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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM CHALÉ NA COLINA / Sandra Brown
UM CHALÉ NA COLINA / Sandra Brown

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

Alicia Russell se desdobra para criar sozinha os dois filhos, após a morte do marido. Mas quando uma forte tempestade ameaça arruinar as férias da família num chalé nas montanhas, Alicia é obrigada a aceitar a ajuda de um desconhecido. Não demora muito para que o atraente vizinho lhe ofereça bem mais do que abrigo da tempestade...

Bonito, sensual e misterioso, Pierce Reynolds cobre os filhos de Alicia de atenção e carinho, e a faz lembrar de como é sentir-se desejada. Porém, ao mesmo tempo que Pierce parece querer seduzir Alicia, ele faz questão de mantê-la a uma distância segura, com a única explicação de que quer evitar mágoa e sofrimento. Alicia sabe que não pode desistir de Pierce sem lutar... Mas como ela conseguirá convencê-lo de que vale a pena correr todos os riscos para viver um grande amor?

 

 

 

 

 

Aquelas eram, sem dúvida, as mais belas curvas femininas que ele já vira.

Através da porta de tela inteiriça, tinha uma visão completa delas, arredondadas, sensuais. O short-jeans estava justo. O brim desbotado, desfiado na barra, moldava-se com perfeição a coxas firmes, tentadoras.

A mulher estava de costas, apoiada sobre as mãos e os joelhos, verificando e tocando com hesitação a caixa de força junto ao rodapé. Quando ela se inclinou mais para a frente a fim de exami­nar os disjuntores, ele abriu um sorriso vagaroso, de puro prazer masculino enquanto a observava. Era o sorriso de um voyeur sa­tisfeito. Estava um tanto envergonhado de si mesmo. Mas não envergonhado o bastante para parar de olhar.

O chalé estava escuro. A lanterna da mulher oferecia uma ilu­minação precária. A verdadeira luminosidade provinha dos fortes clarões branco-azulados que rasgavam o céu.

Os dois meninos pequenos que observavam os esforços dela ficavam cada vez mais inquietos.

— Estou com fome. Você disse que a gente ia comer logo que chegasse aqui.

— Afinal, você sabe como ligar a luz, mamãe? Aposto que não. O homem do outro lado da porta de tela viu os ombros dela caírem numa atitude de derrota. O gesto durou apenas um momen­to. Ela endireitou os ombros e ergueu a cabeça com determinação.

— É apenas uma caixa de força, David. Quando eu achar e puxar a chave geral, a eletricidade voltará. Deve ter caído por causa da tempestade. E, Adam, nós comeremos assim que eu conseguir ligar as luzes e descarregar o carro.

— Você disse que o chalé ia ser o máximo. Eu estou achando isto aqui uma droga—queixou-se David.—Deveríamos ter usado barracas.

— Sim, barracas — concordou o irmão mais novo.

— Se acham que não consigo ligar a força, o que os faz pensar que eu poderia montar uma barraca?

A crescente impaciência na voz da mulher era inconfundível, e o homem junto à porta de tela não a culpava por aquilo. Mas os dois meninos pareciam tão desanimados que não podia culpá-los por suas reclamações tampouco. Eram apenas crianças e, ao que parecia, tinham passado horas viajando. A chegada deles ao chalé à beira do lago tinha sido tumultuada, para dizer o mínimo.

Ele avistara os faróis do carro quando o trio chegara. Poucos minutos depois, decidira enfrentar uma das mais inclementes tem­pestades de que se lembrava e se adiantar até o chalé situado a apenas cem metros do seu. Aqueles cem metros eram preenchidos por densos arvoredos, o que garantia aos proprietários dos chalés privacidade. Caminhar no meio do bosque numa tempestade fora imprudente, mas ele ficara preocupado com seus vizinhos. Sua eletricidade se fora cerca de dez minutos antes da chegada deles e não havia como prever quando voltaria.

Agora, enquanto ouvia as queixas dos meninos e o mal contido desespero na voz da mulher, ficava contente por ter enfrentado a chuva torrencial. Ela precisava de ajuda e estava sozinha. Ao me­nos, não havia nenhum marido e pai por perto.

— Nós deveríamos ter parado naquela lanchonete na rodovia. David e eu queríamos comer lá.

— Eu sabia que isto ia ser uma viagem de acampamento chata. Eu queria usar uma barraca e acampar de verdade, não ficar num chalé.

A mulher mudou de posição, sentando-se nos calcanhares, as mãos nos quadris, os cabelos loiros caindo-lhe pelas costas num rabo-de-cavalo.

— Bem, se você é tão desbravador, pode sair na chuva e co­meçar a caçar ou pescar para o nosso jantar. Já estou farta de ouvir vocês se queixando. Este chalé nos foi emprestado. Uma vez que não temos uma barraca e não entendemos nada a respeito, achei que era melhor aceitarmos a oferta e o usarmos. Não posso fazer nada em relação à tempestade. Mas estou me empenhando ao má­ximo para fazer a eletricidade voltar. Agora, parem de reclamar! —Ela aliou à voz severa um olhar intimidante e voltou a se inclinar para inspecionar em vão a caixa de força.

Desolados, os irmãos trocaram um olhar e sacudiram as ca­beças. Estavam convencidos de que a viagem estava fadada ao fracasso.

—Acha que ela consegue ligar a luz? — perguntou o menino mais novo num sussurro alto.

— Eu não, e você?

— Não.

Agora, era o momento de ele anunciar sua presença. Jamais tivera o hábito de ficar espiando os outros e estava embaraçado por ter ficado tanto tempo do lado de fora sem deixar que soubes­sem que estava ali. Mas estava gostando de observá-los. Eles não corriam perigo imediato algum. Seu contratempo despertou a sim­patia dele. Descobriu-se sorrindo dos comentários dos dois meni­nos e da frustração materna da mulher. Talvez, testemunhar a tri­butação daquela família estivesse servindo de distração para a sua própria. Enquanto os observara certamente conseguira desviar a mente de seu problema. Embora injusto, aquela era a natureza humana.

Também era uma questão de natureza humana sentir o fogo do desejo percorrendo-o a cada vez que olhava para aquela loira curvilínea. Era algo injusto também. Era leviandade desejar a mãe daqueles meninos e esposa de alguém. Mas um homem podia se responsabilizar por seus pensamentos?

— Mamãe, preciso ir ao banheiro. — Foi Adam quem falou.

— Número um, ou número dois?

— Número um. Depressa!

— Bem, como ainda não localizamos o banheiro, vá lá fora mesmo.

— Está chovendo.

— Eu sei disso — disse a mulher, a paciência diminuindo. — Fique debaixo do coberto da varanda e mire para fora.

— Está bem — resmungou ele e adiantou-se na direção da porta. — Ei, mamãe!

— Sim? — Ela continuava concentrada na caixa de força.

— Há um homem lá fora.

A loira virou-se abruptamente, caindo sentada no chão e excla­mando, alarmada:

— Um homem?

Rapidamente, esperando não assustá-la, ele apontou o facho de sua potente lanterna para dentro. Iluminou um par de seios grandes que, arfando, comprimiam-se junto a uma camisa de cambraia amarrada com um nó à cintura dela e, mais acima, intensos olhos azuis.

Alicia Russell engoliu em seco, o coração disparado. Um raio rasgou o céu e definiu a silhueta do homem parado do lado de fora da porta de tela. Ela fechara o trinco depois que haviam entrado? Aquilo faria alguma diferença? O homem parecia imenso e assus­tador com o céu tempestuoso ao fundo. E estava entrando!

Ele abriu a porta de tela. Foi arrancada de sua mão pela força do vento e bateu de encontro à parede externa. Ela e os meninos se encolheram de medo. O homem se adiantou depressa pelo chalé e se ajoelhou diante de onde ela estava sentada. O clarão da lanterna ofuscou-lhe os olhos. Entreabriu os lábios, prestes a gritar para que os filhos corressem.

— Você está bem? — Ele desligou a lanterna e tudo ficou es­curo, pois as pilhas da dela tinham se esgotado momentos antes.

— Não quis assustá-la. Deixe-me ajudá-la a levantar.

Alicia se esquivou, e a mão que lhe foi estendida afastou-se.

— Es... Estou bem — balbuciou. — Sobressaltada, nada mais.

— Alicia levantou-se sem ajuda. Sua primeira preocupação foi com a segurança dos filhos, que observavam o estranho com curiosidade. — David, vá ajudar Adam a... fazer o que ele tem de fazer na varanda. — Se iria ser atacada, não queria que os filhos testemunhassem aquilo. Céus, onde estava o telefone? Por que a luz não voltava? Quem era aquele homem e de onde surgira? Seu coração ameaçava sair pela boca.

— Olá — disse David, amistosamente. — Sou David. Este é Adam. Eu sou o mais velho. Tenho sete anos. Ele tem cinco.

— Olá—respondeu o homem. Alicia teve a impressão de vê-lo sorrir, mas estava tão escuro que não teve certeza. — Meu nome é Pierce.

— David... — começou Alicia, mas foi interrompida pelo me- nino.

— Nós vamos ficar aqui uma semana, mas mamãe não conse­gue ligar a luz. Não é muito boa nesse tipo de coisa.

O estranho olhou para ela e, depois, na direção dos meninos.

— Poucas mães são. Mas ela não teria conseguido ligar a luz, de qualquer modo. Não há energia elétrica por causa da tempestade.

— Da-vi-d! — avisou Alicia por entre os dentes.

— Por que não leva seu irmão até lá fora? — sugeriu o estranho.

— Enquanto vejo se posso ajudar sua mãe.

— Está bem. Venha, Adam.

Os garotos fecharam a porta de tela quando saíram, e o homem virou-se para Alicia.

— Você começou com o pé esquerdo. Seus anjinhos não estão muito contentes.

Ela respirou fundo.

— Sei que, quando a eletricidade voltar e eles tiverem comido algo, ficarão de melhor humor. — Pronto, ali estava. Conseguira soar calma, sem medo, sob controle, capaz.

— Onde estão os lampiões a gás? Eu os acenderei para você.

— Lampiões? — A aparente confiança de Alicia tornou a ruir.

— Eu... não sei. O chalé é emprestado, e ainda não tive chance de olhar ao redor.

— Velas?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não trouxe nenhum equipamento de emergência com você?

— Não, não trouxe — respondeu Alicia, áspera. Odiou o tom de incredulidade na voz do estranho. Afinal, aquela era a primeira tentativa de viagem de acampamento que enfrentava com os filhos. Como poderia ter pensado em tudo! — Ficaremos bem quando a energia elétrica voltar.

— Por que não esperam no meu chalé até a tempestade passar? Teremos de atravessar o bosque, mas não fica longe.

— Não — apressou-se ela a dizer, o pânico ressurgindo.

— Mas seria o ideal. Posso preparar algo para os meninos no fogão a gás.

— Não, obrigada, Sr...

— Pierce.

— Agradeço, Sr. Pierce, mas nós...

— Não, Pierce é meu primeiro nome. Pierce Reynolds.

— Sr. Reynolds, nós nos arranjaremos. Não quero deixar o chalé.

— Por quê?

Ela pôde ouvir os filhos brincando na varanda coberta.

— Meu... meu marido planeja se reunir a nós mais tarde. Te­remos de estar aqui quando ele chegar, ou ficará preocupado.

— Oh!! — Ele passou a mão pela nuca com ar de indecisão. — Odeio deixar vocês sozinhos nestas circunstâncias. Que tal escre­vermos um bilhete dizendo a ele onde vocês estarão?

— Ei, mamãe, estamos morrendo de fome — disse David, en­trando de volta com o irmão. — Quando vamos comer?

— Estamos morrendo de fome — repetiu Adam.

— Acho que seria mesmo melhor se vocês fossem para o meu chalé.

— Eu...

Antes que Alicia tivesse chance de objetar, o homem virou-se para os meninos.

— Gostam de chili? Se forem até meu chalé comigo, posso aquecer uma panela repleta em poucos minutos.

— Uau, seria ótimo! — exclamou David, entusiasmado, Adam concordando de imediato.

— Mas terão de caminhar pelo bosque para chegar até lá — avisou-os o homem. — Não há estrada daqui até lá para passarem com seu carro.

— Nós não ligamos, não é mesmo, Adam?—Os dois já corriam na direção da porta de tela.

— Meninos!—chamou-os Alicia freneticamente, mas eles saí­ram sem lhe prestar atenção.

— Venha, Sra...?

— Russell.

— Sra. Russell. Não posso deixá-la e aos meninos aqui sozi­nhos. Juro que não sou alguém de quem precise ter medo.

Naquele momento, outro clarão de um raio ramificou-se pelo céu escuro. Ocorreu a Alicia que a possibilidade de que a eletri­cidade voltasse naquela noite era nula. Fora uma tola em não ter ido para ali preparada para semelhante emergência, mas era tarde demais para fazer algo a respeito agora. Ao menos, os meninos poderiam ser alimentados. Quando a chuva se abrandasse, volta­riam e esperariam pela manhã.

Com um suspiro resignado e uma prece silenciosa de que pu­desse confiar no estranho, enfim, assentiu.

— Está certo. — A única coisa que levou consigo foi a bolsa. Teria sido uma insensatez descarregarem a bagagem do carro no meio da chuva torrencial.

Na varanda da frente, Pierce Reynolds pegou Adam no colo e indicou a David que desse a mão à mãe.

— Está bem, todos. Segurem-se firme. Sra. Russell. — Por um longo momento, Alicia olhou para a mão forte estendida em sua direção. Enfim, deu-lhe a sua, e ele segurou-a com força.

A chuva inclemente açoitou-os, o vento soprando-lhes os ca­belos e colando-lhes a roupa ao corpo. A cada vez que raios cor­tavam o céu, seguidos de estrondosos trovões, Adam escondia mais o rosto no pescoço do Sr. Reynolds. David empenhava-se ao máximo para ser corajoso, mas grudava-se temeroso a Alicia quan­do avistaram o outro chalé por entre as árvores.

— Estamos quase lá — avisou Reynolds, elevando a voz aci­ma do som ensurdecedor da tempestade.

Chegaram à segurança da varanda coberta quando mais um trovão sacudiu as janelas.

— Vamos deixar os calçados aqui — sugeriu Pierce, colocando Adam no chão. Quando estavam todos descalços, conduziu-os ao interior do chalé, suavemente iluminado por dois lampiões a gás e brasas na lareira.

Ele apontou para uma porta, indicando a David que fosse buscar toalhas para todos no banheiro, e ocupou-se atiçando o fogo e colocando mais lenha na lareira.

O chalé de madeira envernizada consistia de um grande espaço que servia como sala de estar, quarto, sala de jantar e cozinha. Cadeiras confortáveis e um sofá estavam distribuídos diante da lareira. Uma pequena cama de casal fora colocada sob um teto rebaixado, ao pé de uma escada estreita que levava a um quarto alteado. O chalé era, na verdade, uma espécie de loft, acolhedor, confortável e impecavelmente limpo e arrumado.

Enquanto David voltava, carregando uma pilha de toalhas felpudas, Alicia foi tomada por uma sensação de incredulidade. O que estava fazendo ali, no recanto daquele desconhecido nas co­linas, sozinha com ele num lugar tão ermo? Teria sido ruim ò bastante se o homem fosse idoso e ranzinza, ou bondoso mas ex­tremamente feio e ignorante. Mas o salvador deles era bonito, edu­cado e viril, algo que ela só descobriu depois que entraram no chalé iluminado e pôde vê-lo com clareza.

Dono de fartos cabelos castanhos, o corte moderno, descontraí­do, tinha olhos verdes e brilhantes feito esmeraldas sob as sobran­celhas espessas. O rosto era forte, marcante, o queixo quadrado, o nariz reto, os lábios masculinos e bem desenhados. Era alto, os ombros largos, o porte atlético, devendo se exercitar regularmente. Quando acrescentou lenha às brasas e reavivou o fogo, músculos bem definidos ondularam sob a camisa de flanela molhada.

Ele a deixava extremamente nervosa. Não porque ainda achasse que poderia representar-lhes algum perigo. Um homem que car­regava um garotinho no colo no meio de uma tempestade e lhe murmurava palavras de encorajamento, assegurando-lhe que não havia nada a temer, não podia ser um assassino. E quanto a ser um possível molestador... Bem, estava mais do que claro que ele ja­mais teria de forçar mulher alguma a nada.

— Foi bom eu ter decidido acender a lareira no início da noite. Não estava tão frio, mas agora...

Pierce parou no meio da frase. Pois se Alicia estava surpresa em achá-lo tão atraente, a reação dele foi dez vezes mais intensa quando se levantou e virou-se para fitá-la. Os cabelos dela estavam molhados, moldando-lhe o rosto, o pescoço e os ombros como seda dourada. Encharcado, o tecido da camisa colava-se aos seios arredondados, os mamilos em evidência devido ao frio. Os deli­cados pés descalços só lhe faziam as pernas bronzeadas parecerem ainda mais longas e bem torneadas. De estatura média, ela possuía um corpo perfeito e curvilíneo que o atraíra instantaneamente.

Ele obrigou-se a desviar o olhar, condenando a si mesmo e a sua libido exacerbada. A questão era que jamais se sentira tão atraído, tão... obcecado por uma mulher antes. Era algo que o sur­preendia. Aquela era uma esposa e mãe que não estava fazendo absolutamente nada para incitá-lo. Na verdade, parecia pouco à vontade, nervosa, e, se a deixara perceber o quanto a achava in­crivelmente desejável, não podia culpá-la pela inquietação.

— Acho que devemos nos livrar das roupas molhadas. Por que não leva os meninos para o banheiro, enquanto vejo se encontro algo para poderem usar?

Minutos depois, quando Alicia já enxugara os filhos, deixan­do-os apenas com as roupas de baixo, ele anunciou que o chili estava no fogão e entregou-lhes duas camisetas da Universidade da Califórnia que encontrara numa gaveta. Ficaram compridas e folgadas, mas os garotos as adoraram.

Alicia continuou se sentindo constrangida em seu short-jeans e camisa molhada, agora transparente e colada ao corpo, ciente de como seus seios estavam em evidência num sutiã de renda branca. Notara o olhar demorado de Pierce Reynolds. Quando partira de Los Angeles naquela tarde, a temperatura estivera bastante agra­dável, graças a uma inesperada onda de calor. Para um trajeto de carro até as colinas com os filhos, as roupas confortáveis tinham parecido ideais.

— Agradeçam ao Sr. Reynolds pelo empréstimo de suas cami­setas — lembrou-os ela, mas, depois que os meninos o fizeram educadamente, ele disse:

— Não há de quê, mas não são minhas. Este chalé pertence a minha empresa. Todo o mundo o usa e deixa coisas para trás. Tenho certeza de que ninguém sentirá falta das camisetas, se qui­serem ficar com elas.

— Podemos mesmo? — Os garotos correram, parecendo dois pequenos fantasmas nas camisetas folgadas. Mostravam-se felizes agora que estavam secos, aquecidos e que o jantar estava prestes a ser servido.

— Terei de olhar um pouco mais para encontrar algo adequado para você — disse Pierce, mantendo o olhar fixo no rosto dela, o que não foi difícil, levando em conta o quanto era bonita. Os ca­belos loiros começavam a secar, emoldurando um rosto oval de traços clássicos e bonitos, onde se destacavam os grandes olhos azuis e os lábios carnudos. Céus, ela possuía uma boca tentadora, e ele teve de conter a vontade premente de beijá-la.

Alicia não pôde sustentar aquele olhar intenso.

— Eu secarei num minuto — apressou-se a dizer. — Não se preocupe. E melhor alimentarmos aqueles dois.

Adam e David já estavam sentados à mesa, onde quatro lugares tinham sido arrumados. Havia uma cesta com pequenas torradas e uma bandeja com queijo fatiado e maçãs no centro. Uma panela com chili fumegava no fogão.

Os meninos comeram com seu costumeiro apetite, e Alicia deu-se conta de que também estava com fome, o chili delicioso. Ao que parecia, seu anfitrião também tinha louváveis dotes culinários. Encontrando aqueles perscrutadores olhos verdes observando-a mais uma vez, ela virou-se depressa para os filhos, que haviam começado a tagarelar sem parar.

— Terminem seu jantar para podermos voltar ao outro chalé.

— Não podemos ficar aqui? — choramingou David. Ela lançou-lhe um típico olhar de reprovação materna.

—Não, é claro que não. Não podemos incomodar o Sr. Reynolds.

—Você não se importa, não é mesmo?—perguntou-lhe Adam candidamente.

Pierce olhou para Alicia do outro lado da mesa.

— Não, não me importo. Na verdade, eu estava pensando em correr de volta até o chalé e deixar aquele bilhete para seu marido. Ele pode se reunir a vocês aqui quando chegar.

— Marido? — perguntou David, confuso.

Mortificada, Alicia fechou os olhos. Quando dissera a mentira fora na esperança de proteger a si mesma e aos filhos.

— Sua mãe me falou que o pai de vocês iria encontrá-los no chalé mais tarde.

— Não temos pai — informou-o David. — Ele morreu. Há vários anos. Eu me lembro dele, mas Adam não.

— Eu também me lembro! — protestou o irmão. — Ele tinha cabelos escuros e olhos castanhos como a gente.

Enquanto os filhos falavam, Alicia sentiu o par de olhos verdes parecendo enxergar através dela. Pierce devia estar julgando-a uma tola por ter inventado um marido. Com o máximo de atitude desafiadora que pôde reunir, ergueu os olhos e sustentou aquele olhar inquiridor.

Felizmente, houve uma pausa, quando os meninos pediram para repetir o chili, e, depois, David continuou desviando a atenção de Pierce:

— Você tem pai?

— Não. Ele morreu há muito tempo. Mas minha mãe ainda é viva.

— Você é como nós. Pierce sorriu.

— Parece que sim.

— Você tem esposa?

— Adam! — exclamou Alicia com um olhar faiscante. — É o bastante. Parem de falar tanto e terminem de comer.

— Não, eu não tenho esposa. — Pierce tinha um ar risonho nos olhos quando levou o guardanapo descartável aos lábios.

Eles terminaram o jantar no que, para Alicia, foi um silêncio abençoado.

— Se acabaram — falou Pierce, enfim —, acho que já é tempo de vocês dois irem para a cama, garotos. — Levantando-se, co­meçou a retirar a mesa.

Esforçando-se para conter o pânico, Alicia disse aos filhos que fossem lavar as mãos no banheiro.

Quando ficaram a sós, ela virou-se para Pierce, determinada:

— Vou levar meus filhos de volta ao chalé. Não passaremos a noite aqui, e eu agradeceria se você parasse de tentar persuadi-los a ficar, tornando-me, assim, a malvada.

— Isso é tolice, Sra... Oh, droga. Qual é seu nome?

— Sra. Russell — declarou ela, altiva. Ele lançou-lhe um olhar severo, fazendo-a ceder. — Alicia.

Pierce abriu um sorriso rápido e, então, apertou os lábios com ar resoluto.

— A tempestade não passou. Que vantagem poderia haver em arrastar de volta pelo bosque chuvoso os dois garotinhos até aquele chalé frio e escuro, sendo que podem dormir aqui?

— A questão é que terei de dormir aqui também.

— E daí?

— Daí que minha mãe me ensinou a ter bom senso o bastante para não passar a noite com homens estranhos.

— Não sou um estranho. — Novamente, o sorriso rápido se­guido de lábios apertados com severidade. — Por que inventou aquela mentira sobre um marido? Para se proteger de mim?

Alicia jogou os cabelos loiros para trás e ergueu o queixo.

— Sim. Esperei que você não nos incomodasse se achasse que um homem se reuniria a nós logo.

Pierce inclinou-se para a frente de leve, a voz baixando: - — Estou incomodando você? — indagou, dando um outro sen­tido à palavra.

Sem dúvida. Era o que ela teria de dizer se tivesse sido colocada sob juramento. O homem a incomodava de maneiras que não que­ria nem pensar.

— Apenas acho que, para todos nós, seria melhor se eu e meus filhos voltássemos ao outro chalé.

—Eu discordo. Vocês estariam sozinhos e sem energia elétrica.

E praticamente sem comunicação também. As linhas telefônicas estão mudas por causa da tempestade, e celulares não pegam muito bem aqui. Agora, está bastante frio, e os meninos não estão ves­tidos adequadamente. Sem mencionar você.

Para enfatizar o que dizia, ele percorreu-lhe as pernas à mostra com um olhar sério. Mas algo mudou quando tornou a fitar-lhe o rosto. A expressão naqueles olhos suavizara-se. De uma maneira sensual. Tanto que, quando encontraram os de Alicia, ambos fi­caram sem fala em meio àquela súbita tensão que pairou no ar. Os segundos se arrastaram, e os dois continuaram se entreolhando, ligados por uma corrente eletrizante.

O que há de errado comigo ?, perguntou-se Alicia. Tirara aquela semana de folga para avaliar uma importante decisão, uma decisão que estava sendo pressionada a tomar. Seu tempo estava se esgo­tando; seus superiores queriam uma resposta. Não precisava da­quele tipo de distração romântica em sua vida. Nunca, mas, em especial, não agora, quando acabara de encontrar seu equilíbrio no esquema das coisas.

Pensamentos semelhantes passavam pela mente de Pierce. Uma semana antes, estaria achando aquela situação extremamente di­vertida. Teria dado total liberdade a seu desejo, sem travar batalha alguma para contê-lo. Admitia a si mesmo que teria usado de quais­quer táticas necessárias para levar aquela sensacional loira para a cama. Mas, dois dias antes, seu mundo fora virado de ponta-cabeça, e ele não sabia como lidaria com aquilo. Era exclusivamente um problema seu. Por certo, não podia partilhá-lo com ninguém. E o que pensava a cada vez que olhava para aquela mulher era em partilhar de algo do tipo mais íntimo possível.

— Onde é minha cama? — perguntou Adam com um grande bocejo.

Alicia e Pierce sobressaltaram-se e, num gesto reflexivo, afas­taram-se um do outro.

Ela se viu sem escolha. Caso se recusasse a ficar agora, estaria admitindo que Pierce Reynolds a "incomodava" de algum modo. A lógica dizia que ficar ali era a escolha mais segura e razoável, em vez de enfrentar a tempestade com duas crianças cansadas para voltar a um chalé gelado e escuro.

Além do quê, seria um acerto temporário. Ela levara trinta e um anos para aprender a cuidar de si mesma. Jamais queria tornar a depender de ninguém em sua vida. Mas aquilo era apenas por uma noite.

Pierce Reynolds arqueou uma sobrancelha escura com ar in­quiridor, e ela assentiu com um leve gesto de cabeça. Ele aceitou sua discrição elegantemente e sem nenhum ar de triunfo.

Ela via duas grandes camas de solteiro na parte alteada que servia de dormitório, e combinaram que os garotos dividiriam uma, Ali­cia ficaria com a outra e Pierce ocuparia a de casal logo abaixo da escada. Ela logo acomodou os filhos para dormir e desceu para ajudar Pierce a lavar os pratos, uma súbita quietude pairando no chalé, exceto pelo som da chuva que ia se abrandando lá fora.

Obrigado — disse Pierce depois que terminaram de guardar a louça.

— Era o mínimo que eu podia fazer.

— Acho que é melhor eu lhe arranjar algo para vestir. Caso queira admitir ou não, sei que está desconfortável nessas roupas úmidas. Eu estou com as minhas.

Alicia gostaria que ele não tivesse mencionado aquilo. A camisa de flanela úmida evidenciava-lhe cada músculo do tórax e dos ombros largos, o abdome firme; o jeans moldando-lhe os quadris estreitos, as coxas fortes. Mais uma vez ficou ciente do quanto o homem era alto, forte... viril.

Sem poder evitar, continuou apreciando-o quando ele se adian­tou até uma cômoda de cedro e começou a vasculhar as gavetas. Dos itens deixados para trás, nada servia até então, como meias sem par, bonés, luvas, uma bermuda enorme.                              

— Ah, parece que aqui há alguma coisa. — Pierce tirou uma peça da terceira gaveta, observando-a com ar maroto. — Oh, pa­rece que algum sujeito de sorte se divertiu a valer enquanto esteve aqui com alguém.

Alicia conteve a respiração quando ele ergueu no ar uma camisola longa preta. De alças finíssimas, a parte de cima era feita de uma renda fina como teias de aranha, a parte de baixo de um tecido esvoaçante e transparente. Adornando um corpo feminino, deixaria bem pouco para a imaginação de um homem.

Pierce aproximou-se de Alicia devagar, os olhos verdes hipnóticos. Encostando as alças da camisola nos ombros dela, deixou que a parte de cima lhe moldasse os seios e que o restante do tecido transparente deslizasse por suas pernas nuas até os pés descalços.

— Serve perfeitamente — disse rouco, os olhos brilhando.

Alicia permaneceu imóvel, uma instantânea onda de calor percorrendo-a. Sentiu-se vulnerável e exposta, como se estivesse usando realmente apenas aquela camisola reveladora. Não posso usar isto — protestou, trêmula.

Para seu alívio, Pierce deu um passo atrás rapidamente. Pareceu lembrar-se de algo de repente, e o que quer que tenha sido, levando-o de volta à fria realidade. Adquiriu uma expressão indecifrável, sua atitude mudando abruptamente. Foi uma mudança tão extrema de humor que até Alicia, que lhe era uma estranha, viu-a, sentiu-a. Foi quase palpável.

Talvez ele fosse casado.

Pierce virou-se de costas, metendo a camisola de volta na cô­moda com ar zangado e continuando a vasculhar as demais gave­tas. Pareceu aborrecido ao extremo quando tornou a se virar e entregou uma camisa masculina a ela.

—Pode usar isto — disse num tom brusco.—Boa noite, Alicia.

 

Alicia acordou, espreguiçando-se com satisfação. Olhando para as vigas do teto de madeira envernizada que não lhe eram familiares, levou alguns momentos para saber onde estava. Então, lembrou-se.

Sentando-se abruptamente, afastou as cobertas. A outra cama de solteiro estava vazia. Quando subira a escada estreita, na noite anterior, não achara que dormiria tanto, nem tão profundamente. Bastou um olhar à pequena janela redonda ali de cima para saber que o sol brilhava, intenso, num belo dia de outono. O bosque parecia ter ficado ainda mais verdejante depois da tempestade.

Um riso divertido, seguido de sussurros pedindo silêncio, ecoou do andar debaixo. Alicia adiantou-se na ponta dos pés e ficou atenta. Escutando o tilintar de talheres e pratos, sentiu a deliciosa mescla de aromas de ovos com bacon, calda de chocolate e café. Céus, nem sequer ouvira os filhos descendo.

— Falem baixo e deixem sua mãe dormir. Ela estava bastante cansada ontem à noite.

—Está bem—prometeu David, embora Alicia pudesse ouvi-lo perfeitamente. — Quer dizer que você também mora em Los An­geles, como a gente, Pierce?

— Sim, isso mesmo.

— Puxa, talvez um dia você possa ir me ver jogar beisebol na minha escola!

— Eu estou aprendendo a jogar — interveio Adam. — Posso comer mais panquecas?

— Claro. Aqui estão. E aqui vão mais duas para você também, David. É só colocarem a calda de chocolate.

— Você faz panquecas muito boas.

— Obrigado, Adam.

—Mas não tão boas quanto as da mamãe, é claro—acrescentou o menino de cinco anos lealmente.

De seu esconderijo no alto da escada, Alicia sorriu. Ouviu o liso de Pierce, que pareceu reverberar por todo o seu íntimo. Ela pendurara suas roupas num cabide de parede, mas ainda estavam úmidas. A idéia de vesti-las a fez estremecer. Puxando para baixo a barra da camisa masculina com acanhamento, ela começou a descer a escada.

— Bom dia — disse, hesitante.

Três pares de olhos viraram-se em sua direção.

— Olá, mamãe. Pierce nos preparou ovos com bacon e pan­quecas com calda de chocolate.

— Cuidado, Pierce, você está deixando a massa pingar no chão. Pierce mostrou-se devidamente embaraçado e colocou a colher

de volta na grande tigela com massa de panquecas. Sentira-se tão atraído pelas pernas bem-feitas de Alicia, pela maneira como o tecido da camisa lhe moldava os seios antes de descer até o meio da coxa, por seu ar sensual e um tanto sonolento, com os cabelos longos e loiros em desalinho, o rosto corado, que ficara momentaneamente embasbacado.

Alicia imaginou que devia estar com uma aparência deplorável, a maquiagem do dia anterior borrada, os cabelos desgrenhados. Na noite anterior, ansiara por sua loção de limpeza, mas a bolsa com seus cremes e cosméticos continuava junto com o restante da bagagem no carro. Agora, teria dado tudo por ao menos uma es­cova, para tentar domar os cabelos que haviam ficado molhados de chuva e, então, secado. Sabendo que um gesto errado revelaria mais de suas coxas do que era necessário, acabou de descer a escada de madeira com extremo cuidado.

Beijou cada filho na fronte.

— Vocês acordaram o Sr. Reynolds muito cedo?

— Já estava acordado—informou David.—Ele pratica corrida todas as manhãs.

— Gostaria de uma xícara de café?

Não podendo mais evitar, Alicia lançou um olhar a seu anfitrião. Continuava tão bonito quanto na noite anterior, com seus impactantes olhos verdes, os cabelos castanhos em ligeiro desalinho, úmidos de um banho recente, os músculos ondulando sob um suéter leve.

— Sim, por favor—respondeu ela, tentando não soar ofegante. Ele serviu-lhe o café e apontou para o açúcar e o adoçante na

mesa ao lado de um bule de leite quente.

— Vou lhe preparar panquecas. Aliás, ainda não comi. Estava a sua espera.

Como haviam terminado de comer, os meninos foram brincar lá fora,e Pierce não demorou a reunir-se a ela à mesa.

— Hum, você faz mesmo panquecas deliciosas — elogiou Ali­cia, depois de provar a primeira com mel.

— Obrigado — sorriu ele, satisfeito. — A eletricidade voltou em algum momento da noite, e as coisas na geladeira não estra­garam.

Pela primeira vez, Alicia notou que a cafeteira elétrica fora usada, a luz estava acesa e, portanto, de fato, a energia voltara. Por que não notara algo tão importante antes? Era porque aquele chalé era tão confortável que temera inconscientemente voltar ao outro e deixar a companhia de um homem tão interessante?

Ela tratou de rebater o pensamento no mesmo instante em que lhe ocorreu.

— Que bom — disse. — Teremos de parar de abusar de sua hospitalidade e voltar ao nosso chalé tão logo eu tenha ajudado você a lavar a louça — fez questão de acrescentar.

— Como seu marido morreu?

A pergunta foi tão inesperada que ela o encarou com um ar de certa perplexidade. De qualquer modo, não viu razão para não responder, embora fosse uma pergunta pessoal demais para um estranho fazer a outro.

— Jim era um homem de negócios, mas tinha uma paixão por carros esporte, por tomar parte em corridas. Numa tarde de do­mingo, estava correndo e... — Ela baixou os olhos para o prato. — Sofreu um acidente. Ele morreu instantaneamente.

Pierce fitou-a como se quisesse tocá-la, oferecer-lhe consolo.

— Jovem como é, você não pode ter ficado casada por muito tempo.

Ela abriu um sorriso nostálgico.

— Por tempo o bastante para ter tido David e Adam com dois anos de diferença um do outro. Nós nos casamos logo depois da faculdade, e estou com trinta e um anos. Eu me apaixonei por Jim Russell na primeira vez em que o vi.

Pierce ficou abismado com o ciúme que sentiu. Também foi ornado por imensa frustração. Por que agora? Por que agora es­lava conhecendo uma mulher encantadora que irradiava uma se­xualidade latente só à espera de ser libertada? Uma mulher que ficara viúva tão prematuramente e poderia ter sido feliz a seu lado?

Quando aquela raiva interna dominou-o outra vez, Alicia no­tou-a na maneira como ele endureceu o semblante, apertou os lá­bios, na súbita ansiedade de seus olhos. Pierce Reynolds era um homem misterioso, complexo e com algo preocupando-o visivel­mente. Quanto antes se afastasse dele, melhor.

Não precisava de um homem em sua vida. Não agora. Não mais. Principalmente, não precisava de um com problemas.

Terminando de comer, ela retirou a mesa rapidamente e lavou a louça. Na área alteada do dormitório, trocou a camisa emprestada por suas roupas e, depois, chamou os meninos, vestindo-lhes de volta as próprias camisetas e shorts. Ignorou-lhes os protestos e perguntas persistentes.

— Nem sei como lhe agradecer por sua bondade e hospitali­dade, Sr. Reynolds — declarou ela quando todos já estavam na varanda.

— Fiquei contente em poder ajudar — respondeu Pierce no mesmo tom formal. — Tem certeza de que ficarão bem?

— Sim. Obrigada novamente.

Os meninos ficaram tagarelando com Pierce por vários minutos até que ela teve de intervir e praticamente arrastá-los pela clareira, para além do grande jipe que não notara estacionado ali na noite anterior, e pelos arvoredos que separavam os dois chalés.

— Oh, nós vamos nos divertir tanto! — exclamou ela, tentando reprimir sua própria sensação de perda e tristeza. — Esperem só para ver.

Os meninos, porém, continuaram cabisbaixos e o entusiasmo forçado dela só durou até saírem do bosque. Os três, então, pararam abruptamente e olharam ao redor com incredulidade. O chalé es­tava um caos.

Um grosso galho de árvore, carregado pela ventania, batera de encontro a uma janela, atravessando-a, deixando o chão e uma cama repletos de cacos de vidro. A chuva torrencial adentrara, formando poças d'água em várias partes do assoalho. As camas e até o sofá estavam molhados. Alicia apertou o interruptor de luz, mas nada aconteceu. A energia elétrica podia ter voltado no chalé de Pierce, mas não ali.

Estremeceu ao pensar no que poderia ter acontecido se não tivessem se abrigado no chalé dele na noite anterior. E se um deles três tivesse estado naquela cama quando o galho de árvore atra­vessara a janela? Haviam escapado de possíveis ferimentos e, por aquilo, seria eternamente grata. Mas o que faria agora? Se não fosse pelos filhos, teria se sentado no chão e chorado.

Para sua consternação, os dois estavam radiantes.

— Podemos voltar ao chalé de Pierce?

— Podemos, mamãe? Nós gostamos tanto de lá!

— Não, é claro que não — avisou-os ela de imediato. — Não podemos abusar mais da bondade do Sr. Reynolds.

— O que vamos fazer, então? — indagou David, aborrecido.

— Eu não sei. — Alicia esforçou-se para não demonstrar seu desalento. Odiava ser a única responsável por tudo o tempo todo, tendo de dar todas as respostas, tomar todas as decisões. Mas não fora o que se determinara a provar, que era capaz de ser responsável pela própria vida e a dos filhos?

Ela sobrevivera à morte repentina do marido e a um posterior rompimento de noivado; mergulhara de cabeça num emprego excelente, no qual era boa e adorava. Pelos Céus, não deixaria que alguns contratempos arruinassem a semana de férias deles!

Alicia não pôde acreditar quando o funcionário da única pou­sada das imediações, a cerca de vinte minutos de carro do chalé, informou-a que, por ser uma época de grande procura, não havia vagas. Nenhum dos quartos, nem tampouco dos chalés que aluga­vam, estava disponível naquela semana. Ela detestou ter que de­sapontar os filhos. Havia muito que lhes prometera uma viagem às colinas. Quando surgira a oportunidade de uma folga no traba­lho, conseguira na escola dos filhos que os liberassem durante aquela semana. Desfazer tudo aquilo lhes causaria uma grande decepção. Mas era inevitável. Não podiam voltar ao chalé danifi­cado. Ainda antes de saber que não encontraria acomodações, Ali­cia telefonara para a amiga que lhe emprestara o chalé, e ela lhe dissera que entraria em contato com um empreiteiro conhecido da região para providenciar para que fosse consertado. Mas aquilo levaria tempo, era claro.

— Lamento muito, mas não há nada que eu possa fazer. — I arando perto de seu carro, Alicia pousou a mão no ombro de cada filho num gesto de consolo. — Teremos de voltar para casa e planejar uma outra viagem para depois.

— Não é justo! — protestou David. — Você prometeu!

Um jipe familiar estacionou ao lado do carro, o coração de Alicia disparando quando viu Pierce descendo dele e se aproxi­mando.

— Estão com algum problema?

Antes que ela pudesse abrir a boca, Adam e David correram na direção dele e, atropelando um ao outro, contaram-lhe tudo o que acontecera naquela manhã.

Pierce tirou uma nota do bolso e pediu aos meninos que fossem lhe comprar um jornal na loja de conveniência da pequena área comercial ao lado da pousada.

— Os dois não estão aceitando bem o fato de que esta viagem não estava destinada a acontecer — comentou Alicia com um sor­riso forçado.

— Não estava mesmo? — Olhos verdes fitaram-na com desconcertante intensidade, e ela teve de desviar os seus. Ficou con­tente por ter tido a chance de tomar um banho no chalé emprestado, ainda que frio, e colocado um jeans e um suéter. Sentia-se menos insegura e vulnerável.

— Não, acho que não. Tudo deu errado. Não sou do tipo com espírito aventureiro, e meus filhos sabem disso. É evidente que me culpam pelo fim do passeio.

Pierce olhou para o bosque denso do outro lado da estrada de

cascalho, como se ponderasse uma decisão. Enfim, tornou a fitá-la.

—Por que você e os meninos não ficam comigo? No meu chalé.

— Não podemos.

— Por quê? Porque sabe que quero fazer amor com você? Alicia arregalou os olhos, o rosto empalidecendo.

— Não sou homem de medir as palavras. Sejamos francos. Logo que a conheci, eu quis você na minha cama. Mesmo ainda enquanto achei que fosse esposa de alguém, não pude deixar de desejá-la. E você sabia disso.

— Não diga...

— Mas eu jamais faria algo a esse respeito. — A surpresa fez com que os protestos dela morressem em sua garganta, e Pierce prosseguiu: — Com meus trinta e nove anos de idade, estou bem longe de ser um adolescente impulsivo. Em primeiro lugar, você provavelmente ficaria ofendida se eu sequer tivesse tentado levá-la para a cama. Eu jamais iria querer me arriscar a ofendê-la. — Ele respirou fundo e tornou a desviar o olhar, mantendo-o fixo na distância. — Em segundo lugar, tenho motivos para não me en­volver com ninguém no momento. Motivos fortes, proibitivos. Es­pecialmente desde...

Alicia engoliu em seco.

— Desde?

Ele fitou-a novamente.

—Deixa pra lá. — Abriu um sorriso. — Sabendo que eu jamais me aproveitaria de você, concorda em ficar no meu chalé? Ela correu a mão pelos cabelos, tentando pensar numa razão convincente para não aceitar aquela oferta que parecia cada vez menos absurda.

— Não tenho medo de você. Não acho que seja um homem de impulsos incontroláveis.

Pierce soltou um riso.

—Não abuse de sua sorte. Ainda a acho extremamente atraente. Se você aparecesse naquela camisola preta que encontrei ontem à noite, todas estas promessas de bom comportamento seriam es­quecidas no ato.

Alicia corou e mudou logo de assunto.

— Não posso interromper suas férias. Tem idéia de como os garotos costumam fazer algazarra, em especial quando estão pas­seando?

— Não — respondeu ele com ar sério. — Nunca fiz o papel de pai. Mas eu adoraria saber como é. Seus filhos são ótimos e mal posso esperar para vê-los me seguindo por toda a parte.

Ela sacudiu a cabeça com ar divertido.

— Acho que você não sabe onde está se metendo.

—Deixe que eu me preocupo com isso.—Pierce aproximou-se um pouco mais, os olhos persuasivos, irresistíveis. — Por favor, diga que ficará. Quero que fique.

Alicia observou-o, uma corrente eletrizante percorrendo-a. Ele era tão másculo e bonito. O simples fato de olhá-lo já lhe evocava pensamentos eróticos, proibidos.

Só por aquela razão já deveria recusar o convite. E havia várias razões. Era uma completa estupidez e uma grande irresponsabili­dade passar uma semana com um estranho. Mas instintivamente confiava em Pierce. Ela optou por seguir seus instintos.

— Você tem certeza?

A resposta dele foi um largo sorriso. Naquele momento, os meninos voltaram correndo da loja de conveniência com o jornal que haviam comprado. Pierce pegou Adam no colo e sacudiu os cabelos de David.

— Adivinhem só, garotos. Vocês vão ficar comigo esta semana. Assim, o único lugar para onde irão no momento é para o meu chalé me ajudarem a descarregar o carro de vocês.

No dia não faltou atividade. Foi uma trabalhosa tarefa descar­regarem o carro e encontrarem lugar para tudo no chalé. Depois, Pierce levou os meninos numa missão de recolherem lenha no bosque, enquanto Alicia preparou sopa e sanduíches para o almo­ço. A tarde, exploraram as margens do grande lago e algumas das trilhas ao redor. Pierce levara-os pelo píer de madeira até um pe­queno barco ancorado ao final, sugerindo que poderiam pescar no dia seguinte. Ao final da tarde, retornaram para grelhar bifes numa churrasqueira de tijolos atrás do chalé. O jantar foi delicioso, mas os meninos bocejaram enquanto comiam. Pouco depois, Alicia lhes deu banho e os colocou na cama.

Ela sentou-se nos degraus da varanda, para desfrutar a quietude das colinas, o ar fresco da noite, o céu claro e estrelado. Situado num terreno um tanto elevado, o chalé oferecia uma visão privi­legiada do lago, uns cem metros para além da clareira, onde a água serena refletia o luar. Pierce reuniu-se a ela com um par de canecas de chocolate quente, entregando-lhe uma.

— Eles dormiram instantaneamente — sorriu ela. — Foi um dia e tanto.

— Fico feliz que os dois estejam se divertindo.

— Graças a você. Nem sei como lhe agradecer pela chance que lhes deu. A propósito, você disse que sua empresa era a proprietária do chalé. Que empresa é?

— A Ecto Engenharia.

— Que tipo de engenharia?

— Aeronáutica.

— Vocês projetam aviões comerciais? Aviões militares? O quê?

— Fechamos alguns contratos com militares, mas, na maioria, trabalhamos com empresas privadas de aviação, projetamos jatos corporativos, esse tipo de coisa.

— Seus projetos são brilhantes e inovadores? — perguntou Alicia, provocando-o.

— Sim — respondeu ele, sincero, e ambos riram.

— O que os donos de sua empresa diriam se soubessem que você convidou uma viúva com dois filhos para ficar no chalé?

— Bem, uma vez que sou sócio-fundador da empresa, tenho o direito de convidar quem eu quero.

Ela deveria ter imaginado que ele não era um assalariado. Pierce Reynolds emanava poder e sucesso. Mas não os ostentava. Era acessível, dono de uma simplicidade cativante.

— E quanto a você? O que faz?

— Sou coordenadora-assistente de moda numa rede de três butiques chamada Glad Rags, em Los Angeles. Ajudo a planejar o estilo e as tendências que as lojas vão adotar para uma estação em particular.

— Por seu entusiasmo, presumo que goste de seu trabalho, cer­to? — sorriu ele, fitando-a com seus incríveis olhos verdes.

Estavam tão próximos que ela pôde lhe sentir o calor do corpo, a fragrância suave de uma colônia amadeirada.

—Sim, eu o adoro. Estive me preparando para isso a vida inteira c não sabia. Apesar do que você está vendo aqui... — disse Alicia, baixando o olhar com ar zombeteiro para o jeans velho e a camisa de flanela folgada que usava—. ..eu adoro roupas, tenho facilidade em combinar coisas, e fazer compras sempre foi um de meus pas­satempos favoritos. Agora, posso fazer isso com o dinheiro de outras pessoas. — O semblante dela se anuviou de repente quando se lembrou de seu dilema.

— O que foi?

—Nada. Não quero aborrecê-lo com meus problemas.

— Não será aborrecimento algum.

Deixando a caneca vazia de lado, ela o estudou por um momen­to. Era bom falar com um adulto, uma pessoa objetiva, de fora. Nem mesmo seus pais ou seus melhores amigos, Carter e Sloan, tinham conseguido lhe dar uma opinião imparcial.

— Minha supervisora terá bebê no mês que vem e decidiu dei­xar o trabalho em definitivo. Foi ela que me emprestou o chalé. I e qualquer modo, os donos da rede de butiques me ofereceram o cargo dela. Eles entendem muito da parte administrativa, finan­ceira e de marketing, mas não sabem absolutamente nada sobre moda. Tenho até o final do mês para lhes dar minha resposta, antes de começarem a procurar outra pessoa.

— Qual será sua decisão?

Ela soltou um profundo suspiro.

— Eu não sei, Pierce. — Era a primeira vez que dizia o nome dele e pareceu soar íntimo, sensual, em seus lábios.

— Gosto bem mais disso que de "Sr. Reynolds". — Com gen­tileza, ele afastou-lhe uma mecha loira da fronte e lamentou as várias razões que o impediam de puxá-la para si e beijá-la até deixá-la ofegante, de correr as mãos por aquelas curvas sedutoras. — Você quer o cargo?

— Sim. É desafiador e empolgante. E eu ganharia bem mais.    

— Então, onde está a dúvida?

— E um trabalho que exige longas horas, extrema dedicação e algumas viagens. No momento, eu já me preocupo em não poder estar tanto com os meninos quanto deveria. Eles têm apenas a mãe. Eu não lhes devo minha total atenção? Sinto-me culpada quando chego em casa cinco minutos depois do que o habitual.

— Você deve algo a si mesma também, sua realização pessoal. Adam e David estarão se cuidando sozinhos algum dia. Se dedicar sua vida exclusivamente aos dois, como você ficará, então?

— Pensei em tudo isso. — Ela argumentara consigo mesma até a exaustão e ainda não encontrara uma resposta. Seu tempo estava se esgotando. Precisava tomar uma decisão.

Mas não naquela noite.

— Obrigada por me ouvir.

— Foi um prazer. — Pierce segurou-lhe a mão. — Sei que você tomará a decisão certa.

Alicia precisou de um longo tempo para reunir forças a fim de libertar sua mão do calor da dele. Sabia que ser envolta por aqueles braços fortes teria sido ainda melhor.

— Bem, acho melhor eu subir agora.

— Quem é Carter?

 

Alicia estivera prestes a se levantar, mas a pergunta inesperada a fez sentar-se de volta na varanda de madeira.

— Por que pergunta?

— Porque os meninos se referem a ele constantemente. Carter disse isto, Carter fez aquilo. Fiquei curioso.

— Carter Madison. — Alicia sabia muito bem que não era apenas curiosidade que levara Pierce a fazer-lhe a pergunta. Tinha

O rosto tenso demais para estar meramente curioso. — É um velho amigo.

— Carter Madison...— repetiu ele, pensativo, como se tentasse se recordar do nome e, enfim, virou-se para fitá-la. — Carter Ma­dison, o escritor?

— Você já ouviu falar nele. Carter ficaria contente.

— Eu li a maioria dos romances dele.

— Ele ficaria mais contente ainda.

— Eu o vi participando de entrevistas em programas na tevê. Um sujeito simpático, inteligente, de boa aparência. O que aconteceu? Por que você não se casou com ele?

Ao que parecia, os precoces e indiscretos filhos dela tinham contado a Pierce sobre seu noivado fracassado também.

— Em vez de mim, Carter se casou com minha melhor amiga, Sloan.

Ele adquiriu uma expressão constrangida, como se achasse que cometera uma gafe imperdoável. Alicia tranqüilizou-o com sua explicação.

— Carter era o melhor amigo de Jim, meu marido. Depois que Jim morreu, Carter foi maravilhoso. Sentiu-se responsável por mim e me amparou durante os mais desagradáveis aspectos da viuvez recente. Ajudou-me com os meninos. Com o passar do tempo, ele se tornou um fator essencial em nossas vidas. Enfim, pediu-me em casamento, e eu aceitei. Estava me sentindo sem rumo, solitária. Carter era uma espécie de porto-seguro onde bus­car apoio e proteção.

Ela sorriu, tomada por lembranças estimadas.

— Eu enviei Carter para a hospedaria de Sloan em San Fran­cisco, para que ele pudesse terminar um livro antes do casamento. Os dois se sentiram instantaneamente atraídos um pelo outro. Não demorou muito para que Carter se desse conta de que estaria se casando comigo pelos motivos errados. Quase simultaneamente, eu percebi que me sentia da mesma maneira. Nós não nos amáva­mos. Éramos apenas bons amigos. Assim, rompemos o noivado e ele se casou com Sloan algumas semanas depois. São muito felizes. Ela está esperando o primeiro filho.

Pierce estudou-a por um momento, seu interesse visível.

— Não houve arrependimentos?

— Nenhum, em absoluto. Adoro Carter. Sempre adorei, como amigo meu e de Jim. Adoro Sloan, que continua sendo minha melhor amiga. Fico muito contente por ter sido a responsável pela união dos dois. Precisavam um do outro. Adam e David ficaram tristes, mas acabaram entendendo. Carter e Sloan continuam mo­rando em San Francisco, mas têm uma casa de praia em Los An­geles. Os dois nos visitam quando podem, e, nessas ocasiões, meus filhos não perdem a chance de passar fins de semana com eles em sua casa.

Pierce meneou a cabeça com um sorriso e, de repente, pergun­tou com ar sério:

— Não houve ninguém mais em sua vida desde a morte de Jim?

— Não.

Alicia tentara circular no mundo dos solteiros por algum tempo, mas descobrira que aquele tipo de vida não era para ela. Antes de ela e Carter terem reconhecido e admitido um ao outro o erro que estavam cometendo, houvera um fim de semana de esqui em Tahoe. Uma amiga solteira a persuadira a ir. Alicia se divertira, co­nhecera um homem interessante chamado Mac e acabara passando a noite no quarto dele. Fora bom ser abraçada, fazer amor doce­mente, sentir-se desejada. Seu relacionamento com Carter nunca fora além do aspecto platônico. O afeto de Mac fora exatamente o que ela precisara na ocasião.

Posteriormente, quando ele viajara de sua casa no Oregon para ir vê-la, ainda fora o mesmo homem bom, gentil e atencioso, mas a magia do romance de fim de semana em Tahoe desaparecera. Mac entendera e não a pressionara. Ela lhe ficara grata e contente por ele nunca mais ter-lhe telefonado ou aparecido.

Amigos bem-intencionados, com a idéia equivocada de que ela sofria com a separação de Carter, tinham se empenhado em lhe arranjar inúmeros encontros. Homem algum, porém, despertara-lhe interesse o bastante para querer revê-lo num segundo encontro. E muitos não tinham se mostrados inclinados a assumir um com­promisso mais sério ao longo do caminho com uma viúva e mãe de dois filhos.

Daquele modo, o auge de sua vida social acabara se esgotando por volta da época em que arranjara seu emprego e, depois daquilo, não tivera mais a necessidade de alguém a seu lado.

Apenas agora, em retrospectiva, dava-se conta de como sentira falta de conversar com um adulto. Com um homem. E não apenas de conversar... Tinha de admitir. Era muito bom estar tão próxima a Pierce Reynolds.

Mas não podia se permitir pensar naquilo. O amor que ela e Jim haviam partilhado em sua cama fora tão especial que jamais queria se contentar com menos. Ainda assim, era difícil resistir a um homem extremamente atraente como Pierce, que, apesar de se comportar como um perfeito cavalheiro, deixava transparecer o quanto a desejava num simples olhar.

Obrigando-se a afastar os pensamentos errantes, ela se levantou rapidamente.

— Bem, boa noite.

— Boa noite. Não se esqueça de que iremos pescar de barco no lago no início da manhã.

Ela sorriu, sacudindo a cabeça.

— Não se preocupe. Adam e David não me deixariam esquecer nem mesmo que eu quisesse. Estão ansiosos por isso.

Pierce levantou-se e fitou-a longamente sob a luz suave da va­randa, o chalé para além da porta de tela estava escuro.

— Diga-me, você está contente por ter ficado?

Alicia teve de ignorar a corrente eletrizante que a percorreu.

— Sim, muito — respondeu um tanto ofegante.

— Ótimo.

Pierce observou-a, fazendo um tremendo esforço para resistir à vontade de tocá-la. Respirando fundo, sentiu-lhe mais acentuadamente o delicioso perfume, instigando-o, inebriando-o. Notou-lhe o peito arfante, aqueles esplêndidos seios comprimindo-se jun­to à camisa feminina e ansiou por sentir-lhes a maciez em suas mãos. Céus, como a desejava! E aqueles olhos azuis que o fitavam fixamente também davam indício do desejo dela. Aqueles lábios cheios, úmidos e um tanto entreabertos ansiavam por ser beijados.

E ele não conseguiu mais resistir.

Tomado por uma paixão que não podia mais conter, Pierce bei­jou-a com volúpia. Seu beijo foi persuasivo, gentil em princípio, mas, quando encontrou doce receptividade, entrelaçou a língua com a dela, explorando-lhe a maciez da boca.

Suas barreiras desmoronando de imediato, Alicia colocou-se na ponta dos pés e abraçou-o pelo pescoço, correspondendo ao beijo com um ardor que não podia negar. Na verdade, aquele beijo a fez sentir-se como se fosse a mulher mais desejável do mundo, como se fosse a única no mundo e como se Pierce quisesse tê-la em seus braços a qualquer custo. A rija masculinidade que ela sentiu de encontro a si através da barreira das roupas era uma prova contundente do quanto a queria.

Porém, quando ele, enfim, interrompeu o beijo ardente, parecia exasperado consigo mesmo. Deu um passo atrás, libertando-a de seus braços.

— É melhor você entrar e subir para ir se deitar com os garotos — disse num tom um tanto brusco antes de tornar a se sentar nos degraus da varanda. — Vou ficar mais um pouco aqui fora antes de ir para a minha própria cama.

Experimentando uma sensação de perda, Alicia entrou em si­lêncio no chalé. Não provocara aquele beijo. Não deveria ter acon­tecido. Mas, uma vez que acontecera, gostaria que Pierce tivesse continuado abraçando-a por algum tempo depois.

Aquelas idéias românticas eram pura tolice. Não queria aquele homem, queria?

Na manhã seguinte, a pescaria de barco acabou sendo um tre­mendo sucesso. Pierce instruiu os meninos sobre o que podiam ou não fazer num barco tão pequeno, e os quatro voltaram ao píer com uma cesta repleta de peixes. Alicia ficou contente com o fato de ele ter agido espontaneamente desde o café da manhã, o tórrido beijo da noite anterior não tendo criado um clima tenso e cons­trangedor entre eles. Mas também não era como se não tivesse acontecido. Aquele brilho de interesse masculino jamais deixava os intensos olhos dele.

À tarde, ela optou por uma soneca, enquanto os "homens" foram até o pequeno centro de comércio junto à pousada para comprar suprimentos.

Quando voltaram, Pierce fez uma fogueira não muito próxima do chalé, mas também não das árvores, grandes pedras circundando-a. Com a ajuda dos meninos, embrulhou individualmente em papel-alumínio os peixes já limpos e temperados, batatas e espigas de milho para assar, enquanto Alicia se ocupou na cozinha prepa­rando um bolo de chocolate cremoso para a sobremesa.

Os garotos desfrutaram aquele jantar mais do que qualquer ou­tro até então. Todos comeram do lado de fora, sentados em torno da fogueira. David e Adam ficaram atentos a cada palavra de Pierce quando lhes contou como aprendera a cozinhar numa fogueira de acampamento, na época em que pescara com o pai. Mais uma vez, Alicia sentiu-se grata a ele. Jamais teria conseguido tornar aquela semana tão divertida sozinha. Ele era exatamente o que seus meninos precisavam, uma presença masculina, um exemplo a seguir. Ficava claro que os dois haviam-lhe reservado um lugar ao lado de seus outros heróis, o falecido pai e Carter Madison.

Para um homem que nunca tivera filhos, que nem era sequer casado, Pierce demonstrava infinita paciência com os garotos. Pa­recia estar realmente desfrutando tanto a companhia dos dois quan­to os meninos desfrutavam a dele.

Depois que Adam e David ainda encontraram espaço no estô­mago para fatias de bolo de chocolate e foram dormir, cansados mas satisfeitos, Pierce e Alicia permaneceram junto à fogueira.

— Quer mais vinho branco? — perguntou ele.

Apenas o ocasional farfalhar das folhas de outono e o agradável crepitar do fogo rompiam o silêncio da noite de lua cheia.

— Não, obrigada. Estava delicioso, mas já tomei o bastante.

— Uma garota para quem um pouco de álcool já sobe depressa, hein? Isso pode ser perigoso.

Os dois ficaram em silêncio, sorrindo, entreolhando-se. Mas uma súbita tensão sensual pairou no ar e, enfim, Alicia levantou-se, sa­cudindo a poeira da calça de lã preta que usava com um suéter azul.

— Apesar do cochilo que tirei, estou com sono. Obrigada pelo jantar maravilhoso. Eu lavarei a louça antes de subir até a cama.

Pierce moveu-se depressa, surpreendendo-a, colocando-se diante dela numa questão de segundos.

— Eu não deveria ter beijado você ontem à noite. — Ele tinha o corpo rígido, evidenciando o esforço para manter o controle.

— Não. — Ela baixou os olhos. — Não deveria.

— Eu também não deveria beijá-la agora.

— Não.

— Mas vou beijá-la assim mesmo.

Antes que se desse conta, Alicia já estava sendo envolta por braços fortes, moldada junto a um corpo forte, viril. Pierce deu-lhe um beijo faminto, mas doce ao mesmo tempo, o gosto do vinho aliado à maciez dos lábios dela era como um néctar inigualável. Era delicioso beijá-la, mordiscar-lhe o lábio inferior, explorar-lhe a maciez da boca, acariciar-lhe a língua com sedução. Quando a ouviu soltando um suspiro de desejo, prolongou ainda mais o beijo, enquanto afundava as mãos naqueles sedosos e fragrantes cabelos loiros.

O pouco de resistência que Alicia sentira de início desvanece­ra-se instantaneamente. Ansiava pelo prazer proporcionado por aqueles lábios cálidos e hábeis, pois jamais fora beijada de maneira tão experiente e plena. A intensidade da paixão de Pierce assusta­va-a e excitava-a ao mesmo tempo. Fazia com que seu corpo se lembrasse de sua longa abstinência daquele tipo maravilhoso de prazer. Seu encabulamento por estar se entregando com tanto aban­dono ao momento foi diminuída consideravelmente pelo doce vi­nho que ainda percorria suas veias. Abraçou-o mais, arqueando seu corpo de encontro ao dele convidativamente.

O gemido de desejo que o ouviu emitindo foi como música para seus ouvidos. Era gratificante para seu ego que ela, mãe, viúva, pudesse excitar um homem especial como Pierce.

Ele interrompeu o beijo apenas para percorrer-lhe as têmporas, as faces, os cabelos com seus lábios quentes. Com uma das mãos, segurava-a pelos quadris, mantendo-a bem rente a si. Com a outra, baixou-lhe a gola do suéter azul, depositando-lhe beijos escaldan­tes no pescoço e início do colo.

— Juro a você — sussurrou numa voz rouca, carregada de de­sejo —, não foi por esta razão que eu lhe pedi para que ficasse.

— Eu sei. — Alicia afundou as mãos nos fartos cabelos dele, afagando-os devagar, puxando-o mais para si.

— Tentei manter distância de você. Juro que sim. Mas não pu­de mais.

Ele tornou a beijar-lhe os lábios de modo possessivo, arrebata-dor. Dessa vez, foi mais ousado em suas carícias e cobriu-lhe o seio com a mão. Alicia soltou um suspiro deliciado quando ele começou a massageá-lo por cima do suéter, esfregando a lã macia por sobre sua pele febril até sentir o mamilo ficando rígido de encontro à palma da mão. Pressionou-o com o polegar, circundando-o, estimulando-o.

— Oh, droga — praguejou ele por entre os dentes, soltando-a de repente e afastando-se, enquanto Alicia continha um protesto de frustração e desapontamento. Ela correu para o chalé, fechando a porta com força, tomada por um misto de raiva e humilhação.

Levou longos minutos para se recobrar. Obrigou-se, então, a se adiantar até a área da cozinha, onde começou a lavar metodicamente a louça que tinham recolhido à pia depois da sobremesa. Não iria correr para a cama e esconder seu constrangimento feito uma adolescente magoada. A rejeição deixara-lhe um gosto amar­go na boca, mas não demonstraria aquilo por nada.

Pierce entrou no chalé.

— Você está bem?

Ela estava com os nervos em frangalhos, o corpo trêmulo com o desejo bruscamente interrompido, a mente confusa, enquanto se perguntava o que, afinal, fizera para repelir Pierce tão de repente. No momento, detestava-o tanto que mal podia se mostrar civili­zada o bastante.

— É claro. Como disse, você não deveria ter-me beijado. Foi melhor terminar as coisas ali. Sem ressentimentos.

Frustrado por suas próprias razões, ele segurou-a pelos ombros e virou-a com gentileza para que o encarasse. Só falou quando a viu erguendo hostis olhos azuis para fitá-lo.

— Eu quis beijar você. E continuar beijando-a.—Aproximou-a mais de si. — Não queria que as coisas parassem aí. Não queria que terminassem enquanto não tivéssemos feito amor até a exaus­tão. Não sabe o quanto a desejo?

Alicia sabia agora, enquanto lhe sentia o sexo rijo sob o jeans de encontro a seu corpo. Ele beijou-lhe as têmporas, as pálpebras, todo o seu ser emanando uma angústia, uma dor que ela não con­seguia identificar.

— É importante para mim que saiba que a desejo demais e que minhas razões para não fazer amor com você são intransponíveis. Do contrário... — Pierce soltou um suspiro pesaroso e libertou-a de seu abraço, estudando-lhe o rosto expressivo longamente. En­fim, disse: — Suba e vá se deitar. Eu terminarei aqui.

Alicia não ousou argumentar. Se tivesse ficado mais tempo, talvez tivesse bancado a tola e lhe implorado que a possuísse, a despeito de quaisquer que fossem os problemas que impediam aquilo.

O que poderia ser?

Alicia estudou Pierce da janela de cima do chalé. Era bastante cedo. Acordara primeiro do que os filhos e não conseguira mais pegar no sono, recordando os inquietantes acontecimentos da noite anterior.

Pierce estivera correndo naquela manhã, como de costume. Pela maneira como transpirara, a ponto de encharcar o blusão do aga­salho, ele se forçara ao máximo do limite de sua resistência. Esta­va apoiado numa árvore agora, olhando fixamente por entre os galhos. Tinha o rosto contorcido por seu tormento particular. Re­movendo uma camada de transpiração da fronte, praguejou por entre os dentes.

O que quer que o estivesse preocupando, qualquer que fosse o obstáculo insuperável que enfrentava, era algo terrível e que ele não conseguia eliminar sozinho.

Alicia não podia se permitir que aquilo a preocupasse. No final da semana, cada um dos dois seguiria seu caminho separadamente. Naquele meio tempo, ela tinha seu próprio problema para resolver. Tinha de concentrar sua atenção apenas na importante decisão profissional a tomar.

Ainda assim, olhando para a cabeça baixa de Pierce, teve de admitir que sua objetividade em relação a ele desaparecera desde a primeira vez que haviam se beijado. Quer ele quisesse aquilo ou não, ela já estava envolvida.

Naquele dia, Pierce preparou-lhes uma surpresa, um passeio de motonetas, as quais os levara para alugar na pousada. Alicia foi persuadida a dirigir uma. Percorreram as bucólicas estradas entre os bosques em duplas, David atrás de Pierce e Adam grudado à cintura dela e exigindo que fosse mais depressa.

No dia seguinte, choveu de manhã e ele entreteve os garotos com jogos de tabuleiro e aulas sobre como entalhar madeira, até que o sol apareceu. Alicia assou biscoitos e preparou um saboroso guisado de frango para o jantar. Eles foram verificar o outro chalé e viram que os consertos providenciados tinham ficado excelentes. Ninguém sugeriu que Alicia e os meninos deveriam voltar para lá, mas, durante aqueles dois dias, Pierce não fez nenhuma inves­tida romântica. O relacionamento de ambos voltou a ser de ami­zade e companheirismo. Era como se o que houvera depois do jantar à beira da fogueira jamais tivesse acontecido.

— Eu gostaria de ficar perto do chalé hoje, se você acha que pode manter os garotos entretidos. — Os dois bebericavam uma última xícara de café à mesa pela manhã. David e Adam haviam terminado as tarefas que Pierce lhes designara e brincavam com uma bola diante do chalé.

— Claro. Sem dúvida. Por favor, não se sinta obrigado a nos entreter a cada minuto. Se houver algo que você queira fazer sozinho...

— Não é isso. — Ele deixou a xícara de lado, parecendo pouco à vontade. — Estou esperando uma pessoa para o jantar logo mais.

— Oh, você deveria ter dito algo antes! — Alicia saltou da cadeira num instante.—Nós sairemos agora mesmo e deixaremos o chalé livre...

— Sente-se — disse ele, rindo. — Quero que vocês fiquem e estejam aqui para o jantar.

Ela o observou com ar duvidoso.

— Sendo que tem uma visita chegando? Ele fitou-a nos olhos.

— Não é exatamente uma visita. É minha filha.

 

Chrissy Reynolds chegou no final da tarde. Estacionando um Porsche vermelho diante do chalé, a garota esguia e bonita desceu. Recebeu logo as boas-vindas de David e Adam, que, ig­norando a recomendação de Alicia de que não saíssem correndo pela porta da frente, deixaram o chalé em disparada para admirar o reluzente carro esporte.

— Oh, olá. — Chrissy riu quando foi rodeada pelos meninos, que a observavam curiosamente. — Estou no chalé certo?

— Sim, está. — Pierce desceu os degraus da varanda para cum­primentar a filha. Embora caminhasse com mais vagar, estava tão ansioso quanto os meninos para vê-la. — Olá, Chrissy.

Observando por trás da segurança da porta de tela, Alicia viu o sorriso da garota de dezoito anos se iluminando timidamente.

— Olá, papai — disse ela, hesitante, parecendo acanhada perto dele. Alicia não se admirou em ver aquilo depois do que Pierce lhe contara naquela manhã à mesa.

— Sua filha! — exclamara ela, incrédula. — Sua filha? — Tentara se levantar da cadeira outra vez, mas ele a fizera sentar de volta. — Você me disse que não tinha filhos.

A primeira coisa de que desconfiara fora que Pierce tivesse esposa e filhos a sua espera em casa. Ela podia ter tido um romance passageiro em Tahoe desde a morte do marido, mas aquele fora o limite de suas aventuras amorosas. Beijar um homem casado es­tava fora de cogitação.

Ficara extremamente magoada, tomada por um desapontamen­to fora de proporção, levando em conta o seu grau de envolvimento com Pierce. Mas o fato fora que ele não parecera do tipo que mentia tão deslavadamente.

— Alicia, não tire conclusões precipitadas antes de me ouvir. Eu disse a você que nunca fiz o papel de pai. Não falei que não tinha filhos. Minha esposa e eu nos divorciamos logo após o nas­cimento de Chrissy. Sei que não é justificativa, mas eu tinha apenas vinte e um anos quando ela nasceu e, sem pensar direito por causa da raiva que sentia de minha ex-esposa, eu abri mão dos meus direitos de pai, deixando-os apenas para a mãe... algo de que me arrependo amargamente. Eu queria ver minha filha esta semana. Tornou-se muito importante que eu passe algum tempo com ela. Foi por isso que a convidei a vir até aqui para jantar comigo.    

Alicia sentira a raiva se dissipando por completo, mas ainda ficara com a sensação de que ele a induzira a acreditar numa meia-verdade antes.

— Nós partiremos antes que ela chegue. Tenho certeza de que sua filha não esperará encontrar hóspedes, sendo que você fez questão de convidá-la para jantar em sua companhia aqui.

— Chrissy não espera nada de mim. Eu a negligenciei demais enquanto ela cresceu. As ocasiões que ela me visitou foram bem poucas. Minha ex-esposa e eu mal toleramos olhar um para o outro e, portanto, na época em que os papéis de custódia foram prepa­rados, pareceu melhor para todos os envolvidos que eu ficasse fora da vida delas. Ao menos agora que Chrissy fez dezoito anos e se mudou para seu próprio apartamento neste outono, quando iniciou a faculdade, terei chance de lhe telefonar e vê-la sem precisar ter qualquer espécie de contato com a mãe dela.

Fora inevitável para Alicia ficar curiosa a respeito. Ansiara por saber mais detalhes sobre aquele casamento desastroso, seu tér­mino e o que levara Pierce a detestar tanto a ex-esposa. Contivera-se, porém, e não perguntara mais, ocorrendo-lhe que se um homem nem sequer chamava a ex-esposa pelo nome, não iria falar a seu respeito.

— Pensei em fazer estrogonofe para o jantar — dissera ele. — Acha que estará bem?

Pierce estivera nervoso! Alicia percebera a ansiedade por trás da pergunta corriqueira, as incertezas dele em relação ao jantar com a filha. Aquela vulnerabilidade, bastante incomum num ho­mem tão confiante, tocara-a a fundo.

— É uma ótima idéia. Estrogonofe é um prato delicioso. Mas tem certeza de que nos quer por perto hoje à noite?

— Sim — respondera ele depressa. Depressa demais.

— Para servirmos de distração? Está esperando uma briga? Uma cena?

Pierce abrira um sorriso largo com um ar de quem depreciara a si mesmo.

— Não. Nada desse tipo. Apenas quero que seja uma noite agradável para Chrissy.

— Eu prepararei algo especial para a sobremesa.

— Não, não. Não se sinta obrigada a isso.

— Será um prazer.

Agora, enquanto Alicia observava pai e filha se abraçando, pôde notar que tais demonstrações de afeição eram raras e embaraçosas entre ambos. Ele soltou-a para observá-la.

— Você está linda, como sempre. E, então, como vão as coisas na universidade?

— Ótimas — sorriu a jovem timidamente. — Estou adorando o curso de Belas-Artes.

— Você sempre desenhou e pintou muito bem — elogiou Pier­ce, abraçando-a pelos ombros. — Qualquer pai ficaria orgulhoso em ter uma filha não apenas bonita, mas também talentosa.

O rosto da jovem iluminou-se com um misto de surpresa e felicidade, e Alicia viu lágrimas em seus olhos... olhos verdes como os do pai.

— Obrigada por ter me convidado a vir jantar aqui hoje. É bom estar com você.

Ele apertou-lhe o ombro.

— Deveríamos termos nos visto muito mais, desde cedo. Só agora estou me dando conta do quanto de seu crescimento eu perdi. A vantagem de envelhecer é a sabedoria, creio eu. Chrissy deu-lhe uma leve cotovelada.

— Você está longe de ser um ancião. Sabia que minhas amigas da faculdade perguntaram se você era meu namorado antes de eu lhes explicar que era meu pai? — Ela revirou os olhos e riu. — Agora, vivem me pedindo seu telefone, mas eu invento pretextos para não dá-lo, é claro. — Lançou um sorriso a David e Adam. — Você não apenas é jovem, como certamente tem amigos jovens também.

— Perdoe minha indelicadeza — disse Pierce, sorrindo. — Chrissy, estes são meus amigos, David e Adam Russell. Garotos, minha filha.

— Você nos deixa dar uma volta no seu carro? — indagou David sem preâmbulo, o irmão saltitando ansiosamente a seu lado. — Ele é demais! Tenho o pôster de um desses no meu quarto, sabe?

— Claro, levarei vocês para dar uma volta. — Ela lançou um olhar ao Porsche vermelho e abriu um sorriso afável. — Também gosto muito dele. Foi um presente do meu pai quando entrei para a faculdade. — Dirigiu-se, então, a Pierce. — Conhece David e Adam há muito tempo?

— Desde a noite de domingo. Eu os resgatei durante uma tem­pestade.

— Está brincando!

— Não, é verdade. Seu pai nos salvou! — exclamou David.

— Sim, ele nos trouxe junto com a mamãe para sua casa, e estava chovendo muito e trovejando, mas eu não senti medo — acrescentou Adam.

A jovem também herdara as sobrancelhas expressivas do pai. Arqueou uma enquanto o estudava com ar curioso.

— Bem, os garotos são encantadores, sem dúvida. E quanto à mamãe?

Alicia corou até a raiz dos cabelos e tentou esconder-se nas sombras do chalé antes que fosse apanhada bisbilhotando. Mas Pierce virou-se e chamou-a. Ela não teve escolha a não ser abrir a porta de tela e descer os degraus da varanda para ser apresentada formalmente.

— Alicia Russell, minha filha, Chrissy.

— Olá — disse Alicia, sentindo-se subitamente como uma sirigaita indecente. E por quê? Melhor do que ninguém, sabia que nada acontecera entre ela e o pai daquela garota. Mas como Chrissy reagiria ao fato de estar hospedada com seus filhos no chalé de Pierce?

— Olá. É um prazer conhecê-la. — O sorriso dela foi amplo, amistoso e sincero. — Quer dizer que ele resgatou vocês durante uma tempestade?

— Detesto admitir, mas sim. E quando não conseguimos arran­jar acomodações depois que nosso chalé foi danificado pela tem­pestade, seu pai insistiu para que ficássemos aqui — falou Alicia depressa, sentindo-se impelida a explicar, para que a jovem não tirasse a conclusão errada.

Chrissy lançou um olhar maroto na direção do pai.

— Oh, ele é um típico salvador — comentou secamente, mas sem ressentimento.

A despeito das explicações, Chrissy entendera a situação no momento em que vira Alicia. Podia ainda não ter muita experiência de vida, nem conhecer bem seu próprio pai, mas sabia que era um grande apreciador de companhia feminina, desde que os relacio­namentos fossem passageiros. Com seu jeito franco, verdadeiro e espontâneo, Alicia Russell era totalmente diferente do tipo de mu­lher aventureira com quem ele costumava sair, embora fosse até mais bonita do que muitas. De qualquer modo, a tensão sensual que pairava entre eles era real, quase palpável. A maneira como se entreolhavam dizia tudo.

— Por que não continuamos conversando lá dentro enquanto bebemos algo? — sugeriu Pierce e começou a conduzir todos ao interior do chalé.

Alicia gostou de Chrissy imediatamente. Era falante, animada, inteligente; tímida apenas quando olhava diretamente para o pai. Era como se quisesse abraçá-lo com força, mas tivesse medo de fazê-lo. Ficava claro a cada vez que ela o olhava que o admirava e amava, mas que ainda não se sentia totalmente à vontade na companhia dele. Também era óbvio que a garota ansiava pela apro­vação e a afeição do pai.

Chrissy contou-lhes sobre o início de seu curso e suas expec­tativas e, quando soube no que Alicia trabalhava, ambas envere­daram por uma longa conversa sobre moda.

Os garotos ficaram inevitavelmente entediados e quiseram ir jogar bola lá fora. Chrissy levantou-se da cadeira e correu na frente feito uma menina, desafiando-os a um jogo improvisado de volei­bol. Alicia virou-se para Pierce com um sorriso quando ficaram a sós na área da cozinha.

— Sua filha é adorável. Uma jovem inteligente, acessível, bon­dosa.

— E, não é? — falou ele, orgulhoso, observando-a brincar com os meninos através da porta de tela. — Eu só gostaria de poder dizer que contribuí em algo para ajudá-la a ser o que se tornou.

— E contribuiu.

Ele sacudiu a cabeça.

— Nunca estive por perto. Ela merecia um pai, um bom pai, um que a fizesse sentir-se amada e protegida. O que aconteceu entre minha ex-esposa e eu não foi culpa de Chrissy, mas foi ela quem acabou pagando por nossos erros.

— Acho que ela sempre soube que podia contar com você se precisasse — opinou Alicia num tom manso.

Ele fitou-a com uma expressão intensa.

— Eu gostaria de acreditar nisso. Preciso acreditar.

— Sua filha não me pareceu guardar rancor algum de você. Ela olha para você com amor, não com raiva ou amargura. Talvez Chrissy precise ouvir como você se sente a seu respeito. Já lhe disse que a ama?

Pierce ponderou aquilo por um momento, o cenho franzido.

— Vá até lá fora com eles enquanto eu arrumo a mesa do jantar.

— Não posso deixá-la fazer todo o trabalho sozinha. Ela apontou na direção da porta.

— Vá — ordenou, usando o mesmo tom severo que às vezes usava com os filhos.

— Sim, senhora! — Ele surpreendeu-a beijando-a em cheio na boca antes de sair pela porta de tela.

Vinte minutos depois, Alicia chamou os filhos para um banho antes do jantar. Os dois reclamaram e resmungaram, mas, enfim, entraram no banheiro. Ela carregou uma bandeja com dois copos e uma jarra de chá gelado para Pierce e Chrissy, que haviam de­sabado de cansaço nos degraus da varanda.

— Onde está seu copo? — perguntou ele, indicando que se sentasse a seu lado.

— Estou supervisionando o banho, ou eles poderiam inundar o banheiro. Conversem à vontade. Ainda tenho de assar os pãezinhos que deixei preparados. Chamarei vocês quando o jantar es­tiver pronto.

Pierce tocou-lhe a mão.

— Obrigado. — Seu olhar continha gratidão e algo mais. Estava grato por ela estar lhe proporcionando aquele tempo a sós com a filha. E quanto ao algo mais? Alicia não pôde definir a emoção, mas foi algo que fez seu coração disparar no peito.

Depois, enquanto ela dispunha as travessas de comida na mesa, os dois entraram de mãos dadas, Chrissy dizendo:

— Esse foi o Natal em que você me enviou o pônei, lembra? Nunca vi mamãe tão furiosa. Só consegui ficar com ele por um dia até ela mandá-lo de volta aos criadores.

— Ela sempre foi malévola. Ao menos comigo — riu ele.

O jantar não podia ter sido mais agradável. Não faltou assunto ao grupo animado. Pierce preparara um excelente estrogonofe, embora insistisse que os elogios devessem ir para a deliciosa torta de merengue de limão feita por Alicia. Após a sobremesa, os me­ninos fizeram questão de lembrar do passeio prometido no Pors­che. Chrissy entregou as chaves a Pierce.

— Você faria as honras, enquanto ajudo Alicia com a louça?

— Não é necessário — disse ela depressa.

— Eu insisto. Não conseguimos terminar nossa conversa sobre as tendências do próximo inverno.

— Então, fico mais do que contente em levar os garotos para uma longa volta de Porsche. — Pierce pegou um pequeno e eufórico Russell debaixo de cada braço e carregou-os na direção da porta da frente.

Chrissy flagrou Alicia observando-os com um sorriso afetuoso nos lábios. Embaraçada, ela começou a retirar a mesa.

A conversa logo tornou a fluir espontaneamente. Antes que se desse conta, Alicia estava lhe contando sobre Jim e sua morte prematura. Sobre sua vida de viúva, seu emprego e até Sloan e Carter.

— Você já dormiu com meu pai?

Aquela era outra característica que a jovem herdara de Pierce, a habilidade de chocar e emudecer uma pessoa com uma indagação direta e inesperada.

Ela cerrou os punhos sob a água ensaboada na pia diante da pergunta ousada, indiscreta.

— Não — respondeu num tom manso. — Não dormi.

— Acho que você deveria — comentou a jovem, concentran­do-se em enxugar os copos.

Alicia não pôde crer na franqueza da garota.

— Por quê?

Chrissy abriu-lhe um sorriso e deu de ombros.

— Por que não? Vocês obviamente sentem atração um pelo outro. Não me entenda mal. Não acho que as pessoas devam trans­formar o sexo em algo corriqueiro, banal. Apenas acredito que... — Ela fez uma pausa para olhar para o vazio por um momento e, enfim, voltou a fitá-la. — Há algo errado com papai.

— Errado? Como assim?

— Não sei. Ele está diferente. Até o fato de ter me convidado para vir até aqui é algo atípico. Anteriormente, durante minhas visitas, ele sempre estava apressado. Eu ficava cansada só em ten­tar acompanhá-lo. Estava em constante movimento. Agora, está meditativo, sentimental, mais acessível. E está fazendo coisas que não são de seu feitio.

— Como convidar uma pobre viúva e seus filhos para passarem a semana com ele?

Chrissy riu e avaliou abertamente as curvas de Alicia.

— Com certeza, você já deve ter deduzido por que papai fez isso. Se você tivesse a aparência de um ogro, sei que ele teria sido educado, providenciado para que estivesse a salvo, mas duvido que teria sido tão hospitaleiro.

Desconcertada, Alicia desviou o olhar. A jovem tocou-lhe o braço, num pedido para que a fitasse.

— Se meu pai lhe pedir, dormirá com ele?

Alicia engoliu em seco, surpresa demais para se sentir ofendida. Céus, ou aquela era uma adolescente precoce, ou as coisas real­mente haviam mudado desde sua época de garota. Ou talvez apenas tivesse sido uma garota muito conservadora. Bem, estava confusa demais agora para ter certeza do que quer que fosse.

— Eu não sei — respondeu, enfim.

— Espero que sim. Acho que ele precisa de você.

—Tenho certeza de que um homem como seu pai não tem falta de companhia feminina.

— Também tenho. Mas não estou falando sobre sexo. Não ex­clusivamente, ao menos. Acho que ele precisa de tudo o que você possa lhe oferecer, seu jeito caloroso, sua compaixão. E acho que estar com ele faria um imenso bem a você também.

Alicia escutou o retorno do Porsche e ficou aliviada com o ine­vitável termino da inquietante conversa. Chrissy prolongou um pouco mais sua visita e, quando se despediu de David e Adam, Alicia soube que também haviam gostado dela e esperavam revê-la.

— Tem mesmo que ir? — perguntou Pierce. — Podemos ar­ranjar espaço facilmente para você.

— Tenho aula amanhã cedo. — Ela pegou as mãos de Alicia.

— Foi tão bom conhecer você. Espero que vá me visitar com seus filhos no meu apartamento quando tiveram chance.

— Obrigada. Veremos.

A jovem chocou-a, então, dando-lhe um rápido abraço e di­zendo:

— Lembre-se do que lhe disse. Eu lhe dou minha permissão.

— Ela piscou-lhe um olho antes de se afastar, e Alicia, por sua vez, evitou o olhar inquiridor de Pierce.

— Eu a acompanharei até o carro — disse ele.

Alicia colocou Adam e David na cama e, invariavelmente, os dois dormiram profunda e instantaneamente depois de mais um dia cheio. Ela, então, ficou folheando uma revista por cerca de meia hora diante da lareira, enquanto pai e filha prolongavam a conversa do lado de fora. Quando ouviu o Porsche se afastando e Pierce voltando ao chalé, adiantou-se até a escada de madeira, achando que ele gostaria de ficar sozinho. Com certeza, não queria deixá-lo pensando que estivera ali esperando-o. Ela acabara de pisar no primeiro degrau da escada quando ele entrou.

— Vai se deitar?

— Sim, eu achei... Pierce estendeu-lhe a mão.

— Você se sentaria um pouco comigo?

Alicia sentiu o coração disparando, mas não soube exatamente a razão. Talvez fosse porque estivessem a sós com todas as luzes apagadas exceto a de um abajur na área de estar, criando uma aura de intimidade. Talvez fosse também porque a voz dele soara rouca, carregada de uma emoção forte e indefinível. Por qualquer que fosse o motivo, ela estava trêmula e expectante quando voltou em direção ao sofá, pegando a mão forte estendida, e ambos se sen­taram diante do fogo ainda crepitante da lareira.

— Obrigado por ter se encarregado do jantar.

— Não foi nada. Gosto de fazer as vezes de anfitriã.

— Bem, seja como for, eu lhe agradeço muito. Acho que Chrissy se divertiu, e nós conseguimos nos aproximar um pouquinho mais. — Pierce fitou-a com seu olhar intenso. — Sabe, eu gostaria de lhe explicar o que aconteceu no passado, mas é uma história longa e entediante.

— Bem, não vou a lugar algum — sorriu ela, sentindo-lhe a necessidade de desabafar.

— Você poderia estar dormindo.

— Prefiro ouvir.

— Não posso despejar meu fardo em você.

—Já falei sobre meus problemas com você. Às vezes, estranhos são os melhores ouvintes.

— Ainda somos estranhos?

Alicia foi a primeira a desviar-se de um olhar longo, perscrutador. Ele soltou um profundo suspiro.

— Está certo, aqui vamos. Eu me casei jovem demais e impul­sivamente, quando ainda estava na faculdade. Dottie me conside­rava um bom partido, um futuro engenheiro de sucesso. Ela tinha um rosto bonito, um corpo sensacional e uma atitude liberal em relação ao sexo. Fui capturado numa armadilha, e ela fincou suas garras em mim antes de eu sequer saber que tinha sido fisgado. Quando Dottie anunciou que estava grávida, não tive escolha a não ser me casar com ela, quando eu ainda nem sequer completara os estudos. O maior problema foi que não combinávamos. Tínha­mos objetivos, prioridades diferentes. Foi um casamento fadado ao fracasso.

Pierce continuou explicando que a esposa, vinda de uma família de classe média alta, ficara extremamente aborrecida quando, logo depois que se formara, ele investira a maior parte de suas econo­mias e uma pequena herança que recebera numa firma de enge­nharia iniciante e incerta, em vez de ter dado entrada numa bela casa e ido trabalhar como engenheiro contratado de uma empresa já consagrada no mercado. O dinheiro ficara curto e os dois não tinham podido mais manter um padrão de vida elevado, especial­mente com as despesas adicionais na ocasião do nascimento da filha. Ambos tinham passado a brigar mais e a trocar acusações cada vez mais ofensivas.

— Vi que estaria destruindo minha vida e meus sonhos se con­tinuasse ao lado daquela mulher — prosseguiu ele, pensativo. — Eu tinha apenas vinte e um anos e Chrissy tinha acabado de nascer, mas, nem mesmo por ela, pude continuar naquele casamento. Aliás, àquela altura, se houve uma coisa com a qual minha esposa e eu concordamos foi que seríamos muito mais felizes se nunca mais nos víssemos. Dottie me odeia até hoje por ter causado o único fracasso em sua vida. Sou a única coisa que ela já quis, correu atrás, mas, ao final, não pôde ter.

Ele correu a mão pelos cabelos.

— Mas eu me culpo pelo casamento fracassado porque jamais deveria ter me casado com Dottie, mesmo ela tendo engravidado.

Ela usou a gravidez apenas para me prender e, depois, que a criança nasceu, entregou-a aos cuidados de babás. Mas, o que mais me arrependo é de ter desistido de meus direitos de pai por causa das desavenças com Dottie. Fui covarde, não me sentia pronto para ser pai e usei minha raiva como pretexto para fugir de minha res­ponsabilidade. Hoje em dia, eu nem sequer conheço minha filha direito. Embora eu sempre tenha lhe provido tudo em termos fi­nanceiros, o fato inegável é que perdi toda a infância dela e início de adolescência. Agora, ela já é quase uma mulher feita e inde­pendente aos dezoito anos, alugou seu apartamento e está iniciando os estudos na universidade. É uma garota determinada, de fibra. Fico orgulhoso que ela tenha conseguido se libertar sozinha das garras de uma mãe dominadora. Um dia, Chrissy se casará e eu nem sequer vou poder... — Pierce interrompeu-se abruptamente.

— Não vai poder o quê?

— Não importa. Acontece apenas que acho que esperei muito para realmente tomar parte da vida dela. Eu sempre tentei aplacar minha consciência por ter sido um péssimo pai dando-lhe presen­tes... pôneis e Porsches. Nunca lhe dei orientação, conselhos, senso de valores, nada que seja realmente importante. Céus, é de admirar que ela não me despreze. E, agora que, enfim, estou no rumo certo, talvez seja tarde demais para... — Ele ficou em silêncio, um ar grave em seu rosto.

— Nunca é tarde demais, e você não é o vilão que pinta de si mesmo. — assegurou-lhe Alicia. — A própria boa índole que Chrissy herdou de você se encarregou de torná-la uma jovem equi­librada, boa, sensata. É bastante sábia para seus tenros dezoito anos. E quanto ao relacionamento de vocês, a despeito do passado, é evidente que está indo bem. Chrissy ama você e só espera seu amor e aprovação paternos.

— Esta noite, eu disse a ela que a amo — contou ele num tom manso.

— E o que ela fez? Pierce sorriu.

— Minha filha chorou, emocionada, abraçou-me e me disse que também me ama.

— Fico muito contente. Por vocês dois.

— Tenho de agradecer a você pelo êxito desta noite. Nem sei dizer o quanto isso foi importante para mim.

— Teria acontecido mais cedo ou mais tarde. Você queria isso. E sua filha também. Só lhe dei um empurrãozinho para fazer algo que você já planejava.

Ele tocou-lhe a face com carinho.

— O que torna você tão fácil de se conversar? Tão compreen­siva? Tão perceptiva e solidária em relação a outras pessoas e seus problemas?

— Eu não sou. Nunca fui nada além de uma pessoa puramente egoísta.

— Acho difícil de acreditar.

— Acredite. Sempre fui uma pessoa que só pensou em si mes­ma, ou, do contrário, eu não teria deixado que os outros cuidassem da minha vida. Primeiro, meus pais; depois, Jim. Eu não me preo­cupava com nada além de minha própria felicidade e o que eles fariam para proporcioná-la a mim. Quando perdi Jim, transferi a responsabilidade sobre minha vida para Carter. É mais seguro fa­zer isso, entende? Desse modo, não se pode receber a culpa quando as coisas dão errado.

Ela sacudiu a cabeça tristemente.

— No fundo, eu sabia que Carter não me amava, antes mesmo de ele ter conhecido Sloan. E quase o deixei arruinar sua vida, destruir sua chance de felicidade, a fim de assegurar meu próprio futuro.

— Não seja tão dura consigo mesma. Você tinha que pensar em seus filhos.

— Eu os usei como pretexto. Mas, finalmente, acordei para o fato de que eu era adulta, de que tinha de assumir total responsa­bilidade por minha vida e a de meus filhos. Agora, pela primeira vez, estou cuidando de minha própria vida sozinha. Gosto mais de mim mesma por isso, mas nem sempre é fácil.

— Não conheço ninguém que não sinta medo vez ou outra. — Pierce adquiriu um ar introspectivo, dando a impressão de que se retrairia novamente. Em vez daquilo, levou-lhe a mão delicada aos lábios e beijou-lhe a palma. — Sobre o que você e Chríssy con­versaram?

Ela desviou os olhos.

— Conversa de mulher. Nada mais.

— Ela perguntou sobre nós?

— Sim.

— O que queria saber?

Alicia tinha plena ciência de onde a resposta sincera poderia levá-los e, portanto, seria melhor evitar a verdade. Mas não queria fazê-lo. Queria ser conduzida diretamente às raias da tentação... e nem sequer pensar nas conseqüências.

— Chrissy me perguntou se nós dois estávamos dormindo jun­tos. Eu lhe disse que não.

— E o que ela comentou a esse respeito? Alicia umedeceu os lábios.

— Ela disse que achava que deveríamos, que seria bom para nós dois.

Pierce arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Garota precoce.

— Também achei.

— Mas sábia. Devo concordar com Chrissy. Sei que, ao menos, seria algo tremendamente bom para mim. — Ele segurou-lhe o rosto entre as mãos com ternura, fitando-a longamente. Viu na­queles belos olhos azuis um anseio e um desejo que espelhavam os seus. — E quanto a você?

— Acho que seria algo mutuamente benéfico.

— Eu não posso me envolver. Seria inoportuno, apenas isso. Não quero que fique magoada depois.

— Eu entendo.

— Entende mesmo? Porque tenho de saber agora, Alicia.

— Eu também não posso me envolver com ninguém, Pierce.

— Somos duas pessoas que sabem o que estão fazendo, certo? Adultos conscientes.

— Sim.

— Sem arrependimentos depois.

— Sem arrependimentos.

— É apenas por uma noite. Nada que crie um elo. Não lhe daremos significado especial, apenas encararemos o ato como ele é, uma libertação física, uma troca prazerosa. Certo?

— Sim. — A última palavra surgiu na forma de uma súplica tão passional quanto a maneira que o corpo dela se moldou ao dele.

Pierce tomou-lhe os lábios com um beijo faminto, explorando-lhe a boca macia com a língua. Sem parar de beijá-la por um mo­mento sequer, envolveu-a com seus braços e ajudou-a a levantar, guiando-a até a cama de casal que ficava quase oculta debaixo da escada de madeira. Deitando-a no colchão, beijou-lhe o pescoço e, então, os seios através do tecido da blusa de manga comprida, enquanto lhe desapertava os botões. Quando acabou de abri-la, contemplou-lhe os seios perfeitos que se comprimiam junto a um sutiã de renda branca, os mamilos intumescidos.

Obrigou-se a ir com calma, a manter o controle para saborear cada momento ao máximo. Cobriu-lhe os seios com quase re­verência, afagando-os com vagar, sentindo-lhes a firmeza em suas mãos.

— É maravilhoso tocar você — sussurrou. Acabou de livrá-la da blusa, então, e abriu-lhe o fecho do sutiã nas costas, atirando as peças de lado. Ela foi tomada pela timidez, mas ele a fitava com fascínio. — Você é linda.

Seu olhar, suas palavras e, em seguida, lábios e mãos confir­maram aquilo. Ele roçou os lábios pela pele acetinada e, então, guiou-lhe os seios até sua boca com as mãos. Descreveu círculos em torno dos mamilos com a língua e, em seguida, sugou cada um avidamente, ouvindo-a emitir estimulantes gemidos de prazer. Deslizando as mãos até o abdome firme dela, encontrou-lhe o bo­tão e o zíper do jeans, abrindo-os num instante.

— Você é toda linda — murmurou quando lhe despiu o jeans e observou-a deitada na cama. Quando começou a baixar-lhe a calcinha de renda branca, notou-lhe a súbita tensão e afastou logo as mãos. — Fiz algo errado?

— Não, acontece apenas que... — Embaraçada com sua súbita hesitação, Alicia procurou recobrar a confiança e pousou as mãos no peito dele, abrindo-lhe os botões da camisa. Afagou os pêlos escuros que lhe cobriam o tórax largo e viu-o cerrando os dentes. Aquilo era bom, ou ruim?

Não sou boa nisto, pensou, insegura. Ele não vai gostar de mim. Não sei as coisas certas a fazer. Ela e Jim haviam sido casados tantos anos antes. Agora, sentia-se inepta, desajeitada e pouco à vontade.

Notando-lhe a incerteza, Pierce afagou-lhe os ombros com gen­tileza.

— Fique deitada e procure relaxar, sim? — Adiantou-se até a cômoda de cedro, de onde pegou algo de uma gaveta, voltando logo.

Ela se recusou a observá-lo, embora percebendo, pelo canto do olho que Pierce se despia por completo agora. Ele se aproximou da cama e apoiou o joelho no chão.

— Alicia? — perguntou num tom suave. Pegando-lhe a peque­na mão, levou-a a seu peito e notou o quanto ela estava trêmula, os olhos azuis apreensivos. — Você quer parar? Diga-me.

Aquele tom preocupado a levou a observá-lo. Pierce era tão forte e másculo, tão desejável. Mais forte do que tudo, porém, era seu caráter. Mesmo agora, estava disposto a deixá-la voltar atrás. Uma emoção bem semelhante a amor causou-lhe um nó na gar­ganta. Lembrou-se de como ele era atencioso com os meninos, das vezes em que o apanhara fitando-a com infinita ternura, com um anseio que superava o desejo carnal. Apesar do que dissera de si mesmo, era um homem bom, generoso, afetivo e ela queria provar de seu carinho.

— Não, não quero parar — disse com firme certeza, um doce sorriso nos lábios.

Pierce deitou-se na cama e abraçou-a longamente antes de bei­já-la. Quando o fez, seus lábios mostraram-se suaves, gentis, persuasivos, e ela se sentiu relaxando junto ao calor daquele corpo sólido. Ele mostrou-lhe, então, o que havia encontrado na cômoda, vários pacotes de preservativos, e ela sorriu e corou, perguntando-se se usariam todos naquela noite. Uma onda de expectativa percorreu-a.

Deslizando as mãos por seu corpo, ele removeu-lhe a calcinha, tomando o cuidado de ir devagar, de não assustá-la.

Com olhos reverentes, percorreu-lhe o corpo nu, detendo-os em cada curva escultural. Quando tornou a fitá-la nos olhos, os seus brilhavam com prazer e seu sorriso era um cumprimento silencio­so. Acariciou-a, então, por inteiro, sem pressa, adiando a suprema satisfação e aumentando a expectativa. O corpo dela vibrou sob o toque das mãos e lábios experientes dele.

Pierce observou as reações que lhe causava enquanto lhe afa­gava cada pedacinho do corpo, seu próprio prazer aumentando. Alicia admirou-se por não estar corando outra vez até a raiz dos cabelos em acanhamento. Ao contrário, porém, seu desejo se in­tensificava enquanto observava cada gesto de Pierce, encontrando-lhe o olhar com ardor no seu.

Ele beijou-lhe os seios, sugando cada mamilo demoradamente, fazendo com que uma onda de calor a percorresse, estimulando as demais partes sensíveis de seu corpo. Com seu toque suave, ele explorou-lhe a doce feminilidade. Ela sentiu-se como um tesouro raro sendo descoberto por alguém capaz de apreciá-lo plenamente. Pierce, então, cuidou da proteção de ambos e tomou-lhe os lábios com um beijo arrebatador. Segurando-a, enfim, pelos quadris, po­sicionou-a para recebê-lo. Foi uma explosão instantânea de prazer. Seus corpos começaram a se mover cada vez mais depressa até chegarem a uma cadência frenética, sublime, mágica que os levou rumo ao fabuloso êxtase.

— Oh, puxa, isto é tão bom, minha querida — sussurrou-lhe ele ao ouvido.

— Pierce — murmurou Alicia sem parar, enquanto os maravi­lhosos espasmos tomavam seu corpo, sensações de puro deleite percorrendo-a.

Como se fosse na distância, ouviu os próprios murmúrios dele dizendo seu nome, expressando o auge de seu prazer e, peculiar­mente, um quê de... tristeza.

 

Pierce entrelaçou mechas dos cabelos dela nos dedos e fitou-lhe longamente os olhos azuis. Beijou-lhe, então, a curva generosa dos seios e correu os lábios pela pele acetinada.

— Você é tão doce...

— Sou?

— Muito, muito. — Ele ilustrou a confirmação com uma trilha de beijos no pescoço dela. Virando-se, recostou a ambos nos tra­vesseiros. — Quanto tempo faz que Jim morreu?

— Três anos.

— Você ficou três anos sem fazer sexo com ninguém?

— O que o faz dizer isso? — Ela se mostrara tão sem prática e desajeitada? Afastou-se um pouco dele.

Pierce sorriu, afetuoso, e puxou-a de volta para seu lado.

—Pude perceber, mas não de uma maneira ruim, para que você ache que precisa se colocar na defensiva. Ao contrário — Beijou-lhe a fronte com ternura, a mão deslizando pela cintura e o quadril dela. — É algo bom de se saber.

As palavras agradaram-na, e Alicia aninhou-se mais naqueles braços fortes.

— Houve alguém — confessou num tom manso.

— Carter.

Ela afagou-lhe o peito forte, afundando os dedos nos pêlos es­curos e macios que o cobriam. Com um sorriso secreto, esperou que o indício de ciúme na voz dele não tivesse sido fruto de sua imaginação.

— Não, não Carter.

— Não?

— Eu lhe contei que meu relacionamento com Carter não foi dessa maneira. Se tivéssemos feito amor, mesmo que tivéssemos nos casado, acho que teríamos nos sentido como se estivéssemos traindo Jim. Carter e eu éramos bons amigos demais para nos tor­narmos amantes.

— Então, houve outro alguém?

— Ninguém importante. Foi apenas um envolvimento de uma noite. Ele era um bom homem, mas o que tivemos não significou nada além de me fazer despertar para o fato de que eu não estava morta, embora Jim estivesse. E o de que eu estava sendo injusta comigo mesma aceitando me casar com o primeiro homem dispo­nível. Sem mencionar o quanto isso era injusto para com Carter.

Por longos momentos, Pierce manteve-se quieto, as mãos não mais acariciando-a afetuosamente. Estava praticamente estático. Ela cometera um erro em ter-lhe contado sobre aquela noite em Tahoe?

— Você mentiu para mim.

Atônita, Alicia ergueu-se e estudou-lhe o rosto de expressão indecifrável.

— Menti?

Ele afagou-lhe os cabelos loiros.

— Mentiu ao concordar comigo quando eu disse que esta noite não teria nenhum significado especial. — Beijou-a com ternura nos lábios. — Para você, isto é mais do que apenas sexo, não é? Significa algo?

Estudou-lhe os olhos, viu-os ficando marejados.

— Sim, significa. Teria de significar, ou eu não estaria aqui.

— Doçura. — Pierce segurou-a pela cintura, deitando-a sobre seu corpo. Daquela vez, seu beijo foi voluptuoso, e Alicia corres­pondeu com a mesma paixão.

— Você também estava mentindo? — perguntou ela quando, enfim, pararam para recobrar o fôlego.

Pierce afagou-lhe as costas, adorando-lhe a nudez do corpo ma­cio e quente acima do seu. Quando a ouviu suspirando de prazer, soube que faria amor com ela outra vez. Outra. E mais outra.

— Sim. Para você e para mim mesmo, eu estava mentindo.

Antes do amanhecer, Alicia deixou Pierce dormindo, recolheu suas roupas espalhadas, fez uma breve parada no banheiro e subiu a escada silenciosamente. Ela vestiu a camisola e conseguiu dei­tar-se sob as cobertas sem que David e Adam acordassem na cama ao lado.

O que Pierce estaria pensando dela agora? O que estava pen­sando de si mesma? Por que num minuto ficava eufórica em rela­ção ao que acontecera entre eles e, no minuto seguinte, sentia-se terrivelmente envergonhada?

Nada em sua vida a preparara para o ato de fazer amor com Pierce. Não houvera um pedacinho de seu corpo que ele não ex­plorara completa e intimamente. Jim fora um amante atencioso, doce, mas ambos tinham feito amor de maneira simples e imatura em comparação ao êxtase extraordinário compartilhado com Pier­ce. Ele se concentrara de tal maneira nela que a fizera sentir-se a mulher mais amada do mundo.

Lembranças de tudo o que haviam proporcionado um ao outro a fizeram corar feito uma jovem donzela. Estava chocada com seu comportamento ousado e com suas reações incontroláveis, com o total abandono com que se entregara.

Sentia-se como se fosse uma nova Alicia, uma que acabara de conhecer. A antiga Alicia Russell estava deliciada, horrorizada e intrigada com a mulher que emergira de dentro dela na noite an­terior.

Ela acabara adormecendo em meio às suas ponderações e, quan­do despertou, percebeu que David e Adam já haviam se levantado e tomavam o café da manhã com Pierce.

Vestindo um agasalho lilás, prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo e desceu a escada estreita com o coração aos saltos. Depois de beijar os filhos, que a saudaram com seus costumeiros sorrisos, lançou um olhar que demonstrava nervosismo a Pierce. Ele usava uma calça esporte preta com uma camiseta clara que lhe eviden­ciava os músculos, e ela sentiu o rosto afogueado, lembrando-se de como correra lábios e mãos por aquele corpo viril.

— Café? — perguntou ele com um sorriso terno.

E foi o bastante. Seu olhar, sua expressão suave, seu tom de cumplicidade deixaram-na saber que tudo estava bem. Entreolharam-se por um longo momento, transmitindo centenas de men­sagens íntimas e silenciosas. A tensão que a dominara dissipou-se de imediato. Alicia reuniu-se a eles à mesa para o desjejum, tendo de controlar a vontade de tocar Pierce, de dar-lhe um ar­dente beijo de bom-dia que o agradecesse pela noite maravilhosa. Fora incrível; jamais se sentira tão feminina e desejada.

— Dormiu bem? — perguntou-lhe Pierce com um brilho no olhar.

— Sim. E você?—Ele tinha uma boca tão bonita, pensou Alicia com um sorriso secreto. E aquela boca a fizera sentir-se igualmente bonita.

— Os sonhos me impediram de dormir profundamente.—Pier­ce fitou-a, lembrando-se de todos os lugares e vezes em que a beijara e uma onda de desejo o percorreu. — Mas foram sonhos ótimos.

— Nós somos como as pessoas da caixa, mamãe. Alicia desviou o olhar de Pierce e dirigiu-o a Adam.

— Como disse, meu bem? — indagou, distraída.

— Está vendo. — O filho de cinco anos apontou para a ilustra­ção colorida na caixa do cereal matinal que ele e o irmão termi­navam de comer. — Estão todos sentados à mesa, tomando o café da manhã. Os dois meninos... são David e eu... e a mãe e o pai.

— Não são como a gente — discordou David. — Pierce não pode ser nosso pai. Ele teria de se casar com nossa mãe primeiro.

— Sim, mas seria a mesma coisa — insistiu Adam. — Não é mesmo, mamãe?

Alicia não respondeu logo. Estava alarmada demais com a sú­bita palidez no rosto de Pierce, o ar sensual nos olhos dando lugar instantaneamente a uma expressão dura, fria, fechada.

— Mais ou menos, querido — disse ela, enfim, num tom vago. Seu coração, que estivera transbordando de alegria, ficara pesado, oprimido. — Por que você e seu irmão não vão até lá fora brincar, se já terminaram?

Os dois ficaram contentes em poder deixar a mesa e rumaram depressa até a porta da frente.

—Seria incrível se Pierce fosse nosso pai, não é mesmo, David?

— Sim, nós seríamos como as outras crianças, e Chrissy seria nossa irmã!

A porta de tela fechou-se atrás deles com força, o que só enfa­tizou o pesado silêncio no chalé.

Alicia olhou para o rosto de Pierce, que, àquela altura, parecia esculpido em granito, um dos punhos cerrado sobre a mesa. A transformação apavorou-a. Não porque o temesse, mas porque sus­peitava do que aquela mudança repentina significava.

— Eles são apenas garotinhos. — Não pôde evitar o tom de súplica em sua voz. — Não percebem as implicações do que dis­seram. Apenas sabem que nossa família não é completa e o fato de não terem pai os incomoda. Por favor, não dê nenhum signifi­cado especial ao que os dois disseram.

O sorriso de Pierce foi frio, forçado.

— Isso lembra vagamente o que dissemos um ao outro ontem à noite. Mas o que partilhamos teve "significado especial", não é mesmo?

— Achei que já houvéssemos concluído que teve. Há alguma razão para você estar zangado?

— Droga, sim! — exclamou ele, saltando da cadeira. — Sim, estou zangado.

— Por quê? — Alicia contraiu o rosto diante daquele tom exal­tado, mas recobrou-se depressa. Depois da noite anterior, não tinha o direito de esclarecer aquilo? — Como pode ficar com raiva de um menino de cinco anos só porque ele falou em casamento?

— Não estou zangado com Adam. Céus, pelo que me toma? — retrucou Pierce, ríspido. — Estou zangado porque a noite de ontem foi esplêndida, porque você é uma mulher pela qual eu poderia me apaixonar perdidamente, porque quero ser um pai para seus garotos e me redimir dos erros que cometi da primeira vez com minha própria filha.

Ela o fitou com uma expressão angustiada.

— Não entendo você. Por que essas coisas seriam ruins? Ele segurou-a pelos ombros, sacudindo-a de leve.

— Porque nada disso pode acontecer — declarou, proferindo cada palavra com relutância.

Soltou-a abruptamente, então, dando-lhe as costas.

— Por que não pode acontecer? — persistiu Alicia, levantando-se. Não ficaria sem saber, ou sem entendê-lo.

— Acredite. Não pode.

— Por quê?

— Esqueça isso, por favor.

— Existe outra mulher?

Ele tornou a virar-se. Percorreu-a de alto a baixo e não havia como esconder o desejo que ainda brilhava em seus olhos.

— Eu gostaria que fosse assim tão simples. Para viver a seu lado, dormir com você a cada noite, eu teria desistido de qualquer outra mulher que tivesse conhecido.

Um gemido de frustração escapou dos lábios dela.

— Então, o que é? Diga-me, por favor.

— Não.

— Por quê?

— Porque você ficará melhor sem saber.

— Quem lhe deu o direito de julgar isso? Depois da intimidade que partilhamos ontem à noite, não podemos conversar um com o outro aberta e livremente sobre qualquer coisa?

— Não sobre isto.

— Como podemos guardar segredos um do outro depois do abandono com que fizemos amor?

— Eu não me permiti pensar a respeito ontem à noite. Nesta manhã, tenho de pensar. — Um misto indefinível de emoções for­tes, graves, passou pelo rosto duro dele. — E vejo que preciso deixá-la ir.

— Deixar-me ir? — repetiu Alicia, a raiva e a mágoa oprimindo-lhe o peito. — Então, é isso?

Ele respirou fundo, a expressão em seus olhos suavizando-se consideravelmente.

— Sim. Você sabia a respeito antes mesmo de ter concordado em passar a semana aqui.

Sim. Ele fora franco naquele aspecto, informando-a que não podia se envolver. Repetira aquilo na noite anterior. Ela soubera, mas ignorara o fato. A maneira como tinham feito amor fora es­pecial, única, não apenas sexo, mas evidentemente Pierce teimava em se apegar a seus motivos para não se envolver.

Estava certo. Ele que fosse às favas!

— Voltarei a Los Angeles hoje à tarde. É um dia antes do que eu havia planejado, mas, levando em conta as circunstâncias, acho que é o melhor a fazer.

O silêncio prolongou-se até um nível intolerável e, enfim, Pier­ce assentiu com um gesto tenso de cabeça.

À beira das lágrimas, ela subiu a escada correndo e começou a atirar suas coisas e as dos filhos nas bolsas de viagem.

Pierce observou o carro afastando-se pela estrada de cascalho até vê-lo desaparecendo nos arvoredos.

Vá atrás deles, seu tolo! Como podia deixá-los ir? Queria Alicia a seu lado. Queria os meninos.

Ele não se moveu porque sabia que não podia envolvê-los no seu problema. Ao longo do caminho, não teria sido justo para ninguém.

Amaldiçoando sua sorte, sua vida, Pierce entrou no chalé, ba­tendo a porta com força. Não pôde suportar o interior agora vazio, mas cheio de lembranças. Se ficasse ali sozinho, enlouqueceria. Voltaria a Los Angeles também, tão logo arrumasse suas coisas.

— A culpa é sua — declarou David, acusador, no banco detrás do carro. — Pierce gostou de mim e de Adam, mas você o deixou zangado por algum motivo. É por isso que tivemos que partir.

— Íamos partir amanhã, de qualquer jeito — repetiu Alicia pelo que lhe pareceu a décima vez e tentou reunir paciência. Seus filhos tinham estado chorando, resmungando e se lamuriando desde que praticamente tivera de arrastá-los até o interior do carro e rumar na direção de casa.

O fato era que não podia dar explicações aos filhos porque ela mesma não as tinha. Seu coração estava partido, os nervos em frangalhos e teria dado qualquer coisa para poder extravasar sua própria dor.

Por que não tinha sorte no amor? Quando aprenderia a usar de bom senso, a ter cautela, a erguer barreiras em torno de seu cora­ção? Por que entrara de cabeça tão tolamente numa situação sem futuro? Por que, depois de suas desilusões passadas, fora se apai­xonar por um homem que...

O carro quase saiu da estrada.

Ela se apaixonara por Pierce?

Lágrimas escorreram copiosamente por seu rosto no silêncio do carro, os filhos, enfim, tendo adormecido no banco detrás. O lábio inferior trêmulo, o coração pesado, Alicia não teve como negar.

Sim, ela estava apaixonada por Pierce Reynolds. E que grande bem aquilo lhe faria?

Na segunda-feira de manhã, Alicia voltou ao trabalho e soube que o parto de sua supervisora fora antecipado. O bebê nascera prematuro, mas saudável, e tanto mãe quanto filho passavam muito bem. Já havia uma reunião sendo organizada e os proprietários da rede de butiques estavam a sua espera. Queriam sua decisão na­quele dia.

Alicia endireitou os ombros e encaminhou-se para a sala de reuniões. Não imaginara que as coisas aconteceriam tão depressa, mas agora tinha certeza de qual seria sua resposta.

Ela quase arruinara tudo novamente. Quase se deixara levar pelo velho hábito de depender de outro alguém para ter sua feli­cidade. O fato era que tinha dois filhos maravilhosos, duas pernas firmes em que se apoiar, uma mente aguçada e idéias criativas. Após longas horas de pranto convulsivo, mais horas praguejando e repreendendo a si mesma e dois dias de serena reflexão, ela concluíra que não precisava de Pierce Reynolds. E não precisava de nada além da capacidade de contar consigo mesma.

— Meu tempo e talentos são caros — declarou ela sem preâm­bulo aos executivos quando foi dado início à reunião. — Quero quinhentos dólares mensais a mais do que o salário que me pro­puseram.

Os proprietários da Glad Rags conversaram e concordaram com os termos de Alicia.

— Bem, senhores, acabam de obter uma nova coordenadora de moda. Desejam que eu descreva algumas de minhas idéias?

Seu genuíno entusiasmo cativou-os.

Na sexta-feira, alguns dias depois de sua promoção, Alicia não podia estar mais satisfeita com seu trabalho integrado nas três so­fisticadas butiques da Glad Rags, provando a cada dia que era, de fato, a profissional perfeita para o cargo. O falecido marido a dei­xara numa situação financeira bastante estável, mas era uma gran­de satisfação ter alcançado o atual sucesso com mérito próprio. A realização profissional e a dedicação aos filhos estavam-na aju­dando a esquecer os dissabores pessoais, embora à noite, em sua cama, ainda relembrasse os momentos mágicos vividos no chalé nas colinas e a ferida em seu coração continuasse aberta. Mas superaria aquilo também, prometeu a si mesma mais de uma vez.

No início da tarde, quando ela acabara de chegar do almoço na Glad Rags de Beverly Hills, uma ligação inesperada quase lhe roubou o fôlego e a fez lembrar novamente de quais eram suas verdadeiras prioridades na vida. Era o telefonema de um hospital próximo à escola de seus filhos. David sofrerá um acidente na escola e o diretor o levara ao pronto-socorro de lá.

Quando, depois do que lhe pareceu uma eternidade, ela chegou à sala de atendimento pediátrico, onde lhe informaram na recepção que o filho estava, ouviu os gemidos de dor antes mesmo de chegar à porta vaivém e abri-la. A primeira coisa que viu foi uma toalha encharcada de sangue no chão e seu coração quase parou.

— David?

Um homem se curvava acima dele na maça. Ele endireitou as costas e virou-se. Era Pierce.

 

— O que você está fazendo aqui? — David pediu à equipe do hospital que me telefo­nasse também. Deu-lhes meu nome e o de minha empresa. Acon­teceu de eu estar mais perto.

— Mamãe?

O grito repleto de dor e medo fez com que Alicia se recobrasse do choque em encontrar Pierce ali. Adiantando-se depressa até a maça, olhou para o filho e mal conteve uma exclamação aflita. O olho direito dele estava quase fechado tamanho o inchaço. Havia um corte desde a metade da sobrancelha até um pouco além do canto externo do olho. O corte parará de sangrar, mas estava aberto e era profundo.

— David, meu anjo, o que aconteceu? Oh, Céus! Está doendo muito?

— Sim, mamãe.

—Oh, eu sei, querido.—Freneticamente, ela olhou para Pierce. — Já fizeram alguma coisa por ele? E quanto ao olho? Pierce sacudiu a cabeça.

— Não me deixaram assinar a permissão para tratamento. Pa­rece que foi apenas um corte sob o supercílio. Pelo que o diretor da escola me disse, foi logo depois do intervalo. As crianças es­tavam alvoroçadas. Alguém abriu a porta da sala bruscamente e ela bateu em cheio no olho de David. Mas ele está enxergando bem com o olho machucado. Já lhe fiz um teste.

— Oh, felizmente! — suspirou Alicia, aliviada, enquanto se­gurava a mão de David com força. — Vão cuidar bem de você, meu anjinho. Eu prometo.

— Não me deixe, mamãe — gritou o filho quando ela começou a libertar a mão.

— Não vou deixá-lo. Só vou buscar o médico.

Naquele momento, a enfermeira interveio num tom rigoroso:

— Sra. Russell, se fizer a gentileza de assinar este formulário e me informar o nome de seu convênio médico e o número de seu cartão, eu poderei dar uma injeção em David para lhe aliviar a dor.

— Não quero tomar injeção! — gritou o menino, começando a chorar.

— Ei, ei, e quanto àquela promessa que fizemos um ao outro de sermos corajosos? — Pierce pousou a mão no ombro do me­nino, reconfortando-o.

Alicia pegou rapidamente a carteira da bolsa com os cartões do plano médico e assinou a papelada necessária para que fosse dado início ao tratamento. Como era possível que tivessem deixado toda aquela burocracia prolongar mais o sofrimento de David?, pergun­tou-se, trêmula de indignação.

Depois que o menino começou, enfim, a ser atendido, Pierce explicou-lhe que telefonara para um amigo, o Dr. Frank Benedict, que era cirurgião plástico. Achara que ela gostaria de um cirurgião plástico para fazer a sutura, uma vez que o corte era num lugar muito visível do rosto.

Ela lhe agradeceu e, enquanto o cirurgião se preparava para ini­ciar a sutura, pediu-lhes que aguardassem fora da sala. Alicia dei­xou-se conduzir dali com relutância por Pierce e, quando ele a abra­çou com força no corredor, aninhou-se em seus braços protetores, deixando que as lágrimas fluíssem livremente. Céus, como conse­guira passar uma semana inteira sem vê-lo, ouvi-lo, ou tocá-lo?

—Tudo vai ficar bem — sussurrou ele. — David está em ótimas mãos.

Alicia sentiu sua tensão se dissipando, enquanto ele lhe afagava o cabelo e as costas e lhe murmurava palavras de apoio. No mo­mento, precisava de Pierce e ele estava ali. Aquilo poderia acabar se mostrando uma tola fraqueza de sua parte mais tarde, mas não negaria a si mesma tal consolo no momento.

Cerca de uma hora depois, quando David recebeu alta, no en­tanto, ela já se recobrara o bastante do choque para se recordar de como fora a rejeição definitiva de Pierce no chalé.

— Nem sei como lhe agradecer por ter vindo. Eu demorei a chegar porque estava mais longe, na loja de Beverly Hills, e por causa do trânsito. Sei que sua presença foi essencial para aliviar o medo de David. De qualquer modo, peço-lhe desculpas por ter sido... envolvido nisto — acrescentou ela um tanto formal.

Pierce estreitou os olhos com ar zangado.

—Estou contente que David tenha mandado me chamar. Fiquei assustado quando o vi com um corte tão profundo e o olho inchado daquele jeito e foi bom ajudá-lo. Não foi sacrifício algum.

— Eu sei — murmurou ela. — E não quero parecer ingrata, mas você correu até aqui hoje, tirando minha vida do eixo outra vez depois de... de...

Desviou os olhos, incapaz de completar a frase, embora as pa­lavras não ditas pairassem no ar, carregadas de tensão.

O silêncio se prolongou e, enfim, Pierce limitou-se a dizer, seu tom indecifrável:

— Você não está em condições de dirigir. Eu levarei você e David para casa no seu carro. Voltarei depois para buscar o meu.

Alicia concordou porque não tinha disposição para discutir mais com quem quer que fosse no momento. Mas, principalmente, por­que, quaisquer que fossem as razões dele para ajudá-la, queria que Pierce a levasse em casa.

Tola!, censurou a si mesma. Depois de tudo, ainda não apren­dera sua lição?

Adam já estava em casa com a babá que buscava os meninos na escola e cuidava deles até a chegada de Alicia do trabalho. O garoto ficou impressionado com a bandagem que cobria o olho de David e com ciúme de todas as atenções que o irmão mais velho estava recebendo. Também se mostrou radiante em rever Pierce e, quando ele o convidou para irem à farmácia comprar os remédios receitados a David, seu ciúme foi prontamente aplacado. Na volta, estava com os braços cheios de revistas em quadrinhos e pequenas caixas de jogos.

— Eu e Pierce compramos tudo isto para você — anunciou o menino mais novo, colocando os presentes na cama do irmão.

— E um novo jogo de videogame.

— Você me ensina a jogar?

Alicia conteve um gemido. Enquanto Pierce saíra para ir à far­mácia, ela telefonara para seus pais para contar sobre o acidente de David e os dois já estavam a caminho. Esperava que Pierce fosse embora quando eles chegassem. Mas não teve tanta sorte. Eles tocaram a campainha acompanhados dos pais de Jim e as duas duplas de avós entraram no quarto de David a tempo de verem Pierce ensinando aos meninos como era o jogo que comprara.

— Um homem tão atencioso e prestativo. Você até pôde dis­pensar a babá mais cedo — comentou a mãe de Alicia mais tarde com calculada indiferença. Ela insistira em ajudá-la a arrumar a cozinha depois do jantar que haviam encomendado.

— Sim, Pierce é um bom homem—disse Alicia com um sorriso forçado.

— Você o conhece há muito tempo? Eu me admiro que David tenha mandado chamá-lo em vez de nós.

Alicia não contara aos pais sobre a semana deles no chalé de Pierce. Quando haviam-lhe perguntando sobre os dias de férias, limitara-se a dizer que tinham sido divertidos. Felizmente, os me­ninos não tinham estado por perto para tagarelar sem parar e re­velar tudo.

— Não o conheço há muito tempo — respondeu, evasiva —, mas os meninos gostam dele.

— Fico contente — comentou a mãe com um sorriso de enco­rajamento. — Ele também parece gostar de você — acrescentou, piscando-lhe um olho. — Espero que tudo dê certo.

Alicia tivera de se conter para não revirar os olhos. A mãe já concluíra que havia algo entre ela e Pierce, mas felizmente não tivera chance de especular mais. Mas, afinal, o que havia entre os dois?

Quando, enfim, os dois casais de avós foram embora e Adam e David já dormiam nos respectivos quartos, Alicia sentia-se exausta, os nervos em frangalhos.

— Acabei de dar uma espiada nos meninos — disse uma voz que, embora baixa, sobressaltou-a. — Estão dormindo profunda­mente. Não se preocupe mais. David vai se recuperar logo.

— Eu sei, agora que o pior já passou, Pierce. Mais uma vez, obrigada por sua ajuda.

Ele fitou-a com intensidade, aquela súbita corrente eletrizante se reavivando. Ela estremeceu quando ele lhe tomou os lábios, dando-lhe um beijo sôfrego, possessivo. Abraçou-o pelo pescoço, correspondendo com todo o seu ardor. Céus, como sentira a falta daquele homem, a despeito do quanto tentara convencer a si mes­ma do contrário.                                                                  

Pierce interrompeu o beijo para sussurrar-lhe ao ouvido:

— Venha, antes que a água de seu banho esfrie.

— Meu o quê? — Ela não queria deixar o calor daqueles braços nunca mais.

— Enquanto você estava se despedindo dos avós dos meninos, preparei-lhe um banho quente. Venha.

Pegando-a pela mão, Pierce conduziu-a até o quarto dela e ao banheiro que ficava anexo. Alicia olhou para a banheira repleta de água quente e refrescante espuma de banho.                          

— Parece divino.

— Leve o tempo que quiser e desfrute seu banho. Eu atenderei o telefone, esse tipo de coisa. — Ele beijou-lhe a ponta do nariz e fechou a porta atrás de si.

Quando Alicia, enfim, saiu de seu quarto, estava envolta por um robe de seda azul e uma onda de excitação. Fora maravilhoso tomar aquele banho repleto de erotismo, sentir a espuma perfuma­da tocando seu corpo, o tempo todo pensando em Pierce e relembrando suas carícias durante a noite deles no chalé.                    

Antes de descer a escadaria, espiou para dentro do quarto dos filhos, que continuavam dormindo tranqüilamente.                    

Pierce estava sentado no sofá da sala, assistindo à tevê. Quando a viu se aproximando, desligou o aparelho e levantou-se. Obser­vou-a com um brilho intenso nos olhos.

Ela respirou fundo, tentando agir normalmente, fazer de conta que um delicioso calor não se expandia até as partes mais sensíveis de seu corpo.

— Gosto de sua casa. É acolhedora, cheia de vida.

Ela meneou a cabeça, olhando em torno da casa que comprara logo depois da morte de Jim. Era menor do que a anterior, mais aconchegante e sem tantas lembranças em cada canto.

— E quanto ao trabalho? — perguntou Pierce, sentindo-se um tolo por estar parado ali, falando, quando o que mais queria era estreitá-la em seus braços. Era impossível ignorar a tensão sexual no ar.

— Eu aceitei a promoção. — Alicia notou o quanto ele estava irresistível, com as mangas da camisa dobradas, os dois primeiros botões abertos, o paletó e a gravata deixados no encosto de uma cadeira. Queria acabar de abrir-lhe a camisa, tocar-lhe o peito musculoso, correr as mãos pela pele quente e bronzeada. — Sou a nova coordenadora de moda da rede de lojas — acrescentou ela com um sorriso orgulhoso.

— Isso é ótimo. Está gostando?

— Sim, é um desafio — respondeu Alicia um tanto ofegante. Era impossível não ficar com o pulso acelerado levando em conta a maneira como ele a observava, como se pudesse ver seu corpo nu através da seda do robe. Por que não a abraçava? — Jamais andei tão ocupada. Irei a Nova York na próxima primavera a trabalho.

— Você fará um bom serviço. — Céus, como ele a queria. Precisava dela. Sentiu a boca seca quando lhe viu os mamilos se enrijecendo de encontro à seda do robe.

— Espero que sim.

— Tenho certeza disso.

— Obrigada pelo voto de confiança. — O que Alicia menos se sentia agora era confiante. Pierce estava à espera de que ela to­masse a iniciativa? Achava que, depois de tê-la rejeitado antes, não o queria mais? Não podia ver que estava ansiosa para ser tomada em seus braços? Deu um passo à frente.

— Gostaria de algo para... O que é isso? — Alguém tocava a buzina de um carro diante da casa.

Pierce demorou um longo tempo para responder.

— Um táxi — explicou, enfim, num tom pesaroso. — Liguei solicitando um enquanto você estava no banho. Não posso ficar. Preciso ir embora.

A incredulidade sobrepujou a expressão expectante dela de mo­mentos antes. Então, seu rosto delicado endureceu, tomado por uma máscara inexpressiva.

— E claro — declarou com frieza. — Obrigada por tudo.

— Por favor, não fique zangada, tornando mais difícil do que já é para mim ir embora agora.

Ela soltou um riso sarcástico.

— Não sei por que acha difícil. Você tem tanta prática nisso. A buzina continuou tocando persistentemente. Pierce escanca­rou a porta e gritou:

— Já estou indo!

— Não vou esperar de graça, amigo.

— Ligue o taxímetro!

Pierce fechou a porta com força e avançou pela sala.

— Tenho de ir. Se eu ficar...

— Então, vá! — exclamou Alicia.

— Se eu ficar, farei amor com você.

— Céus, nem pensar.

— E eu ficarei até amanhã, fazendo amor com você a noite inteira.

— E você não quer se envolver — zombou ela.

— E impossível.

— Eu entendo.

— Não, não entende.

— Então, explique-me.

— Não posso.

— Oh, droga! — exclamou Alicia, furiosa. — Por que você se deu ao trabalho? Por que simplesmente não agiu como se nunca tivesse ouvido falar sobre David Russell quando lhe telefonaram? Por que nos trouxe para casa? Por que tudo isso? Por quê?

Três longas passadas e Pierce segurou-a pelos ombros, puxando-a para si.

— Porque eu me importo com vocês. Porque gosto de seus garotos e tudo o que mais gostaria era que fossem meus filhos. E porque quero tanto você que não me sai dos pensamentos, dos sonhos à noite...

Soltou um gemido angustiado antes de lhe tomar os lábios com um beijo impetuoso. Invadiu-lhe a maciez da boca com a língua, estimulou-lhe os lábios com os seus numa dança repleta de paixão. Abrindo-lhe a frente do robe, encontrou-lhe o seio quente e afa­gou-o com ardor. O mamilo ficou rijo com o toque hábil de seu polegar, fazendo com que ambos estremecessem sob o impacto do desejo que se alastrava rapidamente.

Ele continuou beijando-lhe os lábios com paixão, e Alicia aca­riciou-lhe os cabelos, puxando-o mais para si, todo o trauma do dia canalizando-se para o desejo insaciável.

— Quero você — sussurrou ele, rouco, beijando-lhe o pescoço, o colo, os seios. Segurou-a, então, de encontro a si como se nunca mais fosse soltá-la. — Não pode sentir o quanto a quero? Acha que me esqueci de como é fazer amor com você? Faz idéia de como estou me torturando ao deixar você agora? — Segurou-lhe o rosto entre as mãos com gentileza.—Quero você, minha querida, mas não posso tê-la.

E, com aquilo, Pierce foi embora, deixando-a sozinha e mais confusa do que nunca.

Os dias se passaram numa rotina extenuante que deveria ter sido o bastante para deixar Alicia esgotada para dormir profunda­mente a cada noite. Mas era tomada por uma angustiante insônia. Entregava-se a um pranto doloroso em sua cama, abraçando o travesseiro e ansiando pelos braços fortes de Pierce, por seus beijos ardentes, suas carícias sensuais.

Durante o dia, duas emoções predominavam. Estava furiosa com ele. Odiava-o. Como o homem ousava fazê-la passar por aquilo outra vez? Era cruel demais atormentá-la daquele jeito. Mas Pierce não era cruel. Então, que jogo estava fazendo? Ou não era um jogo? Afinal, tornaria a vê-lo? E era quando a segunda emoção a tomava. Era quando uma terrível e profunda solidão se abatia sobre ela.

Poderia ter esganado Pierce pelo que lhe fizera... duas vezes. Mas, por outro lado, sentia sua falta e estava em constante alerta, na esperança de revê-lo.

Começava a duvidar de que aquilo aconteceria, porém.

 

Havia uma semana que Pierce não entrava em contato, desde o encontro inesperado no hospital, e era impossível para Ali­cia não se sentir desapontada, Apesar de não ter telefonado, nem aparecido, ele enviara um cartão diferente a David a cada dia, mostrando-se atencioso com o menino.

Era evidente que continuava determinado a evitá-la, e talvez fosse o melhor, levando em conta a maneira como a rejeitara pela segunda vez naquela outra noite. Alicia, porém, não conseguia tirá-lo dos pensamentos, nem parar de tentar entender o quê, afinal, dera errado entre eles.

E onde Pierce estaria naquela noite de sexta-feira, não pôde deixar de se perguntar? Nos braços de alguma outra mulher? Afi­nal, era um homem tão viril e atraente...

A idéia lhe foi tão dolorosa que ela afastou-a de imediato da mente e sorveu mais um gole de chá de ervas, sentada à mesa da cozinha. Os meninos já estavam dormindo e, após seu banho, Alicia colocara um pijama. Mas não quisera ir se deitar logo, sabendo que ficaria se revirando na cama, como acontecera nas noites anteriores.

Lançando um olhar ao telefone vermelho da parede, achou que não resistiria à tentação de lhe ligar. O fato de Pierce não ter apa­recido nos dias anteriores era mais uma prova de que ele queria manter seu distanciamento.

Mas qual era a razão, afinal, se o desejo que sentiam um pelo outro era inegável, poderoso?

Talvez ele não estivesse acostumado a namorar uma mulher com dois filhos a tiracolo, ponderou ela. Mas não, disse a si mesma em seguida. Algo lhe dava a certeza de que não era aquilo. Vira a li maneira como Pierce interagira com seus filhos e se mostrara verdadeiramente afetuoso.                          

Talvez tivesse perdido o interesse por ela depois de terem feito amor. Era uma conclusão angustiante, mas, por alguma razão, Ali­cia também não conseguia aceitá-la. Ele não parecia ter perdido o interesse. Ao menos, não o sexual.

Devia haver algo mais, alguma explicação plausível para o com­portamento ambíguo e misterioso dele, pensou, intrigada. Uma explicação que ele não estava disposto a dar.

Pierce tivera uma péssima noite de sexta-feira. Fora até um movimentado bar de Los Angeles para tentar se embriagar. Não dera certo. Já soubera daquilo. A bebida jamais fora solução para o que quer que fosse na vida de ninguém. E, de fato, nem mesmo o álcool conseguira apagar as lembranças de Alicia, dissipar o fantasma dela dançando diante de seus olhos, fora de seu alcance.

Enfim, ele tomara um café bem forte e voltara para casa. Depois de uma noite mal dormida, acordara cedo. Não poderia continuar adiando o inevitável, concluíra ele. Assim, tomara um banho, barbeara-se e se vestira, o tempo todo tentando se dissuadir da idéia de ir ver Alicia.

Sabia que não deveria fazê-lo. Mas estava enlouquecendo. Pre­cisava vê-la ao menos mais uma vez, ouvir sua voz melodiosa, fitar-lhe os penetrantes olhos azuis.

Sabia que Alicia devia estar furiosa com ele e não a culpava. Comportara-se como um patife insensível. Se ao menos pudesse deixá-la saber que tinha de agir daquela maneira para o próprio bem dela...                                                                             

Mas não podia. E aquela era mais uma razão para deixar as coisas como estavam. Para não ir vê-la. O problema era que estava ansioso por aquilo e prometeu a si mesmo que se empenharia ao máximo para não magoá-la mais. Precisava vê-la mais uma vez; era algo mais forte do que ele. Afinal, já estava perdendo tanto em sua vida...

Ele chegou às nove, depois do que lhe pareceram horas inter­mináveis de espera até um horário razoável para uma visita num sábado. Tivera também o que parecera uma eternidade para mudar de idéia inúmeras vezes, mas seu coração acabara falando mais alto.

Alicia abriu a porta da frente para pegar o jornal matinal e seu coração disparou no peito. Por um momento, achou que ainda estava em sua cama, sonhando, mas a manhã ensolarada e agra­dável do outono californiano era real o bastante. Esforçando-se para se recobrar do choque, ela observou enquanto Pierce fechava a porta de seu carro esporte e se aproximava pela calçada. Num jeans e camisa pólo, de um verde intenso como o de seus olhos, estava irresistível como nunca. Ela teve vontade de abraçá-lo e cobri-lo de beijos, mas, mantendo a compostura, limitou-se a cum­primentá-lo com frieza.

— Olá, Pierce, o que faz por estes lados? — Notou-lhe, de imediato, as sombras escuras sob os olhos, o ar um tanto cansado no rosto másculo, mas nem sequer quis se perguntar como ele teria passado a noite. Ou com quem...

— Eu vim ver como está David. — Era um bom pretexto, pen­sou Pierce, embora se importasse de fato com o menino. Mas, no momento, não conseguia tirar os olhos da mãe dele. Alicia estava tentadora demais, numa blusa de malha rosa, que lhe realçava os seios perfeitos e a cintura fina, as pernas bronzeadas e sensacionais à mostra num short branco. Os cabelos estavam presos num rabo-de-cavalo, deixando-Ihe em maior evidência o bonito rosto oval, os grandes e expressivos olhos. Céus, ele teria dado tudo pela chance de tê-la a seu lado...

— David está bem melhor. — O tom dela abrandou-se. — Obrigada por ter-lhe enviado os cartões. Animaram-no bastante.

— Como está o olho dele?

— Perfeito. Os pontos foram tirados ontem. E surpreendente o que uma semana pode fazer. A cicatriz é apenas uma tênue linha rosada. Eu lhe disse que, dentro de um ano ou dois, a cicatriz deixará as meninas enlouquecidas. Ele abriu um sorriso.

— E o que David teve a dizer quanto a isso?

— A exata resposta dele foi: "eca!". Pierce riu, sacudindo a cabeça.

— Sei como é. Seu filho ainda está naquela fase em que quer distância das meninas. Espere só ele crescer um pouco.

Ela também riu.

— Esse é meu medo.

Um daqueles longos silêncios, então, pairou entre eles e se entreolharam avidamente. Pierce disse a si mesmo que jamais vira mulher mais bela, e parecia tão vulnerável... Notou-lhe as sombras escuras sob os olhos, como se também não tivesse dormido bem. Seria o causador das noites de insônia dela?, perguntou-se com uma onda de culpa. Se as coisas pudessem ser diferentes... Viu-a soltando um suspiro, os seios tremendo de leve, e ansiou por tocá-los, sentir-lhes mais uma vez a firmeza nas palmas das mãos. En­goliu em seco.

Alicia sentiu o coração ainda mais descompassado diante do brilho nos olhos de Pierce. Aquela tensão sexual entre eles não se extinguira. Ela própria tinha de se esforçar para ocultar seu desejo, seu anseio, e fazer de conta que não estava com os joelhos moles feito uma adolescente apaixonada.

Respirando fundo, forçou um sorriso.

— Entre. David vai ficar contente com sua visita. E Adam tam­bém, aliás. — Ela não acrescentou o quanto todos tinham sentido a falta dele. — A propósito, uma surpresa especial aguarda você. Chrissy está com os dois na cozinha.

Pierce abriu um sorriso de alívio enquanto a seguia ao interior da casa. Além de ficar contente em ver a filha, haveria mais gente para romper o clima tórrido entre ele e Alicia.

— Chrissy está aqui?

— Sim, ela disse que você lhe contou sobre o acidente de David e veio visitá-lo na primeira oportunidade.

— Que bom.

Alicia meneou a cabeça e conduziu-o ha direção da cozinha, seu coração ainda disparado com a simples presença dele. Droga!, praguejou silenciosamente. Jurara tratá-lo com toda a frieza quan­do tornasse a vê-lo e ali estava, derretendo-se toda. Bastara o brilho naqueles olhos, um daqueles sorrisos charmosos e ali estava ela, ansiando para se atirar nos braços dele. Era uma sorte as crianças estarem entretidas com Chrissy na cozinha, ou ela teria corrido o risco de bancar a tola outra vez, caso Pierce a tivesse encontrado a sós. Céus, por que não conseguia controlar a maldita libido? As duas rejeições anteriores não haviam bastado?

Ela o observou beijando a face da filha afetuosamente, correndo a mão pelos cabelos de David, enquanto lhe perguntava como ele estava e aceitando um abraço espontâneo de Adam antes de se reunir ao animado trio à mesa.

Bem, então, ele se importava com a saúde de David e gostava sinceramente de seus filhos, ponderou Alicia. Também se mostra­va um pai dedicado e afetuoso, arrependido de todo o tempo que perdera com a filha e determinado a recuperá-lo. Não havia mais aquele constrangimento anterior e só em observar a harmonia entre pai e filha Alicia ficava com um nó na garganta.

Sim, ele também era um homem sexy, inteligente, irresistível. E era insuperável na cama. Mas aquilo era razão para ela ficar toda alvoroçada? Pelos Céus, demonstre um pouco de fibra, de amor próprio, ordenou a si mesma. Não deixe que ele afete tanto você.

Não querendo ser feita de tola outra vez, ela serviu-lhe uma caneca de café fumegante com ovos mexidos e decidiu que man­teria o seu distanciamento. Se bem que foi impossível não tomar parte na conversa alegre à mesa, enquanto tomavam o café da manhã.

Cerca de meia hora depois, Chrissy despediu-se, dizendo que se reuniria a umas amigas em seu apartamento a fim de fazerem um trabalho da faculdade.

Pierce acompanhou-a até o carro, que nem sequer notara antes em sua ansiedade, e, quando voltou à cozinha, deparou com um expectante e sorridente David.

— Ei, é hoje que vamos à Disneylândia?

— Podemos ir, Pierce? — exclamou Adam. — Podemos? Alicia, que retirara a mesa, virou-se com ar surpreso da pia e viu seus filhos saltando com empolgação em torno de Pierce.

— Ora, que história é essa sobre a Disneylândia?

Com o ar devidamente constrito por não tê-la consultado antes, Pierce explicou:

— Prometi a David um passeio à Disneylândia, caso fosse co­rajoso no hospital.

— Eu fui corajoso.

— Sim, ele foi — confirmou Adam, que nem sequer estivera presente.

— A mãe de vocês e eu conversaremos a respeito, enquanto a ajudo a lavar a louça e arrumar a cozinha. Subam até seus quartos, vistam-se, escovem os dentes e, então, veremos.

— Oba! "Veremos" quase sempre quer dizer "sim", Adam.

— Oba!

Tão logo os meninos deixaram a cozinha correndo e a porta se fechou, Pierce pegou Alicia pela mão e puxou-a para si. Inclinou a cabeça, buscando-lhe os lábios.

Apesar da súbita corrente eletrizante que a percorreu, ela des­viou um pouco o rosto.

— Pensei que íamos lavar a louça e arrumar a cozinha.

— Isso pode esperar. Eu é que não posso esperar mais um se­gundo sequer para beijar você. — Pierce estreitou-a mais junto a si, tomando-lhe os lábios com sofreguidão.

Ainda estava zangada com ele, pensou Alicia. Determinara-se a manter sua própria distância. Então, por que o estava deixando fazer aquilo? Por que estava no calor daqueles braços, ansiando pelas carícias dele? Os lábios cálidos, sedutores, que a beijavam fizeram com que toda a resolução dela, hostilidade e promessas de distanciamento se desvanecessem. Não conseguia resistir.

Não enquanto Pierce a beijava com erotismo, explorando-lhe a maciez da boca com a língua, entrelaçando-a com a sua, desper­tando ondas de desejo por todo o seu corpo. Não com ele insinuan­do a mão sob sua blusa e afastando o sutiã do caminho para lhe tomar o seio com a mão quente. Não com ele massageando-lhe o mamilo entre o polegar e o indicador até fazê-la estremecer de prazer.

O lado racional de Alicia travou uma batalha com o emocional. Estava fazendo aquilo novamente, pulando de cabeça e às cegas em direção a mais sofrimento e dor. De um jeito masoquista, estava indo ao encontro de mais rejeição. Mas, no momento, não se im­portava. Como podia dizer não a ele quando tudo o que mais gos­taria de fazer era poder entregar-se com total abandono?

A consciência de Pierce também o atormentava, mas seu corpo parará de dar atenção a sua mente. Fora até ali naquela manhã com a intenção de ver Alicia, mas simplesmente não conseguia resistir a ela. Além do mais, negara aquele prazer a si mesmo pelo máximo de tempo que pudera. Às favas com o futuro e os riscos. Ele os correria. Queria dar a ela o amor que preenchia seu coração até fazê-lo transbordar. De algum modo, devia lhe transmitir que sabia agora que seu espírito era incompleto sem ela. Com certeza, Alicia sabia o quanto a queria, a evidência de seu desejo inegável.

— Não faça isso comigo outra vez — gemeu ela de encontro aos lábios dele. Mas, mesmo em meio a sua súplica, abraçou-o pelo pescoço e continuou beijando-o com paixão.

— Perdoe-me por todas as vezes que a magoei — sussurrou Pierce depois que deslizou os lábios úmidos até o pescoço e o colo dela. — Jamais quis magoar ou desapontar você, eu juro.

Erguendo-lhe a blusa, expôs-lhe o seio nu e cobriu-o com a mão, massageando-lhe o mamilo rijo de encontro à palma. Inclinou a cabeça, então, e descreveu círculos com a língua em torno do bico rosado até ouvi-la gemendo de prazer. Começou a sugar o mamilo avidamente em seguida, enquanto ela sussurrava seu nome sem parar e arqueava mais as costas na direção da carícia ardente.

— Oh, isto é loucura. — Com relutância, ele cobriu-lhe o seio provocante com a blusa e levou-a consigo quando afundou numa cadeira, sentando-a em seu colo. — Se não pararmos agora, vou acabar fazendo amor com você em cima da mesa — disse, a voz ofegante, rouca de desejo.

Alicia segurou-lhe o rosto com carinho entre as mãos e fitou-lhe os ardentes olhos.

— Talvez eu não faça objeção a isso. Pierce afagou-lhe as coxas bronzeadas, ajeitando-a melhor em

seu colo, a rija masculinidade evidenciando-se de encontro ao cor­po dela através das roupas.

— Oh, como algo tão bom pode ser tamanha tortura? Ela inclinou-se, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha.

— Eu me sentei no seu colo no meio daquela noite no chalé — sussurrou-lhe.ao ouvido numa voz sedutora. — Você não pareceu se importar.

— Eu não estava usando uma calça jeans na ocasião. — Ele soltou um gemido quando ela se moveu de leve junto a seu corpo. — Está certo — disse num tom ameaçador que a deixou com o pulso acelerado. — Também posso fazer esse jogo. — Mais uma vez, insinuou a mão sob a blusa dela. — Eu estava beijando seus seios daquela vez, lembra?

— Oh, sim... — Alicia fechou os olhos, a respiração ofegante.

— Eu estava tocando você com minha língua aqui. — Ele des­lizou a ponta do dedo pelas curvas do seio dela. — Aqui. — To­cou-lhe o mamilo, o que a fez estremecer por inteiro. — Deste jeito. — Estimulou, então, o bico rosado com o polegar até que ela soltou um pequeno grito de anseio renovado e desabou de en­contro ao peito dele.

Pierce tornou a ajeitar-lhe a blusa, encostando-lhe a fronte na sua.

— Este não é o momento certo, doçura, ou, acredite, eu já estaria possuindo você — sussurrou e, então, tomou-lhe os lábios com um beijo lânguido, sensual.

— Haverá o momento certo?

— Oh, eu espero que sim. — Pierce estreitou-a em seus braços com força e tornou a beijá-la com quase desespero. Alicia abra­çou-o pelo pescoço e correspondeu com toda a sua paixão.

David e Adam abriram a porta e adentraram na cozinha. Pa­raram abruptamente. Alicia e Pierce interromperam o beijo de imediato.

— Mamãe e Pierce estão fazendo sexo — disse David, cantarolando num ritmo zombeteiro de sua própria criação. — Mamãe e Pierce estão fazendo sexo.

Chocada com a repentina aparição deles e com o que o filho mais velho estava cantarolando, Alicia permaneceu imóvel no colo de Pierce, os braços ainda em torno de seu pescoço.

— David Russell, onde ouviu isso?

— Eu inventei.

— Bem, pare de dizer isso. Você nem sequer sabe o que sig­nifica.

— Sei, sim.

— Então, o que é? — perguntou ela, desafiadora, certa de que o filho estava blefando.

— É quando dois adultos dão abraços, beijos e se deitam na cama juntos.

Alicia ficou de queixo caído, piscando várias vezes enquanto encarava o filho. Virou-se para Pierce em sua estupefação. Ele sor­ria amplamente, uma sobrancelha grossa arqueada. Deu de ombros.

— Você perguntou.

— Viu, eu disse que sabia o que sexo significava — declarou David, sorrindo orgulhosamente.

— Eu também sei — afirmou Adam.

Alicia olhou para os filhos como se nunca os tivesse visto antes. Pierce estava se empenhando ao máximo para conter o riso, mas os ombros tremiam. Com o ar mais sério que conseguiu manter, dirigiu-se a David:

— Você pode saber tudo a esse respeito, mas não é um assunto que cavalheiros comentam quando há damas por perto. — Ele cutucou Alicia e perguntou pelo canto da boca: — Isso soou mo­ralista demais?

— Não peça minha opinião. Eu nem sequer fazia idéia de que ele sabia a palavra.

— Por que não teve uma conversa de homem para homem com seus filhos antes?

— Não sou um homem.

Pierce percorreu-a com ar sugestivo.

— Eu notei isso — sussurrou.

— E então, podemos ir? Por que a louça não foi lavada? Adam e eu estamos prontos.

— A louça não está lavada porque Pierce e eu estávamos., conversando sobre a Disneylândia — declarou Alicia com digni­dade. Saltando do colo dele, alisou a blusa e ajeitou melhor o rabo-de-cavalo.

— Vocês não estavam conversando, mas se beijando — disse Adam à queima-roupa.

—Bem, sim, estávamos... um pouquinho—admitiu ela, o rosto vermelho.

— Podemos ir? — David tinha a idéia fixa no passeio. Ela lançou um olhar inquiridor a Pierce.

— Sim, podemos! — Em meio aos gritos de entusiasmo dos garotos, ele acrescentou: — Vão buscar jaquetas, bonés e o que quiserem levar, enquanto lavamos a louça.

David correu da cozinha, mas colidiu com Adam quando deu meia-volta.

— Vocês vão lavar a louça desta vez, ou vão começar a se beijar de novo?

— Vamos lavar a louça — prometeu Pierce, solene.

— Está bem. Vamos, Adam!

Quando os dois meninos saíram, Alicia e Pierce se entreolharam e começaram a rir.

— Você quer mesmo passar seu sábado na Disneylândia? — perguntou ele, enfim, puxando-a para seus braços.

— É onde você estará. — Alicia afagou-lhe os pêlos do peito através da gola aberta da camisa pólo.

— Parece que sim.

— Então, é onde eu quero passar o dia também.

Ele inclinou a cabeça e beijou-a nos lábios com ardor.

— Você prometeu a David que não começaria a me beijar outra vez — murmurou ela com um suspiro deliciado.

— Estou quebrando minha promessa.

 

Os meninos jamais haviam se divertido tanto. Os sorrisos de Alicia e Pierce eram constantes. Eles passearam pelo com­plexo da Disney de mãos ou braços dados, mas, de algum modo, sempre tocando um ao outro. Quando tinham de se separar, os olhares permaneciam em contato próximo. Para qualquer obser­vador, eram um casal apaixonado.

Aquele dia lhes pertencia. O conflito de ambos... ainda um mis­tério para Alicia... ficara de lado. Os dois se entregaram com aban­dono à mútua fantasia. Fizeram de conta que eram uma família.

Desfrutaram tudo que lhes agradou e o que foi possível em um único dia no imenso parque de diversões, comendo, bebendo, rindo e se divertindo em vários brinquedos com as crianças. As atrações eram inúmeras, e David e Adam não queriam perder nada.

— Pierce! — sussurrou Alicia, perplexa, no momento em que o vagonete que eles estavam entrou num túnel escuro. Ele a abra­çara e mordiscava-lhe o lóbulo da orelha sensualmente.

— Hum?

—Acho que isso não é permitido na Disneylândia.—Não mais ciente da velocidade da montanha-russa, ela concentrou toda a atenção nas carícias provocantes de Pierce. Os meninos gritavam, eufóricos, no vagonete da frente, divertindo-se a valer, alheios aos adultos logo atrás.

— É permitido se não apanharem você — disse Pierce, toman­do os lábios dela com um beijo rápido mas ardente, enquanto a puxava ainda mais para si. — Você percebe o efeito que exerce sobre mim?

Quando saíram de volta para o sol, o sorriso dele era de pura satisfação.

— Por mim, podemos dar tantas voltas na montanha-russa - quanto os garotos desejarem.

O rubor tingindo-lhe as faces, Alicia colocou rapidamente de . volta os óculos escuros numa tentativa de ocultá-lo.

— Venha aqui, doçura — sorriu Pierce e puxou-a para si, en­quanto caminhavam.

— Oh, não — falou Adam para o irmão. — Acho que eles vão começar a se beijar outra vez.

— Não, não vamos — riu, Pierce. — Eu só vou contar um segredo a sua mãe. — Erguendo-lhe o cabelo, sussurrou algo ao ouvido dela. Alicia recuou um pouco e fitou-o com surpresa. — O que acha?

— Bem, seria maravilhoso. Mas tem certeza? Não estará can­sado demais?

— Você estará?

Ela sacudiu a cabeça, sorrindo amplamente.

— Então, vá dar o telefonema. Estaremos à espera na fila do Dumbo.

Quando se reuniu a eles alguns minutos depois, Alicia ainda sorria.

— Está tudo resolvido, Pierce.

— Ótimo. — Ele abraçou-a.

— O que está resolvido? — perguntou David.

— Você e seu irmão gostariam de passar a noite na casa de seus avós?

Alicia observava seu reflexo com nervosismo no espelho.

— Pareço bem?

— Claro. — David nem sequer ergueu os olhos do livro que folheava. Adam bocejou. Estava tão cansado que não notou que seu chapéu de Mickey Mouse ia lhe escorregando da cabeça.

— Oh, obrigada — resmungou Alicia. O que esperara? Para os meninos, era apenas sua mãe. Queria que lhe dissessem que estava bonita, incrível, estonteante. Era como queria que Pierce a visse naquele que seria o primeiro encontro oficial de ambos. Quase não pudera acreditar quando ele lhe sussurrara o convite ao ouvido em meio à movimentação da Disneylândia.

— Seus pais se importariam em cuidar dos meninos por uma noite? Eu gostaria de levar você para jantar, dançar, tudo o que desejar. Depois, gostaria de lhe mostrar minha casa. — Que ela fora convidada para passar a noite lá estivera implícito. A conversa acontecera várias horas antes, mas seu coração continuava des­compassado. Não deveria ir. Poderia acabar saindo magoada, aler­tou a si mesma. Mas ansiava por aquela noite a sós com ele.

A campainha tocou, despertando-a dos pensamentos, e os ga­rotos desceram correndo de seu quarto para atender. Alicia respi­rou fundo, grata pelos momentos sozinha para se recompor.

De algum modo, ela conseguira tomar banho, lavar e arrumar os cabelos e fazer as unhas em tempo recorde. Escolhera um ves­tido de seda preto, que lhe moldava o corpo bem-feito. De alças finas, tinha um decote que era, ao mesmo tempo, discreto e insinuante, valorizando seu colo e deixando à mostra parcialmente a curva dos seios. O comprimento era um pouco acima dos joelhos, a barra oscilando suavemente em torno de suas pernas. A lingerie preta ficara ainda mais provocante com as meias de seda, pequenas presilhas prateadas enfeitando os sapatos de salto alto. Os cabelos loiros estavam presos num coque frouxo, de onde finíssimas mechas escapavam sensualmente. Ela aplicara sua maquiagem com habilidade, obtendo um efeito natural com leves toques de sofis­ticação, o que realçou os olhos e os lábios carnudos. Delicados brincos de diamante adornavam-lhe as orelhas e serviam como única jóia, gotas de seu perfume favorito dando o toque final.

Tornando a se avaliar no espelho, a conclusão foi a de que a imagem de loira sexy e confiante encobria a mulher subitamente insegura e vulnerável que havia sob a superfície.

Pegando a pequena bolsa prateada e a valise que preparara dis­cretamente para si mesma, apagou a luz e deixou a segurança de seu quarto. Por um momento, ficou parada na sala de estar, observando enquanto Pierce lia para os meninos o livro de Peter Pan, o souvenir de David da Disneylândia, um braço afetuosamente em torno de cada um.

Quando ergueu os olhos e a viu, Pierce parou de ler de repente. No que lhe dizia respeito, o capitão Gancho poderia ficar eterna­mente encurralado pelo crocodilo voraz. Soltando os meninos com gentileza, pousou o livro no sofá e levantou-se, aproximando-se de Alicia como se estivesse hipnotizado.

— Você está deslumbrante. — Pegando-lhe a mão, depositou-lhe um beijo reverente na face.

— Obrigada. — A voz dela soou trêmula e involuntariamente sedutora. Logo notou o quanto ele também estava irresistível num impecável terno cinza-chumbo, com uma camisa branca e gravata de seda vinho.

Eles reuniram tudo o que David e Adam levariam para passar a noite fora e, enfim, saíram.

— O que você disse a sua mãe? — perguntou Pierce depois que haviam deixado os meninos na casa dos avós.

— Sobre o quê? — O nervosismo de Alicia voltara, agora que estavam a sós no interior do carro.

— Sobre o motivo de você querer que os meninos passem a noite lá.

— Bem, eu disse que seria mais fácil do que voltar a fim de pegá-los no meio da noite para levá-los até em casa e, afinal, ama­nhã é domingo. Eu falei que planejávamos ficar fora até tarde.

— E planejamos?

— Não? — Ela o interpretara mal? Era apenas um mero desejo de sua parte o de passarem a noite juntos? Céus! Estaria parecendo uma viúva ansiosa para fisgar um marido?

Pierce pegou-lhe a mão, levando-a aos lábios por um momento.

— Isto não é uma prova. Estamos nos divertindo. Por que está nervosa?

Ela soltou um riso um tanto ofegante.

— Sei que isso é ridículo.

— Não é ridículo. É estimulante — disse ele, lançando-lhe um olhar malicioso.

— Apenas não quero que você pense que eu presumi...

— Não estou pensando nada a não ser que você é a mulher mais desejável que já conheci. E não estou falando apenas em termos de sexualidade. Em todos os aspectos, eu a acho fascinante. Preciso de você de todas as maneiras que um homem pode precisar de uma mulher. De sua doçura, de seu riso, de seu carinho.—Parando num semáforo, Pierce correu os lábios úmidos e quentes pela pal­ma da mão dela, deliciosas sensações percorrendo-a por inteiro. — Eu adoraria ter você em minha cama esta noite. Mas, se não for o caso, isso não mudará em nada a maneira como me sinto a seu respeito. Eu amo você.

O semáforo abriu, e ele virou-se. Não demorou a parar diante do restaurante e, colocando o braço no encosto do assento, tornou a fitá-la. Alicia encarava-o sem fala. Pierce afagou-lhe as costas da mão com o polegar, enquanto lhe estudava o rosto com inten­sidade.

— Ouça, não importando o que aconteça, não importando... Ele parou, olhou para as mãos entrelaçadas nas dela e começou de novo:

— Quero que você saiba que hoje foi um dos melhores e mais divertidos dias de minha vida. Amo seus garotos. Amo você. De todo o meu coração. Nada, nada jamais mudará isso.

Inclinando-se, beijou-a nos lábios com paixão, e Alicia abra­çou-o pelo pescoço, puxando-o mais para si, correspondendo com ardor, enquanto as línguas se entrelaçavam numa erótica dança.

A porta do lado do motorista foi subitamente aberta.

— Oh, desculpe, Sr. Reynolds.

— Não há problema — disse Pierce ao valete. Afastou-se de Alicia, mas manteve os olhos em seu rosto afogueado. — Estamos prontos para entrar agora.

Alicia não teve certeza de que estava. No momento, parecia que as pernas se recusavam a obedecer, deliciosas sensações ainda percorrendo seu corpo, a mente rodopiando.

Ainda um tanto desorientada, deixou que Pierce a conduzisse do carro e pela porta de vidro do restaurante. Não era um daqueles lugares concorridos onde as celebridades iam para badalar. Era refinado, elegante, discreto. A decoração era suave como a da mú­sica de violino e piano. Os inúmeros garçons eram solícitos, mas discretos e silenciosos.

— Sua mesa está pronta, Sr. Reynolds — murmurou o maitre, saudando-os. — Acompanhem-me, por favor.

Enquanto o seguiam, várias cabeças viraram-se na direção de ambos. Sem vaidade, Alicia teve de admitir que formavam um belo casal. Em seu terno sob medida, Pierce não apenas aparentava ser o homem bem-sucedido que era, embora não ostentasse o fato, mas era também dono de um magnetismo pessoal irresistível.

Depois que se sentaram ele começou a examinar a carta de vinhos, ela não pôde deixar de comentar com frieza:

— Todos parecem conhecer você. Vem aqui sempre? Pierce sorriu, os olhos se iluminando diante da pouco sutil de­monstração de ciúme dela.

— Costumo trazer clientes em potencial aqui.

— Devem ficar impressionados.

— E ficam. Depois de um jantar de negócios aqui, em geral eles acabam fechando contrato conosco. — Propositadamente, Pierce não lhe satisfez a curiosidade feminina quanto a mulheres que podia ter levado ao restaurante. Eram irrelevantes, de qualquer modo. — O que vamos comer? Quer vinho tinto, ou branco?

Alicia não poderia ter dito mais tarde o que comeu. Tudo o que sabia era que os pratos eram deliciosos, seu paladar despertado por iguarias refinadas e variados sabores. Mas todos os seus sen­tidos estavam aguçados. Sentia-se eufórica, e aquilo nada tinha a ver com o vinho.

—Meu estômago não saberá o que pensar.—O garçom retirava o prato principal. — Está acostumado a hambúrgueres e fritas.

— Fico contente que você tenha apreciado. Eu recomendo os morangos Romanoff para a sobremesa.

— Oh, eu não poderia. Mesmo.

Ela pôde e o fez, adorando cada pecaminoso pedacinho da so­bremesa.

— Pierce?

— Hum? — Ele pegou-lhe a mão por sobre a mesa iluminada por velas aromáticas.

— Perdoe-me se estou sendo inconveniente. Você nunca fala de seu sucesso profissional, age como se não lhe importasse. Por quê? A maioria dos homens teria se vangloriado disso.

— Eu não me sinto bem-sucedido. Recentemente, acordei para o fato de que tudo em minha vida podia ser medido apenas por meu dinheiro. Isso é sucesso? Antes eu achava que sim. Mas não mais.

—Você parece ter suas prioridades bem definidas. Porém, êxito financeiro e profissional não são coisas de que alguém deva se envergonhar.

—Quando são tudo o que realmente conta na vida, talvez sejam.

— Não entendo você. Por que é tão crítico consigo mesmo?

— Onde estão a esposa, os filhos, o lar que um homem de minha idade deveria ter? Depois de um casamento fracassado, ainda que quando muito jovem, eu nunca quis me comprometer a ter outro, principalmente por indiferença e puro comodismo. Apenas nas últimas poucas semanas eu tenho sido algum tipo de pai para minha filha. Antes disso, apenas me certifiquei de que ela tivesse tudo o que o dinheiro podia comprar. Mas, Céus, como me arrependo de não ter desfrutado todos esses anos em que Chrissy e eu podería­mos ter tido um verdadeiro e afetuoso relacionamento entre pai e filha. E, com toda a certeza, não foi culpa dela. Nos aspectos da vida que realmente devem valer de algo, eu me sinto um fracasso. Não tenho nada do que me orgulhar. — Pierce tocou-lhe o rosto com ternura. — É por isso que eu gostaria...

— Gostaria de quê?

Ele desviou os olhos, os segundos se arrastando. Enfim, tornou a fitá-la, e o ar introspectivo mudara, evidenciando que o assunto estava encerrado.

— Eu gostaria de levá-la para dançar comigo esta noite. Você gosta de dançar?

Pierce levou-a a um prestigiado clube noturno, onde dançaram por mais de uma hora, rindo e se divertindo a valer.

— Só há um problema aqui. — Ele quase precisou gritar para ser ouvido acima do barulho estrondoso da música. — Nunca to­cam música lenta. Os rapazes nunca conseguem abraçar as garotas.

— Não onde estejamos vendo.

— É verdade — riu ele. Envolvendo-a pela cintura, puxou-a para si, um brilho inconfundível nos olhos. — Eu sei de um lugar onde poderemos dançar música lenta.

Alicia não protestou quando Pierce a pegou pela mão e a guiou pela multidão eclética e animada. Dirigiu o carro, tocando o joelho dela com a mão direita a cada oportunidade. A casa de Pierce ficava nas colinas que davam para a cidade, e Alicia, cuja família sempre fora de classe média, ficou pasma quando ele abriu os portões de ferro eletrônicos com o controle. O gramado era amplo e bem cui­dado, a entrada para veículos larga, com um coberto apoiado por elegantes colunas conduzindo a uma garagem fechada. A casa, pin­tada de branco, com portas-balcão dando para sacadas no alto e uma espaçosa varanda na frente, adornada com folhagens exube­rantes e móveis de ráfia, mais parecia uma mansão.

— Não se deixe impressionar — disse ele, sacudindo a mão no ar depois que a ajudou a descer do carro. — É apenas uma casa grande e vazia.

— É uma bela casa.

— É por isso que é uma pena que esteja vazia. Alguém deveria estar desfrutando-a. Ninguém nunca o fez.

O interior da casa era tudo o que a parte externa prometia. Os ambientes eram espaçosos e bem distribuídos, decorados de ma­neira cara e de bom gosto, num estilo californiano despojado. Ta­petes acolhedores adornavam áreas do reluzente assoalho de ma­deira clara, telas abstratas e multicoloridas valorizando as paredes brancas. Amplas vidraças no térreo ofereciam uma vista deslum­brante das luzes da cidade cintilando abaixo das colinas, as sacadas do andar de cima certamente servindo para o mesmo propósito. Portas de correr de vidro davam para um esplêndido pátio nos fundos, com mais plantas viçosas, mobília leve e luzes acesas em torno de uma piscina.

— É um lugar muito bonito, Pierce.

— Agora, é. — Ele, tendo acabado de se livrar da gravata e do paletó, puxou-a para si, estreitando-a nos braços. — Você faz ma­ravilhas por esta casa e parece tão certo tê-la aqui.

Beijou-a de leve nos lábios, de modo tentador, provocante. Cor­reu, então, os lábios pelo pescoço dela, pelo coto acetinado.

— Gostaria de algo para beber?

— Você teria de parar o que está fazendo para ir buscar algo?

— Sim.

— Não, obrigada.

Pierce sorriu, tornando a beijá-la, daquela vez com mais ardor, a língua explorando-lhe os contornos macios da boca. Afagou-lhe as costas e segurou-a pelos quadris, moldando-a mais no calor de seu corpo, deixando-a saber o quanto a desejava. Alicia abraçou-o pelo pescoço e começou a lhe acariciar a nuca sensualmente com as unhas enquanto o beijava.

— Achei que tivéssemos vindo até aqui para dançar música lenta—disse ele em tom de gracejo quando pararam para recobrar o fôlego, um brilho faminto nos olhos.

— Sem dúvida. Eu só estava esperando que você pedisse. Onde está a música?

Pierce abraçou-a pela cintura, guiando-a até uma estante em­butida numa parede da ampla sala de estar, onde os componentes de um moderno sistema de som se encontravam. Apertando al­guns botões de um controle-remoto, ele logo providenciou para que uma música suave ecoasse das caixas acústicas estrategica­mente posicionadas.

Tornou a estreitá-la junto a seu corpo, ambos começando a se mover ao sensual ritmo da música. Pierce mordiscou-lhe o lábio inferior com sensualidade, traçando-lhe o contorno com a ponta da língua, beijando-lhe os cantos da boca. As hábeis carícias le­varam a mais um beijo sôfrego, voluptuoso, enquanto continua­vam dançando. Enfim, sentou-a na beirada de uma mesa de bilhar, e ela deu-se conta de que tinham ido parar numa sala de jogos durante a erótica dança.

Colocando seu corpo entre as pernas dela, ele começou a reti­rar-lhe os grampos dos cabelos com gentileza, até fazer com que as mechas loiras cascateassem por entre suas mãos. Afagou-as como se fossem pura seda e afundou o rosto nos cabelos macios.

Deslizou, então, as mãos até os seios dela, tocando-os através do tecido do vestido, fazendo-a gemer, deliciada. Deitou-a em se­guida sobre o feltro verde da mesa, inclinando-se acima dela e apossando-se de seus lábios com todo o ardor.

Afundando as mãos nos cabelos dela, virou-se na mesa de modo que Alicia ficasse por cima dele. Abriu-lhe o zíper nas costas do vestido de seda e baixou-lhe as alças lentamente. Contemplou-lhe os seios mal contidos por um bustiê de renda negra, acariciou-os com vagar e, depois, guiou-os até seus lábios, sugando os mamilos através da frágil lingerie.

Alicia suspirou, tomada por sensações inebriantes, o desejo que a consumia cada vez mais intenso.

— Oh, você é tão linda, tão doce... Preciso tanto de você.

Pierce tornou a virá-los e observou-a deitada na mesa. Os ca­belos longos estavam espalhados pelo feltro verde, dando-lhe um ar indefeso. Os olhos azuis brilhavam com paixão, e os lábios cheios estavam úmidos e convidativos. Ela estava deitada com os braços largados de lado, a frente do vestido abaixada, os seios arfantes comprimindo-se junto à renda delicada. Parecia vulnerá­vel e cheia de desejo, inocente e sedutora. Ele queria ambas as coisas.

Sem uma palavra, ajudou-a a levantar da mesa e guiou-a por um corredor e uma escadaria até o andar de cima, o qual ainda não lhe mostrara. Conduziu-a a uma espaçosa suíte, criando numa questão de segundos uma atmosfera romântica, com música sen­sual ecoando no ar e a iluminação difusa banhando a grande cama de casal.

Quando haviam passado pela sala de estar, ele pegara a valise que Alicia deixara lá antes. Entregou-a a ela e abriu-lhe um sorriso terno.

— Não se sinta como se me devesse algo. Eu a levarei de volta para casa agora, se você quiser.

Ela jamais o amara tanto quanto naquele momento. Pierce estava pensando nela, não em si mesmo. Afagou-lhe o rosto com a ponta dos dedos.

— Vou ficar — sussurrou antes de se adiantar até uma porta branca trabalhada.

No interior do luxuoso banheiro, Alicia encontrou algo que a surpreendeu e a tocou com seu evidente quê de sentimentalismo. Aquilo falava de um pedido que Pierce jamais lhe faria verbal­mente. Abriu um sorriso terno enquanto acabava de se livrar do vestido de seda preto.

Quando voltou ao quarto, encontrou Pierce na beirada da cama, abrindo uma garrafa de champanhe que tinha ido buscar rapida­mente na geladeira.

— Deixe-me olhar para você — sussurrou ele, os olhos bri­lhando de desejo.

Enquanto ela se aproximava, a camisola preta, de corpete de renda e saia longa e transparente, mal ocultou as sedutoras curvas de seu corpo sob a luminosidade difusa.

— Quando pegou isto?

— Eu a roubei do chalé quando parti. — A tímida confissão dele fez o coração dela transbordar de amor. — Não planejei ver você usando-a. Apenas quis guardá-la. Na verdade, imaginei você usando-a centenas de vezes, mas você superou em muito a minha fantasia.

Ele observou-lhe cada curva através do tecido delicado e trans­parente, os seios grandes e arredondados, os mamilos rijos, a cin­tura fina, o abdome firme, a doce feminilidade oculta por uma calcinha de renda preta. Teve de recorrer a um controle ferrenho para apenas beijar-lhe os lábios de leve quando ansiava por pos­suí-la naquele instante. Em sua mente, aquela era a noite de núpcias de ambos. Iria tratá-la como se tivesse acabado de se tornar sua esposa, amá-la como merecia.

— Tome um pouco de champanhe comigo.

Ele preencheu duas taças com a bebida gelada e borbulhante. Entreolharam-se sensualmente enquanto a sorviam devagar. Pier­ce, então, deitou-a na cama com gentileza e, enquanto ela o observava com ávido fascínio, ele se despiu completamente, suas roupas formando uma pilha no chão.

Alicia admirou-o demoradamente, uma onda de excitação percorrendo-a diante de sua incrível virilidade. Alto e atlético, Pierce tinha um corpo perfeito, os exercícios que fazia deixando-o com músculos bem definidos, os ombros largos, as coxas fortes. Ansiou por tocar cada pedacinho daquele corpo com seus lábios e mãos. Não apenas por ser másculo e bonito. Mas porque era Pierce. O homem que amava.

Ele deitou-se na cama e beijou-a nos lábios numa explosão de paixão avassaladora. Teve de se conter para ir mais devagar. Mas era preciso um esforço sobre-humano, pois a desejava como nunca. Os esplêndidos seios atraíram-no mais uma vez e inclinou-se para sugar avidamente primeiro um e, depois, o outro mamilo através da frágil renda negra da camisola.

Alicia soltou gemidos de prazer e segurou-o pelos cabelos, puxando-o mais para si. Ele deslizou a mão pela camisola, erguendo-a até a cintura dela e, sem demora, livrou-a da calcinha de renda. Afagou-lhe, então, a parte interna das coxas, deixando-a ofegante em sua expectativa, até que suas carícias se tornaram cada vez mais ousadas. Com mãos e, em seguida, lábios experien­tes, Pierce levou-a a um prazer quase absoluto.

Contorcendo-se e não podendo mais suportar a doce tortura, ela gritou para que ele não mais parasse, e Pierce obedeceu de bom grado. Continuando a estimular-lhe a fonte de todo o desejo, cau­sou-lhe puro enlevo.

Ela sentiu os maravilhosos espasmos percorrendo seu corpo, carregada pela onda mais intensa de deleite que já experimentara e soluçou, emocionada, enquanto o êxtase chegou.

Quando, enfim, seu corpo se aquietou, deu-se conta de que lá­grimas escorriam por seu rosto.

— Você é tão linda. Você inteira. Por favor, não chore — pe­diu-lhe Pierce, fitando-a com intensidade. — Eu jamais faria algo para ofendê-la. Eu te amo. Eu só queria demonstrar o quanto.

Ela abraçou-o com força.

— Oh, meu amor, não é nada do que você fez que me levou a chorar. — Lágrimas ainda escorriam por seu rosto, mas eram lá­grimas de felicidade. — Apenas não pude crer que alguém fosse capaz de amar com tamanho desprendimento. Que podia me amar tanto.

Beijaram-se longamente. Alicia percorreu o corpo dele com lábios e mãos carinhosos, querendo explorá-lo por inteiro, delicia­da com cada descoberta. Ansiando por lhe proporcionar o mesmo prazer que ele lhe dera, ela também o submeteu a sua própria doce e erótica tortura.

Quando não pôde mais se conter, Pierce abriu uma gaveta, cui­dou rapidamente da devida proteção e, enfim, uniu os corpos num só. Depois que a penetrou, segurou Alicia com força sem se mover em princípio, desfrutando o deleite único de estar envolto pelo corpo dela. Então, iniciou uma cadência lenta, persuasiva.

— Jamais se esqueça de que eu te amo — sussurrou em tom de urgência. — Eu te amo, Alicia. Lembre-se sempre disso. Eu te amo.

— Eu também. — Ela o cingiu pela cintura com as pernas, tornando a união mais íntima e intensa possível. — Eu te amo tanto...

— Meu amor. — Pierce conteve-se até que novos espasmos a percorreram e, então, finalmente, permitiu que um êxtase inebriante como nunca vivenciara o arrebatasse com toda a sua intensidade, entregando-se de coração e alma à mulher que amava.

A partir do instante em que eles foram buscar Adam e David na casa dos avós, por volta das dez da manhã do domingo, os irmãos não pararam de tagarelar, relatando tudo que acontecera desde que os haviam deixado.

— Foi divertido! — exclamou Adam, enfim. — E vocês se divertiram também?

Pierce lançou um olhar significativo a Alicia, e ela corou.

— Sim, muito — respondeu ele.

— O que fizeram? — perguntou David.

— Oh, uma porção de coisas interessantes — falou Pierce, e Alicia corou mais ainda.

À porta de casa, ela disse aos filhos que levassem as respectivas mochilas aos quartos e guardassem tudo de volta no lugar. Antes de subir a escadaria, David virou-se.

— Quase esqueci. Quero perguntar uma coisa a Pierce.

Mediante um acordo tácito, Alicia e Pierce não estavam escon­dendo dos meninos seus sentimentos um pelo outro. Ele a abraçava pelos ombros; e ela, pela cintura, a cabeça apoiada em seu peito forte.

— E o que é? — indagou ele.

— O meu clube de escoteiros vai promover uma noite de acam­pamento. Como não tenho pai, disseram que eu poderia convidar outra pessoa. Eu ia pedir a Carter. Mas prefiro pedir a você.

— Obrigado pela honra — sorriu Pierce, tocando o cabelo de Alicia distraidamente de uma maneira afetuosa. — E quando será?

— No mês que vem.

Alicia sentiu Pierce se retraindo de imediato. Ele pareceu mer­gulhar dentro de si mesmo, erguendo uma barreira invisível que afastou todos os demais. Parando de acariciar-lhe o cabelo, retirou o braço de seus ombros, deixando-o cair ao longo do corpo. Seu corpo inteiro ficou imóvel, tenso.

Ela ergueu a cabeça para observá-lo. Ele tinha uma expressão indecifrável no rosto, os olhos velados. Era evidente que estava se distanciando novamente. Alicia foi tomada por raiva. Como ele ousava fazer aquilo depois do dia e noite anteriores, depois de todas as suas juras de amor?

— Você irá comigo? — perguntou David.

— Falaremos sobre isso depois — disse ela ao filho, esforçan­do-se para soar gentil quando sua vontade era a de gritar. — Vá fazer o que eu mandei. Depois, você e Adam, descansem em seus quartos por algum tempo, assistam à tevê. Pierce e eu queremos conversar.

— Está bem — disse o menino, desanimado, seguindo o irmão pela escadaria em direção aos quartos.

Pierce tinha o olhar fixo no chão do pequeno vestíbulo. Depois que o menino subira, ergueu a cabeça, os olhos frios.

— Não poderei ir com ele. Por favor, dê-lhe algum pretexto por mim.

Alicia seguiu na frente até a sala de estar, fechando a porta com firmeza tão logo ele entrou. Virou-se para fitá-lo com olhar faiscante.

— De maneira alguma! — retrucou, furiosa. — E quem dará os seus pretextos a mim? Você está prestes a desaparecer outra vez, não é?—Segurando-o pelos braços, sacudiu-o com o máximo de força que pôde. — Bem, desta vez, eu quero saber por quê. Como pode ficar frio desse jeito depois de ontem à noite?

— Foi a noite mais bonita da minha vida. Falei a sério quando disse que te amo.

— Então, por quê? — gritou ela. — Por que está se afastando novamente? E o que está prestes a fazer, não é?

— Sim.

— E, desta vez, não voltará, por qualquer que seja o motivo, não é mesmo?

Pierce fitou-a com intensidade, o maxilar rijo.

— Não, não voltarei.

As palavras foram como um golpe físico para Alicia. Não pen­sara que ele diria aquilo com tão absoluta convicção.

— Depois do que tivemos ontem? — Ela odiou a si mesma por deixar transparecer sua dor. Queria apenas revelar a raiva e a in­dignação que sentia no momento. — Depois de ontem, você não pode simplesmente ir embora sem olhar para trás.

— Tenho de fazer isso.

— Por quê?

— Não posso me permitir ficar mais tempo com você, com os meninos. Isso só tornaria as coisas mais difíceis. Acredite, será melhor para todos se nós rompermos agora.

— Não acredito nisso.

— Acredite.

— A noite de ontem não significou nada para você?

Pierce segurou-a pelos ombros, puxando-a de encontro a si, o rosto grave, as palavras carregadas de tensão.

— A noite de ontem significou tudo para mim. Foi meu maior desejo tornando-se realidade. Pude fazer de conta que éramos ca­sados, que pertencíamos um ao outro, que tínhamos um futuro.

— Oh! — Ela estava precisando de um esforço sobre-humano para lidar com sua angústia e frustração. — Como pode dizer tudo isso se está planejando me deixar? Como?

— Não faz idéia do quanto é difícil para mim deixar você? Não sabe que seu corpo, desde a primeira vez que fizemos amor no chalé, faz parte do meu? Eu preferiria arrancar meu coração a ter de deixar você. Será a mesma coisa. Você é uma parte de mim. Para sempre. Seus adoráveis filhos fazem parte da minha alma agora e sempre farão. — Pierce fechou os olhos com força e de­clarou cada palavra com precisão: — Mas não posso mais ver vocês.

Alicia amaldiçoou as lágrimas que começaram a rolar por seu rosto, mas não pôde contê-las. Odiou a si mesma por implorar, mas era preciso. Pierce não podia deixá-la. Não permitiria. Aquilo não fazia o menor sentido. Ela pegou-o pela frente da camisa e sacudiu-o.

— Diga-me por quê? Por quê?

— Não torne as coisas mais difíceis do que já são.

— Não podem ser piores do que isto.

— Você não iria querer saber.

— Eu quero.

— Não.

— Diga-me.

— Não posso.

— Diga-me, droga!

— Eu estou morrendo!

 

Não, Pierce não estava morrendo. Ela estava. A vida se esvaía de seu corpo lentamente. As lágrimas seca­ram de maneira instantânea, como se o anúncio dele tivesse feito secar tudo dentro de Alicia. Ficou imóvel, estática, nem sequer piscando enquanto o fitava em seu choque.

Foi Pierce quem se moveu. Ele tirou-lhe as mãos delicadas com gentileza da frente de sua camisa e deu um passo atrás. Sentia a dor dela tão precisa e profundamente como se um punhal tivesse sido enterrado em seu coração. Aquela dor transpareceu em seu rosto, contraindo-o. Não suportou vê-la sofrendo e afastou-se. Adiantou-se até a janela. O dia estava claro, ensolarado. Deveria ter sido um dos dias mais sombrios.

Alicia permaneceu no lugar, petrificada, pelo que pareceram minutos intermináveis. Enfim, respirou fundo e soltou um suspiro trêmulo, o peito oprimido por um peso imenso. O peso de uma tristeza pungente. Ela esfregou o rosto com as costas das mãos, afastando a rigidez deixada pelas lágrimas que ainda secavam.

Olhou para Pierce e, de imediato, foi tomada pela ameaça de novas lágrimas, mas não as deixou cair. Ele parecia tão forte, tão vigoroso e resistente. Alicia procurou, mas não pôde encontrar um único indício de fragilidade nele. Conhecia, não era mesmo, a for­ça, a energia daquele homem? Céus, ainda podia lhe sentir a po­tência dos braços em torno de si!

— Isso é impossível.

Pierce observou-a por sobre o ombro.

— Foi o que eu disse aos médicos quando me contaram. É possível. Ainda não há certeza, mas é bastante possível.

Alicia sacudiu a cabeça, confusa.

— Procure ser mais claro. Por favor.

— Sente-se — pediu ele num tom manso. — Você parece pres­tes a desmoronar.

Ela afundou no sofá, os ombros caídos, o rosto contraído.

— Não há nada errado com você.

— Eu também não pude acreditar que houvesse. Fui fazer meu check-up anual de rotina. Era uma inconveniência, um aborreci­mento, algo que me obrigou a reorganizar toda a agenda da semana para poder ser encaixado. Eu certamente não estava preocupado com o resultado. — Ele começou a andar devagar pela sala en­quanto falava. — É alguma coisa no meu sangue. Disseram-me que pode ser um distúrbio simples, tratável com a medicação ade­quada, ou... — Parou abruptamente e fitou-a nos olhos. — Uma doença rara que é degenerativa e terminal.

Alicia cobriu os lábios com dedos gelados para impedi-los de tremer. Queria entregar-se a um pranto convulsivo, soluçar histericamente, gritar de dor. Mas sabia que não podia.

— Os médicos não sabem ao certo?

— Não. Disseram-me que levariam um pouco mais de três se­manas para obter um diagnóstico firme, exato. Tiveram de enviar amostras de sangue a algum laboratório especial no leste do país para que fossem feitos testes mais abrangentes e sofisticados. Os sintomas das duas enfermidades são tão parecidos que leva algum tempo para definirem qual é qual. — Ele correu a mão pelos ca­belos num gesto de impaciência. — Não quero falar sobre isso. Descobri dois dias antes de ter conhecido você. Foi por essa razão que eu tinha ido para o chalé. Para refletir. Para assimilar o fato de que dentro de poucos meses posso estar morto.

Um grito de desespero escapou dos lábios de Alicia antes de poder contê-lo. Lágrimas rolaram copiosamente por seu rosto. Ele foi se ajoelhar depressa diante dela.

— Por favor, não fique assim. É por isso que eu não queria que soubesse. Você ficaria melhor achando que eu era um patife que conseguiu o que queria de você e, depois, resolvi desaparecer. Ela tocou-lhe o rosto.

— Você não está doente. Não pode estar doente.

Pierce levantou-se e começou a andar de lá para cá outra vez. Estava zangado.

— Eu também discuti essa questão. É totalmente injusto. Eu corro, nado, tomo vitaminas. Quando notei os primeiros sinais de mau condicionamento físico e sedentarismo, entrei numa academia completa, perdi alguns quilos, comecei a me exercitar religiosa­mente três vezes por semana. Tenho uma dieta balanceada. Bebo apenas socialmente. Trabalho na medida certa, fazendo o que gosto. Não fumo. Nunca tive problema algum de saúde. — Ele soltou um profundo suspiro. — Acho que eu teria conseguido aceitar melhor o que me disseram se me sentisse mal, se tivesse alguma dor, se estivesse fraco, se não conseguisse fazer amor com você a noite inteira e me sentir pronto para repetir a dose ao menor estímulo.

Alicia desviou os olhos porque as lembranças dos íntimos mo­mentos juntos eram vividas, recentes demais.

— Quando você saberá?

— Dentro de poucos dias, creio eu. Já se foram três semanas. Ela lançou-lhe um olhar cheio de esperança.

— Talvez...

Pierce sacudiu a cabeça com veemência.

— Não. Eu tenho de me preparar para o pior. Eu não poderia basear nada em esperança porque... Bem, eu não poderia. Não suportaria a decepção.

Alicia teve a sensação de que seu coração se partia em mil pedacinhos, uma dor lancinante dominando-a. Ele sentou-se a seu lado no sofá e pegou-lhe a mão fria.

— Entende agora por que eu lhe disse desde o início que não podia me envolver? Não queria magoar você. Se não tivesse sido você, se tivesse sido apenas alguma outra mulher atraente, eu teria feito amor com ela naquela primeira noite. Eu a teria usado para aliviar minha angústia mental, meu desespero e não teria me im­portado se nunca mais a visse.

Ele soltou-lhe a mão e tornou a se adiantar até a janela. Sua voz soou baixa, grave e carregada de emoção:

— Mas era você. E eu soube que se a tivesse uma vez, não iria querer deixá-la ir. Você era exatamente o que eu precisava. Mas sabia que eu era a última coisa que você precisava.

Virou-se para fitá-la.

— Você é uma mulher jovem que já perdeu um marido. Tem dois filhos que precisam de um pai. Você precisa de um homem com quem possa ter um lar, que possa lhe dar anos de felicidade e amor.

Pierce sentou-se numa poltrona diante do sofá e fitou-a com uma súplica pelo perdão dela nos olhos.

— Sei que foi errado de minha parte ter feito amor com você naquela noite em que Chrissy foi até o chalé, mas não pude me conter. E não pude me controlar a cada vez que a procurei e fiz amor com você depois disso, embora sabendo que eu jamais de­veria tornar a vê-la. Naquela noite depois do acidente de David, eu soube que você queria que eu ficasse. Eu também queria. Você precisava de apoio, amor e da certeza de que não estava sozinha no mundo. Eu não podia lhe dar essa segurança. Apesar de saber que isso a ofenderia, que feriria seu orgulho, que a deixaria zan­gada, obriguei-me a ir embora. Você e os meninos foram como uma dádiva que me foi concedida, só que tarde demais.

Pierce levantou-se, cerrando os punhos em visível frustração.

— Fiz um balanço de minha vida. Uma pessoa começa a fazer isso quando se dá conta de sua mortalidade. Você, David e Adam foram uma surpresa bem-vinda, o ideal para preencher o vazio que ainda havia em minha vida. E eu queria a chance que vocês me deram para fazer de minha vida algo significativo. Eu teria adorado ser seu marido, fazer amor com você todas as noites, partilhar de confidencias, risos e até de dissabores. Eu adoraria que tivéssemos um bebê. Eu teria gostado de ser o pai que seus garotos precisam, vê-los crescer, ajudá-los quando pudesse, encorajá-los. Queria re­cuperar o tempo perdido com minha filha, vê-la se formando, ini­ciando uma carreira, casando-se um dia... Eu quero tudo, tudo isso. Mas é tarde demais. — Ele voltou para junto da janela.

O pesado silêncio prolongou-se. Alicia queria confortá-lo, abrandar-lhe o sofrimento. Mas sabia que não podia. Pierce não toleraria compaixão. E quem a consolaria? Seu coração finalmente se curara depois da morte de Jim. Com o tempo, as feridas tinham cicatrizado, a dor profunda dando lugar a um saudosismo sereno. Agora, no lugar de seu coração, havia apenas uma ferida gigan­tesca aberta. Daquela vez, ela não achava que fosse cicatrizar nem mesmo com o tempo.

— O que você fará? — perguntou, enfim.

— Você quer dizer se...

— Sim.

— Vou vender minha parte na empresa para os outros sócios. Liquidar tudo. Visitar minha mãe. E, então, partir. Desaparecer. Eu não suportaria que me vissem morrendo.

Ela contraiu o rosto diante da palavra e estremeceu como se a temperatura na sala tivesse caído drasticamente.

— Chrissy sabe?

— Não, ninguém sabe. Foi dessa maneira que eu quis.

— Mas isso é cruel. Sua mãe e Chrissy deveriam saber. Você acaba de estabelecer um relacionamento com sua filha. Ela iria querer saber.

— Você teria desejado saber que Jim iria morrer naquele dia? Ela torceu os lábios com ar doloroso, como se ele a tivesse

esbofeteado. Furioso consigo mesmo, Pierce praguejou por entre os dentes.

— Desculpe. Desculpe — repetiu, sacudindo a cabeça. — Isto não está sendo como eu queria que fosse. Eu queria um rompi­mento rápido, sem sofrimento. Ter deixado você zangada teria sido tão melhor do que isto. Não posso me perdoar por estar in­fligindo esta dor em você. — Respirando fundo, adiantou-se até a porta. — Vou embora agora.

Alicia saltou do sofá, desesperada para não perdê-lo de vista.

— Nunca mais verei você? — perguntou freneticamente. Pierce fechou os olhos por um momento e sacudiu a cabeça.

— Não — foi sua resposta breve.

— Mas... — Ela conteve-se. Como podia ser tão egoísta? Estivera prestes a dizer a ele que lhe telefonasse caso o pior não acontecesse, caso os exames de sangue provessem um final mais feliz para tudo. Ligue-me se tudo estiver bem, mas não se incomode se não estiver. Aquilo era a essência do que quase falara.

Pierce entendeu. Aproximando-se, afagou-lhe o rosto com ternura.

— Dissemos tudo o que precisava ser dito. Mais. Não lhe peço nada, Alicia. Eu sabia desde o início que qualquer coisa entre nós seria impossível, mas não pude me conter e acabei envolvendo-a. — Fitou-a com seu amor evidenciando-se nos olhos. — Perdoe-me. Eu te amo demais.

Pierce saiu, fechando a porta atrás de si. E ela ainda continuou no meio da sala, incapaz de se mover.

Alicia desabou em sua cama e afundou o rosto no travesseiro, soluçando, permitindo-se, enfim, entregar-se ao pranto que vinha do fundo de sua alma.

Ao longo de todo o domingo, suportará como pudera. Fora uma boa mãe, atendendo às necessidades de seus filhos, conseguindo aparentar normalidade quando tudo o que quisera fora gritar de dor, correr, meter-se em algum canto feito um animal ferido. Mas até conseguira forçar sorrisos quando os meninos os haviam es­perado. Através de pura força de vontade, enfrentara aquele dia, até que chegara o momento de colocá-los para dormir.

Mas, agora, em sua própria cama, podia mergulhar em seu so­frimento.

Perdoe-me. Eu te amo demais.

Alicia chorou longa e amargamente, até que não tivesse mais lágrimas. Ânimo. Esperança.

Durante os dois dias que se seguiram, ela viveu feito um autô­mato. No trabalho, mostrou-se desprovida de idéias e do costumeiro entusiasmo. Em casa, precisou do máximo de empenho para não demonstrar seu desespero aos filhos. Para piorar a situação, eles viviam citando inadvertidamente o nome de Pierce nas conversas.

— Pierce vai acampar comigo?

— Acho que não, David. É melhor você pedir a Carter. Ou ao seu avô. Ele gostaria disso.

— Mas eu quero que Pierce vá comigo.

— Bem, ele não poderá ir.

— Por quê?

:— Termine seu jantar.

— Por que Pierce não pode ir comigo? Por que ele não está vindo nos visitar mais? Você o deixou zangado outra vez?

— Termine seu jantar! — Alicia levantou-se, atirou o guardanapo na mesa e deixou a cozinha rapidamente, para que os filhos não vissem suas lágrimas. Mais tarde, passou um longo tempo com os dois, contando-lhes uma história para dormir, ajeitando-os na cama, dando-lhes beijos de boa-noite. Não tornaram a mencio­nar Pierce, mas ela pôde ver as perguntas nos olhos tristonhos deles. Com sorte, seus filhos o esqueceriam logo.

. As atividades diárias pareciam tarefas hercúleas, preparar o café da manhã bem cedo, levar os meninos de carro até a escola próxima, voltar e se arrumar para o trabalho. Ela só gostaria de poder ficar imóvel, sem falar com ninguém, olhando para o vazio e perguntando-se que coisa terrível fizera para merecer tamanha punição.

Era o que estava fazendo na quarta-feira de manhã quando o telefone tocou. Já deixara os filhos na escola, mas ainda não trocara o velho jeans e o suéter folgado por roupas mais apropriadas pa­ra o trabalho. Estava bebericando uma xícara de café distraidamente na cozinha, temendo o trânsito congestionado, o dia, o resto de sua vida.

— Alô?

— Como vai minha garota favorita? Ai! Droga, Sloan, essas unhas estão afiadas. Céus, mulheres grávidas podem ser más. — Sons de beijos. — Corrigindo, como vai minha segunda garota favorita?

Apesar de sua amargura, Alicia sorriu ao telefone.

— Carter? Sloan?

— Lembra-se de nós? Estávamos começando a duvidar. Você não entrou mais em contato.

— Desculpem. — Alicia engoliu em seco. Era bom ouvir a voz de Carter do outro lado da linha. Um amigo. Lágrimas anuviaram seus olhos. — Tenho andado ocupada. Aceitei aquela promoção no emprego sobre a qual havia contado a vocês.

:— Isso é ótimo. Ela aceitou a promoção. — Ele estava trans­mitindo a novidade a Sloan. — Perguntar-lhe o quê? Ei, espere um minuto. Já posso ver como isto vai ser. Por que não pega o telefone e eu vou até a extensão no meu escritório?

— Olá, Alicia — sorriu Sloan.

— Olá. Está tudo bem com você e o bebê?

Ela sorriu ao ouvir a melhor amiga descrevendo a excelente gestação e as atenções com que o marido a cobria, sentindo-se feliz por eles e, ao mesmo tempo, uma inevitável ponta de inveja. Carter já estava na extensão e, quando lhe perguntaram se estava gostando do novo desafio no trabalho, ele comentou que não pa­recia nem um pouco entusiasmada.

— Está acontecendo alguma coisa? Você me parece estranha — disse logo ele, que não era de medir as palavras. — Os meninos estão bem?

— Sim, estão. — Alicia ficou em silêncio, mas sua depressão ecoou através da linha telefônica, alta e clara.

— Alicia, o que há de errado? — perguntou Sloan com a fran­queza de uma velha amiga.

Alicia soltou um suspiro trêmulo. Conteve-se para não chorar, mas ocorreu-lhe que seria bom poder desabafar com alguém. Achou que não conseguiria suportar a dor sozinha por mais tempo.

— Eu conheci um homem. Um homem maravilhoso.

— Isso é ruim? —= perguntou Carter. — Oh, espere, eu sei. Ele não é tão bonito quanto eu. Certo? Poucos são, querida, mas não são culpados. Não deixe que isso a desanime.

Alicia ficou-lhe grata pela tentativa de humor e soltou um riso.

— Ele é tão bonito quanto você. Mas tem um tipo diferente.

— Gostaríamos dele?

— Sim. — Pela primeira vez, Alicia soou entusiasmada. Des­creveu Pierce aos amigos e os fez rir, incrédulos, quando lhes contou como os dois haviam se conhecido durante a tempestade nas colinas. — Vocês deveriam ter nos visto. Parecíamos três sobreviventes de um naufrágio. David e Adam ficaram tagarelando todos os segredos da família para um completo estranho. Eu temi pela vida deles e minha virtude.

— Mas ele acabou se revelando o Príncipe Encantado.

— Sim. — Alicia enxugou as lágrimas que não pôde mais re­primir. — Pierce foi maravilhoso com os meninos, muito paciente e atencioso. David e Adam o adoraram de imediato. A filha dele...

— É casado? — perguntou Sloan.

— Não, é divorciado há muitos anos. A filha tem dezoito anos, ele tem trinta e nove. Ela é adorável. Foi jantar conosco no chalé uma vez. Acabamos passando a semana com ele.

— Grande preocupação com sua virtude — sorriu Carter, irô­nico.

— Está apaixonada por ele?

Alicia desistiu de tentar ocultar o fato de que estava chorando.

— Sim, sim.

— E como ele se sente a seu respeito?

— Pierce disse... que me amava. Acredito que fosse verdade. E ele adorava os meninos.

— Você está falando no passado — apontou Carter num tom manso.

— Não podemos ficar juntos. Temos... tínhamos um problema.

— O quê? — indagou Sloan. — Que tipo de problema?

— Ele tem uma doença terminal.

— Oh, Céus, não—murmurou a amiga, enquanto Carter reagia com um praguejamento bem mais direto.

— Ao menos, há uma grande possibilidade de que ele a tenha. Exames mais precisos estão sendo feitos. Tanto pode ser essa doença fatal quanto uma facilmente curável, mas Pierce está agin­do como se fosse a incurável. Também devo fazê-lo.

O casal de amigos que ligara de San Francisco ficou em silêncio por um momento e, então, Carter quis saber:

— Por quê?

— Por que o quê?

— Por que você tem de presumir que ele vai morrer e agir de acordo?

— Já perdi um marido — respondeu Alicia na defensiva. — Se Pierce estiver morrendo...

— Todos estamos morrendo. Desde o momento em que nasce­mos, todos caminhamos para isso. A vida não vem com nenhuma garantia de limite de tempo.

— Mas não vivemos com o conhecimento de que vai acontecer num momento específico, Carter.

— Não, não vivemos. Então, por que você está fazendo isso? Você nem sequer tem certeza de que a doença de Pierce é terminal? E se não for? Vocês dois estão jogando fora uma coisa maravilho­sa, um amor de verdade. O raciocínio que estão usando é loucura.

— Carter — disse Sloan em tom de aviso. Sabia que uma vez que o marido formava uma opinião a respeito de algo, nada o fazia mudar de idéia. — O que você disse quando Pierce lhe contou a respeito? — perguntou ela a Alicia.

— Não muito. Fiquei chocada. Não pude simplesmente lhe di­zer para voltar caso fosse viver, mas para manter-se afastado se estivesse morrendo. — Ela soltou um gemido de dor e cobriu o rosto com a mão livre.—Teria lhe implorado de joelhos para ficar se fosse apenas eu. Mas como eu poderia fazer isso com meus filhos? Eles querem tanto um pai. Como suportariam perder Pierce da maneira como perderam Jim?

—Você acha que os garotos estão melhor sem ele, por qualquer que seja o período de tempo?

Alicia refletiu sobre os dias anteriores. David e Adam tinham andado cabisbaixos como ela própria, sua costumeira exuberância apagada. Não estavam felizes. A desolação de ambos era uma acusação silenciosa de que ela afastara Pierce.

— Não, meus filhos sentem demais a falta dele. David e Adam o amam.

— E quanto a você? Está melhor sem Pierce, mesmo que ele esteja doente?

Ela nem sequer teve de pensar para responder.

— Não.

— Deixe-me perguntar-lhe uma coisa — falou Carter. — Se tivesse sabido que Jim morreria no dia em que morreu, você ainda o teria desejado a seu lado pelo tempo que o teve? Teria desistido de um único dia que partilhou com ele, de um minuto? Se tivesse escolha, você teria sacrificado o fato de ter tido seus filhos com Jim, vivido com ele e o amado?

— Oh, Carter. — O claro entendimento do que o amigo estava lhe perguntando tomou conta de Alicia. — Não, não, eu não teria desistido de nada. Eu teria vivido cada dia ao máximo.

— Essa é a maneira como você deve encarar a situação. Só vivemos um dia de cada vez. Todos nós. Você está vivendo hoje do modo que quer? Está vivendo esse dia como se fosse o último? O que gostaria de estar fazendo se este fosse o último dia de sua vida? Com quem desejaria estar partilhando-o?

Com Pierce, David e Adam. Alicia só se deu conta de que dis­sera os nomes em voz alta quando ouviu Sloan soltando um riso suave do outro lado da linha e perguntando:

— Bem, e então? Para que está conversando conosco? Alicia sentiu seu corpo imbuído de nova vida. Mal podia conter

o ânimo que subitamente a percorreu.

— Mas ele pode não concordar — disse com nervosismo. — Pode querer manter seu distanciamento, achando que será melhor para nós ao longo do caminho.

— Convença-o do contrário — sugeriu a amiga. Alicia estava rindo agora.

— Sim, sim, farei isso. Vou persistir até que ele ceda. Oh, eu amo vocês dois!

— Vá dizer isso a Pierce — encorajou-a Carter. — Já sabemos que você nos ama.

— Está certo. Até mais. Preciso ir...

— Telefone para nos contar como foram as coisas — apressou-se Sloan a pedir.

— Claro. Beijos!

Alicia subiu até seu quarto e trocou de roupa rapidamente, apli­cando um pouco de maquiagem para encobrir os vestígios das lágrimas. Decidiu que bastaria ligar para o trabalho mais tarde, alegando um imprevisto. Quanto aos meninos, caso precisassem de algo, a babá que os buscava na escola e cuidava deles durante o restante do dia tinha o número do celular dela e poderia contatá-la em alguma eventualidade. Tinha o dia livre para reparar seu grande erro.

Já prestes a sair, lembrou-se de que nem sequer sabia o endereço da Ecto Engenharia. Apanhando uma lista telefônica na sala, fo­lheou-a com mãos trêmulas até achar o que queria e anotou os dados depressa num pedaço de papel.

Ela tinha o coração aos saltos quando parou o carro diante do prédio moderno, arrojado, da Ecto Engenharia. Subindo até o andar onde a recepcionista do térreo lhe informou que ficava o escritório de Pierce, ensaiou o que lhe diria quando o visse. Ele protestaria. Ela precisaria estar preparada para rebater cada argumento.

Foi como receber um balde de água fria quando a secretária dele a informou que o Sr. Reynolds não estava, que telefonara naquela manhã e dissera que ficaria ausente o dia todo.

Alicia voltou ao carro, sentindo-se derrotada. Perdida. Sem rumo. O que fazer? Esperar e ver se ele lhe telefonava? Não, não! Tinha de encontrá-lo. Naquele dia. E o quanto antes!

Sem hesitar, rumou na direção das colinas.

Um pensamento martelava sem cessar em sua mente. Como Pierce estaria suportando tamanha angústia? A dor de enfrentar um pesadelo tão terrível sozinho? Mas não seria mais daquele j eito. Ele não estaria mais sozinho. Não se ela pudesse evitar.

Determinada, freou seu carro bruscamente em frente aos impo­nentes portões de ferro cerca de meia hora depois. O jipe que Pierce utilizara no chalé estava estacionado sob o coberto diante da ga­ragem lateral da ampla casa, mas seu carro esporte não estava parado logo atrás. Ele não estava em casa. Bem, ela o esperaria, decidiu, baixando os vidros das janelas de seu próprio carro. Es­peraria o quanto fosse preciso.

Na verdade, esperou durante horas, mas não se importou. O tempo passou depressa enquanto fechou os olhos e recordou. Tudo. Desde o início.

Mamãe, há um homem lá fora.

As várias maneiras como amava Pierce foram enumeradas, re­passadas e contadas outra vez. Quando ela viu o sofisticado carro subindo a roa tranqüila e arborizada, desceu calmamente do seu e colocou-se diante dos portões.

Pierce tinha uma expressão indecifrável quando desceu do au­tomóvel. Alicia adiantou-se para abraçá-lo com força, pousando a cabeça no peito dele.

— Eu te amo, Pierce Reynolds. Preciso de você a meu lado por quanto tempo puder tê-lo. Caso sejam quarenta anos, ou quatro dias, eu o quero junto a mim. Por favor, fique comigo.

Pierce estreitou-a em seus braços com firmeza, e, inclinando a cabeça, beijou-lhe os cabelos loiros. De tão forte o abraço, Alicia pôde-lhe sentir o coração batendo junto ao seu.

— Meu amor — sussurrou Pierce, fervoroso. — Meu verdadeiro e precioso amor.

 

— Podemos comer o bolo agora? — perguntou Adam. — Claro. — Com um sorriso, Carter muniu-se de faca e espátula. — Pode deixar que eu faço as honras.

Ele começou a cortar o bolo de aniversário, entregando a pri­meira fatia ao ansioso menino e, depois, ofereceu um enorme pe­daço à esposa.

— Sloan, quer bolo?

— Não! — exclamou ela, afastando o prato descartável. — Estou tentando recuperar minha forma.

— E conseguindo — confirmou ele com um brilho maroto no olhar.—E quanto a Jeffrey Steinbeck Madison? Eleja pode comer bolo?

Alicia sorriu, enquanto segurava o filho de seus amigos no colo. Conhecera-o ainda naquela manhã, quando Carter e Sloan tinham chegado para uma visita. A pequena festa no pátio dos fundos da casa era em comemoração aos três meses de aniversário de Jeff. Enquanto Carter terminava de cortar o bolo e entregava fatias a David, Chrissy e a um rapaz que ela começara a namorar, Alicia ninava Jeff, que, surpreendentemente, estava conseguindo dormir, apesar do barulho.

—Eu gostaria que Pierce pudesse estar aqui—comentou Sloan num tom manso, sentado-se ao lado de uma cabisbaixa Alicia no banco de madeira próximo.

Ela soltou um profundo suspiro e observou as pessoas que ama­va reunidas em torno da mesa do pátio.

— Eu também. Ele teria adorado tudo isto, o bolo de aniversá­rio, as crianças. Pierce queria tanto conhecer o bebê de vocês.

Chrissy afastou-se dos demais e foi se reunir às duas.

— Não fique triste — disse, passando o braço em torno dos ombros de Alicia num gesto afetuoso.

— Não estou triste — declarou ela num tom jovial... jovial demais. — Não estou mesmo.

O sorriso de Chrissy diminuiu.

— Bem, eu estou. Lamento que papai não esteja aqui. Alicia pegou-lhe a pequena mão e apertou-a na sua, numa for­ma de entendimento tácito.

Carter aproximou-se com um prato de bolo e agachou-se diante de Alicia.

— Vai querer isto, ou vou ter de dar tudo a Jeff? Ela riu.

— Não estou com fome, obrigada.

— Bem, Jeff, meu garoto, acho que você vai acabar ganhando bolo, afinal. — Ele pegou uma generosa porção da cobertura do bolo com a ponta do dedo e colocou-a na boca do filho, que se deliciou.

— Carter, não se atreva a dar mais disso ao bebê — repreen­deu-o Sloan.

— Ele gostou do glacê. — Carter estava totalmente encantando com qualquer coisa que o filho fizesse.

Alicia notou o olhar enternecido que ele lançou em seguida à esposa. Carter e Sloan estavam tão visivelmente felizes um com o outro, tão apaixonados... Mais uma vez, lágrimas marejaram os olhos dela.

— Qual é o problema, Alicia?—perguntou-lhe a melhor amiga com gentileza. Até o entusiasmo de Carter se dissipou quando notou a expressão desolada de Alicia. Os olhos de Chrissy, tão parecidos com os do pai, estavam anuviados.

— Sinto falta de Pierce. Oh, sinto demais a falta dele. Como pode doer tanto?

— Vai melhorar com o tempo — prometeu Sloan, dando-lhe um tapinha de consolo no braço.

Mas não havia o que a consolasse, e ambas ficaram em silêncio, ouvindo enquanto os meninos perguntavam ao namorado de Chrissy como era jogar no time de futebol da universidade.

— Vocês me guardaram um pedaço de bolo?

Alicia teve de segurar Jeff com força para não deixá-lo cair quando se levantou abruptamente e virou-se ao som da voz dele. Estava parado na soleira da porta que dava para a cozinha, sorrindo amplamente.

— Surpresa! Consegui vir antes!

— Pierce! — exclamou Alicia, colocando Jeff nos braços de Sloan e indo correndo ao encontro de seu marido. — Pierce — repetiu, ofegante, ambos se abraçando com força.

— Papai! Papai! — gritaram os meninos, empolgados. Deixan­do o novo amigo, correram pelo amplo pátio e se abraçaram às pernas de Pierce. Dirigindo um sorriso com uma mensagem de "conversamos logo, logo" à esposa, ele se ajoelhou e abraçou os meninos afetuosamente.

— Você nos trouxe alguma coisa?

— Ficamos bem-comportados.

— Não demos trabalho à mamãe, como prometemos.

—Puxa, senti falta de vocês, seus danadinhos.—Pierce passou a mão pela cabeça dos dois com carinho. — E, sim, eu trouxe algo para vocês. Mas, primeiro, quero dizer "olá" aos nossos hóspedes e conhecer o bebê.

Com muito alvoroço, Pierce foi apresentado ao bebê Jeff. Ele beijou Sloan na face e congratulou-a por ter tido um lindo menino.

— Ele se parece com a mãe, é claro — disse com ar de marota provocação, enquanto trocava um caloroso aperto de mão com Carter.

O escritor riu.

— Ainda está com ciúme de mim, pelo que vejo. Ei, do que está se queixando? Você ficou com ela no final das contas. — Os dois homens haviam-se conhecido no casamento e gostado um do outro imediatamente. Uma forte amizade se desenvolvia. — Por onde tem andado? Alicia disse Atlanta, não foi?

— Sim. Eu tive de entregar pessoalmente um jato que redese­nhamos para uma corporação. Não pude antecipar a agenda que eles estipularam. Lamento não ter estado aqui para dar as boas-vindas a vocês quando chegaram.

— Fico contente que tenha chegado logo, de qualquer modo. Já se foram umas duas caixas de lenço de papel—gracejou Carter, puxando de leve uma mecha do cabelo de Alicia. — Eu evitaria as viagens de negócios por uns tempos se fosse você, Pierce. Ela não consegue ficar longe de você.

— Esta foi a primeira vez que viajei desde que nos casamos. — Ele beijou Alicia brevemente nos lábios. — Acreditem, eu vol­tei o mais depressa que pude.

— Não esperávamos vê-lo hoje. — Chrissy adiantou-se até o pai e abraçou-o com força. O constrangimento inicial entre eles não mais existia. Demonstravam abertamente seus sentimentos entre pai e filha. — Papai, eu gostaria que conhecesse John. Ele está no segundo ano de Administração de Empresas na minha uni­versidade. É de Nevada e divide um apartamento aqui com um colega.

Pierce trocou um firme aperto de mão com o namorado da filha. Os dois se estudaram por alguns momentos e, ao que pareceu, simpatizaram um com o outro, pois sorriram amistosamente.

Chrissy também sorriu, satisfeita e orgulhosa com o fato de o pai ter obviamente aprovado sua escolha.

— Fico contente que tenha voltado — falou. — Alicia não tem parado de se lamuriar nos últimos três dias. Não tem sido compa­nhia das mais divertidas — riu ela.

— Você ficou triste? — perguntou Pierce, baixando a cabeça para que apenas Alicia o ouvisse.

— Sim — admitiu ela de imediato. — Como foram as coisas em Atlanta?

— Frias e solitárias — sussurrou ele, puxando-a mais para si.

— Mas você falou comigo ao telefone ontem à noite.

— Não é o mesmo que ter você ao meu lado na cama. — Pierce afastou-lhe uma mecha de cabelo da fronte com ternura.

—Você disse que não conseguiria voltar antes de segunda-feira.

— Hoje de manhã, contei a eles uma mentira deslavada de que meu filho havia ferido o olho na escola e que minha presença era necessária em casa.

— Não foi completamente uma mentira. — Alicia aninhou-se mais nos braços dele. — Seja como for, estou contente que você já tenha chegado.

— Eu também. — Pierce beijou-a de leve nos lábios, mas não foi nem de longe o bastante. A despeito da platéia, então, abraça­ram-se mais e trocaram um beijo longo e faminto.

Quando pararam para recobrar o fôlego, depararam com Chrissy pousando as mãos nos quadris em suposta agitação.

— Pelos Céus... vocês dois! O que o meu namorado vai pensar?

— Acho que ele vai ter a idéia certa—sorriu John e, pegando-a pela mão, levou-a pelo amplo pátio para irem conversar à beira da piscina.

— Oh, puxa — suspirou Adam, desconsolado. — Não vamos mais ver nossos presentes tão cedo.

David sacudia a cabeça com sua sabedoria de menino de sete anos de idade.

— Quando eles começam a se beijar, nunca mais param — contou a Carter e a Sloan com ar sério.

Carter e Pierce grelharam filés na churrasqueira do pátio, en­quanto Alicia preparou o restante do jantar na cozinha. Era o dobro do que fora a cozinha em sua casa de antes e, desde o casamento com Pierce, ela renovara seu interesse por cozinhar.

Eles comeram na espaçosa sala de jantar que, até a ocasião do casamento, quase não fora usada por Pierce. Foi um jantar ruidoso e alegre. David e Adam competiram o tempo todo pela atenção de Pierce. Jeff ficou inquieto, até que Sloan se viu obrigada a deixar momentaneamente a mesa para ir lhe trocar a fralda. John pareceu bastante à vontade, encaixando-se com perfeição ali, conversando animadamente com Chrissy, seus amigos e familiares.

Apesar do evidente interesse mútuo, os dois deixavam claro que estavam concentrados em seus estudos e futuras carreiras. Aquele era um namoro promissor, mas sem precipitações, desti­nado a amadurecer em seu devido tempo. Pierce e Alicia trocaram olhares de aprovação.

Com muita algazarra e gente demais querendo ajudar, a cozinha foi finalmente limpa. Chrissy e John se foram, com promessas de voltar logo e comprar o mais recente livro de Carter. Os meninos foram colocados na cama. Jeff foi aninhado em seu carrinho. Uma vez que a casa de praia de Carter estava sendo reformada para haver mais espaço para o bebê, os Madison foram persuadidos a passar a noite ali.

— Tem certeza de que há lugar para nós? — perguntou Sloan a Pierce.

— Durante anos eu fiquei zanzando nesta imensa casa sozinho. Nem sei lhe dizer como fico contente em enchê-la de gente.

— Tenho certeza de que deve ter parecido que o lugar encolheu desde que David e Adam se mudaram para cá — sorriu Carter.

Pierce estendeu a mão para pegar a de Alicia.

— Eu gosto desse jeito.

Os Madison se recolherem a um dos quartos de hóspedes depois de partilharem de uma última xícara de café com Alicia e Pierce.

— Quer que eu lave suas costas?

Pierce, a água quente escorrendo por seu corpo, virou-se a tem­po de ver a doce mulher que se tornara sua esposa havia quatro meses entrando no chuveiro com ele. Puxou-a para si, estreitando-a em seus braços.

— Precisa perguntar? — Ele beijou-lhe o pescoço, mordiscou-lhe a pele de leve.

— Onde está o sabonete? — perguntou ela numa voz rouca. Pierce deslizou as mãos por sua pele molhada, encontrou-lhe os seios, afagou-os, estimulou-lhe os mamilos e, então, recuou um pouco para apreciar visualmente o efeito de suas carícias.

Ele lhe entregou o sabonete fragrante. Enquanto se beijavam com volúpia, ela começou a lhe ensaboar as costas sensualmente, os seios roçando-lhe o peito coberto de pêlos escuros.

— Sentiu minha falta?

— Cada minuto, doçura. Fiquei péssimo.

— Eu também. — O sussurro dela logo deu lugar a um suspiro trêmulo de desejo quando ele começou a lhe afagar os mamilos entre os dedos e inclinou a cabeça para circundá-los com a língua.

Seus lábios, enfim, tornaram a se encontrar em meio ao vapor e à água quente num beijo repleto de paixão e erotismo. Alicia continuou ensaboando-o, deliciando-se com o contato daqueles músculos bem definidos. Correu as mãos com todo o vagar pelo peito dele agora, descendo até o abdome firme, os quadris estreitos, as coxas fortes, provocando, incitando. Com mãos escorregadias, sedutoras, insinuantes, passou a acariciá-lo com intimidade, até vê-lo cerrando os dentes com mal contido desejo através da cortina fina de água.

Curvando os joelhos de leve, Pierce segurou-a pelos quadris e ergueu-a de encontro a si, posicionando-a para recebê-lo, e pos­suiu-a. Alicia arqueou as costas e encostou-lhe a cabeça junto a seus seios. Ele continuou segurando-a, enquanto seus corpos on­dulavam, a maneira gentil como a mantinha nos braços num con­traste com a explosão de paixão que os arrebatou.

Bem depois do êxtase mútuo, permaneceram debaixo do chu­veiro, trêmulos com as deliciosas sensações que ficaram, vibrando com amor, até que a água esfriou-lhes os corpos febris.

Mais tarde, deitaram-se um de frente para o outro em sua cama, despidos, sonolentos, aparentemente saciados. Ele fitou-a longa­mente com intensos olhos verdes.

— Eu te amo — disse simplesmente.

— Eu sei.

— Você sabe quanto?

— Estou aprendendo a cada dia.

— Sim, a cada dia eu te amo mais e mais.

— Eu também te amo, Pierce. Imensamente. — Ela afagou-lhe o rosto com infinita ternura. — Eu só soube o quanto realmente te amava, o quanto você era vital para mim quando você se ausentou.

— Nunca mais vamos nos separar.

Alicia soltou um suspiro desanimado e deitou-se bruscamente de costas.

— Oh, eu havia esquecido. Na semana que vem, terei de ir a uma exposição de moda em Dallas, fazer alguns contatos para a Glad Rags. E, então, aquela viagem a Nova York na primavera está cada vez mais próxima.

Ele fitou-a, admirando-lhe o corpo curvilíneo e bem-feito sob a luz do abajur.

— Eu inventarei viagens de negócios e irei com você. — To­cou-lhe o seio, beijou-o, deslizou a mão quente pela pele acetinada mais abaixo.

— Tive esperança de que dissesse isso. Mal tivemos chance de estar a sós desde que nos casamos.

— Aquele fim de semana no chalé nas colinas com David e Adam não conta como lua-de-mel? — gracejou ele.

— Bem, ao menos nós dois dormimos na mesma cama nessa ocasião. — Alicia soltou um riso e virou se para abraçar-lhe o peito — poucos homens sequer desejariam namorar uma viúva com dois filhos pequenos, muito menos se casar com uma e assumir tal responsabilidade.

— Eu teria desejado me casar com você mesmo que tivesse de filhos. Quanto aos meninos serem uma responsabilidade, você sabe como me sinto quanto a isso. Eles são um privilégio, uma dádiva que nunca esperei receber. Eu os amo.

— Eu sei que sim. Você é um pai maravilhoso. melhor. Ela soltou um suspiro de contentamento, enquanto Pierce corria as mãos por seu corpo a seu bel-prazer, enchendo-a de deleite com sua óbvia devoção.

— Sabe que a amo ainda mais porque você estava disposta a enfrentar qualquer coisa comigo, até a morte. — Ele tocou-lhe o rosto, os olhos brilhando enquanto a fitava. — Você me fala em sacrifício em ter assumido a responsabilidade pelos garotos. Mas percebe o sacrifício que estava disposta a fazer por mim?

— Não fiz sacrifício algum quando fui a sua procura. Foi uma decisão puramente egoísta. Eu queria você, precisava de você, naquele momento. Precisava tê-lo ao meu lado. Não por necessi­dade. Eu tinha aprendido a viver independentemente e a cuidar de minha família, mas acabou se tornando uma realização vazia. Pro­vei a mim mesma que era capaz de fazê-lo, mas eu não queria ficar sozinha. Você era necessário para o meu lado espiritual.

— Ainda assim, você precisou de muita coragem para ter ido me procurar sem saber que os resultados daqueles exames tinham sido negativos. — Pierce fechou os olhos, sacudindo a cabeça. — E pensar que eu estava no consultório do médico recebendo a boa notícia ao mesmo tempo em que você tomava a decisão de que me queria em qualquer estado.

— Na saúde e na doença. Se os exames tivessem sido positivos, eu ainda iria querer estar a seu lado. — Ela o beijou com ternura. — Só agradeço com todo o fervor por não terem sido.

— Eu também. Desde o primeiro momento em que a vi, eu quis viver muito, até uma idade bastante avançada. Eu queria ter pelo menos uns cinqüenta anos pela frente para olhar para você.

Eles trocaram mais um beijo longo e apaixonado.

— E você terá no mínimo esse tempo todo. O médico disse que essa alteração corriqueira no seu sangue já está se normalizando com os remédios que lhe deu.

— Acho que me sentir mais saudável do que no momento seria impossível. — Ele recostou-a nos travesseiros e deitou-se sobre o corpo macio, beijando-a nos lábios com sofreguidão.

—Pierce—protestou ela em meio a um suspiro quando, enfim, ele lhe deixou os lábios para lhe beijar o pescoço. — Fazer amor no chuveiro, onde ninguém podia nos ouvir, foi uma coisa, mas temos hóspedes na casa, lembra-se?

Ele segurou-lhe os pulsos acima da cabeça com gentileza para poder contemplar-lhe demoradamente a sedutora nudez. Com a mão livre, acariciou-lhe o seio, massageando o mamilo habilmente com o polegar.

— Imagino que nossos hóspedes estejam ocupados demais para ouvir pelas paredes. — Inclinando-se, circundou-lhe o mamilo com a ponta da língua e, depois, sugou-o demoradamente.

Alicia contorceu-se de prazer, esquecendo-se por completo do que haviam estado falando, pois com lábios e mãos experientes, Pierce ia percorrendo seu corpo, fazendo com que seu desejo se alastrasse ainda mais. Já se conheciam bem demais na linguagem corporal, mas, a cada vez que faziam amor, era como se fosse uma expe­riência nova e única, intensificando ainda mais os profundos sen­timentos que nutriam um pelo outro.

Pierce afagou-lhe o abdome, a parte interna das coxas, fazen­do-a estremecer em expectativa, até que começou a lhe explorar o centro da feminilidade.

— Oh, você é tão doce — sussurrou, rouco de desejo. Enquanto a afagava com intimidade, descobrindo-a ardente e receptiva, observou-lhe os olhos azuis ficando lânguidos com a crescente paixão.

Inebriada de desejo, Alicia, enfim, puxou-o para si e, ao mesmo tempo, Pierce ergueu-a pelos quadris e tomou-a para si. Falou-lhe novamente de seu profundo e incondicional amor, sussurrando-lhe o quanto a queria, o quanto era maravilhoso tê-la a seu lado.

Lágri­mas de uma incomparável felicidade marejando-lhe os olhos. Alicia também falou de seu amor, do quanto agradeceria a cada dia pelo privilégio de tê-lo a seu lado. Ela o cingia pela cintura com as pernas, e ambos ondulavam num ritmo erótico e cada vez mais frenético, até que um êxtase poderoso os arrebatou simultaneamente.

Permaneceram abraçados por longos momentos, enquanto sua­ves ondas de sensações ainda os percorriam. Fora uma explosão de paixão primitiva, avassaladora, mas, ao mesmo tempo, repleta de ternura.

Mantendo-a em seus braços, Pierce ergueu-se um pouco para fitá-la nos olhos e viu a adoração que exprimiam.

A voz dela soou rouca, tomada por profunda emoção:

— Eu nunca soube o que era amar de verdade até que me apai­xonei por você, Pierce.

Ele beijou-lhe a fronte, a ponta do nariz, os lábios...

— Eu nunca soube o que era viver de verdade até que me apai­xonei por você, Alicia.

E a vida e o amor foram celebrados longamente pela noite adentro.

 

                                                                                Sandra Brown  

 

                      

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