parecia dizer-lhe. Eu não passo de rodas dentadas, corda e uma ou duas engrenagens, chute-me o quanto quiser, eu não sou real, apenas um engraçado macaco de corda, é tudo o que sou, e quem está morto? Houve uma explosão na fábrica de helicópteros! O que é isso que sobe alto no céu, como uma enorme e sangrenta bola de boliche, com olhos onde deveriam estar os buracos para os dedos? É a cabeça de sua mãe, Hal? Poxa! Que passeio está dando a cabeça de sua mãe, Hal! Ou foi na esquina da Rua Brook? Escute aqui, cara! O carro estava indo muito depressa! O motorista estava bêbado! Há um Bill a menos no mundo! Não ouviu o rangido, quando as rodas passaram em cima da cabeça dele e os miolos espirraram pelas orelhas? Ouviu? Não ouviu? Talvez? Não me pergunte, porque eu não sei, não posso saber, tudo quanto sei fazer é bater estes címbalos, jang jang jang, e quem está Morto no Local, Hal? Sua mãe? Seu irmão? Ou é você, Hal? É você?
Hal precipitou-se novamente para o brinquedo, querendo pisoteá-lo, esmagá-lo, saltar sobre ele até rodas dentadas e engrenagens saírem voando, até seus horríveis olhos de vidro rolarem pelo chão. Só que; tão logo chegou perto, os címbalos se chocaram uma vez mais, muito suavemente... jang... como se alguma mola em qualquer ponto interior se expandisse em uma final e diminuta chanfradura... e uma fita de gelo pareceu abrir um caminho sussurrante pelas paredes de seu coração, empalando-o, imobilizando sua fúria e tornando a deixá-lo nauseado de horror. O macaco quase parecia saber — como seu riso parecia jubiloso!
Hal o pegou por um dos braços, entre o polegar e o indicador da mão direita, a boca repuxada em um esgar de ódio, como se estivesse segurando um cadáver. O esfiapado pêlo artificial parecia quente e febril contra sua pele. Conseguiu abrir a portinha que levava ao armário dos fundos e acendeu a lâmpada. O macaco sorria para ele, enquanto engatinhava pelo comprimento da área de estocagem, entre caixas empilhadas sobre caixas, além do conjunto de livros de navegação, dos álbuns de fotos com manchas de antigos produtos químicos, dos souvenirs e das roupas velhas. Enquanto isso, Hal pensava: Se ele começar a bater seus címbalos agora e remexer-se em minha mão, eu vou gritar, mas se eu gritar, ele fará mais do que sorrir, começará a dar gargalhadas, a rir de mim, e então vou ficar maluco, eles vão me encontrar aqui, babando e rindo feito doido, eu ficarei doido, oh, meu Deus, por favor, por favor, querido Jesus, não me deixe ficar doido...
Chegou à extremidade mais distante, afastou duas caixas, derrubando o conteúdo de uma delas, e tornou a enfiar o macaco na caixa de Ralston-Purina, no canto mais afastado. E ele ficou lá, confortavelmente, como que finalmente em casa, os címbalos afastados, sorrindo seu sorriso simiesco, como se a piada ainda fosse dirigida a Hal. Hal rastejou de volta, suando, quente e frio, todo fogo e gelo, esperando que os címbalos começassem a tocar. E quando começassem, o macaco saltaria da caixa, viria correndo para ele, em passinhos curtos como os de um besouro, a corda girando, os címbalos entrechocando-se loucamente, e ...
...e nada disso aconteceu. Ele apagou a lâmpada, bateu a portinhola e ficou recostado contra ela, ofegante. Por fim, começou a sentir-se um pouco melhor. Desceu para o térreo com pernas bambas, pegou uma sacola vazia e começou a recolher os pedaços e fragmentos de vidro da garrafa de leite quebrada, perguntando-se se ia cortar-se e sangrar até morrer, se era isso o que os címbalos chocalhantes queriam dizer. Nada aconteceu também. Pegou uma toalha, enxugou o leite derramado e então se sentou, esperando para ver se a mãe ou o irmão chegavam em casa.
Ela chegou primeiro, perguntando:
— Onde está Bill?
Em voz baixa, descolorida, agora certo de que Bill devia estar Morto em algum Local, Hal foi explicando sobre a reunião na escola e sabendo que, mesmo para uma reunião muito prolongada, Bill já deveria ter chegado uma meia hora antes.
A mãe o fitou com curiosidade, começou a perguntar o que havia de errado, mas então a porta se abriu e Bill entrou — só que não era o Bill de sempre, de maneira alguma.
Aquele era um Bill-fantasma, pálido e silencioso.
— O que houve de errado? — exclamou a Sra. Shelburn. — Bill, o que aconteceu?
Bill começou a chorar e então souberam da história, através de suas lágrimas. Tinha sido um carro, disse. Ele e seu amigo Charlie Silverman vinham juntos para casa, depois da reunião, e o carro dobrara a esquina da Rua Brook, em alta velocidade. Charlie estacara, Bill lhe puxara a mão uma vez, mas ela lhe escapara, e o carro...
Bill começou a chorar ruidosamente, em soluços histéricos. Sua mãe o abraçou, acalentando-o, e Hal olhou para a varanda, viu dois policiais parados lá. O carro patrulha em que haviam trazido Bill para casa ficara estacionado junto ao meio-fio.
Então, foi ele que começou a chorar... mas suas lágrimas eram de alívio.
Agora, foi a vez de Bill ter pesadelos — sonhos nos quais Charlie Silverman morria e tornava a morrer, derrubado em suas botas de vaqueiro Red Ryder, depois jogado sobre o capô do enferrujado Hudson Hornet que o bêbado dirigia. A cabeça de Charlie Silverman e o pára-brisa do Hudson haviam colidido com força explosiva.
Ambos se tinham estilhaçado. O motorista bêbado, dono de uma loja de doces em Milford, sofrera um ataque cardíaco logo após ser detido (talvez fosse a visão dos miolos de Charlie Silverman, secando em suas calças), e seu advogado tivera absoluto êxito durante o julgamento, com o tema de "este homem já foi punido o suficiente". O bêbado foi condenado a sessenta dias (pena suspensa) e perdera o privilégio de operar um veículo a motor no estado de Connecticut por cinco anos... tempo em que duraram os pesadelos de Bill Shelburn. O macaco estava novamente recolhido ao armário dos fundos. Bill nunca percebeu que ele sumira de sua prateleira... ou, se percebeu, jamais falou nisso.
Hal sentiu-se seguro por algum tempo. Começou até a esquecer novamente o macaco ou a acreditar que fora apenas um sonho ruim. No entanto, quando voltou da escola para casa, na tarde em que sua mãe morreu, ele estava de volta à sua prateleira, os címbalos afastados, sorrindo para Hal.
Aproximou-se do macaco lentamente, como que se projetando para fora de si mesmo — como se ele próprio se houvesse tornado um brinquedo de corda, à visão do macaco.
Viu sua mão estender-se e apanhá-lo. Sentiu o pêlo rijo ranger sob sua mão, porém a sensação era abafada, apenas uma pressão, como se alguém lhe tivesse injetado uma dose pura de Novocaína. Podia ouvir-se respirar, uma respiração rápida e seca, semelhante ao chocalhar da corda através da palha do recheio.
Virou o macaco e agarrou a chave da corda. Anos mais tarde, pensaria que aquele fascínio de drogado era como o de um homem, ao colocar um seis-tiros com apenas uma câmara carregada contra um olho trêmulo e fechado, para em seguida puxar o gatilho.
— Não faça isso, deixe-o em paz, jogue-o fora, não toque nele...
Girou a chave e, no silêncio, ouviu uma diminuta e perfeita série de cliques, quando a corda se enrolava. Depois soltou a chave, o macaco começou a bater os címbalos e Hal sentiu o corpo do brinquedo contorcendo-se, encurvar-e-saltar, encurvar-e-saltar, como se estivesse vivo, ele estava vivo, retorcendo-se em sua mão como um odiento pigmeu.
E a vibração que sentia através daquele pêlo castanho e gasto não era o de engrenagens girando, mas a batida do coração do macaco.
Com um grunhido, Hal o deixou cair ao chão e fugiu, as unhas encravando-se na carne abaixo dos olhos, as palmas apertando a boca. Tropeçou em algo e quase perdeu o equilíbrio (se caísse, seria precisamente no chão em cima do macaco, seus esbugalhados olhos azuis fitando os outros, aqueles olhos castanhos, cor de avelã). Correu aos tropeções para a porta, cruzou-a, bateu-a e recostou-se contra ela. De repente, saiu em disparada para o banheiro e vomitou.
Foi a Sra. Stukey, da fábrica de helicópteros, que trouxe a notícia. Foi também ela que os acompanhou naquelas duas primeiras noites intermináveis, até que a Tia Ida viesse do Maine, para levá-los. Sua mãe havia falecido de uma embolia cerebral, no meio da tarde. Estava em pé, junto ao bebedouro, com um copo de água na mão, e se tinha encolhido como que baleada, ainda segurando o copo de papel. Com a outra mão, aferrara-se ao bebedouro e havia derrubado consigo a grande garrafa de água Poland. A garrafa se estilhaçara... mas o médico da fábrica, que acudira em seguida, declarou mais tarde acreditar que a Sra. Shelburn já estivesse morta, antes que a água lhe caísse sobre o vestido e roupas de baixo, molhando-lhe a pele. Nada disto foi dito aos meninos, mas Hal sabia, de algum modo. Sonhou com isso incessantemente, nas longas noites seguintes à morte da mãe. Está com problemas para dormir, irmãozinho?
Bill lhe perguntara. Hall supôs que o irmão considerasse relacionados à morte súbita da mãe de ambos os seus pesadelos e a maneira como se debatia na cama — e estava certo... mas apenas parcialmente certo. Havia a culpa; o seguro, fatal conhecimento de que matara a mãe, ao dar corda no macaco, naquela tarde ensolarada, depois da escola.
Quando Hal finalmente adormeceu, seu sono devia ter sido profundo. Ao acordar, era quase meio-dia. Petey estava sentado de pernas cruzadas em uma cadeira, no outro lado do quarto, chupando uma laranja metodicamente, gomo por gomo, enquanto via um jogo na televisão.
Hal girou as pernas para fora da cama, com a sensação de que havia sido esmurrado enquanto dormia... e depois esmurrado para acordar. Sua cabeça latejava.
— Onde está sua mãe, Petey?
Petey olhou em torno.
— Ela e Dennis foram fazer compras. Eu disse que ia ficar aqui com você. Você sempre fala dormindo, papai?
Hal olhou cautelosamente para ó filho.
— Não. O que foi que eu disse?
— Não pude entender. Fiquei um pouco assustado.
— Bem, pois aqui estou eu, com a cabeça no lugar outra vez.
Hal forçou um sorriso. Petey sorriu de volta e ele tornou a sentir uma onda de puro amor pelo menino, uma emoção que era viva, forte e sem complicações. Perguntou-se por que era capaz de sempre sentir-se tão bem em relação a Petey, sentir que podia compreendê-lo e ajudá-lo, enquanto Dennis lhe parecia uma janela escura demais para olhar-se através dela, um mistério em suas maneiras e hábitos, o tipo de menino que não conseguia entender, porque nunca havia sido como ele. Era muito fácil dizer que a mudança da Califórnia modificara Dennis ou que...
Seus pensamentos congelaram-se. O macaco. O macaco estava no peitoril da janela, com os címbalos afastados. Hal sentiu o coração estacar dentro do peito, para subitamente começar a galopar. Sua visão oscilou e a cabeça latejante passou a doer ferozmente.
O macaco escapara de sua pasta e agora se postava no peitoril da janela, sorrindo para ele.
Pensou que se livraria de mim, não foi? Ora, você já pensou isso antes, não pensou?
Sim, pensou, nauseadamente. Sim, eu pensei.
— Foi você que tirou aquele macaco de minha pasta, Pete? — perguntou, já sabendo a resposta.
Hal havia trancado a pasta e colocara a chave no bolso do sobretudo. Petey olhou para o macaco e algo — Hal pensou que fosse inquietação — passou por seu rosto.
— Não — respondeu o menino. — Ela o botou ali.
— Mamãe fez isso?
— Fez. Ela tirou o macaco de você. E riu.
— Tirou-o de mim? De que está falando?
— Você foi para a cama com ele. Eu estava escovando os dentes, mas Dennis viu. Ele também riu. Disse que você parecia um bebê com um ursinho.
Hal olhou para o macaco. Tinha a boca demasiado ressequida para poder engolir.
Levara o macaco para a cama? Para a cama? Tivera aquele pêlo nojento contra seu rosto, talvez contra sua boca, aqueles olhos brilhantes fitando seu rosto adormecido, aqueles dentes sorridentes encostados a seu pescoço? Em seu pescoço? Santo Deus!
Virou-se abruptamente e foi até o armário. Sua pasta continuava lá, ainda trancada. E a chave ainda estava no bolso de seu sobretudo.
Às suas costas, houve o clique da televisão sendo desligada. Hal saiu lentamente do closet. Petey o fitava ponderadamente.
— Eu não gosto desse macaco, papai.
— Nem eu — respondeu Hal.
Petey olhou fixamente para ele, querendo ver se brincava, mas o pai falava sério.
Aproximou-se e o abraçou com força. Hal podia senti-lo tremendo.
Petey então falou em seu ouvido, muito depressa, como que receando não ter coragem para repeti-lo... ou que o macaco pudesse ouvir.
— É como se ele olhasse para a gente. Como se me olhasse, em qualquer lugar do quarto que eu esteja. E, se vou para o outro quarto, parece que ele olha para mim, através da parede. Eu continuo a sentir que ele me olha... como se me quisesse para alguma coisa.
Petey estremeceu. Hal o apertou mais fortemente contra si.
— Como se quisesse que a gente lhe desse corda — disse Hal.
Petey assentiu violentamente.
— Ele não está com a corda quebrada para sempre, não é, papai?
— Só algumas vezes — disse Hal, fitando o macaco por sobre o ombro do filho. — Em outras, ela ainda funciona.
— Eu fiquei querendo ir lá e dar corda nele. Estava tudo muito quieto, e então pensei, não posso, vou acordar papai, mas ainda estava querendo, e fui até lá e... toquei ele, e não gostei de tocar... mas gostei também... e era como se ele dissesse, Me dê corda, Petey, vamos brincar, seu pai não vai acordar, ele nunca mais vai acordar, me dê corda, me dê corda...
De repente, o menino prorrompeu em lágrimas — disse, em voz quase baixa demais
— Ele é ruim, eu sei que é. Há alguma coisa errada com ele. Não podemos jogá-lo fora, papai? Por favor?
O macaco exibiu seu riso interminável para Hal, que sentia as lágrimas do filho entre eles. O sol da manhã avançada cintilou nos címbalos de latão do macaco — a luz se refletia para o alto e desenhava manchas ensolaradas no teto simples do motel, caiado de branco.
— A que horas sua mãe achava que estaria de volta com Dennis, Petey?
— Lá pela uma hora. — Petey enxugou os olhos vermelhos com a manga da camisa, parecendo constrangido com suas lágrimas, mas não olhou para o macaco. — Eu liguei a televisão — sussurrou. — E liguei bem alto.
— Fez bem, Petey.
Como é que aconteceria? perguntou-se Hal. Ataque cardíaco? Uma embolia, como minha mãe? Como? Aliás, não importa muito, não é mesmo?
E, emendando-se, outro pensamento mais frio: Livre-se dele, como Petey disse. Jogue-o fora. Só que, como livrar-me dele? Para sempre?
O macaco lhe sorriu zombeteiramente, os címbalos trinta centímetros separados entre si.
Teria voltado à vida de repente, na noite em que a Tia Ida morreu? perguntou-se Hal, subitamente, Seria aquele o último som ouvido por ela, o jang jang jang sufocado do macado, batendo seus címbalos no sótão escuro, enquanto o vento assobiava ao longo da calha?
— Talvez não seja tanta loucura — disse Hal ao filho, lentamente. — Vá pegar sua sacola de vôo, Petey.
Petey olhou para ele, com ar incerto.
— O que é que vamos fazer?
Talvez eu possa livrar-me dele. Talvez permanentemente, talvez apenas por algum tempo... um longo ou curto período. Talvez ele fique voltando e voltando, irremediavel-mente... mas talvez eu-nós-possamos ficar livres dele por muito tempo.
Desta vez, ele levou vinte anos para voltar. Levou vinte anos para sair do poço...
— Vamos dar uma volta — disse Hal. Sentia-se razoavelmente calmo, porém, de algum modo, muito pesado por dentro. Seus próprios globos oculares pareciam ter ganho peso.
— No entanto, primeiro quero que você leve sua sacola de vôo lá fora, até o fim do pátio de estacionamento, e encontre três ou quatro pedras de bom tamanho. Coloque-as dentro da sacola e traga para mim. Entendeu?
A compreensão tremulou nos olhos de Petey.
— Tudo bem, papai.
Hal consultou seu relógio. Quase 1:15.
— Depressa, filho. Quero já ter saído, antes que sua mãe volte.
— Aonde a gente vai?
— À casa do Tio Will e da Tia Ida — disse Hal. — Aquela onde morei.
Hal foi ao banheiro, olhou atrás do vaso sanitário e apanhou a vassourinha para limpá-lo, guardada ali. Levou-a até a janela e ficou parado com a vassourinha na mão, como se fosse uma varinha-de-condão com cabo curto. Espiou para fora e viu Petey, em sua camisa-blusão de lã, atravessando o pátio de estacionamento, com sua sacola de vôo, a palavra DELTA destacando-se nitidamente em letras brancas contra o fundo azul. Uma mosca zumbiu em uma quina superior da janela, vagarosa e estúpida com o fim da estação calorenta. Hal sabia como ela se sentia.
Observou Petey escolhendo três pedras de bom tamanho e depois começar a andar de volta, cruzando o pátio de estacionamento. Um carro dobrou a esquina do motel, um carro que se movia muito rápido, rápido demais e, sem pensar, agindo com o tipo de reflexo mostrado por um bom shortstop* indo para a direita, a mão que segurava a vassourinha desceu bruscamente, como em um golpe de karatê... e parou.
* No beisebol, jogador situado perto da segunda base. (N. da T.)
Os címbalos se fecharam sobre sua mão interposta, silenciosamente, e ele captou algo no ar. Algo como raiva.
Os freios do carro chiaram. Petey saltou para trás. O motorista acenou para ele, impacientemente, como se o que quase acontecera houvesse sido culpa do menino.
Então, Petey cruzou o pátio de estacionamento em disparada, a gola agitando-se no ar, e entrou pela porta dos fundos do motel.
O suor escorria pelo peito de Hal; ele o sentiu na testa, como um filete de chuva oleosa.
Os címbalos pressionavam-se friamente contra sua mão, entorpecendo-a.
Prossiga, pensou ele, ferozmente. Prossiga, eu posso esperar o dia inteiro. Até que o inferno se congele, se demorar tanto.
Os címbalos afastaram-se e ficaram imóveis. Hal ouviu um débil clique!, vindo das entranhas do macaco. Afastou a vassourinha e olhou para ela. Algumas das cerdas brancas tinham escurecido, como que chamuscadas.
A mosca esvoaçou e zumbiu, tentando encontrar o frio sol de outubro, que parecia tão próximo.
Petey irrompeu no quarto, respirando apressadamente, as bochechas rosadas.
— Consegui três pedras ótimas, papai, eu... — interrompeu-se. Você está bem, papai?
— Estou ótimo — disse Hal. — Traga a sacola aqui.
Com o pé, Hal puxou a mesa junto ao sofá para baixo da janela, até deixá-la sob o peitoril, e colocou a sacola em sua superfície. Arreganhou a boca da sacola, como se fossem lábios. Podia ver as pedras que Petey reunira, brilhando no interior. Usou a vassourinha do banheiro, a fim de puxar o macaco para diante. Ele vacilou por um instante, depois caiu dentro da sacola. Houve um fraco jang! quando um de seus címbalos se chocou em uma das pedras.
— Pai? Papai?
A voz de Petey parecia amedrontada. Hal olhou para ele. Algo estava diferente; alguma coisa mudara. O que era? Então, viu a direção do olhar do menino e ficou sabendo. O zumbido da mosca cessara. Ela jazia morta no peitoril.
— Foi o macaco que fez isso? — sussurrou Petey.
— Vamos — disse Hal, puxando o zíper da sacola para fechá-la. — Eu lhe conto. enquanto vamos até a casa.
— E como podemos ir até lá? Mamãe e Dennis levaram o carro.
— Não se preocupe — disse Hal. e assanhou os cabelos de Petey.
Na portaria. ele mostrou ao atendente sua carteira de motorista e uma nota de vinte dólares. Após ficar com o relógio digital Texas Instruments como garantia colateral, o homem entregou-lhe as chaves de seu próprio carro — um castigado Gremlin AMC.
Enquanto rodavam para leste pela Estrada 302, em direção a Casco, Hal começou a falar, algo vacilante a princípio, depois um pouco mais rápido. Principiou contando a Petey que seu pai provavelmente trouxera o macaco do estrangeiro, como um presente para os filhos. Não era um brinquedo particularmente único — nada havia nele de estranho ou valioso. Talvez existissem centenas de milhares de macacos de corda no mundo, alguns fabricados em Hong Kong, outros em Taiwan ou na Coréia. Entretanto, em algum ponto ao longo da linha — talvez mesmo no escuro armário dos fundos da casa em Connecticut, onde os dois meninos tinham acabado de crescer — alguma coisa acontecera ao macaco. Alguma coisa ruim. Podia ser, disse Hal, enquanto tentava forçar o Gremlin do atendente a passar dos sessenta quilômetros, que algumas coisas ruins — talvez até coisas muito ruins — nem mesmo estivessem despertas e cônscias do que fossem. Deixou o assunto assim, porque provavelmente seria o máximo à altura do entendimento de Petey, mas sua mente prosseguiu em um curso pessoal. Refletiu que a maioria do mal podia ser muito semelhante a um macaco repleto de mecanismos a que se dava corda; a corda funcionava, os címbalos começavam a tocar, os dentes riam, os idiotas olhos de vidro davam risadas... ou pareciam dá-las...
Contou a Petey como encontrara o macaco, mas pouco mais além disso — não queria aterrorizar seu garoto, deixando-o mais amedrontado do que já estava. Desta maneira, a história ficou desconexa, não muito clara. porém Petey não fez perguntas; era possível que estivesse preenchendo os claros sozinho, pensou Hal, mais ou menos como acontecera com ele próprio, ao sonhar incessantemente com a morte da mãe, embora não a tivesse presenciado.
Tio Will e Tia Ida haviam comparecido ao funeral. Depois disso, o Tio Will retornara ao Maine — era época da colheita — e a Tia Ida ficara duas semanas com os meninos, a fim de regularizar os negócios da irmã, antes de levá-los para o Maine. Contudo, mais do que isso, ela procurava dar-se a conhecer aos dois — estavam tão atordoados pela morte súbita da mãe, que pareciam em choque. Quando não conseguiam dormir, ela se fazia presente com um copo de leite morno. Hal acordava às três da madrugada com pesadelos (pesadelos em que sua mãe se aproximava do bebedouro, sem ver o macaco que flutuava e bamboleava-se em suas frias profundezas azul-safira, rindo e batendo os címbalos, cada par convergente de batidas deixando esteiras de borbulhas); ela estava lá, quando Bill caiu doente, primeiro com febre, depois com uma erupção de dolorosas feridas na boca, seguida por urticária, três dias após o funeral; ela estava lá. Fez-se familiar aos meninos e, antes de tomarem o ônibus de Harford a Portland em sua companhia, tanto Bill como Hal a procuraram separadamente e choraram em seu colo, enquanto ela os abraçava e consolava, assim começando o elo entre eles.
Na véspera de deixarem Connecticut definitivamente e "descerem para o Maine" (era como se dizia naquele tempo), o trapeiro chegou em seu chocalhante caminhão e recolheu a enorme pilha de coisas inúteis que Bill e Hal haviam carregado para a calçada, coisas do armário dos fundos. Quando tudo aquilo ficou amontoado na calçada para ser recolhido, Tia Ida dissera aos dois que voltassem ao armário dos fundos e recolhessem quaisquer sounvenirs ou lembranças que gostassem de conservar. Lá em casa não teremos lugar para tudo isso, meninos, ela disse a eles, e Hal supôs que Bill a endentera ao pé da letra, tendo então vasculhado todas aquelas caixas fascinantes que o pai deixara para trás, por uma última vez. Hal não se juntara ao irmão mais velho — perdera a atração pelo armário dos fundos. Uma idéia terrível lhe ocorrera durante aquelas duas primeiras semanas de luto: talvez meu pai não houvesse apenas desaparecido ou fugido, simplesmente porque os pés comichavam e descobrira que casamento não era para ele.
Talvez o macaco o tivesse apanhado.
Ao ouvir o caminhão do trapeiro rugindo, pipocando e estourando no fim do quarteirão, Hal encheu-se de coragem, tirou o macaco da prateleira onde ficara desde o dia da morte de sua mãe (ele não ousara mais tocá-lo, nem mesmo jogá-lo de volta no armário) e correu para baixo com o brinquedo. Nem Bill nem Tia Ida o viram. A caixa de papelão de Ralston-Purina estava no topo de uma barrica, repleta de souvenirs quebrados e livros mofados. Hal jogara o macaco na caixa já cheia, a mesma caixa onde estivera antes, ordenando histericamente que ele começasse a tocar seus címbalos (continue, continue, eu lhe ordeno, estou ordenando. ORDENO DUAS VEZES), mas o macaco apenas ficou lá deitado despreocupadamente de costas, como se esperasse um ônibus, exibindo seu horrendo sorriso sabido.
Hal permaneceu ali, um menininho em velhas calças de brim e tênis surrados, enquanto o trapeiro, um italiano que usava um crucifixo e assobiava através de falhas entre os dentes, começava a colocar caixas e barricas em seu velho caminhão, na carroceria com laterais de madeira. Hal o viu erguer a barrica e a caixa de Ralston-Purina equilibrada em seu topo; viu o macaco desaparecer na carroceria do caminhão: viu quando o trapeiro subiu para a boléia, assoou vigorosamente o nariz na palma da mão, que depois limpou em um enorme lenço vermelho, e deu partida ao motor, com um rugido e uma explosão de fumaça azul cheirando a gasolina; viu o caminhão afastar-se. Então, um grande peso saiu de seu coração — chegou a senti-lo indo embora. Deu dois saltos, o mais alto que pôde saltar, os braços abertos, mãos espalmadas, e se algum vizinho o vira, certamente acharia aquela atitude estranha, talvez ao ponto de blasfêmia — porque aquele garoto está pulando de alegria (porque, evidentemente assim era; um salto de alegria dificilmente é disfarçado), eles sem dúvida se perguntariam, se ainda nem faz um mês que sua mãe foi sepultada?
Hal fazia aquilo porque o macaco se fora. Fora-se para sempre.
Ou, pelo menos, assim pensara ele.
Apenas três meses mais tarde, a Tia Ida o mandara ao sótão, apanhar as caixas com enfeites de Natal. Enquanto engatinhava de um lado para outro, empoeirando os joelhos das calças, de repente se vira outra vez cara a cara com ele. Seu espanto e terror haviam sido tais, que precisou morder rispidamente o lado da mão, para não gritar... ou perder os sentidos. Lá estava ele, exibindo o sorriso dentuço, os címbalos distanciados trinta centímetros um do outro e prontos para chocalhar, reclinado despreocupadamente contra um canto da caixa de papelão de Ralston-Purina, como se esperasse um ônibus, parecendo dizer: Pensou que ia ficar livre de mim, não foi? Só que não é tão fácil livrar-se de mim, Hal. Eu gosto de você, Hal. Fomos feitos um para o outro, apenas um menino e seu macaco de estimação, dois bons e velhos amigos. E, em alguma parte ao sul daqui, há um trapeiro idiota, um velho italiano jazendo em uma banheira com pés em garras, os olhos esbugalhados e as dentaduras quase caindo da boca, uma boca que dava gritos agudos, um trapeiro que fede como uma bateria Exide pifada. Ele estava me guardando para seu neto, Hal. Ele me pôs na prateleira do banheiro, ao lado de seu sabonete, de sua navalha de barba, de seu creme de barbear e do rádio Philco em que ouvia os jogos dos Dodgers de Brooklyn. Então, comecei a chocalhar, um dos meus címbalos bateu no velho rádio e o derrubou dentro da banheira. Foi quando voltei para você, Hal, fiquei vagando estradas à noite, com um luar se refletindo em meus dentes às três da madrugada: deixei muitas pessoas Mortas em muitos Locais. Vim para você, Hal, sou o seu presente de Natal. Quer me dar corda, quem está morto? É Bill? É o Tio Will? É você, Hal? É você?
Hal tinha recuado, fazendo alucinadas caretas, os olhos revirando-se e quase caiu escada abaixo. Contou para Tia Ida que não fora capaz de encontrar os enfeites de Natal — era a primeira mentira que lhe dizia e ela lera a mentira em seu rosto, mas não perguntou por que mentira, graças a Deus — e mais tarde, quando Bill chegara, ela lhe tinha pedido para procurar e ele encontrou os enfeites de Natal. Horas depois, quando estavam sozinhos, Bill o chamara de burro, incapaz de encontrar o próprio traseiro com as duas mãos e uma lanterna. Hal nada respondera. Estava pálido, apenas comendo seu jantar. E, naquela noite, tornou a sonhar com o macaco, com um de seus címbalos atingindo o rádio Philco, que irradiava a voz de Dean Martin, cantando Whenna da moon hitta you eye like a big pizza pie ats a moray. O rádio caía na banheira, enquanto o macaco ria e tocava seus címbalos, com um JANG, um JANG e um JANG. Só que não era o trapeiro italiano que estava na banheira, quando a agua ficou eletrificada.
Era ele.
Hal e seu filho desceram pelo acidentado terreno até o aterro atrás da casa, em direção à casa de barcos, que se projetava acima das águas sobre seus antigos pilares. Hal segurava a sacola de vôo na mão direita. Tinha a garganta seca, os ouvidos aguçados para um som singularmente sutil. A sacola estava muito pesada.
Depositou a sacola no chão.
— Não toque nela — avisou.
Tateou no bolso, procurando o molho de chaves que Bill lhe dera e encontrou uma, nitidamente etiquetada C. BARCOS, em uma tira de esparadrapo.
O dia era límpido e frio, ventava, o céu exibia um brilhante azul. As folhas das árvores que se adensavam até a beira do lago, ostentavam cada viva tonalidade outonal, do vermelho-sangue ao amarelo-ônibus-escolar. Elas falavam ao vento. Folhas soltas redemoinharam em torno dos tênis de Petey, enquanto o menino se mantinha ansiosamente imóvel, e Hal pôde captar o odor de novembro, logo abaixo do vento, com o inverno concentrando-se logo atrás.
A chave girou na fechadura e ele abriu as portas deslizantes. A lembrança era intensa; nem precisava olhar, para chutar o bloco de madeira que mantinha a porta aberta. O cheiro ali dentro era de pleno verão: lonas e madeiras resplandecentes, uma quentura luxuriante pairando no ar.
O bote a remos do Tio Will continuava ali, os remos cuidadosamente arrumados no interior, como se ainda na tarde da véspera ele o houvesse carregado com seus apetrechos de pesca e dois engradados de seis latas de Black Label. Tanto Bill como Hal haviam saído para pescar muitas vezes com o Tio Will, porém nunca iam juntos. Tio Will afirmava que o barco era pequeno demais para três pessoas. Os arremates vermelhos, que ele retocava a cada primavera, agora estavam desbotados e descascando.
As aranhas haviam fiado seda na proa do barco.
Hal puxou o barco pela rampa abaixo, até a diminuta faixa de praia. As excursões pesqueiras tinham sido uma das melhores partes de sua meninice com o Tio Will e a Tia Ida. Sua impressão era de que Bill devia sentir o mesmo. Normalmente, o tio Will era o mais taciturno dos homens, porém assim que tinha o bote posicionado a seu gosto, uns sessenta ou setenta metros além da margem, com as linhas colocadas, as bóias de linha de pesca flutuando acima da água, ele abria uma cerveja para si e outra para Hal (que raramente bebia mais do que metade da única lata permitida pelo Tio Will, sempre com a ritual advertência do tio, de que a Tia Ida jamais deveria saber, porque "ela me daria um tiro, se soubesse que eu estava dando cerveja para vocês, meninos, beberem"), tornando-se expansivo como cera. Contava histórias, respondia perguntas, recolocava isca no anzol de Hal quando era preciso... e o barco vagava para onde o vento e a branda corrente o levavam.
— Por que nunca vai até o meio do lago, Tio Will? — perguntara Hal certa vez.
— Olhe pela borda do barco — respondera o Tio Will.
Hal tinha olhado. Viu a água azul e sua linha de pesca afundando em negro.
— Está olhando para a parte mais funda do Lago Cristal — dissera Tio Will, amassando a lata vazia de cerveja em uma das mãos e escolhendo uma nova com a outra. — Uns cem metros, mais um, menos um centímetro. O velho Studebaker de Amos Culligan está em algum lugar, aí embaixo. O maldito tolo trouxe o carro para o lago, em um começo de dezembro, antes que o gelo ficasse firme. Teve sorte bastante em escapar vivo, se teve!
Nunca conseguiram recuperar aquele Stud e nunca mais o verão, até soprar a trombeta do Juízo Final. O lago é danado de fundo bem aqui, ora se é! Os peixes grandes estão bem aqui. Hal. Não precisamos ir mais longe. Vejamos como anda sua isca. Não faça cerimônia e enrole essa carretilha.
Hal obedeceu e, enquanto o Tio Will colocava uma minhoca fresca, tirada da velha lata de Crisco que servia como sua lata de iscas, ele espiou a água, fascinado, tentando ver o velho Studebaker de Amos Culligan, todo enferrujado, com algas escapando pela janela aberta do lado do motorista, através da qual Amos escapara no absolutamente último momento, algas (estonando o volante como um colar apodrecido, algas pendendo do espelho retrovisor e jogando de um lado para outro ao sabor das correntes, como um estranho rosário. No entanto, só conseguiu ver azul, matizando-se para negro, e havia o formato da minhoca do Tio Will, o anzol escondido dentro de seus nós, pendendo ali no meio das coisas, sua própria versão da realidade, um ensolarado e comprido cabo. Hal teve uma breve e vertiginosa visão de estar suspenso acima de um espantoso abismo, e fechara os olhos por um momento, até a vertigem passar. Naquele dia, teve a impressão de recordar, havia bebido toda a sua lata de cerveja.
...a parte mais funda do Lago Cristal... uns cem metros, mais um, menos um centímetro.
Parou por um momento, resfolegante, e ergueu os olhos para Petey, imóvel e olhando ansiosamente.
— Precisa de ajuda, papai?
— Não. É só um momento.
Recuperou a respiração e então puxou o barco pela estreita faixa de areia até a água, deixando um sulco. A pintura descascara, mas o barco tinha sido mantido ao abrigo e parecia em bom estado.
Nas ocasiões em que saía para pescar, o Tio Will puxava o barco rampa abaixo e pulava para ele quando a proa flutuava. Então, agarrando um remo para empurrá-lo, gritava para Hal: "Empurre-me para fora, Hal... é aqui que você merece confiança!"
— Dê-me essa sacola, Petey. Depois empurre o barco — disse ele. Sorrindo um pouco, acrescentou: — É aqui que você merece confiança!
Petey não sorriu de volta.
— Eu vou também, papai?
— Não agora. Em outra vez eu o levarei para pescar, mas... não agora.
Petey vacilava. O vento desmanchava seus cabelos castanhos e algumas folhas, leves e secas, passaram revoluteando por seus ombros, indo pousar no limite das águas, elas próprias boiando como barcos.
— Você devia tê-lo encoberto — disse ele, em voz baixa.
— O quê? — perguntou Hal, mas pensou ter entendido o que Petey queria dizer.
— Botar algodão em cima dos címbalos. Prender com fita adesiva. Assim, ele não poderia... fazer aquele barulho.
De repente, Hal se lembrou de Daisy vindo em sua direção — não caminhando, mas cambaleando — e como, subitamente, o sangue jorrara de ambos os olhos da cachorra, em uma torrente que lhe encharcou o pêlo e pingou no piso do celeiro, como ela tombou sobre as patas dianteiras... e no ar imóvel do dia chuvoso de primavera em que ouvira o som, não amortecido, mas curiosamente claro, vindo do sótão da casa, a quinze metros de distância: Jang jang jang jang!
Hal começara a gritar histericamente, deixando cair a braçada de lenha que levava para o fogo. Correu até a cozinha, ao encontro do Tio Will, que comia ovos estrelados e torradas, os suspensórios ainda nem puxados para cima dos ombros.
— Ela já estava velha, Hal —, havia dito o Tio Will, com o rosto abatido e infeliz ele também parecendo velho. — Estava com doze anos, o que é muita idade para um cão. Procure aceitar a realidade — a velha Daisy não gostaria de vê-lo assim.
Velha, ecoara o veterinário, ao mesmo tempo em que parecia perturbado, porque cães não morrem de hemorragias cerebrais explosivas, mesmo aos doze anos ("Como se alguém houvesse colado uma bomba em sua cabeça", Hal o ouviu dizendo ao Tio Will, enquanto este cavava um buraco atrás do celeiro, não muito longe do lugar em que enterrara a mãe de Daisy, em 1950; "Nunca vi nada parecido, Will").
E mais tarde, quase fora de si pelo terror, mas incapaz de controlar-se, Hal subiu até o sótão.
Olá, Hal, como vai? sorriu-lhe o macaco, de seu canto em penumbras. Os címbalos estavam imóveis, uns trinta ou mais centímetros distanciados entre si. A almofada do sofá, que Hal por fim colocara entre eles, agora estava jogada através do sótão. Algo — alguma força — a jogara lá com força bastante para rasgar-lhe o envoltório, e o recheio se espalhara para fora. Não se preocupe com Daisy, sussurrou o macaco, dentro de sua cabeça, os olhos vidrados, cor de avelã, fixos nos azuis e esbugalhados de Hal Shelburn.
Não se preocupe com Daisy, ela era velha, Hal, o próprio veterinário disse isso e, já que estamos no assunto, viu o sangue jorrando dos olhos dela, Hal? Dê-me corda, Hal. Dê-me corda, vamos brincar, e quem está morto, Hal? É você?
Quando caiu em si, percebeu que estivera engatinhando para o macaco, como que hipnotizado. Tinha uma mão estendida para tocar a chave da corda. Então, rastejou para trás, quase caindo pelos degraus do sótão em sua pressa — provavelmente teria caído, se o poço da escada não fosse tão estreito. Um leve som gemido brotava de sua garganta.
Agora, sentado no barco, olhava para Petey.
— Amortecer os címbalos não funciona — falou. — Já tentei isso uma vez.
Petey lançou um olhar nervoso para a sacola de vôo.
— O que aconteceu, papai?
— Nada sobre o que eu desejaria falar agora — respondeu Hal — e nada que você quisesse ouvir. Venha e dê-me um empurrão.
Petey inclinou-se para empurrar o barco. O leme riscou a areia e Hal ajudou com um remo. De repente, aquela sensação de estar amarrado à terra desapareceu e o barco se movia levemente, uma embarcação outra vez, após anos de prisão na escura casa de barcos, balouçando-se em ondas ligeiras. Hal libertou o outro remo e fechou as forquetas para sustentá-los.
— Tome cuidado, papai — disse Petey.
— Isto não vai demorar muito — prometeu Hal, mas olhou para a sacola de vôo e interrogou-se.
Começou a remar, flexionando o corpo para impelir o barco. Passou a sentir a velha dor familiar no fim das costas e entre as omoplatas. A margem foi ficando para trás. Petey estava magicamente com oito anos de novo, seis, um garoto de quatro anos, em pé à beira da água. Fez pala acima dos olhos, com uma mão de bebê.
Hal olhou casualmente para a margem, mas não se permitiu realmente estudá-la. Fazia quase quinze anos e, se observasse a linha da praia com minúcias, veria mais as modificações que as similaridades, e se perderia. O sol batia em seu pescoço e ele começou a suar. Olhou para a sacola de vôo e, por um momento, perdeu o ritmo abaixar-e-puxar. A sacola de vôo parecia... parecia avolumar-se. Hal passou a remar mais depressa.
O vento ganhou força, secando o suor e refrescando-lhe a pele. O barco subiu e a proa jogou água para os lados, quando ele desceu. Não teria o vento aumentado, somente no último minuto ou coisa assim? E Petey, não estava gritando algo? Sim, estava. Hal não podia ouvi-lo, por causa do vento. Não importava. Ia livrar-se do macaco, por mais outros vinte anos — ou talvez (para sempre, meu Deus, por favor) para sempre — isso era o que importava.
O barco empinou-se e desceu. Hal olhou para a esquerda e viu pequenas ondas coroadas de espuma. Tornou a espiar a linha da praia, viu Hunter's Point (a Ponta do Caçador) e uma construção em ruínas, que devia ter sido a casa de barcos dos Burdon, quando ele e Bill eram crianças. Estava quase lá agora. Quase sobre o ponto em que o famoso Studbaker de Amos Culligan afundara no gelo, em um longínquo dezembro. Quase acima da mais profunda zona do lago.
Petey gritava alguma coisa; gritava e apontava. Hal ainda não podia ouvi-lo. O barco a remos balançava e rolava, achatando nuvens de fino spray, em cada lado de sua proa descascada. Um diminuto arco-íris cintilou em um jato d'água pulverizado e foi dividido ao meio. Sol e chuva percorriam o lago, intercalados, e agora as ondas não eram mais tão brandas, as coroadas de espuma estavam mais altas. Seu suor secara e sua pele arrepiava-se, os borrifos de água haviam molhado as costas de seu blusão. Remou carrancudamente, os olhos alternando-se entre a linha da praia e a sacola de vôo. O barco tornou a subir, agora tão alto, que por um momento o remo direito moveu-se no ar, em vez de na água.
Petey apontava para o céu, seu grito agora era apenas uma fraca e brilhante tira sonora.
Hal olhou por sobre o ombro.
O lago era um frenesi de ondas. Passara para uma mortal e escura tonalidade de azul, pontilhado de espumas brancas. Uma sombra correu através de água em direção do barco, e algo em sua forma era familiar, tão familiar, que Hal olhou para cima — e então o grito estava ali, lutando em sua garganta opressa.
O sol estava atrás da nuvem, transformando-a em uma forma corcovada. com dois crescentes orlados de dourado, distanciados entre si. Havia dois buracos furados no final da nuvem. e a luz do sol passava através deles, em duas colunas.
Quando a nuvem cruzou por sobre o barco, os címbalos do macaco, apenas amortecidos pela sacola de vôo, começaram a bater. Jang jang jang jang, é você, Hal, finalmente é você; agora sobre a parte mais linda do lago chegou a sua vez, sua vez.. sua vez....
Todos os elementos necessários da linha da margem encaixavam-se em seus lugares. A carcaça apodrecida do Stubedaker de Amos Culligan jazia em algum ponto abaixo, era ali que ficavam os peixes grandes, aquele era o lugar.
Hal firmou os remos nas forquetas, em um gesto rápido, inclinou-se para diante, pouco ligando para o barco que saltava loucamente, e agarrou a sacola de vôo. Os címbalos tocavam sua selvagem música pagã; as laterais da sacola bramiam, como por efeito de tenebrosa respiração.
— Bem aqui, seu filho da mãe! — gritou Hal. — BEM AQUI!
Jogou a sacola por sobre a borda do barco.
Ela afundou depressa. Por um momento, ele a viu descendo, as laterais movendo-se — e naquele momento interminável, ainda podia ouvir os címbalos batendo. E também por um momento, as águas negras pareceram clarear, deixando-o ver no interior daquele terrível abismo, até onde jaziam os peixes graúdos; lá estava o Studebaker de Amos Culligan, e a mãe de Hal se postava atrás de seu volante limoso, um esqueleto sorridente, com um peixe de água doce espiando friamente por uma órbita ocular descarnada. Tio Will e Tia Ida reclinavam-se indolentemente ao lado dela, e os cabelos grisalhos da Tia Ida flutuaram para o alto quando a sacola caiu, girando e girando sobre si mesma, deixando para trás bolhas prateadas: jang jang jang jang...
Hal bateu com os remos na água outra vez, tirando sangue dos nós dos dedos esfolados (e, oh, meu Deus, a traseira do Studebaker de Amos Culligan estava cheia de crianças mortas! Charlie Silrerman... Johnny McCabe..., e começou a trazer o barco de volta.
Houve um estalo entre seus pés, seco como um tiro de revólver e, de repente, água clara se infiltrava entre duas tábuas. O barco era velho; a madeira encolhera um pouco, sem dúvida; era apenas uma pequenina fenda. Contudo, não estava ali, quando remara para o lago. Hal podia jurar.
A margem e o lago trocaram de lugares, em sua visão. Petey agora ficava às suas costas.
Acima dele, desfazia-se aquela terrível nuvem simiana. Hal começou a remar. Vinte segundos bastaram para convencê-lo de que remava para salvar a vida. Como nadador, era apenas regular, porém mesmo um ás da natação seria posto à prova. naquelas águas subitamente enfarruscadas.
Outras duas tábuas afastaram-se de repente, com aquele som de tiro de revólver.
Mais água penetrou no barco, molhando seus sapatos. Havia pequeninos ruídos metálicos de algo se quebrando, e ele percebeu que eram produzidos por pregos. Uma forqueta se soltou e voou para a água — o torniquete seria o seguinte?
O vento agora vinha de suas costas, como se tentasse retardá-lo ou mesmo impeli-lo para o meio do lago. Hal estava aterrorizado, mas sentia uma louca espécie de euforia, através do terror. Desta vez, o macaco se fora para sempre. De certa forma, estava certo disso. O que quer que lhe acontecesse, o macaco não voltaria para lançar uma sombra sobre a vida de Dennis ou de Petey. O macaco se fora, agora talvez repousasse sobre o capô do Studebaker de Amos Culligan, no fundo do Lago Cristal. Fora-se para sempre.
Hal remou, abaixando-se para diante e inclinando-se para trás. Aquele som estalante, retalhado, voltou a repetir-se. Agora, a enferrujada lata de Crisco que jazia no fundo do barco, flutuava em sete centímetros de água. Os borrifos salpicaram o rosto de Hal.
Houve um ruído mais alto e estalante, quando o assento de proa caiu em dois pedaços e ficou flutuando perto da lata de iscas. Uma tábua se soltou no lado esquerdo do barco, depois outra, esta junto à linha d'água, no lado direito. Hal remou. A respiração arranhava em sua boca, quente e seca, então foi sua garganta que se inchou, com o sabor de cobre da exaustão. Seus cabelos, molhados de suor, agitavam-se ao vento.
Agora, um estalo percorreu a superfície diretamente acima do fundo do barco, ziguezagueou entre seus pés e correu até a proa. A água esguichou para dentro; ele tinha água até os tornozelos, depois até o início da panturrilha. Continuou remando, mas o movimento do barco em direção à margem, agora ficara entorpecido. Não ousava olhar para trás, a fim de verificar em que altura estava.
Outra tábua se afrouxou. O estalo percorrendo o centro do barco adquiriu ramificações, como uma árvore. A água penetrava por todas as fendas possíveis.
Hal começou a usar os remos como em uma arrancada, a respiração lhe saindo em grandes haustos ofegantes. Deu uma remada... duas... e na terceira, os dois torniquetes dos remos se soltaram. Ele perdeu um remo, aferrou-se ao outro. Levantando-se, pôs-se a golpear a água com ele. O barco oscilou, quase emborcou e tornou a jogá-lo no assento, com um baque seco.
Momentos mais tarde afrouxavam-se outras tábuas, o assento afundou e ele se viu na água que enchia o fundo do barco, espantado com sua frieza. Tentou ficar de joelhos, pensando em desespero: Petey não deve ver isto, não pode ver o pai afogar-se diante de seus olhos, você vai nadar, nadar cachorrinho, se for preciso, mas faça, faça alguma coisa...
Houve outro estalo estilhaçante — quase um rompimento — e ele se viu na água, nadando para a margem como jamais nadara em sua vida... e a margem estava maravilhosamente próxima. Um minuto depois, viu-se em pé, com a água pela cintura, nem a cinco metros da praia.
Petey entrou estabanadamente no lago, com os braços estendidos, gritando e chorando, ao mesmo tempo em que ria. Hal correu para ele, chapinhou na água e caiu. Petey, com água pelo peito, caiu também.
Os dois agarraram-se.
Respirando em profundos haustos, Hal ainda assim ergueu o menino no colo e o carregou até a praia, onde os dois se jogaram, ofegantes.
— Papai? Ele se foi mesmo? Aquele macaco maldoso?
— Sim, acho que se foi. Desta vez, para sempre.
— O barco se desmanchou. Ele se... desmanchou todo, em volta de você. Hal olhou para as tábuas, flutuando dispersas sobre a água, a doze metros de distância. Não mostravam qualquer semelhança com o ajustado barco feito à mão, que havia puxado da casa de barcos.
— Está tudo bem agora — disse Hal, reclinando-se sobre os cotovelos.
De olhos fechados, deixou que o sol lhe aquecesse o rosto.
— Você viu a nuvem? — sussurrou Petey.
— Vi... mas não a vejo agora. E você?
Os dois olharam para o céu. Havia espalhados tufos brancos aqui e ali, mas nenhuma nuvem escura. Fora-se, com ele havia dito. Hal ajudou Petey a levantar-se.
— Há toalhas na casa. Vamos. — Então, fez uma pausa e contemplou o filho. — Você foi louco, correndo daquele jeito.
Petey o fitou solenemente.
— Você foi corajoso, papai.
— Fui? — A idéia de coragem nunca lhe passara pela cabeça. Nela havia somente seu medo. Um medo grande demais, para que pudesse ver qualquer outra coisa. Se é que algo mais existira lá. — Vamos, Pete.
— O que vamos dizer a mamãe?
Hal sorriu.
— Não sei, garotão, mas pensaremos em algo.
Parou por um momento mais longo e olhou para as tábuas que boiavam sobre a água. O lago estava novamente calmo, cintilando com pequenas ondulações. De repente, Hal pensou nos veranistas que nem mesmo conhecia — um homem e seu filho, talvez, em excursão de pesca, procurando os peixes graúdos. Acho que fisguei alguma coisa aqui, papai! grita o menino. Muito bem, enrole essa carretilha e vejamos o que foi, responde o pai, e então, içado das profundezas, com algas pendendo em seus címbalos e exibindo seu terrível sorriso de acolhida... surge o macaco.
Hal estremeceu — mas aquelas eram apenas coisas que podiam acontecer. — Vamos — tornou a dizer para Pete.
E os dois seguiram pela trilha acima, por entre a chamejante vegetação do outono, em direção à casa.
1903
De The Bridgton News 24 de outubro de 1980
MISTÉRIO NA MORTANDADE DE PEIXES
por Betsy Moriarty
Centenas de peixes mortos foram encontrados boiando de ventre para cima, no Lago Cristal, na vizinha cidade de Casco, em fins da semana passada. As quantidades maiores parecem ter morrido nos arredores de Hunter's Point, embora isto seja de difícil determinação, em vista das correntes que existem no lago. Os peixes mortos incluem todos os tipos comumente encontrados naquelas águas: pickerel, bluegills, sunnies, carpas, hornpout, truta castanha e arco-íris, assim como um salmão, perdido seu acesso ao mar. As autoridades de Caça e Pesca se dizem perplexas...
Foi como aconteceu. Na noite em que finalmente cedeu a pior onda de calor da história no norte da Nova Inglaterra — a noite em julho de 19... toda a região oeste do Maine foi devastada pelas mais terríveis tempestades que já testemunhei.
Morávamos em Long Lake e vimos a primeira dessas tempestades abrindo caminho sobre a água, em nossa direção, pouco antes do escurecer. Durante uma hora o ar havia ficado absolutamente parado. A bandeira americana colocada por meu pai em nossa casa de barcos, em 1936, jazia flácida contra seu mastro. Nem mesmo as pontas oscilavam. O calor era como uma coisa sólida, parecendo tão profundo, tão soturno como água de poço. Naquela tarde, nós três tínhamos ido nadar, porém a água não causava alívio, a menos que se fosse bem no fundo. Acontece que, nem eu e nem Steff queríamos ir para o fundo, porque Billy não podia. Billy tem cinco anos.
Tivemos uma refeição fria às cinco e meia, beliscando desanimadamente sanduíches de presunto e salada de batata no passadiço que dá para o lago. Ninguém parecia querer algo mais além de Pepsi, que estava em um balde de aço com cubos de gelo.
Depois que terminamos, Billy voltou a brincar em suas barras de exercícios por algum tempo. Eu e Steffy ficamos sentados, sem falar muito, fumando e espiando o soturno espelho chato do lago até Harrison, no lado oposto ao nosso. Alguns barcos à motor troavam para lá e para cá. Os pinheiros na margem contrária pareciam empoeirados e murchos. Para oeste, nuvens enormes e purpúreas acumulavam-se lentamente, maciças como um exército. Relâmpagos faiscavam dentro delas. Na casa ao lado, o rádio de Norton, sintonizado para aquela estação de música clássica, transmitida do alto do Monte Washington, soltava uma alta torrente de estática, sempre que brilhava algum relâmpago. Norton era um advogado de Nova Jersey e aquela casa junto ao Long Lake era apenas uma residência de verão, sem qualquer fornalha ou calefação. Dois anos antes, havíamos tido uma disputa sobre divisas, que acabou indo parar no tribunal do condado. Eu venci. Norton dizia que eu vencera porque ele era um forasteiro. Não havia excessos de amizade entre nós.
Steff suspirou desanimada e abanou o alto dos seios com a barra de sua frente única.
Duvidei que aquilo a refrescasse muito, mas o movimento melhorava bastante a vista.
— Não quero assusta-la — falei — mas acho que vem uma tempestade e tanto por ai.
Ela me fitou dubitativamente.
— Já tivemos trovoadas na noite de anteontem e ontem também, David. Não deram em nada.
— Esta noite vai ser diferente.
— Você acha?
— Se a coisa ficar preta, vamos para o andar de baixo.
— Acha mesmo que haverá temporal?
Meu pai tinha sido o primeiro a construir uma moradia que resistisse o ano inteiro, naquele lado do lago. Quando pouco mais do que um garoto, ele e seus irmãos haviam levantado uma casa de verão onde a nossa agora se assentava, mas uma tempestade de verão, em 1938, a derrubara até os alicerces, com paredes de pedra e tudo. Só a casa de barcos escapara. Um ano mais tarde, ele havia começado a casa grande. Agora, as árvores é que sofrem nos temporais fortes. Envelheceram e o vento as derruba. É a maneira da mãe natureza limpar a casa periodicamente.
— Para ser franco, não sei — falei, em tom sincero. Eu tinha apenas ouvido histórias sobre a grande tempestade de trinta e oito. — Contudo, o vento pode soprar do lago como um trem expresso.
Billy apareceu. pouco depois, queixando-se de que não estava divertido brincar nas barras de exercício, porque ele estava "todo suado". Afaguei seus cabelos, desmanchando-os, e lhe dei outra Pepsi. Mais trabalho para o dentista.
As nuvens cúmulos de trovoadas, estavam chegando mais perto, empurrando o azul do céu. Agora não havia mais dúvida sobre a iminência de uma tempestade. Norton desligara seu rádio. Billy sentou-se entre sua mãe e eu, espiando o céu como que fascinado. Os trovões ribombavam, rolando lentamente através do lago, ecoando e voltando a nós. As nuvens se torciam e rolavam, agora encimando todo o lago, e pude ver uma coifa delicada de chuva que caía delas. Tudo ainda muito distante. Enquanto olhávamos, provavelmente devia estar chovendo em Bolster's Mills, talvez até em Norway.
O ar começou a mover-se, primeiro intermitente, erguendo a bandeira e deixando-a cair de novo. Começou a refrescar e a brisa se firmou, primeiro esfriando a transpiração de nossos corpos, depois parecendo congelá-la.
Foi então que avistei o véu prateado, cruzando o lago. Em segundos, apagou Harrison da vista e veio direto para nós. Os barcos a motor tinham desaparecido do cenário.
Billy levantou-se de sua cadeira, uma réplica em miniatura de nossas cadeiras de diretor, completa com seu nome pintado às costas.
— Papai! Olhe!
— Vamos entrar — falei, levantando-me e passando o braço em torno de seus ombros.
— Você viu, papai? O que era aquilo?
— Um ciclone de água. Vamos entrar.
Steff lançou um olhar rápido e assustado para meu rosto.
— Vamos, Billy — disse em seguida. — Faça o que seu pai mandou.
Entramos pelas portas deslizantes de vidro que dão para a sala de estar. Fechei as portas, empurrando-as em seus trilhos, depois parei e olhei novamente para fora. O véu prateado já fizera três-quartos do trajeto através do lago. Reduzira-se a uma espécie de xícara de chá girando loucamente entre o céu negro, cada vez mais baixo, e a superfície da água, que ficara cor de chumbo, raiada de branco cromado. O lago começava a oferecer uma fantástica semelhança com o oceano, havia ondas enormes que se quebravam e lançavam espuma acima das docas e quebra-mares. Lá fora, no meio, ondas de crista espumosa jogavam as cabeças para um e outro lado.
Espiar o ciclone líquido era hipnótico. Estava quase sobre nós, quando um relâmpago riscou tudo com tanta luminosidade, que a paisagem permaneceu em negativo nos meus olhos, por trinta segundos depois disso. O telefone fez um assustado ting! e, quando me virei, vi minha esposa e meu filho, parados bem à frente do janelão que nos dá uma vista panorâmica do lago a noroeste.
Tive uma daquelas terríveis visões — creio que são reservadas exclusivamente para maridos e pais — em que a janela panorâmica se estilhaçava com um som grave de tosse seca, disparando flechas de vidro ao estômago nú de minha esposa, ao rosto e pescoço de meu garoto. Os horrores da Inquisição nada são, comparados às sinas que nossa mente arquiteta para os entes queridos.
Agarrei os dois com firmeza e os puxei dali.
— Diabo, o que estão fazendo? Saiam daí!
Steff deu-me um olhar assustado. Billy apenas olhou para mim como parcialmente despertado de um sono profundo. Guiei-os para a cozinha e apertei o interruptor da luz.
O telefone tilintou novamente.
Então, o vento chegou. Era como se a casa houvesse decolado, imitando um 747. Ouvia-se um assobio arquejante e agudo, às vezes aprofundando-se em um rugido grave antes de glissar para um uivo ululante.
— Vá para baixo! — falei para Steff, agora precisando gritar, a fim de ser ouvido.
Diretamente acima da casa, os trovões estremeciam pranchas gigantescas e Billy encolheu-se, agarrado à minha perna.
— Venha você também! — gritou Steff.
Assenti, fazendo gestos para acalmá-la. Precisei arrancar Billy de minha perna.
— Vá com sua mãe. Preciso apanhar algumas velas, para o caso da luz faltar.
Ele a seguiu, e eu comecei a abrir armários. Velas são coisas engraçadas, sabem como é.
A gente as guarda, todas as primaveras, sabendo que uma tempestade de verão pode interromper a energia elétrica. No entanto, chegado o momento, elas se escondem.
Agora, eu vasculhava o quarto armário, passando pelos quinze gramas de erva que comprara com Steff, quatro anos atrás, mas que ainda não fora inteiramente fumada, passando pelas dentaduras chocalhantes de dar corda, pertencentes a Billy e compradas na Loja de Novidades de Auburn, passando pelas fotos espalhadas que Steff sempre esquecia de colar em nosso álbum. Olhei debaixo de um catálogo da Sears e atrás de uma boneca Kewpie, de Taiwan, que eu ganhara na Feira de Fryeburg, derrubando garrafas de leite em madeira, com bolas de tênis.
Encontrei as velas atrás da boneca Kewpie, com seus vidrados olhos mortos de ser humano. Ainda estavam embrulhadas no celofane. Quando fechei a mão em torno delas, as luzes apagaram-se e a única eletricidade era a que provinha do céu. A sala de refeições iluminava-se em uma série de flashes rápidos, brancos e purpúreos. Ouvi Billy começando a chorar lá embaixo e o murmúrio sufocado de Steff tentando acalmá-lo.
Eu tinha que dar mais uma espiada na tempestade.
O ciclone líquido já devia ter passado sobre nós ou se dissolvera junto à margem, mas eu não conseguia ver além de vinte metros na superfície do lago. A água estava em absoluto torvelinho. Vi o embarcadouro de alguém — dos Jasser, talvez — arrancado com seus esteios principais, virando-se alternadamente para o céu e enterrando-se na água encapelada.
Desci. Billy correu a agarrar-se em minhas pernas. Levantei-o no colo e o abracei com força. Depois acendi as velas. Sentamo-nos no quarto de hóspedes, abaixo do saguão de meu pequeno estúdio e nos entreolhamos, à tremeluzente claridade amarelada das velas, enquanto ouvíamos a tormenta urrar e sacudir nossa casa. Uns vinte minutos mais tarde, ouvimos um ruído de madeira lascando, depois a queda, quando um dos grandes pinheiros foi derrubado nas proximidades. Em seguida, houve silêncio.
— Será que já terminou? — perguntou Steff.
— Talvez — respondi. — Talvez, apenas por algum tempo.
Subimos ao andar de cima, cada um carregando uma vela, como monges indo às vésperas. Billy carregava a sua, com cuidado e orgulhosamente. Carregar uma vela, carregar o fogo era uma grande coisa para ele. Ajudava-o a esquecer que tivera medo.
Estava muito escuro, para ver-se quais os danos existentes em volta da casa. Já passara da hora de Billy dormir, mas nenhum de nós sugeriu levá-lo para a cama. Sentados na sala de estar, ouvíamos o vento e olhávamos os relâmpagos.
Cerca de uma hora mais tarde, o temporal voltou. Durante três semanas, a temperatura passara dos trinta e dois graus e, em seis daqueles vinte e um dias, o Serviço Nacional de Meteorologia sediado no aeroporto de Portland, anunciara temperaturas acima de trinta e cinco graus e meio. Tempo esquisito. Além do extenuante inverno que havíamos atravessado e da primavera atrasada, algumas pessoas tinham desencavado aquela velha piada sobre os efeitos retardados dos testes com a bomba A nos anos cinqüenta. Isso é, naturalmente, o fim do mundo. A mais velha piada de todas.
A segunda borrasca não foi tão violenta, mas ouvimos a queda de várias árvores, enfraquecidas pela primeira investida. Quando o vento começou a esmorecer novamente, ouviu-se uma forte pancada no teto, como um punho que caísse sobre a tampa de um ataúde. Billy deu um salto e olhou apreensivamente para o alto.
— Ele agüenta, campeão — falei.
Billy sorriu nervosamente.
Por volta das dez da noite, chegou a última borrasca. Terrível. O vento ululava quase tão alto como da primeira vez e os relâmpagos pareciam explodir em toda a nossa volta.
Mais árvores caíram e ouvimos um ruído de madeira estilhaçada, seguido de uma queda, perto da água. Steff sufocou um grito. Billy acabara dormindo em seu colo.
— O que foi isso, David?
— Acho que foi a casa de barcos.
— Oh! Oh, meu Deus!
— Vamos todos para baixo novamente, Steffy — falei.
Tomei Billy nos braços e levantei-me com ele. Os olhos de Steff estavam arregalados e cheios de medo.
— Será que vamos ficar bem, David?
— Claro.
— Fala sério?
— Naturalmente.
Fomos para baixo. Dez minutos mais tarde, quando a borrasca final atingiu o auge, houve uma barulheira de vidros espatifados no andar de cima — a janela panorâmica.
Talvez a minha visão de horas antes não houvesse sido assim tão louca. Steff estivera cochilando e acordou com um pequeno grito agudo, enquanto Billy se remexia inquietamente na cama de hóspedes.
— A chuva entrará em casa — disse ela. — Acabará com os móveis.
— Se entrar, paciência. Está tudo no seguro.
— Isso não torna as coisas melhores — disse ela, em voz perturbada e reprovadora. — A cômoda de sua mãe... nosso sofá novo... a TV colorida...
— Psst — falei. — Durma.
— Não posso — respondeu ela, mas dormia cinco minutos depois.
Fiquei acordado por outra meia hora, tendo uma vela acesa por companhia, ouvindo o temporal caminhar e falar lá fora. Tive a sensação de que, pela manhã, haveria uma porção de residentes das margens do lago ligando para seus agentes de seguro, um bocado de serras zumbindo, enquanto os moradores cortavam as árvores caídas em seus tetos e varado suas janelas, bem como inúmeros caminhões amarelos da companhia de eletricidade rodando nos arredores.
O temporal agora diminuía, sem nenhum sinal de nova borrasca. Subi ao andar de cima, deixando Steff e Billy na cama. Examinei a sala de estar. A porta de vidro deslizante agüentara o rojão. Entretanto, no lugar onde antes houvera a janela panorâmica, agora havia um buraco chanfrado e recheado de folhas de bétula. Era o topo da velha árvore que crescia junto à entrada lateral para o porão, desde que eu podia recordar. Olhando para seu topo, agora visitando nossa sala de estar, podia entender o que Steff quisera dizer, ao falar que o seguro não tornava as coisas melhores. Eu amara aquela árvore.
Havia sido uma rude veterana de muitos invernos, a única árvore no lado da casa dando para o lago, que ficara isenta de minha própria serra de cadeia. Enormes estilhaços de vidro em cima do tapete, refletiam e repetiam a claridade de minha vela. Lembrei-me de avisar a Steff e Billy. Teriam que usar seus chinelos ali. Os dois gostavam de perambular descalços pela manhã.
Desci novamente ao andar de baixo. Dormimos os três na cama de hóspedes, com Billy entre nós dois. Sonhei que via Deus caminhando através de Harrison, no lado oposto do lago, um Deus tão gigantesco que, da cintura para cima, ficava perdido em um cristalino céu azul. No sonho, eu podia ouvir o estalo lacerante e o ruído de árvores lascadas se quebrando, quando Deus pisava forte nos bosques, imprimindo Suas pegadas entre as árvores. Ele circulava o lago, seguia para o lado de Bridgton, em nossa direção. Todos os chalés e casas de verão explodiam em chamas branco-púrpura, como relâmpagos, e logo a fumaça encobria tudo. A fumaça encobria tudo como um nevoeiro.
— Poxa! — exclamou Billy.
Ele estava em pé junto à cerca divisória entre nossa propriedade e a de Norton, com os olhos cravados em nossa entrada para carros, mais abaixo. Essa entrada de carros segue por uns duzentos e cinqüenta metros até uma estrada rural que, por sua vez, após uns setecentos e cinqüenta mais, emenda-se a uma outra, asfaltada e com duas pistas, chamada Estrada Kansas. Da Estrada Kansas, pode-se ir a qualquer lugar desejado, desde que seja Bridgton.
Vi o que Billy olhava e meu coração gelou.
— Não chegue mais perto, campeão. Onde você está já chega!
Billy não discutiu.
A manhã era brilhante e tão límpida como um toque de sino. O céu que mostrara uma tonalidade suja e obscura durante a onda de calor, recuperara um vívido azul que era quase outonal. Havia uma brisa leve, desenhando alegres manchas mosqueadas de sol na entrada de carros e movendo-as de um lado para outro. Não muito longe de onde estava Billy, ouvia-se um permanente ruído sibilante e, sobre a relva, estava o que, à primeira vista, seria tomado por um confuso enrodilhado de serpentes. Os cabos de força que vinham até nossa casa haviam caído emaranhados, a cerca de seis metros de distância, e jaziam sobre um retalho queimado de relva. Os cabos contorciam-se preguiçosamente e cuspiam. Se as árvores e o gramado não estivessem tão encharcados pelas chuvas torrenciais, aquilo poderia significar o fim para a casa. Agora, no entanto, havia apenas aquele retalho negro, onde os fios tinham tocado diretamente.
— Isso pode letocrutar uma pessoa, papai?
— Hã-hã. Pode sim.
— E o que a gente faz com isso?
— Nada. Vamos esperar pela companhia de eletricidade.
— E quando é que eles chegam?
— Não sei. — Garotos de cinco anos têm uma infinidade de perguntas a fazer. — Acho que eles andam muito ocupados esta manhã. Quer dar uma caminhada até o fim da alameda comigo?
Ele começou a andar e então parou, olhando nervosamente para os fios. Um deles se revirara e caíra de lado preguiçosamente, como que em um aceno.
— Papai, a letricidade pode andar no chão?
Uma pergunta sensata.
— Pode, mas não se preocupe. A eletricidade quer o chão, não você, Billy. Nada lhe acontecerá, se ficar longe dos fios.
— Ela quer o chão — murmurou Billy, caminhando para mim.
Seguimos pela entrada de carros, de mãos dadas. A coisa havia sido pior do que eu imaginara. Vi árvores caídas sobre a alameda em quatro pontos diferentes, uma delas de pequeno porte, outra mediana e uma vetusta, cujo tronco deveria medir metro e meio. O musgo aderira a ela como um corpete enlameado.
Galhos, alguns quase despidos das folhas, jaziam por toda parte, em desordenada profusão. Eu e Billy fomos até a estrada rural, atirando os ramos menores para o meio do mato, às margens da alameda. Aquilo me recordava certo dia de verão, talvez uns vinte e cinco anos antes; eu talvez não fosse muito mais velho do que Billy agora.
Todos os meus tios estavam ali e haviam passado o dia nos bosques, com machados e machadinhas, cortando mato. Já tarde avançada, haviam-se acomodado todos em volta da mesa de cavaletes que meus pais usavam para piqueniques e entregaram-se a uma refeição monstro de cachorros-quentes, hamburgeres e salada de batata. A cerveja Gansett rolara como água, e meu tio Reuben mergulhara no lago inteiramente vestido, inclusive com os sapatos. Naquele tempo, ainda havia alces nos bosques.
— Posso descer até o lago, papai?
Ele já se cansara de atirar galhos, de maneira que a coisa a fazer com um garotinho, quando se cansa, é deixá-lo fazer algo diferente.
— Claro — respondi.
Voltamos juntos e então Billy foi para a direita, contornando a casa e mantendo uma grande distancia dos fios caídos. Eu tomei a esquerda e fui à garagem, pegar minha serra McCullough. Como desconfiara, já podia ouvir a cantiga desagradável de outras serras, abaixo e acima, na margem do lago.
Completei o tanque, tirei a camisa e ia voltar para a alameda, quando Steff saiu. Ela olhou nervosamente para as árvores caídas, atravancando a entrada de carros.
— Está muito difícil?
— Posso dar um jeito — respondi. — E lá dentro?
— Bem, já limpei os vidros partidos, mas você terá que fazer algo com aquela árvore, David. Não podemos ficar com uma árvore na sala de estar.
— Não — concordei. — Acho que não podemos.
Entreolhamo-nos ao sol da manhã e demos risadinhas sufocadas. Coloquei a serra na área cimentada e beijei Steff, segurando suas nádegas com firmeza.
— Não faça isso — murmurou ela. — Billy está...
Ele surgiu gritando, enquanto dobrava a esquina da casa.
— Pai! Papai! Você tem que ver o...
Steff vira os fios soltos e gritou para ele tomar cuidado. Ainda a boa distância deles, Billy estacou de súbito e fitou a mãe, como se ela estivesse doida.
— Eu estou legal, mamãe — disse ele, naquele cuidadoso tom de voz que se emprega para acalmar os muito velhos e senis.
Depois caminhou para nós, mostrando o quanto estava bem. Steff começou a tremer em meus braços.
— Está tudo bem — falei em seu ouvido. — Billy sabe sobre esses fios.
— Sim, mas pessoas morrem — respondeu ela. Vêem anúncios na televisão o tempo todo, alertando sobre fios soltos, mas mesmo assim... Billy, quero que vá imediatamente para dentro!
— Oh, mãe, poxa! Quero mostrar a casa de barcos a papai!
Billy tinha os olhos quase esbugalhados de excitamento e desapontamento. Acabara de testemunhar uma amostra retardada do apocalipse e queria partilhá-la.
— Entre agora mesmo! Aqueles fios são perigosos e...
— Papai disse que eles querem o chão, não a mim...
— Não discuta comigo, Billy!
— Vou descer e dar uma espiada, campeão. Desça você também. — Pude sentir Steff retesar-se contra mim. — Vá pelo outro lado, filho.
— Tá bem! Eu vou!
Billy passou por nós correndo e desceu a escada de pedra que seguia para o oeste da casa, pulando os degraus de dois em dois. Desapareceu de vista com a fralda da camisa esvoaçando ao vento, e uma exclamação pairou no ar — "Uau!" — quando localizou outra peça de destruição.
— Ele já sabe sobre os fios, Steff. — Tomei-a delicadamente pelos ombros. Billy tem medo deles. Isso é bom. Deixa-o em segurança.
Uma lágrima lhe deslizou pelo rosto.
— Estou com medo, David.
— Ora, vamos! Tudo já terminou.
— Será? No inverno passado... e na primavera retardada... Na cidade, deram o nome de primavera negra... Eles disseram que nunca mais houvera outra, desde 1888...
"Eles", certamente significavam a Sra. Carmody, dona do Antiquário de Bridgton, uma loja de quinquilharias que Steff gostava de vasculhar de quando em quando. Billy adorava acompanhá-la. Em um dos sombrios e poeirentos aposentos dos fundos, corujas empalhadas com olhos orlados de dourado, estendiam as asas para sempre, enquanto os pés agarravam-se eternamente a troncos envernizados; raccons empalhados formavam um trio à volta de uma "corrente", que não passava de um comprido fragmento de espelho empoeirado, e um lobo comido de traças, espumando serragem em vez de saliva em torno da queixada, arreganhava a boca em arrepiante e eterno rosnado. A Sra. Carmody garantia que o lobo tinha sido abatido por seu pai, quando bebia no arroio Stevens, em certa tarde de setembro de 1901.
As expedições à loja de antiguidade da Sra. Carmody faziam bem a minha esposa e meu filho. Ela se infiltrava em uma fileira cheia de vidros espelhados, enquanto ele via a morte, sob o nome de taxidermia. Contudo, eu ainda achava que a velha exercia uma influência bastante desagradável sobre e mente de Steff que, em outros sentidos, era prática e obstinada. A Sra. Carmody encontrara o ponto vulnerável de Steff, seu calcanhar de Aquiles mental. Aliás, Steff não era a única na cidade que ficava fascinada com os pronunciamentos góticos da Sra. Carmody e seus remédios populares (sempre prescritos em nome de Deus).
Água com tocos de cigarros é boa para contusões, quando seu marido gosta de usar os punhos, depois de uns três drinques. Pode-se saber que tipo de inverno vai chegar, contando-se os anéis das lagartas em junho ou medindo a espessura dos favos de mel em agosto. E agora, que o bom Deus nos proteja e guarde, A PRIMAVERA NEGRA DE 1888 (acrescente tantos pontos de exclamação quantos achar que deva). Eu também ouvira a história. É do tipo que gostam de passar adiante, por aqui — se a primavera for fria o suficiente, o gelo nos lagos eventualmente ficará negro como um dente cariado. É coisa rara, ocorrência que dificilmente acontece em um século. Eles gostam de falar nisso para os outros, mas duvido que com maior convicção do que a Sra. Carmody.
— Tivemos um inverno duro e uma primavera atrasada — falei. — Agora, vamos ter um verão muito quente. Houve esta tempestade furiosa, mas já terminou. Não está agindo com naturalidade, Stephanie.
— Essa não foi uma tempestade comum — disse ela, na mesma voz roufenha.
— Não, não foi. Nisso, concordo com você
Bill Giosti é que me contara a história da Primavera Negra, Bill possuía e dirigia — já há uma temporada — o Giosti's Mobil, em Casco Village. Ele operava a casa com seus três filhos beberrões (e ajuda ocasional dos quatro netos beberrões... quando estes podiam largar um pouco a lanternagem de seus snowmobiles e bicicletas para estradas de terra). Bill estava com setenta anos, aparentava oitenta e podia beber como se tivesse vinte e três, quando sentia disposição. Eu e Bill havíamos levado o Scout para encher o tanque, no dia seguinte ao de uma tormenta-surpresa em meados de maio, que deixou a região com quase trinta centímetros de neve molhada e compacta, que cobriu a grama e flores recentes. Giosti andara entornando uns copos e estava feliz em passar adiante a história da Primavera Negra, com floreios pessoais.
Enfim, às vezes temos neve em maio ela vem e vai embora; dois dias mais tarde. Não é nenhum fenômeno.
Steff voltara a olhar pensativamente para os fios caídos.
— Quando será que o pessoal da companhia de eletricidade virá dar um jeito neles?
— Assim que for possível. Não vai demorar muito. Só quero que não se preocupe com Billy. Ele tem a cabeça no lugar. Esquece de guardar as roupas, mas não irá pisar em cima de um monte de fios caídos. Billy é um garoto vivo, saudável e inteligente.
Toquei um canto de sua boca e a forcei ao começo de um sorriso. — Está melhor agora?
— Você sempre torna as coisas melhores — disse ela, fazendo com que me sentisse bem.
Do lado da casa dando para o lago, Billy gritava para nós irmos lá ver alguma coisa.
— Venha — convidei. — Vamos apreciar os estragos.
Ela resmungou soturnamente.
— Não quero apreciar estrago nenhum. Vou para minha sala de estar e ficar lá sentada.
— Venha — insisti. — Deixará um garotinho feliz.
Descemos a escada de pedra, de mãos dadas. Mal havíamos chegado à primeira curva, quando Billy surgiu correndo da direção contrária, quase se chocando conosco, tal a sua pressa.
— Ei, calma! — disse Steff, franzindo de leve as sobrancelhas.
Em sua mente, talvez o visse escorregando para aquele mortal ninho de fios eletrizados, em vez de contra nós dois.
— Vocês têm que ver! — ofegou Billy. — A casa de barcos está toda rebentada! Tem um cais em cima das pedras... e árvores no abrigo de barcos... Jesus Cristo!
— Billy Drayton! — gritou Steff.
— Desculpe, mãe... mas você tem que... uau! — e ele se foi.
— Depois que solta as notícias, a pitonisa cai fora — falei, e isso fez Steff rir sufocado novamente. — Escute, assim que cortar aquelas árvores da entrada de carros, irei até os escritórios da companhia de eletricidade, em Portland Road. Direi ao pessoal da Central Maine Power o que temos por aqui. Está bem?
— Certo — disse ela, aliviada. — Quando acha que pode ir?
Exceto pela árvore maior — a que tinha o apertado corpete de musgo — eu teria cerca de uma hora de trabalho. Incluindo a grandona, haveria tarefa para até as onze ou coisa assim.
— Bem, então preparo o almoço para você aqui. E quando for, quero que me traga algumas coisas do supermercado... estamos quase sem leite e manteiga. Além disso... hum, acho que terei de fazer uma lista.
Mostrem um desastre a uma mulher e ela começa a querer estocar coisas, como um esquilo. Fiz-lhe um afago e assenti. Contornamos a casa. Bastou-me um olhar e entendi por que Billy ficara atônito.
— Céus! — exclamou Steff, em voz fraca.
De onde estávamos, havia altura suficiente para avistar praticamente uns duzentos e cinqüenta metros de margem do lago — a propriedade dos Bibber à esquerda, depois a nossa e a de Brent Norton à direita.
O velho e gigantesco pinheiro que havia protegido nosso abrigo de barcos, havia sido dividido ao meio, de alto a baixo. O que sobrara parecia um lápis brutalmente afilado. O interior da árvore mostrava um brilhante e indefeso branco, contra a casca escura do tronco, envelhecida pela idade. Com trinta metros de altura ao todo, o velho pinheiro tivera a metade superior parcialmente submergida nas águas rasas de nosso abrigo.
Ocorreu-me que havíamos tido muita sorte por nosso pequeno Star-Cruiser não haver afundado sob o pinheiro. Na semana anterior, seu motor andara falhando e o barco continuava na marina de Naples, esperando pacientemente a volta para casa.
Do outro lado de nosso pequeno trecho dando para a água, a casa de barcos que meu pai construíra — a mesma que um dia acolhera um Chris-Craft de 18 metros, quando a fortuna familiar dos Drayton estava mais alta alguns pontos do que nos dias presentes — jazia debaixo de outra árvore enorme. Como vi, era a que se erguia junto à linha divisória de propriedades, no lado de Norton. Aquilo me fez brotar o primeiro jato de raiva. Há cinco anos aquela árvore estava morta e há muito ele devia tê-la derrubado.
Fizera três quartos do trajeto da queda, estando escorada por nossa casa de barcos. O teto oferecia uma aparência bêbada, desmantelada. Do buraco produzido pela árvore, o vento espalhara telhas de madeira por toda a ponta de terra onde se erguia a construção.
A descrição de Billy — "rebentada" — encaixava-se perfeitamente.
— A árvore de Norton! — exclamou Steff.
Sua voz tinha tal fúria indignada, que acabei sorrindo, apesar de meu sofrimento. O mastro da bandeira jazia na água e a Old Glory jazia encharcada a seu lado, em um emaranhado de passadeira. E eu já podia adivinhar a resposta de Norton: Processe-me.
Billy estava em pé no quebra-mar rochoso, examinando o embarcadouro que fora parar em cima das pedras. Era pintado em joviais listras amarelas e azuis. Olhando para nós por sobre o ombro, ele gritou, jubiloso:
— É o dos Martin, não é?
— Sim, é — respondi. — Quer entrar na água e pescar a bandeira, Grande Bill?
— Claro!
À direita do quebra-mar havia uma pequena praia arenosa. Em 1941, antes que Pear Harbor ajustasse uma conta de sangue com a Depressão, meu pai contratara um homem para trazer aquela areia fina em seu caminhão — haviam sido seis viagens lotadas — e a espalhasse em uma espessura que me chegava até quase as axilas, cerca de metro e meio, digamos. O homem cobrara oitenta pratas pelo trabalho e a areia nunca se movera dali. Só que, atualmente, ninguém mais pode criar uma praia arenosa em sua própria terra. Agora, com todo o escoamento de esgotos, provenientes da onda industrial de construções, matando a maioria dos peixes e tornando os restantes impróprios para o consumo, o pessoal que zela pela conservação ambiental proibiu a instalação de praias de areia. Compreende-se, elas podiam alterar a ecologia do lago e, por enquanto, é contra a lei que alguém faça isso, exceto os donos de loteamentos.
Billy foi recolher a bandeira e então estacou. No mesmo instante, senti Steff retesar-se contra mim, e foi quando também vi. O lado do lago onde ficava Harrison havia desaparecido. Estava sepultado debaixo de um nevoeiro branco-brilhante, como uma nuvem de tempo bom que houvesse caído à terra.
O sonho daquela noite me voltou à cabeça e, quando Steff me perguntou o que era aquilo, a palavra que quase me saltara dos lábios — era Deus.
— David?
Não se conseguia avistar o menor trecho de margem naquele lado, mas os muitos anos olhando para Long Lake me fizeram crer que a orla não estivesse tão escondida; talvez apenas metros. A borda do nevoeiro era quase tão reta como uma régua.
— O que é aquilo, papai? — gritou Billy, afundando na água até os joelhos e tentando puxar a bandeira encharcada.
— Um banco de nevoeiro — respondi.
— Em cima do lago? — exclamou Steff, dubitativa.
Pude sentir em seus olhos a influência da Sra. Carmody. Maldita mulher! Meu momento pessoal de inquietação estava passando. Afinal de contas, sonhos são coisas insubstanciais, como o próprio nevoeiro.
— Claro. Você já viu nevoeiro sobre o lago antes.
— Nunca uma coisa assim. Aquilo mais parece uma nuvem.
— É por causa da claridade do sol — falei. — Como nuvens que vemos de um avião, ao voarmos acima delas.
— Como é possível? — insistiu ela. — Só temos nevoeiro no tempo úmido.
— Temos um justamente agora — respondi. — Harrison tem, pelo menos. Alguma sobra da tempestade, nada mais. Encontro de duas frentes. Qualquer coisa nesse sentido.
— Você tem certeza, David?
Dei uma risada e passei o braço por seu pescoço.
— Não. A verdade é que estou dizendo asneiras como um louco. Se tivesse certeza, estaria anunciando o tempo, no noticiário das seis. Ande, vá fazer sua lista de compras.
Ela me lançou outro olhar dubitativo, virou-se para o banco de nevoeiro por um instante, com a mão em pala sobre os olhos, depois meneou a cabeça.
— Esquisito — disse, e começou a andar.
Para Billy, o nevoeiro já havia perdido a novidade. Conseguira pescar da água a bandeira encharcada e um enredado de passadeira. Espalhamos tudo na grama para secar.
— Me disseram que a gente nunca pode deixar a bandeira encostar no chão, papai — disse ele, no tom sério de vamos-resolver-esta-questão.
— É mesmo?
— Hã-hã. Victor McAllister disse que eles letrocutam gente que faz isso.
— Pois diga a Vic que ele está recheado daquilo que faz a grama ficar verde.
— Esterco, certo?
Billy é um garoto vivo, mas curiosamente sério. Para o campeão, tudo tem que ser encarado com seriedade. Espero que viva o bastante para aprender que, neste mundo, essa é uma atitude perigosa.
— Certo, mas não conte para sua mãe que eu disse. Quando a bandeira secar, nós a tiramos daqui. Podemos até dobrá-la em chapéu de bico, e assim ninguém nos acusará de nada.
— Vamos consertar o telhado da casa de barcos e ter um mastro de bandeira novo, papai?
Pela primeira vez, Billy parecia ansioso. Talvez já tivesse visto destruição suficiente em tão pouco tempo. Apertei-lhe o ombro.
— Tudo a seu tempo, campeão.
— Posso ir até a casa dos Bibber e ver o que aconteceu por lá?
— Vá, mas não demore muito. Eles também devem estar limpando tudo e, às vezes, isso deixa as pessoas um pouco zangadas.
Era como, no momento, me sentia em relação a Norton.
— Está bem. Tchau! — e ele saiu correndo.
— Procure não atrapalhar ninguém, campeão. Ei, Billy!
Ele olhou para trás.
— Lembre-se dos fios eletrizados. Se encontrar outros, fique longe deles, entendido?
— Eu fico, papai.
Continuei ali por um momento, primeiro verificando os estragos, depois tornando a observar o nevoeiro. Ele agora parecia mais perto, porém era difícil afirmar com segurança. Se estava mais perto, desafiava todas as leis da natureza, porque o vento — uma brisa muito suave — soprava contra ele. Isso, evidentemente, era de todo impossível.
O nevoeiro era de uma alvura surpreendente. A única coisa com que podia compará-lo, seria neve caída de pouco, jazendo em ofuscante contraste contra o brilho azul-forte do céu invernal. Contudo, a neve reflete centenas e centenas de brilhos ao sol, como diamantes, e aquele peculiar banco de nevoeiro, embora cintilante e de aparência límpida, não faiscava. A despeito do que havia dito Steff, não é incomum o surgimento de nevoeiro em dias límpidos, mas havendo grande quantidade, a umidade suspensa em geral produz um arco-íris. E ali não havia nenhum arco-íris.
A inquietação voltou, espicaçando-me, mas antes que me concentrasse nela, ouvi um surdo som mecânico — via-via-via! — seguido por um "Merda!" quase inaudível. O som mecânico repetiu-se, agora sem xingamento. Da terceira vez, o som abafado foi seguido por "Porra!", naquele mesmo tom sufocado de estou-sozinho-mas puto-da-vida.
Vnt-rrlt-rtlt-rilt...
...Silêncio..
... então: "Filha da mãe".
Comecei a rir. O som se transmite longe por aqui e todo o zumbido das serras de cadeia estava razoavelmente distante. Distante o suficiente para que eu pudesse identificar os tons não-tão-doces de meu vizinho do lado, o prestigioso advogado e residente-do-lago.
Brenton Norton.
Cheguei um pouco mais perto da água, simulando caminhar para o cais que servia ao nosso embarcadouro. Agora, podia ver Norton. Estava na clareira ao lado de seu alpendre telado, em pé sobre um tapete de velhas agulhas de pinheiro, vestindo um jeans salpicado de tinta e uma camiseta branca sem mangas. Seus cabelos, cortados a quarenta dólares, estavam em desalinho, o suor lhe pingava do rosto. Abaixando-se sobre um joelho, voltou a trabalhar em sua serra de cadeia. Era muito maior e mais moderna do que a minha, pequena e que me custara 79,95 dólares. De fato, aquela serra parecia ter tudo, menos um botão de partida. Norton puxava um cordel, produzindo os apáticos sons de vrrt-vrrt-vrd, e nada mais. Fiquei profundamente satisfeito, ao ver que uma bétula amarela havia caído em cima de sua mesa de piquenique, partindo-a ao meio.
Norton deu um tremendo puxão no cordel do arranque.
Viu-vut-vutvutvut-VAT!VAT!VAT!... VAT!... Via.
Você conseguiu, por um instante, cara.
Outro hercúleo puxão.
Via-vut-vut.
— Filha da puta — sussurrou Norton ferozmente, mostrando os dentes para sua moderna serra de cadeia.
Voltei para casa, contornando o prédio, sentindo-me realmente bem pela primeira vez, desde que me levantara. Minha serra começou a funcionar ao primeiro puxão do cordel, e então fui trabalhar.
Por volta das dez horas, houve um tapinha em meu ombro. Era Billy, com uma lata de cerveja em uma das mãos e a lista de Steff na outra. Enfiei a lista no bolso de trás de meu jeans e peguei a cerveja, que não estava estupidamente gelada, mas pelo menos gelada. Sorvi quase metade de uma vez — raramente uma cerveja cai tão bem — e ergui a lata, em um cumprimento a Billy.
— Obrigado, campeão.
— Posso beber um pouquinho?
Deixei-o beber um gole. Ele fez uma careta e devolveu-me a lata. Sorvi o restante e surpreendi-me no instante em que ia amassar a lata ao meio. Há mais de três anos estava em vigor a lei sobre devolução de latas e garrafas, mas velhas manias custam a desaparecer.
— Mamãe escreveu uma coisa no fim da lista, mas não entendo a letra dela disse Billy.
Tornei a examinar a lista. "Não consigo pegar a WOXO no rádio," dizia a nota de Steff.
"Será que a tempestade tirou a estação do ar?"
WOXO é o nosso automatizado distribuidor local de rock em FM. Irradia de Norway, cerca de trinta quilômetros ao norte, sendo tudo o que nosso velho e fraco rádio FM conseguia pegar.
— Diga a ela que é possível — falei, após ler a pergunta para ele. — Pergunte a sua mãe se consegue pegar Portland, na faixa AM.
— Está bem, papai. Posso ir com você, quando for à cidade?
— Claro. E mamãe também, se ela quiser ir.
— Okay.
Billy correu de volta à casa, levando a lata vazia. Abri meu caminho até a árvore grandalhona. Fiz o primeiro corte, serrei através dele e depois desliguei a serra por alguns momentos, para esfriar — a árvore era realmente muito grossa para ela, mas pensei que tudo daria certo, se fosse com calma. Perguntei-me se a estrada de terra indo até Kansas não estaria livre de árvores tombadas e, justamente então, um caminhão alaranjado da companhia de eletricidade rodou à minha vista, sem dúvida indo para a extremidade mais distante de nossa estradinha. Aquilo dava a entender que tudo estava indo bem. A estrada permanecia livre e, por volta de meio dia, o pessoal da eletricidade estaria ali, a fim de dar um jeito naqueles fios eletrizados e caídos.
Destaquei uma boa tora da árvore, arrastei-a para um lado da alameda e a deixei cair à margem. O pedaço de madeira rolou pela encosta, desaparecendo entre o matagal que havia crescido, há muito tempo atrás, quando meu pai e meus irmãos — todos eles artistas, porque os Drayton sempre tinham sido uma família de artistas — o haviam desbastado.
Limpei o suor do rosto com o braço e ansiei por outra cerveja; uma única, só serve realmente para preparar a boca. Tornei a empunhar a serra e pensei na WOXO fora do ar. Era daquela direção que tinha vindo o esquisito banco de nevoeiro. Também era aquela a direção em que fica Shaymore (os locais pronunciavam Shammorel. E, em Shaymore sediava-se o Projeto Ponta de Flecha.
Era essa a teoria do velho Bill Giosti sobre a chamada Primavera Negra: o Projeto Ponta de Flecha. Na parte oeste de Shaymore, não muito afastado de onde a cidade se delimita com Stoneham, havia uma pequena reserva do governo, cercada de arame, com sentinelas e câmaras de televisão em circuito fechado, além de só Deus sabe o que mais.
Pelo menos, era o que eu tinha ouvido; em realidade, nunca vira o lugar, embora a Estrada Velha de Shaymore passe ao longo do lado leste da terra do governo, por cerca de dois quilômetros.
Ninguém sabia ao certo de onde surgira o nome Projeto Ponta de Flecha e ninguém poderia dizer, com cem por cento de segurança, se aquele era realmente o nome do projeto — se é que havia algum projeto. Bill Giosti dizia que havia, mas quando se perguntava onde conseguira tal informação, ele ficava evasivo. Alegava que sua sobrinha trabalhava para a Companhia Telefônica Continental e tinha ouvido coisas. E tudo ficava nisso.
— Coisas atômicas — havia dito Bill nesse dia, debruçando-se à janela do Scout e expelindo uma saudável baforada alcoólica em meu rosto. — É nisso que andam envolvidos por lá. Disparando átomos no ar e coisas assim.
— O ar está cheio de átomos, Sr. Giosti — replicara Billy. — Foi o que a Sra. Neary disse. A Sra. Neary disse que tudo está cheio de átomos.
Bill Giosti deu a meu filho um longo olhar injetado de sangue, que finalmente o desinflou.
— Aqueles são átomos diferentes, filho.
— Ahnn... — murmurou Billy, entregando os pontos.
Dick Muehler, nosso agente de seguros, afirmava que o Projeto Ponte de Flecha, era uma estação agrícola dirigida pelo governo, nem mais nem menos.
— Tomates maiores, com uma temporada mais prolongada de crescimento acrescentou sabiamente, antes de voltar a explicar-me como ajudar minha família de modo mais eficiente, morrendo jovem.
Jannine Lawless, nossa agente postal, disse que lá havia um trabalho de pesquisa geológica, tendo algo a ver com petróleo de xisto. Tinha certeza do que dizia, porque o marido de seu irmão trabalhara para um homem que havia...
E quanto à Sra. Carmody... ela provavelmente tendia mais para o ponto de vista de Bill Giosti. Não apenas átomos, mas átomos diferentes.
Cortei mais dois bons pedaços da enorme árvore e os larguei a um lado, antes de Billy voltar com uma nova lata de cerveja em uma das mãos e um bilhete de Steff na outra.
Se existe alguma coisa que o Grande Bill adore fazer, mais do que entregar mensagens, não imagino o que seja.
— Obrigado — falei, pegando as duas coisas.
— Posso tomar um gole?
— Só um. Você tomou dois da última vez. Não quero ver você andando embriagado por aí, às dez horas da manhã.
— Dez e quinze — disse ele, sorrindo timidamente por sobre a borda da lata.
Sorri de volta — não que aquela fosse uma grande piada, convenhamos, mas Billy as faz muito raramente — e então li o bilhete.
"Peguei a JBQ no rádio", escrevera Steff. "Não se embriague antes de ir à cidade. Beba mais uma lata, mas é só, antes do almoço. Acha que nossa estrada está desimpedida?"
Devolvi o bilhete a Billy e peguei minha cerveja.
— Diga a ela que a estrada está livre, porque acabou de passar um caminhão da companhia de eletricidade. Eles estão vendo se chegam até aqui.
— Está bem.
— Campeão?
— O que é, pai?
— Diga a ela que está tudo certo.
Ele tornou a sorrir, talvez primeiro repetindo aquilo para si mesmo.
— Okay — respondeu.
Correu de volta à casa e fiquei vendo-o afastar-se, pernas movimentando-se rapidamente, as solas da sandália aparecendo. Eu o amo. É seu rosto, às vezes a maneira como os olhos se erguem para os meus, que me fazem sentir como se tudo está realmente certo. Mentira, claro — as coisas não andam certas e nunca andaram — mas meu filho faz-me acreditar na mentira.
Bebi um pouco da cerveja, pousei a lata cuidadosamente em cima de uma pedra e tornei a pegar a serra. Uns vinte minutos mais tarde, senti um leve toque no ombro e me virei, esperando ver Billy outra vez. Não era ele, mas Brent Norton. Desliguei a serra.
Norton não mostrava sua aparência costumeira. Parecia acalorado, cansado e infeliz, além de algo desconcertado.
— Olá, Brent — falei.
Nossas últimas trocas de palavras haviam sido rudes, de maneira que eu me sentia um tanto inseguro quanto à maneira de agir. Tinha um curioso pressentimento de que ele estivera parado atrás de mim pelos últimos cinco minutos, mais ou menos, pigarreando educadamente, sob o rugido agressivo da serra. Naquele verão, eu não o observara muito de perto. Reparei agora que havia perdido peso, mas a diferença não lhe fizera bem. No entanto, deveria, porque ele tivera uns bons dez quilos a mais. Sua esposa falecera no último novembro. Câncer. Aggie Bibber contara a Steff. Aggie era a nossa necróloga local. Cada vizinhança tinha a sua. Em vista da maneira casual de Norton em ser violento com a esposa e depreciá-la (agindo com o desdenhoso à vontade de um matador veterano, inserindo banderillas no lombo de um touro velho e desconjuntado), eu diria que ele ficara satisfeito em perdê-la. Se interrogado, eu poderia inclusive especular que ele andara se exibindo no último verão com uma moça vinte anos mais nova pelo braço e um sorriso tolo de meu-galo morreu-e-foi-pro-céu, estampado na face. Só que, em vez do sorriso tolo, havia apenas uma nova carga de rugas de velhice, enquanto que o peso perdido se revelava nos lugares errados, deixando pelancas e dobras que contavam sua própria história. Por um fugaz momento, senti vontade apenas de levar Norton até um ponto banhado de sol, sentá-lo ao lado de uma das árvores caídas, com minha lata de cerveja na mão, e fazer um esboço a carvão de sua figura.
— Olá, Dave — disse ele, após um longo momento de desajeitado silêncio um silêncio ainda mais palpável na ausência da barulheira da serra. Ele parou, depois soltou: — Aquela árvore. Aquela maldita árvore. Sinto muito. Você tinha razão.
Dei de ombros.
— Outra árvore caiu em meu carro — acrescentou ele.
— Lamento sab... — comecei, mas então tive uma horrível suspeita. — Não foi em cima do T-Bird, foi?
— Exatamente. Foi.
Norton tinha um Thunderbird 1960, parecendo saído da fábrica, com apenas trinta mil milhas rodadas. Azul meia-noite, por dentro e por fora. Ele só o dirigia nos verões, mesmo assim, raramente. Adorava aquele carro, da maneira como alguns homens adoram trens elétricos, modelos de navios ou pistolas de tiro ao alvo.
— Que merda — falei, e era sincero.
Ele meneou a cabeça lentamente.
— Eu quase não o trazia para cá. Estava para vir com a camionete, você sabe. Depois disse, que diabo! Vim com o carro, e um maldito pinheiro, um enorme pinheiro, caiu em cima dele. O teto ficou todo amassado. Pensei que poderia cortá-la... a árvore, quero dizer... mas não consegui fazer minha serra funcionar... Paguei duzentos dólares por aquela droga... e... e....
Sua garganta começou a emitir leves sons de estalidos. A boca se movia como se fosse desdentado e mascasse tâmaras. Por um desamparado segundo, pensei que ele ia ficar ali e debulhar-se em lágrimas, como uma criança em um terreno baldio. Então, conseguiu recompor-se a meio, deu de ombros e se virou, como que olhando para as toras de madeira que eu havia cortado.
— Bem — falei — podemos dar uma espiada em sua serra. — Seu carro está no seguro?
— Está — disse ele, — como sua casa de barcos.
Entendi o que Norton queria dizer e recordei novamente o que Steff havia dito sobre seguros.
— Escute, Dave, estive pensando se você não poderia me emprestar seu Saab, para ir até a cidade. Queria comprar pão, alguma coisa fria para comer e cerveja. Bastante cerveja.
— Eu e Billy vamos até lá no Scout — falei. — Se quiser, pode ir conosco. Isto é, se me der uma ajuda para puxar este resto de árvore a um lado da estrada.
— Com prazer.
Ele agarrou uma ponta, mas não teve forças para erguê-la. Tive que fazer a maior parte do trabalho. Juntos, conseguimos jogar tudo dentro do mato. Norton respirava fundo e ofegava, as bochechas quase purpúreas. Depois de todos os puxões que ele dera na serra, tentando fazê-la funcionar, fiquei um pouco preocupado com seu coração.
— Tudo bem? — perguntei, e ele assentiu, ainda respirando com dificuldade. — Então, vamos até lá em. casa. Eu lhe arranjo uma cerveja.
— Obrigado — disse ele. — Como vai Stephanie?
Norton começava a readquirir parte da antiga e untuosa pomposidade que me desagradava.
— Muito nem, obrigado.
— E seu filbo?
— Também está ótimo.
— Fico satisfeito em saber.
Steff saiu, e um momento de surpresa passou por seu rosto, ao ver quem vinha comigo.
Norton sorriu, os olhos rastejando pela apertada camiseta que ela usava. Bem, afinal ele não mudara tanto assim.
— Olá, Brent — disse ela, cautelosamente.
Billy assomou com a cabeça, por sob o braço dela.
— Olá, Stephanie. Olá Billy.
— O T-Bird de Brent levou uma pancada e tanto na tempestade — contei a ela. — Em cima do teto, foi o que ele disse.
— Oh, não!
Norton repetiu a história, enquanto bebia uma de nossas cervejas. Eu bebericava uma terceira, que em nada me afetava; aparentemente, havia transpirado as anteriores tão depressa quanto as bebera.
— Ele vai à cidade comigo e Billy.
— Bem, acho que vão demorar um pouco. Terão que ir ao Compre-e-Poupe em Norway.
— É mesmo? Por quê?
— Bem, se em Bridgton não há energia...
— Mamãe disse que todas as registradoras e outras coisas só funcionam com eletricidade — acrescentou Billy.
Era um bom motivo.
— Você ainda tem a lista?
Bati no bolso de trás da calça. Steff se virou para Norton.
— Sinto muito sobre Carla, Brent. Todos nós sentimos.
— Obrigado — disse ele. — Muito obrigado.
Houve um novo momento de constrangido silêncio, quebrado por Billy.
— Já podemos ir, papai?
Reparei que agora vestia jeans e calçava tênis.
— Sim, acho que podemos. Está pronto, Brent?
— Dê-me mais uma cerveja para a estrada, e estarei.
Steff franziu as sobrancelhas. Ela nunca aprovara aquela filosofia de uma-para-a-estrada ou de homens que dirigem com uma lata de cerveja descansando entre as pernas.
Assenti de leve e ela deu de ombros. Não era minha intenção tornar a criar um caso com Norton agora. Steff trouxe-lhe a cerveja.
— Obrigado — disse ele, não realmente agradecendo, mas apenas dizendo uma palavra.
Era como a gente agradece a uma garçonete, em um restaurante. Depois se virou para mim: — Em frente, Macduff.
— Vamos indo — falei, e passamos para a sala de estar.
Norton me seguiu, soltou exclamações sobre a galharia da bétula, mas eu não estava interessado naquilo e, até então, pouco pensara no preço para recolocar os vidros quebrados. Olhava para o lago, através da porta deslizante envidraçada que dava para nosso passadiço. A brisa refrescara um pouco e a temperatura aumentara uns cincos graus, enquanto eu serrava a árvore. Achei que o singular nevoeiro observado pela manhã já devia ter-se esfumado, porém lá estava ele. Mais próximo, também. Já chegara à metade do lago.
— Reparei nisso mais cedo — disse Norton, em tom de entendido. — Deve ser alguma inversão de temperatura, creio eu.
Eu não estava gostando daquilo. Tinha a firme convicção de que jamais vira nevoeiro semelhante. Uma parte de minha inquietação era devido àquela enervante borda reta frontal. Na natureza nada é tão certinho; o homem é que inventou margens retas. Parte do nevoeiro era de uma brancura ofuscante, sem nenhuma variação, mas tampouco sem as cintilações provocadas pela umidade. Deveria estar a um meio quilômetro de distância agora, sendo mais incongruente do que nunca o contraste de sua alvura com os tons de azul do céu e do lago.
— Vamos, papai! — disse Billy, puxando-me pela calça.
Voltamos todos à cozinha. Brent Norton dedicou um olhar derradeiro à árvore que tombara em nossa sala de estar.
— Pena que não fosse uma macieira, hein? — comentou Billy, inteligentemente. — Foi o que minha mãe disse. É engraçado, não acha?
— Sua mãe sabe mesmo dizer coisas engraçadas, Billy.
Enquanto falava, Norton desmanchou-lhe os cabelos em um gesto negligente e seus olhos tornaram a se voltar para a frente da camiseta de Steff novamente. Sim, aquele era um homem com quem eu jamais simpatizaria.
— Ouça, por que não vem conosco, Steff? — perguntei.
Sem nenhum motivo concreto, de repente eu a queria comigo.
— Não. Acho que vou ficar aqui e arrancar algumas ervas daninhas do jardim — respondeu ela. Seus olhos pousaram em Norton e se voltaram para mim. Esta manhã, creio ser a única coisa por aqui que funciona sem eletricidade.
Norton riu, demasiado caloroso. Captei a mensagem de Steff, mas tentei de novo.
— Tem certeza?
— Absoluta. O velho abaixa-e-levanta me fará bem.
— Está certo. Não tome sol demais.
— Porei meu chapéu de palha. Comeremos sanduíches quando você voltar.
— Ótimo.
Ela ergueu a face para que a beijasse.
— Tome cuidado. Talvez haja coisas tombadas na Estrada Kansas também, sabe como é.
— Serei cauteloso.
— Você também, Billy, tome cuidado — recomendou ela, beijando-lhe a bochecha.
— Certo, mãe.
Ele disparou pela porta de tela, que se fechou com estrondo às suas costas. Eu e Norton saímos em seguida.
— Podíamos ir até sua casa e cortar a árvore que caiu em cima do Bird — sugeri.
De repente, eu conseguia pensar em um monte de razões que adiassem aquela ida à cidade.
— Só olho novamente para aquela árvore depois que almoçar e tiver mais algumas destas — disse ele, erguendo a lata de cerveja. — O estrago está feito, Dave, meu chapa.
Também não gostei dele me chamando de "chapa". Acomodamo-nos os três no banco dianteiro do Scout (no canto mais distante da garagem, meu castigado limpa-neve Fisher cintilava amarelado, como o fantasma do Natal por vir) e dei marcha à ré, esmagando punhados de gravetos e galhos ali atirados pela tempestade. Steff estava na trilha de cimento que leva à parte da horta, no fim da extremidade oeste de nossa propriedade. Segurava a tesoura em uma das mãos enluvadas e, na outra, a pinça de arrancar ervas daninhas. Enfiara na cabeça seu velho e frouxo chapéu de sol, cuja aba lançava uma faixa de sombra em seu rosto. Buzinei duas vezes, levemente. Ela ergueu a mão segurando a tesoura, em resposta. Começamos a rodar. Nunca mais vi minha esposa depois disto.
Tivemos que parar uma vez, no trajeto para a Estrada Kansas. Depois que o caminhão da companhia de eletricidade passara, um pinheiro de tamanho razoável caíra atravessado na alameda. Eu e Norton descemos e o movemos o suficiente para o Scout esgueirar-se. Ficamos com as mãos inteiramente sujas de betume no processo. Billy queria ajudar, mas acenei para que ficasse quieto, receando que pudesse ser atingido nos olhos. Velhas árvores sempre me faziam recordar os Ents, na maravilhosa saga Rings, de Tolkien, só que os Ents tinham ficado maus. Árvores velhas querem machucá-lo.
Pouco importa se você está usando calçados próprios para a neve, esquiando em corrida através das matas ou apenas dando um passeio na floresta. Árvores velhas querem machucá-lo e, se pudessem, creio que o matariam.
Em si, a Estrada Kansas aparecia desimpedida, mas vimos a fiação caída, em vários lugares. Uns duzentos e cinqüenta metros após o Acampamento Vicki Linn, um poste de energia caíra ao comprido no acostamento, os fios grossos enovelados em volta do topo, como cabeleira em desalinho.
— Uma tempestade e tanto!
Norton empregava sua voz melíflua e treinada dos tribunais, só que agora não bancava o entendido, estava apenas solene.
— Se foi!
— Veja, papai!
Billy apontava para o que havia sobrado do celeiro dos Ellitch. Durante doze anos, ele permanecera descambando cansadamente para o campo dos fundos na propriedade de Tommy Ellitch, as pernas escondidas por girassóis, virga-áureas e Lolly-venha-me-ver.
A cada outono, eu pensava que ele não agüentaria outro inverno, mas na primavera continuava lá. Só que agora não estava mais. Restara apenas um destroço estilhaçado e um teto que fora despido da maioria das telhas. Chegara a sua vez. E, por algum motivo, aquilo ecoou solenemente, até ominosamente dentro de mim. A tempestade chegara e o tinha arrasado.
Norton esgotou sua cerveja, amassou a lata na mão e a deixou cair indiferentemente no piso do Scout. Billy abriu a boca para dizer algo, mas tornou a fechá-la — bom garoto.
Norton era de Nova Jersey, onde não havia nenhuma lei garrafa-e-lata; acho que podia ser perdoado por amassar o meu níquel, quando eu próprio mal me lembrava de deixar as minhas latas intatas.
Billy começou a mexer nos botões do rádio e eu lhe pedi para ver se a WOXO estava de volta. Ele girou até FM 92, conseguindo apenas um zumbido apático. Olhou para mim e encolheu os ombros. Refleti por um momento. Que outras estações mais estariam do outro lado daquele peculiar front de nevoeiro?
— Tente a WBLM — falei.
Ele girou o ponteiro até a outra extremidade, passando sobre a WJBQ-FM e a WIGYFM, enquanto isso. Estavam em atividade, como sempre... mas a WBLM, a mais importante estação de rock do Maine, estava fora do ar.
— Esquisito — falei.
— O quê? — perguntou Norton.
— Nada. Só pensei em voz alta.
Billy voltara para o cereal-musical da WJBQ. Em pouco, chegávamos à cidade.
No centro-comercial, a Lavanderia Norge estava fechada, sendo impossível — a uma lavanderia automática funcionar sem eletricidade, mas a Farmácia Bridgton e o Supermercado Federal de Alimentos estavam abertos. O pátio de estacionamento se achava lotado e, como sempre acontecia no meio do verão, havia um bocado de carros com chapas de outros estados. Vi grupinhos de pessoas aqui e ali ao sol, comentando a tempestade, mulheres com mulheres, homens com homens.
Avistei a Sra. Carmody, aquela dos animais empalhados e da história da água com tocos de cigarro. Fazia sua entrada imponente no supermercado, vestindo um assombroso terninho amarelo-canário. De um braço seu, pendia uma bolsa do tamanho de uma pequena mala de mão. Então, um idiota pilotando uma Yamaha rugiu ao meu lado, deixando de bater em meu pára-choque dianteiro por escassos centímetros. Usava um blusão jeans, óculos escuros espelhados e não tinha capacete.
— Veja só esse imbecil! — rosnou Norton.
Circulei o pátio de estacionamento uma vez, à procura de uma boa vaga. Não havia nenhuma. Já me resignava a uma longa caminhada desde o extremo oposto, quando tive sorte. Um Cadillac verde-limão, do tamanho da cabine de um pequeno cruzador, esgueirava-se de uma vaga, na faixa mais próxima das portas do supermercado. Assim que ele saiu, encaixei-me na vaga.
Entreguei a Billy a lista de compra de Steff. Ele tinha cinco anos, mas sabia ler letras impressas.
— Pegue um carrinho e vá começando. Quero ligar para sua mãe: O Sr. Norton o ajudará. Não vou demorar.
Saímos, e Billy imediatamente agarrou a mão do Sr. Norton. Fora ensinado a não cruzar o pátio de estacionamento sem segurar a mão de um adulto, quando pequenino e, ao crescer mais, não perdera o hábito. Norton pareceu surpreso por um momento, depois sorriu de leve. Quase o perdoei por haver apalpado Steff com os olhos. Os dois entraram no supermercado.
Caminhei para a cabine telefônica, que ficava na parede entre a lavanderia e o drugstore.
Uma suada mulher, em um conjunto de blusa e short púrpura, sacolejava o gancho do telefone, para baixo e para cima. Postei-me atrás dela, de mãos nos bolsos, perguntando-me por que estava tão inquieto sobre Steff e por que a inquietação se misturava àquela linha de nevoeiro branquicento, mas sem brilho, às estações de rádio fora do ar... e ao Projeto Ponta de Flecha.
A mulher do conjunto púrpura tinha os ombros gordos queimados de sol e cobertos de sardas. Parecia um suado bebê alaranjado. Bateu com o fone no gancho, virou-se para o drugstore e então me viu.
— Poupe sua moeda — disse. — Aí só dá zumbido — acrescentou, afastando-se com ar rabugento.
Quase dei um tapa na testa. Claro que as linhas estavam interrompidas em algum ponto.
Algumas eram subterrâneas, mas apenas uma minoria. Mesmo assim, tentei o telefone.
Naquela área, os telefones públicos são o que Steff chama de Telefones Públicos Paranóicos. Ao invés de colocar-se logo a moeda, primeiro é preciso ouvir-se o toque de chamada e então se disca o número. Quando alguém atende, há uma interrupção automática e tem-se que colocara moeda, antes que a outra pessoa desligue. São chamadas irritantes mas, nesse dia, pouparam minha moeda. Não havia ruído de discar.
Como havia dito a senhora, só ouvi zumbidos.
Desliguei e caminhei para o supermercado em passos lentos, com tempo exato para apreciar um pequeno incidente. Um casal de idade encaminhava-se para a porta ENTRADA, tagarelando um com o outro. E, enquanto tagarelavam, colidiram em cheio com a porta. Pararam de falar subitamente e a mulher esganiçou sua surpresa. Os dois entreolharam-se, de maneira cômica, depois deram risadas. Então, o velho abriu a porta para a esposa, com algum esforço — essas portas fotelétricas são pesadas — e eles entraram.
Quando a eletricidade desaparece, somos surpreendidos de cem modos diferentes.
Empurrei a porta para entrar e a primeira coisa que percebi foi a falta do ar condicionado. No verão, em geral eles o ligam no ponto mais alto, suficiente para congelar o consumidor que fique lá dentro por mais de uma hora seguida.
Como a maioria dos modernos supermercados, o Federal havia sido construído como uma caixa de Skinner — as técnicas modernas de marketing transformam todos os consumidores em ratos brancos. Tudo aquilo de que realmente precisamos, os produtos de consumo básicos, como pão, leite, carne, cerveja e refeições congeladas, fica no lado mais distante do estabelecimento. Para chegar lá, tem-se que passar ao lado dos ítens de impulso, conhecidos do homem moderno — tudo, desde isqueiros Cricket a ossos de borracha para cães.
Além das portas de entrada, está o corredor de frutas-e-vegetais. Ergui os olhos, examinando até o final, mas não havia sinal de Norton ou de meu filho. A velha que colidira contra a porta examinava grapefruits. Seu marido segurava uma sacola-rede, para acondicionar as compras.
Caminhei pelo corredor acima e dobrei para a esquerda. Encontrei-os no terceiro corredor, com Billy meditando diante das prateleiras com caixas de gelatina e pudins instantâneos. Norton estava diretamente atrás dele, examinando a lista de Steff. Tive que sorrir, ante sua expressão de perplexidade.
Caminhei para eles, passando por carrinhos de compras meio lotados (aparentemente, Steff não fora a única tomada pelo impulso armazenador dos esquilos) e clientes que estavam ali apenas bisbilhotando os artigos. Norton apanhou duas latas de recheio de torta, na prateleira mais alta, e as colocou no carrinho.
— Como está se saindo? — perguntei, e ele olhou para mim. com indisfarçável alívio.
— Muito bem, não é mesmo, Billy?
— Claro — respondeu Billy, mas não resistiu e acrescentou, em tom algo presunçoso: — Só que tem muita coisa que o Sr. Norton também não pode ler, papai.
— Deixe-me ver isto — falei, apanhando a lista.
Norton havia feito um visível e ordenado sinal ao lado de cada artigo que ele e Billy já haviam posto no carrinho — uma meia dúzia deles, incluindo-se o leite e um engradado com seis Cocas. Havia ainda mais umas dez coisas que ela queria.
— Temos que voltar às frutas e vegetais — falei. — Steff quer tomates e pepinos.
Billy começou a manobrar o carrinho para irmos e Norton comentou:
— Devia dar uma espiada na fila de pagar, Dave.
Fui até lá e olhei. Era o tipo de coisa que às vezes vemos em fotos no jornal , em um noticiário enfadonho, com uma legenda humorística em baixo. Havia apenas duas caixas funcionando e a fila dupla de pessoas esperando para pagar suas compras, estirava-se além da maioria dos quase vazios balcões de pão, depois virava para a direita e se perdia de vista na direção dos frigoríficos de alimentos congelados. Todas as novíssimas máquinas registradoras computorizadas estavam cobertas com capas. Em cada uma das filas em funcionamento, uma apoquentada jovem calculava os preços em uma calculadora de bolso movida a pilha. Junto a cada uma delas, postava-se um dos dois gerentes do Federal, Bud Brown e Ollie Weeks. Eu simpatizava com Ollie, mas bem menos com Bud Brown, que parecia imaginar-se o Charles de Gaulle do mundo dos supermercados.
Quando cada jovem terminava de calcular uma batelada de compras, Bud ou Ollie pregavam um clipe no dinheiro ou cheque do cliente e o jogavam na caixa que usavam como depósito de dinheiro. Todos pareciam cansados e suados.
— Espero que tenha trazido um bom livro — disse Norton, juntando-se a mim. — Vamos ficar um bocado de tempo na fila.
Tornei a pensar em Steff, sozinha em casa, e tive outro acesso de inquietude.
— Vá pegar suas compras — falei. — Eu e Billy damos conta do resto disto.
— Quer que traga mais algumas cervejas para você também?
Eu já pensara nisso, mas a despeito da reaproximação, não queria passar a tarde com Brent Norton, embriagando-me. Não com a confusão em que estavam as coisas, em volta da casa.
— Sinto muito — respondi. — Vai ter que ficar para outra vez, Brent.
Achei que seu rosto ficara algo tenso.
— Está bem — disse ele apenas.
Afastou-se e eu o segui com os olhos, mas então Billy me puxou pela camisa.
— Você falou com mamãe?
— Negativo. O telefone não estava funcionando. Acho que a tempestade derrubou também os fios telefônicos.
— Está preocupado com ela?
— Não — menti. Estava preocupado, claro, mas não imaginava por que deveria estar. — Não, claro que não estou. E você?
— T-também... n-não...
Billy estava preocupado. Seu rosto tinha uma expressão ansiosa. Devíamos ter voltado nessa hora. Contudo, mesmo então talvez já fosse tarde demais.
Conseguimos chegar até as frutas e vegetais como salmões, abrindo caminho corrente acima. Vi alguns rostos familiares — Mike Hatlen, um dos nossos conselheiros municipais, a Sra. Reppler, da escola primária (ela, que aterrorizara gerações de crianças do terceiro grau, no momento escarnecia dos cantalupos), a Sra, Truman, que às vezes tomava conta de Billy, quando eu e Steff saíamos — porém a maioria se compunha de veranistas, comprando artigos que dispensavam cozimento e brincando entre si sobre "aquela vida dura". Os frios sortidos haviam desaparecido, tão completamente como as novelas de dez centavos nos bazares de caridade; nada sobrara, exceto algumas embalagens de salsichão, de massa de macarrão e uma solitária, fálica lingüiça.
Apanhei os tomates, pepinos e um pote de maionese. Ela também queria bacon, mas todo o bacon já se fora. Levei algumas embalagens de salsichão como substituto, embora jamais houvesse conseguido comer aquilo com o menor entusiasmo legítimo, desde que o FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) informara que cada embalagem continha uma pequena dose de sujeira de insetos — um pequeno extra por seu dinheiro.
— Veja — disse Billy, ao contornarmos a esquina para o quarto corredor. Homens do exército.
Eram dois, seus uniformes pardacentos contrastando com o fundo muito mais vivo das roupas de verão e esportivas. Estávamos acostumados a ver raramente o pessoal do exército ligado ao Projeto Ponta de Flecha e somente a quarenta ou mais quilômetros de distância. Aqueles dois mal pareciam com idade suficiente para fazer a barba.
Tornei a olhar para a lista de Steff e vi que tínhamos tudo no carrinho... não, quase tudo.
No fim da lista, como uma idéia de última hora, ela rabiscara: Garrafa de Lancers?
Aquilo soava bom para mim. Uns dois copos de vinho aquela noite, depois de Billy ir para a cama e depois, talvez um longo e lento período fazendo amor, antes de dormirmos.
Larguei o carrinho e abri caminho até o vinho. Apanhei uma garrafa e, quando voltava, passando diante das grandes portas duplas que conduziam à área de estocagem, ouvi o firme rugido de um gerador de bom tamanho.
Decidi que provavelmente seria grande o bastante para manter as embalagens frias, mas não o suficiente para fazer funcionar as portas, caixas registradoras e o equipamento elétrico restante. Parecia o barulho de uma motocicleta, atrás daquelas portas.
Norton apareceu justamente quando entramos na fila, equilibrando duas embalagens de seis Schtitz Light, um pão e a lingüíça que eu localizara minutos antes. Entrou na fila comigo e Billy. Estava muito quente no supermercado, com o ar condicionado fora de funcionamento, e perguntei-me por que nenhum dos rapazes que embalavam as compras, pelo menos não escancarara as portas. Eu tinha visto Buddy Eagleton dois corredores atrás, com seu avental vermelho, sem fazer nada além de empilhar artigos. O gerador rugiu monotonamente. Eu tinha uma dor de cabeça em início.
— Coloque suas coisas aqui, antes que deixe cair alguma — falei.
— Obrigado.
As filas agora chegavam aos alimentos congelados; havia pessoas cortando-a a todo instante, entre muitos "com licença" e "por favor".
— Isto vai ser uma merda — disse Norton morosamente.
Franzi a testa de leve. Esse tipo de linguagem é rude demais para cair nos ouvidos de Billy, em minha opinião.
O barulho do gerador amorteceu-se um pouco, quando a fila avançou alguns metros. Eu e Norton mantínhamos uma conversa incoerente, evitando a feia disputa entre propriedades que nos levara ao tribunal distrital e preferindo temas como as chances do Red Sox e o tempo. Por fim, exaurido o nosso pequeno estoque de conversa fìada, ficamos calados. Billy estava irrequieto ao meu lado. A fila arrastava-se. Agora, tínhamos refeições congeladas à direita e, à esquerda, os vinhos e champanhas mais caros. À medida que a fila avançou para os vinhos mais baratos, brinquei ligeiramente com a idéia de pegar uma garrafa de Ripple, o vinho de minha flamante juventude. Não a peguei. Afinal, minha juventude não fora assim tão flamante.
— Poxa, por que eles não andam mais depressa, papai? — perguntou Billy.
Meu filho continuava com aquela expressão ansiosa no rosto. De súbito, brevemente, a névoa de inquietação que me invadira abriu uma brecha e algo terrível espiou do outro lado — a face brilhante e metálica do terror. Então, passou.
— Fique calmo, campeão — falei.
Tínhamos chegado às gôndolas do pão — ao ponto em que a fila dupla dobrava para a esquerda. Agora, eu podia ver os corredores para as caixas registradoras, as duas em funcionamento e as outras quatro, abandonadas, cada uma com um pequeno aviso sobre a esteira-rolante imóvel, avisos dizendo POR FAVOR, ESCOLHA OUTRA CAIXA e WINSTON. Além das caixas, ficavam as enormes paredes envidraçadas, dando para o pátio de estacionamento e o cruzamento das Rotas 117 e 302, mais além. A vista era parcialmente obscurecida pelas costas dos avisos em cartolina branca, anunciando artigos em promoção e a última cortesia da casa, um conjunto de livros com o título Enciclopédia da Mãe Natureza.
Estávamos na fila que, eventualmente, nos levaria à caixa presidida por Bud Brown.
Havia ainda umas trinta pessoas à nossa frente. A mais identificável era a Sra. Carmody, com seu terninho amarelo-berrante. Ela parecia um anúncio de febre amarela.
De repente, um barulho agudo começou na distância, aumentando rapidamente até transformar-se no louco ulular de uma sirene policial. Soou uma buzinada no cruzamento, houve um chiado de freios e borracha queimada. Eu não podia ver-o ângulo não permitia — mas a sirene chegou ao auge quando se aproximou do supermercado, começando a diminuir à medida que a viatura policial se afastava.
Algumas pessoas saíram da fila para espiar, mas não muitas. Já haviam esperado demais, para perder seus lugares.
Norton saiu; suas compras estavam em meu carrinho. Após alguns momentos, retornou e voltou para a fila outra vez.
— Confusão local — disse.
Então, o apito de incêndios da cidade começou a gemer, lentamente passando para um guincho todo próprio, caindo e tornando a subir. Billy tomou minha mão — aferrou-a.
— O que é, papai? — perguntou, acrescentando imediatamente: — Mamãe está bem?
— Deve ser algum incêndio na Estrada Kansas — disse Norton. — Aqueles malditos fios derrubados pela tempestade... Os carros de bombeiros passarão daqui a pouco.
Aquilo deu algo para a minha inquietação concentrar-se. Havia fios eletrizados caídos em nosso terreno.
Bud Brown disse algo à moça da caixa que ele supervisionava; ela estivera se virando, para ver o que ocorria. A moça enrubesceu e voltou a digitar sua calculadora.
Eu não queria estar naquela fila. De repente, eu não queria estar ali, de maneira alguma.
Contudo, ela recomeçava a mover-se e parecia tolice deixá-la agora. Passamos juntos aos mostruários de cigarros.
Alguém passou pela porta ENTRE, um adolescente. Achei que era o rapazola que quase havíamos atingido, o da Yamaha, sem capacete.
— O nevoeiro! — gritou ele. — Vocês deviam ver o nevoeiro! Está vindo pela Estrada Kansas!
As pessoas se viraram para fitá-lo. Ele ofegava, como se houvesse corrido uma longa distância. Ninguém disse nada.
— Bem, vocês deviam ver — repetiu ele, agora soando defensivo.
Algumas pessoas olharam para ele, outras moveram os pés, mas ninguém queria perder o lugar na fila. Aquelas que ainda não estavam em fila, abandonaram seus carrinhos e passaram pelos corredores vazios das caixas desativadas, para ver se descobriam sobre o que ele falava. Um sujeito grandalhão, com um chapéu de verão exibindo uma faixa estampada (do tipo que a gente raramente vê, exceto em comerciais de cerveja, tendo churrascos ao fundo para compor o cenário), escancarou a porta SAÍ DA e várias pessoas — dez, talvez uma dúzia — saíram com ele. O rapazinho os acompanhou.
— Não deixem todo o ar condicionado escapar — disse um dos garotos do exército, com típica voz de falsete.
Houve algumas risadinhas. Eu não ri. Tinha visto o nevoeiro cruzando o lago.
— Por que não vai dar uma espiada, Billy? — sugeriu Norton.
— Não — falei de imediato, sem qualquer razão concreta.
A fila tornou a avançar. As pessoas espichavam o pescoço, querendo ver o nevoeiro que o rapazinho mencionara, porém nada havia à vista, exceto o céu azul-vivo. Ouvi alguém dizer que ele devia estar brincando. Alguém mais respondeu que tinha visto uma linha esquisita de nevoeiro sobre o Long Lake, cerca de uma hora atrás. O primeiro apito ululou e gritou. Não gostei daquilo. Dava a sensação de um Dia do Juízo em grande escala, soando daquela maneira.
Mais pessoas saíram. Algumas chegaram a abandonar seu lugar na fila, o que acelerou um pouco nosso avanço. Então, o encanecido velho John Lee Frovin, que trabalha como mecânico no posto Texaco, entrou encurvado e gritou:
— Ei! Alguém aí tem uma máquina de retratos?
Olhou em torno, depois tornou a sair com sua espinha encurvada. Aquilo causou certo rebuliço. Se a coisa valia a pena uma foto, também valia a pena ver o que era. Foi quando a Sra. Carmody gritou, com sua voz enferrujada, mas potente:
— Não saiam!
As pessoas se viraram para olhá-la. A forma ordenada das filas desorganizara-se inteiramente, com gente que saía para espiar o nevoeiro, que se afastava da Sra. Carmody ou que andava de um lado para outro, procurando os amigos. Uma mulher nova e bonita, com uma blusa de malha de algodão própria para atletismo e calça comprida verde-escura, olhava para a Sra. Carmody de maneira pensativa e avaliadora.
Alguns oportunistas aproveitavam-se da confusão furavam a fila, avançando uma ou duas vagas. A caixa ao lado de Bud Brown virou a cabeça novamente para olhar e ele lhe bateu um dedo comprido no ombro.
— Preste atenção ao que está fazendo, Sally.
— Não saiam! — gritou a Sra. Carmody. — É a morte! Sinto que a morte está lá fora!
Bud e Ollie Weeks, que a conheciam, pareceram impacientes e irritados, mas alguns veranistas à volta dela afastaram-se alguns passos, pouco ligando para seus lugares na fila. Nas cidades grandes, as bag-ladies parecem ter o mesmo efeito sobre os demais, como se fossem portadores de alguma doença contagiosa. Quem sabe? Talvez sejam mesmo.
Então, as coisas começaram a acontecer em ritmo acelerado e confuso. Um homem entrou aos tropeções no supermercado, empurrando a porta ENTRE até o fim.
Seu nariz sangrava.
— Há alguma coisa naquele nevoeiro! — gritou.
Billy encolheu-se contra mim — fosse por causado nariz sangrento do homem ou pelo que ele dizia, eu não sei.
— Há alguma coisa naquele nevoeiro! — repetiu ele. — Alguma coisa no nevoeiro agarrou John Lee! Alguma coisa... — Ele tropeçou de costas em uma amostra de adubo para jardim, amontoada junto às vidraças e sentou-se ali. — Alguma coisa no nevoeiro pegou John Lee e eu o ouvi gritando!
A situação mudou. Já nervosas pela tempestade, pela sirene policial e o apito de incêndios, pelo sutil deslocamento que qualquer interrupção da força elétrica provoca na psique americana e pelo ambiente de cada vez maior inquietude quando as coisas, de algum modo... alguma forma, se transformam (não sei como expressá-lo melhor do que isto), as pessoas começaram a mover-se como um todo.
Não saíram correndo. Se eu dissesse isso, estaria dando uma impressão absolutamente errônea. Não foi exatamente um pânico. Elas não correram — ou, pelo menos, a maioria não correu. Andaram. Algumas chegaram às enormes paredes envidraçadas, no ponto mais afastado das caixas, e olharam para fora. Outras saíram pela porta ENTRE, algumas ainda carregando os artigos escolhidos para compra. Inquieto e diligente, Bud Brown começou a gritar:
— Ei! Vocês ainda não pagaram! Ei, você! Volte aqui com esses pães para cachorro-quente!
Alguém riu dele, um som louco e guinchado, que provocou sorrisos dos demais.
Contudo, mesmo enquanto sorriam, aquelas pessoas estavam perplexas, confusas e nervosas. Então, alguém mais deu uma risada e Brown ficou vermelho. Arrancou uma caixa de cogumelos de uma senhora que passava a seu lado, para espiar na vidraça — os segmentos de vidro estavam agora tomados por filas de pessoas, eram como aquelas que vemos espiando através de furos, nos tapumes dos locais em construção — e a mulher gritou:
— Devolva meus cogumelinhos!
O bizarro termo afetivo fez com que dois homens nas proximidades estourassem em louco acesso de riso — e agora havia em tudo aquilo algo do velho manicômio inglês. A Sra. Carmody trovejou novamente para que ninguém saísse. O apito de incêndio ululou ofegante, como uma velha que houvesse levado um susto, com um gatuno dentro de casa. Billy prorrompeu em pranto.
— O que é aquele homem cheio de sangue, papai? O que é?
— Está tudo bem, Grande Bill. É só o nariz dele. Ele está bem.
— O que ele quis dizer, com alguma coisa no nevoeiro? — perguntou Norton.
Vi que ele franzia a testa inteiramente, sem dúvida a sua maneira de parecer confuso.
— Estou com medo, papai — disse Billy, através de lágrimas. — Será que a gente não podia ir para casa?
Alguém passou a meu lado, dando-me um encontrão que me fez perder ligeiramente o equilíbrio. Tomei Billy nos braços. Eu também estava ficando assustado. A confusão aumentava. Sally, a caixa supervisionada por Bud Brown, começou a afastar-se, mas ele a agarrou pela gola de sua bata vermelha e a trouxe de volta. O tecido rasgou-se. Sally avançou para ele, pronta a desferir-lhe uma bofetada, o rosto contorcido de fúria.
— Tire essas mãos sujas de cima de mim! — gritou ela.
— Oh, cale a boca, sua cretina! — exclamou Brown, parecendo absolutamente espantado.
Tornou a estender a mão para agarrá-la, mas Ollie Weeks disse com rispidez:
— Bud! Esfrie, cara!
Alguém mais gritou. Não houvera pânico ainda — não de todo — mas ia haver logo. As pessoas disparavam para o exterior, por ambas as portas. Houve um barulho de vidro quebrado e garrafas de Coca rolaram pelo chão subitamente, esguichando o conteúdo.
— Cristo, o que está acontecendo? — exclamou Norton.
Foi quando começou a escurecer... oh, não, não foi bem isso. No momento, não pensei que estivesse anoitecendo, mas sim que as luzes do supermercado se tivessem apagado.
Ergui os olhos para as luzes fluorescentes, em um rápido ato reflexo, e não fui o único.
A princípio, até recordar a interrupção da energia elétrica, pareceu-me que a luz se apagara, que isso é que modificara a qualidade da iluminação. Então, recordei que havíamos ficado sem energia o tempo todo, desde nossa chegada ao supermercado, mas que as coisas antes não pareciam escuras. Então adivinhei, ainda antes que as pessoas espremidas contra as janelas envidraçadas começassem a gritar e apontar.
O nevoeiro estava chegando.
Vinha da entrada da Estrada Kansas para o pátio de estacionamento e, apesar daquela proximidade, não parecia diferente de quando o percebêramos pela primeira vez, na margem oposta do lago. Era branco e brilhante, mas sem reflexos. Movia-se depressa, tendo eclipsado a maioria do sol. Onde o sol estivera, havia agora uma moeda de prata no céu, como uma lua cheia no inverno, vista através de uma fina camada de nuvens.
O nevoeiro chegou com indolente rapidez. Vê-lo, fazia-me recordar algo da chuva torrencial daquela noite. Na natureza há forças poderosas que dificilmente vemos — terremetos, ciclones, furacões — eu não chegara a ver todos eles, mas tinha visto o suficiente para intuir que se moviam com aquela preguiçosa, hipnotizante velocidade.
São coisas que nos mantém abismados, como Billy e Steff haviam estado, diante da janela panorâmica, a última noite.
Ele rolava imparcialmente pela estrada negra de duas pistas, apagando-a de vista. A residência dos McKeon, belamente restaurada em colonial holandês, foi engolida por inteiro. Durante um momento, o segundo pavimento do arruinado prédio de apartamentos ao lado, conseguiu destacar-se naquela brancura, porém desapareceu também. O aviso MANTENHA A DIREITA, nos pontos de entrada e saída do pátio de estacionamento do Federal, sumiu de vista, enquanto as letras negras pareciam flutuar por um instante no limpo, depois que o fundo branco-sujo do cartão desapareceu. Em seguida, foi a vez de os carros no pátio de estacionamento começaram também a esfumar-se.
— Cristo, o que está acontecendo? — repetiu Norton, nervoso.
O nevoeiro chegou, comendo o céu azul e a recente pintura negra no piso do estacionamento. Mesmo estando e seis metros de distância, a linha de demarcação era absolutamente nítida. Fiquei com a idiota sensação de estar assistindo a uma peça extraordinariamente boa de efeitos visuais, algo fantasiado por Willys O'Brien ou Douglas Trumbull. Aconteceu depressa demais. O céu azul pareceu ter sido abocanhado, transformando-se em faixa, depois em um fino risco de lápis: Então, desapareceu de todo. O branco opaco pressionou-se contra o vidro da enorme vitrine. O máximo que eu conseguia ver era até o barril para papéis usados, talvez a metro e meio de distância, porém não muito mais além. O único que distinguia era o pára-choque dianteiro de meu Scout, mas foi tudo.
Uma mulher deu um grito, muito alto e prolongado. Billy apertou-se mais contra mim.
Seu corpo tremia como um monte frouxo de fios, percorridos por alta voltagem.
Um homem gritou também e atirou-se por um dos corredores vazios de caixa, em direção à porta. Acho que isso finalmente desencadeou o estouro. As pessoas precipitaram-se para o nevoeiro.
— Ei! — rugiu Brown. Não sei se estava irritado, assustado, ou as duas coisas. Seu rosto ficara quase púrpura e as veias salientavam-se no pescoço, quase tão grossas como cabos de bateria. — Ei, vocês aí, não podem levar essa mercadoria! Voltem aqui com a mercadoria, isso é roubo!
Todos continuaram correndo para fora, mas alguns largaram as mercadorias que levavam. Uns poucos riam, excitados. Penetraram todos no nevoeiro e, entre os que ficaram para trás, ninguém mais tornou a vê-los. Pela porta aberta infiltrava-se um cheiro vagamente acre. As pessoas começaram a amontoar-se diante dela, entre empurrões e encontrões. Meus ombros doíam por segurar Billy, um garoto de bom tamanho. Steff às vezes o chamava de seu bezerrinho.
Norton começou a afastar-se, com ar preocupado, estupidificado. Dirigia-se para a porta. Passei Billy para o outro braço, a fim de agarrar o de Norton, antes que ele me fugisse do alcance.
— Nada disso, cara, não deve ir — falei.
Ele se virou para mim.
— O quê?
— É melhor esperar para ver.
— Ver o quê?
— Sei lá — respondi.
— Não está pensando que...
Um guincho saído do nevoeiro o interrompeu. Norton calou a boca. O apertado amontoado junto à porta SAÍDA afrouxou-se. O burburinho de excitadas conversas, gritos e chamados, amainou. O rosto das pessoas junto à porta pareceu subitamente achatado e pálido, bidimensíonal.
O guincho estendeu-se, prolongadamente, competindo com o apito de incêndio. Parecia impossível que qualquer par de pulmões humanos contivesse ar suficiente para agüentar semelhante uivo.
— Oh, meu Deus — murmurou Norton, passando as mãos através dos cabelos.
O guincho terminou subitamente. Não foi diminuindo; estancou de repente. Um outro homem saiu, um sujeito corpulento, em calças de trabalho de brim. Creio que pretendia resgatar quem guinchara. Por um momento, ele surgiu lá fora, visível através do vidro e do nevoeiro, como uma figura discernida através do leite em um copo. Então (e, que me conste, fui o único a ver isto) algo além dele pareceu mover-se, uma sombra cinzenta em toda aquela brancura. Tive a impressão de que, ao invés de penetrar no nevoeiro, o homem das calças de brim foi puxado para seu interior, as mãos debatendo-se no alto, como que surpreso.
Por um instante, houve silêncio total no supermercado.
Uma constelação de luas brilhou subitamente no exterior. As luzes de sódio do pátio de estacionamento, sem dúvida supridas por cabos elétricos subterrâneos, tinham sido acesas naquele momento.
— Não vão lá fora! — disse a Sra. Carmody, em sua melhor voz de corvo agourento. — Será a morte para quem sair!
Imediatamente, ninguém parecia disposto a discutir ou rir.
Outro grito brotou do exterior, este abafado e soando algo distante. Billy retesou-se contra mim.
— David, o que está acontecendo? — perguntou Ollie Weeks. Havia deixado o posto junto à caixa e mostrava grandes gotas de suor no rosto redondo e liso. O que é isto?
— Não faço a menor idéia — respondi.
Ollie parecia francamente assustado. Era solteiro, morava em uma aconhegante casinha perto de Highland Lake e gostava de beber no bar em Pleasant Mountain. No rechonchudo mindinho de sua mão esquerda, ostentava um anel com uma estrela de safiras. No último fevereiro, ele ganhara algum dinheiro na loteria estadual e então comprara o anel. Eu sempre tivera a impressão de que Ollie sentia certo medo de garotas.
— E eu não entendo nada — disse ele.
— Não dá para entender — falei. — Ouça, Billy, tenho que pôr você no chão. Ficarei segurando sua mão, mas você está quebrando meus braços, compreende?
— Mamãe — sussurrou ele.
— Ela está bem — respondi, pois tinha que dizer alguma coisa.
O velhote que tem uma loja de artigos usados, perto do Restaurante Jon's, passou por nós, enfiado na velha suéter com as letras da universidade, que não tirava do corpo o ano inteiro. Disse, em voz alta:
— Deve ser uma daquelas nuvens de poluição. As fábricas em Rumford e South Paris. Produtos químicos.
Enquanto falava, embrenhou-se no corredor 4, além das gôndolas de medicamentos e papel sanitário.
— Vamos sair daqui, David — disse Norton, sem a menor convicção. — O que acha de nós...?
Houve um baque surdo. Um baque estranho, estremecido, que senti principalmente nos pés, como se todo o edifício houvesse subitamente afundado um metro no chão. Várias pessoas gritaram, de medo e surpresa. Ouviu-se um jingle musical de garrafas caindo das prateleiras e estilhaçando-se no piso ladrilhado. Um pedaço de vidro em forma de cunha caiu de um dos segmentos da ampla vitrine frontal e vi as molduras de madeira sacudindo as pesadas seções envidraçadas, que saltaram e racharam em alguns pontos.
O apito de incêndio cessou abruptamente.
O silêncio que se seguiu foi a quietude expectante de gente esperando algo mais, qualquer outra coisa. Eu estava chocado e entorpecido. Minha mente executou uma estranha conexão cruzada com o passado. Recuou até quando Bridgton era pouco mais do que um cruzamento de estradas e meu pai me levava com ele, enquanto conversava junto ao balcão e eu espiava, através do vidro, para os doces de um penny e a goma de mascar a dois centavos. Era o degelo de janeiro. Não havia outro som, além da água derretida que pingava, caindo das calhas de estanho galvanizado nas barricas para águas pluviais, a cada lado da loja. Eu, olhando para os pés-de-moleque, botões e cataventos.
Os místicos globos amarelos de luz no alto, mostrando projetadas sombras monstruosas do batalhão de moscas mortas no último verão. Um garotinho chamado David Drayton e seu pai, o famoso artista Andrew Drayton, cuja pintura Christine Solitária estava na Casa Branca. Um garotinho chamado David Drayton, olhando para os doces e cartões da goma-de-mascar Davy Crockett, sentindo uma vaga vontade de urinar. E, lá fora, pressionante, o encapelado nevoeiro amarelo do degelo de janeiro.
A recordação enfumaçou-se, mas muito devagar.
— Ei, vocês todos! — bradou Norton. — Todos vocês, ouçam-me!
As pessoas olharam em torno. Norton erguia as duas mãos, os dedos estendidos em ângulo, como um candidato político acolhendo saudações.
— Pode ser perigoso alguém ir lá fora! — gritou ele.
— Por quê? — gritou uma mulher de volta. — Meus filhos ficaram em casa! Preciso voltar para junto deles!
— Quem sair daqui morrerá! — repetiu agudamente a Sra. Carmody.
Estava em pé junto aos sacos de doze quilos com fertilizantes, empilhados abaixo da janela envidraçada, e seu rosto parecia projetar-se para diante de algum modo, como se ela estivesse inchando.
Um adolescente a empurrou com rudeza e ela caiu sentada em cima dos sacos, com um grunhido de surpresa.
— Pare de ficar falando assim, velha maluca! Pare de dizer besteiras!
— Por favor! — gritou Norton. — Se apenas esperarmos alguns momentos, até tudo se acalmar, então veremos...
Uma confusão de gritos conflitantes acolheu suas palavras.
— Ele tem razão! — gritei, procurando fazer-me ouvir acima do barulho. Temos que ficar de cabeça fria!
— Acho que foi um terremoto — disse um homem de óculos. Tinha voz suave. Em uma das mãos segurava um pacote de hamburgeres e um saco de pãezinhos. Na outra, prendia a de uma menininha, talvez um ano mais nova do que Billy. Sinceramente, acho que foi um terremoto.
Houve um em Nápoles, há cerca de quatro anos — disse um gordo residente local.
— Aquilo foi em Casco — contradisse imediatamente sua esposa, empregando os tons indisfarçáveis de veterana contestadora.
— Naples — insistiu o gordo, porém com menos segurança.
— Casco! — declarou a mulher com firmeza, e ele desistiu.
Em algum lugar, uma lata que fora atirada até a borda da prateleira, pelo baque, terremoto ou fosse o que fosse, caiu finalmente, com atrasado clangor. Billy prorrompeu em choro.
— Quero ir para casa! Quero a minha MÃE!
— Não pode fazer esse garoto se calar? — perguntou Bud Brown, com os olhos indo rapidamente, mas sem destino, de um lado para outro.
— Quer que lhe dê um tiro nos dentes, boca de matraca? — falei.
— Vamos, Dave, isso não resolve nada — disse Norton, aturdido.
— Sinto muito — falou a mulher que gritara antes. — Sinto muito, mas não posso ficar aqui. Preciso ir para casa e ver meus filhos.
Olhou em torno para nós, uma mulher loura, de rosto bonito e fatigado.
— Wanda ficou cuidando do pequeno Victor, compreendam. Ela só tem oito anos e, às vezes, esquece... esquece que deveria... bem, tomar conta dele, sabem como é. E o pequeno Victor... ele gosta de ligar os bicos de gás do fogão, para ver aparecer a luzinha vermelha... ele gosta daquela luzinha... e às vezes puxa as tomadas da parede... o pequeno Victor faz isso... e Wanda fica... entediada de cuidar dele, após algum tempo... ela só tem oito anos... — A mulher interrompeu-se e ficou olhando para nós. Imagino que lhe tenhamos parecido apenas um bando de olhos impiedosos, não seres humanos, em absoluto, apenas olhos. — Será que ninguém vai me ajudar? — gritou ela. Seus lábios começaram a tremer. — Ninguém aqui... ninguém leva uma senhora em casa?
Não houve resposta. As pessoas arrastaram os pés. Ela olhou rosto por rosto, com suas feições compungidas. O gordo residente local ensaiou um meio passo à frente, mas a esposa o puxou de volta, com um gesto rápido, a mão se fechando no punho dele como uma algema.
— Você? — perguntou a loura a Ollie. Ele abanou a cabeça. — E você? — ela se virou para Bud. Ele pousou a mão na calculadora Texas Instruments sobre o balcão e nada disse. — Você? — perguntou ela a Norton.
Norton começou a dizer algo, em sua voz pomposa de advogado, algo sobre ninguém ser louco para sair dali e... e ela então o ignorou, permitindo que ele se afastasse.
— Você? — perguntou a mim.
Tornei a colocar Billy no colo e o mantive nos braços, como um escudo a proteger-me daquela terrível face descomposta.
— Espero que todos vocês apodreçam no inferno — disse ela.
Não gritou. Sua voz estava apática pelo cansaço. Caminhou para a porta SA Í DA e a empurrou, usando as duas mãos. Eu quis dizer-lhe algo, chamá-la de volta, mas tinha a boca demasiado seca.
— Ei, dona, escute... — começou o adolescente que gritara para a Sra. Carmody.
Ele lhe segurou o braço. A mulher loura baixou os olhos para aquela mão que a prendia e o rapazinho a soltou, envergonhado. Ela deslizou para dentro do nevoeiro. Nós a vimos ir e ninguém disse nada. Vimos o nevoeiro abraçá-la, torná-la insubstancial, não mais um ser humano, porém o desenho a tinta de um ser humano, feito no papel mais branco do mundo, e ninguém disse nada. Por um momento, foi como as letras do aviso MANTENHA A DIREITA, que tinha parecido flutuar no nada; seus braços, pernas e o pálido cabelo louro desapareceram, permanecendo apenas os enevoados remanescentes de seu vestido vermelho de verão, como se dançassem em um limbo alvacento. Então, o vestido também desapareceu e ninguém disse nada.
Billy começou a agir histericamente e com malcriação, gritando pela mãe de maneira rouca e exigente através das lágrimas, instantaneamente regredindo à idade de dois anos. Seu lábio superior estava coberto de ranho. Levei-o dali, descendo por um dos corredores centrais, com o braço em torno de seus ombros, tentando acalmá-lo.
Caminhei com ele ao longo do comprido gabinete branco para carnes, que ocupava toda a largura do supermercado, na parte dos fundos. O açougueiro, Sr. Mc Vey, ainda estava lá. Cumprimentamo-nos com um aceno de cabeça, o melhor que podíamos fazer, em vista das circunstâncias.
Sentando-me no chão, coloquei Billy no colo e mantive seu rosto contra meu peito, embalando-o e falando com ele. Contei-lhe todas as mentiras que os pais reservam para as situações difíceis, aquelas que soam infernalmente plausíveis para uma criança, e as contei em um tom de absoluta convicção.
— Aquele não é um nevoeiro igual aos outros — disse Billy. Ergueu o rosto para mim, os olhos circundados de sombras e marejados de lágrimas. — Não é igual, não, papai?
— Não, não é igual — falei, não querendo mentir sobre aquilo.
Crianças não lidam com o choque à maneira dos adultos; elas harmonizam-se com ele, talvez por viverem em semi permanente estado de choque até cerca dos treze anos. Billy começou a cochilar. Eu o mantive nos braços, achando que fosse acordar de novo, mas seu sono aprofundou-se, ficou pesado. Talvez houvesse ficado desperto parte da noite anterior, ao dormirmos os três em uma só cama, pela primeira vez, desde que ele era bebê. E talvez — senti algo como uma lâmina fria me varando ao pensar nisso — talvez ele houvesse pressentido algo que estava para ocorrer.
Quando fiquei certo de que ele dormia profundamente, depositei-o no chão e saí em busca de algo com que cobri-lo. Em sua maioria, as pessoas continuavam na parte interna e fronteira do supermercado, espiando o espesso lençol do nevoeiro. Norton reunira um pequeno grupo de ouvintes e ocupava-se em fasciná-los com sua palavra eloqüente — ou, pelo menos, tentava. Bud Brown permanecia rigidamente em seu posto, mas Ollie Weeks já abandonara o seu.
Havia umas poucas pessoas pelos corredores, perambulando como fantasmas, os rostos sebosos pelo choque. Entrei na área de estocagem, através das grandes portas duplas entre o gabinete de carnes e o refrigerador de cerveja.
O gerador rugia com firmeza, através de sua divisória de compensado, mas havia algo errado. Pude sentir cheiro dos vapores de diesel e eram muito fortes. Caminhei para a divisória, poupando a respiração. Por fim, desabotoando a camisa, tapei a boca e o nariz com parte dela.
A área de estocagem era comprida e estreita, fracamente iluminada por dois conjuntos de luzes de emergência. Havia caixas de papelão amontoadas por toda parte — alvejantes a um lado, caixas de refrigerantes no lado mais distante da divisória, caixotes de Beefaroni e catchup empilhados. Um destes havia caído e o papelão parecia sangrar.
Abri a porta que dava para o compartimento do gerador e entrei. A máquina estava obscurecida por nuvens densas e oleosas de fumaça azul. O tubo de exaustão passava por um buraco na parede. Algo devia ter bloqueado a saída externa do tubo. Havia um interruptor simples, liga/desliga, e eu o acionei. O gerador estremeceu, arrotou, tossiu e morreu. Depois emitiu uma série de pequenos estouros, cada vez mais sufocados, recordando-me a obstinada serra de cadeia de Norton.
As luzes de emergência apagaram-se e me vi na escuridão. Fiquei logo assustado e perdi a orientação. Minha respiração parecia um vento rasteiro, agitando palha. Bati com o nariz na fina porta de compensado e meu coração cambaleou. Havia vidraças nas portas duplas mas, por algum motivo, tinham sido pintadas de preto, de modo que a escuridão era quase total. Desorientado, colidi com uma pilha de caixas de alvejantes.
As caixas de papelão oscilaram e caíram. Uma passou rente à minha cabeça, fazendo me recuar um passo e tropeçar em outra, que caíra às minhas costas. Caí sentado, levando uma forte pancada na cabeça, que me fez ver estrelas brilhando no escuro. Um bom espetáculo.
Fiquei ali, xingando-me e esfregando a cabeça, dizendo a mim mesmo para ficar calmo e sair daquele lugar, voltar para Billy, convencendo-me de que nada macio e escorregadio se fecharia em volta de meu tornozelo ou me prenderia a mão.
Falei-me para não perder o controle ou terminaria dando voltas ali dentro, em pânico, colidindo com coisas e criando uma louca pista de obstáculos para mim próprio.
Levantei-me com cautela, procurando alguma réstia de luz entre as portas duplas.
Encontrei-a, um fraco mas indiscutível risco de claridade na escuridão. Caminhei para ela, mas então parei.
Houve um som. Um som suave, deslizante. Parou, depois recomeçou, com um furtivo baquezinho. Tudo dentro de mim ficou bambo. Como por mágica, recuei aos quatro anos de idade. Aquele som não provinha do supermercado, mas de trás de mim. Do exterior. Onde estava o nevoeiro. Alguma coisa deslizava e deslizava, rastejando sobre os blocos de concreto. E, talvez, procurando um jeito de entrar.
Aliás, talvez já houvesse entrado e procurasse por mim. Em mais um momento, eu poderia estar sentindo sobre meu sapato o que quer que emitia aquele som. Ou em meu pescoço.
O som repetiu-se. Agora, eu tinha certeza, era do lado de fora. Isso, contudo, não tornou nada melhor. Ordenei a minhas pernas que se movessem e elas recusaram a ordem.
Então, a qualidade do ruído mudou. Alguma coisa arranhou em meio à escuridão. Meu coração saltou no peito e eu dei um salto de mergulho para aquela fina linha de luz vertical. Bati contra as portas com os braços estirados e irrompi no supermercado.
Três ou quatro pessoas estavam bem junto às portas duplas — Ollie Weeks era uma delas — e elas saltaram para trás, surpresas. Ollie aferrou o peito.
— David! — disse, em voz agoniada. — Meu Deus, você quer me tirar dez anos de... — Parou ao ver meu rosto. — O que há com você?
— Vocês ouviram? — perguntei. Minha voz soava estranha a meus próprios ouvidos, aguda e estridente. — Algum de vocês ouviu?
Eles nada tinham ouvido, claro. Estavam vindo para saber por que o gerador parara de trabalhar. Quando Ollie me disse isso, um dos rapazes que embalava mercadorias junto à caixa, surgiu carregando um monte de lanternas à pilha. Olhou de Ollie para mim, curiosamente.
— Eu desliguei o gerador — falei, explicando por quê.
— O que foi que ouviu? — um homem perguntou. Trabalhava no departamento rodoviário da cidade, seu nome era Jim qualquer coisa.
— Não sei. Era um ruído rastejante. Gosmento. Não quero tornar mais a ouvi-lo.
— Foram seus nervos — disse o outro sujeito com Ollie.
— Não. Não foram meus nervos.
— Ouviu o ruído antes das luzes se apagarem?
— Não, só depois. Mas...
Não adiantava explicar, podia ver pela maneira como me olhavam. Não queriam mais notícias ruins, nada amedrontador ou fora do normal. Já haviam tido o suficiente disso. Apenas Ollie parecia acreditar em mim.
— Vamos entrar e ligar o gerador novamente — disse o rapaz embalador, estendendo as lanternas.
Ollie pegou a sua, com ar duvidoso. O rapaz ofereceu-me uma, com um brilho ligeiramente sarcástico nos olhos. Teria uns dezoito anos. Após pensar um momento, peguei a lanterna. Eu ainda precisava encontrar alguma coisa com que cobrir Billy.
Ollie abriu as portas, escancarando-as e deixando entrar um pouco de claridade. As caixas de papelão dos alvejantes jaziam espalhadas em torno da porta entreaberta da divisória de compensado. O sujeito chamado Jim farejou o ar.
— Parece bem enfumaçado. Acho que fez bem em desligá-lo.
Os fachos das lanternas saltitaram e dançaram pelas caixas de papelão acondicionando latarias, papel sanitário e ração para cães. Os fachos luminosos surgiam enfumaçados nas emanações que enchiam o recinto, enviadas de volta à área de estocagem por causa do exaustor bloqueado. O rapaz embalador dirigiu brevemente sua luz para a ampla porta de descarregamento de mercadorias, na extrema direita.
Ollie e os dois homens entraram no compartimento do gerador. Os fachos de suas lanternas andavam inquietamente de um lado para outro, recordando-me algo de uma história de aventuras para garotos — e eu ilustrara uma série delas quando ainda cursava a universidade. Piratas enterrando seu ouro sangrento à meia-noite ou talvez o cientista louco e seu assistente esquartejando um corpo. Sombras dançavam nas paredes, distorcidas e monstruosas pelos fachos de luz que se entrecruzavam pelas paredes. O gerador tiquetaqueava, esfriando.
O rapaz embalador aproximava-se da porta de descarregamento, iluminando o caminho à sua frente.
— Se fosse você, eu não iria aí — falei.
— Oh, claro, eu sei que você não iria.
— Experimente agora, Ollie — disse um dos homens.
O gerador estremeceu, depois rugiu.
— Céus! Desligue logo! Raios, como isso fede!
O gerador morreu novamente. O rapaz embalador retornava da porta de descarga, no momento em que eles saíam do compartimento do gerador.
— Há alguma coisa bloqueando esse exaustor, não há dúvida — comentou um dos homens.
— Pois eu seio que fazer — disse o rapaz embalador. Seus olhos brilhavam ao clarão das lanternas e, em seu rosto, havia uma expressão de que-se-danem, tantas vezes desenhada por mim como parte do frontispício em minha série de aventuras para garotos. — Liguem o gerador o tempo suficiente, até que eu levante a porta de descarga, lá atrás. Vou desentupir esse exaustor, dar um jeito no que quer que o esteja bloqueando.
— Não acho que seja uma boa idéia, Norm — disse Ollie, duvidoso.
— A porta é elétrica? — perguntou o chamado Jim.
— Claro — respondeu Ollie, — mas não creio que seria sensato...
— Então, tudo bem — declarou o outro sujeito. Ajeitou o boné de beisebol na cabeça. — Deixe comigo.
— Não, você não entendeu — tornou a dizer Ollie. — Francamente, acho que ninguém deveria...
— Não se preocupe — disse o outro a Ollie, em tom indulgente, começando a afastar-se.
Norm, o embalador, estava indignado.
— Ei, a idéia foi minha! — exclamou.
Imediatamente, como que por mágica, eles começaram a discutir sobre quem faria aquilo, em vez de se devia ou não ser feito. Enfim, nenhum deles ouvira ainda aquele desagradável som deslizante.
— Parem com isto! — gritei bem alto.
Eles se viraram para mim.
— Vocês parecem não entender ou então fazem o possível para não entender! Este não é um nevoeiro comum. Ninguém mais entrou no supermercado, desde que ele chegou aqui, notaram? Se abrirem aquela porta de descarga e alguma coisa entrar...
— Alguma coisa, como? — perguntou Norm, com o perfeito ar desdenhoso e machão dos dezoito anos.
— Seja lá o que tenha feito o barulho que ouvi.
— Sr. Drayton — disse Jim — desculpe-me, mas acho que não ouviu coisa alguma. Sei que é um artista muito importante, com ligações em Nova York e Hollywood mas, para mim, isso não o torna diferente de mais ninguém. Da maneira como imagino, entrou aqui no escuro e talvez tenha ficado... um pouco confuso, digamos.
— Sim, talvez tenha mesmo — respondi. — E talvez, se quer ficar dando palpites por aí, devia começar certificando-se de que aquela senhora chegou junto dos filhos sã e salva.
Sua atitude — bem como a de seu companheiro e a de Norm, o rapaz embalador — estava me deixando nervoso e assustado ao mesmo tempo. Eles tinham nos olhos o tipo de brilho que alguns homens exibem, quando saem matando ratos a tiros, nos terrenos baldios da cidade.
— Ei — disse o companheiro de Jim — quando quisermos conselhos, nós pediremos.
Ollie falou, hesitante:
— O gerador não tem tanta importância assim, entendam. Os alimentos postos nas caixas de refrigeração agüentam bem por doze horas e até mais, sem que...
— Muito bem, garoto, vamos em frente — cortou Jim com brusquidão. — Eu ligo o motor, depois você levanta a porta, para que isto aqui não fique tão fedorento. Eu e Myron estaremos ao lado da saída do exaustor. Dê-nos um grito, quando ele ficar desimpedido.
— Certo — disse Norm, afastando-se excitadamente.
— Isto é loucura — falei. — Vocês deixaram aquela senhora ir embora sozinha e...
— Não vi você contorcendo seu traseiro para ir acompanhá-la — falou Myron, o companheiro de Jim. Um rubor opaco, cor de tijolo, rastejava para fora de sua gola, — mas vai deixar que este garoto arrisque a vida por um gerador que nem mesmo é importante?
— Por que não fecham a matraca? — gritou Norm.
— Ouça, Sr. Drayton — disse Jim, e sorriu para mim friamente. — Quero lhe dizer uma coisa. Se tem algo mais a dizer, é melhor antes contar seus dentes, porque estou me cansando de ouvir suas cascatas.
Ollie olhou para mim, visivelmente amedrontado. Dei de ombros. Eles eram loucos, nada mais. Seu senso de proporção desaparecera temporariamente. Fora dali, estavam confusos e assustados. Aqui, havia um problema direto e mecânico: um gerador birrento. Podiam resolver o problema. Se o resolvessem, ficariam menos confusos e impotentes. Portanto, iam resolvê-lo.
Jim e seu amigo,.Myron concluíram que eu me sentia derrotado e tornaram a entrar no compartimento do gerador.
— Pronto, Norm? — perguntou Jim.
Norm assentiu, depois percebeu que eles não ouviriam seu gesto com a cabeça.
— Estou pronto — respondeu.
— Norm — falei. — Não seja tolo!
— Não deviam fazer isso — acrescentou Ollie.
Norm olhou para nós e, de repente, vi seu rosto muito mais jovem do que dezoito anos.
Era o rosto de um menino. Seu pomo de Adão subiu e desceu convulsivamente, fazendo-me perceber que ele estava apavorado. Abriu a boca para dizer algo — penso que queria desistir — mas então o gerador rugiu para a vida novamente. Quando passou a trabalhar com ruído uniforme, Norman investiu contra o botão à direita da porta e ela começou a chacoalhar para o alto, em suas duas trilhas de aço. As luzes de emergência se tinham acendido, quando o gerador entrou em funcionamento, mas agora ficavam mortiças, enquanto o mecanismo que levantava a porta sugava corrente.
As sombras recuaram e desmancharam-se. A área de estocagem começou a encher-se com a suave luz esbranquiçada de um dia carregado, no final do inverno. Percebi de novo aquele cheiro estranho e acre.
A porta para o desembarque de mercadorias subiu meio metro, depois mais meio. Além dela, pude ver uma plataforma quadrada de cimento, as bordas contornadas por uma faixa amarela. O amarelo desbotava e desaparecia, a um metro de distância. O nevoeiro era incrivelmente espesso.
— Subiu! — berrou Norm.
Gavinhas de nevoeiro, brancas e finas como renda flutuante, esgueiraram-se para o interior. O ar estava frio. Estivera bastante fresco durante toda a manhã, especialmente após o pegajoso calor das últimas três semanas, porém havia sido uma friagem de verão. Agora, fazia frio. Como se estivéssemos em março. Estremeci. Então, pensei em Steff.
O gerador morreu. Jim apareceu, justamente quando Norm mergulhou sob a porta. Ele viu aquilo. Eu vi. E Ollie também.
Um tentáculo rastejou da orla oposta da plataforma acimentada do descarregamento e agarrou Norm em volta da barriga da perna. Fiquei boquiaberto. Ollie engoliu em seco, emitindo um ruído surpreso — uk! O tentáculo afinava-se para a espessura de trinta centímetros — era como uma cobra de capim no ponto onde se enrolara à perna de Norm, engrossando para um metro, talvez um e vinte, onde desaparecia no nevoeiro. Era cinza azulado na parte superior, matizando-se para um rosado cor de carne na inferior. E havia filas de ventosas no lado de baixo, movendo-se e encolhendo-se como centenas de pequeninas bocas beiçudas.
Norm olhou para baixo. Viu o que o agarrara. Seus olhos esbugalharam-se.
— Tirem isso de mim! Ei, tirem isso de mim! Pelo amor de Deus, tirem essa coisa horrível de mim!
— Oh, meu Deus! — gemeu Jim.
Norm agarrou-se à parte inferior da porta, ancorando-as a ela. O tentáculo pareceu inchar, da maneira como fica um braço, se o flexionamos. O rapazinho foi puxado para a porta de aço corrugado — sua cabeça se chocou fragorosamente contra ela. O tentáculo inchou ainda mais. As pernas e o torso de Norm começaram a escorregar para o exterior. A borda inferior da porta arrancou as fraldas da camisa para fora de suas calças. Ele agarrou-se furiosamente e impeliu-se para trás, como um homem que fizesse flexões de corpo com a barriga para cima.
— Ajudem-me! — ele estava soluçando. — Vocês aí, caras, ajudem-me, por favor, por favor!
— Meu Deus do céu! — disse Myron.
Ele havia saído do compartimento do gerador, para ver o que acontecia. Sendo eu o mais próximo, agarrei Norm pela cintura e puxei, com toda a força que pude, sustentado nos saltos dos sapatos. Por um momento, ele recuou um pouco, mas foi só um momento. Era como espichar uma tira de borracha ou bala-puxa. O tentáculo cedeu, mas não o soltou de todo. Então, três outros tentáculos flutuaram para fora do nevoeiro, em nossa direção. Um deles enrolou-se em torno do avental vermelho do Federal, que Norm usava, e o rasgou inteiro. O pano desapareceu no nevoeiro, enrolado naquela garra branquicenta, fazendo-me pensar em algo que minha mãe dizia, quando eu e meu irmão lhe pedíamos alguma coisa que ela não queria dar — doces, uma revista de histórias em quadrinhos, algum brinquedo: "Vocês precisam tanto disso, como uma galinha precisa de uma bandeira." Pensei naquilo e pensei no tentáculo agitando o avental vermelho de Norm. Comecei a rir. Fiquei rindo, exceto que meu riso e os gritos de Norm soavam como a mesma coisa. Talvez ninguém mais soubesse que estava rindo, a não ser eu.
Os outros dois tentáculos deslizaram sem direção, de um lado para outro sobre a plataforma de carga, durante um momento, emitindo aqueles ruídos surdos de arranhões que eu ouvira anteriormente. Então, um deles encontrou a coxa esquerda de Norm e enovelou-se em torno dela. Eu o senti tocar meu braço. Era quente, liso e pulsante. Creio que, se me houvesse aferrado aquelas ventosas, eu também teria sido puxado para dentro do nevoeiro. No entanto, foi Norm que elas aferraram. E o terceiro tentáculo enrodilhou-se em seu outro tornozelo. Agora, o rapaz estava sendo puxado de mim.
— Ajudem-me! — gritei. — Ollie! Alguém aí! Ajudem-me aqui!
Eles não ajudaram. Não sei o que faziam, mas o fato é que não ajudaram. Olhei para baixo e vi o tentáculo em torno da cintura de Norm, procurando sua pele. As ventosas o estavam comendo, no ponto em que a camisa escorregara das calças. Tão vermelho como seu avental, o sangue começou a fluir da trincheira feita pelo tentáculo pulsante.
Bati a cabeça contra a borda inferior da porta parcialmente erguida.
As pernas de Norm estavam novamente no exterior. Um tênis lhe saíra do pé. Um novo tentáculo destacou-se do nevoeiro, enrolou a ponta firmemente em volta do sapato e o puxou para si. Os dedos de Norm agarraram-se à borda inferior da porta, mantendo-se ali com firmeza, em um apertão mortal. Seus dedos estavam lívidos. Ele não gritava mais; estava além disso. Sua cabeça sacudia-se para trás e para os lados, em um gesto interminável de negação, enquanto seus compridos cabelos negros agitavam-se violentamente.
Olhando por sobre seu ombro, vi novos tentáculos aproximando-se, dúzias deles, uma verdadeira floresta. Em sua maioria eram pequenos, mas havia uns poucos gigantescos, tão grossos como a árvore com o colete musgoso que estivera caída em nossa entrada de carros, aquela manhã. Os maiores tinham ventosas rosadas que pareciam do tamanho de tampões de esgotos. Um daqueles grandes bateu na plataforma de carga com um forte e prolongado thrrrrap! logo depois começando a mover-se indolentemente para nós, como uma gigantesca minhoca cega. Dei um puxão desesperado e o tentáculo segurando a panturrilha direita de Norm deslizou um pouco. Foi tudo, mas antes que ele reassumisse seu aperto, vi que estava comendo a perna do rapaz.
Um dos tentáculos roçou seu rosto delicadamente e então oscilou no ar, indeciso. Pensei então em Billy. Meu filho dormia lá dentro do supermercado, perto do comprido e branco frigorífico para carnes do Sr. McVey. Eu tinha ido até ali em busca de algo com que cobri-lo. Se uma daquelas coisas me prendesse, não restaria ninguém para cuidar dele — exceto e talvez Norton.
Pensando nisto, larguei Norm e caí sobre as mãos e joelhos.
Eu tinha o corpo metade dentro e metade fora, diretamente abaixo da porta erguida. Um tentáculo passou à minha esquerda, parecendo caminhar sobre as ventosas. Aderiu-se a um dos musculosos braços de Norm, fez uma brevíssima pausa e então enovelou-se apertadamente.
Agora, Norm parecia algo extraído do pesadelo de um louco encantador de serpentes.
Tentáculos se contorciam inquietamente sobre ele, em todos os sentidos... e estavam também à minha volta. Obriguei-me a um desajeitado salto de rã, para trás e para um lado, caí sobre um ombro e rolei. Jim, Ollie e Myron continuavam ali. Pareciam um quadro vivo de figuras de cera no museu de Madame Tussaud, com rostos pálidos e olhos muito brilhantes. Jim e Myron estavam aos lados da porta para o compartimento do gerador.
— Liguem o gerador! — gritei para eles.
Ninguém se moveu. Eles olhavam fixamente para o quadrado de descarga, com uma drogada e tanatótica avidez.
Tateei pelo chão, agarrei a primeira coisa ao alcance — uma caixa de alvejante "Nevado" — e a atirei em Jim. A caixa lhe bateu no estômago, logo acima da fivela do cinto. Ele grunhiu e apertou a barriga. Seus olhos mostraram outra expressão, alguma semelhança de normalidade.
— Vá ligar o maldito gerador! — gritei, tão alto, que me doeu a garganta.
Ele não se moveu. Em vez disto, começou a defender-se, aparentemente tendo decidido que, com Norm devorado vivo por algum insano horror proveniente do nevoeiro, chegara o momento das censuras.
— Sinto muito — ganiu. — Eu não sabia, diabo, como poderia saber? Você disse que ouviu alguma coisa, mas eu não entendi direito, acho que deveria ter-se explicado melhor. Pensei que, sei lá, poderia ser uma ave, um pássaro, qualquer coisa assim...
Foi então que Ollie se moveu, empurrando-o para o lado com seu ombro maciço e precipitando-se para o compartimento do gerador. Jim tropeçou em uma das caixas de alvejantes e caiu, justamente como me acontecera no escuro.
— Sinto muito — repetiu.
Seu cabelo vermelho lhe caíra sobre a testa. As faces estavam pálidas como queijo. Os olhos eram os de um garotinho aterrorizado. Segundo mais tarde, o gerador tossiu e ganhou vida.
Voltei à porta de descarga. Norm já se fora quase todo, mas ainda assim, aferrava-se a ela com uma das mãos. Seu corpo era um novelo de tentáculos e o sangue fluía calmamente para o concreto, em gotas do tamanho de moedas. Sua cabeça agitava-se de um lado para outro e os olhos dilatavam-se de terror, obstinadamente fixos no nevoeiro.
Outros tentáculos agora rastejavam e engatinhavam pelo piso interno. Estavam demasiado perto do botão que controlava a porta de descarga, para chegar a pensar em aproximar-me dele. Um daqueles tentáculos se fechou em torno de uma garrafa de meio litro de Pepsi e a levou para fora. Outro deslizou em volta de uma caixa de papelão e apertou-a.
A caixa se rompeu e rolos de papel sanitário, dois conjuntos envoltos em celofane, foram cuspidos para o alto, desceram e rolaram por todo canto. Novos tentáculos apoderaram-se deles avidamente.
Um dos maiores deslizou para mais perto. Sua ponta se ergueu do solo e pareceu farejar o ar. Começou a avançar para Myron e ele se afastou em passinhos miúdos, com os olhos girando loucamente nas órbitas. Um gemido agudíssimo escapou de seus lábios sem cor.
Olhei em torno procurando algo, qualquer coisa de comprimento suficiente para passar acima dos tentáculos sondantes e apartar o botão FECHAR, cravado na parede. Avistei uma vassoura de faxineiro, recostada contra uma pilha de engradados de cerveja, e agarrei-a.
A mão ilesa de Norm ficou solta. Ele caiu com um baque surdo sobre a plataforma acimentada de descarga, procurando alucinadamente onde agarrar-se com aquela mão.
Seus olhos encontraram os meus por um instante. Estavam infernalmente brilhantes e conscientes. Norm sabia o que lhe acontecia. Em seguida, foi puxado para o nevoeiro, rolando e aos trambolhões. Houve outro grito, abafado. Norm desaparecera.
Apertei a ponta do cabo da vassoura contra o botão e o motor uivou. A porta começou a deslizar para baixo. Tocou primeiro o tentáculo mais grosso, aquele que estivera investigando na direção de Myron. A borda de aço bateu em sua pele — couro, sei lá — e então o partiu. Uma gosma negra começou a escorrer daquilo. O tentáculo contorceu-se loucamente, chicoteando o piso de concreto da área de estocagem, como um chicote obsceno, antes de achatar-se. Um momento depois, desaparecia. Os outros começaram a retrair-se.
Um deles tinha um saco de dois quilos e meio de "Gaines", a ração para cães, e não o largou. A porta que descia o cortou em dois, antes de encaixar-se em sua fenda no piso.
A ponta amputada do tentáculo comprimiu-se convulsivamente, cada vez apertando mais o saco, até rasgá-lo e enviar pelotas castanhas de ração para cães por todo lado. Em seguida, começou a saltitar no chão, como peixe fora d'água, enrolando-se e desenrolando-se, porém cada vez mais devagar, até ficar imóvel. Espetei-a com a ponta da vassoura. Aquele pedaço de tentáculo teria cerca de um metro de comprimento, mas aferrou furiosamente o cabo da vassoura por um instante, depois afrouxando a pressão e caindo flácido em meio àquela confusa mistura de papel sanitário, ração para cães e caixas de alvejante.
Não havia outro som além do rugido do gerador e de Ollie, chorando dentro do compartimento de compensado. Eu podia vê-lo sentado em uma banqueta, com o rosto enterrado nas mãos.
Então, tive consciência de outro som. Era o mesmo som suave e deslizante que ouvira no escuro. Só que, agora, ele se multiplicava por dez. Era o som dos tentáculos contorcendo-se do outro lado da porta de descarga, procurando um jeito de entrar.
Myron deu dois passos para mim.
— Escute — disse. — Você precisa compreender que...
Dei-lhe um soco no rosto. Ele estava tão surpreso, que nem tentou apará-lo. Meu punho fechado caiu abaixo de seu nariz e esmagou-lhe o lábio superior contra os dentes. O sangue fluiu de sua boca.
— Você o empurrou para a morte! — gritei. — Olhou bem para aquilo? Olhou bem para o que você fez?
Comecei a esmurrá-lo, em loucos socos de esquerda e direita, não como me fora ensinado nas aulas de pugilismo da universidade, mas apenas agredindo. Ele recuou, esquivando-se a alguns golpes, mas levando outros, com um entorpecimento que parecia uma espécie de conformação ou punição. Aquilo me deixou ainda mais louco. Tirei sangue de seu nariz. Consegui acertá-lo embaixo dos olhos e aquilo ia ficar lindamente preto. Tornei a atingi-lo duramente no queixo. Depois disso, os olhos dele ficaram turvos e semi-apáticos.
— Escute — repetia ele, — escute, escute...
Então, esmurrei-o abaixo no estômago, o ar escapou de seu corpo e ele parou de dizer "escute, escute". Não sei quanto tempo continuaria a esmurrá-lo, se alguém não me agarrasse pelos braços. Libertei-me com um puxão e me virei. Esperava que fosse Jim, porque queria esmurrá-lo também.
Não era Jim, mas Ollie, com o rosto redondo mortalmente pálido, à exceção dos círculos escuros em torno dos olhos — olhos que ainda brilhavam com as lágrimas.
— Não, David — disse. — Não bata mais nele. Isto não resolve nada.
Jim estava de pé a um lado, o rosto parecendo uma máscara de apática perplexidade.
Chutei a caixa de alguma coisa contra ele. A caixa bateu em uma de suas botas e ricocheteou de volta.
— Você e seu amigo são dois filhos da mãe! — exclamei.
— Vamos, David — disse Ollie, entristecido. — Pare com isso.
Jim baixou os olhos para as botas. Sentado no chão, Myron segurava a pança de bebedor de cerveja. Eu respirava com dificuldade. O sangue fervia em meus ouvidos e todo o meu corpo tremia. Sentei-me em duas caixas de papelão, coloquei a cabeça entre os joelhos e apertei as pernas com força, pouco acima dos tornozelos. Fiquei assim por algum tempo, os cabelos caídos no rosto, esperando para ver se ia perder os sentidos, vomitar ou qualquer coisa.
Após alguns momentos, a sensação passou e ergui os olhos para Ollie. Seu elegante anel cintilou com faíscas mortiças, ao pálido clarão das luzes de emergência.
— Está bem — falei, em tom monótono. — Já acabei.
— Ainda bem — disse Ollie. — Temos que pensar no que faremos em seguida.
A área de estocagem começava novamente a feder, com o exaustor entupido.
— Desligue o gerador. É a primeira coisa a fazer.
— Certo, e vamos dar o fora daqui — disse Myron. Fitou-me com ar suplicante. — Sinto muito sobre o garoto, mas você precisa compreender...
— Não compreendo coisa nenhuma. Você e seu amigo, voltem para o supermercado, mas esperem lá, perto do freezer da cerveja. E não digam uma palavra a ninguém. Pelo menos, por enquanto.
Os dois saíram obedientemente, lado a lado, ao passarem pelas portas de vaivém. Ollie desligou o gerador e, justamente quando as luzes começavam a falhar, avistei uma manta axadrezada — o tipo de coisa utilizada nas mudanças, para proteger artigos quebráveis — atirado em cima de uma pilha de engradados com garrafas vazias de soda, devolvidas por consumidores. Estendi o braço e a apanhei para Billy.
Houve o som de pés lentos e arrastados, quando Ollie saiu do compartimento do gerador. Sendo ele um homem grandalhão, com excesso de peso, sua respiração tinha um som levemente ofegante.
— David? — perguntou, em voz algo trêmula. — Ainda está aí?
— Bem aqui, Ollie. Cuidado com todas essas caixas caídas de alvejantes.
— Hã-hã.
Eu o guiei com minha voz e, em uns trinta segundos, ele se destacou da escuridão e agarrou meu ombro. Ouvi seu longo e trêmulo suspiro.
— Céus, vamos sair daqui. — Eu podia sentir em seu hálito o cheiro dos Rolaids que ele costumava mascar. — Esta escuridão... é horrível.
— Também acho, mas espere um minuto, Ollie. Preciso falar com você e não quero que aqueles dois cretinos ouçam.
— Dave... eles não obrigaram Norm. Lembre-se disto. .
— Norm era um garoto, eles não. Está bem, tudo acabou. Vamos ter que contar a eles, Ollie. Às pessoas no supermercado.
— Podem entrar em pânico... — disse Ollie, dubitativo.
— Talvez sim, talvez não. Contudo, se ficarem sabendo, vão pensar duas vezes se quiserem ir para a rua. Aliás, é o que a maioria quer. Por que não? Quase todos deixaram alguém em casa. Eu deixei. Precisamos fazê-los compreender a que se arriscam, se saírem daqui.
A mão de Ollie apertava meu braço com força.
— Está bem — respondeu. — Eu estava me perguntando... todos aqueles tentáculos... como um polvo ou coisa assim... A que estavam presos, David? A que aqueles tentáculos estavam presos?
— Não sei, mas não quero aqueles dois contando aos outros à sua maneira. Isso desencadearia o pânico. Vamos.
Olhei em torno e, após um momento, localizei a fina estria vertical de claridade entre as portas de vaivém. Começamos a caminhar naquela direção, arrastando os pés, desviando-nos das caixas de papelão espalhadas pelo chão, com uma das manoplas de Ollie agarrando meu braço. Ocorreu-me que todos nós havíamos perdido nossas lanternas.
Quando alcançamos as portas, Ollie disse, em voz apática:
— O que nós vimos... é impossível, David. Sabe disso, não? Mesmo que um furgão fechado do Boston Seaquarium chegasse aqui e descarregasse um daqueles polvos gigantescos, como em Vinte Mil Léguas Submarinas, o bicho morreria. Tinha que morrer.
— Exato — respondi. — Você tem toda razão.
— Então, o que aconteceu? Hem? O quê? O que será esse maldito nevoeiro?
— Eu não sei, Ollie.
Nós dois saímos para o supermercado.
Jim e seu bom amigo Myron estavam logo ali, perto das portas, cada um com uma Budweiser na mão. Olhei para Billy, vi que ele ainda dormia, e o cobri com a áspera manta acolchoada de mudanças. Ele se remexeu levemente, murmurou algo, depois aquietou-se. Olhei para meu relógio. Meio-dia e quinze. Aquilo parecia totalmente impossível. Para mim, era como se houvessem passado cinco horas, desde que entrara naquele recinto em busca de algo para cobrir Billy. No entanto, a coisa toda, do começo ao fim, durara apenas cerca de trinta e cinco minutos.
Voltei para onde estava Ollie, com Jim e Myron. Ollie tomava uma cerveja e ofereceu-me uma. Apanhei-a e sorvi metade da lata imediatamente, como tinha feito aquela manhã, cortando a árvore. Fiquei algo estonteado.
Jim era Jim Grondin. O sobrenome de Myron era LaFleur — o que tinha seu lado cômico, sem dúvida, Myron, a flor, tinha sangue coagulado nos lábios, queixo e rosto. O olho com a contusão começava a inchar. A moça da camisa de atletismo cor de uva-do-monte perambulou por perto, sem destino, e lançou um olhar cauteloso a Myron. Eu poderia ter-lhe dito que ele só era perigoso para rapazes adolescentes que queriam provar sua masculinidade, mas poupei o fôlego. Afinal, Ollie estava certo — eles só tinham feito o que julgavam ser melhor, embora de maneira cega e amedrontada, em vez de agirem em beneficio do real interesse comum. Agora, eu precisava deles, para o que julgava ser melhor. Não achei que isso seria problema. Os dois estavam esvaziados de coragem. Nenhum deles — em especial Myron, a for — valeria grande coisa, nem teria utilidade durante algum tempo ainda. Algo que estivera em seus olhos, quando procuravam fazer Norm sair para desentupir o exaustor, agora havia desaparecido. A valentia os abandonara.
— Vamos ter que contar alguma coisa a esta gente — falei.
Jim abriu a boca para protestar.
— Eu e Ollie omitiremos qualquer parte que você e Myron tiveram, mandando Norm lá fora, se os dois confirmarem o que vamos dizer sobre... bem, sobre aquilo que o pegou.
— Está bem — disse Jim, pateticamente ansioso. — Claro, se não contarmos, as pessoas podem querer ir para fora... como aquela mulher... aquela mulher que... — Ele limpou a boca com a mão e depois bebeu mais cerveja rapidamente. — Oh céus, que coisa!
— David — disse Ollie, — e se... — Interrompeu-se, depois obrigou-se a continuar: — e se eles entrarem aqui? Os tentáculos?
— Como poderiam entrar? — exclamou Jim. — Vocês fecharam a porta.
— Claro — replicou Ollie, — mas toda a parede fronteira deste lugar é vidro puro.
Meu estômago contorceu-se, como se um elevador houvesse despencado vinte andares, comigo em seu interior. Eu sabia daquilo, mas fizera o possível para ignorá-lo. Olhei para onde Billy dormia. Pensei naqueles tentáculos, enxameando sobre Norm. Pensei naquilo acontecendo a Billy.
— Vidro puro... — sussurou Myron LaFleur. — Jesus Cristo em um sidecur puxado por uma carruagem...
Deixei os três parados junto do frigorífico, cada um às voltas com uma segunda lata de cerveja, e fui procurar Brent Norton. Encontrei-o em uma reservada conversa com Bud Brown, perto da Registradora n.° 2. Eles — Norton com seus cabelos grisalhos de corte elegante e boa aparência de veterano, Brown com sua cara austera de Nova Inglaterra — pareciam algo extraído de uma caricatura da New Yorker.
Umas duas dúzias de pessoas vagavam incessantemente no espaço entre o final das entradas para as caixas e a comprida vitrine panorâmica. Muitas enfileiravam-se junto ao vidro, olhando para o nevoeiro. À minha mente, retornou a visão de espectadores reunidos junto a um prédio em construção.
A Sra. Carmody estava sentada na esteira rolante parada de uma das entradas de caixa, fumando um Parliament com filtro. Seus olhos me mediram, viram-me procurando e desviaram-se. Ela dava a impressão de estar sonhando acordada.
— Brent! — chamei.
— David! Por onde é que andou?
— Eu queria falar a você justamente sobre isso.
— Aquelas pessoas, lá no fundo, estão bebendo cerveja — apontou Brown, em tom taciturno. Soava como um homem anunciando que filmes impróprios haviam sido exibidos em uma reunião de diácortos. — Posso vê-las pelo espelho de segurança. Francamente, isto não pode continuar.
— Brent!
— Pode me dar licença por um instante, Sr. Brown?
— Naturalmente. — Brown dobrou os braços sobre o peito e espiou carrancudamente pelo espelho convexo. — Isto não pode continuar e vai parar, eu lhes prometo!
Eu e Norton caminhamos para a geladeira de cerveja, no canto mais distante do supermercado, passando ao lado dos utensílios domésticos e afins. Olhei por sobre o ombro e, inquieto, reparei nos batentes de madeira emoldurando as altas seções retangulares de vidro, que estremeciam, se contorciam e estilhaçavam-se. Recordei que uma das janelas nem ao menos estava inteira. Um pedaço de vidro, em formato de cunha, havia caído do canto superior, no momento daquele baque surdo esquisito. Se pudéssemos encher o buraco com panos ou alguma coisa talvez um bom punhado daqueles tops para senhoras, a 3,59 dólares, que eu percebera perto dos vinhos...
Meus pensamentos foram bruscamente interrompidos e tive que colocar as costas da mão sobre a boca, como que sufocando um arroto. O que eu realmente procurava sufocar era a repugnante inundação de horríveis risadinhas que queriam escapar, quando pensei em enfiar um punhado de blusas em um buraco, para impedir a entrada daqueles tentáculos que haviam agarrado Norm. Eu vira um daqueles tentáculos — um pequeno — espremer um saco de ração para cães, até o saco simplesmente explodir.
— Tudo bem com você, David?
— Que?
— Seu rosto... Dá a impressão de que acabou de ter uma boa idéia ou uma horrenda.
De repente, algo me passou pela cabeça.
— Escute, Brent, o que aconteceu àquele homem que entrou aqui como louco, gritando sobre algo no nevoeiro, pegando John Lee Frovin?
— O sujeito com o nariz sangrando?
— Sim, ele mesmo.
— Perdeu os sentidos e o Sr. Brown o fez voltar a si com alguns sais para cheirar, do estojo de pronto-socorro. Por quê?
— Ele disse alguma coisa mais, quando acordou?
— Continuou com aquela alucinação. O Sr. Brown o levou para o escritório. O cara estava amedrontando algumas mulheres e pareceu satisfeito em ir. Oh. houve algo mais! Quando o Sr. Brown disse que no escritório do gerente havia apenas uma janela pequena, assim mesmo reforçada com tela aramada, o sujeito pareceu contente em ir para lá. Presumo que ainda nem tenha saído.
— O que ele dizia não era nenhuma alucinação.
— Não, claro que não.
— E aquele baque que sentimos?
— Não foi alucinação, David, mas...
Brent está assustado, fiquei repetindo para mim mesmo. Não se aborreça com ele, já se aborreceu o suficiente esta manhã, e basta. Vá com calma, porque bem sabe como Brent agiu, durante aquela idiota briga sobre as divisas entre as duas propriedades... primeiro altaneiro, depois sarcástico e, finalmente, quando se tornou claro que ele ia perder, intolerável. Nada de aborrecimentos agora, porque irá precisar dele. Brent Norton talvez não consiga ligar a própria serra em cadeia, mas parece a figura paterna do mundo ocidental e, se disser a esta gente para não entrar em pânico, ninguém entrará. Portanto, não discuta com ele.
— Está vendo aquelas portas duplas além da geladeira da cerveja?
Ele espiou, franzindo a testa.
— Um daqueles bebendo cerveja não é o outro gerente-assistente? Weeks? Se Brown descobrir, posso lhe garantir que esse homem estará procurando outro emprego muito breve.
— Quer me ouvir, Brent?
Ele se virou para mim, com expressão ausente.
— O que estava dizendo, Dave? Sinto muito.
Em pouco, estaria sentindo muito mais.
— Vê aquelas portas?
— Sim, claro que vejo. O que há com elas?
— Dão para a área de estocagem, que ocupa toda a fachada oeste do prédio. Billy pegou no sono e fui até lá, ver se encontrava alguma coisa com que cobri-lo...
Contei-lhe tudo, omitindo apenas a discussão sobre se Norm devia ter ido lá fora ou não. Contei-lhe o que havia entrado... e finalmente o que havia saído, gritando. Brent Norton recusou-se a acreditar. Não — ele se recusou, inclusive, a pensar no que eu lhe dizia. Levei-o até Jim, Ollie e Myron. Os três confirmaram a história, embora Jim e Myron, a flor, estivessem a caminho da embriaguez.
Novamente, Norton recusou-se a acreditar e mesmo a aceitar aquilo. Respondeu apenas:
— Não! Não, não e não! Perdoem-me, senhores, mas isso é absolutamente ridículo. Se não for uma brincadeira de mau gosto — declarou altaneiro, com seu sorriso radioso, mostrando que sabia aceitá-la tão bem quanto qualquer um, vocês estão sendo vítimas de alguma hipnose coletiva:
Minha raiva cresceu novamente e procurei contê-la, com dificuldade. Não creio que, normalmente, seja um homem de temperamento irascível. Entretanto, aquelas não eram circunstâncias normais. Precisava pensar em Billy e no que acontecia — no que já acontecera — a Stephanie. Eram coisas que constantemente emergiam no fundo de minha mente.
— Muito bem — falei. — Vamos voltar lá. Há um pedaço de tentáculo caído no chão. A porta o decepou, quando foi arriada. E você também poderá ouvi-los. Estão se roçando contra aquela porta. Fazem um ruído semelhante ao do vento na hera.
— Não — respondeu ele, calmamente.
— Como? — Em verdade, eu sabia que o ouvira perfeitamente. — O que foi que disse?
— Eu disse que não. Que não vou até lá. A brincadeira já foi longe demais.
— Juro para você que não é nenhuma brincadeira, Brent!
— Claro que é! — bufou ele. Seus olhos passaram por Jim, Myron e descansaram brevemente em Ollie Weeks — que lhe sustentou o olhar com calma impassividade — e finalmente voltaram para mim. — Isto é o que vocês, gente daqui, provavelmente consideram "uma boa piada". Não é, David?
— Brent... escute...
— Não! Escute você! — Sua voz começou a elevar-se para um brado de tribunal. Era uma voz que tinha alcance, um bom alcance, de maneira que vários dos que perambulavam por ali espiaram, querendo saber o que acontecia. Norton apontou o dedo para mim, enquanto falava. — É uma piada. Uma casca de banana e eu sou o sujeito que deve escorregar nela. Vocês, os nativos, não são precisamente loucos por forasteiros, certo? Estão sempre mancomunados. Foi o que aconteceu, quando o levei aos tribunais para recuperar o que era legitimamente meu. Você venceu aquela, tudo bem. Por que não? Seu pai era o famoso artista e esta é a sua cidade. Eu apenas pago meus impostos e gasto meu dinheiro aqui!
Ele não estava mais representando, exibindo-nos seu treinado vozeirão de tribunal.
Agora quase gritava, estava já perdendo todo o controle. Ollie Weekes deu mais meia volta e afastou-se, aferrado à sua cerveja. Myron e seu amigo Jim olhavam para Norton com aberto espanto.
— Quer dizer que devo ir até lá e olhar para um daqueles artifícios de borracha que custam noventa e oito centavos, enquanto estes dois pulhas ficam olhando e morrendo de rir?
— Ei, você quer ver quem está chamando de pulha — disse Myron.
— Se quer saber a verdade, estou contente por aquela árvore ter caído em sua casa de barcos. Contente! — Norton ria ferozmente para mim. — Afundou-a direitinho, não foi? Fantástico! E agora, saia do meu caminho.
Ele tentou empurrar-me para passar. Agarrei-o pelo braço e o empurrei contra a geladeira de cerveja. Uma mulher abriu a boca, espantada. Dois engradados caíram.
— Abra bem os ouvidos e ouça, Brent. Aqui dentro há vidas em jogo e meu filho está nisto também, Portanto, ouça, ou juro que acabo com sua raça!
— Vá em frente — disse Norton, ainda rindo, com uma espécie de insana coragem. Seus olhos, injetados e grandes, salientavam-se nas órbitas. — Mostre a todos como é grandão e valente, espancando um homem que sofre do coração e tem idade bastante para ser seu pai.
— Espanque-o assim mesmo! — exclamou Jim. — O coração dele que se dane. Aliás, acho que um rábula nova-yorkino barato como ele nem tem coração.
— Fique fora disto — falei para Jim, e então baixei o rosto até o de Norton. Estava à distância de beijá-lo, se tivesse isso em mente. A geladeira não estava funcionando, mas ainda irradiava friagem. — Pare de jogar areia para o alto, homem. Sabe muito bem que digo a verdade!
— Eu não... sei de... nada... — ofegou ele.
— Se a hora e o lugar fossem outros, eu deixaria você levar a melhor nisto. Pouco me importa o quanto esteja apavorado, porque eu também estou. Só que preciso de você, droga! Deu para entender? Eu preciso de você!
— Largue-me!
Agarrei-o pela camisa e o sacudi.
— Será que não compreendeu? Todos vão começar a sair do supermercado e caminhar direto para aquela coisa lá fora! Pelo amor de Deus, procure entender!
— Largue-me!
— Não, enquanto não for até lá nos fundos comigo e ver por si mesmo.
— Já lhe disse que não vou! É tudo uma piada, uma brincadeira de mau gosto. Não sou tão idiota como imaginam e...
— Então, eu mesmo o levarei lá.
Agarrei-o pelo ombro e cangote. A costura da camisa de baixo de um braço, se rasgou com um macio ruído ronronado. Arrastei-o até as portas duplas. Norton deu um grito lamuriento. Algumas pessoas se tinham amontoado em um grupo, talvez quinze ou dezoito, mas ficaram à distância. Nenhuma delas mostrava sinais de interferir.
— Ajudem-me! — gritou Norton, os olhos salientando-se atrás das lentes dos óculos.
Seu bem penteado cabelo desmanchara-se outra vez, formando dois pequenos tufos atrás das orelhas. As pessoas arrastavam os pés e espiavam.
— Por que está gritando? — falei em seu ouvido. — É só uma brincadeira, não? Foi por isso que o trouxe à cidade, quando você pediu, e também por isso confiei-lhe Billy para a travessia do pátio de estacionamento... porque eu havia confeccionado todo este nevoeiro, aluguei uma máquina de fabricar nevoeiro em Hollywood, que me custou quinze mil dólares e mais oito mil para trazê-la até aqui, tudo isso só para fazer uma brincadeira de mau gosto com você. Pare de dizer tolices e abra os olhos!
— Lar... que... me...! — gritou ele.
Estávamos já quase junto às portas.
— Ei, ei! O que é isto? O que está fazendo?
Era Brown. Afobado, ele abriu caminho às cotoveladas através do grupo amontoado de espectadores.
— Diga a ele para largar-me! — pediu Norton, em voz rouca. — Ele está maluco!
— Não, ele não está maluco. Eu gostaria que estivesse, mas infelizmente não está.
Era Ollie e eu o abençoaria por ter dito isso. Contornando o corredor às nossas costas, ele se aproximou e encarou Brown. Os olhos de Brown desceram até a cerveja que Ollie segurava.
— Você está bebendo! — exclamou, em tom de surpresa, mas não inteiramente desprovido de prazer. — Perderá seu emprego por isto!
— Ora, vamos, Bud — falei, soltando Norton. — Esta não é uma situação comum.
— Os regulamentos não mudam — declarou Brown, enfático. — Providenciarei para que a firma saiba disto. É a minha obrigação.
Nesse meio tempo, Norton esqueirara-se para longe e ficara a alguma distância, procurando endireitar a camisa e alisar o cabelo para trás. Seus olhos iam nervosamente de Brown para mim.
— Ei! — gritou Ollie de repente, erguendo a voz e produzindo um trovejar profundo, que eu jamais suspeitaria daquele homem grandalhão, porém delicado e não assumido. — Ei! Vocês todos no supermercado! Aproximem-se e escutem isto! É do interesse de todos vocês! — Olhou de frente para mim, ignorando Brown por completo. — Estou me saindo bem?
— Está ótimo.
As pessoas começaram a amontoar-se. O grupo original de espectadores de minha discussão com Norton duplicou, depois triplicou.
— Está acontecendo algo que seria bom todos saberem... — começou Ollie.
— Largue essa cerveja imediatamente — disse Brown.
— E você, cale essa boca imediatamente! — falei, dando um passo para ele.
— Não sei que tipo de coisa está fazendo — replicou ele, ao mesmo tempo em que dava um passo compensatório para trás, — mas posso lhes dizer que isto será comunicado à Companhia Federal de Alimentos! Tudo! E quero que entenda uma coisa — pode haver culpados!
Seus lábios repuxavam-se nervosamente, mostrando os dentes amarelados, e até tive pena dele. Brown apenas tentava enfrentar a situação, nada mais. Como Norton, que impunha a si mesmo a mordaça de uma ordem mental. Myron e Jim havia tentado, mas transformando tudo aquilo em uma charada de machões — se o gerador pudesse ser consertado, o nevoeiro se dissiparia. Aquela era a maneira de Brown. Ele estava...
Protegendo a Casa.
— Pois vá em frente e anote os nomes — falei — mas, por favor, sem falatórios.
— Anotarei os nomes suficientes — respondeu ele. — E o seu encabeçará a lista, seu... seu boêmio!
— O Sr. David Drayton tem algo a dizer-lhes — falou Ollie — e acho melhor que todos o ouçam, caso estejam pretendendo ir para casa.
Em vista disto, contei a eles o que havia acontecido, mais ou menos como havia contado a Norton. Houve alguns risos a princípio, depois uma profunda inquietação, assim que terminei.
— É uma mentira e você sabe — disse Norton.
Sua voz empenhava-se em ser enfática, mas caiu na estridência. Aquele era o homem a quem eu contara primeiro, esperando captar-lhe a credibilidade. Que piada!
— Claro que é uma mentira — assentiu Brown. — Maluquice. De onde imagina que vieram esses tentáculos, Sr. Drayton?
— Não sei mas, a esta altura, a pergunta nem tem importância. Eles estão aqui. Há um...
— Acho que eles brotaram de algumas dessas latas de cerveja. Não posso imaginar outra coisa.
Sua tirada conseguiu uma dose apreciável de risadas, mas logo tudo foi silenciado pela voz forte e enferrujada da Sra. Carmody.
— É a morte! — exclamou ela, e os que riam calaram-se prontamente.
Ela avançou para o centro da espécie de círculo que se formara, as calças amarelo canário parecendo irradiar uma luminosidade própria, a gigantesca bolsa oscilando contra uma coxa elefantina. Seus olhos negros passaram arrogantemente em torno, tão afiados e malevolamente cintilantes como os de uma cega. Duas graciosas jovens com cerca de dezesseis anos, usando camisetas de rayon branco com ACAMPAMENTO WOODI-ANDS escrito nas costas, encolheram-se e afastaram-se dela.
— Vocês ouvem, mas não escutam! Ouvem e não acreditam! Qual de vocês quer ir lá fora e constatar por si mesmo? — Os olhos dela percorreram o grupo e depois caíram em mim. — E, simplesmente, o que pretende fazer sobre isto, Sr. David Drayton? O que pensa que pode fazer?
Ela sorriu, como uma caveira, acima de seu traje canário.
— É o fim, estou-lhes dizendo. O fim de tudo. Estamos no Final dos Tempos. O dedo que se move escreveu, não em fogo, mas em linhas de nevoeiro. A terra se abriu e vomitou suas abominações...
— Não podem fazê-la calar a boca? — explodiu uma das adolescentes, começando a chorar. — Ela me mete medo!
— Está com medo, queridinha? — perguntou a Sra. Carmody, virando-se para ela. — Oh, não, você agora não está com medo. No entanto, quando as criaturas imundas que o ímpio lançou à face da terra vierem buscá-la...
— Acho que já basta, Sra. Carmody — disse Ollie, segurando-lhe o braço. Foi um belo discurso.
— Tire as mãos de mim! É o fim, estou dizendo! É a morte! Morte!
— É um monte de merda — disse irritadamente um homem de óculos e chapéu de pescador.
— Não, senhor — interveio Myron. — Sei que tudo parece algo saído de um pesadelo de viciado em drogas, mas é a pura verdade, nua e crua. Eu mesmo vi.
— Eu também — disse Jim.
— E eu — assegurou Ollie.
Conseguira aquietar a Sra. Carmody, pelo menos por algum tempo. No entanto, ela continuou por perto, aferrada à enorme bolsa e exibindo o sorriso alucinado. Ninguém queria ficar muito perto dela — os outros murmuravam entre si, não gostando da corroboração. Vários olharam para trás, na direção das grandes vidraças da fachada, de maneira inquieta e especulativa. Fiquei contente em ver aquilo.
— Mentiras — disse Norton. — Vocês todos mentem, uns para os outros. Mentiras sobre mentiras, nada mais do que isso.
— O que está sugerindo fica inteiramente além da credibilidade, Sr. Drayton — disse Brown.
— Não precisamos estar aqui, repisando o assunto — repliquei. — Venham à área de estocagem comigo. Dêem uma espiada. E escutem também.
— Os clientes não têm permissão de entrar na...
— Bud — disse Ollie, — vá com ele. Vamos resolver isto.
— Está bem — assentou Brown. — Sr. Drayton? Vamos acabar logo com essa tolice!
Empurramos as portas duplas e penetramos na escuridão.
O som era desagradável — talvez maligno.
Brown também sentiu isso, apesar de suas maneiras obstinadas de ianque. Senti sua mão agarrar meu braço imediatamente, a respiração suspensa por um momento e depois reiniciada com certa dificuldade.
Era um sussurro abafado, vindo da direção da porta de descarga — um som quase acariciante. Movi cautelosamente um pé em torno e finalmente esbarrei em uma das lanternas. Abaixei-me, apanhei-a e a acendi. O rosto de Brown estava inteiramente tenso, e ele ainda nem os vira — apenas os ouvia. Eu, no entanto, já os vira e podia imaginá-los, contorcendo-se e escalando a superfície de aço corrugado da porta, como gavinhas vivas.
— O que pensa agora? Inteiramente além da credibilidade?
Brown passou a língua pelos lábios e olhou para a tremenda confusão de caixas e sacos.
— Eles fizeram isto?
— Mais ou menos. Quase tudo. Venha cá.
Ele foi — com relutância. Apontei o facho da lanterna para a enegrecida e enrolada seção de tentáculo, ainda jazendo perto da vassoura esfregão. Brown abaixou-se para olhar.
— Não toque nisso — falei. — Pode ainda estar vivo.
Ele se ergueu rapidamente. Peguei a vassoura e, com a parte das cerdas, espetei o tentáculo. A terceira ou quarta espetadela fez com que ele se desenrolasse espasmodicamente, revelando duas ventosas intatas e parte de uma terceira. Em seguida, o fragmento tornou a enovelar-se com muscular velocidade e ficou imóvel. Brown emitiu um som sufocado de repugnância.
— Viu o suficiente?
— Vi — respondeu. — Vamos sair daqui.
Seguimos a luz vacilante até as portas duplas e as empurramos. Todos os rostos se voltaram para nós e o zumbido das conversas morreu. As feições de Norton pareciam queijo velho. Os olhos negros da Sra. Carmody cintilaram. Ollie bebia cerveja; seu rosto ainda mostrava filetes de suor escorrendo, embora o ambiente no supermercado houvesse ficado um tanto friorento. As duas jovens com ACAMPAMENTO WOODLANDS nas camisetas estavam bem perto uma da outra, como cavalos jovens antes de uma tempestade. Olhos. Tantos olhos. Eu poderia pintá-los, pensei, com um calafrio. Nada de rostos, apenas olhos na claridade mortiça. Poderia pintá-los, mas ninguém acreditaria que fossem reais. Bud Brown entrelaçou afetadamente, diante de si mesmo, as mãos de dedos longos.
— Pessoal — disse — parece que temos um problema de certa magnitude por aqui.
As quatro horas seguintes transcorreram em uma espécie de sonho. Houve uma longa e quase histérica discussão em seguida à confirmação de Brown ou, talvez, a discussão não tivesse sido tão longa quanto pareceu; possivelmente seria a soturna necessidade das pessoas repisarem a mesma informação, procurando vê-la de cada ponto de vista plausível, manejando-a como um cachorro maneja um osso, a fim de chegar à medula.
Foi uma longa viagem até a crença. Pode-se constatar a mesma coisa em qualquer reunião de março, nas cidades da Nova Inglaterra.
Havia a Estagnada Sociedade da Terra, encabeçada por Norton. Era uma minoria vocal de mais ou menos dez pessoas, as quais não acreditavam em nada daquilo. Norton continuava insistindo em que havia apenas quatro testemunhas no caso do rapaz embalador sendo carregado para fora pelos Tentáculos do Planeta X (um bom motivo para risos no começo, mas que logo perdeu a graça; em sua crescente agitação, Norton não parecia percebê-lo). Ele acrescentou que, pessoalmente, não confiava em nenhum dos quatro. Disse ainda que cinqüenta por cento das testemunhas estavam, naquele momento, desesperançadamente ébrias. Aí havia uma verdade inquestionável. Jim e Myron LaFleur, com toda a geladeira da cerveja e gôndola de vinhos à disposição, estavam incrivelmente bêbados. Considerando o que acontecera a Norm e a parte dos dois naquilo, eu não os censurei. Eles logo estariam lúcidos novamente.
Ollie continuou a beber sistematicamente, ignorando os protestos de Brown. Após algum tempo, Brown desistiu, contentando-se em soltar uma ocasional e malévola ameaça sobre a Companhia. Nem parecia conceber que a Federal Foods, Inc., com estabelecimentos em Bridgton, North Windham e Portland, talvez nem existisse mais.
Pelo que sabíamos, o litoral leste poderia ter deixado de existir. Ollie bebia sem parar, porém não ficava bêbado. Suava continuamente a bebida, com a mesma rapidez com que a ingeria.
Por fim, quando a discussão com os Terrestres Estagnados começou a ficar acerba, Ollie tomou a palavra.
— Se não acredita nisso, Sr. Norton, muito bem. Eu lhe direi o que fazer. Saia por aquela porta da frente e contorne o prédio até os fundos. Lá se encontra uma enorme pilha de cascos de cerveja e soda, recebidos em devolução. Eu, Norm e Buddy a colocamos lá, ainda esta manhã. Traga-nos duas daquelas garrafas e então saberemos que o senhor foi realmente até a pilha. Faça isso e juro que comerei a minha camisa.
Norton começou a vociferar.
Ollie interrompeu-o, com a mesma voz suave e uniforme.
— Se quer saber, o senhor só está prejudicando, se continuar falando assim. Aqui há gente que deseja ir para casa, assegurar-se de que seus familiares estão bem. Neste momento, minha irmã e sua filha de um ano estão em casa, em Napies. Eu gostaria de ter certeza disso, claro. No entanto, se todos começarem a acreditar no senhor e tentarem ir para casa, o que aconteceu a Norm, acontecerá também a eles.
Ollie não convenceu Norton, mas sim alguns dos indecisos e duvidosos embora suas palavras não dissessem tanto quanto seus olhos, aqueles seus olhos obcecados. Creio que a lucidez de Norton dependia de não ser convencido ou de imaginar que o fora.
Contudo, não aceitou a proposta de Ollie, para ir lá fora e trazer uma amostra dos cascos nos fundos do prédio. Aliás, ninguém a aceitou. Eles ainda não estavam dispostos a sair, pelo menos até então. Norton e seu pequeno grupo de Terrestres Estagnados (a esta altura, reduzido em um ou dois), afastaram-se de nós o mais que podiam, reunindo-se perto das embalagens de carnes preparadas. Um deles tropeçou na perna de meu filho, ainda adormecido, acordando-o.
Fui até lá e Billy agarrou-se a meu pescoço. Quando tentei deita-lo outra vez, ele me apertou com mais força.
— Não faça isso, papai. Por favor!
Encontrei um carrinho de compras e o coloquei no assento para crianças. Ele parecia enorme ali. A coisa seria cômica, se não fosse seu rosto pálido, os cabelos escuros espalhados pela testa, logo acima das sobrancelhas, seus olhos espantados.
Provavelmente, desde dois anos antes não voltara a ocupar o assento de criancinhas nos carros de compras do supermercado. São pequeninas coisas que nos passam de leve pela mente, sem que as percebamos bem, mas ao constatarmos a mudança operada, sempre recebemos um choque desagradável.
Nesse meio tempo, com o recuo dos Terrestres Estagnados, a discussão encontrara outro pára-raios — agora era a Sra. Carmody e, compreensivelmente, ela se viu sozinha.
À claridade mortiça e lúgubre, ela parecia uma feiticeira naquelas berrantes calças amarelas, na viva blusa de rayon, os braços pesados de chocalhantes pulseiras de quinquilharia — cobre, casco de tartaruga, material inquebrável — e sua tireoideana bolsa.
Seu rosto enrugado aparecia sulcado por fortes linhas verticais. O penugento cabelo grisalho se achatava sobre o couro cabeludo, preso com três pentes de chifres e torcido na nuca. Sua boca era uma linha de corda em nós.
— Não existe defesa contra a vontade de Deus! Isto estava para vir. Eu vi os sinais. Aqui há gente a quem eu falei, porém ninguém é mais cego do que aqueles que não querem ver.
— Afinal, o que quer dizer? O que está pretendendo? — interrompeu-a Mike Hatlen, impacientemente.
Era membro do conselho municipal, embora no momento não tivesse tal aparência, com seu quepe de iatista e as bermudas amarrotadas nos fundilhos. Bebericava uma cerveja, o que muitos homens agora também faziam. Bud Brown desistira de protestar, mas estava realmente anotando nomes — queria manter uma certa vigilância sobre todos quantos pudesse.
— Pretendendo? — ecoou a Sra. Carmody, aproximando-se de Hatlen. Pretendendo? Ora, estou pretendendo que se prepare para encontrar o seu Deus, Michael Hatlen. — Virou-se e olhou para todos nós. — Preparem-se para o encontro com seu Deus!
— Preparem-se para encontrar disparates — disse Myron Lafleur, em bêbado rosnado, perto da geladeira de cerveja. — Velha, acho que sua língua deve ser pendurada pelo meio, para trabalhar pelas duas extremidades.
Houve um rumor de concordância. Billy olhou nervosamente em torno e eu passei um braço em volta de seus ombros.
— Tenho o direito de falar! — exclamou ela. Seu lábio superior encurvou-se para trás, revelando dentes tortos e amarelados de nicotina. Pensei nos empoeirados animais empalhados de sua loja, bebendo eternamente no espelho que funcionava como seu riacho. — Os incrédulos duvidarão até o fim! Contudo, uma monstruosidade capturou aquele pobre rapaz! Coisas no nevoeiro! Todas as abominações saídas de um pesadelo! Monstros sem olhos! Horrores lívidos! Ainda duvidam? Pois então, saiam! Cheguem até lá fora e digam "como vai?"!
— Acho que devia calar-se, Sra. Carmody — falei. — Está assustando meu filho.
O homem com a garotinha ecoou o sentimento. A menina, de pernas gorduchas e joelhos esfolados, escondera o rosto contra o estômago do pai e tapava os ouvidos com as mãos. O Grande Bill não chorava, mas estava perto disso.
— Só há uma chance — disse a Sra. Carmody.
— Que chance, senhora? — perguntou Mike Hatlen polidamente.
— Um sacrifício — respondeu a Sra. Carmody — ela parecia rir na claridade mortiça. — Um sacrifício de sangue.
Sacrifício de sangue — as palavras ficaram suspensas no ar, girando lentamente. Ainda agora, quando sei melhor, digo a mim mesmo que ela se referia ao cão de estimação de alguém — havia lá uns dois deles, trotando pelo supermercado, apesar dos regulamentos proibindo sua entrada. Ainda agora, digo isso para mim mesmo. Na obscuridade, ela parecia um louco remanescente do puritanismo da Nova Inglaterra... mas desconfio que era motivada por algo mais profundo e mais sombrio do que o mero puritanismo. O puritanismo tivera seu próprio e soturno avô, o velho Adão, com mãos sangrentas.
Ela abriu a boca para dizer algo mais, porém um homem baixote e bem vestido, com calças vermelhas e elegantes camisa esporte, esbofeteou-lhe o rosto, de mão espalmada.
Ele repartia o cabelo no lado esquerdo, em uma linha de perfeita simetria. Usava óculos e tinha a aparência indiscutível do turista de verão.
— Cale essa boca suja — falou, em voz macia, sem inflexões.
A Sra. Carmody levou a mão à boca, depois estendendo-a para nós, em uma acusação sem palavras. Havia sangue em sua palma. Entretanto, os olhos negros pareciam dançar, com louca alegria.
— A senhora estava provocando! — exclamou uma mulher. — Eu lhe teria feito o mesmo!
— Eles cuidarão de vocês — 6disse a Sra. Carmody, mostrando-nos a palma suja de sangue.
O filete de sangue agora escorria no sulco de uma ruga que ia da boca ao queixo, assemelhando-sé a um pingo de chuva descendo por uma calha. — Não hoje, talvez. Esta noite. Esta noite, quando ficar escuro. Eles virão dentro da noite e levarão mais alguém. É com a noite que virão. Vocês os ouviram chegando, rastejando e coleando. E quando eles estiverem aqui suplicarão à Mãe Carmody que lhes mostre o que fazer!
O homem das calças vermelhas ergueu a mão lentamente.
— Aproxime-se e agrida-me — sussurrou ela, exibindo seu sorriso malévolo para ele. A mão do homem oscilou. — Agrida-me, se tiver coragem!
A mão dele caiu. A Sra. Carmody afastou-se, sozinha. Então, Billy começou a chorar, escondendo o rosto contra mim. enquanto a menininha fazia o mesmo com o pai.
— Quero ir para casa — disse ele. — Quero ver minha mãe.
Consolei-o o melhor que pude. Provavelmente. não me saí tão bem quanto desejaria.
Finalmente, a conversa derivou para canais menos amedrontadores e destrutivos. As enormes vidraças frontais do supermercado, evidentemente o seu ponto fraco foram então mencionadas. Mike Hatlen perguntou que havia outras entradas e Ollie e Brown as apontaram com presteza — duas portas para descarregamento de mercadorias, além daquela que Norm abrira. As portas principais ENTRADA/SAÍDA. Havia ainda a janela do gabinete do gerente (de vidro espesso e reforçado seguramente trancada).
Falar sobre tais coisas causou um efeito paradoxal. Fez o perigo parecer mais real, embora ao mesmo tempo deixasse todos se sentindo melhor. O próprio Billy sentiu isso.
Perguntou se podia comer uma barra de chocolate. Respondi que não havia problema, desde que não se aproximasse das grandes vidraças.
Quando ele se distanciou. não ouvindo mais o que dizíamos, um homem perto de Mike Hatlen perguntou:
— Muito bem, o que faremos com aquelas vidraças? A velha pode ser lunática, mas talvez tivesse razão, sobre algo se movendo depois do escurecer.
— Talvez. até lá, o nevoeiro já tenha acabado — disse uma mulher.
— Talvez — assentiu o homem. — E talvez não.
— Tem alguma idéia? — perguntei a Bud e Ollie.
— Um momento — disse o homem perto de Hatlen. — Eu sou Dan Miller, de Lynn, Massachussetts. Vocês não me conhecem e nem haveria motivos para conhecerem, mas tenho uma propriedade em Highland Lake. Comprei-a ainda este ano. O preço foi praticamente um assalto, mas eu tinha que comprá-la e comprei. — Houve algumas risadinhas. — Bem, vi uma boa pilha de sacos de adubos e fertilizantes para gramado lá adiante. Sacos de quinze quilos, em sua maioria. Podíamos usa-los como sacos de areia. Deixando vãos para espiarmos ...
Agora, havia mais pessoas assentindo e falando excitadamente. Eu quase disse alguma coisa, mas me contive. Miller tinha razão. Colocar aqueles sacos como ele dizia não faria mal nenhum, até talvez fizesse algum bem. Minha mente no entanto, recuou àquele tentáculo comprimindo o saco de ração para cães. Pensei que um dos tentáculos maiores poderia fazer o mesmo com um saco de quinze quilos contendo Vigoro ou fertilizante para gramados "Verdes Acres". De qualquer modo, uma preleção a respeito não contribuiria para levantar o ânimo de ninguém.
As pessoas começaram a dispersar-se, comentando a tarefa a ser feita, e Miller agritou:
— Um momento! Um momento! Vamos organizar isto, enquanto estamos todos juntos!
As pessoas voltaram, compondo um grupo indefinido de cinqüenta ou sessenta, na esquina formada pela geladeira de cerveja, as portas da área de estocagem e a extremidade esquerda das carnes preparadas, onde o Sr. Mc Vey sempre colocava os artigos que ninguém quer, como timo de vitela, ovos partidos, miolos de carneiro e geléia de mocotó. Billy abriu caminho através do emaranhado de adultos com a inconsciente agilidade de um menino de cinco anos em um mundo de gigantes, e estendeu-me uma barra de chocolate Hershey.
— Quer esta, papai?
— Obrigado.
Peguei o chocolate. Tinha sabor doce e gostoso.
— Talvez seja uma pergunta idiota — continuou Miller, — Mas devemos preencher os espaços em branco. Alguém tem armas de fogo?
Houve uma pausa. As pessoas entreolharam-se e deram de ombros. Um velho de cabelos grisalhos, que se apresentou como Ambrose Comell, disse que tinha uma espingarda de caça no porta-malas do carro.
— Se quiser, posso ir buscá-la.
— Não creio que fosse uma boa idéia justamente neste momento, senhor Comell — disse Ollie.
Comell deu um grunhido.
— Também digo o mesmo, filho, mas pensei que devia oferecer-me.
— Bem, em verdade não foi essa a minha idéia — falou Dan Miller — , mas achei que...
— Um momento — disse uma mulher.
Era a que vestia camisas de atletismo cor de uva-do-monte, com calças compridas verde-escuras. Tinha cabelos louro-areia e uma bela silhueta. Uma jovem muito bonita.
Abriu a bolsa e tirou de seu interior uma pistola de tamanho médio. Os reunidos fizeram um som de ahhh! como se tivessem acabado de assistir ao truque particular de algum mágico. A jovem estivera enrubescendo, mas agora enrubesceu muito mais. Tomou a remexer na bolsa e encontrou uma caixa de munição para Smith & Wesson.
— Meu nome é Amanda Dumfries — disse a Miller. — Esta arma... foi idéia de meu marido. Ele achava que eu devia tê-la para proteger-me. Carreguei-a desarmada durante dois anos.
— Seu marido está aqui, senhora?
— Oh, não. Ele está em Nova York, a negócios. Está sempre viajando a negócios e por isto queria que eu andasse com a arma.
— Bem — disse Miller, — se pode usá-la, devia conservá-la. Que calibre é? Trinta e oito?
— Sim, trinta e oito. Aliás, nunca disparei uma arma na vida, exceto uma vez, fazendo tiro-ao-alvo.
Miller pegou a arma, examinou-a e abriu o tambor, após alguns momentos. Checou-o para ver se não estava carregado.
— Muito bem — disse. — Temos uma arma. Quem atira bem? Eu não estou nesse rol.
Os reunidos entreolharam-se. A princípio, ninguém disse nada. Então, com relutância, Ollie confessou:
— Eu costumo praticar bastante tiro-ao-alvo. Tenho um Colt 45 e um Llama 25.
— Você? — exclamou Brown. — Humm... Quando escurecer, estará bêbado demais para ver alguma coisa.
Ollie replicou, em voz extremamente clara:
— Por que não se cala de uma vez e fica anotando nomes?
Borwn o encarou fixamente, com olhos arregalados. Abriu a boca. Depois, decidiu sabiamente, creio eu, tornar a fechá-la.
— É sua — disse Miller, pestanejando ligeiramente ante a mudança.
Estendeu a arma a Ollie, que a checou de novo, agora de modo mais profissional.
Colocou a arma no bolso direito dianteiro das calças e deslizou a caixa de cartuchos para o bolso da camisa, onde ela deixou um volume semelhante ao de um maço de cigarros. A seguir, Ollie recostou-se contra a geladeira, o rosto redondo ainda porejando suor, e abriu uma lata de cerveja. Persistia a sensação de que eu estava vendo um Ollie totalmente insuspeitado.
— Obrigado, Sra. Dumfries — disse Miller.
— Não foi nada — respondeu ela.
Fugazmente, pensei que se eu fosse seu marido e dono daqueles olhos verdes, unidos àquele corpo escultural, talvez não viajasse tanto. Entregar uma arma à esposa, podia ser encarado como um ato ridiculamente simbólico.
— Isto também pode parecer idiota — disse Miller, virando-se para Brown com sua prancheta e Ollie com sua cerveja — , mas neste lugar há qualquer coisa semelhante a lança-chamas?
— Ohhh, merda! — soltou Buddy Eagleton, imediatamente ficando tão vermelho como ficara Amanda Dumfries.
— O que é? — perguntou Mike Hatlen.
— Bem... até a semana passada, tínhamos uma caixa inteira daqueles maçaricos. Do tipo que se usa em casa para soldar canos que vazam, emendar canos de descarga ou coisas assim. Lembra-se deles, Sr. Brown?
Brown assentiu, com ar taciturno.
— Todos vendidos? — perguntou Miller.
— Não, de maneira nenhuma. Só vendemos três ou quatro, depois devolvemos os restantes. Que mer... quero dizer, uma pena.
Enrubescendo tão profundamente que ficou quase purpúreo, Buddy Eagleton voltou de novo para os bastidores de onde saíra.
Tínhamos fósforos, naturalmente, bem como sal (alguém comentou vagamente ter ouvido dizer que sal era o que devia ser posto em chupadores de sangue ou coisa assim) e todos os tipos de esfregões, além de vassouras de cabos compridos. Em sua maioria, as pessoas continuavam animadas, mas Jim e Myron estavam ébrios demais para emitir qualquer nota dissonante. Encontrei os olhos de Ollie e vi neles uma tranqüila desesperança, que era pior do que medo. Nós dois tínhamos visto os tentáculos. A idéia de jogar-se sal neles ou de tentar parti-los com os cabos dos esfregões era engraçada, de certa forma macabra.
— Mike — disse Miller — por que não dirige esta pequena aventura? Quero falar com Ollie e Dave por um minuto.
— Será um prazer. — Hatlen bateu no ombro de Dan Miller. — Alguém precisava dar as ordens e você se saiu muito bem. Seja bem-vindo à cidade.
— Isto significa que terei alguma redução em meus impostos? — perguntou Miller.
Era um homenzinho engraçado, com cabelos ruivos começando a recuar na cabeça.
Parecia o tipo do sujeito com quem logo simpatizamos, mal o conhecemos e — apenas talvez — o tipo do sujeito com quem simpatizamos após estar em cena por algum tempo.
O tipo do sujeito que sabe fazer tudo melhor do que a gente.
— Nem pense nisso — respondeu Hatlen, rindo.
Hatlen afastou-se. Miller baixou os olhos para meu filho.
— Não se preocupe com Billy — falei.
— Homem, nunca estive tão preocupado em toda a minha vida — respondeu
— Exato — concordou Ollie.
Deixou cair uma lata vazia na geladeira de cerveja, depois pegou outra e a abriu. Houve um sibilo suave do gás escapando.
— Reparei na maneira como vocês dois se olhavam — disse Miller.
Terminei minha barra de chocolate e peguei uma cerveja, para rematar a deglutição.
— Vou dizer o que penso — começou Miller. — Devíamos recrutar uma meia dúzia de pessoas para enrolar panos naqueles cabos de esfregão e depois amarrá-los com barbante. A seguir, acho que devíamos ter umas duas daquelas latas de fluido para isqueiro à disposição. Se cortarmos a parte superior das latas, poderemos fazer tochas com grande rapidez.
Assenti. Aquilo era bom. Evidentemente, não bom o suficiente — não para quem viu Norm ser puxado para fora do supermercado — Mas já era melhor do que sal.
— Pelo menos, seria alguma coisa para eles meditarem — disse Ollie.
Miller comprimiu os lábios.
— A coisa é assim tão ruim? — perguntou.
— Exatamente — assentiu Ollie, e virou sua cerveja.
Por volta de quatro e meia daquela tarde, os sacos de fertilizante e de adubo estavam no lugar, bloqueando as enormes vidraças, exceto por estreitos visores para vigilância. Um vigia fora colocado junto a cada pilha de sacos e, ao lado de cada vigia, havia uma lata de fluido para isqueiro, já sem o topo, e um suprimento de tochas, feitas com cabos de esfregões. Havia cinco visores e Dan Miller organizou um rodízio de sentinelas para cada um. Por volta das quatro e meia da tarde, eu estava sentado em uma pilha de sacos, em um dos visores, com Billy ao meu lado. Estávamos espiando o nevoeiro.
Logo além da vidraça, havia um banco vermelho, onde as pessoas às vezes esperavam que as viessem apanhar, com os sacos de artigos comprados junto delas. Mais adiante ficava o pátio de estacionamento. O nevoeiro desenrolava-se lentamente, espesso e pesado. Havia umidade nele, mas como parecia opaca e sombria! Só em olhar para aquilo, eu me sentia acovardado e perdido.
— Você sabe o que está acontecendo, papai? — perguntou Billy.
— Não, meu bem — falei.
Ele ficou calado por um momento, contemplando as mãos que jaziam flácidas sobre as coxas de seus jeans.
— Porque não aparece alguém e nos salva? — perguntou finalmente. — A Polícia Estadual, o FBI ou alguém?
— Não sei.
— Você acha que mamãe está bem?
— Billy, eu não sei — respondi, e passei o braço em torno dele.
— Eu gosto demais dela — disse Billy, lutando com as lágrimas. — Sinto muito pelas vezes em que fui malcriado com ela.
— Billy — comecei, mas tive que parar, porque senti um gosto salgado na garganta e minha voz queria tremer.
— Isto vai acabar? — perguntou ele. — Vai, papai? Vai?
— Eu não sei — respondi.
Ele colocou o rosto na concavidade de meu ombro e eu sustive a parte traseira de sua cabeça, senti a curva delicada de seu crânio, logo abaixo dos cabelos bastos. Vi-me recordando a noite de meu casamento. Espiando Steff tirar o singelo vestido castanho que vestira após a cerimônia. Havia uma enorme equimose arroxeada em sua coxa, por batê-la contra a quina de uma porta, no dia anterior. Recordei que tinha olhado para a equimose, pensando, Quando ela fez isso, ainda era Stephanie Stepanek, e sentindo algo semelhante a deslumbramento. Depois, fizemos amor e, lá fora, caía neve de um opaco e cinzento céu de dezembro.
Billy estava chorando.
— Psst, Billy, pst... — falei, balançando sua cabeça contra mim.
Não obstante, ele continuou chorando. Era o tipo de choro que só as mães sabem como manejar direito.
Caiu uma noite prematura no interior do Supermercado Federal. Hatlen e Miller, além de Bud Brown, distribuíram lanternas de pilha, todo o estoque, cerca de vinte. Norton reivindicou-as clamorosamente para seu grupo e recebeu duas. As luzes vagavam aqui e ali pelos corredores, como fantasmas inquietos.
Aconcheguei Billy contra mim e espiei pelo visor. A qualidade leitosa e translúcida da claridade exterior não mudara muito; os sacos empilhados é que deixavam o supermercado tão escuro. Por várias vezes julguei ter visto algo, mas era apenas nervosismo. Um dos outros vigias levantou um hesitante alarme falso.
Billy tornou a ver a Sra. Truman novamente e foi para ela com rapidez, embora não a tivéssemos chamado para ficar com ele, durante todo o verão. A Sra. Truman tinha uma das lanternas e a entregou para ele, com ar amistoso. Em pouco, Billy tentava escrever o seu nome, em luz, sobre as opacas faces de vidro dos acondicionadores de alimentos congelados. Ela parecia satisfeita em vê-lo e Billy demonstrava o mesmo, de maneira que, não demorou muito, estavam entretidos um com o outro. Hattie Truman era uma mulher alta e magra, de bela cabeleira ruiva, começando a mostrar alguns fios grisalhos. Seus óculos pendiam de uma decorativa corrente sobre o busto do tipo, creio eu, de uso ilegal para qualquer um, excetuando-se as mulheres de meia-idade.
— Stephanie está aqui, David? — perguntou ela.
— Não. Ficou em casa.
Ela assentiu.
— Alan também. Quanto tempo vai ficar de vigia aqui?
— Até as seis.
— Viu alguma coisa?
— Não. Apenas o nevoeiro.
— Se quiser, fico com Billy até as seis.
— Você gostaria, Billy?
— Gostaria muito — respondeu ele, movendo a lanterna acima da cabeça, em lentos arcos, e vendo a luz brincar no teto.
— Deus protegerá sua Steff e Alan também — disse a Sra. Truman.
Em seguida, afastou-se, levando Billy pela mão. Falara com tranqüila segurança, mas não havia convicção em seus olhos.
Por volta de cinco e meia, surgiram sons de excitada discussão, perto dos fundos do supermercado. Alguém reclamava de algo que outra pessoa dissera, quando ouvi uma voz — creio que de Buddy Eagleton — gritando:
— Vocês estão loucos, se forem lá fora!
Vários fachos de lanternas concentraram-se no centro da controvérsia e as pessoas encaminharam-se para a frente do supermercado. O riso guinchado e desdenhoso da Sra. Carmody cortou a penumbra, tão abrasivo como dedos raspando a superfície de um quadro-negro.
Acima do burburinho de vozes, soou o vozeirão de tenor de Norton, como em uma sala de tribunal:
— Deixem-nos passar, por favor! Deixem-nos passar!
O homem na vigia perto de mim abandonou seu posto para ver o que significava aquela gritaria. Resolvi continuar onde estava. O que quer que estivesse acontecendo, aproximava-se aos poucos de mim.
— Por favor — dizia Mike Hatlen. — Por favor, vamos discutir este assunto francamente!
— Não há nada a discutir! — proclamou Norton. Agora, seu rosto destacava-se na penumbra. Estava determinado, feroz e deplorável inteiramente. Ele empunhava uma das lanternas destinadas aos Terrestres Estagnados. Os tufos cacheados de seu cabelo ainda se erguiam atrás das orelhas, como os chifres de um corno. Encabeçava uma procissão muito pequena — cinco pessoas, das dez originais. — Nós vamos sair — declarou.
— Não insista nessa loucura — disse Miller. — Mike tem razão. Será que não podemos conversar a respeito? O Sr. Mc Vey vai preparar um churrasco com algumas galinhas na grelha de gás, podemos todos sentar, comer e apenas...
Postou-se diante de Norton e este o empurrou. Miller não gostou disso. Seu rosto ficou vermelho, depois mostrou uma expressão dura.
— Muito bem, faça o que quiser — disse — , mas é como se assassinasse estas outras pessoas.
Com toda a naturalidade de grande solucionador ou de obcecado inquebrantável, Norton replicou:
— Nós mandaremos ajuda para vocês.
Um dos seguidores murmurou sua concordância, mas outro preferiu afastar-se quietamente. Agora, havia apenas Norton e mais quatro. Talvez não fosse tão ruim. O próprio Cristo só conseguiu encontrar doze.
— Ouçam — disse Mike Hatlen. — Sr. Norton... Brent... pelo menos, esperem o churrasco. Comam alguma coisa quente antes.
— E dar-lhe uma chance para continuar falando? Já estive em tribunais o suficiente para cair nessa. Já conseguiu convencer meia dúzia de minha gente.
— Sua gente? — Hatlen quase rosnou. — Sua gente? Meu Deus, que espécie de conversa é esta? Eles são pessoas, nada mais. Isto aqui não é uma brincadeira e muito menos uma sala de tribunal. Existem coisas, na falta de outra palavra coisas lá fora. De que adianta querer matar-se?
— Você disse coisas — respondeu Norton, parecendo superficialmente divertido. — Onde? Seu pessoal já ficou duas horas vigiando. Quem viu alguma coisa?
— Bem, lá nos fundos, na área de...
— Não, não, não — disse Norton, sacudindo a cabeça. — Essa história já foi dita e repetida. Nós vamos sair...
— Não — sussurou alguém.
O sussurro ecoou e espalhou-se, dando a impressão do roçar de folhas mortas ao crepúsculo de um anoitecer outonal. Não, não, não...
— Quem nos impedirá? — perguntou uma voz esganiçada. Era um membro da "gente" de Norton, para usar sua palavra — uma dama de idade, usando óculos bifocais. — Quem nos impedirá?
O suave murmúrio de negativas esfumou-se.
— Não, ninguém os impedirá — respondeu Mike. — Acho que ninguém os impedirá.
Cochichei no ouvido de Billy. Ele olhou para mim, assustado e questionante.
— Vá agora — falei. — E volte depressa.
Ele foi.
Norton passou as mãos através dos cabelos, em um gesto mais calculado do que qualquer um já feito por um ator da Broadway. Eu simpatizara mais com ele ao vê-lo puxando inutilmente o cordel de sua serra em cadeia, praguejando e imaginando-se não observado. Naquele momento, como também agora, não sei dizer se ele acreditava ou não no que estava fazendo. Lá no fundo, acho que Norton sabia o que podia acontecer. Creio que a lógica de sua falação da boca para fora, durante a vida inteira, agora finalmente se voltava contra ele, como um tigre que se tornou mau e mesquinho.
Norton olhou em torno inquietamente, parecendo desejar que houvesse algo mais a dizer. Então, guiou seus quatro seguidores para uma das alamedas das caixas registradoras. Além da mulher idosa, havia um rapazola rechonchudo com uns vinte anos, uma jovem e um homem de blue jeans, usando um boné de golfe ladeado na cabeça.
Os olhos de Norton encontraram os meus, dilataram-se ligeiramente e então começaram a desviar-se.
— Espere um minuto, Brent — falei.
— Não quero discutir mais isso. E, certamente, não com você.
— Eu sei que não quer. Só desejo pedir-lhe um favor.
Olhei em torno e vi Billy que voltava correndo.
— O que é isso? — perguntou Norton, desconfiado, ao vê-1o entregar-me um pacote embrulhado em celofane.
— Linha para varal de roupa — falei. Eu estava vagamente cônscio de que todos no supermercado agora olhavam para nós, mais ou menos enfileirados no outro lado das caixas registradoras e seus corredores. — É o pacote grande. O de noventa metros.
— E daí?
— Achei que você poderia amarrar uma extremidade em volta de sua cintura, antes de sair. Irei soltando a linha. Quando a sentir bem esticada, basta atá-la em torno de alguma coisa, não importa o quê. Uma maçaneta de porta de carro serviria.
— Para que, em nome de Deus?
— Assim, ficarei sabendo que você chegou até nove metros, pelo menos respondi.
Algo brilhou em seus olhos, porém apenas momentaneamente.
— Não — disse ele.
Dei de ombros.
— Está bem. De qualquer modo, boa sorte.
O homem do boné de golfe disse, de repente:
— Eu farei isso, senhor. Não há motivo para recusar-me.
Norton girou para ele, como se fosse dizer algo ríspido. O homem do boné de golfe estudou-o calmamente. Em seus olhos nada havia brilhando. Norton também percebeu isso e não disse nada.
— Obrigado — falei.
Abri o envoltório com meu canivete e o cordel se soltou do pacote, em alças rígidas, como um acordeon. Encontrei uma das extremidades e a amarrei em torno da cintura de Boné de Golfe, com um nó frouxo. O homem imediatamente o desfez, para amarrar a linha em seguida com um apertado nó cego. Não havia um som no supermercado. Norton oscilava inquietamente, ora em um pé, ora no outro.
— Quer levar meu canivete? — perguntou ao homem do boné de golfe.
— Eu tenho um. — Ele olhou para mim com o mesmo tranqüilo desdém. Vá soltando sua linha. Quando esticar bem, eu a prenderei.
— Todos prontos? — perguntou Norton, alto demais.
O rapaz roliço sobressaltou-se, como se estivesse assustado. Não recebendo resposta, Norton se virou para sair.
— Brent — falei, estendendo a mão. — Boa sorte, homem.
Ele estudou minha mão, como se ela fosse algum duvidoso objeto estranho.
— Nós enviaremos ajuda — disse finalmente.
Empurrou a porta SAÍDA. Aquele cheiro ralo e acre entrou novamente. Os outros o seguiram para o exterior. Mike Hatlen aproximou-se e ficou ao meu lado. Os cinco componentes do grupo de Norton penetraram no nevoeiro leitoso, de movimentos lentos. Norton disse algo e eu deveria ter ouvido, mas o nevoeiro tinha um estranho efeito amortecedor. Percebi apenas o som de sua voz e duas ou três sílabas isoladas como a voz no rádio, ouvida de alguma distância. Eles se afastaram.
Hatlen segurou a porta entreaberta. Dei linha, mantendo-a o mais folgada que pude, pensando na promessa do homem, que a ataria se ficasse tensa. Ainda não havia som algum. Billy permanecia ao meu lado, imóvel, mas parecendo vibrar com sua própria corrente interior.
De novo, houve aquela singular sensação de que os cinco não só desapareciam no nevoeiro, como tinham ficado invisíveis. Por um momento, sua roupas pareciam ficar em pé sozinhas, mas depois sumiram. Só se ficava realmente impressionado com a densidade antinatural do nevoeiro, quando se via pessoas sendo engolidas por ele em um espaço de segundos.
Dei mais linha. Um quarto dela se foi, depois metade. Parou de ser puxada por um instante. De coisa viva em minhas mãos, tornou-se morta. Contive a respiração. Em seguida, a linha foi novamente puxada. Deixei-a escorregar entre os dedos e, de repente, lembrei-me de meu pai, levando-me para ver Moby Dick, o filme com Gregory Peck, em Brookside. Acho que sorri um pouco.
Três quartos da linha já tinham ido agora. Eu podia ver sua extremidade, caída ao lado de um dos pés de Billy. Então, ela parou de mover-se novamente em minhas mãos.
Ficou imóvel por talvez cinco segundos, mas de súbito cerca de metro e meio desenrolou-se. De repente, entortou-se violentamente para a esquerda, tangendo a borda da porta SAÍDA.
Seis metros de linha desenrolaram-se bruscamente, quase me cortando a palma esquerda. E lá de fora, do meio do nevoeiro, chegou um grito agudo e oscilante. Era impossível dizer o sexo de quem gritara.
A corda forcejou outra vez em minhas mãos. De novo. Deslizei através do espaço da entrada, para a direita, depois de volta à esquerda. Mais alguns metros de linha se foram, quando soou um uivo ululante vindo do exterior, provocando um gemido de meu filho. Hatlen ficou horrorizado, de olhos esbugalhados. Um canto de sua boca descambou, trêmulo.
O uivo foi cortado abruptamente. Não houve som algum, pelo que pareceu uma eternidade. Então, a velha senhora gritou — desta vez não havia dúvidas sobre quem gritara. "Tirem isso de mim!" bradou ela. "Oh, meu Deus, meu Deus, tire isso... "
Então, sua voz também foi interrompida.
Quase toda a corda deslizou bruscamente por meu punho fechado frouxamente, agora me queimando a pele com vigor. Então, ficou inteiramente bamba, enquanto um som brotava do nevoeiro — um grunhido alto e espesso — que deixou seca toda a saliva em minha boca.
Eu jamais ouvira um som como aquele, porém o mais aproximado deveria ser o de um filme rodado na savana africana ou em um pântano sul-americano. Era o som de um gigantesco animal. Ele se repetiu, surdo, dilacerante e selvagem. Novamente... e depois diminuiu para uma série de baixos murmúrios. Então, houve silêncio total.
— Feche a porta — disse Amanda Dumfries, em voz trêmula. — Por favor.
— Em um minuto — falei.
Comecei a puxar a linha de volta. Ela saiu do nevoeiro e amontoou-se em torno de meus pés, formando uma confusão de dobras e alças. Faltando um metro para o final, a linha para varal de roupas, nova e branca, ficou vermelho-vivo.
— Morte! — gritou a Sra. Carmody. — A morte para quem for lá fora!,Viram agora?
O final da linha de vara, era uma mistura de fibras e pequenos tufos de algodão, emaranhada e mascada. Os tufos de algodão apresentavam diminutas gotas de sangue.
Ninguém contradisse a Sra. Carmody.
Mike Hatlen deixou que a porta de vaivém se fechasse.
O Sr. McVey trabalhara em Bridgton como açougueiro desde que eu tinha doze ou treze anos, porém jamais tive qualquer idéia sobre seu primeiro nome ou qual seria a sua idade. Ele instalara uma grelha a gás sob um dos pequenos ventiladores exaustores — os ventiladores agora estavam parados, mas presumivelmente ainda proporcionavam alguma ventilação — e, por volta de seis e meia da tarde, o cheiro de galinha sendo preparada ao fogo enchia o supermercado. Bud Brown não fez objeções. Talvez ele estivesse em estado de choque, porém o mais provável é que reconhecesse o fato de que sua carne fresca e as aves abatidas não estavam ficando nem um pouco mais frescas. O cheiro da galinha era convidativo, mas muitas pessoas não quiseram comer. Pequenino, metódico e limpo em suas roupas brancas, o Sr. McVey preparou as galinhas assim mesmo e colocou os pedaços, de dois em dois, em pratos de papel que foi alinhando no topo do balcão de carnes, como em uma lanchonete.
A Sra. Turman trouxe um prato para mim e outro para Billy, guarnecidos com bocados de salada de batata. Comi o melhor que pude, mas Billy nem tocou no seu.
— Você precisa comer, garotão — falei.
— Não estou com fome — disse ele, pondo o prato de lado.
— Como é que vai ficar grande e forte, se não...
Sentada logo atrás de Billy, a Sra. Turman abanou a cabeça para mim.
— Está bem — falei. — Pelo menos, pegue um pêssego e coma. Certo?
— E se o Sr. Brown disser alguma coisa?
— Se ele disser alguma coisa, venha me contar.
— Está bem, papai.
Ele se afastou lentamente. De certa forma, parecia ter encolhido. Meu coração doeu, ao vê-lo caminhar daquela maneira. o Sr. McVey continuou preparando galinhas, parecendo não ligar para o fato de bem poucos estarem comendo, mas feliz no ato de prepará-las. Como creio ter dito, há muitos meios de manejar-se uma situação como aquela. Ninguém diria, mas é assim. Nossa mente é curiosa.
Eu e a Sra. Turman nos sentamos a meio caminho no corredor em que ficavam as gôndolas de medicamentos. Os outros sentavam-se em pequenos grupos, por todo o supermercado. Ninguém permanecia sozinho, com exceção da Sra. Carmody; o próprio Myron e seu amigo Jim estavam juntos — os dois não ligavam mais para a geladeira de cerveja.
Seis novos homens agora estavam a postos nas vigias. Um deles era Ollie, mascando uma perna de galinha e bebendo uma cerveja. As tochas confeccionadas com cabos de esfregão achavam-se ao lado de cada posto de vigilância, tendo ao lado uma lata de fluido para isqueiro... mas duvido que alguém continuasse acreditando naquelas tochas como antes. Não, depois daquele surdo e terrivelmente vital grunhido, não depois da linha para varal de roupas, mascada e encharcada de sangue. Se o que quer que estivesse lá fora decidisse capturar-nos, iria capturar-nos.
— Como vai ser esta noite? Boa? Ruim? — perguntou a Sra. Turman.
Sua voz era calma, mas os olhos estavam doentios e assustados.
— Sinceramente, Hattie, não sei dizer.
— Deixe Billy comigo, o mais que quiser. Eu... Davey, acho que estou morrendo de medo. — Ela deu uma risadinha seca. — Sim, acho que estou mesmo. Entretanto, se tiver Billy comigo, isso me fará bem. Como também será bom para ele.
Seus olhos cintilavam. Inclinei-me e bati-lhe no ombro.
— Estou tão preocupada com Alan! — suspirou ela. — Alan está morto, Davey. No fundo do coração, sei que ele está morto.
— Não, Hattie. Você não sabe nada disso.
— Sinto que é verdade. Não sente alguma coisa em relação a Stephanie? Não tem um... pressentimento, ao menos?
— Não — respondi, mentindo descaradamente.
Um som estrangulado lhe brotou da garganta e ela apertou a boca com a mão. Seus óculos refletiram a claridade soturna e mortiça.
— Billy está voltando — murmurei.
Ele comia um pêssego. Hattie Turman bateu no piso ao seu lado e disse que quando ele terminasse, iria mostrar-lhe como fazer um homenzinho com o caroço do pêssego e um pedaço de linha. Billy sorriu abatidamente para ela e a Sra. Turman lhe devolveu o sorriso.
Às oito da noite, seis novos homens estavam de vigia. Ollie chegou até onde eu me sentava.
— Onde está Billy?
— Com a Sra. Turman, lá nos fundos — respondi. — Eles estão fazendo brincadeiras. Já passaram pelos bonequinhos de caroço de pêssego e máscaras com sacolas de compras ou bonecas feitas de maçãs. Agora, o Sr. McVey mostra a ele como fazer bonecos com limpadores de cachimbo.
Ollie sorveu um comprido gole de cerveja. Depois disse:
— As coisas estão se movendo lá fora.
Olhei fixamente para ele. Ele também me encarou.
— Não estou bêbado — disse. — Tentei embriagar-me, mas não consegui. Gostaria de tomar um pileque, David.
— O que quer dizer com coisas que se movem lá fora?
— Não posso afirmar com certeza. Perguntei a Walter e ele disse ter a mesma impressão, de que partes do nevoeiro ficavam mais escuras a cada minuto — por vezes apenas uma pequena mancha, em outras uma grande área escura, como uma equimose. Depois, tudo voltava a ficar cinzento. Aliás, a coisa está formando uma espécie de redemoinho. O próprio Arnie Simrns afirmou ter a sensação de que acontecia algo lá fora — e Arnie é quase tão cego como um morcego.
— E quanto aos outros?
— São todos gente de fora do estado, estranhos para mim — replicou Ollie. Não perguntei a nenhum deles.
— Como tem certeza de que vocês não estavam apenas vendo coisas?
— É só uma impressão — disse ele. Assentiu na direção da Sra. Carmody, sentada sozinha no final do corredor. Nada do que ocorria lhe diminuíra o apetite, porque havia um cemitério de ossos de galinha em seu prato. Ela devia estar bebendo sangue ou suco V-8. — Acho que ela estava certa sobre uma coisa — concluiu Ollie. — Nós descobriremos. Quando anoitecer, nós descobriremos.
De qualquer modo, não precisamos esperar até o anoitecer. Quando aconteceu, Billy viu bem pouco do sucedido, porque a Sra. Turman o manteve nos fundos do supermercado.
Ollie ainda estava sentado comigo, no momento em que um dos homens na fachada deu um grito agudo e recuou de seu posto, girando os braços.
Eram quase oito e meia; lá fora, o nevoeiro branco-pérola escurecera para um tom opaco de um crespúsculo de novembro.
Algo havia caído na parte externa da vidraça de uma das vigias.
— Oh, meu Deus! — gritou o homem que ficara vigiando ali. — Livre-me disto! Livre-me disto!
Ele disparou em um círculo errante, os olhos sobressaindo no rosto, com um filete de saliva no canto da boca, cintilando nas sombras que se adensavam. Então, caminhou diretamente para o corredor mais distante, além da área dos alimentos congelados.
Houve gritos em resposta. Algumas pessoas correram para a parte frontal do supermercado, querendo saber o que acontecia. Muitas recuaram até os fundos, não se preocupando e não querendo ver o que quer que rastejava sobre a parte externa das vidraças.
Encaminhei-me para aquele posto de vigia, com Ollie a meu lado. A mão dele estava no bolso que guardava a arma da Sra. Dumfries. Nesse momento, outro vigia gritou — não só de medo, como de repugnância.
Eu e Olliver esgueiramo-nos por um dos corredores das caixas. Agora, era possível ver o que afugentara o sujeito de seu posto. Eu não podia dizer o que seria, mas conseguia ver a coisa. Assemelhava-se a uma das criaturas menores em uma tela de Bosh — um de seus diabólicos murais. Havia algo quase comicamente horrível sobre aquilo, além do mais, porque se parecia um pouco com uma daquelas estranhas criações de vinil e plástico, compradas a 1 dólar e 89 para assustar os amigos... de fato, justamente o tipo de coisa de que Norton me acusara de haver colocado na área de estocagem.
Deveria ter um meio metro de comprimento, era segmentado, com a tonalidade rósea de carne queimada que cicatrizou. Olhos bulbosos espiavam em duas direções opostas ao mesmo tempo, localizados nas extremidades de talos curtos, semelhantes a membros. A coisa aderia à vidraça sobre gordas ventosas. Do lado contrário, projetava-se algo que tanto podia ser um órgão sexual, como um ferrão. E de seu dorso, brotavam enormes asas membranosas, como as da mosca doméstica. Elas se moviam muito lentamente, quando eu e Ollie nos aproximamos do vidro.
Na vigia à nossa esquerda, onde o homem havia emitido aquele som crocitado, três daquelas coisas rastejavam sobre o vidro. Moviam-se vagarosamente através dele, deixando pegajosos rastros de lesma para trás. Seus olhos — se é que eram olhos — encaixavam-se na ponta dos talos da grossura de dedos. O maior talvez tivesse metro e meio de comprimento. Às vezes, eles rastejavam uns contra os outros.
— Veja as malditas coisas — disse Tom Smalley, com repugnância.
Ele estava na vigia à nossa direita. Não respondi. Os besouros agora estavam sobre todas as vigias, isto significando que provavelmente deviam rastejar por todo o prédio... como vermes em um pedaço de carne. Não era uma imagem agradável e eu podia perceber como toda a galinha que conseguira comer, agora esforçava-se por deixar meu organismo.
Alguém soluçava. A Sra. Carmody bradava sobre abominações vindas do interior da terra. Alguém lhe disse, iradamente, que devia calar a boca, se soubesse o que melhor lhe convinha. A mesma velha história.
Ollie tirou do bolso a arma da Sra. Dumfries e eu lhe agarrei o braço.
— Não seja louco! — falei.
Ele se libertou com um safanão.
— Sei o que estou fazendo — respondeu.
Bateu na vidraça com o cano da arma, mostrando no rosto uma expressão de nojo. A velocidade das asas das criaturas aumentou, até se tornar apenas uma imagem borrada — se não soubéssemos, pensaríamos que eles não eram seres alados, em absoluto. Depois, simplesmente afastaram-se voando.
Alguns dos outros viram o que Ollie havia feito e seguiram sua idéia. Começaram a bater nas vidraças com cabos de esfregões. As coisas voavam e iam embora, mas voltavam logo depois. Aparentemente, tampouco tinham mais cérebro do que a mosca comum. O quase pânico dissolveu-se em um rumor de conversas. Ouvi alguém perguntando a outra pessoa o que achava que aquelas coisas fariam, se pousassem em um ser humano. Aí estava uma pergunta que não me interessava ver respondida.
As batidas nas vidraças começaram a diminuir. Ollie se virou para mim e ia dizer alguma coisa, mas tão logo abriu a boca, algo se destacou do nevoeiro e abocanhou um daqueles seres que rastejavam na vidraça. Acho que gritei, não tenho bem certeza.
Era uma coisa voadora. Fora isso, eu não poderia afirmar mais nada. O nevoeiro pareceu escurecer, exatamente da maneira como Ollie havia descrito, somente que a mancha escura não diminuiu; solidificou-se em algo de asas coriáceas que se agitavam, um corpo branco-albino, de olhos avermelhados. Chocou-se na vidraça com força suficiente para fazê-la estremecer. Seu bico se abriu. Pescou a coisa rosada com ele e se foi. Todo o incidente não durou mais do que cinco segundos. Tive uma crua e final impressão de coisa rosada estrebuchando e debatendo-se enquanto desaparecia naquele alçapão, da maneira como um peixe pequeno estrebucha e se debate no bico de uma gaivota.
Houve um novo baque contra a vidraça, depois outro. As pessoas recomeçaram a gritar, a maioria correndo em tropel para os fundos do supermercado. Ouvimos então um grito mais agudo, um grito de dor, e Ollie disse:
— Oh, meu Deus, aquela senhora idosa caiu e os outros simplesmente correram por cima dela!
Ollie correu de volta aos corredores das caixas registradoras. Eu me virei para segui-lo, mas então vi uma coisa que me fez estacar bruscamente onde estava.
Bem no alto, à minha direita, um dos sacos de adubo para jardim escorregava lentamente. Tom Smalley estava bem abaixo dele, espiando para o nevoeiro lá fora, através de sua vigia.
Outro daqueles bichos rosados aterrou sobre o espesso vidro da vigia onde eu e Ollie estivéramos. Uma das coisas voadoras precipitou-se para baixo e o agarrou. A velha que havia sido pisoteada começou a gritar em voz aguda, cacarejante.
Aquele saco. Aquele saco escorregando...
— Smalley! — gritei. — Cuidado! Olhe para cima!
Na confusão geral, ele nem chegou a ouvir-me. O saco oscilou e então caiu, atingindo-o em cheio na cabeça. Smalley caiu brutalmente, batendo com o queixo na prateleira que corria abaixo daquela vidraça.
Uma das coisas albinas voadoras procurava abrir caminho, através do buraco em cunha que havia no vidro. Eu podia ouvir o arranhar suave que ela fazia, agora que um pouco da gritaria cessara. Seus olhos vermelhos cintilaram na cabeça triangular, ligeiramente virada de banda. Um bico enorme e em gancho se abriu e fechou com voracidade. Tinha certa semelhança com as pinturas de pterodáctilos que vemos nos livros de dinossauros, porém mais parecido a algo saído do pesadelo de um lunático.
Peguei uma das tochas, enfiei-a em uma das latas com fluido para isqueiro, encharquei-a e deixei cair um pouco do líquido no chão.
A criatura voadora fez uma pausa no topo da pilha dos sacos de adubo, olhando em torno, equilibrando-se lenta e malignamente, ora em um ora em outro pé provido de esporão. Era uma criatura imbecil, tenho certeza disso. Tentou duas vezes abrir as asas, que batiam contra as paredes e então se dobravam sobre si mesmas, acima das costas arqueadas, como as asas de um grifo. À terceira tentativa, perdeu o equilíbrio e caiu desajeitadamente de seu poleiro, ainda procurando distender as asas. Aterrou sobre as costas de Tom Smalley. Com uma flexão de suas garras, a camisa de Tom se rasgou de alto a baixo. O sangue começou a fluir.
Eu estava lá, a menos de um metro de distância. Minha tocha pingava fluido de isqueiro.
Emocionalmente, sentia-me impelido a matar aquela coisa, se pudesse... e então percebi que não tinha fósforos para acender a tocha. Usara o último acendendo um charuto para o Sr. McVey, uma hora atrás.
A essa altura, o lugar se transformara em pandemônio. As pessoas tinham visto a coisa empoleirada nas costas de Smalley, algo que ninguém no mundo já vira antes. Ela esticou a cabeça para diante, em um ângulo inquisitivo, depois arrancou um pedaço de carne da nuca de Smalley.
Eu me dispunha a usar a tocha como porrete, quando sua extremidade envolta em panos ficou repentinamente em chamas. Dan Miller estava ali, segurando um isqueiro Zippo, com um emblema da Marinha gravado. Seu rosto estava duro como rocha, tomado de horror e fúria.
— Mate-o! — disse ele, em voz rouca. — Mate-o, se puder!
Ollie estava ao lado dele. Empunhava o 38 da Sra. Dumfries, mas sem ângulo de tiro. A coisa estendeu as asas e bateu-as uma vez — aparentemente, não para voar, apenas para se firmar melhor sobre sua presa — e então suas asas membranosas e rijas envolveram toda a parte superior do corpo do pobre Smalley. A seguir, foram os sons apenas que ouvimos — sons mortais de dilaceramento, que não consigo descrever de maneira alguma.
Tudo isto aconteceu apenas em segundos. Foi então que arremeti com minha tocha contra a coisa. Houve a sensação de atingir algo sem mais substância real do que um papagaio de empinar. No momento seguinte, a criatura inteira ardia. Ela emitiu um grasnido agudo e distendeu as asas; a cabeça se contorceu e os olhos avermelhados rolaram com o que eu sinceramente desejava que fosse uma grande agonia. A criatura alçou vôo, fazendo um som semelhante ao de lençóis pendurados em um varal, sacudidos por uma firme brisa de primavera. Tornou a emitir aquele grasnido enferrujado.
As cabeças se ergueram para seguir seu vôo agonizante e flamejante. Creio que nada, em tudo aquilo, permanece tão vívido em minha memória, como aquela coisa-ave em chamas, voando aos ziguezagues acima dos corredores do Supermercado Federal, deixando cair pedaços carbonizados e fumacentos de si mesma, aqui e ali. Finalmente abateu-se entre os molhos para espaguete, espalhando sucos por todos os lados, como gotas de sangue. Agora, era pouco mais do que cinzas. O cheiro que desprendia era de algo carbonizado, forte e repugnante. E, acentuando isto, como um contraponto, havia o difuso e acre odor do nevoeiro, insinuando-se através do buraco no vidro.
Houve o mais absoluto silêncio por um momento. Ficamos unidos pelo negro assombro daquele vôo mortal, vivamente iluminado. Então, alguém deu um grito ululante. Outras pessoas gritaram também. E, de alguma parte nos fundos do supermercado, pude ouvir meu filho chorando.
A mão de alguém agarrou-me. Era de Bud Brown. Seus olhos avolumavam-se nas órbitas, esbugalhados. Os lábios repuxavam-se para trás, sobre a dentadura postiça, como em um rosnado.
— Mais uma daquelas coisas — disse ele, e apontou.
Um dos besouros esgueirara-se através do buraco e agora encarapitava-se sobre um saco de adubo para jardim, zumbindo as asas como uma mosca varejeira — a gente podia ouvi-la, soavam como um ventilador elétrico barato das lojas de departamentos — os olhos salientes em seus talos. O corpo rosa e roliço aspirava rapidamente.
Movi-me para ele. Minha tocha ainda fumegava. Entretanto, a Sra. Reppler, a professora do terceiro grau, foi mais rápida. Teria uns cinqüenta e cinco anos, talvez sessenta, e era extremamente magra. Seu corpo tinha uma aparência estorricada e seca, que sempre me fazia pensar em um bife duro, tipo sola de sapatos.
Ela empunhava uma lata de Raid em cada mão, como um pistoleiro de comédia existencial. Proferiu um rosnado de raiva digno de um homem das cavernas, esmagando o crânio de um inimigo. Segurando as latas de inseticidas sob pressão com os braços inteiramente estirados, apertou os botões. Um jato espesso de inseticida cobriu a coisa.
O besouro contorceu-se de agonia, agitando-se e girando loucamente, para afinal cair dos sacos, ricochetear no cadáver de Tom Smalley — que estava morto, sem a menor sombra de dúvida — e por fim rolar para o chão. Suas asas zumbiam alucinadamente, mas não o levariam a lugar algum, porque estavam fartamente impregnadas de Raid. Momentos depois, o movimento das asas diminuía, até elas cessarem de bater por completo. A coisa estava morta.
Agora, ouvia-se pessoas chorando. E gemendo. A velha senhora que fora pisoteada estava gemendo. Também havia risos. As gargalhadas dos amaldiçoados. A Sra. Reppler ficou ao lado de sua presa, o peito magro subindo e descendo rapidamente.
Hatlen e Miller encontraram um daqueles carrinhos de plataforma que os arrumadores de prateleiras usam para mover artigos embalados pelo supermercado e, juntos, o levantaram até o alto dos sacos de adubo para jardim, bloqueando o buraco em forma de cunha que havia na vidraça. Uma medida temporária, porém conveniente.
Amanda Dumfries aproximou-se como uma sonâmbula. Tinha um balde de plástico em uma das mãos. Na outra, segurava uma escova de roupas em forma de vassourinha, ainda fechada em seu envoltório transparente. Inclinando-se, os olhos ainda dilatados e apáticos, ela varreu a coisa morta e rosada — besouro, lesma, fosse o que fosse — para dentro do balde. Podia-se ouvir o roçar áspero do envoltório da escova de roupas, varrendo o chão. Ela caminhou para a porta SAÍ DA. Não havia nenhum besouro ali.
Abrindo-a um pouco, a Sra. Dumfries jogou o balde no exterior. Ele caiu de banda e rolou de um lado para outro, em arcos decrescentes. Uma das coisas rosadas zumbiu para fora da noite, aterrou em cima do balde e começou a rastejar sobre ele.
A mulher prorrompeu em lágrimas. Aproximando-me, passei um braço em torno de seus ombros.
Por volta de uma e meia da madrugada, eu estava sentado com as costas contra a lateral esmaltada de branco do balcão de carnes, em um semi cochilo. A cabeça de Billy repousava em meu colo. Ele dormia profundamente. Não muito longe dali, Amanda Dumfries dormia, tendo o blusão de alguém como travesseiro.
Algum tempo após a morte chamejante da coisa-ave, eu e Ollie tínhamos voltado à área de estocagem e reunido meia dúzia de mantas acolchoadas, semelhantes àquela com que cobrira Billy anteriormente. Várias pessoas dormiam sobre elas. Também trouxemos um bom número de pesados caixotes de laranjas e peras; juntos, quatro de nós conseguimos içá-los para o alto das pilhas de sacos com adubo para jardim, em frente do buraco na vidraça. As criaturas-aves precisariam esforçar-se bastante para deslocar um daqueles caixotes, cada um dos quais pesava cerca de quarenta e cinco quilos.
Entretanto, as aves, as coisas semelhantes a besouros, não eram as únicas coisas lá fora.
Havia a outra coisa de tentáculo que arrastara Norm. Havia ainda aquele cordel para varal de roupas, esmagado, dando o que pensar. Havia a coisa invisível que proferira aquele rugido grave e gutural, também dando o que pensar. Tínhamos ouvido sons semelhantes desde então — por vezes bem distantes mas até que ponto era "distante", através do efeito amortecedor do nevoeiro?
Aliás, havia ocasiões em que eram suficientemente próximos para estremecer o prédio, dando a sensação de que os ventrículos de nosso coração tivessem sido subitamente inundados de água gelada.
Billy sobressaltou-se em meu colo e gemeu. Afaguei seus cabelos e ele gemeu mais alto. Depois pareceu reencontrar as águas menos perigosas do sono. Meu próprio cochilo era entrecortado, de maneira que eu voltara a ficar de olhos arregalados. Desde o anoitecer, conseguira dormir apenas uns noventa minutos, assim mesmo, com o sono povoado de pesadelos. Em um daqueles sonhos fragmentados, eu me via novamente na noite anterior, Billy e Steff estavam diante da janela panorâmica, olhando para as águas negro-acinzentadas, para a rodopiante e prateada tromba-d'água que prenunciava a tormenta. Tentei aproximar-me deles, convencido de que um vento forte poderia quebrar a janela e atirar flechas mortais de vidro por toda a sala de estar. No entanto, por mais que corresse, não conseguia alcançá-los. Então, surgiu uma ave da tromba-d'água, um gigantesco oiseau de nort escarlate, cuja envergadura de asas pré-históricas deixava todo o lago ensombrecido, de leste a oeste. Seu bico se abriu, revelando uma goela do tamanho do Túnel Holland. E, quando a ave se precipitava para minha esposa e meu filho, uma voz grave e sinistra começou a sussurar, incessantemente: O Projeto Ponta de Flecha... o Projeto Ponta de Flecha... o Projeto Ponta de Flecha...
Não que eu e Billy fôssemos os únicos a dormir mal. Havia outros que gritavam dormindo e outros que continuavam gritando, depois de acordados. A cerveja desaparecia da geladeira em grande velocidade. Buddy Eagleton a carregara novamente, com garrafas do estoque nos fundos do prédio, sem qualquer comentário. Mike Hatlen veio me dizer que o Sominex desaparecera. Os vidros não tinham sido esvaziados — haviam sumido. Ele achava que algumas pessoas podiam ter apanhado seis ou oito vidros.
— Ainda há uma sobra de Nytol — acrescentou. — Quer um vidro, David?
Meneei a cabeça em negativa e agradeci.
No último corredor, o da caixa registradora 5, tínhamos os vinhos. Havia umas sete pessoas lá, todas de fora do estado, com exceção de Lou Tattinger, que dirigia a Lavadora de Carros "Pine Tres". Lou não precisava de nenhuma desculpa para farejar a rolha, como se diz. A brigada dos vinhos já estava perfeitamente anestesiada.
Oh, sim... havia ainda seis ou sete pessoas que tinham ficado malucas. Malucas, aliás, não é bem o termo; talvez eu apenas não conseguisse encontrar o mais adequado.
Contudo, aquelas eram as pessoas que haviam mergulhado em absoluto estupor, fosse provocado pela cerveja, vinho ou pílulas. Elas nos fitavam com olhos vagos, semelhantes a maçanetas reluzentes. O duro cimento da realidade, seus alicerces, se tinham desfeito através de algum inimaginável terremoto, e aqueles pobres diabos haviam caído com eles. Com o tempo, alguns poderiam recuperar-se. Caso houvesse tempo.
Nós, os restantes, havíamos feito nossos compromissos mentais e, em alguns casos, imagino que fossem bastante estranhos. A Sra. Reppler, por exemplo, estava convencida de que tudo aquilo era um sonho — ou pelo menos foi o que disse. Aliás, expressara-se com bastante convicção.
Olhei na direção de Amanda. Eu começava a experimentar um sentimento incomodante forte por ela — incômodo, mas não de todo desagradável. Seus olhos eram de um verde incrivelmente brilhante... e por algum tempo a ficara vigiando, para ver se tiraria um par de lentes de contato, mas pelo visto, a cor era verdadeira. Sentia vontade de fazer amor com ela. Minha esposa estava em casa, talvez viva, mais provavelmente morta, de qualquer modo, sozinha, e eu a amava. Queria voltar para ela com Billy, acima de tudo, mas também queria transar com aquela mulher chamada Amanda Dumfries. Tentei dizer a mim mesmo que era produto da situação em que nos encontrávamos — e talvez fosse mesmo — porém isso não alterou o desejo.
Continuei dormitando e despertando, até acordar de todo, por volta das três da madrugada. Amanda se deslocara para uma posição fetal, com os joelhos encostando no peito. as mãos entrelaçadas entre as coxas. Parecia dormir profundamente. Sua blusa de atletismo se erguera levemente em um lado, mostrando a pele muito alva. Vendo aquilo, comecei a ter uma desconfortável e totalmente inútil ereção.
Tentei distrair as idéias, levando-as para um novo rumo. Pensei em como quisera pintar Brent Norton no dia anterior. Nada tão importante como um quadro, mas... apenas sentá-lo em um trono, com minha cerveja na mão, e garatujar seu rosto cansado e suado, as duas asas de seu cabelo cuidadosamente penteado, projetando-se desmazeladamente na parte traseira da cabeça. Poderia ter sido um bom quadro. Eu precisaria de vinte anos vivendo com meu pai, para aceitar a idéia de que ser bom, poderia ser bom o suficiente.
Sabem o que é o talento? É o castigo da expectativa. Quando crianças, temos que lidar com isso, vencê-lo de algum modo. Se podemos escrever, achamos que Deus nos colocou na terra para superarmos Shakespeare. Ou, se sabemos pintar, talvez achemos — eu achei — que Deus nos colocou na terra para superarmos nosso pai.
Resultou que eu não era tão bom quanto ele. Continuei tentando ser como ele, talvez por mais tempo do que deveria. Tive uma exposição em Nova York e me saí muito mal — fui derrotado pelos críticos de arte, na comparação com meu pai. Um ano mais tarde, era com o desenho comercial que sustentava a mim e Steff. Ela estava grávida, de maneira que me concentrei e falei comigo mesmo a respeito. O resultado dessa conversa, foi a convicção de que a arte séria seria sempre um hobby para mim, nada mais.
Fiz a publicidade do Xampu Garota de Ouro — aquele em que a Garota está montada em sua bicicleta, aquele em que ela joga Frisbee na praia, aquele em que ela se acha no balcão de seu apartamento, com um drinque na mão. Ilustrei contos para a maioria das grandes revistas elegantes, mas de poucos méritos literários, porém penetrei nesse campo fazendo ilustrações rápidas para contos nas revistas mais espalhafatosas para homens. Também fiz alguns posters para cinema. O dinheiro ia entrando. Conseguíamos manter nossas cabeças lindamente acima d'água.
Tive uma exposição final em Bridgton, bem no último verão. Expus nove telas que havia pintado em cinco anos, tendo vendido seis. A que não venderia de maneira alguma, mostrava o supermercado Federal, por singular coincidência. A perspectiva era da extremidade mais distante do pátio de estacionamento. Em meu quadro, o pátio estava vazio, exceto por uma fileira de latas de feijão Campbell, cada uma maior do que a antecedente, à medida que se aproximavam do olho do espectador. A última parecia ter dois metros e meio de altura. O quadro tinha o título de Feijões e Falsa Perspectiva.
Um homem da Califórnia, alto executivo em uma fábrica de raquetes e bolas de tênis, entendido em todo tipo de equipamento esportivo, ficou encantado com o quadro e não aceitava uma negativa como resposta, apesar do cartão NEV (Não está à venda), enfiado no canto inferior esquerdo, na moldura descartável de madeira. Ofereceu seiscentos dólares e subiu até quatro mil. Afirmou querer o quadro para seu estúdio. Recusei as ofertas e ele se foi, irritado e pasmo. Ainda assim, não desistiu de todo, deixando seu cartão para o caso de eu mudar de idéia.
Aquele poderia ser um dinheiro bem empregado — foi no ano em que aumentei a casa e comprei o tração-nas-quatro-rodas — mas preferi ficar com o quadro. Não poderia vendê-lo, já que o considerava minha pintura mais bem feita e, além disso, queria tê-lo comigo, para poder contemplá-lo, depois que alguém me perguntasse, com crueldade totalmente inconsciente, quando é que me dedicaria a algo mais sério.
Então, em certo dia do outono passado, mostrei casualmente o quadro a Ollie Weeks.
Ele me pediu para fotografá-lo e usá-lo como propaganda, durante uma semana. Foi esse o fim de minha falsa perspectiva. Ollie reconhecera minha pintura pelo que era em realidade, com isso, forçando-me a fazer o mesmo. Era uma peça perfeitamente válida, como espalhafatosa arte comercial. Nada mais. E, graças a Deus, nada menos.
Deixei que ele fizesse o que pretendia e então liguei para o tal executivo, em sua casa de San Luís Obispo. Falei que, se ainda quisesse a pintura, poderia tê-la, por dois mil e quinhentos. Ele a queria, e eu a despachei para a costa. A partir daí, aquela voz de decepcionada expectativa — aquela ludibriada voz infantil nunca satisfeita ante um adjetivo como bom — tem andado bastante silenciosa. E, exceto por alguns roncos — semelhantes aos sons daquelas criaturas invisíveis lá fora, em algum ponto dentro da noite — desde essa época, tal voz quase se calou. Talvez alguém me possa dizer — por que o silenciar daquela voz infantil e exigente se pareça tanto com agonizar?
Por volta de quatro horas, Billy acordou — parcialmente, pelo menos — e olhou em torno com olhos remelentos, cheios de visível incompreensão.
— Ainda estamos aqui?
— Sim, meu bem — respondi. — Ainda estamos.
Ele começou a chorar, com uma fraca impotência que era horrível. Amanda acordou e olhou para nós.
— Ei, garoto — disse ela, e o puxou delicadamente para si. — Tudo vai parecer um pouco melhor, quando a manhã chegar.
— Não — disse Billy. — Não vai. Não vai. Não vai!
— Psst! — disse ela. Seus olhos encontraram os meus, acima da cabeça dele. — Psst... Já está passando da sua hora de dormir.
— Eu quero a minha mãe!
— Claro que quer — disse Amanda. — Eu sei.
Billy remexeu-se em seu colo, até poder olhar para mim, o que ficou fazendo por algum tempo. Então, tornou a dormir.
— Obrigado — falei. — Ele precisava de você.
— Ele nem ao menos me conhece.
— Não faz diferença.
— O que você acha? — perguntou ela. Seus olhos verdes fixaram-se insistentemente nos meus. — O que acha, em realidade?
— Pergunte-me quando amanhecer.
— Estou perguntando agora.
Abri a boca para responder, mas então Ollie Weeks materializou-se da penumbra, como algo saído de um conto de horror. Tinha uma lanterna, com uma das blusas para senhoras cobrindo a lente, e apontava o facho para o teto. A luminosidade produzia sombras estranhas em seu rosto abatido.
— David — sussurrou.
Amanda olhou para ele, primeiro sobressaltada, depois novamente amedrontada.
— O que é, Ollie? — perguntei.
— David — ele tornou a sussurrar. Depois: — Venha. Por favor.
— Não quero deixar Billy. Ele acabou de adormecer.
— Eu ficarei com ele — ofereceu-se Amanda. — É melhor você ir. — Depois, em voz mais baixa: — Meu Deus, isto nunca vai terminar!
Acompanhei Ollie. Ele tomou a direção da área de estocagem. Ao passarmos junto à geladeira, apanhou uma cerveja.
— O que é, Ollie?
— Quero que você veja.
Empurrou as portas duplas e entramos. Elas deslizaram e se fecharam atrás de nós, com pequena agitação de ar. Estava frio. Eu não gostava daquele lugar, não depois do sucedido a Norm. Uma parte de minha mente insistia em recordar que ali ainda havia um pequeno pedaço de tentáculo morto, jazendo no chão, em algum lugar.
Ollie retirou a blusa que amortecia o facho da lanterna. Ele dirigiu a luz para o alto. A princípio, tive a impressão de que alguém pendurara dois manequins em um dos canos de aquecimento, correndo abaixo do teto. Achei que tinham sido pendurados em cordas de piano ou coisa assim, um truque de crianças, no Dia das Bruxas.
Então reparei nos pés, pendendo cerca de vinte centímetros acima do piso de cimento.
Havia duas pilhas de caixas de papelão derrubadas. Ergui os olhos para os dois rostos e um grito começou a brotar em minha garganta, porque aquelas não eram as faces dos bonecos de loja de departamentos. As duas cabeças estavam viradas para um lado, como se apreciassem alguma terrível e engraçada piada, uma piada que os fizera rir até ficarem arroxeados.
Suas sombras. Suas sombras encompridavam-se na parede atrás deles. Suas línguas. Suas línguas saltadas para fora.
Ambos usavam uniforme. Eram os rapazolas que eu percebera anteriormente e que não tornara a ver mais. Os rapazolas do exército, sediados em...
O grito. Eu podia ouvi-lo, começando em minha garganta como um gemido, crescendo como uma sirene policial, mas então Ollie aferrou meu braço, pouco acima do cotovelo.
— Não grite, David! Ninguém sabe disto, além de você e eu. E é assim que vai ficar.
De alguma forma, consegui conter-me.
— Aqueles garotos do exército — murmurei.
— Do Projeto Ponta de Flecha — disse Ollie. — Não há dúvida. — Algo frio me foi enfiado na mão. A lata de cerveja. — Beba isto. Está precisando.
Esvaziei a lata em um prolongado gole.
— Voltei aqui para ver se tínhamos cartuchos extras para aquela grelha a gás que o Sr. McVey esteve usando. Vi estes caras. Do jeito como imagino, devem ter preparado os laços e subiram para o alto dessas duas pilhas de caixas de papelão. Devem ter amarrado as mãos, um ao outro e então equilibraram-se, também um ao outro, enquanto passavam através da corda entre seus pulsos. Assim... assim ficariam com as mãos atrás deles, entenda. A seguir — é assim que imagino — enfiaram as cabeças nos laços e os apertaram com força. inclinando as cabeças para um lado. Talvez um deles contasse até três e pularam juntos. Eu não sei.
— Não poderia ser feito — falei, sentindo a boca seca.
Entretanto, as mãos dos dois estavam amarradas às costas de ambos, claro. Eu não conseguia afastar os olhos daquilo.
— Poderia. Se eles estivessem mesmo decididos, poderiam, David.
— Está bem, mas por quê?
— Acho que você sabe por quê. Não algum turista, os veranistas — gente como o tal Miller — mas há gente daqui que poderia fazer uma suposição muito decente.
— O Projeto Ponta de Flecha?
— Fico em pé junto àquelas registradoras o dia inteiro e ouço um bocado de coisas — disse Ollie. — Durante toda esta primavera andei ouvindo comentários sobre essa maldita coisa Ponta de Flecha, nenhum deles favorável. O gelo negro nos lagos...
Pensei em Bill Giosti, inclinado à janela de meu carro, bafejando álcool morno em meu rosto. Não apenas átomos, mas átomos diferentes. Agora, aqueles cadáveres pendendo dos canos suspensos. As cabeças ladeadas. Os sapatos pendentes. As línguas saltadas para fora, como salsichas de verão.
Com renovado horror, percebi que novas portas de percepção haviam sido abertas no interior. Novas? Nem tanto. Velhas portas de percepção. A percepção de uma criança que ainda não aprendeu a proteger-se, desenvolvendo a visão do túnel visual que impede o aparecimento de noventa por cento do universo. Crianças vêem tudo em que pousam os olhos, ouvem tudo dentro do alcance de sua audição. A vida, no entanto, se for uma elevação de consciência (como um trabalho principiante de tapeçaria que minha esposa fez, nas exposições do curso secundário), então também é a redução do túnel.
O terror é a dilatação da perspectiva e da percepção. O horror consistia em saber que eu nadava para um lugar que a maioria de nós abandonou, ao passarmos das fraldas para as calças à prova de urina. Eu podia discernir isto também no rosto de Ollie. Quando a racionalidade começa a desmoronar, os circuitos do cérebro humano podem ficar sobrecarregados. Axônios ficam brilhantes e febris. Alucinações tornam-se reais: a poça de azougue onde a perspectiva faz com que linhas paralelas pareçam encontrar-se, está realmente lá; os mortos caminham e falam; uma rosa começa a cantar.
— Ouvi comentários de umas duas dúzias de pessoas — disse Ollie. — Justine Robards. Nick Tochai. Ben Michaelson. Não se pode guardar segredos em cidades pequenas. As notícias se espalham. Às vezes, é como uma fonte — simplesmente borbulha acima da terra e ninguém faz idéia de onde veio a água. Ouve-se alguma coisa na biblioteca e passa-se adiante, como se pode ouvir na marina, em Harrison, e só Deus sabe mais aonde ou por quê. Contudo, durante toda a primavera, durante todo o verão, estive ouvindo falarem no Projeto Ponta de Flecha, Projeto Ponta de Flecha.
— Compreendo, Ollie, mas estes dois... Eram duas crianças!
— Em Nam, havia crianças que costumavam arrancar orelhas. Eu vi. Eu estive lá.
— Mas... o que os impeliria a fazer isto?
— Eu não sei. Talvez eles soubessem algo. Talvez apenas suspeitassem. Talvez percebessem que as pessoas aqui, eventualmente começariam a interrogá-los. Se houvesse um eventualmente.
— Se você estiver certo — falei — , deve ter sido algo realmente terrível.
— Aquela tempestade — disse Ollie, em sua voz suave e uniforme. — Talvez tenha desarranjado alguma coisa por lá. Talvez houvesse algum acidente. Eles bem poderiam estar lidando com alguma coisa. Certas pessoas dizem que trabalhavam com lasers e masers de alta intensidade. Às vezes, eu ouvia falar em energia de fusão. E suponhamos... suponhamos que eles tenham aberto um buraco, diretamente para outra dimensão?
— Ora, isso é tolice! — exclamei.
— Eles são? — perguntou Ollie, apontando para os corpos.
— Não. A questão agora é: o que faremos?
— Acho que devemos tirá-los daí e escondê-los — disse Ollie prontamente. Colocá-los debaixo de uma pilha de artigos que as pessoas não queiram — ração para cães, detergente para louças, coisas assim. Se isto vier a furo, só servirá para piorar a situação. Daí por que eu o chamei, David. Achei que era o único em quem podia confiar.
— Isto é como os criminosos de guerra nazistas, matando-se em suas celas, depois da guerra perdida — murmurei.
— Hã-hã. Foi o mesmo que pensei.
Caímos em silêncio e, de repente, aqueles suaves ruídos rastejantes começaram do outro lado da porta de aço, na área de estocagem de mercadorias — o som dos tentáculos tateando-a maciamente. Aproximamo-nos um do outro. Eu tinha a pele arrepiada.
— Está bem — falei.
— Faremos isso o mais depressa que pudermos — disse Ollie. Seu anel de safira cintilou opacamente, enquanto ele movia a lanterna. — Quero dar logo o fora daqui.
Ergui os olhos para as cordas. Eles haviam usado o mesmo tipo de cordel para varal de roupas que o homem do boné de golfe me permitira amarrar em torno de sua cintura. Os laços haviam penetrado na carne estufada de seus pescoços e tornei a perguntar-me como aqueles dois tinham conseguido ir adiante com aquilo. Eu compreendia o que Ollie quisera dizer, ao falar que se a notícia do duplo suicídio transpirasse, talvez a situação piorasse. Para mim, ela já piorara — e eu não acreditaria que fosse possível.
Houve um estalido metálico. Ollie abrira sua faca, uma boa e pesada ferramenta, própria para abrir caixas de papelão. E, naturalmente, cortar cordas.
— Eu ou você? — perguntou ele.
Engoli em seco.
— Um para cada — respondi.
Entregamo-nos à tarefa.
Quando voltei, Amanda não estava à vista e quem acompanhava Billy era a Sra. Turman. Ambos dormiam. Segui descendo por um dos corredores, quando ouvi uma voz:
— Sr. Drayton! David!
Era Amanda, em pé junto à escada para o escritório do gerente, seus olhos brilhando como esmeraldas.
— O que houve? — perguntou ela.
— Nada — respondi.
Ela aproximou-se e pude sentir um cheiro vago de perfume. E, oh, como a desejava!
— Seu mentiroso — disse ela.
— Não aconteceu nada. Foi um falso alarme.
— Se é assim que prefere... — Ela me tomou a mão. — Acabei de subir ao escritório. Está vazio e a porta tem chave.
Seu rosto era perfeitamente calmo, mas os olhos tremulavam, quase bravios, enquanto uma pulsação batia firmemente em sua garganta.
— Eu não...
— Vi a maneira como você olhou para mim — disse ela. — Não há necessidade de falarmos a respeito. Aquela Sra. Turman está com seu filho.
— Eu sei.
Ocorreu-me que aquele era um meio — talvez não o melhor, mas ainda assim, um meio — de afastar a maldição do que eu e Ollie havíamos acabado de fazer. Não o melhor meio, porém o único.
Subimos o estreito lance de escadas para o escritório. Estava vazio, conforme ela dissera. E havia uma chave na porta. Girei-a. Na escuridão, ela era apenas uma forma difusa. Estendi os braços, toquei-a e a puxei para mim. Estava trêmula. Fomos para o chão, primeiro ajoelhados, beijando-nos. Pus a mão em concha sobre um seio rijo e senti as fortes batidas de seu coração, através da camisa de atletismo. Pensei em Steff, dizendo a Billy para não ficar nos fios de eletricidade soltos. Pensei na equimose em sua coxa, quando ela tirou o vestido castanho, em nossa noite de núpcias. Pensei na primeira vez em que a vira, pedalando sua bicicleta pela rua de pedestres na Universidade do Maine, em Orono, quando me dirigia para uma das aulas de Vincent Hartgen, com meu portfólio debaixo do braço. E minha ereção era enorme.
Deitamo-nos, e ela disse:
— Ame-me, David. Faça com que me esquente.
Quando teve seu orgasmo, ela enterrou as unhas em minhas costas e me chamou por um nome que não era o meu. Não me importei. Isso nos deixava quites.
Ao descermos, iniciava-se uma espécie de vacilante alvorecer. A escuridão além das vigias passou relutantemente para um cinza opaco, depois para cromo, em seguida para o vivo, incorpóreo e opaco branco de uma tela de cinema drive-in. Mike Hatlen dormia em uma cadeira dobrável, arranjada em algum lugar. Dan Miller, sentado no chão a alguma distância, comia um biscoito Hostess. Do tipo polvilhado com açúcar cristal.
— Sente-se, Sr. Drayton — convidou.
Olhei em torno, procurando Amanda, mas ela já se distanciava, a meio caminho para o fim do corredor. Não olhou para trás. Nosso ato de amor no escuro já parecia algo extraído de uma fantasia, impossível de acreditar, mesmo naquele singular alvorecer.
Sentei-me.
— Pegue um biscoito — disse Miller, estendendo-me a caixa.
— Todo esse açúcar é morte certa. Pior do que cigarros.
Minhas palavras o fizeram rir um pouco.
— Sendo assim, pegue dois.
Fiquei surpreso ao constatar que ainda me sobrara um pouco de riso — Miller o fizera brotar e gostei dele por isso. Peguei dois de seus biscoitos. Tinham um excelente sabor.
Rematei-os com um cigarro, embora normalmente não tenha o hábito de fumar pela manhã.
— Preciso voltar para junto de meu garoto — falei. — Ele deve estar acordando.
Miller assentiu.
— Aqueles besouros rosados — disse ele. — Foram-se todos. Também as aves. Hank Vannerman disse que o último se chocou na vidraça por volta das quatro. Aparentemente, a... vida selvagem... fica muito mais ativa durante na escuridão.
— Não está querendo dizer isso a Brent Norton — falei. — Ou a Norm.
Ele tornou a assentir e ficou calado por um longo momento. Então, acendeu um cigarro de seu maço e olhou para mim.
— Não podemos ficar aqui, Drayton — disse.
— Há comida. E bastante bebida.
— Os suprimentos nada têm a ver com isso e sabe muito bem. O que faremos, se uma dessas feras maiores lá de fora resolver invadir o supermercado, em vez de apenas se chocar contra ele, durante a noite? Tentaremos expulsá-la a cabo de vassoura e fluido para isqueiro?
Claro que ele tinha razão. De certo modo, talvez o nevoeiro nos estivesse protegendo.
Escondendo-nos. Só que o esconderijo poderia não durar muito, e então... Havíamos permanecido no Federal umas dezoito horas, mais ou menos, e eu podia sentir uma espécie de letargia me invadindo, não muito diferente da que sentira uma ou duas vezes, ao tentar nadar uma distância muito grande. Havia uma urgência em ficar seguro, em continuar ali, cuidar de Billy (e talvez transar com Amanda Dumfries no meio da noite, murmurou uma voz), ver se o nevoeiro terminaria subindo e deixando tudo como estivera antes.
Eu podia perceber isto também nos outros rostos e, de repente, ocorreu-me que, no Federal, agora talvez houvesse pessoas que não sairiam dali, em hipótese alguma. A própria idéia de cruzarem a porta de saída, depois de tudo o que acontecera, bastaria para dissuadi-las.
Miller talvez estivesse vendo esses pensamentos me cruzarem o rosto.
— Quando este maldito nevoeiro chegou, havia umas oitenta pessoas aqui dentro. Desse número, subtraímos o rapaz embalador, Norton, as quatro pessoas que saíram com ele e aquele homem Smalley. Isso deixa setenta e três.
E subtraindo-se os dois soldados, agora repousando sob uma pilha de sacos de ração Purina para filhotes de cachorro, temos setenta e uma.
— Depois, subtraímos as que apenas optaram em sair — prosseguiu ele. — São dez ou doze. Dez, digamos. Ficamos com sessenta e três. Mas — ele ergueu um dedo sujo de açúcar — destas sessenta e três, temos cerca de vinte que não sairão. Terão que ser postas para fora a gritos e pontapés.
— O que prova tudo isso?
— Que temos de sair daqui, nada mais. Eu vou sair. Por volta do meio-dia, creio. Estou planejando levar comigo o maior número de pessoas que puder. Gostaria que você e o garoto também fossem.
— Depois do que aconteceu a Norton?
— Norton foi como uma ovelha para o matadouro. Isto não significa que o mesmo aconteça comigo ou com quem me acompanhar.
— E como o evitaria? Só temos uma arma.
— O que é uma sorte. Entretanto, se conseguirmos ir pelo cruzamento, talvez possamos chegar ao Sportsman's Exchange, na Main Street. Lá existem mais armas do que possa imaginar.
— Em tudo isso há "se" e "talvez" demais.
— Drayton — disse Miller, — esta é uma situação cheia de "se".
A frase lhe rolou maciamente da língua, mas ele não tinha que cuidar de um garotinho.
— Ouça, vamos dar um tempo, está bem? Não dormi muito esta noite, mas pude refletir em algumas coisinhas. Quer ouvi-las?
— Claro.
Ele ficou em pé e espreguiçou-se.
— Façamos uma caminhada até as vidraças.
Passamos pela alameda da caixa-registradora mais próxima das gôndolas para pães e paramos diante de uma das vigias. O homem de guarda ali, informou:
— Os besouros foram embora.
Miller deu-lhe uma palmada nas costas.
— Vá tomar um café, companheiro. Eu fico em seu lugar.
— Está bem. Obrigado.
O homem afastou-se. Eu e Miller ficamos em sua vigia.
— Agora, diga-me o que vê lá fora — falou ele.
Eu espiei. O recipiente para lixo fora derrubado durante a noite, provavelmente por alguma daquelas rapinantes coisas-ave, espalhando uma confusão de papéis, latas e copos de papelão da lanchonete por todo o piso alcatroado. Além disso, eu podia ver a fila de carros mais próximos do supermercado, dissolvendo-se em brancura. Era tudo quanto enxergava, e foi o que disse a ele.
— Aquela pickup Chevrolet azul é minha — disse Miller. Apontou e vi apenas uma sombra azulada no nevoeiro. — Entretanto, deve lembrar que ontem, quando estacionou, o pátio estava apinhado, não?
Tornei a olhar para meu Scout e recordei que só conseguira o espaço próximo ao supermercado, porque alguém mais saía com seu carro. Assenti, e Miller disse:
— Agora, some algo mais a esse fato, Drayton. Norton e seus quatro... como é mesmo que os chamou?
— Terrestres Estagnados.
— Exato, perfeito. Eles não eram outra coisa. Deixaram o supermercado, certo?
Avançaram por quase o comprimento total daquela linha para varal de roupas. Então, ouvimos os rugidos, como se lá fora houvesse uma manada de elefantes. Certo?
— Não soava como elefantes — falei. — Soava como...
Como algo vindo do pântano primordial, foi a frase que me veio à mente, mas eu não queria dizer isso a Miller, não depois de haver batido nas costas daquele sujeito e dizer-lhe para ir tomar café, como um treinador dispensando um jogador da grande partida.
Eu poderia ter dito isso a Ollie, mas não a Miller.
— Não sei o que parecia — completei, desanimado.
— Certo, mas dava a impressão de algo grande.
— Sim.
A coisa dera realmente a impressão de algo muito grande.
— Pois então, como é que não ouvimos carros sendo sacolejados? Nem metal rangendo? Vidros se quebrando?
— Bem, foi porque... — Interrompi-me. Ele me pegara. — Não sei!
— De qualquer modo — disse Miller — as coisas estavam lá fora, no pátio de estacionamento, quando sei-lá-o-que as atingiu. Eu lhe direi o que penso. Penso que não ouvimos nenhum carro sendo danificado, porque um bocado dessas coisas já podia ter-se acabado. Apenas isso... acabado! Penetrado na terra, evaporado, seja o que for.
Alguma coisa forte o suficiente para estilhaçar estas vigas, modificar-lhes o formato e derrubar artigos das prateleiras. E o apito da cidade parou ao mesmo tempo.
Eu tentava visualizar metade do pátio de estacionamento como desaparecida. Procurava visualizar uma caminhada lá fora e deparar com um recente desnível na terra onde estivera o piso do pátio, com suas vagas de estacionamento demarcadas em ordenadas linhas amarelas. Um desnível, uma ondulação... ou talvez um precipício sem fim, cavado em meio ao branco e inconsistente nevoeiro...
— Se você estiver certo — falei, após uns dois segundos — até onde acha que conseguiria ir em sua pickup?
— Eu não pensava nela, mas em seu carro de tração nas quatro rodas.
Aquilo era algo para digerir, porém não agora.
— O que mais tem em mente?
Miller estava ansioso em prosseguir.
— O que tenho em mente é a farmácia ao lado. O que acha?
Abri a boca para dizer que não atinava aonde ele queria chegar, mas depois a fechei de súbito. A Farmácia Bridgton estava em atividade, ao chegarmos ali na véspera. Não a parte de lavanderia automática, mas a drugstore estivera de portas escancaradas para deixar entrar um pouco de ar fresco, aquelas portas com retentores de borracha — a falta de energia evidentemente os deixara sem ar condicionado. A entrada para a farmácia não devia ficar a mais de seis metros das portas do supermercado Federal. Então, por que...
— Por que ninguém de lá apareceu aqui? — perguntou-me Miller. — Foram dezoito horas, não? Será que não sentiram fome? Seguramente, não se alimentariam com pílulas e supositórios.
— Lá também há alimentos — respondi. — Eles estão sempre vendendo comestíveis especiais. Às vezes, biscoitos em forma de animais, quando não, tortas crocantes, todos os tipos de coisas. Além disso, há o balcão dos doces.
— Não creio que se enchessem dessas coisas, quando aqui há tudo que se procure para comer.
— Aonde quer chegar?
— Minha idéia é de que pretendo sair daqui, mas sem servir de jantar para algum fugitivo de um filme de terror. Quatro ou cinco de nós poderiam ir até lá, verificar o que aconteceu na drugstore. Uma espécie de balão de ensaio.
— Isso é tudo?
— Não. Há mais uma coisa.
— O quê?
— Ela — disse Miller apenas, e apontou o polegar para um dos corredores centrais. — Aquela cadela nojenta. Aquela feiticeira.
Era para a Sra. Carmody que ele apontara o polegar. Ela não estava mais sozinha; agora tinha a companhia de duas mulheres. Por suas roupas vistosas, deduzi que deviam ser turistas ou veranistas, senhoras que haviam saído de casa para "apenas ir até a cidade, comprar algumas coisas" e agora estavam cheias de preocupação com os maridos e filhos. Senhoras ansiosas para agarrar-se a qualquer apoio. Talvez, até mesmo o sombrio consolo propiciado pela Sra. Carmody.
O terninho dela destacava-se com o mesmo resplendor maligno. Ela falava, gesticulava, o rosto duro e taciturno. As duas senhoras de roupas vistosas (não tanto quanto a da Sra. Carmody, nada disso, e sua gigantesca sacola-bolsa, ainda firmemente presa debaixo de um braço pastoso) a ouviam com enlevo.
— Ela é outro motivo que me faz querer sair daqui, Drayton. Chegada a noite, essa bruxa terá seis pessoas ao seu lado: Se aqueles besouros cor-de-rosa e os pássaros voltarem esta noite, amanhã cedo ela estará liderando um bom grupo. Então, é hora de nos preocuparmos sobre quem essa mulher apontará aos outros para ser sacrificado, a fim de que a situação melhore. Talvez eu; você ou aquele sujeito Haden. Talvez seu garoto.
— Isso é idiotice — falei.
Seria mesmo? O arrepio gelado subindo por minhas costas, dizia que não necessariamente. A boca da Sra. Carmody se movia sem parar. Os olhos das senhoras turistas estavam fixos em seus lábios franzidos. Seria realmente idiotice? Pensei nos poeirentos animais empalhados bebendo em seu riacho espelhado. A Sra. Carmody tinha poder. A própria Steff, normalmente teimosa e firme de opiniões, invocava o nome daquela velha com desassossego.
Aquela cadela nojenta, assim Miller a chamara. Aquela feiticeira.
— Neste supermercado, as pessoas estão vivendo uma experiência neurótica, sem dúvida — disse Miller. Fez um gesto para as vigas pintadas de vermelho, emoldurando os segmentos de vidraças... torcidas, estilhaçadas e fora do alinhamento. — Suas mentes provavelmente estão como essas vigas. A minha está também, droga. Passei metade desta noite pensando que talvez tivesse ficado biruta, que provavelmente vestia uma camisa de força, em Danvers, a cabeça povoada de besouros, aves dinossauros e tentáculos, mas que tudo acabaria, assim que o atencioso enfermeiro aparecesse, para injetar-me uma dose de Thorazine no braço. — Seu rosto miúdo estava tenso e pálido. Ele olhou para a Sra. Carmody e depois tornou a encarar-me. — Eu lhe digo que isso poderia acontecer. À medida que as pessoas forem fraquejando, essa mulher cada vez parecerá melhor para algumas delas. E não quero estar por perto, quando isso acontecer.
Os lábios da Sra. Carmody continuavam a mover-se. A língua dançava em torno dos dentes desiguais da velha. Ela parecia uma bruxa. Com um chapéu pontudo na cabeça, ficaria perfeita. O que estaria dizendo aos seus dois pássaros capturados, vestidos de viva plumagem de verão?
Projeto Ponta de Flecha? Primavera Negra? Abominações das entranhas da terra? Sacrifício humano?
Cascata.
Dava tudo no mesmo...
— E então, o que me diz?
— A idéia é boa— respondi. — Tentaremos chegar até a farmácia. Eu, você, Ollie, caso ele queira ir, mais uma ou duas pessoas. Então, voltaremos a discutir o assunto.
Mesmo isso, dava-me a sensação de caminhar para fora sobre uma viga estreita, em direção a uma queda impossível. Matar-me, nenhum bem faria a Billy. Por outro lado, em nada o ajudaria ficando ali sentado. Seis metros até a drugstoe. Não era assim tão ruim.
— Quando? — perguntou ele.
— Dê-me uma hora.
— Certo — disse Miller
Contei à Sra. Turman, contei a Amanda e depois contei a Billy. Ele parecia melhor esta manhã: havia comido dois biscoitos e uma tijela de Special K para desjejum. Em seguida, apostei corrida com ele, indo e vindo por dois dos corredores, chegando mesmo a fazê-lo rir um pouco. Crianças são tão adaptáveis, que às vezes chegam a assustar-nos.
Ele estava muito pálido, a carne por sob os olhos ainda aparecia inchada das lágrimas vertidas à noite e o rosto tinha uma horrível expressão de desgastado. De certa maneira, ficara parecendo o rosto de um velho, como se uma carga demasiada de grande voltagem emocional houvesse corrido sob ele, por um período exagerado. Contudo, continuava vivo e ainda capaz de rir... pelo menos, até recordar onde estava e o que acontecera.
Depois dos exercícios de aquecimento, sentamo-nos com Amanda e Hattis Turman. Bebemos Gatorade em xícaras de papel e contei a ele que ia até a drugstore, com mais algumas pessoas.
— Não quero que você vá — disse Billy imediatamente, com o rosto ensombrecendo.
— Vai dar tudo certo, Grande Bill. Eu lhe trarei uma revistinha do "Homem Aranha".
— Eu quero que você fique aqui.
Seu rosto agora não estava apenas sombrio, mas carregado. Tomei-lhe a mão. Ele a puxou. Tornei a pegá-la.
— Ouça, Billy. Temos que sair daqui, mais cedo ou mais tarde. Você entende isso, não entende?
— Quando o nevoeiro for embora...
Ele falou sem a menor convicção. Bebeu seu Gatorade, mas não pareceu aliviado.
— Até agora, ficamos quase um dia inteiro aqui, Billy.
— Eu quero mamãe!
— Bem, talvez este seja o primeiro passo, a fim de você voltar para ela.
— Não encha o garoto de esperanças, David — disse a Sra. Turman.
— Ora, que diabo! — bufei para ela. — O menino precisa ter esperanças em alguma coisa!
Ela baixou os olhos.
— Sim. Acho que precisa.
Billy pareceu não perceber a troca de palavras.
— Papai... Papai, lá fora há coisas. Coisas.
— Nós sabemos disso, Billy, mas muitas delas — não todas, mas muitas parecem chegar só quando é noite.
— Elas estão esperando — disse ele. Seus olhos estavam dilatados, fixos nos meus. — Ficam esperando no novoeiro... e quando a gente não pode voltar para cá, elas comem a gente. Como nas histórias de fadas. — Ele se apertou contra mim, com uma força selvagem, cheia de pânico. — Por favor, papai, não vá!
Afastei-lhe os braços, o mais delicadamente que pude e lhe disse que tinha de ir.
— Eu vou, mas voltarei, Billy.
— Está bem — disse foscamente, mas não tornou a olhar para mim.
Billy não acreditava que eu voltaria. Estava escrito em seu rosto, agora não mais carregado, porém infeliz e pesaroso. Perguntei-me outra vez se estaria fazendo a coisa certa, ao colocar-me em risco. Então, aconteceu-me olhar para o fim do corredor central e vi a Sra. Carmody. Ela conquistara um terceiro ouvinte, um homem de barba grisalha despontando no rosto, de olhos inquietos e injetados de sangue. Seu rosto desfigurado e as mãos trêmulas, quase gritavam a palavra ressaca. Era nada mais, nada menos, do que o nosso amigo Myron La Fleur. O sujeito que não sentira o menor remorso ao enviar um rapazola para fazer o serviço de um homem.
Aquela cadela louca. Aquela feiticeira.
Beijei Billy e o abracei com força. Depois caminhei para a parte frontal do supermercado — mas não pelo corredor dos utensílios domésticos. Não queria passar sob os olhos dela.
Havia feito três quartos do trajeto, quando Amanda emparelhou comigo.
— Tem mesmo que fazer isto? — perguntou ela.
— Sim, acho que tenho.
— Perdoe-me se lhe digo isto, mas o que está pretendendo me parece pura tolice machista.
Havia manchas ruborizadas no alto de suas faces e seus olhos estavam mais verdes do que nunca. Ela estava altamente — não, regiamente — irritada.
Peguei-lhe o braço e repeti minha discussão com Dan Miller. O enigma dos carros e o fato de ninguém da farmácia se ter juntado a nós, não a impressionaram muito. Foi a história sobre a Sra. Carmody que a convenceu.
— Ele talvez estivesse certo — falou.
— Acredita realmente nisso?
— Não sei... Aquela mulher irradia uma sensação de veneno. E se pessoas estiverem apavoradas pelo tempo suficiente, apegar-se-ão a quem quer que lhes prometa uma solução.
— Certo, mas... sacrifício humano, Amanda?
— Os astecas faziam isso — declarou ela calmamente. — Ouça, David. Você tem que voltar. Se alguma coisa acontecer... qualquer coisa... volte para cá. Dê meia volta e venha correndo. Não para mim — o que aconteceu esta noite foi bonito, mas isso foi à noite passada. Volte para seu garoto.
— Sim, eu voltarei.
— É o que espero — disse ela, e agora tinha a aparência de Billy, infeliz e envelhecida.
Ocorreu-me que a maioria de nós devia ter tal aparência. Menos a Sra. Carmody. Ela parecia de algum modo mais jovem e mais vital. E se conseguisse levar a melhor...
Aliás, era como se já conseguira. Como se... estivesse alimentando-se daquilo.
Só às 9:30 da manhã é que nos pusemos a caminho. Éramos sete: Ollie, Dan Miller, Mike Hatlen, o anterior amigo de Myron LaFleur, Jim (também de ressaca, mas parecendo determinado a encontrar algum meio de expiar sua falta), Buddy Eagleton e eu. O sétimo membro era Hilda Reppler. Miller e Hatlen fizeram o possível para que ela desistisse de ir. Nada tinha a ver com aquilo. Eu nem ao menos tentei. Desconfiava que Hilda Reppler podia ser mais competente do que qualquer de nós, talvez com exceção de Ollie. Ela carregava uma pequena sacola de lona para compras, lotada com um arsenal de Raid e Black Flag, em latas de spray, todas já sem as tampas e prontas para entrar em ação. Na mão livre, empunhava uma raquete de tênis, retirada de uma mostra de artigos esportivos, no Corredor 2.
— O que vai fazer com isso, Sra. Reppler? — perguntou Jim.
— Não sei — respondeu ela. Tinha uma voz grave, de som irritante e cheia de decisão — mas parece adequada em minha mão. — Encarou-o mais de perto e seu olhar era frio. — Jim Grondin, não é? Por acaso, não foi aluno meu?
Os lábios de Jim estiraram-se em um sorriso desajeitado, como se estivesse chupando um ovo.
— Sim, senhora. Eu e minha irmã Pauline.
— Bebeu muito esta noite?
Muito mais alto do que ela e provavelmente pesando uns cinqüenta quilos mais, Jim ficou vermelho até a raiz de seus cabelos cortados à Legião Americana.
— Há... hum... não...
Ela se virou bruscamente, interrompendo-o.
— Penso que estamos prontos — declarou.
Todos nós levávamos alguma coisa, embora qualquer um pudesse considerar aquilo um curioso sortimento de armas. Ollie tinha a arma de Amanda, Buddy Eagleton uma alavanca, apanhada em algum lugar nos fundos do supermercado, e eu um cabo de vassoura.
— Muito bem! — exclamou Miller, levantando a voz. — Ei, pessoal, vocês querem me ouvir por um minuto?
Umas doze pessoas tinham vagado até a porta SAÍDA, querendo ver o que acontecia.
Formavam um grupo disperso e, à sua direita, vimos a Sra. Carmody com seus novos amigos.
— Pretendemos ir até a drugstore, ver como anda a situação por lá. De passagem, queremos trazer algo da farmácia para ajudar a Sra. Clapham.
Era a senhora que tinha sido pisoteada na véspera, quando da chegada dos besouros.
Havia fraturado uma perna e sentia dores intensas. Miller passou os olhos por nós.
— Não queremos correr riscos — disse. — Ao primeiro sinal de algo ameaçador, viremos correndo de volta ao supermercado...
— E atraindo todos os demônios do inferno sobre as nossas cabeças! — gritou a Sra. Carmody.
— Ela tem razão! — secundou uma das veranistas. — Vocês farão com que eles nos percebam! Farão com que eles venham para cá! Por que têm de intrometer-se sem necessidade?
Houve um murmúrio de assentimento, por parte de alguns dos que se haviam reunido para ver nossa saída.
— Deseja mesmo que não nos intrometamos, senhora? — perguntei.
Ela baixou os olhos, confusa. A Sra. Carmody deu um passo à frente. Seus olhos chispavam.
— Você morrerá lá fora, David Drayton! Está querendo deixar seu filho órfão?
Erguendo o rosto, ela nos fustigou com os olhos. Buddy Eagleton olhou para baixo e, ao mesmo tempo, ergueu sua alavanca, como se quisesse atacá-la.
— Todos vocês morrerão lá fora! Não perceberam que chegou o fim do mundo? O Demo foi solto! A Estrela da Desgraça chameja, e cada um que pisar fora dessa porta, será feito em pedaços! Então, eles virão em busca dos que sobraram, justamente como disse esta boa mulher! E vocês vão deixar que isso aconteça? Ela agora apelava para os espectadores, e um leve murmúrio correu entre eles. Depois do que aconteceu ontem aos incrédulos? Isto é a morte! É a morte! É a...
Uma lata de ervilhas voou subitamente através dos corredores das caixas registradoras e atingiu a Sra. Carmody no seio direito. Ela cambaleou para trás, com um guincho assustado. Amanda adiantou-se.
— Cale a boca! — disse. — Cale a boca, sua coruja miserável!
— Ela está a serviço do Abominável! — bradou a Sra. Carmody. Um sorriso torto bailou em seu rosto. — Com quem dormiu esta noite, senhora? Com quem se deitou esta noite?
A Mãe Carmody enxerga, oh, sim, ela enxerga o que os outros não vêem!
Não obstante, o momento de fascínio que ela criara se tinha quebrado, e os olhos de Amanda permaneceram firmes.
— Vamos andando ou querem ficar aqui o dia inteiro? — perguntou a Sra. Reppler.
E nós fomos. Que Deus nos ajude, mas fomos.
Dan Miller seguia à frente. Ollie era o segundo e eu encerrava a fila, com a Sra. Reppler à minha frente. Acho que nunca senti tanto medo na vida, e a mão firmemente apertada em torno de meu cabo de vassoura estava escorregadia de suor.
Senti aquele cheiro acre e difuso do nevoeiro, um odor antinatural. Quando chegou a minha vez de passar pela porta, Miller e Ollie já se tinham dissolvido no fog, e Hatlen, que era o terceiro, mal podia ser vislumbrado.
Apenas seis metros, repetia para mim mesmo. Apenas seis metros.
A Sra. Reppler caminhava devagar e firmemente diante de mim, com sua raquete de tênis oscilando de leve na mão direita. À nossa esquerda, havia uma parede vermelha de blocos de concreto. À direita, a primeira fila de carros, esboçando-se no nevoeiro como navios fantasmas. Outro depósito de lixo materializou-se naquela brancura e, mais além, ficava um banco onde, às vezes, as pessoas costumavam esperar pela vez de falar em um telefone público. Apenas seis metros, provavelmente Miller já até chegou lá e seis metros são apenas dez ou doze passos, de modo que...
— Oh, meu Deus! — gritou Miller. — Oh, meu Deus do céu, vejam só isto!
Miller havia chegado lá, claro.
Buddy Eagleton estava à frente da Sra. Reppler e se virou para correr, com olhos esbugalhados e brilhantes. Ela lhe deu uma leve estocada no peito com sua raquete de tênis.
— Aonde você pensa que vai? — perguntou, em sua voz rouca e ligeiramente irritante.
Esse foi todo o pânico que houve. Os restantes de nós se juntaram em torno de Miller.
Dei uma espiada sobre o ombro e vi o Federal sendo engolido pelo nevoeiro.
A parede vermelha de concreto desbotara para um leve tom rosado, depois desapareceu por completo, provavelmente a quatro metros e pouco da Farmácia Bridgton, ao lado da porta SAÍDA. Senti-me mais isolado, mais simplesmente só, do que jamais na vida. Era como se houvesse perdido o útero materno.
A farmácia havia sido palco de uma carnificina.
Eu e Miller, naturalmente, estávamos bem perto daquele cenário — praticamente em cima dele. Todas as coisas no nevoeiro operavam primeriamente pelo sentido do olfato. E não podia ser de outro modo. A visão teria sido quase sem a menor utilidade para elas. A audição funcionava algo melhor mas, como falei, o nevoeiro tinha um meio de confundira acústica, fazendo com que um som próximo parecesse distante e — por vezes — que o distante parecesse perto. As coisas no nevoeiro seguiam seu sentido mais acurado.
Seguiam os próprios narizes.
Nós, os do supermercado, tínhamos sido salvos mais pela falta de energia elétrica, do que por qualquer outra coisa. As portas operadas pelo olho elétrico não funcionavam.
Em certo sentido, o supermercado estivera hermeticamente selado, quando da chegada do nevoeiro. As portas da farmácia, no entanto... estavam escancaradas. O corte da energia acabara com o seu ar condicionado, de maneira que eles haviam aberto as portas, para que uma brisa penetrasse. Só que, algo mais também penetrara lá.
Um homem de camiseta castanha jazia de bruços na soleira. De início, pensei que a camiseta fosse castanha, mas então vi algumas partes brancas na parte inferior e compreendi que, uma vez, toda ela fora branca. O castanho era sangue seco. Havia outra coisa mais errada com ele, algo que fiquei remoendo mentalmente. Mesmo quando Buddy Eagleton se virou e vomitou ruidosamente, não percebi o que era. Creio que quando uma coisa como aquela... quando finalmente acontece a alguém, nossa mente a rejeita inicialmente... a menos que estejamos em uma guerra.
A cabeça dele se fora, era isso. As pernas estavam estiradas para dentro da farmácia e a cabeça deveria descambar para fora, pendendo sobre o degrau inferior. Só que não havia cabeça.
Jim Grondin já tivera o suficiente. Deu meia volta, com a mão tapando a boca, os olhos injetados postos loucamente nos meus. Depois, aos tropeções, tomou a direção do supermercado.
Os outros não deram por isso. Miller já havia entrado e Mike Hatlen o seguiu. A Sra. Reppler se postou ao lado das portas duplas, empunhando sua raquete de tênis. Ollie tomou posição no outro lado, com a arma de Amanda em punho, apontada para o piso.
— Acho que estou perdendo toda esperança, David — disse ele, em voz comedida.
Buddy Eagleton apoiava-se fracamente no balcão no telefone público, como alguém que acabou de receber más notícias de casa. Seus ombros largos sacudiam-se com a força de seus soluços.
— Não nos exclua por enquanto — falei para Ollie.
Cruzei a porta. Não queria entrar lá, mas havia prometido uma revista de histórias em quadrinhos a meu filho.
A Farmácia Bridgton era um pandemônio. Havia livros e revistas jogados por toda parte. Vi uma revista do Homem Aranha e outra do Incrível Hulk quase aos meus pés; sem pensar, apanhei-as e enfiei-as no bolso traseiro da calça para Billy. Vidros e caixas espalhavam-se pelos corredores. Uma mão pendia de uma prateleira.
Fui invadido por um senso total de irrealidade. Os destroços... a carnificina já eram ruim o suficiente. Contudo, o local também dava a impressão de ter sido o cenário de alguma festa de loucos. Ali havia pendentes e festões que, a princípio, tomei por guirlandas.
Contudo, não eram largos e chatos, porém mais semelhantes a barbantes muito grossos ou cabos muito finos. Ocorreu-me que eram quase do mesmo branco brilhante que o próprio nevoeiro, e então um calafrio gelado me subiu pela espinha. Aquilo não era papel crepom. O quê era aquilo que pendia no ar, oscilando em alguns daqueles fios.
Mike Hatlen cutucava uma estranha coisa negra com um pé. Era comprida e eriçada.
— Que merda é esta? — perguntou, a ninguém em particular.
De repente, eu soube. Soube o que havia matado todos os que não haviam tido sorte suficiente, por estarem na farmácia quando o nevoeiro chegou. Pessoas com azar bastante para serem farejadas. Fora...
— Para fora! — falei. Minha garganta estava completamente seca e as duas palavras saíram como uma bala coberta de fiapos. — Para fora daqui! Vamos!
Ollie olhou para mim.
— David...?
— São teias de aranha — falei.
Então, dois gritos brotaram do nevoeiro. O primeiro, talvez de medo. O segundo, de dor.
Era Jim. Se houvesse débitos a pagar, ele os estava saldando.
— Saiam! — gritei para Mike e Dan Miller.
Foi quando algo se desenrolou do nevoeiro. Era impossível distingui-lo contra o fundo branco, mas eu podia ouvi-lo. Soava como um chicote de couro, desenrolando-se sem muita pressa. Depois pude vê-lo, quando se enrolou em torno da coxa dos jeans de Buddy Eagleton.
Ele gritou e agarrou a primeira coisa ao alcance, que aconteceu ser o telefone. O receptor estirou-se em todo o comprimento do fio, depois ficou balançando de um lado para outro.
— Oh, Deus, isso DOI! — gritou Buddy.
Ollie agarrou-o e eu vi o que acontecia. No mesmo instante, compreendi por que o homem caído na soleira estava sem a cabeça. O fino cabo brando que se torcia em volta da perna de Buddy, como uma corda de seda, estava afundando em sua carne. A perna de seu jeans fora cortada perfeitamente e agora lhe escorregava perna abaixo. Uma nítida incisão circular em sua carne estava orlada de sangue, à medida que o cabo se aprofundava.
Ollie o puxou com força. Houve um vago som de estalido e Buddy ficou livre. Seus lábios haviam ficado azuis com o choque.
Mike e Dan vinham chegando, porém lentos demais. Então, Dan colidiu contra vários fios pendurados e ficou preso, exatamente como um besouro em um papel pega-moscas.
Libertou-se com um tremendo safanão, deixando um pedaço de sua camisa pendurado nas teias.
De repente, todo o ar se encheu com aqueles estalos langorosos de chicotadas, e os finos cabos brancos vagavam para baixo, em torno de todos nós. Eram cobertos com a mesma substância corrosiva. Esquivei-me a dois deles, mais por sorte, do que por outra coisa.
Um caiu aos meus pés e ouvi um fraco chiado do piso se queimando. Outro flutuou no ar e, calmamente, a Sra. Reppler esgrimiu sua raquete de tênis contra ele. O entrançado ficou preso. Ouvi um agudo tuing! tuing! tuing! quando o corrosivo devorou os fios da rede trançada, arrebentando-os. Soava como se alguém tangesse rapidamente as cordas de um violino. Um momento mais tarde, um fino cabo enrolou-se em torno do punho da raquete e ela foi atirada dentro do nevoeiro.
— Para trás! — gritou Ollie.
Começamos a mover-nos. Ollie tinha um braço em torno de Buddy. Dan Miller e Mike Hatlen ladeavam a Sra. Reppler. Os fios brancos de teia continuavam a esvoaçar do nevoeiro, praticamente invisíveis, só sendo distinguidos contra o fundo vermelho de concreto.
Um deles enrolou-se em torno do braço esquerdo de Mike Hatlen. Outro saltou em volta de seu pescoço, com uma série de rápidos estalidos no ar. Sua jugular se abriu, em brusca e esguichada explosão, e ele foi arrastado, com a cabeça pendurada. Um de seus tênis lhe saiu do pé e caiu de lado.
Buddy escorregou repentinamente para diante, quase derrubando Ollie de joelhos.
— Ele desmaiou, David! Ajude-me!
Agarrei Buddy pela cintura e o puxamos, os dois juntos, de maneira desajeitada, aos tropeções. Mesmo inconsciente, Buddy ainda se mantinha aferrado à sua alavanca. A perna que o fio de teia de aranha envolvera, pendia de seu corpo em um ângulo esquisito. A Sra. Reppler se virara.
— Cuidado! — gritou, em sua voz enferrujada. — Atrás de vocês! Cuidado!
Quando comecei a me virar, um daqueles fios flutuou acima da cabeça de Dan Miller, depois a alcançou. Ele usou as mãos para agarrá-lo e arrancá-lo.
Uma das aranhas saíra do nevoeiro, às nossas costas. Era do tamanho de um cão de grande porte, negra, com filetes amarelos. Uniforme de jóquei, pensei doidamente. Seus olhos eram vermelhos-púrpura, como romãs. Ela trotou diligentemente em nossa direção, sobre o que seriam doze ou quatorze pernas de inúmeras articulações — não era uma vulgar aranha terráquea, amplificada para o tamanho visto em filmes de terror; era algo inteiramente diverso, talvez nem fosse mesmo uma aranha. Se a visse, Mike Hatlen teria compreendido o que era a coisa negra e eriçada que estivera cutucando na farmácia.
Ela se aproximou de nós, fiando sua teia de um orifício ovalado na parte superior do corpo. Os fios flutuaram em nossa direção, em formato quase de leque. Olhando para aquele pesadelo, tão semelhante às fatais aranhas negras que ruminavam sobre suas moscas e insetos mortos, nas sombras de nossa casa de barcos, senti minha mente tentando soltar-se completamente de seus ancoradouros. Agora, acredito que somente o pensamento em Billy me permitia manter qualquer semelhança de lucidez. Eu emitia sons. Ria. Chorava. Gritava. Eu não sei.
Ollie Weekes, no entanto, era como uma rocha. Ergueu a arma de Amanda, tão calmamente como se estivesse em uma cabine de tiro ao alvo, esvaziando-a em tiros espaçados contra a criatura, à queima-roupa. Seja qual for o inferno de onde ela viera, não era invulnerável. Uma seiva negra esguichou de seu corpo e ela soltou um terrível som miado, tão baixo, que era mais sentido do que ouvido, como uma nota grave de um sintetizador. Depois, deslizou de volta ao nevoeiro e desapareceu. Poderia ter sido um fantasma, de um terrível sonho drogado... exceto pelas poças de pegajosa matéria negra que deixara para trás.
Houve um som metálico, quando Buddy finalmente deixou sua alavanca de aço cair ao solo.
— Ele está morto — disse Ollie. — Largue-o, David. A maldita coisa acertou-lhe a artéria femural e ele morreu. Vamos dar o fora daqui, já!
Seu rosto era novamente uma máscara de suor escorrendo e os olhos salientavam-se no enorme rosto redondo. Um dos fios de teia flutuou e caiu sem dificuldade nas costas de sua mão. Ollie girou o braço, partindo-o. O fio deixou um risco sanguinolento em sua pele.
— Cuidado! — tornou a gritar a Sra. Reppler.
Nós nos viramos para ela. Outro daqueles bichos saíra do nevoeiro e envolvera as pernas em torno de Dan Miller, em um louco abraço de amante. Miller lutava com ele a socos. Quando me abaixei e apanhei a alavanca de Buddy, a aranha começara a envolver Dan Miller em sua teia mortal. Os esforços dele se tornaram hercúleos, uma saltitante dança mortal.
A Sra. Reppler caminhou para a aranha, com uma lata de repelente de insetos Black Flag na mão espichada. A aranha estendeu as pernas para ela. A Sra. Reppler apertou o botão e uma nuvem do produto esguichou em um de seus olhos cintilantes, semelhante a uma pedra preciosa. Aquele miado em nota grave soou novamente. A aranha pareceu estremecer de alto a baixo e começou a recuar, suas patas peludas arranhando o pavimento. Arrastou o corpo de Dan atrás de si, aos trambolhões. A Sra. Reppler jogou a lata de repelente contra ela. A lata bateu no corpo da aranha, ricocheteou e caiu ao solo. O bicharoco tropeçou no lado de um pequeno carro esporte, com força suficiente para fazê-lo oscilar sobre suas molas, em seguida desaparecendo.
Cheguei até a Sra. Reppler, que mal se mantinha sobre os pés, mortalmente pálida.
Passei o braço em torno dela.
— Obrigada, meu rapaz — disse. — Sinto-me um pouco fraca.
— Está tudo bem — falei em voz rouca.
— Eu o salvaria, se pudesse.
— Eu sei disso.
Ollie se juntou a nós. Corremos para as portas do supermercado, em meio àqueles fios que caíam à nossa volta. Um deles encontrou a bolsa de compras da Sra. Reppler e afundou na lateral de lona. Ela se aferrou carrancudamente ao que lhe pertencia, puxando pela alça com as duas mãos, mas não teve êxito. A bolsa escapou-lhe dos dedos e foi arrastada para o nevoeiro, aos trancos e barrancos, lá desaparecendo.
Quando alcançamos a porta ENTRADA, uma aranha menor, mais ou menos do tamanho de um filhote de cocker spaniel, escapou do meio do nevoeiro, ao longo do lado do prédio. Não produzia teia nenhuma; talvez ainda não fosse madura o suficiente para isso.
Enquanto Ollie inclinava um ombro musculoso contra a porta, para que a Sra. Reppler pudesse entrar, atirei a barra de aço contra a coisa, à maneira de um dardo, empalando-a.
Ela se contorceu desvairadamente, as pernas agitando-se no ar, os olhos vermelhos encontrando os meus, como se me marcassem...
— David! — gritou Ollie, ainda mantendo a porta entreaberta.
Corri para lá e entrei. Ele me seguiu.
Rostos pálidos e amedrontados olharam para nós. Éramos sete na ida. Três apenas voltavam. Ollie recostou-se contra a pesada porta de vidro, o tórax imenso arfando.
Começou a recarregar a arma de Amanda. Sua camisa branca de assistente do gerente se colara ao corpo e grandes manchas acinzentadas de suor espalhavam-se debaixo de seus braços.
— E então? — perguntou alguém, em voz grave e rouca.
— Aranhas — respondeu a Sra. Reppler, carrancuda. — As bastardas nojentas levaram minha sacola de compras.
Então, Billy correu para meus braços, chorando. Levantei-o no colo e o abracei.
Apertadamente.
Era o meu turno de dormir e, durante quatro horas, não me lembrei de absolutamente nada. Amanda me contou que falei bastante, tendo gritado uma ou duas vezes, mas não me recordo de haver sonhado. Quando acordei, era de tarde. Senti uma sede terrível.
Uma parte do leite se estragara, mas ainda havia algum em bom estado. Bebi um litro e pouco.
Amanda aproximou-se de onde eu me encontrava com Billy e a Sra. Turman. O velho que se oferecera para ir apanhar uma arma no porta-mala de seu carro, vinha com ela — Cornell, recordei. Ambrose Cornell.
— Como está, filho? — perguntou ele.
— Tudo bem. — Não obstante, eu continuava sedento e minha cabeça doída. Deslizei um braço em torno de Billy e depois olhei de Cornell para Amanda. — O que há?
— O Sr. Cornell está preocupado com aquela Sra. Carmody — disse Amanda. — E eu também.
— Por que não vem dar uma volta comigo, Billy? — convidou Hattie.
— Não quero ir — respondeu ele.
— Vá, Grande Bill — falei, e ele se foi, relutante. — E agora, o que há sobre a Sra. Carmody?
— Ela está atiçando os ânimos — disse Cornell. Encarou-me com a taciturnidade de um velho. — Acho que precisamos botar um ponto final nisso. Da maneira como pudermos!
— Agora há quase uma dúzia de pessoas com ela — comentou Amanda. Parece algum louco serviço religioso.
Recordei minha conversa com um amigo escritor que morava em Otisfield, o qual sustentava esposa e dois filhos criando galinhas e escrevendo um livro de bolso original por ano — histórias de espionagem. Havíamos comentado o crescimento da popularidade de livros envolvendo o sobrenatural. Gault havia dito que, nos anos 40, Histórias Fantásticas rendera uma bagatela e, nos anos 50, afundara de vez. Quando as máquinas falham, dissera ele (enquanto sua esposa examina ovos contra a luz e galos cantavam lamuriosamente no exterior), quando a tecnologia falha, quando os sistemas religiosos convencionais falham, as pessoas precisam contar com algo. Até mesmo um zumbi cambaleando através da noite, pode aparecer como francamente agradável, comparado à comédia/horror existencial da camada de ozônio dissolvendo-se sob o assalto combinado de um milhão de latas de desodorantes, com spray fluorocarbonado.
Há vinte e seis horas estávamos acuados ali e ainda não tínhamos conseguido fazer nada que valesse a pena. Nossa única expedição ao exterior resultara em cinqüenta e sete por cento de baixas. Portanto, não era de admirar que a Sra. Carmody talvez estivesse aumentando seu rebanho.
— Ela realmente conseguiu doze pessoas? — perguntei.
— Bem, foram apenas oito — disse Cornell — mas a verdade é que ela nunca se cala! Parece estar imitando aqueles discursos de dez horas, que Castro costumava fazer. É uma maldita flibusteira!
Oito pessoas. Não muitas, nem mesmo um número suficiente para preencher uma banca de jurados. Contudo, eu compreendia a preocupação que eles mostravam no rosto.
Bastava tornar aquela gente a única e maior força política no supermercado, em especial agora que Dan e Mike não estavam mais ali. A idéia de que o maior e único grupo em nosso fechado sistema estava ouvindo sua arenga sobre os abismos do inferno e os sete frascos sendo abertos, produzia em mim uma terrível sensação de claustrofobia.
— Ela começou a falar sobre sacrifício humano outra vez — disse Amanda. — Bud Brown foi até lá e lhe disse para cessar com aquelas sandices em seu supermercado. E dois homens que estão com ela — um deles era aquele Myron LaFleus — responderam que quem devia se calar era ele, porque este ainda era um país livre. Brown não se calou, de modo que houve, um... bem, acho que você qualificaria de duelo pugilístico.
— Brown ficou com o nariz correndo sangue — disse Cornell. — Os dois falavam sério.
— Imagino que não a ponto de realmente matarem alguém — falei.
— Não sei até onde irão — disse Cornell suavemente — se este nevoeiro não subir. De qualquer modo, prefiro não saber. Pretendo dar o fora daqui.
— É mais fácil dizer do que fazer.
Contudo, algo começara a brotar em minha mente. Cheiro. Ali estava a chave. Havíamos ficado inteiramente a sós no supermercado. Os besouros poderiam ter sido atraídos pela luz, como acontecia aos besouros mais comuns. As aves tinham simplesmente seguido seu suprimento alimentar. No entanto, as coisas de maior porte nos tinham deixado em paz, a menos que nos mostrássemos a elas de algum modo. A carnificina na Farmácia Bridgton só ocorrera porque as portas haviam ficado escancaradas — eu tinha certeza disso. A coisa ou coisas que tinham agarrado Norton e seu grupo, soavam tão grandes como uma casa, porém ela ou elas não haviam se aproximado do supermercado. E isso significa que, talvez...
De repente, senti vontade de falar com Ollie Weeks. Precisava falar com ele.
— Pretendo sair daqui ou morrer na tentativa — disse Cornell. — Não projetei passar o resto do verão dentro deste supermercado.
— Já houve quatro suicídios — disse Amanda subitamente.
— Como?
A primeira coisa a me cruzar a mente, em um relance de quase culpa, foi que os corpos dos soldados tinham sido descobertos.
— Pílulas — disse Cornell, lacônico. — Eu e mais dois ou três sujeitos carregamos os corpos para os fundos do prédio.
Tive que sufocar um riso agudo. Estávamos ficando com um regular necrotério nos fundos do supermercado.
— O pessoal está diminuindo — disse Cornell. — Quero ir embora.
— Não conseguiria chegar a seu carro. Acredite em mim.
— Nem mesmo àquela primeira fila? Fica mais próxima do que a drugstore.
Não lhe dei resposta. Ainda não.
Cerca de uma hora mais tarde, encontrei Ollie saqueando a geladeira e bebendo uma Busch. Seu rosto era impassível, mas ele parecia vigiar a Sra. Carmody. Aparentemente, ela era incansável e estava mesmo discutindo novamente a possibilidade do sacrifício humano, só que, agora, ninguém mais lhe dizia para calar-se. Algumas das pessoas que, na véspera, a tinham mandado calar a boca, se agora não estavam do seu lado, pelo menos queriam ouvi-la — superando as restantes em número.
— É bem capaz dessa mulher ainda estar repisando o assunto amanhã de manhã — comentou Ollie. — Talvez não... mas se estiver, quem você acha que ela escolheria?
— Ouça, Ollie — falei. — Creio que talvez meia dúzia de nós consiga escapar daqui. Não sei até que distância chegaremos, mas acho que, pelo menos, poderíamos sair.
— De que maneira?
Expus-lhe minha idéia. Era bastante simples. Se disparássemos até o meu Scout e entrássemos nele, as coisas não captariam nenhum cheiro humano. Pelo menos, se permanecêssemos com os vidros das janelas fechados.
— E se os bicharocos forem atraídos por outro cheiro? — perguntou Ollie. O da fumaça da descarga, por exemplo.
— Nesse caso, estaremos fritos — concordei.
— O movimento — acrescentou Ollie. — Um carro se movendo através do nevoeiro também poderia atraí-los, David.
— Não acredito. Não haveria o cheiro de uma presa. Aliás, acho que este é o único jeito de sairmos daqui.
— Você não tem certeza.
— Claro que não.
— E para onde iria?
— Primeiro? Até em casa, apanhar minha esposa.
— David...
— Está bem. Verificar. Ter certeza.
— As coisas lá fora talvez estejam em toda parte. David. Podem capturá-lo, no minuto em que sair de seu Scout para a porta de sua casa.
— Se isso acontecer, o Scout é de vocês. Seu. Só lhe peço que cuide de Billy, o melhor que puder e enquanto puder.
Ollie terminou a sua Busch e deixou a lata cair de volta na geladeira, onde ela chocalhou entre as vazias. A coronha do revólver do marido de Amanda assomava em seu bolso.
— Para o sul? — perguntou ele, encontrando meus olhos.
— Sim, eu iria para o sul. Vá para o sul e tente sair do nevoeiro. Tente o mais que puder.
— De quanta gasolina dispõe?
— Um tanque quase cheio.
— Já pensou que seria impossível sair?
Eu havia pensado. Supondo-se que o trabalho desenvolvido pelo Projeto Ponta de Flecha houvesse colocado toda aquela região em outra dimensão, tão facilmente quando virar-se uma meia pelo avesso...
— Isso já me passou pela cabeça — respondi — mas a alternativa parece ser ficarmos aqui, esperando, para ver quem a Sra. Carmody escolhe para o posto de honra.
— Esteve pensando nisso para hoje?
— Não. Já é tarde e aquelas coisas ficam ativas à noite. Imagino que amanhã cedo seja uma boa hora.
— Quem gostaria de levar?
— Eu, você e Billy. Hattie Turman. Amanda Dumfries. Aquele velhote Cornell e a Sra. Reppler. Talvez Bud Brown também. São oito pessoas, mas Billy pode sentar-se no colo de alguém e nos apertarmos no carro.
Ele refletiu na idéia.
— Está bem — disse por fim. — Vamos tentar. Já falou nisso a alguém mais?
— Não. Ainda não.
— Meu conselho seria para não falar, pelo menos, até manhã de manhã. Colocarei umas duas sacolas de mantimentos por baixo da registradora, no corredor mais perto da porta. Se tivermos sorte, conseguiremos dar o fora, antes que alguém perceba o que está havendo. — Seus olhos vagaram novamente até a Sra. Carmody. — Se ela souber, talvez tente impedir que saiamos.
— Você acha?
Ollie pegou outra cerveja.
— Acho — respondeu.
Naquela noite — a tarde de ontem — o tempo escoou-se em uma espécie de câmara lenta.
A escuridão esgueirou-se para o interior do supermercado, transformando o nevoeiro novamente naquela fosca tonalidade cromo. Qualquer mundo que restasse lá fora, dissolveu-se lentamente para negro, por volta de vinte e trinta.
Os besouros rosados voltaram, depois as coisas-aves, arremetendo contra as vidraças e chocando-se nelas. Alguma coisa rugia ocasionalmente na escuridão e, uma vez, pouco antes da meia-noite, houve um prolongado e rascante Aaaaarimrnm! que fez todos se voltarem amedrontados para o negrume exterior, como faces inquisitivas. Era o tipo de som que se imaginaria proveniente de um gigantesco crocodilo em um pântano.
Tudo aconteceu justamente como Miller previra. Pela madrugada, a Sra. Carmody aliciara outra meia dúzia de almas. O açougueiro, Sr. McVey estava entre elas, de pé, com os, braços cruzados, olhando para a velha.
A Sra. Carmody estava com a corda toda. Parecia insensível ao sono. Seu sermão, uma firme corrente de horrores à maneira de Doré, Bosch e Jonathan Edwards, fluía e fluía, crescendo para algum clímax. Seu grupo começou a murmurar com ela, a oscilar inconscientemente de um lado para outro, como verdadeiros crentes em uma tenda de despertar ao fervor religioso. Os olhos deles estavam vagos e brilhantes, dominados pelo fascínio daquela criatura.
Mais ou menos às três da madrugada (o sermão prosseguia incessantemente e os não interessados haviam recuado para os fundos do supermercado, procurando dormir um pouco), vi Ollie colocar uma sacola de mantimentos em uma prateleira, debaixo do corredor de registradoras mais próximo da porta SAÍDA. Meia hora mais tarde, ele colocou outra sacola ao lado da primeira. Ninguém pareceu perceber, exceto eu. Billy, Amanda e a Sra. Turman dormiam juntos, perto da vazia seção de frios sortidos. Juntei-me a eles e mergulhei em um cochilo inquieto.
Às quatro e quinze, pelo meu relógio, Ollie veio acordar-me. Cornell estava com ele, os olhos brilhando muito, atrás dos óculos.
— Está na hora, Davi — avisou Ollie.
Uma cãibra nervosa envolveu meu estômago, depois passou. Acordei Amanda. Por minha mente passou a questão do que poderia acontecer, com Amanda e Stephanie juntas no carro, mas foi algo passageiro. Hoje, seria melhor aceitar as coisas como nos vinham. Aqueles notáveis olhos verdes se abriram e fitaram os meus.
— David?
— Vamos arriscar-nos a sair daqui. Quer vir também?
— De que está falando?
Comecei a explicar, mas então acordei a Sra. Turman para falar tudo apenas uma vez, rapidamente.
— Sua teoria sobre o cheiro — disse Amanda. — A esta altura, é apenas uma dedução erudita, não?
— Exatamente.
— Não faz diferença para mim — declatou Hattie.
Seu rosto estava pálido e, a despeito do sono que dormira, havia grandes manchas descoloridas sob os olhos.
— Eu faria qualquer coisa — continuou ela — assumiria quaisquer riscos, só para ver o sol outra vez.
Só para ver o sol outra vez. Fui percorrido por ligeiro calafrio. Ela colocara o dedo em um ponto muito perto do centro de meus próprios medos, sobre o senso de quase antecipada ruína que me invadira, desde que tinha visto Norm ser arrastado através da porta de descarga de mercadorias. Era possível vislumbrar-se o sol através do nevoeiro, como uma pequena moeda de prata. Parecia Vênus.
Não era tanto pelas criaturas monstruosas que cambaleavam no nevoeiro; minha defesa com a alavanca revelara que elas não eram nenhum horror Lovecraftiano com vida imortal, mas sempre seres orgânicos, com suas próprias vulnerabilidades. Tratava-se do nevoeiro em si, que sabotava a força e roubava a vontade. Só para ver o sol outra vez.
Ela estava certa. Apenas isso, merecia que se atravessasse não um, mas vários infernos.
Sorri para Hattie e ela tentou devolver-me o sorriso.
— Muito bem — disse Amanda — eu quero ir.
Comecei a despertar Billy, o mais delicadamente que pude.
— Estou com você — declarou brevemente a Sra. Reppler.
Estávamos todos juntos, perto do balcão de carnes, exceto pela ausência de Bud Brown.
Ele nos agradecera o convite e o declinara. Não deixaria seu posto no supermercado, alegou, mas acrescentando, em um tom de voz incrivelmente gentil, que não censurava Ollie por querer ir.
Um aroma desagradável e adocicado começava agora a irradiar-se do recipiente de esmalte branco, um cheiro que me fez recordar a época em que nosso freezer ficou avariado, quando passávamos uma semana no Cape. Achei que talvez o cheiro de carne estragando-se é que atraíra o Sr. McVey para o time da Sra. Carmody.
— ... expiação! E sobre a expiação que vamos pensar agora! Fomos flagelados com chicotes e escorpiões! Temos sido punidos por penetrar-mos em segredos proibidos pelos mestres dos velhos tempos! Vimos os lábios da terra se abrirem! Vimos tais obscenidades de pesadelo! A rocha não os esconderá, a árvore morta não lhes dará abrigo! E como isto terminará? Como será detido?
— Expiação! — gritou o bom e velho Myron LaFleur.
— Expiação... expiação... — sussuraram eles, indecisos.
— Quero ouvir vocês dizerem isso com toda a sinceridade! — bradou a Sra. Carmody.
As veias sobressaiam em seu pescoço, como cordões salientes. Sua voz agora era rouca e cacarejante, mas ainda cheia de vigor. Ocorreu-me que o nevoeiro é que lhe transmitira esse vigor — o poder para anuviar as mentes das pessoas, para fazer um jogo de palavras particularmente adequado — assim como tinha tomado do restante de nós o poder do sol. Antes, ela não passava de uma velha mais ou menos excêntrica, com uma loja de antiguidades em uma cidade cheia de lojas de antiguidades. Nada mais que uma velha, com alguns animais empalhados no aposento dos fundos e uma reputação de (aquela feiticeira... aquela cadela!) entendida em medicina popular. Dizia-se que ela podia encontrar água com uma forquilha de macieira, que fazia verrugas caírem e vendia um creme capaz de transformar sardas em sombras do que tinham sido. Eu inclusive ouvira — seria do velho Bill Giosti? — que a Sra. Carmody podia ser procurada (mantendo o máximo sigilo) para conselhos sobre a vida amorosa de uma pessoa; que quando alguém estava tendo dificuldades no quarto de dormir, podia conseguir com ela uma beberagem e tudo voltava a funcionar a contento.
— EXPIAÇÃO! — gritaram todos, um uníssono.
— Expiação, eis a palavra! — gritou ela, delirantemente. — É a expiação que fará esse neivoeiro desaparecer! A expiação que afastará esses monstros e abominações! A expiação fará com que as escamas do nevoeiro caiam de nossos olhos, permitindo que enxerguemos! — Sua voz baixou um grau. — E o que é a expiação, segundo a Bíblia? Qual é o cínico purificador do pecado, diante dos Olhos e da Mente de Deus?
— O sangue!
Desta vez, o calafrio sacudiu-me o corpo inteiro, aninhando-se na nuca e me eriçando os cabelos. O Sr. McVey é que dissera aquilo, o Sr. McVey, o açougueiro que estivera cortando carne em Bridgton, desde que eu era uma criança, segurando a mão talentosa de meu pai. O Sr. McVey, recebendo pedidos e cortando carnes, em suas roupas brancas, manchadas de sangue. O Sr. McVey, cuja intimidade com a faca era longa — sim, e também com a serra e o cutelo. O Sr. McVey que, melhor do que ninguém, compreenderia que a limpeza da alma flui dos ferimentos do corpo.
— Sangue... — sussurraram eles.
— Estou com medo, papai — disse Billy.
Estava segurando minha mão apertadamente, tinha o rostinho tenso e pálido.
— Ollie — falei — por que não damos o fora desta arca de doidos?
— Certo — disse ele. — Vamos.
Começamos a descer pelo segundo corredor, em um grupo disperso — Ollie, Amanda, Cornell, a Sra. Turman, a Sra. Reppler, Billy e eu. Faltavam quinze minutos para as cinco da manhã e o nevoeiro começava a clarear novamente.
— Você e Cornell, peguem as sacas de mantimentos — disse Ollie.
— Está bem — respondi.
— Eu irei na frente. Seu Scout é um quatro portas, não?
— Isso mesmo.
— Okai, vou abrir a porta do motorista e a traseira do mesmo lado. Pode carregar Billy, Sra. Dumfries?
Ela o pegou no colo.
— Sou muito pesado? — perguntou Billy.
— Não, meu bem.
— Que bom!
— A senhora e Billy vão no banco dianteiro — prosseguir Ollie. — Abra caminho. A Sra. Turman também no dianteiro, no meio. David, você fica atrás do volante. E nós, os restantes...
— Aonde vocês pensam que vão?
Era a Sra. Carmody.
Estava parada à cabeceira do corredor da caixa registradora onde Ollie havia escondido as sacolas de mantimentos. Seu terninho era um berro amarelo na penumbra. Os cabelos frisados espalhavam-se desalinhadamente em todas as direções, por um momento fazendo-me recordar Elsa Lanchester, em A Noiva de Frankenstein. Seus olhos chamejavam. Dez ou quinze pessoas, postadas atrás dela, bloqueavam as portas ENTRADA e SAÍDA. Todas tinham a aparência de quem esteve em um acidente de carro, viu um disco-voador pousar ou uma árvore arrancar as raízes do solo e sair andando.
Billy encolheu-se contra Amanda, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Vamos sair, Sra. Carmody — disse Ollie, em voz curiosamente gentil. Afaste-se, por favor.
— Vocês não podem sair! Se saírem, é morte certa! Já devia saber disso, não?
— Ninguém se meteu com a senhora — respondi. — Queremos apenas o mesmo privilégio.
Abaixando-se, ela descobriu os mantimentos, sem a menor vacilação. Devia saber o que planejávamos, o tempo todo. Puxou as sacolas da prateleira em que Ollie as colocara.
Uma se rasgou, espalhando latas pelo solo. A Sra. Carmody atirou a outra ao chão e ela se escancarou, com o som de vidro se quebrando. Havia soda esguichando para todos os lados e sobre as partes cromadas frontais do corredor de registradoras seguinte.
— Aqui temos o tipo de pessoas que atraíram isto! — gritou ela. — Pessoas que não se dobram à vontade do Todo-Poderoso! Pecadores orgulhosos, arrogantes que são, além de obstinados! É dentre eles que deve vir o sacrifício! Dentre eles virá o sangue da expiação!
Um crescente murmúrio de assentimento a espicaçou. Ela agora estava frenética. A saliva saltava de seus lábios, enquanto gritava para os que se amontoavam às suas costas:
— É o menino que queremos! Peguem-no! É o menino que queremos!
O grupo avançou, com Myron LaFleur à testa, de olhos opacamente jubilosos. O Sr. McVey estava logo atrás dele, o rosto inexpressivo e impassível.
Amanda recuou, cambaleante, apertando Billy ainda com mais força. Os braços dele estavam enrolados em seu pescoço. Ela olhou para mim, aterrorizada.
— David, o que eu...
— Peguem os dois! — gritou a Sra. Carmody. — Peguem essa prostituta também!
Ela era um apocalipse de amarelo e sombria alegria. Ainda mantinha a bolsa debaixo do braço. Começou a saltitar.
— Peguem o menino, peguem a prostituta, peguem os dois, peguem-nos, peguem...
Houve o súbito clangor de um disparo.
Tudo se congelou, como se fôssemos uma classe de alunos descontrolados e o professor tivesse acabado de chegar, batendo a porta com estronto. Myron LaFleur e o Sr. McVey estacaram de repente, a cerca de dez passos de distância. Myron se virou, olhando duvidosamente para seu companheiro. O açougueiro não o percebeu, aliás, não parecia perceber a presença de LaFleur. O Sr. McVey tinha uma expressão que eu já vira em inúmeros outros rostos, naqueles últimos dois dias. Ele não era mais a mesma pessoa.
Sua mente se estiolara.
Myron agora fitava Ollie Weeks, com olhos arregalados e temerosos. Então, começou a correr. Dobrou a quina do corredor, tropeçou em uma lata, caiu, conseguiu levantar-se e desapareceu de vista.
Ollie permanecia na clássica posição do atirador, com a arma de Amanda aferrada nas duas mãos. A Sra. Carmody ainda continuava na cabeceira do corredor da registradora.
Tinha as duas mãos, salpicadas de manchas hepáticas, apertando o estômago. O sangue fluiu por entre seus dedos, manchando-lhe as calças compridas amarelas.
Ela abriu e fechou a boca. Uma vez. Duas vezes. Estava querendo falar. Por fim, conseguiu.
— Todos vocês morrerão lá fora! — disse, e então descambou lentamente para diante.
A bolsa escorregou-lhe do braço, bateu no chão e espalhou o seu conteúdo. Um tubo com papel enrolado saiu rolando pelo chão e veio se chocar contra um de meus sapatos. Sem pensar, abaixei-me e apanhei-o. Era um rolo de papel sanitário, já pela metade. Joguei-o para o chão outra vez. Não queria tocar em nada que houvesse pertencido a ela.
A "congregação" começava a debandar, dispersando-se, após eliminado o seu foco.
Nenhum dos membros afastava os olhos da figura caída e do sangue escuro que começava a espalhar-se de baixo de seu corpo.
— Vocês a assassinaram! — gritou alguém, com medo e raiva.
Entretanto, ninguém apontava que ela estivera planejando algo similar contra meu filho.
Ollie permanecia imóvel em sua posição de atirador, mas agora sua boca tremia. Toquei nele de leve.
— Vamos, Ollie. E obrigado.
— Eu a matei — disse ele, em voz rouca. — Não tinha saída!
— Sim — assenti. — Foi isso que lhe agradeci. Agora, vamos!
Pusemo-nos em movimento novamente.
Sem mantimentos para levar — graças à Sra. Carmody — fui capaz de carregar Billy.
Paramos um instante à porta.
— Eu não atiraria nela — disse Ollie, em voz grave e contida. — Não, se houvesse qualquer outra alternativa.
— Eu sei.
— Acredita em mim, não?
— Claro que acredito.
— Então, vamos embora.
Saímos do supermercado.
Ollie se moveu depressa, empunhando a arma na mão direita. Antes que eu e Billy houvéssemos cruzado a porta do supermercado, ele já estava em meu Scout, um Ollie insubstancial, como um fantasma em uma tela de televisão. Abriu a porta do motorista.
Depois a traseira. Então, algo brotou do nevoeiro e quase o cortou pelo meio.
Não consegui ver bem o que seria e fico satisfeito por isso. Parecia algo vermelho, da irada tonalidade de uma lagosta cozida. Tinha garras. Emitia um grunhido surdo, não muito diferente do som que ouvíramos após a saída de Norton e seu pequeno grupo de Terrestres Estagnados.
Ollie chegou a disparar um tiro, mas então as garras de coisa continuaram apertando como tesouras e o corpo dele pareceu desmantelar-se, em um terrível jato de sangue. A arma de Amanda lhe caiu da mão, bateu no pavimento e disparou. Tive um demoníaco relance de enormes olhos negros e opacos, do tamanho de bagas marinhas, e então a coisa cambaleou de volta ao nevoeiro, com o que restara de Ollie Weeks em suas garras.
Um corpo alongado e multissegmentado de escorpião rastejou pesadamente no pavimento.
Houve um instante de escolhas. Talvez sempre haja, por breve que seja. Metade de mim queria correr de volta para o supermercado, levando Billy apertado contra meu peito. A outra metade corria para o Scout, jogava Billy em seu interior e mergulhava após ele.
Então, Amanda gritou. Era um grito agudo, um som em crescendo, que parecia espiralar para o alto, até quase se tornar ultra-sônico. Billy agarrou-se a mim, enterrando o rosto em meu peito.
Uma das aranhas pegara Hattie Turman. Aquela era das grandes e a derrubara. O vestido foi puxado acima de seus joelhos escanifrados, quando o bicharoco se agachou sobre ela, as pernas espinhosas e eriçadas acariciando-lhe os ombros. Em seguida, a aranha começou a fiar sua teia.
A Sra. Carmody tinha razão, pensei. Vamos morrer aqui fora, vamos realmente morrer aqui fora.
— Amanda! — gritei.
Não houve resposta. Ela estava fora de si. A aranha cavalgou o que sobrara da baby- sitter de Billy, uma mulher que apreciava decifrar enigmas e quebra cabeças, aquelas malditas charadas que nenhuma pessoa normal conseguia fazer sem ficar biruta. Os fios lhe entrecruzaram o corpo, os cordões alvos já se avermelhando, à medida que o envoltório ácido afundava nela.
Cornell recuava lentamente para o supermercado, os olhos tão avantajados como pratos de jantar, atrás dos óculos. De repente, deu meia volta e correu. Agarrou-se à porta ENTRADA, conseguiu abri-la e precipitou-se para o interior.
A cisão em minha mente se fechou, quando a Sra. Reppler avançou vivamente e esbofeteou Amanda, primeiro de mão aberta, depois com o dorso da mão. Amanda parou de gritar. Corri para ela, obriguei-a a virar-se para onde estava o Scout e gritei "VENHA!" em seu rosto.
Ela foi. A Sra. Reppler passou rente a mim. Empurrou Amanda para o assento traseiro do Scout, entrou depois dela e bateu a porta violentamente.
Desprendi-me de Billy e o joguei dentro do carro. Quando entrei também, um daqueles fios de aranha esvoaçou e pousou em meu tornozelo. Queimava como uma linha de pesca puxada rapidamente por entre os dedos fechados. Era uma queimadura ainda mais forte. Dei um forte puxão no pé e o fio se quebrou. Deslizei para trás do volante.
— Feche, feche essa porta, pelo amor de Deus! — gritou Amanda.
Bati a porta. Apenas um segundo depois, uma das aranhas se chocou maciamente contra ela. Fiquei a centímetros apenas de seus olhos vermelhos, malevolamente estúpidos.
Suas pernas, da grossura de meu punho, escorregavam de um lado para outro sobre o teto quadrado do carro. Amanda gritava incessantemente, como uma sirene de incêndios.
— Cale essa boca, mulher! — disse-lhe a Sra. Reppler.
A aranha desistiu. Não sentia mais nosso cheiro, logo, não estávamos mais ali. Trotou de volta para o nevoeiro, sobre seu incrível número de pernas, transformou-se em fantasma e depois desapareceu.
Espiei pela janela, a fim de certificar-me de que ela se fora, e então abri a porta.
— O que está fazendo? — gritou Amanda.
Eu sabia o que fazia. Gostava de pensar que Ollie teria feito exatamente o mesmo. Dei um meio passo, inclinei-me para fora e apanhei a arma. Algo avançou a toda pressa na minha direção, mas nem cheguei a ver o que era. Joguei-me novamente dentro do carro e bati a porta.
Amanda começou a soluçar. A Sra. Reppler passou um braço em torno dela e a confortou animadamente.
— Nós vamos para casa, papai? — perguntou Billy.
— Tentaremos ir, Grande Bill.
— Está bem — disse ele, quietamente.
Examinei a arma, depois a coloquei no porta-luvas. Ollie a recarregara após a expedição à drugstore. O restante da munição se fora com ele, mas o que eu tinha era suficiente.
Ele atirara na Sra. Carmody, depois atirara contra a coisa de garras e, ao se chocar no chão, a arma disparara uma vez. Éramos quatro no Scoút, mas se a situação chegasse a extremos, eu encontraria um meio de acabar comigo.
Passei por um momento terrível, quando não conseguia encontrar meu chaveiro.
Verifiquei em todos os bolsos, fiquei de mãos vazias e então tornei a checá-los, forçando-me a agir devagar e com calma. Encontrei as chaves no bolso da calça; tinham ficado debaixo das moedas, como às vezes acontece. O Scout pegou sem dificuldade.
Ao ouvir o consolador rugido do motor, Amanda tornou a desfazer-se em lágrimas.
Fiquei quieto, ouvindo o motor, querendo ver o que seria atraído por aquele som ou pelo cheiro expulso no cano de descarga. Cinco minutos, os cinco minutos mais longos de minha vida, escoaram-se lentamente. Nada aconteceu.
— Vamos ficar aqui parados ou vamos em frente? — perguntou a Sra. Reppler afinal.
— Vamos em frente — respondi.
Manobrei para sair da vaga e deixei os faróis baixos. Algum impulso — provavelmente um impulso básico — me levou a passar o mais rente que pude pelo Supermercado Federal. O lado direito do pára-choque do Scout empurrou o recipiente de lixo para um lado. Era impossível ver o que acontecia lá dentro, exceto através das vigias — todos aqueles sacos de fertilizante e adubo para jardim faziam o lugar dar a impressão de estar no auge de alguma louca liquidação de jardinagem — mas em cada vigia havia dois ou três rostos pálidos, espiando para nós.
Depois guinei para a esquerda e o nevoeiro se fechou impenetravelmente atrás de nós. E o que foi feito daquelas pessoas, eu não sei dizer.
Dirigi de volta à Estrada Kansas, a oito quilômetros por hora, tateando meu caminho.
Mesmo com os faróis do Scout acesos, era impossível enxergar mais do que dois ou três metros à frente.
A terra havia sofrido alguma terrível contorção. Miller estivera certo quanto a isso. Em alguns pontos, a estrada estava apenas rachada, mas em outros, o chão parecia ter sido escavado, erguendo grandes lajes de pavimentação. Consegui ir em frente, graças à tração nas quatro rodas. E também graças a Deus. Ainda assim, sentia um medo terrível de deparar com algum obstáculo que nem mesmo o Scout conseguisse transpor.
Levei quarenta minutos para um trajeto que geralmente exigia apenas sete ou oito. Por fim, o indicador apontando nossa estrada particular brotou do meio do nevoeiro.
Despertado faltando quinze minutos para as cinco, Billy caíra profundamente adormecido dentro daquele carro que conhecia tão bem e que devia ter-lhe parecido o lar. Amanda olhava nervosamente.
— Vai mesmo descer até lá?— perguntou ela.
— Tentarei — respondi.
Contudo, era impossível. A tempestade que se desencadeara havia afrouxado as raízes de inúmeras árvores, e aquela ladeira íngreme, torcida, terminara o serviço de derrubá-las.
Consegui rodar sobre as duas primeiras, razoavelmente pequenas. A seguir, cheguei a um robusto e velho pinheiro, atravessado na estrada, como uma barricada contra foragidos. Faltava quase meio quilômetro para chegar até a casa. Billy dormia a meu lado, e então deixei o Scout parado, de motor ligado, enquanto punha as mãos sobre os olhos e refletia no que fazer em seguida.
Agora, sentado no Howard Johnson's, perto da Saída 3 da auto-estrada para o Maine, escrevendo tudo isto em papel de cartas, desconfio que a Sra. Reppler, essa velhota durona e capaz, poderia ter registrado a futilidade essencial da situação em apenas alguns rabiscos rápidos. No entanto, ela teve a gentileza de permitir que eu mesmo cuidasse disso.
Eu não podia sair. Não podia abandoná-los. Nem podia tentar convencer-me de que todos os monstros de filme de terror haviam ficado para trás, junto ao Federal. Quando baixei o vidro da janela — apenas uma fresta — pude ouvi-los no matagal, andando de um lado para outro e entrechocando-se pela íngreme faixa de terra a que, por estas bandas, dão o nome de Ledges, isto é, Recifes. A umidade gotejava das folhas mais altas, sem cessar. Acima de nós, o nevoeiro escurecia momentaneamente, quando algum bicharoco de pesadelo, semelhante a um animado papagaio de empinar, sobrevoava o Scout.
Tentei dizer a mim mesmo — lá e agora — que se ela agisse com a máxima rapidez, fechando a casa consigo mesma no interior, teria alimentos suficentes para dez dias a duas semanas. Não é grande consolo. O que persiste em minha memória é a última lembrança dela, usando o frouxo chapéu contra o sol e suas luvas de jardinagem, a caminho de nossa pequena horta, com o nevoeiro rolando inexoravelmente através do lago, mais atrás.
É em Billy que tenho de pensar agora. Billy, digo para mim mesmo. Grande Bill, Grande Bill... Eu devia escrever isto umas cem vezes nesta folha de papel, como uma criança condenada a escrever Não atirarei bolas de papel durante a aula, enquanto a ensolarada quietude das três horas se derrama através das janelas e a professora corrige deveres de casa em sua mesa, o único som ouvido sendo o de sua pena e, em algum lugar muito distante, o de garotos selecionando equipes para uma partida de beisebol.
De qualquer modo, por fim fiz o único que me era possível. Manobrei o Scout cautelosamente e retornei à Estrada Kansas. Então, chorei.
Amanda tocou meu ombro, timidamente.
— Oh, David, sinto tanto... — disse ela.
— Hum — respondi, tentando conter as lágrimas, sem muito êxito. — Hum... eu também.
Dirigi para a Estrada 302 e dobrei à esquerda, em direção a Portland. Também esta estrada estava rachada e afundada em vários pontos mas, no todo, seu estado era melhor do que o da Kansas. Minha preocupação eram as pontes. A superfície do Maine é recortada por água corrente, de maneira que há pontes por toda parte, pequenas e grandes. Entretanto, o Dique Naples estava intato e, a partir de lá, seria fácil — embora lento — seguir todo o trajeto até Portland.
O nevoeiro continuava espesso. Precisei parar uma vez, pensando que havia árvores atravessadas na estrada. Então, as árvores começaram a mover-se e ondular, fazendo-me compreender que eram mais tentáculos. Fiz alto e, após algum tempo, eles recuaram.
Em outra ocasião, uma enorme coisa verde, com um corpo verde e iridescente, provida de compridas asas transparentes, pousou no capô do carro. Parecia uma libélula incrivelmente disforme. Ficou ali um instante, depois tornou a alçar vôo e se foi.
Billy acordou cerca de duas horas após termos deixado a Estrada Kansas, e perguntou se ainda não tínhamos apanhado sua mãe. Falei-lhe que eu não conseguira descer até a nossa estrada, por causa das árvores caídas.
— Ela está bem, papai?
— Eu não sei, Billy, mas vamos voltar lá e saber.
Ele não chorou. Em vez disto, tornou a dormir. Eu preferiria vê-to debulhar-se em lágrimas. Billy estava dormindo demais e isso não me agradava nem um pouco.
Comecei a ficar com dor de cabeça, devido à tensão. Continuava dirigindo através do nevoeiro, entre oito a quinze quilômetros por hora, e havia a tensão de saber que qualquer coisa podia brotar dele, tudo, afinal — uma erosão, desmoronamento ou Hidra, o Monstro de Três Cabeças. Penso que rezei. Pedi a Deus que Stephanie estivesse viva e que Ele não lançasse meu adultério contra ela. Pedi a Deus que me permitisse levar Billy à segurança, porque ele já sofrera tanto.
A maioria das pessoas estacionara no acostamento, quando da chegada do nevoeiro e, por volta de meio-dia, estávamos em North Windham. Experimentei a Estrada do Rio, mas cerca de seis quilômetros além, uma ponte cruzando um pequeno e ruidoso rio, havia caído na água. Tive que voltar atrás por quase quilômetro e meio, em marcha à ré, antes de encontrar um lugar com espaço suficiente para manobrar. Afinal, seguimos para Portland pela Estrada 302.
Chegando lá, peguei o desvio para o pedágio. A ordenada fila de cabines guardando o acesso, havia sido transformada em esqueletos de olhos vazados, em Pola-Glas amassado. Estavam todas vazias. Na porta deslizante de vidro de uma delas, havia um blusão rasgado, com a inscrição Jurisdição da Auto-estrada Maine, pregada nas mangas. Estava encharcado de sangue seco. Desde que havíamos deixado o Federal, ainda não tínhamos visto uma única pessoa viva.
— Tente seu rádio, Davi — disse a Sra. Reppler.
Bati na testa, irado e frustrado comigo mesmo, perguntando-me como havia sido tão imbecil, a ponto de esquecer o AM/FM do Scout por tanto tempo.
— Não fique assim — disse a Sra. Reppler, abruptamente. — Você não pode pensar em tudo. Se quiser fazer tudo, acabará doido e isso não adiantaria nada.
Nada consegui, além de guinchos de estática em toda a faixa AM. A FM nada revelou, além de profundo e agourento silêncio.
— Isto significa que todas as estações estão fora do ar? — perguntou Amanda.
Eu sabia o que ela pensava. No momento, estávamos bem para o sul, deveríamos estar pegando uma seleção das potentes estações de Boston, como a WRKO, WBL e WMEX.
No entanto, se nada havia em Boston...
— Isto não significa coisa alguma com segurança — falei. — Essa estática na faixa AM é pura interferência. O nevoeiro está também provocando um efeito amortecedor nos sinais de rádio.
— Tem certeza de que é só isso?
— Tenho — respondi, de maneira alguma convicto.
Seguimos para o sul. Os marcos rodoviários passavam por nós, em contagem decrescente a partir de quarenta. Quando chegássemos ao Quilômetro 1, estaríamos na divisa de New Hampshire. O trajeto até o pedágio foi mais lento; muitos motoristas não tinham querido desistir, de modo que havia colisões de traseiras em vários lugares.
Foram inúmeras as vezes em que precisei usar a faixa central.
Mais ou menos a uma e vinte da tarde — eu começava a ficar com fome — Billy agarrou meu braço.
— Papai, o que é aquilo? O que é aquilo?
Uma sombra destacou-se do nevoeiro, manchando-o de escuro. Era alta como um penhasco e vinha direta para nós. Pisei nos freios. Amanda estivera cochilando e foi atirada para diante.
Algo chegou. Novamente, é só o que posso afirmar com segurança. Talvez fosse porque o nevoeiro só permitia que víssemos coisas de relance, mas creio ser também provável a existência de certas coisas que nosso cérebro simplesmente rejeita. Existem coisas de tanta fealdade e horror — suponho que assim como existem coisas de tanta beleza e lirismo — que elas não conseguem cruzar as insignificantes portas da percepção humana.
Tinha seis pernas, disso estou certo; sua pele era cor de chumbo, salpicada de marrom escuro.
Aquelas manchas castanhas me faziam absurdamente recordar as manchas hepáticas nas mãos da Sra. Carmody. A pele da coisa era profundamente enrugada e sulcada; pendentes e aderentes a ela havia multidões, centenas daqueles "besouros" rosados, com olhos na ponta de talos. Não posso avaliar ao certo qual o seu tamanho, porém o bicharoco passou diretamente sobre nós. Uma de suas pernas enrugadas e cinzentas bateu bem ao lado de minha janela. Mais tarde, a Sra. Reppler comentou que não conseguira ver a parte inferior de seu corpo, embora espichasse o pescoço para olhar. Viu apenas duas pernas ciclópicas, que subiam e se perdiam dentro do nevoeiro, como torres animadas, até desaparecerem.
No momento em que a coisa ficou acima do Scout, tive a impressão de algo tão grande, que faria uma baleia azul parecer do tamanho de uma truta — em outras palavras, algo tão grande, que desafiava a imaginação. Depois ela se foi, deixando em sua esteira uma série de baques sismológicos, cujos ecos chegavam até nós. A criatura deixou pegadas no asfalto da Interestadual, pegadas tão fundas, que eu não conseguia ver-lhes o final interior. E cada pegada era quase grande o suficiente para que o Sccut afundasse nela.
Por um momento, ninguém falou. Não havia outro som além de nossa respiração e do baque distanciado, indicando a passagem da grande Coisa.
— Era um dinossauro, papai? — perguntou Billy. — Como aquela ave que entrou no supermercado?
— Não acredito que fosse. Acho mesmo que nunca existiu um animal tão grande assim, Billy. Pelo menos, aqui na terra.
Tornei a pensar no Projeto Ponta de Flecha e novamente me perguntei que loucas e malditas coisas eles poderiam ter feito por lá.
— Podemos continuar? — perguntou Amanda timidamente. — Essa coisa talvez volte.
Sim, e talvez houvesse outras à frente. Entretanto, de nada adiantava dizer isso.
Tínhamos que ir a algum lugar. Segui em frente, rodando em ziguezagues, esquivando-me daquelas terríveis pegadas, até elas abandonarem a estrada.
Foi o que aconteceu. Ou, quase tudo o que aconteceu — há um ponto final, ao qual logo chegarei. Entretanto, não vá você esperar alguma conclusão viável. Nada de E eles escaparam do nevoeiro, penetrando no bom calor do sol de um novo dia; ou Quando acordamos, finalmente a Guarda Nacional havia chegado; ou, até mesmo o grande e velho chavão: Foi tudo um sonho!.
Suponho que seja o que meu pai costumava chamar, franzindo o cenho, "um final à Alfred Hitchcok", com isto querendo indicar uma conclusão em ambiguidade, permitindo que o leitor ou espectador formule a própria opinião sobre como tudo terminou. Meu pai nutria apenas desdém por tais histórias, qualificando-as de "matéria barata".
Chegamos a este Howard Johnson's, perto da Saída 3, quando o crespúsculo começou a ganhar corpo, transformando o ato de dirigir um carro um risco suicida. Antes disso, fizemos uma tentativa na ponte que cruza o Rio Saco. Estava bastante retorcida e disforme, porém, em meio ao nevoeiro, era impossível dizer se o estrago era ou não total. Vencemos esse particular jogo.
Contudo, há o amanhã para se pensar, não é?
Enquanto escrevo isto, faltando quinze minutos para uma da madrugada de vinte e três de julho, recordo que a tempestade parecendo indicar o início de tudo quanto ocorreu, foi há apenas quatro dias. Billy está dormindo no saguão, em um colchão que arrastei até lá para ele. Amanda e a Sra. Reppler estão por perto. Escrevo à luz de uma grande lanterna Delco e, lá fora, os besouros cor-de-rosa beliscam e tropeçam nas vidraças. De vez em quando ouvimos um baque mais alto, como quando uma das aves alça vôo.
O Scout tem gasolina suficiente para carregar-nos por outros cento e quarenta e cinco quilômetros. A alternativa é tentar arranjar combustível aqui; há um posto Exxon que serve à ilha e, embora não havendo energia elétrica, acho que posso transferir um pouco para o tanque do carro, extraindo-o por meio de um sifão. Entretanto...
Entretanto isto significa ter de ir lá fora.
Se conseguirmos gasolina — aqui ou mais adiante — continuaremos rodando. Agora tenho um destino em mente, compreenda. É a última coisa que eu lhe queria contar.
Eu não tinha certeza. Eis aí a coisa, a maldita coisa. Poderia ter sido imaginação minha, apenas um desejo de realização. Mesmo em caso contrário, é uma demorada chance.
Quantos quilômetros mais? Quantas pontes? Quantas coisas mais adorando dilacerar meu filho e devorá-lo, mesmo que ele grite de terror e agonia?
As chances são tão boas, que não passavam de um devaneio, algo que não contei aos outros... pelo menos por enquanto.
No apartamento do gerente, encontrei um grande rádio de várias faixas, funcionando com bateria. De sua parte traseira sai uma antena achatada, atravessando a janela. Liguei o rádio, virei o botão para BAT., percorri o mostrador, girei várias vezes o botão seletor de faixas e ainda nada consegui, além de estática ou silêncio total.
Então, no último extremo da faixa AM, justamente quando já ia girar o botão de desligar, pensei ter ouvido — ou sonhei ter ouvido — uma única palavra.
Não houve mais nada. Fiquei ouvindo por uma hora, porém nada aconteceu. Se houvesse aquela única palavra, ela chegou através de alguma fenda mínima no nevoeiro úmido; uma passagem infinitesinal, que imediatamente se fechou outra vez.
Uma palavra.
Preciso dormir um pouco... se puder dormir, em vez de ser assombrado até o amanhecer pelos rostos de Ollie Weeks, da Sra. Carmody e de Norm, o rapaz embalador... ou pelo rosto de Steff, meio sombreado pela aba larga de seu chapéu contra o sol.
Há um restaurante aqui, um típico restaurante Hojo, com refeitório e um comprido balcão para almoço, em forma de ferradura. Deixarei estas páginas em cima do balcão e, um dia, talvez alguém as encontre e as leia.
Uma palavra.
Se apenas eu a tivesse ouvido realmente... Se apenas...
Vou agora para a cama. Entretanto, primeiro quero beijar meu filho e sussurar duas palavras em seu ouvido. Contra os sonhos que possam surgir, sabe como é. Duas palavras que soam um pouco parecidas. Uma delas é Hartford. A outra é hope — esperança.
O PROCESSADOR DE PALAVRAS DOS DEUSES
A primeira vista, aquilo parecia um processador de palavras Wang — possuía teclado Wang e armação Wang. Só após observar melhor, Richard Hagstrom viu que a armação havia sido cortada e aberta (e não cuidadosamente, pois lhe parecia que o serviço fora feito com uma lâmina de serra para metais), a fim de admitir um tubo de raios catódicos IBM, ligeiramente maior. Os discos de arquivo que tinham vindo com aquele singular híbrido nada tinham de moles; eram tão duros como os de 45 rotações, que Richard ouvira em criança.
— Em nome de Deus, o que é isso?
Lina fizera a pergunta quando ele e o Sr. Nordhoff o levaram para seu estúdio, peça por peça. O Sr. Nordhoff morava na casa vizinha à da família do irmão de Richard Hagstrom... Roger, Belinda e seu filho Jonathan.
— É qualquer coisa que Jon fabricou — disse Richard. — Segundo o Sr. Nordhoff, ele queria que eu ficasse com o aparelho. Parece um processador de palavras.
— Oh, sim — disse o Sr. Nordhoff. Ele não tornaria a ver os sessenta anos novamente e seu fôlego não andava bem. — Foi o que ele disse, o pobre garoto... Será que podíamos largá-lo por um minuto, Sr. Hagstrom? Estou bufando.
— Claro — disse Richard.
Chamou seu filho, Seth, que dedilhava estranhos e atonais acordes de sua guitarra Fender, no andar de baixo — no aposento que Richard imaginara uma "sala da família", ao apainelá-lo, mas que acabara se tornando a "sala de ensaios" de seu filho.
— Seth! — gritou. — Venha cá dar uma mãozinha!
No andar debaixo, Seth continuou extraindo acordes da Fender. Richard olhou para o Sr. Nordhoff e deu de ombros, envergonhado e incapaz de disfarçar o que sentia.
Nordhoff também deu de ombros, como se dissesse Garotos! O que se pode esperar de melhor deles, hoje em dia? Contudo, ambos sabiam que Jon — o pobre e condenado Jon Hagstrom, filho de seu louco irmão — havia sido melhor.
— Foi muita bondade sua em ajudar-me com isto — disse Richard.
Nordhoff deu de ombros.
— O que mais um velho tem a fazer com seu tempo? Penso que foi a última coisa que podia, pelo menos, fazer por Jonny. Sabe que ele costumava cortar de graça o meu gramado? Eu queria pagar, mas ele nunca aceitava. Era um grande garoto. — Nordhoff ainda estava sem fôlego. — Poderia arranjar-me um copo d'água, Sr. Hagstrom?
— Naturalmente. — Ele mesmo apanhou a água, ao ver que sua esposa não se movia da mesa da cozinha, onde lia um enxovalhado livro de bolso e comia um biscoito. — Seth! — ele gritou de novo. — Venha cá e nos ajude, está bem?
Não obstante, Seth continuou tocando amortecidos e bem dissonantes acordes na Fender que Richard ainda estava pagando.
Ele convidou Nordhoff a ficar para o jantar, porém o velho recusou polidamente.
Richard assentiu, de novo embaraçado, talvez agora disfarçando um pouco melhor. O que um cara legal como você tem a ver com semelhante família? dissera certa vez seu amigo Bernie Epstein, e ele só conseguira abanar a cabeça, sentindo o mesmo fosco constrangimento de agora. Ele era um cara legal. Não obstante, ali estava o que arranjara-uma esposa obesa e carrancuda, que se sentia lograda nas boas coisas da vida, como se houvesse apostado no cavalo perdedor (mas que nunca se animava a criar coragem e expor a situação) e um filho retraído de quinze anos, que fazia um trabalho marginal na mesma escola em que Richard lecionava... um filho que tocava acordes dissonantes na guitarra, dia e noite (principalmente à noite), parecendo pensar que, de alguma forma, aquilo o impeliria para a frente.
— Bem, e que tal uma cerveja? — sugeriu Richard.
Relutava em deixar Nordhoff ir embora — queria ouvir mais coisas sobre Jon.
— Uma cerveja seria ótimo — disse Nordhoff, e Richard assentiu gratamente.
— Excelente — concordou, e saiu, voltando em seguida com duas garrafas de Bud.
Seu estúdio ficava em um pequeno galpão, construído fora da casa — ajeitado por ele próprio, como fizera com a sala da família. No entanto, ao contrário daquele cômodo, ali era um lugar que ele considerava apenas seu — um lugar em que podia ficar trancado, deixando de fora a estranha com quem se casara e o estranho a que ela dera nascimento.
Naturalmente, Lina não aprovava o fato dele ter seu próprio refúgio, mas não fora capaz de impedi-lo — aquela tinha sido uma das raras e pequenas vitórias de Richard contra ela.
Ele supunha que, de certa forma, Lina havia apostado no cavalo perdedor quando se tinham casado, dezesseis anos antes, ambos acreditavam que ele escreveria maravilhosos e lucrativos romances e que, em pouco tempo, estariam rodando em uma Mercedes-Benz. Contudo, o único romance que ele publicara não havia sido lucrativo e os críticos rapidamente apontaram que tampouco era muito maravilhoso. Lina vira as coisas pelo ponto de vista dos críticos, de maneira que aquilo fora o início do afastamento de ambos.
Desta maneira, as aulas dadas no ginásio, que os dois tinham encarado como apenas um degrau em seu caminho para a fama, glória e riquezas, havia sido sua principal fonte de renda nos últimos quinze anos — um malditamente alto degrau, como ele às vezes pensava. Escrevia contos, um artigo ocasional. Era membro em boa situação na Associação de Escritores. Produzia uma renda adicional de uns 5.000 dólares com sua máquina de escrever a cada ano e, pouco importando o quanto Lina reclamasse a respeito, isso lhe dava o direito de ter seu próprio estúdio... em especial, desde que ela se recusava a trabalhar.
— Você tem um bom recanto aqui — comentou Nordhoff, olhando em torno do pequeno aposento, com a mistura de antigas gravuras na parede.
O híbrido processador de palavras foi assentado em cima da mesa, com o CPU sob ela.
A antiga Olivetti elétrica de Richard foi momentaneamente deslocada para o topo de um dos fichários.
— Preenche a finalidade — disse Richard. Apontou a cabeça para o processador de palavras. — Acha mesmo que isso funciona? Jon só tinha quatorze anos.
— Parece curioso, não?
— Sem dúvida — concordou Richard.
Nordhoff riu.
— Pois não sabe da metade — disse. — Dei uma espiada atrás da unidade de vídeo. Alguns fios estão marcados IBM e outros Artigos Eletrônicos. Há boa parte de um telefone Western Electric aí. E, acredite ou não; também há um pequeno motor de um Erector Set. — Ele bebericou sua cerveja e disse, como se só então recordasse: — Quinze anos. Ele acabara de fazer quinze anos. Uns dois dias antes do acidente. — Fez uma pausa e repetiu, baixando os olhos para sua garrafa de cerveja: — Quinze anos.
Disse as duas palavras em voz quase inaudível.
— Erector Set? — exclamou Richard, pestanejando.
— Exatamente. O Erector Set faz funcionar um kit elétrico. E Jon tinha um, desde que contava... oh, talvez seis anos de idade. Dei-lhe como presente de Natal, certo ano. Já nesse tempo, ele era louco por mecanismos. Qualquer engenhoca servia e terá gostado daquela caixinha com os motores do Erector Set? Acho que sim. Ele os guardou por quase dez anos. Não há muitos garotos que façam isso, Sr. Hagstrom.
— Não, não há — disse Richard, pensando nas caixas de brinquedos de Seth que se acumulavam no correr dos anos — rejeitados, esquecidos ou apenas destruídos conscientemente. Olhou para o processador de palavras. — Então, ele não funciona.
— Eu só diria isso após experimentá-lo — falou Nordhoff. — O garoto era quase um gênio em eletricidade.
— Há um certo exagero nisso, creio. Sei que Jon era bom para lidar com engenhocas e ganhou o prêmio da Feira Científica Estadual quando cursava o sexto grau...
— Competindo com garotos muito mais velhos — já nos últimos anos do ginásio, alguns deles — disse Nordhoff. — Pelo menos, assim falava sua mãe.
— É verdade. Todos sentíamos muito orgulho dele. — Não era bem verdade. Richard se orgulhara e a mãe de Jon também. O pai do menino não ligava, em absoluto. — Contudo, na Feira Científica são projetos e, construir, montar pessoalmente um mastigador híbrido de palavras...
Richard deu de ombros. Nordhoff pousou sua cerveja.
— Houve um garoto, nos anos cinqüenta — disse — que montou um desintegrador de átomos usando duas latas de sopa e equipamento elétrico no valor de cinco dólares. Jon me falou a respeito. Ele também disse que um garoto de uma cidadezinha matuta do Novo México, em 1954 descobriu os táquions — partículas negativas que se supõe viajarem para trás, através do tempo. Em Waterbury, Connecticut, um garoto de onze anos montou uma bomba tubular, com o celulóide que raspou das costas de um baralho de cartas de jogar. Com essa bomba, ele explodiu um canil vazio. Crianças às vezes são curiosas. Em particular as muito inteligentes. Você ficaria surpreso.
— Talvez. Talvez eu ficasse.
— De qualquer modo, ele era um ótimo garoto.
— O senhor gostava um pouco dele, não?
— Sr. Hagstrom — disse Nordhoff — eu gostava muito dele. Jon era realmente um garoto às direitas.
Richard então pensou em como era estranho aquilo — seu irmão, que tinha sido um irresponsável desde os seis anos, conseguira uma excelente esposa e um filho excepcional. Ele próprio, no entanto, que sempre procurara ser delicado e generoso (o que quer que "generoso" significasse, neste mundo louco), acabara casando com Lina, que se transformara em uma mulher taciturna e porcina, além de lhe dar Seth. Olhando para o rosto cansado e honesto de Nordhoff, ele se perguntava o que, exatamente, tinha acontecido, e que parte disto fora culpa sua, um resultado natural de sua própria e calada fraqueza.
— Sim — disse Richard. — Um garoto às direitas, não?
— Eu não me surpreenderia se isso funcionasse — falou Nordhoff. — Não me surpreenderia em absoluto.
Depois que Nordhoff se foi, Richard Hagstrom conectou o processador de palavras à tomada na parede e ligou o aparelho. Houve um zumbido, e ele esperou para ver se as letras IBM surgiam na face da tela. Nada apareceu. Em vez disso, espectralmente, como uma voz vinda da sepultura, estas palavras brotaram das sombras, como fantasmas verdes:
FELIZ ANIVERSÁRIO, TIO RICHARD! JON
— Céus! — murmurou Richard, caindo sentado na cadeira.
O acidente que matara seu irmão, esposa e filho, acontecera duas semanas antes — os três voltavam de uma espécie de excursão que durara todo o dia, e Roger estava embriagado.
Estar embriagado era uma ocorrência perfeitamente comum na vida de Roger Hagstrom.
Desta vez, no entanto, sua sorte se esgotara e ele dirigira a velha e empoeirada caminhonete pela borda de um abismo de vinte e sete metros. O veículo se espatifara e ardera. Jon tinha quatorze anos — não, quinze. Fizera quinze anos apenas uns dois dias antes do acidente, segundo havia dito o velho. Mais três anos, e se livraria daquele estúpido brutamontes. O aniversário dele... e o meu logo chegando.
Uma semana, a partir desse dia. O processador de palavras havia sido o presente de aniversário que Jon lhe daria.
De algum modo, isso tornava as coisas piores. Richard não saberia dizer precisamente como ou porque, mas assim era. Esticou a mão para desligar a tela, mas depois recuou.
Certo garoto montou um desintegrador de átomos com duas latas de sopa e partes elétricas de automóvel no valor de cinco dólares.
Sim, e na cidade de Nova York, o sistema de esgotos está cheio de crocodilos. E a Força Aérea dos E. U.A. tem o corpo de um alienígena preservado em gelo, em qualquer ponto de Nebraska. Conte-me algo mais. É cascata. Contado, isso talvez seja algo que eu não queira saber com certeza.
Richard levantou-se, deu a volta até atrás do VDT e espiou por entre as fendas. Era bem como Nordhoff tinha dito. Fios com a inscrição PEÇAS ELETRÔNICAS PARA RÁDIO — MADE IN TAIWAN. Fios com a inscrição WESTERN ELECTRIC e WESTRE X ou ERECTOR SET, com o pequeno r da marca registrada dentro do círculo.
Ele também viu algo mais, algo que Nordhoff não vira ou não quisera mencionar. Havia um transformador de Trem Lionel ali dentro, preso com arames, como a Noiva de Frankenstein.
— Céus! — exclamou, rindo, mas de repente, perto das lágrimas. — Céus, Jonny, o que achava que estava fazendo?
Esta resposta ele também sabia. Durante anos sonhara e falara em possuir um processador de palavras, mas quando as risadas de Lina tinham ficado demasiado sarcásticas para que as suportasse, conversara a respeito com Jon.
— Eu poderia escrever mais depressa, reescrever mais depressa e produzir mais — havia dito a Jon, no final daquele verão. O menino o fitara seriamente, os olhos azul-claros, inteligentes, mas sempre tão cautelosamente circunspectos, amplificados por trás dos óculos. — Seria grande... realmente formidável.
— Então, por que não compra um, Tio Rich?
— Eles não são dados precisamente de graça — respondera Richard, sorrindo. — O modelo mais barato custa uns três mil. A partir dele, pode-se chegar até os que custam uma faixa de dezoito mil.
— Bem, qualquer dia eu lhe monto um — havia dito Jon.
— Sim, talvez você monte — respondera Richard, dando-lhe um tapinha nas costas.
Então, até o telefonema de Nordhoff, ele não pensara mais nisso.
Fios de modelos elétricos comprados em lojas comuns.
Um transformador de Trem Lionel.
Céus.
Retornou à frente do aparelho, querendo desligá-lo, como se realmente tentasse escrever algo nele e uma falha, de certa forma, profanaria o que seu ansioso e frágil (condenado) sobrinho pretendera.
Em vez disso, ele apertou o botão EXECUTAR, no teclado. Um curioso e leve arrepio percorreu-lhe a espinha quando fez isso. EXECUTAR era uma singular palavra para ser usada, se refletirmos nisso. Não era uma palavra que ele associasse à escrita, mas sim a câmaras de gás e cadeiras elétricas... talvez as velhas e poeirentas caminhonetes despencando da beira de estradas.
EXECUTAR.
O CPU tinha um zumbido mais alto do que os ouvidos nas ocasiões em que vira processadores de palavras funcionando em vitrines. De fato, ele quase rugia. O que contém a caixa de memória, Jon? perguntou-se. Molas de colchão? Transformadores de trem enfileirados? Latas de sopa? Tornou a pensar nos olhos de Jon, em seu rosto quieto e delicado. Seria estranho, talvez mórbido, ter ciúmes do filho de outro homem?
Ele devia ter sido meu. Eu sabia... e penso que ele também sabia. Então, havia Belinda, a esposa de Roger. Belinda, que usava óculos escuros com freqüência, mesmo em dias nublados. Dos modelos de aros grandes, porque contusões em torno dos olhos têm a infeliz mania de espalhar-se. Contudo, às vezes olhava para ela, sentada lá, imóvel e vigilante, sob o ruidoso guarda-sol das gargalhadas de Roger, e pensava quase a mesma e exata coisa: ela devia ter sido minha.
Era um pensamento aterrador, porque ambos haviam conhecido Belinda no ginásio e ambos tinham saído com ela. Havia uma diferença de dois anos entre ele e Roger, de modo que Belinda se situara perfeitamente na linha intermediária, um ano mais velha do que Richard e um mais nova do que Roger. De fato, Richard fora o primeiro a ter encontros com a jovem que depois se tornaria a mãe de Jon. Então, surgira Roger.
Roger que era mais velho e mais forte, Roger que sempre tivera o que queria, Roger que prejudicaria quem atravessasse seu caminho.
Fiquei com medo. Fiquei com medo e a deixei ir-se. Teria sido assim tão simples?
Por Deus, acho que foi. Eu gostaria que, fosse diferente, mas talvez seja melhor não mentir para nós mesmos, sobre coisas como covardia. E vergonha.
E se aquelas coisas fossem verdade? Se, de algum modo, Lina e Seth pertencessem a seu malévolo irmão e se Belinda e Jon, de algum modo, pertencessem a ele, o que isso provaria? E como, exatamente, uma pessoa racional imaginaria lidar com tal confusão, tão absurdamente equilibrada? Dava para rir? Para chorar? Alguém se mataria por um vira-lata?
Eu não me surpreenderia se isso funcionasse. Não me surpreenderia em absoluto.
EXECUTAR.
Seus dedos moveram-se rapidamente sobre as teclas. Richard olhou para a tela e viu estas letras, flutuando em verde:
MEU IRMÃO ERA UM BÊBADO IMPRESTÁVEL.
Elas flutuaram na tela e, subitamente, Richard pensou em um brinquedo que tivera em criança. Era chamado Bola-Oito Mágica. Fazia-se a ele uma pergunta que pudesse ter sim ou não como resposta e depois se girava a Bola-Oito Mágica, para saber-se o que ela diria a respeito do assunto — e suas respostas mistificadoras, mas ainda assim misteriosamente fascinantes, incluíam coisas como É QUASE CERTO, EU NÃO PLANEJARIA ISSO e TORNE A PERGUNTAR MAIS TARDE.
Roger sentira ciúmes do brinquedo e, finalmente, após obrigar Richard a entregá-lo certo dia, atirara-o na calçada o mais forte que pudera, quebrando-o. Depois rira. Agora, sentado ali, ouvindo o estranhamente espasmódico rugido do gabinete CPU que Jon improvisara, Richard recordou como se jogara à calçada, chorando e incapaz de acreditar que o irmão houvesse feito tal coisa.
— Bebê-chorão, bebê-chorão, vejam o bebê-chorão! — zombara Richard. Isso não passava de um brinquedinho vagabundo, Richie. Dê uma espiada, nele só havia alguns letreiros e um montão de água.
— EU VOU CONTAR! — Richard havia gritado, com todo o vigor dos pulmões. Sua cabeça estava quente. Seu nariz se entupira com as lágrimas do ultraje sofrido. — VOU CONTAR O QUE VOCÊ FEZ, ROGER! VOU CONTAR A MAMÃE!
— Se contar a ela, eu quebro seu braço — ameaçara Roger:
E, em seu gélido sorriso, Richard percebera que ele não estava brincando. Nada contara à mãe.
MEU IRMÃO ERA UM BÊBADO IMPRESTÁVEL.
Bem, singularmente montado ou não, o aparelho imprimia letras na tela. Ainda estava por ver se estocava dados no CPU, mas a combinação feita por seu sobrinho, unindo um painel Wang a uma tela IBM, de fato funcionara. Só por coincidência, aquilo evocara lembranças bastante cruéis, mas ele decidiu que Jon não tivera culpa disso.
Olhou em torno do estúdio e seus olhos pousaram em uma foto que não havia escolhido e da qual não gostava. Era uma foto de Lina, feita em retratista, que ela lhe dera no Natal, dois anos antes. Quero que a pendure em seu estúdio, havia dito e, naturalmente, ele a pendurara. Imaginou que talvez fosse um meio de Lina vigiá-lo, mesmo não estando presente. Não me esqueça, Richard. Eu estou aqui. Talvez tenha apostado no cavalo errado, mas continuo aqui. E é melhor não se esquecer disto.
A foto retocada, com suas tonalidades pouco naturais, destoava curiosamente da amistosa mescla de gravuras de Whistler, Homer e N. C. Wyeth. Os olhos de Lina estavam semicerrados, o forte arco de Cupido de sua boca composto em algo que não era bem um sorriso. Eu continuo aqui, Richard, aquela boca parecia dizer-lhe. E não se esqueça disto.
Ele datilografou:
A FOTO DE MINHA ESPOSA ESTÁ PENDURADA NA PAREDE OESTE DE MEU ESTÚDIO.
Contemplou as palavras e detestou-as tanto como detestava a foto. Pressionou o botão SUPRIMA. As palavras desapareceram. Agora nada mais havia na tela, exceto o fixo tremular do cursor.
Richard olhou para a parede e viu que a foto de sua esposa também desaparecera.
Permaneceu sentado por muitíssimo tempo — pelo menos, assim lhe pareceu — contemplando a parede onde a foto estivera. O que finalmente o despertou daquele torpor, provocado pelo choque do inacreditável, foi o cheiro emitido pelo CPU — um cheiro que recordava da infância, tão nitidamente, como recordava a Bola-Oito Mágica que Roger quebrara, porque não era dele. O cheiro era essência de transformador de trem elétrico. Depois que se sentia tal cheiro, devia-se desligá-lo, para que esfriasse.
Foi o que ele fez.
Em um minuto.
Levantou-se e foi até a parede, caminhando sobre pernas entorpecidas. Passou os dedos pelo apainelado Armstrong. A foto havia estado ali, bem ali. Só que agora sumira, como sumira a alça onde era pendurada. Tampouco existia o buraco em que aparafusara a alça, no apainelado.
Desapareceram.
A palavra esmaeceu abruptamente e ele cambaleou para trás, pensando alheadamente que ia desmaiar. Esforçou-se o mais que pôde, até a palavra entrar de novo em foco.
Seus olhos passaram no espaço vazio na parede, onde estivera o retrato de Lina, para o processador de palavras que seu sobrinho falecido havia montado.
Você ficaria surpreso, ouvia Nordhoff dizendo, em sua mente. Você ficaria surpreso, você ficaria surpreso, oh, sim, se um garoto dos anos cinqüenta descobria partículas que viajavam para trás no tempo, você ficaria surpreso ante o que seu genial sobrinho era capaz de fazer com um punhado de elementos rejeitados de um processador de palavras, e componentes elétricos. Ficaria tão surpreso, que julgaria estar enlouquecendo.
O cheiro do transformador agora era mais forte e intenso. Ele pôde ver fiapos de fumaça subindo das fendas no arcabouço da tela. O ruído do CPU também era mais alto.
Precisava desligar o aparelho — por mais esperto que Jon houvesse sido, aparentemente não tivera tempo de aperfeiçoar todas as engrenagens daquela coisa de loucos.
No entanto, Jon saberia que sua máquina fazia aquilo?
Sentindo-se uma ficção da própria imaginação, Richard tornou a sentar-se diante do teclado e datilografou:
A FOTO DE MINHA ESPOSA ESTÁ NA PAREDE.
Olhou para a frase por um instante, tornou a olhar para o teclado e então apertou a tecla EXECUTAR.
Olhou para a parede.
O retrato de Lina estava lá, no lugar onde sempre estivera.
— Meu Deus! — sussurrou ele. — Meu Deus do céu!
Esfregou a mão contra a face, olhou para a tela (agora vazia, exceto pelo cursor), e então datilografou:
NÃO HÁ NADA EM MEU PISO.
Tocou o botão INSERIR, depois datilografou:
EXCETO POR MIL DUZENTOS E VINTE DÓLARES EM MOEDAS DE OURO,
EM UM PEQUENO SACO DE ALGODÃO.
Apertou EXECUTAR.
Olhou para o chão, onde agora havia uma pequena sacola branca de algodão com a parte superior franzida por um cordão. As palavras WELLS FARGO estavam impressas na sacola, em desbotada tinta negra.
— Oh, Deus! — ele se ouviu dizendo, em uma voz que não era a sua. — Oh. Deus, Deus!
Teria continuado invocando o nome do Salvador por minutos ou horas, se o processador de palavras não começasse a emitir seu "bip" insistentemente para ele. No alto da tela, cintilava a palavra SOBRECARGA.
Richard desligou tudo apressadamente e saiu do estúdio como se os demônios do inferno o perseguissem.
Contudo, antes disso, ergueu o pequeno saco fechado por cordões e o enfiou no bolso da calça.
Quando ele ligou para Nordhoff aquela noite, um frio vento de novembro tocava desafinadas gaitas de foles nas árvores do exterior. O grupo de Seth estava no andar de baixo, assassinando uma canção de Bob Seger. Lina havia saído, estava jogando bingo na Igreja de Nossa Senhora das Dores Perpétuas.
— A máquina funciona? — perguntou Nordhoff.
— Funciona muito bem — respondeu Richard. Enfiou a mão no bolso e pegou uma moeda.
Era pesada — mais pesada do que um relógio Rolex. O severo perfil de uma águia salientava-se em um lado, juntamente com a data: 1871. — Funciona de uma forma que o senhor nem acreditaria.
— Eu acredito — replicou Nordhoff, tranqüilo. — Ele era um garoto muito inteligente e o queria muito, Sr. Hagstrom. Contudo, seja cauteloso. Um garoto é somente um garoto, inteligente ou não, e o amor pode ser mal orientado. Entende o que quero dizer?
Richard não entendeu nada. Sentia-se acalorado e febril. O jornal do dia registrava o preço atual do ouro no mercado a 514 dólares a onça. As moedas haviam pesado uma média de 4.5 onças cada uma, em sua balança de correspondência. A taxa corrente do mercado, o total chegava a 27.756 dólares. E ele imaginava que isso fosse apenas um quarto do que poderia conseguir por aquelas moedas, se as vendesse como moedas.
— Poderia vir até aqui, Sr. Nordhoff? Agora? Esta noite?
— Não — respondeu Nordhoff. — Acho que não devo ir, Sr. Hagstrom. Penso que isto deve ficar entre você e Jon apenas.
— Mas...
— Lembre-se apenas do que eu lhe disse. Por Deus, seja cauteloso.
Houve um ligeiro clique e a ligação foi desfeita.
Meia hora depois, Richard estava novamente em seu estúdio, olhando para o processador de palavras. Tocou o botão LIGA/DESLIGA, mas sem girá-lo. Ouvira o conselho de Nordhoff, da segunda vez em que o velho o dissera. Por Deus, seja cauteloso. Sim. Ele precisaria ser cauteloso. Uma máquina que podia fazer tais coisas...
Como podia uma máquina fazer tais coisas?
Ele não tinha idéia... mas de algum modo, isso fazia com que toda aquela loucura fosse aceita com mais facilidade. Ele era um professor de Inglês e escritor nas horas vagas, não um técnico. Possuía um longo histórico de ignorar como as coisas funcionavam: fonógrafos, motores a gasolina, telefones, televisões, o mecanismo de descarga de seu vaso sanitário. Sua vida tinha sido um histórico de entender operações, mais do que princípios. Haveria alguma diferença nisso, exceto em grau?
Richard ligou a máquina. Como antes, ela disse: FELIZ ANIVERSÁRIO, TIO RICHARD! JON. Ele pressionou EXECUTAR, e a mensagem de seu sobrinho desapareceu.
Esta máquina não funcionará por muito tempo, pensou subitamente. Tinha certeza de que Jon só estivera trabalhando nela pouco antes de morrer, confiando em que haveria tempo de sobra, porque o aniversário do Tio Richard, afinal de contas, só seria comemorado em mais três semanas...
No entanto, o tempo se esgotara para Jon, de maneira que seu totalmente espantoso processador de palavras, que parecia inserir novas coisas ou suprimir velhas coisas do mundo real, cheirava como urn transformador chamuscado de trem, começando a fumegar após poucos minutos. Jon não tivera chance de aperfeiçoá-lo. Ele estava...
Certo de que haveria tempo?
Isso, no entanto, era errado. Estava tudo errado. Richard sabia. O rosto quieto e vigilante de Jon, os olhos sóbrios por trás das espessas lentes dos óculos... ali não havia certeza, nenhuma crença na esperança do tempo. Que palavra lhe ocorrera, horas antes, nesse mesmo dia? Condenado. Esta não era apenas uma boa palavra para Jon; era a palavra certa. Aquele senso de predestinação pendera sobre o garoto, tão palpavelmente, que por vezes Richard sentira vontade de abraçá-lo, de dizer-lhe para animar-se um pouquinho, que costumava haver finais felizes e que os bons nem sempre morriam jovens.
Pensou então em Roger, atirando sua Bola-Oito Mágica na calçada, atirando-a com toda a força que podia: ouviu o plástico rachar e viu o fluido mágico da Bola-Oito — apenas água, afinal de contas — escorrer calçada abaixo. Este quadro se fundiu ao da caminhonete recauchutada de Roger, com os dizeres HAGSTROM — ENTREGAS A GRANEL, impressos em um lago, mergulhando por sobre a borda de uma poeirenta rampa que se desmoronava, batendo de frente no fundo do abismo, com um ruído que, como o próprio Roger, não era grande coisa. Ele viu — embora não querendo ver — o rosto da cunhada desintegrando-se em ossos e sangue. Viu Jon sendo carbonizado entre os destroços, gritando, enegrecendo.
Nenhuma certeza, nenhuma esperança real. Ele sempre transmitira um senso de tempo esgotando-se. E, no fim, provara que estava certo.
— O que significa isso? — murmurou Richard, olhando para a tela em branco.
Como a Bola-Oito Mágica responderia à questão? REPITA A PERGUNTA MAIS TARDE? O DESFECHO É OBSCURO? Ou talvez SERÁ MESMO?
O ruído expandindo-se do CPU voltava a ficar mais forte e mais rapidamente do que à tarde. Ele já podia sentir o cheiro do transformador do trem que Jon instalara no maquinismo atrás da tela, o qual começava a esquentar.
A máquina dos sonhos mágicos.
Seria isso? Isso mesmo que Jon pretendera dar ao tio como presente de aniversário? Na era espacial, o equivalente a uma lâmpada mágica ou a um poço dos desejos?
Ouviu a porta dos fundos de sua casa sendo aberta, depois as vozes de Seth e dos demais membros de sua banda. Vozes muito altas, estridentes. Certamente haviam estado bebendo ou fumando maconha.
— Onde está seu velho, Seth? — ouviu um deles perguntar.
— Acho que fazendo bobagens em seu estúdio, como de costume — replicou Seth. — Acho que ele...
O vento subiu novamente, levando consigo o resto da frase, mas sem apagar as debochadas risadas tribais. Richard ficou a ouvi-los, a cabeça ligeiramente de banda. De repente, datilografou:
MEU FILHO É SETH ROBERT HAGSTROM.
Seu dedo pairou sobre o botão SUPRIMA.
O que está fazendo? — sua mente gritou para ele. — Isto é sério: "Pretende assassinar seu próprio filho?
— Ele deve fazer alguma coisa lá dentro — falou um dos outros.
— O velho é um maldito imbecil — respondeu Seth. — Um dia, pergunte a minha mãe. Ela lhe dirá. Ele...
Não vou assassiná-lo. Vou... SUPRIMI-LO.
— ... nunca fez outra coisa, senão...
As palavras MEU FILHO É SETH ROBERT HAGSTROM desapareceram do vídeo.
No exterior, as palavras de Seth desapareceram com elas.
Lá fora, agora não havia outro som além do produzido pelo vento frio de novembro, soprando carrancudos prognósticos para o inverno.
Richard desligou o processador de palavras e saiu do estúdio. A entrada para carros estava vazia. Norm qualquer-coisa guitarrista líder do conjunto, dirigia uma monstruosa e, de certa forma, sinistra e velha caminhonete LTD, na qual o grupo transportava seu equipamento, ao seguir para seus pouco freqüentes compromissos musicais. Naquele momento, não estava mais estacionada na entrada de carros. Talvez estivesse em alguma parte do mundo, viajando por alguma auto-estrada ou parada no pátio de estacionamento de algum seboso estabelecimento de segunda para a venda de hamburgeres. Norm também estaria em algum ponto do mundo, como Davey, o baixista, cujos olhos eram aterradoramente apáticos e que usava um alfinete de segurança pendurado em um lóbulo de orelha, da mesma forma que o baterista, que não possuía os dentes da frente.
Seth havia sido SUPRIMIDO.
— Não tenho filho — murmurou Richard.
Quantas vezes lera essa melodramática frase em novelas ruins? Cem? Duzentas?
Aquelas palavras nunca lhe haviam soado verdadeiras. Aqui, no entanto, eram verdadeiras. Agora, eram verdadeiras. Oh, sim!
O vento aumentou de força e, de súbito, Richard foi tomado por uma dolorosa cãibra de estômago, que o fez dobrar-se em dois, ofegando. Expeliu uma explosiva ventosidade.
Quando a cãibra cedeu, ele entrou em casa.
A primeira coisa percebida foi que os surrados tênis de Seth — seu filho possuía quatro pares e recusava-se a jogar fora qualquer deles — haviam desaparecido do vestíbulo. Foi até o corrimão da escada e passou o polegar por um trecho dele. Aos dez anos (já com idade bastante para definir entre certo e errado, mas Lina não permitira que o marido batesse no filho, apesar disso), Seth esculpira profundamente suas iniciais na madeira daquele corrimão, uma madeira para a qual Richard trabalhara quase um verão inteiro. Ele havia lixado o lugar, emassara e tornara a envernizar, mas o fantasma daquelas iniciais permanecera.
Agora, elas haviam desaparecido.
Andar de cima. Quarto de Seth. Estava arrumado e limpo, desabitado, seco e desprovido de personalidade. Bem poderia ostentar um cartaz na maçaneta, dizendo QUARTO DE HÓSPEDES.
Andar de baixo. Foi onde Richard ficou mais tempo. Os enrolados de fios elétricos tinham desaparecido; amplificadores e microfones tinham desaparecido; a bagunça de peças de gravador que Seth "ia consertar", como vivia repetindo, havia desaparecido (ele não possuía as mãos e nem a concentração de Jon). Em vez disto, o lugar apresentava a profunda (se não particularmente agradável) marca da personalidade de Lina — móveis pesados e cheios de floreados, melosas tapeçarias de veludo (uma delas representando a última Ceia, na qual Cristo parecia Wayne Newton, outra mostrando uma corça contra o pôr do sol em um horizonte do Alaska), um berrante tapete, tão espaventoso como sangue arterial. Não havia mais o menor indício de que um garoto chamado Seth Hagstrom um dia houvesse ocupado aquele recinto. Aquele ou qualquer outro da casa.
Richard ainda estava parado ao pé da escada, olhando em tomo, quando ouviu um carro parar diante da casa.
Lina, pensou, e sentiu uma onda de quase frenética culpa. É Lina, voltando do bingo — e o que irá dizer, quando vir que Seth desapareceu? O que... o que...?
— Assassino! — ele a ouviu gritando. — Você assassinou o meu, filho!
Contudo, ele não assassinara Seth.
— Eu o SUPRIMI — murmurou, enquanto subia a escada do porão, para ir ao encontro dela na cozinha.
Lina estava mais gorda.
Enviara ao bingo uma mulher pesando uns noventa quilos. A mulher que voltava pesaria no mínimo cento e cinqüenta, talvez mais; ela precisava virar-se ligeiramente de banda para entrar pela porta dos fundos. Ancas elefantinas e coxa da mesma qualidade, tremelicavam em ondulados movimentos de maré por baixo das calças compridas de poliéster, cor de azeitona passando do ponto de maturidade. A pele de Lina, apenas pálida três horas antes, agora estava lívida e doentia. Embora não sendo médico, Richard decidiu que podia observar um sério risco de moléstia hepática ou incipiente doença cardíaca naquela pele. Os olhos empapuçados o fitaram com inflexível, idêntico desdém.
Ela carregava em uma das mãos rechonchudas o corpo congelado de um enorme peru.
Ele se torcia e virava dentro de seu envoltório de celofane, como o cadáver de um bizarro suicida.
— O que é que está olhando, Richard? — perguntou ela.
Você, Lina. É você que estou olhando. Porque foi nisto que você se transformou, em um mundo onde não tínhamos filhos. Nisto que você se transformou, em um mundo onde não havia nenhum objeto para o seu amor — por mais envenenado que seja esse amor. É essa aparência de Lina, em um mundo onde tudo entra e absolutamente nada sai. Você, Lina. É você que estou olhando. Você.
— Esse peru, Lina — conseguiu finalmente dizer. — É um dos maiores que já...
— Não vamos ficar aqui parados olhando para ele, idiota! Ajude-me com isto!
Ele pegou o peru e o colocou sobre o balcão, sentindo suas ondas de lúgubre friagem. Dava a impressão de um bloco de madeira.
— Aí, não! — gritou ela impacientemente, apontando para a despensa. — Não caberia! Coloque-o no freezer!
— Desculpe — murmurou ele.
Nunca haviam tido um freezer antes. Nunca, no mundo onde houvera um Seth. Richard levou o peru para a despensa, onde um comprido freezer Amana jazia sob a fria luz branca de tubos fluorescentes, como um gélido ataúde branco. Colocou-o ao lado de corpos criogenicamente preservados de outras aves e animais, depois retornou à cozinha. Lina tirara do armário os copos de manteiga de amendoim e os estava comendo metodicamente, um após outro.
— Foi o bingo do Dia de Graças — explicou ela. — Foi antecipado para esta semana, em vez de na próxima, porque o Padre Philipps será hospitalizado, para tirar a vesícula. Eu ganhei o primeiro prêmio.
Ela sorriu. Uma mistura castanha de chocolate e manteiga de amendoim pingou e escorreu de seus dentes.
— Lina — disse ele. — Nunca lamentou não termos tido filhos?
Ela o fitou como se ele houvesse ficado louco de todo.
— Em nome de Deus, para que eu quereria semelhantes trambolhos? — exclamou ela.
Enfiou no armário os copos de manteiga de amendoim, agora reduzidos à metade. — Vou para a cama. Você vem também ou volta lá para fora e fica brincando um pouco mais com sua máquina de escrever?
— Vou lá fora um pouco mais — disse ele, em voz surpreendentemente firme. — Não me demorarei.
— Aquela engenhoca funciona?
— De que está...
Richard compreendeu e tornou a sentir outro acesso de culpa. Ela sabia sobre o processador de palavras, claro que sabia. A SUPRESSÃO de Seth não afetara Roger.
Assim, permanecera a pista da família de seu irmão.
— Oh, claro que não. Não funciona de jeito nenhum.
Ela assentiu, satisfeita.
— Aquele seu sobrinho! Sempre com a cabeça nas nuvens. Como você, Richard. Se você não fosse tão tímido, eu me perguntaria se não a andou enfiando onde não devia, há quinze anos atrás.
Ela riu, um riso rouco, surpreendentemente forte — o riso de uma devassa cínica e envelhecida. Por um momento, Richard quase a esbofeteou. Então, sentiu um sorriso aflorar a seus próprios lábios — um sorriso tão leve, tão branco e frio, como o freezer Amana, que havia substituido Seth neste novo trajeto.
— Não me demoro — falou. — Quero apenas anotar algumas coisas.
— Por que não escreve um conto que mereça um Prêmio Nobel ou coisa assim? — perguntou ela, com ar indiferente. As tábuas do corredor chiaram e resmungaram, quando Lina movimentou seu volume em direção à escada. — Ainda estamos devendo a conta do oculista que fez meus óculos para ler, e atrasados em uma prestação do Betamax. Por que não nos consegue algum maldito dinheiro?
— Bem — disse Richard. — Eu não sei, Lina. Enfim, tenho algumas boas idéias esta noite.
Tenho mesmo.
Ela se virou para fitá-lo, pareceu prestes a dizer algo sarcástico — algo sobre como nenhuma das boas idéias dele os tinha levado a uma vida fácil, mas que, assim mesmo, ela continuara ao seu lado — porém nada falou. Talvez fosse impedida por qualquer coisa no sorriso dele. Lina foi para o andar de cima. Richard ficou embaixo, ouvindo as passadas estrondosas da esposa. Sentia a testa suada. Estava nauseado e eufórico ao mesmo tempo.
Dando meia volta, retornou a seu estúdio.
Desta vez, quando ele ligou a unidade, o CPU não zumbiu nem rugiu; começou a emitir um irregular som uivante. Aquele cheiro de transformador de trem aquecido chegou quase imediatamente, vindo do arcabouço por trás da tela, e assim que ele apertou o botão EXECUTAR, apagando o FELIZ ANIVERSÁRIO, TIO RICHARD! da mensagens de seu sobrinho, a unidade passou a fumegar.
Não resta muito tempo, pensou ele. Não... estou enganado. Não há mais tempo nenhum.
Jon sabia disso e agora eu também sei.
As opções reduziam-se a duas: trazer Seth de volta, com o botão INSERIR (tinha certeza de que poderia fazê-lo; seria tão fácil como havia sido a criação dos dobrões de ouro espanhóis) ou terminar o trabalho.
O cheiro ficava mais forte, mais urgente. Em pouquíssimos momentos, nada mais que isso, a tela começaria a piscar sua mensagem de SOBRECARREGADO.
Datilografou:
MINHA ESPOSA É ADELINA MABEL WARREN HAGSTROM.
Apertou o botão SUPRIMIR.
Datilografou:
SOU UM HOMEM QUE VIVE SÓ.
Agora, a palavra começou a piscar regularmente no canto superior direito da tela:
SOBRECARREGADO SOBRECARREGADO SOBRECARREGADO.
Por favor. Por favor, deixe-me terminar. Por favor, por favor, por favor...
A fumaça que saía pelas frestas no gabinete do vídeo, agora estava mais espessa e mais cinzenta. Richard baixou os olhos para o lamurioso CPU e viu que também saía fumaça de suas fendas... e abaixo daquela fumaça, pôde distinguir uma súbita faísca vermelha de fogo.
Bola-Oito, serei saudável, rico ou sábio? Ou viverei sozinho e talvez morra de tristeza?
Há tempo suficiente?
NÃO POSSO VER AGORA, REPITA MAIS TARDE.
Exceto que não haveria mais tarde.
Ele apertou o botão INSERIR e a tela escureceu, embora permanecesse a constante mensagem de SOBRECARREGADO, que agora piscava em um ritmo frenético, soluçante.
Datilografou:
EXCETO POR MINHA ESPOSA, BELINDA, E MEU FILHO, JONATHAN.
Por favor! Por favor!
Apertou o botão EXECUTAR.
A tela ficou vazia. Permaneceu vazia pelo que a ele pareceu uma eternidade, embora continuando com a palavra SOBRECARREGADO, agora piscando tão depressa que, se não fosse uma ligeira sombra, dava a impressão de permanecer constante, como um computador executando um laço fechado de comando. Algo dentro do CPU pipocou e chiou. Richard grunhiu.
As letras verdes surgiram na tela, flutuando misticamente sobre o negro:
SOU UM HOMEM QUE VIVE SÓ, EXCETO POR MINHA ESPOSA, BELINDA, E MEU FILHO, JONATHAN.
Ele apertou duas vezes o botão EXECUTAR.
Agora, pensou. Agora vou datilografar: TODOS OS DEFEITOS MECÂNICOS DESTE PROCESSADOR DE PALAVRAS FORAM TOTALMENTE ELIMINADOS ANTES QUE O SR. NORDHOFF O TROUXESSE PARA CÁ. Ou datilografarei: TENHO IDÉIAS PARA VINTE NOVELAS BEST-SELERS NO MÍNIMO Ou datilografarei: EU E MINHA FAMÍLIA VIVEREMOS FELIZES PARA SEMPRE. Ou datilografarei...
Contudo, ele nada datilografou. Seus dedos pairaram estupidamente acima das teclas, enquanto Richard sentia — sentia literalmente — todos os circuitos de seu cérebro emperrados, como carros encostados uns nos outros, no pior congestionamento de trânsito de Manhattan, na história da combustão interna.
A tela se encheu repentinamente com a palavra:
GADOSOBRECARREGADOSOBRECARREGADOSOBRECARREGA
Houve outro estouro, depois uma explosão no CPU. Chamas espicharam-se do gabinete, extinguindo-se em seguida. Richard recostou-se em sua cadeira, protegendo o rosto, para o caso da tela implodir. Ela não implodiu. Apenas ficou escura.
Ele continuou sentado, fitando o negror da tela.
NÃO POSSO RESPONDER COM CERTEZA, PERGUNTE MAIS TARDE.
— Papai?
Girou em sua cadeira, o coração batendo tão forte, que dava a impressão de realmente estar prestes a saltar do peito.
Jon estava ali, Jon Hagstrom, e seu rosto era o mesmo, porém de certo modo diferente — a diferença era sutil, mas perceptível. Talvez, pensou Richard. aquela fosse a diferença em paternidade entre dois irmãos. Ou talvez fosse porque, simplesmente, desaparecera dos olhos do garoto aquela expressão cautelosa e vigilante. Olhos ligeiramente ampliados por lentes espessas (os óculos agora tinham armação metálica, ele percebeu, não aquela feia armação industrial de plástico, que Roger sempre comprava para o garoto, porque era quinze pratas mais barata).
Talvez fosse algo até mais simples: aquele ar de condenado desaparecera dos olhos de Jon.
— Jon? — perguntou ele roucamente, perguntando-se se de fato, quisera algo mais do que isto. Quisera? Pareceu ridículo, mas supôs que sim. Supôs que as pessoas sempre queriam. — Jon, é você, não é?
— Quem mais poderia ser? — Jon apontou a cabeça para o processador de palavras. — Não se machucou, quando esse bichinho se foi para o paraíso dos dados, machucou?
Richard sorriu.
— Não, não me machuquei. Estou ótimo.
Jon assentiu.
— Sinto muito que ele não tenha funcionado. Não sei o que deu em mim, para usar todas essas peças desaparelhadas. — Meneou a cabeça. — Francamente, eu não sei. É como se tivesse que fazer isso. Coisas de criança.
— Bem — disse Richard, reunindo-se ao filho e passando um braço em torno de seus ombros, — talvez você faça um melhor, da próxima vez.
— É, talvez faça. Ou talvez eu tente uma outra coisa.
— Também seria formidável.
— Mamãe disse que fez chocolate para você, se quiser ir tomar.
— Eu quero — disse Richard.
Os dois caminharam juntos do estúdio para a casa, à qual não havia chegado nenhum peru congelado, ganho como prêmio em um torneio de bingo. — Neste momento exato, acho que uma xícara de chocolate seria excelente.
— Amanhã, vou retirar todas as peças daquela coisa que possam ser aproveitadas e jogar o resto fora — disse Jon.
Richard assentiu.
— Suprimi-a de nossas vidas — disse.
Então os dois entraram na casa, acolhidos pelo cheiro do chocolate quente, rindo juntos.
"A caminho da escola, você me pergunta se as outras escolas têm graus.
Fui até a Rua das Frutas e seus olhos desviaram-se.
Enquanto caminhamos sob aquelas árvores amarelas, você tem uma marmita do exercito debaixo de um braço e suas pernas curtas, vestidas em calças militares, transformam sua sombra em uma tesoura que nada corta na calçada.
De repente, você me diz que todos os alunos são frutos.
Todos preferem as uvas-do-monte, por serem tão pequenas.
As bananas, diz você, são rapazes patrulheiros.
Em seus olhos, vejo punhados de laranjas, amontoados de maçãs.
Tudo, diz você, tem braços e pernas e as melancias geralmente são morosas.
Elas gingam e são gordas.
"Como eu", diz você.
Eu poderia dizer-lhe coisas, mas é melhor não dizer.
Crianças melancias não sabem amarrar os sapatos; as ameixas o fazem por elas.
Ou como roubar o seu rosto... roubá-lo, roubá-lo, usá-lo como meu.
Ele se gastaria logo sobre meu rosto.
Gastaria, por ficar estirado.
Eu poderia dizer-lhe que morrer é uma arte e estou aprendendo depressa.
Naquela escola, creio que você já pegou seu próprio lápis e começou a escrever o seu nome.
Entre o agora e o então, acho que podíamos um dia, você matar a aula e irmos à Rua das Frutas.
Eu estacionaria em uma chuva daquelas folhas de outubro e veríamos uma banana escoltar a última melancia morosa por aquelas portas altas."
Não posso mais sair.
Há um homem junto à porta, com capa de chuva fumando um cigarro.
Mas, eu o registrei em meu diário e os envelopes estão todos alinhados sobre a cama, sangrando ao clarão de neon do bar vizinho.
Ele sabe que se eu morrer (ou mesmo desaparecer de vista) o diário será remetido e todos sabem que a CIA é na Virgínia.
500 envelopes comprados em 500 papelarias diferentes e 500 cadernetas com 500 páginas cada uma.
Estou preparado.
Posso vê-lo aqui de cima.
Seu cigarro assoma, logo acima da gola do impermeável e no metrô, em algum ponto há um homem sentado sob um anúncio e pensando em meu nome.
Homens me discutiram em salas dos fundos.
Se toca o telefone, ouve-se apenas um resfolegar.
No bar fronteiro, um revólver cano-curto trocou de mãos no banheiro dos homens.
Cada bala sua leva meu nome.
Meu nome está em arquivos secretos e trancado em arquivos de jornais.
Minha mãe tem sido investigada; felizmente está morta.
Eles têm amostras caligráficas e examinam laçadas de pês ou a barra dos tês.
Meu irmão está com eles, já lhes disse?
Sua esposa é russa e ele me instiga a preencher formulários.
Conto isso em meu diário.
Ouça...
ouça
ouça, por favor:
você deve ouvir.
Na chuva, na parada do ônibus, corvos negros, de negros guarda-chuvas, fingem olhar seus relógios, porém não está chovendo. Seus olhos são dólares de prata.
Alguns são eruditos, na folha do FBI mas em geral são estrangeiros, enxameando em nossas ruas. Eu os logrei, saltei do ônibus na Rua 25 com Lex, onde um motorista de táxi me espiou sobre seu jornal.
No quarto acima do meu, uma velha aplicou ao chão uma ventosa elétrica que envia raios através de meu lustre, e agora escrevo no escuro, ao clarão do neon do bar.
Eu lhe digo que sei.
Enviaram-me um cão de manchas castanhas e uma antena de rádio no focinho.
Afoguei-o na pia e anotei em minha pasta de papéis — GAMMA.
Não olho mais a caixa de correspondência.
Cartões de visita são cartas-bombas.
(Afastem-se! Malditos sejam! Afastem-se, conheço gente importante! Estou dizendo, conheço gente muito importante!)
A lanchonete foi feita com pisos falantes e a garçonete disse que era sal, mas eu conheço arsênico quando o põem à minha frente. E o sabor amarelo de mostarda mascara o amargo odor de amêndoas.
Tenho visto luzes estranhas no céu.
Noite passada, um homem escuro sem face rastejou nove milhas de esgotos e emergiu em minha privada, querendo ouvir telefonemas através da madeira barata com pegadores cromados.
Estou lhe dizendo, cara, eu ouço.
Vi a marca enlameado de suas mãos sujando a porcelana.
Não atendo mais o telefone, já lhe contei isso?
Eles planejam inundar a terra com imundícies.
Estão planejando invasões.
Eles conseguiram médicos que advogam estranhas posições sexuais.
Então colocando laxativos como aditivos e supositórios que queimam.
Sabem como explodir o sol usando zarabatanas.
Embalei-me em gelo — já lhe contei isso?
Assim, evito que me atinjam.
Conheço cantos e uso amuletos.
Você talvez pense que me pegou, mas posso destruí-lo agora, a qualquer momento.
Agora, a qualquer momento.
Agora, a qualquer momento.
Aceita um café, meu amor?
Já lhe disse que não posso mais sair?
Há um homem junto à porta com capa de chuva.
Cedo ou tarde, a pergunta se apresenta a todo estudante de Medicina. Até que ponto o paciente suporta o choque de um trauma? Instrutores diferentes respondem à pergunta de diferentes maneiras mas, reduzida a seu nível básico, a resposta é sempre outra pergunta: Até que ponto o paciente deseja sobreviver?
26 de janeiro
Faz dois dias que a tempestade me derrotou. Esta manhã, medi a ilha a passos. Que ilha!
São 190 passos em sua parte mais larga e 267 de ponta a ponta.
Que me conste, nela nada existe para comer.
Meu nome é Richard Pine. Este é o meu diário. Se eu for encontrado (quando), poderei destruí-lo facilmente. Não há escassez de fósforos. De fósforos e de heroína. Há bastante de ambos. Nenhum deles vale nada por aqui, haha! Então, vou escrever. De qualquer modo, servirá para matar o tempo.
Se for para contar toda a verdade — e por que não? Sem dúvida, tempo não me falta! — devo começar dizendo que fui nascido Richard Pinzetti, na Pequena Itália de Nova York. Meu pai era um carcamano do Velho Mundo. Eu queria ser cirurgião. Meu pai riu, disse que eu era maluco e mandou que eu lhe levasse outro copo de vinho. Ele morreu de câncer, aos quarenta e seis anos. Fiquei contente.
Joguei futebol no ginásio. Fui o melhor jogador que minha escola já teve. Quarterback, o capitão do time. Nos meus dois últimos anos, fui o vencedor do torneio All-City. Eu odiava futebol. Entretanto, quando se é um pobre descendente de carcamano, precisando de iniciativa individual para entrar em uma universidade, a única saída são os esportes.
Assim, eu joguei e consegui minha bolsa-de-estudos por atletismo.
Na universidade, só joguei futebol até minhas notas serem boas o suficiente para me permitirem uma bolsa-de estudos acadêmica integral. Preparatório para Medicina. Meu pai morreu seis semanas antes de minha diplomação. Um bom negócio. Acham que eu queria cruzar aquele palco e receber meu diploma, depois olhar para baixo e ver aquela bola de gordura sentada lá? Uma galinha quer uma bandeira? Também entrei para uma fraternidade. Não era das melhores — nunca, tendo um sobrenome Pinzetti — mas ainda assim, era uma fraternidade.
Por que escrevo isto? Chega a ser quase engraçado. Não, retiro isto. É engraçado. O grande Dr. Pine, sentado em uma pedra com suas calças de pijama e uma camiseta, em uma ilha quase do tamanho de uma cusparada, escrevendo sua história. E estou com fome! Ora, não importa, escreverei a maldita história de minha vida, se quiser. Pelo menos, desviará minha mente do estômago. Mais ou menos isso.
Mudei meu sobrenome para Pine, antes de entrar para a faculdade de Medicina. Minha mãe disse que eu lhe partia o coração. Que coração? Um dia depois do meu velho estar debaixo da terra, ela já se embandeirava para o judeu da mercearia, no fim do quarteirão. Para alguém que tinha tanto amor ao nome, ela parecia com uma pressa dos diabos para trocá-lo por Steinbrunner.
Tudo quanto eu desejava era a cirurgia. Desde o ginásio. Já naquela época, ao envolver ataduras nas mãos antes de cada jogo e ao lavá-las depois. Quem quer ser um cirurgião, precisa proteger as mãos. Alguns colegas costumavam implicar comigo por causa disso, chamavam-me de covarde. Jamais lutei com eles. Jogar futebol já era risco suficiente.
Havia outros meios. Quem mais pegava no meu pé era Howie Plotsky, um imigrante grandalhão e idiota da Europa Central, com a cara coberta de espinhas. Eu entregava jornais e, juntamente com os jornais, também vendia o jogo dos números. Havia sempre uma pequena renda, brotando de vários lugares. Acaba-se conhecendo gente, compreendam, são feitas conexões. Não há outro jeito, quando se vive pelas ruas.
Qualquer filho da puta sabe como morrer. O negócio é aprender a sobreviver, entendem o que estou dizendo? Assim, paguei dez pratas ao cara mais corpulento da escola, Ricky Brazzi, para que ele fizesse a boca de Howie Plotsky desaparecer. Faça-a desaparecer, falei. Eu lhe pago um dólar para cada dente que me trouxer. Rico me trouxe três dentes, embrulhados em um guardanapo de papel. Ele deslocou duas articulações dos dedos, fazendo o trabalho, o que dá para ver em em que tipo de problema eu ia me meter.
Na faculdade de Medicina, enquanto os outros otários se matavam para continuar estudando — não houve intenção de fazer piada, ha-ha! — entre trabalhar como garçons, vender gravatas ou limpar assoalhos, eu continuava me virando. Apostas de futebol e basquete, alguns seguros. Eu permanecia em bons termos com a antiga vizinhança. E tudo correu às mil maravilhas durante a faculdade.
Só entrei no negócio ilegal de drogas, quando fazia minha residência. Eu trabalhava em um dos maiores hospitais da Cidade de Nova York. A princípio, foram apenas formulários de receitas em branco. Eu vendia um bloco com cem formulários a um sujeito da vizinhança e ele forjava os nomes de quarenta ou cinqüenta médicos diferentes, usando amostras caligráfïcas que eu também lhe vendia. O cara dava meia volta e distribuía os receituários na rua, a dez ou vinte dólares cada. Os viciados e adeptos das anfetaminas adoravam aquilo.
Depois de algum tempo, descobri a confusão que era a farmácia do hospital. Ninguém sabia o que entrava ou saía. Havia gente arrastando artigos a mancheias. Eu, não.
Sempre tive o máximo cuidado. Nunca me envolvi em problemas até ficar descuidado — e sem sorte. Contudo, vou aterrar em cima dos pés. Sempre aterro.
Não posso continuar escrevendo. Meu pulso está cansado e gastei a ponta do lápis.
Aliás, não sei por que me preocupo. Alguém logo estará me tirando daqui.
27 de janeiro
O barco saiu à deriva esta noite e afundou em três metros de água, ao norte da ilha. E daí? O fundo, afinal, estava mais furado do que queijo suíço, depois de bater nos recifes.
Eu já havia desembarcado tudo que representasse valor. Quatro galões de água. Um estojo de costura. Um estojo de pronto-socorro. Este livro no qual escrevo, que se presume deveria ser um registro de inspeção de barco salva vidas. Aí está a piada. Onde já se ouviu falar em um barco salva-vidas sem nenhuma COMIDA a bordo? O último registro aqui anotado, foi de 8 de agosto de 1970. Oh, sim, recolhi também duas facas, uma cega, a outra razoavelmente afiada, uma combinação de garfo e colher. Serão usados quando eu comer a minha ceia, esta noite. Pedra assada. Ha-ha! Bem, pelo menos, consegui fazer a ponta em meu lápis.
Quando der o fora desta pilha de rochas salpicadas de guano, vou processar a Paradise Lines, Inc., arrancar-lhe a pele. Vale a pena viver, nem que seja só para isso. Vou me livrar desta. Não tenham dúvidas a respeito. Vou sair daqui.
(mais tarde)
Quando fazia meu inventário, esqueci uma coisa: dois quilos de heroína pura, valendo cerca de 350.000 dólares, preço da rua, em Nova York. Aqui, seu valor é zero absoluto.
Não é engraçado? Ha-ha!
28 de janeiro
Bem, consegui comer — se aquilo se chama comer. Havia uma gaivota encarapitada em uma das rochas no centro da ilha. Naquele ponto, as rochas ficam amontoadas, em uma espécie de montanha em miniatura — todas elas também cobertas de bosta de aves.
Peguei uma pedra que se ajustava à minha mão e escalei as rochas. Até o mais próximo que ousei. A gaivota continuou lá, em cima de sua rocha, fitando-me com brilhantes olhos negros. Fiquei surpreso por não assustá-la com os roncos de meu estômago.
Atirei a pedra com quanta força pude e a atingi de lado. A gaivota soltou um grasnido alto e tentou fugir voando, mas eu lhe quebrara a asa direita. Subi dificultosamente o resto das rochas, mas ela escapou. Pude ver o sangue pontilhando suas penas brancas. A filha da mãe obrigou-me a uma verdadeira caçada; uma vez no outro lado do monte central de rochas, enfiei o pé na fenda entre duas pedras e quase fraturei o tornozelo.
A gaivota finalmente começou a ficar cansada e acabei agarrando-a no lado leste da ilha. Aliás, ela tentava entrar na água e ir embora nadando. Aferrei um punhado das penas de sua cauda, ela se virou e bicou-me. Então, peguei-a pelo pé. Pus a outra mão em torno de seu miserável pescoço e o torci. O som da fratura me encheu de satisfação.
O almoço está servido, ouviram? Ha-ha!
Levei-a para meu "acampamento", mas antes de depená-la e estripá-la, passei iodo na ferida produzida por sua bicada. Aves possuem todo tipo de micróbios transmissíveis e, no momento, o último de que preciso é uma infecção.
A operação na gaivota transcorreu normalmente. Não pude cozinhá-la, o que foi uma pena. Afinal, na ilha não existe qualquer tipo de vegetação ou madeira atirada pelas ondas, além do que, o bote afundou. Assim, comi a carne crua. Meu estômago queria expulsá-la em seguida. Eu compreendi, mas não permiti que o fizesse. Contei em ordem regressiva, até passar a náusea. Isto quase sempre funciona.
Podem imaginar aquela ave, quase me quebrando o tornozelo e depois me bicando? Se pegar outra amanhã, vou torturá-la. Deixei que esta escapasse da tortura fácil demais.
Agora enquanto escrevo, posso olhar para sua cabeça decepada, na areia. Os olhos negros, mesmo com o vidrado da morte, parecem zombar de mim.
Gaivotas terão alguma quantidade de cérebro?
Serão comíveis?
29 de janeiro
Nada para mascar hoje. Uma gaivota pousou perto do alto da pilha de rochas, mas fugiu voando, antes que eu chegasse perto o bastante para "dar-lhe uma rasteira", ha-ha!
Minha barba começa a crescer e coça como o diabo. Se a gaivota voltar e eu conseguir pegá-la, vou arrancar-lhe os olhos antes de comê-la.
Fui um danado de cirurgião, como creio já ter dito. Eles me botaram para fora.
Francamente, chega a ser engraçado; eles fazem qualquer sujeira, mas ficam revoltados, hipocritamente revoltados, quando alguém é apanhado fazendo o mesmo. Dane-se, Jack, desde que não seja eu! O Segundo Juramento de Hipócrates e Hipócritas.
Eu havia juntado o suficiente com minhas aventuras quando interno e residente (presume-se que o cara então seja como um dignitário e cavalheiro, segundo o Juramento de Hipócritas, mas não acreditam nisso), para poder instalar consultório em Park Avenue. Foi também uma boa coisa para mim; eu não tinha nenhum papai rico ou patrocinador estabelecido, como tantos de meus "colegas". Quando pude pregar minha tabuleta de profissional, fazia nove anos que meu pai estava na cova dos indigentes.
Minha mãe faleceu um ano antes de ser cassada a minha licença para clinicar.
Aquilo foi um atraso de vida. Eu me envolvera com meia dúzia de farmacêuticos do East Siei, com duas firmas fornecedoras de medicamentos e pelo menos vinte outros médicos. Os pacientes eram enviados para mim e eu enviava pacientes. Continuava operando e prescrevendo a correta medicação pós-operatório. Nem todas as cirurgias eram necessárias, porém jamais fiz uma só contra a vontade do paciente. E nunca tive um paciente que lesse o escrito no receituário e dissesse, "Não quero isto". Ouçam: se a gente permitir, elas têm uma histerectomia em 1965 ou uma tireóide parcial em 1970 e, cinco ou dez anos mais tarde, continuam tomando sedativos. Algumas vezes eu permitia. Não era o único, compreendam. Tais pacientes podem custear o hábito. Por outro lado, às vezes um paciente tem problemas para dormir, após uma cirurgia de pouca monta. Ou problemas para conseguir pílulas de dieta. Ou Librium. Tudo podia ser arranjado. Ha!
Claro! E, se não arranjassem comigo, arranjariam com alguém mais.
Então, o pessoal dos impostos chegou a Lowenthal. Aquele carneiro covarde. Jogaram-lhe cinco anos na cara e ele tossiu meia dúzia de nomes. Um deles era o meu. Vigiaram-me por algum tempo e, quando aterraram, eu valia muito mais do que cinco anos.
Existiam alguns outros envolvimentos, além dos formulários em branco, do qual eu não desistira por completo. É curioso, mas eu não precisava mais daquilo, porém se formara o hábito. É difícil abrir mão de uma grana extra.
Bem, eu conhecia algumas pessoas. Movi os cordões. E atirei dois sujeitos aos lobos.
Ninguém de quem eu gostasse, contudo. Os que entreguei aos federais eram verdadeiros filhos da mãe.
Céus, que fome estou sentindo!
30 de janeiro
Hoje não há gaivota. Isto me recorda os avisos que, às vezes, vemos nas carrocinhas lá no subúrbio. HOJE NÃO HÁ TOMATE. Entrei na água até a cintura, levando na mão a faca amolada. Fiquei absolutamente imóvel, no mesmo lugar, durante quatro horas com o sol batendo em mim. Por duas vezes, pensei que fosse desmaiar, mas contei retroativamente, até passar a sensação. Não vi peixe nenhum. Não havia um só para amostra.
31 de janeiro
Matei outra gaivota, da mesma forma que a primeira. Estava tão faminto, que não a torturei como havia premeditado. Tirei-lhe as tripas e a comi. Depois, espremi as tripas, que comi também. É estranho como sentimos a vitalidade renascendo. Eu começava a assustar-me. Deitado à sombra dá grande pilha central de rochas, pensava ouvir vozes.
A de meu pai. De minha mãe. De minha ex-esposa. E, pior que tudo, também do grande cara que me vendeu a heroína em Saigon. Ele tinha uma voz ciciante, possivelmente devido a uma fenda palatina parcial.
— Vamosss — dizia sua voz, vinda de nenhures. — Vamosss, dê uma sseirada. Assim, não perccceberá que essstá com tanta sssome. É uma belezzza...
Só que eu nunca me dopei, nem mesmo com pílulas para dormir.
Lowanthal se matou, ha contei? Aquele covarde. Enforcou-se no que era seu escritório.
Da maneira como penso, prestou um favor ao mundo.
Eu queria minha licença de volta. Algumas das pessoas com quem falei, achavam que seria possível — mas ia custar uma nota alta. Mais do que eu poderia imaginar. Eu tinha 40.000 em um cofre no banco. Decidi que precisaria correr o risco e modificar a situação. Dobrar ou triplicar aquela grana.
Então, procurei Ronnie Hanelli. Eu e Ronnie jogamos futebol juntos na universidade e, quando seu irmão menor se decidiu por medicina interna, ajudei-o a conseguir uma residência hospitalar. O próprio Ronnie fazia preparatórios para Direito, não é engraçado? Quando estávamos crescendo, no quarteirão costumávamos chamá-lo de Ronnie Legal, porque ele apitava todos os jogos de stickball e arbitrava o hóquei. Quem não gostasse de suas decisões, podia escolher — ficar de boca fechada ou comer socos. Os porto-riquenhos o chamavam de Ronniecarcamano. Tudo em uma só palavra. Ronniecarcamano. Isso o chateava. Pois esse cara fez faculdade, diplomou-se em leis e foi aprovado sem a menor dificuldade, da primeira vez em que se submeteu aos exames para advogar. Então, montou escritório na antiga vizinhança, bem em cima do Bar Aquário. Fecho os olhos, e ainda posso vê-lo cruzando o quarteirão naquele seu Continental branco. O maior tubarão da cidade, em questão de empréstimos.
Eu sabia que Ronnie tinha algo para mim.
— É perigoso — disse ele — mas você sempre pode cuidar de si mesmo. E se conseguir a licença de volta, eu o apresentarei a dois sujeitos. Um deles é um representante estadual.
Ele me forneceu dois nomes. Um deles era do grande china, Henry Li-Tsu. O outro era de um vietnamita chamado Solom Ngo. Um químico. Por um preço estipulado, testaria o produto do China. China era conhecido por suas "brincadeiras" eventuais. As "brincadeiras" eram sacos plásticos repletos de talco, de detergente em pó para limpar esgotos, de maisena. Ronnie dizia que, um dia, Li-Tsu ainda seria morto por causa de suas piadinhas.
l de fevereiro
Houve um avião. Voou diretamente em cima da ilha. Tentei subir ao monte de rochas e acenar para ele. Meu pé enfiou-se em um buraco. Aquele mesmo maldito buraco que me prendeu, no dia em que matei a primeira gaivota, presumo. Fraturei o tornozelo, fratura composta. Foi como um balanço. Uma dor indescritível. Gritei e perdi o equilíbrio, girando os braços como louco, mas acabei rolando até embaixo, bati com a cabeça e tudo ficou negro. Só acordei quando já era crepúsculo. Perdi algum sangue, onde bati com a cabeça. Meu tornozelo havia inchado como um pneu e, de quebra, tive um sério caso de queimadura por exposição ao sol. Acho que se houvesse uma hora a mais de sol, eu acabaria com bolhas na pele.
Arrastei-me até aqui e passei a última noite tiritando e chorando de frustração.
Desinfetei o ferimento da cabeça, logo acima do lobo temporal direito. Coloquei ataduras, o melhor que pude. Foi apenas um ferimento superficial do couro cabeludo, mais uma concussão secundária, suponho, porém meu tornozelo... Foi uma coisa feia, envolvendo dois lugares, talvez três.
Como vou poder perseguir as aves agora?
Só podia ser um avião em busca de sobreviventes do Callas. Com a escuridão e a tempestade, o barco salva-vidas pode ter sido levado para quilômetros e quilômetros de distância do local do naufrágio. É possível que nem voltem mais por aqui.
Céus, e com meu tornozelo doendo tanto!
2 de fevereiro
Fiz um sinal, na pequena praia de areia branca no lado sul da ilha, aonde o barco salva-vidas aportou. Levei o dia inteiro, com paradas para descansar na sombra.
Mesmo assim, perdi os sentidos duas vezes. Imagino que já tenha perdido uns doze, treze quilos, em especial pela desidratação. Agora, contudo, de onde estou sentado, posso ver as quatro letras que levei o dia inteiro escrevendo; rochas escuras contra a areia branca, dizendo HELP (Socorro), em letras de metro e meio de altura. Se outro avião passar, não me perderá.
Se houver outro avião.
Meu pé lateja constantemente. Continua inchado e muito vermelho em torno da fratura dupla. A vermelhidão parece ter aumentado. Amarrando apertadamente com minha camisa, alivio o pior da dor, porém ela continua forte, a ponto de eu antes perder os sentidos, do que dormir.
Comecei a pensar que talvez precise amputá-lo.
3 de fevereiro
A inchação e a vermelhidão estão piores. Vou esperar até amanhã. Se a operação se tornar necessária, acho que conseguirei levá-la a cabo. Tenho fósforos para esterilizar a faca amolada, além de agulha e linha do estojo de costura. Minha camisa servirá como atadura.
Para cúmulo, conto com dois quilos de "sedativo", embora dificilmente do tipo que eu receitaria. Contudo, as pessoas o tomariam, se pudessem consegui-lo. Podem apostar.
Aquelas velhas damas de cabelos azulados cheirariam qualquer coisa, se pensassem que isso as deixaria altas. Podem crer!
4 de fevereiro
Decidi amputar meu pé. Agora, há quatro dias que não como. Se esperar mais tempo, corro o risco de desmaiar, de choque e de fome no meio da operação, com uma hemorragia que me levará à morte. Afinal, embora esteja um trapo, eu quero viver.
Lembro-me do que Mockridge costumava dizer, em Anatomia Básica. Nós o chamávamos de Velho Mockie. Cedo ou tarde, a pergunta se apresenta a todo estudante de Medicina. Até que ponto o paciente suporta o choque de um trauma? Então, ele seguia o mapa do corpo humano com sua ponteira, indicando o fígado, os rins, o coração, o baço, os intestinos. Reduzida a seu nível básico, senhores, a resposta é sempre outra pergunta: Até que ponto o paciente deseja sobreviver?
Creio que posso ser bem sucedido.
Tenho certeza.
Acho que estou escrevendo para adiar o inevitável, mas ocorreu-me que ainda não terminei a história de como vim parar aqui. Talvez devesse preencher essa lacuna, para o caso da operação dar errado. Levarei apenas alguns minutos e estou certo de que sobrará claridade — luz do dia — suficiente para a operação, porque, segundo meu Pulsar, são apenas nove e nove da manhã. Ha!
Voei para Saigon como turista. Parece estranho? Pois não devia. Ainda existem milhares de visitantes para lá todos os anos, a despeito da guerra de Nixon. Há pessoas que também gostam de ver destroços de veículos e brigas de galo.
Meu amigo chinês tinha a mercadoria. Levei-a a Ngo, que a declarou material de pureza máxima. Ele me contou que Li-Tsu tinha feito uma de suas brincadeiras quatro meses atrás e que sua esposa voara em pedaços, ao ligar a ignição de seu Opel. Desde então, não houvera mais brincadeiras.
Fiquei três semanas em Saigon; havia comprado passagem de volta a São Francisco em um navio-cruzeiro, o Callas. Camarote de primeira classe. Não houve problemas para subir a bordo com a mercadoria. Por uma certa quantia, Ngo arranjou para que dois funcionários aduaneiros simplesmente me acenassem para ir em frente, após a vistoria em minhas malas. A mercadoria estava acondicionada em uma sacola de vôo, que eles nem se deram ao trabalho de verificar.
— Vai ser mais difícil passar pela alfândega dos Estados Unidos — disse-me Ngo. — Contudo, isso é problema seu.
Eu não pretendia fazer a mercadoria passar pela aduana americana. Ronnie Hanelli conseguira que um mergulhador fizesse um certo trabalhinho arriscado por 3.000 dólares. Eu deveria encontrá-lo (agora que penso nisso, seria há dois dias passados) em um cortiço de São Francisco, chamado Hotel São Regis. O plano era colocar a mercadoria em uma lata à prova d'água. Adaptados ao topo haveria um timer e um pacote de corante vermelho. Pouco antes de atracarmos, a lata seria atirada ao mar — mas não por mim, naturalmente.
Eu ainda procurava um cozinheiro ou camareiro que aceitasse uma nota extra e fosse esperto — ou estúpido o bastante — para ficar de boca fechada depois disso, quando o Callas afundou.
Não sei como e nem por quê. Havia uma tempestade, mas o navio parecia enfrentá-la perfeitamente. Por volta de oito da noite do dia 23, houve uma explosão em algum lugar, abaixo dos conveses. No momento, eu me encontrava no salão, e o Callas começou a adernar quase imediatamente. Para a esquerda... eles chamam de "bombordo" ou "estibordo"?
Pessoas gritavam e corriam para todos os lados. Garrafas caíam das prateleiras no fundo do bar e estilhaçavam-se no chão. Um homem irrompeu dos níveis mais baixos, cambaleando, com a camisa queimada e a pele transformada em churrasco. O alto falante começou a dizer às pessoas que se encaminhassem para os postos de barcos salva-vidas que lhes tinham sido designados durante o treinamento contra incêndio, no início do cruzeiro. Os passageiros continuaram correndo de um lado para outro. Bem poucos se tinham dado ao trabalho de comparecer ao treinamento. Eu, não só compareci, como cheguei cedo— queria estar na primeira fila, compreendam, de maneira a ter uma visão total de tudo. Sempre dedico a máxima atenção a tudo, quando se trata de conservar a pele.
Fui a meu camarote, peguei as sacolas de heroína e coloquei cada uma em meus bolsos da frente. Depois segui para o Posto de Barcos Salva-vidas 8. Quando subia a escada para o convés principal, houve mais duas explosões e o barco passou a inclinar-se ainda mais acentuadamente.
A confusão predominava no ambiente. Vi uma mulher gritando com um bebê nos braços, enquanto passava por mim. Então, ela escorregou no piso cada vez mais inclinado. Bateu com as coxas na amurada e caiu fora do barco. Ainda a vi girar duas vezes em pleno ar e iniciar um terceiro giro, antes de perdê-la de vista. Um homem de meia idade, sentado no centro do jogo de mareias, no tombadilho, arrancava os cabelos. Outro homem, em trajes de cozinheiro, horrivelmente queimado no rosto e mãos, cambaleava de um lugar para outro, gritando, "AJUDEM-ME! EU NÃO CONSIGO ENXERGAR! AJUDEM-ME! NÃO CONSIGO ENXERGAR!— O pânico era quase total! Transmitira-se dos passageiros à tripulação, como uma doença.
Lembrem-se de que o tempo decorrido entre a primeira explosão até o real afundamento do Callas, foi de somente vinte minutos. Alguns postos dos escaleres estavam apinhados de gente gritando, enquanto outros se encontravam absolutamente vazios. O meu, no lado do barco que adernava, estava quase deserto: apenas eu e um marinheiro comum, de rosto pálido e com espinhas.
— Vamos logo botar este filho da puta na água — disse ele, com os olhos girando loucamente nas órbitas. — Esta maldita banheira vai direto para o fundo.
Não há dificuldade em operar-se as engrenagens de um barco salva-vidas, mas em seu crescente nervosismo, o marinheiro emaranhou todo o seu lado da cordoalha. O barco desceu dois metros, depois ficou pendurado, a proa meio metro mais baixa do que a popa.
Eu ia aproximar-me para ajudá-lo, quando ele começou a gritar. Conseguiu desemaranhar a cordoalha e ficar com a mão presa, ao mesmo tempo. A corda que se desenrolava raspou firme sobre sua mão aberta, arrancando a pele, e ele foi expelido por sobre a borda.
Joguei a escada de cordas para baixo, desci por ela apressamente e soltei o escaler da cordoalha que o abaixava. Depois remei, algo que havia feito ocasionalmente por prazer, quando nas casas de veraneio dos amigos — algo que agora fazia para salvar minha vida. Sabia que, se não me afastasse o suficiente do agonizante Callas antes que ele afundasse, a sucção me levaria para o fundo com ele.
Apenas cinco minutos mais tarde, o Cállas afundou. Eu não escapara inteiramente à sucção; precisei remar como louco, apenas para ficar no mesmo lugar. O navio afundou rapidamente. Ainda havia pessoas aferradas à amurada da proa, aos gritos. Pareciam um bando de macacos.
A tempestade aumentou. Perdi um remo, porém consegui manter o outro. Passei toda aquela noite em uma espécie de sonho, primeiro esvaziando a água do fundo, depois agarrando o remo e remando furiosamente, para manter a proa do bote na direção da próxima onda que se avolumava.
Pouco antes do alvorecer do dia 24, as ondas começaram a ficar mais fortes atrás de mim. O barco arremeteu para diante. Eu estava aterrorizado, mas eufórico ao mesmo tempo. De repente, a maioria das tábuas do fundo foi arrancada de sob os meus pés.
Antes, entretanto, que o escaler pudesse afundar, foi atirado para este monte de rochas esquecido por Deus. Eu nem ao menos sabia onde estava; não tinha a menor idéia de minha localização. Navegar nunca foi o meu ponto alto, ha-ha!
Contudo, sei o que tenho a fazer. Este talvez seja o último registro neste livro, mas creio que terei êxito, de algum modo. Não o tive sempre? Por outro lado, hoje em dia fazem coisas espetaculares, em matéria de próteses. Posso me virar muitíssimo bem, com apenas um pé.
Chegou A hora de verificar se sou tão bom como imagino. Sorte!
5 de fevereiro
Já fiz.
A dor era a parte que mais me preocupava. Posso suportá-la, mas pensei que, em minha condição debilitada, uma mistura de fome e agonia poderia levar-me ao desfalecimento, antes que conseguisse terminar.
A heroína, no entanto, resolveu isto completamente.
Abri uma das sacolas e aspirei duas boas pitadas, sobre a superfície de uma rocha plana — primeiro a narina direita, depois a esquerda. Foi como aspirar algo gelado e maravilhosamente entorpecedor, que se espalhou pelo cérebro, de baixo para cima.
Aspirei a heroína, assim que terminei de escrever neste diário ontem, isso foi às 9:45.
Quando tornei a consultar meu relógio, as sombras se tinham movido, deixando-me parcialmente ao sol, e já eram 12:41. Eu havia cochilado. Nunca imaginei que isso poderia ser tão belo, não entendo por que era tão desdenhoso antes. A dor, o terror, a infelicidade... tudo desaparece, deixando apenas uma calma euforia.
Foi neste estado que operei.
Naturalmente, houve muita dor, a maioria dela na parte terrena da cirugia. Contudo, ela parecia desligada de mim, como se fosse a dor em outra pessoa. Isso me perturbou, porém foi algo muito interessante. Dá para entender? Talvez vocês entendam, se usarem uma forte medicação com base de morfina. Trata-se de algo mais do que a dor imprecisa. Induz a um estado de mente. A uma serenidade. Posso compreender porque as pessoas ficam viciadas, embora "viciado" me pareça uma palavra demasiado forte, mais comumente usada por aqueles que nunca experimentaram.
Embora sentida a meio, a dor começou a tornar-se uma coisa mais pessoal. Fui invadido por ondas de vertigem. Olhava ansiosamente para a sacola aberta do pó branco, mas me forçava a desviar os olhos. Se repetisse a dose, teria uma hemorragia fatal, tão certa como se perdesse os sentidos. Em vez disso, contei retroativamente, a partir de cem.
A perda de sangue era o fator mais crítico. Como cirurgião, eu estava vitalmente cônscio disso. Nem uma gota podia ser perdida desnecessariamente. Quando um paciente sofre uma hemorragia, durante uma cirurgia no hospital, podemos dar-lhe uma transfusão de sangue. Eu não dispunha de tais luxos. O que estava perdido — e quando terminei, a areia debaixo de minha perna estava escura de sangue — perdido estava, até que minha fábrica interna renovasse o suprimento. Eu não tinha pinça, hemostatos ou fio cirúrgico.
Iniciei a cirurgia exatamente às 12:45. Terminei-a às 13:50 e imediatamente mediquei-me com heroína, uma dose maior do que antes. Penetrei em um mundo cinza e indolor, lá permanecendo até quase as cinco da tarde. Quando saí dele, o sol aproximava-se do horizonte oeste, esbatendo uma trilha dourada através do Pacífico azul, até onde me encontrava. Nunca vi nada mais belo... toda a dor valeu por apenas aquele instante. Uma hora depois, cheirei uma pitada mais, apenas para saborear e apreciar melhor o pôr-do-sol.
Logo depois do escurecer, eu...
Eu...
Um momento. Já lhes contei que estou sem comer nada há quatro dias? E que a única ajuda de que me vali, na questão de reabastecer minha debilitada vitalidade foi meu próprio corpo? Acima de tudo, não lhes disse, incessantemente, que a sobrevivência é uma atividade da mente? Da mente superior? Não pretenderei justificar-me, alegando que vocês teriam feito o mesmo. Em primeiro lugar, o mais provável é que não sejam cirurgiões. Mesmo que estivesse a parda mecânica da amputação, poderiam manejar tão mal a situação, que de qualquer modo sangrariam até a morte. E, mesmo que suportassem a operação e o choque do traumatismo, talvez a idéia nunca penetrasse em suas mentes pré-condicionadas. Não faz diferença. Ninguém vai saber. Meu último ato, antes de deixar a ilha, será destruir este livro.
Fui muito cuidadoso.
Lavei-o minuciosamente, antes de comê-lo.
7 de fevereiro
A dor no coto foi terrível — lancinante de quando em quando. No entanto, creio que a arraigada comichão, à medida que se inicia o processo de cicatrização, tem sido o pior.
Esta tarde, fiquei pensando em todos os pacientes que se queixavam de não suportarem a terrível e não-coçável coceira da carne em falta. Eu sorria, dizia a eles que no dia seguinte se sentiriam melhor, pensando comigo mesmo como eram lamentosos e moles, aqueles bebês ingratos. Agora, posso compreender. Por várias vezes, estive perto de rasgar e arrancar as ataduras feitas com minha camisa e coçar, cravar os dedos na carne viva e macia, puxar as suturas rudes, deixar o sangue esguichar para a areia, qualquer coisa, tudo enfim, para ficar livre dessa enlouquecedora, horrível coceira.
Em tais momentos, eu contava regressivamente, começando em cem. E cheirava heroína.
Não faço idéia da quantidade que já lancei em meu organismo, porém sei que tenho ficado "dopado" quase continuamente, desde a operação. A heroína diminui a fome, como sabem. Mal tenho consciência de estar faminto. Existe um vago e distante vazio em meu estômago e isso é tudo. Poderia ser facilmente ignorado. Contudo, não posso fazer isso. A heroína não possui valor calórico mensurável. Estive me testando, rastejando de um lugar para outro, medindo minhas energias. Estão acabando.
Oh, Deus, espero que não, mas... talvez seja necessária outra cirurgia. (mais tarde)
Outro avião sobrevoou a ilha. Alto demais, para me ser útil; tudo quanto pude ver foi a esteira de vapor do jato, espichando-se no céu. Mesmo assim, acenei para ele. Acenei e gritei para ele. Depois que desapareceu, eu chorei.
Está ficando muito escuro para enxergar. Comida. Estive pensando em todos os tipos de comida. A lasanha de minha mãe. Pão de alho. Lagosta. Escargots. Filé mignon.
Pêssegos melba. Grelhado londrino. A enorme fatia de bolo inglês e a concha de creme de baunilha feito em casa, que nos dão por sobremesa no "Mother Crunch" da Primeira Avenida. Pãezinhos quentes, salmão defumado, Alaska defumado, presunto defumado com rodelas de abacaxi. Rodelas de cebola. Molho acebolado com batatas fritas, chá gelado em longos, longos goles, batatas fritas fazem a gente lamber os beiços.
100, 99, 98, 97, 96, 95, 94
Deus, Deus, Deus.
8 de fevereiro
Outra gaivota pousou no monte de rochas esta manhã. Uma das gordas. Eu estava sentado à sombra de minha rocha, o que considero meu acampamento, com o coto envolvido nas ataduras e bem apoiado. Comecei a salivar, assim que a gaivota pousou.
Exatamente como um dos cães de Pavlov. Babando impotentemente, como um bebê.
Igual a um bebê.
Peguei uma pedra, grande o bastante para ficar bem ajustada em minha mão, e comecei a engatinhar para a gaivota. Quarto quarter. Estamos agora reduzidos a três. Terceira e longa yardage. Pinzetti recua para o passe (Pine, quero dizer, Pine). Eu não tinha tanta esperança. Estava certo de que a gaivota voaria. Contudo, precisava tentar. Se pudesse apanhá-la, uma ave tão gorda e insolente como aquela, poderia adiar indefinidamente uma segunda operação. Rastejei para ela, com o coto batendo em uma rocha de quando em quando e enviando estrelas de dor por todo o meu corpo. Esperei que ela voasse.
Não voou. Apenas andou de um lado para outro, seu peito carnudo empinado, como o de algum general avícola, passando tropas em revista. De vez em quando olhava para mim com seus olhinhos astutos e eu ficava rígido como uma pedra, contava de trás para diante, começando de cem, até ela recomeçar a andar para cá e para lá. A cada vez que ela agitava as asas, meu estômago parecia encher-se de gelo. Continuei babando. Não era possível controlar-me. Estava babando como um bebê.
Não sei por quanto tempo a fiquei espreitando. Uma hora? Duas? E quanto mais perto eu chegava, mais meu coração disparava e mais saborosa me parecia a gaivota. Ela dava a impressão de zombar de mim. Comecei a acreditar que, tão logo eu chegasse à distância de tiro, ela voaria para fora de meu alcance. Meus braços e pernas tinham começado a tremer. Eu sentia a boca seca. O coto latejava de modo lancinante. Agora, penso que devia estar sentindo dores por falta da droga. Bem, mas tão cedo? Fazia menos de uma semana que eu a vinha usando!
Não importa. Eu precisava dela, preciso. Há muita heroína ainda, bastante. Se tiver que me submeter a um período de cura mais tarde, quando voltar aos States, interno-me na melhor clínica da Califórnia e tudo será como uma brincadeira. No momento, o problema não é este, certo?
Quando cheguei a uma boa distância para acertar, não quis atirar a pedra. Fiquei insanamente convicto de que erraria, provavelmente por mais de metro. Precisava chegar mais perto. Assim, continuei a rastejar para o alto do monte de rochas, a cabeça jogada para trás, o suor escorrendo de meu corpo debilitado de espantalho. Meus dentes haviam começado a cariar, já lhes contei? Se fosse um cara supersticioso, diria que era porque tinha comido...
Ha! Nós sabemos o que, não é mesmo?
Parei novamente. Estava muito mais perto dela do que o estivera das outras gaivotas.
Contudo, não conseguia forçar-me a jogar-lhe a pedra. Aferrei-a na mão até os dedos doerem, mas continuava sem atirá-la. Porque sabia exatamente o que ia acontecer, caso falhasse a pontaria.
Pouco me importo se usar toda a mercadoria! Processarei todos eles, até o fim! Ficarei numa boa pelo resto da vida! De minha longa vida!
Penso que teria rastejado até a gaivota, sem jogar a pedra, se ela finalmente não voasse.
Eu chegaria até o alto e a estrangularia. No entanto, a maldita bateu as asas e fugiu.
Gritei para ela, ergui-me nos joelhos e atirei a pedra, com todas as forças. E acertei!
A enorme ave soltou um grasnido estrangulado e caiu no outro lado do monte de rochas.
Rindo e falando incoerentemente, agora pouco ligando se batia com o coto em algum obstáculo ou abria a ferida, rastejei até o alto e para o outro lado. Perdi o equilíbrio e bati com a cabeça. Nem mesmo dei por isso, não no momento, embora houvesse se formado um galo enorme. Eu só conseguia pensar na gaivota e em como a tinha acertado, uma sorte fantástica, em pleno ar. Eu a acertara!
No outro lado da pilha de rochas, ela saltava desajeitadamente para a praia, uma asa quebrada, a parte inferior do corpo vermelha de sangue. Engatinhei o mais depressa que pude, porém ela era ainda mais rápida. Uma corrida de aleijados! Ha! Ha! Eu podia tê-la agarrado — a distância diminuía entre nós — se não fosse por minhas mãos. Preciso ser muito cuidadoso com elas. Posso vir a precisar das mãos novamente. A despeito de meus cuidados, as palmas estavam laceradas, quando alcancei a estreita faixa de praia, além de estilhaçar o mostrador de meu Pulsar contra a crista de uma pedra.
A gaivota saltou para a água, grasnindo repulsivamente, mas consegui alcançá-la.
Agarrei um punhado de penas de sua cauda, que ficou entre meus dedos. Depois caí, inalando água, fungando e asfixiando.
Rastejei mais. Inclusive, tentei nadar atrás dela. As ataduras me caíram do coto. Comecei a afundar. Pude apenas retornar à praia, trêmulo de exaustão, dilacerado pela dor, chorando e gritando, xingando a gaivota. Ela ficou flutuando por muito tempo, sempre cada vez mais distante. Tenho a impressão de que, a certa altura, eu lhe pedia que voltasse. No entanto, quando se foi, por sobre o recife, acho que estava morta.
Não é justo.
Levei quase uma hora engatinhando para meu acampamento. Cheirei uma boa dose de heroína mas, mesmo assim, continuo francamente furioso com a gaivota. Se eu não ia consegui-la, por que ela havia de zombar de mim? Por que não se limitou a fugir voando?
9 de fevereiro
Amputei meu pé esquerdo e o envolvi em ataduras feitas com minhas calças. Curioso.
Durante toda a cirurgia, eu fiquei babando. Babaaando. Do mesmo jeito de quando vi a gaivota. Babando irremediavelmente. Contudo, obriguei-me a esperar até depois do escurecer. Fiquei contando para trás, a partir de cem... vinte ou trinta vezes! Ha! Ha!
E então...
Fico repetindo para mim mesmo: rosbife frio. Rosbife frio. Rosbife frio.
11 (?) de fevereiro
Choveu nos dois últimos dias. Também ventou forte. Consegui mover algumas rochas da pilha central, suficientes para fazer um buraco onde pudesse abrigar-me. Encontrei uma aranha pequenina. Apertei-a entre os dedos, antes que pudesse fugir, depois a comi.
Muito gostosa. Suculenta. Refleti que as rochas acima de mim podem cair e sepultar-me vivo. Não me importo.
Passei dopado toda a tempestade. Talvez tenha chovido três dias, em vez de dois. Ou apenas um. Contudo, acho que escureceu duas vezes. Adoro desligar-me da realidade.
Então, não sinto dores nem comichões. Sei que sobreviverei a isto. Uma pessoa não passa por semelhante provação em troca de nada.
Quando eu era criança, havia um padre na Igreja da Sagrada Família, um sujeito tampinha, que adorava discorrer sobre o inferno e pecados mortais. De fato, aquilo era um verdadeiro hobby para ele. Seu conceito era de que não se pode anular um pecado mortal. Sonhei com ele esta noite, com o Padre Hailley em sua batina negra, seu nariz de beberrão, sacudindo o dedo para mim e dizendo, "Que vergonha, Richard Pinzetti... um pecado mortal... você vai para o inferno, garoto... vai para o inferno..."
Ri dele. Se este lugar não é o inferno, então o que é? E o único pecado mortal é desistir.
Metade do tempo estou delirando; na outra metade, meus cotos comicham e a umidade faz com que doam terrivelmente.
Ainda assim, eu não desisto. Juro. Isto não acontece por nada. Tudo isto não é em vão.
12 de fevereiro
O sol despontou novamente, faz um lindo dia. Espero que eles estejam congelando os traseiros, lá onde eu morava.
Foi um bom dia para mim, tão bom como é possível nesta ilha. A febre que tive durante a tempestade, parece ter caído. Eu estava fraco e tiritante quando rastejei para fora de meu abrigo, mas depois de jazer ao sol por duas ou três horas, quase comecei a sentir-me humano novamente.
Engatinhei para o lado sul e encontrei vários pedaços de madeira, lançados aqui pela tempestade, incluindo-se várias tábuas de meu barco salva-vidas. Havia algas e plantas marinhas em algumas das tábuas. Eu as comi. Tinham um gosto horrível. Era como comer uma cortina de plástico de chuveiro. Contudo, senti-me bem mais forte esta tarde.
Arrastei a madeira até o mais longe que pude, a fim de que seque. Ainda tenho um tubo inteiro de fósforos à prova d'água. A madeira dará um bom fogo para sinalização, caso alguém chegue logo. Ou talvez uma fogueira para cozinhar. Vou dar uma cheirada agora.
13 de fevereiro
Encontrei um caranguejo. Matei-o e o assei em uma pequena fogueira. Esta noite, quase voltei a acreditar em Deus.
14 de fevereiro
Só esta manhã percebi que a tempestade desarrumou a maioria das pedras que formavam o meu sinal de HELP. Ora, mas a tempestade terminou... há três dias? Terei ficado realmente tão dopado? Preciso cuidar disto, baixar a dosagem. E se aparecer um navio, enquanto eu estiver desligado?
Tornei a compor as letras, porém isso me tomou a maior parte do dia e agora estou exausto. Procurei um caranguejo onde encontrei o primeiro, mas nada. Cortei as mãos em várias rochas que usei para fazer o sinal, mas imediatamente as desinfetei com iodo, apesar de meu cansaço. Devo tomar cuidado com as mãos. Haja o que houver.
15 de fevereiro
Uma gaivota pousou no alto do monte de rochas, mas voou antes que eu chegasse ao alcance de tiro. Desejei que ela fosse para o inferno, onde poderia bicar os olhinhos injetados de sangue do Padre Hailley, por toda a eternidade.
Ha! Ha!
Ha! Ha!
Ha
17 (?) de fevereiro
Amputei minha perna esquerda na altura do joelho, mas perdi um bocado de sangue. A dor é lancinante, a despeito da heroína. O choque pelo traumatismo mataria um homem menor. Quero responder com uma pergunta: Até que ponto o paciente deseja sobreviver? Até que ponto o paciente deseja viver?
Minhas mãos tremem. Se elas me traírem, estou acabado. Elas não têm o direito de trair-me. O menor direito. Afinal, cuidei bem delas por toda a sua vida.
Papariquei-as. É melhor que não me traiam. Ou se arrependerão.
Pelo menos, não estou com fome.
Uma das tábuas do barco salva-vidas partiu-se ao meio e uma de suas extremidades formou uma ponta. Usei-a. Estava babando, mas me forcei a esperar. E então, fiquei pensando em... oh, nos churrascos que tínhamos. Pensei na casa de Will Hammersmith em Long Island, com uma churrasqueira grande o bastante para assar um porco inteiro.
Ficávamos sentados na varanda ao anoitecer, com generosos drinques nas mãos, falando sobre técnicas cirúrgicas, escores de golfe ou qualquer outra coisa. Então, armava-se uma brisa e trazia até nós o doce aroma do porco se tostando. Judas Iscariotes, o doce aroma do porco se tostando...
Tirei a outra perna à altura do joelho. Dormi o dia inteiro. "Esta operação era necessária, doutor?" Haha. Mãos trêmulas, como as de um velho. Eu as odeio. Sangue debaixo das unhas. Feridas. Alguém se lembra daquele modelo na faculdade de Medicina, com o ventre de vidro? É assim que me sinto. Só que não quero olhar. Nem me conte. Recordo que Dom costumava dizer isso. Vinha se bamboleando até a gente na esquina, com seu blusão do clube Proscritos da Rota. A gente perguntava, como se saiu com ela, Dom? E Dom respondia, nem me conte. O velho Dom. Eu gostaria de nunca ter saído de lá, do subúrbio. Isto soa tão falso, que até Dom diria, haha.
No entanto, fiquem sabendo que, com a terapia adequada e uma boa prótese, posso ficar novo em folha. Voltarei aqui e direi às pessoas " Isto. Foi onde. Aconteceu. "
Hahaha!
23 (?) de fevereiro
Não tenho coragem, mas é preciso. Contudo, de que jeito vou suturar a artéria femural, em um ponto tão alto? Neste local, ela é tão grande como uma auto estrada.
Vai ser preciso, de algum modo. Fiz a marcação através do topo da coxa, na parte que ainda está carnuda. Fiz a marcação com este lápis.
Eu desejaria parar de babar.
Você... merece... uma folga hoje... portanto, levante-se e vá... até o Mc Donald's... duas rodelas inteiras de pura carne... molho especial... alface... pickles... cebola... sobre um pãozinho com sementes de gergelim...
Tra-la... la-la-la... la-ri-la...
Hoje olhei para meu rosto na água. Nada mais que um crânio coberto de pele.
Já estarei insano? Devo estar. Agora sou um monstro, um fenômeno. Não sobrou mais nada das virilhas para baixo. Apenas um fenômeno. Uma cabeça presa a um torso, arrastando-se na areia, pelos cotovelos. Um caranguejo dopado. Não é como chamam a si mesmos agora? Ei, amigo, sou um pobre caranguejo dopado, pode me arranjar um níquel?
Hahahaha.
Dizem que somos o que comemos e, se for verdade, EU NÃO MUDEI EM ABSOLUTO! Santo Deus, o choque-traumático choque-traumático, NÃO EXISTE ISSO DE CHOQUE-TRAUMÁTICO HA
Sonhei com meu pai. Quando bebia, ele engrolava todo o seu inglês. Não que valesse grande coisa o que dizia. Fodido seboso. Fiquei tão feliz em ir embora de sua casa papai, seu monte fodido de toucinho seboso, nada nada zero zero. Eu sabia que conseguiria. Fugi de você, não foi? Fugi caminhando sobre minhas próprias mãos.
Só que não há nada mais sobrando para eles cortarem fora. Ontem tirei os lóbulos de minhas orelhas, mão esquerda lava a direta não deixe sua mão esquerda saber o que faz a direita uma batata duas batatas três batatas quatro nós temos uma geladeira com porta de prateleiras.
Hahaha.
E daí, quem se importa, esta mão ou aquela. Boa comida boa carne bom Deus vamos comer.
Dedos-de-dama eles têm exatamente o mesmo sabor que dedos-de-dama.
Nave Fed ASN/29 caiu do céu e estatelou-se. Após algum tempo, dois homens esgueiraram-se de seu crânio espatifado, como se fossem miolos. Caminharam um curto trecho e então pararam, com os capacetes debaixo do braço, espiando o lugar em que haviam terminado.
Era uma praia, sem qualquer necessidade de mar — ela era seu próprio mar, um mar esculpido em areia, um mar de instantâneo-preto-e-branco, congelado para sempre em depressões e cristas, mais depressões e cristas.
Dunas.
Algumas rasas, outras íngremes, lisas ou enrugadas. Dunas com a crista de uma lâmina de faca, dunas de cristas planas, dunas de cristas irregulares, como dunas empilhadas umas sobre as outras — dunas-dominós.
Dunas. Mas sem mar.
Os vales que eram as depressões entre as dunas, serpenteavam como negros labirintos.
Se alguém olhasse por tempo suficiente para aquelas linhas torcidas, elas pareciam escrever palavras — palavras negras, pairando acima das dunas brancas.
— Porra! — exclamou Shapiro.
— Calma — disse Rand.
Shapiro começou a cuspir, depois parou. Vendo toda aquela areia, pensou melhor.
Aquele não era o momento de perder umidade. Semi-sepultado na areia, o ASN/29 não tinha mais a semelhança de um pássaro agonizante; parecia uma abóbora que se esborrachara, exibindo a podridão interna. Houvera incêndio. Todas as embocaduras de combustível a estibordo tinham explodido.
— Má sorte a de Grimes — disse Shapiro.
— Hã-hã.
Os olhos de Randy ainda perscrutavam o mar de areia, até a linha limite do horizonte, e tornavam a voltar.
Era mesmo má sorte a de Grimes. Ele estava morto. Grimes agora não passava de pedaços maiores e menores no compartimento de armazenagem da popa. Shapiro estivera espiando e havia pensado: É como se Deus tivesse decidido comer Grimes, mas achando o sabor ruim, o tinha cuspido fora. Aquilo tinha sido demais para o estômago de Shapiro. Aquilo e a visão dos dentes de Grimes, espalhados pelo chão do compartimento de armazenagem.
Agora, ele esperava que Rand dissesse algo inteligente, mas Rand estava calado. Seus olhos seguiam as dunas, seguiam as linhas entre elas, profundas, enroladas como molas de relógio.
— Ei! — finalmente exclamou Shapiro. — O que faremos agora? Grimes está morto, logo, é você que o substitui no comando. O que faremos?
— O que faremos? — repetiu Rand. Seus olhos se moveram de um lado para outro, indo e vindo, acima da imobilidade das dunas. Um vento firme e seco abanou a gola emborrachada do traje de Proteção Ambiental. — Se você não tiver uma bola de vôlei, eu não sei.
— De que está falando?
— Não é o que se presume fazer na praia? — perguntou Rand. — Jogar vôlei?
Shapiro estivera muitas vezes assustado no espaço e bem perto do pânico, quando o incêndio começara. Agora, olhando para Rand, ouvia um rumor de medo, grande demais para compreendê-lo.
— Grande — disse Rand, sonhadoramente. Por um momento, Shapiro pensou que se referia ao medo dele próprio, de Shapiro. — Um diabo de praia grande. Um negócio como este pode continuar para sempre. A gente anda duzentos quilômetros com a prancha de surf debaixo do braço e ainda está onde começou, praticamente, sem nada para trás, além de seis ou sete pegadas impressas. E, se ficarmos no mesmo lugar cinco minutos, as últimas seis ou sete também desaparecem.
— Fez uma varredura topográfica geral, antes de cairmos? — perguntou Shapiro. Decidiu que Rand estava em choque. Rand estava em choque, porém não era louco. Poderia dar-lhe uma pílula, se fosse preciso e, se ele continuasse agindo idioticamente, poderia dar-lhe um tiro. — Você deu uma espiada nos...
Rand olhou brevemente para ele.
— O quê?
Nos lugares verdejantes. Era o que ia dizer. Soava como uma citação dos Salmos, e ele não conseguiria dizê-lo. O vento repicou cristalinamente em sua boca.
— O quê? — Rand tornou a perguntar.
— Varredura topográfica! Varredura topográfica! — gritou Shapiro. Nunca ouviu falar em varredura topográfica, seu teleguiado? Como é este lugar? Onde está o mar, no fim desta porra de praia? Onde estão os lagos? Onde fica o cinturão verde mais próximo? Em que direção? Onde termina o areal?
— Onde termina? Oh, já entendi. Ele nunca termina. Não há cinturões verdes nem calotas geladas. Não há oceanos. Esta é uma praia em busca de mar, chapa. Dunas, dunas e dunas, que nunca têm fim.
— E o que faremos quanto à água?
— Não há nada que possamos fazer.
— A nave... não tem conserto!
— Não me diga, Sherlock!
Shapiro calou-se. Tampouco adiantava ficar histérico. Achava que — era quase certo — se ficasse histérico, seu companheiro ficaria contemplando as dunas, até ele dar um jeito na situação. Ou não dar jeito nenhum.
Que nome se dá a uma praia que não tem fim? Ora, nós a chamamos de deserto! O maior, mais maldito deserto do universo, não é mesmo?
Em sua cabeça, ouviu Rand responder: Não me diga, Sherlock!
Ficou algum tempo ao lado de Rand, esperando que ele despertasse, que fizesse alguma coisa. Após um longo momento, sua paciência esgotou-se. Ele começou a deslizar e tropeçar, descendo a duna à qual tinham subido para observar os arredores.
Sentia a areia sugando suas botas. Quero sugar você para baixo, Bill, sua mente imaginou a areia dizendo. Em seu cérebro, aquela era a voz seca e árida de uma velha, mas ainda terrivelmente forte. Quero sugar você, bem aqui, e dar-lhe uma grande... dentada... um grande... abraço...
Aquilo o fez recordar como costumavam revezar-se, deixando que outros os enterrassem até o pescoço na praia, quando era criança. Naquele tempo, era uma brincadeira divertida — agora, isso o assustava. Então, desligou aquela voz, aquele não era o momento para canais de recordação, por Deus, não era mesmo — e caminhou através da areia em passadas curtas, vivas e bem definidas, inconscientemente tentando desfigurar a perfeição daquela encosta, daquela superfície.
— Aonde é que você vai? — pela primeira vez, a voz de Rand mostrava um toque de lucidez e preocupação.
— O rádio — disse Shapiro. — Vou ligá-lo. Estamos em uma faixa mapeada de viagem. Ele será captado, vetorizado. É uma questão de tempo. Sei que as possibilidades são baixas, porém, talvez alguém apareça, antes que...
— O rádio ficou destroçado — disse Rand. — Aconteceu quando caímos.
— Talvez possa ser consertado — replicou Shapiro, por sobre o ombro.
Quando mergulhou pela escotilha, sentiu-se melhor, apesar dos odores — fios queimados e um jato acre de gás Freon. Disse para si mesmo que estava animado por ter pensado no rádio. Pouco importando o quão insignificante pudesse ser, o rádio oferecia alguma esperança. Contudo, não era o pensamento no rádio que lhe erguera o moral; se Rand dissera que estava quebrado, provavelmente devia estar mesmo quebrado. Só que, ali, ele deixava de ver as dunas — não veria mais aquela praia, a enorme extensão arenosa que não tinha fim.
Era isso que o fazia sentir-se melhor.
Quando tornou a atingir o topo da primeira duna, ofegando, as têmporas latejando com o calor seco, Rand continuava lá, ainda espiando, espiando e espiando.
Uma hora se passara. O Sol estava diretamente acima deles. O rosto de Rand estava molhado de suor. Como jóias, gotículas de transpiração aninhavam-se em suas sobrancelhas. Outras escorriam por suas faces, como lágrimas. Mais ainda deslizavam pelos músculos de seu pescoço e penetrava pela gola do traje de Proteção Ambiental (PA), como gotas de óleo incolor, correndo nas entranhas de um andróide em perfeito estado.
Eu o chamei de teleguiado, pensou Shapiro, com um leve estremecimento. Céus, pois ele não parecia outra coisa — não um andróide, mas um teleguiado, que acabou de levar uma injeção no pescoço, com uma agulha gigantesca.
E, afinal de contas, Rand estivera errado.
— Rand?
Nenhuma resposta.
— O rádio não estava quebrado.
Houve uma fagulha nos olhos de Rand. Depois eles ficaram novamente opacos, voltados para as montanhas de areia. Congeladas, foi o primeiro pensamento de Shapiro, mas supôs que se moviam. O vento era constante. Elas se moveriam. Em um período de décadas e séculos, elas acabariam movendo-se... bem, andariam. Não era assim que chamavam às dunas sobre uma praia? Dunas andantes? Ele pareceu recordar isso de sua infância. Ou da escola. Ou de qualquer lugar, diabo, que importância tinha?
Então, viu um delicado estremecer de areia deslizar pelo flanco de uma delas. Como se ouvisse (ouvisse o que eu pensava)
Suor fresco em sua nuca. Certo, estava ficando um tanto fantasioso. Quem não ficaria?
Estavam em um lugar difícil, muito difícil. E Rand parecia não saber disso... ou não se importar.
— Tinha alguma areia e o warbler estava rachado, mas na caixa de bugigangas de Grimes talvez houvesse uns sessenta deles.
Será que ele está me ouvindo?
— Não sei como a areia entrou lá — ele estava justamente onde devia, no compartimento de armazenagem, atrás do beliche, três postigos fechados até o exterior, mas...
— Oh, a areia se espalha. Penetra em tudo. Lembra-se de quando ia à praia em criança, Bill? Quando a gente voltava para casa, nossa mãe brigava conosco, porque havia areia por toda parte, hem? Areia no sofá, na mesa da cozinha, debaixo de nossa cama. A areia da praia é muito... — ele fez um gesto vago, e então um sorriso sonhador, perturbado, assomou-lhe aos lábios — ... ubíqua.
— ... mas não avariou nada — prosseguiu Shapiro. — O sistema out-put da corrente de emergência está tiquetaqueando e liguei o rádio nele. Coloquei os fones de ouvido por um minuto e pedi uma leitura de equivalência a cinqüenta parsecs. Soa como uma serra elétrica. É melhor do que podíamos esperar.
— Não virá ninguém. Nem mesmo os salva-vidas. O salva-vidas estão mortos há oito mil anos. Bem-vindo à Cidade do Surf, Bill. À Cidade do Surf sem ondas.
Shapiro se virou para as dunas. Perguntou-se por quanto tempo aquela areia estivera ali.
Um trilhão de anos? Um quintilhão? Houvera vida ali algum dia? Talvez algo com inteligência? Rios? Lugares com plantas? Oceanos, que tornariam o lugar uma praia real, em vez de um deserto?
Shapiro ficou parado ao lado de Rand e pensou a respeito. O vento firme agitou seus cabelos. E, de repente, teve certeza de que todas aquelas coisas tinham existido, podia imaginar como haviam terminado.
A lenta recuada das cidades, enquanto suas vias canalizadas e navegáveis eram primeiro pontilhadas, depois pulverizadas, finalmente desviadas e sufocadas pela areia rastejante.
Ele podia ver os cones aluviais de lama, em castanho brilhante, lisos como pele de foca a princípio, porém ficando mais e mais opacos em tonalidade, à medida que se espalhavam a partir da embocadura dos rios — estendendo-se mais e mais, até se encontrarem. Podia ver a lama untuosa como pele de foca, transformar-se em pântanos infestados de juncos, acinzentando-se em seguida, ainda saibrosos, para finalmente se tornarem areia branca.
Podia ver montanhas encurtando-se como lápis de pontas refeitas, sua neve derretendo-se, enquanto a areia em ascensão jogava quentes rajadas térmicas contra elas. Podia ver os últimos penhascos apontando para o céu como pontas dos dedos de homens sepultados vivos. Podia vê-los cobertos e imediatamente esquecidos pelas dunas profundamente idióticas.
Que nome Rand lhes dera?
Ubíquas.
Se você acabou de ter uma visão, Billyzinho, foi uma terrível e maldita visão.
Oh, não tinha sido bem assim. Ela não era terrível, mas pacífica. Tão quieta, como uma soneca em tarde de domingo. O que havia de mais pacífico do que uma praia?
Procurou afastar tais pensamentos. Então, tornou a olhar para a nave.
— Não haverá nenhuma cavalaria — disse Rand. — A areia nos cobrirá. Depois de algum tempo, seremos areia e a areia será nós. A Cidade do Surf sem ondas — pode pegar aquela onda, Bill?
E Shapiro ficou assustado, porque podia pegá-la. Não se podia ver todas aquelas dunas sem tal sensação.
— Maldito teleguiado cretino — disse.
Voltou para a nave. E escondeu-se da praia.
Finalmente o sol se pôs. Era a hora em que, na praia — qualquer praia de verdade — a gente vai encerrando o vôlei, vestindo os blusões e se preparando para as salsichas e cervejas. Ainda não é hora de transar com uma garota, mas quase. É hora de ficar pensando na transa.
Salsichas e cervejas não faziam parte do estoque de comestíveis do ASN/29.
Shapiro passou a tarde engarrafando cuidadosamente toda a água da nave. Usava um vácuo portátil para sugar o que quer que houvesse escorrido das artérias do sistema de suprimento da nave e empoçado no chão. Conseguiu captar até mesmo o pouquinho que restara no fundo do estraçalhado sistema hidráulico do tanque d'água. Não esqueceu nem mesmo o pequeno cilindro nas entranhas do sistema de purificação do ar, que fazia o ar circular nas áreas de armazenagem.
Por fim, foi até a cabine de Grimes.
Grimes mantinha peixes dourados em um tanque circular, construído especialmente para condições livres da ação da gravidade. O tanque havia sido construído em plástico transparente polymer, resistente ao impacto e suportara a queda sem dificuldade. Os peixes dourados — como seu dono — não eram resistentes ao impacto. Flutuavam em um frouxo monte alaranjado no topo da bola, a qual fora pousar debaixo do beliche de Grimes, juntamente com três pares de roupa de baixo imundos e meia dúzia de cubos holográficos pornô.
Ele segurou o aquário-globo por um momento, olhando fixamente para seu interior.
— Lá se foi o pobre Yorich... Eu o conhecia bem... — disse de repente e riu, uma risada estridente, angustiada.
Então, pegando a rede que Grimes guardava em seu armário da cabine, mergulhou-a no tanque. Removeu os peixes, perguntando-se o que fazer com eles. Após um momento, levou-os à cama de Grimes e ergueu seu travesseiro.
Havia areia debaixo deles.
Mesmo assim, deixou os peixes ali e, em seguida, despejou cautelosamente a água dentro do jerrican que usava como recipiente. Ela deveria ser totalmente purificada, mas ainda que os purificadores não estivessem funcionando, Shapiro refletiu que, em mais dois dias, pouco estaria ligando se precisasse beber água de aquário, apenas porque poderia conter algumas escamas soltas e vestígios de fezes de peixes dourados.
Purificou a água, dividiu-a e levou a parte que cabia a Rand até o alto, na encosta da duna. Rand continuava no mesmo lugar, como se não houvesse dado um só passo.
— Trouxe sua ração de água, Rand.
Shapiro abriu o zíper do bolso frontal no traje PA de Rand e enfiou em seu interior o frasco chato de plástico. Ia fechar o zíper, quando Rand empurrou sua mão e retirou o frasco. Na frente do frasco estava impresso: FRASCO CL — ESTOQUE DE SUPRIMENTOS DA NAVE CLASSE/ASN — N.° 23196755. ESTÉRIL QUANDO O SELO ESTIVER INTATO. O selo agora tinha sido rompido, é claro; Shapiro tivera que encher o frasco.
— Eu purifiquei...
Rand abriu os dedos. O frasco tombou na areia, com um plaft macio.
— Não quero.
— Não... Rand, o que há de errado com você? Céus, quer parar com isso?
Rand não deu resposta.
Abaixando-se, Shapiro recolheu o frasco n.° 23196755. Limpou a areia que aderira aos lados, como se fosse enormes e inchados micróbios.
— O que há de errado com você? — repetiu Shapiro. — Será choque? Acha que seja isso? Bem, eu posso dar-lhe uma pílula... ou uma injeção. Só que começa a irritar-me, se quer saber. Ver você aí parado, olhando para os próximos sessenta quilômetros de nada! É só areia! Nada mais que areia!
— É uma praia — disse Rand, sonhadoramente. — Quer fazer um castelo de areia?
— Tudo bem — suspirou Shapiro. — Vou pegar uma agulha e uma ampola de Yellowjack. Se quer agir como um maldito teleguiado, é assim que vou tratá-lo. Como a um teleguiado!
— Se tentar injetar-me alguma coisa, é bom ficar quieto, quando se esgueirar por trás de mim — disse Rand, em voz tranqüila. — Do contrário, vou quebrar seu braço.
Ele também podia fazer isso. Shapiro, o astrogador, pesava setenta quilos e media um e sessenta e dois. O combate físico não era sua especialidade. Grunhiu um xingamento e deu meia volta, começando a caminhar para a nave, com o frasco de Rand na mão.
— Eu acho que está viva — disse Rand. — Tenho absoluta certeza.
Shapiro olhou para trás, para Rand, depois para as dunas. O sol poente lhes emprestara uma filigrana dourada, desenhando-se sobre suas camadas lisas e ondulantes, uma filigrana que se matizava delicadamente para o ébano mais negro nas depressões; na duna seguinte, o ébano passava para dourado. De dourado a negro. De negro a dourado. De dourado a negro e de negro a dourado e de dourado a...
Shapiro piscou rapidamente e esfregou os olhos com a mão.
— Por várias vezes, senti esta duna se mover sob meus pés — disse-lhe Rand. — Ela se move com a maior graciosidade. É como sentir a maré. Posso farejar seu cheiro no ar e há sal nesse cheiro.
— Você está louco — disse Shapiro.
Estava tão aterrorizado, que tinha a sensação de que seus miolos se haviam transformando em vidro. Rand não respondeu. Seus olhos continuavam perscrutando as dunas, que iam de dourado a negro e de negro a dourado, naquele pôr-do-sol.
Shapiro retornou à neve.
Rand permaneceu sobre a duna a noite inteira e todo o dia seguinte.
Ao olhar para fora, Shapiro o viu. Rand despira seu traje PA e a areia quase cobrira a veste. Apenas uma manga ficara para fora, melancólica e suplicante. A areia acima e abaixo deu a Shapiro a impressão de dois lábios, sugando um bocado tenro com desdentada voracidade. Sentiu uma vontade louca de subir até o alto da duna e recolher o traje PA de Rand.
Acabou não indo.
Sentado em sua cabine, esperou pela nave de socorro. O Freon já se dissipara, agora substituído pelo cheiro ainda menos desejável da decomposição de Grimes.
A nave de socorro não apareceu naquele dia, naquela noite e nem no terceiro dia.
De alguma forma, a areia conseguiu penetrar na cabine de Shapiro, embora a escotilha estivesse fechada e o selo ainda aparentemente intato. Com o vácuo portátil, ele sugou os pequenos montículos de areia, como havia sugado as poças de água espalhadas, naquele primeiro dia.
Estava sedendo o tempo todo. Seu frasco já estava quase vazio.
Julgou começar a sentir o cheiro de sal no ar. Ao dormir, ouvia grasnido de gaivotas.
Também ouvia a areia.
O vento firme movia a primeira duna para mais perto da nave. Sua cabine continuava em ordem, — graças ao vácuo portátil — mas a areia começava a assenhorear-se do resto.
Dunas em miniatura haviam passado pelas fechaduras estouradas e invadiam a ASN/29.
A areia despejava-se em gavinhas e membranas através de aberturas. Havia um sedimento depositado em um dos tanques explodidos.
O rosto de Shapiro ficou emaciado e seixoso, com um sombreado de barba.
Perto do pôr-do-sol do terceiro dia, ele subiu à duna para observar Rand. Pensou em levar uma seringa hipodérmica, mas desistiu. Aquilo era muito mais do que choque, agora tinha certeza. Rand ficara insano. Seria melhor se ele morresse rapidamente, e tudo indicava ser isso mesmo o que ia acontecer.
Shapiro estava emaciado, Rand ficara descarnado. Seu corpo era um graveto esquelético. Suas pernas, antes fortes e grossas, com musculatura vigorosa, agora estavam frouxas e finas. A pele pendia delas como meias folgadas que estão sempre caindo. Ele usava apenas a cueca, de náilon vermelho, que tinha a absurda aparência de um frouxo calção de banho. Uma ligeira barba começara a surgir em seu rosto, cobrindo as faces encovadas e o queixo. A barba de Rand era cor de areia da praia. Seus cabelos, anteriormente exibindo um tom indefinido de castanho, haviam-se desbotado para quase louros. Agora, pendiam-lhe sobre a testa. Somente os olhos, espiando através da franja com viva intensidade azul, ainda pareciam totalmente animados. Eles estudavam a praia. (as dunas, as malditas DUNAS) incessantemente.
Nesse momento, Shapiro viu algo ruim. Aliás, muito ruim. Viu que o rosto de Rand transformava-se em uma duna de areia. Sua barba e cabelos combinavam com a pele.
— Você vai morrer — disse Shapiro. — Se não vier para a nave e beber, acabará morrendo, Rand nada disse. — É isso o que quer?
Nada. Houve o sibiliar vazio do vento e nada mais. Shapiro observou que as dobras no pescoço de Rand estavam se enchendo de areia.
— A única coisa que eu quero — disse Rand, em voz fraca, distante como o vento, — são as minhas fitas dos Beach Boys. Estão em minha cabine.
— Dane-se! — bufou Shapiro, furioso. — E quer saber o que eu espero? Espero que uma nave chegue antes de você morrer. Quero vê-lo esbravejar e gritar, quando o arrancarem para longe de sua preciosa e maldita praia. Quero ver o que então vai acontecer!
— A praia irá capturá-lo também — disse Rand. Sua voz era vazia e chocalhante, como vento dentro de uma abóbora partida — uma abóbora que fora deixada em um campo, no fim da última colheita de outubro. — Escute só, Bill. Escute a onda.
Rand ladeou a cabeça. Sua boca entreaberta mostrava a língua. Uma língua estorricada como esponja seca.
Shapiro ouviu algo.
Ouviu as dunas. Elas entoavam canções das tardes domingueiras na praia sonecas na praia, sem sonhos. Longas sonecas. Uma paz absoluta. O som de gaivotas grasnando. Partículas impensadas, à deriva. Dunas andantes. Ele ouviu... e foi atraído. Atraído para as dunas.
— Você ouviu — disse Rand.
Shapiro levou a mão ao nariz e fincou dois dedos, até fazê-lo sangrar. Então, pôde fechar os olhos; seus pensamentos voltaram, lentos e desajeitadamente ligados. Seu coração disparava.
Eu estava quase como Rand. Céus!... Quase fui apanhado!
Tornou a abrir os olhos e viu que Rand se transformara em uma concha, em uma praia há muito deserta, espichando-se em direção a todos os mistérios de um mar não-morto, olhando fixamente para dunas, dunas e dunas.
Já basta! gemeu Shapiro para si mesmo.
Oh, ouça só o rumor desta onda, sussurraram as dunas.
Contra a vontade, Shapiro ouviu.
E pensou: Eu ouviria melhor, se me sentasse.
Acomodou-se aos pés de Rand, os calcanhares sobre as coxas, como um índio yaqui, e ouviu.
Ouviu os Beach Boys, e eles cantavam sobre divertir-se, divertir-se, divertir-se. Ouviu-os cantar que as garotas da praia estavam todas ao alcance. Ouviu...
...um suspiro oco do vento, não em seus ouvidos, mas no desfiladeiro entre o cérebro direito e o esquerdo — ouviu aquele suspiro em algum ponto da escuridão cruzada apenas pela ponte suspensa do corpo caloso, que liga o pensamento consciente ao infinito.
Shapiro não sentia qualquer fome, sede, calor ou medo. Ouvia apenas a voz no vazio.
Então, apareceu uma nave.
Ela surgiu arremetendo do céu, sua combustão retardada riscando um comprido traço alaranjado, da direita para a esquerda. O estrondo contornou a topografia ondulada em delta e várias dunas desmoronaram, como um cérebro danificado pelo rastro de uma bala. Esse estrondo penetrou na cabeça de Billy Shapiro, fendeu-a e, por um momento, ele ficou dividido entre os dois lados, partida, cortado ao meio...
Então, estava de pé.
— Uma nave! — gritou. — Céus! Uma nave! Uma nave! UMA NAVE!
Tratava-se de uma nave mercante daquela faixa, suja e castigada por quinhentos anos — ou cinco mil — a serviço do clã. Ondulou através do ar, estrondeou cruamente na vertical e derrapou. O capitão acionou os jatos, fundindo a areia em vidro negro. Shapiro aplaudiu o ferimento.
Rand olhou em torno, como se despertasse de um sono profundo.
— Diga a ela para ir embora, Billy.
— Você não compreende? — Shapiro andava tropegamente em círculos, sacudindo os punhos no ar. — Você ficará bem...
Depois começou a correr para a suja mercante, em grandes passadas saltadas, como um canguru fugindo de um tiroteio rasante. A areia quis agarrá-lo, Shapiro a chutou. Dane-se, areia! Tenho uma garota, lá em Hansonville. Areia nunca teve nenhuma garota. Praia, nunca tiveram uma ereção.
A carcaça da mercante se abriu. Uma passarela saltou para fora, como uma língua. Um homem desceu por ela. atrás de três modelos de andróides e de um sujeito formado por placas rolantes, que certamente seria o capitão. De qualquer modo, usava um quepe com um símbolo de clã.
Um dos andróides agitou um tipo de bastão para ele. Shapiro o afastou de seu caminho.
Caiu de joelhos diante do capitão e abraçou os degraus rolantes que lhe substituíam as pernas mortas.
— As dunas... Rand... sem água... vivo... hipnotizaram-no... um mundo teleguiado... Eu... graças a Deus...
Um tentáculo de aço chicoteou o ar à sua volta e o puxou. arrastando-o deitado, por sobre a barriga. A areia seca cochichou debaixo dele, parecendo gargalhar.
— Tudo bem — disse o capitão. — Be Y-at shr!! Me. Me! Cat!
O andróide soltou Shapiro e afastou-se rangendo furiosamente consigo mesmo.
— Tudo isto por um maldito Fed! — exclamou o capitão, amargurado.
Shapiro chorou. Não era apenas a sua cabeça que doía. mas também o fígado.
— Dud!. Gee-vat! Agua-para-o-que-Chora!
O homem que viera a frente do grupo arremessou-lhe uma espécie de mamadeira para baixa gravidade, provida de bico. Shapiro recolheu-a no ar e sugou vorazmente, derramando água fria como cristal dentro da boca e pelo queixo, escorrendo em filetes que lhe escureciam a túnica. desbotada para a cor do osso. Ele se engasgou, vomitou, tornou a beber.
Dud e o capitão o observavam atentamente. Os andróides tilintaram.
Por fim, Shapiro enxugou a boca e sentou-se. Agora. sentia-se indisposto e bem ao mesmo tempo.
— Você Shapiro? — perguntou o capitão.
Shapiro assentiu.
— Afiliação de clã?
— Nenhuma.
— Número da ASN?
— 9.
— Tripulação?
— Três. Um está morto. O outro — Rand — está lá em cima — disse Shapiro, apontando, mas sem olhar.
O rosto do capitão não se alterou, mas sim o de Dud.
— A praia o capturou — explicou Shapiro. Notou os olhares velados e questionantes. — Talvez... esteja em choque. Ele parece hipnotizado. Fica falando sobre os... os Beach Boys... oh, não importa, vocês não compreendem. Não sabem quem são. Ele não quis comer nem beber. Está mal.
— Dud, leve um dos andróides e traga-o para baixo. — O capitão abanou a cabeça. — Céus, nave da Federação! Sem salvagem!
Dud assentiu. Momentos depois, ele subia dificultosamente uma encosta da duna, com um dos andróides. O andróide parecia um surfista de vinte anos, que poderia conseguir um dinheiro extra para drogas servindo a viúvas entediadas, porém seu andar o denunciava mais do que os tentáculos segmentados que lhe cresciam nas axilas. O andar, comum a todos os andróides, era o caminhar lento, reflexivo e quase doloroso de um velho mordomo inglês com hemorróidas.
Houve um zumbido no painel de instrumentos do capitão.
— Estou aqui.
— Fala Gomez, capitão. Estamos com um problema. A varredura topográfica e a telemetria de superfície indicam um solo muito instável. Não há leito rochoso para sustentar-nos. Estamos sustidos por nossas próprias reservas de empuxo e, neste exato momento, isso pode ser a coisa mais sólida em todo o planeta. O problema é que essas reservas começam a perigar.
— Recomendação?
— Devemos partir.
— Quando?
— Há cinco minutos.
— Você é um amotinador cômico, Gomez.
O capitão apertou um botão e a comunicação interrompeu-se. Os olhos de Shapiro giravam nas órbitas.
— Ouça, não se incomode com Rand. Ele está perdido!
— Vou levar os dois de volta — disse o capitão. — Não receberei nenhuma salvagem, mas a Federação certamente pagará algo por vocês... não que qualquer dos dois valha grande coisa, pelo que posso ver. Ele está maluco e você é insignificante.
— Não... você não compreende. Você...
Os astutos olhos amarelos do capitão cintilaram.
— Tem algum contrabando? — perguntou.
— Capitão... ouça... por favor...
— Porque se tem, não faz nenhum sentido deixá-lo aqui. Diga-me o que é e onde está. Racharemos, setenta-trinta. Honorário padrão para aquele que o recolhe. Não podia ser melhor do que isso, hem? Você...
A reserva de empuxo inclinou-se subitamente. Foi bastante visível a sua inclinação.
Uma buzina, em algum ponto no interior da nave mercante, começou a soar com abafada regularidade. O comunicador no painel de instrumentos do capitão interrompeu-se de novo.
— Aí está! — gritou Shapiro. — Viu agora o que tem pela frente? Ainda quer falar em contrabando? NÓS TEMOS É QUE SAIR DAQUI IMEDIATAMENTE!
— Cale a boca, simpático, ou farei com que um desses sujeitos lhe dê um sedativo — disse o capitão.
Sua voz era serena, mas os olhos haviam mudado. Ele apertou o botão do comunicador.
— Capitão, estou com dez graus de inclinação e a coisa está aumentando. O elevador está descendo, mas em ângulo. Ainda temos tempo, só que muito pouco. A nave acabará caindo.
— Os suportes a manterão.
— Não, senhor. Peço desculpas, capitão, mas será impossível.
— Comece a disparar seqüências, Gomez.
— Obrigado, senhor.
O alívio na voz de Gomez era indisfarçávei. Dud e o andróide vinham descendo a encosta da duna, porém Rand não estava com eles. O andróide foi ficando mais e mais atrasado e, então, aconteceu algo estranho. Ele caiu ao comprido, sobre o rosto. O capitão franziu o cenho. O andróide não caiu como se suporia que caísse, isto é, mais ou menos como um ser humano. Foi como se alguém empurrasse um manequim, em uma loja de departamentos. Ele caiu precisamente assim, de cara no chão. Houve um ploft! e uma pequena nuvem de areia se elevou à sua volta.
Dud recuou e ajoelhou-se perto dele. As pernas do andróide continuavam a agitar-se, como se ele — em seu 1,5 milhões de micro circuitos refrigerados a Freon que compunha sua mente — sonhasse que ainda caminhava. Contudo, os movimentos das pernas eram lentos e rangentes. Depois cessaram. A fumaça começou a brotar-lhe dos poros e seus tentáculos estremeceram na areia. Era tão horripilante, como ver um humano morrer.
Um profundo rangido brotou de suas entranhas: Graaaagggg!
— Está cheio de areia — sussurrou Shapiro. — Foi atacado pela religião dos Beach Boys.
O capitão olhou impacientemente para ele.
— Não seja ridículo, homem! Aquela coisa poderia caminhar através de uma tempestade de areia, sem que um só grão a penetrasse!
— Não neste mundo.
Os empuxos de reserva perigaram novamente. Agora, a nave mercante mostrava uma visível inclinação. Houve um ruído surdo, quando seus suportes receberam um peso maior.
— Deixe-o! — gritou o capitão para Dud. — Deixe-o, deixe-o! Geeyat! Come-me-for-Cry!
Dud aproximou-se, deixando que o andróide caminhasse de rosto contra a areia.
— Que confusão! — murmurou o capitão.
Ele e Dud iniciaram uma conversa inteiramente em rápido dialeto simplificado, que Shapiro conseguiu entenderem parte. Dud contou ao capitão que Rand se recusara a vir.
O andróide tentara agarrá-lo, porém sem muita força, já que se movia espasmodicamente e estranhos chiados brotavam de seu interior. Além disso, ele começara a recitar uma combinação das coordenadas na extração de carvão galáctico e de um catálogo das gravações de música folclórica do capitão. Então, o próprio Dud se aproximara de Rand, agarrando-o. Os dois lutaram brevemente. O capitão respondeu que, se Dud permitira que um homem, parado ao sol quente durante três dias, levasse a melhor sobre ele, então talvez devesse arranjar um outro Primeiro.
O rosto de Dud ensombreceu-se com seu constrangimento, mas persistiu a expressão grave, preocupada. Ele virou lentamente a cabeça, mostrando quatro profundas estrias em sua face. As estrias começavam a inchar.
— Him-gat big indics — disse Dud. — Strong-for-Cry. Him-gat for eomby.
— Umby-him.for Cry?
O capitão olhava consternado para Dud. Dud assentiu.
— Umby. Beyat shel. Umby-for-Cry.
Shapiro estivera franzindo o cenho, espremendo sua mente fatigada e com medo para entender aquela palavra. Então, recordou. Umby. Significava louco. Por Deus, ele é forte. Forte, porque está louco. Ele tem muitos expedientes, muita força. Porque está louco.
Muito expediente... ou talvez, isso significasse muitas ondas. Shapiro não tinha certeza.
De qualquer forma, dava tudo no mesmo.
Umby.
O solo deslizou sob eles novamente e a areia escorreu pelas botas de Shapiro.
De trás deles, veio o surdo ka-thud, ka-thnd, ka-thud, quando os tubos respiratórios se abriram. Shapiro o considerou um dos mais belos sons que já ouvira em sua vida.
O capitão parecia refletir intensamente, um estranho centauro, cuja metade inferior se compunha de degraus e placas, em vez de um cavalo. Depois, olhando para cima, ele pressionou o comunicador.
— Gomez, faça Excelente Montoya descer aqui com uma pistola tranqüilizante.
— Entendido.
O capitão olhou para Shapiro.
— E agora, para cúmulo, perdi um andróide valendo o seu salário pelos próximos dez anos! Não gostei disso. Quero levar o seu companheiro.
— Capitão...
Shapiro não pôde deixar de passar a língua pelos lábios. Sabia que era um gesto impróprio. Não queria parecer louco, histérico ou covarde mas, aparentemente, o capitão decidira que era as três coisas. Lamber os lábios daquela maneira, apenas acentuaria a impressão... mas não conseguira conter-se.
— Capitão — repetiu — não posso convencê-lo da imperiosa necessidade de sair deste mundo o mais depressa poss...
— Pode, teleguiado — disse o capitão, não sem gentileza.
Um grito fraco soou no alto da duna mais próxima.
— Não me toquem! Não cheguem perto de mim! Deixem-me em paz! Todos vocês!
— Big indics gat umby — disse Dud, em tom grave.
— Ma-him, yeah-mon — replicou o capitão, e então se virou para Shapiro. Ele está mesmo ruim, não está?
Shapiro estremeceu.
— Você não entende. Você apenas...
As reservas de empuxo tornaram a oscilar. Os suportes grunhiam mais alto do que nunca. O comunicador estalou. A voz de Gomez parecia distante, um pouco irregular.
— Temos que sair daqui agora. capitão!
— Está bem. — Um homem moreno apareceu na passarela. Empunhava uma comprida pistola na mão enluvada. O capitão apontou para Rand: — Ma-him, for-Cry. Can?
Excelente Montoya, inalterado pela terra inclinada que não era terra, mas apenas areia fundida em vidro (e Shapiro viu que agora havia profundas rachaduras cruzando aquele vidro), sem ligar para os suportes rangentes ou a visão fantástica de um andróide que agora parecia cavar a própria sepultura com os pés, estudou a figura esquelética de Rand por um momento.
— Can — respondeu ele.
— Gat! Gat-iÓr-Cry! — O capitão cuspiu a um lado. — Arranque-lhe o pau fora, que não me incomodo — disse. — Desde que continue respirando, quando embarcarmos.
Excelente Montoya ergueu a pistola. O gesto era aparentemente dois-terços causal e um-terço descuidado, mas mesmo em seu estado de quase pânico, Shapiro percebeu a maneira como Montoya inclinava a cabeça para um lado, ao erguer o cano da arma.
Como acontecia a muitos nos clãs, a pistola quase fazia parte dele, assemelhando-se a um prolongamento de seu próprio dedo.
Houve um fuit! surdo, quando ele apertou o gatilho e o dardo do tranqüilizante disparou pelo cano.
Uma mão se ergueu das dunas e agarrou o dardo.
Era uma grande mão marrom, ondulante, feita de areia. Ela simplesmente se ergueu, desafiando o vento e abatendo o brilho momentâneo do dardo. Em seguida, a areia caiu de volta ao lugar, com um pesado thrrrrap. Não houvera mão alguma. Era impossível acreditar que houvera. Contudo, todos a tinham visto.
— Giddy-hrímp — disse o capitão, quase como se conversasse.
Excelente Montoya caiu de joelhos.
— Aidy-May-/ór-Cry, bit-gat come! Saw-hoh got belly-gat-gor-Cry!...
Entorpecidos, Shapiro percebeu que Montoya rezava um rosário em dialeto. No alto da duna, Rand dava saltos, sacudindo os punhos para o céu, guinchando fracamente em triunfo.
Uma mão. Era uma MÃO. Ele tem razão; a areia está viva, viva, viva...
— lndic! — disse bruscamente o capitão a Montoya. — Cannit! Gat!
Montoya se calou. Seus olhos focalizaram a figura saltadora de Rand e depois se desviaram. Seu rosto estava tomado por supersticioso horror, quase medieval em qualidade.
— Muito bem — declarou o capitão. — Já chega para mim. Desisto! Vamos embora.
Apertou dois botões em seu painel de controle. O motor que deveria girá-lo perfeitamente, a fim de colocá-lo outra vez de frente para a passarela, não emitiu qualquer zumbido; apenas crepitou e chiou. O capitão praguejou. O empuxo de reserva tornou a oscilar.
— Capitão! — chamou Gomez, em pânico.
O capitão apertou rapidamente outro botão e os degraus rolantes de suas pernas começaram a girar em marcha à ré, subindo a passarela.
— Guie-me — disse ele a Shapiro. — Não tenho nenhum maldito espelho retrovisor. Aquilo foi uma mão, não foi?
— Foi.
— Quero dar o fora daqui — disse o capitão. — Há quatorze anos não tenho um pau mas, neste exato momento, tenho a sensação de que estou me mijando.
Thrrrap! Uma duna se desfez subitamente, caindo sobre a passarela. Só que não era um duna, mas um braço.
— Dane-se, oh, dane-se! — exclamou o capitão.
Em sua duna, Rand saltava e guinchava.
Agora, a fiação da metade inferior do capitão começou a crepitar. O minitanque, do qual sua cabeça e ombros eram a torrinha, pôs-se a rodar para trás.
— O quê...
Os degraus rolantes emperraram. A areia saltava de entre eles.
— Levantem-me! — berrou o capitão para os dois andróides remanescentes. — Agora! JÁ!
Os tentáculos dos andróides envolveram as rodas dentadas dos degraus que eram as pernas do capitão, quando o ergueram no alto — ele mostrava uma ridícula semelhança com um membro de universidade, prestes a ser arremessado em um lençol, por um bando de ruidosos rapazes de fraternidade. Ele apertava o comunicador.
— Gomez! Dispare a seqüência final! Agora! Agora!
A duna aos pés da passarela deslizou, modificou-se. Tornou-se uma mão. Uma grande mão marrom, que começou a subir pela passarela inclinada.
Com um grito agudo, Shapiro saltou de perto daquela mão.
Praguejando o capitão foi levado para longe dela.
A passarela foi içada. A mão descambou, virou areia novamente. A escotilha irizada se fechou. Os motores rugiam. Não havia tempo para uma poltrona; não havia tempo para nada semelhante. Shapiro caiu em~posição agachada sobre o anteparo e foi imediatamente achatado pela aceleração. Antes que a inconsciência o subjugasse, teve a impressão de sentir a areia arranhando a nave mercante, com musculosos braços marrons, tentando puxá-los para baixo...
Então, elevaram-se e afastaram-se dali.
Rand os espiou indo embora. Estava sentado. Quando a esteira dos jatos da nave mercante finalmente desapareceram do céu, ele voltou os olhos para o plácido infinito das dunas.
— "Temos um calhambeque 34, cujo nome é Horroroso — cantou casquinadamente para a areia vazia e móvel. — Não tem nada de pintoso; está idoso, mas é gostoso."
Lenta e deliberadamente, ele começou a enfiar na boca punhado após punhado de areia.
Engoliu... engoliu... engoliu. Em pouco, seu ventre era uma barrica inchada, a areia começou a amontoar-se sobre suas pernas.
A mãe de George foi até a porta, vacilou, voltou de novo e acariciou os cabelos do filho.
— Não quero que fique preocupado — disse. — Você estará bem. Vovó também.
— Eu sei, vou ficar bem. Diga a Buddy para não esquentar.
— Como?
George sorriu.
— Para ir com calma.
— Oh! Muito interessante. — A mãe sorriu para ele, um sorriso distraído, voltado para seis direções ao mesmo tempo. — George, você tem certeza de que...
— Eu vou ficar ótimo.
Está bem certo disso? Tem certeza de que não sentirá medo, ao ficar sozinho com vovó?
Não era isso que ela ia perguntar?
Se era isso, a resposta é não. Afinal, já passara a época em que tinha seis anos, quando tinham ido para o Maine, a fim de cuidarem de vovó. Então, chorava aterrorizado a cada vez que ela lhe estendia os braços pesados, sentada em sua poltrona de vinil branco, que sempre tinha o cheiro dos ovos escaldados que vovó comia e do talco suave que a mãe de George lhe passava na pele frouxa e enrugada; ela estendia aqueles braços brancos e elefantinos, queria que ele se aproximasse, para ser apertado contra aquele enorme, pesado, velho e elefantino corpo branco. Buddy atendera, tinha sido envolvido no cego abraço de vovó e escapara vivo... mas Buddy era dois anos mais velho.
Agora, Buddy quebrara a perna e estava no Hospital C MG, em Lewiston.
— Você tem o número do médico, caso alguma coisa dê errado. Só que nada vai acontecer. Certo?
— Certo — disse ele, e engoliu algo seco na garganta.
George sorriu. Seu sorriso era tranqüilizador? Claro. Claro que era. Não sentia mais medo de vovó. Afinal, não tinha mais seis anos. Mamãe ia ao hospital ver Buddy e ele ia ficar em casa, sem esquentar a cabeça. Acompanhar vovó por algum tempo. Qual o problema?
Mamãe tornou a ir até a porta, vacilou de novo e voltou, exibindo o sorriso perturbado, voltado para seis direções ao mesmo tempo.
— Se ela acordar e quiser tomar chá...
— Eu já sei — respondeu George, percebendo o quanto ela estava assustada e preocupada, por trás do sorriso perturbado.
Ela estava preocupada com Buddy, Buddy e sua idiota Divisão Juvenil, o treinador tinha ligado para dizer que Buddy se ferira em um jogo pela conquista da taça, e George só ficara sabendo (acabara de chegar da escola e estava sentado à mesa, comendo biscoitos com um copo de Quik, da Nestlé) quando viu sua mãe ofegar, perguntando, Machucado? Buddy? É grave?
— Sei esse negócio todo, mamãe. Estou no controle. Transpiração negativa. Pode ir agora.
— Você é um bom garoto, George. Não tenha medo. Não sente mais medo da vovó, não é mesmo?
— Claro que não — disse George.
Ele sorriu. Era um sorriso despreocupado. O sorriso de um cara que estava ficando frio, com transpiração negativa na testa, o sorriso de um cara que estava no controle, o sorriso de um cara que, decididamente, não tinha mais seis anos. George engoliu em seco. Era um grande sorriso, mas por baixo dele, na escuridão por baixo do sorriso, havia uma garganta muito seca. Como se sua garganta estivesse forrada com lã.
— Diga a Buddy que sinto muito ele ter quebrado a perna.
— Eu direi — respondeu ela, e tornou a caminhar para a porta. O sol das quatro da tarde penetrou pela janela. — Graças a Deus, contamos com o seguro esportivo, Georgie. Não sei o que faríamos, se não houvesse o seguro.
— Diga a ele que espero que tenha dado o troco no otário.
Ela sorriu seu sorriso perturbado, uma mulher que mal fizera os cinqüenta, com dois filhos tardios, um de treze e outro de onze anos, sem nenhum homem. Desta vez, ele abriu a porta e uma fria brisa de outubro entrou pelo pórtico.
— E, lembre-se, o Dr. Arlinder...
— Está bem — disse ele. — É melhor ir logo ou a perna dele já estará boa, quando chegar lá.
— O mais provável é que ela durma o tempo todo — disse mamãe. — Eu o amo, Georgie. Você é um bom filho.
Ela fechou a porta, ao terminar de falar. George foi até a janela e a viu caminhar apressada para o velho Dodge 69 que queimava muito óleo e gasolina, tirando as chaves de dentro da bolsa. Agora que saíra da casa e ignorava que George a espiava, o sorriso perturbado desapareceu e ela apenas pareceu perturbada — perturbada e abatida pela preocupação com Buddy. George sentiu pena dela. Não desperdiçava quaisquer sentimentos similares com Buddy, que gostava de derrubá-lo e sentar em cima dele, com um joelho em cada um de seus ombros, batendo no meio de sua testa com uma colher, até quase enlouquecê-lo ( Buddy chamava a isso a Tortura da Colher dos Chinas Pagões, e ria como um louco, às vezes continuando com aquilo até que George chorasse), Buddy que, às vezes, dava-lhe o tratamento da Queimadura de Corda índia, amarrando-lhe uma corda no braço e o puxando com tanta força, que pequeninas gotas de sangue surgiam na pele ofendida de George, pontilhando seus poros como orvalho em talos de grama ao amanhecer. Buddy, que ouvira compreensivamente, quando certa noite George lhe sussurrara, no escuro do quarto de ambos, que gostava de Heather MacArdle, mas que, na manhã seguinte, cruzara o pátio da escola gritando GEORGE E HEATHER NAMORANDO, CO-CO-RI-CO-CO-RI-CÓ; E TAMBÉM BE-E-I-JOTA-A-ENE-DE-Ó! PRIMEIRO O AMOR E DEPOIS CASAMENTINHO! LÁ VEM A HEATHER COM UM BEBÊ NO SEU CARRINHO! como um carro do Corpo de Bombeiros. Pernas quebradas não mantém irmãos mais velhos, como Buddy, reprimidos por muito tempo, mas George preferia ficar quieto no seu canto, desde que Buddy ficasse também. Quero ver você me forçar à Tortura da Colher dos Chinas Pagãos com sua perna no gesso, Buddy. Isso mesmo, cara — TODOS os dias.
O Dodge saiu em marcha à ré da entrada de carros e parou, enquanto sua mãe espiava para os dois lados, embora nenhum carro estivesse à vista; eles nunca estavam. Sua mãe teria um trajeto de três quilômetros em estradas acidentadas e onduladas antes de chegar ao asfalto, quando então seriam mais trinta quilômetros até Lewiston.
Ela recuou por toda a entrada de carros e depois rodou em frente. Por um momento, a poeira ficou suspensa no brilhante ar da tarde de outubro, para depois começar a assentar-se.
Ele estava sozinho em casa.
Com vovó.
George engoliu em seco.
Ei! Transpiração negativa! Basta não esquentar, certo?
— Certo — disse George, em voz baixa.
Cruzou a pequena cozinha banhada de sol. Era um garoto simpático, de cabelos claros, com sardas salpicando o nariz e bochechas, uma expressão bem-humorada nos olhos cinza-escuros.
O acidente com Buddy ocorrera quando ele jogava pelo campeonato da Divisão Juvenil, naquele 5 de outubro. O time da Divisão Pee Wee (Dente de leite) em que George jogava — os Tigres — ficara fora do torneio logo no primeiro dia, dois sábados atrás "Que bando de bebês!" exultara Buddy, ao ver George sair do campo em lágrimas. "Que bando de MARICAS!"... e agora, Buddy tinha quebrado a perna. Se mamãe não estivesse tão preocupada e assustada, George ficaria quase feliz.
Havia um telefone de parede e perto dele, um quadro para anotações, com um lápis ensebado pendurado ao lado. Na parte superior do quadro, via-se uma alegre vovó camponesa, de bochechas rosadas, os cabelos brancos penteados em coque; o desenho mostrava a avó fazendo anotações no quadro. Um balão de histórias em quadrinhos saía da boca da alegre vovó camponesa, e ela dizia, "LEMBRE-SE DISTO, FILHO!"
Escrito no quadro, na letra espichada de sua mãe, estava o lembrete Dr. Arlinder, 681-4330. Mamãe não anotara o número nesse dia, só porque tinha de ir ver Buddy. Agora já fazia quase três semanas que o número estava ali, pois vovó vinha tendo seus "acessos" outra vez.
George tirou o telefone do gancho e ouviu.
— ... então, eu disse a ela, "Mabel, se ele a trata desse jeito..."
George recolocou o fone. Henrietta Dodd. Henrietta estava sempre ao telefone e, se fosse de tarde, podia-se ouvir uma novela de rádio soando ao fundo.
Certa noite, após ter bebido um copo de vinho com vovó (desde que ela começara a ter os "acessos" novamente, o Dr. Arlinder havia dito que vovó não devia tomar vinho ao jantar, de modo que mamãe também deixara de tomá-lo — George lamentava, porque o vinho deixava mamãe risonha e ela lhe contava histórias de quando era menina), mamãe tinha dito que a cada vez que Henrietta Dodd abria a boca, suas tripas saíam do alinhamento. Buddy e George tiveram ataques de riso, enquanto mamãe tapava a boca com a mão, dizendo NUNCA contem a ninguém que eu disse isso, e então ela começou a rir também, todos os três, sentados à mesa do jantar, riam sem parar e, por fim, a risadaria acordou vovó, que cada vez dormia mais, e ela começou a gritar Ruth! Ruth! RUU-UUUTH! naquela sua voz aguda e casquinada, e mamãe, parando de rir, fora ao quarto dela.
Hoje, no que dizia respeito a George, Henrietta Dodd podia falar o quanto quisesse. Ele só desejara certificar-se de que o telefone estava funcionando. Duas semanas antes houvera uma forte tempestade e, desde então, de vez em quando o aparelho emudecia.
George viu-se olhando novamente para o alegre desenho da avó e perguntou-se como seria ter uma avó como aquela. A sua era grande, gorda e cega; além disso, a hipertensão a tornara senil. As vezes, quando tinha seus "acessos" ela (segundo mamãe) "agia como caduca", chamando por pessoas que não existiam, mantendo conversas sem sentido, murmurando estranhas palavras que não tinham o menor significado. Certa ocasião, quando ela fazia este último, mamãe ficara pálida e lhe dissera para se calar, calar, calar! George se lembrava bem, não apenas por ser a única vez em que mamãe realmente gritara com vovó, mas também porque, no dia seguinte, alguém descobrira que o cemitério Birches, junto à estrada Maple Sugar, havia sido vandalizado — lousas derrubadas, arrombados os antigos portões do século dezenove e realmente escavadas uma ou duas das sepulturas — escavadas ou algo semelhante. Profanadas, tinha sido o termo empregado pelo Sr. Burdon, diretor da escola quando, no dia seguinte, reuniu todos os oito graus em assembléia e palestrou para toda a escola, discutindo o tema Travessuras Malévolas e falando sobre como certas coisas Nada Tinham de Engraçadas.
Ao voltar para casa nessa noite, George perguntara a Buddy o significado de profanar.
Buddy respondera que isso queria dizer escavar sepulturas e urinar nos caixões, mas George não acreditou nisso... ou acreditou, porque já era tarde. E estava escuro.
Vovó ficava barulhenta quando tinha seus "acessos", mas em geral apenas permanecia na cama que vinha ocupando durante os três últimos anos, uma velha gorda, usando calças de plástico e fraldas por baixo da camisola de flanela, o rosto percorrido por sulcos e rugas, os olhos vazios e cegos — as pupilas de um azul desbotado flutuando em córneas amareladas.
A princípio, vovó não era inteiramente cega. Contudo, estava ficando cega e precisava de uma pessoa a cada lado, para ajudá-la a andar de sua poltrona de vinil branco, cheirando a ovo e talco para bebê, até a cama ou ao banheiro. Naquela época, cinco anos antes, vovó pesava bem mais de cem quilos.
Ela estendera os braços para Buddy, então com oito anos, e ele se aproximara. George havia recuado. E chorado.
Agora não tenho mais medo, disse para si mesmo, movendo-se pela cozinha, calçado com seus tênis. Nem um pouquinho. Ela é apenas uma velha, que de vez em quando tem "acessos".
Encheu a chaleira com água e a pôs sobre um queimador apagado. Depois pegou uma xícara de chá e colocou dentro dela um dos saquitéis de ervas especiais para chá, pertencentes a vovó. Era para o caso dela querer uma xícara. Tinha a louca esperança de que ela não quisesse, porque então teria que erguer o estrado da cama hospitalar, sentar-se perto dela e dar-lhe o chá, um gole de cada vez, vendo a boca desdentada dobrar-se acima da borda da xícara, ouvindo os sons de sucção, enquanto ela empurrava o chá para suas tripas agonizantes e úmidas. Havia vezes em que ela escorregava, caía de banda na cama, sendo preciso colocá-la novamente na posição correta — e sua carne era mole,. era bamba, como se estivesse cheia de água quente. E os olhos cegos olhavam para a gente...
George umedeceu os lábios com a língua e caminhou novamente até a mesa da cozinha.
Seu último biscoito e meio copo de Quik ainda estavam ali, porém não os queria mais.
Olhou sem entusiasmo para seus livros escolares, encapados com os Onças de Castle Rock.
Devia ir lá dentro e ver como ela estava.
Ele não queria ir.
Engoliu em seco e sua garganta dava a impressão de ainda estar forrada com lã.
Não tenho medo de vovó, pensou. Se ela me estender os braços, eu me aproximarei e deixarei que me abrace, porque não passa de uma velha. Ela está senil, por isso é que tem "acessos". Nada mais. Vou deixar que me abrace e não vou chorar. Vou ser como Buddy.
Cruzou o pequeno corredor até o quarto de vovó, o rosto tenso, como se fosse tomar um remédio amargo, os lábios tão apertados, que estavam brancos. Olhou para o interior e lá estava ela, com os cabelos branco-amarelados estendidos em torno da cabeça como uma coroa, adormecida, a boca desdentada aberta, o peito se elevando sob a coberta, mas tão lentamente que quase não se percebia, tão lentamente que era preciso ficar olhando para ela durante algum tempo, para haver certeza de que não estava morta.
Oh. Deus, e se ela morrer aqui comigo, com mamãe no hospital?
Ela não vai morrer. Não vai.
Bem, mas e se morrer?
Ela não vai morrer, pare de ser maricas.
Uma das mãos amarelas de vovó, parecendo desbotada, moveu-se vagarosamente sobre a coberta: suas unhas crescidas riscaram o tecido e emitiram um som de arranhado.
George recuou rapidamente, com o coração disparado.
Fique frio, seu cabeça tonta, morou? Fique frio.
Ele voltou à cozinha, a fim de ver se sua mãe tinha saído apenas uma hora antes, ou talvez hora e meia — nesta última hipótese, já poderia começar a esperar, mais ou menos, que ela estivesse voltando. Olhou para o relógio e espantou-se ao constatar que não se tinham passado nem vinte minutos. Mamãe nem ao menos já estaria na cidade, quanto mais saindo dela! Ficou quieto, ouvindo o silêncio. Vagamente, percebeu o zumbido da geladeira e do relógio elétrico. O rogaçar da brisa da tarde pelas quinas da pequena casa. E depois — na própria borda da audibilidade — os vagos sussurros farfalhantes de pele sobre tecido... da mão enrugada e sebosa de vovó, movendo-se sobre a coberta.
George rezou, em um só jato de fôlego mental:
OhmeuDeusnãodeixeelaacordaratémamãevoltarparacasapeloamordeJesusAmém.
Sentou-se e terminou seu biscoito, bebeu seu Quik. Pensou em ligar a televisão e ver alguma coisa, mas temia que o som acordasse a avó e que a voz aguda, exigente, não admitindo negativas, começasse a chamar RUUUUTH! RUTH! TRAGA O MEU CHÁ! CHÁ! RUU-UUUUTH!
Passou a língua ressequida pelos lábios ainda mais secos e disse a si mesmo para não ser tão maricas. Ela só era uma velha presa à cama, não havia o risco de sair de lá e machucá-lo. Além disso, estava com oitenta e — três anos, não ia morrer logo naquela tarde.
Levantando-se, foi até o telefone e o tirou do gancho novamente.
— ...nesse mesmo dia! E nem sabia que ele era casado! Francamente, eu odeio esses conquistadores baratos de esquina, que se julgam tão espertos! Pois no Grange, eu dizia...
George dedudizu que Henrietta falava com Cora Simard. Henrietta pendurava-se ao telefone pela maior parte da tarde, de uma hora às seis, primeiro com A Esperança de Ryun, a seguir com Uma Vida para Viver, depois Todos os Meus Filhos, e então Enquanto o Mundo Gira, seguindo-se Em Busca do Amanhã e só Deus sabia mais que outras peças eram representadas ao fundo. Quanto a Cora Simard, era uma de suas mais fiéis correspondentes telefônicas, e muito do que diziam era sobre
1) quem estava para dar um chá de panela e quais seriam os refrescos tomados,
2) conquistadores baratos de esquina e
3) o que elas haviam conversado com várias pessoas em
3-a) no Grange,
3-b) na feira mensal da igreja ou
3-c) no Cavaleiros de Pítias Hall Beano.
— ...que se eu tornar a vê-la daquele jeito novamente, acho que bancaria a boa cidadã e chamaria...
Ele recolocou o fone no gancho. Ele e Buddy se divertiam à custa de Cora, quando passavam diante de sua casa, justamente como todos os outros garotos. Ela era gorda, piegas e fofoqueira. Eles cantarolavam Cora-Cora, de Bora-Bora, comeu bosta de cachorro e nem pediu socorro! e mamãe mataria eles dois se soubesse disso, mas agora George estava contente, por Cora e Henrietta Dodd estarem ao telefone. Que as duas conversassem a tarde inteira, ele pouco ligaria. Aliás, nada tinha contra Cora. Uma vez, perseguido por Buddy, caíra diante da casa dela e esfolara o joelho. Cora lhe pusera um Band-Aid na esfoladura e dera um biscoito a cada um, falando o tempo todo. George ficara envergonhado por todas as vezes em que havia cantarolado a rima sobre a bosta de cachorro e o restante.
George foi até o aparador e pegou seu livro de leitura. Segurou-o por um momento, depois o largou. Já havia lido todas as histórias ali contidas, embora só houvesse tido um mês de aulas. Lia melhor do que Buddy, ao passo que seu irmão era melhor nos esportes. Não será melhor durante algum tempo, pensou, com momentânea satisfação, não com uma perna quebrada.
Pegou seu livro de História, sentou-se à mesa da cozinha e começou a ler sobre como Cornwallis fora obrigado a capitular em Yorktown. Entretanto, seus pensamentos não se fixavam no que lia. Levantou-se, tornou a chegar ao corredor. A mão amarela continuava imóvel. Vovó dormia, seu rosto era um círculo bambo e acinzentado contra o travesseiro, um sol agonizante, circundado pela despenteada coroa branco-amarelada de seus cabelos. Para George, ela não tinha a menor semelhança com pessoas velhas e supostamente à beira da morte. Não tinha a tranqüilidade de um pôr-de-sol. Ela parecia louca e... (e perigosa)
... sim, isso mesmo, e perigosa — como uma ursa velhíssima, que pudesse ainda ter um bocado de força sobrando nas garras.
George se lembrava muito bem de como tinham chegado a Castle Rock para cuidar de vovó, quando vovô morrera. Até então, mamãe estivera trabalhando na Lavanderia Stratford, em Stratford, Connecticut. Vovô tinha três ou quatro anos menos que vovó, era carpinteiro de profissão e trabalhara até o próprio dia de sua morte. Ele sofrera um ataque cardíaco.
Já naquele tempo, vovó estava ficando senil, tinha seus "acessos". Sempre constituíra uma provação para a família, era o que vovó havia sido. Ela fora uma mulher vulcânica, que lecionara durante quinze anos, entre ter bebês e disputas com a Igreja Congregacional, que freqüentava com vovô e os nove filhos. Mamãe costumava contar que vovô e vovó haviam abandonado a Igreja Congregacional de Scarborough, na mesma época em que vovó desistira de lecionar. Contudo, um ano atrás, quando a tia Flo viera de sua casa em Salt Lake City para visitá-los, George e Buddy tinham ficado ouvindo, pelo cano condutor de calefação, enquanto mamãe e sua irmã conversavam, até noite avançada. O que ouviram foi uma história bem diferente. Vovô e vovó tinham sido expulsos da igreja e vovó despedida do emprego, porque fizera algo errado. Era qualquer coisa sobre livros. Por que ou como alguém podia ser mandado embora do emprego ou expulso da igreja, apenas por causa de livros, era uma coisa que George não entendia. Perguntou a Buddy, quando os dois se esgueiraram para seus beliches, debaixo do beiral.
— Há todo tipo de livros, Señor El-Burro —, sussurrou Buddy.
— Certo, mas de que tipo?
— Como é que vou saber? Por que não dorme logo?
Silêncio. George meditou no assunto.
— Buddy?
— O que é? — Um sibilo irritado.
— Por que mamãe nos disse que vovó deixou a igreja e o emprego?
— Porque é um esqueleto no armário, entendeu agora?
Contudo, ele não dormiu, ficou acordado muito tempo. Seus olhos ficavam observando a porta do armário, vagamente delineada ao luar. Perguntou-se o que faria, caso a porta se escancarasse, revelando um esqueleto lá dentro, com dentes risonhos à maneira de lousas de sepulturas, olhos que eram como poços nas órbitas e costelas como gaiolas; o luar branquicento pareceria fantástico e quase azul, sobre ossos mais brancos. Ele gritaria? O que Buddy teria querido dizer com um esqueleto no armário? O que esqueletos tinham a ver com livros? Por fim, acabou dormindo sem ao menos perceber.
Sonhou que tinha seis anos novamente e que vovó lhe estendia os braços, com os olhos cegos procurando-o; a voz esganiçada de vovó dizia, Onde está o pequenino, Ruth? Por que ele está chorando? Eu só queria botá-lo no armário... junto com o esqueleto.
George ficou intrigado com tudo aquilo por muito e muito tempo. Finalmente, cerca de um mês depois da partida da tia Flo, contou à mãe que a tinha ouvido conversando com a irmã. Então, já sabia o que significava um esqueleto no armário, porque perguntara à Sra. Redenbacher, na escola. Ela lhe explicara que isso queria dizer a existência de um escândalo na família — e um escândalo era algo sobre o que as pessoas falavam bastante.
— Falam bastante, assim como Cora Simard? — perguntara George. O rosto da Sra. Redenbacher assumira um ar estranho, seus lábios haviam tremido e ela respondera:
— Isso não é muito delicado, George, mas... bem, é algo semelhante.
Quando ele interrogou mamãe, o rosto dela havia ficado muito imóvel e suas mãos interromperam o solitário que fazia com cartas de baralho.
— Acha bonito o que esteve fazendo, George? Você e seu irmão agora costumam ficar ouvindo coisas no cano de calefação?
George, na época com apenas nove anos, baixara a cabeça.
— Nós gostamos de tia Flo, mamãe. Queríamos ficar escutando o que ela dizia.
E era verdade.
— Foi idéia de Buddy?
Tinha sido idéia de Buddy, mas George não contaria isso a ela. Não queria ficar caminhando com a cabeça virada para trás, algo que poderia acontecer, se Buddy descobrisse que o delatara.
Não, foi minha.
Mamãe ficara muito tempo calada, depois recomeçou lentamente a dispor suas cartas.
— Talvez já seja hora de você ficar sabendo —, havia dito. — Mentir é pior do que ouvir conversas alheias, acho eu, e todos nós mentimos a nossos filhos sobre vovó. E creio que mentimos para nós também. É o que fazemos, a maior parte do tempo...
Então ela falara, com uma súbita e rancorosa amargura, que era como ácido esguichando de entre seus dentes frontais — George sentiu aquelas palavras tão quentes, que teriam queimado seu rosto, se não houvesse recuado.
— ...exceto por mim. Tenho que morar com ela, não posso mais me dar ao luxo de mentir.
Assim, mamãe me contou que, após se casarem, vovô e vovó haviam tido um bebê que nascera morto. Um ano mais tarde, tiveram outro bebê, também nascido morto. Então, o médico disse a vovó que ela nunca poderia ter um bebê, que tudo quanto podia fazer era continuar tendo bebês já mortos ou que morreriam assim que respirassem. Ele disse que seria sempre assim, até que um bebê ficasse morto dentro dela por muito tempo, antes que seu corpo o expulsasse — esse bebê apodreceria lá e também a mataria.
O médico havia dito isso a ela.
Não muito depois é que os livros começaram.
Livros sobre como ter bebês?
Mamãe, no entanto, não disse — ou não quis dizer — que tipo de livros eram aqueles, onde vovó os conseguira ou como sabia consegui-los. O fato é que vovó tornou a engravidar e, desta vez, o bebê não nasceu morto e nem morreu, após uma ou duas respirações; desta vez, ele estava ótimo e se tornou o tio Larson de George. E, depois disso, vovó continuou engravidando e tendo bebês. Certa vez, contou mamãe, vovô tentara convencê-la a livrar-se dos livros, para ver se teriam filhos sem eles (ou se até não teriam mais porque, a essa altura, talvez ele achasse que já tinha filhos suficientes, de modo que podiam parar de vir ao mundo), mas vovó não quis. George perguntara à sua mãe por quê.
— Acho que, então, ter os livros era tão importante para ela como ter bebês — respondeu sua mãe.
— Não entendo — disse George.
— Bem — falou sua mãe — acho que nem eu entendo bem... Lembre-se, eu era ainda muito pequena. Sei apenas que aqueles livros eram uma segurança para ela. Sua avó disse que não se falaria mais no assunto e assim foi. Porque era ela que usava as calças compridas em nossa família.
George fechou seu livro de História com um golpe súbito. Olhou para o relógio e viu que eram quase cinco da tarde. Seu estômago grunhia maciamente. De repente, com algo parecido ao puro horror, percebeu que se mamãe não estivesse em casa às seis horas mais ou menos, vovó acordaria e começaria a gritar por seu jantar. Mamãe esquecera de dar-lhe instruções sobre isso, talvez por estar tão preocupada com a perna de Buddy. George supôs que poderia fazer para vovó um de seus jantares congelados especiais. Eram especiais, porque ela fazia uma dieta de sal. Também tomava mil espécies diferentes de pílulas.
Para ele próprio, poderia esquentar o macarrão com queijo que sobrara da noite anterior.
Se colocasse um pouco de catchup em cima, ficaria legal.
Ele tirou da geladeira o macarrão com queijo, usou uma colher para coloca-lo em uma panela e pousou a panela no queimador perto da chaleira, esta ainda esperando, para o caso de vovó acordar e querer o que às vezes chamava de "uma xica de chá". George começou a servir-se de um copo de leite, parou, tornou a pegar o telefone.
— ... e nem pude acreditar no que meus olhos viam, quando... — a voz de Henrietta Dodds interrrompeu-se, para depois soar estridentemente: — Eu gostaria de saber quem é que fica ouvindo nesta linha!
George recolocou apressadamente o fone no gancho, sentindo o rosto arder.
Ela não sabe que é você, seu burro. Há seis assinantes da linha!
Dava no mesmo, era errado escutar conversas alheias, inclusive quando apenas para ouvir outra voz, por estar sozinho em casa, sozinho, exceto por vovó, aquela coisa gorda que dormia no outro quarto, em uma cama de hospital; errado, mesmo quando parecia quase necessário ouvir outra voz humana, porque sua mãe estava em Lewinston, logo anoiteceria, vovó estava no outro quarto e ela parecia (sim, oh, sim, ela parecia) uma ursa que, em suas velhas garras engalfinhadas talvez só tivesse forças para mais uma patada assassina.
George foi para a cozinha e bebeu o leite.
Mamãe havia nascido em 1930, seguida por tia Flo em 1932 e pelo tio Franklin em 1934. Tio Franklin morrera em 1948, de apendicite supurada. Mamãe às vezes chorava por causa disso e carregava o retrato dele. Ela gostara mais de Frank do que de todos os outros irmãos, dizia que não havia necessidade daquela morte estúpida por peritonite.
Repetia que Deus não fora correto, ao levar Frank.
George espiou pela janela acima da pia. A claridade lá fora estava agora mais dourada, baixa acima da colina. A sombra do barracão dos fundos estirava-se em todo o comprimento, através do relvado. Se Buddy não tivesse quebrado aquela perna idiota, mamãe agora estaria aqui, fazendo chili ou qualquer outra coisa (mais o jantar sem sal de vovó), com todos eles conversando e rindo. Mais tarde, talvez até jogassem cartas.
George acendeu a luz da cozinha, embora ainda não estivesse escuro bastante para isso.
Depois girou o botão para FOGO BAIXO, sob seu macarrão. Os pensamentos continuavam voltando para vovó, sentada em sua poltrona branca de vinil, como um gordo e imenso verme em um vestido, a coroa desgrenhada dos cabelos despencando pelos ombros do quimono rosa de rayon, estendendo os braços para atraí-to, ele encolhendo-se contra a mãe e chorando.
— Mande o menino para mim, Ruth, eu quero abraçá-lo.
— Ele está um pouco amedrontado, mamãe. Com tempo, acabará indo. — Sua mãe, no entanto, também parecia amedrontada.
Amedrontada? Mamãe?
George parou, refletindo. Seria verdade? Buddy dizia que a memória costumava brincar com a gente. Teria ela realmente parecido amedrontada?
Sim, ela parecera amedrontada.
Então, a voz da avó se alteara peremptoriamente:
— Não mime o garoto, Ruth! Mande-o vir aqui; quero abraçá-lo.
— Não. Ele está chorando.
Vovó baixara os braços pesados, dos quais a carne pendia em grandes e pesados nacos.
Um sorriso tímido e senil espalhara-se em seu rosto e ela havia perguntado:
— Ele é mesmo parecido com Franklin, Ruth? Lembro-me de ouvi-la dizer que o menino se parecia com Frank.
Lentamente, George mexeu o macarrão com queijo e catchup. Não recordara um incidente com tanta clareza antes. Talvez conseguisse lembrar bem agora, por causa do silêncio.
Do silêncio e por estar sozinho com vovó.
— Então, vovó tivera seus bebês e lecionara na escola, os médicos ficaram adequadamente pasmos, vovô fizera sua carpintaria e ficara cada vez mais próspero, encontrando trabalho mesmo nas piores épocas da Depressão. Por fim —, disse mamãe —, as pessoas começaram a falar.
— O que elas falavam? perguntou George.
— Nada de importante —, disse mamãe, mas de repente reuniu as cartas do baralho. — Elas diziam que seu avô e sua avó tinham sorte demais para pessoas comuns, eis tudo. E foi logo depois disso, que encontraram os livros. — Mamãe nada mais acrescentou, exceto que a diretoria da escola encontrara alguns e que um homem contratado encontrara outros mais. Houve um grande escândalo. Vovô e vovó mudaram-se para Buxton e isso encerrou a questão.
Os filhos haviam crescido e tinham tido seus próprios filhos, formando tios e tias uns dos outros. Mamãe se casara, mudando-se para Nova York com papai (o qual George nem conseguia recordar). Depois do nascimento de Buddy, eles se tinham mudado para Stratford e, em 1969, nascia George. Em 1971, papai havia sido atropelado e morto por um carro dirigido pelo Bêbado Que Tinha de Ir para a Cadeia.
Quando vovô tivera seu ataque do coração, tios e tias trocaram muitas cartas entre si.
Não queriam colocar a avó em uma clínica para idosos. E ela não queria ir para uma.
Assim, como vovó não queria fazer semelhante coisa, melhor seria concordar com ela.
Ela preferia ficar com algum filho e viver o resto de seus anos com ele. Contudo, estavam todos casados e nenhum deles tinha esposas querendo partilhar seu lar com uma velha senil e geralmente intratável. Estavam todos casados, exceto Ruth.
As cartas continuaram fluindo de um lado para outro e, por fim, a mãe de George aquiescera. Deixou o emprego e foi para o Maine, tomar conta da velha senhora. Os outros cotizaram-se para a compra de uma casinha nos arredores de Castle View, onde era baixo o preço dos imóveis. Enviavam-lhe um cheque a cada mês, a fim de que ela "cuidasse" da velha e dos próprios filhos.
O que aconteceu é que meus irmãos e irmãs transformaram-me em ama parceira locadora, George recordava tê-la ouvido dizer certa vez. Ele ignorava o que queria dizer aquilo, porém ela parecera amarga ao comentar, como alguma piada que não provocava risos mas, em vez disso, ficava entalada na garganta, como um osso. George sabia (porque Buddy lhe contara), que mamãe finalmente acedera, porque todos da grande e espalhada família lhe haviam assegurado que, com toda certeza, vovó não duraria muito. Havia tanta coisa errada com ela — pressão alta, uremia, obesidade, palpitações cardíacas — que não podia durar muito. Talvez ainda chegasse aos oito meses, disseram tia Flo, tia Stephanie e tio George (de quem George recebera seu nome). Seria um ano, no máximo. Contudo, já tinham decorrido cinco anos e para George, isso significava durar muito.
Ela havia durado demais, sem dúvida. Como uma ursa hibernando e esperando... o quê? (você é quem melhor sabe lidar com ela, Ruth, você sabe fazê-la calar a boca)
A caminho da geladeira, para verificar as instruções impressas em um dos jantares sem sal de vovó, George parou. Ficou hirto. De onde tinha vindo aquilo? Aquela voz falando dentro de sua cabeça?
De repente, seu ventre e o peito ficaram arrepiados. Ele enfiou a mão dentro da camisa e tocou um dos mamilos. Parecia um pequeno seixo, e então recuou apressadamente com o dedo.
Tio George. O tio de quem levava o nome, que trabalhava para a Sperry Rand, em Nova York. Tinha sido a voz dele. Ele dissera aquilo, quando viera com sua família para o Natal, dois — não, três anos atrás.
— Ela é mais perigosa agora, porque está senil.
— Cale a boca, George. Os meninos andam por perto.
George havia parado junto à geladeira, com a mão pousada no puxador frio e cromado, pensando, recordando, espiando para a crescente escuridão lá fora. Buddy não andava por perto aquele dia. Buddy já estava lá fora, porque quisera o trenó melhor, eis o motivo; os dois iam deslizar na colina de Joe Camber e o outro trenó tinha um patim empenado. Assim, Buddy estava lá fora, enquanto George remexia na caixa de sapatos e meias da entrada, procurando um par de meias grossas que combinassem — e que culpa tinha, se sua mãe e o tio George conversavam na cozinha? Ele não se sentia culpado.
Era culpa sua se Deus não o tivesse ensurdecido ou, falhando essa medida extrema, pelo menos situasse a conversa em outro lugar da casa? George também não acreditava nisso. Como indicara sua mãe, em várias oportunidades (geralmente após um ou dois copos de vinho), Deus às vezes costumava fazer brincadeiras de mau gosto.
— Você entende o que quero dizer —, falara tio George.
A esposa dele e as três filhas tinham ido até Gates Falls, para algumas compras natalinas de última hora. Tio George já estava bem alto, exatamente como o Bêbado que Tinha de Ir para a Cadeia. George podia perceber isso, pela maneira como o tio enrolava as palavras.
— Você se lembra do que aconteceu a Franklin, quando ele a contrariou.
— Cale a boca, George, ou jogo o resto de sua cerveja na pia!
— Bem, de fato, ele não tinha intenção de fazer aquilo. Apenas falou o que não devia. A peritonite...
— Cale a boca, George!
— Talvez —, recordou George, pensando vagamente —, Deus não seja o único a fazer brincadeiras de mau gosto.
Agora, interrompendo aquelas antigas lembranças, ele olhou no freezer e apanhou um dos jantares de vovó. Vitela. Com ervilhas ao lado. O forno tinha que ser aquecido previamente e então a refeição permanecia lá dentro por quarenta minutos, a 160°.
Fácil. Ele sabia como fazer. O chá já estava pronto, em cima do fogão, se vovó o quisesse. Ele poderia prepará-lo ou aquecer o jantar em pouco tempo, caso vovó acordasse e gritasse por eles. Chá ou jantar — qualquer coisa que ela quisesse. O número do Dr. Arlinder estava no quadro de anotações, para o caso de uma emergência. Tudo em ordem. Então, por que ficava preocupado?
Ele nunca fora deixado sozinho com vovó, era isso que o preocupava.
— Mande o menino para mim, Ruth. Faça-o vir até aqui.
— Não. Ele está chorando.
— Ela está mais perigosa agora... você sabe o que quero dizer.
— Todos mentimos para nossos filhos sobre vovó.
Nem ele e nem Buddy. Nenhum dos dois fora deixado sozinho com vovó. Até agora.
De repente, George sentiu a boca seca. Foi até a pia e bebeu um pouco de água. Sentia-se... esquisito. Aqueles pensamentos. Aquelas recordações. Por que seu cérebro as jogava para o alto agora?
George se sentia como se alguém houvesse derrubado à sua frente todas as peças de um quebra-cabeças, que ele não conseguia pôr exatamente nos lugares certos. Aliás, talvez fosse bom não conseguir ajustá-los, porque uma vez pronto, o quadro poderia ser, bem, algo desagradável. Poderia...
Do outro quarto, onde vovó passava seus dias e noites, chegou até ele um repentino ruído sufocado, chocalhante, gorgolejante.
A respiração penetrou sibilante em seu peito, quando ele inalou. Virou-se para o quarto de vovó e descobriu que seus sapatos estavam como que firmemente pregados ao piso de linóleo. O coração virara uma pedra em seu peito. Os olhos estavam arregalados e salientes. Vamos, andem, dizia o cérebro aos pés. Os pés perfilavam-se e respondiam, De maneira alguma, senhor!
Vovó nunca tinha feito um barulho como aquele antes.
Vovó nunca tinha feito um barulho como aquele antes.
O barulho repetiu-se, um som amortecido, baixo e decrescente, até tornar-se como um zumbido de inseto, antes de desaparecer de todo. George finalmente conseguiu mover-se.
Caminhou até o pequeno corredor que separava a cozinha do quarto de vovó.
Cruzou-o e olhou para dentro do quarto, com o coração em disparada. Agora, sua garganta estava asfixiada por uma luva de lã; seria impossível engolir através de todo aquele bolo.
Vovó ainda dormia e estava tudo certo, foi seu primeiro pensamento; afinal, fora apenas um som estranho; talvez ela o fizesse o tempo todo, quando ele e Buddy estavam na escola. Apenas uma forma de ressonar. Vovó estava ótima. Dormindo.
Esse foi seu primeiro pensamento. Depois percebeu que a mão amarela que estivera sobre a coberta, agora pendia flacidamente sobre a borda da cama, as compridas unhas quase tocando o chão. E ela estava com a boca aberta, um orifício enrugado e escavado em uma fruta apodrecida.
Timidamente, vacilantemente, George aproximou-se dela.
Ficou ao lado da cama muito tempo, olhando para a velha, não ousando tocá-la. A subida e descida imperceptíveis da coberta pareciam ter cessado.
Pareciam.
Aquela era a palavra-chave. Pareciam.
Mas isto é só porque você está apavorado, Georgie. Está sendo apenas Señor El-Burro, como diz Buddy — é um jogo. Seu cérebro faz truques com seus olhos, a respiração dela está legal, ela está...
— Vovó? — perguntou, mas tudo que emitiu foi um sussurro. Pigarreou e saltou para trás, assustado com o som. Contudo, sua voz soou um pouquinho mais alto. — Vovó? Vai querer seu chá agora? Vovó?
Nada.
Os olhos estavam fechados.
A boca estava aberta.
A mão pendurada.
Lá fora, o sol que se punha brilhava em vermelho-dourado por entre as árvores. George a viu então em uma plentitude positava; viu-a com aquele olho infantil brilhantemente desalojado, de imaturo e incriado reflexo, não aqui, não agora, não na cama, mas estando ela sentada na poltrona branca de vinil, estendendo os braços, o rosto ao mesmo tempo estúpido e triunfante. Viu-se recordando um dos "acessos", quando vovó começava a gritar, como em língua estrangeira — Gyaagin! Gyaagin! Hastur degryon Yos-soth-oth! — e mamãe os tinha mandado para fora, tinha gritado "Saia. JÁ!" para Buddy, quando ele parou junto à caixa da entrada, a fim de procurar suas luvas. Budy olhara para trás, por sobre o ombro, tão assustado que seus olhos se arregalaram, porque a mãe de ambos nunca havia gritado. Então, os dois saíram e ficaram na entrada de carros, sem falar, as mãos enfiadas nos bolsos em busca de calor, perguntando-se o que estaria acontecendo.
Mais tarde, mamãe os chamara para jantar, como se nada houvesse ocorrido. (você sabe lidar com ela Ruth você sabe como fazê-la calar-se)
Até o dia presente, George não tornara a pensar mais naquele particular "acesso". Só agora, olhando para vovó, que dormia tão estranhamente em sua cama de hospital, com a cabeceira elevada pela manivela, ocorria a ele, com crescente horror, que no dia anterior haviam sabido que a Sra. Harham, residente mais acima na estrada e que por vezes vinha visitar vovó, tinha morrido aquela noite, durante o sono.
"Acessos".
Acessos. Esconjuros...
Presumia-se que feiticeiras pudessem lançar esconjuros. Não era isso que as tornava feiticeiras? Maçãs envenenadas. Príncipes transformados em sapos. Casas de chocolate.
Abracadabra. Abre-te sésamo. Esconjuros.
Eram peças soltas de um desconhecido quebra-cabeças, que voavam pela mente de George, encaixando-se entre si, como por magia.
Magia, pensou ele, e grunhiu.
Qual era o quadro formado? Vovó, naturalmente, vovó e seus livros, vovó que tinha sido expulsa da cidade, vovó que não podia ter bebês, mas que depois os tivera, vovó que fora expulsa da igreja, assim como da cidade. O quadro representava vovó, amarela, gorda, enrugada e indolente, a boca desdentada encurvando-se em um sorriso que afundava, seus olhos cegos e desbotados, de certo modo astugos e manhosos; e, em sua cabeça, havia um chapéu preto e cônico, salpicado de estrelas prateadas e cintilantes crescentes babilônicos; a seus pés, enroscavam-se gatos pretos de olhos tão amarelos como urina, enquanto os cheiros eram de porco e cegueira, de porco e coisas queimadas antigas estrelas e velas, tão escuras como a terra, na qual ataúdes jaziam; ele ouviu palavras ditas de livros antigos, e cada palavra era como uma pedra, cada sentença como uma cripta, erigida em algum ossuário fedorento, cada parágrafo como uma caravana de pesadelo, formada pelos que a praga matara, sendo levados a um local de queima; seu olho era o olho de uma criança mas, naquele momento, abriu-se desmesuradamente, em espantada compreensão sobre o negrume.
Vovó tinha sido uma feiticeira, exatamente como a Bruxa Má em O Mágico de Oz. E agora, ela estava morta. Aquele som borbulhante, pensou George, com crescente horror.
Aquele som ressonado e gargarejante, havia sido um... um... um "chocalhar da morte".
— Vovó? — chamou, em um sussurro.
Pensou, loucamente! Ding-dong, a feiticeira está morta! Não houve resposta. Manteve a mão em concha diante da boca de vovó. Não havia a menor brisa se movendo e que viesse de dentro dela. Era a morte calma e velas murchas, sem esteiras alargando-se atrás da quilha. Um pouco de seu medo diminuiu e ele tentou refletir. Recordou o tio Fred, mostrando-lhe como molhar um dedo e testar o vento; então, lambeu a palma inteira e a manteve diante da boca de vovó.
Ainda nada.
Começou a caminhar para o telefone, a fim de chamar o Dr. Arlinder, mas então parou.
E se chamasse o médico, sem ela de fato estar morta? Ficaria em apuros, na certa.
Tome-lhe o pulso.
Parou na soleira, olhando dubitativamente para aquela mão pendurada. A manga da camisola de vovó ficara suspensa, expondo-lhe o pulso. Só que o recurso era falho.
Certa vez, após uma visita do médico em que a enfermeira apertara os dedos em seu punho, para tomar-lhe o pulso, George a imitara, porém não fora capaz de encontrar nenhuma pulsação. Até onde seus dedos destreinados podiam dizer, ele estava morto.
Por outro lado, não sentia a menor vontade de... bem... de tocar vovó. Mesmo se ela estivesse morta. Especialmente se estivesse morta.
George parou no pequeno corredor diante da porta, olhando no corpo imóvel e deitado de vovó para o telefone na parede, ao lado do número do Dr. Arlinder. Tornou a olhar para vovó. Teria que chamar o médico. Era preciso... arranjar um espelho!
Claro! Quando a gente respira contra um espelho, ele fica embaciado. Vira um médico examinar uma pessoa sem sentidos dessa maneira, certa vez em um filme. Havia um banheiro dando para o quarto de vovó. George correu para ele e pegou o espelho de mão que ela possuía. Uma das faces era normal, a outra aumentava as coisas, de modo que se podia arrancar pêlos e coisas assim.
George levou o espelho à cama de vovó e manteve um lado dele até quase tocar a boca aberta, escancarada. Conservou-o na mesma posição enquanto contava até sessenta, observando vovó o tempo todo. Nada mudou. Estava certo de que ela havia morrido, antes mesmo de afastar-lhe o espelho da boca e observar a superfície, que estava perfeitamente clara e sem embaciamento.
Vovó estava morta.
Com alívio e alguma surpresa, George percebeu que agora conseguia lamentá-la. Talvez ela houvesse sido uma feiticeira. Talvez não. Talvez ele apenas a tivesse imaginado uma. Fosse como fosse, ela agora estava morta. Com um entendimento de adulto, ele percebeu que questões de realidade concreta, embora não perdendo a importância, ficam menos vitais se examinadas à muda face branda de restos mortais. Percebeu isto com um entendimento de adulto e foi com um alívio de adulto que o aceitou. Assim são todas as impressões adultas de uma criança; somente anos mais tarde, a criança compreende que estava sendo feita, que estava sendo formada, moldada por experiências ocasionais; tudo quanto permanece no instante além da pegada, é aquele acre cheiro de pólvora, que é a ignição de uma idéia além dos determinados anos de uma criança.
Ele tornou a levar o espelho para o banheiro, depois voltou ao quarto dela, observando o corpo enquanto isso. O sol poente pintara a velha face morta em barbáricos tons vermelho-alaranjados. George olhou rapidamente para outro lado.
Cruzou a porta e passou pela cozinha, em direção ao telefone, decidido a fazer tudo certo. Em sua mente, já via uma certa vantagem sobre Buddy; sempre que o irmão começasse a implicar, diria apenas: eu estava sozinho em casa quando vovó morreu, e fiz tudo certo.
Ligar para o Dr. Arlinder, era a primeira providência. Ligar para ele e dizer, "Minha avó acabou de morrer. Pode me dizer o que devo fazer? Cobri-la ou coisa assim?"
Não.
"Acho que minha avó acabou de morrer."
Sim. Sim, assim era melhor. Afinal, ninguém pensaria que um garoto de pouca idade saberia alguma coisa, portanto, assim era melhor.
Ou então!
"Tenho absoluta certeza de que minha avó acabou de morrer..."
Claro! Esta era a melhor escolha.
Também falaria sobre o espelho, o chocalho da morte, tudo enfim. E o médico viria em seguida, para dizer, enquanto examinasse vovó, "Eu a declaro morta, vovó". Depois diria a George, "Você foi extremamente calmo em uma situação difícil, George. Quero dar-lhe os meus parabéns." E George responderia com algo apropriadamente modesto.
Ele olhou para o número do Dr. Arlinder e fez duas respirações profundas, antes de pegar o fone. Seu coração batia depressa, mas aquela tremenda palpitação desaparecera.
Vovó estava morta. Acontecera o pior, mas enfim não era tão ruim como esperar que ela começasse a gritar com mamãe, para que lhe levasse o chá.
O telefone estava mudo.
Ele ouviu o vazio, sua boca ainda formada em torno das palavras Sinto muito, Sra. Dodd, mas aqui é George Bruckner e preciso chamar o médico para minha avó. Nada de vozes. Nada de sinal para discar. Apenas o vazio morto. Como aquela vacuidade morta na cama, lá no quarto.
Vovó está...
... está...
(oh, ela está)
Vovó está ficando fria.
Novamente a pela arrepidada, dolorida, entorpecida. Seus olhos se fixaram na chaleira Pyrex sobre o fogão, na xícara em cima do balcão, com o saquitel de chá de ervas em seu interior. Nada de chá para vovó. Nunca mais.
(ficando tão,fria)
George estremeceu.
Seu dedo moveu para cima e para baixo o dispositivo interruptor do telefone Princess, mas a linha estava morta. Tão morta como...
(e tão gelada como)
Bateu o gancho para baixo, com força, ouvindo a campainha tilintar fracamente no interior. Tornou a pegar rapidamente o fone, para ver se aquilo significava que, por meios mágicos, voltara a funcionar. Contudo, nada acontecera e, desta vez, ele o colocou lentamente no gancho.
Seu coração começara a bater mais forte novamente.
Estou sozinho em casa, com ela morta.
Cruzou a cozinha devagar, parou junto à mesa por um minuto e então ligou a luz. Estava ficando escuro ali dentro. Logo o sol desapareceria de todo e a noite estaria ali.
Esperar. É tudo que posso fazer. Apenas esperar, até que mamãe volte. De fato, é a melhor solução. Se o telefone ficou mudo, é melhor do que ela apenas ter morrido, em vez de ter um ataque ou coisa assim, espumando pela boca, talvez caindo da cama...
Ah, isso sim, seria terrível. Ele poderia ter agido com toda a correção, sem toda essa confusão.
Como ficar sozinho no escuro e pensar em coisas mortas que ainda viviam, ver formas nas sombras sobre as paredes e pensar na morte, pensar nos mortos, aquelas coisas, a maneira como federiam e a maneira como se moveriam em direção à gente, no escuro: pensando isto: pensando aquilo: pensando em insetos transformados em carne; escondendo-se na carne; olhos que se moviam no escuro. Sim. Isso antes de tudo. Pensando em olhos que se moviam no escuro e no rangido de tábuas do assoalho, como se alguma coisa cruzasse o aposento, através das tiras zebradas de sombras que vinham da luz lá de fora. Sim.
No escuro, os pensamentos tinham uma perfeita circularidade, pouco importando aquilo em que se quisesse pensar — flores, Jesus, beisebol ou ganhar a medalha de ouro nos 440, nas Olimpíadas — de certo modo, isso reconduzia à forma nas sombras, com as garras e os olhos imóveis.
— Droga! — sibilou George.
Bateu no rosto subitamente. Com força. Estava se deixando dominar por aqueles pensamentos horríveis, era tempo de parar com isso. Afinal, não estava mais com seis anos. Sua avó tinha morrido, isso era tudo. Morrido. Dentro dela, agora não havia mais pensamento do que em uma bola de gude, em uma tábua do assoalho, uma maçaneta, um botão de rádio, um...
Então, uma forte voz, estranha e súbita, talvez apenas a espontânea e inexorável voz da simples sobrevivência, exclamou dentro dele: Cale-se, George, e vá cuidar de suas malditas obrigações!
Sim, está bem. Está bem, mas...
Ele retornou à porta do quarto dela, para certificar-se.
Lá jazia vovó, uma mão caída para fora da cama e tocando o chão, a boca escancarada.
Vovó agora era parte do mobiliário. Podia-se colocar a mão dela na cama outra vez, puxar-lhe os cabelos, despejar um copo com água em sua boca ou colocar fones de ouvido em sua cabeça, tocando Chuck Berry a todo volume, que daria tudo no mesmo para ela. Como Buddy dizia às vezes, vovó estava em outra. Tinha dado no pé.
Um ruído repentino, baixo e ritmado, como de algo batendo, começou não muito distante da esquerda de George, arrancando-lhe um pequeno grito assustado. Era a porta contra tempestades, que Buddy havia colocado apenas na semana anterior. Nada mais que a porta contra tempestades, destrancada e batendo de lá para cá, à brisa refrescante.
George abriu a porta interna, inclinou-se para fora e agarrou a porta contra tempestades, quando ela bateu de volta. O vento — não era uma brisa, mas vento — passou por seus cabelos, desarrumando-os. Ele trancou a porta com firmeza e perguntou-se como o vento surgira tão de repente. Na hora em que mamãe saíra, havia a mais absoluta calmaria. Enfim, quando ela saíra, ainda era dia claro, agora estava quase anoitecendo.
George tornou a dar uma espiada em vovó. Depois voltou e experimentar o telefone.
Continuava mudo. Ele se sentou, levantou-se e começou a andar na cozinha, de um lado para outro, parando de quando em quando, procurando pensar.
Uma hora depois, era noite fechada.
O telefone continuava mudo. George supôs que o vento, agora adquirindo proporções de quase ventania, teria derrubado algumas linhas, talvez por perto do Pântano do Castor, onde as árvores cresciam por toda parte, em uma desordem de troncos abatidos e poças de água parada. O telefone tilintava ocasionalmente, fantasmagórico e distante, porém a linha permanecia muda. Lá fora, o vento uivava ao longo das calhas da pequena casa, e George admitiu que teria uma boa história para contar, na próxima reunião local de escoteiros... sentado em casa, sozinho com a avó morta, o telefone mudo e o vento empurrando montes de nuvens apressadamente pelo céu, nuvens que eram negras no topo e, por baixo, tendo a palidez da morte, a cor das mãos-garras de vovó.
Como Buddy também costumava dizer, isso era um Clássico.
George desejaria ouvi-lo dizendo isso agora, com a realidade da coisa seguramente para trás. Sentou-se à mesa da cozinha, tendo à frente aberto o livro de história, sobressaltando-se ao menor ruído... e agora que o vento se levantara, havia milhares de sons, quando a casa estalava em todas as suas juntas secretas, não oleadas e esquecidas.
Ela logo estará em casa. Estará em casa e tudo ficará legal. Tudo (você nem a cobriu) tudo estará (nem cobriu o rosto dela)
George saltou, como se alguém houvesse falado em voz alta, e arregalou os olhos, espiando o telefone inútil através da cozinha. Presumia-se que o lençol era puxado para sobre o rosto da pessoa morta. Era assim nos filmes.
Para o diabo com isso! Eu não vou entrar lá!
Não! E não havia motivo algum para que fosse lá! Mamãe podia cobrir-lhe o rosto, quando chegasse em casa! Ou o Dr. Arlinder, quando viesse! Ou o funerário!
Alguém, qualquer pessoa, menos ele.
Não havia motivo para que fizesse isso.
Não era da sua conta e nem da conta de vovó.
A voz de Buddy em sua cabeça:
Se não está com medo, por que não tem coragem de cobrir o rosto dela?
Não é da minha conta.
Droga!
Também não é da conta de vovó.
Droga, PORCA MISÉRIA! COVARDÃO!
Sentado à mesa, diante do livro de História que não lia, considerando a situação, George começou a perceber que, se não puxasse a coberta para cima do rosto de vovó, não poderia alegar que fizera tudo certo e, assim, Buddy teria um motivo para implicar com ele.
Agora, ele se via contando a história mal-assombrada da morte de vovó, em torno da fogueira no acampamento escoteiro, antes do toque de silêncio, mal chegando à confortadora conclusão em que os faróis de mamãe banham de luz a entrada para carros — o reaparecimento do adulto, não apenas restabelecendo, mas confirmando o conceito de Ordem — e, de repente, do meio das sombras, eleva-se uma figura sombria, um cone de pinheiro explode na fogueira, e George pode ver que é Buddy, lá nas sombras, dizendo: Se você foi tão corajoso, seu maricas, como é que não teve peito para cobrir O ROSTO DELA?
George levantou-se, recordando a si mesmo que vovó estava em outra, que vovó dera no pé, que vovó estava ficando gelada. Podia recolocar-lhe a mão na cama, enfiar-lhe um saquitel de chá pelo nariz, botar-lhe fones de ouvido com Chuck Berry tocando a todo volume, etc., etc., e nada disso faria a mínima diferença para vovó, porque isso era o que significava estar morto, nada disso faria diferença para uma pessoa morta, uma pessoa morta era um defunto consumado e frio, o resto não passava de sonhos, sonhos inevitáveis, apocalípticos e febris sobre portas fechadas que se abriam sozinhas na boca morta da meia-noite, apenas sonhos sobre o lugar banhando delirantemente os ossos de esqueletos desenterrados, apenas...
— Quer parar com isso? — sussurrou ele. — Pare de ser tão... (grosso)
George empertigou-se. Iria lá dentro e puxaria a coberta sobre o rosto dela, assim eliminando o último motivo para as implicâncias de Buddy. Levaria a cabo os poucos e simples rituais da morte de vovó. Com toda a perfeição. Cobriria seu rosto e então — seu rosto iluminou-se, ante o simbolismo daquilo — guardaria seu saquitel de chá não usado e também sua xícara não usada. Isso mesmo.
Começou a andar, cada passo, um ato consciente. O quarto de vovó estava escuro, o corpo dela era uma vaga protuberância na cama, e ele tateou loucamente pelo interruptor de luz, não o encontrando pelo que lhe pareceu uma eternidade. Por fim, moveu-o e o quarto inundou-se com a claridade amarelada que vinha, em fraca potência, do lustre em vidro lapidado.
Vovó jazia lá, a mão pendurada, a boca aberta. George a observou, mal percebendo que pequeninas pérolas de suor agora lhe surgiam na testa. Perguntou-se se sua responsabilidade no assunto se estenderia possivelmente a recolher aquela mão esfriando e recolocá-la na cama, com o resto de vovó. Decidiu pela negativa. A mão dela poderia ter escorregado a qualquer momento. Aquilo já era pedir demais. Ele não poderia tocá-la. Faria tudo, menos isso.
Lentamente, como que se movendo através de algum fluido espesso, em vez de ar, George aproximou-se da cama. Ficou parado junto dela, olhando para baixo. Vovó estava amarela. Parte do amarelado era devido à luz, filtrada através do velho lustre, mas não tudo.
Respirando pela boca, o hálito saindo audivelmente, ele agarrou a coberta e a puxou para cima do rosto de vovó. Soltou a coberta e ela escorregou ligeiramente, revelando a linha da raiz dos cabelos e o amarelado, franzido pergaminho de sua testa.
Empertigando-se, tornou a pegar a coberta, mantendo as mãos bem afastadas de um e de outro lado da cabeça dela, a fim de não tocá-la, mesmo através do tecido. Deixou a coberta cair novamente e agora ela ficou onde devia. Estava satisfatório. Parte do medo evaporou-se. Ele a sepultara. Sim, era por isso que se cobria uma pessoa morta, porque era o certo: era como sepultá-la. Era uma confirmação da morte.
George olhou para a mão pendurada, insepulta, e descobriu agora que podia tocá-la, podia enfiá-la debaixo da coberta, sepultá-la com o resto de vovó.
Abaixou-se, agarrou a mão fria e a ergueu.
A mão contorceu-se na sua e aferrou-lhe o pulso.
George gritou. Cambaleou para trás, gritando na casa vazia, gritando contra o som do vento ululante nas calhas, gritando contra o som das juntas rangentes da casa. Recuou, puxando o corpo de vovó, que ficou enviezado debaixo da coberta, e a mão caiu com um baque surdo, contorcendo-se, girando, agarrando o ar... para então relaxar-se, ficar novamente flácida.
Eu estou bem, aquilo não foi nada, nada, apenas um reflexo.
George assentiu, em perfeita compreensão. Então, tornou a recordar como a mão se virara, agarrando a sua, e encolheu-se. Seus olhos desorbitaram-se. Seu cabelo ficou em pé, perfeitamente ereto, formando um cone. Seu coração galopava desabaladamente dentro do peito. O mundo inclinou-se loucamente, tornou a nivelar-se e depois continuou movendo-se, até inclinar-se para o outro lado. A cada vez que o pensamento racional começava a voltar, o pânico o invadia de novo. Ele deu meia volta, desejando apenas sair dali para qualquer outro aposento até mesmo correr três ou quatro quilômetros pela estrada, se fosse preciso — onde poderia ter tudo sob controle. Assim, ele girou e correu, chocando-se contra a parede, porque errara a porta aberta por quase meio metro.
Ricocheteou e caiu ao chão, sua cabeça cantando com uma dor aguda e lancinante, que se insinuou francamente através do pânico. Tocou o nariz, e a mão saiu suja de sangue.
Novas gotas pingaram em sua camisa verde. Conseguiu ficar em pé e olhou em torno, desvairadamente.
A mão pendia contra o chão, como antes, mas o corpo de vovó não estava mais enviezado. Também ele se encontrava na posição anterior.
Ele havia imaginado a coisa toda. Entrara no quarto e tudo o que acontecera, havia sido apenas um filme mental.
Não.
A dor, no entanto, lhe clareara a cabeça. Pessoas mortas não agarram o pulso da gente.
Mortos estão mortos. Quando morremos, os outros podem usar-nos como cabide para chapéus, enfiar-nos dentro de um pneu de trator e empurrar-nos ladeira abaixo ou, etcétera, etcétera, etcétera, etcétera. Se uma pessoa está morta, ela poderia agir sobre (contra, digamos, meninos pequenos que querem recolocar mãos mortas e penduradas em cima da cama), porém seus dias de atuação — por assim dizer — terminaram.
A menos que se trate de uma feiticeira. A menos que a pessoa decida morrer quando não há mais ninguém por perto, além de um menino pequeno apenas, porque esta é a melhor maneira dela poder... poder...
Poder o quê?
Nada. Era idiotice. Ele imaginara a coisa toda porque estava com medo, e nada mais houvera além disso. George limpou o nariz com o braço e apertou os olhos com a dor.
Havia uma mancha ensangüentada na pele, na parte interna de seu braço.
Ele não ia mais chegar perto dela, de jeito nenhum. Realidade ou alucinação, não queria se meter com vovó. O brilhante lampejo do pânico se fora, mas ele continuava miseravelmente assustado, quase chorando, trêmulo à vista do próprio sangue, desejando apenas que sua mãe voltasse para casa e se incumbisse de tudo.
George saiu do quarto, cruzou o pequeno corredor e entrou na cozinha. Aspirou fundo e tremulamente, deixou o ar sair. Queria um trapo velho e molhado para o nariz, de repente teve a impressão de que ia vomitar. Debruçou-se na pia e deixou a água fria escorrer da torneira. Inclinando-se, pegou um pano velho na bacia debaixo da pia — o pedaço de uma das velhas fraldas de vovó — e o botou debaixo da torneira de água fria, fungando o sangue enquanto isso. Encharcou o velho e macio quadrado da fralda de algodão até sentir as mãos entorpecidas, depois fechou a torneira e torceu o pano.
Estava aplicando-o ao nariz, quando a voz dela soou no quarto.
— Venha cá, menino — chamou vovó, em voz monótona como um zumbido. — Venha cá — vovó quer abraçar você.
George quis gritar, mas não emitiu som algum. Nenhum som, em absoluto. Contudo, havia sons no outro quarto. Sons que ouvia quando mamãe estava em casa, dando o banho de esponja em vovó, erguendo seu corpo volumoso, deixando-o cair, virando-o, deixando-o cair novamente.
Agora, no entanto, tais sons pareciam ter um significado ligeiramente diverso e totalmente específico — era como se vovó estivesse tentando... sair da cama.
— Menino! Venha cá, menino! Já! AGORA! Ande depressa!
Com horror, ele viu que seus pés estavam respondendo àquela ordem. Disse a eles que parassem, mas ambos continuaram em frente, pé esquerdo, pé direito, arrastando-se como em uma dança, por sobre o linóleo; seu cérebro era um prisioneiro aterrorizado dentro de seu corpo — um refém em uma torre.
Ela é uma feiticeira, ela é uma feiticeira e está tendo um de seus "acessos", oh, sim, é bem um "esconjuro", uma coisa ruim, é REALMENTE ruim, oh, Deus, oh, Jesus, ajudem-me, ajudem-me, ajudem-me...
George caminhou através da cozinha, seguiu pelo pequeno corredor e, sim, ela não havia apenas tentado sair da cama, ela já saíra, agora estava sentada na poltrona branca de vinil, onde há quatro anos não se sentava mais, desde que ficara muito pesada para andar e demasiado caduca para saber onde se encontrava.
Agora, no entanto, vovó não parecia caduca.
Seu rosto continuava bambo e pastoso, mas a caduquice desaparecera — se é que um dia chegara a aparecer, não passando de uma máscara que ela procurava usar para tranqüilizar meninos pequenos e cansadas mulheres sem marido. Agora, o rosto de vovó irradiava absoluta inteligência — brilhava como uma velha e fedorenta vela de cera. Os olhos decaíam no rosto, mortos e sem brilho. Seu peito não se movia. A camisola subira, exibindo coxas elefantinas. A coberta de seu leito de morte tinha sido atirada a um lado.
Vovó estendeu para ele os braços volumosos.
— Quero abraçar você, Georgie — disse aquela voz monótona e zumbida. Não fique aí, como um bebezinho assustado. Deixe vovó abraçá-lo.
George recuou, tentando resistir àquele quase insuperável fascínio. Lá fora, o vento esganiçou-se e rugiu. O rosto de George estava espichado e contorcido, ante a enormidade de seu pavor; era uma face esculpida em madeira, capturada e trancada em um livro antigo.
Começou a caminhar para ela. Não tinha forças para resistir. Arrastou-se passo a passo, na direção daqueles braços estendidos. Mostraria a Buddy que também não tinha medo de vovó. Iria até ela e seria abraçado, porque não era um bebê-chorão covarde. Iria agora até vovó. Agora.
Estava quase dentro do círculo dos braços dela, quando a janela à sua esquerda se abriu para dentro e, subitamente, um galho atirado pelo vento estava no quarto com eles, tendo ainda presas suas folhas outonais. O rio de vento inundou o aposento, batendo sobre os quadros de vovó, fustigando-lhe a camisola e os cabelos.
George agora conseguiu gritar. Cambaleou para trás, afastando-se do alcance dela.
Vovó emitiu um decepcionado som sibilante, seus lábios arreganhando-se sobre velhas e macias gengivas; suas mãos gordas e enrugadas encontraram-se inutilmente sobre o ar que se movia.
Os pés de George emaranharam-se e ele caiu. Vovó começou a levantar-se da poltrona branca de vinil, uma tremelicante pilha de carne; ela cambaleou em sua direção. George percebeu que não podia levantar-se, que a força desertara de suas pernas. Começou a engatinhar para trás, choramingando. Vovó aproximou-se, lenta, mas incessantemente, morta, mas viva ao mesmo tempo e, de repente, George compreendeu o que significaria o abraço; o quebra-cabeças ficou completo em sua mente e, de algum modo, encontrou os pés no momento exato em que a mão de vovó se fechou em sua camisa. O tecido se rasgou no lado e, por um momento, George sentiu a carne fria contra sua pele, antes de fugir novamente para a cozinha.
Poderia correr para fora de casa, dentro da noite. Faria tudo, menos ser agarrado pela feiticeira, por sua avó. Porque quando sua mãe voltasse, encontraria vovó morta e ele vivo, oh, sim... mas George teria adquirido uma súbita predileção por chás de ervas.
Olhou para trás, por sobre o ombro, e viu a forma grotesca, deformada de vovó, subindo na parede, quando ela chegou ao pequeno corredor.
E, nesse momento, o telefone tocou, aguda e estridentemente.
George pegou o fone sem mesmo pensar e gritou nele; gritou para que viesse alguém, por favor, que viesse. Gritou essas coisas silenciosamente, porque nem um som escapou de sua garganta bloqueada.
— Ruth? — era a voz da tia Flo, quase perdida no assobiante túnel de vento de uma péssima ligação interurbana. — É você, Ruth?
Era a tia Flo, em Minnesota, a mais de três mil e duzentos quilômetros de distância.
Vovó entrou na cozinha em passos vacilantes, vestida com sua camisola rosa. Os cabelos branco-amarelados esvoaçavam selvagemente em volta de seu rosto e um de seus pentes de chifre pendia de banda, contra o pescoço franzido.
Vovó estava sorrindo.
— Socorro! — berrou George ao telefone.
No entanto, o que saiu foi um débil, sibilante assobio, como se houvesse soprado em uma harmônica de boca, cheia de palhetas avariadas.
Vovó cambaleou através do linóleo, os braços estendidos para ele. Suas mãos encontravam-se, uma batia na outra, tornavam a afastar-se, encontravam-se novamente.
Vovó queria o seu abraço; levara cinco anos esperando aquele abraço.
— Ruth, está me ouvindo? Há uma terrível tempestade aqui, começou há pouco, e eu... eu fiquei assustada. Ruth, não consigo ouvi-la...
— Vovó — gemeu George ao telefone.
Agora, ela já estava quase em cima dele.
— George? — a voz da tia Flo ficou subitamente aguda, era quase um guincho. — É você, George?
Ele começou a recuar de vovó e, de repente, percebeu que havia recuado estupidamente da porta, prestes a encurralar-se no canto formado pelos armários da cozinha e a pia. O horror foi completo. Quando a sombra dela caiu sobre ele, a paralisia interrompeu-se e George gritou ao fone, gritou para ele, vezes e vezes sem conta:
— Vovó! Vovó! Vovó!
As mãos frias de vovó tocaram sua garganta. Seus olhos lodosos e antigos fixaram-se nos seus, drenando-lhe a vontade.
Fracamente, indistintamente, como se através de muitos anos e também através de muitíssimos quilômetros, ele ouvia a tia Flo dizer:
— Diga a ela pare deitar-se, George, diga a ela para deitar-se e ficar quieta. Diga-lhe para fazer isso, em seu nome e no nome do pai dela. O nome de presumido pai dela é Hastur. Esse nome tem poder no ouvido dela, George — diga-lhe Deite-se, em Nome de Hastur — diga a ela...
A mão velha e enrugada arrancou o fone do pulso inerte de George. Houve um tenso estouro, quando o fio se soltou do fone. George arriou no canto e vovó inclinou-se, uma enorme montanha de carne acima dele, eclipsando a luz.
— Deite-se! — gritou George. — Fique quieta! Em nome de Hastur! Deite-se! Fique quieta!
As mãos dela se fecharam em torno de seu pescoço...
— Tem que obedecer! A tia Flo disse que obedeceria! Em meu nome! Pelo nome de "seu Pai! Deite-se! Fique qui —
... e apertaram.
Quando as luzes finalmente banharam a entrada de carros, uma hora mais tarde, George estava sentado à mesa, diante do livro de História que não lera. Levantou-se, foi até a porta dos fundos e a abriu. À sua esquerda, o fone Princess pendia em seu gancho, com o fio inútil enrolado em torno dele.
Sua mãe entrou, trazendo uma folha colada à gola do casaco.
— Que ventania — disse ela. — Correu tudo bem — George? George, o que aconteceu?
O sangue fugiu do rosto de mamãe, em um único e chocado jato, deixando-a com uma horrível brancura de palhaço.
— Vovó — respondeu ele. — Vovó morreu. Vovó morreu, mamãe.
E começou a chorar. Ela o enlaçou nos braços e então cambaleou contra a parede, como se este ato de abraçar lhe houvesse roubado as últimas forças.
— Aconteceu... aconteceu alguma coisa? — perguntou ela. — Diga, George, aconteceu mais alguma coisa?
— O vento derrubou um galho de árvore e o jogou pela janela de vovó — disse George.
Ela o afastou, perscrutou seu rosto chocado e apagado por um momento, e então correu para o quarto de vovó. Ficou lá talvez uns quatro minutos. Quando voltou, segurava um retalho de pano vermelho. Era um pedaço de camisa de George.
— Eu tirei isto da mão dela — sussurrou mamãe.
— Não quero falar nisso — respondeu George. — Ligue para a tia Flo, se quiser. Estou cansado. Quero ir para a cama.
Ela pareceu querer detê-lo, mas não o fez. George subiu para o quarto que partilhava com Buddy e abriu o registro do cano de calefação, a fim de ouvir o que sua mãe faria em seguida. Ela não iria ligar para a tia Flo, não aquela noite, porque o fio do telefone fora arrancado; também não amanhã, porque pouco antes de mamãe chegar em casa, George pronunciara uma curta série de palavras, algumas delas em latim espúrio, algumas apenas grunhidos pré-druídicos, e, a mais de três mil e duzentos quilômetros de distância, a tia Flo caíra morta, com uma hemorragia cerebral maciça. Era espantoso como aquelas palavras voltavam. Como tudo voltava.
George se despiu e deitou-se nu em sua cama. Colocou as mãos atrás da cabeça e ficou olhando a escuridão. Lenta, muito lentamente, um cavado e um tanto horrível sorriso emergiu em seu rosto.
De agora em diante, as coisas ali iam ser muito diferentes.
Muitíssimo diferentes.
Buddy, por exemplo. George mal podia esperar, até que Buddy voltasse do hospital para casa e recomeçasse a Tortura da Colher dos Chinas Pagãos ou uma Queimadura de Corda índia, quando não, qualquer coisa semelhante. George supôs que deixaria Buddy levar a melhor naquilo — pelo menos durante o dia, quando os outros podiam ver — mas quando a noite chegasse e os dois ficassem sozinhos naquele quarto, no escuro, com a porta fechada...
George começou a rir silenciosamente.
Como Buddy sempre dizia, ia ser um Clássico.
Stephen King
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