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UM LUGAR CHAMADO LIBERDADE / Ken Follett
UM LUGAR CHAMADO LIBERDADE / Ken Follett

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM LUGAR CHAMADO LIBERDADE

 

ESCÓCIA

A neve cobria os picos de High Glen e as encostas arborizadas em fragmentos perolados, como um adereço no busto de um vestido de seda verde. No fundo do vale um regato impetuoso se desviava das pedras geladas. O vento cortante vindo do Mar do Norte uivava trazendo lufadas de granizo misturado com chuva e neve.

De manhã, no caminho para a igreja, os gémeos Mcash, Malachi e Esther, seguiam uma trilha em ziguezague ao longo da encosta leste do pequeno vale isolado. Malachi, conhecido como Mack, usava uma capa xadrez e calças de tweed amarradas à altura dos joelhos, mas abaixo deles as pernas estavam nuas e seus pés sem meias, gelados, metidos nos tamancos de madeira. Ele, no entanto, era jovem e esquentado, e quase não notava que estava frio.

Aquele não era o caminho mais curto para a igreja, mas High Glen sempre o empolgava. As encostas altas, os bosques silenciosos e cheios de mistérios e a água rumorejante formavam uma paisagem intimamente vinculada à sua alma. Já vira o casal de águias criar três ninhadas ali. E como as águias, roubara o salmão do proprietário das terras nas águas prolíficas do regato. E da mesma forma que o cervo, escondera-se entre as árvores, silencioso e imóvel quando os guarda-caças se aproximaram.

O proprietário das terras era uma mulher, Lady Hallim, uma viúva que tinha uma filha. A terra do outro lado da montanha pertencia a Sir George Jamisson e era um mundo diferente. Os engenheiros haviam escavado grandes buracos nas encostas; montes artificiais de escória desfiguravam o vale; carroças enormes carregadas de carvão pareciam arar a estrada lamacenta, e as águas do regato ficavam pretas com a poeira.

Onde os gémeos moravam, uma aldeia chamada Heugh, havia uma longa fileira de casas baixas de pedra que se empilhavam morro acima como degraus de uma escada.

Eles eram as versões masculina e feminina da mesma imagem. Ambos tinham cabelos louros escurecidos pela poeira do carvão e admiráveis olhos verde-claros. Ambos eram baixos e de costas largas, com braços e pernas dotados de fortes músculos.

Os dois eram igualmente opiniáticos e gostavam de discutir.

As discussões eram uma tradição de família. O pai deles fora um inconformista consumado, sempre ansioso para discordar do governo, da igreja ou de qualquer outra autoridade. A mãe trabalhara para Lady Hallim antes do casamento e, como muitos servos, identificava-se com a classe superior. Em um inverno mais rigoroso, quando a mina foi fechada um mês após uma explosão, o pai morrera de crupe, a tosse que matava tantos mineiros de carvão; a mãe pegara uma pneumonia e o seguira em questão de semanas.

Mas as discussões continuaram, principalmente nas noites de sábado, no salão da Sra. Wheighel a coisa mais parecida com uma taverna na aldeia de Heugh.

Os que trabalhavam na propriedade e os rendeiros adotavam o ponto de vista da mãe. Diziam que o rei era designado por Deus e que era por isso que as pessoas tinham que obedecer a ele.

Os mineiros tinham ouvido falar de novas idéias. John Locke e outros filósofos diziam que a autoridade do governo só podia advir do consentimento do povo. Esta teoria agradava a Mack.

Poucos mineiros em Heugh eram capazes de ler, mas a mãe de Mack sabia e ele a atormentara para que o ensinasse. Ela ensinara os dois filhos, ignorando as birras do marido, que dizia que as idéias da mulher eram acima do seu estrato social No salão da Sra. Wheighel Mack era convocado para ler em voz alta trechos do Times, do Edinburgh Advertiser e publicações políticas como a radical North Briton. Os jornais eram sempre atrasados semanas, às vezes alguns meses, mas os homens e mulheres da aldeia ouviam avidamente os longos discursos reproduzidos palavra por palavra, as diatribes satíricas e as narrativas das greves, protestos e distúrbios da ordem.

Foi depois de uma discussão de sábado à noite no salão da Sra. Wheighel que Mack escrevera a carta.

Nenhum dos mineiros jamais escrevera uma carta antes, e houve longas consultas a respeito de cada palavra. A correspondência era destinada a Caspar Gordonson, um advogado de Londres que escrevia artigos nos jornais ridicularizando o governo. A carta fora confiada a Davey Patch, o mendigo caolho, para ser colocada no correio; e Mack se perguntara se ela um dia chegaria ao seu destino.

A resposta tinha chegado na véspera e foi a coisa mais excitante que jamais acontecera a Mack. Mudaria sua vida a ponto de deixá-la irreconhecível é o que ele pensava. Podia ser que o libertasse.

Tanto quanto podia se lembrar, ansiava por ser livre.

Quando criança invejara Davey Patch, que vagava de aldeia em aldeia vendendo canivetes, barbantes e baladas. O que havia de tão maravilhoso na vida de Davey, para Mack ainda menino, era que podia se levantar ao nascer do sol e ir dormir quando se sentisse cansado. Mack, desde os sete anos de idade, era acordado pela mãe às sacudidelas poucos minutos antes das duas horas da manhã e trabalhava no fundo da mina por quinze horas, terminando às cinco da tarde. Aí então voltava cambaleando para casa, muitas vezes para cair dormindo em cima do mingau. Mack não queria mais ser mendigo, mas continuava ansiando por uma vida diferente.

Sonhava em construir uma casa para si em um vale como High Glen, em um pedaço de terra que pudesse chamar de seu; em trabalhar do raiar do dia ao pôr-do-sol descansando todas as horas da noite; com a liberdade de ir pescar num dia de sol em um lugar onde os salmões pertencessem não ao senhor da terra mas sim a quem quer que os pescasse. E a carta que tinha em mãos dizia que seus sonhos podiam se tornar verdade.

- Não sei se você deveria ler isto em voz alta na igreja - disse Esther, enquanto atravessavam a encosta gelada.

Mack também não estava seguro, mas retrucou:

- E por que não?

- Haverá encrenca. Ratchett ficará furioso. - Harry Ratchett era o supervisor, o homem que tomava conta da mina em nome do dono. - Ele pode inclusive falar com Sir George, e aí o que vão fazer com você?

Ele sabia que a irmã estava com a razão e seu coração estava cheio de medo e alarme. Mas isto não o impediu de discutir com ela.

- Se eu guardar a carta - disse - será inútil.

- Bem, você poderia mostrá-la a Ratchett em particular. Ele talvez o deixasse ir embora tranquilamente, sem confusão.

Mack deu uma espiada na irmã gémea com o canto do olho.

Podia afirmar que ela não estava sendo dogmática. Parecia muito mais preocupada do que combativa. Sentiu uma onda de afeição por ela. Fosse o que fosse que acontecesse, estaria do seu lado.

Mesmo assim, ele sacudiu a cabeça teimosamente.

- Não sou o único afetado por esta carta. Há pelo menos cinco rapazes que iriam gostar de dar o fora daqui, se soubessem que podiam. E o que me diz das gerações futuras?

Ela lhe dirigiu um olhar astuto.

- Você pode estar certo, mas não é este o motivo verdadeiro, o que você quer é se levantar na igreja e provar que o dono da mina está errado.

- Não, não é nada disso! - protestou Mack. Depois ele pensou por um momento e sorriu. - Bem, pode ser que haja alguma verdade no que diz. Ouvimos tantos sermões sobre obedecer a lei e respeitar nossos superiores. Agora descobrimos que eles vêm mentindo o tempo todo, sobre uma lei que nos afeta a todos e muito. Claro que quero me levantar lá e gritar isto com toda a força.

- Não lhes dê razão para que o punam - disse ela, preocupada.

Ele tentou tranquilizá-la.

- Serei tão polido e humilde quanto puder - disse. - Você dificilmente me reconhecerá.

- Humilde! - exclamou Esther ceticamente. - Gostaria de ver isso.

- Só vou dizer o que está na lei. Como pode isto ser errado?

- Não é cauteloso.

- Ah, bem, isto lá é verdade - concedeu ele. - Mas vou fazer assim mesmo.

Os dois irmãos atravessaram a linha de crista e desceram do outro lado, de volta à mina Glen. À medida que iam descendo, o ar ia se tornando menos frio. Poucos momentos depois, a igrejinha de pedra apareceu, ao lado de uma ponte sobre o rio imundo.

Perto do adro da igreja havia umas poucas choças de rendeiros. Eram cabanas redondas com um fogo no meio do chão batido e um buraco no telhado para permitir a saída da fumaça. O aposento único era compartilhado pelo gado e pelas pessoas durante todo o inverno. As casas dos mineiros, bem mais acima do vale, perto das minas, eram melhores: embora também tivessem chão batido e telhados de palha, cada uma tinha uma lareira e uma chaminé, assim como vidro na janelinha perto da porta; e os mineiros não eram obrigados a dividir seu espaço com as vacas. Assim mesmo, os rendeiros se consideravam livres e independentes e olhavam para os mineiros com ar de superioridade.

No entanto, não foram as cabanas dos camponeses que atraíram agora a atenção de Esther e Mack, fazendo com que parassem. Uma carruagem fechada puxada por uma bela parelha de tordilhos estava diante da porta da igreja. Diversas senhoras de saias-balão e agasalhos de pele estavam saltando, ajudadas pelo pastor, segurando seus elegantes chapéus rendados.

Esther tocou no braço de Mack e apontou a ponte. Montado num enorme alazão de caça, a cabeça inclinada por causa do vento frio, estava o proprietário da mina, Sir George Jamisson.

Jamisson não era visto ali fazia cinco anos. Ele morava em Londres, que ficava a uma semana de barco e duas semanas de diligência. As pessoas diziam que ele havia sido um comerciante avarento em Edimburgo, que vendia velas e gim numa loja de esquina, e nem um pouco mais honesto do que tinha de ser.

Tempos depois, um parente morrera jovem e sem filhos e George herdara o castelo e as minas. Com base nisto, construíra um império que se estendia a lugares inacreditavelmente longínquos, como Barbados e Virgínia. E agora era impecavelmente respeitável: um baronete, um magistrado, o edil de Wapping, responsável pela lei e pela ordem na zona portuária de Londres.

Obviamente estava visitando sua propriedade escocesa, acompanhado da família e convidados.

- Bem, é isso aí - disse Esther, aliviada.

- Como assim? - perguntou Mack, embora fosse capaz de adivinhar.

- Você não vai poder ler a carta agora.

- Por que não?

- Malachi Mcash, não seja idiota! - exclamou ela. - Não na frente do próprio dono!

- Pelo contrário - disse ele, obstinadamente. - Isto torna tudo melhor ainda.

 

Lizzie Hallim recusara-se a ir à igreja na carruagem. Era uma idéia boba. A estrada que vinha do castelo Jamisson era um caminho cheio de buracos e costelas, e os seus sulcos lamacentos congelados eram duros como pedra. O deslocamento seria horrivelmente acidentado, a carruagem teria que ir a passo de marcha, com os passageiros chegando gelados, machucados e provavelmente atrasados. Ela insistiu em ir a cavalo para a igreja.

Um tal comportamento tão pouco característico de uma dama fez com que sua mãe se desesperasse.

- Como é que você vai conseguir arranjar um marido, se sempre age como um homem?

- Posso conseguir um marido na hora em que quiser - replicara Lizzie. Era verdade; os homens se apaixonavam por ela a todo instante. - O problema é encontrar um que eu seja capaz de suportar mais de meia hora.

- O problema é encontrar um que não se assuste depressa - resmungou sua mãe.

Lizzie riu. As duas estavam certas. Os homens se apaixonavam por ela à primeira vista, depois descobriam como ela era e recuavam correndo. Seus comentários escandalizavam a sociedade de Edimburgo há anos. No primeiro baile a que foi, conversando com um trio de velhas viúvas, comentara que o Alto Xerife, a principal autoridade da Coroa no condado, tinha um traseiro gordo e sua reputação nunca mais se recuperara. No ano passado a mãe a levara a Londres na primavera e a "lançara" na sociedade inglesa.

Tinha sido um desastre. Lizzie falara alto demais, rira em excesso e zombara abertamente dos modos requintados e das roupas justas dos janotas que tentavam cortejá-la.

- É porque você foi criada sem um homem dentro de casa - acrescentara sua mãe. - Ficou independente demais. - E depois entrou na carruagem.

Lizzie caminhou ao longo da fachada de pedra do castelo Jamisson, dirigindo-se para os estábulos no lado leste. O pai dela morrera quando tinha três anos, de modo que praticamente não se lembrava dele. Quando perguntara o que o matara, sua mãe respondera vagamente: "Fígado." Ele as deixara sem um centavo.

E por anos a fio a mãe vivera de migalhas, hipotecando cada vez mais a propriedade da família Hallim, esperando que Lizzie crescesse e desposasse um homem rico que resolvesse todos os seus problemas. Lizzie estava agora com vinte anos de idade e já era hora de cumprir seu destino.

Era este, indubitavelmente, o motivo pelo qual a família Jámisson estava visitando a propriedade escocesa novamente após tantos anos, e tinha como principais convidados da casa as suas vizinhas, Lizzie e a mãe, que moravam a uns quinze quilómetros de distância. O pretexto da festa era o vigésimo primeiro aniversário do filho mais moço, Jay; mas o motivo verdadeiro era que eles queriam que Lizzie se casasse com o irmão mais velho, Robert.

A mãe era a favor, já que Robert era herdeiro de uma grande fortuna. Sir George era a favor, porque queria acrescentar a propriedade dos Hallim às terras da família Jamisson. Robert também parecia a favor, a julgar pelo modo como cercava Lizzie de atenções desde que chegaram, embora fosse difícil saber o que havia no coração dele.

Ela o viu de pé no pátio do estábulo, esperando que os cavalos fossem selados. Lembrava o retrato da mãe dele que estava na parede do salão do castelo - uma mulher séria, feia, de cabelo fino e olhos claros e com uma expressão determinada na boca. Não havia nada de errado nele; não era especialmente feio, magro ou gordo e tampouco cheirava mal bebia demais ou se vestia efeminadamente. Era um excelente partido, disse Lizzie a si própria, e se a pedisse em casamento provavelmente aceitaria.

Não estava apaixonada por ele, mas conhecia o seu dever.

Decidiu brincar um pouco com ele.

- É realmente muita falta de consideração de sua parte morar em Londres - disse.

- Falta de consideração? - Ele franziu a testa. - Por quê?

- Você nos deixa sem vizinhos. - Ele ainda parecia intrigado. Não devia ter muito senso de humor. Ela explicou: - Com você longe, não há uma viva alma entre nós e Edimburgo.

Uma voz atrás dela disse:

- A não ser por uma centena de famílias de mineiros e de diversas aldeias de colonos.

- Você sabe o que quero dizer - disse ela, virando-se. Não sabia quem era o homem que lhe falara. Com o seu jeito habitual muito directo, perguntou: - Afinal quem é você?

- Jay Jamisson - respondeu ele, com uma reverência. - O irmão mais esperto de Robert. Como pôde se esquecer?

- Oh! - Ela ouvira dizer que ele tinha chegado tarde da noite, na véspera, mas não o reconhecera. Cinco anos atrás ele era muitos centímetros mais baixo, tinha espinhas na testa e uns poucos pêlos dourados no queixo. Agora estava mais bonito. Mas não era esperto naquele tempo e ela apostava como não mudara a este respeito. - Eu me lembro de você. Eu reconheço a presunção.

Ele sorriu.

- Se ao menos eu tivesse tido o seu exemplo de humildade e modéstia para copiar, Srta. Hallim.

Robert disse:

- Olá, Jay. Seja bem-vindo ao castelo Jamisson.

Jay pareceu se irritar.

- Deixe de lado o ar de proprietário, Robert, pois ainda não herdou nada.

Lizzie interveio, dizendo:

- Parabéns pelo vigésimo primeiro aniversário.

- Muito obrigado.

- É hoje?

- É.

Robert perguntou ao irmão, impaciente:

- Você vai a cavalo connosco para a igreja?

Lizzie viu um lampejo de ódio nos olhos de Jay, mas a voz dele mostrou-se neutra.

- Vou. Mandei que selassem um cavalo para mim.

- É melhor irmos andando. - Robert virou-se para o estábulo e levantou a voz. - Andem depressa com isso aí!

- Já está pronto, senhor - respondeu um cavalariço de dentro da cocheira, e um momento depois três cavalos eram trazidos: um vigoroso pónei preto, uma égua baia e um castrado cinzento.

Jay disse:

- Suponho que estes animais tenham sido alugados em algum comerciante de cavalos de Edimburgo. - Seu tom era crítico, mas ele se aproximou do castrado e deu um tapa no seu pescoço, deixando que ele cheirasse seu casaco azul de montaria.

Lizzie viu que ele se sentia à vontade com cavalos e que gostava deles.

Ela montou o pónei preto, que estava com uma sela feminina, e saiu trotando. Os irmãos a seguiram, Jay no castrado e Robert na égua. O vento soprou a mistura de neve e chuva nos olhos de Lizzie. A camada de neve no chão tornava a estrada perigosa, pois escondia buracos às vezes com mais de trinta centímetros de profundidade, o que podia fazer com que os cavalos tropeçassem.

- Vamos pelo meio da floresta. É mais abrigado, e o chão não é tão irregular - disse Lizzie, e sem esperar pela concordância dos dois irmãos, conduziu o cavalo para fora da estrada e entrou na velha floresta.

Por baixo dos altos pinheiros, o chão não tinha vegetação.

Os córregos e os trechos pantanosos estavam congelados e o solo coberto de pseira branca. Lizzie fez com que o pónei abrisse um meio galope. Após um momento o cavalo cinzento passou por ela.

Quando levantou os olhos, viu um sorriso desafiador no rosto de Jay: ele queria correr. Lizzie deu um grito e um chute no pónei para estimular o animal que se lançou para a frente energicamente.

Eles dispararam por entre as árvores, mergulhando sob os galhos mais baixos, saltando por cima dos troncos caídos e espadanando imprudentemente os regatos que atravessavam. O cavalo de Jay era maior e teria sido mais veloz num galope, mas as pernas curtas e o menor porte do pónei eram mais bem adaptados àquele terreno, e gradualmente Lizzie foi ganhando a dianteira.

Quando não pôde mais ouvir o cavalo de Jay, Lizzie diminuiu a marcha e fez com que seu cavalo parasse em uma clareira.

Jay logo apareceu, mas não havia sinal de Robert. Lizzie supôs que ele era sensato demais para arriscar o pescoço em uma corrida inútil Ela e Jay saíram andando a passo, lado a lado, recuperando o fôlego. O calor que se desprendia dos cavalos mantinha os cavaleiros quentes.

- Eu gostaria de apostar uma corrida com você numa reta - arquejou Jay.

- Montada com uma perna de cada lado eu ganho de você - disse ela.

Ele pareceu um tanto chocado. Todas as mulheres bemnascidas cavalgavam em selas laterais. Para uma mulher, montar escarranchada em cima do cavalo era considerado vulgar. Lizzie considerava isso uma bobagem, e quando estava sozinha montava como um homem.

Ela estudou Jay com o canto do olho. A mãe dele, Alicia, a segunda esposa de Sir George, era uma loura coquete de quem Jay herdara os olhos azuis e o sorriso cativante.

- O que é que você faz em Londres? - perguntou-lhe Lizzie.

- Estou no Terceiro Regimento de Infantaria de Guarda. Uma nota de orgulho surgiu na sua voz, e ele acrescentou: Acabo de ser promovido a capitão.

- Muito bem, capitão Jamisson, o que é que vocês, bravos soldados, têm a fazer? - perguntou ela, zombeteiramente. - Há guerra em Londres no momento? Há inimigos para você matar?

- Há muito o que fazer para manter o populacho sob controle.

Lizzie de repente se lembrou de Jay como um garoto malvado e agressivo e imaginou se ele não gostaria do trabalho.

- E como é que você controla? - perguntou.

- Por exemplo, escoltando criminosos até a forca e não deixando que sejam salvos pelos seus amigos antes do carrasco fazer seu trabalho.

- Então você passa seu tempo matando ingleses, como um verdadeiro herói escocês.

Ele não parecia se incomodar em ser importunado.

- Um dia eu gostaria de renunciar ao meu posto e ir para o exterior - disse.

- Oh, por quê?

- Ninguém dá a mínima a um filho mais moço neste país explicou ele. - Até mesmo os criados param para pensar quando você lhes dá uma ordem.

- E você acredita que será diferente em alguma outra parte?

- Tudo é diferente nas colónias. Li livros a respeito. As pessoas são mais livres e tranquilas. Você é considerado pelo que é.

- E o que você faria?

- Minha família tem uma plantação de cana-de-açúcar em Barbados. Tenho esperanças de que meu pai a dê para mim, pelo meu vigésimo primeiro aniversário, como meu legado, por assim dizer.

Lizzie sentiu-se profundamente invejosa.

- Você é que é feliz - disse. - Não há nada de que eu gostaria mais do que ir para um país novo. Como deve ser emocionante.

- É uma vida dura a que se leva lá - disse ele. - Você poderia sentir falta do conforto daqui... lojas, óperas, a moda francesa, essas coisas.

- Nada disso me interessa - disse ela, desdenhosamente. Odeio estas roupas. - Ela estava usando uma saia-balão e um corpete bem justo na cintura. - Gostaria de me vestir como um homem, de culotes, camisa e botas de montar.

Ele riu.

- Isso poderia ser ir um pouco longe demais, inclusive em Barbados.

Lizzie estava pensando: Ora, se Robert me levasse para Barbados, eu me casaria com ele na mesma hora.

- E lá você tem escravos para fazer todo o trabalho acrescentou Jay.

Eles saíram da floresta perto da ponte, poucos metros a montante. Do outro lado do curso d'água, os mineiros estavam enchendo a igrejinha.

Lizzie ainda estava pensando em Barbados.

- Deve ser muito estranho ter escravos, e ser capaz de fazer com eles tudo o que você quiser, como se fossem animais - disse. - Não o faz sentir-se estranho?

- Nem um pouco - foi a resposta de Jay, com um sorriso.

 

A igrejinha estava cheia. A família Jamisson e seus convidados tomavam grande parte do espaço, as mulheres com suas saias largas e os homens com as espadas e os chapéus de três bicos.

Os mineiros e os colonos que formavam a costumeira congregação dos domingos deixaram um espaço em torno dos recém-chegados, como se receassem encostar nas roupas finas e manchá-las com pó de carvão e bosta de vaca.

Mack falara desafiadoramente com Esther, mas estava muito apreensivo. Os proprietários do carvão tinham o direito de açoitar os mineiros, e acima de tudo Sir George Jamisson era um magistrado, o que significava que ele podia mandar alguém ser enforcado e não haveria ninguém para contradizê-lo. Seria, sem dúvida, uma imprudência de Mack arriscar-se a incorrer na ira de homem tão poderoso.

Mas o certo era o certo. Mack e os outros mineiros estavam sendo tratados injustamente, ilegalmente, e toda vez que pensava nisso, ele se sentia tão revoltado que tinha vontade de gritar sua raiva de cima dos telhados. Não podia espalhar as notícias subrepticiamente, como se pudesse não ser verdade. Tinha que ser ousado ou recuar.

Por um momento considerou a hipótese de recuar. Por que criar caso? Aí então o hino começou, e os mineiros cantaram em harmonia, enchendo a igreja com suas vozes emocionantes. nas suas costas Mack ouviu a sublime voz de tenor de Jimmy Lee, o melhor cantor da aldeia. O canto o fez pensar em High Glen e no sonho de liberdade e ele revestiu-se de coragem e resolveu seguir em frente com o seu plano.

O pastor, o reverendo John York, era um homem de uns quarenta anos de idade, jeito suave e cabelos ralos. Falou hesitantemente, nervoso com o esplendor dos visitantes. O sermão dele foi sobre a Verdade. Como reagiria à leitura da carta por Mack?

Seu instinto o levaria a alinhar-se com o dono da mina.

Provavelmente ia jantar no castelo após o serviço religioso. Mas ele era um clérigo; seria obrigado a se pronunciar a favor da justiça, independente do que Sir George pudesse dizer, não seria?

As paredes de pedra da igreja eram nuas. Não havia lareira, claro, e o bafo da respiração de Mack condensava no ar frio.

Ele estudou o pessoal do castelo. Reconhecia a maior parte da família Jamisson. Quando era menino eles tinham passado grande parte do seu tempo ali. Sir George era inconfundível com seu rosto vermelho e barriga estufada. A mulher dele estava ao seu lado, metida em um vestido rosa cheio de babados que ficaria bonito em uma mulher mais jovem. Lá estava Robert, o filho mais velho, de olhar duro e destituído de senso de humor, com vinte e seis anos de idade e começando a desenvolver o aspecto rotundo do pai. ao lado dele, um bonito homem louro com mais ou menos a mesma idade de Mack: só podia ser Jay, o filho mais jovem. No verão em que Mack estava com seis anos de idade, brincara com Jay todos os dias no bosque em torno do castelo Jamisson, e ambos haviam pensado que seriam amigos pelo resto da vida. Mas naquele inverno Mack começara a trabalhar na mina e aí não houve mais tempo para brincar.

Reconhecia também alguns dos convidados dos Jamisson.

Lady Hallim e a filha Lizzie eram bem conhecidas. Lizzie Hallim há muito tempo que era uma fonte de sensação e escândalo no vale.

As pessoas diziam que andava vestida com roupas de homem e uma arma no ombro. Dava as botas para uma criança descalça e depois arrasava com a mãe da criança por não ter esfregado direito a soleira da sua porta. Mack não punha os olhos nela há anos.

A propriedade dos Hallim tinha uma igreja própria, de modo que elas não iam ali todos os domingos. Mas visitavam quando os Jamisson estavam presentes e Mack se lembrava de ter visto Lizzie na última vez, quando ela teria uns quinze anos; vestida como uma fina dama, mas jogando pedras nos esquilos como qualquer menino.

A mãe de Mack tinha sido criada das senhoras em High Glen House, a mansão Hallim, e depois de se casar às vezes voltava lá para rever velhas amizades e exibir os filhos gémeos. Mack e Esther muitas vezes brincavam com Lizzie durante essas visitas provavelmente sem o conhecimento de Lady Hallim. Lizzie era um pouco atrevida: mandona, egoísta e mimada. Mack a beijara uma vez e ela puxara seu cabelo e o fizera chorar. A impressão que dava era de que não tinha mudado muito. Tinha um rostinho travesso, cabelos castanho-escuros cacheados e olhos muito escuros que sugeriam travessuras. Sua boca era um arco cor-de-rosa.

Olhando-a fixamente, Mack pensou: Eu gostaria de beijá-la agora. Na mesma hora em que esta idéia cruzou a mente dele, ela o encarou.

Ele desviou o rosto, envergonhado, como se Lizzie pudesse ter lido seus pensamentos.

O sermão chegou ao fim. Além do costumeiro serviço presbiteriano, hoje haveria um batizado: Jen, a prima de Mack, tivera o quarto filho. Seu mais velho, Wullie, já trabalhava na mina.

Mack decidira que o momento mais apropriado para fazer sua declaração seria durante o baptismo. Mas, quando o instante foi se aproximando, sentiu um tremendo frio na barriga. E foi aí que disse a si próprio para não ser tolo: arriscava a vida todos os dias lá embaixo na mina - por que deveria ficar nervoso em desafiar um comerciante gordo?

Jen estava de pé junto da pia, parecendo muito fraca.

Tinha apenas trinta anos, mas já dera à luz quatro filhos e fazia vinte e três anos que trabalhava lá embaixo na mina e estava exausta. O Sr. York aspergiu água na cabeça do bebê. Aí o marido dela, Saul repetiu a fórmula que transformava em escravos todos os filhos dos mineiros escoceses. "Dedico esta criança a trabalhar nas minas de Sir George Jamisson, menino e homem, pelo tempo em que for capaz, ou até que morra." Era este o momento sobre o qual Mack decidira.

Ele levantou-se.

Neste ponto, o supervisor, Harry Ratchett, normalmente se aproximaria da pia baptismal e entregaria a Saul o "arles", o tradicional pagamento pelo compromisso: uma bolsa de dez libras.

No entanto, para surpresa de Mack, Sir George levantou-se para cumprir o ritual pessoalmente.

ao se levantar, seu olhar cruzou com o de Mack.

Por um momento, os dois homens se encararam.

Depois, Sir George começou a andar na direcção da pia.

Mack passou ao corredor central da igrejinha e disse, em voz alta:

- O pagamento do arles não tem sentido.

Sir George parou no meio de um passo e todas as cabeças se viraram para Mack. Houve um momento de silêncio estarrecedor.

Mack podia ouvir as batidas do próprio coração.

- Essa cerimónia não tem força de lei - declarou Mack. O menino não pode ser prometido à mina. Uma criança não pode ser escravizada.

Sir George disse:

- Sente-se, seu jovem tolo, e cale a sua boca.

O tom condescendente da recriminação de Sir George enfureceu Mack tanto que todas as suas dúvidas se desvaneceram.

- Sente-se você - disse ele, imprudentemente, e a congregação ficou ofegante com a sua insolência. Ele apontou um dedo para o Sr. York. - O senhor falou sobre verdade no sermão, pastor. Defenderá a verdade agora?

O clérigo olhou Mack com um ar preocupado.

- O que significa tudo isto, McAsh?

- Escravidão!

- Ora, você conhece a lei da Escócia - disse York, em tom razoável - Os mineiros de carvão são propriedade do dono da mina. Assim que o homem tiver trabalhado um ano e um dia, perde a liberdade.

- Sim, senhor - disse Mack. - É perverso, mas é a lei. O que estou dizendo é que a lei não escraviza as crianças, e posso provar.

Saul protestou.

- Nós precisamos do dinheiro, Mack!

- Pegue o dinheiro - disse Mack. - Seu menino trabalhará para Sir George até completar os vinte e um anos, e isto vale dez libras. Mas - ele levantou a voz - quando atingir a maioridade, será livre!

- Eu o aconselho a calar a boca - disse Sir George, ameaçadoramente. - Isto é uma conversa perigosa.

- Que no entanto é verdadeira - insistiu Mack, teimosamente. Sir George ficou roxo: não estava acostumado a ser desafiado tão persistentemente.

- Acertarei com você quando o serviço estiver terminado - prometeu, furioso. Entregou a bolsa a Saul depois virou-se para o pastor e disse: - Continue, por favor, Sr. York.

Mack ficou bestificado. Certamente que eles não iam simplesmente continuar como se nada tivesse acontecido?

- Vamos cantar o hino final - disse o pastor.

Sir George retornou ao seu lugar. Mack permaneceu de pé, incapaz de acreditar que tudo tivesse acabado.

O segundo salmo: "Por que os céus se enfurecem e o povo imagina que é uma coisa ?" - continuou o pastor.

Uma voz atrás de Mack disse:

- Não, não. Ainda não.

Ele se virou. Era Jimmy Lee, o jovem mineiro que tinha uma voz magnífica. Ele já tinha fugido uma vez, e como punição usava uma argola de ferro no pescoço onde haviam sido gravadas as palavras Este homem é propriedade de Sir George Jamisson de Fife. Graças a Deus por Jimmy, pensou Mack.

- Não pode parar agora - disse Jimmy. - Vou fazer vinte e um na semana que vem. Se vou ser livre, quero saber a respeito.

Ma Lee, a mãe de Jimmy, disse:

- E nós todos também. - Ela era uma velha durona sem dentes, muito respeitada na aldeia, e sua opinião era influente. Diversos outros homens e mulheres expressaram sua concordância.

- Você não vai ser livre - pronunciou-se asperamente Sir George, pondo-se de pé de novo.

Esther puxou a manga de Mack.

- A carta! - cochichou, nervosa. - Mostre a eles a carta!

Mack tinha esquecido a carta, na sua excitação.

- A lei diz outra coisa, Sir George - exclamou ele, brandindo a carta.

York perguntou:

- O que é esse papel McAsh?

- É uma carta de um advogado de Londres que eu consultei.

Sir George ficou tão ultrajado que parecia prestes a explodir.

Mack ficou contente por estarem separados duas fileiras de bancos, caso contrário o proprietário das terras poderia pegá-lo pela garganta.

- Você consultou um advogado? - Ele cuspiu as palavras explosivamente. Aquilo parecia tê-lo ofendido mais do que qualquer outra coisa.

York perguntou:

- O que diz a carta?

- Eu vou ler - afirmou Mack. - "A cerimónia de arles não tem fundamento na lei inglesa ou escocesa." - Houve um burburinho de comentários surpresos na congregação; aquilo contradizia tudo o que eles tinham sido ensinados a acreditar. - "Os pais não podem vender o que não possuem, isto é, a liberdade de um adulto. Podem compelir o filho a trabalhar na mina até que atinja os vinte e um anos, mas..." - neste ponto Mack fez uma pausa dramática e leu a frase seguinte muito lentamente "...mas aí ele será livre para ir embora!" Na mesma hora todo mundo quis dizer alguma coisa. Seguiu-se um verdadeiro tumulto, quando uma centena de pessoas tentou falar, gritar, iniciar uma pergunta ou externar uma exclamação.

Provavelmente metade dos homens ali presentes havia sido prometida quando criança e, em consequência, sempre tinham se considerado escravos. Agora estavam lhes dizendo que tinham sido enganados e queriam conhecer a verdade. Mack levantou a mão para que se calassem, e quase que imediatamente eles ficaram em silêncio. Por um instante, Mack maravilhou-se com o seu poder.

- Deixem que eu leia mais uma linha - disse. - Uma vez que o homem é adulto, aplica-se a ele a lei que se aplica a todo mundo na Escócia: quando trabalhar um ano e um dia como adulto, perde sua liberdade.

Houve resmungos de raiva e desapontamento. Aquilo não era nenhuma revolução, perceberam os homens; a maioria não era mais livre do que sempre fora. Mas seus filhos podiam escapar.

York disse:

- Deixe eu ver esta carta, McAsh.

Mack foi até a frente e a entregou a ele.

Sir George, ainda vermelho de raiva, perguntou:

- Quem é esse pretenso advogado?

- O nome dele é Caspar Gordonson. - respondeu Mack.

- Oh, sim, já ouvi falar dele. - disse York.

- Eu também - disse Sir George com escarninho. - Um rematado radical! É um associado de John Wilkes. - Todos conheciam o nome de Wilkes: era o celebrado líder radical que estava exilado em Paris mas ameaçava constantemente retornar e solapar o governo. Sir George continuou: - Gordonson será enforcado por causa disto, se depender de mim. Esta carta é traição.

O pastor ficou chocado com aquela conversa de enforcamento.

- Eu dificilmente pensaria que traição tem algo a ver com isto...

- É melhor que você se limite ao reino dos céus - interrompeu Sir George asperamente. - Deixe que os homens deste mundo decidam o que é traição e o que não é. - E com isto ele arrancou a carta da mão de York.

A congregação ficou chocada com a brutal censura ao seu pastor e todos ficaram quietos, esperando para ver como ele reagiria. York sustentou o olhar de Jamisson, e Mack teve certeza de que o pastor desafiaria o lorde; mas York abaixou os olhos e Jamisson pareceu triunfante e sentou-se de novo, como se tudo tivesse acabado.

Mack sentiu-se ultrajado com a covardia de York. A igreja devia ser a autoridade moral. Um pastor que recebia ordens do proprietário das terras era completamente supérfluo. Mack dirigiu ao homem um olhar de franco desprezo e disse, num tom de voz escarninho:

- Devemos respeitar a lei ou não?

Robert Jamisson levantou-se, o rosto congestionado e vermelho como o do pai.

- Você respeitará a lei e seu lorde lhe dirá o que é a lei - disse ele.

- Isto é o mesmo que não ter lei alguma - disse Mack.

- O que é a mesma coisa, no que diz respeito a você - retrucou Robert. - Você é um mineiro: o que é que tem a ver com a lei? Quanto a escrever para advogados - ele tirou a carta do pai, aqui está o que penso do seu advogado. - Com estas palavras, rasgou a carta ao meio.

Os mineiros arquejaram. Seu futuro estava escrito naquelas páginas e ele as estava rasgando.

Robert rasgou a carta repetidas vezes e depois atirou os pedaços para cima. Eles flutuaram sobre Saul e Jen como confete em uma cerimónia de casamento.

A dor que Mack sentiu foi tanta, como se alguém houvesse morrido. A carta era a coisa mais importante que já lhe ocorrera.

Tinha planejado mostrá-la a todo mundo na aldeia. Imaginara levá-la a outras minas em outras aldeias, até que toda a Escócia tomasse conhecimento dela. E no entanto Robert a destruíra num segundo.

A derrota deve ter aparecido no seu rosto, pois Robert fez um ar de triunfo. Isto enfureceu Mack. Ainda não estou liquidado, pensou. A carta se fora mas a lei continuava sendo a mesma.

- Vejo que você está amedrontado o bastante para destruir a carta - disse, espantando-se com o tanto de escárnio que havia em sua própria voz. - Mas você não pode rasgar a lei da terra. Ela está escrita em um papel que não pode ser rasgado tão facilmente.

Robert hesitou, surpreendido, sem saber direito como responder a tamanha eloquência. Após um momento, disse, furioso:

- Saia.

Mack olhou para o Sr. York, e os Jamisson fizeram o mesmo.

Nenhum leigo tinha o direito de mandar que um membro da congregação saísse de uma igreja. Será que o pastor iria se ajoelhar e permitir que o filho do lorde expulsasse um integrante do seu rebanho?

- Esta casa é de Deus ou de Sir George? - quis saber Mack.

Foi um momento decisivo e York não esteve à sua altura.

Pareceu ficar envergonhado e disse:

- É melhor você ir embora, McAsh.

Mack não pôde resistir a uma réplica, embora soubesse que seria uma imprudência.

- Muito obrigado pelo sermão sobre a verdade, pastor - disse. - Nunca o esquecerei.

Ele virou-se para ir embora. Esther levantou-se também.

Quando começaram a percorrer o corredor central Jimmy Lee levantou-se e os seguiu. Um ou dois outros também se levantaram, depois Ma Lee pôs-se de pé e, subitamente, o êxodo foi generalizado. Ouviu-se o barulho das botas arrastando no chão e o farfalhar dos vestidos quando os mineiros deixaram seus lugares, trazendo as famílias. Quando Mack chegou na porta sabia que todos os mineiros o estavam seguindo para fora da igreja, e foi tomado por uma sensação de camaradagem e de triunfo tão fortes que fizeram com que seus olhos se enchessem de lágrimas.

Todos se reuniram em torno de Mack no pátio da igreja, onde era o cemitério. O vento cessara mas nevava, os grandes flocos de neve pairando preguiçosamente até caírem sobre as lápides.

- Aquilo foi errado, rasgar a carta - disse Jimmy, furioso.

Alguns outros concordaram.

- Escreveremos de novo - disse alguém.

- Pode ser que não seja fácil conseguir que a carta seja postada uma segunda vez. - ponderou Mack.

Na verdade a mente dele não estava nesses detalhes. Respirava com dificuldade e sentia-se exausto e estimulado, como se tivesse subido correndo a encosta do High Glen.

- Lei é lei! - disse outro mineiro.

- Sem dúvida, mas lorde é lorde - replicou um outro, mais cauteloso.

Quando Mack se acalmou, começou a avaliar mais realisticamente o que conseguira. Tinha agitado todo mundo, claro, mas por si só isto não mudava nada. Os Jamisson tinham se recusado categoricamente a reconhecer a lei. Se resolvessem usar suas armas, o que os mineiros poderiam fazer? Adiantaria alguma coisa lutar pela justiça? Não seria melhor abaixar a cabeça e esperar um dia conseguir o emprego de supervisor de Ratchett?

Uma pequena figura toda de preto disparou porta afora da igreja como um cervo repentinamente libertado. Era Lizzie Hallim.

Ela foi directo para onde estava Mack. Os mineiros abriram caminho prontamente.

Mack a encarou. Se no estado normal já era bastante bonita, agora, com o rosto cheio de vida devido à indignação, estava encantadora. Os olhos negros lançavam faíscas quando ela perguntou:

- Quem você pensa que é?

- Eu sou Malachi McAsh...

- Eu sei seu nome - interrompeu ela. - Como se atreve a falar com o lorde e seu filho daquele jeito?

- Como eles se atrevem a nos escravizar quando a lei diz que não podem?

Os mineiros murmuraram sua aprovação.

Lizzie olhou em torno, avaliando-os. Os flocos de neve ficavam presos na pele do seu casaco. Um caiu sobre o seu nariz e ela o afastou com um gesto impaciente.

- Vocês têm sorte de ter trabalho pago - disse ela. Todos deveriam ser gratos a Sir George por explorar as minas e proporcionar às suas famílias recursos para viver.

- Se somos tão felizardos, por que eles precisam de leis que nos proíbam de deixar a aldeia e procurar outro trabalho?

- Porque vocês são idiotas demais para saberem quando estão bem! - Mack deu-se conta de que estava gostando daquela discussão, e não só porque implicava ter que olhar para uma mulher bela e bem-nascida. Como oponente, era mais sutil do que Sir George e Robert.

Ele abaixou a voz e adotou um tom indagador.

- Srta. Hallim, já desceu alguma vez numa mina de carvão?

Ma Lee deu uma risada, só de pensar.

- Não seja ridículo - respondeu Lizzie.

- Se um dia descer, garanto que nunca mais nos chamará de felizardos.

- Chega de insolência - disse ela. - Você devia ser açoitado.

- Provavelmente serei - disse ele, mas sem acreditar; nenhum mineiro jamais tinha sido flagelado ali durante toda a sua vida, embora seu pai tivesse assistido uma vez a um açoitamento.

Lizzie estava arfando. Ele teve que se esforçar para não fixar os olhos no seu colo.

- Você tem resposta para tudo, sempre teve - disse Lizzie.

- É verdade, mas você nunca ouviu minhas respostas.

Ele sentiu uma cotovelada dolorosa no lado do corpo; era Esther, avisando-o para ter cuidado onde pisava, lembrando que nunca seria pago para ser mais inteligente que a pequena nobreza.

- Pensaremos a respeito do que nos disse, Srta. Hallim, e muito obrigado pelo seu conselho - disse Esther.

Lizzie aquiesceu condescendentemente.

- Você é a Esther, não é?

- Sim, Srta.

Ela virou-se para Mack.

- Você devia ouvir sua irmã, ela tem mais juízo que você.

- Esta é a primeira coisa verdadeira que você me disse hoje.

- Mack, fecha essa matraca - cochichou Esther.

Lizzie sorriu, e de repente toda a sua arrogância desapareceu.

O sorriso iluminou-lhe o rosto e ela pareceu outra pessoa, amável e alegre.

- Não ouço essa expressão há muito tempo - comentou, rindo. Mack não pôde deixar de rir junto com ela.

Lizzie virou de costas, ainda rindo.

Mack observou-a quando caminhou de volta para a igreja e juntou-se aos Jamisson, que acabavam de sair.

- Meu Deus - disse ele, sacudindo a cabeça. - Que mulher.

 

Jay estava furioso com a briga na igreja. Enfurecia-o ver alguém querer ultrapassar sua classe social Era a vontade de Deus e a lei da terra que Malachi McAsh devesse passar sua vida escavando carvão debaixo da terra e que Jay Jamisson vivesse uma existência mais elevada. Queixar-se da ordem natural era ruim. E McAsh tinha um jeito irritante de falar, como se fosse igual a qualquer outra pessoa, não importa quão bem-nascida.

Nas colónias, agora, um escravo era um escravo, e não havia essas tolices de trabalhar um ano e um dia, ou de pagamento de salários. Era assim que se devia fazer as coisas, na opinião de Jay.

As pessoas não trabalham, a menos que compelidas, e a compulsão pode muito bem ser impiedosa - era mais eficiente.

Quando deixou a igreja, alguns dos colonos ofereceram-lhe congratulações pelo seu vigésimo primeiro aniversário, mas nenhum dos mineiros falou com ele. Os mineiros agruparam-se de um lado do cemitério, discutindo entre eles mesmos, falando baixo, mas com raiva. Jay sentiu-se ultrajado por terem estragado o dia do seu aniversário.

Apertou o passo na neve até onde um cavalariço segurava os cavalos. Robert já estava lá, mas Lizzie não. Jay olhou em torno, procurando-a. Estava ansioso por voltar para casa cavalgando ao lado de Lizzie.

- Onde está a Srta. Elizabeth? - perguntou ao cavalariço.

- Na varanda, Sr. Jay.

Jay a viu conversando animadamente com o pastor.

Robert bateu no peito de Jay com um dedo agressivo.

- Escuta aqui, Jay, deixa Elizabeth Hallim em paz, está entendendo?

A expressão do rosto de Robert era beligerante. Cruzar com ele naquele estado de espírito podia ser perigoso, mas a raiva e o desapontamento deram coragem a Jay.

- De que diabo você está falando? - perguntou, agressivamente.

- Você não vai se casar com ela, sou eu que vou.

- Não quero me casar com ela.

- Então não flerte com ela.

Jay sabia que Lizzie o achara atraente e divertira-se brincando com ela, mas não tinha pensado em conquistar seu coração.

Quando ele tinha quatorze anos e ela treze, achava que era a garota mais bonita do mundo, e partira-lhe o coração ver que não se interessava por ele (ou, na verdade, por nenhum outro menino) mas isto fora há muito tempo. Os planos do pai eram para Robert desposar Lizzie, e nem Jay nem ninguém mais na família podia se opor aos desejos de Sir George. Assim Jay ficou surpreso ao ver que Robert tinha ficado aborrecido o bastante para se queixar.

Demonstrava que se sentia inseguro - e Robert, como o pai, raramente mostrava-se inseguro.

Jay desfrutou o raro prazer de ver o irmão preocupado.

- De que você está com medo? - perguntou.

- Você sabe muito bem do que estou falando. Você rouba minhas coisas desde quando éramos crianças: meus brinquedos, minhas roupas, tudo.

Um velho ressentimento familiar compeliu Jay a dizer:

- Porque você sempre teve tudo o que queria, e eu nada.

- Tolice.

- De qualquer modo, a Srta. Hallim está hospedada em nossa casa - disse Jay, em um tom de voz mais razoável - Não posso ignorá-la, posso?

A boca de Robert exibiu uma expressão de teimosia.

- Você quer que eu fale com o pai sobre isto?

Estas eram as palavras mágicas que terminaram com muitas das disputas da infância. Os dois irmãos sabiam que o pai sempre decidia a favor de Robert. Uma antiga amargura contraiu a garganta de Jay.

- Está certo, Robert - concedeu -, vou procurar não interferir no namoro.

Ele montou e saiu a trote, deixando que Robert escoltasse Lizzie de volta ao castelo.

O castelo Jamisson era uma fortaleza cinza-escura de pedra com torres e ameias, e tinha o aspecto dominador e a altura de tantas casas de campo escocesas. Fora construído setenta anos antes, depois que a primeira mina de carvão no vale começara a trazer fortuna para o lorde.

Sir George herdara aquela propriedade através de um primo da primeira mulher. Durante toda a infância de Jay, o pai dele fora obcecado com carvão. Gastara todo o seu tempo e dinheiro abrindo novas minas e não haviam sido feitas quaisquer melhorias no castelo.

Embora tenha passado a infância ali, Jay não gostava do lugar. Os cómodos imensos e cheios de correntes de ar no andar térreo - salão, sala de jantar, sala de estar, cozinha e sala dos criados - haviam sido construídos em torno de um pátio central com um chafariz que ficava gelado de outubro a maio. O lugar era impossível de ser aquecido. Grandes lareiras acesas em cada cómodo, queimando o abundante carvão das minas Jamisson, pouca diferença faziam sobre o ar gelado dos grandes ambientes com pisos de pedra, e os corredores eram tão frios que era preciso vestir uma capa para ir de um cómodo a outro.

Dez anos antes, a família se mudara para Londres, deixando um quadro reduzido de criados para manter a casa e proteger a caça.

Durante algum tempo, eles voltaram todos os anos, trazendo consigo convidados e criados, alugando cavalos e uma carruagem em Edimburgo, contratando mulheres de colonos para esfregar os pisos de pedra, manter as lareiras acesas e esvaziar os urinóis. Mas o pai relutava cada vez mais em deixar seu negócio e as visitas foram escasseando. O restabelecimento este ano do antigo costume não agradara Jay. No entanto, Lizzie Hallim adulta fora uma agradável surpresa, e não só por representar um recurso para ele atormentar seu favorecido irmão mais velho.

Ele contornou os estábulos e desmontou. Deu umas palmadinhas no pescoço do animal Não é nenhum especialista em corrida de obstáculos, mas é uma montaria bem-comportada - disse o cavalariço, entregando-lhe as rédeas. - Gostaria de tê-lo no meu regimento.

O cavalariço pareceu satisfeito.

- Muito obrigado, senhor - agradeceu. Jay entrou no grande salão. Era um espaço enorme e lúgubre com os cantos tão escuros que neles a luz das velas praticamente não penetrava. Um tristonho cão veadeiro estava deitado sobre um velho tapete de pele diante do fogo. Jay cutucou o animal com a ponta da bota e fez com que saísse do caminho para que pudesse aquecer as mãos.

Acima da lareira ficava o retrato da primeira mulher do seu pai, a mãe de Robert, Olive. Jay odiava aquela pintura. Lá estava ela, solene e com ar de santa, olhando com desprezo a todos que vinham vê-la. Tinha pegado uma febre e morrido de repente aos vinte e nove anos; seu pai se casara de novo, mas nunca esquecera o primeiro amor. Tratava Alicia, a mãe de Jay, como uma amante, um joguete sem status ou direitos; e fazia com que Jay se sentisse quase que como um filho ilegítimo. Robert era o primogénito, o herdeiro, o especial Jay às vezes tinha vontade de perguntar se ele era fruto de uma imaculada conceição, se tinha nascido de alguma virgem.

Ele deu as costas para o retrato. Um lacaio lhe trouxe um copo de vinho quente adoçado que ele bebeu, agradecido. Talvez acalmasse a tens o que sentia no estômago. Hoje o pai anunciaria qual seria a parte dele na herança.

Sabia que não ia herdar a metade, ou mesmo um décimo, da fortuna do pai. Robert herdaria aquela propriedade, com suas ricas minas e a frota de navios que já administrava. A mãe de Jay o aconselhara a não discutir; ela sabia que o pai era implacável Robert não era apenas o filho preferido. Ele era o pai redivivo.

Jay era diferente, e por isto seu pai o rejeitava. Como o pai, Robert era astuto, impiedoso e perverso com dinheiro. Jay era descuidado e gastador. O pai detestava gente descuidada com dinheiro, especialmente o seu dinheiro. Mais de uma vez gritara para Jay:

"Eu são sangue para ganhar dinheiro e você joga fora!" Jay tornara as coisas piores, poucos meses atrás, contraindo uma imensa dívida de jogo no valor de novecentas libras.

Fizera com que sua mãe pedisse ao pai para pagar. Era uma pequena fortuna, dinheiro suficiente para comprar o castelo Jamisson, mas Sir George podia facilmente gastá-lo. Assim mesmo, agira como se estivesse perdendo uma perna. Desde então Jay perdera mais dinheiro, embora o pai não tivesse sabido.

Não discuta com seu pai, ponderou a mãe, e peça algo modesto. Os filhos mais jovens geralmente vão para as colónias: havia uma boa chance de seu pai lhe conceder a plantação de cana-de-açúcar em Barbados, com o seu solar e os escravos africanos.

Tanto ele quanto a mãe tinham falado com o pai a respeito, mas ele não disse que sim nem que não, e Jay tinha grandes esperanças.

Seu pai entrou poucos minutos depois, batendo os pés para limpar a neve das botas. Um lacaio ajudou-o a tirar a capa.

- Mande uma mensagem para Ratchett - disse o pai ao homem. - Quero dois guardas na ponte vinte e quatro horas por dia. Se McAsh tentar deixar o vale, eles dever o prendê-lo.

Havia apenas uma ponte atravessando o rio, mas existia outra saída. Jay perguntou:

- E se McAsh sair pela montanha?

- Com este tempo? Ele pode tentar. Assim que soubermos que fugiu, podemos mandar um grupo contornar pela estrada e fazer com que o xerife e uma tropa de soldados estejam esperando do outro lado quando ele chegar lá. Mas duvido que consiga.

Jay não estava tão seguro assim - aqueles mineiros eram tão fortes e resistentes quanto os cervos e McAsh era um desgraçado obstinado - mas não discutiu com o seu pai.

Lady Hallim chegou em seguida. Tinha o cabelo e os olhos escuros como a filha, mas não possuía nem um pouco do brilho e da vida de Lizzie. Era um tanto corpulenta e tinha rosto carnudo marcado por rugas de desaprovação.

- Deixa eu pegar o seu casaco - disse Jay, ajudando-a a se livrar do pesado casaco de pele. - Venha para perto do fogo, suas mãos estão frias. Quer um pouco de vinho quente?

- Que bom rapaz você é, Jay - disse ela. - Eu adoraria um pouco de vinho.

Os outros foram chegando da igreja, esfregando as mãos e pingando a neve derretida no chão de pedra. Robert conversava com Lizzie obstinadamente, indo de um tópico trivial a outro como se consultasse uma lista. O pai começou a falar de negócios com Henry Drome, um comerciante de Glasgow, que era parente de sua primeira mulher, Olive; e a mãe de Jay foi conversar com Lady Hallim. O pastor e sua mulher não foram: talvez tivessem ficado aborrecidos por causa da briga na igreja. Havia um punhado de outros convidados, a maioria parentes: a irmã de Sir George e seu marido, o irmão mais moço de Alicia com a mulher e um ou dois vizinhos. Quase todas as conversas eram a respeito de Malachi McAsh e sua estúpida carta.

Após algum tempo a voz de Lizzie levantou-se e foi ouvida acima do burburinho das conversas na sala, e, uma por uma, todas as pessoas foram se virando para ouvi-la.

- Mas por que não? - estava ela dizendo. - Quero ver com os meus próprios olhos.

- Uma mina de carvão não é lugar para uma dama, acredite-me - disse Robert gravemente.

- O que é que há? - quis saber Sir George. - A Srta. Hallim quer descer numa mina?

- Acredito que eu deva saber como é? - explicou Lizzie.

- Àparte outras considerações, roupas de mulher tornariam a visita quase impossível - disse Robert.

- Então eu me disfarço de homem - retrucou ela.

Sir George deu uma risada.

- Há umas garotas que eu conheço que conseguiriam se disfarçar bem - disse ele. - Mas você, minha cara, você é bonita demais para isso. - Obviamente ele achava que aquilo fora um cumprimento inteligente e olhou em torno em busca de aprovação.

Os outros riram respeitosamente.

A mãe de Jay cutucou o pai dele e disse qualquer coisa em voz baixa.

- Ah, sim - disse Sir George -, todos estão com os copos cheios? - E sem esperar por uma resposta, ele prosseguiu: Vamos beber ao meu filho mais moço, James Jamisson, conhecido de todos como Jay, pelo seu vigésimo primeiro aniversário. Ao Jay!

Todos brindaram e as mulheres se retiraram para preparar o jantar. A conversa dos homens passou a ser de negócios. Henry Drome disse:

- Não gosto das notícias da América. Podem vir a nos custar um bocado de dinheiro.

Jay sabia do que o homem estava falando. O governo inglês impusera impostos sobre vários produtos importados pelas colónias americanas - chá, papel vidro, chumbo e anilinas - e os colonos estavam ultrajados. Sir George disse, indignado:

- Eles querem que o exército os proteja dos franceses e dos peles-vermelhas, mas não querem pagar por isso!

- Nem vão pagar, se depender deles - disse Drome. - A assembleia da cidade de Boston anunciou um boicote de todas as importações britânicas. Preferem desistir do chá e concordaram inclusive em economizar tecidos pretos não usando roupa de luto!

- Se as outras colónias seguirem o exemplo de Massachusetts, metade de nossa frota não terá carga para transportar - disse Robert.

- Colonos não passam de bandidos, é o que eles são... disse Sir George. - E os destiladores de rum de Boston são os piores. - Jay ficou surpreso ao ver como o pai estava irritado; o problema tinha que estar lhe custando dinheiro, para que estivesse tão exasperado. - A lei obriga que comprem melaço das plantações britânicas, mas eles contrabandeiam o melaço francês e forçam o preço a cair.

- Os colonos da Virgínia são os piores - disse Drome. - Os plantadores de tabaco nunca pagam as dívidas.

- Como se eu não soubesse disso - disse Sir George. Acabo de decretar a inadimplência de um plantador. Deixou-me com uma plantação falida nas costas. Um lugar chamado Mockjack Hall Graças a Deus não há imposto de importação sobre prisioneiros - disse Robert.

Houve um murmúrio geral de aprovação. A parte mais lucrativa do negócio de transporte marítimo de Jamisson era o transporte de criminosos condenados para a América. Todos os anos as cortes sentenciavam diversas centenas de pessoas ao desterro - uma alternativa ao enforcamento como punição para crimes tais como furto, e o governo pagava cinco libras por cabeça ao armador. Nove em cada dez condenados cruzava o Atlântico em uma embarcação de Jamisson. Mas o pagamento efetuado pelo governo não era o único dinheiro a ser ganho. Os condenados eram obrigados a trabalhar sete anos sem remuneração, o que significava que podiam ser vendidos como escravos de sete anos. Os homens valiam de dez a quinze libras, as mulheres de oito a nove e as crianças menos. Com 130 ou 140 condenados empilhados no porão ombro a ombro, como peixes em uma cesta, Robert podia contabilizar um lucro de duas mil libras - o preço de compra do navio - em uma única viagem. Um negócio lucrativo.

- Tem razão - concordou o pai, esvaziando seu cálice. Mesmo isso, contudo, pode acabar, caso os colonos imponham sua vontade.

Os colonos se queixavam daquele comércio constantemente.

Embora continuassem a comprar os condenados - tamanha era a falta de mão-de-obra barata - ressentiam-se com a pátria-mãe por descarregar sua escória em cima deles, e culpavam os condenados pelo aumento da criminalidade.

- Pelo menos as minas de carvão são confiáveis - disse Sir George. - são a única coisa com que se pode contar hoje em dia.

- É por isto que McAsh tem que ser esmagado.

Todo mundo tinha uma opinião sobre McAsh, e diversas conversas irromperam ao mesmo tempo. Sir George, no entanto, parecia querer dar o assunto por encerrado, pois, adotando um tom jocoso, virou-se para Robert:

- O que me diz da jovem Hallim, hem? Uma pequena jóia, se quer saber o que acho.

- Elizabeth tem o temperamento muito forte - disse Robert, dubiamente.

- É verdade - disse o pai, com uma risada. - Lembro quando matamos o último lobo aqui nesta parte da Escócia, oito ou dez anos atrás, e dela insistindo para criar os filhotes.

- Costumava andar por aí com dois lobinhos na trela. Nunca ninguém viu uma coisa daquelas na vida! Os guarda-caças ficaram furiosos, disseram que os filhotes iam fugir e se tornar uma ameaça. Mas eles morreram, por sorte.

- Ela pode dar uma esposa problemática - disse Robert.

- Nada como uma égua briosa - sentenciou Sir George. Além do mais, o marido sempre tem a última palavra, seja como for. Você poderia se sair muito pior - ele baixou a voz. - A mansão foi confiada à guarda de Lady Hallim como curadora, até que Elizabeth case. Como a propriedade de uma mulher pertence ao seu marido, tudo passará a pertencer ao noivo no dia em que ela se casar.

- Eu sei - disse Robert.

Jay não sabia, mas não se surpreendeu: poucos homens se sentiriam felizes em legar uma propriedade de certa importância a uma mulher.

Sir George continuou.

- Deve haver um milhão de toneladas de carvão no subsolo de High Glen, todos os veios seguem naquela direcção. A garota está sentada em cima de uma fortuna, perdoe a vulgaridade. Ele deu uma risada de desdém.

Robert mostrou-se caracteristicamente obstinado.

- Não estou seguro sobre o quanto ela gosta de mim.

- O que é que há para desgostar? Você é jovem, vai ser rico e quando eu morrer será baronete. O que mais pode uma garota querer?

- Romantismo? - respondeu Robert. Ele pronunciou a palavra com desgosto, como se fosse uma moeda desconhecida oferecida por um comerciante estrangeiro.

- A Srta. Hallim não se pode dar ao luxo de ser romântica.

- Não sei não - retrucou Robert. - Lady Hallim vive endividada desde que me entendo por gente. Por que não poderia continuar devendo para sempre?

- Vou lhe contar um segredo - disse Sir George. Ele deu uma olhada por cima do ombro para assegurar-se de que não o estavam ouvindo. - Você sabe que ela já hipotecou toda a propriedade?

- Todo mundo sabe disso.

- Acontece que eu sei que seu credor não está disposto a renovar.

Robert disse:

- Mas certamente que ela poderia levantar o dinheiro com outra pessoa e pagar a ele.

- Provavelmente - concordou Sir George. - Mas ela não sabe disso. E seu consultor financeiro não lhe dirá, já me certifiquei disto.

Jay perguntou-se que propina ou ameaça seu pai teria usado para subornar o consultor de Lady Hallim.

Sir George deu uma risada sarcástica.

- Como está vendo, Robert, a jovem Elizabeth não pode se dar ao luxo de dizer-lhe um não.

Neste momento Henry Drome afastou-se da roda onde conversava e aproximou-se dos três homens da família Jamisson.

- Antes de entrarmos para a ceia, George, tenho que pedir-lhe uma coisa. Sei que posso falar à vontade na frente dos seus filhos.

- Claro.

- Os problemas na América me atingiram seriamente... fazendeiros que não podem pagar suas dívidas e assim por diante... e receio que não vá poder cumprir minhas obrigações com você neste trimestre.

Era óbvio que Sir George tinha emprestado dinheiro a Henry.

Normalmente o pai era brutalmente prático com seus devedores: ou pagavam, ou iam para a cadeia. Agora, contudo, ele disse:

- Eu compreendo, Henry. Os tempos estão difíceis. Pague-me quando puder.

O queixo de Jay caiu, mas um momento depois percebeu por que seu pai estava sendo tão clemente. Drome era aparentado com a mãe de Robert, Olive, e o pai estava sendo bonzinho com Henry por causa dela. Jay sentiu-se tão enojado que se afastou.

As senhoras voltaram. A mãe de Jay exibia um sorriso contido, como se guardasse um segredo engraçado. Antes que pudesse perguntar-lhe o que era, chegou outro convidado, um estranho de terno cinzento. Alicia falou com ele e depois levou-o a Sir George.

- Este é o Sr. Cheshire - disse. - Veio em lugar do pastor.

O recém-chegado era um homem com o rosto marcado por bexigas, de óculos e com uma peruca antiquada de cachos.

Embora Sir George e os homens mais velhos ainda usassem perucas, os mais jovens raramente o faziam, e Jay nunca pusera uma na cabeça.

- O reverendo Sr. York manda pedir desculpas pela sua ausência - disse o Sr. Cheshire.

- Não precisava - disse Sir George, virando-se para ir embora; não estava interessado em religiosos jovens e obscuros.

Foram jantar. O aroma da comida se misturava ao cheiro da humidade que se desprendia das cortinas velhas pesadas. A mesa comprida tinha sido arrumada com fartura e requinte: quartos de veado, carne de boi e porco; um salmão assado inteiro e algumas tortas. Mas Jay mal conseguia comer. Será que o pai iria lhe dar a propriedade de Barbados? E se não fosse a de Barbados, seria o quê? Era difícil ficar ali sentado e comendo enquanto o seu futuro estava prestes a ser decidido.

De certa forma ele praticamente não conhecia o pai. Embora vivessem juntos, na casa da família em Grosvenor Square, Sir George estava sempre no depósito no centro da cidade, com Robert.

Jay passava o dia com o seu regimento. Às vezes se encontravam rapidamente no desjejum e ocasionalmente na ceia - mas a ceia de Sir George costumava ser servida no seu estúdio, enquanto ele examinava uns documentos. Jay não era capaz de adivinhar o que o pai faria. Assim, brincou com a comida e esperou.

O Sr. Cheshire mostrou ser uma presença levemente embaraçosa. Arrotou audivelmente duas ou três vezes e derramou seu clarete, e Jay reparou que olhava de modo fixo e bastante óbvio para o decote da mulher sentada ao seu lado.

Eles se sentaram às três horas, e quando as senhoras se retiraram, a tarde de inverno já estava se transformando em noite.

Assim que elas se afastaram, Sir George mudou de posição em sua cadeira e peidou vulcanicamente.

- Assim é melhor - disse.

Um servo trouxe uma garrafa de porto, um barrilete de fumo e uma caixa de cachimbos de barro. O jovem clérigo encheu um cachimbo e disse:

- Lady Jamisson é uma mulher danada de fina, Sir George, se me permite dizê-lo. Danada de fina.

Ele parecia bêbado, mas mesmo que estivesse, uma observação dessas não podia passar em branco. Jay adiantou-se em defesa da mãe.

- Eu lhe agradeceria se não falasse mais nada a respeito de Lady Jamisson, senhor - disse, em tom glacial O clérigo levou uma vela acesa ao cachimbo, inalou e começou a tossir. Evidentemente nunca fumara antes. Seus olhos se encheram de lágrimas, ele engasgou, lançou uns perdigotos e tossiu de novo. A tosse deu-se em acessos tão fortes que a peruca e os óculos dele caíram - e Jay imediatamente viu que não se tratava de um clérigo.

Começou a rir. Os outros o olharam, curiosos. Não tinham visto ainda.

- Olhem! - disse ele. - Não estão vendo quem é?

Robert foi o primeiro a perceber.

- Meu Deus, é a Srta. Hallim, disfarçada! - exclamou.

Houve um momento de espantado silêncio. Aí então Sir George começou a rir. Os outros homens, vendo que ele ia tomar aquilo como uma piada, riram também.

Lizzie tomou um gole d'água e tossiu mais um pouco.

Quando se recuperou, Jay admirou o seu traje. Os óculos haviam escondido os cintilantes olhos escuros, e os cachos laterais da peruca tinham escondido parcialmente seu belo perfil Uma gravata alta de linho branco tornava mais grosso seu pescoço e cobria a pele lisa e feminina. Tinha usado carvão para fazer as marcas de bexigas no rosto, assim como havia desenhado uns pêlos no queixo, simulando a barba de um jovem que ainda não se barbeia diariamente. Nos cómodos escuros do castelo, em uma tarde de inverno na Escócia, ninguém desconfiara do seu disfarce.

- Bem, você provou que pode passar por um homem - disse Sir George quando ela parou de tossir. - Mas ainda não pode descer na mina. Vá buscar as outras senhoras e daremos a Jay o seu presente de aniversário.

Por uns poucos minutos Jay tinha se esquecido de sua ansiedade, mas agora ela voltou com um baque.

Eles se encontraram com as mulheres no corredor. A mãe de Jay e Lizzie quase estouravam de tanto rir: Alicia, obviamente, tivera conhecimento do segredo, o que explicava seu sorriso misterioso antes do jantar. A mãe de Lizzie não tinha sabido de nada e sua aparência era glacial. Sir George liderou o grupo através da porta principal Era hora do crepúsculo. A neve cessara de cair.

- Aqui está - disse Sir George. - Este é o seu presente de aniversário.

Na frente da casa um cavalariço segurava o mais belo cavalo que Jay já tinha visto. Era um garanhão branco com cerca de dois anos e as linhas esguias dos cavalos árabes. Toda aquela gente o deixava nervoso, andando de lado e forçando o cavalariço a puxar o bridão para que ficasse quieto. Seus olhos tinham um brilho selvagem, e Jay soube instantaneamente que o animal devia correr como o vento.

Ele estava perdido em admiração, mas a voz de sua mãe atravessou seus pensamentos como uma lâmina.

- Isto é tudo? - quis saber ela.

O pai disse:

- Ora, Alicia. Espero que você não vá ser desagradável..

- Isto é tudo? - repetiu ela, e Jay viu que seu rosto estava retorcido numa máscara de raiva.

- Sim - admitiu ele.

Não havia ocorrido a Jay que aquele cavalo estava sendo dado a ele no lugar da propriedade de Barbados. Olhou fixamente para seus pais enquanto a percepção se consolidava. E o amargor que sentiu foi tamanho que não podia falar.

Sua mãe falou por ele. Nunca a vira tão enfurecida.

- Este é seu filho! - exclamou, a voz estridente de ódio. Está fazendo vinte e um anos de idade... tem direito à parte que lhe cabe na vida... e você lhe dá um cavalo?

Os convidados olhavam, ao mesmo tempo fascinados e horrorizados. Sir George ficou vermelho.

- Ninguém me deu nada quando fiz vinte e um anos! - retrucou, furioso. - Nunca herdei nem um par de sapatos...

- Oh, pelo amor de Deus - disse ela, desdenhosamente. Todos nós sabemos como seu pai morreu quando você tinha quatorze anos e você trabalhou em um moinho para sustentar suas irmãs, mas isto não é motivo para condenar à pobreza o seu próprio filho, é?

- Pobreza? - Ele abriu as mãos para indicar o castelo, a propriedade e a vida que acompanhava tudo aquilo. - Que pobreza?

- Ele precisa de independência. Pelo amor de Deus, dê-lhe a propriedade de Barbados.

- Ela é minha! - protestou Robert.

O queixo de Jay por fim destravou e ele reencontrou a voz.

- A plantação nunca foi administrada adequadamente - disse ele. - Pensei em dirigi-la como um regimento, fazendo com que os negros trabalhassem mais e assim por diante, de modo a torná-la mais lucrativa.

- Você acha realmente que seria capaz disso? - perguntou seu pai.

O coração de Jay deu um salto: talvez o pai mudasse de idéia.

- Acho! - exclamou, ansiosamente.

- Bem, eu não acho - disse o pai, asperamente.

Jay sentiu-se como se tivesse sido golpeado no estômago.

- Não acredito que você tenha a menor idéia de como dirigir uma plantação ou qualquer outra empresa - acrescentou Sir George, irritado. - Acho que é melhor você continuar no exército, onde lhe dizem o que tem de fazer.

Jay estava atónito. Olhou para o belo garanhão branco.

- Jamais montarei aquele cavalo - disse. - Levem-no embora.

Alicia falou com Sir George.

- Robert vai ficar com o castelo, as minas de carvão, os navios e tudo mais. Ele tem de ficar com a plantação também?

- Ele é o filho mais velho.

- Jay é mais moço, mas não é nada. Por que Robert tem que ter tudo?

- Por causa da mãe dele - respondeu Sir George.

Alicia fulminou Sir George com um olhar, e Jay percebeu o quanto sua mãe odiava o marido. E eu também, pensou. Eu odeio meu pai.

- Maldito seja você, então - disse ela, provocando exclamações chocadas dos convidados. - Que você seja maldito e mergulhe no fogo do inferno.

Com isto ela se virou e entrou na casa.

 

Os gémeos McAsh moravam em uma casa de um cómodo só de dois metros quadrados, com uma lareira de um lado e duas alcovas protegidas por cortinas, para camas, do outro. A porta da frente abria-se para uma trilha lamacenta que descia a encosta desde a mina até o fundo do vale, onde encontrava a estrada que dava na igreja, no castelo e no mundo exterior. A água era suprida por um regato na montanha atrás de uma fileira de casas.

Durante todo o trajecto para casa, Mack se sentira tremendamente angustiado por causa do que acontecera na igreja, mas nada disse, e Esther, diplomaticamente, não lhe fez perguntas. De manhã cedo, antes de sair para a igreja, tinham posto um pedaço de bacon no fogo para cozinhar, e quando chegaram o cheiro enchia a casa e fez com que a boca de Mack aguasse, animando-o. Esther cortou em tiras um repolho que colocou na panela enquanto Mack atravessava a rua para pegar uma jarra de cerveja na Sra. Wheighel Os dois comeram com o apetite colossal de trabalhadores braçais. Quando a comida e a bebida terminaram, Esther arrotou e perguntou:

- Bem, o que é que você vai fazer?

Mack suspirou. Agora que a pergunta tinha sido colocada directamente, sabia que só havia uma resposta.

- Tenho que ir embora. Não posso continuar aqui, depois de tudo aquilo. Meu orgulho não permitirá. Eu seria um lembrete constante, a cada homem do vale, de que os Jamisson não podem ser desafiados. Tenho que partir. Ele tentava permanecer calmo, mas sua voz tremia de emoção.

- É o que eu achava que você ia dizer. - Lágrimas surgiram nos olhos de Esther. - Você está se colocando contra as pessoas mais poderosas da terra.

- Mas estou certo.

- Está. Mas certo e errado não importam muito neste mundo, só no outro.

- Se eu não for agora, jamais irei... e passarei o resto de minha vida me arrependendo.

Ela fez que sim, melancolicamente.

- Com toda a certeza. Mas e se tentarem impedi-lo?

- Como?

- Podem colocar um guarda na ponte.

O único outro modo de sair do vale era atravessando as montanhas, e este era por demais lento: os Jamisson poderiam estar esperando do outro lado, quando Mack lá chegasse.

- Se bloquearem a ponte, atravesso o rio a nado - disse ele.

- Nesta época do ano a correnteza é suficiente para matar você.

- O rio tem cerca de trinta metros de largura. Calculo que possa atravessá-lo em um minuto ou dois.

- Se o pegarem o trarão de volta com uma argola de ferro no pescoço, como Jimmy Lee.

Mack estremeceu. Usar uma coleira como um cachorro era uma humilhação que todos os mineiros receavam.

- Sou mais esperto que Jimmy - disse. - Ele ficou sem dinheiro e tentou trabalhar em uma mina em Clackmannan, e o proprietário da mina denunciou-o.

- Este é o problema. Você tem de comer, e como ganhará seu pão? Carvão é tudo quanto sabe.

Mack tinha um pouco de dinheiro guardado, mas não ia durar muito. Mas ele tinha pensado nisto.

- Irei para Edimburgo - disse. Ele podia pegar uma carona em uma das pesadas carroças puxadas a cavalo que levavam o carvão das minas, mas seria mais seguro caminhar. - Lá pegarei um navio, eu soube que eles estão sempre querendo rapazes fortes para trabalhar nos carvoeiros. Em três dias estarei fora da Escócia. E eles não podem trazer você de fora, as leis não são válidas em toda a parte.

- Um navio - disse Esther, especulando. Nenhum dos dois jamais vira um, embora já tivessem visto gravuras em livros. - Para onde você irá?

- Londres, eu acho. - A maioria dos navios que transportavam carvão eram destinados a Londres. Mas alguns iam para Amsterdão, tinham dito a Mack. - Ou Holanda. Ou mesmo Massachusetts.

- São só nomes - disse Esther. - Você nunca viu uma pessoa que tenha estado em Massachusetts.

- Suponho que lá todos morem em casas e durmam de noite, como em todos os lugares.

- Suponho que sim - concordou ela, meio na dúvida.

- De qualquer forma, não me importo - disse ele. - Irei para qualquer lugar que não seja a Escócia. Qualquer lugar onde um homem possa ser livre. Pense só nisso: viver onde você quiser, não onde mandarem. Escolher seu trabalho, livre para deixá-lo e pegar um outro onde receba mais, ou que seja mais seguro, ou mais limpo. Pertencer a você mesmo, e não ser escravo de ninguém. Não seria maravilhoso?

Havia lágrimas ardentes no rosto dela.

- Quando você irá?

- Ficarei um dia ou dois dias, e espero que os Jamisson relaxem a vigilância um pouco. Mas na terça-feira completo vinte e dois anos. Se eu estiver na mina na quarta-feira, terei trabalhado um ano e um dia e serei um escravo de novo.

- Você na verdade não passa de um escravo, seja o que for que aquela carta tenha dito.

- Mas gosto da idéia de que tenho a lei do meu lado. Não sei por que deva ser importante, mas é. Faz com que os Jamisson sejam criminosos, quer o reconheçam, quer não. Assim, partirei na noite de terça-feira.

- E eu? - perguntou ela, num fio de voz.

- É melhor você trabalhar para Jimmy Lee, ele é um bom lenhador e está desesperado por outro carregador. E Annie...

Esther o interrompeu.

- Quero ir com você.

Ele ficou surpreso.

- Você nunca disse nada sobre isso!

A voz dela tornou-se mais alta.

- Por que você acha que nunca me casei? Porque se me casar e tiver um filho jamais poderei sair daqui.

Era verdade. Esther era a solteira mais velha de Heugh.

Mas Mack presumira que era só porque não havia ninguém bom o bastante para sua irmã. Não lhe ocorrera que todos aqueles anos ela quisesse secretamente fugir.

- Eu nunca soube!

- Eu tinha medo. Ainda tenho. Mas se você vai, irei com você. - Mack viu o desespero em seus olhos, e doeu recusar-lhe, mas ele tinha que fazê-lo.

- Mulheres não podem ser marinheiros. Não temos dinheiro para a sua passagem, e não deixariam você trabalhar para pagá-la.

Eu teria que deixá-la em Edimburgo.

- Não ficarei aqui se você for embora!

Mack amava a irmã. Eles sempre tinham sido solidários em qualquer conflito, desde as brigas da infância, passando pelas discussões com os pais e chegando às disputas com a administração da mina. Mesmo quando tinha dúvidas quanto à sabedoria do irmão, ela era feroz como uma leoa na sua defesa. Mack desejava muito levá-la consigo, mas era muito mais difícil dois escaparem do que um.

- Fique um pouco mais, Esther - disse ele. - Quando eu chegar aonde estou indo, escreverei para você. Assim que conseguir arranjar trabalho, começarei a economizar para mandar buscá-la.

- Verdade?

- Claro que é verdade, pode ter certeza!

- Cospe e jura.

- Cospe e jura? - Era algo que eles faziam nos tempos de criança, para selar uma promessa.

- Eu quero!

Mack viu que a irmã estava falando sério. Ele cuspiu na palma da mão, estendeu o braço por cima da mesa de tábua e apertou a mão áspera de Esther.

- Juro que mandarei buscar você.

- Muito obrigada - disse ela.

 

Tinha sido planejada uma caçada na manhã seguinte e Jay decidiu ir junto. Estava com vontade de matar alguma coisa.

Não comeu o desjejum, mas encheu o bolso com biscoitinhos de uísqui, bolinhas de aveia encharcada em uísqui, e saiu para dar uma espiada no tempo. O dia começava a clarear. O céu estava cinzento mas o nível das nuvens era alto, e não chovia: eles conseguiriam ver a caça.

Sentou nos degraus da frente do castelo e montou uma nova pederneira em forma de cunha no mecanismo de disparo de sua arma, fixando-a firmemente com uma bucha de couro macio. Podia ser que matar alguns machos servisse como válvula de escape para sua raiva, mas o que ele queria mesmo era poder matar seu irmão Robert.

Orgulhava-se de sua arma. Um rifle de pederneira de carregar pela boca, fabricado por Griffin, da Bond Street, e tinha um cano espanhol com incrustações de prata. Era muito superior à tosca espingarda "Brown Bess" distribuída a seus homens. Engatilhou a arma e fez mira em uma árvore no meio do gramado. ao fazer a mira ao longo do cano, imaginou estar vendo um veado de bom tamanho com enormes chifres. Caprichou na pontaria no peito, atrás do ombro, onde batia o grande coração do animal Em seguida, mudou a imagem, e passou a ver Robert: o obstinado e inflexível Robert, ganancioso e incansável com seu cabelo escuro e seu rosto bem-nutrido. Jay puxou o gatilho. A pedra bateu no aço e produziu uma satisfatória chuva de centelhas, mas não havia pólvora na caçoleta da escorva ou munição no cano.

Jay carregou a arma com as mãos firmes. Usando a medida que ficava na tampa do seu frasco de pólvora, despejou exactamente duas dracmas e meia de pólvora negra dentro do cano. Pegou uma bala esférica de chumbo no bolso, embrulhou-a em um trapo de pano e empurrou-a para dentro do cano também. Em seguida soltou a vareta sob o cano e usou-a para empurrar a bala para dentro da espingarda, tanto quanto foi possível Era uma bola com mais ou menos um centímetro de diâmetro. Era capaz de matar um cervo adulto a uma distância de cem metros: poderia esmagar as costelas de Robert, rasgar seus pulmões e dilacerar o músculo do seu coração, matando-o em segundos.

Ouviu sua mãe dizer:

- Olá, Jay.

Ele levantou-se e deu-lhe um beijo de bom-dia. Não a via desde a noite passada, quando ela amaldiçoara seu pai e saíra, furiosa. Agora parecia fatigada e triste.

- Dormiu mal não foi? - disse ele, compreensivamente.

Ela fez que sim.

- Já tive melhores noites.

- Pobre mãe.

- Eu não devia ter amaldiçoado seu pai daquele jeito.

Hesitantemente, Jay disse:

- Você deve tê-lo amado... um dia.

Ela suspirou.

- Não sei não. Ele era bonito, rico e baronete, e eu queria ser sua esposa.

- Mas agora o odeia.

- Desde que começou a favorecer seu irmão, prejudicando você.

Jay sentiu-se furioso.

- E você pensava que Robert veria a injustiça que há em tudo isso!

- Tenho certeza de que vê, no seu coração. Mas receio que seja também um jovem muito ganancioso. Robert quer tudo.

- Ele sempre quis. - Jay lembrava de Robert nos tempos de criança, feliz apenas quando se apossava dos soldadinhos de chumbo de Jay, ou da parte dele no pudim de ameixas. - Lembra do pónei de Robert, Rob Roy?

- Lembro, por quê?

- Ele tinha treze anos e eu oito, quando ganhou aquele pónei.

Eu estava louco para ter um cavalo e era capaz de montar melhor que ele, já naquele tempo. Mas nem uma vez deixou que eu o montasse. Se ele próprio não queria montar, mandava que um cavalariço exercitasse Rob Roy enquanto eu observava, só para não me dar o prazer.

- Mas você montava os outros cavalos.

- Quando fiz dez anos já tinha montado tudo o que havia no estábulo, inclusive os cavalos de caça do pai. Mas não Rob Roy.

- Vamos caminhar um pouco. - Ela estava usando um casaco forrado de pele com um capuz, e Jay vestia a capa xadrez.

Eles atravessaram o gramado, seus pés esmagando a grama congelada.

- O que fez com que meu pai ficasse desse jeito? - indagou Jay. - Por que ele me odeia?

Ela acariciou o rosto do filho.

- Ele não o odeia - disse -, embora você não possa ser culpado por pensar o contrário.

- Então por que ele me trata tão mal?

- Seu pai era um homem pobre quando se casou com Olive Drome. Ele nada tinha senão uma loja de esquina num bairro de classe baixa de Edimburgo. Este lugar aqui, agora chamado castelo Jamisson, era de um primo distante de Olive, William Drome. William era um solteirão que vivia sozinho, e quando caiu doente Olive veio cuidar dele. O homem ficou tão grato que mudou seu testamento, deixando tudo para Olive; e aí, a despeito de todos os cuidados dela, ele morreu.

Jay fez que sim.

- Já ouvi essa história, mais de uma vez.

- O problema é que seu pai acha que esta propriedade na verdade pertence a Olive. E ela é o alicerce sobre o qual todo o seu império comercial foi construído. E o principal a mineração de carvão, é o mais lucrativo de seus rendimentos.

- É sólido, segundo ele - interrompeu Jay, lembrando da conversa da véspera. - O transporte marítimo é um negócio instável muito sujeito a riscos, mas o carvão é sólido.

- Seja como for, seu pai sente que deve tudo a Olive, e que seria assim como um insulto à memória dela se desse alguma coisa para você.

Jay sacudiu a cabeça.

- Tem que haver algo mais do que isto. Sinto que não sabemos toda a história.

- Pode ser que você tenha razão. Eu lhe contei tudo o que sabia.

Eles atingiram o fim do caminho e voltaram em silêncio.

Jay perguntou-se se seus pais passavam as noites juntos. Seu palpite era de que provavelmente passavam. Seu pai devia achar que quer ela o amasse ou não era sua esposa, e assim sendo, ele tinha o direito de usá-la para aliviar-se. Foi o tipo do pensamento desagradável. Quando chegaram na entrada do castelo, ela disse:

- Passei toda a noite tentando imaginar um modo de consertar as coisas para você, e até agora não consegui nada. Mas não se desespere. Alguma coisa surgirá.

Jay sempre confiara na força da mãe. Ela era capaz de fazer frente a seu pai, de obrigá-lo a fazer o que ela queria.

Chegara inclusive a persuadi-lo a pagar as dívidas de jogo de Jay. Mas desta vez Jay temia que pudesse falhar.

- O pai decidiu que não terei nada. Devia saber como isto me faria sentir. No entanto, tomou a decisão assim mesmo. Não adianta suplicar-lhe nada.

- Eu não estava pensando em suplicar - retrucou ela, secamente.

- O que, então?

- Não sei, mas ainda não desisti. Bom dia, Srta. Hallim.

Lizzie estava descendo a escada da frente do castelo, vestida para a caçada, parecendo um lindo duende de gorro preto de pele e botinhas de couro. Sorriu e pareceu satisfeita por vê-lo.

- Bom dia!

Jay animou-se ao vê-la.

- Você está indo connosco? - perguntou.

- Não perderia esta caçada por nada deste mundo.

Era raro, embora perfeitamente aceitável que mulheres fossem às caçadas, e Jay, conhecendo Lizzie como conhecia, não ficou surpreso com o fato de ela ter planejado sair com os homens.

- Esplêndido! - disse ele. - Você acrescentará um raro toque de refinamento e classe ao que, não fosse isto, seria uma expedição grosseiramente masculina.

- Não aposte nisto - disse ela.

A mãe disse:

- Vou entrar. Boa caçada, vocês dois.

Depois que ela se foi, Lizzie disse:

- Sinto muito que seu aniversário tenha sido estragado. - Ela apertou-lhe o braço compreensivamente. - Talvez esqueça seus problemas por uma ou duas horas nesta manhã.

Ele não pôde deixar de retribuir seu sorriso.

- Vou me esforçar ao máximo.

Lizzie levantou o nariz e fungou, como uma raposa.

- Um bom e forte vento sudoeste - disse. - Simplesmente perfeito.

Fazia cinco anos desde que Jay caçara pela última vez, mas ele se lembrava do que era preciso saber. Os caçadores detestavam os dias calmos, quando uma brisa súbita e caprichosa podia espalhar o cheiro dos homens, fazendo os cervos fugirem.

Um guarda-caça surgiu, contornando o castelo com dois cães numa trela, e Lizzie foi brincar com os animais. Jay seguiu-a, sentindo-se bem mais animado. Olhando para trás, viu a mãe na porta do castelo, olhando fixo para Lizzie, com uma expressão estranha e especulativa no rosto.

Os cães eram desses de pernas compridas e pêlo cinzento às vezes chamados de cães veadeiros das Highlands e às vezes de cães irlandeses para caça de lobos. Lizzie agachou-se e falou com cada um de uma vez.

- Este é o Bran? - perguntou ao guarda-caça.

- O filho do Bran, Srta. Elizabeth - respondeu ele. - Bran morreu há um ano. Este aqui é o Busker.

Os cães seriam conservados bem na retaguarda do grupo de caçadores. E soltos apenas depois que os tiros fossem disparados.

Seu papel era perseguir e trazer algum animal ferido mas não derrubado.

O resto do grupo saiu do castelo: Robert, Sir George e Henry.

Jay firmou a vista no irmão, mas Robert evitou seu olhar. O pai balançou a cabeça abruptamente, quase como se tivesse esquecido os acontecimentos da noite anterior.

Do lado leste do castelo os guardas tinham montado um alvo, um tosco boneco imitando um cervo, feito de madeira e lona.

Cada um dos caçadores ia disparar nele alguns tiros para acostumar o olho. Jay perguntou-se se Lizzie seria capaz de atirar. Muitos homens diziam que as mulheres não eram capazes de atirar direito porque seus braços eram frágeis demais para sustentar a arma, ou por lhes faltar o instinto assassino ou por qualquer outro motivo.

Seria interessante ver se era verdade.

Primeiro todos atiraram de cinquenta metros. Lizzie foi a primeira, e fez um disparo perfeito, com o seu tiro acertando o alvo no ponto mortal bem por trás do ombro. Jay e Sir George fizeram o mesmo. Robert e Henry acertaram mais para trás do corpo, causando ferimentos que fariam com que o animal se afastasse e morresse lenta e dolorosamente.

Atiraram de novo de setenta e cinco metros. Surpreendentemente, Lizzie saiu-se com perfeição mais uma vez. Assim também Jay. Sir George acertou a cabeça e Henry a anca. Robert errou completamente e sua bala limitou-se a soltar centelhas da parede de pedra da horta.

Finalmente tentaram de cem metros, o limite máximo de suas armas. Para o espanto de todos, Lizzie conseguiu outro tiro perfeito.

Robert, Sir George e Henry erraram por completo. Jay, atirando por último, estava determinado a não ser derrotado por uma mulher.

Demorou-se, respirando controladamente e mirando com todo o cuidado, até que por fim conteve a respiração e comprimiu o gatilho delicadamente - para quebrar a perna de trás do alvo.

Final da história da incapacidade feminina para atirar:

Lizzie os superara a todos. Jay estava cheio de admiração.

- Será que você gostaria de se incorporar ao meu regimento? - brincou. - Não são muitos os meus homens que atiram assim.

Os póneis foram trazidos pelos cavalariços. Os póneis das Highlands eram mais seguros do que cavalos, naquele terreno irregular. Todos montaram e saíram do pátio.

Quando desciam o vale a meio trote, Henry Drome puxou conversa com Lizzie. Sem nada para distraí-lo, Jay viu-se pensando de novo na rejeição do pai. Aquilo queimava em seu estômago como uma úlcera. Disse a si próprio que devia ter esperado a recusa, pois o pai sempre favorecera a Robert. Mas alimentara seu otimismo tolo lembrando a si próprio que não era nenhum bastardo, que sua mãe era Lady Jamisson; e persuadira-se de que daquela vez seu pai seria justo. Sir George Jamisson, contudo, nunca fora justo.

Gostaria de ser filho único. Quisera que Robert estivesse morto. Se houvesse um acidente hoje, e Robert morresse, todos os problemas de Jay estariam resolvidos.

Queria ter coragem para matá-lo. Tocou no cano da arma, pendurada no seu ombro. Podia fazer parecer um acidente. Com todo mundo atirando ao mesmo tempo, seria difícil dizer quem tinha disparado a bala fatal E mesmo que adivinhassem a verdade, a família abafaria tudo; ninguém queria escândalo.

Jay sentiu um arrepio de horror ao se dar conta de que estava devaneando sobre matar Robert. Mas eu nunca teria tido esta idéia se o pai me tratasse justamente, pensou.

A propriedade dos Jamisson era como a maioria das pequenas propriedades escocesas. Havia um pouco de terra cultivada no fundo dos vales, que os colonos exploravam comunalmente, usando o sistema medieval de faixas e pagando ao proprietário pelo uso da terra em espécie. A maior parte do terreno era de montanhas cobertas de florestas, que não prestavam para nada, excepto caçar e pescar.

Uns poucos proprietários haviam derrubado suas florestas e experimentavam a criação de carneiros. Era difícil ficar rico com uma propriedade rural escocesa - a menos que você encontrasse carvão, claro.

Quando já tinham se deslocado cerca de cinco quilómetros, os guarda-caças avistaram um rebanho de umas vinte ou trinta fêmeas a uns seiscentos metros de distância, acima da linha das árvores, em uma encosta voltada para o sul O grupo parou e Jay pegou seus óculos de alcance. As fêmeas estavam a favor do vento em relação aos caçadores, e, como sempre pastavam contra o vento, estavam viradas na direcção contrária, mostrando o clarão branco de seus traseiros às lentes dos óculos de Jay.

Fêmeas eram perfeitas para se comer, mas o mais comum era atirar nos grandes machos com suas presas espetaculares. Jay examinou a encosta da montanha, acima das fêmeas. Viu o que esperara ver e apontou.

- Olhem! Dois machos... não, três... um pouco mais acima de onde estão as fêmeas.

- Estou vendo, logo acima da primeira crista - disse Lizzie.

- E outro, pode-se ver as presas do quarto.

O rosto dela estava corado com a excitação, tornando-a ainda mais bela. Aquilo era exactamente o tipo de coisa de que gostava, claro: estar ao ar livre, com cavalos, cães e armas, fazendo algo violentamente enérgico e um pouco arriscado. Ele não pôde deixar de sorrir, enquanto a olhava, remexendo-se desconfortavelmente na sela. A visão dela era suficiente para esquentar o sangue de um homem.

Deu uma olhada no irmão. Robert não parecia à vontade, ali naquele tempo frio, montado num pónei. Estaria melhor num escritório de contabilidade, pensou Jay, calculando os juros trimestrais de oitenta e nove guinéus a três e meio por cento ao ano.

Que desperdício seria uma mulher como Lizzie se casar com Robert.

Jay deu-lhes as costas e tentou concentrar-se na caça.

Estudou a encosta da montanha com os óculos de alcance, procurando uma rota pela qual pudessem se aproximar dos machos. Era preciso ficar a favor do vento, para que os animais não sentissem o cheiro dos humanos. O preferível seria ir ao encontro da caça vindo da parte de cima da montanha. Conforme o exercício de tiro ao alvo confirmara, era quase impossível acertar em um cervo a cerca de cem metros, e cinquenta metros era o ideal: assim, toda a técnica da caçada repousava em aproximar-se o bastante para um bom tiro.

Lizzie já imaginara uma abordagem.

- Há um circo a uns quatrocentos metros atrás, vale acima - disse, animadamente. Circo era uma depressão no terreno de forma mais ou menos circular formada por um regato que descia pela encosta, e onde seria possível para os caçadores se esconderem quando subissem. - Podemos subir por ele até a crista e depois nos aproximarmos.

Sir George concordou. Não era sempre que deixava que lhe dissessem o que fazer, mas quando deixava, normalmente era uma bela mulher.

Deixaram os póneis no circo e subiram a montanha a pé. A encosta era íngreme e o solo ao mesmo tempo rochoso e lamacento; de modo que ou mergulhavam os pés na lama ou tropeçavam nas pedras. Antes que se passasse muito tempo, Henry e Robert estavam bufando, ofegantes, embora os guardas e Lizzie, acostumados àquele terreno, não mostrassem sinais de cansaço. Sir George tinha o rosto vermelho e ofegava, mas era surpreendentemente resistente e não diminuía o ritmo. Jay estava em forma, por causa de sua vida no regimento de infantaria, mas assim mesmo viu-se respirando com dificuldade.

Atravessaram a crista. E protegidos por ela, escondidos dos cervos, seguiram pela encosta da montanha. O vento era cortantemente frio e havia lufadas de neve acompanhada de chuva, assim como redemoinhos de uma neblina glacial Sem o calor do cavalo por baixo, Jay começou a sentir frio. Suas luvas finas de couro de cabrito estavam totalmente encharcadas e a humidade penetrava nas suas botas de montaria e nas caras meias de lã de Shetland.

Os guardas tomaram a dianteira, conhecendo o terreno.

Quando acharam que estavam se aproximando dos cervos, desceram um pouco. De repente caíram de joelhos, e os outros os acompanharam. Jay esqueceu do frio e da humidade e começou a sentir-se estimulado: era a emoção da caçada, e a perspectiva de matar.

Ele decidiu arriscar uma olhada. Ainda rastejando, mudou de direcção, subiu até a crista e espiou por cima de uma rocha.

Quando seus olhos se adaptaram à distância, viu os machos, quatro manchas castanhas na encosta verde, estendidos numa linha irregular.

Era raro ver quatro machos juntos; deviam ter encontrado um trecho onde o pasto era magnífico. Olhou com a ajuda dos óculos.

O que estava mais distante era o que tinha a melhor cabeça: não podia ver os chifres claramente, mas eram grandes o bastante para terem doze pontas. Ouviu o grasnar de um corvo e, olhando para cima, viu um par deles circulando sobre os caçadores. Pareciam saber que em breve poderia haver restos com que se alimentarem.

Um pouco acima alguém gritou e praguejou: era Robert, escorregando em uma poça de lama.

- Maldito idiota - murmurou Jay. Um dos cães deixou escapar um rosnado baixo. O guarda levantou para ele uma das mãos, em advertência, e todos ficaram imóveis, atentos para o som de cascos em disparada. Mas os cervos não fugiram, e após um instante o grupo continuou a rastejar.

Em pouco tempo tiveram que mergulhar de barriga e retorcer o corpo. Um dos guardas fez os cachorros deitarem e cobriu-lhes os olhos com lenços, para que ficassem quietos. Sir George e o chefe dos guardas desceram um pouco até uma outra crista, onde levantaram as cabeças cautelosamente e espiaram. Quando regressaram para junto do grupo, Sir George deu as ordens.

Ele falou em voz baixa.

- Há quatro machos e cinco armas, de modo que eu não vou atirar desta vez, a menos que um de vocês erre - disse ele. Era capaz de bancar o anfitrião perfeito quando queria. - Henry, você fica com o animal mais da direita aqui. Robert, o seu é o seguinte... é o mais próximo, e o tiro mais fácil Jay fica com o seguinte. Srta. Hallim, o seu é o que está mais longe, mas é o que tem a melhor cabeça... e você é uma excelente atiradora. Tudo certo? Vamos então tomar nossas posições. Deixaremos a Srta. Hallim atirar primeiro, certo?

Os caçadores se espalharam, escorregando na encosta íngreme da montanha, todos procurando uma boa posição de tiro. Jay seguiu Lizzie. Ela usava uma jaqueta curta de montaria e uma saia sem armação, e ele sorriu quando viu seu traseiro petulante menear-se na sua frente. Não eram muitas as garotas que rastejariam daquele jeito na frente de um homem - mas Lizzie não era como as outras garotas.

Ele subiu mais um pouco, até um ponto onde um arbusto seco lhe dava uma cobertura extra. Levantando a cabeça, pôde ver o seu macho, um animal jovem com uma galhada pequena, a cerca de sete metros de distância; e os outros três, espalhados ao longo da elevação. Pôde ver também os outros caçadores: Lizzie, à sua esquerda, ainda rastejando; Henry, na extrema direita; Sir George e os guardas com os cães - e Robert, abaixo e à direita de Jay, a vinte e cinco metros, um alvo fácil O ritmo do seu batimento cardíaco alterou-se quando ele mais uma vez foi assaltado pela idéia de matar o irmão. A história de Caim e Abel voltou à sua cabeça. Caim dissera: Minha punição é maior do que eu posso agitentar. Mas eu já me sinto assim, pensou Jay. Não posso aguentar continuar sendo o supérfluo segundo filho, sempre esquecido, vagando pela vida sem nada, o filho pobre de um homem rico - eu simplesmente não consigo aguentar isso.

Ele tentou expulsar o mal da cabeça. Escorvou sua arma, despejando um pouco de pólvora dentro da caçoleta, junto do ouvido, e em seguida fechou a tampa da caçoleta. Finalmente, engatilhou o mecanismo de disparo. Quando puxasse gatilho, a tampa da caçoleta se levantaria automaticamente, ao mesmo tempo em que a pedra lançaria centelhas. A pólvora dentro da caçoleta se acenderia, a chama passaria através do buraco do ouvido e iria queimar a quantidade maior de pólvora que ficava por trás da bala.

Jay rolou, e, ficando de bruços, pôde observar a encosta.

Os cervos pastavam em pacífica inocência. Todos os caçadores estavam em posição, excepto Lizzie, que ainda se deslocava. Jay fez pontaria no seu animal. Depois, lentamente, desviou o cano até apontar para as costas de Robert.

Poderia dizer que seu cotovelo tinha resvalado numa placa de gelo no momento crucial fazendo com que descesse a linha de visada para um lado e, com trágica má sorte, acertara o irmão nas costas. O pai poderia suspeitar da verdade - mas nunca poderia ter certeza, e, restando-lhe apenas um filho, será que não enterraria suas suspeitas e daria a Jay tudo o que anteriormente destinara a Robert?

O tiro de Lizzie seria o sinal para que todos disparassem.

Os cervos costumavam ter uma reacção surpreendentemente lenta, Jay se lembrava disto. Após o primeiro tiro, levantavam as cabeças e ficavam imóveis, por umas quatro ou cinco batidas de coração; aí então um deles se moveria e no momento seguinte todos se virariam ao mesmo tempo, como um bando de passarinhos ou um cardume de peixes, e fugiriam, os cascos elegantes ressoando na grama dura, deixando os mortos no chão e os feridos mancando à retaguarda.

Lentamente Jay retornou o cano da arma até que a pontaria ficou de novo sobre o cervo. Claro que não mataria o irmão.

Seria uma coisa inimaginavelmente perversa. Seria assombrado o resto da vida pelo sentimento de culpa.

Mas, e se se contivesse, será que não lastimaria para sempre?

Da próxima vez em que o pai o humilhasse, mostrando preferência por Robert, ele não cerraria os dentes e desejaria de todo o coração ter resolvido o problema quando tivera oportunidade, eliminando aquele odioso irmão da face da terra?

Desviou o rifle mais uma vez para as costas de Robert. O pai respeitava força, decisão e crueldade. Mesmo que adivinhasse que o tiro fatal fosse deliberado, seria forçado a tratar Jay como um homem, um homem que não podia ser ignorado ou esquecido sem consequências temíveis.

Esta idéia fortaleceu sua decisão. No fundo do seu coração o pai aprovaria, Jay disse a si próprio. Sir George nunca permitiria que o enganassem: sua reacção às más acções era brutal e selvagem.

Como magistrado em Londres mandara dezenas de homens, mulheres e crianças para Old Bailey. Se uma criança podia ser enforcada por roubar pão, o que haveria de errado em matar Robert por furtar o património de Jay?

Lizzie estava demorando. Jay tentava respirar com calma, mas seu coração estava disparado e a respiração se fazia aos arrancos. Ele sentiu-se tentado a dar uma olhada em Lizzie para ver que diabo de coisa a estava detendo, mas ficou com medo de que ela escolhesse justo aquele instante para atirar e aí então ele perderia sua chance; assim, manteve os olhos e o cano fixo nas costas de Robert. Todo o seu corpo estava esticado como a corda de uma harpa, e os músculos começavam a doer com a tens o, mas não se atreveu a mover-se.

Não, pensou ele, isto não pode estar acontecendo, eu não vou matar meu irmão. Mas eu vou matar, por Deus que vou matá-lo, eu juro.

Depressa, Lizzie, por favor.

Com o canto do olho ele viu algo deslocar-se na sua direcção.

Antes que pudesse olhar para cima ouviu o disparo da arma de Lizzie. Os machos ficaram imóveis. Firmando a pontaria na espinha de Robert, bem entre as omoplatas, Jay comprimiu o gatilho gentilmente. Um vulto grande cresceu por cima dele e Jay ouviu o pai gritar. Houve mais dois outros disparos quando Robert e Henry atiraram. No momento exacto em que a arma de Jay disparou, um pé calçado de bota chutou o cano, que deu um solavanco para cima, fazendo com que a bala se perdesse inofensivamente no ar. Medo e culpa se apossaram do coração de Jay, que ergueu os olhos para o rosto enfurecido de Sir George.

- Bastardo assassino - disse seu pai.

 

O dia ao ar livre deixara Lizzie sonolenta, e logo depois da ceia ela anunciou que ia para a cama. Robert aconteceu de não estar presente nesta hora, e Jay polidamente pôs-se de pé de um pulo para iluminar o caminho dela com uma vela. Enquanto subiam a escada de pedra, ele disse, baixinho:

- Levarei você na mina, se quiser.

O sono de Lizzie desapareceu.

- Está falando sério?

- Claro. Não falo nada que não seja a sério - ele sorriu. - Você tem coragem de ir?

Ela ficou empolgada.

- Sim! - exclamou. Aqui estava um homem querendo o seu coração! - Quando poderemos ir? - perguntou, impaciente.

- Hoje à noite. Os escavadores começam a trabalhar à meia-noite, os carregadores, uma ou duas horas mais tarde.

- Mesmo? - Lizzie estava aturdida. - Por que eles trabalham à noite?

- Trabalham o dia inteiro também. Os carregadores terminam no fim da tarde.

- Mas eles mal têm tempo para dormir!

- Assim não podem fazer nenhuma besteira.

Ela se sentiu ridícula.

- Passei praticamente toda a minha vida no vale ao lado e não tinha idéia de que os mineiros trabalhavam tanto tempo assim.

Ela perguntou-se se McAsh não teria razão e se a visita à mina não iria modificar totalmente seu ponto de vista sobre os mineiros.

- Esteja pronta à meia-noite - disse Jay. - Vai ter que se vestir como homem de novo. Ainda tem aquelas roupas?

- Tenho.

- Saia pela porta da cozinha, farei com que esteja aberta, e me encontre no estábulo. Vou selar dois cavalos.

- Isso é tão excitante! - exclamou ela.

Ele lhe entregou a vela.

- Então até a meia-noite - sussurrou.

Lizzie entrou no quarto. Jay estava alegre de novo, tinha notado. De manhã tinha havido uma briga qualquer com o pai, lá em cima da montanha. Ninguém vira exactamente o que acontecera todos estavam absolutamente concentrados na caça - mas Jay errara o tiro e Sir George tinha ficado branco de raiva. A briga, o que quer que tenha sido, fora facilmente esquecida com a excitação do momento. Lizzie matara seu cervo com um tiro perfeito e limpo.

Tanto Robert quanto Henry tinham ferido seus respectivos alvos.

O de Robert correu alguns metros, caiu e ele o liquidou com outro tiro; mas o de Henry fugiu e os cães foram atrás dele e o trouxeram, após uma perseguição. Todo mundo, contudo, sabia que algo havia acontecido, e Jay passara o resto do dia praticamente em silêncio até agora, quando se mostrara animado e encantador de novo.

Ela tirou o vestido, as anáguas e os sapatos, embrulhou-se num cobertor e sentou-se em frente ao fogo flamejante. Jay era um bocado divertido, pensou. Parecia estar à caça de aventuras, assim como ela. Era bonito, também: alto, bem-vestido e atlético, com uma cabeleira loura abundante e ondulada. Lizzie mal podia esperar pela meia-noite.

Houve uma batida na porta e sua mãe entrou. Lizzie sofreu uma pontada de culpa. Espero que a mãe não queira conversar muito tempo, pensou, ansiosamente. Mas ainda não eram onze horas: havia muito tempo.

A mãe estava usando uma capa, como todos usavam para ir de um quarto a outro atravessando as frias passagens do castelo Jamisson. Ela tirou a capa. Por baixo tinha um agasalho sobre a roupa de dormir. Tirou os grampos do cabelo de Lizzie e começou a escová-lo.

Lizzie fechou os olhos e relaxou. Aquilo sempre a levava de volta à infância.

- Você tem que me prometer nunca mais se vestir como homem - disse a mãe. Lizzie levou um susto. Era quase como se a mãe a tivesse ouvido conversando com Jay. Tinha que ser cuidadosa: a mãe tinha uma notável capacidade de adivinhar quando Lizzie estava querendo sair do sério. - Você está muito velha para essas brincadeiras - acrescentou ela.

- Sir George se divertiu à beça! - protestou Lizzie.

- Talvez, mas não é assim que se arranja marido.

- Robert parece me querer.

- Sim... mas você tem que lhe dar uma oportunidade para que ele lhe faça a corte! Ontem, quando foi à igreja, você disparou na frente com Jay e deixou Robert para trás. Hoje você preferiu se retirar quando Robert não estava na sala, de modo que ele perdeu a chance de acompanhá-la na subida ao segundo andar.

Lizzie examinou a mãe no espelho. As linhas familiares do seu rosto mostravam determinação. Lizzie amava a mãe e gostaria de agradá-la. Mas não podia ser a filha que a mãe queria: era contra sua natureza.

- Desculpe, mãe - disse ela. - Eu simplesmente não penso nessas coisas.

- Você... gosta de Robert?

- Eu só ficaria com ele se estivesse desesperada.

Lady Hallim deixou de lado a escova e sentou-se na frente de Lizzie.

- Minha querida, nós estamos desesperadas.

- Mas nós sempre tivemos pouco dinheiro, desde que me entendo por gente.

- É verdade. E eu consegui sobreviver pedindo emprestado e hipotecando a nossa terra e vivendo a maior parte do tempo aqui no campo, onde podemos comer o que caçamos e usar as nossas roupas até que fiquem todas esburacadas.

Mais uma vez Lizzie sentiu uma pontada de culpa. Quando a mãe gastava dinheiro, quase sempre era com a filha, e não com ela.

- Então vamos continuar do mesmo modo. Não me importo de ter a cozinheira servindo a mesa e de dividir uma criada com você. Gosto de viver aqui. Prefiro passar minha vida andando em High Glen do que fazendo compras em Bond Street.

- Há um teto limite de empréstimo, você sabe. Não vão nos emprestar mais.

- Então viveremos das rendas que recebemos dos colonos. Desistimos das viagens a Londres. Não iremos sequer aos bailes em Edimburgo. Ninguém jantará connosco excepto o pastor. Viveremos como freiras e não teremos companhia do fim de um ano ao ano seguinte.

- Receio que não seja possível nem isso. Estão nos ameaçando tirar Hallim House e as terras.

Lizzie ficou chocada.

- Não podem!

- Eles podem sim. É isto o que uma hipoteca significa.

- Quem são eles?

A mãe pareceu vaga.

- Bem, foi o advogado do seu pai quem me arranjou os empréstimos, mas não sei exactamente de quem era o dinheiro. Mas isto não importa. O que interessa é que o nosso credor quer seu dinheiro... ou executará a dívida.

- Mãe... você está realmente dizendo que nós vamos perder nossa casa?

- Não, querida. Não se você se casar com Robert.

- Eu entendo - disse Lizzie, solenemente.

O relógio do pátio do estábulo bateu as onze horas. A mãe levantou-se e beijou-a.

- Boa noite, querida. Durma bem.

Lizzie contemplou pensativamente o fogo. Há anos sabia que seu destino era salvar o destino de ambas desposando um homem rico, e Robert parecia tão bom quanto qualquer outro. Não pensara seriamente neste assunto até agora; não pensava em nada antes do tempo; de um modo geral - preferia deixar tudo para a última hora, um hábito que levava sua mãe à loucura. Mas subitamente a perspectiva de desposá-lo a deixava apavorada. Sentia uma espécie de repulsa física, como se tivesse engolido algo podre.

Mas o que poderia fazer? Não podia deixar os credores de sua mãe porem-nas para fora de casa! O que iriam fazer? Para onde iriam? Como poderiam se sustentar? Sentiu um arrepio de medo quando imaginou as duas morando em gélidos quartos alugados em um cortiço de Edimburgo, escrevendo cartas suplicantes a parentes distantes e costurando para ganhar uns tostões.

Melhor casar com o insípido Robert. Mas será que conseguiria obrigar-se a desposá-lo? Sempre que tinha que fazer algo desagradável mas necessário, como sacrificar um velho cão de caça doente ou comprar material para costura de anáguas, acabava mudando de idéia e se esquivando.

Prendeu o cabelo de qualquer maneira, e depois vestiu o disfarce que usara na véspera: culote, botas de montaria, camisa de linho e casaco, com um chapéu de homem de três bicos que prendeu com um alfinete de chapéu. Escureceu o rosto com fuligem da chaminé, mas decidiu não usar a peruca desta vez.

Para se esquentar, acrescentou luvas de pêlo, que também escondiam suas mãos delicadas, além de uma manta xadrez que fazia seus ombros parecerem mais largos.

Quando ouviu o bater da meia-noite, pegou uma vela e desceu.

Perguntou-se nervosamente se Jay cumpriria o prometido.

Podia ter acontecido alguma coisa que o impedisse de ir, ou ele podia ter caído no sono, enquanto esperava. Como seria desapontador! Mas ela encontrou a porta da cozinha aberta, como ele prometera; e quando emergiu no pátio do estábulo, lá estava ele à sua espera, segurando dois póneis, murmurando qualquer coisa para que ficassem quietos. Lizzie sentiu uma onda de calor prazeroso, quando o viu sorrindo para ela ao luar. Sem dizer nada, passou-lhe as rédeas do cavalo menor, depois foi saindo do pátio pelo caminho dos fundos, evitando a entrada da frente, para onde abriam as jaaelas dos principais quartos de dormir.

Quando chegaram na estrada, Jay destampou uma lanterna.

Eles montaram e saíram ao trote.

- Eu estava com medo de que você não viesse - disse Jay.

- E eu estava com medo de que você tivesse caído no sono enquanto esperava - replicou ela, e os dois caíram na risada.

Subiram o vale na direcção das bocas das minas de carvão.

- Você teve outra briga com seu pai esta tarde? - perguntou Lizzie directamente.

- Sim.

Ele não acrescentou detalhes, mas a curiosidade de Lizzie não requeria encorajamento.

- Sobre o quê? - indagou ela.

Lizzie não podia ver o rosto de Jay, mas sentiu que ele não estava gostando do interrogatório. No entanto, respondeu com bastante polidez.

- Receio que seja a mesma coisa de sempre... meu irmão, Robert.

- Acho que você tem sido muito maltratado, se isto lhe serve de consolo.

- É, muito obrigado. - Ele pareceu relaxar um pouco.

À medida que se aproximavam das minas, a ansiedade e a curiosidade de Lizzie aumentaram, e ela começou a especular sobre como a mina seria, e por que McAsh dera a entender que seria um lugar totalmente desconfortável e imundo. Seria horrivelmente quente, ou glacialmente frio? Os homens rosnariam e lutariam, como animais selvagens enjaulados? Seria um lugar malcheiroso, ou infestado de camundongos, ou silencioso e fantasmagórico?

Lizzie começou a sentir-se apreensiva. Mas seja como for, eu saberei, pensou ela - e McAsh não poderá mais fazer pouco de mim com minha ignorância. Depois de mais ou menos meia hora, eles passaram por uma pequena montanha de carvão para vender.

- Quem vem lá? - vociferou uma voz, e um zelador com um cão veadeiro retesando a trela apareceu no círculo de luz da lanterna de Jay. Os guarda-caças tradicionalmente zelavam pelos veados e tentavam pegar caçadores furtivos, mas nos últimos tempos muitos também ajudavam a manter a disciplina nas minas e a evitar o roubo de carvão.

Jay ergueu a lanterna para iluminar o próprio rosto.

- Desculpe, Sr. Jamisson - disse o guarda.

Eles continuaram. A boca do poço da mina era marcada apenas por um cavalo trotando em círculo, virando um tambor.

Quando se aproximaram mais, Lizzie viu que o tambor enrolava uma corda que puxava baldes de água de dentro do poço.

- Sempre há água lá embaixo - explicou Jay. - Ela mina da terra. - Os velhos baldes de madeira vazavam, transformando o solo em torno da boca da mina em uma traiçoeira mistura de lama e gelo.

Lizzie e Jay amarraram os cavalos e dirigiram-se à boca do poço. Tinha um pouco menos de dois metros quadrados com uma escada de madeira íngreme descendo pelos lados em ziguezague.

Lizzie não conseguiu ver o fundo.

A escada não tinha corrimão.

Lizzie sofreu um momento de pânico.

- Qual é a profundidade? - indagou, com a voz trémula.

Se bem me lembro, o poço tem uns sessenta metros respondeu Jay.

Lizzie engoliu em seco. Se cancelasse a visita, Sir George e Robert viriam a saber e diriam "Eu falei com você que aquilo não era lugar para uma dama". Lizzie não poderia suportar isto preferia descer sessenta metros de escada sem corrimão.

Cerrando os dentes, ela perguntou:

- O que estamos esperando?

Se Jay percebeu que estava com medo, nada comentou. Foi na frente, iluminando os degraus para ela, e Lizzie o seguiu com o coração na boca. No entanto, depois de descerem alguns degraus, ele disse:

- Por que você não põe as mãos nos meus ombros, para se firmar? - O que ela fez, agradecida.

Enquanto desciam, os baldes de madeira subiam rodopiando bem no meio do poço, chocando-se com os vazios que desciam, frequentemente jogando água gelada em cima de Lizzie. Ela teve uma visão assustadora de si própria escorregando e caindo loucamente, esbarrando nos baldes, derrubando dúzias deles antes de bater no fundo e morrer.

Após algum tempo Jay parou para deixar que ela descansasse um pouco. Embora Lizzie se visse como uma pessoa em forma e ativa, suas pernas doíam e respirava com dificuldade. Querendo dar a impressão de que não estava cansada, ela puxou conversa:

- Você parece saber um bocado a respeito de minas, de onde vem a água e qual a profundidade do poço e tudo mais.

- O carvão é um assunto de conversa constante na nossa família. É a origem da maior parte do nosso dinheiro. Mas eu passei um verão com Harry Ratchett, o supervisor, há cerca de seis anos. A mãe decidiu que queria que eu aprendesse tudo o que pudesse sobre o negócio, na esperança de que o pai um dia me deixasse dirigi-lo. Tola aspiração.

Lizzie sentiu pena dele.

Eles continuaram. Poucos minutos mais tarde a escada terminou em um dique que dava acesso a dois túneis. Abaixo do nível dos túneis, o poço estava cheio d'água. Esta era a água que os baldes esvaziavam, mas que era constantemente substituída pelas valas que drenavam os túneis. Lizzie observou a escuridão dos túneis, o coração tomado por um misto de curiosidade e medo.

Jay saiu do deque para entrar em um dos túneis, virou-se e deu a mão para Lizzie. Sua mão era firme e seca. Quando entraram no túnel levou a mão dela aos lábios e beijou. Lizzie ficou feliz com aquele pequeno gesto de galanteria.

Virando-se para continuar a conduzi-la, ele não largou sua mão. Ela não soube o que fazer daquilo, mas não teve tempo de pensar. Teve que se concentrar onde pisava. O piso era coberto por uma grossa camada de pó de carvão e ela podia sentir o pó também no ar. O teto era baixo em vários lugares e tinha que permanecer abaixada a maior parte do tempo. Percebeu que tinha uma noite bastante desagradável diante de si.

Tentou ignorar o desconforto que sentia. Em ambos os lados, velas bruxuleavam nos intervalos entre as largas colunas, o que a fez pensar em uma missa da meia-noite na catedral Jay disse:

- Cada mineiro trabalha em uma seção de três metros e meio da superfície do veio, é a sua frente de trabalho, chamada de "salão". Entre um salão e outro, eles deixam um pilar de carvão, de um metro e vinte por um metro e vinte, para suportar o teto.

Lizzie subitamente percebeu que acima da sua cabeça havia sessenta e tantos metros de terra e rochas que cairiam em cima dela se os mineiros não tivessem feito seu trabalho cuidadosamente, e teve que lutar para reprimir a sensação de pânico causada por este pensamento. Involuntariamente, apertou a mão de Jay, e ele apertou a sua também. Daí em diante sentiu-se muito consciente do fato de estarem de mãos dadas. E descobriu que gostava daquilo.

Os primeiros salões por que passaram estavam vazios, presumivelmente exauridos, mas após algum tempo Jay parou ao lado de um salão onde um homem estava cavando. Para surpresa de Lizzie, o homem não estava de pé: trabalhava deitado, de lado, atacando a superfície de carvão ao nível do solo. Uma vela em um suporte de madeira perto de sua cabeça lançava uma luz inconstante no trabalho dele. A despeito da posição desajeitada, ele manejava a picareta vigorosamente. Com cada golpe enterrava a ponta da picareta no carvão e soltaz a torrões. Ele estava abrindo uma reentrância de uns sessenta ou noventa centímetros ao longo da largura do salão. Lizzie ficou chocada ao ver que o homem estava deitado dentro da água corrente, a qual minava da superfície do carvão, corria pelo piso do salão e era esgotada pela vala que corria ao longo do túnel Lizzie mergulhou os dedos na vala. A água estava gélida. Ela estremeceu. E no entanto o mineiro tinha tirado o casaco e a camisa e trabalhava de culotes e pés descalços; Lizzie podia ver o brilho do suor nos seus ombros escurecidos.

O túnel não era nivelado, mas subia e descia - com o veio de carvão, imaginou Lizzie. Agora começava a subir mais acentuadamente. Jay parou e apontou um mineiro mais à frente que estava fazendo qualquer coisa com uma vela.

- Ele está verificando a existência de grisu - explicou Jay.

Lizzie largou a mão de Jay e sentou-se numa pedra, para aliviar as costas do esforço de andar abaixada.

- Você está bem? - perguntou Jay.

- Ótima. O que é grisu?

- Um gás inflamável.

- Inflamável?

- Sim. É a causa da maior parte das explosões nas minas de carvão. - Aquilo parecia maluquice.

- Se é explosivo, por que ele está usando uma vela acesa?

- É o único jeito de detectar a presença do gás. Não se pode vê-lo ou cheirá-lo.

O mineiro estava erguendo a vela lentamente na direcção do teto, e parecia olhar atentamente para a chama.

- O gás é mais leve do que o ar, de modo que se concentra junto do teto - prosseguiu Jay. - Uma pequena quantidade dará um tom azulado à chama da vela.

- E o que fará uma grande quantidade?

- Uma explosão que levará a todos nós para o outro mundo.

Para Lizzie foi a última gota. Estava imunda, exausta, com a boca cheia de pó de carvão e ainda por cima correndo o risco de ir para os ares. Disse a si própria para se conservar muito calma.

Sabia, antes mesmo de ir, que a mineração de carvão era um negócio arriscado e tinha que ser corajosa. Os mineiros desciam ali toda a noite: será que não ia ter coragem de descer uma única vez?

Seria também, contudo, a última vez: disto ela não tinha a menor dúvida.

Observaram o homem por uns momentos. Ele foi subindo o túnel dando poucos passos de cada vez, repetindo o teste.

Lizzie estava determinada a não demonstrar o medo que sentia.

Fazendo a voz parecer normal ela perguntou:

- E se ele encontrar grisu, e aí? Como se livrar do gás?

- Tocando fogo nele.

Lizzie engoliu em seco. Aquilo estava piorando.

- Um dos mineiros é designado bombeiro - prosseguiu Jay. - Nesta mina acredito que seja McAsh, o jovem encrenqueiro. O serviço geralmente é passado de pai para filho. O bombeiro é o perito em gás de mina. Ele sabe o que fazer.

Lizzie teve vontade de sair correndo pelo túnel até o poço e subir a escada para o mundo lá fora. E teria feito isso se não fosse pela humilhação de Jay vê-la em pânico. Para fugir daquele teste insanamente perigoso, apontou para um túnel lateral e perguntou:

- O que há ali?

Jay segurou sua mão de novo.

- Vamos lá ver.

Havia um estranho silêncio em toda a mina, pensou Lizzie, enquanto caminhavam. Ninguém falava muito: alguns dos homens tinham meninos ajudando-os, mas a maioria trabalhava sozinha, e os carregadores ainda não tinham chegado. O barulho das picaretas furando o veio e o ruído surdo e prolongado do carvão desmoronando era abafado pelas paredes e pela grossa camada de pSeira no piso. De vez em quando passavam por uma porta que era fechada atrás deles por um menino pequeno: as portas controlavam a circulação de ar nos túneis, explicou Jay.

Os dois se viram em uma seção deserta. Jay parou.

- Esta parte parece estar esgotada - disse ele, balançando a lanterna em arco. A luz muito fraca refletiu-se nos olhinhos de ratos no limite do círculo. Sem dúvida que viviam das sobras da comida dos mineiros.

Lizzie notou que o rosto de Jay estava sujo de preto, como o dos mineiros: o pó de carvão se depositava por toda a parte.

Estava engraçado, e ela sorriu.

- O que é? - perguntou ele.

- Você está com a cara preta!

Ele sorriu e tocou no rosto dela com a ponta de um dedo.

- E como é que você pensa que o seu rosto está?

Ela se deu conta de que devia estar exactamente igual a ele.

- Oh, não! - exclamou, com uma risada.

- Mas assim mesmo você está linda - disse ele, e beijou-a.

Ela se surpreendeu, mas não esquivou-se: gostou do beijo.

Os lábios dele eram firmes e secos e Lizzie sentiu uma ligeira aspereza da pele sobre seu lábio superior, onde Jay se barbeava. Quando ele recuou ela disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

- Foi para isto que me trouxe aqui?

- Você está ofendida?

Certamente que era contra as regras de uma sociedade polida que um jovem cavalheiro beijasse uma moça que não era sua noiva.

Lizzie sabia que devia estar se sentindo ofendida, mas na verdade gostara. Começou a se sentir embaraçada.

- Talvez devêssemos voltar.

- Posso continuar segurando sua mão?

- Pode.

Jay pareceu satisfeito com isso e levou-a pelo caminho de volta. Após algum tempo ela viu a pedra sobre a qual se sentara antes. Pararam ali para observar o trabalho de um mineiro.

Lizzie pensou no beijo e estremeceu de excitação.

O mineiro tinha cortado o veio segundo a largura do salão e estava enfiando cunhas na parte de cima da superfície. Como a maioria dos demais, estava seminu, e os maciços músculos das suas costas inchavam e rolavam quando ele balançava o martelo.

O carvão, não tendo nada abaixo para suportá-lo, acabaria por desmoronar por força do seu próprio peso, caindo no solo em forma de blocos. O mineiro recuou rapidamente quando a face recentemente exposta do veio de carvão rachou e deslocou-se, lançando pequenos fragmentos enquanto se ajustava às tensões alteradas.

Neste ponto os carregadores começaram a chegar, carregando velas e pás de madeira, e Lizzie sofreu o seu choque mais horripilante.

Quase todos eram mulheres e garotas.

Lizzie nunca tinha perguntado o que as mulheres e filhas dos mineiros faziam do seu tempo livre. Não lhe ocorrera que passavam os dias, e metade de suas noites, trabalhando debaixo da terra.

Os túneis ficaram barulhentos com sua tagarelice, e o ar esquentou rapidamente, fazendo com que Lizzie desabotoasse o casaco. Por causa do escuro, a maioria das mulheres não notou os visitantes, e sua conversa era desinibida. Bem na frente deles um homem mais idoso esbarrou numa mulher que parecia grávida.

- Sai da merda do caminho, Sally - disse ele, asperamente.

- Sai da merda do caminho você, seu vergalho cego - replicou ela. Outra mulher disse:

- O vergalho não é cego! Tem um olho! - E todas riram grosseiramente.

Lizzie estava atónita. Em seu mundo as mulheres nunca diziam "merda", e quanto a "vergalho", só podia adivinhar o que era. Ficou assombrada também ao ver que aquelas mulheres eram capazes de rir de alguma coisa, tendo saído da cama às duas horas da manhã para trabalhar quinze horas debaixo da terra.

Ela se sentiu estranha. Tudo ali era físico e sensorial: a escuridão, o fato de estar de mãos dadas com Jay, os mineiros de troncos nus escavando carvão, o beijo de Jay, a hilaridade vulgar das mulheres era irritante e ao mesmo tempo estimulante. Seu pulso batia mais rápido, a pele estava congestionada e o coração tinha disparado.

A tagarelice cessou quando as carregadoras começaram a jogar o carvão com suas pás dentro de grandes cestas.

- Por que elas trabalham aqui? - perguntou Lizzie, incrédula.

- O mineiro recebe pelo peso do carvão que consegue mandar para a boca do poço - respondeu Jay. - Se ele tiver que pagar a um carregador, o dinheiro sairá da família. Por isso, faz com que sua mulher e filhos o ajudem e fica com o dinheiro todo.

As grandes cestas eram enchidas rapidamente. Lizzie observou quando duas mulheres pegaram uma cesta e a colocaram sobre as costas inclinadas de uma terceira. Que grunhiu quando sentiu o peso. A cesta foi presa por uma tira de couro em torno da sua testa, e depois ela foi seguindo vagarosamente pelo túnel completamente vergada. Lizzie perguntou-se como seria possível subir mais de sessenta metros com aquilo nas costas.

- A cesta é tão pesada quanto parece? - indagou.

Um dos mineiros ouviu sua pergunta.

- Nós chamamos de cesto - disse ele. - Transporta setenta e cinco quilos de carvão. Gostaria de sentir o peso, jovem senhor?

Jay respondeu, antes que Lizzie pudesse falar.

- Certamente que não - disse, em tom protetor.

O homem persistiu.

- Ou talvez meio cesto, como esta pequena está carregando.

Aproximava-se deles uma menina de uns dez ou doze anos, usando um vestido de l sem forma e um lenço na cabeça. Estava descalça, e carregava nas costas um cesto cheio pela metade de carvão.

Lizzie viu que Jay abria a boca para responder, mas o interrompeu.

- Sim - disse ela. - Deixe-me sentir o peso.

O mineiro deteve a menina e uma das mulheres levantou o cesto. A menina nada disse, mas pareceu satisfeita em poder descansar, respirando forte.

- Abaixe-se, patrão - disse o mineiro. Lizzie obedeceu. A mulher jogou o cesto nas costas de Lizzìe.

Embora estivesse preparada, o peso era muito maior do que previra, e ela não conseguiu suportá-lo nem por um segundo.

Suas pernas cederam e ela caiu no chão. O mineiro, aparentemente esperando por aquilo, amparou-a e ela sentiu o peso sendo retirado de sua costas quando a mulher removeu o cesto. Eles sabiam o que iria acontecer, constatou Lizzie, desabando nos braços do mineiro.

As mulheres caíram na risada com a vergonha do que imaginavam que fosse um jovem cavalheiro. O mineiro pegou Lizzie na hora em que ela caía para a frente e sustentou-a facilmente com seu forte antebraço. Uma mão calosa tão dura quanto o casco de um cavalo esmagou seu seio através da camisa. Ela ouviu o homem dar um grunhido de espanto. A mão apertou de novo, como que para certificar-se; mas seus seios eram grandes - embaraçosamente grandes, como muito frequentemente pensava - e um instante depois a mão se afastava. O homem ergueu-a, colocando-a na vertical. Segurou-a pelos ombros e seus olhos atónitos fixaram-se no rosto de Lizzie escurecido pelo carvão.

- Srta. Hallim! - murmurou ele.

Ela percebeu que o mineiro era Malachi McAsh.

Os dois se olharam por um momento de fascinação, enquanto as risadas das mulheres enchiam seus ouvidos. Lizzie descobriu que aquela súbita intimidade era profundamente excitante, após tudo o que houvera antes, e podia asseverar que com ele acontecia a mesma coisa. Por um segundo sentiu-se mais próxima dele do que de Jay, mesmo que este a tivesse beijado e segurado sua mão.

Outra voz então perfurou o silêncio, e uma mulher disse:

- Mack, olha só para isto!

Uma mulher de rosto preto de carvão segurava uma vela junto do teto. McAshãolhou para ela, olhou de novo para Lizzie, e depois, parecendo ressentir-se por deixar algo inacabado, soltou Lizzie e foi ter com a outra mulher.

Ele examinou a chama da vela.

- Você tem razão, Esther - disse. Virando-se de costas, McAsh dirigiu-se aos outros, ignorando Lizzie e Jay: - Há um pouco de grisu.

Lizzie teve ímpetos de virar-se e sair correndo, mas McAsh parecia calmo.

- Não é o bastante para soar o alarme, pelo menos por ora - acrescentou. - Vamos examinar em outros lugares para ver por quanto se estende.

Lizzie achou inacreditável sua serenidade. Que espécie de gente eram aqueles mineiros? Embora suas vidas fossem brutalmente árduas, seu espírito parecia inquebrantável Por comparação, a vida dela pareceu-lhe mimada e sem propósito.

Jay segurou o braço de Lizzie.

- Acho que já vimos o bastante, não acha? - murmurou.

Lizzie não discutiu. Sua curiosidade fora satisfeita há muito tempo. As costas doíam de estarem constantemente curvadas.

Estava cansada, suja, amedrontada e queria subir à superfície e sentir o vento no seu rosto.

Apressaram-se ao longo do túnel na direcção do poço. A mina estava cheia de gente agora, com carregadoras na frente deles e também atrás. As mulheres levantavam as saias acima dos joelhos, para terem liberdade de movimentos, e carregavam as velas nos dentes. Deslocavam-se lentamente sob seus fardos enormes.

Lizzie viu um homem urinando dentro da vala de drenagem na frente das mulheres e garotas. Será que não conseguia arranjar um lugar reservado para fazer aquilo? pensou, percebendo logo que ali embaixo não havia nada que fosse reservado.

Atingiram o poço e começaram a subir a escada. As carregadoras subiam de quatro, como crianças pequenas: era mais adequado para carregar os pesados cestos. Não havia mais tagarelices ou brincadeiras. Mulheres e meninas arquejavam e gemiam sob o tremendo peso que levavam. Após algum tempo Lizzie teve que descansar, mas as carregadoras nunca paravam, e se sentiu humilhada e doente de culpa ao ver meninas pequenas passando por ela com suas cargas, algumas chorando de dor e exaustão.

De vez em quando uma criança seguia mais devagar ou parava por um momento, só para ser apressada por um xingamento ou um tapa brutal da mãe. Lizzie teve vontade de consolá-las. Todas as emoções da noite somaram-se e se transformaram em raiva.

- Juro - disse, com veemência - que jamais permitirei que seja extraído carvão de minha terra, enquanto eu viver.

Antes que Jay pudesse responder qualquer coisa, um sino começou a tocar.

- O alarme - disse Jay. - Devem ter encontrado mais grisu.

Lizzie gemeu e pôs-se de pé. As barrigas das pernas doíam como se tivessem espetado facas nelas. Nunca mais, pensou.

- Eu carrego você - disse Jay, e sem mais cerimónia levantou-a, ajeitou-a em cima do ombro e começou a subir a escada.

O grisu espalhou-se com velocidade aterradora.

A princípio o tom azul fora visível apenas quando a vela estava no nível do teto, mas poucos minutos depois apareceu uns trinta centímetros abaixo, e Mack teve de parar com os testes com medo de incendiar o gás antes de a mina ser evacuada.

Ele respirava aos arrancos, em arquejos curtos, apavorados.

Tentou acalmar-se e pensar claramente.

O normal era que o gás se espalhasse gradualmente, mas agora fora diferente. Alguma coisa devia ter acontecido. O mais provável é que tivesse se acumulado em uma área lacrada, e que uma parede velha tivesse rachado, permitindo que o gás vazasse rapidamente para o interior dos túneis ocupados.

Uma pequena quantidade queimaria em segurança: um volume moderado arderia instantaneamente, queimando quem estivesse perto; e uma grande quantidade explodiria, matando todo mundo e destruindo os túneis.

Ele respirou fundo. Sua primeira prioridade era tirar todo mundo da mina o mais depressa possível. Acionou a sineta vigorosamente enquanto contava até doze. Quando terminou, mineiros e carregadoras deslocavam-se velozmente ao longo do túnel na direcção do poço, as mães insistindo com as crianças para que andassem mais depressa.

Enquanto todos fugiam, as suas duas carregadoras ficavam: a irmã, Esther, calma e eficiente, e sua prima Annie, forte e rápida, mas também impulsiva e desajeitada. Usando suas pás, as duas mulheres começaram a cavar freneticamente uma vala rasa, do comprimento e da altura de Mack, no chão do túnel. Enquanto isso, Mack pegava um fardo embrulhado em oleado que estava pendurado no teto do seu salão e corria para a boca do túnel. Depois que seus pais morreram tinha havido comentários entre os homens quanto a se Mack teria idade suficiente para desempenhar o papel de bombeiro que fora de seu pai. À parte a responsabilidade da função, o bombeiro era considerado um líder na comunidade. Na verdade, o próprio Mack compartilhara suas dúvidas. Mas ninguém mais queria ser bombeiro - o cargo era não-remunerado e perigoso. Quando lidou eficientemente com a primeira crise, cessaram os comentários. Agora sentia orgulho de que os mais velhos confiassem nele, mas seu orgulho também o forçava a demonstrar calma e confiança quando estava sentindo medo.

Ele atingiu a boca do túnel Os últimos extraviados estavam subindo a escada. Agora Mack tinha que se livrar do gás.

Queimá-lo era a única maneira de fazê-lo. Tinha que pôr fogo no gás.

Era uma terrível má sorte que aquilo fosse acontecer logo agora. Era o dia do seu aniversário: ele ia embora. Desejou que tivesse mandado a cautela ao espaço e abandonado o vale na noite de domingo. Tinha dito a si próprio que uma espera de um ou dois dias faria os Jamisson pensarem que ele ia permanecer, induzindo-os a uma falsa sensação de segurança. Doía-lhe o coração constatar que em suas últimas horas como mineiro tinha que arriscar a vida para salvar a mina que estava prestes a deixar para sempre.

Se o grisu não fosse queimado, a mina fechava. E o fechamento de uma mina em uma aldeia de mineiros era como uma safra perdida para uma comunidade de agricultores: as pessoas morriam de fome. Mack jamais se esqueceria da última vez em que a mina fechara, quatro invernos atrás. Durante as angustiantes semanas que se seguiram, os mais velhos e os mais moços dos moradores da aldeia tinham morrido - inclusive seu pai e sua mãe. No dia seguinte ao da morte da mãe, Mack desencavara um ninho de coelhos que hibernavam e quebrara seus pescoços enquanto eles ainda estavam tontos; fora esta carne que salvara ele e Esther.

Ele chegou ao deque e rasgou o oleado que envolvia o seu embrulho. Dentro havia uma grande tocha feita de galhos secos e trapos, um novelo de barbante e uma versão maior do castiçal hemisférico que os mineiros usavam, fixado numa base de madeira reta para não tombar. Mack prendeu a tocha firmemente no castiçal amarrou o barbante à base, e acendeu a tocha com a vela.

Ela pegou fogo imediatamente. Ali queimaria em segurança, porque o grisu, mais leve do que o ar, não acumulava no fundo do poço. Mas sua próxima tarefa era levar a tocha em chamas para dentro do túnel. Ele levou mais um tempo para mergulhar na água que a drenagem lançava no fundo do poço, encharcando as roupas e o cabelo na água gelada; a fim de ter uma protecção extra contra queimaduras. Em seguida correu de volta ao longo do túnel desenrolando a bola de barbante, ao mesmo tempo em que examinava o chão, removendo pedras grandes e outros objectos que pudessem obstruir o movimento da tocha em chamas que ia ser arrastada para dentro do túnel. Quando alcançou Esther e Annie, viu, graças à luz de uma vela no chão, que tudo estava pronto. A vala estava cavada.

Esther mergulhou um cobertor dentro da vala de drenagem e rapidamente o passou em torno de Mack. Tremendo de frio, ele deitou-se na vala, sempre segurando a ponta do barbante. Annie ajoelhou-se ao lado dele e, de certa forma para sua surpresa, beijou-o em cheio na boca. Aí cobriu a vala com uma tábua pesada, fechando-o lá dentro.

Elas jogaram água na tábua, em mais uma tentativa para protegê-lo das chamas que estava prestes a atear. E finalmente, uma das duas bateu três vezes, sinal de que estavam indo.

Ele contou até cem, a fim de dar-lhes tempo de saírem do túnel. Em seguida, com o coração cheio de medo, começou a puxar o barbante, arrastando a tocha em chamas para dentro da mina, na direcção do lugar onde se encontrava, em um túnel cheio pela metade de gás explosivo.

Jay carregou Lizzie até o topo da escadaria e a arriou na lama gelada da boca da mina.

- Você está bem? - perguntou ele.

- Estou tão contente por ver-me de novo acima do solo - disse ela, com gratidão - que não sei como agradecer-lhe por ter me carregado. Você deve estar exausto.

- Você pesa bem menos de que um cesto cheio de carvão - disse ele, com um sorriso.

Jay falou como se o peso dela fosse nada, mas deu a impressão de estar com as pernas pouco firmes quando se afastaram do poço.

Mas não vacilara uma só vez na subida.

Ainda faltavam algumas horas para o raiar do dia e começara a nevar, não em flocos flutuando gentilmente, mas em bolinhas geladas que caíam com força e machucavam os olhos de Lizzie.

Quando o último dos mineiros carregadores saiu do poço, ela notou a jovem cujo filho havia sido batizado no domingo - Jen, era o nome dela. Embora a criança tivesse apenas uma semana de vida, a pobre mulher carregava um cesto inteiro. Certamente que deveria ter tirado uma licença para descansar depois de dar à luz? Ela esvaziou o cesto no monte e entregou ao conferente um marcador de madeira: Lizzie imaginou que os marcadores fossem usados para calcular os salários no fim da semana. Talvez Jen estivesse muito necessitada de dinheiro para poder tirar licença.

Lizzie continuou a observar porque Jen parecia aflita. Com a vela erguida acima da cabeça, ela disparou no meio da multidão de setenta ou oitenta mineiros, por entre a neve que caía, gritando:

- Wullie! Wullie! - parecia estar procurando uma criança.

Ela encontrou o marido e teve uma conversa rápida e assustada com ele. Aí gritou "Não!" e correu para a boca da mina e começou a descer a escada.

O marido chegou na orla do poço, voltou e olhou de novo para a multidão, visivelmente angustiado e perplexo. Lizzie perguntou a ele:

- O que é que há?

Ele respondeu, com a voz trémula.

- Não conseguimos encontrar o nosso garoto, e ela acha que ele está lá embaixo.

- Oh, não! - Lizzie deu uma olhada na beira da boca da mina. Pôde ver uma espécie de tocha queimando no fundo do poço.

Mas enquanto olhava, a chama deslocou-se e desapareceu dentro do túnel Mack tinha feito aquilo em três ocasiões anteriores, mas desta vez era muito mais assustador. Antes a concentração do grisu fora muito mais baixa, um lento exsudar, e não uma repentina concentração. Seu pai tivera que enfrentar grandes vazamentos de gás, claro - e o corpo dele, quando se lavava na frente do fogo nas noites de sábado, era coberto por marcas de antigas queimaduras.

Mack sentiu um calafrio dentro do cobertor encharcado de água gelada. Enquanto enrolava o barbante, puxando a tocha acesa para mais perto dele e do gás, tentou controlar o medo pensando em Annie. Eles tinham sido criados juntos e sempre gostaram um do outro. Annie tinha uma alma impetuosa e um corpo musculoso.

Nunca o beijara em público antes, mas o fizera muitas vezes secretamente. Tinham explorado os corpos um do outro e se ensinado um ao outro como dar prazer. Haviam tentado todo o tipo de coisas juntos, detendo-se apenas ante o que Annie chamava de "fazer criança". E mesmo assim quase tinham feito isso...

Não adiantou: continuava a se sentir aterrorizado. Para acalmar-se, tentou pensar, de modo distanciado, como o gás se movia e se concentrava. Sua vaga ficava num ponto baixo do túnel de modo que a concentração ali devia ser menor; não havia, contudo, um modo preciso para calcular isso até que pegasse fogo. Ele tinha medo da dor, e sabia que as queimaduras eram um tormento. Não tinha realmente medo de morrer. Não pensava muito em religião, mas acreditava que Deus devia ser misericordioso. Não queria, contudo, morrer agora: não tinha feito nada, visto nada, não tinha estado em parte alguma. Até aqui passara toda a sua vida como escravo. Se sobreviver a esta noite, prometeu a si próprio, deixarei este vale hoje. Beijarei Annie, direi adeus a Esther, desafiarei os Jamisson e irei embora daqui, juro por Deus.

A quantidade de barbante que tinha nas mãos lhe dizia que a tocha estava agora a meio caminho. O grisu podia queimar a qualquer momento. Podia ser, contudo, que não chegasse a pegar fogo; às vezes, seu pai lhe dissera, o gás parecia desaparecer, ninguém sabia onde.

Sentiu uma ligeira resistência no barbante, e soube que a tocha estava se atritando na parede no ponto onde o túnel fazia uma curva. Se pusesse a cabeça de fora poderia ver isso.

Certamente que o gás tinha que explodir agora, pensou.

Aí ouviu uma voz.

Ficou tão chocado a princípio que imaginou estar tendo uma experiência sobrenatural um encontro com um fantasma ou um demónio. Mas logo viu que não era nem uma coisa nem outra; estava ouvindo a voz de uma criança pequena aterrorizada, que chorava e dizia:

- Onde está todo o mundo?

O coração de Mack parou.

Ele soube prontamente o que acontecera. Quando era pequeno e trabalhava na mina, ele tinha caído no sono com frequência durante os dias de quinze horas. Com esta criança acontecera o mesmo, e ela continuara dormindo durante o alarme. Aí acordara, vira que a mina estava deserta e entrara em pânico.

Mack só precisou de uma fracção de segundo para saber o que tinha de fazer.

Ele empurrou a tábua para um lado e saltou fora da vala. A cena foi iluminada pela tocha ardente e ele pôde ver o menino saindo de um túnel secundário, esfregando os olhos e se lamuriando; era Wullie, o filho de Jen, a prima de Mack.

- Tio Mack! - disse ele, alegremente.

Mack correu para o garoto, retirando o cobertor molhado que o envolvia. Não havia espaço para os dois na vala muito rasa; teriam que tentar alcançar o poço antes que o gás explodisse.

Mack embrulhou o garoto no cobertor, dizendo:

- É grisu, Wullie, temos que sair daqui! - Depois pegou-o, colocou-o debaixo de um braço e continuou correndo.

Ao se aproximar da tocha, desejou que ela não incendiasse o gás, e ouviu sua própria voz gritando:

- Ainda não! Ainda não! - e passaram por ela. O menino era leve, mas era difícil correr abaixado, e o piso dificultava mais ainda: lamacento em alguns trechos, grosso de pó de carvão em outros, e irregular em toda a parte, com afloramentos de rocha para derrubar os mais apressados. Mack continuou em frente assim mesmo, tropeçando às vezes, mas conseguindo conservar-se de pé, atento para a explosão que poderia ser o último ruído que ouviria.

Quando fez a curva do túnel a chama da tocha tinha diminuído a quase nada. Continuou correndo no escuro, mas em segundos esbarrou na parede e caiu de cabeça, largando Wullie.

Praguejou e levantou-se, com dificuldade.

O menino começou a chorar. Mack localizou-o pelo som e pegou-o de novo. Foi obrigado a seguir mais devagar, apalpando a parede com a mão livre, amaldiçoando a escuridão. Aí então, misericordiosamente, a chama de uma vela surgiu mais à frente, na entrada do túnel e Mack ouviu a voz de Jen chamando:

- Wullie! Wullie!

- Estou com ele aqui, Jen! - gritou Mack, disparando a correr. - Vá para a escada! - Ela ignorou sua instrução e correu na direcção dele.

Mack estava apenas a uns poucos metros do fim do túnel e da segurança.

- Volte! - gritou ele, mas ela continuou avançando.

Ele esbarrou nela e lançou-a para a frente com o braço livre.

Aí o gás explodiu.

Por uma fracção de segundo ouve um sibilo que parecia perfurar os tímpanos e logo em seguida um estrondo imenso e ensurdecedor que sacudiu a terra. Uma força que pareceu um soco terrível golpeou Mack nas costas e ele foi levantado do chão, tendo que largar Wullie e Jen. Ele voou pelo ar. Sentiu uma onda de fortíssimo calor e teve certeza de que ia morrer; logo caiu de cabeça na água gelada e percebeu que tinha sido atirado dentro do tanque de drenagem no fundo do poço da mina.

E ainda estava vivo.

Rompeu a superfície e livrou-se da água nos olhos.

O deque de madeira e a escada estavam incendiando em alguns lugares e as chamas iluminavam a cena. Mack localizou Jen, chapinhando na água, meio afogada. Agarrou-a e retirou-a do poço.

Ela gritou, sufocada:

- Onde está Wullie?

O menino podia ter desmaiado, pensou Mack. Empurrou o próprio corpo de um lado para o outro do pequeno tanque, batendo na corrente de baldes, que tinha cessado de operar. Por fim encontrou um objecto flutuando que viu tratar-se de Wullie.

Empurrou o garoto para cima do deque, ao lado da mãe e subiu também, agarrando-se com as mãos e os pés.

Wullie sentou-se e cuspiu água.

- Graças a Deus - soluçou Jen. - Ele está vivo.

Mack olhou dentro do túnel. Filetes esparsos de gás queimavam esporadicamente, lembrando fogos-fátuos.

- Agora toca a subir a escada - disse ele. - Pode haver uma explosão secundária.

Ele puxou Jen e Wullie, pondo-os de pé e empurrou-os na frente. Jen levantou Wullie e o colocou sobre o ombro: seu peso não era nada para uma mulher capaz de carregar um cesto de setenta e cinco quilos de carvão naquela escadaria vinte vezes num turno de quinze horas de trabalho.

Mack hesitou, olhando os pequenos incêndios junto aos primeiros degraus. Se toda a escada queimasse, a mina poderia ficar fora de operação algumas semanas, enquanto se fazia o conserto.

Ele gastou mais alguns segundos para jogar água do tanque em cima das labaredas até apagá-las. Em seguida subiu atrás de Jen.

Quando chegou em cima sentia-se exausto, ferido e atordoado. Foi imediatamente cercado por uma multidão que apertou sua mão, deu tapas nas suas costas e se congratulou com ele. A multidão abriu caminho para Jay Jamisson e seu companheiro, a quem Mack reconheceu ser Lizzie Hallim.

- Muito bem, McAsh - disse Jay. - Minha família aprecia sua coragem.

Seu calhorda metido a besta, pensou Mack.

Lizzie perguntou:

- Não há realmente outro jeito para se combater o grisu?

- Não - respondeu Jay.

- Claro que há - contrapôs Mack, arquejante.

- É mesmo? - quis saber ela. - Qual?

Mack recuperou o fôlego.

- Você constrói túneis de ventilação, que permitem que o gás escape antes que chegue a acumular - ele respirou fundo mais uma vez. - Isto já foi dito aos Jamisson muitas e muitas vezes.

Houve um murmúrio de aprovação dos outros mineiros reunidos em torno deles.

Lizzie virou-se para Jay.

- Então por que vocês não constroem os túneis?

- Você não entende de negócios ... por que deveria? - disse Jay. - Nenhum homem de negócios pode pagar um sistema dispendioso quando um mais barato resulta na mesma coisa. Os rivais dele seriam capazes de pedir preços muito menores. É uma questão de economia política.

- Pode dar o nome bonitinho que quiser - contrapôs Mack, ofegante. - Gente comum chama de ganância nojenta.

Um ou dois dos mineiros gritaram sua aprovação:

- É isso mesmo!

- Agora, McAsh - advertiu Jay. - Não estrague tudo tentando novamente ir além da sua posição. Vai se meter em uma boa encrenca.

- Não estou em encrenca coisa nenhuma - disse Mack. Hoje é o dia do meu vigésimo segundo aniversário. - Ele não tencionara dizer aquilo, mas agora não podia mais parar. - Não trabalhei aqui um ano e um dia, integralmente, e não vou trabalhar.

A multidão ficou subitamente em silêncio. Mack foi tomado por uma estimulante sensação de liberdade.

- Vou me embora, Sr. Jamisson - disse ele. - Demito-me.

- Adeus.

Ele deu as costas para Jay e, em total silêncio, afastou-se.

Quando Jay e Lizzie chegaram no castelo, oito ou dez criados já estavam em acção, acendendo lareiras e varrendo o chão à luz de velas. Lizzie, preta de carvão e quase desmaiando de tão cansada, agradeceu a Jay com um sussurro e subiu cambaleando a escada.

Jay mandou que levassem uma tina com água quente para o seu quarto e tomou um banho, tirando o pó de carvão grudado na pele com uma pedra-pomes.

Nas últimas quarenta e oito horas eventos importantes tinham acontecido em sua vida: o pai lhe dera um património ridículo, a mãe amaldiçoara o pai e ele tentara matar o irmão - mas nenhuma dessas coisas ocupava sua mente. Deitado ali na tina, pensava em Lizzie.

Seu rosto travesso apareceu diante dele no vapor que se desprendia da água, sorrindo maliciosamente, os olhos fazendo rugas nos cantos, zombando dele, tentando-o, desafiando-o. Relembrou a sensação de tê-la nos braços ao carregá-la na escada do poço da mina: era tão delicada e leve, comprimira o corpinho dela de encontro ao seu enquanto galgava os degraus. Perguntou-se se estaria pensando nele. Ela devia ter pedido água quente também: dificilmente poderia ir para a cama suja como estava. Imaginou-a nua diante da lareira do quarto, ensaboando o corpo. Quisera estar em sua companhia, tirar a esponja da mão dela e gentilmente tirar o carvão dos seus seios. O pensamento o excitou e ele pulou fora da tina e secou-se esfregando o corpo com uma toalha áspera.

Não tinha sono. Queria conversar com alguém sobre a aventura daquela noite, mas Lizzie provavelmente dormiria horas a fio.

Pensou em sua mãe. Podia confiar nela.

Às vezes o obrigava a fazer coisas que contrariavam sua inclinação, mas estava sempre do seu lado.

Barbeou-se, vestiu roupas limpas e foi até o quarto dela.

Como esperava, Alicia estava acordada, tomando chocolate na sua penteadeira enquanto a criada a penteava. Sorriu para ele. Jay beijou-a e deixou-se cair numa cadeira. Ela era bonita, mesmo de manhã cedo, mas havia aço em sua alma.

Alicia dispensou a criada.

- Por que está acordado tão cedo? - perguntou ao filho.

- Não me deitei. Desci na mina.

- Com Lizzie Hallim?

Ela era tão esperta, pensou ele, orgulhoso. Sempre sabia dos seus desejos. Mas não se importava, pois nunca o culpava.

- Como adivinhou?

- Não foi difícil. Ela estava louca para ir, e é o tipo da garota que não aceita um "não" como resposta.

- Escolhemos um mau dia para descer lá. Houve uma explosão.

- Meu Deus do céu, você está bem?

- Sim...

- Vou mandar buscar o Dr. Stevenson...

- Mãe, pare de se preocupar! Eu estava do lado de fora quando o gás explodiu. Lizzie também. Só estou um pouco fraco dos joelhos de carregá-la o tempo todo na subida do poço.

A mãe acalmou-se.

- O que foi que Lizzie achou?

- Jurou que nunca deixará que escavem uma mina na propriedade dos Hallim.

Alicia riu.

- E o seu pai está louco pelo carvão dela. Bem, estou ansiosa por assistir à batalha. Quando Robert for o marido dela, terá o poder de ir contra seus desejos... em teoria. Veremos. Mas como você pensa que a corte está progredindo?

- Flertar não é o ponto forte de Robert, para dizer o mínimo - disse Jay, desdenhosamente.

- Mas é o seu, não é? - contrapôs ela, indulgentemente.

Jay deu de ombros.

- Mesmo desajeitado, ele está fazendo o melhor que pode.

- Talvez ela acabe não o desposando.

- Acho que vai ter que se casar com ele. - A mãe lançou-lhe um olhar astuto.

- Você sabe alguma coisa que eu não sei?

- Lady Hallim está tendo problema para renovar suas hipotecas. O pai providenciou isto.

- É mesmo? Como ele é ardiloso.

Jay suspirou.

- Ela é uma garota maravilhosa. Será um desperdício casar com Robert.

A mãe pôs uma das mãos sobre seu joelho.

- Jay, minha doçura, ela ainda não é de Robert.

- Suponho que ainda possa se casar com outro.

- Ela pode se casar com você.

- Meu Deus do céu, mãe! - Embora ele tivesse beijado Lizzie, não tinha ido tão longe a ponto de pensar em casamento.

- Você a ama, posso afirmar isto.

- Amo? É isso que é amor?

- Claro. Seus olhos brilham à menção do nome dela, e quando Lizzie não se encontra na sala, você não tem olhos para mais ninguém.

Ela descrevera exactamente os sentimentos de Jay. Ele não tinha segredos para sua mãe.

- Mas casar com ela?

- Se está apaixonado por ela, peça sua mão! Você seria o senhor de High Glen.

- O que seria bem feito para Robert - disse Jay com um sorriso. Seu coração tinha disparado com a idéia de ter Lizzie como esposa, mas tentou se concentrar no lado prático. - Sou pobre, não tenho um tostão.

- Você é pobre agora. Mas seria capaz de gerir a propriedade melhor do que Lady Hallim. Ela não é uma mulher de negócios. Aquilo é muito grande, High Glen deve ter uns dezasseis quilómetros de extensão, e ela tem também Craigie e Crook Glen. Você teria campos para pastagem, poderia vender carne de veado, construir um moinho d'água... Você poderia fazer com que aquilo produzisse uma renda decente, mesmo sem extrair o carvão.

- E o que me diz das hipotecas?

- Você é um devedor muito mais atraente do que ela... é jovem e vigoroso e vem de uma família rica. Seria fácil para você renovar os empréstimos. E depois, com o tempo...

- O quê?

- Bem, Lizzie é uma garota impulsiva. Hoje jura que nunca permitirá que extraiam carvão da propriedade dos Hallim. Amanhã, sabe Deus, pode decidir que os veados têm sentimentos e proibir a caça. Na semana seguinte pode ser que esqueça ambas as proibições. Se vier a consentir na extracção do carvão, você será capaz de pagar todas as suas dívidas.

Jay fez uma careta.

- Não fico feliz com a perspectiva de ir contra a vontade de Lizzie em assuntos como este. - Ele estava pensando também que queria ser um plantador de açúcar em Barbados e não o proprietário de uma mina de carvão na Escócia. Mas queria Lizzie também.

Com desconcertante rapidez, a mãe mudou de assunto.

- O que aconteceu ontem, quando vocês estavam caçando?

Jay foi tomado de surpresa e não conseguiu sair-se com uma mentira fluente e tranquila. Ficou vermelho, gaguejou e finalmente disse:

- Tive outra briga com o pai.

- Isto eu sei - disse ela. - Podia ver pelas caras de vocês quando chegaram. Mas não foi só uma briga. Você fez qualquer coisa que o chocou. O que foi?

Jay nunca tinha sido capaz de enganá-la.

- Tentei atirar em Robert - confessou, angustiado.

- Oh, Jay, que coisa horrível. - Ele abaixou a cabeça. O pior de tudo é que falhara. Se tivesse matado o irmão, a culpa teria sido esmagadora, mas teria havido também uma certa sensação selvagem de triunfo. Do jeito como tinham sido as coisas, só lhe cabia a culpa.

A mãe pôs-se de pé do lado da cadeira dele e puxou a cabeça do filho de encontro ao seio.

- Meu pobre filhinho - disse. - Não havia necessidade disso. Nós encontraremos outra maneira, não se preocupe - e balançou para trás e para a frente, acariciando seu cabelo e dizendo: - Pronto, pronto.

- Como você foi capaz de fazer uma coisa dessas? - lastimou-se Lady Hallim enquanto esfregava as costas de Lizzie.

- Eu tinha que ver eu mesma - replicou Lizzie. - Mais de leve!

- Tenho que esfregar com força, senão o pó de carvão não sai.

- Mack McAsh me irritou quando disse que eu não sabia do que estava falando - continuou Lizzie.

- E por que deveria saber? - disse sua mãe. - O que é que uma jovem dama tem que saber a respeito de uma mina de carvão, posso perguntar?

- Odeio quando se livram de mim dizendo que as mulheres não entendem de política, ou agricultura, ou mineração, ou comércio. Assim eles podem dizer toda espécie de tolice.

Lady Hallim resmungou.

- Espero que Robert não se importe por você ser tão masculina.

- Ele terá que me aceitar do jeito que sou, se quiser.

Sua mãe deu um suspiro exasperado.

- Minha querida, assim não vai. Você tem que lhe dar mais encorajamento. Claro que uma garota não quer aparentar excesso de ansiedade, mas você vai longe demais no outro sentido. Agora me prometa que será boazinha para Robert hoje.

- Mãe, o que é que você acha do Jay?

A mãe sorriu.

- Um rapaz encantador, sem dúvida - ela interrompeu-se subitamente e olhou firme para Lizzie. - Por que pergunta?

- Ele me beijou na mina.

- Não! - Lady Hallim pôs-se de pé e arremessou a pedrapomes no outro lado do aposento. - Não, Elizabeth, não vou tolerar isto! - Lizzie ficou surpresa com a súbita fúria da mãe. Não vivi vinte anos na penúria para ver você crescer e se casar com um bonito pobretão!

- Ele não é pobretão...

- É sim, você viu aquela cena horrível com o pai dele. O seu património é um cavalo! Lizzie, você não pode fazer isso!

A mãe estava possuída pela raiva. Lizzie nunca a vira daquele jeito e não conseguia entender.

- Mãe, calma, por favor, sim? - suplicou. Ela levantou-se e saiu da banheira. - Passe a toalha, por favor?

Para seu assombro a mãe levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Lizzie abraçou-a e disse:

- Mãe, querida, o que é?

- Cubra-se, filha malvada - disse ela, entre soluços.

Lizzie passou um cobertor em torno do corpo molhado.

- Sente-se, mãe. - Ela a conduziu até uma cadeira.

Após algum tempo a mãe falou.

- Seu pai era exactamente como Jay, exactamente como ele - disse, e havia um ricto amargo em sua boca. - Alto, bonito, sedutor, e muito entusiasmado para beijar em lugares escuros... e fraco, tão fraco. Cedi à minha natureza inferior e o desposei contrariando o que eu mesma sabia que seria melhor fazer e muito embora soubesse que não tinha a menor força de vontade. Em menos de três anos tinha perdido minha fortuna, e um ano depois caiu do seu cavalo quando estava bêbado, quebrou sua linda cabeça e morreu.

- Oh, mamãe. - Lizzie ficou chocada com o ódio que havia na voz da sua mãe. Normalmente ela falava do pai em um tom neutro: sempre dizia a Lizzie que ele fora infeliz nos negócios, que morrera num acidente e que os advogados tinham feito uma confusão nas finanças da propriedade. Quanto a Lizzie não conseguia se lembrar dele, porque tinha três anos quando ele morrera.

- E ainda fazia pouco de mim porque eu não lhe dei um filho prosseguiu a mãe. - Um filho que teria sido como ele, infiel e irresponsável e teria despedaçado o coração de alguma garota. Mas eu sabia como evitar isso.

Lizzie ficou chocada de novo. Seria verdade que as mulheres podiam evitar a gravidez? Seria possível que sua mãe tivesse feito uma coisa dessas em desafio à vontade do marido?

A mãe segurou sua mão.

- Prometa que você não vai se casar com ele, Lizzie. Prometa!

Lizzie puxou a mão. Sentia-se desleal mas tinha que falar a verdade.

- Não posso - disse. - Eu o amo.

Quando Jay saiu do quarto da mãe, a impressão que teve foi de que seus sentimentos de culpa e vergonha tinham se dissipado, e de repente ele descobriu que estava com fome. Desceu para a sala de jantar. Seu pai e Robert estavam lá, comendo grossas fatias de presunto assado com maçãs cozidas e açúcar, falando com Harry Ratchett. Ratchett, como gerente das minas, viera relatar a explosão do grisu. O pai olhou severamente para Jay e disse:

- Soube que você desceu na mina de Heugh ontem à noite.

O apetite de Jay começou a sumir.

- Desci sim - disse ele. - Houve uma explosão. - Jay serviu-se de um copo da cerveja que havia numa jarra.

- Sei de tudo sobre a explosão - disse o pai. - Quem o acompanhava?

Jay deu um gole na cerveja.

- Lizzie Hallim - confessou.

Robert ficou vermelho.

- Maldito seja - disse. - Você sabe que o pai não queria que ela fosse levada à mina.

Jay sentiu-se estimulado a dar uma resposta desafiadora.

- Bem, pai, como você irá me punir? Vai me deserdar? Você já fez isso.

Sir George sacudiu um dedo ameaçador.

- Advirto-o para não desobedecer às minhas ordens.

- Você devia estar preocupado com McAsh, não comigo disse Jay, tentando desviar a ira do pai para outro alvo. Ele disse a todo mundo que ia embora hoje.

Robert disse:

- Maldito vagabundo desclassificado. - Não ficou claro se estava se referindo a McAsh ou a Jay.

Harry Ratchett tossiu.

- O senhor bem que podia deixar McAsh ir embora, Sir George - disse. - O homem é um bom trabalhador, mas é um encrenqueiro e seria bom nos livrarmos dele.

- Não posso - replicou o pai. - McAsh assumiu publicamente uma posição contra mim. Se sair dessa impunemente, todo jovem mineiro vai pensar que pode me deixar também.

Robert interrompeu:

- Não somos só nós. Esse advogado, Gordonson, podia escrever para todas as minas da Escócia. Se os mineiros tiverem permissão para ir embora aos vinte e um anos, toda a indústria entrará em colapso.

- Exactamente - concordou o pai. - E aí, o que a nação britânica faria para obter seu carvão? Eu digo uma coisa, se algum dia tiver Caspar Gordonson na minha frente acusado de traição, eu o enforcarei mais depressa do que você consegue dizer a palavra "inconstitucional", juro.

Robert disse:

- Na verdade é nosso dever patriótico fazer alguma coisa a respeito de McAsh.

Tinham esquecido da transgressão cometida por Jay, para alívio deste. Mantendo a conversa focalizada em McAsh, ele perguntou:

- Mas o que pode ser feito?

- Eu poderia prendê-lo - disse Sir George.

- Não - disse Robert. - Ao sair vai continuar dizendo que é livre. - Houve um silêncio de reflexão. - Ele podia ser açoitado - sugeriu Robert.

- Pode ser a solução - disse Sir George. - Por lei tenho o direito de açoitar os mineiros. - Ratchett pareceu contrafeito.

- Faz muito tempo desde que este direito foi exercido, Sir George. E quem iria brandir o açoite?

Robert perguntou, impaciente:

- Bem, então o que fazemos com encrenqueiros?

Sir George sorriu.

- Colocamos uma coleira neles - respondeu.

Mack teria preferido começar a caminhada para Edimburgo de imediato, mas sabia que seria tolice.

Mesmo que não tivesse trabalhado um turno completo estava exausto, e a explosão o deixara ligeiramente estonteado.

Precisava de tempo para pensar no que os Jamisson poderiam fazer e como poderia sobrepujá-los.

Foi para casa, tirou a roupa molhada, acendeu o fogo e meteu-se na cama. Seu mergulho no tanque de água da drenagem o deixara mais sujo que o habitual pois a água de lá era grossa de pó de carvão, mas os cobertores de sua cama eram tão pretos que um pouco mais não faria diferença. Como a maioria dos homens, ele se banhava uma vez por semana, nas noites de sábado.

Os outros mineiros tinham voltado ao trabalho após a explosão. Esther permanecera na mina, com Annie, para pegar o carvão que Mack tinha escavado e levá-lo para a superfície: não ia deixar que um trabalho tão duro fosse desperdiçado.

Enquanto caía no sono ele se perguntou por que os homens se cansavam mais rapidamente do que as mulheres. Os escavadores, todos homens, trabalhavam dez horas, da meia-noite às dez da manhã; os carregadores, cuja maioria absoluta era de mulheres, trabalhavam de duas da manhã às cinco da tarde - quinze horas.

O trabalho das mulheres era mais árduo, subindo aquela escada vezes sem conta com os imensos cestos de carvão nas costas, e no entanto elas continuavam trabalhando muito tempo depois que seus homens tinham voltado para casa cambaleando de cansaço e se atirado na cama. Às vezes as mulheres tornavam-se escavadoras, mas era raro; a maioria delas não era capaz de acionar a picareta ou o martelo com bastante força e levavam muito tempo para arrancar o carvão da superfície do veio.

Os homens sempre tiravam uma soneca quando chegavam em casa. Iam se levantar após uma hora ou mais. A maioria preparava a comida para suas mulheres e filhos. Alguns passavam a tarde bebendo na Sra. Wheighel: todos tinham muita pena das mulheres destes, pois era muito difícil para uma mulher chegar em casa, após quinze horas carregando carvão, não encontrar o fogo aceso nem comida e, ainda por cima, ver que o marido estava bêbado. A vida era dura para os mineiros, mas era mais dura ainda para suas mulheres.

Quando Mack acordou, soube que aquele era um dia importante, mas não conseguiu se lembrar por quê. Depois o motivo lhe voltou: ia deixar o vale.

Não ia conseguir ir longe se parecesse um mineiro fugido, de modo que a primeira coisa a fazer era se lavar. Aumentou o fogo e depois fez diversas viagens ao regato com o barril de água.

Aqueceu a água na lareira e trouxe a banheira de folha de flandres que ficava pendurada do lado de fora da porta dos fundos. O quartinho ficou cheio de vapor. Encheu a banheira e depois entrou nela com um pedaço de sabão e uma escova dura com a qual se esfregou.

Começou a se sentir bem. Aquela era a última vez que tirava pó de carvão da sua pele: nunca mais desceria em uma mina de novo. A escravidão tinha ficado para trás. À sua frente tinha Edimburgo, Londres, o mundo. Conheceria pessoas que nunca tinham ouvido falar da mina de Heugh. Seu destino era uma folha de papel em branco na qual poderia escrever o que bem entendesse.

Enquanto estava no banho, Annie entrou.

Ela hesitou junto da porta, parecendo perturbada e incerta.

Mack sorriu, ofereceu-lhe a escova e perguntou:

- Quer esfregar minhas costas?

Annie adiantou-se e pegou a escova, mas continuou olhando para ele com a mesma expressão infeliz.

- Vamos - disse Mack.

Ela começou a esfregar as costas dele.

- Dizem que os mineiros não devem lavar as costas - disse ela. - Dizem que enfraquece.

- Não sou mais mineiro.

Annie parou.

- Não vá, Mack - suplicou. - Não me deixe aqui.

Ele receara algo assim. Aquele beijo na boca fora um aviso.

Sentiu-se culpado. Gostava da prima e aproveitara bastante as brincadeiras que haviam tido no verão passado, rolando na urze nas cálidas tardes de domingo; mas não queria passar o resto da vida com ela, especialmente se isto significasse permanecer em Heugh.

Seria capaz de explicar isto sem crucificá-la? Havia lágrimas nos olhos de Annie, e Mack viu como ansiava para que ele prometesse que ficaria. Mas estava determinado a partir: queria ir embora mais do que já quisera qualquer outra coisa em toda a sua vida.

- Tenho que ir - disse ele. - Vou sentir sua falta, Annie, mas tenho que ir.

- Você pensa que é melhor do que o resto de nós, não pensa? - disse ela, ressentidamente. - Sua mãe tinha idéias acima da posição social dela, e você é igual. Você é bom demais para mim, é isso? Vai para Londres para se casar com uma dama fina, suponho!

A mãe dele certamente tinha idéias acima da sua posição social mas ele não estava indo para Londres a fim de se casar com uma dama. Era melhor que o resto dos mineiros? Considerava-se bom demais para Annie? Havia um grão de verdade no que ela dissera, e ele se sentiu envergonhado.

- Nós todos somos bons demais para a escravidão - disse.

Ela se ajoelhou ao lado da tina e pós a mão sobre o joelho dele, acima da água.

- Você não me ama, Mack?

Para sua vergonha, ele começou a se sentir excitado. Teve vontade de abraçá-la e fazer com que ela se sentisse bem de novo, mas endureceu o coração.

- Você é uma pessoa que eu quero muito, Annie, mas nunca disse "eu a amo", assim também como você mesma.

Annie escorregou a mão por debaixo da água e entre as pernas de Mack. Sorriu ao ver como ele estava excitado.

Ele perguntou:

- Onde está Esther?

- Brincando com o bebê de Jen. Ficará fora por algum tempo.

Annie pedira-lhe para ficar afastada, deduziu Mack: de outro modo, Esther teria corrido para casa a fim de conversar com ele sobre seus planos.

- Fique e case comigo - disse Annie, acariciando-o. A sensação foi intensa. Ele lhe ensinara como fazer aquilo no último verão e depois fizera com que ela lhe mostrasse como se satisfazia. Ao se lembrar disto, ficou mais inflamado ainda. - Poderíamos fazer tudo o que quiséssemos, o tempo todo - disse ela.

- Se me caso, fico preso aqui o resto da vida - disse Mack, sentindo, no entanto, que sua resistência estava enfraquecendo.

Annie levantou-se e tirou o vestido. Não usava nada sob o vestido: a roupa de baixo era reservada para os domingos. Seu corpo era esbelto e musculoso, com seios pequenos e chatos e uma massa de pêlos escuros no púbis. A pele dela estava toda cinzenta com o pó de carvão, igual à de Mack. Para assombro dele, pulou na tina também, ajoelhando-se com as pernas por fora das dele.

- É sua vez de me lavar - disse ela, dando-lhe o sabão.

Mack esfregou o sabão bem devagar, fazendo espuma, e depois pôs as mãos sobre os seios dela. Os bicos eram pequenos e estavam duros. Ela deixou escapar um gemido profundo e agarrou os pulsos dele e empurrou suas mãos para baixo, por cima da barriga dura e chata até o púbis. Os dedos de Mack, cheios de sabão, escorregaram entre suas coxas e ele sentiu os ásperos cachos dos seus grossos pêlos, assim como a carne firme e macia por baixo.

- Diga que fica - suplicou ela. - Vamos fazer. Quero sentir você dentro de mim.

Ele sabia que se cedesse sua sorte estava selada. Havia algo de irreal naquela cena, como num sonho.

- Não - disse, mas sua voz não passou de um sussurro.

Annie aproximou-se mais, puxando o rosto dele contra seus seios, depois abaixando-se até pousar em cima de Mack, os lábios vaginais tocando a cabeça inchada do seu pénis onde ele aflorava acima da água.

- Diga que sim - insistiu ela.

Mack gemeu e desistiu de lutar.

- Sim - disse. - Por favor. Depressa.

Houve um barulho terrível e a porta foi escancarada.

Annie gritou.

Quatro homens irromperam, enchendo o pequenino cómodo:

Robert Jamisson, Harry Ratchett e dois dos guardas dos Jamisson.

Robert empunhava uma espada e tinha um par de pistolas, enquanto que um dos guardas carregava um mosquete.

Annie saiu de cima de Mack e pulou fora da tina. Atordoado e com medo, Mack levantou-se trémulo.

O guarda armado de mosquete olhou para Annie.

- Os priminhos são bastante íntimos - disse, com um olhar malicioso. Mack o conhecia; seu nome era McAlistair. Também reconheceu o outro, um valentão chamado Tanner.

Robert deu uma risada áspera.

- É isto o que ela é... prima dele? Suponho que não exista incesto para mineiros de carvão.

O medo e a perplexidade de Mack deram lugar à fúria com a invasão da sua casa. Conteve a raiva e lutou para permanecer controlado. Encontrava-se em grave perigo e havia uma chance de que Annie sofresse também. Tinha que conservar a cabeça fria e não ceder ao ultraje. Encarou Robert.

- Sou um homem livre e não infringi nenhuma lei - disse. - O que vocês estão fazendo em minha casa?

McAlistair ainda estava olhando fixamente para o corpo de Annie, molhado e desprendendo vapor.

- Que bela visão - disse ele, com a voz grossa.

Mack virou-se para McAlistair, e, falando baixo e controladamente, disse:

- Se encostar nela, arranco sua cabeça do pescoço com as mãos.

McAlistair avaliou os ombros nus de Mack e concluiu que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Ficou branco e deu um passo atrás, muito embora estivesse armado.

Mas Tanner era maior e mais afoito. E esticou a mão e pegou o seio molhado de Annie. Mack agiu sem pensar. Um segundo depois estava fora da tina, agarrando Tanner pelo pulso. Antes que alguém pudesse se mover, ele tinha enfiado a mão de Tanner no fogo.

Tanner gritou e se contorceu, mas não pôde escapar do domínio de Mack.

- Largue-me! - gritou. - Por favor, por favor!

Mack manteve a mão do homem nos carvões ardentes e gritou:

- Corra, Annie!

Annie agarrou o vestido e saiu voando pela porta de trás.

A coronha de um mosquete chocou-se contra a parte de trás da cabeça de Mack.

O golpe o enfureceu, e com Annie de fora ele tornou-se imprudente. Soltou Tanner, agarrou McAlistair pelo casaco e deu uma cabeçada no seu rosto, esmagando-lhe o nariz. Jorrou sangue e McAlistair urrou de dor. Aí Mack girou e chutou Harry Ratchett entre as pernas com um pé descalço duro como uma pedra.

Ratchett dobrou-se em dois, gemendo.

Todas as lutas de que Mack tinha participado tinham sido no poço da mina, de modo que estava acostumado a combater em espaços confinados; mas quatro adversários era demais.

McAlistair golpeou-o de novo com a coronha do mosquete, e por um momento Mack cambaleou, meio tonto. Aí então Ratchett o pegou por detrás, prendendo-lhe os braços, e antes que pudesse se libertar, a ponta da espada de Robert Jamisson estava no seu pescoço.

Após um momento, Robert disse:

- Amarrem-no.

Atiraram-no atravessado sobre o lombo de um cavalo, cobriram sua nudez com um cobertor, depois o levaram para o castelo Jamisson e o colocaram na despensa, ainda nu e com mãos e pés amarrados. Mack ficou deitado no chão de pedra, tremendo de frio, cercado por carcaças de veado, gado e porcos. Tentou aquecer-se movimentando-se tanto quanto conseguiu, mas com as mãos e pés atados não era possível gerar muito calor. Ao cabo de algum tempo conseguiu sentar com as costas no pêlo de um couro de veado.

Por algum tempo ele cantou para conservar o ânimo - primeiro as baladas que cantavam na Sra. Wheighel nas noites de sábado, depois uns poucos hinos, e em seguida algumas velhas cançonetas rebeldes jacobitas; mas quando acabou seu repertório, sentiu-se pior do que antes.

Sua cabeça doía dos golpes de mosquete, mas o que doía mais era a facilidade com que os Jamisson o tinham pegado. Que tolo ele fora por adiar sua partida. Dera a eles tempo para agir.

Enquanto planejavam sua derrocada, ele estava apalpando os peitos da prima.

Não adiantava nada especular sobre o que teriam guardado em estoque para ele. Se não morresse congelado ali na despensa, provavelmente o mandariam para Edimburgo e o levariam a julgamento por agredir os guarda-caças. Como a maioria dos crimes, era sujeito a enforcamento.

A luz que entrava pelas frestas em torno da porta desapareceu gradualmente quando a noite caiu. Vieram buscá-lo justo quando o relógio do pátio do estábulo bateu as onze horas. Eram seis homens desta vez, e ele não tentou lutar com eles.

Davy Taggart, o ferreiro que fazia as ferramentas dos mineiros, ajustou uma argola de ferro como a de Jimmy Lee em torno do pescoço de Mack. Era a humilhação final: algo que todo mundo veria, e que significava que ele era propriedade de um outro homem. Mack passava a ser menos que um homem, era subumano; era como gado.

Desamarraram Mack e jogaram umas roupas em cima dele: um par de culotes, uma camisa de flanela andrajosa e um colete rasgado. Mack vestiu aquilo rapidamente mas continuou com frio.

Os guardas amarraram suas mãos de novo e o puseram em cima de um pónei.

Foram para a mina.

O turno da quarta-feira ia começar em poucos minutos, à meia-noite. O cavalariço estava pondo um cavalo descansado nos arreios para puxar a corrente de baldes. Mack viu logo que iam fazer com que andasse na roda.

Ele resmungou alto. Era uma tortura esmagadora, humilhante. Daria a vida por uma tigela de sopa quente e uns minutos na frente de um fogo alto. Mas seu destino era passar a noite ao ar livre. Teve vontade de cair de joelhos e implorar misericórdia; mas pensar que isto satisfaria o orgulho dos Jamisson despertou seu amor-próprio e, em vez de suplicar, urrou:

- Vocês não têm o direito de fazer isto! Não têm direito!

Os guardas riram dele.

Colocaram-no na lamacenta trilha circular ao longo da qual os cavalos da boca da mina trotavam dia e noite. Mack endireitou os ombros e levantou a cabeça, embora tivesse vontade de cair no choro. Amarraram-no então nos arreios, de frente para o cavalo, de modo que não poderia sair do caminho. Finalmente o cavalariço chicoteou o cavalo para que saísse trotando.

Mack começou a correr para trás.

Tropeçou quase que imediatamente e o cavalo parou. O cavalariço chicoteou de novo e Mack conseguiu se levantar bem a tempo. Logo começou a pegar o jeito de correr para trás. Mas exagerou na autoconfiança e escorregou na lama gelada. Desta vez o cavalo continuou avançando. Mack escorregou para um lado, girando e se contorcendo para fugir dos cascos, e foi arrastado junto com o cavalo por um segundo ou dois, até que perdeu o controle e escorregou debaixo das patas do animal O cavalo pisou no seu estômago e chutou-lhe a coxa e aí parou.

Fizeram Mack levantar e chicotearam o cavalo de novo. A patada na barriga o deixara sem fôlego, e sua perna esquerda estava fraca, mas foi forçado a correr mancando para trás.

Cerrou os dentes e tentou estabelecer um ritmo. Tinha visto outros sofrerem aquela punição - Jimmy Lee, por exemplo.

Tinham sobrevivido, embora trouxessem as marcas: Jimmy Lee tinha uma cicatriz sobre o olho esquerdo, no lugar onde o cavalo o pisara, e o ressentimento que queimava por dentro mantinha acesa a lembrança da humilhação. Mack também sobreviveria. Sua mente embotou-se com a dor, o frio e a derrota, e não pensava em nada que não fosse permanecer de pé e evitar aqueles cascos mortais.

Com o passar do tempo ele começou a sentir uma certa afinidade com o cavalo. Ambos estavam arreados e forçados a correr em círculo. Quando o cavalariço estalava o chicote, Mack andava um pouco mais depressa, e quando Mack tropeçava, o cavalo parecia reduzir o passo por um momento para que ele se recuperasse.

Ele percebeu os escavadores chegando à meia-noite para começar seu turno de trabalho. Subiram a elevação conversando e gritando, zombando uns dos outros e contando piadas como sempre; depois ficaram silenciosos quando se aproximaram da boca da mina e viram Mack. Os guardas erguiam os mosquetes ameaçadoramente sempre que um mineiro parecia disposto a parar. Mack ouviu a voz de Jimmy Lee levantar-se, indignada, e viu, com o canto do olho, três ou quatro mineiros cercarem Jimmy, pegando-o pelos braços e empurrando-o na direcção da mina para conservá-lo fora de encrenca.

Gradualmente Mack perdeu toda a noção de tempo. As carregadoras chegaram, mulheres e crianças tagarelando durante a subida da montanha e ficando em silêncio, tal como acontecera com os homens, ao passarem por Mack. Ouviu a voz de Annie gritando:

- Oh, meu Deus do céu! Eles fizeram Mack andar na roda! - Ela foi mantida afastada pelos homens de Jamisson, mas exclamou: - Esther está procurando você. Vou buscá-la.

Esther apareceu algum tempo mais tarde, e antes que os guardas pudessem impedi-la, ela parou o cavalo. Levou um frasco de leite quente adocicado aos lábios do irmão. Aquilo lhe pareceu o elixir da vida e ele engoliu freneticamente, quase se engasgando.

Conseguiu esvaziar o frasco antes que tirassem Esther dali.

A noite prosseguiu, lenta como um ano. Os guardas arriaram os mosquetes e sentaram-se em torno do fogo do cavalariço. O trabalho de mineração continuou a ser executado. As carregadoras subiam do poço da mina, esvaziavam os cestos no monte e desciam de novo na sua ronda interminável Quando o cavalariço trocava o cavalo, Mack tinha uns minutos de descanso, mas o cavalo novo trotava mais depressa.

Houve um momento em que ele percebeu que o dia raiava outra vez. Agora só podia faltar uma hora mais ou menos para os escavadores pararem de trabalhar. Mas uma hora era uma eternidade.

Um pónei subiu a colina. Com o canto do olho Mack viu o cavaleiro saltar e ficar parado, olhando fixamente para ele.

Imediatamente, Mack reconheceu Lizzie Hallim, com o mesmo casaco de pele que usara para ir à igreja. Será que viera para zombar dele?

Sentiu-se humilhado, e desejou que ela fosse embora. Mas quando olhou de novo para o seu rosto de criança, não viu zombaria. O que havia nele era compaixão, raiva e algo mais que não conseguiu interpretar.

Outro cavalo subiu a montanha e Robert saltou. Falou com Lizzie em tom baixo, mas colérico. A resposta dela foi claramente audível:

- Isto é bárbaro! - No seu sofrimento Mack sentiu-se profundamente grato. Sua indignação o confortou. Era um consolo saber que havia uma pessoa no meio da pequena nobreza que achava que seres humanos não deviam ser tratados daquele modo.

Robert replicou qualquer coisa indignadamente, mas Mack não conseguiu distinguir suas palavras. Enquanto eles discutiam, os homens começaram a sair da mina. Não voltaram, contudo, para suas casas. Ficaram parados em torno do mecanismo de levantar baldes puxado pelo cavalo, observando em silêncio. As mulheres também começaram a se reunir: quando esvaziavam os cestos não retornavam à mina, incorporando-se à multidão silenciosa.

Robert mandou que detivessem o cavalo que traccionava o mecanismo dos baldes.

Mack finalmente parou de correr. Tentou ficar de pé, orgulhosamente, suas pernas não conseguiram sustentá-lo e caiu de joelhos. O cavalariço foi desamarrá-lo, mas Robert o deteve com um gesto.

Robert falou alto o suficiente para que todos ouvissem.

- Bem, McAsh, você disse ontem que faltava um dia para configurar sua servidão. Pois agora trabalhou o dia extra que faltava. Mesmo pelas suas tolas regras você agora é propriedade de meu pai. - Em seguida ele virou-se para se dirigir à multidão.

Mas antes que pudesse falar de novo, Jimmy Lee começou a cantar.

Jimmy tinha uma cristalina voz de tenor e as notas do hino tão conhecido ressoaram no vale:

- Vejam, um homem em angústia curvado

Marcado pela perda e pela dor

O distante morro pedregoso ele galga

Carregando uma cruz

Robert ficou vermelho e gritou:

- Cale-se!

Jimmy ignorou-o e começou a segunda estrofe. Os outros juntaram-se a ele, alguns cantando as harmonias, e uma centena de vozes deram vida à melodia.

- Ele está agora cheio de dor

Nos olhos dos homens

quando virmos o brilhante amanhã

Ele se levantará de novo

Robert virou de costas, impotente. Furioso, saiu batendo os pés na lama em direcção ao seu cavalo, e deixou Lizzie sozinha, um pequeno vulto desafiador. Montou e desceu a montanha, cujo ar as emocionantes vozes dos mineiros sacudiam como uma tempestade:

- Não olhem mais com olhos de piedade

Vejam a nossa vitória

quando construirmos aquela cidade celestial

Todos os homens serão livres!

 

Jay acordou sabendo que ia propor casamento a Lizzie. Fora tão somente na véspera que a mãe pusera a idéia na sua cabeça, mas ela criara raízes depressa. Parecia-lhe natural até mesmo inevitável. Sua preocupação agora era saber se ela o aceitaria.

Ela gostava dele, pensou Jay - a maioria das garotas gostava.

Mas precisava de dinheiro e ele não tinha nada. A mãe dizia que esses problemas podiam ser resolvidos, mas Lizzie podia preferir a certeza representada por Robert. A idéia de vê-la se casando com Robert era abominável. Para seu desapontamento, descobriu que ela saíra cedo.

Sentia-se tenso, tenso demais para ficar em casa esperando que retornasse. Foi até o estábulo dar uma olhada no garanhão branco que seu pai lhe dera como presente de aniversário. O nome do cavalo era Nevasca. Jay jurara que nunca iria montá-lo, mas não pôde resistir à tentação. Conduziu Nevasca até High Glen e galopou com ele ao longo da pista de grama macia ao lado do regato. Valeu a pena ter quebrado a jura. Parecia estar montado numa águia voando pelos ares, transportado pelo vento.

O que Nevasca fazia de melhor era galopar. A passo ou a trote ele era arisco, inseguro, descontente e mal-humorado. Mas era fácil perdoar um cavalo por ser um mau trotador quando era capaz de correr como uma bala.

Ao voltar para casa Jay deixou-se levar pela lembrança de Lizzie. Ela sempre fora excepcional mesmo para uma garota: bonita, rebelde e divertida. Agora era única. Podia atirar melhor do que qualquer pessoa que Jay conhecia, vencera-o numa corrida a cavalo. Não tinha medo de descer numa mina de carvão e era capaz de disfarçar-se e tapear todo mundo em uma mesa de jantar ele nunca havia conhecido uma mulher como Lizzie.

Ela era difícil de se lidar, claro: voluntariosa e firme em suas opiniões. Mais disposta do que a maioria das mulheres a contestar o que os homens diziam. Mas Jay e todos os outros a desculpavam porque ela era tão encantadora, inclinando o rostinho petulante para cá e para lá, sorrindo e franzindo os olhos até mesmo enquanto contradizia cada palavra que você dizia.

Jay chegou no estábulo ao mesmo tempo em que seu irmão.

Robert estava de mau humor. Quando furioso, ele ficava ainda mais parecido com o pai, o rosto vermelho e arrogante. Jay perguntou:

- Que diabos há com você? - Mas Robert jogou as rédeas para o cavalariço e entrou na casa batendo os pés.

Quando Jay apeava de Nevasca, Lizzie apareceu, montada.

Também estava aborrecida, mas a raiva que lhe coloria as bochechas e aumentava o brilho dos seus olhos a tornava bela ainda.

Jay encarou-a fixamente, fascinado. Quero esta mulher, pensou; quero-a para mim. Estava pronto a pedi-la em casamento naquele exacto momento e ali mesmo, mas antes que pudesse falar, ela pulou do cavalo e disse:

- Sei que as pessoas que se comportam mal devem ser castigadas, mas não acredito em tortura, e você?

Jay não via nada demais em torturar criminosos, mas não ia lhe dizer isto, não enquanto estava naquele estado de espírito.

- Claro que não acredito - disse. - Você veio da boca da mina?

- Foi horrível. Eu disse a Robert para soltar o homem mas ele se recusou.

Então ela havia brigado com Robert. Jay ocultou seu deleite.

- Você nunca tinha visto um homem andar na roda? Não é tão raro.

- Não, nunca vi. E não sei como permaneci tão desgraçadamente ignorante a respeito da vida dos mineiros. Suponho que me protegessem da melancólica verdade porque eu era uma garota.

- Robert também parecia zangado com alguma coisa - sondou Jay.

- Todos os mineiros cantaram um hino e não quiseram se calar quando ele mandou.

Jay ficou satisfeito. Tudo indicava que Robert estava em um dos seus piores momentos. Minhas chances de sucesso estão melhorando a cada minuto, pensou ele exultante.

Um cavalariço levou o cavalo dela e os dois atravessaram o pátio para entrar no castelo. Robert estava conversando com Sir George no saguão.

- Foi um ato de total desafio - estava dizendo Robert. Seja o que for que aconteça, temos de nos assegurar de que McAsh não saia desta impunemente.

Lizzie fez um barulho inesperado e Jay viu uma chance de marcar pontos com ela.

- Acho que devíamos considerar a possibilidade de deixar McAsh ir embora - disse para o pai.

Robert disse:

- Não seja ridículo.

Jay relembrou o argumento de Harry Ratchett.

- O homem é um encrenqueiro... ficaríamos melhor sem ele.

- Ele nos desafiou abertamente - protestou Robert. - Não se pode permitir que fique impune.

- Ele não ficou impune! - declarou Lizzie. - Sofreu a mais selvagem das punições!

Sir George disse:

- Não é selvagem, Elizabeth. Você tem que compreender que eles não sentem dor como nós sentimos. - Antes que ela pudesse protestar, ele virou-se para Robert. - Mas é verdade que ele não ficou impune. Os mineiros sabem agora que não podem sair aos vinte e um anos: nós provamos o nosso argumento. Pergunto-me se não deveríamos permitir discretamente que ele desaparecesse.

Robert não se satisfez.

- Jimmy Lee é um encrenqueiro mas nós o trouxemos de volta.

- É um caso diferente - argüiu o pai. - Lee é todo coração e não tem cérebro. Nunca será um líder, não temos nada a temer dele. McAsh é feito de material de melhor qualidade.

- Eu não tenho medo de McAsh - disse Robert.

- Ele pode ser perigoso - disse o pai. - Sabe ler e escrever. É o bombeiro, o que significa que todos o admiram. E, a julgar pela cena que você me descreveu, já está a meio caminho de tornar-se um herói. Se o obrigarmos a permanecer aqui, vai criar caso o resto de sua vida miserável.

Robert bateu a cabeça relutantemente.

- Continuo achando que isto não me parece nada bom.

- Faça então com que pareça melhor - disse o pai. - Deixe um guarda na ponte. McAsh irá por cima da montanha, provavelmente: nós simplesmente não o caçaremos. Não me importo com que pensem que escapou, desde que saibam que não tinha o direito de partir.

- Muito bem - disse Robert.

Lizzie dirigiu um olhar triunfante a Jay. Por detrás das costas de Robert formulou silenciosamente com a boca as palavras: Bem feito!

- Tenho que lavar as mãos antes do jantar - disse Robert.

Ele desapareceu na direcção dos fundos da casa, parecendo ainda meio irritado.

O pai entrou no seu estúdio. Lizzie lançou os braços em torno do pescoço de Jay.

- Você conseguiu! - disse. - Você o libertou! - Ela lhe deu um beijo exuberante.

Foi escandalosamente ousado, e ele se sentiu chocado, mas logo se recuperou. Envolveu-a pela cintura, puxou-a para junto de si, inclinou-se e beijou-a de novo. Desta vez foi um beijo diferente, lento, sensual e exploratório. Jay fechou os olhos para concentrar-se no que sentia. Esqueceu que estavam no aposento mais público do castelo do seu pai, onde família e convidados, vizinhos e servos passavam constantemente. Por sorte ninguém entrou e o beijo não foi perturbado. Quando se separaram, sem fôlego, ainda estavam sozinhos.

Ansioso, Jay percebeu que aquele era o momento para pedi-la em casamento.

- Lizzie... - Ele não saberia dizer por quê, mas não conseguiu tocar no assunto.

- O quê?

- O que eu quero dizer... você não pode casar com Robert, agora.

- Posso fazer o que eu quiser - respondeu ela, imediatamente.

Claro que aquele era o modo errado de lidar com Lizzie.

Nunca lhe dizer o que pode e o que não pode fazer.

- Eu não quis dizer...

- Pode ser que Robert saiba beijar melhor do que você disse ela, com um sorriso malicioso.

Jay riu.

Lizzie encostou a cabeça no peito dele.

- Claro que eu não posso casar com ele, não agora.

- Porque...

Ela o encarou.

- Porque vou me casar com você, não vou?

Ele mal pôde crer no que acabara de ouvir.

- Bem... sim!

- Não é isto que você ia me perguntar?

- Para falar a verdade... é, sim.

- Pronto, aí está então a sua resposta. Agora pode me beijar de novo.

Sentindo-se um pouco aturdido, ele abaixou a cabeça de encontro à dela. Assim que seus lábios se encontraram, Lizzie abriu a boca, e Jay ficou chocado e deliciado ao sentir a ponta da sua língua abrir caminho hesitantemente. Aquilo o fez perguntar-se quantos outros rapazes ela teria beijado, mas não era hora de indagar. Ele reagiu do mesmo modo. Sentiu que ficava excitado, por baixo dos culotes, e ficou embaraçado, receando que ela notasse. Lizzie comprimiu o corpo de encontro ao dele, e Jay teve certeza de que sentiu sua excitação. Ela ficou imóvel por um momento, como se insegura quanto ao que fazer, e depois chocou-o de novo pressionando o corpo contra o dele, como se estivesse ansiosa por sentir sua virilidade. Jay tinha conhecido garotas experientes, nas tavernas e cafés de Londres que beijavam e se esfregavam nos homens com a maior facilidade; mas com Lizzie era diferente, como se ela estivesse fazendo aquilo pela primeira vez.

Jay não ouviu a porta abrir. De repente Robert estava berrando no seu ouvido:

- Que diabo está acontecendo aqui?

Os enamorados se separaram.

- Calma, Robert - disse Jay.

Robert estava furioso.

- O que é que você pensa que está fazendo? - indagou ele, com veemência.

- Está tudo bem, irmão - disse Jay. - Você vê, estamos noivos e vamos nos casar.

- Seu miserável! - urrou Robert, golpeando-o com um soco.

Foi um golpe violento mas dado de qualquer maneira, e Jay pôde esquivar-se com facilidade, mas Robert avançou contra ele com uma saraivada de socos. Jay não lutava com o irmão desde quando eram meninos, mas se lembrava de que Robert era forte, embora de movimentos lentos. Depois de se desviar de uma chuva de golpes, ele correu na direcção de Robert e atracou-se com ele.

Para seu assombro, Lizzie pulou nas costas de Robert, batendo na cabeça dele com o punho fechado e gritando:

- Deixe-o em paz! Deixe-o em paz!

A cena fez com que Jay risse e ele não pôde continuar brigando. Largou Robert. Robert acertou-o com um soco que o atingiu bem debaixo do olho. Jay tropeçou e caiu no chão. Com o olho são viu Robert lutando para tirar Lizzie das costas. A despeito da dor que sentia no rosto, Jay caiu na gargalhada de novo.

A mãe de Lizzie entrou na sala, seguida rapidamente por Alicia e Sir George. Após um momento de choque, Lady Hallim disse:

- Elizabeth Hallim, saia de cima desse homem imediatamente!

Jay pôs-se de pé e Lizzie desencostou-se de Robert. Os três pais estavam tão bestificados que não conseguiram falar. Com uma das mãos sobre o olho ferido, Jay fez uma reverência para a mãe de Lizzie e disse:

- Lady Hallim, tenho a honra de pedir a mão de sua filha em casamento.

- Seu maldito idiota, não terá como se sustentar - disse Sir George, alguns minutos depois.

As famílias tinham se separado para discutir a chocante novidade em particular. Lady Hallim e Lizzie subiram. Sir George, Jay e Alicia foram para o estúdio. Robert saíra batendo com os pés para ficar sozinho em algum lugar.

Jay conteve uma resposta ressentida. Lembrando do que a mãe sugerira, disse:

- Tenho certeza de que sou capaz de administrar High Glen melhor do que Lady Hallim. Tem quinhentos hectares ou mais, pode produzir o bastante para sustentar a todos nós.

- Seu estúpido, você não terá High Glen. Está hipotecada.

Jay ficou humilhado com o repúdio escarninho do pai, e sentiu o sangue subir ao rosto. Sua mãe intrometeu-se:

- Jay pode levantar novas hipotecas.

O pai pareceu espantar-se.

- Quer dizer então que você está do lado do menino nesta questão?

- Você se recusou a lhe dar alguma coisa. Quer que ele lute por tudo, da maneira como você fez. Pois bem, ele está lutando, e a primeira coisa que conseguiu foi Lizzie Hallim. Você não pode se queixar.

- Foi ele quem a conseguiu, ou você fez isso por ele? - perguntou Sir George astutamente.

- Não fui eu que a levei à mina - retrucou Alicia.

- Nem a beijou no saguão. - O tom de voz de Sir George passou a ser resignado. - Muito bem. Ambos têm mais de vinte e um anos, de modo que se querem ser idiotas, suponho que não possamos detê-los. - Uma expressão astuciosa surgiu no rosto dele. - De qualquer modo o carvão de High Glen virá para a nossa família.

- Oh, não, não virá - disse Alicia.

Tanto Jay quanto Sir George a encararam espantados. Sir George perguntou:

- O que diabo você está querendo dizer?

- Você não vai escavar minas na terra de Jay. Por que deveria?

- Não seja tola, Alicia. Há uma fortuna em carvão no subsolo de High Glen. Seria um pecado deixá-lo lá.

- Jay pode arrendar os direitos de mineração a alguma outra pessoa. Há diversas companhias ansiosas para abrir novos poços... ouvi você dizendo isso.

- Você não iria fazer negócio com meus rivais! - exclamou Sir George.

A mãe era tão forte, Jay viu-se cheio de admiração. Mas ela parecia ter esquecido as objecções de Lizzie à mineração. Ele disse:

- Mas, mãe, lembra que Lizzie...

Sua mãe lançou-lhe um olhar de advertência e o interrompeu, dizendo para o pai:

- Jay pode preferir fazer negócio com seus rivais. Depois do modo como você o insultou no seu vigésimo primeiro aniversário, o que é que ele lhe deve?

- Sou o pai dele, droga!

- Então comece a agir como pai dele. Dê-lhe os parabéns pelo noivado. Dê as boas-vindas à noiva como uma nova filha. Planeje uma festa de casamento generosa.

Ele a fitou por um momento.

- É isso que você quer?

- Não é tudo.

- Eu devia ter adivinhado. O que mais?

- O presente de casamento dele.

- O que você está querendo, Alicia?

- Barbados.

Jay quase pulou da cadeira. Não esperava aquilo. Como a mãe era astuciosa!

- Fora de questão! - trovejou Sir George.

A mãe levantou-se.

- Pense nisso - disse, quase como se para ela tanto fizesse, de um jeito ou de outro. - O açúcar é um problema, você sempre disse. Os lucros são grandes mas sempre há dificuldades: falta de chuvas, escravos que adoecem e morrem, guerra de preços dos franceses, navios perdidos no mar. Enquanto que o carvão é fácil. Você escava, retira-o do subsolo e o vende. É como encontrar dinheiro no quintal, você me disse uma vez.

Jay estava entusiasmado. Podia ser que conseguisse o que queria, afinal. Mas e Lizzie?

Seu pai disse:

- Barbados está prometido a Robert.

- Não cumpra a promessa - disse a mãe. - Deus sabe o quanto você desapontou Jay.

- A plantação de açúcar é património de Robert.

A mãe dirigiu-se para a porta e Jay a seguiu.

- Já passamos por isto antes, George, e eu conheço todas as suas respostas. Mas agora a situação é diferente. Se você quer o carvão de Jay, tem que dar a ele algo em troca. E o que ele quer é a plantação de açúcar. Se não lhe der, não terá a mina. E uma escolha bem simples e você tem um bocado de tempo para pensar.

Dito isto ela saiu.

Jay a acompanhou e, no saguão, exclamou, baixinho:

- Você esteve maravilhosa! Mas Lizzie não permitirá que minerem High Glen.

- Eu sei, eu sei - disse a mãe, impaciente. - Isto é o que ela diz agora. Pode mudar de idéia.

- E se não mudar? - quis saber Jay impacientemente.

- Atravessaremos a ponte quando chegar a hora - respondeu a mãe.

 

Lizzie desceu a escada usando uma capa de pele tão grande que a embrulhava duas vezes e arrastava no chão. Tinha que sair por algum tempo.

A casa estava cheia de tensões.

Robert e Jay se odiavam, a mãe estava furiosa com Lizzie, Sir George estava com raiva de Jay e havia hostilidade também entre Alicia e Sir George. O jantar fora incrivelmente tenso.

Quando estava atravessando o saguão, Robert surgiu das sombras. Ela parou e olhou para ele.

- Sua vagabunda - disse Robert.

Era um insulto grosseiro a uma dama, mas Lizzie não se deixava ofender facilmente por simples palavras, e de qualquer modo Robert tinha o direito de estar zangado.

- Você devia ser que nem um irmão para mim agora - disse ela, em tom conciliador.

Ele agarrou-a pelo braço, apertando com força.

- Como é que você pôde preferir aquele filho da mãe puxa saco a mim?

- Apaixonei-me por ele - disse ela. - Largue o meu braço.

Ele apertou com mais força, o rosto congestionado de fúria.

- Vou lhe dizer uma coisa - falou. - Mesmo que não consiga ter você, High Glen será minha.

- Não mesmo - disse ela. - Quando me casar, High Glen passará a ser propriedade do meu marido.

- Espere e verá.

Ele a estava machucando.

- Largue o meu braço senão eu grito - disse ela, em um tom de voz perigoso.

Ele a soltou.

- Você vai se arrepender disto pelo resto da vida - disse, afastando-se.

Lizzie saiu pela porta do castelo e puxou a capa com mais força para abrigar-se. O céu tinha ficado parcialmente claro, e a lua aparecera: ela podia ver o bastante para escolher o caminho que atravessava a entrada do castelo e descer o gramado que ia dar no rio.

Não sentia remorsos por ter desapontado Robert. Ele nunca a amara. Se a tivesse amado, estaria triste, mas não era o caso. Em vez de ter se aborrecido por perdê-la, estava furioso porque seu irmão levara a melhor sobre ele.

Assim mesmo, o encontro com Robert a abalara. Ele tinha a mesma desumana determinação do pai. Claro que não poderia tirar-lhe High Glen. Mas o que poderia fazer?

Ela o tirou da cabeça. Tinha o que queria: Jay em vez de Robert. Agora estava ansiosa por planejar o casamento e arrumar a casa. Mal podia esperar para viver com ele, e dormir na mesma cama e acordar todas as manhãs com a cabeça dele no travesseiro ao lado da sua.

Estava emocionada e apavorada. Conhecera Jay toda a sua vida, mas desde que se tornara um homem, passara apenas uns poucos dias com ele. Estava dando um salto no escuro. Mas o casamento, pensou, no fim era sempre um salto no escuro: nunca se podia realmente conhecer outra pessoa enquanto não se vivesse com ela.

A mãe ficou transtornada. Seu sonho era que Lizzie desposasse um homem rico e desse um fim aos seus anos de pobreza. Mas tinha que aceitar que Lizzie tivesse seus próprios sonhos.

Lizzie não estava preocupada com dinheiro. No fim Sir George provavelmente daria alguma coisa a Jay, mas se não desse, eles poderiam morar na casa de High Glen. Alguns proprietários de terra escoceses estavam derrubando suas florestas e arrendando a terra para criação de ovelhas: Jay e Lizzie podiam tentar isso no princípio, para conseguir algum dinheiro.

Fosse o que fosse que acontecesse, seria divertido. O que mais apreciava em Jay era o seu senso de aventura. Ele estava disposto a galopar por entre as florestas, mostrar-lhe a mina de carvão ou ir viver nas colónias.

Perguntou-se se isso ainda iria acontecer algum dia. Jay ainda tinha esperança de conseguir a propriedade em Barbados. A idéia de viajar para o exterior excitava Lizzie quase tanto quanto a perspectiva de se casar. Dizia-se que a vida nas colónias era despreocupada e sem cerimónia, sem as formalidades rígidas que ela achava tão irritantes na sociedade britânica. Imaginava-se jogando fora suas anáguas e saias-balão, cortando o cabelo curto e passando o dia inteiro em cima de um cavalo empunhando um mosquete.

Jay tinha defeitos? A mãe dizia que ele era fútil e egoísta, mas Lizzie jamais conhecera um homem que não o fosse. A princípio pensara que fosse fraco, por não enfrentar mais o irmão e o pai, mas agora achava que tinha se enganado, pois ao pedi-la em casamento, desafiara a ambos.

Lizzie chegou na margem do rio. Não era um regato nas montanhas, um fio d'água descendo o vale. Tinha trinta metros de largura e era uma torrente profunda e ligeira. O luar se refletia na superfície irregular em manchas de prata, como um mosaico esmagado.

O ar estava tão frio que doía respirar, mas a capa de pele mantinha o seu corpo aquecido. Lizzie encostou-se no tronco grosso de um velho pinheiro e ficou contemplando a água agitada.

Enquanto olhava para o rio, viu movimento na margem contrária.

Não era bem na frente de onde se encontrava, e sim um pouco mais acima. A princípio pensou que pudesse ser um cervo: em geral eles se movimentam à noite. Não parecia ser um homem, pois sua cabeça era grande demais. Depois viu que era um homem com uma trouxa na cabeça. No momento seguinte ela entendeu. Ele aproximou-se da margem do rio, o gelo estalando sob seus pés e enfiou-se dentro d'água.

A trouxa devia ser das suas roupas. Mas quem iria nadar ali no meio de uma noite de inverno? Talvez fosse McAsh, atravessando o rio a nado para não ser visto pelo guarda da ponte.

Lizzie chegou a estremecer dentro do casaco de pele, quando pensou como a água devia estar fria. Era difícil imaginar como um homem podia nadar ali e continuar vivo.

Sabia que devia ir embora. Só podia resultar em confusão, ficar ali e observar um homem nu nadar no rio. Mesmo assim sua curiosidade era demasiada para se conter, e Lizzie permaneceu imóvel vendo a cabeça dele atravessar a torrente em uma velocidade constante. A forte correnteza obrigou-o a tomar um rumo diagonal mas o ritmo de suas braçadas não se alterou: ele parecia forte. Alcançaria a margem oposta uns vinte ou trinta metros acima do ponto onde Lizzie se encontrava.

Mas quando estava a meio caminho, ele sofreu um golpe de má sorte. Lizzie viu uma sombra escura correndo na sua direcção sobre a superfície da água, e deduziu que se tratava de uma árvore caída. O nadador pareceu não vê-la até quando esta ficou sobre ele.

Um galho grosso bateu na sua cabeça e seus braços ficaram emaranhados na folhagem. Lizzie levou um susto quando ele afundou. Firmou a vista nos galhos, procurando pelo homem. Ainda não sabia se era McAsh. A árvore se aproximou mais dela mas ele não reapareceu.

- Por favor, não se afogue - murmurou. A árvore passou por onde Lizzie se encontrava, mas ainda não havia sinal dele.

Pensou em correr em busca de ajuda, mas estava a uns quinhentos metros ou mais do castelo: quando voltasse, ele já estaria bem mais abaixo, morto ou vivo. Mas talvez devesse tentar assim mesmo, pensou.

Quando estava ali sofrendo a agonia da indecisão, ele voltou à superfície, um metro atrás da árvore flutuante.

Miraculosamente, a trouxa ainda estava amarrada na sua cabeça. Mas ele não conseguia mais nadar com aquelas braçadas firmes de antes: chapinhava n'água sacudindo os braços e chutando, respirando em grandes arquejos, tossindo e cuspindo.

Lizzie desceu até a linha d'água. A água gelada encharcou suas sapatilhas de seda e congelou-lhe os pés.

- Aqui! - bradou. - Eu vou puxar você para fora d'água!

Ele pareceu não ouvir, mas continuou a se bater, como se, por ter quase se afogado, não pudesse pensar em mais nada senão na sua respiração. Até que pareceu acalmar-se e olhar em torno para ver onde estava. Lizzie o chamou de novo.

- Aqui! Deixa eu ajudar!

O homem cuspiu e arquejou mais e sua cabeça afundou, mas subiu quase que imediatamente e ele nadou na direcção dela, batendo exageradamente com os braços mas deslocando-se na direcção certa.

Lizzie ajoelhou-se na lama, indiferente ao vestido de seda e à capa de pele. A impressão que tinha era de que seu coração estava na boca. Quando o homem se aproximou, ela estendeu a mão. Ele balançava os braços erraticamente. Lizzie conseguiu agarrar um pulso e puxou na sua direcção. Depois pegou o braço dele com ambas as mãos e o içou. Ele bateu no lado e desabou, metade na margem e metade dentro d'água. Lizzie mudou a posição das mãos, passando a pegá-lo por baixo do braço, enterrou as elegantes sapatilhas na lama e puxou de novo. Ele fez força com as mãos e os pés e, finalmente, conseguiu sair de dentro d'água e passou para a margem.

Lizzie o fitou, jazendo ali nu, encharcado e semimorto como um monstro marinho apanhado por um pescador gigantesco.

Como ela adivinhara, o homem cuja vida salvara era Malachi McAsh.

Ela sacudiu a cabeça, especulando. Que tipo de homem seria ele? Nos últimos dois dias tinha sofrido uma explosão do gás da mina, fora sujeito a uma tortura excruciante, e mesmo assim ainda tinha resistência e coragem para atravessar a nado aquele rio gelado para fugir. Simplesmente não desistia nunca.

Ele estava deitado de costas, arquejando asperamente e tremendo de maneira incontrolável. A argola de ferro sumira: ela gostaria de saber como teria se livrado dela. Sua pele molhada brilhava como prata à luz da lua. Era a primeira vez que Lizzie via um homem nu, e, a despeito de sua preocupação pela vida dele, estava fascinada por ver o seu pénis, um tubo franzido aninhado em uma massa de pêlos escuros e anelados na forquilha das coxas musculosas.

Se ficasse deitado ali por muito tempo, Mack ainda podia morrer de frio. Lizzie ajoelhou-se diante dele e desamarrou a trouxa presa à sua cabeça. Em seguida colocou a mão no seu ombro. Ele estava tão frio quanto a morte.

- Levanta! - disse ela, nervosa. Ele não se mexeu. Sacudiu-o, sentindo seus músculos poderosos sob a pele. - Levanta, senão você vai morrer! - Agarrou-o com ambas as mãos, mas sem a vontade dele não era possível nem sacudi-lo; era como se fosse feito de pedra. - Mack, por favor, não morra - disse Lizzie, e havia um soluço em sua voz.

Finalmente ele se moveu. Ficou de quatro, devagar, depois estendeu o braço e pegou a mão de Lizzie. Com sua ajuda conseguiu pôr-se de pé.

- Graças a Deus - murmurou ela. Mack apoiou-se pesadamente em Lizzie mas ela conseguiu aguentá-lo sem cair.

Tinha que aquecê-lo de alguma maneira. Abriu a capa e apertou o corpo de Mack de encontro ao seu. Sentiu nos seios o frio terrível da carne dele através da seda do vestido. Mack agarrou-se a ela, o corpo grande e musculoso sugando o calor do corpo de Lizzie. Era a segunda vez que se abraçavam, e de novo ela sentiu uma poderosa sensação de intimidade com ele, quase como se fossem amantes.

Mack não podia esquentar-se enquanto estivesse molhado.

Lizzie tinha que dar um jeito de secá-lo. Precisava de uma fazenda, qualquer coisa que pudesse usar como toalha. Estava usando diversas anáguas de linho: podia gastar uma com ele.

Você pode ficar de pé sozinho agora? - perguntou. Ele conseguiu fazer que sim entre dois acessos de tosse. Lizzie soltou-o e levantou a saia. Sentiu os olhos dele, a despeito de sua condição, quando rapidamente removeu uma anágua. Em seguida começou a esfregar todo o corpo dele com ela.

Secou seu rosto e esfregou-lhe o cabelo, em seguida foi para trás e secou-lhe as costas largas e as nádegas duras e compactas.

Ajoelhou-se para esfregar as pernas. Levantou de novo e virou-o para secar-lhe o tórax e ficou chocada ao ver que seu pénis estava crescendo e ficando duro.

Devia ter ficado enojada e horrorizada, mas não ficou.

Ficou fascinada e intrigada; sentiu-se tolamente orgulhosa por ter sido capaz de causar tal efeito num homem; e sentiu algo mais, uma dor dentro dela que a fez engolir em seco. Não era a alegre excitação que sentira ao beijar Jay: isto não tinha nada a ver com provocação e troca de carícias. De repente teve medo de que McAsh a atirasse no chão, rasgasse suas roupas e a violentasse, e a parte mais assustadora de tudo é que havia uma pequena parte dentro dela que queria que isto acontecesse.

Mas seu medo era infundado.

- Desculpe - resmungou ele. Virou-se de costas, abaixou-se junto da sua trouxa e retirou um par de calções encharcados.

Torceu até sair quase toda a água, vestiu e o coração de Lizzie começou a bater no ritmo normal. Quando Mack começou a torcer uma camisa, Lizzie deu-se conta de que se vestisse roupas molhadas agora provavelmente morreria de pneumonia ao raiar do dia. Mas não podia ficar nu.

- Deixa eu apanhar umas roupas para você lá no castelo - disse ela.

- Não - disse Mack. - Vão querer saber o que você está fazendo.

- Posso entrar e sair sem que me vejam... e tenho as roupas de homem que usei para descer na mina.

Ele sacudiu a cabeça.

- Não vou me demorar. Assim que começar a andar ficarei mais quente. - Ele começou a torcer a água de um cobertor xadrez.

Cedendo a um impulso, tirou a capa de pele. Era tão grande que serviria em Mack. Era cara e talvez nunca mais tivesse uma igual mas salvaria a vida dele. Recusou-se a pensar em como explicaria à sua mãe o desaparecimento da capa.

- Use isto então, e carregue o cobertor xadrez até que tenha uma chance para secá-lo. - Sem esperar pela resposta afirmativa de Mack, colocou a capa sobre seus ombros. Ele hesitou, mas se enrolou nela. Agradecido. Era grande o bastante para cobri-lo completamente.

Lizzie pegou a trouxa e tirou as botas de Mack. Ele entregou-lhe o cobertor molhado que ela enfiou dentro da trouxa. Ao fazê-lo, sentiu a argola de ferro. Pegou-a. O anel de ferro fora quebrado e a coleira amassada para poder ser tirada.

- Como conseguiu fazer isto? - quis saber Lizzie.

Ele calçou as botas.

- Arrombei a oficina do ferreiro da boca da mina e usei as ferramentas de Taggart.

Ele não podia ter feito aquilo sozinho, pensou ela. A irmã devia tê-lo ajudado.

- Por que a está levando?

Ele parou de tremer e seus olhos brilharam de raiva.

- Para nunca esquecer. Nunca.

Lizzie guardou a argola e apalpou um livro grande no fundo da bolsa.

- O que é isto? - quis saber.

- Robinson Crusöe.

- Minha história favorita!

Ele tirou a bolsa de suas mãos. Estava pronto para ir embora.

Lizzie lembrou que Jay persuadira Sir George a deixar McAsh partir.

- Os guardas não o perseguirão - disse ela.

Mack dirigiu-lhe um olhar duro. Havia esperança e cepticismo na sua expressão.

- Como é que você sabe?

- Sir George decidiu que você é tão encrenqueiro que será melhor se livrar de você. Deixou um guarda na ponte, porque não quer que os mineiros saibam que está permitindo que vá embora; mas espera que consiga passar, e não vai tentar trazê-lo de volta.

Uma expressão de alívio apareceu no seu rosto fatigado.

- Então eu não preciso me preocupar com os homens do xerife - disse. - Graças a Deus.

Sem a capa, Lizzie estremeceu de frio, mas sentia-se quente por dentro.

- Ande depressa e não pare para descansar - disse. - Se parar antes do raiar do dia, morrerá. - Ela perguntou-se onde ele iria, e o que faria com o resto da sua vida.

Ele fez que sim e depois esticou a mão. Ela apertou-a, mas, para sua surpresa, ele levou a sua mão aos lábios e beijou. Só então foi embora.

- Boa sorte - disse ela serenamente.

As botas de Mack esmagaram o gelo nos buracos da estrada quando ele começou a descer o vale à luz do luar, mas seu corpo se aqueceu rapidamente sob a capa de pele de Lizzie Hallim.

Sem ser as suas pegadas, o único barulho era o rumorejar do rio que corria ao longo da trilha. Mas o seu espírito cantava o hino da liberdade.

À medida que se afastava do castelo, ele começou a ver o lado curioso e até mesmo engraçado do seu encontro com a Srta. Hallim.

Lá estava ela, num vestido bordado, sapatilhas de seda e um penteado que devia ter exigido pelo menos duas criadas e meia hora para ser feito, e ele tinha vindo nadando pelo rio nu como no dia em que nascera. Ela devia ter sentido um choque!

No domingo anterior, na igreja, ela agira como uma típica aristocrata escocesa, arrogante, obtusa e presunçosa.

Mas tivera coragem para aceitar o desafio de Mack e descer à mina.

E agora ela salvara sua vida duas vezes - uma puxando-o de dentro d'água, a outra quando lhe dera sua capa. Era uma mulher notável. Pressionara o corpo contra o dele para aquecê-lo, depois se ajoelhara e o secara com uma anágua: haveria alguma outra dama na Escócia que teria feito aquilo por um mineiro?

Lembrou dela caindo nos seus braços lá na mina, e da sensação do seu seio, pesado e macio na mão dele. Era uma pena pensar que nunca mais a veria de novo. Esperava que ela também encontrasse um meio de escapar daquele lugar pequeno. Seu senso de aventura merecia horizontes mais amplos.

Um grupo de fêmeas de veado, pastando ao lado da estrada protegidas pela escuridão, fugiu galopando quando Mack se aproximou, como um rebanho de fantasmas; ele ficou sozinho.

Sentia-se muito cansado. "Andar na roda" o desgastara mais do que ele imaginara. Parecia que um corpo humano não era capaz de se recuperar daquilo em dois dias. Atravessar o rio a nado deveria ter sido fácil mas o encontro com a árvore flutuante o exaurira por completo de novo. Sua cabeça ainda doía no ponto onde a árvore batera.

Por sorte não tinha que ir muito longe naquela noite. Andaria apenas até Craigie, uma aldeia uns dez quilómetros abaixo. Lá se refugiaria na casa do irmão de sua mãe, tio Eb, e descansaria até o dia seguinte. Dormiria melhor sabendo que os Jamisson não tencionavam persegui-lo.

Pela manhã ele encheria a barriga com mingau e presunto e seguiria para Edimburgo. Uma vez lá, embarcaria no primeiro navio que o contratasse, não importa para onde se destinasse qualquer lugar, de Newscastle a Pequim serviria a seu propósito.

Mack sorriu com a própria bravata. Nunca se arriscara além de Coats, a cidade onde ficava o mercado, a trinta e seis quilómetros de distância - não tendo inclusive jamais ido a Edimburgo mas dizia a si próprio que estava disposto a embarcar para destinos exóticos, como se soubesse o que encontraria lá.

Enquanto percorria a trilha lamacenta cheia de sulcos, começou a se sentir solene a respeito da viagem. Estava deixando o único lar que conhecera, o lugar onde nascera e onde seus pais tinham morrido. Estava deixando Esther, amiga e aliada, embora esperasse tirá-la de Heugh antes que se passasse muito tempo. Estava deixando Annie, a prima que lhe ensinara como beijar e como tocar o corpo como se fosse um instrumento musical Mas sempre soubera que aquilo ia acontecer. Desde que se entendia por gente que sonhava em fugir. Tinha invejado o mendigo Davey Patch, e ansiara pela liberdade de que ele desfrutava.

Agora ele a tinha. Sentiu-se cheio de entusiasmo de pensar no que fizera. Ele tinha fugido.

Não sabia o que o futuro lhe traria. Poderia haver pobreza, sofrimento e perigo. Mas não seria outro dia no fundo do poço da mina, outro dia de escravidão, outro dia como propriedade de Sir George Jamisson. Amanhã seria o senhor do seu próprio destino.

Chegou a uma curva da estrada e olhou para trás. Ainda podia ver o castelo Jamisson, a linha do seu telhado de ameias iluminada pela lua. Nunca verei aquilo de novo, pensou. E o pensamento o fez tão feliz que ele se pôs a dançar ali mesmo no meio da estrada de lama, assobiando uma melodia e rodopiando.

Até que parou, riu baixinho de si próprio, e continuou descendo o vale.

 

Shylock usava calças largas, um camisolão preto comprido e um chapéu de três bicos. O actor era horripilantemente feio, com um nariz enorme, o queixo duplo comprido e uma boca que não passava de uma fenda disposta numa permanente careta de um lado só. Ele entrou no palco com um passo lento e deliberado, a imagem do mal. Em um grunhido voluptuoso, disse:

- Três mil ducados. - Um arrepio percorreu o público.

Mack estava fascinado. Mesmo no fundo da platéia, onde se encontrava com Dermot Riley, a multidão mantinha-se imóvel e em silêncio. Shylock falava cada palavra com a voz rouca entre um grunhido e um ladrido. Seus olhos brilhavam por baixo das sobrancelhas hirsutas.

- Três mil ducados por três meses, e António é obrigado a...

Dermot cochichou no ouvido de Mack.

- Esse é Charles Macklin, um irlandês. Matou um homem e foi a julgamento, mas alegou legítima defesa e foi inocentado.

Mack praticamente não ouviu o que o outro disse. Ele sabia que havia essas coisas de teatros e peças, claro, mas nunca imaginara que seriam assim: o calor, as fumacentas lâmpadas de óleo, os trajes fantásticos, os rostos pintados e acima de tudo a emoção fúria, paixão, amor, inveja, tudo retratado em cores tão vivas que o coração dele batia com tanta força como se fosse verdade.

Quando Shylock descobriu que sua filha fugira, deslocou-se ruidosamente pelo palco, sem chapéu, cabelos voando, em uma fúria de dor e aflição, gritando, "Você sabia!" como um homem sofrendo os tormentos do inferno. E quando disse, "Já que sou um cachorro, cuidado com minhas presas!", lançou-se para a frente como se quisesse voar por cima das luzes do palco. E toda a platéia recuou.

Ao sair do teatro, Mack perguntou a Dermot:

- É assim que são os judeus? - Ele nunca tinha visto um judeu, que soubesse, mas a maioria dos personagens da Bíblia eram judeus e não eram retratados daquele modo.

- Eu conheci judeus, mas nenhum como Shylock, graças a Deus - respondeu Dermot. - Mas todo mundo odeia os agiotas.

- Eles são bons quando você precisa de um empréstimo, mas é na hora de pagar que complica.

Londres não tinha muitos judeus mas estava cheia de estrangeiros. Havia marinheiros asiáticos de pele escura chamados lascares; huguenotes da França; milhares de africanos de pele escura e cabelo encarapinhado e um número incontável de irlandeses como Dermot. Para Mack aquilo era parte da excitação da cidade. Na Escócia todo mundo parecia ter a mesma cara.

Ele amava Londres. Emocionava-se todas as manhãs quando acordava e se lembrava de onde estava. A cidade era cheia de atracções e surpresas, pessoas estranhas e experiências novas.

Adorava o tentador cheiro de café das dezenas de casas de café, embora não pudesse se dar ao luxo de bebê-lo. Admirava as cores deslumbrantes das roupas - amarelo-brilhante, púrpura, verde-esmeralda, vermelho, azul-celeste - usadas por homens e mulheres.

Ouvia os rebanhos mugindo, apavorados, sendo tocados pelas ruas estreitas da cidade para serem levados aos matadouros, e esquivava-se dos enxames de crianças quase nuas, mendigando e roubando.

Via prostitutas e bispos, ia a touradas e leilões, provou banana, gengibre e vinho tinto. Tudo era muito excitante. E o melhor era que era livre para ir para onde bem entendesse e fazer o que bem quisesse.

Claro que tinha que ganhar a vida. Não era fácil. Londres estava superlotada com famílias morrendo de fome que tinham vindo das regiões rurais onde não havia comida, pois tinham sido dois anos de más colheitas. Havia também milhares de operadores manuais de teares de seda que haviam perdido o emprego por causa das novas fábricas no norte, segundo Dermot. Para cada emprego havia cinco candidatos desesperados. Os infelizes tinham que implorar, roubar, se prostituir ou morrer de fome.

Dermot, por exemplo, era tecelão. Tinha mulher e cinco filhos morando em dois quartos em Spitalfields. A fim de sobreviver, tinham que sublocar o quarto de trabalho de Dermot, e Mack dormia lá, no chão, ao lado do grande e silencioso tear que ali permanecia como um monumento aos azares da vida na cidade.

Mack e Dermot procuravam trabalho juntos. Às vezes eram contratados como garçons em cafés, mas só duravam um dia, ou dois; Mack era grande e desajeitado demais para carregar as bandejas e se vir bebidas em copos pequenos, e Dermot, sendo orgulhoso e desconfiado, sempre acabava insultando um freguês, mais cedo ou mais tarde. Um dia Mack foi contratado como lacaio em uma mansão em Clerkenwell mas demitiu-se na manhã seguinte, depois que o dono e a dona da casa pediram para que fosse para a cama com eles. Naquele dia tinham conseguido trabalho como carregadores de imensas cestas de peixe no mercado do cais em Billingsgate. Ao final do dia Mack relutara em gastar seu dinheiro num ingresso de teatro, mas Dermot jurou que ele não se arrependeria. E Dermot estava com a razão: teria valido a pena pagar duas vezes o preço do ingresso para ver tal maravilha.

Assim mesmo, Mack preocupava-se sobre quanto tempo levaria para economizar o dinheiro necessário para buscar Esther.

Andando na direcção leste após o teatro, seguindo para Spitalfields, atravessaram Covent Garden, onde prostitutas os abordaram dos portais das casas. Mack estava em Londres há quase um mês, e estava começando a se acostumar com o sexo sendo oferecido em cada esquina. As mulheres eram de todos os tipos, jovens e velhas, feias e bonitas, algumas vestidas como damas finas e outras esfarrapadas. Nenhuma delas tentava Mack, embora houvesse muitas noites em que ele pensava com desejo em sua luxuriosa prima Annie.

Na Strand ficava The Bear, uma taverna caiada e construída irregularmente em diversas direcções, com um salão de café e diversos bares em torno de um pátio. O calor do teatro os deixara sedentos, e os dois entraram para tomar um drinque. A atmosfera era quente e enfumaçada. Compraram um litro de cerveja.

- Vamos dar uma olhada lá nos fundos - disse Dermot.

A taverna era um local de esportes. Mack já estivera ali antes, e sabia das brigas de cães contra ursos acorrentados, brigas de cães entre si, duelos de espada entre mulheres gladiadoras e todos os tipos de divertimento eram realizados no pátio dos fundos.

Quando não havia um entretenimento organizado, o dono jogava um gato no lago dos patos e atiçava quatro cães em cima dele, uma brincadeira que gerava acessos de riso entre os beberrões.

Naquela noite um ringue de boxe fora armado, iluminado por numerosas lanternas a óleo. Um anão vestindo um terno de seda e sapatos de fivela arengava para um grupo de beberrões.

- Uma libra para quem quer que consiga derrubar Bermondsey Grandalhão! Vamos, meus rapazes, há algum corajoso entre vocês?

Ele deu três saltos mortais.

Dermot disse para Mack.

- Você poderia derrubá-lo, na minha opinião.

O tal de Bermondsey Grandalhão era um homem cheio de cicatrizes envergando apenas calções e um par de botas pesadas.

Sua cabeça era escanhoada e ele tinha no rosto as marcas de muitas lutas. Era alto e pesado mas parecia estúpido e lento.

- Suponho que sim - concordou Mack.

Dermot entusiasmou-se.

- Ei, baixinho, aqui está um freguês para você.

- Um desafiante! - berrou o anão, e a multidão gritou e aplaudiu.

Uma libra era um bocado de dinheiro, uma semana de salário para muita gente. Mack sentiu-se tentado.

- Tudo bem - disse.

A multidão aplaudiu de novo.

- Cuidado com os pés dele - alertou Dermot. - Deve ter aço naquelas botas.

Mack fez que sim, tirando o casaco.

- Esteja pronto para se defender assim que entrar no ringue. Não haverá espera por um sinal que dê início à luta, se é que me entende - acrescentou Dermot.

Era um truque comum nas brigas na mina. O meio mais rápido para vencer era começar antes que o outro estivesse pronto. Um homem dizia: "Vamos brigar lá no túnel onde há mais espaço", depois golpeava seu oponente assim que ele cruzava a vala de drenagem.

O ringue era um círculo malfeito de corda da altura da cintura, apoiada em velhos degraus de madeira enfiados na lama. Mack aproximou-se, com a advertência de Dermot na cabeça. Quando levantou o pé para passar por cima da corda, Bermondsey Grandalhão avançou contra ele.

Mack estava preparado e recuou, recebendo de raspão na testa um soco do sólido pulso do Grandalhão. A multidão deixou escapar um grito sufocado.

Mack agiu sem pensar, como uma máquina. Pisou rapidamente no ringue e deu um chute na canela do Grandalhão por baixo da corda, fazendo com que ele tropeçasse. Um grito de entusiasmo da platéia saudou o golpe e Mack ouviu a voz de Dermot gritando:

- Mate-o, Mack!

Antes que o homem pudesse recuperar o equilíbrio, Mack golpeou-o dos dois lados da cabeça, esquerdo e direito, e depois mais uma vez na ponta do queixo com um uppercut que tinha toda a força dos seus ombros por trás. As pernas do Grandalhão cederam, seus olhos rolaram para cima, ele cambaleou dois passos para trás e caiu duro de costas.

A multidão urrou de entusiasmo.

A luta estava acabada.

Mack olhou para o homem no chão e viu um monstro destroçado, liquidado e inútil. Desejou que não o tivesse enfrentado. Sentindo-se deprimido, afastou-se.

Dermot tinha dado uma chave de braço no anão.

- O diabinho tentou fugir - explicou. - Queria roubar seu prémio. Pague, baixinho. Uma libra.

Com a mão livre, o anão tirou uma moeda de ouro de um bolso interno da camisa. Fazendo uma careta, entregou-a a Mack.

Mack pegou o dinheiro, sentindo-se como um ladrão.

Um homem de feições grosseiras e roupas caras apareceu ao lado de Mack.

- Lutou bem - disse ele.- Tem experiência?

- De vez em quando lutava, lá na mina.

- Eu achei que você talvez fosse um mineiro. Agora escute. Estou organizando uma luta na Pelican, em Shadwell no sábado que vem. Se quer a chance de ganhar vinte libras em poucos minutos, colocarei você contra Rees Preece, a Montanha de Gales.

- Vinte libras! - exclamou Dermot.

- Você não vai derrubá-lo tão rapidamente quanto esse monte de banha, mas terá uma chance.

Mack deu uma espiada no Grandalhão, um monte inútil num canto do ringue.

- Não - disse.

- Por que diabos não quer lutar? - perguntou Dermot.

O promotor de lutas deu de ombros.

- Se não precisa do dinheiro...

Mack pensou em Esther, sua irmã gémea, ainda carregando carvão na escadaria da mina de Heugh quinze horas por dia, esperando a carta que a libertaria de uma vida de escravidão.

- Vinte libras pagariam a passagem dela para Londres - e ele poderia ter o dinheiro na mão na noite de sábado.

- Pensando bem, sim - disse Mack.

Dermot deu uma tapa nas suas costas.

- Esse é o meu garoto - disse.

 

Lizzie Hallim e sua mãe atravessavam a cidade de Londres na direcção norte em uma carruagem de aluguel. Lizzie estava excitada e feliz: iam encontrar Jay e olhar uma casa.

- Sir George certamente que mudou de atitude - disse Lady Hallim. - Trazendo-nos a Londres, planejando um casamento suntuoso e agora oferecendo-se para pagar o aluguel de uma casa em Londres para vocês dois morarem.

- Acho que foi Lady Jamisson quem o convenceu - disse Lizzie. - Mas apenas em questões menores. Ele continua sem querer dar a Jay a propriedade de Barbados.

- Alicia é uma mulher esperta - observou Lady Hallim. Assim mesmo, espantei-me quando conseguiu persuadir o marido depois daquela briga terrível no aniversário de Jay.

- Talvez Sir George seja do tipo que esquece as brigas que tem.

- Nunca foi assim... a menos que possa obter alguma vantagem. Gostaria de saber qual será o motivo dele. Não há nada que ele queira de você, há?

Lizzie riu.

- O que eu poderia lhe dar? Talvez só queira que eu faça o filho dele feliz.

- O que tenho certeza que você fará. Chegamos.

A carruagem parou na rua Rugby, uma sequência discreta mente elegante de casas em Holborn não tão elegante quanto Mayfair ou Westminster, mas menos cara. Lizzie desceu da carruagem e examinou o número doze. Tinha quatro andares e um por o e as janelas eram altas e graciosas.

Duas delas, contudo, estavam quebradas e o número "45" tinha sido grosseiramente pintado na porta da frente, pintada com tinta preta brilhante. Lizzie estava prestes a fazer um comentário quando outra carruagem parou e Jay saltou.

Ele estava usando uma roupa azul-clara com botões dourados, e um arco azul no cabelo louro: tão bonito que dava vontade de comer. Beijou os lábios de Lizzie. Foi um beijo contido, já que estavam em uma via pública, mas ela gostou muito e esperou que depois houvesse mais. Jay ajudou a mãe dele a saltar da carruagem e foi bater na porta da casa.

- O proprietário é um importador de conhaque que foi passar um ano na França - explicou, enquanto esperavam.

Um zelador idoso abriu a porta.

- Quem quebrou as vidraças? - perguntou Jay, imediatamente.

- Os chapeleiros - respondeu o homem enquanto eles entravam. Lizzie tinha lido no jornal que as pessoas que faziam chapéus estavam em greve, assim como os alfaiates e os trabalhadores nos moinhos.

- Não sei o que esses malditos idiotas acham que vão conseguir quebrando as vidraças das pessoas respeitáveis - disse Jay.

- Por que estão em greve? - quis saber Lizzie.

- Querem melhores salários, senhorita, e quem pode culpá-los por isso, com o preço do pão subindo dia a dia? Como um homem vai alimentar sua família? - respondeu o zelador.

- Não há de ser pintando "45" em todas as portas das casas de Londres. Mostre-nos a casa, homem.

Lizzie perguntou-se qual seria o significado do número 45, mas estava mais interessada na casa. Ela entrou toda animada, descerrando as cortinas e abrindo as janelas. A mobília era nova e cara e a sala de estar, um aposento amplo e claro com três janelas de cada lado. Tudo cheirava a mofo, como toda casa desabitada, mas só precisava de uma boa limpeza, uma camada de tinta e uma muda de roupa de cama e mesa para tornar-se deliciosamente habitável Ela e Jay correram na frente das duas mães e do velho vigia, e quando chegaram no sótão estavam sozinhos. Entraram em um dos quartos pequenos destinados aos criados. Lizzie abraçou Jay e beijou-o avidamente. Tinham apenas um minuto, se tanto.

Pegou as mãos dele e colocou-as sobre seus seios. Ele os acariciou delicadamente.

- Aperta com mais força - sussurrou ela, entre um beijo e outro. Lizzie queria que a pressão das mãos dele permanecesse depois do abraço. Os bicos dos seios ficaram duros e as pontas dos dedos de Jay os encontraram através do tecido do vestido. - Belisque - disse ela, e quando ele beliscou, a mistura de dor com prazer fez com que ela arquejasse. Aí então ela ouviu passos no patamar e eles se afastaram, ofegantes.

Lizzie virou-se e olhou para fora pela janelinha da água furtada, retomando o fôlego. Havia um jardim comprido nos fundos. O zelador estava mostrando às duas mães todos os pequenos quartos de dormir.

- Qual o significado do número quarenta e cinco? - perguntou ela.

- É por causa daquele traidor do John Wilkes - respondeu Jay. - Ele editava um jornal chamado North Briton, e o governo o acusou de sedição por causa do número quarenta e cinco, em que chamava o rei de mentiroso. Fugiu para Paris, mas agora está de volta para provocar mais confusão entre as pessoas comuns e ignorantes.

- É verdade que eles não têm dinheiro para comprar pão?

- Há falta de trigo em toda a Europa, de modo que é inevitável que o preço do pão suba. E o desemprego é causado pelo boicote americano aos produtos britânicos.

Ela se virou para Jay.

- Não suponho que seja um grande consolo para os chapeleiros e alfaiates.

Ele fechou a cara: não parecia gostar de vê-la simpatizando com os descontentes.

- Não sei se você percebe como é perigosa toda essa conversa de liberdade - disse.

- Não percebo mesmo.

- Por exemplo, os destiladores de rum de Boston gostariam de ter a liberdade de comprar melaço onde quisessem. Mas a lei diz que devem comprar de plantações britânicas, como a nossa. Se lhes derem liberdade, eles comprar o mais barato, dos franceses, e aí não seremos capazes de pagar uma casa destas.

- Entendo. - Aquilo não provava que estava certo não ter liberdade para comprar onde quisessem, pensou; mas decidiu nada dizer.

- Todo o tipo de gentalha pode querer liberdade, dos mineiros de carvão na Escócia aos negros em Barbados. Mas Deus colocou gente como eu com autoridade sobre as pessoas comuns.

Aquilo era verdade, claro.

- Mas você já se perguntou por quê? - perguntou ela.

- Como assim?

- Por que Deus lhe deu autoridade sobre os mineiros de carvão e os negros.

Ele sacudiu a cabeça irritadamente e ela percebeu que tinha ultrapassado os limites de novo.

- Não penso que as mulheres sejam capazes de compreender essas coisas - disse.

Ela tomou-lhe o braço.

- Amo esta casa, Jay - disse, tentando abrandá-lo. Podia sentir o bico dos seios onde ele beliscara. Abaixou o volume da voz. - Mal posso esperar mudar para cá com você e dormirmos juntos toda noite.

Ele sorriu.

- Eu também.

Lady Hallim e Lady Jamisson entraram no quarto onde eles estavam. O olhar da mãe de Lizzie baixou para o busto da filha, e ela percebeu que os bicos dos seios deviam estar aparecendo sob o vestido. Obviamente que a mãe adivinhou o que estava se passando. Fechou a cara em sinal de desaprovação, mas Lizzie não se importou. Em breve estaria casada.

- Bem, Lizzie, gostou da casa? - perguntou Alicia.

- Adorei!

- Então você a terá.

Lizzie sorriu, radiante, e Jay apertou-lhe o braço.

- Sir George é tão bondoso, não sei como agradecer-lhe - disse a mãe de Lizzie.

- Agradeça à minha mãe - disse Jay. - Foi ela quem o fez comportar-se decentemente.

Alicia dirigiu-lhe um olhar de reprovação, mas Lizzie podia garantir que na verdade não se importava. Ela e Jay gostavam muito um do outro, isto era óbvio. Lizzie sentiu uma pontada de ciúme e disse a si própria que era tolice: qualquer pessoa gostaria de Jay.

Deixaram o cómodo. O zelador estava na expectativa do lado de fora. Jay disse para ele:

- Verei o advogado do proprietário amanhã para que prepare o rascunho do contrato.

- Muito bem, senhor.

Desciam a escada quando Lizzie se lembrou de algo.

- Oh, tenho que lhe mostrar isto! - disse ela para Jay.

Tinha apanhado um panfleto na rua e guardara para ele. Pegou-o no bolso e deu-lhe para ler. Dizia:

NA PELICAN PERTO DE SHAD-WELL CAVALHEIROS E APOSTADORES ATENÇÃO UM DIA GERAL DE ESPORTE UM TOURO FURIOSO SOLTO ENTRE OS CÃES EM MEIO AO FOGO UMA BRIGA ENTRE DOIS GALOS DE WESTMINSTER, E DOIS DE EAST CHEAP, POR CINCO LIBRAS UM COMBATE GERAL COM PORRETES ENTRE SETE MULHERES E UMA LUTA DE BOXE - POR VINTE LIBRAS!

REES PREECE, A MONTANHA DE GALES VERSUS MACK MCASH, O MINEIRO ASSASSINO SÁBADO PRÓXIMO COMEÇANDO ÀS TRÊS HORAS

- O que é que você acha? - perguntou ela, impaciente. Deve ser Malachi McAsh de Heugh, não deve?

- Então foi nisto que ele se tornou - disse Jay. - Um lutador profissional. Estaria melhor trabalhando na mina de carvão do meu pai.

- Nunca vi uma luta de boxe - disse Lizzie melancolicamente.

Jay riu.

- Não deveria mesmo! Não é lugar para uma dama.

- A mina também não era, mas você me levou lá.

- Levei, e você quase morreu numa explosão.

- Pensei que você fosse dar pulos com a chance de me levar em outra aventura.

A mãe dela ouviu e disse:

- O que é isso? Que aventura?

- Quero que Jay me leve a uma luta de boxe profissional - disse Lizzie.

- Não seja ridícula - disse Lady Hallim.

Lizzie sentiu-se desapontada. A audácia de Jay parecia tê-lo abandonado momentaneamente. Mas ela não deixaria que isto se interpusesse no seu caminho. Se ele não a levasse, iria sozinha.

 

Lizzie ajustou a peruca e o chapéu e olhou-se no espelho. Um rapaz retribuiu seu olhar. O segredo estava na leve camada de fuligem com que escurecera as faces, o pescoço, o queixo e o lábio superior, imitando o aspecto de um homem que se barbeara.

O corpo era fácil. Um colete pesado achatava-lhe o busto, a cauda do casaco escondia as curvas arredondadas do seu traseiro, e as botas na altura do joelho cobriam as panturrilhas. O chapéu e a peruca de homem completavam a ilusão.

Ela abriu a porta do quarto. Lizzie e a mãe estavam hospedadas em uma casa pequena situada no terreno da mansão de Sir George em Grosvenor Square. A mãe estava tirando a sesta.

Lizzie procurou ouvir passos, para o caso de algum dos criados de Sir George estar andando pela casa, mas nada ouviu. Com passos leves, desceu correndo a escada e esgueirou-se pela porta e saiu na travessa que passava pelos fundos.

Era um dia frio e ensolarado de final de inverno. Quando chegou na rua lembrou a si própria para andar como um homem, usando bastante espaço, balançando os braços e forçando uma atitude arrogante, como se fosse dona da calçada e estivesse pronta a jogar na rua quem quer que disputasse seu direito.

Não seria possível andar daquele jeito até Shadwell que ficava do outro lado da cidade, na zona leste de Londres.

Acenou chamando uma cadeirinha, procurando ficar com o braço firme, para cima, em vez de deixar a mão flutuar, suplicante, como uma mulher. Quando os homens pararam e depositaram a cadeirinha no chão, ela pigarreou, cuspiu na sarjeta e disse, num resmungo rouco:

- Toquem para a taverna Pelican e vamos depressa com isso.

Eles a carregaram muito mais para leste do que jamais tinha ido em Londres, seguindo por ruas de casas cada vez menores e mais pobres, até um bairro de ruelas cheias d'água e praias lamacentas, ancoradouros inseguros e abrigos de barcos caindo aos pedaços, quintais com cercas altas de madeira e armazéns de portas fechadas com correntes. Depositaram-na em frente a uma grande taverna no cais com o desenho tosco de um pelicano pintado na tabuleta de madeira. O pátio estava cheio de gente barulhenta e excitada: trabalhadores de botas e lenços de pescoço, cavalheiros de coletes, mulheres de classe baixa de xale e tamancos e umas poucas mulheres de rostos pintados e seios expostos que, Lizzie presumiu, eram prostitutas. Não havia mulheres do que sua mãe teria chamado de "classe".

Lizzie pagou seu ingresso e abriu caminho a cotoveladas na multidão que gritava e escarnecia. Havia um cheiro forte de gente suada que não tomava banho. Ela se sentiu excitada e audaciosa. As gladiadoras estavam em meio à sua luta. Diversas já tinham se retirado: uma estava sentada em um banco segurando a cabeça; outra tentava estancar o sangue que corria de um ferimento na perna, uma terceira jazia deitada de costas a despeito dos esforços das amigas para reanimá-la. As quatro remanescentes moviam-se lentamente em círculos em um ringue de corda atacando-se com bastões de madeira com uns sessenta centímetros de comprimento, cortados toscamente. Todas estavam nuas da cintura para cima, com saias esfarrapadas, e descalças. Seus rostos e corpos apresentavam ferimentos e cicatrizes. A multidão, de uma centena ou mais de pessoas, estimulava suas favoritas e diversos homens apostavam no resultado. As mulheres brandiam os porretes com toda a força, acertando umas nas outras golpes de quebrar ossos. Sempre que uma conseguia acertar uma pancada bem dirigida, os homens urravam sua aprovação. Lizzie olhava com horrorizada fascinação.

Em pouco tempo uma outra mulher levou um golpe forte na cabeça e caiu inconsciente. A visão do seu corpo seminu jazendo sem sentidos no meio da lama deixou Lizzie enjoada, e ela se afastou.

Entrou na taverna, deu um soco no balcão do bar e disse ao barman:

- Uma garrafa de cerveja forte, homem. - Era maravilhoso dirigir-se ao mundo com tanta arrogância. Se fizesse a mesma coisa vestida de mulher, todos os homens se sentiriam com direito de reprová-la, inclusive taverneiros e carregadores de liteiras. Mas um par de calções equivalia a uma licença para mandar.

O bar cheirava a cinza de tabaco e cerveja derramada. Ela sentou-se num canto e bebeu sua cerveja, perguntando-se por que motivo tinha ido ali. Era um lugar de violência e crueldade, e estava se envolvendo num jogo perigoso. O que aquelas pessoas brutais fariam se percebessem que se tratava de uma mulher da classe alta vestida de homem?

Estava ali em parte porque sua curiosidade era uma paixão irresistível Sempre fora fascinada pelo proibido, desde criança. A frase "Não é lugar para uma dama" funcionava como um pano vermelho para um touro. Não podia deixar de abrir qualquer porta onde estivesse marcado "Proibida a Entrada". Sua curiosidade era tão forte quanto sua sexualidade e reprimi-la era tão difícil quanto deixar de beijar Jay.

Mas a razão principal era McAsh. Ele sempre fora interessante. Mesmo quando menino pequeno, ele era diferente: independente, desobediente, sempre questionando o que lhe diziam. Como adulto estava realizando aquilo que prometera quando menino.

Desafiara os Jamisson, conseguira fugir da Escócia - algo que poucos mineiros conseguiam - e fora capaz de chegar em Londres. Agora era um lutador de boxe profissional. O que faria a seguir?

Sir George fora esperto ao deixá-lo ir embora, pensou ela.

Como Jay dissera, Deus determinara que alguns homens fossem senhores de outros, mas McAsh nunca aceitaria isso, e, de volta à aldeia, teria provocado encrenca durante anos. Havia um magnetismo em torno de McAsh que fazia com que os demais o seguissem: o orgulho com que deslocava seu corpo poderoso, o menear confiante de sua cabeça, o olhar intenso nos olhos verdes surpreendentes. Ela própria sentira esta atracção: por isto estava ali.

Uma das mulheres pintadas sentou-se ao lado de Lizzie e sorriu insinuantemente. A despeito do ruge, parecia velha e cansada. Como seria lisonjeiro para ela se o seu disfarce fizesse com que uma prostituta lhe dirigisse uma proposta, pensou Lizzie. Mas a mulher não se deixava enganar tão facilmente.

- Eu sei o que você é - disse ela.

As mulheres têm olhos mais penetrantes do que os homens, refletiu Lizzie.

- Não diga a ninguém - disse.

- Você pode bancar o homem comigo por um shilling disse a mulher.

Lizzie não entendeu o que ela quis dizer.

- Já fiz isto antes com outras do seu tipo - continuou ela. Mulheres ricas que gostam de fazer o papel de homem. Tenho uma vela gorda em casa que se ajusta direitinho, entende o que quero dizer?

Lizzie percebeu onde a outra queria chegar.

- Não - disse, com um sorriso. - Não é para isto que estou aqui. - Ela enfiou a mão no bolso para pegar uma moeda. - Mas aqui está um shilling para guardar o meu segredo.

- Deus abençõe sua senhoria - disse a prostituta, e foi embora.

Pode-se aprender um bocado da vida quando se está disfarçado, refletiu Lizzie. Jamais teria adivinhado que uma prostituta teria em casa uma vela especial para mulheres que gostassem de fazer o papel de homem. Era o tipo de coisa que uma dama nunca poderia descobrir a menos que fugisse da sociedade respeitável e fosse explorar o mundo que ficava além de suas janelas bloqueadas por cortinas.

Uma grande algazarra fez-se ouvir no pátio, e Lizzie imaginou que a briga de porretes tinha produzido uma vencedora - a última mulher a ficar de pé, presumivelmente. Ela saiu, carregando a cerveja como um homem, o braço reto do lado do corpo e o polegar prendendo a tampa do canecão.

As gladiadoras saíam cambaleando ou eram carregadas para fora, e o evento principal estava prestes a ter início. Lizzie viu McAsh de imediato. Não havia dúvida de que era ele: dava para ver seus olhos incrivelmente verdes. Não estava mais enegrecido pelo carvão, e ela viu, com surpresa, que seu cabelo era bem louro.

Ele estava junto do ringue conversando com outro homem. Dirigiu o olhar diversas vezes para Lizzie, mas não penetrou no seu disfarce.

Parecia ferozmente determinado.

Seu oponente, Rees Preece, merecia o apelido de "a Montanha de Gales". Era o maior homem que Lizzie já vira, pelo menos uns trinta centímetros mais alto do que Mack, pesado e de cara vermelha, com um nariz retorcido que já fora quebrado mais de uma vez. Seu rosto tinha uma expressão maldosa, e Lizzie maravilhou-se com a coragem, ou imprudência, de quem quer que se dispusesse a entrar num ringue para lutar com um animal de aparência tão perversa. Sentiu receio por McAsh. Ele podia terminar aleijado ou mesmo morto, constatou ela, com um arrepio de medo. Não queria ver isso. Sentiu-se tentada a sair, mas não conseguiu obrigar-se a ir embora.

A luta estava por começar quando o amigo de Mack começou uma irada discussão com um dos segundos de Preece. Todos gritaram e deu para Lizzie entender que a questão dizia respeito às botas de Preece. O segundo de Mack insistia, com sotaque irlandês, que os dois homens lutassem descalços. A multidão começou a bater palmas ritmadamente, para expressar sua impaciência.

Lizzie teve esperanças de que a luta fosse cancelada. Mas desapontou-se. Após muita discussão veemente, Preece tirou as botas.

Então, de repente, a luta teve início. Lizzie não ouviu o sinal.

Os dois homens se lançaram um contra o outro como dois animais, socando, chutando e dando marradas freneticamente, movendo-se tão depressa que ela mal podia ver quem estava fazendo o quê.

A multidão urrava e Lizzie percebeu que ela própria estava gritando.

Cobriu a boca com a mão.

A pancadaria inicial durou apenas uns segundos: era enérgica demais para se sustentar. Os homens se separaram e começaram a circular em volta um do outro, os punhos erguidos em frente aos seus rostos, protegendo os corpos com os braços. O lábio de Mack estava inchado e o nariz de Preece sangrando. Lizzie mordeu o dedo, amedrontada.

Preece voou sobre Mack de novo, mas desta vez Mack pulou para trás, esquivando-se, até que subitamente parou e atingiu Preece uma vez, com muita força, no lado da cabeça. Lizzie estremeceu ao ouvir o barulho do soco: soou como uma marreta atingindo uma rocha. Os espectadores gritaram selvagemente.

Preece pareceu hesitar, como se espantado com o golpe, e Lizzie imaginou que devia ter se surpreendido com a força de Mack.

Começou a sentir-se esperançosa: afinal de contas, Mack talvez conseguisse derrotar aquele homem imenso.

Mack recuou, dançando. Preece sacudiu-se como um cachorro, depois abaixou a cabeça e arremeteu, socando loucamente.

Mack esquivou-se e saiu de lado, e chutou as pernas de Preece com o pé descalço, mas de um jeito ou de outro, Preece conseguiu atingi-lo com alguns golpes violentos. Aí então Mack pegou-o de novo do lado da cabeça, e mais uma vez Preece teve seu avanço interrompido.

A mesma dança foi repetida, e Lizzie ouviu o irlandês gritar:

- Entra pra matar, Mack, não dê tempo a ele de se recuperar!

Ela deu-se conta de que depois de acertar um soco paralisante, Mack sempre recuava e deixava o outro homem se recuperar.

Preece, ao contrário, sempre acompanhava um soco com outro e mais outro até que Mack conseguia esquivar-se.

Após dez horríveis minutos alguém tocou uma campainha e os lutadores pararam para descansar. Lizzie ficou tão feliz como se ela própria estivesse dentro do ringue. Deram cerveja aos dois lutadores, sentados em bancos rústicos em cantos opostos do ringue. Um dos segundos pegou uma agulha doméstica comum e linha e começou a costurar um rasgão na orelha de Preece.

Lizzie estremeceu e desviou o olhar.

Ela tentou esquecer o dano que estava sendo feito ao esplêndido corpo de Mack e forçou-se a pensar na luta como uma mera competição. Mack era mais ágil e tinha o soco mais poderoso, mas não possuía a selvageria impiedosa, o instinto assassino que fazia um homem querer destruir outro. Precisava ficar com raiva, ou algo assim.

Quando começaram de novo, ambos estavam se movendo mais lentamente, mas o combate seguiu o mesmo padrão: Preece caçava o dançante Mack, encurralava-o, acertava-lhe dois ou três sólidos golpes e depois era detido pelo tremendo soco da mão direita de Mack.

Em pouco tempo Preece tinha um olho fechado e mancava devido aos chutes repetidos de Mack, mas este sangrava na boca e em um corte acima do olho. Quando a luta teve o ritmo reduzido, tornou-se mais brutal. Carecendo de energia para esquivar-se com agilidade, os homens pareciam aceitar os socos em mudo sofrimento. Quanto tempo poderiam continuar ali se espancando até transformarem um ao outro em carne sem vida? Lizzie gostaria de saber por que se importava tanto com o corpo de Mack, e disse a si própria que teria se sentido da mesma forma em relação a qualquer um.

Houve outra pausa. O irlandês ajoelhou-se ao lado do banco de Mack e falou nervosamente com ele, enfatizando as palavras com vigorosos gestos dos punhos. Lizzie presumiu que estivesse dizendo a Mack para acabar logo com o outro. Até mesmo ela podia ver que numa prova de força e resistência Preece venceria, simplesmente porque era maior e mais rijo para tolerar a punição.

Será que Mack não era capaz de ver isto sozinho?

Começou de novo. Vendo-os martelando-se um ao outro, Lizzie lembrou de Malachi McAsh quando era um menino de seis anos de idade, brincando no gramado da casa de High Glen. Ela era o seu adversário nesse tempo: puxara seu cabelo e o fizera chorar.

A lembrança da cena trouxe lágrimas a seus olhos. Como era triste que o menininho tivesse se transformado naquilo.

Houve uma agitação no ringue. Mack atingiu Preece uma vez, depois outra e uma terceira vez, depois chutou a canela dele, fazendo-o cambalear. Lizzie foi tomada pela esperança de que Preece caísse e a luta terminasse. Os gritos dos seus segundos e da multidão sedenta de sangue instavam para que liquidasse Preece, mas ele pareceu não notar.

Para o espanto de Lizzie, Preece conseguiu se recuperar mais uma vez, e atingiu Mack com um soco na boca do estômago.

Involuntariamente, Mack dobrou o tronco para a frente e soltou um grito sufocado - e aí, inesperadamente, Preece deu-lhe uma cabeçada, pondo toda a força de suas costas largas no golpe.

As cabeças dos dois se chocaram com um barulho revoltante. Todo mundo na platéia conteve a respiração.

Mack cambaleou, caindo, e Preece chutou o lado da sua cabeça. As pernas de Mack cederam e ele caiu no chão. Preece chutou-o na cabeça de novo, com ele deitado de bruços. Mack não se mexeu. Lizzie ouviu-se gritando:

- Deixe-o em paz! - mas Preece continuou chutando Mack sem parar, até que os segundos de ambos os lados pularam dentro do ringue e o arrastaram embora.

Preece parecia aturdido, como se não conseguisse compreender por que as pessoas que o tinham incitado e gritavam por sangue agora queriam que parasse; até que recuperou os sentidos e ergueu as mãos num gesto de vitória, parecendo com um cão que tivesse agradado ao dono.

Lizzie teve medo de que Mack pudesse estar morto. Abriu caminho por entre a multidão e entrou no ringue. O segundo de Mack ajoelhou-se ao lado do seu corpo estendido de rosto para baixo. Lizzie inclinou-se sobre Mack, o coração na boca. Os olhos dele estavam fechados, mas ela viu que respirava.

- Graças a Deus está vivo - disse.

O irlandês dirigiu-lhe um olhar rápido, mas nada disse.

Lizzie pediu a Deus que Mack não tivesse sido prejudicado irreversivelmente. Na última meia hora ele recebera mais golpes violentos na cabeça do que a maioria das pessoas em toda uma vida. Seu pavor era de que quando retornasse à consciência, tivesse se transformado num idiota babão.

Ele abriu os olhos.

- Como você se sente? - perguntou Lizzie, nervosa.

Mack fechou os olhos de novo sem responder.

O irlandês olhou para ela e disse:

- Quem é você, um rapaz soprano? - Ela se deu conta de que esquecera de imitar voz de homem.

- Um amigo - respondeu. - Vamos carregá-lo para dentro. Ele não deve ficar deitado na lama.

Após um momento de hesitação o homem disse:

- Está certo. - Ele agarrou Mack por baixo dos braços.

Dois espectadores pegaram as pernas e os quatro o ergueram.

Lizzie liderou o caminho até a taverna. No seu mais arrogante tom de voz masculino, gritou:

- Estalajadeiro! Mostre-me seu melhor quarto, e ande depressa com isso!

Uma mulher veio de trás do bar.

- Quem paga? - perguntou, desconfiada.

Lizzie deu-lhe uma moeda.

- Por aqui - disse a mulher.

Ela os levou para um quarto no segundo andar que dava para o pátio. O quarto era limpo e tinha uma cama de quatro colunas, muito bem arrumada, forrada por um cobertor comum grosso. Os homens deitaram Mack. Lizzie disse para a mulher:

- Acenda o fogo e nos traga conhaque francês. Conhece algum médico na vizinhança que possa tratar dos ferimentos deste homem?

- Mandarei buscar o Dr. Samuels.

Lizzie sentou na beira da cama. O rosto de Mack estava um horror, inchado e ensanguentado. Abriu a camisa dele e viu que o peito estava coberto de arranhões e esfoladuras.

Os ajudantes foram embora. O irlandês disse:

- Sou Dermot Riley. Mack mora na minha casa.

- Meu nome é Elizabeth Hallim - respondeu ela. - Conheço ele desde quando éramos crianças. - Lizzie decidiu não explicar por que estava vestida de homem: Riley que pensasse o que quisesse.

- Não penso que ele esteja ferido gravemente - disse Riley.

- Deveríamos lavar suas feridas. Peça água quente numa tigela, sim?

- Está bem. - Ele saiu, deixando-a sozinha com Mack, inconsciente.

Lizzie contemplou fixamente sua forma imóvel. Ele mal respirava. Hesitante, pôs a mão no seu peito. A pele estava quente e a carne por baixo era dura. Apertou a mão e sentiu a batida do coração, regular e forte.

Gostou de tocar em Mack. Pôs a outra mão no próprio colo, sentindo a diferença entre seus seios macios e os músculos rijos dele. Apalpou-lhe o mamilo, pequeno e macio, e depois pegou o seu, maior e saliente.

Mack abriu os olhos.

Ela tirou a mão rapidamente, sentindo-se culpada. O que, em nome do céu, estou fazendo? pensou.

Ele lhe dirigiu um olhar inexpressivo.

- Onde estou? Quem é você?

- Você esteve numa luta de boxe - respondeu ela. - Perdeu.

Ele fitou-a fixamente por alguns segundos e por fim sorriu.

- Lizzie Hallim, vestida como homem de novo - disse, em tom de voz normal.

- Graças a Deus você está bem!

Ele lhe dirigiu um olhar peculiar.

- É muita... bondade sua se importar.

Ela sentiu-se envergonhada.

- Não posso imaginar o motivo - disse, com a voz tensa. - Você não passa de um mineiro de carvão que não sabe seu lugar.

Para seu horror, Lizzie sentiu que as lágrimas escorriam pelo seu rosto. - É muito duro ver um amigo ser espancado até ser reduzido a uma massa sem forma - disse, com a voz incontrolavelmente embargada.

Ele observou-a chorando.

- Lizzie Hallim - disse, espantado. - Algum dia entenderei você?

O conhaque terminou com a dor dos ferimentos de Mack naquela noite, mas na manhã seguinte ele acordou em agonia. Doíam todas as partes do seu corpo que era capaz de identificar, dos dedos dos pés - machucados por chutar Rees Preece com tanta força - ao topo da sua cabeça, onde a dor dava a impressão de que jamais iria embora. O rosto que viu no caco de espelho que usava para se barbear era todo cortes e equimoses, sensível demais para ser tocado, quanto mais barbeado.

Assim mesmo, sentia-se animado. Lizzie Hallim nunca deixava de estimulá-lo. Sua ousadia irreprimível tornava possíveis todas as coisas. O que faria a seguir? Quando a reconhecera, sentada na beira da cama, tivera uma vontade quase incontrolável de tomá-la nos braços. Resistira à tentação convencendo-se de que um tal gesto significaria o fim da peculiar amizade que os unia. Ela podia infringir as regras: era uma dama. Podia rolar no chão com um cachorrinho, mas se este a mordesse uma vez, ela o poria para fora.

Ela lhe dissera que ia se casar com Jay Jamisson, e ele tivera que morder a língua para não lhe dizer que era uma idiota. Não era da sua conta e não queria ofendê-la.

Bridget, a mulher de Dermot, preparou um desjejum de mingau salgado e Mack tomou o seu com as crianças. Bridget era uma mulher de cerca de trinta anos que já fora bonita mas que agora parecia apenas cansada. Quando toda a comida tinha acabado, Mack e Dermot saíram para procurar trabalho.

- Tragam algum dinheiro para casa - gritou Bridget quando saíram.

Não foi um dia de sorte. Eles percorreram os mercados de comida de Londres, oferecendo-se como carregadores das cestas de peixe fresco, barris de vinho e os quartos sangrentos de carne de que a cidade faminta precisava diariamente; mas eram muitos homens e pouco trabalho. Ao meio-dia desistiram e foram para o West End, tentar as casas de café. Ao final da tarde estavam tão cansados como se tivessem trabalhado o dia inteiro, mas não tinham recebido nada por esse cansaço.

Quando viraram na Strand, um vulto pequeno saiu de uma viela na disparada, veloz como um coelho. E esbarrou em Dermot.

Era uma garota de cerca de treze anos, esfarrapada, magra e amedrontada. Dermot produziu um barulho como um balão perfurado. A menina guinchou de medo, cambaleou e recuperou o equilíbrio.

Atrás dela apareceu um rapaz vigoroso, vestindo roupas caras mas amarfanhadas. Estava prestes a agarrá-la, uma questão de centímetros, quando ela bateu em Dermot e voltou, mas conseguiu se esquivar e continuou correndo. Aí escorregou e caiu e ele se lançou sobre ela.

A menina gritou aterrorizada. O homem estava louco de raiva. Levantou seu corpinho e socou-lhe o lado da cabeça; derrubou-a de novo e aí chutou-lhe o peito franzino com o pé calçado de bota.

Mack tinha se habituado com a violência das ruas de Londres.

Homens, mulheres e crianças brigavam constantemente, socando e se arranhando uns aos outros, as batalhas geralmente sendo estimuladas pelo gim barato vendido a cada esquina. Mas nunca tinha visto um homem forte bater numa criança pequena tão impiedosamente. A impressão que dava era de que ele podia matá-la. Mack ainda sentia dores por causa da luta com a Montanha de Gales, e a última coisa que queria era uma outra luta, mas não podia ficar imóvel observando aquilo. Quando o homem estava prestes a chutar a menina de novo, Mack agarrou-o rudemente e puxou-o para trás.

O homem se virou. Ele era alguns centímetros mais alto do que Mack. Pôs a mão no centro do peito de Mack e deu-lhe um forte empurrão. Mack recuou, cambaleando. O homem voltou-se de novo para a menina. Ela se esforçava para levantar-se. Ele lhe deu uma violenta bofetada na cara, com tanta força que a menina saiu voando.

Mack viu tudo vermelho. Agarrou o homem pelo colarinho e o fundilho dos calções e levantou-o do chão. O sujeito urrou de surpresa e raiva e começou a se contorcer violentamente, mas Mack continuou a segurá-lo e levantou-o acima da sua cabeça.

Dermot viu com surpresa a facilidade com que Mack levantou o homem.

- Você é um garoto forte, por Deus - disse.

- Tire essas mãos imundas de cima de mim - gritou o homem.

Mack colocou-o no chão mas continuou segurando um punho.

- Então deixa a menina em paz.

Dermot ajudou a garota a levantar-se e segurou-a delicada mas firmemente.

- Ela é uma maldita ladra! - exclamou o homem agressivamente; foi nesta hora que reparou no rosto devastado de Mack e decidiu não forçar muito a situação.

- Foi só isso? - perguntou Mack. - Pelo jeito como a chutava pensei que tivesse matado o rei.

- O que é que você tem com o que ela fez? - O homem estava se acalmando e recuperando o fôlego.

Mack soltou-o.

- Seja o que for, acho que você já a castigou bastante.

O homem olhou para ele.

- Você obviamente não é daqui - disse. - É um sujeito forte, mas, mesmo assim, não vai durar muito tempo em Londres se confiar em gente como essa menina. - Em seguida afastou-se.

A menina disse:

- Obrigada, escocês. Você salvou minha vida.

Todo mundo via que Mack era escocês assim que ele abria a boca. Não sabia que falava com sotaque até que chegara a Londres.

Em Heugh todo mundo falava igual: até mesmo os Jamisson tinham uma versão suavizada do dialecto escocês. Aqui era como um rótulo.

Mack examinou a garota. Tinha cabelos escuros cortados de qualquer maneira e um rosto bonito que já começava a ficar inchado com as equimoses oriundas da surra. Seu corpo era de menina, mas havia uma expressão madura nos seus olhos. Fitou-o assustada, evidentemente perguntando-se o que ele ia querer dela.

- Você está bem? - perguntou Mack.

- Está doendo - disse ela, com a mão do lado do corpo. - Queria que você tivesse matado aquele maldito sujeito.

- O que foi que você lhe fez?

- Tentei roubá-lo enquanto ele estava trepando com Cora, mas ele percebeu.

Mack fez que sim. Tinha ouvido falar que às vezes as prostitutas tinham cúmplices que roubavam seus clientes.

- Você gostaria de beber alguma coisa?

- Eu beijaria a bunda do papa por um copo de gim.

Mack nunca ouvira ninguém falar daquele jeito, muito menos uma garotinha. Não sabia se deveria se sentir chocado ou achar graça.

Do outro lado da rua ficava a The Bear, a taverna onde Mack derrubara Bermondsey Grandalhão e ganhara uma libra de um anão. Atravessaram e entraram na taverna. Mack comprou três canecos de cerveja e foram beber num canto.

Peg bebeu quase toda a sua em poucos goles e disse:

- Você é um bom homem, escocês.

- Meu nome é Mack - disse ele. - Este é Dermot.

- Eu sou Peggy. Chamam-me de Peg Ligeira.

- Por causa do modo como bebe, suponho.

Ela riu.

- Nesta cidade, se você não beber depressa, alguém rouba sua bebida. De onde você é, escocês?

- Uma aldeia chamada Heugh, a uns oitenta quilómetros de Edimburgo.

- Onde fica Edimburgo?

- Escócia.

- É muito longe daqui?

- Levei uma semana de navio, acompanhando a costa. - Fora uma semana comprida. O mar perturbara Mack. Depois de quinze anos trabalhando no fundo do poço de uma mina de carvão, o oceano interminável o deixara zonzo. Mesmo assim tinha sido obrigado a escalar os mastros para prender cordas, com todo o tipo de tempo. Nunca viria a ser um marinheiro. - Acredito que a diligência leva treze dias - acrescentou.

- Por que saiu de lá?

- Para ser livre. Fugi. Na Escócia os mineiros de carvão são escravos.

- Você quer dizer que nem os negros na Jamaica?

- Você parece conhecer mais coisas sobre a Jamaica do que sobre a Escócia.

Ela ficou ressentida com a crítica implícita.

- E por que não deveria?

- A Escócia é mais perto, é só.

- Eu sei disso. - Ela estava mentindo, Mack podia afirmar.

Era apenas uma garotinha, a despeito do seu jeito fanfarrão, e aquilo o comoveu.

Uma voz de mulher perguntou, ofegante:

- Peg, você está bem?

Mack levantou a cabeça para ver uma jovem mulher envergando um vestido cor-de-laranja.

- Olá, Cora. Fui salva por um belo príncipe. Conheça o escocês Mack. - disse Peg.

Cora sorriu para Mack e disse:

- Muito obrigada por ajudar Peg. Espero que você não tenha conseguido esses machucados aí para salvá-la.

Mack sacudiu a cabeça.

- Não, isto foi outro brutamontes.

- Deixa eu pagar-lhe um copo de gim.

- Mack estava prestes a recusar - ele preferia cerveja - mas Dermot antecipou-se:

- Muita gentileza sua, nós ficamos gratos.

Mack olhou para ela enquanto se dirigia ao bar. Devia ter cerca de vinte anos de idade, com um rosto angelical e uma pujante cabeleira ruiva. Era chocante pensar que alguém tão jovem e bonita fosse uma prostituta. Ele perguntou a Peg:

- Então ela trepou com aquele sujeito que perseguiu você, não foi?

- Geralmente ela não tem que ir até o fim - disse Peg, conhecedora do assunto. - Geralmente deixa o cara num beco com o peru pra cima e os calções pra baixo.

- Enquanto você foge correndo com a bolsa dele - disse Dermot.

- Eu? Sai dessa. Sou dama de companhia da rainha Charlotte.

Cora sentou-se ao lado de Mack. Usava um perfume forte e intenso, em que dava para perceber sândalo e canela.

- O que você está fazendo em Londres, escocês?

Ele a encarou. Ela era muito atraente.

- Procurando trabalho.

- Encontrou?

- Não.

Ela sacudiu a cabeça.

- É essa merda de inverno, frio como a morte, e o preço do pão ninguém aguenta. Há um número muito grande de homens na sua situação.

Peg intrometeu-se:

- Foi isto que fez meu pai virar ladrão, dois anos atrás, só que ele não tinha jeito.

Mack desviou relutantemente o olhar de Cora para Peg.

- O que aconteceu a ele?

- Dançou com o pescoço enfiado no colar do xerife.

- O quê?

Dermot explicou.

- Quer dizer que ele foi enforcado.

- Oh, meu Deus, sinto muito - disse Mack.

- Não sinta pena de mim, seu escocês filho da mãe, me deixa revoltada.

Peg era um caso realmente difícil.

- Tudo bem, tudo bem, não vou sentir - disse Mack brandamente.

- Se você quer trabalhar, sei de alguém que está procurando carregadores de carvão, para descarregar navios. O trabalho é tão pesado que só homens muito jovens podem fazê-lo, e preferem gente de fora porque não são tão rápidos para reclamar - disse Cora.

- Farei qualquer coisa - disse Mack, pensando em Esther.

- As turmas de carregadores são todas chefiadas pelos taverneiros de Wapping. Conheço um deles, Sidney Lennox, da Sun.

- É um bom homem?

Cora e Peg riram.

- Ele é mentiroso, falso, miserável. Um porco fedorento e bêbado, mas todos eles são iguais, o que é que se pode fazer? - disse Cora.

- Você nos levará à Sun?

- Você é quem está pedindo - disse Cora.

 

Uma névoa quente de suor e poeira de carvão enchia o porão abafado do navio de madeira. Mack estava em cima de um monte de carvão, com uma pá de lâmina larga, trabalhando em ritmo constante. A tarefa era brutalmente dura; seus braços doíam e ele estava banhado de suor; mas se sentia bem. Era jovem e forte, estava ganhando um bom dinheiro, e não era escravo de ninguém.

Fazia parte de uma turma de dezasseis, todos debruçados sobre suas pás, resmungando, praguejando e contando piadas. A maioria era de musculosos rapazes irlandeses do campo: aquele trabalho era árduo demais para homens nascidos na cidade.

Dermot, com trinta anos, era o mais velho da turma.

Parecia que ele não era capaz de escapar do carvão. Mas era o que fazia o mundo girar. Enquanto trabalhava, Mack pensava sobre o destino daquele carvão: todas as salas de estar de Londres seriam aquecidas, todos os milhares de fogos nas cozinhas, fornos de padarias e as destilarias. A cidade tinha um apetite por carvão que nunca era satisfeito.

Era uma tarde de sábado e a turma tinha quase descarregado todo o navio, o Black Swan, de Newcastle. Para Mack era um prazer calcular quanto lhe pagariam de noite. Aquele era o segundo navio que descarregavam naquela semana, e a turma recebia 16 pence, um pêni por homem, por cada vintena, ou seja, vinte sacos de carvão. Um homem forte com uma pá grande era capaz de tirar um saco em dois minutos. Pelas suas contas cada homem tinha ganhado um bruto de seis libras.

Havia, contudo, as deduções. Sidney Lennox, o intermediário ou "empreiteiro", enviava vastas quantidades de cerveja e gim a bordo para os homens. Tinham que beber muito para repor os galões de líquido que perdiam suando, mas Lennox lhes dava mais do que o necessário e a maioria dos homens bebia, inclusive o gim.

Em consequência, havia geralmente pelo menos um acidente por dia antes de o trabalho terminar. E a bebida tinha que ser paga.

Assim, Mack não tinha muita certeza de quanto iria receber quando entrasse na fila dos salários, na The Sun, naquela noite. No entanto, mesmo que a metade do dinheiro fosse perdida em deduções - uma estimativa certamente muito alta - o remanescente ainda seria o dobro que um mineiro de carvão ganharia por uma semana de seis dias.

E naquele ritmo poderia mandar buscar Esther em algumas semanas. Aí então ele e sua irmã gémea seriam livres da escravidão. O coração de Mack bateu mais forte ante essa perspectiva.

Escrevera para Esther, assim que se instalara na casa de Dermot, e ela respondera. Sua fuga era o grande assunto no vale, disse ela. Alguns dos jovens escavadores estavam tentando fazer uma petição ao parlamento inglês protestando contra a escravidão nas minas. E Annie se casara com Jimmy Lee. Mack sentiu uma pontada de tristeza por causa de Annie. Nunca mais rolaria na relva com ela. Mas Jimmy era um bom homem. Talvez a petição fosse o início de uma mudança: talvez os filhos de Jimmy e Annie viessem a ser livres.

O resto do carvão, enfiado em sacos, foi empilhado em uma barcaça que seguiria para terra firme, acionada a remos. No cais ficaria armazenado em um pátio especial. Mack endireitou as costas doídas e apoiou a pá no ombro. Lá em cima, no convés, o ar frio o atingiu com violência e Mack vestiu a camisa e a capa de pele que Lizzie Hallim tinha lhe dado. Os carregadores de carvão iam para o cais com as últimas sacas e depois andavam até a taverna para receber os salários.

The Sun era uma taverna rústica frequentada por marinheiros e estivadores. Seu piso de terra era lamacento, os bancos e as mesas eram escalavrados e cheios de manchas e o fogo fumacento gerava pouco calor. O proprietário, Sidney Lennox, era um jogador, e sempre havia um jogo de algum tipo sendo disputado: cartas, dados ou um concurso complicado com uma tábua marcada e contadores.

A única coisa boa ali era Black Mary, uma cozinheira africana, que usava mariscos e cortes baratos de carne para fazer ensopados condimentados e substanciais que os fregueses adoravam.

Mack e Dermot foram os primeiros a chegar. Encontraram Peg sentada no bar, com as pernas cruzadas, fumando tabaco da Virgínia em um cachimbo de barro. Ela morava na taverna, dormindo no chão a um canto do bar. Lennox, além de empreiteiro, também era receptador, e Peg lhe vendia as coisas que furtava.

Quando viu Mack, ela cuspiu no fogo e disse, alegre:

- Como é que é, escocês? Salvou mais alguma donzela?

- Hoje não - respondeu ele, com um sorriso.

Black Mary meteu a cara sorridente na porta da cozinha.

- Sopa de rabada, rapazes? - O sotaque dela era dos Países Baixos: dizia que tinha sido escrava de um capitão de navio holandês.

- Só uns dois barris para mim, por favor - replicou Mack.

Ela sorriu.

- Com fome, hem? Trabalhou muito?

- Só fazendo um pouco de exercício para despertar o apetite - disse Dermot.

Mack não tinha dinheiro para pagar a comida, mas Lennox dava crédito a todos os carregadores de carvão, depois descontava dos salários. Depois daquela noite, decidiu Mack, ele pagaria tudo à vista em dinheiro: não queria contrair dívidas.

Sentou-se ao lado de Peg.

- Como vão os negócios? - perguntou, jocosamente.

Ela levou a pergunta a sério.

- Eu e Cora derrubamos um velho rico esta tarde de modo que tiramos a noite de folga.

Mack achava esquisito ser amigo de uma ladra. Sabia o que a levava a fazer isso: não tinha alternativa a não ser a inanição.

Mesmo assim, havia alguma coisa nele, um resíduo das atitudes de sua mãe, que o fazia desaprovar isso.

Peg era pequena e frágil, muito magra e com belos olhos azuis, mas tinha o ar calejado de uma criminosa empedernida, e era assim que as pessoas a tratavam. Mack suspeitava que seu exterior durão era uma defesa: sob a superfície o que provavelmente havia era apenas uma menina assustada sem ninguém no mundo que cuidasse dela.

Black Mary trouxe a sopa com umas ostras flutuando, uma tora de pão e um canecão de cerveja preta, e ele se atirou na comida como um lobo.

Os outros carregadores de carvão foram aparecendo. Não havia sinal de Lennox, o que não era comum: normalmente ele estava jogando cartas ou dados com seus fregueses. Mack gostaria que ele se apressasse. Estava impaciente para saber quanto dinheiro ganhara naquela semana. Supôs que Lennox estivesse fazendo os homens esperar pelos salários para que pudessem gastar mais no bar.

Cora apareceu mais ou menos após uma hora. Sua aparência era tão atraente quanto sempre, vestindo um traje cor de mostarda com enfeites pretos. Todos os homens a cumprimentaram, mas para surpresa de Mack ela foi se sentar com ele.

- Soube que você teve uma tarde lucrativa - comentou.

- Dinheiro fácil - disse ela. - Um homem com idade suficiente para não cair neste tipo de golpe.

- É melhor me contar como faz isso, para eu não cair vítima de alguém como você.

Ela lhe dirigiu um olhar insinuante.

- Você nunca terá que pagar para ter uma garota, Mack, posso lhe garantir isso.

- Conte-me assim mesmo... estou curioso.

- O modo mais simples é escolher um bêbado rico, fazer com que ele fique amoroso, levá-lo para um beco escuro e depois fugir com o dinheiro dele.

- Foi isso que você fez hoje?

- Não, foi melhor. Achamos uma casa vazia e dei uma gorjeta para o caseiro. Desempenhei o papel de uma dona-de-casa entediada. Peg era minha criada. Levamos ele para a casa, fingindo que eu morava lá. Tirei as roupas dele e levei-o para a cama, aí a Peg entrou correndo para dizer que meu marido estava voltando inesperadamente.

Peg riu.

- Pobre velhote, você devia ter visto a cara dele. Estava aterrorizado. Escondeu-se no guarda-roupa!

- E nós saímos, com a carteira dele, seu relógio e todas as suas roupas - completou Cora.

- Provavelmente ele ainda está escondido no guarda-roupa! - disse Peg, e as duas caíram na gargalhada.

As mulheres dos carregadores de carvão começaram a aparecer, muitas delas com bebês nos braços e crianças agarradas nas suas saias. Algumas tinham o espírito e a beleza da juventude, mas outras pareciam cansadas e subnutridas, mulheres espancadas de maridos violentos e beberrões. Mack supôs que todas estavam ali na esperança de pegar um pouco do salário antes que todo o dinheiro fosse bebido, jogado ou roubado por prostitutas. Bridget Riley entrou com seus cinco filhos e sentou-se com Dermot e Mack.

Lennox finalmente apareceu, à meia-noite.

Carregava um saco de couro cheio de moedas e um par de pistolas, presumivelmente para se proteger de roubos. Os carregadores de carvão, a maior parte dos quais já estava embriagada a essa altura, saudaram-no como a um herói conquistador quando ele entrou, e Mack sentiu um desprezo momentâneo pelos seus colegas: por que demonstravam gratidão por algo que lhes era devido?

Lennox era um grosseirão com cerca de trinta anos, botas na altura dos joelhos e um colete de flanela sem camisa. Estava em boa forma física e era musculoso de tanto carregar os pesados barriletes de cerveja e aguardente. Sua boca tinha um ricto cruel. Seu cheiro era característico, um cheiro doce como de uma fruta podre.

Mack notou que Peg estremeceu involuntariamente quando ele passou: ela tinha medo do homem.

Lennox puxou uma mesa a um canto, arriou o saco em cima dela e as pistolas do lado. Os homens e mulheres acorreram, empurrando e se acotovelando, como se o dinheiro fosse terminar antes de chegar a vez deles. Mack deixou-se ficar; era abaixo de sua dignidade correr por um salário que tinha feito por merecer.

Ele ouviu a voz rouca de Lennox elevar-se acima da algazarra.

- Cada homem fez jus a uma libra e onze pence esta semana, antes das contas do bar.

Mack ficou sem saber se ouvira direito. Tinham descarregado dois navios, cerca de mil e quinhentas vintenas, ou trinta mil sacos de carvão, o que dava a cada homem um salário bruto de cerca de seis libras. Como poderia ter sido reduzido a pouco mais de uma libra cada um?

Houve um gemido de desapontamento da parte dos homens, mas nenhum deles questionou o número. Quando Lennox começou a contar os pagamentos individuais, Mack disse:

- Espere um minuto. Como foi que você chegou a esse número?

Lennox levantou os olhos, furioso.

- Vocês descarregaram mil e quatrocentos e quarenta e cinco vintenas, o que dá a cada um seis libras e cinco pence brutos. Deduzindo quinze shillings por dia pela bebida...

- O quê? - interrompeu Mack. - Quinze shillings por dia? Isso é três quartos do salário!

Dermot Riley resmungou sua concordância.

- Um maldito roubo, isto é que é. - Ele não falou muito alto, mas houve murmúrios de aprovação vindos dos outros homens e mulheres.

- Minha comissão é dezasseis pence por homem por navio - continuou Lennox. - Há mais dezasseis pence para a gorjeta do capitão, seis pence por dia pelo aluguel de uma pá...

- Aluguel de uma pá! - explodiu Mack.

- Você é novo aqui e não conhece as regras, McAsh - exclamou Lennox, irritado. - Se não calar a maldita boca e me deixar continuar com isto aqui, ninguém será pago.

Mack sentiu-se ultrajado, mas a razão lhe disse que Lennox não inventara aquele sistema agora; obviamente tratava-se de coisa antiga, e os homens deviam ter aceito. Peg pegou na sua manga e puxou.

- Não cria caso, Jock. Lennox dará um jeito de prejudicar você.

Mack deu de ombros e ficou quieto. Seu protesto, contudo, sensibilizou os outros, e Dermot Riley levantou sua voz.

- Não bebi quinze shillings de cerveja por dia - disse.

A esposa dele acrescentou:

- Com toda a certeza que não bebeu.

- Nem eu - disse outro homem. - Quem conseguiria beber tanto? Um homem explode com essa quantidade de cerveja! - Os homens riram.

Lennox replicou, furioso:

- Isto é quanto despachei para dentro do navio para vocês. Acha que eu posso manter um registro do que cada homem bebe todo dia?

- Neste caso, você é o único taverneiro em Londres que não consegue! - disse Mack e os homens riram.

Lennox ficou furioso com a zombaria de Mack e a risada dos outros homens. Com uma expressão ameaçadora, ele disse:

- O sistema é esse, você paga quinze shillings de bebida, quer consuma ou não.

Mack aproximou-se da mesa.

- Bem, eu também tenho um sistema - disse. - Não pago pela bebida que não encomendei e que não bebi. Você pode não ter mantido um registro, mas eu mantive, e posso dizer exactamente o quanto lhe devo.

- Eu também - disse outro homem. Era Charlie Smith, um negro nascido na Inglaterra e com sotaque de Newcastle. - Bebi oitenta e três canecos da cerveja que você vende aqui por quatro pence o meio litro. O que dá um total de vinte e sete shillings e oito pence pela semana inteira, e não quinze shillings por dia.

- Você tem sorte de estar recebendo alguma coisa, seu negro canalha, você devia ser escravo e estar a ferros - disse Lennox.

O rosto de Charlie sombreou-se.

- Eu sou inglês e cristão, e sou melhor do que você porque sou honesto - disse ele, controlando sua fúria.

- Eu também posso dizer exactamente quanto bebi - disse Dermot Riley. Passou pela cabeça de Mack que devia acalmar os ânimos.

Tentou pensar em algo conciliatório para dizer. Mas aí viu Bridget Riley e seus filhos famintos, e a indignação levou a melhor.

Disse para Lennox:

- Você não deixará essa mesa enquanto não pagar o que deve.

Os olhos de Lennox desviaram-se para suas pistolas.

Com um movimento rápido, Mack jogou as armas no chão.

- Você também não vai escapar atirando em mim, seu maldito ladrão - disse, furioso.

Lennox lembrava um mastim acuado. Mack perguntou-se se não teria ido longe demais: talvez devesse ter deixado espaço para salvar as aparências, não se comprometendo tanto. Mas era tarde demais. Lennox tinha de recuar. Fizera com que os carregadores se embriagassem e eles o matariam a menos que lhes pagasse.

Ele sentou-se direito na cadeira, semicerrou os olhos, dirigiu a Mack um olhar de puro ódio e disse:

- Você vai pagar por isso, McAsh, juro por Deus que vai.

Mack tentou contemporizar:

- Ora vamos, Lennox, os homens só estão pedindo que você lhes pague o que é devido.

Lennox não mudou de opinião, mas cedeu. Com a cara fechada, começou a contar o dinheiro. Pagou primeiro a Charlie Smith, depois a Dermot Riley, em seguida a Mack, aceitando a palavra deles pela quantidade de bebida que tinham consumido.

Mack afastou-se da mesa entusiasmado. Tinha três libras e nove shillings na mão: se pusesse de lado a metade para Esther, ainda assim continuaria rico.

Outros carregadores arriscaram seus palpites quanto à bebida que teriam ingerido, mas Lennox não discutiu, excepto no caso de Sam Potter, um rapaz imenso de gordo de Cork, que dizia ter bebido apenas três litros, fazendo com que os demais caíssem na gargalhada: no final acabou aceitando um número três vezes superior.

Uma atmosfera de júbilo espalhou-se entre os homens e suas mulheres quando embolsaram os salários. Diversos deles foram até Mack bater nas suas costas e Bridget Riley deu-lhe um beijo.

Ele percebia que tinha feito algo de notável mas receava que o drama ainda não tivesse terminado. Lennox cedera com demasiada facilidade.

Quando o último homem tinha sido pago, Mack pegou as armas de Lennox no chão. Soprou a pólvora das pederneiras, para que não pudessem disparar, e colocou-as em cima da mesa.

Lennox pegou as pistolas desarmadas e o saco de dinheiro quase vazio e se levantou. O salão ficou em silêncio. Ele foi até a porta que dava nos seus aposentos privados. Todos o fitaram intensamente, como se temessem que pudesse encontrar um jeito de pegar o dinheiro de volta. Chegando à porta, Lennox virou-se.

- Vão para casa, vocês todos - disse, maldosamente. - E não voltem na segunda-feira. Não haverá trabalho para vocês. Estão todos demitidos.

 

Mack ficou acordado quase que a noite toda, preocupado. Alguns dos carregadores disseram que Lennox já teria esquecido tudo na segunda-feira de manhã, mas Mack duvidava. Lennox não parecia o tipo de homem que engolisse derrotas; e podia facilmente arranjar outros dezasseis homens jovens e fortes para formar sua turma.

A culpa fora de Mack. Os carregadores de carvão eram como bois, fortes e estúpidos e facilmente liderados: não teriam se rebelado contra Lennox se Mack não os tivesse encorajado.

Agora, pensava Mack, cabia a ele acertar as coisas.

Ele se levantou cedo na manhã de domingo e foi até o outro quarto. Dermot e a mulher dormiam num colchão e as cinco crianças dormiam juntas no canto oposto. Mack sacudiu Dermot para acordá-lo.

- Temos que arranjar trabalho para a nossa turma antes de amanhã - disse.

Dermot levantou-se. Bridget resmungou, da cama:

- Vistam qualquer coisa respeitável se vão querer impressionar um outro empreiteiro.

Dermot vestiu um velho colete vermelho, e emprestou a Mack o lenço de pescoço de seda azul que comprara para o seu casamento. No caminho, passaram na casa de Charlie Smith.

Charlie trabalhava naquilo há cinco anos e conhecia todo mundo.

Ele vestiu seu melhor casaco azul e juntos os três seguiram para Wapping.

As ruas lamacentas da zona portuária estavam quase desertas.

Os sinos das centenas de igrejas de Londres chamavam os devotos para as orações, mas a maioria dos marinheiros, estivadores e trabalhadores nos depósitos aproveitavam seu dia de descanso e estavam em casa. A água marrom do rio Tâmisa marulhava, preguiçosa, nos cais desertos, enquanto os ratos passeavam atrevidamente ao longo da parte da praia descoberta pela maré baixa.

Todos os empreiteiros que trabalhavam com descarga de carvão eram taverneiros. Os três homens foram primeiro à Frying Pan, a uns poucos metros da Sun. Encontraram o dono cozinhando um presunto no quintal. O cheiro fez a boca de Mack encher-se de água.

- Como é que é, Harry? - cumprimentou Charlie, alegremente.

Ele lhes dirigiu um olhar azedo.

- O que é que vocês querem, rapazes, se não for cerveja?

- Trabalho - respondeu Charlie. - Você tem um navio para descarregar amanhã?

- Tenho, e também tenho uma turma para descarregá-lo. De qualquer forma, obrigado.

Eles foram embora. Dermot disse:

- O que é que há com ele? Olhou para nós como se fôssemos leprosos.

- Gim de mais ontem à noite - especulou Charlie.

Mack receou que fosse algo mais sinistro, mas por ora guardou para si seus pensamentos.

- Vamos até a King's Head - disse.

Diversos carregadores de carvão estavam bebendo cerveja no bar, e cumprimentaram Charlie pelo nome.

- Vocês estão ocupados, rapazes? - perguntou Charlie. - Estamos procurando um navio.

O dono da taverna ouviu.

- Vocês estavam trabalhando para Sidney Lennox, na The Sun?

- Sim, mas ele não precisa de nós na semana que vem - explicou Charlie.

- Nem eu - disse o taverneiro.

Quando saíram, Charlie disse:

- Vamos tentar Buck Delaney, na Swan. Ele chefia duas ou três turmas ao mesmo tempo.

A The Swan era uma taverna movimentada com estábulos, um salão de café, um pátio de carvão e diversos bares.

Encontraram o dono, um irlandês, em seu quarto particular que dava para o pátio.

Delaney tinha sido carregador de carvão na juventude, mesmo que agora usasse uma peruca e uma gravata de renda para comer o seu desjejum de café e carne fria.

- Deixem que eu lhes dê uma dica, meus rapazes - disse ele. - Todo empreiteiro de carvão de Londres soube do que aconteceu na Sun ontem à noite. Ninguém empregará vocês, Sidney Lennox providenciou isso.

O coração de Mack sofreu um aperto. Ele vinha temendo algo assim.

- Se eu fosse vocês - prosseguiu Delaney - tomaria um navio e ficaria fora da cidade um ano ou dois. Na volta tudo estaria esquecido.

Dermot ficou furioso:

- Quer dizer então que os carregadores sempre serão roubados por vocês, empreiteiros?

Se Delaney ofendeu-se, não deu mostra.

- Olhe à sua volta, meu rapaz - disse, em tom ameno, indicando com um gesto vago o serviço de café em prata, o quarto atapetado e o movimento dos negócios que pagavam por tudo aquilo. - Eu não consegui isto que você está vendo sendo justo com as pessoas.

- O que nos impede de ir procurar os capitães nós mesmos, e contratarmos a descarga dos navios? - perguntou Mack.

- Tudo - respondeu Delaney. - De vez em quando aparece um carregador de carvão como você, McAsh, com um pouco mais de iniciativa que o resto e quer dirigir sua própria turma e eliminar o empreiteiro e os pagamentos de bebida e tudo mais. Mas há muita gente ganhando muito dinheiro com este esquema. - Ele sacudiu a cabeça. - Você não é o primeiro a protestar contra o sistema, McAsh, e não será o último.

Mack ficou enojado com o cinismo de Delaney, mas sentiu que o homem estava falando a verdade. Foi incapaz de pensar em qualquer outra coisa para dizer ou fazer. Sentindo-se derrotado, dirigiu-se para a porta, seguido por Dermot e Charlie.

- Aceite meu conselho, McAsh - disse Delaney. - Faça como eu. Arranje uma pequena taverna e venda bebida para os carregadores de carvão. Pare de tentar ajudá-los e comece a ajudar a si mesmo. Você poderá se sair bem. Tem tudo para isso, posso garantir.

- Ser como você? - disse Mack. - Você enriqueceu enganando os seus companheiros. Por Cristo, eu não seria como você nem por um reino.

Quando saiu ele sentiu-se gratificado por ver que o rosto de Delaney finalmente exprimia raiva.

Mas sua satisfação não durou mais do que o tempo de fechar a porta. Ganhara uma discussão e perdera tudo o mais. Se ao menos tivesse engolido seu orgulho e aceito o sistema de Sidney Lennox, teria trabalho na manhã do dia seguinte. Agora não tinha nada e pusera quinze outros homens e suas famílias na mesma situação desesperadora. A perspectiva de trazer Esther para Londres ficava mais distante do que nunca. Cuidara de tudo erradamente. Era um maldito idiota.

Os três homens sentaram-se em um dos bares e pediram pão e cerveja para seu desjejum. Mack refletiu que ele tinha sido arrogante de olhar com desprezo para os outros carregadores por aceitarem seu destino em silêncio. Na sua cabeça os chamara de bois, mas o boi era ele mesmo.

Pensou em Caspar Gordonson, o advogado radical que começara tudo aquilo dizendo a Mack quais eram seus direitos legais. Se eu pudesse pegar esse tal de Gordonson, pensou Mack, ia lhe mostrar o quanto valem os direitos legais.

A lei só valia para aqueles que tinham o poder de fazê-la cumprir, ao que parecia. Mineiros e carregadores de carvão não tinham advogado na corte. Eram tolos em falar de seus direitos. As pessoas espertas ignoravam o certo e o errado e tomavam conta de si, como Cora e Peg e Buck Delaney.

Pegou o caneco de cerveja mas sua mão imobilizou-se a meio caminho da boca. Caspar Gordonson morava em Londres, claro.

Mack podia pegá-lo... Podia mostrar a ele o quanto valiam seus direitos legais. Mas talvez pudesse fazer melhor do que isto. Talvez Gordonson viesse a ser o advogado dos carregadores de carvão.

Ele era advogado, e escrevia constantemente sobre a liberdade inglesa: devia ajudar.

Valia a pena tentar.

A carta fatal que Mack recebera de Caspar Gordonson tinha vindo de um endereço na rua Fleet. O Fleet era um córrego imundo que desaguava no Tâmisa ao pé da colina onde ficava a catedral de St. Paul. Gordonson morava numa casa de tijolos de três andares perto de uma grande taverna.

- Deve ser solteiro - disse Dermot.

Como é que você sabe? - indagou Charlie Smith.

- Janelas sujas, degraus da porta sem polimento. Não tem mulher em casa.

Um criado os conduziu para o interior da casa, não demonstrando surpresa quando pediram para ver o Sr. Gordonson. Quando entraram, dois homens bem-vestidos estavam saindo, prosseguindo numa discussão que envolvia William Pitt, o Lorde do Selo Privado e o Visconde de Weymouth, um dos secretários de Estado.

Não interromperam a discussão mas um deles cumprimentou Mack abanando a cabeça com distraída polidez, o que o surpreendeu muito, já que cavalheiros normalmente ignoravam as pessoas das classes baixas.

Mack imaginara que a casa de um advogado devia ser um lugar de documentos empoeirados e segredos sussurrados, na qual o maior ruído seria o lento arranhar de penas escrevendo. A casa de Gordonson, contudo, era mais como uma gráfica. Havia jornais e panfletos amarrados em maços no saguão, o ar cheirava a papel cortado e tinta de impressão e o barulho das máquinas que vinha de baixo sugeria que uma impressora estava sendo operada no porão.

O criado entrou numa sala que dava no corredor. Mack perguntou-se se não estaria perdendo seu tempo. Pessoas que escreviam artigos inteligentes em jornais provavelmente não sujavam as mãos envolvendo-se com trabalhadores braçais. O interesse de Gordonson por liberdade podia ser inteiramente teórico. Mas Mack tinha que tentar tudo. Conduzira a sua turma de carregadores de carvão a uma rebelião e agora estavam todos sem trabalho: ele tinha que fazer alguma coisa.

Uma voz alta e estridente veio de dentro.

- McAsh? Nunca ouvi falar! Quem é? Você não sabe? Então pergunte! Deixa para lá...

Um momento depois um homem calvo e sem peruca apareceu no portal e deu uma espiada nos três carregadores de carvão através das lentes dos seus óculos.

- Não creio que conheça qualquer um de vocês - disse ele. - O que desejam de mim?

Foi um início desencorajador, mas Mack não desanimava facilmente e disse, com bom humor:

- O senhor me deu um péssimo conselho recentemente, mas, a despeito disso, vim em busca de mais.

Houve uma pausa e Mack pensou que tivesse ofendido o advogado; mas aí Gordonson riu vigorosamente e, num tom de voz amigo, disse:

- Quem é você, afinal?

- Malachi McAsh, conhecido como Mack. Eu era minerador de carvão em Heugh, perto de Edimburgo, até que o senhor me escreveu e me disse que eu era um homem livre.

A compreensão iluminou o rosto de Gordonson.

- Você é o mineiro amante da liberdade! Toque aqui, homem.

Mack apresentou Dermot e Charlie.

- Entrem, todos vocês. Tomam um copo de vinho?

Eles o seguiram no interior de uma sala desarrumada com uma escrivaninha e as paredes forradas de livros. Havia mais publicações empilhadas no chão e em cima da mesa estavam espalhadas provas de impressão. Um cachorro velho e gordo estava deitado sobre um tapete manchado em frente à lareira.

Podia se sentir um cheiro desagradável que devia vir do tapete ou do cachorro, ou talvez de ambos. Mack levantou um livro de direito aberto de cima de uma cadeira e sentou-se.

- Não vou tomar vinho, obrigado - disse. Queria estar em plena posse de suas faculdades mentais.

- Uma xícara de café, talvez? O vinho adormece, mas o café desperta. Café para todo mundo - disse para o criado, sem esperar resposta. Ele virou-se de novo para Mack: - Agora, McAsh, por que meu conselho foi tão ruim para você?

Mack contou como tinha deixado Heugh. Dermot e Charlie ouviram atentamente a história: nunca a tinham ouvido.

Gordonson acendeu um cachimbo e soprou nuvens de fumaça, sacudindo a cabeça, irritado, de tempos em tempos. Quando o café chegou, Mack estava terminando.

- Conheço os Jamisson há muito tempo, são pessoas gananciosas, impiedosas e brutais - disse Gordonson, com sentimento. - O que foi que você fez quando veio para Londres?

- Fui trabalhar como carregador de carvão. - Mack relatou o que acontecera na The Sun na noite anterior.

- Os pagamentos em bebida feitos aos carregadores de carvão são um antigo escândalo - disse Gordonson.

Mack fez que sim.

- Disseram-me que não fui o primeiro a protestar.

- E na verdade não foi. O Parlamento passou uma lei contra esta prática há dez anos.

Mack ficou assombrado.

- Então como é que continua?

- A lei nunca foi posta em execução.

- Por quê?

- O governo tem medo de interromper o fornecimento de carvão. Londres funciona na base do carvão... nada acontece aqui sem ele: não se assa pão, não se fabrica cerveja, não se pode soprar vidros, fundir ferro, ferrar cavalos ou fabricar pregos...

- Eu entendo - disse Mack, impaciente. - O que eu não devia era ficar surpreso porque a lei nada faz por homens como nós.

- Não, você está errado quanto a isto - disse Gordonson, em tom pedante. - A lei não toma decisões. Ela não tem vontade própria. É como uma arma, uma ferramenta: trabalha para quem a pega e usa.

- Os ricos.

- Geralmente - concedeu Gordonson. - Mas pode trabalhar para você.

- Como? - quis saber Mack, ansioso.

- Suponha que você imagine um método alternativo de formação de turmas para descarregar os navios de carvão.

Era isso que Mack estava esperando.

- Não seria difícil - disse. - Os homens poderiam escolher um deles para ser seu intermediário e lidar com os capitães dos navios. O dinheiro seria repartido assim que fosse recebido.

- Presumo que os carregadores iam preferir trabalhar sob o novo sistema, e serem livres para gastar seus salários como bem entendessem.

- Sim - concordou Mack, contendo seu entusiasmo, cada vez maior. - Poderiam pagar pela cerveja que bebessem, como qualquer um. - Mas Gordonson iria se alinhar ao lado dos carregadores? Se fosse, tudo podia mudar.

Charlie Smith disse, desanimado:

- Já foi tentado. Não funciona.

Charlie trabalhava descarregando carvão há muitos anos, lembrou Mack. E perguntou:

- Por que não funciona?

- O que acontece é que os empreiteiros subornam os capitães dos navios para não usar as novas turmas. Depois há encrencas e brigas entre as turmas. E são as turmas novas que são punidas pelas brigas, porque os juízes são, eles próprios, empreiteiros, ou amigos de empreiteiros... e no fim todos os carregadores de carvão voltam aos velhos costumes.

- Malditos idiotas - disse Mack.

Charlie pareceu ofendido.

- Suponho que se fossem mais inteligentes não seriam carregadores de carvão.

Mack percebeu ter sido arrogante, mas se enfurecia ao ver que o homem é o pior inimigo do próprio homem.

- Eles só precisam ter um pouco mais de determinação e solidariedade - disse.

Gordonson acrescentou:

- Há mais do que isso. É uma questão de política. Eu me lembro da última disputa dos carregadores de carvão. Foram derrotados porque não tinham um defensor. Os empreiteiros eram contra eles e eles não tinham quem estivesse do seu lado.

- E por que deveria ser diferente desta vez? - quis saber Mack.

- Por causa de John Wilkes.

Wilkes era um defensor da liberdade, mas estava exilado.

- Ele não pode fazer muito por nós em Paris.

- Ele não está em Paris. Já voltou.

Aquilo foi uma surpresa.

- O que é que ele vai fazer?

- Candidatar-se ao Parlamento.

Mack podia imaginar como aquilo ia agitar os círculos políticos de Londres.

- Mas ainda não vejo como isso possa nos ajudar.

- Wilkes ficará com os carregadores de carvão e o governo se alinhará com os empreiteiros. Uma disputa dessas, com os trabalhadores visivelmente com a razão e tendo também a lei ao seu lado, só poderá ajudar Wilkes.

- Como você sabe o que Wilkes fará?

Gordonson sorriu.

- Sou cabo eleitoral dele.

Gordonson era mais poderoso do que Mack imaginara. Aquilo era uma sorte.

Charlie Smith, ainda cético, disse:

- Então você está planejando usar os carregadores de carvão em benefício dos seus objectivos políticos.

- Bem pensado - concordou Gordonson, condescendente. Ele descansou o cachimbo. - Mas por que apoio Wilkes? Eu explico. Vocês vieram me procurar hoje queixando-se de uma injustiça. Este tipo de coisa acontece com muita frequência: homens e mulheres comuns explorados cruelmente em benefício de um tipo ganancioso como George Jamisson ou Sidney Lennox.

Isso prejudica o comércio, porque o mau empreendimento prejudica o bom. E mesmo que fosse bom para o comércio seria ruim. Amo meu país e odeio os covardes que querem destruir seu povo e arruinar sua prosperidade. Assim, passo a vida lutando por justiça. - Ele sorriu e recolocou o cachimbo na boca. - Espero não ter sido pomposo demais.

- Em absoluto - disse Mack. - Estou satisfeito porque você está do nosso lado.

 

O dia do casamento de Jay Jamisson foi frio e húmido. Do seu quarto na Grosvenor Square ele podia ver o Hyde Park, onde seu regimento estava bivacado. Uma neblina baixa cobria o solo, e as barracas dos soldados pareciam velas de navios num irrequieto mar cinzento. Fogueiras sem brilho soltavam fumaça aqui e ali, tornando a atmosfera mais abafada. Os homens podiam ser infelizes, mas os soldados eram sempre infelizes.

Deu as costas à janela. Chip Marlborough, que o estava ajudando na cerimónia do casamento, segurava o novo casaco de Jay. Jay o enfiou com um grunhido de agradecimento. Chip era capitão no Terceiro Regimento de Infantaria da Guarda, como Jay.

O pai dele era Lorde Arebury, que tinha negócios com o pai de Jay.

Jay sentia-se lisonjeado por um herdeiro tão aristocrático ter concordado em ficar a seu lado no dia de seu casamento.

- Você já viu os cavalos? - perguntou Jay, ansiosamente.

- Claro - disse Chip.

Embora o Terceiro fosse um regimento de infantaria, os oficiais sempre andavam montados, e a responsabilidade de Jay era supervisionar os homens que cuidavam dos cavalos. Ele era talentoso, quando se tratava de cavalos; compreendia-os instintivamente. Tinha dois dias de licença por causa do casamento mas ainda assim se preocupava em saber se os animais estavam sendo tratados adequadamente.

A licença era tão curta porque o regimento estava em serviço ativo. Não havia guerra: a última guerra que o exército britânico combatera fora a Guerra dos Sete Anos, contra os franceses na América, a qual terminara quando Jay e Chip eram garotos de escola. Mas o povo de Londres estava tão inquieto e turbulento que as tropas estavam prontas para reprimir os distúrbios. Quase que diariamente um grupo qualquer de artesãos entrava em greve, marchava sobre o Parlamento ou corria pelas ruas quebrando vidraças. Só naquela semana os tecelões de seda, ultrajados por uma redução nos seus salários, destruíram três dos novos teares motorizados em Spitalfields.

- Espero que o regimento não seja convocado enquanto eu estiver de licença - disse Jay. - Seria muita falta de sorte minha perder a acção.

- Pare de se preocupar! - Chip serviu conhaque em dois copos. Ele era um grande bebedor de conhaque. - Ao amor!

- Ao amor - repetiu Jay.

Não sabia muito sobre o amor, refletiu ele. Perdera sua virgindade cinco anos atrás com Arabella, uma das criadas da casa de seu pai. Pensou naquele tempo que a estivesse seduzindo, mas, rememorando, podia ver agora que tinha sido exactamente o contrário. Depois de estar com ela na cama três vezes, ela lhe dissera que estava grávida. Pagara-lhe trinta libras - que pedira a um agiota - para que desaparecesse. Hoje suspeitava que ela nunca estivera grávida e que tudo não passara de um golpe estudado.

Desde então flertara com dúzias de garotas, beijara muitas delas e fora para a cama com poucas. Achava fácil seduzir uma garota: era principalmente uma questão de fingir-se interessado em tudo quanto ela dissesse, embora boa aparência e bons modos ajudassem. Ele as deixava indefesas sem muito esforço. Mas agora, pela primeira vez, sofrera o mesmo tratamento. Quando estava com Lizzie sentia-se sempre ligeiramente sem fôlego, e sabia que a fitava como se ela fosse a única pessoa na sala, do mesmo modo como uma garota olhava para ele quando estava sendo fascinante. Será que isto era amor? Ele achava que sim.

Seu pai passara a encarar melhor o casamento por causa da possibilidade de conseguir explorar o carvão de Lizzie. Era por isto que estava fazendo com que Lizzie e a mãe permanecessem na casa de hóspedes e ia pagar o aluguel da casa da rua Rugby onde Jay e Lizzie iam morar após o casamento. Não tinham prometido nada ao pai, mas também não tinham lhe dito que Lizzie era terminantemente contrária a minerar carvão em High Glen. Jay só esperava que tudo desse certo no final. A porta abriu-se e um lacaio perguntou:

- O senhor pode atender um certo Sr. Lennox?

Jay sentiu um aperto no coração. Devia dinheiro a Sidney Lennox: dívidas de jogo. Mandaria o homem embora - afinal era apenas um taverneiro - mas Lennox podia mostrar-se desagradável por causa da dívida.

- É melhor fazer com que ele entre - disse Jay. - Sinto muito por isto - disse para Chip.

- Conheço Lennox - disse Chip. - Eu mesmo perdi dinheiro para ele. - Lennox entrou, e Jay reparou no cheiro de suor azedo que exalava, como alguma coisa que fermentasse. Chip cumprimentou-o: - Como vai, seu maldito tratante?

Lennox dirigiu-lhe um olhar glacial-:

- Você não me chama de maldito tratante quando ganha.

Jay fitou-o nervosamente. Lennox trajava uma roupa amarela com meias de seda e sapatos de fivela, mas lembrava um chacal vestido de homem; havia um ar de ameaça nele que roupas elegantes não eram capazes de esconder. Jay não podia, contudo, romper com Lennox. Era um sujeito bastante útil: sempre sabia onde havia uma briga de galos, combate de gladiadores ou corrida de cavalos, e se tudo mais falhasse, ele mesmo organizava um jogo de cartas ou de dados.

Lennox estava sempre disposto a dar crédito a jovens oficiais que ficavam sem dinheiro mas queriam continuar jogando, e este era o problema. Jay devia a Lennox cento e cinquenta libras.

Seria embaraçoso se Lennox insistisse em cobrar a dívida agora.

- Você sabe que estou me casando hoje, Lennox - disse Jay.

- Sim, eu sei disso - confirmou Lennox. - Vim para beber à sua saúde.

- Sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma. Chip, um trago para o nosso amigo.

Chip serviu três doses generosas de conhaque.

- A você e sua noiva - disse Lennox.

- Muito obrigado - agradeceu Jay, e os três homens beberam.

Lennox dirigiu-se a Chip.

- Haverá um grande jogo de cartas amanhã à noite, capitão Marlborough, no café Lord Archer's.

- Parece bom para mim - disse Chip.

- Espero vê-lo lá. Sem dúvida você estará muito ocupado, capitão Jamisson.

- Espero que sim - respondeu Jay. De qualquer modo, ele lembrou a si próprio, não teria dinheiro para jogar.

Lennox descansou seu copo.

- Espero que tenham um bom dia e que a neblina levante - disse, e saiu.

Jay disfarçou o alívio que sentiu. Nada tinha sido dito a respeito de dinheiro. Lennox sabia que o pai de Jay pagara o último débito e talvez se sentisse confiante de que Sir George fosse fazer o mesmo de novo. Jay perguntou-se por que Lennox teria vindo: certamente que não para beber um copo de conhaque de graça?

Teve a sensação desagradável de que Lennox tinha querido dar uma espécie de mensagem. Havia uma ameaça muda no ar. Mas o que poderia um taverneiro fazer ao filho de um rico comerciante, no final de tudo?

Vindo da rua, Jay ouviu o barulho das carruagens parando diante da casa. Expulsou Lennox de sua cabeça.

- Vamos descer - disse.

A sala de estar era um grande espaço com uma mobília caríssima feita por Thomas Chippendale. Cheirava à cera de polimento. A mãe de Jay, o pai e o irmão estavam lá, todos vestidos para a igreja. Alicia beijou Jay. Sir George e Robert cumprimentaram-no embaraçadamente: nunca tinham sido uma família afectuosa, e a briga por causa do vigésimo primeiro aniversário de Jay ainda estava recente na memória de todos.

Um lacaio estava servindo café. Jay e Chip tomaram uma xícara cada um. Antes que pudessem engolir, a porta foi escancarada e Lizzie entrou como um furacão:

- Como se atreve? - esbravejou. - Como é que você se atreve?

O coração de Jay falhou uma batida. O que seria agora?

Lizzie estava vermelha de indignação, com os olhos faiscantes, o colo arfando. Trajava o vestido de noiva, um vestido branco simples com uma touca branca, mas parecia encantadora.

- O que foi que eu fiz? - queixou-se Jay.

- O casamento está cancelado! - replicou ela.

- Não! - gritou Jay. Certamente que ela não ia ser tirada dele no último momento? A idéia era insuportável Lady Hallim entrou correndo atrás da filha, com uma expressão perturbada no rosto.

- Lizzie, por favor, pare com isso - disse ela.

A mãe de Jay assumiu o controle.

- Lizzie querida, qual é o problema? Por favor, conte-nos o que a deixou tão aborrecida.

- Isto! - disse ela, e sacudiu um maço de papéis.

Lady Hallim contorcia as mãos.

- É uma carta do meu guarda-chefe - disse.

Lizzie explicou:

- Diz que topógrafos contratados pelos Jamisson estiveram cavando na propriedade Hallim.

- Cavando? - disse Jay, desorientado. Ele olhou para Robert e percebeu uma expressão furtiva no rosto dele.

Lizzie disse, impaciente:

- Estão procurando carvão, claro.

- Oh, não! - protestou Jay. Compreendeu o que acontecera.

Seu impaciente pai se precipitara. Estava tão ansioso para pôr as mãos no carvão de Lizzie que não conseguira esperar pelo casamento.

Mas a impaciência do pai podia ter feito com que Jay perdesse a noiva. Só de pensar nisto Jay ficou tão furioso que gritou com o pai:

- Seu maldito idiota! - disse, atrevido. - Olhe só o que fez!

Era algo de chocante para um filho dizer, e Sir George não estava acostumado com oposição da parte de ninguém. Ficou vermelho, com os olhos esbugalhados e gritou:

- Pois então cancele o maldito casamento! O que me importa?

Alicia interveio.

- Calma, Jay, e você também, Lizzie - disse. Ela também se referia a Sir George, mas diplomaticamente não disse o nome dele. - Obviamente houve um erro. Sem dúvida os topógrafos de Sir George entenderam mal as instruções que receberam. Lady Hallim, por favor leve Lizzie de volta à casa de hóspedes e nos permita esclarecer tudo isto. Sinto-me segura de que não será preciso nada de tão drástico quanto cancelar o casamento.

Chip Marlborough tossiu. Jay tinha esquecido que ele estava ali.

- Se me dão licença... - disse ele, dirigindo-se para a porta.

- Não saia da casa - pediu Jay. - Fique lá em cima.

- Certamente - concordou Chip, embora seu rosto demonstrasse que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo.

Alicia conduziu delicadamente Lizzie e Lady Hallim para a porta, atrás de Chip.

- Por favor, dêem-me uns minutinhos e daqui a pouco vou chamá-las e tudo estará bem.

Quando Lizzie saiu, estava parecendo mais em dúvida do que furiosa, e a esperança de Jay era de que ela se desse conta de que ele não tinha tomado conhecimento das perfurações. Alicia fechou a porta e virou-se. Jay rezou para que ela pudesse fazer algo para salvar o casamento. Teria um plano? Ela era tão inteligente. A sua única esperança.

Ela não protestou com seu pai. ao invés, disse:

- Se não houver casamento, você não terá seu carvão.

- High Glen está falida - replicou Sir George.

- Mas Lady Hallim pode renovar suas hipotecas com outro que lhe empreste.

- Ela não sabe disso.

- Alguém lhe dirá.

Houve uma pausa enquanto a ameaça era digerida. Jay teve medo de que seu pai explodisse. Mas a mãe sabia avaliar bem o quanto ele podia ser pressionado, e no fim Sir George disse, resignado:

- O que você quer, Alicia?

Jay deixou escapar um suspiro de alívio. Talvez seu casamento pudesse ser salvo.

A mãe disse:

- Antes de mais nada, Jay tem que falar com Lizzie e convencê-la de que não sabia das perfurações.

- É verdade! - aparteou Jay.

- Cala a boca e escuta - disse seu pai, brutalmente.

A mãe prosseguiu:

- Se ele conseguir convencê-la, os dois poderão se casar conforme o planejado.

- E depois?

- Depois é ter paciência. Com o tempo, Jay e eu podemos convencer Lizzie a mudar de idéia, ou pelo menos a tornar-se menos passional a esse respeito... especialmente quando ela tiver uma casa e um filho e começar a entender a importância do dinheiro.

Sir George sacudiu a cabeça.

- Não é bastante bom, Alicia. Não posso esperar.

- Por que não?

Ele fez uma pausa, olhou para Robert e deu de ombros.

- Suponho que seja melhor contar - disse. - Estou endividado. Você sabe que sempre recorremos a empréstimos, a maioria dos quais de Lorde Arebury. No passado lucrávamos o que dava para nós e para ele. Mas o nosso comércio com a América caiu a um nível muito baixo desde que começou o problema com as colónias. E é quase impossível receber pagamento pelo pouco que restou. O nosso maior devedor quebrou, deixando-me com uma plantação de tabaco na Virgínia que não consigo vender.

Jay ficou atónito. Nunca lhe ocorrera que os empreendimentos da família estivessem correndo risco e que a fortuna que sempre conhecera podia não ser eterna. Começou a entender por que seu pai ficara tão enfurecido por ter de pagar suas dívidas de jogo.

O pai continuou:

- O carvão tem nos sustentado, mas não basta. Lorde Arebury quer o seu dinheiro. Assim, eu preciso da propriedade Hallim. Caso contrário, posso perder todos os meus negócios.

Houve um silêncio. Tanto Jay quanto sua mãe estavam chocados demais para falar.

Finalmente Alicia disse:

- Então só há uma solução. High Glen terá que ser explorada sem o conhecimento de Lizzie.

Jay franziu a testa, preocupado. A proposta o assustava.

Mas decidiu não dizer nada ainda.

- Como isto poderia ser feito? - indagou Sir George.

- Mande ela e Jay para outro país.

Jay ficou espantado. Que idéia inteligente!

- Mas Lady Hallim saberia - disse ele - e com certeza contaria a Lizzie.

Alicia sacudiu a cabeça.

- Não, não contaria. Ela fará qualquer coisa para que este casamento aconteça. Ficará quieta se lhe dissermos para nada dizer.

Jay perguntou:

- Mas para onde nós iríamos? Que país?

- Barbados - disse sua mãe.

- Não! - interpôs Robert. - Jay não pode ter a plantação de cana-de-açúcar.

Alicia disse serenamente:

- Acho que seu pai desistirá de Barbados se os negócios de toda a família dependerem disso.

O rosto de Robert exibiu uma expressão de triunfo.

- O pai não pode, mesmo que queira. A plantação já me pertence.

Alicia dirigiu um olhar indagador a Sir George.

- É verdade? É dele?

Sir George fez que sim.

- Já a transferi para ele.

- Quando?

- Há três anos.

Aquilo causou outro choque. Jay não tinha idéia. Sentiu-se ferido.

- Foi por isto que você não me deu a plantação no dia do meu aniversário - disse, tristemente. - Você já a tinha dado para Robert.

Alicia perguntou:

- Mas, Robert, certamente que você a devolveria para salvar o conjunto dos negócios da família?

- Não! - exclamou Robert, furioso. - Isso é apenas o começo... você começará roubando a plantação e no fim ficará com tudo! Eu sei que sempre quis me tirar o negócio e dar para o bastardinho.

- Tudo o que quero para Jay é uma parte justa - replicou ela.

Sir George disse:

- Robert, se você não fizer isso poderá significar a bancarrota para todos nós.

- Não para mim - disse ele, triunfante. - Ainda tenho a plantação.

- Mas poderia ter muito mais - contrapôs Sir George.

Robert fez uma cara astuciosa.

- Tudo bem. Eu devolvo, com uma condição: que você passe todo o resto do negócio para mim, e estou me referindo a tudo. E você se aposenta.

- Não! - gritou Sir George. - Não vou me aposentar, ainda não tenho cinquenta anos!

Os dois se encararam, Robert e Sir George, e Jay pensou em como eram parecidos. Ele sabia que nenhum dos dois cederia, e sentiu um aperto no coração.

Era um impasse. Os dois homens, teimosos, tinham se metido num beco sem saída e com isso arruinariam tudo: o casamento, o negócio e o futuro da família.

Mas Alicia não estava pronta para desistir.

- O que é essa propriedade na Virgínia, George?

- Mockjack Hall é uma plantação de tabaco, com cerca de quatrocentos hectares e cinquenta escravos... O que é que você está pensando?

- Você poderia dá-la para Jay.

O coração de Jay deu um salto. Virgínia! Seria o começo pelo qual ansiava, longe do pai e do irmão, uma propriedade sua para administrar e cultivar. E Lizzie vibraria de felicidade com a chance.

Os olhos de Sir George estreitaram-se.

- Eu não poderia lhe dar dinheiro - disse. - Ele teria que pedir emprestado o que fosse preciso para tocar a plantação.

Jay disse rapidamente:

- Não me importo com isso.

Alicia lembrou:

- Mas você teria que pagar os juros das hipotecas de Lady Hallim, caso contrário ela poderia perder High Glen.

- Isto eu posso fazer com a renda do carvão - o pai continuou, pensando nos detalhes. - Eles terão que partir para a Virgínia imediatamente, dentro de umas poucas semanas.

- Eles não podem - protestou Alicia. - Têm que fazer seus preparativos. Dê a eles um mínimo de três meses.

Ele sacudiu a cabeça.

- Preciso do carvão antes disso.

- Tudo bem. Lizzie não vai querer viajar de volta para a Escócia... estará ocupada demais se preparando para a vida nova.

Toda aquela conversa de enganar Lizzie deixou Jay apreensivo. Ele é quem iria sofrer sua ira se ela descobrisse.

- E se alguém escrever a ela? - indagou.

Alicia ficou pensativa.

- Precisamos saber quais dos criados de High Glen poderiam fazer isto... o que você pode descobrir, Jay.

- Como os impediremos?

- Mandaremos alguém lá para dispensá-los.

Sir George disse:

- Isto podia dar certo. Tudo bem, nós o faremos.

Alicia virou-se para Jay e sorriu triunfantemente. Afinal conseguira o património do filho. Passou os braços em torno dele e o beijou.

Deus o abençoe, meu querido filho. Agora vá e diga a ela que você e sua família estão sentidíssimos com o erro acontecido, e que seu pai deu a você Mockjack Hall como presente de núpcias.

Jay abraçou-a e sussurrou:

- Muito bem feito, mãe. Obrigado.

Ele saiu. Ao atravessar o jardim, sentia-se jubiloso e apreensivo ao mesmo tempo. Tinha conseguido o que sempre quisera.

Queria que houvesse acontecido sem que sua noiva fosse enganada mas não havia outro jeito. Se ele tivesse recusado, teria perdido a propriedade e poderia também ter perdido Lizzie.

Entrou na pequena casa de hóspedes junto dos estábulos.

Lady Hallim e Lizzie estavam na modesta sala de estar sentadas diante de um fumacento fogo de carvão. As duas tinham chorado.

Jay sentiu um súbito e perigoso impulso de contar a verdade a Lizzie. Se revelasse a trama planejada pelos seus pais e lhe pedisse para desposá-lo e viver na pobreza, ela talvez dissesse que sim.

O risco, contudo, o apavorou. E o sonho deles de ir para um novo país morreria. Às vezes, disse a si próprio, a mentira era mais bondosa.

Mas será que ela acreditaria?

Ajoelhou-se em frente a ela. Seu vestido de noiva cheirava a lavanda.

- Meu pai sente muito - disse. - Ele mandou seus topógrafos para me fazer uma surpresa. Achou que ficaríamos satisfeitos por saber que havia carvão na sua terra. Não sabia como são fortes seus sentimentos a respeito de mineração.

Ela pareceu céptica.

- Por que você não lhe contou?

Ele levantou as mãos num gesto de impotência.

- Ele nunca perguntou - disse. Ela ainda parecia obstinada, mas Jay tinha outra carta na manga. - E tem algo mais. Nosso presente de casamento.

Ela franziu a testa.

- O que é?

- Mockjack Hall.. uma plantação de tabaco na Virgínia. Podemos partir para lá assim que quisermos.

Ela o encarou, surpresa.

- É o que sempre quisemos, não é? - perguntou ele. - Um novo começo em um novo país: uma aventura!

Lentamente o rosto dela abriu-se num sorriso.

- Verdade mesmo? Virgínia? Será que é verdade, Jay?

Ele mal podia acreditar que ela fosse consentir.

- Você aceita, então? - disse, temeroso.

Ela sorriu. Seus olhos encheram-se de lágrimas e não conseguiu falar. Fez que sim, balançando a cabeça, aturdida.

Jay viu que ganhara. Tinha tudo o que queria. A sensação foi igual a de ganhar uma mão valiosa num jogo de cartas. Era hora de recolher o lucro.

Ele levantou-se. Puxou-a da cadeira e deu-lhe o braço.

- Venha comigo, então - disse. - Vamos nos casar.

 

Ao meio-dia do terceiro dia o porão do Durham Primrose não tinha mais carvão.

Mack olhou em torno, mal podendo acreditar que realmente acontecera. Tinham feito tudo sem precisar de um intermediário.

Tinham ficado observando o cais e escolheram um navio de carvão que chegara no meio do dia, quando as outras turmas já estavam trabalhando. Enquanto os homens esperavam na margem, Mack e Charlie remaram até o navio que ancorava e ofereceram seus serviços, começando imediatamente. O capitão sabia que se fosse querer contratar uma turma das habituais teria que esperar até o dia seguinte, e como tempo era dinheiro para os capitães de navio, contratou-os.

Os homens pareciam trabalhar mais depressa sabendo que seriam pagos sem descontos. Ainda tomavam cerveja o dia inteiro, mas, pagando jarra por jarra, só bebiam o que precisavam. E descarregaram o navio em quarenta e oito horas.

Mack pôs a pá em cima do ombro e foi para o convés. O tempo estava frio e enevoado, mas Mack ainda estava quente do porão.

Quando a última saca de carvão foi jogada na barca, os carregadores a saudaram com uma grande gritaria.

Mack conferiu com o imediato. O barco transportava quinhentas sacas e ambos tinham contado o número de viagens de ida e volta que fizera. Agora contaram os sacos que sobraram para a última viagem e concordaram quanto ao total. Em seguida foram para a cabine do capitão.

Mack esperou que não houvesse obstáculos de último minuto. Tinham feito o trabalho: agora tinham que ser pagos, não tinham?

O capitão era um homem magro, de meia-idade, com um nariz grande e vermelho. Cheirava a rum.

- Terminado? - perguntou. - Vocês foram mais rápidos do que as turmas normais. Qual foi a quantidade?

- Seiscentas vintenas, abatendo noventa e três - respondeu o imediato, e Mack fez que sim. Eles contavam em vintenas porque cada homem recebia um pêni por vinte sacas.

Chamaram-no para dentro da cabine e se sentaram diante de um ábaco.

- Seiscentas vintenas menos noventa e três, a dezasseis pence por vintena... - era uma soma complicada, mas Mack estava acostumado a ser pago pelo peso do carvão que produzia, e era capaz de fazer contas de cabeça quando seu salário dependia disto.

O capitão tinha uma chave em uma corrente presa no cinto.

Usou-a para abrir um cofre que ficava num canto. Mack ficou olhando fixamente enquanto ele tirou uma caixa menor de dentro do cofre, pôs em cima da mesa e abriu.

Se considerarmos as sete sacas meia vintena, devo a vocês exactamente trinta e quatro libras e quatorze shillings - e ele contou o dinheiro.

O capitão deu-lhe um saco de pano para carregar o dinheiro e incluiu moedas em número suficiente para que ele pudesse fazer a divisão exacta com os homens. Mack sentiu uma tremenda sensação de triunfo quando segurou o dinheiro com suas mãos.

- Cada homem ganhara quase duas libras e dez shillings - mais em dois dias do que em duas semanas de trabalho com Lennox. Mais importante ainda, tinham provado que podiam lutar pelos seus direitos e conquistar justiça.

Ele sentou de pernas cruzadas no convés do navio para pagar os homens. O primeiro da fila, Amps Tipe, disse:

- Muito obrigado, Mack, e Deus o abençoe, rapaz.

- Não me agradeça, você mereceu - protestou Mack.

A despeito do protesto, o homem seguinte agradeceu do mesmo modo, com se ele fosse um príncipe concedendo favores.

- Não é só o dinheiro - disse Mack quando o terceiro homem, Slash Harley, deu um passo em frente. - Conquistamos a nossa dignidade também.

- Você pode ficar com a dignidade, Mack - disse Slash. Só quero o dinheiro. - Os outros riram.

Mack sentiu-se um pouco furioso com eles enquanto continuava a contar as moedas. Por que não eram capazes de ver que aquilo era mais do que uma questão do salário do dia? Por se mostrarem tão estúpidos em relação a seus próprios interesses, ele achou que mereciam ser roubados pelos empreiteiros.

Nada podia, contudo, estragar sua vitória. Quando todos remaram para o cais, puseram-se a cantar uma canção muito obscena chamada O Prefeito de Bayswater, e Mack juntou-se ao coro com toda a força dos seus pulmões.

Ele e Dermot andaram até Spitalfields. A cerração da manhã estava levantando. Mack tinha uma melodia nos lábios e a primavera no passo. Quando entrou no seu quarto, uma agradável surpresa o esperava. Sentada num banco de três pernas, cheirando a sândalo e balançando uma perna bem-torneada, estava a amiga ruiva de Peg, Cora, com um casaco castanho e um chapéu vistoso e elegante.

Cora havia apanhado a capa de Mack, que normalmente ficava sobre o colchão de palha onde ele dormia, e estava esfregando a pele.

Onde foi que você arranjou isto? - perguntou.

- Foi presente de uma fina dama - disse ele com um sorriso.

- O que você está fazendo aqui?

- Vim ver você - disse ela. - Se lavar o rosto, poderá sair comigo, isto é, se não tiver que ir tomar um chá com alguma dama fina.

Ele deve ter ficado em dúvida, pois ela acrescentou:

- Não fique tão espantado. Você provavelmente pensa que sou uma prostituta, mas não sou, excepto por desespero.

Ele pegou sua barra de sabão e desceu para o cano d'água do quintal. Cora seguiu-o e ficou vendo enquanto tirava a camisa e se livrava do pó de carvão entranhado na pele e no cabelo. Ele pediu uma camisa limpa emprestada a Dermot, vestiu o casaco e um chapéu e saiu de braço com Cora.

Seguiram andando na direcção oeste, através do coração da cidade. Em Londres, Mack descobrira, as pessoas andavam pelas ruas a fim de se distraírem, do mesmo modo como caminhavam pelas montanhas na Escócia. Ele gostava de ter Cora segurando seu braço. Gostava do modo como seus quadris oscilavam de modo a tocar nele de vez em quando. Por causa do seu colorido notável e de suas roupas vistosas ela atraía muita atenção e Mack recebia olhares invejosos dos outros homens.

Entraram numa taverna e pediram ostras, pão e cerveja preta.

Cora comeu com gosto, engolindo as ostras inteiras com a ajuda de goles de cerveja.

Quando saíram de novo, o tempo tinha mudado. Ainda estava frio, mas havia um sol fraco. Foram passear no rico bairro residencial chamado Mayfair.

Em seus vinte e dois anos de idade Mack vira apenas duas casas palacianas, o castelo Jamisson e High Glen. Nesse bairro havia duas casas iguais em cada rua e mais umas cinquenta só um pouco menos magníficas. A riqueza de Londres nunca deixava de assombrá-lo.

Do lado de fora da maior de todas, uma série de carruagens estava chegando e depositando convidados, como se fosse para uma festa. Na calçada de ambos os lados reunira-se uma pequena multidão de transeuntes e servos das casas vizinhas, de cujas portas e janelas havia também gente olhando. A casa era um esplendor de luzes, embora fosse meio de tarde ainda, e a entrada estava decorada com flores.

- Só pode ser um casamento - disse Cora.

Enquanto observavam, outra carruagem chegou e saltou uma figura familiar. Mack teve um sobressalto quando reconheceu Jay Jamisson. Jay ajudou a noiva a saltar da carruagem e os assistentes gritaram e aplaudiram.

- Ela é bonita - disse Cora.

Lizzie sorriu e olhou em torno, agradecendo os aplausos.

Seus olhos encontraram os de Mack e por um momento ela ficou imóvel. Ele sorriu e acenou. Lizzie desviou os olhos rapidamente e entrou correndo.

A cena levara apenas uma fracção de segundo, mas os olhos penetrantes de Cora não a perderam.

Você a conhece?

- Foi quem me deu a capa de pele - respondeu Mack.

- Espero que o marido não saiba que dá presentes para carregadores de carvão.

- Ela está se desperdiçando com Jay Jamisson. Ele é bonitão, mas fraco.

- Suponho que você ache que ela faria melhor se casando com você.

- Faria, sim - disse Mack, sério. - Vamos ao teatro?

Tarde da noite Lizzie e Jay se sentaram na cama da alcova nupcial envergando suas roupas de dormir, cercados por parentes e amigos que riam sem parar e todos mais ou menos bêbados. Os mais velhos tinham deixado o quarto há bastante tempo, mas o costume insistia para que os convidados permanecessem, atormentando o casal que, presumidamente, estava desesperado para consumar o casamento.

O dia se passara num turbilhão. Ela mal tivera tempo para pensar na traição de Jay, seu pedido de desculpas, como o perdoara e o futuro que os aguardava na Virgínia. Não tivera tempo sequer para se perguntar se havia tomado a decisão certa.

Chip Marlborough entrou carregando uma jarra de posset.

Presa com um alfinete no seu chapéu estava uma das ligas de Lizzie. Ele pôs-se a encher os copos de todo mundo.

- Um brinde! - exclamou.

- Um último brinde! - disse Jay, mas todos riram e zombaram.

Lizzie bebeu sua bebida, uma mistura de vinho, leite e gema de ovo com açúcar e canela. Estava exausta. Fora um longo dia; desde a terrível briga matinal; com seu final surpreendentemente feliz, passando pelo serviço religioso, o jantar de casamento, música e dança e agora o ritual cômico para terminar.

Katie Drome, uma parente dos Jamisson, sentou-se na beira da cama com uma das meias brancas de seda de Jay na mão e jogou-a para trás, por cima da sua cabeça. Se batesse em Jay, assim dizia a superstição, em breve ela estaria casada. Katie jogou a meia de qualquer maneira, mas Jay, bem-humoradamente, esticou o braço, pegou-a e colocou-a na cabeça como se tivesse caído ali, e todo mundo bateu palmas.

Um bêbado chamado Peter McKay sentou-se na cama ao lado dela.

- Virgínia - disse. - Hamish Drome foi para a Virgínia, você sabe, depois que foi ludibriado pela mâe de Robert e perdeu sua herança.

Lizzie ficou espantada. A história que corria na família era de que a mãe de Robert, Olive, servira de enfermeira a um primo solteirão moribundo e que ele havia modificado seu testamento em favor dela como prova de gratidão.

Jay ouviu o que McKay dissera.

- Ludibriado? - perguntou.

- Olive falsificou aquele testamento, é claro. Mas Hamish nunca conseguiria prová-lo, e por isso teve que aceitar. Foi para Virgínia e nunca mais se ouviu falar dele.

Jay deu uma risada.

- Ah! A santa Olive, uma falsária!

- Silêncio! - disse McKay. - Sir George nos matará se escutar!

Lizzie ficou curiosa mas já estava farta dos parentes de Jay por aquele dia.

- Bote essa gente para fora! - cochichou.

Todas as exigências do costume tinham sido satisfeitas menos uma.

- Certo - concordou Jay. - Se vocês não forem por bem... - ele atirou fora as cobertas da cama e levantou. Ao avançar para cima do grupo, levantou a camisa de dormir até a altura dos joelhos.

Todas as garotas gritaram como se estivessem aterrorizadas. O papel delas era fingir que a visão de um homem de camisola de dormir era mais do que uma donzela podia aguentar, e todas saíram correndo do quarto, em bando, caçadas pelos homens.

Jay fechou a porta e trancou. Em seguida empurrou uma cómoda pesada para o portal querendo se assegurar de que não seriam interrompidos.

De repente a boca de Lizzie ficou seca. Aquele era o momento pelo qual vinha esperando desde que Jay a beijara no saguão do castelo Jamisson e a pedira em casamento. Desde então seus abraços, acontecidos nos poucos momentos em que eram deixados sozinhos, foram se tornando mais e mais apaixonados. Do beijo de boca aberta progrediram para carícias ainda muito mais íntimas.

Tinham feito tudo que duas pessoas podiam fazer num quarto destrancado com uma ou duas mães podendo aparecer a qualquer momento. Agora, finalmente, eram autorizados a trancar a porta.

Jay saiu pelo quarto a apagar velas. Quando chegou a vez da última, Lizzie disse:

- Deixe uma acesa.

Ele pareceu surpreso.

- Por quê?

- Porque quero olhar para você. - Jay ficou meio em dúvida, e ela acrescentou: - Tudo bem?

- Sim, suponho que sim - disse ele, metendo-se na cama.

Quando ele começou a beijá-la e acariciá-la, ela desejou que ambos estivessem nus, mas decidiu não sugerir isso. Deixaria que ele fizesse ao seu modo, desta vez.

A excitação que tão bem conhecia fez com que as pernas de Lizzie formigassem e ardessem quando as mãos dele correram por todo o seu corpo. Em um momento Jay abriu-lhe as pernas e passou para cima dela. Lizzie ergueu o rosto para beijá-lo quando ele a penetrou. Mas Jay estava muito concentrado, não viu. Ela sentiu uma dor súbita e aguda e quase gritou, mas passou logo.

Jay moveu-se dentro dela, e ela se moveu com ele. Não estava segura se era o que devia fazer, mas achou que estava indo bem, e já começava a gostar quando Jay parou, arquejando, arremeteu de novo e caiu em cima dela, respirando forte.

Lizzie ficou preocupada.

- Você está bem? - perguntou.

- Estou - resmungou ele.

Será que é só isso? pensou ela, sem dizer nada.

Ele rolou para o lado e ficou olhando para Lizzie.

- Gostou? - perguntou.

- Foi um tanto rápido - respondeu ela. - Podemos fazer de novo de manhã?

 

Usando apenas sua camisa, Cora deitou de costas sobre a capa de pele e puxou Mack. Quando ele pôs a língua dentro de sua boca, sentiu o gosto de gim. Levantou a camisa dela. O pêlo fino e ruivo alourado não escondia as dobras do seu sexo. Acariciou-o, do modo como fazia com Annie, e Cora perguntou, ofegante:

- Quem lhe ensinou a fazer isso, meu rapazinho virgem?

Mack arriou seus calções. Cora esticou a mão e pegou uma caixinha na bolsa. Dentro havia algo que parecia pergaminho.

Uma fita cor-de-rosa passava pela sua extremidade aberta.

- O que é isto? - perguntou Mack.

- É uma camisa-de-vénus - respondeu ela.

- Pra que diabo serve isso?

Em vez de responder, ela passou a camisinha pelo seu pénis erecto e apertou a fita com força.

- Bem - disse ele, achando graça -, sei que meu pinto não é muito bonito mas nunca pensei que uma garota fosse cobri-lo.

Ela começou a rir.

- Seu camponês ignorante, não é para decoração, é para não me engravidar!

Ele rolou de lado e penetrou-a, e ela parou de rir. Desde que tinha quatorze anos que imaginava como seria, mas ainda achava que não sabia direito, pois aquilo não era bem nem uma coisa nem outra. Parou e contemplou o rosto angelical de Cora. Ela abriu os olhos.

- Não pare - disse.

- Depois disto, eu ainda serei virgem?

- Se for, eu serei uma freira - respondeu ela. - Agora pare de falar. Vai precisar de todo o seu fôlego.

E ele precisou.

 

Jay e Lizzie mudaram-se para a casa da rua Rugby um dia depois do casamento. Pela primeira vez cearam sozinhos, com ninguém presente excepto os servos. Pela primeira vez subiram a escada de mãos dadas, despiram-se juntos e deitaram em sua cama. Pela primeira vez despertaram juntos em sua própria casa.

Estavam nus: Lizzie persuadira Jay a tirar sua camisa de dormir na noite anterior. Agora comprimiu o corpo contra o seu e acariciou-o, excitando-o; em seguida rolou para cima dele.

Pôde ver que Jay ficou surpreso.

- Você se importa? - perguntou.

Ele não replicou, mas começou a se mover dentro dela.

Quando acabou, ela disse:

- Eu choco você, não é?

Após uma pausa Jay respondeu.

- Bem, sim.

- Por quê?

- Porque não... não é normal a mulher ficar em cima.

- Não tenho idéia do que as pessoas pensam que seja normal. Nunca estive na cama com um homem antes.

- Espero que não!

- Mas como você sabe o que é normal?

- Esquece.

Jay provavelmente seduzira umas poucas costureirinhas e caixeiras que ficaram deslumbradas com ele e deixaram que assumisse o controle. Lizzie não tinha experiência mas sabia o que queria e acreditava em pegar o que queria. Não ia mudar agora.

Estava gostando muito daquilo. Jay também estava, muito embora estivesse chocado: ela podia afirmar isso pelos seus movimentos vigorosos e pelo ar de satisfação do seu rosto depois.

Lizzie levantou-se e foi nua até a janela. O dia estava frio mas ensolarado. Os sinos da igreja dobravam abafados, porque era dia de enforcamento: um ou mais criminosos seriam executados naquela manhã. Metade da população trabalhadora da cidade faria um feriado não-oficial e muitos deles iriam até Tyburn, a encruzilhada do canto noroeste de Londres onde se erguiam as forcas, a fim de ver o espetáculo. Era o tipo da ocasião onde podiam irromper perturbações da ordem nas ruas e por isto o regimento de Jay ficaria em estado de alerta o dia inteiro. Jay, contudo, ainda tinha mais um dia de licença.

Ela o encarou e disse:

- Leve-me ao enforcamento.

Ele lhe dirigiu um olhar desaprovador.

- Um pedido horrível.

- Não me diga que não se trata de um lugar para uma dama.

Ele sorriu.

- Eu não me atreveria. Eu sei que homens e mulheres ricos e pobres vão ver o enforcamento. Mas por que você quer ir?

Era uma boa pergunta. Lizzie tinha sentimentos misturados a esse respeito. Era uma vergonha transformar a morte em entretenimento, e ela sabia que depois ficaria com nojo de si própria. Mas sua curiosidade era avassaladora.

- Quero saber como é - respondeu. - Como se comportam os condenados? Choram, rezam ou falam incoerentemente com medo? E os espectadores? Como é observar uma vida humana chegar ao fim?

Ela sempre fora assim. A primeira vez que vira um cervo ser abatido, quando tinha apenas nove ou dez anos de idade, observara fascinada o guarda-caça eviscerar o animal retirando-lhe as entranhas. Ficara fascinada com os múltiplos estômagos e insistira em tocar na carne para ver como era. Era quente e escorregadia. O animal era uma fêmea, prenhe de dois ou três meses e o guarda lhe mostrara o feto dentro do útero transparente. Nada daquilo a revoltara: era demasiado interessante.

Lizzie compreendia perfeitamente bem por que as pessoas iam em bandos ver o espetáculo. Compreendia também por que outras pessoas se revoltavam com a simples idéia de ver a execução. Mas ela fazia parte do grupo inquisitivo.

Jay disse:

- Talvez pudéssemos alugar um quarto com vista para as forcas. É o que muita gente faz.

Mas Lizzie achou que reduziria a intensidade da experiência.

- Oh, não, eu quero estar no meio da multidão! protestou.

- Mulheres da nossa classe não fazem isto.

- Então eu me vestirei de homem.

Ele ficou na dúvida.

- Jay, não me faça caretas! Você bem que gostou de me levar na mina vestida de homem.

- É um pouco diferente para uma mulher casada.

- Se você me disser que todas as aventuras estão acabadas só porque estamos casados, fugirei para o mar.

- Não seja ridícula.

Lizzie sorriu para ele e pulou na cama.

- Não seja um velho rabugento - ela deu uns pinotes. Vamos ao enforcamento!

Ele não pôde deixar de rir.

- Está certo - concordou.

- Bravo!

Ela realizou suas tarefas diárias rapidamente. Disse à cozinheira o que comprar para o jantar; decidiu que aposentos as criadas iriam limpar; disse ao cavalariço que não ia montar; aceitou um convite em nome do casal para ir jantar com o capitão Marlborough e sua esposa na quarta-feira seguinte; adiou um encontro com uma chapeleira e recebeu uma encomenda de doze arcas reforçadas com metal para a viagem para a Virgínia.

Só então vestiu seu disfarce.

 

A rua conhecida como Tyburn ou Oxford estava apinhada de gente. As forcas ficavam no fim da rua, fora do Hyde Park.

Casas com vista para as forcas estavam lotadas de ricos espectadores, que tinham alugado cómodos para o dia da execução. Tinha gente encostada no muro de pedra do parque, ombro contra ombro.

Ambulantes se deslocavam por entre a multidão vendendo salsichas quentes, doses de gim e cópias impressas do que passava por ser as últimas palavras dos condenados.

Mack segurou a mão de Cora e abriu caminho por entre a multidão. Não queria ver ninguém morrendo, mas Cora insistira em ir. A única coisa que ele queria era passar todo o seu tempo livre com Cora. Gostava de segurar-lhe a mão, beijar seus lábios sempre que quisesse e tocar no seu corpo de vez em quando. Gostava de simplesmente ficar olhando para ela. Divertia-se com sua atitude descuidada, linguagem rude e olhar malicioso. Por isso foi com ela ao enforcamento.

Uma amiga de Cora ia ser enforcada. Seu nome era Dolly Macaroni, e tomava conta de um bordel mas seu crime era falsificação.

- O que foi que ela falsificou, afinal? - indagou Mack, enquanto avançavam na direcção das forcas.

- Uma ordem de pagamento. Mudou a quantia de onze libras para oitenta.

- Onde foi que ela conseguiu uma ordem de onze libras?

- De Lorde Massey. Ela diz que ele lhe deve mais.

- Ela devia ser desterrada e não enforcada.

- Eles quase sempre enforcam falsários.

Cora e Mack estavam o mais perto que conseguiriam ir, cerca de vinte metros de distância. As forcas eram uma estrutura tosca de madeira, apenas três postes com vigas transversais. Havia cinco cordas penduradas nas travessas, com os laços corrediços prontos para os condenados. Um capelão estava por perto, com um punhado de homens de aparência oficial que, presumivelmente, eram agentes da lei. Soldados com mosquetes mantinham a multidão à distância.

Gradualmente Mack foi se tornando consciente de uma espécie de ronco que vinha de longe, ao longo da rua Tyburn.

- Que barulho é esse? - perguntou a Cora.

- Eles estão chegando. - Primeiro vinha uma esquadra de guardas civis a cavalo, liderados por um personagem que presumivelmente era o chefe de polícia da cidade. A seguir vinham os policiais, a pé e armados com bastões. Depois, a carreta dos presos, uma carroça de quatro rodas altas puxada por dois cavalos de tração. Uma companhia de lanceiros vinha à retaguarda, mantendo suas lanças pontiagudas rigidamente na vertical Dentro da carroça, sentados sobre o que pareciam ser caixões, mãos e braços atados com cordas, havia cinco pessoas; três homens, um menino de cerca de quinze anos e uma mulher.

- Olha lá a Dolly - disse Cora, e começou a chorar.

Mack firmou a vista, em horrível fascinação, nos cinco que iam morrer. Um dos homens estava embriagado. Os outros dois pareciam desafiadores. Dolly rezava em voz alta e o menino estava chorando.

A carroça foi levada até sob o cadafalso. O bêbado acenou para alguns amigos, uns tipos com aparência de vilões, que estavam na frente da multidão. Eles gritaram piadas e comentários irreverentes: "Bondade a do xerife ter convidado você!" e "Espero que tenha aprendido a dançar!" e "Experimente o nó para ver se é do seu tamanho!" Dolly pedia perdão a Deus em voz alta e clara.

O menino gritava: "Salve-me, mamãe, salve-me, por favor!" Os dois homens sóbrios foram cumprimentados por um grupo na frente da multidão. Após um momento Mack reconheceu o sotaque deles como sendo irlandês. Um dos condenados gritou:

- Não deixem que os cirurgiões me peguem, rapazes! - houve um bramido de aprovação da parte dos amigos.

- De que estão falado? - Mack perguntou a Cora.

- Ele deve ser um assassino. Os corpos dos assassinos pertencem à Companhia de Cirurgiões. Cortam para ver o que tem dentro.

Mack estremeceu.

O carrasco subiu na carroça. Colocou um por um os laços nos pescoços e os apertou bem. Ninguém lutou, protestou ou tentou escapar. Teria sido inútil cercados como estavam por guardas, mas Mack achou que ele teria tentado de qualquer maneira.

O padre, um careca de batina manchada, subiu na carroça e falou com cada um de uma vez: só por uns poucos momentos com o bêbado, quatro ou cinco minutos com os outros dois homens e mais tempo com Dolly e o menino.

Mack ouvira dizer que às vezes as execuções saíam erradas, e começou a esperar que fosse este o caso agora. Cordas cederiam; a multidão cercaria o cadafalso e libertaria os prisioneiros; o carrasco cortaria os prisioneiros antes que estivessem mortos.

Era horrível pensar que aqueles cinco seres humanos estariam mortos dentro de poucos minutos.

O padre terminou seu trabalho. O carrasco vendou as cinco pessoas com tiras de trapos e desceu, deixando apenas os condenados na carroça. O bêbado não foi capaz de se equilibrar, tropeçou e caiu; e o laço começou a estrangulá-lo. Dolly continuou a rezar audivelmente.

O carrasco chicoteou os cavalos.

Lizzie ouviu sua própria voz gritar:

- Não!

A carroça sacudiu e deslocou-se.

O carrasco chicoteou os cavalos de novo e os animais esforçaram-se para sair trotando. A carroça foi puxada de sob os condenados e, um por um, eles caíram até a extensão máxima das respectivas cordas: primeiro o bêbado, já meio morto; depois os dois irlandeses; em seguida o garoto chorão; e por fim a mulher, cuja prece foi interrompida em meio a uma sentença.

 

Lizzie olhou para os cinco corpos balançando e sentiu-se encher de nojo por si própria e pela multidão à sua volta.

Nem todos eles morreram. O menino, misericordiosamente, pareceu ter quebrado o pescoço de imediato, assim como os dois irlandeses; mas o bêbado ainda se movia, e da mulher, cuja venda escorregara, podia se ver os olhos esbugalhados cheios de medo enquanto ela morria lentamente.

Lizzie enterrou o rosto no ombro de Jay.

Ficaria satisfeita em ir embora, mas obrigou-se a ficar.

Quisera ver aquilo e agora tinha que ficar até o fim.

Abriu os olhos de novo.

O bêbado expirara, mas o rosto da mulher se contorcia, na agonia da morte. Os barulhentos assistentes silenciaram, imobilizados pelo horror em frente a eles. Diversos minutos se passaram.

Finalmente os olhos dela se fecharam.

O xerife adiantou-se para abater os corpos, e foi aí que a encrenca começou.

O grupo irlandês adiantou-se, tentando passar pelos guardas para chegar no cadafalso. Os policiais reagiram, e os lanceiros juntaram-se a eles, golpeando os irlandeses. O sangue começou a correr.

- Eu estava com medo de que acontecesse isto - disse Jay. - Eles querem impedir que os corpos dos amigos cheguem às mãos dos cirurgiões. Vamos sair daqui o mais depressa que for possível. Muitos entre os que os rodeavam tiveram a mesma idéia, mas os que estavam mais atrás estavam tentando se aproximar e ver o que estava acontecendo. Quando uns empurraram numa direcção e outros na direcção contrária, irromperam diversas brigas aos socos.

Jay tentou forçar passagem. Lizzie manteve-se grudada nele. Os dois se viram indo de encontro a uma onda de gente que vinha na direcção contrária. Todos falavam alto ou gritavam. Jay e Lizzie foram forçados a voltar na direcção do cadafalso. Que agora fervilhava de irlandeses, alguns dos quais mantinham os guardas a distância e fugiam das estocadas dos lanceiros enquanto outros tentavam descer os corpos dos dois amigos.

Por nenhuma razão aparente o aperto em torno de Lizzie e Jay afrouxou de repente. Ela virou-se e viu um vazio entre dois homens enormes e rudes.

- Vamos, Jay! - gritou, e disparou entre eles. Virou-se para se assegurar de que Jay estava atrás dela, mas aí o espaço vazio fechou-se. Jay adiantou-se mas um dos homens levantou a mão ameaçadoramente. Ele vacilou e recuou, momentaneamente temeroso. A hesitação foi fatal: foi separado dela. Lizzie viu sua cabeça loura acima da multidão e lutou para voltar para junto dele mas foi detida por uma muralha de gente. - Jay! - gritou. - Jay! - ele também gritou, respondendo, mas a multidão forçou-os a se separarem mais. Jay foi empurrado na direcção da rua Tyburn enquanto a multidão a levava para o lado contrário, na direcção do parque. Um momento depois ele estava fora de vista.

Lizzie ficou sozinha. Cerrou os dentes e deu as costas para o cadafalso. Ficou de frente a um sólido bloco de pessoas.

Tentou forçar caminho entre um homem pequeno e uma senhora de busto enorme.

- Fique quieto com essas mãos, rapaz - disse a mulher.

Lizzie insistiu e conseguiu espremer-se entre os dois. Pisou nos dedos dos pés de um homem de rosto azedo e ele socou-a nas costelas. Lizzie deu um grito abafado de dor e prosseguiu.

Aí então viu um rosto familiar e reconheceu Mack McAsh.

Ele, também, lutava para abrir caminho por entre a multidão.

- Mack! - gritou, aliviada. Ele estava com a mesma ruiva com que o vira em Grosvenor Square. - Aqui! - gritou Lizzie. - Ajude-me!

Mack a viu e reconheceu-a. Aí então o cotovelo de um homem alto atingiu-a no olho e por alguns segundos não conseguiu enxergar praticamente nada. Quando sua visão voltou ao normal Mack e a mulher tinham desaparecido.

Inflexivelmente, ela continuou a forçar caminho.

Centímetro a centímetro foi conseguindo se afastar da balbúrdia. A cada passo ia achando um pouco mais fácil deslocar-se. Em questão de cinco minutos não estava mais se espremendo entre pessoas coladas umas nas outras e sim passando por espaços com diversos centímetros de largura. ao cabo de algum tempo viu-se diante da parede da frente de uma casa. Abriu caminho ao longo do canto do prédio e entrou numa viela com sessenta centímetros ou um metro de largura.

Encostou-se na parede da casa, recuperando o fôlego. A viela era imunda e fedia a detritos humanos. As costelas de Lizzie doíam onde fora socada. Apalpou o rosto cuidadosamente e descobriu que a região em volta do olho estava inchando.

Esperava que Jay estivesse bem. Virou-se para procurá-lo e assustou-se ao ver dois homens olhando-a fixamente.

Um era de meia-idade, barrigudo e com a barba por fazer; o outro era um jovem com cerca de dezoito anos. Alguma coisa no jeito deles a fitarem a amedrontou, mas antes que pudesse afastar-se, eles avançaram. Agarraram-na pelos braços e a atiraram no chão.

Arrancaram-lhe o chapéu e a peruca de homem que estava usando, tiraram seus sapatos com fivela de prata e examinaram-lhe os bolsos com espantosa rapidez, tirando-lhe a bolsa, o relógio e um lenço.

O homem mais velho enfiou o fruto da pilhagem em um saco, encarou-a por um momento e disse:

- Esse é um bom casaco... quase novo.

Ambos se lançaram de novo sobre ela e começaram a tirar-lhe o casaco e o colete que combinava. Lizzie lutou, mas só conseguiu rasgar a camisa. Os ladrões enfiaram a roupa num saco. Ela percebeu que seus seios estavam expostos. Cobriu-se rapidamente com os farrapos das roupas que lhe restaram mas já era tarde demais.

- Ei, é uma garota! - exclamou o homem mais moço.

O gordo a contemplou, deliciado.

- E por sinal bem bonita, por Deus - disse, lambendo os beiços. - Vou fodê-la - disse, decididamente.

Horrorizada, Lizzie lutou violentamente, mas não conseguiu se livrar das garras do rapaz.

Ele olhou para trás, ao longo da viela, para a multidão na rua.

- O quê, aqui?

- Não tem ninguém olhando pra cá, seu idiota. - Ele esfregou-se entre as pernas. - Tire esses calções dela e vamos dar uma olhada.

O rapaz atirou-a no chão, sentou-se pesadamente sobre ela e começou a arrancar-lhe os calções enquanto o outro homem observava. O medo se apoderou de Lizzie e ela gritou com toda a força dos seus pulmões, mas havia muito barulho na rua e duvidava que alguém fosse ouvi-la.

Aí então, subitamente, Mack McAsh apareceu.

Ela viu de relance seu rosto e um punho erguido, e em seguida ele golpeou o mais velho do lado da cabeça. O ladrão balançou de lado e cambaleou. Mack atingiu-o de novo, e os olhos do homem rolaram para cima. Mack bateu uma terceira vez, e o homem esparramou-se no chão e ficou imóvel. O rapaz levantou-se de cima de Lizzie e tentou fugir correndo, mas ela o agarrou pelo tornozelo e o derrubou. O sujeito caiu por inteiro no chão. Mack levantou-o e o atirou contra o muro da casa, depois deu-lhe um soco no queixo que veio de baixo para cima. Com todo o seu peso ele caiu inconsciente em cima do seu parceiro de crime.

Lizzie pôs-se de pé.

- Graças a Deus você estava aqui! - exclamou ela, ardentemente. Lágrimas de alívio escorriam pelos seus olhos. Ela passou os braços pelo pescoço dele e disse: - Você me salvou... muito obrigada, muito obrigada!

Ele lhe deu um abraço apertado.

- Você me salvou uma vez... quando me tirou do rio.

Ela continuou abraçada a ele com força e tentou parar de tremer. Sentiu que a mão dele estava atrás da sua cabeça, acariciando-lhe o cabelo. De calções e camisa, sem anáguas para atrapalhar, ela podia sentir todo o corpo dele pressionado contra o seu.

Era completamente diferente do seu marido. Jay era alto e flexível, Mack baixo e encorpado.

Ele mudou de posição e fitou-a. Os olhos verdes de Mack eram hipnóticos - o resto do seu rosto pareceu ficar embaçado.

- Você me salvou, eu salvei você - disse ele, com um sorriso torto. - Sou seu anjo da guarda e você é o meu.

Ela começou a se acalmar. Lembrou que sua camisa estava rasgada e os seios de fora.

- Se eu fosse um anjo, não estaria em seus braços - disse ela, forçando-se a se libertar do abraço dele.

Mack a fitou nos olhos por um momento, depois deu aquele seu sorriso torto e fez que sim, como se concordando com ela.

Mack virou, abaixou-se e pegou o saco que tinha ficado na mão inerme do ladrão mais velho. Tirou o colete e o entregou a Lizzie, que o vestiu rapidamente para cobrir sua nudez. Assim que se sentiu segura de novo, começou a preocupar-se com Jay.

- Tenho que procurar meu marido - disse, enquanto Mack a ajudava a vestir o casaco. - Você me ajuda?

- Claro. - Ele lhe passou a peruca e o chapéu, bolsa, relógio e lenço.

- E a sua amiga ruiva? - perguntou Lizzie.

- É Cora. Eu assegurei-me de que estava a salvo antes de vir procurar você.

- É mesmo? - Lizzie sentiu-se irracionalmente irritada. - Você e Cora são amantes? - perguntou ela, rudemente.

Mack sorriu.

- Somos - respondeu. - Desde anteontem.

- O dia do meu casamento.

- Estou me divertindo muito. Você está?

Uma resposta brusca veio aos lábios de Lizzie, mas, a despeito de si própria, ela riu.

- Obrigada por ter me salvado - disse, inclinando-se um pouco para a frente e beijando-o rapidamente nos lábios.

- Eu faria tudo de novo por outro beijo desses.

Ela sorriu para ele e virou-se para a rua.

Jay estava lá, observando.

Ela sentiu-se terrivelmente culpada. Será que ele a teria visto beijando McAsh? Adivinhou que sim, pela expressão ameaçadora do seu rosto.

- Oh, Jay! - exclamou ela. - Graças a Deus que você está bem!

- O que aconteceu aqui?

- Esses dois homens me assaltaram e roubaram.

- Eu sabia que não deveríamos ter vindo. - Ele a segurou pelo braço para levá-la para fora da viela.

- McAsh derrubou-os e me salvou - disse ela.

- O que não é motivo para você beijá-lo - disse seu marido.

 

O regimento de Jay estava de serviço no pátio do Palácio no dia do julgamento de John Wilkes.

O herói liberal tinha sido condenado por crime de calúnia anos atrás, e fugira, refugiando-se em Paris. Na sua volta, no início daquele ano, estava sendo acusado de ser um fora-da-lei. Mas enquanto a acção legal contra ele se arrastava, ele ganhara com larga margem a eleição suplementar de Middlesex. No entanto, ainda não havia assumido seu posto no Parlamento, e o governo esperava impedi-lo fazendo-o condenar por um tribunal. Jay acalmou seu cavalo e olhou nervosamente por cima da multidão de diversas centenas de defensores de Wilkes que se agrupavam em torno de Westminster Hall onde o julgamento estava tendo lugar. Muitos deles tinham espetado nos chapéus o penacho azul que os identificava como partidários de Wilkes.

Tories como o pai de Jay queriam Wilkes silenciado, mas todos se preocupavam com o que os seus defensores iriam fazer.

Se houvesse violência, o regimento de Jay deveria manter a ordem. Havia um pequeno destacamento de guardas - pequeno demais, na opinião de Jay: apenas quarenta homens e uns poucos oficiais sob as ordens do coronel Cranbrough, o comandante de Jay, que formavam uma ténue linha branca e vermelha entre o prédio do tribunal e a multidão.

Cranbrough recebia suas ordens de dois magistrados de Westminster, representados por Sir John Fielding. Fielding era cego, mas isto não parecia prejudicá-lo no seu trabalho. Era um famoso juiz reformador, embora Jay o achasse indulgente demais.

Era sabido que costumava dizer que o crime era causado pela pobreza. O que era como dizer que o adultério era causado pelo casamento.

Os oficiais jovens estavam sempre querendo ver acção, e Jay dizia que também queria, mas também sentia medo. Na verdade nunca usara sua espada ou pistola numa briga de verdade.

Foi um dia comprido, e os capitães se revezaram para descansar do serviço de patrulha e tomar um copo de vinho. Já mais para o fim da tarde, quando Jay estava dando uma maçã a seu cavalo, foi abordado por Sidney Lennox.

Seu coração ficou pequeno. Lennox queria seu dinheiro. Sem dúvida a intenção dele fora pedi-lo quando fora a Grosvenor Square, mas deixara para depois por causa do casamento.

Jay não tinha o dinheiro. Mas estava apavorado com a possibilidade de Lennox ir falar com seu pai.

Decidiu representar uma fanfarronada.

- O que está fazendo por aqui, Lennox? - perguntou. - Não sabia que era partidário de Wilkes.

- Por mim Wilkes pode ir para o inferno - replicou Lennox. - Vim por causa das cento e cinquenta libras que você perdeu no jogo.

Jay empalideceu à lembrança da quantia. Seu pai lhe dava trinta libras por mês, mas não era bastante e ele não sabia quando ia pôr as mãos em cento e cinquenta. O pensamento de que seu pai podia descobrir que ele perdera mais dinheiro no jogo fez com que sentisse as pernas bambas. Faria qualquer coisa para evitar isso.

- Posso ter de pedir a você para esperar um pouco mais - disse ele, numa frágil tentativa de exibir um ar de indiferença superior.

Lennox não respondeu directamente.

- Acredito que você conhece um homem chamado Mac McAsh.

- Infelizmente, sim.

- Começou a trabalhar com uma turma de descarregamento de carvão dele mesmo, graças à ajuda de Caspar Gordonson. Os dois estão causando um bocado de confusão.

- Não me surpreende. Ele foi um maldito aborrecimento na mina do meu pai.

- O problema não é só McAsh - prosseguiu Lennox. - Seus dois amigos, Dermot Riley e Charlie Smith, também têm turmas próprias, e haverá mais até o fim da semana.

- Isto custará uma fortuna a vocês, intermediários.

- Arruinará o negócio a menos que seja interrompido.

- Mesmo assim, o problema não é meu.

- Mas você poderia me ajudar com ele.

- Duvido. - Jay não queria se envolver com os negócios de Lennox.

- Valeria dinheiro para mim.

- Quanto? - perguntou Jay, apreensivo.

- Cento e cinquenta libras.

O coração de Jay deu um salto. A perspectiva de liquidar sua dívida era um presente dos céus.

Só que Lennox não ia dar tanto dinheiro tão facilmente.

Devia estar querendo um favor imenso.

- O que é que eu teria de fazer? - perguntou Jay, desconfiado.

- Quero que os proprietários de navios se recusem a contratar as turmas de McAsh. Ora, alguns dos transportadores de carvão são, eles próprios, intermediários, de modo que ir o cooperar.

- Mas a maioria é de independentes. O maior proprietário em Londres é seu pai. Se ele liderasse, os outros o seguiriam.

- Mas por que deveria ele fazer isso? Ele não tem nada a ver com empresários ou carregadores de carvão.

- Ele é vereador de Wapping, e os empreiteiros das turmas de carregadores de carvão têm um bocado de votos. Ele deve defender os nossos interesses. Além do mais, os carregadores são um bando de desordeiros e nós os mantemos sob controle.

Jay franziu a testa, preocupado. Era uma difícil missão.

Ele não tinha a menor influência sobre o pai. Poucas pessoas tinham:

Sir George não era homem de ser influenciado por ninguém. Mas Jay tinha que tentar.

Um urro da multidão assinalou a saída de Wilkes. Jay montou apressadamente.

- Verei o que posso fazer - disse a Lennox, afastando-se ao trote.

Jay encontrou Chip Marlborough e perguntou:

- O que está acontecendo?

- Wilkes teve recusado seu pedido de fiança e foi mandado para a prisão de King's Bench.

O coronel estava reunindo os oficiais e disse a Jay:

- Espalhe a ordem. Ninguém deve atirar a menos que Sir John dê ordem. Diga a seus homens.

Jay conteve um protesto ansioso. Como os soldados podiam controlar a multidão se suas mãos estavam atadas? Mas saiu e transmitiu a instrução.

Uma carruagem saiu pelo portão. A multidão soltou um berro pavoroso e Jay sentiu uma punhalada de medo. Os soldados abriram o caminho para a carruagem espancando o povo com seus mosquetes. Os partidários de Wilkes correram a atravessar a ponte de Westminster, e Jay percebeu que a carruagem teria que atravessar o rio no Surrey para chegar à prisão. Esporeou o cavalo na direcção da ponte, mas o coronel Cranbrough fez um gesto para que parasse.

- Não atravesse a ponte - comandou. - Nossas ordens são para manter a paz aqui, do lado de fora do tribunal- Jay puxou as rédeas. Surrey era um outro distrito, e os magistrados de Surrey não tinham pedido o apoio do exército.

Aquilo era ridículo. Observou, impotente, a carruagem atravessar o Tâmisa. Antes que chegasse do outro lado, a multidão a deteve e desatrelou os cavalos.

Sir John Fielding estava no meio da aglomeração, seguindo a carruagem com dois assistentes para guiá-lo e dizer-lhe o que estava acontecendo. Enquanto Jay observava, uns doze homens fortes começaram eles próprios a puxar a carruagem, virando-a e trazendo-a de volta para Westminster, enquanto a multidão rugia sua aprovação.

O coração de Jay começou a bater mais depressa. O que aconteceria quando atingissem o pátio do Palácio? O coronel Cranbrough mantinha uma das mãos erguidas, num gesto de cautela, indicando que nada fariam.

Jay perguntou a Chip:

- Você acha que a gente conseguiria tirar a carruagem da multidão?

- Os magistrados não querem derramamento de sangue - disse Chip.

Um dos auxiliares de Sir John disparou a correr por entre a multidão e conferenciou com Cranbrough.

Uma vez atravessada a ponte a carruagem foi virada na direcção leste. Cranbrough gritou para seus homens:

- Sigam à distância. Não façam nada!

O destacamento de guardas saiu atrás do populacho. Jay cerrou os dentes. Aquilo era humilhante. Algumas salvas de tiro de mosquete dispersariam a multidão num minuto. Podia ver que Wilkes capitalizaria politicamente em seu proveito o fato de ter sido alvejado por tiros da tropa, mas e daí?

A carruagem foi puxada ao longo da Strand e entrou no coração da cidade. A multidão cantava, dançava e gritava "Wilkes e liberdade" e "Número quarenta e cinco". Não pararam até que atingiram Spitalfields. Ali a carruagem foi detida do lado de fora da igreja. Wilkes saltou e entrou na taverna Three Tuns, seguido rapidamente por Sir John Fielding.

Alguns dos seus partidários entraram atrás deles, mas nem todos puderam passar. Ficaram circulando pela rua durante algum tempo, e depois Wilkes apareceu em uma janela do segundo andar, para uma sessão tumultuada de aplausos. Começou a falar e, embora estivesse longe demais para ouvir tudo, Jay pegou o sentido geral: Wilkes estava apelando para que houvesse ordem.

Durante o discurso o escrevente de Fielding veio falar com o coronel Cranbrough de novo. Cranbrough cochichou a notícia para seus capitães: Wilkes ia se esgueirar por uma porta nos fundos e se entregaria à prisão King's Bench naquela noite.

Wilkes terminou seu discurso, acenou, fez uma reverência e desapareceu. Quando tornou-se claro que não ia reaparecer, a multidão começou a ficar entediada e dissolveu-se. Sir John saiu da Three Tuns e apertou a mão de Cranbrough.

- Um esplêndido trabalho, coronel e meus agradecimentos a seus homens. Evitou-se o derramamento de sangue e a lei foi cumprida.

Ele estava agora pintando o quadro com tintas mais amenas, pensou Jay, mas a verdade é que a multidão fizera pouco da lei.

A guarda marchou de volta a Hyde Park e Jay sentiu-se deprimido. Passara o dia todo preparando-se para um combate, e o desapontamento era difícil de suportar. Só que o governo não poderia ficar eternamente satisfazendo o populacho. Mais cedo ou mais tarde eles tentariam exigir mais. E aí haveria acção.

Depois de dispensar seus homens e verificar se os cavalos tinham sido tratados, Jay lembrou da proposta de Lennox. Relutava em colocá-la para seu pai, mas seria mais fácil do que pedir mais cento e cinquenta libras para saldar outra dívida de jogo. Assim decidiu dar uma passada em Grosvenor Square no caminho de volta para casa.

Era tarde. A família já ceara, disse o lacaio, e Sir George estava no pequeno estúdio nos fundos. Jay hesitou no saguão frio de piso de mármore. Detestava pedir qualquer coisa ao pai. Ou Sir George fazia pouco dele por querer a coisa errada ou o repreendia por pedir mais do que devia. Mas tinha que tentar. Bateu na porta e entrou.

Sir George estava bebendo vinho e bocejando em cima de uma lista de preços de melaço. Jay sentou-se e disse:

- Recusaram fiança a Wilkes.

Ouvi dizer.

Talvez seu pai gostasse de saber como o regimento de Jay mantivera a paz.

- O populacho puxou sua carruagem até Spitalfields, e nós seguimos, mas ele prometeu se entregar hoje à noite.

- Ótimo. O que o traz aqui tão tarde?

Jay desistiu de tentar interessar o pai no que fizera hoje.

- Você sabia que Malachi McAsh reapareceu aqui em Londres?

O pai sacudiu a cabeça.

- Não penso que tenha importância - disse, dando o assunto por terminado.

- Ele está procurando confusões entre os carregadores de carvão.

- O que não precisa muita coisa. É uma gente que gosta de confusões.

- Pediram-me para falar com você em nome dos empreiteiros.

Sir George levantou as sobrancelhas.

- Por que você? - perguntou, num tom de voz que dava a entender que ninguém em seu juízo perfeito empregaria Jay como embaixador.

Jay deu de ombros.

- Acontece que eu conheço um determinado empreiteiro, e ele me pediu para falar com você.

- Os taverneiros são um poderoso grupo de eleitores - disse Sir George, pensativo. - Qual é a proposta?

- McAsh e seus amigos formaram turmas independentes que não trabalham através de intermediários. E os empreiteiros estão querendo que os proprietários de navio sejam leais a eles e não contratem as novas turmas. Acham que se você der o exemplo os outros o acompanharão.

- Não estou certo se eu devo interferir. É uma briga que não é nossa.

Jay ficou desapontado. Achava que tinha colocado bem a proposta. Fingiu indiferença.

- Não tenho nada com isso, mas fico surpreso. Você está sempre dizendo que devemos tomar uma atitude firme com trabalhadores sediciosos que tenham idéias acima de sua posição social. - Neste exacto momento houve um terrível martelar na porta da frente. Sir George franziu a testa e Jay foi até o saguão dar uma olhada. Um lacaio passou apressado e abriu a porta. Diante dela estava um corpulento trabalhador de tamancos nos pés e penacho azul no boné engordurado.

- Ilumine a casa! - ordenou ao lacaio. - Ilumine por Wilkes!

Sir George saiu do estúdio e parou ao lado de Jay, observando. Jay explicou:

- Eles fazem isto. Obrigam as pessoas a porem velas acesas em suas janelas em apoio a Wilkes.

Sir George perguntou:

- O que é aquilo na porta?

Eles adiantaram-se. O número 45 tinha sido escrito a giz na porta. Do lado de fora, na praça, uma pequena multidão ia de casa em casa.

Sir George defrontou-se com o homem na escada.

- Você sabe o que fez? - disse. - Esse número é um código. Significa: "O Rei é um mentiroso." O seu precioso Wilkes foi para a cadeia por causa disso, e você pode ir também.

- Vai acender as velas por Wilkes? - quis saber o homem, ignorando o discurso de Sir George.

Sir George ficou vermelho. Ficava enfurecido quando as camadas mais baixas não o tratavam com deferência.

- Vá para o inferno! - disse, e bateu com a porta na cara do homem.

Ele voltou para o estúdio e Jay o seguiu. Quando se sentaram, ouviram o barulho de vidro se quebrando. Ambos deram um pulo e foram correndo para a sala de jantar, na frente da casa.

Havia um vidro quebrado em uma das duas janelas e uma pedra no soalho de madeira encerada.

- Esse é um vidro caro! - exclamou Sir George, furioso. - É um Best Crown Glass, de dois shillings o pedaço de trinta centímetros por trinta!

Enquanto pai e filho estavam ali olhando, uma nova pedra quebrou um segundo vidro de outra janela.

Sir George foi para o saguão e falou com o lacaio.

- Diga a todo mundo para passar para a parte de trás da casa, a fim de ficar fora de perigo.

O lacaio, parecendo assustado, disse:

- Não seria melhor simplesmente acender as velas nas janelas, como eles disseram, senhor?

- Cale essa maldita boca e faça o que eu lhe disse - replicou Sir George.

Houve um terceiro impacto em algum ponto qualquer do segundo andar, e Jay ouviu a mãe gritar de medo. Subiu correndo a escada, o coração disparado, e a encontrou saindo da sala de estar.

- Você está bem, mamãe?

Ela estava pálida, mas calma.

- Estou ótima. O que está acontecendo?

Sir George vinha subindo a escada com fúria contida.

- Nada que se deva recear, só uma maldita ralé de defensores de Wilkes. Basta que fiquemos fora do alcance deles até que se vão embora.

Quando mais vidraças foram quebradas, todos correram para uma saleta de estar nos fundos da casa. Jay podia ver que o pai estava fervendo de raiva. Ser forçado a bater em retirada era o caminho mais garantido para enfurecê-lo. Podia ser a hora de trazer à baila o pedido de Lennox de novo. Abandonando todas as precauções, disse:

- Sabe, pai, nós realmente devíamos começar a lidar mais decididamente com esses agitadores.

- De que diabos você está falando?

- Eu estava pensando em McAsh e nos carregadores de carvão. Se deixarem que desafiem a autoridade uma vez, eles desafiarão de novo. - Não era o jeito habitual de Jay falar, e ele percebeu que a mãe lhe dirigia um olhar de curiosidade. Resolveu ir em frente. - É melhor cortar essas coisas pela raiz. Ensinar a essa gente a conhecer seu lugar.

Sir George deu a impressão de que estava prestes a dar outra resposta furiosa; mas depois hesitou, fez uma careta e disse:

- Você está absolutamente certo. Faremos isto amanhã mesmo.

Jay sorriu.

 

Mack desceu a travessa lamacenta da rua Wapping achando que sabia como era ser rei. De toda porta de taverna, das janelas, pátios e telhados, homens acenavam para ele, gritavam seu nome e apontavam-no para os amigos. Todos queriam apertar-lhe a mão.

Mas a admiração dos homens não era nada comparada com a de suas esposas. Os homens não só levavam para casa três ou quatro vezes mais dinheiro que antes, como também terminavam o dia muito mais sóbrios. As mulheres o abraçavam na rua, beijavam-lhe as mãos e chamavam as vizinhas, dizendo: "Este é Mack McAsh, o homem que desafiou os empreiteiros, venham depressa para ver!" Ele chegou no cais e contemplou o rio cinzento e largo. A maré subira e havia diversos novos navios ancorados. Procurou um barqueiro para levá-lo. Os empreiteiros tradicionais esperavam em suas tavernas até que os capitães os procurassem e pedissem uma turma para descarregar o carvão de seus navios: Mack e suas turmas iam aos capitães, economizando o tempo deles e assegurando-se de que teriam mais um trabalho a realizar.

Ele foi até o Prince of Denmark e subiu a bordo. A tripulação desembarcara, deixando um velho marujo a fumar seu cachimbo no convés. Ele conduziu Mack à cabine do capitão. Este encontrava-se sentado a uma mesa, registrando laboriosamente qualquer coisa no livro de bordo com uma pena de escrever.

- Bom dia, capitão - disse Mack, com um sorriso amistoso. - Eu sou Mack McAsh.

- O que é que há? - resmungou o homem, de mau humor.

Não convidou Mack para se sentar.

Mack ignorou sua rudeza; os capitães nunca eram muito polidos.

- Gostaria de ter o seu navio descarregado rápida e eficientemente amanhã? - perguntou, em tom amável

- Não.

Mack ficou surpreso. Teria alguém chegado antes dele?

- Quem vai descarregar o seu navio?

- Não é da sua conta.

- Certamente que é o meu negócio; mas se não quer me dizer, não faz mal outra pessoa me dirá.

- Bom dia para você, então.

Mack fechou a cara. Relutou em ir embora sem descobrir o que havia de errado.

- Que diabo deu em você, capitão? Fiz alguma coisa que lhe ofendesse?

- Não tenho mais nada para lhe dizer, rapaz, e você me fará um favor indo embora.

Mack teve um mau pressentimento mas não conseguiu imaginar nada mais para dizer, e foi embora. Os capitães de navio eram uma classe notoriamente mal-humorada - talvez porque ficassem longe de suas mulheres tanto tempo.

Ele voltou os olhos para o rio. Outro navio novo, Whitehaverc Jack, estava ancorado perto do Prince. A tripulação ainda dobrava as velas e enrolava as cordas em rolos bem-arrumados no convés.

Mack decidiu tentar aquele navio e pediu ao seu barqueiro para levá-lo.

Encontrou o capitão no tombadilho de popa com um jovem cavalheiro de espada e peruca. Cumprimentou-os com descontraída cortesia, o que, ele já descobrira, era o meio mais rápido para angariar a confiança dos outros.

- Capitão, senhor, bom dia para ambos.

O capitão foi polido.

- Bom dia. Este é o Sr. Tallow, filho do proprietário.

- Qual é o seu negócio?

Mack respondeu:

- Gostaria de ter o carvão do seu navio descarregado amanhã por uma turma rápida e sóbria?

O capitão e o cavalheiro falaram juntos.

- Sim - disse o capitão.

- Não - disse Tallow.

O capitão demonstrou surpresa e dirigiu um olhar indagador a Tallow. O rapaz dirigiu-se a Mack, dizendo:

- Você é McAsh, não é?

- Sim. Acredito que o meu nome esteja começando a ser conhecido como garantia de um trabalho bem-feito...

- Não queremos você - disse Tallow.

A segunda rejeição exasperou Mack.

- Por que não? - quis saber, em tom desafiador.

- Fazemos negócio com Harry Nipper da Frying Pan há anos e nunca tivemos qualquer problema.

O capitão interpôs:

- Eu não diria exactamente a mesma coisa.

Tallow fulminou-o com um olhar.

Mack disse:

- E não é justo que os homens sejam forçados a beber seus salários, é?

Tallow pareceu melindrado.

- Não vou discutir com um sujeito como você. Não há trabalho aqui para você, e por isso dê o fora.

Mack insistiu.

- Mas por que você ia preferir ter o navio descarregado em três dias por uma turma bêbada e arruaceira quando poderia ter a mesma coisa em menos tempo pelos meus homens?

O capitão, que claramente não se deixava impressionar pelo filho do proprietário do navio, acrescentou:

- Sim, eu gostaria de saber isso.

- Não se atrevam a me questionar, nenhum dos dois - disse Tallow. Tentava conservar sua dignidade mas era jovem demais para ter êxito.

Uma suspeita cruzou o cérebro de Mack.

- Alguém lhe disse para não contratar minha turma? - A expressão do rosto de Tallow lhe disse que sua suposição fora correta.

- Você vai descobrir que ninguém neste rio vai contratar a sua turma, ou a de Riley e nem a de Charlie Smith - disse Tallow, petulantemente. - Correu a notícia de que você é um agitador.

Mack concluiu que aquilo era muito sério e um frio penetrante instalou-se no seu coração. Sabia que Lennox e os outros iriam se movimentar contra ele mais cedo ou mais tarde, mas não esperara que fossem apoiados pelos proprietários de navios.

Era intrigante. O sistema antigo não era particularmente bom para os proprietários. No entanto, eles tinham trabalhado anos com os empreiteiros e talvez o puro conservadorismo os levasse a ficar do lado de pessoas a quem conheciam, independente de ser mais ou menos justo.

Seria inútil mostrar raiva. E ele falou de modo ameno com Tallow.

- Sinto muito que tenha tomado essa decisão. É ruim para os homens e ruim para os proprietários. Espero que reconsidere, e lhe desejo um bom dia.

Tallow nada respondeu, e Mack mandou que o barqueiro o levasse de volta à terra firme. Sentia-se frustrado. Apoiou a cabeça em ambas as mãos e ficou olhando para a água imunda e escura do Tâmisa. O que o fizera pensar que poderia derrotar um grupo de homens tão ricos e insensíveis quanto os empreiteiros? Todos tinham conhecimentos e quem os defendesse. E quem era ele?

Mack McAsh, de Heugh.

Devia ter previsto aquilo.

Pulou em terra firme e foi caminhando até o café St. Luke, que tinha se tornado seu quartel-general não-oficial. Eram agora pelo menos cinco turmas trabalhando no novo sistema. Na noite do próximo sábado, quando as turmas remanescentes do velho estilo recebessem seus salários dizimados pelos gananciosos taverneiros, a maioria ia mudar. Só que o boicote dos donos de navio arruinaria esta perspectiva.

O café ficava perto da igreja de St. Luke. Servia cerveja e bebidas assim como café e comida também, mas todo mundo sentava para comer e beber, enquanto que nas tavernas a maioria dos frequentadores ficava de pé.

Viu Cora, comendo pão com manteiga. Embora a tarde já estivesse pelo meio, aquele era o café da manhã dela: Cora ficava quase sempre acordada metade da noite. Mack pediu um prato de guisadinho de carneiro e um caneco de cerveja e sentou-se. Sem rodeios, ela perguntou:

- O que é que há?

Ele contou. Enquanto falava, observava seu rosto inocente.

Pronta para trabalhar, trajava o mesmo vestido cor de laranja que usava na primeira vez em que a vira e exalava o mesmo perfume provocante. Parecia uma estampa da Virgem Maria mas cheirava como o harém de um sultão. Não era de espantar que os bêbados com ouro nas bolsas estivessem dispostos a segui-la nos becos escuros, pensou.

Ele tinha passado três das últimas seis noites com ela.

Cora queria lhe comprar um novo casaco. Ele queria que ela desistisse da vida que levava. Cora era a sua primeira amante de verdade.

Concluía sua história quando Dermot e Charlie entraram.

Mack vinha nutrindo uma ténue esperança de que eles pudessem ter tido melhor sorte, mas suas expressões lhe disseram que não. O rosto negro de Charlie era a imagem do desalento, e Dermot disse no seu sotaque irlandês:

- Os proprietários conspiraram contra nós. Não há um só capitão no rio que queira nos dar trabalho.

Malditos sejam - disse Mack. O boicote tinha funcionado e o deixara encrencado.

Ele sofreu um momento de justa indignação. Só queria trabalhar duro e ganhar o dinheiro para comprar a liberdade de sua irmã, mas era constantemente impedido por pessoas que tinham sacos de dinheiro.

Dermot disse:

- Estamos liquidados, Mack.

A rapidez com que ele se dispunha a desistir enfureceu Mack mais que o próprio boicote.

- Liquidados? - perguntou, sarcástico. - Você é um homem ou o quê?

- Mas o que é que nós podemos fazer? - perguntou Dermot.

- Se os donos de navio não contratarem nossas turmas, os homens voltarão ao velho sistema. Eles têm que viver.

Sem pensar, Mack disse:

- Podemos organizar uma greve.

Os outros homens ficaram em silêncio.

Foi Cora quem falou:

- Greve?

Mack quisera se livrar da idéia assim que surgira na sua cabeça, mas agora, pensando melhor, pareceu-lhe a única coisa a fazer.

- Todos os carregadores de carvão querem mudar para o nosso sistema - disse ele. - Podíamos convencê-los a parar de trabalhar para os antigos empreiteiros. Os donos teriam então que contratar as novas turmas.

Dermot mostrou-se céptico.

- E se eles se recusarem a nos contratar?

O pessimismo dele enfureceu Mack. Por que os homens sempre esperavam o pior?

- Neste caso nenhum carvão será desembarcado.

- De que os homens viverão?

- Eles podem aguentar uns poucos dias sem trabalhar.

Acontece a toda hora. Quando não há navios de carvão no porto nenhum de nós trabalha.

- É verdade. Mas não poderíamos aguentar para sempre.

Mack teve vontade de gritar de frustração.

- E os donos de navio também não podem. Londres precisa de carvão!

Dermot ainda parecia na dúvida. Cora disse:

- Mas que outra coisa você poderia fazer, Dermot?

Dermot franziu a testa e pensou por um momento, depois seu rosto clareou.

- Eu odiaria voltar aos velhos tempos. Farei uma tentativa, por Deus.

timo! - exclamou Mack, aliviado.

- Estive numa greve uma vez - disse Charlie, lugubremente. - São as esposas que sofrem.

- Quando você esteve numa greve? - quis saber Mack. Ele não tinha experiência: greve era algo sobre o que lera nos jornais.

- Três anos atrás, em Tyneside. Eu trabalhava numa mina de carvão.

- Eu não sabia que você tinha sido mineiro. - Nunca ocorrera a Mack, ou a qualquer pessoa em Heugh, que os mineiros pudessem fazer uma greve. - E como foi que terminou?

- Os donos da mina cederam.

- Aí está! - exclamou Mack, triunfante.

Cora disse, ansiosa:

- Você não está contrariando proprietários de terra do norte, Mack. Você aqui está falando de taverneiros londrinos, a escória da terra. Eles poderiam simplesmente mandar alguém cortar seu pescoço enquanto você estivesse dormindo.

Mack fitou-a nos olhos e viu que se preocupava genuinamente com ele.

- Eu tomarei precauções - garantiu.

Cora dirigiu-lhe um olhar céptico mas não falou mais.

Dermot disse:

- São os homens que terão de ser convencidos.

- Tem razão - disse Mack, decididamente. - Não adianta nós quatro ficarmos discutindo se não temos poder de decidir pelo grupo. Vamos convocar uma reunião. Que horas são?

Todos olharam para fora. A noite caía. Cora disse:

- Devem ser seis horas.

Mack continuou:

- As turmas que estão trabalhando vão terminar assim que escurecer. Vocês dois podiam percorrer todas as tavernas da rua alta e espalhar a notícia.

Os dois fizeram que sim. Charlie disse:

- Não podemos nos reunir aqui... é pequeno demais. Há um total de cerca de cinquenta turmas.

- A Jolly Sailor tem um pátio grande - disse Dermot. - E o dono não é empreiteiro.

- Certo - concordou Mack. - Diga a eles para estarem lá uma hora depois de anoitecer.

- Eles não vão todos - disse Charlie.

- A maioria vai.

Dermot afirmou:

- Vamos arrebanhar tantos quanto pudermos. - Ele e Charlie saíram.

Mack olhou para Cora.

- Vai tirar folga esta noite? - perguntou ele, esperançoso.

Ela sacudiu a cabeça.

- Só estou esperando minha comparsa.

Perturbava a Mack que Peg fosse uma ladra e Cora a responsável.

- Eu quisera que conseguíssemos encontrar um modo para aquela criança ganhar a vida sem furtar - disse ele.

- Por quê?

A pergunta o desconcertou.

- Bem, obviamente...

- Obviamente o quê?

- Seria melhor se ela crescesse honesta.

- Como seria melhor?

Mack percebia a nota de raiva nas perguntas de Cora, mas não podia recuar agora.

- O que ela faz é perigoso. Pode terminar enforcada em Tyburn.

- Estaria melhor se fosse lavar o chão da cozinha de alguma casa rica, espancada pela cozinheira e estuprada pelo dono?

- Não sei se toda ajudante de cozinha é estuprada...

- Toda ajudante bonita é. E como eu ganharia a vida sem ela?

- Você é capaz de fazer qualquer coisa, é inteligente e bonita...

- Eu não quero fazer qualquer coisa, Mack, eu quero fazer isto.

- Por quê?

- Eu gosto. Gosto de me vestir enfeitada, de beber gim e de flertar. Furto o dinheiro de homens estúpidos que têm mais do que merecem. É excitante, é fácil e eu ganho dez vezes mais do que ganharia se fosse costureira ou tivesse uma lojinha ou se servisse aos fregueses de um café.

Ele ficou chocado. Tinha pensado que ela diria que roubava porque não tinha outro jeito. A idéia de que gostava daquilo reverteu suas expectativas.

- Eu realmente não conheço você - disse.

- Você é inteligente, Mack, mas não sabe de nada.

Peg chegou. Pálida, magra e cansada, como sempre. Mack perguntou:

- Já comeu?

- Não - disse ela, sentando. - Adoraria um copo de gim.

Mack acenou para o garçom.

- Uma tigela de mingau com creme, por favor.

Peg fez uma careta, mas quando a comida chegou, comeu com prazer.

Quando ela tomava seu mingau, Caspar Gordonson chegou.

Mack ficou contente: estivera pensando em ir vê-lo na rua Fleet para discutir o boicote dos donos de navio e a idéia de uma greve.

Descreveu rapidamente os acontecimentos do dia enquanto o desmazelado advogado bebericava seu conhaque.

À medida que Mack ia falando, Gordonson parecia mais e mais preocupado. Quando terminou, o advogado começou a falar na sua voz muito aguda.

- Você tem que compreender que nossos governantes estão preocupados. Não só a corte real e o governo, mas toda a camada de cima: duques e condes, vereadores, juízes, mercadores, proprietários de terra. Toda esta conversa de liberdade os enerva, e os distúrbios por causa de comida no ano passado e no ano anterior mostraram a eles o que o povo pode fazer quando está furioso.

- Ótimo! - disse Mack. - Assim nos darão o que queremos.

- Não obrigatoriamente. Eles têm medo de que se derem vocês apenas pedir o mais. O que realmente querem é uma desculpa para convocar a tropa e atirar no povo.

Mack sentiu que por trás da fria análise de Gordonson havia medo real.

- E eles precisam de uma desculpa?

- Oh, sim, precisam. É por causa de John Wilkes. Ele é realmente um espinho enterrado na carne deles. Wilkes acusa o governo de ser despótico. E assim que a tropa for usada contra os cidadãos, milhares de pessoas entre a gente comum dirão: "Pronto, o Wilkes estava certo, este governo é tirano." E toda essa gente, lojistas, ourives e padeiros votam.

- Então que tipo de desculpa o governo precisa?

- O governo quer que você assuste essa gente comum com violência e distúrbios de rua. Isto fará com que as pessoas se preocupem com a necessidade de manter a ordem e fará com que parem de pensar na liberdade de expressão. Aí, quando a tropa avançar em cima do povo, haverá um suspiro colectivo de alívio, em vez de um urro de ultraje.

Mack sentiu-se ao mesmo tempo fascinado e enervado.

Nunca tinha pensado em política desse modo. Tinha discutido elaboradas teorias tiradas dos livros e fora vítima indefesa de leis injustas, mas aquilo era o meio-caminho entre uma coisa e outra.

Aquilo era a zona onde as forças adversárias lutavam e a táctica usada podia alterar o resultado. Aquilo era a prática - e era perigoso.

O encantamento de Gordonson desaparecera: ele parecia preocupado.

- Eu meti você nisto, Mack, e se você for morto vai pesar na minha consciência.

O medo dele começou a contagiar Mack. Quatro meses atrás eu era apenas um mineiro de carvão, pensou; agora sou um inimigo do governo, alguém que eles querem matar. Eu pedi que isto acontecesse? Mas sua obrigação era enorme. Da mesma maneira que Gordonson se sentia responsável por ele, ele se sentia responsável pelos carregadores de carvão. Não podia fugir e se esconder.

Seria um gesto vergonhoso e covarde. Tinha posto os homens naquela encrenca e agora tinha que tirá-los.

- O que é que você acha que devemos fazer? - perguntou a Gordonson.

- Se os homens concordarem em fazer greve, o seu trabalho será conservá-los sob controle. Terá que impedir que ateiem fogo nos navios e assassinem os fura-greve ou que cerquem as tavernas. Esses homens não são padres, como você sabe muito bem. São jovens, fortes e estarão furiosos. Se se decidirem pela desordem, incendiarão Londres.

- Acho que serei capaz de controlá-los - disse Mack. Eles me ouvem. Parece que me respeitam.

- Eles adoram você - disse Gordonson. - E isto o coloca num perigo ainda maior. Você é o líder e o governo poderá quebrar a greve enforcando você. A partir do momento em que os homens disserem “Sim”, você estará em um terrível perigo.

Mack começava a desejar que nunca tivesse pronunciado a palavra "greve". E perguntou:

- O que devo fazer?

- Saia de onde está morando e mude para outro lugar. Conserve seu endereço secreto para todos, excepto para muito poucas pessoas em quem confie.

Cora disse:

- Venha morar comigo.

Mack conseguiu sorrir. Esta parte não seria difícil. Gordonson continuou:

- Não se mostre nas ruas de dia. Apareça nas reuniões e depois suma. Torne-se um fantasma.

Era levemente ridículo, na opinião de Mack, mas o medo o fez aceitar tudo aquilo.

- Está certo.

Cora levantou-se para ir embora. Para surpresa de Mack, Peg passou os braços com força pela sua cintura.

- Tenha cuidado, escocês - disse ela. - Não vá ser esfaqueado.

Mack ficou surpreso e comovido ao ver o quanto todos se importavam com ele. Três meses antes nem conhecia Cora, Peg ou Gordonson.

Cora beijou-o nos lábios e saiu, sempre sacudindo as cadeiras sedutoramente. Peg seguiu-a.

Poucos momentos depois Mack e Gordonson saíram para a taverna Jolly Sailor. Mesmo no escuro a rua Wapping tinha bastante movimento, com as portas das tavernas iluminadas, assim como as janelas das casas, para não falar dos lampiões que as pessoas conduziam. Com a maré baixa subia da margem do rio um forte cheiro de podre.

Mack ficou surpreso de ver o pátio da taverna apinhado de gente. Havia uns oitocentos carregadores de carvão no porto de Londres e pelo menos a metade disso se fizera presente. Alguém erguera rapidamente uma tosca plataforma e colocara em cima dela quatro tochas acesas. Mack abriu caminho através da multidão.

Todos os homens o reconheceram e falaram qualquer coisa com ele ou lhe deram palmadas nas costas enquanto avançava. A notícia da sua chegada espalhou-se rapidamente e começaram os aplausos.

Quando chegou à plataforma, eles urravam. Mack subiu no tosco estrado e olhou para eles. Centenas de rostos sujos de pó de carvão olhavam para ele, iluminado pelas tochas. Mack lutou para conter as lágrimas de gratidão pela confiança que depositavam nele.

Não conseguiu falar: gritavam alto demais. Levantou as mãos para pedir silêncio, mas não adiantou. Alguns gritaram seu nome, outros gritaram "Wilkes e liberdade!" e outras palavras de ordem.

Gradualmente uma palavra foi se destacando e veio a dominar o resto, até que todos berraram a mesma coisa:

- Greve! Greve! Greve!

Mack, ali de pé olhando para aquela gente, pensou: O que foi que eu fiz?

 

Jay Jamisson recebeu um bilhete do pai à hora do desjejum. Era caracteristicamente lacónico.

 

Grosvenor Square 8:00 da manhã.

Encontre-me no meu local de trabalho ao meio-dia.

G.J.

 

Sua primeira sensação foi de culpa, achando que o pai descobrira o trato que fizera com Lennox.

Tudo saíra perfeitamente. Os donos de navio tinham boicotado as novas turmas de descarregamento de carvão, como Lennox quisera; e Lennox devolvera os vales de Jay, de acordo com o combinado. Mas agora, com a greve, nenhum carvão era descarregado em Londres há uma semana. Será que o pai descobrira que nada daquilo teria acontecido não fossem as dívidas de jogo de Jay? A simples possibilidade de ser isso era apavorante.

Ele foi até o acampamento no Hyde Park como sempre, e pediu permissão ao coronel Cranbrough para se ausentar no meio do dia. Passou a manhã inteira tão preocupado e com tanto mau humor que seus homens ficaram mal-humorados e os cavalos assustadiços.

Os sinos da igreja batiam as doze horas quando ele entrou no trapiche dos Jamisson, à beira do rio.

O ar poeirento, carregado de cheiros fortes - café e cravo, rum e vinho do porto, pimenta e laranjas - sempre fazia Jay pensar na infância, quando os barris e as caixas de madeira leve revestidas de chumbo para importação de chá pareciam-lhe muito maiores.

Sentia-se agora como se fosse um os cumprimentos reverentes dos homens, e galgou a frágil escada de madeira que dava na contabilidade. Passando por uma ante-sala ocupada por escreventes, entrou no escritório do pai, cheio de mapas, cartazes e desenhos de navios.

- Bom dia, pai - disse ele. - Onde está Robert? - Seu irmão se alinhava quase sempre ao lado do pai.

- Teve que ir a Rochester. Mas isto diz respeito mais a você do que a ele. Sir Sidney Armstrong quer me ver.

Armstrong era o braço-direito do secretário de Estado, o Visconde Weymouth. Jay sentiu-se ainda mais nervoso. Estaria metido em encrencas com o governo, além de com o pai?

- O que Armstrong quer?

- Ele quer que a greve do carvão termine e sabe que fomos nós que a iniciamos.

Isto não parecia ter nada a ver com dívidas de jogo, concluiu Jay. Mas ainda assim continuou ansioso.

- Ele chegará a qualquer momento - acrescentou o pai.

- Por que ele está vindo aqui? - Um personagem tão importante normalmente convocava as pessoas a procurarem-no em seu escritório em Whitehall. - Sigilo, imagino.

Antes que ele pudesse fazer outras perguntas, a porta abriu-se e Armstrong entrou. Tanto Jay quanto Sir George se levantaram.

Armstrong era um homem de meia-idade formalmente vestido, de peruca e espada. Andava com o nariz empinado, como se para mostrar que normalmente não descia no lodaçal das actividades comerciais. Sir George não gostava dele - Jay podia dizer isto pela expressão de seu pai quando apertou a mão de Armstrong e pediu para que se sentasse.

Armstrong recusou um copo de vinho.

- Esta greve tem que terminar - disse ele. - Os carregadores de carvão fecharam metade da indústria de Londres.

Sir George disse:

- Nós tentamos fazer com que os marinheiros descarregassem os navios. Só funcionou um ou dois dias.

- O que saiu errado?

- Eles foram persuadidos, ou intimidados ou ambos, e agora também estão em greve.

- E os barqueiros também - disse Armstrong, irritado. - E mesmo antes que a briga do carvão começasse houve problemas com os alfaiates, tecelões de seda, chapeleiros, serradores... Isto não pode continuar deste jeito.

- Mas por que veio me procurar, Sir Sidney?

- Porque no meu entendimento você teve participação no boicote dos donos de navio que deu início à greve dos carregadores de carvão.

- É verdade.

- Posso perguntar por quê?

Sir George olhou para Jay, que engoliu em seco, nervosamente, e disse:

- Fui procurado pelos intermediários que organizam as turmas de descarregamento de carvão. Meu pai e eu não queríamos que a ordem estabelecida no cais do porto fosse perturbada.

- O que está muito certo, sem dúvida nenhuma - disse Armstrong, fazendo com que Jay pensasse: Vá logo ao ponto. - Sabe quem são os líderes da greve?

- Certamente que sim - respondeu Jay. - O mais importante é um homem chamado Malachi McAsh, conhecido como Mack. Que, por acaso, era mineiro nas minas de carvão de meu pai.

- Eu gostaria de ver esse McAsh preso e acusado de grave perturbação da ordem. Mas que a coisa seja plausível: nada de acusações falsas ou testemunhas subornadas. Teria que haver um distúrbio verdadeiro, inegavelmente conduzido pelos trabalhadores em greve, com armas de fogo usadas contra agentes da Coroa e numerosas pessoas mortas ou feridas.

Jay ficou confuso. Armstrong estaria dizendo aos Jamisson para organizar um distúrbio naqueles moldes?

Seu pai não mostrou sinais de dúvida.

- O senhor se fez muito claro, Sir Sidney. - Ele olhou para o filho. - Você sabe onde McAsh pode ser encontrado?

- Não - respondeu. Depois, vendo a expressão de escárnio no rosto do pai, apressou-se a acrescentar. - Mas tenho certeza de que posso descobrir.

 

Ao raiar do dia Mack acordou Cora e fez amor com ela. Ela viera para a cama nas primeiras horas da madrugada, cheirando a fumo, e ele a beijara e voltara a dormir. Agora ele estava totalmente desperto e ela sentia-se sonolenta. Mack admirou-lhe o corpo quente e relaxado, a pele macia, o cabelo ruivo emaranhado.

Ela passou os braços em torno dele, frouxamente, gemeu baixinho, e no fim deu um gritinho de prazer. Em seguida voltou a dormir.

Mack observou-a por algum tempo. Seu rosto era perfeito, pequeno, rosa e regular. Mas seu modo de vida o perturbava cada vez mais. Parecia-lhe uma maldade usar uma criança como cúmplice. Se falava com ela sobre isso, ficava furiosa e dizia que ele também era culpado, pois morava ali sem pagar aluguel e comendo a comida que ela comprava com seus ganhos ilícitos.

Ele suspirou e se levantou.

Cora morava no andar de cima de uma casa em ruínas em um pátio de carvão. O dono tinha residido ali e mudara-se ao prosperar.

Hoje usava o andar térreo como escritório e alugava o segundo andar para Cora.

Havia dois aposentos, uma cama grande em um deles e uma mesa com cadeiras no outro. O quarto transbordava com aquilo em que Cora gastava todo o seu dinheiro: roupas. Tanto Esther quanto Annie tinham dois vestidos, um para trabalhar e outro para os domingos, mas Cora tinha oito ou dez trajes diferentes, todos de cores de chamar a atenção: amarelo, vermelho, verde-claro e marrom intenso. Tinha sapatos para combinar com cada roupa, e tantas meias, luvas e lenços quanto uma dama fina.

Ele lavou o rosto, vestiu-se rapidamente e saiu. Poucos minutos depois entrava na casa de Dermot. A família fazia o seu desjejum tomando mingau. Mack sorriu para as crianças. Cada vez que usava a "camisinha" de Cora perguntava-se se um dia viria a ter filhos. Às vezes achava que gostaria que Cora tivesse um filho seu; depois se lembrava de como ela vivia e mudava de idéia.

Mack recusou uma tigela de mingau, pois sabia que faria falta a eles. Dermot, como Mack, vivia à custa da mulher, que lavava louça em um café à noite, enquanto ele tomava conta das crianças.

- Você recebeu uma carta - disse Dermot, entregando a Mack um envelope selado.

Mack reconheceu a caligrafia. Era quase idêntica à sua. A carta era de Esther. Sentiu uma pontada de culpa. Devia estar economizando dinheiro para ela, mas o que fazia era liderar uma greve sem dispor de um centavo.

- Onde vai ser hoje? - perguntou Dermot. Todos os dias Mack se encontrava com seus companheiros em um ponto diferente.

- O bar dos fundos da taverna Queen's Head - respondeu Mack.

- Vou espalhar a notícia. - Dermot pôs o chapéu na cabeça e saiu.

Mack abriu a carta e começou a ler.

Eram muitas as notícias. Annie ficara grávida, e tivera um menino a quem chamariam de Mack. Por alguma razão isto trouxe lágrimas aos olhos de Mack. Os Jamisson perfuravam uma nova mina de carvão em High Glen, na propriedade Hallim; a escavação tinha sido muito rápida e Esther estaria trabalhando lá como carregadora dentro de poucos dias. Esta notícia foi surpreendente: Mack ouvira Lizzie dizer que jamais permitiria que explorassem carvão em High Glen. A esposa do reverendo Sr. York contraíra uma febre e morrera: nenhuma surpresa, ela sempre fora doente.

E Esther continuava determinada a deixar Heugh assim que Mack pudesse economizar o dinheiro.

Ele dobrou a carta e guardou-a no bolso. Não podia deixar que nada minasse sua determinação. Primeiro ganharia a greve e depois teria condições de economizar.

Beijou as crianças de Dermot e seguiu para a Queen's Head.

Seus homens já tinham chegado, e ele foi directo ao assunto.

Wilson Caolho, o carregador que fora mandado verificar os novos navios que tinham ancorado no rio, disse que dois carvoeiros tinham chegado com a maré da manhã.

- De Sunderland, os dois - disse ele. - Falei com um marinheiro que desembarcou para comprar pão.

Mack dirigiu-se para Charlie Smith.

- Suba a bordo desses navios e fale com os capitães, Charlie. Explique o motivo pelo qual estamos em greve e peça para que esperem com paciência. Diga que temos esperança de que os donos de navios cedam em breve e permitam às novas turmas descarregar o carvão.

- Por que mandar um negro? - interpôs o Caolho. - Pode ser que prefiram escutar um inglês.

- Eu sou inglês - reclamou Charlie, indignado.

- A maioria desses capitães é da região nordeste da zona carbonífera, e Charlie fala com o sotaque deles. De qualquer modo ele já fez esse tipo de coisa antes e provou ser um bom embaixador. - disse Mack.

- Sem ofensa, Charlie - desculpou-se o Caolho.

Charlie deu de ombros e saiu para cumprir a tarefa recebida.

Uma mulher entrou correndo, empurrou-o e aproximou-se da mesa de Mack, ofegante e com o rosto congestionado. Mack reconheceu Sairey, a mulher de um carregador belicoso chamado Buster McBride.

- Mack, pegaram um marinheiro descarregando um saco de carvão e estou com medo de que Buster o mate.

- Onde estão eles?

- Puseram o marinheiro dentro da casinha da Swan e trancaram lá dentro, mas Buster está bebendo e quer pendurar o sujeito de cabeça para baixo na torre do relógio, e alguns dos outros estão encorajando.

Este tipo de coisa acontecia constantemente. Os carregadores viviam à beira da violência. Até agora Mack tinha sido capaz de contê-los. Escolheu um rapaz enorme e afável conhecido como Pollard Pele de Porco.

- Vá até lá e acalme os rapazes. A última coisa que queremos aqui é um assassinato.

- Estou a caminho - disse ele.

Caspar Gordonson chegou com gema de ovo na camisa e um bilhete na mão.

- Tem uma barcaça com carvão para Londres vindo pelo rio Lea. Deve chegar na comporta de Enfield esta tarde.

- Enfield - disse Mack. - A que distância fica daqui?

- Quase vinte quilómetros - respondeu Gordonson.

- Podemos chegar lá por volta de meio-dia, mesmo que tenhamos que caminhar.

- Ótimo. Precisamos assumir o controle da comporta e impedir a passagem das barcaças. Eu gostaria de ir eu mesmo. Levarei doze homens de confiança.

Entrou outro carregador.

- O Sam Barrows, dono da Green Man, está tentando recrutar uma turma para descarregar o carvão do Capitão Jarrow - disse ele.

- Só com muita sorte - comentou Mack. - Ninguém gosta do Sam: ele jamais pagou um salário decente em toda a sua vida.

- Ainda assim é melhor ficarmos de olho na taverna, só como medida de precaução. Will Trimble, vá até lá e dê uma espiada. Mande me avisar se houver perigo de Sam reunir dezasseis homens.

 

- Ele sumiu - disse Sidney Lennox. - Deixou o lugar onde morava e ninguém sabe para onde foi.

Jay sentiu-se péssimo. Dissera ao pai, na frente de Sir Philip Armstrong, que poderia localizar McAsh. Gostaria de não ter dito nada. Se não conseguisse cumprir a promessa, o escárnio de seu pai seria intolerável Tinha contado com Lennox para descobrir onde encontrar McAsh.

- Mas se ele está escondido, como dirige a greve? - perguntou.

- Aparece a cada manhã em um café diferente. De algum modo seus companheiros sabem onde ir. Ele dá suas ordens e desaparece até o dia seguinte.

- Alguém deve saber onde dorme - disse Jay melancolicamente. - Se pudéssemos encontrá-lo, poderíamos esmagar esta greve.

Lennox fez que sim. Ele, mais do que ninguém, queria ver aquela greve derrotada.

- Bem, Caspar Gordonson deve saber.

Jay sacudiu a cabeça.

- Ele não adianta para nós. McAsh tem mulher?

- Tem, Cora. Mas é dura como uma bota. Não vai dizer nada.

- Tem que haver alguma outra pessoa.

- Tem a criança - disse Lennox, pensativamente.

- Criança?

- Peg Ligeira. Furta com Cora. Não sei se...

 

À meia-noite, no café Lord Archer's, apinhado de oficiais, cavalheiros e prostitutas, o ar era cheio de fumaça de tabaco e cheiro de vinho derramado. Um violinista tocava a um canto, mas mal podia ser ouvido em meio a uma centena de conversas gritadas.

Havia diversos jogos de cartas em andamento, mas Jay não jogava. Bebia. A idéia era fingir estar bêbado, e no princípio derramara a maior parte do conhaque no colete; mas à medida que a noite passava ele bebia mais, e após algum tempo não foi preciso esforçar-se para atingir seu objectivo. Chip Marlborough estava bebendo muito desde o início da noite, mas nunca parecia ficar embriagado.

Jay preocupava-se demais para poder se divertir. Seu pai não ia querer saber de desculpas. Precisava fornecer-lhe um endereço para McAsh. Brincara com a idéia de inventar um, alegando depois que ele devia ter se mudado de novo; mas achou que o pai saberia que estava mentindo.

Assim, ele bebia no Archer's, na esperança de encontrar Cora. No decurso da noite numerosas garotas tinham se aproximado, mas nenhuma se ajustava à descrição de Cora: rosto bonito, flamejante cabelo ruivo, idade entre dezenove e vinte anos. A cada vez, ele e Chip flertavam por algum tempo até que a garota percebia que não a levavam a sério e seguia em frente. Sidney Lennox era uma presença atenta do outro lado do salão, fumando um cachimbo e jogando cartas com apostas baixas.

Jay começava a pensar que não teriam sorte naquela noite.

Havia uma centena de garotas como Cora em Covent Garden. Ele poderia ter que repetir aquela performance no dia seguinte, e até mesmo no outro até encontrá-la. E ele tinha uma esposa esperando em casa que não compreendia por que precisava passar a noite em um lugar onde damas respeitáveis não eram vistas.

Justo quando ele pensava melancolicamente em se deitar numa cama quente e encontrar Lizzie deitada, ansiosa e à sua espera, Cora entrou.

Jay teve certeza de que era ela. Inegavelmente era a garota mais bonita do lugar, e seu cabelo realmente tinha a cor das chamas de uma lareira. Vestia-se como uma prostituta, num vestido de seda vermelha decotado e sapatos vermelhos de laços, e esquadrinhou o salão com um olhar profissional Jay virou-se para Lennox e o viu balançar a cabeça devagar duas vezes.

Graças a Deus, pensou ele.

Desviou o rosto, atraiu o olhar de Cora e sorriu.

Viu um débil relâmpago de reconhecimento na expressão dela, como se soubesse quem era ele; depois sorriu em resposta e aproximou-se.

Jay sentiu-se nervoso, e disse a si próprio que só tinha de ser sedutor. Já seduzira uma centena de mulheres. Beijou-lhe a mão.

Ela usava um perfume forte à base de sândalo.

- Pensei que conhecia todas as mulheres bonitas de Londres, mas enganei-me - disse, galante. - Sou o capitão Jonathan e este é o capitão Chip. - Jay decidira não usar o nome verdadeiro, para o caso de Mack tê-lo mencionado a Cora. Se descobrisse quem era, certamente que ficaria desconfiada.

- Eu sou Cora - disse ela, dirigindo-lhes um olhar superficial - Que par elegante. Não sou capaz de decidir de qual dos dois capitães eu gosto mais.

Chip disse:

- Minha família é mais nobre que a de Jay.

- Mas a minha é mais rica - retrucou Jay, e por alguma razão isto fez ambos rirem.

- Se você é tão rico, me paga uma dose de conhaque - disse ela.

Jay acenou para um garçom e ofereceu-lhe um lugar.

Ela se espremeu entre ele e Chip num banco. Jay sentiu cheiro de gim no seu hálito. Observou-lhe os ombros e a curva dos seios.

Não pôde deixar de compará-la com sua esposa. Lizzie era baixa mas voluptuosa, com quadris largos e seios fartos. Cora era mais alta e mais esbelta e seus seios lhe pareceram duas maçãs colocadas lado a lado sobre uma bandeja.

Dirigindo-lhe um olhar intrigado, ela perguntou:

- Eu conheço você?

Ele sentiu uma ponta de ansiedade. Será que já haviam se encontrado?

- Acho que não - respondeu. Se ela o reconhecesse, o jogo terminava.

- Você me parece familiar. Sei que nunca nos falamos, mas já vi você antes.

- Agora então é a nossa chance de nos conhecermos - disse ele, com um sorriso de desespero. Pôs a mão por trás do encosto e esfregou o pescoço dela. Cora fechou os olhos, como se estivesse se deleitando com aquilo, e Jay começou a relaxar.

Ela foi tão convincente que ele quase esqueceu de que fingia.

Pôs a mão sobre a sua coxa, perto do membro. Jay disse a si próprio para não gostar demais: o que devia fazer era representar.

Gostaria de não ter bebido tanto. Podia precisar estar de posse das suas faculdades mentais.

O conhaque veio e foi bebido de um gole.

- Vamos, garotão - disse ela. - É melhor irmos tomar um pouco de ar fresco antes que você estoure os calções.

Jay percebeu que tivera uma erecção visível e corou.

Cora levantou-se, dirigiu-se para a porta e Jay seguiu-a.

Do lado de fora, pôs a mão na cintura dele e o conduziu ao longo da calçada, rodeada por uma série de colunas, da praça de Covent Garden. Jay passou um braço pelos seus ombros, enfiou a mão pelo decote do vestido e brincou com o bico do seu peito.

Ela deu um risinho e entrou num beco.

Eles se abraçaram e se beijaram e ele esfregou-lhe ambos os seios. Esqueceu de tudo sobre Lennox e a trama: sentia o corpo quente de Cora, tinha certeza de que ela o desejava e ele também a desejava. Suas mãos o apalpavam todo, desabotoando-lhe o colete, esfregando-lhe o peito e mergulhando dentro dos calções dele. Jay meteu a língua dentro da sua boca e tentou levantar-lhe as saias ao mesmo tempo. Ele sentiu o ar frio na barriga.

Vindo de trás de Jay, ouviu-se um grito de criança. Cora estremeceu e empurrou Jay para longe. Olhou por cima do ombro e virou-se como se fosse correr, mas Chip Marlborough apareceu e agarrou-a antes que desse o primeiro passo.

Jay virou-se e viu Lennox lutando para segurar uma criança que berrava, unhava e se contorcia. Enquanto lutavam, a criança deixou cair diversos objectos. À luz das estrelas Jay reconheceu sua própria carteira, relógio de bolso, lenço de seda e selo de prata. Ela esvaziara seus bolsos enquanto beijava Cora. Mesmo que tivesse esperado algo assim, nada sentira. Mas acontece também que entrara demasiado no papel que representava.

A criança parou de lutar e Lennox disse:

- Vamos levar vocês duas diante de um juiz. Bater carteiras é um crime passível de enforcamento.

Jay olhou em torno, meio que esperando que os amigos de Cora viessem correndo em sua defesa; mas ninguém tinha visto o tumulto no beco.

Chip deu uma espiada entre as pernas de Jay e disse:

- Pode guardar a arma, capitão Jamisson. A batalha terminou.

 

Quase todos os homens ricos e poderosos eram magistrados e Sir George não era exceção. Embora nunca atuasse em corte aberta, tinha o direito de julgar os processos em casa. Podia mandar que os infractores fossem açoitados, marcados ou aprisionados e tinha também o poder de enviar os infractores com acusações mais graves para Old Bailey, a fim de serem julgados.

Esperava Jay, e por isso não tinha ido para a cama, mas assim mesmo mostrou-se irritado por ter ficado acordado até tão tarde.

- Eu esperava você por volta das dez horas - resmungou, quando todos marcharam para dentro da sala de estar da casa de Grosvenor Square.

Cora, de mãos atadas, arrastada por Chip Marlborough, disse:

- Então você nos esperava! Isto foi tudo planejado, seus porcos do demónio!

- Cale a boca ou farei com que a açoitem na praça antes de começarmos - disse Sir George.

Cora pareceu acreditar, pois não falou mais nada.

Ele puxou uma folha de papel e mergulhou a pena no tinteiro.

Jay Jamisson é o queixoso. Ele se queixa de que teve a carteira furtada por...

- Peg Ligeira, senhor - disse Lennox.

- Não posso escrever isto - retrucou Sir George. - Qual é o seu verdadeiro nome, menina?

- Peggy Knapp, senhor.

- E o nome da mulher?

- Cora Higgins - disse Cora.

- Carteira furtada por Peggy Knapp, cúmplice de Cora Higgins. O crime foi testemunhado por...

- Sidney Lennox, dono da taverna The Sun, em Wapping.

- E o capitão Marlborough?

Chip ergueu as mãos num gesto defensivo.

- Eu preferia não me envolver, se o testemunho do Sr. Lennox for suficiente.

- Certamente que será, capitão - afirmou Sir George. Ele sempre era polido com Chip porque devia dinheiro ao pai dele. - Muito meritório o seu gesto de ajudar na prisão dessas ladras. Agora, as acusadas têm alguma coisa a dizer?

- Eu não sou cúmplice dela. Nunca a vi antes em toda a minha vida - disse Cora e Peg arquejou e fitou Cora, incrédula, mas Cora continuou. - Eu saí para dar uma volta com um rapaz bonito, mais nada. Nem cheguei a perceber que ela tinha batido a carteira dele.

- As duas são cúmplices conhecidas, Sir George. Eu já as vi juntas muitas vezes - disse Lennox.

- Já ouvi o bastante - disse Sir George. - Vocês duas estão condenadas à prisão de Newgate pelo crime de furto.

Peg começou a chorar. Cora ficou branca de medo.

- Por que vocês estão fazendo isso? - Apontou um dedo acusador para Jay. - Você me esperava no Archer's. - Apontou para Lennox. - Você nos seguiu lá fora. E o senhor, Sir George Jamisson, ficou acordado até tarde, quando devia estar na cama, para nos prender. Para que tudo isto? O que Peg e eu fizemos a vocês?

Sir George ignorou-a.

- Capitão Marlborough, faça-me o favor de levar a mulher lá fora e vigiá-la por um momento.

Todos esperaram enquanto Chip levou Cora para fora e fechou a porta. Sir George virou-se então para Peg.

- Agora, menina, sabe qual é a punição por furto?

Pálida, ela não parava de tremer.

- O colar do xerife - murmurou.

- Se está querendo dizer a forca, está certa. Mas sabia que algumas pessoas não são enforcadas, que em vez disso são mandadas para a América?

A menina fez que sim.

- São as pessoas que têm amigos influentes para pedir por elas e imploram a misericórdia do juiz. Você tem amigos influentes?

Ela sacudiu a cabeça.

- Bem, e seu lhe disser que eu serei seu amigo influente e intercederei por você?

Ela levantou os olhos para ele, a esperança brilhando no rosto miúdo.

- Mas você vai ter que fazer uma coisa para mim.

- O quê?

- Salvarei você de ser enforcada se você nos contar onde Mack McAsh está morando.

A sala ficou em silêncio por um longo momento.

- No sótão da casinha do pátio de carvão na rua Alta de Wapping - disse ela, e caiu no choro.

Mack ficou surpreso por acordar sozinho.

Cora nunca ficava na rua até o raiar do dia. Vivia com ela apenas há duas semanas e não conhecia todos os seus hábitos, mas assim mesmo se preocupava.

Levantou-se e seguiu sua rotina costumeira. Passou a manhã no café St. Luke, enviando mensagens e ouvindo relatórios.

Perguntou a todos se tinham visto Cora ou sabido dela, mas ninguém soube dizer. Mandara alguém à taverna The Sun para falar com Peg Ligeira, mas ela também havia passado toda a noite fora e ainda não retornara.

De tarde foi até Covent Garden e percorreu as tavernas e cafés, interrogando prostitutas e garçons. Diversas pessoas tinham visto Cora na noite anterior. Um garçom da taverna Lord Archer reparou que ela saíra com um jovem rico embriagado. Depois disso, não havia sinal dela.

Foi até a casa de Dermot, em Spitalfields, na esperança de ter notícias. Dermot dava a ceia aos filhos, uma sopa feita de ossos.

Perguntara por Cora o dia inteiro e não soubera de nada.

Mack voltou para sua casa no escuro, imaginando que iria encontrar Cora, deitada na cama só de roupa de baixo, esperando por ele. Mas a casa estava fria, escura e vazia.

Acendeu uma vela e ficou sentado, pensando. Lá fora, na rua, as tavernas iam se enchendo de gente. Embora em greve, os carregadores de carvão ainda arranjavam dinheiro para a cerveja.

Mack gostaria de se juntar a eles, mas por segurança não mostrava a cara nas tavernas à noite.

Comeu um pedaço de pão com queijo e leu um livro que Gordonson lhe emprestara, um romance chamado Tristram Shandy, mas não conseguiu se concentrar. Tarde da noite, quando começava a se perguntar se Cora estaria morta, aconteceu uma confusão na rua.

Ouviu homens gritando e o barulho de pés correndo, e o que parecia diversos cavalos e carroças. Receando que os carregadores de carvão pudessem dar início a uma confusão qualquer, foi até a janela.

Com o céu claro e a meia-lua Mack pôde ver toda a cena.

Dez ou doze carroças puxadas por cavalos vinham se deslocando pesada e desajeitadamente sobre o irregular piso de terra ao luar, dirigindo-se evidentemente ao pátio de carvão. Seguia as carroças uma multidão que gritava e fazia chacota, e que era engrossada a cada esquina, à medida que mais grevistas iam saindo das tavernas.

A cena tinha todos os componentes de um distúrbio de rua.

Mack praguejou. Era a última coisa que queria.

Virou-se e desceu correndo a escada. Se pudesse falar com os homens das carroças e persuadi-los a não descarregar, podia evitar a violência.

Quando chegou na rua, a primeira carroça começara a descarregar no pátio. Ao adiantar-se correndo, os homens pularam de cima das carroças, e, sem aviso, começaram a jogar pedras de carvão nos grevistas. Alguns dos carregadores foram atingidos; outros pegaram o carvão para atirar de volta. Mack ouviu uma mulher gritar e crianças sendo arrastadas para dentro das casas.

- Parem! - gritou ele, correndo entre os carregadores de carvão e as carroças com as mãos levantadas. - Parem!

Os homens o reconheceram e por um momento houve silêncio. Ele ficou satisfeito ao ver o rosto de Charlie Smith na multidão.

- Tente manter a ordem aqui, Charlie, pelo amor de Deus - disse. - Vou falar com esse pessoal.

- Todo mundo fica calmo - gritou Charlie. - Vamos deixar por conta de Mack.

Mack deu as costas para os grevistas. De ambos os lados da rua estreita havia pessoas de pé nas escadas das portas, curiosas para ver o que ocorria mas prontas para sumir rapidamente dentro de casa. Havia pelo menos cinco homens em cima de cada carroça.

No silêncio carregado de expectativa, Mack aproximou-se da primeira.

- Quem é o encarregado aqui? - perguntou.

Um vulto adiantou-se iluminado pelo luar.

- Eu.

Mack reconheceu Sidney Lennox.

Sentiu-se chocado e intrigado. O que estaria acontecendo?

Por que Lennox tentava descarregar carvão? Teve uma fria premonição de desastre.

Localizou o dono do pátio que servia como depósito de carvão, um homem chamado Jack Cooper, mais conhecido como Jack Preto porque era visto sempre coberto de pó preto, como um mineiro.

- Jack, feche o portão do seu pátio, pelo amor de Deus - pediu Mack. - Haverá mortes aqui se isto continuar.

Jack pareceu esquivo.

- Tenho que ganhar a vida.

- E vai, assim que a greve terminar. Você não quer ver sangue derramado aqui na rua, quer?

- Já pus mãos à obra e não vou olhar para trás.

Mack dirigiu-lhe um olhar duro.

- Quem lhe pediu para fazer isto, Jack? Há alguém mais envolvido?

- Sou dono do meu nariz. Ninguém me diz o que fazer.

Mack começou a entender o que se passava, o que o deixou furioso. Virou-se para Lennox.

- Você pagou a ele. Mas por quê?

Foram interrompidos pelo som de uma sineta sendo acionada ruidosamente. Mack virou-se para ver três pessoas de pé na janela do segundo andar da taverna da Frying Pan. Uma acionava a sineta, outra segurava um lampião. A terceira, no meio, usava a peruca e a espada que o marcava como pessoa de importância.

Quando a sineta silenciou, o terceiro homem anunciou a si próprio.

- Eu sou Roland MacPherson, Juiz de Paz em Wapping, e neste instante declaro a existência de uma grave perturbação da ordem. - Em seguida leu a seção principal da lei contra distúrbios de rua.

Uma vez que um distúrbio de rua fosse declarado, todos tinham que se dispersar em uma hora. A desobediência era punida com a morte.

O magistrado chegou aqui depressa, pensou Mack. Evidente que esperara aquilo e aguardara na taverna a hora de entrar em cena. Todo o episódio fora cuidadosamente planejado.

Mas com que fim? Parecia-lhe que queriam provocar um distúrbio que desacreditasse os grevistas e lhes desse um pretexto para enforcar os líderes. O que significava ele.

Sua primeira reacção foi agressiva. Teve ímpetos de gritar que se queriam um distúrbio de rua iam ter um que jamais esqueceriam incendiaremos Londres no final! Quis agarrar o pescoço de Lennox. Mas obrigou-se a se acalmar e pensar com clareza. Como podia frustrar o plano de Lennox?

Sua única esperança era ceder e deixar o carvão ser descarregado.

Virou-se para os carregadores, reunidos numa furiosa multidão em torno do portão aberto do pátio.

- Escutem aqui - começou. - Isto é uma trama para nos provocar a causar um distúrbio. Se formos todos para casa pacificamente passaremos a perna em nossos inimigos. Se ficarmos e lutarmos, estamos perdidos.

Houve um resmungo de descontentamento.

Deus meu, pensou Mack, esses homens são burros.

- Vocês não compreendem? - disse ele. - Eles querem uma desculpa para enforcar alguns de nós. Por que dar o que eles querem? Vamos para casa hoje e lutamos amanhã!

- Ele está certo - disse Charlie. - Olhem só quem está aqui. Sidney Lennox. Ele não quer nada de bom, podemos ter certeza disso.

Alguns dos grevistas começaram a balançar a cabeça afirmativamente. Aí então ele ouviu a voz de Lennox gritar:

- Peguem-no!

Diversos homens se atiraram sobre Mack ao mesmo tempo.

Ele virou-se para correr, mas um o agarrou e ele se esborrachou no chão lamacento. Enquanto lutava ouviu o urro dos grevistas, e soube que o que tanto temera parecia prestes a começar: uma batalha campal. Levou socos e pontapés mas quase não sentiu os golpes enquanto lutava para se levantar. Aí então os homens que o atacavam foram jogados de lado pelos carregadores e Mack conseguiu ficar de pé.

Olhou em torno rapidamente. Lennox desaparecera. As turmas rivais encheram a rua estreita. Por todo lado ele viu lutas corpo-a-corpo. Os cavalos pinoteavam e relinchavam aterrorizados. O instinto de Mack fazia com que ele quisesse se juntar à briga e começasse a derrubar uns e outros, mas conteve-se. Qual era o meio mais rápido para terminar aquilo? Tentou pensar depressa.

Os carregadores de carvão não iriam retroceder: era contra a natureza deles. A melhor aposta podia ser levá-los a assumir uma posição defensiva e esperar que se distanciassem.

Agarrou Charlie.

Tentaremos entrar no pátio de carvão e fechar os portões com eles de fora. Diga aos homens!

Charlie correu de um em um espalhando a ordem, gritando com todas as suas forças para poder ser ouvido acima do barulho da batalha:

- Dentro do pátio com portão fechado! Manter esses sujeitos fora do pátio!

Neste ponto, para seu horror, Mack ouviu um tiro de mosquete.

- O que diabo está acontecendo? - exclamou, embora ninguém o estivesse ouvindo. Desde quando carregadores de carvão portavam armas de fogo? Quem era aquela gente?

Mack viu um bacamarte, apontado para ele. Antes que pudesse se mover, Charlie agarrou a arma, virou-a contra o homem que a apontava e alvejou-o à queima-roupa. O sujeito caiu morto.

Alguém avançou sobre Mack. Mack esquivou-se e deu um soco. O golpe acertou na ponta do queixo e o homem desabou.

Mack recuou e tentou pensar. Tudo aquilo acontecia bem em frente à janela dele. Só podia ser intencional. Eles encontraram seu endereço. Mas quem o traíra?

Os primeiros tiros foram seguidos por uma rajada irregular de armas de fogo. Clarões iluminaram a noite e o cheiro da pólvora misturou-se com o pó do carvão no ar. Mack gritou, protestando, quando diversos carregadores caíram mortos ou feridos: as esposas e viúvas dos atingidos o culpariam, e teriam razão: ele começara algo que não pudera controlar.

A maioria dos grevistas entrou no pátio, onde havia um suprimento de carvão para arremessar. Lutaram freneticamente para conservar de fora os homens que traziam o carvão nas carroças. Os muros do pátio lhes davam protecção do fogo de mosquete que pipocava intermitentemente.

O corpo-a-corpo era mais feroz na entrada, e Mack viu que se pudesse manter o alto portão de madeira fechado, a batalha toda podia ir se esvaziando aos poucos. Abriu caminho por entre a confusão, meteu-se atrás do portão e começou a empurrar.

Alguns dos grevistas viram o que queria fazer e juntaram-se a ele. O enorme portão varreu diversos homens que brigavam e Mack achou que iam fechá-lo num momento; mas aí foi bloqueado por uma carroça.

Ofegante, Mack berrou:

- Afastem a carroça, afastem a carroça.

Seu plano já começava a produzir algum efeito, ele avaliou com um acesso de esperança. Meio fechado, o portão já servia como uma barreira parcial entre os dois lados. Além do mais, a excitação inicial da luta cessara, e o entusiasmo dos homens pela briga fora contrabalançado pelos ferimentos e arranhões, assim como a visão de alguns dos seus camaradas mortos ou feridos. O instinto de autopreservação começava a se impor novamente, e eles procuravam meios de sair do combate com dignidade.

Mack começou a pensar que poderia cessar a luta dentro de pouco tempo. Se a briga terminasse antes que alguém chamasse a tropa, a coisa toda podia passar como uma escaramuça menor e a greve continuaria sendo vista como um protesto basicamente pacífico.

Uns doze carregadores de carvão começaram a arrastar a carroça para fora do pátio, enquanto outros empurravam o portão.

Alguém cortou os tirantes do cavalo, e o animal saiu correndo apavorado, relinchando e escoiceando.

- Continuem empurrando, não parem! - berrou Mack, a plenos pulmões, enquanto grandes pedaços de carvão choviam em cima deles. A carroça acabou de sair aos poucos e o portão fechou-se com irritante lentidão.

Foi quando Mack ouviu um barulho que acabou com todas as suas esperanças de um só golpe: o som de passos marchando.

 

Os guardas desceram marchando a rua Wapping, os uniformes brancos e vermelhos brilhando ao luar.

Jay cavalgava à testa da coluna, mantendo o cavalo a passo brusco, com as rédeas curtas. Breve teria o que tanto desejava: acção.

Conservou o rosto inexpressivo, mas o coração batia com força. Podia ouvir o barulho da arruaça que Lennox iniciara: homens gritando, cavalos relinchando, mosquetes atirando. Jay nunca usara a espada ou uma arma de fogo num assomo de raiva: esta noite seria o seu primeiro engajamento. Dizia a si próprio que aquela ralé de carregadores de carvão ficaria aterrorizada ante uma tropa de guardas disciplinados e bem-treinados, mas achou difícil ser confiante.

O coronel Cranbrough lhe atribuíra aquela missão e mandara que saísse sem um oficial superior. Normalmente ele próprio, Cranbrough, teria comandado o destacamento. Mas Cranbrough sabia que aquela era uma situação especial com fortes implicações políticas, e fizera questão de ficar de fora. Jay ficara satisfeito, a princípio, mas desejava agora ter um superior experiente ao lado.

O plano de Lennox parecera à prova de erro, em teoria, mas enquanto avançava em direcção ao local da briga, achava-o cheio de falhas. E se McAsh estivesse em algum outro lugar? E se ele fugisse antes que Jay pudesse prendê-lo?

À medida que se aproximavam do pátio de carvão a marcha parecia mais lenta até que Jay sentiu que progrediam aos centímetros. Vendo os soldados, muitos dos arruaceiros fugiram enquanto outros se esconderam. Mas houve quem jogasse carvão, e uma chuva de torrões caiu sobre Jay e seus homens.

Haveria apenas uma rajada. A proximidade do inimigo era tanta que não haveria tempo para recarregar.

Jay levantou a espada. Os carregadores de carvão em greve viam-se encurralados dentro do pátio. Tinham quase conseguido fechar o portão, mas agora desistiram e o portão escancarou-se.

Alguns tentavam escalar o muro, outros procuravam pateticamente encontrar abrigo entre os montes de carvão ou por trás das rodas de uma carroça. Era como atirar em galinhas num terreiro.

De repente McAsh apareceu em cima do muro, um vulto de ombros largos e o rosto iluminado pela lua.

- Parem! - gritou ele. - Não atirem!

Vá para o inferno, pensou Jay.

Ele abaixou a espada e gritou:

- Fogo!

Os mosquetes estalaram como um trovão. Uma nuvem de fumaça escondeu os soldados por um momento. Dez ou doze grevistas caíram, uns gritando de dor, outros mortalmente silenciosos. McAsh pulou de cima do muro e ajoelhou ao lado do corpo imóvel e encharcado de sangue de um negro. Quando levantou a cabeça, seu olhar encontrou o de Jay e o ódio expresso em seu rosto congelou o sangue de Jay.

Jay gritou:

- Carga!

Os grevistas enfrentaram os guardas agressivamente, surpreendendo Jay. Esperava que eles fugissem, mas desviaram-se de espadas e mosquetes e engalfinharam-se no corpo-a-corpo, usando como armas pedaços de pau, torrões de carvão e os próprios punhos e pés. Jay ficou assombrado ao ver diversos homens uniformizados tombarem.

Olhou em torno, procurando McAsh, e não conseguiu vê-lo.

Jay praguejou. O propósito de tudo aquilo era prender McAsh.

Fora o que Sir Sidney pedira, e Jay prometera. Não queria nem pensar que ele conseguiria fugir!

De repente, McAsh surgiu à sua frente.

Em vez de fugir, o homem fora atrás de Jay.

McAsh agarrou o bridão de Jay. Jay levantou a espada, e McAsh esquivou-se para o lado esquerdo do outro. O golpe saiu desajeitado e Jay errou. McAsh deu um pulo, agarrou a manga de Jay e puxou. Jay tentou libertar o braço mas McAsh não soltou.

Com uma horrível sensação de impotência, Jay escorregou de lado na sela. McAsh deu um puxão poderoso e arrancou-o do cavalo.

Subitamente Jay temeu pela própria vida.

Conseguiu cair de pé. As mãos de McAsh agarraram-lhe o pescoço na mesma hora. Começou a brandir a espada, mas antes que pudesse atacar, McAsh deu uma cabeçada brutal no rosto de Jay, que ficou cego por um momento e sentiu o sangue quente escorrer. Brandiu a espada loucamente. Ela bateu em algo e ele achou que tinha ferido McAsh, mas o aperto no seu pescoço não afrouxou. Sua visão retornou e ele encarou McAsh nos olhos, onde viu um brilho homicida. Sentiu-se apavorado, e se conseguisse falar teria implorado misericórdia.

Um de seus homens o viu em dificuldades e golpeou Mack com a coronha do mosquete. Mack foi atingido na orelha. Por um momento a mão dele afrouxou, mas logo apertou mais do que nunca. O soldado agiu de novo. McAsh tentou esquivar-se mas não foi suficientemente rápido e a pesada coronha de madeira da arma o atingiu com um barulho que pôde ser ouvido acima do fragor da batalha. Por uma fracção de segundo a mão de Mack apertou com mais força ainda e Jay lutou para respirar, como se estivesse se afogando; mas os olhos de McAsh rolaram para cima, as mãos largaram o pescoço de Jay e ele desabou no chão, inconsciente.

Jay respirou ofegante e apoiou-se na espada. Lentamente o terror passou. Seu rosto doía como fogo: devia estar com o nariz quebrado. Mas quando olhou para o homem derrubado no chão aos seus pés, só sentiu satisfação.

 

Lizzie não dormiu naquela noite.

Jay dissera-lhe que podia haver confusão, e ela ficou sentada em seu quarto esperando por ele, com um romance aberto, mas não lido, no joelho. Ele chegou em casa de madrugada coberto de sangue e todo sujo, com uma bandagem no nariz. Ficou tão satisfeita por vê-lo vivo que lançou os braços em torno dele e o abraçou, arruinando seu robe de seda branca.

Lizzie acordou os criados, mandou que trouxessem água quente e Jay contou a história do distúrbio detalhe por detalhe enquanto ela o ajudou a tirar o uniforme imundo, lavou-lhe o corpo machucado e deu-lhe uma camisa de dormir limpa.

Mais tarde, deitados lado a lado na enorme cama de quatro postes, ela disse, hesitante:

- Você acha que McAsh será enforcado?

- Certamente que é o que espero - respondeu Jay, tocando cuidadosamente na bandagem com um dedo. - Temos testemunhas para dizer que ele incitou a multidão a se revoltar e atacou pessoalmente integrantes da tropa. Não posso imaginar que um juiz lhe dê uma sentença leve no clima actual. Agora, se tivesse amigos influentes para pedir por ele, seria diferente:

Ela franziu a testa.

- Nunca o vi como um homem particularmente violento. Insubordinado, desobediente, insolente, arrogante, mas não selvagem.

- Pode ser que você tenha razão comentou Jay, presunçoso. - Mas acontece que as coisas foram ajeitadas para que ele não tivesse escolha.

- Como assim?

- Sir Sidney Armstrong fez uma visita clandestina ao trapiche para falar comigo e o pai. Ele nos disse que queria McAsh preso por ser responsável pelo distúrbio. Ele praticamente nos disse para montar o esquema. Assim, Lennox e eu arranjamos para que houvesse um distúrbio.

Lizzie ficou chocada. Sentia-se ainda pior sabendo que Mack fora deliberadamente provocado.

- E Sir Sidney está satisfeito com o que vocês fizeram?

- Está. E o coronel Cranbrough ficou impressionado com o modo pelo qual conduzi tudo. Posso abandonar a minha patente de oficial e deixar o exército com uma reputação impecável.

Jay fez amor com Lizzie, mas ela estava perturbada demais para desfrutar de seus carinhos. Normalmente gostava de brincar pela cama, rolando e às vezes ficando por cima dele, trocando de posições, beijando, falando e rindo; e, naturalmente, Jay notou a diferença. Quando terminou, disse:

- Você está muito quieta.

Lizzie pensou em uma desculpa.

- Tive medo de machucar você.

Ele aceitou e poucos momentos depois dormia. Lizzie permaneceu acordada. Era a segunda vez que se chocava com a atitude do marido para com a justiça - em ambas as ocasiões com envolvimento de Lennox. Jay não era mau, tinha certeza - mas podia ser levado ao mal pelos outros, particularmente homens de vontade forte como Lennox. Ainda bem que iam deixar a Inglaterra dentro de um mês. Uma vez que zarpassem, nunca mais veriam Lennox de novo.

Mesmo assim não conseguiu dormir. Sentia um frio na boca do estômago, um peso desagradável. Mack McAsh ia ser enforcado. Revoltara-se ao ver o enforcamento de completos estranhos naquela manhã em que fora a Tyburn, disfarçada. A idéia de a mesma coisa acontecer a seu amigo de infância era intolerável. Mack não era problema seu, disse a si própria. Fugira, infringira a lei, entrara em greve e tomara parte num distúrbio de rua. Fizera tudo o que pudera para meter-se em encrenca: salvá-lo não era sua responsabilidade. Sua obrigação era para com o homem com quem se casara.

Era tudo verdade, mas ainda assim ela não conseguiu dormir.

Quando a luz do dia começou a aparecer nas frestas das cortinas, ela se levantou. Decidiu começar com os preparativos para a viagem, e quando as criadas apareceram, pediu que enchessem as arcas à prova d'água que comprara com seus presentes de casamento: roupa de cama, talheres, porcelana, louças, panelas e facas de cozinha.

Jay acordou doído e mal-humorado. Bebeu um gole de brandy como desjejum e saiu para o seu regimento. A mãe de Lizzie, que ainda morava na ala de hóspedes da casa dos Jamisson, foi visitar a filha logo depois que Jay saiu e no quarto as duas se puseram a dobrar meias, anáguas e lenços de Lizzie.

- Em que navio vocês vão viajar? - perguntou a mãe.

- No Rosebud. É um navio da família Jamisson.

- E quando chegarem na Virgínia, como irão até a fazenda?

- Navios transoceânicos podem subir o rio Rapahannock até Fredericksburg, que fica apenas a dezasseis quilómetros de Mockjack Hall - Lizzie podia ver que a mãe sentia-se ansiosa por vê-la fazer uma longa viagem por mar. - Não se preocupe, mãe, não há mais piratas.

- Você deve levar a sua própria água fresca e guardar o barril na cabine. Não compartilhe com a tripulação. Vou arrumar uma arca de remédios para você, em caso de doença.

- Muito obrigado, mãe.

Lizzie tinha mais probabilidade de vir a morrer por causa do espaço exíguo, da comida contaminada e da água podre do que de um ataque dos piratas.

- Quanto tempo vai levar?

- Seis ou sete semanas. - Lizzie sabia que aquilo era um mínimo; caso os ventos levassem o navio para fora do rumo, a viagem podia se estender para uns três meses. Aí a chance de doença era muito maior. No entanto, ela e Jay eram jovens, fortes e saudáveis, e sobreviveriam. E seria uma aventura!

Mal podia esperar para conhecer a América. Era todo um novo continente e tudo seria diferente: os pássaros, as árvores, a comida, o ar, o povo. Ficava excitadíssima sempre que pensava na América.

Morava em Londres já há quatro meses e desgostava da cidade a cada dia. A sociedade polida a matava de tédio. Ela e Jay frequentemente jantavam com outros oficiais e suas esposas, mas os oficiais falavam de jogos de cartas e generais incompetentes, e as mulheres se interessavam apenas por chapéus e criadas.

Lizzie achava impossível conversar sobre banalidades, mas se falava o que pensava, sempre chocava.

Uma ou duas vezes por semana ela e Jay jantavam em Grosvenor Square. Lá, pelo menos, a conversa tratava de algo real: negócios, política e a onda de greves e perturbações da ordem que engolfara Londres naquela primavera. Mas o modo de os Jamisson verem os acontecimentos não podia ser mais parcial Sir George verberava contra os trabalhadores, Robert antevia desastres e Jay propunha que os militares os esmagassem. Ninguém, nem mesmo Alicia, tinha imaginação para ver o conflito segundo o ponto de vista contrário. Lizzie não pensava que os trabalhadores tivessem razão para fazer greve, é claro, mas acreditava que tinham razões que lhes pareciam fortes. Esta possibilidade nunca foi admitida em torno da mesa de jantar de Grosvenor Square.

- Espero que você fique satisfeita por voltar à propriedade Hallim - disse Lizzie para a mãe.

A mãe fez que sim.

- Os Jamisson são muito bons, mas sinto falta da minha casa, mesmo que seja humilde.

Lizzie punha os livros favoritos em uma arca: Robinson Crusöe, Tom Jones, Roderick Random - todas histórias de aventura - quando um lacaio bateu e disse que Caspar Gordonson a aguardava embaixo.

Pediu que o homem repetisse o nome da visita, porque dificilmente podia crer que Gordonson se atrevesse a visitar qualquer membro da família Jamisson. Devia recusar-se a vê-lo, sabia disso: ele tinha encorajado e apoiado aquela greve que vinha prejudicando os negócios de seu sogro. Mas a curiosidade levou a melhor, como sempre, e ela disse ao lacaio que o levasse para a sala de visita.

Não tinha, contudo, a intenção de dar-lhe boas-vindas.

- Você causou muitos problemas - disse, quando entrou.

Para sua surpresa, ele não era o sabichão agressivo e provocador que esperava, mas um homem desmazelado e míope, com a voz aguda e os modos de um professor distraído.

- Eu não tive intenção - disse ele. - Quer dizer... causei problemas, é claro... mas não à senhora pessoalmente.

- Por que veio aqui? Se meu marido estivesse em casa pegaria você pela orelha e o atiraria na rua.

- Mack McAsh foi acusado de infringir a lei contra distúrbios de rua e levado para a prisão de Newgate. Será julgado em Old Bailey dentro de três semanas. É um crime passível de enforcamento.

A lembrança atingiu Lizzie como um golpe, mas ela escondeu o que sentia.

- Eu sei - disse, friamente. - Uma tragédia. Um homem jovem e forte com toda uma vida à sua frente.

- A senhora devia se sentir culpada - disse Gordonson.

- Seu tolo insolente! - exclamou ela, furiosa. - Quem encorajou McAsh a pensar que era um homem livre? Quem disse a ele que tinha direitos? Você! Você é quem devia se sentir culpado!

- Eu me sinto - disse ele, baixinho.

Lizzie ficou surpresa: esperava uma negativa acalorada. A humildade dele a acalmou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos mas ela lutou para contê-las.

- Ele deveria ter ficado na Escócia.

- A senhora sabe que muitas pessoas condenadas por crimes assim no final não são enforcadas.

- Sim. - Ainda havia esperança. Ela se animou um pouco. - Você acha que Mack conseguirá um perdão real?

- Depende de quem estiver disposto a pedir por ele. Amigos influentes são tudo em nosso sistema legal Apelarei pela vida dele, mas minhas palavras não valer o muito. Muitos juízes me odeiam. No entanto, se a senhora pedir por ele...

- Não posso fazer isso! - protestou ela. - Meu marido está acusando McAsh. Seria uma coisa terrivelmente desleal da minha parte.

- A senhora poderia salvar a vida dele.

- Mas isto faria de Jay um idiota!

- Não acha que ele poderia compreender...

- Não! Eu sei que não entenderia. Nenhum marido entenderia.

- Pense a respeito...

- Não vou pensar! Vou fazer uma outra coisa. Eu... - ela procurou encontrar uma idéia. - Eu escreverei para o Sr. York, o pastor da igreja em Heugh. Pedirei para que venha a Londres pedir pela vida de Mack no julgamento.

- Um pastor do interior da Escócia? - disse Gordonson. Não penso que ele vá ter muita influência. O único modo de se ter certeza é a senhora mesma pedir por McAsh.

- Está fora de questão.

- Não vou discutir com a senhora. Só servirá para torná-la mais determinada - disse Gordonson, astutamente. Ele foi para a porta. - A senhora pode mudar de idéia a qualquer hora. Basta ir a Old Bailey em três semanas a contar de amanhã. Lembre-se de que a vida dele pode depender disto.

Gordonson saiu e Lizzie permitiu-se chorar.

 

Mack foi levado para a ala comum da prisão de Newgate.

Não conseguia lembrar de tudo que lhe acontecera na noite anterior. Tinha uma vaga lembrança de haver sido amarrado, jogado em cima de um cavalo e carregado através de Londres. Havia um prédio alto com janelas de grades, um pátio revestido com pedras arredondadas, uma escada e uma porta reforçada. Aí tinha sido levado para onde se encontrava agora. No escuro, ele não fora capaz de enxergar direito. Machucado e fatigado, caíra no sono.

Ao acordar, descobriu-se em um cómodo mais ou menos do tamanho do apartamento de Cora. Fazia frio: não havia vidro nas janelas e fogo na lareira. O lugar cheirava mal. Havia pelo menos mais umas trinta pessoas com ele: homens, mulheres e crianças, mais um cachorro e um porco. Todo mundo dormia no chão e compartilhava um enorme urinol. Havia um constante movimento de entrada e saída. Algumas das mulheres saíram de manhã cedo, e Mack descobriu que não eram prisioneiras e sim mulheres de prisioneiros que subornavam os guardas e passavam a noite ali. Os carcereiros traziam comida, cerveja, gim e jornais para aqueles que podiam pagar seus preços grandemente inflaccionados. Alguns foram ver amigos em outras alas. Um prisioneiro foi visitado por um sacerdote, outro por um barbeiro. Tudo era permitido, ao que parecia, desde que se pagasse.

Havia quem risse da situação difícil em que se encontrava e fizesse brincadeira com os crimes cometidos. O ar de alegria generalizada aborreceu Mack. Mal acordara e ofereceram-lhe um gole de gim da garrafa de alguém e uma tragada num cachimbo, como se estivessem todos em uma festa de casamento.

Mack sentia dor no corpo todo, mas a cabeça era o pior.

Havia uma protuberância nas suas costas com uma crosta de sangue.

Sentia-se totalmente desanimado. Falhara de todas as maneiras.

Fugira de Heugh para ser livre, e contudo terminara na prisão.

Lutara pelos direitos dos carregadores de carvão e conseguira que alguns deles fossem mortos. Perdera Cora. Seria julgado por traição, ou distúrbio, ou homicídio. E provavelmente morreria na forca. Muitos daqueles que o cercavam agora tinham tanta razão quanto ele para se lamentar, mas talvez fossem estúpidos demais para compreender a própria sina.

A pobre Esther jamais conseguiria sair da aldeia agora.

Desejou que a tivesse trazido consigo. Ela podia ter se vestido de homem, como Lizzie Hallim fizera. Teria administrado o trabalho dos marinheiros com mais facilidade que o próprio Mack, porque era mais esperta. E seu bom senso poderia tê-lo conservado fora de encrencas.

Esperava que o bebê de Annie fosse um menino. Assim pelo menos continuaria havendo um outro Mack. Talvez Mack Lee tivesse uma vida mais feliz e mais longa que a de Mack McAsh.

Mack encontrava-se no auge do desânimo quando um carcereiro abriu a porta e Cora entrou.

Tinha o rosto sujo e o vestido vermelho rasgado, mas ainda era uma mulher encantadora, e todo mundo virou-se para olhar.

Mack ficou de pé com um salto e abraçou-a, debaixo de uma salva de palmas e gritos dos outros prisioneiros.

- O que aconteceu com você? - quis saber ele.

- Fui condenada por furto, mas tudo por sua causa.

- Como assim?

- Foi uma armadilha. O rapaz parecia ser como qualquer outro jovem rico bêbado, mas era Jay Jamisson. Prenderam a gente e nos levaram ao pai dele. É um crime punido com enforcamento, furtar carteiras. Mas ofereceram o perdão a Peg, se ela contasse onde você morava.

Mack sentiu um momento de raiva contra Peg por tê-lo traído; mas ela era apenas uma criança, não podia ser culpada.

- Então foi assim que eles descobriram.

- O que aconteceu com você?

Ele lhe contou a história da briga.

Quando terminou, Cora disse:

- Por Cristo, McAsh, você é um homem que não dá sorte a gente conhecer.

Era verdade, pensou ele. Todo mundo que ele conhecia tinha se metido numa encrenca qualquer.

- Charlie Smith está morto - disse.

Você precisa falar com Peg - disse Cora. - Ela pensa que você a deve estar odiando.

- Eu me odeio por ter metido ela nisto.

Cora deu de ombros.

- Você não disse a ela para roubar. Vamos.

Ela bateu na porta e um carcereiro a abriu. Deu uma moeda a ele, apontou um polegar para Mack e disse:

- Ele está comigo.

O carcereiro fez que sim e deixou que os dois saíssem.

Cora o conduziu ao longo de um corredor e os dois entraram num aposento bem parecido com o de onde haviam saído. Peg estava sentada no chão a um canto. Quando viu Mack ela se levantou, parecendo apavorada.

- Desculpe - disse. - Eles me obrigaram, desculpe!

- A culpa não foi sua - disse ele.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas.

- Eu o desapontei - murmurou.

- Não seja tola - ele tomou-a em seus braços, e o corpinho de Peg sacudiu enquanto ela soluçava sem parar.

 

Caspar Gordonson chegou com um banquete: sopa de peixe numa grande terrina, um peso de carne com o osso inteiro, pão fresco, diversos jarros de cerveja e uma torta. Pagou ao carcereiro por uma sala privada com mesa e cadeiras. Mack, Cora e Peg foram trazidos e todos se sentaram para comer.

Mack sentia fome, mas descobriu que tinha pouco apetite.

Preocupado, tinha a cabeça voltada para o futuro. Queria saber o que Gordonson pensava de suas chances no julgamento. Obrigou-se a ser paciente e bebeu um pouco de cerveja.

Quando tinham terminado de comer, o criado de Gordonson retirou tudo e trouxe cachimbos e tabaco. O advogado pegou um cachimbo e Peg também, pois ela cultivava aquele vício dos adultos.

Gordonson começou examinando o caso de Peg e Cora.

- Falei com o advogado da família Jamisson sobre a acusação de furto - disse ele. - Sir George manterá a promessa de pedir misericórdia para Peg.

- O que me surpreende - comentou Mack. - Não é próprio dos Jamisson cumprir a palavra.

- Ah, bem, eles querem algo - disse Gordonson. - Você entende, será embaraçoso para eles se Jay contar ao tribunal que escolheu Cora pensando que ela fosse uma prostituta. Assim, querem fingir que ela apenas o encontrou na rua e o fez conversar, enquanto Peg esvaziava-lhe os bolsos.

Peg disse com menosprezo:

- E nós devemos confirmar esse conto de fadas e proteger a reputação de Jay.

- Se você quiser que Sir George peça pela sua vida, sim.

- Não temos outra escolha. Claro que faremos isso - disse Cora.

- Ótimo - Gordonson virou-se para Mack. - Gostaria que o seu caso fosse tão fácil.

Mack protestou:

- Mas eu não sou responsável por nenhum distúrbio!

- Você não se afastou depois da leitura da lei.

- Pelo amor de Deus, tentei fazer com que todo mundo fosse embora, mas os rufiões de Lennox atacaram.

- Vamos examinar tudo passo a passo.

Mack respirou fundo e conteve sua irritação.

- Tudo bem.

- O promotor dirá apenas que a lei contra os distúrbios de rua foi lida e você não dispersou e, sendo assim, você é culpado e deve ser enforcado.

- Sim, mas todo mundo sabe que há mais do que isto!

- Aí está: esta é a sua defesa. Você simplesmente diz que o promotor só contou metade da história. Pode trazer testemunhas para confirmar que você pediu a todos para dispersar?

- Tenho certeza que sim. Dermot Riley pode trazer qualquer número de carregadores de carvão para testemunhar. Mas devemos perguntar aos Jamisson por que o carvão estava sendo entregue àquele pátio, entre tantos outros existentes, àquela hora da noite!

- Bem...

Mack bateu na mesa, impaciente.

- Todo o distúrbio foi previamente arranjado, temos que dizer isso.

- Será difícil de provar.

Mack enfureceu-se com a atitude desinteressada de Gordonson.

- O distúrbio foi obra de uma conspiração. Certamente que você não vai deixar isto de fora, vai? Se os fatos não forem levados diante da corte, para onde devem ser levados?

Peg perguntou:

- O senhor estará no julgamento, Sr. Gordonson?

- Sim, mas pode ser que o juiz não me deixe falar.

- Pelo amor de Deus, por quê? - quis saber Mack, indignado.

- A teoria é que se você é inocente não precisa de um perito em leis para prová-lo. Mas às vezes os juízes fazem exceções.

- Espero que tenhamos um juiz amistoso - disse Mack, ansioso.

- O juiz tem que ajudar o acusado. Tem o dever de assegurar-se de que o processo, tal como é visto pela defesa, está claro para o júri. Mas não confie nisto. Coloque sua fé na verdade, na pura verdade. É a única coisa que pode salvá-lo do carrasco.

 

No dia do julgamento os prisioneiros foram acordados às cinco horas da manhã.

Dermot Riley chegou poucos minutos depois com uma roupa para emprestar a Mack; era a roupa com que Dermot se casara, e Mack ficou comovido. Trouxe também uma navalha e um pedaço de sabão. Meia hora mais tarde Mack tinha uma aparência respeitável e se sentia pronto para enfrentar o juiz.

Na companhia de Cora e Peg e de quinze ou vinte outros, ele foi amarrado e levado para fora da prisão, ao longo da rua Newgate, descendo uma ruazinha secundária chamada Old Bailey e subindo uma viela que dava no prédio do tribunal Caspar Gordonson o encontrou lá e explicou quem era quem.

O pátio em frente ao prédio já estava cheio de gente: promotores, testemunhas, jurados, advogados, amigos e parentes, espectadores ociosos e provavelmente prostitutas e ladrões em busca de oportunidade de negócios. Todos foram levados através do pátio e por um portão para o Bail Dock, o lugar onde ficavam os prisioneiros durante o julgamento. Já estava cheio de réus, presumivelmente de outras prisões: Fleet, Bridewell e Ludgate. Dali Mack podia ver o imponente prédio do tribunal. Degraus de pedra levavam ao piso térreo, que era aberto de um lado excepto por uma fileira de colunas.

Dentro ficava a bancada dos juízes, sobre uma plataforma alta. Dos lados havia espaços delimitados por uma balaustrada para os jurados e balcões destinados aos funcionários do tribunal e espectadores privilegiados.

Lembrou a Mack de um teatro - só que ele era o vilão da peça.

Ele observou com horrível fascínio quando a corte iniciou seu longo dia de julgamentos. O primeiro réu era uma mulher, acusada de furtar quinze metros de baetilha - um tecido barato feito com uma mistura de algodão e lã. O dono da loja era o queixoso, e avaliou o tecido em quinze shillings. A testemunha, um empregado, jurou que a mulher pegou a peça de fazenda e dirigiu-se para a porta, e ao perceber que era observada, largou o material e fugiu.

A mulher alegava que só tinha examinado o tecido e jamais tencionara sair da loja com ele.

Os jurados conferenciaram em segredo. Vinham de uma classe social conhecida como "classe média": pequenos comerciantes, artesãos bem-sucedidos e lojistas. Odiavam a desordem e o roubo mas não tinham a confiança do governo e defendiam zelosamente a liberdade - pelo menos a deles.

Consideraram a mulher culpada mas avaliaram o tecido em quatro shillings, muito menos do que valia. Gordonson explicou que ela poderia ser enforcada por furtar de uma loja bens de valor maior que cinco shillings. O veredicto destinava-se a impedir que o juiz a condenasse à morte.

Ela não foi sentenciada imediatamente, contudo: as sentenças seriam lidas no final do dia.

Toda a coisa não tomara mais que um quarto de hora. Os casos seguintes foram tratados com igual rapidez, poucos deles tomando mais de meia hora. Cora e Peg foram julgadas juntas lá pela metade da tarde. Mack sabia que o resultado do julgamento fora previamente arranjado, mas ainda assim cruzou os dedos e torceu para que tudo saísse de acordo com o plano.

Jay Jamisson testemunhou que Cora puxara conversa com ele na rua enquanto Peg esvaziava seus bolsos. Chamou Sidney Lennox como uma testemunha que vira tudo o que acontecera e o avisara. Nem Cora nem Peg contestaram a versão dele.

A recompensa delas foi o aparecimento de Sir George, que testemunhou que elas haviam sido úteis na prisão de um outro criminoso e pediu que o juiz as sentenciasse ao desterro, e não ao enforcamento.

O juiz balançou a cabeça compreensivamente, mas a sentença não seria pronunciada senão no fim do dia.

O caso de Mack foi anunciado poucos minutos depois.

 

Lizzie não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o julgamento.

Jantara às três horas, e, com Jay no tribunal o dia inteiro, sua mãe fora comer com ela e fazer-lhe companhia.

- Você está bem gordinha, minha querida - disse Lady Hallim. - Tem comido muito?

- Ao contrário - respondeu Lizzie. - Às vezes a comida me faz mal. Tudo por conta da ansiedade da viagem para a Virgínia, eu acho. E agora este julgamento horrível.

- Não é da sua conta - disse Lady Hallim bruscamente. - Dezenas de pessoas são enforcadas todos os anos por crimes muito menos horríveis. Ele não pode ter a pena suspensa só porque você o conheceu quando criança.

- Como é que você sabe que ele cometeu um crime?

- Se não cometeu, vão considerá-lo inocente. Tenho certeza de que será tratado igual a qualquer pessoa tola o bastante para se envolver em um tumulto.

- Mas não - protestou Lizzie. - Jay e Sir George provocaram deliberadamente aquele tumulto para que pudessem prender Mack e terminar com a greve... Jay me contou.

- Então estou segura de que eles tiveram uma boa razão.

Os olhos de Lizzie encheram-se de lágrimas.

- Mãe, você não acha que isso é errado?

- Tenho certeza absoluta de que não é da minha conta ou da sua, Lizzie - respondeu ela, com firmeza.

Querendo esconder da mãe o seu sofrimento, Lizzie comeu uma colher cheia da sobremesa - maçãs esmagadas com açúcar mas aquilo a enjoou e ela descansou a colher.

- Caspar Gordonson disse que eu poderia salvar a vida de Mack se depusesse a favor dele.

- Deus me livre! - A mãe ficou chocada. - Você ir contra seu próprio marido em uma sala de tribunal na frente de todo mundo... nem fale uma coisa dessas!

- Mas é a vida de um homem! Pense na pobre irmã dele... como sofrerá quando descobrir que foi enforcado.

- Minha querida, eles são mineiros, não são como nós. A vida é barata, não sofrem como nós. A irmã dele só vai ficar embriagada com gim e voltar ao fundo da mina.

- Você não acredita nisso, mãe, eu sei.

- Talvez eu esteja exagerando. Mas tenho certeza de que não adianta nada se preocupar com essas coisas.

- Não posso evitar. Ele é um rapaz corajoso que só queria ser livre, e não posso tolerar a idéia de vê-lo enforcado.

- Você pode rezar por ele.

- Eu rezo - disse Lizzie. - Eu rezo.

 

O promotor foi um advogado, Augustus Pym.

- Ele costuma trabalhar muito para o governo - cochichou Gordonson. - Devem estar pagando para que trabalhe neste caso.

Então o governo queria Mack enforcado. Saber disto o deixou deprimido.

Gordonson aproximou-se da bancada e dirigiu-se ao juiz.

- Excelência, como a acusação está sendo feita por um advogado profissional terei sua permissão para falar pelo Sr.

McAsh?

- Certamente que não - respondeu o juiz. - Se McAsh não puder convencer o júri sem ajuda de fora, é porque o caso dele não tem defesa.

A garganta de Mack ficou seca e ele foi capaz de ouvir as batidas do seu coração. Bem, não cederia um centímetro de terreno sem lutar.

Pym começou.

- No dia em questão, um carregamento de carvão ia sendo entregue no pátio do Sr. John Cooper, conhecido como Black Jack, na rua Wapping.

- Não era dia, era noite - interveio Mack.

O juiz disse:

- Não faça comentários tolos.

- Não é tolice - contrapôs Mack. - Quem já ouviu falar de carvão ser entregue às onze horas da noite?

- Fique quieto. Continue, Sr. Pym.

- Os entregadores foram atacados por um grupo de carregadores de carvão em greve, e os magistrados de Wappping foram alertados.

- Por quem? - quis saber Mack.

Pym respondeu.

- Pelo proprietário da taverna chamada Frying Pan, o Sr.

Harold Nipper.

- Um empreiteiro - disse Mack.

O juiz acrescentou:

- E um comerciante respeitável, quero crer.

Pym prosseguiu:

- O Sr. Roland MacPherson, Juiz de Paz, chegou e leu a lei. Os carregadores de carvão recusaram-se a dispersar.

- Fomos atacados! - alegou Mack.

Eles o ignoraram.

- O Sr. MacPherson então convocou a tropa, como era seu dever e seu direito. Um destacamento do Terceiro Regimento de Infantaria de Guarda chegou sob o comando do capitão Jamisson. O prisioneiro encontrava-se entre os que foram presos. A primeira testemunha da Coroa é John Cooper.

Black Jack testemunhou ter descido o rio e ido até Rochester a fim de comprar o carvão que fora descarregado. Mandara que o levassem para Londres em carroças.

- A quem pertencia o navio? - perguntou Mack.

- Não sei, tratei com o capitão.

- De onde era o navio?

- Edimburgo.

- Poderia pertencer a Sir George Jamisson?

- Não sei.

- Quem lhe deu a sugestão de comprar carvão em Rochester?

- Sidney Lennox.

- Um amigo dos Jamisson.

- Nada sei sobre isto.

A testemunha seguinte de Pym foi Roland MacPherson, que jurou ter lido a lei contra os distúrbios de rua às onze e quinze da noite e que a multidão se recusara a dispersar-se.

- Você chegou muito depressa.

- Sim.

- Quem o chamou?

- Um homem.

- O proprietário da taverna Frying Pan.

- Sim.

- Ele teve que andar muito?

- Não sei o que você está querendo dizer.

- Onde você estava quando ele o chamou?

- Na sala de trás da taverna dele.

- Muito conveniente! Isso foi planejado?

- Eu sabia que ia haver uma entrega de carvão e receei que pudesse haver problema.

- Quem o avisou da entrega?

- Sidney Lennox.

Um dos jurados fez:

- Oh!

Mack olhou para ele. Era um homem jovem com uma expressão céptica, a quem marcou como um aliado em potencial.

Finalmente Pym chamou Jay Jamisson. Jay tinha facilidade de expressão e o juiz parecia ligeiramente entediado, como se fossem amigos discutindo um assunto sem importância. Mack teve vontade de gritar: "Não seja tão indiferente - minha vida está em jogo!" Jay explicou que encontrava-se no comando de um destacamento de guardas na Torre de Londres.

O jurado céptico interrompeu:

- O que você estava fazendo lá?

Jay deu a impressão de ter sido apanhado de surpresa. Nada disse.

- Responda à pergunta - insistiu o jurado.

Jay olhou para o juiz, que parecia aborrecido com o jurado, mas disse, com óbvia relutância:

- É preciso responder às perguntas do júri, capitão.

- Estávamos lá de prontidão - disse Jay.

- Para quê? - quis saber o jurado.

- Para o caso de ser preciso nossa ajuda para manter a paz na zona leste da cidade...

- O seu quartel normalmente é lá? - indagou o jurado.

- Não.

- Onde é então?

- Hyde Park, por ora.

- Do outro lado de Londres. Sim.

- Quantas noites você fez esse deslocamento especial para a Torre?

- Só uma.

- Como se explica você estar lá especificamente nessa noite?

- Presumo que meus comandantes temeram problemas.

- Sidney Lennox avisou a eles, eu suponho - disse o jurado, e aí houve um riso abafado.

Pym continuou a interrogar Jay, que disse que quando ele e seus homens chegaram ao pátio do depósito de carvão havia um distúrbio em pleno andamento, o que era verdade. Contou como Mack o atacara - também verdade - e tinha sido derrubado por um soldado.

Mack perguntou:

- O que você acha de carregadores de carvão que se metem em arruaças e distúrbios de rua?

- Estão violando a lei e devem ser punidos.

- Acredita que a maioria das pessoas pensa como você, tudo considerado?

- Acredito.

- Acha que o distúrbio vai fazer com que o povo fique contra os carregadores de carvão?

- Tenho certeza.

- Então o distúrbio torna possível que as autoridades tomem uma atitude drástica para acabar com a greve?

- Certamente que espero que isso aconteça.

Ao lado de Mack, Caspar Gordonson murmurava:

- Brilhante, brilhante, ele caiu direitinho na sua armadilha.

- E quando a greve terminar, os navios carvoeiros da família Jamisson serão descarregados e vocês serão capazes de vender seu carvão de novo.

Jay começou a ver para onde estava sendo levado, mas demasiado tarde.

- Sim.

- E o término da greve vale muito dinheiro para vocês.

- Sim.

- Então o distúrbio dos carregadores de carvão trará dinheiro para você?

- Pode fazer com que minha família pare de perder dinheiro.

- Foi por isto que você cooperou com Sidney Lennox na provocação do distúrbio? - Mack virou-se na direcção contrária.

- Eu não fiz isso - exclamou Jay, mas falando para a nuca de Mack.

- Você devia ser advogado, Mack - disse Gordonson. - Onde aprendeu a argumentar desse jeito?

- Na sala de visitas da Sra. Wheighel - respondeu ele.

Gordonson estava assombrado.

Pym não tinha mais testemunhas. O jurado céptico disse:

- Não vamos ouvir o depoimento desse tal de Lennox?

- A Coroa não tem mais testemunhas - repetiu Pym.

- Bem, acho que devíamos ouvir esse sujeito. Ele parece estar por trás de tudo.

- Os jurados não podem convocar testemunhas - disse o juiz.

Mack chamou sua primeira testemunha, um irlandês conhecido como Michael Ruivo por causa da cor do cabelo. Ruivo contou como Mack estava a ponto de persuadir os grevistas a irem para casa quando foram atacados.

Quando terminou, o juiz quis saber:

- E qual é o seu trabalho, rapaz?

- Sou carregador de carvão, senhor - respondeu o Ruivo.

O juiz disse:

- O júri levará isto em conta quando considerar se deve ou não acreditar no seu relato.

Mack sentiu o coração apertar. O juiz fazia tudo o que pudesse para predispor o júri contra ele. Chamou sua segunda testemunha, mas era outro carregador de carvão e sofreu o mesmo destino. A terceira e última também. Isso era porque eles tinham estado bem no centro dos acontecimentos e visto tudo exactamente como acontecera.

As testemunhas de Mack haviam sido destruídas. Agora só havia ele mesmo, seu carácter e eloquência.

- Descarregar o carvão trazido pelos navios é trabalho duro, cruelmente duro - começou ele. - Somente homens jovens e fortes podem realizá-lo. Mas é muito bem pago; na minha primeira semana ganhei seis libras. Fiz por merecer esse dinheiro, mas não o recebi: a maior parte foi roubada pelo meu empreiteiro.

- Isto nada tem a ver com o caso - interrompeu o juiz. - A acusação é distúrbio, desordem.

- Eu não iniciei qualquer tumulto - disse Mack. Ele respirou fundo, ordenou os pensamentos e prosseguiu. - Eu simplesmente me recusei a deixar que os empreiteiros furtassem o meu salário. Este é o meu crime. Os empreiteiros ficam ricos apropriando-se do dinheiro dos homens que descarregam o carvão dos navios. Mas quando estes homens decidiram ser seus próprios patrões, o que aconteceu? Foram boicotados pelos donos de navio. E quem são os donos de navio, cavalheiros? A família Jamisson, que está inextricavelmente envolvida com os fatos trazidos a este julgamento.

O juiz perguntou, irritado:

- Pode provar que não participou da arruaça?

O jurado céptico interveio:

- A questão é que a briga foi provocada por outros.

Mack não se atrapalhou com a interrupção. Continuou simplesmente com o que queria dizer.

- Cavalheiros do júri, façam a si próprios algumas perguntas - ele deu as costas aos jurados e encarou Jay. - Quem ordenou que as carroças de carvão fossem levadas à rua Wapping a uma hora em que as tavernas estavam cheias de carregadores em greve? Quem as mandou para o pátio de carvão onde moro? Quem pagou aos homens que escoltavam as carroças? - O juiz tentou interromper de novo, mas Mack levantou a voz e prosseguiu vigorosamente. - Quem lhes deu mosquetes e munição? Quem se assegurou de que a tropa estaria por perto? Quem orquestrou todo o distúrbio?

Ele virou-se rapidamente e olhou para o júri. - Vocês conhecem a resposta, não conhecem? - Mack sustentou o olhar deles por mais um momento e virou-se.

Sentia-se trémulo. Fizera o melhor de que era capaz, e agora sua vida estava à mercê dos outros.

Gordonson levantou-se.

- Esperávamos uma testemunha para depor sobre o carácter do réu... o reverendo Sr. York, pastor da igreja na aldeia onde ele nasceu, mas ainda não chegou.

Mack não se sentia muito desapontado por causa de York, pois não esperava que seu testemunho tivesse muito efeito, e tampouco Gordonson.

O juiz disse:

- Se ele chegar poderá falar antes de a sentença ser proclamada.

Gordonson levantou as sobrancelhas, manifestando sua estranheza, e o juiz acrescentou:

- Isto é, a menos que o júri considere o réu inocente, caso em que qualquer outro testemunho seria supérfluo, desnecessário dizer. Cavalheiros, deliberem para chegar a um veredicto.

Mack estudou os jurados, apreensivo, enquanto eles deliberavam. Achou que, para seu espanto, pareciam insensíveis.

Talvez tivesse sido demasiado enfático.

- O que é que você acha? - perguntou a Gordonson.

O advogado sacudiu a cabeça.

- Vão achar difícil acreditar que toda a família Jamisson entrou em uma conspiração mesquinha e vergonhosa com Sidney Lennox. Você teria se saído melhor se apresentasse os carregadores de carvão como bem-intencionados mas mal-orientados.

- Falei a verdade - retrucou Mack. - Não posso deixar de falar a verdade.

Gordonson sorriu melancolicamente.

- Se você não fosse este tipo de homem, talvez não estivesse metido numa encrenca tão grande.

Os jurados discutiam.

- Que diabos eles tanto falam? - disse Mack. - Gostaria de poder ouvir. - Era possível ver o tal jurado céptico argumentando acaloradamente, sacudindo o dedo. Os outros o ouviam atentamente, ou cerravam fileiras contra ele?

- Ainda bem - disse Gordonson. - Quanto mais tempo falarem, melhor para você.

- Por quê?

- Se estão discutindo, deve haver dúvidas: e se há dúvidas, têm que considerar você inocente.

Mack observou, receoso. O céptico deu de ombros e fez uma meia-volta. Mack receou que tivesse perdido a discussão. O primeiro jurado disse-lhe algo, e ele fez que sim.

O primeiro jurado aproximou-se da bancada do juiz.

O juiz perguntou:

- Os jurados chegaram a um veredicto?

­- Chegamos.

Mack prendeu a respiração.

- E qual foi?

- Nós o consideramos culpado, de acordo com a acusação.

 

Lady Hallim disse:

- O seu sentimento por esse mineiro é bastante estranho, minha querida. Um marido poderia achá-lo censurável.

- Oh, mãe, não seja ridícula.

Bateram na porta da sala de jantar e entrou um lacaio.

- O reverendo Sr. York, madame - disse ele.

- Que surpresa agradável! - disse a mãe. Ela sempre gostara de York. Em voz baixa acrescentou: - A mulher dele morreu, Lizzie... contei a você? Deixou-o com três filhos.

- Mas o que ele está fazendo aqui? - perguntou Lizzie, ansiosa. - Devia estar em Old Bailey. Mande que entre, rápido.

O pastor entrou, e sua aparência era de quem se vestira apressadamente. Antes que Lizzie pudesse perguntar por que não se encontrava no julgamento, ele disse algo que momentaneamente desviou sua atenção de Mack.

- Lady Hallim, Sra. Jamisson, cheguei em Londres poucas horas atrás e vim vê-las o mais cedo que pude a fim de apresentar minhas condolências. Que golpe...

A mãe de Lizzie tentou interrompê-lo.

- Não - mas cerrou os lábios com força.

- Que golpe horrível para ambas.

Lizzie dirigiu um olhar intrigado para sua mãe e perguntou:

- De que está falando, Sr. York?

- O desastre da mina, claro.

- Não sei de nada a esse respeito, embora veja que minha mãe sabe...

- Meu Deus, sinto muitíssimo ter chocado a senhora. Houve um desabamento na sua mina e vinte pessoas morreram.

Lizzie sentiu-se abalada.

- Que coisa realmente horrível - exclamou, comovida. Via mentalmente vinte novas sepulturas no pequeno cemitério perto da igreja. Todos na aldeia estariam chorando a perda de alguém, e o sofrimento seria enorme. Mas uma outra coisa a preocupou. - O que o senhor quis dizer quando falou a "sua" mina?

- High Glen.

Lizzie gelou.

- Não há mina em High Glen.

- Só a nova, é claro, a que foi aberta quando a senhora desposou o Sr. Jamisson.

Lizzie ficou furiosa e virou-se para a mãe:

- Você sabia, não é?

Lady Hallim teve a gentileza de parecer envergonhada.

- Minha querida, era a única coisa a fazer. Foi por isto que Sir George deu a vocês a propriedade na Virgínia...

- Você me traiu! - gritou Lizzie. - Vocês todos me enganaram. Inclusive o meu marido. Como puderam? Como você pôde mentir para mim?

A mãe dela começou a chorar.

- Pensamos que você nunca saberia, você está indo para a América...

Suas lágrimas não conseguiram amortecer o ultraje de Lizzie.

- Vocês pensaram que eu nunca saberia? Mal posso acreditar no que estou ouvindo!

- Não faça nada irreflectido, eu lhe suplico.

Um pensamento horrível passou pela cabeça de Lizzie. Ela virou-se para o pastor.

- A irmã gémea de Mack...

- Receio que Esther McAsh estivesse entre os mortos - disse ele.

- Oh, não. - Mack e Esther foram os primeiros gémeos que Lizzie vira e ficara fascinada por eles. Quando crianças era difícil distinguir um do outro, até que se viesse a conhecê-los bem.

Nos últimos tempos Esther parecia uma versão feminina de Mack, com os mesmos olhos verdes surpreendentes e o corpo musculosamente atarracado dos mineiros. Lizzie lembrava dos dois irmãos há ; poucos meses, de pé, juntos, do lado de fora da igreja. Esther dissera a Mack para calar a matraca e isto fizera Lizzie rir.

Agora Esther estava morta e Mack prestes a ser condenado à forca...

Lembrando de Mack, ela disse:

- O julgamento é hoje!

- Oh, meu Deus - exclamou York. - Eu não sabia que era tão cedo. Será que estou atrasado.

- Talvez não, se for agora.

- Eu irei. É muito longe?

- Quinze minutos a pé, cinco minutos numa cadeirinha. Eu também vou.

- Não, por favor - pediu a mãe.

Lizzie retrucou com aspereza:

- Não tente me impedir, mãe. Vou pedir pela vida de Mack eu mesma. Matamos a irmã, talvez possamos salvar o irmão.

- Vou com você - disse Lady Hallim.

 

O pátio do tribunal estava apinhado de gente. Lizzie viu-se confusa e perdida, e nem York nem sua mãe poderiam ajudá-la.

Abriu caminho, procurando Gordonson ou Mack. Chegou a uma parede baixa que cercava um pátio interno e por fim viu os dois através da, balaustrada. Quando o chamou, Gordonson saiu por um portão.

Ao mesmo tempo, Sir George e Jay apareceram.

- Lizzie, por que está aqui? - perguntou Jay, em tom de reprovação.

Ela o ignorou e falou com Gordonson.

- Oi - Este é o reverendo Sr. York, de nossa aldeia na Escócia. Veio pedir pela vida de Mack.

Sir George sacudiu um dedo para o pastor.

- Se você tiver um mínimo de bom senso fará meia-volta e voltará para a Escócia.

Lizzie disse:

- E eu vou pedir pela vida dele também.

- Muito obrigado - disse Gordonson, ardorosamente. - É a melhor coisa que a senhora podia fazer.

- Tentei impedi-la, Sir George - disse Lady Hallim.

Jay ficou vermelho de raiva e agarrou Lizzie pelo braço, apertando com força.

- Como você se atreve a me humilhar deste jeito? - exclamou, veemente. - Eu a proíbo terminantemente de falar!

- Está intimidando esta testemunha? - questionou Gordonson.

Jay pareceu acovardar-se e deixou passar. Um advogado carregando uma pilha de documentos abriu caminho pelo meio do pequeno grupo. Jay perguntou:

- Temos que ter esta discussão aqui, onde todo mundo pode ver?

- Sim, temos - disse Gordonson. - Não podemos nos afastar do tribunal.

Sir George dirigiu-se a Lizzie:

- Que diabo está querendo com isto, minha filha?

O tom arrogante enfureceu Lizzie.

- Você sabe muito bem que porcaria de coisa estou querendo - disse ela.

Os homens ficaram espantados ao ouvi-la praguejar e duas ou três pessoas mais próximas se viraram para encará-la.

Lizzie ignorou as reacções.

- Vocês todos planejaram esse distúrbio para pegar McAsh numa armadilha. Não vou ficar parada vendo vocês o enforcarem.

Sir George ficou vermelho.

- Lembre-se de que você é minha nora e...

- Cale-se, George - ela o interrompeu. - Não vou me deixar intimidar.

Ele calou-se, estupefacto. Ninguém jamais lhe dissera para calar a boca. Lizzie tinha certeza.

Jay saiu em defesa da família.

- Você não pode ir contra o seu marido - vociferou. - É desleal!

- Desleal? - ela repetiu a palavra com escárnio. - Quem diabos você pensa que é para falar de lealdade? Você me jurou que não ia explorar carvão na minha terra e foi em frente e fez exactamente o contrário. Você me traiu no dia do nosso casamento!

Todos ficaram quietos e por um instante Lizzie pôde ouvir uma testemunha depondo em voz alta do outro lado do muro.

- Então você está sabendo do acidente - disse Jay.

Ela respirou fundo.

- Aproveito a ocasião para dizer agora que Jay e eu levaremos vidas separadas a partir de hoje. Seremos casados apenas formalmente. Voltarei à minha casa na Escócia e nenhum membro da família Jamisson será bem-vindo lá. E quanto a falar em defesa de McAsh: não vou ajudá-los a enforcar o meu amigo e vocês podem, os dois, ir tomar no rabo!

O espanto de Sir George foi tão grande que ele não conseguiu dizer nada. Ninguém falava desse jeito com ele há muitos anos.

Ficou vermelho como uma beterraba, os olhos esbugalhados, bufando, mas não saiu uma só palavra.

Caspar Gordonson dirigiu-se a Jay.

- Posso dar uma sugestão?

Jay dirigiu-lhe um olhar hostil mas disse, lacónico:

- Pode, pode.

- A Sra. Jamisson poderia ser persuadida a não testemunhar, sob uma condição.

- Qual?

- Que você, Jay, peça pela vida de Mack.

- De jeito nenhum - respondeu Jay.

Gordonson prosseguiu.

- Seria igualmente efectivo. Mas pouparia a família da vergonha de ter uma esposa indo contra o marido em um tribunal aberto.

Gordonson de repente pareceu malicioso.

- Em vez disso, você pareceria magnânimo. Poderia dizer que Mack trabalhou em uma das minas dos Jamisson e que por este motivo a família deseja ser generosa.

O coração de Lizzie deu um pulo, cheio de esperança. Um pedido de perdão feito por Jay, o oficial que esmagara o distúrbio, seria muito mais efectivo.

Ela pôde ver a hesitação surgir no rosto de Jay enquanto ele avaliava as consequências. Ele disse, de mau humor:

- Suponho que tenho de aceitar isso.

Antes que Lizzie tivesse tempo de se sentir exultante, Sir George interveio.

- Há uma condição, na qual sei que Jay vai insistir.

Lizzie teve o pressentimento desagradável de que sabia o que estava por vir.

Sir George olhou para ela.

- Você terá que esquecer toda essa bobagem de vidas separadas. Você será uma esposa adequada para Jay, em todos os sentidos.

- Não! - exclamou ela. - Jay me traiu, como posso confiar nele? Não, a minha resposta é não!

Sir George disse:

- Então Jay não pedirá pela vida de McAsh.

Foi a vez de Gordonson intervir:

- Devo lembrar, Lizzie, que o pedido de Jay será muito mais efectivo do que o seu, porque ele é o queixoso.

Lizzie sentiu-se desnorteada. Não era justo - estava sendo forçada a escolher entre a vida de Mack e a sua. Como podia decidir uma coisa dessas? Era puxada para os dois lados e isso a feria.

Todos olhavam para ela: Jay, Sir George, Gordonson, sua mãe e York. Sabia que devia ceder, mas algo no seu íntimo não permitia.

- Não - disse desafiadoramente. - Não trocarei a minha vida pela de Mack.

Gordonson aconselhou:

- Pense mais um pouco.

E a sua mãe:

- Você tem que trocar.

Lizzie olhou para a mãe. Claro que ia instar para que fizesse o que fosse convencional. Mas a mãe estava quase chorando.

- O que é?

As lágrimas começaram a escorrer.

- Você tem que ser uma esposa adequada para Jay.

- Por quê?

- Por que você vai ter um filho.

Lizzie fitou-a espantada.

- O quê? De que é que você está falando?

- Você está grávida.

- Como é que você sabe?

A mãe falou por entre os soluços.

- Seu busto está muito mais cheio e a comida a deixa enjoada. Você está casada há dois meses; não é exactamente uma coisa inesperada.

Oh, meu Deus - murmurou Lizzie, estarrecida. Tudo tinha virado de cabeça para baixo. Um bebê! Estaria grávida mesmo?

Rememorou os últimos tempos e viu que não tinha as regras desde o dia do casamento. Então era verdade. Fora presa na armadilha do próprio corpo. Jay era o pai do seu filho. A mãe vira que isso era a única coisa que podia fazer Lizzie mudar de idéia.

Olhou para Jay. No rosto dele viu raiva misturada a uma expressão de súplica.

- Por que mentiu para mim? - perguntou.

- Eu não queria, mas fui obrigado - disse ele.

Lizzie sentiu-se amargurada. Seu amor por ele nunca mais seria o mesmo, sabia disso. Mas ainda assim era o seu marido.

- Está bem - concordou. - Eu aceito.

Caspar Gordonson disse:

- Então estamos todos de acordo.

A frase pareceu a Lizzie uma condenação à prisão perpétua.

 

- Oh sim! Oh sim! Oh sim! - gritou o pregueiro da corte. - Meus Lordes, os Juízes do Rei, ordenam terminantemente a toda a sorte de pessoas que façam silêncio enquanto a sentença de morte é conferida aos prisioneiros em tribunal pleno, sob pena de prisão.

O juiz colocou na cabeça o barrete preto e levantou-se.

Mack estremeceu de ódio. Dezenove casos haviam sido julgados no mesmo dia, e doze pessoas consideradas culpadas.

Mack sentiu-se dominar por uma onda de terror. Lizzie forçara Jay a pedir misericórdia, mas e se o juiz decidisse não levar em conta o pedido dele, ou simplesmente cometesse um erro?

Lizzie encontrava-se no fundo do salão do tribunal. Mack atraiu-lhe o olhar. Ela parecia pálida e abatida. Não tivera uma chance de lhe falar. Lizzie tentou lhe dar um sorriso de encorajamento, mas não passou de uma careta de medo.

O juiz olhou para os doze prisioneiros, de pé, em linha, e falou, após um momento.

- A lei é que vós devereis retornar daqui para o lugar de onde viestes e de lá para o Lugar de Execução, onde sereis pendurados pelo pescoço, até que o corpo esteja morto! Morto! Morto! E que Deus tenha piedade de vossas almas!

Seguiu-se uma pausa horrível. Cora segurou o braço de Mack, e ele sentiu os dedos dela enterrando na sua carne, ambos sofrendo a mesma ansiedade pavorosa. Os outros prisioneiros tinham pouca esperança de serem perdoados. Ao ouvirem suas sentenças de morte alguns gritaram inocência, outros choraram e houve os que rezaram ruidosamente.

- Peg Knapp tem sua pena comutada e é recomendada para o desterro - anunciou o juiz. - Cora Higgins tem a pena comutada e é recomendada para o desterro. Malachi McAsh tem a pena comutada e é recomendado para o desterro. O resto será enforcado.

Mack passou os braços em torno de Cora e Peg e os três se abraçaram. A vida deles fora salva.

Caspar Gordonson juntou-se ao abraço e depois pegou o braço de Mack e disse, solenemente:

- Tenho que lhe dar uma notícia pavorosa.

Mack sentiu medo de novo: será que as penas deles deixariam de ser comutadas?

- Houve um desabamento em uma das minas dos Jamisson - continuou ele. O coração de Mack falhou; ele teve medo do que estava por ser dito. - Vinte pessoas morreram - disse Gordonson.

- Esther...?

- Sinto muito, Mack. Sua irmã estava entre os mortos.

- Morta? - Difícil de aceitar. Vida e morte haviam sido jogadas como cartas naquele dia. Esther, morta? Como era possível não ter uma gémea? Sempre tivera Esther, desde que nascera.

- Eu devia tê-la deixado vir comigo - disse ele, com os olhos cheios de lágrimas. - Por que a deixei lá?

Peg o fitava com os olhos arregalados. Cora segurou-lhe a mão e disse:

- Uma vida salva, uma vida perdida.

Mack levou as mãos ao rosto e chorou.

 

O dia da partida chegou rapidamente.

Uma manhã, sem aviso, todos os prisioneiros que tinham sido condenados ao desterro receberam ordens para recolher suas coisas e foram conduzidos para o pátio.

Mack tinha poucas coisas. A não ser por suas roupas, só o seu Robinson Crusöe, a argola de ferro que trouxera de Heugh e a capa de pele que Lizzie lhe dera.

No pátio um ferreiro os prendeu aos pares com pesados grilhões. Mack sentiu-se humilhado com os ferros. Aquela sensação de frio no tornozelo o deprimiu.

Lutara pela liberdade, perdera a batalha e mais uma vez se via acorrentado como um animal. Queria que o navio afundasse para morrer afogado.

Homens e mulheres não podiam ser acorrentados juntos.

Mack ficou com um bêbado velho e imundo chamado Barney Maluco. Cora fez charme com o ferreiro e conseguiu ficar acorrentada com Peg.

- Não acredito que Caspar saiba que estamos partindo hoje - disse Mack, preocupado. - Talvez eles não tenham que notificar ninguém.

Ele examinou de alto a baixo a fila de condenados. Havia mais de cem, avaliou: cerca de um quarto mulheres, com um punhado de crianças de mais ou menos nove anos para cima. Entre os homens podia ver Sidney Lennox.

A queda de Lennox causara muito regozijo. Ninguém confiava mais nele depois que prestara depoimento incriminando Peg.

Os ladrões que passavam adiante os objectos roubados na taverna The Sun procuraram outro lugar. E embora a greve dos carregadores de carvão tivesse acabado, e a maioria dos homens voltado ao trabalho, ninguém queria trabalhar para Lennox. Havia uma mulher chamada Gwen Sixpence a furtar para ele, mas ela e duas amigas o denunciaram como receptador e ele fora devidamente condenado. Os Jamisson intervieram e o salvaram da forca. não conseguindo contudo impedir que fosse desterrado.

As grandes portas de madeira da prisão foram escancaradas.

Um grupo de oito guardas esperava do lado de fora para escoltar os prisioneiros. Um carcereiro deu um tranco violento na dupla da frente da fila, e, lentamente, todos se deslocaram para a movimentada rua da cidade.

- Não estamos longe da rua Fleet - disse Mack. - É possível que Caspar possa vir a saber disto.

- Que diferença faz? - quis saber Cora.

- Ele pode subornar o capitão do navio para nos dar tratamento especial. Mack aprendera um pouco sobre a travessia do Atlântico, interrogando prisioneiros, guardas e visitantes em Newgate. O único fato indubitável que descobrira era que a viagem matava muita gente. Quer os passageiros fossem escravos, prisioneiros ou criados contratados, as condições sob o convés eram mortalmente insalubres. Os donos dos navios eram motivados pelo lucro - enfiavam tantas pessoas quanto podiam nos seus porões. Mas os capitães também eram mercenários, e um prisioneiro com dinheiro para gorjetas podia viajar numa cabine.

Os londrinos largavam o que faziam para assistir à passagem dos condenados, em sua última e vergonhosa progressão pelo coração da cidade. Alguns gritavam condolências, outros zombavam e ridicularizavam e uns poucos jogaram pedras ou detritos.

Mack pediu a uma mulher de aparência amável que levasse uma mensagem a Caspar Gordonson, mas ela se recusou. Tentou de novo, mais duas vezes, com o mesmo resultado.

Os grilhões reduziam o ritmo deles, e foi preciso mais de uma hora para chegarem ao cais. O rio estava cheio de navios, chatas, barcas e balsas pois a greve terminara, esmagada pela tropa.

Era uma quente manhã de primavera. A luz do sol se refletia no Tâmisa lamacento. Um bote esperava para levá-los ao navio, ancorado no meio do rio. Mack leu o nome: Rosebud.

- É um navio dos Jamisson? - indagou Cora.

- Acho que a maioria dos navios de prisioneiros é.

Ao descer da margem lamacenta para o bote, Mack deu-se conta de que aquela era a última vez em que pisava em solo britânico por muitos anos, talvez para sempre. Teve sentimentos conflitantes: medo e apreensão misturados com uma certa ansiedade imprudente ante a perspectiva de um novo país e uma nova vida.

Subir a bordo do navio foi difícil: tiveram que escalar a escada aos pares com os grilhões nas pernas. Peg e Cora conseguiram com alguma facilidade, sendo jovens e ágeis, mas Mack teve que carregar Barney. Uma dupla de homens caiu no rio. Nem os guardas nem os marinheiros fizeram qualquer coisa para ajudar, e eles teriam se afogado se os outros prisioneiros não tivessem se esforçado para puxá-los de volta para o bote.

O navio tinha cerca de doze metros de comprimento por quatro e meio de largura. Peg comentou:

- Já roubei salas de visita maiores do que isso aí, por Cristo.

No convés havia galinhas numa gaiola, uma pequena pocilga e uma cabra presa em uma corda. Do outro lado do navio um magnífico cavalo branco era içado de um bote com a ajuda da ponta da verga usada como guindaste. Um gato esquelética mostrou os dentes para Mack. Ele teve uma rápida visão de rolos de cordas e velas dobradas, percebeu o cheiro de verniz e o balanço sob os pés; logo foram empurrados para um alçapão e obrigados a descer uma escada.

Parecia haver três conveses inferiores. No primeiro, quatro marinheiros faziam sua refeição do meio-dia, sentados de pernas cruzadas no chão, cercados por sacos e caixas contendo, presumivelmente, géneros para a viagem. No terceiro, ao pé da escada, dois homens empilhavam barris e prendiam cunhas entre eles, para que não se deslocassem durante a viagem. No nível do convés do meio, que obviamente destinava-se aos condenados, um marinheiro puxou rudemente Mack e Barney e os empurrou por uma porta.

Mack sentiu o odor de alcatrão e vinagre e procurou ver onde se encontrava, apesar da escuridão. O teto era uns dois ou três centímetros acima da sua cabeça: um homem alto teria que curvar-se. Entrava um pouco de luz e ar através de dois gradis, mas não de fora e sim do convés fechado acima, o qual por sua vez, era iluminado por vigias abertas. De ambos os lados do porão havia umas armações de madeira com um metro e oitenta de largura, um no nível da cintura e o outro a poucos centímetros do chão.

Horrorizado, Mack percebeu que aquelas armações destinavam-se aos condenados. Fariam a viagem deitados naquelas prateleiras toscas.

Eles se arrastaram pelo corredor estreito entre as fileiras. Os primeiros cinco beliches já tinham sido ocupados por presos que lá jaziam estirados, ainda acorrentados aos pares.