Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM CRIME NA HOLANDA / Georges Simenon
UM CRIME NA HOLANDA / Georges Simenon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

        Quando, numa tarde de maio, Maigret chegou a Delfzijl, tinha apenas algumas noções elementares sobre o caso que o chamava a esta pequena cidade situada no extremo norte da Holanda. Um tal de Jean Duclos, professor da Universidade de Nancy, realizava um ciclo de conferências pelos países do norte da Europa. Em Delfzijl, hospedou-se na casa de um professor da Escola Naval, o senhor Popinga. No entanto, o senhor Popinga havia sido assassinado e, se bem que não acusavam formalmente o professor francês, foi proibido de abandonar a cidade, permanecendo à disposição das autoridades holandesas.

        Isso era tudo, ou quase tudo. Jean Duclos havia avisado a Universidade de Nancy, a qual, por sua vez, havia conseguido que um membro da Polícia Judiciária fosse enviado a Delfzijl. Maigret foi encarregado da missão. Missão mais oficiosa do que oficial, e que ele havia feito ainda menos oficial ao não avisar os colegas holandeses de sua chegada. Jean Duclos havia mandado a Maigret um informe bastante confuso, seguido de uma lista com os nomes das pessoas mais ou menos envolvidas na história. E foi esta lista que ele consultou pouco antes de chegar à estação de Delfzijl.

 

 

 

 

        Conrad Popinga (a vítima): 42 anos, antigo capitão da marinha, professora da Escola Naval de Delfzijl. Casado. Sem filhos. Falava corretamente o inglês e o alemão, e bastante bem o francês.

        Liesbeth Popinga: sua esposa, filha do diretor de um instituto em Amsterdam. Muito culta. Conhecimento profundo do francês.

        Any van Elst: irmã mais nova de Liesbeth. Passava umas semanas em Delfzijl. Tinha defendido recentemente sua tese de doutorado em Direito. 25 anos. Entende um pouco do francês, mas fala mal.

        Família Wienands: mora na casa vizinha aos Popinga. Cari Wienands é professor de Matemática na Escola Naval. Casado e com 2 filhos. Nenhum conhecimento de francês.

        Beetje Liewens: 18 anos, filha de um fazendeiro especializado em exportação de gado puro sangue. Duas fazendas em Paris. Francês perfeito.

        A lista não dizia muito. Os nomes não sugeriam nada, pelo menos a Maigret, que chegava de Paris, depois de viajar uma noite e meia. Delfzijl o desconcertou desde o primeiro momento. De madrugada, havia atravessado a Holanda tradicional das tulipas, e depois Amsterdam, que já conhecia. Drenthe, um autêntico deserto de urzes, com horizontes de 30 quilômetros sulcados de canais, o havia surpreendido.

        Em Delfzijl, encontrou um cenário que não tinha nada em comum com os cartões postais holandeses e cujo aspecto era 100 vezes mais nórdico do que havia imaginado. Uma pequena cidade: 10 ou 15 ruas no máximo, calçadas com bonitos paralelepípedos vermelhos e alinhados tão regularmente como os azulejos de uma cozinha. Casas baixas de tijolos, adornadas com muitos revestimentos de madeira de cores claras e alegres. Era como de brinquedo. Essa impressão acentuou-se quando, ao redor da cidade, viu o dique que a cercava por completo. Em caso de mar forte, as comportas deste dique podiam fechar-se através de pesadas portas parecidas com eclusas.

        Mais além, estava a foz do rio Elms. O Mar do Norte. Uma grande faixa de água prateada. Cargueiros em fase de descarga debaixo das gruas do cais. Canais e uma infinidade de barcos a vela, grandes e pesados como navios, mas preparados para vencer o fluxo das ondas. Fazia sol. O chefe da estação de trem usava um belo boné laranja, que usou para cumprimentar, com toda naturalidade, o viajante desconhecido.

        Na frente da estação havia um café. Maigret entrou e quase não se atreveu a sentar. Não só reluzia como um restaurante pequeno burguês, mas nele também reinava a mesma intimidade. Sobre a única mesa estavam todos os jornais do dia presos a varetas de cobre. O dono, que bebia cerveja em companhia dos clientes , levantou-se para atender Maigret.

        - Você fala francês – perguntou Maigret.

        Gesto negativo. Mal estar.

        - Dê-me uma cerveja. Bier! – E uma vez sentado, tirou o papelzinho do bolso. Seu olhar tropeçou no último nome. Mostrou-o aos clientes e repetiu 2 ou 3 vezes. – Liewens.

        Os 3 homens falaram entre si. Depois, um deles, um rapaz de boné de marinheiro, levantou-s e indicou a Maigret que o seguisse. Como o comissário não levara dinheiro holandês e queria trocar uma nota de 100 francos, eles repetiram:

        - Morgen, Morgen!

        Amanhã. Maigret teria que voltar.

        O ambiente era familiar. Todo ele tinha uma certa simplicidade, uma certa candura. Sem dizer palavra, o “guia” conduziu Maigret através das ruas da pequena cidade. À esquerda, havia uma loja de âncora antigas, cordas, redes, bóias e bússolas, que invadiam a calçada. A vitrine da confeitaria exibia uma magnífica seleção de chocolates e sofisticadas guloseimas.

        - Não falar inglês?

        Maigret indicou que não.

        - Nem alemão?

        Ao ouvir a mesma resposta, o homem resignou-se ao silêncio. Ao final da rua, via-se já o campo: prados verdes e um canal em que flutuavam os troncos em quase toda a sua largura, à espera de serem transportados através do país. O guia apontou, à distância, um grande telhado construído com telhadas vidradas.

        - Liewens. Dag, mijnheer!

        Maigret prosseguiu seu caminho sozinho, não sem antes tentar agradecer aquele homem que, sem conhecê-lo, havia caminhado durante quase um quarto de hora para fazer-lhe um favor.

        O céu era puro, e a atmosfera, de uma limpidez assombrosa. O comissário contornou um depósito de madeiras onde os troncos de carvalho, de mogno e de teça alcançavam a altura de uma casa. Havia um barco amarrado. Alguns meninos jogavam. Depois, um quilômetro de solidão. Troncos de árvores no canal. Cercas brancas ao redor dos campos e, aqui e ali, magníficas vacas.

        Novo choque das idéias preconcebidas com a realidade: a palavra “granja” sugeria a Maigret um telhado de palha, montes de esterco e um formigamento animal. E se achava diante de uma bela e moderna casa rodeada de um jardim resplandecente de flores. No canal, em frente à casa, havia um barco de mogno de finas linhas e, apoiada no portão, uma bicicleta de mulher toda de alumínio. Procurou em vão por uma campainha. Chamou sem obter resposta. Um cão acudiu, chocando-se contra suas pernas.

        À esquerda da casa, se elevava uma construção larga, de janelas regulares, sem cortinas, fazendo pensar em uma cocheira a não ser pela qualidade dos materiais e, sobretudo, pela beleza das pinturas. Ao ouvir um mugido vindo da construção, Maigret avançou, circulou os maciços de flores e se encontrou frente a uma porta aberta de par em par.

        Era um estábulo, mas estava tão limpo quanto uma casa. Em toda parte, o azulejo vermelho que dava à atmosfera uma luminosidade cálida, quase suntuosa. Possuía canalização para saída de água, um sistema de distribuição mecânica de ração nos comedouros e, por trás de cada compartimento, uma roldana, cuja utilidade Maigret só descobriu mais tarde; servia para manter levantada a cauda das vacas enquanto eram ordenhadas, para que o leite não se sujasse.

        A penumbra reinava no interior. Os animais estavam fora, com exceção de um, posta de lado, no primeiro compartimento.

        Uma jovem aproximou-se do visitante, falando em holandês.

        - A senhorita Liewens? – perguntou Maigret.

        - Sim. Você é francês?

        Olhava para a vaca enquanto falava. Mostrava um sorriso um tanto irônico, que Maigret tardou um pouco para compreender. Também aqui, as idéias preconcebidas resultaram falsas.

        Beetje Liewens usava botas pretas de borracha que lhe davam um aspecto de amazona, e um traje de seda verde, coberto quase completamente por uma bata de enfermeira. Um rosto róseo, demasiado rosado talvez. Um sorriso sadio e alegre, mas a que faltava sutileza. Olhos grandes, de um azul como de porcelana. Ruiva.

        Foi difícil para a jovem começar a falar em francês, pronunciando as palavras com forte acento holandês. Mas não tardou a familiarizar-se de novo com o idioma.

        - Quer falar com meu pai?

        - Não. Com você.

        Ela esteve a ponto de soltar uma gargalhada.

        - Desculpe-me. Meu pai foi a Groninga e não voltará até a noite. Os dois criados estão em casa descarregando carvão. A empregada foi fazer compras. E, neste momento preciso, esta vaca está a ponto de parir. Não o esperávamos. Estou completamente sozinha.

        Estava preparada para ajudar o animal e sorria mostrando todos os dentes. Fora, o sol brilhava. Suas botas reluziam como verniz. Tinha as mãos gorduchas e as unhas cuidadas.

        - Gostaria que falássemos de Conrad Popinga.

        Ela pestanejou. A vaca acabara de levantar-se com um salto doloroso e voltou a cair pesadamente.

        - Cuidado! Quer ajudar-me? - Colocou luvas de borracha que havia deixado próximo.

        Assim, Maigret começou esta investigação. Ajudando um terneiro puro sangue holandês a vir ao mundo, em companhia de uma moça cujos gestos seguros revelavam um treinamento esportivo. Meia hora depois, enquanto o recém nascido procurava as tetas da mãe, ele estava com Beetje frente a uma pia de cobre ensaboando as mãos até os cotovelos.

        - É a primeira vez que faz isso? – perguntou ela.

        - A primeira.

        Tinha 18 anos. Quando retirou a bata branca, o traje de seda esculpiu umas formas arredondadas, que talvez, à luz da atmosfera ensolarada, eram extremamente atrativas.

        - Falaremos enquanto tomamos chá. Venha até a casa.

        A empregada havia regressado. O salão era austero, mas de uma comodidade refinada. Os pequenos vidros das janelas eram de um cor-de-rosa muito delicado, que Maigret jamais havia visto. Uma biblioteca cheia de livros. Muitas obras sobre a criação de animais e sobre veterinária. Nas paredes, medalhas de ouro recebidas em exposições internacionais e diplomas. E, no meio disso, as obras de Claudel, de Gide e de Valery.

        Beetje sorriu, faceira.

        - Quer conhecer minha casa?

        Ela observava as reações dele. Não havia cama, só um sofá forrado de veludo azul. As paredes eram recobertas com tecido de Jouy. Estantes escuras com mais livros; uma boneca comprada em Paris, de seda farfalhante; uma penteadeira, ou quase, de aspecto sólido, pesado e reflexivo.

        - Não é como em Paris?

        - Gostaria que me contasse sobre o que aconteceu na semana passada.

        Beetje fechou-se, mas não o suficiente para deixar transparecer que tratava de acontecimentos trágicos. E o sorriso cheio de orgulho ao mostrar suas instalações o confirmava.

        - Vamos tomar o chá.

        Sentaram-se um em frente ao outro, diante do bule coberto para impedir que a bebida esfriasse. Beetje tinha dificuldades com a língua. Foi buscar um dicionário e, às vezes, se interrompia durante um tempo até encontrar o termo exato.

        Um barco, coroado por uma grande vela, deslizava pelo canal, mas como havia pouco vento usavam também os remos. Avançava entre os troncos que obstruíam o rio.

        - Ainda não foi à casa dos Popinga? – perguntou ela.

        - Cheguei a uma hora e só tive tempo de ajudar a parir o seu animal.

        - Claro. Enfim, Conrad era um tipo encantador, um homem realmente simpático. Tinha viajado por todo o mundo como segundo oficial e depois como primeiro tenente. Como se diz em francês? Logo que chegou a capitão, casou-se e, como sua esposa queria, aceitou um cargo de professor na Escola Naval. Isso não era tão bonito. Tinha um iate pequeno, mas a senhora Popinga tem medo da água, então ele o vendeu. Desde então, possuía apenas um bote no canal. Viu o meu? O dele é quase igual. À noite, dava aulas particulares aos estudantes. Trabalhava muito.

        - Como ele era?

        Ela não entende de imediato. Acabou por ir buscar uma foto que representava um jovem bochechudo, de olhos claros e cabelo curto, que tinha um impressionante aspecto de ingenuidade e de saúde.

        - É Conrad. Não parece que tenha 40 anos, não é verdade? Sua mulher é mais velha, talvez tenha 45. Não a viu? E tem idéias completamente diferentes. Por exemplo, aqui todo mundo é protestante, não? Eu sou da Igreja Moderna. Lisbeth Popinga é da Igreja nacional, que é mais severa, a mais, como dizem vocês, “conservadoria”.

        - Conservadora.

        - É isso. E é presidente de muitas associações beneficentes.

        - Você não gosta dela?

        - Sim, mas não é a mesma coisa. Ela é filha do diretor de um instituto e meu pai é só um fazendeiro, entende? De qualquer forma, é muito doce, muito amável.

        - Que aconteceu?

        - Aqui acontecem muitas conferências. É uma cidade pequena, 5 mil habitantes, mas queremos estar a par das novas idéias. Quinta feira passada dia primeiro, o professor Duclos, de Nancy, conhece-o?

        Surpreendeu-se muito porque Maigret nunca ouvira falar do professor Duclos, pois acreditava que ele era uma glória francesa.

        - É um grande advogado, especialista em questões criminais e, qual é a palavra... psicológicas? Falou da responsabilidade dos criminosos. Como se diz? Você tem que me dizer se me engano nas palavras, certo? A senhora Popinga é presidente da sociedade que organiza as conferências, e os oradores sempre se hospedam em sua casa. Às dez da noite, havia uma pequena reunião privada em casa dos Popinga. Lá estavam o professor Jean Duclos, Conrad Popinga e sua mulher, e também o senhor Wienands, com a esposa e os filhos. E eu. A casa está a um quilômetro daqui, também junto a Amsterdiep, que é o canal que está vendo. Havia vinho e comida. Conrad ligou o rádio. Ah! Any também estava, esqueci dela. É a irmã da senhora Popinga, que é advogada. Conrad quis dançar e retiramos o tapete. Os Wienands saíram antes, por causa das crianças. O pequeno chorava. Moram na casa ao lado dos Popinga. À meia noite, Any disse que queria deitar-se. Eu tinha ido de bicicleta. Conrad quis acompanhar-me e pegou também sua bicicleta. Vim para cá. Meu pai me esperava. E até a manhã seguinte, não sabíamos da tragédia. Toda a cidade estava agitada. Mas não creio que tenha sido minha culpa. Quando Conrad voltou, foi guardar a bicicleta na cobertura, atrás da casa. Então o atingiram com um revólver. Caiu. Morreu em meia hora. Pobre Conrad, tinha a boca aberta! Secou uma lágrima que fazia um estranho efeito em sua bochecha, lisa e rosada como uma maçã madura.

        - Isso é tudo?

        - Sim. Veio a polícia de Groninga para ajudar os policiais daqui. Disseram que haviam disparado da casa. Parece que o professor, imediatamente após o disparo, desceu a escada com um revólver na mão. E era a arma com que haviam disparado.

        - O professor Jean Duclos?

        - Sim. E não o deixaram ir embora.

        - Em resumo, neste momento, estavam na casa a senhora Popinga, sua irmã Any e o professor Duclos.

        - Sim.

        - E durante a noite, estavam também os Wienands, você e Conrad.

        - E também Cor! Eu tinha me esquecido.

        - Cor?

        - Bem, chama-se Cornelius, é um estudante da Escola Naval que ia com freqüência à casa dos Popinga para ter aulas particulares com Conrad.

        - Quando foi embora?

        - Ao mesmo tempo que Conrad e eu. Subiu na bicicleta, girou para a esquerda para voltar ao barco escola que está em Elms Canal. Quer açúcar?

        O chá fumegava nas taças. Um carro parou ao pé da escadinha de 3 degraus. Pouco depois, entrou um homem alto, largos ombros, grisalho, de rosto grave e sua autoridade acentuada por sua calma.

        O fazendeiro Liewens esperou que sua filha apresentasse o visitante. Apertou vigorosamente a mão de Maigret, porém não disse nada.

        - Meu pai não fala francês.

        Ela lhe serviu uma xícara de chá, e ele bebeu de pé, em pequenos goles. Depois, em holandês, a jovem o colocou a par do nascimento do terneiro. Deve ter se referido ao papel desempenhado pelo comissário no acontecimento, porque Liewens o olhou com assombro não isento de ironia. Depois de uma saudação bastante rígida, dirigiu-se aos estábulos.

        - Prenderam o professor Duclos?

        - Não, não. Está no hotel Van Hasselt, vigiado por um policial.

        - E Conrad?

        - Transportaram seu corpo a Groninga, a 30 quilômetros daqui. É uma grande cidade de 100 mil habitantes, com uma universidade, onde Jean Duclos havia se alojado na véspera.É terrível, não é? Não dá para entender.

        Talvez fosse terrível, mas não se notava. Isso se devia a atmosfera límpida, à decoração suave e confortável, ao chá que fumegava e a toda Delfzijl, essa pequena cidade que parecia um brinquedo colocado na beira do mar.

        Da janela, dominando a cidade de tijolos vermelhos, via-se a chaminé e o passadiço de um grande navio mercante que estava descarregando. E os barcos sobre o Sem, que deslizavam até chegar ao mar.

        - Conrad acompanhava você com freqüência?

        - Sempre que eu ia a sua casa. Era um amigo.

        - A senhora Popinga não ficava com ciúme?

        Maigret disse isso por acaso, porque seu olhar caía sobre o peito da jovem e, talvez, também porque havia percebido o sopro cálido de seu hálito no rosto.

        - Por que haveria de sentir ciúme?

        - Não sei. De noite, os dois sozinhos...

        Ela riu, mostrando os dentes sadios.

        - Na Holanda, sempre é assim. Cor também me acompanhava.

        - Conrad estava apaixonado por você?

        Ela não disse sim nem não. Fez apenas um pequeno gesto de faceirice satisfeita. Pela janela, viram como o pai pegava o terneiro do estábulo, colocando-o no colo como um bebê, e o deitava sobre a grama, no prado, em pleno sol. O animal cambaleou sobre as quatro pernas demasiado delgadas, esteve a ponto de cair e, de repente, pareceu trotar 4 ou 5 metros, antes de imobilizar-se.

        - Conrad não a beijou nunca?

        Novo riso, acompanhado de certo rubor.

        - Sim.

        - E Cor?

        Manteve as aparências e virou a cabeça.

        - Também. Por que pergunta?

        Tinha um olhar estranho. Acaso esperava que Maigret também a beijasse?

        Seu pai, lá de fora, a chamava. Ela abriu a janela. Ele falou em holandês. Quando se voltou, disse: - Desculpe-me, tenho que ir à cidade buscar o funcionário para registrar o pedigree do terneiro. É muito importante. Você não vai a Delfzijl?

        Saíram juntos. Ela pegou a bicicleta e caminhou ao lado do comissário, balançando um pouco as cadeiras, tão sólidas como a de uma mulher.

        - Bonito lugar, não é? Pode Conrad, que já não poderá vê-lo. Amanhã começa a temporada de banhos. Nos anos anteriores, ele ia todos os dias e passava uma hora na água.

        Maigret caminhava olhando para o chão.

 

        Contrário aos seus costumes, Maigret anotou alguns detalhes materiais, sobretudo topográficos, e pode dizer-se que foi uma boa idéia, porque depois, a solução do caso dependeria de minutos e de metros.

        Entre a granja de Liewens e a casa dos Popinga havia mais ou menos 1200 metros. As duas casas estavam a beira do mesmo canal, o Amsterdiep, e para ir de uma à outra, era preciso ir pela beira da água. O canal, por outro lado, estava quase abandonado, pois haviam construído outro, mais largo e profundo, o Elms Canal, que unia Delfzijl a Groninga.

        O Amsterdiep, lamacento, tortuoso, sombreado por lindas árvores, servia quase que tão só para o transporte de comboios de troncos e para navegação de alguns barcos de baixa tonelagem. De vez em quando, aparecia alguma granja. Um estaleiro para reparação dos barcos.

        Quem saía da casa dos Popinga para ir à granja, encontrava primeiro, muito próxima, a casa dos Wielands. Depois, uma casa em obras. Logo, um vasto terreno deserto e o estaleiro cheio de troncos amontoados. Passado este estaleiro, atrás de um recorte do canal, se abria um novo terreno baldio. Dali via-se claramente as janelas dos Popinga e, bem à esquerda, um farol branco situado no outro lado da cidade.

        - É um farol de luz giratória? – perguntou Maigret.

        - Sim.

        - Então, à noite, deve iluminar um trecho do caminho.

        - Sim. – repetiu ela, com um risinho como se lembrasse de algo divertido.

        - Pouco propício para os namorados. – concluiu ele.

        Ela o abandonou antes de chegar á casa dos Popinga, com o pretexto de tomar um caminho mais curto, mais provavelmente para que não a vissem chegar com ele.

        Maigret não parou. A casa era moderna, de azulejos, com um pequeno jardim na frente, uma horta atrás, uma avenida à direita e um terreno livre à esquerda. Preferiu ir para à cidade, que estava a uns 500 metros. Chegou assim à eclusa que separava o canal do porto. Na marina, havia barcos de 100 a 300 toneladas, amarrados um junto ao outro, com os mastros estendidos formando um mundo flutuante. À esquerda, viu o hotel Van Hasselt e entrou.

        Uma sala escura, com revestimento de madeira envernizada na qual flutuava um cheiro de cerveja, genebra e cera. Um grande bilhar. Uma mesa com barras metálicas cobertas de jornais. De um canto, um homem levantou-se quando Maigret entrou e foi até ele.

        - Você é o homem enviado pela polícia francesa?

        Era alto, delgado, ossudo, com uma cara larga de vincos muito retos, com óculos de tartaruga e cabelo cortado à escova.

        - Você deve ser o professor Duclos – disse Maigret.

        Não imaginara que fosse tão jovem. Duclos poderia ter 35 ou 38 anos. Mas algo nele surpreendeu Maigret.

        - Você é de Nancy?

        - O caso é que em Nancy ocupo uma cadeira de Sociologia.

        - Mas não nasceu na França.

        O encontro começava com uma escaramuça.

        - Na Suíça francesa. Sou nacionalizado francês. E fiz todos os meus estudos em Paris, em Montpellier.

        - E você é protestante?

        - Onde você viu isso?

        Em nada e em tudo. Duclos pertencia a uma classe de homens que o comissário conhecia bem: homens de ciência. O estudo pelo estudo. A idéia pela idéia. Certa austeridade nas atitudes e no comportamento, ao mesmo tempo que uma propensão para as relações internacionais. A paixão pelas conferências, pelos congressos e a troca de cartas com correspondentes estrangeiros.

        Era bastante nervoso, se esta palavra pode aplicar-se a um homem cujos traços não deviam alterar-se jamais. Em sua mesa havia uma garrafa de água mineral, dois grossos livros e papéis espalhados.

        - Não vejo o agente encarregado de vigiá-lo.

        Dei a ele minha palavra de honra que não sairia daqui. Tenha em conta que me esperam as sociedades literárias e científicas de Emden, de Hamburgo e de Bremen. Deveria dar minhas conferências nessas 3 cidades antes de...

        Apareceu uma mulher loira e gorda, a dona do hotel e Jean Duclos explicou em holandês, quem era o visitante.

        - Só pedi que me mandassem um policial por acaso. Na realidade, acredito que descobrirei eu mesmo o mistério.

        - Que dizer-me o que sabe? – Maigret deixando-se cair numa cadeira pediu: - Um Bols! Em copo grande!

        - Aqui tem, em primeiro lugar, as planta feitas em escala. Posso entregar-lhe uma cópia. A primeira representa a planta baixa da casa dos Popinga. Um corredor à esquerda; à direita, o salão e depois a sala de jantar; ao fundo, a cozinha; atrás, a cobertura onde Popinga costumava guardar o bote e as bicicletas.

        - Todos vocês estavam no salão?

        - Sim. Em duas ocasiões, a senhora Popinga, e depois Any, foram à cozinha prepara o chá, porque a empregada estava deitada. Este é a planta do primeiro andar: na parte detrás, em cima da cozinha, há um banheiro; na frente, dois aposentos: à esquerda, o quarto dos Popinga; à direita, um quarto de empregados com um sofá onde Any dormia; por último, os meus aposentos.

        - De que quarto foram disparados os tiros?

        - Possivelmente, do meu quarto, do banheiro ou da sala de jantar da planta baixa.

        - Conte-me como transcorreu a noite.

        - Minha palestra foi um êxito. Foi nesta sala.

        Mostrou uma sala ampla, decorada com grinaldas de papel utilizadas para bailes, banquetes e representações teatrais. Um estrado com pinturas representava o jardim de um castelo.

        - Depois, nos dirigimos ao Amsterdiep...

        - Percorrendo o cais? Pode me dizer em que ordem caminhavam?

        - Eu ia na frente com a senhora Popinga, que é uma mulher muito culta. Conrad Popinga flertava com a pequena fazendeira, essa imbecil que ao rir mostra todos os dentes e que não entende nada das minhas palavras. A seguir iam os Wienands, Any e o jovem aluno de Popinga, um menino pálido e vulgar.

        - Chegaram à casa...

        - E lhe contaram que, na conferência, falei sobre a responsabilidade dos assassinos. A irmã da senhora Popinga, que terminou o curso de Direito e que no próximo ano letivo dará aulas, questionou alguns detalhes. Começamos a falar do papel do advogado na criminalística. Depois, sobre a polícia científica, e recordo que comente que havia lido as obras do professor vienense Grosz. Defendi a tese que o crime impune é rigorosamente impossível. Dissertei sobre as pegadas, a análise dos restos de todo tipo, as deduções. Enquanto isso, Conrad Popinga se empenhava em fazer-me escutar a Radio Paris!

        Maigret apenas sorriu.

        - E conseguiu! Tocavam jazz. Popinga foi buscar uma garrafa de conhaque e surpreendeu-se de ver um francês que não bebia. Ele, sim, bebeu, assim como a moça da fazenda. Estavam muito alegre, e dançaram. “Commé a Paris!” gritava Popinga.

        - Você não gostava muito dele – comentou Maigret.

        - Um rapaz pouco interessante. Wienands, por sua parte, ainda que só lhe preocupem as matemáticas, nos escutava. Os Wienands se foram porque seu bebê começou a chorar. A fazendeira estava muito animada, e quando Conrad lhe propôs acompanhá-la, os dois se foram de bicicleta. A senhora Popinga me mostrou meu quarto e fique ali. Coloquei em ordem alguns papéis, guardei-os na mala e pensei em tomar algumas notas para um livro que estou preparando quando ouvi um tiro, tão perto que quase me pareceu ter sido disparado de meu próprio quarto. Saí para o corredor e vi que a porta do banheiro estava aberta. Empurrei. A janela estava aberta de par em par e ouvi um estertor no jardim, próximo da cobertura das bicicletas.

        - Havia luz no banheiro?

        - Não. Cheguei à janela e minha mão tropeçou na culatra de um revólver; peguei-o mecanicamente. Dava para adivinhar uma forma caída próxima da cobertura. Quis descer. Dei com a senhora Popinga que saía enlouquecida de seu quarto. Os dois descemos correndo pela escada. Ainda não havíamos cruzado a cozinha quando Any nos alcançou; estava muito alterada, porque desceu em roupa de dormir. Entenderá melhor quando conhecê-la.

        - E Popinga?

        - Estava moribundo. Olhou-nos com os olhos turvos e muito abertos, apertando o peito com a mão. No momento em que o toquei, ficou rígido. Estava morto. A bala havia acertado o coração.

        - Isso é tudo que você sabe?

        - Telefonaram à polícia e a um médico. Chamaram Wienands, que veio ajudar-nos. Eu sentia um certo mal estar. Esqueci que me haviam visto com o revólver na mão. Os policiais me recordaram e pediram explicações. Pediram cortesmente que permanecesse à disposição.

        - Isso faz seis dias, não?

        - Sim. Desde então trabalho para resolver o problema, porque, sem dúvida, trata-se de um problema! Veja estes papéis.

        Maigret esvaziou seu cachimbo, sem dedicar um só olhar aos papéis em questão.

        - Não sai do hotel?

        - Poderia, mas prefiro evitar qualquer incidente. Popinga era muito querido por seus alunos, e a cada momento, encontro com eles na cidade.

        - Descobriu-se algum indício?

        - Pois bem, sim. Any, que investiga por sua conta e acredita que pode descobrir tudo, ainda que careça de método, me traz de vez em quando alguma informação. Deve saber, em primeiro lugar que a banheira está coberta com uma tampa de madeira que a converte em tábua de passar; no dia seguinte pela manhã. Levantaram essa tampa e descobriram um velho boné de marinheiro que nunca haviam visto na casa. No andar de baixo, os policiais descobriram, no tapete da sala de jantar, uma bagana de cigarro de um tabaco muito escuro, creio que de Manila, que não é o que fumava Popinga, nem Wielands, nem o estudante; eu eu nunca fumei. Porém, a sala de jantar havia sido vistoriada logo após a tragédia.

        - Do que você deduz...

        - Nada! – exclamou Duclos. – Eu deduzirei em seu momento. Desculpe-me por faz-lo vir de tão longe. Aliás, poderiam ter escolhido um policial que falasse o idioma do país. Você só me será útil se tomarem medidas contra as quais terei que protestar oficialmente.

        Maigret acariciava o nariz enquanto esboçava um sorriso realmente delicioso.

        - Você está casado, senhor Duclos?

        - Não.

        - E antes de vir aqui, conhecia já os Popinga, ou Any, ou alguma das pessoas que estavam aqui naquela noite?

        - Nenhuma, só os conhecia de nome.

        - Claro, claro. E pegou da mesa as plantas feitas a régua, meteu-os no bolso, levou a mão ao chapéu e se foi.

        A delegacia era moderna, cômoda e clara. Esperavam Maigret: o chefe da estação havia informado de sua chegada e se espantaram porque ainda não havia aparecido.         Entrou como se estivesse em sua casa. Tirou a capa de chuva e deixou o chapéu sobre um móvel.

        O inspetor enviado de Groninga falava um francês lento e um pouco rebuscado. Era um jovem alto, louro e magro, muito amável, que acompanhava todas as suas frases com pequenas inclinações que pareciam significar: “Entende? Estamos de acordo?”

        A verdade é que Maigret apenas o deixou falar.

        - Já que você está neste caso a uns seis dias, deve ter verificado as horas.

        - Que horas?

        - Seria interessante saber, por exemplo, quantos minutos exatamente levou a vítima para acompanhar Beetje Liewens a sua casa e voltar. Espere! Gostaria de saber também que horas chegou a senhorita Liewens à granja; o pai, que a esperava, deve saber. E por fim, a que horas o jovem Cor regressou ao barco escola, onde à noite, sem dúvida, fica um homem de guarda.

        O policial parecia aborrecer-se e, de repente, levantou-se, como presa de uma inspiração, caminhou até o fundo da sala e regressou com um boné de marinheiro, completamente deformado. Então, explicou com lentidão exagerada.

        - Encontramos o proprietário deste objeto, que foi descoberto na banheira. É um homem que chamamos Baes. Em francês, quer dizer “patrão”.

        Maigret o escutava?

        - Não o detivemos, preferimos vigiá-lo, e além disso, é um homem muito popular na zona. Você conhece a foz do Elms? Quando se chega ao Mar do Norte, a uns 16 quilômetros daqui, encontra-se umas ilhotas arenosas que as grandes marés equinociais submergem quase completamente. Uma dessas ilhotas chama-se Workum, e um homem se instalou ali, com sua família e seus empregados, e empenhou-se a pecuária: é Baes. Conseguiu uma subvenção do estado, porque tem uma família fixa para manter. Inclusive, foi nomeado prefeito de Workum, ainda que, fora ele e a família, não more mais ninguém lá. Tem um barco a motor, com o qual vai e vem de sua ilha a Delfzijl.

        Maigret seguia sem replicar. O policial piscou um olho.

        - Um tipo estranho, 60 anos, forte como um carvalho. Tem 3 filhos, que são uns piratas, como ele. Porque... escute... isso não se pode dizer em voz alta. Já sabe que a Delfzijl chegam sobretudo troncos da Finlândia e de Riga. Os vapores que os trazem levam uma parte da carga na coberta; e essa carga vai amarrada com correntes. Em caso de perigo, os capitães tem ordem de cortar as amarras e deixar que a carga caia no mar, afim de evitar a perda do barco. Você me entende?

        Decididamente, Maigret não parecia nem um pouco interessado nessa história.

        - Baes é muito esperto. Conhece todos os capitães que vem aqui e chegou a um acordo com eles. Perto das ilhas, sempre há uma razão para cortar pelo menos uma das amarras. Algumas toneladas de madeira caem na água; e a maré as transporta até as areias de Workum... Direito sobre os destroços. Entende agora? Logo, Baes reparte os ganhos com os capitães. E seu boné foi encontrado na banheira! Um único problema: só fuma cachimbo. Mas bem podia ter vindo com alguém.

        - Isso é tudo?

        - Bom. O senhor Popinga, que tem relações em toda parte, ou melhor dizendo, tinha, havia sido nomeado vice-cônsul da Finlândia em Delfzijl 15 dias antes de morrer.

        O jovem magro e louro sentia-se triunfante e parecia muito contente.

        - Onde estava o barco de Baes, na noite do crime?

        Quase gritou: - Em Delfzijl, no cais, perto da eclusa. Em outras palavras, a 500 metros da casa.

        Maigret encheu o cachimbo, enquanto ia e vinha pela sala, olhando sem nenhum interesse os informes, dos quais não entendia uma palavra.

- Não descobriu mais nada? – perguntou, de repente, colocando ambas as mãos no bolso.

O policial corou e Maigret surpreendeu-se.

- Já sabe? – recuperou-se – Claro, passou toda a tarde em Delfzijl! Método francês! – Ao falar, parecia que algo o incomodava. Entretanto, não se dá valor a essa declaração. Quatro dias depois do crime, veio a senhora Popinga. Disse-me que havia consultado o pastor se devia falar ou não. Conhece a casa? Ainda não? Posso entregar-lhe uma planta.

- Obrigado, mas tenho uma – disse o comissário, tirando-a do bolso.

O outro, estupefato, continuou: - Vê o dormitório dos Popinga? Da janela, só se vê um pedaço do caminho que conduz à granja, justamente a parte que a luz do farol iluminam a cada 15 segundos.

- E a senhora Popinga, com ciúme, espiava seu marido?

- Olhava. Viu passar as duas bicicletas em direção à granja. Depois, viu a bicicleta do marido, que regressava. %Imediatamente depois, a 100 metros de distância, a bicicleta de Beetje Liewens.

- Em outras palavras, depois que Conrad Popinga a deixou na granja, Beetje regressou sozinha à casa dos Popinga. Que diz ela disso tudo?

- Quem?

- A jovem.

- Nada, eu não quis interrogá-la imediatamente. É muito grave. E você talvez já tenha mencionado a palavra: ciúme! Entende? Além disso, o senhor Liewens é membro do conselho.

- A que horas regressou Cor à escola?

- Isto sim, sabemos. Às doze menos cinco da noite. Mas não podemos esquecer o boné e o cigarro.

- Baes tem bicicleta?

- Sim, aqui todo mundo circula de bicicleta. É muito mais prático. Eu mesmo... Mas aquela noite ele não a usou.

- Examinou o revólver?

- Sim. Pertencia a Conrad. É um revólver de regimento. Tem-no sempre na mesinha de cabeceira, carregado com seis balas.

- A quantos metros se efetuou o disparo?

- A uns seis – pronunciava seisss. – É a distância da cobertura até a janela do banheiro, e também, da cobertura até a janela do quarto de Duclos. Talvez tenham disparado de cima. É impossível saber porque o professor, enquanto guardava a bicicleta, estava agachado. De qualquer forma, não podemos esquecer o boné. Nem o cigarro.

- Caramba com o cigarro! – resmungou Maigret entre dentes. E em voz alta, concluiu: A senhorita Any sabe da declaração de sua irmã?

- Sim.

- O que ela acha?

- Não acha nada. É uma jovem muito culta. Não fala muito. Não é como as outras.

- É feia?

Decididamente, cada interrupção de Maigret tinha o dom de sobressaltar o holandês.

- Digamos que não é bonita.

- Bom, neste caso é feia. Perdão, o que é que você dizia?

- Ela quer descobrir o assassino. Mexe-se. Pediu os informes para lê-los.

Foi uma casualidade. Nesse momento, entrava uma jovem com uma bolsa de coura embaixo do braço e vestida com austeridade próxima do mau gosto. Dirigiu-se diretamente ao policial e começou a falar vorazmente em seu idioma, sem prestar atenção ao estranho, ou talvez desdenhando-o. O outro corou, oscilou de uma perna à outra, moveu uns papéis para dissimular e mostrou Maigret com um olhar. Mas ela prosseguia, sem olhar para o comissário.

Sem saber o que fazer, o holandês disse em francês, com pesar: - Ela diz que a lei se opõe a que você efetue interrogatórios em nosso território.

- É a senhorita Any?

Feições irregulares. Boca demasiado grande, com os dentes mal postos. Sem isso o resultado não seria tão desagradável. Peito chato. Pés grandes. Mas, sobretudo, a irritante segurança de uma sufragista.

- Sim. De acordo com a lei, ela tem razão. Mas eu disse que é costume...

- A senhorita Any entende francês, não é verdade?

- Creio que...

A jovem não vacilou, aguardou com o queixo erguido o final dessa conversa que parecia não lhe dizer respeito.

- Senhorita – disse Maigret, com uma galanteria exagerada – desejaria apresentar-lhe meus respeitos. Comissário Maigret, da Polícia Judiciária. Tudo o que eu queria saber é o que você pensa da senhorita Beetje Liewens e de suas relações com Cornelius.

Ela, quando tentou sorrir, só consegui emitir um forçado e tímido sorriso.

- Eu não... eu não compreender bem.

E este esforço bastou para fazê-la corar até as orelhas, enquanto pedia auxílio com o olhar.

 

        Era uma dúzia de homens, todos com pesado jaquetão de lã azul, boné de marinheiro e tamancos envernizados, uns encostados às portas da cidade, outros apoiados em postes de amarração e sustentados sobre as pernas, que as largas calças faziam parecer monumentais. Fumavam, mascavam tabaco, cuspiam amiúde e de vez em quando, uma frase os fazia rir às gargalhadas a darem palmadas nos músculos. A poucos metros deles, estavam os barcos. Atrás, a pequena cidade protegida por seus diques. Mais ao longe, uma grua descarregava carvão de um barco.

        No princípio, os homens do grupo não descobriram Maigret, que passava longe deles, e o comissário teve todo o tempo do mundo para observá-los. Sabia que em Delfzijl, chamavam a esses homens “O clube dos ratos do cais”. Sem que ninguém o informasse, adivinhou que a maioria desses marinheiros passava o dia no mesmo lugar, com chuva ou com sol, conversando com prazer e estrelando o solo com suas cuspidas. Um deles era proprietário de 3 clippers, charmosos barcos de vela e motor, quatrocentas toneladas, um dos quais estava entrando no Elms e não tardaria a chegar ao porto.

        Havia pessoas menos acomodadas; um calafete que não deveria calafetar muita coisa, e também o encarregado de uma eclusa abandonada, que vestia um boné do governo. Porém, um deles eclipsava todos os outros, não só porque era maior, mais largo, de cara mais acesa, mas também porque se notava que tinha uma personalidade mais forte. Tamancos. Jaquetão. Na cabeça, um boné novo que ainda não tivera tempo de adaptar-se à cabeça, e que, por isso, ficava ridícula.

        O tipo era Oosting, mais conhecido como Baes, e fumava um curto cachimbo de barro, enquanto escutava o que diziam os companheiros. Sorria vagamente. De vez em quando, tirava o cachimbo da boca para que o fumo escapasse suavemente dos lábios. Um pequeno paquiderme. Um bruto maciço, ainda que de olhos muito doces, algo ao mesmo tempo duro e delicado em sua pessoa.

        Seus olhos estavam fixos em um barco de uns 15 metros amarrado no cais. Um barco rápido, bem desenhado, provavelmente um antigo iate, porém sujo e em desordem. Era dele e, de onde estava, podia ver a continuação do Elms com seus 20 quilômetros de largura, o cintilar distante do Mar do Norte, e em algum lugar, uma faixa de arreia rochosa: a ilha de Workum, domínio de Oosting.

        Caía a tarde e os resplendores do por de sol avermelhavam ainda mais a cidade de tijolos e incendiavam o metal de um cargueiro em reparos, cujos reflexos se espalhavam na água da doca. O olhar de Baes, que errava suavemente sobre as coisas, conseguiu em certo momento, incluir Maigret na paisagem. As pupilas, de um azul esverdeado, eram pequenas. Permaneceram fixas no comissário, depois o homem esvaziou o cachimbo, sacudindo-o contra o tamanco, cuspiu, procurou no bolso uma bolsinha de couro com tabaco e se apoiou mais comodamente no muro. Desde esse momento, Maigret não parou de sentir sobre ele aquele olhar em que não havia ostentação nem desafio: um olhar tranquilo, porém um olhar que media, avaliava e calculava.

        O comissário havia sido o primeiro a sair da delegacia, depois de agendar um encontro com o inspetor holandês, Pijpekamp. Any ficou, mas também não demorou a passar por ele, apressada, com a bolsa debaixo do braço e o corpo um pouco inclinado para frente, como uma mulher indiferente à pressa das ruas.

        Maigret não olhou para ela, apenas para Baes, que a seguiu longo tempo com os olhos, e com a fronte mais enrugada, voltou-se depois para Maigret. Então, sem saber muito bem porque, avançou para o grupo. Os homens emudeceram e dez rostos giraram surpreendidos para ele. Dirigiu-se a Oosting:

        - Perdão. Compreende o francês?

        Baes não contestou, parecia refletir. Um marinheiro magro, perto dele, explicou em holandês:

        - Francês. Policial francês.

        Foi talvez um dos minutos mais estranhos da carreira de Maigret. Seu interlocutor, virado um instante para o barco, pareceu em dúvida. Era evidente que queria convidar o comissário a subir com ele. No barco, via-se uma pequena cabine com paredes de madeira com a lanterna e a bússola. Os outros esperavam. Abriu a boca. Logo encolheu os ombros, como que dizendo: É uma idiotice, Mas não disse. Com uma voz rouca, que saía da laringe, pronunciou:

        - No entender. Hollandsch. English.

        A silhueta negra de Any, com seu véu de luto, cruzou a ponte do canal antes de chegar à costa do Amsterdiep. Baes surpreendeu o olhar de Maigret para seu boné novo, mas não vacilou. A sombra de um sorriso passou pelos olhos. Nesse momento, o comissário teria dado o que fosse para conversar com aquele homem em seu idioma, só por cinco minutos. Sua vontade era tanta que balbuciou algumas sílabas em inglês, mas com um sotaque tão forte que o outro não entendeu.

        - No entender! Nadie entender! – repetiu o homem que tentara intervir antes.

        Os homens recomeçaram suas conversas enquanto Maigret se afastava. Confusamente, sentia que acabava de roçar o coração do mistério e que, devido à impossibilidade de entender-s mutuamente, se afastava dele. Ao fim de alguns minutos, voltou-se. O grupo dos Ratos do Cais seguia conversando à luz do crepúsculo e os últimos raios de sol avermelhavam a grossa face de Baes, que não deixava de olhar para o policial.

        Até esse momento, Maigret, de certo modo, havia dado voltas ao redor do crime, deixando para o final a visita, sempre penosa, a uma casa enlutada. Chamou. Eram algo mais que seis horas. Não tinha se dado conta que era a hora em que os holandeses costumam cear, e quando a empregada abriu a porta, a sala de jantar mostrou duas mulheres sentadas à mesa. Levantaram-se rapidamente e um pouco rígidas, como colegiais bem ensinadas.

        Vestiam de preto, dos pés à cabeça. Na mesa havia chá, finíssimas fatias de pão e frios. Apesar do crepúsculo, a lâmpada ainda não estava acesa, porém uma estufa a gás, na qual de via o fogo através das abertura, as iluminava.

        Any logo procurou o interruptor da luz, enquanto a empregada corria as cortinas.

        - Desculpem-me, por favor – disse Maigret – sobretudo, por chegar na hora da ceia.

        A senhora Popinga, com um estranho gesto, mostrou-lhe uma poltrona e olhou ao seu redor com certo mal-estar, enquanto sua irmã se retirava para outro lado da sala.

        Era, praticamente, o mesmo ambiente da granja: móveis modernos, mas muito discretos, tons apagados em uma harmonia distinta e triste.

        - Você veio para...

        O lábio inferior da senhora Popinga levantou-se ligeiramente e ela precisou levar o lenço à boca para reprimir um soluço que estalou de repente. Any não se moveu.

        - Desculpe-me, voltarei depois – lhe disse Maigret.

        Ela, tratando de recuperar a compostura, disse-lhe que não. Devia ter alguns anos mais do que a irmã. Era de compleição grande e mais feminina do que Any. De feições regulares, tinha marcas de acne nas bochechas e dois ou três fios de cabelos grisalhos.

        Todos os seus gestos revelavam uma discreta distinção. Maigret recordou que era filha do diretor de um instituto, que falava corretamente vários idiomas e que era muito instruída. Mas isso não a impedia de ser tímida, com a típica timidez burguesa de uma cidade pequena, que se assusta por qualquer coisa.

        Recordou também que pertencia a uma das mais austeras seitas protestantes e qu presidia a maioria das associações beneficentes de e os círculos intelectuais femininos de Delfzijl.

        Consegui dominar-se. Olhava para a irmã como a pedir ajuda.

        - Sinto muito! Não parece inacreditável? Conrad, um homem de quem todo mundo gostava... Em um momento, seu olhar bateu numa caixa de som do radio e esteve a ponto de chora de novo. – Era sua única distração – balbuciou. - E o bote, no verão, pela tarde, em Amsterdiep. Trabalhava muito. Quem poderia ter feito isto?

        Ao ver que Maigret ficava calado, continuou num tom ainda mais doce, como se a atacassem e precisasse defender-se:

        - Não acuso ninguém. Não sei. Eu não quero acreditar, entende? Foi a polícia que pensou em Duclos, porque saiu com o revólver na mão. Eu não sei nada. É demasiado horrível. Alguém matou Conrad. Por quê? Por que ele? Nem sequer foi para roubar. Então...

        - Você contou para a polícia o que viu pela janela.

        Ela corou mais uma vez. Seguia de pé, com a mão apoiada na mesa.

        - Não sabia se devia fazê-lo. Acredito que Beetje não fez nada, mas casualmente a vi. Disseram-me que qualquer detalhe, por pequeno que fosse, podia servir para a investigação. Me aconselhei com o pastor e ele me disse que devia falar. Beetje é uma boa menina. Realmente, não me ocorre quem... Sem dúvida, foi alguém que deveria estar em um manicômio. – Não lhe custava encontrar as palavras. Seu francês era perfeito, matizado por um sotaque muito leve. – Any me die que você veio expressamente de Paris para investigar o assassinato de Conrad. Isso é verdade?

        Estava mais tranquila. A irmã não se movia do lugar e Maigret só a via, parcialmente, graças ao espelho.

        - Quer conhecer a casa, não é verdade? – Parecia resignada. Suspirou. Se importaria de ir... com Any?

        Um traje negro passou pelo comissário. Seguiu-a por uma escada adornada com um tapete que parecia recém comprado. A casa, bonita, e que não teria uns dez anos, era construída com materiais leves, tijolos abertos e madeira. As pinturas que recobriam os revestimentos de madeira davam frescura ao conjunto.

        Abriram primeiro a porta do banheiro. A tábua de madeira se achava sobre a banheira, convertida em tábua de passar. Maigret chegou até à janela, viu a cobertura das bicicletas, a horta bem cuidada e, mais além dos campos, a cidade de Delfzijl, onde poucas casas tinham andar térreo e um primeiro piso, e nenhuma tinha dois pisos.

        Any esperava na porta.

        - Parece que você está investigando por sua conta? – disse Maigret.

        Ela, ainda que sobressaltada, não contestou e se apressou a abrir a porta do quarto do professor Duclos.

        Leito de metal. Roupeiro de madeira de pinho. Linóleo no assoalho.

        - De quem era antes este quarto?

        Ela teve que fazer um esforço para articular: - Meu, quando vinha.

        - Vinha muito seguido?

        - Sim, eu...

        Sua perturbação devia-se á timidez. Os sons morriam na garganta. Seu olhar buscava auxílio.

        - Então, como o professor estava aqui, você dormiu no escritório de seu cunhado, não é assim?

        Ela assentiu com a porta aberta. Havia uma mesa cheia de livros; entre outros, estudos recentes sobre compassos giroscópicos e sobre pilotagem de barcos através de ondas hertzianas. Uns sextantes. Na parede, havia fotos de Conrad Popinga na Ásia, na África, com o uniforme de primeiro tenente         ou de capitão. Uma panóplia de armas malaias. Esmaltes japoneses. Em cima de cavaletes, alguns instrumentos de precisão e uma bússola desmontada, que Popinga devia estar consertando.

        Um sofá forrado em tecido azul.

        - Onde é o dormitório de sua irmã?

        - Ao lado.

        O escritório tinha comunicação com o quarto do professor e com o dormitório dos Popinga, mas esse estava decorado com mais cuidado. Uma lâmpada de alabastro na cabeceira da cama. Um tapete persa muito bonito. Móveis de madeira das ilhas.

        - Você estava no escritório – disse pensativamente Maigret.

        Gesto afirmativo.

        - Então, não poda sair sem passar pelo quarto do professor ou pelo de sua irmã.

        Novo gesto.

        - O professor estava em seu quarto e sua irmã, também.

        Ela abriu desmesuradamente os olhos e a boca, como se estivesse estupefata.

        - Você acredita que...

        Maigret recorreu os três quartos resmungando: - Eu não acredito em nada! Procuro. Descarto! E, até o momento, você é a única que pode ser logicamente eliminada, a não ser que o professor Duclos ou a senhora Popinga sejam seus cúmplices.

        - Você... você...

        Mas ele continuava falando para si mesmo: - É evidente que Duclos pôde disparar do quarto e também do banheiro. A senhora Popinga também poderia entrar no banheiro. Mas, o professor, que entrou imediatamente após o disparo, não a viu lá. Ao contrário, viu-a sair de seu quarto uns segundos depois.

        Não estava Any perdendo algo de sua timidez? Graças a esta exposição técnica, a estudante prevalecia sobre a jovem.

        - Poderiam ter disparado do andar de baixo – apontou ela, com um olhar mais agudo e seu corpo delgado completamente erguido. – O doutor disse...

        - O revólver que matou seu cunhado é o mesmo que Duclos tinha na mão. Talvez o assassino o tenha atirado ao primeiro piso pela janela.

        - Porque não?

        - Evidentemente, porque não?

        E, sem esperar, desceu a escada, que parecia muito estreita para ele, e cujos degraus rangiam sob seu peso. Encontrou a senhora Popinga de pé, no salão, quase no mesmo lugar em que a havia deixado. Any o seguia.

        - Cornelius vinha com frequencia?

        - Quase todos os dias. Tinha aula 3 vezes por semana, segundas, quintas e sábados. Mas nos outros dias também vinha. Seus pais vivem na Índia. Faz um mês que soube que sua mãe havia morrido, e estava enterrada quando recebeu a carta. Então...

        - E Beetje Liewens?

        A pergunta provocou certo mal estar. A senhora Popinga olhou para Any, e esta baixou os olhos.

        - Vinha...

        - Com frequencia?

        - Sim.

        - Convidada?

        A atmosfera ia se fazendo mais aguda, mais precisa. Maigret notava que avançava, senão no descobrimento da verdade, mas pelo menos na compreensão da vida na casa.

        - Não... sim.

        - Entendo que Beetje não se parece muito com você, Any.

        - Beetje é muito jovem. Seu pai era amigo de Conrad. E ela nos trazia maçãs, framboesas, queijo fresco...

        - Estava apaixonada por Cor?

        - Não!

        A negação era categórica.

        - Você não gostava muito dela, não é verdade?

        - Por que não? Vinha, ria, não parava de falar... como um passarinho, entende?

        - Você conhece Oosting?

        - Sim.

        - Era conhecido de seu marido?

        - No ano passado, Oosting quis colocar um motor novo em seu barco e pediu conselhos a Conrad. Conrad fez as plantas. Foram pescar o “zeehond”, como o chamam vocês? O cação, sim, o cação, nos bancos de areia. De repente, perguntou: - Você acredita que... O boné, talvez? É impossível. Oosting! – E gemeu, de novo alterada. – Oosting também não. Não! Ninguém! Ninguém pode ter matado Conrad. Você não conheceu meu marido. Ele... ele...

        Começou a chorar e desviou a cabeça. Maigret preferiu retirar-se. Não lhe ofereceram a mão, limitando-se a murmurar desculpas.

        Fora, se surpreendeu com a frescura úmida que chegava do canal. Na outra margem, não muito longe do estaleiro de reparação de barcos, descobriu Baes, conversando com um jovem aluno da Escola Naval.

        Ambos estavam de pé e suas silhuetas se recortavam no crepúsculo. Oosting parecia falar energicamente. O jovem, uniformizado, baixava a cabeça, e só se via a palidez de seu rosto. Maigret supôs que o jovem era Cornelius. E estava seguro disso quando viu o bracelete negro em torna da manga de tecido azul.

 

        Não foi uma consequência, no sentido estrito da palavra. Em todo caso, Maigret não teve, em momento algum, a sensação de que alguém espiava. Havia saído da casa dos Popinga. Havia caminhado uns passos. Havia descoberto dois homens do outro lado do canal e se deteve a observá-los. Não se escondia. Estava de pé, na beira da água, com cachimbo entre os dentes e com as mãos no bolso.

        Talvez porque ele não se escondia, e talvez porque os outros também não o haviam visto e prosseguiam sua apaixonada conversação, esse instante teve algo de emocionante. A margem do canal sobre a qual os dois homens estava deserta. Um telhado se levantava no meio do estaleiro em que um dos barcos descansava sobre tábuas. Alguns botes estavam fora da água. Finalmente, sobre o próprio canal, os troncos de árvore que só deixavam de fora um ou dois metros da superfície da água, davam à paisagem um toque exótico.

        Já era tarde. Reinava uma semi-obscuridade e o ar límpido mantinha as cores em toda a sua pureza. A calma era tão intensa que fazia o ar parecer pesado, e o grasnido de uma rã, num charco ao longe, provocava sobressaltos.

        Baes falava. Não levantava a voz, mas notava-se que punha ênfase em cada sílaba, que queria ser compreendido ou obedecido. Cabisbaixo, o jovem de uniforme escutava; suas luvas brancas introduziam manchas claras, as únicas, na paisagem.

        De repente, ouviu-se um grito agudo; um asno começou a zurrar no prado, atrás de Maigret. E isso bastou para romper o feitiço do momento. Oosting olhou na direção do animal, enfadado com o céu, descobriu Maigret e olhou para ele sem duvidar. Disse umas palavras mais a seu companheiro, afundou o pequeno cachimbo de barro na boca e se dirigiu para a cidade.

        Isso não significava nada, nem tampouco demonstrava nada. Maigret começou a andar, por sua vez, e os dois avançaram juntos, cada um por uma margem do canal. Porém, o caminho de Oosting se afastava da ribeira. Baes não tardou em desaparecer atrás dos telhados. Durante quase um minuto, ainda se escutava o surdo martelar dos tamancos.

        Já havia escurecido, sobrava apenas um halo imperceptível. As luzes acabavam de acender-se na cidade e também ao longo do canal, onde a iluminação terminava depois da casa dos Wienands. A outra margem, desabitada, permanecia nas sombras. Maigret voltou-se, sem saber porque. Resmungou ao ouvir que o asno lançava um novo e desesperado grito. E, ao longe, além das casas, viu duas manchinhas brancas que balançavam em cima do canal. Eram as luvas de Cornelius.

        Para quem não estivesse atento e, sobretudo, se esquecesse que os troncos ocupavam quase toda a superfície da água, o espetáculo era quase sobrenatural: mãos que se agitavam no vazio; um corpo que se confundia com a noite; e na água, o reflexo da última lâmpada elétrica.

        Já não se ouviam os passos de Oosting. Maigret dirigiu-se até as últimas casas da cidade. Passou de novo pela casa dos Popinga, e depois, pela frente da casa dos Wienands. Não se escondia muito, também porque sabia que devia confundir-se com a noite. Não perdia de vista as luvas. E entendia que Cornelius, para não ter que chegar a Delfzijl onde uma ponte cruzava o canal, atravessava a água caminhando sobre os troncos que formavam uma balsa. No meio, devia dar um salto de dois metros. As mãos brancas se agitaram mais, descreveram um rápido semicírculo e se ouviu o barulho na água. Segundos depois, caminhava pela margem; Maigret a menos de cem metros, o seguia.

        Não se apercebiam dos movimentos um do outro. E, além disso, Cornelius não parecia perceber a presença do comissário. Enquanto marchavam no mesmo compasso, até os ruídos do caminho se confundiam. Maigret deu-se conta disso, porque, em determinado momento, seu pé tropeçou e o sincronismo deixou de ser perfeito por um décimo de segundo. Não sabia aonde ia. E, talvez, seu passo se fazia mais rápido. Mais ainda: pouco a pouco via-se arrastado por uma espécie de vertigem. No começo, os passos eram regulares. Logo se aceleraram. E se precipitavam.

        No exato momento em que Cornelius passava diante do depósito de madeira, estalou um autêntico concerto de rãs e ele parou em seco. Estaria com medo? Continuou a caminhar, porém de forma mais irregular, às vezes vacilante, outras, pelo contrário, com dois ou três passos tão rápidos que se podia dizer que corria. Então, acabou o silêncio, porque o coro de rãs não cessou. Enchia toda a noite. E o passo se acelerava. O fenômeno prosseguia: Maigret, à força de acompanhar o ritmo do rapaz, sentia “literalmente” seu estado de ânimo. Cornelius estava com medo! Caminhava depressa porque tinha medo. Tinha pressa para chegar. Porém, quando passava próximo de uma sombra de contornos estranhos, um monte de madeira, um tronco seco, um arbusto, seu pé se detinha no ar um décimo de segundo mais.

        O canal fazia uma curva. Cem metros além, em direção à granja, abria-se um pequeno espaço iluminado pelos raios do farol. O jovem pareceu tropeçar com a luz. Voltou-se. Atravessou correndo e de novo se voltou. Depois que a havia ultrapassado, continuou voltando-se enquanto Maigret entrava tranquilamente na zona luminosa, com toda a sua largura, com todo o seu volume, com todo o seu peso.

        O outro devia vê-lo. Parou. O tempo de recuperar o fôlego. Arrancou, de novo. A luz chegava às suas costas. Adiante, tinham uma janela iluminada: a da granja. O canto das rãs os acompanhavam. Por muito que se afastassem, seguiam próximos. Parecia que centenas de animais os rodeavam.

        Parou brusca e definitivamente, a cem metros da casa. Uma silhueta se separou do tronco de uma árvore. Uma voz cochichou.

        Maigret não queria retroceder. Teria sido ridículo. Não queria esconder-se. Ademais, era demasiado tarde: já havia cruzado a zona iluminada pelo farol. Sabiam que estava ali. Seguiu, avançando lentamente, desconcertado por já não ter outro passo para acompanhar o seu.

        A escuridão era muito densa devido às árvores de espessa folhagem que havia em ambos os lados do caminho. Porém, via-se uma luva branca em cima de alguma coisa. Um abraço. A mão de Cornelius nas costas de uma jovem, de Beetje.

        No máximo, restavam uns 50 metros mais. Maigret fez uma pausa, sacou fósforos do bolso e acendeu o cachimbo, assinalando sua posição exata. Depois, se aproximou. Os namorados se moviam. Quando estava a apenas dez metros, destacou-se a silhueta de Beetje, que se plantou no meio do caminho, com o rosto voltado para ele, como que para esperá-lo. E Cornelius continuava encostado ao tronco da árvore. Oito metros.

        Detrás deles, a janela continuava iluminada: um simples retângulo avermelhado.

        De repente, ouviu-se um pequeno grito, indescritível, um grito de medo, de nervosismo, um desses gritos que precedem os soluços e as lágrimas, como uma mola. Cornelius chorava com a cabeça entre as mãos, encostado na árvore, como para proteger-se.

        Beetje estava na frente de Maigret. Estava coberta com um abrigo, mas Maigret viu que por baixo estava de camisola, com as pernas nuas e os pés calçados com sapatilhas.

        - Não lhe dê atenção.

        Estava tranquila. Dirigiu, inclusive, um olhar de reproche e também de impaciência a Cornelius. Este, lhe dava as costas. Tentava acalmar-se. Mas, como não conseguia, tinha vergonha.

        - Está nervoso... acredita...

        - Acredita em quê?

        - Que vão acusá-lo.

        O jovem não se aproximou. Secou os olhos. Acaso pensava em escapar, sair correndo?

        - Ainda não o acusaram de nada – exclamou Maigret para dizer alguma coisa.

        - Verdade que não?

        E, virada para o companheiro, falou-lhe em holandês. Maigret pensou entender, ou melhor adivinhar: - Vês, o comissário não te acusa. Tens que acalmar-te. Não sejas infantil. Porém, ela calou-se subitamente. Permaneceu imóvel, atenta. Maigret não havia ouvido nada. Ao cabo de alguns segundos, também ele pareceu ouvir ruídos na granja.

        Isso bastou para reanimar Cornelius, que olhou ao redor, com as feições tensas e os sentidos alertas. Ninguém falava.

        - Ouviu? – sussurrou Beetje.

        O jovem, com a coragem de um galinho, quis aproximar-se do lugar de onde procedia o ruído. Respirava ruidosamente. Demasiado tarde. O inimigo estava muito mais perto do que haviam suposto. A dez metros, levantava-se uma silhueta identificável, à primeira vista, como o granjeiro Liewens, de chinelos.

        - Beetje! – chamou

        Ela não se atreveu a responder imediatamente. Mas quando ele repetiu seu nome, suspirou temerosa: - Já!

        Liewens continuou a aproximar-se. Passou primeiro diante de Cornelius, mas fingiu não vê-lo. Acaso não teria visto Maigret?

        O caso é que se plantou diante dele, com um olhar duro, as aletas do nariz tremendo de raiva. Continha-se. Permanecia rigorosamente imóvel. Quando falou, dirigiu-se à sua filha e sua voz soou a um tempo incisiva e amortizada. Duas ou três frases. Ela escutava, cabisbaixa. Então, ele repetiu várias vezes a mesma palavra em um tom imperioso e Beetje explicou em francês:

        - Quer que lhe diga...

        O pai espiava, como se para ver se ela traduzia exatamente suas palavras.

        -... que na Holanda, os policiais não interrogam as moças à noite, no campo.

        Maigret corou, como poucas vezes lhe havia ocorrido. Uma golfada de sangue quente fez zumbir seus ouvidos. A acusação era tão estúpida que revelava má fé. Ao fim e ao cabo, Cornelius estava ali, agachado na escuridão, com os olhos inquietos e os ombros encolhidos. E o pai, de qualquer modo, devia saber perfeitamente que Beetje havia saído para encontrar-se com ele. Então, o que responder? Além do mais, tinha que falar através de uma tradutora.

Por outro lado, Liewens não parecia esperar resposta alguma. O fazendeiro esfregou os dedos como para chamar um cão e mostrou o caminho para a filha; ela ficou em dúvida, voltou-se para Maigret e, sem se atrever a olhar para o namorado, caminhou finalmente na frente do pai.

Cornelius não se havia mexido. Porém, levantou a mão, talvez para deter o homem, quando passou a seu lado, mas a deixou cair. O pai e a filha se afastaram. Pouco depois, a porta bateu em casa.

Acaso as rãs haviam emudecido durante esta cena? Era impossível afirmar, mas seu concerto era agora um estrondo ensurdecedor.

- Fala francês?

Cornelius não respondeu.

- Fala francês?

- Um pouquinho.

Olhava com rancor para Maigret, falava de má vontade e mantinha-se de lado, como para oferecer menos superfície para um ataque.

- Porque tem tanto medo?

Brotaram lágrimas, porém nenhum soluço. Cornelius não reagiu a princípio. Tremiam-lhe as mãos. Parecia a ponto de sofrer outra crise.

- Teme realmente que o acusem de matar seu professor? E Maigret acrescentou, bruscamente: Vamos!

Empurrou-o em direção à cidade. Falou extensamente, porque se dava conta de que seu interlocutor não entendia a metade de suas palavras.

- Tem medo só por você?

Era uma criança. O rosto, magro, com os traços pouco definidos, estava pálido. Os ombros pareciam ainda mais estreitos no uniforme apertado. O boné de guarda-marinha reforçava a idéia de um menino vestido de marinheiro. E, em todos os seus gestos, na expressão do rosto, o que se lia era desconfiança. Se Maigret levantasse a voz, sem dúvida, ele teria levantado os braços para proteger-se dos golpes. O bracelete negro juntava uma nota severa e lastimável. Por acaso, não fazia apenas um mês que soubera da morte da mãe, talvez no mesmo dia em que estava muito feliz em Delfzijl, ou talvez no dia do baile anual da escola?

Voltaria para casa dentro de dois anos, com o grau de terceiro oficial e o pai o acompanharia até um túmulo já descuidado e o apresentaria a outra mulher instalada na casa. E a vida recomeçaria em um grande vapor: as horas de guarda, as escalas, Java-Rotterdam, Rotterdam-Java, dois dias aqui, cinco ou seis horas lá...

- Onde estava no momento em que mataram o professor?

Brotou o soluço, terrível e assustador. O menino agarrou as roupas de Maigret com suas luvas enluvadas de branco, que tremiam convulsivamente.

- Não é verdade! Não é verdade! – repetiu pelo menos dez vezes. “Nein”! Você não entender? No! Não é verdade!

Tropeçaram, de novo, com o pincel luminoso do farol. A luz os cegava, os esculpia acentuando os detalhes.

- Onde você estava?

- Por aí.

Por ai era a casa dos Popinga, o canal, que devia cruzar, saltando de tronco em tronco. Este detalhe era importante. Popinga havia sido morto às doze menos cinco. Cornelius havia voltado ao seu navio exatamente às doze e cinco. Mas, para percorrer o caminho pelo trajeto normal, quer dizer, pela cidade, eram necessários uns trinta minutos. Mas unicamente uns seis ou sete atravessando o canal dessa maneira e evitando dar a volta.

Maigret caminhava, pesado e lento, ao lado do jovem; este tremia como uma folha e, no momento em que soou, mais uma vez, o grito do asno, estremeceu dos pés à cabeça, como e estivesse a ponto de fugir.

- Gostas de Beetje?

Silêncio obstinado.

- Viste quando ela regressou depos que Popinga a havia acompanhado?

- Isso não é certo! Não é certo! Não é certo!

Maigret esteve a ponto de acalmá-lo com um bom empurrão. Entretanto, controlou-se e deu-lhe uma olhada indulgente, talvez até afetuosa.

- Vê Beetje todos os dias?

Novo silêncio.

- A que horas tens que regressar para o barco escola?

- Dez. Senão. Só com permissão... Quando ia à casa do professor... eu podia...

- Regressar mais tarde. Então, esta noite, não.

Estavam na margem do canal, no mesmo lugar onde Cornelius havia cruzado antes. Maigret, com absoluta naturalidade, dirigiu-se até os troncos, pôs o pé sobre um deles e esteve a ponto de cair, porque não estava acostumado com piruetas e a madeira resvalava debaixo de seus pés.

Cornelius titubeava.

- Corre! Já vão ser dez horas!

O menino assustou-se. Devia estar pensando que não voltaria a ver o barco escola, que seria detido, que iriam metê-lo na cadeia. Pelo contrário, o terrível inspetor Maigret o acompanhava, tomava impulso, como ele, para saltar dois metros de água, no centro do canal. Salpicaram-se mutuamente. Na outra margem, Maigret parou para secar-se na calça.

- Onde está o barco?

Ainda não havia caminhado por este lado do canal. Entre o Amsterdiep e o novo canal, largo e profundo, acessível aos grandes navios, havia anda um grande solar.

Ao voltar-se, o comissário descobriu uma janela iluminada no primeiro andar da casa dos Popinga. Uma silhueta, a de Any, movia-se atrás da cortina. Era o escritório de Popinga. Mas não era possível adivinhar em que tarefa a jovem advogada estava ocupada.

Cornelius tinha se acalmado um pouco.

- Juro... – começou a dizer.

- Não!

Isso o desarmou. Olhou seu companheiro tão assustado que Maigret lhe bateu no ombro dizendo: - Não jure nunca. E menos ainda nessa situação. Casaria com Beetje?

- Já! Já!

- O pai de Beetje aceitaria?

Silêncio. Cabisbaixo, Cornelius seguia caminhando entre os velhos barcos postos a secar e que obstruíam o terreno. Divisaram a ampla superfície do Elms-Canal. Em um recorte do canal, levantava-se um grande barco preto e branco, com todas as escotilhas iluminadas. Uma proa muito alta. Um mastro e suas vergas.

Era um velho navio da Marinha de Guerra holandesa, de cem anos de idade e incapaz agora de navegar, que haviam ancorado ali para abrigar os alunos da Escola Naval. Aqui e ali, figuras obscuras e brilho de cigarros. O som de um piano vindo da sala de jogos. De repente, soou no ar uma campainha, enquanto todas as figuras dispersas pelo cais agruparam-se num enxame diante da passarela; de mais distantes, pelo caminho que levava à cidade, chegaram correndo quatro retardatários.

Uma autêntica volta às aulas, ainda que todos esses jovens, de 16 a 22 anos, vestissem uniforme da Marinha, luvas brancas e rígido boné com galões dourados. Um velho cabo da Marinha, encostado na borda, via-os desfilar, um a um, fumando seu cachimbo.

Tudo vibrava, juvenil e alegre. Trocavam brincadeiras que Maigret não conseguia entender. Os cigarros eram jogados no momento de atravessar a passarela. E, uma vez todos à bordo, prosseguiam as correrias e os simulacros de lutas. Os retardatários, arquejantes, alcançaram a passarela. Cornelius, com as feições tensas, os olhos vermelhos e o olhar febril, virou-se para Maigret.

- Corre, vamos! – disse ele.

O outro entendeu melhor o gesto do que as palavras; levou a mão ao boné, esboçou toscamente uma saudação militar e abriu a boca para falar.

- Está bem. Apressa-te – disse Maigret, porque o cabo da Marinha dispunha-se a ir embora e um aluno ocupou o posto de guarda.

Através das escotilhas, via-se os alunos despregando suas redes e atirando suas roupas despreocupadamente. Maigret não saiu do lugar até ver como Cornelius entrava na câmara, tímido, incomodado, com o corpo de lado, e recebia uma almofada em pleno rosto, dirigindo-se a uma das redes do fundo.

Outra cena, porém de cor mais carregada estava a ponto de começar. O comissário ainda não tinha dado dez passos em direção à cidade quando descobriu Oosting, que como ele, tinha vindo presenciar o retorno dos alunos.

Eram dois homens já maduros, ambos gordos, pesados e tranquilos. Não faziam papel ridículo indo ver uns meninos que montavam suas redes e se jogavam almofadas? Não eram como gordas galinhas, vigiando um pintinho atrevido?

Olharam-se. Baes não falou, porém tocou a borda do boné. Sabiam de antemão que entre eles era impossível qualquer conversa, uma vez que não falavam o mesmo idioma.

- Goed avond – resmungou o homem de Workum.

- Boa noite – exclamou Maigret, como se fosse um eco.

Seguiam o mesmo rumo, um caminho que ao cabo de duzentos metros convertia-se numa rua, entrando na cidade. Caminhavam os dois, mais ou menos a mesma altura. Para separar-se, um deles teria que reduzir sensivelmente o passo e nenhum deles queria fazê-lo. Oosting calçava tamancos. Maigret ia com traje de cidade. Fumavam cachimbo, os dois, com a única diferença de que o de Maigret era de urze e o de Baes era de barro.

A terceira casa pela qual passaram era um café. Oosting entrou depois de sacudir os tamancos e deixá-los sobre o capacho, de acordo com a tradição holandesa. Maigret só pensou um segundo e entrou, por sua vez.

Havia uma dúzia de marinheiros ao redor da mesma mesa, fumando cachimbos ou cigarros e bebendo cerveja ou genebra. Oostinga apertou algumas mãos, descobriu uma cadeira vazia em que sentou-se pesadamente e atentou para a conversa generalizada.

Maigret instalou-se à parte, não sem notar que, na realidade, a atenção da clientela estava na sua pessoa. O dono, que estava no grupo, aguardou uns instantes antes de ir perguntar o que queria beber. A genebra verteu de um recipiente de porcelana e cobre. E esse cheiro de genebra que reinava ali, como em todos os cafés holandeses, fazia sua atmosfera muito diferente de um café francês.

Os olhinhos de Oosting riam-se cada vez que se fixavam no comissário. Este estirou as pernas, meteu-as embaixo da cadeira, estirou-as de novo, e quando, para fazer algo, acendeu o cachimbo, o dono levantou-se expressamente para oferecer-lhe fogo.

- Moie er!

Maigret não entendia. Franziu as sobrancelhas e pediu que repetisse.

- Moie er, ja! Oost vind.

Os outros escutavam e se davam cotoveladas. Um lhe mostrou a janela e o céu estrelado.

- Moie er! Bom tempo! E tratou de explicar que o vento vinha de leste, o que era perfeito.

Oosting escolhia dentre os charutos de uma caixa. Removeu cinco ou seis que haviam deixado na frente dele, tomou um Manila negro como um carvão e cuspiu a ponta no chão, antes de acendê-lo. Depois mostrou o boné novo aos companheiros.

- Vier gulden.

Quatro florins! Quarenta francos! Seus olhos continuavam rindo.

Entrou alguém que abriu um jornal e falou dos últimos custos do frete na bolsa de Amsterdam. E durante a animada conversação que seguiu, muito parecida com uma briga, por causa das vozes sonoras e da dureza das sílabas, esqueceram Maigret, que tirou uma moedinha de prata do bolso e foi deitar-se no hotel Van Hasselt.

 

        Durante o café do hotel Van Hasselt, onde, na manhã seguinte, tomava o desjejum, Maigret assistiu a um fato do qual ele não havia sido informado. Até porque, até agora, só havia conversado dois minutos com a polícia holandesa. Deviam ser oito da manhã. A bruma não havia se dissipado de todo, mas por trás dela se ocultava o sol de um lindo dia. Um navio de carga finlandês saía do porto arrastado por um rebocador.

        Diante de um pequeno café, na esquina do cais, havia uma grande concentração de homens, todos eles com tamancos e bonés de marinheiro e que discutiam em pequenos grupos. Era a bolsa de trabalho dos “schippers”, os marinheiros cujos barcos de todos os modelos e um formigueiro de mulheres e crianças, chegavam a uma doca no cais do porto.

        Mais adiante, descobriu outro grupo menos numeroso, um punhado de homens do Clube dos Ratos do Cais.

Então, chegaram dois policiais de uniforme. Subiram à coberta do barco de Oosting e este saiu pela escotilha porque, quando estava em Delfzijl, sempre dormia a bordo. Chegou também um policial à paisana: o inspetor Pijpekamp, que dirigia a operação. Tirou o chapéu e falou cortesmente. Os dois policiais desapareceram no interior do barco. Começou a inspeção. Todos os “schippers” tinham se dado conta do que acontecia. E, no entanto, não se notou a menor aglomeração nem se viu um só gesto de curiosidade.

O Clube dos Ratos do Cais não manifestava maior inquietude. No máximo, alguns olhares. A inspeção durou mais de meia hora. Os policiais, ao sair, fizeram uma saudação militar, e o senhor Pijpekamp pareceu desculpar-se.

Naquela manhã. Porém, Baes não tinha vontade de descer à terra. Em lugar de aproximar-se do grupo de amigos, reunidos pouco além, sentou-se no banco de guarda, com as pernas cruzadas e olhou para alto mar, onde o navio de carga finlandês evoluía lentamente, e ficou imóvel, fumando seu cachimbo.

Quando Maigret se virou, Jean Duclos descia do quarto; nos braços levava uma bolsa, livros e documentos, que deixou sobre a mesa que havia reservado. Sem cumprimentar Maigret, perguntou:

- Que foi?

- Enfim, acredito que lhe desejarei que passe um bom dia.

O outro o olhou com certa surpresa e encolheu os ombros, como para expressar que não valia a pena ofender-se.

- Você descobriu alguma coisa?

- E você?

- Sabe perfeitamente que, em princípio, não estou autorizado a sair daqui. Afortunadamente, seu colega holandês entendeu que meus conhecimentos podiam lhe ser úteis e me mantém ao corrente dos resultados da investigação. É uma prática em que poderia inspirar-se a polícia francesa.

- Pois claro!

O professor precipitou-se para a senhora Van Hasselt, que entrava neste instante com o cabelo preso com grampos e a cumprimentou como teria feito em um salão, perguntando-lhe como tina passado de saúde.

Maigret, por sua parte, olhava os papéis que o outro havia deixado sobre a mesa e descobriu novas plantas e esquemas, não só da casa dos Popinga, mas também de quase toda a cidade, com linhas pontilhadas que deviam representar o caminho seguido por determinadas pessoas.

O sol, que atravessava as vidraças multicoloridas das janelas, enchia de luzes verdes, vermelhas e azuis, os tabiques envernizados da sala. Um caminhão de cerveja se deteve diante da porta e, enquanto se desenrolava a conversa, dois colossos não cessaram de fazer rolar os tonéis pelo chão, vigiados pela senhora Hasselt, vestida com certo descuido. Jamais o cheiro da genebra e da cerveja havia sido tão forte. Maigret, entretanto, jamais havia se sentido tanto na Holanda.

- Já descobriu o culpado? – disse o comissário meio de brincadeira, meio a sério, mostrando os documentos.

Um olhar vivaz e agudo de Duclos. E a réplica:

- Começo a acreditar que os estrangeiros têm razão! O francês é, fundamentalmente, um homem que não pode renunciar à ironia. Neste caso, muito inutilmente, cavalheiro!

Maigret o olhava sorridente e nada alterado. E o outro prosseguiu:

- Não descobri o assassino, não! Talvez tenha feito algo mais. Analisei o crime. Eu o dissequei. Isolei todos os seus elementos e agora...

- Agora?

- Sem dúvida, alguém como você, aproveitando minhas deduções, encerrará o caso.

Sentou-se. Estava absolutamente decidido a falar, inclusive no ambiente que ele mesmo havia tomado como hostil. Maigret instalou-se diante dele e pediu um copo de Bols.

- Estou escutando.

- Observe, em primeiro lugar, que não lhe pergunto o que você tem feito nem o que acha. Passo ao primeiro assassino possível, ou seja, a mim mesmo. Se me permite dizê-lo. Eu ocupava a melhor posição para matar Popinga e, além disso, viram-me com a arma do crime nas mãos uns instantes depois do atentado. Não sou rico, mas sou conhecido no mundo inteiro, ou quase, por um pequeno número de intelectuais. Levo uma vida difícil e medíocre. Mas não houve roubo, e de nenhum modo, eu poderia esperar algum benefício da morte do professor. Alto aí! Isso não quer dizer que não se podem apresentar fatos contra mim. E não faltará quem recorde que, no transcurso da noite, quando discutíamos sobre criminologia, defendi a tese de que um homem inteligente que comete um crime, se tem sangue frio e utiliza todas as suas faculdades, pode fazer frente a um policial mal instruído. Algumas pessoas podem deduzir disso que eu quis ilustrar minha teoria com um exemplo. Entre nós, direi que, e houvesse sido assim, a possibilidade de que viessem a suspeitar de mim nem sequer teria existido.

- À sua saúde! – disse Maigret, que seguia as idas e vindas dos cervejeiros de pescoço de touro.

- Prossigo. Acrescentarei que, se eu não cometi este crime, e se de todo modo temos que supor que o cometeu alguém que estava na casa, posso deduzir que toda a família é suspeita. Não se surpreenda. Atente para esta planta e, sobretudo, tente compreender as considerações psicológicas que vou demonstrar.

Desta vez, Maigret não pode evitar um sorriso ao ver a atitude condescendente do professor.

- Você terá ouvido, sem dúvida, que a senhora Popinga, em solteira Van Elst, pertence a um dos ramos mais severos da igreja protestante. Seu pai, em Amsterdam, tem fama de ser um feroz conservador. E sua irmã, Any, aos 25 anos, já faz política, trabalhando com as mesmas idéias...

- Você só está aqui a alguns dias, e há muitos costumes morais que ainda não conhece. Por exemplo, sabe que um professor da Escola Naval levaria uma severa reprimenda de seus superiores se o vissem entra num café como este? Um deles foi expulso só porque teimava em receber um jornal com fama de “avançado”. Eu vi Popinga uma única noite. E essa noite me bastou, sobretudo depois de ouvir falar dele. Você o chamaria de um bom rapaz. Inclusive, de um excelente rapaz. Rosto corado, olhos claros, alegres... o caso é que havia viajado como marinheiro e, quando regressou, vestiu uma espécie de uniforme de austeridade. Mas o uniforme estalava em todas as suas costuras. Entende? Sim, já que você só faz sorrir. Um sorriso de francês.

- Faz quinze dias, celebrou-se a reunião anual do clube a que pertencia. Os holandeses que não vão ao café encontram-se, com pretexto de clube, em uma sala reservada para eles, e jogam bilhar ou boliche. Pois bem, há 15 dias, Popinga às 11 da noite estava bêbado. Naquela mesma semana, a associação beneficente presidida pela esposa efetuava uma coleta para compra de roupas para os nativos das ilhas oceânicas. E ouviu-se Popinga afirmar, com as bochechas coradas e os olhos brilhantes: - Que bobagem! Estavam muito bem pelados. Em lugar de comprar roupas para eles, melhor seria imitá-los. Naturalmente, você ri. E isso não é nada. Entretanto, o escândalo ainda continua, e se os funerais de Popinga fossem em Delfzijl, haveria pessoas que não haveriam de comparecer. Só lhe contei um detalhe entre cem, entre mil! Por todas as costuras, como eu disse, estalava a carapaça de respeitabilidade de Popinga. Tente só medir a importância do fato de embebedar-se aqui. Houve alunos que o encontraram nesse estado! Talvez por isso o adoravam!

- Agora reconstrua a atmosfera da casa, às margens do Amsterdiep. Lembre-se da senhora Popinga e de Any. Olhe pela janela. Vê-se o final da cidade por ambos os lados. É pequena, todo mundo se conhece. Um escândalo não arda nem uma hora para estar na boca de todos os habitantes. E se fala de qualquer coisa, até das relações de Popinga com esse que chamam Baes e que todo mundo diz que é uma espécie de pirata. Foram pescar juntos. O professor bebia genebra a bordo do barco de Oosting. Não! Não lhe peço que tire conclusões apressadas. Só repito, e retenha bem a frase, que se o crime foi cometido por alguém da casa, toda a casa é suspeita

- Resta essa cabeça louca, Beetje, a que Popinga sempre acompanhava. Quer um outro traço de seu caráter? Beetje é a única que toma banho todos os dias, não em um traje de banho com saia, como todas as damas daqui, mas com um maiô apertado. E pior, vermelho!

- Bem agora deixo você continuar sua investigação. Tentei facilitar-lhe alguns detalhes que a polícia costuma descuidar. E quanto a Cornelius Barens, para mim faz parte da família, do bando de mulheres. Por um lado, estão a senhora Popinga, sua irmã Any e Cornelius. Por outro, Beetje, Oosting e Popinga. Se eu compreendi bem o que ele disse, é possível que chegue a resolver o caso.

- Uma pergunta! – disse gravemente Maigret.

- Estou escutando.

- Você também é protestante?

- Pertenço a Igreja Reformada, sem pertencer a mesma congregação.

- Em que lado você se coloca?

- Eu não gostava de Popinga!

- Até o ponto de...

- Reprovo o crime, seja qual for.

- Não o viu escutar jazz enquanto falava com as senhoras?

- Um traço de seu caráter que ainda não havia pensado em comunicar-lhe.

Maigret, magnífico em sua atitude séria, quase solene, levantou-se.

- Em suma, a quem me aconselha a prender?

O professor Duclos sobressaltou-se: - não falei de prisões; dei-lhe apenas algumas diretrizes gerais no terreno da idéia pura, para chamar de alguma coisa.

- Evidentemente! Mas, e se estivesse no meu lugar?

- Não pertenço à polícia. Persigo a verdade pela verdade, e o fato de que eu mesmo sou suspeito, não me influenciará na hora de julgar.

- Até o ponto de que, talvez, não haja ninguém para deter?

- Eu não disse isso. Eu...

- Muito obrigado! – concluiu Maigret estendendo a mão.

E fez soar uma moeda contra o cristal do copo para avisar a dona do café. Duclos o olhou atravessado.

- Aqui deve evitar fazer isso – murmurou. Ao menos, se quiser passar por um cavalheiro.

Fechavam o alçapão por onde haviam baixado os barris de cerveja para a adega. O comissário pagou e dirigiu uma última olhada às plantas.

- Assim pois, ou você, ou toda a família.

- Eu não disse isso. Escute..

Porém Maigret já estava na porta. De costas, deixou que suas feições relaxassem e, se bem que não ria às gargalhadas, ao menos, mostrava um sorriso satisfeito.

No lado de fora, o sol, um suave calor e a quietude banhavam a atmosfera. Um funileiro estava no umbral de sua porta. O pequeno judeu que vendia material para barcos marcava suas âncoras com um traço de tinta vermelha. A grua seguia descarregando carvão. Os schippers içavam cada um a sua vela, não para zarpar, mas apenas para secar a lona. E estas, no emaranhado de mastros pareciam grandes forcas, brancas ou escuras, balançando suavemente.

Oosting fumava seu pequeno cachimbo de barro na popa de seu barco. Alguns ratos do cais conversavam com calma. Mas se um se voltava para o lado da cidade, enxergava as casas dos burgueses, com os vidros limpos, as cortinas imaculadas e plantas suculentas em todas as janelas. Mais além dessas janelas, uma sombra impenetrável.

À luz da conversa com Duclos, não adquirira este espetáculo um sentido novo?

De um lado, o porto, os homens em tamancos, os barcos, as velas, o cheiro de alcatrão e água salgada. Do ouro, casas bem fechadas, com móveis encerados e tapeçarias escuras, as quais se falava durante 15 dias acerca de um professor da Escola Naval que havia bebido um ou dois copos a mais. Um mesmo céu, de uma limpidez de sonho. Mas que grande diferença entre os dois mundos!

Então, Maigret imaginou Popinga, a quem ele jamais havia visto, nem sequer morto, mas que tinha uma cara muito simpática, corada, que delatava seus grandes apetites. E o imaginava deste lado da fronteira, contemplando o barco de Oosting, o “Polo Cinco”, cuja tripulação havia pirateado em todos os portos da América do Sul. Os vapores holandeses ao encontro dos quais, na China, vinham juncos cheios de mulheres miúdas e bonitas como bonecas.

Tinha que resignar-se a navegar em um barco inglês, perfeitamente envernizado, adornado com cobre reluzente, sobre as águas lisas do Amsterdiep, onde era preciso deslizar entre os troncos vindos do norte e dos bosques equatoriais.

A Maigret pareceu-lhe que Baes o olhava de uma maneira especial, como se quisesse aproximar-se e falar. Mas era impossível. Não podiam trocar duas palavras. Oosting o sabia; permanecia imóvel e se limitava a fumar um pouco mais depressa, tanto que suas pálpebras se estreitavam, por causa do sol. Cornelius Barens, a essa mesma hora, estava sentado a um poste de amarração, quando descobriu o inspetor Pijpekamp, que se aproximava com a mão estendida.

- Descobriu algo esta manhã, a bordo do barco.

- Não. Era só uma formalidade.

- Suspeita de Oosting?

- Bom, seu boné apareceu na casa de Popinga.

- E o cigarro!

- Não. Baes fuma somente brasil e aquele era um Manila.

- Até o ponto de...

        Pijpekamp levou-o um pouco mais longe, para não permanecer debaixo do olhar do dono da ilha de Workum.

        - A bússola pertenceu a um barco de Helsingfors. Os colete salva vidas procedem de um carvoeiro inglês, e o resto, igual.

        - Roubados?

        - Não! Sempre o mesmo! Quando um navio de carga chega a um porto, sempre há alguém, um terceiro oficial, um marinheiro, às vezes o capitão, que quer revender algo, entende? Depois contam à companhia que os salva vidas foram arrancados por um golpe do mar, que a bússola não funcionava... até as luzes de posição. Tudo. Às vezes, até um bote.

        - Então, isso não demonstra nada.

        - Nada! O judeu, cujo armazém vê ali, vive exclusivamente desse tráfico.

        - Então sua investigação...?

        O inspetor desviou a cabeça com preocupação.

        - Já lhe disse que Beetje Liewens não regressou imediatamente. Voltou sobre seus passos... Está certo? Diz-se assim em francês?

        - Claro que sim. Siga!

        - Pode ser que ela não tenha disparado.

        - Ah!

        Decididamente, o inspetor não estava tranquilo. Sentiu necessidade de baixar a voz, de levar Maigret a uma parte do cais completamente deserta para continuar.

        - Está no monte de madeira. Viu-o no estaleiro? O “timmerman”... vocês o chamam carpinteiro marítimo. O carpinteiro pretende que viu ali, de noite, Beetje com o senhor Popinga. Como eu disse, Os dois.

        - Instalados no monte de madeira?

        - Sim. E penso...

        - Você pensa...?

        - Poderia haver duas pessoas mais implicadas. Por exemplo, o jovem da Escola naval, Cornelius Barens. Queria casar-se com Beetje. E encontramos uma fotografia da moça em sua mala.

        - Deveras?

        - A segunda poderia ser o senhor Liewens, o pai de Beetje. É um homem muito importante, cria gado para exportação. Envia, inclusive, para a Austrália. É viúvo e não tem mais filhos.

        - Poderia ter matado Popinga?

        O inspetor sentia-se tão violento que a Maigret quase deu pena. Notava-se quão penoso lhe era acusar um homem importante, que criava vacas para exportá-las para a Austrália.

        - Tudo isso no caso de que os houvesse viso, não é verdade?

        Maigret não tinha piedade.

        - Ao lado do monte de madeira, a Beetje e ao professor.

        - Ah, sim!

        - Isso é completamente confidencial.

        - Pois claro. Mas, e Barens?

        - Talvez também os tenha visto. Talvez ficou com ciúme. Além disso, chegou à escola cinco minutos depois do crime. Não dá para entender muito bem.

        - Em resumo – disse o comissário com a mesma seriedade que quando falava com Jean Duclos – você suspeita do pai de Beetje e de seu namorado, Cornelius.

        Incômodo silêncio.

        - Suspeita também de Oosting porque seu boné foi encontrado na banheira.

        Pijpekamp teve um gesto de desânimo.

        - E, finalmente, está claro, do homem que deixou na sala de jantar um cigarro de fumo de Manila. Quantos vendedores de tabaco há em Delfzijl?

        -Quinze.

        - Isso não facilitas as coisas. Finalmente, suspeita do professor Duclos.

        - Tinha o revólver na mão. Não posso permitir que vá embora, entende?

        - Sim, entendo. Percorreram uns 50 metros sem dizer palavra.

        - O que você pensa? – murmurou finalmente o policial de Groninga.

        - Aí está a questão. E também a diferença entre nós dois. Você pensa algo! Pensa, inclusive um monte de coisas. Enquanto que eu, enfim, acredito que não penso em nada. - E de repente, perguntou: Beetje Liewens conhecia Baes?

        - Não sei. Acredito que não.

        - Cornelius o conhecia?

        Pijpekamp passou a mão pela fronte.

        - Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, bem não. Mas tratarei de averiguar.

        - Isso. Procure saber se tinham algum tipo de relação antes do crime.

        - Você acredita...

        - Eu não acredito em nada em absoluto. Uma pergunta mais: há um rádio na ilha de Workum?

        - Não sei.

        - Precisa averiguar.

        Era impossível dizer como havia acontecido, mas agora existia uma espécie de hierarquia entre Maigret e seu companheiro, e este o olhava praticamente como olharia um superior.

        - Estude estes dois pontos! Eu tenho que fazer uma visita.

        Pijpekamp era demasiado educado para perguntar alguma coisa acerca desta visita, mas seus olhos estavam cheios de interrogações.

        - À senhorita Beetje Liewens – concluiu Maigret. – Qual é o caminho mais curto?

        - O caminho que vai paralelo ao Amsterdiep.

        O barco do prático de Delfzijl, um bonito vapor de 500 toneladas, descreveu uma curva no Elms antes de entrar no porto. E Baes percorria a passos lentos , porém pesados e contidos, a coberta de seu barco, a cem metros dos ratos do cais, modorrando ao sol.

 

        Foi por acaso que Maigret não seguiu o curso do Amsterdiep, mas sim o caminho que cruzava as terras. A granja, debaixo do sol das onze da manhã, recordou-o de seus primeiros passos no solo holandês, a jovem com as botas reluzentes no estábulo moderno, o salão burguês com o bule coberto.

        Reinava a mesma calma. Muito distantes, quase no limite do horizonte infinito, uma grande vela vermelha que flutuava acima dos prados, fazia pensar em algum navio fantasma navegando num oceano de grama.

        Igual à primeira vez, apareceu um cão, e nesta ocasião, latindo. Passaram-se cinco longos minutos antes que a porta da casa se entreabrisse, mas apenas uns poucos centímetros, exatos para deixar adivinhar o rosto com manchas vermelhas e o avental xadrez da empregada. E a velha esteve a ponto de fechar a porta antes que Maigret falasse:

        - A senhorita Liewens? – perguntou.

        Separava-os o jardim. A velha continuava no umbral e o comissário, do outro lado da cerca. Entre os dois, o cachorro observava o intruso mostrando os dentes.

        A empregada moveu negativamente a cabeça.

        - Não está aqui? Niet hier?

        Maigret havia aprendido três ou quatro palavras em holandês.

        Idêntico sinal negativo.

        - E o senhor Liewens? Mijnheer?

        Uma última negativa e a porta se fechou. Mas como o comissário não se foi imediatamente, a porta se moveu , desta vez apenas alguns milímetros e Maigret adivinhou a velha espiando.

        Se demorou, foi porque havia visto estremecer uma cortina na janela que correspondia ao quarto da jovem. Atrás da cortina, dava pra imaginar um rosto. Não conseguiu vê-la bem. Mas, Maigret distinguiu perfeitamente um leve gesto de mão, um gesto que, talvez significasse simplesmente “bom dia”, mas que provavelmente queria dizer: “estou aqui, não insista, cuidado”.

        A velha atrás da porta, por um lado. Esta mão leitosa, por outro. E o cão, que saltava junto à cerca, latindo. Ao redor, as vacas nos prados, que de tão imóveis, pareciam artificiais. Maigret arriscou outro pequeno experimento. Adiantou-se dois passos, como que para atravessar, apesar de tudo, a cerca. Não pode evitar um sorriso, porque não só a porta se fechou precipitadamente, mas o mesmo cão, antes tão feroz, retrocedeu com o rabo entre s pernas.

        Desta vez, o comissário se foi e tomou o caminho do Amsterdiep. Tudo o que compreendia daquela acolhida era que Beetje estava encerrada e que o fazendeiro ordenara que não deixassem entrar o francês.

        Maigret fumava seu cachimbo em aspiradas pequenas e reflexivas. Contemplou um instante o monte de madeira onde a jovem e Popinga haviam parado – sem dúvida, paravam lá com freqüência – sustentando a bicicleta com uma mão e abraçando-se com o outro braço.

        E a calma seguia dominando a atmosfera. Uma calma serena, quase excessiva. Uma calma que fazia pensar a um francês que toda essa vida era tão artificial como um selo postal. E o comissário voltou-se, de repente, e viu, a poucos metros de distância, um barco com um mastro elevado, que não escutara chegar. Reconheceu a vela, mais larga do que o canal: era a que ele havia vislumbrado um pouco antes, no horizonte, e que o havia alcançado, sem que lhe parecesse possível que houvesse percorrido um trecho tão grande.

        Na popa, uma mulher dava o peito a um bebê, enquanto empurrava o timão com as cadeiras. E um homem, a cavalo no gurupés e com as pernas balançando em cima da água, reparava o velame.

        O barco passou na frente da casa dos Wienands, depois na frente da cassa dos Popinga, e a vela sobrepujava os telhados. Sua grande sombra móvel recobriu, por um instante, toda a fachada.

        Uma vez mais, Maigret parou. Titubeou. A criada dos Popinga encostada ao umbral, cabisbaixa e com as cadeiras empinadas; a porta estava aberta. A mulher sobressaltou-se ao notar, de repente, sua presença atrás dela. A mão que segurava o pano estremeceu.

        - A senhora Popinga? – disse, mostrando o interior da casa.

        Ela quis adiantar-se. Mas, atrapalhada pelo pano que pingava água suja, parou e ele entrou primeiro no corredor. Ouviu uma voz de homem no salão e chamou. Bruscamente, fez-se silêncio. Um silêncio completo e rigoroso. E também mais do que um silêncio: uma espera, como a suspensão momentânea de toda uma vida.

        A fim, dois passos. Uma mão tocou na maçaneta da porta, do lado de dentro. A porta se moveu. Maigret viu primeiro Any, que acabava de abrir e o olhava com hostilidade. Depois, distinguiu uma silhueta masculina, de pé, junto à porta, com polainas de camurça e uma jaqueta pesada.

        O granjeiro Liewens!

        Finalmente, encostada na lareira e escondendo o rosto nas mãos, estava a senhora Popinga. Era evidente que a chegada do intruso interrompia uma conversa importante, uma cena dramática, provavelmente uma discussão.

        Em cima da mesa coberta por uma tapeçaria bordada, havia algumas cartas espalhadas em desordem, como se alguém as houvesse atirado violentamente.

        O semblante do granjeiro era mais expressivo, mas também foi o que se controlou mais rapidamente.

        - Incomodo – começou a dizer Maigret.

        Ninguém contestou. Ninguém abriu a boca. Apenas a senhora Popinga, depois de um olhar desconsolado ao redor, abandonou a sala e dirigiu-se correndo para a cozinha.

        - Creiam-me que lamento interromper sua conversa.

        - Enfim, Liewens falou, em holandês. Dirigiu à jovem algumas frases incisivas, e o comissário não pode deixar de perguntar: Que disse?

        - Que voltará! Que a polícia francesa... – As demais palavras não saíram.

        - ... de um descaramento exagerado, não é? – terminou Maigret por ela. O senhor e eu já tivemos ocasião de encontrarmo-nos.

        O outro tentava compreender, fixando-se nas expressões de Maigret. O comissário, por sua parte, deixou cair os olhos sobre as cartas, mais concretamente sobre a assinatura de uma delas: “Conrad”. O mal estar alcançou um ponto crítico. O granjeiro recolheu seu chapéu de cima de uma cadeira, mas não se decidia a partir.

        - Liewens veio trazer-lhes as cartas escritas por seu cunhado a Beetje?

        - Como sabe?

        A cena era muito fácil de reconstruir, sobretudo nessa atmosfera tão desagradável e tensa. Liewens chega retendo a respiração e tratando de dominar sua ira. Entra no salão, onde o recebem duas mulheres assustadas, e fala imediatamente, atirando as cartas sobre a mesa. A senhora Popinga, horrorizada, oculta o rosto com as mãos, negando-se, talvez, a aceitar a evidência, ou tão constrangida, a ponto de não conseguir dizer nada. E Any tenta enfrentar o homem, discutindo. Então alguém chama na porta; todos os presentes se imobilizam e Any abre a porta.

        Em qualquer caso, nesta reconstrução Maigret se equivocava no mínimo com respeito ao caráter de um dos personagens. Porque a senhora Popinga, a quem imaginava na cozinha, constrangida por causa da revelação, decaída e inconsolável, ao cabo de um instante regressou com a calma que só se alcança no ponto culminante da emoção. E, lentamente, ela também depositou algumas cartas sobre a mesa. Não as atirou. Depositou-as. Olhou o granjeiro e depois o comissário. Abriu a boca várias vezes, antes de conseguir falar, e então disse:

        - Alguém tem que julgar. Alguém tem que lê-las.

        Nesse momento, uma golfada de sangue invadiu o rosto de Liewens. Era demasiado holandês para debruçar-se sobre as cartas, mas elas o atraíam vertiginosamente. A caligrafia era feminina, papel azulado: evidentemente, cartas de Beetje.

        A desproporção entre os montes surpreendia. Havia mais ou menos dez notas de Popinga, escritas de um lado só, quase sempre de quatro ou cinco linhas. E, em troca, trinta grandes e densas cartas de Beetje.

        Conrad estava morto. Restavam estes dois montes desiguais, e outro monte, de madeira, cúmplices dos encontros junto ao Amsterdiep.

        - Será melhor que se acalme – disse Maigret. – E depois, seria aconselhável que lessem estas cartas, sem aborrecimentos.

        O granjeiro, que o olhava com uma agudeza extraordinária, deve ter entendido porque, fazendo um esforço, deu um passo até a mesa.

        Maigret se apoiava nela com ambas as mãos. Pegou uma nota de Popinga, aleatoriamente.

        - Teria a amabilidade de traduzi-la, senhorita?

        Mas Any não parecia compreender. Olhava o papel, sem dizer nada. Sua irmã, séria e digna, tomou a nota nas mãos.

        - Esta foi escrita na Escola Naval – disse. – Não leva assinatura. Na parte superior diz: Às seis. Depois:

        “Minha pequena Beetje: É melhor que não passes esta noite porque o diretor vem tomar uma taça de chá. Até amanhã. Beijos.”

        Olhou ao redor com ar de tranquilo desafio. Pegou outra e leu, lentamente:

        “Pequena Beetje, bonita: Tens que tranquilizar-te. E tens que pensar que ainda tem muita vida pela frente. Tenho muito trabalho por causa dos exames dos alunos do terceiro. Não poderei ir esta noite. Por que repetes sempre que não te quero? Entretanto, não posso abandonar a escola. Que faríamos? Tranquiliza-te. Temos tempo pela frente. Te beijo afetuosamente.”

        Maigret parecia dizer que já chegava, mas a senhora Popinga pegou outra carta.

        - Creio que esta é a última que escreveu:

        “Minha querida Beetje: É impossível. Te suplico que sejas sensata. Sabes perfeitamente que não tenho dinheiro e, além disso, precisaria de muito tempo para encontrar uma posição no exterior. Tens que ser mais prudente e não ficar nervosa. E, sobretudo, deves ter confiança. Não temas nada. Se ocorrer o que temes, eu cumpriria com meu dever. Estou nervoso porque neste momento tenho muito trabalho e quando penso em ti trabalho mal. O diretor me fez comentários críticos. Me senti muito triste. Tentarei sair amanhã à noite, dizendo que vou ver um barco norueguês no porto. Te abraço, pequena Beetje.”

        A senhora Popinga olhou para os três, um depois do outro, cansada, com os olhos turvos. Sua mão se aproximou do outro monte, o que ela havia trazido, e o granjeiro estremeceu. Tomou uma carta qualquer.

        “Querido e amado Conrad: Uma boa notícia: por motivo de meu aniversário, papai depositou mil florins em minha conta bancária. É suficiente para ir para a América, porque olhei no jornal as tarifas dos barcos. E podemos viajar em terceira classe. Mas, porque não tens mais pressa? Eu já não vivo. A Holanda me afoga. E parece que a gente de Delfzijl me olha com reprovação. Entretanto, me sinto muito orgulhosa de pertencer a um homem como tu. É absolutamente necessário partirmos antes das férias porque papai quer que eu vá passar um mês na Suiça e eu não quero. Se isso acontecer, teremos que atrasar nosso projeto até o inverno. Comprei alguns livros de inglês. Já sei muitas frases. Logo, logo, nós dois teremos uma grande vida, não é verdade? Já não há porque continuar aqui. Sobretudo agora! Creio que a senhora Popinga me olha de má vontade. E tenho medo de Cornelius, que me faz a corte e que não consigo desencorajar. É um bom menino, bem educado, mas é tão bobo. Além do mais, não é um homem como tu, que viajou por toda parte, que sabe tudo... Lembras, faz um ano, quando eu tropeçava em ti e tu nem sequer me olhavas? E agora pode ser que eu vá ter um filho teu. De qualquer modo, poderia tê-lo. Mas, porque és tão frio? Me queres menos?      

        A carta não havia terminado, mas a voz da senhora Popinga foi baixando até emudecer. Por um instante, seus dedos revolveram o monte de cartas. Procurava algo. Leu uma frase tirada de outra carta:

        “... e acabo por acreditar que queres mais a tua mulher que a mim, acabo por sentir ciúme dela, por detestá-la. Por que, se não, te negas agora a partir?

        O granjeiro não podia entender uma palavra, mas prestava tanta atenção que parecia adivinhá-las. A senhora Popinga engoliu a saliva, tomou uma última folha e a leu com a voz ainda mais contida:

        “Ouvi dizer na cidade que Cornelius está ainda mais apaixonado pela senhora Popinga do que de mim. Tomara que seja verdade. Então estaríamos tranquilos e tu não terias remorsos”.    

        O papel se soltou das mãos e foi caindo até pousar no tapete, aos pés de Any, que ficou olhando para ele fixamente.

        Houve um novo silêncio. A senhora Popinga não chorava. Toda ela personificava a tragédia da dor contida, da dignidade conseguida ao preço de um esforço sublime e, agora, trágico, pelo sentimento admirável que a animava. Ela havia voltado à sala de jantar para defender Conrad. E esperava um ataque. Seguiria lutando, se fosse necessário.

        - Quando descobriu estas cartas? – perguntou Maigret meio incomodado.

        - Na manhã seguinte ao dia em que... – Se atrapalhou. Abriu a boca para absorver um sorvo de ar. As pálpebras estavam inchadas. - ... em que Conrad...

        - Sim!

        Maigret já havia entendido e a olhava com compaixão. Ainda que não fosse bonita, tinha umas feições regulares, sem as deformidades que faziam desagradável o rosto de Any. Era alta e forte, sem ser gorda. Sua formosa cabeleira marcava o rosto rosado típico das holandesas. Mas, não haveria preferido o comissário que fosse feia? De seus traços regulares, de sua expressão sensata e reflexiva, desprendia-se um imenso aborrecimento. Inclusive seu sorriso devia ser prudente e medido, e sua alegria, uma alegria cauta e apagada. Aos seis anos, já devia ser uma menina séria. E aos 16, idêntica a esta de agora. As mulheres como a senhora Popinga parecem nascidas para serem irmãs ou tias, ou enfermeiras, ou viúvas patrocinadoras de obras de caridade.

        Conrad não estava ali, mas Maigret jamais o havia sentido tão vivo como neste instante, com seu rosto caloroso, sua avidez, ou melhor dizendo, sua ânsia de viver, sua timidez, seu temor de enfrentar alguém, cara a cara, e com essa radio cujo dial ele girava durante horas para sintonizar o jazz que sonhava em Paris, os ciganos de Budapest, a opereta em Viena ou quando não, as distantes chamadas de barco a barco.

        Any aproximou-se da irmã como alguém que se aproxima de uma pessoa que sofre e que está a ponto de fraquejar. Mas a senhora Popinga avançou até Maigret, ou pelo menos, deu dois passos até ele.

        - Jamais teria imaginado – suspirou – jamais. Eu vivia, eu... E agora que está morto, eu...

        Por sua maneira de respirar, Maigret adivinhou que padecia de uma enfermidade do coração, e no instante seguinte, viu confirmadas suas suspeitas, porque ela permaneceu longo tempo imóvel, com a mão no peito.

        Alguém se movia na casa: o granjeiro Liewens, inquieto, com o olhar severo, acercou-se da mesa e apoderou-se das cartas de sua filha, com o nervosismo de um ladrão que teme ser surpreendido. Ela o deixou pegar e Maigret também.

Entretanto, Liewens não se atrevia a ir-se. Falou sem dirigir-se a ninguém em concreto. A palavra “franzóse” golpeou os ouvidos de Maigret, e ao comissário, pareceu que entendia o holandês com sem dúvida, Liewens, momentos antes, havia entendido o francês. Reconstruiu a frase, que mais ou menos, devia ser assim: Acreditam que era necessário mostrar estas cartas ao francês? O caiu no chão, pegou-o e se inclinou diante de Any, tropeçando com ela. Seguiu na frente, murmurando sons ininteligíveis, até que, por fim, saiu. A criada devia ter acabado de limpar a entrada, porque ouviram a porta abrindo e fechando e os passos, se afastando.

Apesar da presença da jovem, Maigret, com uma doçura que não achava que fosse capaz, seguiu interrogando a senhora Popinga:

- Mostrou estas cartas a sua irmã?

- Não. Mas quando este homem...

- Onde estavam?

- Na gaveta da mesinha de cabeceira. Eu nunca a abria. Ali guardava também o revólver.

Any falou em holandês e a senhora Popinga traduziu maquinalmente.

- Minha irmã me disse que deveria deitar-me, porque passei três noites sem dormir. – Porém, ela prosseguiu: - Conrad não teria ido. Deve ter sido imprudente uma vez só, não é? Gostava de rir, divertir-se. Agora me lembro de alguns detalhes. Beetje sempre trazia frutas e doces que ela mesma fazia. Eu acreditava que eram para mim. Depois, pedia que fôssemos jogar tênis. Sempre na hora em que sabia que eu não teria tempo! Mas eu me negava a ver o mal que podia haver nele. Ficava contente por Conrad ir descansar um pouco, porque trabalhava muito e Delfzijl é uma cidade triste. E pensar que, no ano passado, Beetje esteve a ponto de viajar conosco para Paris, e que eu era a que mais insistia. – Ela dizia isso com grande normalidade, com certo cansaço, mas sem rancor. – Ele não queria ir, eu o ouvi. Mas, apesar de tudo, tinha medo de desgostar a ela. Era seu caráter. Brigaram com ele várias vezes porque era demasiado crítico nos exames. Por isso, meu pai não gostava dele. – Colocou um objeto decorativo no lugar, e esse preciso gesto de dona de casa mudou o ambiente que se respirava. – Ah! Como gostaria que tudo terminasse. Porque em sequer permitem que seja enterrado. Entende? Eu já nem sei o que fazer! Quero me mo devolvam! Deus se encarregará de castigar o culpado. – Mais animada, prosseguiu, com voz firme: Si, essa é a minha opinião. Estes assuntos dizem respeito só a Deus e ao assassino. Que podemos saber nós? – Pareceu assaltá-la uma idéia e estremeceu. Mostrou a porta e disse muito rapidamente: - Pode ser que queira matá-la! É capaz! Seria terrível.

Any a olhava com certa impaciência. Provavelmente, considerava inúteis todas essas palavras, e com voz muito tranquila, perguntou:

- Que pensa agora o senhor comissário?

- Nada!

Ela não insistiu, mas seu rosto mostrou descontentamento.

- Não penso nada, porque o começo de tudo está no boné de Oosting! – explicou. Você escutou as teorias de Duclos. Leu as obras de Grosz, que ele comentou. Um princípio: não deixar que as considerações psicológicas o desviem da verdade. Seguir até o final o raciocínio que surge dos indícios materiais. – Era impossível saber se enrolava ou se falava a sério. – Pois bem, existe um boné e uma bagana de cigarro. Alguém os trouxe e os atirou dentro da casa.

A senhora Popinga suspirou com seus botões:

- Não posso crer que Oosting... – E, de repente, erguendo a cabeça: - Isso me faz pensar em algo que havia esquecido. Porém calou-se, como que temendo ter falado demais, como que assustada com as consequências de suas palavras.

- Diga!

- Não! Não significa nada!

        - Por favor.

        - Quando Conrad foi pescar nos bancos de Workum...

        - Sim. O quê?

        - Beetje ia com ele, porque ela também pesca. Aqui, na Holanda, as jovens dispõe de muita liberdade.

        - Dormiam no caminho?

        - Às vezes, uma noite, às vezes, duas.

        Agarrou a cabeça com ambas as mãos, fez um gesto exasperado de impaciência e gemeu: - Não! Não quero mais pensar. É demasiado horrível. Horrível!

        Desta vez, ia chorar Os soluços chegavam. Estavam a ponto de estalar quando Any lhe colocou as mãos sobre os ombros e a conduziu suavemente até o quarto contíguo.

 

Quando Maigret chegou ao hotel, deu-se conta de que acontecia algo anormal. Na véspera, havia ceado numa mesa contígua a de Jean Duclos. Pois bem, agora haviam colocado três talheres sobre a mesa redonda que ocupava o centro da sala. O casaco, deslumbrante, conservava todas as suas dobras. Além disso, havia 3 taças por convidado, o que, na Holanda, só se via nas grandes cerimônias.

Quando Maigret entrou, o inspetor Pijpekamp aproximou-se com a mão estendida e com o sorriso de quem havia preparado uma agradável surpresa. Estava em traje a rigor! Trazia um colarinho postiço de oito centímetros de largura e jaqueta. Recém barbeado, devia ter acabado de sair das mãos do barbeiro porque cheirava ainda à loção de violetas.

Jean Duclos, mais apagado, e com aspecto aborrecido, apareceu atrás dele.

- Tem que desculpar-me, querido colega – disse o inspetor. – Devia tê-lo avisado hoje de manhã. Eu teria gostado de convidá-lo para minha casa, mas moro em Groninga e sou solteiro. Assim sendo, me permiti convidá-lo para almoçar aqui. Bom! Um pequeno almoço, sem pretensões. E, enquanto pronunciava estas palavras, olhou para os talheres e cristais à espera, evidentemente, dos protestos de Maigret.

Não vieram.

- Pensei que, como o professor é compatriota seu, lhe agradaria...

- Muito bem! Muito bem! – disse o comissário. – Permite-me que vá lavar as mãos?

Lavou as mãos lentamente, com ar resmungão, em um pequeno lavabo adjacente. A cozinha era próxima e se ouvia uma pressa frenética de pratos e caçarolas.

Quando regressou à sala, o próprio Pijpekamp servia o vinho do Porto nas taças e murmurava com um sorriso beatífico e modesto: - Igual à França, não é mesmo? Prosit! Saúde, querido colega!

Sua boa vontade era comovedora. Esmerava-se para encontrar fórmulas refinadas, em parecer um autêntico homem do mundo.

- Já deveria tê-lo convidado ontem. Mas estava tão, como dizem, alterado com este caso... Descobriu algo novo?

- Nada.

Brilhou uma chama nas pupilas do holandês e Maigret pensou: Ah! Homenzinho, tu, sim, tens um trunfo para anunciar-me e o lançarás à hora das sobremesas. A menos que a impaciência te obrigue a falar antes.

Não se enganou. Serviram primeiro uma sopa de tomate, acompanhada de um Saint-Emilion doce, que revolvia o estômago, claramente manipulado para exportação.

- Saúde!

O bom do Pijpekamp fazia tudo o que podia e mais, mas Maigret nem sequer parecia dar-se conta. Não o apreciava!

- Na Holanda, nunca bebemos durante a comida. Só depois. À noite, nas solenidades, um copo de vinho com um charuto. Tampouco servimos pão na mesa. – E olhou de relance para a bandeja de pão que havia pedido. Inclusive, havia escolhido o Porto em substituição à genebra tradicional. Impossível melhorar. Estava encantado. Olhava para a garrafa de vinho dourado com ternura. Jean Duclos comia pensando em outra coisa.

Mas a Pijpekamp teria gostado de introduzir muita animação, muita alegria, criar, com a desculpa deste almoço, uma atmosfera de loucura, de autêntica farra à francesa.

Serviram o huchpot, o prato nacional. A carne nadava em litros de molho e Pijpekamp exclamou, com ar misterioso: - Já me dirá se gosta!

Por desgraça, Maigret não estava de bom humor. Pressentia, ao seu redor, um pequeno mistério que não acabava de explicar-se. Pareceu-lhe detectar certa cumplicidade entre Jean Duclos e o policial. Por exemplo, cada vez que este último enchia a taça de Maigret, dirigia um pequeno olhar ao professor. O borgonha esquentava ao lado da estufa.

- Eu achava que você bebia muito mais vinho.

- Bom. Depende.

Evidentemente, Duclos não se sentia à vontade. Procurava não intervir na conversa. Com o pretexto de que fazia regime, bebia água mineral. Pijpekamp não pôde aguentar mais. Havia falado já da beleza do porto, da importância do tráfego pelo Elms, da Universidade de Groninga, a que os homens mais sábios do mundo acorrem para dar conferências.

- Sabe? Há novidades.

- Deveras?

- À sua saúde! À saúde da polícia francesa! Sim, agora, o mistério está praticamente esclarecido.

Maigret o olhou com os olhos turvos, sem a menor pitada de emoção, nem sequer de curiosidade.

- Esta manhã, lá pelas dez, avisaram-me de alguém me esperava em meu escritório. Adivinha quem era?

- Barens! Prossiga!

Pijpekamp sentiu-se ainda mais aflito com esta resposta do que pelo pequeno efeito que havia produzido em seu convidado uma mesa tão luxuosamente servida.

- Como sabe? Alguém já lhe disse, não?

- Em absoluto! O que queria?

- Já o conhece. É muito tímido. Muito, como dizem vocês, reservado. Não se atrevia a olhar-me. Parecia a ponto de chorar. Confessou-me que, na noite do crime, ao sair da casa dos Popinga, não regressou a bordo imediatamente. – O inspetor esboçou toda uma série de tiques. Entende? Quer Beetje! E estava com ciúme porque Beetje havia dançado com Popinga. E chateado porque ela havia bebido conhaque. Viu-os sair e seguiu-os de longe. Espiou o professor.

Maigret mostrava-se desapiedado. E sabia que o outro haveria de dar qualquer coisa por um gesto de assombro, de admiração, de angústia.

- À sua saúde, senhor comissário! Barens não nos contou imediatamente, porque estava com medo. Porém aí está a verdade. Imediatamente depois do disparo, viu um homem que corria até um amontoado de madeira, e ali deve ter se escondido.

- Descreveu-o minuciosamente, não é?

- Sim.

O outro não entendia nada. Havia perdido toda a esperança de assombrar o colega. Sua montagem havia fracassado.

- Um marinheiro, seguramente, um marinheiro estrangeiro. Muito alto, muito magro e com a cabeça completamente barbeada.

- E, evidentemente, um barco deixou o cais no dia seguinte.

- Desde então, já saíram três. O assunto está claro. Não há mais o que procurar em Delfzijl. O assassino é um estrangeiro, sem dúvida um marinheiro que conheceu Popinga tempos atrás, quando ele navegava. Um marinheiro a quem Popinga deve ter castigado quando era oficial ou capitão.

Jean Duclos oferecia obstinadamente seu perfil ao olhar de Maigret. Pijpekamp indicou à senhora Van Hasselt que trouxesse outra garrafa. Ainda falava a sobremesa, uma obra de arte: um bolo enfeitado com três tipos de cremes, sobre o qual haviam escrito o nome de Delfzijl com letras de chocolate. O inspetor baixou, modestamente, os olhos.

- Quer cortá-lo?

- Já colocou Cornelius em liberdade?

De repente, o inspetor sobressaltou-se e olhou para Maigret, perguntando-se se havia ficado louco.

- Mas...

- Se não se importa, o interrogaremos juntos, agora mesmo.

- É muito fácil. Telefonarei à Escola Naval.

- E ordene que tragam também Oosting, a quem interrogaremos depois.

- Por causa do boné? Agora, isso se explica, não é verdade? O marinheiro, ao passar, viu o boné sobre a coberta. Agarrou-o e...

- Naturalmente!

Pijpekamp queria deitar-se e chorar. A profunda ironia de Maigret, ainda que apenas perceptível, o desconcertava até o ponto que tropeçou no marco da porta, ao entrar na cabine telefônica.

Maigret ficou, por um momento, a sós com Jean Duclos, que seguia absorto em seu prato.

- Já que se entende com ele, porque não lhe disse que me passou discretamente alguns florins?

Maigret falava suavemente, sem acritude, e Duclos levantou a cabeça e abriu a boca para protestar.

- Shiuu! Não temos tempo de discutir. Você o aconselhou a me oferecer um bom almoço, regado a bebidas. Disse-lhe que na França, é assim que se compram os funcionários. Cale-se. E que depois, lhe diria que sim a tudo.

- Juro que...

Maigret acendeu o cachimbo e voltou-se para Pijpekamp, que voltava do telefone. Esse, ao olhar para a mesa, falou:

- Aceitará um copinho deste conhaque, não? Há um envelhecido...

- Permita-me que seja eu que o convide. E faça o favor de pedir à senhora Hasselt que nos traga uma garrafa de conhaque e taças adequadas.

Mas a senhora Hasselt trouxe umas tacinhas. O comissário levantou-se e ele mesmo pegou outras de uma estante e as encheu até a borda.

- À saúde da polícia holandesa. – brindou.

Pijpekamp não se atrevia a protestar. O álcool era tão forte que lhe fez assomar lágrimas os olhos. Porém, o comissário, sorridente e feroz, levantava seu copo outra vez e repetia: - À saúde de sua polícia! A que horas chega Barens a seu escritório?

- Dentro de meia hora. Um cigarro?

- Obrigado. Prefiro meu cachimbo.

Maigret encheu de novo os copos com tanta autoridade que nem Pijpekamp nem Duclos se atreveram a negar-se a beber.

- É um bonito dia! - repetiu duas ou três vezes. – Pode ser que me engane, mas tenho a impressão de que esta noite deteremos o assassino do pobre Popinga.

- A menos que esteja navegando no Báltico. – replicou Pijpekamp.

- Bah! Você acredita que está tão longe?

Duclos levantou um rosto pálido.

- É uma insinuação, comissário?

-Que insinuação?

- Parece dizer que não está muito longe, talvez esteja muito perto.

- Muito imaginativo, professor.

Estiveram a dois passos do conflito. Em parte, isso se devia aos grandes copos de conhaque. Pijpekamp estava completamente vermelho. Os olhos brilhavam. No caso de Duclos, ao contrário, a ebriedade se traduzia por uma palidez doentia.

- Um último copo, senhores e iremos interrogar esse pobre garoto.

A garrafa estava na mesa. Cada vez que Maigret servia, a senhora Van Hasselt molhava a ponta do lápis nos lábios e anotava a consumação.

Uma vez aberta a porta, mergulharam em uma atmosfera carregada de sol e calma. O barco de Oosting estava em suas amarras. Pijpekamp esforçava-se por caminhar muito mais ereto do que de costume. Tinham que percorrer apenas 300 metros. As ruas estavam desertas. Passaram diante das lojas, fechadas, porém limpas e sortidas como que para uma exposição universal a ponto de inaugurar-se.

- Será quase impossível localizar e identificar o marinheiro. – disse Pijpekamp. – Mas é bom que se descubra quem foi o assassino, porque assim já não suspeitaremos de ninguém. Agora mesmo, escreverei um informe para que o senhor Duclos, seu compatriota, fique completamente livre.

Com o passo não muito seguro, entrou nas dependências da polícia, tropeçou com um móvel e sentou-se com demasiada contundência. Não estava exatamente bêbado. Mas o álcool retirava parte de sua doçura e da amabilidade que caracteriza a maioria dos holandeses.

Com um gesto desenvolto, apertou uma campainha elétrica, enquanto empurrava sua cadeira para trás. Dirigiu-se em holandês a um policial uniformizado que desapareceu e regressou em instantes na companhia de Cornelius.

Ainda que o policial o tenha recebido com exagerada cordialidade, o jovem pareceu não muito firme ao entrar no escritório. Seu olhar fixou-se imediatamente em Maigret.

- O comissário francês quer lhe perguntar algumas coisas. – disse Pijpekamp em francês.

Maigret não tinha pressa. Começou a percorrer o escritório na largura e no comprimento fumando seu cachimbo.

- Conte-me, meu pequeno Barens, que te disse Baes, ontem à noite.

O outro moveu a cabeça magra em todos os sentidos, como um pássaro assustado.

- Eu... eu creio...

- Bem. Vou ajudar-te. Ainda tens um pai, lá na Índia. Seria muito triste que acontecesse algo, que tivesse problemas, não sei. Pois bem, te direi que um falso testemunho, em um caso como este, se paga cm uns quantos meses de cadeia.

Cornelius asfixiava, não se atrevia a mover-se nem a olhar para ninguém.

- Confessa que Oosting te esperava anteontem na margem do Amsterdiep e te disse que constasses a polícia o que acabas de contar. Confessa que nunca viste o homem alto e magro rondando a casa dos Popinga.

- Eu... – Já não tinha forças para resistir. Rompeu em pranto. Desequilibrou-se.

Maigret olhou para Duclos e depois para Pijpekamp e, com esse olhar pesado, porém impenetrável que dizia que o tinham tomado por imbecil. O olhar era tão manso e calmo que parecia vazio.

- Você acredita que... – começou a dizer o inspetor.

- Veja você mesmo!

O jovem, cujo uniforme de oficial o deixava ainda menor, apertou as mandíbulas para sufocar o choro e, finalmente, balbuciou: - Eu não fiz nada.

Contemplaram-no por alguns instantes, enquanto tentava acalmar-se.

- Isso é tudo – decidiu, finalmente, Maigret. – Barens, eu não disse que tinhas feito algo. Simplesmente, Oosting te pediu para contares que havias visto um estrangeiro nas proximidades da casa, e que deste modo salvarias a determinadas pessoas. A quem?

- Juro pela cabeça de minha mãe que Baes não precisou... Não sei... queria morrer.

- Claro!Aos 18 anos, sempre se quer morrer. Você não tinha nada para perguntar, senhor Pijpekamp?

Este encolheu os ombros, como querendo dizer que não entendia nada.

- Vamos, garoto, pode ir.

- Você sabe que não é Beetje.

- Provavelmente, não! E é hora de que voltes aos teus companheiros e à escola. – empurrou-o para fora e gritou: - O seguinte! Oosting chegou? Por desgraça, não entende francês.

Soou a campainha elétrica. Logo, o agente fez passar Baes, que levava na mão o boné novo e o cachimbo apagado. Deu uma olhada, só uma, para Maigret. E, coisa estranha, era um olhar de censura. Ficou de pé diante da mesa do inspetor e o saudou.

- Se importaria de perguntar a ele onde estava na hora em que mataram Popinga? – disse Maigret.

O policial traduziu. Oosting começou um longo discurso que Maigret não entendeu, mas mandou cortar.

- Não! Interrompa-o. Que responda em três palavras.

Pijpekamp traduziu. Novo olhar de censura. Uma réplica, imediatamente traduzida.

- Estava a bordo de seu barco.

- Diga-lhe que não é verdade. – Maigret seguia indo e vindo, com a mão nas costas.

- Que diz a isto?

- Diz que jura.

- Bem. Neste caso, que diga quem lhe roubou o boné.

Pijpekamp se mostrava muito dócil. Certamente, a presença de Maigret se impunha.

- Que disse ele?

- Estava em seu camarote fazendo contas. Pela escotilha, viu umas pernas na coberta. Reconheceu umas calças de marinheiro.

- E seguiu o homem?

Oosting titubeou, fechou os olhos, torceu os dedos e falou rapidamente.

- Que disse?

- Que prefere contar a verdade. Que sabe perfeitamente que acabariam por reconhecer sua inocência. Quando ele subiu na coberta, o marinheiro se afastava. Segui-o de longe e chegou ao Amsterdiep, próximo da casa dos Popinga. Ali, o marinheiro se escondeu. Inrigado, Oosting esperou, escondido.

- Escutou o disparo, duas horas depois?

- Sim, mas não conseguiu alcançar o homem que seguia.

- Viu esse homem entrar na casa?

- Sim, no jardim. Supõe que trepou pela calha, até o primeiro andar.

Maigret sorria. Um sorriso vago, feliz, de um homem sem problemas de digestão.

- Conseguiria identificar o homem?

Tradução. Baes encolheu os ombros.

- Não sabe.

- Viu como Barens espiava Beetje e o professor?

- Sim.

- E como tem medo de ser acusado, e além disso quis colocar a polícia numa boa pista, pediu a Cornelius que falasse em seu lugar.

- Isso disse ele. Mas, não temos que acreditar, não é? É culpado, isto está claro.

Jean Duclos se impacientava. Oosting permanecia tranquilo, como um homem que nada pode surpreender. Pronunciou uma frase que o policial traduziu.

- Agora diz que não importa o que façamos com ele, mas que contar que Popinga era tão seu amigo quanto benfeitor.

- E o que você pensa fazer?

- Mantê-lo à disposição da justiça. Confessou que esteve lá.

Por causa do conhaque, a voz de Pijpekamp era mais forte do que de costume, seus gestos mais violentos, e suas decisões também se ressentiam. Queria parecer contundente. Achava-se diante de um colega estrangeiro e pretendia salvar de uma vez só sua reputação e a da Holanda. Adotou uma expressão grave e tocou mas uma vez a campainha para chamar o agente. Dando golpes na mesa com o abridor de cartas, ordenou ao agente que chegava correndo:

- Detenham esse homem. Levem-no. Eu o verei depois. – Falou em holandês, mas no tom que empregou, não foi difícil entender. Depois, levantou-se e explicou: - Vou esclarecer este caso. Não esquecerei de destacar o papel que você desempenhou. Evidentemente, seu compatriota está livre.

Não podia imaginar que Maigret, vendo-o gesticular e com os olhos brilhantes, pensava para si: - Meu pobre amigo, não sabes o quanto lamentarás o que acabas de fazer quando, dentro de algumas horas, estejas mais calmo.

Pijpekamp abriu a porta, mas o comissário não se decidia a sair.

- Queria pedir-lhe um último favor – disse, com uma cortesia pouco habtual.

- Eu o escuto, querido colega.

- Ainda não são quatro horas. Esta noite, poderíamos reconstruir o crime com todas as pessoas mais ou menos implicadas nele. Quer anotar os nomes? A senhora Popinga, Any, o senhor Duclos, Barens, os Wienands, Beetje, Oosting e, finalmente, o senhor Liewens, o pai de Beetje.

- Que fará?

- Repetir os fatos acontecidos a partir do momento em que a conferência, que se deu no hotel Van Hasselt, terminou.

Houve um silêncio. Pijpekamp refletia.

- Vou telefonar a Groninga – disse finalmente – para pedir conselho aos meus chefes. E atento a reação de seus interlocutores, algo inseguro da piada que iria soltar, concluiu: - Bem, faltará alguém: Conrad Popinga que não poderá...

- Eu interpretarei o seu papel – interrompeu Maigret. E saiu, seguido de Jean Duclos, depois de exclamar. – E obrigado por seu excelente almoço!

 

        Para ir da delegacia ao hotel Van Hesselt, o comissário evitou passar pela cidade e rodeou o cais. Jean Duclos o seguia, num passo, atitude e expressão que transpareciam mau humor.

        - Sabe que agora todos o odiarão? – balbuciou finalmente, enquanto contemplava a grua em ação e cujo gancho acabava de lhe rodear a cabeça.

        - Porque?

        Duclos encolheu os ombros e deu uns passos antes de responder.

        - De todo modo, não entenderá. Ou não quer entender. Você, assim como todos os franceses.

        Eu acreditava que compartilhávamos uma nacionalidade.

        - Sim, mas eu tenho viajado muito, possuo uma cultura universal e sei adaptar-me ao país onde estou. Desde que você está aqui, se tem precipitado para frente sem se preocupar com as contingências.

        - Por exemplo, sem me preocupar por averiguar se deseja descobrir o culpado, não é?

        Duclos animou-se.

        - E porque não? Não se trata do crime de um marginal. O autor não é um assassino ou um ladrão profissional, não é um indivíduo a quem necessariamente teremos que prender para proteger a sociedade.

        - E se assim fosse...

        Maigret, jovial, fumava seu cachimbo e caminhava com as mãos atrás das costas.

        - Olhe – murmurou Duclos, mostrando o cenário que os rodeava: a cidade limpa e em ordem como o aparador de uma boa dona de casa, o porto demasiado pequeno para que sua atmosfera fosse áspera, as pessoas de roto sereno e plantadas em seus tamancos amarelos. Continuou: - Todo o mundo ganha a vida. Todos são mais ou menos felizes, e sobretudo, refreiam seus instintos, porque assim é a regra, algo necessário se querem viver em sociedade. Pijpekamp confirmará que os roubos são muito raros, que quem rouba um pão de duas libras não escapa de passar várias semanas na cadeia. Você vê alguma desordem? Não há vagabundos, não há mendigos. É a limpeza organizada.

        - E eu chego e quebro a porcelana!

        - Espere! Nas casas da esquerda, próximas ao Amsterdiep, vivem os notáveis, os ricos que ostentam algum poder. Todo mundo os conhece. Está o prefeito, os pastores da igreja, os professores, os funcionários, todos os que se ocupam de que a vida na cidade não seja alterada, de que cada qual se mantenha em seu lugar sem molestar o vizinho. Creio que já lhe disse que essas pessoas nem sequer se permitem entrar num café, porque dariam mau exemplo. Agora, bem, alguém cometeu um crime. Você fareja um drama de família...

        Maigret escutava contemplando os barcos, cujas cobertas eram mais altas do que o cais, como paredes manchadas, porque era maré alta.

        - Ignoro a opinião de Pijpekamp, que é um inspetor muito bem considerado. Mas eu sei que seria preferível para todos anunciar esta noite que o assassino do professor é um marinheiro estrangeiro e que as investigações continuarão. Preferível para todos, para a senhora Popinga e para sua família, especialmente para seu pai, um famoso intelectual. Também para Beetje e para o senhor Liewens. Mas, sobretudo, para o bom exemplo! Para os habitantes das casinhas da cidade, que observam ao que acontece nas grandes casas do Amsterdiep e que estão dispostos a imitá-los. Você, você quer a verdade pela verdade, pela glória de solucionar um caso difícil.

        - Foi isso que Pijpekamp lhe disse esta manhã? Também lhe perguntou como se poderia acalmar minha mania por complicar as coisas? E você respondeu que, na França, as pessoas como eu se compram com um almoço e, se não, com uma propina.

        - Não fomos tão precisos.

        - O senhor sabe o que eu penso, senhor Duclos?

        Maigret havia se detido para saborear melhor o panorama do porto. Um barquinho utilizado como armazém ia de navio em navio, aproximava-se de barcaças e veleiros e entre as detonações e fumaça de seu motor a gasolina, vendia pão, tabaco, especiarias, cachimbos e genebra.

        - Estou escutando.

        - Penso que você teve sorte de sair do banheiro com o revólver na mão.

        - O que quer dizer?

        - Nada. Só me repita que não viu ninguém nesse banheiro.

        - Não vi ninguém.

        - E não ouviu nada?

        Desviou o rosto.

        - Não ouvi nada preciso, talvez que tive a impressão de que algo se mexia debaixo da tampa da banheira.

        - Desculpe-me. Vejo que alguém está me esperando.

        E dirigiu-se em grandes passos até a porta do hotel Van Hasselt, pois Beetje Liewens passeava pela calçada, à espera de sua chegada.

        Ela tentou sorrir-lhe, como nas outras vezes, mas seu sorriso carecia de entusiasmo. Notava-se o nervosismo. Depois que Maigret chegou, continuou observando a rua, como se temesse a chegada de alguém.

        - Há cerca de meia hora que o espero.

        - Quer entrar?

        - No café, não, entende?

        No corredor, o comissário titubeou um instante. Tampouco podia recebê-la em seu quarto, sendo assim, empurrou-a para o salão de baile, amplo e vazio. Ali, as vozes ressoavam com num templo. À luz do dia, a sala tinha um aspecto apagado e bolorento. O piano estava aberto. Havia uma caixa enorme em um canto e cadeiras amontoadas até o teto. Atrás, umas grinaldas de papel que deveriam servir para os bailes de sociedade.

        Beetje conservava seu aspecto saudável. Vestia uma jaqueta azul e o peito, debaixo da blusa de seda branca, era mais provocativo do que nunca.

        - Conseguiu sair de casa?

Ela não respondeu por um momento. Evidentemente, tinha muitas coisas para contar, mas não sabia por onde começar.

- Fugi - contou por fim. Já não podia continuar. Tinha medo! A empregada veio dizer-me que meu pai estava furioso, que era capaz de matar-me. Já me havia encerrado no quarto, sem me dizer nada, porque jamais fala quando está furioso. Na outra noite, voltamos sem dizer palavra, e fechou a porta do quarto com chave. Esta tarde a criada me falou pela fechadura. Parece que ao meio dia voltou muito pálido; depois do almoço, rodeou a granja em grandes passadas e depois foi visitar o túmulo da minha mãe. Vai lá sempre que tem que tomar uma decisão importante. Então, quebrei um vidro. A empregada me passou uma ferramenta e desmontei a fechadura. Não posso voltar, você não conhece meu pai.

- Uma pergunta – interrompeu Maigret. – Quanto dinheiro levou de casa?

- Não sei. Uns 500 florins.

- Estavam em seu quarto?

- Não, no escritório. – Ela corou. – Primeiro fui à estação, mas havia um policial na frente. Então, pensei em você.

Estavam ali, como em uma sala de espera, onde é possível criar uma atmosfera íntima, e nem sequer pensaram em pegar uma das cadeiras amontoadas para sentar-se.

- Beetje estava nervosa, porém não enlouquecida. Talvez, por isso, Maigret a olhava com certa hostilidade, que aflorou quando perguntou: - A quantos homens já propôs que a levem?

Desconcertada, desviou os olhos e balbuciou:

- O que disse?

- A Popinga, em primeiro lugar? Era o primeiro?

- Não o entendo.

- Pergunto se foi seu primeiro amante.

Um silêncio bem longo.

- Não pensei que seria tão mau comigo. Eu vim aqui...

- Foi o primeiro? Começo a pouco mais de um ano. Mas, e antes disso?

- Eu... flertei com o professor de ginástica no Instituto, em Groninga.

- Flertou?

- Ele foi quem... que...

- Bem. Então já teve amantes antes de Popinga. Houve outros?

- Jamais! – exclamou

- Foi amante de Barens?

- Não é verdade, eu juro!

- Entretanto, tinha encontros com ele.

- Porque ele se apaixonou por mim, mas quase não se atrevia a beijar-me.

- Em seu último encontro, eu seu pai e eu interrompemos, você lhe propôs que fugissem juntos.

- Como sabe?

Esteve a ponto de soltar uma gargalhada. Sua ingenuidade era desconcertante. Havia recuperado parte do sangue frio e falava dessas coisas com muita candura.

- Não quis?

- Assustou-se. Dizia que não tinha dinheiro suficiente.

- E você lhe disse que pegaria em sua casa. Enfim, faz muito tempo que pensa em escapar, seu grande objetivo na vida é abandonar Delfzijl em companhia de um homem qualquer.

- Um homem qualquer, não! – retificou, ofendida. Você é mau. Não quer me entender.

- Claro que si, claro que sim! Se é de uma simplicidade infantil... Você ama a vida, gosta dos homens, das diversões.

Ela baixou os olhos e mexeu no bolso.

- Se aborrece na granja modelo de seu pai. Tem vontade de ver outras coisas. E começou pelo colégio, aos 17 anos, com o professor de ginástica, Mas era impossível ir-se. Em Delfzijl, passa em revista os homens e descobre um que parece mais corajoso do que os outros. Popinga havia viajado, também gosta da vida, sente-se incomodado com tantos preconceitos. Você se joga em seu pescoço.

- Porque diz isso?

- Bom, talvez seja exagero. Digamos que, como você é uma moça bonita, tremendamente atrativa, ele faz a corte por um tempo. Mas, timidamente, por medo das complicações, medo de sua mulher, de Any, do diretor, de seus alunos...

- Sobretudo, de Any...

- Em seguida, falaremos disso. Popinga a beija pelos matos, e apostaria que não chegou a aspirar mais. Mas você acredita que chegou o momento. Então, todos os dias, cruza seu caminho, leva frutas para a casa dele, intromete-se em seu casamento, se faz acompanhar de bicicleta e param atrás do amontoado de madeira, lhe escreve cartas onde conta seus desejos de evasão...

- Você as leu?

- Sim.

- E não acredita que foi ele quem começou? – seguiu, sem parar. – A princípio, me dizia que era muito desgraçado, que a senhora Popinga não o entendia, que só pensava no “o que dirão”, e que sua vida era estúpida e tudo...

- Pois claro.

- Você vê que...

- Sessenta homens casados de cada cem dizem o mesmo à primeira jovem sedutora que encontram. Só que o desgraçado topou com uma jovem que o levou ao pé da letra.

- Você é mau, muito mau.

Estava a ponto de começar a chorar. Continha-se, golpeava o chão cada vez que dizia a palavra “mau”.

- Em suma, ele sempre atrasava a famosa fuga, e você deu-se conta de que Popinga jamais se decidiria.

- Não é verdade!

- Sim, é. A prova é que você aceitava a devoção de Barens, se Popinga estivesse por perto. Prudentemente! Porque é um jovem tímido, bem educado, respeitoso, a quem não convém assustar.

- É horrível!

- É uma pequena história, real como a vida.

- Você me detesta, não?

- Eu? Em absoluto.

- Claro que me detesta. E, entretanto, sou tão infeliz... Eu gostava de Conrad.

- E Cornelius? E o professor de ginástica?

Desta vez, chorou. Chutou.

- Proíbo-lhe...

- De dizer que não os queria? Porque não? Queria na medida que significavam para você outra vida, a grande fuga que sempre desejou.

Já não escutava. Gemia.

- Não devia ter vindo. Não sabia...

- ... que ia tomá-la debaixo da minha proteção? Pois é o que estou fazendo. Só que não a considero uma vítima e nem uma heroína. Não é mais do que uma jovenzinha ávida, um pouco boba e um pouco egoísta. Isso é tudo! Há muitas como você.

Em seus olhos cheios de lágrimas, reluzia a esperança.

- Todos me detestam – murmurou.

- Quem são todos?

- A senhora Popinga, em primeiro lugar, porque não sou como ela. Gostaria que eu passasse o dia costurando para os nativos da Oceania ou fazendo bordado para os pobres. Sei que se recomenda às moças de família que não me imitem, inclusive chegaram a dizer que acabaria mal, se não encontrasse rapidamente um marido. Me contaram.

Novamente, aparecia o ranço do perfume de uma cidade pequena. O armário, as comadres, as jovens de boas famílias reunidas ao redor de uma dama protetora, os conselhos e as pérfidas confidências.

- Mas, sobretudo, Any.

- Any a odeia, não é?

- Sim. A maioria das vezes, quando eu chegava ela ia embora do salão e subia para o quarto. Eu diria que faz muito tempo que ela adivinhou a verdade. A senhora Popinga, apesar de tudo, é uma boa mulher. Só tentava fazer-me mudar, modificar o corte das minhas roupas, e sobretudo, fazer-me ler outra coisa que não novelas. Mas não suspeitava de nada, ela insistia com Conrad para que me acompanhasse.

Um estranho sorriso flutuava no rosto de Maigret.

- Any é diferente. Já a viu: é feia, tem os dentes tortos... Nenhum homem jamais lhe fez a corte. E ela sabe perfeitamente. Sabe que ficará solteira. E por isso, estudou para ter uma carreira. Quis ter uma profissão. Finge detestar os homens. Pertence a ligas feministas. – Beetje se animava, de novo. Percebia-se um velho rancor, que, finalmente, aparecia. – Assim, sempre circulava pela casa, vigiando Conrad. Como sabe, está condenada a ser uma dama virtuosa toda a vida, e quer que todo mundo também seja. Entende? Ela adivinhou, estou certa, e também tentou afastar o cunhado de mim. E também a Cornelius. Via perfeitamente que todos os homens me olhavam, inclusive Wienands, sim: jamais se atreveu a dizer-me nada, mas fica vermelho como um tomate quando danço com ele. Claro, sua mulher ambém me detesta... Pode ser que Any não tenha dito nada à irmã, pode ser que sim. Até é possível que tenha encontrado minhas cartas.

- E que ela o tenha matado? – perguntou bruscamente Maigret.

- Juro que não sei – disse. – Eu não disse isso. Mas Any é como um veneno. É culpa minha que seja tão feia?

- Tem certeza de que Any jamais teve namorado?

Ah!aí estava o sorriso, mas o risinho de Beetje, esse risinho instintivo e triunfante da mulher desejável que rebaixa outra mais feia. Pareciam meninas de internato brigando por uma bobagem indefinível.

- Ao menos, não em Delfzijl.

- Detestava também ao cunhado?

- Não sei. Não é igual. Ele era da família. E acaso toda a família não lhe pertencia um pouco? Em todo caso, Any tinha que vigiá-lo, conservá-lo.

- Mas não matá-lo?

- No que você pensa? Repete sempre a mesma coisa.

- Eu não acredito em nada. Conte-me. Oosting estava a par de suas relações com Popinga?

- Também lhe contaram isso?

- Navegavam junto no barco dele, até os bancos de areia de Workum. Ficavam sozinhos?

- Sim. Ele ficava no leme, na coberta.

- E lhes deixava a cabine.

- Era natural, fora fazia frio.

- E não voltou a vê-lo desde a morte de Popinga?

- Não, eu juro.

- Fez-lhe a corte, Oosting, alguma vez?

Ela riu, os dentes à mostra. – Ele?

Apesar de tudo, Beetje estava tão nervosa que, de novo, teve vontade de chorar. A senhora Van Hesselt, que ouvira ruídos na sala, meteu a cabeça pela abertura da porta, balbuciou desculpas e saiu.

- Você acredita que seu pai seria capaz de matá-la?

- Sim, seria capaz.

- Então, também seria capaz de matar o seu amante.

Aterrorizada, Beetje abriu desmesuradamente os olhos e protestou vivamente.

- Não! Não é verdade! Papai não...

- Entretanto quando você chegou em casa, na noite do crime, ele não estava.

- Como sabe?

- Chegou pouco depois de você, não?

- Imediatamente depois, mas...

- Em suas últimas cartas, você demonstrava certa impaciência, Notou que Conrad lhe escapava; a aventura começava a assustá-lo e, em nenhum caso, abandonaria o lar para ir com você ao estrangeiro.

- Que quer dizer?

- Nada. Faço uma pequena rememoração. Estou certo que seu pai não tardará a chegar.

Ela olhou angustiada ao redor. Parecia buscar uma saída.

- Não tema. Preciso de você esta noite.

- Esta noite?

- Sim. Vamos reconstruir os atos e movimentos de todos na noite do crime.

- Ele me matará.

- Quem?

- Meu pai!

- Eu estarei lá. Não tema...

Abriu-se uma porta. Entrou Jean Duclos, fechou-a rapidamente atrás dele, girou a chave na fechadura e aproximou-se nervoso.

- Cuidado! O granjeiro está aqui. Ele...

- Acompanhe-a a seu quarto, professor.

- Ao meu...

- Ao meu, se prefere.

Ouviram-se passos no corredor. Perto, havia uma porta que dava para a escada de serviço. Beetje e o professor saíram por ali. Maigret abriu a outra porta e se encontrou cara a cara com o granjeiro Liewens, que o olhou por cima do ombro.

- Beetje?

De novo, o problema do idioma. Não conseguiam entender-se. Maigret limitou-se a obstruir-lhe o passo com seu fornido corpo para ganhar alguns segundos, enquanto tratava de evitar que explodisse a ira de seu interlocutor.

Jean Duclos não demorou a descer e adotou uma atitude falsamente desenvolta.

- Diga-lhe que sua filha lhe será devolvida esta noite. Que nós precisamos dela para reconstruir o crime.

- É preciso?

- Traduza, anda! Não vê que estou dizendo?

Duclos traduziu, com a voz melíflua. O granjeiro olhou para os dois.

- Diga-lhe também que esta noite o assassino o assassino estará entre as grades.

Duclos traduziu. Maigret teve o tempo justo de saltar e derrubar Liewens, que havia sacado um revólver e tentava levantar-se e apontar a arma.

A luta foi breve. Maigret era tão pesado que o adversário não tardou em imobilizar-se, já desarmado. Porém os dois corpos se chocaram um uma pilha de cadeiras que desabou com estrondo e jogou o comissário para a frente. Mas o machucado foi leve.

- Feche a porta com a chave! – gritou Maigret a Duclos. – É melhor que não entre ninguém. E levantou-se, formidável.

 

        Os Wienands foram os primeiros a chegar, as sete e meia, em ponto. Nesse momento, no salão de festas do hotel só havia três homens; cada um em um canto e não se falavam. Eram Jean Duclos, algo nervoso, passeando de um lado para outro da sala; o granjeiro Liewens, de cara amarrada, imóvel em sua cadeira; e Maigret, apoiado no piano, com o cachimbo na boca.

        Ninguém havia pensado em acender todas as luzes. Uma enorme lâmpada, colocada a grande altura, difundia uma luz acinzentada. As cadeiras continuavam amontoadas no fundo, com exceção de uma fila, a primeira, que Maigret havia feito colocar. Sobre o pequeno palco vazio, havia uma cadeira e uma mesa coberta com um pano verde.

        Os Wienands haviam-se arrumado para a ocasião. Obedecendo ao pé da letra as instruções recebidas, haviam trazido seus dois filhos. Notava-se que haviam jantado a toda pressa, e possivelmente, haviam deixado a sala de jantar em desordem para chegar com pontualidade.

        Wienands tirou o chapéu ao entrar, procurou alguém para cumprimentar e, depois de tentar dirigir-se ao professor, levou a família para um dos lugares. Ali, esperaram em silêncio. Seu colarinho postiço era muito alto e o nó da gravata estava mal feito.

        Cornelius Barens chegou quase imediatamente depois, tão pálido e nervoso que parecia a ponto de fugir ao menor susto. Ele também tentou aproximar-se de alguém, ocupar-se, mas não se atreveu e ficou junto a amontoado de cadeiras.

        O inspetor Pijpekamp trouxe Oosting, que lançou um olhar profundo a Maigret. As últimas a chegar foram a senhora Popinga e Any. Entraram apressadamente, detiveram-se um segundo e dirigiram-se para a primeira fileira de cadeiras.

        - Faça Beetje descer – ordenou Maigret ao inspetor. – Que um de seus agentes vigie Liewens e Oosting. Não estavam aqui na noite do drama. Precisaremos deles depois. Podem ficar no fundo da sala.

        Quando Beetje entrou, primeiro desconcertada e depois com a cabeça voluntariosamente erguida, esboçando um gesto de orgulho ao ver Any e a senhora Popinga, todos pareceram conter um suspiro. E não porque a atmosfera resultara dramática, porque não era. Ao contrário, era sórdida. Uns anõezinhos em uma grande sala vazia e iluminada por uma só lâmpada. Custava imaginar que poucos dias antes certas pessoas, os notáveis de Delfzijl haviam pago para sentar-se naquelas cadeiras amontoadas, entraram posando para a galeria, trocaram sorrisos e apertos de mão, sentaram-se diante do estrado muito arrumados, aplaudindo a entrada de Jean Duclos. Agora, era como se de repente, contemplassem o mesmo espetáculo por outro ponto de vista.

        Devido à espera, e a incerteza que todos tinham sobre o que ia ocorrer, os rostos não expressavam sequer inquietude ou dor. Tratava-se de outra coisa. Os olhos estavam tristes, inexpressivos. As feições cansadas, confusas. A luz mostrava os rostos em tons de cinza. A própria Beetje deixava de ser atraente. Tudo carecia de prestígio, de grandeza. Era patético ou ridículo.

        No lado de fora, silenciosamente, haviam-se formado alguns grupos de pessoas, porque, à última hora da tarde, havia corrido o rumor de que ia acontecer algo. Mas, sem dúvida, ninguém imaginava que o espetáculo fosse tão pouco apaixonante.

        Maigret dirigiu-se em primeiro lugar à senhora Popinga:

        - Quer instalar-se no mesmo assento da outra noite? – disse.

        Em sua casa, horas antes, seu aspecto era trágico. Agora toda ela havia mudado. Parecia mais velha. Notava-se que a roupa, mal cortada, avultava mais um ombro do que o outro, e que tinha os pés grandes, assim como uma cicatriz no pescoço, debaixo da orelha.

        O caso de Any era pior: seu rosto nunca havia sido tão assimétrico. Vestia uma roupa ridícula, apertada em excesso, e um chapéu horrível.

        A senhora Popinga sentou-se no meio da primeira fila, no lugar de honra. A noite das conferências, com as luzes, com toda Delfzijl atrás dela, devia corar de orgulho e prazer.

        - Quem estava a seu lado?

        - O diretor da Escola Naval.

        - E do outro?

        - O senhor Wienands.

        Pediram a ele que ocupasse o assento. Não havia tirado o casaco. Sentou-s estranhomente, olhando para outro lado.

        - A senhora Wienands?

        - Ao final da fileira, por causa das crianças.

- Beetje?

Esta,ocupou o lugar por si mesma e deixou uma cadeira vazia entre ele e Any: a cadeira De Conrad Popinga.

Pijpekamp continuava em pé, a cera distância da cena, desconcertado, assombrado, incomodado e, além disso, preocupado. Jean Duclos esperava sua vez.

- Suba ao palco – ordenou Maigret.

O professor foi, talvez, quem perdeu mais prestígio. Magro, mal vestido, dava trabalho imaginar que, uma noite, cem pessoas haviam-se incomodado em acudir a escutá-lo.

O silêncio era tão angustiante como a luz, ao mesmo tempo, demasiado precisa e insuficiente, que caía do teto. Do fundo da sala, Baes tossiu três ou quatro vezes, expressando o mal estar geral.

O próprio Maigret não deixava de sentir certa inquietude, Vigiava a entrada em cena. Seu pesado olhar ia de uma pessoa à outra, detendo-se nos menores detalhes, na postura de Beetje, na saia demasiado larga de Any, nas unhas descuidadas de Duclos, que, só em sua mesa de conferência, tentava manter a compostura.

- Durante quanto tempo falou?

- Três quartos de hora.

- Levou sua palestra?

- Oh, não! Esta é a vigésima vez que a dou. Nem sequer utilizo notas.

- Ah, então olhava para a sala.

E foi sentar-se um instante entre Beetje e Any. As cadeiras estavam bastante próximas. Seu joelho tocou o de Beetje.

- A que horas terminou a noitada?

- Lá pelas nove, porque antes da palestra, uma jovem tocou piano.

O piano continuava aberto, com uma polonesa de Chopin na prateleira. A senhora Popinga começou a mordiscar o lenço. No fundo. Oosting mexia os pés sem cessar sobre o chão coberto de serragem. Eram oito e alguns minutos e Maigret levantou-se e começou a caminhar.

- Quer resumir-me, senhor Duclos, o tema de sua palestra?

Duclos sentiu-se incapaz de falar. Ou melhor, quis começar suas palavras desde o começo. Murmurou, depois de alguns pigarros:

- Não infligirei a inteligente população de Delfzijl a injúria de...

- Desculpe. Você falou de criminalidade. De que aspecto dela?

- Concretamente, da responsabilidade dos criminosos.

- E você dizia que...

- ... que nossa sociedade é a responsável pelas faltas que se cometem em seu seio e que chamamos crimes. Organizamos a vida para o bem maior de todos. Criamos as classes sociais e é necessário que cada indivíduo ocupe seu lugar em uma delas.

Enquanto falava, contemplava o pano verde. Sua voz carecia de clareza.

- Já chega! – disse Maigret. – Sei como continua: “ Há indivíduos excepcionais, enfermos ou inadaptados. Tropeçam com barreiras inabaláveis, são rechaçados por parte de uns e outros, e caem no crime”. Suponho que é isso, não? Não é novo. Conclusão: Nada de cárceres, apenas centros de reeducação, hospitais, casas de repouso e clínicas.

Duclos, enfadado, não respondeu.

- Enfim, falou de tudo isso durante três quartos de hora e citou exemplos famosos: Lombroso, Freud e companhia. – Consultou o relógio e disse dirigindo-se sobretudo à primeira fila de cadeiras: Peço-lhes que aguardem ainda alguns minutos.

Nesse instante, um dos meninos Wienands começou a chorar. Sua mãe, muito nervosa, repreendeu-o para acalmá-lo. Wienands, vendo que ela não conseguia, sentou o menino em seus joelhos e começou a acariciá-lo como doçura e logo, beliscou-lhe o braço para acalmá-lo.

Era preciso olhar para a cadeira vazia entre Beetje e Any para lembrar que tinha havido um crime. E, talvez, nem assim. Acaso Beetje, com sua figura saudável, porém banal, era capaz de causar discórdia em um casamento? Só possuía uma coisa atraente, e a magia do simulacro idealizado por Maigret sublinhava a verdade pura e simples, devolvendo aos acontecimentos a sua crueza inicial: possuía dois formosos seios que a seda ressaltava ainda mais, uns seios de dezenove anos que tremulavam levemente debaixo da blusa, só o suficiente para parecerem mais vivos.

Um pouco mais longe, via-se a senhora Popinga, ela, que nem aos 19 anos tinha tido uns seios semelhantes, ela, demasiado vestida, envolta em roupas sóbrias, de bom tom, que lhe tiravam qualquer atrativo carnal.

Depois, Any. Angulosa, feia, plana, mas enigmática.

Popinga havia encontrado Beetje, esse Popinga bon vivant, esse Popinga ávido por saborear as boas coisas. E não se havia fixado no rosto de Beetje, nesses olhos cor de porcelana, não havia adivinhado os desejos de evasão que se ocultavam atrás daquele rosto de boneca.

Só teve olhos para aquele peito vivo aquele corpo sadio e atrativo.

A senhora Wienands, por sua parte, nem sequer era mulher. Era uma mãe e dona de casa. Agora ninava seu pirralho, que já não tinha forças para chorar.

- Tenho que continuar aqui? – perguntou Jean Duclos, do estrado.

- Por favor.

Maigret aproximou-se de Pijpekamp e falou em voz baixa. O policial de Groninga saiu pouco depois, em companhia de Oosting.

No café, jogavam bilhar, ouvia-se o choque das bolas. E na sala, todos respiravam com dificuldade. Parecia uma sessão de espiritismo, a espera de algo espantoso. Any foi a única que, de repente, atreveu-se a levantar e exclamar, depois de titubear um bom tempo:

- Não vejo aonde quer chegar... É...

- É a hora. Perdão. Onde está Barens?

Tinha se esquecido dele. Encontrou-o ao fundo da sala, apoiado numa parede.

- Porque não está ocupando seu lugar?

- Você disse que nos colocássemos como na outra noite. – O olhar era esquivo e a voz arquejante. – E na outra noite, eu estava sentado nos assentos de cinquenta centavos, como os outros alunos.

Maigret já não se ocupou mais dele e foi abrir a porta que dava para a varanda. Por ali, podiam sair para a rua, sem precisar cruzar o café. Viu três ou quatro silhuetas, na escuridão.

- Suponho que, terminada a conferência, tenha se formado um grupinho ao pé do estrado: o diretor da escola, o pastor, algumas personalidades felicitando o orador...

Ninguém respondeu, mas estas palavras bastaram para evocar a cena: as fileiras de espectadores dirigindo-se para a saída, barulho de cadeiras, conversas, e ali, perto do palco, um grupo, apertos de mão, elogios...

A sala se esvaziava. O último grupo se dirigia finalmente para a porta. Barens alcançou os Popinga.

- Já pode vir, senhor Duclos.

Todos se levantaram. Mas nenhum deles interpretava com naturalidade o seu papel. Olhavam para Maigret. Any e Beetje fingiam não ver-se. Wienands, estranho e constrangido, carregava o menino menor.

- Sigam-me. – E pouco antes da porta, acrescentou: - Vamos a casa na mesma ordem do dia da palestra. A senhora Popinga e o senhor Duclos, por favor.

Olharam-se, duvidosos e avançaram uns passos pela rua escura.

- Senhorita Liewens, você ia com Popinga. Siga, eu a alcançarei em um momento.

Beetje quase não se atrevia a andar sozinha pela rua, e tinha medo, sobretudo, do pai, vigiado num canto da sala pela polícia.

- O senhor e a senhora Wienands.

Foram os mais naturais, porque tinham que cuidar das crianças.

- Agora você, Any, e Barens.

Este último estava a ponto de começar a chorar e precisou morder os lábios, mas, apesar de tudo, passou diante de Maigret. E o comissário se voltou então, para o policial que custodiava Liewens.

- Na noite da tragédia, naquela hora, ele estava em casa. Quer acompanhá-lo até lá para fazê-lo repetir exatamente todos os seus movimentos?

Parecia um cortejo mal organizado. Os que iam na frente paravam perguntando se deviam seguir. Havia vacilações e paradas. A senhora Van Hesselt assistia da porta e ao mesmo tempo respondia aos jogadores de bilhar, que falavam.

Três quartas partes da cidade dormiam e as lojas estavam fechadas. A senhora Popinga e Duclos tomaram o caminho do cais, e se adivinhava que o professor tentava tranquilizar a acompanhante.

Passavam alternadamente da luz à escuridão, porque os postes a gás estavam muito espaçados. Divisaram a água negra, os barcos que se balançavam, cada um deles com uma lanterna na parte de cima.

Beetje, sabendo que Any ia atrás dela, tentava caminhar com desenvoltura, mas o fato de ir só dificultava essa atitude.

Mediavam alguns passos entre os grupos. Cem metros mais adiante viram claramente o barco de Oosting, porque era o único pintado de branco. Não havia luz nas escotilhas. O cais estava deserto.

- Querem parar todos vocês no lugar onde estão? – disse Maigret, de modo que o ouvissem em todos os grupos.

Ficaram imóveis. A noite era muito escura. O pincel luminoso do farol passava muito acima de suas cabeças, sem iluminá-los. Maigret dirigiu-se à Any:

- Estava exatamente neste lugar, na comitiva?

- Sim.

- E tu, Barens?

- Sim, creio que sim.

- Tem certeza? Estava ao lado de Any?

- Sim. Espere, não estava aqui, mas dez metros mais para lá, porque Any me disse eu um dos Wienands arrastava o casaco no chão.

- E te adiantaste um pouco para avisar aos Wienands?

- Sim, à senhora Wienands.

- Fizeste isso em poucos segundos, não?

- Sim. Os Wienands seguiram caminhando, e eu esperei Any.

- Não notaste nada anormal?

- Não.

- Adiantem-se todos dez metros! – ordenou Maigret.

E então, a senhora Popinga parou exatamente na altura do barco de Oosting.

- Aproxima-te dos Wienands, Barens. – Maigret disse, então, à Any: - Pegue o boné que está em cima da coberta.

Só tinha que dar três passos e agachar-se. O boné estava visível ali, negro sobre a madeira branca, muito visível, e seu escudo espalhava reflexos metálicos.

- Porque você quer...

- Pegue.

Os outros, mais afastados, tentavam averiguar o que estava acontecendo.

- Mas eu não...

- Não importa! Não estamos todos. Cada um de nós deve interpretar vários papéis; não é mais do que uma experiência...

Pegou o boné.

- Esconda-o debaixo do casaco. Alcance Barens – Maigret subiu à coberta do barco e chamou: - Pijpekamp!

- Já! O policial assomou á escotilha dianteira. A escotilha se comunicava com o camarote onde dormia Oosting e o camarote não tinha altura suficiente para que um homem pudesse permanecer de pé, pelo que, logicamente, para fumar seu último cachimbo, poderia botar a cabeça e apoiar os cotovelos na coberta.

Oosting estava precisamente ali, nesta atitude. Desde o cais, do lugar onde se encontrava o boné, ninguém poderia vê-lo, porém ele via perfeitamente o ladrão do boné.

- Bem! Que repita o mesmo da outra noite. – Maigret adiantou os grupos. Sigam caminhando! Eu ocuparei o lugar de Popinga.

Colocou-se ao lado de Beetje. À frente dele iam a senhora Popinga e Duclos, atrás os Wienands e, no fim, Any e Barens. Mais longe, ouvia-se um barulho: Oosting,vigiado pelo inspetor, se punha em marcha.

A partir de agora, não passariam por ruas iluminadas. Depois do porto, tinham que bordear a eclusa deserta que separava o mar do canal. Depois, começava o caminho de sirga, na beira da água, com as árvores a direita e, a meio quilômetro, a casa dos Popinga.

- Beeje murmurou: - Não entendo nada.

- Shiuuu! A noite está tranquila. Podemos ouvir, da mesma maneira que nós ouvimos as vozes dos que nos precedem e dos que nos seguem. Assim que Popinga falou em voz alta de diversas coisas, sem dúvida, sobre a palestra, não?

- Sim.

- Só que em voz baixa, você lhe fez certas censuras.

- Como sabe?

- Dá no mesmo. Espere! Durante a conferência, você estava a seu lado, e tentou tocar-lhe a mão. Ele a rechaçou?

- Sim. – murmurou impressionada, olhando-o com os olhos muito abertos.

- E você insistiu.

- Sim. Antes não era tão prudente, me beijava, inclusive em sua casa, atrás das portas. Uma vez, mesmo na sala de jantar, enquanto a senhora Popinga nos falava do salão. Nos últimos tempos, tinha ficado mais medroso.

- Muito bem! Você lhe fez censuras. Repetiu-lhe que queria fugir com ele, sem deixar de conversar em voz alta.

Ouviam-se passos na frente, passos atrás, murmúrios, Duclos dizia:

- Asseguro-lhe que isto não encaixa em nenhum método de investigação policial.

Atrás, a senhora Wienands advertia com o filho, em holandês.

Descobriram a casa, envolta na escuridão. Não havia luz alguma. A senhora Popinga se deteve diante da porta.

- Você parou aqui, igual agora, não é verdade? Seu marido levava a chave?

- Sim.

Os grupos se juntaram. – Abra! – disse Maigret. – A criada estava deitada?

- Sim, como hoje.

Uma vez aberta a porta, ele apertou o interruptor. O corredor se iluminou e, à esquerda, o cabide de bambu.

- Notaram que Popinga, desde este momento, estava muito contente?

- Sim, muito contente. Mas, não era natural. Falava muito alto.

Tiraram os casacos e os chapéus.

- Desculpem, mas, todos tiraram os abrigos aqui?

- Todos, exceto Any e eu. – disse a senhora Popinga. – Nós subimos aos quartos para descansar um pouco.

- Sem entrar em nenhum outro quarto? Quem acendeu a luz do salão?

- Conrad.

- Subam, por favor. – E subiu com elas. – Any teria que cruzar seu quarto para chegar ao dela. Recorda se demorou-se um pouco consigo, senhora Popinga?

- Não, não me recordo.

- Por favor, repitam os mesmos gestos. Any, deixe no quarto, o boné, o casaco e o chapéu. Que fizeram vocês aquela noite?

O lábio inferior da senhora Popinga se levantou.

- Passei um pouco de pó. – disse com voz infantil. – Penteei o cabelo. Mas não posso... É espantoso! Parece que ouvi a voz de Conrad embaixo. Falava do radio, de sintonizar a Radio Paris.

A senhora Popinga atirou o casaco sobre a cama. Chorava sem lágrimas, de puro nervosismo. Any, de pé no escritório que utilizava como dormitório, esperava.

- Desceram juntas?

- Sim! Não! Já não sei! Creio que Any desceu um pouco depois de mim. Adiantei-me para preparar o chá.

- Em tal caso, se importaria de descer?

Ficou a sós com Any. Maigret, sem dizer uma palavra, pegou o boné das mãos, olhou ao redor e o escondeu no sofá.

- Venha.

- Você acha...

- Não. Vamos descer. Vá, não passou pó.

- Nunca o faço.

Tinha olheiras. Maigret a fez passar diante dele. Os degraus da escada rangeram. Embaixo, havia um silêncio absoluto, tanto que, quando entraram no salão, o ambiente era irreal. Parecia um museu de figuras de cera. Ninguém se havia atrevido a sentar. Só a senhora Wienands arrumava os cabelos despenteados do filho mais velho.

- Sentem-se, como na outra noite. Onde está o aparelho de radio?

Ele mesmo o encontrou, girou o dial, ouviram-se ruídos, vozes, fragmentos de música, e sintonizou finalmente uma emissora na qual dois cômicos interpretavam uma peça francesa. “O colono disse ao barítono...”. Moveu um pouco o dial e ouviu-se a voz mais claramente. Dois ou três sibilos mais “... e é um bom tipo o barítono. Porém, o colono, meu amigo...”

Aquela voz popularesca e libertina ressoava no salão perfeitamente em ordem, onde todo mundo mantinha uma imobilidade absoluta.

- Sentem-se! – vociferou Maigret. – Preparem o chá! Falem! – Quis olhar através da janela, porém os postigos estavam fechados. Foi abrir a porta e chamou: Pijpekamp!

- Sim! – respondeu a voz na sombra.

- Onde está?

- Atrás da segunda árvore!

Maigret voltou. A porta se fechou. A peça havia terminado e o locutor anunciava: “Disco Odeon, número 28675...”. Apitos. Música de jazz. A senhora Popinga se encostou à parede. Na audição, se adivinhava outra voz que gaguejava um idioma estrangeiro e soava às vezes um estalo: depois, a música recomeçava.

Maigret buscou Beetje com o olhar. Se deixara cair em uma poltrona. Chorava lágrimas vivas. Balbuciava entre soluços:

- Pobre Conrad, Conrad...

E Barens, exangue, mordia os lábios.

- O chá! – ordenou Maigret a Any.

- Ainda não. Haviam enrolado o tapete para retirá-lo. Conrad dançava.

Beetje soltou um soluço mais agudo. Maigret olhou o tapete, a mesa de carvalho e sua tapeçaria bordada, a janela, e também a senhora Wienands, que não sabia o que fazer com seus filhos.

 

        Maigret os dominava a todos, graças à sua estatura, ou melhor dizendo, à sua corpulência. O salão era pequeno. Junto à porta, o comissário parecia muito grande, inclusive para si mesmo. Estava sério. Talvez nunca foi tão humano como quando pronunciou, lentamente, com voz apagada:

        - A música segue. Barens ajuda Popinga a enrolar o tapete. No canto, Jean Duclos fala, escutando-se a si mesmo, diante da senhora Popinga e de Any. Wienands e sua esposa pensam que deveriam ir-se, por causa das crianças, e o comentam em voz baixa. Popinga tomou um copo de conhaque e isso basta para excitá-lo. Ri, cantarola, se aproxima de Beetje e a convida para dançar.

        A senhora Popinga olhava fixamente para o chão. Any mantinha seus olhos febris cravados no comissário.

        - O assassino sabe que vai cometer um crime. – terminou Maigret. – Uma pessoa está vindo dançar com Conrad e sabe que dentro de duas horas este homem que ri com um riso demasiado sonoro, que quer divertir-se acima de tudo, que tem sede de vida e emoções, será só um cadáver.

        O impacto dessas palavras quase se pode ouvir. A boca da senhora Popinga se abriu para lançar um grito que não chegou a articular. Beetje seguia soluçando. De repente, a atmosfera havia mudado. Estavam a ponto de procurar Conrad com o olhar. A Conrad, que dançava. A Conrad, espreitado pelos olhos de um assassino.

        - Só Jean Duclos se atreveu a exclamar:

        - Tremendo! – E como ninguém escutava, prosseguiu para si mesmo, com a esperança de ser ouvido por Maigret. – Agora eu entendi o seu método, e não é novo! Aterrorizar o culpado, sugestionar, devolvê-lo à atmosfera de seu crime para obrigá-lo a confessar. Alguns criminosos, tratados dessa maneira, repetiam, relutantemente, os mesmos gestos.

        Mas, não passava de um murmúrio confuso. Essas palavras não eram as que se deviam ouvir nesse momento. O alto-falante continuou difundindo sua música, e isto bastava para tensionar a atmosfera em alguns graus.

        Wienands, depois que sua mulher cochichara algo em seu ouvido, levantou-se timidamente.

        - Sim! Sim! Podem ir. – disse Maigret, antes que começasse a falar.

        Pobre senhora Wienands, pequena burguesa bem educada, que teria gostado de despedir-se de todo mundo, fazer as crianças cumprimentarem e não sabia como fazê-lo e estreitava a mão da senhora Popinga, sem saber o que dizer.

        Havia um relógio de parede sobre a lareira. Marca dez e cinco.

        - Anda não é hora do chá? – perguntou Maigret.

        - Sim! – repondeu Any, levantando-se e dirigindo-se para a cozinha.

        - Perdão, senhora, não acompanhou sua irmã para preparar o chá?

        - Pouco depois.

        - Encontrou-a na cozinha?

        A senhora Popinga passou uma mão pela fronte. Esforçava-se para não cair no torpor. Olhou o alto-falante com exasperação.

        - Já não sei. Espere. Creio que Any saía da sala de jantar, porque o açúcar está no aparador.

        - Havia luz?

        - Não. Ainda que, talvez... Não, me parece que não.

        - Não se disseram nada?

        - Sim! Eu lhe disse: “Conrad não deve beber mais, porque senão, começará a comportar-se de maneira inadequada...”.

        Maigrte se dirigiu ao corredor no momento em que os Wienands fechavam a porta de entrada. A cozinha era muito clara, de uma limpeza meticulosa. A água aquecia num fogão a gás. Any levantava a tampa de um bule.

        - Não é necessário que traga chá.

        Estavam sós. Any olhou-o nos olhos.

        - Porque me obrigou a levar o boné? – perguntou.

        - Não tem importância. Venha.

        No salão, ninguém falava, nem se movia.

        - Você vai deixar esta música até o final? – atreveu-se a protestar Jean Duclos.

        - Depende. Tem alguém que eu gostaria de ver: a criada.

        A senhora Popinga olhou para Any, que respondeu: - Está dormindo. Deita sempre às nove.

        - Bem, vá dizer-lhe que desça um momento. Não vale a pena que se vista. – E com a mesma voz de recitador que havia adotado no princípio, repetiu, obstinado: - Você, Beetje, dançava com Conrad. No cano, se falava de temas sérios. E alguém sabia que haveria um morto, alguém sabia que era a última noite de Popinga.

        Ouviram-se ruídos, passos, uma porta bateu no segundo andar da casa, onde esavam os quartos. Depois, foi crescendo um murmúrio. Any foi a primeira a entrar. Uma silhueta esperava no corredor.

        - Entre! – gritou Maigret. – Que alguém lhe diga que não deve ter medo, que entre.

        A empregada tinha uns traços descaídos, um rosto largo e chato, estava atemorizada.Havia se limitado a colocar um casaco sobre a camisola de flanela, de cor creme, que lhe chegava aos pés. Tinha os olhos turvos de sono e os cabelos em desordem. Cheirava a cama quente.

        O comissário dirigiu-se a Duclos: - Pergunte-lhe em holandês se foi amante de Popinga.

        A senhora Popinga desviou a cabeça, dolorosamente. Traduziram a pergunta. A criada negou energicamente com a cabeça.

        - Repita a pergunta! Pergunte se alguma vez o senhor Popinga tentou passar-se com ela.

        Novos protestos.

        - Diga-lhe que, se não diz a verdade, pode ir para a cadeia. Divida a pergunta em duas: Ele a beijava? Entrou, alguma vez, em seu quarto, estando ela lá?

        A jovem de camisola estalou em lágrimas e exclamou:

        - Eu não fiz nada! Juro que não lhe fiz nada.

        Duclos traduzia. Com os lábios apertados, Any olhava para a empregada.

        - Chegou exatamente a ser sua amante?

        Mas a criada não podia falar. Protestava. Chorava. Pedia perdão. Articulava palavras interrompidas por soluços.

        - Não creio – traduziu, finalmente, o professor. – Pelo que entendo, flertava com ela. Quando esta a sós com ela, em casa, dava voltas ao redor dela, na cozinha. Beijava. Uma vez, entrou em seu quarto, enquanto se vestia. Dava-lhe chocolate, às escondidas. Mas, nada mais.

        - Diga-lhe que pode ir deitar-se.

Olhou para a jovem, enquanto subia a escada. Instantes depois, escutaram idas e vindas em seu quarto. Maigret dirigiu-se a Any.

- Quer também ser amável e ver o que há?

- Quer ir-se embora imediatamente. Está envergonhada. Não quer ficar uma hora mais aqui. Pede perdão a minha irmã... Diz que irá viver em Groninga ou em outro lugar, mas que irá embora de Delfzijl. – E acrescentou, agressiva: - Era isso que queria?

Um relógio marcava dez e quarenta. Uma voz anunciava pelo alto-falante: “Nosso programa terminou. Boas noites, senhoras e senhores...

Depois, ouviu-se uma música lenta, muito amortizada, de outra emissora. Maigret, nervosamente, apagou o radio e se produziu um silêncio brutal e absoluto. Beetje já não chorava, mas continuava com o rosto entre as mãos.

- A conversa prosseguiu? – perguntou o comissário, com visível cansaço.

Ninguém respondeu. As feições ainda estavam mais marcadas que na sala do hotel.

- Peço-lhe perdão por essa sessão tão penosa. – Maigret se dirigia especialmente à senhora Popinga – mas não esqueça que seu marido ainda estava vivo. Estava aqui, excitado pelo conhaque. Por certo, seguiu bebendo.

- Sim.

- Estava condenado, entenda. E por alguém que estava olhando para ele. E os outros, os que estavam aqui neste momento e se negam a dizer o que sabem, convertem-se em cúmplices do assassino.

Barens soltou um soluço e começou a tremer.

- Não é verdade, Cornelius? – disse Maigret, olhando-o nos olhos.

- Não! Não! Não é verdade!

- Então, porque treme?

- Eu, eu...

Estava a ponto de sofrer uma nova crise, como ocorreu no caminho da granja.

- Escute-me, Barens. Beetje se foi com Popinga, e tu saíste imediatamente depois. Os seguiste por um momento. Viste algo.

- Não! Não é verdade!

- Espera! Depois que se foram os três, ficaram aqui a senhora Popinga, Any e o professor Duclos. Estas 3 pessoas estavam no primeiro andar.

Any assentiu com a cabeça.

- Cada um no seu próprio quarto, não é verdade? Diz-me o que viste, Barens.

Barens remexeu-se, inutilmente. Maigret o mantinha, palpitante, debaixo do olhar.

- Não! Nada! Nada!

- Não viste Oosting escondido atrás de uma arvore?

- Não.

- Entretanto, rodeaste a casa, tinhas que ter viso algo.

- Não sei. Não quero... Não! É impossível!

Todos o olhavam. Ele não ousava olhar a ninguém. E, Maigret, desapiedado, continuou:

- Primeiro, viste algo no caminho. As duas bicicletas iam adiante, tinham que passar pelo trecho iluminado pelo farol. Estavas com ciúme. Esperavas. E tiveste que esperar bastante tempo. Mais do que correspondia ao tamanho do caminho.

- Sim.

- Em outras palavras, a dupla parou na sombra do monte de madeira. Isso não te assustou, ainda que, talvez te enfadaras e começaras a deseperar-te. Então, viste outra coisa, e terrível. O bastante terrível para te fazer ficar aqui quando já era hora de voltar à escola. Te achavas perto do monte de madeira. Só podias ver uma janela.

De repente, Barens ergueu-se, assustado, perdendo todo o controle de si mesmo.

- É impossível que você saiba. Eu... eu...

- A janela da senhora Popinga. Havia alguém naquela janela. Alguém que, como tu, havia visto passar a dupla muito mais tarde do que o normal pelo raio luminoso do farol. Alguém que, portanto, sabia que Conrad e Beetje haviam parado no escuro durante muito tempo.

- Eu! – disse com clareza, a senhora Popinga.

E agora, foi Beetje quem se assustou e a olhou com os olhos desorientados pelo terror.

Ao contrário do que todos esperavam, Maigret não fez nenhuma pergunta mais. Isso criou certo mal estar. Tinham a impressão de que, chegados ao ponto culminante, paravam de repente.

O comissário foi abrir a porta da casa e chamou:

- Pijpekamp! Venha, por favor. Deixe Oosting onde está. Suponho que terá visto que as luzes das janelas dos Wienands se acendiam e apagavam. Devem estar deitados.

- Sim.

- E Oosting?

- Segue atrás da árvore.

O inspetor de Groninga olhava a seu redor, com assombro. Respirava-se uma paz incompreensível. E os rostos das pessoas que haviam passado noites sem dormir.

- Quer ficar aqui um momento. Vou sair com Beetje Liewens, como fez Popinga. A senhora Popinga subirá ao seu quarto, e também Any e o professor Duclos. Quero que repitam exatamente o mesmo da outra noite. – E dirigindo-se a Beetje, pediu: Quer vir?

Fora, fazia frio. Maigret circulou o edifício e encontrou, na cobertura, a bicicleta de Popinga e duas bicicletas de mulher.

- Pegue uma.

Depois, enquanto circulavam lentamente pelo caminho de sirga, em direção ao amontoado de madeira, perguntou:

- Que propôs que parassem?

- Conrad.

- Continuava alegre?

- Não. Quando saímos, vi que estava triste.

Já haviam alcançado as madeiras.

- Vamos descer. Estava carinhoso?

- Sim e não. Estava triste. Creio que era por causa do conhaque. A princípio, isso lhe havia dado alegria. Ao chegar aqui, tomou-me nos braços e me disse que era muito desgraçado, que eu era uma boa moça. Sim, isso disse exatamente. Que eu era uma boa moça, mas que chegava demasiado tarde e que, se não tomássemos cuidado, tudo acabaria com uma desgraça.

- E as bicicletas?

- Apoiamos ali. Percebi que ele tinha vontade de chorar. Já o havia visto assim outras vezes, nas noites em que havia tomado uns copos. Disse que ele era um homem, que para ele isso não tinha importância, mas que uma jovem como eu não devia jogar a vida em uma aventura. Depois, jurou que me queria, que não tinha o direito de estragar a minha vida, que Barens era um bom rapaz e que eu acabaria por sentir-me muito feliz com ele.

- E então?

- Respirou com força e estalou. – Gritei-lhe que era um covarde e tentei montar de novo na bicicleta.

- Que fez ele?

- Segurava minha bicicleta para impedir que me fosse. Dizia: - Te explicarei. Não é por mim. É...

- E o que explicou?

- Nada. Porque lhe disse que, se não me soltasse, eu gritaria. Solou-me. Pedalei. Segui-me, sem deixar de falar. Mas eu corria mais. Só ouvia: Beetje. Beetje! Escuta-me um momento.

- Isso é tudo?

- Quando viu que chegava à cerca da granja, deu meia volta. Eu me virei e o vi inclinado sobre a bicicleta, muito triste.

- E correu atrás dele?

- Não. O odiava porque queria que me casasse com Barens. Ele queria estar ranquilo, não é?Porém, quando fui empurrar a porta, dei-me conta que não levava minha chave. Quis recuperá-la e voltei para buscá-la. Não me encontrei com ninguém no caminho. Quando cheguei em casa, meu pai não estava. Voltou mais tarde, e não me deu boa noite. Estava pálido, e seus olhos tinham um olhar malévolo. Pensei que nos havia espiado no monte de madeira e que se havia escondido. Na manhã seguinte, deve ter revistado meu quarto. Encontrou as cartas de Conrad, porque não voltei a vê-las. Depois, me trancou.

- Venha!

- Aonde?

Maigret nem sequer respondeu. Pedalou até a casa dos Popinga. Havia luz na janela da senhora Popinga, mas a ela não se via.

- Você acredita que tenha sido ela?

E o comissário resmungava, para si mesmo:

- Regressa tristonho, preocupado. Seguramente, desce da bicicleta aqui. Circunda a casa, segurando a bicicleta pelo guidon. Sabia que sua tranquilidade estava ameaçada, mas era incapaz de escapar com a amante. – E, de repente, ordenou: Fique aqui, Beetje.

Conduziu a bicicleta ao largo do caminho paralelo ao edifício. Entrou no pátio e se dirigiu até a cobertura, onde o bote envernizado, na escuridão, tinha a forma de um grande fuso.

A janela de Jean Duclos estava iluminada. Adivinhava-se o professor sentado diante da mesa. A dois metros, a janela do banheiro, entreaberta, mas às escuras.

- Não deve ter nenhuma pressa para entrar – seguia monologando, Maigret. Agacha-se, assim, para meter a bicicleta na cobertura. Entretinha-se, tocando a bicicleta. Parecia esperar algo. E algo aconteceu, com efeito, porém algo surpreendente: um barulhinho de cima, na janela do banheiro, um ruído metálico, o clique de um revólver descarregando.

Imediatamente depois, lhe chegou o ruído de uma luta, e de dois corpos caindo no chão. Maigret entrou na casa pela cozinha, subiu rapidamente ao primeiro andar, empurrou a porta e apertou o comutador. Dois corpos se debatiam no chão: o do inspetor Pijpekamp e o de Barens, que foi o primeiro a se imobilizar, enquanto sua mão direita, ao abrir-se, soltava um revólver.

 

        - Estúpido! – Isso foi a primeira coisa que Maigret disse antes de recolher Barens – em toda a extensão da palavra – levantá-lo e sustentá-lo por um instante, porque senão o jovem teria caído de novo. Abriram-se algumas portas. Maigret gritou: - Que desça todo mundo!

        Tinha o revólver na mão, e o manejava sem nenhuma precaução, porque ele mesmo havia substituído os projéteis originais por cartuchos sem pólvora. Pijpekamp sacudia s jaqueta cheia de pó com o dorso da mão. Jean Duclos perguntou, mostrando Barens:

        - É ele?

        O jovem aluno da Escola Naval dava pena: não parecia um grande culpado, mas apenas um escolar pego numa falta. Não se atrevia a olhar ninguém, e não sabia o que fazer com as mãos nem com o olhar. Maigret acendeu as luzes do salão. Any foi a última a aparecer. A senhora Popinga negou-se a sentar e, debaixo da roupa, se adivinhava que lhe tremiam os joelhos.

        Então, pela primeira vez, notaram que o comissário não estava à vontade. Encheu o cachimbo, o deixou apagar, sentou-se em uma poltrona e levantou-se imediatamente.

        - Estou metido num assunto que não me concerne – disse, muito rapidamente. – Havia um francês implicado e me enviaram para esclarecer o caso. – Voltou a acender o cachimbo para refletir. Voltou-se para Pijpekamp. – Beetje está lá fora, como Oosting e seu pai. Temos que dizer-lhes que voltem para casa ou que entrem. Querem que se saiba a verdade?

        O inspetor dirigiu-se para a porta. Em pouco, entrava Beetje, humilde e tímida, depois Oosting, com a cara fechada; e finalmente, ao mesmo tempo que Pijpekamp, um Liewens pálido e esquivo. Então viram que Maigret abria a porta da sala de jantar e o ouviram remxer um armário. Quando regressou, tinha na mão uma garrafa de conhaque e um copo. Bebeu sozinho, mal humorado. Todos estavam de pé. Ao seu redor, e ele parecia intimidado.

        - Quer saber, Pijpekamp? – E, brutalmente, acrescentou – Azar, não? Sim! Azar se seu método não é bom! Somos de países diferentes, de raças diferentes, e os climas são diferentes. Quando você intuiu que se tratava de um drama familiar, precipitou-se sobre o primeiro testemunho que lhe permitia fechar o caso e decidiu: crime por um marinheiro estrangeiro! Talvez seja preferível para a saúde pública. Nenhum escândalo, nenhum mau exemplo dado pela burguesia ao povo... Só que eu não consigo tirar da cabeça a imagem de Popinga, aqui mesmo, ouvindo o radio e dançando debaixo do olhar de seu assassino. – Resmungou, sem olhar ninguém: - O revólver foi encontrado no banheiro. Por conseguinte, dispararam de dentro de casa. Porque é idiotice acreditar que o culpado , uma vez realizado o crime, teve suficiente coragem para atirar a arma por uma janela entreaberta!E sobretudo, deixar um boné na banheira e uma bagana de cigarro na sala de jantar.

        Começou a caminhar pela sala, procurando sempre não olhar seus interlocutores. Oosting e Liewens, que não o entendiam, olhavam intensamente, tentando adivinhar o sentido de suas palavras.

        - Esse boné, essa bagana e, finalmente, a arma tirada da mesinha de cabeceira do próprio Popinga, era demais, entendem? Era querer demonstrar demais. Era enrolar tudo em excesso. Oosting, ou qualquer outra pessoa vinda de fora, haveria deixado, talvez, metade desses indícios. Mas, não todos! Por conseguinte, houve premeditação. Por conseguinte, desejo de escapar ao castigo.

        - Não havia mais que proceder por eliminação. Baes foi o primeiro a ser descartado. Que motivos teria para entrar na sala de jantar, deixar ali um cigarro, subir depois ao quarto, buscar o revólver e, por último, abandonar o boné na banheira?

        - Depois, descartei Beetje, porque ela, ao longo da noite, não subiu ao primeiro andar, não pode deixar ali o boné e também não pode roubá-la a bordo, pois que havia caminhado ao lado de Popinga. Seu pai poderia matá-lo depois de tê-los surpreendido, a filha e o amante. Mas, então já era demasiado tarde para subir ao banheiro.

        - Sobra Barens. Não subiu, não roubou o boné. Estava com ciúme de seu professor, mas uma hora antes, ainda não tinha nenhuma certeza.

        Maigret calou-se e esvaziou o cachimbo, golpeando-o contra a sola, sem preocupar-se com o tapete.

        - Isso é praticamente tudo. Restam a senhora Popinga, Any e Jean Duclos. Não há provas contra nenhum dos três, Mas tampouco há impossibilidade material. Jean Duclos saiu do banheiro com o revólver na mão. Pode, inclusive, tê-lo feito para demonstrar sua inocência. Entretanto, de volta da cidade, enquanto caminhava com a senhora Popinga, não podia pegar boné. E a senhora Popinga, que ia com ele, tampouco pode fazê-lo.

        - O boné só o pode roubar alguém do último grupo: Barens ou Any. E houve um momento já demonstrado em que Any permaneceu sozinha diante d barco de Oosting. O cigarro não importa: basta agachar-se para recolher uma bagana. De todos os que estavam aqui na noite do crime, Any é a única que pode permanecer no andar de cima sem testemunhas, e também, de entrar na sala de jantar. Pois teria, com aspecto ao crime, a melhor das possibilidades. – E Maigret, , com o olhar sempre fechado, evitando pousá-los sobre os interlocutores, deixou sobre a mesa a planta da casa, realizada por Duclos. – Any só pode entrar no banheiro passando pelo quarto da irmã ou pelo de Duclos. Um quarto de hora antes do assassinato, está em seu quarto. Como chegará ao banheiro? Como tem certeza de poder passar, chegado o momento, por um dos dormitórios? Não esqueçam que estudou, não só direito, mas também obras de criminologia. Discutiu-as com Duclos. Tinham discutido juntos a possibilidade do crime impune desde um ponto de vista científico.

        Any, levantada, estava pálida. Entretanto, mantinha a serenidade.

        - Tenho que fazer um parênteses. De todos os presentes, eu sou o único que não conhecia Popinga. Tive que fazer uma idéia dele a partir dos testemunhos: tinha tanta ânsia de prazeres, como timidez e respeito ante as responsabilidades e, sobretudo, ante os princípios estabelecidos. Num dia de euforia, acariciou Beetje, e ela se converteu em sua amante. Sobretudo, porque ela quis. Há um momento, interroguei a empregada. Também a acariciou, como quem não quer a coisa, de passada, mas não chegou mais longe, porque não foi estimulado. Em outras palavras, desejava todas as mulheres. Cometia pequenas imprudências, rouba aqui um beijo, ali, uma carícia. Mas prefere, acima de tudo, a sua segurança. Foi capitão da Marinha. Conheceu o encanto das escalas, sem preocupar-se com o amanhã. Porém, é funcionário de Sua Majestade e quer conservar seu posto, assim como seu lugar, sua casa, sua mulher. Está numa posição comprometedora, entre os desejos e as censuras, entre a loucura e a prudência. Na sua idade, Beetje não o entendeu e acreditou que escaparia com ela. Any vive em seu entorno íntimo. Que mais pode dar, se não é bonita? È uma mulher, é um mistério... Um dia...

        O silêncio ao redor era penoso.    

        - Não estou dizendo que chegou a ser sua amante. Mas, também ela foi imprudente. E Any acreditou, enamorou-se perdidamente dele, ainda que a paixão fosse menos cega do que a da senhora Popinga. Assim viveram as três. A senhora Popinga, confiante. Any, mais reservada, mais apaixonada, mais ciumenta, mais sutil. Adivinhou as relações com Beetje. Viu nela a inimiga. Procurou e encontrou as cartas. Aceitava compartilhar Conrad com a irmã, mas não com uma jovem bela e saudável, com a qual podia fugir. Decidiu matá-lo. – E Maigret concluiu. – Isso é tudo! Um amor que se converte em ódio! Um amor-ódio! Um sentimento completo feroz, capaz de inspirar qualquer coisa. Decidiu matá-lo, e o decidiu friamente. Matar sem dar chance a menor acusação.

        - Casualmente, o professor falou, nesta noite, de crime impunes de assassinos com rigor científico. Ela é uma mulher tão apaixonada como orgulhosa de sua inteligência. Cometeu um crime artístico, um crime que devia, fatalmente, ser atribuído a um vagabundo. O boné, o cigarro, e a cartada irrefutável: não podia sair de seu quarto sem passar pelo quarto da irmã ou pelo de Duclos. Durante a conferência, viu mãos que se buscavam; pelo caminho, Popinga ia com Beetje; beberam e dançaram, foram-se de bicicleta... Bastava imobilizar a senhora Popinga em sua janela, despertar-lhe as suspeitas. E, enquanto acreditavam que estava em seu quarto, pode passar, já de camisola, pelas suas costas. Tudo estava previsto. Chegou ao banheiro, disparou. A tampa da banheira estava aberta, o boné estava ali. Bastava meter-se dentro. Depois do disparo, entrou Duclos, encontrou a arma no parapeito da janela, saiu precipitadamente e, ao encontrar-se com a senhora Popinga, desceu com ela. Any, já preparada e semivestida, os seguiu.

        - Quem poderia supor que não saía de seu quarto, que não estava aterrorizada? Ela, cuja beatice era legendária, mostrava-se ante todos dessa maneira. Nem a menor piedade!Nem os menores remorsos. Os ódios amorosos sufocam os demais sentimentos. Só resta a vontade de vencer.

        - Oosting, que vira roubar o boné, calou. Confluiram seu respeito pelo morto e seu amor pela ordem. Era preciso evitar o escândalo em torno da morte de Popinga. E chegou, inclusive, a ditar a Barens uma declaração que fizesse pensar em um crime cometido por um marinheiro desconhecido.

        Liewens, que havia visto a filha regressar depois que Popinga a acompanhara, e que no dia seguinte levou as cartas, acreditou que Beetje era a culpada, encerrou-a e se obstinou em descobrir a verdade. Pensando que eu ia detê-la, faz algumas horas, tentou matar-se.

        E, finalmente, Barens, que suspeitava de todo mundo, debatia-se no mistério e se sentia como suspeito, ele mesmo. Barens havia visto a senhora Popinga em sua janela. Não teria sido ela que disparara, depois de ver o marido que a enganava? Haviam-no recebido nesta casa como um filho. Órfão, havia encontrado uma nova mãe. Quis sacrificar-se para salvá-la. Nos esquecemos dele na divisão dos papéis e veio buscar o revólver. Meteu-se no banheiro e quis disparar. Ia matar a única pessoa que sabia tudo e, sem dúvida, suicidar-se depois. Um pobre garoto, heróico, e com uma generosidade que só se possui aos 18 anos.

        -Isso é tudo. A que horas sai um trem para a França?

        Ninguém disse uma palavra. Todos ficaram imóveis pelo estupor, angústia, medo ou horror. No fim, Jean Duclos falou.

        - Fiz grandes progressos neste caso...

        Entretanto, a senhora Popinga saiu do salão como uma autômata e, instantes depois, a encontraram em sua cama, vítima de um ataque cardíaco.

        Any não se moveu. Pijpekamp tentou fazê-la falar:

        - Não tem nada para dizer?

        - Falarei na presença do juiz de instrução.

        Estava muito pálida. As olheiras lhe chegava à metade das bochechas. Só Oosting estava tranquilo, mas olhava Maigret com olhos plenos de reprovação.

        O caso é que, às cinco e cinco da manhã, o comissário subiu sozinho ao trem, na pequena estação de Delfzijl. Ninguém o acompanhou. Ninguém lhe agradeceu. Até Duclos escusou dizendo que tinha que tomar o trem seguinte.

        Amanheceu quando o trem cruzava uma ponte sobre um canal. Alguns barcos, com as velas frouxas, esperavam. Um funcionário se preparava para girar a ponte enquanto passava o comboio.

        Dois anos depois, o comissário encontrou Beetje em Paris. Havia se casado com o dono de uma concessionária holandesa de bombas e havia engordado. Beetje corou ao reconhecê-lo. Explicou-lhe que tinha dois filhos e deu-lhe a entender que o marido lhe proporcionava uma vida medíocre.

        - E Any? – perguntou.

        - Não ficou sabendo? Todos os jornais da Holanda falaram dela. Matou-se com um garfo, no dia do processo, minutos antes de comparecer ao tribunal. E acrescentou:- Venha nos ver. Avenue Victor Hugo, número 28. Não demore muito, porque na semana que vem, vamos esquiar, na Suíça. Gostamos muito dos esportes de inverno. Nesse dia, na Polícia Judiciária, Maigret deu um jeito de brigar com todos os seus inspetores.

 

 

                                                                  Georges Simenon

 

 

              Voltar à “Página do Autor"

 

 

                                                   

O melhor da literatura para todos os gostos e idades