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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TUDO O QUE RESTA / Patricia Cornwell
TUDO O QUE RESTA / Patricia Cornwell

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TUDO O QUE RESTA

 

Sábado, último dia de Agosto, comecei a trabalhar antes de amanhecer. Não vi a neblina evaporar-se da relva nem o céu ficar de um azul brilhante. As mesas de aço estiveram toda a manhã ocupadas por cadáveres e não havia janelas na morgue. O fim-de-semana do Labor Day começara com uma série de acidentes de viação e tiroteios na cidade de Richmond.

 Eram duas da tarde quando finalmente regressei à minha casa no West End e ouvi Bertha na cozinha, a passar a esfregona pelo chão.

Fazia-me as limpezas todos os sábados e tinha ordens, já antigas, para não me incomodar com o telefone, que começara nesse momento a tocar.

— Não estou - disse-lhe em voz alta, enquanto abria o frigorífico.

 Bertha parou de esfregar.

— Tocou há um minuto atrás - informou-me. - E já tinha tocado antes. Um homem.

— Não está ninguém em casa - repeti.

— Com certeza, doutora Kay. - A esfregona tornou a deslizar pelo chão.

 Tentei ignorar a incorpórea mensagem do gravador de chamadas que se intrometia na cozinha inundada de sol. Com o aproximar do Outono, comecei a armazenar os tomates de Hanover com que contara durante o Verão. Já só restavam três. Onde estava a salada de frango?

 Ao bip seguiu-se a conhecida voz masculina:

— Doutora? É o Marino.

 Ai, Jesus! - pensei, empurrando a porta do frigorífico com a anca.

Pete Marino, o detective da brigada de homicídios de Richmond, andara na rua desde a meia-noite, e eu acabara de falar com ele na morgue, enquanto ia retirando balas de um dos seus casos. Já devia ir a caminho do lago Gaston, para o que restava de um fim-de-semana de pescaria. E eu estava ansiosa por ir trabalhar para o meu quintal.

— Tenho estado a tentar apanhá-la, já estou de saída. Vai ter de ligar para o meu pager...

 Pela voz dele, parecia um caso urgente, e, por isso, levantei o auscultador.

— Estou.

— Está mesmo ou é a porcaria da máquina?

— Adivinhe - ripostei.

—Más notícias. Encontraram outro carro abandonado. New Kent, área de serviço da 64, direcção oeste. O Benton contou-me agora mesmo...

— Outro casal? - interrompi, esquecidos já os planos que tinha para aquele dia.

— Fred Cheney, branco, dezanove anos. Deborah Harvey, branca, dezanove anos. Vistos pela última vez a noite passada, por volta das oito, quando saíram de carro de casa dos Harvey, em Richmond com destino a Spindrift.

— E o carro está na pista de rodagem da direcção oeste? - indaguei, pois Spindrift, na Carolina do Norte, fica a três horas e meia de Richmond, para leste.

— Sim. Parece que vinham em sentido contrário, de regresso à cidade.

Um polícia de trânsito encontrou o carro, um jipe Cherokee, há cerca de uma hora. Não há sinal dos miúdos.

— Vou já - disse-lhe.

 Bertha não parara de limpar mas eu sabia que ela tinha ouvido tudo.

— Também me vou embora mal acabe isto - assegurou-me.

— Tranco as portas e ligo o alarme. Não se preocupe, doutora Kay.

 O medo percorreu-me os nervos quando peguei na bolsa e me dirigi rapidamente para o carro.

 Até ver eram quatro casais. Todos eles haviam desaparecido, vindo depois a ser encontrados mortos num raio de oitenta quilómetros à volta de Williamsburg.

 Os casos, a que a imprensa passara a chamar Morte aos Pares, eram inexplicáveis e ninguém parecia ter uma pista ou explicação credível, nem sequer o FBI com o seu Violent Criminal Apprehension Program, o VICAP, que efectuava uma pesquisa nacional de dados num computador de inteligência artificial capaz de associar pessoas desaparecidas a corpos não identificados, e relacionar crimes em série. Depois de encontrados os corpos do primeiro casal, há mais de dois anos, uma equipa regional do VICAP, integrando o agente especial do FBI Benton Wesley e o veterano da brigada de homicídios de Richmond, o detective Pete Marino, foi convidada pela Polícia local a colaborar nas investigações. Outro casal viria a desaparecer, a seguir mais dois. Em cada um dos casos, quando o VICAP foi notificado, quando o National Crime Information Centre, o NCIC, conseguiu transmitir descrições às autoridades policiais de todo o país, já os adolescentes desaparecidos estavam mortos e a decompor-se algures numa mata.

 Desligando o rádio, passei por uma portagem e acelerei pela I-64 rumo a leste. De súbito vieram-me à memória imagens, vozes. Ossos e roupas apodrecidas misturados com folhas. Rostos atraentes, risonhos, de jovens desaparecidos publicados nos jornais e famílias estupefactas, arrasadas, entrevistadas na televisão e a telefonarem-me.

 "Lamento muito o que aconteceu à sua filha.”

 "Por favor, diga-me como é que a minha menina morreu. Oh, meu Deus, terá sofrido?”

 "Não foi determinada a causa da morte, Mrs. Bennett. Por enquanto nada mais posso dizer-lhe.”

 "Que quer dizer com isso, que não sabe?”

 "Tudo o que resta são os ossos dele, Mr. Martin. Quando o tecido mole desaparece, desaparece também qualquer ferimento possível...”

 "Não estou para ouvir esse seu palavreado clínico! Quero saber o que é que matou o meu filho! A Polícia anda a fazer perguntas sobre drogas! O meu filho nunca na vida se embebedou, quanto mais tomar drogas! Está-me a ouvir, dona? Está morto e eles a falarem dele como se ele fosse algum vadio...”

 "MÉDICA LEGISTA CHEFE BARALHADA: Dra. Kay Scarpetta Incapaz de Determinar Causa da Morte.”

 Indeterminada.

 Vezes sem conta. Oito jovens.

 Era horrível. Era, de facto, uma coisa sem precedentes para mim.

 Qualquer patologista forense tem casos indeterminados mas eu nunca tivera tantos, aparentemente relacionados.

 Abri o tejadilho e o tempo fez com que de certa forma o ânimo se elevasse. A temperatura rondava os trinta graus, as folhas não tardariam a mudar de cor. Era só no Outono e na Primavera que eu não tinha saudades de Miami. Os Verões de Richmond eram tão quentes como lá, sem o benefício da brisa marítima que mantinha o ar limpo.

A humidade era pavorosa e no Inverno eu também não passava melhor porque não gosto de frio. Mas a Primavera e o Outono eram inebriantes. Diferença que, avidamente sorvida, me subia logo à cabeça.

 A área de serviço da I-64 no New Kent County ficava exactamente a cinquenta quilómetros da minha casa. Parecia-se com qualquer outra das áreas de serviço da Virgínia, com mesas de piquenique, grelhadores e barricas de madeira para o lixo, casas de banho feitas de tijolos, máquinas de venda automática e árvores recém-plantadas.

Mas não se via um único viajante ou camionista, só carros da Polícia por todo o lado.

 Um guarda, encalorado e sanhudo na sua farda azul-acinzentado, caminhou na minha direcção quando estacionei junto à casa de banho das senhoras.

— Desculpe, minha senhora - disse inclinando-se à minha janela aberta. - Esta área de serviço está fechada, hoje. Vou ter de pedir-lhe para seguir viagem.

— Doutora Kay Scarpetta - identifiquei-me, desligando a ignição. — A Polícia pediu-me para vir cá.

— Com que finalidade, minha senhora?

— Sou a médica legista chefe - respondi.

 Quando me mirou de alto a baixo vi-lhe, nos olhos, o lampejo de cepticismo. Calculei que não tivesse propriamente um aspecto de "chefe". Envergando uma saia de ganga desbotada, uma camisa de algodão cor-de-rosa e sapatilhas de pele, faltavam-me os atavios da autoridade, incluindo a viatura oficial que estava na garagem oficial à espera de pneus novos. à primeira vista, eu era uma yuppie já muito nova a passear no seu Mercedes cinzento-escuro, uma loura-cinza despassarada a caminho do centro comercial mais próximo.

— Vou precisar de um documento qualquer de identificação.

 Vasculhando o interior da bolsa, tirei de lá uma carteira preta, fininha, e mostrei-lhe o crachá de médica legista, depois entreguei-lhe a carta de condução, tendo ambos sido analisados por ele durante um bom bocado. Percebi que ficou atrapalhado.

— Deixe aqui o carro, doutora Scarpetta. As pessoas que procura estão lá atrás. - Apontou na direcção da zona de estacionamento para camiões e autocarros.— Bom trabalho - acrescentou, tolamente, afastando-se.

 Segui ao longo de uma parede de tijolos. Ao contornar o edifício, e passando pela zona à sombra das árvores, fui saudada por mais alguns carros da Polícia, um reboque com as luzes a piscar e, pelo menos, uma dezena de homens fardados e à civil. Só vi o jipe Cherokee encarnado quando já estava praticamente em cima dele.

A meio da rampa de saída, encontrava-se completamente fora do asfalto, numa vala, e obscurecido pela folhagem. De duas portas, cobria-o já uma fina camada de pó. Quando olhei pela janela do condutor pude ver que o interior, em cabedal bege, estava muito limpo, o banco de trás cuidadosamente atulhado de sacos de viagem, um esqui de slalom, uma corda de trapézio amarela enrolada e uma geleira de plástico encarnada e branca. Chaves penduradas na ignição. As janelas estavam parcialmente abertas. Profundas marcas de pneus provenientes do asfalto eram claramente visíveis na vegetação do solo em declive, a grelha cromada a apontar para uma mata de pinheiros.

 Marino estava a falar com um sujeito magro, louro, alguém que me foi apresentado como Jay Morrell, da polícia estadual, e que eu não conhecia. Parecia ser ele o chefe das operações.

— Kay Scarpetta - disse eu, visto que Marino me identificou apenas como a Doutora.

 Morrell fixou em mim uns Ray Ban verde-escuros e acenou com a cabeça. Vestido à civil, e com um bigode que pouco mais era que um buço de adolescente, exsudava o arrogante profissionalismo que eu associava sempre aos investigadores novatos na profissão.

— Eis o que sabemos, para já. - Sempre a olhar em volta, nervoso.

— O jipe pertence a Deborah Harvey, e ela e o namorado, hmm, Fred Cheney, saíram da residência dos Harvey a noite passada por volta das oito. Dirigiam-se para Spindrift, onde a família Harvey possui uma casa de praia.

— A família de Deborah Harvey estava em casa quando o casal saiu de Richmond? - perguntei.

— Não. - Por momentos voltou os óculos para mim. - Já estavam em Spindrift, tinham ido ontem, mais cedo. Deborah e Fred quiseram ir noutro carro porque tencionavam regressar a Richmond na segunda-feira. São ambos segundanistas na Carolina e precisavam de voltar mais cedo para se prepararem para o início das aulas.

 Marino explicou então, sacando dos cigarros:

— Antes de saírem de casa dos Harvey, telefonaram para Spindrift, disseram a um dos irmãos de Deborah que iam sair e que chegariam entre a meia-noite e a uma. Às quatro da manhã, vendo que eles não apareciam, Pat Harvey chamou a Polícia.

— Pat Harvey! - E olhei, incrédula, para Marino.

 Foi o agente Morrell que respondeu:

— Ah, pois. Estamos bem arranjados, pois estamos. Pat Harvey já vem neste momento a caminho. Um helicóptero foi lá buscá-la... — olhou para o relógio - há cerca de meia hora. O pai, hmm, Bob Harvey, anda em viagem. Foi a Charlotte, em serviço, e devia chegar a Spindrift amanhã durante o dia. Que saibamos, ainda não foi contactado, não sabe o que aconteceu.

 Pat Harvey era a Directora do Programa Nacional de Combate à Droga, cargo que levara a comunicação social a chamar-lhe Dama de Ferro. Nomeada pelo Presidente, e ainda não há muito tempo capa da revista Time, Mrs. Harvey era uma das mulheres mais poderosas e mais admiradas dos Estados Unidos.

— E o Benton? - perguntei a Marino. - Ele sabe que Deborah Harvey é filha de Pat Harvey?

— A mim não me disse nada. Quando me ligou, tinha acabado de aterrar no Newport News - o FBI mandou-o vir de avião. Estava era cheio de pressa para alugar um carro. Não falámos muito.

 Aquilo respondia à minha pergunta. Benton Wesley não ia correr para cá num avião do FBI se não soubesse quem Deborah Harvey era. Estranhei que não tivesse dito nada a Marino, seu colega no VICAP, e tentei ler-lhe o rosto largo, impávido. Tinha os maxilares cerrados, a calva a reluzir com gotas de suor.

— O que se passa agora - prosseguiu Morrell - é que tenho uma data de homens posicionados aqui à volta para desviarem o trânsito. Já vimos nas casas de banho, demos uma vista de olhos para termos a certeza que os miúdos não se encontram nas imediações.

Mal chegue a equipa de busca e salvamento, começamos pela mata.

 Imediatamente a norte do capot do jipe, a bem tratada zona ajardinada da área de serviço cobria-se de arbustos e árvores que, no espaço de meio hectare, se tornavam tão densos que eu não conseguia ver nada excepto a luz do sol a incidir nas folhas e um falcão a voar em círculos por cima de um longínquo pinhal. Embora os centros comerciais e as urbanizações continuassem a instalar-se ao longo da I-64, este troço entre Richmond e Tidewater permanecia, por enquanto, impoluto. A paisagem, que noutra altura teria achado segura e repousante, parecia-me agora ominosa.

— Merda! - queixou-se Marino, quando nos afastámos de Morrell para dar uma volta pelo local.

— Foi uma pena ter perdido a sua pescaria - comentei.

— Ora, não é sempre isso que acontece? Há meses que ando a planear esta maldita viagem. Lixei-me outra vez. É o costume.

— Reparei que quando se sai da Interstate - referi, ignorando a irritação dele - a rampa de acesso divide-se logo em duas, uma vem dar aqui, a outra vai dar à parte da frente da área de serviço. Por outras palavras, as rampas são de sentido único. Não é possível arrumar na parte da frente, reservada aos carros, e depois mudar de ideias e voltar para cá, sem percorrer uma distância considerável em sentido contrário, na rampa, correndo o risco de chocar com alguém. E calculo que houvesse um grande número de viajantes na estrada a noite passada, visto ser o fim-de-semana do Labor Day.

— Certo. Eu sei. Não é preciso ser muito esperto para se perceber que alguém quis atirar com o jipe precisamente para o sítio onde ele está porque, provavelmente, a noite passada havia uma data de carros estacionados à frente. Utiliza, portanto, a rampa dos camiões e autocarros. Isto aqui atrás se calhar estava bastante deserto. Ninguém o vê e ele põe-se na alheta.

— Também podia não querer que o jipe fosse logo encontrado, o que explica o facto de estar fora da via - aventei.

 Marino olhou fixamente na direcção da mata e afirmou:

— Estou a ficar velho para isto.

 Eterno rezingão, Marino tinha o hábito de chegar a um local do crime e agir como se não desejasse lá estar. Já trabalhávamos juntos há tempo suficiente para eu estar habituada a isso, mas desta vez a atitude dele pareceu-me mais genuína. A sua irritação não se devia apenas ao cancelamento da ida à pesca. Interroguei-me se teria tido alguma discussão com a mulher.

— Ena, ena - resmungou olhando para o edifício de tijolo. — Chegou o Ranger Solitário.

 Voltei-me para trás quando o vulto esguio e familiar de Benton Wesley saiu da casa de banho dos homens. Mal nos cumprimentou quando veio ter connosco, o cabelo grisalho húmido nas têmporas, as lapelas do fato azul salpicadas de água como se tivesse acabado de lavar a cara. De olhos impavidamente fixos no jipe, tirou uns óculos de sol do bolso do casaco e pô-los.

— Mrs. Harvey já cá chegou? - perguntou.

— Não - respondeu Marino.

— E os jornalistas?

— Não - disse Marino.

— Óptimo.

 Wesley estava de maxilares cerrados, o que lhe tornava ainda mais duro e insondável o rosto de feições bem vincadas. Achá-lo-ia atraente se não fosse aquela impenetrabilidade. Os seus pensamentos e emoções eram impossíveis de ler, e, ultimamente, tornara-se mestre na arte de dissimular a personalidade, a ponto de eu por vezes achar que já não o conhecia.

— Temos de manter isto abafado o mais tempo possível - prosseguiu ele. - Mal a coisa se saiba, vai ser o bom e o bonito.

 Resolvi perguntar-lhe:

— Que sabe a respeito deste casal, Benton?

— Muito pouco. Depois de ter participado o desaparecimento deles, hoje logo de manhã, Mrs. Harvey ligou para casa do Director e depois para mim. Pelos vistos, a filha conheceu Fred Cheney na Carolina e namoravam desde o primeiro ano. Ambos bons miúdos, certinhos. Não há indícios de qualquer problema que justificasse terem-se envolvido com o tipo de pessoa errado por estes lados - pelo menos segundo Mrs. Harvey. Uma coisa que eu percebi é que ela tinha uma certa ambivalência quanto ao namoro, achava que Cheney e a filha passavam demasiado tempo sozinhos.

— Se calhar foi essa a verdadeira razão para terem querido fazer a viagem para a praia noutro carro - comentei.

— Sim - replicou Wesley olhando em volta. - É mais que certo que foi a verdadeira razão. Pela conversa que tive com o Director, fiquei com a impressão de que Mrs. Harvey não estava lá muito satisfeita por Deborah levar o namorado para Spindrift. Era uma reunião de família. Mrs. Harvey mora em Washington durante a semana, e, neste Verão todo, pouco tempo passou com a filha e os dois filhos. Para ser franco, acho que, ultimamente, Deborah e a mãe não deviam andar a entender-se muito bem, e pode ter havido alguma discussão antes de a família arrancar para a Carolina do Norte ontem de manhã.

— E a hipótese de os miúdos terem fugido juntos? - alvitrou Marino. - Eram espertos, não eram? Leram os jornais, viram os noticiários, se calhar viram aquela reportagem sobre os casais naquele especial da semana passada na televisão. Ou seja, provavelmente sabiam dos casos que aconteceram por aqui. Quem é que pode dizer que não foi tudo arranjado por eles? Uma forma bastante astuta de encenar um desaparecimento e castigar os pais.

— É uma das muitas hipóteses a considerar - replicou Wesley.

— E mais uma razão para, espero eu, conseguirmos manter isto afastado o mais tempo possível da comunicação social.

 Morrell veio ter connosco quando seguíamos a pé pela rampa de saída, de novo em direcção ao jipe. Uma carrinha azul-clara, com um atrelado, estacionou, e dela saíram um homem e uma mulher com fatos-macacos escuros, e botas. Abrindo a porta de trás, soltaram dois cães pisteiros ofegantes, de caudas a abanar. Engancharam longas guias a argolas fixas nos cintos de couro e pegaram em cada um dos cães pelo respectivo arnês.

— Salty, Neptune, quietos!

 Não percebi qual dos cães era qual. Ambos grandes e de pelagem dourada, com focinhos enrugados e orelhas caídas. Morrell fez um largo sorriso e estendeu o braço:

— Como vai isso, pá?

 Salty, ou talvez fosse Neptune, recompensou-o com um beijo molhado e uma focinhada na perna.

 Os tratadores dos cães eram de Yorktown e chamavam-se Jeff e Gail. Esta era tão alta como o colega e parecia ter quase tanta força como ele. Fez-me lembrar certas mulheres que eu já vira que tinham passado a vida toda em quintas, os rostos vincados pelo trabalho duro e pelo sol, dotadas de uma paciência fleumática que se adquire pelo conhecimento da natureza e aceitação das suas dádivas e flagelos.

Era ela a chefe da equipa de busca e salvamento, e percebi, pela forma como olhava para o jipe, que procurava nele algum indício de que o local, e por conseguinte os cheiros, haviam sido adulterados.

— Ninguém tocou em nada - disse-lhe Marino, inclinando-se para acariciar um dos cães atrás das orelhas. - Ainda nem sequer abrimos as portas.

— Sabe se mais alguém esteve lá dentro? Talvez a pessoa que o encontrou?

— perguntou Gail.

 Morrell começou a explicar:

— A matrícula foi transmitida por teletipo, com BEVs, hoje de manhã cedo...

— Que raio são BEVs? - interrompeu Wesley.

— Busca e Vigilância.

 O rosto de Wesley parecia de granito quando Morrell prosseguiu, fastidiosamente:

— Os guardas de trânsito não fazem a reunião da manhã, por isso nem sempre chegam a ver os teletipos. Metem-se nos carros e arrancam.

A central começou a enviar BEVs para o ar logo que foi participado o desaparecimento do casal, e, por volta da uma da tarde, um camionista localizou o jipe e mandou uma mensagem por rádio.

O agente que acorreu ao local disse que, para além de espreitar pelas janelas, para se certificar de que não estava ninguém lá dentro, nem sequer se aproximou.

 Eu esperava que fosse verdade. Parece que a maioria dos agentes, mesmo os mais batidos, não resiste a abrir portas e vasculhar o interior do porta-luvas à procura da identificação do proprietário.

 Segurando em ambos os arneses, Jeff levou os cães "à casinha", enquanto Gail perguntava:

— Têm alguma coisa a que os cães possam tirar o cheiro?

— Pedimos a Pat Harvey para trazer com ela alguma peça de roupa que Deborah tenha usado recentemente - respondeu Wesley.

 Se Gail ficou surpreendida ou impressionada, ao saber de quem era filha a jovem procurada, não o mostrou, continuando a olhar para Wesley com ar expectante.

— Ela vem cá ter, de helicóptero - acrescentou Wesley, olhando para o relógio. - Deve estar mesmo a chegar.

— Bom, não deixem é o passarão aterrar aqui - lembrou Gail, aproximando-se do jipe. - Não precisamos de agitação no local. - Espreitando pela janela do condutor, observou a parte de dentro das portas, o tablier, analisando cuidadosamente o interior. Depois, recuou e lançou um longo olhar ao puxador de plástico preto, na parte exterior da porta.

— Se calhar, o melhor é começar pelos bancos - concluiu. - Vamos pôr o Salty a cheirar um, e o Neptune o outro. Mas primeiro temos de entrar sem estragar nada. Alguém tem um lápis ou uma caneta?

 Tirando uma esferográfica Mont Blanc do bolso da camisa, Wesley entregou-lha.

— Preciso de mais uma - acrescentou ela.

 Por incrível que pareça, pelos vistos ninguém mais trazia consigo uma caneta, incluindo eu. Ia jurar que andava com várias na bolsa.

— E se for um canivete? - perguntou Marino, procurando no bolso dos jeans.

— Perfeito.

 Caneta numa mão e canivete suíço na outra, Gail, num só gesto, premiu o botão na parte de fora da porta do condutor e baixou a pega, depois encaixando a biqueira da bota na frincha da porta para, delicadamente, a abrir. Enquanto isso, escutei o débil e inconfundível ruído surdo de pás de helicóptero, cada vez mais alto.

 Momentos depois, um Bell Jet Ranger, encarnado e branco, descreveu um círculo por cima da área de serviço e ficou a pairar, como uma libelinha, criando um pequeno furacão em terra. Os sons foram totalmente abafados pelo troar da forte ventania, que fez tremer as árvores e ondular a vegetação. De olhos bem fechados, Gail e Jeff agacharam-se ao pé dos cães, segurando-os com força pelos arneses.

 Marino, Wesley e eu recolhêramo-nos junto dos edifícios e foi desse posto de observação que assistimos à violenta descida. Quando o helicóptero pousou, num turbilhão de motores roncantes e agitação do ar, num relance vi Pat Harvey de olhos postos cá em baixo no jipe da filha, antes de a luz do Sol branquear o vidro.

 Afastou-se do helicóptero, de cabeça baixa e saia a rodopiar-lhe em volta das pernas, enquanto Wesley esperava, a uma distância segura, pela desaceleração das pás, gravata a esvoaçar por cima do ombro como um cachecol de aviador.

 Antes de ser nomeada para o cargo de Directora do Programa Nacional de Combate à Droga, Pat Harvey fora Promotora Pública em Richmond, e, depois, delegada da Procuradoria-Geral para o Distrito Oriental da Virgínia. A sua actuação no julgamento de sonantes casos de droga no sistema federal envolvera, por vezes, vítimas por mim autopsiadas. Mas nunca fora chamada a depor; as intimações aplicavam-se apenas aos meus relatórios. Eu e Mrs. Harvey nunca tínhamos falado uma com a outra.

 Na televisão e nas fotografias dos jornais ela dava uma imagem de total competência. Era, em carne e osso, feminina e extraordinariamente bonita, esbelta, as feições perfeitamente desenhadas, o sol descobrindo reflexos de ouro e cobre no cabelo curto, arruivado. Wesley fez breves apresentações e Mrs. Harvey apertou-nos a mão a todos com a cortesia e autoconfiança de um político experiente. Mas não sorriu nem olhou ninguém nos olhos.

— Tem uma sweatshirt aí dentro - disse, entregando a Gail um saco de papel. - Encontrei-a no quarto da Debbie na casa de praia. Não sei quando a usou pela última vez mas não me parece que tenha sido lavada recentemente.

— Quando foi a última vez que a sua filha esteve na praia? - perguntou Gail sem abrir o saco.

— Em princípios de Julho. Foi lá passar um fim-de-semana com uns amigos.

— E tem a certeza que foi ela que vestiu isto? Não pode ter sido um dos amigos? - Perguntou Gail, descontraidamente, como se a perguntar como estava o tempo.

 A pergunta apanhou Mrs. Harvey de surpresa e por um momento a dúvida nublou-lhe os olhos azuis-escuros.

— Não tenho a certeza. - Pigarreou. - Parti do princípio que foi a Debbie a vesti-la pela última vez mas, como é óbvio, não posso jurar que sim. Eu não estava lá.

 Olhou para trás de nós, para a porta aberta do jipe, a atenção fugazmente concentrada nas chaves na ignição, o "D" prateado a balouçar da corrente do porta-chaves. Por um longo momento ninguém falou e pude perceber a sua luta interior contra a emoção enquanto afugentava o pânico com uma atitude de negação.

 Voltando-se para nós, disse:

— A Debbie devia trazer uma bolsa. De nylon, vermelho vivo.

Uma dessas bolsas práticas com uma aba forrada com velcro. Não a encontraram lá dentro?

— Não, minha senhora - respondeu Morrell. - Pelo menos ainda não vimos nada que se pareça, olhando pelas janelas. Mas não revistámos o interior, não podíamos enquanto não chegassem os cães.

— Calculo que estivesse no banco da frente. Talvez no chão - prosseguiu ela.

 Morrell abanou a cabeça.

 Foi Wesley quem falou:

— Mrs. Harvey, sabe se a sua filha trazia muito dinheiro com ela?

— Dei-lhe cinquenta dólares para comida e gasolina. Não sei quanto mais traria consigo - respondeu ela. - Também tinha, claro, cartões de crédito. Mais o livro de cheques.

— Sabe quanto é que ela tinha na conta à ordem? - perguntou Wesley.

— O pai deu-lhe um cheque na semana passada - respondeu ela, calmamente. - Para a faculdade - livros e coisas assim. Tenho quase a certeza de que já o depositou. Calculo que tenha pelo menos uns mil dólares na conta.

— Talvez seja melhor verificar isso - sugeriu Wesley. - Para termos a certeza de que o dinheiro não foi levantado.

— Vou tratar disso imediatamente.

 Do meu posto de observação, senti que na mente dela desabrochava um sentimento de esperança. A filha tinha dinheiro, cartões de crédito, e acesso ao que estava numa conta à ordem.

Aparentemente, não deixara a bolsa dentro do jipe o que significava que ainda a traria consigo. O que significava que ainda estaria viva e de boa saúde, algures, num sítio qualquer com o namorado.

— A sua filha alguma vez ameaçou fugir com Fred? - perguntou-lhe Marino sem rodeios.

— Não. - Olhando de novo fixamente para o jipe, acrescentou aquilo em que queria acreditar. - Mas não quer dizer que não seja possível.

— Qual era o estado de espírito dela quando falaram pela última vez? - prosseguiu Marino.

— Discutimos ontem de manhã, antes de eu e os meus filhos partirmos para a praia - respondeu num tom neutro, distante. - Estava aborrecida comigo.

— Ela sabe dos casos que tem havido por aqui? Dos casais desaparecidos? — perguntou Marino.

— Sim, claro. Falámos sobre isso, interessámo-nos por eles. Sabia.

 Gail disse então a Morrell:

— Temos de começar.

— Boa ideia.

— Uma última coisa, - perguntou Gail olhando para Mrs. Harvey - faz ideia de quem ia a conduzir?

— O Fred, calculo eu - respondeu ela. - Quando iam a qualquer lado juntos, normalmente conduzia ele.

 Com novo aceno de cabeça, Gail afirmou:

— Acho que vou precisar outra vez do canivete e da caneta.

 Recebendo-os de Wesley e Marino, deu a volta até ao lado do passageiro e abriu a porta. Deitou a mão ao arnês de um dos cães. Ansiosamente, ele levantou-se e moveu-se em perfeita harmonia com os passos da dona, sempre a cheirar, os músculos ondeando sob a pelagem fofa e lustrosa, orelhas pesadamente caídas como se forradas com chumbo.

— Vá lá, Neptune, toca a pôr em funcionamento esse teu nariz mágico.

 Observámos em silêncio, enquanto ela encaminhava o nariz de Neptune para o assento dianteiro no qual, supostamente, Deborah Harvey teria ido sentada ontem. De repente soltou um ganido como se tivesse encontrado uma cascavel e afastou-se do jipe num repelão, arrancando praticamente o arnês da mão de Gail. Meteu o rabo entre as pernas e o pêlo ficou todo eriçado no dorso quando um arrepio lhe percorreu a espinha.

— Calma, rapaz. Calma!

 Por entre ganidos e estremeções, Neptune agachou-se e defecou na relva.

 

 Acordei na manhã seguinte exausta e com um medo enorme do jornal de domingo.

 O cabeçalho era suficientemente chamativo para se conseguir ler a um quarteirão de distância:

 FILHA DA DAMA DE FERRO E AMIGO DESAPARECIDOS - POLÍCIA SUSPEITA DE ACÇÃO CRIMINOSA

 Os repórteres não só tinham conseguido um retrato de Deborah Harvey como vinha também publicada uma foto do jipe dela a ser rebocado da área de serviço, e uma outra, de arquivo, calculei eu, de Bob e Pat Harvey de mão dada, caminhando por uma praia deserta em Spindrift. Bebericando o café enquanto lia a notícia, não pude deixar de pensar nos pais de Fred Cheney. Não pertencia a nenhuma família inpunente. Era apenas "o namorado de Deborah". E, no entanto, também ele estava desaparecido; também ele era amado.

 Aparentemente, Fred era filho de um homem de negócios de Southside, um filho único cuja mãe morrera no ano passado, de ruptura de um aneurisma cerebral. O pai de Fred, dizia o artigo, estava em Sarasota de visita a uns familiares, quando a Polícia finalmente conseguiu localizá-lo a altas horas da noite anterior. Se houvesse alguma hipótese, ainda que remota, de o filho ter "fugido" com Deborah dizia o artigo, seria por certo uma atitude muito pouco própria de Fred, descrito como "bom aluno na Carolina e membro da equipa de natação da universidade". Deborah era uma aluna de quadro de honra e uma ginasta suficientemente dotada para se tornar esperança olímpica. Pesando não mais que uns quarenta e cinco quilos, tinha cabelo louro-escuro pelos ombros e as bonitas feições da mãe. Fred era espadaúdo e magro, com cabelo preto ondulado e olhos cor de avelã. Um casal bonito e inseparável, pelas declarações prestadas. segundo uma amiga "Quando se via um, via-se sempre o outro" citada no artigo. "Acho que tinha muito a ver com a morte da mãe do Fred. A Debbie conheceu-o por essa altura e, acho que ele não teria aguentado sem o apoio dela." .

 Claro que o artigo prosseguia, regurgitando os pormenores dos outros quatro casais virginianos desaparecidos e mais tarde encontrados mortos. O meu nome vinha mencionado diversas vezes.

Referiam-se-me como estando frustrada, confusa e a evitar fazer comentários. Interroguei-me se alguém se lembrara de que eu continuava, todas as semanas, a autopsiar vítimas de homicídios, suicídios e acidentes. Habitualmente, conversava com as famílias, depunha em tribunal, e dava aulas a paramédicos e academias de Polícia. Com ou sem casais, a vida e a morte continuavam.

 Levantara-me da mesa da cozinha e estava a bebericar o café, olhando lá para fora, para a manhã radiosa, quando o telefone tocou.

 Calculando que fosse a minha mãe, que costumava ligar a esta hora, ao domingo, para saber da minha saúde e se eu tinha ido à missa, puxei uma cadeira próxima, ao mesmo tempo que levantava o auscultador.

— Doutora Scarpetta?

— É a própria. - A voz pareceu-me familiar mas não consegui situá-la.

— Fala Pat Harvey. Por favor, desculpe estar a encomodá-la em casa. — Por detrás da voz firme, detectei uma pontinha de medo.

— Não incomoda nada - respondi, simpaticamente. - Em que posso ajudá-la?

— Eles procuraram durante toda a noite, e ainda lá andam.

 Mandaram vir mais cães, mais polícias, vários aviões. - Começou a falar rapidamente. - Nada. Nenhum sinal deles. Bob juntou-se às equipas de busca. Eu estou em casa. - Hesitou. - Gostava de saber se pode dar cá um salto. Talvez esteja livre para almoçar.

 Após uma longa pausa, aceitei com relutância. Ao desligar, recriminei-me mentalmente, pois sabia o que ela queria de mim. Pat Harvey ia fazer perguntas a respeito dos outros casais. Eu, se fosse ela, era exactamente o que eu faria.

 Subi para o meu quarto e despi o robe. Depois tomei um demorado banho quente e lavei a cabeça, enquanto o gravador de chamadas começava a interceptar telefonemas aos quais não fazia tenções nenhumas de responder, a menos que fossem emergências. Uma hora depois, envergando já um fato de saia e casaco caqui, pus-me nervosamente a ouvir as mensagens. Havia cinco, todas de jornalistas que tinham sabido que eu fora chamada à área de serviço de New Kent County, o que não prenunciava nada de bom para o casal desaparecido.

 Peguei no auscultador, tencionando ligar para Pat Harvey a cancelar o nosso almoço. Mas não conseguia esquecer o rosto que ela tinha quando chegou de helicóptero com a sweatshirt da filha, não conseguia esquecer os rostos de nenhum dos pais. Desligando, fechei a porta à chave e meti-me no carro.

 As pessoas com cargos públicos não podem permitir-se os atavios que a privacidade exige, a menos que tenham outras fontes de rendimento. Via-se logo que o salário federal de Pat Harvey representava uma magra fatia da sua fortuna familiar. Viviam perto de Windsor, na margem do James, numa sumptuosa mansão jeffersoniana sobranceira ao rio. A propriedade, que calculei ter no mínimo dois hectares, estava rodeada por um alto muro de tijolo com várias placas de "Propriedade Privada" afixadas. Quando meti por um longo acesso sombreado por árvores, fui interceptada por um forte portão de ferro forjado que se abriu eletronicamente antes de eu descer o vidro para chegar ao intercomunicador. O portão tornou a fechar-se atrás de mim quando retomei a marcha. Estacionei ao pé de um grande Jaguar preto, diante de um pórtico romano de colunas lisas, tijoleira antiga e emadeiramentos brancos.

 Quando ia a sair do carro, a porta da frente abriu-se. Pat Harvey, secando as mãos a um pano da louça, sorriu-me corajosamente do cimo das escadas. O rosto estava pálido, os olhos sem brilho e cansados.

— Foi muito amável da sua parte ter vindo, Doutora Scarpetta. - Fez-me sinal para entrar. - Entre, por favor. .

 O vestíbulo era espaçoso como um salão, e, seguindo-a até à cozinha, passei por uma sala de estar de aspecto formal. O mobiliário era do século XVIII, tapeçarias orientais cobriam paredes inteiras, originais de pinturas impressionistas e uma lareira com toros de faia artisticamente empilhados lá dentro. Pelo menos a cozinha tinha um aspecto funcional e habitado, mas não me pareceu que estivesse mais alguém em casa.

— Jason e Michael saíram com o pai - explicou ela, quando lhe perguntei. - Os rapazes chegaram hoje de manhã, de carro.

— Que idade têm? - indaguei, enquanto ela abria a porta do forno.

— Jason tem dezasseis e Michael catorze. Debbie é a mais velha.

— Olhando em volta à procura das pegas de cozinha, desligou o forno e, depois, pousou uma quiche em cima de uma das bocas do fogão. As mãos tremiam-lhe quando tirou uma faca e uma espátula de uma gaveta. - Prefere vinho, chá ou café. É uma coisa muito leve. Fiz uma salada de fruta. Lembrei-me que podíamos sentar-nos lá fora na varanda. Espero que seja do seu agrado.

— Com certeza - respondi. - E pode ser café.

 Nervosa, abriu o frigorífico para tirar um saco de Irish Creme, que mediu para dentro do bule da máquina de café. Observei-a, sem falar.

 Ela estava desesperada. Marido e filhos ausentes. A filha desaparecida, a casa deserta e silenciosa.

 Só começou a fazer perguntas quando já estávamos na varanda, as portas de correr envidraçadas todas abertas, o rio descrevendo uma curva ao fundo, cintilando ao sol.

— Aquela reacção dos cães, Dra. Scarpetta - começou ela, debicando a salada. - Pode explicar-me o que aconteceu?

 Eu podia mas não quis.

— É óbvio que um dos cães ficou nervoso. Mas o outro não.

O comentário foi feito como uma pergunta.

 O outro cão, Salty, reagira, de facto, de maneira muito diferente da de Netune. Depois de ele ter cheirado o banco do condutor, Gail prendeu a guia ao arnês e deu-lhe a ordem de "Busca". O cão arrancou como um galgo. Sempre a farejar, atravessou a rampa de saída e seguiu para a zona de piqueniques. Depois arrastou Gail pelo parque de estacionamento em direcção à Interstate e teria ficado debaixo de algum carro se Gail não lhe gritasse "Quieto!". Eu vira-os correr ao longo da faixa arborizada que separa as duas pistas de rodagem, depois através do asfalto, encaminhando-se directamente para a área de serviço oposta àquela onde fora encontrado o jipe de Deborah. O cão pisteiro finalmente perdeu o rasto no parque de estacionamento.

— Devo acreditar - continuou Mrs. Harvey - que quem quer que tenha sido o último a conduzir o jipe de Debbie saiu do carro, percorreu a área de serviço da direcção oeste e atravessou a Interstate?

Então essa pessoa tinha, por certo, de ter um carro estacionado na área de serviço da direcção leste para seguir viagem.

— É uma interpretação possível - respondi, atirando-me à quiche.

— Que outra interpretação possível existe, Doutora Scarpetta?

— O cão pisteiro detectou um cheiro. De quem ou de quê não sei. Pode ter sido o cheiro de Deborah, o cheiro de Fred, o cheiro de uma terceira pessoa...

— O jipe dela ficou lá parado muitas horas - interrompeu Mrs.

Harvey olhando fixamente para o rio. - Suponho que qualquer pessoa pode ter lá entrado à procura de dinheiro, de valores. Um viajante à boleia, um passante ocasional, alguém a pé que depois atravessou para o outro lado da Interstate.

 Não lhe recordei o óbvio. A Polícia encontrara a carteira de Fred Cheney no porta-luvas, com todos os cartões de crédito e trinta e cinco dólares em dinheiro. Nada indicava que a bagagem do jovem casal tivesse sido remexida. Que se soubesse, não faltava nada no jipe excepto os seus ocupantes e a bolsa de Deborah.

— A forma como o primeiro cão reagiu - prosseguiu ela, objectivamente -, acho que não é normal. Alguma coisa o assustou.

O enervou, pelo menos. Um cheiro diferente - não o mesmo que o outro cão detectou. O banco onde Debbie tinha estado sentada...

— A voz embargou-se-lhe quando os seus olhos se fixaram nos meus.

— Sim. Parece que os dois cães detectaram cheiros diferentes.

— Doutora Scarpetta, peço-lhe que seja franca comigo - disse ela com voz trémula. - Não queira poupar-me. Por favor. Sei que o cão não ficava assim tão agitado se não tivesse algum motivo. De certo que o seu trabalho já a pôs em contacto com operações de busca e salvamento, com cães pisteiros. Já viu alguma coisa assim, a forma como o cão reagiu?

 Já. Duas vezes. Uma quando um cão farejou o porta-bagagem de um carro que, viria a descobrir-se, servira para transportar uma vítima de homicídio cujo corpo fora encontrado num contentor de lixo. A outra quando um cheiro conduziu a uma zona junto a uma trilha de corrida onde uma mulher fora violada e morta a tiro.

 O que respondi foi:

— Os cães pisteiros tendem a reagir fortemente a cheiros feromonais.

— Desculpe? - Parecia espantada.

— Secreções. Os animais, os insectos, segregam substâncias químicas.

Atractivos sexuais, por exemplo. - Friamente, expliquei:

— Já ouviu falar de cães que marcam o seu território ou que atacam quando sentem o cheiro do medo?

 Ela continuava a olhar para mim.

— Quando alguém está sexualmente excitado, nervoso ou amedrontado, ocorrem várias alterações hormonais no organismo. Está provado que os animais sensíveis aos cheiros, como estes cães, conseguem detectar o odor das feromonas, ou substâncias químicas, segregadas por glândulas especiais existentes nos nossos corpos...

 Aí interrompeu-me:

— Debbie queixou-se de dores menstruais pouco antes de eu, Michael e Jason termos partido para a praia. Tinha-lhe vindo o período.

Isso explicaria...? Bom, se ia sentada no banco do passageiro talvez tenha sido o cheiro que o cão detectou?

 Não respondi. A hipótese colocada por ela não justificava o extremo nervosismo do cão.

— Não chega. - Pat Harvey desviou o olhar e torceu o guardanapo que tinha no colo. - Não chega para explicar por que é que o cão começou a ganir e ficou com o pêlo todo eriçado no dorso. Oh, meu Deus! É como nos outros casos, não é?

— Não direi que sim.

— Mas é o que está a pensar. E a Polícia também. Se não fosse essa a opinião de todos logo desde o princípio, a senhora não teria sido chamada ontem. Quero saber o que lhes aconteceu. A esses outros casais.

 Eu não disse nada.

— Segundo o que li - insistiu ela -, a senhora esteve presente em todos os locais, chamada pela Polícia.

— Estive.

 Levando a mão a um bolso do blazer, tirou de lá uma folha de bloco amarela dobrada e abriu-a.

— Bruce Philips e Judy Roberts - começou a elucidar-me como se eu precisasse. - Jovens namorados que desapareceram há dois anos e meio no dia 1 de Junho ao saírem de carro de casa de um amigo em Gloucester, e nunca chegaram às respectivas casas. Na manhã seguinte, o Carro de Bruce foi encontrado, abandonado, junto à Nacional 17, chaves na ignição, portas destrancadas e vidros abertos. Dez semanas depois, a senhora foi chamada a uma zona florestal quilómetro e meio a leste do York River State Park, onde caçadores tinham descoberto dois corpos parcialmente esqueletizados, caídos de bruços no meio das folhas, aproximadamente a seis quilómetros e meio do local onde o carro de Bruce fora encontrado dez semanas antes.

 Lembrei-me que foi dessa vez que a polícia local pediu ajuda ao VICAP. O que Marino, Wesley e o detective de Gloucester não sabiam era que um segundo casal fora dado como desaparecido em Julho, um mês depois do desaparecimento de Bruce e Judy.

— A seguir temos Jim Freeman e Bonnie Smyth - continuou Mrs. Harvey, erguendo os olhos para mim. - Desapareceram no último sábado de Julho depois de uma festa na piscina dos Freeman, em Providence Forge. Nessa noite, já tarde, Jim foi levar Bonnie a casa e no dia seguinte um agente da polícia de Charles City encontrou o blazer de Jim abandonado a uns dezasseis quilómetros da casa dos Freeman. Quatro meses depois, a 12 de Novembro, caçadores de West Point, encontraram os seus corpos...

 O que eu calculei que ela não soubesse, pensei, aborrecida, é que, apesar dos meus insistentes pedidos, nunca me tinham sido facultadas cópias das partes confidenciais dos relatórios da Polícia, fotografias dos locais, ou inventários das provas. Atribuí a aparente falta de cooperação ao que se transformara numa investigação multijuridicional.

 Mrs. Harvey continuou, agitadamente.

Em Março do ano seguinte, aconteceu outra vez. Ben Anderson saíra de carro de Arlington para ir ter com a namorada, Carolyn Bennet, a casa dela em Stingray Point junto à baía de Chesapeake. Deixaram a residência dos Anderson pouco antes das sete da manhã para iniciarem a viagem de regresso à Old Dominion University, em Norfolk, onde eram ambos caloiros. Na noite seguinte, um agente da polícia estadual ligou para os pais de Ben comunicando-lhes que a carrinha Dodge do filho fora encontrada abandonada na berma da I-64 cerca de oito quilómetros a leste de Buckroe Beach. As chaves estavam na ignição, as portas destrancadas e a agenda de Carolyn debaixo do banco do passageiro. Os seus corpos, parcialmente esqueletizados, foram descobertos seis meses depois, durante a época da caça ao veado, numa zona arborizada, quatro quilómetros e meio a sul da Route 199 no York County. Dessa vez, nem sequer uma cópia do relatório da Polícia me deram.

 Quando Susan Wilcox e Mike Martin desapareceram em Fevereiro último, eu soube do caso pelo jornal da manhã. Dirigiam-se para a casa de Mike em Virginia Beach, para passarem juntos a semana de férias a meio do trimestre, quando, como os casais anteriores, desapareceram. O furgão azul de Mike foi encontrado abandonado junto à Colonial Parkway, próximo de Williamsburg, um lenço de pano branco atado à antena assinalando problemas com o motor, que não existiam quando a Polícia mais tarde examinou a carrinha.

No dia 15 de Maio, um pai e um filho que andavam à caça de perus encontraram os corpos decompostos numa zona arborizada entre a Route 60 e a I-64, no James City County.

 Lembrei-me, uma vez mais, de ter embalado ossadas para as enviar ao antropologista forense do Smithsonian, para uma última análise. Oito jovens, e apesar das horas incontáveis que gastei com cada um deles, não conseguia descobrir como e porquê tinham morrido.

 "Se, Deus queira que não, houver uma próxima vez, não esperem até os corpos aparecerem" acabara eu por ordenar a Marino. "Avisem-me mal o carro seja encontrado.”

 "Pois. Mais vale começar a autopsiar carros já que os corpos não nos revelam nada" retorquira ele tentando, sem sucesso, ser engraçado.

— Em todos os casos - estava Mrs. Harvey a dizer -, as portas estavam destrancadas, as chaves na ignição, nenhum indício de luta, e aparentemente nada fora roubado. O MO foi praticamente o mesmo.

 Dobrou os apontamentos e tornou a guardá-los no bolso.

— Está bem informada - limitei-me a dizer. Não perguntei, mas deduzi que tivesse posto o pessoal dela a investigar os casos anteriores.

— O que eu quero dizer é que a senhora esteve envolvida desde o início - afirmou ela. - Examinou todos os corpos. E mesmo assim, segundo percebi, não sabe o que matou esses casais.

— Exactamente. Não sei - respondi.

—Não sabe? Ou será que não quer dizer, Doutora Scarpetta?

 A carreira de Pat Harvey como promotora pública no sistema federal grangeara-lhe um enorme respeito, se não mesmo admiração, a nível nacional. Era corajosa e agressiva e de repente foi como se a varanda se tivesse transformado num tribunal.

— Se eu soubesse qual foi a causa da morte deles não a tinha dado como indeterminada - respondi, calmamente.

— Mas acha que foram assassinados.

— Acho que pessoas jovens, saudáveis, não abandonam de repente os seus carros e morrem de causas naturais numa mata qualquer, Mrs. Harvey.

— E as teorias apresentadas? Que tem a dizer sobre elas? Calculo que não lhe sejam estranhas.

 Não eram.

 Estavam envolvidas quatro jurisdições e pelo menos outros tantos detectives, cada um deles com inúmeras teorias. Por exemplo, os casais eram consumidores de drogas leves e tinham-se encontrado com um dealer para ele lhes vender alguma droga sintética, nova e perniciosa, que não fora detectada através dos habituais testes toxicológicos.

Ou andavam metidos no ocultismo. Ou eram todos membros de alguma sociedade secreta, sendo as suas mortes afinal pactos suicidas.

— Não acredito muito nas teorias que ouvi - disse-lhe.

— Porquê?

— As minhas conclusões não as fundamentam.

— Que fundamentam então as suas conclusões? - quis ela saber. — Que conclusões? Com base em tudo o que ouvi e li, a senhora não chegou absolutamente a conclusão nenhuma.

 Uma neblina toldara o céu e um avião era uma agulha prateada a puxar uma linha branca debaixo do sol. Em silêncio, observei a esteira de fumo que se expandia e começava a dispersar. Se Deborah e Fred tivessem tido o mesmo destino que os outros, tão cedo não os encontraríamos.

— A minha Debbie nunca se drogou - prosseguiu ela, pestanejando para conter as lágrimas. - Não anda metida em nenhuma religião ou seita esquisita. É arrebitada e de vez em quando fica deprimida como qualquer outra adolescente normal. Mas não... - De repente calou-se num esforço para se controlar.

— Tente pensar só no momento presente - disse eu, baixinho. — Não sabemos o que aconteceu à sua filha. Não sabemos o que aconteceu a Fred. Talvez só o saibamos daqui a muito tempo. Há mais alguma coisa que possa dizer-me a respeito dela... a respeito deles? Qualquer coisa que seja?

— Hoje de manhã veio cá um polícia - respondeu com um profundo, trémulo suspiro. - Foi ao quarto dela, levou várias peças de roupa, a escova do cabelo. Disse que eram para os cães, as roupas, e que precisava de uns cabelos dela para comparar com alguns que possam vir a encontrar dentro do jipe. Gostava de vê-lo? De ver o quarto dela?

 Curiosa, acenei com a cabeça.

 Subi atrás dela a escada de madeira polida até ao primeiro andar.

O quarto de Deborah ficava na ala leste, onde podia ver o nascer do Sol e as tempestades que se formavam por cima do James. Não era o típico quarto de uma adolescente. O mobiliário era escandinavo, simples no desenho e feito de uma lindíssima madeira de teca clara.

Um edredão em tons de azul-claro e verde cobria a cama de casal e por baixo tinha um tapete índio onde dominavam os desenhos em rosa e roxo. Enciclopédias e romances enchiam uma estante, e, por cima da secretária, duas prateleiras cobertas de troféus, e dezenas de medalhas presas a fitas de cores vivas. Numa prateleira de topo, estava uma grande fotografia de Deborah sobre a trave, costas arqueadas, mãos em pose como aves delicadas, a expressão do rosto, tal como os pormenores do seu mundo privado, de pura disciplina e graciosidade. Eu não tinha de ser mãe de Deborah Harvey para saber que aquela jovem de dezanove anos era especial.

— Foi Debbie que escolheu tudo - disse Mrs. Harvey enquanto eu olhava em redor. - Os móveis, o tapete, as cores. Quem diria que ainda há dias aqui esteve a fazer as malas para as aulas. - Pôs-se a olhar para várias malas e um baú arrumados a um canto e pigarreou.

— É muito metódica. Acho que nisso saiu a mim. - Sorrindo nervosamente, acrescentou: - Posso não ser mais nada mas metódica sou...

 Lembrei-me do jipe de Deborah. Estava imaculado por dentro e por fora, bagagem e outros pertences meticulosamente arrumados.

— É de um cuidado extremo com as coisas dela - prosseguiu Mrs. Harvey dirigindo-se para a janela. - Muitas vezes me interroguei se não lhe fazíamos demasiado as vontades. As roupas, o carro, dinheiro. Bob e eu tivemos muitas discussões por causa disso. É difícil, estando eu em Washington. Mas quando fui nomeada, o ano passado, decidimos, em conjunto, que seria um exagero desenraizar a família e a empresa dele, aqui. Era mais fácil eu ficar com o apartamento, vir a casa ao fim-de-semana sempre que pudesse. Esperar até ver o que acontece nas próximas eleições.

 Após uma longa pausa, continuou:

— Creio que o que estou a tentar dizer é que nunca tive muito jeito para dizer que não a Debbie. É difícil sermos sensatos quando se deseja o melhor para os nossos filhos. Sobretudo quando nos lembramos dos nossos desejos quando tínhamos a idade deles, as inseguranças quanto à forma de vestir, quanto ao aspecto físico. Quando se sabe que os nossos pais não têm dinheiro para pagar a um dermatologista, a um dentista, a um cirurgião plástico... Tentamos agir sempre com moderação. - Cruzou os braços ao nível da cintura. - Por vezes não tenho assim tanta certeza de que tenhamos tomado as decisões certas. O jipe, por exemplo. Opus-me a que ela tivesse um carro, mas não tive força para o impedir. Como sempre, ela mostrou-se prática querendo uma coisa segura que a levasse a todo o lado, com qualquer tempo.

 Hesitantemente, indaguei:

— Quando fala de cirurgião plástico, está a referir-se a algo específico relacionado com a sua filha?

— Seios grandes e ginástica são incompatíveis, Doutora Scarpetta - respondeu ela sem se voltar. - Aos dezasseis anos, Debbie já tinha um busto grande de mais. O que não só a fazia sentir-se bastante envergonhada como interferia com o desporto. O problema foi resolvido no ano passado.

— Então esta fotografia é recente - comentei, pois a Deborah para que eu estava a olhar era uma elegante escultura de músculos perfeitamente formados, seios e nádegas firmes e pequenos.

— Foi tirada em Abril, na Califórnia.

 Quando uma pessoa está desaparecida, e possivelmente morta, não é invulgar pessoas como eu mostrarem um certo interesse pelos pormenores anatómicos - seja uma histerectomia, um dente desvitalizado ou cicatrizes de uma operação plástica - que possam ajudar na identificação do corpo. Eram as descrições que eu analisava nos formulários do NCIC sobre pessoas desaparecidas. Era nas características banais e muito humanas que me baseava, pois, em jóias e outros adornos pessoais, aprendera eu ao longo dos anos, nem sempre se pode confiar.

— O que acabei de contar-lhe deve ficar só entre nós - disse Mrs. Harvey. - Debbie é muito discreta. Todos nós somos.

— Compreendo.

— A relação dela com Fred - continuou. - Era discreta. Demasiado discreta. Como por certo já reparou, não há nenhuma fotografia, nenhum símbolo à vista. Não duvido que tenham trocado retratos, prendas, recordações. Mas foi sempre muito reservada quanto a essas coisas. Por exemplo, o aniversário dela foi em Fevereiro. Poucos dias depois reparei que usava um anel de ouro no dedo mínimo da mão direita. Uma aliança estreita com um desenho floral. Não disse nada e eu também não lhe perguntei. Mas tenho a certeza que foi um presente dele.

— Considera-o um jovem equilibrado?

 Voltando-se para mim, fitou-me com uns olhos escuros e inquietos:

— Fred é muito emotivo, um nadinha obsessivo. Mas não posso dizer que seja desequilibrado. De facto não tenho razões de queixa dele. Só receava que a relação fosse demasiado séria, demasiado... - Desviou os olhos à procura da palavra certa. - Viciante. É o termo que me ocorre. É como se um fosse a droga do outro. - Fechando os olhos, tornou a voltar-se de costas e encostou a cabeça à janela.

— Meu Deus, quem me dera que nunca lhe tivéssemos comprado aquele maldito jipe.

 Não me pronunciei.

— Fred não tem carro. Ela não teria outro remédio... - A voz embargou-se-lhe.

— Ela não teria outro remédio - completei - senão ir para a praia convosco.

— E isto não teria acontecido!

 De repente saiu porta fora para o corredor. Não suportava estar mais tempo no quarto da filha, percebi, e desci as escadas atrás dela até à porta da frente. Quando lhe estendi a mão, ela desviou o rosto já molhado de lágrimas.

— Sinto muito. - Quantas vezes ainda teria eu de dizer isto?

 A porta da frente fechou-se suavemente quando eu já descia os degraus.

No trajecto para casa, rezei para que, se voltasse a encontrar-me com Pat Harvey, não fosse no exercício das minhas funções oficiais de médica legista chefe.

 

 Passou-se uma semana até voltar a ter notícias de alguém ligado ao caso Harvey-Cheney, cuja investigação, tanto quanto eu sabia, não chegara ainda a lado nenhum. Na segunda-feira, quando estava mergulhada em sangue até aos cotovelos, na morgue, Benton Wesley telefonou. Queria falar com Marino e comigo sem demora, e sugeriu que fôssemos lá jantar.

— Acho que Pat Harvey o anda a pôr nervoso - comentou Marino, à tardinha. Hesitantes gotas de chuva saltitavam do pára-brisas do carro dele, enquanto nos dirigíamos para casa de Wesley. - Eu, pessoalmente, estou-me nas tintas que ela fale com uma cigana, que telefone ao Billy Graham ou ao coelhinho da Páscoa.

— Hilda Ozimek não é nenhuma cigana - repliquei.

— Metade desses consultórios de cartomantes com uma mão pintada na tabuleta não passam de fachadas de prostituição.

— Eu sei - respondi, enfadada.

 Ele abriu o cinzeiro recordando-me o quanto era nojento o vício de fumar. Se conseguisse lá enfiar mais uma beata, seria um recorde do Guiness.

— Deduzo então que já tenha ouvido falar de Hilda Ozimek - prosseguiu ele.

— Na verdade pouco sei acerca dela, excepto que vive algures numa das Carolinas.

— Carolina do Sul.

— Ela está em casa dos Harvey?

— Já não - respondeu Marino, desligando os limpa pára-brisas quando o Sol espreitou por detrás das nuvens. - Porcaria de tempo que não se decide! Voltou ontem para a Carolina do Sul. Deslocou-se a Richmond num avião particular, dá para acreditar?

— Importa-se de me dizer como é que toda a gente sabe disso? Se fiquei admirada por Pat Harvey ter recorrido a uma vidente, fiquei ainda mais por ela ter divulgado isso.

— Boa pergunta. Estou apenas a contar-lhe o que o Benton me disse quando telefonou. Pelos vistos, a Bruxa Hilda descobriu alguma coisa na sua bola de cristal que deixou Mrs. Harvey apoquentadíssima.

— O quê, exactamente?

— Não faço a mínima ideia. O Benton não entrou em pormenores.

 Não perguntei mais nada pois falar de Benton Wesley e da sua mania dos segredinhos era uma coisa que me aborrecia. Em tempos tínhamos gostado de trabalhar juntos numa cooperação respeitosa e amigável. Agora achava-o distante, e receava bem que a forma como Wesley se comportava comigo tinha a ver com Mark. Quando Mark se afastou de mim, aceitando uma colocação no Colorado, afastara-se também de Quantico, onde desempenhara o importante cargo de director da Unidade de Treino Jurídico na Academia Nacional do FBI. Wesley perdera o colega e companheiro, e, na cabeça dele, se calhar isso fora por minha causa. O vínculo da amizade entre dois homens pode ser mais forte que o do casamento, e os irmãos de armas são mais fiéis uns aos outros que os amantes.

 Meia hora depois, Marino saiu da auto-estrada e não tardou que eu perdesse a conta às vezes que virou para a esquerda e para a direita por estradas rurais que nos iam levando cada vez mais para o interior. Embora no passado me tivesse encontrado muitas vezes com Wesley, fora sempre no meu gabinete ou no dele. Nunca tinha sido convidada para ir à sua casa, situada no pitoresco cenário da Virgínia agrícola e florestal, pastos rodeados de cercas brancas, e celeiros e casas afastados das estradas. Quando entrámos na zona dele, começámos a passar por longos acessos que iam dar a moradias grandes e modernas implantadas em enormes terrenos, com grandes carros europeus estacionados à frente de garagens para dois ou três.

— Não sabia que havia dormitórios de Washington tão perto de Richmond - comentei.

— O quê? Já cá vive há quatro ou cinco anos e nunca ouviu falar da invasão nortista?

— Quando se nasce em Miami, a Guerra Civil não é propriamente algo que nos venha à ideia - repliquei.

— Acredito. Que diabo, Miami nem sequer pertence a este país.

Qualquer terra onde se tenha de votar para saber se o inglês é ou não a língua oficial não pertence aos Estados Unidos.

 As piadinhas de Marino sobre a minha terra-natal já não eram novidade.

 Abrandando ao entrar numa estrada de cascalho, comentou:

— Nada má a choupana, hein? O FBI deve pagar um bocadinho mais que o município.

 A casa, construída com pedra da região, tinha um telhado de ripas, e janelas salientes. Roseiras bordejavam as alas frontal, leste e oeste, sombreadas por velhas magnólias e carvalhos. Ao sairmos do carro, comecei à procura de pistas que me elucidassem um pouco mais acerca da vida privada de Benton Wesley. Um aro de basquetebol fixo por cima da porta da garagem, e, junto de um monte de lenha tapada com um plástico, um cortador vermelho salpicado de relva cortada. Mais adiante, pude ver um espaçoso quintal impecavelmente ajardinado, com canteiros de flores, azáleas e árvores de fruto. Várias cadeiras juntas perto de um grelhador a gás, e imaginei Wesley e a mulher a tomar uma bebida e a grelhar bifes em morrinhentas noites de Verão.

 Marino tocou a campainha. Foi a mulher de Wesley que abriu a porta. Apresentou-se como Connie.

— O Ben foi só lá a cima por um instante - disse ela, sorrindo, ao conduzir-nos para uma sala de estar com janelas rasgadas, uma grande lareira e mobiliário rústico. Nunca tinha ouvido ninguém chamar "Ben" a Wesley. Nem nunca tinha visto a mulher dele. Devia andar a meio da casa dos quarenta, uma morena bonita com olhos cor de avelã, tão claros que eram quase amarelos, e feições vincadas muito parecidas com as do marido. Havia nela uma suavidade, uma serena discrição indiciadoras de força de carácter e meiguice. O reservado Benton Wesley que eu conhecia era, sem dúvida, um homem diferente em casa, e interroguei-me até que ponto estaria Connie ao corrente dos pormenores da profissão dele.

— Quer uma cerveja, Pete? - perguntou ela.

Ele instalou-se numa cadeira de baloiço.

— Parece que sou o motorista de serviço. É melhor ficar-me pelo café.

— Que posso oferecer-lhe, Kay?

— Pode ser café - respondi. - Se não lhe der maçada.

— Estou tão contente por finalmente a conhecer - acrescentou ela, com sinceridade. - Há anos que o Ben fala de si. Ele tem muita consideração por si.

— Obrigada. - O elogio desconcertou-me e o que ela disse a seguir foi um autêntico choque.

— Na última vez que estivemos com o Mark, obriguei-o a prometer que na próxima viagem dele a Quantico a trazia a jantar cá a casa.

— É muito simpático da sua parte - disse eu, conseguindo esboçar um sorriso. Pelos vistos, Wesley não lhe contava tudo, e saber que Mark estivera recentemente na Virgínia sem sequer me telefonar era algo que me custava muito aceitar.

 Quando ela nos deixou sós para ir à cozinha, Marino perguntou:

— Teve notícias dele recentemente?

— Denver é uma cidade maravilhosa - respondi, evasivamente.

— Uma vida lixada, se quer que lhe diga. Trazem-no para cá à socapa, enfiam com ele em Quantico durante uns tempos. A seguir, despacham-no para o Oeste a trabalhar em qualquer coisa de que não pode falar a ninguém. Mais uma razão para eu não querer nada com o FBI, por muito que me pagassem.

 Não fiz comentários.

 E ele continuou:

— Que se lixe a vida pessoal. É como eles dizem: "Se o Hoover quisesse que vocês tivessem mulher e filhos, tinha-os emitido juntamente com o crachá.”

— O tempo do Hoover já lá vai - retorqui, olhando para as árvores sacudidas pelo vento. Parecia que ia recomeçar a chover, desta vez a sério.

— Talvez. Mas uma pessoa continua a não ter vida própria.

— Não sei se algum de nós a terá, Marino.

— Isso é bem verdade - replicou ele entre dentes.

 Ouvimos passos e Wesley entrou na sala ainda de fato e gravata, calças cinzentas e camisa branca ligeiramente amarrotada. Parecia cansado e tenso quando nos perguntou se já nos tinham oferecido de beber.

— Connie está a tratar de nós - respondi.

 Sentando-se numa cadeira, deu uma olhadela ao relógio:

— Jantamos mais ou menos dentro de uma hora. - E entrelaçou as mãos no colo.

— Não tive quaisquer notícias do Morrell - arrancou Marino.

— Infelizmente não há dados novos. Nada de promissor - replicou Wesley.

— Nem eu pensei que houvesse. Só lhe estou a dizer que não tive notícias do Morrell.

 O rosto de Marino estava inexpressivo, mas percebia-se o seu ressentimento.

Embora ainda não me tivesse feito quaisquer queixas, pareceu-me que se sentia como um quarterback a passar a época sentado no banco.

Sempre gostara de criar uma boa ligação com detectives de outras jurisdições e isso era, para sermos francos, um dos pontos fortes do trabalho desenvolvido pelo VICAP na Virgínia. Depois tinham surgido os casos dos casais desaparecidos. Os investigadores já não falavam uns com os outros. Não falavam com Marino, e não falavam comigo.

— Os trabalhos locais foram suspensos - informou-o Wesley. — Não fomos mais além da área de serviço da direcção leste onde os cães perderam o rasto. A única novidade é que foi encontrado um recibo dentro do jipe. Parece que Deborah e Fred passaram por um Seven-Eleven depois de saírem de casa dos Harvey em Richmond. Compraram uma embalagem de seis latas de pepsi e mais umas coisas.

— Então isso foi verificado - disse Marino, a sondar.

— A empregada que estava de serviço na altura já foi localizada. Lembra-se de os ver entrar. Parece que foi um pouco antes das nove da noite.

— E estavam sozinhos? - perguntou Marino.

— Parece que sim. Não entrou mais ninguém com eles, e, se estava alguém à espera no jipe, não existem provas, com base no comportamento deles, indiciadoras de que houvesse algum problema.

— Onde fica esse Seven-Eleven? - perguntei.

— Mais ou menos oito quilómetros a oeste da área de serviço onde o jipe foi encontrado - respondeu Wesley.

— Disse que eles compraram mais umas coisas - insisti. - Pode ser mais exacto?

— Já lá ia - replicou Wesley. - Deborah Harvey comprou uma caixa de Tampax. Perguntou se podia ir à casa de banho e disseram-lhe que era contra as regras da casa. A empregada disse que os encaminhou para a área de serviço da direcção leste da Sessenta e Quatro.

— Onde o cão perdeu o rasto - comentou Marino franzindo o sobrolho como se estivesse baralhado. - E não onde o jipe foi encontrado.

— Exactamente - confirmou Wesley.

— E as pepsis que eles compraram? - perguntei. - Encontraram-nas?

— Estavam seis latas de Pepsi dentro da geleira quando a Polícia revistou o jipe.

 Fez uma pausa quando a mulher apareceu com os nossos cafés e um copo de chá gelado para ele. Serviu-nos delicadamente e em silêncio, e depois retirou-se. Connie Wesley já estava treinada para não se intrometer.

— Está a pensar que eles foram à área de serviço para Deborah resolver o problema dela e foi lá que encontraram o marado que os levou - aventurou Marino.

— Não sabemos o que lhes aconteceu - recordou-nos Wesley.

— Há que considerar uma série de hipóteses.

— Tais como? - Marino continuava de sobrolho franzido.

— Sequestro.

— Rapto? - Marino mostrou-se visivelmente céptico.

— Não se esqueça de quem Deborah é filha.

— Pois, eu sei. A Senhora Coragem, Dama de Ferro, que foi nomeada porque o Presidente quis dar um rebuçadozinho ao movimento feminista.

— Pete - replicou Wesley, calmamente -, não me parece justo reduzi-la a uma plutocrática figura de proa ou a um símbolo do poder das mulheres. Embora o cargo soe, aos nossos ouvidos, mais poderoso do que realmente é, porque nunca lhe foi dado estatuto governamental, Pat Harvey está directamente subordinada ao Presidente. É ela que coordena, aliás, todas as agências federais na luta contra os crimes da droga.

— Já para não falar do seu currículo quando pertenceu à Procuradoria-Geral - acrescentei eu. - Apoiou activamente os esforços da Casa Branca para tornar puníveis com a morte os homicídios e tentativas de homicídio relacionados com a droga. E foi bastante categórica nessa questão.

— Ela e uma centena de outros políticos - replicou Marino.

— Eu talvez ficasse mais preocupado se ela fosse uma dessas liberais que querem legalizar essa porcaria. Nesse caso já pensaria nalgum tipo da Maioria Moral de extrema-direita que acha que Deus lhe disse para raptar a filha de Pat Harvey.

— Ela tem sido muito agressiva - disse Wesley - conseguiu condenar alguns dos maiores traficantes, tem tido um papel decisivo na aprovação de leis importantes, suportou ameaças de morte e, há uns anos, até lhe puseram uma bomba no carro...

— Sim, um Jaguar sem ninguém lá dentro estacionado no clube de campo. E isso fez dela uma heroína - interrompeu Marino.

— O que eu quero dizer - prosseguiu Wesley, pacientemente -, é que ela já fez uns quantos inimigos, sobretudo no que se refere às acções desenvolvidas contra organizações humanitárias.

— Li qualquer coisa acerca disso - disse eu, tentando recordar-me dos pormenores.

— O que o público sabe, neste momento, é apenas o superficial - afirmou Wesley. - A última iniciativa dela foi contra a CAMCCD.

— Deve estar a brincar - comentou Marino. - Isso é o mesmo que dizer que a UNICEF é corrupta.

 Não lhes disse que todos os anos enviava dinheiro para a CAMCCD e que me considerava uma entusiástica apoiante;

 Wesley prosseguiu:

— Mrs. Harvey tem andado a recolher provas de que a CAMCCD tem servido de fachada a um cartel da droga e outras actividades ilegais na América Central.

— Bolas! - comentou Marino, abanando a cabeça. - Ainda bem que não dou dinheiro a ninguém, excepto à FOP.

— O desaparecimento de Deborah e Fred é esquisito porque parece estar relacionado com os dos outros quatro casais - afirmou Wesley. - Mas também pode ser propositado, alguém a tentar fazer-nos crer que existe uma ligação quando na realidade pode não existir.

Pode tratar-se de um serial killer. Pode tratar-se de outra coisa qualquer. Seja qual for o caso, temos é de trabalhar o mais discretamente possível.

— Então deduzo que agora estão à espera é de um pedido de resgate ou coisa assim, não? - perguntou Marino. - Uns rufias da América Central que devolvem Deborah à mãe por uma certa quantia.

— Não creio que tal venha a acontecer, Pete - opinou Wesley.

— Pode ser pior que isso. Pat Harvey irá depor numa audiência do Congresso no início do ano que vem - e, uma vez mais, está tudo relacionado com as organizações humanitárias ilegais. Neste momento não podia ter acontecido nada pior do que desaparecer-lhe a filha.

 Senti um nó no estômago só de pensar nisso. Em termos profissionais, Pat Harvey não parecia particularmente vulnerável, tendo adquirido uma reputação imaculada ao longo da sua carreira. Mas também era mãe. A segurança dos filhos seria, para ela, mais preciosa que a própria vida. A família era o seu calcanhar de Aquiles.

— Não podemos descartar a possibilidade de um rapto político - aventou Wesley, olhando para o quintal fustigado pelo vento.

 Wesley também tinha família. O seu pesadelo era o de que algum chefão do crime, algum assassino, alguém para quem o seu papel tivesse sido determinante na sua captura, pudesse deitar a mão à mulher ou aos filhos dele. Tinha um moderníssimo sistema de alarme em casa e um intercomunicador na porta da frente. Optara por viver numa propriedade isolada, na zona rural virginiana, sem o número de telefone na lista e nunca dar o endereço a jornalistas ou sequer à maioria dos seus colegas e conhecidos. Até hoje, nem eu sabia onde ele morava, mas pensava que a casa fosse mais perto de Quantico, talvez em McLean ou Alexandria.

 Wesley disse-me então:

— O Marino decerto falou-lhe dessa história com Hilda Ozimek.

 Acenei com a cabeça:

— É verdadeira?

— O FBI recorreu a ela algumas vezes, embora não gostemos de admiti-lo. O seu dom, poder, ou lá o que se queira chamar-lhe, é mesmo genuíno. Não me peça para explicar. Este tipo de fenómeno ultrapassa-me por completo. Mas posso dizer-lhe que numa ocasião ela ajudou-nos a localizar um avião nosso que se despenhara nas montanhas da Virgínia Ocidental. Também previu o assassinato do Sadat, e podíamos ter agido com mais um bocadinho de precaução quanto ao atentado ao Reagan, se tivéssemos dado mais ouvidos ao que ela disse.

— Não vai dizer-me que ela previu o atentado ao Reagan - retorquiu Marino.

— Quase ao pormenor do dia exacto. Não divulgámos o que ela disse. Bom, creio que não levámos a coisa a sério. Foi o nosso erro, por estranho que possa parecer. Desde então, sempre que ela diz alguma coisa, os Serviços Secretos querem ser informados.

— Os Serviços Secretos também lêem horóscopos? - perguntou Marino.

— Acho que Hilda Ozimek considera os horóscopos uma coisa muito genérica. E, tanto quanto eu saiba, ela não lê a sina - replicou Wesley, rispidamente.

— Como é que Mrs. Harvey soube da existência dela? - perguntei.

— Possivelmente por alguém dentro do Departamento de Justiça - respondeu Wesley. - Seja como for, mandou-a vir a Richmond, de avião, e pelos vistos ficou a saber uma data de coisas que conseguiram torná-la... bom, digamos apenas que considero Mrs. Harvey uma ameaça. Receio que as suas actividades acabem por causar mais danos que benefícios.

— O que é que essa vidente lhe disse, ao certo? - quis eu saber.

 Wesley fitou-me inexpressivamente e respondeu:

— Não posso dar pormenores. Por enquanto.

— Mas ela falou-lhe acerca disso? - insisti. - Foi a própria Pat Harvey que lhe disse que recorrera a uma vidente?

— Não estou autorizado a falar disso, Kay - replicou Wesley e ficámos os três calados por um instante.

 Encarei a possibilidade de Mrs. Harvey não ter divulgado essa informação a Wesley. Ele descobrira de outra forma qualquer.

— Não sei - acabou Marino por dizer. - Pode ser uma coisa aleatória. Não quero descartar essa hipótese.

— Não podemos descartar nada - retorquiu Wesley, com firmeza.

— A coisa já se arrasta há dois anos e meio, Benton - frisei.

— Pois é - disse Marino. - Uma data de tempo. Continuo a achar que é obra de algum marado com uma fixação por casais, uma espécie de inveja por ser um falhado, que não consegue estabelecer relações e odeia as pessoas que conseguem.

— Claro que é uma forte possibilidade. Alguém com a mania de andar para aí à procura de jovens casais. É capaz de frequentar miradouros isolados, áreas de serviço, as chafaricas onde a malta nova costuma juntar-se. Talvez faça uma data de ensaios antes de atacar, depois revive os homicídios durante meses até a necessidade de matar se tornar irresistível e surgir a oportunidade ideal. Pode ser coincidência - Deborah Harvey e Fred Cheney podem muito bem ter estado no sítio errado na hora errada.

— Que eu saiba, não existem provas de que algum dos casais estivesse dentro do carro, parado num sítio qualquer, a praticar o acto sexual quando o agressor lhes apareceu - lembrei.

 Wesley não deu resposta.

— E, tirando Deborah e Fred, os outros casais não pararam em nenhuma área de serviço nem em qualquer outra dessas "chafaricas,” como lhe chamou - prossegui. - Tudo indica que iam com um destino certo quando alguma coisa aconteceu que os fez sair da estrada e, das duas uma, deixaram alguém entrar no carro deles ou passaram eles para o veículo dessa pessoa.

— A teoria do polícia assassino - disse Marino, entre dentes.

— Não pense que nunca ouvi falar.

— Podia ser alguém a fazer-se passar por polícia - observou Wesley. - O que decerto justificaria que os casais encostassem à berma e, quem sabe, entrassem no carro de outra pessoa para uma normalíssima verificação do livrete ou coisa do género. Qualquer pessoa pode entrar numa loja de fardamentos e comprar uma luz intermitente, uma farda, um crachá, o que se quiser. O problema é que a luz intermitente chama a atenção. Os outros condutores reparam nela, e, se andar por perto um polícia autêntico, o mais provável é, no mínimo, encostar à berma para oferecer ajuda. Até ver, não há um único relatório de ninguém mencionando a realização de um auto-stop na zona e à hora a que esses miúdos desapareceram.

— Também é de estranhar que as carteiras e as bolsas tenham ficado dentro dos carros - à excepção de Deborah Harvey, cuja bolsa não foi encontrada - disse eu. - Se alguém disse aos jovens para entrarem num suposto veículo da Polícia por uma simples infracção de trânsito, por que é que não levaram com eles os livretes e as cartas de condução? São as primeiras coisas que um guarda pede para ver e quando entramos para o carro dele levamos esses artigos pessoais connosco.

— Podem não ter entrado no veículo dessa pessoa de livre vontade, Kay - lembrou Wesley. - Julgam que foram mandados parar por um agente da Polícia e quando o tipo chega ao pé da janela saca de uma arma e ordena-lhes que passem para o carro dele.

— Isso é arriscado como o caraças - retorquiu Marino. - Se fosse eu, engatava logo a primeira e pirava-me de lá com o prego a fundo. E também há sempre a hipótese de ir alguém a passar que veja alguma coisa. Bolas, como é que se obriga duas pessoas, com uma arma apontada, a entrar no carro em quatro, talvez cinco, ocasiões diferentes sem que ninguém que vá a passar dê por nada?

— Uma pergunta ainda melhor - acrescentou Wesley, olhando impavidamente para mim - é como é que se mata oito pessoas sem deixar nenhuma prova, nem sequer um arranhão num osso ou uma bala encontrada, algures, ao pé dos corpos?

— Estrangulamento, garrote ou degolação - respondi, e não era a primeira vez que ele me pressionava nesse ponto. - Os corpos estavam todos em estado de adiantada decomposição, Benton. E quero recordar-lhe que a teoria do polícia assassino implica que as vítimas tenham entrado para o veículo do agressor. Com base no rasto que os cães seguiram a semana passada, parece plausível que, se alguém fez mal a Deborah Harvey e Fred Cheney, o indivíduo tenha arrancado no jipe dela, abandonando-o na área de serviço e dirigindo-se depois, a pé, para o outro lado da Interstate.

 O rosto de Wesley dava mostras de cansaço. Já por várias vezes massajara as têmporas como se estivesse com dores de cabeça.

— O meu objectivo, ao falar convosco, é que talvez haja certos aspectos deste caso que exijam que actuemos com muito cuidado. Peço que haja, entre os três, uma comunicação franca e aberta. Impõe-se uma discrição absoluta. Nada de conversas com os jornalistas, divulgação de informações a ninguém, nem aos amigos íntimos, parentes, outros médicos legistas ou polícias. E nada de transmissões por rádio. - Olhou para nós. - Quero ser imediatamente informado se e quando os corpos de Deborah Harvey e Fred Cheney forem encontrados. E se Mrs. Harvey tentar contactar com algum de vocês, encaminhem-na para mim.

— Já me contactou - disse eu.

— Eu sei, Kay - replicou Wesley, sem olhar para mim.

 Não lhe perguntei como é que ele sabia, mas fiquei aborrecida e dei a percebê-lo.

— Dadas as circunstâncias, compreendo que tenha ido visitá-la - acrescentou ele. - Mas convém que não torne a acontecer, o melhor é não falar mais com ela acerca desses casos. Isso só traz mais problemas. Não só pelo facto de ela interferir na investigação. Quanto mais ela se envolver, mais poderá estar a colocar-se em perigo.

— O quê? Vindo a aparecer morta? - perguntou Marino, cepticamente.

— Mais provavelmente por vir a perder o controlo, a desatinar.

 O interesse de Wesley pelo bem-estar psicológico de Pat Harvey podia ser legítimo mas, a mim, pareceu-me pouco convincente. E não pude deixar de pensar, quando voltávamos para Richmond depois do jantar, que a razão pela qual Wesley quisera falar connosco não tinha nada a ver com a integridade física do casal desaparecido.

— Sinto que estou a ser manobrada - acabei por confessar, quando já se via a silhueta urbana de Richmond.

— Já somos dois - replicou Marino, irritado.

— Faz ideia do que realmente está a acontecer?

— Faço, pois - respondeu ele, carregando com o dedo no isqueiro do carro. - Tenho uma suspeita, sim senhor. Acho que o Fornicado Bureau de Investigação descobriu alguma coisa que vai manchar alguém importante. Estou cá com um palpite que anda alguém a fugir com o rabo à seringa e o Benton está entalado.

— Se ele está, nós também estamos.

— Nem mais, Doutora.

 Já lá iam três anos desde que Abby Turnbull aparecera à porta do meu gabinete com um braçado de íris e uma garrafa de um vinho requintado.

No dia em que viera despedir-se, tendo pedido a demissão do Times de Richmond. Ia trabalhar para Washington como repórter policial do Post. Prometemos manter-nos em contacto, como é costume as pessoas fazerem. Senti-me envergonhada por não conseguir lembrar-me de quando fora a última vez que lhe telefonara ou escrevera umas linhas.

— Quer que lhe passe a chamada? - perguntou-me Rose, a minha secretária. - Ou tomo nota do recado?

— Atendo - respondi. - Scarpetta - disse, pela força do hábito, sem conseguir evitar.

— Continua cá uma chefona - comentou a voz familiar.

— Abby! Desculpe. - Soltei uma risada. - A Rose disse-me que era você. Como sempre, estou metida em mais umas outras cinquenta coisas e acho que perdi por completo o jeito de falar normalmente ao telefone. Como está?

— Óptima. Se não levarmos em conta que o índice de homicídios em Washington triplicou desde que me mudei para cá.

— Coincidência, espero.

— Drogas. - Parecia nervosa. - Cocaína, crack e semi-automáticas. Sempre pensei que a ronda em Miami fosse a pior. Ou talvez em Nova Iorque. Mas é na nossa linda capital.

 Dei uma olhadela ao relógio de parede e apontei a hora num registo de chamadas. Outra vez a força do hábito. Estava tão acostumada a preencher registos de chamadas que pegava logo na prancheta, mesmo quando era um telefonema da minha cabeleireira.

— Queria saber se está livre para jantar hoje - disse ela.

— Em Washington? - perguntei, admirada.

— Por acaso estou em Richmond.

 Propus-lhe jantarmos em minha casa, arrumei a pasta e dei um pulo ao supermercado. Depois de muito pensar, empurrando o carrinho pelos corredores, escolhi dois bifes de lombo e os ingredientes para uma salada. A tarde estava bonita. A ideia de me encontrar com Abby deixou-me mais bem-disposta. Decidi que um serão passado com uma velha amiga era um bom pretexto para me aventurar de novo aos cozinhados ao ar livre.

 Quando cheguei a casa, comecei a trabalhar rapidamente, esmagando alhos para dentro de uma taça com vinho tinto e azeite.

Embora a minha mãe me tivesse alertado sempre para não "dar cabo de um bom bife", eu já enraizara os meus próprios dotes culinários.

A sério, eu fazia a melhor marinada da cidade e não havia pedaço de carne que escapasse a tal melhoramento. Depois de lavar a alface de Boston e pô-la a secar em papel de cozinha, cortei cogumelos, cebolas e o último tomate de Hanover às rodelas, esquivando-me ao grelhador.

Incapaz de protelar por mais tempo essa tarefa, saí então para o terraço de tijoleira.

 Por um momento, senti-me como uma fugitiva na minha própria casa, observando os canteiros de flores e as árvores do quintal.

Fui buscar o 409 e uma esponja e comecei a limpar vigorosamente os móveis de jardim, antes de passar um esfregão de palha de aço pelo grelhador, que já não usava desde aquela noite de sábado, em Maio, em que Mark e eu tínhamos estado juntos pela última vez.

Ataquei a gordura entranhada até me doerem os ombros. A mente invadida por imagens e vozes. A discutir. A ralhar. Depois, o remetimento a um silêncio furioso que acabara numa fogosa sessão de sexo.

 Quase não reconheci Abby quando ela me apareceu à porta pouco antes das seis e meia. Quando fazia a cobertura dos casos de polícia em Richmond, o cabelo pelos ombros, e já com umas madeixas grisalhas, dava-lhe um aspecto cansado, gasto, que a fazia parecer mais velha do que a quarentona que era. Agora já não tinha brancas. Usava o cabelo curto e habilmente penteado de forma a realçar as bonitas feições e os olhos que eram de dois tons de verde, irregularidade que eu sempre achara interessante. Vestia um fato de saia e casaco azul-escuro, de seda, e uma blusa cor de marfim, também de seda, e trazia na mão uma elegante pasta de cabedal preto.

— Está com um ar muito washingtoniano - comentei, dando-lhe um abraço.

— É um prazer vê-la, Kay.

 Lembrava-se de que eu gostava de uísque e comprara uma garrafa de Glenfiddich, que não esperámos para abrir. Depois, bebericámo-lo no terraço e falámos sem parar, enquanto eu acendia o grelhador sob um céu nublado de fins de Verão.

— Sim, em certos aspectos tenho saudades de Richmond - estava ela a dizer. - Washington é excitante mas um horror. Perdi a cabeça e comprei um Saab. Pois bem, já mo assaltaram uma vez, roubaram-me as jantes, escavacaram-me as portas todas. Pago cento e cinquenta dólares por mês para arrumar a porcaria do carro e olhe que é a quatro quarteirões do meu apartamento. Estacionar ao pé do Post é para esquecer. Vou a pé para o serviço e ando com um carro do jornal. Washington não é, decididamente, Richmond. - Um nadinha resolutamente de mais, acrescentou: - Mas não me arrependo de me ter ido embora.

— Continua a trabalhar à noite? - Os bifes estalejaram quando os pus em cima da grelha.

— Não. Dei a vez a outro. Os repórteres mais novos fazem a ronda à noite e eu dou seguimento durante o dia. Só me chamam à noite quando acontece alguma coisa realmente importante.

— Tenho acompanhado os seus artigos - disse-lhe. - Vendem o Post na cantina. Normalmente pego nele ao almoço.

— Nem sempre sei em que é que está a trabalhar - confessou ela -, mas estou ao corrente de algumas coisas.

— O que explica a sua presença em Richmond? - Alvitrei, enquanto pincelava a carne com a marinada.

— Sim. O caso Harvey.

 Não me pronunciei.

— O Marino não mudou nada.

— Falou com ele? - perguntei, erguendo os olhos para ela.

 Ela respondeu com um sorriso matreiro:

— Tentei falar. E com vários outros investigadores. E, claro, com Benton Wesley. Em resumo, nada feito.

— Bom, se lhe serve de consolo, Abby, comigo também ninguém tem falado. Isto só aqui entre nós.

— Toda esta conversa é só entre nós, Kay - afirmou ela, com ar sério. - Não vim visitá-la por querer arrancar-lhe informações para a minha reportagem. - Fez uma pausa. - Tenho conhecimento do que tem estado a acontecer aqui na Virgínia. Estava muito mais interessada nisso do que o meu editor-chefe até Deborah Harvey e o namorado terem desaparecido. Agora a coisa está a aquecer, e muito.

— Não me espanta.

— Não sei bem por onde hei-de começar. - Parecia insegura. - Há coisas que eu não contei a ninguém, Kay, mas tenho a sensação que ando a pisar um terreno que alguém não quer que eu pise.

— Não estou a perceber - repliquei, levando a mão ao copo.

— Nem eu, se calhar. Pergunto a mim mesma se não estarei a imaginar coisas.

— Está muito misteriosa, Abby. Explique-se, por favor.

 Respirando fundo enquanto tirava um cigarro, respondeu:

— Há muito tempo que ando interessada nas mortes desses casais. Fiz umas pesquisas e as reacções que obtive, desde o princípio, foram esquisitas. Ultrapassa a habitual relutância com que muitas vezes me deparo na Polícia. Falo no assunto e as pessoas desligam-me praticamente o telefone na cara. Então, em Junho passado, o FBI veio falar comigo.

— Desculpe? - Deixei de regar os bifes com a gordura e olhei para ela com ar carrancudo.

— Lembra-se daquele triplo homicídio em Williamsburg? Mãe, pai e filho mortos a tiro durante um assalto?

— Sim.

— Eu estava a trabalhar num artigo de fundo sobre isso e tive de ir de carro a Williamsburg. Como sabe, quando se sai da Sessenta e Quatro, se virarmos à direita vamos dar à Willamsburg Colonial, à William and Mary. Mas se virarmos à esquerda na rampa de saída, para aí a uns duzentos metros chega-se a um beco à entrada do Camp Peary. Ia distraída e enganei-me ao virar.

— Eu própria já fiz isso uma ou duas vezes - admiti.

 Ela prosseguiu:

— Aproximei-me da guarita do sentinela e expliquei que tinha virado para o lado errado. Que sítio mais horroroso! Jesus! Todas aquelas tabuletas enormes com coisas do género "Manobras de Treino Experimental das Forças Armadas" e "A Entrada Nestas Instalações Exige o Consentimento de Revista a Pessoas e Objectos Pessoais.”

Já estava à espera que me aparecesse uma equipa da Força de Intervenção com uns matulões vestidos de camuflado a saltar do meio dos arbustos para me porem dali para fora.

— Os seguranças da base não são uns tipos lá muito simpáticos - comentei eu, um tudo-nada divertida.

— Bom, não perdi tempo a pirar-me de lá - afirmou Abby - e para dizer a verdade esqueci a coisa, até que, passados quatro dias, apareceram dois agentes do FBI na recepção do Post à minha procura. Queriam saber o que é que eu tinha ido fazer a Williamsburg, por que é que fora até ao Camp Peary. É claro que a minha matrícula tinha sido filmada e por ela chegaram ao jornal. Foi esquisito.

— Por que estaria o FBI interessado? - perguntei. - O Camp Peary pertence à CIA.

— A CIA não tem poderes executivos nos Estados Unidos. Se calhar é por isso. Se calhar os parvalhões eram mas é da CIA a fazerem-se passar por agentes do FBI. Quem é que sabe que raio se passa quando se lida com essa gente da espionagem? Além disso, a CIA nunca admitiu que o Camp Peary fosse o seu principal campo de treino e os agentes nunca mencionaram a CIA quando me interrogaram. Mas eu sabia onde eles queriam chegar e eles sabiam que eu sabia.

— Que mais é que lhe perguntaram?

— No fundo, queriam saber se eu andava a escrever alguma coisa acerca do Camp Peary, talvez a tentar entrar lá à sorrelfa. Disse-lhes que se quisesse entrar à sorrelfa tinha sido um nadinha mais dissimulada em vez de ir com o carro mesmo até à guarita, e que embora na altura não estivesse a trabalhar em nada relacionado com, e cito, "a CIA," talvez agora devesse considerar tal hipótese.

— Calculo que tenham ficado danados.

— Os tipos nem sequer pestanejaram. Sabe como eles são.

— A CIA é paranóica, Abby, sobretudo com o Campo Peary. Os helicópteros da Polícia estadual e da emergência médica não estão autorizados a sobrevoá-lo. Ninguém viola aquele espaço aéreo ou passa além da guarita sem autorização superior.

— No entanto, você virou para o lado errado, como centenas de turistas - recordou-me ela -, e os tipos do FBI nunca vieram à sua procura, pois não?

— Não. Mas eu não trabalho no Post.

 Tirei os bifes do grelhador e ela veio atrás de mim para a cozinha.

Enquanto eu servia a salada e o vinho, continuou a falar:

— Desde que os agentes vieram falar comigo, têm acontecido umas coisas estranhas.

— Como, por exemplo?

— Acho que tenho os telefones sob escuta.

— Baseia-se em quê, para dizer isso?

— Começou pelo meu telefone de casa. Estava a conversar com alguém e ouvi qualquer coisa. Também aconteceu no serviço, sobretudo ultimamente. Passam-me uma chamada e fico com a impressão de que está mais alguém a ouvir. É difícil de explicar. - Nervosamente, redispôs os talheres dela. - Um ruído de estática, um silêncio ruidoso, ou lá como se queira descrever. Mas sente-se.

— Mais alguma coisa esquisita?

— Bom, houve, há umas semanas. Eu estava parada à frente de uma People's Drug Store na Connecticut, perto do Dupont Circle. Marcara lá um encontro com uma fonte, para as oito da noite, e depois íamos procurar um sítio qualquer sossegado para jantarmos e falar. Então vi o sujeito. Aspecto normal, de blusão e jeans, bom aspecto. Passou duas vezes à minha frente durante os quinze minutos que estive parada na esquina, e tornei a vê-lo de relance mais tarde, quando eu e o meu contacto íamos a entrar no restaurante. Sei que parece estupidez, mas tive a impressão de que estava a ser seguida.

— Já alguma vez o tinha visto?

 Ela abanou a cabeça.

— E depois disso tornou a vê-lo?

— Não - respondeu ela. - Mas há mais. A minha correspondência.

Moro num prédio de apartamentos. Todas as caixas do correio são cá em baixo, na entrada. às vezes recebo coisas com carimbos que não fazem sentido.

— Se a CIA andasse a mexer na sua correspondência, garanto-lhe que não dava por nada.

— Não estou a dizer que pareça terem andado a mexer nela. Mas já houve casos em que alguém - a minha mãe, o meu agente literário - jura que enviou alguma coisa num determinado dia e, quando eu finalmente a recebo, a data no carimbo não confere. Chega atrasada. Dias, uma semana, sei lá. - Fez uma pausa. - Se calhar devia pensar que é só a incompetência dos correios, mas, com tudo o que tem acontecido, comecei a achar estranho.

— Por que havia alguém de pôr o seu telefone sob escuta, andar a segui-la ou a mexer na sua correspondência? - Foi a pergunta crucial que lhe fiz.

— Se eu soubesse, talvez pudesse tomar uma atitude. - Finalmente lá se decidiu a comer. - Está óptimo. - Apesar do elogio, não parecia minimamente com fome. .

— Há alguma possibilidade - aventei, sem rodeios - de esse seu encontro com os tais agentes do FBI, mais o episódio no Camp Peary, a terem deixado paranóica?.

— Claro que me deixaram paranóica. Mas ouça, Kay, ainda se eu estivesse a escrever outro Veil ou a investigar um Watergate!.. Washington é um tiroteio atrás do outro, sempre a mesma merda. O único furo com interesse é o que está a acontecer aqui. Os homicídios, ou possíveis homicídios, desses casais. Começo a investigar e meto-me em problemas. Que me diz? .

— Não sei bem. - Encabulada, lembrei-me da atitude de Benton Wesley, das advertências que ele fizera na noite anterior.

— Sei dessa história dos sapatos desaparecidos - afirmou Abby.

 Eu não disse nada nem lhe dei a perceber a minha surpresa. Era um pormenor que, por enquanto, fora omitido aos jornalistas.

— Não é propriamente normal aparecerem oito pessoas mortas na mata, sem que os sapatos e as meias apareçam no local ou dentro dos carros abandonados. - Fitou-me com ar expectante.

— Abby - repliquei, serenamente, tornando a encher os copos -, sabe que não posso entrar em pormenores acerca desses casos. Nem mesmo consigo.

— Não sabe de nada que me possa dar uma ideia do que me espera?

— Para lhe dizer a verdade, se calhar sei menos que você.

— Isso já me diz alguma coisa. Os casos arrastam-se há dois anos e meio, e se calhar sabe menos que eu.

 Lembrei-me do que Marino dissera, de alguém andar a "fugir com o rabo à seringa". Pensei em Pat Harvey e na audiência do Congresso.

Comecei a ficar com medo.

 Abby comentou então:

— Pat Harvey é uma celebridade em Washington.

— Sei da importância dela.

— A coisa é mais séria do que o que se lê nos jornais, Kay. Em Washington, as festas para que se é convidado valem tanto como votos. Talvez mais. Quando se trata de incluir pessoas importantes na lista da elite dos convidados, Pat Harvey está ao mesmo nível que a Primeira Dama. Já correm boatos que nas próximas eleições presidenciais, Pat Harvey pode vir a concluir o que Geraldine Ferraro começou.

— Uma possível candidata a vice-presidente? - perguntei, com certas dúvidas.

— É o que se diz. Não acredito muito, mas se tivermos outro presidente republicano, eu, pessoalmente, acho que ela tem, no mínimo, boas hipóteses de ganhar um cargo no Gabinete ou se calhar até mesmo de se tornar a próxima Procuradora-Geral. Desde que mantenha a calma.

— Vai ter de fazer um esforço muito grande para se manter calma a passar por tudo isto.

— Os problemas pessoais podem decididamente arruinar uma carreira - concordou Abby.

— Podem se nós deixarmos. Mas se os ultrapassarmos, podem tornar-nos mais fortes, mais competentes.

— Eu sei - afirmou ela, de olhos postos no copo de vinho.

— Tenho a certeza que nunca teria saído de Richmond se não fosse o que aconteceu à Henna.

 Não muito depois de eu ter aceitado o cargo em Richmond, a irmã de Abby, Henna, fora assassinada. A tragédia uniu-nos, a mim e a Abby, profissionalmente. Tornámo-nos amigas. Meses depois, ela aceitou o lugar no Post.

— Ainda me custa cá voltar - disse Abby. - Esta é, aliás, a primeira vez que o faço. Hoje de manhã ainda passei à frente da minha antiga casa e estive quase tentada a ir bater à porta, ver se os actuais donos me deixavam entrar. Não sei porquê. Mas apeteceu-me entrar lá outra vez, ver se conseguia ir lá a cima ao quarto da Henna, substituir aquela sua última imagem, horrível, por algo mais inofensivo. Pareceu-me que não estava ninguém em casa. Se calhar foi melhor assim. Acho que não teria coragem para o fazer.

— Fá-lo-á, quando estiver realmente preparada para isso - comentei e apeteceu-me dizer-lhe que pensara utilizar o terraço nessa noite, dizer-lhe que até hoje não fora capaz de o fazer. Mas pareceu-me uma proeza tão insignificante e Abby não sabia nada a respeito de Mark.

— Falei com o pai de Fred Cheney, hoje ao fim da manhã - disse Abby. - Depois fui visitar os Harvey.

— Quando é que a sua reportagem sai?

— Provavelmente só na edição de fim-de-semana. Ainda tenho muito que investigar. O jornal quer um perfil de Fred e Deborah e tudo o mais que eu consiga descobrir quanto à investigação, sobretudo alguma relação com os outros quatro casais.

— Como lhe pareceram os Harvey quando falou com eles hoje?

— Bom, de facto não cheguei a falar com ele, com Bob. Mal cheguei, ele saiu com os filhos. Não vai lá muito à bola com os jornalistas e dá-me a ideia que ser "o marido de Pat Harvey" o irrita um bocado. Ele nunca dá entrevistas. - Empurrou para o lado a metade do bife que não comera e puxou dos cigarros. Fumava muito mais do que dantes. - Estou preocupada com Pat. Parece ter envelhecido dez anos nesta última semana. E foi estranho. Fiquei com a nítida sensação de que ela sabe alguma coisa, que já formulou a sua própria teoria quanto ao que aconteceu à filha. Acho que foi o que me deixou ainda mais curiosa. Só gostava de saber se terá recebido alguma ameaça, um bilhete, algum contacto de alguém que esteja envolvido. E recusa-se a contar isso a quem quer que seja, nem mesmo à Polícia.

— Não estou a vê-la a ser assim tão imprudente.

— Eu estou - retorquiu Abby. - Acho que se Pat Harvey achasse que havia alguma hipótese de Deborah voltar para casa sã e salva, nem a Deus ela diria o que se passa.

 Pus-me de pé para levantar a mesa.

— Acho melhor fazer café - sugeriu Abby. - Não quero adormecer ao volante.

— Quando é que precisa de voltar? - perguntei, começando a colocar a louça na máquina.

— Daqui a bocado. Ainda tenho de ir a uns sítios antes de voltar para Washington.

 Olhei-a de soslaio enquanto deitava água para dentro do bule do café.

 E ela explicou-se:

— A um Seven-Eleven onde Deborah e Fred pararam antes de saírem de Richmond...

— Como é que soube disso? - interrompi-a.

— Consegui arrancar essa informação ao homem do reboque que estava na área de serviço à espera de rebocar o jipe. Ele ouviu os polícias a falarem de um recibo que encontraram num saco de papel amachucado. Deu-me um trabalhão dos diabos, mas consegui descobrir qual era o Seven-Eleven e que empregada é que estava de serviço quando Deborah e Fred por lá passaram. É uma tal Ellen Jordan e faz o turno das quatro à meia noite, de segunda a sexta.

 Eu gostava tanto de Abby que me era fácil esquecer que por algum motivo ganhara ela tantos prémios de jornalismo de investigação.

— Que espera descobrir através dessa empregada?

— Iniciativas como esta, Kay, são como procurar o brinde numa caixa de bolachas. Não sei as respostas - aliás, nem sequer sei as perguntas - enquanto não começo a escavar.

— Acho que não devia andar por aí sozinha a estas horas da noite, Abby.

— Se quiser servir de copiloto - replicou ela, divertida -, eu adorava ter companhia.

— Não me parece boa ideia.

— Acho que tem razão - concordou ela.

Mesmo assim, decidi fazê-lo.

 

 O letreiro iluminado via-se a uns oitocentos metros antes de chegarmos à saída da estrada, um "7-Eleven" a brilhar na escuridão. A sua críptica mensagem, encarnada e verde, há muito que deixara de significar o que dizia, pois todos os 7-Eleven do meu conhecimento estavam abertos vinte e quatro horas por dia. Já estava a ouvir o que diria o meu pai.

 "E foi por isto que o teu avô trocou Verona?”

 Era o seu comentário favorito quando lia o jornal da manhã, abanando desaprovadoramente a cabeça. Era o que ele dizia quando alguém, com um sotaque da Geórgia, nos tratava como se não fôssemos "verdadeiros Americanos". Era o que o meu pai resmungava quando ouvia contar histórias de desonestidade, "passa" e divórcio.

Quando eu era miúda, em Miami, ele tinha uma pequena mercearia de bairro, e era à mesa do jantar, todas as noites, que ele falava do seu dia e nos perguntava pelos nossos. A sua presença na minha vida deixara de existir. Morreu quando eu tinha doze anos. Mas tinha a certeza que se ainda fosse vivo não havia de gostar nada das lojas de conveniência. As noites, os domingos e feriados não eram para se trabalhar atrás de um balcão ou comer um burrito ao volante. Eram horas para se passar com a família.

 Abby tornou a olhar pelo retrovisor ao virar para a rampa de saída.

Menos de trinta metros adiante, arrumou no parque de estacionamento do 7-Eleven e percebi que se sentia aliviada. Para além de um Volkswagen junto à porta dupla envidraçada, parecíamos ser as únicas clientes.

— A costa está livre, até ver - comentou ela, desligando o motor.

— Não passou um único carro-patrulha, civil ou dos outros, nos últimos trinta e dois quilómetros.

— Pelo menos que nós saibamos - observei.

 A noite estava nublada, sem uma única estrela no céu, o ar era quente e húmido. Um rapaz, com uma embalagem de doze latas de cerveja na mão, passou por nós ao entrarmos na frescura refrigerada dos poisos favoritos da América, onde, a um canto, faiscavam as luzes fortes dos jogos de vídeo, e, por detrás do balcão, uma jovem repunha o stock de cigarros numa prateleira. Não parecia ter mais de dezoito anos, o cabelo louro oxigenado a tufar-se numa aura de caracóis em volta da cabeça, o corpo franzino enfiado numa túnica cor-de-laranja e branca, e nuns jeans pretos e justos. Tinha as unhas compridas e pintadas de vermelho vivo, e, quando se voltou para nos atender, fiquei impressionada com a dureza da sua expressão. Era como se tivesse ignorado a bicicleta de rodinhas passando logo para uma Harley-Davidson.

— Ellen Jordan? - perguntou Abby.

 A empregada pareceu surpreendida, depois desconfiada:

— Sim? Quem é que quer saber?

— Abby Turnbull. - Abby estendeu-lhe a mão de uma forma muito profissional. Ellen Jordan apertou-lha frouxamente. - De Washington - acrescentou. - Do Post.

— Que Post?

— O Washington Post - precisou Abby.

— Oh! - Mostrou-se logo enfadada. - Já cá o temos. Está ali adiante. - E apontou para um expositor semivazio junto à porta.

 Seguiu-se uma pausa de constrangido silêncio.

— Sou jornalista do Post - explicou Abby.

 O olhar de Ellen iluminou-se:

— A sério?

— A sério. Gostaria de fazer-lhe umas perguntas.

— Para alguma reportagem?

— Sim. Estou a fazer uma reportagem, Ellen. E preciso mesmo da sua ajuda.

— Que quer saber? - Encostou-se ao balcão, a súbita importância a reflectir-se-lhe na expressão séria.

— É sobre o casal que veio cá na passada sexta-feira à noite. Um rapaz e uma rapariga. Mais ou menos da sua idade. Entraram aqui pouco depois das nove, compraram uma embalagem de seis latas de Pepsi e mais umas coisas.

— Ah, os que desapareceram! - disse ela, agora animada. - Olhe, eu nunca lhes devia ter dito para irem àquela área de serviço. Mas uma das primeiras coisas que nos dizem quando nos contratam é que ninguém pode utilizar a casa de banho. Eu, por mim, não me importava, principalmente quando a rapariga e o rapaz aqui entraram. Tive tanta pena dela! Quer dizer, percebi o problema.

— Tenho a certeza que sim - afirmou Abby, num tom compreensivo.

— Foi um bocado embaraçoso - continuou Ellen. - Quando ela comprou o Tampax e me perguntou se podia ir à casa de banho, com o namorado ali mesmo ao lado. Caramba, agora tenho mesmo pena de não a ter deixado ir.

— Como sabe que ele era namorado dela? - perguntou Abby.

 Por um instante, Ellen pareceu ficar baralhada.

— Bom, calculei que fosse. Entraram aqui juntos, pareciam gostar um do outro. A gente sabe como as pessoas se comportam. Percebe-se, se prestarmos atenção. E eu aqui sozinha, estas horas todas, tornei-me muito boa a avaliar as pessoas. Os casados, por exemplo, topo-os sempre, em viagem, putos dentro do carro. A maioria dos que aqui entram eu vejo logo se vêm cansados e chateados um com o outro. Mas os dois de que me falou, eram mesmo amorosos um para o outro.

— Disseram-lhe mais alguma coisa, para além de precisarem de ir a um lavabo?

— Conversámos um bocado enquanto eu registava as coisas - respondeu Ellen. - Nada de especial. Eu disse o costume, "Está uma bela noite para viajar" e "Para onde é que vão?”

— E eles disseram-lhe? - perguntou Abby, tomando apontamentos.

— Hen?

 Abby levantou os olhos para olhar para ela:

— Eles disseram-lhe para onde iam?

— Disseram que iam para a praia. Lembro-me disso porque disse-lhes que estavam cheios de sorte. Parece que sempre que alguém vai para sítios divertidos eu fico sempre aqui encafuada. Ainda por cima eu e o meu namorado tínhamos acabado tudo. Eu estava chateada, percebe?

— Percebo. - Abby sorriu carinhosamente. - Fale-me mais acerca do comportamento deles, Ellen. Alguma coisa que lhe tenha chamado a atenção.

 Ela pensou e depois respondeu:

— Hum-hum. Eram mesmo simpáticos mas estavam com pressa. Calculo que por ela querer ir depressa a uma casa de banho. O que eu mais me lembro é que eram muito bem-educados. Estão sempre a entrar aqui pessoas que querem ir à casa de banho e depois ficam furiosas quando eu lhes digo que não podem.

— Disse que os aconselhou a irem à área de serviço - recordou Abby. - Lembra-se exactamente do que lhes disse?

— Claro. Disse-lhes que havia uma, não muito longe daqui. Era só voltar a entrar na Sessenta-e-Quatro no sentido leste - contou ela - e em cinco, dez minutos, punham-se lá, não havia que enganar.

— Estava cá mais alguém quando lhes disse isso?

— Havia pessoas a entrar e a sair. Muito movimento na estrada.

— Pensou por um minuto. - Sei que estava um miúdo lá atrás a jogar Pac Man. Um chavaleco que passa aqui a vida.

— Mais alguém que estivesse ao pé do balcão ao mesmo tempo que o casal? - perguntou Abby.

— Havia um sujeito. Entrou logo a seguir ao casal. Andou a ver as revistas e acabou por comprar um café.

— Isso enquanto esteve a falar com o casal? - Implacável, Abby não deixava escapar nenhum pormenor.

— Sim. Lembro-me porque ele foi muito simpático e disse qualquer coisa ao rapaz, tipo que o jipe era um bom carro. O casal vinha num jipe encarnado. Um desses modelos caros. Ficou parado mesmo à frente das portas.

— Que aconteceu depois?

 Ellen sentou-se no banco alto à frente da caixa registadora.

— Bom, foi praticamente só isso. Entraram mais alguns clientes.

O tipo do café saiu, e depois, passados talvez uns cinco minutos, o casal também saiu.

— Mas o homem do café... ainda estava ao pé do balcão quando explicou ao casal onde ficava a área de serviço? - quis Abby saber.

 A moça franziu o sobrolho:

— Já não me lembro bem. Mas acho que ele estava a ver as revistas quando eu lhes disse isso. Depois parece que a rapariga foi por um dos corredores à procura do que precisava, e voltou para o balcão mesmo na altura em que o homem estava a pagar o café.

— Disse que o casal tinha saído para aí uns cinco minutos depois do homem - prosseguiu Abby. - Que estiveram eles a fazer?

— Bom, aquilo levou uns minutos - respondeu ela. - A rapariga pôs uma embalagem de seis latas de Coors em cima do balcão e, sabe como é, tive de lhe pedir a identificação, vi que ela ainda não tinha vinte e um anos, por isso não podia vender-lhe a cerveja. Ela foi mesmo porreira, até se riu. Quer dizer, rimo-nos todos com aquilo. Isso não me chateia nada. Ora, eu também já tinha feito a mesma coisa. Bom, por fim ela lá acabou por comprar as seis latas de refrigerante. Depois foram-se embora.

— Consegue descrever esse sujeito, o que comprou o café?

— Não lá muito bem.

— Branco ou preto?

— Branco. Pareceu-me moreno. Cabelo preto, talvez castanho.

Para aí com uns vinte e muitos, trinta e poucos.

— Alto, baixo, gordo, magro.

 Ellen olhou fixamente para o fundo da loja:

— Estatura média, talvez. Tipo bem constituído mas não muito alto, acho eu.

— Barba ou bigode?

— Acho que não...Espere aí. - O seu rosto iluminou-se: - Tinha o cabelo curto. Pois é! Olhe, até me lembro de ter achado que parecia um tropa. Por estas bandas há muitos tropas, sempre a entrar aqui quando vão para Tidewater.

— Que mais é que a levou a pensar que ele fosse tropa? - perguntou Abby.

— Não sei. Mas talvez fosse só pela sua maneira de se portar. Não sei explicar bem, mas quando já se viu muitos tropas uma pessoa começa a topá-los bem. Têm qualquer coisa de especial. Como as tatuagens, por exemplo. Há uma data deles com tatuagens.

— Esse homem tinha alguma tatuagem?

 O seu franzir do sobrolho transformou-se em desapontamento:

— Não reparei.

— E quanto à sua forma de vestir?

— Hmmm....

— Fato e gravata? - perguntou Abby.

— Bom, de fato e gravata não estava. Nada de especial. Talvez jeans ou calças escuras. Era capaz de trazer um blusão de fecho de correr... Olhe, não sei mesmo.

— Lembra-se, por acaso, que carro trazia?

— Não - respondeu ela com firmeza. - Não cheguei a ver o carro dele. Deve ter estacionado na parte lateral.

— Contou isso tudo à Polícia quando eles vieram falar consigo, Ellen?

— Sim. - Estava a olhar para o parque de estacionamento da frente, onde acabara de parar um furgão. - Disse-lhes praticamente tudo o que lhe disse a si. Excepto algumas coisas que na altura não consegui lembrar-me.

 Quando dois adolescentes entraram intempestivamente e se dirigiram de imediato para os jogos de vídeo, Ellen tornou a concentrar a sua atenção em nós. Percebi que ela não tinha mais nada a dizer e que começava a pensar se não teria falado de mais.

 Pelos vistos, Abby estava a receber a mesma mensagem.

— Obrigada, Ellen - disse-lhe afastando-se do balcão. - A reportagem sai no sábado ou no domingo. Não se esqueça.

 E saímos porta fora.

— Está na altura de nos pormos a andar daqui para fora antes que ela desate aos berros que era tudo off the record.

— Duvido que saiba sequer o que isso quer dizer - repliquei.

— O que me admira - comentou Abby - é a Polícia não lhe ter dito para ficar de bico calado.

— Talvez tenham dito, mas não resistiu à hipótese de ver o nome dela no jornal.

 A área de serviço da I-64 aconselhada pela empregada a Deborah e Fred estava completamente deserta quando lá entrámos.

 Abby estacionou à frente, junto a um renque de máquinas de venda de jornais, e durante uns minutos permanecemos caladas. Um pequeno azevinheiro plantado mesmo à nossa frente tornara-se prateado à luz dos faróis, e os candeeiros eram borrões de luz branca no nevoeiro. Não me estava a imaginar a sair do carro para ir sozinha à casa de banho.

— Jesus, só Isto mete medo - comentou Abby baixinho.- gostava de saber se está sempre assim tão deserto à terça-feira à noite ou se foram as notícias dos jornais que afugentaram as pessoas.

— Se calhar ambas as coisas - respondi. - Mas pode ter a certeza de que não estava deserta na noite de sexta-feira em que Deborah e Fred aqui pararam.

— Devem ter estacionado mais ou menos no sítio onde nós estamos - disse ela, com ar pensativo. - Isto devia estar cheio de gente, dado que era o princípio do fim-de-semana do Labor Day. Se foi aqui que encontraram o safado, ele devia ser mesmo um grande filho da puta.

— Se isto estava cheio de gente - disse eu -, também devia estar cheio de carros.

— E então? - Perguntou ela acendendo um cigarro.

— Pressupondo que foi aqui que Deborah e Fred encontraram alguém, e pressupondo que, por qualquer razão, o deixaram entrar para o jipe, que aconteceu ao carro dele? Veio a pé?

— Não é lá muito provável - respondeu ela.

— Se veio de carro - prossegui - e o deixou aqui parado, a coisa não seria lá muito fácil, a menos que houvesse muito movimento.

— Percebo onde quer chegar. Se o carro dele fosse o único parado neste sítio, e aqui ficasse até altas horas da noite, havia sempre a hipótese de um polícia o ver e participar a ocorrência.

— O que é um grande risco a correr, quando se tenciona cometer um crime - acrescentei.

 Ela reflectiu por um instante.

— Sabe, o que me intriga é que nesta história toda há uma parte de acaso e outra não. Foi por acaso que Deborah e Fred pararam na área de serviço. Se de facto encontraram aqui alguém com más intenções - ou até mesmo dentro do 7-Eleven, como o tipo que comprou o café -, parece que foi por acaso. Mas há, também, premeditação. Planeamento. Se alguém os apanhou, pelos vistos sabia o que estava a fazer.

 Não fiz comentários.

 Estava a pensar no que Wesley tinha dito. Uma ligação política.

Ou um agressor que fez uma data de ensaios. Partindo do princípio de que o casal não planeara o seu próprio desaparecimento, o desfecho só podia ser trágico.

 Abby pôs o carro a trabalhar.

 Só quando já estávamos outra vez na Interstate, e a seguir em velocidade de cruzeiro, é que ela tornou a falar:

— Acha que eles estão mortos, não acha?

— Está a pedir-me uma citação?

— Não, Kay, não estou a pedir nenhuma citação. Quer saber a verdade? Neste momento estou-me nas tintas para este caso. Só quero saber que diabo se está a passar.

— Porque está preocupada consigo mesma.

— E você não estaria?

— Sim. Se achasse que tinha os telefones sob escuta e que andava a ser seguida, preocupava-me, Abby. E por falar em preocupação, já é tarde. Está exausta. É um disparate voltar de carro esta noite para Washington.

 Lançou-me um olhar de soslaio.

—Tenho muito espaço lá em casa. Pode ir amanhã logo de manhã.

— Só se tiver uma escova de dentes a mais, alguma coisa que eu possa usar para dormir e não se importar que eu lhe despeje a garrafeira.

 Recostando-me no banco, fechei os olhos e afirmei:

— Pode embebedar-se, se quiser. Aliás, eu se calhar até lhe faço companhia.

 Quando entrámos em minha casa, à meia-noite, o telefone começou a tocar e atendi antes do gravador.

— Kay?

 De início, não reconheci a voz porque não estava à espera. Depois o coração desatou a bater com mais força.

— Olá, Mark - respondi.

— Desculpa telefonar tão tarde...

 Não consegui evitar a tensão na voz ao interrompê-lo:

— Tenho uma visita. Lembras-te com certeza de me ouvir falar na minha amiga Abby Turnbull, do Post? Fica cá esta noite. Estamos divertidíssimas, a pôr a conversa em dia.

 Mark não fez comentários. Passado um instante, sugeriu:

— Talvez seja melhor ligares-me tu quando te der mais jeito.

 Quando desliguei, Abby olhava-me fixamente, assustada com a minha nítida agitação.

— Quem diabo era, Kay?

 Durante os meus primeiros meses em Georgetown, andei tão embrenhada nas aulas de Direito, e senti-me tão desenraizada, que mantive os outros à distância, física e emocionalmente. Já formada em Medicina, era uma italiana da classe média, oriunda de Miami, com muito pouco traquejo nas melhores coisas da vida. De repente dei por mim no meio dos bonitos e famosos, e, embora não me envergonhasse das minhas origens, senti-me socialmente inferior.

 Mark James era um dos privilegiados, um indivíduo alto e elegante, seguro de si mesmo e reservado. Reparei nele muito antes de saber como se chamava. Conhecemo-nos na biblioteca de Direito, entre prateleiras de livros debilmente iluminadas, e nunca esquecerei o interesse nos seus olhos verdes quando começámos a falar de um delito civil qualquer de que já não me recordo. Acabámos por ir beber um café a um bar e conversar até de manhã. Depois disso, víamo-nos quase todos os dias.

 Ao que parece, durante um ano não dormimos, pois, mesmo quando passávamos a noite juntos, o sexo não nos permitia muitas horas de descanso. Por mais que nos satisfizéssemos, nunca era o bastante, e tolamente, tipicamente, convenci-me de que jamais nos separaríamos. Recusei-me a aceitar a frieza do desapontamento que se instalou na relação durante o nosso segundo ano. Quando me formei, noiva de outra pessoa, já me convencera de que tinha esquecido Mark até ele reaparecer misteriosamente, não muito tempo depois.

— Talvez o Tony fosse um porto seguro - comentou Abby, referindo-se ao meu ex-marido, enquanto bebíamos conhaque na cozinha.

— O Tony era prático - repliquei. - Ou parecia, ao princípio.

— É normal. Isso já me aconteceu, na minha patética vida amorosa.

— Pegou no balão. - Dá-me um arroubo de paixão, e sabe Deus que já foram alguns, e nunca duram muito. Mas, quando a coisa acaba, fico como um soldado ferido, voltando para casa a coxear. Acabo nos braços de um tipo qualquer, com o carisma de um boémio que promete cuidar de mim.

— É o conto de fadas.

— Saidinho dos Grimm - concordou ela, amargamente. - Dizem que tomam conta de nós, mas o que eles querem é que a gente lhes faça o jantar e lhes lave as cuecas.

— Ora aí está uma descrição exacta do Tony - comentei.

— Que é feito dele?

— Já perdi a conta aos anos que não o vejo.

— No mínimo, as pessoas deviam ficar amigas.

— Ele não quis - informei.

— Ainda pensa nele?

— Não se consegue viver seis anos com uma pessoa e não pensar nela. O que não significa que eu queira estar com o Tony. Mas há uma parte de mim mesma que sempre se preocupa com ele, que espera que ele esteja bem.

— Estava apaixonada por ele quando casou?

— Achei que sim.

— É possível - disse Abby -, mas quer-me parecer que nunca deixou de gostar do Mark.

 Servi novas doses. De manhã íamos estar as duas com uma bela duma ressaca.

— Acho incrível terem-se juntado depois de tantos anos - prosseguiu ela. - E, apesar do que aconteceu, palpita-me que o Mark também nunca deixou de gostar de si.

 Quando ele tornou a entrar na minha vida, foi como se tivéssemos vivido em países diferentes durante os anos de separação, indecifráveis para cada um de nós os idiomas dos nossos passados. Só comunicávamos abertamente às escuras. Ele contou-me que tinha casado e que a mulher morrera num acidente de viação. Mais tarde, descobri que ele abandonara a carreira de advogado e entrara para o FBI. Quando estávamos juntos era uma festa, os dias mais maravilhosos que eu já vivera desde o nosso primeiro ano em Georgetown.

Claro que não durou muito. A História tem o péssimo hábito de se repetir.

— Acho que ele não teve culpa de ser transferido para Denver - estava Abby a dizer.

— Fez uma opção - respondi - e eu também.

— Não quis ir com ele?

— O motivo por que pediu a transferência fui eu. Queria uma separação.

— E muda-se para tão longe? Isso é uma atitude extremista.

— Quando as pessoas estão furiosas, o seu comportamento pode ser extremista. Podem cometer grandes erros.

— E se calhar é teimoso de mais para admitir que cometeu um erro - disse ela.

— Ele é teimoso e eu também sou. Nenhum de nós merece louvores pela capacidade de cedência. Eu tenho a minha carreira e ele tem a sua. Ele estava em Quantico e eu estava aqui - a coisa arrastou-se e nem eu fazia tenções de sair de Richmond nem ele de se mudar para cá. Depois começou a encarar a hipótese de voltar à acção, pedir transferência para uma delegação algures ou aceitar um cargo na Sede, em Washington, e assim foi continuando até parecer que não fazíamos mais nada que discutir. - Fiz uma pausa, esforçando-me por explicar o que não tinha explicação. - Talvez eu seja inflexível.

— Não se pode andar com alguém e continuar a viver como sempre se fez, Kay.

 Quantas vezes eu e Mark tínhamos dito isso um ao outro? Até chegarmos ao ponto em que raramente dizíamos algo de novo.

— Valerá a pena pagar, pagarem ambos, um preço tão alto para manterem a vossa independência?

 Havia alturas em que eu não tinha assim tanta certeza disso, mas não o confessei a Abby.

 Ela acendeu um cigarro e estendeu a mão para a garrafa.

— Alguma vez tentaram o aconselhamento matrimonial?

— Não.

 O que eu lhe disse não era inteiramente verdade. Juntos nunca recorrêramos a isso, mas eu tinha ido sozinha e ainda andava numa psiquiatra, se bem que mais espaçadamente, agora.

— Ele conhece o Benton Wesley? - perguntou Abby.

— Claro. Foi o Benton que o treinou na Academia muito antes de eu vir para a Virgínia - respondi. - São grandes amigos.

— Em que é que o Mark trabalha, em Denver?

— Não faço ideia. Uma missão especial qualquer.

— Ele sabe destes casos? Dos casais?

— Calculo que sim. - Após uma pausa, perguntei-lhe: - Porquê?

— Sei lá. Mas tenha cuidado com o que diz ao Mark.

— Esta noite foi a primeira vez que telefonou, em muitos meses.

É óbvio que significo muito pouco para ele.

 Abby levantou-se e indiquei-lhe o caminho para o quarto dela.

 Enquanto lhe dava uma camisa de dormir e lhe mostrava a casa de banho, ela prosseguiu, tornando-se visíveis os efeitos do álcool:

— Ele vai tornar a ligar. Ou liga a Kay para ele. Por isso tenha cuidado.

— Não tenciono ligar-lhe - respondi.

— Então é igualzinha a ele - comentou ela. - Ambos casmurros e intolerantes como o caraças. É assim que eu vejo a coisa, quer você goste ou não.

— Tenho de estar no serviço às oito - retorqui. - Prometo que a acordo às sete.

 Deu-me um abraço de boas-noites e um beijinho na bochecha.

 No fim-de-semana seguinte saí de casa cedo e comprei o Post mas não vinha lá a reportagem de Abby. Não saiu no outro fim-de-semana, nem no outro a seguir, e achei estranho. Abby estaria bem?

Por que não soubera mais nada dela desde a sua visita a Richmond?

 Em finais de Outubro telefonei para a redacção do Post.

— Desculpe - disse um sujeito que parecia nervoso -, mas a Abby está de licença. Só volta em Agosto próximo.

— Ainda vive aí? - perguntei, estupefacta.

— Não faço ideia.

 Desligando, folheei a minha agenda dos telefones e liguei para casa dela. Atendeu-me um gravador. Abby não retribuiu esse telefonema nem nenhum dos outros que fiz durante as semanas que se seguiram.

Só pouco antes do Natal é que comecei a perceber o que se passava.

Na segunda-feira, 6 de Janeiro, quando cheguei a casa tinha uma carta na caixa do correio. Não trazia remetente mas a letra era inconfundível.

Abrindo o envelope, descobri lá dentro uma folha de bloco amarelo com a frase "Para Tua Informação. Mark" garatujada e um pequeno artigo retirado de uma edição recente do New York Times.

Abby Turnbull, li eu incrédula, assinara um contrato para escrever um livro sobre o desaparecimento de Fred Cheney e Deborah Harvey e as "assustadoras semelhanças" entre o caso deles e os dos outros quatro casais da Virgínia que haviam desaparecido acabando por ser encontrados mortos.

 Abby avisara-me para ter cuidado com Mark e agora era ele que me avisava para ter cuidado com ela. Ou haveria algum outro motivo para ele me enviar o artigo?

 Durante muito tempo fiquei sentada na cozinha, tentada a deixar uma mensagem furiosa no gravador de chamadas de Abby ou ligar para Mark. Finalmente, decidi telefonar a Anna, a minha psiquiatra.

— Sente-se traída? - perguntou-me ela, quando consegui ligar-lhe.

— No mínimo, Anna.

— Sabia que Abby estava a escrever um artigo para um jornal. Escrever um livro é assim uma coisa tão má?

— Ela nunca me disse que andava a escrever um livro - respondi.

— Lá por se sentir traída não significa que realmente o tenha sido - afirmou Anna. - É a sua opinião, neste momento, Kay. Vai ter de esperar para ver. E quanto ao motivo por que Mark lhe enviou o artigo, também vai ter de esperar para ver. Se calhar foi uma tentativa de aproximação.

— Não sei se deveria falar com um advogado - disse eu. - A ver se há alguma coisa que eu possa fazer para me proteger. Não faço ideia do que possa vir a aparecer no livro de Abby.

— Acho que seria mais sensato acreditar na palavra dela - aconselhou Anna. - Disse que as vossas conversas eram confidenciais.

Ela já alguma vez a traiu?

— Não.

— Então sugiro-lhe que lhe dê uma chance. Dê-lhe uma oportunidade para se explicar. Além disso, - acrescentou - não sei que espécie de livro poderá ela escrever. Não houve detenções, e não se sabe ao certo o que sucedeu ao casal. Ainda têm de aparecer.

 A amarga ironia daquele comentário atingir-me-ia exactamente duas semanas depois, a 20 de Janeiro, encontrando-me em solo governamental à espera para ver o que acontecia quando um projecto de lei autorizando o Departamento de Ciência Forense a criar um banco de dados de ADN fosse apresentado à Assembleia Geral da Virgínia.

 Regressava eu do snack-bar, de café na mão, quando avistei Pat Harvey, elegante num fato de caxemira azul, pasta de cabedal debaixo do braço. Estava no corredor a falar com vários delegados, e, olhando de relance na minha direcção, despediu-se deles.

— Doutora Scarpetta - disse, estendendo a mão. Parecia aliviada ao ver-me, mas cansada e tensa.

 Achei estranho que não estivesse em Washington, e ela respondeu logo à minha pergunta não formulada:

— Pediram-me para vir apoiar o projecto de lei Um-trinta do Senado - disse, sorrindo nervosamente. - Portanto, acho que hoje estamos aqui as duas pela mesma razão.

— Obrigada. Precisamos de todo o apoio que nos puderem dar.

— Não creio que deva preocupar-se - replicou ela.

 Se calhar tinha razão. O depoimento da directora do Programa Nacional de Combate à Droga e a publicidade que isso ia gerar exerceriam uma pressão considerável no Comité de Tribunais de Justiça.

 Após um silêncio constrangedor, com ambas a olhar para o formigueiro de pessoas à nossa volta, perguntei-lhe delicadamente:

— Como tem passado?

 Por um instante os seus olhos humedeceram-se. Depois brindou-me com outro sorriso breve e nervoso e olhou fixamente para o fundo do corredor:

— Se me dá licença, está ali uma pessoa com quem tenho de falar.

 Pat Harvey ainda mal se afastara quando o meu pager tocou.

 Um minuto depois já estava ao telefone.

— Marino já vai a caminho - comunicou-me a minha secretária.

— E eu também - disse-lhe. - Prepare o meu estojo, Rose. Certifique-se de que está tudo em ordem. Lanterna, máquina fotográfica, pilhas, luvas.

— Com certeza.

 Amaldiçoando os saltos altos e a chuva, desci rapidamente a escadaria e segui pela Governor Street, o vento a puxar-me o guarda-chuva e a imagem do olhar de Mrs. Harvey naquela fracção de segundo em que me deixara perceber a sua dor. Ainda bem que já não estava ao pé de mim quando o pager fez soar o seu ominoso alerta.

 

 O cheiro era perceptível à distância. Pesadas gotas de chuva embatiam ruidosamente nas folhas mortas, o céu escuro como o do entardecer, árvores despidas pelo Inverno a ondular por entre o nevoeiro.

— Jesus! - resmungou Marino, passando por cima de um tronco.

— Devem estar podres. Não há cheiro como este. Faz-me lembrar sempre caranguejos de conserva.

— E vai piorando - anunciou Jay Morrell, que seguia na frente.

 A lama preta agarrava-se aos nossos pés e de cada vez que Marino roçava por uma árvore eu levava um duche de água gelada. Por sorte, trazia sempre um impermeável com capuz e umas botas de borracha no porta-bagagem do meu carro de serviço, para ir a locais como este.

O que não conseguira encontrar fora as grossas luvas de cabedal, e era impossível avançar pelo meio da mata evitando que os ramos me batessem na cara, com as minhas mãos enfiadas nos bolsos.

 Tinham-me dito que havia dois cadáveres, suspeitando tratar-se de um homem e uma mulher. Encontravam-se a menos de seis quilómetros e meio da área de serviço onde o jipe de Deborah Harvey fora encontrado no passado Outono.

 Não sabes se são eles, pensava para comigo mesma, a cada passo que dava.

 Mas quando chegámos ao perímetro do local, senti um baque no peito. Benton Wesley conversava com um agente que estava a usar um detector de metais e Wesley não teria sido chamado se a Polícia não tivesse a certeza. O corpo em postura militar exsudava a tranquila segurança de um homem ao comando. Não parecia incomodado nem pelo mau tempo nem pelo cheirete de carne humana em decomposição. Não olhava em volta reparando nos pormenores, como eu e Marino fazíamos, e percebi porquê. Wesley já observara o local. Chegara muito antes de me terem chamado.

 Os corpos estavam deitados um ao lado do outro, de bruços, numa pequena clareira a cerca de oitocentos metros da lamacenta picada onde deixáramos os nossos carros. Tal era o grau de decomposição que estavam parcialmente esqueletizados. Os ossos longos dos braços e pernas projectavam-se, como galhos cinzentos e sujos, das roupas apodrecidas e misturadas com folhas. Os crânios estavam separados do corpo e tinham rebolado ou sido fuçados, provavelmente por pequenos predadores, até uns sessenta centímetros de distância.

— Encontraram os sapatos e as meias deles? - perguntei, não vendo nem uns nem outros.

— Não. Mas encontrámos uma bolsa. - Morrell apontou para o corpo da direita. - Com quarenta e quatro dólares e vinte e seis cêntimos lá dentro. Mais uma carta de condução, a carta de condução de Deborah Harvey. - Tornou a apontar, acrescentando: - Calculamos que o corpo do lado esquerdo seja o de Cheney.

 A fita amarela de sinalização do local do crime reluzia, molhada, contra o fundo escuro dos troncos de árvores. Galhos a partirem-se debaixo dos pés dos homens que por ali andavam, vozes misturando-se num burburinho imperceptível por entre a chuva imparável, sinistra. Abrindo o meu estojo clínico, tirei um par de luvas cirúrgicas e a máquina fotográfica.

 Por um instante não me mexi, observando apenas os corpos mirrados, quase descarnados, que tinha à minha frente. Determinar o sexo e a raça de restos mortais esqueletizados nem sempre se pode fazer a olho nu. Não afirmaria o que quer que fosse enquanto não visse as pélvis, obscurecidas por algo que parecia ganga azul escura ou preta.

Mas com base nas características do corpo à minha direita - ossos pequenos, crânio pequeno com pequenas apófises mastóides, arcada supra-orbital não proeminente e madeixas de cabelo comprido e louro agarradas ao tecido podre - não tinha motivos para duvidar que se tratasse de uma mulher de raça branca. A estatura do seu companheiro, a robustez dos ossos, arcada supra-orbital proeminente, crânio grande e face achatada, pertenciam a um homem de raça branca.

 Quanto ao que teria acontecido ao casal, isso já eu não podia dizer.

 Não havia marcas indiciadoras de estrangulamento. Não detectei fracturas ou perfurações visíveis que pudessem significar golpes ou balas. Homem e mulher estavam serenamente unidos na morte, os ossos do braço esquerdo dela enfiados por baixo do direito dele como se se tivesse agarrado a ele, no fim; órbitas vazias, abertas, enquanto a chuva lhes escorria pelos crânios. Só quando me aproximei e me pus de joelhos é que reparei numa faixa de terra escura, tão estreita que mal se via, de cada lado dos corpos. Se tivessem morrido no fim-de-semana do Labor Day, as folhas de Outono ainda não tinham caído. A terra, por baixo deles, estaria relativamente limpa. Não gostei nada do que estava a pensar. Como se já não bastasse a Polícia andar para ali a espezinhar tudo. Raios partam. Mudar um cadáver de sítio, ou mexer nele seja de que maneira fosse antes de o médico legista chegar, é um pecado cardeal, e todos os polícias que ali estavam sabiam isso.

— Doutora Scarpetta? - Morrell assomou por cima do meu ombro, soltando um bafo de vapor. - Acabei de falar com o Phillips, ali adiante. - Olhou na direcção de vários agentes que vasculhavam a espessa vegetação uns seis metros a leste de nós. - Ele encontrou um relógio e um brinco, algumas moedas, tudo aqui mesmo, onde estão os corpos. O que é estranho é o detector de metais ter continuado a dar sinal. Passou-o mesmo por cima dos corpos e ele apitou.

 Pode ser de um fecho de correr ou alguma coisa. Talvez alguma patilha metálica ou botão dos jeans deles. Achei que a senhora devia saber.

 Ergui os olhos para o seu rosto magro, sério. Estava a tremer por baixo da parka.

— Diga-me o que fizeram com os corpos, para além de passarem o detector de metais por cima deles, Morrell. Já vi que os mudaram de sítio. Preciso saber se era exactamente nesta posição que estavam quando foram descobertos hoje de manhã.

— Não sei o que se passou quando os caçadores os encontraram, embora eles tenham dito que não se chegaram muito perto - respondeu ele, o olhar perscrutando a mata. - Mas sim, era assim que eles estavam quando cá chegámos. A única coisa que nós fizemos foi procurar objectos pessoais nas algibeiras e na bolsa dela.

— Calculo que tenham tirado fotografias antes de mexerem nalguma coisa - disse eu, calmamente.

— Começámos a tirar fotografias mal aqui chegámos.

 Tirando do estojo uma pequena lanterna, iniciei a vã tarefa de procurar vestígios. No caso de corpos expostos durante tantos meses aos elementos, a hipótese de encontrar cabelos, fibras ou outros resíduos significativos era praticamente nula. Morrell observou em silêncio, transferindo nervosamente o peso do corpo de um pé para o outro.

— Descobriu mais alguma coisa na sua investigação que possa ser útil, partindo do princípio de que se trata de Deborah Harvey e Fred Cheney? - perguntei, pois nunca mais tinha visto Morrell, nem falado com ele, desde o dia em que o jipe de Deborah fora encontrado.

— Nada, a não ser uma possível ligação com drogas - respondeu ele. - Disseram-nos que o colega de quarto de Cheney, na Carolina, era viciado em cocaína. Talvez Cheney também andasse metido nisso. É uma das hipóteses que estamos a considerar, que talvez ele e a jovem Harvey se tenham encontrado com alguém que vendia drogas e vieram até aqui.

 Aquilo não fazia sentido nenhum.

— Por que havia Cheney de deixar o jipe numa área de serviço e afastar-se com um traficante de droga, levando Deborah com ele, vindo para aqui? - perguntei. - Por que não comprar as drogas na área de serviço e seguir viagem?

— Podem ter vindo para aqui fazer uma farra.

— Quem é que em seu juízo perfeito vinha para aqui depois de anoitecer para fazer uma farra ou outra coisa qualquer? E onde é que estão os sapatos deles, Morrell? Vai dizer-me que vieram pela mata descalços?

— Não sabemos o que é feito dos sapatos - respondeu ele.

— Muito interessante. Até ao momento foram encontrados mortos cinco casais e não sabemos o que é feito dos sapatos deles. Não apareceu um único sapato ou meia. Não acha isso muito estranho?

— Ah, sim. Acho estranho, sim senhora - replicou ele, cruzando os braços para se aquecer. - Mas neste momento tenho de resolver estes dois casos sem pensar nos outros quatro casais. Tenho de me basear no que tenho. E de momento só tenho uma possível ligação " com as drogas. Não posso deixar-me influenciar por essa história de crimes em série, ou pelo facto de a rapariga ser filha de quem é, se não ainda me engano e não vejo o que é óbvio.

— Longe de mim querer que não veja o que é óbvio.

 Ficou calado.

— Encontraram algum material suspeito dentro do jipe?

— Não. E aqui, até ver, também nada que indique o uso de drogas.

 Mas ainda temos muito terreno e folhas para vasculhar...

— O tempo está horrível. Não sei se será boa ideia começar a revolver o solo - comentei num tom impaciente, irritadiço. Estava furiosa com ele. Estava furiosa com a Polícia. A água escorria-me pela parte da frente do casaco. Doíam-me os joelhos. Começava a não sentir as mãos e os pés. O cheiro era insuportável e o forte matraquear da chuva começava a complicar-me com os nervos.

— Não começámos a escavar nem a usar as peneiras. Achei melhor esperar. Não se consegue ver nada. Por enquanto só temos usado o detector de metais, isso e os nossos olhos.

— Bom, quantos mais andarem aqui a espezinhar, mais nos arriscamos a dar cabo do local. Pequenos ossos, dentes, outras coisas, tudo isso ao ser pisado enterra-se na lama. - Há horas que eles já ali estavam. Se calhar era demasiado tarde para preservar o local.

— Então, quer levá-los hoje ou esperar que o tempo melhore? - perguntou ele.

 Em circunstâncias normais, eu teria esperado que a chuva passasse e que houvesse mais luz. Quando os corpos já estiveram meses no meio da floresta, deixá-los lá ficar mais um ou dois dias tapados com um plástico não faz diferença nenhuma. Mas quando eu e Marino estacionámos na picada já lá estavam várias carrinhas da televisão. Os repórteres aguardavam sentados nos carros, outros enfrentavam a chuva tentando sacar informações aos agentes destacados para sentinelas. As circunstâncias nada tinham de normal. Embora não tivesse nenhum direito de dar ordens a Morrell, por Lei era eu que tinha jurisdição sobre os cadáveres.

— Há macas e sacos na parte de trás do meu carro - respondi, procurando as chaves. - Se puder mandar lá alguém buscá-los, removemos os corpos daqui a bocado e eu levo-os para a morgue.

— Com certeza. Vou tratar disso.

— Obrigada. - Reparei então que Benton Wesley se agachara ao meu lado.

— Como é que soube? - perguntei. A pergunta era ambígua mas ele percebeu o que eu quis dizer.

— O Morrell ligou-me para Quantico. Vim imediatamente.Observou os corpos, o rosto anguloso quase invisível à sombra do capuz gotejante. - Está a ver alguma coisa que nos diga o que aconteceu?

— De momento, posso apenas dizer-lhe que os crânios não apresentam fracturas e que não levaram nenhum tiro na cabeça.

 Não disse nada e o silêncio dele só serviu para aumentar a minha tensão.

 Começara a estender lençóis quando Marino se aproximou, mãos enfiadas nos bolsos do casaco, ombros arqueados contra o frio e a chuva.

— Ainda vai apanhar uma pneumonia - observou Wesley, soerguendo-se. — A Polícia de Richmond é assim tão sovina que não vos compre uns chapéus?

— Chiça! - replicou Marino - Já é uma sorte porem-nos gasolina na porcaria do carro e fornecerem-nos uma arma. Os bandalhos que estão na Spring Street são mais bem tratados que nós.

 Spring Street era a penitenciária estadual. Era verdade que custava ao estado mais dinheiro alojar todos os anos alguns reclusos do que pagar a agentes da Polícia para os manter fora de circulação. Marino adorava queixar-se disso.

— Vejo que a nossa gente o foi arrancar a Quantico. É o seu dia de sorte - comentou Marino.

— Disseram-me o que tinham encontrado. Perguntei-lhes se já tinham ligado para si.

— Sim, pois é, lá acabaram por ligar.

—Já vi que sim. O Morrell disse-me que nunca preencheu um formulário do VICAP. Talvez você possa dar-lhe uma ajuda.

 Marino olhou para os corpos, contraindo os músculos do maxilar.

— Precisamos introduzir isto no computador - continuou Wesley, ao som do tamborilar da chuva na terra.

 Desligando-me da conversa deles, estendi um dos lençóis ao lado dos restos mortais da mulher e voltei-a para ficar deitada de costas.

O corpo deslizou suavemente, articulações e ligamentos ainda intactos.

Num clima como o da Virgínia, normalmente é preciso no mínimo um ano de exposição aos elementos para que um corpo se esqueletize por completo ou fique reduzido a ossos desarticulados.

O tecido muscular, as cartilagens e os ligamentos são resistentes. Era baixinha e recordei-me da fotografia da bonita e jovem ginasta posicionada em cima da trave. A camisola, reparei, era inteiriça, possivelmente uma sweatshirt, e os jeans tinham o fecho corrido e o botão apertado. Abrindo o outro lençol, fiz a mesma coisa ao companheiro.

Virar corpos decompostos é como voltar rochas. Nunca se sabe o que se vai encontrar lá de baixo, a não ser os já habituais insectos.

Arrepiei-me toda quando várias aranhas se escapuliram, desaparecendo por baixo das folhas.

 Mudando de posição numa tentativa vã de ficar mais confortável, apercebi-me de que Wesley e Marino se tinham ido embora. Sozinha e ajoelhada à chuva, comecei a tactear por entre folhas e lama à procura de unhas, pequenos ossos e dentes. Reparei que faltavam pelo menos dois dentes num dos maxilares. O mais certo era estarem algures, perto dos crânios. Depois de uns quinze ou vinte minutos naquilo, recuperara um dente, um pequeno botão transparente, por certo da camisa do rapaz, e duas pontas de cigarro. Em todos os locais haviam sido encontradas várias pontas de cigarro, embora, que se soubesse, nem todas as vítimas fumassem. O que era estranho é que nenhum dos filtros tivesse o nome ou a marca dos cigarros.

 Quando Morrell voltou, chamei-lhe a atenção para isso.

— Nunca vi um local do crime onde não houvesse pontas de cigarro - redarguiu ele e pus-me a pensar em quantos locais do crime podia ele dizer que tinha estado. Não muitos, calculei.

— É como se uma parte do papel tivesse sido arrancada ou cortada a ponta do filtro junto ao tabaco - expliquei, e, ao ver que isso não provocava nele qualquer reacção, escavei mais um pouco na lama.

 A noite caía quando voltámos para os nossos carros, uma triste procissão de polícias transportando macas com sacos plásticos de uma cor-de-laranja vivo. Chegámos à estreita picada quando um vento cortante começava a soprar de norte e a chuva a gelar. A minha carrinha oficial, azul-escura, estava equipada como um carro funerário.

Correias presas ao chão de tábuas da parte traseira mantinham as macas no sítio para que não escorregassem durante o transporte.

Sentei-me ao volante e apertei o cinto enquanto Marino entrava, Morrell fechava com estrondo a porta de trás e os fotógrafos e operadores de câmara da televisão nos filmavam. Um repórter que não desistia pôs-se a arranhar na minha janela e tranquei as portas.

— Haja Deus! Só espero nunca mais ser chamado a outro como este! - exclamou Marino, ligando o aquecimento ao máximo.

 Contornei algumas poças de água.

— Cambada de abutres! - Olhando pelo espelho do lado dele, viu que os jornalistas se precipitavam para os carros. - Algum idiota deve ter dado com a língua nos dentes, via rádio. Se calhar foi o Morrell. Parvalhão. Se pertencesse à minha esquadra, recambiava-o logo para o trânsito, para o fardamento ou para o piquete de informações.

— Lembra-se de como é que se volta para a Sessenta-e-Quatro, daqui? - perguntei.

— Vire à esquerda no triângulo aí à frente. Chiça! - Abriu uma frincha da janela e sacou dos cigarros. - Não há nada pior que andar num carro todo fechado com corpos decompostos lá dentro.

 Cinquenta quilómetros depois, destranquei a porta das traseiras do IML e premi um botão vermelho na parede interna. A porta do porão fez uma enorme chiadeira ao abrir-se, e a luz derramou-se pelo asfalto molhado. Voltando para a carrinha, abri a porta da retaguarda.

Retirámos as macas e empurrámo-las para dentro da morgue na altura em que vários cientistas forenses saíam do elevador sorrindo para nós, sem darem ao nosso carregamento mais que um olhar de relance.

Trouxas em forma de corpo em cima de macas e mesas rolantes eram tão banais como as paredes de tijolo cor de cinza. Gotas de sangue no chão e maus cheiros eram coisas desagradáveis que uma pessoa aprendia a contornar, passando discreta e rapidamente adiante.

 Munindo-me de outra chave, abri o cadeado da porta de aço inoxidável do frigorífico e entrei para ir buscar etiquetas e dar entrada dos corpos, antes de os transferirmos para uma mesa rolante de dois tampos, onde ficariam durante a noite.

— Importa-se que eu passe por cá amanhã a ver o que consegue descobrir sobre estes dois?- perguntou Marino.

— Está bem.

— São eles - afirmou. - Têm de ser.

— Receio bem que assim seja, Marino. Que é feito do Wesley?

— Voltou para Quantico onde pode pôr os seus sapatos Florsheim em cima da sua grande secretária e saber o resultado pelo telefone.

— Pensei que fossem amigos - comentei, cautelosamente.

— Sim, pois é, a vida tem destas coisas, doutora. É como quando tenciono ir à pesca. Todos os boletins meteorológicos prevêem céu limpo, e, mal enfio o barco na água, lá vem a porcaria da chuva.

— Este fim-de-semana está no turno da noite?

— Que eu saiba, não.

— Domingo à noite, que tal aparecer para jantar? Seis, seis e meia?

— Sim, talvez se dê um jeito - respondeu ele, virando-se para o lado mas não sem que eu antes lhe captasse a tristeza no olhar.

 Constava que a mulher dele voltara para Nova Jérsia antes do Dia de Acção de Graças, para tomar conta da mãe agonizante. Desde então eu jantara algumas vezes com Marino, mas ele não se dispusera a falar da sua vida pessoal.

 Já dentro do bloco de autópsias, dirigi-me para o vestiário onde tinha sempre artigos pessoais e uma muda de roupa para o que considerava emergências sanitárias. Estava toda suja, o cheirete da morte entranhado na roupa, na pele, no cabelo. Enfiei rapidamente as peças de roupa num saco plástico e colei-lhe um bilhetinho ordenando ao supervisor da morgue que o levasse logo de manhã para a lavandaria.

Depois meti-me debaixo do chuveiro onde permaneci durante muito tempo.

 Uma das muitas coisas que Anna me aconselhara a fazer depois de Mark se ter mudado para Denver, era um esforço para minimizar os danos que rotineiramente infligia ao meu corpo.

 "Exercicio". Proferira ela a terrível palavra. "As endorfinas aliviam a depressão. Vai comer melhor, dormir melhor, sentir-se muito melhor.

Acho que devia voltar a jogar ténis.”

 Posto em prática, o conselho dela revelara-se uma fraca experiência. Eu poucas vezes pegara numa raquete desde a adolescência e a minha esquerda, embora nunca tivesse sido boa, ao longo das décadas deixara por completo de existir. Tinha uma aula por semana, à noite, quando menos hipóteses havia de ficar sujeita aos olhares curiosos da multidão que se juntava ao fim da tarde para uma bebida de convívio na tribuna dos campos cobertos do Westwood Racquet Club.

 Depois de sair do emprego, foi só o tempo de ir de carro até ao clube, correr para o balneário das senhoras e equipar-me. Tirando a raquete de dentro do cacifo, cheguei ao campo com dois minutos de antecedência, músculos contraídos enquanto fazia uns alongamentos de pernas e, corajosamente, tentava chegar com as mãos às pontas dos dedos dos pés. O sangue começava a correr indolentemente.

 Ted, o profe, apareceu por detrás da cortina verde, trazendo ao ombro dois cestos de bolas.

— Depois de ouvir as notícias, não esperava vê-la cá esta noite - comentou, pousando os cestos e despindo o blusão do fato de treino. Ted, eternamente bronzeado e um regalo para a vista, costumava saudar-me com um sorriso e uma piadinha. Mas hoje contivera-se.

— O meu irmão mais novo conhecia Fred Cheney. Eu também o conhecia, ainda que não muito bem. - Olhando para as pessoas que jogavam em vários campos ao lado, prosseguiu: - Fred era um dos tipos mais simpáticos que eu já vi. E não estou a dizer isto só por ele... enfim. O meu irmão ficou mesmo abalado com isto. - Debruçou-se para apanhar uma mão-cheia de bolas. - E se quer saber a verdade, chateia-me um bocado que os jornais só falem da namorada. É como se a única pessoa que desapareceu fosse a filha de Pat Harvey. E não estou a dizer que a rapariga não fosse bestial e que o que lhe aconteceu não foi tão horrível como o que lhe aconteceu a ele. - Fez uma pausa. - Enfim. Acho que percebe o que eu quero dizer.

— Percebo - respondi. - Por outro lado, a família de Deborah Harvey está a ser alvo de um enorme interesse do público e nunca lhes permitirão um período de luto em privado pelo facto de a mãe de Deborah ser quem é. É uma situação trágica e injusta em ambos os casos.

 Ted pensou nisso e olhou-me nos olhos:

— Sabe, não tinha visto a coisa por esse prisma. Mas tem razão.

Não me parece que ser famoso tenha lá muita piada. E não me parece que esteja a pagar-me à hora para ficarmos aqui na conversa. Em que é que quer trabalhar hoje?

— Bolas rasteiras. Quero que me ponha a correr de um canto para o outro para me recordar do quanto detesto o vício de fumar.

— Quanto a esse tema, acabaram-se os meus sermões. - E dirigiu-se para o centro da rede.

 Recuei para a linha de fundo. O meu primeiro serviço não teria sido assim tão mau se estivesse a jogar a pares.

 A dor física é uma boa distracção e as duras realidades do dia foram esquecidas até o telefone tocar em casa, mais tarde, quando me libertava da roupa molhada.

 Pat Harvey estava nervosíssima.

— Os corpos que encontraram hoje. Preciso saber.

— Não foram identificados e ainda não os examinei - respondi, sentando-me na borda da cama para descalçar as sapatilhas sem a ajuda das mãos.

— Um homem e uma mulher. Foi o que ouvi.

— De momento é o que se sabe, sim.

— Diga-me, por favor, se há alguma hipótese de não serem eles - pediu ela.

 Hesitei.

— Oh, meu Deus! - murmurou.

— Mrs. Harvey, não posso confirmar...

 Ela interrompeu-me num tom quase histérico:

— A Polícia disse-me que tinham encontrado a bolsa da Debbie, a carta de condução dela.

 Morrell, pensei logo. O estupor do idiota.

 Afirmei-lhe:

— Não podemos fazer identificações unicamente com objectos pessoais.

— Ela é minha filha!

 A seguir viriam as ameaças e os impropérios. Eu passara por aquilo com outros pais que, em circunstâncias normais, seriam tão educados como catequistas. Resolvi dar a Pat Harvey algo de construtivo para fazer.

— Os corpos não foram identificados - repeti.

— Quero vê-la.

 Nunca na vida, pensei.

— Os corpos não são visualmente identificáveis - afirmei. - Estão quase esqueletizados.

 Ela conteve uma exclamação.

— E, dependendo de si, a identificação tanto poderá ser feita já amanhã como levar alguns dias.

— Que quer que eu faça? - perguntou, com voz trémula.

— Preciso de radiografias, fichas dentárias, tudo o que puder arranjar referente à história clínica de Deborah.

 Silêncio.

— Acha que consegue arranjar-mas?

— Claro - respondeu. - Vou tratar imediatamente disso.

 Calculei que obtivesse os registos clínicos da filha antes do amanhecer, nem que para isso tivesse de arrancar da cama metade dos médicos de Richmond.

 Na tarde do dia seguinte, estava eu a retirar a capa de plástico do esqueleto anatómico do IML quando ouvi Marino no corredor.

— Estou aqui - disse-lhe, levantando a voz.

 Ele entrou na sala de reuniões, uma expressão abstracta no rosto enquanto olhava para o esqueleto cujos ossos estavam presos por arames, um gancho no vértex fixo ao topo de um suporte em "L".

Era um pouco mais alto que eu, pés a balouçar por cima de uma base de madeira com rodízios.

 Pegando nos papéis que estavam em cima de uma mesa, pedi-lhe:

— E se mo empurrasse?

— Vai levar o Lingrinhas a dar um passeio?

— Vai lá para baixo e ele chama-se Haresh - respondi.

 Ossos e rodinhas num suave chocalhar enquanto Marino e o seu risonho companheiro me seguiam até ao elevador, atraindo os olhares divertidos de alguns membros do meu pessoal. Haresh não saía muitas vezes, e, por regra, quando era arrancado ao seu canto, quem o levava não o fazia com intenções sérias. Em Junho último, no dia do meu aniversário, ao entrar de manhã no gabinete, encontrei Haresh sentado na minha cadeira, de óculos e bata branca, um cigarro entalado nos dentes. Um dos mais empenhados cientistas forenses lá de cima - pelo menos foi o que me contaram - passara à minha porta e dera os bons-dias sem reparar em nada de estranho.

— Não me vai dizer que ele fala consigo quando está a trabalhar cá em baixo - comentou Marino, quando as portas do elevador se fecharam.

— À sua maneira, fala - respondi. - Descobri que tê-lo ao lado é muito mais proveitoso do que recorrer aos diagramas que vêm no Gray s.

— De onde é que veio o nome dele?

— Parece que quando foi comprado, há uns anos, havia cá um patologista indiano chamado Haresh. O esqueleto também é indiano. Homem, quarenta e tal anos, talvez mais.

— Indiano mesmo, como os que usam uma pintinha na testa, ou índio como o Pequeno Carneiro das Montanhas?

— Sim, do rio Ganges, na índia - respondi, ao sairmos no rés-do-chão.

— Os Hindus lançam os seus mortos ao rio, acreditando que eles vão directamente para o céu.

— Só espero que esta espelunca não seja o céu.

 Ossos e rodas tornaram a chocalhar quando Marino empurrou Haresh para dentro da sala de autópsias.

 Em cima do lençol branco que cobria a primeira mesa de aço inoxidável, estavam os restos mortais de Deborah Harvey, ossos cinzentos e sujos, pedaços de cabelo enlameado e ligamentos castanhos e rijos como couro. O mau cheiro mantinha-se, embora atenuado, desde que eu lhe retirara as vestes. O seu aspecto tornava-se ainda mais deplorável na presença de Haresh, que nem um arranhão tinha nos ossos de uma brancura imaculada.

— Tenho umas coisas para lhe contar - disse eu, a Marino -, mas primeiro quero que me prometa que fica só entre nós.

 Acendendo um cigarro, olhou-me com curiosidade.

— Está bem.

— Não há dúvidas quanto à identidade deles - comecei, dispondo as clavículas uma de cada lado do crânio. - Pat Harvey trouxe hoje de manhã radiografias e fichas dentárias...

— Em pessoa? - interrompeu ele, admirado.

— Infelizmente - respondi, pois não contara que fosse a própria Pat Harvey a trazer os registos. Um erro de cálculo da minha parte, que por certo não esqueceria.

— Isso deve ter provocado um sururu dos diabos - comentou ele.

 Provocara.

 Quando chegou no seu Jaguar, deixou-o mal estacionado junto ao passeio e entrou cheia de exigências e à beira das lágrimas. Intimidado pela presença da famosa personalidade, o recepcionista deixou-a passar e Mrs. Harvey seguiu de imediato pelo corredor fora à minha procura. Creio que teria vindo cá a baixo, à morgue, se o meu administrador não a interceptasse no elevador e a fizesse entrar para o meu gabinete, onde, minutos depois, fui encontrá-la.

Rigidamente sentada numa cadeira, o rosto branco como cal. Em cima da minha secretária estavam certidões de óbito, dossiers, fotografias de autópsias e uma ferida perfurante excisada em suspensão num pequeno frasco de formalina que o sangue tingira de cor-de-rosa.

Penduradas atrás da porta, as roupas ensanguentadas que eu tencionava levar para cima quando mais tarde fizesse a recolha de provas. As reconstruções faciais de duas mulheres mortas não identificadas, colocadas em cima de um arquivador, mais pareciam cabeças decapitadas, de barro.

 Por aquela é que Pat Harvey não esperava. Mergulhara de cabeça nas duras realidades deste local.

— O Morrell também me trouxe a ficha dentária de Fred Cheney - informei-o.

— Então trata-se, decididamente, de Fred Cheney e Deborah Harvey?

— Sim - respondi e chamei-lhe a atenção para as chapas de raios-X entaladas num visor de parede.

— Não pode ser o que eu estou a pensar. - Uma expressão de incredulidade instalou-se-lhe no rosto ao olhar para um ponto escuro dentro do contorno sombreado das vértebras lombares.

— Deborah Harvey levou um tiro. - Apontei para a lombar em questão. - Atingida mesmo no meio das costas. A bala fracturou a apófise espinhosa e os pedículos e alojou-se no corpo vertebral. Aqui mesmo. - Mostrei-lhe.

— Não estou a vê-la. - Aproximou-se mais.

— Não, não se consegue ver. Mas vê o orifício?

— Sim? Vejo uma data de orifícios.

— O da bala é este. Os outros são forames vasculares, orifícios para os vasos sanguíneos que irrigam ossos e medula.

— Onde é que estão os pedestais fracturados de que falou?

— Pedículos - corrigi, pacientemente. - Não os encontrei. Devem ter ficado estilhaçados e se calhar ainda lá estão, na mata. Uma entrada e nenhuma saída. Foi atingida nas costas e não na barriga.

— Encontrou algum orifício de bala nas roupas dela?

— Não.

 Numa mesa próxima estava um tabuleiro plástico em que eu colocara os artigos pessoais de Deborah, incluindo a roupa, jóias e bolsa de nylon encarnada. Cuidadosamente, levantei a sweatshirt rasgada, enegrecida e fétida.

— Como pode ver, - expliquei - a parte de trás, principalmente, está em muito mau estado. A maior parte do tecido desfez-se por completo, rasgado por predadores. O mesmo aconteceu ao cós dos jeans na parte de trás, o que é normal pois essas zonas deviam estar ensanguentadas. Em resumo, a parte do tecido onde eu esperava vir a encontrar a bala desapareceu.

— E quanto à distância? Faz alguma ideia de qual tenha sido?

— Como lhe disse, a bala não saiu. Isso leva-me a pensar que não estamos perante um ferimento de bala a curta distância. Mas é difícil dizer. Quanto ao calibre, e uma vez mais não passam de conjecturas, estou a pensar num .38 ou mais, com base no tamanho deste orifício. Não saberemos ao certo enquanto eu não abrir as vértebras e levar a bala lá a cima, ao laboratório de balística.

— Esquisito - comentou Marino. - Ainda não examinou Cheney?

— Já foi radiografado. Não há balas. Mas não, ainda não o examinei.

— Esquisito - tornou ele a dizer. - Não condiz. Ela ter levado um tiro nas costas não condiz com os outros casos.

— Não - concordei. - Pois não.

— Então foi isso que a matou?

— Não sei.

— Como, não sabe? - Olhou para mim.

— Este ferimento não é imediatamente fatal, Marino. Como não a atravessou por completo, a bala não seccionou a aorta. Se o tivesse feito, a este nível lombar, ela morria em minutos, esvaída em sangue.

O certo é que a bala teve de seccionar-lhe a medula espinal, paralisando-a de imediato da cintura para baixo. E, claro, foram atingidos alguns vasos sanguíneos. Ela sangrou.

— Durante quanto tempo poderá ter sobrevivido?

— Horas.

— E a hipótese de violação?

— Tinha as cuecas e o soutien vestidos - respondi. - O que não significa que não tenha sido violada. Podem tê-la deixado tornar a vestir-se depois, partindo do princípio de que foi violada antes de levar o tiro.

— Para quê darem-se a esse trabalho?

— Se uma pessoa for violada - repliquei - e o agressor lhe disser para tornar a vestir-se, ela deduz que vai manter-se viva. Um sentimento de esperança faz com que se controle, leva-a a fazer o que lhe mandam porque, se der luta, ele pode mudar de ideias.

— Não me cheira - disse Marino, com um franzir do sobrolho. — Não creio que tenha sido isso que aconteceu, Doutora.

— É uma hipótese. Não sei o que aconteceu. O que posso dizer-lhe com toda a certeza é que não encontrei nenhuma peça de roupa dela rasgada, cortada, voltada do avesso ou desabotoada. E quanto a líquido seminal, após tantos meses no meio do mato, esqueça.- Entregando-lhe uma prancheta e um lápis, acrescentei: - Se vai ficar por aqui, já agora aponte o que eu disser.

— Tenciona contar isso ao Benton? - perguntou ele.

— Por enquanto não.

— E ao Morrell?

— Com certeza que lhe vou dizer que ela levou um tiro - respondi.

— Se se trata de uma automática ou semi-automática, a cápsula talvez ainda se encontre no local. Se os polícias quiserem dar com a língua nos dentes, isso é lá com eles. Mas de mim não vai sair nada.

— E quanto a Mrs. Harvey?

— Ela e o marido sabem que a filha e Fred foram identificados.

Liguei para os Harvey e para Mr. Cheney mal tive a certeza. Não darei mais pormenores enquanto não concluir os exames.

 As costelas pareciam brinquedos de lata a chocalhar baixinho umas contra as outras, quando separei as esquerdas das direitas.

— Doze de cada lado - comecei a ditar. - Ao contrário do que diz a lenda, as mulheres não têm mais uma costela que os homens.

— Hen? - fez Marino, erguendo os olhos da prancheta.

— Nunca leu o Génesis?

 Pôs-se a olhar inexpressivamente para as costelas que eu dispusera de ambos os lados das vértebras torácicas.

— Esqueça - disse-lhe.

 Em seguida, comecei a procurar os carpos, os pequenos ossos do pulso muito parecidos com as pedras que se encontram no leito de um riacho, ou quando escavamos o jardim. É difícil distinguir os esquerdos dos direitos e era aí que o esqueleto anatómico se tornava útil. Aproximando-o mais, pousei-lhe as mãos ossudas na borda da mesa e comecei a comparar. Utilizei o mesmo processo para as falanges distais e proximais, ou ossos dos dedos.

— Parece que lhe faltam onze ossos na mão direita e dezassete na esquerda - relatei.

 Marino apontou a informação.

— De um total de quantos?

— Há vinte e sete ossos numa mão - respondi sem interromper o trabalho. - Conferindo-lhe a enorme flexibilidade que ela tem. É o que nos permite pintar, tocar violino, amarmo-nos através do tacto. É também o que nos permite defender-nos.

 Só na tarde do dia seguinte é que cheguei à conclusão que Deborah Harvey tentara defender-se de um agressor munido com algo mais do que uma arma de fogo. Estava bastante mais quente lá fora, o tempo melhorara e a Polícia andara todo o dia a vasculhar no terreno.

Ainda não eram quatro da tarde quando Morrell passou pelo meu gabinete para me entregar uma série de pequenos ossos trazidos do local. Cinco pertenciam a Deborah e na superfície dorsal da sua falange proximal esquerda - ou seja, na parte de cima da diáfise, o mais comprido dos ossos do indicador - descobri um corte de meia polegada.

 A primeira questão que se coloca quando descubro ferimentos em osso ou tecido é saber se são ante ou post-mortem. Se não levarmos em conta os artefactos que podem ocorrer depois da morte, cometemos graves erros.

 Pessoas carbonizadas entram aqui com fracturas ósseas e hemorragias epidurais, parecendo, para todos os efeitos, que alguém as agrediu e depois deitou fogo à casa para disfarçar um homicídio quando as lesões são, na realidade, post-mortem, e causadas pelo intenso calor. Corpos trazidos pela maré ou retirados de rios e lagos dão, muitas vezes, a impressão de que um assassino tresloucado lhes mutilou os rostos, órgãos genitais, mãos e pés, quando os culpados foram peixes, caranguejos e tartarugas. Os restos mortais em esqueleto são abocanhados, mordidos e desmembrados por ratazanas, busardos, cães e raccons.

 Predadores de quatro patas, com asas ou com barbatanas, infligem sérios danos mas, abençoadamente, só quando a pobre alma já está morta. Depois, a Natureza começa pura e simplesmente a reciclar.

Das cinzas às cinzas. Do pó ao pó.

 Na minha opinião, o corte na falange proximal de Deborah Harvey era demasiado perfeito e linear para ter sido causado por dente ou garra. Mas continuava a haver lugar para especulações e dúvidas, incluindo a inevitável hipótese de eu própria, na morgue, ter arrancado um bocadinho do osso com o bisturi.

 Na quarta-feira à noite, a Polícia já divulgara à imprensa as identidades de Deborah e Fred e nas quarenta e oito horas seguintes foram tantos os telefonemas que os funcionários da portaria não conseguiram cumprir com as suas tarefas, pois não fizeram mais nada senão atender o telefone. Rose informava toda a gente, incluindo Benton Wesley e Pat Harvey, que os casos estavam a ser analisados, enquanto eu permanecia na morgue.

 No domingo à noite, não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Os restos mortais de Deborah e Fred tinham sido descarnados, removido todo o tecido adiposo, fotografados de todos os ângulos, concluído o inventário dos ossos. Estava a colocá-los numa caixa de cartão quando soou a campainha das traseiras. Ouvi os passos do segurança da noite pelo corredor fora e a porta do porão a abrir-se.

Depois apareceu Marino.

— Dorme aqui ou quê? - perguntou.

 Erguendo os olhos, reparei com surpresa que ele trazia o sobretudo e o cabelo molhados.

— Está a nevar. - Descalçou as luvas e pousou o rádio na borda da mesa de autópsias em que eu estava a trabalhar.

— Era só o que me faltava - comentei com um suspiro.

— E a nevar a sério, doutora. Ia a passar por aqui e vi o seu carro no parque. Calculei que estivesse metida nesta caverna desde o romper do dia e não soubesse que horas eram.

 Ocorreu-me então, ao rasgar um grande pedaço de fita gomada para selar a caixa:

— Pensei que este fim-de-semana não estivesse no turno da noite.

— Pois, e eu pensei que me tinha convidado para jantar.

 Interrompendo o que estava a fazer, fitei-o com estranheza. Depois lembrei-me.

— Oh, não! - resmunguei, erguendo os olhos para o relógio de parede. Já passava das oito e meia. - Peço-lhe imensa desculpa, Marino.

— Não faz mal. Eu também tinha umas coisas para tratar.

 Eu sabia sempre quando Marino estava a mentir. Não me olhava nos olhos e ficava todo corado. Não fora coincidência nenhuma ele ter visto o meu carro no parque. Andara à minha procura e não apenas porque quisesse jantar. Tinha alguma coisa para me dizer.

 Encostando-me à mesa, dei-lhe toda a atenção.

— Pensei que gostasse de saber que Pat Harvey passou o fim-de-semana em Washington, esteve a falar com o Director - disse ele.

— Foi o Benton que o informou disso?

— Sim. Também disse que tentou contactá-la mas que a doutora não tem respondido aos telefonemas dele. A Dama de Ferro também se queixou do mesmo.

— Não respondo a telefonemas de ninguém - respondi, cansada. — Sem querer exagerar, tenho andado muito atarefada, e nesta altura não tenho nada a comunicar.

 Olhando para a caixa em cima da mesa, pôs-me esta questão:

— Sabe que Deborah levou um tiro, que foi um homicídio. De que está à espera?

— Não sei o que matou Fred Cheney ou se existe alguma hipótese de envolvimento de drogas. Estou à espera dos relatórios toxicológicos e não tenciono divulgar nada enquanto eles não vierem e eu tiver uma oportunidade de conversar com Vessey.

— O tipo do Smithsonian?

— Vou falar com ele amanhã de manhã.

— Espero que tenha um todo-o-terreno.

— Não me disse qual o motivo por que Pat Harvey foi falar com o Director.

— Acusa os seus serviços de andarem a fazer caixinha, diz que o FBI também anda a fazer caixinha com ela. Está danada. Quer o relatório da autópsia da filha, os autos da Polícia, a papelada toda, e ameaça arranjar um mandado judicial e armar um escândalo se as suas exigências não forem imediatamente satisfeitas.

— Que disparate!

— Pois é. Mas se aceita um pequeno conselho, doutora, acho que devia ligar para o Benton ainda esta noite.

— Porquê?

— Porque não quero que se queime.

— De que está a falar, Marino? - e desatei a bata cirúrgica.

— Quanto mais evitar toda a gente agora, mais lenha vai deitando para a fogueira. Segundo o Benton, Mrs. Harvey está convencida de que há um encobrimento qualquer, e que estamos todos metidos nisso.

 Como eu não desse resposta, ele perguntou:

— Está a ouvir?

— Estou. Ouvi tudo o que me disse.

 Pegou na caixa.

— Custa a crer que aqui dentro estejam duas pessoas - comentou com ar de espanto.

 Custava a crer, sim. A caixa não era muito maior que um micro-ondas e pesava uns cinco ou seis quilos. Quando ele a colocou no porta-bagagem do meu carro, eu disse-lhe baixinho:

— Obrigada por tudo.

— Hen?

 Eu sabia que ele me ouvira mas queria que eu tornasse a dizer.

— Agradeço o seu cuidado, Marino. Sinceramente. E peço muita desculpa pelo jantar. às vezes meto mesmo o pé na argola.

 A neve caía com força e, como sempre, ele não trazia chapéu.

Rodando a chave da ignição e ligando o aquecimento ao máximo, ergui os olhos para ele e achei estranho que a sua presença pudesse ser tão reconfortante. Marino era, de todas as pessoas que eu conhecia, a que mais me complicava com os nervos, e no entanto não me estava a ver sem a companhia dele.

 Fechando-me a porta, replicou:

— Pois, fica em dívida para comigo.

— Semifreddo di cioccolato.

— Adoro ouvi-la dizer palavrões.

— É uma sobremesa. A minha especialidade, seu pateta. Mousse de chocolate com dedos de dama.

— Dedos de dama! - Olhou ostensivamente na direcção da morgue, fingindo-se horrorizado.

 O regresso a casa pareceu-me levar uma eternidade. Segui vagarosamente por estradas cobertas de neve, concentrando-me de tal maneira que sentia a cabeça rachada ao meio quando finalmente cheguei e fui à cozinha preparar uma bebida. Sentada à mesa, acendi um cigarro e dei um telefonema a Benton Wesley.

— Que descobriu? - perguntou ele de imediato.

— Deborah Harvey foi baleada nas costas.

— O Morrell contou-me. Disse que a bala era invulgar. Uma Hydra-Shok, de nove milímetros.

— Exactamente.

— E quanto ao namorado?

— Não sei o que o matou. Estou à espera dos resultados toxicológicos e preciso conversar com Vessey, no Smithsonian. Por ora, ambos os casos estão pendentes.

— Quanto mais tempo estiverem, melhor.

— Desculpe?

— Estou a dizer que gostaria que deixasse os casos pendentes o mais tempo possível, Kay. Não quero relatórios entregues a ninguém, nem mesmo aos pais, muito menos a Pat Harvey. Não quero que ninguém saiba que Deborah levou um tiro...

— Está-me a dizer que os Harvey não sabem?

— Quando o Morrell me informou, obriguei-o a jurar que mantinha a informação em segredo. Por isso, não, ninguém disse aos Harvey. Quer dizer, a Polícia não lhes disse. Sabem apenas que a filha e Fred estão mortos. - Fez uma pausa e acrescentou: - A menos que você tenha divulgado alguma coisa que eu não saiba.

— Mrs. Harvey tentou contactar-me uma data de vezes mas não falei com ela nem praticamente com mais ninguém nestes últimos dias.

— Mantenha as coisas nesse pé - disse Wesley com firmeza. - Peço-lhe que divulgue informações apenas a mim.

— Chegará uma altura, Benton - afirmei com a mesma firmeza -, em que terei de divulgar a causa e a forma da morte. A família de Fred, a família de Deborah, têm esse direito por lei.

— Adie isso o mais tempo possível.

— Quer fazer o favor de me dizer porquê?

 Silêncio.

— Benton? - Já começava a pensar se ele ainda estaria na linha.

— Não faça é nada sem falar primeiro comigo. - Hesitou de novo e depois: - Calculo que saiba desse tal contrato que Abby Turnbull assinou para escrever um livro.

— Li qualquer coisa no jornal - respondi, começando a ficar irritada.

— Ela contactou-a outra vez? Quer dizer, recentemente?

 Outra vez?! Como é que Wesley sabia que Abby me visitara no passado Outono? Raios te partam, Mark! - pensei. Quando ele me telefonou, eu disse-lhe que Abby estava comigo nessa noite.

— Não tive notícias dela - respondi, friamente.

 

 Na segunda-feira de manhã, a rua à frente da minha casa estava coberta por uma espessa camada de neve, o céu cinzento e ameaçando mais mau tempo. Fiz um café e pus-me a pensar se seria prudente fazer a viagem, até Washington, de carro. Prestes a desistir dos meus planos, liguei para a polícia estadual e soube que a I-95 estava desimpedida, a neve reduzida a menos de dois centímetros e meio de espessura na região de Fredericksburg. Achando que a viatura oficial não conseguiria sair da entrada, transferi a caixa de cartão para o Mercedes.

 Ao entrar na Interstate dei-me conta de que se tivesse uma avaria ou fosse mandada parar pela Polícia não ia ser fácil explicar porque me dirigia para norte numa viatura não oficial com ossadas humanas no porta-bagagem. às vezes não bastava mostrar o crachá de médica legista. Nunca me hei-de esquecer do voo para a Califórnia transportando comigo uma grande pasta com uma parafernália de objectos sexuais sadomasoquistas. A pasta não foi além do exame de raios-X e quando dei por mim tinha o segurança do aeroporto a escoltar-me para nada mais nada menos que um interrogatório. Por mais que lhes dissesse, não lhes entrava na cabeça que eu fosse uma patologista forense a caminho do encontro anual da Associação Nacional de Médicos Legistas, onde iria fazer uma demonstração sobre asfixia auto-erótica. As algemas, coleiras com tachas, correias de cabedal e outras bugigangas esquisitas eram objectos de prova de velhos casos e não pertença minha.

 Por volta das dez e meia já chegara a Washington e conseguira descobrir um parque de estacionamento a um quarteirão da esquina da Constitution Avenue com a Twelfth. Não voltara ao Museu Nacional de História Natural do Smithsonian desde que lá frequentara, já há uns anos, um curso de antropologia forense. Quando transportei a caixa de cartão para dentro de um átrio perfumado de orquídeas envasadas e ruidoso de vozes de turistas, desejei poder apreciar descontraidamente dinossauros e diamantes, mausoléus e mastodontes, e desconhecer por completo os tesouros mais sinistros alojados dentro daquelas paredes.

 Subindo do chão até ao tecto, em todos os centímetros vagos das paredes fora da vista dos visitantes, havia estantes verdes de madeira contendo, entre outras coisas mortas, mais de trinta mil esqueletos humanos. Ossos de todas as espécies chegavam semanalmente por correio registado para que o Dr. Alex Vessey os examinasse. Certos despojos eram arqueológicos, outros não passavam de patas de urso ou de castor ou crânios hidrocefálicos de reses, artefactos de aspecto humano encontrados em bermas de estrada ou desenterrados por charruas julgando-se, de início, tratar-se dos restos mortais de alguém que tivera um fim violento. Outros embrulhos continham verdadeiramente más notícias, ossadas de alguém que fora assassinado.

Para além de naturalista e conservador do museu, o Dr. Vessey trabalhava para o FBI e colaborava com pessoas como eu.

 Obtendo a devida autorização do carrancudo segurança, prendi o meu passe de visitante e encaminhei-me para o elevador metálico que me conduziu ao segundo andar. Ao passar por paredes de gavetas dentro de um corredor penumbroso, atravancado, o ruído das pessoas que nos pisos inferiores admiravam o enorme elefante embalsamado desvaneceu-se.

Comecei a sentir claustrofobia. Lembrava-me de ansiar tão desesperadamente por estímulos sensoriais após oito horas de aulas ali dentro que, quando finalmente me escapava ao fim do dia, os passeios cheios de gente eram um prazer, o barulho dos carros um alívio.

 Fui encontrar o Dr. Vessey onde o vira pela última vez, dentro de um laboratório cheio de carrinhos de aço contendo esqueletos de aves e animais, dentes, fémures, mandíbulas. As prateleiras estavam cobertas com mais ossos e outras tristes relíquias humanas, como caveiras e cabeças mumificadas. O Dr. Vessey, cabelo branco e óculos de lentes grossas, estava sentado à secretária a falar ao telefone.

Enquanto ele acabava o telefonema, abri a caixa e retirei o envelope plástico contendo o osso da mão esquerda de Deborah Harvey.

— A filha da Dama de Ferro? - perguntou ele de imediato, tirando-me o envelope das mãos.

 Pareceu-me uma pergunta estranha. Mas, de certa forma, apropriada, pois Deborah reduzira-se a uma curiosidade científica, uma peça de material probatório.

— Sim - respondi, enquanto ele retirava a falange de dentro do envelope e começava a voltá-la delicadamente de um lado para o outro, à luz do candeeiro.

— Posso dizer-lhe sem hesitação, Kay, que não se trata de um corte post-mortem. Embora alguns cortes antigos possam parecer novos, os novos não conseguem parecer antigos - afirmou ele. - O interior do corte está descorado pelo meio ambiente, condizendo com a restante superfície do osso. Ademais, a forma como as bordas do corte estão dobradas para trás diz-me que não foi infligido em osso morto. O osso vivo dobra. O osso morto não.

— Foi essa exactamente a minha conclusão - disse eu, puxando uma cadeira -, mas sabe que a pergunta vai ser feita, Alex.

— E deve ser feita - precisou ele, fitando-me por cima dos óculos. - Não ia acreditar nas coisas que por aqui passam.

— Acho que ia - repliquei, infelizmente lembrada de que o grau de competência forense variava de forma impressionante de estado para estado.

— Um médico legista enviou-me um caso há uns meses, um pedaço de tecido mole e osso que me disse tratar-se de um recém-nascido encontrado no esgoto. A pergunta era: sexo e raça. A resposta foi: perdigueiro macho, com duas semanas de idade. Não muito antes disso, outro médico legista, que não percebia nada de patologia, enviou-me um esqueleto encontrado numa cova rasa. Não fazia ideia de como a pessoa morrera. Eu contei quarenta e tal cortes, bordas dobradas para fora, exemplos antológicos da plasticidade do osso vivo. Não se tratara, decididamente, de uma morte natural. - Limpou os óculos à barra do casaco de trabalho.

— Claro que também recebo dos outros. Ossos lascados durante a autópsia.

— Há alguma hipótese de este ter sido causado por um predador? — perguntei, embora não visse como tal pudesse ter sucedido.

— Bom, os cortes nem sempre são fáceis de distinguir de marcas feitas por carnívoros. Mas tenho quase a certeza de que neste caso foi uma lâmina qualquer. - Levantando-se, acrescentou jovialmente:

— Vamos lá dar uma vista de olhos.

 A minúcia antropológica, que me fazia perder a paciência, dava prazer ao Dr. Vessey, e foi cheio de energia e animação que se acercou do microscópio de dissecação, colocado sobre uma bancada, para colocar o osso na placa. Depois de um longo e silencioso olhar através das lentes, e de virar o osso no campo de luz, comentou:

— Esta é boa!

 Aguardei.

— E foi o único corte que encontrou?

— Sim - respondi. - Talvez descubra mais alguma coisa quando fizer o seu próprio exame. Mas eu não encontrei mais nada, excepto a bala de que lhe falei. Lombar inferior, na décima dorsal.

— Pois. Disse-me que a bala atingiu a medula espinal.

— Exactamente. Foi baleada nas costas. Retirei-lhe o projéctil da vértebra.

— Alguma ideia do local da agressão?

— Não sabemos em que sítio da mata se encontrava - ou sequer se estava na mata - quando levou o tiro.

— E tinha este corte na mão - comentou o Dr. Vessey, pensativo, tornando a olhar pelo microscópio. - Não temos forma de saber o que aconteceu primeiro. Ficaria paralisada da cintura para baixo depois de levar o tiro mas ainda conseguia mexer os braços.

— Um ferimento defensivo? - aventei, formulando as minhas suspeitas.

— Mas muito invulgar, Kay. O corte é dorsal e não palmar. - Recostou-se na cadeira e ergueu os olhos para mim. - Os ferimentos defensivos nas mãos são, na sua maioria, palmares. - Levantou as dele com as palmas voltadas para fora. - Mas ela recebeu este corte naparte de cima da mão. - Voltou as palmas das mãos para baixo.

— Normalmente associo os cortes nas costas da mão a alguém que se defende de forma agressiva.

— Aos murros - disse eu.

— Exactamente. Se eu avanço para si com uma faca e você desata aos murros, o mais provável é sofrer um golpe na parte de cima da mão. Não sofre, de certeza, nenhum nas superfícies palmares, a menos que a dada altura abra as mãos. Mas o mais significativo é que, na maioria das lesões defensivas, o golpe é lascado. O agressor ataca em movimentos oscilantes e a vítima levanta as mãos ou os antebraços para se esquivar da lâmina. Se o golpe for suficientemente profundo para atingir o osso, normalmente não se consegue descobrir muita coisa sobre a superfície cortante.

— Se a superfície cortante for serrilhada, - observei - num golpe lascado a lâmina cobre o seu próprio rasto.

— Uma das razões por que este é tão interessante - afirmou ele. — Não há dúvidas de que foi infligido por uma lâmina serrilhada.

— Quer dizer então que o golpe não foi lascado mas serrado? - perguntei, aturdida.

— Sim. - Tornou a meter o osso no envelope. - O tipo de serrilhado mostra que pelo menos meia polegada da lâmina deve ter atingido a parte de cima da mão. - Voltando para a secretária, acrescentou:

— Infelizmente é tudo o que posso dizer-lhe a respeito da arma e do que terá acontecido. Como sabe, a variabilidade é enorme. Não posso dizer-lhe qual o tamanho da lâmina, por exemplo, se o ferimento ocorreu antes ou depois de ela ser baleada, e em que posição se encontrava quando sofreu o golpe.

 Deborah podia estar deitada de costas. Podia estar ajoelhada ou de pé, e, ao voltar para o carro, comecei a analisar. O corte na mão era profundo e teria sangrado abundantemente. O que a situava, muito provavelmente, na picada ou na mata quando foi ferida, porque não havia sangue no interior do jipe. Teria aquela ginasta de cinquenta quilos lutado com o agressor? Teria tentado dar-lhe um murro, estaria aterrorizada e a lutar pela vida, por Fred já ter sido assassinado? E onde é que se encaixava a arma de fogo? Por que usara o assassino duas armas quando, pelos vistos, não precisara de uma de fogo para matar Fred?

 Estava capaz de apostar que Fred fora degolado. E muito provavelmente, depois de levar o tiro, a própria Deborah também o fora, ou então estrangulada. Não levou o tiro e ficou lá, agonizante. Não se arrastou, semiparalisada, para se deitar ao lado de Fred e enfiar o braço debaixo do dele. Os seus corpos haviam sido deliberadamente colocados nessa posição.

 Virando na Constitution, finalmente encontrei a Connecticut que acabaria por levar-me a uma zona a noroeste da cidade que me teria parecido um bairro da lata se não fosse o Hilton. Erguendo-se de uma encosta ajardinada que ocupava todo um quarteirão, o hotel era um imponente paquete branco luxuoso, rodeado por um mar revolto de empoeiradas lojas de bebidas, lavandarias automáticas, um clube nocturno anunciando "dançarinas ao vivo" e um renque de casas degradadas com janelas partidas, tapadas com cartões, e degraus de entrada quase a tocar o asfalto. Deixando o carro no parque subterrâneo do hotel, atravessei a Florida Avenue e subi os degraus de entrada de um esquálido prédio de apartamentos de tijolos amarelos com um toldo azul desbotado à frente. Premi a campainha do apartamento 28, onde Abby Turnbull morava.

— Quem é?

 Mal reconheci a voz incorpórea que falou, roufenha, pelo intercomunicador.

Quando me anunciei, não percebi o que Abby disse ou se teria apenas sufocado uma exclamação de surpresa. A porta abriu-se com o estalido electrónico.

 Entrei para um patamar mal iluminado, com uma carpete amarela e suja de terra no chão, e uma fileira de caixas do correio de latão baço numa parede forrada com corticite. Lembrei-me das suspeitas de Abby, de andar alguém a mexer-lhe na correspondência. O certo é que não me pareceu fácil conseguir entrar no prédio sem ter chave. As caixas do correio também precisavam de chave. Tudo o que ela me dissera em Richmond, no Outono passado, soava-me a falso. Quando cheguei ao andar dela, depois de subir cinco lanços de escada, ia sem fôlego e furiosa.

 Abby estava à porta.

— Que está aqui a fazer? - sussurrou-me, muito pálida - É a única pessoa que conheço neste prédio, por isso que acha que estou aqui a fazer?

— Não veio a Washington só para me visitar. - O seu olhar estava amedrontado.

— Vim em serviço.

 Pela abertura da porta, pude ver os sofás de um branco árctico, almofadas soltas em tons pastel e abstractas pinturas monotemáticas de Gregg Carbo, decoração que reconheci da sua antiga casa em Richmond. Por um instante revi, abalada, as imagens daquele dia horrível. Recordei o corpo em decomposição da irmã dela, em cima da cama no primeiro andar, polícias e paramédicos a andar de um lado para o outro e Abby sentada num sofá, as mãos a tremerem com tanta força que mal conseguia segurar um cigarro. Nessa altura não a conhecia, só de nome, e não simpatizei nada com ela. Por ocasião do homicídio da irmã, Abby recebera, unicamente, as minhas condolências. Só muito mais tarde granjeara a minha confiança.

— Sei que não vai acreditar, - disse ela no mesmo tom sussurrante - mas ia visitá-la para a semana.

— Eu tenho telefone.

— Não podia - argumentou, e continuávamos a conversar no corredor.

— Não me convida para entrar, Abby?

 Ela abanou a cabeça.

 Senti um arrepio de medo na espinha.

 Olhando para trás dela, perguntei baixinho:

— Está alguém aí dentro?

— Vamos dar uma volta - segredou.

— Abby, por amor de Deus...

 Lançou-me um olhar sisudo e levou um dedo aos lábios.

 Fiquei convencida de que estava a perder o juízo. Sem saber o que havia de fazer, esperei no corredor enquanto ela foi lá dentro buscar o casaco. Depois saí atrás dela para a rua e durante uma boa meia hora caminhámos apressadamente pela Connecticut sem que nenhuma de nós falasse. Levou-me para o Hotel Mayflower e procurou uma mesa no canto mais escuro do bar. Pedindo um café expresso, recostei-me na cadeira de cabedal e observei-a tensamente por cima da mesa de tampo polido.

— Sei que não entende o que se está a passar - começou ela, olhando em volta. Ao princípio da tarde o bar estava quase deserto.

— Abby! Sente-se bem?

 O seu lábio inferior começou a tremer.

— Não podia telefonar-lhe. Nem sequer posso conversar consigo dentro da porcaria do meu apartamento! É como eu lhe disse em Richmond, só que mil vezes pior.

— Precisa de ir a um médico - disse eu, muito calmamente.

— Não estou maluca.

— Está a um passo de ficar completamente chanfrada.

 Respirando fundo, encarou-me com ar feroz:

— Ando a ser seguida, Kay. Tenho a certeza que o meu telefone está sob escuta e não sei mesmo se não haverá microfones colocados no meu apartamento - razão por que não pude convidá-la a entrar. Está bem, pronto, conclua que estou paranóica, maluca ou lá o que queira pensar, mas eu vivo no meu mundo e você não. Eu é que sei pelo que tenho passado. Sei o que sei acerca desses casos e o que tem acontecido desde que me envolvi neles.

— O que é que tem acontecido, exactamente?

 A empregada voltou com os nossos pedidos. Depois de ela se afastar, Abby respondeu:

— Menos de uma semana depois de eu voltar de Richmond, entraram-me no apartamento.

— Foi assaltada?

— Ah, não. - Soltou uma risada rouca. - Nada disso. A pessoa - ou pessoas - eram espertas de mais para isso. Não roubaram nada.

 Olhei para ela com ar intrigado.

— Tenho um computador em casa para os meus escritos e no disco rígido há um ficheiro sobre esses casais, sobre as suas estranhas mortes. Há muito tempo que ando a tomar notas e transcrevo-as para esse ficheiro. O programa de tratamento de texto que eu uso tem uma opção que grava automaticamente aquilo em que estive a trabalhar, tenho-o programado para fazer isso de dez em dez minutos. Para ter a certeza que não perco nada, caso falte a corrente ou coisa assim, está a perceber? Ainda por cima no prédio em que eu moro...

— Abby - interrompi. - De que raio está a falar?

— O que estou a dizer é que se você entrar num ficheiro do meu computador, se lá estiver durante dez minutos ou mais, ele não só cria uma cópia, como, quando o fecha, ficam lá registadas a data e a hora. Está a perceber?

— Não sei bem. - Estendi a mão para o café.

— Lembra-se de quando fui visitá-la?

 Acenei com a cabeça.

— Tirei apontamentos quando falei com a empregada do Seven-Eleven.

— Sim. Lembro-me.

— E falei com uma data de pessoas, incluindo Pat Harvey. Tencionava passar os apontamentos dessas entrevistas para o computador quando chegasse a casa. Mas as coisas complicaram-se. Como se recorda, estive consigo numa terça-feira à noite e voltei de carro na manhã seguinte. Bom, nesse dia, quarta-feira, falei com o meu editor por volta do meio-dia e ele de repente mostrou-se desinteressado, disse que queria pôr de lado o caso Harvey-Cheney porque o jornal ia fazer um suplemento especial de fim-de-semana sobre a sida. Achei estranho - prosseguiu ela. - O caso Harvey-Cheney era um grande furo, o Post andava interessadíssimo nele. Depois volto de Richmond e de repente dão-me outro trabalho? - Fez uma pausa para acender um cigarro. - Posto isso, não tive um momento livre até sábado, que foi quando finalmente me sentei à frente do computador para abrir esse ficheiro, e vejo lá uma data e uma hora que não percebi. Sexta-feira, 20 de Setembro, 14 e 13, quando eu não estava em casa. O ficheiro tinha sido aberto, Kay. Alguém entrou nele e sei que não fui eu, porque não mexi no computador - uma única vez - até esse sábado, 21, em que tive um tempo livre.

— Talvez o relógio do seu computador estivesse avariado...

 Ela já estava a abanar a cabeça.

— Não estava. Eu verifiquei.

— Como é que alguém conseguia fazer uma coisa dessas? - perguntei.

— Como é que alguém entrava no seu apartamento sem ser visto, sem o seu conhecimento?

— O FBI.

— Abby - disse eu, exasperada.

— Há muita coisa que você não sabe.

— Então elucide-me, por favor - pedi-lhe.

— Por que acha que eu pedi uma licença no Post?

— Segundo o New York Times, anda a escrever um livro.

— E deduz que eu já sabia que ia escrever esse livro quando estive consigo em Richmond.

— É mais que uma dedução - repliquei, sentindo-me outra vez irritada.

— Não ia. Juro. - Inclinando-se para a frente, acrescentou numa voz trémula de emoção: - Tiraram-me da ronda. Sabe o que significa?

 Fiquei sem palavras.

— Pior que isso, só ter sido despedida, mas eles não podiam fazê-lo. Não havia justa causa. Caramba, eu o ano passado ganhei um prémio de jornalismo de investigação e de repente querem transferir-me para os destaques. Já ouviu uma destas? Destaques. Agora diga-me lá o que pensa disso?

— Não sei, Abby.

— Eu também não. - Pestanejou para conter as lágrimas. - Mas tenho o meu amor-próprio. Sei que há nisso alguma coisa importante, um furo. E vendi-o. Pronto. Pense o que quiser mas é uma tentativa de sobrevivência. Tenho de viver e tive de afastar-me do jornal por uns tempos. Destaques. Francamente! Estou muito assustada, Kay.

— Fale-me do FBI - disse eu, com firmeza.

— Já lhe contei muita coisa. Do meu engano, ao virar, acabando por ir dar ao Camp Peary, e da visita que os agentes do FBI me fizeram.

— Não chega.

— O valete de copas, Kay - acrescentou, como se estivesse a dizer-me alguma coisa que eu já soubesse.

 Quando percebeu que eu não fazia a mínima ideia do que ela estava a falar, a sua expressão tornou-se atónita.

— Não sabe? - perguntou.

— Que valete de copas?

— Em cada um desses casos, foi encontrada uma carta de jogar.

— O seu olhar incrédulo fixou-se no meu.

 Eu lembrava-me vagamente de algo que lera num dos poucos autos de interrogatório da Polícia que tinha visto. O detective de Gloucester falara com um amigo de Bruce Philips e Judy Roberts, o primeiro casal. O que é que o detective perguntara? Lembrava-me que tinha achado bastante estranho. Cartas. Judy e Bruce costumavam jogar às cartas? O amigo deles alguma vez tinha visto cartas dentro do Carro de Bruce?

— Fale-me das cartas, Abby - pedi-lhe.

— Sabe aquela do ás de espadas, como era utilizado no Vietname?

 Respondi-lhe que não.

— Quando uma determinada unidade das tropas americanas queria marcar uma posição depois de matar alguém, deixava um ás de espadas em cima do corpo. Aliás, um fabricante de cartas de jogar fornecia a essa unidade embalagens de cartas só para essa finalidade.

— O que é que isso tem a ver com a Virgínia? - perguntei, baralhada.

— Há um paralelo. Só que, neste caso, não é um ás de espadas mas um valete de copas. Em cada um dos primeiros quatro casos, foi encontrado um valete de copas no carro abandonado.

— Onde obteve essa informação?

— Sabe que não posso revelar-lhe isso, Kay. Mas garanto-lhe que veio de mais do que uma fonte. Por isso é que tenho tanta certeza.

— E alguma dessas suas fontes também lhe disse que foi encontrado um valete de copas no jipe de Deborah Harvey?

— Foi? - Sondou ela, mexendo distraidamente a bebida.

— Não me venha com joguinhos desses - avisei.

— Claro que não. - Fitou-me nos olhos. - Se foi encontrado um valete de copas dentro do jipe dela, ou noutro sítio qualquer, eu não sei de nada. Trata-se, claro, de um pormenor importante, porque relacionaria definitivamente as mortes de Deborah Harvey e Fred Cheney com as dos primeiros quatro casais. Pode crer que ando realmente à procura desse elo de ligação. Não sei se ele existe. Ou, se existe, o que significa.

— Que tem isso a ver com o FBI? - perguntei, relutantemente, pois não tinha a certeza se queria ouvir a resposta dela.

— Eles andam aflitos com estes casos quase desde o princípio, Kay. E ultrapassa a habitual participação do VICAP. Há muito tempo que o FBI sabe da existência das cartas. Quando foi encontrado um valete de copas dentro do Carro do primeiro casal - em cima do tablier -, ninguém prestou muita atenção a isso. Depois desapareceu o segundo casal e lá estava outra carta, desta vez em cima do banco do passageiro. Quando Benton Wesley soube, passou imediatamente a controlar as coisas. Tornou a contactar o detective de Gloucester County e disse-lhe para não falar do valete de copas encontrado no Carro. Disse a mesma coisa ao investigador do segundo caso. De cada vez que aparecia um carro abandonado, Wesley telefonava logo para o respectivo investigador.

 Fez uma pausa, observando-me como se a tentar ler os meus pensamentos.

— Se calhar não devia ficar admirada por você não saber - acrescentou. — Acho que não é lá muito difícil a Polícia ocultar-lhe o que foi descoberto dentro dos carros.

— Não é nada difícil - repliquei. - Se as cartas fossem encontradas junto dos corpos, já era outra questão. Não sei como poderiam ocultar-me uma coisa dessas. - Ainda estava a proferir as palavras e já a dúvida se me instalara na mente. A Polícia só me chamara ao local do crime horas depois. Quando cheguei, Wesley já lá estava e tinham andado a mexer nos corpos de Deborah Harvey e Fred Cheney à procura de objectos pessoais.

— Seria de esperar que o FBI mantivesse isso em segredo - continuei eu a racionalizar. - O pormenor pode ter muita importância para a investigação.

— Estou tão farta de ouvir tangas dessas - comentou Abby, furiosa.

— O pormenor de o assassino deixar um cartão de visita, por assim dizer, só é importante para a investigação se o tipo se entregar e confessar, dizendo que deixou uma carta em cada um dos carros dos casais, quando não tinha forma de o saber se não tivesse sido realmente ele a fazê-lo. Não me parece que isso venha a acontecer. E não me parece que o FBI esteja a esconder a coisa só por quererem ter a certeza que ninguém lixa a investigação.

— Então por que será? - perguntei, apreensiva.

— Porque não se trata apenas de um caso de assassínios em série.

Não se trata apenas de um chanfrado qualquer que anda para aí a matar casais. É uma coisa política. Tem de ser.

 Calando-se, procurou o olhar da empregada. Abby só tornou a falar depois de nova rodada de bebidas ter sido trazida para a mesa e de dar uns golinhos na dela.

— Kay - continuou, agora mais calma -, não acha estranho que Pat Harvey tenha falado comigo quando estive em Richmond?

— Para ser franca, acho.

— Já pensou por que é que ela terá concordado?

— Suponho que estaria disposta a fazer tudo para recuperar a filha - respondi. - E às vezes a publicidade ajuda.

 Abby abanou a cabeça.

— Quando falei com Pat Harvey, ela contou-me muitas coisas que eu jamais publicaria. E olhe que não foi o primeiro encontro que tive com ela.

— Não estou a perceber. - Sentia-me a tremer e não era só do café expresso.

— Sabe da cruzada dela contra as organizações humanitárias ilegais.

— Vagamente - respondi.

— A dica que a alertou inicialmente para isso partiu de mim.

— De si?

— No ano passado, comecei a trabalhar numa grande investigação sobre o tráfico de droga. à medida que ia avançando, comecei a descobrir uma data de coisas que não podia confirmar, e é aí que entram as organizações humanitárias fraudulentas. Pat Harvey tem cá um apartamento, no Watergate, e uma noite fui lá entrevistá-la, pedir-lhe algumas declarações para o meu artigo. Começámos a conversar.

Acabei por falar-lhe das alegações que eu ouvira, a ver se ela podia corroborar alguma delas. Foi assim que começou.

— Que alegações, exactamente?

— Sobre a CAMCCD, por exemplo - respondeu Abby. - Alegações de que algumas dessas campanhas antidroga são na realidade fachadas para os cartéis da droga e outras actividades ilegais na América Central. Disse-lhe que tinha sido informada, pelo que eu considerava fontes fidedignas, de que milhões de dólares doados todos os anos acabavam por ir parar aos bolsos de pessoas como o Manuel Noriega. Isso, claro, antes de o Noriega ser preso. Mas calcula-se que fundos da CAMCCD e outras organizações ditas humanitárias estejam a ser usados para comprar informações a agentes americanos e facilitar o tráfico de heroína nos aeroportos panamianos, alfândegas, no Extremo Oriente e nas Américas.

— E Pat Harvey, antes de você ir ao apartamento dela, nunca ouvira falar disso?

— Não, Kay. Acho que não fazia a mínima ideia, mas ficou indignada. Começou a investigar até que, por fim, se apresentou diante do Congresso com um relatório. Criaram uma subcomissão para investigar o caso e ela foi convidada para consultora, como por certo já sabe. Pelos vistos, descobriu uma data de podres e foi marcada uma audiência para Abril próximo. Há quem não esteja contente com isso, incluindo o Departamento de Justiça.

 Eu começava a perceber onde aquilo iria dar.

— Há informadores envolvidos - prosseguiu Abby -, procurados há anos pela DEA, pelo FBI e pela CIA. E sabe como a coisa funciona. Quando o Congresso se mete ao barulho, tem poderes para dar imunidade especial em troca de informações. Quando esses informadores prestarem depoimento nessa audiência do Congresso, acaba-se a brincadeira. O Departamento de Justiça não pode julgá-los.

— O que significa que os esforços de Pat Harvey não são propriamente bem vistos pelo Departamento de Justiça.

— O que significa que o Departamento de Justiça ficaria, secretamente, todo satisfeito se a investigação dela fosse por água abaixo.

— A Directora do Programa Nacional de Combate à Droga, ou Dama de Ferro - comentei -, está subordinada ao Procurador Geral que manda no FBI e na DEA. Se Mrs. Harvey tem algum conflito de interesses com o Departamento de Justiça, por que é que o PG não lhe põe um freio?

— Porque não é com o PG que ela tem problemas, Kay. O que ela está a fazer vai favorecê-lo a ele, vai favorecer a Casa Branca.

A Dama de Ferro está a marcar pontos na luta contra os crimes da droga. O que o cidadão comum não percebe é que, no que respeita ao FBI e à DEA, os resultados dessa audiência não sejam suficientemente fortes. O que vai acontecer é uma revelação total, dos nomes dessas organizações humanitárias, e a verdade acerca das suas actividades. Esta publicidade vai acabar com a mama de grupos como a CAMCCD, mas os patifes metidos nisso não levam mais que uma palmada na mão. Os agentes que investigam os casos acabam por ficar a chuchar no dedo porque ninguém vai preso. Os maus não deixam de fazer coisas más. É como fechar um bar ilegal. Duas semanas depois ele abre noutra esquina.

— Não estou a ver qual é a ligação disso com o que sucedeu à filha de Mrs. Harvey - repeti.

— Veja a situação. Se andasse de candeias às avessas com o FBI - respondeu Abby -, e talvez até em conflito com eles, como é que se sentia se a sua filha desaparecesse e fosse o FBI que andasse a investigar o caso?

 Não era uma ideia lá muito agradável.

— Com ou sem motivos, ficaria muito vulnerável e paranóica. Creio que me seria difícil confiar neles.

— Isso é apenas a parte superficial dos sentimentos de Pat Harvey. Acho que está mesmo convencida de que alguém se serviu da filha para chegar a ela, que Deborah não é a vítima de um crime ocasional mas sim de um trabalho pago. E não põe de lado a hipótese de o FBI estar envolvido...

— Deixe-me ver se eu percebi - afirmei, interrompendo-a. - Está a insinuar que Pat Harvey desconfia que o FBI esteja por detrás das mortes da filha dela e de Fred?

— O envolvimento do FBI foi algo que já lhe ocorreu.

— Está-me a dizer que também considera essa hipótese?

— Cheguei ao ponto em que acredito em tudo.

— Santo Deus, - comentei, baixinho.

— Sei que parece uma estupidez, mas, quanto mais não seja, penso que o FBI sabe o que se está a passar e talvez até saiba quem foi o autor, e por isso é que eu sou um problema. Não querem que eu ande para aí a cheiricar. Têm medo que eu possa levantar alguma pedra e descobrir o que realmente se esconde por debaixo dela.

— Se for esse o caso - recordei-lhe -, então quer-me parecer que o que o Post lhe ofereceria era um aumento, em vez de a mandarem para os destaques. Nunca pensei que o Post fosse facilmente intimidável.

— Eu não sou nenhum Bob Woodward - replicou ela, amargamente. — Não estou lá há muito tempo e o jornalismo policial é uma área sem importância, onde normalmente os maçaricos fazem o estágio. Se o Director do FBI ou alguém da Casa Branca quiser discutir processos judiciais ou diplomacia com as futuras estrelas do Post, eu não vou ser convidada para assistir à reunião nem, necessariamente, ser informada do que se passa.

 Se calhar tinha razão quanto a isso, pensei. Se a conduta de Abby na redacção fosse parecida com a de agora, era pouco provável que alguém tivesse interesse em trabalhar com ela. Na verdade, eu não ficara surpreendida por ela ter sido afastada da área policial.

— Desculpe, Abby - disse-lhe -, eu até entendia que a política fosse um factor importante no caso de Deborah Harvey, mas e nos outros? Onde é que entram os outros casais? O primeiro desapareceu dois anos e meio antes de Deborah e Fred.

— Kay - replicou ela, acaloradamente -, eu não sei as respostas. Mas juro por Deus que há nisso algum segredo. Alguma coisa que o FBI, o governo, não quer que o público venha a saber. Ouça o que eu lhe digo, mesmo que as mortes acabem, os casos nunca serão resolvidos se o FBI estiver metido. É contra isso que eu me revolto. E contra isso que você se revolta. - Acabando a bebida, acrescentou: - E talvez até seja bom, desde que as mortes acabem. Mas o problema é quando é que acabarão? E já poderiam ter acabado?

— Por que está a contar-me tudo isso? - perguntei-lhe, sem rodeios.

— Trata-se de jovens inocentes que aparecem mortos. Já para não falar no óbvio: confio em si. E talvez precise de uma amiga.

— Vai continuar com o livro?

— Sim. Só espero é vir a escrever o último capítulo.

— Por favor tenha cuidado, Abby.

— Pode crer - replicou ela. - Eu sei.

 Quando saímos do bar, estava escuro e frio lá fora. Os meus pensamentos eram um autêntico turbilhão enquanto seguíamos aos encontrões pelos passeios pejados de gente, e, nem no regresso a Richmond, me senti melhor. Queria falar com Pat Harvey mas não me atrevia a fazê-lo. Queria falar com Wesley mas sabia que ele não me divulgaria os seus segredos, se é que eles existiam, e, mais do que nunca, sentia-me insegura quanto à nossa amizade.

 Mal cheguei a casa, telefonei a Marino.

— Onde é que, na Carolina do Sul, mora Hilda Ozimek? - perguntei-lhe.

— Porquê? Que descobriu no Smithsonian?

— Por favor, responda apenas à minha pergunta.

— Numa cidadezeca qualquer chamada Six Mile.

— Obrigada.

— Ei! Antes de desligar, importa-se de me dizer o que aconteceu em Washington?

— Esta noite não, Marino. Se não nos virmos amanhã, dê-me uma telefonadela.

 

Às 5 e 45 da manhã, o Aeroporto Internacional de Richmond estava deserto. Restaurantes fechados, jornais amontoados diante de lojas de presentes encerradas, e um empregado da limpeza que vagarosamente empurrava um caixote do lixo, um sonâmbulo apanhando papéis de pastilhas elásticas e pontas de cigarro.

 Fui encontrar Marino dentro do terminal da USAir, olhos fechados e gabardina enrolada debaixo da cabeça, enquanto dormia uma soneca numa sala abafada e artificialmente iluminada com cadeiras vazias e carpete azul às pintinhas. Por um breve instante vi-o como se não o conhecesse, com uma sensação de tristeza e afecto. Marino envelhecera.

 Creio que não estaria há mais do que uns dias no meu novo cargo quando nos conhecemos. Estava na morgue a fazer uma autópsia quando um homem alto, de rosto impávido, lá entrou posicionando-se do outro lado da mesa. Lembro-me de ter sentido o seu olhar frio. Tive a incómoda sensação de que estava a dissecar-me tão minuciosamente como eu dissecava o meu paciente.

— Então é a nova chefe. - Fizera o comentário num tom provocador, como se a desafiar-me para eu afirmar que achava poder exercer um cargo nunca antes ocupado por uma mulher.

— Sou a doutora Scarpetta - replicara eu. - O senhor é da polícia de Richmond, presumo.

 Ele disse o nome por entre dentes, e, depois, esperou em silêncio, enquanto eu retirava várias balas do seu caso de homicídio e lhas entregava contra recibo. Pôs-se a andar sem sequer um "adeus" ou "prazer em conhecê-la", criada que estava a nossa relação profissional.

Percebi que antipatizava comigo apenas por eu ser mulher e limitei-me a classificá-lo como um parvalhão de cérebro azedado pela testosterona. A verdade é que, secretamente, ele intimidara-me até mais não.

 Custava-me olhar agora para Marino e imaginar que cheguei a achá-lo ameaçador. Parecia velho e acabado, a camisa esterlicada sobre a grande barriga, o cabelo rebelde já a encanecer, testa franzida no que não era uma expressão de troça ou irritação, mas uma série de rugas profundas causadas pelo desgaste da tensão crónica e da insatisfação.

— Bom dia. - Toquei-lhe ao de leve no ombro.

— O que é que traz no saco? - murmurou ele sem abrir os olhos.

— Pensei que estivesse a dormir - repliquei, admirada.

 Ele sentou-se direito e bocejou.

 Instalando-me a seu lado, abri o cartucho e tirei copos de papel com café, e roscas com queijo creme que fizera em casa, e aquecera no micro-ondas minutos antes de sair, ainda de noite.

— Calculo que não tenha comido. - Passei-lhe um guardanapo.

— Parecem mesmo roscas a sério.

— E são - retorqui, desembrulhando a minha.

— Julgava que tinha dito que o avião partia às seis.

— Seis e meia. Tenho a certeza que foi isso que eu lhe disse. Espero que não tenha estado muito tempo à espera.

— Pois estive.

— Desculpe.

— Tem os bilhetes, não tem?

— Na minha bolsa - respondi. Havia alturas em que falávamos como um casal de velhotes.

— Se quer que lhe diga, não sei bem se essa sua ideia vale o dinheiro. Do meu bolso é que não saía, mesmo que eu o tivesse. Mas não me agrada estar a vê-la metida em despesas, Doutora. Sentia-me muito melhor se pelo menos tentasse que a reembolsassem.

— Eu não me sentiria melhor. - Já tínhamos discutido aquela questão. - Não vou apresentar nenhum voucher de reembolso e você também não. Apresenta-se um voucher e deixa-se ficar um rasto de papel. Além disso - acrescentei dando um golinho no café -, posso pagar.

— Se com isso poupasse seiscentos dólares, eu cá deixava um rasto de papel daqui até à Lua.

— Disparate. Eu conheço-o muito bem.

— Sim. É um disparate. Toda esta história é ridícula como o caraças. - Deitou vários pacotes de açúcar no café. - Acho que a Abby Turncoat lhe deu a volta ao miolo.

— Obrigada - repliquei laconicamente.

 Começaram a chegar outros passageiros e era espantoso o poder que Marino tinha para fazer com que o mundo se inclinasse ligeiramente sobre o seu eixo. Resolvera sentar-se numa zona estritamente para não fumadores, depois fora buscar um cinzeiro de pé alto a várias filas de cadeiras mais à frente e colocou-o ao lado da dele. Isto serviu de convite subliminar para que outros fumadores semi-acordados viessem sentar-se ao pé de nós, alguns deles trazendo consigo outros cinzeiros. Quando estávamos prontos para embarcar, não havia praticamente nenhum cinzeiro na zona dos fumadores e ninguém sabia ao certo onde devia sentar-se. Envergonhada e decidida a não participar nessa aquisição hostil, deixei ficar o meu maço dentro da bolsa.

 Marino, que ainda gostava menos de voar que eu, dormiu até Charlotte, onde fizemos transbordo para um pequeno avião a hélice que me recordou, desagradavelmente, o quanto era ténue a linha divisória entre a carne humana e o vazio. Já tinha a minha quota-parte de desastres aéreos e sabia o que era ver um avião e os seus passageiros espalhados por muitos quilómetros. Reparei que não tinha lavabo nem serviço de bar, e, quando os motores arrancaram, o avião estremeceu como se acometido por uma convulsão. Na primeira parte da viagem, tive o raro privilégio de observar os pilotos a conversarem um com o outro, espreguiçando-se e bocejando até que uma hospedeira avançou pela coxia e fechou a cortina. O ar ia ficando mais turbulento, montanhas a aparecer por entre o nevoeiro. Na segunda vez que o avião perdeu subitamente altitude, empurrando-me o estômago para a garganta, Marino agarrou-se aos braços da cadeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Bolas, - resmungou e comecei a arrepender-me de lhe ter trazido o pequeno-almoço. Estava mesmo com ar de quem ia vomitar.

— Se esta lata conseguir aterrar inteira, vou tomar um copo. E estou-me marimbando para as horas que são.

— Eu pago - disse um sujeito à nossa frente, voltando-se para trás.

 Marino olhava fixamente para um estranho fenómeno ocorrendo numa parte da coxia mesmo diante de nós. Evolando-se do rebordo metálico da alcatifa, havia uma estranha condensação que eu nunca vira em nenhum voo. Era como se as nuvens entrassem de mansinho para dentro do aparelho, e, quando Marino chamou a atenção da hospedeira com um sonoro "Que raio?", ela pura e simplesmente ignorou-o.

— Da próxima vez deito-lhe um bocadinho de fenobarbital no café - avisei-o de dentes cerrados.

— Da próxima vez que resolva falar com alguma cigana chanfrada que mora atrás do sol posto, eu não venho consigo.

 Durante meia hora sobrevoámos Spartanburg, aos estremeções, rajadas de chuva gelada a bater nas janelas. Não podíamos aterrar por causa do nevoeiro, e, para ser franca, cheguei mesmo a pensar que íamos morrer. Pensei na minha mãe. Pensei em Lucy, a minha sobrinha.

Devia ter ido passar o Natal a casa mas estava muito abatida pelos meus próprios problemas e não quis que me fizessem perguntas sobre Mark. Tenho muito trabalho, mãe. Nesta altura não posso sair daqui. "Mas é Natal, Kay." Não me recordava da última vez que a minha mãe chorara, mas sempre percebi quando estava com vontade de o fazer. Ficava com uma voz esquisita. As palavras mais espaçadas.

"A Lucy vai ficar tão decepcionada!" dissera ela. Eu enviara a Lucy um generoso cheque e telefonara-lhe na manhã do dia de Natal. Tinha muitas saudades minhas, mas creio que eu ainda tinha mais dela.

 De repente as nuvens apartaram-se e o sol iluminou as janelas. Espontaneamente, todos os passageiros, incluindo eu, deram uma salva de palmas a Deus e aos pilotos. Festejámos a nossa sobrevivência tagarelando de umas filas para as outras como se fôssemos, todos, amigos há muitos anos.

— Afinal talvez a bruxa Hilda esteja a velar por nós - comentou Marino sarcasticamente, o rosto coberto de suor.

— Talvez esteja - volvi, respirando fundo ao aterrarmos.

— Bom, então não se esqueça de lhe agradecer por mim.

— Pode agradecer-lhe pessoalmente, Marino.

— Pois - replicou ele com um bocejo e já totalmente recuperado.

— Ela parece muito simpática. Se calhar, por uma vez, devia encarar a hipótese de ter um espírito aberto.

— Pois - tornou ele a dizer.

 Quando obtive o número de Hilda Ozimek através das informações e lhe telefonei, estava a imaginar uma mulher astuta e desconfiada, que chavetava todos os seus comentários com cifrões. Em vez disso, mostrara-se simples e afável, e surpreendentemente confiante.

Não fez perguntas nem quis um comprovativo da minha identidade.

A sua voz só me pareceu preocupada uma vez, e foi quando me disse que não podia ir buscar-nos ao aeroporto.

 Como era eu que pagava e apetecia-me ter um motorista, disse a Marino para ele escolher o carro que quisesse. Como um rapaz de dezasseis anos no seu primeiro teste de condução para a virilidade, escolheu um Thunderbird novinho em folha, preto, com tecto de abrir, leitor de cassetes, janelas de abertura automática, estofos de pele. Seguiu para oeste com o tejadilho aberto e o aquecimento ligado no máximo, enquanto eu lhe dava mais pormenores acerca do que Abby me contara em Washington.

— Sei que os corpos de Deborah Harvey e Fred Cheney foram mudados de sítio - afirmei - e agora acho que percebo porquê.

— Eu não sei se percebo - retorquiu ele -, portanto por que é que não me explica isso como deve ser?

— Nós dois chegámos à área de serviço antes de o jipe ter sido revistado - comecei - e não vimos nenhum valete de copas no tablier, em cima do banco ou em mais lado nenhum.

— Não quer dizer que a carta não estivesse dentro do porta-luvas ou coisa assim e que os agentes só a tenham encontrado depois de os cães acabarem de farejar. - Accionando o controlo de velocidade de cruzeiro, acrescentou: - Se é que essa história da carta é verdadeira. Como já lhe disse, é a primeira vez que ouço falar nisso.

— Por uma questão de lógica, partamos do princípio de que é.

— Continue.

— O Wesley chegou à área de serviço depois de nós, portanto também não viu carta nenhuma. Mais tarde, o jipe foi revistado pela Polícia e pode ter a certeza que ele se encontrava por perto, ou então ligou ao Morrell a querer saber o que fora encontrado. Se não havia sinal de valete de copas, e quase que aposto que foi esse o caso, deve ter sido uma desilusão para ele. Terá pensado logo que, ou o desaparecimento de Deborah e Fred não tinha qualquer relação com os desaparecimentos e mortes dos outros casais, ou, então, se Deborah e Fred já estavam mortos, era possível que desta vez a carta pudesse ter sido deixada no local do crime, juntamente com os corpos.

— E está a pensar que foi por isso que os corpos foram mudados de sítio antes de nós lá chegarmos. Porque a Polícia andava à procura da carta.

— Ou o Benton. Sim, é o que estou a pensar. Caso contrário, não faz sentido nenhum, para mim. O Benton e a Polícia sabem que não devem mexer num corpo antes de o médico legista chegar. Só que o Benton não queria correr o risco de um valete de copas ir parar à morgue com os corpos. Não queria que eu ou mais alguém o encontrasse ou soubesse disso.

— Então fazia muito mais sentido contar-nos e dizer para ficarmos de bico calado em vez de andar para lá a remexer o local - argumentou Marino. - Não me parece que tenha estado sozinho na mata. Havia outros agentes por perto. Teriam reparado, se o Benton encontrasse alguma carta.

— É evidente - concordei -, mas ele também sabe que quanto menos pessoas souberem, melhor. E se eu encontro uma carta de jogar entre os objectos pessoais de Deborah ou de Fred, isso fica registado no meu relatório. Advogados de acusação, membros da minha equipa, companhias de seguros, outras pessoas acabarão por ver os meus relatórios da autópsia.

— Está bem, está bem. - Marino começava a ficar impaciente. — E então? Quer dizer, qual é o problema?

— Não sei. Mas se o que a Abby está a insinuar for verdade, o aparecimento dessas cartas deve ser um grande problema para alguém.

— Não me leve a mal, Doutora, mas nunca fui muito à bola com a Abby Turnbull. Já quando ela trabalhava em Richmond, e olhe que não mudei de ideias desde que ela está no Post.

— Que eu saiba, ela nunca mentiu - repliquei.

— Pois. Que saiba.

— O detective de Gloucester fez referência a cartas de jogar, numa transcrição que eu li.

— E se calhar foi aí que a Abby foi buscar a ideia. Agora anda a jogar com isso. A fazer deduções. A ver se pega. A única coisa que lhe interessa é escrever o livro.

— Ela agora parece outra. Está paranóica, furiosa, mas não concordo consigo a respeito do carácter dela.

— Certo - retorquiu ele. - Ela vem a Richmond, porta-se como uma amiga que não a vê há muito tempo. Diz que não quer nada de si. Depois vai-se a ver e a Doutora tem de ler o New York Times para descobrir que ela anda a escrever uma porcaria de um livro sobre estes casos. Ah, sim. É uma verdadeira amiga, Doutora.

 Fechei os olhos e pus-me a ouvir uma canção country que tocava, baixinho, na rádio. Sentia no colo o calor do sol através do pára-brisas, e o despertar madrugador fez-me o efeito de uma bebida forte. Adormeci. Quando acordei, seguíamos devagar por uma estrada de terra cheia de buracos no meio de nenhures.

— Bem-vinda à grande cidade de Six Mile - anunciou Marino.

— Que cidade?

 Não havia prédios, não se via sequer uma loja de conveniência ou uma estação de serviço. As bermas densamente arborizadas, as Montanhas Azuis uma névoa ao longe, e as casas eram pobres e tão distantes umas das outras que podia disparar-se um canhão sem que o vizinho ouvisse.

 Hilda Ozimek, vidente do FBI e oráculo dos serviços secretos, morava numa casinha branca de madeira com pneus pintados de branco no jardim onde, na Primavera, por certo desabrochariam amores-perfeitos e tulipas. Pés de milho secos encostados à varanda e, na entrada, um Chevrolet Impala ferrugento com os pneus em baixo. Um cão sarapintado começou a ladrar, feio como a morte, e suficientemente grande para me fazer pensar duas vezes antes de sair do carro. Depois afastou-se trotando em três patas, com a direita da frente encolhida, quando a porta da entrada se abriu a ranger nos gonzos e uma mulher nos fitou de olhos semicerrados na manhã radiosa e fria.

— Quieto, Tootie. - E deu-lhe uma palmadinha no pescoço.

— Agora vai lá para trás. - O cão baixou a cabeça, a dar ao rabo e, coxeando, lá seguiu para o quintal.

— Bom dia - disse Marino, martelando com os pés nos degraus de madeira.

 Pelo menos tencionava mostrar-se bem educado, o que eu nunca imaginara possível.

— Está um belo dia - respondeu Hilda Ozimek.

 Tinha, no mínimo, sessenta anos e um aspecto tão rural como a broa de milho. Calças pretas de poliester muito justas nas ancas largas, casaco de malha bege abotoado até ao pescoço e peúgas grossas por dentro dos mocassins. Olhos azuis-claros, cabelo coberto por um turbante vermelho. Faltavam-lhe vários dentes. Duvidei de que Hilda Ozimek alguma vez se visse ao espelho ou se preocupasse com a aparência física, a menos que a isso fosse obrigada pelo desconforto ou alguma dor.

 Fomos convidados a entrar para uma pequena sala de estar atulhada de móveis empoeirados, e estantes com uma variedade de livros imprevisíveis dispostos sem qualquer tipo de critério. Livros de religião e psicologia, biografias e histórias, e um surpreendente sortido de romances, alguns dos quais dos meus autores preferidos: Alice Walker, Pat Conroy e Keri Hulme. O único indício das tendências místicas da nossa anfitriã eram algumas obras de Edgar Cayce e uma meia dúzia de cristais colocados em cima de mesas e prateleiras.

Marino e eu estávamos sentados num sofá próximo de um radiador a petróleo, Hilda à nossa frente, num cadeirão estofado, com o sol a entrar por entre as persianas da janela que ficava por trás dela e lhe traçava riscas brancas no rosto.

— Espero que não tenham tido problemas e peço muita desculpa por não ter podido ir buscá-los mas já não conduzo.

— As indicações que nos deu foram excelentes - assegurei-lhe. — Não tivemos dificuldade nenhuma em dar com a sua casa.

— Se me permite a pergunta - disse Marino -, como é que se arranja? Não vejo nenhuma loja ou coisa assim aqui pelas redondezas.

— Vêm cá muitas pessoas consultar-me ou só para conversar. De uma forma ou outra, tenho sempre o que preciso, ou então peço uma boleia.

 Um telefone tocou noutra divisão da casa e foi imediatamente silenciado por um gravador de chamadas.

— Em que posso ajudá-los? - perguntou Hilda.

— Trouxe umas fotografias - respondeu Marino. - A Doutora disse que a senhora queria vê-las. Mas, primeiro, há umas coisas que eu gostaria de esclarecer. Não me leve a mal, Miss Ozimek, mas isso da leitura dos pensamentos é algo a que eu nunca dei muito crédito. Talvez possa ajudar-me a compreender melhor.

 Não era costume ele mostrar-se assim tão directo sem qualquer agressividade no tom de voz, e, bastante admirada, lancei-lhe um olhar de soslaio. Observava Hilda com a candura de uma criança, a expressão com um estranho misto de curiosidade e melancolia.

— Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que não leio os pensamentos - disse Hilda tranquilamente. - E nem sequer gosto que me chamem vidente, mas, à falta de outro termo melhor, acho eu, é isso que me chamam, e como eu me intitulo. Todos nós temos essa capacidade. Sexto sentido, uma parte do nosso cérebro que a maioria das pessoas prefere não utilizar. Eu chamo-lhe intuição sublimada. Sinto a energia que emana das pessoas e limito-me a transmitir as impressões que me vêm à mente.

— Que foi o que fez quando Pat Harvey esteve consigo - disse ele.

 Ela acenou com a cabeça.

— Levou-me ao quarto de Debbie, mostrou-me fotografias dela, e depois levou-me à área de serviço onde o jipe foi encontrado.

— Que impressões teve? - perguntei-lhe.

 Com um olhar ausente, reflectiu por um instante.

— Não me lembro de todas. Aí é que está. Acontece o mesmo quando faço leituras. As pessoas voltam a contactar-me mais tarde para me falarem de alguma coisa que eu disse e me contarem o que aconteceu entretanto. Nem sempre me lembro do que disse até mo recordarem.

— Lembra-se de alguma coisa que tenha dito a Mrs. Harvey? - Quis saber Marino, parecendo desapontado.

— Quando ela me mostrou o retrato de Debbie, eu soube imediatamente que a pequena estava morta.

— E quanto ao namorado? - perguntou Marino.

— Vi o retrato dele no jornal e soube que estava morto. Soube que estavam ambos mortos.

— Portanto tem lido as notícias sobre estes casos no jornal - concluiu então Marino.

— Não - respondeu Hilda. - Não pego no jornal. Mas vi o retrato do rapaz porque Mrs. Harvey trouxe um recorte para me mostrar. Não tinha nenhuma fotografia dele, só da filha, percebe?

— Importa-se de nos explicar como é que soube que eles estavam mortos?

— Foi algo que senti. Uma impressão que tive quando toquei nos retratos deles.

 Levando a mão ao bolso de trás, e tirando de lá a carteira, Marino perguntou:

— Se eu lhe der o retrato de alguém, consegue fazer a mesma coisa? Dizer-me quais são as suas impressões?

— Tentarei - respondeu ela e Marino entregou-lhe uma fotografia.

 Fechando os olhos, ela passou as pontas dos dedos por cima da foto em vagarosos movimentos circulares. Aquilo prolongou-se pelo menos por um minuto até ela voltar a falar.

— Estou a captar um sentimento de culpa. Agora, não sei se é porque esta mulher se sentia culpada quando a foto foi tirada ou se é por se sentir assim agora. Mas é uma sensação muito forte. Conflito, culpa. Hesitação. Ela tão depressa se decidiu como logo passou a ter dúvidas. Hesitação.

— Está viva? - perguntou Marino, pigarreando.

— Sinto que está viva - respondeu Hilda, sempre a tactear. - Também estou com a impressão de um hospital. Qualquer coisa médica.

Agora, não sei se isso significa que ela está doente ou é alguém muito chegado a ela. Mas há aqui qualquer coisa médica, uma preocupação. Ou talvez venha a haver a dada altura, no futuro.

— Mais alguma coisa? - perguntou Marino.

 Ela tornou a fechar os olhos e passou os dedos pela foto durante mais um bocado.

— Muito conflito - repetiu. - É como se algo pertença ao passado mas ela tenha dificuldade em esquecê-lo. Dor. E no entanto ela acha que não tem outra alternativa. É tudo o que me chega. - E ergueu os olhos para Marino.

 Quando ele voltou a pegar na foto, o seu rosto estava vermelho.

Tornando a meter a carteira no bolso sem dizer uma palavra, abriu o fecho da pasta e tirou de lá um minigravador e um envelope de papel pardo contendo uma série de fotos retrospectivas que começavam na picada em New Kent County e acabavam na mata em que os corpos de Deborah Harvey e Fred Cheney haviam sido encontrados.

Hilda espalhou-as em cima da mesa de centro e começou a passar os dedos por cima de cada uma delas. Durante muito tempo não disse nada, de olhos fechados enquanto o telefone continuava a tocar na outra divisão. Era sempre a máquina que atendia e ela nem sequer parecia dar por isso. Comecei a perceber que os seus dotes tinham mais procura que os de qualquer clínico.

— Estou a captar medo - começou ela, falando rapidamente.

— Agora, não sei se é porque alguém estava com medo quando estas fotografias foram tiradas ou se porque alguém teve medo nestes locais uns tempos antes. Mas é medo. - Acenou com a cabeça, sempre de olhos fechados. - É decididamente o que eu capto em cada fotografia. Em todas elas. Um medo muito forte.

 Como os cegos, Hilda passou os dedos de foto para foto, lendo algo que lhe parecia tão palpável como as feições no rosto de uma pessoa.

— Sinto morte, aqui - prosseguiu tocando em três fotos diferentes.

— Sinto-a intensamente. - Eram fotografias da clareira onde os corpos foram encontrados. - Mas não a sinto aqui. - Os seus dedos regressaram às fotos da picada e de uma parte da mata que eu percorrera ao ser conduzida, à chuva, até à clareira.

 Lancei uma olhadela a Marino. Estava inclinado para a frente, no sofá, de cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar fixo em Hilda. Até ver, ela não estava a dizer-nos nada de especial. Nem Marino nem eu alguma vez supuséramos que Deborah e Fred tivessem sido assassinados na picada mas sim na clareira onde os seus corpos foram encontrados.

— Vejo um homem - prosseguiu Hilda. - De fraca constituição.

Não é muito alto. Nem baixo. Estatura média e magro. Mas sem ser magricela. Agora, não sei quem ele é, mas, como não me chega nenhuma sensação forte, vou partir do princípio de que era alguém que tinha um encontro com o casal. Estou a captar um clima de amizade. Estou a ouvir risos. É como se ele fosse amigo do casal.

Talvez o tenham conhecido num sítio qualquer e não sei dizer-lhes o que me leva a pensar isto mas é como se eles já tivessem estado a divertir-se com ele, numa outra altura. Confiavam nele.

 Marino pronunciou-se:

— Consegue ver mais alguma coisa acerca dele? Do seu aspecto?

 Ela continuou a tactear as fotos.

— Vejo escuridão. É possível que ele tivesse uma barba escura ou qualquer coisa escura a cobrir-lhe uma parte do rosto. Talvez esteja vestido de escuro. Mas o que é certo é que estou a associá-lo com o casal e com o sítio onde as fotografias foram tiradas.

 Descerrando as pálpebras, ergueu o olhar para o tecto.

— Sinto que o primeiro contacto foi um encontro amigável. Nada que os levasse a ficarem preocupados. Mas depois há o medo. É muito forte neste sítio, na mata.

— Que mais? - Marino estava tão concentrado que até tinha as veias do pescoço salientes. Se se inclinasse um pouco mais para a frente, caía do sofá.

— Duas coisas - respondeu ela. - Podem não significar nada mas estou a captá-las. Sinto um outro local que não vem nestas fotografias e acho que está relacionado com a rapariga. Pode ter sido levada, ou ter ido, para algures. Agora, esse sítio pode ser próximo.

Talvez não seja. Não sei, mas capto uma sensação de ajuntamento, de coisas a agarrar. De pânico, muito barulho e movimento. Não há nada de bom nestas impressões. E depois há qualquer coisa perdida. Vejo-a como uma coisa metálica que tem a ver com a guerra. Não estou a captar mais nada, só que não sinto nada de mal, não me parece que o objecto, em si, seja perigoso.

— Quem é que perdeu essa coisa metálica? - quis saber Marino.

— Dá-me a sensação que é uma pessoa que ainda está viva. Não vejo nenhuma imagem mas sinto que é um homem. Calcula que a peça se tenha perdido, e não sido deitada fora, e não está propriamente aflito mas há uma certa preocupação. Como se de vez em quando se lembrasse daquilo que perdeu.

 Calou-se no exacto momento em que o telefone tocou outra vez.

 Eu perguntei:

— Referiu alguma dessas coisas a Pat Harvey, no Outono passado?

— Quando ela quis falar comigo, - respondeu Hilda - os corpos não tinham sido encontrados. Eu não tinha estas fotografias.

— Então não captou nenhuma destas impressões.

 Fez um esforço de memória.

— Fomos à área de serviço e ela levou-me directamente ao sítio onde o jipe foi encontrado. Fiquei lá durante um bocado. Lembro-me que havia uma faca.

— Que faca? - perguntou Marino.

— Vi uma faca.

— Que tipo de faca? - perguntou ele e recordei-me que Gail, a treinadora dos cães, pedira emprestado o canivete suíço de Marino quando abriu as portas do jipe.

— Uma faca comprida - respondeu Hilda. - Como uma faca de caça ou talvez um tipo de faca militar. Parece que havia qualquer coisa acerca do punho. Preto e de borracha, talvez, com uma dessas lâminas que eu associo ao corte de coisas duras, como a madeira.

— Acho que não estou a perceber - disse eu, embora fizesse ideia do que ela queria dizer. Não queria era influenciá-la.

— Com dentes. Como uma serra. Serrilhada, acho que é o termo - replicou ela.

— Foi isso que lhe veio à ideia quando lá esteve, na área de serviço? — perguntou Marino, fitando-a com ar incrédulo.

— Não senti nada que fosse assustador - respondeu ela. - Mas vi a faca e percebi que não era o casal que estava dentro do jipe quando o deixaram lá ficar. Não senti a presença deles naquela área de serviço. Nunca lá estiveram. - Fez uma pausa, tornando a fechar os olhos, de cenho franzido. - Lembro-me de captar ansiedade. De sentir que alguém estava ansioso e com pressa. Vi escuridão. Como se fosse de noite. Depois alguém a caminhar rapidamente. Não consegui ver quem era.

— Consegue ver essa pessoa, agora? - perguntei.

— Não. A ele não consigo ver.

— A ele! - repeti.

 Fez outra pausa.

— Acho que a sensação que tive foi que se tratava de um homem.

 Foi Marino quem falou:

— Contou tudo isso a Pat Harvey quando esteve com ela na área de serviço?

— Algumas coisas, sim - respondeu Hilda. - Não me lembro de tudo o que disse.

— Preciso de andar um bocado - afirmou Marino, levantando-se do sofá. Hilda não pareceu surpreendida nem preocupada, quando ele saiu batendo com a porta de rede.

— Hilda, quando se encontrou com Pat Harvey, captou alguma coisa a respeito dela? Achou que ela soubesse alguma coisa, por exemplo sobre o que poderia ter acontecido à filha?

— Captei um sentimento de culpa muito forte, como se ela se sentisse responsável. Mas era de esperar. Quando me encontro com os familiares de alguém que desapareceu ou foi assassinado, capto sempre um sentimento de culpa. O que era um bocadinho mais invulgar era a aura dela.

— A aura dela?

 Eu sabia o que era uma aura em Medicina, uma sensação que pode anteceder o desencadear de uma convulsão. Mas não me pareceu que fosse a isso que Hilda se estivesse a referir.

— As auras são invisíveis à maior parte das pessoas - explicou ela. - Eu vejo-as como cores. Uma aura que envolve uma pessoa.

Uma cor. A aura de Pat Harvey era cinzenta.

— Isso significa alguma coisa?

— O cinzento não é nem morte nem vida - respondeu ela. - Associo-o à doença. Alguém que está doente física, mental ou espiritualmente. Como se alguma coisa estivesse a sugar-lhe a cor da vida.

— Creio que faz sentido, se pensarmos no seu estado emocional na altura - lembrei.

— É possível. Mas lembro-me que me deu uma sensação desagradável. Senti que ela podia estar a correr um risco qualquer. A sua energia não era boa, nem positiva nem saudável. Achei que estava prestes a colocar-se numa situação de risco ou talvez a arriscar-se através dos seus próprios actos.

— Já tinha visto alguma aura cinzenta?

— Poucas vezes.

 Não resisti a perguntar-lhe:

— Está a ver alguma cor em mim?

— Amarelo com um bocadinho de castanho à mistura.

— É interessante - comentei, admirada. - Nunca uso nenhuma dessas cores. Aliás, acho que não tenho nada amarelo nem castanho em minha casa. Mas adoro sol e chocolate.

— A sua aura não tem nada a ver com cores ou alimentos de que goste - replicou ela com um sorriso. - O amarelo pode ter um significado espiritual. E associo o castanho ao bom senso, ao sentido prático. Alguém agarrado à realidade. Vejo a sua aura como sendo muito espiritual mas também muito prática. Agora, trata-se apenas da minha interpretação. Cada pessoa dá uma interpretação diferente às cores.

— E o Marino?

— Uma margem estreita de vermelho, é o que vejo à volta dele - respondeu ela. - O vermelho significa muitas vezes raiva. Mas eu acho que ele precisa de mais vermelho.

— Deve estar a brincar - repliquei, pois nunca me passaria pela cabeça que Marino precisasse de mais raiva.

— Quando alguém anda com falta de energia, digo-lhe que precisa de mais vermelho na sua vida. Dá energia. Faz-nos realizar coisas, lutar contra os problemas. O vermelho pode ser muito bom se devidamente canalizado. Mas dá-me a sensação de que ele tem medo do que está a sentir e é isso que está a enfraquecê-lo.

— Hilda, viu fotografias dos outros casais que desapareceram?

 Ela acenou afirmativamente.

— Mrs. Harvey tinha as fotografias deles. Do jornal.

— E tocou nelas, leu-as?

— Toquei.

— Que sentiu?

— Morte - respondeu ela. - Todos os jovens estavam mortos.

— E quanto ao homem de fraca constituição que talvez tivesse barba ou qualquer coisa escura a cobrir-lhe uma parte do rosto?

 Fez uma pausa.

— Não sei. Mas lembro-me de sentir esse tal clima de amizade de que lhes falei. O primeiro encontro deles não foi assustador. Tive a impressão de que, ao princípio, nenhum dos jovens teve medo.

— Agora queria fazer-lhe umas perguntas a respeito de uma carta - prossegui. - Disse que lia as cartas às pessoas. Refere-se a cartas de jogar?

— Pode-se usar quase tudo. Cartas de Tarot, uma bola de cristal.Tanto faz. Essas coisas são instrumentos. Tudo o que nos facilitar a concentração. Mas sim, utilizo um baralho de cartas de jogar.

— Como é que isso funciona?

— Peço à pessoa para partir as cartas, depois começo a tirar uma de cada vez e digo-lhe quais são as impressões que me chegam.

— Se tirasse o valete de copas, isso teria algum significado especial? — perguntei.

— Tudo depende da pessoa em questão, da energia que estou a captar desse indivíduo. Mas o valete de copas equivale ao cavaleiro de copas nas cartas de Tarot.

— É uma carta boa ou má?

— Depende de quem a carta representa em relação à pessoa cuja leitura estou a fazer - respondeu ela. - Nas cartas de Tarot, as copas são cartas de amor e sentimento, tal como as espadas e os oiros são cartas de trabalho e dinheiro. O valete de copas seria uma carta de amor e sentimento. E pode ser muito boa. Mas também pode ser muito má se o amor acabou ou se tornou vingativo, rancoroso.

— Por exemplo, qual seria a diferença entre um valete e um dez ou uma dama de copas?

— O valete de copas é uma figura - respondeu ela. - Eu diria que é uma carta que representa um homem. Agora, um rei de copas também é uma figura, mas eu associaria um rei com o poder, alguém que é reconhecido, ou que se reconhece a si mesmo, como estando numa situação de controlo, de comando, possivelmente um pai ou um patrão, uma coisa desse género. Um valete, tal como um cavaleiro, representará alguém que é reconhecido, ou que se reconhece a si mesmo, como um soldado, um defensor, um paladino. Pode ser alguém que anda neste mundo combatendo numa frente de batalha que está associada a trabalho. Talvez no desporto, um competidor. Pode ser muitas coisas mas, como as copas são sentimento, cartas de amor, eu diria que, quem quer que seja que essa carta representa, existe um elemento sentimental em conflito, um elemento de dinheiro ou trabalho.

 O telefone voltou a tocar.

 E ela disse-me:

— Não confie sempre no que lhe dizem, doutora Scarpetta.

— Sobre o quê? - perguntei, assustada.

— Há algo muito importante para si que lhe traz infelicidade, desgosto. Tem a ver com uma pessoa. Uma amizade, uma relação amorosa. Pode ser um membro da sua família. Não sei. Decididamente alguém com uma importância enorme na sua vida. Mas está a dar ouvidos, e se calhar até a imaginar muitas coisas. Cuidado com aquilo em que acredita.

 Mark, pensei, ou talvez Benton Wesley. Não resisti a perguntar-lhe:

— Esse alguém existe actualmente na minha vida? É uma pessoa com quem eu convivo?

 Ela fez uma pausa.

— Dado que sinto uma certa confusão, muita coisa que desconheço, direi que é alguém a quem se sente ligada. Sinto uma distância, percebe, não necessariamente geográfica mas emocional. Espaço que está a fazer com que lhe custe confiar. O meu conselho é que não ligue, que não faça nada neste momento. Há-de surgir uma solução, e não posso dizer-lhe quando será, mas vai correr tudo bem se se descontrair, não der ouvidos à confusão nem agir impulsivamente.

 "E há mais uma coisa - prosseguiu. - Olhe para lá do que está diante de si, e não sei o que isto quer dizer. Mas há qualquer coisa que não está a ver e está relacionado com o passado, alguma coisa importante que aconteceu no passado. Há-de vir-lhe à memória e conduzi-la à verdade, mas só reconhecerá a sua importância se primeiro abrir a sua alma. Deixe-se guiar pela fé.”

 A pensar no que teria acontecido a Marino, levantei-me e olhei pela janela.

 Marino bebeu dois uísques com água no aeroporto de Charlotte, depois mandou vir mais um quando já íamos no ar. Pouco falou durante a viagem de regresso a Richmond. Só quando nos dirigíamos para os nossos carros, no parque de estacionamento, é que resolvi tomar a iniciativa.

— Precisamos de falar - disse-lhe, tirando as chaves da bolsa.

— Estou estoirado.

— São quase cinco horas - repliquei. - Por que não vem jantar à minha casa?

 Pôs-se a olhar para o fundo do parque, semicerrando os olhos por causa do sol. Não percebi se estava furioso ou à beira das lágrimas e não me lembrava de alguma vez o ter visto assim tão esquisito.

— Está zangado comigo, Marino?

— Não, Doutora. Neste momento só quero ficar sozinho.

— Neste momento não me parece que deva.

 Apertando o botão de cima do casaco, resmungou:

— Até logo - e pôs-se a andar.

 Voltei para casa, absolutamente exausta, e tentava ocupar-me na cozinha quando tocaram à porta. Olhei pelo óculo e admirei-me de ver que era Marino.

— Fiquei com isto no bolso - explicou ele, mal abri a porta.

Entregou-me a capa do bilhete de avião e a inútil papelada do aluguer do automóvel. - Achei que pudesse precisar disto para a sua declaração de impostos ou coisa assim.

— Obrigada - respondi, percebendo logo que não fora esse o motivo que lá o trouxera. Eu tinha os recibos do cartão de crédito.

Nada do que ele me dera fazia falta. - Estava precisamente a fazer o jantar. Já que aqui está, o melhor é ficar.

— Talvez fique um bocadinho - respondeu ele, sem me olhar nos olhos. - Depois tenho mais que fazer.

 Seguindo-me até à cozinha, sentou-se à mesa, enquanto eu acabava de cortar os pimentos vermelhos às rodelas para depois os acrescentar à cebola picada, já a refogar em azeite.

— Sabe onde está o uísque - disse-lhe, mexendo o refogado.

 Ele levantou-se e dirigiu-se para o bar.

— Enquanto aí está - gritei-lhe da cozinha -, importa-se de preparar um com soda para mim?

 Não deu resposta, mas quando voltou pousou a minha bebida na bancada ao lado e encostou-se ao cepo de cortar carne. Acrescentei a cebola e os pimentos aos tomates que refogavam noutra caçarola, depois comecei a alourar salsichas.

— Não tenho segundo prato - disse, à laia de desculpa, sem parar de trabalhar.

— Não me parece que seja preciso.

— Borrego com vinho branco, peito de vitela ou porco assado seria o ideal. - Enchi uma panela de água e pu-la ao lume. - Faço um borrego óptimo, mas vai ter de ficar para uma próxima vez.

— Talvez devesse esquecer essa coisa de retalhar mortos e abrir um restaurante.

— Vou partir do princípio de que se trata de um elogio.

— Claro que sim. - Sem qualquer expressão no rosto, acendeu um cigarro. - Então o que é que chama a isso? - Perguntou apontando com o queixo para o fogão.

— Chamo-lhe tiras largas de massa amarela e verde com pimentos e salsichas - respondi, acrescentando estas últimas ao molho. — Mas se quisesse mesmo impressioná-lo, chamava-lhe lepapardelle del Cantunzein.

— Não se preocupe. Já estou impressionado.

— Marino - disse-lhe, fitando-o de soslaio -, que aconteceu hoje de manhã?

 Ele respondeu com uma pergunta:

— Contou a alguém o que o Vessey lhe disse, de o corte ter sido feito com uma lâmina de serrilha?

— Para já, só lhe contei a si.

— Não estou a ver onde é que a Hilda Ozimek foi descobrir isso, a faca de caça de gume serrilhado que afirma ter-lhe vindo à ideia quando Pat Harvey a levou à área de serviço.

— Custa a perceber - concordei, deitando a massa para dentro da água a ferver. - Há certas coisas na vida que uma pessoa não consegue racionalizar nem explicar, Marino.

 A massa fresca leva apenas uns segundos a cozer e depois de escorrê-la passei-a para uma taça que mantivera aquecida dentro do forno. Deitando-lhe o molho por cima, acrescentei manteiga e parmesão acabado de ralar, depois disse a Marino que o jantar estava pronto.

— Tenho fundos de alcachofras no frigorífico. - Fiz o prato dele e o meu. - Mas não há salada. Tenho é pão no congelador.

— Não preciso de mais nada - respondeu ele, de boca cheia. — Está bom. Está mesmo bom.

 Eu mal tocara na comida quando ele se preparou para repetir. Era como se Marino não comesse há uma semana. Andava a desleixar-se e já se percebia. A gravata precisava urgentemente de uma limpeza a seco, tinha uma das pernas das calças com a bainha descosida e a camisa com uma mancha amarela debaixo dos braços. Tudo, no seu aspecto, revelava abandono e desleixo, o que me deixava, simultaneamente, enojada e entristecida. Não havia razão para que um homem feito, e inteligente, se deixasse desmoronar como uma casa devoluta.

Mas eu sabia que a vida dele andava descontrolada, que ele, de certa maneira, não podia evitá-lo. Algo estava muito mal.

 Levantei-me para ir buscar uma garrafa de Mondavi tinto à grade dos vinhos.

— Marino - comecei, enchendo os dois copos -, que fotografia é que mostrou à Hilda? Era da sua mulher?

 Ele recostou-se na cadeira e não quis olhar para mim.

— Não é obrigado a falar sobre isso se não quiser. Mas já há uns tempos que o acho diferente. Percebe-se muito bem.

— O que ela disse pregou-me um susto do caraças - respondeu ele.

— O que a Hilda disse?

— Sim.

— Não gostava de desabafar comigo?

— Não falei disto a ninguém. - Fez uma pausa e estendeu a mão para o copo. Tinha uma expressão dura no rosto, um olhar magoado.

— Ela voltou para New Jersey em Novembro último.

— Acho que nunca me disse como é que a sua mulher se chama.

— Ena - retorquiu ele, amargamente -, essa foi forte.

— Pois foi. Você fecha-se muito.

— Fui sempre assim. Mas acho que por ser polícia fiquei pior. Estou tão habituado a ouvir os gajos a dizer mal e a queixarem-se das mulheres, das namoradas, dos filhos, Choram no nosso ombro, é como se fossem nossos irmãos. Depois, quando é a nossa vez de termos algum problema, faz-se a asneira de desbobinar e quando se dá por ela já toda a Polícia sabe da coisa. Há muito tempo que aprendi a andar de bico calado.

 Fez uma pausa e puxou da carteira.

— Ela chama-se Doris. - Entregou-me a fotografia que de manhã mostrara a Hilda Ozimek.

 Doris tinha um rosto bondoso e um corpo roliço, confortável.

Estava de pé, muito direita, vestida para ir à igreja, uma expressão tímida e relutante. Eu vira-a uma centena de vezes, pois o mundo estava cheio de Doris. Eram as mulherzinhas meigas que se sentavam na varanda em cadeiras de baloiço a sonhar com o amor, olhando para noites magicamente prenhas de estrelas e cheiros de Verão.

Eram espelhos, elas próprias reflexos das pessoas importantes nas suas vidas. Valorizavam-se nos serviços que prestavam, sobreviviam matando aos poucos as suas expectativas, e, depois, um dia, acordavam tresloucadas.

— Fazíamos trinta anos de casados em Junho próximo - comentou Marino quando lhe devolvi a fotografia. - Vai daí, de repente, sente-se infeliz. Diz que eu trabalho de mais, que nunca estou em casa. Que não me conhece. Esse tipo de coisas. Mas eu não nasci ontem. O problema não é esse.

— Então qual é?

— Começou no Verão passado, quando a mãe dela teve um enfarte. A Doris foi tomar conta dela. Esteve lá para cima quase um mês, a tirar a mãe do hospital e a metê-la num lar, a tratar de tudo. Quando voltou para casa, vinha diferente. Como se fosse outra pessoa.

— Que acha que aconteceu?

— Sei que conheceu lá um tipo cuja mulher morreu há uns anos. Trabalha numa imobiliária, ajudou-a a vender a casa da mãe. A Doris falou dele uma ou duas vezes mas sem lhe dar grande importância. Mas havia ali qualquer coisa. O telefone tocava de noite e quando eu atendia desligavam. A Doris ia a correr buscar o correio, antes de mim. Então, em Novembro, de repente faz as malas e vai-se embora, diz que a mãe precisa dela.

— Depois disso já voltou a casa? - perguntei.

 Ele abanou a cabeça.

— Ora, telefona de vez em quando. Quer o divórcio.

— Tenho muita pena, Marino.

— A mãe está no tal lar e a Doris a tomar conta dela encontrando-se com esse tipo da imobiliária, calculo eu. Tão depressa está aborrecida como logo a seguir toda contente. Como se quisesse voltar mas por outro lado não. Sente-se culpada, depois está-se nas tintas.  É mesmo como a Hilda disse, quando estava a olhar para a fotografia dela. Hesitação.

— Um grande desgosto para si.

— Ora! - Atirou com o guardanapo para cima da mesa. - Ela que faça o que quiser. Que se lixe.

 Eu sabia que ele não estava a falar a sério. Estava arrasado e tive muita pena dele. Ao mesmo tempo, não podia deixar de sentir compaixão pela mulher. Marino não era um homem fácil de amar.

— Quer que ela volte para casa?

— Estou há mais anos com ela do que os que vivi antes de nos conhecermos. Mas há que reconhecer uma coisa, Doutora. - Fitou-me por breves instantes, de olhos assustados. - A minha vida é uma trampa. Sempre a contar os tostões, arrancado de casa a meio da noite. Fazem-se planos para as férias e depois aparece uma chatice qualquer e a Doris desfaz as malas e fica à espera, em casa - como no fim-de-semana do Labor Day, quando a filha dos Harvey e o namorado desapareceram. Isso foi a gota de água.

— Você ama-a?

— Ela não acredita que sim.

— Talvez devesse fazer-lhe ver como se sente -sugeri. - Talvez devesse mostrar-lhe que lhe quer muito, mas que não precisa assim tanto dela.

— Não percebo - disse ele, com ar incrédulo.

 Nunca havia de perceber, pensei eu, desanimada.

— Trate de si - disse-lhe. - Não espere que seja ela a fazê-lo. Talvez dê resultado.

— Não ganho o suficiente, essa é que é a verdade, nua e crua.

— Aposto que a sua mulher não está assim tão interessada no dinheiro. Há-de preferir sentir-se importante e amada.

— Ele tem uma grande casa e um Chrysler New Yorker. Novinho em folha, com estofos de cabedal, essas mariquices todas.

 Não dei resposta.

— No ano passado, foi passar férias ao Havai. - Marino estava a ficar irritado.

— A Doris passou a maior parte da vida dela consigo. A escolha foi dela, com ou sem Havai...

— O Havai não passa de uma ratoeira para turistas - interrompeu ele, acendendo um cigarro. - Eu cá preferia ir pescar para Buggs Island.

—Já pensou que a Doris se pode ter fartado de ser sua mãe?

— Ela não é minha mãe - respingou ele.

— Então por que é que desde que ela se foi embora você começou a ter um ar de quem precisa desesperadamente de uma mãe, Marino?

— Porque não tenho tempo para coser botões, cozinhar, limpar, fazer essas tretas.

— Eu também trabalho. E arranjo tempo para fazer essas tretas.

— Pois, e também tem uma criada. Se calhar também ganha uns cem mil por ano.

— Trataria de mim nem que só ganhasse dez mil por ano - repliquei. — Fá-lo-ia porque tenho amor-próprio e porque não quero ninguém a tomar conta de mim. Quero apenas que gostem de mim e há uma grande diferença entre as duas coisas.

— Se tem as respostas todas, Doutora, então porque se divorciou? E por que é que o seu amigo Mark está no Colorado e a senhora aqui? Não me parece que tenha sido lá muito bem sucedida nas suas relações.

 Senti um rubor a subir-me ao rosto.

— O Tony não gostava verdadeiramente de mim e quando eu por fim percebi isso deixei-o. Quanto ao Mark, ele não gosta de se sentir preso.

— E a senhora, prendeu-se a ele? - O olhar de Marino quase me fulminou.

 Não dei resposta.

— Por que não foi para lá com ele? Se calhar está é presa à sua posição de chefia.

— Tínhamos problemas e sem dúvida que, em parte, a culpa foi minha. O Mark ficou furioso, foi para lá... talvez para marcar uma posição, talvez só para se afastar de mim - respondi aborrecida por não conseguir combater a emoção que me embargava a voz. - Profissionalmente, a minha ida com ele teria sido possível, mas foi uma opção que nunca se pôs.

 De repente Marino pareceu ficar envergonhado.

— Desculpe. Não sabia.

 Fiquei calada.

— Parece que estamos os dois no mesmo barco - comentou.

— Em certos aspectos - concordei, sem querer admitir para comigo mesma quais eles eram. - Mas eu trato de mim. Se o Mark alguma vez tornar a aparecer, não me vai encontrar com um aspecto horrível, com a vida desfeita. Eu quero-o mas não preciso dele. E se tentasse fazer isso com a Doris?

— Sim. - Pareceu encorajado. - Talvez faça. Acho que estou pronto para o café.

— Sabe fazê-lo?

— Deve estar a brincar - retorquiu ele, surpreendido.

— Lição número um, Marino. Fazer o café. Venha comigo.

 Enquanto eu lhe mostrava as maravilhas técnicas de uma máquina de café que não exigia mais que um QI de 50, ele recordou de novo as nossas andanças daquele dia.

— Por um lado, não quero levar a sério o que a Hilda disse - explicou -, mas por outro tenho de levar. Quer dizer, não há dúvida que me deu que pensar.

— Em que aspecto?

— Deborah Harvey foi alvejada com uma bala de nove milímetros. Nunca encontraram a cápsula. Custa a crer que o marado tenha conseguido recuperá-la no meio da escuridão. Faz-me pensar que o Morrell e o resto da equipa não andaram a procurar no sítio certo.

Lembre-se que a Hilda perguntou se não haveria um outro local e falou de uma coisa desaparecida. Uma coisa metálica que tinha a ver com a guerra. Pode ser uma cápsula.

— Ela também disse que esse objecto não era perigoso - recordei-lhe - Uma cápsula não faz mal a uma mosca. A bala é que é perigosa e só quando é disparada.

— E as fotografias para que ela olhou foram tiradas no Outono passado - prossegui. - O que quer que essa coisa perdida seja, devia lá estar na altura mas agora já não.

— Está a pensar que o assassino voltou à luz do dia para a procurar?

— A Hilda disse que a pessoa que perdeu esse objecto metálico estava preocupada com isso.

— Não creio que ele tenha voltado - opinou Marino. - É demasiado cuidadoso para isso. Seria um risco enorme. A zona encheu-se de polícias e cães pisteiros, logo que os miúdos desapareceram.

Pode ter a certeza que o assassino ficou quietinho. Tem de ser muito ;calmo para ter conseguido safar-se durante tanto tempo depois do que fez, quer se trate de um psicopata ou de um assassino profissional.

— Talvez - repliquei, quando o café começou a gotejar.

— Acho que devíamos voltar lá para dar uma vista de olhos.

— Para ser franca, já tinha pensado nisso.

 

À luz de uma tarde de céu limpo, a mata não parecia tão ominosa, até nos aproximarmos mais da pequena clareira. Aí, o leve cheiro nauseabundo de carne humana em decomposição mantinha-se, qual insidioso lembrete. Agulhas de pinheiro e folhas tinham sido afastadas e dispostas em pequenos montes, pelo arrastar de pás e esvaziar de peneiras. Só o passar do tempo e chuvas fortes fariam desaparecer do local os despojos tangíveis do crime.

 Marino trouxera um detector de metais e eu um ancinho. Puxou dos cigarros e olhou em redor.

— Não vejo interesse em procurar neste sítio - disse ele. - Já foi revistado mais de umas seis vezes.

— Calculo que o carreiro também tenha sido minuciosamente revistado - respondi, olhando para trás, para o carreiro que percorrêramos desde a picada.

— Não necessariamente, porque o carreiro não existia quando o casal foi para aqui trazido no Outono.

 Percebi onde ele queria chegar. O carreiro de folhas varridas, e lixo amontoado, fora feito por agentes da Polícia e outras equipas envolvidas a andar para a frente e para trás, entre a picada e o local do crime.

 Com uma olhadela à mata, ele acrescentou:

— A verdade é que nem sequer sabemos onde é que eles estacionaram, Doutora. É fácil deduzir que fosse perto do sítio onde nós estacionámos e que vieram até aqui mais ou menos da mesma maneira que nós. Mas resta saber se o assassino se dirigia de facto para aqui.

— Palpita-me que o assassino sabia para onde ia - repliquei.

— Não faz sentido pensar que meteu ao acaso pela picada e acabou por vir parar aqui depois de andar às voltas, sem destino, na escuridão.

 Com um encolher de ombros, Marino ligou o detector de metais.

— Não custa nada tentar.

 Começámos pelo perímetro do local, sondando o carreiro, varrendo metros de vegetação rasteira e folhas de ambos os lados, enquanto, vagarosamente, regressávamos à picada. Durante quase duas horas vasculhámos todos os buracos de árvore e arbustos que nos parecessem minimamente indiciadores da passagem de alguém, o primeiro toque estridente do detector de metais a recompensar os nossos esforços com uma lata de cerveja Old Milwaukee, e o segundo com um saca-rolhas ferrugento. O terceiro alerta só se fez ouvir quando já estávamos na orla da mata, à vista do nosso carro, onde descobrimos um cartucho de espingarda com o plástico vermelho já desbotado pelos anos.

 Apoiada ao ancinho, pus-me a olhar desalentadamente para o carreiro, a pensar. Reflecti no que Hilda dissera acerca da existência de um outro local, talvez para onde o assassino levara Deborah, e visualizei a clareira e os corpos. A minha primeira dedução fora que, se Deborah a certa altura se tivesse soltado, seria quando ela e Fred estavam a ser levados, às escuras, da picada para a clareira. Mas, ao olhar através da mata, essa teoria deixou de fazer qualquer sentido.

— Partamos do princípio de que se tratou de um único assassino - disse eu a Marino.

— Está bem, continue. - Enxugou a testa húmida à manga do casaco.

— Se fosse o assassino e tivesse apanhado duas pessoas e depois as obrigasse, talvez com uma arma, a virem para aqui, quem é que matava primeiro?

— O maior problema era o rapaz - respondeu ele sem hesitar. — Despachava-o primeiro a ele, e deixava a garota para o fim.

 Mesmo assim custava a crer. Quando fiz um esforço para imaginar uma pessoa obrigando dois reféns a caminhar pelo meio daquela mata depois de anoitecer, continuei a não ver nada. O assassino teria alguma lanterna? Conheceria a zona assim tão bem que conseguisse dar com a clareira às cegas? Coloquei estas perguntas a Marino.

— Tenho estado a tentar ver a mesma coisa - respondeu ele.— Ocorreram-me duas hipóteses. Primeira, ele se calhar restringiu-lhes os movimentos, atou-lhes os braços atrás das costas. Segunda, se fosse eu, agarrava-me à rapariga e encostava-lhe a arma às costelas enquanto seguíssemos pela mata. Isso fazia com que o namorado ficasse mansinho como um cordeiro. Um gesto em falso e a querida dele leva um balázio. Quanto à lanterna? Ele tinha de ter maneira de ver o caminho até aqui.

— Como é que agarra numa arma, numa lanterna e na rapariga ao mesmo tempo? - perguntei-lhe.

— É fácil. Quer que lhe mostre?

— Não estou interessada. - E recuei quando ele estendeu o braço na minha direcção.

— O ancinho. Caramba, Doutora, não seja assim tão assustadiça.

 Entregou-me o detector de metais e eu dei-lhe o ancinho.

— Faça de conta que o ancinho é a Deborah, certo? Prendo-a pelo pescoço com o meu braço esquerdo, a lanterna na minha mão esquerda, assim. - Fez a demonstração. - Na mão direita tenho a arma que está encostada às costelas dela. Problema nenhum. O Fred caminha à nossa frente, seguindo o foco da lanterna enquanto eu o vigio como um falcão. - Calando-se, Marino olhou fixamente ao longo do carreiro. - Não caminham muito depressa.

— Sobretudo se estiverem descalços - salientei.

— Pois, e acho que estavam. Ele não pode amarrar-lhes os pés já que quer que eles caminhem até aqui. Mas se os obrigar a tirar os sapatos isso vai abrandar-lhes a marcha, ser-lhes-á mais difícil fugir. Se calhar, depois de os matar, fica com os sapatos como recordação.

— Se calhar. - Eu estava outra vez a pensar na bolsa de Deborah.

 E disse-lhe:

— Se Deborah tinha os braços amarrados atrás das costas, como é que a bolsa dela cá veio parar? Não tinha nenhuma alça, nenhuma forma de a pendurar no braço ou ao ombro. Não estava presa ao cinto, aliás não me parece que ela usasse cinto. E se alguém nos obriga, com uma arma apontada, a entrar na mata, para quê levar a bolsa connosco?

— Não faço ideia. Isso tem-me andado a intrigar desde o princípio.

— Vamos fazer uma última tentativa - disse-lhe.

— Oh, senhores!

 Quando regressámos à clareira, as nuvens haviam encoberto o sol e estava a levantar-se vento, dando a ideia de que a temperatura descera uns graus. Transpirada debaixo do casaco pelo esforço físico, eu tinha frio, e os músculos dos braços a tremer, de tanto ancinhar. Deslocando-me para a orla mais afastada do carreiro, avistei uma zona que se estendia por um terreno tão pouco convidativo que duvidei que os próprios caçadores se aventurassem a entrar lá. A Polícia tinha escavado e passado à peneira talvez uns dez metros nessa direcção, até deparar com uma infestação de kuzu que se metastisara cobrindo quase meio hectare. As árvores cobertas pela malha verde da vinha pareciam dinossauros pré-históricos assomando de um mar sólido, verdejante. Qualquer arbusto, pinheiro ou planta com vida ia, aos poucos, morrendo estrangulado.

— Minha mãe! - exclamou Marino, enquanto eu avançava com o ancinho. - Deve estar a brincar comigo.

— Não vamos andar muito - prometi-lhe.

 E não foi preciso.

 O detector de metais reagiu quase de imediato. O silvo tornou-se mais forte e estridente quando Marino posicionou a sonda por cima de uma área de kuzu a menos de quatro metros e meio do local onde os corpos haviam sido encontrados. Descobri que ancinhar kuzu era pior que pentear um cabelo emaranhado, e por fim resolvi ajoelhar-me e começar a arrancar as folhas, para tactear em volta das raízes com dedos protegidos por luvas cirúrgicas, até sentir qualquer coisa fria e dura que, percebi, não era o que eu esperava.

— Guarde-a para a portagem - comentei, enojada, atirando a Marino uma moeda de vinte e cinco cêntimos toda suja.

 Um pouco mais adiante o detector de metais deu-nos outro sinal, e dessa vez as minhas apalpadelas de gatas foram recompensadas.

Quando senti o formato inconfundivelmente duro, cilíndrico, afastei cuidadosamente o kuzu até ver o brilho do aço inoxidável, uma cápsula ainda brilhante como prata polida. Peguei nela de pronto, tocando-lhe o menos possível, enquanto Marino se agachava com um saco plástico de recolha de provas já aberto.

— Nove milímetros, Federal - disse ele, lendo o selo através do plástico. - Esta é boa!

— Ele estava precisamente aqui quando a alvejou - afirmei, invadida por uma estranha sensação que me percorreu os nervos, ao recordar o que Hilda dissera, de Deborah estar num sítio de "ajuntamento" com coisas "a agarrarem-se" a ela. O kuzu.

— Se ela foi atingida à queima roupa, - observou Marino - não deve ter caído muito longe daqui.

 Avançando mais um pouco, com ele atrás de mim a segurar o detector de metais, comentei:

— Como diabo é que ele via para a alvejar, Marino? Jesus! Já imaginou este sítio à noite?

— Havia luar.

— Mas não era lua cheia.

— Suficientemente cheia para não estar escuro como breu.

 O tempo fora confirmado meses antes. Na noite de sexta-feira trinta e um de Agosto, em que o casal desaparecera, a temperatura andava pelos vinte e um graus, lua em quarto crescente, céu limpo. Mesmo que o assassino estivesse munido de uma lanterna potente, eu continuava a não perceber como é que ele conseguira arrastar para ali dois reféns, de noite, sem ficar tão desorientado e vulnerável como eles. Só conseguia imaginar a confusão, uma data de tropeções pelo caminho.

 Por que é que não os matou logo na picada, arrastando os corpos alguns metros até entrar na mata e depois se foi embora de carro?

Por que quis trazê-los para aqui?

 Contudo, o esquema era o mesmo dos outros casais. Os seus corpos também haviam sido encontrados em zonas remotas e arborizadas como esta.

 Olhando em volta, para o kuzu, com uma expressão de desagrado no rosto, Marino comentou:

— Ainda bem que não é tempo de cobras.

— Ora aí está um pensamento agradável - retorqui, apreensiva.

— Quer continuar? - perguntou ele, com voz de quem não estava nada interessado em avançar um centímetro que fosse naquele ermo aterrador.

— Acho que por hoje já chega. - Patinhei para fora do kuzu o mais depressa possível, com a pele toda arrepiada. A alusão às cobras arrumara comigo. Estava à beira de um ataque de pânico dos grandes.

 Eram quase cinco da tarde, e a mata estava penumbrada de sombra; quando voltámos para o carro. Sempre que um galho se partia debaixo dos pés de Marino, o meu coração dava um salto. Esquilos a trepar pelas árvores e pássaros a voar dos ramos eram ruídos assustadores no fantasmagórico silêncio.

— Deixo isto no laboratório logo de manhã - disse ele. - Depois tenho de ir ao tribunal. Uma bela maneira de se passar o dia de folga.

— Qual é o caso?

— O caso do Bubba morto a tiro pelo amigo chamado Bubba, em que a única testemunha foi outro mangas chamado Bubba.

— Não está a falar a sério.

— Ora - replicou ele destrancando as portas do carro -, tão sério como uma espingarda de canos serrados. - Ligando o motor, resmungou: - Começo a detestar este trabalho, Doutora. Juro, começo mesmo.

— Nesta altura, você detesta tudo e todos, Marino.

— Não, não detesto - replicou ele, dando mesmo uma risada. — De si até gosto.

 O último dia de Janeiro começou quando o correio da manhã trouxe uma comunicação oficial de Pat Harvey. Breve e concisa, afirmava que, se os relatórios da autópsia e toxicológico da filha não lhe chegassem às mãos até ao final da semana seguinte, ia requerer uma ordem judicial. Uma cópia da carta fora enviada ao meu superior directo, o Comissário de Saúde e Serviços Humanos, cuja secretária me ligou uma hora depois, chamando-me ao gabinete dele.

 Enquanto as autópsias esperavam por mim lá em baixo, saí do edifício e fiz a curta caminhada ao longo da Franklin até à Main Street Station, que estivera desocupada durante anos e, depois, fora reconvertida num centro comercial de pouca dura, até ser comprada pelo Estado. De certa forma, o histórico edifício de tijolo, com a sua torre de relógio e cobertura de telhas encarnadas, voltara a ser uma estação dos caminhos-de-ferro, uma paragem temporária para funcionários públicos obrigados a um realojamento, enquanto se procedia à remoção do amianto no Madison Building, e seu posterior restauro.

O Governador nomeara o Dr. Paul Sessions para o cargo de comissário dois anos antes, e embora os encontros cara-a-cara com o meu novo chefe fossem raros, costumavam ser bastante agradáveis. Algo me dizia que hoje a coisa ia ser diferente. A secretária dele parecera-me constrangida ao telefone, como se soubesse que eu ia ser chamada à pedra.

 O comissário ocupava uma série de gabinetes no segundo piso, acessível por uma escadaria de mármore polida pelas andanças dos passageiros, para cima e para baixo, numa era já distante. Os espaços de que o comissário se apropriara haviam sido, em tempos, uma loja de artigos desportivos e uma boutique que vendia coloridos papagaios de papel, e mangas de vento. As paredes tinham sido deitadas abaixo, as montras tapadas com tijolos, os gabinetes alcatifados, apainelados, e decorados com bonitos móveis. O Dr. Sessions já conhecia muito bem a morosidade das obras públicas para se instalar no seu quartel-general temporário como se o realojamento fosse permanente.

 A secretária cumprimentou-me com um sorriso solidário, que só me fez sentir ainda pior, girando a cadeira para mudar do teclado para o telefone.

 Anunciou que eu lá estava e, de imediato, a robusta porta de carvalho defronte da mesa dela abriu-se, e o Dr. Sessions convidou-me a entrar.

 Homem activo, com um cabelo castanho e ralo e óculos de grandes armações que lhe engoliam o rosto estreito, era a prova viva de que correr a maratona nunca fora proeza destinada a seres humanos.

O seu peito parecia o de um tuberculoso, o tecido adiposo tão reduzido que raramente despia o casaco do fato, e muitas vezes usava mangas compridas durante o Verão porque andava cronicamente constipado.

Ainda trazia uma tala no braço esquerdo que partira já há uns meses, durante uma corrida na costa ocidental, ao ficar embrulhado num bengaleiro que escapara aos pés dos corredores à sua frente, fazendo com que se estatelasse no meio da rua. Era, talvez, o único concorrente que, sem completar a corrida, acabara por vir nos jornais.

 Sentou-se à secretária, a carta de Pat Harvey centrada sobre o mata-borrão, o rosto invulgarmente sério.

— Calculo que já viu isto. - Disse ele, batendo na carta com o indicador.

— Sim - respondi. - Compreensivelmente, Pat Harvey está muito interessada nos resultados do exame da filha.

— O corpo de Deborah Harvey foi encontrado há onze dias.

Devo concluir que ainda não sabe o que é que a matou, ou a Fred Cheney?

— Sei o que a matou a ela. A causa da morte dele mantém-se indeterminada.

 Pareceu ficar baralhado.

— Doutora Scarpetta, importa-se de me explicar por que é que essa informação não foi dada aos Harvey nem ao pai de Fred Cheney?

— A minha explicação é simples - retruquei. - Os casos deles continuam pendentes enquanto estão a ser feitos mais exames especiais. E o FBI pediu-me para não divulgar nenhuma informação a quem quer que seja.

— Compreendo. - Olhou para a parede como se lá houvesse alguma janela a dar para a rua, que não era o caso.

— Se me disser para eu entregar os relatórios, eu faço-o, doutor Sessions. Aliás, ficaria aliviada se me desse ordens para eu satisfazer o pedido de Pat Harvey.

— Porquê? - Ele sabia a resposta mas queria ouvir o que eu tinha a dizer.

— Porque Mrs. Harvey e o marido têm o direito de saber o que aconteceu à filha deles - respondi. - Bruce Cheney tem o direito de ser informado sobre o que nós sabemos, ou não sabemos, acerca do filho dele. A espera, para eles, é uma verdadeira angústia.

— Falou com Mrs. Harvey?

— Recentemente, não.

— Falou com ela desde que os corpos foram encontrados, doutora Scarpetta? - Pôs-se a mexer na tala.

— Telefonei-lhe quando as identificações foram confirmadas mas depois disso não tornei a falar com ela.

— Ela tentou entrar em contacto consigo?

— Tentou.

— E a senhora recusou-se a falar com ela?

— Já expliquei por que é que não quero falar com ela - respondi. — E acho que não seria correcto da minha parte pegar no telefone e dizer-lhe que o FBI não quer que eu lhe transmita informações.

— Quer dizer então que não falou a ninguém acerca da directiva do FBI.

— Só a si.

 Ele voltou a traçar a perna.

— E eu agradeço-lhe. Mas não convinha que falasse disso a mais ninguém. Sobretudo aos jornalistas.

— Tenho feito todos os possíveis para evitar os jornalistas.

— O Washington Post ligou-me hoje de manhã.

— Quem, do Post?

 Começou a separar mensagens telefónicas enquanto eu aguardava, ansiosa. Não queria acreditar que Abby me atraiçoasse passando por cima de mim.

— Alguém chamado Clifford Ring. - Ergueu os olhos para mim.

— Aliás, não é a primeira vez que ele liga, nem eu sou a primeira pessoa a quem tentou arrancar informações. Também tem andado a perseguir a minha secretária e outros funcionários, incluindo o meu delegado e o Secretário de Recursos Humanos. Calculo que também tenha ligado para si, razão pela qual acabou por recorrer à administração, pois, segundo ele, "a médica legista não quer falar comigo".

— Ligaram uma data de jornalistas. Não me lembro da maior parte dos nomes deles.

— Bom, Mr. Ring parece achar que está a haver um encobrimento qualquer, uma espécie de conspiração e, com base no rumo que deu ao seu interrogatório, parece dispor de dados que o confirmam.

 Estranho, pensei. Não me parecia que o Post estivesse a pôr de lado a investigação destes casos, como Abby tão enfaticamente afirmara.

— Ele está convencido - prosseguiu o comissário - de que os seus serviços estão a fechar-se em copas, e que isso faz, por conseguinte, parte dessa dita conspiração.

— E acho que estamos mesmo. - Bem me esforcei para que a irritação não se percebesse na minha voz. - E eu fico entre a espada e a parede. Das duas uma, ou desafio Pat Harvey, ou o Departamento de Justiça e, sinceramente, se pudesse escolher, preferia aceder ao pedido de Mrs. Harvey. Mais tarde ou mais cedo terei de lhe dar uma resposta. Ela é mãe de Deborah. Não tenho de dar nenhuma resposta ao FBI.

— Não me interessa antagonizar o Departamento de Justiça - afirmou o Dr. Sessions.

 Não tinha de me explicar porquê. Uma parte substancial do orçamento do comissariado provinha das verbas de subsídios federais, alguns deles canalizados para os meus serviços, para custear a recolha de dados necessários a diversas agências de prevenção de acidentes e segurança rodoviária. O Departamento de Justiça sabia jogar com isso.

Se um acto de antagonismo para com os federais não fechasse a torneira de tão necessárias receitas, no mínimo podíamos contar com que nos fizessem a vida negra. A última coisa que o comissário queria era prestar contas de todos os lápis e papel timbrado comprados com dinheiro dos subsídios. Eu sabia como a coisa funcionava. Ficaríamos todos a contar os tostões, soterrados em burocracia.

 O comissário estendeu a mão válida para pegar na carta e analisou-a por um instante.

 Depois disse:

— De facto, a única solução talvez seja Mrs. Harvey levar por diante a sua ameaça.

— Se ela arranja uma ordem judicial, não me resta outra hipótese senão enviar-lhe o que ela quer.

— Eu sei. E a vantagem é que o FBI não nos pode responsabilizar.

A desvantagem, como é óbvio, será a publicidade negativa - pensou em voz alta. - O Departamento de Saúde e Serviços Humanos não ficará por certo lá muito bem visto, se o público souber que fomos obrigados, por um juiz, a dar a Pat Harvey aquilo a que ela tem direito por lei. Isso irá, creio eu, corroborar as suspeitas do nosso amigo Mr. Ring.

 O cidadão comum nem sequer sabia que o Instituto de Medicina Legal fazia parte da Saúde e Serviços Humanos. Eu é que ia ficar mal vista. O comissário, como bom burocrata que era, estava a arranjar-me um caldinho porque não queria conflitos com o Departamento de Justiça.

— É claro - aventou então - que Pat Harvey quer dar uma imagem de firmeza, servindo-se do seu cargo para se impor. Talvez esteja a fazer bluff.

— Duvido - repliquei, friamente.

— Veremos. - Levantou-se da secretária e acompanhou-me à porta. - Vou escrever a Mrs. Harvey a dizer que falei consigo.

 Aposto que vais, pensei.

— Se puder ajudar nalguma coisa, diga. - Sorriu, evitando o meu olhar.

 Eu acabara de lhe dizer que precisava de ajuda. Era como se ele tivesse partido os dois braços, pois não ia levantar um dedo.

 Mal cheguei ao escritório, perguntei aos funcionários da portaria, e a Rose, se algum jornalista do Post tinha ligado. Após um esforço de memória e uma busca a velhas mensagens telefónicas, ninguém se lembrava de nenhum Clifford Ring. Não podia acusar-me de fazer caixinha se nunca tentara falar comigo, racionalizei. Mesmo assim, sentia-me intrigada.

— A propósito - acrescentou Rose, quando eu já seguia pelo corredor -, a Linda anda à sua procura, diz que precisa falar imediatamente consigo.

 Linda era analista de armas de fogo. Marino devia ter lá ido levar a cápsula, pensei. Óptimo.

 O laboratório de balística ficava no segundo andar, e passava bem por uma loja de armas usadas. Revólveres, carabinas, espingardas e pistolas cobriam praticamente todo o espaço do balcão, e as provas embrulhadas em papel pardo amontoavam-se no chão, até à altura do peito de uma pessoa. Começava a pensar que tinham saído todos para almoçar quando ouvi os estampidos abafados de uma arma a ser disparada por detrás das portas fechadas. Contígua ao laboratório, havia uma pequena sala, usada para testar armas de fogo para dentro de um tanque de aço galvanizado e cheio de água.

 Dois tiros, depois Linda apareceu, um .38 Special numa mão, balas e cápsulas usadas na outra. Era esguia e feminina, com longos cabelos castanhos, bons ossos e olhos bem espaçalhados, cor de avelã. A bata protegia uma saia preta rodada e uma blusa de seda amarela-clara, fechada na gola com uma pregadeira dourada em forma de círculo.Se fosse sentada ao seu lado num avião e tentasse adivinhar o que ela fazia, imaginava-a a ensinar poesia ou a tomar conta de uma galeria de arte.

— Más notícias, Kay - disse ela, pousando o revólver e munições gastas em cima da secretária.

— Espero que não tenham a ver com a cápsula que o Marino cá trouxe - aventurei.

— Infelizmente, sim. Preparava-me para gravar nela as minhas iniciais e o número de registo, quando tive uma pequena surpresa. - Passou para junto do microscópio comparador. - Veja. - Ofereceu-me a cadeira. - Uma imagem vale por mil palavras.

 Sentando-me, olhei pela lente. No campo de luz à minha esquerda, estava a cápsula de aço inoxidável.

— Não percebo - disse-lhe, focando melhor.

 Gravadas dentro da boca da cápsula, estavam as iniciais "J. M.”

—Julgava que o Marino tinha dado entrada disto. - Ergui os olhos para ela.

— E deu. Passou por aqui há cerca de uma hora - respondeu Linda. - Perguntei-lhe se tinha gravado estas iniciais e ele disse que não. Não que eu achasse que sim, pois as iniciais dele são P. M não J. M., e o Marino já tem experiência suficiente para não fazer isso.

 Embora alguns detectives gravassem as suas iniciais nas cápsulas, tal como alguns médicos legistas o faziam em balas retiradas de cadáveres, os técnicos de balística não incentivavam tal prática. Usar um estilete no metal é arriscado, porque há sempre o perigo de se arranhar a caixa da culatra, o percutor, marcas de ejecção, ou outras características, como partes lisas e estrias, necessárias à identificação.

Marino sabia-o e, tal como eu, escrevia sempre as iniciais no saco plástico, deixando as provas intactas lá dentro.

— Devo concluir que estas iniciais já estavam na cápsula quando o Marino a trouxe? - perguntei.

— Pelos vistos sim.

 J. M., Jay Morrell, pensei, intrigada. Por que estaria no local uma cápsula marcada com as iniciais dele?

 Linda aventou então:

— Estou a pensar se algum agente a trabalhar no local não a traria no bolso, por uma razão qualquer e, inadvertidamente, a tenha perdido.

Se tivesse um buraco no bolso, por exemplo?

— Custa-me a crer - repliquei.

— Bom, posso apresentar outra teoria. Mas não vai gostar dela e a mim também não me agrada. A cápsula pode ter sido recarregada.

— Então por que é que tinha as iniciais de um investigador? Quem diabo ia recarregar uma cápsula indexada?

— Já aconteceu, Kay, e não fui eu que lhe disse, está bem?

 Limitei-me a ouvir.

— O número de armas e a quantidade de munições e cápsulas recolhidas pela Polícia e apresentadas em tribunal são astronómicos e valem muito dinheiro. As pessoas tornam-se gananciosas, até mesmo os juízes. Ficam com o material ou vendem-no a traficantes de armas, outros apreciadores. Acho bem possível esta cápsula ter sido apanhada por algum agente ou, a certa altura, apresentada em tribunal como prova, e acabado por ser recarregada. Pode dar-se o caso de quem quer que a tenha disparado não imaginar que tivesse as iniciais de alguém.

— Não podemos provar que esta cápsula pertence à bala que eu encontrei na região lombar de Deborah Harvey e só poderemos fazê-lo se recuperarmos a arma - recordei-lhe. - Nem sequer podemos afirmar com toda a certeza que provém de um cartucho Hydra-Shok. Só sabemos que é uma nove milímetros, Federal.

— É verdade. Mas a Federal detém a patente das munições Hydra-Shok, já desde finais dos anos 80. Só para que saiba.

— A Federal vende balas Hydra-Shok para recarga? - perguntei.

— Aí é que está o problema. Não. No mercado só estão disponíveis os cartuchos. Mas não significa que uma pessoa não consiga arranjar as balas de outra maneira qualquer. Roubando-as da fábrica, tendo um contacto que as roube da fábrica. Eu, por exemplo, conseguia arranjá-las se dissesse que estava a trabalhar num projecto especial. Sabe-se lá. - Foi buscar uma lata de Diet Coke à secretária e acrescentou: - Já nada me surpreende.

— O Marino sabe disto?

— Eu telefonei-lhe.

— Obrigada, Linda - agradeci-lhe, pondo-me de pé e formulando já a minha própria teoria, que era muito diferente da dela, e, infelizmente, mais provável. Só de pensar nisso ficava furiosa. De volta ao meu gabinete, peguei o telefone e marquei o número do pager de Marino. Ele ligou-me quase de seguida.

— O estuporzeco - vociferou, de imediato.

— Quem? A Linda? - perguntei, sobressaltada.

— O Morrell! Sacana de aldrabão. Acabo de falar com ele pelo telefone. Disse que não sabia do que eu estava a falar até eu o acusar de roubo de provas para recarga - perguntei-lhe se também andava a roubar armas e munições. Disse-lhe que ia participar dele aos Assuntos Internos. Aí começou a cantar.

— Ele gravou as iniciais na cápsula e deixou-a lá ficar de propósito, não foi, Marino?

— Claro. Eles encontraram a porcaria da cápsula na semana passada.

A verdadeira. Depois o parvalhão vai lá plantar esta treta e começa a choramingar que só fez o que o FBI lhe mandou.

— Onde está a cápsula verdadeira? - perguntei com o sangue a latejar nas têmporas.

— É o laboratório do FBI que a tem. A senhora e aqui o seu amigo passaram uma tarde toda na mata e sabe que mais, Doutora? Durante todo esse tempo estivemos a ser observados. O local está sob vigilância.

Foi uma sorte do caraças nenhum de nós ter ido dar uma mija atrás de uma moita, não foi?

— Falou com o Benton?

— Nem pó. Por mim, ele bem pode ir para o raio que o parta. - Marino atirou com o auscultador.

 

Havia qualquer coisa no Globe and Laurel que me tranquilizava, me fazia sentir segura. Construído em tijolo, com linhas simples e nenhum sinal de ostentação, o restaurante ocupava uma fatia de terreno do Norte da Virgínia, em Triangle, perto da base do Corpo de Fuzileiros. A estreita faixa relvada, à frente, estava sempre limpa, as plantas em floreiras de madeira cuidadosamente aparadas, o parque de estacionamento impecável, cada carro dentro dos traços pintados do espaço atribuído.

 Semper Fidelis, lia-se por cima da porta, e ao entrar fui recebida pela nata dos "sempre fiéis": chefes da Polícia, generais de quatro estrelas, secretários da defesa, directores do FBI e da CIA, retratos tão familiares que os homens que neles sorriam discretamente mais pareciam uma falange de amigos há muito desaparecidos. O Major Jim Yancey, cujas botas de combate do Vietname se encontravam, numa réplica de bronze, expostas em cima do piano ao fundo do bar, veio ao meu encontro, pisando em largas passadas a carpete vermelha de padrão escocês.

— Doutora Scarpetta - disse ele com um largo sorriso apertando-me a mão. - Pensei que não tinha gostado da comida, da última vez que aqui esteve, e que por isso é que demorou tanto a voltar.

 A indumentária desportiva do major, camisola de gola alta e calças de bombazina, não conseguia camuflar a sua antiga profissão. Era tão militar como um capacete de guerra, postura orgulhosamente erecta, nem um grama de gordura a mais, cabelo branco cortado à escovinha.

Já reformado, continuava a parecer suficientemente apto para combate, e não me custava nada imaginá-lo a galgar terrenos inóspitos dentro de um jipe, ou a comer rações de uma lata no meio do mato, com as chuvas das monções a cair em força.

— Sabe muito bem que eu nunca comi mal aqui - respondi carinhosamente.

— Anda à procura do Benton e ele à sua. O nosso amigo está lá adiante - apontou -, na toca do costume.

— Obrigada, Jim. Eu sei o caminho. Foi um prazer tornar a vê-lo.

 Piscou-me o olho e voltou para o bar.

 Fora Mark que me dera a conhecer o restaurante do Major Yancey, quando eu vinha a Quantico dois fins de semana por mês, para estar com ele. Ao caminhar sob o tecto forrado de insígnias da Polícia, ao lado de peças do velho Corpo em exposição, deixei-me emocionar pelas recordações. Lembrava-me das mesas em que eu e Mark nos sentáramos e era esquisito ver agora outras pessoas lá sentadas, entregues às suas próprias conversas. Há quase um ano que eu não ia ao Globe.

 Deixando para trás a sala de jantar principal, dirigi-me para um sector mais reservado, onde Wesley estava à minha espera na sua "toca," uma mesa de canto diante de uma janela com cortinados vermelhos. Bebericava uma bebida e não sorriu quando nos cumprimentámos formalmente. Um criado de smoking preto veio perguntar-me o que eu queria beber.

 Wesley ergueu para mim uns olhos tão impenetráveis como uma caixa-forte, e eu paguei-lhe na mesma moeda. Dera o sinal para o primeiro assalto e o combate ia ser renhido.

— Estou muito preocupado por termos um problema de comunicação, Kay - começou ele.

— Eu sinto exactamente o mesmo - respondi com a calma imperturbável que aperfeiçoara no banco das testemunhas. - Também estou preocupada com o nosso problema de comunicação. O FBI também pôs o meu telefone sob escuta, anda a seguir-me? Espero que quem estava escondido na mata nos tenha tirado, a mim e ao Marino, umas boas fotografias.

 Wesley respondeu com a mesma calma:

— Pessoalmente, não está sob vigilância. O que está sob vigilância é a zona arborizada onde vocês dois foram vistos ontem à tarde.

— Se me tivesse mantido informada - retorqui, contendo a raiva -, eu tê-lo-ia prevenido quando decidimos voltar lá.

— Nunca me passou pela cabeça que o fizessem.

— Tenho por hábito fazer visitas retrospectivas aos locais. Já trabalha comigo há tempo suficiente para saber isso.

— Enganei-me. Mas agora já sabe. E preferia que não voltasse lá.

— Não faço tenções disso - respondi, irritada. - Mas se houver necessidade, terei todo o prazer em avisá-lo com tempo. É o melhor, já que acaba por descobrir na mesma. E não tenho necessidade nenhuma de perder o meu tempo a recolher provas que foram plantadas pelos seus agentes ou pela Polícia.

— Kay - disse ele num tom mais ameno -, não quero interferir no seu trabalho.

— Têm andado a mentir-me, Benton. Disseram-me que não fora recuperada nenhuma cápsula no local e afinal venho a descobrir que ela foi entregue no laboratório do FBI há mais de uma semana.

— Quando decidimos montar a vigilância, não quisemos que houvesse nenhuma fuga de informações - respondeu ele. - Quanto menos pessoas soubessem disso melhor.

— É óbvio que partem do princípio de que o assassino talvez regresse ao local.

— É uma possibilidade.

— Consideraram essa possibilidade nos quatro primeiros casos?

— Desta vez é diferente.

— Porquê?

— Porque ele sabe que deixou ficar uma prova.

— Se ele estivesse assim tão preocupado com a cápsula, tinha tido muito tempo para voltar lá à procura dela no Outono passado - lembrei.

— Talvez não saiba que nós descobrimos que Deborah Harvey foi baleada, que lhe retirámos do corpo uma bala Hydra-Shok.

— Não creio que o indivíduo em questão seja estúpido - retorqui.

 O criado voltou com o meu uísque com soda.

 Wesley prosseguiu:

— A cápsula que recuperaram foi lá plantada. Não o nego. E sim, você e o Marino entraram numa zona vigiada. Estavam dois homens escondidos na mata. Viram tudo o que vocês fizeram, incluindo a recolha da cápsula. Se não me tivesse telefonado, telefonava-lhe eu.

— Vou acreditar que sim.

— Ter-lhe-ia explicado. Aliás, não teria outro remédio pois vocês, inadvertidamente, lixaram o esquema. E tem razão - acrescentou pegando no copo -, eu devia ter-lhe contado, antes. Assim nada disto teria acontecido e não seríamos obrigados a cancelar a coisa ou, melhor dizendo, a protelá-la.

— O que é que protelaram, exactamente?

— Se você e o Marino não tivessem descoberto o que andávamos a fazer, amanhã de manhã os jornais trariam uma notícia destinada ao assassino. - Fez uma pausa. - Uma desinformação para o desentocar, para que fique preocupado. A notícia vai sair mas só na segunda-feira.

— E qual é o interesse disso? - perguntei.

— Queremos que ele pense que se descobriu alguma coisa durante a autópsia dos corpos. Alguma coisa que nos leva a pensar que ele deixou uma prova importante no local do crime. Uma alegação aqui, outra ali, com muitos desmentidos e nenhum comentário da Polícia. Tudo com o intuito de insinuar que, seja que prova for, nós ainda não conseguimos encontrá-la. O assassino sabe que deixou lá uma cápsula. Se ficar suficientemente assustado e voltar lá à procura dela, vamos estar à espera, vendo-o apanhar a que lá plantámos, registando tudo em filme, e depois deitamos-lhe a mão.

— A cápsula não vale nada, a menos que o apanhem a ele e à arma. Para que há-de ele arriscar-se a voltar ao local, principalmente sabendo que a Polícia anda por lá à procura dessa tal prova? - quis eu saber.

— Pode estar preocupado com uma data de coisas, por ter perdido o controlo da situação. Só pode ser isso, ou não teria sido necessário alvejar Deborah pelas costas. Podia nem ter sido preciso alvejá-la sequer. Ao que tudo indica, ele matou Cheney sem se servir da arma. Como é que ele sabe do que é que nós andamos realmente à procura, Kay? Pode ser uma cápsula, pode ser outra coisa qualquer. Ele não sabe ao certo em que estado estavam os corpos quando foram encontrados. Nós não sabemos o que ele fez ao casal e ele não sabe o que você poderá ter descoberto quando fez as autópsias. E talvez não volte lá no dia a seguir à publicação da notícia mas é capaz de tentar uma ou duas semanas depois, se lhe parecer que a costa está livre.

— Duvido que a vossa táctica de desinformação resulte - comentei.

— Quem não arrisca não petisca. O assassino deixou uma prova. Seríamos parvos se não agíssemos com base nisso.

 A aberta era demasiado grande para eu não a aproveitar.

— E agiram com base em provas encontradas nos quatro primeiros casos, Benton? Segundo sei, foi encontrado um valete de copas dentro de cada um dos veículos. Um pormenor que, aparentemente, bem se esforçou por ocultar.

— Quem é que lhe contou? - perguntou ele, sem que a expressão do rosto se alterasse. Nem sequer pareceu admirado.

— É verdade?

— Sim.

— E encontraram alguma carta no caso Harvey-Cheney?

 Wesley olhou para o fundo da sala e fez sinal ao criado.

— Recomendo o filet mignon. - Abriu a ementa dele. - Ou então as costeletas de borrego.

 Escolhi o prato sentindo o coração aos saltos. Acendi um cigarro, incapaz de me descontrair, a mente procurando, frenética, uma forma de romper a barreira.

— Não respondeu à minha pergunta.

— Não vejo qual a relevância disso para o seu papel na investigação - replicou ele.

— A Polícia só passadas quatro horas é que me chamou ao local do crime. Os corpos tinham sido mudados de sítio, mexidos, quando eu lá cheguei. Os investigadores fazem caixinha comigo, você pediu-me para eu manter indefinidamente pendentes a causa e a forma das mortes de Fred e Deborah. Entretanto, Pat Harvey ameaça-me com uma ordem judicial porque não revelo as minhas conclusões. - Fiz uma pausa. Ele manteve-se impávido.

 "Por fim - concluí, já a morder as palavras -, faço uma visita retrospectiva ao local sem saber que ele está sob vigilância, ou que a prova que recolhi fora lá colocada. E acha que os pormenores destes casos não são relevantes para o meu papel na investigação? Já nem sequer sei se tenho algum papel na investigação. Pelo menos parece estar decidido a fazer com que eu não o tenha.

— Não estou nada.

— Então alguém está.

 Não deu resposta.

— Se foi encontrado um valete de copas dentro do jipe de Deborah, ou algures junto dos corpos, é importante que eu saiba. Estabelece uma relação entre as mortes dos cinco casais. Quando anda um serial killer à solta pela Virgínia, isso interessa-me, e muito.

 Foi então que ele me apanhou de surpresa:

— O que é que contou à Abby Turnbull?

— Não lhe contei nada - respondi com o coração a bater ainda mais depressa.

— Encontrou-se com ela, Kay. Tenho a certeza que não vai negá-lo.

— Foi o Mark que lhe disse e tenho a certeza que não vai negá-lo.

— O Mark não tinha maneira de saber que se encontraram em Richmond ou em Washington, a menos que você lhe tenha dito. E, além do mais, ele não tinha razão nenhuma para me contar isso a mim.

 Fitei-o com atenção. Como é que Wesley poderia ter sabido que eu me encontrara com Abby em Washington se ela não andasse de facto a ser vigiada?

— Quando a Abby veio visitar-me a Richmond - expliquei-lhe -, o Mark telefonou e eu disse-lhe que ela estava lá em casa. Está-me a dizer que ele não lhe contou nada?

— Não contou.

— Então como é que soube?

— Há certas coisas que não posso dizer-lhe. Só lhe resta confiar em mim.

 O criado trouxe-nos as saladas e comemos em silêncio. Wesley só tornou a falar quando chegaram os pratos principais.

— Ando a ser muito pressionado - disse ele, com voz sumida.

— Já vi. Está com um ar exausto, abatido.

— Obrigado, Doutora - replicou ele, ironicamente.

— Também mudou, noutros aspectos - observei.

— Deve ser só impressão sua.

— Está-se a fechar comigo, Benton.

— Creio que mantenho uma certa distância porque me faz perguntas às quais não posso responder. E o Marino também. E depois sinto-me ainda mais pressionado, percebe?

— Estou a tentar perceber - repliquei.

— Não posso contar-lhe tudo. Não consegue aceitar isso?

— Não. Porque é aí que estamos em desacordo. Eu tenho informações de que você precisa, e você tem outras de que eu preciso. Não lhe mostro as minhas se não me mostrar as suas.

 Ele surpreendeu-me com uma gargalhada.

— Acha que podemos chegar a um acordo com base nestes termos? — insisti.

— Pelos vistos não me resta outra alternativa.

— Pois não - afirmei.

— Sim, encontrámos um valete de copas no caso Harvey-Cheney.

Sim, mandei mexer nos corpos antes de você chegar ao local, e sei que foi um erro de palmatória, mas não faz ideia do quanto as cartas são importantes, ou dos problemas que haveria se se soubesse da existência delas. Se isso chegasse aos jornais, por exemplo. Neste momento, não vou adiantar-lhe mais nada.

— Onde é que estava a carta? - perguntei.

— Encontrámo-la dentro da bolsa de Deborah Harvey. Quando dois dos agentes me ajudaram a voltá-la, encontrámos a bolsa por baixo do corpo.

— Está-me a dizer que o assassino levou a bolsa dela para a mata?

— Sim. Não faz sentido pensar que tenha sido a própria Deborah a levá-la.

— Nos outros casos - salientei -, a carta foi deixada à vista, dentro do veículo.

— Exactamente. O sítio onde a carta foi encontrada é mais uma incongruência. Por que não foi deixada dentro do jipe? Outra incongruência é que as cartas deixadas nos outros casos são cartas de jogar Bicycle. A deixada com Deborah é de outra marca. Depois há a questão das fibras.

— Que fibras? - perguntei.

 Embora eu tivesse recolhido fibras de todos os corpos decompostos, a maioria delas provinha da própria roupa das vítimas, ou dos estofos dos veículos. As fibras desconhecidas - as poucas que eu achara - não estabeleciam nenhuma ligação entre os casos; eram, até ver, inúteis.

— Nos quatro casos anteriores às mortes de Deborah e Fred - disse Wesley -, foram recolhidas fibras de algodão branco no banco do condutor de cada carro abandonado.

— Isso é novidade para mim - afirmei, com a irritação a crescer de novo.

— A análise das fibras foi feita pelos nossos laboratórios - esclareceu ele.

— E qual é a vossa opinião? - perguntei.

— O tipo de fibras recolhidas é interessante. Dado que as vítimas não traziam roupas de algodão branco na altura da morte, tenho de concluir que as fibras foram lá deixadas pelo assassino, o que o coloca ao volante dos carros das vítimas depois dos crimes. Mas isso foi sempre o que nós achámos. Há que considerar a sua indumentária. E uma hipótese é que usasse alguma farda quando encontrou os casais. Sei lá, umas calças de algodão branco. Mas não encontrámos fibras dessas no banco do condutor do jipe de Deborah Harvey.

— Que encontraram dentro do jipe? - perguntei.

— Nada que me esclareça, para já. Aliás, o interior estava imaculado. - Fez uma pausa para cortar o bife. - A questão é que o método utilizado, neste caso, é tão diferente que me preocupa muito, por causa das outras circunstâncias.

— Porque uma das vítimas é a filha da Dama de Ferro e continua a pensar que o que aconteceu a Deborah pode ter tido algum motivo político, pode estar relacionado com as actividades antidroga da mãe - observei.

 Ele acenou com a cabeça.

— Não podemos descartar a hipótese de as mortes de Deborah e do namorado terem sido disfarçadas para se assemelharem aos outros casos.

— Se as mortes deles não têm relação com as outras, e foram um trabalho pago - perguntei, cepticamente -, como é que explica que o assassino soubesse das cartas, Benton? Eu própria só há pouco tempo é que soube do valete de copas. Isso não veio, de certeza, nos jornais.

— Pat Harvey sabe - afirmou ele, para espanto meu.

 Abby, pensei. E era capaz de apostar que Abby revelara o pormenor a Mrs. Harvey e que Wesley sabia disso.

— Há quanto tempo é que Mrs. Harvey sabe das cartas? - perguntei.

— Quando o jipe da filha foi encontrado, ela perguntou-me se tínhamos recolhido alguma carta. E tornou a telefonar-me para saber isso depois de aparecerem os corpos.

— Não percebo - disse eu. - Como é que ela sabia disso no Outono passado? Quer-me parecer que sabia os pormenores dos outros casos antes de Deborah e Fred desaparecerem.

— Sabia alguns dos pormenores. Pat Harvey interessou-se pelos casos muito antes de ter razões pessoais para isso.

— Porquê?

— Já ouviu algumas das teorias - respondeu ele. - Overdoses. Mais uma dessas drogas sintéticas esquisitas que há para aí, os miúdos vão fazer uma farra para a mata e acabam por morrer. Ou algum traficante que tem um gozo especial em vender produto marado num local remoto e depois fica lá a vê-los morrer.

—Já ouvi essas teorias e não há nada que as fundamente. Os resultados toxicológicos foram negativos quanto a drogas nas primeiras oito mortes.

— Lembro-me de ter lido isso nos relatórios - disse ele, com ar pensativo. - Mas também deduzi que não significava necessariamente que os miúdos não andassem metidos na droga. Os seus corpos estavam quase esqueletizados. Parece que pouco restava para se analisar.

— Ainda restava algum tecido vermelho, músculo. É o suficiente para se analisar. Cocaína ou heroína, por exemplo. Nós, pelo menos, esperaríamos encontrar os seus metabolitos de benzoilecogonina ou morfina. Quanto às drogas sintéticas, procurámos análogos de PCP, anfetaminas.

— E o China White? - aventou ele, referindo-se a um forte analgésico sintético muito popular na Califórnia. - Pelo que sei, não é preciso muito para uma overdose e é difícil de detectar.

— É verdade. Menos de um miligrama pode ser fatal, o que quer dizer que a concentração é demasiado baixa para ser detectada sem se proceder a análises especiais como a RIA. - Reparando na expressão dele, expliquei: - Rádio-imuno-análise, um processo baseado em reacções de anticorpos a determinadas drogas. Ao contrário dos exames tradicionais, a RIA consegue detectar pequenos níveis de droga, por isso é a ela que recorremos quando andamos à procura de China White, LSD, THC.

— E não encontraram nada disso.

— Exacto.

— E álcool?

— O álcool é um problema quando os corpos estão já muito decompostos. Alguns desses testes deram negativo, outros menos que ponto-zero-cinco, possivelmente resultado da decomposição. Por outras palavras, inconclusivos.

— Com Harvey e Cheney também?

— Até ver, não há vestígios de droga - disse-lhe. - Qual é o interesse de Pat Harvey nos casos anteriores?

— Não me interprete mal - respondeu ele. - Não digo que fosse um interesse por aí além. Mas deve ter tido umas dicas quando trabalhava na Procuradoria Geral, informação interna, e fez algumas perguntas. Política, Kay. Suponho que se se tivesse descoberto que as mortes destes casais aqui na Virgínia estavam relacionadas com a droga - fossem elas mortes acidentais ou homicídios - ela teria usado essa informação para reforçar as suas actividades antidroga.

 Isso explicava por que é que Mrs. Harvey parecia estar bem informada quando almocei com ela em sua casa no Outono passado, pensei. De certeza que elaborara um dossier completo devido ao seu já antigo interesse nos casos.

— Quando as averiguações não deram em nada, - prosseguiu Wesley - acho que ela se desligou, até Deborah e Fred terem desaparecido.

Nessa altura veio tudo outra vez ao de cima, como pode imaginar.

— Sim, imagino. E também imagino a amarga ironia se se tivesse descoberto que tinham sido as drogas que mataram a filha da Dama de Ferro.

— Não julgue que isso não lhe passou pela cabeça - comentou Wesley, sorumbaticamente.

 O lembrete fez-me sentir novamente tensa.

— Ela tem o direito de saber, Benton. Não posso deixar estes casos eternamente pendentes.

 Ele fez sinal ao criado para que trouxesse o café.

— Preciso que me dê mais um tempinho, Kay.

— Por causa da vossa táctica de desinformação?

— Precisamos fazer essa tentativa, deixar que as notícias saiam sem interferência. Assim que Mrs. Harvey receber qualquer coisa de si, vai ser o bom e o bonito. Acredite em mim, eu nesta altura sei melhor do que você como ela reagirá. Vai para os jornais e com isso lixa tudo o que temos andado a preparar para atrair o assassino.

— Que acontece quando ela arranjar a ordem judicial?

— Isso leva tempo. Não é de um dia para o outro. Vai empatar mais um bocadinho, Kay?

— Não acabou de me explicar aquilo do valete de copas - recordei-lhe. — Como é que um assassino profissional sabia das cartas?

 Wesley respondeu com relutância:

— Pat Harvey não recolhe informações nem investiga casos sozinha. Tem ajudantes, uma equipa. Fala com outros políticos, com toda a espécie de pessoas, incluindo constituintes. Resta saber a quem terá ela divulgado informações e quem poderá querer destruí-la, pressupondo que é esse o caso e não estou a dizer que seja.

— Um contrato disfarçado de modo a parecer-se com os crimes anteriores - aventei. - Só que o profissional cometeu um erro. Não sabia que tinha de deixar o valete de copas dentro do carro. Deixou-o junto do corpo de Deborah, dentro da bolsa dela. Talvez alguém envolvido nas organizações humanitárias fraudulentas contra as quais Pat Harvey deverá depor?

— Estamos a falar de criminosos que conhecem outros criminosos.

Traficantes de droga. Crime organizado. - Distraidamente, continuou a mexer o café. - Mrs. Harvey não se está a aguentar lá muito bem com tudo isto. Anda muito enervada. Essa audiência no Congresso não é, de momento, o que mais a preocupa.

— Eu sei. E parece-me que o relacionamento dela com o Departamento de Justiça não é propriamente amistoso, por causa dessa audiência.

 Wesley pousou cuidadosamente a colher de chá na borda do pires.

— Pois não - respondeu, erguendo os olhos para mim. - O que ela quer desencadear não vai ajudar-nos. É bom que se acabe com a CAMCCD e outros esquemas assim, mas não chega. Queremos que sejam julgados em tribunal. No passado, houve um certo atrito entre ela e a DEA, o FBI e até a CIA.

— E agora? - perguntei, continuando a sondar.

— É pior porque ela está emocionalmente envolvida, está dependente da ajuda do FBI na resolução do homicídio da filha. Não colabora, está paranóica. A tentar passar-nos a perna, a assumir ela própria o comando. - Com um suspiro, acrescentou: - Ela é um problema, Kay.

— Se calhar ela diz o mesmo do FBI.

 Fez um sorriso amarelo:

— Tenho a certeza que sim.

 Eu queria continuar o jogo de póquer mental, a ver se Wesley estava a esconder-me alguma coisa, por isso dei-lhe mais uma aberta:

— Parece que Deborah sofreu um ferimento defensivo no indicador esquerdo. Não é um golpe, mas um corte infligido por uma faca de lâmina serrilhada.

— Em que zona do indicador? - perguntou ele, inclinando-se um pouco para a frente.

— Dorsal. - Levantei a mão para lhe mostrar. - Por cima, junto ao primeiro nó.

— Interessante. Invulgar.

— Sim. Difícil de imaginar como o terá levado.

— Sabemos, portanto, que ele estava munido de uma faca - pensou ele, em voz alta. - Isso ainda me faz desconfiar mais de que alguma coisa correu mal. Aconteceu alguma coisa com que ele não contava. Pode ter recorrido a uma arma de fogo para dominar o casal mas tencionava matá-los com a faca. Possivelmente degolando-os.

Mas aí alguma coisa deu para o torto. Deborah deve ter conseguido escapar-se e ele alvejou-a nas costas, depois se calhar degolou-a para a arrumar de vez.

— E depois colocou os corpos na mesma posição dos outros? - perguntei. — Braço dado, de bruços, e completamente vestidos?

 Pôs-se a olhar para a parede acima da minha cabeça.

 Pensei nas pontas de cigarro deixadas em todos os locais do crime.

Pensei nas semelhanças. O facto de a carta de jogar ser de outra marca e, desta vez, ter sido deixada num sítio diferente, não provava nada. Os assassinos não são máquinas. Os seus rituais e hábitos não são uma ciência exacta nem absolutamente fixos. Nada do que Wesley me contara, incluindo a ausência de fibras de algodão branco dentro do jipe de Deborah, era suficiente para validar a teoria de que as mortes de Fred e Deborah não estavam relacionadas com os outros casos. Comecei a sentir a mesma confusão que sentia sempre que ia a Quantico, onde nunca sabia ao certo se as armas estavam a disparar balas verdadeiras ou falsas, se os helicópteros transportavam fuzileiros em serviço ou agentes do FBI simulando manobras, ou se os edifícios de Hogan's Alley, a cidade fictícia da Academia, estavam a funcionar ou eram só fachadas hollywoodescas.

 Não podia forçar mais a nota com Wesley. Ele não ia dizer-me mais nada.

— Está a ficar tarde - comentou ele. - Tem uma longa viagem pela frente.

 Eu tinha um último comentário a fazer:

— Não quero que a amizade interfira nisto tudo, Benton.

— Nem é preciso dizer.

 — O que aconteceu entre mim e o Mark...

— Isso não interessa - interrompeu ele, com voz firme mas não antipática.

— Ele era o seu melhor amigo.

— Acho que ainda é.

— Culpa-me por ele ter ido para o Colorado, por ter saído de Quantico?

— Eu sei por que é que ele foi - respondeu. - Tenho pena que tenha ido. Faz muita falta à Academia.

 A estratégia do FBI, de atrair o assassino por meio de uma desinformação, não se concretizou na segunda-feira seguinte. Das duas uma: ou tinham mudado de ideias, ou Pat Harvey antecipou-se-lhes, dando uma conferência de imprensa nesse mesmo dia.

 Ao meio-dia, enfrentou as câmaras no seu gabinete em Washington, conferindo mais dramatismo ao evento tendo a seu lado Bruce Cheney, o pai de Fred. Estava com um aspecto horrível. Os quilos acrescentados pela câmara, e a maquilhagem, não conseguiam esconder o quanto ela emagrecera nem as escuras olheiras.

— Quando começaram essas ameaças, Mrs. Harvey, e qual o seu teor? - perguntou um jornalista.

— A primeira chegou depois de eu ter começado a investigar as organizações humanitárias. E creio que terá sido há pouco mais de um ano - respondeu ela, inexpressivamente. - Uma carta enviada pelo correio para a minha casa de Richmond. Não vou divulgar a natureza específica do seu teor mas a ameaça era dirigida à minha família.

— E pensa que estaria relacionada com a sua investigação a organizações humanitárias fraudulentas como a CAMCCD?

— Não tenho quaisquer dúvidas. Houve outras ameaças, a última apenas dois meses antes do desaparecimento da minha filha e Fred Cheney.

 O rosto de Bruce Cheney surgiu em grande plano no ecrã. Estava pálido, pestanejando na névoa ofuscante dos projectores de TV - Mrs. Harvey...

— Mrs. Harvey...

 Os jornalistas interrompiam-se uns aos outros e Pat Harvey interrompeu-os a eles, a câmara voltou a fixar-se nela.

— O FBI teve conhecimento da situação e, segundo eles, as ameaças, as cartas, provinham de uma única fonte - afirmou ela.

— Mrs. Harvey. ..

— Mrs. Harvey... - uma jornalista fez ouvir a sua voz acima do burburinho - não é segredo que a senhora e o Departamento de Justiça têm diferentes agendas, um conflito de interesses resultante da investigação das organizações humanitárias. Está a insinuar que o FBI sabia que a segurança da sua família estava ameaçada e não fez nada?

— É mais que uma insinuação - declarou ela.

— Está a acusar o Departamento de Justiça de incompetência?

— Do que estou a acusar o Departamento de Justiça é de conspiração - respondeu Pat Harvey.

 Com um gemido, peguei num cigarro, enquanto a vozearia, as interrupções, atingiam um crescendo. Tramaste-te, pensei, olhando incredulamente para o televisor dentro da pequena biblioteca médica dos meus serviços centrais.

 A coisa ainda ficou pior. E o meu coração encheu-se de temor quando Mrs. Harvey voltou o seu olhar frio para a objectiva e, um por um, passou pelo fio da espada todos os envolvidos na investigação, incluindo eu. Não poupou ninguém e não havia nada sagrado, nem mesmo o pormenor do valete de copas.

 Achar que ela não colaborava e que era um problema, como afirmara Wesley, era dizer pouco. Sob aquela armadura racional estava uma mulher enlouquecida pela raiva e pelo desgosto. Estupefacta, ouvi-a acusar, directamente e sem contemplações, a Polícia, o FBI e o Instituto de Medicina Legal de cumplicidade num "encobrimento".

— Estão deliberadamente a ocultar a verdade acerca destes casos - rematou ela -, quando um acto desses serve apenas os próprios interesses deles à custa inescrupulosa de vidas humanas.

— Que boca mais foleira - resmungou Fielding, o meu assistente, sentando-se por perto.

— Que casos? - perguntou um jornalista, bem alto. - As mortes da sua filha e do namorado dela, ou refere-se aos outros quatro casais?

— A todos - respondeu Mrs. Harvey. - Refiro-me a todos os rapazes e raparigas caçados como animais e abatidos.

— O que é que está a ser encoberto?

— A identidade ou identidade dos responsáveis - respondeu, categórica. - Não houve qualquer intervenção por parte do Departamento de Justiça para acabar com esta chacina. As razões são de ordem política. Uma certa agência federal está a proteger os seus membros.

— Importa-se de especificar melhor? - interrogou-a uma voz.

— Quando a minha investigação estiver concluída, farei um desmascaramento total.

— Na audiência? - perguntaram-lhe. - Está a insinuar que a morte de Deborah e do namorado...

— Ele chama-se Fred.

 Quem falara fora Bruce Cheney e, de súbito, o seu rosto encheu o ecrã do televisor.

 A sala ficou silenciosa.

— Fred. O nome dele é Frederick Wilson Cheney. - A voz do pai tremia de emoção. - Não é apenas o namorado de Debbie. Ele também morreu, assassinado. O meu filho! - A voz embargou-se-lhe e baixou a cabeça para esconder as lágrimas.

 Desliguei o televisor, aborrecida e incapaz de ficar quieta.

 Rose estivera à porta, a ver. Olhou para mim e abanou lentamente a cabeça.

 Fielding pôs-se de pé, espreguiçou-se, apertou o cordão das calças verdes de cirurgia.

— Ela lixou-se diante dos olhos de toda a gente - comentou, saindo da biblioteca.

 Dei-me conta, quando estava a fazer um café, do que Pat Harvey tinha dito. Comecei realmente a perceber quando, mentalmente, reproduzi a frase.

 "Caçados como animais e abatidos...”

 As suas palavras soavam como uma deixa bem ensaiada. Não me pareciam ocas, extemporâneas, uma força de expressão. Uma agência federal a proteger os seus membros?

 Caça.

 Um valete de copas equivale a um cavaleiro. Alguém que é reconhecido, ou se reconhece a si mesmo, como um competidor, um defensor.

Alguém que combate, dissera-me Hilda Ozimek.

 Um cavaleiro. Um soldado.

Caça Os crimes tinham sido meticulosamente calculados, metodicamente planeados. Bruce Phillips e Judy Roberts desapareceram em junho. Os seus corpos foram encontrados em meados de Agosto quando abriu a época da caça.

 Jim Freeman e Bonnie Smyth desapareceram em Julho, os seus corpos encontrados no dia da abertura da época da perdiz e do faisão.

 Ben Anderson e Carolyn Bennett desapareceram em Março, os seus corpos encontrados em Novembro durante a época do veado.

 Susan Wilcox e Mark Martin desapareceram em finais de Fevereiro, os seus corpos descobertos em meados de Maio, durante a época primaveril do peru macho.

 Deborah Harvey e Fred Cheney desapareceram no fim-de-semana do Labor Day e só foram encontrados meses depois, quando a mata estava pejada de caçadores atrás de coelhos, esquilos, raposas, faisões e raccoons.

 Eu não dera muita importância ao pormenor, pois a maioria dos corpos em adiantado estado de decomposição, e esqueletizados, que vinham parar aos meus serviços, eram encontrados por caçadores.

Quando alguém morre no meio da mata, ou para lá é atirado o corpo, o mais provável é ser um caçador a descobrir os restos mortais. Mas a altura e o local em que os corpos dos casais foram descobertos podiam ter sido planeados.

 O assassino queria que as suas vítimas fossem encontradas, mas não imediatamente, por isso matava-as fora da época da caça, ciente da probabilidade de só virem a ser encontradas quando os caçadores voltassem à mata. Nessa altura já os corpos estariam decompostos.

Desaparecidos, com o tecido, os ferimentos que lhes infligira. Se fosse caso de violação, não restaria qualquer líquido seminal. A maior parte das marcas deixadas no local teria sido deslocada pelo vento e varrida pela chuva. Talvez até lhe interessasse que os corpos fossem encontrados por caçadores pois, nas suas fantasias, também ele era um caçador. O maior de todos.

 Os caçadores caçavam animais, pensei ao sentar-me, na tarde seguinte, à minha secretária. Guerrilheiros, tropas especiais e soldados da fortuna caçavam seres humanos.

 No raio de oitenta quilómetros em que os casais tinham desaparecido e depois sido encontrados mortos, havia Fort Eustis, Langley Field, e uma série de outras instalações militares, incluindo a West Point, da CIA, funcionando sob a fachada de uma base militar chamada Camp Peary. "A Quinta", como lhe chamam nos romances de espionagem e nos ensaios sobre os serviços secretos, era onde os agentes recebiam treino em actividades paramilitares de infiltração, exfiltração, demolições, pára-quedismo nouturno e outras operações secretas.

 Abby Turnbull enganou-se ao virar, foi dar à entrada de Camp Peary, e dias depois tinha agentes do FBI à sua procura.

 Os federais estavam paranóicos e eu tinha cá uma suspeita de que sabia porquê. Depois de ler a cobertura jornalística da conferência de imprensa de Pat Harvey, ainda fiquei mais convencida.

 Tinha em cima da secretária uma data de jornais, incluindo o Post, e analisara várias vezes os relatos favoráveis. O autor do artigo do Post era Clifford Ring, o jornalista que andara a chatear o comissário e outros funcionários do Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

Mr. Ring referia o meu nome só de passagem, ao insinuar que Pat Harvey estava a aproveitar-se indevidamente do seu cargo público para intimidar e ameaçar todos os envolvidos, para que lhe facultassem os pormenores sobre a morte da filha. Foi o bastante para que me pusesse a pensar se Mr. Ring não seria a fonte jornalística de Benton Wesley, a conduta do FBI para falsos comunicados, o que, de resto, nem seria assim tão mau. O que me impressionou foi o teor dos artigos.

 O que eu calculara que viesse a ser encarado apenas como a bronca sensacionalista do mês, estava era a circular como a colossal degradação de uma mulher que, poucas semanas antes, fora apontada por alguns como possível Vice-Presidente dos Estados Unidos. Eu era a primeira a dizer que a diatribe de Pat Harvey na conferência de imprensa fora, no mínimo, imprudente, prematura na melhor das hipóteses. Mas achei estranho não haver sinais de qualquer tentativa séria de corroboração das suas acusações. Os jornalistas, neste caso, não pareciam inclinados a obter os habituais "sem comentários” incriminadores, e outros chavões evasivos por parte dos burocratas do governo, que, por regra, tão afincadamente tentavam arrancar-lhes.

 Aparentemente, a única visada dos media era Mrs. Harvey, e atacavam-na sem dó nem piedade. O cabeçalho de um editorial dizia: CHACINAGATE? Era ridicularizada não apenas nos textos mas também nos cartoons políticos. Uma das figuras mais respeitadas do país ficava assim reduzida a uma fulana histérica, cujas "fontes" incluíam uma vidente da Carolina do Sul. Até os seus mais acérrimos aliados se afastavam com abanares de cabeça, enquanto, subtilmente, os inimigos a arrumavam de vez, com ataques suavemente velados de solidariedade. "A sua reacção é compreensível em face da terrível perda pessoal que sofreu," afirmava um detractor democrata, acrescentando:

"Acho que o melhor é não ligar à sua imprudência. Encarar as acusações dela como despautérios de uma mente profundamente perturbada." Outro dizia: "O que aconteceu a Pat Harvey é um trágico exemplo de autodestruição provocada por problemas pessoais difíceis de suportar, de tão devastadores.”

 Enfiando na máquina de escrever o relatório da autópsia de Deborah Harvey, apaguei o "incerta" nos espaços destinados à causa e forma da morte. Escrevi lá "homicídio" e "exanimação devido a ferimento de bala na região lombar inferior e lesões cortantes".

Emendando a certidão de óbito e o relatório tanatológico, fui lá fora tirar fotocópias. Anexei-lhes uma carta explicativa apresentando as minhas conclusões, e um pedido de desculpas pelo atraso que atribuí à longa espera dos resultados toxicológicos, os quais eram ainda provisórios. Faria esse favor a Benton Wesley. Pat Harvey não ia saber por mim que ele me pressionara para protelar indefinidamente a entrega dos resultados do exame médico-legal da filha.

 Os Harvey iam saber tudo - as minhas conclusões tiradas a olho nu e microscopicamente, o facto de as primeiras séries de testes toxicológicos serem negativas, a bala alojada na região lombar inferior de Deborah, o ferimento defensivo na mão e, pateticamente, a descrição pormenorizada das vestes, ou do que delas restava. A Polícia recuperara os brincos, o relógio e o anel de comprometida que Fred lhe dera no aniversário.

 Enviei também cópias dos relatórios de Fred Cheney ao pai dele, embora nada mais pudesse adiantar que a forma fora homicídio, a causa "violência indeterminada".

 Peguei no telefone e liguei para o gabinete de Benton Wesley mas disseram-me que ele não estava. A seguir tentei para casa.

— Vou divulgar as informações - disse-lhe quando ele atendeu. — Só queria que soubesse.

 Silêncio.

 Depois perguntou-me, muito calmamente:

— Ouviu a conferência de imprensa, Kay?

— Ouvi.

— E leu o jornal de hoje?

— Vi a conferência de imprensa e li os jornais. Sei perfeitamente que ela deu um tiro no pé.

— Eu diria que deu foi um na cabeça - retorquiu ele - E teve uma certa ajuda.

 Uma pausa, depois Wesley perguntou:

— Que quer dizer com isso?

— Terei todo o prazer em explicar-lhe. Esta noite. Pessoalmente.

— Aqui? - Pareceu alarmado.

— Sim.

— Hmm, esta noite não calha bem.

— Desculpe mas isto não pode esperar.

— Não está a perceber, Kay. Confie em mim...

Cortei-lhe a palavra:

— Não, Benton. Desta vez, não.

 

 Um vento gelado fustigava os negros vultos das árvores, e, ao fraco clarão do luar, a paisagem parecia estranha e lúgubre enquanto eu me dirigia, de carro, para casa de Benton Wesley. Havia poucos postes de iluminação e as estradas rurais estavam mal assinaladas.

Por fim, parei numa loja de produtos agrícolas, com uma única bomba de gasolina à frente. Acendendo a luz interior do carro, li as indicações que anotara. Estava perdida.

 Percebi que a loja estava fechada mas avistei uma cabina telefónica junto à entrada. Estacionando mais perto, saí do carro, deixando os faróis acesos e o motor ligado. Marquei o número dos Wesley e foi a mulher dele, Connie, que atendeu.

— Fartou-se mesmo de andar às voltas - comentou, depois de eu lhe explicar, o melhor que pude, onde estava.

— Oh, meu Deus! - disse eu, com um gemido.

— Bom, não é assim tão longe como isso. O problema é que vir de onde está até aqui é complicado. - Fez uma pausa e depois decidiu: — Acho que o melhor é ficar onde está, Kay. Tranque as portas e espere. É preferível irmos nós aí e a Kay vir atrás. Quinze minutos, está bem?

 Voltando para o carro, arrumei-o mais perto da estrada, liguei o rádio e fiquei à espera. Os minutos pareciam horas. Não passou por lá um único carro. Os meus faróis iluminavam uma cerca branca rodeando um terreno de pastagens gelado do outro lado da estrada.

A Lua era uma pálida esquírola flutuando na escuridão nebulosa.

Fumei vários cigarros, sempre a olhar de um lado para o outro.

 Pus-me a pensar se teria sido o que acontecera aos casais assassinados, como seria ser-se obrigado a entrar para a mata descalço e amarrado. De certeza que perceberam que iam morrer. De certeza que ficaram aterrorizados a pensar no que ele lhes faria, primeiro.

Pensei na minha sobrinha, Lucy. Pensei na minha mãe, na minha irmã, nos meus amigos. Recear o sofrimento e a morte de alguém que se ama é pior do que recear a própria morte. Vi surgir na estrada escura e estreita uns faróis cada vez mais fortes. Um carro que não reconheci deu a curva e parou não muito longe do meu. Quando vi de relance o perfil do condutor, a adrenalina correu-me pelo sangue como um choque eléctrico.

 Mark James saiu do que eu calculei que fosse um carro alugado.

Abri a janela e olhei para ele, demasiado abalada para conseguir falar.

— Olá, Kay.

 Wesley dissera que esta noite não calhava bem, tentara dissuadir-me e agora eu percebia porquê. Mark estava lá em casa. Talvez tivesse sido Connie que lhe pediu para me vir buscar, ou ele se tenha oferecido. Não conseguia imaginar a minha reacção se, ao entrar em casa dos Wesley, desse com Mark sentado na sala.

— Daqui até à casa dos Wesley é um labirinto - comentou Mark.

— Sugiro que deixes aqui o teu carro. Ele fica seguro. Eu depois trago-te para não teres problemas em encontrar o caminho.

 Sem dizer palavra, estacionei mais perto da loja e depois entrei para o carro dele.

— Como estás?

— Óptima.

— E a tua família? Como está a Lucy?

 Lucy ainda perguntava por ele. Eu nunca sabia o que responder.

— Óptima - tornei a dizer. , Ao olhar para o rosto dele, para as mãos fortes no volante, para todos os contornos, linhas e veias que tão bem conhecia e achava maravilhosos, deixei-me invadir pela emoção. Amava-o e odiava-o ao mesmo tempo.

— O trabalho vai bem?

— Deixa de ser tão bem educadinho, Mark.

— Preferias que fosse malcriado como tu?

— Não estou a ser malcriada.

— Que raio queres que eu diga?

 Respondi com silêncio.

 Ele ligou o rádio e mergulhámos ainda mais na noite.

— Eu sei que isto é esquisito. - Sempre de olhos postos na estrada.

— Desculpa. O Benton é que sugeriu que viesse eu buscar-te.

— Foi muito atencioso da parte dele - repliquei, sarcasticamente.

— Não foi isso que eu quis dizer. Mesmo que ele não me pedisse, eu teria insistido. Tu não tinhas motivo nenhum para pensar que eu pudesse lá estar.

 Fizemos uma curva apertada e virámos para a propriedade dos Wesley.

 Ao metermos pela entrada, Mark disse:

— Acho melhor avisar-te que o Benton não está lá muito bem-disposto.

— Nem eu - retorqui, friamente.

 A lareira da sala estava acesa e Wesley sentado lá ao pé, uma pasta aberta e encostada à perna da cadeira, uma bebida em cima da mesinha ao lado. Não se levantou quando eu entrei, mas fez um leve aceno de cabeça quando Connie me convidou a sentar no sofá. Sentei-me numa ponta, Mark na outra.

 Connie saiu para ir buscar o café e eu comecei logo a falar:

— Não sei nada acerca do teu envolvimento nisto tudo, Mark.

— Não há muito para saber. Estive uns dias em Quantico e vim passar esta noite com o Benton e a Connie, antes de voltar para Denver, amanhã. Não estou envolvido na investigação nem fui destacado para os casos.

— Muito bem. Mas estás ao corrente. - Só gostava de saber de que teriam eles falado na minha ausência. O que lhe teria dito Benton, a meu respeito.

— Está - respondeu Wesley.

— Então vou perguntar aos dois - decidi. - Foi o FBI que armou a cilada a Pat Harvey? Ou foi a CIA?

 Não houve a mínima mudança de expressão no rosto de Wesley.

— O que é que a leva a pensar que lhe armaram uma cilada?

— É óbvio que a vossa táctica de desinformação não se destinava só a desentocar o assassino. Alguém tencionava destruir a credibilidade de Pat Harvey e a imprensa fê-lo com bastante êxito.

— Nem o Presidente tem essa influência toda sobre os media.

 Neste país não tem.

— Não insulte a minha inteligência, Benton - ripostei.

— O que ela fez foi antecipar-se, digamos assim. - Wesley voltou a traçar a perna e pegou no copo.

— E vocês montaram a ratoeira - afirmei.

— Ninguém falou por ela na conferência de imprensa.

— Não interessa, porque também não era preciso. Alguém se encarregou de fazer com que as acusações dela aparecessem nos jornais como delírios de uma louca. Quem é que industriou os jornalistas, os políticos, os antigos aliados dela, Benton? Quem é que revelou que ela tinha consultado uma vidente? Foi você?

— Não.

— Pat Harvey falou com Hilda Ozimek em Setembro último - continuei.— Até agora isso nunca veio nos jornais, o que significa que a imprensa só agora é que soube. Foi um golpe muito baixo, Benton. Você mesmo me disse que o FBI e os Serviços Secretos já recorreram várias vezes a ela. Se calhar foi assim que Mrs. Harvey soube da sua existência, caramba!

 Connie voltou com o meu café e tornou a retirar-se tão discretamente como aparecera.

 Eu sentia o olhar de Mark pousado em mim, a tensão. Wesley continuava a olhar para as chamas.

— Acho que sei a verdade. - Não fiz nenhum esforço para disfarçar a irritação. - Tenciono deitá-la já cá para fora. E se não aceitarem as minhas condições, não vejo hipótese nenhuma de continuar a aceitar as vossas.

— Que está a insinuar, Kay? - perguntou Wesley, olhando-me de soslaio.

— Se tornar a acontecer, se morrer outro casal, não posso garantir que os jornalistas não descubram o que realmente se está a passar...

— Kay. - Foi Mark que me interrompeu e recusei-me a olhar para ele. Estava a fazer todos os possíveis para me esquecer da sua presença. - Não queiras meter a pata na poça como Mrs. Harvey.

— Ela não meteu propriamente a pata na poça sozinha - respondi. — Acho que ela tem razão. Alguma coisa está a ser encoberta.

— Enviou-lhe os relatórios, presumo - disse Wesley.

— Enviei. Não participarei mais nesta manipulação.

— Foi um erro.

— O meu erro foi não lhos ter enviado há mais tempo.

— Os relatórios incluem alguma informação sobre a bala que retirou do corpo de Deborah? Concretamente, que se tratava de uma Hydra-Shok de nove milímetros?

— O calibre e a marca constam do relatório de balística - respondi. — Eu não envio relatórios de balística, tal como não envio cópias dos relatórios da Polícia, pois nem uns nem outros são feitos nos meus serviços. Mas interessa-me saber por que está tão preocupado com esse pormenor.

 Como Wesley não desse resposta, Mark interveio:

— Benton, temos de esclarecer certas coisas.

 Wesley manteve-se calado.

— Acho que ela precisa de saber - acrescentou Mark.

— Acho que já sei - disse eu. - Acho que o FBI tem um motivo qualquer para suspeitar que o assassino seja um agente federal que se passou da cabeça. Muito provavelmente, alguém de Camp Peary.

 O vento gemia em volta das caleiras e Wesley levantou-se para espevitar as chamas. Colocou mais um tronco, ajeitou-o com o atiçador e varreu as cinzas da lareira, com todo o vagar. Quando tornou a sentar-se, pegou no copo e perguntou:

— Como é que chegou a essa conclusão?

— Não interessa - repliquei.

— Alguém lhe disse, directamente?

— Não. Directamente, não. - Tirei os cigarros da bolsa. - Há quanto tempo desconfia disso, Benton?

 Hesitante, respondeu:

— Acho melhor para si não saber os pormenores. Sinceramente. Só vai ser um fardo. Um fardo muito pesado.

— Já carrego um fardo muito pesado. Estou farta de andar a ser mal informada.

— Preciso que me garanta que nada do que falarmos sairá daqui.

— Já me conhece muito bem para não se preocupar com isso.

— Camp Peary entrou na história pouco depois de começarem os crimes.

— Devido à sua proximidade?

 Olhou para Mark:

— Explica tu - disse-lhe Wesley.

 Voltei-me e fitei o homem que em tempos dormira na minha cama e dominara os meus sonhos. Envergava umas calças de bombazina azul-escuro e uma camisa de algodão às riscas brancas e encarnadas que eu já lhe conhecia. Tinha umas pernas compridas e esguias.

O cabelo escuro já grisalho nas têmporas, olhos verdes, queixo forte, traços finos e continuava a gesticular um pouco com as mãos e a inclinar-se para a frente quando falava.

— Em parte, a CIA interessou-se - explicou Mark - porque os casos estavam a acontecer próximo de Camp Peary. E por certo não é nenhuma surpresa para ti que a CIA tenha conhecimento de quase tudo o que se passa em redor do seu campo de treino. Eles sabem muito mais do que se possa imaginar, e, de resto, os cenários e os cidadãos locais são, habitualmente, integrados em manobras.

— Que tipo de manobras? - perguntei.

—Vigilância, por exemplo. Os agentes que treinam em Camp Peary muitas vezes praticam a vigilância utilizando os cidadãos locais como cobaias, à falta de um termo melhor. Montam operações de vigilância em locais públicos, restaurantes, bares, centros comerciais.

Seguem pessoas de automóvel, a pé, tiram fotografias e por aí fora.

Claro que ninguém sabe disso. E acho que não tem mal nenhum, só que os cidadãos locais não iam gostar lá muito de saber que andavam a ser seguidos, vigiados ou filmados.

— Acho que não - concordei, incomodada.

— Essas manobras - continuou ele - também incluem ensaios. Um agente pode simular uma avaria no automóvel e mandar parar um condutor, e pedir ajuda, ver até que ponto consegue conquistar a confiança do indivíduo. Pode fazer-se passar por agente da autoridade, operador de reboque, todo o tipo de coisas. Estão só a praticar para operações no estrangeiro, a treinar pessoas na arte de espiar e evitar ser espiado.

— E é um método comparável ao que tem estado a ser usado com estes casais - comentei.

— Aí é que está - interveio Wesley. - Alguém, em Camp Peary, ficou preocupado. Pediram-nos para ajudarmos a acompanhar a situação. Depois, quando o segundo casal apareceu morto, e o método foi igual ao do primeiro caso, ficou estabelecido o padrão. A CIA começou a entrar em pânico. Eles já são paranóicos, Kay, e não lhes faltava mais nada senão descobrir que um dos seus agentes de Camp Peary andava a praticar matando pessoas.

— A CIA nunca admitiu que Camp Peary fosse o seu principal campo de treino - frisei.

— É do conhecimento geral - afirmou Mark, olhando-me nos olhos. - Mas tens razão, a CIA nunca o admitiu publicamente. Nem querem fazê-lo.

— Motivo suficiente para não quererem estes crimes associados a Camp Peary - observei, interrogando-me sobre o que estaria ele a sentir. Talvez não sentisse nada.

— Sim, e uma longa lista de outros motivos. - Wesley tomou a palavra. - A publicidade seria desastrosa, e quando foi a última vez que leu alguma coisa positiva acerca da CIA? Imelda Marcos foi acusada de roubo e fraude, e a defesa alegou que todas as transacções feitas pelos Marcos foram com total conhecimento e incentivo da CIA...

 Não estaria assim tão tenso, com tanto medo de olhar para mim, se não sentisse nada.

 ...Depois descobriu-se que o Noriega era pago pela CIA - continuou Wesley a discursar. - Não há muito tempo, foi tornado público que a protecção dada, pela CIA, a um traficante de drogas sírio, tornou possível a colocação de uma bomba a bordo de um 747 da Pan Am, que explodiu por cima da Escócia, matando duzentas e setenta pessoas. Já para não falar nas mais recentes alegações de que a CIA anda a financiar algumas das guerras da droga na ásia, para desestabilizar os governos locais.

— Se se soubesse - disse Mark desviando o olhar do meu - que casais de adolescentes andavam a ser assassinados por um agente da CIA de Camp Peary, imagina a reacção do público.

— É impensável - respondi, num esforço para me concentrar na conversa. - Mas como é que a CIA tem tanta certeza de que estes crimes estão a ser cometidos por um dos seus homens? Que provas concretas é que eles têm?

— Circunstanciais, na sua maioria - respondeu Mark. - O pormenor militarista de deixar uma carta de jogar. As semelhanças entre os padrões nestes casos e as manobras efectuadas, tanto dentro da Quinta como nas ruas de cidades e vilas próximas. Por exemplo, as zonas arborizadas onde os corpos têm sido encontrados fazem lembrar as "zonas de abate" dentro de Camp Peary onde os agentes treinam com granadas, armas automáticas, utilizando toda a espécie de apetrechos, como o equipamento de visão nocturna, que lhes permite andar dentro da mata depois de anoitecer. Também recebem treino de defesa, como desarmar uma pessoa, estropiar e matar só.

— Uma vez que, nesses casais, não havia nenhum indício aparente da causa da morte - referiu Wesley -, fomos obrigados a pensar se não teriam sido assassinados sem a utilização de armas. Estrangulamento, por exemplo. Ou até mesmo se não os teriam degolado, o que faz pressupor técnicas de guerrilha, liquidar um inimigo rápida e silenciosamente. Corta-se-lhe as vias aéreas e ele não faz barulho nenhum.

— Mas Deborah Harvey foi baleada - disse eu.

— Com uma automática ou semi-automática - precisou Wesley. - Uma pistola ou algo parecido com uma Uzi. O projéctil é fora do comum, do tipo usado pela Polícia, soldados mercenários, pessoas cujos alvos são seres humanos. Não se associa uma bala expansiva ou munições Hydra-Shok à caça ao veado. - Depois de uma pausa, acrescentou:

— Creio que assim já fica a saber melhor por que não queremos que Pat Harvey saiba qual o tipo de arma e munição usada na filha dela.

— E quanto às ameaças que Mrs. Harvey referiu na conferência de imprensa? - perguntei.

— Isso é verdade - respondeu Wesley. - Pouco depois de ter sido nomeada Directora do Programa Nacional de Combate à Droga, alguém enviou de facto cartas a ameaçá-la, a ela e à família. Não é verdade que o FBI não as tenha levado a sério. Ela já antes fora ameaçada e nós sempre levámos isso a sério. Temos uma ideia de quem esteja por detrás das ameaças mais recentes e não achamos que tenha alguma relação com o homicídio de Deborah.

— Mrs. Harvey também acusou uma "agência federal" - disse eu. — Estava a referir-se à CIA? Ela tem conhecimento do que me acabam de contar?

— Isso preocupa-me - admitiu Wesley. - Os seus comentários dão a entender que tem alguma suspeita e o que ela disse na conferência de imprensa ainda me deixa mais preocupado. Podia estar a referir-se à CIA. E daí talvez não. Mas ela possui uma rede formidável. Por um lado, tem acesso às informações da CIA, desde que sejam relevantes para o tráfico de droga. O mais preocupante é ela ser amiga íntima de um ex-embaixador nas Nações Unidas que pertence ao President's Foreign Intelligence Advisory Board. Os seus membros estão autorizados a assistir, a qualquer altura, a reuniões sigilosas dos serviços secretos sobre qualquer assunto. Sabem o que se passa, Kay. É possível que Mrs. Harvey saiba tudo.

— E por isso armam-lhe uma cilada estilo Martha Mitchell? - perguntei. — Para que dê a imagem de uma pessoa perturbada, na qual não se pode confiar, para que ninguém a leve a sério, para que se lhe saltar a tampa ninguém acredite nela?

 Wesley fez deslizar o polegar pela borda do copo.

— É uma pena. Ela está incontrolável, não colabora. E o mais engraçado é que nós, mais do que ela, queremos saber quem lhe matou a filha, por razões óbvias. Estamos a fazer tudo ao nosso alcance, mobilizámos todos os meios imagináveis para descobrirmos esse indivíduo - ou indivíduos.

— O que me está a dizer parece contrariar nitidamente a sua opinião anterior, de que Deborah Harvey e Fred Cheney possam ter sido mortos por um profissional - falei, furiosamente. - Ou foi só uma cortina de fumo que lançou para esconder as verdadeiras suspeitas do FBI?

— Não sei se foram mortos por um profissional - respondeu ele, taciturno. - Para ser franco, sabemos realmente tão pouca coisa! As mortes deles podem ser políticas, como já lhe disse. Mas se estamos a lidar com um agente da CIA que se passou da cabeça, alguém desse tipo, os casos dos cinco casais podem estar de facto relacionados, podem ser crimes em série.

— Pode ser um exemplo de escalada - aventou Mark. - Pat Harvey tem dado muito nas vistas, sobretudo neste último ano. Se se tratar de um agente da CIA que anda a treinar manobras homicidas, pode ter resolvido usar, como alvo, a filha de uma mulher nomeada pelo presidente.

— Aumentando, com isso, a excitação, o risco - afirmou Wesley.

— E tornando o crime semelhante ao tipo de manobras que associamos às neutralizações políticas na América Central e no Médio Oriente. Por outras palavras, assassinatos.

— Segundo sei, não é suposto a CIA envolver-se em assassinatos, isso desde a administração Ford - comentei. - Aliás, nem sequer é suposto a CIA envolver-se em golpes de estado nos quais um dirigente estrangeiro corra o risco de ser morto.

— Exacto - redarguiu Mark. - Não é suposto a CIA envolver-se nessas questões. Não era suposto as tropas americanas no Vietname matarem civis. E não é suposto a Polícia abusar da autoridade para com suspeitos e reclusos. Mas, a nível individual, as coisas por vezes descontrolam-se. As regras são infringidas.

 Não pude deixar de pensar em Abby Turnbull. Até que ponto estaria ela bem informada acerca disto? Teria Mrs. Harvey deixado escapar alguma coisa? Seria essa a verdadeira natureza do livro que Abby estava a escrever? Não admirava que desconfiasse que tinha os telefones sob escuta, que andava a ser seguida. A CIA, o FBI, e até mesmo o President's Foreign Intelligence Advisory Board, com uma entrada secreta para o Gabinete Oval, tinham muito bons motivos para estar nervosos com o que Abby andava a escrever, e era um motivo muito bom para estar paranóica. Podia ter-se colocado numa situação realmente perigosa.

 O vento amainara e um leve nevoeiro cobria as copas das árvores quando Wesley nos acompanhou à porta. Seguindo Mark até ao carro dele, senti-me determinada e esclarecida pelo que me fora dito, e, no entanto, estava mais inquieta do que antes.

 Esperei que saíssemos da propriedade para falar.

— O que está a acontecer a Pat Harvey é revoltante. Perde a filha e agora destroem-lhe a carreira e a reputação.

— O Benton não teve nada a ver com fugas de informação para a imprensa, com qualquer espécie de "cilada", como lhe chamaste. - Mark mantinha os olhos na estrada escura e estreita.

— Não se trata do que eu lhe chamei, Mark.

— Estou só a referir-me ao que tu disseste - replicou ele.

— Tu sabes o que se passa. Não te armes em ingénuo comigo.

— O Benton fez tudo o que podia mas ela quer vingar-se do Departamento de Justiça. Para ela, o Benton não passa de mais um agente federal que a quer tramar.

— Eu, se fosse ela, talvez me sentisse na mesma.

— Conhecendo-te, acredito que sim.

— Que queres dizer com isso? - perguntei, deixando que a minha raiva, cujo alvo ultrapassava em muito a questão Pat Harvey, viesse de novo ao de cima.

— Não quero dizer nada.

 Os minutos passaram em silêncio e a tensão foi aumentando. Não conhecia a estrada por onde seguíamos mas sabia que o nosso tempo juntos se aproximava do fim. Ele entrou então no parque de estacionamento da loja e parou ao lado do meu carro.

— Lamento que tivéssemos de nos encontrar nestas circunstâncias - disse, baixinho.

 Não dei resposta e ele acrescentou:

— Mas não lamento ter-te visto, não lamento que tenha acontecido.

— Boa noite, Mark. - Preparei-me para sair do carro.

— Não saias, Kay. - Pôs-me a mão no braço.

 Fiquei quieta.

— O que é que queres?

— Falar contigo. Por favor.

— Se estás tão interessado em falar comigo, por que é que até hoje nunca o fizeste? - respondi, acaloradamente, soltando o braço. — Durante meses, não fizeste uma única tentativa para falar comigo.

— Isso aplica-se aos dois. Telefonei-te no Outono passado e tu depois disso nunca me ligaste.

— Já sabia o que ias dizer e não quis ouvir - respondi, sentindo que a raiva ia crescendo, também, dentro dele.

— Peço desculpa. Esqueci-me que tiveste sempre a extraordinária capacidade de ler o pensamento. - Pousou as mãos no volante e olhou em frente.

— Ias comunicar-me que não havia hipótese nenhuma de reconciliação, que estava tudo acabado. E eu não estava interessada em que me dissesses de viva voz aquilo que eu já tinha deduzido.

— Pensa o que quiseres.

— Não tem nada a ver com o que eu queira pensar! - Detestava o dom que ele tinha para me fazer perder as estribeiras.

— Escuta - respirou fundo, - achas que há alguma hipótese de declararmos tréguas? Esquecer o passado?

— Nenhuma.

— Bestial. Obrigado por seres tão razoável. Pelo menos, tentei.

— Tentaste? Foi há quê? Oito, nove meses que te foste embora?

Que diabo tentaste tu, Mark? Não sei o que me estás a pedir mas é impossível esquecer o passado. É impossível encontrarmo-nos e fazer de conta que nunca houve nada entre nós. Recuso-me a agir dessa maneira.

— Não estou a pedir isso, Kay. Estou a perguntar se podemos esquecer as discussões, a raiva, o que dissemos naquela altura.

 Eu de facto não conseguia lembrar-me exactamente do que fora dito nem explicar o que correra mal. Discutíamos quando não sabíamos ao certo por que estávamos a discutir, até o fulcro da questão passar a ser as nossas feridas e não as diferenças que as haviam provocado.

— Quando te telefonei em Setembro último - prosseguiu ele com veemência -, não ia dizer-te que não havia nenhuma esperança de reconciliação. Aliás, quando marquei o teu número, sabia que corria o risco de ouvir-te, a ti, dizer isso. Depois, vendo que tu não telefonavas, quem fez as deduções fui eu.

— Não estás a falar a sério.

— Ai não que não estou.

— Bom, talvez tenhas feito bem em deduzir isso. Depois do que fizeste.

— Depois do que eu fiz? E o que tu fizeste? - perguntou ele, incrédulo.

— A única coisa que eu fiz foi fartar-me de fazer concessões. Tu nunca tentaste realmente ser transferido para Richmond. Não sabias o que querias e estavas à espera que eu aceitasse isso, me resignasse, me desenraizasse sempre que te metias nalguma coisa. Por muito que eu te ame, não posso abdicar daquilo que sou e nunca te pedi para abdicares daquilo que tu és.

— Pediste, sim. Mesmo que conseguisse ser transferido para a delegação de Richmond, não era isso que eu queria.

— Óptimo. Estou satisfeita por teres conseguido o que querias.

— Kay, isto é metade-metade. Tu também tens culpas.

— Não fui eu que me fui embora. - Os olhos encheram-se-me de lágrimas e murmurei: - Oh, merda.

 Ele tirou do bolso um lenço de pano e colocou-mo delicadamente no colo.

 Enxugando os olhos, cheguei-me mais para a porta e encostei a cabeça ao vidro. Não queria chorar.

— Desculpa - disse ele.

— As tuas desculpas não mudam nada.

— Por favor, não chores.

— Choro, se eu quiser - retorqui, tolamente.

— Desculpa - tornou ele a dizer, desta vez num sussurro, e pensei que ia tocar-me. Mas não tocou. Recostou-se no banco e ergueu os olhos para o tecto.

— Olha - disse ele então -, se queres saber a verdade, preferia que tivesses sido tu a ir embora. Assim eras tu que te lixavas e não eu.

 Eu não disse nada. Não me atrevia.

— Ouviste?

— Mais ou menos - respondi, virada para a janela.

 Ele mudou de posição. Senti o seu olhar pousado em mim.

— Olha para mim, Kay.

 Relutantemente, olhei.

— Por que julgas que tenho vindo cá? - perguntou com voz rouca. - Ando a tentar voltar para Quantico, mas está difícil. A altura é má com os cortes no orçamento federal, a economia, o FBI a ser atacado em grande. Há muitas razões.

— Estás a dizer-me que te sentes profissionalmente insatisfeito?

— Estou a dizer-te que cometi um erro.

— Lamento quaisquer erros profissionais que tenhas cometido - repliquei.

— Não me refiro só a isso e tu sabes muito bem.

— Então a que te referes? - Eu estava decidida a obrigá-lo a dizê-lo.

— Sabes a que eu me refiro. A nós. As coisas nunca mais foram como dantes.

 Os seus olhos brilhavam na escuridão. Tinha um ar quase feroz.

— Para ti foram?

— Acho que ambos cometemos muitos erros.

— Gostaria de começar a remediar alguns deles, Kay. Não quero que isto acabe assim entre nós. Durante muito tempo achei que sim mas... bom, não sei como hei-de dizer-te. Não sabia se tu querias notícias minhas, se andavas com alguém.

 Não confessei que tivera as mesmas dúvidas em relação a ele e que as respostas me aterrorizavam.

 Estendeu o braço e pegou-me na mão. Desta vez não fui capaz de soltar-me.

— Tenho tentado perceber o que é que correu mal entre nós - afirmou.

— Só sei que sou teimoso e tu também. Eu queria as coisas à minha maneira e tu à tua. E aqui estamos. Não sei como tem sido a tua vida desde que me fui embora mas quase que aposto que não tem sido boa.

— Que arrogância a tua, apostar numa coisa dessas.

 Ele sorriu:

— Tento apenas corresponder à imagem que fazes de mim. Uma das últimas coisas que me chamaste, antes de eu me ir embora, foi estupor arrogante.

— Isso foi antes ou depois de te chamar grandessíssimo sacana?

— Antes, acho eu.

— Se bem me lembro, também me chamaste alguns nomes jeitosos.

E eu a julgar que ainda há pouco tinhas proposto esquecermos tudo o que foi dito nessa altura!

— E tu ainda há pouco disseste por muito que eu te ame.

— Desculpa?

— "Ame", no presente do indicativo. Não tentes negar que eu bem ouvi.

 Levando a minha mão ao rosto, passou os lábios pelos meus dedos.

— Tentei deixar de pensar em ti. Não consigo. - Fez uma pausa, o rosto junto ao meu. - Não te estou a pedir que digas o mesmo.

 Mas estava e eu respondi-lhe.

 Toquei-lhe na face e ele na minha, depois beijámos os sítios onde os nossos dedos haviam estado até os nossos lábios se encontrarem.

E não dissemos mais nada. Deixámos totalmente de pensar até o pára-brisas de súbito se iluminar e a noite lá fora se encher de um vermelho pulsante. Apressadamente, compusemos as roupas enquanto um carro-patrulha encostava à berma e de lá saía um guarda da polícia estadual, de lanterna e rádio na mão.

 Mark já estava a abrir a porta.

— Tudo em ordem? - perguntou o guarda inclinando-se para espreitar para dentro do carro. O seu olhar passeou-se descaradamente pelo cenário da nossa paixão, o rosto muito sério, um inchaço nojento na bochecha direita.

— Está tudo bem - respondi, aflita, tacteando, nada subtilmente, o chão com o pé descalço. Sem saber como, perdera um sapato.

 Ele chegou-se para trás e cuspiu um esguicho de sumo de tabaco.

— Estávamos a conversar - declarou Mark e teve a presença de espírito de não mostrar o crachá. O guarda sabia muitíssimo bem que estávamos a fazer uma data de coisas quando encostou à berma.

A conversar é que não era.

— Bom, se tencionam continuar a vossa conversa - disse ele -, agradecia que fossem para outro sítio. Não é seguro estar aqui dentro do carro a estas horas da noite, tem havido alguns problemas. E se não são destes lados, se calhar não ouviram falar dos casais que desapareceram.

 Continuou com o sermão e o meu sangue foi arrefecendo.

— Tem razão e obrigado - acabou Mark por dizer. - Vamos já embora.

 Com um aceno de cabeça, o guarda cuspiu outra vez e ficámos a vê-lo entrar para o carro. Guinou para a estrada e, lentamente, afastou-se.

— Bolas! - exclamou Mark.

— Não me digas nada - repliquei. - Nem quero pensar em como fomos estúpidos. Jesus!

— Estás a ver como é fácil? - Disse ele, na mesma. - Duas pessoas em plena noite e alguém se aproxima. Caramba, e eu tenho a porcaria da arma no porta-luvas. Nem sequer pensei nisso até ele se pôr mesmo à minha frente, e nessa altura seria tarde de mais...

— Pára com isso, Mark. Por favor.

 Assustou-me com a gargalhada que deu.

— Não tem graça nenhuma!

— Tens a blusa toda mal abotoada - disse ele contendo o riso. Merda!

— Reze a todos os santinhos para que ele não a tenha reconhecido, chefe Scarpetta.

— Obrigada por tão reconfortante pensamento, senhor FBI. E agora vou para casa. - Abri a porta. - Por esta noite já me meteste em sarilhos que cheguem.

— Ora! Tu é que começaste.

— Não comecei nada.

— Kay? - Ficou sério. - Que fazemos, agora? Eu volto para Denver amanhã. Não sei o que vai acontecer, o que posso fazer acontecer ou se devo tentar fazer com que algo aconteça.

 Não havia respostas fáceis. Nunca houvera, connosco.

— Se não tentares fazer com que algo aconteça, não acontece nada.

— E tu? - perguntou ele.

— Precisamos falar sobre muita coisa, Mark.

Ele acendeu os faróis e apertou o cinto.

— E tu? - tornou a perguntar. - Para tentar são precisos dois.

— Tem piada ouvir-te dizer isso.

— Não, Kay. Por favor, não comeces.

— Preciso pensar. - Peguei nas chaves. De repente senti-me exausta.

— Não brinques com os meus sentimentos.

— Não estou a brincar com os teus sentimentos, Mark - afirmei, acariciando-o na face.

 Beijámo-nos uma última vez. Eu queria que o beijo durasse horas mas, por outro lado, queria afastar-me. A nossa paixão fora sempre tumultuosa. Sempre vivêramos para momentos que nunca pareciam contribuir para qualquer espécie de futuro.

— Eu telefono-te - disse ele.

 Abri a porta do meu carro.

— Dá ouvidos ao Benton - acrescentou. - Podes confiar nele.

Isso em que estão metidos é um caso muito sério.

 Liguei o motor.

— Preferia que não te envolvesses.

— Sempre preferiste - repliquei.

 Mark telefonou mesmo na noite seguinte e outra vez duas noites depois. Quando ligou uma terceira vez, a 10 de Fevereiro, o que disse fez com que eu fosse logo à procura da última edição da Newsweek.

 O olhar baço de Pat Harvey fitava a América da capa da revista.

Um cabeçalho de gordas letras negras dizia O ASSASSÍNIO DA FILHA DA DAMA DE FERRO, o "exclusivo" lá dentro transcrevendo a sua conferência de imprensa, as acusações de conspiração e os casos dos outros adolescentes que tinham desaparecido e sido encontrados já decompostos em matas da Virgínia. Embora eu tivesse recusado ser entrevistada para o artigo, a revista encontrara uma foto de arquivo minha a subir a escadaria do Tribunal John Marshall, de Richmond. Dizia a legenda "Médica legista chefe entrega resultados sob ameaça de ordem judicial.”

— Ossos do ofício. Estou bem - tranquilizei Mark, quando liguei para ele.

 Mesmo quando a minha mãe me telefonou, mais tarde, nessa mesma noite, mantive-me calma até ela me dizer:

— Está aqui uma pessoa mortinha por falar contigo, Kay.

 A minha sobrinha, Lucy, sempre tivera um talento especial para dar cabo de mim.

— Por que é que te meteste em sarilhos? - perguntou-me.

— Não me meti em sarilhos nenhuns.

— O artigo diz que sim, que alguém te ameaçou.

— É muito complicado para te explicar, Lucy.

— Acho o máximo - retrucou ela, sem desarmar. - Amanhã vou levar a revista para a escola e mostrá-la a toda a gente.

 Bestial, pensei.

— Mrs. Barrows - continuou ela, referindo-se à directora de turma - já perguntou se vinhas cá, em Abril, no Career Day.

 Há um ano que eu não via Lucy. Ainda me parecia impossível que já andasse no décimo ano, e, embora soubesse que ela usava lentes de contacto e já tinha carta de condução, continuava a vê-la como uma pequenita rechonchuda e carente à espera que eu lhe aconchegasse as mantas, um enfant terrible que, por qualquer razão estranha, se apegara a mim antes de começar a gatinhar. Nunca esqueceria aquela ida a Miami, no Natal, depois de ela nascer, para passar uma semana com a minha irmã. Parecia que todos os minutos conscientes de Lucy eram passados a observar-me, os olhos seguindo todos os meus movimentos como duas luas luminosas.

Sorria quando eu lhe mudava as fraldas e chorava mal eu saía do quarto.

— Gostavas de passar uma semana comigo no Verão? - perguntei-lhe.

 Lucy hesitou, depois respondeu desalentadamente:

— Então quer dizer que não vens cá no Career Day.

— Depois se vê, está bem?

— Não sei se posso ir no Verão. - O seu tom de voz tornara-se petulante. - Arranjei um emprego e talvez não possa ausentar-me.

— É óptimo teres arranjado um emprego.

— Sim. Numa loja de computadores. Vou juntar dinheiro para comprar um carro. Quero um carro desportivo, um descapotável, e consegue-se arranjar alguns dos velhos muito baratos.

— Esses são um perigo - disse eu sem me conter. - Por favor, Lucy, não compres nada disso. Por que não vens visitar-me a Richmond? Damos por aqui uma volta e compramos um carro, um carro bonito e seguro.

 Ela abrira o buraco e, como sempre, eu caíra lá dentro. Era perita em manipular as pessoas e não era preciso um psiquiatra para perceber porquê. Lucy era vítima de negligência crónica da mãe, a minha irmã.

— És uma rapariga inteligente, com ideias próprias - disse eu, mudando de táctica. - Sei que decidirás bem o que fazer com o teu tempo e o teu dinheiro, Lucy. Mas se conseguires arranjar tempo para mim, no Verão, talvez pudéssemos ir a qualquer lado. Praia ou montanha, onde tu quiseres. Nunca foste a Inglaterra, pois não?

— Não.

— Bom, então é uma hipótese.

— A sério? - perguntou, desconfiada.

— A sério. Há anos que não vou lá - respondi, já animada com a ideia. - Acho que está na altura de visitares Oxford e Cambridge, os museus de Londres. Consigo arranjar uma visita guiada à Scotland Yard, se quiseres, e se conseguirmos ir em princípios de Junho talvez arranjemos bilhetes para Wimbledon.

 Silêncio.

 Depois ela afirmou alegremente:

— Estava só a picar-te. Não quero nenhum carro desportivo, tia Kay.

 Na manhã seguinte não houve autópsias e sentei-me à secretária tentando reduzir as pilhas de papelada. Tinha outras mortes para investigar, aulas para dar e julgamentos que exigiam o meu depoimento, e, no entanto, não conseguia concentrar-me. Sempre que pegava noutra coisa qualquer, a atenção voltava sempre para os casais. Havia qualquer coisa importante que me estava a escapar, algo mesmo debaixo do meu nariz.

 Achei que tinha a ver com a morte de Deborah Harvey.

 Era uma ginasta, uma atleta com um enorme domínio sobre o seu corpo. Podia não ser tão forte como Fred mas seria mais rápida e mais ágil. A meu ver, o assassino subestimara o seu potencial atlético e fora por isso que perdera momentaneamente o controlo sobre ela no meio da mata. Fitando distraidamente um relatório que devia estar a rever, recordei as palavras de Mark. Ele falara de "zonas de abate", agentes de Camp Peary que utilizavam armas automáticas, granadas e equipamento de visão nocturna para se caçarem uns aos outros em campo aberto e em florestas. Tentei imaginar isso.

Comecei a visualizar um cenário tenebroso.

 Se calhar, quando o assassino apanhou Deborah e Fred e os levou pela picada, tinha em mente brindá-los com um jogo aterrador.

Disse-lhes para descalçarem os sapatos e as meias, e amarrou-lhes os braços atrás das costas. Podia estar equipado com óculos de visão nocturna, que realçavam a luz do luar possibilitando-lhe ver muito bem o caminho enquanto os obrigava a entrar na mata, onde tencionava persegui-los, um de cada vez.

 Marino tinha razão. O assassino livrara-se primeiro de Fred. Se calhar disse-lhe para correr, deu-lhe uma hipótese de fugir, e enquanto Fred corria aos tropeções por entre árvores e arbustos, aterrorizado, o assassino observava-o, conseguindo ver e movimentar-se com toda a facilidade, de faca em punho. No momento oportuno, não lhe teria sido muito difícil emboscar a vítima pelas costas, passar-lhe o braço por baixo do queixo e puxar-lhe a cabeça para trás, rasgando-lhe depois a traqueia e artérias carótidas. Esse ataque, ao estilo comando, era silencioso e rápido. Se os corpos não fossem descobertos por uns tempos, o médico legista teria dificuldade em descobrir a causa da morte, porque os tecidos e as cartilagens já estariam decompostos.

 Levei a cena mais longe. Uma parte do sadismo do assassino teria sido obrigar Deborah a assistir à perseguição e morte do namorado na escuridão. Calculei que, uma vez dentro da mata, ele a tenha feito espectadora, amarrando-lhe os tornozelos, mas com o que não contara fora com a flexibilidade dela. Era possível que, enquanto ele se ocupava de Fred, ela tenha conseguido passar as mãos amarradas por baixo das nádegas e depois as pernas pelo meio dos braços, ficando assim com eles à frente. Isso permitir-lhe-ia desamarrar as pernas e defender-se.

 Estendi os braços para a frente como se os tivesse amarrados pelos pulsos. Se Deborah entrelaçasse os dedos formando um punho duplo e os empurrasse para cima, e se o reflexo de defesa do assassino fosse levantar as mãos, empunhando numa delas a faca que acabara de usar para assassinar Fred, o corte no indicador esquerdo fazia sentido.

Deborah desatou depois a correr e o assassino, apanhado de surpresa, alvejou-a pelas costas.

 Eu teria razão? Não sabia. Mas a cena continuava a desenrolar-se na minha mente, sem entraves. O que não se encaixava eram vários pressupostos. Se a morte de Deborah foi um contrato levado a cabo por um profissional, ou obra de algum agente federal psicopata, que a escolhera antecipadamente por ela ser filha de Pat Harvey, então esse indivíduo não sabia que Deborah era uma ginasta de calibre olímpico? Não teria calculado que ela fosse invulgarmente rápida e ágil, levando isso em conta nos seus planos?

 Tê-la-ia alvejado pelas costas?

 A maneira como ela fora morta encaixava-se no perfil frio e calculista de um assassino profissional?

 Pelas costas.

 Quando Hilda Ozimek estudou as fotografias dos adolescentes mortos, continuou a detectar medo. É óbvio que as vítimas tiveram medo. Mas, até agora, nunca me ocorrera que o assassino pudesse, também, ter tido medo. Alvejar alguém pelas costas é um acto de cobardia. Quando Deborah resistiu ao seu agressor, ele enervou-se. Perdeu o controlo. Quanto mais pensava nisso mais me convencia de que Wesley, e talvez todas as outras pessoas, estava enganado quanto a esse indivíduo. Perseguir adolescentes amarrados e descalços pelo meio da mata, na escuridão, quando se tem armas, se conhece bem o terreno e se está, quem sabe, equipado com óculos de visão nocturna, seria como matar peixes dentro de uma barrica. É batota. É demasiado fácil. Não me parecia que fosse o modus operandi de um assassino especializado que adorava correr riscos.

 E depois havia a questão das armas.

 Se eu fosse um agente da CIA à caça de presas humanas, que arma utilizaria? Uma Uzi? Talvez. O mais certo seria escolher uma pistola de nove milímetros, algo que servisse para o efeito, nada mais, nada menos. Utilizaria munições vulgares, nada de especial. As corriqueiras pontas ocas, por exemplo. O que não usaria era algo invulgar como as Exploder ou as Hydra-Shok.

 As munições. Pensa bem, Kay! Não me lembrava de quando fora a última vez que retirara balas Hydra-Shok de um corpo.

 As munições eram inicialmente concebidas para utilização das forças policiais, tendo as balas uma expansão no embate maior do que quaisquer outras disparadas de um cano de duas polegadas. Quando o projéctil de chumbo, com a sua ponta oca e característica ranhura central, entra no corpo, a pressão hidrostática obriga a orla periférica a expandir-se como as pétalas de uma flor. O coice é muito pequeno, o que facilita os disparos sucessivos. As balas raramente saem do corpo; os estragos nos tecidos moles e órgãos são devastadores.

 Este assassino percebia de munições especializadas. De certo que escolhera a arma pelas munições da sua preferência. Seleccionar um dos tipos de munições mais mortíferas dava-lhe confiança, fazia-o sentir-se poderoso e importante. Talvez até fosse supersticioso quanto a isso.

 Peguei no telefone e disse a Linda o que precisava.

— Dê cá um salto - disse ela.

 Quando entrei no laboratório de balística, ela estava sentada à frente do terminal do computador.

— Este ano, até ver, não houve nenhum caso, tirando o de Deborah Harvey, claro - informou-me, movendo o cursor de alto a baixo no ecrã. - Um no ano passado. Um no ano anterior. Mais nada, quanto à Federal. Mas encontrei dois casos envolvendo Scorpions.

— Scorpions? - Intrigada, inclinei-me por cima do ombro dela.

 Linda explicou então:

— É uma versão anterior. Dez anos antes de a Federal comprar a patente, a Hydra-Shok Corporation fabricava, basicamente, as mesmas balas. Concretamente, trinta e oitos Scorpion e três cinquenta e setes Copperhead. - Carregou em várias teclas para imprimir o que tinha encontrado. - Há oito anos, apareceu-nos um caso envolvendo trinta e oitos Scorpion. Mas não era humano.

— Como? - perguntei, sem perceber.

— Parece que a vítima era da espécie canina. Um cão. Baleado, deixe-me cá ver...três vezes.

— A morte do cão estava relacionada com algum outro caso? Um suicídio, homicídio, assalto a residência?

— Não lhe sei dizer, pelo que aqui está - respondeu Linda com ar contristado. - Tudo o que sei é que foram retiradas três balas Scorpion do corpo do cão. Nunca foram comparadas com nada. Acho que o caso nunca foi resolvido.

 Rasgou a folha do printout e entregou-ma.

 O IML, esporadicamente, fazia autópsias em animais. Veados mortos fora da época eram por vezes enviados por guardas de reservas de caça, e se o animal de estimação de alguém fosse morto no decurso de uma acção criminosa, ou encontrado morto juntamente com os donos, nós dávamos uma vista de olhos, recolhíamos balas ou fazíamos testes à procura de drogas. Mas não emitíamos certidões de óbito nem relatórios de autópsia de animais. Não era muito provável que eu viesse a encontrar alguma coisa nos arquivos acerca desse cão morto a tiro havia oito anos.

 Telefonei a Marino e falei-lhe disso.

— Deve estar a brincar - ripostou ele.

— Consegue procurar isso sem dar nas vistas? Não quero levantar lebres. Pode não ser nada, mas a jurisdição pertence a West Point e isso é muito interessante. Os corpos do segundo casal foram encontrados em West Point.

— Sim, talvez. Vou ver o que posso fazer - respondeu, não me parecendo muito entusiasmado.

 Na manhã seguinte, Marino apareceu quando eu estava a acabar a autópsia de um rapaz de catorze anos, atirado da parte de trás de uma carrinha de caixa aberta na tarde anterior.

— Não é o que agora usa, espero bem - comentou Marino, aproximando-se da mesa de nariz no ar.

— Trazia um frasco de aftershave num dos bolsos das calças. Partiu-se quando ele bateu no chão e é a isso que cheira - expliquei, apontando com o queixo para as roupas em cima de uma maca ali perto.

— Brut? - Deu nova snifadela.

— Acho que sim - respondi, distraidamente.

— A Dóris costumava comprar-me Brut. Um ano ofereceu-me Obsession, dá para acreditar?

— Que descobriu? - Perguntei-lhe, continuando o meu trabalho.

— O cão chamava-se Raisparta e juro que é verdade - respondeu Marino. - Pertencia a um velhote de West Point, um tal Mr. Joyce.

— Descobriu por que é que o cão veio cá parar?

— Não tinha relação com mais nenhum caso. Foi um favor, acho.

— O veterinário estadual devia estar de férias - comentei, pois isso já acontecera.

 Na outra ala do meu edifício funcionava o Departamento de Saúde Animal, com morgue e tudo, onde se efectuavam os exames em animais.

Normalmente, as carcaças eram enviadas ao veterinário estadual.

Mas havia excepções. A pedido da Polícia, os patologistas forenses davam uma mãozinha quando o veterinário não estava disponível.

Durante a minha carreira, autopsiara cães torturados, gatos mutilados, uma égua violada e uma galinha envenenada posta dentro da caixa do correio de um juiz. As pessoas eram tão cruéis para os animais como umas para as outras.

— Mr. Joyce não tem telefone mas um contacto meu disse-me que ele mora no mesmo sítio - informou Marino. - Pensei dar lá uma saltada, para ouvir a versão dele. Quer vir comigo?

 Introduzi uma lâmina nova no bisturi enquanto pensava na papelada que tinha em cima da secretária, nos casos que aguardavam relatórios, nos telefonemas que ainda tinha de retribuir e nos outros que precisava de fazer.

— Já agora - respondi, desalentadamente.

 Ele hesitou como se à espera de qualquer coisa.

 Quando ergui os olhos é que reparei. Marino tinha cortado o cabelo.

Trazia umas calças de caqui presas por suspensórios e um casaco de tweed que parecia novinho em folha. A gravata estava limpa, tal como a camisa amarelo-claro. Até os sapatos tinham sido engraxados.

— Está muito bonito - disse eu, como uma mãe orgulhosa.

— Pois. - Fez um largo sorriso e corou. - A Rose mandou-me um assobio quando eu ia a entrar para o elevador. Achei piada. Há anos que uma mulher não me assobiava, tirando a Sugar, e essa não conta.

— Sugar?

— Pára na esquina da Adam com a Church. Pois é, encontrei a Sugar, também conhecida por Mad Dog Mama, estendida num beco, bêbeda que nem um cacho, praticamente arrumada. Fiz a asneira de a reanimar. Atirou-se a mim como um gato assanhado e foi sempre a chamar-me nomes até à esquadra. Sempre que passo a menos de um quarteirão dela, grita, assobia, levanta a saia.

— E você todo preocupado que já não fosse atraente para as mulheres - comentei.

 

 A origem de Raisparta era indefinida, embora se percebesse logo que qualquer marcador genético herdado de todos os cães da sua linhagem fosse o pior.

— Criei-o desde cachorrinho - disse Mr. Joyce, quando lhe devolvi um retrato Polaroid do dito cão. - Era um vadio, sabe?

Apareceu um dia à porta de trás e tive pena dele, atirei-lhe uns restos. Depois nunca mais consegui ver-me livre dele.

 Estávamos sentados à mesa da cozinha de Mr. Joyce. O sol entrava debilmente por uma janela empoeirada por cima de um lava-loiça de porcelana manchado de ferrugem, e com a torneira a pingar. Desde que chegáramos, havia um quarto de hora, que Mr. Joyce não tivera uma palavra de apreço pelo cão assassinado, e, no entanto, detectei um certo carinho nos velhos olhos, e as mãos rudes, que pensativamente afagavam a borda da caneca de café, pareceram-me capazes de gestos de afecto e ternura.

— Como é que ele arranjou esse nome? - quis Marino saber.

— Eu nunca lhe dei nome nenhum, sabe? Mas estava sempre a berrar com ele. "Cala-te, raisparta! Raisparta, chega aqui! Raisparta, se não te calas fecho-te a boca com arames!" - Sorriu timidamente.

— Vai daí ele pensou que se chamava Raisparta. Por isso comecei a chamá-lo por esse nome.

 Mr. Joyce era um telefonista reformado de uma empresa de cimentos, a pequenina casa um monumento à pobreza rural, mesmo no meio dos campos de lavoura. Calculei que o proprietário original da casa tivesse sido algum caseiro, pois de cada lado da propriedade havia grandes terrenos de pousio que Mr. Joyce disse cobrirem-se de espigas no Verão.

 E fora no Verão, numa noite quente e húmida de Julho, que Bonnie Smyth e Jim Freeman haviam sido obrigados a conduzir pela pouco usada estrada de areia ali defronte. Depois, em Novembro, também eu passara pela mesma estrada, pela casa de Mr. Joyce, com a parte de trás da carrinha cheia de lençóis dobrados, macas e sacos mortuários. A menos de três quilómetros e meio para leste da casa onde morava Mr. Joyce, existia a zona densamente arborizada onde, há dois anos, haviam sido encontrados os corpos do casal. Sinistra coincidência? E se não fosse?

— Conte-me lá então o que aconteceu ao Raisparta - estava Marino a dizer enquanto acendia um cigarro.

— Era fim-de-semana - começou Mr. Joyce. - Meados de Agosto, acho eu. Eu tinha todas as janelas abertas e estava sentado na sala a ver televisão. O Dallas. Tem piada, ainda me lembro disso. Portanto, devia ser sexta-feira. Começava às nove.

— Então o seu cão foi baleado entre as nove e as dez - concluiu Marino.

— Acho que sim. Não pode ter sido muito antes, ou não conseguia chegar a casa. Estou a ver televisão e de repente ouço-o a arranhar na porta, a ganir. Calculei que estivesse ferido, mas pensei que se tinha engalfinhado com algum gato, ou coisa assim, até abrir a porta e olhar bem para ele.

 Sacou de uma bolsa de tabaco e começou a enrolar um cigarro com mãos hábeis e firmes.

 Marino insistiu com ele:

— Que fez depois?

— Pu-lo na carrinha e levei-o à casa do doutor Whiteside. Fica a uns oito quilómetros daqui, para noroeste.

— Veterinário? - perguntei eu.

 Ele abanou lentamente a cabeça.

— Não, minha senhora. Não tinha veterinário nem conhecia nenhum. O doutor Whiteside tratou da minha mulher antes de ela falecer. Bom homem. Para lhe dizer a verdade, eu não sabia onde havia de ir. Claro que já era tarde de mais. O médico não pôde fazer nada quando eu lá cheguei com o cão. Disse-me que eu devia chamar a Polícia. A única coisa que se caça em meados de Agosto é o corvo e não havia razão absolutamente nenhuma para alguém andar para aí de noite a caçar corvos ou outra coisa qualquer. Fiz o que ele me disse. Chamei a Polícia.

— Faz alguma ideia de quem possa ter morto o seu cão? - perguntei-lhe.

— Como já lhes disse, o Raisparta pelava-se por andar atrás das pessoas, corria atrás dos carros como se fosse atirar-se aos pneus. Se querem a minha opinião pessoal, sempre tive cá uma suspeita que tenha sido um polícia.

— Porquê? - perguntou Marino.

— Depois de o cão ser examinado, disseram-me que as balas eram de revólver. Por isso talvez o Raisparta fosse a correr atrás de um carro da Polícia e foi assim que aconteceu.

— Viu algum carro da Polícia na sua estrada nessa noite? - perguntou Marino.

— Não. Mas não quer dizer que não tenha passado nenhum. E não sei ao certo onde é que lhe deram os tiros. Sei que não foi aqui perto, senão eu ouvia-os.

— Talvez não, se tivesse a televisão alta - comentou Marino.

— Ouvia, sim senhor. Não há por aqui muito barulho, sobretudo à noite. Vive-se cá uns tempos e começa-se a ouvir a mais pequenina coisa fora do normal. Mesmo com a televisão ligada e as janelas fechadas.

— Ouviu algum carro na sua estrada, nessa noite? - perguntou Marino.

 Ele pensou por um momento.

— Sei que passou um não muito antes de o Raisparta começar a arranhar na porta. A Polícia perguntou-me isso. Fiquei com a ideia de que quem ia nele é que matou o cão. O agente que fez o auto também achou que sim. Pelo menos foi o que me deu a entender. - Fez uma pausa, olhando pela janela. - Se calhar foi algum catraio.

 Da sala de estar veio o gongo desafinado de um relógio de parede, depois silêncio, a passagem dos segundos mortos medida pelo gotejar da torneira do lava-loiça. Mr. Joyce não tinha telefone. Tinha muito poucos vizinhos, nenhum deles próximo. Interroguei-me se teria filhos. Pelos vistos não tinha mais nenhum cão nem arranjara um gato. Não vi sinais de lá morar mais alguém, ou alguma coisa.

— O velho Raisparta não prestava para nada mas uma pessoa afeiçoava-se a ele. Costumava pregar cada susto ao carteiro! Eu ficava ali na sala a olhar pela janela, e ria-me tanto que até me corriam as lágrimas pela cara abaixo. Só de ver aquilo. Um lingrinhas a olhar para todos os lados, cheiinho de medo de sair da carripanazeca. O velho Raisparta a correr em círculos, a dar pulos no ar. Eu esperava um ou dois minutos e mandava-lhe um berro, depois saía para o quintal. Bastava-me apontar com o dedo e lá vinha o Raisparta de rabo entre as pernas. - Respirou fundo, o cigarro esquecido no cinzeiro. — Há por aí muita malvadez.

— Há, sim senhor - concordou Marino, recostando-se na cadeira. - Malvadez por toda a parte, mesmo num sítio bonito e sossegado como este. A última vez que vim para estes lados deve ter sido há uns dois anos, semanas antes do Dia de Acção de Graças, quando aquele casal foi encontrado na mata. Lembra-se disso?

— Claro que lembro - respondeu Mr. Joyce, com um categórico aceno de cabeça. - Nunca tinha visto tanta confusão. Tinha ido lá fora buscar lenha quando de repente passam os carros da Polícia com as luzes a piscar. Devia ser uma dezena deles e algumas ambulâncias, também. - Calou-se, olhando para Marino com ar pensativo.

— Não me lembro de o ver por cá. - Concentrando a atenção em mim, acrescentou: - Também cá esteve?

— Estive.

— Bem me quis parecer. - Pareceu satisfeito. - Achei que não me era estranha e tenho estado a dar voltas ao miolo, este tempo todo que estivemos a conversar, a ver se descobria onde é que já a tinha visto.

— Foi lá a baixo, à mata, onde estavam os corpos? - Perguntou Marino, como quem não quer a coisa.

— Com todos aqueles carros da Polícia a passar mesmo aqui à frente de casa não havia nada que me agarrasse aqui. Não fazia ideia do que se estava a passar. Não tenho vizinhos para aqueles lados, é só mata. E pus-me a pensar, bom, se é algum caçador morto, também não faz lá muito sentido. São polícias a mais. Portanto meti-me na furgoneta e fiz-me à estrada. Encontrei um agente ao pé de um dos carros e perguntei-lhe o que se passava. Ele disse-me que uns caçadores tinham encontrado os corpos de um casal lá atrás. Depois quis saber se eu vivia aqui perto. Disse que sim, e, não tardou, tinha um detective à porta a fazer-me perguntas.

— Lembra-se do nome do detective? - perguntou Marino.

— Não senhor.

— Que tipo de perguntas lhe fez ele?

— O que ele mais queria saber era se eu tinha visto alguém aqui na zona, principalmente por volta da altura em que o jovem casal teria desaparecido. Algum carro estranho, esse tipo de coisas.

— E viu?

— Bom, fiquei a pensar nisso depois de ele se ir embora, e desde então a coisa vem-me à ideia de tempos a tempos - respondeu Mr. Joyce. - Ora bem, na noite em que a Polícia acha que o casal foi trazido para aqui, eu não ouvi nada que me lembre. às vezes deito-me cedo. Pode ter-se dado o caso de estar a dormir. Mas houve uma coisa de que me lembrei aqui há uns meses, depois de encontrarem esse outro casal no princípio do ano.

— Deborah Harvey e Fred Cheney? - perguntei.

— A pequena cuja mãe é importante.

 Marino acenou que sim.

 Mr. Joyce prosseguiu:

— Essas mortes levaram-me a pensar outra vez nos corpos encontrados aqui e então lembrei-me. Se repararam, quando vinham na estrada, eu tenho uma caixa do correio lá à frente. Bom, andei um pouco achacado umas semanas antes da altura em que eles calculam que o rapaz e a pequena tenham sido mortos aqui, há uns anos.

— Jim Freeman e Bonnie Smyth - referiu Marino.

— Sim, senhor. Eu estava com gripe, sempre a vomitar, era como se tivesse uma dor de dentes da cabeça aos pés. Fiquei na cama para aí uns dois dias e nem sequer tinha forças para ir lá fora buscar o correio. Na noite a que me refiro, finalmente tinha conseguido levantar-me da cama, fiz uma sopa e aguentei-a no estômago. Por isso fui lá fora buscar o correio. Deviam ser umas nove, dez da noite. E quando já voltava para casa, ouvi esse tal carro. Estava escuro como breu e o sujeito conduzia devagarinho, com os faróis apagados.

— Em que direcção ia o carro? - perguntou Marino.

— Para aquele lado. - Mr. Joyce apontou para oeste. - Ou seja, ia a afastar-se da zona lá em baixo onde fica a mata, a regressar à auto-estrada. Podia não ser nada mas lembro-me de ter achado estranho. É que lá em baixo não há nada, só terras de lavoura e mata. Calculei que fossem miúdos que tivessem ido para lá beber uns copos ou coisa assim.

— Conseguiu ver bem o carro? - perguntei-lhe.

— Pareceu-me de tamanho médio, de cor escura. Preto, azul-escuro ou talvez encarnado-escuro.

— Novo ou velho? - perguntou Marino.

— Não sei se era novinho em folha, mas velho não era. Também não era um desses carros estrangeiros.

— Como é que sabe? - perguntou Marino

- Pelo barulho - respondeu Mr. Joyce prontamente. - Esses carros estrangeiros não fazem o mesmo barulho que os americanos. O motor é mais ruidoso, o escape mais barulhento, não sei explicar exactamente o que é mas consigo distingui-los. Tal como quando chegaram, há bocado. Soube logo que vinham num carro americano, um Ford ou talvez um Chevy. O que passou por aqui com os faróis apagados era mesmo silencioso, tinha um trabalhar suave. O formato fez-me lembrar um desses Thunderbird novos mas não posso jurar que fosse. Podia ser um Cougar.

— Então era um modelo desportivo - observou Marino.

— Depende da opinião de cada um. Para mim, desportivo é um Corvette. Um Thunderbird, ou um Cougar, é estiloso.

— Pode dizer-me quantas pessoas iam dentro desse carro? - perguntei-lhe.

 Ele abanou a cabeça.

— Quanto a isso é que não faço ideia. Estava muito escuro lá fora e não fiquei a olhar.

 Marino tirou um bloco de apontamentos do bolso e começou a folheá-lo.

— Mr. Joyce, - disse-lhe - Jim Freeman e Bonnie Smyth desapareceram a 29 de Julho, num sábado à noite. Tem a certeza que foi antes disso que viu esse carro? Tem a certeza que não foi depois?

— Tanta certeza como a de estar aqui agora. E sei porque estive doente, como lhes disse. Comecei a ir-me abaixo na segunda semana de Julho. Lembro-me disso porque o aniversário da minha mulher é a 13 de Julho. Vou sempre ao cemitério no aniversário dela pôr umas flores na campa. Tinha acabado de chegar a casa, de fazer isso, quando comecei a sentir-me um bocadinho esquisito. No dia seguinte estava tão mal que não saí da cama. - reflectiu por alguns momentos.

— Deve ter sido a 15 ou 16 que fui lá fora buscar o correio e vi o carro.

 Marino puxou dos óculos de sol, pronto para se ir embora.

 Mr. Joyce, que não era parvo nenhum, perguntou-lhe:

— Acha que há qualquer coisa nas mortes desses casais que tem a ver com o que fizeram ao meu cão?

— Andamos a investigar muitas coisas. E é melhor não falar desta conversa com ninguém.

— Não, senhor, nem uma palavra.

— Obrigado.

 Acompanhou-nos à porta.

— Apareçam outra vez, quando puderem - disse. - Em Julho já os tomates estão bons. Tenho uma horta lá atrás, os melhores tomates da Virgínia. Mas não precisam de esperar até lá para me visitarem. Quando quiserem. Estou sempre aqui.

 Ficou a observar-nos, da varanda, quando arrancámos.

 Marino deu-me a opinião dele quando já seguíamos pela estrada de terra batida em direcção à auto-estrada.

— Estou desconfiado com o carro que ele viu duas semanas antes de Bonnie Smyth e Jim Freeman terem sido mortos, aqui.

— Também eu.

— Quanto ao cão, tenho certas dúvidas. Se o cão tivesse sido morto semanas, meses até, antes de Jim e Bonnie desaparecerem, eu acharia que tínhamos aí alguma pista. Mas que diabo, o Raisparta foi abatido uns bons cinco anos antes de começarem as mortes dos casais.

 Zonas de abate, pensei. Talvez, afinal, tivéssemos alguma pista.

— Marino, já pensou que podemos estar a lidar com uma pessoa para quem o local da morte é mais importante que a escolha das vítimas?

 Ele olhou-me de esguelha, pronto a ouvir.

— Esse indivíduo é capaz de passar uma data de tempo só a procurar o sítio certo - continuei. - Feito isso, vai à caça e traz a presa para o lugar que tão cuidadosamente escolheu. O local é o mais importante, e a altura do ano. O cão de Mr. Joyce foi morto em meados de Agosto. A altura mais quente do ano, mas fora de época no que respeita à caça, tirando a caça ao corvo. Todos esses casais foram mortos fora da época de caça. Em todos os casos, os corpos foram encontrados semanas, meses depois, em época de caça. Por caçadores. É um padrão.

— Está a insinuar que o assassino andava a bater a mata, à procura de um local para cometer os crimes, quando o cão apareceu e lhe deu cabo dos planos? - Lançou-me um olhar de soslaio, franzindo o sobrolho.

— Estou só a aventar uma série de hipóteses.

— Não me leve a mal, mas acho que pode aventar essa ideia pela janela fora. A menos que o marado andasse, durante anos, a fantasiar os homicídios e depois finalmente se tenha decidido.

— O que eu acho é que ele tem uma vida fantasiosa muito activa.

— Se calhar devia era dedicar-se ao perfil psicológico - comentou ele. - Já começa a falar como o Benton.

— E você como se tivesse riscado o Benton da sua vida.

— Não. Agora não estou é com disposição para o aturar.

— Continua a ser o seu parceiro no VICAP, Marino. Não somos só nós dois que andamos com problemas. Não seja assim tão duro para com ele.

— Não há dúvida que, ultimamente, farta-se de dar conselhos de borla - comentou.

— Dê-se por satisfeito que sejam de borla, porque vai precisar de muitos.

— Quer ir jantar?

 Eram quase seis da tarde.

— Hoje é noite de exercício físico - respondi, contrafeita.

— Jesus! Deve ser isso que me vai aconselhar a seguir.

 Só a ideia fez com que ambos puxássemos dos cigarros.

 Atrasei-me para a aula de ténis embora tudo tivesse feito, excepto passar sinais encarnados, para chegar a horas a Westwood. Um dos atacadores partiu-se, a raquete escorregava-me da mão e havia um jantar volante mexicano lá em cima, o que queria dizer que a tribuna estava cheia de gente sem nada melhor para fazer que comer tacos, beber margaritas e assistir à minha humilhação. Depois de mandar cinco esquerdas seguidas muito para além da linha de fundo, comecei a dobrar os joelhos e a abrandar o swing. As três batidas seguintes foram à rede. Os volleys eram uma desgraça, os cortes uma vergonha.

Quanto mais me esforçava, pior me saía.

— Está a abrir cedo de mais e a atrasar-se em todas as batidas, - disse Ted, passando para o meu lado da rede. - Demasiado balanço para trás, falta de seguimento. E o que é que acontece?

— Estou a pensar dedicar-me ao bridge - repliquei, com a frustração a transformar-se em raiva.

— Tem a face da raquete aberta. Primeiro puxe-a para trás, ombro virado, passo em frente, e bata com força. E mantenha-se sempre que possível dentro das linhas.

 Seguindo atrás de mim até à linha de fundo, fez a demonstração batendo várias bolas por cima da rede, perante o meu olhar de inveja.

Ted possuía uma definição muscular miguelangelina, fluida coordenação, e conseguia, sem esforço, dar efeito suficiente a uma bola de modo a fazê-la saltar pelo ar ou cair aos nossos pés. Interroguei-me se os atletas daquele calibre imaginariam sequer como nos faziam sentir a nós.

— O seu maior problema está na cabeça, doutora Scarpetta - afirmou ele. - Vem para aqui e quer ser a Martina quando devia limitar-se a ser quem é.

— Bom, sei muito bem que não consigo ser a Martina - resmunguei.

— Não esteja tão obcecada em ganhar pontos quando o que devia fazer era esforçar-se por não perdê-los. Jogada inteligente, calculada, manter a bola em jogo até o adversário falhar ou nos dar uma aberta para pontuarmos. Aqui, é isso que conta. As partidas a este nível não se ganham. Perdem-se. Quando alguém nos derrota não é por ter feito mais pontos que nós mas sim por nós termos perdido mais pontos que ele. - Olhando-me com curiosidade, acrescentou: - Aposto que não é assim tão impaciente no seu trabalho. Aposto que bate bem todas as bolas, por assim dizer, e passa o dia todo a fazer isso.

 Eu não tinha assim tanta certeza mas os ensinamentos de Ted produziram o efeito contrário. Desisti do ténis. Jogada inteligente. Mais tarde, de molho na banheira, reflecti profundamente em tudo isso.

 Não íamos derrotar aquele assassino. As balas plantadas e os artigos no jornal eram tácticas ofensivas que não tinham funcionado.

O que se impunha era uma estrategiazinha defensiva. Os criminosos que escapam à autoridade não são perfeitos, têm é sorte. Cometem erros.

Todos eles cometem. O problema é admitir os erros, aperceber-se da sua importância e descobrir o que foi intencional e o que não foi.

 Pensei nas pontas de cigarro que encontráramos perto dos corpos.

O assassino tê-las-ia deixado lá de propósito? Provavelmente. Eram um erro? Não, porque não tinham valor nenhum como prova e não conseguíamos descobrir a marca. Os valetes de copas deixados nos veículos eram intencionais mas também não eram um erro. Não continham impressões digitais e, quanto muito, a intenção podia ser levar-nos a pensar o que a pessoa que os deixou lá queria que nós pensássemos.

 Alvejar Deborah Harvey, isso sim, eu tinha a certeza de que era um erro.

 Depois havia o historial do assassino, que eu estava agora a considerar.

Não passara, de um momento para o outro, de cidadão exemplar a assassino experiente. Que pecados cometera antes, que actos de malvadez?

 Para já, podia ter morto a tiro o cão de um velhote há oito anos.

Se eu tivesse razão, ele cometera outro erro, pois o incidente revelava que era da zona, não um forasteiro. Fez-me pensar se, antes disso, já teria morto alguém.

 Na manhã seguinte, imediatamente após a reunião coordenadora, pedi à minha analista de informática, Margaret, que me desse uma listagem de todos os homicídios ocorridos num raio de oitenta quilómetros de Camp Peary ao longo dos últimos dez anos. Embora não andasse necessariamente à procura de um homicídio duplo, foi isso mesmo que encontrei.

 Processos C0104233 e C0104234. Nunca ouvira falar dos casos em questão, ocorridos vários anos antes de me mudar para a Virgínia.

Voltando para o meu gabinete, fechei as portas e analisei os processos com crescente curiosidade. Jill Harrington e Elizabeth Mott haviam sido assassinadas oito anos antes em Setembro, um mês depois de o cão de Mr. Joyce ter sido morto a tiro.

 Tinham ambas vinte e poucos anos quando desapareceram na noite de sexta-feira catorze de Setembro, os corpos encontrados na manhã seguinte num cemitério paroquial. Só no dia seguinte é que o Volkswagen pertencente a Elizabeth foi localizado no parque de estacionamento de um motel junto à Route 60, em Lightfoot, arredores de Williamsburg.

 Comecei a analisar relatórios de autópsia e diagramas anatómicos.

Elizabeth Mott fora baleada uma vez no pescoço, após o que, calculava-se, foi esfaqueada uma vez no peito e degolada. Estava completamente vestida sem indícios de violação, não se recuperara o projéctil, e tinha marcas de atamento nos pulsos. Não havia ferimentos defensivos. O processo de Jill, no entanto, contava outra história. Exibia cortes defensivos tanto nos antebraços como nas mãos, hematomas e lacerações na face e couro cabeludo consistentes com "coronhadas" e tinha a blusa rasgada. Aparentemente, dera muita luta, acabando por ser esfaqueada onze vezes.

 Segundo os recortes de jornal anexos, a Polícia de James City County afirmou que as mulheres tinham sido vistas pela última vez a tomar uma bebida no Anchor Bar and Grill em Williamsburg, onde permaneceram até cerca das dez da noite. Aventava-se a hipótese de ter sido lá que conheceram o seu agressor, uma situação de um engate de bar" em que as duas mulheres saíram com ele e o acompanharam até ao motel onde o carro de Elizabeth foi mais tarde encontrado. A certa altura ele dominou-as, talvez no parque de estacionamento, obrigando-as a levá-lo de carro até ao cemitério onde as assassinou.

 Havia muita coisa nesse cenário, que quanto a mim não fazia sentido.

 A Polícia encontrara sangue no banco de trás do Volkswagen para o qual não tinha explicação. O grupo sanguíneo não condizia com o de nenhuma das mulheres. Se o sangue era do assassino, então o que é que aconteceu? Debateu-se com uma das mulheres no banco de trás? Se assim foi por que não encontraram também sangue dela?

Se iam ambas no banco da frente e ele no de trás, então como é que se feriu? Se se cortou durante o confronto com Jill, no cemitério, também não fazia sentido. Depois dos crimes, teve de trazer o carro delas do cemitério para o motel e haveria sangue dele no banco do condutor, não no de trás. Finalmente, se o indivíduo tencionava matar as mulheres depois de qualquer acto sexual, por que não se limitou a matá-las dentro do quarto do motel? E por que é que os testes de recolha de sémen, feitos nas mulheres, deram negativo?

Teriam tido relações sexuais com ele, lavando-se em seguida? Duas mulheres com um homem? Um ménage à trois? Bom, na minha profissão pouco havia que eu não tivesse visto.

 Liguei para a extensão de Margaret e falei com ela.

— Preciso que me arranje mais uma coisa - pedi-lhe. - Uma lista de todos os casos de homicídio toxicopositivos investigados pelo detective R. P. Montana da Polícia de James City County. E preciso da informação para já, se conseguir obtê-la.

— Com certeza. - Conseguia ouvir os dedos dela movendo-se no teclado.

 Quando recebi o printout, havia seis homicídios toxicopositivos investigados pelo detective Montana. Os nomes de Elizabeth Mott e Jill Harrington constavam da lista pois a análise sanguínea post-mortem dera positivo quanto a álcool. O resultado, em ambos os casos, era insignificante, menos que 0,05. Para além disso, Jill revelava a presença de clordiazepóxido e clidínio, as substâncias activas do Librax.

 Pegando no telefone, liguei para a Polícia de James City County e pedi para falar com Montana. Disseram-me que ele agora era capitão, que trabalhava nos Assuntos Internos, e transferiram-me a chamada.

 Tencionava ser muito cuidadosa. Se desse a entender que encarava a hipótese de uma ligação entre os assassínios das duas mulheres e as mortes dos outros cinco casais, calculava que Montana se retraísse, não falasse.

— Montana - atendeu uma voz forte.

— Fala a doutora Scarpetta - disse eu.

— Como vai, Doutora? Pelo Que vejo, continuam a matar-se uns aos outros em Richmond.

— Pelos vistos não tem havido grandes melhoras - concordei. - Ando a analisar homicídios toxicopositivos - expliquei - e gostaria de fazer-lhe uma ou duas perguntas sobre vários casos antigos que encontrei no meu computador.

— Então diga. Mas isso já foi há uns tempos e sou capaz de estar um pouco esquecido dos pormenores.

— O que me interessa, basicamente, são os cenários, os pormenores referentes às mortes. A maioria dos vossos casos ocorreu antes de eu vir para Richmond.

— Ah, sim, no tempo do doutor Cagney. Trabalhar com ele era obra - comentou Montana com uma risada. - Nunca me esqueci da maneira como ele às vezes se punha a vasculhar dentro dos corpos, sem luvas. Não havia nada que o impressionasse, só crianças. Não gostava de autopsiar crianças.

 Passei mentalmente em revista os dados da listagem do computador e o que Montana recordava de cada um dos casos não me surpreendeu.

Alcoolismo e problemas domésticos que culminavam com o marido a dar um tiro à mulher ou vice-versa - o divórcio Smith & Wesson, como irreverentemente a Polícia lhe chamava. Um homem perdido de bêbedo fora morto à pancada por vários parceiros de copos, depois de um jogo de póquer que deu estrilho. Um pai com um grau de alcoolemia de 0,30 foi morto a tiro pelo filho. E por aí fora. Deixei os casos de Jill e Elizabeth para o fim.

— Lembro-me muito bem deles - disse Montana. - Esquisito é o único termo que encontro para classificar o que aconteceu àquelas duas jovens. Nunca me passaria pela cabeça que fossem do género de ir para um motel com um sujeito que as engatou num bar. Ambas formadas, tinham bons empregos, inteligentes, bonitas. Na minha opinião, o fulano com quem elas se meteram tinha de ser mesmo insinuante. Nada do tipo labrego. Sempre desconfiei que fosse alguém de passagem, não destes sítios.

— Porquê?

— Porque se fosse alguém daqui, acho que com um bocadinho de sorte tínhamos conseguido encontrar um suspeito. Foi algum serial killer, é a minha opinião. Engata mulheres em bares e mata-as. Talvez um sujeito que viaje muito, bate diversas cidades e vilas e põe-se a mexer.

— Houve roubo? - perguntei-lhe.

— Não me pareceu. A minha primeira suspeita, quando peguei nos casos, foi que as duas jovens andassem metidas em drogas leves, que se tivessem encontrado com alguém para comprar o produto, se calhar concordaram em ir ter com ele ao motel para fazerem uma farra ou comprarem a coca. Mas não faltava dinheiro nenhum, nem jóias, e nunca descobri nada que me levasse a pensar que as jovens andassem a snifar ou a chutar-se.

— Reparei, pelos relatórios toxicológicos, que Jill Harrington deu positivo em Librax, para além de álcool - afirmei. - Sabe alguma coisa a esse respeito?

 Ele pensou por um instante.

— Librax. Não. Não me diz nada.

 Não lhe fiz mais perguntas e agradeci-lhe.

 O Librax é um fármaco versátil usado como relaxante muscular e para alívio da ansiedade e tensão. Jill podia sofrer de dores nas costas ou ulcerações provocadas por lesões desportivas, ou ter tido problemas psicossomáticos como espasmos no trato gastrointestinal.

O meu próximo passo era procurar o seu clínico-geral.

Comecei por telefonar a um dos meus médicos legistas de Williamsburg e pedi-lhe para me enviar por fax a secção das Páginas Amarelas com as farmácias da sua área. Depois liguei para o pager de Marino.

— Tem algum polícia amigo em Washington? Alguém da sua confiança? — perguntei-lhe quando ele me ligou.

— Conheço uns tipos. Porquê?

— É muito importante que eu fale com Abby Turnbull. E não me parece que seja boa ideia telefonar-lhe.

— A menos que queira correr o risco de alguém ficar a saber disso.

— Exactamente.

— Se quer que lhe diga - acrescentou ele -, não me parece boa ideia falar com ela seja de que maneira for.

— Entendo a sua posição mas isso não me faz mudar de ideias, Marino. Pode contactar um desses seus amigos e mandá-lo ao apartamento dela, pedir-lhe para ver se consegue localizá-la?

— Acho que é um erro. Mas está bem, vou tratar disso.

— Ele que lhe diga só que eu preciso falar com ela. Quero que entre imediatamente em contacto comigo. - E dei-lhe o endereço.

 Nessa altura já as cópias das Páginas Amarelas em que eu estava interessada tinham chegado pelo fax da recepção, e Rose colocara-mas em cima da secretária. Passei o resto da tarde a ligar para todas as farmácias de que Jill Harrington pudesse ter sido cliente, em Williamsburg.

Finalmente localizei uma que tinha o nome dela nos registos.

— Era cliente habitual? - perguntei ao farmacêutico.

— Claro que sim. E Elizabeth Mott também. Não moravam muito longe daqui, num complexo de apartamentos mesmo ao fundo da rua. Umas moças tão simpáticas, nunca me hei-de esquecer do choque que tive.

— Viviam juntas?

— Deixe-me cá ver. - Uma pausa. - Acho que não. Moradas e números de telefone diferentes, mas no mesmo complexo. Old Towne, a três quilómetros e pouco daqui. Um sítio simpático.

Muita gente nova por lá, estudantes da William and Mary.

 Deu-me então o historial farmacológico de Jill. Num período de três anos, aviara receitas para vários antibióticos, antitússicos, e outros medicamentos associados à simples gripe e infecções respiratórias, ou do trato urinário, que habitualmente afligem a população em geral. Apenas um mês antes do crime fora aviar uma receita de Septra que, pelos vistos, já não andava a tomar quando morreu, dado que o trimetoprim e o sulfametoxazol não lhe haviam sido detectados no sangue.

— Alguma vez lhe vendeu Librax? - perguntei.

 Aguardei enquanto ele procurava.

— Não, minha senhora. Não tenho aqui nada registado.

 Talvez fosse uma receita de Elizabeth, ocorreu-me.

— E a amiga dela, Elizabeth Mott? - perguntei-lhe. - Alguma vez aí foi com uma receita de Librax?

— Não.

— Que o senhor saiba, alguma delas era cliente de outra farmácia?

— Quanto a isso, receio bem não poder ajudá-la. Não faço a mínima ideia.

 Deu-me os nomes de outras farmácias perto dali. Eu já ligara para a maioria delas e os telefonemas que fiz às restantes confirmaram que nenhuma das mulheres lá aviara uma receita de Librax ou de qualquer outro fármaco. O Librax, em si, não era necessariamente importante, racionalizei. Mas o mistério de quem o receitara, e porquê, intrigava-me bastante.

 

 Abby Turnbull trabalhava como repórter criminal, em Richmond, quando Elizabeth Mott e Jill Harrington foram assassinadas. Eu era capaz de apostar que ela não só se lembrava dos casos, como, provavelmente, sabia mais acerca deles que o próprio capitão Montana.

 Na manhã seguinte, Abby ligou de uma cabina telefónica e deixou um número onde, disse a Rose, ficaria à espera durante quinze minutos.

E insistiu para que eu lhe ligasse de um "sítio seguro".

— Está tudo bem? - perguntou Rose, baixinho, enquanto eu descalçava as luvas cirúrgicas.

— Só Deus sabe - respondi, desapertando a bata.

 O "sítio seguro" mais próximo de que me lembrei foi um telefone público à porta da cantina, no meu edifício. Ofegante e um tudo-nada aflita para cumprir o prazo dado por Abby, marquei o número que a minha secretária me dera.

— Que se passa? - perguntou Abby de imediato. - Apareceu-me lá em casa um polícia a dizer que fora mandado por si.

— É verdade - tranquilizei-a. - Com base naquilo que me contou, não me pareceu boa ideia ligar-lhe para casa. Está boa?

— Foi por isso que quis que eu lhe ligasse? - Pareceu desapontada.

— Foi um dos motivos. Precisamos de conversar.

 Seguiu-se uma longa pausa de silêncio.

— Vou a Williamsburg no sábado - disse ela então. - Jantar, no Trellis, às sete?

 Não lhe perguntei o que ia ela fazer a Williamsburg. Não tinha bem a certeza se queria saber isso ou não, mas quando estacionei o carro na Merchant's Square, no sábado, vi que as minhas apreensões iam diminuindo a cada passo que dava. Era difícil continuar a pensar em crimes e outros actos de crueldade enquanto se bebericava uma cidra quentinha, ao frio cortante de um dos meus locais preferidos do país.

 Era época baixa para turistas e mesmo assim andava por lá muita gente a deambular, a dar uma vista de olhos pelas lojas restauradas e a passear nas charretes conduzidas por estribeiros de calções apertados nos joelhos e chapéus de três bicos. Mark e eu chegáramos a falar em passar um fim-de-semana em Williamsburg. Alugaríamos uma das cocheiras do século XIX situadas no Historic District, daríamos um passeio pelas calçadas à luz dos candeeiros a gás, e jantávamos numa das tavernas, depois bebíamos vinho à lareira até adormecermos nos braços um do outro.

 Claro que nada disso viera a acontecer, sendo a história da nossa relação feita mais de desejos que de recordações. Alguma vez seria de outra maneira? Recentemente, ele prometera-me, ao telefone, que seria. Mas já antes mo prometera e eu também. Ele continuava em Denver e eu ali.

 Na Loja do Ourives, comprei um berloque de prata artesanal, com o formato de um ananás, e um lindo cordão. Lucy receberia um presente atrasado do Dia de S. Valentim da sua tia degenerada. Um assalto à Botica providenciou sabonetes para o meu quarto de hóspedes, um provocante creme de barbear para Fielding e Marino, e pot-pourris para Bertha e Rose. às sete menos cinco já estava dentro do Trellis à procura de Abby. Quando ela chegou, meia hora depois, eu aguardava, impacientemente, a uma mesa aninhada de encontro a um vaso de erva-da-fortuna.

— Peço desculpa - disse ela, sincera, despindo o casaco. - Atrasei-me. Vim o mais depressa que pude.

 Parecia tensa e cansada, a olhar nervosamente de um lado para o outro. O Trellis estava quase cheio, pessoas a falar nas sombras bruxuleantes da luz de velas. Interroguei-me se Abby estaria a pensar que fora seguida.

— Passou o dia todo em Williamsburg? - perguntei-lhe.

Ela acenou que sim.

— Creio que não me atrevo a perguntar-lhe o que andou a fazer?

— Pesquisa - foi a única resposta dela.

— Não pelas redondezas de Camp Peary, espero bem. - E fitei-a nos olhos.

 Ela percebeu muito bem o que eu queria dizer.

— Você sabe - replicou.

 A empregada aproximou-se e depois foi ao bar pedir um Bloody Mary para Abby.

— Como é que descobriu? - perguntou ela, acendendo um cigarro - Melhor dizendo, como é que você descobriu?

— Não lhe posso dizer, Kay.

 Claro que não. Mas eu sabia. Pat Harvey.

— Tem uma fonte - disse eu, cautelosamente. - Deixe-me só perguntar-lhe isto. Por que há-de essa fonte querer que você saiba?

A informação não lhe seria passada se não houvesse um motivo por parte da fonte.

— Eu sei muito bem.

— Então porquê?

— O importante é a verdade - respondeu Abby, desviando o olhar. - Eu também sou uma fonte.

— Estou a perceber. Em troca de informações, revela o que vai descobrindo.

 Não deu resposta.

— Isso inclui-me? - perguntei-lhe.

— Não vou tramá-la, Kay. Alguma vez o fiz? - Fitou-me muito séria.

— Não - respondi, com sinceridade. - Até ver, nunca o fez.

 O Bloody Mary foi colocado à sua frente e ela começou a mexê-lo distraidamente com o talo de aipo.

— Só posso dizer-lhe - continuei - que anda a pisar terreno perigoso.

Não é preciso explicar. Deve saber isso melhor que ninguém.

Vale a pena toda essa tensão? O seu livro vale o preço que está a pagar, Abby?

 Como ela não fizesse nenhum comentário, acrescentei, com um suspiro:

— Acho que não vou fazê-la mudar de ideias, pois não?

— Já se meteu nalguma coisa de que não consegue sair?

— Está-me sempre a acontecer. - Fiz um sorriso amarelo. - É a situação em que me encontro agora.

— E eu também.

— Compreendo. E se estiver enganada, Abby?

— Quem pode estar enganado não sou eu - redarguiu ela. - Seja qual for a verdade acerca de quem anda a cometer estes crimes, o facto é que o FBI e outras agências interessadas estão a agir de acordo com certas suspeitas, e a tomar decisões com base nelas. Se o FBI, a Polícia, estiverem enganados, isso só acrescenta outro capítulo.

— Parece-me uma análise terrivelmente fria - observei, incomodada.

— Estou a ser profissional, Kay. Quando você fala em termos profissionais, por vezes também parece fria.

 Eu falara directamente com Abby após a descoberta do corpo da irmã assassinada. Se nessa terrível situação eu não parecera fria, no mínimo mostrara-me analítica.

— Preciso da sua ajuda numa coisa - disse-lhe. - Há oito anos, duas mulheres foram assassinadas muito perto daqui. Elizabeth Mott e Jill Harrington.

 Fitou-me com curiosidade.

— Não está a pensar...

— Não sei bem o que pensar - interrompi-a -, mas preciso de saber os pormenores dos casos. Os meus relatórios pouca coisa trazem. Na altura eu não estava na Virgínia. Mas há novos recortes de jornais nos processos. Alguns dos artigos assinados por si.

— Custa-me a crer que o que aconteceu a Elizabeth e Jill tenha alguma relação com os outros casos.

— Então lembra-se delas - concluí, aliviada.

— Nunca me hei-de esquecer. Foi uma das poucas vezes em que um trabalho desses chegou mesmo a provocar-me pesadelos.

— Por que é que lhe custa a crer que haja uma relação?

— Por uma data de razões. Não se encontrou nenhum valete de copas. O carro não foi abandonado numa berma de estrada mas sim no parque de estacionamento de um motel, e os corpos não apareceram semanas ou meses depois do crime, a apodrecer na mata. Foram encontrados no espaço de vinte e quatro horas. Ambas as vítimas eram mulheres, e andavam na casa dos vinte, não eram adolescentes. E por que é que o assassino ia atacar e depois só tornar a fazê-lo passados cinco anos?

— Concordo - disse eu. - O timing não se enquadra no perfil do típico serial killer. E o método é diferente dos outros. A escolha das vítimas também parece diferente.

— Então por que está tão interessada? - Perguntou-me dando um golinho na bebida.

— Ando à procura de qualquer coisa e sinto-me intrigada com os casos delas, que nunca foram resolvidos - confessei. - Não é vulgar duas pessoas serem apanhadas assim e assassinadas. Não havia indícios de violação. As mulheres foram mortas aqui perto, na mesma zona em que ocorreram os outros crimes.

— E foram utilizadas uma faca e uma arma - disse Abby, pensativa.

 Então ela sabia dos pormenores da morte de Deborah Harvey!

— Há certas semelhanças - afirmei, evasivamente.

 Abby pareceu-me pouco convencida mas interessada.

— Que quer saber, Kay?

— Alguma coisa que se lembre acerca delas. Qualquer coisa.

 Pensou durante um bom bocado, mexendo a bebida.

— Elizabeth trabalhava no sector de vendas de uma empresa local de computadores e estava a sair-se muito bem - contou. - Jill acabara de se formar em Direito na William and Mary e estava a trabalhar numa pequena firma de Williamsburg. Nunca acreditei na história de terem ido para um motel para ter relações sexuais com um palerma qualquer que conheceram num bar. Nenhuma delas me pareceu ser desse tipo. E duas com um homem? Sempre achei isso estranho. E mais, havia sangue no banco de trás do carro delas. Não era do grupo sanguíneo de uma nem de outra.

 Eu ficava sempre admirada com a habilidade de Abby. Sabe-se lá como, conseguira ter acesso aos resultados serológicos.

— Deduzo que o sangue fosse do assassino. Havia muito sangue Kay. Eu vi o carro. Parecia que alguém tinha sido esfaqueado, ou que se cortara, no banco de trás. Possivelmente dava para concluir que era lá que o assassino ia, mas era difícil arranjar uma boa explicação para o que terá acontecido. A Polícia foi da opinião que as mulheres se encontraram com essa besta no Anchor Bar and Grill. Mas, se arrancaram os três no carro delas e ele tencionava matá-las, como é que depois voltou lá para buscar o carro dele?

— Depende da distância entre o motel e o bar. Pode ter voltado a pé, buscar o carro dele, depois dos crimes.

— O motel fica a uns bons sete ou oito quilómetros do Anchor Bar que, por falar nisso, já não existe. As mulheres foram vistas pela última vez dentro do bar por volta das dez da noite. Se o assassino lá deixara ficar o carro dele, provavelmente seria o único que estava no parque na altura em que lá veio buscá-lo, e isso não seria uma atitude muito inteligente. Um polícia podia ter reparado nele, ou pelo menos o gerente da noite, quando estivesse a fechar para se ir embora.

— Isso não invalida que o assassino tenha deixado o carro no motel, as tenha levado no de Elizabeth, depois voltado no carro dele e desaparecido - frisei.

— Pois não. Mas se levou o próprio carro para o motel, quando é que se enfiou no delas? A versão de entrarem os três juntos para um quarto de motel e depois ele as obrigar a levá-lo, de carro, até ao cemitério, nunca me convenceu. Para quê todo esse trabalho, o risco? Elas podiam ter desatado aos gritos no parque de estacionamento, podiam ter oferecido resistência. Por que não matá-las, pura e simplesmente, dentro do quarto?

— Confirmou-se que eles estiveram, os três, num dos quartos?

— Aí é que está a coisa - replicou ela. - Eu interroguei o empregado que estava de serviço nessa noite. O Palm Leaf, um motel baratucho junto à Route 60, em Lightfoot. Não é propriamente um negócio próspero. Mas o empregado não se lembrava de nenhuma das mulheres. Nem se lembrava de ter chegado nenhum fulano para alugar um quarto perto do sítio onde o Volkswagen foi encontrado. Aliás, na altura, a maioria dos quartos naquele sector estavam vagos.

Mais importante ainda, ninguém fez o registo de entrada, tendo depois ido embora sem entregar a chave. Custa a crer que o fulano tivesse oportunidade, ou intenção, de dar baixa do quarto. Depois de cometer os crimes? De certeza que não. Devia estar cheio de sangue.

— Qual era a sua teoria quando escreveu os artigos? - perguntei-lhe.

— A mesma de agora. Não acho que elas tenham metido conversa com o assassino dentro do bar. Acho que aconteceu alguma coisa pouco depois de Elizabeth e Jill terem saído de lá.

— O quê, por exemplo?

 Franzindo o sobrolho, Abby tornou a mexer a bebida:

— Não sei. Não eram, decididamente, do tipo de apanhar boleia e muito menos àquela hora da noite. E nunca acreditei que houvesse alguma cena de drogas. Nunca se apurou que Jill ou Elizabeth andassem metidas na coca, na heroína ou coisa do género, nem se encontrou nada disso nos apartamentos delas. Não fumavam, não eram de beber muito. Ambas faziam jogging, fanáticas da vida saudável.

— Sabe para onde iam quando saíram do bar? Directamente para casa? Poderiam ter parado nalgum sítio?

— Se pararam não há provas disso.

— E saíram do bar sozinhas?

— Nenhuma das pessoas com quem falei se recorda de as ter visto com mais alguém enquanto estiveram lá dentro, a beber. Se bem me lembro, beberam umas cervejas, sentadas a uma mesa de canto, a conversar. Ninguém se lembra de as ter visto sair acompanhadas.

— Podem ter-se encontrado com alguém no parque de estacionamento, depois de saírem - disse eu. - O indivíduo podia estar à espera dentro do carro de Elizabeth.

— Duvido que deixassem o carro destrancado mas, sim, é possível.

— Frequentavam aquele bar?

— Que me lembre, não o frequentavam, mas já lá tinham ido antes.

— Um sítio da pesada?

— Era o que eu pensava, dado tratar-se de um poiso habitual dos militares - respondeu ela. - Mas fez-me lembrar um pub inglês. Civilizado. Pessoas a conversar, a jogar às setas. Era o tipo de lugar onde se pode ir com uma amiga e sentirmo-nos à vontade, sem nos incomodarem. A teoria é que o assassino fosse alguém de passagem pela cidade ou um militar temporariamente colocado na zona. Não era ninguém conhecido delas.

 Talvez não, pensei. Mas devia ser uma pessoa em quem acharam que podiam confiar, pelo menos de início, e recordei-me do que Hilda Ozimek dissera, de os encontros serem "amigáveis" ao princípio.

Gostava de saber que impressões a assaltariam se eu lhe mostrasse fotografias de Elizabeth e Jill.

— Que se saiba, Jill tinha algum problema de saúde? - perguntei-lhe.

 Ela pensou por um instante e fez um ar perplexo:

— Não me lembro.

— De onde era ela?

— Do Kentucky, acho eu.

— Ia a casa muitas vezes?

— Não fiquei com essa ideia. Acho que lá ia nas férias e mais nada.

 Nesse caso não era provável que tivesse uma receita de Librax passada no Kentucky, onde a família dela vivia, deduzi.

— Disse que ela começara há pouco a trabalhar como advogada - prossegui. - Viajava muito, tinha motivos para se ausentar regularmente?

 Abby esperou que nos colocassem à frente as saladas à chefe e depois respondeu:

— Tinha um grande amigo, da faculdade de Direito. Não me lembro como se chamava mas falei com ele, fiz-lhe perguntas acerca dos hábitos dela, das suas actividades. Ele disse que desconfiava que Jill tinha um caso.

— O que é que o levou a desconfiar disso?

— Porque, durante o terceiro ano do curso, ela ia de carro quase todas as semanas a Richmond, supostamente à procura de emprego, gostava muito de Richmond e queria ver se arranjava alguma coisa numa firma de lá. Disse-me que ela muitas vezes tinha de lhe pedir os apontamentos emprestados porque nessas andanças perdia aulas.

Achou estranho sobretudo porque ela acabou por vir trabalhar para uma firma aqui de Williamsburg, logo que se formou. Fez referência ao caso porque achava que as viagens dela podiam estar relacionadas com o homicídio, se ela andasse com algum homem casado de Richmond, por exemplo, e talvez o ameaçasse de contar tudo à mulher.

Talvez andasse com alguém importante, um advogado famoso ou um juiz, que, para evitar o escândalo, a tenha silenciado para sempre.

Ou tenha mandado alguém fazê-lo e Elizabeth tenha tido o azar de estar por perto na altura.

— Qual é a sua opinião?

— A pista não deu em nada, como em noventa por cento das dicas que me fornecem.

—Jill tinha algum envolvimento amoroso com o estudante que lhe contou isso?

— Creio que ele gostaria que assim fosse - respondeu ela -, mas não, não havia nada entre eles. Fiquei com a impressão de que isso era, em parte, o motivo das suas suspeitas. Era muito convencido e calculou que a única razão para Jill nunca ter sucumbido aos encantos dele era por já andar com outro que ninguém conhecia. Um amante secreto.

— Chegou a ser suspeito, esse estudante? - perguntei.

— Nem por sombras. Não estava na cidade quando os crimes ocorreram e isso ficou absolutamente provado.

— Falou com algum dos advogados da firma onde Jill trabalhava?

— Nisso não adiantei grande coisa - respondeu Abby. - Sabe como são os advogados. De qualquer das maneiras, ela só trabalhava lá há uns meses quando foi assassinada. Não creio que os colegas a conhecessem muito bem.

— Não me parece que Jill fosse extrovertida - comentei.

— Descreveram-na como uma pessoa carismática, espirituosa, mas reservada.

— E Elizabeth? - perguntei.

— Mais dada, acho eu - respondeu ela. - O que teria de ser, para se sair bem nas vendas.

 A luz dos candeeiros a gás afugentava a escuridão das calçadas, quando nos dirigimos para o parque de estacionamento da Merchant's Square. Uma densa camada de nuvens ocultava a Lua, e o ar húmido e frio entrava nos ossos.

— Gostava de saber o que estariam a fazer agora esses casais, se ainda estariam juntos, que teria acontecido nas vidas deles - devaneou Abby, com o queixo enterrado na gola e as mãos enfiadas nos bolsos.

— Que acha que estaria Henna a fazer? - perguntei-lhe, suavemente, referindo-me à irmã dela.

— Provavelmente ainda estaria em Richmond. Estaríamos ambas, acho eu.

— Arrepende-se de ter saído de lá?

— Há dias em que me arrependo de tudo. Desde que a Henna morreu, é como se eu não tivesse alternativa, vontade própria. Como se andasse a ser empurrada pelas coisas, que não consigo controlar.

— Não vejo isso assim. Decidiu aceitar o emprego no Post, mudar-se para Washington. E agora decidiu escrever um livro.

— Tal como Pat Harvey decidiu dar aquela conferência de imprensa e fazer todas aquelas outras coisas que tanto a prejudicaram - redarguiu ela.

— Sim, ela também tomou decisões.

— Quando se está a passar por uma coisa destas, não se sabe o que se faz, mesmo que se pense que sim - continuou ela. - E ninguém consegue realmente entender o que é se não tiver passado pelo mesmo.

Sentimo-nos isolados. Vamos a qualquer sítio e as pessoas evitam-nos, têm medo de nos olhar nos olhos e meter conversa, porque não sabem o que dizer. Por isso cochicham uns com os outros. "Estás a ver aquela ali? A irmã dela é que foi assassinada pelo estrangulador." Ou então "Aquela é Pat Harvey. Foi a filha dela." Sentimo-nos como se vivêssemos numa caverna. Temos medo de estar sozinhos, medo de estar com os outros, medo de estar acordados e medo de adormecer, tão horrível é a sensação quando amanhece. Desata-se a correr e fica-se esgotado. Quando olho para trás, vejo que tudo o que fiz desde que a Henna morreu foi uma loucura.

— Acho que tem feito um trabalho notável - afirmei, sinceramente.

— Não sabe as coisas que eu fiz. Os erros que cometi.

— Então? Vá lá, eu dou-lhe boleia até ao carro - disse-lhe, pois já chegáramos à Merchant's Square.

 Ouvi o barulho de um motor no parque às escuras, quando tirava as chaves. Estávamos dentro do meu Mercedes, de portas trancadas e cintos postos, quando um Lincoln novo parou ao lado e o vidro do condutor desceu suavemente.

 Abri o meu apenas o suficiente para ouvir o que o homem queria.

 Era jovem, tinha bom aspecto e não se entendia com o mapa que tinha na mão.

— Desculpe - disse ele com um sorriso encabulado -, pode explicar-me como é que se volta para a Sessenta e Quatro, daqui?

 Senti o nervosismo de Abby enquanto, rapidamente, lhe dei as orientações.

— Veja a matrícula - disse ela, nervosa, quando ele se afastou, vasculhando na pasta à procura de uma caneta e um bloco.

— E-N-T-oito-nove-nove - li eu rapidamente.

 Ela tomou nota.

— Que se passa? - perguntei, inquieta.

 Ao sairmos do parque de estacionamento, Abby olhou para a esquerda e para a direita, a ver se via sinais do outro carro.

— Reparou no carro dele quando chegámos ao parque? - perguntou-me.

 Tive de pensar. O parque estava quase vazio quando lá chegámos.

Eu reparara vagamente num carro, que podia ser o Lincoln, estacionado num canto com pouca luz.

 Disse-o a Abby, acrescentando:

— Mas calculei que não estivesse ninguém lá dentro.

— Exactamente. Porque a luz de dentro não estava acesa.

— Acho que não.

— A ler um mapa às escuras, Kay?

— Bem visto - concordei, assustada.

— E se ele não é cá da cidade, como é que explica o autocolante de estacionamento que trazia no pára-choques de trás?

— Autocolante de estacionamento? - repeti.

— Tinha o selo da Williamsburg Colonial. O mesmo autocolante que me deram, há uns anos, quando encontraram as ossadas humanas naquela escavação arqueológica, no Martin's Hundred. Fiz uma série de artigos, vinha cá muitas vezes, e o autocolante permitia-me estacionar dentro do Historic District e em Carter's Grove.

— O tipo trabalha aqui e precisou que lhe explicassem como é que se ia para a Sessenta e Quatro? - estranhei.

— Conseguiu vê-lo bem? - perguntou ela.

— Bastante bem. Acha que era o homem que a seguiu naquela noite, em Washington?

— Não sei. Mas se calhar... Raios partam, Kay. Isto está a dar comigo em doida!

— Bom, agora não pense mais nisso - retorqui. - Dê-me a matrícula. Tenciono fazer qualquer coisa a esse respeito.

 Na manhã seguinte, Marino ligou-me com a críptica mensagem:

— Se não leu o Post, o melhor é ir comprar um.

— Desde quando é que você lê o Post?

— Desde nunca, se puder evitá-lo. O Benton é que me avisou, há coisa de uma hora. Depois ligue-me. Estou na esquadra.

 Vestindo um fato de treino e um casaco de esqui, meti-me no carro debaixo de uma forte chuvada para ir a uma tabacaria ali perto.

Durante uma boa meia hora fiquei sentada dentro do carro, o aquecimento no máximo, os limpa pára-brisas qual monótono metrónomo à chuva forte e fria. Fiquei estupefacta com o que li. Pensei várias vezes que se os Harvey não processassem Clifford Ring, quem o fazia era eu.

 A primeira página trazia o primeiro de uma série de três artigos sobre Deborah Harvey, Fred Cheney e os outros casais que tinham morrido. Nada fora poupado, a reportagem de Ring tão completa que até incluía pormenores que nem eu sabia.

 Não muito antes de ser assassinada, Deborah Harvey confidenciara a uma amiga as suspeitas de que o pai era alcoólico e que andava com uma assistente de bordo com metade da idade dele. Pelos vistos, Deborah escutara umas quantas conversas telefónicas entre o pai e a alegada amante. A assistente de bordo vivia em Charlotte e, segundo o artigo, Harvey estava com ela na noite em que a filha e Fred Cheney desapareceram, razão pela qual a Polícia e Mrs. Harvey não tinham conseguido contactá-lo. Ironicamente, as suspeitas de Deborah não a tinham feito virar-se contra o pai mas sim contra a mãe, que, absorvida pela carreira, nunca estava em casa, e portanto, aos olhos de Deborah, era ela a culpada da infidelidade e do alcoolismo do pai.

 Coluna após coluna de texto vitriólico pintavam um retrato patético de uma mulher poderosa disposta a salvar o mundo, enquanto a própria família se desintegrava pela sua negligência. Pat Harvey casara-se por dinheiro, a sua residência em Richmond era palaciana, os aposentos no Watergate repletos de antiguidades e quadros valiosos, incluindo um Picasso e um Remington. Usava as roupas certas, ia às festas certas, um decoro impecável, brilhantes a sua actuação política e o seu conhecimento das questões mundiais.

 Contudo, espreitando por detrás desta fachada plutocrática, imaculada, estava "uma mulher de fibra nascida num bairro operário de Baltimore, alguém que, segundo os colegas, vivia atormentada pela insegurança, que continuamente a impulsionava a dar provas do seu mérito." Pat Harvey, afirmava ele, era uma megalómana. Era irracional - se não mesmo violenta - quando ameaçada ou posta à prova.

 A sua análise dos crimes cometidos na Virgínia ao longo dos últimos três anos era igualmente impiedosa. Desvendava as suspeitas da CIA e do FBI, de que o assassino pudesse ser alguém de Camp Peary, e expunha a sua revelação com tal riqueza de pormenores que toda a gente envolvida ficava mal vista.

 A CIA e o Departamento de Justiça estavam envolvidos num encobrimento e tão extrema era a sua paranóia que convenciam os investigadores, na Virgínia, a ocultar dados uns aos outros. Provas falsas tinham sido plantadas num local do crime. Houvera uma "fuga” de desinformação para os repórteres, suspeitando-se mesmo de que alguns deles andassem sob vigilância. Entretanto, Pat Harvey teria supostamente conhecimento de tudo isso e a sua indignação não foi propriamente tida como correcta, a avaliar pela sua postura durante a famigerada conferência de imprensa. Empenhada numa luta territorial com o Departamento de Justiça, Mrs. Harvey servira-se de informações confidenciais para incriminar e pressionar as agências federais com as quais aos poucos viera a incompatibilizar-se, devido à sua campanha contra organizações humanitárias fraudulentas, como a CAMCCD.

 O último ingrediente dessa venenosa caldeirada era eu. Eu fizera caixinha e retivera dados importantes a pedido do FBI, até ser obrigada pela ameaça de uma ordem judicial a entregar os meus relatórios às famílias. Recusara-me a falar com a imprensa. Embora sem qualquer obrigação formal de prestar contas ao FBI, Clifford Ring insinuava a possibilidade de o meu comportamento profissional ser influenciado pela minha vida pessoal. "Segundo uma fonte próxima da Médica Legista Chefe da Virgínia", dizia o artigo, "a Dra. Scarpetta tem mantido, nos últimos dois anos, uma relação amorosa com um Agente Especial do FBI, faz visitas frequentes a Quantico e tem relações de amizade com certos membros da Academia, incluindo Benton Wesley, o profiler envolvido nestes casos.”

 Pus-me a pensar quantos dos leitores não iriam concluir, com base naquilo, que eu tinha um affair com Wesley.

 Questionada, juntamente com a integridade e princípios morais, estava a minha competência como patologista forense. Nos casos em questão, apenas num eu fora capaz de determinar a causa da morte, e, quando descobri um corte num dos ossos de Deborah Harvey, fiquei com tanto medo de ter sido eu própria a fazê-lo com o bisturi, afirmava Ring, que "foi de carro a Washington, em pleno nevão, com os esqueletos de Harvey e Cheney no porta-bagagem do seu Mercedes, para se aconselhar com um antropólogo forense do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian.”

 Tal como Pat Harvey, eu tinha "consultado uma vidente". Acusara os investigadores de terem andado a mexer nos restos mortais de Fred Cheney e Deborah Harvey e depois regressara eu própria à mata em busca de uma cápsula, porque não confiava nas buscas policiais. Encarregara-me também de interrogar testemunhas, incluindo uma empregada de um 7-Eleven, onde Fred e Deborah tinham sido vistos com vida pela última vez. Eu fumava, bebia, tinha licença para andar com o meu .38 escondido, tinha "sido quase morta" diversas vezes, era divorciada e "de Miami". Este último dado parecia, de certa forma, uma explicação para tudo o que vinha antes.

 Pela descrição de Clifford Ring, eu era uma pistoleira atiradiça e arrogante que, quando se tratava de medicina forense, não percebia nada de nada.

 Abby, pensei, acelerando no regresso a casa por ruas escorregadias da chuva. Era a isto que ela se referia, a noite passada, ao falar dos erros que cometera? Tinha fornecido informações ao seu colega Clifford Ring?

— Não me cheira - salientou Marino, mais tarde, sentado à minha mesa da cozinha a beber café. - Não que a minha opinião a respeito dela tenha mudado. Acho que era capaz de vender a avó por causa de um furo. Mas está a trabalhar nesse tal grande livro, não está? Não faz sentido ela ir partilhar as informações com a concorrência, principalmente estando danada com o Post.

— Certas informações só podem ter vindo dela. - Custou-me a admitir. - O pormenor sobre a empregada da loja de conveniência, por exemplo. Fomos lá, as duas, naquela noite. E ela sabe do Mark.

— Como? - perguntou Marino fitando-me com curiosidade.

— Eu contei-lhe.

 Ele limitou-se a abanar a cabeça.

 Bebericando o café, pus-me a olhar para a chuva. Abby tentara falar comigo duas vezes desde que eu voltara da rua e eu, ao lado do gravador de chamadas, a ouvir a sua voz tensa. Ainda não estava preparada para falar com ela. Tinha medo do que pudesse dizer-lhe.

— Como é que o Mark vai reagir? - perguntou Marino.

— Felizmente, o artigo não refere o nome dele.

 Senti nova onda de ansiedade. Como era típico dos agentes do FBI, sobretudo dos que haviam passado anos sob disfarce, Mark era quase paranóico quanto ao secretismo da sua vida pessoal. A alusão do jornal à nossa relação iria irritá-lo consideravelmente, calculava eu. Tinha de telefonar-lhe. Ou talvez não. Já não sabia o que fazer.

— Certas informações vieram do Morrell, creio eu - continuei, pensando em voz alta.

 Marino ficou calado.

— O Vessey também deve ter falado. Ou pelo menos alguém do Smithsonian - afirmei. - E não sei como diabo é que o Ring descobriu que tínhamos ido falar com a Hilda Ozimek.

 Pousando a chávena e o pires, Marino inclinou-se para a frente e olhou-me nos olhos.

— É a minha vez de dar conselhos.

 Senti-me como uma criança prestes a levar um raspanete.

— É como um camião carregado de cimento a descer uma encosta sem travões. Não consegue fazê-lo parar, Doutora. Resta-lhe apenas sair do caminho.

— Importa-se de trocar isso por miúdos? - perguntei-lhe, impaciente.

— Faça apenas o seu trabalho e esqueça. Se lhe fizerem perguntas, como tenho a certeza que hão-de fazer, diga só que nunca falou com Clifford Ring, não sabe de nada. Por outras palavras, sacuda a água do capote. Se entra no jogo sujo da imprensa, acaba como Pat Harvey. A parecer uma idiota.

 Ele tinha razão.

— E se tiver juízo, não fale com a Abby nestes tempos mais próximos.

 Fiz um gesto de aquiescência.

 Ele levantou-se.

— Entretanto, eu tenho mais Que fazer. Se tudo correr bem, digo-lhe.

 Aquilo fez-me lembrar outra coisa. Pegando na carteira, tirei de lá a folha de papel com a matrícula que Abby apontara.

— Importa-se de me procurar isto no NCIC? Um Lincoln Mark Seven, cinzento-escuro. A ver o que se descobre.

— Alguém que anda a segui-la? - perguntou ele, metendo o papel no bolso.

— Não sei. O condutor parou a pedir orientações. Não creio que estivesse realmente perdido.

— Onde? - perguntou, enquanto eu o acompanhava à porta.

— Williamsburg. Estava dentro do carro num parque de estacionamento vazio. Foi ontem, por volta das dez e meia, onze da noite, na Merchant's Square. Eu ia a entrar para o carro quando de repente os faróis dele se acenderam e o carro aproximou-se; perguntou-me como é que se ia para a Sessenta e Quatro.

— Hmmm - fez Marino, laconicamente. - Se calhar, um parvo dum polícia à civil, chateado, à espera de alguém que passasse com o encarnado, ou fizesse uma inversão de marcha. Ou então estava a tentar engatá-la. Uma mulher com bom aspecto, sozinha à noite, a entrar para um Mercedes.

 Não lhe disse que Abby estava comigo. Não queria ouvir mais nenhum sermão.

— Não sabia que os polícias andavam em Lincolns novos - comentei.

— Já viu esta chuvada? Chiça! - queixou-se ele, dando uma corrida até ao carro.

 Para Fielding, o meu assistente, não havia preocupações nem trabalho que o impedissem de olhar para qualquer objecto reflector por onde passasse. O que incluía janelas, ecrãs de computador e as divisórias de segurança, à prova de bala, que separavam o átrio dos nossos gabinetes. Quando saí do elevador no rés-do-chão, dei com ele a parar diante da porta de aço inoxidável do frigorífico mortuário para dar um jeito ao cabelo.

— Está a ficar um bocadinho comprido por cima das orelhas - disse-lhe.

— E o seu a ficar um bocadinho branco - retorquiu ele com um largo sorriso.

— Cinza. Os louros ficam cinza, nunca brancos.

— Pois. - Com ar ausente, apertou o cordão das calças cirúrgicas, bíceps inchados como toranjas. Fielding não conseguia pestanejar sem flectir qualquer coisa impressionante. Sempre que o via debruçado para o microscópio, fazia-me lembrar uma versão esteroidizada do Pensador de Rodin.

— O Jackson foi entregue há uns vinte minutos - disse ele, referindo-se a um dos casos da manhã. - Já está, mas temos um para amanhã. O tipo que estava ligado ao ventilador, do tiroteio que houve no fim-de-semana.

— Que tem marcado para o resto da tarde? - perguntei-lhe. - Por falar nisso, julgava que tinha de ir ao tribunal, a Petersburg.

— O réu fez um acordo - respondeu olhando para o relógio. — Há cerca de uma hora.

— Deve ter sabido que você lá ia.

— Tenho uma pilha de micros que chega ao tecto, naquele cubículo a que o estado chama gabinete. É a minha agenda para a tarde. Ou pelo menos era. - Acrescentou, lançando-me um olhar interrogativo.

— Tenho um problema que espero me ajude a resolver. Preciso localizar uma receita que pode ter sido aviada em Richmond há uns oito anos ou coisa assim.

— Em que farmácia?

— Se eu soubesse isso - repliquei ao subirmos, de elevador, para o primeiro andar - não tinha problema nenhum. Em resumo, precisamos organizar uma telemaratona, por assim dizer. O maior número de pessoas ao telefone a ligar para todas as farmácias de Richmond.

 Fielding fez uma careta.

— Bolas, Kay, devem ser pelo menos umas cem.

— Cento e trinta e três, que eu já as contei. Seis pessoas, cada uma com uma lista de vinte e duas, vinte e três. É perfeitamente razoável. Dá-me uma ajuda?

— Claro. - E fez um ar resignado.

 Para além de Fielding, recrutei o meu administrador, Rose, outra secretária, e a analista de informática. Juntámo-nos na sala de reuniões com listas das farmácias. As minhas instruções foram bem claras. Discrição.

Nem uma palavra acerca do que estávamos a fazer a familiares, amigos ou Polícia. Como a receita teria pelo menos oito anos, e Jill já falecera, era muito possível que os registos já não constassem do arquivo corrente. Disse-lhes para pedirem ao farmacêutico que procurasse no arquivo morto da farmácia. Se ele se mostrasse difícil ou relutante em dar a informação, passassem a chamada para mim.

 Depois seguiu cada um para o seu gabinete. Duas horas depois, Rose entrou no meu, massajando delicadamente a orelha direita.

 Entregou-me uma folha de mensagem telefónica e não conseguiu conter um sorriso triunfante.

— Boulevard Drug Store, na esquina da Boulevard com a Broad. Jill Harrington aviou lá duas receitas de Librax. - E deu-me as datas.

— Quem era o médico?

— A doutora Anna Zenner - respondeu ela.

 C'um diabo.

 Disfarçando a surpresa, felicitei-a:

— É maravilhosa, Rose. Tire o resto do dia.

— De qualquer maneira ia sair às quatro e meia. Estou é atrasada.

— Então faça uma pausa de três horas para o almoço amanhã. - Apeteceu-me dar-lhe um abraço. - E diga aos outros que a missão está cumprida. Podem largar os telefones.

— Essa doutora Zenner não era, ainda há pouco tempo, a presidente da Academia de Medicina de Richmond? - perguntou Rose, parando, com ar pensativo, à porta. - Acho que li qualquer coisa acerca dela. Ah! É música.

— Foi presidente da Academia há dois anos. E sim, toca violino na Orquestra Sinfónica de Richmond.

— Então conhece-a - comentou a minha secretária, impressionada.

 Bem de mais, pensei, pegando no auscultador.

 Nessa noite, quando eu já estava em casa, Anna Zenner ligou em resposta ao meu telefonema.

— Vejo, pelos jornais, que tem andado muito ocupada ultimamente, Kay - disse ela. - Está-se a aguentar?

 Interroguei-me se ela lera o Post. A edição de hoje incluíra uma entrevista com Hilda Ozimek e um retrato dela com a legenda: "Vidente sabia que estavam todos mortos". Eram citados familiares e amigos dos casais assassinados; e um colorido diagrama, mostrando onde os carros e os corpos tinham sido encontrados, ocupava meia página. Camp Peary surgia, ominosamente, no centro do desenho, como a caveira e as tíbias num mapa dos piratas.

— Estou bem - respondi-lhe. - E ficarei ainda melhor se puder ajudar-me numa coisa. - Expliquei-lhe o que precisava, acrescentando:

— Amanhã envio-lhe por fax o documento legal que me dá acesso à ficha médica de Jill Harrington.

 Tratava-se de um pró-forma. Mesmo assim era constrangedor estar a recordar-lhe a minha autoridade legal.

— Pode trazê-lo pessoalmente. Jantar às sete, na quarta-feira?

— Não precisa ter essa maçada...

— Não é maçada nenhuma, Kay - interrompeu ela, carinhosamente. — Já tenho saudades de a ver.

 

 Os tons pastel art deco da parte alta da cidade faziam-me lembrar Miami Beach. Os edifícios eram cor-de-rosa, amarelos e azul Wedg wood, com batentes de latão nas portas, e bonitas flâmulas feitas à mão, tremulando por cima das entradas, uma imagem ainda mais incongruente por causa do tempo. A chuva transformara-se em neve.

 O trânsito à hora de ponta estava horrível e tive de dar duas voltas ao quarteirão para encontrar um lugar vago a uma distância razoável, a pé, da minha loja de bebidas preferida. Escolhi quatro bons vinhos, dois tintos, dois brancos.

 Segui depois pela Monument Avenue, onde as estátuas equestres de generais da Confederação presidiam nas rotundas, fantasmagóricas por entre o leitoso remoinho da neve. No Verão passado eu fizera semanalmente aquele trajecto, a caminho da casa de Anna, tendo as visitas começado a espaçar-se no Outono, cessando por completo no Inverno.

 Ela tinha o consultório em casa, uma das encantadoras casas antigas, de ripas brancas, na rua em que os passeios eram de calçada, e lampiões a gás brilhavam à noite. Tocando a campainha para anunciar a minha chegada, tal como faziam os seus pacientes, entrei para um vestíbulo que dava directamente para a sala de espera de Anna. Poltronas de couro rodeavam uma mesa de centro atulhada de revistas, e um velho tapete persa cobria o chão de soalho. Havia brinquedos dentro de uma caixa para os pacientes mais novos, a um canto; uma secretária de recepcionista, uma máquina de café e uma lareira. Ao fundo de um longo corredor ficava a cozinha, onde alguma coisa ao lume me fez lembrar que não tinha almoçado.

— Kay? É você?

 A voz inconfundível, com o forte sotaque alemão, soou acompanhada de passinhos rápidos, e Anna apareceu-me à frente limpando as mãos ao avental para me dar um abraço.

— Trancou a porta quando entrou?

— Tranquei, e deve trancar sempre a porta depois de sair o último paciente, Anna - disse, como costumava dizer.

— A minha última paciente é você.

 Fui atrás dela até à cozinha.

— Todos os seus pacientes lhe trazem vinho?

— Não o permitiria. E não cozinho para eles nem convivo com eles. Mas consigo infrinjo todas as regras.

— Sim - repliquei, com um suspiro. - Como poderei alguma vez retribuir-lhe?

— Não com os seus serviços, espero bem. - Pousou o saco das compras em cima da bancada.

— Juro que seria muito meiguinha.

— E eu estaria muito nuazinha e muito morta e estava-me nas tintas para a sua meiguice. Tenciona embebedar-me ou apanhou algum saldo?

— Esqueci-me de lhe perguntar o que era o jantar - expliquei. — Não sabia se havia de trazer tinto ou branco. Pelo seguro, comprei duas de cada.

— Então lembre-me para nunca lhe dizer o que vou cozinhar. Caramba, Kay! - Pousou as garrafas. - Têm um aspecto óptimo. Quer beber já um copo ou prefere alguma coisa mais forte?

— Decididamente, alguma coisa mais forte.

— O costume?

— Se faz favor. - Olhando para a grande panela a fervilhar em cima do fogão, acrescentei: - Espero que seja o que eu estou a pensar. — Anna fazia um chili fabuloso.

— É para nos aquecermos. Juntei-lhe uma lata dos pimentos verdes e tomates que me trouxe da última vez que foi a Miami. Tenho estado a guardá-los. Há pão levedado no forno e salada de repolho. A propósito, como vai a família?

— Lucy começou de repente a interessar-se por rapazes e carros, mas só vou levar isso a sério quando se interessar mais por eles que pelo computador - respondi. - A minha irmã vai publicar outro livro para crianças, no mês que vem, e continua sem saber nada da criança que, supostamente, devia andar a criar. Quanto à minha mãe, para lá dos habituais protestos e resmungos por aquilo em que Miami se transformou, onde já ninguém fala inglês, está óptima.

— Foi lá passar o Natal?

— Não.

— A sua mãe perdoou-lhe?

— Ainda não - respondi.

— Não posso censurá-la. As famílias deviam reunir-se no Natal.

 Não dei resposta.

— Mas isso é bom - surpreendeu-me ela ao dizer. - Não lhe apeteceu ir a Miami, portanto não foi. Eu sempre lhe disse que as mulheres precisavam aprender a ser egoístas. Talvez esteja a aprender a ser egoísta, não?

— Acho que o egoísmo foi sempre uma coisa bastante fácil para mim, Anna.

— Quando deixar de ter remorsos por isso, terei a certeza que está curada.

— Ainda tenho remorsos, portanto acho que não estou curada. Tem toda a razão.

— Sim. Bem vejo.

 Observei-a enquanto abria uma garrafa para a deixar respirar, as mangas de uma blusa de algodão branco arregaçadas até aos cotovelos, antebraços firmes e fortes como os de uma mulher com metade da idade dela. Não imaginava como teria sido, mais nova, mas aos setenta anos era uma mulher vistosa, com vincadas feições teutónicas, cabelo branco curto e olhos azuis-claros. Abrindo um armário da cozinha, pegou nas garrafas e, num piscar de olhos, entregou-me um uísque com soda e preparou um manhattan para ela.

— Que aconteceu desde a última vez que a vi, Kay? - Levámos as bebidas para a mesa da cozinha. - Isso foi quando, antes do Dia de Acção de Graças? Claro, já falámos pelo telefone. Estava preocupada por causa do livro, não era?

— Sim, sabe do livro da Abby, pelo menos sabe tanto como eu. E sabe destes casos. De Pat Harvey. Sabe tudo. - Puxei dos cigarros.

— Tenho andado a seguir isso pelas notícias. Está com bom aspecto. Mas um bocadinho cansada. Talvez demasiado magra?

— Nunca se está magra de mais - respondi.

— Já a vi com pior aspecto, era o que eu queria dizer. Então lá vai aguentando o stress do seu trabalho.

— Há dias melhores que outros.

 Anna bebericou o manhattan olhando pensativamente para o fogão.

— E o Mark?

— Vi-o - respondi. - E temos falado ao telefone. Continua confuso, inseguro. E acho que eu também. Portanto, não há novidades.

— Viu-o. Isso é novidade.

— Ainda o amo.

— Isso não é novidade.

— É tão difícil, Anna. Sempre foi. Não percebo por que é que não consigo desligar-me.

— Porque os sentimentos são fortes, mas tanto um como outro têm medo de assumir compromissos. Ambos querem a excitação e fazer as coisas à sua maneira. Reparei que faziam alusão a ele no jornal.

— Eu sei.

— E?

— Não lhe disse nada.

— Nem era preciso. Se ele próprio não viu o jornal, de certeza que alguém do FBI o mandou chamar. Se estiver aborrecido, você acaba por saber, não?

— Tem razão - disse eu, aliviada. - Acabo por saber.

— Então pelo menos têm contactado. Está mais contente?

 Estava.

— Tem esperanças?

— Estou disposta a ver o que acontece - respondi. - Mas não acredito que resulte.

— Nunca ninguém pode ter a certeza de nada.

— Ora aí está uma triste verdade - comentei. - Não posso ter a certeza de nada. Só sei aquilo que sinto.

— Nesse caso já vai à frente do rebanho.

— Seja lá que rebanho for, se eu vou à frente dele, então aí está outra triste verdade - admiti.

 Ela levantou-se para ir tirar o pão do forno. Vi-a encher taças de barro com chili, mexer a salada de repolho e deitar o vinho nos copos.

Lembrando-me do documento que trouxera, tirei-o da carteira e pu-lo em cima da mesa.

 Anna nem sequer olhou para ele enquanto nos servia e se sentava.

 Depois perguntou:

— Gostava de ver a ficha dela?

 Eu conhecia-a suficientemente bem para saber que Anna não registava os pormenores das suas consultas. Pessoas como eu têm direito, por lei, às fichas médicas, e esses documentos podem vir também a ser apresentados em tribunal. Pessoas como Anna são demasiado espertas para registar, por escrito, as confidências que lhes fazem.

— Por que não me faz um resumo? - propus-lhe.

— Diagnostiquei-lhe um distúrbio de ajustamento - disse ela.

 Era o equivalente a eu dizer que a morte de Jill se devia a uma paragem respiratória ou cardíaca. Quando se leva um tiro, ou nos passa um comboio por cima, morre-se porque se deixa de respirar e o coração pára. O diagnóstico de distúrbio de ajustamento era uma generalização saída do Manual de Diagnóstico e Estatistica das Doenças Mentais.

Permitia que o paciente fizesse um seguro de vida sem divulgar a mais pequena informação útil sobre a sua história clínica ou problemas.

— Toda a raça humana tem distúrbios de ajustamento - comentei.

 Anna fez um sorriso.

— Respeito a sua ética profissional - prossegui - e não tenciono alterar os meus próprios registos acrescentando dados que considere confidenciais. Mas é importante que eu saiba algo sobre Jill que possa elucidar-me quanto à morte dela. Se havia, por exemplo, alguma coisa no seu estilo de vida que possa tê-la colocado em risco.

— Eu também respeito a sua ética profissional.

— Obrigada. Agora, definida que está a admiração mútua pela justeza e integridade de cada uma, podemos pôr de lado as formalidades e ter uma conversa?

— Com certeza, Kay - respondeu ela, delicadamente. - Lembro-me muito bem de Jill. Não é difícil recordarmos uma paciente invulgar, sobretudo tendo ela sido assassinada.

— Que tinha ela de especial?

— Especial? - Fez um sorriso triste. - Uma jovem muito inteligente, amorosa. Com tanto a seu favor. Eu estava sempre ansiosa pelas consultas dela. Se não tivesse sido minha paciente, gostaria de tê-la conhecido como amiga.

— Durante quanto tempo é que ela a consultou?

— Três ou quatro vezes por mês, durante mais de um ano.

— Porquê a Anna? - perguntei. - Por que não alguém de Williamsburg? Alguém mais perto do sítio onde ela morava?

— Tenho um grande número de pacientes que vêm de fora. Alguns chegam a vir de Filadélfia.

— Porque não querem que ninguém saiba que andam num psiquiatra.

 Ela acenou com a cabeça.

— Infelizmente, muitas pessoas ficam aterrorizadas só com a hipótese de os outros virem a saber. Não imagina a quantidade de gente que vem a este consultório e sai pela porta das traseiras.

 Eu nunca dissera a ninguém que andava num psiquiatra e se Anna não se recusasse a cobrar-me as consultas eu pagar-lhas-ia em dinheiro.

Era só o que me faltava, que alguém das Deduções Fiscais pegasse nas minhas apólices e espalhasse o mexerico por todo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

— Então é óbvio que Jill não queria que se soubesse que ela andava num psiquiatra - afirmei. - E talvez isso explique também por que é que aviou as receitas de Librax em Richmond.

— Antes de me telefonar, eu não sabia que ela tinha aviado as receitas em Richmond. Mas não me admira nada. - Levou a mão ao copo.

 O chili estava suficientemente picante para me fazer chorar. Mas também espectacular: Anna esmerara-se e eu fiz-lho saber. Depois contei-lhe o que ela, provavelmente, já suspeitava.

— É possível que Jill e a amiga dela, Elizabeth Mott, tenham sido assassinadas pelo mesmo indivíduo que anda a matar estes casais — disse-lhe. — Pelo menos há certas semelhanças entre os homicídios delas e os outros que me levam a ficar preocupada.

— Não estou interessada nos casos em que actualmente está envolvida, a menos que ache necessário contar-me. Por isso faça lá as perguntas que eu tentarei recordar-me o melhor que puder dos pormenores da vida de Jill.

— Por que tinha ela tanto receio que se soubesse que andava num psiquiatra? Que andava a esconder? - perguntei.

— Jill pertencia a uma família importante do Kentucky e para ela era muito importante merecer a aprovação, a aceitação, deles. Andou nas melhores escolas, foi boa aluna e ia ser uma advogada de sucesso. A família tinha muito orgulho nela. Não sabiam.

— Não sabiam o quê? Que ela andava num psiquiatra?

— Isso também - respondeu Anna - Mas o mais importante é que não sabiam que ela mantinha uma relação homossexual.

— Com Elizabeth? - Eu já sabia a resposta antes mesmo de perguntar. Era uma hipótese que já me ocorrera.

— Sim. Jill e Elizabeth tornaram-se amigas durante o primeiro ano de Jill na faculdade de Direito. Depois tornaram-se amantes. A relação era muito intensa, muito difícil, conflituosa. Era a primeira vez para ambas, pelo menos foi assim que Jill me apresentou a questão. Lembre-se que eu não cheguei a conhecer Elizabeth, nunca ouvi a versão dela. De início Jill veio consultar-me porque queria modificar-se. Não queria ser homossexual, esperava que a terapia lhe devolvesse a heterossexualidade.

— Viu alguma esperança nisso? - perguntei-lhe.

— Não sei o que acabaria por acontecer - respondeu Anna. — Só posso dizer-lhe que, com base no que Jill me contava, o seu vínculo com Elizabeth era bastante forte. Fiquei com a impressão de que Elizabeth se sentia mais à vontade com a relação do que Jill, que, intelectualmente, não conseguia aceitá-la, mas emocionalmente não conseguia desligar-se.

— Deve ter sido um tormento para ela.

— Nas últimas vezes em que a vi, o problema agudizara-se. Acabara de formar-se em Direito. Tinha o futuro todo à sua frente. Estava na altura de tomar decisões. Começou a ter problemas psicossomáticos. Colite espástica. Receitei-lhe Librax.

— Jill alguma vez lhe falou de alguma coisa que pudesse dar-lhe uma pista quanto à pessoa que lhes terá feito aquilo?

— Pensei nisso, analisei cuidadamente a questão depois do que aconteceu. Quando li a notícia nos jornais, nem queria acreditar. Ainda há três dias eu vira Jill. Não imagina o esforço que fiz para me concentrar em tudo o que ela me tinha dito. Esperava lembrar-me de alguma coisa, de algum pormenor importante. Mas nunca me lembrei.

— Ambas ocultavam a relação?

— Sim.

— E algum namorado, alguém com quem Jill ou Elizabeth saísse de vez em quando? Para disfarçar?

— Nenhuma delas namorava, pelo que sei. Não houve, portanto, nenhuma situação de ciúmes, a menos que tenha havido alguma coisa de que não soubesse. - Olhou para a minha taça vazia. - Mais chili?

— Não consigo.

 Ela levantou-se para pôr a louça na máquina. Por um instante ficámos caladas. Anna desatou o avental e pendurou-o num gancho dentro do armário das vassouras. Depois levámos os copos e a garrafa para o escritório.

 Era a minha divisão preferida. Estantes forravam duas paredes, uma terceira tinha ao meio uma bay window através da qual Anna podia apreciar, da secretária atulhada de papéis, o despontar das flores ou a neve a cair no pequeno quintal. Dessa janela tinha eu visto florir magnólias num esplendor de branco esverdeado, vira desvanecerem-se as últimas pinceladas do Outono. Faláramos da minha família, do meu divórcio, e de Mark. Faláramos de sofrimento e faláramos de morte. Da gasta cadeira de baloiço de couro onde me sentava, levara-a, constrangidamente, a percorrer o trajecto da minha vida, tal como Jill Harrington havia feito.

 Tinham sido amantes. Isso relacionava-as com os outros casais assassinados e tornava ainda mais implausível a teoria do "engate de bar", como frisei a Anna.

— Concordo consigo - disse ela.

— Foram vistas pela última vez no Anchor Bar and Grill. Jill falou-lhe alguma vez desse bar?

— Pelo nome, não. Mas falou-me de um bar a que elas iam de vez em quando, um sítio onde conversavam. Às vezes iam para restaurantes fora do centro, onde ninguém as conhecia. Outras vezes iam dar um passeio de carro. Normalmente, davam esses passeios quando tinham alguma discussão acesa por causa da relação.

— Se estivessem a ter uma dessas discussões naquela sexta-feira à noite no Anchor, deviam estar aborrecidas, uma delas se calhar até a sentir-se rejeitada, furiosa - aventei. - É possível que alguma delas tenha tomado a iniciativa de engatar um homem, de o provocar, para irritar a outra?

— Não digo que fosse impossível - respondeu Anna -, mas admirava-me muito. Nunca me pareceu que Jill e Elizabeth fizessem desses joguinhos uma com a outra. Estou mais inclinada a achar que quando falaram, nessa noite, a conversa foi muito séria e que se calhar até se esqueceram do que as rodeava, apenas concentradas uma na outra.

— Alguém que estivesse a observá-las pode ter ouvido o que diziam.

— É esse o perigo de se ter conversas íntimas em público, e falei disso a Jill.

— Se ela tinha assim tanto medo que alguém desconfiasse, então para que corria o risco?

— Não era uma pessoa resoluta, Kay - afirmou Anna, levando a mão ao copo. - Quando estavam sozinhas, era muito fácil refugiarem-se na intimidade. Abraços, palavras de conforto, lágrimas e nada de decisões.

 Aquilo pareceu-me familiar. Quando eu e Mark tínhamos discussões, quer em casa dele quer na minha, elas acabavam, inevitavelmente, na cama. Depois, um de nós ia-se embora e os problemas continuavam na mesma.

— Anna, alguma vez pensou que a relação delas pudesse ter alguma coisa a ver com o que lhes aconteceu? - perguntei.

— Pelo contrário, a relação delas faz com que pareça ainda mais estranho. Penso que uma mulher sozinha num bar à procura de um engate corre um perigo muito maior que duas mulheres juntas e nada interessadas em atrair as atenções.

— Voltemos à questão dos hábitos e rotinas delas - disse eu.

— Moravam no mesmo complexo de apartamentos mas não viviam juntas, e, uma vez mais, por causa das más línguas. Mas era cómodo. Podiam fazer cada uma a sua vida e depois juntar-se à noite no apartamento de Jill. Jill preferia que fosse em casa dela. Lembro-me de me ter dito que se os pais ou outras pessoas tentassem telefonar-lhe várias vezes à noite e ela nunca estivesse em casa, começariam a achar estranho. - Fez uma pausa, a pensar. - Jill e Elizabeth também faziam exercício, mantinham-se em muito boa forma. Corriam, acho eu, mas nem sempre o faziam juntas.

— Iam correr para onde?

— Acho que havia um parque perto do sítio onde moravam.

— Mais alguma coisa? Teatros, lojas, centros comerciais que frequentassem?

— Não me lembro de nada.

— Que lhe diz a sua intuição? Que lhe disse ela na altura?

— Calculei que Jill e Elizabeth estivessem a ter uma conversa difícil no bar. Se calhar não queriam ser incomodadas e reagiram mal a alguma intromissão.

— E depois?

— É óbvio que, a certa altura da noite, depararam com o seu assassino.

— Faz ideia de como isso terá acontecido?

— Sempre achei que seria alguém que elas conheciam, ou pelo menos o suficiente para não terem motivo para não confiar nele. A menos que tenham sido sequestradas, com uma arma apontada, por uma ou mais pessoas no parque de estacionamento do bar ou noutro sítio qualquer onde possam ter ido.

— E se um desconhecido as abordou no parque de estacionamento do bar, lhes pediu uma boleia para um sítio qualquer, alegando estar com problemas no carro dele...

 Ela já estava a abanar a cabeça.

— Não se coaduna com o que sei a respeito delas. Repito, a menos que fosse alguém que já conhecessem.

— E se o assassino se fez passar por um agente da Polícia, se as mandou parar numa simples operação auto-stop?

— Isso é diferente. Creio que num caso desses até uma de nós se deixava apanhar.

 Anna parecia cansada e por isso agradeci-lhe o jantar e o tempo que me dispensara. Eu sabia que a nossa conversa lhe era penosa e perguntei a mim mesma como me sentiria no lugar dela.

 Minutos depois de entrar em casa, tocou o telefone.

— Uma última coisa de que me lembrei mas se calhar não tem importância - disse Anna. - Jill disse qualquer coisa a respeito de elas as duas fazerem quebra-cabeças quando queriam ficar em casa, só as duas, aos domingos de manhã, por exemplo. Insignificante, talvez. Mas é uma rotina, uma coisa que faziam juntas.

— Livros de quebra-cabeças? Ou aqueles que vêm nos jornais?

— Não sei. Mas Jill lia muitos jornais, Kay. Trazia sempre qualquer coisa para ler enquanto esperava pela consulta. O Wall Street Journal, o Washington Post.

 Agradeci-lhe novamente e disse-lhe que para a próxima quem cozinhava era eu. Depois liguei para Marino.

— Foram assassinadas duas mulheres em James City County, há oito anos - disse-lhe indo directa ao assunto. - É possível que haja uma ligação. Conhece o detective Montana, de lá?

— Sim. Já fomos apresentados.

— Precisamos de nos reunir com ele, rever os processos. Acha que ele consegue ficar de bico calado?

— Essa agora. Sei lá! - respondeu Marino.

 Montana tinha uma figura a condizer com o nome, alto, anguloso, com uns olhos azuis desbotados num rosto de traços firmes, franco, culminado por uma farta cabeleira grisalha. O sotaque era tipicamente virginiano, o diálogo polvilhado de yes ma'ams. Na tarde seguinte, encontrámo-nos com ele em minha casa, onde disporíamos de privacidade sem sermos interrompidos.

 Montana deve ter esgotado o seu orçamento anual para rolos fotográficos no caso de Jill e Elizabeth, pois a cobrir a minha mesa da cozinha estavam fotos dos corpos no local do crime, do Volkswagen abandonado no motel Palm Leaf do Anchor Bar and Grill e, espantosamente, de todas as divisões dos apartamentos delas, incluindo despensas e roupeiros. Trazia uma pasta cheiinha de apontamentos, mapas, transcrições de interrogatórios, diagramas, inventários de provas, registos de pistas dadas por telefone. É o que se passa com os detectives que raramente têm homicídios nas suas áreas. Casos como estes acontecem uma ou duas vezes nas suas carreiras e eles investigam-nos meticulosamente.

— O cemitério fica mesmo ao lado da igreja - disse ele, empurrando mais para o pé de mim uma das fotos.

— Parece bastante antiga - comentei, admirando os tijolos e telhas de lousa gastos pelo tempo.

— É e não é. Foi construída no século XVIII, aguentou-se bem até há cerca de vinte anos, quando um curto-circuito a destruiu. Lembro-me de ver o fumo, estava de serviço, pensei que era a casa de lavoura de um dos meus vizinhos agricultores que estava a arder. Houve uma sociedade histórica qualquer que se interessou. Para que ficasse como era dantes, tanto por dentro como por fora.

 "Chega-se lá por esta estrada secundária, aqui - bateu com o dedo noutra foto - que fica a menos de quatro quilómetros da Route Sessenta e a cerca de seis quilómetros e meio a oeste do Anchor Bar, onde as jovens foram vistas pela última vez, com vida, na noite anterior.

— Quem encontrou os corpos? - perguntou Marino, passeando o olhar pelas fotografias espalhadas.

— Um zelador que trabalhava para a igreja. Chegou no sábado de manhã para fazer a limpeza, preparar as coisas para domingo. Diz que tinha acabado de parar o carro quando viu o que lhe pareceu duas pessoas a dormir na relva, dentro do cemitério, a uns seis metros do portão. Os corpos viam-se do parque de estacionamento da igreja.

Pelos vistos, quem fez aquilo não estava muito preocupado que alguém os encontrasse.

— Devo concluir que não houve qualquer actividade na igreja nessa sexta-feira à noite? - perguntei.

— Não. Trancada a sete chaves, não se realizou lá nada.

— A igreja costuma marcar actividades para as noites de sexta-feira?

— De vez em quando. Às vezes os grupos de jovens juntam-se lá nas noites de sexta-feira. Noutras há ensaio do coro, coisas desse género. A questão é: não fazia absolutamente sentido nenhum escolher, com antecedência, aquele cemitério para matar alguém. Não há garantia nenhuma de que a igreja vá estar deserta, em nenhuma noite da semana. Um dos motivos por que eu achei, desde o princípio, que os crimes não foram premeditados, as moças devem ter conhecido alguém, talvez no bar. Não há grandes indícios, nestes casos, que me levem a pensar que os homicídios tenham sido cuidadosamente planeados.

— O assassino estava armado - recordei-lhe. - Tinha uma faca e uma pistola.

— O mundo está cheio de gente que anda com facas, com armas, nos carros ou mesmo consigo - retorquiu ele, calmamente.

 Peguei nas fotos dos corpos in situ e comecei a observá-las cuidadosamente.

 As mulheres estavam a menos de um metro uma da outra, deitadas na relva entre duas lápides de granito meio tombadas. Elizabeth estava de bruços, pernas ligeiramente afastadas, o braço esquerdo debaixo da barriga, o direito esticado ao longo do corpo. Esbelta, com cabelo castanho curto, vestia jeans e uma camisola branca manchada de vermelho escuro à volta do pescoço. Noutra fotografia, o seu corpo havia sido voltado para cima e a parte da frente da camisola estava ensopada em sangue, nos olhos o olhar vítreo da morte. O golpe na garganta era superficial, o ferimento de bala no pescoço não imediatamente incapacitante, recordava-me de ter lido no relatório da autópsia. Fora o golpe no peito que a matara.

 Os ferimentos de Jill haviam sido muito mais mutiladores. Estava deitada de costas, o rosto tão manchado de sangue seco que não consegui ver como seria em vida, excepto que tinha cabelo preto, curto, e um nariz direitinho, bonito. Tal como a companheira, tinha um corpo esbelto. Vestia jeans e uma camisa de algodão amarelo-claro, ensanguentada, desfraldada e aberta até à cintura, deixando ver múltiplas feridas de arma branca, algumas das quais lhe tinham atravessado o soutien. Exibia golpes profundos nos antebraços e nas mãos.

O do pescoço era superficial e provavelmente infligido quando já estava morta, ou quase morta.

 As fotografias pouco valor teriam se não fosse um pormenor importante.

Revelavam algo que eu não conseguira saber por nenhum dos recortes de jornais, ou relatórios que lera sobre os casos delas, arquivados nos meus serviços.

 Virei-me de lado para Marino e trocámos um breve olhar.

 Depois perguntei a Montana:

— Que aconteceu aos sapatos delas?

 

— Sabe, ainda bem que me fala nisso - respondeu Montana. Nunca consegui arranjar uma boa explicação para o facto de as moças se terem descalçado, a menos que estivessem no motel, se tivessem vestido quando chegou a altura de se irem embora e não se preocupassem com isso. Encontrámos os sapatos e as meias delas dentro do Volkswagen.

— Estava calor, nessa noite? - perguntou Marino.

— Estava. Mesmo assim, seria de esperar que se tornassem a calçar quando se vestiram.

— Não sabemos ao certo se elas chegaram a estar num quarto de motel - recordei-lhe.

— Tem razão - concordou ele.

 Interroguei-me se Montana teria lido a série de artigos do Post, em que era referido o desaparecimento dos sapatos e meias nos outros crimes. Se lera, não me parecia que já tivesse feito a associação.

— Teve muito contacto com a jornalista Abby Turnbull quando ela fez a reportagem sobre as mortes de Jill e Elizabeth? - perguntei-lhe.

— A fulana andava atrás de mim como latas atadas ao rabo de um cão. Para onde quer que eu fosse, lá estava ela.

— Lembra-se de lhe ter dito que Jill e Elizabeth estavam descalças? Mostrou-lhe as fotos tiradas no local do crime? - perguntei, pois Abby era suficientemente esperta para não se esquecer de um pormenor desses, sobretudo sendo ele, agora, tão importante.

 Montana respondeu sem hesitação:

— Falei com ela, mas não, nunca lhe mostrei estas fotos. E também tive muito cuidado com o que lhe disse. Leu o que veio nos jornais, não leu?

— Vi alguns dos artigos.

— Não vinha lá nada acerca da maneira como as moças estavam vestidas, da camisa de Jill ter sido rasgada, de estarem sem sapatos nem meias.

 Então Abby não sabia, pensei aliviada.

— Reparei, pelas fotografias da autópsia, que ambas tinham marcas de atamento nos pulsos - disse-lhe. - Recuperaram o que teria servido para as amarrar?

— Não.

— Então pelos vistos ele retirou as ataduras depois de as matar - observei - Foi muito cauteloso. Não encontrámos nenhuma cápsula, nenhuma arma, nada que pudesse ter servido para as amarrar. Nem líquido seminal. Portanto não parece que a intenção dele fosse violá-las, ou, se o fez, não temos como prová-lo. E estavam ambas completamente vestidas. Agora, quanto ao pormenor da camisa rasgada - estendeu a mão para a foto de Jill -, isso pode ter acontecido enquanto lutavam um com o outro.

— Encontrou botões no local do crime?

— Vários. No meio da relva, junto ao corpo dela.

— E pontas de cigarro?

 Calmamente, Montana começou a procurar na papelada.

— Nada de pontas de cigarro. - Fez uma pausa, separando um relatório. - Mas vou dizer-lhes o que encontrámos. Um isqueiro, um belo isqueiro de prata.

— Onde? - perguntou Marino.

— Para aí a uns três metros e meio do sítio onde estavam os corpos. Como podem ver, há uma vedação de ferro a toda a volta do cemitério. Entra-se por este portão. - Mostrou-nos outra fotografia.

— O isqueiro estava no meio da relva, a metro e meio, dois metros, da parte de dentro do portão. Um desses isqueiros caros, fininhos, do formato de uma caneta de tinta permanente, dos que se usa para acender cachimbos.

— Funcionava? - perguntou Marino.

— Funcionava perfeitamente, muito bem polido - recordou Montana. — Tenho a certeza que não pertencia a nenhuma das moças.  Elas não fumavam e ninguém, das pessoas com que falei, se lembrava de ter visto alguma delas com um isqueiro desses. Talvez tenha caído do bolso do assassino, quem sabe? Pode ter sido alguém que o perdeu, se calhar alguém que por lá andou um ou dois dias antes a visitar aquilo. Sabem como as pessoas gostam de passear nos velhos cemitérios, a ver as campas.

— Verificaram se o isqueiro tinha impressões digitais? - perguntou Marino.

— A superfície não era muito boa para isso. A prata está toda gravada com aqueles desenhos que se costuma ver nalgumas dessas canetas de prata, muito caras. - Fez um ar pensativo. - Deve ter custado umas centenas de dólares.

— Ainda tem o isqueiro e os botões que encontrou lá? - perguntei-lhe.

— Tenho todas as provas relativas a estes casos. Sempre esperei que um dia viéssemos a solucioná-los.

 Não esperava mais do que eu e só mais tarde, depois de ele se ir embora, é que começámos a falar do que realmente nos preocupava.

— É o mesmo sacana - afirmou Marino, com uma expressão incrédula. - O estupor do marado obrigou-as a descalçarem-se, tal como fez com os outros casais. Para lhes abrandar o passo, quando as levou para o sítio onde tencionava matá-las.

— Que não era o cemitério - disse eu. - Não creio que tenha sido o local escolhido por ele.

— Sim. Acho que, com essas duas, ele teve mais problemas do que contava. Não colaboraram, ou qualquer coisa deu para o torto que o acagaçou - se calhar tem a ver com o sangue no banco de trás do Volkswagen. Por isso obrigou-as a parar o carro na primeira oportunidade, que por acaso foi numa igreja escura, deserta, com um cemitério ao lado. Tem aí à mão algum mapa da Virgínia?

 Fui ao escritório procurar um. Marino abriu-o em cima da mesa da cozinha e estudou-o durante um bom bocado.

— Dê uma olhadela - disse-me, muito sério. - O ramal para a igreja fica mesmo aqui, na Route Sessenta, uns três quilómetros antes de se chegar à estrada que vai dar à zona arborizada onde Jim Freeman e Bonnie Smyth foram mortos cinco, seis anos depois. Quer dizer que passámos pelo raio da estrada que vai dar à igreja onde as duas mulheres foram mortas, quando, no outro dia, fomos a casa de Mr. Joyce.

— Santo Deus! - exclamei. - E se...

— Pois é, isso também pergunto eu - interrompeu Marino. – Se calhar o marado andava por lá no meio da mata, a escolher o sítio ideal, quando o Raisparta o surpreendeu. Vai daí, mata o cão. Cerca de um mês depois, apanha o seu primeiro par de vítimas, Jill e Elizabeth.

Tenciona obrigá-las a levá-lo de carro até essa zona arborizada mas as coisas descontrolam-se. Acaba mais cedo com a viagem. Ou talvez se tenha enganado, feito confusão, e diz a Jill ou a Elizabeth para virar na estrada errada. A seguir vê a igreja, e agora está mesmo baralhado de todo, percebe que não viraram onde deviam virar. Talvez nem faça a mínima ideia de onde estão.

 Tentei imaginar a cena. Uma das mulheres ao volante e a outra no banco do passageiro, o assassino no banco de trás com uma arma apontada. Que acontecera para que ele perdesse assim tanto sangue?

Teria, sem querer, dado um tiro a si mesmo? Era altamente improvável.

Ter-se-ia cortado com a faca? Talvez, mas também me custava a crer. O sangue dentro do carro, reparara eu nas fotos de Montana, parecia começar por salpicos, na parte de trás do encosto de cabeça. Também havia salpicos no banco de trás, e muito sangue no tapete. O que colocava o assassino mesmo por trás do banco do passageiro, inclinado para a frente. Estaria ele a sangrar da cabeça, ou do rosto?

 Uma hemorragia nasal?

 Aventei a hipótese a Marino.

— Tinha de ser uma hemorragia e tanto. Com aquele sangue todo. - Pensou por um instante. - Por isso talvez uma das mulheres lhe tenha dado uma cotovelada, atingindo-o no nariz.

— Como é que reagia se uma das mulheres lhe tivesse feito isso? - perguntei-lhe. - Supondo que era um assassino.

— Não tornaria a fazê-lo. Se calhar não lhe dava um tiro dentro do carro mas era capaz de lhe ferrar um murro, de lhe dar uma coronhada na cabeça.

— Não havia sangue no banco da frente - recordei-lhe. - Absolutamente nenhum indício de que alguma delas tenha sido agredida dentro do carro.

— Hummmm.

— Estranho, não é?

— Sim - replicou ele, com um franzir do sobrolho. - Ele está no banco de trás, inclinado para a frente, e de repente começa a sangrar? Estranho como o caraças.

 Pus outro bule de café a fazer enquanto considerávamos outras hipóteses. Para começar, continuávamos sem saber como é que um indivíduo consegue dominar duas pessoas.

— O carro pertencia a Elizabeth - disse eu. - Partamos por isso do princípio de que era ela quem ia a conduzir. Como é óbvio, nessa altura não tinha as mãos amarradas.

— Mas Jill podia ter. Ele pode ter feito isso durante o trajecto, obrigando-a a levantar bem os braços, para ele, do banco de trás conseguir amarrar-lhe as mãos.

— Ou pode tê-la obrigado a virar-se para trás, passando as mãos por cima do encosto de cabeça - alvitrei. - Teria sido nessa altura que ela lhe bateu na cara, se foi isso que aconteceu.

— Talvez.

— Seja como for - prossegui -, vamos partir do princípio de que, quando pararam o carro, Jill já ia amarrada e descalça. A seguir ele ordena a Elizabeth que se descalce e amarra-a. Depois obriga-as, de arma apontada, a entrar para o cemitério.

— Jill tinha muitos golpes nas mãos e antebraços - frisou Marino.

— Coadunam-se com uma tentativa de se esquivar da faca com as mãos amarradas?

— Desde que tivesse as mãos amarradas à frente e não atrás das costas.

— Seria mais inteligente amarrar-lhes as mãos atrás das costas.

— Essa descoberta se calhar saiu-lhe cara e ele aperfeiçoou a técnica - reflecti.

— Elizabeth não tinha ferimentos defensivos?

— Nenhum.

— O marado matou-a primeiro - concluiu Marino. - Como é que você faria? Lembre-se que tem de lidar com dois reféns.

— Obrigava-as a deitarem-se de bruços na relva. Encostava a arma à cabeça de Elizabeth para a imobilizar, enquanto me preparava para a atacar com a faca. Se ela me surpreendesse, oferecendo resistência, talvez puxasse o gatilho, dando-lhe um tiro, quando não era de facto essa a minha intenção.

— Isso talvez explique por que é que ela foi baleada no pescoço - comentei. - Se ele tinha a arma encostada à nuca e ela ofereceu resistência, a boca do cano pode ter resvalado. A hipótese assemelha-se ao que aconteceu a Deborah Harvey, só que tenho sérias dúvidas de que ela estivesse deitada quando levou o tiro.

— Este tipo gosta de usar a faca - retorquiu Marino. - Serve-se da arma quando as coisas não correm como ele tinha planeado. E até ver, que saibamos, isso só aconteceu duas vezes. Com Elizabeth e Deborah.

— Elizabeth leva um tiro, e depois que aconteceu, Marino?

— Acaba com ela e encarrega-se de Jill.

— Jill deu-lhe luta - recordei-lhe.

— Não tenha dúvidas que deu. A amiga tinha acabado de ser assassinada. Jill sabe que não tem hipótese nenhuma mas mesmo assim debate-se com todas as forças.

— Ou talvez já estivesse a lutar com ele - aventei.

 Os olhos de Marino semicerraram-se como ele sempre fazia quando se mostrava céptico.

 Jill era advogada. Eu duvidava de que ela não soubesse dos actos cruéis de que as pessoas são capazes. Quando ela e a amiga foram obrigadas a entrar para o cemitério a altas horas da noite, deve ter percebido logo que ambas iam morrer. Uma delas, ou as duas, pode ter começado a oferecer resistência enquanto ele abria o portão de ferro. Se o isqueiro de prata pertencia mesmo ao assassino, pode ter caído do bolso nessa altura. Depois, e talvez Marino tivesse razão, o assassino obrigou-as a deitarem-se de bruços, mas, quando ele começou a ocupar-se de Elizabeth, Jill entrou em pânico e tentou proteger a amiga. A arma disparou, atingindo Elizabeth no pescoço.

— O padrão dos ferimentos de Jill revela um certo desespero, alguém que está furioso, assustado, porque perdeu o controlo - observei. - Ele pode ter-lhe dado uma coronhada na cabeça, depois pôs-se em cima dela, rasgou-lhe a blusa e começou a esfaqueá-la. Como gesto de despedida, degola-as. Depois vai-se embora no Volkswagen, abandona-o no motel e afasta-se a pé, talvez de volta ao sítio onde deixou o carro dele.

— Devia ter sangue na roupa - comentou Marino. - É estranho que não houvesse sangue nenhum na zona do condutor, só no banco de trás.

— Não se encontrou sangue na zona do condutor de nenhum dos veículos dos outros casais - volvi. - Este assassino é muito cuidadoso. É capaz de levar uma muda de roupa, toalhas, sei lá que mais, quando faz tenções de cometer esses crimes.

 Marino levou a mão ao bolso e sacou do canivete suíço. Começou a arranjar as unhas para cima de um guardanapo. Sabe Deus o que Doris lhe teria aturado naqueles anos todos, pensei. Marino nunca se devia dar ao trabalho de esvaziar um cinzeiro, levar o prato para o lava-loiça ou apanhar do chão as roupas sujas. Nem queria pensar no estado em que ficaria a casa de banho depois de ele sair de lá.

— A Abby Turncoat continua a tentar contactá-la? - perguntou, sem levantar os olhos do que estava a fazer.

— Não gosto nada que lhe chame isso.

 Ele não deu resposta.

— Nestes últimos dias não tentou, pelo menos que eu saiba.

— Achei que pudesse estar interessada em saber que ela e o Clifford Ring têm algo mais que uma relação profissional, Doutora.

— Que quer dizer com isso? - perguntei, apreensiva.

— Quero dizer que essa história sobre os casais em que a Abby anda a trabalhar não tem nada a ver com o motivo por que a tiraram da ronda policial. - Estava a arranjar o polegar esquerdo, lascas de unha a caírem para cima do guardanapo. - Pelos vistos, começou a andar tão esquisita que já ninguém conseguia aturá-la na redacção. A coisa rebentou no Outono passado, dias antes de ter vindo visitá-la a Richmond.

— Que aconteceu? - perguntei, sem tirar os olhos dele.

— Pelo que me contaram, ela fez uma cenazinha em plena redacção. Despejou um copo de café no colo do Ring e depois saiu de lá desembestada, não disse aos editores para onde ia nem quando voltava. Foi nessa altura que a transferiram para os destaques.

— Quem é que lhe contou isso?

— O Benton.

— Como é que o Benton sabe o que se passa na redacção do Post?

— Não lhe perguntei. - Marino dobrou o canivete e guardou-o no bolso. Levantando-se, arrepanhou o guardanapo e deitou-o para o lixo.

— Uma última coisa, - acrescentou, de pé no meio da cozinha - esse Lincoln em que está interessada?

— Sim?

— Um Mark Seven de 1990. Registado em nome de um tal Barry Aranoff, trinta e oito anos, branco, de Roanoke. Trabalha numa firma de equipamento médico, é vendedor. Viaja muito.

— Então falou com ele - disse eu.

— Falei com a mulher. Ele anda em viagem há duas semanas.

— Onde deveria ele estar quando eu vi o carro em Williamsburg?

— A mulher disse que não sabia ao certo qual era o roteiro dele. Parece que de vez em quando bate uma cidade por dia, num corrupio de um lado para o outro, até mesmo para fora do estado. A área dele vai até Boston. O máximo de que conseguiu lembrar-se foi que, por alturas da data que nos interessa, ele esteve em Tidewater, depois apanhou um avião no Newport News com destino a Massachusetts.

 Fiquei calada e Marino interpretou o meu silêncio como embaraço, o que não era. Estava a pensar.

— Ouça, o que fez foi um belo trabalho de detective. Não tem mal nenhum apontar uma matrícula e pedir para ver a quem ela pertence. Deve ficar contente ao saber que não andou a ser seguida por nenhum espião.

 Não fiz comentários.

 Ele acrescentou:

— A única coisa em que se enganou foi a cor. Disse que o Lincoln era cinzento-escuro. O carro do Aranoff é castanho.

 Mais tarde, nessa noite, os relâmpagos iluminavam, lá no alto, as árvores fustigadas pelo vento quando uma tempestade digna do Verão descarregou o seu violento arsenal. Eu estava sentada na cama, a passar os olhos por vários jornais enquanto esperava que a linha do capitão Montana ficasse desimpedida.

 Das duas uma, ou tinha o telefone avariado ou alguém estava a falar há duas horas. Depois de ele e Marino se terem ido embora, recordara-me do pormenor de uma das fotos que me fez pensar no que Anna me dissera, no fim. Na sala do apartamento de Jill, em cima da carpete e ao lado de uma poltrona reclinável, estava uma pilha de apontamentos jurídicos, vários jornais de fora e um exemplar da revista do New York Times. Eu nunca ligara às palavras cruzadas. Sabe Deus quantas outras coisas já tinha de solucionar. Mas sabia que as palavras cruzadas do Times eram populares como os coupons de desconto.

 Pegando no auscultador, tentei novamente o número de casa de Montana. Desta vez fui recompensada.

— Já pensou em arranjar um telefone com sistema de chamada em espera? - perguntei-lhe, jovialmente.

— Pensei foi em dar à minha filha adolescente um PBX só para ela.

— Tenho uma pergunta.

— Diga.

— Quando passaram revista aos apartamentos de Jill e Elizabeth, deduzo que tenham visto a correspondência delas.

— Sim. Vimos o correio durante uns tempos, tudo o que chegava, quem é que lhes escrevia cartas, examinámos as facturas dos cartões de crédito, esse tipo de coisas.

— Que pode dizer-me acerca de jornais que Jill assinasse e que viessem pelo correio?

 Ficou calado.

 Lembrei-me então:

— Desculpe. Os processos devem estar no seu gabinete...

— Não. Vim directamente para casa, tenho-os aqui mesmo.

Estava só a tentar lembrar-me, foi um dia cansativo. Pode aguardar um momento?

 Ouvi o barulho de virar de páginas.

— Bom, havia algumas contas para pagar, lixo postal. Mas nada de jornais.

 Surpreendida, expliquei-lhe que Jill tinha em casa vários jornais de fora.

— Nalgum sítio tinha de os arranjar.

— Talvez nas máquinas de venda automática - alvitrou ele. - Há uma data delas à volta da universidade. É o que eu acho.

 O Washington Post ou o Wall Street Journal talvez, pensei. Mas não o New York Times de domingo. O mais certo era ser comprado nalguma tabacaria ou quiosque por onde Jill e Elizabeth costumavam passar quando iam tomar o pequeno-almoço fora aos domingos.

Agradeci-lhe e desliguei.

Apagando o candeeiro, meti-me na cama a ouvir a chuva tamborilar no telhado a um ritmo imparável. Aconcheguei-me melhor nos cobertores. Invadiram-me pensamentos e imagens e vi a bolsa encarnada de Deborah Harvey, húmida e cheia de terra.

 Vander, do laboratório de impressões digitais, já a examinara, e eu, há dias, analisara o relatório.

 "Que vai fazer? - estava Rose a perguntar-me. Curiosamente, a bolsa estava numa bandeja plástica em cima da secretária dela.Não pode devolvê-la à família nesse estado.”

 "Claro que não.”

 "E se tirássemos só os cartões de crédito e coisas assim, dávamos-lhe uma lavadela e enviávamo-los? - O rosto de Rose franziu-se de raiva. Empurrou o tabuleiro e desatou aos berros: - Tire isso daqui! Não aguento mais!”

 De repente estava na minha cozinha. Pela janela, vi Mark entrar, só que o carro não me era familiar mas mesmo assim reconheci-o.

Vasculhando na pasta à procura de uma escova, dei nervosamente um jeito ao cabelo. Ainda corri para a casa de banho para lavar os dentes mas não tive tempo. A campainha tocou, apenas uma vez.

 Ele tomou-me nos braços, sussurrando o meu nome, como um pequeno grito de dor. Estranhei que ele ali estivesse, que não estivesse em Denver.

 Beijou-me enquanto empurrava a porta com o pé. Ela fechou-se com um estrondo enorme.

 Abri os olhos. Ribombar de trovões. Relâmpagos a iluminarem o quarto, uns atrás dos outros, e o meu coração aos pulos.

 Na manhã seguinte, realizei duas autópsias, depois fui lá a cima falar com Neils Vander, chefe de secção do laboratório de análise de impressões digitais. Fui dar com ele na sala do computador do Sistema Automatizado de Identificação de Impressões Digitais, absorto nos seus pensamentos diante de um monitor. Levava a minha cópia do relatório referente ao exame da bolsa de Deborah Harvey e pousei-a em cima do teclado.

— Preciso de perguntar-lhe uma coisa. - Disse-lhe, bem alto, sobrepondo a minha voz ao insistente zumbido do computador.

 Olhou para o relatório com uma expressão cansada, o cabelo grisalho e rebelde às farripas por cima das orelhas.

— Como é que descobriu alguma coisa depois de a bolsa ter estado tanto tempo na mata? Estou parva.

 Ele tornou a olhar para o monitor.

— A bolsa é de nylon, impermeável, e os cartões de crédito estavam protegidos, metidos em capas plásticas e dentro de uma divisória com um fecho de correr. Quando meti os cartões na tina de supercola, apareceram uma data de impressões esborratadas e parciais. Nem precisei de usar o laser.

— É espantoso.

 Ele fez um leve sorriso.

— Mas nada identificável - salientei.

— Desculpe lá.

— O que me interessa è a carta de condução. Nela não apareceu nada.

— Nem um borrão - confirmou ele.

— Limpa?

— Como um dente de perdigueiro.

— Obrigada, Neils.

 Ele já estava outra vez noutro sítio qualquer, no seu mundo de arcos e espirais.

 Voltei para baixo e procurei o número de telefone do 7-Eleven onde eu e Abby estivéramos no último Outono. Disseram-me que Ellen Jordan, a empregada com quem tínhamos falado, só entrava às nove da noite. Esfalfei-me durante o dia todo e sem parar para o almoço, alheia ao passar das horas. Quando cheguei a casa, não me sentia minimamente cansada.

 Estava a carregar a máquina de lavar loiça quando a campainha tocou, às oito. Enxugando as mãos a uma toalha, dirigi-me ansiosamente para a porta.

 Abby Turnbull estava especada na varanda, a gola do casaco a tapar-lhe as orelhas, rosto abatido, olhar triste. Um vento frio sacudia as escuras árvores do meu quintal e levantava-lhe madeixas de cabelo.

— Não atendeu os meus telefonemas. Espero que não me recuse a entrada em sua casa - disse ela.

— Claro que não, Abby. Faça favor. - Abri a porta toda e recuei.

 Só despiu o casaco quando eu lhe disse que o fizesse, mas, quando me ofereci para lho pendurar, ela abanou a cabeça e pô-lo nas costas de uma cadeira, como se a querer dizer-me que não ia ficar muito tempo. Trazia uns jeans desbotados e uma camisola castanha de lã grossa, entremeada com fios de algodão. Ao passar por ela para ir tirar a papelada e os jornais que tinha em cima da mesa da cozinha, senti o cheiro a tabaco, entranhado, e um forte odor a suor.

— Quer beber alguma coisa? - perguntei-lhe, e, por alguma razão, não consegui sentir-me zangada com ela.

— O que estiver a beber, para mim está bem. - Puxou dos cigarros enquanto eu preparava as bebidas.

— Não sei por onde começar - disse ela quando me sentei. - No mínimo, os artigos foram injustos para consigo. E sei o que deve estar a pensar.

— O que eu estou a pensar é irrelevante. Preferia ouvir o que tem para me dizer.

— Eu disse-lhe que tinha cometido erros - afirmou numa voz ligeiramente trémula. - Cliff Ring foi um deles.

 Mantive-me calada.

— Ele é repórter de investigação, uma das primeiras pessoas que conheci quando fui para Washington. Muito famoso, excitante. Inteligente e seguro de si mesmo. Eu estava vulnerável, acabada de chegar a uma cidade nova, depois de passar por... bom, o que aconteceu à Henna. - E desviou os olhos dos meus.

 "Começámos por ser amigos, depois tudo aconteceu depressa de mais. Não vi o que ele era porque não quis ver. - A voz embargou-se-lhe e esperei em silêncio que ela se recompusesse.

— Confiei cegamente nele, Kay.

— Donde devo concluir que os pormenores da reportagem dele provieram de si - disse eu.

— Não. Da minha investigação.

— Como?

— Não falo com ninguém acerca do que ando a escrever - respondeu Abby. - Cliff sabia do meu envolvimento nesses casos mas nunca entrei em pormenores acerca deles. Ele nunca se mostrou minimamente interessado. - Começava a parecer irritada. - Mas estava, e não era pouco. É assim que ele actua.

— Se não entrou em pormenores - expliquei -, então como é que ele obteve de si as informações?

— Eu costumava dar-lhe as chaves do prédio, do apartamento, quando saía da cidade, para ele poder ir regar as plantas, buscar o correio. Pode ter mandado fazer duplicados.

 Lembrei-me então da nossa conversa no Mayflower. Quando Abby falara de alguém andar a entrar no computador dela, tendo depois acusado o FBI ou a CIA, eu tivera sérias dúvidas. Iria um agente calejado abrir um ficheiro de tratamento de texto sem se dar conta de que a hora e a data seriam alteradas? Não me parecia provável.

— Cliff Ring entrou no seu computador?

— Não posso prová-lo, mas sei que entrou - respondeu Abby. - Não posso provar que tenha andado a ler a minha correspondência mas sei que andou. Não custa nada abrir uma carta com vapor, voltar a colá-la e tornar a metê-la na caixa do correio. Isso quando se fez um duplicado da chave da caixa do correio.

— Sabia que ele andava a escrever a peça?

— Claro que não. Não sabia coisíssima nenhuma até abrir o jornal no domingo! Ele entrava no meu apartamento quando sabia que eu não estava lá. Mexia-me no computador à procura de qualquer coisa que lhe interessasse. Depois desenvolvia o tema telefonando às pessoas, obtendo citações e dados, o que era muito fácil visto ele saber exactamente onde procurar e o que procurar.

— Fácil porque a Abby tinha sido tirada da ronda policial. Quando pensou que o Post se desligara da história, do que os seus editores realmente se tinham desligado era de si.

 Abby anuiu, cheia de raiva.

— A história passou para o que eles consideravam mãos mais seguras. Para as mãos de Clifford Ring - vociferou.

 Percebi então por que é que Clifford Ring não fizera nenhuma tentativa para falar comigo. Devia saber que éramos amigas. Se me pedisse pormenores sobre os casos, eu podia ir contar alguma coisa a Abby e ele queria mantê-la o mais tempo possível na ignorância do que andava a fazer. Por isso me evitara, passara à minha volta.

—Tenho a certeza de que ele... - Abby pigarreou e pegou na bebida. A mão tremeu-lhe. - Ele consegue ser muito convincente.

É provável que ganhe algum prémio. Pela série de artigos.

— Tenho muita pena, Abby.

— A culpa é só minha, de mais ninguém. Fui uma parva.

— Corremos riscos quando nos permitimos amar...

— Nunca mais corro um risco desses - interrompeu-me ela. — Com ele havia sempre problemas, um problema atrás do outro. Era sempre eu que fazia concessões, dando-lhe uma segunda oportunidade, depois uma terceira e uma quarta.

— As pessoas com quem trabalham sabem da vossa relação?

— Éramos cuidadosos. - Mostrou-se evasiva.

— Porquê?

— A redacção tem um ambiente muito tacanho, mexeriquento.

— De certo que os vossos colegas os terão visto juntos.

— Éramos cuidadosos - repetiu ela.

— As pessoas devem ter percebido que havia alguma coisa entre vocês. Tensão, quanto mais não fosse.

— Competição. Defesa do território. Era o que ele diria se lhe perguntassem.

 E ciúmes, pensei. Abby nunca tivera jeito para ocultar os seus sentimentos.

Imaginava-lhe as cenas de ciúmes. Imaginava os que a observassem no ambiente maldoso da redacção, calculando que ela, ambiciosa, tivesse ciúmes de Clifford Ring, quando não era o caso.

Tinha ciúmes era dos outros compromissos dele.

— Ele é casado, não é, Abby?

 Desta vez ela não conseguiu conter as lágrimas.

 Levantei-me para reforçar as bebidas. Ia dizer-me que ele era infeliz com a mulher, que estava a pensar em divorciar-se, e acreditara que ele deixaria tudo por ela. A história era tão banal e previsível como algo saído de um correio do coração. Eu já a ouvira uma centena de vezes. Abby tinha sido usada.

 Pousei-lhe o copo na mesa e dei-lhe um leve apertãozinho no ombro antes de tornar a sentar-me.

 Contou-me o que eu já esperava ouvir e limitei-me a olhá-la com tristeza.

— Não mereço a sua compreensão - verberou.

— Magoaram-na muito mais a si do que a mim.

— Toda a gente saiu magoada. Você. Pat Harvey. Os pais, os amigos desses miúdos. Se os casos não tivessem acontecido, eu ainda estava a trabalhar com a Polícia. Pelo menos profissionalmente estaria bem. Ninguém devia ter o poder de causar tamanha destruição.

 Percebi que ela já não estava a pensar em Clifford Ring mas sim no assassino.

— Tem razão. Ninguém devia ter. E ninguém terá se nós não deixarmos.

— Deborah e Fred não deixaram. Jill, Elizabeth, Jimmy, Bonnie. Todos eles. - Parecia derrotada. - Não quiseram ser assassinados.

— Que vai Cliff fazer a seguir? - perguntei.

— Seja o que for, não tenho nada a ver com isso. Mudei as minhas fechaduras todas.

— E as suas suspeitas de ter telefones sob escuta, de andar a ser seguida?

— Cliff não é o único que quer saber o que eu ando a fazer. Já não posso confiar em ninguém! - Os seus olhos encheram-se de lágrimas de raiva. - A Kay era a última pessoa a quem eu queria fazer mal.

— Pare com isso, Abby. A chorar é que não me faz bem nenhum.

— Desculpe...

— Acabaram-se os pedidos de desculpa. - Ripostei com firmeza mas sem agressividade.

 Ela mordeu o lábio inferior e pôs-se a olhar fixamente para o copo.

— Agora, está disposta a ajudar-me?

 Ergueu os olhos para mim.

— Primeiro, de que cor era o Lincoln que vimos a semana passada em Williamsburg?

— Cinzento-escuro, interior de cabedal escuro, talvez preto - respondeu ela já com um brilho no olhar.

— Obrigada. Era o que eu pensava.

— Que se passa?

— Não sei bem. Mas há mais.

— Mais quê?

— Tenho uma missão para si - disse-lhe, sorrindo. - Mas primeiro, quando é que volta para Washington? Esta noite?

— Não sei, Kay. - Desviou o olhar. - Não posso ir para lá, agora.

 Abby sentia-se como uma fugitiva e de certo modo era-o. Clifford Ring correra com ela de Washington. Se calhar não era má ideia ela desaparecer por uns tempos.

 Disse-me então:

— Há um bed and breakfast no Northern Neck e...

— E eu tenho um quarto de hóspedes - interrompi. - Pode ficar comigo por uns tempos.

 Pareceu hesitar, depois confessou:

— Faz ideia do que isso vai parecer, Kay?

— Para ser franca, neste momento não me interessa.

— Porquê? - E fitou-me atentamente.

— O seu jornal já disse cobras e lagartos de mim. Vou até ao fim. As coisas ou pioram ou melhoram, na mesma é que não ficam.

— Pelo menos não foi despedida.

— Nem você, Abby. Teve um affair e comportou-se inconvenientemente diante dos seus colegas quando despejou café no colo do seu amante.

— Ele mereceu.

— Tenho a certeza que sim. Mas não a aconselho a entrar em conflito com o Post. O seu livro dá-lhe a hipótese de se redimir.

— E quanto a si?

— O que me interessa são estes casos. Você pode ajudar-me porque pode fazer coisas que eu não posso.

— Como, por exemplo?

— Eu não posso mentir, ludibriar, subornar, enganar, assediar, entrar à sorrelfa, fazer insinuações maldosas, bisbilhotar, e fingir que sou algo ou alguém que não sou, porque trabalho para o estado. Mas você tem um grande espaço de manobra. É jornalista.

— Obrigadíssima - agradeceu, sincera, ao sair da cozinha. - Vou ao carro buscar as minhas coisas.

 Não era muito frequente eu ter hóspedes e o quarto do rés-do-chão estava habitualmente reservado para as visitas de Lucy. A cobrir o soalho tinha um tapete iraniano Dergezine com um berrante motivo floral que transformava a divisão toda num jardim, no meio do qual a minha sobrinha fora um botão de rosa ou um estramónio, conforme se portava.

— Estou a ver que gosta de flores - comentou Abby, distraidamente, estendendo o porta-fatos em cima da cama.