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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM ASSASSINATO, UM MISTÉRIO E UM CASAMENTO / M. T.
UM ASSASSINATO, UM MISTÉRIO E UM CASAMENTO / M. T.

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM ASSASSINATO, UM MISTÉRIO E UM CASAMENTO

 

Nos confins de um vilarejo remoto e distante, no sudoeste do estado de Missouri, vivia um velho fazendeiro chamado John Gray. O vilarejo se chamava Deer Lick. Era um povoado desgarrado e sonolento, com uns 600 ou 700 habitantes. Essas pessoas sabiam, de um modo vago, que lá fora, no vasto mundo, havia coisas chamadas ferrovias, barcos a vapor, telégrafos e jornais, mas não tinham travado nenhum conhecimento direto com elas, nem mostravam por esses itens maior interesse do que o que tinham pelos problemas da lua. Seus corações estavam totalmente, voltados para porcos e milho. Os livros usados na primitiva escola da aldeia tinham servido a mais de uma geração. O idoso ministro presbiteriano, reverendo John Hurley, ainda tratava do fogo e do enxofre de uma teologia obsoleta. (1) Até mesmo o corte das roupas das pessoas não mudara até onde qualquer memória humana pudesse alcançar.

John Gray, aos 55 anos, tinha exatamente a mesma situação econômica de 30 anos antes, quando herdara sua fazendola. Trabalhando muito, a duras penas conseguia sobreviver com sua terra. Por mais que se matasse de esforço, jamais conseguira passar disso. Tivera ambições em matéria de riqueza, mas a esperança de adquiri-la por meio da labuta de suas mãos fora gradualmente morrendo, e ele se transformara num homem desanimado e lamuriento. Restava-lhe apenas uma chance, uma única. Ou seja, a possibilidade de casar sua filha com um homem rico. Com satisfação, observava que uma certa intimidade ia surgindo entre Mary Gray e o jovem Hugh Gregory, pois Hugh, além de ser bom, respeitável e trabalhador, ficaria em situação bastante boa na ocasião em que chegassem ao fim os dias de seu pai, já de idade avançada. John Gray encorajava o rapaz, por razões egoístas; Mary o encorajava porque ele era alto, honesto, bonito e de bom coração, e porque cabelos castanhos avermelhados, cheios de cachos, eram os seus preferidos. Sarah Gray, a mãe, o encorajava porque Mary gostava dele. Estava sempre disposta a fazer qualquer coisa para agradar Mary, porque vivia apenas por meio dela e para ela.

Hugh Gregory tinha 27 anos, Mary tinha 20. Era uma moça gentil, de coração puro e bonita. Cumpria suas obrigações e era obediente, e até mesmo o pai a amava, na medida em que era capaz de amar alguma coisa. Aos poucos, Hugh começou a aparecer todo dia para ver Mary; os dois davam longos passeios a cavalo quando o tempo estava agradável, e de noite tinham conversas confidenciais em voz baixa num cantinho da sala. Os mais velhos e Tom, o irmão caçula de Mary, ficavam junto da lareira e nem reparavam nos dois. O mau humor de John Gray foi amolecendo. Gradualmente foi deixando de resmungar e implicar. Sua fisionomia trancada começou a exibir um certo ar de satisfação. Estava até sorrindo de vez em quando, de uma forma experimental.

Numa tempestuosa noite de inverno, a senhora Gray veio resplandecente para a cama, uma hora depois do marido, e sussurrou:

- John, finalmente, as coisas estão seguras! Hugh detonou a pergunta!

John Gray disse:

- Diz de novo, Sally, de novo!

Ela disse de novo.

- Quero me levantar e dar vivas, Sally! É bom demais! Agora quero ver o que Dave vai dizer! Dave pode ir pastar com aquele dinheiro dele, ninguém está ligando...

- Isso mesmo, meu velho, ninguém está ligando. E ainda bem que não está, porque agora mesmo é que seu irmão nunca mais vai nos deixar dinheiro nenhum, porque ele odeia Hugh feito um veneno... desde que ele tentou enganar o pai de Hugh com aquela fazenda de Hickory Flat, e Hugh se meteu no meio e não deixou o negócio ir em frente.

- Não se preocupe mais com nenhum dinheiro de Dave que a gente possa ter perdido, Sally. Desde aquele dia em que eu discuti com Dave, há 12 anos, ele vem me detestando cada vez mais e eu também o detesto cada vez mais. Briga de irmão não passa fácil, minha velha. Ele não pára de ficar cada vez mais rico e eu vou detestando isso. Eu sou pobre, e ele é o sujeito mais rico do condado... e eu o odeio por isso. Não fique achando que havia a menor chance de Dave nos deixar algum dinheiro.

- Sei lá, ele agradava muito a Mary antes de vocês brigarem, então eu achei que talvez...

- Bobagem! Era só agradinho de solteirão... Nunca ia sair algum dinheiro dali para a Mary, pode ter certeza. E mesmo que fosse sair, agora acaba tudo, como você disse, porque ele jamais daria a ela um centavo em que Hugh Gregory pudesse um dia botar as mãos.

- Dave é mesmo um velho sovina, sempre arruma um jeito de se dar bem. Sabe? Eu gostaria de que houvesse algum outro lugar onde o Hugh pudesse pernoitar quando vem à vila, sem ter que ficar debaixo do mesmo teto que Dave Gray. Bem que o pai de Hugh tentou ver se o Dave mudava o escritório dele e saía de lá, fez o que pôde, mas não teve jeito, e o velho continua alugando o lugar. Dizem que ele está sempre na porta da frente, desde de manhã cedo, prontinho para insultar Hugh, quando o rapaz desce a escada. A senhora Sykes me contou que ouviu Dave insultar Hugh há umas seis semanas, na frente de três ou quatro pessoas que estavam passando. Ela ficou olhando, para ver Hugh partir a cara dele, mas o moço não fez nada. Ele manteve a calma e só disse: "Senhor Gray, um dia desses pode ser a gota d'água!". Dave olhou para ele e zombou: "Ah, é? Você já disse isso antes, por que não faz logo alguma coisa? Pra que ficar só falando, falando?".

- Nós também, minha velha. Vamos tratar de dormir.Mas acho que agora, finalmente, as coisas estão melhorando para o nosso lado. Que Hugh e Mary tenham muita sorte e uma vida longa, nossas crianças, Deus as abençoe.

 

Já eram quase oito horas da manhã do dia seguinte quando o reverendo John Hurley chegou diante do portão de John Gray, apeou do cavalo e subiu os degraus da frente. A família ouviu o barulho das botas batendo no chão, para sacudir a neve, e o senhor Gray lançou um olhar maroto para Mary, dizendo:

- Estou achando que Hugh está chegando mais cedo a cada manhã, não é, querida?

Mary ficou vermelha, e seus olhos brilharam de prazer orgulhoso, mas essas coisas não a impediram de voar até a porta para receber... o homem errado. Quando o velho sacerdote foi levado à presença da família, anunciou:

- Bem, amigos, tenho uma notícia esplêndida para vocês!

- Tem, é? - falou John Gray. - Pois então trate de dizer logo qual é, porque eu garanto que vou ganhar, com uma notícia ainda melhor que tenho para lhe dar.

Olhou com ar brincalhão para Mary, que baixou a cabeça.

O velho ministro disse:

- Pois bem, a minha boa notícia primeiro, e a sua em seguida. Você sabe que David Gray está já há um mês em South Fork, cuidando da propriedade dele por aquelas bandas. Bom, na outra noite, ele esteve lá na casa de meu filho e, conversa vai, conversa vem, acabou deixando escapar que fez o testamento dele há um ano e está deixando toda a fortuna, até o último centavo... imagine para quem? Para nossa querida Mary aqui presente! E pode ter certeza de que não perdi um minuto, assim que recebi a carta de meu filho. Vim aqui correndo contar para vocês. Porque, afinal, fico me dizendo, uma coisa dessas vai unir para sempre esses irmãos que se afastaram e, com a graça de Deus, estes meus olhos ainda hão de ver os dois em paz e uma vez mais se amando muito. Eu lhe trouxe de volta um amor de sua juventude que você considerava perdido, John Gray. Agora me dê uma notícia ainda melhor, se for capaz! Vamos, me conte as novidades!

Toda a animação desaparecera do rosto de John Gray. Ficara com uma expressão dura, perturbada, aflita. Quem visse até podia pensar que tinha acabado de saber de uma calamidade arrasadora. Ficou mexendo os dedos na própria roupa, evitando os olhos inquisidores pousados nele, enquanto tentava gaguejar alguma coisa e não conseguia. A situação já estava ficando embaraçosa. Para aliviá-la, a senhora Gray veio em seu socorro, dizendo:

- A nossa boa notícia é que a nossa Mary...

- Segure a língua, mulher! - gritou John Gray.

A pobre mãe se encolheu, muda. Mary ficou confusa e silenciosa. O jovem Tommy Gray se afastou, recuando, como costumava fazer quando o temperamento do pai explodia. Não havia nada a dizer. Por conseguinte, ninguém disse nada. Ficou um silêncio constrangedor durante alguns momentos, e, em seguida, o velho pastor retirou-se do local com tão pouca graça e tão pouco à vontade quanto seria possível a qualquer outro homem que tivesse levado um chute quando esperava um cumprimento.

John Gray ficou andando de um lado para o outro por uns dez minutos, passando a mão pelos cabelos e resmungando consigo mesmo, meio selvagem. Depois se virou para a mulher e a filha, amedrontadas, e disse:

- Escutem bem: quando o senhor Gregory vier para saber da resposta, digam a ele que é “não”! Ouviram bem? Digam que é não! E se não tiverem coragem de dizer a ele que prefiro que nunca mais apareça por aqui, podem deixar que eu mesmo digo. Eu digo.

- Pai, não é possível que você esteja querendo dizer que...

- Nem uma palavra, Mary. Eu vou mesmo dizer... Ponto final. E não se fala mais no assunto.

Encerrando a conversa, saiu pela porta afora, deixando Mary e a mãe em prantos e de coração partido. Era uma manhã clara de inverno. A pradaria plana que se estendia da casa de John Gray até o horizonte era um assoalho macio e branco de neve. Estava intacta como a tempestade da noite anterior a deixara - imaculada, sem nenhum tipo de pegada ou rastro.

John Gray saiu fazendo seu caminho pela neve, direto para a pradaria, sem notar que direção tomava, nem se incomodar com isso. Seus pensamentos seguiam mais ou menos esta linha:

"Tinha que ser assim, com a sorte que eu tenho! Uma coisa dessas “tinha” que aparecer justamente no momento mais errado, é claro! Mas não é tarde demais, não é tarde demais ainda! Dave logo vai ficar sabendo que não tem nenhuma base nessa conversa sobre Mary e Gregory - se é que ele já ouviu falar nisso, mas sei que não ouviu, porque, se soubesse, ele a tinha tirado do testamento no mesmo minuto. Não, ele só vai ficar sabendo é que ninguém da tribo dos Gregory pode ter a Mary, nem mesmo olhar para ela. Uma coisa boa é que ela nunca vai ser capaz de dizer sim para ele nem para nenhum outro homem, enquanto não souber que eu estou de acordo. Vou cortar as asas desse senhor Gregory, e é para já! E posso muito bem espalhar isso logo para todo mundo. Imaginem, se o dinheiro de Gregory pode se comparar com o de Dave! Dave pode comprar todos os Gregorys 20 vezes, e ainda ficar com um dinheirão. É só se espalhar a notícia de que Mary vai herdar a fortuna de Dave e ela pode escolher quem quiser, nos seis condados em volta. Ei! O que é isso?"

Isso era um homem. Um jovem, com menos de 30 anos, pela aparência, vestido numa roupa fora do comum, estirado no chão sobre a neve. Imóvel. Evidentemente, estava... sem sentidos. Seus trajes tinham o aspecto de coisa muito cara e estava cheio de jóias e enfeites. Perto dele havia um casaco de pele, pesado, e alguns cobertores. A uma pequena distância, uma valise. Em volta do corpo, a neve estava um pouco revirada, mas em todos os outros lugares continuava lisinha. John Gray olhou em torno, procurando o cavalo ou o veículo que tinha trazido o estranho, mas não havia nada de parecido à vista. Mais que isso: não havia rastros ou marcas de rodas, montaria ou de qualquer pessoa, a não ser as que ele mesmo deixara ao vir de casa. Era mesmo um espanto. Como esse estranho chegara até ali, a mais de 400 metros de uma estrada ou casa, sem romper a neve ou deixar pegadas?

Será que o furacão o trouxera pelos ares até aquele lugar?

Mas não era hora de ficar investigando detalhes: algo tinha que ser feito. John Gray pôs a mão no peito do forasteiro: ainda estava quente. Começou a friccionar as têmporas geladas. Puxou e virou o paciente, e esfregou neve no rosto dele. Alguns sinais de vida foram começando a aparecer. O olhar de John Gray bateu num frasco de prata, caído na neve junto aos cobertores. Pegou-o e derramou parte do conteúdo entre os lábios do estranho. O efeito foi animador: o homem se mexeu um pouquinho e deixou escapar um suspiro. John Gray continuou com seus esforços: ergueu o homem até deixá-lo sentado e, em pouco tempo, os olhos fechados se abriram e contemplaram o que estava em volta, com uma expressão ofuscada e opaca. Em seguida, detiveram-se um momento sobre o rosto de John Gray, e um pouco mais de vida apareceu neles.

"Seria bom que ele falasse...", murmurou John Gray consigo mesmo. "Estou louco para saber quem é esse sujeito e como é que ele veio parar aqui. Ótimo... vai falar."

Os lábios se afastaram e, após o esforço de uma ou duas tentativas difíceis, saíram deles estas palavras:

- “Où suis-je”? (2)

A expectativa ansiosa dos olhos de John Gray se apagou, deixando seu rosto vazio. Estava seriamente desapontado.

"Que droga de língua é essa?", falou com seus botões.

Apressou a volta do outro à consciência com mais um gole do frasco. Os belos olhos do estrangeiro pousaram perplexos em John Gray por um momento, e depois se seguiu esta pergunta:

- “Wo bin ich”? (3)

John Gray ficou olhando com ar estúpido, e sacudiu a cabeça:

"Não é um cristão", pensou. "Pode ser que nem seja humano. Se não fosse pelo jeito que está arreado, eu até diria que o caso é esse mesmo, mas..."

- “Donde estoy? Dove sono? Gdzie já jestem?” (4)

Uma expressão dolorosamente aborrecida estendeu sua amplidão branca sobre o rosto de John Gray e o estrangeiro percebeu, com evidente frustração, que mais uma vez não conseguira se fazer entender. Fez força para ficar de pé e acabou de minar a já combalida razão de John Gray com uma série de sinais graciosos mas complexos, que foi buscar na linguagem dos surdos-mudos. Depois, começou a ralhar com Gray, numa língua estrangeira particularmente bárbara, censurando-o por estar ali à toa com aquela cara de idiota, quando devia estar se mexendo e fazendo tudo o que pudesse para ajudar um infeliz forasteiro. Pela primeira vez, Gray falou em voz alta:

- Deus do céu, o homem finalmente acordou! E acordou por completo desta vez! Não tem dúvida nenhuma...

- Ah, você é inglês! Inglês! Que bom! Por que não disse logo? Vamos, me estenda a mão! Ajude-me a levantar! Ainda valho por uns dez mortos, vamos! Me bata, me esfregue, me chute! Me dê uma bebida!

Espantado, o fazendeiro obedeceu às ordens vigorosamente, esporeado pelo tom dominador do estrangeiro. Enquanto isso, a língua do paciente continuava correndo solta, às vezes em um idioma, às vezes em outro. Finalmente, ele conseguiu dar um ou dois passos apoiado em Gray, depois parou e perguntou, em inglês:

- Meu amigo, onde estou?

- Onde o senhor está? Ora essa, está no meu pasto, na pradaria, nos arredores de Deer lick. Onde pensou que pudesse estar?

- Pradaria? Deer lick? - repetiu o estranho, intrigado.

- Não conheço. Em que país eu estou?

- Em que “país”? Ora essa, onde já se viu? O senhor não está em “nenhum” país, está é no

Missouri. E é o estado mais importante da América, eu acho.

O forasteiro apoiou as mãos nos ombros de John Gray, numa pose solene, manteve-o à distância de um braço por um momento, olhou-o firme nos olhos, e depois sacudiu a cabeça umas três vezes, com ar satisfeito.

Uma hora depois, estava numa cama na casa de John Gray, virando-se de um lado para o outro num sono inquieto, ardendo em febre e murmurando sem parar umas palavras entrecortadas em quase todas as línguas, menos inglês. Mary, a mãe e o médico do vilarejo cuidavam dele zelosamente.

 

Pulamos seis meses e continuamos com nossa história.

O velho pastor tentara muito unir os dois irmãos, mas não conseguira. David Gray recusara-se terminantemente a fazer ou aceitar qualquer abertura. Disse que não tinha nenhum afeto por ninguém da família do irmão exceto Mary.

Mary Gray se permitira uma escapadela fortuita para uma conversa com Hugh Gregory, simplesmente para garantir a ele que, qualquer que fosse o dever que seu pai a obrigasse a cumprir, seu amor por Hugh permaneceria intacto, inalterável, enquanto vivesse. Houve uma troca de retratos e madeixas de cabelos, uma despedida dolorosa e, com isso, um final. Os namorados trocavam olhares na igreja e em outros lugares de vez em quando, mas nunca trocavam palavra. Ambos pareciam apáticos e cansados da vida.(5)

Enquanto isso, o estranho adquirira grande proeminência. Estabelecera-se como professor de línguas, música e um pouquinho de tudo aquilo que era novo e maravilhoso para aquela comunidade perdida no interior. Durante algum tempo, continuou misteriosamente calado sobre sua origem. Mas gradualmente deixou escapar uma ou outra palavra nos ouvidos dos Gray enquanto estava convalescendo. Depois que ficou bom, suas visitas à casa eram freqüentes e bem recebidas, pois tinha uma certa graça de postura típica dos bem nascidos, que causava inveja e admiração a todos, e também uma língua capaz de fascinar uma imagem de pedra. Atraía as atenções de Mary Gray por sua gentileza, suas maneiras cheias de consideração, sua pureza de sentimentos, sua vasta cultura, sua adoração por poesia. Os velhos ficavam encantados com o respeito, na verdade a reverência, que marcava sua conduta em relação a eles. Estava sempre surpreendendo o menino Tom com maravilhosas invenções em matéria de brinquedos científicos, e por isso o garoto era seu aliado fiel. Gota a gota, o senhor George Wayne - pois assim se chamava - foi-se revelando confidencialmente aos velhos, e estes confidencialmente passaram os fatos a seus amigos particulares, que imediatamente os distribuíram confidencialmente pela comunidade como um todo. (6) Um dia, a senhora Gray trouxe novidades quando foi para a cama. Disse:

- John, tive uma conversa com o senhor Wayne! O que você acha disso? Mas escute, não diga nada a ninguém... nem uma palavra, ouviu?.. não deixe escapar nada nem para ele mesmo... porque ele disse que não queria que ninguém ficasse sabendo.

- Desembuche logo, sua boba, desembuche! Não vou contar para ninguém.

- Bom, você sabe que ele sempre se fechou em copas toda vez que alguém perguntava de que país ele era... Às vezes a gente achava que ele era italiano, depois achamos que era espanhol, e uma ocasião até pensamos que fosse árabe. Mas não é. É francês. Ele mesmo me contou. E não é só isso, de jeito nenhum. A família dele é muito rica e poderosa.

- É mesmo? Eu bem que desconfiava. Sempre disse isso cá comigo.

- E isso não é tudo. O pai dele é nobre.

- Não!

- Verdade! E ele é nobre também.

- Céus!

- Tão verdade quanto você estar aqui deitado. Ele garantiu. É conde! Imagine só!

- Puxa! Mas então, por que saiu de casa?

- Deixa eu contar, vou chegar lá. O pai queria que ele se casasse com uma moça muito importante, por causa da riqueza dela e da família. Mas ele não queria.

Disse que só se casaria por amor, ou então ficaria solteiro. Aí os dois discutiram... Também houve uma coisa qualquer de política misturada. Ele era contra o rei, ou o imperador, sei lá, e descobriram, e ele teve que sair do país. Ele não pode voltar para lá durante dois anos... até que passe o tempo da lei... que é para não ser mandado para a prisão e ainda ter que pagar um dinheirão.

O senhor Gray se sentou na cama, animadíssimo:

- Minha velha, quero cair aqui mortinho se eu já não me disse umas 40 vezes: "Esse cara na certa é um rei ou alguma coisa assim..." E é mesmo, Deus do céu! Eu sabia! Alguma coisa estava me dizendo isso o tempo todo. Mas isto é uma sorte!

- Bem, de minha parte, eu sempre achei também que tinha alguma coisa fora do comum e importante a respeito dele.

- Velha - disse ele, abaixando a voz -, você não reparou? Ele está de olho na nossa Mary. Vai dizer que você não sabia?

- Bom, já que você falou nisso, eu meio que tinha achado, às vezes... mas ele sendo tão importante assim, e tão rico...

- Não ligue para essas coisas. Ele não disse ao pai que jamais ia se casar se não fosse por amor? Pois então. Trate de apoiá-lo, é só isso. E eu vou cuidar do assunto, pode apostar.

- Mas, marido, ela mal está se recuperando do coitado do Hugh... e se pudesse “mesmo” ser verdade, eu preferia que...

- O coitado do Hugh que se enforque! Daquele ela escapou por pouco. Na última hora. Você quer fazer tudo o que puder para sua filha, não é? Pois eu também. Imagine só, ela sendo a esposa de um nobre como esse! Não sabe que ela não vai ficar se lembrando por muito tempo do Hugh Gregory?... Mas é claro... Me diga uma coisa: qual é o “verdadeiro” nome dele?

- Pelo amor de Deus, marido, você não pode contar a ninguém. É conde Hubert dee Fountingblow. Não é um nome lindo?

- Claro que é! Imagine se eu não ia gostar de ter um nome desses. John Gray! Meu nome não vale nada. Escute aqui, Sally, não deixe escapar nem uma palavra sobre essa história dele ser conde. Nem uma palavra, está ouvindo? Tudo quanto é moça, num raio de 60 quilômetros, ia ficar atrás dele.

Conversaram um pouco mais. Depois, aos pouquinhos, a conversa foi mudando e caindo na relação do conde com Hugh Gregory. Parecia que os dois tinham ficado bem amigos e se visitavam com freqüência. A senhora Gray contou que ouvira dizer que o conde já tentara várias vezes fazer as pazes entre Hugh e o velho David Gray, mas nunca conseguira. David tinha gostado do conde e gostava de recebê-lo no escritório para conversar, mas continuava firme em sua recusa de aceitar o jovem Gregory.

Pouco a pouco, o senhor e a senhora Gray foram parando de conversar e começaram a cair no sono. Nesse ponto, John Gray se levantou de repente e cochichou no ouvido da mulher, com voz rouca:

- Escute aqui, Sally, tem mais uma coisa. Desde o dia em que eu encontrei o senhor

Fountingblow lá jogado na neve, todos nós ficamos em cima dele, de um jeito ou de outro, para descobrir como é que ele tinha chegado lá sem deixar pegadas... mas ele sempre se fecha em copas e muda de assunto quando a gente chega nisso. Então me diga: como foi que ele chegou lá? Ele não contou?

- Não. Só disse que prefere contar na hora certa. Disse que a história poderia se espalhar e ele tem suas razões para não querer que ninguém saiba. Mas prometeu que a nós, um dia, ele conta.

- Bom, se não tem outro jeito, vai ter que ser assim. Vou ter que agüentar um pouco mais, mas fico morrendo de curiosidade.

 

Tinha um vazamento em algum lugar. Em uma semana, todo mundo sussurrava sobre o "conde

Fontainebleau" e sua incrível riqueza. Diziam também que o conde evidentemente estava dando muita atenção a Mary Gray e que John Gray pressionava Mary fortemente (e sua esposa fazia o mesmo fracamente) para que olhasse essa corte com bons olhos.

Na verdade, Mary estava vivendo um problema. Bem que tentava se amoldar aos desejos paternos, mas de noite, em segredo, se descobria beijando um certo retrato e chorando ao olhar certa madeixa de cabelo.

Um dia, o conde passou uma hora no escritório de David Gray, conversando com ele sobre várias questões. Pouco a pouco, foi levando o assunto para o lado do casamento e ia justamente falar em suas esperanças em relação a Mary Gray, quando de repente David foi chamado por alguém. Desatento, o conde ficou se distraindo com a inspeção de uma mixórdia de documentos que estavam por ali em cima da mesa, ou aparecendo em gavetas meio abertas. Leu um dos papéis com muito interesse e depois disse:

- Foi bom ter certeza, e agora estou satisfeito. Não era verdade.

Despediu-se e se encaminhou para a casa de John Gray. Perguntou por Mary e lhe disseram que ela estava no pomar. Foi até lá, e andou a esmo até que, num cantinho remoto, vislumbrou um pedaço de roupa feminina saindo de detrás de uma árvore, onde havia um banco rústico, que dava para acomodar duas pessoas e tinha sido muito útil em algumas ocasiões durante os últimos 12 meses. Aproximou-se e, de repente, apareceu diante de Mary. Ligeira, ela escondeu o retrato de Hugh Gregory no peito, e se ergueu, levando o lenço aos olhos - porque estava chorando.

- Mary, minha amiga tão honrada e adorada - disse o conde, segurando a mão dela com seus modos educados. - Seu coração está partido, e eu sou a causa. Ai, foi fatal te conhecer, antes de saber que você o amava... a ele. Te amo desde que te vi, isso ninguém podia impedir. Depois, quando soube que seu pai tinha proibido o casamento, achei que meu amor não podia mais ser algo errado em relação a você ou ao pobre Hugh... Tinha a louca esperança de que, pouco a pouco, você fosse capaz de me dar um lugar em seu coração. Mas receio que isso não vá acontecer nunca. Suas lágrimas, sua dor são por Hugh, e Deus sabe como ele é digno de tudo isso. Então, tenho que tentar desistir de você. Por amor a você, que adoro mais que minha própria vida, fortuna, reputação, mais até que minha própria alma! Tenho que tentar essa coisa impossível! Não, não diga nada, eu lhe imploro! Não posso ouvir a música da sua voz e manter minha resolução. Sou uma criatura de impulsos. O espetáculo de sua tristeza, neste momento testemunhada por mim, de repente despertou em mim a força para este ato de auto-sacrifício, e no mesmo repente eu devo cumpri-lo e me afastar da visão de seu rosto e do som de sua voz, senão eu não vou conseguir. Vou embora... Faço um esforço... Que Deus me envie uma morte rápida, é tudo o que peço! Não, não diga nada, nem uma palavra! Nem uma palavra, eu imploro! Adeus, eu desisto de você, minha preciosidade! Minha querida, minha querida, adeus, e que Deus te abençoe! (7)

Com o lenço no rosto, no momento seguinte estava correndo em direção da casa. Mary Gray, imóvel como se estivesse paralisada, ficou olhando enquanto ele desaparecia, e depois soluçou:

- Ah, como eu o conhecia tão pouco! Ele é mil vezes mais nobre por sua própria natureza do que pelo sangue elevado e a linhagem antiga. Há cinco minutos eu quase o odiava. Agora... agora eu quase seria capaz de... amá-lo! Vou respeitá-lo, honrá-lo, reverenciá-lo todos os dias de minha vida... Que coração sublime, puro, nobre!

 

Durante três dias, os Gray não viram o conde. O pai e a mãe ficaram intrigados, mas preferiram não falar nada, pois observaram que Mary estava mais animada do que de costume, e por isso concluíram que as coisas entre ela e o forasteiro deviam estar melhorando.

No terceiro dia, após anoitecer, o conde estava parado numa esquina do povoado conversando um instante com David Gray quando Hugh Gregory passou; parou; hesitou; voltou e perguntou ao conde se iria se recolher logo. Antes que o conde pudesse responder, David Gray disse:

- Não perca seu tempo comigo, conde, quando existem pessoas melhores, mais puras e mais gentis com quem pode conviver. Por mim, pode ir logo.

- O senhor está se referindo a mim? - perguntou Hugh.

Vários passantes se detiveram para ouvir.

- É a você mesmo que estou me referindo, mocinho. “Você” não parou aqui para falar com o conde. Parou porque achou que isso podia “me” fazer uma afronta. E sabe que conseguiu. Está sempre fazendo isso. Você acha que pode ser que eu não conheça seu tipo. Era gente da “sua” laia que queria Mary Gray, não era? E só por amor... imagino... Não fazia nenhuma idéia de que eu ia deixar para ela minhas economias. Não, claro que não... Mas vou lhe ensinar umas coisinhas, rapazote. É só eu viver mais 48 horas e vou fazer um novo testamento e deixar Mary Gray de fora. E não fique me olhando de cara feia, porque não vou tolerar.

- Não adianta dizer palavras sensatas para um lunático - disse Hugh, numa calma forçada. - Vou seguir meu...

A bengala do velho zangado se abateu em cheio sobre a cabeça de Hugh quando o rapaz virou as costas, fazendo-o cambalear e interrompendo sua frase. No momento seguinte, o punho de Hugh disparou de seu ombro e derrubou David Gray ao comprido no chão. Num frenesi de raiva, Hugh avançou para continuar o ataque, mas foi agarrado por várias pessoas que o afastaram dali, enquanto ele lutava para se soltar e gritava:

- Me larguem! Deixem que eu me acerte com ele! Esse cara já me insultou mais de 50 vezes, e agora chega! Nada vai me impedir de acertar as contas!

 

Por volta das dez horas da manhã seguinte, o conde entrou na casa de John Gray, cujo coração se alegrou de novo. Sua Senhoria tinha um ar cansado, gasto e exausto. Disse:

- A ausência desta casa é uma desgraça, só aqui existe felicidade! Meu coração está faminto... Quero ver Mary!

Seu pedido foi prontamente atendido. Mary veio, os outros se foram. O conde disse:

- Oh, eu tinha que vir... Não consigo viver onde você não está! Tentei tanto... por amor a você... desistir, mas estava além das minhas forças. Olhe para mim. Contemple em cada fio de cabelo de minha cabeça e em cada traço de meu rosto uma testemunha das torturas que suportei. Não consegui dormir, não consegui descansar. Vim para me jogar a seus pés e pedir clemência, suplicar sua compaixão, implorar pela minha vida. Não posso viver sem você. Tentei tanto, tanto mesmo, mas é cruel e não consegui. Tenha pena de mim.

A compaixão de Mary foi atingida em profundidade, e suas lágrimas caíam como a chuva. Tentou dizer coisas consoladoras. Ele respondia com juras apaixonadas. E assim continuou o doloroso combate, até que John Gray irrompeu na sala, exclamando:

- David foi assassinado! Hugh Gregory foi preso por isso!

Mary desmaiou.

O dia inteiro, o vilarejo ficou num tumulto. Todas as atividades foram suspensas. Uma multidão ficou parada por horas diante do escritório de David Gray, falando no assassinato, e esperando pacientemente por uma oportunidade fortuita para entrar e contemplar o lúgubre espetáculo lá dentro. O morto jazia num mar de sangue. A mobília revirada mostrava que tinha havido luta. Sobre a escrivaninha, estava uma folha de um formulário legal, na qual David Gray começara a escrever uma frase que não vivera para concluir:

"Eu, David Gray, em perfeitas condições mentais e..."

Ao lado do cadáver fora encontrado um fragmento de tecido que se encaixava exatamente com um canto vazio da aba do paletó de Hugh Gregory. Várias pequenas gotas de sangue haviam sido encontradas nas calças de Hugh. E lá estava a frase de abertura de um testamento que iria varrer para sempre a fortuna em perspectiva da moça que Hugh Gregory esperava desposar um dia. Murmurava-se que o pai de Hugh, nos últimos tempos, vinha se metendo numa situação financeiramente complicada. O encontro da véspera era rememorado e dissecado por todos. Alguém lembrou uma coisa que Hugh dissera certa vez, que se David Gray continuasse a insultá-lo, "um dia podia ser a gota d'água".

Era óbvio que Hugh Gregory era o assassino. Todos admitiam isso e lamentavam o fato. Entretanto, a maioria das pessoas acreditava que ele não fora movido por nenhum impulso sórdido, mas por um incontrolável desejo de vingança, após uma longa e contínua série de injúrias. Hugh declarou sua inocência com toda a firmeza, diante do acúmulo fatal de provas circunstanciais que o apontavam como criminoso. Sua declaração de inocência tinha tal aparência de honestidade que alguns dos moradores do povoado chegaram até a ter suas crenças abaladas por uns instantes, mas só por uns instantes; pois lá pelo meio da tarde uma faca ensangüentada, que todos sabiam muito bem que pertencia a Hugh, foi encontrada, muito bem escondida no pé de sua cama - uma manchinha vermelha quase insignificante chamara a atenção para o pequeno rasgo que fora feito com o propósito de admitir a faca no interior do colchão de penas.

Agora, não havia ser humano que ainda acreditasse na inocência de Hugh Gregory, exceto Mary Gray, e até mesmo a confiança dela estava diminuindo. Hugh lhe mandou uma carta implorando que tivesse fé em sua falta de culpa, pois com certeza Deus iria revelá-la em Seu momento, com Sua imensa misericórdia. Mas essa carta caiu nas mãos de John Gray e não seguiu adiante. Durante vários dias, desesperada, Mary esperou pela resposta a um bilhete que escrevera a Hugh, implorando por uma palavra de consolo. Mas nenhuma resposta veio... até ela. Tommy Gray prometera que daria um jeito para que a carta de Mary chegasse a Hugh, e cumprira sua missão. Mas o Gray mais velho não tirava os olhos do menino: capturou a resposta e aterrorizou o garoto a tal ponto, que ele se dispôs a contar a Mary que Hugh amassara seu bilhete nas mãos e declarara que, se ela realmente o amasse, estaria movendo céus e terras para tirá-lo dali, em vez de jogar fora um tempo precioso com perguntas sobre sua culpa ou inocência.

Seguiram-se vários dias e noites de angústia, sem qualquer consolo para a moça, a não ser o que eventualmente pudesse aceitar das atenções gentis e palavras amáveis do conde. Finalmente, ela desistiu de toda e qualquer esperança, resignando-se à amarga convicção da culpa de Hugh. Sua mãe estava convencida da mesma coisa. E então o nome de Hugh Gregory deixou de ser mencionado naquela casa.

Entretanto, Mary constatou que o crime não matava o amor. Ela ainda amava Hugh Gregory - era um amor que não diminuía. Mas nunca poderia casar-se com ele, disse. Agora aceitaria o que viesse, disse. Não ligava mais para aquilo que o destino pudesse lhe reservar.

À medida que as semanas se passavam, foi aprendendo a gostar do conde, pois era mais em companhia dele do que de qualquer outra pessoa que ela ainda conseguia chegar mais perto de algum descanso.

Seria muito longo contar as súplicas, juras e pressões que finalmente acabaram vencendo a resistência de Mary Gray e a levaram a consentir em casar com o conde Fontainebleau. A posse da riqueza que veio para as mãos de Mary com a morte do tio - e, assim, para toda a família - apenas acirrou o desejo paterno de ascender ainda mais e se associar à nobreza estrangeira. A questão de fixar a data começou a ser discutida. Mary disse, desanimada:

- Escolham qualquer dia. Para mim tanto faz. Só me dêem um tempinho para descansar antes.

Foi marcado o dia 29 de junho. Seria uma cerimônia íntima, na casa de John Gray. E desde o dia em que isso ficou resolvido, Mary Gray deixou de sair de casa e de ver qualquer pessoa que não fosse da família ou o conde. Na presença dela, ninguém fazia qualquer referência às novidades ou aos mexericos do povoado. Uma única coisa prometida pelo futuro tinha algum interesse para ela. Tinham lhe garantido que o julgamento de Hugh seria adiado por um ou dois anos por meio de manobras de advogados, e que provavelmente ele não sobreviveria tanto tempo, pois sua saúde já estava lhe faltando.

Mas, na verdade, o julgamento veio muito rapidamente, e esse fato foi ocultado de Mary. O veredicto de culpado foi proclamado a 22 de junho. O dia marcado para o enforcamento foi 29... justamente o dia do casamento!

Que confusão! O que se podia fazer? Adiar o casamento? Não. Não seria necessário. Todo o vilarejo estava fervendo de preocupação. David Gray fora geralmente detestado, Hugh Gregory universalmente amado. A expectativa era de um veredicto apenas de homicídio involuntário e pena de prisão. Mensageiros já estavam se despencando pelo país afora em direção à capital. Sem dúvida haveria uma suspensão da pena, possivelmente um perdão. Então, por que adiar o casamento? Mary não sabia nada do veredicto, nem mesmo do julgamento. (8)

 

O grupo que se reunia, sentado em casa de John Gray, no final da manhã de 29 de junho, estava muito pouco à vontade, pois todos, exceto Mary, sabiam que o adiamento não fora concedido. Até mesmo John Gray tivera um arrepio com a idéia de dar em casamento uma moça que não suspeitava de nada, para um homem que ela não amava, enquanto o homem que ela amava caminhava para uma morte vergonhosa. A senhora Gray passara a semana doente, de cama, arrasada com o temor da possibilidade de que a suspensão da sentença ou o perdão não saíssem. O velho ministro se recusara a celebrar a cerimônia, e um estranho fora trazido para substituí-lo. Foi recebido na porta por John Gray, que conversou com ele recomendando que não estragasse a alegria da ocasião com qualquer referência ao triste acontecimento que se desenrolava no povoado. Em voz baixa, o estranho garantiu:

- Nem precisava fazer qualquer recomendação. Ninguém pode mesmo tocar nesse assunto num momento como este. Eu passei pela forca quando vim para cá. Aquelas pessoas todas reunidas ali... Não tinha uma que não estivesse comovida. Homens e mulheres, estavam todos chorando. O rapaz estava de pé no cadafalso, entre os xerifes, a corda balançando ao vento por cima da cabeça. Ele estava pálido e abatido, mas ereto e de cabeça erguida, como um homem de bem. E falou, também. Proclamou que era inocente. Disse que aquelas eram as últimas palavras de um homem que ia morrer e que, diante de Deus, não tinha culpa. De todo lado, começaram-se a ouvir vozes: "Acreditamos em você. Acreditamos em você." Duas vezes ele disse que estava pronto, e os xerifes pegaram a corda e o capuz preto, mas nas duas vezes se ouviram gritos muito altos: "Esperem! Esperem! Pelo amor de Deus! A pena vai ser suspensa! Esperem que o perdão já está chegando!". Depois, em todo canto, eu via gente no alto de carroças ou trepada em galhos de árvores, protegendo os olhos com as mãos, para fazer sombra, olhando em direção à pradaria, e a toda hora dizendo: "Lá vem! Não é um homem a cavalo?... Não... Sim... Estou vendo uma poeirinha lá longe! Com certeza é um cavalo!". Mas depois sempre vinha o desapontamento. Até que, finalmente, os xerifes puseram o capuz preto na cabeça dele, taparam a cara do rapaz, e a multidão toda gritou, se lamentando. Eu não agüentei mais e saí dali. Que coisa! Como todos gostavam do rapaz, como todos os corações maternais que lá estavam tinham pena dele...

O pastor e John Gray entraram na sala. Começou-se por uma bênção e, em seguida, Mary se levantou, pálida e apática, entre o conde de Fontainebleau e o pai. A cerimônia de casamento continuou:

- Conde Hubert de Fontainebleau, aceita esta mulher como sua legítima esposa, prometendo honrá-la e amá-la até que a morte os separe?

O conde assentiu com a cabeça.

- Mary Gray, aceita este homem como seu legítimo esposo, prometendo ser fiel e...

Já havia alguns segundos que um rumor longínquo vinha murmurando nos ouvidos do grupo, e aumentando rapidamente de volume, como se sua causa estivesse se aproximando. Agora já explodia numa sucessão de gritos de alegria e vivas, bem fortes e próximos, e num instante uma multidão de habitantes do povoado, aos gritos, entrou pela casa, com Hugh Gregory e os xerifes na frente.

Bastou um olhar e Mary Gray leu nos olhos de Hugh toda a alegre verdade, e imediatamente estava nos braços dele. No mesmo momento, os xerifes agarravam e algemavam o conde Fontainebleau. John Gray teve que fazer suas perguntas com o olhar, porque ficou mudo de espanto. Um xerife disse:

- Não se preocupe. Está tudo bem. O assassino é esse diabo. Teve um cúmplice, e esse cúmplice amoleceu e abriu o bico, quando viu Hugh a ponto de balançar na ponta da corda. Contou a história todinha. E bem quando estava acabando de falar chegou a ordem de suspensão da pena do governador. Estou me metendo aqui, eu sei, mas é claro que a primeira pessoa que eu queria ver agora era esse pilantra.

Hugh disse:

- E eu não preciso explicar por que este era o primeiro lugar aonde “eu” queria vir e exibir minha cara limpa, de um homem sem culpa!

O pastor ia se retirando discretamente.

- Pare! - disse John Gray. - Volte e continue com o casamento. Levantem-se, Mary Gray e Hugh Gregory, e quero que a terra me engula se algum dia eu fizer qualquer coisa para ficar no caminho de vocês dois. Ou não me chamo John Gray! Aí vem minha velha, tudo está completo agora... Pastor, amarre estes dois, e amarre bem apertado, porque é para sempre! (9)

 

               A confissão do conde

Sentenciado à morte pelo assassinato de David Gray, que cometi há um ano, conto agora a verdadeira história de minha vida. Meu nome é Jean Mercier. Nasci numa aldeia do sul da França. Meu pai era barbeiro. Aprendi com ele e segui esse ofício por algum tempo. Mas tinha talento e ambição. Sem a ajuda de ninguém, dei a mim mesmo uma espécie de educação universal. Aprendi muitas línguas, me dei muito bem com as ciências, e me tornei uma espécie de inventor e mecânico. Aprendi a navegar pelos mares. Aos poucos, fui experimentando ser um tipo de guia. Levava turistas a todas as partes do mundo. Finalmente, num momento infeliz, caí nas mãos de um certo senhor Júlio Verne, (10) um escritor. Foi aí que meus problemas começaram. Ele me pagava um ótimo salário e me mandava de lá para cá, de um lado para outro, em todo tipo de veículo desagradável, e depois ouvia minhas aventuras e transformava cada viagem minha num livro. Não haveria nada de mais nisso, se ele tivesse se limitado aos fatos. Mas não, nada servia para ele, tinha sempre que exagerar. Transformava minhas experiências mais simples em maravilhas extravagantes e distorcidas. Isso me humilhava além do que posso explicar, pois eu era muito sensível a essa questão de verdade e honestidade - nessa época. Todos os meus amigos sabiam do meu emprego e acreditavam que todas essas histórias tinham sido escritas exatamente como eu tinha contado para o autor. E assim, um por um, foram começando a fingir que não me conheciam e acabaram cortando relações comigo. Várias vezes eu argumentei com o senhor Verne, mas não adiantou nada. Esse homem me mandou descer o Sena numa remendadíssima barcaça de carregar areia. Quando voltei, me ouviu com atenção, começou a trabalhar e transformou meu relato naquele livro desgraçado chamado “Vinte Mil Léguas Submarinas”. (11) Em seguida, comprou um balão de segunda mão e me despachou nele. A bexiga velha subiu uns 200 metros e depois teve um colapso, eu caí num quintal e quebrei a perna. O resultado literário dessa viagem foi o livro chamado “Cinco Semanas num Balão”. Ele ainda me mandou em mais um ou dois vôos idiotas naquela coisa esmolambada e escreveu livros extravagantes sobre eles. Acabou me enviando mais longe, num carro de bois, até uma cidadezinha miserável nos cafundós da Espanha. Fiquei quase um ano na estrada e nem sei como não morri de desespero e fome antes de voltar. Qual foi o resultado? Bem, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”! Depois, remendou o tal balão desgraçado e me mandou em mais uma viagem. Fiquei encalhado no meio das nuvens, em cima de Paris, sem sair do lugar durante três dias, esperando que houvesse vento, e depois despenquei num rio, tive que ficar de cama mais de três meses. Deitado ali, fiquei remoendo minhas desgraças, e aos poucos fui me acostumando com uns pensamentos assassinos - que me davam muito prazer, devo confessar. Quando fiquei bom, ele disse que tinha consertado o balão, da maneira mais perfeita, e que ia fazer comigo a viagem seguinte. Fiquei contente. Tinha esperanças de que os dois quebrássemos o pescoço. Ele carregou o balão com sua mala, um casaco de pele e uma porção de provisões, bebibas e instrumentos científicos. Bem na hora da partida, pôs em minhas mãos a distorção de minha última viagem - um livro intitulado “A Ilha Misteriosa”... (12) Olhei aquilo... e foi demais. A natureza humana tem seus limites. Dei um empurrão e ele caiu lá embaixo, uma queda de uns 30 metros. Espero que tenha morrido, mas não tenho certeza. É claro que eu não queria ser enforcado, então joguei fora os instrumentos científicos para diminuir o peso, vesti as boas roupas do senhor Verne e comecei a me divertir com suas iguarias finas e seu bom vinho. Mas acho que o balão tinha ficado leve de mais, e subiu tanto que eu fui ficando com sono, e depois desmaiei. Não sei de mais nada que me aconteceu até que acordei no pasto de John Gray, no meio da neve. Não sei o que houve com o balão. Mas, pelas datas, sei que fiz a viagem da França ao Missouri em dois dias e 21 horas. E John Gray pode entender agora como foi que eu consegui viajar pela sua pradaria sem deixar rastros... ele sempre teve a maior curiosidade em relação a isso, coitado. Mas eu achei que, se contasse, a história ia se espalhar, poderia sair em algum jornal, ir parar na França, e algum enxerido poderia querer saber se aquele balonista estrangeiro não seria capaz de lançar alguma luz sobre os últimos momentos do senhor Verne.

Concluí que o melhor para mim seria adotar um nome fictício e ficar em Deer Lick pelo resto dos meus dias. Mas não conseguia me conformar com a idéia de dar aulas numa escola para ganhar a vida. Por isso, quando ouvi dizer que David Gray fizera um testamento deixando para Mary Gray todos os seus bens, aticei o pai dela com minha riqueza e nobreza falsas e comecei a fazer a corte à moça. Um dia, David Gray me deixou sozinho por um instante em seu escritório e dei uma olhada em volta, descobrindo um documento em que ele deixava tudo para um parente distante, e não para Mary. Meu amor esfriou e eu imediatamente disse a ela que tentaria arrancá-lo de meu coração, por dedicação a ela. Mas, quando Gregory e David Gray discutiram em minha presença, descobri que eu tinha visto um testamento antigo, e que existia outro mais novo, que realmente deixava os bens para Mary. Então resolvi de novo casar com ela, e sabia que podia conseguir.

Aquele desagradável do velho Gray poderia estar vivo agora, e eu estaria pacientemente esperando que ele batesse as botas de modo natural, se não tivesse feito a besteira de jurar que ia para casa mudar o testamento e deserdar Mary. Com isso, ele me fez achar que o melhor era que fosse logo para a caminha, dormir perto dos pais. A idéia de matar vem fácil a um homem cuja mente ficou perturbada por torturas como as que o senhor Júlio Verne me infligiu. Imediatamente contratei um cúmplice para ficar de vigia na porta David Gray, enquanto eu dispusesse dessa pessoa. Ia dar uma fazenda a esse auxiliar. Se ele não é hoje um proprietário de terras nesta encantadora e intelectual comunidade de devotos criadores de porcos, só tem a si mesmo para agradecer. Bom, à meia-noite peguei emprestada uma faca com o senhor Gregory - aquele caipira dorme como um túmulo e ronca como uma locomotiva - e em 13 minutos David Gray já se afastara para sempre de qualquer empreendimento ativo. Mal tinha começado a fazer seu novo testamento - e se, depois desse dia, eu recebi algum agradecimento do senhor e da senhora Hugh Gregory por ter permanentemente interrompido o documento em sua primeira frase, a circunstância escapou por completo de minha memória. Na briga, ganhei um ou dois arranhões na mão, mas sempre usei luvas (costume que eu era o único a ter nesta região deselegante), e assim eles não foram percebidos por ninguém. Devolvi a faca ao senhor Gregory. Ou, pelo menos, a coloquei em sua cama. Em seguida, tomei emprestado um pedaço da aba de seu casaco, para deixá-lo junto ao cadáver. Após lhe dar boa-noite, ao que ele só respondeu com um ronco, deixei umas manchinhas de sangue em suas calças e fui-me embora. Sabia perfeitamente que esta comunidade não dispõe de cérebros, e, portanto, a faca escondida e as manchas de sangue constituiriam provas suficientes contra o roncador. Cérebros teriam dito: "Só um louco deixaria manchas na própria roupa e esconderia a faca em sua cama, além de chamar a atenção para o lugar exato, com uma rodela de sangue." Portanto, adeus, seus criadores de porcos, estou pronto para ir, e consumido pelo desejo de perguntar ao finado senhor

Júlio Verne quantos capítulos de seu “Dezoito Meses na Fornalha” ele já escreveu, bem como de saber quem ele empregou para circular por lá reunindo os fatos enquanto ele torra em seus aposentos particulares e exagera tudo. Acima de tudo, eu quero é saber onde ele bateu quando caiu.

 

Notas explicativas

(1) O autor deixa bem claro que aquele povoado é um lugar aonde as coisas modernas não chegavam. Nem no plano material nem no espiritual, pois até a religião era apresentada de forma antiga, com referência às chamas e ao fedor do inferno.

(2) "Onde estou?" O estranho, coberto de sinais de riqueza, fala francês.

(3) "Onde estou?", em alemão.

(4) "Onde estou?", em espanhol, italiano, outras línguas.

(5) Essas juras apaixonadas, trocas de retratos e cachos como lembranças, os suspiros e olhares dos namorados proibidos, tudo mostra como eram os amores românticos naquele tempo em que os pais é que decidiam os casamentos e os filhos tinham que obedecer.

(6) Essa repetição de "confidencialmente" não é um erro, é de propósito. Assim o autor usa ironia para mostrar como cada um ia traindo a confiança e passando o segredo adiante - como, aliás, fazia todo o vilarejo.

(7) O conde fala de um jeito tão grandioso e exagerado que até parece discurso. Mark Twain usa esse recurso para que o leitor perceba que o personagem está passando da conta e sinta que "assim, também, já é demais". Qualquer um desconfia que essas palavras são falsas. Menos a bobinha da Mary. É como se o autor piscasse o olho para o leitor sem ela ver.

(8) Esse trecho cheio de palavras jurídicas explica que, como todos no vilarejo gostavam de Hugh, achavam que ele não seria condenado a morrer enforcado (como se usava naquele tempo nos Estados Unidos), mas apenas à prisão, por ter matado sem querer. Numa época em que não havia telefone, mensageiros foram mandados à capital pedir perdão, ou, pelo menos, uma pena mais favorável.

(9) Pronto, aqui acaba a história do casamento. E já sabemos quem cometeu o assassinato. Falta explicar como, e resolver o outro mistério: como o conde chegou lá? Como, claramente, aqui é o fim de uma parte, o autor conta o resto da história de outra maneira, e passa a usar "eu", o pronome de primeira pessoa, na confissão do conde.

(10) O francês Júlio Verne escreveu vários livros que podem ser considerados os fundadores da ficção científica. Imaginava tecnologias avançadíssimas que ainda não existiam na época e serviam de apoio para fantásticas aventuras, como “Da Terra à Lua” e “Viagem ao Centro da Terra”.

(11) Livro de Júlio Verne que conta as aventuras do capitão Nemo e sua tripulação, num submarino chamado “Nautilus”, enfrentando monstros marinhos e vivendo várias outras peripécias emocionantes.

(12) Todos esses são títulos de livros que foram escritos por Júlio Verne e fizeram muito sucesso, com aventuras maravilhosas, bem diferentes dessas coisas sem graça que o conde conta.

 

                                                                                Mark Twain  

 

                      

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