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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM DISCURSO FATAL / Rex Stout
UM DISCURSO FATAL / Rex Stout

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM DISCURSO FATAL

 

NO SEU escritório, sentado na enorme poltrona atrás da escrivaninha, reclinado para trás, olhos semicerrados, Nero Wolfe disse:

     — Os membros da Associação Nacional da Indústria que estavam presentes ao jantar ontem à noite representam, juntos, bens e valores da ordem de trinta bilhões de dólares. Isso é um fato muito interessante.

     Coloquei o talão de cheques em cima dos outros, fechei a porta do cofre, girei a combinação e voltei, bocejando, para o meu lugar.

     — Sim, senhor — concordei. — Outro fato interessante é que os Construtores de Montanhas Pré-históricas deixaram mais traços do seu trabalho em Ohio do que em qualquer outro Estado. Quando eu era criança...

     — Cale a boca — resmungou Wolfe.

     Não fiquei ressentido, primeiro porque já era quase meia-noite e eu estava com sono e, em segundo lugar, porque era provável que houvesse alguma ligação entre o seu fato interessante e nossa conversa anterior, coisa que não acontecia com o meu fato histórico. Estivéramos discutindo o saldo bancário, a reserva para os impostos, previsões de contas e encargos, entre os quais meu salário, e outros assuntos correlatos. O tesoureiro não tinha se preparado para o terceiro strike*, mas também não tinha jogado a bola para fora do campo.

    

* Strike: uma bola arremessada ao batedor (como no jogo de beisebol). (N. da T.)

    

     Já bocejara mais três vezes quando de repente Wolfe me disse:

     — Archie, apanhe seu bloco. Anote as coordenadas para amanhã.

     Em dois minutos eu estava bem acordado. Quando ele acabou de ditar e subi para o quarto, pensei tanto no programa da manhã seguinte que me virei na cama durante uns trinta segundos antes de adormecer.

    

ISSO FOI numa quarta-feira, no fim de um dos verões mais quentes de Nova Iorque. A quinta-feira continuou quente e nem levei um sobretudo quando saí de casa na Rua 35 Oeste e me dirigi à garagem para apanhar o carro. Estava preparado para qualquer emergência. Na carteira levava vários cartões impressos:

    

              ARCHIE GOODWIN

               Residência de Nero Wolfe

               Rua 35 Oeste, n.° 922               PRoctor 5-5000

    

     No bolso de cima de meu paletó, juntamente com as coisas habituais, havia uma folha especial que eu batera à máquina, num formulário de memorando impresso. Dizia que era PARA Nero Wolfe, DE Archie Goodwin e nele se lia:

Permissão concedida pelo Inspetor Cramer para inspecionar a saleta no Hotel Waldorf. Mais tarde farei um relatório por telefone.

     Do lado direito, à tinta, estavam rabiscadas as iniciais LTC, também trabalho meu e digno de elogio.

     Como saíra cedo de casa e o escritório da Delegacia de Homicídios na Rua 20 fica a menos de um quilômetro e meio, eram só nove e meia quando me mandaram entrar numa sala e me sentar numa cadeira ao lado de uma velha escrivaninha. Na cadeira giratória um homem olhava uns papéis, com sobrancelhas franzidas; tinha o rosto redondo e vermelho, olhos cinzentos que mal se viam e orelhas pequenas e delicadas coladas à cabeça. Olhou-me quando sentei e reclamou:

     — Estou um bocado ocupado.

     Seu olhar fixou-se uns vinte centímetros abaixo de meu queixo.

     — Você pensa que estamos na Páscoa?

     Respondi secamente:

     — Não conheço lei alguma que impeça um homem de comprar uma camisa e uma gravata novas. De qualquer modo, estou fantasiado de detetive. Se está ocupado, não tomarei seu tempo. Quero lhe pedir um favor, um grande favor. Não é para mim. Sei muito bem que, se estivesse preso num prédio pegando fogo, você pediria gasolina para jogar nas chamas. É para Nero Wolfe. Ele quer permissão para eu dar uma olhada naquela saleta do Waldorf onde Cheney Boone foi assassinado terça-feira à noite. Talvez precise também tirar umas fotos.

     O Inspetor Cramer olhou para mim, não para minha gravata.

     — Pelo amor de Deus — disse, aborrecido. — Como se esse caso já não fosse suficientemente complicado. Tudo que ele precisava para se transformar num pandemônio era Nero Wolfe, e, por Deus, aqui está ele.

     Olhou-me com desagrado torcendo a boca:

     — Quem é seu cliente?

     Balancei a cabeça:

     — Não tenho informação sobre nenhum cliente. Pelo que sei, é só curiosidade científica da parte do Sr. Wolfe. Ele se interessa por crimes...

     — Você ouviu o que eu disse. Quem é o cliente?

     — Não, senhor — respondi, pesaroso. — Abra-me ao meio, leve meu coração para o laboratório e você lerá nele...

     — Dê o fora — rosnou e voltou para seus papéis.

     Levantei-me.

     — Certamente, inspetor, sei que está ocupado. Mas o Sr. Wolfe ficaria muito satisfeito se o senhor me desse permissão para...

     — Besteira — disse, sem me olhar. — Você não precisa de permissão e sabe disso. Já terminamos nosso serviço lá e o local é público. Se o que está querendo é autoridade, é a primeira vez que Wolfe se preocupa com isso para fazer uma coisa que está com vontade de fazer e, se eu tivesse tempo, iria descobrir o que há por trás disso, mas estou muito ocupado. Dê o fora.

     — Meu Deus — disse eu, num tom desanimado. — Desconfiado, sempre desconfiado. Que modo de viver!

    

TANTO na aparência como nos modos e maneira de vestir, Johnny Darst era o oposto à idéia que se faz de um detetive de hotel. Poderia ser confundido com o vice-presidente de uma companhia financeira ou o gerente de um clube de golfe. Numa saleta, do tamanho de um cubículo, ficou me examinando enquanto eu olhava a topografia, os ângulos e a mobília, que consistia em uma mesa pequena, um espelho e algumas cadeiras. Como Johnny não era tolo, nem tentei dar-lhe a impressão de que eu estava fazendo alguma coisa difícil de entender.

     — O que é que você quer realmente? — perguntou ele, num tom de voz educado.

     — Nada — respondi. — Trabalho para Nero Wolfe da mesma forma que você trabalha para o Waldorf. Ele me mandou aqui para dar uma olhada e por isso cá estou eu. O tapete foi mudado?

     Ele acenou que sim.

     — Estava um pouco sujo de sangue, não muito, e a polícia também levou algumas coisas.

     — De acordo com o jornal, há quatro saletas dessas, duas de cada lado do palco.

     Ele fez sinal que sim novamente.

     — São usadas como camarins e também para descanso pelos atores. Não que Cheney Boone fosse um ator. Queria um lugar para reler seu discurso e mandaram-no para cá, para que pudesse ficar a sós. O grande salão de festas do Waldorf é o mais bem equipado...

     — Claro que é — disse eu, com entusiasmo. — Lógico. Deviam lhe pagar extra. Bem, mil vezes obrigado.

     — Conseguiu tudo o que queria?

     — Sim, acho que já resolvi o caso.

     — Posso lhe mostrar o lugar exato onde ele ficaria para fazer seu discurso, se ainda estivesse vivo.

     — Muito obrigado. Se precisar disso, volto aqui.

     Desceu comigo no elevador e levou-me até a entrada. Ambos compreendíamos que o único detetive particular que os hotéis gostam de ter por perto é aquele que eles contratam. Na porta, perguntou casualmente:

     — Para quem Wolfe está trabalhando?

     — Não há dúvida alguma a esse respeito — respondi. — Ele trabalha em primeiro lugar, em último e todo o tempo para Wolfe. Pensando bem, eu também. Rapaz, como sou leal!

    

QUANDO estacionei o carro na Praça Foley, entrei no Departamento de Justiça dos Estados Unidos e tomei o elevador, eram quinze para as onze.

     Wolfe e eu tivéramos contato, durante a guerra, com cerca de uma dúzia de homens do FBI, quando ele fazia algum serviço para o governo e eu trabalhava no G-2. Decidíramos que, para as finalidades atuais, G. G. Spero era o nosso homem, por ser três por cento menos reticente do que os outros; por isso foi a ele que mandei meu cartão. Num instante uma moça limpa e eficiente levou-me a uma sala limpa e eficiente, onde um rosto limpo e eficiente, o de G. G. Spero do FBI, estava à minha espera. Conversamos por alguns minutos e aí ele perguntou cordialmente:

     — Bem, major, em que lhe podemos ser úteis?

     — Em duas coisas — respondi. — Primeiro, pare de me chamar de major. Não estou de uniforme e, além disso, estimula meu complexo de inferioridade, pois deveria ser coronel. Em segundo lugar, trago um pedido de Nero Wolfe, meio confidencial. É claro que ele podia ter-me mandado ao chefe, ou telefonado para ele, mas não quis perturbá-lo por tão pouco. É só uma pequena pergunta sobre o assassinato de Cheney Boone. Disseram-nos que o FBI está envolvido e vocês em geral não se envolvem em assassinatos locais. O Sr. Wolfe gostaria de saber se o FBI teria alguma objeção a que um detetive particular se interesse pelo caso.

     Spero ainda tentava se mostrar cordial, mas o treinamento e o hábito eram mais fortes. Começou a tamborilar na mesa, viu o que estava fazendo e tirou depressa a mão. Homens do FBI não tamborilam em mesas.

     — O caso Boone — repetiu.

     — É isso aí. O caso Cheney Boone.

     — Sim, claro. Pondo de lado, por um instante, o ponto de vista do FBI, qual seria o ponto de vista do Sr. Wolfe?

     Continuou por aí, atacando-me de quarenta ângulos diferentes. Saí meia hora mais tarde com o que esperava sair, isto é, nada. Confiávamos nos seus três por cento de reticência, não pelo que ele poderia me dizer, e sim pelo que ele contaria aos outros a meu respeito.

    

O ÚLTIMO número da agenda foi o mais complicado, sobretudo porque estava lidando com pessoas totalmente estranhas. Não conhecia ninguém ligado à Associação Nacional da Indústria, por isso tinha que partir do zero. Desde o momento em que entrei nos escritórios, no trigésimo andar de um prédio na Rua 41, a atmosfera do lugar deu-me má impressão. A sala de recepção era grande demais, tinham gasto muito dinheiro em tapetes, a decoração tinha sido levada a extremos e a recepcionista, embora fosse bem proporcionada, parecia estar ligada por um tubo a uma unidade de resfriamento. Estava tão obviamente congelada para sempre que não tive a menor tentação de descongelá-la. Não gosto de manter distância de moças entre vinte e trinta anos com certos padrões de contorno e coloração, mas fiquei longe daquela. Dei-lhe meu cartão e disse que queria ver Hattie Harding.

     Tive que vencer tantos obstáculos que parecia que Hattie Harding era a deusa daquele templo, em vez de ser simplesmente diretora assistente de relações públicas da ANI, mas finalmente, após transpor a última barreira, pude entrar para vê-la. Seu escritório também era grande, com tapetes e estofados. Ela, pessoalmente, tinha classe, mas era do tipo que me desperta um ou dois dos meus piores instintos, e não me refiro ao que vocês estão pensando. Tinha entre vinte e cinco e quarenta e oito anos, era alta, boa de corpo, bem vestida, e seus olhos escuros, competentes e céticos, diziam logo ao primeiro olhar que sabiam de tudo.

     — É um prazer — disse, apertando-me a mão firmemente, sem frieza. — Conhecer o Archie Goodwin, que vem diretamente do Nero Wolfe. É realmente um grande prazer. Pelo menos, acho que vem. Diretamente da parte dele, quero dizer.

     — Numa linha reta — respondi, escondendo meus sentimentos. — Como a abelha vem da flor, Srta. Harding.

     Ela deu o sorriso adequado.

     — O quê? Não para a flor?

     Ri também. Já éramos amigos.

     — Creio que isso se aproxima mais da verdade, pois admito que vim conseguir néctar. Para Nero Wolfe. Ele precisa da lista de membros da ANI que foram ao jantar do Waldorf na terça à noite, e mandou-me apanhá-la. Tem uma cópia da lista impressa, mas precisa saber quem estava nela e não compareceu, e os que compareceram que não estavam na lista. Que tal minha sintaxe?

     Não deu resposta mas parou de rir. Perguntou, não tão amigavelmente: — Vamos nos sentar?

     Encaminhou-se para duas poltronas perto da janela, mas fingi não notar e dirigi-me para a cadeira reservada aos visitantes, ao lado de sua escrivaninha, pois assim ela teria que sentar-se à mesa. O meu memorando para Wolfe, com as iniciais do Inspetor Cramer colocadas por mim, estava agora no bolso do lado do meu paletó, e seu destino era o chão do escritório da Srta. Harding. A operação se tornaria mais fácil se o canto da escrivaninha estivesse entre nós.

     — Muito interessante — declarou. — Para que o Sr. Wolfe quer a lista?

     — Para ser honesto — respondi, sorrindo — só lhe posso oferecer uma mentira honesta. Ele quer lhes pedir um autógrafo.

     — Também sou honesta — disse, sorrindo também. — Olhe, Sr. Goodwin, o senhor entende que esse assunto é extremamente inconveniente para meus chefes. Nosso convidado de honra, nosso principal orador, o diretor do Departamento de Controle de Preços, foi assassinado logo que o jantar começou. Estou num aperto horrível. Mesmo que, durante os últimos dez anos, esse escritório tenha feito o melhor trabalho de relações públicas já registrado, e pelo qual não estou assumindo o crédito, todos os seus esforços podem ser destruídos pelo que aconteceu lá em dez segundos. Não há...

     — Como sabe que aconteceu em dez segundos?

     Piscou os olhos.

     — Ora... o modo... deve ter...

     — Não foi provado — respondi afavelmente. — Bateram-lhe na cabeça umas quatro vezes com uma chave inglesa. É claro que todos os golpes podiam ter sido dados em dez segundos. Ou o assassino poderia ter batido uma vez, deixando-o inconsciente, descansado um pouco e batido novamente, descansado um pouco e batido pela terceira...

     — Que é que o senhor está pretendendo? — falou, zangada. — Quer ver o quanto consegue ser desagradável?

     — Não. Estou demonstrando como é uma investigação de assassinato. Se tivesse feito essa declaração à polícia, que o fato aconteceu em dez segundos, ainda estariam lhe fazendo perguntas. Comigo entra por um ouvido e sai pelo outro, pois o assunto não me interessa. Só estou aqui para apanhar o que o Sr. Wolfe me pediu, e ficaríamos muito gratos se pudesse nos fornecer essa lista.

     Estava preparado para falar mais, mas parei ao vê-la colocar as duas mãos no rosto, e pensei, meu Deus, ela vai chorar de desespero pela morte prematura das relações públicas, mas ela só apertou as palmas das mãos contra os olhos e manteve-as neles. Era o momento perfeito para deixar cair o memorando no tapete, e foi o que fiz.

     Ela ficou com as mãos nos olhos tempo bastante para que eu deixasse cair toda uma coleção de memorandos, mas quando por fim as retirou os olhos ainda pareciam competentes.

     — Sinto muito — disse — mas não durmo há duas noites e estou péssima. Devo lhe pedir que se retire. Vai haver uma reunião no escritório do Sr. Erskine em dez minutos sobre esse assunto horrível, e tenho que me preparar para ela. De qualquer maneira, o senhor sabe perfeitamente que não posso lhe dar essa lista sem autorização prévia de meus superiores, e, além disso, se o Sr. Wolfe é tão íntimo da polícia como todos comentam, por que é que ele não consegue a lista com ela? Bastou falar na sua sintaxe, e olhe só como estou me expressando. Há uma coisa, porém, que o senhor pode me dizer, e espero sinceramente que o faça: quem contratou o Sr. Wolfe para trabalhar nesse caso?

     Balancei a cabeça negativamente e levantei-me.

     — Estou na mesma situação, Srta. Harding. Não posso fazer nada importante, nem sequer responder a uma simples pergunta, sem prévia autorização de meu superior. Vamos fazer um trato? Eu peço ao Sr. Wolfe para responder à sua pergunta e a senhorita pergunta ao Sr. Erskine se pode me dar a lista. Boa sorte na reunião.

     Despedimo-nos e dirigi-me sem demora para a porta, pois preferia que ela não achasse o memorando a tempo de apanhá-lo e devolver-me.

     Como o tráfego ao meio-dia é sempre engarrafado, a curta distância até a Rua 35 Oeste foi percorrida devagar. Estacionei em frente da velha casa de pedra de Nero Wolfe que há mais de dez anos era meu lar, subi até a varanda e tentei entrar com minha chave, mas descobri que tinham passado o ferrolho e tive que tocar a campainha. Fritz Brenner, cozinheiro, governante da casa e camareiro, veio abrir. Dizendo-lhe que parecia haver uma boa probabilidade de sermos pagos no sábado, fui pelo corredor até o escritório. Wolfe estava sentado atrás da escrivaninha, lendo um livro. Era o único lugar em que ele realmente se sentia confortável. Havia outras cadeiras na casa feitas sob medida, tanto na largura como na profundidade, garantidas até duzentos e cinqüenta quilos, uma no seu quarto, uma na cozinha, uma na sala de jantar, uma na estufa do terraço, onde estavam as orquídeas, e uma no escritório, perto do globo de quase um metro e das estantes. Quase sempre a cadeira escolhida, dia e noite, era a da escrivaninha.

     Como de costume, nem levantou os olhos quando entrei. Também como de costume, nem prestei atenção se ele prestava atenção.

     — Já lancei as iscas — contei-lhe. — Provavelmente nesse exato momento as estações de rádio estão anunciando que Nero Wolfe, o maior detetive particular vivo, quando se dispõe a trabalhar, o que não acontece sempre, está se ocupando do caso Boone. Quer que eu ligue o rádio?

     Terminou o parágrafo, dobrou um canto da página e pôs o livro na mesa.

     — Não. É hora do almoço. — Fitou-me e continuou: — Você deve ter sido muito óbvio. O Sr. Cramer telefonou. O Sr. Travis do FBI telefonou. O Sr. Rohde do Waldorf telefonou. Como era provável que um ou dois aparecessem, mandei Fritz passar o ferrolho na porta.

     Foi só isso naquele momento, ou melhor, durante toda a hora seguinte, pois Fritz entrou anunciando que o almoço estava pronto, que naquele dia era bolinhos de milho com lombinho de porco à milanesa, vindo a seguir bolinhos de milho com molho de tomate e queijo e sobremesa de bolinhos de milho com mel. Fritz era soberbo na provisão de bolinhos de milho. Por exemplo, no exato momento em que um de nós terminava o décimo primeiro, vinha o décimo segundo quentinho do forno, e assim por diante.

    

AQUELE caso era chamado por mim de Operação Folha de Pagamento. Admito que esse nome para o projeto preliminar não era estritamente correto. Além dos salários de Fritz Brenner, de Charley, o homem da limpeza, de Theodore Horstmann, o homem das orquídeas, e do meu, o dinheiro tinha de ser dividido entre outros itens, numerosos demais para serem mencionados. Mas, partindo do princípio de que as coisas principais vêm primeiro, eu o chamava de Operação Folha de Pagamento.

     Só na sexta-feira apanhamos o peixe que estávamos querendo. Naquela quinta à tarde, as únicas coisas que aconteceram foram duas visitas que não tinham sido marcadas, uma de Cramer e outra de G. G. Spero, e como Wolfe me disse para não deixá-los entrar, foram embora sem atravessar a soleira da porta. Isso mostra como eu tinha certeza de que o peixe mordera a isca. Naquela quinta à tarde dei-me o trabalho de bater à máquina um relatório dos fatos que conhecia sobre o caso Boone, baseado em notícias dos jornais e em uma conversa que tivera com o Sargento Purley Stebbins. Acabei de reler novamente o relatório e decidi não transcrevê-lo todo aqui, só contar os fatos principais.

     Cheney Boone, diretor do Departamento de Controle de Preços do Governo, fora convidado a fazer o discurso principal num jantar da Associação Nacional da Indústria, na noite de terça-feira, no grande salão de festas do Waldorf Astoria. Chegara às dez para as sete, antes dos mil e quatrocentos convidados terem ido para seus lugares, enquanto todos estavam ainda bebendo, circulando e conversando. Fora levado para a sala de recepção destinada aos convidados de honra, que, como de costume, continha mais de cem pessoas, a maior parte das quais não tinha nada a fazer lá. Após tomar um coquetel e submeter-se a uma série de cumprimentos e apresentações, Boone pedira para ser levado a um local tranqüilo onde pudesse reler o discurso, e conduziram-no a uma saleta ao lado do palco. Sua mulher, que o acompanhara ao jantar, ficara na sala de recepção. Sua sobrinha, Nina Boone, fora com ele para ajudá-lo no discurso, se necessário, mas quase imediatamente ele a fizera voltar à sala de recepção para servir-se de outro coquetel e ela permanecera lá.

     Logo depois de Boone e a sobrinha terem ido para a sala do assassinato, como os jornais a chamavam, Phoebe Gunther aparecera. A Srta. Gunther era a secretária particular de Boone e trazia dois abridores de lata, duas chaves inglesas, duas camisas (de homem), duas canetas-tinteiro e um carrinho de bebê. Tudo isso seria usado para demonstrar alguns pontos do discurso de Boone e a Srta. Gunther queria levá-los a ele imediatamente. Por isso, conduziram-na à sala do assassinato. Seu acompanhante, um membro da ANI, empurrava o carrinho de bebê que continha os outros itens, causando espanto e divertindo os convidados. A Srta. Gunther ficou com Boone apenas um ou dois minutos, para entregar os objetos, e aí voltou ao salão para tomar um coquetel. Contou posteriormente que Boone dissera querer ficar sozinho.

     Às sete e meia, foram todos para o salão de festas, para encontrar seus respectivos lugares na plataforma e às mesas, onde os mil e quatrocentos convidados já se acomodavam e os garçons se aprontavam para lançar-se à luta. Às sete e quarenta e cinco o Sr. Alger Kates chegou. Pertencia à seção de pesquisa do DCP e trazia estatísticas de última hora, a serem usadas no discurso de Boone. Veio à plataforma procurá-lo e o Sr. Frank Thomas Erskine, presidente da ANI, pedira que um garçom o conduzisse até onde Boone estava. O garçom o levara até os bastidores do palco e lhe mostrara a porta da saleta do assassinato.

     Alger Kates descobrira o corpo. Estava no chão, a cabeça arrebentada por uma das chaves inglesas que se encontravam perto. O que Kates fez a seguir teve uma implicação que foi insinuada num dos jornais, e declarada abertamente em outros: isto é, que nenhum homem do DCP confiaria num homem da ANI a respeito de qualquer assunto, inclusive assassinato. De qualquer modo, em vez de voltar ao salão de festas e à plataforma para contar o que acontecera, Alger Kates procurara um telefone, chamara o gerente do hotel e lhe dissera para vir imediatamente e trazer todos os policiais que encontrasse.

     Até quinta-feira à noite, quarenta e oito horas depois do fato, cerca de mil outros detalhes apareceram, como, por exemplo, que na chave inglesa só foram descobertas manchas, que não havia qualquer impressão digital que pudesse ser identificada, e assim por diante, mas esses eram os fatos principais quando bati meu relatório.

    

NA SEXTA-FEIRA, o peixe mordeu a isca. Como Wolfe passa as manhãs, de nove às onze, na estufa de orquídeas, eu estava só no escritório quando o telefone tocou. Nessa Terra de Secretárias, o chamado obedeceu à rotina habitual:

     — A Srta. Harding quer falar com o Sr. Wolfe. Favor colocar o Sr. Wolfe na linha.

     Se eu escrevesse tudo que foi dito, levaria meia página até eu entrar em contato com a Srta. Harding, só eu, não o Sr. Wolfe. Acabei conseguindo transmitir a informação de que Wolfe estava ocupado com as orquídeas e que teriam de se contentar comigo. Ela queria saber quando Wolfe podia ir até lá falar com o Sr. Erskine, e expliquei-lhe que raramente Wolfe saía de casa por qualquer motivo, e nunca a negócios.

     — Eu sei disso — respondeu com raiva. Devia ter perdido outra noite de sono. — Mas é o Sr. Erskine que quer falar com ele!

     Sabia que o tínhamos fisgado, por isso mostrei superioridade:

     — Para você ele é importante. Para o Sr. Wolfe é um aborrecimento. O Sr. Wolfe detesta trabalhar, mesmo em casa.

     Pediu-me que esperasse na linha, e assim o fiz durante cerca de dez minutos. Finalmente ouvi sua voz de novo.

     — Sr. Goodwin?

     — Ainda estou aqui. Mais velho e mais sábio, mas ainda estou aqui.

     — O Sr. Erskine vai ao escritório do Sr. Wolfe essa tarde, às quatro e meia.

     Eu já estava ficando aborrecido.

     — Ouça, Relações Públicas — falei. — Por que não simplifica tudo ligando-me diretamente com esse Erskine? Se ele vier às quatro e meia, terá de esperar uma hora e meia. O horário do Sr. Wolfe com as orquídeas é de nove às onze da manhã e de quatro às seis da tarde, e nada, e quando eu digo nada é nada mesmo, jamais mudou isso nem mudará.

     — Isso é ridículo!

     — Claro que é. E também é ridículo esse método complicado de um homem se comunicar com outro homem, e no entanto eu o aceito.

     — Fique na linha.

     Não cheguei a falar com Erskine, isso era querer demais, mas a despeito de tudo finalmente chegamos a um entendimento, lutando contra os obstáculos, de maneira que quando Wolfe desceu, às onze horas, pude lhe contar:

     — O Sr. Frank Thomas Erskine, presidente da Associação Nacional da Indústria, com escolta, estará aqui às três e dez.

     — Satisfatório, Archie — murmurou.

     Francamente, gostaria de poder fazer com que meu coração não desse uma batida extra quando Wolfe diz satisfatório, Archie. É infantil.

    

QUANDO a campainha da frente soou naquela tarde às três e dez em ponto, fiz uma observação para Wolfe, enquanto saía da cadeira para atender:

     — É provável que essas pessoas sejam do tipo daquelas que você deixa falando sozinho ou, pior ainda, das que me diz para pôr para fora. Talvez seja necessário se controlar. Lembre-se da folha de pagamento. Há muita coisa em risco. Lembre-se de Fritz, de Theodore, de Charley e de mim.

     Ele nem resmungou.

     A pescaria excedeu as expectativas, porque no grupo de quatro que nos visitou estavam dois Erskines em vez de um. Pai e filho. O pai tinha cerca de sessenta anos e não me pareceu ser do tipo que causa impressão. Era alto, ossudo e estreito, com um terno azul-escuro comprado pronto que não lhe assentava, e não tinha dentaduras mas falava como se tivesse. Foi ele quem se encarregou das apresentações, apresentando-se primeiro e aos outros depois. O nome do filho era Edward Frank e chamavam-no Ed. Os outros dois, qualificados como membros do comitê executivo da ANI, eram o Sr. Breslow e o Sr. Winterhoff. A aparência de Breslow era a de quem nascera vermelho de raiva e, quando chegasse a hora, morreria assim. Se não fosse pela dignidade de membro do comitê executivo da ANI, Winterhoff abocanharia uma boa quantia posando como Homem de Alta Categoria para um anúncio de uísque. Tinha até um pequeno bigode grisalho.

     Quanto ao filho, que para mim ainda não era Ed, e que tinha cerca de minha idade, não quis fazer um julgamento a seu respeito, pois parecia estar de ressaca e não se deve avaliar um sujeito nessas circunstâncias. Indiscutivelmente ele tinha dor de cabeça. Seu terno havia custado pelo menos três vezes mais do que o do pai.

     Após tê-los distribuído pelas cadeiras, estando Papai sentado na poltrona vermelha perto da escrivaninha de Wolfe, tendo à altura do cotovelo uma mesinha do tamanho ideal para se colocar nela um talão de cheques enquanto é preenchido, o mesmo Papai falou:

     — Pode ser que isso seja um desperdício de nosso tempo, Sr. Wolfe. Foi impossível conseguirmos qualquer informação que nos satisfizesse pelo telefone. O senhor foi contratado por alguém para investigar esse assunto?

     Wolfe suspendeu sua sobrancelha um milímetro.

     — Que assunto, Sr. Erskine?

     — Bem... esse... a morte de Cheney Boone.

     Wolfe pensou.

     — Deixe-me colocar dessa forma: não cheguei a qualquer acordo e não aceitei honorários. Não tenho compromisso com ninguém.

     — Num caso de assassinato — falou Breslow com raiva — há um único interesse, o interesse da justiça.

     — Oh, pelo amor de Deus! — resmungou o filho Ed.

     Os olhos de Papai se moveram.

     — Caso seja necessário — declarou enfaticamente —, vocês podem se retirar e conduzirei isso sozinho.

     Virou-se novamente para Wolfe:

     — Que opinião tem a respeito?

     — Opiniões emitidas por peritos custam dinheiro.

     — Pagaremos por ela.

     — Uma quantia razoável — intercalou Winterhoff. Sua voz era pesada e sem inflexão. Se fosse com som, ele não serviria para anúncio como Homem de Alta Categoria.

     — Não valeria nem isso — disse Wolfe —, a não ser que fosse abalizada, e não seria abalizada a não ser que trabalhasse nela. Ainda não sei se farei isso. Não gosto de trabalhar.

     — Quem o consultou? — Papai queria saber.

     — Ora, francamente — disse Wolfe, sacudindo o indicador. — É indiscrição de sua parte perguntar e eu seria indiscreto se respondesse. O senhor veio aqui pensando em me contratar?

     — Bem... — Erskine hesitou. — Discutimos essa possibilidade.

     — Os senhores o fariam individualmente ou em nome da Associação Nacional da Indústria?

     — Discutimos isso como um assunto da Associação.

     Wolfe fez que não com a cabeça.

     — Eu não os aconselharia a fazer isso. Poderia ser uma perda de dinheiro.

     — Por quê? O senhor não é um bom investigador?

     — Sou o melhor que há. Mas a situação é óbvia. Os senhores estão preocupados com a reputação e a posição da Associação. Na mente do público já houve um julgamento e o veredicto já foi dado. Todos sabem que sua Associação era extremamente hostil ao Departamento de Controle de Preços, ao Sr. Boone e à sua maneira de proceder. Nove pessoas em dez têm certeza de que sabem quem assassinou o Sr. Boone. Foi a Associação Nacional da Indústria.

     Os olhos de Wolfe fixaram-se em mim.

     — Archie? O que foi mesmo que o homem do banco disse?

     — Oh, só aquela piada que está correndo por aí. Que ANI significa Absolutamente Nada Inocente.

     — Mas isso é um absurdo!

     — Lógico — concordou Wolfe —, mas é isso aí. A ANI foi condenada e a sentença foi lavrada. O único modo possível de reverter essa sentença é achar o assassino e condená-lo. E se acontecesse de o assassino ser um membro da ANI, o resultado seria o mesmo; o ódio e o interesse seriam transferidos para o indivíduo, se não totalmente, pelo menos em grande parte, e nada mais reverteria essa opinião.

     Eles se entreolharam. Winterhoff acenou tristemente e Breslow manteve os lábios fechados com firmeza a fim de não explodir. Ed Erskine olhou fixamente para Wolfe como se fosse dele que tivesse vindo sua dor de cabeça.

     Papai disse a Wolfe:

     — O senhor disse que o público já condenou a ANI. A polícia fez o mesmo, e também o FBI. Estão agindo exatamente como a Gestapo. Os membros de uma organização tão antiga e respeitável como a ANI deveriam ter alguns direitos e privilégios. Sabe o que a polícia está fazendo? Além de tudo mais, está se comunicando com a polícia de cada cidade dos Estados Unidos e pedindo a ela que consiga uma declaração assinada dos cidadãos locais que estavam em Nova Iorque naquele jantar e que voltaram para casa.

     — É mesmo? — Wolfe disse educadamente. — Mas creio que a polícia local vai fornecer papel e tinta.

     — O quê?

     Papai olhou perplexo para ele.

     — Que diabo isso tem a ver com o assunto? — o filho quis saber.

     Wolfe ignorou-os e fez uma observação:

     — O mais incrível é que as probabilidades de a polícia apanhar o assassino parecem poucas. Como não estudei o caso detalhadamente, não posso me considerar um perito, mas devo dizer que os resultados parecem duvidosos. Já se passaram três dias e três noites. Por isso é que não aconselho me contratarem. Admito que, para sua Associação, valeria qualquer quantia em dinheiro conseguir descobrir o assassino, ainda que fosse um dos senhores. Mas, mesmo se me dispusesse a aceitar o caso, só o faria com a maior relutância. Sinto muito que tenham vindo até aqui para nada... Archie?

     Estava implícito que eu deveria lhes mostrar como tínhamos bons modos levando-os até a porta da rua, por isso levantei-me. Eles não. Em vez disso, entreolharam-se.

     Winterhoff disse para Erskine:

     — Se fosse eu, ia em frente.

     Breslow perguntou:

     — Que mais podemos fazer?

     Ed reclamou:

     — Oh, meu Deus, eu queria que ele voltasse a viver. Seria melhor do que isso.

     Sentei-me de novo.

     Erskine continuou:

     — Somos comerciantes, Sr. Wolfe. Sabemos que o senhor não pode garantir nada. Mas se conseguíssemos persuadi-lo a aceitar o caso, exatamente o que o senhor se disporia a fazer?

     Levaram quase dez minutos para persuadi-lo, e pareceram aliviados, até mesmo Ed, quando ele finalmente concordou. Ficou mais ou menos subentendido que o argumento decisivo foi o de Breslow, de que a justiça devia prevalecer. Infelizmente, como a ANI tinha um sistema de vouchers, a mesinha de cheques não foi utilizada. Em substituição bati uma carta à máquina, ditada por Wolfe, e Erskine assinou-a. O sinal foi de dez mil dólares e a conta final, incluindo as despesas, foi deixada em aberto. Eles sabiam fazer negócios.

     Erskine comentou, devolvendo-me a caneta:

     — Agora creio que devemos lhe contar tudo o que sabemos.

     Wolfe abanou a cabeça.

     — Agora não. Tenho que ajustar meu cérebro a essa confusão. Seria melhor se voltassem de noite às nove horas.

     Todos protestaram. Winterhoff disse que tinha um encontro que não podia desmarcar.

     — Como o senhor quiser. Se for mais importante que isso. Precisamos começar a trabalhar sem demora.

     Wolfe virou-se para mim:

     — Archie, seu bloco. Mande um telegrama: “O senhor está convidado a participar de uma reunião para discutir o assassinato Boone no escritório de Nero Wolfe essa noite, sexta-feira, vinte e nove de março, às vinte e uma horas.” Assine meu nome e mande imediatamente ao Sr. Cramer, Sr. Spero, Sr. Kates, Srta. Gunther, Sra. Boone, Srta. Nina Boone, Sr. Rohde e talvez a outros, veremos depois... Os senhores virão?

     — Meu Deus — resmungou Ed —, com toda essa multidão, por que não faz a reunião no salão de festas do Waldorf?

     Numa voz lamentosa, Erskine disse:

     — Parece-me um erro. A primeira coisa...

     Num tom de voz usado pelos homens da ANI apenas com as pessoas cujos nomes não figuravam no cabeçalho, Wolfe disse:

     — Eu estou conduzindo essa investigação.

     Comecei a bater à máquina e, como os telegramas eram urgentes e Wolfe só dava longas caminhadas numa emergência, chamamos Fritz para acompanhá-los até a porta. Só estava batendo o texto do telegrama e uma lista dos nomes e endereços, já que a maneira mais rápida de enviá-los era por telefone. Alguns dos endereços eu não sabia. Wolfe estava reclinado em sua poltrona com os olhos fechados, para não ser perturbado com coisas triviais; por isso telefonei para Lon Cohen, redator do jornal The Gazette e apanhei os endereços com ele. Lon sabia de tudo. O pessoal que viera de Washington para o grande discurso que nunca fora pronunciado ainda não regressara. A Sra. Boone e sua sobrinha estavam no Waldorf, Alger Kates estava na casa de amigos na Rua 11, e Phoebe Gunther, que fora secretária particular de Boone, tinha um conjugado na Rua 55 Leste.

     Quando terminei, perguntei a Wolfe quem mais ele queria convidar. Respondeu que ninguém. Levantei-me, dando uma espreguiçada, e olhei para ele.

     — Creio — comentei — que o resto é apenas uma coleta rotineira de fatos. Ed Erskine tem calos na mão. Isso ajuda?

     — Com todos os diabos!

     Wolfe deu um suspiro profundo.

     — Ia terminar o livro de noite. Agora vem essa mixórdia toda.

     Inclinou todo o peso para a frente e tocou pedindo cerveja.

     Em pé ao lado do arquivo, guardando os registros de germinação que Theodore trouxera da estufa, tive que admitir que ele ganhara minha admiração. Não pela concepção da idéia de desencavar um cliente pagante; nisso ele só estava seguindo os precedentes estabelecidos nos tempos de vacas magras. Não pelo método que tinha adotado para desencavá-lo; eu mesmo podia ter pensado nele. Não pela forma como tinha sido executado, pela maneira como tratara a delegação da ANI — apenas uma variação do tema de se mostrar difícil. Não pelo desplante de enviar aqueles telegramas; admirar o desplante de Wolfe é a mesma coisa que admirar gelo no Pólo Norte ou folhas verdes numa floresta tropical. Não. O que eu mais admirava era seu bom senso. Ele queria dar uma olhada naquelas pessoas. O que é que você faz quando quer dar uma olhada num homem? Você apanha seu chapéu e vai aonde ele está. Mas se a simples idéia de pegar um chapéu e sair fosse detestável para você? Você pede ao sujeito para vir aonde você está. Mas por que você acha que ele viria? Aí é que entra o bom senso. Tomemos o Inspetor Cramer. Por que ele, o chefe da Delegacia de Homicídios, viria? Porque não sabia há quanto tempo Wolfe estava envolvido no caso, qual o seu envolvimento — e, portanto, não podia se dar o luxo de não vir.

     Às quatro horas em ponto Wolfe já tomara sua cerveja toda e entrara no elevador para ir à estufa. Terminei de arquivar e apanhei algumas coisas que estavam pelo escritório, pois sabia que teria ocupação diferente pelo menos nos próximos dois dias. Instalei-me então na escrivaninha com uma pilha de recortes de jornal para me assegurar de que não tinha deixado escapar nada importante no relatório que batera sobre Boone. Estava absorto nessa tarefa quando a campainha tocou e fui até a porta da frente. Abri-a e deparei com um vendedor de aspiradores. Ou, pelo menos, com o que deveria ser um, pois tinha aquela aparência alegre, amigável e descontraída. Mas algumas coisas não encaixavam, como por exemplo suas roupas, que eram do tipo que eu compraria quando meu tio rico morresse.

     — Alô — disse ele animadamente. — Aposto que você é Archie Goodwin. Você foi ver a Srta. Harding ontem. Ela me contou a seu respeito. Você não é Archie Goodwin?

     — Sim — falei. Era mais fácil concordar. Se eu tivesse dito não ou procurado escapulir ele me apanharia mais cedo ou mais tarde.

     — Achei que era — respondeu satisfeito. Continuou: — Posso entrar? Gostaria de ver o Sr. Wolfe. Sou Don O’Neill, mas é claro que isso não significa nada para você. Sou presidente de O’Neill e Warder, Associados, e membro daquele conglomerado de antiguidades esquecidas de Deus, a ANI. Eu era presidente do comitê do jantar realizado no Waldorf naquela noite. Nunca vou conseguir fazer com que se esqueçam disso. Presidente de um comitê de jantar e deixo o orador principal ser assassinado!

     É claro que a minha reação era a de que, se eu tinha vivido muito bem durante cerca de trinta anos sem conhecer Don O’Neill, não via razão para mudar de atitude, mas não podia permitir que meus sentimentos íntimos interferissem. Por isso mandei-o entrar, levei-o ao escritório e ofereci-lhe uma cadeira antes de lhe explicar que teria de esperar meia hora porque Wolfe estava ocupado. Pareceu irritado por um instante, mas viu logo que isso não era modo de se vender um aspirador e disse pois não, estava bem, ele não se incomodava de esperar.

     Parecia encantado com o escritório. Levantou-se e pôs-se a examiná-lo. Livros — que seleção! O grande globo era maravilhoso, justamente o que sempre quis e nunca se dera ao trabalho de adquirir, agora iria...

     Wolfe entrou, viu-o e lançou-me um olhar fuzilante. É verdade que eu deveria informá-lo previamente de qualquer visita que o estivesse aguardando e nunca deixá-lo entrar desprevenido daquela forma, mas apostava dez a um que, se lhe dissesse que O’Neill estava lá, ele teria se recusado a vê-lo e mandaria convidá-lo para a reunião das vinte e uma horas. Eu não via necessidade para que o cérebro de Wolfe descansasse mais três horas. Estava tão aborrecido que fez de conta que não acreditava em aperto de mãos, mostrou que tinha ouvido a apresentação inclinando-se tão pouco que, se tivesse uma jarra de água na cabeça, não derramaria uma gota, sentou-se, olhou para a visita sem simpatia e perguntou secamente:

     — Bem, o que deseja?

     O’Neill não se deixou desanimar. Disse apenas:

     — Estava admirando seu escritório.

     — Obrigado. Mas creio que não foi por isso que veio.

     — Oh, não. Como era presidente do comitê encarregado daquele jantar, goste ou não estou no meio da coisa — o assassinato de Boone. Não diria que estou envolvido, a palavra é muito forte. Digamos que estou preocupado. Certamente estou preocupado.

     — Alguém sugeriu que está envolvido?

     — Sugeriu?

     O’Neill estava surpreso.

     — Essa é uma forma delicada de expor a situação. A posição da polícia é de que todos os que têm ligação com a ANI estão envolvidos. Por isso é que acho que a atitude que o comitê executivo está assumindo é sentimental e não-realista. Não me entenda mal, Sr. Wolfe.

     Lançou um olhar amigável em minha direção, para incluir-me na Sociedade de Cidadãos Unidos Para Não Levarem a Mal Don O’Neill. Continuou:

     — Sou um dos membros mais progressistas da ANI. Mas essa idéia de cooperar com a polícia do modo que vêm fazendo, e até gastando nosso próprio dinheiro para investigação, não é realista. Devíamos dizer à polícia: muito bem, houve um assassinato, e como bons cidadãos esperamos que apanhem o culpado, mas não tivemos nada a ver com isso e não é da nossa conta.

     — E diria a eles para parar de incomodá-lo.

     — Isso mesmo. Exatamente.

     O’Neill estava satisfeito em encontrar uma alma gêmea.

     — Eu estava no escritório quando voltaram há uma hora com a notícia de que o tinham contratado para investigar o caso. Quero deixar bem claro que não estou fazendo nada às escondidas. Não é assim que trabalho. Tivemos outra discussão e eu lhes disse que vinha vê-lo.

     — Formidável.

     Os olhos de Wolfe estavam abertos, o que significava que estava enfadado e não estava interessado. Ou era isso ou então se recusava a pôr o cérebro para funcionar antes das vinte e uma horas. Disse:

     — Veio me persuadir a abandonar a investigação?

     — Oh, não. Vi que era impossível. O senhor não faria isso. Faria?

     — Acho que só com um ótimo motivo. Como disse o Sr. Breslow, o interesse da justiça é de máxima importância. Esse era o ponto de vista dele. O meu é que preciso do dinheiro. Para que veio então?

     O’Neill sorriu-me, como se dissesse: seu chefe é mesmo engraçado, não é? O sorriso, intacto, foi transferido para Wolfe.

     — Fico contente em ver que o senhor não muda de assunto. Comigo isso é preciso, pois pulo de um assunto para outro. Francamente, o que me trouxe aqui foi meu senso de responsabilidade como presidente do comitê de jantar. Vi uma cópia da carta que Frank Erskine lhe deu; mas não ouvi a conversa que tiveram, e acho que dez mil dólares como adiantamento num trabalho de investigação é demais. Eu contrato detetives no meu trabalho, coisas como relação empregado-empregador e outras, e sei quanto os detetives ganham, por isso é natural que a pergunta me ocorra: isso é realmente apenas um trabalho de investigação? Perguntei a Erskine categoricamente, você contratou Wolfe para proteger os membros da ANI desviando... hum... a atenção em outra direção, e ele disse que não. Mas conheço Frank Erskine e não fiquei satisfeito e disse-lhe isso. O meu problema é que tenho consciência e senso de responsabilidade. Por isso vim lhe perguntar.

     Os lábios de Wolfe crisparam-se, não sei se por divertimento ou indignação. O modo como reage a um insulto não depende nunca do insulto e sim da forma como está se sentindo. Quando está no auge de um de seus momentos de preguiça não faria força nem para piscar o olho mesmo se alguém o acusasse de se especializar em casos de divórcio.

     — Também digo que não, Sr. O’Neill. Mas acho que isso não o ajudará muito. E se o Sr. Erskine e eu estivermos ambos mentindo? Não sei o que pode fazer a respeito exceto ir à polícia e acusar-nos de obstrução da justiça, mas o senhor também não gosta da polícia. O senhor está mesmo em apuros. Convidamos algumas pessoas para virem aqui de noite às nove horas para conversarmos. Por que não vem para nos vigiar?

     — Oh, eu venho. Já disse a Erskine e aos outros que venho.

     — Ótimo. Então não o deteremos mais tempo. Archie?

     Não ia ser tão fácil assim. O’Neill ainda não estava pronto para ir, por causa do seu senso de responsabilidade. Mas finalmente conseguimos que partisse sem precisar usar de violência física. Após conseguir levá-lo ao pórtico, voltei para o escritório e perguntei a Wolfe:

     — Afinal, por que ele veio aqui realmente? É claro que ele matou Boone, entendo isso, mas por que perdeu seu tempo e o meu...

     — Foi você quem o deixou entrar — disse Wolfe, a voz gelada. — Você não me avisou. Você parece esquecer.

     Interrompi-o, animado.

     — Bem, isso nos ajuda a estudar a natureza humana. Eu o ajudei a sair, não foi? Agora temos trabalho pela frente, precisamos nos preparar para a recepção. Quantos serão, cerca de doze, sem contar conosco?

     Comecei a resolver o problema das cadeiras. Havia seis no escritório e no divã podiam se sentar quatro confortavelmente, mas num caso de assassinato ocorrido três dias antes não é fácil encontrar quatro pessoas ligadas a ele que ainda tenham vontade de se sentar juntas num mesmo sofá. Seria melhor ter bastantes cadeiras, por isso trouxe mais cinco da sala da frente, que dava para a rua, e espalhei-as, sem colocá-las em fila, o que seria constrangedor, mas de maneira bem informal. Mesmo sendo uma sala grande, parecia bem cheia. Encostei-me na parede e olhei em volta, franzindo a testa.

     — O que essa sala precisa é de um toque feminino — declarei.

     — Bah! — resmungou Wolfe.

    

ÀS DEZ e quinze Wolfe estava reclinado na poltrona com os olhos semicerrados, observando-os. Há mais de uma hora que falavam do caso.

     Havia treze pessoas. Graças à minha precaução no arranjo das cadeiras, não houvera discussão entre eles. O grupo da ANI estava do lado mais distante da minha mesa, o lado da porta que dava para o corredor, com Erskine sentado na poltrona de couro vermelho. Eram seis: os quatro que formavam a delegação da tarde, inclusive Winterhoff, que dissera ter um compromisso que não podia adiar, Hattie Harding e Don O’Neill.

     Do meu lado da sala estavam os do DCP. Eram quatro: a viúva, Sra. Boone, a sobrinha Nina, Alger Kates e um penetra chamado Solomon Dexter. Ele beirava os cinqüenta anos, sua aparência era uma mistura de madeireiro com estadista e era o ex-vice-diretor, que nas últimas vinte e quatro horas atuava como diretor interino, do Departamento de Controle de Preços. Dissera a Wolfe que viera ex-officio.

     Entre os dois exércitos hostis estavam os neutros ou árbitros: Spero, do FBI, o Inspetor Cramer e o Sargento Purley Stebbins. Explicara a Cramer que eu sabia que ele merecia a poltrona vermelha, mas que a presença dele era necessária no meio. Às dez e quinze ele estava furioso como nunca o vira antes, porque há muito percebera que Wolfe estava começando do nada e arranjara a reunião com a intenção de adquirir informações e não de fornecê-las.

     Houvera uma fraca tentativa de modificar os planos de distribuição de pessoas na sala. A Sra. Boone e sua sobrinha chegaram cedo, antes das nove, e como não há nada de errado com os meus olhos, eu, sem hesitar, coloquei a sobrinha na cadeira ao meu lado, uma das amarelas da sala da frente. Quando Ed Erskine chegou, sozinho, um pouco mais tarde, coloquei-o numa cadeira do lado da ANI e descobri, após ter recebido mais umas duas pessoas, que ele se mudara para a minha cadeira e estava conversando com a sobrinha. Fui até lá e lhe disse:

     — Esse é o lado dos Capuletos. Quer fazer o favor de sentar no lugar que lhe destinei?

     Ele virou o pescoço e levantou o queixo para me olhar, e seus olhos não focalizavam bem. Era evidente que estava aplicando a teoria de imunidade adquirida para ressaca. Para ser sincero, não estava de pileque, mas também não corria o risco de se desidratar. Perguntou-me:

     — Hum? Por quê?

     — Além disso, essa é a minha cadeira e é onde trabalho. Não vamos tornar isso complicado.

     Deu de ombros e mudou-se. Dirigindo-me amavelmente para Nina Boone, disse-lhe:

     — A gente encontra todo o tipo de pessoas no escritório de um detetive.

     — Suponho que sim — respondeu.

     Não foi uma observação profunda, não havia nada de especial no que dissera, mas lhe dei um sorriso para mostrar o quanto apreciava o fato de se dispor a dizer qualquer coisa quando estava sob tensão. Seus olhos e cabelos eram escuros e mantinha o queixo firme.

     Desde o princípio, quando Wolfe anunciara que fora contratado pela ANI, o pessoal do DCP mostrara-se cheio de suspeita e antagônico. É claro que todos os que lêem jornal ou ouvem rádio, e isso me inclui, sabiam que a ANI detestava Cheney Boone e tudo o que ele representava, e que tinha feito o possível para atirá-lo aos lobos. Sabiam também que o DCP veria com prazer a bomba atômica ser testada sobre o pessoal da ANI agrupado numa ilha, mas eu não tinha imaginado a que ponto o ódio fervia até essa noite no escritório de Wolfe. É verdade que havia dois novos elementos na história: o fato de Cheney Boone ter sido assassinado e, para cúmulo do azar, num jantar da ANI, e a perspectiva de uma ou mais pessoas serem ou não presas, julgadas, condenadas e eletrocutadas.

     Às dez e quinze muitos assuntos tinham sido abordados, tanto os importantes como os triviais. O ponto de vista do DCP era de que todos na sala de recepção, e muitos outros provavelmente, sabiam que Boone estava na sala ao lado do palco, a saleta do assassinato, enquanto o pessoal da ANI dizia que apenas quatro ou cinco pessoas, no máximo, além do pessoal do DCP que lá estava, sabiam disso. Na verdade, não havia como descobrir quem sabia e quem não sabia.

     Nem os empregados do hotel nem ninguém mais ouvira qualquer ruído na saleta, ou vira alguém entrar ou sair dela a não ser aqueles que todos sabiam ter estado lá.

     Ninguém podia ser eliminado por motivo de idade, tamanho ou sexo. Embora um jovem atleta possa manejar uma chave inglesa mais rapidamente e com mais violência do que uma senhora de idade, jogadora de bridge, qualquer um dos dois poderia ter desferido os golpes que mataram Boone. Não havia sinal de luta. Quaisquer dos golpes, dados por trás, poderiam tê-lo estonteado ou matado. Nesse ponto, G. G. Spero entrou na discussão e, em resposta a um comentário de Erskine, declarou que não era função do FBI investigar assassinatos locais, mas como Boone tinha sido morto no desempenho de suas funções como funcionário do governo, o Departamento de Justiça tinha um interesse legítimo no assunto e estava agindo a pedido da polícia de Nova Iorque, que solicitara sua cooperação.

     Era interessante verificar que ninguém sabia como Boone poderia ter sido assassinado, a não ser que ele mesmo o tivesse feito, pois todos tinham álibis. Todos, nesse caso, envolvia não apenas os que estavam presentes no escritório de Wolfe — já que não havia uma razão especial para supor que o assassino estivesse lá conosco — mas todas as mil e quatrocentas ou mil e quinhentas pessoas que compareceram ao jantar. O espaço de tempo essencial era cerca de meia hora, entre sete e quinze, quando Phoebe Gunther deixara o carrinho de bebê e tudo que continha, incluindo as chaves inglesas, com Boone, e quinze para as oito, quando Alger Kates descobrira o corpo. A polícia interrogara todos exaustivamente, mas todos haviam estado com outras pessoas, especialmente os que tinham ficado na sala de recepção. Mas a dificuldade era que todos os álibis eram ou só da ANI ou só do DCP. Por mais estranho que fosse, ninguém da ANI podia dar um álibi a alguém do DCP, ou vice-versa. Mesmo a viúva, a Sra. Boone, por exemplo: ninguém da ANI tinha certeza absoluta de que ela não deixara a sala de recepção durante aquele período ou de que ela fora de lá direto para a plataforma no salão de festas. Os do DCP também não tinham certeza absoluta sobre Frank Thomas Erskine, o presidente da ANI.

     Não havia provas que indicassem que a finalidade do homicídio era impedir Boone de pronunciar aquele determinado discurso. O discurso era típico de Boone, não poupando nenhuma informação, mas não denunciava ou ameaçava ninguém em particular, nem no texto que fora primeiro distribuído à imprensa nem nas modificações e acréscimos de última hora. Nada nele apontava para um determinado assassino.

     Para mim, o ingrediente absolutamente novo, sobre o qual nada fora dito na imprensa, foi introduzido acidentalmente pela Sra. Boone. A única pessoa convidada para a reunião que não comparecera era Phoebe Gunther, a secretária particular de Boone. Naturalmente seu nome fora citado várias vezes durante o princípio da reunião, mas foi a Sra. Boone quem chamou a atenção sobre ele. A mim me pareceu que ela o fizera deliberadamente. Até aquele momento, não lhe prestara muita atenção. Era madura e cheia de corpo, embora não fosse realmente gorda ou passada, e seu nariz era feio.

     Wolfe voltara novamente a fazer perguntas sobre a chegada de Boone no Waldorf e Cramer, cujo estado de espírito nessa altura era terminar logo com aquilo e ir embora, dissera sarcasticamente:

     — Vou lhe mandar uma cópia de minhas anotações. Até lá, Goodwin pode anotar. Cinco deles — Boone e a mulher, Nina Boone, Phoebe Gunther e Alger Kates — iam tomar o trem de uma hora de Washington para Nova Iorque, mas Boone ficou preso numa reunião de emergência e não pôde ir. Os outros quatro vieram de trem e, quando chegaram, a Sra. Boone foi para o Waldorf, onde fizera reserva, e os outros três foram para o escritório do DCP em Nova Iorque. Boone veio num avião que chegou ao Aeroporto de LaGuardia às seis e cinco, foi para o hotel e dirigiu-se ao quarto onde sua mulher estava. Nessa altura a sobrinha também já estava lá e os três desceram juntos para o salão de festas. Foram direto para a sala de recepção. Boone não trazia casaco ou chapéu para guardar e ficou com a maleta de couro que trazia consigo.

     — Foi essa maleta que a Srta. Gunther diz que esqueceu e deixou no peitoril da janela — disse a Sra. Boone, entrando na conversa.

     Olhei-a com um olhar recriminador. Era o primeiro sinal de uma divisão nas fileiras do DCP, e a ênfase que pusera na palavra diz parecia detestável. Para piorar, Hattie Harding da ANI continuou dali:

     — E a Srta. Gunther estava totalmente enganada, pois quatro pessoas diferentes viram a maleta em sua mão quando saiu da sala de recepção!

     Solomon Dexter reclamou:

     — É impressionante o que...

     — Um momento, senhor — interrompeu Wolfe, apontando-lhe o indicador. — O que era essa maleta? Uma maleta de documentos? Uma maleta de cosméticos?

     Cramer, de novo ajudando, respondeu:

     — Não. Era uma maleta de couro pequena, como a de um médico, e nela havia fitas de um ditafone. A Srta. Gunther descreveu-a para mim. Quando levou o carrinho de bebê e as outras coisas para Boone na noite de terça-feira, lá para a saleta onde foi morto, ele lhe dissera que a reunião em Washington terminara mais cedo do que esperava e por isso tinha ido ao escritório e ditado uma hora antes de pegar o avião para Nova Iorque. Guardara as fitas naquela maleta para que ela as transcrevesse. Quando ela voltou à sala de recepção para tomar mais um coquetel, levou a pasta e deixou-a no peitoril de uma janela, de onde ela desapareceu.

     — Isso é o que ela diz — repetiu a Sra. Boone.

     Dexter olhou-a zangado:

     — Tolice!

     Hattie Harding perguntou:

     — Você viu a maleta em sua mão quando ela saiu da sala de recepção?

     Todos os olhos se viraram para a viúva. Ela olhou em volta e percebeu a situação. Uma palavra seria o bastante. Ou ela era uma traidora ou não era. Tendo em mente essa alternativa, não demorou muito para se decidir. Olhou Hattie Harding nos olhos e disse claramente:

     — Não.

     Todos respiraram. Wolfe perguntou a Cramer.

     — Que havia nas fitas, cartas? Ou outra coisa?

     — A Srta. Gunther não sabe. Boone não lhe disse. Ninguém em Washington sabe.

     — A reunião que terminou mais cedo do que Boone esperava, sobre o que foi?

     Cramer balançou a cabeça.

     — Com quem foi?

     Novamente Cramer balançou a cabeça. G. G. Spero disse:

     — Estamos trabalhando nisso em Washington. Não soubemos de nenhuma reunião. Não sabemos onde Boone esteve durante cerca de duas horas, de uma às três. A melhor pista que temos é que o chefe da ANI em Washington queria vê-lo para discutir o discurso, mas ele nega...

     Breslow explodiu:

     — Por Deus! Aí está! É sempre um homem da ANI! Isso é tolice, Spero, e não se esqueça de onde vêm os salários do FBI! As pessoas que pagam os impostos é que os pagam!

     Desse momento em diante correu lama quase que constantemente. Não foi por causa de nenhum encorajamento da parte de Wolfe. Ele disse a Breslow:

     — Essa referência constante à sua Associação não é agradável, do seu ponto de vista, mas não pode ser evitada. Uma investigação de assassinato invariavelmente focaliza as pessoas que têm um motivo. No princípio dessa reunião, o senhor ouviu o Sr. Cramer dizer que um inquérito rigoroso não havia mostrado nenhum inimigo pessoal. Mas não se pode negar que o Sr. Boone tinha muitos inimigos, adquiridos em conseqüência de sua atividade como funcionário do governo, e que grande número deles era membro da ANI.

     Foi a vez de Winterhoff:

     — Queria fazer-lhe uma pergunta, Sr. Wolfe. É sempre um inimigo que mata um homem?

     — Responda o senhor mesmo — disse-lhe Wolfe. — Obviamente, foi por isso que perguntou.

     — Bem, nem sempre é um inimigo — declarou Winterhoff. — Por exemplo, não se pode dizer que o Sr. Dexter fosse inimigo do Sr. Boone. Pelo contrário, eram amigos. Mas se o Sr. Dexter nutrisse ambições de ser o diretor do Departamento de Controle de Preços, e é isso que ele é no momento, é perfeitamente possível que tomasse as medidas necessárias para tornar o cargo vago. Por coincidência, poria também sob grave suspeita os membros de uma organização que detesta, o que também aconteceu.

     O sorriso de Solomon Dexter não era muito amigável:

     — Está fazendo uma acusação, Sr. Winterhoff?

     — Absolutamente.

     Seus olhares se cruzaram:

     — Apenas um exemplo, como disse.

     — Porque eu podia citar uma pequena dificuldade. Fiquei em Washington até as onze da noite de terça-feira. Esse ponto teria de ser solucionado.

     Frank Thomas Erskine disse firme e sensatamente:

     — Entretanto, o Sr. Winterhoff demonstrou uma coisa óbvia.

     — Uma de várias — concordou Breslow. — Há outras. Todos nós sabemos quais são, por isso por que não dizê-las? O falatório sobre Boone e sua secretária, Phoebe Gunther, há meses que corre, assim como sobre se a Sra. Boone iria ou não pedir divórcio. E ultimamente havia um motivo, um motivo muito bom do ponto de vista de Phoebe Gunther, para Boone se divorciar, não importa o que sua mulher sentisse a respeito. Então, inspetor, quando se está lidando com assassinato o senhor não acha que é normal se interessar por coisas desse tipo?

     Alger Kates levantou-se e declarou numa voz que tremia:

     — Quero fazer um protesto! Isso é desprezível e passa dos limites da decência!

     Seu rosto estava branco e continuou de pé. Nunca pensei que fosse capaz de assumir uma atitude dessas. Era o pesquisador do DCP que levara algumas estatísticas de última hora ao Waldorf para serem usadas no discurso de Boone e que descobrira o cadáver. Se eu prestasse atenção a ele no metrô e me perguntasse o que fazia para viver, diria: — Faz pesquisa. Era o que aparentava, em tamanho, aspecto físico, idade e medida do peito. Mas da forma que se levantou para protestar, mostrava que tinha muito mais coragem do que o resto dos outros representantes do DCP. Sorri para ele.

     Pela reação que teve, podia-se pensar que o que a ANI mais detestava e temia no DCP era a pesquisa. Todos gritavam com ele. Só consegui entender duas observações, uma de Breslow explicando que repetia apenas o que todos estavam dizendo e outra de Don O’Neill, que concluiu com voz de chefe:

     — É melhor ficar fora disso, Kates! Sente-se e cale a boca!

     Achei que estava exagerando um pouco, já que não era ele quem pagava o ordenado de Kates. Erskine, virando-se na cadeira de couro para olhar o pesquisador, disse-lhe friamente:

     — Se você não considerou o presidente do DCP uma pessoa adequada a quem comunicar as notícias, creio que dificilmente poderá ser aceito como juiz do que é decência.

     Pensei: então é por isso que estão criticando-o, porque contou ao gerente do hotel em vez de contar para eles. Devia ter mais juízo e não ofendê-los daquela maneira. Erskine continuou:

     — Tenho certeza de que o senhor sabe, Sr. Kates, que emoções pessoais como ciúme, vingança ou frustração freqüentemente levam à violência e portanto são objeto de investigação quando é cometido um assassinato. Seria direito, portanto, perguntar-lhe se é verdade que queria casar com a sobrinha de Boone, e se sabia que Boone se opunha e tencionava evitar...

     — Seu mentiroso! — gritou Nina Boone.

     — Se é direito ou não — disse Kates num timbre de voz alto e fino, ainda trêmulo —, o fato é que não é direito que o senhor me dirija qualquer pergunta. Se fosse a polícia que me perguntasse isso, diria que uma parte é verdade e outra não. Há pelo menos duzentos homens no DCP que queriam, e é uma suposição razoável que ainda queiram, casar-se com a sobrinha do Sr. Boone. Não tive a impressão de que o Sr. Boone pudesse influenciar a decisão de alguma forma e, conhecendo a Srta. Boone como a conheço, não intimamente mas razoavelmente bem, duvido que isso acontecesse.

     Kates virou a cabeça para dirigir-se a outro alvo:

     — Gostaria de perguntar ao Sr. Wolfe, que admitiu estar sendo pago pela ANI, se fomos convidados aqui para um interrogatório típico da ANI.

     Solomon Dexter interveio, e sua voz soava como um trem num túnel, em contraste com a de Kates:

     — E eu gostaria de informar-lhe, Sr. Wolfe, que de forma alguma o senhor é o único detetive empregado pela ANI. Há quase um ano os executivos e outros funcionários do DCP vêm sendo seguidos por detetives e suas vidas têm sido esmiuçadas à procura de alguma coisa que os prejudique. Não sei se o senhor tomou parte nessas operações...

     Aí veio mais barulho da parte da ANI constituído sobretudo, pelo que entendi, de negativas veementes. Naquela hora, se não fosse pelo arranjo das cadeiras, os dois exércitos provavelmente entrariam em choque. Wolfe parecia exasperado, mas não fez nenhum esforço para acalmá-los, talvez porque soubesse que isso demandaria mais energia do que estava disposto a gastar. Quem os aquietou foi o Inspetor Cramer, que ficou de pé e, num gesto de comando, mostrou-lhes a palma da mão. Falou asperamente:

     — Eu gostaria, antes de ir embora, de dizer três coisas. Primeiro, Sr. Dexter, posso lhe assegurar que Wolfe não ajudou a seguir seus funcionários ou esmiuçar suas vidas, porque esse tipo de trabalho paga pouco. Em segundo lugar, Sr. Erskine e o resto de vocês todos, a polícia sabe que o ciúme e coisas desse tipo são freqüentemente motivo de assassinato e não iremos nos esquecer disso. Em terceiro lugar, Sr. Kates, conheço Nero Wolfe há vinte anos e posso lhes dizer por que ele os chamou aqui essa noite. Fomos convidados porque ele queria saber de tudo o mais rápido possível, sem sair de sua cadeira e sem que Goodwin gastasse gasolina e pneus. Não sei o que os outros pensam, mas fui um tolo em vir.

     Deu meia-volta e continuou:

     — Vamos, sargento. Você vem, Spero?

     É lógico que isso terminou tudo. O DCP não queria mesmo ficar mais e embora a ANI, ou parte dela, mostrasse uma propensão para ficar e dar sugestões, Wolfe usou seu poder de veto para terminar com a idéia. Tendo todos se levantado, Ed Erskine atravessou as linhas e tentou nova aproximação de Nina mas, de onde eu estava, pareceu-me que ela se livrara dele sem sequer abrir a boca. Comigo ela agiu melhor, embora eu trabalhasse para Wolfe, que era pago pela ANI. Quando lhe disse que era impossível conseguir um táxi naquele local e ofereci-me para levá-la, juntamente com sua tia, para o hotel, respondeu:

     — O Sr. Dexter vai nos levar.

     Foi uma declaração franca e cordial, e apreciei-a muito.

     Mas depois que todos se foram e Wolfe e eu estávamos sozinhos no escritório, vi que não poderia tê-la levado mesmo que tivesse aceito o convite. Disse a Wolfe:

     — É pena que Cramer tenha embolado tudo daquela forma. Se pudéssemos tê-los conservado aqui um pouco mais, digamos umas duas semanas, podíamos ter um ponto de partida. Que pena.

     — Não foi mal — disse, irritado.

     — Oh — respondi, fazendo um gesto e sentando-me. — Está bem, então foi um sucesso. De todos os convidados, qual achou o mais interessante?

     Para minha surpresa, respondeu:

     — A mais interessante foi a Srta. Gunther.

     — É? Por quê?

     — Porque não veio. Você tem seu endereço?

     — Lógico. Mandei-lhe um telegrama...

     — Vá apanhá-la e traga-a aqui.

     Fitei-o, olhei meu relógio e encarei-o de novo.

     — São onze e vinte da noite.

     Acenou com a cabeça.

     — As ruas são menos perigosas à noite. Há menos tráfego.

     — Não vou discutir.

     Levantei-me:

     — Você é pago pela ANI e eu sou pago por você. Por isso vou.

    

LEVEI comigo uma porção de chaves, para simplificar as coisas, caso o n.° 611 da Rua 55 Leste fosse um prédio antigo sem elevador e com a porta da frente trancada, mas em vez disso era uma dessas colméias de doze andares com toldo na entrada e porteiro. Segui pelo amplo corredor até o elevador, entrei e disse:

     — Gunther.

     Sem nem ao menos me olhar, o cabineiro terminou de bocejar e gritou:

     — Ei, Sam, é para Gunther!

     O porteiro, que eu tinha ignorado ao entrar, apareceu e olhou para mim. Disse:

     — Vou telefonar mas é uma perda de tempo. Qual o seu nome e de que jornal é?

     Em geral gosto de economizar, mas dadas as circunstâncias, sem teto para as despesas, não vi razão para que ele não entrasse também na folha de pagamento da ANI. Por isso saí do elevador e caminhei com ele e, ao chegarmos à mesa telefônica, coloquei sobre ela uma nota de dez dólares e disse-lhe:

     — Não sou jornalista. Vendo conchas.

     Ele balançou a cabeça e começou a mexer na mesa. Pus a mão no seu braço e continuei:

     — Você não me deixou terminar. Aquilo era o papai. Aqui está a mamãe.

     Estiquei outra nota de dez dólares:

     — Mas é bom avisar: eles não têm filhos.

     Ele só fez balançar a cabeça de novo e acionou uma alavanca. O choque deixou-me mudo. Já lidei muito com porteiros e tenho certeza de que sou capaz de reconhecer um honesto demais para aceitar vinte dólares por praticamente nada, e ele não era desse tipo. Seus princípios não tinham um padrão tão alto assim, e havia outro motivo para ser tão puro. Saí do estado de choque quando o ouvi falar ao interfone:

     — Ele diz que vende conchas.

     — Meu nome é Archie Goodwin e Nero Wolfe mandou-me aqui.

     Ele repetiu isso no interfone, desligou logo e virou-se para mim com uma expressão surpresa.

     — Ela disse para o senhor subir. Nove H.

     Acompanhou-me até o elevador:

     — Sobre papai e mamãe, mudei de idéia...

     — Estava brincando com você — respondi. — Na verdade, eles têm filhos. Isso aqui é o Horacinho.

     Dei-lhe uma moeda, entrei no elevador e disse ao cabineiro:

     — Nove H.

     Não é hábito meu dirigir observações pessoais às moças nos primeiros cinco minutos em que as conheço, e se quebrei a regra dessa vez foi só porque a observação saiu involuntariamente. Quando apertei a campainha e ela abriu a porta, dizendo boa noite, concordei, tirei meu chapéu e entrei. A luz do teto batia no seu cabelo e o que falei sem querer foi:

     — Golden Bantam.

     — Sim — respondeu. — É com ele que tinjo meu cabelo.

     Desde os primeiros dez segundos percebera por que o porteiro estava sendo tão puro. Seu retrato no jornal não se comparava com o original. Depois de ter guardado meu casaco e chapéu encaminhou-se para a sala, e ao chegar ao meio virou a cabeça e disse-me:

     — Conhece o Sr. Kates, não?

     Pensei que ela tivesse dito isso sem querer, da mesma forma que eu tinha falado sem querer, mas vi que ele estava se levantando de uma cadeira num canto onde a luz não era forte.

     — Olá — disse eu.

     — Boa noite — respondeu.

     — Sente-se.

     Phoebe Gunther endireitou o canto de um tapete com a ponta de uma sandalinha vermelha.

     — O Sr. Kates veio me contar o que aconteceu na sua reunião hoje à noite. Quer um Scotch? Rye? Bourbon? Gim? Coca-cola?

     — Não, obrigado.

     Estava pondo a parte interna do meu crânio no lugar.

     Ela sentou-se num sofá, tendo atrás um monte de almofadas:

     — Bem, você veio ver de que cor era meu cabelo ou havia mais alguma coisa?

     — Desculpe-me interrompê-los.

     — Não faz mal, não é, Al?

     — Faz, sim — disse Alger Kates, sem hesitação, com voz tensa mas bem enunciada —, para mim faz. É tolice confiar nele ou acreditar em qualquer coisa que disser. Conforme já lhe disse, ele é pago pela ANI.

     — É verdade, você disse.

     A Srta. Gunther estava à vontade entre as almofadas:

     — Mas como sabemos que não podemos confiar nele, tudo que temos a fazer é sermos um pouco mais espertos do que ele para arrancar dele mais do que ele da gente.

     Olhou para mim e parecia estar sorrindo, mas já descobrira que seu rosto era tão versátil, sua boca sobretudo, que era melhor não tirar conclusões apressadas. Ela me disse, talvez sorrindo:

     — Tenho uma teoria sobre o Sr. Kates. Ele fala do mesmo modo que as pessoas falavam antes dele nascer, portanto deve ler romances fora de moda. Nunca pensei que um pesquisador lesse romances. Que é que o senhor acha?

     — Não faço comentários sobre pessoas que não confiam em mim — disse-lhe delicadamente. — E não acho que a senhorita seja.

     — Seja o quê?

     — Mais esperta do que eu. Admito que seja mais bonita, mas duvido que seja mais esperta. Eu era o campeão em soletrar de Zanesville, Ohio, quando tinha doze anos.

     — Soletre bisbilhoteiro.

     — Isso é infantil — respondi, fitando-a meio zangado. — Já que é tão esperta, não creio que esteja insinuando que apanhar pessoas culpadas de crimes é um trabalho de que a gente deva se envergonhar. Portanto, se o que tem em mente é minha vinda aqui, por que não disse ao porteiro...

     Parei de repente porque era possível que estivesse rindo de mim. Não estava mais fitando-a com raiva, mas continuei a olhá-la, o que era uma má idéia, pois era isso que interferia no meu processo mental.

     — Está bem — disse, secamente. — Você ganhou o primeiro round. Segundo round. O seu Sr. Kates pode ser tão leal como aquele menino, como é o nome dele, aquele que ficou no convés pegando fogo, mas ele é um idiota. Admito que Nero Wolfe seja cheio de truques, mas a idéia de que ele encobriria assassinatos porque trabalha para uma sigla que pode assinar cheques é ridícula. Olhe para sua folha de serviços e mostre-me uma única vez em que ele aceitou uma coisa pela outra, mesmo que alguém lhe tenha assegurado que ambas eram igualmente boas. Aqui está um conselho de graça: se você pensa ou sabe que foi um homem do DCP que cometeu o crime e não quer que ele seja apanhado, ponha-me para fora imediatamente e conserve-se o mais longe possível de Wolfe. Se você acha que foi um homem da ANI e quer ajudar, ponha uns sapatos, apanhe o casaco e o chapéu e vamos para o escritório. Por mim, nem precisa de chapéu.

     Olhei para Kates e continuei:

     — Se você mesmo cometeu o crime, por algum motivo que não pode ser mencionado a bem da decência, é melhor vir comigo, confessar e acabar logo com isso.

     — Eu lhe disse! — Kates estava triunfante. — Viu onde ele queria chegar?

     — Não seja bobo.

     A Srta. Gunther, aborrecida, olhou para ele:

     — Eu lhe explicarei tudo. Como descobriu que sou mais esperta do que ele, decidiu provocá-lo, e agora tem provas que sustentam a declaração de que você é um tolo. Realmente, é melhor você ir embora. Deixe que eu cuido dele. Posso falar com você amanhã no escritório.

     Kates balançou a cabeça com firmeza e coragem.

     — Não! — insistiu. — Ele vai continuar perturbando você. Eu não vou...

     Ele prosseguiu, mas é tão inútil escrever aqui o que disse como o foi dizê-lo, pois a dona da casa levantara-se e fora até uma mesa onde apanhou o casaco e o chapéu dele. A mim me pareceu que, sob muitos aspectos, ela não seria satisfatória como secretária particular. Uma secretária está sempre andando, levando e trazendo papéis, mandando entrar as visitas e acompanhando-as à saída, sentando-se e levantando-se, e se há uma constante tentação para ver como seu corpo se move, é difícil conseguir executar qualquer trabalho.

     É claro que Kates perdeu a questão. Dentro de dois minutos a porta se fechara atrás dele e a Srta. Gunther estava novamente no sofá entre as almofadas. Enquanto isso, concentrara-me ao máximo e por isso quando ela, talvez sorrindo, me disse para ir em frente e lhe ensinar a tabuada de multiplicar, levantei-me e pedi para usar o telefone.

     Suas sobrancelhas se ergueram.

     — Que devo fazer? Perguntar com quem você quer falar?

     — Não, só diga que posso.

     — Pode, está bem ali...

     — Já o vi, obrigado.

     Estava numa mesinha encostada à parede, com um banquinho ao lado. Sentei-me no banco, de costas para ela, e disquei. Depois de um único toque, pois Wolfe detestava ouvir campainhas soar, ouvi um alô e disse:

     — Sr. Wolfe? Archie. Estou aqui com a Srta. Gunther no apartamento dela e não creio que seja boa idéia levá-la aí como o senhor planejou. Em primeiro lugar, ela é muito esperta, mas não é isso. É com ela que venho sonhando nos últimos dez anos, lembra-se do que lhe contei? Não que ela seja bonita, isso é uma questão de gosto. O que quero dizer é que ela é exatamente quem eu tinha em mente. Portanto, será muito melhor se me deixar manobrá-la. No começo ela me fez de tolo, mas foi porque eu estava sofrendo de choque. Talvez leve uma semana, um mês ou até um ano, pois é muito difícil manter a cabeça no trabalho sob essas circunstâncias, mas pode contar comigo. Vá para a cama e falaremos pela manhã.

     Levantei-me do banquinho e virei-me para o sofá, mas ela não estava nele. Estava perto da porta, num casaco azul-escuro com gola de pele, ajustando um chapeuzinho azul-escuro na cabeça em frente a um espelho.

     Olhou na minha direção:

     — Está bem, vamos.

     — Vamos aonde?

     — Não seja modesto. — Deu as costas ao espelho. — Você trabalhou duro tentando me convencer a ir ao escritório de Nero Wolfe, e trabalhou bem. Ganhou o segundo round. Um dia desses jogaremos bridge. Agora vou enfrentar Nero Wolfe, por isso temos de adiar o jogo. Ainda bem que você não me acha bonita. Nada irrita mais uma mulher do que os outros pensarem que é linda.

     Vesti o casaco e ela abriu a porta. Sua bolsa era da mesma fazenda azul-escura do chapéu. Enquanto íamos para o elevador tentei explicar:

     — Não disse que não achava você bonita. Disse...

     — Eu ouvi o que disse. Você me apunhalou. Mesmo vindo de um estranho que talvez seja meu inimigo, doeu. Sou vaidosa, o que é que posso fazer? E acontece que talvez não tenha bom gosto mas me acho bonita.

     — Eu também... — mas bem a tempo vi o canto de sua boca se mexer e interrompi a frase. Estou contando como aconteceu. Se alguém pensa que eu estava rebatendo mal tudo o que ela me lançava, não vou discutir, mas queria salientar que estava ali com ela, olhando-a e ouvindo-a, e o negócio é que ela era realmente linda.

     Enquanto eu dirigia o carro para a Rua 35, a conversa foi tão amável como se eu nunca tivesse estado perto da ANI. Ao entrarmos em casa, achei o escritório vazio, por isso deixei-a e fui em busca de Wolfe. Estava na cozinha, conferenciando com Fritz a respeito da programação culinária do dia seguinte. Sentei-me num banco, pensando nos últimos acontecimentos, de nome Gunther, até que terminassem. Finalmente Wolfe demonstrou ter notado a minha presença.

     — Ela está aqui?

     — Sim. Está mesmo. Endireite a gravata e penteie o cabelo.

 

ERAM duas e quinze da manhã quando Wolfe olhou para o relógio da parede, deu um suspiro e disse:

     — Muito bem, Srta. Gunther. Estou pronto para cumprir minha parte do acordo. Combinamos que, após a senhorita responder às minhas perguntas, eu responderia às suas. Vá em frente.

     Como recebera ordens de anotar tudo palavra por palavra, não tinha sido muito distraído pela visão da beleza. Foram cinqüenta e quatro páginas. Wolfe estava num dos seus períodos de querer saber de tudo e o que constava em algumas das páginas tinha tanto a ver com o assassinato de Boone como Washington cruzando o Delaware.

     É claro que algumas coisas podiam ser de valia. A primeira de todas, e a mais importante, era o itinerário dela na última terça-feira. Nada sabia a respeito da reunião que impedira Boone de deixar Washington com os outros no trem, e concordou que o fato era surpreendente, uma vez que, como sua secretária particular, devia saber de tudo, e em geral sabia. Ao chegar em Nova Iorque, fora com Alger Kates e Nina Boone para o escritório do DCP. Kates tinha se dirigido para a seção de estatística, e ela e Nina tinham ajudado os chefes de departamento a juntar o material que seria usado para ilustrar alguns pontos do discurso. Coletaram coisas de todo tipo, desde palitos até máquinas de escrever, e só depois das seis horas é que tinham finalmente feito a seleção final: dois abridores de lata, duas chaves inglesas, duas camisas, duas canetas-tinteiro e um carrinho de bebê, e os dados reunidos sobre eles. Um dos homens levara tudo até a rua para ela e chamara um táxi, no qual foi para o Waldorf, pois Nina já tinha ido antes. Um boy do hotel a ajudara a levar as coisas para o salão de festas e para a sala de recepção. Lá soube que Boone pedira para ficar só a fim de reler seu discurso, e um homem da ANI, o General Erskine, levara-a até a saleta, que logo ficaria conhecida como a sala do assassinato.

     Wolfe perguntou:

     — General Erskine?

     — Sim — disse ela. — Ed Erskine, o filho do presidente da ANI.

     Ri, desdenhoso.

     — Ele era general-de-brigada — disse ela. — Um dos mais jovens generais da Força Aérea.

     — Conhece-o bem?

     — Não, só o tinha visto uma ou duas vezes e nunca tinha falado com ele. Mas detesto-o, naturalmente.

     Naquela hora não havia dúvida: não estava sorrindo.

     — Detesto todos os que estão associados à ANI.

     — Naturalmente. Continue.

     Ed Erskine conduzira o carrinho de bebê até a porta da saleta e a deixara lá, e ela ficara com Boone dois ou três minutos, não mais. A polícia gastara horas nesses dois ou três minutos, pois eram os últimos que alguém, exceto o assassino, passara com Boone vivo. Wolfe gastou duas páginas do meu caderno nisso. Boone parecia tenso e concentrado, mais do que de costume, o que não era de espantar devido às circunstâncias. Arrancara as camisas e as duas chaves inglesas para fora do carrinho e colocara-as na mesa, dera uma olhada nos dados, lembrara a Srta. Gunther de que devia seguir uma cópia do discurso enquanto ele o pronunciava, e tomar nota de qualquer coisa que se desviasse do texto. Entregara-lhe então a pasta de couro e lhe dissera para sair. Ela voltara à sala de recepção e bebera dois coquetéis, bem depressa pois sentia que precisava deles. Saíra com os demais para o salão de festas e sentara-se à mesa número oito, que ficava próxima à plataforma e estava reservada para o pessoal do DCP. Já estava comendo a salada de frutas quando se lembrara da maleta de couro, que deixara no peitoril da janela da sala de recepção. Não falara sobre o fato com ninguém porque não queria confessar que fora descuidada. Quando começara a pedir desculpas à Sra. Boone por se levantar, Frank Thomas Erskine, na plataforma, dissera ao microfone:

     — Senhoras e senhores, lamento muito a necessidade de dar-lhes essa notícia tão abruptamente, mas preciso explicar por que ninguém pode sair dessa sala...

     Só conseguiu ir à sala de recepção uma hora mais tarde e a maleta desaparecera.

     Só sabia o que Boone lhe dissera, que a maleta continha fitas com os ditados que fizera naquela tarde no escritório em Washington. Nada havia de fora do comum no fato de ele não dizer o assunto do ditado, porque raramente o fazia. Como usava outras estenógrafas para o serviço de rotina, ficava subentendido que qualquer fita que ele lhe desse pessoalmente era importante e provavelmente confidencial. No escritório de Boone havia doze maletas iguais, cada qual com dez fitas, que circulavam com freqüência entre ele, ela e as outras estenógrafas, pois Boone praticamente só ditava à máquina. Todas eram numeradas, o número gravado na parte de cima, e aquela era a número quatro. O aparelho usado por Boone era o estenofone.

     A Srta. Gunther admitia que cometera um erro. Não mencionara a maleta a ninguém até quarta-feira pela manhã, quando a polícia lhe perguntara o que continha a maleta que estava em seu poder quando viera tomar um coquetel na sala de recepção. Algum canalha da ANI por certo falara à polícia sobre a maleta. Confessou então à polícia que tivera vergonha de confessar sua negligência. De qualquer modo, seu silêncio não tinha sido prejudicial, visto que a maleta não podia ter qualquer ligação com o assassinato.

     — Quatro pessoas — murmurou Wolfe — disseram que você levou a maleta da sala de recepção para o salão de festas.

     Phoebe Gunther acenou com a cabeça, mas não se mostrou impressionada. Bebia Bourbon com água e fumava um cigarro.

     — Ou acredita neles ou acredita em mim. Não ficaria nada surpresa se quatro pessoas desse tipo dissessem que olharam pelo buraco da fechadura e me viram assassinar o Sr. Boone. Ou mesmo quarenta delas.

     — Quer dizer pessoas da ANI. Mas a Sra. Boone não é de lá.

     — Não — concordou Phoebe. Levantou os ombros por um segundo e deixou-os cair. — O Sr. Kates contou-me o que ela disse. A Sra. Boone não gosta de mim. Ou talvez — tenho dúvidas se isso é verdade —, talvez goste de mim, mas detestava ver o marido dependendo de mim. Deve ter reparado que ela realmente não mentiu a esse respeito; não disse que eu estava com a maleta quando saí da sala de recepção.

     — Em que o Sr. Boone dependia da senhora?

     — Eu fazia o que ele mandava.

     — Naturalmente — a voz de Wolfe era quase um sussurro. — Mas o que recebia da senhora? Obediência inteligente? Lealdade? Convivência confortável? Felicidade? Êxtase?

     — Ora, pelo amor de Deus.

     Parecia um pouco aborrecida:

     — Parece a mulher de um deputado falando. Ele recebia trabalho de primeira classe. Não estou dizendo que, durante os dois anos em que trabalhei para o Sr. Boone, nunca tenha sentido êxtase, mas não na hora do expediente. De qualquer modo, eu estava guardando tudo para o Sr. Goodwin.

     As mãos se moveram no ar:

     — O senhor também tem lido muitos romances. Se quer saber se mantinha com o Sr. Boone uma ligação de intimidade pecaminosa, a resposta é não. Primeiro porque ele sempre estava muito ocupado, e eu também, e, de qualquer forma, não o encarava sob esse aspecto. Eu o venerava.

     — Venerava?

     — Sim.

     Tive a impressão de que falava a verdade. Continuou:

     — Era irritante e esperava demais das pessoas, estava gordo demais e tinha caspa, e quase me deixava maluca tentando conciliar seus horários, mas era totalmente honesto, o melhor homem em Washington, e enfrentava o pior bando de porcos e trapaceiros da face da terra. Por isso, como nasci de miolo mole, eu apenas o venerava, e não sei onde ia para conseguir isso que o senhor chama de êxtase.

     Bem, isso resolvia a parte do êxtase. Enquanto eu enchia página após página do meu bloco, decidi fazer uma avaliação para ver até que ponto acreditava nela. Quando descobri que meu medidor de credibilidade já estava próximo dos noventa e continuava subindo, resolvi me desqualificar por não ser imparcial.

     Ela tinha uma opinião bem definida sobre o assassinato. Duvidava de que alguns membros da ANI estivessem de conluio, achava que nem mesmo dois estariam, porque eram prudentes demais para planejar cometer um assassinato que seria uma sensação em todo o país. Sua idéia era que um só membro o teria feito, ou contratado alguém para fazê-lo, e teria de ser alguém cujos interesses tivessem sido tão prejudicados ou ameaçados por Boone que estaria disposto a não levar em consideração como a ANI seria malvista. Aceitava a teoria de Wolfe de que agora era desejável, do ponto de vista da ANI, que o assassino fosse apanhado.

     Wolfe então perguntou:

     — De onde se deduz, então, que a senhora e o DCP prefeririam que ele não fosse apanhado?

     — Pode-se deduzir isso — admitiu ela. — Mas creio que, pessoalmente, não sou tão lógica assim, por isso não é assim que me sinto.

     — Porque venerava o Sr. Boone? Isso é compreensível. Mas, nesse caso, por que não aceitou meu convite para discutir o assunto ontem à noite?

     Ou ela já estava com a resposta pronta ou então não tinha necessidade de ter uma resposta à mão:

     — Porque não estava com vontade. Estava cansada e não sabia quem estaria aqui. Entre a polícia e o FBI, devo ter respondido mil perguntas mil vezes, e precisava descansar.

     — Mas veio com o Sr. Goodwin agora.

     — Claro. Qualquer moça que precisasse descansar iria a qualquer lugar com o Sr. Goodwin, pois não precisaria usar a cabeça.

     Sem nem olhar para mim, continuou:

     — Não pretendia, porém, ficar a noite toda e já passa das duas. Agora não é a minha vez de fazer perguntas?

     Foi aí que Wolfe olhou para o relógio, suspirou e disse a ela que fosse em frente.

     Ela ajeitou-se na cadeira, bebeu uns dois goles do copo e o pôs de volta na mesa, encostou a cabeça no couro vermelho, o que causou um grande efeito, e perguntou, assim como quem não quer nada:

     — Quem da ANI o procurou, o que disseram, o que concordou em fazer e quanto estão lhe pagando?

     Wolfe levou um susto tão grande que quase piscou.

     — Oh, não, Srta. Gunther, não perguntas desse tipo.

     — Por que não? Então não foi um bom negócio.

     Ele refletiu e percebeu até onde se tinha deixado levar.

     — Muito bem — disse —, vamos em frente. O Sr. Erskine e seu filho, o Sr. Breslow e o Sr. Winterhoff vieram me ver. Mais tarde veio também o Sr. O’Neill. Falaram muito, mas no final me contrataram para investigar. Concordei em investigar e em tentar apanhar o assassino. O que...?

     — Não importa quem ele seja?

     — Sim. Por favor, não interrompa. O que irão pagar depende das despesas feitas e do que eu decidir cobrar. Será adequado. Não gosto da ANI. Sou anarquista.

     Ele decidira levar a melhor bancando o imprevisível. Ela não ligou.

     — Eles tentaram persuadi-lo de que o assassino não é membro da ANI?

   — Não.

     — O senhor teve a impressão de que suspeitam de uma determinada pessoa?

     — Não.

     — O senhor pensa que uma das cinco pessoas que vieram vê-lo é o assassino?

     — Não.

     — Isso significa que o senhor está convencido de que nenhum deles cometeu o assassinato?

     — Não.

     Ela movimentou novamente as mãos:

     — Essa conversa é uma tolice. O senhor não está fazendo jogo limpo. Só responde não.

     — Estou respondendo a suas perguntas. E até agora ainda não lhe disse uma mentira. Duvido que possa dizer o mesmo.

     — Ora, o que foi que lhe disse que não era verdade?

     — Não tenho idéia. Pelo menos até agora. Mas terei. Continue.

     Interrompi, dirigindo-me a Wolfe:

     — Desculpe-me, mas não tenho precedentes para essa situação, isto é, o senhor ser interrogado por um suspeito de assassinato. Devo tomar notas?

     Ignorando-me, ele virou-se para ela:

     — Continue. O Sr. Goodwin estava apenas arranjando uma oportunidade de chamá-la de suspeita.

     Ela estava se concentrando, e também não prestou atenção em mim.

     — O senhor acredita que o uso da chave inglesa, que ninguém poderia saber que estava lá, é prova de que o assassinato não foi premeditado?

     — Não.

     — E por que não?

     — Porque o assassino poderia ter vindo armado, ter visto a chave inglesa e decidido usá-la em vez da arma que trouxera.

     — Mas poderia ser não premeditado?

     — Sim.

    — Alguém da ANI lhe disse alguma coisa que indicasse que ele ou qualquer outro poderia saber quem apanhou a maleta de couro, ou o que houve com ela?

     — Não.

     — Ou onde esteja agora?

     — Não.

     — Tem idéia de quem seja o assassino?

     — Não.

     — Por que mandou o Sr. Goodwin me buscar? Por que eu, em vez de... ora, qualquer outra pessoa?

     — Porque a senhorita não tinha comparecido à reunião e eu queria saber por quê.

     Ela parou, aprumou-se na cadeira, tomou o resto da bebida que estava no copo e ajeitou o cabelo para trás.

     — Tudo isto é uma tolice — falou enfaticamente. — Eu podia lhe fazer perguntas durante horas, mas como iria saber se estava dizendo a verdade? Por exemplo, eu daria o que me pedissem por aquela maleta. O senhor disse que, no que lhe concerne, ninguém sabe onde está ou o que aconteceu com ela, e ela poderia estar nessa sala agora, na sua escrivaninha.

     Ela olhou para o copo, viu que estava vazio e colocou-o na mesinha própria para escrever os cheques.

     Wolfe concordou:

     — A dificuldade é sempre a mesma. Sinto o mesmo em relação à senhorita.

     — Mas não preciso mentir a respeito de coisa alguma!

     — Tolice. Todos têm alguma coisa que precisam esconder. Continue.

     — Não. — Ela levantou-se e endireitou a saia. — É inútil. Vou para casa me deitar. Olhe para mim. Parece que estou um lixo?

     Isso o espantou de novo. As mulheres raramente lhe perguntavam sobre sua aparência, devido à atitude que tinha com elas.

     Murmurou: — Não.

     — Mas estou — disse ela. — É assim que reajo. Quanto mais cansada fico, mais aparento estar bem. Terça-feira levei o maior choque de toda a minha vida; desde então não consegui dormir uma única noite bem e olhe para mim. — Virou-se para mim e disse: — Quer me mostrar onde posso tomar um táxi?

     — Eu a levo — disse eu. — De qualquer modo, tenho que guardar o carro.

     Ela deu boa noite a Wolfe, vestimos os casacos, saímos e entramos no carro. Ela reclinou a cabeça no encosto do carro, fechou os olhos por um momento, depois abriu-os, endireitou-se no assento e olhou-me de relance.

     — Então enfrentou Nero Wolfe — disse eu, num tom de voz usado com uma pessoa estranha.

     — Não se faça de indiferente — falou. Colocou os dedos em volta de meu braço, um pouco abaixo do ombro, e apertou. — Não ligue para o que estou fazendo. Não quer dizer nada. De vez em quando gosto de sentir um braço de homem, é só isso.

     — Pois bem, eu sou um homem.

     — Bem que eu suspeitava.

     — Quando tudo estiver terminado, terei prazer em lhe ensinar a jogar bilhar ou a procurar palavras no dicionário.

     — Obrigada — pareceu-me que estremecia. — Quando tudo estiver terminado.

     Quando paramos num sinal na Rua 40 e tantos, ela disse:

     — Sabe, acho que vou ficar histérica. Mas não preste atenção a isso também.

     Olhei-a, e vi que nem sua voz nem seu rosto mostravam nenhum sinal disso. Nunca vira ninguém menos histérica. Quando parei no meio-fio em frente à sua casa, saltou depressa antes que pudesse ajudá-la e estendeu a mão para cumprimentar-me:

     — Boa noite. Ou qual será o protocolo? Será que um detetive aperta a mão de um dos suspeitos?

     — Lógico. — Apertamos as mãos. Elas se encaixavam muito bem. — Para apanhá-la desprevenida.

     Entrou no prédio, provavelmente lançando um de seus olhares ao porteiro a caminho do elevador, para que ele continuasse firme no propósito de não deixar ninguém subir.

     Ao voltar para casa, depois de guardar o carro, passei no escritório para me assegurar de que o cofre estava fechado e achei um recado rabiscado em cima de minha mesa:

“Archie: não se comunique mais com a Srta. Gunther, a não ser que eu dê ordem em contrário. Uma mulher que não é tola é perigosa. Não gosto desse caso e amanhã decidirei se o abandono e devolvo os honorários. Chame Panzer e Gore aqui amanhã de manhã. NW”

     Isso me deu uma ligeira idéia de como estava confuso, pois o recado era contraditório. A diária de Saul Panzer era de trinta dólares e a de Bill Gore vinte, fora despesas, e, se assumia tal responsabilidade, era prova concreta de que não devolveria os honorários. Estava simplesmente desejando manifestações de simpatia por ter aceito um caso tão complicado. Subi dois andares até meu quarto; dando uma olhada na porta do quarto dele no primeiro andar, verifiquei que a luz vermelha estava acesa. Isso significava que tinha ligado o interruptor do alarme.

    

NA MANHÃ seguinte, após Wolfe ter descido da estufa às onze horas, verifiquei realmente quão difícil o caso ia ser, ao ouvi-lo dar a Saul Panzer e a Bill Gore suas instruções.

     Para quem o visse sem conhecê-lo, Saul Panzer era um sujeitinho pequeno, de nariz grande e que nunca parecia estar bem barbeado. Para os poucos que o conheciam, Wolfe e eu, por exemplo, isso nada significava. Ele era o único operador free-lancer em Nova Iorque que, entra ano e sai ano, sempre tinha cerca de dez vezes mais trabalhos oferecidos a ele do que tinha tempo ou vontade de aceitar. Nunca recusava serviço de Wolfe, se pudesse. Nessa manhã estava sentado com o velho boné marrom no joelho, sem tomar notas porque nunca precisava disso, enquanto Wolfe descrevia a situação e lhe dizia para passar tantos dias ou horas no Waldorf quantos fossem necessários para conseguir informações. Devia ocupar-se de tudo e de todos.

     Bill Gore era grandalhão e não muito educado. Bastava um olhar para o topo de sua cabeça e via-se que estava condenado. Mais cinco anos e estaria completamente careca. Seu primeiro serviço era na ANI, onde devia coletar certas informações e registros. Já tínhamos telefonado para Erskine, que prometera cooperar.

     Depois que saíram, perguntei a Wolfe:

     — Está tão ruim assim?

     — Tão ruim como? — respondeu, testa franzida.

     — Você sabe muito bem o quê. Cinqüenta dólares por dia para pesquisar. Onde é que entra a inteligência nisso?

     — Inteligência? — Franziu ainda mais a testa. — O que é que a inteligência pode fazer nessa confusão? Mil pessoas, todas com motivo e oportunidade, e os meios à mão! Por que é que deixei que você me convencesse a...

     — Não, senhor — disse firmemente, em voz bem alta. — Não tente fazer isso. Quando eu vi como esse trabalho ia ser difícil e li o recado que me deixou ontem à noite, logo percebi que tentaria pôr a culpa em mim. Nada disso. Admito que não sabia como era realmente complicado até ouvir você dizer a Saul e Bill para procurar onde a polícia já tinha investigado. Você não precisa admitir que está derrotado. Você pode escapulir. Farei um cheque para a ANI dos seus dez mil dólares, e você pode ditar uma carta para eles dizendo que, em virtude de ter apanhado caxumba, ou talvez fosse melhor...

     — Cale a boca — rosnou ele. — Como posso devolver um dinheiro que não recebi?

     — Mas recebeu. O cheque chegou de manhã pelo correio e já o depositei.

     — Meu Deus. Está no banco?

     — Sim, senhor!

     Apertou o botão com raiva, pedindo cerveja. Nunca o tinha visto assim tão próximo de entrar em pânico.

     — Então você não tem pista alguma — disse eu, sem piedade. — Nada mesmo?

     — É lógico que tenho alguma coisa.

     — É mesmo? O quê?

     — Alguma coisa que o Sr. O’Neill disse ontem à tarde. Uma coisa muito estranha.

     — O que foi?

     Balançou a cabeça.

     — Não é para você investigar. Vou mandar Saul ou Bill fazerem isso amanhã.

   Não acreditei em uma palavra do que dizia. Levei dez minutos a repassar na minha mente tudo que me lembrava de ter ouvido Don O’Neill falar, e aí acreditei ainda menos.

     No sábado, durante todo o dia, não me deu nada para fazer relacionado com o caso Boone, nem ao menos um telefonema. Os chamados vieram de fora, e foram até em grande número. A maior parte deles, de jornais e do escritório de Cramer, não tinha importância. Dois deles foram apenas cômicos:

     Winterhoff, o Homem de Alta Categoria, telefonou por volta do meio-dia. Queria algo em troca do seu dinheiro. A polícia estava atrás dele. Após interrogarem quatorze pessoas, verificaram que fora ele quem sugerira a saleta perto do palco para que Boone a usasse e o tinha levado até lá. Por esse motivo estava sendo pressionado. Explicara que sabia da existência da sala por já ter participado de outras reuniões naquele local, mas a polícia não ficara satisfeita. Queria que Wolfe atestasse sua inocência e dissesse à polícia que o deixasse em paz. Seus desejos não foram satisfeitos.

     Um pouco antes do café telefonou um homem com uma voz educada, que disse chamar-se Adamson e ser conselheiro da ANI. Seu tom de voz deixava entrever que não estava muito satisfeito por Wolfe ter sido contratado e queria praticamente tudo, inclusive um relatório diário de todas as atividades, operações, conversas, contatos e intenções. Insistiu em falar com Wolfe, o que foi um erro de sua parte, porque, se estivesse disposto a falar comigo, ao menos eu o trataria com cortesia.

     Outra coisa que a ANI queria, no mesmo dia em que recebemos o cheque dos honorários, era algo que não poderíamos fornecer mesmo que nos dispuséssemos a fazê-lo. Quem trouxe o pedido foi a própria Hattie Harding, no meio da tarde, logo após Wolfe ter subido para ver as orquídeas. Levei-a ao escritório e sentamo-nos no sofá. Ainda tinha boa aparência, estava bem vestida e seus olhos ainda eram competentes, mas já começava a demonstrar tensão. Parecia estar mais perto dos quarenta e oito anos do que dos vinte e seis.

     Viera pedir ajuda, embora não o dissesse claramente. Do modo que ela falava, parecia que estava havendo um desastre de um lado a outro do país e esperava-se a qualquer minuto o fim do mundo. O departamento de relações públicas estava em péssima situação. Chegavam centenas de telegramas ao escritório da ANI, provenientes de membros e amigos de todas as partes, comunicando que os jornais escreviam editoriais sobre resoluções adotadas por Câmaras de Comércio e por todo tipo de clubes e grupos, e do falatório nas ruas. E mesmo — isso não devia ser mencionado — onze membros tinham pedido demissão, sendo que um deles era da diretoria. Alguma coisa precisava ser feita.

     Perguntei o que, por exemplo.

     Alguma coisa, repetiu ela.

     — Assim como apanhar o assassino?

     — Isso é claro. — Falava como se isso fosse só um detalhe. — Mas alguma coisa tem que ser feita para acabar com esse incrível tumulto. Talvez uma declaração assinada por uma centena de cidadãos de alta categoria. Ou telegramas pedindo sermões amanhã — amanhã é domingo...

     — Está sugerindo que o Sr. Wolfe deveria mandar telegramas a cinqüenta mil pastores, padres e rabinos?

     — Não, claro que não. — Suas mãos se agitaram. — Mas alguma coisa, alguma coisa...

     — Ouça, R. P. — tentei tranqüilizá-la batendo-lhe levemente no joelho —, sei que está traumatizada, mas a ANI parece que pensa que somos uma loja de departamentos. Vocês não querem Nero Wolfe mas sim Russell Birdwell ou Eddie Bernays. Isso aqui é uma loja especializada. A única coisa que vamos fazer é apanhar o assassino.

     — Oh, meu Deus! — falou ela, continuando: — Duvido.

     — Duvida de quê? — Olhei-a fixamente: — De que vamos apanhá-lo?

     — Sim, de que alguém o apanhe.

     — Por quê?

     — É só uma dúvida. — Fitou-me competentemente, depois seus olhos mudaram. — Olhe, o que vou dizer é confidencial.

     — Lógico, fica só entre mim e você. E meu chefe, mas ele nunca diz nada a ninguém.

     — Já estou farta. — Seu maxilar se mexeu como o de um homem, nada de lábios tremendo. — Vou largar a firma e arranjar um trabalho como costureira. No dia em que alguém apanhar o assassino de Cheney Boone, apanhá-lo e provar que foi ele, vai chover para cima em vez de para baixo. Para ser franca, vai...

     Acenei, encorajando-a a continuar: — O que mais vai acontecer?

     Levantou-se repentinamente: — Estou falando demais.

     — Oh, não, não está falando o suficiente. Só está começando. Sente-se.

     — Não, obrigada. — Seus olhos estavam novamente competentes. — Você é o primeiro homem em frente ao qual me descontrolo desde muito, muito tempo. Pelo amor de Deus, não pense que sei muitos segredos nem tente fazer com que os revele. Acontece apenas que tenho tido coisas demais sobre mim e perdi a cabeça. Não se preocupe em me levar até a porta.

     Foi embora.

     Quando Wolfe desceu às seis horas contei-lhe toda a conversa. A princípio decidiu não se mostrar interessado, depois mudou de idéia. Queria minha opinião e eu a dei: que duvidava que ela soubesse de alguma coisa que fosse de valia, e mesmo que soubesse, duvidava que se descontrolasse novamente em minha frente, mas ele podia tentar.

     Respondeu com voz aborrecida:

     — Archie, você é transparente. O que você realmente quer dizer é que não quer ter trabalho com ela, e não quer ter trabalho com ela porque a Srta. Gunther mexeu com você.

     Falei friamente: — Ninguém mexeu comigo.

     — Você está sob a influência da Srta. Gunther.

     Em geral eu o acompanho quando ele está nessa veia, mas não sabia até onde ele iria com relação a Phoebe Gunther e não queria me demitir no meio de um caso de assassinato. Por isso, parei com a conversa e fui até a porta da frente para apanhar os jornais da tarde.

     Compramos sempre dois de cada, para evitar amolações. Dei-lhe sua parte e sentei-me com os meus na escrivaninha. Li primeiro The Gazette e vi nas manchetes o que parecia ser novidade. E era. A Sra. Boone recebera algo pelo correio.

     Creio que não mencionei ainda um detalhe sobre a carteira de Boone. Não mencionei porque o simples fato de o criminoso tê-la levado não esclarecia nada sobre o caso, nem sobre motivo, pois Boone não trazia dinheiro na carteira. O dinheiro estava numa carteira de notas no bolso de trás das calças e não fora tocado. A outra carteira ficava no bolso de cima do paletó e era usada para guardar cartões e papéis. Como não fora encontrada no corpo, presumia-se que o assassino a tivesse levado. A notícia era de que a Sra. Boone recebera naquela manhã um envelope pelo correio, com seu nome e endereço em letras de imprensa a lápis, contendo dois objetos que Boone sempre levava na carteira: a licença do carro e uma fotografia da Sra. Boone vestida de noiva. O artigo dizia que o remetente devia ser sentimental e realista: sentimental, porque devolvera a fotografia; realista, porque a licença do carro, que ainda era válida, fora devolvida, e a carteira de motorista de Boone, que também era guardada na carteira, não o fora. O repórter ainda fazia piada, dizendo que a carteira de motorista fora cancelada com uma chave inglesa.

     — Realmente — disse Wolfe, bastante alto para que eu ouvisse. Vi que também estava lendo o artigo e comentei:

     — Se a polícia já não tivesse estado lá e levado o envelope, e se a Srta. Gunther não me dominasse, eu iria procurar a Sra. Boone e o apanharia.

     — Três ou quatro homens num laboratório farão tudo o que é possível fazer com aquele envelope exceto dividir seus átomos. Daqui a pouco já estarão fazendo até isso. Mas é a primeira pista que apontou em qualquer direção — disse Wolfe.

     — Lógico — concordei eu. — Agora é canja. Agora tudo o que temos a fazer é descobrir quem dessas mil quatrocentas e noventa e duas pessoas é sentimental e realista, e acharemos o assassino.

     Voltamos a ler os nossos jornais.

     Nada mais aconteceu antes do jantar. Depois da refeição, que para mim constou sobretudo de torradinhas finas com patê de fígado, tínhamos acabado de voltar ao escritório, um pouco antes das nove, quando chegou um telegrama. Tirei-o do envelope e dei-o a Wolfe que, depois de lê-lo, passou-o para mim. Dizia:

 

“Nero Wolfe 35 Oeste, n.° 922 — NI CIRCUNSTÂNCIAS TORNARAM IMPOSSÍVEL CONTINUAR A SEGUIR O’NEILL MAS CREIO ESSENCIAL ISSO SEJA FEITO EMBORA NADA POSSA GARANTIR, BRESLOW”

 

     Olhei para Wolfe, levantando as sobrancelhas. Ele me olhava com os olhos semi-abertos, o que significava que realmente estava olhando para mim.

     Disse sarcasticamente:

     — Talvez tenha a gentileza de me informar que outras providências tomou para resolver esse caso sem meu conhecimento.

     Dei-lhe um sorriso:

     — Não, senhor. Eu não. Eu ia lhe perguntar se tinha contratado Breslow, e por quanto, para que eu desse entrada no livro-caixa.

     — Você não sabe de nada a esse respeito?

     — Não. Você sabe?

     — Telefone para o Sr. Breslow.

     Isso não foi tão fácil. A única coisa que sabíamos era que Breslow era um fabricante de produtos de papel de Denver, e que, tendo vindo a Nova Iorque para o encontro da ANI, ainda estava aqui, como membro do comitê executivo, para ajudar na crise. Eu sabia que Frank Thomas Erskine estava no Hotel Churchill e liguei para lá, mas ele tinha saído. O número de Hattie Harding estava no catálogo, mas ninguém atendeu. Por isso entrei novamente em contato com Lon Cohen na Gazette, que é o que eu devia ter feito em primeiro lugar, e descobri que Breslow se achava no Strider-Weir. Três minutos mais e ele estava na linha. Passei para Wolfe, mas continuei ouvindo.

     Sua voz ao telefone soava como sua aparência, vermelha de raiva.

     — Bem, Wolfe? Conseguiu alguma coisa? Então? Então?

     — Quero lhe fazer uma pergunta...

     — Sim? Qual é?

     — Já vou fazê-la. Foi por isso que pedi ao Sr. Goodwin que descobrisse seu número de telefone, que ligasse e pedisse para chamá-lo, para que o senhor pudesse estar num lado da linha e eu do outro, e assim eu poderia lhe fazer a pergunta. Por favor, diga-me quando estiver pronto.

     — Estou pronto! Que diabo, o que é?

     — Ótimo. Aqui vai. A respeito do telegrama que o senhor me mandou...

     — Telegrama? Que telegrama? Eu não lhe mandei nenhum telegrama.

     — O senhor nada sabe sobre um telegrama que me foi enviado?

     — Não. Nada absolutamente. O quê...

     — Então foi um engano. Devem ter posto o nome errado. Foi isso que suspeitei. Estava esperando um telegrama de uma pessoa chamada Bristow. Apresento-lhe minhas desculpas por tê-lo incomodado. Adeus.

     Breslow tentou prolongar a agonia, mas conseguimos finalmente que desligasse.

     Observei:

     — Então não foi ele quem o mandou. Se foi ele, e não queria que soubéssemos, por que assinaria seu nome? Vamos descobrir quem o mandou? Ou poupamos energia presumindo que quem quer que o tenha enviado conhece cabines telefônicas?

     — Bolas! — disse Wolfe, contrariado. — Provavelmente alguém fornecendo uma pista falsa. Mas não podemos nos dar ao luxo de ignorá-la.

     Olhou para o relógio da parede, que indicava nove e três.

     — Verifique se o Sr. O’Neill está em casa. Pergunte a ele... não, deixe-me falar com ele.

     O número do telefone da casa de O’Neill, um apartamento na Park Avenue, constava do catálogo, por isso disquei e consegui encontrá-lo. Wolfe pegou o telefone, disse-lhe o que Adamson, o advogado da ANI, pedira, e contou-lhe uma história comprida sobre os perigos de relatórios escritos. O’Neill respondeu que não queria saber de relatórios, escritos ou não, e desligaram bons amigos.

     Wolfe pensou um instante: — Não. Hoje à noite não é preciso. Você pode segui-lo amanhã de manhã, quando ele sair de casa. Se acharmos que é necessário prosseguir, chamaremos Orrie Cather.

    

SEGUIR alguém em Nova Iorque sozinho, sem ajuda, pode resultar em qualquer coisa, dependendo das circunstâncias. Você pode usar cérebro e músculos numa esticada exaustiva de dez horas, mantendo contato com a pessoa apenas porque você utiliza todos os truques que conhece e inventa outros à medida que a necessidade aparece, e aí pode perdê-lo por causa de alguma coisinha à-toa que nada ou ninguém podia evitar. Ou você pode perdê-lo de vista nos primeiros cinco minutos, especialmente se ele souber que você está ali. Ou, também nos primeiros cinco minutos, ele pode sentar numa cadeira qualquer, num escritório ou num quarto de hotel, e lá permanecer o dia inteiro, sem se preocupar se você fica entediado ou não.

     Por isso nunca se sabe, mas o que eu realmente esperava era um longo dia vazio, já que era domingo. Logo após as oito horas da manhã, eu me achava sentado num táxi que, virado em direção ao centro, estava estacionado na Park Avenue, na altura das Ruas 70, a uns cinqüenta passos ao norte da entrada do prédio de apartamentos onde O’Neill morava. Eu poderia até apostar que ainda estaria lá seis horas depois, ou mesmo doze, embora admitisse haver uma boa possibilidade de irmos à igreja às onze, ou a um restaurante às duas para almoçar. Nem ler meu jornal de domingo em paz eu podia, já que tinha que ficar de olho na entrada do prédio. O motorista do táxi era meu velho amigo Herb Aronson, mas ele nunca vira O’Neill. Enquanto o tempo passava, discutimos diversos assuntos e ele leu para mim em voz alta alguns tópicos do Times.

     Às dez horas decidimos fazer uma aposta. Cada um de nós escreveria num pedaço de papel a hora em que achávamos que meu homem sairia de casa, e o que desse a pior estimativa pagaria ao outro um centavo por minuto que tivesse errado. Herb estava me fornecendo um pedaço de papel que rasgara do Times para escrever minha estimativa quando vi Don O’Neill aparecer na calçada.

     Disse a Herb: — Deixe para outra vez. É ele.

     Não importa o que O’Neill fizesse, seria embaraçoso, porque a essa altura seu porteiro já nos conhecia de cor. Já havia feito anteriormente sinal a Herb para apanhar um freguês, e Herb tinha recusado. O que O’Neill fez foi olhar em nossa direção, enquanto eu virava meu rosto para o canto a fim de que não me reconhecesse, caso sua visão fosse boa àquela distância, e falar com o porteiro, que fez que não com a cabeça. Mais embaraçoso que isso, só se O’Neill viesse falar conosco.

     Do canto da boca, Herb me disse:

     — Nossa estratégia não presta para nada. Ele toma um táxi e vamos atrás dele, e quando ele voltar para casa seu porteiro lhe diz que foi seguido.

     — E que é que eu devia fazer? — perguntei. — Devia me disfarçar de florista e ficar na esquina vendendo flores? Na próxima vez você prepara um plano. Esse negócio de segui-lo virou piada. Dê partida no carro. De qualquer modo, ele nunca voltará para casa. Vamos apanhá-lo por assassinato antes do fim do dia. Vamos! Ele conseguiu um carro.

     O porteiro apitara pedindo um táxi, e um carro que passava se desviara e parara no meio-fio. O porteiro abriu a porta e O’Neill entrou. O táxi partiu. Herb engrenou a marcha e lá fomos nós.

     — Isso é o cúmulo — disse Herb. — É o cúmulo absoluto. Por que não chegamos até lá e perguntamos aonde ele vai?

     Respondi: — Porque você não sabe o que é o cúmulo. Ele não tem nenhum motivo para pensar que o estamos seguindo, a não ser que alguém o tenha alertado, e se assim for nada o porá fora de guarda e estamos perdidos. Recue um pouco mais — apenas o suficiente para não deixar que um sinal nos separe.

     Herb obedeceu e manobrou nos sinais como se sua vida dependesse disso. Como o tráfego de domingo de manhã é fraco, depois de apenas dois sinais o táxi de O’Neill virou à esquerda na Rua 46. Um quarteirão adiante, na Avenida Lexington, virou à direita e um minuto mais tarde parou na entrada da Grand Central Station.

     Havia dois carros entre nós. Herb desviou-se para a direita e freou. Saí por trás de um carro estacionado e dei-lhe um sorriso:

     — Não lhe disse? Ele está dando o fora. Vejo-o no tribunal.

     Logo que O’Neill pagou o motorista e começou a atravessar a calçada, fui atrás dele.

     Isso, entretanto, ainda não era o que eu queria. O que eu realmente queria naquela hora era ir até Greenwich juntar-me a um grupo, tomar uns drinques e talvez jogar um pôquer. De qualquer modo, O’Neill não parecia ter dúvidas sobre que direção tomar, pois partiu pelo longo corredor e pela parte central da estação como um homem que sabia aonde ia. Não demonstrava suspeitar que alguém o seguia. Quando finalmente parou não foi numa das entradas de trem, mas na seção principal de guardados no nível superior. Fiquei de longe, perto de uma esquina conveniente. À sua frente estavam várias pessoas e ele esperou sua vez, apresentou um bilhete e recebeu um objeto.

     Mesmo de onde eu estava, a cerca de trinta passos de distância, o objeto parecia interessante. Era uma maleta de couro retangular. Apanhou-a e foi andando. Fiquei um pouco menos interessado em manter minha presença em segredo, mas bem mais interessado em não perdê-lo de vista, por isso aproximei-me mais e quase pisei nele quando repentinamente diminuiu o passo, quase parando, pôs a maleta dentro do capote, passou o braço em volta e abotoou-o. Isso feito, continuou seu caminho. Em vez de voltar para a entrada da Avenida Lexington, subiu a rampa em direção à Rua 42 e, ao chegar à calçada, virou à esquerda, para a fila de táxis que param em frente ao Hotel Comodoro. Ainda não me vira. Depois de uma curta espera conseguiu um táxi. Abriu a porta, entrou e esticou o braço para fechá-la.

     Decidi então que teria que mudar de tática. Gostaria muito de saber qual o endereço que daria ao motorista, se não houvesse qualquer interrupção, mas isso não era vital, enquanto que, se perdesse contato com a maleta de couro, por causa dos riscos que se toma ao se seguir alguém sem ajuda, teria de arranjar emprego ajudando Hattie Harding a pregar botões. Por isso apressei o passo e com a mão impedi que a porta se fechasse, dizendo:

     — Alô, Sr. O’Neill! Vai para a zona residencial? Importa-se de me dar uma carona?

     A essa altura já estava sentado a seu lado e, disposto a fazer a minha parte, fechei a porta.

     Quando digo que ficou perturbado não o estou menosprezando. Poucos homens não teriam ficado. E ele saiu-se bem:

     — Ora, alô, Goodwin! De onde foi que apareceu? Eu... bem, o fato é que não vou para esses lados. Vou para o centro.

     — É melhor se decidir — rosnou o motorista para nós.

     — Não tem a menor importância — disse eu para O’Neill, muito animado. — Só quero lhe fazer umas perguntas sobre essa maleta de couro que está escondida dentro do seu casaco. — Virei-me para o motorista: — Vá em frente. Vire para o sul na Rua Oito.

     O motorista me encarava com raiva:

     — Este não é o seu táxi. O que é isso, um assalto?

     — Não — respondeu-lhe O’Neill. — Está tudo bem. Somos amigos. Vá em frente.

     O táxi partiu. Não falamos nada. Passamos Vanderbilt e, após esperar o sinal mudar, atravessávamos a Madison quando O’Neill inclinou-se para a frente e disse ao motorista:

     — Vire para o norte na Quinta Avenida.

     O motorista estava aborrecido demais para responder, mas quando chegamos à Quinta Avenida e o sinal ficou verde, virou para a direita. Eu disse, então, para O’Neill:

     — Está certo, se você quiser, mas achei que pouparíamos tempo se fôssemos direto para a casa de Nero Wolfe. Ele ficará ainda mais curioso do que eu sobre o que está na maleta. É verdade que não devíamos discutir isso nesse táxi, já que o motorista não gosta de nós.

     Inclinou-se para a frente novamente e deu ao motorista o endereço de sua residência em Park Avenue. Refleti bem sobre isso durante três quarteirões e depois decidi que não devíamos ir lá. A única arma que tinha comigo era um canivete. Como estava vigiando a entrada de sua casa desde as oito horas da manhã, era muito improvável que o comitê executivo da ANI estivesse reunido no apartamento de O’Neill,mas se estivessem, e especialmente se o General Erskine estivesse com eles, teria que fazer muita força para conseguir sair de lá com a maleta. Por isso falei em voz baixa para O’Neill:

     — Olhe, se ele for um cidadão preocupado com o bem do público, e se ouvir qualquer coisa que o convença que isso está ligado a um assassinato, ele provavelmente vai parar o carro junto ao primeiro policial que encontrar. Talvez seja isso também o que você queira, um policial. Se esse é o caso, creio que ficará satisfeito em saber que não gosto da idéia de ir ao seu apartamento e que, se formos para lá, mostrarei ao porteiro minha licença, porei meus braços em volta de você e pedirei que ele chame a 19.a Delegacia, que fica na Rua 67 Leste, 153, Rhinelander quatro, um-quatro-quatro-cinco. Isso criaria o maior tumulto. Por que não nos livramos desse motorista intrometido e discutimos o assunto sentados num banco ao sol? Além do mais, vi o brilho de seu olhar e estou lhe avisando que não tente. Sou vinte e poucos anos mais novo do que você e faço exercício todo dia.

     Ele perdeu a expressão de um tigre prestes a pular e disse ao motorista:

     — Pare aqui.

     Embora duvidasse que estivesse armado, não queria que ele mexesse nos bolsos, por isso eu mesmo paguei o táxi. Estávamos na Rua 69. Depois que o táxi foi embora atravessamos a avenida, caminhamos até um dos bancos encostados ao muro do Central Park e lá nos sentamos. Seu braço esquerdo segurava com força o objeto embaixo do casaco.

     Eu disse:

     — Um modo fácil de resolver as coisas é deixar-me olhar dentro e fora da maleta. Se ela só contiver manteiga comprada no câmbio negro, Deus o abençoe.

     Virou-se no banco, de forma a me encarar de homem para homem:

     — Vou lhe dizer uma coisa, Goodwin — falou, escolhendo as palavras. — Não vou fingir indignação porque você me seguiu e coisas desse tipo. — Achei que não estava escolhendo bem suas palavras, repetindo-se, mas eu era educado demais para interromper. — Mas posso explicar como aconteceu estar com essa maleta, de modo completamente inocente — completamente! E sei tanto quanto você sobre o que está dentro dela — não tenho a menor idéia do que está aí dentro!

     — Vamos dar uma olhada.

     — Não. — Sua voz estava firme. — No que lhe diz respeito, é minha propriedade...

     — Mas é mesmo?

     — É e tenho o direito de examiná-la sozinho. Quero dizer, um direito moral. Admito que não posso dizer que é um direito legal porque você já sugeriu mostrá-la à polícia e lógico que isso legalmente é o que é correto. Mas tenho um direito moral. Você primeiro sugeriu que a levássemos a Nero Wolfe. Acha que a polícia aprovaria isso?

     — Não, mas ele aprovaria.

     — Não duvido — O’Neill agora estava a pleno vapor, sincero e persuasivo. — Sabe, nenhum de nós dois quer realmente ir à polícia. Na verdade, nossos interesses são os mesmos. É apenas uma questão de procedimento. Vamos encará-lo sob seu ponto de vista: o que você quer é pode ir ao seu chefe e dizer: “Você me mandou fazer um trabalho, eu o fiz e aqui estão os resultados”, e então entregar-lhe a maleta de couro, comigo ao seu lado. Não é o que você quer?

     — Lógico. Vamos.

     — Nós iremos. Pode ter certeza, Goodwin, nós iremos. — Parecia tão sincero que era quase doloroso ouvi-lo. — Mas realmente importa quando iremos? Agora ou daqui a quatro horas? É lógico que não! Nunca quebrei uma promessa em toda a minha vida. Sou um homem de negócios, e a base sobre a qual repousam os negócios americanos é a integridade — total integridade. Isso nos trás de volta aos meus direitos morais nesse assunto. Vou lhe propor o seguinte: irei ao meu escritório, no n.° 1270 da Sexta Avenida. Você me apanhará lá às três horas, ou posso encontrá-lo onde quiser. Estarei com essa maleta e juntos iremos levá-la a Nero Wolfe.

     — Eu não...

     — Espere. Quaisquer que sejam meus direitos morais, quero deixar claro que, se me fizer essa gentileza, ela deve ser apreciada e reconhecida. Ao encontrá-lo às três horas dar-lhe-ei mil dólares em dinheiro como prova de apreço. Não mencionei uma coisa: garanto que Wolfe não saberá nada sobre esse atraso de quatro horas. Isso é fácil de conseguir. Se eu tivesse aqui comigo os mil dólares, eu os daria a você agora mesmo. Nunca quebrei uma promessa em toda a minha vida.

     Olhei para meu pulso e propus-lhe:

     — Dê-me dez mil.

     Ele não ficou desconcertado, apenas pesaroso, e mesmo assim nem ficou pesaroso demais. — Isso está fora de cogitação — declarou, mas não num tom de voz que pudesse ofender. — Absolutamente fora de cogitação. Mil dólares é o limite.

     Sorri para ele:

     — Seria engraçado ver até quanto eu poderia fazer você aumentar a oferta, mas são cinco para as onze. Dentro de dez minutos o Sr. Wolfe vai descer para o escritório, e não gosto de deixá-lo esperando. O problema é que hoje é domingo e nunca aceito suborno aos domingos. Esqueça isso. Aqui estão as alternativas: você, eu e o objeto sob seu casaco vamos agora mesmo procurar o Sr. Wolfe. Ou dê-me o objeto e eu o levarei para ele, enquanto você vai passear ou tirar um cochilo. Ou eu dou um grito para o policial do outro lado da rua, hipótese que admito ser a que menos me atrai, mas você tem seus direitos morais. Até então eu não tinha pressa, mas o Sr. Wolfe vai descer, por isso dou-lhe dois minutos para decidir.

     Ele continuou tentando:

     — Quatro horas! É só isso! Eu lhe darei cinco mil. Você vem agora comigo e eu lhe entregarei...

     — Não. Esqueça. Eu não disse que era domingo? Vamos, dê-me a maleta.

     — Não vou permitir que essa maleta saia de minha vista.

     — Está bem.

     Levantei-me, fui até ao meio-fio e fiquei de modo a poder olhá-lo, ao mesmo tempo que procurava um táxi. Não demorou muito para aparecer um vazio, que veio em minha direção e parou. Provavelmente fazia muitos anos desde que Don O’Neill fizera qualquer coisa que detestasse tanto como se levantar, andar até o táxi e entrar nele, mas foi o que teve de fazer. Entrei ao seu lado e dei o endereço ao motorista.

    

DEZ FITAS pretas, de seis polegadas de diâmetro e seis de comprimento, estavam alinhadas em duas carreiras na mesa de Wolfe. Ao lado delas, a maleta com a tampa aberta, feita de bom couro, embora um pouco surrada e arranhada. Na parte de fora da tampa, um número quatro bem grande estampado. Do lado de dentro, uma etiqueta presa:

       DEPARTAMENTO DE CONTROLE DE PREÇO

         EDIFÍCIO POTOMAC

         WASHINGTON, D.C.

     Antes de colar a etiqueta, alguém tinha escrito à máquina, em maiúsculas: ESCRITÓRIO DE CHENEY BOONE, DIRETOR.

     Eu estava na minha escrivaninha e Wolfe na dele. Don O’Neill andava para cima e para baixo, com as mãos nos bolsos da calça. A atmosfera não era calorosa. Fornecera a Wolfe um relatório completo, incluindo a última oferta de O’Neill para mim, de cinco mil dólares. Wolfe era tão presunçoso que sempre encarava qualquer tentativa de me subornar como uma afronta pessoal, não para mim mas para ele. Muitas vezes fiquei imaginando quem ele culparia se algum dia eu me vendesse, se a si mesmo ou a mim.

     Sem discutir, tinha repudiado o direito moral que O’Neill dizia ter de ouvir, antes de qualquer outra pessoa, o que estava nas fitas. E quando O’Neill verificou que era inútil insistir, lançou-lhe um olhar tão venenoso que decidi revistá-lo para ver se estava armado. Não estava, mas isso não servira para melhorar o ambiente. A pergunta que surgiu então foi como faríamos funcionar as fitas. No dia seguinte, dia de trabalho, seria fácil, mas hoje era domingo. Foi O’Neill quem resolveu o problema. O presidente da Companhia Estenofone era membro da ANI e O’Neill o conhecia. Morava em Jersey. O’Neill telefonou-lhe e, sem dar nenhum detalhe incriminador, conseguiu que ele ligasse para o gerente do seu escritório em Nova Iorque, que morava em Brooklin, e lhe desse ordem de que fosse à sala de demonstrações, apanhasse um estenofone e o trouxesse ao escritório de Wolfe. Era isso que estávamos sentados aguardando — isto é, Wolfe e eu estávamos sentados e O’Neill estava andando.

     — Sr. O’Neill. — Wolfe abriu os olhos o suficiente para ver. — É extremamente irritante essa sua caminhada de um lado para o outro.

     — Não vou sair dessa sala — declarou O’Neill sem parar.

     — Quer que o amarre? — eu me ofereci.

     Wolfe, sem ligar para mim, disse a O’Neill:

     — Provavelmente vamos esperar mais de uma hora. Sobre a sua declaração de que tomou posse dessa coisa inocentemente, quer explicar isso agora? Como a conseguiu inocentemente?

     — Explicarei quando tiver vontade.

     — Tolice. Não pensei que fosse imbecil.

     — Vá para o inferno.

     Isso sempre amolava Wolfe. Disse duramente:

     — Então o senhor é um imbecil. O senhor só tem dois meios de nos conter: sua própria força física ou chamar a polícia. A primeira é impossível: o Sr. Goodwin podia dobrá-lo e pô-lo numa prateleira. É óbvio que o senhor não gosta da idéia da polícia. Não consigo imaginar por que, já que é inocente. Então veja se gosta desta idéia: quando aquela máquina chegar e tivermos aprendido a manejá-la e o gerente tiver ido embora, o Sr. Goodwin vai levá-lo lá para fora, entrar e fechar a porta. E nós dois ouviremos as fitas.

     O’Neill parou de caminhar, tirou as mãos dos bolsos e colocou as palmas das mãos na mesa, apoiando-se nelas, enquanto olhava para Wolfe com raiva:

     — O senhor não vai fazer isso!

   — Eu não. O Sr. Goodwin vai.

     — Maldito! — Conservou a pose ainda algum tempo, depois endireitou-se vagarosamente. — O que é que o senhor quer?

     — Quero saber onde conseguiu essa coisa.

     — Está bem. Vou lhe dizer. Ontem à noite...

     — Desculpe-me, Archie. Apanhe seu bloco. Continue, senhor.

     — Ontem à noite, por volta das oito e meia, recebi um telefonema em minha casa. Era uma mulher. Declarou chamar-se Dorothy Unger e ser estenógrafa no escritório do Departamento de Controle de Preços em Nova Iorque. Disse que tinha cometido um grande erro: num envelope endereçado a mim, tinha posto uma coisa que deveria ter sido colocada numa carta para outra pessoa. Lembrara-se disso após ter chegado em casa, e podia até perder o emprego se seu chefe descobrisse. Pediu-me que, quando recebesse o envelope, remetesse o que estava dentro para ela em sua casa, e me deu o endereço. Perguntei-lhe o que era e disse-me que se tratava de um bilhete para apanhar um pacote que fora guardado na Grand Central Station. Fiz-lhe mais algumas perguntas e prometi-lhe fazer o que me pedira.

     Wolfe interrompeu:

     — É claro que o senhor ligou de volta para ela.

     — Não podia. Ela não tinha telefone e estava chamando de uma cabine pública. Hoje de manhã recebi o envelope e o que estava dentro era...

     — Hoje é domingo — disse Wolfe secamente.

     — Diabos, eu sei que é domingo! Veio por entrega especial. Continha uma circular sobre teto de preços e o bilhete. Se fosse um dia de semana eu poderia me comunicar com o escritório do DCP, mas é claro que o escritório não estava aberto. — O’Neill fez um gesto impaciente. — Que importância tem o que eu teria feito ou o que pensei? Sabe o que fiz realmente. Naturalmente, sabe mais sobre o assunto do que eu, já que foi quem arranjou tudo!

     — Entendo — disse Wolfe, levantando a sobrancelha. — O senhor pensa que fui eu?

     — Não — O’Neill encostou-se novamente na escrivaninha. — Eu sei que o senhor arrumou tudo! Que aconteceu? Goodwin não estava lá? Admito que fui um tolo ao vir aqui sexta-feira. Tive receio que o senhor tivesse concordado em lançar a culpa do assassinato de Boone em alguém no DCP ou pelo menos em alguém que não fosse da ANI. E já então o senhor devia estar se preparando para lançar a culpa em alguém da ANI! Em mim! Não é de espantar que o senhor pense que sou um imbecil!-

     Endireitou-se de repente, olhou com raiva para Wolfe, depois para mim, foi para a poltrona vermelha e sentou-se, dizendo num tom de voz totalmente diferente, calmo e controlado:

     — Mas vai descobrir que não sou um imbecil.

     Wolfe, franzindo as sobrancelhas, respondeu:

     — Isso é um ponto de pouca importância. O envelope que recebeu hoje pela manhã por entrega especial, está com ele aí?

     — Não.

     — Onde está, em sua casa?

     — Sim.

     — Telefone e peça a alguém para trazê-lo.

     — Não. Vou mandar algum detetive trabalhar naquele envelope e não vai ser o senhor.

     — Então não vai ouvir o que as fitas têm a dizer — explicou Wolfe com paciência. — Será que tenho de ficar repetindo a mesma coisa?

     Dessa vez O’Neill não tentou discutir. Apanhou o telefone da minha escrivaninha, discou e disse a alguém a quem chamou de doçura para apanhar o envelope assim assim em cima de sua cômoda e mandá-lo ao escritório de Nero Wolfe. Fiquei surpreso. Teria apostado cinco a um em que não existia tal envelope, e ainda agora apostaria a mesma quantia em que ele teria caído da cômoda e que a empregada deveria ter pensado que era lixo.

     Quando O’Neill sentou-se novamente na cadeira de couro vermelho, Wolfe disse:

     — O senhor vai encontrar dificuldade em convencer alguém a acreditar que suspeita de mim e do Sr. Goodwin, achando que fomos nós que arranjamos tudo. Pois, se for verdade, por que não insistiu em ir à polícia? Ele queria ir.

     — Ele não queria ir. — O’Neill mantinha-se calmo. — Ele apenas ameaçou ir.

     — Mas a ameaça funcionou. Por quê?

     — O senhor sabe muito bem por que funcionou. Porque eu queria ouvir o que essas fitas contêm.

     — Isso é verdade. Queria mesmo, até cinco mil dólares. Por quê?

     — Tenho que lhe dizer por quê?

     — Não. Não tem. O senhor sabe a situação qual é.

     O’Neill engoliu em seco. Provavelmente engolira “Vá para o inferno” trinta vezes em trinta minutos.

     — Tenho razões para crer, assim como o senhor, que são ditados confidenciais de Cheney Boone, e talvez tenham algo a ver com o que lhe aconteceu, e se esse for o caso, quero saber.

     Wolfe balançou a cabeça, reprovando-o.

     — O senhor é incoerente. Anteontem, sentado nessa mesma cadeira, sua posição era de que vocês da ANI não tinham nada a ver com isso e que não lhes dizia respeito. Outra coisa: o senhor não tentou subornar o Sr. Goodwin para que o deixasse ouvir as fitas. O senhor tentou suborná-lo para ficar quatro horas a sós com elas. O senhor queria dar um furo em todos nós — na polícia, no FBI e em mim?

     — Sim, queria, se quiser chamar isso de furo. Não confiava no senhor antes, e agora...

     Pelo seu tom de voz, nós éramos qualquer coisa retirada da parte de baixo de uma lixeira.

     Poderia fazer um relatório completo, já que está tudo no meu bloco, mas não vale a pena. Mais para passar o tempo, aparentemente, do que por qualquer outro motivo, Wolfe decidiu examinar com atenção o episódio do telefonema de Dorothy Unger e o recebimento do envelope. Fez O’Neill repetir tudo, da frente para trás e de cima para baixo, e O’Neill o fazia, contra todos seus instintos e inclinações, porque sabia que precisava responder para poder ouvir as fitas. Fiquei tão cansado da repetição que, quando a campainha da rua tocou, a interrupção foi mais do que bem-vinda.

     O’Neill pulou da cadeira e veio também até a porta da frente onde estava uma senhora de meia-idade, de rosto quadrado, num casaco roxo. Chamou-a de Gretty, apanhou o envelope que ela lhe deu e agradeceu-lhe.

     De volta ao escritório, deixou que Wolfe e eu examinássemos o envelope, mas ficou por perto. Era um envelope comum do DCP, escritório de Nova Iorque, com seu nome e endereço batidos à máquina. No canto direito, havia um selo de três centavos, e um pouco à esquerda havia mais cinco selos de três centavos. Logo abaixo estava impresso à mão com lápis azul: ENTREGA ESPECIAL. Dentro havia uma circular mimeografada do DCP, com data de 27 de março, a respeito de teto de preços numa lista comprida de itens de cobre e latão.

     Quando Wolfe o devolveu a O’Neill, que o guardou no bolso, observei:

     — Os empregados do correio ficam cada dia mais descuidados. Pois o selo do canto está carimbado e os outros não.

     — O quê? — O’Neill tirou-o do bolso e examinou-o. — O que é que tem isso?

     — Nada — disse Wolfe secamente. — O Sr. Goodwin gosta de se gabar. Isso não prova nada.

     Não via motivo para não ajudar a passar o tempo, e não gosto do hábito de Wolfe de fazer observações pessoais em frente de estranhos, sobretudo quando são inimigos; por isso já estava abrindo a boca para continuar quando a campainha tocou de novo. Quando fui abrir, O’Neill veio junto. Até parece que estava treinando para assumir o emprego.

     Era o homem da Estenofone. O’Neill tomou a frente, mencionando o presidente e pedindo desculpas por estragar seu domingo e assim por diante, enquanto eu ajudava com a máquina. Não era muita coisa, pois O’Neill dissera < ao telefone que não precisávamos de um gravador completo. O chassi do toca-fita tinha rodas e não pesava mais do que trinta quilos. O homem da Estenofone empurrou-o até o escritório, foi apresentado a Wolfe e em menos de cinco minutos tinha dado todas as instruções. Aí, como parecia não querer se demorar, deixamos que se fosse.

     Quando voltei ao escritório após levar a visita até a porta, Wolfe lançou-me um certo tipo de olhar, alertando-me, enquanto dizia:

     — Agora, Archie, por favor traga o casaco e o chapéu do Sr. O’Neill. Ele já vai.

     O’Neill o encarou durante alguns segundos e riu, ou pelo menos fez um barulho. Foi o primeiro ruído realmente feio que emitira até então.

     Só para ver o que faria, dei dois passos rápidos em sua direção. Ele deu três passos rápidos para trás. Parei e dei-lhe um sorriso. Ele tentou olhar para mim e para Wolfe ao mesmo tempo.

     — Então é assim — disse, falando bastante feio. — Pensam que podem trair Don O’Neill. É melhor não tentarem.

     — Tolice — falou Wolfe, apontando-lhe um dedo. — Não lhe dei nenhuma garantia de que daríamos permissão para ouvir as gravações. Seria totalmente incorreto permitir que um executivo da ANI ouvisse ditados confidenciais do diretor do DCP, mesmo após o assassinato dele. Além disso, está sendo incoerente de novo. Há pouco disse que não confiava em mim. Isso só poderia ser porque me julgava indigno de confiança. Agora mostra-se chocado por descobrir que sou indigno de confiança. Totalmente incoerente. — O dedo balançou de novo. — Bem, quer sair por seus próprios pés?

     — Não vou sair dessa sala.

     — Archie?

     Fui em sua direção. Dessa vez não se mexeu. Pelo jeito como me olhava, se tivesse com ele qualquer coisa que pudesse usar, é o que teria feito. Segurei seu braço e disse-lhe:

     — Vamos, vamos com o Archie. Você deve pesar cerca de noventa quilos. Não quero carregá-lo para fora.

     Ele tentou dar um soco no meu queixo com a direita, ou pelo menos era o que pensava estar fazendo, mas era vagaroso demais para acertar algo que não estivesse pregado no chão. Ignorando-o, comecei a virá-lo para segurá-lo pelas costas e o cretino me deu um pontapé. Tentou dar um pontapé mais alto e atingiu meu joelho. Não estou dizendo que tenha doído muito, mas não gosto de gente que dá pontapé. Golpeei-o no pescoço com a esquerda, que estava mais fácil, logo abaixo da orelha, e quase caiu em cima das estantes. Achei que com isso aprenderia alguma coisa, mas voltou e tentou me dar outro pontapé, por isso usei a direita com mais força, também no pescoço para não machucar o nó dos dedos. Ele balançou de novo e caiu.

     Disse a Wolfe para chamar Fritz para abrir a porta, vi que Fritz já estava lá, apanhei meu adversário caído pelos tornozelos e puxei-o pelo corredor até a porta, e daí para a varanda. Fritz deu-me seu casaco e chapéu e joguei-os em cima dele. Entrei de novo e fechei a porta.

     No escritório perguntei a Wolfe:

     — Ele também está no comitê executivo ou só era presidente do comitê de jantar? Enquanto o arrastava, tentava me lembrar.

     — Não gosto de alvoroço — disse Wolfe, rabugento. — Não lhe disse para bater nele.

     — Ele tentou me chutar. Ele me chutou. Na próxima vez você é quem fará isso.

     Wolfe estremeceu. — Ponha a máquina para funcionar.

    

LEVAMOS mais de uma hora para passar as dez fitas, sem contar a hora do almoço.

     Comecei a primeira na velocidade recomendada pelo nosso instrutor, mas após alguns segundos Wolfe me disse que pusesse mais devagar. Como já ouvira Cheney Boone no rádio, esperava que o som fosse parecido, mas, embora houvesse semelhança bastante para que reconhecêssemos sua voz, o diapasão era mais alto e as palavras, mais precisas. A primeira começava:

“Seis-setenta-e-nove. Pessoal. Caro Sr. Pritchard. Muito obrigado por sua carta, mas decidi não comprar um chesapeake de caça e sim um setter irlandês. Nada tenho contra os chesapeakes e não há nenhum motivo para essa decisão exceto as divagações imprevisíveis da mente humana. Sinceramente. Seis-oitenta. Cara Sra. Ambruster. É claro que me lembro daquele dia e da noite tão agradáveis em St. Louis e sinto sinceramente não poder estar presente na reunião de primavera de sua excelente organização. Da próxima vez que for a St. Louis entrarei em contato com a senhora. O material que pediu lhe será mandado sem demora, e se não chegar logo por favor me avise. Com os melhores votos de sucesso na sua reunião. Sinceramente. Seis-oitenta-e-um. Memo — não, faça uma carta personalizada para todos os diretores regionais. Favor devolver imediatamente a esse escritório as cópias preliminares do press release do dia 25 de março sobre eletrodomésticos. Esse release foi cancelado e não será enviado. Parágrafo. A divulgação prematura de alguns dos pontos do mesmo por uma associação de imprensa fez com que novamente se questionasse o envio de cópias preliminares dos releases aos escritórios regionais. Solicitamos que investigue sem demora, em seu escritório, o manuseio de cópias preliminares do release em pauta, e prepare um relatório completo dos resultados diretamente para mim. Espero receber esse relatório o mais tardar no dia 28 de março. Sinceramente. Seis-oitenta-e-dois. Caro Sr. Maspero. Agradeço muito sua carta do dia 16, e asseguro-lhe que seu conteúdo será considerado confidencial. É claro que isso seria impossível se pudéssemos usar sua informação numa ação legal que eu empreenderia no desempenho de minhas funções, mas sei muito bem das dificuldades que enfrentaria em qualquer tentativa...”

     Essa carta continuou tempo suficiente para encher pelo menos duas folhas de papel em espaço um, deixando lugar naquela fita para apenas duas outras cartas e um memorando interno. Quando chegou ao fim, retirei a fita, coloquei-a em seu lugar na fila e apanhei a número dois, enquanto observava:

     — Creio que reparou que Boone aparentemente mandava suas cartas por foguete e os diretores regionais tinham de agir como raios.

     Wolfe acenou pesarosamente:

     — Fomos enganados. — Inclinou-se para olhar o calendário da sua escrivaninha. — Ele não poderia ter ditado isso na tarde do dia em que foi morto, dia 26 de março. Ele disse aos diretores regionais que fizessem uma investigação e lhe mandassem um relatório até o dia 28 de março. Como todos os diretores estavam incluídos, iria também para a costa oeste. Mesmo com a velocidade do correio aéreo, e dando um só dia para suas investigações, o que parece muito pouco, essa carta deve ter sido ditada no máximo no dia 23 de março, e provavelmente o foi vários dias antes.

     Deu um suspiro fundo: — Que diabo! Eu esperava...

     Apertou os lábios e franziu a testa, olhando para a maleta de couro: — Aquela mulher disse quatro, não foi?

     — O senhor se refere à Srta. Gunther?

     — De quem diabos você pensa que estou falando?

     — Acho que se refere à Srta. Phoebe Gunther. Se é, a resposta é sim. Ela disse que havia doze maletas dessas, e que a que Boone lhe deu na saleta do assassinato tinha o número quatro estampado em cima, e ele lhe dissera que continha as fitas dos ditados que fizera no escritório de Washington naquela tarde. Assim, parece que alguém está brincando conosco. Estamos desencorajados demais para continuar ou gostaríamos de ouvir a número dois?

     — Continue.

     Continuei o concerto. O almoço interrompeu o fim do sexto movimento, e após uma refeição relaxante mas não alegre voltamos ao escritório e ouvimos o resto. Nada havia de espetacular em qualquer parte das fitas, embora algumas delas contivessem assuntos que eram confidenciais, e que poderiam ser considerados como pistas para ajudar a solucionar um assassinato. Eu não pagaria um centavo por nenhuma delas. Além da primeira, havia outras quatro que continham provas conclusivas de que tinham sido ditadas antes do dia 26 de março.

     Não podia culpar Wolfe por se sentir deprimido. Além de todas as outras complicações, havia pelo menos oito explicações lógicas para como a maleta de couro número quatro continha, ao ser encontrada, fitas ditadas antes do dia do assassinato. A mais simples de todas era a de que o próprio Boone apanhara a maleta errada quando saíra do seu escritório em Washington naquela tarde. Isso sem mencionar a pergunta básica, para a qual eu não tinha nem mesmo um palpite, quanto mais uma resposta: seriam as fitas apenas uma pista lateral ou eram parte da atração principal?

     Recostado em sua cadeira, digerindo, Wolfe parecia, a um olho estranho que não o meu, dormir profundamente. Nem se mexeu quando tirei a máquina do caminho, levando-a para um canto. Quando fui até sua mesa para colocar as fitas de volta no lugar delas na maleta, seus olhos se abriram levemente.

     Ele balançou a cabeça: — É melhor passá-las de novo e transcrevê-las. Três cópias. — Olhou para o relógio da parede. — Vou subir dentro de trinta e cinco minutos. Aí você faz isso.

     — Sim, senhor — respondi secamente. — Já esperava por isso.

     — Esperava? Eu não.

     — Quero dizer, não esperava que as fitas fossem velhas. Esperava ter de fazer esse trabalho de datilografia. Esse caso desceu para esse nível...

     — Não me amole. Fui um idiota em aceitar esse caso. Tenho tantas Cattleyas que não há espaço para elas, e podia ter vendido quinhentas por doze mil dólares. — Seus olhos se abriram pela metade. — Quando terminar de transcrever essas coisas, leve-as ao Sr. Cramer e diga-lhe como as conseguimos.

     — Devo contar-lhe tudo?

     — Sim. Mas antes de ir vê-lo tenho outro trabalho de datilografia para você. Pegue seu bloco. Mande esta carta a todos que estavam aqui sexta-feira à noite. — Franziu a testa à procura de palavras e logo começou a ditar: — “Atendendo ao meu convite, o senhor fez a gentileza de comparecer ao meu escritório sexta-feira à noite, e como o senhor estava presente quando houve uma insinuação de que a declaração da Srta. Gunther, afirmando ter deixado a maleta no peitoril da janela, talvez não merecesse crédito, estou escrevendo para informá-lo de um acontecimento ocorrido hoje. Parágrafo. O Sr. Don O’Neill recebeu pelo correio um bilhete para uma encomenda que fora guardada na Grand Central Station. A encomenda era a maleta de couro em questão, com o número quatro gravado na tampa, conforme descrito pela Srta. Gunther. Entretanto, a maioria das fitas nela contidas foram obviamente ditadas pelo Sr. Boone antes do dia 26 de março. Estou enviando essa informação para que seja feita justiça à Srta. Gunther.”

     — É só isso? — perguntei.

     — Sim.

     — Cramer vai ter um ataque.

     — Sem dúvida. Ponha as cartas no correio antes de ir vê-lo, e leve-lhe uma cópia. Depois traga a Srta. Gunther aqui.

     — Ela? Phoebe Gunther?

     — Sim.

     — Isso é perigoso. Não é arriscado demais deixar que eu me encarregue dela?

     — É. Mas quero vê-la.

     — Está bem, você é quem manda.

    

DUAS horas ou mais de trabalho enfadonho e cansativo. Dez fitas completas. Três cópias. E isso não foi tudo: lidar com o aparelho era novidade para mim e tive de ajustar a velocidade cerca de vinte vezes antes de acertar. Quando finalmente acabei e as páginas estavam todas reunidas, dei o original a Wolfe, que a essa altura já estava de volta ao escritório, coloquei as duas primeiras cópias no cofre, dobrei a terceira e coloquei-a no meu bolso. Aí fui bater uma dúzia de cartas e seus envelopes. Wolfe, ao assiná-las, dobrava-as e colocava-as nos envelopes, e até os selava. Às vezes ele tem ímpetos de energia febril que são incontroláveis. Ao terminar já era hora do jantar, mas decidi não demorar fazendo a refeição com Wolfe e comi rapidamente na cozinha.

    Telefonara para a Delegacia de Homicídios para ter certeza de que Cramer estaria lá, para não ter que lidar com o Tenente Rowcliffe, cujo assassinato eu esperava um dia poder ajudar a investigar. Chamara também o apartamento de Phoebe Gunther para marcar um encontro, mas ninguém atendeu. Após apanhar o carro na garagem, fui primeiro até a Oitava Avenida para pôr as cartas no correio e depois dirigi-me ao sul para a Rua 20.

     Após estar com Cramer dez minutos, ele disse:

     — Isso parece importante. Que diabo!

     Vinte minutos mais tarde ele disse:

     — Isso parece importante. Que diabo!

     Naturalmente, aquilo mostrava claramente onde ele estava — enfiado no lodo até os quadris. Se estivesse em terra firme, ou mesmo se estivesse vendo terra, estaria esfregando suas prerrogativas no meu nariz, xingando Wolfe e a mim de todos os modos possíveis por escamotear provas durante nove horas e quinze minutos e assim por diante, incluindo ameaças, resmungos e advertências. Em vez disso, houve uma hora em que parecia que ele ia perder todo o controle e me agradecer. Era óbvio que estava desesperado.

     Quando deixei Cramer ainda trazia a cópia da transcrição no meu bolso, porque não era para ele que eu a tinha ali. Se eu devia levar Phoebe Gunther para Wolfe, era melhor que a alcançasse antes de Cramer, e parecia provável que ele gostaria de saber o que estava nas fitas antes de começar a reunir o pessoal. Por isso não lhe tinha contado tudo e omitira o fato de que fizera uma transcrição.

     Também não perdi tempo e fui logo para a Rua 51.

     O porteiro telefonou lá para cima, lançou-me novamente um olhar de espanto ao se virar para me dizer que ela me receberia, e disse ao cabineiro que eu podia subir. No apartamento Nove H, Phoebe abriu a porta e deixou-me entrar. Coloquei o casaco e o chapéu numa cadeira e fui para a sala, e lá estava Alger Kates no canto onde a luz era fraca.

     Não nego que às vezes sou franco demais, mas se alguém me chamar de grosseiro eu brigo. Entretanto, ao ver Kates lá de novo, eu disse o que disse. Suponho que poderia ser interpretado de diversos modos. Não concordo com essa história de que Phoebe Gunther me obcecava, mas o que houve é que encarei Alger Kates e perguntei:

     — Você mora aqui?

     Ele me fitou também e respondeu:

     — Se é de sua conta, sim, moro.

     — Sente-se, Sr. Goodwin. — Talvez Phoebe estivesse sorrindo. Recostou-se nas almofadas do sofá. — Deixe-me esclarecer as coisas. O Sr. Kates mora aqui, quando está em Nova Iorque. Sua mulher mantém esse apartamento porque não suporta Washington. Agora ela está na Flórida. Não consegui lugar no hotel, por isso o Sr. Kates está com uns amigos na Rua 11 e deixou-me dormir aqui. Isso me inocenta? E a ele também?

     É lógico que me senti um idiota.

     — Vou levar o caso à Administração de Habitação e ver o que posso fazer. Enquanto isso, acho que estou com pressa, dependendo da urgência que o Inspetor Cramer sentir. Quando telefonei para cá há uma hora não houve resposta.

     Ela apanhou um cigarro.

     — Ora, preciso também esclarecer isso? Saí para comer alguma coisa.

     — Desde que voltou já lhe telefonaram do escritório de Cramer?

     — Não. — Franziu a testa. — Ele quer falar comigo? Por quê?

     — Ou ele quer falar com você agora ou vai querer logo. — Era minha obrigação manter os olhos nela para ver sua reação. — Acabo de lhe levar a maleta com as fitas que a senhorita deixou no peitoril da janela terça à noite.

     Não creio que houvesse alguma ameaça no meu tom de voz. Não sei de onde viria a ameaça, pois naquela ocasião eu não me considerava uma ameaça à Srta. Gunther. Mas de repente Alger Kates levantou-se, como se eu a estivesse atacando com uma chave inglesa. Imediatamente após sentou-se de novo. Ela permaneceu sentada, mas seu cigarro ficou no meio do caminho para seus lábios e os músculos do pescoço se enrijeceram.

     — Aquela maleta? Com as fitas dentro?

     — Exatamente.

     — O senhor... o que está nelas?

     — Bem, isso é uma longa história...

     — Onde a achou?

     — Essa é outra longa história. Temos de andar depressa, pois Cramer está agora com ela e pode mandar buscá-la a qualquer momento, ou vir vê-la, ou pode ser que espere até ter ouvido as fitas. De qualquer maneira, o Sr. Wolfe quer vê-la primeiro, e como fui eu...

     — Então não sabe o que elas contêm?

     Kates tinha saído do seu canto escuro e fora para a extremidade do sofá, e estava de pé numa atitude de quem está pronto para repelir o inimigo. Ignorei-o e disse para . , ela:

     — Lógico que sei. O Sr. Wolfe também. Conseguimos uma máquina e ouvimos tudo. São interessantes mas não ajudam muito. O fato mais importante é que não foram feitas terça-feira, mas antes disso, algumas delas uma semana ou mais. Vou lhe dizer...

     — Mas isso é impossível!

     — Não. Possível e verdadeiro. Eu...

     — Como sabe disso?

     — Por causa de datas e outras coisas. Não há dúvida. — Levantei-me: — Estou ficando impaciente. Como lhe disse, o Sr. Wolfe quer vê-la antes. Nunca se sabe o que Cramer vai fazer, especialmente quando se sente pendurado pela ponta dos dedos, por isso vamos embora. Kates pode vir também para protegê-la, se quiser. Estou com uma transcrição das fitas no bolso e a senhorita pode dar uma olhada nela no caminho, e direi...

     A campainha tocou. Já a tendo ouvido tocar duas vezes, sabia o que significava.

     Pensei: que diabo! Perguntei bem baixinho:

     — Está esperando alguém?

     Balançou a cabeça e seu olhar, encontrando o meu, me dizia que eu podia tomar a decisão que quisesse. Mas era inútil. Quem quer que fosse que tivesse passado pelo porteiro também teria recebido informações. Mesmo assim, não havia mal em tentar, por isso pus um dedo nos lábios e fiquei a olhá-los — pelo menos dei uma rápida olhadela para Kates. Sua expressão dizia de uma forma bem beligerante: não estou fazendo isso por sua causa, meu chapa. Estávamos nessa pose há uns dez segundos quando uma voz que eu conhecia bem, a voz do Sargento Purley Stebbins, fez-se ouvir alta e irritada do outro lado da porta:

     — Vamos, Goodwin, que diabo!

     Fui até lá e abri a porta. Passou por mim com grosseria, tirou o chapéu e começou a fingir que era um cavalheiro.

     — Boa tarde, Srta. Gunther. Boa tarde, Sr. Kates. — Virou-se para ela: — O Inspetor Cramer ficaria muito satisfeito se a senhorita me deixasse levá-la até o seu escritório. Ele tem lá umas coisas que gostaria que a senhorita visse. Pediu-me que lhe dissesse que são fitas de um estenofone.

     Eu estava ao seu lado: — Você vai direto ao assunto, não é, Purley?

     — Oh — disse ele, virando sua cabeça enorme e vazia —, você ainda está aqui? Pensei que tivesse se mandado. O inspetor gostará de saber que o encontrei.

     — Tolice. — Ignorei-o e virei-me para a Srta. Gunther. — Creio que sabe, Srta. Gunther, que pode fazer o que quiser. Algumas pessoas acham que, quando um funcionário municipal quer levá-los a alguma parte, elas têm de ir. Isso é uma falácia, a não ser que ele tenha algum documento, coisa que ele não tem.

     — Isso é verdade mesmo? — perguntou-me ela.

     — Sim. É verdade.

     Quando Purley entrara, ela tinha se levantado. Veio então em minha direção, ficou em minha frente e encarou-me nos olhos. O desvio não era grande, pois seus olhos estavam a apenas uns doze centímetros abaixo dos meus, e portanto nenhum dos dois tinha de fazer muita força.

     — Sabe — disse ela —, seu jeito de sugerir coisas me agrada muito. Sabendo o que sei sobre policiais e a atitude deles com relação às pessoas de dinheiro, posição e poder, e com o pouco que sei a seu respeito, mesmo que seu chefe tenha sido contratado pela ANI, chego quase a crer que deixaria o senhor segurar a minha bolsa se tivesse de endireitar a minha meia. Por isso o senhor decide. Irei com o senhor ver o Sr. Wolfe ou irei com esse sargento tamanho gigante, o senhor é quem decide.

     Foi aí que cometi um erro. Não é que eu me arrependa dele por ter sido um erro, pois acredito que na vida temos que aceitar uma parte de tudo, inclusive dos erros. Mas o problema, como posso admitir agora, é que não tomei essa atitude por minha causa, ou por causa de Wolfe ou para o bem do serviço, mas por causa dela. Eu adoraria escoltá-la até o carro, com Purley atrás rosnando. Não havia nada que Wolfe gostasse mais do que amolar Cramer. Mas sabia que, se a levasse à casa de Wolfe, Purley se postaria do lado de fora e, após Wolfe ter terminado com ela, ela teria de acompanhá-lo e enfrentar uma noite de interrogatório ou se recusaria a ir e passaria o resto da vida aborrecendo-se com isso. Por isso cometi o erro, pois achei que a Srta. Gunther deveria dormir um pouco. Como ela própria dissera que, quanto mais cansada, melhor era sua aparência, e lá estava eu a olhá-la, tornava-se claro que estava exausta.

     Por isso eu lhe disse:

     — Aprecio muito a confiança que deposita em mim, e de que sou merecedor. Você segura a bolsa enquanto eu endireito a meia. Detesto dizer isso, mas por agora seria melhor aceitar o convite de Cramer. Vejo-a em breve.

     Vinte minutos mais tarde entrei no escritório de Wolfe e lhe disse:

     — Purley Stebbins chegou na casa da Srta. Gunther antes de poder apanhá-la e parece que ela gosta mais dele do que de mim. A essa hora está na delegacia da Rua 20.

     Eu não apenas cometera um erro, estava também mentindo ao meu chefe.

    

O QUE aconteceu segunda-feira daria para encher um livro, mas suponho que o mesmo aconteceria com qualquer outro dia se a gente fosse escrever tudo o que fez.

     A primeira atitude de Wolfe de manhã foi dar provas de como estávamos indo, ou melhor, não indo, fazendo com que Saul Panzer e Bill Gore fossem levados ao seu quarto durante a hora do café para receberem instruções secretas. Esse era um dos truques que adotava para evitar que eu ficasse espicaçando-o. Sua teoria era que, se eu fizesse qualquer observação sobre inércia, ou os efeitos da idade ou qualquer coisa assim, ele me calaria a boca insinuando que estava trabalhando como um demônio supervisionando Saul e Bill, que estavam recolhendo provas. Dizia também que não podia me permitir saber o que estava acontecendo pois eu deixava transparecer tudo em meu rosto. Uma das razões pelas quais isso me chateava é que eu sabia que ele sabia que isso não era verdade.

     As coisas que eles haviam entregue até então não tinham adiantado nada. A montanha de palavras datilografadas, impressas e mimeografadas que Bill Gore trouxera da ANI manteria ocupada a equipe de pesquisa da revista Life durante uma semana, e, francamente, só servia para isso. O relatório de Saul Panzer sobre seu fim de semana no Waldorf era o de se esperar, nenhum homem cujas iniciais não fossem A. G. teria feito melhor, e tudo o que continha era: nem um fio de cabelo do assassino tinha sido encontrado. Como costumo dizer, porém, não era da minha conta o motivo por que Wolfe continuava a desembolsar cinqüenta dólares por dia.

     O pessoal de relações públicas tinha se levantado com dificuldade, tomado um bom fôlego, e soltado um grito de guerra. Havia um anúncio de página inteira no Times, assinado pela Associação Nacional da Indústria, avisando-nos de que o Departamento de Controle de Preços, depois de nos tirar até as camisas e as calças, queria nossa pele. Embora não houvesse menção de homicídio, insinuava que, como ainda era necessário que a ANI salvasse o país dos planos viciosos do DCP, era tolice imaginar que tivesse tido alguma coisa a ver com o assassinato de Cheney Boone. Como estratégia, sua única falha era que só funcionaria para aqueles que já concordavam com a ANI sobre quem ou o que havia recebido as camisas e calças.

     Um dos meus problemas às segundas era dar meus telefonemas, por causa do volume dos que recebíamos. Comecei bem cedo com Phoebe Gunther mas não consegui achá-la o dia inteiro. A princípio, não atendiam no apartamento da Rua 55. Às nove e meia tentei o escritório do DCP, e me disseram que não tinha chegado nem sabiam a que horas chegaria. Às dez e meia disseram que estava lá, em reunião com o Sr. Dexter, e que eu ligasse mais tarde. Liguei mais duas vezes, antes do meio-dia, mas ainda estava com o Sr. Dexter. Às doze e trinta, fora almoçar; recebera meu recado para que me telefonasse. Às treze e trinta ainda não voltara. Às catorze horas disseram-me que não voltaria mais, e ninguém com quem falei sabia aonde fora. Tudo isso pode sugerir que eu deixava que me enrolassem facilmente, mas havia duas coisas agindo contra mim. Aparentemente, não havia ninguém no DCP, desde as garotas da mesa telefônica até o diretor regional, que não soubesse que Nero Wolfe era pago pela ANI, como dizia Alger Kates, e reagiam de acordo com isso. Quando tentei entrar em contato com Dorothy Unger, a estenógrafa que telefonara para Dan O’Neill no sábado à noite pedindo-lhe que devolvesse o bilhete para retirar a encomenda que mandara por engano, não encontrei ninguém que ao menos admitisse ter ouvido falar nela.

     As informações que obtive com a despesa feita com telefonemas naquele dia eram suficientes para baixar a cotação das ações da companhia telefônica. As ligações recebidas também não foram melhores. Além da rotina habitual nos grandes casos, tal como os repórteres querendo um lugar na platéia caso Nero Wolfe estivesse se preparando para resolvê-lo rápido, havia outras complicações com o cliente devido às cartas que Wolfe mandara a respeito das fitas que encontrara.

     O anúncio no Times podia indicar que a ANI era unida, mas não os telefonemas. Cada um via a coisa por um ângulo diferente. Winterhoff assumia a posição que o que a carta presumia — isto é, que o modo como as fitas tinham sido encontradas eximia a Srta. Gunther de culpa — não era justificado; pelo contrário, reforçava a suspeita de que a Srta. Gunther mentira a esse respeito, já que o bilhete para retirar o embrulho fora mandado pelo correio a Don O’Neill num envelope do DCP.

     Breslow, naturalmente, estava zangado, tão zangado que telefonou duas vezes, uma pela manhã e outra pela tarde. Dessa vez estava aborrecido porque espalháramos a notícia sobre as fitas. No interesse da justiça, só deveríamos tê-la contado à polícia. Acusava-nos de tentar impressionar o comitê executivo, de tentar mostrar que estávamos trabalhando e isso era péssimo; só deveríamos ter duas coisas em mente: prender o criminoso e conseguir provas de sua culpa.

     Até mesmo a família Erskine estava dividida. Frank Thomas Erskine, o pai, não tinha queixa ou crítica. Ele só queria uma coisa: o texto completo do que estava nas fitas. Não ficou indignado mas completamente atônito. Para ele a situação era clara. Wolfe estava sendo pago para trabalhar pela ANI, logo qualquer informação que recebesse no desempenho desse trabalho pertencia à ANI, e qualquer tentativa de excluí-los da posse de sua propriedade era criminosa, malévola e imprópria. Ficou insistindo enquanto pensava que tinha uma chance de conseguir o que queria, e depois parou sem se mostrar ressentido.

     O filho, Ed, foi o mais cômico e quem menos falou. Todos os outros exigiam falar com Wolfe, não queriam falar comigo, mas ele disse que não tinha importância, podia falar comigo, só queria fazer uma pergunta. Pode fazer, disse-lhe, e ele perguntou: — A prova de que O’Neill recebeu o bilhete pelo correio, como disse, é válida?

     Respondi-lhe que tudo que tínhamos, além de ver o envelope, era o que O’Neill dissera, mas que naturalmente a polícia estava fazendo sindicâncias e era melhor falar com ela. Agradeceu e desligou.

     O dia todo esperei um chamado de Don O’Neill. mas ele não deu um pio.

     A impressão geral que tive era de que o comitê executivo devia fazer uma reunião e decidir a política a ser adotada.

     O dia passou, chegou o crepúsculo e acendi as luzes. Pouco antes do jantar tentei falar com a Rua 55, mas Phoebe Gunther não estava. A refeição demorou mais do que o habitual, o que é de se esperar quando Wolfe está totalmente perdido. Consome energia mantendo os pensamentos longe e tentando me manter quieto, e isso faz com que coma ainda mais. Após o jantar, de volta ao escritório, tentei a Rua 55 mais uma vez, obtendo o mesmo resultado. Estava esticado no sofá, planejando um ataque que forçasse Wolfe a explodir e entrar em ação, quando a campainha tocou. Fui até a porta da frente e abri logo, sem olhar, como de costume, pelo vidro. No que me diz respeito, qualquer pessoa era bem-vinda, até mesmo Breslow, só para bater um papo.

     Dois homens entraram. Disse-lhes que tirassem o casaco, fui até o escritório e comuniquei:

     — O Inspetor Cramer e o Sr. Solomon Dexter.

     Wolfe suspirou e disse:

     — Mande-os entrar.

    

SOLOMON DEXTER falava sem pensar. Creio que, como diretor interino do DCP, muita coisa acontecera que o fazia falar impensadamente, como o Congresso em ano de eleição, o anúncio da ANI no Times da manhã, sem falar no assassinato ainda não solucionado do seu antecessor, mas mesmo assim Wolfe não gosta de pessoas desse tipo. Por isso escutou de cenho franzido quando Dexter, após um breve cumprimento e sem preâmbulos, começou:

     — Não entendo mais nada! Falei com o FBI e o Exército a seu respeito e deram-me as melhores referências! E no entanto o senhor aqui está trabalhando para um bando de mentirosos e trapaceiros! Que diabo de idéia é essa?

     — O senhor está com os nervos à flor da pele — disse Wolfe.

     Ele continuou despejando:

     — Que é que meus nervos têm a ver com isso? O crime mais negro na história desse país, tendo por trás esse bando inescrupuloso, e qualquer homem, qualquer homem mesmo, que esteja vinculado...

     — Por favor! — disse Wolfe bruscamente. — Não grite comigo desse modo. O senhor está nervoso. Talvez tenha razão para isso, mas o Sr. Cramer só devia tê-lo trazido depois que o senhor estivesse mais calmo. — Seus olhos se desviaram: — O que é que ele quer, Sr. Cramer? Ele quer alguma coisa?

     — Sim — grunhiu Cramer. — Ele acha que você planejou aquela história das fitas. A fim de parecer que o DCP estivesse com elas e tivesse tentado empurrá-las para a ANI.

     — Tolice. O senhor também pensa assim?

     — Não. Você teria pensado num plano melhor.

     Os olhos de Wolfe moveram-se de novo:

     — Se o que o senhor quer, Sr. Dexter, é me perguntar se fiz alguma trapaça sobre as fitas, a resposta é não. Mais alguma coisa?

     Dexter tirara um lenço do bolso e enxugava o rosto. Não vira nele nenhum suor, lá fora estava fresco, e a temperatura da sala é mantida a 70° F, mas era claro que ele achava que tinha algo a limpar. Era provavelmente o lenhador dentro dele manifestando-se. Deixou a mão cair sobre a perna, com o lenço dentro, e olhou para Wolfe como se tentasse se lembrar da frase seguinte do script.

     — Não há ninguém — disse ele — com o nome de Dorothy Unger trabalhando no DCP, seja em Nova Iorque ou em Washington.

     — Oh, céus — Wolfe estava aborrecido. — É lógico que não há.

     — Que é que o senhor quer dizer com é lógico que não há?

     — Quero dizer que é óbvio que não haveria. Quem quer que tenha preparado essa confusão do bilhete da encomenda, seja o Sr. O’Neill ou outra pessoa, certamente teria que inventar Dorothy Unger.

     — O senhor deve saber — Dexter declarou encolerizado.

     — Tolice. — Wolfe fez com o dedo um sinal como para afastá-lo. — Sr. Dexter, se vai ficar sentado aí, fervendo de suspeitas, é melhor ir embora. O senhor me acusa de estar “envolvido” com meliantes. Não estou “envolvido” com ninguém. Fui contratado para fazer um trabalho específico, encontrar um assassino e provas suficientes para condená-lo. Se tiver alguma...

     — Até onde chegou? — interrompeu Cramer.

     — Bem. — Wolfe sorriu com afetação. Quando sorri assim fica intolerável. — Mais longe do que o senhor, ou não estaria aqui.

     Cramer respondeu, sarcástico:

     — Sim, quando estive aqui naquela noite não compreendi direito por que não me apontou o assassino e deixou que o levasse preso.

     — Nem eu — concordou Wolfe. — Por um instante pensei que poderia, quando um deles disse uma coisa extraordinária, mas fui incapaz...

     — Quem disse o quê?

     Wolfe balançou a cabeça:

     — Estou mandando investigar. — Seu tom de voz levava a crer que o 82.° Batalhão Aéreo estava investigando de costa a costa. Mudou-o, indicando uma ligeira reprovação: — O senhor terminou a reunião e mandou-os embora. Se tivesse agido como um investigador adulto em vez de uma criança malcriada, talvez eu tivesse conseguido alguma coisa.

     — Ora, claro, estraguei tudo... Eu faria qualquer coisa para consertar isso, qualquer coisa que pedisse. Que tal me pedir para chamar todos aqui de novo, agora mesmo?

     — Excelente idéia — disse Wolfe, endireitando-se até ficar quase reto, tão entusiasmado estava. — Excelente. É o que vou pedir. Use o telefone do Sr. Goodwin.

     — Por Deus! — Cramer exclamou, fitando-o. — Pensou que eu falava sério?

     — Eu estou falando sério — assegurou-lhe Wolfe. — O senhor não estaria aqui se não estivesse desesperado. Não estaria desesperado se conseguisse pensar em outras perguntas a fazer. Foi isso o que o senhor veio fazer aqui, arranjar idéias para fazer mais perguntas. Chame essas pessoas aqui e verei o que posso fazer.

     — Quem diabos esse homem pensa que é? — perguntou Dexter a Cramer.

     Cramer, a testa franzida, não respondeu. Após alguns segundos de pausa levantou-se e, sempre de testa franzida, veio para minha mesa. Ao chegar eu já tirara o fone do gancho e começara a discar Watkins 9-8242. Pegou o telefone, sentou-se e continuou de cara amarrada.

     — Horowitz? Inspetor Cramer falando, do escritório de Nero Wolfe. Chame o Tenente Rowcliffe. George? Não, o que é que você esperava, acabei de chegar. Veio qualquer coisa dos chefões? Sim. Sim. Arquive na letra T como tolice. Não. Você tem uma lista das pessoas que estavam aqui na casa de Wolfe sexta à noite. Arranje alguém para ajudá-lo no telefone, chame todos e diga para virem ao escritório de Wolfe imediatamente. Eu sei disso, mas diga a eles. É melhor incluir Phoebe Gunther. Espere um minuto. Virou-se para Wolfe: — Mais alguém?

     Wolfe abanou a cabeça e Cramer continuou:

     — É só isso. Mande Stebbins agora para cá. Encontre-os, onde quer que estejam, e faça-os vir para cá. Se precisar, mande alguém buscá-los. Sim, eu sei, está certo, vão chiar pra burro, mas que diferença faz o modo de perder meu emprego, se perdê-lo? Wolfe diz que estou desesperado, e você conhece Wolfe, ele sabe ler o rosto das pessoas! Ande depressa com isso.

     Cramer voltou para a poltrona vermelha, sentou-se, apanhou um charuto, pôs entre os dentes e falou:

     — Pronto. Nunca pensei que descesse a esse ponto.

     — Francamente — murmurou Wolfe — fiquei surpreso em vê-lo. Pensei que estivesse fazendo progressos com o que o Sr. Goodwin e eu lhe fornecemos ontem.

     — Claro — falou Cramer, mastigando o charuto. — Fazendo progresso no nevoeiro mais denso que jamais vi. O que o senhor e Goodwin me arranjaram ajudou muito. Em primeiro lugar...

     — Desculpe-me — interrompeu Dexter. Levantou-se: — Quero fazer umas chamadas.

     — Se são particulares, há um telefone lá em cima que pode usar — disse-lhe eu.

     — Não, obrigado. — Olhou para mim com grosseria. — Vou procurar uma cabine pública.

     Levantou-se, avisou por cima do ombro que estaria de volta em meia hora e se foi. Fui devagarinho até o corredor para ver se saía direito, e após ele ter fechado a porta voltei ao escritório. Cramer estava falando:

     — ...e estamos pior do que antes. Não achamos nada. Se quiser saber de algum detalhe, é só escolher.

     Wolfe deu um grunhido:

     — Sobre a fotografia e a licença do carro que foram mandados à Sra. Boone pelo correio. O envelope. Quer uma cerveja?

     — Sim, quero. Impressões digitais, essas coisas de rotina, nada. Foi posto no correio sexta-feira às oito da noite. Quer verificar a venda de envelopes nas lojas?

     — Archie pode tentar. — Era sinal de que éramos amigos de novo quando ele, falando com Cramer, chamava-me de Archie. Em geral era Sr. Goodwin. — E sobre as fitas?

     — O ditado foi feito por Boone no dia 19 de março e datilografado pela Srta. Gunther no dia 20. As cópias estão em Washington e foram verificadas pelo FBI. A Srta. Gunther não entende o que aconteceu, a não ser que Boone tenha apanhado a maleta errada quando saiu do escritório terça à tarde, e diz ela que ele não costumava cometer esse tipo de erro. Mas se fosse esse o caso, a maleta com as fitas que ditara na terça à tarde deveria ainda estar no seu escritório e não está. Não há nenhum sinal dela. Há uma outra possibilidade. Pedimos a todas as pessoas envolvidas que não saíssem da cidade, mas na quinta o DCP pediu permissão para a Srta. Gunther ir a Washington a negócios urgentes, e concordamos. Foi e voltou de avião. Levava com ela uma maleta.

     Wolfe estremeceu. A idéia de que alguém entrasse num avião voluntariamente era demais para ele. Olhou rapidamente para Cramer:

     — Vi que não eliminou nada. A Srta. Gunther estava sozinha?

     — Ela foi sozinha. Dexter e mais dois sujeitos do DCP voltaram com ela.

     — Ela teve alguma dificuldade em explicar seus movimentos?

     — Ela não tem dificuldade em explicar nada. Aquela mocinha não tem dificuldade em explicar nada.

     Wolfe concordou: — Creio que Archie concorda com o senhor. — A cerveja chegara, escoltada por Fritz, que estava servindo. — Creio que já teve uma conversa com o Sr. O’Neill.

     — Uma conversa? — Cramer levantou as mãos, uma delas com um copo de cerveja. — Santa Inês! Se eu conversei com aquele sujeito!

     — É verdade, ele fala muito. Conforme Archie lhe explicou, ele queria saber o que as fitas continham.

     — Ainda quer. — Cramer já esvaziara o copo pelo meio mas ainda o segurava. — O idiota pensou que podia ficar com o envelope. Queria que um detetive particular, não você, o investigasse, pelo menos foi o que disse. — Bebeu de novo. — Aí está um exemplo de como é esse caso. Poderíamos desejar pista melhor do que esse envelope? Papel do DCP, entrega especial, um selo com carimbo e os outros não, endereço datilografado. Quer que lhe conte detalhadamente o que fizemos, incluindo experimentar mil máquinas de escrever?

     — Acho que não.

     — Eu também acho melhor não. Levaria a noite toda só para lhe contar. O correio diz que é uma pena mas não podem nos ajudar, estão cheios de novas funcionárias, e nada sabem sobre selos carimbados ou não. — Cramer despejou o resto da garrafa no copo. — Você ouviu a piada que disse a Rowcliffe sobre perder meu emprego.

     — Aquilo? — Wolfe fez um gesto com a mão, eliminando a idéia.

     — Sim, eu sei — concordou Cramer. — Já fiz essa piada antes. Todos os inspetores toda noite dizem às suas mulheres que provavelmente serão capitães no dia seguinte. Mas dessa vez não sei. Do ponto de vista de um inspetor da Delegacia de Homicídios, uma bomba atômica seria fogo de artifício comparada com esse caso. O comissário está tremendo com dança de São Vito. O promotor está tentando fingir que sua vez só vai chegar quando começar a escolher o júri. O prefeito está tendo pesadelos, e acho que descobriu num sonho que, se não houvesse Delegacia de Homicídios, não haveria assassinatos, pelo menos nenhum que envolvesse cidadãos importantes, Por isso, tudo é minha culpa. Não posso endurecer com certas pessoas refinadas que precisam contratar especialistas em impostos para ter a certeza de que não estão enganando o governo. Por outro lado, tenho que levar em conta que o sentimento público exige que o assassinato de Cheney Boone não fique sem punição. O fato aconteceu há seis dias e aqui estou eu fazendo queixas a você.

     Bebeu do copo até esvaziá-lo, e usou as costas das mãos como guardanapo.

     — A situação é essa, meu amigo gordo, como disse Charlie McCarthy a Herbert Hoover. Veja o que estou fazendo, deixando você tomar a iniciativa, pelo menos durante o tempo necessário para me jogar num buraco, se você precisar. Sei muito bem que nunca um cliente seu foi condenado por assassinato e nesse caso seus clientes...

     — Nenhum homem é meu cliente — interrompeu Wolfe. — Meu cliente é uma Associação. Uma Associação não pode cometer assassinato.

     — Talvez não. Mesmo assim, sei como trabalha. Se você achasse que era necessário, no interesse de seu cliente... Acho que alguém, ou alguma coisa, está chegando.

     A campainha tinha tocado. Fui atender e vi que Cramer adivinhara. A primeira pessoa a chegar era um pedaço de nosso cliente, na figura de Hattie Harding. Parecia estar sem fôlego. No corredor apertou meu braço e perguntou:

     — O que foi? Eles conseguiram... O que foi?

     Usei minha outra mão para acalmá-la, batendo-lhe no ombro:

     — Não, não, acalme-se. Está muito tensa. Decidimos agora fazer essas reuniões duas vezes por semana.

     Levei-a ao escritório e consegui que me ajudasse com as cadeiras.

     Daí para a frente foram chegando aos poucos, um a um. Purley Stebbins entrou, pediu desculpas a seu chefe por não ter vindo mais rápido e levou-o para um lado para explicar-lhe qualquer coisa. G. G. Spero do FBI chegou em terceiro lugar e a Sra. Boone em quarto. Solomon Dexter chegou mais ou menos no meio, e vendo que a cadeira vermelha estava desocupada, sentou-se nela. A família Erskine veio separadamente, com quinze minutos de intervalo, assim como Breslow e Winterhoff. Quase todos, ao entrar, retribuíram meu cumprimento como se eu fizesse parte da raça humana, com duas exceções. Don O’Neill olhou-me como se eu não estivesse ali e deu a impressão de que, se eu tocasse no seu casaco, teria que mandá-lo à lavanderia, por isso deixei que ele mesmo o colocasse no cabide. Alger Kates agiu como se eu fosse pago para isso, por isso também deixei-o às voltas com o seu Nina Boone, que chegou tarde, sorriu para mim. Não imaginei, não: sorriu bem para mim. Para recompensá-la, providenciei para que ocupasse a mesma cadeira da última vez, isto é, ao meu lado.

     Realmente, ninguém faz convites tão bem como o Departamento de Polícia. Eram dez e quarenta, uma hora e dez minutos desde que Cramer tinha telefonado para Rowcliffe para reuni-los. Fiquei de pé e examinei-os, contei-os, virei-me para Wolfe e lhe disse:

     — São os mesmos da outra vez. A Srta. Gunther não gosta de multidões. Estão todos aqui exceto ela.

     Wolfe passou os olhos pelo grupo, da direita para a esquerda, vagarosamente, e de volta outra vez, como um homem tentando decidir que camisa comprar. Estavam todos sentados, divididos em dois campos como antes, exceto Winterhoff e Erskine pai, que estavam de pé ao lado do globo falando baixo. Do ponto de vista da alegria, a festa já era um fracasso antes de começar. Durante um segundo ouvia-se ruído de conversação, depois silêncio total; isso então irritava alguém e a conversa começava de novo. Um fotógrafo poderia ter tirado um instantâneo daquele grupo de rostos chamando-o de “Quem será que a está beijando agora”.

     Cramer veio até minha mesa, falou no telefone e depois disse a Wolfe, inclinando-se para ele:

     — Falaram com a Srta. Gunther em seu apartamento há mais de uma hora e ela disse que vinha imediatamente.

     Wolfe deu de ombros: — Não esperaremos. Comece.

     Cramer virou-se para os convidados, limpou a garganta e alteou a voz:

     — Senhoras e senhores! — Fizeram silêncio imediatamente. — Quero que compreendam por que pedimos que viessem até aqui, e o que está acontecendo. Creio que leram os jornais. De acordo com os jornais, pelo menos alguns deles, a polícia está achando esse caso muito difícil devido às pessoas nele envolvidas, e está fazendo corpo mole. Creio que todos aqui sabem que isso não é verdade. Creio que todos, ou quase todos, sentem-se perseguidos e incomodados por algo de que não são culpados. Os jornais têm seu ponto de vista, os senhores, os seus. Creio que foi inconveniente para todos virem aqui essa noite, mas devem admitir que não há alternativa, e devem pôr a culpa dessa inconveniência não na polícia ou em qualquer outra pessoa exceto numa só, a pessoa que matou Cheney Boone. Não estou dizendo que essa pessoa está na sala. Admito que não sei. Pode estar a mil milhas de distância...

     Breslow gritou:

     — Foi para isso que nos chamou aqui? Já ouvimos tudo isso antes!

     — Sim, sei que já ouviram. — Cramer estava tentando não parecer aborrecido. — Não os chamamos aqui para me ouvir. Vou passar a palavra ao Sr. Wolfe, e ele continuará, depois que eu lhes tiver dito duas coisas. Primeiro, o pedido para vir aqui foi feito pelo meu escritório, mas a partir de agora não é oficial. Sou responsável apenas por trazê-los aqui, e isso é tudo. Por mim podem todos se levantar e ir embora, se quiserem. Segundo, alguns podem achar que isso é impróprio porque o Sr. Wolfe foi contratado para resolver o caso pela Associação Nacional da Indústria. Talvez seja. Tudo que posso dizer é que, se pensarem assim, podem ficar e lembrar-se disso, ou podem ir embora. Podem fazer o que quiserem.

     Olhou em volta. Ninguém se mexeu ou falou qualquer coisa. Cramer esperou dez segundos, virou-se e fez sinal para Wolfe.

     Wolfe soltou um suspiro profundo e começou com um murmúrio que mal se ouvia:

     — Sobre uma coisa que o Sr. Cramer mencionou, a inconveniência que os senhores estão suportando, quero fazer um pequeno comentário. Peço-lhes que o ouçam com paciência. É somente por esse tipo de sacrifício por parte de pessoas, algumas vezes muitas pessoas, que são totalmente inocentes...

     Eu detestava interromper o fluxo de seu monólogo, porque já sabia por longa experiência que finalmente ele estava trabalhando. Resolvera conseguir alguma coisa daquele pessoal mesmo que tivesse de conservá-los lá a noite inteira. Mas não pude evitar, por causa da expressão no rosto de Fritz. Um movimento no corredor tinha me chamado a atenção, e Fritz lá estava de pé, mantendo a porta do corredor aberta, e olhava para mim com os olhos arregalados. Quando notou que eu o vira, fez sinal para que fosse até ele, e de repente me ocorreu que, na presença de convidados e com Wolfe discursando, seria precisamente assim que Fritz agiria se a casa estivesse pegando fogo. Fiz uma volta em torno das pessoas para sair da sala. Wolfe continuou falando. Logo que cheguei ao corredor, fechei a porta e perguntei a Fritz:

     — O que é que está lhe mordendo?

     — É... é...

     Parou e fincou os dentes nos lábios. Há vinte anos que Wolfe vem tentando ensinar Fritz a não ficar excitado. Começou de novo:

     — Venha que eu lhe mostro.

     Foi para a cozinha e eu atrás, pensando que acontecera alguma calamidade culinária que não podia suportar sozinho, mas seguiu para a porta da escada dos fundos, que leva ao que chamamos de porão, embora fique apenas um metro abaixo do nível da rua. Fritz dormia lá, no quarto que dá para a rua. Havia uma saída através de um pequeno corredor, com uma porta pesada dando para um pequeno vestíbulo que ficava embaixo da varanda da entrada. Depois havia um portão de ferro, uma grade que dava para uma área pavimentada e de lá cinco degraus subiam para a calçada. Foi nesse pequeno vestíbulo que Fritz parou e eu dei um encontrão nele.

     Apontou para baixo:

     — Olhe — pôs a mão no portão e sacudiu-o ligeiramente. — Vim ver se o portão estava fechado, como faço sempre.

     Havia um objeto amontoado no concreto da área, contra o portão, de tal forma que o portão não podia ser aberto sem se empurrar o objeto para o lado. Abaixei-me para olhar. A luz era fraca, pois a lâmpada de rua mais próxima ficava do outro lado da varanda, a trinta passos de distância, mas podia ver o suficiente para saber o que era aquele objeto, embora não soubesse com certeza quem era.

     — Por que me trouxe aqui? — perguntei, passando por Fritz para entrar de novo no porão. — Venha comigo.

     Ele estava logo atrás de mim quando subi as escadas. Na cozinha dei uma volta para abrir uma gaveta e pegar uma lanterna, saí pelo corredor principal até a porta da frente, desci os degraus da varanda até a calçada e os cinco degraus até a área. Lá, do mesmo lado do portão que o objeto, agachei-me novamente e acendi a lanterna. Fritz estava ao meu lado, inclinado.

     — Quer que eu... — Sua voz tremia e teve de começar de novo: — Quer que eu segure a lanterna?

     Respondi-lhe asperamente: — Cale a boca, pelo amor de Deus.

     Meio minuto após fiquei de pé e lhe disse: — Fique aqui — e dirigi-me para a varanda. Fritz fechara a porta da frente, e quando descobri que tremia ao colocar a chave na fechadura, respirei profundamente e isso parou a tremedeira. Fui até a cozinha, peguei o telefone e disquei o número do Dr. Vollmer, que morava na mesma rua a meio quarteirão de distância. O telefone tocou seis vezes antes que ele atendesse.

     — Doutor? Archie Goodwin. Está vestido? Ótimo. Venha o mais rápido possível. Há uma mulher deitada na nossa área, junto do portão que dá para o porão. Foi atingida na cabeça e acho que está morta. Haverá policiais investigando, por isso não mexa nela mais do que o necessário. Agora mesmo? Certo.

     Respirei fundo de novo, enchendo o peito, e, apanhando o bloco e o lápis de Fritz, escrevi:

       Phoebe Gunther está morta em nossa área. Atingida na cabeça. Já telefonei para Vollmer.

     Arranquei a folha e fui para o escritório. Creio que não fiquei fora mais de seis minutos. Wolfe ainda continuava seu monólogo, e treze pares de olhos estavam cravados nele. Contornei a sala pela direita, cheguei em sua escrivaninha e dei-lhe o bilhete. Leu-o rapidamente, depois leu-o mais demoradamente, encarou-me e falou, sem nenhuma mudança no tom de voz ou nas maneiras:

     — Sr. Cramer. Por favor, o Sr. Goodwin tem uma mensagem para o senhor e o Sr. Stebbins. Quer fazer o favor de ir com ele até o corredor?

     Cramer e Stebbins levantaram-se. Ao sairmos, a voz de Wolfe continuava atrás de nós:

     — Agora, a questão que enfrentamos é saber se é possível acreditar, conforme as circunstâncias que conhecemos...

    

À MEIA-NOITE e meia atingi meu limite. Naquele momento estava sozinho em meu quarto, dois andares acima, bebendo um copo de leite, ou pelo menos segurando o copo em minha mão. Em geral não procuro me enfurnar no meio da maior confusão e da ação mais intensa, mas isso parecia me ter atingido num ponto vulnerável, ou coisa assim. De qualquer forma, lá estava eu, tentando reorganizar minha cabeça. Ou meus sentimentos. A única coisa que eu sabia é que alguma coisa dentro de mim precisava ser arrumada. Acabara de fazer uma visita ao campo de batalha e no momento as forças se achavam dispostas do seguinte modo:

     Fritz estava na cozinha fazendo sanduíches e café, e a Sra. Boone o ajudava.

     Sete dos convidados estavam na sala da frente, com dois tiras fazendo-lhes companhia. Não estavam contando piadas, nem mesmo Ed Erskine e Nina Boone, instalados no mesmo sofá.

     O Tenente Rowcliffe e um subordinado com um caderno de anotações estavam no quarto de dormir extra, no mesmo andar que o meu, conversando com Hattie Harding, a Rainha das Relações Públicas.

     O Inspetor Cramer, o Sargento Stebbins e mais uns outros dois estavam na sala de jantar fazendo perguntas a Alger Kates.

     O pessoal mais importante estava no escritório. Wolfe estava sentado à sua escrivaninha, o comissário de polícia ocupava a minha, o promotor público estava na cadeira de couro vermelho, e Travis e Spero do FBI completavam o círculo. Dali é que sairia a alta estratégia, se e quando alguma saísse.

     Outro policial estava na cozinha, aparentemente para se certificar de que a Sra. Boone não fugiria pela janela e Fritz não poria arsênico nos sanduíches. Havia policiais nos corredores, no porão, por todos os lugares, enquanto outros iam e vinham de fora, trazendo relatórios para Cramer, ou recebendo ordens dele, ou do comissário ou do promotor público.

     Numa certa hora os jornalistas conseguiram se infiltrar por trás das linhas, mas estavam agora do lado de fora da porta. Os holofotes ainda não tinham sido retirados, e alguns empregados municipais ainda mexiam nas coisas, mas a maior parte do pessoal técnico, inclusive os fotógrafos, já tinha ido embora. Apesar disso a multidão, pelo que eu podia ver da janela junto à qual estava minha cadeira, era maior do que nunca. A casa ficava a cinco minutos de táxi de Times Square, ou a quinze minutos a pé, e a notícia de um acontecimento espetacular ligado ao caso Boone chegara à multidão que saía dos teatros. A pequena reunião que Wolfe pedira a Cramer para preparar tinha se transformado em coisa muito mais séria do que ele imaginara.

     Um pedaço de cano de ferro de 1 1/2 polegada, com cerca de 40 cm de comprimento, fora encontrado no pavimento de concreto da área. Phoebe Gunther fora atingida na cabeça quatro vezes com ele. O Dr. Vollmer, ao chegar, declarara que estava morta. Recebera ferimentos no rosto e na boca, talvez ao cair da varanda, onde fora atingida, para a área. Antes de remover o corpo os técnicos tinham chegado a essa conclusão.

     Estava há vinte minutos sentado no meu quarto quando verifiquei que não bebera nem uma gota de leite, mas também não o tinha derramado.

 

MINHA intenção era descer e entrar na confusão novamente quando chegasse o microscópio. Alguns esperavam que o microscópio fosse a solução, e isso me parecia bem provável.

     Eu próprio já tinha sido interrogado por Wolfe e Cramer trabalhando juntos, o que por si só bastaria para tornar esse caso único. E as circunstâncias faziam de mim um homem-chave. O que se presumia era que Phoebe Gunther chegara e subira os degraus da varanda, e que o assassino ou viera em sua companhia ou se encontrara com ela ali perto ou na varanda, tendo-a atacado antes que ela pudesse apertar a campainha, atordoando-a e empurrando-a para a área. Correra então para a área e golpeara-a outras três vezes para ter certeza de que morrera. Empurrara depois o corpo contra o portão, de onde ninguém na varanda poderia vê-lo sem se inclinar e esticar o pescoço, e não era provável que pudesse ser visto da calçada, pois a luz era fraca. É claro que o assassino poderia ter ido para casa dormir, mas presumia-se que subira novamente os degraus, tocara a campainha, e eu o fizera entrar, tomando-lhe o chapéu e o casaco.

     Isso me punha a cerca de trinta centímetros deles, talvez menos, na hora em que aconteceu, e se por acaso eu tivesse puxado para o lado a cortina que cobria o vidro poderia tê-los visto. Também deveria ter cumprimentado o assassino alguns segundos após ele ter terminado e, como admitira a Wolfe e Cramer, eu observara cada rosto que chegava com os dois olhos para ver como estavam se agüentando sob tensão. Uma das outras razões por que fora para meu quarto era para me lembrar de todos os rostos. Parecia-me impossível que não pudesse achar aquele, ou pelo menos dois ou três dos mais prováveis, que um minuto atrás arrebentara o crânio de Phoebe com um cano de ferro. Bem, eu não podia. Nenhum rosto estava tranqüilo, todos mostravam tensão de uma ou outra forma, mas e daí? Wolfe suspirara e Cramer rugira como um leão frustrado, mas foi o melhor que pude fazer.

     Lógico que me pediram para preparar uma lista mostrando a ordem de chegada e os intervalos entre eles, e a fiz com prazer. Não cronometrara a chegada deles, mas estava disposto a garantir que minha lista era bem precisa. Todos tinham vindo sozinhos. A idéia era que, se dois deles tivessem chegado bem perto um do outro, digamos dentro de dois minutos ou menos um do outro, o que tivesse entrado primeiro poderia ser declarado improvável. Mas não o que chegara em segundo lugar, porque o assassino, tendo terminado e ouvindo passos ou um táxi se aproximando, poderia ter se encostado contra o portão naquele canto escuro, esperado até que a pessoa tivesse subido os degraus e entrado, e aí subido imediatamente para tocar a campainha. De qualquer modo, não seria necessário um cálculo tão apurado, já que, pelo que me lembrava, nenhum dos intervalos fora menor do que três minutos.

     Evidentemente a posição na lista não significava nada. Quanto à oportunidade, não havia diferença entre Hattie Harding, que chegara primeiro, e Nina Boone, que chegara por último.

     Todos os convidados tinham sido interrogados pelo menos uma vez, cada um separadamente, e se o microscópio não correspondesse à expectativa, haveria mais interrogatórios pela noite afora. Como todos já tinham passado por isso, diversas vezes, por causa do assassinato de Boone, os interrogadores estavam encontrando dificuldade. As perguntas tinham que ser sobre o que acontecera nessa noite, e o que havia para perguntar? Não havia álibis. Cada um deles estivera na varanda sozinho entre nove e cinqüenta e dez e quarenta, e durante esse período Phoebe Gunther chegara e fora assassinada. O máximo que se podia perguntar a cada um era: “Você tocou a campainha logo que chegou à varanda? Você matou Phoebe Gunther antes?” Se dissessem que Phoebe Gunther não estava lá e que tocaram a campainha e o Sr. Goodwin abrira a porta, o que é que se perguntaria depois? É claro que a gente queria saber se tinham vindo de carro ou de táxi, ou a pé, de ônibus ou metrô, e aonde isso levava?

     Muito bem planejado, disse a mim mesmo, sentado ao lado da janela no meu quarto. Tão bem como outros de que me lembrava. Era muito hábil, o maldito bastardo.

     Eu disse que se presumia que o assassino subira novamente os degraus e entrara, mas talvez eu devesse ter dito que essa era uma das suposições. A ANI tinha outra suposição, partida de Winterhoff, e que fora anotada. Na maratona de interrogatórios, Winterhoff ficara num dos últimos lugares. Sua história continha três ingredientes principais:

  1. Ele (Winterhoff, o Homem de Alta Categoria) sempre usava sapatos cujas solas eram de um produto semelhante à borracha que quase não fazia barulho, e portanto quase não se percebia quando ele andava.
  2. Ele não aprovava que se jogasse lixo, inclusive pontas de cigarro, na rua, e nunca fazia isso.
  3. Morava na East End Avenue. Sua mulher e filhas estavam com o carro e o motorista nessa noite. Se possível, nunca utilizava táxis, por causa da atitude dos motoristas durante a presente escassez de táxis. Por isso, quando o chamaram para a reunião na casa de Wolfe, tomara o ônibus na Segunda Avenida até a Rua 33 e viera a pé o resto do caminho.

     Bem, ao se aproximar da casa de Wolfe pela direção leste, com suas solas silenciosas, parara uns cento e vinte metros antes por causa de um toco de cigarro e vira uma lata de lixo dentro de uma grade numa área. Desceu os degraus até a lata e apagou o toco. Ao subir os degraus, estava quase chegando à calçada quando viu um homem correr por trás de uma varanda, saindo de uma área, e dirigir-se a outra direção, para o lado do rio. Continuara para a casa de Wolfe e então viu que fora provavelmente daquela área que o homem saíra, mas não se debruçara sobre o parapeito baixo da varanda para olhar a área. A melhor descrição que pôde dar do homem que fugira era que usava roupas escuras e não era nem um gigante nem um anão.

     E o fato tinha sido corroborado. Dos mil e poucos tiras que tinham feito investigações, dois foram mandados rua acima para investigar. Voltaram meia hora depois e declararam que havia uma lata de lixo numa área a uns cento e vinte metros a leste da varanda de Wolfe. Isso não era tudo, havia um toco de cigarro em cima das cinzas, e a condição do toco, assim como algumas marcas características dentro da lata, cerca de cinco centímetros abaixo da borda, tornava provável que o cigarro tivesse sido apagado sendo esfregado contra o interior da lata. Além disso, trouxeram com eles o toco.

     Winterhoff não mentira. Ele parara para apagar um cigarro dentro de uma lata de lixo, e era um homem que calculava bem as distâncias. Infelizmente, não havia confirmação para a parte do homem que correra, pois ele tinha desaparecido durante as duas horas posteriores.

     Até que ponto Wolfe e Cramer tinham acreditado na história, não sei. Não tinha certeza nem a respeito da minha própria opinião, mas sentia-me abaixo do normal desde que a lanterna iluminara o rosto de Phoebe Gunther.

     Cramer, ao ouvir Rowcliffe contar a história, que ouvira de Winterhoff, emitira apenas um grunhido, talvez porque nessa hora estivesse pensando em outra coisa. Algum técnico, nunca soube qual deles, acabara de sugerir o uso do microscópio. Cramer não perdeu tempo. Deu ordens para que Erskine e Dexter, que estavam sendo interrogados em outro lugar, fossem conduzidos imediatamente à sala da frente, e fora ele próprio para lá, com Purley e comigo. Encarou o grupo reunido, esperou que lhe desse atenção, o que não era difícil, e começou a falar:

     — Por favor, prestem bem atenção para saberem o que estou pedindo. O pedaço...

     Breslow explodiu: — Isso é um ultraje! Todos nós já respondemos a perguntas! Deixamos que nos revistassem! Contamos tudo que sabíamos! Nós...

     Cramer, dirigindo-se a um detetive, falou em alto e bom som:

     — Fique ao lado dele e se não calar a boca, faça com que a feche.

     O detetive mexeu-se. Breslow parou de reclamar. Cramer disse:

     — Já agüentei demais inocência ultrajada por essa noite. — Nunca o vira assim tão zangado e agressivo. — Há seis dias venho tratando os senhores todos como se trata um bebê, pois fui obrigado a isso porque todos eram importantes. Mas agora é diferente. Todos podiam estar inocentes da morte de Boone, mas agora sei que um dos senhores não está. Um de vocês matou a moça e naturalmente foi visto pelo Sr. Winterhoff correndo da área...

      — Desculpe-me, inspetor. — Frank Erskine falava num tom de voz seco, sem parecer se desculpar mas ao mesmo tempo sem estar ofendido. — O senhor fez uma observação da qual poderá se arrepender. E o homem que foi visto pelo Sr. Winterhoff correndo da área...

     — Sim, ouvi falar nele. — Cramer não estava fazendo concessões. — Por enquanto sustento o que disse. Devo acrescentar que o comissário de polícia confirmou que estou encarregado do assunto aqui, na cena de um crime estando os suspeitos detidos, e quanto mais tempo levarem se queixando, mais tempo ficarão aqui. Suas famílias já foram avisadas de onde estão e por quê. Um dos senhores pensa que pode me afastar por vinte anos porque não o deixo telefonar para todos os seus amigos e advogados. Está certo, ele não telefona.

     Cramer olhou zangado para eles, pelo menos assim me pareceu, e rosnou:

     — Compreendem a situação? Ninguém respondeu. Continuou:

     — O que vim dizer é o seguinte: o pedaço de cano com que ela foi morta foi examinado para descobrir impressões digitais. Não encontramos nenhuma que prestasse. A galvanização era áspera e é um pedaço de cano muito velho. Em alguns lugares a galvanização está saindo, e há pedaços de coisas, tinta e outras substâncias, em quase todo o cano. Calculamos que qualquer pessoa que segurasse o cano com força bastante para arrebentar um crânio ficaria com algumas partículas na mão. Não quero dizer com isso que sejam pedaços que se possam ver, quero dizer partículas pequenas demais para serem visíveis, e os senhores não conseguiriam removê-las das dobras da pele apenas ao esfregá-las na roupa. O exame precisa ser feito num microscópio. Não quero levar todos ao laboratório, por isso mandei vir o microscópio aqui. Estou solicitando que permitam examinar suas mãos, assim como luvas e lenços.

     A Sra. Boone foi a primeira a falar:

     — Mas, inspetor, já lavei minhas mãos. Fui à cozinha ajudar a fazer sanduíches, e é claro que lavei minhas mãos.

     — É pena — disse Cramer. — Mas vamos tentar assim mesmo. Algumas partículas talvez não saíssem nem com a lavagem. Podem dar a resposta, sim ou não, ao Sargento Stebbins. Estou ocupado demais.

     Saiu e voltou à sala de jantar. Foi aí que achei que precisava arrumar meus pensamentos e fui ao escritório dizer a Wolfe que estaria no meu quarto, se precisasse de mim. Fiquei mais de meia hora. Quando o microscópio chegou era uma da manhã. Todo esse tempo os carros de polícia iam e vinham, e foi por acaso que olhei pela janela e vi um homem sair de um dos carros carregando uma grande caixa. Engoli o resto do leite e desci.

 

SERIA melhor se tivesse ficado onde estava, pois foi lá que examinaram as mãos, no meu quarto. O homem do laboratório queria um lugar sossegado e havia atividade em todos os lugares, exceto no quarto de Wolfe que, de acordo com suas próprias instruções, não devia ser usado. Por isso todos, um por um, tiveram que subir dois andares. O aparelho foi colocado na minha mesa, com sua luz ligada na tomada. Havia cinco pessoas no quarto: os dois especialistas, o polícia que trazia e levava o suspeito, o suspeito do momento e eu, sentado na cama.

     Fiquei lá, em parte porque era meu quarto e não gostava da idéia de deixar um bando de estranhos usá-lo, e em parte porque era teimoso e ainda não conseguia entender por que fora incapaz de, ao receber todos à porta, descobrir qual daqueles rostos pertencia à pessoa que acabara de matar Phoebe. Foi por essa razão que eu só daria um níquel à versão de um homem de roupas escuras correndo, fornecida por Winterhoff. Queria dar uma boa olhada em todos outra vez. Eu não contaria isso a Wolfe, mas tinha o pressentimento de que, se encarasse o rosto da pessoa que matara Phoebe, eu o descobriria. Era uma perspectiva inteiramente nova na descoberta de crimes, especialmente para mim, mas era o que eu sentia. Por isso estava sentado na beira da cama, olhando fixamente os rostos, enquanto os especialistas olhavam as mãos.

     A primeira foi Nina Boone. Pálida, cansada e nervosa.

     Em segundo lugar, Don O’Neill. Ressentido, impaciente e curioso. Os olhos estavam vermelhos.

     Em terceiro lugar, Hattie Harding. Abatida e irrequieta. Os olhos não eram tão competentes como há quatro dias atrás em seu escritório.

     Em quarto, Winterhoff. Distinto, suado e preocupadíssimo.

     Em quinto, Erskine, pai. Tenso e determinado.

     Em sexto, Alger Kates. Soturno e quase chorando. Os olhos fundos.

     Em sétimo, a Sra. Boone. Desmanchando-se mas tentando se agüentar. A mais cansada de todos.

     Em oitavo, Solomon Dexter. Parecia inchado, os olhos empapuçados. Não estava preocupado, mas muito decidido.

     Em nono, Breslow. Os lábios estavam finos de raiva e os olhos pareciam os de um porco raivoso. Foi o único que me encarou em vez de olhar para a própria mão, sob a luz e a lente.

     Em décimo, Ed Erskine. Sarcástico, cético e sem ressaca. Estava tão preocupado como um pombo num parque.

     Nenhuma exclamação efusiva de descoberta partira dos especialistas, nem de mim. Eles tinham falado com os suspeitos, pedindo que ficassem imóveis e mudassem de posição quando solicitados, e tinham feito rápidos comentários em voz baixa. Tinham à mão pinças e caixinhas, mas não as usaram. Quando o último, Ed Erskine, saiu, eu lhes perguntei:

     — Conseguiram alguma coisa?

     Um deles, que não tinha muito queixo, respondeu:

     — Só apresentamos relatório ao inspetor.

     — Meu Deus — respondi com inveja. — Deve ser maravilhoso ser ligado ao Departamento de Polícia, com tantos segredos. Por que é que vocês pensam que Cramer deixou eu subir e ficar aqui olhando? Para que eu não raciocinasse?

     O outro, que tinha queixo, respondeu afetadamente:

     — Sem dúvida o inspetor vai lhe comunicar o que encontramos. Desça e faça seu relatório, Phillips.

     Decidi abandonar meu quarto a seu destino, pois começava a me sentir inquieto, e fui atrás de Phillips. Se para mim era uma experiência esquisita ver todas aquelas pessoas estranhas andando de um lado para o outro da casa como se fossem seus donos, imaginem só o efeito que isso provocava em Wolfe. Phillips foi à sala de jantar, mas Cramer não se encontrava lá, por isso disse-lhe que passasse ao escritório. Wolfe estava à escrivaninha e o promotor público, o comissário de polícia e os dois homens do FBI ainda estavam lá, os olhos fitos em Cramer, que lhes falava. A chegada de Phillips interrompeu o monólogo.

     — E então?

     — Os resultados da investigação das mãos no microscópio são negativos, inspetor.

     — Mas que diabo. Outra grande façanha. Diga a Stebbins para apanhar todas as luvas e lenços de cada um deles e mandá-los para você, inclusive as bolsas das senhoras. Diga a ele para pôr etiqueta em tudo. Também o que está nos bolsos dos casacos... Não, que ele mande os casacos, chapéus e tudo o mais, e você verifica o que há nos bolsos. Pelo amor de Deus, não misture os objetos.

     — Sim, senhor — Phillips deu meia-volta e saiu.

     Vi que não ia adiantar nada ficar olhando para luvas e lenços, por isso fui até o comissário de polícia e falei:

     — Se não se incomoda, essa é a minha cadeira.

     Ele levou um susto, abriu a boca, fechou-a novamente e mudou-se para outra cadeira. Sentei-me em meu lugar. Cramer continuou a falar:

     — Você pode fazer isso, se conseguir se safar, mas você conhece a lei. Nossa jurisdição se estende até os limites do local ocupado pelo morto desde que seja a cena do crime, mas não em outros casos. Podemos...

     — A lei não é assim — disse o promotor asperamente.

     — O que você quer dizer é que não é um estatuto da lei. Mas é hábito já aceito e que a corte tolera, por isso para mim é lei. Você pediu minha opinião e aí está. Não serei responsável por continuar a ocupar o apartamento onde a Srta. Gunther se hospedava e nem usarei os meus homens, pois preciso deles. O locatário do apartamento é Kates. Três pessoas experimentadas já revistaram o apartamento durante uma hora e meia e não encontraram nada. Estou disposto a deixá-los lá a noite toda, ou pelo menos até soltarmos Kates, se e quando acabarmos aqui, mas qualquer ordem para continuar a revista e manter Kates fora do apartamento terá de vir do senhor — Cramer olhou para o comissário — ou do senhor — olhou para o promotor.

     Travis, do FBI, disse: — Meu conselho é não fazerem isso.

     O promotor falou secamente: — Esse é um problema local.

     Continuaram a discutir. Comecei a bater no meu tornozelo esquerdo com o meu pé direito, e vice-versa. Wolfe estava encostado em sua cadeira, olhos fechados, e vi com prazer que sua opinião sobre a alta estratégia era a mesma que a minha. O comissário, o promotor e o FBI, sem mencionar o chefe da Delegacia de Homicídios, todos discutindo onde Alger Kates iria dormir, quando tivesse uma chance, e isso depois que três detetives tinham passado tanto tempo no apartamento dele sozinhos que poderiam ter serrado os pés das cadeiras e os colado de novo. O promotor era quem queria que o apartamento continuasse a ser ocupado pela polícia. Decidi entrar na discussão só para fazer alguma coisa, e estava resolvendo de que lado entraria quando o telefone tocou.

     Era de Washington, para Travis do FBI, e ele veio falar da minha mesa. Os outros pararam de discutir e olharam para ele, que quase só fazia escutar. Ao terminar, desligou e virou-se para comunicar:

     — Isso tem algo a ver com o que estamos discutindo. Nossos homens e a polícia de Washington terminaram de examinar o apartamento da Srta. Gunther em Washington, com um grande quarto, banheiro e kitchenette. Dentro de um armário, numa caixa de chapéu numa prateleira, encontraram nove fitas de estenofone...

     — Demônios! — explodiu Wolfe. — Nove?

     Estava tão irritado e indignado como se tivessem lhe servido bife de vitela com um ovo em cima. Todos o fitaram.

     — Nove — disse Travis secamente. Tinha razão de ficar aborrecido por alguém lhe roubar a grande cena. — Nove fitas de estenofone. Um homem do DCP estava com elas e agora estão no escritório do DCP ouvindo-as e fazendo uma transcrição.

     Olhou friamente para Wolfe: — O que há de errado com nove?

     — Para o senhor — respondeu Wolfe num tom ofensivo — não há nada de errado. Para mim, nove não é melhor do que nenhuma. Quero dez.

     — Isso é uma pena. Peço desculpas. Deveriam ter encontrado dez. — Tendo arrasado com Wolfe, virou-se para os outros. — Eles vão telefonar novamente logo que conseguirem algo que nos sirva.

     — Então não vão telefonar — declarou Wolfe, fechando os olhos de novo e deixando que os outros continuassem a discussão. Ele estava se mostrando intratável, e não era difícil de adivinhar por quê. Já seria suficiente o simples fato de terem a insolência de cometer um crime na sua própria varanda, mas além disso sua casa estava cheia de cima a baixo com pessoas que não tinham sido convidadas, e ele nada podia fazer. Isso feria todos os seus hábitos, personalidade e modo de proceder. Vendo que ele parecia estar realmente mal, fui à cozinha apanhar cerveja para ele, pensando que seria um bom plano se ele se mantivesse pelo menos parcialmente informado do que estava acontecendo, uma vez que deveria ter interesse no resultado da investigação. Era evidente que estava tão mal-humorado que não se lembrara de pedir cerveja, pois não havia nenhuma na sua mesa.

     Fritz e cerca de uma dúzia de policiais estavam bebendo café. Falei com eles:

     — Vocês estão enchendo a casa, mas não posso culpá-los. Não é sempre que membros da classe inferior têm uma chance de beber café feito por Fritz Brenner.

     Ouviu-se um discreto mas quase unânime assentimento. Um deles disse: — Goodwin, o cavalheiro.

     Outro disse: — Ei, você sabe de tudo. Qual é a verdade sobre esse caso da ANI-DCP? Estão ou não brigando?

     Eu estava colocando seis garrafas e seis copos numa bandeja, com a ajuda de Fritz:

     — Terei prazer em explicar — disse generosamente. — A ANI e o DCP são, de certo modo, exatamente iguais ao glorioso DP, Departamento de Polícia. Eles têm esprit de corps. Repitam comigo... não, não se incomodem. Isso é uma expressão francesa, a língua falada pelos franceses, as pessoas que moram na França, e cuja tradução literal é “espírito de corpo”. Na nossa língua não temos expressão equivalente...

     Os aplausos começaram e a bandeja estava pronta, por isso saí. Fritz veio até o corredor comigo, fechou a porta da cozinha, segurou a manga do meu paletó e disse-me ao ouvido:

     — Archie, isso é horrível. Só quero dizer que sei como é horrível para você. Quando levei o café para o Sr. Wolfe hoje pela manhã, ele me disse que você estava apaixonado pela Srta. Gunther e que ela o tinha totalmente sob seu controle. Ela era uma garota bonita, muito bonita. O que aconteceu aqui é horrível.

     Respondi: — Vá para o inferno. — Puxei o braço para soltar a manga e dei um passo à frente. Aí virei-me para ele e continuei: — O que eu quis dizer é que hoje é uma noite de inferno e você vai levar uma semana para limpar tudo. Agora volte e termine a lição de francês que eu estava dando a eles.

     No escritório estavam como antes. Passei a cerveja e três deles aceitaram, o que deixava para Wolfe três garrafas, que era o que eu tinha calculado. Voltei à cozinha onde fiz um sanduíche e peguei um copo de leite e retornei ao escritório. O conselho estratégico continuava sem parar, e Wolfe permanecia distante, a despeito da cerveja. O sanduíche me fez ficar com fome, por isso fui lá dentro e fiz mais dois. Muito tempo depois de já tê-los comido, o conselho ainda discutia.

     É claro que eram freqüentemente distraídos por interrupções, tanto por telefone como pessoais. Um dos telefonemas era de Washington para Travis, e quando ele terminou de falar seu rosto não mostrava sucesso. Já tinham escutado todas as nove fitas e nada havia nelas de interessante. Havia nelas prova suficiente de que tinham sido ditadas por Boone no seu escritório de Washington na tarde de terça-feira, mas nada continham que ajudasse a descobrir o assassino. O DCP estava tentando ficar com as transcrições, mas o FBI de Washington prometera mandar uma cópia para Travis, que por sua vez concordara em mostrá-la a Cramer.

     — Portanto — disse Travis agressivamente, nos desafiando a insinuar que não tínhamos descoberto nada — isso prova que a Srta. Gunther estava com as fitas e que estava mentindo.

     Wolfe resmungou: — Nove. Bah!

     Foi essa a sua única contribuição à discussão sobre as fitas.

     Às três e cinco da madrugada de terça-feira, o especialista sem queixo, Phillips, entrou pelo escritório adentro com vários objetos nas mãos. Na direita trazia um casaco cinzento e na esquerda tinha um lenço de seda branco com listras em marrom-escuro e tijolo. Era óbvio que até um especialista era capaz de ter sentimentos. Seu rosto mostrava claramente que tinha novidades.

     Olhou para Wolfe e para mim e perguntou:

     — Quer que lhe faça o relatório aqui, inspetor?

     — Vá em frente — respondeu Cramer, impaciente. — O que é?

     — Esse lenço de pescoço estava no bolso do lado direito desse casaco. Estava dobrado como agora. Levantando-se uma dobra ficam expostos cerca de 240 centímetros quadrados de sua superfície. Nessa superfície existem cerca de quinze a vinte partículas de matéria que, em nossa opinião, veio do cano. Essa é a nossa opinião. Os testes de laboratório...

     — Certo. — Os olhos de Cramer brilhavam — Pode testar até a hora do café. Vocês têm um microscópio lá em cima e sabem o que eu quero. Posso ou não agir baseado na suposição de vocês?

     — Pode, sim, senhor. Verificamos bem antes...

     — De quem é esse casaco?

     — A etiqueta diz que é de Alger Kates.

     — Sim — falei eu, concordando. — Esse é o casaco de Kates.

 

COMO tinham um conselho estratégico, é lógico que não mandaram logo Kates vir. Primeiro tinham que decidir sobre a estratégia a ser adotada: ficar com rodeios e deixar que ele se incriminasse, vir revelando as coisas suavemente ou falar abruptamente logo de saída. O que de fato tinham que decidir era quem ia assumir a liderança, pois isto é que determinaria o método, e começaram a discutir entre eles. O ponto principal era, como sempre é quando se tem uma prova decisiva como o lenço no bolso, de que modo seria mais fácil fazê-lo esmorecer e conseguir uma confissão. Não estavam discutindo há muito tempo quando Travis interrompeu-os:

     — Hesito em fazer uma sugestão, pois há muitas autoridades presentes e não estou aqui oficialmente.

     — Qual é a sugestão? — perguntou o promotor acida-mente.

     — Sugiro o Sr. Wolfe. Já o vi trabalhar e, caso isso signifique alguma coisa, admito que ele é muito superior a mim nisso.

     — Para mim está bem — disse Cramer imediatamente.

     Os outros dois se entreolharam. Nenhum gostou do que estava vendo e também não gostaram da sugestão de Travis, por isso ficaram ambos mudos.

     — Está bem — disse Cramer —, vamos. Onde quer que ponha o casaco e o lenço, Wolfe, bem à vista?

     Wolfe entreabriu os olhos.

     — Qual o nome desse cavalheiro?

     — Phillips. Sr. Wolfe, Sr. Phillips.

     — Muito prazer. Dê o casaco ao Sr. Goodwin. Archie, ponha-o atrás das almofadas no sofá. Dê-me o lenço, por favor.

     Phillips dera-me o casaco sem hesitação, mas à menção do lenço, hesitou. Olhou para Cramer:

     — Isso é evidência vital. Se essas partículas forem sacudidas e espalhadas...

     — Não sou tolo — disse Wolfe.

     — Dê para ele — falou Cramer.

   Phillips detestou ter que fazer isso. Parecia uma mãe a quem tinham dado ordens para entregar o filho recém-nascido a uma pessoa de caráter duvidoso. Mas entregou.

     — Obrigado. Bem, Sr. Cramer, mande-o entrar.

     Cramer saiu, levando Phillips com ele. Voltou num instante, trazendo Alger Kates e sem Phillips. Todos encaramos Kates enquanto atravessava a sala e se sentava na cadeira indicada por Cramer, de frente para Wolfe, mas isso não pareceu desconcertá-lo. Olhou-me como o fizera em meu quarto, como se fosse começar a chorar a qualquer momento, mas não parecia ter feito isso. Ao se sentar, só via dele o perfil.

     — O senhor e eu pouco nos falamos, não é, Sr. Kates? — perguntou Wolfe.

     A língua de Kates molhou-lhe os lábios e entrou de novo.

     — O bastante para satisfazer... — começou ele, mas sua voz fina começou a afinar ainda mais, por isso parou e começou de novo. — O suficiente para me satisfazer.

     — Mas meu caro senhor. — O tom de voz de Wolfe era ligeiramente reprovador. — Creio que não trocamos uma única palavra.

     Kates não amoleceu: — Não, mesmo?

     — Não, senhor. O diabo é que não posso dizer honestamente que não simpatizo com sua atitude. Se eu estivesse em sua posição, inocente ou não, eu me sentiria do mesmo jeito. Não gosto que as pessoas me façam muitas perguntas, e, na verdade, não tolero isso.

     Wolfe deixou que seus olhos se abrissem outro milímetro.

     — Por falar nisso, no momento estou falando oficialmente. Esses cavalheiros autorizaram-me a conversar com o senhor. Como sabe, com certeza, isso não quer dizer que o senhor precise tolerar isso. Se tentasse sair dessa casa antes que eles lhe dessem permissão, seria preso como testemunha e levado a algum lugar, mas o senhor não pode ser compelido a entrar numa conversa se não quiser. O que diz? Vamos conversar um pouco?

     — Estou ouvindo — disse Kates.

     — Eu sei que está. Por quê?

     — Porque, se eu não ouvir, vão achar que estou com medo, e vão chegar à conclusão de que sou culpado de alguma coisa que tento esconder.

     — Ótimo. Então já nos entendemos. — Parecia que Wolfe estava grato por lhe fazerem uma grande concessão. Com um movimento lento e casual trouxe o lenço que ficara embaixo da escrivaninha, onde o estivera segurando, e o colocou em cima do mata-borrão. Olhou para Kates inclinando a cabeça, como que decidindo por onde começar. De onde eu estava sentado, vendo apenas o perfil de Kates, não podia dizer se ele ao menos dera um olhar ao lenço de pescoço. Certamente não ficou pálido, exibiu algum tremor ou apertou as mãos.

     Wolfe disse: — Nas duas ocasiões que o Sr. Goodwin foi à Rua 55 ver a Srta. Gunther, o senhor estava lá. Era um bom amigo dela, bem próximo?

     — Não, eu não era um amigo pessoal chegado a ela, não. Nos últimos seis meses, desde que venho fazendo pesquisa confidencial para o Sr. Boone, vejo-a freqüentemente em conexão com meu trabalho.

     — Entretanto ela estava hospedada no seu apartamento.

     Kates olhou para Cramer:

     — Já me fizeram perguntas a esse respeito uma dúzia de vezes.

     Cramer acenou com a cabeça:

     — É assim que acontece, filho. Essa vai ser a décima terceira vez.

     Kates voltou-se para Wolfe:

     — A atual falta de domicílios faz com que seja extremamente difícil, às vezes até impossível, arranjar um quarto num hotel. A Srta. Gunther podia usar sua posição e prestígio para conseguir um quarto, mas isso é contra a política do DCP, e ela pessoalmente não fazia coisas desse tipo. Minha mulher estava fora e eu dispunha de uma cama no apartamento de um amigo. Ao virmos no avião para Washington ofereci o meu apartamento à Srta. Gunther e ela aceitou.

     — Ela alguma vez ficara lá?

     — Não.

     — Há seis meses que o senhor a vê freqüentemente? O que achava dela?

     — Pensava muito bem a seu respeito.

     — O senhor a admirava?

     — Sim. Como uma colega.

     — Ela se vestia bem?

     — Nunca prestei muita... não, isso não é verdade — a voz de Kates parecia afinar de novo e procurou controlar-se —, se o senhor acha que essas perguntas são importantes e quer respostas completas e honestas. Considerando a aparência dela, que chamava a atenção, e seu corpo voluptuoso, creio que ela se vestia muito bem para uma pessoa na sua posição.

     Pensei então: se Phoebe estivesse aqui, diria que ele fala como um personagem num romance antiquado.

     — Então — disse Wolfe — o senhor prestava atenção no que ela usava. Nesse caso, quando foi a última vez que a viu usando esse lenço de pescoço? — Usou o polegar para apontá-lo.

     Kates inclinou-se para olhá-lo melhor:

     — Não me lembro de tê-la visto com ele. Nunca vi.

     Recostou-se novamente.

     — Estranho — disse Wolfe, franzindo a testa. — Isso é importante, Sr. Kates. Tem certeza?

     Kates inclinou-se para a frente de novo, dizendo:

     — Deixe-me vê-lo — e esticou a mão para pegá-lo.

     A mão de Wolfe chegou antes da dele, apanhando o lenço:

     — Não, isso aqui será evidência num julgamento de assassinato e portanto não pode ser manuseado por qualquer pessoa indiscriminadamente.

     Lançou um olhar para Kates mais profundo. Kates olhou o lenço por um instante, depois reclinou-se e balançou a cabeça:

     — Nunca o vi antes — declarou. — Na Srta. Gunther ou em qualquer outra pessoa.

     — Isso é um desapontamento — disse Wolfe pesarosamente. — Entretanto, ainda não esgotamos todas as possibilidades. Pode ser que o tenha visto antes e não tenha reconhecido agora porque quando o viu antes a luz era fraca como, por exemplo, na varanda dessa casa, à noite. Estou fazendo a sugestão para que o senhor reconsidere o que disse, porque nesse lenço há partículas ínfimas do pedaço de cano, mostrando que foi usado como proteção ao segurar o cano, e também porque o lenço foi encontrado no bolso do seu casaco.

     Kates piscou os olhos: — No casaco de quem?

     — No seu. Apanhe-o, Archie.

     Fui apanhar o casaco e fiquei junto a Kates, segurando-o pela gola, deixando-o pendurado em todo o seu comprimento. Wolfe perguntou:

     — É seu casaco, não é?

     Kates continuou sentado, olhando o casaco. Depois levantou-se, deu as costas a Wolfe e gritou, o mais alto que pôde:

     — Sr. Dexter! Sr. Dexter! Venha cá!

     — Pare com isso. — Cramer estava de pé e segurava-o pelo outro braço. — Pare com essa gritaria! O que quer com Dexter?

     — Então mande-o entrar. Se quer que eu pare de gritar, mande-o entrar aqui. — A voz de Kates tremia. — Eu lhe disse que uma coisa dessas ia acontecer! Eu disse a Phoebe para ficar longe de Nero Wolfe! Eu lhe disse que não viesse aqui hoje à noite! Eu...

     Cramer avançou: — Quando disse a ela para não vir aqui hoje à noite? Quando?

     Kates não respondeu. Viu que estavam segurando seu braço, olhou para a mão de Cramer que o segurava e disse:

     — Solte-me! Solte-me!

     Cramer soltou-o e Kates caminhou até uma cadeira encostada à parede e, sentando-se nela, fechou a boca com firmeza. Ele estava cortando relações.

     Virei-me para Cramer:

     — Se quer saber, eu estava presente quando Rowcliffe o questionava. Ele disse que estava no apartamento de seu amigo na Rua 11, onde está hospedado, e que a Srta. Gunther telefonou para dizer que recebera ordens de vir aqui e queria saber se ele também recebera as mesmas ordens. Ele respondeu que sim, mas que não viria e tentou persuadi-la a não vir. Quando ela disse que viria, resolveu vir também. Sei que o senhor está ocupado, mas se não ler os relatórios vai dar palpites falsos.

     Virei-me a fim de incluir a todos.

     — E se querem minha opinião, sem pagar honorários, esse lenço não é da Srta. Gunther porque não é do estilo dela. Ela nunca usaria uma coisa dessas. E não pertence a Kates. Olhem para ele. Terno cinza, casaco cinza. O chapéu também é cinza. Nunca o vi usar outra cor que não fosse o cinza, e se ele ainda estiver falando conosco, podemos lhe perguntar.

     Cramer marchou até a porta que dá para a sala da frente, abriu-a um pouco e gritou: — Stebbins! Venha cá!

     Purley veio imediatamente. Cramer ordenou-lhe:

     — Leve Kates para a sala de jantar. Traga os outros aqui, um de cada vez, e assim que terminarmos leve-os também para a sala de jantar.

     Purley saiu com Kates, que não demonstrou nenhuma relutância. Logo depois outro policial entrou com a Sra. Boone. Não a convidaram a sentar. Cramer recebeu-a no meio da sala, mostrou o lenço, disse-lhe que o examinasse bem sem tocá-lo, e aí perguntou se já o vira antes. Ela disse que não, e isso foi tudo. Foi levada para fora, Frank Erskine entrou e repetiram a mesma coisa. Houve mais quatro negativas e aí foi a vez de Winterhoff.

     Com Winterhoff, Cramer não precisou acabar o falatório. Mostrou-lhe o lenço e começou:

     — Sr. Winterhoff, por favor, olhe...

     — Onde conseguiu isso? — perguntou Winterhoff, tentando apanhá-lo. — É o meu lenço!

     — Oh — Cramer recuou um passo, segurando-o. — É isso que estávamos tentando descobrir. O senhor usou-o essa noite ou estava com ele no bolso?

     — Nem uma coisa nem outra. Não estava com ele. Foi esse lenço que me foi roubado na semana passada.

     — Onde e quando na semana passada?

     — Aqui mesmo. Quando estive aqui na sexta-feira à noite.

     — Na casa de Wolfe?

     — Sim.

     — Usou-o quando veio aqui?

     — Sim.

     — Quando descobriu que não estava com o senhor, quem o ajudou a encontrá-lo? A quem comunicou sua perda?

     — Eu não fiz nada... O que é que há? Quem estava com ele? Onde o senhor o conseguiu?

     — Explicarei num minuto. Agora sou eu quem faz as perguntas. A quem se queixou de que o tinha perdido?

     — Não me queixei a ninguém. Só descobri que não estava mais comigo quando cheguei em casa. Se...

     — Não mencionou o fato a ninguém?

     — Não o mencionei aqui. Devo tê-lo mencionado a minha mulher — é claro que sim, eu me lembro. Mas eu...

     — Telefonou para cá no dia seguinte procurando-o?

     — Não, não telefonei. — Winterhoff forçara-se a aceitar as perguntas. Agora se cansara. — Por que é que eu faria isso? Tenho duas dúzias de lenços de pescoço. E insisto que...

     — Está bem, insista. — Cramer estava calmo, mas ácido. — Como o lenço é seu e já lhe fizeram perguntas a respeito dele, devo lhe informar que há provas, e boas, de que estava envolvendo o cano com o qual a Srta. Gunther foi assassinada. Algum comentário?

     O rosto de Winterhoff estava úmido de suor, mas em meu quarto, enquanto examinavam suas mãos, estava igual. Era interessante notar que o suor não o fazia parecer menos distinto, mas que quando olhava fixo para alguém, como agora para Cramer, ficava menos distinto. Ocorreu-me que seu melhor amigo devia lhe dizer para não encarar ninguém.

     Finalmente conseguiu falar:

     — Qual é a prova?

     — Partículas do cano foram encontradas no lenço. Muitas delas, num só lugar.

     — Onde o encontrou?

     — No bolso de um casaco.

     — De quem era o casaco? Cramer abanou a cabeça:

     — O senhor não tem o direito de saber isso. Gostaria de lhe pedir para não dizer nada a esse respeito, mas tenho a certeza de que dirá. — Virou-se para o tira. — Leve-o para a sala de jantar e diga a Stebbins para não trazer mais ninguém.

     Winterhoff queria dizer muitas coisas, mas foi posto para fora. Quando a porta fechou-se por trás dele e do tira, Cramer sentou-se e pôs as palmas das mãos nos joelhos, enquanto inspirava e expirava com grande barulho.

     — Noss-ssa Senhora — disse ele.

 

HOUVE um longo momento de silêncio. Olhei para o relógio de parede. Eram quatro para as duas. Olhei para o meu relógio de pulso. Era uma para as quatro. A despeito da discrepância, era razoável presumir que em breve seriam quatro horas. Do outro lado das portas fechadas da sala da frente e do corredor vinha uma leve sugestão de ruídos, o suficiente para nos recordar que não adiantava ficar em silêncio. Cada barulhinho parecia dizer: vamos, está ficando tarde, resolva logo isso. A atmosfera do escritório parecia tão desencorajada quanto desencorajante. Precisava-se de um pouco de animação e determinação.

     — Bem — disse eu com animação —, demos um bom passo para a frente. Já eliminamos o homem de Winterhoff que corria e se escondia. Estou preparado para ir ao tribunal e jurar que não correu para dentro do corredor.

     Isso não conseguiu irritar ninguém, o que mostra a condição patética em que estavam. Tudo o que aconteceu foi que o promotor público olhou-me como se eu o lembrasse alguém que não tinha votado nele. O comissário falou:

     — Winterhoff é um maldito mentiroso. Ele não viu ninguém correndo da varanda. Ele inventou tudo.

     O promotor explodiu com violência:

     — Pelo amor de Deus, não estamos procurando um mentiroso! Estamos procurando um assassino!

     Wolfe resmungou mal-humorado:

     — Gostaria de ir para a cama. São quatro horas e vocês não sabem o que fazer.

     — Oh, somos nós — disse Cramer, olhando para ele aborrecido. — Nós não sabemos o que fazer. Suponho que você saiba?

     — Sim, Sr. Cramer, eu sei. Mas estou cansado e com sono.

     Se não tivesse havido uma interrupção, poderia ter saído briga. Bateram na porta e um tira entrou, chegou perto de Cramer e comunicou-lhe:

     — Já achamos mais dois motoristas de táxi, os dois que trouxeram a Sra. Boone e O’Neill. Pensei que gostaria de vê-los, inspetor. O nome de um deles é...

     Parou por causa da cara de Cramer:

     — Tenho certeza de que o farão inspetor chefe substituto. Com toda a facilidade. — Apontou para a porta. — Saia por ali e encontre alguém a quem contar isso.

     O tira foi embora, com cara frustrada. Cramer disse a quem quisesse ouvir:

     — Realmente, motorista de táxi!

     O comissário falou: — Temos que deixá-los partir.

     — Sim, senhor — concordou Cramer. — Sei que temos. Mande-os entrar, Archie.

     Esse era o estado de espírito do inspetor. Enquanto fazia o que me pedira, tentava me lembrar de outra ocasião em que tivesse me chamado de Archie e não consegui, mesmo durante todos esses anos que o conhecera. É claro que depois de dormir um pouco e tomar um banho ele ia sentir-se diferente, mas arquivei o pensamento para algum momento no futuro em que precisasse lembrá-lo de que me chamara de Archie. Enquanto isso, Purley e eu, com a ajuda dos outros, mandávamos todos que estavam na sala da frente e na sala de jantar para o escritório.

     O conselho estratégico saíra de suas cadeiras e estava perto da escrivaninha de Wolfe, de pé. Os convidados sentaram-se. Os empregados municipais, mais de uma dúzia deles, espalharam-se pelo escritório e tentaram parecer tão alertas e inteligentes quanto os fatos permitiam, sob o olhar do grande chefe, o próprio comissário.

     Cramer, de pé na frente deles, foi quem falou:

     — Vamos deixá-los ir para casa. Antes que saiam, porém, quero explicar a situação. O exame das mãos no microscópio não adiantou nada. Mas o microscópio conseguiu resultados. Num lenço de pescoço que estava dentro do bolso de um dos casacos, pendurado no corredor, encontramos partículas do cano. O lenço foi, sem dúvida alguma, utilizado pelo assassino para evitar que suas mãos entrassem em contato com o cano. Portanto...

     — De quem era o casaco? — perguntou Breslow abruptamente.

     Cramer abanou a cabeça: — Não vou lhes dizer de quem era o casaco nem a quem pertence o lenço, e acho que seria melhor se os donos nada dissessem, porque é quase certo que isso sairia nos jornais, e os senhores sabem o que os jornais...

     — Não, não vai fazer isso — falou Alger Kates com sua voz de falsete. — Isso seria bom para seus planos, seus e de Nero Wolfe e da ANI, mas não vai me amordaçar! Era meu casaco! E nunca vi o lenço antes! Isso é a coisa mais...

     — Basta, Kates — Solomon Dexter falou.

     — Está bem — disse Cramer, e não parecia aborrecido. — Então foi achado no casaco do Sr. Kates e ele diz que nunca vira o lenço. Isso...

     — O lenço — disse Winterhoff, com voz mais pesada e mais sem inflexão do que antes — é meu. Foi roubado do meu casaco aqui nessa casa na última sexta à noite. Não o vira desde então, até que o mostraram a mim aqui. Desde que permitiu que Kates fizesse insinuações sobre os planos da ANI...

     — Não — disse Cramer — isso está fora de cogitação. Não estou interessado em insinuações. Se querem continuar com a briga, aluguem um local. O que quero dizer é isto: que há algumas horas eu disse que um dos senhores matara a Srta. Gunther, e o Sr. Erskine reclamou. Agora não há possibilidade de reclamações. Agora não há dúvida. Podíamos levar todos para a Central e registrá-los como testemunhas. Mas sendo os senhores quem são, dentro de poucas horas teriam saído sob fiança. Por isso vamos deixá-los ir para casa, inclusive o que cometeu o assassinato aqui essa noite, porque não sabemos quem é. Enquanto isso, podem esperar ser visitados ou chamados a qualquer hora do dia ou da noite. Não devem sair da cidade sem permissão. Pode ser que fiquem sob vigilância ou não. Isso nós é que decidimos e não adianta protestar porque não vão conseguir nada.

     Cramer olhou os rostos à sua frente.

     — Os carros de polícia vão levá-los para casa. Podem ir agora, mas deixe que lhes diga mais uma coisa. Isso não vai acabar aqui. É ruim para todos, mas vai ficar pior até que o assassino seja apanhado. Portanto, se alguém souber de alguma coisa o pior erro que poderá fazer é não nos dizer. Fique e nos conte. O comissário de polícia, o promotor público e eu estaremos aqui e podem falar conosco.

     Seu convite não foi aceito, pelo menos não nos termos em que foi feito. A família Erskine ainda ficou um pouco para falar com o promotor, Winterhoff queria falar alguma coisa com o comissário, a Sra. Boone chegou-se para um lado com o Sr. Travis do FBI, a quem aparentemente já conhecia; Breslow queria dizer alguma coisa a Wolfe e Dexter encheu Cramer de perguntas. Mas não demorou muito e todos partiram, sem que parecesse ter havido qualquer contribuição útil para a causa.

     Wolfe pôs as palmas das mãos na beira da escrivaninha, empurrou a cadeira para trás e levantou-se.

     Cramer, ao contrário, sentou-se:

     — Vá para a cama, se quiser — disse ele secamente —, mas eu vou ter uma conversa com Goodwin. — Já estava me chamando de Goodwin de novo. — Queria saber quem, além de Kates, teve oportunidade de colocar aquele lenço no casaco.

     — Isso é bobagem. — Wolfe estava impertinente. — Talvez fosse necessário com uma pessoa comum. Mas o Sr. Goodwin foi treinado, é competente, de confiança e moderadamente inteligente. Se soubesse de alguma coisa que ajudasse já teria dito. Faça-lhe apenas uma pergunta. Archie, você suspeita de alguém diretamente que tenha posto o lenço no casaco ou pode eliminar qualquer pessoa que não tivesse nenhuma oportunidade?

     — Não para as duas perguntas — respondi. — Já pensei no assunto e examinei todos mentalmente. Eu estava entrando e saindo por entre toques de campainha, e a maior parte deles também. O problema é que a porta da sala da frente estava aberta, assim como a porta que dá da sala da frente para o corredor.

     Cramer deu um grunhido:

     — Daria dois níqueis para saber como teria respondido a essa pergunta se estivesse sozinho com Wolfe, e como responderá.

     — Se é assim que está pensando, vamos parar com isso. É de madrugada que tenho maior resistência à tortura, e como vai arrancar a verdade de mim?

     — Posso dormir um pouco agora — disse G. G. Spero, e todos concordaram com ele.

     Mas eram quase cinco horas quando finalmente saíram, pois tivemos que embalar o lenço numa caixa como se fosse peça de museu, o que por sinal agora é, e reunir papéis e vários outros itens.

     A casa era nossa de novo. Wolfe dirigiu-se para o elevador. Eu ainda tinha que fazer uma vistoria para me certificar de que não havia empregados públicos dormindo sob a mobília. Perguntei a Wolfe:

     — Alguma instrução para amanhã de manhã?

     — Sim. Deixe-me em paz!

 

DAQUELE momento em diante senti-me como se estivesse fora do caso. Os acontecimentos provariam que isso não era inteiramente justificado, mas era como me sentia. O que Wolfe me conta, ou não me conta, não depende nunca, pelo menos até onde eu saiba, de circunstâncias relevantes. Depende do que ele comeu na última refeição, do que vai comer na próxima, do tipo de camisa e gravata que estou usando, de meus sapatos estarem bem engraxados, e assim por diante. Ele detesta roxo. Uma vez Lily Rowan deu-me uma dúzia de camisas Sulka, com listras de diferentes cores e tons. Acontece que usei a camisa com tons de roxo no dia em que começamos o caso Chesterton-Best, o sujeito que assaltou sua própria casa e deu um tiro na barriga de um hóspede que passava o fim de semana com ele. Wolfe deu uma olhada na camisa e ficou mudo. Por pirraça, usei a camisa a semana inteira e nunca soube o que estava acontecendo, ou quem era o que, até que Wolfe deslindou o caso. Mesmo assim, só consegui saber a maior parte dos detalhes pelo jornal e por Dora Chesterton, com quem travara conhecimento. Dora tinha um modo de... não, vou deixar isso para a minha autobiografia.

     O sentimento que tive de estar por fora fundamentava-se em fatos. Na terça de manhã Wolfe tomou café à hora habitual, foi o que deduzi do fato de Fritz levar sua bandeja cheia às oito horas e trazê-la vazia às dez para as nove. Nela havia um recado para que eu dissesse a Saul Panzer e Bill Gore, quando telefonassem, para irem ao escritório às onze e, além disso, para conseguir que Del Bascom, chefe da Agência de Detetives Bascom, também estivesse presente. Estavam todos à sua espera quando voltou da estufa, e ele mandou-me sair. Mandou-me ao último andar para ajudar Theodore a fazer a polinização cruzada. Quando voltei na hora do almoço Wolfe me disse que os envelopes que viessem de Bascom lhe deviam ser entregues sem serem abertos.

     — Ah! — exclamei. — Relatórios? Grandes operações?

     — Sim. — Fez uma careta. — Vinte homens. Um deles talvez valha alguma coisa.

     Lá se iam mais quinhentos dólares por dia na fumaça. Naquela proporção o dinheiro da ANI não duraria muito.

     — Quer que me mude para um hotel? — perguntei. — Para que não ouça nada que não deva ouvir?

     Ele não se deu ao trabalho de responder. Ele tenta nunca se aborrecer antes de uma refeição.

     É claro que ele não podia me deixar totalmente de lado, não importa que bicho o tivesse mordido. Se não fosse por mais nada, o fato de eu ter estado presente fazia com que quisessem falar comigo. Os amigos jornalistas, sobretudo Lou Cohen da Gazette, pensavam que eu devia lhes dizer exatamente quem seria preso, quando e onde. E na terça à tarde o Inspetor Cramer decidiu que precisavam me interrogar de novo e me convidou a ir à Rua 20. Ele e mais três outros fizeram as honras. Era lógico o que o atormentava: a ANI era cliente de Wolfe. Portanto, se eu tivesse visto alguém da ANI permanecer perto do casaco de Kates pendurado no corredor e que não tinha motivo para estar lá, eu comunicaria a Wolfe, mas a ninguém mais. Até aí tudo bem. Raciocínio perfeito. Mas Cramer achou que, com duas horas de interrogatório, voltando atrás, pulando de um ponto a outro e plantando armadilhas, ele e seu grupo podiam tirar tudo de mim, o que era tolice. Para ficar ainda melhor, eu não sabia de nada, e aí tudo se tornou ridículo. De qualquer modo, fizeram força para conseguir o que queriam.

     Por fim até Wolfe parecia pensar que eu ainda seria de utilidade. Quando chegou no escritório às seis horas, sentou-se em sua cadeira, tocou a campainha pedindo cerveja, permaneceu sentado por quinze minutos e depois me disse:

     — Archie.

     Eu estava no meio de um bocejo. Depois que acabei de bocejar, disse:

     — Que é?

     Ele me olhava de cenho franzido:

     — Há muito tempo que você está comigo.

     — É. Como é que nós vamos fazer? Devo pedir demissão, ou você me despede, ou anulamos tudo por consentimento mútuo?

     Não deu nem resposta.

     — Já reparei, talvez com mais detalhes do que imagina, seus talentos e capacidades. Você é um excelente observador, não é nada tolo, é totalmente intrépido e vaidoso demais para que o seduzam a fim de cometer uma perfídia.

     — Ótimo. Um aumento viria bem. O custo de vida tem aum...

     — Você come e dorme aqui e porque é jovem e vaidoso gasta muito dinheiro em roupas. — Fez um sinal com o dedo. — Podemos discutir isso outra hora. O que tenho em mente é uma qualidade que você tem que não entendo, mas que sei que tem. O resultado freqüente dessa qualidade é uma disposição por parte de mulheres jovens de quererem passar algum tempo em sua companhia.

     — É o perfume que uso. Dos Brooke Brothers. Chamam-no Stag at Eve. — Olhei apreensivamente. — Você está querendo alguma coisa. O que é?

     — Descobrir, o mais cedo possível, se pode conquistar a Srta. Boone.

     Encarei-o com firmeza.

     — Sabe, nunca pensei que uma idéia assim chegasse a uma distância menor que um milhão de milhas de você. Seduzir a Srta. Boone? Se pode pensar nisso, pode fazê-lo. Seduza-a você mesmo.

     — Estou falando de uma operação de investigação após ganhar-lhe a confiança — disse ele friamente.

     — Desse modo ainda soa pior — continuei a encará-lo. — Entretanto, vamos colocar isso da melhor maneira possível. Você quer que eu arranque dela uma confissão de que assassinou seu tio e a Srta. Gunther? Não, obrigado.

     — Tolice. Você sabe muito bem o que quero.

     — Diga-me de qualquer modo. Que é que você quer?

     — Quero informação sobre o seguinte: até que ponto vão seus contatos, se os tem, sociais ou pessoais, com qualquer pessoa ligada à ANI, especialmente aqueles que estavam aqui ontem à noite. A mesma coisa sobre a Sra. Boone, sua tia. Também qual o seu grau de intimidade com a Srta. Gunther, o que pensavam uma da outra, e quantas vezes viu a Srta. Gunther na semana passada. Para princípio, já dava. Se os acontecimentos exigirem, você pode se tornar mais específico. Por que não telefona para ela agora?

     — As perguntas parecem adequadas até o ponto em que ficamos específicos, mas isso pode esperar. Mas você quer dizer com isso que acha que um dos espécimes da ANI é o assassino?

     — Por que não? Por que não deveria ser?

     — É tão óbvio.

     — Bah. Nada, por si só, é óbvio. Ser óbvio é subjetivo. Três perseguidores descobrem que um fugitivo tomou um trem para a Filadélfia. Para o primeiro perseguidor é óbvio que o fugitivo foi para a Filadélfia. Para o segundo perseguidor é óbvio que ele saiu do trem em Newark e foi para outro lugar. Para o terceiro perseguidor, que sabe como o fugitivo é esperto, é óbvio que ele não saiu do trem em Newark, porque isso seria óbvio, mas ficou no trem e continuou até a Filadélfia. A sutileza persegue o óbvio numa espiral sem fim e nunca o apanha. Sabe o número de telefone da Srta. Boone?

     Podia ter suspeitas de que ele estava me mandando brincar fora de casa para que eu não me envolvesse em complicações, se não fosse pelo fato de que para ele é um horror quando saio de casa, pois aí ele próprio tem que atender o telefone, ou deixar que Fritz interrompa suas outras obrigações para atender tanto o telefone como a porta. Por isso achei que agia de boa fé, pelo menos tentava, e girei a cadeira para discar o número do Waldorf e chamar o quarto da Srta. Boone. Do quarto respondeu uma voz masculina que não reconheci e, após esperar mais tempo do que parecia razoável, Nina veio ao telefone.

     — Aqui é Nina Boone. Quem está falando é o Sr. Goodwin, do escritório de Nero Wolfe? É isso mesmo?

     — Sim. Pagos pela ANI. Obrigado por vir ao telefone.

     — Ora... Seja bem-vindo. Queria... alguma coisa?

     — É claro que sim, mas deixemos isso de lado. Não estou telefonando sobre o que quero ou queria ou poderia querer. Estou telefonando sobre alguma coisa que outra pessoa quer, porque ele me pediu, só que na minha opinião ele está maluco. Você vê a posição em que fico. Não posso lhe telefonar e dizer: aqui é Archie Goodwin. Acabei de tirar dez dólares das minhas economias. Que tal irmos jantar os dois naquele restaurante brasileiro na Rua 52? Qual é a diferença se isso é o que quero fazer ou não, já que não posso? Está ocupada no momento?

     — Não... tenho um minuto. O que é que essa outra pessoa quer?

     — Vou chegar lá. Por isso, tudo que posso dizer é: aqui é Archie Goodwin espionando para a ANI. Gostaria de usar algum dinheiro da ANI para jantarmos naquele restaurante brasileiro da Rua 52, desde que fique subentendido que é só a negócios e que não mereço confiança. Para lhe dar uma idéia de como sou cheio de truques, algumas pessoas olham embaixo da cama à noite, mas eu olho para dentro da cama, para ter certeza de que não estou lá me esperando. Já passou um minuto?

     — Você parece realmente perigoso. É isso o que alguém queria que fizesse, me convencesse a jantar com você?

     — A parte do jantar foi idéia minha. Saiu quando ouvi de novo sua voz. Quanto ao ‘alguém’, você sabe que, trabalhando nesse caso, fico em contato com todos os tipos de pessoa, não apenas Nero Wolfe que é — bem, ele não pode evitar ser o que é — mas também com a polícia, com o FBI, o pessoal do promotor público — todos os tipos. O que é que você diria se eu lhe contasse que um deles me disse para chamá-la e perguntar-lhe onde está Ed Erskine?

     — Ed Erskine? — ela estava estupefata. — Perguntar a mim onde está Ed Erskine?

     — Isso mesmo.

     — Eu diria que ele está louco.

     — Eu também. Então está decidido. Agora, antes de desligar, para não deixar nada sem terminar, talvez você possa responder à pergunta que eu mesmo fiz sobre o jantar. Como você diz não em geral? Abruptamente? Ou anda em ziguezague para não ofender os sentimentos das pessoas?

     — Oh, sou muito franca.

     — Está bem, espere até eu me preparar. Pronto.

     — Não poderia ir hoje, por mais truques que soubesse. Estou comendo com minha tia no quarto.

     — Então uma ceia mais tarde. Ou café. Ou almoço. Almoço amanhã a uma hora?

     Houve uma pausa: — Que tipo de lugar é esse restaurante brasileiro?

     — É bom, um pouco fora de caminho, e boa comida.

     — Mas... sempre que vou à rua...

     — Eu sei. É assim mesmo. Saia do hotel pela entrada da Rua 49. Estarei no meio-fio com um sedan azul-marinho Wethersill a partir de meio-dia e cinqüenta. Pode ter certeza de que estarei lá, pode confiar em mim, mas além disso, lembre-se, esteja de guarda.

     — Pode ser que eu me atrase um pouco.

     — Espero que sim. Você me parece inteiramente normal. E por favor, daqui a cinco ou dez anos, não tente me dizer que eu disse que você parece comum. Eu disse normal, não disse comum. Vejo-a amanhã.

     Ao pôr o telefone no lugar, senti que havia no meu olhar um lampejo de amor-próprio, por isso não me virei imediatamente para falar com Wolfe, mas comecei a arrumar uns papéis na minha mesa. Depois de algum tempo ele disse:

     — Hoje teria sido melhor.

     Contei até dez. Ainda sem me virar, disse:

     — Meu caro senhor, tente fazer com que ela o veja a qualquer hora que seja, mesmo na Tiffany para experimentar jóias.

     Ele riu de satisfação. Passado um pouco de tempo tornou a rir. Como achei aquilo irritante, fui para meu quarto e mantive-me ocupado pondo tudo em ordem. Fritz e Charley não tinham subido até meu quarto devido às condições do resto da casa e, embora os especialistas do microscópio fossem limpos e aparentemente respeitáveis, achei que fazer um inventário do que tinha não era mau.

     No fim do jantar, com a salada e o queijo, surgiu uma pequena controvérsia. Queria tomar o café na sala de jantar, depois subir para dormir, e Wolfe, embora admitisse que também precisava dormir, queria tomar café no escritório, como de costume. Mostrou-se arbitrário a esse respeito e eu não me mexi, para lhe dar uma lição. Ele foi para o escritório e eu fiquei na sala de jantar. Quando acabei fui à cozinha e disse a Fritz:

     — Desculpe ter-lhe dado esse trabalho duplo, servindo café em dois lugares, mas ele tem que aprender a ceder. Você ouviu quando eu sugeri dividir a diferença e tomarmos café no corredor.

     — Não foi trabalho algum — disse Fritz gentilmente. — Compreendo, Archie. Compreendo por que você está tão caprichoso. Aí está a campainha tocando novamente.

     Senti-me tentado a deixá-la tocar. Eu precisava dormir. E Wolfe também, e tudo que tinha a fazer era mexer no interruptor na parede da cozinha para que a campainha parasse de tocar. Mas não toquei no interruptor. Disse a Fritz:

     — Justiça, bem público, dever, que droga.

     Fui para a frente e abri a porta.

 

     O SUJEITO ali parado disse-me:

     — Boa noite. Quero ver o Sr. Wolfe.

     Nunca o vira antes. Tinha cerca de cinqüenta anos, estatura média, seus lábios eram finos e retos e tinha olhos do tipo que jogam pôquer com sangue. No primeiro décimo de segundo pensei que fosse um dos homens de Bascom, e aí vi que suas roupas excluíam essa hipótese. Elas eram neutras e conservadoras e devia tê-las experimentado pelo menos três vezes. Respondi:

     — Vou ver se ele está em casa. Seu nome, por favor?

     — John Smith.

     — Ah. E sobre o que quer vê-lo, Sr. Jones.

     — Negócios particulares e urgentes.

     — Pode ser mais específico?

     — Para ele, sim.

     — Ótimo. Sente-se e leia uma revista.

     Fechei a porta, fui para o escritório e disse a Wolfe:

     — Sr. John Smith, nome que deve ter tirado de um livro. Parece um banqueiro que lhe emprestaria um níquel com toda a satisfação, tendo como garantia uma taça de diamantes. Deixei-o na varanda, mas não se preocupe pensando que ele possa se sentir insultado, porque não tem sentimentos. Por favor não me peça para descobrir o que quer, porque pode levar horas.

     Wolfe resmungou: — Qual é a sua opinião?

     — Nenhuma. Não me permitem saber o que está acontecendo. O impulso natural é dar-lhe um pontapé escada abaixo. Vou lhe dizer uma coisa, entretanto. Não é um menino de recados.

     — Traga-o.

     Foi o que fiz. A despeito de suas qualidades desagradáveis e de nos manter acordados, coloquei-o na poltrona vermelha, pois assim ficava de frente para nós dois. Ele não era de perder tempo. Esticou-se, os dedos cruzados no colo, e disse a Wolfe:

     — Dei o nome de John Smith porque meu nome não importa. Sou apenas um moço de recados.

     Já começava me contradizendo. Continuou:

     — Esse assunto é confidencial e preciso falar com o senhor em particular.

     Wolfe abanou a cabeça.

     — O Sr. Goodwin é meu assistente confidencial. Seus ouvidos são como os meus. Pode falar.

     — Não. — O tom de voz de Smith parecia dar a entender que o assunto estava encerrado. — Tenho de lhe falar a sós.

      — Bobagem. — Wolfe apontou para uma fotografia do monumento de Washington, na parede à sua esquerda.

     — Vê aquela gravura? Na realidade é um painel perfurado. Se o Sr. Goodwin sair desse escritório, irá para uma saleta perto do canto do corredor, do outro lado da porta da cozinha, abrirá o painel do seu lado e, invisível para nós dois, vai nos ver e ouvir. A única objeção é que teria de ficar em pé. É a mesma coisa ele ficar aqui sentado.

     Sem piscar o olho, Smith levantou-se:

     — Então nós dois iremos para o corredor.

     — Não, não iremos. Archie, o Sr. Smith quer o chapéu e o casaco.

     Levantei-me e comecei a andar. Quando estava na metade da sala, Smith sentou-se de novo. Virei-me, voltei para meu lugar e sentei-me.

     — Sim, senhor? — perguntou Wolfe.

     — Nós temos alguém para o assassinato de Boone e Gunther — disse Smith, aparentemente no único tom de voz que tinha.

     — Nós? Alguém?

     Smith descruzou os dedos, levantou uma das mãos, coçou um lado do nariz e tornou a cruzar os dedos.

     — É claro — disse ele — que a morte é sempre uma tragédia. Causa pesar, sofrimento e freqüentemente dificuldades. Isso não pode ser evitado. Mas nesse caso, a morte dessas duas pessoas já causou dano a muitas pessoas inocentes e criou uma situação que significa uma grande injustiça. Como o senhor sabe, há elementos nesse país que tentam destruir a base de nossa sociedade. A morte está — tem estado — ajudando a eles. A própria espinha dorsal de nosso sistema democrático livre — composto de cidadãos que só querem o bem do povo, de homens de negócios que mantêm as coisas funcionando — está enfrentando um perigo real muito grande. A fonte desse perigo era um acontecimento — agora dois acontecimentos — que pode ter ocorrido ou por mero acaso ou por uma malícia profunda e calculada. Do ponto de vista do bem comum esses dois eventos eram por si só sem importância. Mas a avassaladora...

     — Desculpe-me — disse Wolfe, apontando-lhe um dedo. — Eu também costumava fazer discursos. Eu diria que o senhor está falando sobre a reação nacional contra a Associação Nacional da Indústria por causa dos assassinatos. Não é assim?

     — Sim. Estou enfatizando o contraste entre o caráter trivial dos acontecimentos em si e o tremendo mal...

     — Por favor. Já entendemos esse ponto. Passe para o próximo. Mas primeiro me diga, o senhor representa a ANI?

     — Não. Na realidade, eu represento os fundadores desse país. Eu represento os melhores e mais fundamentais interesses do povo americano. Eu...

     — Muito bem. Seu próximo ponto?

     Smith descruzou os dedos de novo. Dessa vez queria coçar o queixo. Isso feito, continuou:

     — A situação existente é intolerável. Estão entregando tudo diretamente nas mãos dos grupos e doutrinas mais perigosos e subversivos. Nenhum preço a pagar seria alto demais para terminar com isso, e terminar o mais rápido possível. O homem que fizesse esse trabalho mereceria a recompensa de seu país. Ganharia a gratidão de seus concidadãos, especialmente daqueles que sofrem sob esse ódio injusto.

     — Em outras palavras — sugeriu Wolfe — deviam lhe pagar alguma coisa.

     — Vão lhe pagar alguma coisa.

     — Então é pena que eu já tenha sido contratado. Gosto de ser pago.

     — Não haveria nenhum conflito. Os objetivos são idênticos.

     Wolfe franziu a testa:

     — Sabe, Sr. Smith — disse ele, num tom de voz de admiração —, gosto do modo como o senhor começou isso. O senhor disse tudo, exceto pequenos detalhes, em sua primeira frase curta. De onde vem e quem é o senhor?

     — Isso é burrice — declarou Smith — e o senhor não é burro. É claro que pode descobrir quem sou, se quiser se dar a esse trabalho e perder seu tempo. Mas há sete homens e mulheres respeitáveis, muito respeitáveis, com quem estou jogando bridge essa noite. Após um jantar. E isso abrange toda a noite, das sete em diante.

     — Isso cobre suas atividades adequadamente. Oito contra dois.

     — Sim, cobre mesmo — concordou Smith. Descruzou as mãos mais uma vez, mas não para se coçar. Pôs a mão no bolso lateral do paletó e tirou um pacote bem embrulhado em papel branco e preso com durex. O seu tamanho era suficientemente grande para caber apertado no bolso e teve de usar ambas as mãos. Observou: — Como pode ver, há certos detalhes. A quantia mencionada é trezentos mil dólares. Aqui está um terço.

     Dei uma rápida olhada e achei que não podia ser tudo em notas de cem. Devia haver umas de quinhentos e outras de mil.

     Wolfe levantou uma sobrancelha.

     — Como o senhor está jogando bridge essa noite, e como veio aqui presumindo que sou canalha, isso não é uma tolice? Já lhe disse que o Sr. Goodwin é meu assistente pessoal. O que aconteceria se ele lhe tirasse o pacote, guardasse no cofre e o acompanhasse até a saída?

     Pela primeira vez a expressão do rosto de Smith mudou. Entretanto, a pequena ruga que apareceu na testa não parecia ser de apreensão. Quando falou, sua voz não se alterou:

     — Talvez o senhor seja realmente burro, embora eu duvide. Conhecemos seu currículo e seu caráter. Nunca achamos que fosse um canalha. Estamos lhe dando uma oportunidade de fazer um serviço...

     — Não — cortou Wolfe, com voz decidida. — Já falamos sobre isso.

     — Muito bem. Mas é a verdade. Se quiser saber por que estamos pagando uma soma tão grande de dinheiro para executá-lo, vou lhe dar as razões. Primeiro, todo mundo sabe que o senhor cobra honorários exorbitantes pelo que faz. Segundo, do ponto de vista das pessoas que o estão pagando, a antipatia pública, que está cada vez maior e que é totalmente desmerecida, está lhes custando, ou lhes custará, direta ou indiretamente, centenas de milhões. Trezentos mil dólares não é nada. Terceiro, o senhor terá despesas e elas serão grandes. Quarto, sabemos das dificuldades em questão e posso lhe dizer, francamente, que não conheço outra pessoa a não ser o senhor que possa resolvê-las. Nunca achamos de forma alguma que o senhor fosse um canalha. Essa observação foi totalmente fora de propósito.

     — Então talvez eu não tenha entendido direito a frase com que o senhor começou a falar. — Os olhos de Wolfe o encaravam diretamente. — O senhor não disse que tem alguém para ser o responsável pelos assassinatos de Boone e Gunther?

     — Sim — os olhos de Smith o encaravam de volta.

     — E quem escolheram?

     — A palavra temos não é muito correta. Teria sido melhor se eu tivesse dito que queremos sugerir alguém.

     — Quem?

     — Ou Solomon Dexter ou Alger Kates. Preferiríamos Dexter, mas Kates também serve. Estaríamos em posição de cooperar em certos aspectos das provas. Depois que fizer seus planos teremos uma reunião a esse respeito. E, diga-se de passagem, os outros duzentos mil não dependeriam de condenação. O senhor não poderia de forma alguma garantir isso. Outro terço seria pago quando o escolhido fosse acusado e o último terço no dia de abertura do julgamento. Seria suficiente o efeito da acusação e do julgamento, embora não tão satisfatório.

     — O senhor é advogado, Sr. Smith?

     — Sim.

     — Não pagaria mais por Dexter do que por Kates? O senhor deveria pagar. Ele é o diretor interino do Departamento de Controle de Preços. Devia valer mais, para o senhor.

     — Não. Demos uma quantia grande, até exorbitante, para evitar pechinchas. — Smith bateu com o dedo no pacote. — Isso aqui é provavelmente um recorde.

     — Meu Deus, não é — Wolfe estava ligeiramente aborrecido, como se tivessem insinuado que parara de estudar no ginásio. — Houve Teapot Dome. Podia lhe dar de saída oito, dez, uma dúzia de exemplos. Alyattes da Lídia recebeu o peso de dez panteras em ouro. Richelieu pagou a D’Effiat cem mil libras francesas de uma só vez — no mínimo, o equivalente hoje em dia a dois milhões de dólares. Não, Sr. Smith, não se vanglorie de estar batendo um recorde. Considerando o que está querendo, o senhor é um avarento.

     Smith não ficou impressionado. Disse:

     — Em dinheiro. O equivalente disso, pago em cheque, seria dois milhões de dólares.

     — Está certo — concordou Wolfe, mostrando-se razoável. — Naturalmente isso já tinha me ocorrido. Não estou fingindo que o senhor esteja pagando mal. — Deu um suspiro. — Eu também não gosto de pechinchar. Mas é bom que eu fale logo, há uma objeção insuperável.

     Smith piscou os olhos. Vi quando ele o fez.

     — E qual é ela?

     — Sua escolha de alvos. Para começar, são óbvios demais, mas o principal obstáculo seria o motivo. É preciso um bom motivo para um assassinato, e um excelente para dois. Tenho receio de que, com o Sr. Dexter ou o Sr. Kates, isso simplesmente não seria possível, e assim digo definitivamente que não vou tentar. O senhor, muito generosamente, insinuou que não sou estúpido, mas eu seria, se tentasse inculpar qualquer um dos dois para ir a julgamento, quanto mais para condená-los. — O olhar e a voz de Wolfe eram inflexíveis. — Não, senhor. Mas pode encontrar alguém que ao menos tente fazê-lo. Que tal o Sr. Bascom, da Agência de Detetives Bascom? É um bom homem.

     Smith continuou: — Já lhe disse que receberia cooperação sobre as provas.

     — Não. A ausência de um motivo adequado tornaria isso impossível, mesmo com provas, que teriam de ser circunstanciais. De qualquer modo, considerando a origem de qualquer prova que o senhor pudesse fornecer, e o fato de serem dirigidas a um homem do DCP, as provas seriam suspeitas. O senhor há de convir que isso é verdade.

     — Não necessariamente.

     — Oh, sim. Inevitavelmente.

     O rosto de Smith permaneceu inalterável, embora tivesse tomado uma decisão importante, a de mostrar uma de suas cartas:

     — Não. Vou lhe dar um exemplo. — Virou a carta sem um piscar de olhos. — Se o motorista de táxi que trouxe Dexter aqui jurasse que o viu esconder um pedaço de cano sob o casaco, com um lenço enrolado em volta, essa prova não seria suspeita.

     — Talvez não — concordou Wolfe. — O senhor tem esse motorista?

     — Não. Eu só estava lhe dando um exemplo. Como poderíamos ir atrás do motorista, ou de outra pessoa qualquer, antes de ficarmos de acordo quanto a um nome?

     — É claro que não pode. Tem outros exemplos? Smith abanou a cabeça. Nisso ele se parecia com

     Wolfe. Não via motivos para usar cem ergs quando cinqüenta seriam suficientes. Ao abanar a cabeça, a média de Wolfe era um oitavo de polegada para a direita e a mesma distância para a esquerda, e se medíssemos Smith obteríamos o mesmo resultado. Entretanto, Wolfe ainda era mais econômico em energia física. Pesava o dobro de Smith, e portanto seu gasto por quilo de matéria, que é o único método seguro de julgar, era muito mais baixo.

     — O senhor está se adiantando um pouco — declarou Smith. — Eu lhe disse que teríamos uma reunião sobre os aspectos da prova depois que o senhor tivesse feito seus planos. Isso quer dizer que o senhor aceita?

     — Não. Não da forma como foi descrito. Recuso.

     Smith aceitou o fato como um cavalheiro. Após um intervalo de alguns segundos sem nada dizer, engoliu em seco, e foi seu primeiro sinal de fraqueza. Estava claro que ia entregar os pontos e se preparar para outro plano. Após um período de silêncio, quando engoliu de novo, não havia dúvidas a respeito.

     — Há uma outra possibilidade — disse ele — que não enfrentaria as mesmas objeções que já fez. Don O’Neill.

     — M-m-m-m — foi a observação de Wolfe.

     — Ele também veio de táxi. O motivo é claro e na verdade está estabelecido, já que é o motivo que foi aceito, errada e maliciosamente, por todo o país. Ele não seria tão satisfatório quanto Dexter ou Kates, mas serviria para transferir o ressentimento público contra uma instituição ou grupo para um indivíduo, e o quadro mudaria de figura.

     — M-m-m-m.

     — Além disso, as provas não seriam suspeitas devido à sua fonte.

     — M-m-m-m.

     — E portanto o âmbito das provas poderia ser consideravelmente alargado. Por exemplo, seria possível introduzir o testemunho de pessoa ou pessoas que viram, aqui no seu corredor, O’Neill colocar o lenço no bolso do casaco de Kates. Sei que Goodwin, seu assistente confidencial, estava lá durante todo...

     — Não — disse Wolfe secamente.

     — Isso não quer dizer que eu não estava lá — garanti a Smith, com um sorriso amigável. — Só que já fiz minha declaração muito positivamente. O senhor devia ter vindo mais cedo. Estaria disposto a discutir condições. Quando O’Neill tentou me subornar era domingo, e não aceito subornos aos domingos...

     Seus olhos se dirigiram a mim e me atravessaram:

     — O que é que O’Neill queria que fizesse?

     Abanei a cabeça. Gastei provavelmente mil ergs.

     — Isso não seria justo. Gostaria que eu dissesse a ele o que o senhor queria que eu fizesse?

     Ele sentiu uma enorme tentação de insistir, não havia dúvida sobre sua sede de conhecimento, mas sua crença na conservação de energia, junto com a opinião que formara de mim predominaram. Abandonou o assunto sem maiores tentativas e virou-se para Wolfe:

     — Mesmo se Goodwin não pudesse dar o depoimento, há ainda uma boa chance de se encontrar alguém que possa fornecê-lo.

     — O Sr. Breslow não poderia — declarou Wolfe. — Seria uma péssima testemunha. O Sr. Winterhoff serviria razoavelmente bem. O Sr. Erskine Senior seria ótimo. O jovem Erskine... não sei, duvido. A Srta. Harding seria a melhor de todas. Poderia consegui-la?

     — O senhor está indo depressa demais de novo.

     — Absolutamente. Depressa? Esses detalhes são da máxima importância.

     — Sei que são. Depois que o senhor aceitar o convite. Isso quer dizer que aceita minha sugestão sobre O’Neill?

     — Bem — Wolfe reclinou-se, abriu os olhos mais um pouquinho e juntou as pontas dos dedos sobre a barriga. — Vou lhe dizer uma coisa, Sr. Smith. Creio que a melhor maneira de dizer isso é em forma de mensagem, ou melhor, mensagens, para o Sr. Erskine. Diga ao Sr. Erskine...

     — Não estou representando Erskine. Não mencionei nenhum nome.

     — Não? Pensei ter ouvido o senhor mencionar o Sr. O’Neill, o Sr. Dexter e o Sr. Kates. Entretanto, há uma dificuldade: a polícia ou o FBI podem achar aquela décima fita a qualquer momento, e na certa isso faria nós todos parecermos tolos.

     — Não se tivermos...

     — Por favor, senhor. O senhor já falou. Deixe que eu fale agora. Na hipótese de o senhor encontrar o Sr. Erskine, diga-lhe que estou grato pela sugestão relativa ao valor dos honorários que poderei pedir sem chocá-lo. Lembrar-me-ei disso quando preparar minha conta. Diga-lhe que aprecio seu esforço para pagar os honorários de uma forma que não precisaria aparecer no meu imposto de renda, mas esse tipo de trapaça não me atrai. É uma questão de gosto, e acontece que não gosto. Diga-lhe que sei que cada minuto conta; sei que a morte da Srta. Gunther aumentou o ressentimento do povo a níveis de fúria sem precedentes; li o editorial de hoje do Wall Street Journal; ouvi Raymond Swing no rádio essa noite; sei o que está acontecendo.

     Wolfe abriu ainda mais os olhos:

     — Diga-lhe isto especialmente: se persistir nessa idiotice provavelmente haverá o diabo e não poderei fazer nada, mas mandarei a conta do mesmo modo, e vou receber meus honorários. Agora estou convencido de que ele é um assassino ou um tolo, possivelmente ambos. Graças a Deus ele não é meu cliente. Quanto a seu respeito... não, não me preocupo. Como disse, é apenas um menino de recados, e suponho que seja um advogado de renome, de muito boa reputação. Portanto é um oficiante da lei juramentado. Bolas!... Archie, o Sr. Smith já vai.

     De fato, ele saíra da cadeira e estava de pé. Mas ainda não ia embora. Usando o mesmo tom de voz que usara à porta, quando dissera querer ver o Sr. Wolfe, ele falou:

     — Gostaria de saber se posso contar que o que dissemos será tratado como confidencial. Apenas quero saber o que esperar.

     — O senhor também é um tolo — disse Wolfe duramente. — Qual é a diferença caso eu diga sim ou não... para o senhor? Nem sei seu nome. Eu não faria o que quisesse?

     — O senhor acha... — começou Smith, e não terminou. Provavelmente a frase conforme imaginada deixaria escapar um pouco de emoção, como por exemplo uma raiva absurda, e isso não seria permitido em hipótese alguma. Por isso não creio exagerar quando digo que ele não sabia o que dizer. Continuou assim até a varanda, nem ao menos me dando boa-noite.

     Ao voltar ao escritório Wolfe já tocara pedindo cerveja. Sabia disso por intuição, quando Fritz entrou quase que imediatamente com a bandeja. Cortei-lhe o caminho e disse:

     — O Sr. Wolfe mudou de idéia. Leve de volta. Já passa das dez, ele só dormiu duas horas na noite passada e vai para a cama. E você também e eu.

     Wolfe nada disse e não fez nenhum sinal, por isso Fritz saiu com a bandeja.

     — Isso me lembra — observei — aquele velho quadro que havia na nossa sala de jantar em Ohio, das pessoas num trenó jogando uma criancinha aos lobos que os perseguiam. Isso talvez não se aplique ao Dexter ou ao Kates, mas com toda a certeza se aplica ao O’Neill. Esprit de corps uma ova. Meu Deus, ele era presidente do comitê de jantar. Aquele quadro me preocupava muito. Sob certo ponto de vista, era desumano jogar o bebê, mas por outro lado, se não o jogassem, os lobos eventualmente teriam apanhado todo mundo, bebê, cavalos e tudo. É verdade que o próprio homem poderia ter pulado, ou a mulher. Lembro-me de ter decidido que, se fosse eu, beijaria a mulher e a criança em despedida e então pularia. Naquele tempo eu tinha oito anos, era menor, e hoje em dia não acho que esteja tão obrigado a ter essa atitude. De qualquer modo, o que pensa sobre esses bastardos ordinários?

     — Estão em pânico. — Wolfe ficou de pé, puxou o colete para baixo e começou a se mexer em direção à porta. — Estão desesperados. Boa noite, Archie. — Do portal, sem se virar, resmungou: — Eu também estou.

 

NO DIA seguinte, quarta-feira, vieram os envelopes de Bascom. No correio da manhã chegaram quatro, três na entrega da uma hora (conforme me informaram mais tarde, para dar entrada na contabilidade, pois eu não estava lá quando chegaram) e no fim da tarde chegaram mais nove por mensageiro. Nessa ocasião não tinha a menor idéia da linha em que o batalhão de Bascom avançava, nem sabia o que Saul Panzer e Bil Gore estavam fazendo, já que seus relatórios por telefone eram anotados por Wolfe, com instruções para que eu desligasse. Os envelopes de Bascom foram entregues a Wolfe sem serem abertos, conforme minhas ordens.

     A mim só me davam pequenas tarefas, como, por exemplo, um telefonema para a Companhia Estenofone, pedindo que nos enviassem uma máquina de aluguel por dia, uma que tivesse um alto-falante, como a que o gerente nos trouxera no domingo, e que mandara apanhar na segunda. Não foram muito amáveis e tive de ser bem persuasivo para conseguir uma promessa de entrega imediata. Segui as instruções e consegui a promessa, embora não soubesse para que, pois não tínhamos nada para tocar na máquina. A máquina chegou uma hora mais tarde e instalei-a num canto.

     A única outra atividade naquela quarta de manhã da qual participei foi um telefonema para Frank Thomas Erskine. Mandaram que eu fizesse a ligação, e obedeci informando a Erskine que as despesas estavam aumentando e queríamos um cheque de mais vinte mil dólares logo que ele pudesse. Ele encarou o fato como simples rotina e me pediu uma entrevista com Wolfe para as onze horas, que foi marcada.

     Dessa entrevista, a coisa mais importante foi que, quando chegaram — Breslow, Winterhoff, Hattie Harding e os dois Erskines — às onze em ponto, traziam consigo Don O’Neill! Era uma indicação de que não pretendiam continuar de onde John Smith tinha parado, já que o tema central de Smith era incriminar O’Neill pelos assassinatos, a não ser que estivessem preparados para melhorar a oferta com uma confissão assinada por O’Neill, em três vias, com uma cópia para nossos arquivos, e achei que conhecia O’Neill bem demais para esperar uma coisa dessas, já que ele tentara me dar um pontapé.

     O cheque veio com Erskine. Ficaram mais de uma hora, e não sei por que vieram, a não ser que fosse para nos mostrar em pessoa como estavam deprimidos. Ninguém fez nenhum comentário que tocasse mesmo remotamente na visita de John Smith, nem Wolfe disse nada. Gastaram metade da hora tentando conseguir de Wolfe um relatório sobre o andamento de seu trabalho, o que quer dizer que foi perdida, e a maior parte da outra metade tentando arrancar de Wolfe um prognóstico. Vinte e quatro horas? Quarenta e oito horas? Três dias? Quando, então, pelo amor de Deus? Erskine declarou categoricamente que cada dia extra de demora significava prejuízos sem conta para os interesses vitais da República e para o povo americano.

     — Você está partindo meu coração, Papai — disse o jovem Erskine sarcasticamente.

     — Cale a boca! — rosnou o pai para ele.

     Eles se atracaram e arrancaram os cabelos em nossa frente. A pressão era demais para eles e o DCP já não oferecia mais uma frente unida. Fiquei a examiná-los, lembrando-me da oferta de Smith quanto a colocar o lenço no bolso do casaco de Kates e cheguei à conclusão de que poderia ter vindo de qualquer um deles, sobre qualquer um, exceção feita talvez para Erskine vs. Erskine, e mesmo essa não era de todo improvável. A única contribuição construtiva que fizeram foi o anúncio de que no dia seguinte, na quinta, mais de duzentos jornais da manhã e da tarde, em centenas de cidades e povoados, trariam um anúncio de página inteira oferecendo uma recompensa de cem mil dólares a qualquer pessoa que desse informações que conduzissem à prisão e condenação do assassino de Cheney Boone ou de Phoebe Gunther ou de ambos.

     — Não acha que haverá uma reação saudável a esse anúncio? — perguntou Erskine com voz queixosa, mas sem muita esperança.

     Não ouvi a resposta de Wolfe, nem o resto da conversa, pois tive de subir para passar um pente nos cabelos e lavar minhas mãos. Mal tive tempo de pegar o carro e estacionar à entrada do Waldorf na Rua 49, às doze e cinqüenta, e, como uma vez em um milhão de anos uma garota chega cedo, em vez de chegar tarde, eu não quis me arriscar.

 

NINA BOONE apareceu à uma e quatorze, que era o normal, e portanto não exigiu comentário algum de minha parte. Esperei-a à saída do hotel, levei-a até o carro estacionado e abri a porta. Ela entrou. Virei-me para ver se havia alguém por perto e, conforme esperava, lá estava ele, olhando para a esquerda e para a direita. Não era conhecido nem sabia seu nome, mas já o vira em algum lugar. Fui até ele e disse:

     — Sou Archie Goodwin, o assistente de Nero Wolfe. Se a está seguindo, deve tê-la visto entrar em meu carro. Não posso convidá-lo a vir conosco, pois estou trabalhando com ela, mas aqui estão algumas dicas: posso esperar até você arranjar um táxi, e aposto que o perco em menos de dez minutos; ou posso subornar você para perder a pista aqui mesmo. Três níqueis. Quinze centavos agora e os outros dez ao ler a cópia do seu relatório. Se...

     — Já me disseram que só há dois modos de lidar com você — falou ele. — Um é lhe dar um tiro, e aqui é público demais. O outro — dê-me os quinze centavos.

     — Tudo bem — pesquei as três moedas e lhe dei. — Quem está pagando é o DCP. Na verdade, eu não me importo. Vamos para o Ribeiro, aquele restaurante brasileiro na Rua 52.

     Fui para o carro, entrei ao lado de minha vítima e dei partida.

     Um bom lugar para se conversar é uma mesa de canto na sala lateral do Ribeiro. A comida não é grande coisa para quem come três refeições por dia feitas por Fritz Brenner, mas desce bem, não tem música e você pode mexer com o garfo em qualquer direção sem perigo de ferir ninguém, a não ser seu próprio companheiro.

     Após termos entrado, Nina disse:

     — Não creio que alguém tenha me reconhecido. De qualquer modo, não há ninguém me encarando. Creio que todas as pessoas modestas pensam que seria formidável ser uma celebridade e serem reconhecidas e olhadas por todo o mundo quando fossem aos restaurantes ou outros lugares. Eu pensava assim. Agora simplesmente não suporto isso. Tenho vontade de gritar. É verdade que talvez eu não me sentisse assim se fosse uma estrela de cinema, ou se tivesse feito uma coisa que valesse a pena, sabe, uma coisa notável.

     Foi aí que pensei, então ela quer falar com alguém, além da tia Luella? Pois deixemos ela falar. Disse-lhe:

     — E no entanto, antes de isso acontecer, creio que olhavam para você. Você realmente não é feia.

     — Não? — Ela não tentou rir. — Como sabe? Do jeito que estou agora...

     Eu a inspecionei:

     — É uma má hora para julgá-la — concordei. — Seus olhos estão inchados e tem fechado a boca com tanta força que seu queixo está saliente. Mas o que sobra ainda dá para fazer uma estimativa. A curva do rosto é bonita, a testa e as têmporas são acima do comum. É claro que o cabelo não foi nada afetado. Um homem de cada três que a visse por trás numa calçada andaria mais depressa para vê-la pela frente ou pelo lado.

     — É? E os outros dois?

     — Meu Deus — disse eu, protestando —, que é que você quer de graça? Um em três é uma proporção ótima. Falei nisso porque seu cabelo me atrai e eu até correria um pouco para vê-la.

     — Então da próxima vez vou sentar de costas para você. — Pôs a mão no colo para dar lugar ao garçom. — Eu queria lhe perguntar, e você tem que me dizer, quem lhe pediu para me perguntar onde estava Ed Erskine?

     — Ainda não. Tenho uma regra com as mulheres: durante os primeiros quinze minutos só falamos sobre sua aparência. Sempre há uma oportunidade de eu dizer alguma coisa que ela goste, e daí para a frente tudo se torna fácil. Além disso, enquanto estamos comendo, não seria delicado começar a trabalhar com você. Deveria tirar de você tudo o que sabe, e é isso que vou fazer, mas não devo começar até chegar o café e aí, se eu for bom, você já estará num estado de espírito que me deixará até copiar o número de seu cartão de aposentadoria.

     Ela tentou sorrir:

     — Não gostaria de perder isso. Seria interessante ver você tentar. Mas prometi à minha tia que estaria de volta ao hotel às duas e meia... e, por falar nisso, prometi levá-lo. Quer vir?

     — Ver a Sra. Boone? — disse eu, levantando as sobrancelhas.

     — Sim.

     — Ela quer me ver?

     — Sim. Talvez só por quinze minutos para discutir a aparência dela. Não sei.

     — Com moças com mais de cinqüenta anos, cinco minutos bastam.

     — Ela não tem mais de cinqüenta. Ela tem quarenta e três anos.

     — Cinco minutos chegam. Mas se só temos até as duas e meia, é melhor começarmos sem esperar que eu quebre a sua resistência. Como se sente? Sentiu alguma vontade de relaxar, descansar ou pôr a cabeça nos meus ombros?

     — Nem um pouco. — O tom de voz mostrava sua certeza. — O único impulso que tive foi o de puxar seu cabelo.

     — Então será uma surpresa — disse eu com pesar — se você se soltar o suficiente para me dizer o tamanho de seus sapatos. Veremos, entretanto, logo que ele acabar de servir. Você ainda não acabou seu coquetel.

     Ela bebeu-o todo. O garçom deu a cada um de nós um prato fervendo de camarões cozidos com queijo e cobertos com um molho picante, e vasilhas de salada individuais onde pusera um molho. Nina espetou um camarão com o garfo, decidiu que estava quente demais para comê-lo inteiro, partiu-o ao meio e pôs metade na boca. Não estava com vontade de experimentar comida, mas, quando sentiu o gosto, imediatamente colocou outro no garfo.

     — Gosto desse prato — disse ela. — Agora pode me arrancar as coisas que quiser.

     Terminei de mastigar meu segundo camarão e o engoli. — Minha técnica é um pouco fora do comum — disse eu. — Por exemplo, vocês todos, os dez, não só estão sendo seguidos, como seu passado está sendo vasculhado e peneirado em peneira fina. Gosta desse queijo?

     — Gosto. Adoro.

     — Ótimo. Então viremos aqui mais vezes. Há talvez cem homens... não, mais do que isso, eu me esqueço de como esse caso é importante, investigando o passado de todos vocês, para descobrir, por exemplo, se a Sra. Boone mantinha encontros secretos com Frank Thomas Erskine nas calçadas de Atlantic City, ou se você e Breslow estão impacientes até que a esposa dele concorde com o divórcio Isso leva tempo e dinheiro, e minha técnica é diferente. Prefiro fazer perguntas e resolver logo. Você está?

     — Estou o quê? Impaciente?

     — Para resolver a situação.

     — Não. Estou comendo camarões.

     Engoli outro:

     — Sabe — disse eu, explicando o caso —, estão todos parados, inclusive Nero Wolfe. Não estão tentando complicar o caso porque querem. O modo mais satisfatório de resolver as coisas, o modo que agradaria o maior número de pessoas, incluindo os próprios investigadores, seria o caminho mais simples, isto é, que uma das seis pessoas da ANI matou Cheney Boone por motivos óbvios, e aí teve que matar Phoebe Gunther por outro motivo correlacionado. Mas o problema, se foi assim, é: como é que se vai descobrir qual dos seis é o culpado, quanto mais provar? A polícia de Nova Iorque e o FBI há uma semana trabalham no caso, fazendo o máximo que podem, e onde é que estão? Seguindo você!

     — Bem — disse ela, espetando camarão e queijo — você está pagando meu almoço.

     — Com certeza, e estou lhe dizendo por que, fora seu cabelo e outros detalhes pessoais. Estamos todos perdidos, a não ser que possamos descobrir outro ângulo. Vim vê-la porque existe uma possibilidade de que você saiba alguma coisa sobre outro ângulo, sem desconfiar. É claro que penso que você quer achar o assassino, e quer que ele seja punido. De outro modo...

     — Eu quero. É claro que eu quero.

     — Então que tal tentarmos uma aproximação direta e ver como funciona? Você conhecia algum desses sujeitos da ANI pessoalmente?

     — Não.

     — Nenhum dos seis?

     — Não.

     — E que tal qualquer pessoa da ANI? Havia cerca de mil e quinhentas pessoas no jantar.

     — Isso me parece uma tolice.

     — Então vamos acabar logo com isso. Conhecia?

     — Talvez alguns, ou melhor, seus filhos e filhas. Eu me formei em Smith há um ano, e a gente conhece muitas pessoas. Mas se repassássemos cada minuto, cada palavra de cada conversa, não encontraríamos nada que parecesse isso que você chama de um ângulo, nem de longe.

     — Você acha que não adiantaria nada se eu investigasse?

     — Não. — Olhou para o relógio de pulso. — De qualquer modo, não temos tempo.

     — Está bem. Voltemos ao trabalho. Que tal sua tia? Aqueles encontros secretos com Erskine? Ela tinha encontros secretos?

     Nina fez um ruído que, devido às circunstâncias, passava por uma risada.

     — Pergunte a ela. Talvez ela queira vê-lo por causa disso. Se todos os passados estão sendo investigados, como você disse, creio que agora já estaria estabelecido que tia Luella era total e exclusivamente devotada a meu tio, e a tudo que ele fazia e representava.

     Abanei a cabeça:

     — Você não entendeu. O ponto é justamente esse. Vamos ilustrá-lo: se Boone tivesse sabido alguma coisa em Washington, naquela tarde de terça-feira, sobre algo que Winterhoff tivesse feito, ou qualquer coisa que o decidisse a tomar uma certa atitude que afetasse os negócios de Winterhoff, e se ele tivesse dito isso à sua mulher, quando os dois se encontraram no quarto de hotel (e você também podia ter ouvido, já que estava lá), e se a Sra. Boone conhecesse Winterhoff, não sentimentalmente, mas apenas o conhecesse, e se mais tarde, na sala de recepções, ao falar com Winterhoff, durante seu terceiro coquetel, ela, sem querer, lhe desse uma idéia do que estava acontecendo? É nisso que falo quando me refiro a um novo ângulo. Eu podia inventar mil outros, do mesmo modo como inventei este, mas o que precisamos é de um que tenha acontecido de verdade. Por isso estou perguntando sobre o círculo de relações de sua tia. Acha que é perverso?

     Ela fizera progressos com os camarões, que agora já tinham esfriado o suficiente para permitir isso.

     — Não — admitiu ela —, mas é melhor perguntar a ela mesma. Só posso lhe falar a meu respeito.

     — Claro. Você é nobre e virtuosa. Seu queixo mostra isso. Os anjos arautos cantam. Nota dez em comportamento.

     — O que é que você quer? — perguntou ela. — Você quer que eu lhe diga que vi minha tia se esgueirando para um canto com Winterhoff ou com qualquer um daqueles macacos e falando com eles baixinho? Bem, não vi. E se visse... — Ela parou.

     — Se visse me diria?

     — Não. A despeito do fato de que, em minha opinião, minha tia é uma chata.

     — Você não gosta dela?

     — Não. Não gosto dela, não a aprovo e a encaro como uma relíquia grotesca. Isso está marcado em todo o meu passado, mas é estritamente pessoal.

     — Mas você não chega ao ponto de aceitar a sugestão de Breslow, que diz que a Sra. Boone matou o marido por ciúme de Phoebe Gunther e mais tarde, na casa de Wolfe, terminou o que começara?

     — Não. Alguém aceita?

     — Não sei dizer. — Tendo terminado o último camarão, comecei a salada. — Eu não aceito. Mas a idéia de que a Sra. Boone tinha ciúmes de Phoebe Gunther parece válida.

     — É claro que tinha. Há milhares de moças e senhoras que trabalham no DCP, e ela tinha ciúme de todas.

     — É, principalmente por causa do seu nariz, é claro. Mas Phoebe Gunther não era uma entre milhares. Ela não era especial?

     — Ela era mesmo. — Nina lançou-me um olhar rápido que não consegui interpretar. — Ela era muito especial.

     — Ela ia fazer qualquer coisa tão comum assim como ter um bebê?

     — Oh, Deus. — Nina puxou a salada. — Você caça todas as migalhas, não?

     — Ela ia ter?

     — Não. E minha tia tinha tanta razão de ter ciúmes dela como de qualquer outra. A idéia que tinha de meu tio ser um lobo era simplesmente imbecil.

     — Você conhecia a Srta. Gunther muito bem?

     — Eu a conheci bem. Não intimamente.

     — Gostava dela?

     — Eu... sim, gostava. Pelo menos, eu a admirava. É claro que a invejava. Gostaria de ter seu emprego, mas não era tola bastante para achar que podia executá-lo. Por um lado, sou jovem demais, mas isso é só uma parte, ela não era tão mais velha do que eu. Ela fez serviço de campo por um ano e pouco e conseguiu o melhor recorde de toda a organização. Então trouxeram-na para o escritório principal e dentro em breve ela estava por dentro das coisas. Em geral, quando uma organização dessas ganha um novo diretor, ele muda muitas pessoas de lugar, mas quando meu tio foi nomeado ninguém mexeu em Phoebe, exceto para lhe dar aumento de salário. Se ela fosse dez anos mais velha, e homem, teria sido nomeada diretor quando meu tio... morreu.

     — Quantos anos ela tinha?

     — Vinte e sete.

     — Você a conhecia antes de ela ir trabalhar para o DCP?

     — Não, mas conheci-a no primeiro dia em que fui lá, porque meu tio pediu que ela olhasse por mim.

     — E ela olhou?

    — De um certo modo, sim, tanto quanto seu tempo permitia. Era muito importante e muito ocupada. Ela tinha febre de DCP.

     — É mesmo? — O garfo de salada parou a meio caminho da minha boca. — Caso grave?

     — Um dos casos mais graves de que se tem notícia.

     — Quais eram os principais sintomas?

     — Variam com o caráter e o temperamento. Na sua forma mais simples, uma crença firme de que tudo o que o DCP faz está certo. Há todos os tipos de complicação, desde ódio amargo e imortal à ANI até uma vontade messiânica de educar os jovens, dependendo se você é um lutador ou alguém que gosta de praticar o bem.

     — Você tem?

     — É claro que tenho, mas não em sua forma aguda. Comigo é uma coisa mais pessoal. Eu gostava muito de meu tio. — Durante um momento, seu queixo pareceu que ia perder o controle e ela parou para que ele ficasse quieto. E aí explicou: — Nunca tive um pai, isto é, que eu conhecesse, e amava tio Cheney. Não sei muita coisa sobre isso, mas eu amava meu tio.

     — Quais eram as complicações de Phoebe?

     — Todas. — O queixo já estava normal. — Mas ela nascera lutadora. Não sei o quanto os inimigos do DCP, por exemplo, os chefes da ANI, sabiam sobre sua organização interna, mas se a inteligência deles valesse alguma coisa, deviam saber a verdade sobre Phoebe. Na realidade, ela era mais perigosa para eles do que meu tio. Já ouvi meu tio dizer isso. Uma reviravolta política podia tê-lo tirado de lá, mas enquanto ela estivesse lá isso não faria diferença.

     — Isso ajuda muito — resmunguei —, mas não sei para quê. Dá às mesmas pessoas precisamente o mesmo motivo, tanto para ele como para ela. Se é isso que você chama de um novo ângulo...

     — Não chamo de nada. Você me perguntou.

     — É verdade. Que tal uma sobremesa?

     — Acho que não.

     — É melhor comer. Você vai ter que me ajudar com sua tia a tarde toda e, como não gosta dela, vai gastar mais energia. Aqui tem um bom pudim de nozes com canela.

     Ela concordou que era uma boa idéia e fiz o pedido ao garçom. Enquanto tiravam tudo da mesa e esperávamos o pudim e o café, continuamos falando de Phoebe Gunther, sem que nenhuma nova revelação aparecesse, surpreendente ou não. Falei pela primeira vez sobre a décima fita, e Nina fez pouco da sugestão de que Phoebe podia ter escondido o fato de manter relações com alguém do DCP, e ter jogado fora a fita porque o implicava, ou poderia vir a implicar. Concordei, e perguntei-lhe sobre a possibilidade de a fita incriminar Solomon Dexter ou Alger Kates. O que havia de errado nisso?

     De colher na mão, pronta para começar o pudim, balançou a cabeça negativamente. Disse que era tolice. Era absurdo pensar que Dexter pudesse ter feito qualquer coisa que atingisse Boone, atingindo dessa forma o DCP também.

     — Além disso, ele estava em Washington. Só chegou a Nova Iorque tarde naquela noite, quando o mandaram chamar. Quanto ao Sr. Kates, meu Deus, olhe para ele! Parece uma máquina de calcular!

     — Pois sim que é. Ele é sinistro.

     — Alger Kates sinistro! — disse ela, espantada.

     — Misterioso, de qualquer forma. Na casa de Wolfe, naquela noite, Erskine acusou-o de matar seu tio porque ele queria se casar com você e seu tio se opunha, e Kates concordou que queria se casar com você, juntamente com outros duzentos apaixonados do DCP, e mais tarde, na mesma noite, descobri que já é casado e a mulher está na Flórida. Uma máquina de calcular casada não deseja outra jovem donzela.

     — Bobagem. Ele estava apenas sendo gentil ou delicado.

     — Uma máquina de calcular não é gentil. Outra coisa, de onde vem o dinheiro para mandar a mulher para a Flórida, com os preços como estão, e deixá-la lá até o fim de março?

     — Realmente — disse Nina, parando de comer o pudim. — Não importa o que Nero Wolfe está cobrando da ANI, você certamente está fazendo o possível para merecê-lo! Você adoraria inocentá-los completamente... e parece que não se importa como! Talvez o Sr. Kates tenha ganho dinheiro num bingo paroquial. Devia verificar isso!

     Dei-lhe um sorriso:

     — Quando seu rosto fica corado assim tenho vontade de recusar qualquer parte do meu salário pago com dinheiro da ANI. Algum dia lhe direi como está enganada ao pensar que nós queremos pôr a culpa em um de seus heróis, como Dexter ou Kates. — Olhei para meu pulso. — Você só tem tempo de terminar o cigarro e o café. — O que é, Carlos?

     — Telefone, Sr. Goodwin. Na cabine do meio.

     Tive vontade de pedir que dissesse que eu já saíra, pois tive uma suspeita natural que era o sujeito que eu subornara com três moedas, querendo saber quanto tempo ainda ficaríamos lá, mas pensei melhor e pedi desculpas por ir ao telefone, pois só uma pessoa mais sabia onde estávamos.

     Era realmente essa pessoa.

     — Aqui é Goodwin.

     — Archie. Venha para cá imediatamente.

     — Por quê?

     — Sem demora!

     — Mas ouça. Estamos saindo para ir ver a Sra. Boone. Consegui que ela concordasse em me ver. Eu lhe farei um...

     — Eu disse: venha para cá.

     Não adiantava discutir. Parecia que ele tinha em sua frente seis tigres, batendo o rabo, prontos para pular. Voltei à mesa e disse a Nina que nossa tarde estava perdida.

 

TENDO deixado Nina na porta do Waldorf, com nosso subornado preferido atrás num táxi, e tendo passado pelos sinais amarelos e conseguido atravessar o tráfego congestionado até a Rua 35 Oeste, fiquei aliviado ao ver, quando cheguei ao destino e freei o carro no meio-fio, que a casa não estava pegando fogo. Visíveis, só havia dois itens estranhos: um carro de polícia parado bem defronte da casa e um homem na varanda. Estava sentado no último degrau, ombros curvados, parecendo tristonho e obstinado.

     Eu o conhecia de nome, era Quayle. Ao chegar em cima ele já estava de pé, e me falou com o que pensava ser cordialidade:

     — Alô, Goodwin! Isso é que é sorte. Ninguém atende à porta aqui, quando você não está? Vou entrar com você.

     — Um prazer inesperado — disse-lhe eu, usando minha chave, girando a maçaneta e empurrando a porta. A porta abriu duas polegadas e parou. A corrente estava no lugar, como é freqüente quando estou ausente. Pus o dedo no botão da campainha e dei meu toque particular. Num minuto ouviu-se o barulho dos passos de Fritz pelo corredor e ele me disse pela fresta da porta:

     — Archie, esse aí é polícia. O Sr. Wolfe não quer...

     — É claro que ele não quer. Tire a corrente e fique nos olhando. Esse oficial que está cumprindo ansiosamente seu dever pode perder o equilíbrio e cair degraus abaixo e posso precisar de você como testemunha de que não o empurrei. Ele deve ter o dobro de minha idade.

     — Seu filho da mãe metido a engraçadinho — disse Quayle tristemente, sentando-se novamente no degrau.

     Entrei, fui pelo corredor até o escritório e vi Wolfe sozinho atrás da escrivaninha, sentado bem reto, os lábios numa linha fina, os olhos abertos, as mãos sobre a mesa em sua frente com os dedos curvos como se estivessem prontos para alcançar uma garganta. Olhou-me rapidamente:

     — Por que diabos demorou tanto?

     — Agora ouça um minuto — tentei acalmá-lo. — Vim o mais rápido que pude com o tráfego, sabendo que você estava tendo um ataque. Estão prendendo-o?

     — Isso é insuportável. Quem é o Inspetor Ash?

     — Ash? Você se lembra dele. Era capitão sob as ordens de Cramer de 1938 a 1943. Agora é encarregado de homicídio em Queens. Tipo alto, rosto ossudo, olhos plásticos, incorruptível e sem nenhum senso de humor. Por que, que é que ele fez?

     — O carro está em boa condição?

     — Lógico. Por quê?

     — Quero que você me leve à Central de Polícia.

     — Meu Deus. — Então era algo não apenas sério mas drástico. Sair de casa, entrar no carro, incorrer em todos os riscos externos, visitar um policial e, além de tudo, o que nunca acontecera até então, abandonar as orquídeas no encontro das quatro. Caí numa cadeira, sem fala, e fitei-o.

     — Felizmente — disse Wolfe — quando aquele homem chegou a porta estava trancada. Ele disse ao Fritz que veio me buscar para ver o Inspetor Ash. Quando Fritz lhe deu a resposta habitual, ele mostrou um mandado através da fresta da porta e Fritz empurrou o papel para fora de novo e fechou a porta. E, através do vidro da janela, viu-o caminhando até a esquina, presumivelmente para telefonar, já que deixou o carro aqui em frente.

     Observei então: — Só isso, o fato de deixar o carro em frente de sua casa, mostra o tipo de homem que ele é. O carro não é sequer dele. Pertence à municipalidade.

     Wolfe nem me ouviu:

     — Chamei o escritório do Inspetor Cramer e disseram-me que não estava. Consegui por fim falar com alguém que respondia pelo Inspetor Ash, e me disseram que o homem que viera até aqui tinha feito um relatório pelo telefone e que, a não ser que eu o deixasse entrar, aceitasse o mandado e fosse com ele, um mandado de busca seria enviado imediatamente. Com grande dificuldade, consegui falar com o comissário de polícia. Ele não tem coragem. Tentou usar de evasivas. Fez o que chamou de uma concessão, declarando que eu podia ir ao escritório dele em vez de ao escritório de Ash. Respondi-lhe que só se usassem força física eu iria num carro que não fosse dirigido por você, e disseram que esperariam até três e meia, no máximo. Um ultimato com limite de tempo. Disse-me também que Cramer fora removido do caso Boone-Gunther, destituído do comando e substituído pelo Inspetor Ash. A situação é essa. É inaceitável.

     Eu o fitava, incrédulo:

     — Cramer foi despedido?

     — Isso é o que o Sr. Sei-lá-seu-nome disse.

     — Quem, Hombert? O comissário?

     — Sim. Que diabos, devo repetir tudo?

     — Pelo amor de Deus, não. Tente relaxar. Que diabo! Pegaram Cramer. — Olhei para o relógio. — São três e cinco e aquele ultimato provavelmente tem pouca margem para erros. Descanse um pouco e tente pensar em qualquer coisa agradável.

     Fui até a frente, puxei a cortina para olhar através do vidro e vi que Quayle tinha conseguido um colega. Os dois estavam sentados no degrau com as costas viradas para mim. Abri a porta e perguntei com gentileza:

     — Qual é o programa agora?

     Quayle virou-se: — Temos outro papel. Que mostraremos quando chegar a hora. O tipo de lei que abre todas as portas, da mais poderosa à mais humilde.

     — Para ser mostrado quando? Às três e meia?

     — Vá chupar um pirulito.

     — Ora, diga para ele — grunhiu seu colega. — Que é que você espera tirar disso, fama?

     — Ele é engraçado — disse Quayle com petulância. Torceu o corpo para me olhar. — Às três e meia tornamos a telefonar para recebermos as ordens.

     — Assim é que se fala — declarei aprobatoriamente. — E o que acontece se saio com um grande objeto parecido com Nero Wolfe e o coloco no meu carro e dou a partida? Você apresenta seu primeiro papel e interfere?

     — Não. Vamos segui-lo, se for direto para a Rua Central. Se tentar fazer uma volta por Yonkers, aí é diferente.

     — Está bem. Aceito sua palavra de honra. Se você se esquecer do que disse e tentar agarrá-lo, vou reclamar ao Departamento de Saúde. Ele está doente.

     — De quê?

     — De desejarsentar. Crônica. O oposto de desejarandar. Você não quer pôr em risco uma vida humana, não?

     — Sim.

     Satisfeito, fechei a porta, voltei ao escritório e disse a Wolfe:

     — Tudo arranjado. Apesar de termos acompanhantes, eu irei para a Rua Central ou fugimos para o Canadá, o que preferir. Pode me dizer depois que estivermos no carro.

     Ele sentou-se mais ereto ainda, com os lábios mais apertados do que nunca.

 

— VOCÊ NÃO é um advogado — declarou o Inspetor Ash, num tom de voz insultante, embora a declaração em si não fosse um insulto. — Nada do que lhe foi dito ou escrito por qualquer pessoa que seja tem o status de comunicação confidencial.

     Não era o tipo de reunião que eu esperava. Além de Wolfe e eu, os únicos presentes eram Ash, o Comissário de Polícia Hombert e o Promotor Público Skinner, o que fazia com que o escritório de Hombert, espaçoso e bem mobiliado, parecesse desabitado, mesmo considerando que Wolfe contava por três. Pelo menos ele não estava sofrendo privações físicas, pois tinham encontrado uma cadeira suficientemente grande para acomodar seu volume sem apertar demais.

     Mas ele não fazia nenhuma concessão.

     — Essa declaração — disse a Ash, no seu tom de voz mais desagradável — é infantil. Suponhamos que alguém me disse alguma coisa que eu não quero que o senhor saiba. O senhor acha que eu admitiria isso, e depois me recusaria a falar sobre ele, dizendo ser uma declaração confidencial? Tolice. Admitamos que o senhor insistisse. Eu simplesmente lhe contaria um monte de mentiras, e daí?

     Ash sorria. Seus olhos plásticos tinham o efeito de refletir toda a luz que vinha de quatro grandes janelas, como se a superfície deles não pudesse absorver ou fornecer luz.

     — O problema com você, Wolfe — disse ele secamente —, é que foi estragado pelo meu predecessor, Inspetor Cramer. Ele não sabia como manejá-lo. Você o mantinha encurralado. Você vai sentir uma grande diferença, agora que sou eu a exercer o cargo. Daqui a um mês, ou daqui a um ano, pode ser que você ainda tenha uma licença, mas pode ser que não. Depende de seu comportamento. — Bateu no peito com o indicador. — Você me conhece. Deve se lembrar até onde foi com o caso Boeddiker em Queens.

     — Nunca comecei. Desisti. E o modo abominável como procedeu não forneceu ao promotor provas suficientes para condenar um assassino cuja culpa era evidente. Sr. Ash, o senhor é um parvo e um arruaceiro.

     — Então vai experimentar comigo. — Ash ainda sorria. — Talvez eu não lhe dê nem um mês. Não vejo por que...

     Hombert interrompeu: — Já basta.

     — Sim, senhor — disse Ash respeitosamente. — Eu só queria...

     — Não ligo a mínima para o que queria. Estamos num aperto dos diabos, e é só nisso que estou interessado. Se quer ficar em cima de Wolfe nesse caso, vá até onde quiser, mas deixe o resto para depois. Você foi quem teve a idéia de que Wolfe estava escondendo alguma coisa e de que é hora de apertá-lo. Vá em frente. Com isso eu concordo.

     — Sim, senhor. — Ash parara de sorrir e estava sério. — Só sei de uma coisa: em todos os casos de que já ouvi falar onde Wolfe entrou e chegou até a um ponto onde sabia que lhe viria dinheiro, sempre conseguiu descobrir alguma coisa que ninguém mais foi capaz de descobrir, e sempre a guardou com ele o tempo que lhe foi conveniente.

     — O senhor foi trazido até aqui para nos dizer o que Promotor Público Skinner. — Podia acrescentar que, quando solta o que sabe, o resultado geralmente é desastroso para aquele que infringe a lei.

     — É? E isso é motivo para deixar que ele faça o que quer com o Departamento de Polícia e com o seu escritório?

     Wolfe interrompeu: — Gostaria de perguntar se me trouxeram aqui para ouvir uma discussão sobre minha carreira e meu caráter. Esse bate-boca é uma frivolidade.

     Ash estava ficando excitado. Olhou-o zangado:

     — O senhor foi trazido até aqui para nos dizer o que sabe, e tudo que sabe, sobre esses crimes. O senhor diz que eu sou um parvo. Eu não digo que o senhor o seja, longe disso. Aqui está minha opinião sobre o senhor numa frase curta. Não ficaria surpreso se o senhor soubesse alguma coisa que lhe dê uma boa idéia de quem matou Cheney Boone e a jovem Gunther.

     — Lógico que sei. E o senhor também sabe.

     Todos se mexeram e emitiram sons. Sorri para todos, despreocupado, para dar a impressão de que não havia motivo para ficar nervoso, porque estava certo de que Wolfe estava exagerando além do normal só para acertar contas com eles, e as conseqüências podiam ser desastrosas. Sua natureza romântica freqüentemente o levava a praticar atos desse tipo, e quando começava era difícil fazê-lo parar, sendo que uma de minhas funções era fazê-lo parar. Antes que terminassem de exclamar e de se mexer, eu entrei:

     — Isso não quer dizer — expliquei rapidamente — que estejamos com o assassino no carro. Ainda temos de acertar alguns detalhes.

     Os movimentos de Hombert e de Skinner eram apenas algumas reações musculares, mas Ash saíra de sua cadeira e fora com arrogância até perto de Wolfe, onde parou para encará-lo de cima. Suas mãos estavam nas costas, o que, de certo modo, surtia efeito, mas teria sido melhor se ele tivesse se lembrado que, na posição clássica de Napoleão, os braços ficam cruzados.

     — Você ou está falando sério ou não — disse ameaçadoramente. — Se é um blefe, vai engoli-lo. Se não for, ao menos uma vez na vida você vai contar tudo. — Sua cabeça ossuda virou-se para Hombert. — Deixe-me levá-lo, senhor. Aqui no seu escritório talvez seja embaraçoso.

     — Imbecil — disse Wolfe. — Completamente imbecil. — Fez força e levantou-se. — Relutantemente, aceitei a necessidade de uma longa e infrutífera discussão de um problema extremamente difícil, mas isso aqui é cômico. Leve-me para casa, Archie.

     — Não, você não vai — disse Ash, ainda mais ameaçadoramente. Agarrou o braço de Wolfe. — Você está preso, meu homem. Dessa vez você...

     Eu sabia que, quando queria, Wolfe era capaz de se mover rápido. Sabendo que ele não gostava que ninguém o tocasse, já me preparava para agir quando vi que Ash ia agarrá-lo pelo braço, mas a velocidade e precisão com que deu um tapa na cara de Ash foi uma verdadeira surpresa, não só para mim mas para o próprio Ash. Ele nem viu o que ia acontecer até recebê-lo, um tapa saudável, dado de mão aberta, produzindo um som altamente satisfatório. Os olhos de Ash brilharam e simultaneamente seu punho esquerdo levantou-se, fazendo com que eu me movimentasse para cima e para a frente. A emergência era medida em termos de décimos de segundos e não permitia nada muito complicado, por isso simplesmente me interpus entre os dois, e assim o punho de Ash atingiu meu ombro direito antes que adquirisse muita força. Com grande presença de espírito, não dobrei nem ao menos o cotovelo, ficando ali apenas como uma barreira; mas Wolfe, que sempre afirma detestar uma briga, disse-me, através dos dentes cerrados:

     — Bata nele, Archie. Derrube-o.

     A essa altura, Hombert já estava junto e Skinner estava por perto. Quando vi que eram contra derramamento de sangue, e como não queria ser posto na cadeia por atingir um inspetor, recuei. Wolfe olhou-me zangado e disse, ainda entre os dentes:

     — Eu estou preso. Você não. Telefone ao Sr. Parker para que ele arranje fiança imed...

     — Goodwin vai ficar aqui mesmo. — Os olhos de Ash mostravam raiva. Nunca tive vontade de lhe mandar um cartão de aniversário, mas fiquei surpreso de ver como era mesquinho. — Ou antes, vocês dois vêm comigo...

     — Agora ouçam. — As mãos de Skiner estavam espalmadas à sua frente, como tentando acalmar uma multidão. — Isso é ridículo. Todos nós queremos...

     — Estou preso?

     — Oh, esqueça-se disso. Tecnicamente, suponho...

     — Então estou. Vocês todos podem ir para o inferno. — Wolfe voltou para a cadeira grande e sentou-se. — O Sr. Goodwin vai telefonar para meu advogado. Se querem que eu saia, mandem alguém me carregar. Se querem que discuta alguma coisa com vocês, se querem que eu diga uma só palavra, eliminem esses mandados e livrem-se do Sr. Ash. Ele me irrita.

     — Vou levá-lo — disse Ash. — Ele bateu num oficial.

     Hombert e Skinner se entreolharam. Então olharam para Wolfe, depois para mim e novamente um para o outro. Skinner abanou a cabeça enfaticamente. Hombert olhou de novo para Wolfe e depois virou-se para Ash.

     — Inspetor — disse ele —, creio que é melhor deixar isso para mim e para o promotor público. O senhor não está nesse caso tempo suficiente para digerir a situação, e, embora eu consentisse quando propôs trazermos Wolfe aqui, duvido que o senhor esteja suficientemente a par de todos os aspectos. Já o informei de onde veio a maior pressão para tirar o Inspetor Cramer desse caso, o que significava removê-lo desse comando, e, portanto, é bom considerar que o cliente de Wolfe é a Associação Nacional da Indústria. Queiramos ou não, temos de levar isso em consideração. É melhor que o senhor volte aos seus escritórios, estude mais os relatórios e continue suas operações. Nesse momento, há um total de quase quatrocentos homens trabalhando nesse caso. Só isso é bastante trabalho para um homem só.

     Ash, com o maxilar tremendo e os olhos brilhando, disse com esforço:

     — O senhor é quem decide. Conforme lhe disse, e como o senhor já sabia, há anos que Wolfe faz o que quer. Se quer que ele não sofra punições após chamar um de seus subordinados de imbecil e de atacá-lo fisicamente em seu próprio escritório...

     — Nesse momento não ligo a mínima para quem está fazendo o quê — Hombert disse, meio exasperado. — Só me preocupo com uma única coisa: resolver esse caso, e se isso não acontecer logo, eu talvez nem tenha subordinados. Volte ao trabalho e telefone-me se houver algo novo.

     — Sim, senhor. — Ash foi até Wolfe, que estava sentado, até seus sapatos se tocarem. — Algum dia — prometeu — vou ajudá-lo a perder algum peso.

     Aí saiu da sala.

     Voltei à minha cadeira. Skinner já voltara para a dele. Hombert olhou a porta que se fechava atrás do inspetor, passou a mão pelos cabelos, abanou a cabeça devagar algumas vezes, foi até a sua cadeira atrás da escrivaninha, sentou e apanhou o telefone. Logo falou:

     — Bailey? Anule aquele pedido de prisão de Nero Wolfe como testemunha. Agora mesmo. Não, cancele apenas. Mande-me...

     — E o mandado de busca — disse eu.

     — Também o mandado de busca na casa de Nero Wolfe. Não, cancele também. Mande os papéis para mim.

     Desligou e virou-se para Wolfe:

     — Muito bem, você conseguiu. Agora, o que é que sabe?

     Wolfe deu um suspiro profundo. Quem olhasse rapidamente para ele teria a impressão de que estava calmo outra vez; para meu olhar experiente, porém, vendo que ele batia no braço da poltrona com o dedo do meio, era evidente que ainda havia muita agitação.

     — Primeiro queria saber uma coisa. Por que é que o Sr. Cramer foi rebaixado e afastado.

     — Não foi.

     — Tolice. Classifique o fato como quiser. Por quê?

     — Oficialmente, foi para mudar de local. Extra-oficial-mente, porque perdeu a cabeça, considerando as pessoas que estão envolvidas, e deu um passo maior do que o departamento podia suportar. Quer você goste ou não, há uma coisa chamada senso de proporção. Algumas pessoas não podem ser tratadas como um grupo de vigaristas.

     — A pressão veio de onde?

     — De todos os lugares. Nunca vi nada igual. Não vou citar nomes. De qualquer modo, essa não foi a única razão. Cramer estava enrolando tudo. Pela primeira vez desde que o conheço ele se atrapalhou. Na conferência aqui ontem pela manhã ele nem conseguia discutir o assunto inteligentemente. Estava com o pensamento preso a uma única coisa, e só falava ou pensava nisso — aquela fita que está faltando, a décima fita, que poderia ou não ter estado na maleta de couro que Boone deu à Srta. Gunther pouco antes de ser assassinado.

     — O Sr. Cramer estava se concentrando nisso?

     — Sim. Cinqüenta homens estavam procurando por ela e queria pôr mais cinqüenta no caso.

     — E essa foi uma das razões por que foi removido?

     — Sim. Na realidade, foi a principal razão.

     Wolfe resmungou: — Ah. Então você também é um imbecil. Não pensei que Cramer fosse capaz de perceber isso. Isso dobra minha admiração e respeito para com ele. Encontrar aquela fita é, se não nossa única chance, a melhor que temos, sem dúvida alguma. Se nunca for encontrada, é bastante provável que nunca apanhemos o assassino.

     Skinner emitiu um grunhido de protesto bem alto:

     — Isso é bem de você, Wolfe! Sempre achei que estava só despistando. Você disse que já a tinha.

     — Eu não disse nada disso.

    — Você disse que sabia quem era.

     — Não. — Wolfe estava truculento. Tendo se exaltado a ponto de cometer agressão e injúria, não tinha, de forma alguma, se acalmado ainda. — Eu disse que sei de uma coisa que me dá uma visão clara de quem é o assassino, e disse que vocês também sabem. Sabem de muitas coisas que não sei. Não tentem fingir que fiz com que afastassem o Sr. Ash e me tirassem de custódia porque dei a impressão de que estou preparado para dar o nome do culpado e fornecer as provas. Não estou.

     Hombert e Skinner se entreolharam. Fez-se silêncio.

     — Seu bastardo impenetrável — disse Skinner, mas sem gastar muita energia.

     — Na realidade então — disse Hombert, ressentido — o que você está dizendo é que não tem nada a nos contar, que não tem nada a nos oferecer, que não pode nos ajudar.

     — Estou ajudando da melhor forma que posso. Estou pagando a um homem vinte dólares por dia para explorar a possibilidade de a Srta. Gunther ter partido aquela fita em pedacinhos e os colocado na lata de lixo do seu apartamento em Washington. Isso é ir aos extremos, porque duvido que ela a tivesse destruído. Creio que ela pensava utilizá-la algum dia.

     Hombert remexeu-se impacientemente na cadeira, como se a idéia de procurar uma desgraçada de uma fita, talvez até partida, apenas o irritasse. Disse:

     — Que tal se você nos disser o que é que nós todos sabemos que lhe dá uma boa idéia de quem é o assassino, e seu nome. Extra-oficialmente.

     — Não é uma coisa só.

     — Não me importo se for uma dúzia de coisas. Tentarei lembrar-me delas. Quais são?

     Wolfe abanou a cabeça: — Não, senhor.

     — Por que não?

     — Por causa da maneira idiota como trataram o Sr. Cramer. Se fizesse sentido para vocês, e eu acho que faria, diriam ao Sr. Ash, e Deus sabe o que ele faria. Por pura sorte, ele talvez até fizesse alguma coisa que resultasse na solução do caso, e não há nada no mundo que me faça deixar que isso aconteça.

     O dedo médio de Wolfe começou a tamborilar na poltrona de novo:

     — Ajudar ao Sr. Ash a conseguir um triunfo? Deus me livre! — Olhou para Hombert de testa franzida. — Além disso, já lhes dei o melhor conselho possível: encontrem a fita. Ponham cem homens nisso, mil. Encontrem-na!

     — Não estamos nos esquecendo daquela maldita fita. Diga-me, você acha que a Srta. Gunther sabia quem matou Boone?

     — É lógico que sim.

     Skinner entrou na conversa, dizendo com pessimismo:

     — É claro que você gostaria que fosse assim, pois eliminaria seus clientes. Se a Srta. Gunther sabia quem era, e era um homem da ANI, ela o entregaria numa bandeja. Por isso, se ela sabia, devia ser e é um dos outros quatro: Dexter ou Kates ou uma das duas Boones.

     — Absolutamente — disse Wolfe, contradizendo-o.

     — Mas, que diabos, é claro que sim!

     — Não. — Wolfe deu um suspiro. — O senhor não está vendo o ponto principal. Qual foi o fato mais importante desse caso, durante toda a semana? Qual foi sua característica peculiar? Isto: que o público, o povo, imediatamente trouxe o caso a julgamento, como de costume, sem esperar uma prisão, e, em vez da discordância prolongada habitual e da discórdia sobre os vários suspeitos, chegou imediatamente a um veredicto. Ele condenou, quase unanimemente — e esse é o fato peculiar — não um indivíduo, mas uma organização. O veredicto foi que a Associação Nacional da Indústria assassinou Cheney Boone. Agora, e se o senhor fosse a Srta. Gunther, e soubesse quem assassinou Boone? Não importa como tivesse descoberto, essa é outra questão; o caso é que sabia. Eu creio que ela sabia. Vamos supor que ela soubesse que fora o jovem Erskine. Ela o teria denunciado? Não. Ela era devotada aos interesses de sua própria organização, o DCP. Ela viu a corrente de ressentimento e indignação que crescia contra a ANI, que aumentava constantemente de força e intensidade. Ela viu que, se continuasse por algum tempo, resultaria no completo descrédito da ANI e seus propósitos, política e objetivos. Ela era inteligente bastante para calcular que, se um indivíduo, não importa quem, fosse preso pelo assassinato com provas fortes, a maior parte do ressentimento contra a ANI, como uma organização, se esvairia.

     Wolfe suspirou de novo:

     — O que é que ela faria? Se tivesse provas contra o Sr. Erskine, ou qualquer outro, ela as suprimiria; mas não as destruiria, porque não haveria de querer que eventualmente o assassino escapasse ao seu castigo. Ela as colocaria onde não pudessem ser encontradas, mas onde pudesse apanhá-las e exibi-las quando chegasse a hora, quando a ANI já estivesse suficientemente desacreditada. Não é nem necessário presumir que a lealdade ao DCP fosse seu motivo dominante. Suponhamos que fosse devoção pessoal ao Sr. Boone e um desejo de vingá-lo. A melhor vingança, a vingança perfeita, seria usar sua morte, e o modo como morreu, para constranger e destruir uma organização que o detestara e tentara prejudicá-lo. Na minha opinião, creio que a Srta. Gunther seria capaz de uma coisa dessas. Era uma mulher notável. Mas cometeu o erro de deixar o assassino saber que ela sabia quem ele era, como, ainda não sabemos, e pagou caro por isso.

     Wolfe levantou a mão e deixou-a cair:

     Entretanto, prestem atenção. Sua própria morte também ajudou seu propósito. A raiva contra a ANI aumentou terrivelmente durante os últimos dois dias. Está se entranhando no sentimento das pessoas e em breve será impossível desalojá-la. Ela era uma mulher notável. Não, Sr. Skinner, o fato de a Srta. Gunther conhecer a identidade do assassino não eliminaria meus clientes. Além disso, não tenho um homem para cliente, nem homens. Meus cheques provêm da Associação Nacional da Indústria que, por não ter alma, não pode cometer assassinato.

     Wolfe lançou um olhar a Hombert.

     — Falando em cheques. O senhor viu o anúncio da ANI oferecendo uma recompensa de cem mil dólares. É bom deixar que seus homens saibam que quem achar a fita, vai receber a recompensa.

     — É? — Hombert mostrava-se cético. — Você está como Cramer. O que o faz ficar tão certo sobre a fita? Você está com ela no bolso?

     — Não. Ah, se eu estivesse!

     — Mas o que o faz ter tanta certeza?

     — Bem, não posso dizer numa só frase.

     — Temos todo o tempo que for necessário.

     — O Sr. Cramer não lhes explicou?

     — Esqueça Cramer. Ele está fora disso.

     — O que não depõe a seu favor, senhor.

     Wolfe arrumou seus ângulos e pressões, movendo sua massa para que o centro de gravidade ficasse no lugar certo, a fim de obter o máximo conforto. Uma cadeira com que não estava acostumado sempre lhe trazia complicados problemas de engenharia.

     — Quer mesmo que eu fale a respeito?

     — Sim.

     — Sr. Skinner?

     — Sim.

     — Está bem, vou explicar. — Wolfe fechou os olhos. — Desde o princípio, ficou claro que a Srta. Gunther estava mentindo sobre a maleta de couro. É claro que o Sr. Cramer sabia disso. Quatro pessoas declararam tê-la visto sair da sala de recepção com ela, pessoas que, na ocasião, não faziam nenhuma idéia de que seu conteúdo tinha alguma coisa a ver com assassinato — a não ser que estivessem todos juntos numa conspiração de assassinato, o que é absurdo — e portanto não tinham nenhuma razão válida para mentir. Além disso, a Sra. Boone mal pôde se conter para não acusar a Srta. Gunther de mentir, e a Sra. Boone estava na mesma mesa que ela no salão de festas. Portanto, a Srta. Gunther estava mentindo. Isso é claro.

     — Continue — disse Skinner.

     — É o que pretendo fazer. Por que ela mentiu sobre a maleta e fingiu que havia desaparecido? Obviamente, porque não queria que o texto das fitas, uma ou várias, viesse a ser conhecido. E por que não queria? Não apenas porque continha informação ou projetos confidenciais do DCP. Ela sabia que um texto dessa natureza poderia ser entregue ao FBI com segurança, mas suprimiu a fita audaciosa e atrevidamente. E só o fez porque alguma coisa nela mostrava definitivamente, e sem margem de erros, quem era o assassino do Sr. Boone. Ela...

     — Não! — Hombert reclamou. — Isso está errado. Ela mentiu sobre a maleta antes de saber disso. Na quarta-feira de manhã, a manhã após Boone ter sido morto, ela nos disse que deixara a maleta no peitoril da janela na sala de recepção, antes de ter oportunidade de ouvir o que estava na fita. Por isso ela não podia saber desse fato.

     — Sim, podia.

     — Ela podia saber o que estava naquelas fitas antes de ter acesso a uma máquina de estenofone?

     — Claro. Pelo menos no que uma delas continha. Quando o Sr. Boone deu-lhe a maleta, na terça-feira à noite, na saleta onde logo seria morto, contou-lhe o que estava na fita. É claro que ela também mentiu a esse respeito; ela tinha que mentir, é natural. Ela mentiu-me a esse respeito, muito convincentemente, na sexta-feira à noite no meu escritório. Eu deveria ter-lhe avisado, naquela ocasião, que ela estava sendo tão tola a ponto de ser imprudente, mas não o fiz. Teria perdido meu tempo. No seu temperamento não existia cautela sobre segurança pessoal — conforme os acontecimentos provaram. Se existisse, ela não permitiria que um homem que ela sabia que fora capaz de cometer assassinato se aproximasse dela, sozinha, na varanda da minha casa.

     Wolfe abanou a cabeça, os olhos ainda fechados:

     — Ela era de fato extraordinária. Seria interessante saber onde escondeu a maleta com as fitas até a tarde de quinta-feira. Seria muito arriscado escondê-la no apartamento do Sr. Kates, que poderia ser revistado pela polícia a qualquer hora. Talvez ela a tivesse depositado na sala de guardados da Grand Central Station, mas parece-me que, para ela, isso seria um pouco banal. De qualquer modo, estava com ela na mala quando foi a Washington na terça à tarde, com o Sr. Dexter e com sua permissão.

     — Permissão de Cramer — resmungou Hombert.

     Wolfe nem prestou atenção. Continuou, elevando a voz:

     — Gostaria de enfatizar que nada disso é conjetura, exceto no que diz respeito a detalhes sem importância, como cronologia e método. A Srta. Gunther foi ao seu escritório, ouviu as fitas e descobriu qual delas continha a mensagem sobre o que o Sr. Boone lhe falara. Sem dúvida, queria saber exatamente o que continha, mas queria também simplificar seu problema. Esconder um objeto do tamanho daquela maleta de um exército de especialistas não é fácil. Ela queria reduzir isso a uma fita. Outra coisa, ela tinha feito um plano. Levou as nove fitas que eliminara ao seu apartamento em Washington e escondeu-as descuidadamente numa caixa de chapéus na prateleira do armário. Apanhou então outras dez fitas que já tinham sido usadas e que estavam no escritório, colocou-as na maleta, trouxe-a com ela de volta a Nova Iorque e depositou-a na sala de guardados da Grand Central Station.

     “Isso tudo era em preparação para seu plano, e provavelmente continuaria com ele no dia seguinte, usando a polícia para essa mistificação, se não fosse aquele convite que mandei a todos para uma reunião no meu escritório. Por que ignorou meu convite, não sei e não vou dar palpites. Nessa mesma noite, sexta-feira, o Sr. Goodwin foi falar com ela e trouxe-a ao meu escritório. Ela lhe causou uma profunda impressão, e a mim ela me pareceu de uma qualidade fora do comum. É evidente que a opinião que tinha de nós era menos lisonjeira. Ela concebeu a idéia de que éramos mais suscetíveis à malícia do que a polícia e no dia seguinte, sábado, após ter enviado o recibo da maleta ao Sr. O’Neill e ter dado o telefonema com o nome de Dorothy Unger, ela me mandou um telegrama, assinado com o nome do Sr. Breslow, sugerindo que seria proveitoso que seguíssemos o Sr. O’Neill. Confirmamos a avaliação que ela fizera de nós. No domingo de manhã, bem cedo, o Sr. Goodwin estava no endereço do Sr. O’Neill, como era intenção da Srta. Gunther. Quando o Sr. O’Neill apareceu, ele foi seguido e o senhor sabe o que aconteceu.

     — Não entendo — interrompeu Skinner — por que O’Neill foi tão tolo a ponto de acreditar no telefonema dessa Dorothy Unger. Será que o idiota não suspeitou de uma prova forjada? Será que ele é um idiota, ou outra coisa?

     Wolfe abanou a cabeça:

     — Agora o senhor quer saber mais do que eu. O Sr. O’Neill é um homem teimoso e convencido, o que talvez seja a razão disso. Sabemos também que estava irresistivelmente tentado a saber o que havia nas fitas, ou porque matara o Sr. Boone ou por qualquer outra razão, isso ainda temos que descobrir. Presumivelmente a Srta. Gunther sabia o que poderia esperar dele. De qualquer modo, seu plano foi razoavelmente bem-sucedido. Fez com que nos mantivéssemos nesse caminho um ou dois dias, complicou ainda mais o caso das fitas e da maleta e fez com que mais um homem da ANI se envolvesse sem, entretanto, alcançar os resultados indesejáveis — indesejáveis para a Srta. Gunther — de denunciá-lo como assassino. Ela estava guardando esse fato, a revelação da identidade do assassino e as provas que tinha, para a ocasião que melhor lhe aprouvesse.

     — Sabendo disso tudo — disse Skinner sarcasticamente —, por que não a chamou no telefone ou ao escritório e disse-lhe quais eram os deveres de um cidadão?

     — Era impossível. Ela estava morta.

     — Oh? Então não sabia disso tudo até ela ser morta?

     — É claro que não. Como poderia? Sabia de alguma coisa, sim, não importa quanto. Mas quando veio de Washington a notícia de que tinham encontrado no apartamento da Srta. Gunher, mal escondidas, as nove fitas que o Sr. Boone ditara na tarde de sua morte — nove, não dez! — aí percebi tudo. Não havia outra explicação possível. Todas as outras perguntas não tinham razão de ser e eram bobas, exceto uma única: onde está a décima fita?

     — Toda vez que você começa uma frase — queixou-se Hombert amargamente — termina sempre com essa maldita fita!

     Wolfe abriu os olhos apenas o suficiente para olhar Hombert.

     — Experimente fazer uma frase com sentido e que deixe a fita de fora.

     Skiner perguntou: — E se ela a atirou no rio?

     — Não atirou.

     — Por que não?

     — Já lhe disse. Porque pretendia usá-la, quando chegasse a hora, para punir o assassino.

     — E se você estiver cometendo seu primeiro e único erro e ela a atirou mesmo no rio?

     — Drague o rio. Todos os rios que ela podia alcançar.

     — Não banque o esperto. Responda à minha pergunta.

     Wolfe suspendeu e abaixou os ombros, perceptivelmente.

     — Nesse caso, estaríamos perdidos. Nunca apanharíamos o assassino.

    Hombert disse com ênfase:

     — Creio ser possível que você esteja nos impingindo alguma coisa. Não digo que seja um mentiroso sem vergonha.

     — Não digo que não seja, Sr. Hombert. Sempre nos arriscamos a isso quando trocamos palavras com outras pessoas. Dessa forma, é melhor eu ir para casa...

     — Espere um momento — disse Skinner, zangado. — Você quer dizer que, como profissional, você aconselha que abandonemos todas as investigações exceto a busca da fita?

     — Não penso desse modo. — Wolfe franziu a testa, refletindo. — Especialmente quando se tem à disposição mil ou mais homens. É claro que não sei o que foi ou o que não foi feito, mas sei como as coisas são feitas e, conhecendo o Sr. Cramer como conheço, duvido que tenha deixado escapar alguma coisa num caso importante como esse. Por exemplo, aquele pedaço de cano; acredito que tenham feito todos os esforços possíveis para descobrir de onde veio. Tenho certeza de que exploraram por todos os meios disponíveis a chegada do pessoal na minha casa segunda à noite. Os moradores de todos os prédios no meu quarteirão foram entrevistados, é claro, devido à leve esperança, muito improvável numa vizinhança tão calma, de terem visto ou ouvido alguma coisa. A noite do jantar no Waldorf deve ter ocupado uma dúzia de homens durante uma semana, e talvez ainda estejam trabalhando nisso. Pesquisas sobre relacionamentos, tanto aparentes como escondidos, a checagem e rechecagem do álibi do Sr. Dexter — tenho certeza de que esses detalhes e milhares de outros foram verificados competente e completamente.

     Wolfe acenou com o dedo: — E onde estão? Tão afundados num pântano de futilidade e confusão que resolvem se rebaixar a praticar coisas como livrar-se do Sr. Cramer, substituindo-o por um palhaço como o Sr. Ash e expedindo um mandado de prisão para mim. Há muito tempo que estou familiarizado com as habilidades e realizações da polícia de Nova Iorque, e nunca esperei ver o dia em que o inspetor encarregado do Esquadrão de Homicídios tentaria resolver um caso difícil de assassinato me arrastando para uma cela, me atacando, me colocando algemas e me ameaçando.

     — Exagero. Isso aqui não é uma cela, e eu não...

     — Ele pretendia — Wolfe falou soturnamente. — Ele teria feito isso. Muito bem. O senhor pediu meu conselho. Dentro dos limites, eu continuaria a linha de procedimentos já iniciada, e começaria qualquer outra que oferecesse qualquer esperança, porque, não importa o que a fita vai revelar — se e quando a acharem —, é quase certo que irão precisar de todos os tipos de corroboração e assistência que encontrarem. Mas a fita é a principal oportunidade, a única esperança. Sugiro que experimentem o seguinte: ambos conheceram a Srta. Gunther? Ótimo. Sentem-se, fechem os olhos e imaginem que agora é quinta-feira passada, e os senhores são a Srta. Gunther, sentada em seu escritório no DCP em Washington. Já decidiu o que fazer com a maleta de couro e as nove fitas, portanto, esqueçam-se disso. Na sua mão está a fita, e a questão é o que fazer com ela. O que deseja é protegê-la de qualquer dano ou risco, colocá-la num lugar facilmente acessível, caso precise dela de repente, e quer estar certa de que, não importa quantas pessoas procurem por ela ou quem procure, com persistência e imaginação, não será encontrada.

     Wolfe olhou de um para o outro.

     — Aí está seu pequeno problema, Srta. Gunther. Não se deve considerar que esteja escondida num lugar tão simples como no escritório do DCP. Devem imaginar algo muito mais difícil, muito mais complicado. No seu próprio apartamento seria ridículo; demonstra-se isso escondendo as outras nove fitas lá. Talvez no apartamento de um amigo ou colega em quem confie? Trata-se de assassinato, coisa da máxima gravidade e de suma importância; confiaria em outro ser humano até esse ponto? Agora está pronta para sair, ir primeiro ao seu apartamento e depois tomar um avião para Nova Iorque. Provavelmente ficará em Nova Iorque uns dias? Levará a fita ou vai deixá-la em Washington? Se deixar, onde? Onde? Onde?

     Wolfe fez um gesto com a mão.

     — Aí está o problema, senhores. Respondam-no do jeito que a Srta. Gunther o resolveu, e todas as suas preocupações terão terminado. — Ele levantou-se. — Estou gastando mil dólares por dia tentando descobrir como a Srta. Gunther resolveu o problema.

     Ele estava multiplicando a soma por dois, e não era seu dinheiro que estava gastando, mas pelo menos não era uma mentira deslavada.

     — Vamos, Archie. Quero ir para casa.

     Mesmo assim, não queriam que ele fosse, o que era a melhor demonstração possível do triste estado em que estavam até aquele momento. Eles realmente estavam bloqueados, atarantados e desnorteados. Magnanimamente, Wolfe os acomodou compondo algumas frases bem construídas, devidamente equipadas com sujeitos, predicados e orações subordinadas, nenhuma das quais significava nada, e saiu imponentemente da sala, comigo atrás. Reparei que ele só saíra depois que um escriturário entregara alguns papéis na mesa de Hombert, coisa que acontecera quando Wolfe dizia ao promotor e ao comissário para fecharem os olhos e fingirem ser a Srta. Gunther.

     De volta para casa, sentou-se no banco traseiro, como de costume, segurando a alça de couro, por causa da teoria que tinha que quando — não se quando, só quando — o carro tivesse a idéia de se desviar para o lado e atingir um objeto imóvel, as chances atrás, remotas que fossem, eram melhores que na frente. Na ida para a Rua Central eu lhe fornecera, a pedido, um resumo de minha conversa com Nina Boone e agora, indo para casa, dei maiores detalhes. Não podia saber se continham alguma coisa que ele considerasse relevante, pois estava de costas para ele e seu rosto não estava no campo de visão do espelho, e também porque a emoção causada por estar num veículo andando era por demais avassaladora para deixar espaço para reações menores.

     Wolfe parecia estar de bom humor, quando Fritz nos fez entrar e eu tomei conta dos casacos. Escapara do mandado, estava a salvo em casa e eram só seis horas, hora para uma cerveja. Mas imediatamente Fritz estragou tudo dizendo que tínhamos uma visita esperando no escritório. Wolfe franziu-lhe a cara e perguntou baixinho:

     — Quem é?

     — A Sra. Cheney Boone.

     — Deus do céu. Aquela velhota histérica?

     O que era totalmente injusto. A Sra. Boone só estivera em nossa casa duas vezes, ambas sob circunstâncias nada tranqüilas, e eu não vira nenhuma indicação de histeria.

 

EU JÁ fizera um estudo prolongado sobre a atitude de Wolfe em relação às mulheres. Sobre uma mulher, o fato básico que parecia irritá-lo era que era uma mulher; os registros de longa data mostravam isso, sem uma única exceção, mas daí para frente os registros eram disparatados. Se a mulher, apenas por ser mulher, o irritava, era de se supor que todos os detalhes mais femininos seriam pior para ele, mas vezes sem conta eu o vi colocar uma cadeira para uma mulher de uma certa forma que a escrivaninha não lhe tirasse a vista de suas pernas, e a resposta não pode ser que seu interesse é profissional e ele lê o caráter nas pernas, porque quanto mais velha e mais gorda ela é, menos ele se preocupa com onde ela se senta. É uma questão muito complexa e qualquer dia vou tomar um capítulo todo só para explicá-la. Outro pequeno detalhe: ele é muito mais sensível a nariz de mulher do que de homem. Nunca pude detectar que quaisquer extremos ou aberrações em nariz de homem tenham algum efeito sobre ele, mas o de mulher tem. Acima de tudo, não gosta de nariz arrebitado ou de uma curva pronunciada para dentro no nariz.

     O nariz da Sra. Boone era arrebitado e muito pequeno para o rosto. Vi que olhava para ele enquanto se inclinava na poltrona. Por isso falou-lhe num tom de voz áspero e seco, quase grosseiro:

     — Só tenho dez minutos, minha senhora.

     Mesmo sem falar no nariz, sua aparência era horrível. Ela passara um pouco de pó, mas aparentemente sem se preocupar com o resultado e, de qualquer maneira, só um maquilador poderia dar um jeito. Estava completamente exausta e seu rosto não escondia isso.

     Numa voz que estava se agüentando melhor do que o rosto, ela disse:

     — Naturalmente está imaginando por que vim aqui.

     — Naturalmente — concordou Wolfe.

     — Quero dizer, por que vim vê-lo, já que o senhor está do outro lado. É porque telefonei para meu primo hoje de manhã e ele me contou a seu respeito.

     — Eu não estou do outro lado nem de nenhum lado. — Wolfe respondeu secamente. — Fui encarregado de prender um assassino. Conheço seu primo?

     Ela acenou que sim: — General Carpenter. Esse era o meu nome de solteira. Ele é meu primo em primeiro grau. Acabou de se operar e está no hospital, caso contrário teria vindo me ajudar quando meu marido foi assassinado. Disse-me que não acreditasse em nada do que o senhor disser, mas que fizesse tudo o que o senhor mandar. Ele disse que o senhor tem seu próprio código de regras, e que se o senhor está trabalhando num caso de assassinato, a única pessoa que pode confiar realmente no senhor é o assassino. Como conhece meu primo, o senhor sabe o que ele quer dizer. Eu já estou acostumada com ele.

     Parou, olhou para mim e depois para Wolfe, usando o lencinho no canto da boca e no lábio inferior, o que não melhorou em nada a sua aparência. Quando a mão voltou ao colo, segurava o lencinho como se tivesse receio que alguém planejasse apanhá-lo.

     — E daí? — disse Wolfe, para que ela continuasse.

     — Por isso vim vê-lo para que o senhor me dê um conselho. Ou talvez eu devesse dizer para que o senhor me faça decidir se quero lhe pedir um conselho. Alguém tem que me aconselhar e não sei...

     Olhou para mim de novo, depois para Wolfe e fez um gesto com a mão que não estava segurando o lenço.

     — Devo lhe dizer por que prefiro não ir falar com alguém do FBI ou da polícia?

     — A senhora não tem nenhuma obrigação de me dizer nada. Já se passaram três ou quatro minutos.

     — Eu sei. Meu primo me avisou de que o senhor seria terrivelmente grosseiro... Então é melhor que eu fale logo e diga que acho que sou responsável pela morte de Phoeber Gunther.

     — Esse é um pensamento bem desagradável — murmurou Wolfe. — Como conseguiu?

     — É isso que quero lhe contar, e creio que vou realmente lhe contar ou não teria vindo aqui, mas enquanto estava aqui esperando, levantei-me uma dúzia de vezes para ir embora, e depois sentei-me de novo. Não sei o que fazer e ontem à noite pensei que estava ficando maluca. Sempre dependi do meu marido para tomar decisões importantes. Não quero contar à polícia ou ao FBI, porque pode ser que eu tenha cometido algum tipo de crime. Não sei. Mas me parece tolice lhe contar por causa da maneira como meu marido se sentia em relação à ANI, e é lógico que sinto a mesma coisa, e o senhor está trabalhando para eles, o senhor está do lado deles. Creio que deveria ir a um advogado, e conheço muitos advogados, mas me parece que não há um a quem eu possa contar isso. Todos eles falam o tempo todo e nunca compreendo o que dizem.

     Isso deve ter amolecido Wolfe um pouco. Tornou-se mais receptivo, repetindo novamente que não estava em lado algum. Declarou:

     — Para mim, isso não é um feudo particular, embora possa ser para outros. Que crime a senhora cometeu?

     — Não sei... se era crime.

     — O que a senhora fez?

     — Não fiz nada. Esse é que é o problema. O que aconteceu foi que a Srta. Gunther me disse o que estava fazendo e lhe prometi que não diria a ninguém e não disse, e sinto...

     Parou. Dentro de instantes continuou:

     — Não é verdade. Não sinto, eu sei com certeza.

     — Certeza de quê?

     — Tenho certeza de que, se tivesse contado à polícia o que ela me disse, ela não teria sido morta. Mas não disse, pois ela me explicou que o que estava fazendo ajudava o DCP e prejudicava a ANI, e era isso que meu marido queria mais do que qualquer outra coisa.

     A viúva olhava para o rosto de Wolfe como se estivesse tentando ver o que havia por trás dele.

     — E ela tinha toda a razão. Ainda estou procurando me decidir se devo lhe contar. A despeito do que o senhor diz, há o lado do meu marido e há o outro lado, e o senhor está trabalhando para a ANI. Depois que falei com meu primo pensei em vir e ver o que o senhor diz.

     — O que é que eu digo?

     — Não sei. — A mão mexeu-se levemente. — Realmente não sei.

     Wolfe, em silêncio, franziu a testa, depois soltou um suspiro e virou-se para mim.

     — Archie.

     — Sim.

     — Seu bloco de notas. Vou ditar uma carta. Para ser posta no correio essa noite a fim de ser entregue pela manhã. Para a Associação Nacional da Indústria, atenção do Sr. Frank Thomas Erskine.

“Senhores: O curso dos acontecimentos obriga-me a informá-los de que será impossível para mim continuar a agir em seu nome na investigação dos assassinatos do Sr. Cheney Boone e da Srta. Phoebe Gunther. Portanto, remeto em anexo meu cheque de trinta mil dólares, devolvendo os honorários que me pagaram e terminando minha associação com os senhores nesse assunto. Sinceramente.”

     Fiz o último rabisco e olhei-o: — Faço o cheque?

     — Certamente. Você não pode anexá-lo se não estiver pronto. — Os olhos de Wolfe foram em direção da visitante. — Pronto, Sra. Boone, isso deve surtir algum efeito na sua relutância. Mesmo aceitando o seu ponto de vista, que eu estava no outro lado, agora não estou mais. O que foi que a Srta. Gunther lhe disse estar fazendo?

     A viúva o encarava: — Trinta mil dólares? — perguntou, incrédula.

     — Sim. — Wolfe sorria com superioridade. — Uma soma substancial.

     — Mas era só isso que a ANI estava lhe pagando? Só trinta mil? Pensei que fosse vinte vezes mais! Eles têm centenas de milhões, bilhões!

     — Foi só um sinal — disse Wolfe, irritadamente. O sorriso desaparecera. — De qualquer forma, agora sou neutro. O que foi que a Srta. Gunther lhe disse?

     — Mas agora... agora o senhor não vai receber nada! — A Sra. Boone estava totalmente atônita. — Meu primo contou-me que, durante a guerra, o senhor trabalhou muito para o governo de graça, mas que cobra preços incríveis de particulares. Devo lhe dizer — se é que não sabe — que não posso lhe pagar um preço absurdo. Eu poderia lhe dar um cheque de cem dólares.

     — Não quero um cheque. — Wolfe já estava aflito. — Se não posso ter um cliente nesse caso sem ser acusado de tomar partido numa vingança sanguinária, não quero um cliente. Que diabos, o que foi que a Srta. Gunther lhe disse?

     A Sra. Boone olhou para mim, e tive a sensação desconfortável de que ela tentava encontrar algum tipo de semelhança com seu falecido marido, já que ele se fora e não estava mais disponível para decisões importantes. Pensei que poderia ajudar se a olhasse com confiança, e foi o que fiz. Se isso a decidiu ou não, não sei, mas foi alguma coisa, pois virou-se para Wolfe e disse:

     — Ela sabia quem matou meu marido. Meu marido lhe disse alguma coisa no dia em que lhe entregou a maleta de couro, e por isso ela sabia, e também porque ele ditou alguma coisa numa daquelas fitas falando a esse respeito, por isso a fita era uma prova, e ela a tinha. Estava com ela, e pretendia dá-la à polícia, mas queria esperar até que o falatório, os rumores e o sentimento público tivessem causado o máximo de dano à ANI. Ela só me contou depois que fui lhe falar e disse que sabia que ela não dizia a verdade sobre a maleta de couro. Eu sabia que ela estava com a maleta na sala de jantar, e não ia ficar calada sobre esse assunto. Para que eu não contasse nada à polícia sobre a maleta, ela me revelou o que estava fazendo.

     — Quando foi isso? Que dia?

     Ela pensou um instante, a ruga mais acentuada na testa, e aí abanou a cabeça sem certeza: — Os dias — disse ela. — Os dias estão todos confusos.

     — É claro que estão, Sra. Boone. A senhora esteve aqui com os outros na sexta-feira à noite, quando quase falou no assunto e depois mudou de idéia. Foi antes ou depois disso?

     — Foi depois. No dia seguinte.

     — Então foi sábado. Eis outra coisa que a ajudará a se lembrar do dia. No sábado pela manhã a senhora recebeu pelo correio um envelope contendo seu retrato de noiva e uma licença de automóvel. Está lembrada? Foi no mesmo dia?

     Ela concordou, certa então.

     — Sim, claro que foi. Porque falei sobre isso, e ela me contou que escrevera uma carta para ele — para o homem que matou meu marido —, ela sabia que meu marido sempre trazia o retrato de noiva na carteira que fora roubada, ele a carregara consigo por mais de vinte anos, vinte e três anos...

     A voz da viúva desapareceu aos poucos. Parou, engoliu em seco, sentada, sem tentar continuar, e engoliu de novo. Se perdesse totalmente o controle e começasse a chorar e gemer, ninguém sabe o que Wolfe faria. Podia talvez até tentar ser humano, o que teria sido difícil para nós suportarmos. Por isso falei-lhe bruscamente:

     — Está bem, Sra. Boone, pare um pouco. Quando estiver bem, conte por que ela escreveu uma carta ao assassino? Para dizer a ele que lhe mandasse o retrato de noiva?

     Ela concordou e respondeu, num fiapo de voz: — Sim.

     — É mesmo? — disse Wolfe, para ajudar.

     A viúva concordou de novo:

     — Ela me disse que sabia que eu queria aquele retrato e escreveu para ele para dizer que sabia de tudo e para mandá-la para mim.

     — O que mais ela escreveu?

     — Não sei. Ela só me disse isso.

     — Mas ela lhe disse quem era ele.

     — Não, não disse. — A Sra. Boone parou de novo um instante, para que a voz saísse bem. — Ela disse que não me contaria, pois seria demais esperar que eu não mostrasse saber. Disse-me também que eu não precisava me preocupar sobre ele não ser punido, não havia dúvida a esse respeito, e, além disso, seria perigoso eu saber. É aí que agora acho que agi errado... é por isso que disse que sou responsável por sua morte. Se fosse perigoso para mim, era perigoso para ela, especialmente depois que ela lhe escreveu aquela carta. Eu deveria ter feito com que ela contasse à polícia, e se ela não o fizesse eu deveria ter quebrado a promessa que lhe fiz e contado à polícia eu mesma. Dessa forma ela não teria sido assassinada. De qualquer modo ela me disse que estava infringindo a lei, escondendo informação e provas, por isso isto também está na minha consciência: ajudá-la a infringir a lei.

     — Pelo menos a esse respeito pode deixar de se preocupar — assegurou-lhe Wolfe. — Quero dizer, sobre infringir a lei. Nessa parte está tudo bem. Ou estará, logo que a senhora me diga, e eu diga à polícia, onde a Srta. Gunther pôs a fita.

     — Mas não posso. É outra coisa que não sei. Ela não me disse.

     — Tolice! — falou Wolfe, grosseiramente, os olhos repentinamente bem abertos. — É claro que ela lhe contou!

     — Não contou. É uma das razões por que vim vê-lo. Ela disse que eu não precisava me preocupar quanto ao homem que matou o meu marido ser punido. Mas se essa é a única prova...

     Os olhos de Wolfe tinham se fechado de novo. Houve um longo silêncio. A Sra. Boone olhou-me, talvez ainda procurando uma semelhança, mas, o que quer que seja que estava procurando, nada, em sua expressão, demonstrava que a estava encontrando. Depois, falou com Wolfe de novo:

     — Agora o senhor sabe por que preciso de conselho...

     As suas pálpebras moveram-se o bastante para aparecer uma fresta. Em seu lugar, ficaria grato pelo menos por corroborar minhas adivinhações, mas aparentemente ele estava muito sucumbido por não conseguir descobrir onde se achava a fita.

     — Sinto muito — disse ele, sem qualquer indicação de pesar ou de outra coisa na voz — não poder ajudá-la. Não há nada que eu possa fazer. Tudo que posso lhe dar é o que a senhora disse que veio buscar, conselho, e dá-lo-ei com prazer. O Sr. Goodwin a levará de volta ao hotel. Ao chegar lá, telefone imediatamente para a polícia, dizendo que tem informações a prestar. Quando chegarem, conte-lhes tudo que me contou, e responda a perguntas até não agüentar mais. Não precisa ter receio de ser considerada culpada de quebrar a lei. Concordo com a senhora que, se tivesse quebrado a promessa que fez à Srta. Gunther, ela provavelmente não teria morrido, mas foi ela quem pediu que a senhora prometesse, portanto a responsabilidade é dela. Além disso, a Srta. Gunther pode levar a culpa disso, pois é impressionante quanta carga de responsabilidade os mortos conseguem suportar. Se puder, não pense mais nisso também.

     Ele levantou-se: — Boa tarde, minha senhora.

     Por isso, acabei levando uma Boone do escritório para casa, embora não fosse Nina. Não me preocupei em ver se alguém a seguia, já que parecia que ela nos dissera tudo que sabia e portanto não era mais de interesse imediato, e limitei-me ao papel de motorista. Não parecia querer conversar, o que simplificava ainda mais as coisas. Deixei-a na porta do Waldorf e voltei para casa. Além de prestar atenção à direção, o que era automático, não adiantava pensar no meu trabalho, pois não me davam informações e portanto eu não tinha serviço, por isso deixei minha mente divagar sobre Phoebe Gunther. Pensei nas vezes que estivera com ela, como falara e agira, com o meu conhecimento do que ela fazia, e decidi que ela tinha toda razão. Tenho a inclinação de escolher defeitos, especialmente no que concerne a moças, mas dessa vez nem tinha começado a lista quando cheguei em casa.

     Quando entrei no escritório para lhe falar, Wolfe estava bebendo cerveja:

     — Vou para cima. Gosto sempre de lavar as mãos depois que falo com certo tipo de policiais, como o Inspetor Ash, e eu...

     — Entre. Aquela carta e aquele cheque. É melhor providenciarmos logo isso.

     Olhei-o espantado: — O que, para a ANI?

     — Sim.

     — Meu Deus, você não quer dizer que vai mandá-la mesmo?

     — Lógico. Não disse àquela senhora que mandaria? Não foi por causa disso que ela me contou certas coisas?

     Sentei-me à minha escrivaninha e olhei-o com atenção:

     — Isso não é ser excêntrico — disse eu severamente. — Isso é ser maluco. O que vai acontecer com a Operação Folha de Pagamento? E como foi que de repente virou escrupuloso? De qualquer modo, ela não lhe disse o que você realmente queria saber.

     De repente, tornei-me respeitoso:

     — Lamento informar que o talão de cheques está perdido, senhor.

     Ele só fez dar um grunhido:

     — Faça o cheque e bata a carta. Imediatamente.

     Apontou para uma pilha de envelopes na escrivaninha:

     — Depois leia esses relatórios do escritório do Sr. Bascom. Acabaram de chegar por mensageiro.

     — Mas sem cliente... quer que telefone para Bascom cancelando?

     — Claro que não.

     Fui ao cofre apanhar o talão de cheques. Enquanto preenchia o canhoto, declarei:

     — As estatísticas mostram que quarenta e dois e três décimos por cento de todos os gênios enlouquecem mais cedo ou mais tarde.

     Ele não fez comentário algum. Apenas bebeu cerveja e continuou sentado. Agora que me deixara saber o que os homens de Bascom estavam fazendo, não cooperaria nem na abertura dos envelopes. O que quer que fosse, devia ser bom, pois pretendia continuar a pagar de seu próprio bolso. Bati à máquina como num sonho. Quando coloquei o cheque e a carta em sua frente, para serem assinados, queixei-me:

     — Desculpe falar nisso, mas cem dólares da Sra. Boone bem que ajudavam. Parece que estaria mais de acordo conosco. Ela disse que podia pagar isso.

     Ele usou o mata-borrão.

     — É melhor levar logo ao correio. Tenho a suspeita de que às vezes não coletam as cartas daquela caixa à noite.

     Por isso tive que bancar o motorista de novo. É uma caminhada de só dez minutos a pé ir até o correio na Nona Avenida e voltar, mas não estava com vontade de andar. Só gosto de andar quando vejo algum futuro à minha frente. Na volta, pus o carro na garagem, pois parecia óbvio que a noite seria um completo fracasso.

     Wolfe ainda se achava no escritório, externamente com a aparência perfeitamente normal. Olhou para mim, para o relógio e para mim de novo.

     — Sente-se um instante, Archie. O Dr. Vollmer vem nos ver mais tarde e você precisa de instruções.

     Pelo menos sua mente ainda funcionava o suficiente para mandar chamar um médico.

 

O DR. VOLLMER deveria chegar às dez horas. Às cinco para as dez o palco estava preparado, no quarto de Wolfe. Instalei-me na cadeira de Wolfe ao lado da lâmpada, com uma revista. Wolfe estava na cama. Mesmo acostumado . como estava, a visão de Wolfe na cama era qualquer coisa. Primeiro o pé baixo da cama, de madeira rajada, amarela com faixas longas marrons, depois a colcha de seda preta, em seguida a grande extensão de pijama amarelo e por último o rosto. Na minha opinião, Wolfe sabe muito bem que preto e amarelo chamam a atenção, e ele os usava deliberadamente para provar que, por mais vistosa que fosse a cena, ele podia dominá-la. Muitas vezes pensei que ele deveria experimentar o verde e o cor-de-rosa. O resto do quarto — tapetes, cortina e mobília — era correto: grandes, confortáveis e agradáveis.

     Fritz deixou o Dr. Vollmer entrar e, como ele conhecia o caminho, subiu um andar e penetrou no quarto, já que a porta estava aberta. Carregava sua maleta de ferramentas. Seu rosto e orelhas eram redondos, e já havia dois ou três anos que desistira da tentativa de pôr o estômago para dentro e o peito para fora. Disse-lhe alô e apertei-lhe a mão, e ele foi para a beira da cama dando um cumprimento amigável e com a mão estendida.

     Wolfe virou o pescoço para olhar a mão estendida, resmungou ceticamente e falou:

     — Não, obrigado. Qual é o último preço? Eu não quero nada.

     No pé da cama, comecei a falar apressadamente:

     — Eu deveria ter lhe explicado... — mas Wolfe interrompeu, falando alto:

     — Você quer pagar dois dólares por meio quilo de manteiga? Cinqüenta centavos por cordões de sapato? Um dólar por uma garrafa de cerveja? Vinte dólares por uma orquídea, uma orquídea ordinária meio murcha, da espécie Laeliocattleya? Vamos, diabo, responda!

     Aí parou de gritar e começou a falar baixinho.

     Vollmer sentou-se na beira de uma cadeira, pôs a maleta de ferramentas no chão, piscou os olhos diversas vezes na direção de Wolfe e depois para mim. Eu disse:

     — Não sei se é nervosismo ou o que é.

     Wolfe continuou:

     — Você me acusa de chamá-lo aqui sob pretexto. Você me acusa de querer pedir dinheiro emprestado a você. Só porque lhe peço para me emprestar cinco dólares até o começo da próxima guerra, você me acusa! — Acenou com o dedo ameaçadoramente para o rosto redondo e atônito de Vollmer. — Deixe-me lhe dizer, senhor, que o senhor é o próximo! Admito que estou liquidado; fui finalmente levado a esses extremos. Eles me liquidaram; eles me quebraram; ainda estão atrás de mim. — Sua voz alteou-se como um trovão: — E você, seu tolo insuportável, você pensa que pode escapar! Archie me disse que está se disfarçando de médico. Bah! Vão lhe tirar as roupas! Vão examinar cada centímetro de sua pele, como fizeram comigo! Eles vão encontrar a marca!

     Deixou a cabeça cair no travesseiro, fechou os olhos e continuou a resmungar.

     Vollmer fitou-me com um brilho no olhar e perguntou:

     — Quem escreveu o script dele?

     Abanei a cabeça desesperançosamente, conseguindo, de alguma forma, controlar os músculos em volta de minha boca:

     — Há horas que está assim, desde que o trouxe de volta para casa.

     — Oh, ele saiu de casa?

     — Sim, de três e quinze até as seis horas. Preso.

     Vollmer virou-se para Wolfe:

     — Bem — disse, decidido. — A primeira coisa é arranjar umas enfermeiras. Onde está o telefone? Ou isso ou levá-lo a um hospital.

     — É isso aí — concordei. — É urgente. Precisamos agir.

     Os olhos de Wolfe se abriram:

     — Enfermeiras? — perguntou com despeito. — Bolas. Você não é um médico? Não reconhece um descontrole nervoso quando o vê?

     — Sim — disse Vollmer enfaticamente.

     — E o que há de errado com esse?

     — Não parece ser — hum — típico.

     — Observação falha — Wolfe argumentou. — Ou um defeito na sua formação. Especificamente, é um complexo de perseguição.

     — Quem está perseguindo quem?

     Wolfe fechou novamente os olhos: — Estou sentindo que vai voltar de novo. Diga-lhe, Archie.

     Olhei para Vollmer: — Olhe, doutor, a situação é séria. Como sabe, ele está investigando os assassinatos Boone-Gunther para a ANI. O alto comando não gostou do modo como Cramer agia e o pôs para fora, substituindo-o por um idiota chamado Ash.

     — Eu sei. Estava nos jornais da tarde.

     — É. No jornal da tarde de amanhã vai ler que Nero Wolfe devolveu o sinal que recebera da ANI e abandonou o caso.

     — Pelo amor de Deus, por quê?

     — Vou lhe contar. A atitude pessoal de Ash no que diz respeito a Wolfe é tão desagradável que ele preferiria cortar-lhe os pulsos em vez do pescoço para prolongar a agonia. Hoje ele conseguiu um mandado como testemunha de provas contra ele e Wolfe teve de ir à Rua Central levado por mim. Por diversas razões, Hombert cancelou o mandado, sendo que a principal é que Wolfe trabalha para a ANI, e se a ANI se ofender ainda mais do que agora é provável que despeça o prefeito e todos os outros e declare Nova Iorque uma monarquia. Logo que Wolfe chegou em casa, rompeu relações com a ANI. Receberão a carta, junto com o cheque, no correio da manhã. E aí vai haver o diabo. Não sabemos e talvez não nos importe o que a ANI fará — devo dizer que talvez Wolfe não se importe. Mas sabemos muito bem o que a polícia fará. Primeiro, já que Wolfe não está dormindo com a ANI, terá desaparecido esse motivo para ‘ternura’. Segundo, sabem que Wolfe nunca aceitou um assassino como cliente, e sabem como é difícil separá-lo do dinheiro, sobretudo trinta mil dólares ou mais, e portanto deduzirão que um dos sujeitos da ANI é culpado, e que Wolfe sabe quem é.

     — Quem é?

     Abanei a cabeça: — Não sei, e como Wolfe parece um maluco furioso, não se pode perguntar a ele. Com essa programação, é fácil ler o futuro. O carro de presos estará na porta pronto para ele, com os papéis em ordem, a qualquer hora depois das dez, possivelmente até mais cedo. É uma pena desapontá-los, mas tudo que posso fazer é recebê-los com outro papel, assinado por um médico de renome, declarando que, nas presentes condições, seria perigoso remover Wolfe de sua cama ou permitir que alguém fale com ele.

     Abanei a mão.

     — É essa a situação. Há cinco anos atrás, na vez em que Wolfe lhe fez aquele favorzinho quando aquele bandido — como era seu nome? Griffin — tentou incriminá-lo falsamente num processo de imperícia, e o senhor disse a Wolfe que se algum dia ele quisesse alguma coisa era só pedir, eu lhe avisei que um dia o senhor se arrependeria. Bem, hoje é o dia.

     Vollmer esfregava o queixo. Não parecia relutante, apenas pensativo. Olhou para Wolfe sem dizer nada, depois virou-se para mim e falou:

     — É natural que eu tenha uma vontade incontrolável de fazer uma porção de perguntas. Isso é fascinante. Suponho que as perguntas não seriam respondidas?

     — Receio que não. Não por mim, de qualquer modo, pois não sei as respostas. Pode tentar com o paciente.

     — Por quanto tempo deverá vigorar esse certificado?

     — Não tenho idéia. Como lhe disse, sou ignorante.

     — Se está tão mal que tenho de proibir visitas, devo insistir para vê-lo pelo menos duas vezes ao dia. E para que pareça autêntico deve haver enfermeiras.

     — Não — disse eu com firmeza. — Concordo com o senhor, mas ele teria febre. Desista de enfermeiras. Quanto ao senhor, venha quantas vezes quiser. Eu posso ficar muito só. E faça o certificado o mais enfático possível. Diga que, se uma pessoa com a inicial A apenas olhasse para ele, isso o mataria.

     — Será escrito de forma a servir aos fins a que se destina. Vou trazê-lo em dez minutos. — Vollmer levantou-se com a maleta de ferramentas na mão. — Contudo, daquela vez eu disse que faria qualquer coisa que Wolfe me pedisse. — Olhou para Wolfe: — Seria gratificante ouvir você me pedir alguma coisa. Que tal?

     Wolfe gemeu:

     — Eles vêm em hordas — falou ele, bem distintamente, mas com uma voz de falsete. — Em carruagens com espigões nas rodas, brandindo a bandeira insolente da inflação! Cinco dólares por meio quilo de carne-seca! Dez dólares por um caranguejo! Sessenta centavos...

     — Acho melhor ir andando — disse Vollmer, saindo.

 

DURANTE OS dois dias e meio, quinta, sexta e parte de sábado, da vigência do certificado, não fiquei sozinho. Jornalistas, policiais, FBI, ANI, todos viram que eu estava suportando circunstâncias difíceis e fizeram o possível para manter minha mente ocupada, para que eu não me preocupasse. Se comumente valho mais do que recebo, o que é uma estimativa por baixo, durante essas sessenta e poucas horas foi, no mínimo, dez vezes mais.

     Wolfe ficou no seu quarto, a portas trancadas, uma das chaves no meu bolso e a outra no de Fritz. Claro que era duro deixar de ir ao escritório, à sala de jantar e à cozinha durante esse espaço de tempo, mas o verdadeiro sacrifício, que realmente doía, era não poder ir ver as plantas duas vezes ao dia. Tive que brigar com ele a esse respeito, fazendo-o ver que, se um grupo surpresa aparecesse com um mandado de busca, eu não teria tempo de colocá-lo na cama de volta a tempo. Além disso, Theodore dorme fora e, embora não fosse traidor, podia, sem querer, deixar escapar que seu patrão doente não parecia doido entre as orquídeas. Pela mesma razão, não deixei Theodore vir ao quarto para consultas. Quinta ou sexta, não me lembro bem o dia, disse a Wolfe:

     — Você está representando. Ótimo. Parabéns. Como você precisa ficar fora de circulação, isso deixa as coisas comigo e sou eu quem dita as regras. Já estou suficientemente prejudicado por não saber uma única coisa sobre o que você está pretendendo. Tivemos um...

     — Tolice — resmungou ele. — Você sabe de tudo. Tenho vinte homens procurando aquela fita. Nada pode ser feito sem ela. Precisa ser encontrada, e será. Eu simplesmente prefiro esperar no meu quarto do que na cadeia.

     — Bobagem. — Eu estava chateado porque acabara de passar uns maus pedaços com outra delegação da ANI no escritório lá embaixo. — Por que brigou com a ANI antes de ir para a cama esperar? Admitindo que foi um deles e você sabe de tudo a respeito, que é uma coisa que todos acreditam mas que a mim terá que provar, isso não era razão para lhes devolver o dinheiro a fim de não ter um assassino como cliente, porque você mesmo disse que nenhum homem era seu cliente, a ANI é que era. Por que, em nome de Deus, você lhes devolveu o dinheiro? E se essa história da fita não é apenas um pretexto, mas é a verdade e toda a verdade, como você diz, o que acontecerá se nunca for encontrada? Que é que você vai fazer, ficar na cama pelo resto da vida, fazendo com que o Dr. Vollmer renove seu certificado todo mês?

     — Vai ser achada — respondeu ele humildemente. — — Não foi destruída, existe e portanto será achada.

     Fitei-o, cheio de suspeitas, dei de ombros e saí. Quando ele fica humilde, não adianta falar. Voltei ao escritório, sentei e fiquei olhando para o estenofone no canto. Minha principal razão para acreditar no que ele dissera sobre a fita era que estávamos pagando um dólar por dia de aluguel da máquina.

     Entretanto, não era a única razão. Realmente, Bill Gore e vinte homens de Bascom estavam procurando a fita, não havia dúvidas a esse respeito. Recebera instruções para ler os relatórios antes de levá-los a Wolfe, e eram impressionantes. Bill Gore e outro sujeito estavam interrogando todos os amigos de Phoebe Gunther em Washington, inclusive os conhecidos, e outros dois faziam o mesmo em Nova Iorque. Três estavam voando pelo país, indo a lugares onde ela conhecia alguém, na esperança de que tivesse mandado a fita pelo correio para um deles, embora parecesse uma esperança tola se, como Wolfe dissera, ela queria ter a fita facilmente acessível quando desejasse. Sua idéia de um dia movimentado não estava afinal tão longe da realidade. Um descobrira que ela fora a um cabeleireiro naquela sexta à tarde em Nova Iorque, e revistara todo o salão. Três tinham começado a examinar seções de guardados em todos os lugares, mas descobriram que o FBI e a polícia, com sua autoridade, já os estavam investigando, por isso tinham mudado de campo. Tentavam descobrir ou adivinhar todos os caminhos que ela percorrera a pé e passavam os dias nas calçadas, com os olhos abertos para descobrir alguma coisa, qualquer coisa — uma jardineira suja de terra, por exemplo — onde ela poderia ter escondido algo. O resto deles experimentava isso ou aquilo. Para não pensar nos problemas, sexta à noite tentei imaginar algum lugar em que não estivessem procurando. Levei uma hora pensando e desisti. Eles abrangiam tudo.

     Sem dúvida, havia vinte e um homens caros à procura da fita, mas o que me dava gana era Saul Panzer. Você podia contratar quem quisesse, Saul era o melhor de todos, e ele não estava entre os vinte e um homens. Pelo que me permitiam saber, ele não tinha o menor interesse na fita. De duas em duas horas ele telefonava, não sei de onde, e eu obedecia a instruções de ligá-lo com a extensão de Wolfe ao lado da cama e de ficar fora da linha. Ele também apareceu duas vezes, uma na quinta pela manhã, na hora do café, e outra na sexta de tarde, e de cada vez ficou quinze minutos sozinho com Wolfe e foi embora. A essa altura, eu já estava tão impressionado com fitas que já começava a suspeitar que Saul estivesse ocupado em equipar uma fábrica num porão do Brooklin, para que pudéssemos fabricar nossas próprias fitas.

     Enquanto essa situação continuava, minhas discussões com Wolfe aumentaram de freqüência e intensidade. Na quinta de tarde tivemos uma sobre o Inspetor Cramer. Wolfe chamou-me no interfone e disse que queria falar ao telefone com Cramer, e que eu visse onde ele estava. Recusei prontamente. Meu ponto de vista era que, embora Cramer estivesse sentido e quisesse pulverizar Ash com DDT, ele ainda era um policial, e portanto não se podia confiar nele com provas como, por exemplo, a voz de Wolfe ao telefone, natural e normal, o que levantaria dúvidas sobre o atestado do Dr. Vollmer. Finalmente, Wolfe aceitou que eu descobrisse onde se encontrava Cramer, e se ele estava disponível, e isso foi fácil. Lou Cohen me contou que ele pedira duas semanas de licença, para chorar suas mágoas, e quando liguei para a casa de Cramer, ele próprio atendeu. Nossa conversa foi rápida e direta ao assunto. Quando desliguei, chamei Wolfe no interfone e contei:

     — Cramer está em casa de licença lambendo as feridas e talvez esteja de cama. Ele não disse. Em todo o caso, podemos encontrá-lo lá a qualquer hora, mas não está muito delicado. Pensei em mandar o Dr. Vollmer vê-lo.

     — Ótimo. Venha cá. Estou tendo problemas de novo com a janela.

     — Que diabo, fique na cama e longe das janelas!

     Um detalhe importante é que eu não deveria negar entrada a qualquer pessoa que tivesse razão para vir. Isso deveria dar a impressão de que nossa casa não era de gente intratável, mas apenas tocada pelo azar. Embora os jornalistas e várias outras pessoas me mantivessem ocupado, os que mais amolavam eram os da ANI e a polícia. Frank Thomas Erskine telefonou mais ou menos às dez horas na quinta pela manhã. Queria falar com Wolfe, mas é óbvio que não conseguiu. Fiz o possível para tornar a situação bem clara, mas era como se explicasse a um homem morrendo de sede que a água tinha de ser guardada para lavar a roupa. Menos de uma hora mais tarde, todos os seis chegaram: os dois Erskines, Winterhoff, Breslow, O’Neill e Hattie Harding. Fui delicado, levei-os ao escritório, mandei que se sentassem e lhes disse que era impossível falar com Wolfe.

     Por suas atitudes e tom de voz, parecia que eles julgavam que eu era uma barata e não um ser humano. Às vezes era um pouco difícil acompanhar o que diziam, pois estavam cheios de idéias e de palavras para expressá-las, e ninguém agia como presidente de mesa para dar a palavra e evitar que todos falassem ao mesmo tempo. Suas queixas principais eram: primeiro, era um ato de traição e deslealdade da parte de Wolfe devolver-lhes o dinheiro; segundo, se fez isso porque estava doente, devia dizer na carta; terceiro, devia anunciar imediata e publicamente sua doença, a fim de evitar o rumor, que cada vez mais crescia e se espalhava, de que se separara da ANI porque tinha provas concretas de que a ANI cometera o assassinato; quarto, se tinha provas de culpa de um homem da ANI, queriam saber quais eram e quem era ele dentro de cinco minutos; quinto, não acreditavam que estivesse doente; sexto, quem era o médico; sétimo, se estava doente, quando ficaria bom; oitavo, será que eu me dava conta de que nos dois dias e três noites após o segundo assassinato, o de Phoebe Gunther, os danos causados à ANI tinham sido incalculáveis e irreparáveis; nono, cinqüenta ou sessenta advogados eram de opinião que o fato de Wolfe abandonar o caso sem aviso pioraria a situação e, portanto, estava sujeito a ser processado; décimo, décimo primeiro, décimo segundo, e assim por diante.

     Durante todos esses anos tenho encontrado muitas pessoas magoadas, nervosas e desesperadas no escritório, mas esse conjunto de pessoas não era igual a nenhum outro. Pelo que pude ver, a calamidade comum unira-os novamente, e o perigo de inculpar qualquer pessoa, indiscriminadamente, havia passado. Numa certa hora, a vontade unânime de confrontar Wolfe atingiu tais proporções que Breslow, o jovem Erskine e O’Neill dirigiram-se à escada e começaram a subi-la, mas quando gritei que a porta estava trancada e que se a arrombassem Wolfe provavelmente atiraria e os mataria, pararam, deram meia-volta e vieram gritar mais comigo.

     Cometi um erro. Como um idiota, eu lhes disse que estaria sempre vigiando Wolfe na esperança de que ele tivesse um intervalo de lucidez, e que, se isso acontecesse e o médico permitisse, chamaria Erskine e ele viria a galope para uma entrevista. Deveria ter previsto que isso não somente manteria o telefone ocupado dia e noite, para perguntar pela sua lucidez, mas também que se revezariam indo lá pessoalmente, sozinhos, aos pares e às trincas, para sentar no escritório e esperar por ela. E foi o que fizeram. Na sexta alguns deles ficaram lá metade do dia, e no sábado de manhã recomeçaram. No que concerne ao maldito dinheiro deles, mereci pelo menos os trinta mil dólares pelo trabalho de recebê-los.

     Depois de sua primeira visita, quinta pela manhã, subi e relatei tudo a Wolfe, acrescentando que não os informara do fato de que o pessoal continuava atrás da fita, às suas custas. Wolfe respondeu apenas:

     — Não importa. Saberão quando chegar a hora.

     — Sei. O nome científico da sua doença é otimismo maligno agudo.

     Quanto à polícia, Wolfe me dissera que tentasse evitar uma avalanche dando informações sem demora. Telefonara, portanto, para o escritório do comissário às oito e meia na quinta de manhã, antes que qualquer correspondência fosse aberta no escritório da ANI. Hombert ainda não tinha chegado, nem sua secretária, mas descrevi a situação a algum palerma de lá e pedi que a passasse adiante. Uma hora mais tarde o próprio Hombert telefonou, e a conversa foi praticamente a mesma que seria se eu a tivesse escrito antes de acontecer. Disse-me sentir muito que Wolfe tivesse sucumbido à pressão e que o oficial de polícia que ia vê-lo em breve seria instruído a se conduzir diplomaticamente e com consideração. Quando expliquei que devido às ordens do médico ninguém podia vê-lo, nem mesmo um agente de seguros, Hombert tornou-se grosseiro e pediu o nome completo de Vollmer e seu endereço, que prontamente forneci. Queria saber se contara à imprensa que Wolfe estava fora do caso, e respondi que não. Disse-me, então, que seu escritório se encarregaria disso para ter certeza de que tinham entendido direito. Prosseguiu afirmando que o gesto de Wolfe, largando o cliente, era prova indiscutível de que conhecia a identidade do assassino, e provavelmente tinha provas contra ele. Como eu era assistente confidencial de Wolfe, presumia-se que eu também sabia, e sabia dos riscos pessoais que corria em não comunicar tal informação à polícia imediatamente. Não creio que o deixasse satisfeito sobre esse ponto. De qualquer modo eu estava dizendo a verdade e, como não sou bom em contar a verdade, é claro que não podia esperar que ele acreditasse em mim.

     Em menos de meia hora, o Tenente Rowcliffe e um sargento detetive apareceram e levei-os ao escritório. Rowcliffe leu o atestado de Dr. Vollmer atentamente três vezes, e me ofereci para bater uma cópia para que ele pudesse estudá-la mais tarde. Estava se controlando, já que era óbvio que de nada adiantariam raios e trovões. Tentou insistir em que não haveria mal algum em entrar pé ante pé no quarto de Wolfe, só para olhar com piedade um cidadão enfermo, e cidadão que era colega profissional, mas expliquei que, embora apreciasse muito a idéia, não ousaria deixá-lo entrar, pois o Dr. Vollmer nunca me perdoaria. Replicou compreender perfeitamente minha situação, e que tal se eu ficasse esperto e contasse alguma coisa? Retruquei que não tinha coisa alguma para contar. Ele acreditou em mim quase tanto quanto Hombert, mas nada havia que pudesse fazer a respeito, a não ser que me levasse para a delegacia e usasse um pedaço de borracha em mim, e como Rowcliffe me conhecia quase tão bem quanto me detestava, isso não lhe parecia possível.

     Quando saíram, Rowcliffe subiu no carro de polícia e foi embora, e o sargento ficou a andar de um lado para o outro na calçada em frente da casa. Era sensato. Não havia motivo para alugar uma janela em frente, já que sabiam que nós sabíamos que manteriam vigilância. A partir desse momento até o fim, tivemos uma sentinela na frente da casa.

     Nunca entendi por que não tentaram resolver o caso mais rapidamente e com mais diligência, mas suspeito que foi por causa da briga entre o Inspetor Ash e o alto comando. Mais tarde, depois que tudo terminou, tentei descobrir por intermédio de Purley Stebbins o que acontecera, mas Purley nunca se mostrou disposto a contribuir com mais do que um ou dois resmungos, talvez porque o sistema de Ash fosse algo que queria apagar da lembrança. O Dr. Vollmer recebeu mais informações do que eu. Quando vinha visitar seu paciente, mantinha-me informado. No primeiro dia, quinta pela manhã, levei-o até o quarto, mas quando Wolfe começou a se divertir apontando um dedo que tremia na direção da parede, dizendo que grandes vermes pretos, cobertos com o sinal de dólar, estavam descendo do teto, ambos nos retiramos. Depois disso, Vollmer nunca mais chegou perto de seu paciente, ficando apenas no escritório em conversa comigo pelo tempo que levaria se tivesse ido ver um paciente, para benefício da sentinela na calçada. A polícia o amolava, mas ele estava se divertindo muito. Logo após me deixar, na quinta de manhã, Rowcliffe fora vê-lo, e naquela tarde um médico da polícia foi ao seu consultório para obter informações sobre Wolfe em nível profissional. Na sexta pela manhã o próprio Ash aparecera e, após passar vinte minutos com Ash, Vollmer estava mais entusiasmado do que nunca sobre o favor que prestava a Wolfe. Mais tarde, na própria sexta à tarde, outro médico da polícia aparecera e fizera perguntas capciosas. Quando Vollmer surgiu naquela noite, pela primeira vez não estava tão seguro.

     Ao meio-dia de sábado aconteceu o que eu vinha esperando desde que começara a charada, e aquilo que Vollmer temia. Foi um chamado pelo telefone de Rowcliffe às doze e vinte. Eu estava sozinho no escritório quando a campainha soou e fiquei ainda mais só quando o chamado terminou e desliguei. Subi os degraus de dois em dois, abri a porta de Wolfe, entrei e anunciei:

     — OK, Pagliaccio, por fim estamos com sorte. Você foi sorteado. Um eminente neurologista, de nome Green, contratado pela Cidade de Nova Iorque e equipado com uma ordem da Corte, chegará para lhe dar uma audição às quinze para as seis. — Olhei-o zangado e perguntei: — E agora, se você tentar bancar o otário eu me demito às dezesseis para as seis.

     — Então é assim — Wolfe fechou o livro, marcando-o com um dedo. — É disso que tínhamos medo. — Colocou o livro aberto sobre a colcha preta. — Por que precisa ser hoje? Por que diabos você concordou com a hora que deram?

     — Porque fui obrigado! Quem você pensa que eu sou? Queria vir agora mesmo, e fiz o melhor que pude. Disse-lhes que seu médico tinha de estar presente e ele não poderia vir até depois do jantar, hoje à noite, às nove horas. Disseram que tinha de ser antes das seis e não aceitariam um não. Diabos, consegui mais cinco horas extras e tive de brigar para consegui-las.

     — Pare de gritar comigo. — Descansou a cabeça no travesseiro. — Volte para baixo. Vou ter que pensar.

     Fiquei firme: — Você realmente ainda não pensou no que fazer, quando eu lhe disse desde quinta de manhã que isso poderia acontecer a qualquer minuto?

     — Archie. Saia daqui. Como posso pensar no assunto com você ao meu lado gritando?

     — Muito bem, estarei no escritório. Chame-me quando tiver alguma idéia.

     Saí, fechei a porta e tranquei-a, desci. No escritório o telefone tocava. Era Winterhoff, perguntando sobre a saúde do meu chefe.

 

TENTO, à medida que conto a história, não deixar nada essencial de fora e, como sou eu que a conto, encaro o meu estado de espírito nos vários estágios como essencial. Mas durante aquelas duas horas de sábado, de doze e meia até duas e meia, meu estado de espírito não estava realmente digno de ser lido por pessoas de família. Tenho uma vaga lembrança de ter almoçado duas vezes, embora Fritz delicadamente insista que não se lembra disso. Pelo que se lembra, disse que o almoço de Wolfe foi completamente normal: a bandeja foi levada cheia à uma hora e voltou vazia uma hora depois, e nada lhe pareceu anormal, exceto que Wolfe estava preocupado demais para lhe fazer elogios sobre a omelete.

     O que me fez usar um suprimento completo de xinga-mentos em duas míseras horas não foi apenas o fato de que só via em minha frente uma rendição ignominiosa. Isso era uma dose dura, mas não fatal. Mas do jeito que eu via as coisas, o pior é que estávamos sendo torpedeados de uma posição que ninguém, exceto um maníaco, pensaria em ocupar. Eu tinha o direito de presumir, agora que lia os relatórios de Bill Gore e dos homens de Bascom, que sabia exatamente o que acontecia em todos os setores, exceto aquele ocupado por Saul Panzer, e era impossível imaginar o que Saul poderia estar fazendo que justificasse, quanto mais que tornasse necessária, a palhaçada espetacular e espalhafatosa que Wolfe estava desenvolvendo. Quando, às duas horas, Saul telefonou, tive vontade de enfrentá-lo e fazê-lo abrir-se comigo, mas sabia que seria inútil e liguei-o com o quarto de Wolfe. Em qualquer lista de tentações que algum dia eu prepare, esta ocupará o primeiro lugar. O desejo de escutar na linha fazia-me tinir dos pés à cabeça. Mas um dos pontos do entendimento entre Wolfe e eu é que nunca desobedeço instruções, exceto quando houver circunstâncias que ele desconheça que o exijam, e sou eu quem decide quais são elas, e nesse caso nada o justificava. Minhas instruções eram de que Saul Panzer estava fora de limites para mim até aviso em contrário, e pus o telefone no gancho e fiquei andando para cima e para baixo com as mãos nos bolsos.

     Vieram outros telefonemas, mas não importavam, e violei outra instrução, a que me mandava receber qualquer visita. Mas as circunstâncias o justificavam. Estava na cozinha, ajudando Fritz a amolar facas, creio que baseado no princípio de que, em época de crise, sempre tendemos a buscar a companhia de outro ser humano, quando a campainha soou. Fui até à porta da frente, afastei a cortina e vi Breslow. Abri a porta só um pouco e gritei para ele:

     — Não pode entrar, essa é uma casa de luto, dê o fora!

     Bati a porta e voltei para a cozinha, mas não consegui chegar lá. Ao passar pelo pé da escada percebi sons e movimento, e, parando para olhar para cima, vi a origem. Wolfe, coberto apenas com os oito metros de seda amarela, que é o que gasta para confeccionar um pijama, descia as escadas. Arregalei os olhos. Era algo sem precedentes, ele mover-se verticalmente sem ser de elevador.

     — Como foi que saiu? — perguntei.

     — Fritz deu-me uma chave. — Continuou descendo e vi que ao menos pusera chinelos. Deu-me uma ordem: — Chame Fritz e Theodore ao escritório imediatamente.

     Era a primeira vez que o via de pijama fora do quarto. Obviamente tratava-se de uma emergência extrema. Empurrei a porta da cozinha e falei com Fritz e então fui para o escritório, chamei Theodore pelo interfone na estufa, e disse a ele que descesse rápido. Quando Theodore chegou e entrou, Wolfe estava sentado atrás da escrivaninha e Fritz e eu estávamos de pé ao lado.

     — Como vai, Theodore. Não o vejo há três dias.

     — Estou muito bem, senhor. Senti sua falta.

     — Sem dúvida. — Wolfe olhou para Fritz, depois para mim e disse vagarosa e claramente: — Sou um idiota retardado.

     — Sim — concordei.

     Ele franziu a testa: — Você também é, Archie. Portanto, nenhum de nós tem o direito, daqui para a frente, de pretender possuir o processo mental de um antropóide. Eu o incluo, porque você ouviu o que eu disse ao Sr. Hombert e ao Sr. Skinner. Você leu os relatórios dos homens de Bascom. Você sabe o que está acontecendo. E, por Deus, não lhe ocorreu que a Srta. Gunther ficou a sós neste escritório durante uns três minutos, quase quatro ou cinco, quando você a trouxe aqui naquela noite! E só agora me ocorreu! Puxa! E durante trinta anos ousei exercer meu direito de votar! — Deu um resmungo: — Tenho o cérebro de um molusco!

     — É. — Olhei-o atentamente. É claro que me lembrava que, quando trouxe Phoebe naquela sexta à noite, deixei-a no escritório e fui à cozinha apanhá-lo. — Então você pensa...

     — Não. Desisto de fingir que estou pensando. O que aconteceu agora torna isso impraticável. — Fritz e Theodore, uma moça esteve sozinha aqui quatro minutos. No bolso ou na bolsa, ela tinha um objeto que queria esconder — uma fita preta de três polegadas de diâmetro e seis de comprimento. Ela não sabia de quanto tempo dispunha; alguém podia entrar a qualquer momento. Presumindo que ela a escondeu nessa sala, encontrem-na. Conhecendo a qualidade de sua inteligência, acho provável que escondesse na minha escrivaninha. Aqui eu mesmo procuro.

     Empurrou a cadeira para trás e abaixou-se para abrir uma gaveta do fundo. Eu estava junto à minha própria escrivaninha, abrindo gavetas também. Fritz me perguntou:

     — Como é que fazemos, dividimos por seções?

     — Não divida nada — falei-lhe sobre o ombro —, apenas procure.

     Fritz foi até o sofá e começou a tirar as almofadas. Theodore escolheu, para começar, os dois vasos em cima do arquivo que, naquela estação, continham salgueiros. Não posso fornecer um relatório detalhado da parte da busca feita por Fritz e Theodore, porque estava muito ocupado procurando; só podia olhá-los de vez em quando, para ver como iam. Mas fiquei de olho em Wolfe, porque partilhava da opinião dele sobre a inteligência de Phoebe, e seria bem dela escolher a própria escrivaninha de Wolfe, desde que achasse uma gaveta em cujo conteúdo não se mexesse sempre. Mas ele não achou nada. Enquanto eu abria a parte de trás do rádio, que podia ser alcançada sem tirá-lo do lugar, ele colocou a poltrona na posição habitual, sentou-se confortavelmente, murmurou: — Diabos de mulher — e nos passou em revista como um comandante no campo passa em revista suas tropas em ação.

     Ouviu-se a voz de Fritz: — É isso, Sr. Wolfe?

     Estava ajoelhado em frente da parte mais comprida da estante, no tapete, e ao seu lado estavam empilhados uma dúzia de volumes de Lindenia encadernados, e na prateleira de baixo, perto do chão, havia um grande espaço vazio. Ele esticava a mão com um objeto que, ao primeiro olhar, já identificávamos.

     — Ideal — disse Wolfe, com aprovação. — Ela era realmente extraordinária. Dê para Archie. Archie, puxe a máquina. Theodore, estarei com você na sala dos vasos provavelmente hoje mais tarde, mas amanhã com toda a certeza na hora habitual. Fritz, dou-lhe os parabéns, você tentou a prateleira de baixo primeiro, o que foi muito sensato.

     Fritz estava sorridente ao me entregar a fita e foi embora, e Theodore saiu atrás dele. Enquanto ligava a máquina e colocava a fita, declarei:

     — Bem, isso deve resolver. Ou não.

     — Ligue-a — resmungou Wolfe. Estava batendo no braço da poltrona com o dedo. — O que é que há? Não funciona?

     — É lógico que funciona. Não me apresse. Estou nervoso e tenho o cérebro de um... me esqueço o quê. Ah, molusco.

     Liguei o interruptor e sentei-me. A voz de Cheney Boone chegou aos nossos ouvidos, indubitavelmente a mesma voz que ouvíramos nas outras dez fitas. Durante cinco minutos nenhum de nós moveu um músculo. Fiquei olhando para a tela do alto-falante e Wolfe inclinou-se para trás com os olhos fechados. Quando terminou, desliguei.

     Wolfe soltou um suspiro profundo, esticou-se e abriu os olhos.

     — Nossa literatura precisa de uma revisão — declarou. — Por exemplo, “os mortos não contam histórias”. O Sr. Boone está morto. O Sr. Boone está em silêncio. Mas ele fala.

     — Sim — disse eu, sorrindo para ele. — Um orador paradoxalmente silencioso. A ciência é maravilhosa, mas sei de um sujeito que não vai pensar assim, maldito seja. Quer que vá apanhá-lo?

     — Não. Creio que poderemos arranjar isso por telefone. Tem o número do Sr. Cramer?

     — Claro.

     — Ótimo. Primeiro, porém, chame Saul. Seu número é Manhattan cinco, três-dois-três-dois.

 

ÀS DEZ para as quatro todos os nossos convidados já tinham chegado e estavam reunidos no escritório. Um deles era um velho amigo e inimigo: o Inspetor Cramer. Um era um ex-cliente: Don O’Neill. Um era apenas um conhecido: Alger Kates. O quarto era totalmente desconhecido: Henry A. Warder, vice-presidente e tesoureiro de O’Neill e Warder, Ltda. O vice-presidente de O’Neill. É claro que Saul Panzer, que se sentara numa cadeira no canto atrás do globo, era considerado não um convidado, mas uma pessoa da família.

     Cramer estava na poltrona de couro vermelho, vigiando Wolfe como um gavião. O’Neill, ao entrar e ver o seu vice-presidente, que chegara antes dele, imediatamente ficou furioso e com a mesma rapidez pensou melhor no assunto, fechou a boca e permaneceu imóvel. O vice, Henry A. Warder, que era alto e largo, construído como uma pilastra de concreto, parecia necessitar ele próprio de um suporte. Era o único cujo comportamento sugeria que talvez precisássemos de sais, pois estava apavorado. Alger Kates não disse uma única palavra a ninguém, nem uma única palavra, nem mesmo quando lhe abri a porta. Tomara a atitude básica de um professor de escola dominical numa caverna de bandidos.

     Pela primeira vez, desde quarta à noite, Wolfe estava de terno. Sentou-se e olhou todos, observando-os, e disse:

     — Isso vai ser desagradável para todos os três, cavalheiros, por isso andemos o mais rápido possível. Farei a minha parte. O modo mais rápido é deixá-los escutar uma fita de estenofone, mas primeiro preciso lhes dizer onde a achei. Foi encontrada nessa sala há uma hora, atrás dos livros — apontou com o dedo — naquela prateleira de baixo. Foi a Srta. Gunther que a colocou lá, escondeu-a lá quando veio me ver sexta-feira à noite há uma semana — fez ontem uma semana.

     — Ela não estava aqui — O’Neill disse asperamente. — Ela não veio.

     Wolfe o contemplou por um momento, nada amigável:

     — O senhor não quer que isso seja breve!

     — Pode ter certeza de que quero! Quanto mais rápido, melhor!

     — Então não interrompa. Naturalmente tudo que digo é não só verdade como pode ser provado, ou eu não diria. A Srta. Gunther veio aqui naquela noite, trazida pelo Sr. Goodwin, depois que os outros saíram, e ficou a sós nessa sala durante vários minutos. Não há desculpa para o fato de que não me lembrei disso antes e não revistei a sala. Foi uma falha assustadora de um intelecto que às vezes tem funcionado satisfatoriamente. Entretanto, não falemos mais nisso. — Fez um gesto brusco. — Isso é uma coisa entre mim e o universo. Agora ouviremos a fita, que foi ditada pelo Sr. Boone na última tarde que passou em seu escritório em Washington. Peço-lhes que não interrompam. Archie, pode ligar.

     Enquanto eu ligava a máquina ouviu-se um murmúrio. Cheney Boone estava com a palavra:

Srta. Gunther, isso é só para nós dois e mais ninguém. Certifique-se disso. Faça somente uma cópia, para seu arquivo confidencial, e dê-me o original.

     Acabei de ter uma conversa num quarto de hotel com Henry A. Warder, vice-presidente e tesoureiro de O’Neill e Warder. É o homem que vem tentando falar comigo por seu intermédio e recusando-se a dar o nome. Finalmente conseguiu falar comigo diretamente, em casa, e marquei um encontro com ele para hoje, 26 de março. Ele me contou o seguinte.

     Warder deu um pulo para fora da cadeira e avançou em direção à máquina, gritando: — Pare!

     Estaria mais de acordo com seu tamanho e aparência se eu dissesse que rugiu ou esbravejou, mas foi literalmente um grito. Como antecipara uma reação dessas, eu colocara a máquina perto da minha escrivaninha, a quatro metros de distância, e não tive dificuldade em interceptar o ataque. Fiquei de frente para Warder, pus a mão para trás para alcançar o interruptor e falei com firmeza:

     — Nada disso. Recue e sente-se.

     Tirei do meu bolso uma automática e deixei que todos a vissem.

     — À medida que forem ouvindo, vocês três vão cada vez gostar menos. Se todos tiverem a idéia ao mesmo tempo e tentarem agir, atiro e será um prazer.

     — O que falei foi sob promessa de continuar em segredo! — Warder tremia dos pés à cabeça: — Boone prometeu...

     — Engula! — Cramer saíra de sua cadeira e estava ao lado de Warder. Perguntou-me: — Não foram revistados, foram?

     Wolfe retrucou bruscamente:

     — Eles não são pistoleiros. Apenas batem na cabeça das pessoas... ou pelo menos um deles bate.

     Cramer não lhe deu atenção. Começou com Warder, revistou-o rápida mas completamente, mandou que ele recuasse e disse para O’Neill: — Levante-se. — O’Neill não se mexeu. Cramer rosnou para ele: — Quer que eu o levante?

     O’Neill levantou-se, respirando com força, enquanto as mãos competentes de Cramer o revistavam. Quando foi a vez de Alger Kates, não houve pressão. Ele parecia meio tonto, mas nem um pouco ressentido. Cramer andou pela sala até a máquina, depois de terminar de revistá-los e nada encontrar, e colocou a mão sobre ela. Falou para mim:

     — Continue, Goodwin.

      Como não era um perito em estenofone e não queria danificar a fita, comecei de novo. Logo chegamos ao ponto em que fôramos interrompidos:

     Ele me disse o seguinte. Há vários meses que Warder sabe que o presidente de sua companhia, Don O’Neill, vem pagando um membro do DCP para obter informações confidenciais. Ele não descobriu isso acidentalmente ou por qualquer investigação secreta. O’Neill não apenas admitiu, mas vem se gabando do fato e Warder, como tesoureiro, vem sendo obrigado a desembolsar fundos da companhia para esse fim, por meio de uma conta especial. Ele vem fazendo isso sob protesto. Repito que isso é o que Warder diz, mas estou inclinado a acreditar nele, pois veio me ver voluntariamente. Teremos que verificar com o FBI para descobrir se têm alguma pista que leve a O’Neill e Warder e especificamente a Warder, mas não devemos dar ao FBI nenhum indício de que Warder se comunicou comigo. Tive que dar a ele minha palavra antes que ele dissesse alguma coisa, e minha palavra terá de ser mantida. Conversarei com você sobre isso amanhã, mas tenho um palpite — você sabe como tenho palpites — de que devo pôr isso numa fita sem demora.

     Cramer fez um ruído que era parte espirro e parte pigarro, e três pares de olhos foram em sua direção, como irritados por ele interferir num desempenho fascinante. Eu não me incomodei muito, pois já ouvira antes. Estava interessado era na audiência.

     Warder disse que, pelo que sabia, os pagamentos começaram em setembro e que o total pago até hoje é de dezesseis mil e quinhentos dólares. A razão que deu para vir me procurar é que é um homem de princípios, foi a maneira como colocou as coisas, e desaprova violentamente o suborno, especialmente de funcionários do governo. Ele não estava em posição de tomar uma atitude firme em relação a O’Neill, pois O’Neill tem mais de sessenta por cento das ações da companhia e Warder possui menos de dez por cento, e O’Neill podia mandá-lo embora, e era isso que faria. Isso pode ser facilmente verificado. Warder estava extremamente nervoso e apreensivo. Minha impressão é de que sua história está correta, de que veio me ver como conseqüência de sua consciência estar lhe incomodando, mas há uma chance de que seu verdadeiro motivo seja querer culpar O’Neill, por razões que não quis declinar. Jurou que seu único motivo era contar-me os fatos para que eu pusesse um fim a isso, livrando-me do meu subordinado corrupto, e isso está corroborado pelo fato de que me pediu antecipadamente que fizesse uma promessa que nos torna impossível abordar o assunto com O’Neill.

     Sei que isso será uma surpresa para você — sei que foi para mim: o homem que O’Neill comprou é Kates, Alger Kates. Você sabe o que eu pensava de Kates e creio que você pensava o mesmo. Warder diz que não sabe exatamente o que O’Neill recebeu pelo que pagou, mas isso não é importante. Sabemos que Kates estava na posição de vender — tanto quanto qualquer homem na organização, fora dos postos chaves — e nosso único palpite seguro é que contou tudo a O’Neill e que O’Neill passou adiante ao pessoal sujo da ANI. Não preciso lhe dizer como estou enojado. Por uns miseráveis dezesseis mil dólares! Creio que não me importaria tanto de ser traído por um patife de primeira classe por uma quantia de milhões, mas isso me enoja. Pensei que Kates era um homenzinho modesto, com o coração no trabalho e em nossos objetivos e finalidades. Não sei para que queria o dinheiro e não me importo com isso. O melhor modo seria denunciá-lo ao FBI e apanhá-lo juntamente com O’Neill, mas minha promessa a Warder não permitiria isso. Vou pensar no assunto e falaremos amanhã. Se eu agora desse de cara com Kates, creio que não conseguiria me controlar. Realmente, não quero mais vê-lo. Isso me feriu muito fundo e se ele entrasse na sala agora, creio que poria meus dedos no seu pescoço e o estrangularia. Você me conhece. Esse é o meu modo de falar.

     A coisa mais importante não é Kates em si, mas o que isso prova. Prova que é simplesmente loucura eu acreditar completamente em alguém, em qualquer outra pessoa exceto Dexter e você, e precisamos instalar imediatamente um melhor sistema de controles. Podemos continuar a deixar o FBI tomar conta do assunto até um certo ponto, mas precisamos reforçar isso com uma organização e um pessoal que trabalhe diretamente sob nossas ordens. Quero que você pense nisso para a reunião de amanhã, para a qual ninguém será convidado exceto Dexter. Do modo como estou vendo as coisas, você terá de largar tudo e só se ocupar disso. Isso me deixará num aperto, mas o assunto é de vital importância. Pense nisso. Tenho que comparecer à Comissão do Senado pela manhã, por isso vou levar a fita para Nova Iorque e lhe dar, e você pode ouvi-la quando eu estiver no Senado, e começaremos a discutir o assunto de tarde, o mais cedo possível.

     A voz parou, substituída por um barulhinho fraco, e desliguei o interruptor.

     Houve completo silêncio.

     Wolfe quebrou-o:

     — Então, Sr. Kates? — perguntou num tom de voz de curiosidade inocente. — Quando entrou naquela sala, levando o material do Sr. Boone para seu discurso, e ele se achou frente a frente com o senhor, ele pôs os dedos em volta de seu pescoço e tentou estrangulá-lo?

     — Não — Kates chiou. Parecia indignado, mas pode ter sido porque os chiados quase sempre se parecem.

     O’Neill deu-lhe uma ordem:

     — Fique fora disso, Kates! Cale essa boca!

     Wolfe soltou uma risadinha:

     — Isso é maravilhoso, Sr. O’Neill. Realmente é. Quase palavra por palavra. Naquela primeira noite aqui o senhor o admoestou, dizendo: “Fique fora disso, Kates! Sente-se e cale a boca!” Não foi muito inteligente de sua parte, pois parecia exatamente um homem exaltado dando ordens a um empregado, como realmente era. Isso fez com que eu deixasse um bom homem três dias investigando se havia alguma conexão entre o senhor e o Sr. Kates, mas foram muito cuidadosos. — Seus olhos se voltaram para Kates. — Perguntei se o Sr. Boone queria estrangulá-lo, pois aparentemente ele tinha isso em mente, e também porque sugere uma linha de defesa para o senhor — autodefesa. Um bom advogado poderia fazer alguma coisa com isso, mas naturalmente há o caso da Srta. Gunther. Duvido que um júri pudesse ser convencido de que ela também tentara estrangulá-lo na minha varanda. Por falar nisso, há um detalhe sobre o qual estou curioso. A Srta. Gunther contou à Sra. Boone que ela escrevera uma carta ao assassino, dizendo a ele que deveria devolver a fotografia do casamento. Não acredito nisso. Não creio que a Srta. Gunther tivesse posto uma coisa dessas por escrito. Creio que ela conseguiu a fotografia e a licença do automóvel do senhor e os colocou no correio para a Sra. Boone ela mesma. Não foi?

     Como resposta, Alger Kates mostrou um dos mais estranhos desempenhos que já vi, e tenho visto muitos. Ele chiou, e dessa vez não havia dúvidas sobre a indignação, não para Wolfe e sim para o Inspetor Cramer. Estava tremendo de indignação, de pé, numa retomada da cena dramática em que acusara Breslow de ir além dos limites da decência. Guinchava:

     — A polícia é totalmente incompetente! Deveriam descobrir de onde veio aquele pedaço de cano em poucas horas! Nunca descobriram! Veio de uma pilha de lixo no corredor do porão do prédio na Rua 41 onde a ANI tem seus escritórios!

     — Nossa Senhora! — falou Cramer. — Ouçam só! Ele está sentido!

     — Ele é um idiota — disse O’Neill virtuosamente, parecendo dirigir-se ao estenofone. — É um idiota desprezível. Nunca suspeitei que pudesse ter cometido assassinato. — Virou-se para encarar Kates: — Meu Deus, nunca pensei que você fosse capaz disso!

     — Nem eu — chiou Kates. Parara de tremer e estava de pé, mantendo-se ereto. — Não antes de acontecer. Depois que aconteceu, eu me compreendi melhor. Não fui tão idiota quanto Phoebe foi. Ela deveria ter sabido, naquela ocasião, do que eu era capaz. Eu entendi. Ela nem ao menos prometeu não contar ou destruir a fita. Ela nem ao menos prometeu! — Seus olhos estavam fixos em O’Neill, sem piscar. — Deveria ter matado você também, naquela mesma noite. Eu podia. Você estava com medo de mim. Você tem medo de mim agora! Nenhum deles teve medo de mim, mas você tem. Você diz que nunca suspeitou que eu fosse capaz de matar, quando você sabia de tudo!

     O’Neill começou a responder, mas Cramer o interrompeu e perguntou a Kates:

     — Como é que ele sabia?

     — Eu contei. — Se o chiado de Kates era tão doloroso de emitir como era de escutar, era certo que ele estava sendo magoado. — Ou antes, eu não tive de dizer. Ele marcou um encontro...

     — Isso é mentira — disse O’Neill friamente e com precisão. — Agora está mentindo.

     — Está bem, deixe ele acabar. — Cramer insistiu com Kates: — Quando foi isso?

     — No dia seguinte, quarta-feira. Quarta de tarde. Encontramo-nos de noite.

     — Onde?

     — Na Segunda Avenida, entre as Ruas 55 e 54. Conversamos na calçada. Ele me deu algum dinheiro e disse-me que, se acontecesse alguma coisa, se eu fosse preso, ele me daria o que eu precisasse. Ele estava com medo de mim. Ficava me vigiando, olhando minhas mãos.

     — Quanto tempo ficaram juntos?

     — Dez minutos. Calculo uns dez minutos.

     — Que horas eram?

     — Dez horas. Devíamos nos encontrar às dez horas e cheguei na hora, mas ele atrasou-se uns quinze minutos porque disse que quis ter certeza de não estar sendo seguido. Não creio que um homem inteligente tivesse trabalho com isso.

     Wolfe interrompeu:

     — Sr. Cramer, isso não é uma perda de tempo? O senhor vai ter que perguntar tudo de novo na Central, com um escrivão. Parece que ele está disposto a cooperar.

     O’Neill interrompeu:

     — Ele está pronto para ser eletrocutado e fazer toda a encrenca que puder para outras pessoas, com suas malditas mentiras.

     — Se eu fosse o senhor, não me preocuparia muito com isso. — Wolfe olhou para O’Neill e seus olhos brilhavam. — Pelo menos ele é mais filósofo do que o senhor. Mau como ele é, ao menos aceita o inevitável com senso de decoro. O senhor, ao contrário, tenta espernear. Pelos olhares que está lançando ao Sr. Warder, suspeito de que o senhor ainda não tem uma idéia bem clara do que aconteceu. O senhor devia estar procurando agradá-lo. O senhor vai precisar dele para tomar conta de seu negócio quando estiver fora...

     — Vou com isso até o fim. Não vou embora.

     — Oh, mas vai. O senhor vai para a cadeia. Pelo menos, é o que parece... — Wolfe virou-se abruptamente para o vice-presidente: — O que me diz a respeito, Sr. Warder? Vai tentar desacreditar a mensagem dos mortos? Vai repudiar ou distorcer sua entrevista com o Sr. Boone e deixar que o júri vote que o senhor é um mentiroso? Ou vai mostrar que tem algum juízo?

     Warder não parecia mais assustado e quando falou não mostrava vontade de gritar. Disse, numa voz firme e cheia de virtude:

     — Vou dizer a verdade.

     — O Sr. Boone disse a verdade na fita?

     — Sim.

     Os olhos de Wolfe voltaram para os de O’Neill:

     — Aí está. Suborno é crime. O senhor vai precisar do Sr. Warder. Quanto ao outro assunto, cumplicidade em assassinato após ter-se dado o fato, isso tudo vai depender, principalmente, de seu advogado. Daqui por diante, os advogados é que tomam conta. Sr. Cramer, por favor, tire-os daqui. Estou cansado de olhá-los. — Virou-se para mim: — Archie, embrulhe a fita. O Sr. Cramer vai querer levá-la.

     Enquanto se movimentava, Cramer me disse:

     — Espere um instante, Goodwin, enquanto dou um telefonema.

     Por isso sentei-me de frente para todos, com a automática na mão, caso alguém tivesse um ataque de nervos, enquanto ele discava e conversava. Fiquei interessado vendo que seu objetivo não era o escritório da Delegacia de Homicídios, onde Ash estava instalado, nem mesmo o inspetor chefe, mas o próprio Hombert. Ocasionalmente, Cramer demonstrava ter mais cérebro do que um molusco.

     — Comissário Hombert? Aqui é o Inspetor Cramer. Sim, senhor. Não, estou telefonando do escritório de Nero Wolfe. Não, senhor, não estou tentando entrar onde não sou chamado, mas se o senhor me deixar explicar... Sim, senhor, sei muito bem que seria uma quebra de disciplina, mas se o senhor me ouvir por um minuto... É claro que estou aqui com Nero Wolfe, não forcei a entrada, e apanhei o sujeito, consegui a prova e consegui a confissão. É exatamente como estou lhe dizendo, e não estou bêbado nem maluco. Mande... um momento.

     Wolfe estava fazendo uma porção de gestos nervosos.

     — O que é que você quer? — grunhiu Cramer.

     Wolfe deu a ordem: — Diga a ele para não deixar aquele maldito médico vir aqui.

     Cramer voltou ao telefone:

     — Está bem, comissário. Mande... oh, nada, apenas Wolfe, resmungando qualquer coisa sobre um médico. O senhor ia mandar um médico? Ele não precisa e, na minha opinião, nunca vai precisar. Mande três carros e seis homens para a casa de Wolfe. Não, não tenho, mas vou levar três comigo. O senhor verá quando eu chegar. Sim, senhor, estou lhe dizendo, o caso está terminado e não há dúvidas maiores. Claro, vou levá-los diretamente ao senhor...

     Desligou.

     Alger Kates chiou: — Não precisa pôr algemas em mim, precisa?

     — Quero telefonar para o meu advogado — disse O’Neill com uma voz gélida.

     Warder apenas ficou sentado.

 

PULANDO mil e um detalhes sem importância do fim de semana, tais como a aparição do eminente neurologista Green — ninguém se preocupara em avisá-lo para não ir — prontamente às quinze para as seis, apenas alguns minutos após Cramer ter saído com os prisioneiros, só para ser informado de que, a despeito da ordem judicial, não havia mais necessidade de seus serviços, chegamos à segunda de manhã. Ao descer da estufa às onze horas, Wolfe sabia que teria uma visita, pois Cramer pedira, pelo telefone, um encontro, e quando entrou no escritório lá estava ele, na poltrona de couro vermelho. No chão ao lado havia um objeto embrulhado num papel verde, de forma estranha, do qual não quisera se separar. Depois de trocados os cumprimentos e Wolfe ter se sentado confortavelmente, Cramer comentou que supunha que Wolfe lera no jornal que Kates assinara uma confissão completa e detalhada de ambos os assassinatos.

     Wolfe acenou: — Um idiota e desajeitado, esse Sr. Kates. Mas, intelectualmente, não é de se desprezar. Um item de seu desempenho poderia até ser chamado de brilhante.

     — Claro. Eu diria mais de um. Você fala do fato de ter deixado o lenço em seu próprio bolso em vez de colocá-lo no bolso de outra pessoa?

     — Sim. Isso foi digno de admiração.

     — E ele realmente é digno de admiração — concordou Cramer. — Na verdade, ele pertence a uma classe à parte. Houve uma coisa sobre a qual não quis falar nada nem assinar nenhum papel, e o que acha que era, alguma coisa que o ajudaria a colocá-lo na cadeira elétrica? Não. Não houve jeito de dizer para que queria o dinheiro, e quando perguntamos se era sua mulher, viagens à Flórida e coisas assim, pôs o queixo para fora e disse, como se fôssemos vermes: “Deixemos minha mulher fera disso, favor não mencionar mais minha mulher.” Ela voltou ontem à tarde e ele não quer vê-la. Creio que ele pensa que ela é sagrada demais para se envolver nisso.

     — É mesmo?

     — É. Mas na parte que lhe diz respeito estava bem disposto a contar tudo. Por exemplo, o que se passou entre ele e Boone no hotel. Entrou na saleta e deu a Boone alguns papéis. Boone despejou-lhe o que ficara sabendo, disse-lhe para ir embora e deu-lhe as costas. Kates pegou a chave inglesa e o acertou. Kates nos contou exatamente o que Boone disse e o que ele disse, e depois releu tudo cuidadosamente para ter certeza de que anotamos de forma correta. Com Phoebe Gunther aqui na varanda foi a mesma coisa. Ele quer que a história saia direita. Quer que fique perfeitamente claro que não combinou encontrar-se aqui nem vir aqui com ela; quando ela lhe telefonou, ele apenas esperou numa área do outro lado da rua até que a viu chegando e aí foi ter com ela e subiram os degraus juntos. O cano estava dentro da manga, já enrolado no lenço. Três dias antes, da primeira vez que tinham estado aqui, quando tirou o lenço do bolso de Winterhoff, não sabia ainda onde iria usá-lo, só pensou em deixá-lo em algum lugar que incriminasse Winterhoff, um homem da ANI.

     — Naturalmente — Wolfe contribuía para a conversa só para ser educado. — Qualquer coisa para manter a suspeita longe dele. Tempo perdido, pois eu já o considerava suspeito.

     — Já? — perguntou Cramer, cético. — Por quê?

     — Por duas coisas sobretudo. A primeira, naturalmente, é a ordem que o Sr. O’Neill lhe deu naquela sexta à noite, uma ordem, sem dúvida alguma, dada a alguém de quem ele esperava receber obediência. A segunda, e muito mais importante, é o retrato de noiva enviado à Sra. Boone pelo correio. Admitamos que há homens capazes de tais gestos, mas nenhum dos cinco homens da ANI que conheci era desse tipo. Obviamente, a Srta. Harding é muito seca para pensar numa gentileza dessas. O álibi do Sr. Dexter já fora verificado e era verdadeiro. A Sra. Boone e a sobrinha não eram suspeitas, pelo menos não para mim. Só sobrava a Srta. Gunther e o Sr. Kates. Era concebível que a Srta. Gunther tivesse assassinado o Sr. Boone, mas não poderia ter se matado com um pedaço de cano e, de todos, era a única que podia ser responsável pelo envio da fotografia, sem se forçar muito as possibilidades. Mas onde a conseguira? Do assassino. De quem? Como uma conjetura lógica, do Sr. Kates.

     Wolfe acenou: — Tudo isso foi apenas divagação. O que precisávamos era da prova, e aqui estava ela, na prateleira de baixo da minha estante. Confesso que isso é uma pílula difícil de engolir. Quer cerveja?

     — Não, obrigado, creio que não. — Cramer parecia nervoso ou preocupado ou qualquer coisa nesse gênero. Olhou para o relógio e ficou na beira da cadeira. — Tenho de ir. Só vim por um instante.

     Pôs-se de pé e sacudiu as calças: — Tenho um dia cheio. Creio que ouviu dizer que estou de volta à minha mesa na Rua 20. O Inspetor Ash foi transferido para Richmond. Ilha Staten.

     — Sim, senhor. Meus parabéns.

     — Muito obrigado. Por isso, comigo de volta ao meu antigo lugar, vai ter que ter cuidado. Tente fazer alguma gracinha e eu lhe monto em cima.

     — Eu não ousaria fazer nenhuma gracinha.

     — Muito bem. Contanto que isso esteja entendido.

     Cramer encaminhou-se para a porta. Chamei-o:

     — Ei, seu embrulho!

     Quase sem parar, falando por cima do ombro, disse:

     — Oh, me esqueci, é para você, Wolfe, espero que goste — e saiu. Deve ter andado muito depressa, a julgar pelo tempo que levou para sair e bater a porta.

     Apanhei o pacote do chão e, colocando-o na escrivaninha de Wolfe, rasguei o papel verde, ficando à mostra o que continha. O vaso era de um verde esmaltado horrível. A terra era apenas terra. A planta estava em boa condição, mas só tinha duas flores. Olhei-a com espanto.

     — Meu Deus — disse eu, quando pude falar —, ele lhe trouxe uma orquídea.

     — Brassocattleya thorntoni — falou Wolfe, bem de mansinho. — Bonita.

     Respondi realisticamente: — Tolice. Você tem mil melhores. Devo jogá-la fora?

     — Claro que não. Leve-a para Theodore. — Wolfe acenou com o dedo. — Archie, um de seus defeitos mais sérios é que você não tem sentimentos.

     — Não? — falei, rindo. — Você ficaria surpreso. Nesse momento um deles quase me sufoca, isto é, gratidão pela sorte que temos por Cramer estar de volta, por mais impertinente que ele seja. Se Ash estivesse lá, a vida não valeria a pena.

     Wolfe resmungou: — Sorte!

 

MAIS cedo ou mais tarde, eu teria de lhe demonstrar que não era um idiota. Esperava pelo momento certo, e chegou naquele mesmo dia, segunda à tarde, cerca de uma hora após o almoço, quando recebemos um telefonema de Frank Thomas Erskine. Deixei que falasse com Wolfe, e escutei na extensão.

     O ponto principal era que um cheque de cem mil dólares seria enviado a Wolfe à tarde pelo correio, o que era muita coisa para um telefonema breve. O resto era assunto trivial. A ANI apreciava muito o que Wolfe fizera por eles e não entendia por que ele devolvera o dinheiro. Estava lhe pagando a quantia total da recompensa imediatamente, conforme fora anunciado, antes do preenchimento de todas as condições especificadas, por causa da gratidão e da confiança que tinham nele, e também porque a confissão de Kates assinada tornaria inevitável o preenchimento dessas condições. Pagariam com prazer as despesas incorridas, bastando Wolfe dizer quanto era. Já discutira o assunto com o Inspetor Cramer, e Cramer dissera que não merecia nenhuma parte da recompensa e que tudo pertencia a Wolfe.

     Foi um telefonema agradável.

     Com um sorriso superior, Wolfe me disse:

     — Muito satisfatório e bem comercial, isso de pagar a recompensa sem demora.

     Olhei-o de soslaio. — É? O Sr. Erskine não sabe de nada.

     — Não sabe de nada o quê? O que é que há agora?

     Coloquei uma perna sobre a outra e encostei-me. Chegara a hora. Declarei:

     — Há várias maneiras de fazer isso. Uma delas seria colocar um pedaço de manteiga na sua boca e ver se derretia. Prefiro do meu modo, que é só lhe dizer. Ou talvez fosse melhor dizer perguntar-lhe, pois farei umas perguntas, mas eu mesmo darei as respostas.

     — De que é que você está falando?

     — Não, sou eu quem faz as perguntas. Número um: quando foi que você encontrou a fita? Sábado de tarde, quando entrou aqui andando como um pato nos seus pijamas, e fazendo pouco do seu cérebro? Nada disso. Todo o tempo você sabia onde estava, pelo menos nos últimos três ou quatro dias. Você a encontrou ou na terça pela manhã, quando eu estava no escritório de Cramer sendo interrogado, ou quarta, enquanto eu almoçava com Nina Boone. Acho que foi na terça, mas admito que pode ter sido na quarta.

     — Você não deveria deixar essas coisas assim sem solução — murmurou Wolfe.

     — Favor não interromper. Número dois: se você sabia onde estava a fita, por que então ficou amolando a Sra. Boone para que ela lhe contasse? Por que você queria ter certeza de que ela não sabia. Se ela soubesse, poderia contar à polícia antes de você fazer a revelação e a recompensa iria para ela. E como Phoebe Gunther contara muita coisa a ela, poderia ter contado isso também. Além disso, fazia parte do seu plano dar a impressão de que não sabia onde estava a fita e de que daria um braço e vários dentes para descobri-la.

     — A impressão foi realmente essa — murmurou Wolfe.

     — Foi mesmo. Eu poderia fornecer várias provas, por exemplo, você mandar buscar o estenofone na quarta pela manhã, que é a principal razão por que eu acho que foi na terça, mas vamos para a número três: que idéia foi essa? Por que não contou a todos quando encontrou a fita? Porque você deixa suas opiniões pessoais interferirem em suas ações profissionais, e isso me lembra que preciso me atualizar em ética. Porque sua opinião sobre a ANI coincide um pouco com a de outras pessoas, inclusive a minha, mas isso não vem ao caso, e você sabia que a má fama do caso estava causando problemas à ANI, e você queria prolongá-la ao máximo. Para conseguir isso, você foi ao extremo de se deixar trancar no quarto por três dias, mas aí admito que entra outro fator, o amor da arte pela própria arte. Você faz qualquer coisa para conseguir um bom espetáculo, desde que você seja o ator principal.

     — Quanto tempo vai durar isso?

     — Estou quase terminando. Número quatro, por que você abandonou o cliente e devolveu o dinheiro, é fácil. Há sempre uma oportunidade de que algum dia você queira mudar de idéia e ir para o céu, e uma traição pura e simples anularia essa hipótese. Portanto você não podia ficar com o dinheiro da ANI e continuar tendo-a como cliente, enquanto fazia o possível para empurrá-la pelo abismo. Aqui, entretanto, é a parte onde viro cínico. E se não tivessem oferecido uma recompensa publicamente? Você faria o espetáculo assim mesmo? Não expresso opinião, mas é claro que tenho uma. Outra coisa sobre ética — qual é exatamente a diferença entre ter um cliente e aceitar pagamento, ou aceitar uma recompensa?

     — Tolice. A recompensa foi anunciada a cem milhões de pessoas e os termos foram declarados. Deveria ser paga a quem as merecesse. Eu mereci.

     — Está certo, estou apenas mencionando o assunto. Não questiono sua entrada no céu, se você decidir que quer ir. Por falar nisso, você não está totalmente seguro. Se pusessem Saul Panzer sob juramento e lhe perguntassem o que fez de quarta até sábado, e ele respondesse que estava sempre em contato com Henry A. Warder, para ter certeza de que poderia contatá-lo quando necessário, e aí lhe perguntassem de onde tirara a idéia de que precisaria de Henry A. Warder, você não teria um probleminha procurando responder? Não que eu creia que isso vá acontecer, conhecendo como conheço Saul. Bem, vejamos. Creio que é tudo. Só queria que soubesse que não gosto que teça comentários de desprezo sobre seu cérebro.

     Wolfe fez um ruído. Houve silêncio. Aí seus olhos se abriram pelo meio e resmungou:

     — Você deixou uma coisa de fora.

     — Qual?

     — Um motivo secundário possível. Ou mesmo um primário. Se tomarmos tudo que foi dito como hipotético — pois é claro que é inadmissível como fato — examinemos eu próprio terça-feira passada, há seis dias, quando — por hipótese — encontrei a fita. O que realmente teria precedentes na minha mente?

     — É o que eu lhe disse. Não o que teria, o que teve.

     — Mas você deixou uma coisa de fora. A Srta. Gunther.

     — O que é que havia com ela?

     — Ela estava morta. Como você sabe, detesto desperdícios. Ela demonstrara tenacidade, audácia e até mesmo uma imaginação notável, ao usar a morte do Sr. Boone para uma finalidade que ele teria desejado, aprovado e aplaudido. No meio disso tudo, foi assassinada. Certamente sua morte não deveria ser desperdiçada. Ela merecia que alguma coisa resultasse disso. Eu me encontrei — por hipótese — numa posição ideal para determinar que isso acontecesse. Foi isso que você não mencionou.

     Encarei-o e disse:

     — Então também tenho uma hipótese. Se foi assim, seja ela a razão principal ou secundária, para o inferno com a ética.

 

                                                                                Rex Stout  

 

                      

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