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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM HOMEM COM SORTE / Nicholas Sparks
UM HOMEM COM SORTE / Nicholas Sparks

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Durante a maior parte da sua vida, Logan Thibault foi um homem que em tudo se podia considerar comum. Porém, nada de comum havia naquilo que estava prestes a acontecer-lhe. Quando encontra uma fotografia de uma mulher durante a guerra do Iraque, Logan Thibault passa, inexplicavelmente, a ser um homem com a sorte do seu lado, que sobrevive, com ferimentos graves, a situações de indescritível perigo. A fotografia, que nunca ninguém chegou a reclamar, começa a ser encarada como um talismã e, de regresso aos EUA, Thibault não consegue deixar de pensar na mulher que lhe salvou a vida. Decidido a encontrá-la, percorre o país à sua procura, mas, assim que a encontra, o desenrolar dos acontecimentos foge rapidamente ao seu controlo, e o segredo que transporta consigo poderá custar-lhe tudo aquilo que lhe é querido.

Nicholas Sparks traz-nos neste romance uma sublime história sobre a força avassaladora do destino que se sobrepõe a tudo e dá sentido até aos momentos mais inexplicáveis da vida.

 

 

 

 

                   CLAYTON E THIBAULT

O ajudante Keith Clayton não os ouvira aproximarem-se e agora, assim de perto, não lhe agradavam mais do que na primeira vez que os vira. O cão incluído. Não gostava de pastores alemães e este, embora se mantivesse calmo sobre as quatro patas, fazia-lhe lembrar Panther, o cão que acompanhava o ajudante Kenny Moore nas patrulhas, e que, à mais breve ordem, estava sempre pronto a morder os suspeitos na zona entre as pernas. Durante a maior parte do tempo considerava Moore um idiota mas, ainda assim, era o que mais parecido tinha com um amigo entre o pessoal do departamento, tendo de admitir que a forma como Moore contava aquelas histórias de mordeduras de braguilhas o fazia chorar a rir. E Moore teria certamente apreciado o pequeno grupo de peles engelhadas que Clayton acabara de trazer, após ter estado a espiar duas alunas da escola mista a bronzearem-se com o glorioso sol da manhã. Só lá estivera uns minutos, apenas tirara um par de fotografias com a câmara digital, quando viu uma terceira rapariga a espreitar por detrás de um canteiro de hortênsias. Ocultara rapidamente a máquina fotográfica nuns arbustos que tinha atrás de si, saíra do esconderijo da árvore e, momentos depois, ele e a rapariga encontravam-se frente a frente.

- Ora bem, o que é que se passa aqui? - perguntou com voz arrastada, a tentar pô-la na defensiva.

Não gostara de ter sido apanhado, nem ficou satisfeito com a sua pergunta inicial. Costumava ser mais delicado. Bastante mais. Felizmente, a rapariga estava demasiado embaraçada para avaliar a situação e quase caiu ao tentar recuar. Gaguejou qualquer coisa enquanto tentava cobrir-se com as mãos. Era como observar alguém a tentar jogar Twister consigo mesma.

Clayton não se esforçou para desviar os olhos. Em vez disso sorriu, a fingir que não lhe reparava no corpo, como se estivesse constantemente a encontrar mulheres nuas na mata. Agora tinha a certeza de que ela não sabia da máquina fotográfica.

- Calma, o que é que se passa? - perguntou.

Sabia perfeitamente o que se passava. Acontecia umas quantas vezes em cada Verão, especialmente em Agosto: alunas de Chapel Hill ou da NC State deslocavam-se à praia para um último fim-de-semana prolongado em Emerald Isle, antes de começar o período escolar de Outono; faziam por vezes um desvio por uma velha estrada, uma sucessão de curvas com buracos, que penetrava quase dois quilómetros na mata nacional, antes de atingir o ponto em que a ribeira Swan Creek descrevia uma curva apertada para South River. Era uma praia de seixos que acabara por ser conhecida como o lugar para banhos de sol em pelota - não sabia o que originara aquele hábito - e Clayton passava por ali amiúde, à espera de ter sorte. Duas semanas antes, vira seis miúdas giras; naquele dia, contudo, havia apenas três. E as duas que estavam estendidas ao sol já procuravam vestir as blusas. Embora uma delas fosse um tanto pesada, as outras duas, incluindo a moreninha que estava à frente dele, tinham corpos capazes de enlouquecer os colegas da faculdade. E também os ajudantes do xerife.

- Não sabíamos que andaria alguém por aqui! Pensámos que não houvesse problemas!

O rosto dela revelava inocência apenas suficiente para o fazer pensar «o papá não ficaria orgulhoso se soubesse o que a sua menina andava a fazer?». Divertia-o imaginar a resposta que ela daria à pergunta mas, como estava fardado, sabia que tinha de ser mais formal. Além disso, sabia que estava a tentar a sorte; se chegasse a saber-se que o gabinete do xerife patrulhava efectivamente aquela zona, nunca mais haveria alunas por ali, uma ideia que Clayton nem queria encarar.

- Vamos falar com as suas amigas.

Seguiu-a em direcção à praia, a observar as vãs tentativas que ela fazia para esconder o traseiro, a gozar o espectáculo. Na altura em que saíram da mata e desembocaram na praia as amigas já tinham vestido as blusas. A moreninha correu para junto das outras e não tardou a pegar numa toalha, embora o gesto a obrigasse a derrubar duas latas de cerveja. Clayton apontou para um aviso pregado numa árvore próxima.

- Não viram o aviso?

Todas viraram os olhos na direcção indicada. As pessoas são como carneiros, sempre à espera de ordens, pensou. O aviso, pequeno e parcialmente encoberto pelos ramos mais baixos de um velho carvalho, fora ali colocado por ordem do juiz Kendrick Clayton, que, por acaso, era tio dele. A ideia do aviso fora de Keith; sabia que a proibição oficial só aumentaria o atractivo do lugar.

- Não o vimos! - respondeu a moreninha, virando-se para ele.

- Não sabíamos! - continuou, ainda a debater-se com a toalha; as outras, demasiado aterradas para pensar, pouco mais faziam do que tentar enfiar os biquinis. - Foi a primeira vez que viemos aqui!

Disse-o como se choramingasse, como se estivesse a lamentar-se perante uma irmandade de mulheres mimadas, que provavelmente eram. Tinham todo o ar disso.

- Sabiam que o nudismo em público é proibido neste país?

Notou que os rostos jovens ficavam mais pálidos, sabendo que elas estariam a imaginar aquela pequena transgressão registada nos seus processos. Engraçado, mas recordou a si mesmo que não devia ir tão longe.

- Como é que se chama?

A moreninha engoliu em seco. - Amy. Amy White.

- De onde é?

- De Chapel Hill. Mas nasci em Charlotte.

- Estou a ver umas bebidas alcoólicas. Todas têm vinte e um anos? As outras também responderam, pela primeira vez: - Sim, senhor ajudante.

- Muito bem, Amy. vou dizer-lhe o que vou fazer. vou aceitar a vossa palavra de que não viram o aviso e de que têm idade para beber legalmente, não vou dar grande importância a isto. vou fingir que não estive aqui. Desde que não contem ao meu chefe que deixei as três à solta.

As raparigas não tinham a certeza de poderem acreditar nele.

- De verdade?

- De verdade. Também andei na universidade - respondeu. Não andara, mas sabia que soava bem. - E agora devem querer vestir-se. Nunca se sabe, pode andar gente por aí - acrescentou, sorridente.

- Não se esqueçam de deixar isto limpo, está bem?

- Sim, senhor ajudante. Voltou-se, preparando-se para as deixar. - Obrigado.

- É tudo?

Virando-se, voltou a sorrir. - É tudo. A partir de agora tenham cuidado.

A caminho do carro, Clayton foi afastando os arbustos mais rasteiros, dobrando-se para passar por debaixo de alguns ramos, a pensar que agira bem. Agira mesmo muito bem. Na verdade, Amy até lhe sorrira e ainda lhe passara pela cabeça voltar atrás e pedir-lhe o número de telefone. Não, decidiu, talvez fosse melhor não mexer mais no assunto. O mais provável era elas irem contar às amigas que, embora tivessem sido apanhadas pelo xerife, não lhes acontecera o que quer que fosse. Espalhar-se-ia a ideia de que os ajudantes da zona eram fixes. Ainda assim, enquanto caminhava pelo bosque, alimentava a esperança de que as fotografias estivessem boas. Seriam um acrescento agradável da sua pequena colecção.

Fora, de modo geral, um excelente dia. Quando se preparava para recolher a máquina fotográfica ouviu um assobio. Seguiu o som que viera da estrada florestal e viu o estranho com o cão, a caminhar lentamente estrada fora, parecendo uma espécie de hippie dos anos 60.

O estranho não estava com as raparigas. Clayton tinha a certeza disso. Primeiro, o tipo era demasiado velho para estudante universitário; estaria, pelo menos, no final da casa dos vinte. A longa cabeleira parecia um ninho de ratazanas e Clayton reparou no volume do saco de dormir que levava na mochila. Não se tratava de um passante a caminho da praia; o tipo tinha todo o aspecto de quem andava em excursão, talvez a acampar. Não fazia ideia do tempo que ele estivera ali ou daquilo que o homem vira.

Tal como Clayton a tirar fotografias ?

De forma alguma. Não era possível. Não estivera visível a partir da estrada principal, os arbustos rasteiros eram espessos e ele não teria deixado de ouvir quem andasse pelo bosque. Certo? Mesmo assim, aquele era um lugar estranho para caminhadas. Não havia por ali o que quer que fosse e a última coisa que Clayton desejava era o aparecimento de um monte de hippies que estragassem o lugar preferido das estudantes.

Entretanto, o estranho passara por ele. Estava perto do carro-patrulha e dirigia-se para o jipe das raparigas. Clayton saltou para a estrada e pigarreou. Ao ouvirem o som, tanto o estranho como o cão se voltaram.

Clayton continuou a analisá-los de longe. O estranho não parecia afectado pelo súbito aparecimento do ajudante, o mesmo sucedendo com o cão, mas o olhar do caminhante era esquisito. Parecia estar à espera que Clayton se mostrasse. O que também sucedia com o pastor alemão. O cão mostrava-se distraído e alerta ao mesmo tempo, um ar quase inteligente, o mesmo que o Panther mostrava antes de Moore o soltar. O estômago do ajudante contraiu-se. Teve de fazer um esforço para não cobrir as partes privadas.

Continuaram a olhar-se durante um bom bocado. Desde há muito que Clayton sabia que o uniforme intimidava a maioria das pessoas.

Toda a gente, mesmo os inocentes, ficam nervosos quando vêem autoridades, aquele tipo não seria diferente. Era uma das razões por que adorava ser ajudante.

- Não tem uma trela para o cão? - inquiriu, dando o seu melhor para que a pergunta parecesse uma ordem.

- Tenho-a na mochila.

Clayton não distinguiu qualquer sotaque. «Inglês de Johnny Carson», como a mãe dele descrevia aquela maneira de falar. - Prenda o cão.

- Não se preocupe. O cão não se mexe sem eu o mandar.

- Mesmo assim, prenda-o.

O estranho pousou a mochila no chão e pôs-se à procura; Clayton esticou o pescoço, com a esperança de ver qualquer coisa parecida com drogas ou armas. Momentos depois a trela estava presa à coleira do cão e o estranho encarou-o com uma expressão que parecia perguntar: E agora?

- O que é que anda a fazer por aqui? - perguntou Clayton.

- A caminhar.

- Para um caminheiro arranjou uma grande mochila. O estranho não respondeu.

- Ou talvez ande às voltas por aí, a tentar ver as paisagens?

- É isso que as pessoas vêm fazer aqui? ? Clayton não gostou do tom, ou do que implicava. - Gostaria que se identificasse.

O estranho debruçou-se uma vez mais sobre a mochila e tirou de lá o passaporte. Colocou a mão aberta à frente do cão, ordenando-lhe que ficasse quieto, e deu um passo em direcção a Clayton para lhe entregar o documento.

- Não tem carta de condução?

- Não tenho.

O ajudante analisou o nome, movendo os lábios lentamente.

- Logan Thibault? O estranho assentiu.

- De onde é?

- Colorado.

- Grande viagem. - Não obteve resposta.

- Vai a qualquer lugar especial?,

- vou a caminho de Arden. - O que é que há em Arden? - Não sei. Nunca lá estive. ? Clayton recebeu mal a resposta. Demasiado seca. Demasiado...

provocadora? Demasiado qualquer coisa. Fosse o que fosse. De repente, reconheceu que não gostava do tipo. - Espere aqui - ordenou.

- Não se importa que confirme isto, pois não?

- Esteja à vontade.

Ao encaminhar-se para o carro, Clayton olhou por cima do ombro e viu Thibault meter a mão no saco, tirar de lá uma tigelinha, onde despejou água de uma garrafa. Como se nada o preocupasse neste mundo.

«Vamos ver, não é assim?» Do carro-patrulha enviou o nome pela rádio, leu letra a letra, antes de ser interrompido pela recepcionista.

- É Thibault, como Ti-bôt, não Ti-bolt. É francês.

- Por que é que tenho de me preocupar com a pronúncia? --Eu estava apenas a dizer...

- Deixa lá, Marge. Limitas-te a confirmar, se fazes favor?

- Ele tem ar de francês?

- Como diabo queres que eu conheça o aspecto de um francês?

- É apenas curiosidade. Não te irrites. Tenho aqui bastante que fazer. Pois, tinha sempre, pensou Clayton. Provavelmente tinha de comer os donuts. Marge engolia uma boa dúzia de bolos com creme por dia. Devia pesar uns 150 quilos, pelo menos.

Pela janela do carro via o estrangeiro a dar palmadinhas nos flancos do cão, a falar-lhe baixinho enquanto o animal bebia água. Abanou a cabeça. A falar com animais. Maluco. Como se o cão pudesse compreender fosse o que fosse para além de ordens simples. A ex-mulher dele costumava fazer o mesmo. A mulher tratava os cães como pessoas, o que, numa primeira análise, devia tê-lo mantido afastado dela.

- Não encontro nada - ouviu Marge dizer. Pareceu-lhe que ela estava a mascar qualquer coisa. - Nada de estranho, tanto quanto posso ver.

- Tens a certeza?

- Sim, tenho a certeza. Sei o que faço.

Como se estivesse a ouvir a conversa, o estranho recolheu a tigela e guardou-a, voltando a pôr a mochila às costas.

- Houve alguns telefonemas fora do habitual? A denunciar pessoas que andam por aí a vaguear, coisas desse género?

- Não. Tem sido uma manhã calma. E, a propósito, onde é que estás? O teu pai tem andado à tua procura.

O pai de Clayton era o xerife do distrito.

- Diz-lhe que não me demoro.

-Parece zangado.

- Diz-lhe apenas que ando em patrulha, está bem?

Não se preocupou a acrescentar: «Para ele saber que tenho estado a trabalhar.»

- Eu digo-lhe. Melhor.

- Tenho de desligar.

Colocou o aparelho no lugar e deixou-se ficar sentado, imóvel, sentindo um ligeiro desapontamento. Seria engraçado ver como o tipo encararia a prisão, com aquela cabeleira feminina e tudo. Os irmãos Landry teriam um dia em cheio com ele presente. Eram clientes habituais da cadeia nas noites de sábado: bêbados e desordeiros, perturbadores da ordem, sempre em lutas, quase sempre um com o outro. Excepto quando estavam atrás das grades. Nesse caso, metiam-se com qualquer outra pessoa.

Afagou o puxador da porta do carro. E qual seria daquela vez o motivo da zanga do pai? O pai enervava-o. Faz isto. Faz aquilo. Já preencheste os relatórios? Por que é que te atrasaste? Onde estiveste? Em metade das ocasiões gostaria de responder ao velhote que tratasse da vida. O velhote ainda pensava que controlava tudo à sua volta.

Não interessava. Supunha que acabaria por descobrir, mais cedo ou mais tarde. Era tempo de pôr o hippie dali para fora, antes de as raparigas aparecerem. Presumia-se que aquele era um sítio especial, não era verdade? Hippies esquisitos poderiam arruiná-lo.

Clayton saiu do carro e fechou a porta. O cão inclinou a cabeça para um lado ao vê-lo aproximar-se. - Peço desculpa pelo incómodo, Mr. Thibault - justificou-se ao devolver o passaporte. Desta vez acentuou propositadamente o sotaque. - Estou apenas a fazer o meu trabalho. A menos, é claro, que transporte drogas ou armas na mochila.

- Não trago.

- Importa-se que eu veja?

- Não, à vontade. Existe a Quarta Emenda e tudo isso.

- Vejo aí um saco de dormir. Tem andado a acampar?

- Na noite passada estive em Burke Camp. . Clayton analisou o homem, a pensar na resposta.

- Não existem parques de campismo nas redondezas.

O tipo ficou calado.

Foi Clayton quem desviou os olhos. - Seria preferível manter o cão preso pela trela.

- Não sabia que havia neste país uma lei sobre as trelas. - Não existe. É para segurança do seu cão. A estrada principal tem grande movimento de automóveis.

- Terei isso em atenção.

- Muito bem, então - concluiu Clayton. Mas parou uma vez mais.

- Se não se importa que pergunte, há quanto tempo é que está aqui?

- Ia de passagem. Porquê?

Algo na maneira como o outro respondeu pôs Clayton a magicar, hesitante, antes de recordar a si mesmo que não havia maneira de o tipo ter visto o que ele andara a fazer. - Por nada.

- Posso ir?

- Sim, claro.

Ficou a observar o estranho mais o cão começarem a percorrer a estrada florestal, antes de virarem para um pequeno trilho que entrava pelo bosque. Logo que deixou de os ver, Clayton voltou ao seu ponto original de observação para procurar a máquina fotográfica. Espreitou por entre os arbustos, afastou as carumas com o pé e voltou a percorrer o mesmo caminho por duas vezes, queria ter a certeza de estar no lugar exacto. Acabou de joelhos, sentindo o pânico começar a invadi-lo. Trazia a máquina «por empréstimo», só para aquelas diligências especiais, e teria de responder a muitas perguntas do pai se a perdesse. Pior, descobrir-se-ia um cartão cheio de fotografias de nudistas. O pai era rigoroso em questões de protocolo e de responsabilidade.

Entretanto, tinham passado vários minutos. À distância, ouviu o som roufenho de um motor a pegar. Julgou que as estudantes iam partir; por um breve instante analisou o que elas poderiam pensar quando vissem que o carro-patrulha continuava parado no mesmo sítio. Tinha outras preocupações.

A máquina fotográfica desaparecera.

Não a perdera. Desaparecera. E aquela coisa não sairia certamente dali pelo seu próprio pé. Também não havia maneira de ter sido encontrada pelas raparigas. O que significava que o Tibolt» tinha estado a gozar com ele o tempo todo. «Ele, a ser gozado por um Tibolt». Inacreditável. Reparara que o tipo agia com demasiada descontracção, parecia-lhe estar a ver o filme Ainda Sei o Que Fizeste no Verão Passado.

Não, o homem não podia safar-se assim. Um sebento, um hippie, um maluco que falava com cães não ia fazer pouco de Keith Clayton. E continuar vivo, claro.

Apartou os arbustos, a abrir caminho para voltar à estrada, esperando ainda apanhar o Logan Tibolt» e dar uma ligeira vista de olhos. E isso seria apenas o começo. Haveria mais, disso podia o outro ter a certeza. Um tipo a gozá-lo? Não era de todo possível. Pelo menos naquela cidade. Também se estava nas tintas para o cão. O cão ficaria perturbado? Adeus, cãozinho! Tão simples quanto isso. Os pastores alemães eram armas, não havia tribunal da terra que não lhe desse razão.

Havia, porém, de começar pelo princípio. Encontrar Thibault. Reaver a máquina fotográfica. A seguir, pensaria o que devia fazer.

Só então, ao aproximar-se do carro-patrulha, se apercebeu de que os dois pneus traseiros estavam vazios.

- Como é que disse que se chamava?

Minutos depois, Thibault debruçou-se sobre o banco dianteiro do jipe, a tentar fazer-se ouvir por cima do rugir do vento. - Logan Thibault - respondeu e apontou por cima do ombro. - E este é o Zeus.

Zeus seguia na parte traseira do jipe, de língua de fora, nariz a farejar o vento, enquanto o jipe ganhava velocidade e se dirigia para a estrada.

- Bonito cão. Eu sou a Amy. E estas são a Jennifer e a Lori. ? Thibault olhou por cima do ombro. - Olá!

- Olá! Pareciam distraídas. Thibault não ficou surpreendido, dada a aflição por que tinham passado. - Obrigado pela boleia.

- Não tem de quê. Disse que ia para Hampton?

- Não é muito longe.

- Fica em caminho.

Depois de ter saído da estrada florestal e de ter arrumado umas coisas, Thibault voltara à estrada no momento em que as raparigas arrancavam. Fizera o sinal de pedido de boleia, de polegar para cima, satisfeito por Zeus estar junto dele, e as raparigas travaram quase imediatamente.

Por vezes, as coisas sucedem exactamente como deve ser.

Embora fingisse que não, na realidade assistira à chegada das três raparigas de manhã cedo, pois estava acampado mesmo junto à praia, mas tinha-as deixado gozar da privacidade que mereciam logo que começaram a despir-se. Na maneira de ver dele, o que as raparigas estavam a fazer cabia no conceito «sem dano, não há crime»; para além dele, não havia mais pessoas nas proximidades e ele não tinha a intenção de perder tempo a observar. Que interessava que tirassem a roupa, ou que envergassem vestidos de noite? Não eram contas do rosário dele e tinha a intenção de manter as coisas nesse pé, até ver o ajudante a conduzir o carro-patrulha da Polícia do Distrito de Hampton.

Conseguiu ver bem o ajudante através do pára-brisas e notou algo de errado na expressão do homem. Era difícil dizer exactamente do que se tratava e ele não perdeu mais tempo a analisar a questão. Voltou-se, atravessou o bosque e chegou mesmo a tempo de ver o ajudante verificar o disco da câmara digital, antes de fechar a porta do carro-patrulha. Ficou a vê-lo esgueirar-se para o monte sobranceiro à praia. Thibault sabia perfeitamente que o ajudante poderia estar ali oficialmente, mas ele mostrava aquele olhar do Zeus quando estava à espera do seu naco de carne. Um pouco excitado com o que estava a fazer. Thibault obrigou Zeus a ficar onde estava, manteve a distância suficiente para que o ajudante não pudesse ouvi-lo e, depois disso, o plano foi aparecendo espontaneamente. Sabia que a confrontação directa estava fora de causa, pois o ajudante podia alegar que se encontrava a coligir provas, e a palavra dele contra a de um estranho teria uma força indesmentível. Qualquer acto físico tinha de ser posto de lado, principalmente por poder criar problemas dispensáveis. Felizmente - ou infelizmente, dependendo da perspectiva -, a rapariga apareceu, o ajudante entrou em pânico e Thibault viu onde a máquina fora parar. Logo que o ajudante e a rapariga se dirigiram para junto das amigas dela, Thibault recuperou a máquina. Podia ter-se retirado logo de seguida, mas aquele tipo precisava que lhe dessem uma lição. Não muito grande, apenas uma lição que mantivesse intacta a reputação das raparigas, permitisse que Thibault seguisse o seu caminho e estragasse o dia do ajudante. Foi o que o levou a voltar atrás e a esvaziar os pneus traseiros do carro do polícia.

- Ah, agora me recordo! - exclamou Thibault. - Encontrei a vossa máquina fotográfica entre os arbustos.

- Não é minha. Lori, Jen, alguma de vocês perdeu uma máquina? Ambas abanaram as cabeças.

- Não faz mal, fique com ela - decidiu Thibault, pondo-a em cima do banco. - E obrigado pela boleia. Já tenho uma máquina fotográfica.

- Tem a certeza? É capaz de ser cara.

- Certamente que é.

- Obrigada.

Thibault reparou nas sombras que lhe brincavam no rosto, julgando-a atraente, uma espécie de sedução própria das grandes cidades, com feições angulosas, pele escura e olhos castanhos com reflexos aveludados. Conseguia imaginar-se a contemplá-la durante horas.

- Eh... tem alguma coisa para fazer neste fim-de-semana? - indagou Amy. - Vamos todas à praia.

- Obrigado pelo convite, mas não posso.

- Aposto que vai visitar a namorada, não é verdade?

- O que é que a leva a dizer isso?

- Vê-se na sua cara.

Fez um esforço para se voltar. - Qualquer coisa desse tipo.

 

                       THIBAULT

Que estranho era pensar nas voltas inesperadas que a vida de um homem pode dar. Até um ano antes, Thibault teria saltado de alegria ante a perspectiva de passar um fim-de-semana com Amy e as amigas dela. Provavelmente era daquilo que precisava mas, quando elas o largaram mesmo à entrada da cidade de Hampton, com o calor de Agosto a dardejar lá do alto, disse-lhes adeus e sentiu-se estranhamente aliviado. Manter aquela aparência de normalidade deixara-o exausto.

Depois de deixar o Colorado, cinco meses antes, de livre vontade não passara mais do que umas horas com a mesma pessoa, sendo a única excepção o idoso dono de uma granja produtora de lacticínios, logo a sul de Little Rock, que o deixara dormir num quarto desocupado do primeiro andar, depois de um jantar em que falara tão pouco quanto o convidado. Agradeceu o facto de o homem não ter sentido a necessidade de o interrogar sobre a maneira como Thibault ali chegara. Nada de perguntas, ausência de curiosidade, nenhuns conselhos. Apenas a aceitação do facto de Thibault não manifestar vontade de conversar. Como prova de gratidão, passou alguns dias a ajudar o fazendeiro a consertar o telhado do celeiro e fez-se de novo à estrada, de mochila cheia, com Zeus a trotar mais atrás.

Fizera todo o caminho a pé, só beneficiara da boleia das raparigas. Depois de deixar as chaves do seu apartamento no escritório do administrador, em meados de Março, gastara oito pares de sapatos, mal sobrevivera à custa de PowerBars e água nas longas viagens solitárias entre cidades e uma vez, no Tennessee, depois de quase três dias de fome, comera cinco grandes pilhas de panquecas. Juntamente com Zeus, viajara com nevões, tempestades de granizo, chuva e calores tão intensos que lhe provocavam bolhas nos braços. Vira um tornado no horizonte, perto de Tulsa, Oklahoma, e quase fora atingido por raios em duas ocasiões. Fizera grandes desvios, tentando manter-se afastado das estradas principais e aumentando o tempo de viagem, às vezes por capricho. Costumava caminhar até se sentir cansado e, mais para o fim do dia, começava a procurar um lugar para acampar, em qualquer sítio onde julgasse que ele e Zeus não seriam perturbados. Voltavam à estrada antes do amanhecer, não fosse alguém armar-se em esperto. Ainda não haviam sido incomodados.

Calculava ter feito mais de trinta quilómetros por dia, embora não registasse especificamente os tempos ou as distâncias. Não era esse o propósito da viagem. Podia imaginar que algumas pessoas pensassem que ele caminhava para esquecer as memórias do mundo que deixara para trás, o que daria uma aura romântica à viagem; outros pensariam que ele caminhava por caminhar, pela viagem em si. Ninguém acertaria. Gostava de caminhar e tinha de ir a um lugar. Tão simples quanto isso. Gostava de ir quando lhe apetecia, com o ritmo que desejava, para o lugar onde queria estar. Depois de anos passados a cumprir ordens no Corpo de Marines, a liberdade atraía-o.

A mãe preocupara-se com ele, mas as mães sempre se preocuparam com os filhos. A dele, pelo menos. Telefonava com poucos dias de intervalo para a informar de que se encontrava bem e, depois de desligar, costumava pensar que não estava a ser franco com ela. Estivera praticamente ausente nos últimos cinco anos, e antes das três comissões no Iraque, ouvira da boca dela sempre a mesma lição pelo telefone, em que a mãe lhe recordava que não deveria tomar qualquer decisão estúpida. Não tomara, mas tivera a sua dose de perigos iminentes. Ainda que não lhe contasse pormenores, a mãe lia jornais. - E agora isto - lamentara-se a mãe na noite em que ele saíra. - Toda esta história me parece uma loucura.

Talvez fosse. Talvez não fosse. Ainda não tinha a certeza.

- O que é que pensas, Zeus?

O cão ergueu a cabeça ao ouvir o som do nome e pôs-se ao lado do dono.

- Está bem, já sei. Tens fome. Qual é a novidade?

Thibault parou no parque de estacionamento de um motel decrépito dos arrabaldes da cidade. Pegou na tigela e despejou o resto da comida de cão. Enquanto Zeus comia, Thibault ficou a observar a cidade.

Hampton não era o pior lugar que já vira, nem de longe, mas também não era o melhor. A cidade situava-se nas margens do South River, a uns 55 quilómetros de Wilmington e da costa e, à primeira vista, não lhe pareceu diferente dos milhares de vilas e cidades com comunidades auto-suficientes, de pessoas de trabalho, orgulhosas e carregadas de história, que salpicavam o Sul. Havia um par de semáforos, que dançavam pendentes de fios, para interromperem o fluxo de tráfego que se dirigia para a ponte sobre o South River; e de cada lado da rua principal viam-se casas baixas de tijolo, apertadas umas contra as outras e estendendo-se por mais de meio quilómetro, com nomes de lojas escritos nas janelas da frente, onde se anunciavam lugares para comer, beber ou comprar utensílios. Havia umas quantas magnólias velhas espalhadas por ali, cujas raízes nodosas levantavam os passeios. Mais longe, viu um reclame fora de moda que anunciava a barbearia, não faltando os habituais velhotes sentados no branco à frente da loja. Sorriu. Era curioso, uma espécie de fantasia da década de 1950.

Contudo, uma observação mais atenta revelou que as primeiras impressões eram enganadoras. Apesar de localizada na margem do rio - ou talvez por isso, supôs - notou os sinais de decadência nos telhados, nos tijolos mais perto das fundações, nas manchas ligeiramente repulsivas do salitre um pouco acima dos alicerces, uma indicação de graves inundações passadas. Nenhuma das lojas tinha clientes àquela hora mas, ao observar a falta de automóveis parados à frente delas, pôs-se a imaginar quanto mais tempo se manteriam abertas. As zonas comerciais das pequenas cidades estavam a seguir o destino dos dinossauros e, se aquela era uma cidade semelhante a outras por onde tinha passado, julgou que provavelmente haveria outra zona mais recente de comércio, instalada num centro comercial à volta da Wal-Mart ou Piggly Wiggly, que ditaria o fim desta parte da cidade.

Estranho, ainda assim. Estar ali. Não se recordava de como tinha imaginado que seria Hampton, mas não era aquilo.

Não interessava. Enquanto Zeus acabava a refeição, pôs-se a tentar imaginar de quanto tempo precisaria para a encontrar. A mulher da fotografia. A mulher com quem viera encontrar-se.

Mas acabaria por encontrá-la. Era mais do que certo. Pegou na mochila. - Estás pronto?

Zeus inclinou a cabeça para um lado.

- Vamos encontrar alojamento. Quero comer e tomar um duche. E tu precisas de um banho.

Thibault deu uns passos, antes de se aperceber de que Zeus não se mexera. Olhou por cima do ombro.

- Não me olhes assim. É claro que precisas de um banho. Cheiras mal.

Zeus manteve-se quieto.

- Óptimo. Faz como quiseres. Eu vou indo.

Dirigiu-se para o gabinete do gerente para fazer o registo, sabendo que Zeus o seguiria. No final, Zeus seguia-o sempre. Até ter encontrado a fotografia, a vida de Thibault decorrera como ele há muito a planeara. Sempre tivera um plano. Quisera ser bom na escola e conseguira; quisera praticar diversos desportos e crescera a praticá-los praticamente todos. Quisera aprender piano e violino, e tornara-se suficientemente bom para escrever a sua própria música. Depois de sair da Universidade de Colorado, planeara entrar nos Marines; o oficial de recrutamento ficara emocionado por ele querer alistar-se como soldado, em vez de pretender ser oficial. Chocado, mas também emocionado. Na sua maioria, os licenciados mostravam pouca apetência pelo posto de soldado raso, mas era exactamente o que ele queria.

O ataque ao World Trade Center tivera pouco que ver com a decisão. É que alistar-se nas forças armadas parecia-lhe uma decisão natural, pois o pai dele tinha servido nos Marines durante 15 anos. O pai entrara como soldado raso e acabara como um daqueles sargentos grisalhos, de queixo de aço que intimidavam toda a gente, excepto a mulher e os pelotões que comandavam. Tratava aqueles jovens como se fossem seus filhos; a sua única intenção, costumava dizer-lhes, era trazê-los de volta a casa, devolvê-los às mães, vivos, de boa saúde e crescidos. Durante os anos que comandou, o pai devia ter assistido a mais de cinquenta casamentos de homens que não imaginavam casar-se sem a bênção dele. Era também um bom fuzileiro. Fora condecorado com uma Bronze Star e duas Purple Hearts no Vietname; com o passar dos anos servira em Granada, no Panamá, na Bósnia e na Primeira Guerra do Golfo. O pai era um marine que não se preocupava com as transferências, pelo que Thibault passara a maior parte da juventude a mudar-se de um lugar para outro e a viver em bases militares espalhadas por todas as partes do mundo. Em certos aspectos, Okinawa parecia-se mais com um lar do que o Colorado, e embora o seu japonês estivesse um tanto enferrujado, calculava que uma semana em Tóquio lha traria de volta a fluência de outrora. Como o pai, imaginava-se a reformar-se da tropa, mas ao contrário dele, era sua intenção viver ainda o suficiente para gozar a vida. O pai morrera de ataque cardíaco apenas dois anos depois de ter pendurado a farda no cabide pela última vez, um enfarte agudo que apareceu sem se fazer anunciar. Estava a tirar pazadas de neve do caminho de acesso à casa e no minuto seguinte estava morto. Morrera há treze anos, quando Thibault tinha apenas quinze.

Aquele dia e o do funeral constituíam as memórias mais fortes da sua vida, antes do alistamento nos Marines. Ser criado como filho de militar preparara-o, tendo de mudar-se com tanta frequência, atenuara as consequências. Os amigos vão e vêm, as roupas são emaladas e tiradas das malas, a casa está constantemente a ser expurgada de objectos inúteis, não ficando muitas coisas que nos prendam. Torna-se duro, por vezes, mas faz os garotos mais fortes, de uma maneira que a maioria das pessoas não consegue entender. Ensina-os que mesmo que deixem algumas pessoas para trás, o lugar delas será inevitavelmente ocupado por outras; que qualquer lugar tem algo de bom, ou de mau, para oferecer. O miúdo é obrigado a crescer depressa.

Até os seus anos da faculdade eram nebulosos, mas aquele capítulo da sua vida tivera as suas rotinas próprias. Estudar durante os dias úteis, desfrutar dos fins-de-semana, preparar-se para os exames finais, péssima comida nos alojamentos universitários e duas namoradas, uma delas a durar mais do que um ano. Toda a gente que frequentou a universidade tem as mesmas histórias para contar, poucas delas com verdadeiro impacto. Afinal de contas, só resta o diploma. Na verdade, sentiu que a sua vida só começara finalmente no dia em que se apresentou em Paris Island para iniciar a recruta. O sargento instrutor desatara a berrar-lhe aos ouvidos logo que ele saltou do autocarro. Nada como um sargento instrutor para fazer uma pessoa acreditar que, até àquele ponto, a vida do recruta não tivera qualquer significado. Os recrutas pertenciam-lhe, ponto final. Bons em desportos? Quero 50 flexões, Mr. Point Guard. Formação universitária? Monta esta carabina, Einstein. O pai foi dos Marines. Limpa a porcaria que o teu pai fez por lá. Os clichés de sempre. Correr, marchar, sentido, rastejar na lama, escalar o muro: na recruta fez tudo o que esperava ser obrigado a fazer.

Tinha de admitir que o treino funcionou na maioria dos casos. Obrigou pessoas a quebrar, empurrou-as ainda mais para baixo e, eventualmente, transformou-as em fuzileiros navais. Pelo menos é o que eles dizem. Quanto a ele, não quebrou. Assimilou os gestos, manteve a cabeça baixa, fez o que lhe mandaram e continuou a ser o homem que fora. De qualquer maneira, tornou-se um fuzileiro naval.

Foi colocado no Primeiro Batalhão, do Quinto Regimento de Marines, com base em Camp Pendleton. San Diego era o seu género de cidade, com um clima fantástico, praias deslumbrantes e mulheres ainda mais bonitas. Mas não era para durar. Em Janeiro de 2003, logo depois de fazer 23 anos, foi colocado no Kuwait para participar na «Operação Liberdade para o Iraque». Camp Doha, numa zona industrial da Cidade de Kuwait, estava activo desde a Primeira Guerra do Golfo e constituía só por si uma cidade. Havia ginásio e centro de computadores, posto de correios, restaurantes e tendas montadas até onde a vista alcançava. Um lugar movimentado, ainda mais numa altura que se preparava a invasão, um mundo caótico desde o início. Os seus dias eram uma sequência de reuniões que duravam horas, de treinos de partir as costas e de preparação do ataque, segundo planos constantemente alterados. Deve ter treinado umas 100 vezes os gestos de vestir o fato protector contra a guerra química. Também havia boatos sem fim. A parte mais difícil era tentar perceber qual poderia ser verdadeiro. Toda a gente conhecia alguém, que conhecia uma pessoa que ouvira a verdadeira história. Um dia iam entrar em combate imediatamente, no dia seguinte ficariam a aguardar. Primeiro, iam entrar pelo Norte e pelo Sul; a seguir, era só pelo Sul e nem chegariam a entrar. Ouviam dizer que o inimigo dispunha de armas químicas e que entendia servir-se delas; no dia seguinte ouviriam dizer que o inimigo não ia recorrer às armas químicas, pois acreditava que os EUA responderiam com armas atómicas. Murmurava-se que a Guarda Nacional do Iraque iria montar uma defesa suicida mesmo junto à fronteira; outros juravam que só o fariam mais perto de Bagdade. Outros, ainda, garantiam que a defesa suicida seria montada à volta dos campos petrolíferos. Em resumo, ninguém sabia o que quer que fosse, o que apenas servia para alimentar a imaginação dos 150 000 militares já reunidos no Kuwait.

Na sua maioria, os soldados são adolescentes, um pormenor que as pessoas esquecem com frequência. Dezoito, dezanove, vinte, metade deles ainda nem sequer tinham idade para comprar uma cerveja. Estavam confiantes, bem treinados e excitados por entrar em acção, mas não era possível ignorar a realidade do que estava para acontecer. Alguns deles iam morrer. Uns sentiam dificuldades para dormir, outros passavam quase todo o tempo a dormir. Thibault observava tudo com uma estranha sensação de desprendimento. «Bem-vindo à guerra», ouvia mentalmente o pai a dizer. «É sempre assim: situação normal, está tudo lixado.»

Thibault não era inteiramente imune à escalada da tensão e, como qualquer outro, precisava de um escape. Começou a jogar póquer. O pai ensinara-o a jogar, conhecia o jogo... ou julgava conhecê-lo. Não tardou a descobrir que havia quem o conhecesse melhor. Nas primeiras três semanas perdeu praticamente todos os tostões que amealhara desde que se alistara, fazendo bluff quando deveria ter passado, passando quando deveria ter continuado em jogo. Para começar, o dinheiro perdido nem fora assim tanto, se não tivesse perdido ao jogo também não teria muitos sítios onde o gastar, mas andou vários dias de má catadura. Odiava perder.

O único antídoto era fazer longas corridas, logo que acordava, antes de o Sol se erguer; embora já estivesse no Médio Oriente havia mês e meio, continuava a espantar-se por o deserto poder ser tão frio. Corrida dura, debaixo de um céu coroado de estrelas, a expirar em pequenos sopros.

Na parte final de uma das corridas, quando já conseguia ver as tendas ao longe, começara a abrandar. Por essa altura, já o Sol tinha começado a subir no horizonte e a espalhar a luz dourada sobre a terra estéril. De mãos nas ancas, continuava a recuperar o fôlego quando viu o brilho baço de uma fotografia, meio enterrada no pó. Parou para lhe pegar e reparou que, embora fosse uma simples plastificação, o trabalho fora feito com cuidado, provavelmente para proteger a fotografia dos elementos. Limpou-lhe o pó, fazendo aparecer a imagem e foi a primeira vez que a viu.

A loira sorridente, de olhos travessos cor de jade, vestindo calças de ganga e uma T-shirt decorada à frente com as palavras LUCKY LADY. Por detrás dela via-se uma faixa a dizer HAMPTON FAIRGROUNDS. Um pastor alemão, de focinho branco, ao lado. Da multidão atrás dela destacavam-se dois jovens, juntos ao pé da bilheteira e um pouco desfocados, ambos com T-shirts com publicidade. Três árvores de folha persistente erguiam-se mais longe, árvores esguias que podiam medrar em qualquer lado. No verso da fotografia, havia uma frase escrita à mão: «Keep Safe! [Cuida de ti.

Não que ele tivesse visto tudo de uma vez. De facto, a sua primeira reacção tinha sido deitar a fotografia fora. Porém, quando se preparava para a deitar para o chão, ocorreu-lhe que quem a perdera talvez gostasse de a recuperar. Era evidente que significava qualquer coisa para alguém.

Regressado ao campo, pregou a foto e uma mensagem num quadro que estava perto da entrada de centro de computadores, presumindo que todos os habitantes do campo passavam por ali, nas alturas mais diversas. A fotografia acabaria certamente por ser reclamada por algum militar.

Passou uma semana, dez dias. A fotografia não foi recolhida. Naquela altura, o pelotão dele treinava durante horas, todos os dias, e os jogos de póquer haviam-se tornado sérios. Alguns homens perderam milhares de dólares; dizia-se que um primeiro-cabo perdera perto de dez mil dólares. Thibault, que não tinha jogado desde aquela primeira tentativa humilhante, preferia passar o tempo livre a reflectir acerca da invasão iminente e sobre a forma como iria reagir debaixo de fogo. Quando, três dias antes da invasão, vagueava à volta do centro de informática, viu a fotografia ainda pregada no quadro e, por razões que nunca chegou a compreender, arrancou-a e meteu-a no bolso.

Victor, o seu melhor amigo no pelotão, andavam juntos desde a recruta, convidou-o a participar no jogo de póquer daquela noite, a despeito das dúvidas de Thibault. Ainda curto de dinheiro, Thibault iniciou o jogo com cautela e não pensou ficar durante mais de meia hora. Passou os primeiros três jogos, a seguir tirou uma sequência de cinco cartas (straight) no quarto jogo e três pares (full house) no sexto. As cartas continuaram a chegar-lhe às mãos, flushes, straights, full houses, pelo que, chegado a meio da noite, tinha recuperado as perdas iniciais. Thibault ficou, os jogadores iniciais desistiram. Foram substituídos e Thibault continuou. A senda dos ganhos continuou e quando amanheceu tinha ganho mais naquela noite, do que nos seis meses passados no corpo de fuzileiros.

Só quando estava para abandonar o jogo, na companhia de Victor, se apercebeu de que tivera a fotografia na algibeira durante todo o tempo. Mostrou-a a Victor quando regressaram à tenda e apontou as palavras escritas na blusa da mulher. Filho de imigrantes ilegais que viviam perto de Bakersfield, Califórnia, Victor não era apenas religioso, acreditava em fenómenos de todos os géneros. Trovoadas, cruzamentos de caminhos em forma de forcado, os gatos pretos eram os favoritos e, antes de embarcarem, falou a Thibault de um tio que se presumia lançar mau-olhado: - Se ele olha para ti de uma certa maneira, a tua morte é apenas uma questão de tempo - rematou. A convicção de Victor fez que Thibault se sentisse novamente com dez anos e ouviu a história, extasiado, com Victor a iluminar o queixo de baixo para cima com uma lanterna. Na altura não disse nada. Cada um tem as suas manias. O tipo gostava de acreditar em presságios? Não tinha nada com isso. Mais importante era o facto de Victor ser tão bom atirador que fora escolhido para sniper e que Thibault lhe confiava a própria vida.

Victor analisou a fotografia antes de a devolver. - Disseste que a achaste ao romper do dia?

- Disse.

- O amanhecer é um momento poderoso do dia.

- Já me disseste.

- É um sinal - sugeriu o amigo. -- Ela é o teu amuleto da sorte. Repara na blusa que tem vestida.

- Esta noite foi.

- Não se trata apenas desta noite. Houve uma razão para encontrares a fotografia. Ninguém a reclamou por uma razão. Hoje pegaste nela por uma razão. Estava destinada só a ti.

Thibault quisera dizer qualquer coisa sobre o tipo que a perdera e como se sentiria por a ter perdido, mas ficou calado. Em vez disso, deitou-se de costas no catre e colocou as mãos na nuca.

Victor imitou-o. - Estou contente por isso. A partir de agora tens a sorte do teu lado - acrescentou.

- Espero que sim.

- Mas não podes perder a fotografia, nunca! ?

- Não?

- Se a perderes, o encantamento passa a funcionar ao contrário.

- Isso significa o quê?

- Significa que não terás sorte. E, numa guerra, não ter sorte é o pior que pode acontecer.

O interior do quarto do motel era tão feio por dentro como se mostrara visto do lado de fora: painéis de madeira, luzes que pendiam de correntes presas no tecto, alcatifa áspera, televisor aparafusado no suporte. Parecia decorado por volta de 1975, sem voltar a ser beneficiado e fez-lhe lembrar os quartos onde o pai os obrigava a ficar sempre que levava a família de férias pelo Sudoeste, quando Thibault era criança. Passavam as noites em alojamentos à beira da estrada; desde que estivessem relativamente limpos, o pai considerava-os excelentes. A mãe não pensava bem assim, mas que poderia ela fazer? Não havia nenhum Four Seasons do outro lado da estrada e, mesmo que houvesse, nunca teriam dinheiro para o pagar.

Thibault fez o que fazia sempre que entrava num quarto de motel: tirou a colcha para se certificar de que a cama fora feita de lavado, verificou se havia sujidade na cortina do chuveiro, procurou cabelos no lavatório. Apesar das habituais manchas de ferrugem, de uma torneira que vertia e das queimaduras de cigarro, o lugar estava mais limpo do que imaginara. E também não era caro. Pagara, em dinheiro, uma semana de avanço, sem ter de responder a perguntas e sem pagar qualquer extra pelo cão. Em resumo, uma pechincha. bom sinal. Thibault não tinha cartões de crédito, cartões de débito ou cartões ATM, nem endereço oficial ou telemóvel. Transportava praticamente tudo o que possuía. Tinha conta bancária, que lhe podia enviar dinheiro por via telegráfica sempre que necessário. Registou-se em nome de uma empresa, não com o nome próprio. Não era rico. Nem sequer pertencia à classe média. A empresa não tinha negócios. Mas gostava de privacidade.

Levou o Zeus para a banheira e deu-lhe um banho, usando o champô que trazia na mochila. A seguir, tomou um banho de chuveiro e vestiu as últimas roupas lavadas que lhe restavam. Sentado na cama, consultou a lista telefónica, à procura de um pormenor significativo, mas sem resultado. Fez um rol para ir à lavandaria quando tivesse tempo e decidiu ir comer qualquer coisa no restaurante que vira na rua onde ficava o motel.

Não permitiram a entrada do cão, o que não era de estranhar. Zeus deitou-se ao lado da porta e adormeceu. Thibault comeu um hambúrguer com queijo e batatas fritas, tudo regado com um batido de leite, e encomendou um hambúrguer para o Zeus. De regresso à rua, o cão engoliu-o em menos de vinte segundos e voltou a olhar para Thibault.

- Ainda bem que gostaste. Vamos embora.

Comprou um mapa da cidade numa loja de conveniência e sentou-se num banco, perto da praça principal, um daqueles jardins fora de moda para onde convergiam quatro ruas em que se alinhavam as lojas. com grandes árvores que davam sombra, um parque para as brincadeiras das crianças e muitas flores, não parecia muito frequentada: umas quantas mamãs que formavam um grupo, enquanto os filhos brincavam nos escorregas. Examinou as caras das mulheres, para ter a certeza de que nenhuma era a que procurava, voltando-se em seguida para abrir o mapa, antes que elas se mostrassem nervosas com a presença dele. As mães com filhos pequenos enervam-se sempre que vêem homens sozinhos a vaguear, sem darem mostras de ter algo a fazer. Não as culpava. Andam por aí demasiados pervertidos.

Estudando o mapa, orientou-se e tentou imaginar o que iria fazer de seguida. Não alimentava ilusões de que iria ser fácil. Afinal, não sabia muito. Só dispunha de uma fotografia, sem nome nem endereço. Não lhe conhecia a história dos empregos. Não sabia o número do telefone. Nem datas. Tratava-se apenas de um rosto na multidão.

No entanto, havia algumas indicações. Analisou os pormenores da fotografia, como já fizera tantas vezes, e começou pelo que sabia. A fotografia tinha sido tirada em Hampton. A mulher parecia no início da casa dos vinte quando a tirara. Era atraente. Tinha um pastor alemão ou conhecia alguém que tinha um. O seu primeiro nome começava pela letra «E». Emma, Eleine, Elise, Eileen, Ellen, Emily, Erin, Eriça... pareciam-lhe os nomes mais prováveis, embora lhe parecesse que, no Sul, houvesse nomes como Erdine ou Elspeth. Tinha ido à feira com alguém que depois fora colocado no Iraque. Dera a fotografia a essa pessoa e Thibault encontrara a foto em Fevereiro de 2003, o que significava que fora tirada antes dessa data. Nesse caso, a mulher estaria agora a aproximar-se do final da casa dos vinte anos. Viu um conjunto de três árvores lá mais adiante. Conhecia aquilo. Eram pormenores conhecidos. Factos.

Depois, restavam as suposições, a começar por Hampton. Era um nome relativamente comum. Uma busca rápida à Internet revelava uma série de terras com aquele nome. Distritos e cidades: Carolina do Sul, Virgínia, New Hampshire, Iowa, Nebraska, Geórgia. Outras mais. Sem esquecer, é claro, Hampton. Distrito de Hampton, Carolina do Norte.

Embora não houvesse qualquer monumento de referência à vista, nenhuma vista de Monticello a indicar a Virgínia, ou uma faixa a dizer «Bem-vindo a Iowa», por exemplo, havia informações. Não sobre a mulher, mas nos dois jovens que se viam ao fundo, na fila para a compra dos bilhetes. Dois deles usavam T-shirts com publicidade. Uma, com a imagem de Homer Simpson, não ajudava. A outra, com a palavra DAVIDSON escrita no peito, a princípio não lhe parecera ter significado, mesmo que Thibault tivesse reflectido muito sobre ela. Partira do princípio de que se tratava de uma referência abreviada à Harley-Davidson, a motocicleta. Outra busca no Google esclareceu-o. Davidson, descobriu, era também o nome de uma reputada escola localizada perto de Charlotte, Carolina do Norte. Selectiva, exigente, mais dedicada às artes liberais. Uma revista do catálogo da biblioteca da escola mostrava um exemplar da mesma T-shirt.

Percebeu que a camisola não garantia que a fotografia tivesse sido tirada na Carolina do Norte. Poderia ter sido oferecida ao rapaz por alguém que tivesse frequentado a escola, talvez se tratasse de um estudante de outro Estado, talvez ele a tivesse escolhido pelas cores, talvez fosse aluno e se tivesse mudado para outra terra. Porém, sem mais que aproveitar, antes de sair do Colorado, Thibault fizera uma breve chamada para a Câmara de Comércio de Hampton, ficando a saber que realizavam uma feira durante o Verão. Outro bom sinal. Já tinha um destino, mas ainda não dispunha de um facto. Presumira apenas que aquele era o lugar certo.

Havia outras suposições, mas trataria delas mais tarde. A primeira coisa a fazer era encontrar o recinto da feira. Felizmente, a feira realizava-se no mesmo local havia muitos anos; esperava que a pessoa capaz de lhe indicar a direcção a seguir lhe pudesse responder também à segunda pergunta. A pessoa indicada deveria encontrar-se numa das lojas das redondezas. Não interessavam lojas de lembranças ou de antiguidades, muitas vezes pertenciam a pessoas recentemente chegadas à cidade, pessoas que fugiam do Norte em busca de uma vida mais calma e de um clima mais ameno. Em vez disso, achou melhor procurar na loja de utensílios. Ou num bar. Ou num escritório de venda de propriedades. Calculou que, quando a encontrasse, saberia que era aquela a loja indicada.

Queria ver o local exacto em que a fotografia fora tirada. Não para ficar com uma melhor ideia de quem seria a mulher. O recinto da feira não o ajudaria muito acerca disso.

Queria saber se havia renques de árvores de folha permanente, árvores de copas em bico que podem crescer praticamente em qualquer sítio.

 

                     BETH

Beth pôs de lado a lata de D W Coke, contente por Ben parecer estar a divertir-se na festa de anos do seu amigo Zach. Estava a pensar que apenas gostaria que ele não tivesse de ir para junto do pai, quando Melody chegou e se sentou numa cadeira ao lado dela.

- Boa ideia, não achas? As pistolas de água são uma maravilha - sorriu Melody, os dentes tratados, mas um tanto branqueados de mais, a pele talvez um tanto escura em demasia, como se tivesse acabado de chegar de uma sessão no salão de beleza; o que era provável. Desde o liceu que Melody se preocupava com a aparência física e ultimamente parecia-lhe que o seu aspecto se tornara uma obsessão.

- Só espero que não as voltem na nossa direcção.

- É melhor que não se atrevam - comentou Melody com ar sombrio. - Disse ao Zach que mandaria toda a gente para casa se ele fizesse tal coisa - acrescentou. Recostou-se, instalou-se mais confortavelmente. - O que é que tens feito neste Verão? Não te tenho visto por aí, nem respondeste às minhas chamadas.

- Eu sei. Desculpa. Tenho passado um Verão de eremita. Procurando apenas aguentar a Nana, o canil e todo o treino. Não faço ideia do que leva a Nana a mantê-lo há tanto tempo.

- A Nana tem andado bem?

Nana era a avó de Beth. Criara-a desde os três anos de idade, após a morte dos pais dela num acidente de viação. Respondeu com um aceno de cabeça. - Está a melhorar, mas o acidente vascular deixou marcas. Continua a sentir grande fraqueza no braço esquerdo. Pode encarregar-se de parte do treino, mas dirigir o canil e o treino está para além das suas forças. E sabes como ela se esforça. Ando sempre preocupada, a pensar que ela estará a abusar.

- Esta semana, reparei que ela voltou ao coro. - Nana pertencia ao coro da Primeira Igreja Baptista há mais de trinta anos e Beth sabia que cantar no coro era uma das suas paixões.

- Foi a primeira semana depois do acidente, mas não tenho a certeza de que cantasse muito. A seguir, fez uma soneca de duas horas.

Melody assentiu. - O que é que vai acontecer quando a escola reabrir?

- Não sei.

- Vais continuar a ensinar, não vais?

- Espero que sim.

- Esperas que sim? Não tens reuniões de professores durante a semana que vem?

Beth não queria pensar no assunto, e muito menos discuti-lo, mas sabia que a intenção de Melody era boa. - Há reuniões, mas não quer dizer que eu assista. Sei que vou criar um problema à escola, mas não posso deixar a Nana sozinha o dia inteiro. Ainda não, pelo menos. E quem é que ajudará a dirigir o canil? Não há maneira de ela poder treinar os cães todos, de manhã à noite.

- Não podes contratar alguém? - sugeriu Melody.

- Estou a tentar. Não te contei o que aconteceu no princípio do Verão? Contratei um tipo que apareceu lá duas vezes, para se despedir logo que acabou o fim-de-semana. Aconteceu o mesmo com o seguinte. Depois desse, ninguém mais se dispôs a aparecer por lá. O letreiro «Precisa-se empregado» passou a fazer parte da janela.

- O David está sempre a queixar-se da falta de bons empregados.

- Diz-lhe que ofereça o salário mínimo. Então terá mesmo razões de queixa. Já nem os miúdos da escola secundária querem limpar as jaulas. Dizem que é trabalho sujo.

- E é sujo.

Beth riu-se. - Pois é - admitiu. - Mas eu não tenho tempo. Duvido que haja alguma alteração antes da semana que vem e, se não houver, vai tudo piorar. Gosto de treinar cães. Mais de metade do tempo são mais fáceis de ensinar que os alunos.

- Como os meus?

- Os teus são fáceis. Acredita em mim.

Melody apontou para Ben. - Cresceu desde a última vez que o vi.

- Mais de dois centímetros - informou, a pensar que era simpático que Melody tivesse reparado. Ben sempre fora baixo para a idade, sentava-se sempre do lado esquerdo, fila da frente, da fotografia da turma. Zach, o filho de Melody, era exactamente o contrário: lado direito, fila de trás, sempre o mais alto da turma.

- Ouvi dizer que o Ben não vai jogar futebol no próximo período - observou Melody.

- Quer tentar algo diferente.

- Tal como?

- Quer aprender violino. Vai receber lições de Mrs. Hastings.

- Ela ainda ensina? Deve ter pelo menos noventa anos.

- Mas tem paciência para ensinar um principiante. Ou, pelo menos, foi o que ela me disse. E o Ben gosta muito dela. É a principal razão.

- É bom para ele - comentou Melody. - Acho que ele vai ser fantástico. Mas o Zach vai vadiar.

- Não ficariam na mesma equipa. O Zach vai jogar na equipa principal, não é verdade?

- Se o conseguir.

- Vai conseguir.

E conseguiria. Zach era um daqueles rapazes naturalmente confiantes, competitivos, que amadureciam cedo e criavam círculos no campo, à volta dos outros jogadores menos talentosos. Como Ben. Ainda agora, a correr atrás dele pelo quintal com a pistola de água, Ben não conseguia acompanhá-lo. Embora tivesse bom coração e fosse um encanto, Ben não era grande atleta, um pormenor que nunca deixava de enfurecer o ex-marido de Beth. No ano anterior, o ex-marido dela costumava colocar-se ao lado do campo, a olhar o filho com uma expressão de raiva, mais um motivo para Ben não querer jogar.

- O David vai ser novamente ajudante do treinador?

David era o marido de Melody e um dos dois pediatras com consultório na cidade. - Ainda não decidiu. Desde que Hoskins saiu, têm feito mais serviços. Detesta, mas que pode ele fazer? Estão a tentar admitir mais um médico, mas não tem sido fácil. Nem todos querem trabalhar numa cidade pequena, especialmente com o hospital mais próximo em Wilmington, a três quartos de hora de distância. Obriga a horários mais prolongados. Em metade dos dias não consegue chegar a casa antes das oito da noite. Por vezes ainda mais tarde.

Beth notou preocupação na voz de Melody e pensou que a amiga ainda estaria afectada pelo caso que David lhe confessara ter tido no Inverno anterior. Beth era suficientemente sensata para evitar comentários. Logo que ouvira os primeiros rumores, decidira que só falariam do assunto quando Melody assim o decidisse. E se ela não falasse dele? Também seria excelente. Não era assunto que lhe dissesse respeito.

- E quanto a ti? Tens andado com alguém?

Beth sorriu.-Não. Desde o Adam.

- O que é que aconteceu?

- Não faço ideia.

Melody abanou a cabeça. - Não posso dizer que te invejo. Nunca gostei de namorar. . Pois, mas pelo menos eras boa nisso. Eu sou uma lástima.

- Estás a exagerar.

- Não estou. Mas não é nada de importante. Nem tenho a certeza de ter energia para aturar alguém. Usar tangas, rapar as pernas, namorar, fingir que me dou bem com os amigos. Tudo isso me parece exigir um grande esforço.

Melody torceu o nariz. - Não rapas as pernas?

- É claro que rapo as pernas - disse. Depois, baixando a voz:

- De qualquer maneira faço-o, na maioria das ocasiões - acrescentou. Endireitou-se na cadeira. - Mas tens razão. Namorar é difícil. Especialmente para alguém da minha idade.

- Oh, por favor. Ainda nem chegaste aos trinta e és uma brasa. Beth sempre ouvira aquela descrição e não era imune ao facto de ser frequente que os homens, mesmo os casados, voltassem a cabeça quando ela passava. Nos seus três primeiros anos de professora, só tivera uma conferência entre encarregado de educação professor com um pai que se apresentou sozinho. Em todas as outras alturas fora a mãe que assistira à conferência. Recordava-se de ter falado com Nana uns anos atrás e de a avó lhe ter dito: - Não te querem sozinha com os maridos por tu seres tão bonita quanto um fruto maduro.

Nana descobria sempre uma maneira singular de dizer as coisas.

- Esqueces-te do lugar onde vivemos - replicou Beth. - Não existem muitos homens solteiros com a minha idade. E, se estão solteiros, haverá razões para isso.

- Não é verdade.

- Talvez numa cidade. Mas aqui à volta? Acredita. Vivi aqui toda a minha vida e, mesmo quando estive na universidade, ia e vinha todos os dias. Nas poucas ocasiões em que me convidaram para namorar, saíamos duas ou três vezes e eles deixavam de telefonar. Não me perguntes porquê - observou, encolhendo os ombros filosoficamente.

- Mas pouco interessa. Tenho o Ben e a Nana. Não estou a viver sozinha, rodeada por dúzias de gatos.

- Não. Estás rodeada de cães.

- Não são meus. São de outras pessoas. Existe uma diferença.

- Oh, claro, uma grande diferença - troçou Melody.

Do outro lado do jardim, Ben era o último de uma fila de brincalhões, fazendo o que podia por acompanhar os outros, até que, de súbito, tropeçou e caiu no relvado. Beth conhecia-o suficientemente bem para saber que não deveria levantar-se para ir saber o que se passava; na última ocasião em que o fizera, fora visível o embaraço do filho. Ben rolou até encontrar os óculos, levantou-se e recomeçou a correr.

- Crescem tão depressa, não é? - comentou Melody, interrompendo as reflexões da amiga. - Sei que não passa de uma frase feita, mas é verdade. Recordo-me de a mamã me dizer que ia ser assim e de pensar que ela não sabia do que estava a falar. Queria esperar até que o Zach fosse um pouco mais velho. É certo que na altura ele tinha cólicas e que durante um mês não consegui dormir mais que umas duas horas em cada noite. Mas, agora, sem se dar por isso, já estão todos a entrar na escola secundária.

- Ainda não, falta-lhes mais um ano.

- Eu sei. Mas a ideia continua a pôr-me nervosa.

- Porquê?

- Sabes... é uma idade complicada. Os miúdos encontram-se naquela fase em que começam a compreender o mundo dos adultos, mas sem terem a maturidade de adultos que lhes permita lidar com tudo o que os rodeia. Acrescenta a isso todas as tentações, o facto de deixarem de te ouvir como costumavam, os humores da adolescência, e serei a primeira a admitir que não estou optimista. És professora. Tu sabes.

- É por isso que ensino o segundo grau.

- Boa escolha - anuiu Melody. - Soubeste do Elliot Spencer?

- Não tenho sabido muito seja do que for. Tenho feito vida de eremita, recordas-te?

- Foi apanhado a vender drogas.

- Só tem mais dois anos que o Ben!

- E ainda está no segundo ciclo.

- Agora és tu que estás a pôr-me nervosa.

Melody fez rolar as órbitas. - Não estejas. Se o meu filho fosse mais parecido com o Ben, não teria motivos para estar preocupada. Ben tem bons sentimentos. É sempre delicado, tem bom coração, é sempre o primeiro a ajudar os miúdos mais pequenos. É afectuoso. Quanto a mim, tenho o Zach.

- O Zach também é um excelente rapaz.

- Sei que é. Mas foi sempre mais difícil que o Ben. E está mais pronto a imitar os outros que o Ben.

- Já os viste a brincar? Daqui, parece-me que quem tenta imitar tudo é o Ben.

- Tu sabes o que eu quero dizer.

Sabia, na verdade. Desde tenra idade, Ben sempre preferira escolher o seu próprio caminho. O que era bom, tinha de o admitir, porque o caminho escolhido fora sempre excelente. Embora não tivesse muitos amigos, interessava-se por muitos assuntos. Assuntos bons, além do mais. Mostrava-se pouco interessado em jogos de vídeo ou em surfar pela net e, embora visse televisão uma vez por outra, desligava o aparelho passados uns trinta minutos. Em vez disso, lia e jogava xadrez (um jogo que parecia compreender a nível intuitivo) ou com uma consola de jogos electrónicos que recebera como presente de Natal. Adorava ler e escrever; mesmo gostando dos cães do canil, a maioria dos animais ficava nervosa com as longas horas passadas nas jaulas e tendia a ignorá-lo. Passava muitas tardes entretido com o ténis, a servir bolas que poucos, ou talvez nenhuns dos parceiros, conseguiam devolver.

- Vai ser óptimo.

- Espero que sim - observou Melody ao pousar a bebida.

- É melhor que vá tratar do bolo, não achas? O Zach tem treino às cinco da tarde.

- Vai estar calor.

Melody ergueu-se. - Estou certa de que vai querer levar a bisnaga. Provavelmente para encharcar o treinador.

- Precisas de ajuda?

- Não, obrigada. Deixa-te estar e descansa. Não me demoro. Beth ficou a ver Melody afastar-se, apercebendo-se pela primeira vez de quanto a amiga tinha emagrecido. Quatro a seis quilos a menos desde a última vez que a vira. Tinha de ser do stress, pensou. O caso de David tinha-a deixado de rastos, mas, ao contrário de Beth quando tivera de enfrentar um problema igual, Melody estava disposta a salvar o casamento. Uma vez mais, havia que dizer que os dois casamentos foram de géneros diferentes. David cometera um grande erro e ferira Melody mas, no conjunto, Beth sempre os tinha considerado um casal feliz. O casamento de Beth, pelo contrário, revelara-se um fiasco desde o início. Tal como Nana previra. Nana tinha aquela capacidade de avaliar as pessoas num instante e aquele jeito de encolher os ombros quando não gostava de alguém. Quando Beth lhe anunciou que estava grávida e que, em vez de ir para a universidade, ela e o ex-marido tencionavam casar-se, Nana encolhera os ombros tão repetidamente que mais parecia sofrer de um tique nervoso. É claro que, na altura, Beth a ignorou, ficou a pensar que a avó «Não dera uma oportunidade ao rapaz, que nem o conhecia. Que podiam fazer do casamento um sucesso». Patetice. Nunca funcionou. Nana fora sempre delicada, sempre cordial quando ele estava por perto, mas o encolher de ombros só parou mais tarde, há anos, quando Beth voltou para casa. O casamento durara menos de nove meses; Ben tinha cinco semanas. Nana tivera razão durante todo o tempo.

Melody desapareceu no interior da casa, para regressar minutos depois, com David logo a seguir, obviamente preocupado a transportar pratos de papel e garfos. Beth via-lhe os tufos de cabelo grisalho junto das orelhas e as rugas profundas na testa. As rugas já se notavam na última vez que o vira, calculou que fossem mais um sinal do stress em que ele andava.

Por vezes, Beth punha-se a imaginar como seria a sua vida se fosse casada. Não com o antigo marido, claro. O pensamento fazia-a estremecer. Aturá-lo de duas em duas semanas fora mais do que suficiente, graças a Deus. Mas com outra pessoa. Alguém... melhor. Parecia poder ser uma boa ideia, pelo menos em abstracto. Tinham decorrido dez anos, adaptara-se à vida que tinha e pensava que poderia ser interessante ter uma pessoa com quem partilhasse o final do dia, terminado o trabalho, alguém que pudesse acarinhar de vez em quando, também não sendo de desprezar a ideia de passar um sábado inteiro em pijama, se lhe apetecesse. O que, por vezes, fazia. E Ben também. Chamavam-lhes os «dias da preguiça». Eram os melhores de todos. Às vezes terminavam um desses dias em que não faziam absolutamente nada com a encomenda de uma piza e a ver um filme. Prazer celestial!

Além disso, se as relações com pessoas eram difíceis, o casamento revelava-se ainda mais complicado. Não eram apenas Melody e David que estavam em apuros; parecia que a maior parte dos casais vivia em guerra. Era uma das consequências do casamento. Como é que Nana dizia? «Juntem duas pessoas diferentes, com perspectivas diversas, sob o mesmo tecto, e nem sempre haverá gelado no Domingo de Páscoa.»

Exactamente. Mesmo que nem sempre tivesse a certeza do que Nana queria dizer com as suas metáforas.

Consultando o relógio, sabia que tinha de ir ver como estava Nana logo que a festa acabasse. Não duvidava de que iria encontrá-la no canil, sentada à secretária, ou verificando como estavam os cães. Nana era teimosa. Interessava alguma coisa que a perna esquerda mal lhe suportasse o peso do corpo? «A minha perna não está perfeita, mas também não é de cera.» E quanto aos riscos de cair e se magoar? «Não sou um jarrão de porcelana fina.» Ou sobre o facto de ter o braço esquerdo praticamente inutilizado? «Desde que consiga comer a sopa, para que preciso dele?»

Era uma pessoa especial, um coração abençoado. Sempre o fora.

- Eh, mamã?

Perdida em reflexões, não reparara na aproximação de Ben. O rosto sardento do filho estava perlado de suor. A roupa escorria água e a camisa tinha manchas de erva que ela sabia nunca conseguir limpar.

- O que é, querido?

- Posso passar a noite em casa do Zach?

- Pensei que ele tinha treino de futebol.

- Depois do treino. Haverá um grupo que fica e a mãe dele ofereceu-lhe Guitar Hero como prenda de anos.

Beth sabia qual era o verdadeiro motivo do pedido.

- Esta noite, não. Não podes. O teu pai vem buscar-te às CinCO da tarde.

- Não podias ligar a perguntar-lhe?

- Posso tentar. Mas sabes...

Ben assentiu, como fazia sempre que aquilo acontecia, mas perdeu parte da alegria. - Pois, eu sei.

O sol brilhava através do pára-brisas e queimava, fazendo-a lamentar que não tivesse mandado reparar o ar condicionado. com a janela aberta, o cabelo batia-lhe na cara e fazia-a piscar os olhos. O que lhe fez recordar que precisava de um bom corte de cabelo. Imaginou-se a dizer para a cabeleireira: «Corta tudo, Terri. Faz-me parecer um homem!» Mas sabia que chegada a altura pediria o corte habitual. Em certos aspectos era cobarde.

- Parece que vocês estão a divertir-se.

- Eu estava.

- É só isso que consegues dizer?

- Mamã, estou apenas cansado.

A mãe apontou para a Dairy Queen, que se avistava mais adiante.

- Queres passar por lá para comeres um gelado?

- Não me faz bem. ?

- Eh, a mãe aqui sou eu. Isso é o que se espera que eu diga. Estava só a pensar que, como está calor, talvez te apetecesse. - Não tenho fome. Há pouco comi bolo. ?

- Está bem, como queiras. Mas não me culpes se ao chegares a casa lamentares ter perdido a oportunidade.

- Não vou lamentar.

- Olha lá, campeão, sentes-te bem? A resposta veio numa voz tornada quase inaudível pelo vento.

- Por que é que tenho de ir com o papá? Não nos vamos divertir mesmo nada. Manda-me para a cama às nove da noite, como se eu ainda frequentasse o segundo ciclo ou coisa que o valha. Nem sequer estou cansado. E amanhã, arranja-me tarefas para o dia todo.

- Pensei que ia levar-te a casa do avô para o pequeno-almoço, depois de irem à igreja.

- Continuo a não querer ir.

«Nem eu queria que fosses», pensou Beth. Mas que poderia ela fazer?

- Por que não levas um livro? - sugeriu. - À noite podes ler no quarto e, amanhã, se te sentires aborrecido, também podes ler.

- Recomendas-me sempre a mesma coisa.

«Por que não sei o que mais te posso recomendar», pensou a mãe.

- Queres passar pela livraria?

- Não - respondeu. Mas Beth bem viu que ele gostaria de lá ir.

- bom, nesse caso acompanhas-me. Quero escolher um livro para mim.

- Muito bem.

- Sabes que lamento esta situação.

- Pois, eu sei.

A ida à livraria não alterou muito o mau humor de Ben. Embora tivesse escolhido dois livros dos Hardy Boys, a mãe notou-lhe o ar descoroçoado quando estavam na fila para pagar. Na viagem para casa, abriu um dos livros e fingiu estar a ler. Mas Beth tinha a certeza de que ele pretendia apenas evitar mais perguntas, ou que a mãe tentasse, com carinhos forçados, que ele se sentisse melhor ante a perspectiva de passar a noite em casa do pai. Aos dez anos, Ben já era especialista a prever o comportamento da mãe.

Beth detestava o facto de ele não gostar de ir para casa do pai. Ficou a ver o filho entrar em casa, sabendo que ele seguiria para o quarto para preparar as coisas. Em vez de o seguir, sentou-se na escada do alpendre, a desejar pela milésima vez conseguir encontrar um equilíbrio. Ainda estava calor e, pela lamúria que vinha do canil, era evidente que os cães, também eles, se sentiam incomodados com a temperatura. Tentou distinguir qualquer som de Nana dentro de casa. Se estivesse na cozinha quando Ben entrou, tê-la-ia ouvido de certeza. Nana era uma cacofonia andante. Não por causa do acidente vascular, mas por fazer parte da sua personalidade. Setenta e seis, quase setenta e sete, ria-se alto, batia nas panelas com a colher enquanto cozinhava, adorava beisebol e punha o rádio alto, a níveis de rebentar os tímpanos sempre que transmitiam música da era das grandes bandas. «Música deste género não cresce como as bananas, sabes.» Até ao acidente vascular, costumava usar botas de borracha, macacos de alças e um enorme chapéu de palha, percorrendo barulhentamente o canil quase todos os dias, enquanto ia ensinando os cães a sentarem-se sobre as patas traseiras, a chegarem-se a ela ou a ficarem onde estavam.

Em épocas anteriores, ainda com o marido, Nana ensinava-os a fazer quase tudo. Juntos, tinham criado e treinado cães para caça, para guias de cegos, para detectores de drogas para a Polícia, para segurança e protecção dos lares. Tempos passados, agora apenas o fazia ocasionalmente. Não por falta de conhecimentos; de qualquer maneira, a maior parte do treino sempre estivera a cargo dela. Mas treinar um cão para protecção do lar exige catorze meses de trabalho, e dado o facto de Nana se apaixonar por um squirrel em menos de três segundos, ficava sempre de coração destroçado quando entregava o cão, depois de completado o treino. Sem o avô por perto para lhe lembrar: «Mas já o vendemos, não temos escolha», Nana achava mais fácil esquecer essa parte do contrato.

Em vez disso, naqueles dias Nana dirigia uma escola de obediência. As pessoas deixavam os animais durante um par de semanas, uma recruta para cães, como ela dizia, e Nana ensinava-os a sentar-se, a deitar-se, a ficar quietos, a obedecer à chamada e a sentar-se sobre os quartos traseiros. Ordens simples, nada complicadas, que qualquer cão assimilava rapidamente. O normal era haver entre quinze e vinte e cinco cães em ciclos de treino de duas semanas, e cada um deles precisava de cerca de vinte minutos de treino por dia. Em períodos mais longos de tempo, o cão perdia o interesse. Não era mau de todo quando tinham quinze, mas alojar vinte e cinco cães exigia horários de trabalho muito prolongados, considerando que cada um dos animais tinha de ser levado a passear. E era preciso contar com a alimentação, com a manutenção do canil, com as relações com os clientes e com a papelada. Beth trabalhara doze a catorze horas por dia durante a maior parte do Verão.

Estavam sempre ocupadas. Não era difícil treinar um cão, Beth ajudara Nana em diversos períodos, desde os doze anos, além de haver dezenas de livros sobre a matéria. Além disso, a clínica veterinária tinha lições para cães e donos, todas as manhãs de sábado, por um preço muito mais baixo. Beth sabia que, na sua maioria, as pessoas podiam dispensar vinte minutos do seu tempo, durante duas semanas, para treinarem o cão. Mas não o faziam. Em vez disso, vinham pessoas de longe, da Florida e do Tennessee, para entregar os cães a quem o pudesse fazer por elas. Era sabido que Nana gozava de grande reputação como treinadora, mas limitava-se a ensinar os cães a sentar-se e responder ao chamamento, e sentar-se sobre as patas e a ficarem quietos. Não era uma ciência de ponta. No entanto, as pessoas mostravam-se sempre extremamente gratas. E sempre, sempre, espantadas.

Beth consultou o relógio. Keith, o ex-marido, não tardaria a chegar. Embora tivesse problemas com o homem, Deus sabia que havia graves problemas, ambos tinham a custódia do filho, tão simples quanto isso, e ela tentava tirar o melhor proveito da situação. Gostava de demonstrar a si mesma que era importante para Ben passar algum tempo com o pai. Os rapazes precisam de passar tempo na companhia dos pais, especialmente quando estão a entrar na adolescência, além de que, tinha de admiti-lo, o ex-marido não era mau tipo. Imaturo, sim, mas não era mau. Bebia umas cervejas de vez em quando, mas não era alcoólico; não tomava drogas; nunca fora agressivo com qualquer deles. Frequentava a igreja todos os domingos. Tinha um emprego estável e pagava a pensão de alimentos do filho a tempo e horas. Ou, melhor, era a família dele quem se encarregava disso. O dinheiro provinha de um fundo, um dos vários que a família tinha criado ao longo dos anos. E, na maioria dos casos, mantinha a sua interminável cadeia de namoradas afastada nos fins-de-semana que passava com o filho. Palavras mais usadas: «na maioria dos casos». Ultimamente melhorara neste aspecto, mas Beth tinha quase a certeza de que o facto se deveria menos a um renovado interesse pelo seu papel de pai do que pelo facto de estar de momento no período que medeia entre o deixar uma namorada e começar com outra. O problema não a afectaria muito, se não se desse o caso de as namoradas estarem, quanto a idade, mais próximas de Ben do que dele, e de, quanto a quociente de inteligência, estarem ao nível de uma saladeira. Uns meses atrás, Ben tivera de ajudar uma delas a preparar um novo tacho de macarrão com queijo, depois de ela ter deixado queimar o primeiro. A receita que mandava juntar leite e manteiga exigia depois uma sequência de misturar e mexer que parecia ultrapassar as capacidades dela.

Contudo, não fora o que mais aborrecera Ben. Não havia problemas com as namoradas, que tendiam a tratá-lo mais como um irmão mais novo do que como filho. O que agora o preocupava eram os deveres. Tinha de varrer o quintal ou limpar a cozinha e despejar o lixo, mas não era como se o ex-marido de Beth tratasse o filho como um criado da casa. E os deveres faziam-lhe bem; Ben também tinha tarefas próprias quando passava os fins-de-semana com ela. Não, o problema era o desapontamento infantil e avassalador de Ben. Keith pretendera um atleta; em vez disso, concebera um filho que queria tocar violino. Quisera um companheiro para a caça; tivera um filho que preferia a leitura. Gostaria de ter um filho que praticasse futebol ou afundasse bolas no cesto de basquetebol; fora-lhe imposto um filho desajeitado e com visão deficiente.

Nunca se referiu a tais coisas a Ben ou a ela, mas não era preciso. Era demasiado evidente o desprezo com que olhava o filho a jogar futebol, na maneira como recusara elogios quando Ben ganhara o último torneio de xadrez, na forma como estava sempre a empurrar o filho para aquilo que este não queria ser. Uma situação que punha Beth maluca e lhe despedaçava simultaneamente o coração, mas para Ben era pior. Tentara agradar ao pai durante anos, o que só servira para deixar o pobre miúdo exausto. Ter lições de recepção no beisebol. Não faz mal, pois não? Ben pode acabar por se divertir, poderá até pretender jogar na Liga Infantil. Fazia todo o sentido quando o ex-marido fizera a sugestão e Ben até se excitou de início. Porém, passado algum tempo, passou a odiar aquilo. Se conseguisse apanhar três bolas seguidas, o pai desejaria que tivesse apanhado quatro. Quando o conseguiu, o objectivo passou a ser cinco bolas. Quando melhorou, teria de se tornar ainda melhor, o pai queria que as apanhasse todas. E, em seguida, apanhá-las em corrida para a frente. Apanhá-las em corrida para trás. Apanhá-las a deslizar. Apanhá-las em mergulho. Apanhar a que o pai lhe lançou com quanta força tinha. E se deixasse cair uma? Pensar-se-ia que o mundo ia acabar. O pai não era do género de dizer: «Boa tentativa, campeão» ou «Belo esforço!». Não, era o género de homem para berrar: «Então, avança! Deixa-te de tretas!»

Oh, Beth discutira o assunto com ele. Falaram até ela se sentir nauseada. Quanto ao ex-marido, a conversa entrou-lhe por um ouvido e saiu-lhe pelo outro, é claro. Sempre a velha história. Apesar da sua imaturidade, ou por causa dela, Keith era teimoso e dogmático em diversas questões, entre elas a forma de educar Ben. Queria um certo tipo de filho e, se Deus quisesse, ia consegui-lo. Como era de prever, Ben começou a reagir à sua maneira simultaneamente passiva e agressiva. Começou a deixar cair tudo o que o pai lançasse, mesmo as bolas altas e fáceis, enquanto fingia ignorar a crescente frustração do pai, até que este lançasse a luva para o chão, fosse para dentro de casa e ficasse mal-humorado o resto da tarde. Ben fingia não notar, sentava-se debaixo de um pinheiro e ficava a ler, até que o pai o viesse buscar, horas mais tarde.

Beth e o ex-marido não brigavam apenas acerca de Ben; eram alternadamente fogo e gelo. Ele era o fogo e ela o gelo. Keith ainda se sentia atraído por ela, o que a irritava ainda mais. Por que diabo poderia ele acreditar que ela ainda queria alguma coisa com ele era algo que a ultrapassava, mas, independentemente do que lhe dissesse, não parecia suficiente para deter os avanços de Keith. Na maioria das vezes, mal conseguia recordar-se dos motivos por que, anos antes, se sentira atraída por ele. Conseguia recitar as razões para o casamento: ser jovem e estúpida, à frente de todas, além de estar grávida; mas agora, sempre que ele a media de alto a baixo, sentia-se encolher por dentro. Não era o tipo dela. Francamente, nunca fora o seu tipo. Se toda a sua vida tivesse sido registada em vídeo, o casamento seria um dos eventos que ela apagaria com agrado. Excepto, claro, a parte que dizia respeito a Ben.

Gostaria que Drake, o irmão mais novo, estivesse ali, e sentia a dor habitual sempre que pensava nele. Fosse para onde fosse, Ben seguia-o, da mesma maneira que os cães seguiam Nana. Juntos, tanto podiam vadiar para apanhar borboletas, como passar horas na casa da árvore que o avô tinha construído e só era acessível através de uma ponte instável que passava por cima de dois riachos da propriedade. Ao contrário do ex-marido, Drake aceitava o sobrinho, o que em muitos aspectos o tornava mais pai para Ben do que o ex-marido alguma vez fora. Ben adorava-o e Beth adorava Drake pela forma tranquila como ele aumentava a autoconfiança do filho dela. Recordava-se de certo dia lhe ter agradecido por isso, mas ele limitara-se a encolher os ombros. «Acontece que gosto de estar junto dele», explicara, sem mais pormenores.

Sabia que tinha de ir ver como estava Nana. Pôs-se de pé, avistou luz no escritório, mas duvidou que Nana estivesse entregue a trabalhos burocráticos. O mais provável era andar por fora, nas traseiras das jaulas, e seguiu nessa direcção. Por sorte, Nana não tinha metido na cabeça que deveria tentar levar uma matilha de cães a passear. Não havia maneira de ela poder manter o equilíbrio, ou até de segurar os animais, se eles esticassem as trelas, mas essa sempre fora uma das suas ocupações favoritas. Era de opinião que a maioria dos cães não fazem exercício suficiente e a propriedade era excelente para remediar uma tal deficiência. com cerca de oito hectares, incluía várias clareiras bordejadas por árvores de madeiras raras, era atravessada por vários trilhos e dois pequenos riachos que iam desaguar no South River. A propriedade, comprada quase de graça cinquenta anos antes, valia agora uma boa soma. Fora o que o advogado dissera, o que viera sondar as possibilidades de Nana a vender.

Beth sabia perfeitamente quem estava por detrás da manobra. Nana também, mas fingira-se pateta enquanto o advogado falava.

Encarava-o de olhos em alvo, muito abertos, fazia cair bagos de uva para o chão e murmurava palavras incompreensíveis. Depois de ele sair, Nana e Beth riram-se durante horas.

Espreitando pela janela do escritório não viu sinais de Nana, mas ouviu a voz dela vinda das traseiras das jaulas.

- Quieta... vem cá. Linda menina! Vem cá!

Ao dobrar a esquina, Beth viu Nana a encorajar uma cadela shi-tzu que trotava na direcção dela. Fez-lhe recordar aqueles cães de brinquedo com corda que se compravam no Wal-Mart.

- Nana, o que é que estás a fazer? Não devias andar cá fora.

- Oh, olá, Beth - cumprimentou. Ao contrário do que sucedia dois meses antes, já quase não gaguejava.

Beth pôs as mãos nas ancas. - Não devias andar cá por fora sozinha.

- Trouxe um telemóvel. Penso que conseguirei telefonar se surgir algum problema.

- Tu não tens telemóvel.

- Tenho o teu. Rapinei-o da tua mala esta manhã.

- Nesse caso, a quem é que terias ligado?

Não parecia ter reflectido sobre a questão e enrugou a testa ao olhar para a cadela. - Predous, estás a ver o que eu tenho de aturar? Já te contei que a rapariga é esperta como uma lagarta - rematou, expelindo o ar como o pio de uma coruja.

Beth soube que ia haver mudança de assunto.

- Onde está o Ben? - perguntou Nana.

- Lá dentro, a preparar-se. Vai passar o fim-de-semana com o pai.

- Aposto que está entusiasmado com a ideia. Tens a certeza de que não foi esconder-se na casa da árvore?

- Não compliques - pediu Beth. - Continua a ser o pai dele.

- Pensas tu.

- Tenho a certeza.

- Tens a certeza de que não andaste com mais ninguém naquela altura? Nem uma simples noite com o criado do hotel, com um camionista ou com alguém da escola? - indagou, pondo um ar esperançado. Parecia sempre esperançada quando falava do caso.

- Tenho a certeza. E já te disse o mesmo um milhão de vezes. Nana piscou-lhe um olho. - Pois disseste, mas estou sempre à espera de uma melhoria da memória.

- A propósito, há quanto tempo andas cá fora?

- Que horas são?

- Quase quatro horas.

- Então, ando por fora há três horas.

- com este calor?

- Beth, não estou inutilizada. Foi um incidente.

- Sofreste um acidente vascular cerebral.

- Mas não foi dos graves.

- Não consegues mexer o braço.

- Seja como for, desde que consiga comer a sopa, não preciso dele. Agora deixa que vá ver o meu neto. Quero despedir-me dele antes de se ir embora - rematou. Começaram a andar na direcção do canil, seguidas pela cadela Precioits, que ofegava de cauda no ar. Bonita cadela.

- Acho que esta noite quero comida chinesa - anunciou Nana.

- Também queres?

- Ainda não pensei nisso.

- Pois bem, pensa.

- Está bem, podemos encomendar comida chinesa. Mas não quero pratos pesados. Nem fritos. São demasiado picantes para mim.

- Não tens graça nenhuma.

- Mas sou saudável.

- É a mesma coisa. Olha, como és tão saudável, não te importas de levar a Precious? Está no número 14. Ouvi uma nova anedota que quero contar ao Ben.

- Onde é que ouviste a anedota?

- Na rádio.

- É apropriada?

- Decerto que é apropriada. Quem é que pensas que eu sou?

- Sei exactamente quem tu és. É por isso que pergunto. Qual é a anedota?

- Dois canibais estão a comer um actor cómico e um deles volta-se para o outro e pergunta: «Achas o gosto engraçado?»

Beth sorriu. - Ele vai gostar dessa.

- Bem. O pobre do miúdo precisa de qualquer coisa que o anime.

- Ele está óptimo.

- Pois, é claro que está. Não nasci ontem, como sabes. Quando chegaram ao canil Nana continuou a caminhar para casa,

mais coxa do que estava pela manhã. Estava a melhorar, mas ainda havia um longo caminho a percorrer.

 

                   THIBAULT

O Corpo de Marines tem por base o número 3 - Era uma das primeiras coisas que se aprendia na recruta. Tornar as coisas fáceis de perceber. Três fuzileiros formam uma equipa de combate, três equipas formam uma secção, três secções formam um pelotão, três pelotões formam uma companhia, três companhias são um batalhão e três batalhões constituem um regimento. Em esquema, pelo menos. Na altura em que invadiram o Iraque, o regimento deles tinha sido combinado com elementos de outras unidades, incluindo o Batalhão Blindado Ligeiro de Reconhecimento, Batalhões de Infantaria do 11º Regimento de Marines, os segundo e terceiro Batalhões Anfíbios de Assalto, a Companhia B do 1º Batalhão de Engenharia e o Batalhão 115 de Apoio. Sólido. Preparado para tudo. No total, cerca de 6000 militares.

Enquanto Thibault caminhava sob um céu que começava a mudar de cor com o início do crepúsculo, voltou a pensar naquela noite, tecnicamente o seu primeiro combate em território hostil. O seu regimento, o 1º Batalhão do 5º Regimento, foi a primeira unidade a entrar no Iraque com o objectivo de se apoderar dos campos petrolíferos de Rumaylah. Toda a gente se recordava de que, durante a retirada na Primeira Guerra do Golfo, Saddam Hussein tinha deitado fogo à maioria dos poços de petróleo do Kuwait e ninguém queria que voltasse a acontecer o mesmo. Resumindo uma história comprida, o 1º Batalhão do 5º Regimento, entre outras unidades, chegou a tempo. Na altura em que a zona foi considerada segura, só ardiam sete poços. Dali, a secção de Thibault foi mandada seguir para norte, para Bagdade, a fim de ajudar na conquista da capital. O 1º Batalhão, 5º Regimento, era o mais condecorado de entre os fuzileiros, sendo, portanto escolhido para o avanço mais profundo em território inimigo da história do Corpo de Marines. A sua primeira comissão no Iraque durou um pouco mais de quatro meses.

Passados cinco anos, a maioria dos pormenores daquela primeira comissão haviam-se tornado vagos. Cumprira a sua missão e acabara por ser mandado regressar a Pendleton. Não falava do assunto. Tentava não pensar nele. Excepto num detalhe: Ricky Martinez e Bill Kincaid, os outros dois homens da equipa de Thibault, faziam parte de uma história que ele nunca iria esquecer.

Peguem em três pessoas, juntem-nas e notar-se-ão diferenças. Nenhuma surpresa. E, à superfície, eles eram diferentes. Ricky fora criado num pequeno apartamento em Midland, Texas, era um antigo jogador de beisebol e um fanático do halterofilismo, que competira nos Minnesota Twins antes de se alistar; Bill, que tocara trompete na banda da escola secundária, era do interior do estado de Nova Iorque e fora criado, juntamente com cinco irmãs, numa herdade de produção de lacticínios. Ricky gostava de louras, Bill preferia as morenas; Ricky mascava tabaco e Bill fumava; Ricky apreciava música rap e Bill preferia a country-western. Nada de importante. Foram treinados juntos, comiam juntos e dormiam juntos. Discutiam desporto e política. Conversavam para passar o tempo e pregavam partidas um ao outro. Bill podia acordar com uma sobrancelha rapada; Ricky acordaria na manhã seguinte sem nenhuma das suas. Thibault aprendera a acordar ao mais ligeiro som e, de qualquer forma, conservou as sobrancelhas intactas. Riam-se das partidas durante meses. Uma noite, ambos bêbados, mandaram fazer tatuagens iguais, cada uma a proclamar a sua fidelidade ao Corpo de Marines.

Depois de passarem tanto tempo juntos, chegaram ao ponto de saber o que o outro faria em seguida. Cada um deles, à vez, salvaram a vida de Thibault, ou pelo menos evitaram que fosse gravemente ferido. Bill agarrara o colete de Thibault quando este se preparava para saltar ficando a descoberto; momentos depois, um atirador furtivo (sniper) feriu dois homens que estavam perto deles. Na segunda vez, um Thibault distraído quase era atropelado por um Humvee a toda a velocidade, conduzido por um camarada fuzileiro; então, foi Ricky que o agarrou por um braço e o obrigou a parar. Mesmo na guerra, as pessoas continuam a morrer em acidentes de viação. Recordem-se do general Patton.

Depois de se apoderarem dos campos petrolíferos, chegaram aos arredores de Bagdade com o resto da companhia. A cidade ainda não caíra. Faziam parte de um comboio, três homens entre centenas, a apertarem o cerco à cidade. Para além do rugir dos motores dos veículos aliados, tudo estava calmo ao entrarem na periferia. Quando se detectou fogo de metralhadora, vindo de uma rua lateral, a secção de Thibault foi mandada investigar.

Avaliaram a cena. Prédios de dois ou três andares, apertados uns contra os outros de ambos os lados de uma rua cheia de buracos. Um cão vadio rebuscava no lixo. Cem metros mais adiante as ruínas fumegantes de um automóvel. Esperaram. Nada viram. Esperaram um pouco mais. Nada ouviram. Finalmente, Thibault, Ricky e Bill receberam ordens para atravessar a rua. E assim fizeram; correram, a pôr-se a salvo. A partir daquele ponto, a secção começou a percorrer a rua, a penetrar no desconhecido.

Quando o som de fogo se fez de novo ouvir naquele dia, não se tratou de um só tiro. Foi o matraquear de dezenas, e depois de centenas, de balas de armas automáticas que os encurralou num círculo de fogo. Thibault, Ricky e Bill, juntamente com o resto da secção que ficara do outro lado da rua, viram-se imobilizados em vãos de portas, com pouco espaço para se esconderem.

A troca de tiros não durou muito, disseram depois algumas pessoas. Durou o suficiente. As rajadas caíam sobre eles, vindas dos andares mais altos. Instintivamente, Thibault e a sua secção apontaram as armas para cima e dispararam, uma e outra vez. Do outro lado da rua, dois dos seus homens tinham sido feridos, mas os reforços chegaram rapidamente. Um tanque entrou na rua, com a infantaria a correr atrás dele. O ar vibrou quando o canhão do tanque disparou e fez ruir os últimos andares de um prédio, provocando uma nuvem de poeira e de estilhaços de vidro. Thibault ouvia os gritos, vindos de todos os lados, e viu civis a fugir dos prédios. A fuzilaria continuava; atingido no dorso, o cão vadio uivava e sangrava. Um terceiro marine foi atingido numa perna. Thibault, Ricky e Bill continuavam sem se poder mexer, aprisionados pelo fogo constante que arrancava pedaços das paredes próximas, junto aos pés deles. Ainda assim, os três continuavam a disparar. O ar vibrou com a explosão e os andares mais altos de outro prédio ruíram. Sempre a avançar, o tanque estava agora perto deles. De repente, o fogo inimigo começou a vir de duas direcções e não apenas de uma. Bill olhou-o de relance; ele olhou para Ricky. Sabiam o que tinham de fazer. Chegara a hora de sair dali; se ficassem, morreriam. Thibault foi o primeiro a erguer-se.

Naquele preciso instante, tudo se fez subitamente branco, antes de a escuridão o envolver.

Em Hampton, mais de cinco anos depois, e para além da sensação de que fora atirado para dentro de uma máquina de lavar, Thibault não conseguia recordar os pormenores. Sentiu-se tombar na rua, a ouvir campainhas nos ouvidos. O seu amigo Victor não tardou a chegar junto dele; o mesmo fez um ajudante médico naval. O tanque continuava a disparar e, pouco a pouco, a rua foi controlada.

Soube de tudo depois do facto, como soube também que a explosão fora causada por RPG, uma granada de propulsão por foguete. Mais tarde, um oficial explicou-lhe que a granada fora apontada ao tanque, mas falhou a torre por uns centímetros. Em vez de atingir a torre, como se o destino a tivesse reservado a eles, a granada voou na direcção de Thibault, Ricky e Bill.

Thibault foi metido num Humvee e evacuado do local. Por milagre, sofrera apenas ferimentos ligeiros e três dias depois voltava para junto da sua secção. Ricky e Bill não voltariam; cada um foi depois enterrado com honras militares. Faltava uma semana para Ricky celebrar o vigésimo segundo aniversário. Bill tinha vinte anos. Não foram as primeiras baixas nem as últimas da guerra. A guerra continuou.

Thibault esforçou-se para não pensar muito neles. Parecia insensibilidade, mas na guerra a mente fecha-se para episódios daquele género. Pensar na morte deles, reflectir sobre a sua ausência, era doloroso; portanto, não pensava, nem reflectia. E a maior parte da secção agia da mesma maneira. Em vez de pensar, fez o seu trabalho. Concentrou-se no facto de que ainda estava vivo. Concentrou-se na tarefa de manter os outros em segurança.

Mas sentira de novo os aguilhões da memória, da perda, e não se descartou deles. Estavam com ele enquanto percorria as ruas pacatas da cidade, a caminho dos arrabaldes do lado contrário. Seguindo as instruções que lhe haviam dado no balcão do motel, dirigiu-se para leste, pela Estrada 54, caminhando pela berma relvada, bem fora da estrada. Nas suas viagens aprendera a nunca confiar nos condutores. Zeus trotava atrás dele, a ofegar pesadamente. Parou e deu-lhe água, o fim da garrafa.

Havia estabelecimentos de ambos os lados da estrada. Uma fábrica de colchões, uma oficina da bate-chapa, um infantário, uma loja de conveniência que vendia gasolina e comida fedorenta embrulhada em plástico, e duas casas de quinta arruinadas que pareciam deslocadas ali, como se o mundo moderno tivesse brotado da terra à volta delas. Assumiu que fora isso precisamente que acontecera. Tentava imaginar até quando os donos das casas se aguentariam ou as razões que levavam alguém a querer viver numa casa de frente para a estrada e entalada entre lojas e oficinas.

Os automóveis passavam em ambas as direcções. As nuvens estavam a aproximar-se, cinzentas e inchadas. Cheirou-lhe a chuva antes de ser atingido pelo primeiro pingo mas, dados mais uns passos, chovia a cântaros. O dilúvio durou quinze minutos, contudo as pesadas nuvens continuaram o movimento em direcção à costa, ficando apenas uma ligeira neblina. Zeus sacudiu a água do pêlo. Os pássaros voltaram a cantar nas árvores e o vapor erguia-se da terra molhada.

Acabou por chegar ao recinto da feira, mas encontrou-o deserto. Nada de especial, pensou, ao analisar as instalações. Apenas o fundamental. O parque de estacionamento num espaço coberto de gravilha, à esquerda; um par de celeiros antigos na ponta direita; um campo espaçoso com relva, para corridas de diversão, separava os dois, tudo limitado por uma sebe de arame.

Não precisou de saltar a sebe, nem houve necessidade de olhar para a fotografia. Vira-a milhares de vezes. Continuou a andar, a orientar-se, e acabou por encontrar a bilheteira. Por detrás da bilheteira ficava um arco, onde podia ser colocada uma bandeira. Quando chegou ao arco, voltou-se para norte, englobando no campo de visão a bilheteira e o arco, tal como aparecia na fotografia. Era aquele o ângulo, pensou; a fotografia fora tirada ali.

A estrutura dos marines baseava-se no número três. Três homens formavam uma equipa, três equipas formavam uma secção, três secções constituíam um pelotão. Fizera três comissões no Iraque. Consultando o relógio, notou que estava em Hampton há três horas e, mais adiante, exactamente onde deviam estar, havia três árvores juntas.

Thibault regressou à estrada, sabendo que estava prestes a encontrá-la. Ainda lá não chegara, mas não tardaria muito.

Ela estivera ali. Naquele momento, tinha a certeza.

Agora só precisava de um nome. Na caminhada através do país, dispusera de muito tempo para pensar e decidira que havia três maneiras de enfrentar a questão. Primeiro, podia tentar descobrir a associação local de veteranos e perguntar se lá havia algum que tivesse estado no Iraque. O que poderia levá-lo junto de alguém que a reconhecesse. Segundo, poderia dirigir-se à escola secundária local e ver se tinham livros de cursos de há dez ou quinze anos. Poderia ver as fotografias uma por uma. Ou, em terceiro lugar, podia ir mostrando a fotografia e fazendo perguntas.

Todos os esquemas tinham inconvenientes, nenhum garantia o êxito. A associação de veteranos não constava da lista telefónica. Primeira derrota. Como ainda era tempo de férias de Verão, duvidava que a escola secundária estivesse aberta; mesmo que estivesse, poderia tornar-se difícil aceder aos livros anuais de cursos. Segunda derrota, ao menos por enquanto. O que significava que a melhor maneira era ir perguntando se alguém a reconhecia.

Mas, perguntar a quem?

Pelo almanaque ficara a saber que em Hampton, Carolina do Norte, viviam nove mil pessoas. No Distrito de Hampton viviam mais 30 mil. Gente a mais. A estratégia mais eficiente era limitar a busca ao grupo de candidatos mais promissor. De novo começou pelo que sabia.

A mulher parecia no início da casa dos vinte quando a fotografia fora tirada, o que significava que andaria agora perto do final dos vinte anos. Talvez no início da década dos trinta. Era obviamente atraente. Mais, numa cidade daquele tamanho, presumindo uma boa distribuição por grupos etários, significava que haveria cerca de 2750 crianças, desde recém-nascidos até aos dez anos de idade, 2750 pessoas entre os dez e os vinte, e 5500 pessoas com vinte e trinta anos, o grupo etário dela. Em termos teóricos. Partia do princípio de que metade eram homens e metade mulheres. As mulheres mostrariam tendência a ser mais desconfiadas em relação às intenções dele. Tratava-se de um estranho e os estranhos eram perigosos. Duvidava que revelassem qualquer pormenor importante.

Talvez os homens, dependendo da forma como ele formulasse a questão. Por experiência pessoal, sabia que quase todos os homens reparam nas mulheres atraentes do seu grupo etário, especialmente sendo solteiros. Quantos homens da actual idade dela estariam solteiros? Calculou que seriam uns 30 por cento. Tanto podia estar certo como errado, mas resolveu seguir a pista. Seriam cerca de 900 homens. Destes, calculou que 80 por cento deles viveriam ali na altura que lhe interessava. Era apenas um palpite, mas achou que Hampton seria de preferência uma terra de emigrantes, não de imigrantes. O que faria descer o número para 720. Poderia ainda dividi-lo ao meio concentrando-se nos solteiros com idades entre os vinte e cinco e os trinta e cinco anos, em vez de pensar nos de vinte e quarenta. O número de candidatos descia para 360. Presumiu que uma boa parte desses homens a conhecia ou que a teria conhecido cinco anos antes. Talvez tivessem sido colegas na escola secundária, ou talvez não, pois sabia que havia uma dessas escolas na cidade, mas saberiam se continuava solteira. Era certamente possível que não estivesse solteira. Afinal as mulheres das pequenas cidades do Sul casavam provavelmente jovens, mas começaria por trabalhar com este conjunto de dados. A inscrição no verso da fotografia: «Cuida de ti. não lhe parecera suficientemente romântica para ser dirigida a um namorado ou a um noivo. Não havia qualquer «Amo-te» ou «vou ter saudades». Apenas uma inicial. Uma amiga.

Passara de 22 000 para 360 candidatos em menos de dez minutos. Nada mau. E, sem dúvida, um bom número para começar. Partindo, como era óbvio, do princípio de que ela vivia onde a fotografia fora tirada. Presumindo que não estaria ali de visita.

Sabia tratar-se de outra suposição importante. Tinha, porém, de começar por alguma ponta e sabia que ela estivera ali uma vez. De uma maneira ou de outra chegaria à verdade e, a partir dela, resolveria como agir.

Onde é que os solteiros costumam parar? Solteiros com quem se possa conversar? Conhecia-a há uns dois anos e disse-me que lhe telefonasse se voltasse à cidade, mas esqueci-me do nome e do número do telefone.

Bares. Salões de jogos.

Numa cidade daquele tamanho, duvidava que existissem mais do que três ou quatro lugares em que os locais se reunissem. Os bares e os salões de jogos tinham a vantagem de venderem álcool e era noite de sábado. Estariam cheios. Julgou que conseguiria obter uma resposta, de uma forma ou de outra, nas vinte horas seguintes.

Olhou para Zeus. - Parece que vais passar a noite sozinho. Podia levar-te, mas terias de ficar à porta e não sei quanto tempo irei demorar-me.

O cão continuou a andar, de cabeça e língua pendente, cansado e cheio de calor. Zeus estava por tudo.

- vou ligar o ar condicionado, está bem?

 

                     CLAYTON

Eram nove horas da noite de sábado e ele fechado em casa, a tomar conta do filho. Óptimo. Fenomenal.

Como poderia ter terminado um dia como aquele? Primeiro, quase fora apanhado pelas raparigas a tirar fotografias, a seguir, a máquina fotográfica do departamento fora roubada e, então, um tal Logan «Thibolt» vazara-lhe os pneus. Pior ainda, tivera de explicar a perda da máquina e o vazamento dos pneus ao pai, ao xerife do distrito. Como era de prever, o pai ficara louco de raiva e, fosse como fosse, não engolira a história que o filho engendrara. Em vez disso, continuara a irritá-lo com novas perguntas. Clayton acabara por sentir vontade de liquidar o idoso senhor. O papá poderia ser uma personalidade importante para muita gente da terra, mas o homem não tinha o direito de lhe falar como se ele fosse um idiota. Mas Clayton mantivera a sua versão: pensara ter visto alguém, decidira ir investigar e, sem reparar, passara por cima de uns pregos. E a máquina fotográfica? Não valia a pena perguntar-lhe. Para começar, nem sabia que ela estava no carro-patrulha. Não era uma grande desculpa, mas servia.

- Parece-me mais um buraco feito por um canivete - observara o pai, debruçado a examinar o pneu.

- Já lhe disse que foram pregos.

- Não há construções por aí.

- Não sei como aconteceu! Só estou a dizer-lhe o que aconteceu. - Onde é que estão? - Como diabo quer que eu saiba? Atirei-os para o mato.

O velhote não ficou convencido, mas Clayton sabia que tinha de se agarrar à sua versão do que acontecera. Nunca alterar a versão. É quando começam a contar novos pormenores que as pessoas se metem em sarilhos. Interrogatório 101.

O velhote acabou por deixá-lo e Clayton montou os pneus sobressalentes e levou o carro para a garagem, onde repararam os pneus originais. Tinham passado umas duas horas e ele estava atrasado para um encontro com Mr. Logan «Thibolt». Ninguém, ninguém mesmo, se podia meter com Keith Clayton, ainda mais sendo um hippie vadio que pensara pregar-lhe uma partida.

Passou o resto da tarde a percorrer as ruas de Arden, a perguntar se alguém o vira. Um tipo daqueles não poderia passar despercebido, até por levar o cão com ele. A busca não resultou, o que o enfureceu ainda mais, pois significava que «Thibolt» lhe mentira descaradamente e que Clayton não percebera que estava a ser enganado.

Mas havia de o encontrar. Tinha a certeza de que acabaria por encontrá-lo, especialmente por causa da máquina fotográfica. Ou, para ser mais preciso, por causa das fotografias. Especialmente as outras fotografias. A última coisa que queria era ver «Thibolt» entrar na esquadra e pousar a menina em cima do balcão, ou pior, dirigir-se directamente ao jornal. A esquadra parecia-lhe o menor de dois males, pois o pai poria uma pedra sobre o assunto. Embora o pai se atirasse ao ar e o pusesse durante umas semanitas a desempenhar tarefas que ninguém queria, manteria o segredo. O pai não valia muito, mas era bom nesse género de coisas.

Mas, o jornal... bem, essa seria uma história diferente. Claro que Gramps poderia exercer alguma pressão e fazer o melhor para manter a situação controlada por lá, mas não havia maneira de conservar escondida uma informação daquele género. Era demasiado suculenta e a notícia espalhar-se-ia por toda a cidade, como fogo em capim, sendo ou não acompanhada por um artigo. Clayton já era considerado a ovelha negra da família, não precisava mesmo nada de dar a Gramps mais uma razão para o atacar. Gramps tinha a sua maneira de ver o lado negativo das situações. Mesmo agora, passados anos, ainda lamentava que Clayton e Beth se tivessem divorciado, embora não tivesse nada a ver com o assunto. E nas reuniões de família, era sempre de esperar que mencionasse o facto de Clayton não ter frequentado a universidade. com as notas que obtinha, Clayton não teria dificuldades em entrar, mas não conseguia imaginar-se a passar mais quatro anos em salas de aulas e, assim, decidira juntar-se ao pai como ajudante do xerife. Fora o suficiente para acalmar Gramps. Parecia-lhe que passara metade da vida a acalmar Gramps.

Contudo, não dispunha de outra hipótese. Embora não nutrisse qualquer simpatia pessoal por Gramps, um baptista do Sul que ia à igreja todos os domingos e achava que beber e dançar eram pecados, e que Clayton sempre considerara ridículo, sabia o que Gramps esperava dele, e diga-se em abono da verdade que fotografar raparigas nuas não fazia parte da lista de «deveres». O que também acontecia com outras fotografias no cartão da máquina, especialmente as que o mostravam com outras senhoras em posições comprometedoras. O género de situações que provocariam certamente um grave desapontamento e Gramps não tinha muita paciência para quem o desapontava, mesmo tratando-se de um membro da família. Especialmente se fosse da família. Os Clayton viviam em Hampton desde 1753; em muitos aspectos eles eram o Distrito de Hampton. A família produzira juizes, advogados, médicos e proprietários de terras; até o presidente da Câmara casara na família, mas toda a gente sabia que a cadeira do topo da mesa era ocupada por Gramps. Governava a terra como um padrinho fora de moda da máfia, e havia muitos habitantes que o louvavam e o apreciavam como pessoa. Gramps gostava de acreditar que isso se devia ao facto de ele apoiar tudo, desde a biblioteca ao teatro, bem como a escola elementar local, mas Clayton sabia que a verdadeira razão residia na circunstância de Gramps ser dono de quase todos os edifícios comerciais do centro da cidade, bem como do depósito de madeiras, de ambas as marinas, de três agências de vendas de automóveis, de três complexos de armazéns, do único complexo de apartamentos da cidade, além de grandes extensões de terras agrícolas. Tudo o necessário para tornar a família imensamente rica e poderosa; e como Clayton recebia a maior parte do seu dinheiro dos fundos imobiliários da família, a última coisa de que necessitava era da existência de um estranho na cidade, de alguém que o metesse em sarilhos.

Graças a Deus, fora pai de Ben durante o curto período que passara com Beth. Gramps tinha aquela ideia fixa sobre a linhagem, e como Ben fora baptizado com o nome próprio de Gramps, um golpe de astúcia como nunca deixava de recordar a si próprio, Gramps adorava o garoto. Na maioria das situações, Clayton sentia que Gramps gostava mais do bisneto, Ben, do que do neto.

Pois, Clayton sabia que Ben era um garoto às direitas. Não era apenas Gramps a dizê-lo, era toda a gente. E ele também adorava o filho, embora por vezes o achasse um maçador. Do seu posto de observação no alpendre da frente, olhou pela janela e viu que Ben acabara a limpeza da cozinha e voltara a sentar-se no sofá. Sabia que devia ir para junto dele, mas ainda não se achava preparado. Não queria perder as estribeiras e dizer algo de que viesse a arrepender-se. Tinha andado a preparar-se para lidar melhor com aquelas situações; uns meses antes, Gramps tivera uma pequena conversa com Clayton acerca da necessidade de ele exercer uma influência estável sobre o filho. Tretas. O que deveria ter feito era ordenar que Ben fizesse o que o pai lhe mandava fazer, quando mandasse, pensou Clayton. Teria feito muito melhor ao garoto. O miúdo já o aborrecera uma vez naquela noite, mas, em vez de explodir, recordara-se de Gramps e cerrara os lábios antes que fosse tarde.

Parecia que naqueles dias tudo o que Ben pretendia era aborrecê-lo. Mas a culpa não era dele, que tentava honestamente ter uma boa relação com o filho! E tinham começado bem. Falaram da escola, comeram hambúrgueres, viram o programa desportivo na televisão. Tudo bem. Mas então, horror dos horrores, tinha mandado Ben limpar a cozinha. Como se fosse pedir demasiado. Clayton não tivera tempo para tratar disso nos últimos dias e sabia que o garoto faria um bom trabalho. Ben prometera que o faria, mas em vez disso sentara-se ali. E mantivera-se sentado. E o tempo a passar. E depois voltara a sentar-se. Por isso, Clayton renovara o pedido - e tinha a certeza de que pedira com amabilidade - e, embora não tivesse a certeza, parecera-lhe que Ben rolara as órbitas e finalmente se afastara a caminhar lentamente. Não fora preciso mais. Detestava que Ben revirasse as órbitas quando falava com ele e Ben sabia-o perfeitamente. Era como se o petiz soubesse exactamente os botões em que devia carregar, que passasse os tempos livres a imaginar os botões que deveria usar no encontro seguinte. Por conseguinte, Clayton mantinha-se no alpendre.

Aqueles comportamentos eram obra da mãe, disso não tinha dúvidas. Era uma mulher diabolicamente bonita, mas não fazia a menor ideia do que fazer para transformar um garoto num homem. Não lhe parecia mal que o filho tivesse boas notas, mas não querer jogar futebol no ano que ia começar por preferir aprender a tocar violino? Que nojeira era aquela? Violino? Melhor seria que passasse a vestir o rapaz de cor-de-rosa e o ensinasse a cavalgar de lado, como as mulheres. Clayton fez o que pôde para obstar àquele género de mariquices, mas o facto era que o filho estava com ele apenas dia e meio de duas em duas semanas. Não tinha a culpa de que o garoto empunhasse o taco como uma rapariga. Que passasse tanto tempo a jogar xadrez. E uma coisa estava assente, não havia qualquer hipótese neste mundo de Deus de ele ser apanhado a dormir num recital de violino.

Um recital de violino. Deus nos acuda. Para onde vai este mundo?

Os pensamentos dele voltaram a «Thibolt» e, embora quisesse crer que o homem tinha pura e simplesmente saído do distrito, sabia que não era assim. O homem viajava a pé, não tinha maneira de atingir o outro extremo do distrito até ao cair da noite. E que mais? Para além de outro pormenor que o atormentara durante todo o dia e só descobrira quando conseguira acalmar-se no alpendre: se «Thibolt» tivesse dito a verdade sobre a sua residência no Colorado - e não havia a certeza de que falasse verdade, mas partindo do princípio de que falara - queria dizer que viajava de oeste para leste. E qual era a localidade mais próxima a leste? Não era Arden. Certamente que não, pois ficava a sudoeste do ponto onde se encontraram. Em vez disso, o caminho para leste teria levado o homem para a velha Hampton. Para ali mesmo, para a sua terra natal. O que significava, claro, que o tipo poderia encontrar-se a menos de um quarto de hora de caminho do ponto onde Clayton estava sentado.

Mas onde parava Clayton? Andava à procura do homem? Não, estava a tomar conta do filho.

Semicerrou de novo os olhos para observar o filho através da janela. Estava sentado no sofá, a ler, que era a única coisa que lhe agradava sempre. Ah, pois, com excepção do violino. Abanou a cabeça, a tentar perceber se o garoto teria herdado algum dos seus genes. Improvável. Era um menino da mamã, dos pés à cabeça. O filho de Beth.

Beth...

Pois, o casamento não funcionara. Mas continuava a existir qualquer coisa entre eles. Existiria sempre. Ela poderia ter sido opiniosa, presumida e caprichosa, mas ele sempre procurara defendê-la, não só por causa de Ben, mas por ela ser a mulher mais bonita com quem ele alguma vez dormira. Bonita naquele tempo e talvez ainda mais bonita actualmente. Ainda mais bonita que as estudantes que vira de manhã. Estranho. Como se Beth tivesse atingido a idade que lhe servia perfeitamente e, vá lá saber-se como, a seguir deixasse de envelhecer. Sabia que a beleza não ia durar. A gravidade cobraria o seu preço, mas ainda assim, não conseguia deixar de pensar numa rápida cambalhota juntamente com ela. Uma pelos velhos tempos e para o deixar... aliviado.

Supôs que poderia ligar a Angie. Ou a Kate, tanto fazia. Uma tinha vinte anos e trabalhava na loja de animais de estimação; a outra era um ano mais velha e limpava sanitas no Stratford Inn. Duas figurinhas simpáticas que se transformavam sempre em dinamite quando chegada a hora da... de se aliviarem. Sabia que Ben não se importaria se ele mandasse vir uma delas, mas, ainda assim, teria provavelmente de as convencer primeiro. Ambas tinham ficado bastante zangadas das últimas vezes em que estiveram com ele. Teria de lhes pedir desculpa e de usar do seu charme, não tendo a certeza de estar disposto a vê-las mascar a pastilha elástica enquanto tagarelavam sobre o que tinham visto na MTV ou lido na National Enquirer. Por vezes, eram demasiado cansativas.

Então, restava o quê? Não podia ir à procura de Thibolt». Procurar Thibolt» no dia seguinte era igualmente impossível, pois Gramps queria a família toda reunida depois da ida à igreja. No entanto, «Thibolt» viajava a pé, com um cão e de mochila, sendo pouco provável que conseguisse boleia. Onde conseguiria chegar até à tarde do dia seguinte? Trinta quilómetros? Quarenta, no máximo? Não mais do que isso, o que queria dizer que continuava por perto. Faria umas quantas chamadas para as esquadras dos distritos vizinhos e pedir-lhes-ia que o mantivessem debaixo de olho. As estradas de saída do distrito não eram assim tantas e calculava que, gastando umas horas a telefonar para os estabelecimentos localizados à beira dessas estradas, alguém teria de avistar o homem. Quando isso acontecesse punha-se a caminho. Thibolt» nunca deveria ter-se metido com Keith Clayton.

Perdido em reflexões, Clayton mal ouviu o ranger da porta da frente ao ser aberta.

- Eh, papá?

- O que foi?

- Telefonema para ti.

- Quem é?

- Tony.

- Tinha de ser.

Ergueu-se da cadeira, a tentar imaginar o que Tony quereria. Falar acerca de um falhado qualquer. Esquelético e coberto de espinhas, era uma daquelas meigas que se sentam perto dos polícias, a tentar rastejar o suficiente para se parecer com eles. Provavelmente estava a procurar saber onde Clayton se encontrava, ou o que ele tencionava fazer mais tarde, porque não queria estar só. Deficiente.

Acabou a cerveja enquanto andava e deitou a lata para o caixote do lixo, ouvindo-a cair lá dentro. Pegou no auscultador.

- Estou!

Em fundo, conseguia ouvir-se o som distorcido de música country-western a ser tocada numa jukebox e sons indistintos de conversas em voz alta. Não sabia o que pensar sobre o telefonema daquele falhado.

- Olha, estou no Deckers Pool Hall e anda aqui um tipo estranho e julguei que devias saber o que ele anda a preparar.

As antenas de Clayton estavam a postos. - Tem um cão com ele? Traz mochila? Um tipo desleixado, como se tivesse vivido algum tempo na floresta?

- Não.

- Tens a certeza?

- É claro que tenho a certeza. Está na sala das traseiras a jogar snooker. Mas, ouve! Quero informar-te de que ele tem uma fotografia da tua ex-mulher.

Apanhado desprevenido, Clayton tentou parecer desinteressado.

- E então?

- Pensei que gostarias de saber.

- Por que diabo havia de dar importância a isso?

- Não sei.

- É claro que não. Grita à vontade.

Desligou o telefone, a pensar que o tipo devia ter salada de batata no sítio onde deviam estar os miolos e lançou um olhar de apreço à cozinha. Mais limpa não podia estar. O miúdo fizera um excelente trabalho, como sempre. Quase lhe apeteceu gritar o que sentia, mas, do sítio onde estava, não deixou de reparar, mais uma vez, na pequena estatura do filho. Uma boa parte devia ser genética, devida a processos de crescimento mais precoces ou mais tardios, e essas tretas todas, mas a outra parte tinha a ver com o estado geral de saúde. com simples bom senso. Comer bem, fazer exercício, descansar bastante. As coisas fundamentais que qualquer mãe ensinava aos filhos. E as mães tinham razão. Se não comermos o suficiente não poderemos crescer. Se não fizermos exercício suficiente os músculos atrofiam-se. E quando é que se pensa que as pessoas crescem? É à noite. É quando o corpo se regenera. Enquanto as pessoas sonham.

Por vezes duvidava que Ben dormisse o suficiente em casa da mãe. Clayton sabia que o filho comia, pois comera todo o hambúrguer com batatas fritas, e também sabia que o garoto era activo; portanto, talvez fosse a falta de dormir que o mantinha baixo. Os rapazes não gostam de ficar pequenos, pois não? É claro que não. E além do mais, Clayton precisava de ficar sozinho. Queria magicar acerca do que havia de fazer a Thibolt» na próxima vez que o visse.

Pigarreou. - Olha, Ben. Está a fazer-se tarde, não concordas?

 

                     THIBAULT

No regresso do salão de bilhar, Thibault recordou a sua segunda comissão no Iraque.

Começou na Primavera de 2004, em Fallujah. O 1º Batalhão do 5º Regimento, juntamente com outras unidades, foi mandado reprimir a escalada de violência que se seguira à queda de Bagdade, no ano anterior. Os civis sabiam o que os esperava e começaram a fugir da cidade, atravancando as estradas. Um terço da cidade terá sido evacuado só num dia. Foram enviados meios aéreos e depois os marines. Avançavam quarteirão a quarteirão, casa a casa, sala por sala, em alguns dos combates mais intensos registados desde os primeiros dias da invasão. Em três dias conseguiram o controlo de um quarto da cidade, mas o número crescente de baixas entre os civis obrigou a um cessar-fogo. Foi decidido abandonar a operação e a maioria das tropas recebeu ordem de retirada, incluindo a companhia de Thibault.

Mas nem toda a companhia retirou.

No segundo dia de operações, na zona industrial a sul da cidade, Thibault e o seu pelotão foram mandados investigar um prédio onde se julgava existir um depósito de armas. Contudo, não fora apontado qual seria o prédio exacto; podia ser qualquer uma de doze estruturas delapidadas, agrupadas à volta de uma estação de serviço abandonada e formando um semicírculo. Thibault e o pelotão avançaram em direcção aos prédios, fazendo um grande desvio da estação de serviço. Metade avançou pela direita, a outra metade pela esquerda. Tudo calmo e logo a seguir o caos. A estação de serviço explodiu subitamente. As chamas ergueram-se para o céu, a explosão derrubou metade dos homens e estoirou-lhes com os tímpanos. Thibault sentiu-se confuso; a visão periférica escurecera e tudo o resto lhe parecia envolto em nevoeiro. De repente, um inferno de fogo desabou das janelas, dos telhados e dos restos de automóveis abandonados nas ruas.

Thibault deu consigo no chão, ao lado de Victor. Dois outros homens do pelotão, Matt e Kevin, MadDog e Man, respectivamente, estavam com eles e o treino recebido veio à superfície. E a fraternidade também. Apesar do ataque, apesar do medo, talvez arriscando uma morte certa, Victor empunhou a arma e pôs um joelho em terra, apontando ao inimigo. Disparou, uma vez, duas vezes, calmo, concentrado e sem tremer. MadDog empunhou a espingarda e fez o mesmo. Levantaram-se, um de cada vez, uma a uma formaram-se equipas de atiradores. Atirar. Abrigar-se. Avançar. Só que não podiam avançar. Não tinham para onde ir. Um fuzileiro caiu, depois outro. A seguir um terceiro e um quarto.

Os reforços quase chegavam demasiado tarde. Mad Dog fora atingido na artéria femoral; apesar de lhe terem aplicado um torniquete, a hemorragia matara-o em poucos minutos. Kevin levara um tiro na cabeça e morrera instantaneamente. Havia ainda dez feridos. Poucos escaparam ilesos: Thibault e Victor estavam entre eles.

Um dos jovens com quem falara no salão de bilhar lembrava-lhe MadDog. Podiam ter sido irmãos - semelhantes em altura e em peso, tinham o cabelo igual, a mesma maneira de falar - e houvera um momento que Thibault pensara se não seriam mesmo irmãos, antes de dizer a si próprio que tal não era possível.

Sabia o perigo que corria ao pôr em prática o seu plano. Em localidades pequenas os estranhos são sempre suspeitos e, para o final do serão, vira o tipo esquelético, de pele doente, a fazer uma chamada da cabina que havia perto dos lavabos, olhando nervosamente para Thibault enquanto falava. Também se mostrara nervoso antes da chamada, pelo que Thibault presumiu que o telefonema fora para a mulher da fotografia ou para alguém chegado a ela. As suspeitas confirmaram-se quando Thibault saiu. Como era de prever, o homem seguiu-o até à porta para ver a direcção que ele ia tomar, o que levou Thibault a caminhar em sentido contrário e depois a voltar para trás.

Quando chegara ao decadente salão de jogos, passara pelo bar e seguira directamente para as mesas de bilhar. Não tardou a identificar os homens do grupo etário que lhe interessava e pareciam, na maioria, solteiros. Pediu para se juntar a eles e foi recebido com um resmungo característico. A fazer-se simpático, pagou umas rodadas de cervejas e perdeu alguns jogos e os outros começaram, sem dúvida, a aceitá-lo. Casualmente, pediu informações sobre a vida social da cidade. Falhou as tacadas necessárias. Aplaudia sempre que eles acertavam.

Acabaram por começar a fazer perguntas acerca dele. De onde era? O que fazia ali? Hesitou, murmurou umas palavras, qualquer coisa acerca de uma rapariga, e mudou de assunto. Satisfez-lhes a curiosidade. Mandou vir mais cervejas e, quando eles perguntaram de novo, contou a sua história, mas com relutância: que fora à feira com uma amiga, há uns anos, e conhecera uma rapariga. Tinham-se dado bem. Continuou a insistir no facto de ela ser extraordinária e de lhe ter dito para a procurar se alguma vez voltasse à cidade. Era o que queria fazer, mas o diabo é que não conseguia lembrar-se do nome dela.

- Não se recorda do nome? - inquiriram.

- Não. Nunca fui bom a decorar nomes. Deram-me com um taco de beisebol na cabeça quando era miúdo e não fiquei muito bem da memória - esclareceu, encolhendo os ombros por saber que os outros iam rir-se. E riram-se. - Mas tenho uma fotografia - acrescentou, como só agora lhe tivesse ocorrido que a tinha.

- Tem-na consigo?

- Tenho. Acho que sim.

Vasculhou os bolsos e tirou a fotografia. Os homens juntaram-se à sua volta. Momentos depois, um deles começou a abanar a cabeça.

- Está com azar - observou. - Nada a fazer.

- É casada?

- Não, mas digamos que não namora. O ex-marido não gostaria da ideia e, acredite, não deve querer meter-se com ele.

Thibault engoliu em seco. - Quem é ela?

- Beth Green - responderam. - É professora na Escola Elementar de Hampton e vive em casa da avó, dona do Canil Sunshine.

Beth Green. Ou, mais acertadamente, pensou Thibault, Elizabeth Green.

Foi enquanto eles falavam que se apercebeu de que um tipo a quem também mostrara a fotografia se esgueirava do grupo.

- Nesse caso, estou em maré de azar - concluiu Thibault ao guardar a fotografia.

Ficou mais meia hora a cobrir a retirada. Falou de futilidades. Reparou que o estranho de pele doente fazia um telefonema e notou que a resposta o desapontara. Como uma criança castigada por ser tagarela. Muito bem. Ainda assim, Thibault ficou com a impressão de que voltaria a ver aquele estranho. Mandou vir mais cervejas e perdeu mais jogos, olhando de vez em quando na direcção da porta para ver se alguém entrava. Ninguém entrou. Na devida altura, mostrou as palmas das mãos e anunciou que estava falido. Tinha de ir-se embora. A sessão custara-lhe menos de 100 dólares. Asseguraram-lhe que seria bem-vindo sempre que quisesse aparecer.

Mal os ouviu. Só pensava que finalmente tinha um nome para um rosto e que o passo seguinte era encontrá-la.

 

                   BETH

Domingo.

Depois da ida à igreja, presumia-se que era um dia de descanso, em que podia recuperar e carregar baterias para a semana seguinte. O dia que era suposto passar com a família, a preparar o guisado na cozinha e a dar passeios relaxantes pela margem do rio. Talvez até aninhar-se com um bom livro enquanto beberricava um copo de vinho, ou se mergulhava num bom banho quente.

O que não queria fazer era passar o dia a apanhar trampa de cão na zona relvada onde os cães eram treinados, ou a limpar as jaulas, ou a treinar uma dúzia de cães, um a seguir ao outro, ou sentada num escritório sufocante para receber pessoas que vinham buscar os cachorrinhos que descansavam em canis frescos, com ar condicionado. Exactamente o que tivera de fazer quando regressara da igreja, no princípio da manhã.

Já tinham sido entregues dois cães mas estava previsto que sairiam mais quatro naquele dia. Nana fora suficientemente amável para lhe deixar as fichas prontas, antes de voltar a casa para ver o jogo. Os Atlanta Braves jogavam contra os Mets e Nana não se limitava a adorar os Atlanta Braves com uma paixão fervorosa que Beth considerava ridícula, adorava toda a simbologia associada à equipa. O que certamente explicava as chávenas de café dos Atlanta Braves empilhadas na mesinha do café, os galhardetes dos Atlanta Braves pendurados nas paredes, o calendário de secretária dos Atlanta Braves e o candeeiro dos Atlanta Braves colocado perto da janela.

Mesmo com a porta aberta, o ar do escritório era asfixiante. Era um daqueles dias quentes e húmidos de Verão, excelentes para nadar no rio mas impróprios para qualquer outra actividade. Tinha a blusa encharcada pela transpiração e, como estava de calções, as pernas estavam sempre a colar-se ao forro de vinil da cadeira em que se sentava.

De cada vez que mexia as pernas era recompensada com o som próprio de qualquer coisa a descolar-se, como se estivesse a tirar a fita que fechava uma caixa de cartão. Uma parvoíce.

Embora Nana considerasse indispensável que os cães estivessem no fresco, nunca se preocupara em acrescentar uns metros às condutas de ar condicionado para as prolongar até ao escritório. «Se tiveres calor, só tens de deixar aberta a porta que dá para os canis», era a resposta de sempre, ignorando o facto de que, ao contrário dela, a maioria das pessoas normais não suportava o ladrar ininterrupto. E naquele dia estavam lá dois pequenos tagarelas: um casal de terriersjack Russel que ainda não tinham parado de ladrar desde que Beth chegara. Beth presumia que ladrariam toda a noite, pois a maior parte dos outros cães também parecia nervosa. Mais ou menos de minuto a minuto, outros cães juntavam-se ao raivoso coro, com os latidos a aumentar em altura e intensidade, pois o único desejo de cada cão era mostrar que podia manifestar o seu desprazer em tom mais alto do que o vizinho da jaula do lado. Em resumo: não havia qualquer hipótese de ela abrir a porta para refrescar o escritório.

Ainda pensou em ir a casa buscar outro copo de água gelada, mas tinha a estranha sensação de que, mal saísse do escritório, chegariam os donos da cocker spaniel que estivera em treino de obediência. Tinham telefonado meia hora antes, a dizer que iam a caminho - «Estaremos aí dentro de dez minutos!» - e pertenciam àquele género de pessoas que ficariam perturbadas se a sua cocker spaniel tivesse de ficar sentada num canil durante mais um minuto que o necessário, especialmente depois de ter passado duas semanas fora de casa.

Mas já tinham chegado? Certamente que não.

Seria bem mais fácil se Ben estivesse por ali. Vira-o de manhã na igreja em companhia do pai, tão triste quanto seria de esperar. Como sempre, não fora nenhuma brincadeira para ele. Telefonara na noite anterior, antes de se deitar, para lhe dizer que Keith passara boa parte do serão sentado sozinho no alpendre, enquanto Ben procedia à limpeza da cozinha. Qual seria, tentava ela imaginar, o problema? Por que não apreciar o facto de ter o filho consigo? Ou sentar-se junto dele e conversar? Ben era o garoto mais fácil de suportar e não pensava aquilo por ser mãe. bom, admitia, talvez o facto a influenciasse um pouco, mas, como professora, passava muito tempo com crianças diferentes e sabia do que estava a falar. Ben era esperto. Tinha um sentido de humor engraçado. Era naturalmente amável. Ben era bem educado. Ben era formidável e o facto de Keith não se aperceber disso punha-a maluca.

Na verdade, gostaria mais de estar dentro de casa... a fazer qualquer coisa. Fosse o que fosse. Mesmo tratar da lavagem da roupa era mais agradável. Ali sentada, dispunha de demasiado tempo para pensar. Não apenas em Ben, mas também em Nana. E se iria ou não ensinar no ano escolar que se aproximava. E até no triste estado da sua vida amorosa, que a deixava sempre deprimida. Pensava como seria maravilhoso encontrar alguém com quem se divertir, alguém que amasse Ben tanto quanto ela o amava. Ou até conhecer um homem com quem pudesse ir jantar ou a uma sessão de cinema. Um homem normal, um ser que se lembrasse de estender o guardanapo em cima das pernas quando ia ao restaurante e, uma vez por outra, segurasse a porta para ela passar. Nada de especial, pois não? Não mentira a Melody ao dizer-lhe que as escolhas na cidade eram escassas, e era a primeira a admitir ser uma pessoa exigente, mas, tirando o curto período com Adam, passara os fins-de-semana em casa durante o ano precedente. Não era assim tão exigente, essa era a verdade. Ficara claro que Adam fora o único a convidá-la para sair e, por uma razão que ela ainda não compreendera, deixara subitamente de a contactar. O que praticamente resumia a história dos seus namoros durante os anos mais recentes.

Nada de importante, pois não? Sobrevivera todo aquele tempo sem uma relação e continuara em frente. Além disso, na maioria das ocasiões não se preocupava com a questão. O dia fora tão horrivelmente quente que duvidava que isso a pudesse preocupar naquele momento. O que significava que tinha de se refrescar. De outra forma, era provável que começasse a reflectir sobre o passado, o que definitivamente decidira não fazer. Pegando no copo vazio, decidiu ir buscar água gelada. E, de caminho, trazer uma pequena toalha para se sentar.

Ao erguer-se da cadeira, deu uma vista de olhos ao caminho de acesso coberto de gravilha; depois rabiscou um bilhete em que dizia estar de volta dentro de dez minutos e colou-o na porta da frente do escritório. Lá fora, o sol queimava, fazendo-a correr para a sombra da velha magnólia e para o carreiro de gravilha que dava acesso à casa em que crescera. Construída à volta de 1920, no estilo das casas de quinta, ampla e baixa, rodeada de um alpendre largo e ostentando figuras esculpidas nas goteiras. O jardim das traseiras, escondido do canil e do escritório por sebes altas, recebia a sombra de carvalhos gigantes e fora disposto numa série de terraços que tornavam uma refeição ali fora um verdadeiro prazer. Devia ter sido um lugar magnífico no seu tempo mas, como sucedia com tantas casas rurais à volta de Hampton, o tempo e os elementos tinham-se unido contra ele. Por aqueles dias, o alpendre estava a afundar-se, os sobrados rangiam e, quando o vento era suficientemente forte, os papéis voavam de cima do balcão, mesmo que as janelas estivessem fechadas. No interior da casa a situação era idêntica: excelentes estruturas, mas a exigir uma modernização, especialmente na cozinha e nas casas de banho. Nana reconhecia a necessidade e falava nisso de vez em quando, mas os projectos acabavam sempre por ser esquecidos. Além disso, Beth tinha de admitir que o lugar continuava a ter um encanto especial. Não era só o jardim das traseiras, um verdadeiro oásis, mas o próprio interior. Nana frequentara lojas de antiguidades durante anos, preferia tudo o que fosse francês e do século XIX. Também passara boa parte dos fins-de-semana em vendas de casa particulares, a remexer em velhas pinturas. Tinha um talento especial para escolher quadros e criara boas amizades com alguns proprietários de galerias de todo o Sul. Quase todas as paredes da casa ostentavam quadros. Uma vez, por divertimento, Beth tinha procurado no Google o nome de dois dos pintores e ficara a saber que eles tinham obras expostas no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque e na Biblioteca Huntington de San Marino, Califórnia. Quando falou do que descobrira, Nana sorrira e comentara: - É como provar champanhe, não é?

- Nana dava, volta e meia, usos engraçados às frases, muitas vezes para mascarar o seu apurado instinto.

Assim que chegou ao alpendre da frente e abriu a porta, Beth foi atingida por uma onda de ar frio, tão refrescante que a fez quedar-se à entrada, a saborear aquela sensação.

- Fecha a porta - gritou Nana, a falar por cima do ombro.

- Estás a deixar sair o ar fresco - acrescentou, rodando na cadeira para constatar o que era óbvio. - Parece que tens calor.

- Tenho calor.

- Presumo que hoje o escritório deve parecer um forno.

- Pensas que sim?

- Penso que devias ter aberto a porta que dá para o canil, como te disse. Mas isso são manias minhas. bom, entra e refresca-te um bocado.

Beth apontou para o televisor. - Como é que os Braves estão aportar-se?

- Como um molho de cenouras. - Isso é bom ou mau? As cenouras conseguem jogar beisebol?

- Acho que não.

- Então, está respondida a pergunta. Beth sorriu ao encaminhar-se para a cozinha. Nana ficava um pouco irritada sempre que os Braves estavam a perder.

Tirou uns cubos de gelo do frigorífico. Depois de os deitar num copo, encheu-o de água e bebeu um longo trago que a deixou satisfeita. Apercebendo-se de que também tinha fome, escolheu uma banana da fruteira e regressou à sala de estar. Deixou-se cair no braço do sofá, sentindo o suor evaporar-se no ar frio, com um olho em Nana e outro no jogo. Gostaria de perguntar quantas bolas tinham sido colocadas na área de validação, mas sabia que a avó não ia apreciar a graça. Pelo menos num dia em que os Braves estavam a jogar como um molho de cenouras. Suspirou ao consultar o relógio, sabendo que tinha de regressar ao escritório.

- Nana, foi um prazer conversar contigo.

- Contigo também, doçura. Tenta não apanhar muito calor.

- Farei o melhor que puder.

Beth voltou ao escritório do canil pelo mesmo caminho, notando, desapontada, que não havia carros no parque de estacionamento, o que significava que os clientes ainda não tinham chegado. Havia, contudo, um homem no caminho de acesso, acompanhado por um pastor alemão. Por detrás deles levantavam-se espirais de pó, o cão vinha de cabeça baixa e língua de fora. Beth ficou a pensar no que os levaria a andar por fora num dia daqueles. Até os animais preferiam permanecer no interior das casas. Pensando melhor, apercebeu-se de que era a primeira vez, tanto quanto conseguia recordar-se, que via alguém trazer um animal para o canil a pé. E não era só isso: quem quer que fosse não fizera marcação. As pessoas que ali deixavam os animais marcavam sempre consulta.

Calculando que chegariam ao escritório ao mesmo tempo, fez um gesto de saudação e ficou surpreendida quando o homem parou e ficou a olhar para ela. O cão fizera o mesmo, de orelhas em riste, e a primeira ideia que lhe viera à cabeça foi compará-lo com Oliver, o pastor alemão que Nana trouxera para casa quando Beth tinha 13 anos. Possuía as mesmas malhas pretas e castanhas, o mesmo inclinar de cabeça, a mesma atitude ameaçadora perante estranhos. Não que ela alguma vez sentisse medo de Oliver. Durante o dia fora mais o cão de Drake, mas nunca deixava de dormir ao lado da cama de Beth durante a noite, procurando o conforto da presença dela.

Ocupada com as recordações de Oliver, não se apercebera de que o homem ainda não saíra do mesmo sítio. Nem proferira uma única palavra. Esquisito. Talvez esperasse encontrar Nana. Como o rosto dele ficava na sombra, não podia decidir-se, mas também não interessava.

Uma vez chegada à porta, retirou o bilhete e abriu o escritório, na expectativa de que o homem entraria quando estivesse pronto. Deu a volta ao guiché, viu a cadeira de vinil e só então percebeu que se esquecera da toalha. Era de esperar.

Pensando que deveria ter os papéis prontos para o estranho deixar o cão, tirou uma folha do armário e prendeu-a na prancheta. Vasculhou a gaveta à procura de uma caneta e colocou-a ao lado do papel, em cima do balcão do guiché, no preciso momento em que o estranho e o cão entravam no escritório. O homem sorriu, os olhos de ambos encontraram-se, foi uma das poucas ocasiões da sua vida em que Beth se sentiu incapaz de encontrar palavras.

Não tinha muito a ver com a maneira como ele a olhava. Por mais maluca que a ideia parecesse, ele olhava-a como se a tivesse reconhecido. Mas ela nunca o vira; tinha a certeza. Ter-se-ia lembrado, até por ele a fazer pensar em Drake na forma como parecia dominar a sala. Como Drake, teria 1,86 de altura, com braços musculosos e ombros largos. Tinha aparência de duro, atenuada pela descoloração das calças de ganga e da T-shirt, ambas queimadas pelo sol.

Porém, as semelhanças acabavam ali. Os olhos de Drake eram castanhos e aveludados, os do estranho eram azuis; Drake sempre usara o cabelo curto, o do estranho era mais comprido, com aspecto quase selvagem. Notou que, apesar de ter vindo a pé até ali, estava a transpirar menos do que ela.

Subitamente, tomou consciência da situação e voltou-se no preciso momento em que o estranho dava um passo para o guiché. Ficou a observá-lo pelo canto do olho e viu-o erguer ligeiramente a mão aberta na direcção do cão. Vira Nana fazer o mesmo mil vezes, e o cão, atento ao mais pequeno gesto, ficou imóvel. O cão já estava bem treinado, o que provavelmente resultaria num alojamento temporário do animal.

- Tem um bonito cão - admitiu Beth ao empurrar o formulário na direcção dele. O som da voz dela rompera o silêncio embaraçoso.

- Também tive um pastor alemão. Como é que ele se chama?

- Zeus. E obrigado.

- Olá, Zeus. O cão inclinou a cabeça para um lado.

- Só preciso que assine o formulário - prosseguiu Beth. - E se tivesse cópia da ficha do veterinário, seria excelente. Ou se nos fornecesse o contacto.

- Desculpe?

- A ficha do veterinário. Quer deixar cá o Zeus, não é verdade?

- Não - respondeu. Fez um movimento com o ombro. - Na verdade, vi o anúncio na janela. Estou à procura de trabalho e vinha saber se ainda tem algum lugar vago.

Beth não estava à espera daquilo e tentou orientar-se de novo. O homem encolheu os ombros. - Sei que talvez devesse ter telefonado antes, mas, afinal, vinha a passar por aqui. Pensei ser melhor apresentar-me para ver se tem um pedido de emprego. Se preferir, voltarei amanhã.

- Não, não se trata disso. Estou apenas surpreendida. Não é normal que as pessoas aproveitem o domingo para procurar emprego - explicou. Na realidade, também não apareciam em qualquer dos outros dias, mas resolveu não esclarecer essa parte. - Tenho um pedido de emprego, algures - foi dizendo, voltando-se para o armário que estava atrás dela. - Dê-me um segundo para o encontrar - pediu. Premiu o fecho da última gaveta e começou a procurar por entre as fichas. - Como se chama?

- Logan Thibault.

- É francês?

- Do lado do meu pai.

- Ainda não o tinha visto por aqui.

- Sou novo na cidade.

- Cá está! - exclamou ao pegar no pedido de emprego. - Ora bem, aqui está.

Colocou o formulário, juntamente com uma caneta, no balcão à frente dele. Notou-lhe uma certa rugosidade na pele enquanto ele preenchia o nome, o que a fez pensar que ele passara muito tempo ao sol. Na segunda linha do formulário parou e olhou para cima, fazendo que os olhares de ambos se encontrassem pela segunda vez. Beth sentiu um ligeiro rubor no pescoço e tentou escondê-lo ajeitando a blusa.

- Não sei qual o endereço que devo indicar. Como disse, acabo de chegar à cidade e estou no Holiday Motor Court. Mas posso usar o endereço da minha mãe, no Colorado. Qual prefere? - Pois, estou a ver. Um pouco afastado daqui,

- O que é que o trouxe até Hampton? «Vim procurar-te.» - Pareceu-me interessante e pensei tentar viver aqui.

- Tem cá família?

- Nenhuma. - Oh! - conseguiu responder. Bonita ou não, a história não soava bem e Beth sentiu os alarmes mentais começarem a tocar. Havia mais qualquer coisa, algo que lhe remexia bem fundo na cabeça, e levou alguns segundos a perceber o que era. Quando o conseguiu, afastou-se ligeiramente do guiché, criando um pouco mais de espaço entre ambos. - Se acaba de chegar à cidade, como é que soube que o canil procurava pessoal? Esta semana não publiquei o anúncio no jornal.

- Vi o letreiro.

- Quando? - inquiriu, semicerrando os olhos para ele. - Vi-o aparecer e não tinha maneira de ver o letreiro até chegar diante da porta do escritório.

- Já o tinha visto, hoje mesmo, íamos pela estrada e Zeus ouviu cães a ladrar. Tomou este caminho e quando vim procurá-lo reparei no letreiro. Não havia ninguém à vista, pelo que pensei voltar mais tarde para ver se a situação mudara.

A história era plausível, mas ela sentiu que o homem estava a mentir ou a deixar qualquer pormenor de fora. E se ali estivera antes, o que é que isso poderia significar? Que ele tinha andado a espiar o sítio?

O homem pareceu notar a preocupação dela e pousou a caneta. Tirou o passaporte do bolso e abriu-o. Quando o empurrou na direcção dela, Beth olhou a fotografia e a seguir para ele. O nome, reconheceu, estava correcto, o que não foi suficiente para silenciar as campainhas de alarme. Ninguém passava por Hampton e decidia ficar ali por capricho. Charlotte, sim. Raleigh, uma hipótese. Greensboro, sem dúvida. Mas Hampton? De forma alguma.

- Percebo - disse, subitamente desejosa de pôr termo à conversa.

- Continue e indique o endereço postal. E a sua experiência profissional. Afinal, tudo o que preciso é de um número para lhe ligar e entraremos em contacto.

O homem não tirava os olhos dela. - Mas não vai fazer essa ligação.

Era arguto, pensou Beth. E directo. O que exigia que ela também o fosse. - Não.

Ele assentiu. - Muito bem. É provável que não me telefone baseada no que ouviu até agora. Porém, antes de tirar conclusões, posso acrescentar mais uns dados?

- Avance!

O tom tornava evidente que ela não via interesse em nada do que ele pudesse acrescentar.

- Sim, estou a viver temporariamente no motel, mas penso encontrar uma casa para morar por aqui. E também encontrarei trabalho aqui - informou, sem desviar os olhos. - Agora, falando de mim, licenciei-me em Antropologia em 2002, na Universidade de Colorado. Depois disso, alistei-me nos Marines e fui desmobilizado com honras há dois anos. Nunca estive preso, nem fui acusado de qualquer crime, nunca tomei drogas e nunca fui despedido por incompetência. Estou disposto a submeter-me a um teste de detecção de drogas e, no caso de o julgar necessário, pode confirmar tudo o que acabo de dizer. Ou, se julgar que é mais fácil, pode telefonar ao meu comandante e ele ratificará tudo o que acaba de ouvir. E, ainda que a lei não me exija que responda a perguntas desse género, não tomo qualquer espécie de medicação. Por outras palavras, não sou esquizofrénico, nem bipolar, nem maníaco. E já tinha visto o letreiro.

Beth não sabia o que esperava que ele ia dizer, mas fora certamente apanhada desprevenida.

- Percebo - voltou a responder, concentrada no facto de ele ter sido militar.

- O preenchimento do formulário continua a ser uma perda de tempo?

- Ainda não decidi - defendeu-se. Intuitivamente, sentia que desta vez ele falara verdade, mas estava igualmente convencida de que a história continha mais pormenores que ele não revelara. Chupou a bochecha. Precisava de um empregado. O que era mais importante: saber o que ele estava a esconder, ou encontrar um novo empregado?

O homem permanecia em frente dela, calmo e direito, numa postura que denotava uma confiança natural. Atitude de militar, observou ao franzir as sobrancelhas.

- Por que é que pretende trabalhar aqui? - inquiriu, uma pergunta suspeitosa até para ela. - com uma licenciatura, é provável que encontre um lugar melhor na cidade.

Apontou para Zeus. - Gosto de cães. ?

- Não vai ganhar muito.

- Não preciso de muito.

- Os horários podem ser longos.

- Calculei que seriam.

- Já trabalhou nalgum canil?

NãO.

- Percebo. Ele sorriu. - Diz isso muitas vezes. - Pois digo - reconheceu. «Nota interior. Deixar de dizer isso.»

- E tem a certeza de que não conhece alguém da cidade?

- Tenho.

- Acaba de chegar a Hampton e decidiu ficar.

Exacto.

- Onde é que está o seu carro?

- Não tenho carro.

- Como é que chegou cá?

- Caminhei. Beth piscou os olhos, sem compreender. - Está a querer dizer-me que fez todo o caminho a pé, do Colorado até aqui?

- Estou.

- Não acha esquisito?

- Suponho que depende do motivo.

- Qual foi o seu motivo?

- Gosto de andar a pé.

- Percebo - repetiu por não saber o que mais haveria de dizer. Pegou na caneta, a tentar ganhar tempo. - Presumo que não seja casado.

- Não.

- Filhos?

- Nenhum. Sou apenas eu e Zeus. Mas a minha mãe vive no Colorado.

Desconcertada, confusa, Beth afastou uma madeixa encharcada da testa. - Continuo a não perceber. Atravessa o país para chegar a Hampton, diz que gostou do lugar e que agora pretende trabalhar aqui?

- Exactamente.

- Não quer acrescentar mais nada?

- Não.

Beth abriu a boca para dizer qualquer coisa mas mudou de ideias.

- Dê-me um minuto. Tenho de ir falar com uma pessoa.

Beth conseguia resolver muitas situações, mas aquela ultrapassava-a. Por mais que tentasse, não conseguia engolir tudo o que o homem dissera. Até certo ponto, fazia sentido, mas, no conjunto, parecia-lhe... fora do alcance. Se o homem falava verdade, era um ser esquisito; se estava a mentir, escolhia mentiras estranhas. Bizarro, de qualquer das formas. Razão que a levava, claro, a querer falar com Nana. Se pudesse ser avaliado por alguém, Nana era a pessoa certa.

Infelizmente, ao aproximar-se da casa percebeu que o jogo ainda não acabara. Ouvia os comentadores a discutir se os Mets deveriam fazer entrar um novo lançador ou algo do género. Quando abriu a porta, ficou surpreendida por ver a cadeira de Nana vazia.

- Nana?

A avó deitou a cabeça de fora da porta da cozinha. - Estou aqui. Estava agora mesmo a preparar um copo de limonada. Também queres? Fica pronta num instante.

Na verdade, preciso de falar contigo. Podes dispensar-me um

minuto? Sei que o jogo ainda não acabou...

Nana fez um gesto de desinteresse. - Oh, estou farta do jogo. Desliga o aparelho. Os Braves não conseguem ganhar e não estou minimamente interessada em ouvir as desculpas deles. Detesto desculpas. Não tinham motivos para perder e eles sabem-no. O que é que se passa?

Beth entrou na cozinha e encostou-se à bancada. Nana despejou a limonada do jarro. - Tens fome? - perguntou à neta. - Posso fazer uma sanduíche.

- Já comi uma banana.

- Não é suficiente. Estás magra como um taco de golfe.

Que Deus te ouça, pensou Beth. - Talvez depois. Há alguém à procura de emprego. Está agora no escritório.

- Referes-te ao bonitão com o pastor alemão? Calculei que ele fosse fazer isso mesmo. Como é que ele é? Diz-me que o sonho dele sempre foi limpar jaulas.

- Viste-o?

- Claro.

- Como é que soubeste que vinha à procura de emprego?

- Por que outra razão quererias falar comigo?

Beth abanou a cabeça. Nana estava sempre um passo à frente dela.

- De qualquer maneira, julgo que deves falar com ele. Não sei exactamente o que pensar do homem.

- O cabelo tem alguma coisa a ver com isso?

- O quê?

- O cabelo dele. Fá-lo parecer-se um pouco com o Tarzan, não achas?

- Na verdade, nem reparei.

- É evidente que reparaste, minha querida. Não consegues mentir-me. Qual é o problema?

Beth fez-lhe um breve resumo da entrevista. Quando acabou, Nana ficou calada.

- Veio a pé desde o Colorado?

- É isso que ele diz.

- E tu acreditas nele?

- Nessa parte... - hesitou. - Sim, acerca disso acho que está a dizer a verdade.

- É uma longa caminhada.

- Eu sei.

- Quantos quilómetros serão?

- Não sei. Muitos.

- Um pouco estranho, não te parece?

- Pois é. E há ainda outro pormenor.

- Qual?

- Foi fuzileiro naval.

Nana suspirou. - É melhor esperares aqui. Vou falar com ele.

Durante os dez minutos seguintes, Beth ficou a observá-los através das cortinas. Nana não ficara no escritório para fazer a entrevista; em vez disso, foram sentar-se no banco de madeira, à sombra da magnólia. Zeus dormitava aos pés deles, arrebitando as orelhas de vez em quando e enxotando as moscas que aparecessem. Beth não conseguia decifrar o que cada um deles dizia, mas houve ocasiões em que Nana franziu a testa, um possível sinal de que a entrevista não estava a correr bem. Por fim, Logan Thibault e Zeus percorreram o caminho de acesso, para regressarem à estrada principal, enquanto Nana ficava a observá-los com ar preocupado.

Beth pensou que Nana iria regressar a casa, mas, em vez disso, viu-a caminhar para o escritório. Foi então que notou a carrinha Volvo que subia o desvio.

A cocker spaniel. Esquecera-se por completo da entrega, mas parecia óbvio que Nana iria resolver a questão. Beth aproveitou o tempo para se refrescar, vestir roupa lavada e beber outro copo de água gelada.

Da cozinha, ouviu o ranger da porta principal e Nana entrou.

- Como é que correu?

- Muito bem.

- O que é que pensas?

- Foi... interessante. É inteligente e polido, mas tens razão. Não há dúvida de que está a esconder qualquer coisa.

- Assim sendo, em que pé é que estamos? Ponho um novo anúncio no jornal?

- Primeiro vamos ver o que acontece.

Beth não tinha a certeza de ter percebido bem. - Queres dizer que tencionas contratá-lo?

- Não, estou a dizer que o contratei. Começa na quarta-feira, às oito horas.

- Por que é que fizeste isso?

- Confio nele - admitiu, com um sorriso triste, como se soubesse exactamente o que a neta estava a pensar. - Mesmo tratando-se de um marine.

 

                     THIBAULT

Thibault não queria regressar ao Iraque mas, uma vez mais, em Fevereiro de 2006, o 1º Batalhão do 5º Regimento foi mobilizado. Desta vez, o regimento foi mandado para Ramadi, capital da província de Al Anbar, cuja ponta sudoeste era vulgarmente conhecida como o «triângulo da morte». Thibault passou lá sete meses.

Carros armadilhados e IEDS - improvised explosive devices (engenhos explosivos caseiros). Engenhos simples mas assustadores: quase sempre compostos por uma granada de morteiro, feita explodir por um fulminante activado por uma chamada, feita a partir de um telemóvel. No entanto, da primeira vez em que Thibault seguia num Humvee que fez disparar um engenho, sabia que as consequências poderiam ter sido piores.

- Estou contente por ter ouvido a bomba - dissera Victor depois. Na altura, Victor e Thibault iam quase sempre juntos em patrulha.- Significa que ainda estou vivo. ???.

- Tu e eu; ambos - corrigira Thibault.

- Mas prefiro não bater em mais nenhuma.

- Tu e eu; nós os dois.

Mas as bombas não eram fáceis de evitar. Na patrulha do dia seguinte bateram noutra. Uma semana depois, o Humvee deles foi atingido por um carro armadilhado, mas Thibault e Victor não eram casos especiais naquele tipo de incidentes. Os Humvee eram atingidos pelos dois tipos de bombas em quase todas as patrulhas. Na sua maioria, os fuzileiros do pelotão poderiam honestamente afirmar que haviam sobrevivido a duas ou três bombas, antes do regresso a Pendleton. Uns quantos terão sobrevivido a quatro ou cinco. O sargento tinha sobrevivido a seis. Era assim aquele lugar e quase toda a gente ouvira a história de Tony Stevens, um fuzileiro da 24ª MEU (Marine Expedittonary Unit - Unidade Expedicionária de Marines) que sobrevivera à explosão de nove bombas. Um dos jornais mais importantes dedicara-lhe um artigo com o título «O Mais Feliz dos Marines». Era um recorde que ninguém estava interessado em bater.

Thibault bateu-o. Quando deixou Ramadi tinha sobrevivido a onze explosões. Mas falhara uma explosão que continuava a persegui-lo.

Teria sido a explosão número oito. Victor estava com ele. A mesma velha história, com um final bastante pior. Seguiam num comboio de quatro veículos Humvee, patrulhando uma das ruas mais importantes da cidade. Uma granada de RPG atingiu o Humvee da frente, provocando felizmente poucos estragos, mas foi o suficiente para obrigar o comboio a parar temporariamente. Havia carros ferrugentos e decrépitos de ambos os lados da rua. Começou o tiroteio. Thibault saltou do segundo veículo do comboio para ter uma melhor linha de mira. Victor seguiu-o. Conseguiram abrigo e prepararam as armas. Vinte segundos depois, um carro armadilhado explodiu, derrubando-os e destruindo o Humvee onde eles seguiam minutos antes. Foram mortos três marines; Victor ficou inconsciente. Thibault carregou com ele de regresso ao comboio e, depois de recolhidos os mortos, o comboio regressou à zona de segurança.

Foi por aquela altura que Thibault começou a ouvir rumores. Notou que os camaradas do pelotão começaram a portar-se de maneira diferente ao pé dele, como se acreditassem que ele era de algum modo imune aos riscos da guerra. Outros podiam morrer, mas ele não. Pior ainda, os outros fuzileiros suspeitavam que, enquanto Thibault era especialmente afortunado, os outros eram especialmente azarentos. Havia entre os componentes do pelotão uma atitude diferente, que nem sempre se manifestava abertamente mas era inegável. Após a morte daqueles marines ainda ficou outros dois meses em Ramadi. As últimas bombas a que escapou intensificaram mais os rumores. Os outros fuzileiros começaram a evitá-lo. Só Victor parecia tratá-lo como dantes. Quase no fim da missão em Ramadi, quando guardavam um posto de abastecimento de combustíveis, notou que as mãos de Victor tremiam ao acender um cigarro. Por cima deles a noite cintilava de estrelas.

- Estás bem? - perguntou.

- Estou pronto para regressar a casa - respondeu Victor. - Já fiz a minha parte.

- Não vais pedir a readmissão no próximo ano?

Victor inspirou profundamente o fumo do cigarro. - A minha mãe quer-me em casa e o meu irmão ofereceu-me emprego. Na construção de telhados. Achas que darei um bom construtor de telhados?

- É claro que sim. Vais ser um fantástico construtor de telhados.

- Tenho uma namorada, a Maria, à minha espera. Conheço-a desde os meus 14 anos.

- Eu sei, já me contaste.

- vou casar com ela.

- Tambem já me disseste.

- Quero que vás ao casamento.

Graças à claridade provocada pelo cigarro de Victor, notou-lhe um ligeiro sorriso. - Como poderia faltar a uma cerimónia dessas?

Victor tirou uma grande fumaça e ficaram em silêncio, reflectindo sobre um futuro que lhes parecia demasiado distante. - E tu? - indagou Victor, com a pergunta a sair enrolada numa nuvem de fumo.

- Vais continuar? Thibault abanou a cabeça. - Não, acabou-se.

- O que é que vais fazer quando passares à reserva?

- Não sei. Não farei nada durante algum tempo, talvez vá pescar no Minnesota. Em qualquer lugar fresco e verde, onde possa apenas ficar deitado a descansar.

Victor suspirou. - Parece-me agradável.

- Queres ir comigo?

- Pois quero.

- Nesse caso, telefono-te quando tiver a viagem planeada - prometeu Thibault.

A resposta de Victor foi acompanhada de um sorriso. - Não faltarei - prometeu. Clareou a voz e perguntou: - Lembras-te do tiroteio em que o Jackson e os outros morreram, quando o Humvee explodiu?

Thibault apanhou um seixo e atirou-o para a escuridão. - E claro que sim.

- Salvaste-me a vida.

- Não, nada disso. Tirei-te de lá.

- Thibault, eu fui atrás de ti. Decidira ficar, mas quando te vi saltar do Humvee, soube que não tinha alternativa.

- De que é que estás a falar?

- Da fotografia - retorquiu Victor. - Sei que a trazes contigo. Aproveitei a tua sorte e salvei-me.

Thibault começara por não entender, mas quando finalmente se apercebeu do que Victor estava a dizer, abanou a cabeça, incrédulo.

- Victor, é apenas uma fotografia.

- Dá sorte - insistiu Victor aproximando o rosto do de Thibault.

- E tu és o afortunado. E quando acabares a comissão, acho que deves ir procurar a mulher da fotografia. A tua história com ela ainda não acabou.

- Não...

- Salvou-me a vida.

- Não salvou a dos outros. De muitos outros, demasiados. Toda a gente sabia que o 1º Batalhão do 5º ? Regimento sofrera mais

baixas no Iraque do que qualquer outro batalhão do Corpo de Marines.

- Por que te protegeu a ti. E quando saltei do Humvee acreditei que também me protegeria, da mesma forma que sempre acreditaste que te protegeria.

- Não, nunca acreditei - começou Thibault.

- Então, meu amigo, por que razão é que a trazes contigo?

Era sexta-feira, o seu terceiro dia de trabalho no canil, e embora Thibault tivesse mantido na sombra muitos aspectos da vida anterior, nunca deixara de ter consciência de que trazia a fotografia na algibeira. Tal como nunca deixara de pensar no que Victor lhe dissera naquele dia.

Estava a conduzir um mastim por uma vereda arborizada, fora da vista do escritório mas ainda dentro da propriedade. O cão era enorme, pelo menos tão grande como um grana danou, e tinha tendência para lamber a mão de Thibault a cada dez segundos. Um cão amigável.

Já aprendera as rotinas simples do emprego: alimentar e exercitar os cães, limpar as jaulas e marcar consultas. Nada de difícil. Estava razoavelmente convencido de que Nana o iria autorizar a ajudá-la também no treino dos cães. No dia anterior ela pedira-lhe que observasse o trabalho dela com um dos cães, o que lhe recordou o trabalho que tivera com Zeus: ordens claras e simples, sinais visuais, condução firme com a trela e muitos elogios. Quando acabou, pediu-lhe que seguisse a seu lado enquanto ela levava o cão de volta ao canil.

- Acha que era capaz de fazer um trabalho deste género? - perguntara Nana.

- Acho que sim.

Olhara por cima do ombro para Zeus que trotava atrás deles. - Foi assim que treinou o Zeus?

- Mais ou menos.

Quando Nana o entrevistara, Thibault fizera dois pedidos. Primeiro, que fosse autorizado a trazer o Zeus para o local de trabalho. Explicara que depois de passarem quase todo o tempo juntos o cão não reagiria bem a longas separações. Felizmente Nana compreendera. - Trabalhei com pastores durante muito tempo, por isso sei o que quer dizer - comentara. - Desde que ele não crie problemas, está tudo bem.

Zeus não era um problema. Thibault depressa aprendera a não o levar para junto das jaulas quando estava a alimentar os animais ou a proceder às limpezas, pois a presença de Zeus enervava alguns dos outros cães. Para além disso, o cão adaptara-se perfeitamente. Zeus seguia-o enquanto ele exercitava os outros cães no campo de treinos e permanecia no alpendre, à porta do escritório, quando Thibault tinha de tratar de papéis. Ficava alerta sempre que chegava um cliente, como fora treinado para fazer. Era o suficiente para fazer recuar alguns clientes, mas bastava um simples «Tudo bem» para imobilizar o cão.

O segundo pedido a Nana fora para iniciar o trabalho na quarta-feira, de forma a poder instalar-se. Ela concordara igualmente. No domingo, depois da entrevista no canil, comprara um jornal e procurara um sítio para alugar. Não fora uma consulta difícil, pois a lista incluía apenas quatro casas e as duas maiores haviam sido eliminadas de imediato; não precisava de muito espaço.

Ironicamente, as duas escolhas remanescentes situavam-se no lado oposto da cidade. A primeira casa que viu era um velho anexo, logo a seguir ao centro da cidade, com vista para o South River. Boas condições. Bairro agradável. Não servia para ele. As casas ficavam demasiado juntas. Contudo, a segunda casa serviria perfeitamente. Estava situada no fim de uma rua de terra, a cerca de três quilómetros do local de trabalho, numa zona rural que bordejava a floresta nacional. Permitia-lhe atravessar a floresta para ir para o canil. Não encurtava muito o caminho mas permitia que o Zeus corresse à vontade. Casa de um só piso, estilo rústico do Sul, com pelo menos 100 anos, mas mantida em relativo bom estado. Depois de limpar o pó das janelas, espreitou o interior. Exigia algum trabalho, mas nada que retardasse a mudança para ali. A cozinha era mesmo antiquada, havia um bom fogão a lenha num canto, que provavelmente servia como única fonte de calor da casa. O chão de tábuas de pinho mostrava-se gasto e manchado, os armários eram provavelmente tão antigos como a construção da casa, mas, em vez de lhe diminuírem o valor, eram coisas que pareciam acrescentar carácter à casa. Melhor ainda, parecia mobilada com o essencial; sofá e mesas, candeeiros, até uma cama.

Thibault ligou para o telefone indicado no anúncio e duas horas depois ouviu chegar o carro do proprietário. Depois da necessária conversa de circunstância, ficou a saber que o homem passara vinte anos no Exército, os últimos em Fort Bragg. A casa pertencera ao pai dele, explicou, falecido dois meses antes. Boa notícia, pois Thibault sabia que as casas eram como os automóveis, com falta de uso entravam em decadência acelerada. O que significava que aquela ainda estaria em boas condições. A caução e a renda pareceram-lhe um tanto altas, mas ele precisava de encontrar rapidamente um sítio onde morar. Pagou dois meses de renda e o depósito de caução. A expressão do proprietário revelou que não estava à espera de receber tanto dinheiro em notas.

Thibault estendeu o saco de dormir em cima do colchão e já passou a noite de segunda-feira na casa; na terça-feira foi à cidade e encomendou um novo colchão numa loja que concordou entregá-lo ao fim da tarde e comprou outras coisas. Regressou com a mochila cheia de lençóis, toalhas e materiais de limpeza. Precisou de mais duas viagens à cidade para aprovisionar o frigorífico e comprar pratos, copos e utensílios, juntamente com um saco de 25 quilos de comida para cão. Chegado ao fim do dia, desejou, pela primeira vez, desde a saída do Colorado, dispor de um carro. Mas encontrava-se instalado, o que era suficiente. Estava pronto para começar a trabalhar.

Depois que começara, na quarta-feira, passara a maior parte do tempo com Nana, aprendendo a conhecer os cantos à casa. Quase não vira Beth, ou Elizabeth, como gostava de pensar nela; ela saía de manhã, vestida para trabalhar, e só regressava no fim da tarde. Nana falara de umas reuniões de professores, o que fazia sentido, pois as aulas começariam na semana seguinte. Para além de um cumprimento ocasional, a única verdadeira conversa entre eles dera-se quando o chamara à parte e lhe pedira que tomasse conta de Nana. Percebeu o que ela quisera dizer. Era óbvio que Nana sofrera um acidente vascular cerebral. As sessões de treino da manhã deixavam-na a respirar com maior dificuldade do que parecia seguro e, ao caminhar para casa, o coxear acentuava-se. Aquilo punha-o nervoso.

Gostava de Nana. Usava um fraseado muito pessoal. Divertia-o, deixando-o a tentar perceber qual era a parte de teatro que havia em tudo aquilo. Excêntrica ou não, era inteligente; disso não tinha dúvidas. Era frequente sentir que ela estava a analisá-lo, mesmo no decurso de conversas normais. Tinha opiniões sobre tudo e não tinha medo de as expressar. Nem hesitava em falar-lhe dela própria. Uma vez falou-lhe do marido e do canil, do treino que oferecera no passado, de certos lugares que visitara. Também fez perguntas acerca dele, que, obedientemente, esclareceu pormenores sobre a sua família e a maneira como fora criado. Contudo, era estranho que nunca lhe fizesse perguntas sobre o serviço militar, nem inquirira se ele estivera no Iraque, o que o surpreendeu. Mas não fornecera voluntariamente as informações, até porque ele próprio não tinha vontade de falar do assunto.

A maneira como Nana evitava o assunto e qualquer referência ao hiato de quatro anos da vida dele sugeria que ela compreendia as reticências do seu novo empregado. E que talvez a estada no Iraque tivesse algo a ver com as razões que o tinham levado até ali.

Senhora esperta.

Oficialmente, era suposto que trabalhasse das 8h00 às 17h00. Não oficialmente, costumava aparecer pelas 7h00 e ficava até às 19h00. Não gostava de ir-se embora sabendo que ainda havia trabalho para fazer. Uma situação conveniente, que dava a Elizabeth a oportunidade de o ver ao regressar do trabalho. A proximidade gera familiaridade e, por seu turno, esta gera confiança. Além disso, sempre que a via, recordava-se de que ela era a razão da sua vinda.

Para lá desse ponto, as razões para estar ali tornavam-se um tanto vagas, mesmo para ele. Sim, tinha vindo, mas por quê? O que é que pretendia dela? Alguma vez lhe contaria a verdade? Em que é que aquilo poderia resultar? Na caminhada a partir do Colorado, sempre que reflectira sobre a questão, presumira que descobriria as respostas quando encontrasse a mulher da fotografia. Porém, agora que a encontrara, não se achava mais perto da verdade do que quando partira.

Entretanto, aprendera mais acerca dela. Que tinha um filho, por exemplo. Uma pequena surpresa, pois nunca encarara tal possibilidade. Chamava-se Ben. Do pouco que sabia dele, parecia-lhe uma criança simpática. Nana informara-o de que Ben jogava xadrez e lia muito, mas não fora mais além. Ben andava a observá-lo por detrás das cortinas ou a espreitar na direcção deles quando Thibault e Nana estavam juntos. Mas mantinha as distâncias. Gostaria de saber se Ben o evitava por decisão sua ou da mãe.

Da mãe, provavelmente.

Sabia que começara por não lhe causar boa impressão. A forma como ele se sentira paralisado quando a vira pela primeira vez não ajudara. Sabia que ela era atraente, mas a fotografia já desbotada não captara o calor do sorriso dela ou o ar grave com que o analisara, como se procurasse defeitos ocultos.

Perdido em reflexões, chegou à zona principal de treinos, por detrás do escritório. O mastim respirava com dificuldade e Thibault levou-o de volta ao canil. Mandou que Zeus se sentasse, que esperasse, e meteu o mastim na jaula. Encheu a tigela de água, fazendo o mesmo a mais algumas que lhe pareceram ter pouca e foi ao escritório buscar o almoço ligeiro que preparara. A seguir, dirigiu-se para o riacho.

Gostava de comer ali. A água pouco clara e o carvalho que dava sombra ao lugar com os seus ramos baixos cobertos de musgo conferiam ao sítio uma aparência pré-histórica que tanto ele como Zeus apreciavam. Por entre as árvores e junto à margem, notou uma casa de árvore, a que se chegava por uma escada de corda e degraus de madeira, que parecia ter sido construída com restos de outras construções, um conjunto reunido por alguém que não sabia muito bem o que estava a fazer. Como era habitual, Zeus entrou no riacho até a água lhe chegar aos quartos traseiros, uma forma de arrefecer antes de mergulhar a cabeça na água e ladrar. Cão maluco.

- O que é que ele está a fazer? - perguntou alguém. Thibault voltou-se e viu Ben na ponta da clareira. Encolheu os

ombros. - Não faço ideia. Acho que ladra aos peixes.

O miúdo puxou os óculos para cima. - Faz isso muitas vezes?

- Todas as vezes que vem aqui.

- Estranho - comentou o rapaz.

- Também acho.

Zeus apercebeu-se da presença de Ben, certificando-se da inexistência de qualquer ameaça iminente, mergulhou de novo a cabeça e voltou a ladrar. Ben manteve-se no mesmo sítio. Sem saber como agir em seguida, Thibault deu nova dentada na sanduíche.

- Vi-o chegar aqui, ontem - adiantou Ben.

- Viste?

- Vim atrás de si.

- Aposto que sim.

- A minha casa de árvore é ali - informou, a apontar com a mão. - É o meu esconderijo secreto.

- É bom ter um - respondeu Thibault. Apontou para o ramo ao lado dele. - Não queres sentar-te?

- Não posso aproximar-me tanto.

- Não?

- A minha mãe diz que é um estranho.

- Obedecer à mãe é uma boa ideia.

Ben pareceu satisfeito com a resposta, mas não sabia o que fazer em seguida. Voltou-se de Thibault para Zeus, a pensar, antes de decidir sentar-se numa árvore perto do sítio onde estava, mantendo a distância entre ambos.

- Vem trabalhar aqui? - indagou. ?

- Estou a trabalhar aqui.

- Não é isso. Estou a perguntar se vai despedir-se.

Thibault ergueu uma sobrancelha. - Não está nos meus planos. Porquê?

- Porque os dois últimos despediram-se. Não gostavam de limpar o cócó.

- Nem toda a gente gosta.

- Aborrece-o?

- Realmente, não.

- Não gosto do cheiro - confessou Ben, fazendo uma careta.

- Sucede com a maioria das pessoas. Tento ignorá-lo.

Ben voltou a ajeitar os óculos no nariz. - Onde é que foi buscar o nome de Zeus?

Thibault não conseguiu esconder um sorriso. Esquecera-se de quanto os miúdos conseguem ser curiosos. - Chamava-se assim quando o adquiri.

- Por que não o trocou por outro nome escolhido por si?

- Não sei. Julgo que nem pensei nisso.

- Tivemos um pastor alemão. Chamava-se Oliver.

- Ah, sim?

- Morreu.

- Lamento.

- Não tem importância - retorquiu Ben. - Já era velho. Thibault acabou a sanduíche, amachucou a cobertura de plástico, voltou a enfiá-la no saco de papel e abriu o saco de amêndoas que tinha preparado. Viu que Ben reparara e apontou para o saco.

- Queres amêndoas?

Ben abanou a cabeça. - Não devo aceitar comida de estranhos.

- Muito bem. Que idade tens?

- Dez. Quantos tem você?

- Vinte e oito.

- Parece mais velho.

- Tu também.

A resposta fez Ben sorrir. - Chamo-me Ben.

- Prazer em conhecer-te, Ben. Eu sou o Logan Thibault.

- É verdade que veio a pé do Colorado até aqui?

Thibault encarou-o de olhos semicerrados. - Quem é que te contou isso?

- Ouvi a mamã a conversar com a Nana. Disseram que a maioria das pessoas normais viria de carro.

- E têm razão.

- Sentiu as pernas cansadas?

- No primeiro dia. Mas, passado algum tempo, habituei-me a caminhar. E o Zeus também. Na realidade, penso que gostou de caminhar. Há sempre algo de novo para ver, teve milhões de esquilos para perseguir.

com ar grave, Ben balançava os pés para diante e para trás. - Zeus é capaz de ir buscar coisas?

- É um campeão. Mas só aceita uns quantos lançamentos. Passado algum tempo aborrece-se. Porquê? Queres lançar um pau para ele ir buscar?

- Posso?

Thibault pôs as mãos em concha e chamou o cão; Zeus saiu da água a correr, parou uns metros depois e sacudiu o pêlo. Ficou a olhar para Thibault.

- Vai buscar um pau.

O cão baixou logo o nariz para o chão e começou a farejar entre os ramos caídos. Acabou por encontrar um pauzinho e trotou para junto de Thibault.

Este abanou a cabeça. - Maior - ordenou e Zeus ficou a olhá-lo, como que desapontado, antes de voltar. Soltou o pauzinho e retomou a busca. - Excita-se com a brincadeira e quando o pauzinho é demasiado pequeno, parte-o em dois - explicou Thibault. - Faz sempre o mesmo.

Ben assentiu, de ar solene.

Zeus regressou com um pau maior e levou-o para junto de Thibault. Este arrancou-lhe alguns ramos supérfluos, tornando-o mais liso, e devolveu-o ao cão.

- Leva-o ao Ben.

Zeus não percebeu a ordem e fez descair a cabeça para um lado, de orelhas em riste. Thibault apontou para Ben. - Ben - repetiu.

- Pau.

O cão trotou na direcção de Ben, de pau na boca, que depôs aos pés do rapaz. Farejou Ben, avançou mais um passo e permitiu que o miúdo o acariciasse.

- Ele sabe o meu nome.

- Agora sabe.

- Para sempre?

- É provável. Agora que te cheirou.

- Como é que consegue aprender tão depressa?

- É assim que faz. Está habituado a aprender as coisas rapidamente.

Zeus aproximou-se mais e lambeu a cara de Ben; a seguir retirou-se, atraindo o olhar de Ben para o pau e repetindo o gesto em sentido inverso.

Thibault apontou para o pau. - Quer que sejas tu a atirá-lo. É a maneira de ele te pedir.

Ben apanhou o pau e pareceu pensar no que deveria fazer a seguir.

- Posso atirá-lo para a água?

- Ele adorará isso.

Ben atirou-o para o riacho de águas lentas. Zeus entrou na água e começou a nadar. Depois de reaver o pau, parou a uns passos de Ben para sacudir a água do pêlo, aproximou-se mais e voltou a deixar cair o pau.

- Treinei-o a sacudir a água antes de se aproximar muito. Não gosto de ficar encharcado - explicou Thibault.

- É giro. ........

Thibault sorriu e Ben voltou a atirar o pau.

- Que mais é que ele sabe fazer? - perguntou Ben sem se voltar.

- Muitas coisas. Olha... é fantástico a jogar às escondidas. Se te esconderes, ele encontra-te.

- Podemos experimentar mais uma vez?

- Sempre que queiras.

- Espantoso. E também é um cão de ataque?

- É. Mas é amistoso na maioria dos casos.

Ao acabar a refeição. Thibault reparou que Ben continuava a atirar o pau. No último lançamento, Zeus não voltou para junto de Ben depois de recuperar o pau. Em vez disso, trotou para um dos lados da clareira e deitou-se. com uma pata em cima do pau, começou a mordê-lo.

- Significa que não quer brincar mais - explicou Thibault.

- A propósito, tens um bom braço. Jogas basquetebol?

- Joguei no ano passado. Mas não sei se jogarei este ano. Quero aprender a tocar violino.

- Quando era miúdo tocava violino - comentou Thibault. O rosto de Ben revelou surpresa. - De verdade?

- E também piano. Oito anos.

Deitado de um dos lados, Zeus ergueu os olhos do pau e ficou alerta. Instantes depois, Thibault ouviu o som de passos no carreiro e a voz de Elizabeth entre as árvores.

- Ben?

- Estou aqui, mamã! - gritou Ben. Thibault levantou a mão na direcção de Zeus. - Tudo bem.

- Até que enfim - disse Beth ao aparecer. - O que é que andas a fazer cá fora?

A expressão amigável gelou logo que avistou Thibault, que percebeu perfeitamente a pergunta nos olhos dela: «O que anda o meu filho a fazer no bosque, em companhia de um homem que mal conheço?» Não vendo necessidade de se defender, Thibault limitou-se a cumprimentá-la com um aceno de cabeça.

- Boa tarde.

- Boa tarde - respondeu, cautelosa. Por essa altura, já Ben vinha a correr para ela.

- Mamã, devias ver o que este cão é capaz de fazer. É superesperto. Ainda mais esperto que o Oliver era.

Beth pôs-lhe um braço à volta dos ombros. - Isso é fantástico. Estás pronto para ir para casa? Tenho o almoço na mesa.

- Ele conhece-me e tudo.

- Quem?

Ela voltou-se para Thibault. - Sabe?

Thibault assentiu. - Pois sabe.

-Bem... óptimo.

- Sabes uma coisa? Ele tocava violino.

- O Zeus?

- Não, mamã. Mr. Thibault. Em criança. Tocava violino ; Beth pareceu espantada com a noticia. - De verdade?

Thibault assentiu. - A minha mãe era uma espécie de melómana fanática. Queria que eu dominasse o Shostakovich, mas eu não tinha esse dom. Embora conseguisse interpretar um Mendelssohn decente.

- Percebo - acabou Beth por dizer.

Apesar do visível desconforto dela, Thibault riu-se.

- O que foi? - perguntou ela, obviamente a recordar-se também do primeiro encontro entre ambos.

- Nada.

- O que é que se passa, mamã?

- Nada, mas da próxima vez que vieres para aqui avisas-me, está bem?

«Para poder estar de olho em ti», não disse. «Para ter a certeza de que estás em segurança.» Thibault percebeu o recado, mesmo que Ben o não entendesse.

- É melhor voltar para o escritório - decidiu Thibault, erguendo-se do ramo onde estava sentado. Apanhou os restos do almoço.

- Quero verificar se o mastim tem água suficiente. Estava com calor e tenho a certeza de que a bebeu toda. Até logo, Ben. Até logo, para si também - despediu-se. - Zeus Vamos embora.

Zeus saltou do seu canto e colocou-se ao lado de Thibault; momentos depois pararam no final do carreiro.

- Adeusinho, Mr. Thibault - saudou Ben.

Thibault voltou-se e deu uns passos para trás. - Gostei de conversar contigo, Ben. E, a propósito, não sou Mr. Thibault. Apenas Thibault.

Dito isto, rodou sobre os calcanhares, sentindo o peso do olhar de Elizabeth até desaparecer da vista dela.

 

                 CLAYTON

Naquela noite, deitado na cama a fumar um cigarro, Keith Clayton estava de certo modo satisfeito por Nikki se encontrar no chuveiro. Gostava do aspecto dela depois do banho de chuveiro. A imagem evitava que ele considerasse o facto de preferir que ela pegasse nas suas coisas e fosse para casa.

Era a quarta vez, nos últimos cinco dias, em que ela ficava para passar a noite. Era caixa do Quick Stop, onde ele comprava os Doritos, e durante um mês, mais dia menos dia, hesitara se devia convidá-la para casa. Os dentes da rapariga não eram grande coisa e a pele mostrava marcas, como se tivesse tido bexigas, mas tinha um corpo soberbo, uma qualidade mais do que suficiente, considerando que ele precisava de um certo relaxamento do stress.

Stress em parte provocado por ter visto Beth na noite de domingo, quando lhe fora entregar Ben. De calções curtos e um tope, parou no alpendre e acenou a Ben, mostrando o seu sorriso à Farrah Fawcett. Mesmo que fosse dirigido a Ben, levou-o a constatar que ela ficava com melhor aspecto a cada dia que passava.

Tivesse ele sabido o que ia acontecer, talvez não tivesse consentido o divórcio. Assim sendo, saíra de lá a pensar quanto ela era bonita e acabou na cama com Nikki, umas horas depois.

O problema era que não pretendia ir para a cama com Beth. Não havia qualquer hipótese de tal acontecer. Primeiro, ela era demasiado autoritária e tinha tendência para discutir as decisões dele com que não concordava. Aprendera tudo aquilo havia muito tempo e recordava-se da situação sempre que a via. Logo depois do divórcio, a única coisa que não queria era pensar nela e, durante muito tempo, não pensara. Vivia a sua vida, passava momentos fantásticos com raparigas diferentes e parecia-lhe que nunca teria vontade de olhar para trás. Para além do filho, claro. No entanto, quando Ben tinha três ou quatro anos, começou a ouvir rumores de que Beth recomeçara a namorar, o que o fez sentir-se incomodado. Que ele namorasse era normal... mas a situação mudava completamente de figura se ela começasse a namorar. Não gostaria nada de pensar que um tipo qualquer entrasse em casa dela e fingisse ser pai de Ben. Para além disso, apercebeu-se de que não lhe agradava pensar que Beth estaria na cama com outro homem. Era uma sensação que não conseguia encarar. Conhecia os homens e sabia o que eles queriam, e Beth era bastante ingénua em certas questões, quando mais não fosse por ele ter sido o primeiro. O mais provável era ter sido Keith Clayton o único homem que a possuíra, o que fora bom, pois mantivera as prioridades dela dentro da normalidade. Estava a criar o filho de ambos, e embora Ben fosse um tanto amaricado, Beth estava a fazer um bom trabalho com a educação dele. Além de ser boa pessoa e de não precisar mesmo nada de um homem que lhe viesse despedaçar o coração. Beth precisaria sempre da protecção dele.

Porém, na outra noite...

Gostaria de saber se o vestuário reduzido se destinava a ser apreciado por ele. Não haveria ali qualquer problema? Uns meses antes, até o convidara a entrar, enquanto Ben preparava o saco. Na realidade, chovia a potes e Nana olhara-o com raiva durante todo o tempo, mas Beth mostrara-se muito simpática, quase o levando a pensar que a tinha subestimado. Ela tinha necessidades, como toda a gente. E que mal haveria se ele as satisfizesse uma vez por outra? Já se tinham visto nus antes e até haviam gerado um filho. Como é que se chamava agora a essas pessoas? Amigos privilegiados? Podia perfeitamente imaginar uma situação dessas entre ele e Beth. Desde que ela não falasse muito nem o sobrecarregasse com grandes expectativas. Apagando o cigarro, ficou a imaginar como poderia propor-lhe um esquema daqueles.

Ao contrário do que se passava com ele, ela estava só há muito, muito tempo. Havia quem andasse a farejar por perto dela durante algum tempo, mas ele sabia como afastar esses tipos. Recordou-se da pequena conversa que tivera com Adam, um par de meses antes. Aquele que usava um blazer por cima da T-shirt, como se fosse um garanhão de Hollywood. Garanhão ou não, ficara da cor da cera quando Clayton se aproximou da janela do carro, depois de o obrigar a parar no regresso a casa, após o seu terceiro encontro com Beth. Clayton sabia que ambos tinham bebido uma garrafa de vinho ao jantar - estivera a observá-los do outro lado da rua - e quando Clayton lhe mandou fazer o teste de alcoolemia, com um balão que tinha preparado para aquele género de situações, a pele do homem ficou branca como a cal.

- Bebeu um copo a mais, não foi? - inquiriu Clayton, mostrando o ar de dúvida regulamentar quando o homem jurou que só bebera um copo de vinho. Quando pegou nas algemas, pensou que o homem ia desmaiar ou molhar as calças, o que quase o obrigou a reprimir uma gargalhada.

Mas não o fez. Em vez disso, preencheu a papelada, lentamente, antes de lhe pregar o sermão, o que fazia a qualquer homem em que Beth parecesse interessada. Que ele e Beth tinham sido casados e tinham um filho e quanto era importante que compreendesse que ele tinha o dever de proteger mãe e filho. Beth não tinha qualquer necessidade de outra pessoa na sua vida, de ninguém que a distraísse da tarefa de criar o filho, ou de se envolver com alguém que apenas quisesse abusar dela. O facto de estarem divorciados não significava que ele deixasse de cuidar dela.

E claro que o homem compreendeu o recado. Todos compreendiam. Não só por causa da família de Clayton e das suas relações, mas também devido ao facto de ele prometer perder o teste de alcoolemia e não accionar a multa, desde que o outro deixasse a mulher em paz por algum tempo e se lembrasse de que a conversa entre eles teria de ficar em segredo. Pois não seria nada bom se ela descobrisse que houvera aquela pequena conversa. Poderia causar problemas com o garoto, percebe? E ele não seria simpático para quem causasse problemas ao seu filho.

No dia seguinte, é claro, encontrava-se sentado no carro-patrulha quando Adam saiu para ir trabalhar. O homem empalideceu ao ver Clayton a brincar com o balão. Clayton tinha a certeza de que ele percebera o aviso ainda antes de arrancar e, quando voltou a encontrar Adam, este estava acompanhado de uma secretária de cabelo ruivo; trabalhavam ambos no mesmo escritório de contabilistas. O que, como era evidente, provava que Clayton tivera razão: o homem nunca pensara em Beth em termos de futuro. Era apenas um falhado a desejar uma cambalhota rápida na cama.

Pois bem, não a daria com Beth.

Beth faria um escarcéu se descobrisse o que ele andava a fazer mas, felizmente, não precisara de tomar aquelas medidas muitas vezes. Apenas uma vez por outra e tudo tinha corrido optimamente.

Mais do que optimamente, na verdade. Até o fiasco das fotografias das estudantes fora resolvido. Nem máquina nem fotografias tinham aparecido na esquadra ou nos jornais depois do último fim-de-semana. Não tivera oportunidade de procurar aquele hippie falhado na manhã de segunda-feira, mas descobriu que ele ficara no Holiday Motor Court. Infelizmente, ou felizmente, supôs, que o homem deixara o motel e não voltara a ser visto. O que, muito provavelmente, significava que já iria longe.

Em resumo, tudo corria bem. Muito bem. Apreciava especialmente a ideia que lhe ocorrera acerca de Beth, aquela história dos amigos com privilégios. Não seria bestial? Estava deitado de mãos na nuca quando Nikki saiu da casa de banho embrulhada numa toalha, deixando atrás de si uma nuvem de vapor. Sorriu.

- Anda cá, Beth.

A mulher estacou. - O meu nome é Nikki.

- Eu sei. Mas esta noite quero tratar-te por Beth. -- De que é que estás a falar?

Os olhos dele faiscaram. -- Cala-te e vem para aqui, está bem? Depois de uma breve hesitação, Nikki dirigiu-se com relutância para a cama.

 

                   BETH

Talvez o tivesse avaliado mal, admitia Beth. Pelo menos quanto ao trabalho. Durante as últimas três semanas, Logan Thibault tinha sido um empregado exemplar. Ainda melhor, fora perfeito. Não só não faltara um único dia, mas chegava cedo de modo a poder alimentar os cães, uma tarefa que Nana sempre desempenhara até sofrer o AVC, e ficava até tarde para varrer o escritório. Uma vez até o vira a lavar as janelas com um produto limpa-vidros e jornais. As jaulas nunca tinham estado mais limpas, a erva do campo de treino era aparada à tarde, de dois em dois dias, e até havia iniciado a reorganização dos ficheiros de clientes. Beth acabou por se sentir envergonhada ao pagar-lhe o primeiro ordenado. Sabia que aquele salário mal dava para viver. Mas, quando lhe entregara o cheque, ele limitara-se a sorrir, dizendo:

- Obrigado. Isto é fantástico.

Conseguira apenas balbuciar um «Não tem de quê?».

Para além daquele, os seus encontros foram raros. Estavam na terceira semana escolar e Beth ainda tentava entrar na rotina de voltar a ensinar, o que lhe exigia muitas horas no seu exíguo escritório, tanto a preparar lições como a corrigir trabalhos de casa. Ben, por sua vez, logo que chegava a casa, saltava do carro e corria para ir brincar com Zeus. Como Beth observava através da janela, Ben parecia considerar o cão como o seu novo melhor amigo; e o cão parecia sentir o mesmo. Logo que entravam no desvio de acesso à casa, o cão começava a procurar um pau, que depositava aos pés de Ben assim que ele saía do carro. Ben saltava e quando Beth ia a subir os degraus do alpendre já ouvia o filho a rir-se enquanto o cão e o miúdo corriam pelo relvado. Logan, um nome que parecia mais adaptado à pessoa do que Thibault, a despeito do que ele dissera no riacho, também os observava com um ligeiro sorriso a arrepanhar-lhe a cara, antes de voltar ao que estava a fazer.

Sem querer, gostava do sorriso dele e da facilidade com que ele se relacionava com Ben ou com Nana. Sabia que por vezes a guerra tinha maneiras de afectar a psique dos soldados, dificultando-lhes a readaptação à vida civil, mas ele não mostrava qualquer sinal de stress pós-traumático. Parecia quase normal, se não se pensasse que atravessara o país a pé; uma normalidade que poderia sugerir que ele nunca prestara serviço no ultramar. Nana jurava que ainda o não interrogara sobre o assunto. O que já de si era estranho, tratando-se de Nana, mas essa era outra história. Portanto, ele parecia estar a adaptar-se ao pequeno negócio da família, com maior facilidade do que ela julgara possível. Uns dias antes, quando Logan estava a terminar o trabalho do dia, ouvira Ben correr pela casa e ir ao quarto, para logo de seguida voltar a sair disparado porta fora. Ao espreitar pela janela, viu que o filho viera buscar a bola de beisebol para jogar com Logan no relvado. Viu-os lançar a bola de um para o outro, com Zeus a fazer o que podia para abocanhar as bolas caídas, antes que Ben as conseguisse apanhar.

Seria bom que o seu ex-marido pudesse ver a alegria com que Ben jogava quando não estava a ser pressionado ou criticado.

Não se surpreendia por Logan e Nana se entenderem bem, mas a frequência com que a avó falava de Thibault depois de ele ter largado o trabalho e o tom caloroso dos seus comentários deixavam-na espantada. «Ias gostar dele», diria, ou «Gostaria de saber se ele conheceu o Drake», o que era uma maneira de insinuar que Beth deveria fazer um esforço para o conhecer. Nana até começou a autorizá-lo a treinar os cães, uma parte do trabalho que sempre estivera interdita aos empregados. Uma vez por outra, Nana mencionava qualquer pormenor interessante do passado dele, que ele dormira junto de uma família de tatus no Texas, por exemplo, ou que alimentara a esperança de trabalhar para o Koobi Fora Research Project, no Quénia, para investigar a origem do homem. Quando referia estes pormenores, não havia dúvidas de que se deixara fascinar por Logan e por aquilo que o fazia correr.

E o melhor de tudo: as coisas à volta do canil tinham começado a acalmar. Depois de um Verão longo e agitado, os seus dias tinham entrado numa espécie de rotina, o que explicava por que Beth estava a olhar com apreensão por cima da mesa, enquanto ouvia as explicações da avó.

- O que é que estás a dizer? Que vais visitar a tua irmã?

Nana acrescentou uma colher de manteiga à tigela de camarões e grãos de aveia que tinha à frente. - Depois do incidente, ainda não tive a oportunidade de visitar a minha irmã e quero saber como ela está. É mais velha que eu, como sabes. E agora que estás a ensinar e o Ben está na escola, não consigo descortinar uma melhor altura para lá ir.

- E quem é que vai tomar conta do canil?

- Thibault. Transformou a tarefa numa ciência, até a parte do treino dos cães. Disse que não se importaria mesmo nada de trabalhar mais umas horas. E também se prontificou a levar-me a Greensboro, pelo que não terás de te preocupar com essa parte. Tenho tudo planeado. Ele até se prontificou a pôr-me os ficheiros em ordem - concluiu, abrindo um camarão e sugando vigorosamente.

- Ele sabe conduzir? - perguntou Beth.

- Ele diz que sim.

- Mas não tem carta.

- Diz que conseguirá obtê-la na DMV. Por isso saiu hoje mais cedo. Telefonei ao Frank e ele prometeu-me que não lhe custaria nada fazer-lhe o exame hoje mesmo.

- Mas não tem carro...

- Usará a minha carrinha.

- Como é que vai até lá?

- A conduzir a carrinha.

- Mas ele não tem carta.

- Pensei que já tinha explicado isso - retorquiu Nana, como se a neta tivesse ficado parva subitamente.

- E quanto ao coro? Acabaste de voltar a cantar.

- Tudo bem. Já informei a directora musical de que vou visitar a minha irmã e ela disse que não há problema. De facto, ela pensa que é uma boa ideia. É claro que estou no coro há mais tempo do que ela, de modo que não poderia dizer-me exactamente que não.

Beth abanou a cabeça, a tentar não fugir à questão. - Quando é que começaste a planear tudo isto? A visita, quero eu dizer?

Nana deu mais uma dentada e fingiu reflectir. - Quando ela telefonou, é evidente.

Beth pressionou. - Quando é que ela te telefonou?

- Esta manhã.

- Esta manhã? - duvidou. Pelo canto do olho notou que Ben seguia a troca de palavras como se estivesse a assistir a um jogo de ténis. Lançou-lhe um olhar da advertência, antes de voltar a atenção para Nana. - Tens a certeza de que é uma boa ideia?

- É como doces num couraçado - respondeu Nana, como que a querer concluir a discussão.

- O que é que isso quer dizer?

- Quer dizer - começou Nana - que vou visitar a minha irmã. Disse que está aborrecida e que precisa de mim. Pediu-me que fosse e eu concordei ir. Tão simples quanto isso.

- Quanto tempo pensas demorar-te? - indagou Beth, a lutar com uma crescente sensação de pânico.

- Estou a pensar em cerca de uma semana.

- Uma semana?

Nana olhou de relance para Ben.

- Penso que a tua mãe tem cera nos ouvidos. Continua a repetir tudo o que eu digo, como se não me tivesse ouvido.

Ben sorriu e enfiou um camarão na boca. Beth encarou os dois. Por vezes, pensou, jantar com aqueles dois não era melhor do que comer na cantina com os alunos do segundo ciclo.

- E quanto aos teus remédios? - indagou.

Nana pôs mais camarões e aveia na tigela. - Levo-os. Posso tomar os comprimidos com a mesma facilidade com que os tomo aqui.

- E se te acontece alguma coisa?

- Provavelmente estarei lá melhor do que aqui, não te parece?

- Como podes dizer uma coisa dessas?

- Agora que as aulas começaram, tu e o Ben estão ausentes durante a maior parte do dia e eu fico sozinha em casa. Thibault nunca conseguirá saber se eu estou com dificuldades. Mas, em Greensboro, estarei junto da minha irmã. E quer acredites quer não, ela tem telefone e tudo. No ano passado deixou de comunicar através de sinais de fumo.

Ben voltou a rir-se mas sabia que era melhor manter-se calado. Em vez disso, riu-se para o conteúdo da sua tigela.

- Mas nunca deixaste o canil desde a morte do avô...

- Exactamente - retorquiu a avó.

- Mas...

Nana estendeu a mão sobre a mesa e acariciou a mão de Beth.

- Ora bem, sei que estás preocupada por não teres o meu cérebro brilhante a fazer-te companhia durante algum tempo, mas isso dar-te-á uma oportunidade de conheceres o Thibault. Ele virá também durante o fim-de-semana, para te ajudar a tratar do canil.

- Este fim-de-semana? Quando é que partes?

-Amanhã.

A voz de Beth soou como um guincho: - Amanhã?

Nana sorriu para Ben. - Estás a perceber o que eu quis dizer?

Depois de arrumar a cozinha, Beth foi para o alpendre da frente, queria estar uns momentos sozinha. Sabia que a decisão de Nana estava tomada e também sabia que tinha reagido mal. com acidente vascular ou sem ele, Nana sabia tomar conta de si, além de que a tia Mimi ficaria encantada ao vê-la. A tia Mimi já tinha dificuldade em chegar à cozinha e aquela poderia ser a última oportunidade de Nana passar uma semana com ela.

Porém, a conversa deixara-a perturbada. Não era a viagem em si que a preocupara, fora a pequena luta entre elas à mesa do jantar, que marcava o início de um novo papel para ela nos anos vindouros, um papel para o qual, de forma alguma, se sentia preparada. O papel de mãe de Ben era fácil. O seu papel e as suas responsabilidades estavam perfeitamente definidos. Mas fazer o mesmo papel com Nana? Nana fora sempre tão cheia de vida, tão cheia de energia, que até há alguns meses parecia a Beth que a avó nunca conseguiria abrandar o ritmo. E tudo corria bem, verdadeiramente bem, em especial ao pensar-se que sofrera um AVC. Mas o que iria acontecer da próxima vez que Nana quisesse fazer algo que Beth considerasse honestamente ser contrário aos interesses da avó? Qualquer coisa simples... como conduzir de noite, por exemplo? Nana já não via tão bem como dantes, e isso iria acontecer dentro de poucos anos, quando a avó insistisse que queria ir de carro à mercearia, depois de acabado o dia de trabalho?

Vendo bem, sabia que poderia resolver essas situações quando chegasse a altura. Mas temia-as. Já fora suficientemente difícil controlar a avó durante aquele Verão, apesar de ser um caso em que os problemas físicos eram evidentes até para a própria Nana. O que aconteceria quando Nana se recusasse a admiti-los?

Os seus pensamentos foram interrompidos quando Beth avistou a carrinha de Nana a subir lentamente o caminho de acesso à casa, indo parar perto da entrada traseira do canil. Logan saiu e deu a volta para chegar à caixa de carga. Viu-o tirar de lá um saco de 25 quilos de comida de cão, pô-lo ao ombro e entrar no canil. Quando regressou, Zeus estava à espera dele, farejando-lhe a mão; Beth calculou que ele tivesse deixado o cão no escritório enquanto fora à cidade. Levou uns minutos a descarregar o resto da comida de cão e, quando acabou, começou a caminhar na direcção da casa. A noite começara a cair. Longe, ouvia-se o eco abafado do trovão, e Beth notou que as cigarras haviam começado a sua canção que assinalava o fim do dia. Suspeitava que a tempestade iria afastar-se; com excepção de umas chuvadas dispersas, o Verão fora uma miséria em termos de chuva. Mas o ar transportado do oceano cheirava a pinho e a sal, levando-a a recordar as antigas idas à praia. Recordava-se de ver caranguejos a correr à luz das lanternas que ela, Drake e o avô empunhavam; a cara da mãe iluminada pelas chamas de uma pequena fogueira que o pai acendera; a visão da aldeia de Nana a incendiar-se quando preparavam um doce. Tratava-se de uma das poucas recordações que tinha dos pais e nem sabia ao certo até que ponto era verdadeira. Por ser tão pequena na altura, suspeitava que as suas recordações se fundiam com as da avó. Nana contara-lhe a história daquela noite inúmeras vezes, talvez por ter sido a última vez em que tinham estado todos juntos. Os pais morreram num acidente de viação escassos dias depois.

- Está a sentir-se bem?

Distraída com as recordações, Beth não reparara na chegada de Logan ao alpendre. À luz do crepúsculo as feições dele pareceram-lhe mais suaves.

- Estou óptima - respondeu, endireitando-se e ajeitando a blusa.

- Estava apenas a pensar.

- Tenho as chaves da carrinha - observou, naquela sua voz calma. - Quis entregá-las antes de ir para casa.

Quando ele as entregou, ela sabia que podia limitar-se a agradecer-lhe e a dar-lhe as boas-noites, mas, talvez por continuar perturbada pelo facto de Nana ter tomado a decisão de partir sem antes a ter consultado, ou talvez por querer ter uma opinião pessoal acerca de Logan, pegou nas chaves e deliberadamente aguentou-lhe o olhar. - Obrigada - agradeceu. - Um longo dia para si, não foi?

Se ficou surpreendido com o convite para conversar, não o demonstrou. - Não foi mau de todo. Fiz muitas coisas.

- Como readquirir a carta para conduzir legalmente.

Thibault mostrou um sorriso lento. - Entre outras coisas. Teve algum problema com os travões? - Não, desde que me habituei ao ranger.

Beth sorriu ao pensar naquilo. - Aposto que o examinador ficou encantado. - Sem dúvida. Via-se-lhe na cara.

Beth riu-se e, por instantes, ambos se mantiveram calados. Os relâmpagos brilhavam no horizonte. O som do trovão levou algum tempo a chegar e ela sabia que a tempestade ainda estava longe. No silêncio, notou que Logan a olhava com aquela expressão de a conhecer de há muito. Ele deu sinal de que também se tinha apercebido e voltou-se rapidamente. Beth seguiu-lhe o olhar e viu que Zeus se dirigira para as árvores. O cão ficou atento, a olhar Logan, como que a perguntar: «Queres ir dar uma volta?» Para reforçar a ideia, Zeus ladrou e Logan abanou a cabeça.

- Aguenta os cavalos - mandou. Voltou-se de novo para Beth. Esteve preso durante algum tempo e apetece-lhe vadiar.

- Não é o que está a fazer agora?

- Não, quer dizer que pretende vadiar comigo. Nunca me perde de vista.

- Nunca?

- Não consegue evitá-lo. É um pastor e pensa no seu rebanho. Beth ergueu uma sobrancelha. - Pequeno rebanho.

- Pois, mas está a aumentar. Afeiçoou-se realmente ao Ben e à Nana.

- Mas não a mim - observou Beth, fingindo-se magoada. Logan encolheu os ombros. - Nunca atirou um pau para ele ir

buscar.

- Não é preciso mais?

- É um amigo fácil de contentar. Beth voltou a rir-se. Sem saber por quê, não esperava que ele

tivesse sentido de humor. Surpreendeu-a ao apontar para cima do ombro. - Quer dar uma volta connosco? Para o Zeus é quase tão bom como atirar um pau para ele ir buscar.

- Ai é? - perguntou, só para ganhar tempo.

- Não faço as normas. Limito-me a conhecê-las. E detestaria que ficasse de fora.

Hesitou por momentos, antes de aceitar a ideia de que Logan estava apenas a ser simpático. Olhou por cima do ombro. - Antes de ir, talvez seja melhor avisar a Nana e o Ben.

- Pode fazê-lo, mas não iremos longe. Zeus quer apenas ir ao riacho e espanejar-se um pouco na água, antes de regressarmos a casa. Não o fazendo, sente calor - esclareceu, a balançar sobre os calcanhares, de mãos nos bolsos. - Está pronta?

- Estou, vamos.

Desceram do pórtico e dirigiram-se para o carreiro de gravilha. Zeus trotava diante de ambos, verificando de vez em quando se eles o seguiam. Caminhavam lado a lado, mas com distância suficiente para prevenir toques acidentais.

- Nana disse-me que é professora? - indagou Logan.

Beth assentiu. - Segundo ciclo.

- Como é a sua turma deste ano?

- Parece-me um bom grupo de miúdos. E já consegui sete mães para trabalho voluntário, o que é sempre um bom sinal.

Passando ao lado do canil, aproximaram-se do carreiro estreito que conduzia ao riacho. O sol desaparecera por detrás das árvores, tornando o carreiro escuro. Enquanto caminhavam, o trovão fez-se ouvir de novo.

- Há quanto tempo é professora?

- Três anos.

- Gosta de ensinar?

- Na maioria dos casos. Trabalho com uma quantidade de pessoas excelentes, o que torna tudo mais fácil.

- Mas?

Não pareceu entender a pergunta. Logan enterrou as mãos nas algibeiras e prosseguiu.

- Existe sempre um «mas» quando se trata de profissões. Do género, adoro o meu trabalho e os meus colegas são excelentes, mas... alguns deles gostam de vestir-se como super-heróis durante os fins-de-semana, o que me leva a duvidar se não serão apenas malucos.

Beth riu-se. - Não, são realmente fantásticos. E eu gosto mesmo de ensinar. Acontece apenas que, uma vez por outra, aparece um aluno vindo de uma família difícil e sabemos que não se poderá fazer nada dele. Muitas vezes, é o suficiente para nos despedaçar o coração - acrescentou, dando uns passos em silêncio. - E quanto a si, gosta de trabalhar aqui?

- Gosto - respondeu; e pareceu sincero.

- Mas?

Ele abanou a cabeça. - Sem mas.

- Não é justo. Eu contei a verdade.

- Pois, mas não estava a falar com a neta da patroa. E falando da patroa, faz ideia da hora a que ela quer partir amanhã?

- Ela não lhe disse? .

- Não. Pensava perguntar-lhe quando viesse entregar as chaves.

- Não me disse, mas tenho a certeza de que terá de treinar e exercitar os cães antes de partir, de modo a que os animais não se mostrem impacientes.

Tinham chegado à vista do riacho e Zeus mergulhou para diante, a espanejar e a ladrar. Logan e Beth observaram a brincadeira, antes de Logan apontar para o ramo baixo. Beth sentou-se e ele fez o mesmo, tendo o cuidado de deixar suficiente espaço entre eles.

- A que distância fica Greensboro? - perguntou.

- Cinco horas para ir e voltar. Faz-se quase todo o percurso pela estrada interestadual.

- Faz alguma ideia de quando ela quer regressar a casa?

? Beth encolheu os ombros. - Falou-me numa semana.

Logan pareceu reflectir sobre o assunto. - Oh...

Tudo tratado em segredo, pensou Beth. Logan ainda sabia menos que ela. - Estou a convencer-me de que Nana não lhe forneceu muitos pormenores sobre a viagem.

- Só me disse que ia e eu seria o condutor, pelo que seria melhor renovar a carta. Oh, também me informou de que teria de trabalhar durante o próximo fim-de-semana.

Era de calcular. Ouça... posso tomar conta disto se tiver outras coisas para fazer...

Não há problemas - retorquiu Logan. - Não tinha quaisquer

planos. E há certas coisas que ainda não tive oportunidade de fazer. Umas coisas que precisam de ser arranjadas.

- Como instalar o ar condicionado no escritório do canil?

- Estava a pensar mais na pintura do aro da porta e em ver o que posso fazer para conseguir abrir a janela.

- A que foi pintada fechada. Boa sorte. O meu avô passou anos a tentar abri-la. Uma vez gastou um dia inteiro com uma lâmina de barba e acabou por ter de usar pensos rápidos durante toda a semana. Nem assim conseguiu abri-la.

- Não está a encorajar-me nada - comentou Logan.

- Estou só a tentar avisá-lo. Tem graça porque foi o meu avô que a pintou assim e tinha um depósito cheio de ferramentas, com quase tudo o que possa imaginar-se. Era um daqueles homens que se julgam capazes de fazer seja o que for, mas as coisas nunca lhe saíam tão bem como planeava. Era mais um visionário do que um homem ligado a pormenores básicos. Já viu a casa do Ben e a ponte?

- De longe - admitiu Logan.

- Um caso típico. O avô gastou a maior parte do Verão a construí-la e ainda hoje me encolho toda sempre que o Ben vai para lá. Não faço ideia de como tem aguentado todo este tempo. Mete-me medo, mas ele adora ir para lá, especialmente quando está nervoso ou preocupado com qualquer coisa. Chama-lhe o seu esconderijo. Vai para lá muitas vezes - esclareceu. Quando ela se calou, Logan viu que estava realmente preocupada, mas recompôs-se rapidamente e voltou-se de novo para ele. - De qualquer forma, o avô era uma jóia. Todo alma e coração, e proporcionou-nos a mais idílica das infâncias que se podia imaginar.

- A quem?

- Ao meu irmão e a mim - acrescentou, sem desviar os olhos das folhas da árvore, que tinham reflexos prateados pelo luar. - A Nana contou-lhe o que aconteceu com os meus pais?

Assentiu. - Por alto. Lamento.

Beth esperou, a tentar descobrir se Logan acrescentaria algo mais, mas ele manteve-se calado. - Como é que foi? - perguntou. - Refiro-me à travessia do país.

Logan levou o seu tempo até responder. - Foi... pacífica. Ir onde queria, quando queria, sem pressa de lá chegar.

- Da maneira como fala até parece que foi uma caminhada terapêutica.

- Suponho que foi - concordou, mas um sorriso triste perpassou-lhe pelo rosto, desvanecendo-se rapidamente. - De certa forma.

Ao dizer aquilo, a luz que ia desaparecendo reflectiu-se-lhe nos olhos, dando a impressão de que estavam a mudar de cor. - Encontrou o que procurava? - perguntou Beth, com ar grave.

Logan fez uma pausa. - Sim, realmente encontrei.

- E?

- Ainda não sei.

Beth avaliou a resposta, sem saber o que fazer dela. - Ora bem, não leve isto a mal, mas, por qualquer razão, não o vejo a permanecer no mesmo lugar durante muito tempo.

- Por eu ter vindo a pé desde o Colorado?

- Tem muito que ver com isso.

Ele riu-se e, pela primeira vez, Beth tomou consciência de que não mantinha uma conversa daquelas há muito tempo. Pareceu-lhe fácil, não forçada. com Adam a conversa era difícil, como se exigisse esforços árduos de ambos. Ainda não tinha a certeza do que sentia acerca de Logan, mas pareceu-lhe que finalmente se tratavam com afabilidade. Clareou a voz. - Ora, quanto a amanhã: pensei que seria melhor levarem o meu carro e eu usarei a carrinha para ir para a escola. Os travões da carrinha deixam-me preocupada.

- Tenho de admitir as minhas dúvidas quanto a eles. Mas tenho quase a certeza de conseguir resolver o problema. Não amanhã, mas durante o fim-de-semana.

- Também sabe reparar automóveis?

- Sei. Mas os travões não são difíceis. Precisam de pastilhas novas, mas penso que o rotor deve estar em condições.

- Há alguma coisa que não consiga fazer? - indagou Beth, parecendo apenas meio admirada.

- Há.

Ele riu-se. - Isso é bom. Mas está bem. vou falar com a Nana e convencê-la de que será melhor levar o meu carro. Não confio naqueles travões com a velocidade com que se circula na auto-estrada interestadual. E não deixarei de ver como estão os cães quando regressar da escola, acha bem? Tenho a certeza de que Nana também não sugeriu isso. Mas é o que farei.

Logan assentiu e viu Zeus sair da água. Sacudiu-se, depois aproximou-se para farejar Beth, antes de lhe lamber as mãos.

- Gosta de mim.

- É provável que esteja a tomar-lhe o gosto.

-- Engraçado - comentou. Era o tipo de resposta que Drake lhe teria dado, o que lhe deu vontade de ficar de novo sozinha. Pôs-se de pé. - Será melhor regressar. Tenho a certeza de que estão a tentar perceber por onde eu ando.

Logan verificou que as nuvens tinham continuado a inchar. - Sim, também tenho de ir. Quero chegar a casa antes do dilúvio. A tempestade parece aproximar-se.

- Quer uma boleia?

- Obrigado, mas não é necessário. Gosto de andar.

- Quem diria! - exclamou com um ligeiro sorriso. Regressaram a casa pelo mesmo caminho e quando chegaram ao carreiro de gravilha, Beth tirou a mão do bolso e despediu-se com um ligeiro aceno.

- Obrigada pelo passeio, Logan.

Esperava que ele a corrigisse, como fizera com Ben, que lhe dissesse que se chamava Thibault, mas ele não o fez. Em vez disso, ergueu ligeiramente o queixo e sorriu.

- Obrigado também, Elizabeth.

Beth sabia que a tempestade não duraria muito, embora precisassem desesperadamente de chuva. O Verão fora quente e seco, parecia que o calor nunca iria abrandar. Ao ouvir os últimos pingos de chuva a cair no telhado de zinco, deu consigo a pensar no irmão.

Antes de Drake partir, dissera-lhe que o som da chuva a cair sobre o telhado era aquilo de que iria sentir mais falta. Bem gostaria de saber se ele sonhara muitas vezes com aquelas tempestades de Verão da Carolina do Norte, naquela terra onde foi acabar. A ideia fê-la sentir-se vazia e triste, uma vez mais.

Nana estava no seu quarto a preparar-se para a viagem, excitada como não sucedia há anos. Ben, por sua vez, estava a sentir-se cada vez mais vencido, pois aquilo significava que teria de passar mais tempo do fím-de-semana na companhia do pai. O que também queria dizer que ela passaria um fim-de-semana sozinha em casa, a primeira vez em que isso sucedia desde há muito tempo.

Mas havia Logan.

Percebera por que Nana e Ben se haviam sentido atraídos por ele. Logan possuía uma confiança tranquila que parecia rara nos tempos que corriam. Só ao regressar a casa percebeu que ficara a saber pouco acerca dele, pouco mais do que lhe contara na entrevista inicial. Gostaria de saber se ele seria sempre tão reservado ou se aquilo teria a ver com o tempo que passara no Iraque.

Ele tinha lá estado, pensava. Não, ele não fora tão longe, mas reparara na expressão dele quando lhe falara dos pais; a sua resposta revelava uma familiaridade com a tragédia e a sua aceitação como um aspecto inevitável da vida.

Não sabia se aquele conhecimento a fazia sentir-se melhor ou pior acerca dele. Fora fuzileiro naval, como Drake. Mas Logan estava ali e Drake morrera; e por essa razão, e por motivos ainda mais complicados, não tinha a certeza de alguma vez poder olhar Logan com a necessária abertura de espírito.

Olhando para o alto, para as estrelas que apareciam entre as nuvens da tempestade, sentiu a perda de Drake, como se fosse uma ferida aberta de novo. Tinham sido inseparáveis depois da morte dos pais, até dormiram na mesma cama durante um ano. O irmão era apenas um ano mais novo que ela, recordava-se perfeitamente do primeiro dia em que o levara ao jardim infantil. Para o irmão deixar de chorar, prometera-lhe que ele faria muitos amigos e que o viria esperar à porta para o levar para casa. Ao contrário da maioria dos irmãos, nunca foram rivais. Ela era a principal fã dele e o irmão era o seu principal apoiante. Durante o curso secundário, ela assistiu a todos os jogos de futebol, basquetebol e beisebol que ele disputou, além de o apoiar sempre que ele necessitasse. Pelo seu lado, o irmão era a única pessoa que não se deixava impressionar pelas mudanças de humor da adolescência dela. O único desacordo entre eles tivera a ver com Keith mas, ao contrário de Nana, Drake guardou boa parte do que sentia para si mesmo. Porém, Beth conhecia os sentimentos dele e, quando se deu a separação, foi Drake quem se prestou a ajudá-la a tentar encontrar o seu caminho de mãe solteira. E fora Drake, sabia, quem evitara que Keith lhe fosse bater à porta nos meses imediatamente a seguir. De todas as pessoas que conhecera, Drake fora a única que Keith tivera medo de enfrentar.

Na altura, Drake amadurecera. Não só fora um excelente atleta em praticamente todos os desportos, mas começara a praticar boxe aos doze anos. Aos dezoito, já ganhara o torneio «Luvas de Ouro da Carolina do Norte» por três vezes e treinava regularmente com os militares estacionados em Fort Bragg e Camp Lejeune. Foram as horas passadas com eles que começaram por levar Drake a pensar em alistar-se.

Nunca fora grande aluno e passara apenas um ano na universidade quando decidiu que para ele era suficiente. Beth fora a única com quem falara sobre o alistamento. Sentira-se orgulhosa com a decisão de ele querer servir o país, o seu coração transbordou de amor e admiração ao vê-lo fardado de azul. Embora assustada quando ele fora mandado para o Kuwait e, mais tarde, para o Iraque, nunca deixou de pensar que ele se sairia bem. Mas Drake não conseguira regressar a casa.

Mal conseguia recordar os dias que se seguiram à notícia de que o irmão tinha morrido, e ainda não gostava de pensar no que sucedera. A morte dele deixara-lhe um vazio que sabia nunca conseguir preencher inteiramente. Na verdade, porém, o tempo atenuara a dor. Logo a seguir à perda, nunca o julgara possível, mas não podia negar que, actualmente, quando pensava em Drake recordava principalmente os dias felizes. Mesmo quando visitava a campa para falar com ele, já não experimentava a agonia provocada pelas primeiras visitas. A partir de certa altura, a tristeza sobrepusera-se à raiva.

Contudo, naquele momento, parecia-lhe que voltara, depois de reconhecer que também ela gostara de Thibault, tal como acontecera com Nana e Ben; talvez por sentir junto dele um à-vontade que não sentira com qualquer outra pessoa depois da perda de Drake.

E depois houvera aquele pormenor: só Drake a tratava pelo nome de baptismo. Nem os pais, nem a avó, nem o avô, ou qualquer dos seus amigos alguma vez a haviam tratado por outro nome que não fosse Beth. com Keith acontecera o mesmo; para ser honesta, até duvidava que ele soubesse o verdadeiro nome da mulher com quem casara. Apenas Drake lhe chamava Elizabeth e apenas quando se encontravam sós. Era o segredo deles, um segredo que só devia ser conhecido por ambos, e nunca imaginara como poderia soar na boca de outra pessoa.

Todavia, Logan dera-lhe a entoação adequada.

 

                       THIBAULT

No Outono de 2007, depois de sair do Corpo de Marines, Thibault preparou o encontro com Victor no Minnesota, num lugar onde nenhum deles estivera antes. A altura não podia ser a melhor, para ambos. Victor estava casado há seis meses e Thibault fora padrinho dele. Fora a única ocasião em que tinham estado juntos desde que foram desmobilizados. Quando Thibault telefonara a sugerir a viagem, suspeitou de que passar algum tempo só com ele era exactamente aquilo de que Victor precisava.

No primeiro dia, quando estavam a meio do rio, sentados num pequeno barco a remos, Victor decidiu-se a quebrar o silêncio.

- Tens tido pesadelos? - perguntou ao amigo. Thibault abanou a cabeça. - Não. E tu?

- Eu tenho.

Corria uma brisa própria do Outono e uma ligeira névoa permanecia acima da água. Mas o céu estava limpo e Thibault sabia que a temperatura ia subir e que iriam desfrutar de uma belíssima tarde.

- Os mesmos de antes? - indagou Thibault.

- Piores - respondeu ao enrolar a linha para a lançar de novo.

- Vejo mortos - acrescentou, esboçando um breve sorriso amargo, com a fadiga bem patente nas rugas do rosto. - Como naquele filme com o Bruce Willis? O Sexto Sentido?

Thibault assentiu.

- Quase gosto daquilo - observou. Fez uma pausa e prosseguiu.

- Nos meus sonhos, revivo tudo aquilo por que passámos, mas com alterações. Na maioria delas, sou atingido e grito por ajuda, mas a ajuda não aparece e apercebo-me de que toda a gente está ferida. E sinto-me morrer pouco a pouco - acrescentou. Esfregou os olhos antes de continuar. - Embora seja mau, é pior quando os vejo de dia; os mortos, quero eu dizer. Posso estar no supermercado e vejo-os todos, a bloquearem o corredor. Ou estão no chão, a serem tratados pelos médicos. Mas nunca emitem qualquer som, tudo o que fazem é olhar para mim, como se eu fosse o culpado de terem sido feridos, ou de estarem a morrer - lamentou-se. Fez uma pausa. - Faz-me pensar que estou a ficar maluco.

- Já conversaste com alguém sobre isso? - indagou Thibault.

- Não. Isto é, disse à minha mulher, mas sempre que lhe falo disto ela assusta-se e desata a chorar. Portanto, não lhe falo mais do assunto.

Thibault manteve-se calado.

- Está grávida, percebes? - prosseguiu Victor.

Thibault sorriu, a procurar mostrar-se confiante. - Parabéns!

- Obrigado. É um rapaz. Vai chamar-se Logan.

O amigo pôs-se de pé e agradeceu com um aceno. - É uma honra.

- Às vezes fico assustado por ir ter um filho. Receio não ser um bom pai - confessou, sem tirar os olhos da água.

- Vais ser um pai fantástico - garantiu Thibault.

- Talvez. Thibault esperou.

- Já não tenho paciência. Há tantas coisas que me enfurecem. Pequenos detalhes, pormenores que não deveriam ter qualquer significado mas, por uma razão qualquer, adquirem importância. E embora eu tente conter a raiva dentro de mim, há alturas em que ela acaba por sair. Ainda não me causou problemas, mas não sei até quando vou conseguir controlar-me. Também acontece contigo? - perguntou ao ajeitar o carreto de pesca.

- Por vezes - admitiu Thibault.

- Mas não é frequente.

- Não.

- Penso que não. Esqueço-me de que no teu caso as coisas são diferentes. Quer dizer, por causa da fotografia.

Thibault abanou a cabeça. - Isso não é verdade. Não tem sido fácil para mim. Não consigo andar na rua sem espreitar por cima do ombro, ou sem espreitar pelas janelas para ter a certeza de que ninguém pretende alvejar-me. E, em metade das ocasiões, não me ocorre qualquer forma de iniciar uma conversa vulgar com alguém. Não consigo pensar nas preocupações dos outros. Quem trabalha onde e quanto ganha, ou o que dá na televisão, ou quem anda a namorar quem. Apetece-me perguntar: «Que tenho eu a ver com isso?»

- Nunca foste bom em conversas sem interesse - contrapôs Victor.

- Obrigado.

- Mas quanto ao olhar por cima do ombro, é normal. Também faço o mesmo.

- Também? -Contudo, até agora ainda não vi armas. ??; ???

Thibault riu-se em surdina. - É bom, não é?

A seguir, querendo mudar de assunto, perguntou: - Como é que te dás com os telhados? -São muito quentes no Verão.

- Como no Iraque?

- Não, nada é tão quente como o Iraque. Mesmo assim, bastante quentes - admitiu, a sorrir. - Fui promovido, agora sou chefe de equipa.

- bom para ti. Como é que está a Maria?

Victor abanou a cabeça, maravilhado. - A inchar, mas sente-se feliz. E é a minha vida. Tive muita sorte por casar com ela.

- Fico contente.

- Não existe nada como o amor. Devias tentar. Thibault encolheu os ombros. Talvez, um dia.

Elizabeth.

Vira a expressão dela alterar-se ligeiramente quando a tratou por Elizabeth, notou uma emoção que não conseguiu identificar. O nome captava mais a essência da pessoa dela do que o simples «Beth». O nome tinha uma elegância que se adaptava à forma graciosa como ela andava, e embora não tivesse feito planos para a tratar assim, as sílabas tinham-lhe saído da boca como se tivessem vontade própria.

No caminho de regresso a casa, deu consigo a recordar a conversa e a forma natural como se sentara ao lado dela. Era mais descontraída do que a imaginara, mas conseguia discernir que, tal como Nana, ainda não tinha certezas sobre quem ele era. Mais tarde, deitado na cama a olhar o tecto, ficou a imaginar o que Elizabeth pensaria dele.

Na manhã de sexta-feira, antes de conduzir Nana a Greensboro no carro de Elizabeth, Thibault teve o cuidado de deixar tudo tratado. Zeus seguia no banco de trás, com a cabeça fora da janela durante a maior parte da viagem, orelhas puxadas para trás, intrigado com a constante mudança de cenários e cheiros. Thibault não esperara que Nana autorizasse o cão a ir com eles, mas fora ela quem o mandara entrar no carro. - A Beth não vai importar-se. E, além disso, a minha mala cabe no porta-bagagens.

A viagem de regresso a Hampton pareceu mais rápida e, ao chegar, ficou satisfeito por ver Ben em casa, a atirar uma bola ao ar. Zeus correu para ele e Ben atirou a bola pelo ar. O cão correu atrás dela, de orelhas repuxadas para trás e língua de fora. Ao aproximar-se viu Elizabeth entrar no alpendre e percebeu, uma certeza surgida subitamente, que aquela era a mulher mais bonita que alguma vez vira. Vestindo uma blusa de Verão e calções curtos que lhe mostravam as pernas bem torneadas, acenou-lhe um cumprimento logo que o viu, o suficiente para ele não ficar de olhos arregalados.

- Olá, Thibault! - cumprimentou Ben do jardim. Corria atrás de Zeus, que se pavoneava com a bola na boca, sempre uns passos adiante de Ben por mais que o rapaz corresse.

- Olá, Ben! Que tal a escola?

- Maçadora! - gritou. - Como vai o trabalho?

- Excitante!

Ben continuou a correr. - Pois, muito bem!

Desde que a escola começara para Ben, trocavam quase sempre as mesmas frases, dia após dia. Thibault abanava a cabeça, bem-humorado, no preciso momento em que Elizabeth saía para o alpendre.

- Viva, Logan!

- Olá, Elizabeth.

Ela debruçou-se do corrimão, com um ligeiro sorriso. - Como é que correu a viagem?

- Não foi má de todo.

- Mas deve-lhe ter parecido estranha.

- Por que razão?

- Quando foi a última vez que conduziu durante cinco horas? Thibault coçou o pescoço. - Não sei. Foi há muito tempo.

- A Nana disse que achou a sua condução algo nervosa, como se não conseguisse pôr-se à vontade - informou, fazendo um sinal na direcção da casa. - Acabei de falar com ela. Já telefonou duas vezes.

- Aborrecida?

- Não, da primeira vez falou com o Ben. Para ver como decorrera a escola.

- E?

- Ele respondeu-lhe que era maçadora.

- Pelo menos é consistente.

- Pois é, mas gostaria que a opinião dele fosse diferente. Qualquer coisa como «aprendi bastante e diverti-me muito com isso» - comentou. - O sonho de qualquer mãe, não é?

- Acredito na sua palavra.

- Tem sede? - perguntou Beth. - A Nana deixou um jarro de limonada. Fê-la esta manhã, antes de sair.

- Apetecia-me. Mas talvez seja melhor ir ver primeiro como estão os bebedouros dos cães.

Beth voltou-se e dirigiu-se para a porta. - Isso já foi feito informou, segurando a porta para ele passar. - Entre. Só demoro um minuto, está bem?

Thibault subiu a escada, limpou os pés e entrou. Analisando a sala, reparou na mobília antiga e nos quadros originais pendurados na parede. Uma sala de visitas de província, nada do que ele imaginara.

- A sua casa é encantadora - disse, em voz alta.

- Obrigada - agradeceu, deitando a cabeça fora da porta da cozinha. - Ainda não a tinha visto?

- Não.

- Pensei que já cá estivera. Veja à vontade.

Desapareceu da vista dele e Thibault andou à volta da sala, reparando na colecção de Hummels dispostos nas estantes do móvel da sala de jantar. Sorriu. Sempre apreciara aquelas coisas.

Sobre a lareira, reparou numa colecção de fotografias e foi analisá-las. Duas ou três eram de Ben, incluindo uma em que lhe faltavam dois dentes da frente. Ao lado delas estava uma boa fotografia de Elizabeth de batina e capelo de formatura, ao lado dos avós, mais uma foto de Nana e do marido. No canto viu a fotografia de um jovem marine de farda azul, de pé, na posição de descansar.

O jovem fuzileiro que perdera a fotografia no Iraque!

- Esse é o Drake - disse Beth por detrás dele. - O meu irmão. Thibault voltou-se. - Mais novo ou mais velho?

- Um ano mais novo.

Entregou-lhe o copo de limonada sem mais comentários e Thibault sentiu que o assunto ficara arrumado. Beth deu um passo para a porta da frente.

- Vamos para o alpendre. Estive fechada em casa todo o dia e, além disso, quero vigiar o Ben.

Elizabeth sentou-se nos degraus da frente. O sol abria clareiras de luz por entre as nuvens mas a sombra do alpendre estendia-se até as cobrir. Prendeu uma madeixa de cabelo atrás da orelha. - Desculpe. Isto é o melhor que consigo arranjar. Tenho tentado convencer a Nana a arranjar bancos de baloiço, mas ela acha-os demasiado rurais.

Mais adiante, Ben e Zeus corriam pelo relvado, com o rapaz a rir-se enquanto tentava tirar o pau da boca do cão. Elizabeth sorriu.

- Ainda bem que o vejo a libertar toda aquela energia. Teve hoje a primeira lição de violino, ainda não tivera oportunidade de correr depois de vir da escola.

- Divertiu-se?

- Gostou. Pelo menos disse que gostou - respondeu, virando-se para ele. - Quando era criança, gostava?

- Na maioria das vezes. Pelo menos até ser mais crescido.

- Deixe-me adivinhar. Depois começou a interessar-se por raparigas e desportos?

- Não se esqueça dos carros.

- Típico - resmungou. - Mas normal. Estou excitada por ter sido a primeira escolha dele. Sempre se interessou por música e a professora é uma jóia. Reuniu em si toda a paciência do mundo.

- Isso é bom. E vai fazer-lhe bem.

Ela fingiu analisá-lo. - Não sei porquê, mas vejo-o mais como tocador de guitarra eléctrica do que como alguém que tocou violino.

- Por eu ter vindo a pé desde o Colorado?

- Não se esqueça do cabelo.

- Usei o corte militar durante anos.

- E depois os barbeiros entraram em greve, não foi?

- Uma coisa desse género.

Ela sorriu e pegou no copo. No silêncio que se seguiu, Thibault olhou à sua volta. Do outro lado do jardim, um bando de estorninhos apareceu de entre as árvores, voando juntos até pousarem no lado oposto. Nuvens inchadas iam a passar, mudando de forma graças à brisa da tarde e sentia-se observado por Elizabeth.

- Não sente necessidade de estar sempre a falar, pois não? Ele sorriu. - Não.

- Na sua maioria, as pessoas não sabem como apreciar o silêncio. Estão sempre a falar.

- Eu falo. Mas primeiro quero ter qualquer coisa para dizer.

- Vai ter uma vida difícil em Hampton. A maioria das pessoas daqui fala acerca da família, ou dos vizinhos, do tempo, das possibilidades de a equipa da escola secundária ganhar o campeonato de futebol.

- Ah, sim?

- Torna-se uma maçada.

Ele assentiu. - Estou a ver - disse, bebendo mais um gole, despejando o copo. - Então, qual é a sua opinião sobre a equipa de futebol deste ano?

Ela riu-se e pegou no copo. - Exactamente. Quer mais?

- Não, estou óptimo. Obrigado. Muito refrescante.

Beth colocou o copo ao lado do dela. - Feita em casa. Foi a própria Nana que espremeu os limões.

Thibault assentiu. -Já notei que tem um braço como o do Popeye.

Beth passou a ponta do dedo à volta do bordo do copo, a admitir secretamente, só para si, que apreciava o espírito dele. - Portanto, acho que ficaremos sós durante este fim-de-semana.

- E o Ben?

- Vai amanhã para casa do pai. Vai uma vez de quinze em quinze dias.

- Sim?

Beth inspirou profundamente. - Mas não de livre vontade. Nunca quer ir.

Thibault acenou com a cabeça, ficando a observar Ben de longe.

- Não tem nada a dizer? - perguntou Beth, a espicaçá-lo.

- Nem sei o que hei-de dizer.

- Mas se tivesse dito qualquer coisa...

- Teria dito que Ben terá provavelmente um bom motivo.

- E eu teria dito que acertou.

- Vocês os dois não se entendem? - perguntou Thibault cautelosamente.

- Na realidade, entendemo-nos perfeitamente. Nada de fantástico. Mas serve. O Ben e o pai é que não se entendem. O meu ex-marido tem problemas com o filho - elucidou. - Julgo que ele queria um tipo de rapaz diferente.

O olhar dele focou-a com inesperada intensidade. - Nesse caso, por que é que deixa o Ben ir?

- Não tenho escolha.

- Existe sempre uma escolha.

- Não, neste caso não existe - explicou, inclinando-se para um lado e tirando uma flor do canteiro ao lado da escada. - O pai tem custódia conjunta, e se tentasse combater esse direito paterno, o mais provável era que o tribunal decidisse a favor dele. A haver alguma modificação, era provável que o Ben ainda tivesse de ir mais vezes.

- Não me parece justo.

- Não é. Mas, por agora, não posso fazer muito mais do que dizer ao Ben que se comporte o melhor possível.

- Tenho a sensação de que a história é um pouco mais complicada.

- Nem faz ideia - concordou ela, a rir-se.

- Quer falar disso?

- Na verdade, não.

Qualquer vontade que Thibault tivesse de a pressionar seria anulada pela visão de Ben a caminhar para o alpendre. Vinha encharcado em suor, de faces vermelhas, os óculos um pouco tortos. Zeus trotava atrás, a ofegar.

- Olá, mamã!

- Olá, querido. Divertiste-te?

Zeus lambeu a mão de Thibault, antes de se deitar aos pés dele.

- O Zeus é formidável. Viste-nos a jogar ao toca e foge?

- Claro - disse a mãe, chegando o Ben para mais perto de si. Passou-lhe a mão pelo cabelo. - Pareces quente. Devias beber água.

- Já vou beber. Thibault e Zeus ficam para jantar?

- Não falámos nisso.

Ben ajeitou os óculos no nariz, não ligando ao pormenor de eles estarem tortos. - Vamos comer tacos - anunciou a Thibault. - São impressionantes. A mamã tem um molho próprio e tudo.

- Certamente que são - observou Thibault em tom neutro.

- Falaremos do assunto, está bem? - foi dizendo enquanto sacudia as ervas da camisa do filho. - Agora vai beber água. E não te esqueças de lavar as mãos.

Ben sorriu. - Quero jogar às escondidas com o Zeus. Thibault disse que eu podia.

- Como já disse, falaremos do assunto - prometeu Elizabeth.

- O Zeus pode entrar em casa comigo? Ele também tem sede.

- Vamos deixá-lo cá fora, está bem? Damos-lhe água aqui. O que é que aconteceu aos óculos?

Ignorando os protestos do filho, tirou-lhos. - Demora apenas um instantinho - prometeu. Dobrou as hastes e examinou o resultado, dobrou um pouco mais e devolveu-os. - Experimenta agora.

Os olhos de Ben dirigiram-se para Thibault depois de pôr os óculos, mas ele fingiu não reparar. Em vez disso, acariciou Zeus deitado calmamente a seus pés. Elizabeth inclinou-se para trás para ver melhor.

- Perfeito! - exclamou.

- Estão bem - anuiu Ben. Subiu a escada, abriu a porta de rede e deixou-a fechar-se com estrondo. Quando deixou de o ver, Elizabeth voltou-se para Thibault.

- Deixei-o embaraçado.

- É o que as mães fazem.

- Obrigada - agradeceu, sem esconder o sarcasmo. - Agora diga-me: o que é isso de jogar às escondidas com o Zeus?

- Oh, falei-lhe nisso à beira do riacho. Ele perguntou o que o Zeus era capaz de fazer e falei-lhe nisso. Mas não temos de o fazer esta noite.

- Não, para mim será óptimo - concordou ao pegar no copo de limonada. Fez rodar os cubos de gelo, a reflectir, antes de se voltar para ele. - Gostaria de ficar para jantar?

Os dois olhares encontraram-se. - Sim, gostaria muito.

- São apenas tacos - explicou Elizabeth.

- Eu ouvi. E obrigado. Os tacos soam a ameaça - sorriu e pôs-se de pé. - Mas, por agora, deixe-me dar um pouco de água a este animal. E é provável que também tenha fome. Importa-se que lhe dê um pouco de comida do canil?

- É claro que não. Temos muita. Ontem, vi alguém a descarregar um monte de sacos.

- Quem seria?

- Não sei. Um preguiçoso de cabelos compridos, penso eu.

- Pensei que era um veterano com formação universitária. -?

- Dá no mesmo - concluiu. Pegou nos óculos e levantou-se também. - vou certificar-me de que o Ben se lavou. Costuma esquecer-se. Até daqui a uns minutos.

No canil, Thibault atestou de água e comida as tigelas de Zeus e sentou-se numa das jaulas vazias, à espera. Zeus não se apressou, bebeu um pouco e depois foi dando pequenas dentadas na comida, como se perguntasse: «Por que é que estás a olhar para mim?» Thibault manteve-se calado; sabia que qualquer comentário faria o cão comer ainda mais devagar.

Em vez disso, foi verificar as outras jaulas, embora Elizabeth dissesse que já o tinha feito, assegurando-se de que nenhum dos cães tinha falta de água. Não tinha. Nem se mexiam muito. bom sinal. Desligou as luzes do escritório e fechou a porta antes de regressar para junto da casa. Zeus seguia-o, de nariz a rasar o chão.

À porta, mandou Zeus deitar-se e ficar ali, e abriu a porta de rede.

- Olá!

- Entre. Estou na cozinha.

Thibault entrou e encaminhou-se para a cozinha. Elizabeth pusera um avental e estava junto do fogão, a tostar a carne. Na bancada, ao lado dela, estava aberta uma garrafa de Michelob Light.

- Onde está o Ben? - indagou Thibault.

- No chuveiro. Deve descer daqui a um par de minutos - informou. Acrescentou temperos já preparados e água à carne, e a seguir passou as mãos por água. Depois de as secar no avental, pegou na cerveja. - Também quer? Nas noites em que há tacos bebo sempre uma cerveja.

- Adoraria.

Elizabeth tirou a cerveja do frigorífico e entregou-lha. - É light. Não temos outra.

- Obrigado.

Encostou-se à banca e analisou a cozinha. Em certos aspectos assemelhava-se à da casa que alugara. Armários originais da casa, lava-louça de aço inoxidável, candeeiros antigos e uma pequena sala de jantar montada junto da janela, mas tudo um pouco mais bem conservado, com toques femininos aqui e ali. Flores num vaso, uma travessa com fruta, janelas tratadas. Acolhedora.

Elizabeth tirou alfaces e tomates do frigorífico, juntamente com uma fatia de queijo cheddar, e pôs tudo em cima da bancada. Juntou pimentos e cebolas, levando tudo para junto da tábua de corte; tirou uma faca e o ralador de queijo de uma gaveta. Começou a pelar e a cortar a cebola, com movimentos rápidos e fáceis.

- Precisa de ajuda?

Olhou-o com cepticismo. - Não me diga que além de treinar cães, reparar automóveis e ser músico, também é cozinheiro.

- Não iria tão longe. Mas sei movimentar-me numa cozinha. Cozinho o jantar todas as noites.

- Ah, sim? O que é que comeu na noite passada?

- Sandes de peru. Compickles.

- E na noite anterior?

- Sandes de peru. Sem pickles.

- Qual foi a última refeição que cozinhou? - perguntou uma Elizabeth sorridente.

Ele fingiu espremer os miolos. - Hum... feijão guisado. Na segunda-feira.

Ela fingiu espanto. - Estou esclarecida. Sabe ralar queijo?

- Quanto a isso posso considerar-me um especialista.

- Muito bem. Há uma fatia naquele armário por baixo do misturador. E não é necessário cortá-la toda. O Ben costuma comer dois tacos e eu só como um. Todo o resto será para si.

Thibault pôs a cerveja em cima da bancada e tirou a tigela do armário. A seguir foi até ao lava-louças, lavou as mãos e desembrulhou o pedaço de queijo. Olhava de esguelha para Elizabeth enquanto trabalhava. Acabada a preparação da cebola, ela já estava a tratar dos pimentos. Os tomates foram a seguir. Empunhava a faca com firmeza, com movimentos precisos.

- Faz isso tão depressa.

Respondeu sem abrandar o ritmo dos movimentos. - Houve uma altura em que sonhei abrir um restaurante.

- Quando foi isso?

- Aos quinze anos. Até pedi uma faca Ginsu como prenda de aniversário.

- Está a falar daquela que é anunciada a altas horas da noite? A que o tipo do anúncio utiliza para cortar uma lata?

Ela assentiu. - É essa.

- Deram-lha?

- É a faca que estou agora a usar.

Thibault sorriu. - Nunca conheci alguém disposto a admitir ter comprado uma.

- Agora já conhece - corrigiu ela. Lançou-lhe uma olhadela rápida. - Tive aquele sonho de abrir um grande restaurante em Charleston ou em Savannah e de mostrar os meus próprios livros num programa televisivo. Maluquice, reconheço. Mas, de qualquer maneira, passei o Verão a praticar o uso da faca. Cortava tudo, o mais depressa que podia, até ser tão rápida como o homem do anúncio. Enchia tigelas Tupperware com melões, cenouras e abóboras que apanhava no jardim. A Nana andava maluca, pois tínhamos de comer guisado de Verão quase todos os dias.

- O que é um guisado de Verão?

- Qualquer mistura que possa ser servida com massa ou arroz. Thibault sorriu enquanto afastava a pilha de queijo ralado para o lado. - E depois, aconteceu o quê?

- Acabou o Verão e deixámos de ter vegetais.

- Ah! - limitou-se a comentar, a pensar como é que alguma mulher podia parecer tão bonita com um avental.

Elizabeth tirou outro tacho de debaixo do fogão. - Ora bem, vou fazer o molho.

Usou uma grande quantidade de calda de tomate, a que acrescentou cebolas e pimentos, um pouco de Tabasco, bem como sal e pimenta. Misturou tudo muito bem e colocou a temperatura do fogão na posição média.

- Uma receita pessoal?

- É da Nana. O Ben não aprecia comidas muito picantes e ela criou esta.

Terminada a preparação, Thibault embrulhou o queijo restante e perguntou: - E que mais há para fazer?

- Não muito. Só tenho de preparar umas alfaces e é tudo. Oh, e aquecer as bases no forno. vou deixar a carne e o molho a ferver em lume brando durante algum tempo.

E quanto às bases?

Entregou-lhe uma folha de massa e ligou o forno. - Basta estender um pouco a massa. Três para nós e as que desejar para si. Mas não as ponha ainda no forno. Ainda temos uns minutos e o Ben gosta delas acabadas de sair do forno.

Thibault fez como lhe fora pedido e ela terminou a preparação da alface, quase ao mesmo tempo. Elizabeth colocou três pratos em cima da bancada. Pegando de novo na cerveja, apontou para a porta.

- Volte cá para fora. Há uma coisa que quero mostrar-lhe.

Ele seguiu-a, mas não andou muito, parou ao reparar no que se via a partir do alpendre. Cercados por uma sebe, havia uma série de carreiros calcetados que rodeavam canteiros circulares feitos de tijolo, cada um com uma árvore; no centro do jardim, servindo de ponto de referência, havia uma fonte com três saídas de água que alimentavam um grande tanque com carpas.

- Caramba! - murmurou. - É grandioso.

- E não fazia ideia do que estava aqui, pois não? É um belo espectáculo mas devia vê-lo na Primavera. Todos os anos, eu e a Nana plantamos uns milhares de tulipas, narcisos e lírios, que começam a florir logo a seguir às azáleas e cornisos-floridos. De Março a Julho este jardim é dos mais belos lugares da Terra. E acolá? Para além da cerca mais baixa? - indicou, apontando para a direita. - É o terreno dos nossos mais ilustres vegetais e hortaliças.

- Nana nunca me falou em jardinagem.

- Nunca o faria. Era uma coisa que partilhava com o avô, como se fosse um pequeno segredo deles. Como o canil é ali ao lado, quiseram fazer disto uma espécie de oásis para onde podiam fugir do negócio, dos cães, dos donos... até dos empregados. É claro que o Drake e eu, e depois o Ben, estávamos autorizados a entrar, mas, na maior parte do tempo, isto era só deles. Foi o único projecto em que o avô atingiu o nível de excelência. Depois da morte dele, a Nana decidiu mantê-lo em memória do marido.

- É incrível - comentou Thibault.

- Não é? Não era tão fantástico quando éramos crianças. A menos que andássemos a plantar bolbos, não estávamos autorizados a brincar neste espaço. Todas as nossas festas de aniversário se faziam no relvado da frente, que separa a casa do canil. O que significava que, dois dias antes, tínhamos de remover toda a trampa para que ninguém a pisasse inadvertidamente.

- Posso admitir que esse trabalho lhes tirasse a vontade de fazer festas...

- Eh! Onde é que estão? - perguntou uma voz vinda da cozinha.

Elizabeth voltou-se ao ouvir a voz do filho. - Estamos aqui, querido. Estou a mostrar o jardim das traseiras a Mr. Thibault.

Ben saiu, vestia uma T-shirt preta e calças de camuflado. - Onde está o Zeus ? Estou preparado para ele me descobrir.

- Primeiro vamos comer. Faremos isso depois do jantar.

- Mamã...

- De qualquer maneira, será melhor depois de escurecer - interrompeu Thibault. - Nessa altura poderás mesmo esconder-te. Também será mais divertido para o Zeus.

- O que é que quer fazer até lá?

- A tua avó disse que jogas xadrez. Ben encarou-o com um ar céptico. - Sabe jogar xadrez?

- Talvez não seja tão bom como tu, mas sei jogar.

- Muito bem - concordou, a coçar o braço. - Eh, onde é que disse que estava o Zeus?

- No alpendre da frente.

- Posso ir brincar com ele?

- Primeiro terás de pôr a mesa - ordenou Elizabeth. - Dispões apenas de um par de minutos. O jantar está quase pronto.

- Muito bem - aceitou, voltando-lhes as costas. - Obrigado. Enquanto Ben saía à pressa, ela curvou-se para o lado de Thibault, pôs as mãos em concha à volta da boca e lembrou: - Não te esqueças da mesa!

Ben fez derrapar os pés mas parou. Abriu uma gaveta e pegou em três garfos, que atirou para cima da mesa como um distribuir de cartas de Las Vegas, a que se seguiram os pratos que Elizabeth já pusera de lado. No total, precisou de uns dez segundos, e a mesa era testemunha disso, antes de desaparecer da vista deles. - Até à chegada de Zeus, Ben costumava ser uma criança tranquila e calma quando vinha da escola. Costumava ler e estudar, mas agora só lhe apetece correr atrás do seu cão.

Thibault mostrou uma expressão de culpa. - Sinto-me responsável.

- Não sinta. Creia-me, aprecio um pouco de... tranquilidade, como qualquer mãe, mas é agradável vê-lo tão entusiasmado.

- Por que não lhe arranja um cão?

- É o que farei. Em devido tempo. Logo que consiga saber como vai evoluir o estado da Nana - esclareceu; bebeu mais um gole de cerveja e apontou para a casa. - Vamos ver como está o jantar. Julgo que o forno estará pronto.

De volta à cozinha, Elizabeth foi ao forno buscar a caçarola, mexeu a carne e o molho, antes de dividir tudo por duas tigelas. Ao trazê-las para a mesa, juntamente com uma pilha de guardanapos de papel, Thibault ajeitou os talheres e os pratos e trouxe o queijo, a alface e o tomate. Ficou a vê-la pousar o copo de cerveja em cima da mesa, uma vez mais impressionado pela beleza natural dela.

- Quer ir chamar o Ben, ou vou eu?

Thibault fez um esforço para se voltar. - Eu chamo o Ben.

Ben estava sentado no alpendre de frente, a fazer festas a um Zeus estafado, acariciando-lhe o pêlo, desde a cabeça à cauda, em movimentos lentos.

- Cansaste o cão - observou Thibault.

- Corro muito depressa - concordou Ben.

- Queres comer? O jantar está na mesa.

Ben pôs-se de pé e Zeus ergueu a cabeça. - Ficas aqui - mandou Thibault e o cão ficou de orelhas murchas, como se estivesse a ser castigado. Mas tornou a baixar a cabeça quando Ben e Thibault entraram em casa.

Elizabeth já estava sentada à mesa. Logo que Ben e Thibault se instalaram, o garoto começou de imediato a encher o seu taco de carne.

- Gostaria de saber mais pormenores acerca da sua caminhada através do país - pediu Elizabeth.

- Eu também - concordou Ben, servindo-se de mais molho. Thibault pegou no guardanapo e estendeu-o em cima das pernas.

- O que é que pretendem saber?

Ela desdobrou o guardanapo. - Por que não começa pelo princípio?

Por instantes, Thibault reflectiu sobre a verdade: começara com uma fotografia no deserto do Kuwait. Mas não podia revelar esse pormenor. Em vez disso, começou por descrever uma manhã fria de Março, em que pusera a mochila às costas e começara a calcorrear a berma da estrada. Falou-lhes do que viu; para satisfazer a curiosidade de Ben, falou da vida selvagem com que deparou, sem se esquecer de mencionar algumas das pessoas mais interessantes que encontrou. Elizabeth pareceu compreender que ele não estava acostumado a falar de si; por isso, estimulou-o com perguntas sempre que ele parecia não ter mais que dizer. A seguir, fez-lhe mais umas perguntas sobre a universidade e Ben ficou divertido por saber que o homem sentado a seu lado à mesa tinha realmente desenterrado esqueletos verdadeiros. Ben fez também algumas perguntas: se ele tinha irmãos ou irmãs? Thibault respondeu que não tinha. Se praticara desportos? Praticara alguns, mas fora um praticante mediano, nada de fantástico.

Qual era a equipa de futebol favorita dele? Os Denver Broncos, claro. Enquanto Ben e Thibault conversavam, Elizabeth seguia a tagarelice deles com interesse.

com o dia a morrer, a luz que entrava pelas janelas começou a mudar de cor e a desaparecer, deixando a cozinha às escuras. Acabaram de comer e, depois de pedir desculpa, Ben foi reunir-se a Zeus no alpendre. Thibault ajudou Elizabeth a arrumar a mesa, embrulhando as sobras e empilhando pratos e talheres no lava-louça. Desrespeitando as suas próprias regras, Elizabeth abriu mais uma cerveja e ofereceu outra a Thibault, antes de ambos fugirem do calor da cozinha e virem para o exterior.

No alpendre o ar era bastante mais fresco e a brisa fazia dançar as folhas das árvores. Ben e Zeus andavam de novo na brincadeira, as gargalhadas do garoto pareciam suspensas do ar. Elizabeth encostou-se ao corrimão, a observar o filho, e Thibault teve de esforçar-se para não ficar a olhar para ela. Nenhum deles sentia necessidade de falar e Thibault bebeu um longo trago da sua cerveja, a desejar saber onde tudo aquilo iria levá-lo.

 

                       BETH

À medida que a noite caía, Beth estava de pé no alpendre das traseiras, a observar como Logan se concentrava no tabuleiro de xadrez que tinha à frente, a pensar «gosto dele». Quando o pensamento lhe ocorreu, achou o sentimento simultaneamente surpreendente e natural.

Ben e Logan estavam a disputar o seu segundo jogo de xadrez; Logan estava a pensar no movimento seguinte. Ben ganhara facilmente o primeiro jogo e ela não deixou de reparar na expressão de surpresa de Logan. Aceitou bem a derrota e até perguntou a Ben onde é que errara. Colocaram as peças nas posições originais e Ben mostrou a série de erros cometidos por Logan, primeiro com a torre e a rainha e, finalmente, com o cavalo.

- bom, percebi - comentou Logan. Sorriu para Ben: - Belo trabalho.

Nem queria imaginar como Keith reagiria se fosse ele a perder. De facto, nem precisava de imaginar a situação. Tinham jogado uma vez e, quando Ben ganhou, Keith virara literalmente tudo do avesso, antes de sair porta fora. Uns minutos depois, ainda Ben andava a reunir as peças atiradas para trás da mobília, Keith voltara à sala. Em vez de pedir desculpa, declarara que o xadrez era uma perda de tempo e que seria melhor que Ben fizesse qualquer coisa importante, como estudar as lições ou aplicar-se no beisebol, visto que «batia a bola como se fosse cego».

Por vezes, sentira realmente vontade de estrangular aquele homem.

Porém, com Logan tudo era diferente. Via perfeitamente que Logan estava de novo em dificuldades. Não sabia bem como, pois as complicações que distinguiam um bom jogador de um jogador extraordinário ultrapassavam-na, mas sempre que Ben estudava o adversário em vez de focar as pedras do tabuleiro, sabia que o fim estava próximo, mesmo que Logan ainda se não tivesse apercebido do que estava para acontecer.

O que mais lhe agradava na cena era que, embora concentrados nas exigências do jogo, Logan e Ben continuavam a... conversar. Sobre a escola e sobre os professores de Ben, ou do Zeus quando era cachorro, e como Logan parecia verdadeiramente interessado, Ben revelou um certo número de pormenores que a surpreenderam: como o saber que outros rapazes da turma lhe tinham roubado o almoço duas vezes e que o filho se sentia atraído por uma rapariga chamada Clei. Logan não lhe dava conselhos; em vez disso, perguntava a Ben o que é que ele tencionava fazer. Baseada na sua experiência com homens, sabia que, na sua maioria, quando se lhes fala de um dilema ou de um problema, eles sentem-se na obrigação de emitir opiniões, mesmo quando apenas se lhes exige que ouçam,

Na realidade, as reticências naturais de Logan pareciam dar a Ben o espaço de que ele precisava para se expressar. Era evidente que Logan estava satisfeito com a pessoa que era. Não tentava impressionar o garoto, ou a ela, demonstrando a facilidade com que dialogava com Ben.

Embora tivesse namorado pouco nos anos mais recentes, descobrira que, na sua maioria, os homens fingiam que Ben não existia, diziam-lhe apenas umas quantas palavras ou exageravam na maneira como falavam com ele, tentando provar como eram maravilhosos por tratarem o filho dela de forma tão amistosa. Desde tenra idade, Ben aprendera a reconhecer de imediato qualquer dos tipos. Ela também, o que habitualmente era o suficiente para pôr termo ao relacionamento. Bem, quando não eram eles a terminar a relação com ela.

Era óbvio que Ben gostava de estar com Logan e, melhor ainda, Beth tinha a sensação de que Logan gostava de estar com Ben. Em silêncio, Logan continuava a analisar o tabuleiro; colocou um dedo momentaneamente em cima do cavalo, mas pareceu ir decidir-se por um peão. Ben ergueu as sobrancelhas muito ligeiramente. Beth não saberia dizer se Ben considerava a jogada de Logan boa ou má, mas Logan avançou mesmo o peão.

Ben respondeu quase imediatamente, algo que lhe pareceu constituir um mau sinal para Logan. Uns minutos depois, Logan pareceu aperceber-se de que não tinha maneira de defender o rei. Abanou a cabeça.

- Apanhaste-me. ?

Ben confirmou. - Pois apanhei.

- Pensei que estava a jogar melhor.

- E estava - confirmou Ben.

Até?

- Até fazer a segunda jogada. ? Logan riu-se. - Humor de xadrezista?

- Temos muitos ditos deste género - explicou Ben, obviamente orgulhoso. Apontou para o tabuleiro. - Não está já muito escuro?

- Acho que sim. Zeus, estás preparado para a brincadeira?

O cão eriçou as orelhas e inclinou a cabeça para um lado. Quando Ben e Logan se levantaram, Zeus pôs-se de pé.

- Mamã, também vens?

Beth levantou-se da cadeira. - vou logo atrás de ti. Procuraram o caminho na escuridão da frente da casa. Beth parou no fundo da escada. - Talvez fosse melhor levar uma lanterna. Ben não aprovou a ideia. - Isso é batota!

- Não é para o cão. É para ti. Para não te perderes.

- Não vai perder-se - garantiu Logan. - O Zeus encontra-o.

- Fácil de dizer quando não se trata do nosso filho.

- Vai correr tudo bem comigo - acrescentou Ben.

A abanar a cabeça, Beth olhou alternadamente para Ben e para Logan. Não se sentia completamente à vontade, mas Logan não parecia nada preocupado. - Está bem - concordou Beth, respirando fundo. - Quero uma para mim, se não se importam.

- Muito bem - apoiou Ben. - O que é que faço?

- Esconde-te - sugeriu Logan. - E mandarei o Zeus à tua procura. - vou para onde eu quiser?

- Por que não vais esconder-te naquele lado? - aconselhou Logan, a apontar uma zona arborizada do lado ocidental do riacho, na ponta oposta do caminho de acesso em relação ao canil. - Não quero que caias acidentalmente no riacho. É que, além do mais, o teu cheiro perde-se. Lembra-te que estiveram ambos a brincar a isto antes do jantar. Agora, se ele te encontrar, limitas-te a segui-lo, está bem? Dessa forma, não te perderás.

Ben perscrutou o bosque. - Está bem. Como é que eu sei que ele não vê para onde eu vou?

- Levo-o lá para dentro e conto até 100 antes de o soltar.

- E não o deixa espreitar?

- Prometo - disse Logan e concentrou-se em Zeus. - Anda ordenou. Foi até à porta e abriu-a, mas parou. - Não faz mal que o deixe entrar?

Beth anuiu. - Esteja à vontade.

Logan mandou o cão entrar e deitar-se, para em seguida fechar a porta. - Muito bem, prepara-te.

Ben começou a correr em direcção ao bosque e Logan começou a contagem em voz alta. - Conte mais devagar! - bradou Ben por cima do ombro. A figura do garoto desapareceu gradualmente na escuridão e, ainda antes de chegar junto das árvores, já deixara de ser visto.

Beth cruzou os braços. - Devo dizer que nada disto me parece bem.

- Porquê?

- O meu filho escondido no bosque durante a noite? Meu Deus, aflige-me.

- Vai tudo correr bem. O Zeus encontra-o dentro de dois ou três minutos. No máximo.

- Tem uma confiança desmedida no seu cão.

Logan sorriu e, por momentos, ficaram no alpendre a apreciar a noite. O ar, morno e húmido, já sem o calor do dia, cheirava à própria terra: uma mistura de carvalho, pinheiro e terra, um odor que nunca deixava de recordar a Beth que, mesmo num mundo em constante mudança, aquele lugar parecia-lhe sempre igual.

Tinha consciência de que Logan a observara durante toda a noite, tentando não a olhar fixamente, e sabia que tinha feito o mesmo em relação a ele. Apercebeu-se de que gostava da maneira como Logan a fazia sentir-se. Agradava-lhe que ele a achasse atraente, mas apreciava que a atracção sentida por ele não possuísse qualquer da ansiedade e daquele desejo cru que muitas vezes detectava nos homens que a olhavam. Em vez disso, ele parecia contente só por estar junto dela e, por qualquer motivo, era exactamente aquilo de que ela necessitava.

- Estou contente por ter ficado para jantar - observou Beth, sem saber o que mais dizer. - O Ben está a divertir-se à grande.

- Também estou contente.

- Foi tão bom para ele depois do jantar. A jogar xadrez, quero dizer.

- Não é difícil.

- Não acha, pois não?

Thibault hesitou. - Está novamente a pensar no seu ex-marido?

Beth encostou-se a um esteio. - É assim tão evidente? Mas tem razão. Estou a falar do meu ex-marido. Do estúpido.

Ele encostou-se ao esteio do outro lado da escada, de frente para ela.- E?

- E só gostava que as coisas pudessem ser diferentes.

Nova hesitação, e ela sabia que ele ponderava se devia dizer mais alguma coisa. Acabou por não dizer.

- Não gostaria dele - sugeriu Beth. - Na verdade, penso que ele também não gostaria de si.

- Não?

- Não. E considere-se feliz. Não perde nada.

Ele encarou-a com um olhar firme, sem fazer comentários. Recordando a forma como ela se fechara antes, supôs. Afastou alguns cabelos que lhe tinham caído para os olhos, a avaliar se deveria continuar.

- Quer ouvir a história?

- Só o que me quiser dizer.

Beth sentiu que os pensamentos lhe deslizavam do presente para o passado.

- É a mais velha história do manual... Eu era uma aluna algo marginal a acabar o curso secundário, ele era uns anos mais velho do que eu, mas frequentávamos a mesma igreja desde sempre, por isso eu sabia exactamente quem ele era. Começámos a sair uns meses antes da minha graduação. Era de uma boa família, sempre namorara as raparigas mais populares e acho que me deixei prender por esse conjunto de fantasias. Passei por cima de problemas óbvios, arranjei desculpas para outros e, de um dia para o outro, descobri que estava grávida. De súbito, a minha vida passada... modificou-se simplesmente, percebe? Já não ia entrar na universidade naquele Outono, nem fazia ideia do que era ser mãe, quanto mais uma mãe solteira; não fazia ideia de como iria conseguir ser tudo aquilo. A última coisa que desejava era que ele me propusesse casamento. Mas, por qualquer razão, foi o que fez; e eu concordei e, mesmo que eu quisesse acreditar que tudo iria dar certo e desse o meu melhor para convencer a Nana de que sabia o que estava a fazer, penso que ambos sabíamos que cometêramos um erro, ainda antes de ter secado a tinta da certidão de casamento. Não tínhamos virtualmente nada em comum. De qualquer maneira, havia zangas frequentes e acabámos por nos separar depois de Ben ter nascido. E, então, senti-me verdadeiramente perdida.

Logan juntou as mãos. - Mas nada disso a fez parar.

- Parar de fazer o quê?

- De acabar por ir para a universidade e de ser professora. E de descobrir como ser mãe solteira - comentou. - De, fosse como fosse, resolver a situação.

Beth presenteou-o com um sorriso de gratidão. - com a ajuda da Nana.

Thibault cruzou uma perna por cima da outra, parecendo analisá-la, antes de sorrir. - Fosse como fosse, ultrapassou a situação. Algo marginal, então?

- Na escola secundária? É evidente que era uma verdadeira marginal.

- Difícil de acreditar.

- Acredite no que quiser.

- E a universidade, como correu?

- Por causa do Ben? Não foi fácil. Mas eu já dispunha de uns créditos, que me deram algum avanço inicial, e tive aulas no colégio comunitário enquanto Ben ainda usava fraldas. Ia às aulas apenas duas ou três vezes por semana, enquanto a Nana tomava conta do Ben; quando chegava a casa e tinha algumas folgas no papel de mãe, estudava. Sucedeu o mesmo quando fui transferida para a Universidade de Carolina do Sul, em Wilmington, suficientemente perto para frequentar as aulas e vir ficar a casa. Precisei de seis anos para conseguir a licenciatura e o certificado, mas não quis sobrecarregar a Nana e não quis que o meu ex-marido tivesse razões para exigir a tutela total. E, na altura, talvez ele estivesse disposto a tentá-la, só porque podia.

- Parece um ser fascinante... Ela sorriu. - Nem faz ideia.

- Quer que lhe dê uma tareia?

Beth soltou uma gargalhada. - Engraçado. Houve uma altura em que aproveitaria a oferta, mas agora já não. Ele é apenas... imaturo. Julga que qualquer mulher que encontre fica perdida por ele, zanga-se por ninharias e culpa os outros sempre que algo corre mal. Tem trinta e um anos e vai a caminho dos dezasseis, se percebe o que quero dizer - concluiu. Pelo canto do olho, viu Logan a observá-la. - Mas não falemos mais dele. Conte-me alguma coisa de si.

- Tal como?

- Qualquer coisa que eu não saiba. Por que se licenciou em Antropologia?

Ficou a reflectir sobre a questão. - A personalidade, acho eu.

- O que é que isso significa?

- Sabia que não queria estudar matérias práticas, como gestão ou engenharia e, no final do meu ano de caloiro, comecei a falar com alunos mais adiantados de humanidades. Os mais interessantes que encontrei foram os de antropologia. Julguei que fosse interessante.

- Está a brincar.

- Não estou. Pelo menos foi por isso que assisti às primeiras aulas de introdução. Depois, apercebi-me de que a Antropologia é uma mistura fantástica de história, conjectura e mistério, tudo coisas que me interessavam. Fiquei viciado.

- E quanto às festas?

- Não me interessaram.

JogOS de futebol?

- Não.

- Alguma vez sentiu que perdia oportunidades que a universidade lhe poderia proporcionar?

- Não.

- Eu também não - anuiu Beth. - Pelo menos nada melhor que a existência de Ben.

Thibault assentiu e apontou para o bosque. - Ora bem... não pensa que está na altura de o Zeus procurar o Ben?

- Oh, meu Deus! - exclamou Beth, ligeiramente assustada.

- Claro. Ele encontra-o, não é verdade? Quanto tempo já passou?

- Não muito. Talvez cinco minutos. vou buscar o Zeus. E não se preocupe. Não levará muito tempo.

Logan foi abrir a porta. Zeus trotou para fora, a sacudir a cauda e dirigiu-se para a escada. Imediatamente levantou uma perna ao lado do alpendre e depois voltou a subir a escada para junto de Logan.

- Onde está o Ben? - perguntou Logan.

Zeus arrebitou as orelhas. Logan apontou na direcção tomada por Ben. - Procura o Ben.

O cão voltou-se e começou a descrever grandes arcos, de nariz no chão. Dentro de segundos achou a pista e desapareceu na escuridão.

- Devemos ir atrás dele? - perguntou Beth.

- Se quiser.

- Quero.

- Então, vamos.

Mal tinham chegado às primeiras árvores quando ouviram o ladrar alegre de Zeus. E logo a seguir a voz de Ben, a gritar de contente. Quando ela se voltou para Logan ele deu de ombros.

- Não estava a mentir, pois não? Quanto tempo levou? Dois minutos?

- Não foi difícil para ele. Eu sabia que o Ben não poderia estar muito longe.

- Qual foi a maior pista alguma vez seguida por ele?

- Seguiu a pista de um veado durante, não sei bem, uns doze quilómetros. Mais quilómetro, menos quilómetro. Poderia ter continuado, mas teria de ultrapassar a cerca de uma propriedade. Foi no Tennessee.

- Por que seguia o veado?

- Para praticar. É um cão esperto. Gosta de aprender e de usar as suas capacidades - estava a explicar no momento em que Zeus emergiu de entre as árvores, com Ben um passo atrás dele. - Razão pela qual isto o regala tanto quanto diverte o Ben.

- Foi espantoso! - gritou Ben. - Veio direitinho a mim. Eu estava bem caladinho!

- Queres repetir? - perguntou Logan.

- Posso? - implorou Ben.

- Se a mamã concordar.

Ben voltou-se para a mãe e esta ergueu as mãos. - Avança!

- Muito bem, feche-o outra vez dentro de casa. E desta vez vou esconder-me a sério - garantiu Ben.

- Isso é contigo.

Da segunda vez que Ben se escondeu, o cão encontrou-o numa árvore. Na terceira, com Ben a voltar pelo mesmo caminho para desorientar o animal, Zeus encontrou-o a uns 400 metros de distância, na sua casa da árvore na margem do riacho. Ben não estava entusiasmado com a sua última escolha; a ponte instável pareceu-lhe bastante mais perigosa à noite mas, na altura, começava a ficar cansado e quase pronto a desistir.

Logan seguiu-os de regresso a casa. Depois de dar as boas-noites a Ben, voltou-se para Beth e pigarreou: - Quero agradecer-lhe este serão fantástico, mas acho melhor ir indo para casa - concluiu.

Apesar de serem quase dez horas, Beth preferiria que ele ficasse mais um pouco.

- Quer que lhe dê boleia? - ofereceu. - O Ben estará a dormir dentro de poucos minutos e não tenho problemas para o levar a casa.

- Obrigado pela oferta, mas não é preciso. Gosto de andar.

- Eu sei. Não sei muito acerca de si, mas disso não tenho dúvidas - comentou, a sorrir. - Nesse caso, até amanhã, não é?

- Estarei cá às sete.

- Se quiser vir um pouco mais tarde, poderei dar a comida aos cães.

- Não é necessário. Além disso, gostarei de ver o Ben antes de ele sair. E tenho a certeza de que o Zeus também gostará. O pobre do cão talvez nem saiba o que há-de fazer sem ter o Ben a correr atrás dele.

Beth apertou os braços, subitamente desapontada com a ideia da partida de Logan. - Muito bem, então...

- Não se opõe a que eu amanhã leve a carrinha? Preciso de ir à cidade comprar umas peças para afinar os travões. Se houver problemas posso ir a pé.

Beth sorriu. - Pois pode, eu sei. Mas não há problema. Tenho de ir deixar o Ben e fazer umas compras mas, se não nos virmos, deixo as chaves debaixo do tapete do lado do condutor.

- Óptimo - rematou, olhando directamente para ela. - Boa noite, Elizabeth.

- Boa noite, Logan.

Depois de ele ter partido, Beth foi ver como estava o filho e deu-lhe mais um beijo na bochecha, antes de ir para o seu quarto. Recordou o serão e despiu-se, a meditar sobre um mistério chamado Logan Thibault.

Era diferente de qualquer dos homens que conhecera, pensou, e, de imediato, repreendeu-se por ser tão pouco imaginativa. Era claro que era diferente, disse para si mesma. Conhecia-o havia pouco tempo. Nunca passara muito tempo com ele. Ainda assim, julgou ter maturidade suficiente para reconhecer a verdade quando a encontrasse.

Logan era diferente. Deus sabia que Keith não era em absoluto como ele. Nem, na realidade, qualquer homem que ela tivesse namorado depois do divórcio. Na sua maioria, tinham sido homens bastante fáceis de compreender; delicados e encantadores, ou brutos e pouco educados que fossem, todos os seus actos revelavam de forma transparente o desejo de a levar para a cama. «Porcaria de homens», segundo a descrição de Nana. E a avó, como Beth sabia, não estava enganada.

Porém, com Logan... bom, a dificuldade era essa. Não fazia ideia daquilo que ele queria dela. Sabia que a considerava atraente e parecia apreciar a companhia dela. Mas, para além disso, não fazia a mais pequena ideia de quais poderiam ser as intenções dele, pois apreciava igualmente a presença de Ben. De certa maneira, Logan tratava-a como um certo número de homens casados que conhecia: és bonita e interessante, mas já sou comprometido.

Ocorreu-lhe, portanto, que talvez fosse comprometido. Provavelmente haveria uma namorada no Colorado, ou talvez tivesse apenas acabado de romper com o amor da sua vida e se encontrasse ainda em período de ressaca. Voltando atrás, apercebeu-se de que, embora ele descrevesse as coisas que vira e fizera durante a viagem pelo país, continuava a não fazer a mínima ideia dos motivos que o haviam levado, em primeiro lugar, a empreender a caminhada, em segundo, a terminá-la em Hampton. A história não era assim tão misteriosa, tinha apenas pontos obscuros, o que era estranho. Uma coisa aprendera acerca dos homens: gostam de falar de si próprios, dos empregos, dos passatempos, dos feitos passados, das motivações. Logan não falara de nada disso. Incompreensível.

Abanou a cabeça, a pensar que talvez estivesse apenas a divagar. Não tinham ido jantar fora, não fora um namoro. Revelara-se mais uma reunião amistosa: tacos, xadrez e conversa. Um serão em família.

Vestiu o pijama e tirou uma revista da mesinha de cabeceira. Folheou-a com ar ausente, antes de apagar as luzes. Contudo, depois de fechar os olhos, continuou a ver a maneira como os cantos da boca dele se erguiam ligeiramente sempre que Beth dizia qualquer coisa que ele julgasse engraçada ou a maneira como as sobrancelhas dele se uniam quando se concentrava numa tarefa. Passou muito tempo às voltas na cama, incapaz de dormir, a tentar imaginar que talvez, apenas talvez, Logan estivesse também a pensar nela.

 

                   THIBAULT

Thibault ficou a observar Victor lançar a sua linha nas águas frias do Minnesota. Era uma manhã de sábado, sem nuvens. O ar estava calmo, o lago espelhava o céu imaculado. Tinham partido cedo para o lago, pretendendo pescar antes da chegada da multidão com os seus esquis aquáticos e barcos a motor. Gozavam o último dia de férias; tinham voos marcados para o dia seguinte. Para a última noite, tinham pensado jantar numa churrasqueira local, que sabiam ser a melhor da cidade.

- Penso que conseguirás encontrar esta mulher - anunciou Victor à laia de preâmbulo.

- Quem? - perguntou Thibault, que estava a enrolar a sua própria linha.

- A mulher da foto, a que te dá sorte.

Thibault encarou o amigo de olhos semicerrados. - De que é que estás a falar?

- Quando a procurares, acho que acabarás por a encontrar.

- Não vou à procura dela - retorquiu Thibault a inspeccionar cuidadosamente o anzol e a lançar de novo.

- É o que dizes agora. Mas vais.

Thibault abanou a cabeça. - Não, não vou. E, mesmo que quisesse procurá-la, não saberia como.

Victor parecia sentir-se orgulhoso da sua certeza. - Hás-de encontrar uma maneira.

- Para começar, por que é que estás a falar disso? - perguntou Thibault, a olhar o amigo de frente.

- Porque - sentenciou Victor - ainda não acabou.

- Acabou, acredita.

- Sei que pensas assim. Mas estás enganado.

Há muito que Thibault aprendera que, uma vez lançado numa discussão, Victor continuaria a argumentar até se sentir satisfeito por ter exposto todas as suas opiniões. Como não era assim que queria passar o seu último dia de férias, Thibault pensou acabar com a questão de uma vez por todas.

Respirou fundo. - Ora bem, por que é que não acabou? Victor deu de ombros. - Porque não existe equilíbrio.

- Não existe equilíbrio - repetiu Thibault em voz neutra. - Pois - corroborou Victor. - Exactamente. Estás a ver? - Não.

Victor resmungou com a burrice do amigo. - Digamos que contratas alguém para construir um telhado na tua casa. O homem trabalha bem e, no final, é pago. Só no final da obra. Mas, neste caso, com a fotografia, é como se o telhado tivesse sido colocado mas não fosse pago. Até que o pagamento seja efectuado, tudo está em desequilíbrio.

- Estás a dizer que eu devo alguma coisa àquela mulher? - respondeu a voz céptica de Thibault.

- Estou. A fotografia manteve-te em segurança e trouxe-te sorte. Mas o caso só termina quando o pagamento for feito.

Thibault abriu a geladeira e tirou um refrigerante. Também tirou um para Victor. - Não percebes que estás a ser tolo?

Victor aceitou a lata com um aceno. - Para alguns, talvez. Mas acabarás por ir à procura dela. Tudo isto obedece a um desígnio superior. É o teu destino.

- O meu destino. - Exactamente.

- E isso quer dizer o quê?

- Não sei. Mas saberás quando lá chegares.

Thibault permaneceu calado, a desejar que Victor nunca tivesse falado do assunto. Em silêncio, Victor ficou a observar o amigo.

- Victor, não estou apaixonado por ela.

- Não?

- Não. - E, no entanto, pensas nela com frequência - comentou Victor.

A isto, Thibault não respondeu, pois não encontrou o que quer que fosse para dizer.

Na manhã de domingo, Thibault chegou cedo e começou logo a trabalhar nas jaulas, a distribuir comida, a limpar e a treinar os cães como habitualmente. Enquanto ele trabalhava, Ben foi brincando com Zeus, até que Elizabeth o chamou a anunciar que eram horas de se preparar para sair. Acenou-lhe do alpendre, mas, mesmo de longe, Thibault notou-lhe o ar absorto.

Beth voltara para casa quando ele tirou os cães das jaulas; habitualmente passeava-os em grupos de três, com Zeus sempre atrás de si. Depois de se afastar da casa, soltava os cães das trelas, mas eles tendiam a segui-lo em qualquer direcção que ele decidisse tomar. Gostava de variar de caminho; a diversidade evitava que os cães se afastassem demasiado. Como as pessoas, os cães aborrecem-se se têm de fazer o mesmo dia após dia. Era costume que os passeios durassem cerca de meia hora por grupo. Depois do terceiro grupo, notou que o carro de Elizabeth já lá não estava e partiu do princípio de que fora levar Ben a casa do pai.

Não gostava do pai do garoto, principalmente por Ben e Elizabeth não gostarem dele. O homem parecia-lhe má rês, mas no lugar dele não podia fazer muito mais do que ouvir quando Elizabeth decidia falar do ex-marido. Não sabia o suficiente para dar qualquer conselho, e mesmo que soubesse, ela não lho pedira. Fosse como fosse, não eram contas do seu rosário.

Todavia, ele tinha a ver com o quê? Que estava ele ali a fazer? Mesmo sem querer, veio-lhe à memória a conversa com Victor, o que o amigo lhe dissera naquela manhã, no lago. E, claro, do que acontecera depois.

Forçou-se a pensar noutra coisa. Não ia voltar à questão. Outra vez, não.

Chamando os cães, Thibault girou sobre os calcanhares e regressou ao canil. Depois de guardar os cães, foi explorar o barracão que servia de armazém. Ao ligar as luzes, olhou as paredes com ar de espanto. O avô de Elizabeth não tinha apenas algumas ferramentas, aquele lugar parecia um estabelecimento de vendas repleto. Vadiou por ali, a observar as prateleiras e as pilhas de coisas que havia em cima da bancada de trabalho. Acabou por pegar numa chave com roquete, numas chaves de bocas e num macaco, levando tudo para a carrinha. Como Elizabeth prometera, as chaves estavam debaixo do tapete. Thibault conduziu a carrinha para sair do caminho de acesso e dirigiu-se para a loja de sobressalentes que se lembrava vagamente de ter visto na baixa.

Encontrou os sobressalentes: pastilhas, molas e massa para altas temperaturas. Estava de regresso em menos de meia hora. Colocou o macaco no lugar próprio e levantou a carrinha; em seguida, retirou a primeira roda. Apertou o pistão com a mola, removeu as pastilhas velhas, verificou se o disco estava em boas condições, colocou as pastilhas novas e montou a roda, repetindo o processo com as três rodas restantes.

Estava a acabar o terceiro travão quando ouviu o carro de Elizabeth, que parou junto da velha carrinha. Olhou pelo canto do olho no momento em que ela saía, só então se apercebendo de que ela andara horas por fora.

- Como é que isso vai? - perguntou Elizabeth. - Está quase pronto.

Pareceu espantada. - A sério?

- São apenas as pastilhas de travão, nada de importante.

- Estou certa de que um cirurgião diria o mesmo. É apenas um apêndice.

- Quer aprender? - perguntou Thibault, a olhar a silhueta dela tendo o céu como fundo.

- Quanto tempo demora?

Ele encolheu os ombros. - Não muito. Dez minutos.

- A sério? - repetiu. - Está bem, deixe-me só levar as mercearias para dentro.

- Precisa de ajuda?

- Não, são apenas dois sacos.

Montou a terceira roda e apertou as porcas, antes de passar para a última roda. Desapertou ligeiramente as porcas quando Elizabeth chegou junto dele. Quando ela se agachou ao lado dele, Thibault notou um odor a loção de coco aplicada de manhã cedo.

- Primeiro, tira-se a roda... - começou e, metodicamente, repetiu todo o processo, assegurando-se de que ela percebia cada um dos passos. Quando ele baixou o macaco e começou a recolher as ferramentas, Elizabeth abanou a cabeça.

- Até pareceu demasiado fácil. Acho que até eu podia fazer isto. - Provavelmente.

- Então, por que razão apresentam aquelas facturas? - Não sei.

- Estou na profissão errada - comentou ela, pondo-se de pé e juntando o cabelo num rabo-de-cavalo pouco apertado. - Mas obrigada pela reparação. Há muito que queria ver a carrinha arranjada.

- Não houve qualquer problema.

- Tem fome? Comprei peru acabado de cozinhar para sanduíches. E também pickles.

-Parece delicioso - rematou Thibault. Almoçaram no alpendre das traseiras, por cima do jardim. Elizabeth continuava a parecer ausente, mas conversaram um pouco sobre o que significava crescer numa pequena vila do Sul, onde todos sabiam tudo acerca de toda a gente. Algumas das histórias eram divertidas, mas Thibault reconheceu que preferia uma existência mais anónima.

- Por que é que isso não me surpreende? - indagou Elizabeth.

A seguir, Thibault regressou ao trabalho, enquanto Elizabeth passou a tarde nas limpezas da casa. Ao contrário do avô dela, Thibault conseguira abrir a janela do escritório, a que tinha sido pintada fechada, embora a tarefa se revelasse mais difícil do que a reparação dos travões. Nem ficou mais fácil de abrir e fechar, por mais lixa que ele usasse. A seguir, pintou o aro.

Tirando isto, tratou-se de um dia normal de trabalho. Findo o trabalho nos canis, eram quase cinco horas e, embora pudesse dar o dia por terminado, recomeçou o trabalho com as fichas, querendo obter algum avanço sobre o que considerava ser um fatigante dia seguinte. Instalou-se para trabalhar mais umas horas, a fazer o que considerava mais urgente. Quem poderia dizer o que era prioritário? Não viu Elizabeth aproximar-se. Em vez disso, reparou que Zeus se levantara e se dirigira para junto da porta.

- Estou surpreendida por ainda o encontrar aqui - disse ela, sem passar da porta. - Vi a luz e pensei que se esquecera de a apagar.

- Nunca me esqueço.

Elizabeth apontou para a pilha de fichas em cima da secretária.

- Nem consigo dizer quanto estou satisfeita por vê-lo a fazer isso. Durante o Verão, a Nana tentou convencer-me a organizar os ficheiros, mas eu era uma adepta fervorosa da ideia de os pôr de parte.

- Por sorte minha - resmungou Thibault.

- Não, minha. Quase sinto remorsos por não o ter feito.

- Talvez acreditasse em si, se não fosse esse sorriso afectado. Já teve notícias do Ben ou da Nana?

- De ambos. A Nana sente-se óptima, o Ben está na fossa. Não que falasse muito. Notava-se-lhe na voz.

- Uma pena! - comentou, sensibilizado.

Elizabeth respondeu com um tenso encolher de ombros, antes de levar a mão ao puxador da porta. Rodou-o em ambas as direcções, parecendo interessada no mecanismo. Finalmente, deixou escapar um suspiro. - Quer ajudar-me a fazer gelado?

Thibault pousou a ficha que tinha entre mãos. - Perdão?

- Adoro gelado caseiro. Não há nada melhor quando está calor, mas não tem piada fazê-lo sem ter com quem o partilhar.

- Não sei se alguma vez comi gelado caseiro...

- Então, não sabe o que perdeu. Alinha?

O entusiasmo infantil dela era contagioso. - Pronto, alinho - concordou. - Deve ter a sua piada.

- Deixe-me ir ao supermercado buscar o que é necessário. Volto dentro de uns minutos.

-- Não seria mais fácil comprar gelado já feito?

Os olhos dela brilharam de prazer. - Mas não é o mesmo. Você verá. Volto dentro de uns minutos, está bem?

E cumpriu a palavra. Thibault só teve tempo para arrumar a secretária, ir mais uma vez verificar como estavam os cães e vê-la aparecer no caminho de acesso, já vinda do supermercado. Encontraram-se quando ela saiu do carro.

- Importa-se de trazer o saco de gelo moído? - pediu Elizabeth.

- Está no banco traseiro.

Seguiu-a até à cozinha a transportar o saco de gelo; ela apontou para o frigorífico depois de pôr o gelo em cima da bancada e de o dividir em duas partes mais ou menos iguais.

- Pode ir buscar o misturador de gelados? Está na despensa. Prateleira de cima, do lado esquerdo.

Thibault emergiu da despensa com um misturador manual de gelados, que parecia ter pelo menos cinquenta anos. - É isto?

- É isso mesmo.

- Esta coisa ainda funcionará? - perguntou Thibault mostrando-se incrédulo.

- Perfeitamente. Espantoso, não é? Nana recebeu-o como prenda de casamento, mas continuamos a usá-lo. Faz gelados deliciosos.

Thibault colocou o utensílio na bancada e ficou ao lado dela.

- O que é que posso fazer?

- Se concordar, dê à manivela, enquanto eu faço a mistura. - Parece-me justo.

Elizabeth mergulhou um misturador eléctrico numa tigela, juntamente com uma chávena de medida. Do armário das especiarias tirou açúcar, farinha e extracto de baunilha. Acrescentou três chávenas de açúcar e uma chávena de farinha, que misturou à mão, para depois pôr a tigela no misturador. A seguir, partiu três ovos lá para dentro e três colheres de chá de extracto de baunilha e ligou o misturador. Finalmente, despejou e juntou um pouco de leite e meteu toda a mistura na vasilha do gelado, que pôs no misturador, rodeando-a de gelo moído e sal.

- Estamos prontos - anunciou, entregando-lhe a vasilha. Pegou no resto do gelo moído e no sal grosso. - Vamos para o alpendre. Tem de ser feito no alpendre, ou não ficará igual.

- Ah! - foi o único comentário dele.

Elizabeth sentou-se ao lado dele na escada do alpendre, mas um pouco mais perto do que no dia anterior. Segurando a vasilha entre os pés, Thibault começou a rodar a manivela, surpreendido com a facilidade da operação.

- Obrigado por me fazer isso - agradeceu ela. - Preciso mesmo do gelado. Tem sido um daqueles dias.

- Ah, sim?

Elizabeth voltou-se para ele, com um sorriso matreiro nos lábios:

- É muito bom nisso.

- Em quê?

- A dizer «Ah, sim?», quando alguém faz um comentário. E suficiente para levar a outra pessoa a continuar a falar sem se mostrar demasiado pessoal ou curioso.

- Ah, sim?

Ela sorriu e imitou-o. - A verdade, porém, é que a maioria das pessoas teria perguntado algo do género «O que aconteceu?» ou «Porquê?».

- Muito bem. O que é que aconteceu? Por que motivo foi um daqueles dias?

Emitiu um som de desgosto. - Oh, o Ben mostrou-se verdadeiramente irritado ao arranjar as suas coisas e eu acabei por lhe ralhar por ele estar a levar tanto tempo; para se apressar. O pai não costuma apreciar os atrasos dele, mas hoje? Bem, hoje, agiu como se não soubesse da vinda do filho. Devo ter batido durante uns dois minutos antes de ele aparecer e posso assegurar que acabara de sair da cama. Tivesse eu sabido que ele estava a dormir, não teria sido tão dura com o Ben; ainda sinto remorsos por isso. E, claro, ao arrancar, ainda vi o Ben a ir despejar o lixo, pois o paizinho é demasiado preguiçoso para fazer coisas dessas. E depois, como seria de esperar, passei o dia todo em limpezas, o que nem foi mau durante o primeiro par de horas. Contudo, no final, precisava realmente de um gelado.

- Não me parece que tenha sido um sábado relaxante...

- Não foi - murmurou, vendo-se que estava a pensar se deveria dizer mais qualquer coisa. Havia mais, mais qualquer coisa a perturbá-la; respirou fundo e depois suspirou. - Hoje seria o dia de aniversário do meu irmão - esclareceu, com um ligeiro tremor na voz. - Fui ao cemitério pôr flores, depois de deixar o Ben em casa do pai.

Thibault sentiu um nó na garganta ao recordar a fotografia por cima da lareira. Embora suspeitasse de que o irmão morrera, era a primeira vez que Nana ou Elizabeth o confirmavam. Percebeu de imediato o motivo de ela não querer ficar sozinha naquela noite.

- Tenho muita pena - disse, constrangido.

- Também eu. Você teria gostado dele. Toda a gente gostava dele.

- Certamente que sim.

Elizabeth torceu as mãos. - Nem passou pela cabeça da Nana. À tarde não deixou de se lembrar e telefonou-me para dizer quanto sentia não estar aqui comigo. Estava praticamente a chorar, mas eu disse-lhe que não tinha importância. Não se passou nada de importante.

- Foi importante. Trata-se do seu irmão e sente a falta dele. Um sorriso melancólico perpassou rapidamente pelo rosto dela.

- Você lembra-me o meu irmão - observou em voz baixa. - Não tanto pelo aspecto, mas pelos maneirismos. Notei isso da primeira vez que entrou no escritório a candidatar-se ao emprego. Pareceram-me feitos no mesmo molde. Acho que terá alguma coisa a ver com os fuzileiros, não?

- É possível - respondeu Thibault. - Conheci marines de todos os géneros.

- Calculo que sim - anuiu. Calou-se, dobrou-se, encostou o peito aos joelhos, que envolveu com os braços. - Gostou daquilo? De estar nos marines?

- Por vezes.

- Mas nem sempre?

- Não.

- Drake adorou. Na verdade, adorou tudo aquilo - recordou. Embora parecesse hipnotizada pelo movimento da manivela, Thibault reconheceu que ela se perdera por entre as suas memórias. - Lembro-me do início da invasão. com Camp Lejeune a menos de uma hora daqui, a notícia correu depressa. Tive medo por causa dele, especialmente ao ouvir falar de armas químicas e de ataques suicidas, mas quer saber aquilo que mais o preocupou? Antes da invasão, quero dizer?

- O que foi?

- Uma fotografia. Uma estúpida fotografia antiga. Dá para acreditar?

As palavras inesperadas fizeram o coração de Thibault bater mais depressa, mas esforçou-se por manter uma aparência calma.

- Tirou a fotografia quando fomos à feira daquele ano - prosseguiu. - Era o último fim-de-semana que passávamos juntos antes de ele se alistar e, depois de fazermos o que era habitual, desejávamos ficar sós. Lembro-me de estar sentada com ele junto do pinheiro gigante e de conversarmos durante horas, enquanto observávamos a grande roda. Era das maiores, toda iluminada, e ouvíamos os gritos das crianças enquanto ela rodava, uma e outra vez, sob um céu perfeito. Falámos da mamã e do papá, e tentámos imaginar como teria sido a nossa vida se eles tivessem chegado à idade dos cabelos grisalhos, ou se teríamos permanecido em Hampton ou ido para qualquer outra parte; e lembro-me de ter olhado para o céu. De súbito, passou uma estrela cadente e apenas consegui pensar que eles se encontravam a ouvir-nos, algures.

Fez uma pausa, perdida nas recordações, antes de prosseguir:

- Encaixilhou a fotografia e guardou-a durante toda a recruta. Depois de ir para o Iraque, mandou-me um e-mail a dizer que a tinha perdido e pediu-me se podia mandar-lhe outra. Pareceu-me uma tontice, e como não sabia pelo que ele estava a passar, prometi enviar-lha. Porém, não decidi fazê-lo imediatamente. Parecia-me ter um qualquer bloqueio mental contra o envio da fotografia. Pusera o disco na mala mas, sempre que passava pela loja, esquecia-me de mandar fazer a cópia. E, antes que eu o soubesse, a invasão começara. Finalmente, enviei-a, mas a carta acabou por ser devolvida sem ser aberta. Drake morreu durante a primeira semana da invasão.

Elizabeth olhou-o por cima dos joelhos. - Cinco dias. Foi o tempo que ele durou. E nunca lhe dei a única coisa que me pediu. Percebe o que isso me faz sentir?

Thibault sentia-se agoniado. - Não sei o que dizer.

- Não pode dizer seja o que for - retorquiu ela. - Trata-se de uma daquelas situações terríveis, demasiado tristes. E agora... hoje, não deixo de pensar que ele está a ser esquecido. Nana não se lembrou, Ben também não. Quanto a Ben, não me custa tanto a entender. Ainda não fizera cinco anos quando Drake foi morto e sabemos como são as memórias dessa idade. Só permanecem pedaços. Mas Drake era tão bom com ele porque gostava mesmo de estar com o garoto - acrescentou. Encolheu os ombros. - Do género do que se passa consigo.

Thibault gostaria que ela não tivesse dito aquilo. Não pertencia àquele lugar...

- Não quis contratá-lo - prosseguiu, sem reparar na perturbação dele. - Sabia disso?

- Sabia.

- Mas não foi por ter vindo a pé desde o Colorado. Em parte por isso, mas principalmente por ter estado nos marines.

Ele assentiu e, no silêncio que se seguiu, Elizabeth pegou no agitador de gelados. - É provável que precise de mais gelo - sugeriu. Abriu a tampa, acrescentou mais gelo e devolveu-lhe o utensílio.

- Por que razão está aqui? - acabou por perguntar.

Embora entendesse o sentido da pergunta, fingiu que não. Porque me pediu para ficar.

- Estou a perguntar por que está aqui, em Hampton? E desta vez quero a verdade.

Ele lutou para encontrar a explicação certa. - Pareceu-me um lugar agradável e, até agora, tem sido.

Pela expressão dela, percebia que Elizabeth sabia que tinha de haver outras razões. Ela esperou. - Tem algo a ver com a sua estada no Iraque, não é verdade?

O silêncio denunciou-o.

- Quanto tempo é que lá esteve?

Ele mexeu-se no assento, não querendo falar do assunto mas sabendo que não o podia evitar. - Em qual das comissões? ?- Quantas vezes esteve lá?

- Três.

- Assistiu a muitos combates?

- com efeito.

- Mas safou-se.

- Pois safei.

Os lábios dela cerraram-se, subitamente ficou à beira das lágrimas.

- Porquê você e não o meu irmão?

Rodou a manivela quatro vezes, antes de responder: - Não sei.

Quando Elizabeth se pôs de pé para ir buscar as tigelas para o gelado, Thibault teve de se esforçar para não chamar Zeus e sair dali, naquele preciso momento, e regressar ao Colorado.

Não conseguia deixar de pensar na fotografia que trazia, no bolso, a que Drake tinha perdido. Thibault encontrara-a, Drake morrera, e ele agora estava ali, na casa onde Drake crescera, a conversar com a irmã que ele deixara para trás.

Tudo aparentemente improvável mas, enquanto combatia a súbita secura da boca, concentrava-se nas coisas concretas. A fotografia era apenas isso: uma fotografia que Drake tirara à irmã. Os encantamentos não existiam. Thibault sobrevivera à guerra do Iraque, mas acontecera o mesmo à grande maioria dos fuzileiros navais que lá combatera. Na verdade, acontecera o mesmo à maioria dos camaradas do seu pelotão, Victor incluído. Mas morreram alguns, Drake fora um deles e, embora a morte fosse trágica, não tivera nada a ver com a fotografia. Estavam em guerra. Quanto a ele, estava ali por ter tomado a decisão de procurar a mulher da fotografia. Não havia qualquer relação com o destino ou com magias.

«E, contudo, ele procurara-a por causa do que Victor dissera...»

Pestanejou e recordou-se de que não acreditara em nada do que Victor dissera.

A crença de Victor era mera superstição. Não podia ser verdade. Pelo menos, não representava toda a verdade.

Zeus pareceu perceber a luta interior dele, levantou a cabeça e ficou a olhá-lo. De orelhas arrebitadas, latiu baixinho e foi até à escada para lamber a mão de Thibault. Este ergueu a cabeça do cão, que lhe encostou o focinho à cara.

- O que é que eu estou a fazer aqui? - sussurrou Thibault. - Por que é que vim?

Enquanto esperava uma resposta que nunca chegaria, ouviu a porta de rede bater atrás de si.

- Está a falar consigo mesmo ou com o cão? - inquiriu Elizabeth.

- com ambos - foi a resposta.

Ela sentou ao lado dele e passou-lhe uma colher. - O que é que estava a dizer?

- Nada de importante - mentiu. Mandou que Zeus se deitasse e o cão encolheu-se no degrau, numa tentativa de ficar perto dos dois.

Elizabeth abriu o misturador de gelado e tirou algum para cada uma das tigelas. - Espero que goste - observou ao entregar-lhe uma das tigelas.

Mergulhou a colher, provou e depois voltou-se para ele, com ar franco. - Peço desculpa.

- Por quê?

- Pelo que disse há pouco... Quando perguntei por que se salvou e o meu irmão não o conseguiu.

- É uma pergunta pertinente - anuiu Thibault, a sentir o desconforto do olhar dela.

- Não, não é. E fiz asneira ao perguntar-lhe. Por isso, peço perdão.

- Não tem de quê.

Elizabeth engoliu mais uma colherada, antes de prosseguir. - Recorda-se de eu lhe dizer que não o queria a trabalhar aqui por ter estado nos fuzileiros?

Ele assentiu.

- É provável que não entendesse as minhas razões. Não foi por me recordar o Drake. Foi por causa da forma como o Drake morreu - explicou, a bater com a colher na tigela. - Drake foi atingido por fogo amigo.

Thibault virou a cabeça e ela continuou.

- Como é evidente, não soube disso na altura. Continuávamos a ouvir evasivas: «As investigações continuam» ou «Estamos a analisar a questão», desculpas do género. Levámos meses para saber como ele morreu e, mesmo depois, nunca soubemos quem foi o responsável.

Elizabeth procurou as palavras exactas. - É que... não nos parecia justo, percebe? Isto é, sei que se tratou de um acidente, sei que quem provocou o acidente não quis matá-lo, mas se acontecesse um episódio semelhante aqui, nos EUA, alguém seria acusado de homicídio por negligência. Porém, como aconteceu no Iraque, ninguém quer que se saiba a verdade. E nunca se saberá.

- Por que me conta tudo isso? - perguntou Thibault com voz calma.

- Porque foi essa verdadeira razão para eu não querer contratá-lo. Depois de saber o que se passou, sempre que via um fuzileiro pensava se ele não seria o mesmo que matara Drake. Ou um dos que estava a tentar encobrir quem o matara. Sei que não estava a ser justa, sei que lavrava num erro, mas era mais forte do que eu. E, passado algum tempo, a raiva que sentia pareceu começar a fazer parte de mim, pareceu-me que seria a única maneira de poder aguentar o desgosto. Não gostava da pessoa em que me transformara, mas continuava presa neste ciclo horrível de dúvidas e de culpas. E de repente, como que caído do céu, você entra no escritório a pedir emprego. E Nana, mesmo sabendo exactamente o que eu pensava, ou talvez por causa daquilo que eu pensava, decidiu admiti-lo.

Pôs a tigela de lado. - Esta foi a razão por que não tive muito a dizer-lhe durante as duas primeiras semanas. Calculei que não precisaria de dizer fosse o que fosse, pois o mais certo era você despedir-se poucos dias depois, como sucedeu com os outros. Mas não aconteceu. Em vez disso, resolveu trabalhar muito e permanecer até tarde, na opinião da Nana é maravilhoso e na do meu filho... e, de repente, você tem tanto de fuzileiro como de homem - reflectiu, fazendo uma pausa, até lhe dar uma joelhada amigável. - E não só, é um homem que permite que uma mulher continue a tagarelar sem lhe pedir que se cale.

Thibault retribuiu a joelhada para mostrar que estava tudo bem.

- É o aniversário de Drake?

- É - respondeu Elizabeth, levantando a tigela. - Ao meu irmãozinho Drake - saudou.

Thibault tocou a tigela dela com a sua e correspondeu: - Ao Drake!

Zeus latiu e ergueu a cabeça ansiosamente para eles. Apesar da tensão, Thibault estendeu a mão e acariciou-lhe o pêlo. - Tu não precisas de erguer a tigela. Trata-se de uma homenagem ao Drake.

Confuso, o cão inclinou a cabeça para um lado e Elizabeth riu-se.

- Blá, blá, blá. Ele não percebe uma única das minhas palavras.

- É verdade, mas conseguiu notar que estava preocupada. Foi por isso que ficou por perto.

- É realmente espantoso. Penso que nunca encontrei um cão tão intuitivo e mais bem treinado. Nana diz o mesmo e, acredite, na boca dela quer dizer muito.

- Obrigado. Tem boa ascendência.

- Ora bem, chegou a sua vez de falar. Sabe praticamente tudo o que há a saber a meu respeito.

- O que é que pretende saber?

Elizabeth pegou na tigela e serviu-se de mais gelado, antes de perguntar. - Alguma vez esteve apaixonado?

Ao vê-lo erguer as sobrancelhas dado o ar descuidado com que a pergunta foi feita, fez um gesto a desculpar-se. - Não pense que estou a intrometer-me demasiado na sua privacidade. Não, depois de tudo o que lhe contei. Confesse-se.

- Uma vez - admitiu Thibault.

- Recentemente?

- Não, há anos. Quando andava na universidade.

- Como era ela?

Ele pareceu procurar a descrição adequada. - Ligada à terra sugeriu.

Nenhum comentário, mas a expressão dela mostrava que queria saber mais.

Thibault continuou. - Muito bem. Andava nos últimos anos e preferia sandálias e saias de camponesa. Desdenhava da maquilhagem. Escrevia artigos de opinião para o jornal dos estudantes e defendia as causas de praticamente todos os grupos sociológicos, excepto os dos homens brancos e os dos ricos. Ah, e também era vegetariana.

Elizabeth observou-o. - Por qualquer razão, não consigo vê-lo com alguém assim,

- Nem eu. E ela também não conseguia. Pelo menos a longo prazo. Contudo, durante algum tempo, foi surpreendentemente fácil ultrapassar as óbvias diferenças entre nós. Conseguimos.

- Quanto tempo durou?

- Pouco mais de um ano. ?- Voltou a ouvir falar dela?

Thibault abanou a cabeça. - Nunca. - t« -

E é tudo?

- Para além de umas paixonetas da escola secundária, é evidente. No entanto, não se esqueça de que os meus últimos cinco anos não foram propícios a iniciar novas relações.

- Não. Suponho que não.

Zeus levantou-se e dirigiu-se para o caminho de acesso à casa, de orelhas arrebitadas. Alerta. Instantes depois, Thibault ouviu o som fraco de um motor de automóvel e, lá longe, uma luz intensa e dispersa a faiscar entre as árvores, para depois se tornar mais estreita. Alguém deixara a estrada e entrara no desvio para a casa. Elizabeth franziu a testa, confusa, antes de um carro dobrar lentamente a esquina, dirigindo-se para a casa. Mesmo que as luzes da casa não iluminassem o caminho de acesso, Thibault reconheceu o carro e sentou-se mais direito. Era o xerife ou algum dos seus ajudantes.

Elizabeth também o reconheceu. - Isto não traz nada de bom

- murmurou.

- O que é que pensa que eles querem?

Ela pôs-se de pé e ficou no alpendre. - Não se trata deles. E ele. O meu ex-marido - esclareceu e começou a descer a escada e a dirigir-se para ele. - Espere aqui. Consigo lidar com isto.

Thibault mandou que Zeus se sentasse quando o carro parou ao lado do de Elizabeth, do outro lado da casa. Através dos arbustos, viu abrir-se a porta do passageiro e Ben sair, a arrastar a mochila atrás dele. Começou a caminhar para a mãe, mantendo os olhos no chão. Quando a porta do condutor se abriu saiu de lá o ajudante Keith Clayton.

Zeus rosnou baixinho, alerta e pronto, à espera da ordem de Thibault para filar o homem. Elizabeth olhou o cão surpreendida, até que Ben chegou à zona iluminada. Ao mesmo tempo que ela, Thibault reparou na falta dos óculos de Ben e nas manchas negras e azuladas à volta de um olho do garoto.

- O que é que aconteceu? - gritou Elizabeth, correndo para o filho. Agachou-se para ver melhor. - O que é que tu fizeste?

- Não é nada - respondeu Clayton ao aproximar-se. - É apenas uma contusão.

Ben voltou-se, não queria que a mãe visse.

- O que é que aconteceu aos óculos? - perguntou, ainda a tentar compreender. - Tu bateste-lhe?

- Não, não lhe bati. Meu Deus, como poderia bater-lhe? Quem é que pensas que eu sou?

Elizabeth não pareceu ouvi-lo e concentrou a atenção no filho. - Estás bem? Oh, isso está com mau aspecto! Querido, o que é que aconteceu? Partiste os óculos?

Sabia que ele não poderia falar até Clayton se ir embora. Erguendo o rosto para a mãe, ela viu que as veias tinham rebentado e que olho se encontrava vermelho de sangue.

- com que força a atiraste? - inquiriu, de rosto horrorizado.

- Não foi com muita força. E isso é apenas uma contusão. O olho não foi afectado e conseguimos colar os óculos com fita.

- É mais do que uma contusão! - exclamou Elizabeth em voz alta, mal conseguindo controlar-se.

- Deixa de te comportares como se a culpa fosse minha! - berrou Clayton.

- A culpa foi tua.

- Ele é que não a apanhou! Estávamos só a lançar bolas. Foi um acidente, por amor de Deus! Não foi, Ben? Estávamos a brincar, certo?

Ben olhou para o chão. - Pois - murmurou.

- Conta-lhe o que aconteceu. Diz que a culpa não foi minha. Vá, diz.

O garoto mudou o peso do corpo de um pé para o outro. - Estávamos a lançar bolas. Eu falhei a bola que veio bater-me no olho - explicou e mostrou os óculos, colados com fita na ponte e na parte superior das lentes. - O papá reparou os óculos.

Clayton mostrou as palmas das mãos. - Estás a ver? Nada de importante. Está sempre a acontecer. Faz parte do jogo.

- Quando é que isto aconteceu? - perguntou Elizabeth com voz imperiosa.

- Há umas horas.

- E não me chamaste?

- Não, levei-o às urgências.

Às urgências?

- Onde mais poderia levá-lo? Sabia que não o podia trazer de volta sem ser tratado, por isso fiz o que faria qualquer pai responsável, tal como tu fizeste quando ele partiu o braço no baloiço. E, se bem te lembras, não grito contigo por o deixares brincar na casa da árvore. Aquilo é uma armadilha mortal.

Ela parecia demasiado chocada para falar e Clayton abanou a cabeça, desgostoso. - De qualquer forma, ele quis voltar para casa.

- Está bem - concordou ela, ainda a lutar para encontrar palavras, com o músculo do queixo a contrair-se e a descontrair-se.

- Fosse como fosse. Vai-te embora. Eu tomo conta disto.

com um braço à volta dos ombros de Ben começou a levá-lo dali, mas foi nesse instante que Clayton notou que Thibault se encontrava sentado no alpendre. Esbugalhou os olhos que em seguida pareceram faiscar de raiva. Começou a dirigir-se para o alpendre.

- O que é que está aqui a fazer? - inquiriu.

Thibault encarou-o sem se mexer. O rosnar de Zeus tornou-se mais ameaçador.

- Beth, o que é que ele está aqui a fazer?

Ela voltou-lhe as costas. - Vai-te embora, Keith. Amanhã falaremos.

- Não me vires as costas - vociferou Clayton, agarrando-a por um braço. - Só estou a fazer-te uma pergunta.

Naquele momento Zeus mostrou os dentes e as patas traseiras tremeram. Só então Clayton pareceu dar pela presença do cão, de dentes arreganhados, os pêlos da cauda bem eriçados.

- Se fosse eu, largava-lhe o braço - aconselhou Thibault. A voz dele soara neutra e tranquila, mais uma sugestão do que uma ordem.

Ao olhar para o cão, Clayton largou-a imediatamente. Enquanto Elizabeth e Ben corriam para o alpendre, Clayton olhou Thibault. Zeus deu só um passo em frente, mas continuou a rosnar.

- Julgo que é melhor ir-se embora - aconselhou Thibault na mesma voz tranquila.

Clayton hesitou por instantes, recuou um passo e girou sobre os calcanhares. Thibault ouviu-o praguejar em voz baixa enquanto se dirigia para o carro, abria a porta e atirava com ela para a fechar.

Thibault estendeu a mão para acariciar Zeus. - Menino bonito sussurrou.

Clayton arrancou em marcha atrás, deu três voltas malucas ao volante e arrancou para o caminho de acesso, com os pneus a lançarem gravilha para a retaguarda. As luzes de presença deixaram de se ver e só então o pêlo de Zeus voltou ao normal. Abanou a cauda quando Ben se aproximou.

- Olá, Zeus - saudou Ben.

Zeus olhou para Thibault, a pedir autorização. - Tudo bem disse-lhe Thibault ao libertá-lo. O cão caminhou para Ben, como se quisesse dizer-lhe: «Estou tão satisfeito por voltares a casa!» Encostou o focinho a Ben, que começou a acariciá-lo.

- Sentiste a minha falta, não foi? - perguntou o garoto, mostrando-se contente. - Eu também senti a tua...

- Vamos, querido - pediu Elizabeth, levando-o à sua frente.

Vamos para dentro para pôr gelo nesse olho. E quero ver isso

à luz.

Quando abriram a porta de rede, Thibault pôs-se de pé.

- Boa noite, Thibault - saudou Ben, de braço no ar.

- Boa noite, Ben.

- Amanhã posso brincar com o Zeus?

- Se a tua mãe autorizar, por mim está tudo bem - concluiu. Pela expressão de Elizabeth bem via que ela queria estar sozinha com o filho. - Acho melhor ir indo - disse ao levantar-se. - Está a fazer-se tarde e amanhã tenho de levantar-me cedo.

Ela agradeceu. - Obrigada. E peço desculpa por toda esta situação.

- Não tem nada de que pedir desculpa.

Caminhou pelo caminho de acesso, depois virou na direcção da casa. Conseguia perceber que havia movimento por dentro das cortinas da janela da sala de estar.

Ao olhar as sombras das duas figuras através da janela, sentiu pela primeira vez que começava a compreender a razão que o levara até ali.

 

                     CLAYTON

De entre todos os lugares do mundo, tinha de ir encontrar o homem em casa de Beth. Quais eram as possibilidades de tal acontecer? Mínimas, certamente.

Odiava aquele tipo. Não, pior. Queria destruir aquele tipo. Não só pelo episódio do roubo da máquina fotográfica e do corte dos pneus, embora fossem actos a merecer algum tempo de cadeia em companhia de um par de drogados em anfetaminas e amigos da violência. E não era por «Thibolt» ter em seu poder o cartão da câmara digital. Era porque o tipo, o mesmo que lhe dera a volta antes, o fizera parecer uma alforreca em frente de Beth.

«Se fosse eu, largava-lhe o braço», já fora suficientemente mau. Mas, e depois? Aí é que o homem se portara realmente mal. «Já... Julgo que é melhor ir-se embora...» Tudo dito naquela voz grave e calma, o tom de «não me chateies» que o próprio Clayton costumava usar com os criminosos. E a verdade é que ele obedecera, saindo de lá de rabo entre as pernas, como qualquer cão escorraçado, o que tornava tudo pior.

Normalmente, não suportaria tal situação um segundo que fosse, mesmo na presença de Beth e de Ben. Ninguém lhe dava ordens e ficava sem resposta; não deixaria de demonstrar ao homem que ele cometera o pior erro da sua vida. Mas não pudera! O problema fora esse. com aquele cão por ali, a olhar-lhe os testículos como quem olha os acepipes num bufete de domingo. No escuro, aquela coisa parecera um lobo esfaimado e não deixara de lhe recordar as histórias que Kenny Moore lhe contara acerca do Panther.

Mas, fosse como fosse, que estava ele a fazer em casa de Beth? Como é que aquilo acontecera? Fora uma espécie de maldição cósmica destinada a arruinar o que lhe restava de um dia já suficientemente nojento, que começara com o ar triste com que Ben se apresentara ao meio-dia e logo protestara contra a tarefa de ter de ir despejar o lixo.

Considerava-se um homem paciente, mas estava cansado das atitudes do garoto. Realmente cansado, motivo pelo qual não deixara Ben parar enquanto não despejasse o lixo. Obrigara-o também a limpar a cozinha e a casa de banho, pensando estar a demonstrar-lhe como funcionava o mundo real, onde era importante mostrar alguma decência de atitudes. O poder do pensamento positivo e tudo isso. E, além do mais, toda a gente sabia que as mães estragam os filhos, enquanto os pais têm de lhes demonstrar que na vida nada se consegue sem esforço, não é assim? E o garoto fizera uma limpeza impecável, como acontecia sempre; portanto, quanto a Clayton, o episódio fora resolvido e esquecido. Era tempo de o fazer descansar um pouco; por isso levou Ben lá para fora, para trocarem umas bolas. Qual o miúdo que não quer trocar umas bolas com o pai numa tarde de domingo?

Ben. Esse mesmo.

«Estou cansado. Papá, está muito calor. Temos de jogar?» Uma queixa estúpida atrás de outra, até que finalmente foram para o exterior e o petiz se fechou como um molusco e não voltou a falar. Pior, por mais que Clayton lhe recomendasse que tivesse atenção à maldita da bola, o filho continuava a não a apanhar porque nem sequer tentava. Não a apanhava de propósito, sem dúvida. Mas corria para a bola depois de falhar? Claro que não. Aquele miúdo nunca o faria. O filho estava demasiado ocupado a pensar na injustiça de toda aquela situação, enquanto ia jogando como se fosse cego.

No final, conseguiu chateá-lo. Estava a tentar divertir-se com o filho, mas este conspirava contra ele, e, vamos lá, até é possível que naquela última vez tivesse atirado a bola com demasiada força. Contudo, o que acontecera a seguir não fora culpa sua. Se o garoto estivesse a prestar atenção, a bola não lhe teria feito ricochete na luva e Ben não teria acabado a chorar como um bebé, como se estivesse para morrer ou algo assim. Como se fosse o único miúdo do mundo a ficar com um olho negro enquanto jogava à bola.

Tudo considerações sem sentido. O miúdo magoara-se. Nada de grave e as marcas desapareceriam passadas umas semanas. Passado um ano, Ben teria esquecido tudo completamente ou gabar-se-ia junto dos amigos por ter ficado com um olho negro quando jogava beisebol.

Pelo seu lado, Beth nunca esqueceria. Guardaria aquele rancor dentro dela durante muito, muito tempo, mesmo que a culpa fosse mais de Ben do que dele. Beth não compreendia o facto de todos os rapazes ostentarem as mazelas dos desportos com orgulho.

Sabia, é evidente, que Beth reagiria mal naquela noite, mas não a culparia necessariamente por isso. Qualquer mãe reagiria mal e Clayton estava preparado para lidar com a situação. Pensava que tratara bastante bem de tudo, mesmo até ao final, até ao momento em que vira o tipo sentado no alpendre, com o cão, como se fosse o dono da casa.

Logan «Thibolt».

É evidente que se lembrara de imediato do nome. Procurara o homem durante alguns dias e, na prática, deixara de pensar no caso quando se convencera de que o tipo deixara a cidade. Não poderia ter ficado. Um vadio com um cão não deixaria de ser notado, pois não? Motivo por que deixara de perguntar se o tinham visto.

Estúpido.

E agora, o que é que havia de fazer? O que fazer quanto a este novo... conjunto de eventos?

Trataria de Logan «Thibolt», disso não restavam dúvidas, e não seria apanhado outra vez desprevenido. O que significava que, antes de tomar qualquer medida, precisava de informações. Onde é que ele morava, onde trabalhava, por onde gostava de andar. Onde poderia encontrá-lo sozinho.

Mais difícil do que parecia, especialmente por causa do cão. Uma sensação esquisita, mas parecia-lhe que «Thibolt» e o cão raramente se separavam, se é que alguma vez o faziam. Mas também pensaria numa maneira de tratar desse pormenor.

Era óbvio que teria de saber o que havia entre Beth e «Thibolt». Não lhe vira nenhum namorado, nem ouvira falar disso, desde o caso do idiota do Adam. Era difícil crer que Beth andasse com «Thibolt», considerando o facto de ele saber sempre o que Beth andava a fazer. Francamente, e para começar, não conseguia imaginar o que Beth podia ver em alguém como «Thibolt». Ela frequentara a universidade; a última coisa que quereria da vida era ligar-se a um vadio que aparecera na cidade. O tipo nem carro tinha.

Mas «Thibolt» passara um serão de sábado com ela, o que teria de significar alguma coisa. Havia, algures, qualquer pormenor que não se ajustava. Reflectiu, pensou se o homem trabalharia lá... De qualquer forma, acabaria por descobrir e, quando descobrisse, trataria do assunto; e Mr. Logan «Thibolt» acabaria por odiar o dia em que pusera os pés na cidade de Clayton.

 

                   BETH

Domingo fora o dia mais quente do Verão, com temperaturas e humidade muito elevadas. Os lagos de Piedmont tinham começado a secar, os cidadãos de Raleigh estavam a racionar a água e na parte oriental do estado as culturas tinham começado a murchar devido à secura interminável. Nas últimas três semanas as florestas tinham-se transformado em depósitos de combustível, à espera de ser aceso por uma ponta de cigarro descuidadamente atirada para o chão ou por uma trovoada, com qualquer das situações a parecer inevitável. Só faltava saber onde e como o fogo iria começar.

Os cães passavam mal, a menos que permanecessem nas jaulas, e até Logan começara a sentir os efeitos do calor. Cada sessão de treino durava menos cinco minutos e o regresso ao canil era sempre feito pelo riacho, onde os animais podiam molhar-se e arrefecer. Zeus entrara e saíra da água pelo menos uma dúzia de vezes e, embora Ben tivesse tentado iniciar um jogo de agarra logo que regressara da igreja, o cão mostrara pouco interesse. Em vez disso, Ben instalou uma ventoinha no soalho do alpendre da casa, virando o jacto de ar na direcção de Zeus e sentou-se ao lado dele a ler O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, um dos poucos livros da autora que lhe faltava acabar. Interrompeu a leitura para fazer uma visita a Logan, sem propósito aparente, antes de voltar à leitura.

Era o género de tarde de preguiça que Beth apreciava, embora sentisse um chispar de raiva sempre que olhava a obra de Keith: a nódoa negra na cara de Ben e os óculos reparados de improviso. Na segunda-feira teria de levar o filho ao oculista para que os óculos fossem devidamente reparados. Apesar do que dissera, Keith tinha lançado a bola com força excessiva, o que a punha a pensar no género de pai capaz de fazer uma coisa daquelas a um filho de dez anos de idade.

O género Keith Clayton, evidentemente.

Uma coisa fora ter cometido o erro de casar com ele, outra era ser obrigada a sofrer por causa desse erro durante o resto da vida. A relação de Ben com o pai parecia estar a piorar; não se viam perspectivas de vir a melhorar. Ben precisava de um adulto do sexo masculino na sua vida e Keith era o pai dele, mas...

Abanou a cabeça. Em parte apetecia-lhe simplesmente partir, levando o filho consigo. Ir morar noutra parte do país e recomeçar a vida. Uma solução fácil de imaginar e, tivesse ela coragem para a pôr em prática, os problemas estariam resolvidos. Porém, a realidade era outra. Tinha a coragem necessária, mas todo um conjunto de circunstâncias tornava impossível a materialização da ideia. Mesmo que Nana tivesse saúde suficiente para gerir tudo sozinha, e ela não a tinha, Keith acabaria por descobri-la, fosse para onde fosse. Gramps insistiria para que ele a procurasse e o tribunal, de que o juiz Clayton fazia parte, interviria. Na ausência, o mais provável era que a tutela de Ben fosse atribuída na totalidade a Keith. O tio do ex-marido trataria disso; aquela fora sempre a ameaça implícita desde o divórcio, uma ameaça que, vivendo naquele distrito, ela teria de levar muito a sério. Talvez tivesse algumas hipóteses num tribunal de segunda instância, mas quanto tempo levaria a obter uma sentença? Doze meses? Um ano e meio? Não ia arriscar-se a perder Ben durante todo esse tempo. E a última coisa que quereria era que Ben fosse obrigado a passar mais tempo com Keith.

Na realidade, Keith não desejava a tutela total, tal como Beth não desejava que ele a tivesse, e com o passar dos anos poderiam chegar a uma solução não oficial. Keith veria Ben com a menor frequência possível, apenas as vezes suficientes para manter Gramps sossegado. Não era justo que qualquer deles usasse Ben como um peão, mas que mais poderia ela fazer? Não queria arriscar-se a perder o filho. Keith faria o que lhe mandassem para que o dinheiro continuasse a chegar-lhe ao bolso e Gramps queria Ben por perto.

As pessoas gostariam de se imaginar livres na escolha da sua própria vida, mas Beth aprendera que muitas vezes a escolha não passa de uma ilusão. Pelo menos em Hampton, onde os Clayton dominavam praticamente tudo. Gramps mostrava-se sempre delicado quando se encontravam na igreja, e embora desejasse há muitos anos comprar as terras de Nana, nunca lhe dificultara a vida. Até ao momento. Porém, num mundo a preto e branco, não restavam dúvidas de que os membros da família Clayton, Gramps incluído, eram mestres do cinzento e usariam do seu poder sempre que lhes desse jeito. Cada um deles crescera a viver com a ideia de que era especial, talvez mesmo um escolhido de Deus, razão por que se surpreendera com a facilidade com que Keith abandonara a casa dela na noite anterior.

Ficara satisfeita por Logan e Zeus lá estarem. Logan resolvera a situação de uma forma perfeita e Beth apreciara o facto de ele não se ter mantido por ali após a partida de Keith. Compreendera que ela queria estar só com Ben e aceitara o facto com a mesma facilidade com que fizera Keith sair de lá.

Em qualquer situação, reflectia Beth, Logan mostrava-se tranquilo e decidido. Quando ela falara de Drake, não aproveitara para falar de si ou do que sentia, nem lhe dera conselhos. Era uma das razões que a levara a ter confiança nele e a contar-lhe tantos pormenores da sua vida. Mostrara-se um pouco mal-humorada por se tratar do aniversário de Drake mas, na verdade, soubera exactamente o que estava a fazer. Primeiro, fora ela a primeira a pedir-lhe que ficasse e supunha que, bem lá no fundo, quisera partilhar aqueles pormenores pessoais com Logan.

- Eh, mamã?

Beth virou-se para Ben. O olho estava com um aspecto horrível, mas ela fingiu não reparar. - O que é que se passa, meu amor?

- Temos alguns sacos para lixo? E palhinhas?

- É claro que temos. Porquê?

- Thibault disse que me ensina a construir um papagaio e que podemos pô-lo a voar logo que esteja pronto.

- Parece uma ideia interessante.

- Ele disse que costumava fazê-los em criança e que voavam lindamente.

Beth sorriu. - Só precisas de sacos para lixo e de palhinhas?

- Já encontrei o fio de pesca. E a fita de colar. Estavam na garagem do avô.

Viu Logan, do outro lado do jardim, a dirigir-se para eles. Ben também reparou nele.

- Eh, Thibault! - gritou. - Está preparado para construir o papagaio?

- Vinha precisamente perguntar-te se estavas preparado - respondeu Logan.

- Quase. Só tenho de ir buscar os sacos para lixo e as palhinhas. Logan assentiu. Quando ele se aproximou, Beth notou-lhe a forma dos ombros, a cintura estreita. Não era a primeira vez que reparava no corpo dele, mas naquele dia parecia estar... de olhos fixos nele. Voltou-se e colocou a mão no ombro de Ben, a sentir-se subitamente ridícula.

- Os sacos do lixo estão por baixo do lava-louça e as palhinhas estão na despensa, ao lado das bolachas. Vais buscá-los ou queres que eu vá lá?

- Eu vou - decidiu Ben. E, depois, para Logan: - Só me demoro uns segundos.

Logan chegou junto da escada no momento em que Ben desaparecia no interior da casa.

- Vai fazer um papagaio? - perguntou Beth, simultaneamente surpreendida e impressionada.

-- Ele disse que estava aborrecido.

- E sabe mesmo fazer papagaios?

- Não é tão difícil quanto parece. Quer dar uma ajuda?

- Não - recusou. De perto, notou como a transpiração se lhe colava ao peito e desviou de imediato o olhar. - vou deixar a tarefa para os dois. Parece-me mais um projecto para homens. Mas encarrego-me de levar-lhes limonada. E a seguir, se tiver fome, é bem-vindo, se quiser ficar. Nada de especial; Ben disse-me que lhe apetece cachorros quentes, macarrão e queijo.

Logan assentiu. - Agrada-me.

Ben voltou a sair, sacos numa das mãos e as palhinhas na outra. Rosto animado, a despeito da nódoa negra e dos óculos tortos.

- Já tenho tudo. Está pronto?

Logan continuou a aguentar o olhar de Beth mais tempo do que o necessário e ela teve de se voltar, a sentir-se enrubescer. Logan sorriu para Ben.

- Logo que tu estiveres.

Beth deu consigo a analisar Logan enquanto ele e Ben trabalhavam na montagem do papagaio. Estavam sentados na mesa dos piqueniques, perto do grande carvalho, com Zeus deitado aos pés de ambos; de vez em quando, o vento trazia até Beth os sons das vozes deles: Logan a dizer a Ben o que devia fazer a seguir, ou Ben a perguntar se qualquer coisa que fizera estava bem. Era evidente que estavam a apreciar o seu pequeno projecto; o petiz ia tagarelando, cometendo alguns erros que Logan depois corrigia com nova aplicação de fita.

Quando fora a última vez em que corara ao ser observada por um homem? Bem gostaria de saber se alguma da sua reencontrada auto-suficiência teria alguma coisa a ver com a ausência de Nana. Durante as duas últimas noites, e pela primeira vez na vida, quase se sentira entregue a si própria. Afinal, mudara-se da casa de Nana para a casa de Keith, regressando a casa de Nana, de onde não mais saíra. E embora gostasse da companhia de Nana e prezasse a estabilidade, não fora exactamente assim que imaginara a sua vida de adulta. Sonhara que teria a sua própria casa, mas nunca considerara a altura propícia. Depois de Keith, necessitara da ajuda de Nana porque Ben era bebé; depois, quando o filho já era mais crescido, tinham morrido o irmão e o avô, pelo que Beth precisou do apoio de Nana, tanto quanto Nana precisou do de Beth. E depois? Na altura em que se julgava pronta a arranjar casa própria, Nana sofrera o acidente vascular cerebral, não se pondo a hipótese de ela abandonar a mulher que a tinha criado.

Todavia, naquele momento, teve uma inesperada visão de como teria sido a sua vinda em circunstâncias diferentes. Agora, vendo os estorninhos voarem de árvore para árvore por cima da sua cabeça, Beth encontrava-se sentada no alpendre de uma casa que, sem ela, estaria vazia, a observar uma cena que a fazia acreditar que tudo poderia estar bem neste mundo. Mesmo de longe, notava a concentração de Ben enquanto Logan lhe mostrava como dar os toques finais da montagem do papagaio. Uma vez por outra, Logan inclinava-se para a frente e dava instruções, mostrando-se paciente e firme, mas deixando a Ben a parte maior do divertimento. E que ele parecia estar apenas a trabalhar no projecto, a rectificar os erros do garoto, sem se mostrar frustrado ou irritado, o que fez Beth sentir uma manifestação de gratidão e de afecto em relação a ele. Ainda se sentia maravilhada pela novidade quando os viu dirigirem-se para o centro do jardim. Logan erguia o papagaio acima da cabeça, enquanto Ben ia desenrolando o fio de pesca. Quando Ben começou a correr, Logan seguiu-o, para que o vento actuasse antes de largar o papagaio. Logan parou e ficou a olhar para o ar, enquanto o papagaio subia lá para cima; e quando ele bateu as palmas contagiado pela evidente alegria de Ben, Beth foi atingida por uma verdade simples, a de que as coisas mais vulgares podem tornar-se extraordinárias, bastando para tanto que sejam tratadas pelas pessoas certas.

Nana telefonou nessa noite a mandar que a fossem buscar na sexta-feira seguinte e, enquanto ela esteve ausente, Logan jantou com Beth e Ben todas as noites. Na maioria dos casos, era Ben quem lhe pedia para ficar, mas, chegada a quarta-feira, tornara-se óbvio que Beth não só se sentia bem por Logan estar na companhia deles, mas também estava contente por deixar que Ben continuasse a controlar a situação. Talvez, uma vez por outra, pensasse que Logan era tão inexperiente quanto ela naquele género de intimidades.

Habitualmente davam um passeio depois do jantar. Ben e Zeus iam à frente, em correria pelo carreiro que conduzia ao riacho, seguidos à distância por Beth e Logan; uma vez, dirigiram-se para a cidade para observar as margens do South River, sentando-se debaixo da ponte que atravessa o rio. Era frequente que aflorassem certas questões, quer se tratasse de um pormenor interessante sobre o trabalho ou dos progressos conseguidos por Logan na reorganização dos ficheiros; contudo, em certas ocasiões, ele parecia contente por caminhar ao lado dela, sem grandes conversas. Como Logan se movia tão à vontade naquele silêncio, Beth sentia-se também surpreendentemente confortável com ele.

Porém, algo estava a acontecer entre eles e ela tinha consciência disso. Sentia-se atraída por ele. Na escola, com uma turma de alunos do segundo grau a enxamearem à sua volta, por vezes dava consigo a imaginar o que ele poderia estar a fazer naquele preciso momento. Pouco a pouco, fora-se apercebendo de que desejava chegar a casa por isso significar o encontro com ele.

No serão de quinta-feira, meteram-se todos na carrinha de Nana e foram à cidade jantar piza. Zeus seguia com as patas no fundo da carrinha, a cabeça de lado e as orelhas puxadas para trás. Por estranho que parecesse, Beth tinha a esquisita sensação de que aquilo era quase uma saída de namorados, embora acompanhados de um guardião de dez anos de idade.

A Luigis Pizza estava localizada numa das calmas ruas secundárias da baixa. com o pavimento desgastado de tijolo, as mesas da sala de jantar e as paredes com painéis de madeira, o lugar oferecia uma familiaridade relaxante, em parte por que Luigi não tinha mudado a decoração desde a infância de Beth. Na parte de trás do restaurante, Luigi conservava jogos de vídeo datados dos anos 80; MJ. Pac-Man, Millipeãe e Asteroids. Os jogos continuavam tão populares como na altura da publicação, provavelmente por não haver qualquer outra loja de jogos de vídeo na cidade.

Beth adorava aquele lugar. Luigi e a mulher, Maria, ambos na casa dos sessenta, que trabalhavam sete dias por semana, moravam por cima do restaurante. Sem filhos naturais, eram pais substitutos de muitos dos adolescentes da cidade e recebiam toda a gente com uma espécie de aceitação incondicional que mantinha o restaurante sempre cheio.

Naquela noite, encontrava-se repleto com a habitual mistura de pessoas: famílias com filhos, um par de homens vestidos como se tivessem acabado de largar o trabalho na firma de advogados do prédioseguinte, uns quantos casais de idosos, magotes de adolescentes espalhados por vários pontos da sala. O rosto de Maria iluminou-se ao ver entrar Beth e Ben. Era uma mulher baixa e forte, com cabelo escuro e um sorriso genuinamente amistoso. Caminhou para eles ao mesmo tempo que pegava na ementa.

- Boa noite, Beth. Boa noite, Ben - saudou. Ao passar pela cozinha espreitou lá para dentro. - Luigi! Chega aqui. A Beth e o Ben estão cá.

Uma cena que se repetia sempre que Beth lá ia e, embora Beth estivesse convencida de que ela recebia toda a gente com igual simpatia, não deixava de se sentir especial.

Luigi saltou da cozinha. Como era habitual, o avental que trazia estava coberto de farinha e cruzava-lhe a rotunda cintura. Como ele continuava a confeccionar as pizas e tinha o restaurante sempre cheio, não teve tempo para mais do que um aceno. - Gosto de te ver! gritou. - Obrigado por teres vindo!

Maria acariciou afectuosamente o ombro de Ben. - Ben, estás a ficar tão alto! Um verdadeiro homenzinho. E tu, Beth, estás adorável como a Primavera.

- Obrigado, Maria. Como é que estás?

- Na mesma. Sempre a trabalhar. E tu? Continuas a ensinar, não é verdade?

- Continuo a ensinar - confirmou Beth. Momentos depois a expressão de Maria tornou-se grave e Beth conseguiu antecipar a pergunta seguinte. Em terras pequenas, não há segredos.

- Como está a Nana?

- A melhorar. Já anda por lá.

- Sim, ouvi dizer que foi visitar a irmã.

Beth não conseguiu esconder a surpresa: - Como é que soubeste isso?

Maria encolheu os ombros. - Não faço ideia. As pessoas falam, eu ouço - explicou Maria, notando pela primeira vez a presença de Logan. - E este, quem é?

- É o meu amigo Logan Thibault - esclareceu Beth, procurando não corar.

- É novo por cá? Nunca o tinha visto - confessou Maria, olhando-o de alto a baixo, com franca curiosidade.

- Acabo de me mudar para a cidade.

- Bem, veio acompanhado por dois dos meus clientes favoritos

- disse, ao apontar o caminho. - Venham, vou arranjar-lhes lugar num dos cubículos.

Maria indicou o caminho e colocou as ementas sobre a mesa, enquanto eles deslizavam para os lugares. - Chá gelado para todos!

- Seria excelente, Maria - concordou Beth.

- Podes dar-me umas moedas? - perguntou Ben. - Quero jogar uns vídeos.

- Calculei que quisesses - comentou Beth, levando a mão à mala. - Antes de sair, tirei algumas moedas da jarra dos trocos. Diverte-te - sugeriu. - Mas não vás com estranhos.

- Tenho dez anos - disse Ben, parecendo exasperado. - Já não tenho cinco.

Beth ficou a vê-lo dirigir-se à sala de jogos, divertida com a resposta do filho. Por vezes, Ben já parecia um aluno da escola secundária.

- Este lugar tem carácter - comentou Logan.

- A comida também é fantástica. Fazem pizas à moda de Chicago que são o fim do mundo. O que é que deseja na sua piza?

Logan coçou o queixo. - Hum... muito alho, muitas anchovas. Beth torceu o nariz. - É isso que quer?

- Estou a brincar. Mande vir o que costuma comer. Não sou esquisito.

- Ben gosta de salame.

- Então, seja salame.

Ela encarou-o com um olhar brincalhão. - Já lhe disseram que é bastante fácil de contentar.

- Ultimamente, não - retorquiu. - Mas, digo-o uma vez mais, não tive muito com quem falar durante a caminhada.

- Não sentiu a solidão?

- Tendo Zeus comigo, não. É um bom ouvinte.

- Mas não pode contribuir para a conversa.

- Não. Mas também não se lamentava por causa da caminhada. Como teria sucedido com a maioria das pessoas.

- Eu não me teria queixado - afirmou Beth ao pôr uma madeixa por cima do ombro.

Logan não respondeu.

- Estou a falar a sério - protestou. - Teria atravessado facilmente o país.

O silêncio de Logan manteve-se.

- Ora bem, tem razão. Ter-me-ia queixado uma ou duas vezes. Ele riu-se, antes de observar o restaurante. - Quantas pessoas

conhece entre as que aqui estão?

Olhando à volta, Beth reflectiu: -Já vi a maioria delas na cidade, mas quantas conheço realmente? Talvez umas trinta.

Logan calculou que representariam cerca de metade dos clientes.

- Como é que é?

- Está a perguntar o que acontece numa terra onde todos sabem tudo? Acho que depende do número de erros que cada um comete, pois é isso que a maioria das pessoas discute. Casos amorosos, empregos perdidos, abuso de álcool ou de drogas, acidentes de viação. Mas, por outro lado, para alguém como eu, pura como a neve transportada pelo vento, não é muito difícil.

Logan sorriu. - Deve ser interessante ser você.

- Ah, pois é. Acredite. Vamos apenas dizer que tem sorte por estar sentado à mesa comigo.

- Sobre isso, não tenho dúvidas.

Maria veio entregar as bebidas. Ao ir-se embora, ergueu as sobrancelhas apenas o suficiente para que Beth ficasse a saber que ela gostava do aspecto de Logan e que esperava, mais tarde, descobrir se havia alguma ligação entre eles.

Beth provou o chá e Logan imitou-a.

- O que é que acha?

- Doce, sem dúvida. Mas tem bom sabor.

Beth anuiu, antes de limpar com o guardanapo a condensação formada no exterior do copo. Amarrotou o guardanapo e pô-lo de lado.

- Quanto tempo é que vai ficar em Hampton? - perguntou.

- O que é que pretende dizer?

- Não é de cá, tem uma licenciatura, tem um emprego que a maioria das pessoas detestaria e é mal pago pelo seu trabalho. Julgo que a pergunta é pertinente.

- Não penso despedir-me.

- Não é isso que estou a perguntar. Estou a perguntar quanto tempo vai ficar em Hampton. Responda francamente.

A voz dela não admitia fugas; para Logan foi fácil imaginá-la e meter na ordem uma turma indisciplinada. - Francamente, não sei. E digo isto porque nos últimos cinco anos aprendi a não dar nada por adquirido.

- Pode ser verdade, mas, uma vez mais, não respondeu à pergunta. Pareceu reconhecer um certo desapontamento na voz dela e lutou com a resposta. Finalmente decidiu-se. - Se a resposta for: até agora, estou a gostar disto. Gosto do trabalho, acho a Nana fantástica, gosto de estar com o Ben e, de momento, não é minha intenção deixar Hampton num futuro previsível. Respondi à sua pergunta?

Beth sentiu-se sacudida por uma certa expectativa enquanto ele falava, dada a forma como o olhar dele lhe perscrutava o rosto. Também ela se inclinou para diante. - Reparei que deixou de fora algo de importante na sua lista de coisas de que gosta.

- Acha que sim?

- Acho. Eu - retorquiu, a analisar a cara dele, à espera de uma reacção, de lábios arreganhados num sorriso tentador.

- Talvez esquecesse - observou Logan, mostrando o mais fugidio dos sorrisos.

- Julgo que não.

- Sou tímido. - Tente de novo.

Ele abanou a cabeça. - Não tenho mais sugestões.

Beth piscou-lhe o olho. - vou dar-lhe uma oportunidade de

repensar o assunto e talvez lhe surja uma ideia. Poderemos então voltar ao assunto.

- Acho justo. Quando?

De mãos colocadas à volta do copo, a sentir-se estranhamente nervosa pelo que iria dizer em seguida, Beth perguntou: - Está livre na noite de sábado?

Ficou sem saber se a pergunta o surpreendeu.

- Que seja na noite de sábado - decidiu Logan ao empunhar o copo de chá gelado para beber um grande gole, sem nunca tirar os olhos dela.

Nenhum deles reparou que Ben regressara à mesa.

- Já mandaram vir a piza?

Nessa noite, deitada na cama, Beth olhava o tecto e perguntava a si mesma: «Que diabo estou eu a pensar?»

Havia tantas razões para evitar o que ela acabara de fazer. Na realidade, não sabia muito acerca do passado dele. Logan continuava a esconder o motivo que o trouxera até Hampton, o que significava que não confiava nela, mas também que ela também não confiava inteiramente nele. E não se tratava apenas disso: ele trabalhava no canil, para Nana e à vista de casa dela. O que aconteceria se o esquema não funcionasse? E se ele alimentasse... expectativas que ela não pudesse satisfazer? Voltaria na segunda-feira? Ficaria Nana sozinha? Teria ela de desistir do emprego de professora para voltar a ajudar a avó a gerir o canil?

Havia montes de problemas possíveis em tudo aquilo e, quanto mais pensava neles, mais se convencia de que cometera um erro terrível. E, no entanto... sentia-se cansada de estar só. Amava Ben e amava Nana, mas estar junto de Logan durante os últimos dias recordara-lhe o que estava a faltar-lhe. Apreciava os passeios que davam depois do jantar, gostava da maneira como ele a olhava e gostava especialmente da maneira como ele se dava com Ben.

Além disso, era ridiculamente fácil imaginar uma vida com Logan. Sabia que não o conhecia há tempo suficiente para fazer um juízo daqueles, mas não conseguia pôr de lado a intuição.

Poderia ele ser o tal?

Não queria ir mais longe. Ainda nem sequer tinham saído juntos. Tornava-se fácil imaginar como era alguém que mal se conhecia.

Sentando-se na cama, deu umas quantas palmadas para ajeitar a almofada e voltou a deitar-se. Pois bem, sairiam uma vez e logo se veria. Alimentava esperanças, não podia negá-lo, mas o filme acabava aí. Gostava dele, mas certamente não o amava. Pelo menos, ainda não.

Na noite de sábado Thibault esperava sentado no sofá, a tentar perceber se estaria a agir bem.

Noutro lugar e noutra altura, não teria pensado duas vezes. Era evidente que se sentia atraído por Elizabeth. Apreciava-lhe a franqueza e a inteligência, bem como o alegre sentido de humor, para além do aspecto físico; não conseguia imaginar como ela pudera estar sem companheiro durante tanto tempo.

Porém, não estava noutra altura, nem noutro lugar, e a situação nada tinha de normal. Transportara a fotografia dela durante mais de cinco anos. Vasculhara o país à procura dela. Chegara a Hampton e arranjara um emprego que o mantinha perto dela. Tornara-se amigo da avó, do filho e, finalmente, dela própria. E faltavam poucos minutos para a sua primeira saída de namorados.

Ele viera por uma razão. Aceitara a ideia logo que deixara o Colorado. No entanto, continuava a não ter a certeza de que a razão fosse conhecê-la, ou até tornar-se íntimo dela. Também nada lhe dizia que houvesse qualquer outra razão.

A sua única certeza era ter passado toda a tarde à espera da hora do encontro. No dia anterior, não deixara de pensar no assunto durante a viagem para ir buscar Nana. Durante a primeira meia hora do caminho de regresso a Hampton, Nana tagarelara acerca de tudo, desde a política ao estado de saúde da irmã, antes de se voltar para ele com um sorriso cúmplice.

- Ora bem, vai então sair com a neta da patroa, é isso? Thibault remexeu-se no assento. - Ela disse-lhe?

- É claro que me disse. Mas, mesmo que não o dissesse, eu sabia o que ia acontecer. Dois jovens atraentes e solitários? Soube que ia acontecer no preciso momento em que o contratei.

Ele não respondeu e quando Nana voltou a falar, a voz encheu-se-lhe de melancolia.

- Ela é doce como uma melancia. Por vezes, preocupa-me.

- Eu sei - observou Thibault.

A conversa entre eles resumira-se àquilo, mas garantiu-lhe que tinha a bênção de Nana, um pormenor que sabia ser importante dado o lugar ocupado pela avó na vida de Elizabeth.

Numa altura em que tudo começava a assentar, pôde ver o carro de Elizabeth a percorrer a alameda que dava acesso à casa, com a frente a balouçar ligeiramente ao passar pelos buracos. Só lhe dissera para levar roupa simples, mas não lhe dera qualquer indicação sobre o lugar aonde iam. Thibault saiu para o alpendre no momento em que ela parou em frente da casa. Zeus seguiu-o, sempre alerta. Quando Elizabeth saiu do carro e se deu a ver à luz fraca do alpendre, tudo o que ele conseguiu fazer foi ficar a olhar.

Tal como ele, Elizabeth vestia calças de ganga, mas a blusa creme que trazia acentuava-lhe o bronzeado da pele. O cabelo cor de mel cobria-lhe a gola da blusa sem mangas e notou que ela usava uma ligeira maquilhagem. Pareceu-lhe tão conhecida quanto excitantemente estranha.

Zeus desceu os degraus, de cauda em riste e a latir, indo colocar-se ao lado dela.

- Olá, Zeus. Sentiste a minha falta? Só passou um dia - foi ela dizendo, a dar-lhe palmadinhas no lombo; o cão latiu os seus queixumes e a seguir lambeu-lhe a mão. - Ora bem, isso foi um verdadeiro cumprimento - comentou, erguendo os olhos para Thibault.

- Como está? Venho atrasada?

Ele tentou mostrar-se indiferente. - Estou óptimo. E chegou mesmo à hora. Ainda bem que deu com a casa.

- Pensou que eu não conseguiria?

- Este lugar é um pouco difícil de encontrar.

- Não é para quem viveu toda a vida aqui - retorquiu, dando

uns passos na direcção da casa. - Então, é este o lar?

-É gira - comentou, olhando à volta.

- Era do que estava à espera?

- Mais ou menos. Sólida. Eficiente. Um pouco escondida. Thibault aceitou o duplo sentido com um sorriso; a seguir, voltou-se para Zeus e mandou-o ficar no alpendre.

Desceu a escada para se juntar a ela.

- O cão fica bem cá fora?

- Optimamente. Não sairá dali.

- Mas vamos estar fora algumas horas.

- Eu sei.

- Espantoso.

- Assim parece. Mas os cães não tem um sentido muito apurado do tempo. Passado um minuto, não se lembrará de qualquer outro pormenor, só recordará o facto de que deve permanecer onde está. Mas sem saber porquê.

- Como é que sabe tanto acerca de cães e de treino? - perguntou Elizabeth, cheia de curiosidade.

- Principalmente através de leituras.

-Também lê?

Thibault mostrou-se divertido. - Leio. Surpreendida?

- Estou. É difícil carregar livros quando se viaja a pé pelo país. - Não é, desde que não os guardemos depois de lidos. ? Chegaram ao carro e quando Thibault se dirigiu para o lado do condutor para lhe segurar a porta, Elizabeth abanou a cabeça. - Posso ter sido eu a convidá-lo, mas vou obrigá-lo a conduzir.

- E eu a pensar que ia sair com uma mulher emancipada - protestou ele.

- Sou uma mulher emancipada mas quem conduz é você. E também paga a conta.

Thibault riu-se ao conduzi-la ao outro lado. Logo que ele se sentou atrás do volante, Elizabeth deu uma vista de olhos ao alpendre. Zeus parecia confuso acerca do que estava a acontecer e ouviu-o latir uma vez mais.

- Parece triste.

- Provavelmente está. Raramente nos separamos. Ela repreendeu-o. - Homem malvado.

Thibault sorriu por ela usar aquele tom jocoso e engatou o motor em marcha atrás. - Dirijo-me para o centro?

- Não. Esta noite vamos para fora da cidade. Siga para a estrada principal, em direcção à costa. Não vamos para a praia, mas existe um bom sítio no caminho. Eu indico-lhe quando estivermos perto da saída da estrada.

Thibault fez o que lhe mandavam, conduzindo por ruas tranquilas enquanto ia escurecendo. Chegaram à estrada principal em poucos minutos e, à medida que o carro foi adquirindo velocidade, as árvores da berma começaram a tornar-se indistintas. As sombras estendiam-se pela estrada, escurecendo o interior do automóvel.

- Ora bem, fale-me do Zeus.

- O que é que pretende saber?

- Tudo o que quiser revelar-me. Algo que eu ainda não saiba. Thibault poderia ter dito: «Comprei-o por causa de uma mulher

fotografada junto de um pastor alemão», mas não o fez. Em vez disso, informou: - Comprei o Zeus na Alemanha. Fui lá e eu próprio o escolhi no meio da ninhada.

- Realmente?

Ele assentiu. - Na Alemanha, o pastor é como a águia-de-cabeça-branca na América. É um símbolo do orgulho nacional e os criadores levam o seu trabalho muito a sério. Eu queria um cão com uma linha genética forte e, quem quer um cão assim, habitualmente só o encontra na Alemanha. O Zeus tem uma longa ascendência de cães competitivos e de campeões, oriundos de Schutzhund.

- O que é isso?

- Em Schutzhund os cães são testados não apenas pela obediência, são postos à prova na busca e na protecção. E a concorrência é intensa. Habitualmente nos dois últimos dias e, por norma, os vencedores tendem a ser os cães mais inteligentes e mais fáceis de treinar. E como Zeus descende de uma longa linhagem de concorrentes e de campeões, foi criado com esses dois objectivos.

- E treinou-o sozinho? - indagou, parecendo impressionada.

- Desde os seis meses de idade. Desde que partimos do Colorado, trabalhei com ele todos os dias.

- É um animal incrível. Podia dá-lo ao Ben, como sabe. Ele provavelmente adoraria.

Thibault não respondeu.

Elizabeth notou-lhe a expressão e aproximou-se mais dele. - Estava a brincar. Nunca o afastaria do seu cão.

Ele sentiu o calor do corpo de Elizabeth irradiar-lhe pelo flanco.

- Se não a incomodo com a pergunta, como é que o Ben reagiu quando lhe disse que íamos sair juntos esta noite? - perguntou.

- Achou bem. Ele e a Nana já tinham decidido ver vídeos. No princípio da semana tinham planeado uma noite de cinema. Marcaram a data e tudo.

- Fazem isso muitas vezes?

- Constantemente, mas esta é a primeira vez desde que ela sofreu o acidente vascular cerebral. Sei que o Ben estava verdadeiramente entusiasmado. Nana faz pipocas e costuma deixá-lo ficar acordado até mais tarde.

- Ao contrário da mãe, é claro.

Elizabeth concordou, sorrindo: - É claro. O que é que acabou por fazer hoje?

- Dei uma volta à casa. Limpezas, lavagem de roupa, fiz compras, esse género de coisas.

Ela ergueu uma sobrancelha. - Estou impressionada. É um verdadeiro animal doméstico. Consegue pôr a girar uma moeda em cima da cama depois de a fazer? -É claro que consigo. -Tem de ensinar o Ben a fazer isso.

- com todo o gosto.

Lá fora apareciam as primeiras estrelas e os faróis do carro varriam as curvas da estrada.

- Onde é que vamos, exactamente? - perguntou Thibault.

- Gosta de caranguejos?

- Adoro.

- Um bom começo. E sabe dançar o shag?

- Nem faço ideia do que isso é.

- bom, digamos que tem de aprender depressa.

Quarenta minutos depois, Thibault parou em frente de um edifício que parecia um antigo armazém. Elizabeth conduzira-o para a zona industrial da baixa de Wilmington e pararam em frente de uma estrutura de três pisos com paredes laterais de tábuas envelhecidas. Pouco a diferenciava dos edifícios vizinhos se não fosse um parque de estacionamento com quase uma centena de carros, bem como um passeio de madeira à volta do edifício, iluminado por uma correnteza de luzes brancas de Natal.

- Como se chama este lugar?

- Shagging for Crabs.

- Original. Mas sinto uma certa dificuldade em considerar isto uma importante atracção turística.

- Não é, é só para gente da terra. Um dos meus amigos da faculdade falou-me deste lugar e eu sempre desejei vir cá.

- Nunca aqui esteve?

- Não. Mas ouvi dizer que é muito divertido.

Dito isto, Elizabeth dirigiu-se para o passeio de madeira que rangia a cada passo dela. Lá à frente, o rio brilhava, como se fosse iluminado por baixo. O som da música vindo do interior ouvia-se cada vez mais alto. Quando abriram a porta a música irrompeu como uma onda, e o cheiro a caranguejos e a manteiga encheu o ar. Thibault parou para se habituar.

O vasto espaço interior do edifício conservava-se em bruto, sem adornos. Até meio estava atravancada com mesas de cobertas com toalhas de plástico encarnadas e brancas que pareciam coladas aos tampos de madeira. As mesas estavam ocupadas por gente animada e Thibault viu empregadas de mesa a despejar baldes de caranguejos por toda a parte. Pequenas molheiras com manteiga derretida no centro da mesa, com outras mais pequenas em frente de cada comensal. Toda a gente envergava aventais de plástico, tirava os caranguejos do balde comum e comia com os dedos. A cerveja parecia ser a bebida de eleição.

Mesmo em frente deles, do lado que bordejava o rio, havia um comprido balcão de bar, se assim se poderia chamar. Parecia ser feito de madeira apanhada a boiar e colocada em cima de barris de madeira. Os clientes à espera de serem servidos formavam três filas. Do lado oposto da sala avistava-se o que deveria ser a cozinha. O que mais lhe despertou a atenção foi o palco colocado ao fundo, onde Thibault avistou uma banda que tocava My Girl!, dos Temptations. Em frente do palco havia pelo menos umas cem pessoas a dançar, seguindo os passos preceituados de uma dança que ele não conhecia.

- Caramba! - bradou, sobrepondo-se ao barulho.

Uma quarentona magra, com cabelo ruivo e de avental aproximou-se deles. - Vocês os dois - engrolou. - Comida ou dança?

- Ambas - respondeu Elizabeth.

- Nomes?

Olharam um para o outro. - Elizabeth... - começou Beth.

- E Logan - terminou.

A mulher apontou os nomes num bloco. - Ora bem, última pergunta. Paródia ou família?

Elizabeth pareceu perdida. - Perdão?

A mulher fez estalar a pastilha elástica. - Já cá estiveram, não é verdade?

- Não.

- Passo a explicar: têm de partilhar uma mesa. É assim que as coisas funcionam aqui. Toda a gente partilha. Ora, podem também exigir paródia, o que significa que preferem uma mesa com níveis elevados de energia, ou podem pedir família, em que as mesas têm um ambiente um pouco mais tranquilo. Ora, está bem de ver, não posso garantir como vai ser a vossa mesa. Pergunto por perguntar. Então, o que vai ser? Família ou paródia?

Elizabeth e Thibault trocaram olhares uma vez mais, chegaram à mesma conclusão e responderam em uníssono:

- Paródia. Acabaram sentados numa mesa em que estavam seis alunos da Universidade de Carolina do Norte, em Wilmington. A empregada de mesa apresentou-os com os nomes de Matt, Sarah, Tim, Allison, Megan e Steve; todos os estudantes ergueram as garrafas e saudaram-nos a uma só voz: - Viva, Elizabeth! Viva, Logan! Estamos com os caranguejos (crabs).

Thibault reprimiu uma gargalhada com aquele jogo de palavras; crab era também o calão usado para descrever um animalejo indescritível que se apanha em encontros sexuais, o que era obviamente o fim da festa, mas sentiu-se desnorteado quando reparou que eles o olhavam fixamente.

A empregada de mesa sussurrou-lhe ao ouvido: - Deve responder «Queremos caranguejos se os apanharmos com vocês».

Desta vez riu-se à vontade, juntamente com Elizabeth, antes de proferirem as palavras, aceitando o ritual a que toda a gente obedecia naquele local.

Sentaram-se de frente. Elizabeth acabou por ficar ao lado de Steve, que não escondeu o facto de a achar extremamente apetitosa, enquanto Thibault ficou ao lado de Megan, que não se mostrou interessada nele por já estar bem mais interessada em Matt.

Uma empregada rechonchuda passou a correr, mal tendo tempo para perguntar: - Mais caranguejos?

- Podes dar-me os caranguejos em qualquer altura - exclamaram os estudantes em coro. À sua volta, Thibault ouvia sempre a mesma resposta. A resposta alternativa, que também se ouvia, era «Nem quero acreditar que me deste caranguejos!», que parecia querer dizer que não era necessário trazer mais. Aquilo fez-lhe recordar o filme The Rocky Horror Picture Show, onde os conhecedores sabiam todas as respostas oficiais e os novatos as aprendiam durante o voo.

A comida era de primeira qualidade. A ementa continha apenas um prato, preparado de uma só maneira, e cada novo balde vinha acompanhado de mais guardanapos de papel e de babetes. A tradição mandava que se lançassem pedaços de caranguejos para o centro da mesa que, de vez em quando, eram recolhidos por adolescentes.

Conforme prometido, os estudantes eram buliçosos. Uma série de piadas, cheias de subentendidos inócuos acerca de Elizabeth, e mais duas cervejas para cada um, fizeram aumentar a animação. Depois do jantar, Thibault e Elizabeth foram aos lavabos para se lavarem. Quando regressaram, ela deu-lhe o braço.

- Está preparado para o shag? - perguntou de forma sugestiva.

- Não tenho a certeza. Como é que se faz?

- Aprender a dançar o shag é como aprender a ser sulista. É aprender como se deve descontrair, enquanto se ouve o oceano e sente a música.

- Presumo que já fez isso antes?

- Uma ou duas vezes - respondeu ela com falsa modéstia.

- E vai ensinar-me?

- Serei a sua parceira. Mas a lição começa às nove horas.

- Qual lição?

- Todas as noites de sábado, é por isso que veio tanta gente. Oferecem lições para principiantes, enquanto os frequentadores habituais descansam. Faremos como nos mandarem. Começa às nove.

- Que horas são?

Ela consultou o relógio. - Está na hora de aprender a dançar o shag.

Elizabeth era uma dançarina bem melhor do que dera a entender, o que, felizmente, o ajudou também a fazer melhor figura na pista de dança. Contudo, o melhor de dançar com ela era a sensação de choque eléctrico que ele sentia sempre que se tocavam, bem como o odor que ela exalava ao soltar-se dos braços dele para rodopiar, uma mistura de calor e perfume. O penteado dela desmanchou-se devido à humidade do ar, a pele dela brilhava com a transpiração, fazendo-a parecer natural e bravia. Uma vez por outra, lançava-lhe olhares enquanto rodava, os lábios entreabertos num sorriso astuto, como se soubesse exactamente o efeito que estava a provocar nele.

Quando a banda decidiu fazer um intervalo, o primeiro instinto dele foi deixar a pista juntamente com o resto dos dançarinos, mas Elizabeth fê-lo parar quando as notas gravadas de Unforgettable, de Nat King Cole, começaram a fluir dos altifalantes. Ergueu os olhos para ele: e ele soube o que tinha de fazer.

Sem palavras, fez deslizar um braço para as costas dela, pegou-lhe na mão e colocou-se em posição. Sustentou o olhar dela enquanto a puxava para si e, muito lentamente, começaram a mover-se ao ritmo da música, desenhando círculos lentos.

Thibault mal tinha consciência de que havia outros pares à volta deles na pista. com a música a fazer ambiente, Elizabeth encostou-se tanto a Thibault que ele podia sentir cada um dos movimentos respiratórios, lentos e lânguidos, da companheira. Fechou os olhos quando sentiu que ela lhe pousava a cabeça no ombro, instante a partir do qual tudo o resto, canção, lugar, os pares à sua volta, deixou de ter interesse. Só aquilo, só ela. Abandonou-se à sensação do corpo dela a pressionar o seu, enquanto se moviam lentamente, em círculos curtos, sobre o chão coberto de serradura, perdidos num mundo que parecia criado apenas para eles os dois.

Ao regressarem a casa pelas estradas escuras, no silêncio do interior do carro, Thibault pegou-lhe na mão e sentiu o polegar dela a percorrer-lhe lentamente a pele.

Quando entrou na alameda de acesso à casa, um pouco antes das onze horas, Zeus continuava deitado no alpendre e ergueu a cabeça quando Thibault desligou a ignição. Thibault voltou-se para a olhar de frente.

- Passei uma noite maravilhosa - murmurou. Esperou que ela dissesse o mesmo, mas Elizabeth surpreendeu-o com a resposta.

- Não me vais convidar a entrar? - sugeriu.

- Estás convidada.

Zeus sentou-se quando Thibault abriu a porta do carro e pôs-se de pé ao ver Elizabeth sair. Começou a agitar a cauda.

- Olá, Zeus - saudou Elizabeth.

- Vem cá - mandou Thibault e o cão saltou do alpendre e correu para eles. Andou à volta de ambos, os latidos a soarem como guinchos. com a boca meio aberta, como se sorrisse para lhes chamar a atenção.

- Sentiu saudades - observou Elizabeth, curvando-se. - Não sentiste, grandalhão? - perguntou, baixando-se ainda mais. Zeus lambeu-lhe a face. Pondo-se de pé, apertou o nariz do cão e limpou a cara. - Isso foi feio.

- Para ele não foi - interveio Thibault. Dirigiu-se para casa.

- Estás preparada? Tenho de te avisar de que não deves alimentar grandes expectativas.

- Tens uma cerveja no frigorífico?

- Tenho.

- Então, não te preocupes.

Subiram a escada, Thibault abriu a porta e ligou o interruptor. Uma só lâmpada lançou uma luz baça sobre uma cadeira de descanso colocada junto à janela. No centro da sala havia uma mesinha de café, decorada apenas com um par de velas; em frente da mesa estava um sofá de tamanho médio. Tanto a cadeira como o sofá tinham coberturas iguais, azul-marinho, e junto à parede via-se uma estante com uma pequena colecção de livros. Uma bolsa para revistas vazia por baixo de um candeeiro de pé alto completavam o mobiliário essencial.

Contudo, notava-se limpeza. Thibault limpara tudo ao princípio do dia. O chão de pinho fora varrido, as janelas lavadas, o pó limpo. Detestava a desordem e abominava a sujidade. A poeira sem fim do Iraque apenas servira para reforçar as suas tendências de maníaco da limpeza.

Elizabeth apreciou a cena antes de entrar na sala.

- Gosto. Onde é que compraste a mobília?

- Pertence à casa - explicou ele.

- O que explica as coberturas.

- Exactamente.

- Não tens televisor?

- Não.

- Nem rádio.

- Não.

- O que é que fazes quando aqui estás?

- Durmo. E Mais?

- Leio.

- Romances?

- Não - respondeu, mas mudou de ideias. - Na realidade, li um par deles. Mas leio mais história e biografias.

- Mas não textos de antropologia?

- Tenho um livro de Richard Leakey. Mas não aprecio muitos dos livros da pesada antropologia pós-moderna, que parece dominante nestes dias e, em qualquer caso, os livros desse género não são fáceis de encontrar em Hampton.

Elizabeth andou à volta da mobília, passou um dedo pelas coberturas. - Sobre o que é que ele escreveu?

- Quem? Leakey? Ela sorriu. - Sim. Leakey.

Thibault cerrou os lábios, a organizar as ideias. - A Antropologia tradicional trata principalmente de cinco questões: quando o homem começou a evoluir, quando começou a andar erecto, por que há tantas espécies de hominídeos, porquê e como estas espécies evoluíram e o que tudo isso significa na história da evolução do homem moderno. O livro de Leakey trata principalmente das quatro últimas, com ênfase especial na forma como a invenção das ferramentas e das armas influenciou a evolução do Homo sapiens.

Elizabeth mal conseguia esconder o quanto estava divertida, mas ele via que ficara impressionada.

- E quanto à tal cerveja?

- Volto num instante. Põe-te à vontade.

Regressou com duas garrafas e uma caixa de fósforos. Elizabeth sentara-se a meio do sofá; deu-lhe uma das cervejas e sentou-se ao lado dela, pousando os fósforos em cima da mesinha.

Elizabeth pegou logo na caixa de fósforos e acendeu um, ficando a ver a pequena chama tremeluzir. com um movimento fácil, chegou-a aos pavios e acendeu as duas velas, antes de apagar o fósforo.

- Espero que não te importes. Adoro o cheiro das velas a arder.

- Não me importo nada.

Levantou-se do sofá para apagar a luz, ficando a sala iluminada só pela chama quente das velas. Regressou ao sofá mas sentou-se mais perto dela, ficando a vê-la de olhos postos na chama das velas, com o rosto meio escondido no escuro. Tomou um gole de cerveja, a tentar perceber o que ela estaria a pensar.

- Sabes há quanto tempo não estou com um homem numa sala iluminada com velas? - indagou, voltando-se para ele.

- Não.

- Trata-se de uma rasteira. A resposta é nunca - explicou, parecendo espantada com a ideia. - Não é esquisito? Fui casada, tenho um filho, namorei e isto nunca me aconteceu - acrescentou. Chegada aqui, hesitou, mas prosseguiu, como que envergonhada: - E, se pretendes saber a verdade, depois do divórcio é a primeira vez que estou sozinha com um homem, em qualquer lugar.

- Diz-me uma coisa - pediu, com o rosto a poucos centímetros do dele. - Ter-me-ias convidado a entrar se eu não me tivesse convidado a mim mesma? Responde honestamente. Conseguirei notar se estás a mentir.

Thibault rodou a garrafa, nas mãos. - Não tenho a certeza. Ela pressionou. - Porquê? O que é que há em mim...

- Não tem a ver contigo - interrompeu ele. - Tem mais a ver com a Nana e com o que ela poderia pensar.

- Por ser a tua patroa?

- Por ser tua avó. Porque a respeito. Mas, principalmente, por te respeitar. Passámos um serão maravilhoso. Não me lembro de me sentir tão feliz nos últimos cinco anos, fosse com quem fosse.

- E nem assim me terias convidado - sugeriu Elizabeth, parecendo desnorteada.

- Não disse isso. Disse que não tinha a certeza.

- O que significa não.

- O que significa que eu procurava uma forma de te convidar sem te ofender, mas fui ultrapassado. No entanto, se realmente queres saber se eu queria convidar-te, a resposta é sim.

Thibault tocou-lhe o joelho com o dele. - A que propósito vem tudo isto?

- Digamos que não tenho tido muita sorte no mundo dos namoros.

Ele sabia o suficiente para manter o silêncio, mas quando ergueu o braço sentiu que ela se lhe encostava ao peito. - A princípio não me incomodou - acabou por admitir. - Isto é, estava ocupada com o Ben e com a escola, não dei muita importância ao assunto. Mas depois, quando continuou a suceder o mesmo, comecei a reflectir. A reflectir sobre mim. E fiz a mim mesma todo o género de perguntas malucas. Estaria a proceder mal? Não estava a prestar a atenção devida? Teria um cheiro esquisito? - prosseguiu, tentando sorrir, mas sem disfarçar inteiramente a tristeza interior e as dúvidas. - Ideias malucas, como eu disse. Pois que, de vez em quando conhecia um homem e pensava que estávamos a entender-nos lindamente, mas, de repente, a ligação era interrompida. Ele deixava de telefonar e, se acontecia encontrarmo-nos por acaso, o homem agia sempre como se eu estivesse atacada de peste. Não compreendia. Continuo a não compreender. O que me preocupava. Sentia-me magoada. com a passagem do tempo, a mágoa foi cavando mais fundo e tornou-se cada vez mais difícil atribuir as culpas aos homens; acabei por concluir que o problema residia em mim. Que a situação talvez significasse que eu devia levar uma vida solitária.

- Não havia nada de errado contigo - ripostou Thibault, fazendo uma ligeira pressão no braço dela.

- Dá-me uma oportunidade. Tenho a certeza de que encontrarás qualquer coisa.

Thibault conseguiu distinguir a mágoa escondida pelo gracejo.

- Não, acho que não encontrarei.

- És amoroso.

- Sou honesto.

Elizabeth sorriu e bebeu um gole de cerveja. - Na maioria dos casos.

- Não me consideras honesto?

A resposta foi precedida de um encolher de ombros. - É como eu disse. Na maioria dos casos.

- E isso quer dizer o quê?

Elizabeth pousou a garrafa na mesa e tentou coordenar as ideias.

- Julgo que és um homem extraordinário. És inteligente, trabalhas muito, és amável e fantástico a lidar com o Ben. Sei tudo isso, ou penso que sei, por ser o que vejo. Mas o que me cria dúvidas acerca de ti é o que não dizes. Digo a mim mesma que te conheço, mas, pensando melhor, apercebo-me de que não. Como é que eras na universidade? Não sei. O que aconteceu depois do curso? Não sei. Sei que estiveste no Iraque e que vieste a pé do Colorado até aqui, mas não sei por quê. Quando pergunto respondes apenas que «Hampton parece uma terra agradável». És inteligente e tens uma licenciatura, mas contentas-te com o salário mínimo. Se te pergunto porquê, respondes que é por gostares de cães - continuou, passando a mão pelo cabelo. - O problema é este: tenho a sensação de que falas verdade. Mas não me dizes toda a verdade. E a parte que manténs escondida é a que me ajudaria a perceber quem tu és.

Ao ouvi-la, Thibault tentava não pensar nas coisas que não lhe contara. Sabia que não lhe podia contar tudo. Não haveria maneira de a fazer compreender e... queria que Elizabeth soubesse quem ele era realmente. Mais do que tudo, apercebeu-se de que desejava ser aceite por ela.

- Não falo do Iraque porque não gosto de me recordar do tempo que lá passei - admitiu.

Elizabeth abanou a cabeça. - Não tens de me dizer se preferes...

- Eu quero - interrompeu com voz tranquila. - Sei que lês os jornais. Mas não é como imaginas, e não haverá qualquer forma de te fazer ver a realidade. É uma experiência que tem de ser vivida pelo próprio. Isto é, na maior parte do tempo não era tão mau como poderás pensar que era. Muitas vezes, na maioria das vezes, estava-se bem. Mais fácil para mim do que para outros, pois eu não tinha mulher nem filhos. Tinha amigos, tarefas a desempenhar. Na maior parte do tempo limitava-me a cumprir as funções. Havia alturas más. Realmente más. Suficientemente más para me fazerem desejar esquecer que alguma vez lá estive.

Ela manteve-se quieta até soltar um longo suspiro. - E estás em Hampton por causa do que aconteceu no Iraque?

Ele arrancou o rótulo da garrafa de cerveja, começando por descolar lentamente o canto e esfregando o vidro com a unha. - De certo modo.

Elizabeth sentiu a hesitação e pôs-lhe a mão no braço. O calor dela pareceu soltar qualquer coisa dentro dele.

- Victor foi o meu melhor amigo no Iraque - começou. - Fizemos as três comissões juntos. A nossa unidade sofreu muitas baixas e, no final, eu estava pronto a pôr para trás das costas tudo o que passara naquela terra. E consegui esquecer a maior parte, mas para o Victor não foi tão fácil. Não conseguia deixar de pensar na guerra.

Depois de desmobilizados, seguimos os nossos caminhos, tentando ajustar-nos à vida. Ele foi para casa, para a Califórnia, eu regressei ao Colorado, mas continuávamos a precisar um do outro, percebes? Conversávamos pelo telefone, enviávamos e-mails em que ambos fingíamos estar a viver bem com o facto de termos passado os últimos quatro anos a tentar, dia após dia, não sermos mortos, apesar de as pessoas de cá agirem como se fosse o fim do mundo perderem um lugar de estacionamento, ou não gostarem do leite fornecido pela Starbucks. De qualquer forma, acabámos por nos reunir para uma pescaria no Minnesota...

Interrompeu-se, não querendo recordar o que acontecera mas sabendo que não podia evitá-lo. Bebeu um grande gole de cerveja e voltou a colocar a garrafa na mesa.

- Isto passou-se no Outono do ano passado e eu... bem, eu fiquei tão contente por voltar a vê-lo. Não falámos do tempo passado no Iraque, mas não era preciso. Estar uns dias com outra pessoa que soubesse aquilo por que passámos era suficiente para ambos. Na altura, Victor encontrava-se bem. Nada de extraordinário, mas estava bem. Tinha casado e esperava o nascimento de um filho; recordo-me de ter pensado que, embora ele continuasse a ter pesadelos, os seus problemas estavam em vias de solução.

Olhou para Elizabeth com uma emoção que ela não saberia descrever.

- No nosso último dia, fomos pescar logo pela manhã. Estávamos sozinhos num barco a remos, o lago parecia liso como um espelho, como se fôssemos as primeiras pessoas que alguma vez tinham agitado aquelas águas. Lembro-me de ter visto um falcão a voar sobre o lago e da imagem dele projectada na água, de ter pensado nunca ter visto coisa mais bela - prosseguiu. A recordação fê-lo abanar a cabeça. - Tínhamos planeado sair dali antes de aparecer muita gente; a seguir iríamos para a cidade comer uns bifes e beber umas cervejas. Uma pequena festa para finalizar a excursão. Mas parece que não demos pela passagem do tempo e permanecemos no lago demasiado tempo.

Começou a massajar as têmporas, a tentar manter a compostura.

- Já tinha visto o barco. Não sei o que me levou a reparar nele, no meio de tantos outros. Talvez as minhas estadas no Iraque tivessem algo a ver com isso, mas recordo-me de ter pensado que o devia ter debaixo de olho. Um pormenor estranho, mesmo assim. Os tripulantes não pareciam estar a proceder de maneira diferente de todos os outros. Eram apenas uns adolescentes a divertirem-se: a praticar esqui aquático e tubing. Havia seis no barco, três rapazes e três raparigas; era evidente que estavam a aproveitar para passar todo o tempo na água enquanto o calor o permitia.

A voz dele tornou-se rouca ao continuar. - Ouvi o rugir do motor e soube que estávamos em dificuldades ainda antes de o ver. Um motor faz um certo barulho quando se dirige para nós a toda a velocidade. É como se o som saísse do motor um milésimo de segundo antes de o cérebro poder detectá-lo subconscientemente; sabia que íamos ter problemas. Mal tive tempo de voltar a cabeça, antes de ver a proa avançar para mim a 50 quilómetros por hora - recordou. Juntou os dedos. -Nesse momento, Victor já compreendera o que ia acontecer e ainda me recordo da expressão dele, uma mistura horrível de medo e de surpresa, a mesma expressão que eu vira nos meus amigos antes de morrerem no Iraque.

Thibault exalou o ar lentamente. - O barco cortou o nosso. Apanhou o Victor em cheio e matou-o instantaneamente. Num momento estávamos a conversar sobre a felicidade de ele ter casado com a sua mulher, no instante seguinte, o meu melhor amigo, o melhor amigo que alguma vez tive, estava morto.

Elizabeth pôs-lhe a mão num joelho e apertou-o. Empalidecera.

- Tenho tanta pena...

Ele nem pareceu ouvi-la.

- Não é justo, percebes? Sobreviver a três comissões no Iraque, sobreviver aos perigos por que passámos... para morrer numa excursão de pesca? Não fazia sentido. Depois daquilo, nem sei bem o que fiz, acho que me descontrolei. Não fisicamente. Mas, mentalmente, foi como cair num buraco profundo e ficar lá durante muito tempo. Desisti pura e simplesmente. Não conseguia comer, dormia poucas horas em cada noite e havia alturas em que não conseguia conter o choro. Victor tinha-me confessado que era perseguido por visões de soldados mortos e, depois da morte dele, passei a ser também perseguido. De repente, a guerra voltara a ser o centro de tudo. Sempre que procurava dormir, via o Victor ou cenas dos combates em que entráramos, em que sobrevivêramos, e tremia dos pés à cabeça. Zeus é que evitou que eu enlouquecesse completamente.

Parou para encarar Elizabeth. Apesar das memórias, foi atingido pela beleza daquele rosto e pelo brilho dourado daquele cabelo.

A face dela mostrava compaixão. - Não sei o que dizer.

Thibault encolheu os ombros. - Nem eu. Ainda não consigo compreender.

- Sabes que não tiveste culpa, não sabes?

- Sei - murmurou. - Mas a história não acabou ali - acrescentou. Pôs-lhe a mão num joelho, sabendo que não podia parar depois de ter ido tão longe.

Acabou por se decidir a continuar. - O Victor gostava de falar do destino. Era um crente fervoroso em todas as coisas desse género; no último dia que passámos juntos disse que eu saberia qual era o meu destino quando o encontrasse. Por mais que o tentasse, não consegui tirar essa ideia da cabeça. Ouvia-o dizer o mesmo, uma e outra vez, e, pouco a pouco, fui chegando lentamente à conclusão de que, embora não soubesse onde o encontrar, não o encontraria certamente no Colorado. Acabei por preparar a mochila e comecei a caminhar. A minha mãe pensou que eu perdera o juízo. Porém, a cada passada que dava na estrada, comecei a sentir-me novamente eu. Como se a viagem fosse o remédio de que precisava para me curar. E na altura em que cheguei a Hampton, soube que não tinha necessidade de caminhar mais.

- Por isso, ficaste.

- Pois.

- E o teu destino?

Não respondeu. Contara-lhe toda a parte da verdade que podia e não queria mentir-lhe. Olhou a mão dela, debaixo da sua, e, de súbito, tudo aquilo lhe pareceu um erro. Sabia que tinha de parar antes que fosse tarde. Levantar-se do sofá e conduzi-la até ao carro. Dar-lhe as boas-noites e partir de Hampton antes de o sol nascer. Mas não conseguiu proferir as palavras; não conseguiu erguer-se do sofá. Uma força qualquer apoderara-se dele; voltou-se para ela com um novo assombro. Percorrera metade do país à procura de uma mulher que conhecia apenas através de uma fotografia, mas acabara, lenta mas seguramente apaixonado por aquela mulher verdadeira, vulnerável e bela, que o fazia sentir-se vivo, como ainda não se sentira depois da guerra. Não compreendia muito bem como, mas nunca sentira uma tal certeza em toda a sua vida.

O que via na expressão dela era suficiente para lhe demonstrar que Elizabeth sentia exactamente o mesmo, pelo que a puxou delicadamente para si. Aproximou o rosto do dela e sentiu-lhe o calor da respiração ao passar os lábios pelos dela, uma vez, duas vezes, para depois os deixar lá colados.

Enfiou-lhe os dedos pela cabeleira, beijou-a com tudo o que tinha, com tudo o que queria ser. Ouviu um suave murmúrio de contentamento quando a enlaçou nos braços. Abriu a boca ligeiramente e sentiu a língua dela contra a sua e, de repente, soube que aquela era a mulher para ele, que estava a trilhar o caminho certo para ambos. Beijou-a nas faces e no pescoço, mordendo-a suavemente e voltou a beijar-lhe os lábios. Levantaram-se do sofá, ainda agarrados, e ele conduziu-a tranquilamente para o quarto.

Levaram tempo a fazer amor. Thibault ficou em cima dela, a desejar que aquele momento durasse para sempre, sem nunca deixar de lhe declarar o amor que sentia. Sentiu o corpo dela estremecer de prazer, uma e outra vez. Depois, Elizabeth manteve-se enroscada por baixo do braço dele e, depois de terem feito amor uma segunda vez, Thibault deitou-se de lado, olhando-a nos olhos e a passar-lhe um dedo suavemente pelo pescoço. Sentiu as palavras subirem-lhe à garganta, palavras que nunca esperara dizer a quem quer que fosse.

- Amo-te, Elizabeth - sussurrou, sabendo que as palavras eram verdadeiras em todos os sentidos.

Ela pegou-lhe nos dedos e beijou-os, um a um.

- Também te amo, Logan.

                  

                   CLAYTON

Keith Clayton observou a saída de Beth, sabendo exactamente o que acontecera lá dentro. Quanto mais pensava no assunto, mais desejava segui-la para conversarem um pouco logo que ela chegasse a casa. Explicar a situação de forma que ela conseguisse compreender, levá-la a aperceber-se de que aquele género de comportamento não era de forma alguma aceitável. Talvez com uma estalada ou duas, nada que a magoasse, mas para ela saber que ele falava a sério. Nunca esbofeteara Beth. Não pertencia a esse género de homens.

Que raio estava a passar-se? Poderia qualquer daquelas situações piorar?

Primeiro, verifica-se que o tipo trabalha no canil. A seguir, janta em casa dela durante uns dias, trocando aquele género de olhares melados que se vêem naquela porcaria de filmes de Hollywood. E, então, e aquele fora o coice maior, saíram para irem àquela dança de falhados e, mais tarde, embora não conseguisse ver através das cortinas, não tinha dúvidas de que ela começara a portar-se como uma rameira. Provavelmente no sofá. Provavelmente até bebera de mais.

Recordou-se daqueles dias. Dava-se à mulher uns quantos copos de vinho e voltava-se a encher o copo quando ela não estava a olhar, ou reforçava-se a cerveja com um pouco de vodca, ficava-se à espera que ela começasse a engrolar as palavras e tinha-se uma grande sessão de sexo em plena sala de estar. A bebida era uma grande ajuda. Dando-lhe umas quantas bebidas, a mulher não só não conseguia dizer não, mas tornava-se uma fera no meio dos lençóis. Como vigiara a casa, não lhe custava imaginar o aspecto do corpo dela quando se despiu. Se não estivesse tão furioso, o pensamento poderia até tê-lo excitado, ao sabê-la lá dentro, a fazer aquilo, a ficar escaldante e a transpirar. Mas a questão era outra: Beth não estava a agir exactamente como uma mãe, pois não?

Sabia o que iria suceder. Uma vez que começasse a ter sexo com os namorados, a situação tornar-se-ia normal e aceite. Uma vez tornada normal e aceite, faria o mesmo noutras saídas. Tão simples quanto isso. Um tipo levaria a dois, que, por sua vez, levariam a quatro ou cinco, ou dez ou vinte; a última coisa que queria era vê-la a passear uma legião de homens pela vida de Ben, que lhe poderiam piscar um olho ao saírem, como quem queria dizer: «Não há dúvida de que a tua mamã é uma mulher quente».

Não ia deixar que tal acontecesse. Beth era burra naquilo em que as mulheres são burras, motivo por que ele a tinha vigiado durante aqueles anos todos. E tudo tinha corrido optimamente, até «Thibolt» ter aparecido na cidade.

O tipo era um pesadelo com pernas. Como se tivesse como única intenção arruinar a vida de Clayton.

bom, também não iria conseguir isso, pois não?

Na última semana ficara a saber muitas coisas acerca de «Thibolt». Não só que ele trabalhava no canil - a propósito, o que é que isso tinha de esquisito? - e que morava numa barraca perto da floresta. E depois de ter feito umas quantas chamadas com ar oficial para as autoridades do Colorado, a cortesia profissional fizera o resto. Soube que «Thibolt» era licenciado pela Universidade do Colorado. Que prestara serviço militar nos fuzileiros navais, que combatera no Iraque e recebera uns quantos louvores. Contudo, o mais interessante foi saber que alguns dos tipos do pelotão dele murmuravam que, para se manter vivo, ele fizera uma espécie de pacto com o demónio.

Gostaria de saber o que Beth pensaria de tudo aquilo.

Quanto a ele, não acreditava. Conhecera marines suficientes para saber que, na sua maioria, eram inteligentes como calhaus. Mas não deixaria de haver algo de esquisito com o homem se os seus camaradas fuzileiros não tinham confiança nele.

E por quê atravessar o país para se instalar ali? O tipo não tinha conhecidos na cidade e, tanto quanto se sabia, nunca ali tinha estado. O que também não deixava de ser esquisito. Mais, não conseguia libertar-se da sensação de que a resposta estava mesmo à frente do seu nariz, só que ainda não a conseguira descobrir. Mas descobriria. Como sempre acontecera.

Clayton continuou a observar a casa, a pensar que já era tempo de começar a tratar do tipo. Mas não de momento. Não naquela noite. Não quando o cão estivesse por perto. Talvez na semana seguinte. Quando «Thibolt» estivesse no emprego.

Aquela era a melhor prova de que ele era diferente das outras pessoas. Na sua maioria, as pessoas viviam as suas vidas como os criminosos: agir primeiro, arcar com as consequências depois. Keith Clayton não actuava dessa maneira. Começava por uma reflexão profunda. Traçava planos. Antecipava-se. Era essa a principal razão por que não fizera nada até àquele momento, mesmo quando vira os dois chegarem a casa naquela noite, mesmo que tivesse visto Beth sair de lá, de faces coradas e despenteada. No final, sabia, tudo se resumia a poder e, de momento, «Thibolt» dispunha de poder. Por causa do disco da máquina fotográfica. O disco com fotografias que poderiam estancar o fluxo de dinheiro para os bolsos de Clayton.

Mas o poder de nada vale se não for utilizado. E Thibolt» ou não se apercebera de que dispunha de poder, ou livrara-se do disco, ou era do género de pessoas que geralmente se ocupam apenas dos seus assuntos pessoais.

Ou talvez fosse uma mistura de tudo aquilo.

Clayton tinha de se certificar. De começar pelo princípio, digamos assim. O que significava procurar o disco. Se o tipo ainda o tivesse, Clayton havia de o descobrir e destruía-o. O poder passaria de novo para as mãos de Clayton e Thibolt» receberia o tratamento que lhe estava reservado. E se «Thibolt» se tivesse livrado do disco depois de o encontrar? Melhor ainda. Saberia como tratar dele e as coisas começariam a regressar à normalidade entre ele e Beth. E essa era a parte mais importante.

Raios, como ela tinha bom aspecto ao sair daquela casa! Havia qualquer coisa de excitante em vê-la sair sabendo o que estivera a fazer, mesmo que tivesse estado com Thibolt». Beth passara muito tempo sem ter um homem e parecera-lhe... diferente. Mais do que isso, sabia que, depois daquela noite, ela estaria preparada para mais do mesmo.

Aquela história dos amigos privilegiados parecia-lhe cada vez mais interessante.

 

                    BETH

- Imagino que se tenham divertido - insinuou Nana. Era domingo de manhã e Beth acabara de chegar aos tropeções junto da mesa da cozinha. Ben continuava a dormir no andar de cima.

- É verdade - respondeu, sem conseguir reprimir um bocejo.

- E?

- E... nada.

- Considerando que não fizeram nada, chegaste tarde.

- Não era assim tão tarde. Estás a ver? Até acordei cedo - contrapôs, espreitando para dentro do frigorífico e voltando a fechá-lo sem tirar o que quer que fosse. - Seria impossível se tivesse recolhido a casa demasiado tarde. E qual é o motivo de toda essa curiosidade?

- Só pretendo saber se ainda tenho empregado na segunda-feira

- comentou Nana, enchendo uma chávena de café e deixando-se cair numa cadeira.

- Não vejo qualquer motivo para não poderes contar com ele.

- Portanto, correu bem?

Desta vez, ao recordar-se da noite anterior, Beth levou algum tempo a responder. Ao mexer o café, sentiu-se mais feliz do que se sentira desde há muito tempo. - Sim, correu bem.

Durante os dias seguintes Beth passou junto de Logan todo o tempo que pôde, procurando que tal não se tornasse demasiado evidente para Ben. Não sabia muito bem por que considerava a questão importante. Dir-se-ia o género de parecer que os conselheiros de família dariam acerca de namoros, sempre que houvesse filhos envolvidos. Mas, bem lá no fundo, sabia que havia outras razões. Havia algo de muito excitante no acto de fingir que nada se alterara nas relações entre eles; dava à relação um aspecto de ilicitude, transformava-a quase num caso amoroso clandestino.

Como era óbvio, Nana não se deixara enganar. Uma vez por outra, enquanto Beth e Logan procuravam manter aquela elaborada fachada, a avó resolvia murmurar uma qualquer frase sem sentido, como «camelos no Sara» ou «é como cabelos com chinelos». A primeira parecia implicar que eles haviam sido feitos para viver juntos; o segundo murmúrio levou um pouco mais de tempo a ser percebido; Elizabeth andou às voltas com ele até que Logan encolheu os ombros e sugeriu: - Não terá algo a ver com Rapunzel e Cinderela? .

Contos de fadas. Mas dos bons, com finais felizes. Nana estava a ser amorosa, mas tentando não revelar que era uma sentimental.

Aqueles momentos em que conseguiam ficar sós tinham uma intensidade mais própria dos sonhos. Beth observava com extrema atenção qualquer gesto ou movimento dele, fascinada pela forma tranquila como ele lhe agarrava a mão quando seguiam atrás de Ben durante os passeios do fim do dia, para a largar logo que Ben estivesse de novo à vista. Logan possuía um sexto sentido acerca do afastamento do garoto, uma aptidão, achava ela, adquirida nos fuzileiros, e estava-lhe grata por ele não se incomodar minimamente com a decisão de ela voar baixo para não ser detectada pelo radar do filho.

Para alívio dela, Logan continuara a tratar Ben exactamente como antes. Na segunda-feira, trouxe um pequeno conjunto de arco e flechas que comprara na loja de artigos para desporto. Ele e Ben andaram uma hora a atirar ao alvo, mas uma boa parte do tempo foi gasta à procura de setas perdidas, que erraram os alvos e acabaram no meio de arbustos com espinhos ou enredadas em ramos de árvores, deixando-os com arranhões das mãos aos cotovelos. Depois do jantar acabaram por ir para a sala jogar xadrez, enquanto Beth e Nana arrumavam a cozinha. Enquanto secava os pratos, Beth concluiu que, mesmo que não existissem outras razões, poderia amar Logan eternamente só pela maneira como ele tratava o filho dela.

Apesar de manterem a maior discrição, iam arranjando desculpas para estarem juntos. Na terça-feira, quando regressou a casa, vinda da escola, verificou que, com permissão de Nana, Logan instalara um banco de baloiço no alpendre, para «não termos de nos sentar nos degraus da escada». Enquanto Ben estava na lição de música, sentada junto a Logan, ela regalou-se com o movimento lento e permanente do banco. Na quarta-feira, foi com ele à cidade para comprar um novo carregamento de comida para cães. Actividades comuns, de todos os dias, mas estar a sós com ele era suficiente. Por vezes, quando seguiam juntos na carrinha, Logan punha-lhe o braço à volta dos ombros e ela encostava-se a ele, saboreando o momento.

Pensava nele enquanto trabalhava, a imaginar o que estaria a fazer ou sobre aquilo que ele e Nana estariam a conversar. Imaginava a maneira como a camisa dele se lhe colava à pele suada, ou a flexão dos seus músculos enquanto treinava os cães. Na manhã de quinta-feira, quando Logan e Zeus percorriam o desvio de acesso à casa para irem trabalhar, Beth voltou as costas à janela da cozinha. Nana estava à mesa, a enfiar lentamente os pés nas botas de borracha, um gesto que se tornara um desafio devido à fraqueza do braço. Beth pigarreou.

- Importas-te que o Logan tenha este dia de folga? - perguntou. Nana nem se preocupou em esconder o sorriso. - Porquê?

- Queria sair com ele hoje. Só nós os dois.

- E a escola? Beth já estava vestida e tinha o almoço preparado. - Estava a pensar dar parte de doente.

- Ah! - comentou a avó.

- Nana, eu amo-o.

Nana abanou a cabeça, mas tinha os olhos brilhantes. - Andava a pensar quando é que decidirias ter juízo e dizer-me isso, em vez de me obrigares a murmurar aquelas charadas ridículas.

- Desculpa.

Nana pôs-se de pé e bateu os pés várias vezes para ter a certeza de que as botas estavam bem calçadas. Deixou ficar uma fina camada de pó no chão. - Suponho que posso tratar das coisas por um dia. Provavelmente até me faz bem. De qualquer maneira, tenho andado a ver televisão em demasia.

Beth ajeitou uma madeixa atrás da orelha. - Obrigada.

- Não tens de quê. Desde que isso se não torne um hábito. Ele é o melhor empregado que alguma vez tivemos.

Passaram a tarde abraçados, fazendo amor repetidamente, e quando chegou a altura de regressarem, pois ela queria estar em casa quando Ben voltasse da escola, Beth não tinha dúvidas de que Logan a amava tanto quanto ela o amava; e começava a imaginar-se a passar o resto da vida com ele.

Um único pormenor ensombrou aquela felicidade perfeita, pois sentiu que havia qualquer coisa a preocupá-lo. Não tinha a ver com ela, disso não tinha dúvidas. Nem se tratava do estado da relação entre eles; a maneira como ele agia quando estavam juntos demonstrava-o. Havia qualquer outro problema, algo que ela não podia apontar, mas, pensando melhor, notou que se apercebera pela primeira vez do problema na tarde de terça-feira, logo que chegara a casa com Ben.

Ben, como sempre, saltara do carro para ir brincar com Zeus, ansioso por queimar as energias acumuladas durante a lição de música. Enquanto conversava com a avó no escritório do canil, espiava Logan, que estava de pé no jardim, de mãos nas algibeiras, parecendo perdido em reflexões. Mesmo na carrinha, quando colocara o braço à volta dela, Beth percebera que ele continuava preocupado. E, à noite, depois do jogo de xadrez com Ben, dirigira-se sozinho para o alpendre.

Beth juntou-se-lhe uns minutos depois e sentou-se ao lado dele no banco de baloiço.

- Há qualquer coisa que te preocupa? - acabou por perguntar. Logan não respondeu de imediato. - Não tenho a certeza.

- Estás preocupado por minha causa?

Ele abanou a cabeça e sorriu. - De forma alguma.

- O que é que se passa?

Logan hesitou. - Não tenho a certeza - repetiu.

Beth encarou-o de olhos semicerrados. - Queres falar sobre isso?

- Quero - respondeu. - Mas ainda não.

No sábado, com Ben em casa do pai, foram de carro até Sunset Beach, perto de Wilmington.

Naquela altura do ano as multidões do Verão tinham desaparecido e, para além de umas quantas pessoas que passeavam pela praia, tinham o lugar por conta deles. O oceano, alimentado pela corrente do golfo, continuava com temperaturas bastante agradáveis, meteram-se na água até aos joelhos e Logan atirou a bola para lá da rebentação. Zeus estava nas suas sete quintas, nadando furiosamente e ladrando uma vez por outra, como se tentasse intimidar a bola para ela não sair do sítio em que se encontrava.

Beth preparara um piquenique e trouxera toalhas; quando Zeus se cansou, afastaram-se um pouco mais da água e instalaram-se para o almoço. Metodicamente, foi dispondo o necessário para fazer as sanduíches e cortou fruta fresca. Enquanto comiam, observaram uma traineira da pesca de camarão a navegar no horizonte e, durante muito tempo, Logan observou-a com ar preocupado, o mesmo ar que lhe notara por diversas vezes durante a semana.

- Estás outra vez com aquele ar - acabou por dizer.

- Qual ar?

- Deita isso cá para fora - sugeriu, ignorando a pergunta.

- O que é que te preocupa? E desta vez não aceito respostas vagas.

- Estou óptimo - contrapôs Logan, voltando-se para a olhar de frente. - Sei que tenho parecido um pouco absorto nos últimos dias, mas estou apenas a tentar perceber uma questão.

- Qual, exactamente?

- Por que é que saímos juntos? Beth sentiu um baque no coração. Não era o que estava à espera de ouvir e notou a sua própria expressão de imobilidade.

- Não me expressei bem - desculpou-se Logan, a abanar a cabeça repetidamente. - Não queria referir-me à maneira como pensas. Estava a reflectir sobre a existência desta oportunidade. Não faz sentido.

Beth encarou-o de testa enrugada. - Continuo a não perceber.

Zeus, que se mantivera deitado ao lado deles, ergueu a cabeça para observar um bando de gaivotas que pousara ali por perto. Além delas, na borda de água, pequenos pássaros, chamados flautistas, mergulhavam para apanhar pequenos caranguejos na areia. Logan ficou a observá-los, antes de continuar. Quando falou, fê-lo com voz firme, como um professor a discorrer sobre a matéria que ensinava.

- Se analisares a questão segundo a minha perspectiva, verás o seguinte: uma mulher inteligente, fascinante e bonita, com menos de trinta anos, viva e apaixonada. E também, quando quer, extremamente sedutora - presenteando-a com um sorriso de conhecedor, antes de prosseguir. - Por outras palavras, um bom partido, qualquer que seja a definição utilizada - concluiu. Fez uma pausa. - Interrompe-me se estiver a incomodar-te.

Beth estendeu o braço e deu-lhe uma palmadinha no joelho. - Estás a ir muito bem. Continua.

Logan alisou nervosamente o cabelo. - É o que tenho andado a tentar perceber. Há dias que ando a pensar no mesmo.

Ela tentou, sem sucesso, seguir-lhe a linha de pensamento. Desta vez, em vez das palmadinhas no joelho, apertou-o. - Tens de aprender a ser mais claro. Continuo a não te perceber.

Desde que o conhecia, notou-lhe, pela primeira vez, uma momentânea expressão de impaciência. Desapareceu tão rapidamente quanto aparecera, levando-a a sentir que, de alguma forma, era menos dirigida a ela do que a ele próprio.

- Estou a dizer que não faz sentido que não tenhas mantido uma relação depois do divórcio - observou. Parou, como se procurasse a expressão certa. - É verdade que tens um filho, o que para alguns homens será razão suficiente para não se meterem contigo. Porém, geralmente não escondes o facto de seres mãe e calculo que, numa terra pequena como esta, a maioria das pessoas está ao corrente da situação. Estou a pensar bem? Beth hesitou. - Estás.

- E os homens que te convidaram para sair. Todos sabiam de antemão que tinhas um filho?

- Sabiam.

Logan encarou-a com um ar inquisitorial. - Onde é que eles estão?

Zeus remexeu a cabeça no colo dela, e Beth começou a dar-lhe palmadinhas atrás das orelhas, a sentir que procurava reforçar a sua atitude defensiva.

- O que é que isso interessa? - indagou. - E, para ser franca, esse género de questões não me entusiasma. O que aconteceu no passado é comigo, não posso desfazer o que fiz, e diabos me levem se vou ficar aqui a ouvir as tuas perguntas sobre mim, acerca dos homens que namorei, quando os namorei e o que lhes aconteceu. Sou quem sou, e penso que deverias ser a primeira pessoa a percebê-lo, Sr. Vim-a-pé-do-Colorado-mas-não-me-perguntes-porquê.

Permaneceu calmo, mas ela sabia que ele estava a reflectir sobre o que ouvira. Quando voltou a falar, a voz dele parecia transbordar de inesperada ternura.

- Não estou a falar disto para te irritar. Estou a dizer o que penso por te considerar a mulher mais notável que conheci - retorquiu. Fez nova pausa antes de continuar, para ter a certeza de que as suas palavras tinham surtido efeito. - O problema é eu achar que quase todos os homens pensariam como eu. E como namoraste outros homens, especialmente nesta terra pequena onde não há assim tantas mulheres do teu grupo etário disponíveis, estou convencido de que eles terão reparado na estupenda mulher que tu és. Ora bem, alguns deles não seriam o que esperavas, por isso terminaste a relação. Mas, e os outros? Aqueles de quem gostaste? Terá forçosamente havido alguém, algures, com quem parecesses alinhar.

Logan agarrou um punhado de areia e abriu os dedos lentamente, permitindo que os grãos se escoassem pouco a pouco. - Foi o que me levou a pensar no assunto. Por não ser plausível que não sentisses que poderias alinhar com algum, apesar de tu própria confessares que não tiveste muita sorte no mundo dos namoros.

Interrompeu-se para limpar a mão com a toalha. - Até aqui, estou enganado?

Beth encarou-o, a imaginar como é que ele poderia saber tanto.

- Não - respondeu.

- E reflectiste sobre a questão, não é verdade?

- Algumas vezes - confessou. - Mas não achas que estás a remexer demasiado neste assunto? Mesmo que eu fosse perfeita como tu dizes, é preciso não esquecer que os tempos mudaram. Haverá milhares, se não dezenas de milhares, de mulheres que poderias descrever da mesma forma.

Ele encolheu os ombros. - Talvez.

- Mas não estás convencido. Os olhos azuis dele continuaram a analisá-la sem descanso. - Não.

- Porquê? Acreditas que exista uma espécie de conspiração? Em vez de lhe responder directamente, Logan pegou noutra mão-cheia de areia. - O que é que podes dizer-me acerca do teu ex-marido? - inquiriu.

- Que importância tem isso?

- Estou curioso sobre a maneira como ele encara os teus namoros.

- Tenho a certeza de que isso não lhe interessa minimamente. E nem consigo imaginar por que pensas que isso tem importância.

Logan deixou cair a areia toda de uma vez. A seguir, voltou-se para ela e informou-a, em voz baixa. - Porque tenho quase a certeza de que foi ele quem entrou em minha casa, há uns dias atrás.

 

                       THIBAULT

Na noite de sábado, já tarde, depois de Elizabeth ter saído, Thibault encontrou Victor sentado na sala, ainda com os calções e a camisa que vestia no dia em que morreu.

A visão obrigou Thibault a parar. Só conseguiu ficar a olhar. Não era possível, aquilo não estava a acontecer realmente. Sabia que Victor tinha morrido, que fora sepultado num pequeno cemitério perto de Bakersfield. Sabia que Zeus teria reagido se houvesse um ser verdadeiro dentro de casa, mas o cão limitara-se a ir beber água.

No meio do silêncio, Victor sorriu. «Há mais», sugeriu, em voz rouca.

Quando Thibault pestanejou, Victor desaparecera; era óbvio que nunca ali estivera.

Era a terceira vez, desde a morte de Victor, que o amigo lhe aparecia. A primeira vez fora no funeral, quando Thibault dobrava um canto, no fundo da igreja, e vira Victor a olhar para ele do fundo do corredor. «Não tiveste culpa», dissera Victor antes de desaparecer. A garganta de Thibault apertara-se, forçando-o a correr para conseguir respirar.

A segunda aparição acontecera três semanas antes de ele iniciar a caminhada. Nessa altura, acontecera no supermercado, quando Thibault esquadrinhava a carteira, a calcular quantas cervejas poderia comprar com o dinheiro que lhe restava. Andava a beber demasiado e, ao contar as notas, viu uma imagem pelo canto do olho. Victor abanou a cabeça, mas manteve-se calado. Não precisara de falar. Thibault sabia que ele dissera que era tempo de deixar a bebida.

Agora, isto.

Thibault não acreditava na existência de fantasmas e sabia que a imagem de Victor não fora verdadeira. Não era perseguido por espectros, não recebia visitas do além, não existia um espírito a desejar entregar-lhe qualquer mensagem. Victor não passava de um fragmento da sua imaginação e sabia que a imagem do amigo se lhe formara no subconsciente. Afinal, Victor fora a única pessoa de quem Thibault, alguma vez, aceitara conselhos.

Sabia que o acidente com o barco não passara disso: de um acidente. Os miúdos que tripulavam o barco ficaram traumatizados, o horror pelo que tinha acontecido fora genuíno. Quanto às bebidas, no fundo, sabia que estavam a fazer-lhe mais mal do que bem. Fosse como fosse, revelava-se mais fácil dar atenção a Victor.

Ver uma vez mais o amigo era a última coisa que esperava.

Ficou a pensar nas palavras de Victor - «há mais» - e pôs-se a reflectir se teriam alguma relação com a conversa que acabara de ter com Elizabeth. De certa maneira, achava que não, mas não tinha a certeza e isso preocupava-o. Suspeitava que quanto mais se cansasse à procura de uma resposta, menos probabilidades teria de a encontrar. O subconsciente gosta de nos pregar partidas.

Foi até à cozinha para beber um copo de leite, pôs alguma comida na tigela de Zeus e caminhou para o quarto. Deitado na cama, pensou no que dissera a Elizabeth.

Pensara muito, e durante muito tempo, sobre se devia levantar a questão. Nem tinha a certeza do que pretendia conseguir ao fazê-lo, para além de lhe abrir os olhos acerca da possibilidade de Keith Clayton poder andar a controlar-lhe a vida, de uma forma que ela nem conseguia imaginar.

E era precisamente isso que o homem andara a fazer. Thibault convencera-se logo que notou que a casa fora assaltada. É verdade que poderia ter sido qualquer pessoa, alguém que quisesse deitar mão a umas notas ou a qualquer objecto que pudesse levar à casa de penhores; mas a forma como o assalto fora levado a cabo sugeria algo de diferente. Tudo demasiado perfeito. Nada remexido. Nada fora do lugar. No entanto, tudo fora arrumado.

A primeira denúncia viera do cobertor. Havia um pequeno sulco no cobertor, provocado por alguém que não conhecia a forma de os militares entalarem os cobertores, um pormenor que poucas pessoas notariam, se é que haveria alguém capaz de reparar nele. Mas ele reparou. As roupas guardadas no armário mostravam desarranjos semelhantes: uma prega aqui, uma manga mal dobrada ali. Enquanto ele estava no emprego, houvera alguém que, além de entrar na casa, a revistara sistematicamente.

Mas, porquê? Thibault não tinha bens de valor para serem roubados. Uma prévia vista de olhos pelo lugar confirmaria a ausência de valores. Para além de a sala não conter qualquer aparelhagem electrónica, o segundo quarto estava vazio e a divisão onde ele dormia continha apenas a cama, a mesinha-de-cabeceira e o candeeiro. Tirando os pratos e os utensílios, mais um abre-latas eléctrico já antigo, a cozinha também se encontrava vazia. Na despensa havia comida para cães, um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Contudo, e por qualquer motivo, alguém perdera tempo a revistar a casa de alto a baixo, incluindo a parte inferior do colchão. Alguém revistara diligentemente as gavetas e disfarçara a busca.

Nenhum sinal de violência por não encontrar valores. Sem frustração evidente por o assalto se ter revelado uma perda de tempo. Em vez disso, o assaltante tinha tentado destruir todas as pistas.

Quem arrombara a porta da casa não viera para roubar, viera à procura de qualquer coisa. De algo específico. Não levou muito tempo a descobrir o que era e o nome do responsável.

Keith Clayton queria a sua máquina fotográfica. Ou, o que era mais provável, o disco. Talvez porque o cartão continha fotografias que o podiam comprometer. Não era preciso um grande raciocínio para chegar a essa conclusão, tendo em conta o que Clayton andava a fazer quando se tinham conhecido.

Muito bem, Clayton pretendera destruir as pistas. Mas havia ali mais qualquer pormenor para além dos que saltavam à vista. E tinha a ver com Elizabeth.

Não fazia qualquer sentido que ela não tivesse tido uma relação nos últimos dez anos. Mas tinha a ver com algo que ele ouvira quando estava junto da mesa de bilhar, a mostrar a fotografia aos homens da terra. O que é que um deles dissera? Precisara de algum tempo para se recordar das palavras exactas e desejaria ter prestado mais atenção ao comentário. Estivera tão empenhado em saber o nome de Elizabeth, que ignorara o comentário na altura. Um erro. Em retrospectiva, o comentário tinha uma ameaça implícita.

«... digamos que ela não namora. O ex-marido não gostaria e, acredite, não gostaria de se meter com ele.»

Reviu o que sabia acerca de Keith Clayton. Pertencia a uma família poderosa. Um rufia. Fácil de enfurecer. Em posição de abusar do poder. Alguém que pensava merecer tudo o que desejasse, sempre que lhe apetecesse?

Thibault não podia ter a certeza acerca da última parte, mas tudo se encaixava na fotografia.

Clayton não queria que Elizabeth conhecesse outros homens. Elizabeth não tivera qualquer relação digna desse nome durante anos.

Por vezes interrogara-se sobre os motivos, mas nunca pensara existir uma conexão entre o ex-marido e as relações falhadas. Para Thibault, parecia perfeitamente plausível que Clayton andasse a manipular as pessoas e os acontecimentos e, pelo menos num aspecto, a controlar a vida da ex-mulher. Para saber se Elizabeth andava com alguém, Clayton andara a espiá-la durante anos, tal como andava a espiá-la agora.

Não era difícil imaginar a forma como Clayton tinha feito abortar as anteriores relações, mas, por enquanto, mantivera as suas distâncias no que dizia respeito a Thibault e a Elizabeth. Até agora não o detectara a espiá-los de longe, não notara qualquer pormenor fora do comum. Em vez disso, Clayton entrara-lhe em casa em busca do disco da máquina, quando sabia que ele estava no emprego.

Para matar dois coelhos de uma só cajadada?

Provavelmente. Mas a questão era: com que finalidade? Pelo menos para correr com Thibault da cidade. No entanto, Thibault não conseguia afastar a sensação de que não seria esse o objectivo. Como Victor dissera, «havia mais».

Queria partilhar com Elizabeth aquilo que sabia acerca do ex-marido, mas não podia contar-lhe directamente os comentários que escutara no salão de bilhar. Significaria ter de falar da fotografia e ainda não o podia fazer. Em vez disso, queria apontar-lhe a direcção certa, esperando que ela própria estabelecesse as conexões. Juntos, uma vez que ambos soubessem até onde Clayton era capaz de ir para sabotar as relações dela, seriam capazes de escolher o que teriam de fazer. Amavam-se. Saberiam o que haveria a esperar. Tudo se resolveria.

Fora aquela a razão da sua vinda? Para se apaixonar por Elizabeth e para construir uma vida a dois? Seria aquele o seu destino?

Por qualquer razão, não lhe parecia que assim fosse. As palavras de Victor pareciam confirmar as dúvidas dele. Havia outra razão para a vinda dele. Apaixonar-se por Elizabeth poderia ser parte do esquema. Mas não era tudo. Iria acontecer algo mais.

«Há mais».

Thibault dormiu o resto da noite sem acordar, como sempre acontecia desde que chegara à Carolina do Norte. Uma regra militar, ou, mais exactamente, uma regra de combate, algo que aprendera por necessidade. Soldados cansados cometem erros. Fora o pai quem lho dissera. Todos os oficiais que conhecera lhe haviam dito o mesmo. A sua experiência do tempo de guerra só confirmara a justeza da afirmação. Aprendera a dormir quando tinha de dormir, por mais caótico que fosse o ambiente, confiante de que dormindo se sentiria melhor no dia seguinte.

Tirando o breve período que se seguira à morte de Victor, o sono nunca fora um problema. Gostava de dormir e gostava da forma como os seus pensamentos pareciam assentar enquanto sonhava. No domingo, ao acordar, deu consigo a imaginar uma roda com raios que partiam do centro. Não soube porquê mas, uns minutos depois, quando passeava Zeus no exterior, foi subitamente atingido pela ideia de que Elizabeth não era o centro da roda, como ele assumira subconscientemente. Em vez disso, apercebia-se agora, tudo o que acontecera depois que chegara a Hampton parecia girar à volta de Keith Clayton.

Afinal, Clayton fora a primeira pessoa que ele conhecera na cidade. Tirara a máquina fotográfica de Clayton. Clayton e Elizabeth tinham sido casados. Clayton era o pai de Ben. Clayton sabotara as relações de Elizabeth. Clayton descobrira-os quando passavam o serão juntos, quando trouxera Ben a casa com um olho negro; por outras palavras, fora o primeiro a saber o que se passava entre eles. Clayton assaltara-lhe a casa. Clayton fora a razão que o trouxera a Hampton, e não Elizabeth.

Lá longe, ouviu-se o trovão, profundo e ameaçador. Vinha uma tempestade a caminho e o ar pesado fazia pensar numa das grandes.

Para além do que Elizabeth lhe contara acerca de Clayton, apercebeu-se de que sabia muito pouco sobre o ex-marido dela. A queda dos primeiros pingos obrigou-o a refugiar-se em casa. Mais tarde, iria fazer uma visita à biblioteca. Se quisesse conhecer melhor Hampton e o papel que os Clayton ali desempenhavam, tinha pela frente um pequeno trabalho de investigação.

 

               BETH

- Não me surpreende - resmungou Nana. - Nada me espantaria com o teu antigo marido.

- Nana, ele ainda não morreu.

Nana suspirou. - A esperança é a última coisa a morrer.

Beth bebeu um pequeno gole de café. Era domingo e acabavam de regressar da igreja. Pela primeira vez, desde que sofrera o acidente vascular, Nana cantara um pequeno solo de uma das peças musicais e Beth não a queria perturbar. Sabia o que o coro significava para a avó.

- Não me estás a ajudar - lamentou Beth.

- A ajudar em quê?

- Eu só estava a dizer...

Nana inclinou-se sobre a mesa. - Sei o que estás a dizer. Já me contaste, recordas-te? E se estás a perguntar se acho que Keith se introduziu em casa de Thibault, estou apenas a dizer-te que tal não me surpreenderia. Nunca gostei daquele homem.

- A quem o dizes!

- Não há razões para seres insolente.

- Não estou a ser insolente.

Nana não pareceu ouvi-la. - Pareces cansada. Queres mais café? E que me dizes a uma tosta com canela?

Beth acenou com a cabeça. - Não tenho fome.

- Ainda assim, não podes deixar de comer. Não é saudável saltar refeições e sei que não tomaste o pequeno-almoço - sentenciou ao levantar-se da mesa. - vou preparar a tosta.

Beth sabia que não valia a pena protestar. Se Nana tomasse uma decisão, não havia forma de a dissuadir.

- E quanto à outra parte? Acerca de Keith ter algo a ver com... - não conseguiu continuar.

Nana encolheu os ombros e pôs duas fatias de pão na torradeira.

- Sobre ser ele a correr com os outros homens? Nesse homem nada me surpreende. E parece explicar muitas coisas, não é verdade?

- Mas não faz sentido. Posso nomear pelo menos meia dúzia de mulheres com quem ele tem andado, além de nunca me ter dado a entender que quer voltar para mim. Por que havia de se importar com quem eu namoro?

- Porque não passa de uma criança mimada - adiantou Nana. Pôs dois pedaços de manteiga numa frigideira e acendeu o fogão. Uma pequena chama azulada apareceu. - Foste o brinquedo dele, e mesmo tendo conseguido arranjar novos brinquedos, isso não quer dizer que ele goste que alguém brinque com os brinquedos mais antigos.

Beth remexeu-se na cadeira. - Não acho que essa analogia me agrade.

- Não interessa se te agrada ou não. Interessa é saber se é verdade.

- E pensas que é?

- Não foi isso que eu disse. Disse que não me surpreenderia. E não venhas também dizer-me que ficaste surpreendida. Tenho reparado na maneira como ele te analisa da cabeça aos pés. Provoca-me calafrios e, acredita, faço o que posso para não lhe bater com a pá de apanhar a trampa.

A neta sorriu, mas o sorriso durou apenas um instante. Quando as torradas saltaram, Nana apanhou as duas fatias e colocou-as num prato. Espalhou molho de manteiga por cima delas, depois acrescentou açúcar e canela. Pegou no prato e colocou-o em frente de Beth.

- Aí tens. Come. Hoje em dia pareces um esqueleto.

- Tenho o mesmo peso de sempre.

- Que não é suficiente. Nunca foi suficiente. Se não tomas cuidado, és levada pela tempestade - sentenciou, apontando para a janela.

- Vai ser das grandes. O que é bom. Precisamos da chuva. Espero que não tenhamos uivadores no canil.

Os uivadores eram cães que se assustavam com as tempestades e tornavam a vida difícil aos outros cães. Beth reconheceu na mudança de conversa uma oportunidade para mudar de assunto. Nana quase sempre oferecia uma saída mas, ao dar a primeira dentada na torrada, Beth deu-se conta de que queria discutir uma outra questão.

- Não julgo que se tenham conhecido antes - acabou por dizer.

- Quem? Thibault e o tarado?

Beth ergueu as mãos. - Por favor, não lhe chames isso. Sei que não gostas dele, mas não deixa de ser o pai do Ben e não quero que cries o hábito de lhe chamar isso quando Ben pode ouvir. Bem sei que não está aqui de momento...

Nana sorriu sem vontade. - Tens razão - admitiu. - Peço desculpa. Não volto a dizer isso. Mas, estavas a perguntar-me o quê?

- Recordas-te da noite em que Keith trouxe o Ben a casa com um olho negro? Estavas em casa da tua irmã. interrompeu a frase para que Nana se lembrasse. - Na noite passada, dei comigo a pensar nisso. Na altura não liguei, mas quando Keith viu Logan, não perguntou quem ele era. Em vez disso, foi como se lhe tivessem carregado num interruptor, ficou subitamente furioso. Disse algo assim: «O que é que está a fazer aqui?»

- E então? - perguntou Nana com ar ausente.

- Foi a maneira como fez a pergunta. Não pareceu lá muito surpreendido por encontrar um homem aqui em casa, o que o surpreendeu especialmente foi tratar-se de Logan. Como se Logan fosse a pessoa que esperava encontrar.

- O que é que Thibault diz quanto a isso?

- Nada. Mas faz sentido, não achas? Que os caminhos de ambos se tenham cruzado? Pois ele pensa que Keith lhe revistou a casa.

- Talvez - concordou Nana, mas logo a seguir abanou a cabeça.

- Não sei. O Thibault mencionou aquilo de que o teu ex-marido andaria à procura?

- Não, não falou nisso. Apenas disse que não havia muito que encontrar.

- Uma maneira de responder à pergunta sem realmente te esclarecer.

- Hum - anuiu Beth. Deu nova dentada na tosta, a pensar que não conseguiria comê-la toda.

Nana inclinou-se para ela. - E isso também te preocupa?

- Um pouco - concordou Beth com ligeiro aceno.

- Por pensares que ele te esconde qualquer facto?

Como Beth não respondesse, Nana estendeu o braço por cima da mesa e pegou na mão da neta. - Julgo que neste caso estás a preocupar-te com o que não interessa. Talvez o teu ex-marido tenha revistado a casa de Thibault, ou pode não o ter feito. Talvez tenha havido um encontro anterior, ou talvez não se conhecessem. Mas nada disso é tão importante como descobrir se o teu ex-marido tem andado a actuar em segredo contra ti. Se fosse eu, era com isso que me preocuparia, era isso que procuraria saber, pois essa é a parte que te afecta mais - sugeriu. Fez uma pausa para deixar que as ideias assentassem.

- Digo isso por vos ter visto juntos, tu e Thibault, e salta à vista quanto ele se interessa por ti. E julgo que o motivo que o levou a dizer-te isso é tentar evitar que lhe suceda o mesmo que sucedeu aos outros homens que namoraste.

- Portanto, julgas que Logan tem razão?

- Julgo que sim. E tu, não?

Beth levou muito tempo a responder. - Também penso o mesmo.

Uma coisa era pensar, outra era ter a certeza. Depois da conversa com a avó, vestiu calças de ganga, pegou na gabardina e seguiu de carro para a cidade. A chuva começara a cair em força umas horas antes, um dilúvio alimentado por uma tempestade tropical que, vinda da Geórgia, atingira a Carolina do Norte. Os prognósticos apontavam para a queda de 20 centímetros de água nas próximas 24 horas, com possibilidades de o mau tempo se manter. Mais duas tempestades vindas do Golfo do México tinham atingido terra firme em dias recentes e receava-se que pudessem também atravessar a região, trazendo consigo ainda mais chuva. O Verão quente e seco chegava oficialmente ao fim.

Mesmo com o limpa-vidros na velocidade máxima, Beth mal conseguia ver o que tinha pela frente. Os esgotos começavam a transbordar e enquanto ia a caminho da cidade viu diversos turbilhões de água que se dirigiam para o rio. O nível das águas ainda não subira, mas iria subir: o rio era alimentado por quase todos os tributários existentes num raio de 80 quilómetros, levando-a a suspeitar que a cheia do rio não viria longe. A cidade sabia lidar com inundações; tempestades de tal força faziam parte da vida corrente naquela região do país e muitas das empresas encontravam-se suficientemente afastadas das margens para evitar os efeitos, mesmo tratando-se de inundações excepcionais. Na estrada que conduzia ao canil, por correr paralela ao rio, a situação era diferente. Durante tempestades violentas, especialmente quando havia tufões, o rio inundava-a, tornando aquele percurso perigoso. Não seria um problema de hoje, colocar-se-ia durante a semana, pois suspeitava que a situação iria tornar-se bem pior.

Enquanto conduzia continuava a reflectir sobre a conversa com Nana. Na manhã do dia anterior as coisas tinham parecido bastante mais simples, mas agora não conseguia pôr de lado as questões que lhe atormentavam a mente. Não só em relação a Keith, mas também acerca de Logan. Se fosse verdade que Logan e Keith já se conheciam, por que motivo Logan nunca se referira a isso? E que procuraria Keith em casa de Logan? Como polícia, Keith tinha acesso a todos os géneros de informações sobre pessoas, podendo, portanto, tratar-se de algo desse tipo. O que seria, então? Não conseguia fazer ideia do que poderia ser.

E se Nana e Logan tivessem razão? E partindo do princípio de que a tinham, porque depois de pensar um pouco no assunto sentia intuitivamente que eles estavam dentro da razão, como pudera ela não dar por nada?

Era duro ter de admitir que poderia tê-lo julgado mal. Lidava com o homem há mais de dez anos e, embora nunca o tivesse considerado um modelo de virtudes, a ideia de ele andar a sabotar a vida pessoal dela nunca lhe ocorrera. Quem faria uma coisa daquelas? E porquê? A ideia de Nana, a de que ele pensava nela como um brinquedo pessoal que não desejava partilhar, tinha uma aura de verdade que lhe tornava o pescoço tenso enquanto conduzia.

O que mais a surpreendia era que naquela pequena terra, onde se tornava quase impossível manter segredos, ela nunca tivesse sequer suspeitado do que estava a acontecer. Fê-la duvidar dos amigos e dos vizinhos, mas, acima de tudo, fê-la suspeitar dos homens que a tinham cortejado. Por que motivo não tinham, pura e simplesmente, mandado Clayton tratar da vida dele?

Porque, recordou-se, ele era um Clayton. E aqueles homens não puseram objecções pela mesma razão que a levavam a não pressionar Keith quando se tratava de Ben. Por vezes, não levantar ondas era o melhor que havia a fazer.

Odiava realmente aquela família.

Estava, é claro, a exceder-se. Lembrou a si mesma que o simples facto de Logan e Nana suspeitarem de que Keith fizera algo que não devia, não tornava a acusação verdadeira. Motivo que a levara a empreender aquela viagem.

Virou à esquerda no cruzamento principal, dirigindo-se para um bairro antigo, onde dominavam as casas de estilos elaborados e alpendres compridos e espaçosos. As ruas eram ladeadas por árvores de grande porte e lembrava-se de aquele ser o seu bairro preferido, quando era criança. As famílias dali mantinham a tradição das esplendorosas decorações exteriores das casas durante as festas, o que dava ao local um ar pitoresco e alegre.

A casa ficava a meio da rua e ela avistou o carro dele no lugar reservado a estacionamento. Havia outro carro estacionado atrás do dele, e embora isso significasse que estava acompanhado, não sentiu necessidade de voltar para trás. Depois de parar em frente da casa, levantou o capuz da gabardina, saiu do carro e enfrentou a tempestade.

Fez esparrinhar a água que se acumulara em poças baixas no caminho e subiu os degraus do alpendre. Através das cortinas, viu um candeeiro aceso no canto da sala; ao lado, um televisor estava a transmitir a última corrida NASCAR. O visitante deveria ter insistido nisso, pois o dono da casa nunca ligaria o televisor para ver tal transmissão. Sabia como o homem odiava a NASCAR.

Tocou a campainha e deu um pequeno passo atrás. Quando o rosto dele se mostrou na fresta aberta na porta, reconheceu-a de imediato. Na sua expressão, Beth reconheceu uma mistura de surpresa e curiosidade, bem como um sinal de qualquer coisa que não esperava encontrar: medo.

Olhou rapidamente para os dois lados da rua, antes de fixar o olhar nela.

- Beth, o que é que estás a fazer aqui?

Ela sorriu. - Olá, Adam. Estava a pensar se me poderias dispensar uns minutos. Gostava muito de falar contigo.

- Estou acompanhado - explicou, em voz baixa. - Não é a melhor altura.

Nem por acaso, ouviu-se uma voz de mulher, vinda de um ponto qualquer atrás dele. - Quem é?

- Por favor? - pediu Beth.

Ele pareceu debater a questão de lhe fechar ou não a porta na cara, mas acabou por suspirar. - É uma amiga - respondeu, agora em voz alta. Voltou-se. - Dás-me um minuto, está bem?

Uma mulher apareceu por cima do ombro dele; vestia calças de ganga e uma T-shirt um pouco apertada, além de empunhar uma cerveja. Beth reconheceu-a como a secretária do escritório de Adam. Chamava-se Noelle, ou algo semelhante.

- O que é que ela quer? - inquiriu Noelle. Pelo tom de voz, era evidente que o reconhecimento fora recíproco.

- Não sei - respondeu Adam. - Apareceu de repente, está bem?

Noelle fez beicinho, passando um braço protectoramente à volta do peito dele. - Mas eu quero ver a corrida.

- Eu sei - anuiu Adam. - Mas não demoramos - hesitou ao ver a expressão de Noelle. - Prometo.

Beth ficou a pensar se aquele tom choramingas sempre existira e, a ser verdade, perguntou-se por que não reparara nele antes. Ou ele tentara escondê-lo ou ela pretendera ignorá-lo. Suspeitou que a segunda hipótese seria a verdadeira, um pensamento que a fez ficar pouco satisfeita consigo mesma.

Adam saiu e fechou a porta. Quando ele ficou de frente para ela, Beth não saberia dizer se o homem estava cheio de medo ou zangado. Ou ambas as coisas.

- O que há de tão importante? - perguntou Adam. Parecia um adolescente.

- Nada importante - contrapôs Beth. - Vim cá só para te fazer uma pergunta.

- Acerca de quê?

Beth quis que ele olhasse para ela. - Quero saber o motivo que te levou a deixares de me telefonar depois do nosso jantar.

- O quê? - perguntou, a mudar o peso de um pé para o outro, a fazer-lhe lembrar um cavalo assustadiço. - Deves estar a brincar.

- Não estou.

- Só não voltei a telefonar-te, pois não? Não correu como devia. É por isso que estás aqui? Queres um pedido de desculpas?

A pergunta soou como um queixume e deixou-a a interrogar-se sobre o que alguma vez a levara a sair com ele.

- Não, não estou aqui para que peças desculpa.

- Então, por que é? Escuta, estou acompanhado - lembrou, a apontar por cima do ombro com o polegar. - Tenho de ir para dentro.

Logo que ela fizera a pergunta, ele voltara a olhar a rua nos dois sentidos, não deixando a Beth dúvidas sobre o que se passara.

- Tiveste medo dele, não foi?

Embora ele tentasse disfarçar, Beth soube que lhe tocara num ponto fraco. - De quem? Do que é que estás a falar?

- De Keith Clayton, do meu ex-marido.

Adam abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas as palavras não saíram. Em vez disso, engoliu outra vez em seco e fez nova tentativa de negar. - Não sei do que estás a falar.

Ela avançou um passo. - O que é que ele fez? Ameaçou-te? Meteu-te medo?

- Não! Não quero falar disso - defendeu-se. Voltou-se para a porta e pegou no puxador. Beth agarrou-o por um braço e obrigou-o a parar, aproximando o rosto do dele. Adam contraiu os músculos e a seguir descontraiu-se.

Ela pressionou. - Foi o que ele fez, não foi? - Não posso falar disso - hesitou. - Ele...

Embora suspeitasse de que Nana e Logan tinham razão, e a sua própria intuição a tivesse levado até ali, sentiu que qualquer coisa se desmoronava dentro de si quando ouviu a confirmação de Adam.

- O que é que ele fez?

- Não posso dizer-te. Devias ser a primeira pessoa a compreender isso. Sabes como ele é. Ele...

A voz faltou-lhe, como se subitamente se apercebesse de que tinha falado de mais.

- Ele o quê?

Adam abanou a cabeça. - Nada. Não vai fazer o que quer que seja - disse, endireitando-se um pouco. - As coisas não correram bem entre nós. Fiquemos por aí.

Abriu a porta. Fez uma pausa, respirou fundo e ela ainda pensou se ele iria mudar de ideias.

- Por favor, não voltes aqui - pediu.

Beth estava sentada no banco do alpendre, a olhar a parede de água que vinha do céu, com as roupas ainda molhadas. Na maior parte do tempo, a avó deixara-a sozinha com os seus pensamentos, só a interrompendo para lhe entregar uma chávena de chá quente e um bolo caseiro, ainda morno, mas, contra o que era costume, fizera tudo sem proferir palavra.

Beth engoliu o chá antes de se aperceber de que não lhe apetecia. Não sentia frio; apesar do dilúvio incessante, o ar estava quente e ela conseguia ver pedaços de névoa dispersos pela terra. À distância, o desvio de acesso parecia engolido por uma névoa cinzenta.

O seu ex-marido não tardaria a chegar. Keith Clayton. De vez em quando proferia o nome em voz baixa, fazendo-o soar quase como um palavrão.

Não conseguia acreditar. Não, asneira. Conseguia, e queria, acreditar. Mesmo que lhe tivesse apetecido esbofetear Adam por se ter mostrado tão medroso com a situação, sabia que não podia realmente culpá-lo. Era bom rapaz, mas não se podia dizer que fosse, nem alguma vez fora, o género de homem que se escolhe em primeiro lugar para um jogo de basquetebol ou de beisebol. Não havia qualquer possibilidade de ele enfrentar o ex-marido dela.

Só gostaria que Adam tivesse revelado o que Keith lhe fizera. Era fácil de imaginar; não tinha dúvidas de que Adam alugara o escritório à família Clayton. Quase todas as empresas do centro o faziam. Teria Keith jogado a carta da renda? Ou seria a carta «podemos tornar-lhe a vida difícil»? Ou teria jogado a carta da aplicação da lei? Até onde estaria o homem disposto a ir?

Depois que se sentara no alpendre, tentara calcular exactamente quantas vezes ocorrera o mesmo. Não eram muitas, talvez cinco ou seis, pensou, que tinham terminado da mesma forma súbita e inexplicável, como acontecera com Adam. Estava a contar com Frank; quando fora? Há sete anos? Andaria ele a espiá-la há tanto tempo? A revelação provocou-lhe um nó no estômago.

O que é que tinham todos os homens que escolhia se cada um deles se encolhia, a fingir-se morto, no momento em que Keith resolvia intervir? Claro, os Clayton eram uma família poderosa e, além disso, Keith era polícia, mas que mal havia em reagir como um homem? Em mandá-lo meter-se na vida dele? E por que é que, no mínimo, não vinham contar-lhe o que estava a acontecer? Em vez disso, escapuliam-se de rabo entre as pernas. Entre eles e Keith, não podia dizer que tivesse sorte com os homens. Como é que era o ditado? Diabos te levem por me enganares na primeira vez, diabos me levem por me deixar enganar na segunda. A culpa seria dela por escolher homens tão decepcionantes?

Talvez, admitia. No entanto, o problema não era esse. O problema era que Keith andara a trabalhar nos bastidores para manter a situação exactamente como ele queria. Como se fosse o dono dela.

A ideia provocou-lhe um novo nó no estômago e pensou que gostaria de ter Logan ali consigo. Não por que faltasse pouco para Keith vir entregar o filho. Não precisava de Logan para isso. O ex-marido não lhe metia medo. Nunca tivera medo dele por saber que, no fundo, ele não passava de um fanfarrão, e os fanfarrões recuam sempre que alguém lhes faz frente. Nana nunca tivera medo de Keith, pela mesma razão. Drake apercebera-se do mesmo e ela sabia que a presença do irmão punha sempre Keith nervoso.

Não, gostaria de ter Logan ali por ele ser um bom ouvinte, por saber que ele não lhe interromperia a tagarelice, nem tentaria resolver o problema dela, ou mostrar-se aborrecido se ela dissesse uma centena de vezes: «não posso acreditar que ele fosse realmente capaz de fazer uma coisa dessas». Deixaria que ela desabafasse.

Contudo, pensou, a última coisa que quereria era falar até libertar a fúria do seu sistema. Era muito melhor deixá-la ferver em lume brando. Precisava da fúria para quando tivesse de enfrentar Keith; a fúria mantê-la-ia desperta, mas não queria perder o domínio da situação. Se ela começasse aos gritos, Keith limitar-se-ia a negar tudo e a sair dali para fora. Porém, a única coisa que ela queria era manter Keith fora da sua vida privada, especialmente agora que Logan entrara na fotografia, sem tornar os fins-de-semana de Ben ainda piores do que já eram.

Não, era melhor que Logan não estivesse lá. Keith poderia reagir com violência se tornasse a encontrar Logan, poderia até provocá-lo e levá-lo a reagir, criando-se um novo problema. Se Logan tocasse no ex-marido dela, teria de passar um longo, muito longo, período na cadeia. Precisava de falar do assunto a Logan, para ter a certeza de que ele ficava a saber como funcionavam aquelas coisas em Hampton. Contudo, por agora, tinha de tratar do seu pequeno problema.

Surgiram luzes de faróis ao longe e o carro pareceu primeiro liquefazer-se, para depois voltar ao estado sólido quando se aproximou da casa. Viu Nana a espreitar por entre as cortinas e retirar-se logo de seguida. Beth levantou-se do banco e foi para a beira do alpendre quando se abriu a porta do passageiro. Ben saltou de lá juntamente com a mochila e meteu os pés numa poça, encharcando os sapatos. Não pareceu reparar ao trotar para os degraus e subir para o alpendre.

- Boa noite, mamã - saudou. Abraçaram-se ainda antes de ele olhar para a mãe. - Podemos ter esparguete ao jantar?

- É claro que sim, meu querido. Como é que foi o fim-de-semana? Ben encolheu os ombros. - Tu sabes.

- Pois sei. Por que não vais mudar de roupa? Acho que a Nana fez bolos. E tira os sapatos, está bem?

- Não vens?

- Dentro de minutos. Primeiro, quero falar com o teu pai.

- Porquê?

- Não te preocupes. Não tem nada a ver contigo.

Ben tentou perceber o que se passava através da expressão da mãe e ela pôs-lhe a mão no ombro. - Vai. A Nana está à espera.

Ben entrou enquanto Keith abriu a janela apenas uns centímetros.

- Passámos um excelente fim-de-semana! Não o deixes dizer o contrário.

Disse aquilo num tom de alegre confiança, Provavelmente, pensou Beth, por Logan não estar presente.

Ela deu mais um passo em frente. - Podes dispensar-me uns minutos?

Keith olhou-a pela fresta da janela, arrumou o carro e desligou o motor. Abriu a porta, saiu e correu para os degraus. Uma vez no alpendre, abanou a cabeça, fazendo voar uns quantos pingos, antes de sorrir para Beth. Provavelmente a pensar que ela parecia excitante.

- O que é que se passa? - indagou. - Como eu disse, passámos um grande fim-de-semana.

- Obrigaste-o a limpar a cozinha outra vez? O sorriso desapareceu. - O que é que tu queres, Beth?

- Não te irrites. Só te fiz uma pergunta. Keith continuou a olhar para ela, a tentar perceber onde Beth

queria chegar. - Não te digo o que deves fazer com o Ben quando ele está contigo, pelo que espero a mesma cortesia. Ora bem, qual é O aSSUntO?

Apesar da tristeza que sentia, Beth forçou-se a sorrir e apontou para o banco do alpendre. - Na verdade, são meia dúzia de pequenas coisas. Não queres sentar-te?

Pareceu surpreendido. - com certeza. Mas não posso demorar-me muito. Tenho planos para o serão.

É claro que tens, pensou Beth. Ou tens ou queres levar-me a pensar que os tens. Uma história que se tornara habitual desde o divórcio.

Sentaram-se no banco de balouço. Depois de sentado, fez o banco ir para diante e para trás, para depois se recostar de braços abertos.

- Isto é agradável. Foste tu que o montaste?

Ela tentou manter a maior distância entre eles. - Foi o Logan que o montou.

- Logan?

- Logan Thibault. Está a trabalhar para a Nana, no canil. Recordas-te? Já o conheces.

Keith coçou o queixo. - O tipo que estava aqui na outra noite? «Como se não soubesses». - Sim, esse.

- E não se importa de limpar jaulas e de carregar com a trampa? - perguntou.

Beth ignorou a intenção óbvia.

Ele expirou fundo e abanou a cabeça. - Antes ele do que eu comentou, voltando-se para ela com um encolher de ombros. - Então, o que é que se passa?

Beth mediu as palavras cautelosamente. - É-me difícil falar disto... - começou e interrompeu-se, sabendo que assim o faria interessar-se mais.

- O que é?

Beth sentou-se mais direita. - Há dias, a falar com uma das minhas amigas, ela disse-me uma coisa que não me caiu bem.

Keith inclinou-se para ela, alerta. - O que é que ela disse?

- Bem antes de te contar, quero dizer que se tratou de um desses rumores. A amiga de uma amiga de outra amiga ouviu qualquer coisa, até que o rumor chegou até mim. Diz-te respeito.

Ele mostrou-se curioso. - Tens toda a minha atenção.

- O que ela disse foi... - hesitou. - Disse que no passado, costumavas espiar as minhas saídas. E que disseste a alguns dos meus namorados que não os querias ver comigo.

Decidira não olhar directamente para ele, mas pelo canto do olho notou-lhe a expressão gelada. Uma expressão de choque, mas também de culpa. Beth cerrou os lábios com força para não explodir.

A expressão de Keith descontraiu-se. - Nem quero acreditar

- comentou, a tamborilar com os dedos na coxa. - Quem é que disse isso?

- Não é importante - comentou fazendo um gesto de desdém.

- Não a conheces.

Ele pressionou. - Questão de curiosidade.

- Não é importante - repetiu Beth. - Não é verdade, pois não?

- É claro que não. Como pudeste imaginar uma coisa dessas? «Mentiroso!», gritou Beth interiormente, esforçando-se para não falar. No silêncio que se seguiu, ele abanou a cabeça.

- Parece-me que tens de começar a escolher melhor as tuas amigas. E, para te ser franco, sinto-me um pouco magoado só pelo facto de termos esta conversa.

Beth forçou-se a sorrir. - Eu disse-lhe que não era verdade.

- Mas quiseste ter a certeza e por isso interrogaste-me pessoalmente.

Notou uma nota de fúria na voz dele e recordou-se de que tinha de ser cuidadosa.

- Estavas aqui - observou, tentando mostrar desinteresse.

- E, além disso, conhecemo-nos há tempo suficiente para podermos falar como adultos - explicou, encarando-o de olhos bem abertos, como vítima inocente de um erro. - Ficaste aborrecido por eu ter perguntado?

- Não, mas ainda assim, só de pensar nisso... - não completou a frase, limitando-se a erguer as mãos.

- Não pensei. Mas quis informar-te por julgar que estarias interessado em saber o que as pessoas dizem nas tuas costas. Não gosto de ouvir falar assim do pai de Ben; e fiz-lhes sentir isso.

Aquelas palavras surtiram o efeito desejado. Keith encheu o peito de virtuoso orgulho.

- Obrigado por me defenderes.

- Não há nada a defender. Sabes como são os mexericos. É o lixo tóxico das terras pequenas - comentou, abanando a cabeça. - Então, como vai o resto? O trabalho corre bem?

- O mesmo de sempre. Como é a tua turma deste ano?

- É um grupo bastante bom de miúdos. Até agora, pelo menos.

- Bom - disse Keith, ao apontar para o jardim. - Uma tempestade das grandes, hum? Mal conseguia ver a estrada.

- Estava a pensar o mesmo quando vi aparecer o carro. É uma loucura. Ontem, a praia estava maravilhosa. ]

- Estiveste na praia?

Beth assentiu. - O Logan foi comigo. Andamos juntos há já algum tempo.

- Ah! Parece que o caso está a ficar sério - comentou Keith. Beth olhou-o de relance. - Não me digas que aquela mulher

estava a falar verdade acerca de ti.

- Não, é claro que não.

Ela conseguiu um sorriso matreiro. - Eu sei. Estava apenas a provocar-te. E não, o nosso caso ainda não é sério, mas estamos a falar de um homem estupendo.

Keith juntou as mãos. - O que é que a Nana pensa disso?

- Que interessa o que ela pensa?

Ele mexeu-se no assento. - Estou apenas a dizer que uma situação dessas se pode tornar complicada.

- De que é que estás a falar?

- Ele trabalha aqui. E sabes como os tribunais actuam nos dias que correm. Estás a expor-te a um gravoso processo de assédio sexual.

- Ele nunca poderia fazer isso...

Keith discorreu com paciência, como quem se dirige a uma pessoa muito mais jovem. - Acredita em mim. Isso é o que toda a gente diz. Contudo, pensa no assunto. Ele não tem ligações na comunidade, trabalha para a Nana, duvido que tenha muito dinheiro. Sem ofensa. Mas, lembra-te, a tua família tem uma grande propriedade - insinuou, encolhendo os ombros. - Estou apenas a dizer que deves ter o máximo cuidado.

Mostrava-se persuasivo e, apesar de ela saber que não era assim, preocupado com ela. Um amigo que geralmente se preocupava com o bem-estar dela. O homem devia ter sido actor, pensava Beth.

- Nana é a proprietária das terras e da casa. Não sou eu. Sabes como os advogados podem actuar.

Ela pensou que sabia exactamente como. Lembrou-se do que o advogado dele fizera na audiência sobre a tutela do filho. - Não julgo que seja um problema. Mas discutirei o assunto com a Nana - agradeceu Beth.

Keith mostrou-se presumido. - Será provavelmente uma boa ideia.

- Estou mesmo satisfeita por ter pensado bem acerca de ti. -- O que é que pretendes dizer?

- Tu sabes, o facto de não veres problemas por eu namorar alguém como Logan. Para além da preocupação com o assédio sexual. Gosto realmente dele.

Keith descruzou as pernas. - Não disse que não havia problemas com iSSO.

- Mas acabaste de dizer...

- Disse que não me interessa com quem tu namoras, e é verdade. Mas importa-me saber quem é a pessoa que vai passar a fazer parte da vida do meu filho, o que me preocupa é o meu filho.

- Como é teu dever. Mas o que é que isso tem a ver com tudo o resto? - protestou Beth.

- Pensa nisso, Beth... não vês coisas que eu sou obrigado a ver. No teu trabalho, quero eu dizer. Mas eu estou constantemente a assistir a coisas horríveis, daí preocupar-me com alguém que irá passar muito tempo junto de Ben. Gostaria de saber se é violento ou se é algum pervertido...

- Isso não é - interrompeu Beth. A despeito dos esforços que estava a fazer, Beth sentiu-se enrubescer. - Investigámos os antecedentes dele.

- Podem ser falseados. Não é difícil conseguir uma nova identidade. Como é que sabes se Logan é o verdadeiro nome dele? Não é um pormenor que possas perguntar a alguém daqui. Falaste com alguém acerca do passado dele? Ou da sua família?

- Não...

- Aí está. Só estou a recomendar-te cuidado - sugeriu. Encolheu os ombros: - E não estou a falar disto só por causa de Ben. É também por ti. Existem pessoas más neste mundo, que só não estão na cadeia por terem aprendido a mascarar os seus crimes.

- Da maneira como falas, pareces julgá-lo um criminoso!

- Não estou a tentar julgá-lo. Pode tratar-se do mais virtuoso e responsável dos homens. Estou apenas a dizer que não sabes quem ele é realmente. E enquanto não o souberes é melhor jogares pelo seguro, para não teres de arrepender-te. Lês jornais e vês os noticiários. Não estou a dizer-te nada que ainda não saibas. Só não quero que suceda algum mal ao Ben. E não gostaria de te ver magoada.

Beth abriu a boca para dizer qualquer coisa mas, pela primeira vez desde que se sentara naquele banco com o ex-marido, não conseguiu dizer fosse o que fosse.

Clayton sentou-se ao volante do carro, a sentir-se bastante satisfeito consigo mesmo.

Tivera de alinhar rapidamente umas ideias, mas tudo correra melhor do que ele poderia esperar, especialmente se tivesse em conta a forma como a conversa começara. Alguém o atraiçoara e, enquanto conduzia, tentava imaginar quem poderia ter sido. Regra geral, em terras pequenas não existem segredos, mas o caso dele era o que mais se aproximava disso. Os únicos que sabiam eram os poucos homens com quem tivera aquelas pequenas conversas e, claro, ele próprio.

Calculou que pudesse ter sido um deles, mas, por qualquer razão, duvidava. Eram uns vermes, sem excepção, e todos se tinham retirado do caminho. Não tinham motivos para falar do caso. Até o imbecil do Adam arranjara uma nova namorada, sendo improvável que tivesse agora decidido falar.

Poderia, uma vez mais, tratar-se de um simples rumor. Era provável que alguém alimentasse suspeitas sobre o que ele fizera, bastando-lhe atender ao resultado. Uma mulher bonita a ser sucessivamente rejeitada sem motivo aparente... e, pensando melhor, era possível que tivesse mencionado qualquer pormenor sobre Beth a Moore, ou até a Tony, e que alguém estivesse a escutar a conversa; mas nunca fora parvo, ou estivera suficientemente bêbado, para revelar pormenores específicos. Sabia os problemas que aquilo lhe podia trazer com o pai, especialmente por que o seu trabalho devia representar a contenção das ameaças ao cumprimento da lei. Mas alguém contara qualquer coisa a Beth.

Não dava muito crédito ao facto de Beth ter afirmado que a informação lhe fora dada por uma amiga. Podia ter alterado esse pequeno pormenor para o despistar. Poderia ter sido um homem ou uma mulher; o que lhe parecia mais certo era que Beth só recentemente tomara conhecimento do facto. Conhecendo-a como a conhecia, sabia que ela não guardaria algo de semelhante durante muito tempo.

Era aqui que tudo se tornava confuso. Fora buscar Ben no sábado de manhã; ela não falara em nada. Ela própria admitira ter estado na praia no sábado, com «Thibolt». No domingo, vira-a na igreja, mas estava em casa no final da tarde.

Então, quem poderia ter-lhe dito? E quando?

Pensou que poderia ter sido Nana. A mulher sempre fora um espinho cravado no flanco dele. Tal como Gramps, que passara os últimos quatro ou cinco anos a tentar convencer Nana a vender-lhe a propriedade para ele a poder urbanizar. A propriedade não tinha apenas uma valiosa frente para o rio, pois os riachos eram também muito valorizados. As pessoas que se mudavam do Norte adoravam as casas com frente para o rio. Por qualquer motivo, Gramps gostava de Nana e tolerava benevolamente as rejeições das propostas de venda. Talvez fosse por frequentarem a mesma igreja, um pormenor que parecia não ter qualquer importância para Nana quanto à opinião que tinha do seu antigo genro, que também frequentava a mesma igreja.

No entanto, aquela parecia ser o género de complicação que poderia ser iniciada por «Thibolt». Mas como diabo poderia ele saber? Só se tinham encontrado duas vezes e não havia qualquer possibilidade de «Thibolt» poder ter deduzido a verdade a partir desses dois encontros. E quanto ao assalto à casa? Clayton pensou nisso mas rejeitou a ideia. Entrara e saíra num espaço de vinte minutos e não tivera de arrombar a fechadura, pois o tipo nem se dera ao trabalho de fechar a porta da frente à chave. E não faltando o que quer que fosse, por que iria «Thibolt» suspeitar que alguém lhe entrara em casa? E mesmo que adivinhasse que alguém lá entrara, como é que poderia relacionar o assalto com Clayton?

Não tinha resposta satisfatória para qualquer das perguntas, mas a teoria de que «Thibolt» tinha alguma coisa a ver com aquele pequeno problema parecia ajustar-se. Desde que «Thibolt» chegara os dissabores de Clayton não tinham fim. Portanto, «Thibolt» teria um lugar proeminente na sua lista de pessoas que provavelmente deviam preocupar-se apenas com a sua própria vida. O que lhe fornecia uma razão mais para finalmente causar uma encrenca ao tipo.

Mas não ia agora deixar-se prender demasiado com aquilo. Ainda se sentia bastante satisfeito pela forma como se tinha safado na conversa com Beth, que bem poderia ter redundado num fiasco. Quando a ex-mulher o convidara a subir ao alpendre nunca lhe passaria pela cabeça que ela pretendesse fazer-lhe perguntas acerca do envolvimento dele nas relações dela com os namorados anteriores. Mas resolvera bem a situação. Não só conseguira arquitectar uma negativa aceitável como ainda a levara a pensar duas vezes acerca da relação com «Thibolt». Pela expressão de Beth, conseguiu ver que levantara uma série de questões que ela ainda não tivera em consideração no relacionamento com «Thibolt»... e, melhor ainda, conseguira convencê-la de que fazia tudo para defender os interesses de Ben. Quem sabe? Talvez Beth se descartasse dele e Thibolt» tivesse de sair da cidade. Não seria interessante? Não só estaria terminada mais uma das relações de Beth, «Thibolt» seria também obrigado a sair da fotografia.

Conduzia lentamente, apostado em saborear o gosto da vitória. Pensou se deveria ir a qualquer lado beber uma cerveja para celebrar, mas decidiu que não. Não estava em condições de falar do que acontecera. Antes de mais, falar poderia ser o suficiente para se meter em sarilhos.

Depois de virar para a rua onde morava, passou por um conjunto de casas grandes e bem preservadas, cada uma delas a ocupar meio hectare. Ele vivia no fundo do beco; tinha por vizinhos um médico e um advogado. Como diria para si próprio, não se saíra nada mal.

Só quando entrou no desvio para casa é que notou um vulto no passeio em frente da casa. Quando abrandou, viu o cão ao lado dele e deu uma sapatada no travão. O carro parou. Apesar da chuva, saltou do carro e dirigiu-se directamente a Thibolt».

Quando Zeus começou a avançar, Clayton parou. «Thibolt» levantou a mão e o cão imobilizou-se.

- Que raio está você a fazer aqui? - bradou, fazendo-se ouvir apesar da chuva.

- Estava à sua espera - respondeu o outro. - Acho que chegou a altura de conversarmos,

- Por que diabo havia de querer falar consigo? - respondeu como se cuspisse as palavras.

- Julgo que sabe.

Clayton não gostou do som do que ouviu, mas não estava disposto a deixar-se intimidar por aquele tipo. Nem naquele momento, nem nunca.

- O que eu sei é que anda a vadiar. Neste país é considerado um crime.

- Não me vai prender.

Em parte, apetecia-lhe fazer isso mesmo. - Não esteja tão certo disso.

Thigh-bolt continuou a encará-lo como se quisesse obrigá-lo a provar a bazófia. Clayton gostaria de arrancar aquela expressão da cara de «Thibolt» com um bom murro. Mas o diabo do cão, sempre presente, estava ali.

- O que é que quer?

- Como disse, chegou a altura de conversarmos - disse Thibault num tom calmo e firme.

- Não tenho nada a dizer-lhe - vociferou Clayton. Abanou a cabeça. - vou entrar. Se ainda aqui estiver quando eu chegar ao alpendre, prendo-o por ameaçar um polícia com uma arma letal.

Virou-se e começou a caminhar para a porta.

- Não encontrou o disco - insinuou «Thigh-bolt» e Clayton parou e voltou-se. - O quê?

- O disco - repetiu Thibault. - Era o que procurava quando entrou em minha casa. Quando revistou as gavetas, espreitou para debaixo do colchão, esquadrinhou os armários.

- Não entrei na sua casa - retorquiu, encarando «Thibolt» de olhos semicerrados.

- É claro que entrou. Na última segunda-feira, quando eu estava a trabalhar.

- Tem provas?

- Já disponho de todas as provas de que necessito. O detector de movimentos que instalei na lareira ligou o gravador de vídeo. Estava escondido na lareira. Sabia que um dia tentaria encontrar o disco e nunca se lembraria de procurá-lo ali.

Clayton sentia o estômago às voltas enquanto tentava descobrir se «Thibolt» estaria a fazer bluff. Podia estar ou não. Como poderia ele saber?

- Está a mentir.

- Então, vá para casa. Terei todo o gosto em ir agora mesmo entregar o vídeo no jornal e no departamento do xerife.

- O que é que pretende?

- Já lhe disse, pensei que era chegada a altura de termos esta pequena conversa.

- Acerca de quê?

- Acerca do saco de esterco que você é - insinuou, deixando as palavras rolarem lentamente. - Tirar fotografias porcas a estudantes? O que é que o seu avô pensará disso? Gostaria de saber o que aconteceria se ele descobrisse, ou o que o jornal poderá publicar. Ou o que o seu pai, que creio ser o xerife deste distrito, pensará do filho que assaltou a minha casa.

Clayton sentiu o estômago dar outro salto doloroso. Não havia maneira de o tipo saber aquelas coisas... mas ele sabia-as. - O que é que quer? - indagou de novo. Por muito que se esforçasse, sabia que o tom em que falara o fizera perder pontos.

Thibolt» continuava direito em frente dele, a olhá-lo fixamente. Clayton podia jurar que o homem nunca pestanejou.

- Quero que se torne uma pessoa melhor - sugeriu.

- Não sei do que é que está a falar.

- De três coisas. Vamos começar por esta: não se meta na vida de Elizabeth.

Clayton pestanejou. - Quem é a Elizabeth?

- A sua ex-mulher.

- Está a falar da Beth?

- Tem andado a destruir-lhe as relações desde que se divorciaram. Você sabe isso e eu também sei. E agora ela também sabe. Não vai voltar a acontecer. Nunca. Estamos entendidos?

Clayton não respondeu.

- Número dois: não se meta nos meus assuntos. Isto inclui a minha casa, o emprego, a minha vida. Percebeu?

O polícia manteve o silêncio.

- E número três. Este é muito importante - insinuou, erguendo a mão aberta como quem pronuncia uma espécie de juramento. - Se transferir a raiva que me tem para o Ben, terá de responder perante mim.

Clayton sentiu os pêlos da nuca eriçados. - Isso é uma ameaça?

- Não - retorquiu «Thibolt». - É a verdade. Cumpra estas três condições e não lhe provocarei qualquer problema. Ninguém saberá o que tem andado a fazer.

Clayton contraiu os maxilares.

Em silêncio, «Thibolt» aproximou-se de Clayton. Zeus manteve-se em posição, evidentemente frustrado por ser deixado para trás. «Thibolt» aproximou-se até ficarem face a face. A voz dele manteve-se tão calma como no início.

- Quero que saiba isto: nunca encontrou pela frente alguém como eu. Você não me quer para seu inimigo.

Dito isto, «Thibolt» girou sobre os calcanhares e começou a percorrer o passeio. Zeus continuou de olhos postos em Clayton até ouvir a ordem de ir-se embora. Depois, trotou para «Thibolt», deixando Clayton especado à chuva, a tentar perceber como é que uma situação que parecia perfeita se tornara subitamente tão difícil.

 

                         THIBAULT

- Julgo que quero ser astronauta - anunciou Ben. Thibault estava a jogar xadrez com ele no alpendre das traseiras

e tentava decidir a sua jogada seguinte. Tinha de ganhar um jogo e, ainda que não tivesse a certeza absoluta, o facto de Ben ter começado a falar pareceu-lhe um mau sinal. Ultimamente tinham jogado muito xadrez, pois não houvera um único dia sem chuva grossa desde que o mês de Outubro começara, dez dias antes. A parte oriental do estado já estava alagada e todos os dias havia outros rios a transbordar.

- Parece-me bem.

- Astronauta ou bombeiro.

Thibault assentiu. - Conheci uns quantos bombeiros.

- Ou médico.

- Hum - murmurou Thibault. Começou a colocar a mão sobre o bispo.

- Eu não faria isso - insinuou Ben. Thibault ergueu os olhos do tabuleiro.

- Sei o que está a pensar que deve fazer - acrescentou Ben.

- Isso não resulta.

- O que é que hei-de fazer?

- Isso não. Thibault susteve o movimento da mão. Uma coisa era perder, perder continuamente era outra. Pior, ele não parecia estar a diminuir o fosso que os separava. A haver alguma diferença, teria de reconhecer que Ben estava a progredir mais depressa do que ele. O jogo anterior tinha exigido trinta e uma jogadas.

- Gostaria de ver a minha casa da árvore? - perguntou Ben.

- É realmente gira. Tem um grande patamar suspenso por cima do riacho e uma ponte que oscila.

- Adorarei vê-la.

- Agora não. Num outro dia, quero eu dizer.

- Parece-me uma ideia excelente - anuiu Thíbault. Estendera a mão para a torre.

- Também não mexeria na torre.

Thibault enrugou a testa ao ver Ben recostar-se.

- Só estou a avisá-lo - acrescentou. Encolheu os ombros, sem fazer esquecer que era um miúdo de dez anos. - Como quiser.

- Excepto mover o bispo ou a torre?

Ben apontou para outra peça. - E o outro bispo. Conhecendo-o, sei que é o que vai tentar a seguir, pois está a tentar arranjar saída para o cavalo. Mas também não vai resultar, pois eu sacrificarei o bispo pelo meu e moverei a rainha de forma a comer aquele peão. Isso liberta a sua rainha e depois encastelo o meu rei. Movo o cavalo para lá. Duas jogadas depois, faço-lhe xeque-mate.

Thibault levou a mão ao queixo. - Ainda tenho alguma possibilidade neste jogo?

- Não.

- Quantas jogadas me restam?

- Entre três e sete.

- Nesse caso, talvez devêssemos começar de novo. Ben puxou os óculos para cima do nariz. - Talvez.

- Podias ter-me avisado antes.

- Parecia encarar o jogo tão a sério. Não quis aborrecê-lo.

O jogo seguinte não correu melhor. Talvez até tenha corrido pior, pois Elizabeth decidira juntar-se a eles e a conversa entre os jogadores continuou. Thibault notava as tentativas de Elizabeth para sorrir.

Durante a última semana e meia tinham estabelecido uma rotina. Depois do trabalho, com o dilúvio a fustigá-los continuamente, Thibault vinha para casa, jogava umas quantas partidas de xadrez com Ben e jantava; os quatro juntavam-se à mesa e conversavam amistosamente. A seguir, Ben subia ao andar de cima para tomar duche e Nana expulsava-os para o alpendre, enquanto ela ficava a arrumar e a limpar a cozinha, dizendo coisas do género «para mim, fazer limpezas é o mesmo que andar nu, para um macaco».

Thibault sabia que Nana desejava que eles passassem algum tempo a sós, antes de ele ir para casa. Continuava a surpreender-se como ela, terminado o dia de trabalho, conseguia passar do papel de patroa para o de avó da mulher que ele namorava. Pensava que não haveria muitas pessoas capazes daquele género de transição.

Estava a fazer-se tarde e Thibault sabia que chegara a altura de ir-se embora. Nana estava a falar ao telefone. Elizabeth fora ajeitar os cobertores de Ben e ele ficara no alpendre, a sentir a exaustão pesar-lhe sobre os ombros. Não andara a dormir muito desde a confrontação com Clayton. Nessa noite, sem certezas quanto à maneira como Clayton reagiria, fora para casa e fizera tudo para parecer que planeara passar um serão caseiro normal. Em vez disso, uma vez apagadas as luzes, saltara pela janela do quarto, nas traseiras da casa, e dirigira-se para o bosque, com Zeus a seu lado. Apesar da chuva, ficara fora de casa durante a maior parte da noite, à espreita de Clayton. Na noite seguinte, ficou a observar Elizabeth; na terceira noite, alternara entre a casa dele e a dela. A chuva interminável não os preocupava minimamente, a ele ou a Zeus, pois adaptara trajes camuflados que os mantinham secos. A parte difícil do esquema era trabalhar depois de dormir apenas as últimas horas que precedem o nascer do dia. A partir de certa altura começara a vigiar apenas em noites alternadas, mas continuava a dormir pouco para conseguir recuperar.

Mas não tencionava parar. O homem era imprevisível e procurava sinais da presença de Clayton, quer estivesse no emprego ou a tratar de qualquer assunto na cidade. A noite escolhia caminhos diferentes para regressar a casa, atalhava por zonas arborizadas em corrida, parando depois a observar a estrada para ter a certeza de não estar a ser seguido por Clayton. Não tinha medo do homem, mas também não era estúpido. Clayton não era apenas um dos membros da família mais importante do Distrito de Hampton, era também um defensor da lei, sendo esta segunda característica a que mais preocupava Thibault. Seria assim tão difícil colocar qualquer coisa em casa dele: drogas, objectos roubados, até uma arma que tivesse sido usada para cometer um crime? Ou afirmar que ele as tinha em sua posse e fabricar provas da sua descoberta? Nada difícil. Thibault tinha a certeza de que qualquer júri daquele distrito aceitaria o testemunho de um agente da autoridade e desdenharia a defesa do estranho, por mais frágeis que as provas fossem e por mais genuíno que fosse o seu álibi. Se acrescentarmos a isso os fundos bolsos e a influência dos Clayton, não seria difícil arranjar testemunhas que apontassem Thibault como autor de um certo número de crimes.

A parte mais assustadora era ele poder imaginar Clayton a tomar qualquer uma daquelas atitudes; antes de mais, fora isso que o levara a falar com ele acerca do disco e do vídeo. Embora não tivesse em seu poder qualquer das coisas, uma vez que o disco tinha sido partido e atirado fora quando se apoderara da máquina fotográfica, enquanto o vídeo de vigilância não passara de mera invenção, o engano fora a única opção que lhe permitira ganhar tempo para planear o passo seguinte. A animosidade que Clayton lhe demonstrava era perigosa e imprevisível. Se ele estivesse a pensar assaltar a casa de Thibault, se tivesse manipulado a vida pessoal de Elizabeth, era provável que o homem fizesse tudo o que julgasse necessário para se ver livre de Thibault.

As outras ameaças, acerca do jornal e do xerife, a insinuação de informar o avô, serviram apenas para reforço do engano. Sabia que Clayton procurava o disco por acreditar que Thibault o podia utilizar contra ele. Seria por sua causa ou por causa da família; umas quantas horas da tarde de domingo a investigar a história da ilustre família na biblioteca foram suficientes para Thibault se convencer de que provavelmente ambas os motivos eram válidos.

Mas o problema com qualquer bluff era ser eficaz só durante um certo tempo. Durante quanto tempo é que Clayton iria aceitar a situação? Mais umas semanas? Um mês? Mais do que isso? E o que é que Clayton poderia fazer? Quem arriscaria adivinhar tal coisa? De momento, Clayton estava convencido de que Thibault possuía todos os trunfos e este não tinha dúvidas de que o facto só concorria para enfurecer Clayton ainda mais. com o tempo, a fúria conseguiria sobrepor-se e Clayton iria reagir, contra ele, Elizabeth ou Ben. Se Thibault não concretizasse a ameaça de exibir o disco, Clayton ficaria de mãos livres para agir como bem entendesse.

Thibault ainda não sabia o que fazer nessa situação. Não conseguia imaginar-se a deixar Elizabeth... ou Ben e Nana por causa de Clayton. Quanto mais tempo passava em Hampton, mais sentia que pertencia àquele lugar, o que significava não só ter de observar Clayton mas também evitar, na medida do possível, encontrar-se com ele. Supunha que a sua única esperança era que, passado o tempo suficiente, Clayton acabasse por aceitar a situação. Sabia que seria pouco provável, mas, por agora, era tudo o que tinha.

- Estás outra vez com ar absorto - avisou Elizabeth, que acabara de abrir a porta de rede por detrás dele.

Thibault abanou a cabeça. - Estou apenas cansado por esta semana de trabalho. Achei o calor difícil de suportar, mas desse ainda eu podia em parte defender-me. Quanto à chuva, não há defesa possível.

Elizabeth sentou-se ao lado dele no banco de balouço do alpendre.

- Não gostas de te sentir encharcado?

- Digamos que não acho que seja estar propriamente de férias.

- Lamento.

- Não faz mal. Não estou a queixar-me. Na verdade, não me preocupo a maior parte das vezes; e é melhor que seja eu a molhar-me em vez da Nana. E amanhã é sexta-feira, não é?

Ela sorriu. - Esta noite levo-te a casa. Desta vez não aceito objecções.

- Muito bem.

Elizabeth espreitou pela janela antes de voltar a dar atenção a Thibault. - Não estavas a mentir quando disseste que tocavas piano, pois não?

- Sei tocar.

- Quando é que tocaste pela última vez?

Encolheu os ombros, a tentar recordar-se. - Há dois ou três anos.

- No Iraque?

Ele assentiu. - Um dos oficiais do comando fazia anos. Ele adorava Willie Smith, que foi um dos grandes pianistas de jazz das décadas de 1940 e 1950. Quando se soube que eu sabia tocar, fui obrigado a exibir-me.

- No Iraque - repetiu Elizabeth, sem esconder o espanto.

- Até os marines precisam de se descontrair.

Ela prendeu uma madeixa atrás da orelha. - Presumo que sabes ler música.

- É claro que sim. Porquê? Queres que ensine o Ben? Não pareceu ouvi-lo. - E quanto à igreja? Costumas lá ir? Foi a primeira vez que olhou para ela.

- Tenho a sensação de que esta conversa não está a servir apenas para que nos conheçamos melhor.

- Quando estive lá dentro, ouvi a Nana a falar ao telefone. Sabes quanto a Nana adora o coro, não sabes? E que ela voltou a executar solos?

Thibault pensou na resposta, suspeitoso do que viria a seguir e não se preocupou em escondê-lo. - Eu sei.

- No próximo domingo o solo dela é ainda mais longo. Estás tão excitada com a ideia.

- E tu não estás?

- Mais ou menos - suspirou, com uma expressão triste. - Acontece que ontem a Abigail partiu o pulso. É sobre isso que Nana tem estado a falar ao telefone.

- Quem é a Abigail?

- A pianista da igreja. Acompanha o coro todos os domingos

- esclareceu Elizabeth, começando a balouçar o banco e a observar o temporal. - De qualquer forma, a Nana disse que encontraria um substituto. Na realidade, prometeu.

- Oh?

- Também disse que já tinha pensado quem seria. Percebo.

Elizabeth encolheu os ombros. - Apenas pensei que gostarias de saber. Tenho quase a certeza de que Nana falará contigo daqui a minutos, mas não quis que ela te apanhasse desprevenido. Achei melhor ser eu a falar-te do assunto.

- Fico-te agradecido.

Durante muito tempo Thibault manteve-se calado. A tentar quebrar o silêncio, Elizabeth pôs-lhe a mão no joelho.

- No que é que pensas?

- Estou a ficar com a sensação de que não tenho escolha.

- É claro que tens escolha. Nana não te vai forçar a aceitar.

- Mesmo depois de ter prometido?

- Era provável que compreendesse. Eventualmente - insinuou, colocando a mão sobre o coração. - Logo que o seu coração ferido sarasse, tenho a certeza de que te perdoaria.

- Ah!

- E o mais provável é que também não lhe fosse prejudicial à saúde. Mesmo com o acidente vascular cerebral e o desapontamento que sentiria. Tenho a certeza de que teria de se meter na cama.

Thibault esboçou um sorriso. - Não achas que estás a exagerar? Os olhos de Elizabeth brilharam de malícia. É possível. Mas a questão mantém-se. Vais tocar?

- Suponho que sim.

- Óptimo. E sabes que tens de ensaiar amanhã. - Está bem.

- O ensaio pode ser demorado. Todos os ensaios de sexta-feira são demorados. Eles gostam realmente de música, entendes?

Thibault acenou que sim e respirou fundo. - Excelente.

- Analisa a questão segundo este ponto de vista: não vais ter de trabalhar à chuva durante todo o dia.

- Excelente - repetiu Thibault.

Recebeu um beijo na face. - És um bom homem. Do meu lugar, vou aplaudir-te em silêncio.

- Obrigado!

- Oh, e quando Nana sair, não lhe dês a entender que eu te disse.

- Não lhe direi.

- E tenta mostrar-te entusiasmado. Honrado, até. Como se nunca pudesses imaginar que ela te oferecesse uma tão maravilhosa oportunidade.

- Não posso limitar-me a dizer que sim?

- Não. Nana quererá ver-te excitado. Como te disse, significa muito para ela.

- Ah! - repetiu ele. Thibault apertou as mãos dela entre as suas.

- Tu percebes que podias ter-te limitado a pedir-me. Não precisava de toda essa introdução para me sentir culpado se recusasse.

- Eu sei. Mas a pergunta feita assim teve muito mais piada.

Como se estivessem combinadas, Nana apareceu à porta. Presenteou-os com um breve sorriso, foi até ao corrimão e voltou-se para ele.

- Ainda toca piano? - perguntou.

Thibault fez o que pôde para evitar uma gargalhada.

Thibault conheceu a directora musical na tarde do dia seguinte, e a despeito da desconfiança inicial por causa das calças de ganga, da T-shirt e dos cabelos compridos, a senhora não tardou a reconhecer que Thibault, para além de tocar piano, era um músico completo. Após um ligeiro aquecimento, cometeu muito poucos erros, embora fosse ajudado pelo facto de as peças escolhidas não serem tremendamente difíceis. Depois do ensaio, foi-lhe explicado todo o serviço religioso para ele saber exactamente o que o esperava.

Entretanto, Nana olhava-o com prazer, que alternava com a tagarelice com as amigas, explicando que Thibault trabalhava no canil e se entretinha com Beth. Thibault conseguia sentir os olhares das mulheres cravados nele, denotando um pouco mais do que simples interesse, com sinais de aprovação.

Quando iam a sair, Nana deu-lhe o braço. - Você foi melhor do que um pato na ponta de um pau - concluiu. ?

Sem perceber patavina, ele agradeceu. - Obrigado.

- Está disposto a passear um pouco?

- Aonde?

- Wilmington. Se formos agora, penso que poderei trazê-lo de volta a tempo de levar Beth a jantar. Eu tomo conta do Ben.

- O que é que vou comprar?

- Um casaco desportivo e calças de algodão. Uma camisa mais elegante. Não me importo de o ver de calças de ganga, mas se vai tocar piano durante o serviço religioso de domingo, tem de ir bem vestido.

- Ah! - comentou, reconhecendo de imediato que não tinha voto na matéria.

Nessa noite, enquanto jantavam na Cantina, o único restaurante mexicano da baixa, Elizabeth observava Thibault por cima do seu copo de margarita.

- É bom que saibas que agora tens o estatuto de Flynn - insinuou.

- Para a Nana?

- Não conseguiu parar de dizer quanto eras bom, de como foste delicado com as amigas dela e quão respeitoso te mostraste quando o pastor apareceu.

- Quem te ouvir há-de pensar que ela me julgava um troglodita.

Elizabeth riu-se. - Talvez julgasse. Ouvi dizer que estavas coberto de lama antes de saírem.

- Tomei um chuveiro e mudei de roupa.

- Eu sei. Também me informou disso.

- O que é que ela te contou?

- Que as outras mulheres do coro estiveram prestes a desmaiar.

- Ela disse isso?

- Não. Não precisou de o dizer, mas via-se-lhe na cara. Foi verdade. Não é todos os dias que um estranho jovem e bonito aparece na igreja para as acompanhar ao piano. Como podiam não estar aflitas?

- Acho provável que estejas a exagerar um pouco.

- Pois eu penso - começou Elizabeth, ao fazer deslizar um dedo pelo bordo do copo e saboreando o gosto. - Penso que ainda tens muito que aprender sobre o que significa viver numa terra pequena do Sul. Tratou-se de uma grande notícia. Há quinze anos que aquele piano é tocado pela Abigail.

- Não vou roubar-lhe o lugar. É uma solução temporária.

- Melhor ainda. Isso dará às pessoas a oportunidade de tomar partido. Falarão disto durante anos.

- É isso que as pessoas fazem por aqui?

- Absolutamente. E, a propósito, não existe um caminho mais rápido para ser aceite por estas bandas.

- Só preciso de ser aceite por ti.

Ela sorriu. - Sempre adulador. Ora bem, e que me dizes a isto? O Keith vai dar em doido.

- Porquê?

- Por ser membro da igreja. De facto, estará acompanhado de Ben quando te vir. Ficará desesperado ao ver como toda a gente apreciou a forma como te dispuseste a ajudar.

- Não tenho a certeza de o querer mais zangado comigo. Já ando preocupado a pensar no que ele poderá fazer.

- Não pode fazer seja o que for. Eu sei o que ele tem andado a fazer.

- Eu não teria tantas certezas.

- Por que dizes isso?

Thibault reparou nas mesas todas ocupadas que os rodeavam. Ela pareceu ler-lhe a mente e deslizou do lado dela para se ir sentar ao lado dele. - Sabes de qualquer coisa que não me queres dizer - sussurrou. - O que é?

Thibault bebeu um gole de cerveja. Depois de pousar a garrafa descreveu-lhe os seus encontros com o ex-marido dela. Enquanto ele ia contando a história, a expressão dela também foi mudando: de desgostosa passou a divertida, para acabar em algo que podia classificar-se como preocupação.

- Devias ter-me contado antes - repreendeu, de testa franzida.

- Não me preocupei até saber que ele me revistou a casa.

- E julgas que será capaz de te armar uma ratoeira?

- Conhece-lo melhor do que eu.

Elizabeth reconheceu que já não estava zangada. - Pensei que conhecia.

Como Ben estava com o pai, uma situação que lhes parecia algo surrealista dadas as circunstâncias, Thibault e Elizabeth foram a Raleigh no sábado, o que tornou mais fácil não pensarem naquilo que Keith Clayton poderia fazer ou não fazer. Almoçaram na esplanada de um café da baixa e visitaram o Museu de História Natural; na tarde de domingo, foram até Chapel Hill. A Carolina do Norte jogava contra Clemson e o jogo estava a ser transmitido no canal ESPN. Embora o jogo se realizasse na Carolina do Sul, os bares do centro da cidade estavam repletos de estudantes que viam o jogo em ecrãs gigantes. Ao ouvi-los ora a aplaudir, ora a vaiar, como se o futuro do mundo dependesse do resultado de um jogo, deu consigo a pensar em miúdos daquelas idades a combater no Iraque e pôs-se a imaginar o que poderia ser feito daqueles estudantes universitários.

Não ficaram muito tempo. Elizabeth estava pronta a partir passada uma hora. No caminho de regresso ao carro, quando caminhavam abraçados um ao outro, ela descansou a cabeça no ombro dele.

- Teve a sua piada. Mas havia tanto barulho ali dentro.

- Dizes isso por estares a ficar velha.

Elizabeth apertou-o pela cintura, notando que ali havia apenas pele e músculo. - Cuidado, camarada, ou talvez não tenhas sorte esta noite.

- Camarada? - repetiu ele.

- É um termo afectuoso. Uso-o com todos os homens que namoro.

- Com todos?

- Claro. Até com estranhos. E se me cedem o lugar no autocarro, poderei agradecer com um «Obrigado, camarada».

- Julgava que devia sentir-me especial.

- E não te esqueças disso.

Passearam em Franklin Street por entre a multidão de estudantes, espreitando pelas montras e absorvendo toda aquela energia. Para Thibault, fazia sentido que ela tivesse querido vir ali. Era uma experiência que Beth não vivera por causa de Ben. No entanto, o que mais o impressionou foi o facto de ela estar obviamente a divertir-se, mas sem parecer melancólica ou amarga a pensar no que tinha perdido. Parecia comportar-se mais como o antropólogo atento, decidido a estudar culturas de descoberta recente. Quando ele a descreveu nestes termos, Elizabeth esbugalhou os olhos.

- Não me estragues a tarde. Acredita, os meus pensamentos não atingem essa profundidade. Só pretendi sair da cidade e divertir-me um pouco.

Foram para casa de Thibault e ficaram acordados até tarde; conversaram, beijaram-se e fizeram amor até a noite ir avançada. De manhã, ao acordar, Thibault encontrou Elizabeth deitada a seu lado, a analisar-lhe a cara.

- O que é que estás a fazer? - murmurou, ainda ensonado. Estou a observar-te.

- Porquê?

- Porque me apetece.

Thibault sorriu e fez um dedo deslizar-lhe pelo braço, sentindo uma enorme gratidão pela presença dela na sua vida. - És uma mulher impressionante, Elizabeth.

- Eu sei.

- Só isso? Vais limitar-te a dizer «eu sei»? - perguntou, fingindo-se ofendido.

- Não te armes em carente comigo. Detesto homens carentes.

- E eu não tenho a certeza de gostar de mulheres que escondem o que sentem.

Elizabeth sorriu, inclinando-se para o beijar. - Ontem tive um dia fantástico.

- Eu também.

- Não estou a exagerar. Estas últimas semanas, as que tenho passado contigo, foram as melhores da minha vida. E ontem, só por estar contigo... não fazes ideia de como me senti. Senti-me apenas... mulher. Nem mãe, nem professora, nem neta. Apenas eu. Há muito tempo que não tinha esse sentimento.

- Já tínhamos saído antes.

- Eu sei. Mas agora é diferente.

Thibault sabia que ela falava do futuro, um futuro que adquirira uma clareza e um propósito que não existiam antes. Só de olhar para ela percebeu exactamente o que Elizabeth tinha em mente.

- Então, o que há a seguir? - perguntou em tom grave.

Ela voltou a beijá-lo, a fazê-lo sentir o calor e a humidade dos seus lábios. - A seguir, vamos levantar-nos. Tens de estar na igreja dentro de um par de horas - concluiu ao aplicar-lhe uma palmada no rabo.

- Ainda falta muito tempo.

- Para ti, talvez. Mas eu estou aqui e tenho as roupas em casa. Tens de te levantar e de te preparar, de modo a que eu também tenha tempo de me arranjar.

- Esta questão da igreja é difícil.

- Pois é. Mas não me parece que possas escapar. E, a propósito? - pegou-lhe na mão antes de concluir. - Logan, tu também és bastante impressionante.

 

                 BETH

- Gosto realmente dele - dizia Beth.

Encontrava-se na casa de banho, às voltas com o ferro de frisar, embora suspeitasse de que, com a chuva, estava a esforçar-se para nada. Após uma breve pausa no dia anterior, aguardava-se a chegada à região da primeira de duas tempestades tropicais.

- Penso chegada a altura de seres honesta comigo. Não se trata apenas de gostares dele. Pensas que ele é o Especial.

- Não me parece assim tão evidente - contrapôs Beth, sem querer acreditar.

- É claro que sim. Bem poderias estar sentada no alpendre a desfolhar as pétalas de uma margarida.

Beth sorriu. - Creias ou não, na verdade compreendi essa metáfora.

Nana fez um gesto de enfado. - Os acidentes acontecem. O que interessa é o seguinte: sei que gostas dele. A dúvida é outra: será que ele gosta de ti?

- Gosta, Nana.

- Já te perguntaste o que isso quer dizer?

- Sei o que quer dizer.

- Só quis ter a certeza - retorquiu Nana. Deu uma olhadela ao espelho e ajeitou o cabelo. - Porque eu também gosto dele.

Seguiu com Nana para casa de Thibault, preocupada com os limpa-vidros que não conseguiam expulsar toda água do pára-brisas. Os temporais que pareciam não ter fim tinham feito crescer o rio; embora a água ainda não chegasse à rua, já começava a lamber-lhe um dos lados. Uns dias mais assim, pensou, as estradas teriam de começar a ser fechadas ao trânsito. As empresas mais próximas das margens não tardariam a defender-se com sacos de areia, na tentativa de evitar que a água deteriorasse as mercadorias colocadas mais perto do chão.

- Duvido que as pessoas consigam chegar à igreja num dia destes - comentou Beth. - Mal consigo ver o que está para lá da janela.

- Um pouco de chuva não será suficiente para afastar os crentes do Senhor - sentenciou Nana.

- É mais do que um pouco de chuva. Já reparaste no rio?

- Já vi. Está definitivamente zangado.

- Se subir um pouco mais, poderemos não conseguir chegar à cidade.

- Vai tudo correr bem - declarou Nana. ? ? Beth olhou-a de relance. - Estás hoje muito bem-disposta.

- E tu? Se até passaste a noite fora?

- Nana - protestou Beth.

- Não estou a julgar-te. Só menciono o facto. Já és adulta e a vida é tua.

De há muito que se habituara às sentenças da avó. - Obrigada.

- Portanto, está a correr bem? Mesmo com o teu ex-marido a tentar arranjar sarilhos?

- Acho que sim.

- Julgas que dará um bom marido?

- Julgo que ainda é cedo para pensar nisso. Ainda estamos a tentar compreender-nos mutuamente.

Nana inclinou-se para diante e limpou a condensação que se formara no pára-brisas. Embora a humidade desaparecesse por momentos, ficaram lá gravadas as marcas dos dedos. - Eu soube de imediato que o teu avô era o Especial.

- Ele disse-me que namoraram seis meses antes de te pedir em casamento.

- Pois foi. Mas isso não invalida o que eu disse antes. Passados poucos dias já sabia que ele fora feito para mim. Sei que parece maluquice. Mas, desde o início, estar com ele foi como tosta com manteiga.

Recordou tudo com um sorriso tranquilo e olhos semicerrados.

- Estava sentada com ele no parque. Devia ser a segunda ou a terceira vez que nos encontrávamos sozinhos, estávamos a falar de pássaros quando um jovem, obviamente de fora da cidade, se aproximou para ouvir. Cara suja, não tinha sapatos e as roupas, para além de rotas, não pareciam servir-lhe. O teu avô sorriu-lhe e continuou a falar, como se quisesse indicar ao rapaz que era bem-vindo à nossa companhia e o miúdo esboçou uma espécie de sorriso. Sensibilizou-me o facto de ele não ter julgado o rapaz pelo aspecto. O teu avô continuou a falar. Devia saber o nome de todas as aves desta parte do país. Sabia as alturas em que migravam, onde nidificavam e os sons com que cada espécie comunicava entre si. Passado algum tempo, o rapazinho sentou-se e limitava-se a olhar quando o teu avô emitia qualquer som... digamos que estava encantado. E não era só o rapazinho. Acontecia o mesmo comigo. O teu avô tinha aquela voz tranquilizante, própria para canções de embalar e, enquanto ele falava, tive a sensação de que era o género de pessoa que não poderia estar zangado mais do que uns minutos, a cólera não se enquadrava com ele. Nunca daria lugar a ressentimento ou amargura e, logo ali, decidi que era o género de homem que se manteria casado para sempre. E decidi, ali e naquele momento, que eu seria a mulher que casaria com ele.

Apesar de conhecer as histórias de Nana, Beth sentiu-se comovida.

- Que história maravilhosa!

- Era um homem maravilhoso. E quando um homem é assim tão especial, nota-se mais depressa do que se julgaria possível. Reconhece-se instintivamente e tem-se a certeza de que, aconteça o que acontecer, nunca se encontrará outro como ele.

Na altura, Beth chegara à alameda coberta de gravilha que conduzia à casa de Logan; ao aproximar-se, aos solavancos e a esparrinhar lama, viu-o no alpendre, de pé e vestido com o que lhe pareceu um casaco novo de desporto e um par de calças de algodão acabadas de engomar.

Quando ele lhe acenou, Beth não pôde evitar um sorriso de orelha a orelha.

O serviço começou e acabou com música. O solo de Nana foi recebido com grandes aplausos, e o pastor distinguiu tanto Logan como Nana, agradecendo ao pianista a sua disponibilidade e a Nana por demonstrar as maravilhas operadas pela graça de Deus quando é necessário superar obstáculos.

O sermão foi informativo, interessante e proferido com o humilde reconhecimento de que os misteriosos caminhos de Deus nem sempre são compreendidos; Beth reconheceu que a qualidade do pastor era uma das razões por que a congregação continuava a crescer.

Do seu lugar no balcão superior, via facilmente Nana e Logan. Sempre que Ben passava o fim-de-semana com o pai, gostava de se sentar naquele lugar, de maneira que Ben soubesse sempre onde a encontrar. Habitualmente, olhavam um para o outro duas ou três vezes durante o serviço; hoje, ele voltava-se constantemente, partilhando do espanto de serem amigos de uma pessoa tão dotada.

Mas Beth manteve a distância em relação ao ex-marido. Não por causa do que soubera acerca dele nos últimos tempos, embora essa já fosse uma razão suficiente, mas para tornar as coisas mais fáceis para Ben. Apesar dos impulsos lascivos de Keith, na igreja ele comportava-se como se visse na presença dela uma força destruidora capaz de perturbar o seu clã. Gramps sentava-se no meio da primeira fila, com a família colocada de ambos os lados e no banco atrás dele. Do seu lugar, Beth conseguia vê-lo a ler as passagens da Bíblia, a tomar notas e a ouvir atentamente a prédica do pastor. Cantava cada palavra de cada um dos hinos. De toda a família, era a pessoa de quem Beth mais gostava; sempre fora justo com ela e extremamente delicado, ao contrário de muitos dos outros. Se acontecesse encontrarem-se depois do serviço religioso, nunca deixava de fazer notar que ela estava com bom aspecto e de lhe agradecer o admirável trabalho que ela estava a fazer com a educação de Ben.

Havia honestidade na maneira como falava com ela, mas havia também uma linha de demarcação: Beth compreendia que não podia fazer ondas. Gramps sabia que ela era muito melhor do que Keith para criar o neto dele, que este se estava a transformar num excelente jovem graças a ela, mas tal conhecimento não a podia fazer esquecer que Ben era, e sempre seria, um Clayton.

No entanto, gostava dele, a despeito de Keith, a despeito da linha de demarcação. Ben também gostava do avô e, muitas vezes, ela tinha a sensação de que Gramps exigia que Keith aparecesse com Ben para poupar ao garoto a desgraça de passar todo o fim-de-semana na companhia do pai.

Todas aquelas realidades estavam bem longe da cabeça dela enquanto via Logan a tocar piano. Não soubera o que esperar. Quantas pessoas têm lições? Quantas pessoas se afirmam capazes de tocar bem? Não levou muito tempo a perceber que Logan era excepcionalmente competente, que estava muito acima do nível que ela esperava. Os dedos dele percorriam o teclado sem esforço e com movimentos fluidos; nem parecia olhar para a pauta que tinha à frente. Em vez disso, enquanto Nana cantava, focou a atenção nela, nunca deixando de manter o ritmo e o andamento, mais interessado na actuação dela do que na sua.

Ao vê-lo continuar a tocar, não conseguiu deixar de pensar na história que Nana lhe contara no carro. Sem pensar no serviço religioso, deu consigo a recordar conversas anteriores com Logan, a sensação transmitida pelo seu sólido abraço, a forma natural de lidar com Ben.

Admitia que existiam muitas lacunas no conhecimento que tinha dele, mas uma coisa sabia: Logan completava-a de uma forma que nunca julgara possível. O conhecimento não é tudo, disse para si mesma, e ficou então a saber que, usando as palavras da avó, ele era a tosta da manteiga dela.

Depois do serviço religioso, Beth ficou de lado, divertida com a ideia de que Logan estava a ser tratado como uma estrela de rock. bom, uma estrela com fãs que viviam dos cheques da Segurança Social, mas, tanto quanto lhe era dado perceber, Logan parecia tão vaidoso quanto envergonhado com a inesperada atenção.

Notou o olhar dele, um pedido silencioso para o libertar do cerco. Mas Beth limitou-se a sorrir e a encolher os ombros. Não queria intrometer-se. Quando o pastor veio agradecer-lhe uma segunda vez, sugeriu que Logan poderia continuar a tocar mesmo depois de o pulso de Abigail estar curado. - Estou certo de que poderemos encontrar uma solução - concluiu o pastor.

Ficou mais surpreendida quando Gramps, com Ben a seu lado, abriu também caminho até Logan. Como Moisés a abrir as águas do Mar Vermelho, Gramps não precisava de esperar entre a multidão para apresentar os seus cumprimentos. À distância notou a expressão de Keith, uma mistura de fúria e desgosto.

- Excelente trabalho, jovem - elogiou Gramps, oferecendo a mão. - Toca como se tivesse sido abençoado.

Pela expressão de Logan, Beth notou que ele reconhecera o homem, embora não fizesse ideia de como tal poderia ter acontecido. Viu-o apertar a mão de Gramps.

- Obrigado, senhor.

- Ele trabalha no canil com a Nana - informou Ben. - E acho que ele e a mamã são namorados.

Dito aquilo, o silêncio caiu sobre a multidão de admiradores, só quebrado por umas tossidelas embaraçadas.

Gramps olhou para Logan, embora Beth não conseguisse adivinhar-lhe a reacção. - É verdade? - indagou.

- É sim, senhor - respondeu Logan. Gramps ficou calado.

- E também esteve nos marines - acrescentou Ben, sem consciência das correntes sociais que faziam remoinhos à sua volta. Quando Gramps se mostrou surpreendido, Logan assentiu.

- Servi com o 5º Batalhão, do 5º Regimento, sediado em Pendleton.

Após uma pausa significativa, Gramps acrescentou: - Então, também tenho de lhe agradecer o serviço prestado ao nosso país. Hoje, fez um trabalho maravilhoso.

- Obrigado, senhor - repetiu Logan.

- Foste tão delicado - observou Beth depois de regressarem a casa. Não falara do sucedido até Nana estar longe e não a poder ouvir. Lá fora, o relvado começava a parecer um lago e a chuva continuava a cair. Tinham ido buscar Zeus no caminho de regresso e o cão repousava agora aos pés deles.

- Por que não havia de o ser? Ela fez uma careta. - Sabes porquê. -» Logan encolheu os ombros. - Ele não é o teu ex-marido. Duvido que faça alguma ideia do que o teu ex-marido anda a fazer. Porquê? Julgas que deveria tê-lo tratado mal.

- É evidente que não.

- Não pensei que devesse. Mas acontece que olhei para o teu ex-marido enquanto falava com o avô dele. Estava com o aspecto de quem tinha engolido uma minhoca.

- Também reparaste? Até achei uma certa piada.

- Mas ele não vai ficar contente.

- Então, pode juntar-se ao clube - sugeriu Beth. - Depois do que fez, bem merece engolir uma minhoca.

Logan assentiu e ela aninhou-se nele. Thibault levantou um braço e apertou-a contra si.

- Enquanto tocavas parecias muito bonito.

- Ah, sim?

- Sei que não deveria estar a pensar assim na igreja, mas foi mais forte do que eu. Devias usar blazer mais vezes.

- O meu tipo de emprego não o exige.

- Mas talvez o teu género de namorada o mereça.

Thibault fingiu-se surpreendido. - Eu tenho uma namorada?

Beth acotovelou-o por brincadeira e ergueu os olhos para ele. Beijou-o na face. - Obrigada por teres vindo para Hampton. E por teres decidido ficar.

Ele sorriu. - Não tive escolha.

Duas horas depois, mesmo antes do jantar, Beth viu o carro de Keith a abrir sulcos nas poças de água, a avançar no desvio de acesso à casa. Ben saltou do carro. Keith tinha a marcha atrás engatada e já ia a afastar-se quando Ben chegou junto da escada do alpendre.

- Boa noite, mamã! Boa noite, Thibault.

Logan cumprimentou-o com um aceno e Beth pôs-se de pé. - Boa noite, querido. Passaste um bom fím-de-semana? - perguntou depois de o abraçar.

- Não tive de limpar a cozinha. Nem de despejar o lixo.

- Óptimo.

-E sabes uma coisa?

- O que é? ?

Ben sacudiu a chuva da gabardina. - Acho que quero aprender a tocar piano.

Beth sorriu, a pensar, por que é que o desejo do filho não a surpreendia.

- Eh, Thibault?

Logan ergueu o queixo. - O que é?

- Quer ver a minha casa da árvore? ? Beth interrompeu-o. - Querido... com um temporal destes, não

me parece que seja uma boa ideia.

- É óptima. Foi construída pelo avô. Estive lá há poucos dias.

- É provável que a água esteja mais alta.

- Por favor! Não nos demoramos. E Thibault estará sempre comigo.

Embora lhe parecesse um erro, Beth concordou.

 

                       CLAYTON

Clayton nem queria acreditar, mas Gramps fora mesmo cumprimentar «Thibalt» depois do serviço religioso. Apertara-lhe a mão, como se ele fosse uma espécie de herói, enquanto Ben admirava «Thibolt» com olhos de cachorrinho.

A única maneira de passar sem tomar o pequeno-almoço foi abrir uma cerveja; e depois de deixar Ben em casa da mãe já bebera quatro. Tinha a certeza de que iria acabar a embalagem de doze antes de voltar a casa. Nas últimas duas semanas bebera muita cerveja. Sabia que andava a abusar, mas era a única coisa que evitava que estoirasse depois do último encontro com «Thibolt».

Atrás dele, o telefone tocou. Outra vez. A quarta nas duas últimas horas, mas não estava com disposição para atender.

Pronto, tinha de o admitir. Subestimara o homem. «Thibolt» andara sempre um passo à frente dele, desde o princípio. Costumava pensar que Ben sabia os botões em que devia carregar para o irritar, mas este tipo lançava bombas. Não, pensou Clayton subitamente, não lançava bombas. Enviava mísseis de cruzeiro que atingiam os alvos com precisão, todos eles programados para a destruição da vida de Clayton. E, pior ainda, Clayton não os detectara. Nem uma vez.

Era uma frustração sem fim, especialmente porque a situação parecia estar a agravar-se. Agora, «Thibolt» dizia-lhe o que ele devia fazer. Dava-lhe ordens, como se ele fosse um lacaio a quem pagasse e, por mais que espremesse os miolos, Clayton não via qualquer saída. Queria crer que «Thibolt» fizera bluffao afirmar que filmara a invasão da casa. Tinha de estar a fazer bluff, ninguém era assim tão esperto. Mas, e se fosse verdade?

Clayton dirigiu-se ao frigorífico e abriu outra cerveja, sabendo que não poderia arriscar-se. Quem poderia saber o que o tipo andaria a preparar? Bebeu um grande trago, a desejar que o entorpecimento do álcool não tardasse.

A situação deveria ter sido fácil de resolver. Ele era ajudante do xerife e o tipo era novo na terra. Clayton deveria ter estado sempre na mó de cima, mas, em vez disso, estava para ali sentado numa cozinha suja e desarrumada, porque não quisera pedir a Ben que a limpasse com medo de que o miúdo fosse contar a Thibolt», o que poderia significar o fim da vida de Clayton, tal como ele a encarava.

O que é que o tipo tinha contra ele? Era o que Clayton desejaria saber. Não se podia dizer que fosse Clayton quem causara os problemas. Quem tornava as coisas difíceis era «Thibolt»; e como quem põe sal numa ferida aberta, o tipo também andava a dormir com Beth.

Bebeu mais um gole, a magicar como é que a sua vida pudera tornar-se aquela porcaria em tão pouco tempo. Afundado naquela miserável tristeza, mal ouviu o som de alguém que batia à porta da frente. Levantou-se da cadeira e passou aos tropeções pela sala. Ao abrir a porta deu com Tony no alpendre, mais parecendo uma ratazana afogada. Como se não tivesse preocupações suficientes, ainda lhe aparecia aquele verme.

Tony recuou um pequeno passo. - Caramba, amigo. Estás bem? Pelo cheiro parece que estiveste a beber.

Clayton não estava com paciência para o aturar. - Tony, o que é que tu queres?

- Tenho estado a tentar ligar-te, mas não atendes o telefone.

- Diz lá o que queres.

- Não te tenho visto ultimamente.

- Tenho andado ocupado. E como estou agora ocupado, vai-te embora - mandou, começando a fechar a porta, mas Tony ergueu a mão.

- Espera! Tenho uma informação para ti - choramingou.

- É importante.

- O que é?

- Lembras-te de te ter telefonado? Não me recordo bem, deve ter sido há uns dois meses?

- Não.

- Tu lembras-te. Telefonei-te do Decker sobre aquele tipo que andava a mostrar uma fotografia da Beth?

- E?

Tony afastou uma madeixa de cabelo engordurado que estava a tapar-lhe os olhos. - É o que quero dizer-te. Hoje voltei a vê-lo. E vi-o a falar com a Beth.

- De quem é que estás a falar?

- Depois da igreja. Estava a falar com a Beth e com o teu avô. Foi o gajo que hoje tocou o piano.

Apesar do excesso de álcool, Clayton sentiu a cabeça começar a desanuviar-se. Recordou-se vagamente, a princípio, depois mais nitidamente. Fora no fim-de-semana em que «Thibolt» lhe ficara com a máquina e com o disco.

- Tens a certeza?

- É claro que tenho. Lembrar-me-ia daquele gajo onde quer que fosse.

- Ele tinha a fotografia de Beth?

- Já te disse isso. Eu vi-a. Apenas achei esquisito, percebes?

E hoje vi-os juntos. Pensei que gostarias de saber.

Clayton digeriu as novidades trazidas por Tony. - Quero que me contes tudo aquilo de que te lembrares acerca dessa fotografia.

Tony, o verme, era senhor de uma excelente memória e não tardou muito que Clayton ficasse a conhecer a história toda. A fotografia já tinha uns anos e fora tirada na feira. Que «Thibolt» não sabia o nome dela. Que «Thibolt» andava à procura de Beth. Depois de Tony sair, Clayton continuou a reflectir sobre o que acabara de saber. Não havia qualquer hipótese de «Thibolt» ter estado em Hampton cinco anos antes e depois esquecer-se do nome dela. Assim sendo, como arranjara a fotografia? Tinha atravessado o país para a procurar? E, dadas as circunstâncias, o que é que isso queria dizer? Que ele a perseguira? Ainda não tinha a certeza, mas havia qualquer pormenor que não se ajustava. E Beth, ingénua como era seu hábito, não só o admitira na cama dela, mas também na vida de Ben.

Enrugou a testa. Não estava a gostar daquilo. Não estava a gostar mesmo nada e tinha quase a certeza de que Beth também não iria gostar.

 

                         THIBAULT

- Então, é isto?

Apesar do abrigo proporcionado pelas árvores, Thibault estava encharcado na altura em que ele e Ben chegaram junto da casa da árvore, A água pingava da gabardina que ele vestia e as calças novas já estavam encharcadas até aos joelhos. Por dentro das botas as peúgas emitiam sons desagradáveis. Ben, por sua vez, ia enfaixado dos pés à cabeça num fato para a chuva; nos pés, levava as botas de borracha de Nana. Para além do rosto, Thibault duvidava que ele notasse qualquer pingo de chuva.

- É por aqui que chegamos à casa. Espantoso, não acha? - comentava Ben, apontando para um carvalho na margem do riacho. Uma série de tábuas pregadas permitiam a subida por um dos lados do tronco. Só tem de subir a escada da árvore e depois atravessar a ponte.

Thibault notou com apreensão que o caudal do riacho já era o dobro do normal e que a água corria com grande velocidade.

Voltando a atenção para a pequena ponte, reparou que era composta por três partes: uma ponte feita de corda esfiapada estava presa entre o carvalho da margem mais próxima e um patamar no centro do riacho, que era suportado por quatro pilares inclinados; este patamar encontrava-se ligado por outra secção da ponte de corda à plataforma onde assentava a casa da árvore. Thibault não deixou de reparar nos detritos acumulados pelo caudal de água à volta dos pilares. Embora não tivesse inspeccionado a ponte previamente, suspeitava que os temporais contínuos e a rápida corrente de água tivessem enfraquecido os suportes do patamar. Antes que pudesse dizer o que pensava, Ben já escalara a escada para a ponte.

Lá de cima, Ben sorriu-se para ele. - Suba! De que é que está à espera?

Thibault ergueu um braço para se proteger da chuva, sentindo uma súbita sensação de medo. - Não me parece boa ideia...

- Medroso! - zombou Ben. Iniciou a travessia, com a ponte a oscilar de um lado ao outro enquanto ele corria.

- Espera! - gritou Thibault, sem resultado. Ben já atingira o patamar central.

Subiu a escada da árvore e, cautelosamente, assentou um pé na ponte suspensa. As tábuas encharcadas cederam sob o seu peso. Logo que Ben viu que Thibault ia atrás dele, percorreu o resto do caminho até à casa da árvore. Thibault suspendeu a respiração quando Ben saltou para a plataforma da casa, que se curvou com o peso do rapaz, mas aguentou-se. Ben voltou-se, mostrando um sorriso rasgado.

- Volta para trás! - gritou Thibault. - Não creio que a ponte aguente o meu peso.

- Aguenta. Foi o meu avô que a construiu! .

- Ben, por favor. Ben zombou de novo: - Medroso!

Era óbvio que Ben considerava tudo aquilo parte de um jogo. Thibault olhou de novo para a ponte e concluiu que, se fosse devagar, talvez ela se aguentasse. Ben correra, provocando torções e pressões de impacto. Conseguiria a ponte suportar o peso de Thibault?

Assim que deu o primeiro passo, as tábuas, velhas e encharcadas, cederam ao peso dele. Estavam, sem dúvida, atacadas por fungos.

Pensou na fotografia que trazia na algibeira. O riacho redemoinhava e espumava, a torrente logo abaixo dos pés dele.

Não havia tempo a perder. Caminhou lentamente e chegou ao patamar central, para depois começar a percorrer o resto da ponte suspensa. Ao notar a oscilação da plataforma, duvidou que ela suportasse o peso total dos dois. Na algibeira a fotografia parecia queimar.

- vou ter contigo lá dentro - observou Thibault, tentando falar com descontracção. - Não tens de estar à chuva, à espera de um velho como eu.

Felizmente, Ben riu-se e enfiou-se na casa da árvore. Aliviado, Thibault respirou fundo e levantou-se na plataforma bamboleante. Deu uma passada comprida para evitar a plataforma e caiu dentro da casa.

- É aqui que guardo as minhas cartas do Pokémon - informou- Ben, ignorando a forma como Thibault entrara e apontando para as caixas de folha num canto. - Tenho um Charizard. E um Mewtwo.

Thibault enxugou a cara, recompôs-se e sentou-se no chão. - Fantástico! - exclamou, vendo a água a escorrer da gabardina e a formar poças à sua volta.

Olhou à volta do pequeno espaço. Havia brinquedos empilhados nos cantos e uma janela aberta expunha boa parte do interior aos elementos, encharcando as tábuas por pintar desde o início. A única peça de mobília era uma cadeira de lona colocada a um canto.

- Este é o meu esconderijo - esclareceu Ben ao deixar-se cair na cadeira.

- Ah, sim?

- Venho para aqui quando estou zangado. Como acontece quando os miúdos da escola me chateiam.

Thibault recostou-se contra a parede, enquanto ia sacudindo a água das mangas. - O que é que eles fazem?

Ben encolheu os ombros. - Coisas. Você sabe. Gozam-me pela maneira como jogo basquetebol, ou como pontapeio a bola, ou por usar óculos.

- Deve ser duro.

- Não me importo.

Ben não pareceu notar a contradição e Thibault continuou.

- O que é que aprecias mais quando aqui estás?

- O silêncio - respondeu Ben. - Quando aqui estou, ninguém me faz perguntas, não me mandam fazer coisas. Posso ficar aqui sentado, a pensar.

Thibault assentiu. - Faz sentido - comentou. Através da janela notou que o vento obrigava a chuva a cair de lado. O temporal estava a agravar-se.

- E pensas em quê?

Ben deu de ombros. - Como é crescer e coisas assim. Em ficar mais velho - acrescentou e fez uma pausa. - Gostava de ser mais alto.

- Porquê?

- Na minha turma há um miúdo que se mete sempre comigo. É um malvado. Ontem, na cafetaria, atirou-me ao chão.

A casa da árvore abanou com uma rajada de vento. Uma vez mais, a fotografia pareceu queimá-lo e, sem dar por isso, Thibault procurou-a no bolso. Não percebeu a compulsão mas, antes de perceber o que estava a fazer, tirou-a do bolso.

Lá fora, o vento continuava a uivar e ouviam-se ramos das árvores a bater na estrutura. Sabia que a chuva ia engrossando o riacho a cada minuto que passava. De súbito, viu mentalmente o colapso da plataforma onde assentava a casa, com Ben encurralado, com o riacho enraivecido por baixo dele.

- Quero dar-te um presente - disse Thibault, com as palavras a saírem ainda antes de tomar consciência delas. - Julgo que vai resolver o teu problema. ?

- O que é?

Thibault engoliu em seco. - É uma fotografia da tua mãe.

Ben pegou na foto e olhou-a, curioso. - O que é que faço com ela?

Thibault inclinou-se para diante e tocou um canto da fotografia.

- Basta que a tragas contigo. O meu amigo Victor dizia que era um talismã. Dizia que ela me mantivera vivo no Iraque.

- De verdade?

«Pois, aí é que está o problema, não é?» Depois de uma longa pausa, Thibault assentiu. - Palavra de honra.

- Fixe!

- Fazes-me um favor? - pediu Thibault.

- O que é?

- És capaz de fazer disto um segredo entre nós os dois? E prometer conservá-la contigo? ...?

Ben reflectiu. - Posso dobrá-la?

- Não vejo que faça diferença.

O garoto voltou a reflectir. - Sem dúvida, acabou por concordar, dobrando a fotografia e metendo-a no bolso. - Obrigado.

Era a primeira vez, em cinco anos, que a fotografia ficava mais longe que a distância que ia do chuveiro ou do lavatório ao bolso dele; e a sensação de perda desorientou-o. De qualquer forma, Thibault não esperara sentir a ausência dela de forma tão aguda. Ao ver Ben atravessar a ponte e ao olhar o riacho enfurecido, a sensação tornou-se ainda mais intensa. Quando Ben lhe acenou do outro lado do riacho e começou a descer a escada da madeira, Thibault pôs um pé relutante na plataforma, antes de atravessar a ponte o mais depressa que pôde.

Sentiu-se exposto ao cruzar a ponte passo a passo, ignorando a certeza de que tudo ia cair no riacho, ignorando o facto de já não ter a fotografia consigo. Quando chegou ao carvalho que ficava na outra margem, respirou fundo, trémulo mas aliviado. Ainda assim, ao descer, sentiu uma premonição incómoda: a de que o que viera fazer ali, fosse o que fosse, ainda não acabara; que estava, de facto, apenas a começar.

 

                        BETH

Na quarta-feira, Beth encontrava-se a olhar pela janela da sala de aulas durante o intervalo para almoço. Nunca vira nada de semelhante: tufões e ventos de nordeste não eram nada quando comparados com a série de temporais que haviam recentemente atingido o distrito de Hampton, bem como todas as terras situadas entre Raleigh e a costa. O problema era que, ao contrário do que sucedia com a maioria das tempestades tropicais, estas não passavam por ali rapidamente, a caminho do mar. Pelo contrário, permaneciam, cada dia mais medonho que o anterior, levando quase todos os rios da parte oriental do estado a provocarem inundações. Nas pequenas vilas ao longo dos rios de Pimlico, de Neuse e de Cape Fear já se andava com água pelos joelhos e Hampton estava perto disso. com mais um ou dois dias de chuva, os estabelecimentos comerciais do centro só poderiam ser alcançados de barco.

As autoridades haviam decidido fechar as escolas até ao final da semana, pois os autocarros escolares já não conseguiam percorrer os trajectos habituais e apenas um pouco mais de metade dos professores tinha conseguido chegar à escola. E claro que Ben estava entusiasmado com a ideia de ficar em casa e de brincar nas poças de água com Zeus, mas Beth mostrava-se um pouco mais receosa. Tanto os jornais como os noticiários locais informavam que, conquanto o South River já tivesse atingido níveis perigosos, antes de melhorar, a situação só poderia piorar na medida em que os riachos e os tributários continuavam a alimentar a cheia do rio principal. Os dois riachos que rodeavam o canil, habitualmente afastados uns 400 metros, podiam agora ser vistos das janelas da casa; Logan estava mesmo a manter Zeus recolhido por causa dos detritos transportados pelo dilúvio.

Estar fechado em casa era duro para as crianças, uma das razões que a levara a permanecer na sala de aulas. Depois ao almoço, regressariam às salas de aulas, onde, em teoria, podiam desenhar ou pintar calmamente, em vez de andarem lá por fora aos pontapés à bola ou a jogar basquetebol. Na realidade, as crianças precisavam de libertar as energias e ela sabia-o. Há anos que vinha a propor que, em dias como aquele, se limitassem a fechar as mesas da cafetaria para permitir que as crianças conseguissem correr ou brincar durante vinte minutos, de modo a poderem concentrar-se quando regressassem às salas de aulas. Não podia ser, disseram-lhe, por questões regulamentares, questões de responsabilidade civil, questões do sindicato do pessoal auxiliar e questões de saúde e segurança. Quando perguntara o que tudo aquilo queria dizer, deram-lhe uma longa explicação, mas, para ela, tudo se resumia às batatas fritas. Por exemplo: Não podemos permitir que as crianças escorreguem nas batatas fritas, ou, se efectivamente escorregarem nas batatas fritas, o distrito escolar será demandado em tribunal, ou, o sindicato do pessoal auxiliar teria de renegociar o contrato se não limpassem as batatas fritas caídas na cafetaria no tempo que estava destinado a esse serviço, e, finalmente, se escorregassem numa batata frita caída no chão, as crianças poderiam ficar expostas a agentes patogénicos perniciosos.

Bem-vindos ao mundo dos advogados, pensou. Afinal, os advogados não tinham de ensinar as crianças depois de elas terem sido mantidas dentro de uma sala de aulas durante um dia inteiro, sem qualquer recreio.

Habitualmente, ter-se-ia retirado para a sala de professores a fim de almoçar, mas com tão pouco tempo para preparar as actividades da turma, decidira ficar na sala de aulas e preparar tudo. Estava num canto, a instalar um jogo que era guardado no armário justamente para aquelas emergências, quando notou um movimento junto à porta da sala. Voltou-se e levou algum tempo a perceber o que era. Tinha os ombros do uniforme molhados e caíram-lhe alguns pingos do cinto onde segurava a pistola. Trazia um envelope de manilha na mão.

- Boa tarde, Beth - cumprimentou, com voz calma. - Dispensas-me um minuto?

- De que se trata, Keith - perguntou Beth ao levantar-se.

- Vim pedir desculpa - começou ele. Juntou as mãos à frente em sinal de contrição. - Sei que não dispões de muito tempo, mas quero falar contigo enquanto estás só. Arrisquei a vinda aqui, mas se não for a altura adequada, talvez possamos marcar outra altura mais conveniente para ti.

Beth consultou o relógio. - Disponho de cinco minutos. Keith entrou na sala e começou a fechar a porta. A meio, parou, e pediu-lhe autorização. Ela assentiu, desejosa de despachar o assunto que o trouxera ali. Keith dirigiu-se para ela, parando a uma distância respeitosa.

- Como disse, vim aqui para te pedir desculpa.

- Desculpa de quê?

- Acerca dos rumores que ouviste. Não fui completamente verdadeiro contigo.

Beth cruzou os braços. - Por outras palavras, mentiste - concluiu.

- Menti.

- Mentiste-me na cara.

Menti.

- Acerca de quê?

- Perguntaste se eu corri com alguns dos tipos que namoraste no passado. Não penso que o tenha feito, mas não te disse que, na reali»dade, falei com alguns deles.

- Falaste com eles.

- Falei.

Beth fez o que pôde para controlar a fúria que sentia. - E... como é? Estás a pedir desculpa pelo que fizeste ou por teres mentido?

- Por ambas as razões. Peço desculpa pelo que fiz e peço desculpa por ter mentido. Não devia ter agido assim - rematou. Depois de uma pausa, prosseguiu: - Sei que a nossa relação depois do divórcio não foi a melhor, e também sei que tu achas que cometeste um erro ao casar comigo. Tens toda a razão. Não devíamos ter-nos casado e aceito isso. Mas entre nós os dois, e para ser honesto, o teu papel tem sido muito mais importante que o meu, existe um filho fantástico. Podes não me julgar o melhor dos pais do mundo, mas nunca lamentei o facto de Ben ter nascido, ou de ele viver contigo durante a maior parte do tempo.

Beth não sabia o que dizer. com ela calada, Keith prosseguiu.

- Mas continuo a preocupar-me, e preocupar-me-ei sempre. Como te disse, preocupo-me com a pessoa que fizer parte da vida do Ben, sejam amigos, conhecidos, ou mesmo pessoas que tu lhe apresentes. Sei que não é justo e que provavelmente consideras que estou a imiscuir-me na tua vida privada, mas é assim que eu sou. E, para te ser franco, não sei se algum dia mudarei.

- Portanto, estás a dizer que vais continuar a perseguir-me eternamente?

- Não - apressou-se Keith a dizer. - Não voltarei a fazê-lo. Só estou a explicar por que o fiz antes. E acredita em mim, não ameacei aqueles tipos, nem tentei intimidá-los. Conversei com eles. Expliquei-lhes que Ben significava muito para mim e que ter sido pai dele fora o acontecimento mais importante da minha vida. Podes nem sempre concordar com a maneira como me dou com ele, mas, se recuares uns anos, nem sempre foi assim. Ele costumava apreciar o tempo que passava em minha casa. Agora não aprecia. Mas eu não mudei, quem mudou foi ele. A mudança não foi má, crescer é normal e, no fundo, é o que tem andado a fazer. E talvez eu tenha necessidade de perceber e aceitar o facto de ele estar a ficar mais velho.

Ela não respondeu. Sempre a observá-la, Keith respirou fundo.

- Também disse àqueles homens que não queria ver-te magoada. Sei que isto pode dar a entender que eu estava a mostrar-me possessivo, mas não estava. Disse-o como o diria um irmão. Como o Drake o teria dito. Mais ou menos assim: se gosta dela, se a respeita, nunca se esqueça de a tratar bem. Foi tudo o que lhes disse - insinuou. Encolheu os ombros. - Não sei. Mas talvez alguns deles me tenham entendido mal por eu ser polícia ou por causa do meu apelido, mas isso são pormenores que não posso evitar. Acredita-me, a última coisa que desejaria era ver-te infeliz. As coisas podem não ter corrido bem entre nós, mas és a mãe do meu filho e nunca deixarás de o ser.

Keith baixou a cabeça e mexeu os pés. - Tens todas as razões para estares zangada comigo. Agi mal.

Beth permaneceu no mesmo sítio, de braços cruzados. - Pois agiste.

- Como já disse, peço desculpa e juro que não voltará a acontecer. Ela não respondeu de imediato. Finalmente, disse: - Muito bem.

vou verificar se cumpres a promessa.

Keith sorriu ligeiramente, um sorriso de quase derrota. - Acho justo.

- E é tudo? - indagou, a preparar-se para tirar o resto das peças do jogo do armário.

- Na verdade, também queria falar contigo acerca de Logan Thibault. Há um facto de que deves tomar conhecimento.

Beth ergueu as mãos para fazê-lo parar. - Não te metas nisso.

Não conseguiu dissuadi-lo. Pelo contrário, Keith deu um passo em frente, levando a mão à aba do chapéu. - Não falarei com ele a menos que queiras que converse com ele. Quero que isto fique claro. Acredita-me, Beth. Isto é sério. Não estaria aqui se não fosse. Estou aqui por me preocupar contigo.

Um atrevimento de cortar a respiração. - Esperas sinceramente que eu acredite que levas a peito os meus melhores interesses, depois de admitires que andaste a espiar-me durante anos? E que foste responsável por eu não conseguir encontrar alguém com quem me relacionar?

- Isto não tem nada a ver com essas coisas.

- Deixa-me adivinhar... pensas que ele é viciado em drogas, certo?

- Não faço ideia. Contudo, devo avisar-te de que ele não tem sido honesto contigo.

- Não fazes ideia se ele foi ou não honesto comigo. Agora, sai. Não quero falar contigo. Não desejo ouvir o que tens para me dizer...

- Então, faz-lhe tu a pergunta. - interrompeu Clayton. - Pergunta-lhe se ele veio até Hampton para te procurar.

- Estou farta - declarou Beth, a dirigir-se para a porta. - E se ousares tocar-me quando eu sair, gritarei por socorro.

Passou por ele e quando ela estava prestes a passar pela porta, Keith suspirou pesadamente.

- Pergunta-lhe pela fotografia - sugeriu.

O comentário obrigou-a a deter-se. - O quê? A expressão de Keith era a mais séria que ela alguma vez lhe vira.

- A fotografia que tirou ao Drake.

 

                      CLAYTON

Pela expressão dela, Clayton viu que conseguira despertar a atenção de Beth, embora não tivesse a certeza de que ela compreendera as implicações, e prosseguiu:

- Ele tinha uma fotografia tua. Quando chegou à cidade mostrou-a no salão de bilhar do Decker. Tony estava lá nessa noite e viu-a. Na realidade, telefonou-me imediatamente porque achou que o tipo estava a contar uma história esquisita, mas não lhe liguei importância. Contudo, na semana passada, Tony veio ter comigo para me dizer que reconhecera Thibault quando ele tocava piano na igreja.

Beth continuou a olhar para ele.

- Não sei se Drake lhe deu a fotografia, ou se ele a roubou ao Drake. Mas acho que é a única coisa que faz sentido. Ambos estiveram nos fuzileiros navais e, segundo Tony, a fotografia era antiga, fora tirada há uns anos.

Hesitou. - Sei que o que te contei sobre o meu comportamento anterior pode dar a ideia de que quero correr com ele, mas não vou falar com o homem. No entanto, penso que o deves interrogar e não digo isto por ser o teu ex-marido. Estou a falar na minha qualidade de ajudante do xerife.

Beth queria sair dali mas pareceu não conseguir reunir a vontade para mexer as pernas.

- Pensa nisso. Ele tem uma fotografia tua; foi com base nela que percorreu metade do país à tua procura. Não sei por quê, mas posso dar-te uma explicação razoável. Estava obcecado por ti, embora nunca se tivessem encontrado, como aqueles que criam obsessões em relação às estrelas de cinema. E o que é que fez? Começou a procurar-te, mas ver-te de longe, ou simplesmente conhecer-te, não era suficiente. Tinha de ir mais além, de fazer parte da tua vida. Beth, é assim que actuam os assediadores perigosos.

Falava em tom calmo e profissional, o que servia apenas para intensificar o temor que ela começara a sentir.

- Pela tua expressão, verifico que tudo isto é uma novidade para ti. Estás a reflectir se estarei a falar verdade, ou se estarei a mentir, além de que o meu currículo não é perfeito. Mas, por favor, para bem do nosso filho, e para o teu próprio bem, interroga-o sobre isso. Posso estar presente se assim o decidires, posso até mandar outro ajudante do xerife se preferires. Ou podes falar com qualquer outra pessoa, com a tua amiga Melody, por exemplo. Só pretendo que percebas a gravidade do assunto. Até que ponto... isto é arrepiante e esquisito. Mete medo. E não consigo demonstrar-te quanto é importante que consideres que se trata de um caso grave.

A boca dele era apenas uma linha estreita quando pousou o sobrescrito com o processo na carteira que estava mais próxima. - Tens aí informações gerais sobre Logan Thibault. Não tive tempo para averiguações mais aprofundadas; posso meter-me em grandes sarilhos por te deixar ver isto, pois não sei o que mais é que ele te contou... - interrompeu-se e voltou a olhar para ela.

- Pensa no que te disse. E tem cuidado, está bem?

 

                   BETH

Mal conseguia ver através do pára-brisas, mas desta vez era mais por falta de concentração do que por causa da chuva. Depois de Keith ter saído, continuara confusa, a olhar para o processo, a tentar encontrar algum sentido em tudo o que acabara de ouvir.

Logan tinha a fotografia do Drake... Logan tinha ficado obcecado por ela... Logan tinha decidido procurá-la... Logan andara à caça dela.

Sentira dificuldades respiratórias e mal conseguira chegar ao gabinete do director para o informar de que tinha de ir para casa. Depois de lhe analisar o rosto, o director concordara, oferecendo-se para a substituir durante o resto da tarde. Beth informou-o de que Nana iria buscar Ben à escola.

Durante a viagem para casa as imagens sucediam-se-lhe na cabeça, um caleidoscópio de visões, de sons e de cheiros. Tentava convencer-se de que Keith mentira, procurava racionalizar a notícia. Era possível, especialmente se tivesse em conta a maneira como mentira no passado, e, no entanto...

Keith falara sério. Revelara uma postura mais profissional do que pessoal, para além de lhe ter dito coisas que ela poderia verificar pessoalmente. Sabia que ela não deixaria de questionar Logan sobre o assunto... queria que ela questionasse Logan... o que significava...

Beth apertou o volante, presa de uma necessidade febril de falar com Logan. Ele poderia esclarecer tudo. Tinha de ser capaz de a esclarecer.

A água do rio já se estendera à estrada mas, preocupada como ia, só se apercebeu disso quando o carro entrou pela água dentro. Sentiu-se atirada para a frente quando o carro quase parou. O rio fluía à volta dela e pensou que o motor poderia ser atingido e parar, mas o carro continuou a rolar em frente e cada vez mais fundo, antes de finalmente conseguir chegar a uma zona com água mais baixa.

Ao chegar a casa, e para além do estado de confusão que se apoderara dela, não sabia o que pensar. Ora se sentia furiosa, atraiçoada e manipulada, ora se convencia de que aquilo não poderia ser verdade, que Keith lhe mentira uma vez mais.

Ao entrar no desvio de acesso à casa procurou vislumbrar Logan nos campos alagados.

Mais adiante, através da névoa baixa, conseguiu ver luzes em casa. Pensou ir falar com Nana, aproveitar a clareza de raciocínio da avó, o seu bom senso, para esclarecer tudo. Contudo, ao ver luzes no escritório e notar que a porta estava aberta, sentiu um aperto na garganta. Virou o volante na direcção do escritório, dizendo a si mesma que Logan não tinha a fotografia, que tudo aquilo não passava de um erro. Saltou por cima de poças de lama, com a chuva a cair com tal força que as escovas pára-brisas não conseguiam cumprir o seu papel. No alpendre do escritório, viu Zeus deitado perto da porta, de cabeça erguida.

Travou em frente da porta e correu para o alpendre, com a chuva a picar-lhe a cara. Zeus aproximou-se, pondo o nariz perto da mão dela, mas Beth ignorou-o e entrou, esperando encontrar Logan sentado à secretária.

Ele não se encontrava ali. A porta que dava para o canil estava aberta. Parada no meio do escritório, encheu-se de coragem e observou as sombras do corredor escurecido. Esperou que Logan chegasse à zona iluminada.

- Olá, Elizabeth - cumprimentou Logan. - Não te esperava...

- mas não continuou. - O que é que aconteceu?

Ao olhar para ele, Beth sentiu-se prestes a explodir. De súbito, notou que tinha a boca seca, como se fosse de papel, não sabia como começar nem o que dizer. Pressentindo o estado dela, Logan manteve-se calado.

Ela fechou os olhos, sentindo-se prestes a chorar, a seguir inspirou lentamente. - Por que é que te mudaste para Hampton? - acabou por perguntar. - Desta vez exijo a verdade.

Logan não se mexeu. - Contei-te a verdade.

- Contaste-me tudo? ele hesitou durante uma fracção de segundo.

- Nunca te menti - respondeu com voz tranquila.

- Não foi isso que perguntei - redarguiu Beth. - Perguntei-te se andaste a esconder algum pormenor!

Logan analisou-a cuidadosamente. - De onde é que isso veio?

- Não interessa! - respondeu e desta vez ele notou a cólera na voz dela. - Só pretendo saber por que é que vieste para Hampton!

- Eu disse-te...

- Tens uma fotografia minha?

Logan não respondeu.

- Responde à pergunta! - exclamou Beth ao dar um passo em

direcção a ele, a falar de dentes cerrados. - Tens uma fotografia minha?

Não sabia como iria ele reagir, mas para além de um ligeiro suspiro, Logan não vacilou. ?

- Tenho.

- A que eu dei ao Drake?

Sim.

com aquela resposta, ela sentiu que todo o seu mundo se desmoronava como uma carreira de dominós. De repente, tudo fazia sentido: a maneira como ficara a olhar para ela no primeiro encontro, o motivo de ele querer trabalhar a ganhar o salário mínimo, as razões que o levaram a tornar-se amigo de Nana e de Ben, toda aquela conversa acerca do destino...

Ele tinha a fotografia. Viera até Hampton à procura dela. Perseguira-a como se ela fosse uma peça de caça. De súbito, sentiu que mal conseguia respirar.

- Oh, meu Deus!

- Não é nada do que estás a pensar...

Estendeu a mão na direcção dela que, de ar absorto, ficou a vê-la aproximar-se até finalmente se aperceber do que estava a passar-se.

Deu um salto para trás, desesperada para conseguir alargar o espaço que os separava. Afinal, fora tudo uma mentira...

- Não me toques!

- Elizabeth...

- O meu nome é Beth!

Olhou para ele como se ali estivesse um estranho, até que Logan baixou o braço.

A voz dele era apenas um sussurro quando tentou de novo. - Posso explicar...

- Explicar o quê? - inquiriu Beth. - Que roubaste a fotografia ao meu irmão? Que atravessaste o país a pé para me encontrar? Que te apaixonaste por uma imagem...

- Não foi nada disso - retorquiu Logan, a abanar a cabeça.

Beth não o ouvia. Tudo o que conseguia era encará-lo, a tentar descobrir se ele dissera alguma verdade.

- Perseguiste-me... - insinuou, como se falasse consigo mesma. Mentiste-me. Usaste-me.

- Não compreendes...

- Compreender? Tu queres que eu compreenda?

- Não roubei a fotografia - contrapôs. A voz dele mantinha-se firme e calma. - Achei a fotografia no Kuwait e coloquei-a no quadro, onde pensei que alguém a fosse reclamar. Mas ninguém apareceu a reclamá-la.

Beth abanou a cabeça, sem querer acreditar no que ouvia. - E por isso... meteste-a no bolso? Porquê? Por alimentares alguma ideia doentia e retorcida acerca de mim?

- Não! - exclamou Logan, levantando a voz pela primeira vez. O tom sobressaltou-a, obrigou-a a pensar mais devagar, pelo menos por instantes. - Vim até aqui por estar em dívida contigo.

Ela pestanejou. - Estavas em dívida comigo? O que é que isso poderá querer dizer?

- A fotografia... salvou-me.

Embora o tivesse ouvido perfeitamente, não conseguiu perceber o significado das palavras. Esperou que ele continuasse, mas, no silêncio que se instalou entre eles, apercebeu-se de que as achava... algo assustadoras. Sentiu que os pêlos dos braços se lhe eriçavam e deu mais um passo para trás. - Quem és tu? - sussurrou. - O que é que pretendes de mim?

- Não pretendo nada. E sabes quem eu sou.

- Não, não sei! Não sei o que quer que seja acerca de ti!

- Deixa-me explicar...

- Então, explica por que razões, sendo tudo assim tão puro e verdadeiro, não me falaste da fotografia quando chegaste aqui! - gritou, Beth, com a voz a ecoar pela sala. Mentalmente reviu todos os pormenores da noite em que a fotografia foi tirada. Apontou-lhe um dedo.

- Por que não disseste: «Achei esta fotografia no Iraque e calculei que poderias gostar de a reaver»? Por que não me disseste quando conversámos sobre o Drake?

- Não sei...

- Não devias conservar uma fotografia que não te pertencia! Não entendes isso? Não te fora destinada? Era para o meu irmão, não era para ti! Era dele e não tinhas o direito de não ma entregares!

A voz de Logan era quase um sussurro. - Não queria magoar-te. Os olhos de Beth fixaram-se nele, penetrando-o com toda a força da raiva que sentia.

- Tudo isto é uma trapaça, não é verdade? Achaste a fotografia e inventaste uma qualquer... fantasia retorcida, em que podias desempenhar o papel principal. Usaste-me desde o momento em que nos conhecemos! Tiveste tempo para me dares a entender que eras o homem perfeito para mim. E pensaste que por estares obcecado por mim, podias enganar-me e levar-me a apaixonar-me por ti.

Viu Logan encolher-se ao ouvir as palavras dela, pelo que resolveu continuar.

- Planeaste tudo desde o primeiro momento! É doentio, é um engano e nem quero crer que caí na esparrela.

Logan vacilou um pouco sobre os calcanhares, espantado pelas palavras dela.

- Admito que queria encontrar-te, mas estás enganada quanto ao motivo. Não vim até cá para te enganar e levar-te a apaixonares-te por mim. Sei que soa a loucura, mas vim por acreditar que a fotografia me salvou e que... de certa maneira, estava em dívida para contigo, embora não soubesse o que isso queria dizer, ou o que viria a suceder. Contudo, depois de cá estar, não fiz planos. Aceitei o emprego e a seguir apaixonei-me por ti.

A expressão de Beth não se suavizou enquanto ele falava. Em vez disso, começou a abanar lentamente a cabeça.

- Será que consegues ouvir o que tu próprio estás a dizer?

- Sabia que não acreditarias. Foi esse o motivo por que não te disse...

- Não tentes justificar as tuas mentiras! Foste apanhado numa fantasia doentia e nem isso queres admitir.

- Acaba com isso da fantasia doentia! - gritou Logan. - Quem não está a ouvir és tu. Nem sequer tentas perceber o que eu estou a explicar!

- Por que motivo deveria tentar compreender? Andas a mentir-me desde o início. Andas a usar-me desde o início.

- Não te usei - contrapôs, endireitando as costas, retomando a compostura. - E não menti acerca da fotografia. Não te falei dela por não saber o que havia de dizer-te sem te levar a considerares-me maluco.

Beth ergueu as mãos. - Nem penses em atirar as culpas para cima de mim. Quem mentiu foste tu! Quem manteve segredos foste tu! Eu contei-te tudo! Abri o coração! Deixei que o meu filho se ligasse a ti! - gritou. Quando continuou, a voz baixou de tom e sentiu que as lágrimas não tardariam. - Fui contigo para a cama por te considerar um homem em quem podia confiar. Mas agora sei que não posso. Consegues imaginar como isso me faz sentir? Saber que tudo isto não passou de uma espécie de pantomima?

A voz dele era suave. - Por favor, Elizabeth... Beth... ouve-me.

- Não te quero ouvir! Já ouvi mentiras que cheguem.

- Não sejas assim.

- Queres que eu ouça! - gritou. - Para ouvir o quê? Que ficaste obcecado por uma fotografia e vieste à minha procura por acreditares que eu te salvei a vida! É uma loucura, tanto mais perturbadora por não conseguires reconhecer que essa explicação te faz parecer um doente mental.

Logan encarou-a e ela viu o queixo dele contrair-se.

Sentiu-se percorrida por um arrepio. Estava farta daquilo. Farta dele. - Quero-a de volta - gritou. -? Quero a fotografia que dei ao Drake!

Como ele não respondesse, Beth estendeu a mão para o parapeito da janela, pegou num pequeno vaso de flores e atirou-o à cabeça dele, gritando: - Onde é que está? Quero-a!

Logan baixou a cabeça quando o vaso passou a voar por perto, indo estampar-se na parede atrás dele. Confuso, Zeus ladrou pela primeira vez.

- Não é tua! - gritou Beth.

Logan endireitou-se de novo. - Não a tenho.

- Aonde é que está? - exigiu ela.

Uma pausa antes de obter resposta. - Dei-a ao Ben - admitiu Logan.

Ela semicerrou os olhos. - Rua!

Logan hesitou mas finalmente dirigiu-se para a porta. Beth desviou-se, mantendo-se distante dele. Zeus rodou a cabeça de Logan para Beth e novamente na direcção de Logan, antes de decidir segui-lo.

À porta, Logan parou e voltou-se para ela.

- Juro pela minha vida que não vim aqui para me apaixonar por ti, ou para tentar que te apaixonasses por mim. Mas aconteceu.

Beth olhou-o nos olhos. - Já te mandei embora e repito. com isto, Logan voltou-se e caminhou ao encontro da tempestade.

 

                     THIBAULT

Apesar da chuva, Thibault não conseguiu imaginar-se a regressar a casa. Queria ficar ali por fora, não lhe parecia justo sentir-se quente e seco. Queria purgar-se de tudo que tinha feito, de todas as mentiras que tinha dito.

Beth tivera razão; não fora honesto com ela. Apesar de se sentir magoado por algumas das coisas que ela dissera e por se negar a ouvi-lo, encontrava justificação para o facto de se ter sentido traída. Mas como explicar-lhe? Não compreendia inteiramente as razões por que tinha vindo, mesmo quando tentava expressá-las por palavras. compreendia os motivos que a levavam a interpretar os actos dele como os de um louco. E, era evidente que estava obcecado, mas não da maneira que ela imaginava.

Devia ter-lhe contado a história da fotografia logo à chegada e lutava para encontrar as razões que o levaram a não a contar. Na pior das hipóteses, ela ter-se-ia mostrado surpreendida e feito algumas perguntas, mas o assunto teria morrido ali. Suspeitava que Nana o teria contratado, fosse como fosse; e nada disto teria acontecido.

Mais do que tudo, queria voltar atrás e ir falar com ela. Queria explicar-lhe, narrar-lhe a história toda, desde o início.

Porém, não ia fazer nada disso. Beth precisava de ficar só por um tempo, ou pelo menos longe dele. Tempo para recuperar e talvez, apenas talvez, compreender que o Thibault que ela aprendera a amar era o único Thibault que existia. Gostaria de imaginar que, só por si, o tempo seria suficiente para ela lhe perdoar.

Thibault caminhava pela lama; notava que os carros passavam lentamente por ele e que a água lhes chegava aos eixos. Mais adiante, viu que o rio alagara a estrada. Decidiu atalhar pelo bosque. Talvez fosse a última vez que fazia aquela caminhada. Provavelmente, era chegada a hora de regressar ao Colorado.

Continuou a avançar. A folhagem do Outono, ainda parcialmente nas árvores, proporcionava alguma cobertura da chuva, e, quanto mais se embrenhava no bosque, sentia que ia aumentando a distância que o separava dela.

 

                     BETH

Acabada de sair do chuveiro, Beth estava na casa de banho, metida numa T-shirt enorme, quando Nana enfiou a cabeça pela porta.

- Queres falar do assunto? - perguntou, a apontar a janela com o polegar. - Telefonaram da escola a dizer que vinhas a caminho de casa. O director pareceu-me bastante preocupado contigo e depois vi-te entrar no escritório. Calculei que tu e ele estivessem a brigar.

- Nana, foi mais do que uma briga - esclareceu Beth, com uma expressão de cansaço.

- Isso percebi dado o facto de ele ter saído. E porque depois ficaste muito tempo no alpendre.

Beth assentiu.

- Foi sobre o Ben? Ele não o magoou, pois não? Ou a ti?

- Não, nada disso.

- bom. Pois trata-se da única coisa que não poderia ser remediada.

- Também não tenho a certeza de que esta possa.

Nana olhou pela janela, antes de soltar um profundo suspiro. - Segundo parece, tenho de ser eu a alimentar os cães esta noite, não é verdade?

Beth encarou-a com ar aborrecido. - Obrigada por te mostrares tão compreensiva.

- Gatinhos e plátanos - disse Nana, fazendo um gesto com a mão.

A neta pensou um pouco, antes de expressar a sua frustração num murmúrio.

- O que queres dizer com isso?

- Não tem qualquer significado, mas, por um instante, consegui que ficasses tão exasperada que até te esqueceste de ter pena de ti mesma.

- Tu não compreendes...

- Põe-me à prova! - sugeriu Nana.

Beth ergueu a cabeça. - Ele andou a caçar-me, Nana. Durante cinco anos, para depois atravessar o país a pé para me procurar. Estava obcecado.

Contra o costume, a avó mostrou-se pouco faladora. - E se começasses pelo princípio - sugeriu ao sentar-se na cama de Beth.

A neta não tinha a certeza de querer falar do assunto, mas calculou que seria melhor resolver a questão de uma vez. Começou por narrar a visita de Keith à sala de aulas e durante os vinte minutos seguintes falou-lhe da partida à pressa da escola, da incerteza excruciante, e acabou por descrever a confrontação com Logan. Quando a neta acabou, Nana juntou as mãos no colo.

- Resumindo. Thibault admitiu que tinha a fotografia? E, segundo as tuas palavras, embrulhou-se a dizer que se tratava de um talismã, que viera até cá por julgar que tinha uma dívida para contigo ou coisa do género?

Beth assentiu. - Mais ou menos isso.

- E por que é que ele chegou à conclusão de que tinha um talismã?

- Não sei.

- Não lhe perguntaste?

- Não me interessou, Nana. Toda a história é... arrepiante e esquisita. Quem faria uma coisa destas?

Nana fez as sobrancelhas juntarem-se. - Posso admitir que parece estranho, mas acho que deverias ter procurado saber por que motivo ele via na fotografia um talismã.

- Por que é que isso interessa?

- Por que não estiveste lá - enfatizou. - Não passaste pelo que ele passou. Talvez ele estivesse a dizer a verdade.

Beth estremeceu. - A fotografia não é um talismã. É uma loucura.

- Pode ser - respondeu Nana. - Mas já ando por cá há muito tempo para saber que na guerra sucedem coisas estranhas. Os soldados acabam por aceitar todos os tipos de crenças; e se julgam que elas os mantêm vivos, onde é que está o mal?

Beth respirou fundo. - Uma coisa é acreditar. É inteiramente diferente de ficar obcecado com uma fotografia e perseguir a fotografada,

Nana pôs a mão no joelho de Beth. - Por vezes, qualquer pessoa pode agir como se fosse maluca.

- Mas não desta forma - insistiu Beth. - Há algo de medonho em tudo isto.

Nana ficou calada por momentos. Depois suspirou e encolheu os ombros. - É possível que tenhas razão.

Beth observou o rosto de Nana, subitamente vencida pela exaustão.

- Fazes-me um favor?

- Que favor?

- Telefona ao director e pede-lhe que traga o Ben a casa depois das aulas? Não quero que vás conduzir com um tempo destes, mas não me considero em condições de ir buscá-lo.

 

                         CLAYTON

Clayton tentou, e não conseguiu, ultrapassar o lago que se tinha formado em frente da casa de Beth, com as botas a desaparecerem enterradas na lama. Aproveitou a situação para proferir um rosário de palavrões. Conseguia ver as janelas abertas perto da porta principal e sabia que Nana o ouviria. Apesar da idade, a mulher tinha o ouvido de uma coruja, e a última coisa que ele queria era causar má impressão. A mulher já o detestava suficientemente.

Subiu a escada e bateu à porta. Pensou ouvir movimento dentro de casa, viu o rosto de Beth assomar à janela e finalmente viu que lhe abriam a porta.

- Keith? O que fazes aqui?

- Estava preocupado. Quis ter a certeza de que tudo estava bem.

- Está tudo bem.

- Ele ainda cá está? Queres que fale com ele?

- Não. Foi-se embora. Não sei onde se encontra.

Clayton mexeu os pés, tentando mostrar-se contrito. - Lamento o que se passou e detesto-me por ter de ser eu a dar-te a notícia. Sei que gostavas realmente dele.

Beth assentiu, de lábios cerrados.

- Também queria dizer-te que não te atribuas muitas culpas. Como te disse antes, as pessoas deste tipo... bem, aprenderam a disfarçar-se. São indivíduos mentalmente perturbados; não tinhas maneira de o reconhecer.

Beth cruzou os braços. - Não quero falar do assunto.

Clayton ergueu ambas as mãos, sabendo que a pressionara demasiado e sabendo que tinha de recuar. - Calculei que não. Tens razão. O meu lugar não é esse, especialmente pela forma nojenta como te tratei no passado - reconheceu. Enfiou o polegar no cinturão e forçou um sorriso. - Só quis ter a certeza de que estavas bem.

- Estou óptima. E obrigada.

Clayton rodou para ir-se embora, mas parou. - Quero que saibas que, pelo que Ben me contou, Thibault parecia ser bom tipo. Ela olhou-o, surpreendida.

- Só queria dizer isto, pois, se assim não fosse, se alguma coisa acontecesse ao Ben, Thibault ter-se-ia arrependido de ter nascido. Eu morreria antes de deixar que acontecesse qualquer percalço ao meu filho. E sei que sentes o mesmo. É por isso que és uma mãe fantástica. Nesta minha vida em que cometi uma tonelada de erros, uma das melhores decisões que tomei foi deixar que ele fosse educado por ti.

Beth assentiu, a tentar conter as lágrimas, e voltou-lhe as costas. Depois de ela limpar os olhos Clayton aproximou-se mais um passo e falou-lhe com voz suave:

- Então. Sei que não queres falar disto neste momento, mas, acredita, tomaste a decisão certa. E, com o tempo, acabarás por encontrar alguém; e tenho a certeza de que será o melhor dos homens. Como tu mereces.

Beth desatou a soluçar e ele estendeu-lhe os braços. Instintivamente, encostou-se a ele. - Está tudo bem - sussurrou Clayton. Ficaram muito tempo no alpendre, com ele a abraçá-la, de corpos unidos.

Clayton não se demorou. Não havia necessidade, pensou. Conseguira o que se propusera fazer. Agora Beth considerava-o um amigo, amável, cauteloso e caritativo, que se arrependera dos seus pecados. O abraço fora justamente a cereja em cima do bolo, nada que ele tivesse planeado, mas uma agradável conclusão daquele encontro.

Não tencionava pressioná-la. Seria um erro. Ela precisava de tempo para esquecer «Thibolt». Mesmo que ele fosse um maníaco, mesmo que o tipo saísse da cidade, não existem interruptores para ligar e desligar os sentimentos. Mas estes apagar-se-iam com o tempo, tão certo como a chuva ir continuar a cair. O próximo passo era ter a certeza de que «Thibolt» ia a caminho do Colorado.

E depois? Fazer o papel de bom rapaz. Talvez convidasse Beth quando ele e Ben estivessem a fazer qualquer coisa, pedir-lhe-ia que ficasse para um barbecue. Agir, de início, como se não houvesse qualquer intenção, não lhe provocar suspeitas, para depois sugerir qualquer coisa com Ben noutro dia da semana. O essencial era manter tudo longe dos olhares perscrutadores de Nana, o que significava não se aproximar dela. Embora soubesse que Beth estaria incapaz de pensar normalmente pelo menos durante umas semanas, o mesmo não aconteceria com Nana; a última coisa que desejaria era dar a Nana qualquer pretexto para convencer a neta daquilo que ele andaria a preparar.

Depois disso, quando voltassem a habituar-se novamente um ao outro, talvez pudessem tomar umas cervejas juntos, depois de Ben ter sido mandado para a cama e a situação pudesse ser vista como um impulso do momento. Talvez temperando a cerveja dela com um pouco de vodca, de maneira a que ela não pudesse conduzir até casa. Oferecer-lhe-ia a cama e diria que ia dormir no sofá. Conduzir-se como um perfeito cavalheiro, mas mantendo a cerveja a correr. Falar dos velhos tempos, dos bons tempos, e deixá-la chorar a perda de «Thibolt». Deixar que as emoções fluíssem e pôr-lhe um braço à volta dos ombros, apenas para a confortar.

Sorriu ao pôr o carro em andamento, perfeitamente convencido do que aconteceria em seguida.

Beth não dormiu bem e acordou exausta.

A tempestade aumentara de intensidade durante a noite, com ventos fortes e chuva em quantidades descomunais, tornando proporcionalmente pequeno o dilúvio do dia anterior. Um dia antes não imaginaria que os lençóis de água pudessem tornar-se mais profundos mas, ao olhar pela janela, o escritório parecia uma ilha isolada no meio do oceano. Na noite anterior arrumara o carro num terreno mais elevado, perto da magnólia; boa ideia, pensava agora. O carro também se encontrava numa pequena ilha, enquanto a água já quase atingia o fundo da caixa de carga da carrinha de Nana. A carrinha sempre se portara bem durante as cheias, mas era bom que os travões tivessem sido reparados. De outra forma, teriam ficado fora de serviço.

Na noite anterior fora até à cidade para comprar leite e outros produtos essenciais, mas a viagem revelara-se inútil. Encontrou tudo fechado e os únicos veículos com que cruzou na estrada eram carrinhas utilitárias e SUV, conduzidos por pessoal do departamento do xerife. Metade da cidade estava sem electricidade, mas, até ao momento, a casa dela não fora afectada. Havia apenas uma boa novidade: as reportagens da TV e da rádio previam que os últimos temporais iriam dispersar-se naquele dia; esperava-se que o nível das águas começasse a descer no dia seguinte.

Sentou-se no alpendre, enquanto Nana e Ben ficavam dentro de casa a jogar gin rummy na mesa da cozinha. Era o único jogo em que se equivaliam e assim evitavam que Ben se aborrecesse. Mais tarde, pensava deixá-lo brincar nas poças formadas em frente da casa, enquanto ela ia verificar como estavam os cães. Era provável que desistisse de qualquer tentativa de manter o filho seco e podia deixá-lo usar apenas o fato de banho; quando, logo pela manhã, fora distribuir comida aos cães, a gabardina revelara-se inútil.

Ao ouvir o som constante da chuva a cair no telhado, deu consigo a pensar em Drake. Desejou, pela milésima vez, poder falar com ele e pôs-se a pensar o que é que ele poderia dizer acerca da fotografia. Também ele teria acreditado no seu poder como talismã? Drake nunca fora especialmente supersticioso, mas Beth sentia um baque no peito sempre que recordava o pânico inexplicável do irmão quanto à perda da fotografia.

Nana tinha razão. Não sabia aquilo por que Drake passara lá longe, da mesma forma que não sabia o que Logan sofrera. Por mais informada que procurasse estar, nada daquilo lhe parecia real. Tentava imaginar o stress que sentiriam, a milhares de quilómetros de casa, carregando coletes à prova de bala, a viver entre pessoas que falavam uma língua estranha, tentando manter-se vivos. Era impossível acreditar que algum deles se deixasse prender por qualquer coisa que cria poder mantê-lo são e salvo?