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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM MARIDO IDEAL / Max Du Veuzit
UM MARIDO IDEAL / Max Du Veuzit

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM MARIDO IDEAL

Uma campainha soou.

Sem levantar os olhos do trabalho, Maria Jousserand, dama de companhia e governanta naquela opulenta casa, gritou:

- Pode entrar.

Apareceu uma criadita de quarto.

- Sou eu, minha senhora - disse, timidamente.

- Ah! ÉS tu, Céline. E então, estás contente com o teu lugar? Não é muito fatigante, pagam-te bem. e se fores séria e dedicada não tens de te inquietar com a sorte da tua família.

- Sim, sim, e começo a fazer projectos: dizem que mademoiselle Frémonde é muito boa...

- É um amor para quem a sabe compreender.

- Por isso mesmo me atrevi a vir ter com a senhora. Foi muito generosa para comigo e para os meus pais e, graças a essa generosidade, entrei nesta casa. Queria que não tivesse nunca que lamentar o que fez por mim.

A dama de companhia olhou a rapariga.

- Porque hei-de ficar descontente contigo, Céline? - perguntou, benevolente.

- Sem querer, posso fazer qualquer coisa que não deva, porque nunca servi e há muitas coisas que desconheço.

- Tens razão. Entraste agora ao serviço como criada de quarto.

E indicando à rapariga um banquinho:

- Senta-te ali, pequena. Temos muito tempo para conversar, porque mademoiselle Frémonde só virá daqui a uma hora.

A criadita sentou-se no lugar indicado e a senhora Jousserand perguntou, amistosa:

- Dize-me lá o que te embaraça.

- Aqui tem uma das coisas que me atrapalha

- disse Céline, muito séria - É que mademoiselle Frémonde dá as ordens muito depressa. Já percebi que é preciso compreendê-la por meias palavras.

- É necessário, até, que adivinhes o que ela deseja, antes que o diga. O principal é nunca responder às suas observações.

- Nunca?

- Nunca!

- Mesmo que a mademoiselle me ralhe sem eu merecer? Às vezes...

- Principalmente nas ocasiões em que ela não tiver razão.

- É esquisito! -exclamou a criada, surpreendida.

- Isso é indispensável e não sofre excepção alguma. Quando a menina não tem razão, bem o percebe, porque é muito inteligente! Mas é justamente nessas ocasiões que é preciso concordar com ela, ceder ou calar-se.

- Que estranha mentalidade! Não vai ser muito feliz na vida, a minha patroa, se não quer suportar contrariedades.

Dizendo isto, a rapariga fez com a cabeça um maneio de censura.

- É preciso não esquecermos quem é mademoiselle Frémonde- continuou a velhota, firmemente

- O pai era um dos homens mais ricos de França e adorava a filha. Aos onze anos a garota recebia mil francos por mês para gastar no que lhe apetecesse e aos quinze recebia igual quantia por semana, quantia que ela achava pequena para satisfazer todos os seus caprichos e a sua generosidade. Porque a mademoiselle Frémonde desperdiça muito dinheiro, mas também dá bastante. O dinheiro foge-lhe das mãos sem que ela se interesse em saber como. Céline esgazeava os olhos de espanto.

- Tanto dinheiro! - disse, pasmada - É incrível! Uma mulher gastando sem contar!

A senhora Jousserand sorriu.

- Para quem conhece Claude Frémonde, esse gasto é secundário. É prodigiosamente rica, o que torna natural o seu pouco amor ao dinheiro. E o mais estranho é a nenhuma influência que essa fortuna teve no seu carácter.

- Aposto que é uma original!

A senhora Jousserand abanou a cabeça.

- É, acima de tudo, independente e voluntariosa. Nunca se lembra de que haja coisas permitidas ou proibidas. A lei para ela não existe. Faz o que lhe apetece e se não pratica o mal é porque se não lembra disso. Tem um bom carácter, mas estou certa de que se alguma vez tivesse a tentação de fazer uma tolice, não haveria conselho nem vontade humana que de tal a desviasse!

- É inconcebível!

- O que faltou a esta pequena foi a mãe que lhe morreu quando ainda não tinha onze anos. Depois disso, nenhuma autoridade mais se impôs aos seus caprichos, porque o pai nunca consentiu que a contrariassem. Quando, em seguida à morte da mulher, ele me chamou para acompanhar a filha, disse-me que não a queria aborrecida nem triste. De todas as maneiras possíveis, eu devia torná-la feliz e satisfazer as suas vontades. Uma lágrima bastaria para eu perder o meu lugar. Em compensação, cada sorriso poderia render-me uma gratificação. A dama de companhia parou para suspirar.

- Aceitei este programa, porque o lugar era bem pago e tinha a minha mãe, a quem, com o meu ordenado, poderia dar certo conforto. Além disso, esperava poder fazer bem a essa criança, que mimavam de uma forma tão errada.

- E depois?

- Nunca a contrariei, mas nem por isso me afeiçoei menos e não a quis deixar.

- O que ela vos deve ter feito passar!

- Nem por isso! Tem muito bom fundo.

- Mas, quando a menina fazia qualquer tolice, como se arranjava? - insistiu Céline.

- Fazia-lhe ver que tinha andado mal, mas suavemente, e o seu bom-senso dava-lhe depois o arrependimento.

- Apesar disso, não se casou, o que prova que o seu feitio...

Mas a dama de companhia interrompeu-a vivamente:

- O seu feitio nunca foi discutido por ninguém, e se a nossa patroa ainda se não casou, foi porque não aceitou nenhum dos pretendentes que tem tido.

Céline sorriu.

- É a primeira vez que ouço dizer de uma mulher que não quer casar-se - disse, incrédula.

- E porque havia de querer casar-se? - respondeu Maria Jousserand com vivacidade - Há quatro anos que o pai morreu. Temos ido de um extremo do Mundo ao outro, passando por todos os meios e todas as raças. Isto tira algumas ilusões, e, com a fortuna que possui, mademoiselle Frémonde tem tido inúmeros pretendentes. -Assim, tantos!

- Para qualquer lado que se virasse, havia sempre rapazes aguardando a sua escolha.

- E nenhum lhe agradou?

Maria Jousserand fez um gesto vago.

- Pobre pequena, de quem só pensam no dinheiro.

- É claro que os homens têm desculpa. Não vemos nós que as mulheres perdem, a cabeça com as jóias e os vestidos? Por isso, a minha Claude, que é inteligente e sensata, não tem pressa de se deixar prender.

Céline teve um gesto significativo.

- Há-de ser solteirona! - afirmou, como quem profetiza uma catástrofe.

- Nem sempre isso é desagradável - observou a governanta com suavidade - Simto-me muito feliz e enquanto me tiver a seu lado, acho que tem toda a razão em querer conservar a liberdade e a independência. É o seu melhor tempo!

- Tem razão! -concordou a criadita Quando

uma mulher tem dinheiro para pagar todos os seus caprichos, não acho que seja necessário um marido.

Nesse momento, ouviu-se o ruído de portas fechadas bruscamente, na casa que mademoiselle Frémonde habitava, com os seus criados, na avenida do Bosque de Bolonha.

A dama de companhia fez sinal a Céline para que saísse.

- Vem aí a menina. Vai depressa para o teu trabalho, porque não convém que te encontre desocupada.

A criada desapareceu e logo a porta da sala se abriu, deixando entrar uma rapariga alta, vestindo um grande casaco de peles.

- Que calor se sente aqui, quando se chega de fora! -disse, atirando o chapéu e as luvas para cima de uma cadeira.

- Teve frio no bosque? - perguntou Maria Jousserand.

- Não. Dei um belo passeio. Havia geada nas árvores e o vento fazia-me o nariz encarnado, mas sabe bem andar com este tempo. Fez mal em não querer acompanhar-me, Jousserand.

- A velhice vai-me fazendo friorenta - volveu a governanta, desculpando-se - Por isso, preferi ficar a trabalhar para os seus protegidos. Já viu como está adiantado?

Dizendo isto, mostrava o trabalho de malha que estava fazendo. Claude pegou-lhe.

- Minha boa Jousserand, há-de ganhar o céu com as suas agulhas. Felizmente, tem mais coragem do que eu, que não gosto de costura nem de qualquer desses trabalhos.

- Ora! Quando tiver a minha idade...

- Sim, quando tiver a sua idade, é natural que tenha deixado de patinar e que ande muito menos! -concordou, de bom humor - Quanto a fazer malhas ao canto do fogão, parece-me que só se eu mudar muito.

E a visão desta mudança trouxe-lhe aos lábios um sorriso. Depois, sem transição, perguntou:

- Não veio nada de novo pelo correio?

- Nada.

- Vieram da Casa Alice?

- O seu vestido está lá em cima.

- Esperava, também, uns livros.

- Estão ali.

- bom. Telefonou para o Casino de Paris?

- Telefonei. Tem a frisa desejada.

- Muito bem. Ali, estaremos lindamente para ver Maurice Chevalier depois de tantos anos de ausência. Já não deve ser muito novo, o belo Maurice!

- Realmente, Claude, preocupa-a muito a idade de Maurice Chevalier? - perguntou, sorrindo, a dama de companhia.

- Absolutamente nada! -respondeu a rapariga

- E logo com um suspiro - Interessa-me tanto como qualquer outra coisa, mas de alguma maneira temos de matar o tempo.

E cruzando os braços, de pé, diante da dama de companhia:

- Ah! Jousserand, como o tempo parece longo quando não há um fim na vida e não se sabe o que se há-de fazer!

- Porque não fazemos uma viagem?

- Bem sei, os desportos de inverno ou a Riviera! Não, não, obrigada! É sempre a mesma coisa!

- Vamos para outros sítios.

- Viajar, agora, não me apetece. Decididamente, é ainda em Paris que se está melhor de Inverno. No meu belo Paris!

- Então, porque se aborrece tanto?

- Sim, porquê? - disse, despindo vagarosamente o casaco. E triste, com o olhar vago - Sabe-se lá porque é que uma rapariga de vinte e três anos, rica, livre e saudável, tem dias em que morre de aborrecimento.

- Diga, Claude, o que significam esses pensamentos tristes, desde há algum tempo? Tem alguma contrariedade ou desgosto?

- Não - respondeu a jovem, encolhendo os ombros- Não tenho um motivo determinado para me queixar. Simplesmente, sinto a impressão de estragar a vida e de perder totalmente o meu tempo. Qualquer coisa que faça, seja trabalho, desporto ou passeio, é oco e sem sabor. Tudo me dá a sensação do vácuo, da inutilidade das coisas. Não concorda que esta impressão é pouco divertida?

- É preciso reagir, minha filha... Talvez pensando mais nos humildes, nos pobres, se sentisse mais útil! É preciso tão pouca coisa para ficarmos satisfeitos connosco!

- Pretende converter uma convertida, Jousserand. Bem sabe que dou muito para as obras de caridade...

- E se fosse pessoalmente visitar os seus protegidos?

Claude reprimiu um bocejo.

- Já tentei e não consegui interessar-me pelos seus cuidados. Quando essa gente começa a lamentar-se, só tenho uma ideia: dar-lhes muito dinheiro para que eles não sofram, e ir-me embora dali para muito longe, para não ouvir os seus queixumes, nem ver a sua miséria. É horrível, mas estou convencida de que já não tenho coração.

- Seria de lastimar, minha querida Claude disse, sorrindo, a dama de companhia-porque até agora nunca apelei para ele sem conseguir compadecê-lo!

- Sim, dar! Dar sempre! É só o que sei fazer! No entanto, deve ser bom, também, receber algumas vezes!

Calou-se, pensativa. Depois, sacudindo os ombros como para afastar um peso, continuou:

- Deixemos isso!... Quantas raparigas gostariam de estar no meu lugar, e atrevo-me, ainda, a lamentar-me de ser tão obstinadamente feliz!... Volto aos meus livros, que são os melhores amigos.

- Lê de mais, e isso faz-lhe mal porque obriga a trabalhar a sua imaginação.

- Mas com os meus livros não tenho decepções. Os heróis são magníficos, leais e corajosos. As heroinas são belas e felizes ao máximo. Já vê, Jousserand, que é através dos livros que a vida se revela melhor. E agora, minha amiga, até logo! À hora do jantar virei ter consigo.

 

- Acorde, Jousserand! Tenho hoje coisas muito importantes a dizer-lhe.

Estremunhada, a governanta abriu os olhos piscos à claridade crua da manhã.

- Que horas são, Claude? Porque se levantou antes de mim?

- Oito horas, minha amiga.

- Ah, oito horas!

E, logo, sentando-se rapidamente na cama:

- Meu Deus, o que sucedeu de extraordinário

para ter saído do leito a esta hora? Decerto, uma

catástrofe...

- Nada de trágico, mas de alegre, de feliz! Ah! Minha boa Jousserand, que pressa eu tinha de a ver e de lhe contar... Já não me aborreço. Tenho um fim! A vida é bela!

- O que diz?

- A verdade, Jousserand! É esplêndido! vou viver um romance.

- O quê?

- Sim, vou ser a heroína de uma magnífica aventura. Estou louca de felicidade!

Enquanto falava, Claude passeava nervosamente pelo quarto confortável da dama de companhia, como se estivesse desejosa de se evadir de entre os limites, demasiado pequenos, daquelas paredes. Fazia gestos, e toda a sua pessoa se agitava como se estivesse muito comovida.

Maria Jousserand, que por muitos motivos não estava, decerto, tão emocionada como a sua deliciosa companheira, cujas formas esculturais o cetim do pijama moldava de uma forma encantadora, perguntou, sem entusiasmo, depois de ter bocejado várias vezes:

- Mas, afinal, Claude, qual é essa notícia maravilhosa que tinha de me comunicar com tanta urgência?

- Vou-me casar, Jousserand! Decidi arranjar um marido!

- Ah! Eu bem sabia que uma ideia tão extraordinária devia ser forçosamente resultado de algum pesadelo!

- Como pesadelo? Acorde, Jousserand! Estou a dizer-lhe que me caso, e que vou viver um verdadeiro romance! Como vê, não é um sonho, e ainda menos um pesadelo!

Maria Jousserand, porém, parecia não querer ouvir nada.

- Eu, que estava a dormir tão bem, Claude! E foi para me contar um disparate desses que me acordou?

- Ora esta! -exclamou a jovem, já impaciente

- Pois não me compreende, minha querida velha, como diz a minha amiga Bonny? A quem quer, então, que fale das minhas esperanças e dos meus projectos, senão a si, que o meu pai pôs ao meu lado justamente para me amparar e encorajar em todos os actos graves da minha vida? -Depois, já aborrecida, perguntou de um modo brusco - Em boa verdade, não sei para que serve, se hoje não pode ouvir-me sem rabujar?

Maria Jousserand ouviu, sem pestanejar, aquele dilúvio de queixumes, e, meio virada para a cabeceira da cama, endireitava cuidadosamente o travesseiro e a almofada, até que, encostando-se de um modo confortável, tranquilamente, encorajou Claude:

- Vamos, minha filha, sou toda olhos e ouvidos para a sua rocambolesca história.

- Jousserand, se não a conhecesse tão bem, conseguiria irritar-me. Digo-lhe que decidi casar-me.

- Já ouvi. E quem é o desgraçado contra quem tomou semelhante decisão?

Claude fez um gesto de indiferença.

- O marido interessa pouco...

- Ora essa! Julgava que era o ponto capital de um projecto de casamento.

Um desdenhoso sorriso franziu os lábios da orgulhosa Claude.

- Um marido é tão fácil de encontrar como a erva entre as pedras da calçada... Bem sabe, Jousserand, que me basta escolhê-lo de entre os muitos que pretendem a minha mão.

- Justamente, porque até aqui nenhum ainda conseguiu que o aceitasse...

- Porque todos afirmavam gostar de mim, quando, em boa verdade, só pretendiam a minha fortuna.

- E encontrou um a quem se não possam atribuir as mesmas pretensões?

- Não. Seria procurar agulha em palheiro. Tenho já tido muitas desilusões para acreditar ainda no desinteresse de um pretendente.

- Estou vendo - notou Maria Jousserand- que a sua conversa é ainda mais incoerente do que parecia ao principio.

- Ouça-me, então-pediu Claude com um sorriso misterioso.

E sem ilusões a respeito do juízo que a dama de companhia ia fazer das suas confidências, começou:

- Prepare as suas exclamações, Jousserand! Não desposo um homem qualquer que venha falar-me de amor, para melhor me iludir. Não! Caso com um marido que compro, e a respeito de cujos sentimentos não tenho ilusões.

- Um marido comprado?

Maria Jousserand soerguera-se para melhor olhar Claude.

- Sim, -um marido que tenha esta ou aquela profissão, que faça isto ou aquilo, conforme me convier, não porque me ame ou diga amar-me, mas porque lhe pago para fazer aquilo que lhe tiver estipulado.

- Um marido a quem paga para fazer aquilo que a Claude quiser? Oh! minha pobre cabeça! Será possível que esteja acordada? E isso existirá?

- Eu penso - respondeu Claude, muito séria que, se não existe ainda. de uma maneira geral bastará aparecer o primeiro para que passe a ser uma vulgaridade.

- E é Claude que pensa seriamente em criar um precedente assim, num assunto como este?

Sim, sou eu! - concordou a jovem, com desenvoltura.

E, sentando-se na beira da cama, cruzou a perna e explicou:

- Como sabe, há já alguns meses que me entretenho a ler autores estrangeiros na língua original e assim tenho lido muito em espanhol. Ora, ontem, precisamente, li uma obra...

- Mas a que vem para este caso a literatura espanhola?

- Quase nada, mas foi enquanto lia esse romance escrito por um Cervantes moderno que pensei em comprar um marido. Sonhei com ele toda a noite.

- Esse espanhol podia bem ter-se abstido de lhe dar volta à cabeça.

- Mas não compreende, Jousserand, que foi uma ideia genial a que esse livro me sugeriu? Eu compro um marido, isto é, escolho-o segundo o modelo que imaginei e julgo que me convém. Como tal, pago...

- Sim, sim, já me disse. A dificuldade será desencantar a ave rara que se disponha a fazer todas as suas vontades.

Porém, todas estas considerações não eram o bastante para embaraçar Claude.

- Questão de preço! Pagando bem, não deve ser impossível - afirmou francamente.

Quase zangada, a dama de companhia ergueu os braços ao céu:

- Espero que a Providência há-de dar-lhe bastantes contrariedades nesse assunto e que a Claude não encontrará nunca um homem bastante vil para condescender em semelhante negócio.

As observações da governanta começaram a indignar Claude, que protestou vivamente:

- Acha então que um homem que diz amo-te, enquanto conta pelos dedos o dinheiro que lhe cai no bolso, é muito mais sincero do que aquele que consente lealmente em cumprir as cláusulas de um contrato?

Diante do ar convencido e firme da jovem patroa, a dama de companhia ficou pasmada e não encontrou argumento para lhe opor.

- Minha pobre Claude, não sei como combater esta nova excentricidade que se lhe meteu na cabeça. Devia pensar que o casamento é um acto muito sério e deveras grave para que se brinque assim, fazendo dele uma aventura romanesca.

- O casamento é uma triste coisa no estado actual dos nossos costumes - notou amargamente Claude.

- Mas é também o melhor estado para uma rapariga honesta.

- Por isso penso seriamente em me casar. Tenho vinte e três anos...

- E os noivos não faltam. Entre eles há alguns de boa família que oferecem todas as garantias.

Claude levantou-se, impaciente.

- As qualidades desses pretendentes são como as das diferentes marcas de sardinha em conserva. Quanto piores são, mais publicidade lhes fazem. Não quero desses noivos em azeite rançoso, com apelidos pomposos. Encontrei um meio que me agrada. Se não encontrar o melro branco com a minha nova maneira de procurar, será sempre tempo de retroceder.

Maria Jousserand levantou os olhos ao alto.

- Que mais hei-de dizer-lhe, minha filha, se vejo que os meus conselhos nada podem contra essa ideia tonta que se lhe meteu na cabeça? Que mais hei-de fazer-lhe?

- Dar-me as felicitações, minha velha amiga. Alegre-se! vou casar com um marido escolhido por mim... um marido ao meu gosto!...

- Alegremo-nos, pois, visto que a alegria está na ordem do dia! -replicou lugubremente a governanta- É então pelos jornais... por meio de um anúncio... que conta comprar esse marido?

Claude soltou uma gargalhada cheia de alegria, que denotava bem quanto a sua resolução era firme e quanto as observações de Maria Jousserand a tinham deixado indiferente.

- Oh! Jousserand, que vontade de rir! Está a ver-me levar semelhante anúncio a um jornal e ir procurar a resposta na posta-restante?

- Prefere então tornar conhecido o seu desejo entre os seus pretendentes?

- Que pouca imaginação tem! -notou Claude alegremente.

- Depois levantou-se e, dirigindo-se ao espelho, compôs o cabelo.

- Deixo-a, minha querida Jousserand, para ir já de seguida à Selectagence, que é a mais séria agência matrimonial que temos em França.

- Uma agência, Claude! É impossível, minha filha, não se meta em semelhante aventura! - pediu, aterrada, a dama de companhia.

Mas Claude não compartilhava os receios da governanta, e respondeu sorrindo e atirando-lhe um beijo nas pontas dos dedos:

- Tranquilize-se, minha boa amiga... Hei-de pô-la ao corrente de tudo, já que tão sinceramente tomou parte na minha alegria.

 

A SelecpAffence, próximo da qual Claude Frémonde se fez conduzir, estava situada numa das poucas ruas sossegadas do bairro da ópera.

Universalmente conhecida havia muitos anos, esta agência matrimonial gozava de uma fama extraordinária como preparadora honesta e legal de uniões que resultaram felizes.

Citava-se a probidade do seu director, que era um colaborador precioso na realização dos projectos matrimoniais que lhe confiavam.

Afigurava-se que, graças a um belo serviço de informações, a boa fé dos clientes não se via iludida, e que, com raras excepções, todos os casamentos efectuados pela Selectagence tinham dado bom resultado.

Havia uma dúzia de anos que a agência se desenvolvera consideravelmente.

A medíocre qualidade dos casamentos em seguida à guerra, a descrença dos cônjuges, esforçando-se mutuamente por se enganarem, as grandes desilusões dos mais novos ao verem-se iludidos pelos mais velhos, o custo da vida, que na sua ascensão vertiginosa mudava os pensamentos de amor numa constante preocupação de despesas a pagar, o horror que cada um começava a experimentar pela prisão dispendiosa que representava então um casamento, tudo, enfim, contribuía para que uma agência como esta e tão honesta como qualquer outra, tomasse em pouco tempo um desenvolvimento extraordinário e passasse a ocupar um lugar de destaque na sociedade moderna, egoísta, amiga de prazer e com um fundo, afinal, dócil e bom.

com a SelecfAffence não havia surpresas de espécie alguma.

Conhecia-se a fundo a idade da noiva, o estado da sua saúde e a fortuna da família. Da mesma maneira, as noivas tinham conhecimento exacto da situação financeira dos pretendentes, das suas despesas habituais e do argumento de que costumavam servir-se para romper com as mulheres.

Estas mútuas noções permitiam a cada um casar segundo o seu gosto e o seu temperamento, sem receio de decepções.

Cada qual sabia onde ia e se por vezes o casamento não tinha poesia, oferecia, ao menos, todas as garantias de sinceridade e confiança. Tanto mais que um exame meticuloso, feito por um médico honestíssimo, pago pela agência, era feito a todos os candidatos ao casamento e só depois disso eram ou não aceites como clientes da mesma.

Toda esta boa reputação seduzira Claude e foi sem qualquer pensamento reservado que a rapariga, tendo descido do automóvel numa rua próximo daquela onde estava a sede da agência, se encaminhou para esta, a pé, com a única ideia de não chamar a atenção do seu motorista.

Chegada à Selectagence, pediu para falar ao director.

Demorou alguns momentos antes que lhe fosse permitido entrar no gabinete desta importante personagem, que apenas recebia os clientes após aviso prévio e só quando se tratava de casos particularmente interessantes.

Claude Frémonde, porém, tinha argumentos a que não era fácil resistir.

Além de ser extremamente formosa, vestia um casaco de peles riquíssimo e falava no tom decidido de quem não está habituada a receber ordens, mas sim a ditá-las.

Deu uma boa gorjeta ao garoto do escritório e diante do ar obsequioso que o rapazito tomou, percebeu imediatamente que não a faria esperar muito.

O senhor Michot era um homem de uns cinquenta anos, de uma elegância discreta e indiscutível e que, pela sua própria posição, que o obrigava a frequentar a melhor sociedade, se apresentava como um verdadeiro gentleman.

com ele, chegavam os clientes a esquecer-se de que tinham vindo a uma agência matrimonial.

Depois de ter feito esperar a cliente alguns minutos, como era da praxe, recebeu-a com a maior cortesia.

Habituado a analisar e julgar os homens e as mulheres que frequentavam o seu estabelecimento, percebeu imediatamente a importância da jovem visitante e distinguiu que se não tratava de uma cliente vulgar. Claude era demasiado bonita e elegante para dar a impressão de procurar daquela forma um marido que não conseguia encontrar de outra maneira. O seu rosto altivo, de lábios desdenhosos e olhar franco, devia ter mais o hábito de rejeitar pretendentes que de procurar pretendê-los.

Michot procurou afavelmente agradar à desconhecida e inspirar-lhe confiança.

Por sua vez, Claude gostou do aspecto do director da agência e falou-lhe abertamente:

- Insisti para falar consigo porque se trata da minha pessoa e preciso absolutamente da sua discrição.

- Todos os meus clientes, sejam quais forem, podem contar com ela, minha senhora. Quando conhecer melhor a minha agência, os meus salões e o meu pessoal, verá que pode falar aqui com a mais absoluta confiança.

A voz dO homem era calma, grave e tranquila, e Claude deixou-se influenciar por ela.

- No entanto, prefiro falar directamente consigo

- insistiu com o seu mais gracioso sorriso.

Supusera Claude que na SelectAgence teria apenas que ditar as suas condições e pagar, mas logo de princípio percebeu que, para obter a colaboração eficaz do importante director, seria preciso ouvir os seus conselhos e deixar-se guiar pela sua autoridade.

- Estou à sua disposição, minha senhora, e se quiser expor-me minuciosamente as suas pretensões e os seus desejos, esforçar-me-ei por dar-lhe completa satisfação.

Claude estava por tal forma encantada com o seu projecto que não teve dificuldade em o transmitir ao director da Select'Agence.

Queria um marido... o físico interessava pouco... contanto que fosse alto, elegante, e de rosto agradável...

Só era muito exigente no que dizia respeito à educação.

Queria um marido instruído, amável, fino, homem de sociedade e duma impecabilidade moral e material absoluta.

Por fim, determinava antecipadamente qual seria a vida em comum: viveriam como dois bons camaradas, observando a mais requintada cortesia, procurando unirem-se moralmente nos mesmos interesses, numa confiança mútua e delicada.

Contava com o seu companheiro para a defender, se preciso fosse, e tratá-la em todas as ocasiões como uma amiga muito querida.

Aqui terminavam as suas relações. Claude não queria pertencer a homem algum, pelo menos enquanto o não conhecesse bem e não tivesse a certeza de que ele seria o companheiro ideal de toda a sua vida.

Tinha a pretensão de se conservar dona e senhora de si mesma, e não queria ser importunada pela galantaria dum marido enamorado.

Mais tarde, talvez, mas num futuro distante e incerto, pudesse dispor de si, sozinha e conscientemente.

Até aqui, Michot ouvira, aprovando silenciosamente com a cabeça os diversos desejos da sua formosa cliente. Todos lhe pareciam deveras realizáveis. Mas a esta última pretensão franziu o rosto e declarou:

- Prefiro dizer-lhe já, mademoiselle, que esta última condição me parece difícil de realizar. Que homem sensato, leal e honesto, como deseja, aceitaria essa cláusula?... Das duas uma: ou sentirá por si apenas indiferença, procurará algumas distracções fora de casa e será a esposa que se lamentará da sua frieza, ou se deixará prender por um sentimento mais vivo e não se contentará apenas em considerá-la uma camarada.

Instintivamente, Claude teve um gesto de aborrecimento que fez sorrir Michot.

- Ponha-se por alguns minutos no lugar desse marido hipotético. Evidentemente, a sua beleza é mais do que bastante para lisonjear a vaidade dum homem, mesmo exigente, mas se ele não puder tirar pessoalmente qualquer vantagem dessa beleza, qual será o motivo do seu casamento?

- Aqui, peço licença para pôr a questão de dinheiro.

- Escuto-a, mademoiselle.

- Eu sou rica... muito rica! Não desejo, portanto, um marido rico.

Michot sorriu com um gesto aprovador.

- Isso é, na verdade, uma compensação a mencionar...

- Tanto mais que assegurarei ao homem com quem casar uma vida larga e agradável; viagens, numerosas distracções, bons hotéis, roupa confortável, automóveis luxuosos. Em resumo, tudo o que pode facilitar e embelezar a existência.

- Agora compreendo melhor as suas exigências, mademoiselle.

Claude sorriu, e, contente de poder falar em números, continuou:

- Para as despesas particulares desse senhor penso que, estabelecendo-lhe uma quantia de alguns milhares de francos por mês, ele encontrará certas vantagens nesta união e que estas bastarão para compensar o aborrecimento que possa custar-lhe ser meu marido só de nome.

Michot não respondeu.

As ofertas da sua cliente impressionavam-no, mas reflectia nas singulares propostas que a rapariga lhe fizera, pesando os prós e os contras e esforçando-se como homem por imaginar o que responderia outro homem a estas exigências.

- É possível que consiga satisfazê-la, mademoiselle, visto que é essa a sua vontade.

- O que quer dizer?

- É preciso, no entanto, que mais tarde feche os olhos a qualquer pequena infidelidade a que se deixe levar o seu companheiro.

Claude fez-se vermelha e, de seguida, intransigente como são todas as mulheres para as infidelidades de que elas não beneficiam, protestou:

- Não quero que o meu marido seja leviano nem infiel. Exijo um companheiro que só se ocupe de mim e não procure outra mulher.

Divertido com as pretensões de Claude, Michot procurou convencê-la de que concordava em absoluto:

- Sim, sim, compreendo!...

Na verdade, a sua grande experiência da vida aconselhava-o a que não se assustasse com estas exigências, porque em todos os tempos as mulheres tinham pedido a fidelidade absoluta dos homens.

Amado ou não, esposo real ou fictício, o marido daquela formosa rapariga seria da mesma massa que todos os outros maridos ou pior ainda, em vista das condições...

"O principal - disse consigo é descobrir-lhe

um marido bem educado e correcto, porque com um homem nestas condições as coisas arranjam-se sempre admiravelmente! ".

E fitando aquela rapariga orgulhosa que expunha as suas condições com tanta vaidade, o director sorriu com indulgência e animou-a com a sua autoridade habitual:

- Julgo poder afirmar-lhe que encontrarei o marido desejado. Daqui a alguns dias dar-lhe-ei parte dos primeiros resultados. Entretanto, para facilitar o meu trabalho e assegurar-lhe uma escolha perfeita, quer preencher um dos nossos impressos?

Entregou a Claude um impresso com vários espaços em branco.

Era um verdadeiro questionário que Claude examinou com uma surpresa hostil.

- É preciso dar todas estas informações? - perguntou.

- O homem que possa convir-lhe tem direito a desejar alguns pormenores a respeito da mulher que nós lhe propomos.

- Evidentemente, mas...

- É preciso notar que quanto mais elevada for a categoria da pessoa que procuramos, tanto mais difícil ela se mostrará também. É natural que, antes de entrar em negociações, queira informar-se a seu respeito.

- É justo-condescendeu a cliente - Mas, neste caso, como observa o senhor a discrição que lhe pedi?

- Este impresso é confidencial, mademoiselle. Só uma parte é dada ao conhecimento dos pretendentes da casa, enquanto que certos pormenores, como o seu nome, o seu endereço e, enfim o que possa haver de particular na sua vida, ficará entre nós. Além disso, se não quiser dar-se a conhecer, mesmo à agência, bastará pôr um número ou uma inicial no que diz respeito ao seu estado civil, mas terá de pagar uma percentagem destinada às despesas do inquérito. Os clientes são absolutamente livres de declinarem ou não a sua identidade. Só uma coisa exigimos, que é a mais absoluta exactidão nos informes. Depende deles responderem-nos ou não a qualquer pergunta que os embarace, mas reservamo-nos o direito de nos acautelarmos contra uma resposta menos verdadeira e, logo que se prove que houve da parte de quem nos procura uma intenção menos honesta, os nossos compromissos deixam de existir e o cliente é posto de parte, guardando a agência o dinheiro adiantado, a título de indemnização pelos prejuízos que pudesse causar-nos um negócio de honestidade duvidosa.

- Afinal, tem razão - respondeu ela, a quem este programa não podia deixar de tranquilizar. Se assim não fosse, todos procurariam passar por melhores do que são".

Então, pegou na caneta e, rapidamente, prencheu os espaços em branco do impresso.

Entretanto, quando chegou às indicações a fornecer a respeito do físico do noivo, parou, com a caneta no ar.

- Há alguma coisa que a embarace? - inquiriu Michot, que não a perdia de vista.

- Sim - confessou - Não prefiro determinadamente esta ou outra silhueta masculina. Tive a meus pés todos os pretendentes possíveis e nenhum me prendeu. Quero que o meu noivo seja mais alto do que eu e seja simpático, mas a cor dos olhos ou dos cabelos é-me perfeitamente indiferente, contanto que tenha as qualidades morais de que já falei.

- Tentaremos satisfazê-la, mademoiselle disse

Michot, que via neste negócio grandes vantagens para a agência.

Mas, como se a telepatia a fizesse adivinhar o pensamento do seu interlocutor, Claude parou de escrever.

- Quero também dizer-lhe, senhor director explicou, com voz suave, mas firme que a minha fortuna não entrará na posse do meu marido. Todas as disposições a este respeito serão tomadas pelo meu notário e, além dos honorários que eu lhe entregue, não deve esperar nada aquele que eu escolher: da mesma forma romperei imediatamente uma união que não corresponda às condições impostas por mim. Em compensação, como é justo- que cada um seja remunerado segundo os seus méritos, se o senhor for realmente o autor da minha felicidade, devo-lhe como tal um bom prémio, e além da minha gratidão, esse prémio será uma nota superior a mil francos, entregue no seu escritório todos os meses.

- Todos os meses! -exclamou o director, estremecendo, apesar de estar habituado a dominar-se.

- Sim, enquanto durar esse casamento e até ao fim da minha vida, se nunca nos separarmos.

Michot admirou em pensamento as precauções tomadas contra ele neste negócio, mas como estas mesmas lhe eram favoráveis, não pôde deixar de felicitar aquela rapariga que se mostrava tão hábil em semelhante matéria.

Claude aparecera-lhe como uma mulher superior, com uma inteligência rara e que devia ser tratada com lealdade.

Quando se separaram, apertaram as mãos, satisfeitos de se terem conhecido.

O director da SelectAgence sentia-se cheio de zelo pela sua generosa cliente e Claude via, satisfeita, que a realização do seu disparatado projecto era possível.

- Viva o autor espanhol que me meteu na cabeça tão lindo romance! -exclamou alegremente ao sentar-se no seu automóvel - Pela primeira vez, será a mulher quem impõe condições, senhores pretendentes! Há já bastante tempo que as raparigas se vêem forçadas a escolher os maridos entre um número reduzido de homens que se dignam reparar nelas, por isso algumas se vêem obrigadas a aceitar o primeiro que se apresenta, com receio de perder a ocasião!

E sem reparar que premeditava assim sentimentos pouco tranquilizadores para o seu futuro marido, Pôs-se a cantarolar alegremente, enquanto o automóvel a levava a caminho de casa.

 

Era um jantar de homens, que estava quase no fim e reinava entre eles a mais franca alegria.

O anfitrião, o conhecido banqueiro Simão Wass, como de costume, preparara bem as coisas.

Embora casado e três vezes pai, adquirira o hábito de reunir todos os meses, num jantar em que só era representado o elemento masculino, certo número de amigos ou conhecidos, que ele se esforçava por variar, desejando manter relações com uns, encetar outras novas e por vezes encaminhar certos negócios.

Naquela noite os mais finos manjares tinham sucedido uns aos outros e os vinhos generosos aos aperitivos de boa marca.

Na altura em que os charutos começavam a acender-se e os mais variados licores irisavam os copos, os convivas mostravam certa inclinação para as meias confidências.

com o dono da casa conversava amistosamente Michot, um dos felizes convivas daquela reunião, que se mostrava preocupado, embora satisfeito com os seus negócios.

- SelectAgence recruta os seus clientes em todos os meios - afirmava ele - Quando comecei a desenvolver a casa, há uns doze anos, isto é, por volta de 1930, a minha clientela compunha-se de empregados e pequenos capitalistas, que, como pessoas pouco relacionadas, não conseguiam encontrar o companheiro ou a companheira que pretendiam. Mas hoje não é assim. O rapaz moderno, em geral, tem mais exigências que os seus antepassados e quer que a mulher possua certas aptidões, educação e fortuna.

Só quando está convencido de que todas as que lhe apresentaram são como aquela que sonhou, se decide a escolhê-la.

- Evidentemente - concordou Simão Wass que os nossos antepassados se casavam quase só por amor.

- Quando não era simplesmente na mira de um bom dote - respondeu outro conviva.

- Uma e outra coisa eram más! - afirmou o director da SelectAgence- No primeiro caso, o homem sincero desposava com os olhos vendados pelo amor uma mulher que às vezes o não merecia; no segundo, sacrificava todas as probabilidades de encontrar a felicidade no casamento à ideia única de possuir uma boa fortuna. Em qualquer das hipóteses fazia a sua infelicidade e a da mulher. Ora, com a concepção moderna do casamento, é mais fácil que os noivos estudem os caracteres e os gostos, dando o valor exacto às qualidades e aos defeitos de cada um. Asseguro-lhes que, há uns dois ou três anos a esta parte, o casamento tende a tornar-se coisa muito mais nobre.

- É verdade, Michot, que lhe acontece encontrar na sua clientela rapazes e raparigas novos e ricos, com relações e que, apesar de tudo, se dirigem à sua agência para que lhes desencante a alma gémea?

O director da Select'Agence sorriu, triunfante.

- Ainda há pouco, meu caro senhor, uma rapariga rica, muito rica, imensamente rica, se dirigiu a mim para que lhe procurasse a ave rara que realizasse os seus sonhos.

- Para ser exacto, devia acabar o retrato - interveio um dos convivas, ironicamente.

- Que retrato? - perguntou Michot, deveras admirado.

- Disse imensamente rica e devia ter acrescentado horrivelmente feia, velha ou disforme!

- De maneira alguma. É nova, bonita e de aspecto saudável.

- Então, Michot, não exagere! - disse o dono da casa com ar conciliador.

- Não exagero nada e se tivesse trinta anos não deixaria passar a ocasião!

E logo, arrependido, acrescentou, mais calmo:

- É uma tolice o que acabo de dizer. Por muito rico e manhoso que fosse, não podia satisfazer a pretensão da minha cliente, que quer um homem de sociedade, distinto, educado e cortês.

E em poucas palavras, observando sempre a maior discrição quanto à situação da nova cliente, Michot contou a sua aventura dessa manhã e a incumbência que lhe fora feita.

A importância da pensão mensal que a jovem pretendia dar ao marido fez sensação entre os convivas, onde havia alguns que por muito menos seriam capazes de vender a alma ao diabo.

Aquela soma mostrava principalmente a importância do negócio e todos quiseram dizer qualquer graça a respeito da mulher que assim pretendia comprar um marido.

- Essa mulher é, na verdade, bonita? - perguntou, de novo, o convidado que com tanta ironia falara no princípio da conversa.

- Que idade tem?

- Vinte e três anos.

- Tem bom aspecto?

- Muito bom. Veste elegantemente, é distinta, tem pés e mãos pequenas e lindo rosto. Uma linda

rapariga!

Diabo! A menos que não tenha alguma tara

física ou moral, que você não conheça...

Não me parece. As informações que já hoje

colhi são excelentes, e a pessoa de quem se trata pertence à melhor sociedade.

- É francesa?

- Sim, senhor.

- Os pais?

- É órfã.

Houve um silêncio como se as últimas palavras resumissem a situação.

- Pois muito bem - disse, ao fim de um instante, a mesma voz desejo-lhe, meu caro senhor,

que o seu caso corra o melhor possível e pela minha parte terei a curiosidade, quando o encontrar, de lhe perguntar a que resultado chegou.

- Espero só ter coisas agradáveis a anunciar-lhe. O negócio é esplêndido, lisonjeia-me e estou decidido a conduzi-lo eu próprio até ao fim.

- Os meus melhores votos pelo seu bom êxito!

- retorquiu o outro, cortesmente.

- Agradeço-lhe - respondeu o director da agência, observando discretamente o seu interlocutor.

Não teve, porém, tempo de ver mais que uma fisionomia inteligente e franca.

Levantaram-se da mesa, outros convidados rodearam Michot, que todos sabiam nas melhores relações com várias pessoas em evidência e separaram-no completamente do simpático conviva, que, pensativo, acendera um cigarro e se refugiara no vão de uma janela aberta.

A brisa, vindo de fora, chegava em grandes lufadas refrescantes e desentorpecia um pouco daquele jantar demasiado lauto.

O desconhecido, de olhos perdidos no espaço, parecia seguir, no céu crivado de estrelas, qualquer visão atraente e cheia de imprevisto.

Tinha riso nos olhos e ironia nos lábios, mas a testa continuava enrugada como se o cérebro, mais lúcido, se erguesse imperativamente contra um obscuro desígnio vindo do mais íntimo do seu ser.

E foi talvez este subconsciente voluntário que o fez rodar nos calcanhares e o pôs a caminho do imponderável destino.

E sempre preocupado, com aspecto abstracto, dirigiu-se ao dono da casa.

- Simão -disse familiarmente - apresenta-me a Michot, da SelectAgence, mas sem lhe dizeres quem sou. Peço-te ao mesmo tempo a máxima discrição a respeito da minha personalidade.

- Michot não terá dificuldade em conhecer tudo o que queres esconder-lhe... principalmente isso.

- Então não mintas. Dize-lhe a verdade: que sou Didier Valencourt, teu condiscípulo em S. Luís, advogado sem causas no foro- de Paris... É tudo. Ora, para conversar em particular com esse homem, decerto não é preciso possuir milhões às pazadas, nem o sorriso feiticeiro da milionária de quem nos falou há pouco.

- Não, tranquiliza-te. Michot é acolhedor e em todos os conhecimentos novos vê sempre um futuro cliente ou pessoa que pode ser-lhe útil. Os outros têm dele a mesma opinião, de forma que é das figuras mais conhecidas de Paris, e por pouco que lhe gabe a tua inteligência, vais ver o sorriso com que te recebe.

Mas Valencourt agarrou ainda o braço do amigo:

Não te esqueças que o teu amigo Didier te pediu para seres discreto e que um advogado sem causas não tem grande merecimento em não fazer nada.

- bom! Levas a modéstia ao extremo, já percebi. Sossega, príncipe dos detectives e rei dos ilusionistas! Serei discreto, visto que assim o desejas.

Passado um instante, o director da SelectAgence apertava a mão de Didier Valencourt, que o seu comum amigo Simão Wass acabava de lhe apresentar.

- Já tive, há pouco, o prazer de trocar consigo algumas palavras - disse amavelmente Michot, entrando logo no assunto.

- Sim, a respeito daquela aventureira para quem procura um noivo - retorquiu Valencourt.

Mas o director protestou:

- Perdão! Perdão! Creio não ter dito que a minha cliente fosse uma aventureira...

- Ela merece, então, na verdade, todo o bem que disse?

- Garanto-lhe sob a minha honestidade profissional.

O advogado teve um sorriso imperceptível. A consciência de um director de uma agência matrimonial não lhe parecia um irrefutável argumento.

- Admitamos que tem razão e que essa rapariga seja inegavelmente virtuosa-disse, conciliador- E, sendo assim, cartas na mesa e jogo franco. Pedi a Wass que nos apresentasse porque a concepção que essa mulher tem do casamento me seduz e ser-me-ia agradável conhecê-la.

- Conhecê-la? - perguntou, Michot, desconfiado A que título? Como pretendente ou como curioso?

O desconhecido teve uma leve hesitação, após a qual passou nos seus olhos de aço um brilho risonho que lhe iluminou todo o rosto.

- Como pretendente! -afirmou, numa voz calma e a fisionomia já de novo impecável.

- Parece-me um tanto pretensiosa essa ideia! -disse, sobressaltado, o director da SelectAgence.

Didier Valencourt, sob esta chicotada, não pôde reprimir uma certa indignação.

- Julgar-me-á indigno de pretender casar com ela?

- Isso não sei, porque não o conheço - confessou francamente Michot- mas parece-me imprudente da sua parte dizer isso assim, sem saber as condições da minha cliente.

Interessado, O desconhecido perguntou:

- É assim muito exigente?

- Tem esse direito.

- Quais são as condições? - perguntou com um sorriso quase trocista.

Havia alguns instantes que Michot fitava minuciosamente o advogado e ia notando em pensamento as suas impressões:

"Talvez trinta e três anos: alto, simpático, distinto, expressão inteligente, olhar frio e boca desdenhosa. Aquele homem era alguém. Possivelmente, sonhador, mas dotado de força de vontade; a sua fisionomia denotava personalidade e podia perfeitamente agradar a uma mulher, por mais difícil de contentar".

Depois deste exame dirigiu-se ao seu interlocutor:

- O seu aspecto corresponde ao tipo desejado.

Didier teve um sorriso envaidecido. Aqueles que o conheciam intimamente sabiam do seu êxito entre o sexo fraco. Passava mesmo por inconstante. O seu aprumo permitia-lhe, por vezes, cortejar várias mulheres ao mesmo tempo.

Michot, porém, desconhecia estes pormenores e só podia ajuizar por aquilo que via.

- Há ainda outro ponto - observou o director da agência - O senhor Wass disse-me que tinham sido educados juntos em S. Luís. É advogado?

- Sim, no foro de Paris.

- Tem tido muitas causas?

- Nem por isso. Sou pouco diligente.

- Porquê?

Valencourt encolheu os ombros.

- Sabe-se lá -respondeu sinceramente - Descendo de boa família, tenho vivido mais da herança de meu pai, da qual restam apenas alguns vestígios, de que do meu próprio trabalho. Encaro a vida mais seriamente há alguns meses e...

Deteve-se.

Por certo não previa tantos pormenores a fornecer, mas era demasiado tarde para recuar e, habituado a vencer todas as dificuldades, isto mesmo devia ser um estímulo, porque; de repente, tomou um ar decidido; como se acabasse de encontrar argumentos indiscutíveis.

- Posso fornecer-lhe referências. O meu primo Valencourt du Bond, romancista muito conhecido, falar-lhe-á de mim em melhores termos do que eu Poderia fazê-lo. Sirvo-lhe, muitas vezes, de secretário.

- Valencourt du Bond! É então parente desse delicioso escritor?... É essa a melhor referência Que pode dar-me, porque toda a gente sabe, por aquele duelo cujas minúcias não esqueci, que a família Valencourt é de uma inegável honorabilidade e inatacável nas suas alianças ou origens.

Didier ficou um momento surpreendido pelas indicações de Michot.

- Os meus parabéns -disse sinceramente - Tem boa memória e conhece os seus contemporâneos.

- Ah! -exclamou Michot, ao mesmo tempo encantado e modesto - Não gabe o meu saber. A verdade é que já tive de me ocupar de seu primo...

- Como?...

- Não, não! -esclareceu, rindo, Michot - Não é o que pensa. Ainda não tive o prazer de procurar noiva para o seu parente, mas uma das suas vítimas pretendia fazer-se desposar por ele e isso obrigou-me a examinar mais de perto a vida do seu amável primo.

Valencourt abriu os olhos, admirado.

- Quem acreditaria que o meu caro du Bond esteve, assim, prestes a enforcar-se?

- Ele próprio não conheceu nunca o perigo que o ameaçava. Essa mulher pertencia à classe daquelas que um homem de certa ordem não desposa. Fiz-lho compreender e ela, enfurecida, consolou-se nos braços de um empresário de café-concerto, que ficou envaidecido por suceder ao talentoso escritor.

Valencourt soltou uma gargalhada.

- Já sei de que mulher quer falar; é estúpida como uma galinha.

- Encontrou o seu galo e vive feliz.

Os dois homens puseram-se a rir e este acordo, embora sobre um assunto de tão pouca importância, pareceu aproximá-los; há apreciações masculinas que na alma de um interlocutor logo encontram eco. Michot descobrira que o rapaz era capaz de apreciar um dito de espírito e parecia-lhe de súbito simpático. Dando-lhe o braço, encaminhou-se para o vestiário.

- Saímos juntos? Tenho o meu carro e posso levá-lo a casa.

Valencourt pensou que um outro automóvel, à porta do banqueiro, estava igualmente à sua disposição, mas não hesitou:

- Aceito, de boa vontade. com este frio não é muito agradável andar a pé e o seu oferecimento é deveras amável.

Enfiado o sobretudo, com o lenço de seda cuidadosamente enrolado em torno do pescoço, desceram de braço dado a escada de mármore branco do palácio.

- Este Wass é um felizardo, que tem aqui uma linda casa! -disse Michot como bom conhecedor.

- Sim! - concordou Valencourt com um suspiro de cobiça - Quem me dera ter uma no mesmo género!

O importante director parou e disse, batendo no ombro do advogado:

- Veremos isso. Venha falar-me amanhã para estudarmos o assunto, e é possível que se realize esse sonho.

- Realmente, o senhor satisfaz os meus desejos?

- Simpatizo consigo e estou convencido de que fomos feitos para nos entendermos.

 

Didier Valencourt não faltou à entrevista marcada Por Michot.

Às dez horas da manhã estava na Selectagence, no gabinete do director.

- Esta pontualidade é de bom tom - disse Michot, ao vê-lo.

- Nunca faço esperar os outros, porque também não gosto de esperar.

Michot admirou o porte altivo do visitante, que tinha, de facto, imponente aspecto.

"É um belo animal de raça" - pensou. Depois, em voz alta, disse:

- A pontualidade é a cortesia dos reis. Sente-se, meu caro senhor, e vamos ver em que posso, realmente, ser-lhe útil.

Valencourt estremeceu.

- Perdão! - protestou - Está entendido que vim aqui somente por uma coisa, fora da qual nada mais me interessa: conhecer a original rapariga que veio falar-lhe ontem de manhã.

Michot sorriu.

- Em verdade, nenhuma outra mulher, mesmo tão rica como aquela e oferecendo condições menos... anormais, poderia agradar-lhe?

- Nenhuma outra! -replicou logo o advogado

- São justamente as pretensões dessa mulher que acho originais e me seduzem! Deve estar muito segura de si própria ou persuadida da força oculta da sua fortuna, para se arriscar a semelhante negócio, porque, afinal, o casamento é, por si próprio, um estorvo que limita o poder da vontade de um ser e quer ela queira, quer não, entregar-se-á assim a um homem, que pesará sobre a sua vida e a tornará feliz ou infeliz.

- Não me parece que essa rapariga tenha encarado alguma vez a possibilidade de ser infeliz respondeu prudentemente Michot, que de boa vontade deixava falar Valencourt.

- O seu dinheiro abriga-a como uma capa impermeável- prosseguiu o rapaz.

- Talvez...

- A menos - insistiu Valencourt - que ela se deixe guiar pela sua inexperiência, como um cego pela mão de uma criança, que, inconscientemente, a leva ao sabor do seu implacável destino...

- Não! -respondeu, depois de alguns momentos de reflexão, o director da agência - Essa rapariga vai direita ao fim que traçou, fiada na sua própria força e evadir-se-á do casamento se este não for o que ela pretende que seja. Afastará do seu caminho o homem que não souber caminhar a par dela, porque tem a consciência de pagar o bastante para que não seja um obstáculo.

- Um homem pode exigir sempre de um ser mais do que este lhe pode dar! -disse o visitante, levado pelo assunto e só o vendo sob o ponto de vista psicológico.

- Por isso, sem dúvida, ela exige um homem bem-educado, em todos os aspectos! -replicou Michot, com um sorriso irónico - A minha cliente sentiu que um forte poderia sempre encontrar diante de si outro mais forte, mas é mulher; serve-se da sua feminilidade como de uma arma e entende que um homem bem-educado nunca resiste a uma mulher que procura, antes de mais nada, arranjar as coisas amigavelmente. E como a sua fortuna lhe permitirá, em qualquer altura, indemnizar largamente os prejuízos que possa causar, tenta ser feliz à sua maneira.

- Pois bem - insistiu o advogado com os olhos brilhantes de entusiasmo - são essas vantagens que me agradam. É todo esse imprevisto que me atrai! Qual é o ponto sensível em que esses dois seres possam chocar-se? Se a pessoa de que me fala é realmente sedutora e inteligente, não me parece que possa haver melhor aventura para um homem.

O olhar de Michot alegrou-se sob um pensamento reservado:

"Há loucuras contagiosas e a rapariga parece ter encontrado um parceiro tão doido como ela".

Entretanto, habituado a iludir as manobras de tantos caçadores de dotes que tinha encontrado, disse, dominando-se bem:

- Em todo o caso, uma aventura que rende alguns milhares de francos por mês é sempre uma bela aventura - observou simplesmente - Mas o essencial é merecê-la.

- Quer dar-me a conhecer as condições? - perguntou o visitante, cujo entusiasmo parecia ter caído como por encanto.

Michot entregou-lhe um pequeno caderno, no qual tinham sido escritas as principais indicações dadas por Claude Frémonde.

Faltavam ali, apenas, como não podia deixar de ser, nomes e endereços, reveladores da identidade, mas já algumas anotações mais explícitas tinham vindo ampliar os pormenores fornecidos pela jovem e mostrar a excelência dos processos da Selectagence em matéria de informação.

Lentamente, Didier Valencourt leu-os como se procurasse nas entrelinhas tudo o que ali não estava escrito e que, precisamente, mais lhe interessava.

De olhos baixos, Michot não deixava, entretanto, de o observar, admirando a sua impassibilidade.

- Estas linhas foram escritas pela mão dessa rapariga? - perguntou Valencourt, quando acabou de ler.

- Não, foi um empregado nosso que redigiu esse relatório, segundo a ficha preenchida pela cliente e guardada ao nosso cuidado.

- Tenho pena, porque gostaria de estudar a caligrafia da pessoa em questão.

- A ficha é confidencial! -replicou o director da agência, peremptoriamente.

- Nenhum retrato estava apenso a esse relatório?

- perguntou Didier.

- Nenhum.

Houve um silêncio entre os dois homens e, por fim, o visitante continuou:

- As condições impostas pela sua cliente não me parecem de molde a desviar as minhas intenções. Por conseguinte, mantenho a minha candidatura a esse casamento.

- Leu bem que se trata de um casamento branco.

- Li.

- E essa exigência não lhe parece um pouco excessiva?

- Pelo contrário, agrada-me! - afirmou friamente o singular pretendente - Nada acho mais desagradável para um homem do que ter de cumprir deveres que lhe impõem. Essa senhora compreendeu bem quanto é difícil para um ser leal ter de exprimir sentimentos que lhe não inspiram, e desejos que não se sentem.

- Ora! -exclamou Michot, desnorteado por semelhante profissão de fé - Persuadi-me, pelo contrário, de que esta condição pareceria humilhante a um homem sério e de boa fé.

- Porque só estudou superficialmente a questão

- replicou o advogado, tranquilamente e com o maior sangue-frio.

Michot teve um sorriso indefinível e abriu os braços num gesto que significava: "Gostos não se discutem! ". Porém, consigo, pensava que a mocidade moderna tinha realmente singulares concepções em tal matéria.

Noutro tempo, um homem de sentimentos achar-se-ia lesado e humilhado por uma cláusula que poderia ser julgada como injuriosa. Hoje, um indivíduo correcto, e que ele sabia de boa família, declarava leal e aceitável a mesma reserva, ou, melhor ainda, parecia preferi-la.

Michot tinha cinquenta e cinco anos. As coisas tinham mudado desde a sua mocidade.

Estava-se, apenas, em 1943 e havia vinte anos que a mentalidade humana caminhava a grandes passos para uma concepção absolutamente nova do bem e do mal. Por pouco que as coisas avançassem, o que restaria, ainda, das nossas convenções e preconceitos, quando em 1985 o seu neto chegasse também à sua idade? E, como todos os que já começaram a descer a ladeira da vida, deplorou, com um suspiro e o triste sentimento de não a acompanhar, a enorme transformação dos nossos costumes, graças à qual, entretanto, devia a situação brilhante de Selectagence e a enorme fortuna que com ela alcançara.

Mas o silêncio de Michot acabou por impacientar Valencourt.

- Então, posso esperar agora ser apresentado à sua cliente? - perguntou - Ou quer, ainda, dar-me mais alguns informes?

O director da Selectagence abriu a gaveta da secretária e tirou de dentro uma folha, que, embora de cor diferente, se assemelhava àquela que na véspera tinha sido preenchida por Claude.

- Aqui está um questionário. É reservado aos candidatos masculinos. Tenha a bondade de responder, com toda a lealdade e o mais minuciosamente possível, a todas as perguntas.

Exactamente como na véspera, explicou que todas as informações menos verdadeiras fariam pôr de parte os clientes que as dessem.

Depois, quando Didier Valencourt, passados alguns instantes, lhe entregou a folha de papel cuidadosamente anotada, Michot explicou:

- Só quando os seus papéis estiverem em regra poderei pô-lo em presença da minha cliente. Entretanto, aqui está um talão para se apresentar ao nosso médico e um outro ao nosso dentista. Quer fazer o favor de se deixar observar?

- O quê? -protestou o advogado, com um gesto de aborrecimento - É necessário submeter-me a semelhantes condições?

- Assim o exige o nosso regulamento, ao qual não costumamos admitir excepções; mas, se lhe desagrada, basta destruir a sua ficha e ficamos por aqui.

- De maneira alguma! -respondeu Didier, surpreendido.

E, logo, com uma gargalhada:

- Confesso, no entanto, que não esperava isto e que me parece bastante divertido. É mesmo das coisas mais divertidas que tenho encontrado até hoje...

- Pode crer que não chegou ao fim da sua admiração - respondeu o director, muito calmo.

E, levantando-se, estendeu-lhe a mão:

- Preste-se a esse duplo exame o mais cedo possível, porque só depois disso poderemos ver se será ou não apresentado como candidato à nossa cliente. Não demore muito!

- vou já de seguida - replicou alegremente o advogado, tirando partido do caso.

A aventura parecia-lhe tão extraordinária que dificilmente conteve o riso. Mas, quando chegou à rua, não pôde deixar de dar uma gargalhada sã:

- Isto é puramente de opereta! Contanto que eu satisfaça as condições que o diabo do homem parece gostosamente multiplicar! É quase tão comovedor como os meus exames de estudante.

 

- Senhor Floch, peço-lhe desculpa de o incomodar, mas o caso parece-me demasiado grave e quis falar-lhe dele.

O notário indicou uma cadeira à visitante.

- Sente-se, senhora Jousserand, e diga-me o que há. Trata-se, decerto, de Claude Frémonde, não?

- Justamente!

E sem saber como principiar:

- Ela... ela prepara-se para fazer tolices - disse, por fim, enxugando furtivamente os olhos.

- Mau! Tem sido tão sensata, até agora! Um homem, não!

- Sim... não... Um romance!

- É o que eu pensava! Um namorico sem solução.

- Não. Há uma solução e não há namorico. Mademoiselle Frémonde quer casar-se.

- Mas isso é natural, na sua idade! - replicou o notário, sem se mostrar admirado.

Recebia confidências de tantas mães preocupadas com o casamento das filhas que a emoção da dama de companhia ante a ideia do casamento de Claude parecia-lhe caricata.

- Sim - confessou Jousserand num suspiro Claude quer casar, mas em lugar de escolher, sensatamente, um marido entre as pessoas conhecidas ou entre os muitos pretendentes que lhe têm apresentado, quer uma aventura, um romance... enfim, um desastre!

- Mas, afinal, onde arranja ela esse marido?

- Compra-o! Compra-o numa agência!

- O quê? - perguntou, já sobressaltado, o notário- O que me está dizendo?

- A triste verdade, meu caro senhor. Há oito dias Claude Frémonde perdeu a cabeça. Canta, ri, dança, não está quieta, parece doida. E, como eu protesto e lhe peço para reflectir e para vir consultá-lo, diverte-se a contar-me horrores.

- Horrores?

- Sim, meu caro senhor. Diz que vai, talvez, desposar um jogador de boxe, um dançarino, ou, possivelmente, um domador de feras, de grande fama. Asseguro-lhe que é de perder a paciência.

Floch sorriu.

- Tudo isso não é sério. A pequena foi sempre uma original e anda a brincar consigo.

- Mas esse marido... esse marido que ela compra...

- É brincadeira!

- Ora diga-me, senhor Floch, não pensa, como eu, em que Claude não pode casar com um marido de agência?

O notário fitou, inquieto, a sua interlocutora, como quem começava a duvidar se ela estaria boa da cabeça.

- Ouça, senhora Jousserand, explique-me. Claude Frémonde falou em casar com um jogador de boxe que compra numa agência? Mas isso é incompreensível!

- E, no entanto, é verdade. A minha querida Claude, que tem sido tão sensata até agora... - soluçou a boa senhora.

- Vamos, não chore - interveio o notário, a quem as lágrimas tinham o poder de irritar - Conte-me isso tudo pormenorizadamente, desde o princípio. Estou certo de que o caso é muito menos grave do que imagina.

- Acha?

- Mademoiselle Frémonde não pode ter mudado assim de um dia para o outro, se, como afirma, não está enamorada.

- Isso garanto eu. Claude não ama rapaz algum.

- Então não há razão para se inquietar. Mas ponha-me ao corrente de tudo-, pois que no interesse da minha cliente preciso de saber o que se passa.

A dama de companhia enxugou os olhos e começou a contar o que se passara desde a manhã em que, oito dias antes, Claude fora acordá-la para lhe dizer que decidira viver um romance e comprar um marido.

Quando pôs o notário ao corrente das idas e vindas de Claude, da sua alegria e dos telefonemas trocados entre a Selectagence e o palacete do Bosque de Bolonha, coube a vez ao notário de se mostrar preocupado.

- Conheço muito bem Michot disse a meia

voz, como se falasse consigo próprio - Poderia, por conseguinte, dizer-lhe duas palavras a este respeito, mas a verdade é que não tem obrigação de me responder e pode desculpar-se com o segredo profissional. Esta pequena Frémonde! Quem havia de dizer que se serviria deste meio. Em que coisas pensam as raparigas!

- Aborrecia-se...

- E, naturalmente, esta história diverte-a!

- E pensar que recusou todos os pretendentes que se têm apresentado até agora!

- Nada nos garante que os da SelectAgence lhe agradem mais!

- Está com a mania do marido comprado! O notário sorriu.

- Ora vejamos, a senhora Jousserand tem bastante influência sobre a sua antiga discípula para lhe dar alguns conselhos.

Jousserand abanou a cabeça.

- Nenhuma! Bem se vê que não conhece Claude; o pai amimou-a demasiadamente.

- Como é cristã, falaremos com o seu confessor. Um padre em que ela confie guiá-la-á neste caso.

Maria Jousserand acenou negativamente com a cabeça.

- Claude só tem a religião que precisa para não praticar o mal e muitas vezes tenho lamentado a maneira como ela a interpreta. Além disso, o seu dinheiro estraga tudo.

- Como?

- Sim, dá as esmolas a seu modo e utiliza-se delas para satisfazer a vontade.

- Não compreendo.

- É preceito da nossa religião que os ricos devem dar aos pobres para compensar o bem que têm.

- Sim, é esse um dos sagrados deveres dos que vivem bem.

- Claude concorda com essa maneira de ver, mas à custa disso satisfaz todas as fantasias.

- O que quer dizer?

- É gulosa, vaidosa e até mesmo namoradeira, sem se preocupar com o resto, mas, para se fazer perdoar, dá muito dinheiro aos pobres.

- Boa rapariga - disse o notário, divertido.

- Se Claude vê uma carta, seja onde for, e lhe apetece, lê-a de princípio ao fim. Depois, percebendo que acaba de cometer uma indiscrição que pode prejudicar alguém, põe uma moeda em cima da carta, que deixa no mesmo lugar.

- Isso é engraçado!

- E em tudo é assim. Se lê um jornal pertencente a um criado, coloca vinte e cinco cêntimos em cima, quando acaba de o ler.

- A rapariga é original.

- Não se priva de coisa alguma e a sua vontade não reconhece limites. O ano passado, quando em viagem, estivemos hospedadas numa casa particular e houve um dia de chuva em que não saímos. Claude entreteve-se a revistar tudo o que havia nas gavetas de uma cómoda, mas para compensar o aborrecimento que isso podia causar ao dono da casa, em cada gaveta deixou uma nota de vinte francos.

- No fundo, tudo isso se resume em curiosidade.

- Mas desgraçadamente é assim em todos os assuntos! Quando de noite não dorme, acorda-me, chama a criada de quarto e quer que nos ocupemos dela, porque não pode conceber a ideia de estar acordada enquanto os outros dormem. Ora é muito desagradável termos de nos levantarmos no meio da noite, mas como Claude não quer que alguém sofra por causa das suas insónias, dá-me um presente no dia seguinte pela manhã e gratifica a criada.

- Mas, nesse caso, o lugar é bom e rendoso! notou praticamente o notário.

- Isso é... Claude Frémonde tem um coração de ouro e por isso mesmo me traz inquieta a ideia desse marido de agência, esse homem que quer comprar. Há-de deixar-se enganar e bastará que lhe peçam para ela dar generosamente todo o dinheiro.

- Perderá algumas centenas de mil francos mas não morrerá por isso. Tem vivido com juízo até agora, enquanto que, se fosse um rapaz, já teria gasto muito com paixonetas. Quanto ao futuro, só deve preocupar-nos a ideia de que possa casar-se com um homem que não a mereça, mas falarei com Michot. Como decerto serei eu quem faz o contrato, tudo há-de resolver-se com lealdade.

- Então vai deixá-la pôr em prática a sua ideia?

- perguntou, assustada, Maria Jousserand.

O tabelião soltou uma gargalhada.

- Mas que posso eu fazer mais que a senhora? Já me disse que Claude não ouvirá o confessor; o que hei-de dizer-lhe, que não sou mais que um notário, embora aquele em que ela tem confiança e que foi durante muitos anos o da sua família? É preferível não lhe dizer que me pôs ao facto do que se passa e assim poderei vigiá-la melhor. Hei-de fazer o possível por redigir um bom contrato e salvar a fortuna das investidas desse senhor.

- Mas esse marido de agência...

- Não exageremos! Não vejo motivo para alarme. Um marido arranjado por Michot vale todos os rapazes que lhe têm feito a corte. A Selectagence realiza, muitas vezes, bons casamentos e alguns dos meus clientes estão mais felizes casados assim do que se eu próprio me tivesse ocupado deles.

- Está a brincar, não é verdade? - perguntou a velhota, pasmada, ao ouvir esta declaração.

- De forma alguma. Que quer? Afinal, eu só conheço a honorabilidade ou a fortuna dos meus clientes, enquanto que Michot não se contenta com isso e indaga da saúde, das relações, do carácter, do passado... Enfim, uma infinidade de coisas que ignoro. Essa Selectagence é uma competência e se o seu director se ocupar da sua antiga discípula, ela pode vir a ser muito feliz. Acredite que não deve estar assim preocupada, porque talvez a ideia de Claude Frémonde dê bom resultado.

A dama de companhia estava admiradíssima de ouvir dizer ao notário que a Selectagence não era um covil de bandidos.

Entretanto, embora a revoltasse o pensamento daquele casamento, se Floch achava que não havia motivo de alarme, para que havia de inquietar-se? Já mais tranquila, embora ainda não completamente, despediu-se do notário, convencida de que alijara uma parte das suas responsabilidades.

"Afinal, o notário é um homem de negócios como tantos outros! -pensou, com um pouco de desdém por aquele que julgara todo-poderoso, e que, diante de tamanho perigo, se contentara em deixar correr o marfim - Contanto que seja ele a fazer o contrato! Selectagence, o futuro marido e Floch é tudo da mesma qualidade! Só pensam em encher o cofre! ". E a boa senhora suspirou, lamentando o destino da sua querida Claude, exposta a todos aqueles exploradores.

 

Quando Claude Frémonde se sentou junto de Michot, no luxuoso automóvel que um motorista guiava e que o director da agência utilizava para certos casos, este fechou à chave as duas portinholas.

- Não se inquiete com esta precaução, mademoiselle. Isto é um cuidado contra todas as indiscrições. Além disso, vou baixar as cortinas, que darão uma luz mais suave no carro, facilitando ver o que se passa fora. Tudo isto é feito de maneira a servir de observatório. O meu motorista tem ordens minhas e há-de colocar-nos em boa posição.

Claude sorriu, divertida com todos estes cuidados.

- Parece-me um romance policial! -observou, esforçando-se por sorrir, a fim de esconder a emoção.

Depois de quinze dias de pesquisas, Michot ia apresentar-lhe três pretendentes que, segundo ele dizia, satisfaziam, cada um no seu género, todas as exigências da sua cliente.

Porém, para que Claude Frémonde pudesse observar esses três pretendentes, sem eles a verem, tivera de utilizar aquele carro, preparado já com essa intenção.

Entretanto, o automóvel luxuoso, mas de aparência vulgar, parou numa avenida, diante do terraço de um café, nas imediações da estação de Montparnasse.

Àquela hora, o café tinha pouca animação e só estavam ocupadas algumas mesas em volta do braseiro, isto é, de frente para o carro.

Michot designou um dos clientes à sua companheira.

- Aquele homem, de sobretudo claro, que está bebendo um aperitivo, é um filho-família, que a crise de negócios, há alguns anos, obriga a trabalhar. É secretário de um político e espera ser eleito deputado.

- Dessa maneira, a minha fortuna servir-lhe-ia de trampolim! - disse Claude desdenhosamente Por princípio, não gosto de política, que enxovalha quase sempre aqueles que vivem dela. Passemos ao segundo desses senhores.

O director da Selectagence não pôde reprimir uma careta ante o ar decidido e sem réplica com que a milionária afastava o primeiro dos pretendentes.

"Se examinar assim os outros dois, não temos nada feito! " - pensou, desagradavelmente impressionado.

E depois, dirigindo-se-lhe:

- Não quer ver os documentos daquele rapaz?

- insistiu ainda - Asseguro-lhe que é uma pessoa de valor.

- Não quero homens políticos - respondeu Claude peremptoriamente - Tudo neles é fingido.

Michot achava que a rapariga exagerava um pouco, mas como convencer disso uma mulher que não admitia que discutissem a sua opinião?

- Afastemos, pois, esse! -disse, penalizado Vejamos o segundo. Aquele, moreno, tão elegantemente vestido... aquele homem de cabelo preto... muito bem penteado... está a vê-lo?

- De facto, mais parece um figurino.

- É um homem de sociedade e de uma esplêndida família do bairro Saint-Germain. O pai veio para aqui como exilado político, quando da proclamação da República Espanhola.

Mas Claude interrompeu-o.

- O terceiro não é aquele homem de casaco escuro que lê um jornal? -perguntou, mostrando justamente Didier Valencourt, que Michot tinha julgado digno de competir com os outros.

- Sim, é o meu terceiro candidato... um advogado sem causas que está aparentado com Valencourt du Dond, o conhecido romancista tão apreciado pela mocidade francesa.

- Mas ele, pessoalmente?

- Muito bem: espirituoso, bem-educado, encantador. Não é trabalhador infatigável, mas pode sê-lo, se assim for necessário. O primo estima-o muito e foi por ele, bem como pelos seus amigos, que obtivemos as informações que lhe dou. Parece que Didier Valencourt tem um carácter muito agradável. É um homem de sociedade.

- E porque deseja casar-se?

- Para fazer como os outros e libertar-se de uma infinidade de preocupações materiais dolorosas para todos aqueles cujo carácter é mais cavalheiresco do que prático.

- Pouca força de vontade, não? - insistiu Claude.

- De maneira alguma! - protestou Michot, temendo prejudicar o seu simpático cliente - Não lho aconselharia se a mademoiselle tivesse uma fortuna a ganhar com dificuldade e por meios muito astuciosos. Essa necessidade de dinheiro, custe o que custar, não corresponde à sua concepção de felicidade. Mas, numa vida normal e regular, junto de uma mulher encantadora e afectuosa, aquele homem será o mais leal e agradável companheiro de viagem.

- Dessa maneira... dos três... seria ele o melhor. Mas é difícil julgar um homem sentado à mesa de um café, sem falar nem se mover.

Sem responder, Michot bateu no vidro da frente, para chamar a atenção do motorista, e com os dedos fez-lhe um aceno:

- Três!

Mostrando que tinha compreendido, o motorista saiu do carro, olhou em volta e tirando do bolso um cigarro, encaminhou-se vagarosamente, como quem passeia, para a pessoa que lhe tinha sido indicada.

- Quer ter a bondade de me dar lume? - pediu, levando a mão ao boné.

Didier levantou a cabeça e, delicadamente, mas com indiferença, tirou do bolso um isqueiro de prata, que emprestou ao motorista.

- Muito agradecido! Neste tempo sabe bem um cigarro.

- Não está calor, não, e não deve apetecer muito ficar aí quieto no carro, à espera.

- Ossos do ofício! Contrataram comigo um serviço de três horas e é preciso esperar.

Acendeu o cigarro e, entregando o isqueiro, acrescentou:

- Muito obrigado! com todo o respeito, dá-me licença que lhe ofereça também um cigarro?

Dizendo isto, oferecia a Valencourt um maço de tabaco barato.

Este sorriu, achando graça à familiaridade e não querendo melindrar o homem, respondeu:

- Aceito, mas vou também oferecer-lhe um charuto. Decerto terá tempo de o fumar, visto que tem ainda muito que esperar!

Estendeu uma charuteira de couro repleta de louros havanos, entre os quais o motorista escolheu um.

- O senhor é uma simpatia e fico-lhe muito agradecido! -exclamou o motorista, encantado.

- Agrada-me este gesto do seu candidato. É simpático, mas não posso decidir-me por tão pouco. Não é possível encontrá-lo em qualquer parte sem que saiba quem eu sou? -observou Claude a meia voz.

- É facílimo - respondeu Michot, que, muito importante no seu papel, consultou uma agenda Amanhã há uma festa na Casa Blousin, o costureiro. É um dos meus amigos; o meu candidato vai lá, e aqui está também um convite para si.

- Mas não o previna! -disse Claude, guardando preciosamente o cartão na malinha de mão.

- Fique sossegada que atrairei a atenção dele sobre outra senhora, para que possa observá-lo à vontade, mesmo como apaixonado junto de uma mulher.

Encantada, Claude sorriu.

- É uma ideia genial. O senhor é uma providência.

- Faço o que posso para satisfazer os meus clientes e desejo, especialmente, que fique contente com a Selectagence.

- Até aqui, estou radiante.

- Espero que assim continue. Poderemos partir, agora?

- Um instante!... -pediu Claude, olhando mais uma vez os três pretendentes de Michot - Realmente- afirmou ainda - é aquele o melhor dos três.

- Os outros dois também são simpáticos rapazes- protestou o director.

- Sim, mas muito menos atraentes.

Michot não respondeu. Não costumava discutir cores e gostos com mulheres.

Deu ordem ao motorista para se afastarem e este parou numa rua próxima, onde o director se apeou, deixando o carro à disposição de Claude, para a levar para onde a rapariga quisesse. Entretanto voltou ao café, onde o esperavam os seus três clientes, a fim de sob um pretexto qualquer os tirar daquela situação, cuja utilidade não discerniam mas a que sensatamente se curvaram.

 

Michot recomendou a Didier que não chegasse tarde aos salões de Blousin, o grande costureiro da moda, na praça de Vendôme.

- Verá a mulher que lhe interessa - anunciou misteriosamente - É claro que não poderei pô-los em contacto de forma muito visível, porque é necessária muita discrição e eu sou bastante conhecido. Adivinhar-se-ia facilmente o motivo por que os reúno, mas conhecê-la-á e verá se lhe agrada.

- Aí está uma boa notícia - respondeu o advogado, sem convicção - Confesso que isto tem demorado bastante e que nestes últimos quinze dias o meu entusiasmo tem esfriado.

O director da Selectagence assustou-se:

- O que está dizendo? Por certo não vai recuar agora?

- Não, mas esta história do casamento perdeu muito do seu encanto. Nos primeiros dias a aventura seduziu-me e a minha imaginação ia bordando conjecturas e suposições sem fim. Em resumo, tudo isso me agradava.

- E agora?

- Faz-me receoso e confesso que não tenho muita vontade de continuar.

Mas Michot não queria dar-lhe ouvidos e protestou vivamente:

- Quer deixar-me nesta colisão? Combinámos tudo, entendemo-nos e agora, que o caso está bem encaminhado, fala em abandoná-lo?

- Não vai afirmar-me que a minha deserção o deixa embaraçado, não é verdade? Tem, certamente, outros candidatos que possam substituir-me.

- Decerto que sim! -respondeu Michot, com ar carrancudo - Mas a senhora em questão preferiu-o aos outros.

- Como, se não me conhece?

- Perdão, viu-o e foi a si que escolheu, entre outros pretendentes.

Valencourt admirou-se.

- Escolheu-me? É impossível! Onde me encontrou ela?

- Isso é segredo da Selectagence. O que posso afirmar-lhe é que, entre vários pretendentes, foi o senhor o escolhido.

Uma expressão divertida passou pelo rosto do jovem advogado. Isto fazia-lhe despertar, de novo, o seu interesse pela curiosa aventura. O caso parecia-lhe com mais imprevisto do que podia supor.

Sem saber e sem ter feito a menor coisa no intuito de agradar, uma mulher achara-o a seu gosto, como parceiro num jogo extravagante em que ela arriscava a felicidade de toda a sua vida.

O seu olhar procurou no gabinete do director qualquer orifício disfarçado por onde pudesse espreitá-lo aquela que o intrigava tanto.

Não vendo nada de extraordinário, lembrou-se dos outros pretendentes, que, decerto, teriam desfilado, também, ante a invisível objectiva.

- Como eram, então, os outros candidatos? perguntou subitamente.

- Pessoas impecáveis, rapazes interessantes e distintos.

- E, apesar disso, fui eu que...

Não acabou, mas a sua vaidade lisonjeada aguçava-lhe o apetite de continuar a aventura.

Queria conhecer, agora, a jovem milionária que, podendo escolher entre centenas de pretendentes bem dotados, os desencorajara, um a um, para Ir escolhê-lo a ele, por intermédio de uma agência.

- Represento, então, o Príncipe Encantador dos seus sonhos! - murmurou consigo mesmo.

Mas o director ouviu-o.

- Não penso que a minha cliente tenha sonhado com qualquer príncipe encantador. Entre aqueles que aceitam as suas condições, o senhor é o que ela prefere. Mais nada.

- E é imenso! -replicou Didier, rindo, sem falsa modéstia.

Já de novo se pusera a imaginar maravilhas e foi com um verdadeiro prazer que, na noite seguinte, se dirigiu para a Casa Blousin.

As salas estavam maravilhosamente decoradas. Havia uma imensidade de flores a cobrir as paredes, do chão até o tecto, prendendo-se a tudo o que podia servir-lhes de suporte.

À luz de enorme profusão de lâmpadas de todas as cores e ao som bizarro de uma orquestra chinesa, uma multidão elegante agitava-se em vários sentidos. O grande costureiro lançara a moda dos vestidos em pétalas e quase todas as mulheres ali presentes, na maioria clientes da casa, estavam assim vestidas. Os bustos cobertos de seda lisa emergiam, como o centro de uma flor, da saia ampla e colorida como pétalas enormes.

Assim, naquela noite, todos os grupos femininos lembravam grandes ramos frescos e perfumados.

O efeito era bastante curioso e, apesar do vaivém constante à sua volta, Didier observava com prazer o aspecto da sala.

"Se é isto que Michot chama uma festazita, não pode dizer que fale de uma forma muito exacta! pensou, zombando, Valencourt - Há mais de quinhentas pessoas nos quatro salões. Como hei-de descobrir aqui a ave rara que me acha a seu gosto e que aceitei para noiva? "

Abrindo lentamente passagem por entre a multidão, procurava com o olhar o director da SelectAgence.

Não o encontrando, encostou-se à grade de ferro forjado de uma enorme janela aberta entre as duas salas.

Daquele lugar, a vista abrangia a enfiada de salões e por um jogo de espelhos sabiamente dispostos ao fundo, via reproduzido até ao infinito as imagens dos pares, dançando sem cessar. O conjunto tinha qualquer coisa de feérico e, como artista que era, ficou a admirá-lo.

"Blousin organiza bem estas coisas. Muito dinheiro deve ganhar com os vestidos! ".

Mas, rapidamente, voltava à doce obsessão:

"Há, nesta multidão, uma mulher que quer comprar um marido e eu condescendi em tomar para mim o papel desse homem".

Esta ideia devia parecer-lhe infinitamente divertida, porque, mesmo sozinho como estava, se pôs a rir.

- Que estranha história! E mais estranha ainda por me ver metido nela! E isto tudo por doze mil francos mensais!

O pensar que receberia essa quantia todos os meses por uma forma tão rocambolesca, divertiu-o até ao mais alto grau.

De súbito, viu num ângulo próximo um recanto por detrás de um grande maciço de plantas verdes, onde algumas cadeiras baixas formavam um lugar discreto, ao abrigo da multidão exuberante. Encaminhou-se para lá, no intuito de se sentar à espera que chegasse Michot.

Como lhe teria agradado, se conhecesse aquela por causa de quem ali estava, observá-la dali, disfarçadamente!

Mal chegou, deteve-se.

O recanto estava já ocupado por duas senhoras, uma muito nova e outra de certa idade.

Didier supôs que fossem mãe e filha, embora não houvesse entre elas qualquer semelhança.

A mais nova era bonita e podia-se chamar uma bela loura, de olhos negros. Distinta, elegante, se bem que o seu vestido fosse de uma extraordinária simplicidade. Didier olhou-a com prazer. Apreciava imenso a discrição numa mulher, tanto na maneira de se apresentar como nos seus vestidos e a moda actual, com as cores disparatadas e as suas formas audaciosas, parecia-lhe uma falta de gosto de que as mulheres verdadeiramente elegantes deviam fugir.

Ora, justamente, observando a praxe estabelecida nessa noite, a desconhecida soubera aliar à sua graça de loura as linhas puras de um vestido de pétalas sabiamente enrolado à volta de um lindo busto.

Poucas jóias e nenhuma daquelas mil trapalhadas com que as mulheres se enfeitavam havia alguns meses, e que, noutra época qualquer, as faria parecer vendedoras de quinquilharias.

As duas senhoras falavam a meia voz e a mais nova parecia contar qualquer coisa que a outra ouvia, surpreendida e assustada.

Valencourt imobilizou-se, não querendo ser indiscreto.

Entretanto, a graça da mais nova impunha-se a Valencourt, que reparou nela com certo prazer. Era alta, bem feita e tinha um rosto puro, emoldurado de cabelos louros.

De súbito foi notado pela rapariga e havia tanta mocidade no fresco sorriso e nos grandes olhos negros voltados para ele, que não podia ser senão uma mulher solteira.

Pareceu a Valencourt que a jovem tinha ficado admirada de o ver e que se ruborizava.

Para não ser importuno, afastou-se da graciosa visão e voltou a procurar entre os grupos dissimulados pela sala o director da Selectagence.

Por um instante, teve a impressão de que uma nuvem lhe escurecia a vista. Era o encanto da sua vizinha agindo sobre ele como um revulsivo e irritando a sua sensibilidade.

O assunto que o trouxera, naquela noite, a casa de Blousin, parecia-lhe desagradável.

Porque se lançara em semelhante aventura?

Desposar uma mulher por intermédio de uma agência era absolutamente ridículo e a ideia de ter podido acreditar que essa união pudesse ser feliz mostrava uma ingenuidade quase idiota.

- Estou certo de que a mulher que Michot me destina é feia. O velhote não percebe nada disso e, na sua idade, desde que seja uma mulher nova, acha-a sempre bonita. Decerto, o seu gosto não se parece nada com o meu e vou ficar completamente desiludido quando conhecer a cliente que me reserva.

Nervosamente, os olhos perscrutavam os pares que passavam junto dele.

"Que desajeitadas são! -pensou - E é assim a maioria delas! ".

E ao cabo de um instante:

"Certamente, não vou ter a sorte de encontrar a minha entre as melhores. Se fosse, ao menos, bonita como a minha vizinha de há pouco! ".

Olhou, de novo, na direcção das duas senhoras e viu que a mais nova parecia observá-lo atentamente. A impressão foi tão brusca que, sem dar por isso, a sua masculinidade despertou e o seu olhar brilhante fixou-se com certa insistência no da rapariga.

Reflexivamente, esta notou a audácia de Didier e fez um movimento rápido e desdenhoso.

Sobre a fisionomia alegre da desconhecida parecera cair de repente um véu de desagrado.

Valencourt era demasiado psicólogo para não notar estes pequenos pormenores. Já os seus olhos se haviam desviado. Estava deveras habituado a lidar com mulheres para que lhe faltasse o tacto em semelhante circunstância. Tanto mais que o atrevimento do seu olhar fora involuntário e que nada, na atitude da desconhecida, o justificaria.

Sem afectação, deu alguns passos para se retirar, mas, mal se aproximou do maciço de plantas, viu a uns dez metros dali Michot, acompanhado de uma senhora vestida de verde e vermelho, de péssimo efeito.

Esquecendo, subitamente, a rapariga loira, o advogado escondeu-se entre a verdura, para dali ver melhor o par. O vestido, de um verde forte, fê-lo estremecer.

"Que maneira de vestir tão disparatada! " - disse consigo.

Em seguida reparou no rosto vulgar, demasiadamente pintado e na cabeleira farta e cuidada, mas ruiva.

"É horrorosa! -pensou, irritado - Uma mulher ruiva! Precisamente a cor que detesto! E ainda por cima veste-se de verde! ".

A ideia de que era justamente aquela que Michot lhe destinava, surgiu com a rapidez de um relâmpago. Indignado e pensando apenas em evitar a entrevista, ou pelo menos guardá-la para mais tarde, Valencourt procurou à sua volta o melhor meio de se afastar.

Já pouco faltava para o director da Selectagence chegar junto dele e ia infalivelmente descobri-lo.

O olhar de Didier encontrou o da linda desconhecida, que seguia todos os seus movimentos.

Então, instintivamente, sem reflectir, Didier encaminhou-se para ela e disse-lhe, inclinando-se:

- Minha senhora, quer dar-me a honra de dançar comigo?

Claude - porque era ela - corou subitamente e respondeu com um sorriso que se conservava na defensiva:

- Eu não gosto muito de dançar...

Mas o jovem advogado não se embaraçou com tão tímida recusa.

- Ah! Minha senhora, perdoe-me que insista, seja boa... ameaça-me um grande perigo!

- Um perigo?

- Sim, um perigo. A dama verde. Vão decerto apresentar-ma para que dancemos.

com um olhar, indicou a Claude a rapariga que acompanhava Michot.

Claude riu. Compreendia, melhor do que ele pudera imaginar, o que se passava.

- Não gosta dela? - perguntou, divertidíssima, mas procurando mostrar-se indiferente.

- Não gosto principalmente daquele vestido! respondeu Valencourt, com uma soberba ironia.

Mas Claude achava o caso engraçado e, decidida a tirar partido dele, observou com serenidade:

- O vestido é lindo.

- Se assim afirma, deve ser verdade! – disse Valencourt, impassível - O vestido verde-papagaio será uma beleza e a cor também mas o que é certo é que os cabelos não dizem com ele. Aquela senhora deveria ter escolhido outro.

Claude conteve a custo uma gargalhada e como Didier continuasse de pé na sua frente, acrescentou:

- O senhor é muito divertido, tanto mais que não esconde as suas impressões. Aquela senhora não teve o condão de lhe agradar...

- Mas não pode compreender o motivo porquê!

- respondeu o rapaz no mesmo tom risonho, embora parecesse à jovem milionária que o seu olhar

se tornara inquieto E já que se interessou pelo

meu destino, consente?...

Devagar, Didier ia levando Claude por entre os outros pares, para a sala do lado, pensando que, enquanto estivesse a dançar, Michot não procuraria aproximar-se dele.

- Parece-me que estou a servir-lhe de anjo da guarda! - observou Claude alegremente quando ele lhe passou o braço à volta da cintura para dançarem.

- É a minha Madona! -replicou com um fervor afectado - Oh! Minha Nossa Senhora da Libertação, salvai-me dos vestidos verdes, dos cabelos ruivos e das protegidas do senhor Michot.

Desta vez, Claude não pôde conter uma gargalhada. Era engraçadíssimo aquele equívoco que os punha em contacto sem que ele suspeitasse a quem se dirigia e o sentido de bom humor que tomavam as suas menores palavras.

Mordia os lábios, envergonhada do seu riso intempestivo que não podia reprimir e ia dançando com Didier, que, contagiado pela alegria do seu par, ria também, apertando-a contra si, sem que ela desse por isso.

- Michot é uma pessoa perigosa, que ameaça a tranquilidade dos homens. Deviam interná-lo.

De novo, Claude riu.

Valencourt, a quem este riso começava a intrigar, perguntou:

- Conhece-o particularmente?

Fitava-a sem malícia, com a satisfação que sentem todos os homens quando conversam com raparigas novas e bonitas. E esse olhar muito perto do seu teve o condão de a perturbar tanto que receou deixar-se adivinhar.

- Parece-me que o tal senhor que acompanha a dama verde está olhando para si - observou, para desviar a atenção do seu par.

Valencourt voltou a cabeça para o grupo que Claude lhe indicava e encontrou o olhar de Michot, surpreendido. Supôs que este se admirava de o ver dançar, e pensou, desanimado, que, afinal, apenas conseguiria guardar para mais tarde a entrevista com a dama verde.

Então procurou um meio de se escapar.

- Minha linda Madona, tenho ainda uma súplica a fazer-lhe.

- O que é?

- Desejo deixar esta casa sem que me vejam. Dá-me licença que, dançando, me aproxime da porta de saída? E quando a dança acabar, será indulgente e desculpar-me-á por não a reconduzir ao seu lugar?

- Quer ir-se embora? - perguntou Claude, deixando de sorrir.

- Quero.

- Porquê?

- Há alguém que não tenho empenho em encontrar.

- A dama verde, não?

- Justamente.

A rapariga fitou-o, indecisa.

Não podia falar, porque isso competia a Michot. Mas, por outro lado, que fazer para o obrigar a ficar? Se ele saísse dali com a má impressão que lhe causara a dama ruiva, era capaz de se afastar, de se meter em qualquer parte, até de sair de Paris e não dar mais sinal de vida à Selectagence.

Apesar do tom zombeteiro do seu par, Claude sentia que o companheiro não era pessoa para hesitar; adivinhava-o um pouco independente e capaz de tomar uma resolução... Devia ter, justamente, o feitio que ela mais apreciava; para um casamento como projectara, era realmente aquele o homem que lhe convinha... Enfim, na verdade, o rapaz agradava-lhe.

- Faz mal em partir assim - arriscou - A mulher que receia pode não ser a que supõe.

- A admiração daquele que a acompanha, vendo-me dançar consigo, não me deixa entender outra coisa.

- Acha, na verdade? - perguntou, indecisa Em todo o caso, porque não se arrisca a uma apresentação? Isso não o compromete a coisa alguma.

- Sim, pelo menos a dançar uma vez...

- E, na verdade, isso assusta-o?

- Muito mais do que pode imaginar. Gracejava, mas a jovem percebia que não desistira

de se ir embora rapidamente.

- Por vezes, faz-se mal em não ir até ao fim de um caminho escolhido antecipadamente. A felicidade passa ao nosso alcance sem darmos por ela.

- É deliciosa a sua maneira de ver, minha senhora-disse com um sorriso indulgente-mas ignora a que me refiro. Admitamos que se trata de uma antipatia instintiva. Claude sorriu.

- Por causa de um vestido? Dançou comigo e se estivesse vestida de verde ter-me-ia achado desagradável?

Didier olhou-a com benevolência.

- Não... Mesmo vestida de verde não me desagradaria, mas estou certo de que nunca usa cores berrantes, porque há distinção e harmonia em toda a sua pessoa.

Nos olhos de Claude passou um clarão de alegria e, impulsivamente, agarrou na mão do advogado e instou:

- Não saia já! Dance, ainda, mais uma vez comigo!

Didier estremeceu a este apelo da desconhecida, fitou-a demoradamente, e em seguida abanou a cabeça.

- Não. Decididamente não fico, porque tenho a certeza de que para mim é preferível assim. Uma antipatia instintiva obriga-me a fugir, mas creio que ainda é mais prudente evitar uma simpatia demasiado forte.

E inclinando-se para a pequenina mão que conservava nas suas e que tremia um pouco, pousou-lhe os lábios com fervor.

Surpreendida, Claude viu-o afastar-se e com um gesto pareceu querer retê-lo. Agora estava ali, desamparada, sem saber o que resolver.

Quando o rapaz desapareceu na porta que levava ao vestiário, assustou-se e olhou em volta. Viu Michot, que, tendo deixado a dama verde, se dirigia para ela ziguezagueando, por entre os pares.

Foi ao seu encontro e sem se dar ao trabalho de o chamar de parte, disse-lhe:

- Depressa! Depressa! Vá ter com ele ao vestiário, antes de lhe dar tempo de sair.

- Ele vai sair?

- Sim, vai. Vá depressa...

- Mas estava consigo há um instante.

- Por acaso, mas nada sabia.

Ela própria empurrava o director da Selectagence para o lado da saída e ia explicando:

- A rapariga de verde assustou-o. Julgou que era para a conhecer que o tinha feito cá vir e vai-se embora para não lhe ser apresentado.

- Devia tê-lo esclarecido.

- Perdão! - protestou a rapariga, indignada Esse trabalho não me compete a mim. Aceitei o seu candidato, o senhor deve fazer o resto!

E como visse, de longe, Didier no vestiário, Claude deixou Michot ir ao seu encontro e, convencida de que os dois homens se tinham encontrado, voltou de novo para a sala.

 

Depois de se ter afastado de Claude, Didier dirigiu-se apressadamente para o vestiário.

"Custa bastante, por vezes, ser sensato! Aquela rapariguinha é deliciosa - Mais uma boa recordação para depois! São precisamente as mulheres que menos conhecemos as que nos deixam maior pena. Daqui a alguns anos direi comigo que passei ao lado da felicidade e, no entanto, se eu namorasse esta pequena, teria mais outra decepção quando a conhecesse melhor".

Maquinalmente, estendeu a sua senha à encarregada do vestiário e só quando esta voltou com a peliça se lembrou do motivo que o trouxera ali.

"Michot vai ficar furioso! vou escrever-lhe duas linhas para ele não levar toda a noite à minha procura e amanhã dir-lhe-ei que, decididamente, não tenho inclinação para o casamento".

Debruçado sobre a mesa de entrada, preparava-se para escrever num bilhete de visita, desculpando-se. De súbito bateram-lhe no ombro.

Voltou-se e, um tanto contrariado, reconheceu Michot.

- Ora, diga-me: onde vai? - indagou Michot com ar bonacheirão-E o que espera para que o apresente à minha cliente?

- É inútil - respondeu Valencourt, abanando a cabeça.

Michot simulou uma surpresa que não sentia.

- O que sabe disso? Ignora até de quem se trata...

Mas o advogado estava persuadido do contrário.

- Adivinho. É a rapariga de verde, não é verdade?

O director da SelectAgence deu uma gargalhada.

- Que ideia!

- Não é ela? - perguntou Didier, admirado.

- Não se lembra de que lhe falei de uma rapariga bonita e muito distinta? Ora a senhora com quem estava há pouco em nada corresponde a estes traços.

- Certamente, de maneira alguma! É uma excêntrica...

- Justamente - interrompeu Michot - E não percebo mesmo como pôde enganar-se assim, depois de ter lido que a pessoa que lhe Interessa tem os cabelos castanhos claros, olhos negros, é alta...

- É verdade! -respondeu Valencourt, chocado.

Fizera-se muito vermelho ao pensar no seu engano. Ele, tão ponderado, tão reflectido habitualmente, iludira-se a si mesmo e isto tudo por falta de sangue-frio e sensatez.

- Confesso-disse, com um sorriso irónico que perdi completamente a cabeça quando vi aquela mulher que o acompanhava. O vestido verde apavorou-me.

- Tem a certeza de que não foi a graça do seu par que o fez perder a cabeça? Pareceu-me encantadora, aquela rapariga.

- Sim, era deliciosa, na verdade! -concordou Didier, com um sorriso de aprovação.

- Por certo que sentiria mais prazer se esta história do casamento fosse com ela, não?

O advogado pôs-se sério.

Num momento, invocou a graça um pouco altiva da rapariga com quem dançara.

- Evidentemente - volveu, abstracto - que, mesmo para uma aventura extravagante como esta, é sempre preferível uma companheira agradável, mas estou bem certo de que o meu par de há bocadinho não se parece nada com a jovem que pretende apresentar-me.

- Porquê? - perguntou, divertido, o director da Selectagence.

Valencourt encolheu imperceptivelmente os ombros.

- A sua candidata deve ter a vaidade que dá a fortuna, e basta o seu desejo de comprar um marido para denotar um feitio independente e autoritário. Deve ter um ar arrapazado, atrevido e pretensioso. Pelo menos, é assim que eu a suponho.

Decididamente, naquela noite, Valencourt estava pouco indulgente para a candidata de Michot.

Entretanto, o director não desanimava.

- Não pode supor, meu caro senhor, quanto me divertem as suas observações. Só esquece uma coisa: é que a mulher com o aspecto mais simples, é, por vezes, no fundo, a mais complicada. Conheço raparigas que fumam desalmadamente, têm grande ar de independência e que, na realidade, cultivam no fundo de si mesmas a florinha azul das ilusões e hão-de ser mais tarde excelentes mães de família.

- É possível; mas pessoalmente detesto as raparigas que imitem os rapazes, mesmo quando me garantem que no fundo são uns anjos.

- Evidentemente, o nosso instinto masculino desconfia; embora na minha idade já tenha visto muita coisa. Para se conhecer bem uma mulher é necessário viver com ela, e, ainda assim...

- É muito tranquilizador o que me diz, principalmente quando se trata de um casamento de experiência.

- Mas, dê-me licença... Valencourt interrompeu, rindo:

- Sim, já sei. Apesar de todas as aparências, a sua candidata só tem boas qualidades, não é verdade?

- Estou persuadido disso.

- Pois bem - disse tranquilamente o advogado

- convença-se de que também eu correspondo absolutamente à aparência, porque embora continue este extraordinário projecto de casamento, não tenciono realizá-lo.

E como o director da Selectagence o olhasse surpreendido, Didier acrescentou:

- Não esteja aflito, que isto há-de acabar bem. Sou homem correcto por excelência. Mostre-me, agora, a sua original cliente, e dar-lhe-ei, já, a minha opinião sobre ela.

O outro sorriu:

- É inútil, meu caro senhor. A sua opinião já eu conheço... É deliciosa!

Surpreendido, Valencourt fitou o seu interlocutor.

- Como posso ter feito o meu juízo, se ainda a não mostrou?

- Não, mas conhece-a e falou-me dela.

- Eu?

Completamente pasmado, o advogado fitou Michot, que continuava a sorrir; em seguida, relanceou um olhar em redor sobre a multidão variegada de pares dançantes. E, subitamente, num relâmpago, lembrou-se da rapariga com quem ele próprio dançara.

- É ela?

- É - confirmou Michot.

- Está a brincar...

- De maneira alguma. É absolutamente verdade. Valencourt não voltava a si. O espanto era tanto

que continuava grave, muito perturbado, com uma impressão de mal-estar.

- Ora, recorde-se bem - insistiu Michot - Loura, olhos pretos...

- Sim, sim, é exacto! -respondeu Didier, como se estivesse a sonhar.

- Põe na sua ideia a minha admiração, vendo-os dançar juntos?

- Fui eu quem a convidou, mas lembro-me agora de que me observava disfarçadamente. Sabia quem eu era. Várias vezes encontrei o seu olhar curiosamente fito em mim, e quando quis ir-me embora, insistiu para eu ficar...

- Foi ela quem me preveniu de que o senhor saía.

- Ela? -repetiu, de novo, Valencourt.

Passada a primeira impressão de surpresa, encontrava de novo domínio sobre si e, com o olhar perdido naquela multidão, examinava o caso.

- Quer dizer-me o nome e alguma coisa a seu respeito?

- Está bem assente que lhe agrada e que aceita...

- É evidente! - interrompeu - O seu aspecto é impecável.

E pensando de repente em todas as suposições que citara, a sua rigidez abandonou-o.

- Olhe-disse a Michot quer que lhe diga?

Por mais forte que nos julguemos em psicologia, as mulheres surpreendem-nos sempre. Iria jurar que era a mais calma e tímida das raparigas.

Michot meneou a cabeça, sorrindo.

- Eu bem lhe disse que, tratando-se de mulheres, não se sabe nunca o bastante - acrescentou com autoridade - Entretanto, aquela rapariga é realmente uma pessoa de bem: não é um carácter vulgar. Julgo que possui qualidades apreciáveis, apesar do seu feitio decidido.

O advogado teve um sorriso um pouco condescendente.

- Esperemos que sim!

- Verá que é uma mulher superior.

- Tanto melhor. Será, assim, uma bela parceira para o jogo que vamos iniciar. Quando ma apresenta oficialmente?

- Não lha apresento porque sou de tal modo conhecido que isso seria chamar a atenção para ambos. Já se conhecem e o melhor é ir ao seu encontro.

vou avisá-la de que o senhor está ao corrente de tudo.

Valencourt aprovou.

- Enquanto lhe fala, vou fumar um cigarro para esta janela-decidiu, designando uma varanda.

Mal refeito da surpresa, precisava de reflectir antes daquela primeira entrevista, e sem mais se preocupar com o companheiro que se afastava, Valencourt saiu da sala.

O ar fez-lhe bem, acalmando-lhe a excitação e o cigarro também lhe foi útil para coordenar ideias.

"Muito divertida, a situação. Não posso negar que a minha futura mulher me agrada: resta saber, depois de uma tal brincadeira inicial, como poderemos levantar entre nós um bloco de correcção e de indiferença".

Ficou pensativo uns momentos, pensando certas coisas que lhe faziam franzir o sobrolho, até que, acabando o cigarro, concluiu:

"Seria um desastre se alguma vez viesse a apaixonar-me pela minha mulher. Mas, nada de brincadeiras com coisas sérias, meu caro Didier! Nada de perder a cabeça".

com um sorriso céptico nos lábios, com um ar de cansaço e a percepção muito nítida de conhecer bem os outros, voltou à sala para juntar-se àquela que chamava a sua parceira no jogo do casamento ultramoderno que preparavam.

 

Didier Valencourt dirigiu-se, primeiro, ao recanto discreto onde vira Claude no princípio da noite, mas só ali encontrou a senhora idosa, que, confortavelmente instalada, adormecera.

Quando se afastava, o advogado encontrou de pé, a alguns passos, Claude, que o seguia com o olhar e sorria zombeteira.

Didier reparou nesse sorriso e pensou:

"Diverte-se à minha custa. Há pouco quase lhe fiz a corte: ficou de melhor partido".

Talvez por pensar assim, foi com um olhar duro que se inclinou cerimoniosamente.

- Procurava-a, mademoiselle, porque Michot acaba de me dizer quem é.

- E tem menos medo de mim que da senhora de verde? - perguntou Claude muito à vontade e sem se embaraçar com os ares altivos que tomava o recém-chegado, atribuindo-os à má disposição, natural num homem pobre obrigado a agradar a uma mulher rica que o escolheu.

E, consigo própria, ia pensando:

"Alguma vez se havia de inverter os papéis. Agora, não é a parte feminina que cora com receio de iludir a parte adversa".

E esta convicção dava-lhe um tal aprumo que o advogado percebeu, pelo seu sorriso, o que ela pensava. No entanto, não se desnorteou.

- Era-me impossível supor que uma mulher assim, fosse, precisamente, a que me interessava no meio desta multidão! -replicou, com simplicidade.

- Que mulher esperava, então, que eu fosse?

perguntou, com uma expressão de surpresa, arqueando as finas sobrancelhas - A outra era para si uma decepção e eu sou, assim, tão diferente do que imaginava?

Valencourt envolveu Claude num olhar indefinível e depois explicou, lentamente, como se procurasse a palavra adequada:

- Esperava outra silhueta... talvez... a de uma mulher prática, de uma mulher de negócios, e aparece-me uma pessoa toda encanto e sorriso; como conciliar tanta graciosidade com um projecto de casamento assim extraordinário?

A testa da jovem enrugou-se.

Por um momento, o olhar negro, um pouco endurecido, passou sobre a turba que os rodeava, e disse, por fim, fitando Didier:

- O director da SelectAgence disse-lhe bem qual era o meu desejo, não é verdade? - perguntou com certa altivez.

- Sim, mademoiselle.

- O senhor é, na verdade, Didier Valencourt, de quem Michot me deu referências?

- Ignoro o que Michot terá dito a meu respeito, mas sou Didier Valencourt.

- Advogado?

- Sem causas, infelizmente!

Sorria, contristado, como se pedisse para esta falta de clientela a indulgência da jovem, cujo olhar imperioso não se desviava do seu.

- Isso não tem importância, porque o senhor deixará de pertencer ao foro, se este negócio tiver andamento.

- E julga que não poderemos dar-lhe andamento? -perguntou sem pestanejar e com uma voz de quem receia ver tudo perdido.

- É a mim que compete fazer essa pergunta! objectou Claude, firmemente - Não disse, há pouco, que eu não era como esperava?

Coube a vez a Didier de a fitar bem. Nos lábios perpassou-lhe um sorriso um pouco indulgente.

- Isso é um bocadinho de vaidade. É melhor, infinitamente melhor do que eu ousava esperar, e, sabendo-o, quis obrigar-me a dizer-lho.

- De maneira alguma! -protestou Claude vivamente- Não aprecio galanteios, mas, tendo fixado certas reservas para os direitos do homem com quem casar, tendo limitado o seu papel de marido, é natural que me interesse a impressão que lhe causei e que queira saber se poderá cumprir, sem desgosto, os compromissos que lhe peço para tomar, em relação a mim.

Valencourt mordeu os lábios, encantado e vexado. Encantado com a presença de espírito da rapariga, que semelhante situação não atrapalhava, e vexado de ter sido ele próprio a fornecer-lhe ocasião para esta resposta.

Acabava de tratar Claude como qualquer outra rapariga da mesma idade, mas esta não queria ser confundida com as que procuram um noivo e gostam de ouvir adulações.

Claude Frémonde comprava um marido e não queria pertencer-lhe. Era bom não esquecer essa minúcia.

Era a segunda vez, naquela noite, que marcava a sua superioridade sobre ele.

Não teria sido cedo de mais para dizer tão abertamente a Michot que a achava deliciosa?

Simplesmente, para um jogador como Valencourt, uma parceira da força de Claude não era para desdenhar. Bem pelo contrário.

A aventura revelava-se mais graciosa do que nunca. Que belo estudo de carácter feminino e até mesmo de vida conjugal, se entrevia!

E uma aliança começada sobre tais bases - porque se impunham certos compromissos e a companheira devia também curvar-se a eles, com a correcção e o respeito mútuos da palavra dada - não seria a origem da mais maravilhosa das observações? Mas seria viável semelhante aliança?

O casamento, tal como era no estado actual da sociedade, baseado sobre o amor, e, a maior parte das vezes, sobre um sentimento superficial e variável, embora se dissesse imperioso e eterno, tinha falhado.

Existia, então, outra forma possível de matrimónio?

Seria melhor casar, impondo-se, mutuamente, obrigações definidas e deixando para trás todas as ilusões?

Admitir-se-ia que dois seres se prendessem um ao outro, abertamente, nos laços do casamento, fixando-se que, por ter sido excluída a palavra amor, só se falasse em aliança e cortesia?

Como, pensando em todas estas coisas, Valencourt se calasse, Claude objectou:

- Ficou silencioso; a sua vontade será, por acaso, indecisa?

- Não! -respondeu sem hesitar - Nunca desejei tanto realizar este projecto consigo, como depois destes instantes de conversa em que tive o prazer de avaliar todos os elementos de felicidade e de tranquilidade que podemos encontrar, se soubermos afastar do nosso caminho a paixão e o amor.

- Fala sinceramente? Acha que pode ser feliz neste casamento? - perguntou.

Preocupava-se, pela primeira vez, do que outrém pudesse pensar do seu projecto matrimonial.

Até ali, apenas encarara a questão do seu lado, visto que ao marido pagaria generosamente, para que ele não tivesse de que se queixar, e não admitira, até então, que um homem pudesse exigir outra coisa.

Porém, eis que, em presença de Didier, que lhe dava a impressão de ser alguém, uma vaga necessidade de se assegurar do que ele pensava a seu respeito sacudia-lhe o egoísmo.

Respondendo à sua pergunta, o advogado afirmou:

- Estou convencido de que isso depende da nossa absoluta vontade e de nos considerarmos felizes.

Altivamente, Claude ergueu a cabeça. Não admitia que a sua felicidade pudesse depender de outra pessoa, e, lealmente, preveniu disso o companheiro:

- Quero avisá-lo de que, com ou sem a sua colaboração, serei feliz. É este o meu desejo absoluto, e se não se sente com a energia bastante para aceitar inteiramente o meu programa, é preferível não continuar, porque sacrificá-lo-ei sem piedade no dia em que se não conforme com as condições que impus.

Isto era dito terminantemente e sem admitir réplica.

Didier sorriu como pessoa a quem não assustam estas ameaças.

Parecer-lhe-ia tão pouco séria a pretensão daquela mulher de dominar a vontade de um homem, que pudesse desprezá-las?

No entanto, também ele estava firmemente decidido a ser feliz, custasse o que custasse.

Que razões íntimas lhe faziam, então, fechar os olhos ao perigo que anunciavam as palavras de Claude?

Era tão grande a sua falta de dinheiro, que fosse superior a todas as outras considerações?

- Repito-lhe, mademoiselle, que estou às suas ordens! -respondeu no mesmo tom reservado que usara até ali.

Esta afirmativa fez subir às faces de Claude um rubor de satisfação. Muito bem: todos os seus desejos se realizavam. A sua firme decisão guiava-a até ao fim. Em pensamento, agradeceu ao Destino ser tão rica, o que lhe proporcionava poder comprar um marido a seu gosto.

"Felicito-me de ter encontrado um marido! Marido a quem eu pago o bastante para poder exigir dele o que me apetecer! Um marido que não me imporá a sua vontade, com receio de que o despeça! Um marido, enfim, que não me importunará, pois será obrigado, primeiro que tudo, a fazer a minha felicidade".

Esta ideia pareceu-lhe tão encantadora que, esquecendo por momentos a atitude altiva que julgara dever adoptar, voltou-se para Didier, a quem perguntou com um lindo sorriso:

- Estamos, então, perfeitamente de acordo, não é verdade?

- Completamente, mademoiselle.

- Então, venha, pois quero apresentá-lo a Maria Jousserand.

Ao mesmo tempo que o levava, ia-lhe explicando:

- Maria Jousserand é a minha dama de companhia, que vive comigo desde a morte da minha mãe, e quero que seja ela a primeira pessoa a saber.

- Registo de passagem que tem delicadas atenções para as pessoas que a rodeiam - observou cortesmente.

Claude parou, surpreendida, a olhá-lo.

- Atenções? Tenho imensas quando não me custam.

- E as outras?

- Quais outras?

- As que lhe custam.

A rapariga abriu os olhos e soltou uma gargalhada franca.

- Não me lembro de as ter tido alguma vez.

Didier aceitou a resposta como uma demonstração de vaidade. Fora pronunciada por uma boca demasiado bela para que isso não parecesse natural.

Entretanto, chegaram diante de Jousserand, que continuava a dormir.

Até mesmo um ligeiro ressonar que lhe acentuava a respiração fez com que Claude dissesse alegremente ao seu companheiro:

- Contemple-a. É magnífica quando dorme! A inocência e a beatitude personificadas! Não acredito que uma mulher má possa dormir assim.

E sacudindo sem dó nem piedade a dama de companhia, chamou:

- Acorde, Jousserand! É de uma incorrecção extraordinária, minha pobre amiga. E isso entristece-me, porque é quase escandaloso...

- O quê? O quê?

Acordando em sobressalto, a pobre velhota fitava Claude com os olhos assustados.

- Ressonava tão fortemente, Jousserand, que há pouco a orquestra chinesa procurava, inquieta, o instrumento que tocava a contra-tempo. Fazia-lhe uma concorrência deplorável.

- Está a exagerar, Claude - respondeu Maria Jousserand, muito envergonhada.

Mas não sabendo ao certo o que havia de verdade nas palavras da jovem, olhou em volta a ver se alguém se tinha divertido à sua custa.

Começava a tranquilizar-se quando Claude, que não a poupava a emoções, lhe disse:

- E agora que caiu docemente do regaço de Morfeu, segure-se bem, Jousserand! É chegado o momento de mostrar o seu sangue-frio. Tenho o prazer de lhe apresentar o meu noivo, o senhor Didier Valencourt, advogado de grande futuro, que faz a admiração de todos os seus colegas e cujos clientes o elogiam imenso.

Enquanto Didier sorria ligeiramente, Maria Jousserand estava vermelha de emoção. com os olhos esgazeados e a boca entreaberta, olhava um e outro, querendo protestar, mas sem encontrar palavras que pudessem traduzir correctamente a sua impressão.

Claude parecia encantada com esta surpresa.

- A alegria sufoca-a, minha boa amiga, e confesso que me sensibiliza imenso a sua aprovação

- afirmou com a máxima serenidade - De resto, já sabia a parte que tomaria na minha felicidade e quanto gostaria de nos felicitar antes de mais ninguém, mas o meu noivo, que não a conhece, não pode adivinhar o seu entusiasmo. Diga-lhe algumas palavras amáveis.

- Eu...

A pobre senhora calou-se, desnorteada, e, olhando para Claude, protestou:

- Oh! Minha filha, não é possível! A menina não fez isso!

- A sua confiança em mim honra-me muito, minha preciosa amiga! Bem sabia que não podia deixar de seguir os bons exemplos que sempre me deu. Mas veja como fui razoável, que em lugar de escolher um jogador de boxe, um bailarino ou um domador de feras, como a tinha ameaçado de fazer, escolhi um homem da nossa sociedade, um homem como deve ser, e de quem a Jousserand vai gostar a ponto de me fazer ciúmes.

A dama de companhia, sob este dilúvio de palavras, encontrou de novo a sua calma habitual.

- Tem razão, minha querida Claude- afirmou

- e devo felicitá-la se o que acaba de me dizer é verdade. O seu companheiro tem um belo aspecto e parece-me, na verdade, uma pessoa muito correcta.

Disse estas palavras com o ar contristado de quem dá pêsames, mas Claude mostrou-se entusiasmada.

- Que alegria, Jousserand! Aprova-me e isso comove-me extraordinariamente.

- Minha querida Claude, está sempre pronta para brincar a propósito de tudo, mas no fundo é uma pessoa boa e sincera! -disse a dama de companhia com os olhos marejados de lágrimas - Está convencida de não se ter decidido depressa de mais? Conhece bem o seu... este senhor? Está certa de que ele corresponde às suas aspirações?

- Se estou certa? Se conheço o meu noivo? Oh! Jousserand, como pode duvidar de semelhante coisa? Ora ouça, se estou ou não ao corrente de toda a sua vida: este senhor tem trinta e três anos. É órfão, mas foi educado por uma mãe adorável, visto que perdeu o pai quando era pequeno. Estudou no Liceu Luís o Grande. Aos oito anos teve sarampo e aos doze uma escarlatina tremenda que o deixou fraco durante muito tempo. Fez o serviço militar e teve três suspensões sucessivas. Tem bom pé, boa vista e bom estômago.

- Não continue, Claude.

- Perdão, minha querida amiga, mas quero mostrar-lhe que não ignoro nada do futuro companheiro da minha vida e desejo igualmente pô-la ao corrente de tudo. Por conseguinte, continuo. Este senhor é saudável e goza de bom apetite. Tem três dentes obturados e duas coroas de ouro. Calça 42 e as suas luvas são boas, o que numa pessoa tão alta denota pés e mãos pequenos.

- Oh! Claude, esses pormenores...

Mas ninguém conseguia fazer calar Claude Frémonde quando ela queria ir até ao fim.

- Em suma, o meu noivo é estimado por pessoas honestas e difíceis de contentar, tais como a sua porteira, o seu sapateiro e a sua lavadeira. Para completar este vivo retrato, há ainda outro pormenor importante, que define bem o carácter de um homem. Este senhor paga regularmente ao seu alfaiate, o que é bastante raro, julgo eu.

Didier, apesar dos seus esforços para conter o riso, não o conseguiu ao ouvir estes últimos informes contados por Claude com um ar infinitamente agarotado.

- É engraçadíssima! -notou.

- Mas espere - volveu Claude com um ar severo- Há, também, na sua biografia, pontos negros que não são de menos importância.

- Ah! Sim?

- É verdade. Não lhe atribuem nenhuma ligação séria, mas, em compensação, mencionam muitas aventuras e uma delas...

Aqui calou-se para melhor o intrigar.

- Uma delas? - perguntou Didier, muito atento, mas sempre sorrindo.

- Uma delas é bastante desfavorável.

- Será possível?

- É absolutamente verdade. Trata-se de uma Jojó das "Fantasias italianas", que o acusa de aguentar pouco, isto é, fica grog... emprego as suas próprias expressões... antes do sexto cocktail e basta três noites de boémia para o fatigar.

- Bendita seja a sua generosidade! Atribui-me muito mais resistência do que tenho na verdade: uma folia basta para me fatigar e dois cocktails para ficar doente. Quanto ao resto, creio que tudo é exacto e confesso que acho a sua memória admirável.

A jovem pareceu não ter ouvido essas observações, porque, inclinada para Maria Jousserand e com a mão dela entre as suas, dizia-lhe carinhosamente:

- Minha boa amiga, há-de concordar que a sua Claude é uma rapariga de juízo e que não se deixou levar assim à toa!

- Estávamos tão felizes as duas, minha querida filha! -balbuciou a dama de companhia, com lágrimas na voz.

- Continuaremos a sê-lo, minha egoísta! À felicidade demasiado grande para o meu marido de ter uma mulher órfã, faltava uma nuvem, mas tê-la-á; a Jousserand vai encarregar-se generosamente de fazer o papel de sogra.

E olhando de soslaio para Didier, completou:

- Ante o seu acolhimento entusiástico, estou certa de que o meu noivo pensa com encanto no enlevo com que vai contribuir para a nossa felicidade.

- Oh! Claude!

Apesar de muito habituada às brincadeiras, por vezes excessivas, da sua antiga discípula, a pobre Jousserand alarmava-se.

Como iria o rapaz acolher semelhantes palavras? Certamente imaginaria que ela era uma pessoa rabugenta, quando, na realidade, se tratava apenas de uma boa mulher, cheia de benevolência, que queria viver junto da rapariga que educara e que era, actualmente, a sua única afeição.

Voltando-se para aquele que instintivamente temia, Maria Jousserand fitou-o docemente, mas Didier nem deu por isso, porque, imperturbável e severo, embora com um sorriso nos lábios, olhava de alto Claude Frémonde, a noiva milionária que acabava de aceitar; no seu olhar, como no seu sorriso, havia um misto de curiosidade, alegria, troça, indulgência, uma amálgama que a pobre senhora não soube destrinçar, mas que a atemorizava.

"Este homem - pensou - não é dos que se deixam dominar. A minha pobre Claude julgou escolher um escravo e escolheu um senhor".

 

- Minha querida Claude, espero que a noite lhe tenha dado bons conselhos.

- A que respeito?

Voltada para a dama de companhia, a jovem esperava curiosamente a resposta, embora a adivinhasse, mas querendo saber bem até onde iriam as reflexões da boa senhora.

E diante do olhar límpido, mas firme, de Claude, Maria Jousserand atrapalhou-se:

- Refiro-me àquele senhor... àquele projecto... estava alegre ontem à noite e brincava, mas assustou-me.

- Mas não estava a brincar, minha boa amiga.

- O quê, não brincava?

- De maneira alguma.

- Então, aquilo tudo era a sério?

- Tudo quanto há de mais sério.

- E eu que não ousava acreditar.

- Porque não?

- Parecia-me que aquele estranho... aquele desconhecido, não podia ser o noivo já aceite pela minha querida Claude.

- Mas, para mim, não é estranho nem desconhecido.

- Decerto que sim, visto que uns momentos antes dançou com ele, sem saber quem era.

Um sorriso passou pelos lábios de Claude.

- É muito ingénua, Jousserand! Pois julgava que não conhecia Didier Valencourt? Há já muitos dias que o escolhi.

- Sem o conhecer?

- Não, sem ele me conhecer a mim, o que não é bem a mesma coisa.

A velhota começou a enervar-se.

- É, então, ainda o mesmo programa extravagante: arranjar um marido pago?

Claude caminhou para Jousserand, que instintivamente ia recuando, à medida que ela avançava.

- Como disse? Extravagante?

- Eu quis dizer...

- Que me caso ao meu gosto e não ao seu.

- Evidentemente, eu não pretendo...

- Escolher-me marido?...

- De maneira alguma.

- E como este rapaz me agrada...

- Aceita-o.

- Escolho-o.

- Pagando-o?

Claude soltou uma gargalhada.

- De que palavras odiosas se serve, minha boa Jousserand! É ridiculamente divertida! Acha assim tão extraordinário que uma rapariga rica case com um homem sem fortuna?

- O candidato da Select'Agence...

- É o homem que possui as qualidades que exijo do marido.

- O noivo desencantado por Michot, a uma requisição sua.

Claude começava a irritar-se. Não gostava de que a contrariassem, nem mesmo a sua antiga professora a tinha habituado a isso. De resto, a discussão durara já bastante tempo e a sua reserva de paciência começava a esgotar-se.

- Quer dizer com isso que a ideia de me casar lhe desagrada, Jousserand? - perguntou com um sorriso trocista.

- Não, mesmo porque a minha opinião não conta, mas vivíamos tão bem assim! Eu bem sei que o casamento na sua idade é tudo quanto há de mais natural.

- Ainda bem que concorda. E, então, porque antipatiza com o homem que escolhi?

- Não, de modo algum. Acho simplesmente... Deteve-se. Acabava de reparar nos dedos de

Claude, que tamborilavam nervosamente sobre a pedra do fogão e este tamborilar ritmado pareceu aconselhar resposta prudente.

- Fisicamente, esse senhor é encantador - respondeu precipitadamente.

- Bonito rapaz?

- Muito.

- Distinto?

- Inegavelmente.

- Reparou nalgum defeito que tivesse? Encontrou uma falha no meu diamante?

O seu olhar não deixava o de Maria Jousserand.

- Nada vi de repreensível, salvo a sua atitude altiva... a sua reserva um pouco arrogante... o seu sorriso um tanto...

À medida que Maria Jousserand ia falando, as sobrancelhas de Claude aproximavam-se singularmente. Por felicidade para a velha dama de companhia, a porta abriu-se e Celine apareceu com um braçado de rosas brancas.

- Acabam de trazer estas flores para a menina. Depôs o ramo em cima da mesa e retirou-se,

enquanto Claude desprendia o cartão que as acompanhava.

- Didier Valencourt! -leu, a meia voz. E, de súbito, pensativa, disse consigo:

- As primeiras flores... o primeiro laço que nos prende...

Ficou um instante imóvel, com as flores nos braços, olhando-as sem as ver. Na sua frente erguia-se a imagem do homem que aceitara para marido. Depois, dialogou consigo:

"A sua reserva, a sua atitude, o seu sorriso arrogante... Foi, talvez, isso mesmo que fez com que o escolhesse. Uma criatura impertinente não me agradaria. Dominar um velho cavalo passivo nada tem de sensacional, mesmo quando não se sabe equitação... mas sujeitar um puro sangue vigoroso e todo nervos, isso é que apaixona".

E voltando-se para Maria Jousserand com os olhos ainda sonhadores, explicou-lhe docemente:

- Bem vê, minha querida ama, até aqui o casamento era uma gulodice estranha que se oferecia às raparigas, representada pelo vago carinho de um senhor que tem em mira um fim ou que precisa de quem lhe trate do reumatismo... Em seguida, promessas, raras vezes cumpridas, um egoísmo feroz que se revela, realidades que não se parecem nem de longe com os sonhos mirabolantes que se julgou entrever. É claro, tudo isto acompanhado de manias, mentiras, tiques, frases banais, tudo isto realçado pelo cheiro a tabaco ou a vinhos absorvidos generosamente... Tudo apimentado por grossarias ou gestos escabrosos... Tudo isto é cozinhado na intimidade conjugal e servido copiosamente todos os dias e todas as noites, sem a mais leve variante. Deve concordar que não tem nada de apetecível o casamento moderno, e que, quando uma rapariga como eu examina o que ele encerra, não fica encantada com a perspectiva de tomar um marido.

- Dessa maneira, para que se casa?

- Porque o estado natural da mulher não é viver sozinha. O casamento, tal como a civilização o criou e os nossos hábitos o transformaram, continua a ser uma aventura muito duvidosa, mas a natureza não erra apesar de tudo, fazendo entrever um belo motivo para os namorados... Logo, foi a humanidade que deformou a verdadeira fórmula. Deve ser possível tirar dele qualquer coisa mais do que se tem tirado até aqui.

Maria Jousserand fitou Claude com uma piedade condescendente a embaciar-lhe os olhos.

- E é a minha Claude que quer transformá-lo?

- Experimento uma nova fórmula, sem pretender afirmar que esta seja a melhor. Todas as tentativas feitas com convicção devem ser respeitadas. Pode-se, porventura, negar o resultado de uma experiência antes de a fazer?

A dama de companhia ergueu os braços ao céu.

Aquele raciocínio parecia-lhe tolo de todo, mas como argumentar contra ele? O que teria dentro da cabeça a gente nova?

Noutro tempo, as pessoas de vinte anos só pensavam no amor e dele faziam depender a felicidade. Era certo que, na maioria dos casos, esta não vinha, mas, pouco a pouco, a existência ia-se fazendo e, trambolhão daqui, trambolhão dali, a vida corria...

Agora, porém, a mocidade queria dominar o acaso e encarava fórmulas novas de existência onde o amor se punha de parte como perigoso e enganador, que se eliminava cuidadosamente do casamento, que passava a ser tratado como um contrato, um negócio, a menos que não fosse uma sociedade limitada por uma escritura bem definida, tal como queria Claude.

De novo Maria Jousserand ia protestar e tentar fazer escutar a razão à garota amimada, mas viu Claude pousar as flores sobre a mesa com um ar mal humorado, donde não era excluída uma certa má vontade, e como a rapariga desfolhasse nervosamente entre os dedos uma das rosas, a boa senhora sorriu.

Das palavras aos actos vai uma certa distância, felizmente, e Claude ia, talvez, aperceber-se, sozinha, da sua tolice.

Era mais sensato não a contrariar abertamente, porque, com um feitio tão autoritário, não se sabe nunca onde deixa de ser capricho para passar a ser fantástica decisão.

Mas Claude estava muito longe de harmonizar os seus pensamentos com os de Maria Jousserand. As suas meditações haviam tomado um caminho muito diferente.

Era em vão que procurava encontrar de novo as alegres impressões da noite do baile. De onde lhe viera aquela alegria estranha, que apenas durara momentos?

Lembrou todas as tolices que dissera, todos os gracejos e todas as criancices...

Porquê, aquela ânsia de loucura, de alegria, de expansão, que mostrara de uma maneira tão pueril e infantil?

Perguntava a si própria o que teria pensado a seu respeito aquele homem tão cortês, que ela pretendia comprar. Embora a distância, sentia-se corar, convencida de que tinha procedido na véspera como uma rapariga estúpida e insuportável.

Sentia ainda pesar sobre o seu o olhar inquieto de Maria Jousserand e aquele sorriso de homem correcto que ela não soubera definir bem e que tanto podia ser de satisfação como de troça ou ironia.

Por várias vezes passou a mão pela fronte, tentando afastar um mal-estar que aí se instalava insidiosamente.

Lembrou-se, também, que tinha dito a Didier para ir vê-la. Como ia tomar com ele uma atitude mais senhoril, depois de todas as extravagâncias da véspera? Deveria mostrar-se orgulhosa?

A maneira como tinham começado as suas relações era encantadora, mas tinha o seu quê de paixoneta vulgar.

Se namorar Didier era agradável como um par de acaso, não o era sem inconveniente como homem a quem ia pagar para ser seu marido... marido de correcção, como ela dizia.

Estava nesta altura das suas reflexões quando lhe anunciaram a chegada de Valencourt.

Ainda não tinha tomado qualquer decisão, mas ao vê-lo levantou-se instintivamente e o seu olhar altivo pareceu querer pô-lo à distância.

O advogado fingiu não notar a atitude de Claude e curvou-se, reservado, sem parecer esperar a menor prova de benevolência ou familiaridade.

Claude admirou o seu à-vontade. Ele, ao menos, não se embaraçava com esta situação ambígua.

Enquanto tinha ignorado quem ela era, mostrara-se galanteador, mas depois observava apenas a mais requintada cortesia.

Vendo que nos olhos daquele homem indiferente não havia já nada do entusiasmo que os fizera brilhar na véspera, antes de saber que ela era a sua futura mulher, concluiu rapidamente que não fora sincero nem mesmo quando, sem a conhecer, lhe dissera frases lisongeiras. Um pouco nervosamente, mostrou-lhe as flores:

- Não deve renovar estas atenções, são descabidas.

- Como quiser, mademoiselle - concordou simplesmente.

Claude esperava talvez que o rapaz protestasse e por isso continuou ainda mais friamente:

- Vai ter a bondade de se entender com o senhor Michot, para tratar das várias formalidades necessárias ao nosso casamento. Este pode realizar-se dentro de três semanas, não é verdade?

- Se esse espaço de tempo lhe basta, a mim também me convém.

- Este espaço de tempo? Não tenho preparativos a fazer e se este caso se pudesse arrumar em algumas horas, como na América, combinava-se um encontro para esta tarde e ficaria tudo pronto.

Calou-se e olhando-o bem de frente, perguntou, terminante:

- Não esperava que fizesse convites para semelhante casamento... Nós dois, as testemunhas, já chega, não é verdade?

- Estou encantado, mademoiselle.

O sorriso de Didier era indefinível e Claude continuou, sem querer notá-lo.

- No Registo Civil, fato de passeio, naturalmente. Quanto à igreja...

- Será necessário? - interrompeu Valencourt.

- Como necessário? Não quer casamento religioso?

- Será como quiser, mas não vejo necessidade de meter o céu nesta paródia de casamento.

A indignação ruborizou Claude.

- O que diz? Eu sou crente.

- Também eu, mademoiselle, mas permita-me que lhe lembre que o casamento católico tem as suas leis e os seus deveres. Impõe o amor, a família, a obediência, a dedicação até ao sacrifício, a abnegação até ao esquecimento de nós próprios... Exige, enfim, sentimentos, promessas, tudo o que justamente não está disposta a aceitar.

Claude Frémonde ergueu vivamente a cabeça:

- Mas o senhor está?

- Julgo ter mostrado o desejo de não meter Deus na experiência que vamos fazer com toda a lealdade.

- Pois bem, visto que assim é e que o senhor chama a isto uma...

- Experiência. Ora o casamento cristão é definitivo e não admite interpretação diferente.

Claude suspirou e ficou pensativa.

Era incontestável que Didier tinha razão, mas, na verdade, a questão era difícil de resolver e aquele endiabrado autor espanhol, cuja ideia a seduzira, bem a podia ter guiado até ao fim. Porém, ante as dificuldades de fazer manter semelhante casamento, esquivara-se a complicações e passara em claro as que embaraçavam Claude.

Didier examinava-a em silêncio. Sem querer perturbar as suas reflexões, parecia até comprazer-se com a sua indecisão e esperava curiosamente o que ela ia resolver.

- Finalmente, que propõe? - interrogou a jovem.

- O casamento civil, que lhe assegura legalmente todos os direitos de uma mulher casada, ao mesmo tempo que dá toda a respeitabilidade. Não me disse que poria de parte os laços que não correspondessem ao que esperava deles?

- Decerto, sem a menor hesitação.

- Então, justamente, sejamos lógicos e não vamos meter o céu em semelhante programa; visto que um senhor qualquer com uma fita tricolor a tiracolo chega para conferir uma vida legal à nossa associação, contentemo-nos com esse senhor e com a fita de três cores.

Claude fitou um instante Didier. Não sabia como formular uma reflexão que se impunha e ao cabo de um momento disse com um sorriso de ironia:

- Parece encantado, vendo-me concordar consigo, e no entanto isso não deve favorecer os seus interesses.

- Porquê?

- Porque uma união mais séria do que aquela que faz o tal senhor com uma fita tricolor, como diz pitorescamente, podia incitar-nos a mais intimidade. O acaso de um minuto de abandono poderia favorecê-lo e transformá-lo em verdadeiro marido.

Didier conteve a custo o riso.

Enquanto Claude falava, via em pensamento um cão a quem mostram de longe um torrão de açúcar. Mas, em verdade, gostaria o bicho da gulodice que lhe mostravam?

- Não tenho grande interesse em que a minha vida dependa de um minuto de abandono.

A observação foi feita docemente e sem intenção de desagradar, mas feriu Claude, que respondeu com vivacidade:

- Eu também não, evidentemente, e espero que não esqueça as nossas condições.

- É uma coisa assente, mademoiselle.

Mas a sua atitude demasiado correcta irritou a jovem, que olhou à sua volta como quem procura um pretexto para terminar a conversa.

- Agora já dissemos tudo, parece-me. Michot pór-me-á ao corrente do que se passar, por isso não é necessário que aqui volte, e no dia combinado encontrar-nos-emos na Administração do Bairro; para tudo mais, fale com Michot.

Claude acentuara um pouco esta última frase e Didier compreendeu que ela se referia à questão financeira. Desapontado, a princípio, ante a vivacidade com que a rapariga pusera termo à entrevista, encontrou bem depressa o seu bom humor.

Decididamente, a parte material do contrato era o que mais o alegrava, desde a primeira noite em que o director da Selectagence comentara diante dele este curioso casamento.

A ideia de que uma mulher quisera comprar um marido não era muito vulgar, mas que fosse precisamente ele, Didier Valencourt, o marido comprado, era ainda mais cómico do que todas as coisas imagináveis.

Se Claude, falando-lhe naquele tom de mulher que julga ter desculpa para tudo, visto pagar, imaginara vexá-lo, devia ter ficado muito admirada ao ver o sorriso divertido com que a deixara.

"Não é muito sensível - pensou a jovem, quando viu retirar-se Didier Valencourt - Ainda assim, fiz bem em assentar que só nos veremos daqui a três semanas. Se assim mesmo não perceber o pouco caso que faço dele, é porque tem uma vaidade sem limites".

No entanto, sem dar por isso, ela própria não estava tão contente como julgava. Sentia-se triste, enervada, aborrecida consigo mesmo.

"Estou mal disposta, hoje! -pensou - Cada vez me convenço mais de que não me faz bem ir a bailes.

Neste momento reparou no ramo de rosas e foi como se quem lhas tivesse mandado ainda ali se encontrasse. Teve uma vontade enorme de deitar as flores pela janela, da mesma forma que pusera Didier na rua.

Instintivamente, os seus dedos procuraram o botão da campainha eléctrica.

- Leve estas flores e ponha-as na cozinha. Não quero tornar a vê-las.

De Didier nada mais havia ali. Aquela execução devia ter-lhe acalmado os nervos. Por que razão então é que não tornava a encontrar o seu equilíbrio?

Sobre o tapete espesso estava um cartão branco. Apanhou-o. Era o bilhete daquele que prometera desposar e a quem tratava tão altivamente. Examinou o pequeno cartão quase quadrado, com o feitio da moda. Ao meio estava impresso apenas o nome: Didier Valencourt. Nem profissão, nem endereço. O conjunto era sóbrio e de bom-gosto.

Nada havia a dizer ao cartão nem ao nome que em breve teria o direito de usar: Madame Didier Valencourt. Era agradável ao ouvido e no entanto Claude rasgou o cartão antes de o atirar ao lume do fogão, julgando assim varrer da memória qualquer recordação do advogado, mas, apesar de tudo, continuava a sentir-se mal disposta.

- vou sair. Aqui dentro sufoca-se. E logo, mais sincera:

- O que ele me irrita com o seu sorriso! Foi por isso que lhe pedi para não voltar... Estou agora a reparar que é absolutamente estúpido o que fiz.

 

Quando Michot entregou a Didier Valencourt um cheque de vinte e cinco mil francos para as primeiras despesas e pagar aos seus credores, o advogado não manifestou qualquer emoção.

Agarrou no cheque, viu se estava em condições e assinou um recibo ao director de Selectagence, sem manifestar a menor alegria.

"É esperto - observou Michot - Finge ser um homem a quem o dinheiro deixa indiferente. Em todo o caso, vinte e cinco mil francos é uma bela dádiva".

Nisto é que ele se enganava. Valencourt não pensava em se mostrar diferente do que era, mas dobrando cuidadosamente o cheque e metendo-o na carteira verificava simplesmente que a quantia não era grande.

"Não é lá muito generosa a minha noiva - pensou- Vinte e cinco mil francos chegarão na verdade para pagar as dívidas do advogado Didier Valencourt? Parece-me que não. Nunca fiz essas contas, mas tenho a impressão de que o défice é muito maior! "

Admirou-se ainda mais Michot quando no dia marcado para a assinatura do contrato, o pretendente chegou a casa do notário Floch acompanhado de um indivíduo muito grave, que apresentou como seu procurador. Este, enquanto Didier se sentou a certa distância, e quase adormeceu, pôs as lunetas e estudou o contrato, lendo da primeira à última linha e pedindo explicação de todas as cláusulas.

Floch não dizia nada, mas admirava-se da minúcia do desconhecido, que exigiu duas ou três pequenas modificações... pequenos nadas que precisavam melhor os bens de Claude Frémonde, não permitindo qualquer falsa interpretação.

- Isto prevendo o caso de uma separação! explicou cortesmente.

Quando Valencourt, depois de ter assinado, tornou a sair, acompanhado do procurador, Michot leu e releu o contrato com as duas ou três rectificações e teve de se render à evidência.

- O meu cliente não pediu nada no seu interesse?

- Não - concluiu Floch - Esse rapaz é extraordinário. Dir-se-ia que prevê mais um divórcio que um casamento.

- É estranho. A noiva não lhe inspira confiança.

- Isso vê-se claramente.

E, coçando a cabeça, o director da Select'Agence acrescentou, um pouco aborrecido:

- É a primeira vez que encontro dois pretendentes assim. A sua cliente é encantadora, mas muito original.

- O rapaz também é, indiscutivelmente, um homem de sociedade! -replicou o tabelião, rindo Mas é desconfiado, o que não denota elegância.

- Mademoiselle Frémonde toma precauções!...

- Sim, sim, é uma rapariga muito prudente.

- Valencourt tem, pois, razão de prever o pior. Logo que deixe de agradar...

- Assim o devemos esperar. De resto, isso é uma coisa que acontece sempre.

- Que pena! -disse Michot, sinceramente, pensando no prémio' que Claude lhe prometera.

- Sim, é pena! concordou Floch, que depois

de ter visto fazer e desmanchar tantos casamentos no seu cartório, já não tinha ilusões.

- Entretanto, formam um lindo par! -disse ainda Michot.

- Famoso!

- Na verdade, acha que isto pode dar mau resultado? com um começo tão bonito?

- Sabe-se lá?

O notário calou-se, e passado um momento, concluiu:

- Olhe, meu amigo, tenho visto de tudo: amor, beleza, interesse, conveniência, e estou persuadido de que o casamento é uma lotaria raras vezes premiada, por isso não me pronuncio nunca a respeito do resultado. Acredite que é a única maneira de não se terem decepções. Mas de que se ri tanto?

Michot ria, naquele momento, como riu depois ao sair do cartório, mas não estava tão alegre como queria fazer parecer.

"O diabo do notário tem cada uma! Este Valencourt põe-me os nervos em pé. Eu lhe direi o que é preciso para que este casamento seja feliz. Uma mulher tão rica e que pode cobri-lo de ouro! É preciso ser-se doido para não fazer com que isto não dure, mas o rapaz parece-me inteligente e se lhe abrir os olhos, toma juízo. Sempre gostava que me explicasse porque se mostrou tão minucioso a respeito das cláusulas do contrato que acautelam uma separação.

 

Acabavam de entrar na grande sala de casamentos: Claude, Didier, as duas testemunhas e a Inevitável Maria Jousserand, que, maquinalmente, enquanto caminhava, ia murmurando orações como se estivesse numa igreja.

A dama de companhia tinha a impressão de assistir a um enterro e só à custa de grande esforço conseguia não chorar abertamente, porque Claude nunca admitiria semelhante expansão em público.

A pobre senhora não lograva compenetrar-se da verdade, e, embora o momento do sim definitivo estivesse próximo, não podia acreditar que a sua querida Claude fosse até ao fim.

De resto, parecia-lhe impossível que pudesse realizar-se um casamento tão extravagante, sem que os seres e as coisas interviessem para o impedir. Esperava, quase com confiança, o milagre inevitável que ia tornar o acontecimento impossível.

Claude e Didier sentaram-se ao fundo da sala, num dos últimos bancos de veludo verde que a luxuosa administração de bairro rico oferecia aos seus administrados. Havia diante deles três outros pares de noivos rodeados pelos seus convidados.

Divertida a princípio, no olhar de Claude perpassou um vislumbre de troça, ao reparar nas noivas vestidas de branco e coroadas de flor de laranjeira.

Naquele lugar, os vestidos imaculados pareciam-lhe de uma ingenuidade exagerada e até ridícula. Entretanto, vendo uma das noivas inclinar-se ternamente para o companheiro, mudou de expressão.

O seu olhar fitou a pouco e pouco cada um dos três pares. Reparou nas mãos dadas, nos olhares extasiados, no ar de adoração com que cada um deles se olhava, enfim, em todos aqueles pronúncios de amor que flutuavam em torno de cada par... e o sorriso irónico daquela linda boca desapareceu de súbito.

com uma angústia repentina, examinou os companheiros: a sua dama de companhia com as feições transtornadas, que continuava tristemente a rezar; a sua testemunha, o general Lê Courbois, que fora amigo do pai e a quem desejava ter junto de si naquele dia. Viu o velhote sentado um pouco à parte, muito hirto na sua cadeira, com um ar tão grave, naquela sala de festa, como se visse desfilar um regimento em dia de parada.

Suspirou. Os dois seres que representavam tudo o que amava do passado não tinham um ar alegre e cobriam de cinzas a cerimónia.

Voltou-se, então, para Didier, que estava também mais sério do que de costume, embora conservasse um ar desprendido e lhe sorrisse agradavelmente cada vez que os seus olhares se encontravam. Viu-o de lado, e o seu perfil regular, de nariz direito, fronte alta, queixo voluntarioso e linhas viris, agradou-lhe.

Concordou consigo própria que era infinitamente distinto e parecia superior a todas as pessoas presentes. Nestes instantes mesmo, ele trocou algumas palavras com a sua testemunha, um homenzinho calvo, sem elegância nem pretensões, mas que ostentava na banda do casaco a Legião de Honra,

- Roudemont, membro do Instituto - apresentara Valencourt.

Evidentemente, era alguém, e Claude não podia deixar de se sentir lisonjeada com a presença daquele homem. Mas, em troca de todos que a acompanhavam, teria preferido a velhota radiante - certamente mãe da noiva - que, na sua frente, fitava em êxtase uma das jovens nubentes. Esta ultima nada tinha de extraordinário. Era gorda e trajava sem gosto um vestido mal feito. Não era bonita e no entanto o seu futuro marido parecia achá-la uma maravilha. Agarrava-a pela cintura e conservava-a aconchegada a si, para melhor lhe segredar palavras cujo sentido devia ser mágico, porque a gorducha o ouvia enlevada, aceitando aquela carícia.

Claude não distinguia o ridículo daquele par regozijado e dengoso e só via o encantamento da mãe e o ar delicado dos dois, que pareciam nadar em pleno azul.

"Até aqui, Didier não se apercebera do ar ensombrado da noiva, mas como, acabando de falar com a sua testemunha, relanceasse maquinalmente um olhar para o lado onde ela estava, a seriedade do seu rosto não pôde passar-lhe despercebida.

com o olhar procurou ver o que estava examinando Claude e encontrou, então, o par que se acariciava. Compreendendo o que se passava naquela alma, um vago sorriso entreabriu-lhe oS lábios. Sentiu-se, porém, indulgente e, inclinando-se para Claude, a mão afilada foi docemente agarrar a sua, enquanto o olhar azul se adoçava estranhamente.

- Também nós somos dois que entram na vida

- murmurou, acentuando a pressão da mão.

Surpreendida, Claude voltou para ele os olhos profundos que uma expressão sonhadora tornava mais escuros.

Didier teve para ela um bom sorriso amigo e explicou docemente:

- A felicidade pode tão bem estar aqui como ali.

- A felicidade! -disse Claude, como num sonho.

- Sim - insistiu - a felicidade. Basta muitas vezes querer coisas para as obter. A vontade deve dominar os acontecimentos e os nossos caracteres o fim que propusermos atingir.

Claude pareceu reflectir nas teorias em que Didier lhe falava e respondeu, por fim, mostrando os outros pares.

- Acha que aqueles também se tenham ocupado desses cálculos?

O advogado encolheu os ombros.

- Deixam-se guiar pelo instinto como seres mais impulsivos que pensantes. Amanhã talvez se dilacerem.

- E nós?

Valencourt sorriu, com um ar superior.

- Ofereceu-me um programa razoável que aceitei. Compete-nos não sair do quadro de correcção e bom-senso que impusemos um ao outro e que me parece verdadeiramente capaz de nos garantir uma vida isenta de tempestades.

Antes de responder, Claude deixou errar o olhar por entre as jovens que ali estavam vestidas de branco.

- E acha que esse programa será bastante, na verdade? - perguntou, sempre pensativa.

Valencourt não olhou para os outros, que não lhe interessavam.

Sempre atento, fitou o belo rosto feminino voltado para ele. Viu a cabeça pequena, o oval perfeito do queixo, a boca deliciosamente desenhada e os grandes olhos escuros sob a auréola cendrada dos cabelos castanhos.

Os seus sentidos despertos deram-lhe um estremecimento. Devia ser bom poder apertar nos braços o corpo delgado daquela mulher e colar os lábios ao arco cor de cereja daquela boca entreaberta.

Teve de se dominar para fugir àquela impressão perturbadora.

- Sim, julgo que isso chega para ser feliz! observou.

Um ouvido atento, porém, teria notado a alteração da sua voz e não teria ficado convencido.

Chamaram-nos, era a sua vez.

Claude caminhou maquinalmente para a secretária, diante da qual estava sentado o oficial ao Registo Civil. Não viu, sequer, que Didier lhe dera o braço para a guiar, ou talvez para a amparar.

Acabava de passar junto da mãe emocionada, que estreitava nos braços a filha, confusa e encantada, que estava já casada agora, e aquela visão de amor maternal transtornou-a por completo.

Apesar da sua enorme fortuna, da sua beleza, do seu luxo e dos seus companheiros de categoria, não tinha junto de si nenhum afecto verdadeiro. Estava sozinha naquele lugar, onde o ambiente era de emoções carinhosas e nunca o seu destino de órfã lhe parecera tão lamentável como naquele momento.

Devemos condoer-nos dos noivos órfãos ou abandonados, que não têm a presença afectuosa dos pais em semelhantes momentos. Nenhum amor, nenhuma amizade podem valer a doce e reconfortante sinceridade de um coração maternal, que estremece ao mesmo tempo que se regozija.

Claude, neste instante, sentiu-se de tal maneira infeliz, que, mesmo sem dar por isso, se apoiou fortemente no braço de Didier.

Foi com este aspecto de noivos enamorados que chegaram junto do oficial e que ouviram as palavras da praxe.

A jovem pronunciou, verdadeiramente inconsciente, o sim obrigatório que a tornava mulher de Valencourt.

Quando, porém, a cerimónia acabou e que se convenceu de que estava consumado o facto, sentiu uma espécie de susto. De repente, as suas faculdades de raciocínio e de análise despertaram e, por uma singular reviravolta do seu subconsciente, tudo o que tinha feito e julgado bom havia um mês, apareceu-lhe uma coisa irracional e disparatada.

Estava, agora, definitivamente casada. Estava ligada a um homem que não amava, que mal conhecia, um homem a quem pagava! Um homem que pudera abdicar, por dinheiro, das suas pretensões másculas e aceitar semelhante negócio!

Teve o horror de si própria e a impressão de uma queda vertiginosa, em que ia perder o que de bom pudesse existir na sua pessoa.

Percebendo, então, de súbito, que O marido o homem que comprara - lhe dava o braço, sentiu repugnância, e desprendeu-se bruscamente, com um estremecimento, daquilo que lhe parecia odioso e aviltante.

Como uma sonâmbula, deixou a sala dos casamentos e atravessou o vestíbulo, onde todas as outras recém-casadas pareciam ter-se reunido para a esperar.

Não viu os olhares curiosos que acompanhavam aquela rapariga isolada, que se ia embora pálida e trémula, numa espécie de hipnose.

Não percebeu, também, o espanto das quatro pessoas que a acompanhavam.

Só viu uma coisa: estava casada! O inverosímil negócio estava feito. Pagara a um homem para que ele se tornasse seu marido e lhe suportasse todos os caprichos.

Havia um mês que desejava e preparava aquele singular casamento, sem ter tido nunca a menor hesitação. O romance espanhol que originara aquele projecto extravagante parecia ter aniquilado o seu bom-senso. Só agora, que as coisas se lhe apresentavam definitivas, pesava bem o seu inexplicável disparate.

Nervosamente, nuns passos sacudidos, começou a descer a escada de pedra que dava ao edifício da administração um aspecto tão imponente. Não calculava o que faria, e sentia apenas uma enorme necessidade de fugir. Sim, entrar no seu automóvel e partir a toda a velocidade!

Maria Jousserand seguia-a, desnorteada ante o ar trágico e o olhar que parecia nada ver.

- Claude, minha pobre Claude!

Aquela voz familiar, que a lamentava, foi ouvida pela recém-casada e fez-lhe o efeito de um cáustico sobre uma ferida.

- Oh! Cale-se, Jousserand! Cale-se!

- Minha filha, minha querida filha! -repetia a velhota, a quem a expressão desolada da sua antiga aluna alarmava - Acalme-se, peço-lhe, e ouça-me.

A insistência da dama de companhia enervava-a e o tom lamentoso em que lhe falava pô-la fora de si.

- Mas o que tem, Jousserand? Eu estou bem, estou calma. Porque me fala como se me lamentasse? Não sou para lastimar. Parece que endoideceu!

Pasmada pela exaltação de Claude, Maria Jousserand ficou boquiaberta, sem se atrever a dizer mais nada, visto que a acolhiam tão mal.

- Fica a olhar assim para mim até amanhã? perguntou Claude, encolerizada - Imagina que o imbecil do meu marido vai mudar alguma coisa na vida que estou habituada a fazer? Desengane-se!

A frase formidável foi dita por Claude sob a impressão de loucura que se apossava dela, sem que pudesse pesar o valor das palavras que pronunciava e sem reparar que Didier descia atrás dela e ia, por certo, ouvi-la.

Assim, estremeceu, quando, muito perto, a voz dele retorquiu, ironicamente:

- É bem uma apreciação de mulher casada. Felicito-a, Vejo, minha senhora, que não levou muito tempo a integrar-se no seu papel.

Claude parara, pregada ao solo pelo tom irónico de Valencourt, Começava já a arrepender-se daquele impulso e a reparar que, sempre que as palavras de cólera ultrapassam a nossa vontade, há contradições: o que acabava de pronunciar não correspondia àquilo que pensava de Didier.

Os olhos assustados fitavam Valencourt, que sorria singularmente, e, num momento, reflectiu no que devia dizer para explicar a sua injuriosa exclamação. Mas àquele espírito sobreexcitado havia uma hora por sensações diversas, não ocorreu uma única ideia.

Sentiu apenas grande fadiga e levou a mão à testa, que uma nevralgia tremenda começava a apertar.

pode fazer o favor de mandar aproximar o meu carro? Sinto-me muito fatigada.

Por um instante, Didier hesitou se devia ou não satisfazer este pedido.

O seu olhar enigmático parecia querer sondar o pensamento feminino, mas, ante a angústia daquele olhar, teve um imperceptível encolher de ombros e, muito calmo, dirigiu-se ao general.

- Quer ter a bondade de dar o braço a esta senhora, que está fatigada, senhor Lê Courbois? Eu vou prevenir o chauffeur.

O general fez o que lhe pediam com a melhor boa vontade de terminar este incidente desagradável. Claude deu-lhe o braço e, em silêncio, instalou-se no carro que Didier fizera aproximar.

- vou deixá-la, minha filha disse o militar.

Mas a rapariga interrompeu-o:

- Venha comigo, meu querido amigo, vou levá-lo a sua casa.

- Não posso tomar o lugar do seu marido, minha filha - observou, um pouco enleado.

- Ora, meu marido...

Mas, desta vez, deteve-se. Que palavras iria ainda dizer?

- Meu marido vai depois ter comigo! -concluiu, com um olhar imperativo para a dama de companhia, a fim de lhe dar a entender que se ocupasse de Didier.

Este conservava-se um pouco afastado, e Maria Jousserand foi ao seu encontro. A incorrecção inqualificável da sua antiga discípula, em semelhante dia, tornava muito difícil a sua intervenção.

Não sabia ao certo o que seria conveniente fazer ou dizer, mas tinha a impressão de que, realizado o casamento, era necessário, incontestavelmente, poupar o marido de Claude.

- Que pensa fazer? - perguntou então, esforçando-se por ser amável.

- Naturalmente, almoçar com a minha testemunha.

- E... depois?

- Confesso que não sei.

A velha hesitou, sabendo que tomava uma iniciativa e que esta talvez lhe fosse censurada.

- Mandou-se marcar uma carruagem no Cote d'Azur, que parte às sete horas, da gare de Lião.

- Está bem! - respondeu o rapaz laconicamente.

- Será pontual, não é verdade? - pediu a pobre senhora, a quem a reserva de Valencourt intimidava.

O advogado não respondeu logo. Perguntava, decerto, a si próprio, se seria conveniente aparecer à hora combinada.

- Lá estarei! - disse, depois de um certo tempo de reflexão.

- Obrigada.

Ia afastar-se para tomar um táxi, visto que o carro de Claude não esperara, quando a mão de Didier, tocando-lhe num ombro, a impediu de o fazer.

- Foi a senhora que lhe disse para vir ter comigo? - perguntou.

- Foi! -respondeu Maria Jousserand, a quem aquele tratamento dado a Claude, pela primeira vez, tinha impressionado.

- Está melhOr? Mais calma?

A dupla pergunta pareceu formidável à boa velhota, que olhou Valencourt sem saber o que pensar.

- Ah! -balbuciou - A minha pobre Claude não estava no seu estado normal, há pouco. Juro-lhe que foi a primeira vez que a vi agitada àquele ponto. Esqueça este incidente, peço-lhe, e verá, pela continuação, como é encantadora. Não posso compreender o que se passou.

- É uma excelente advogada, minha senhora disse Valencourt - Bem vi que ela não diferençava bem o que fazia e o que dizia, mas o que me parece inexplicável é O motivo de tal enervamento.

- Fui eu a culpada. Arreliei-a com as minhas lamentações.

De novo Didier se calou. Pensava que Maria Jcusserand era uma boa criatura, pronta a tomar para si culpas que não tinha.

Espontaneamente, estendeu-lhe a mão num gesto simpático e depois, benevolamente, decidiu:

- Pode ir descansada; depois do almoço pedirei notícias pelo telefone.

Embora esta promessa fosse absolutamente normal e coerente com o que se passara, pareceu à dama de companhia que era um grande favor concedido por Valencourt a sua mulher.

 

O comboio rodava a toda a velocidade, na noite escura. A criada a quem pertencia o serviço da carruagem tinha já arranjado as camas destinadas aos viajantes, quando Valencourt saiu do compartimento para fumar no corredor, a fim de deixar Claude tratar à vontade da sua toilette da noite.

Em boa verdade, as coisas tinham-se passado bem entre eles, e, ao telefone, quando pedira, correctamente, notícias de sua mulher, foi ela em pessoa responder-lhe e desculpar-se gentilmente das palavras mal-humoradas que dissera, atribuindo tudo a essa longa cerimónia numa sala abafada e desconfortável.

Depois, pretextando uma violenta dor de cabeça, manifestou o desejo de estar só, o que permitia algumas horas de repouso antes de iniciar a viagem.

Explicou que fora mandado reservar um compartimento no Cote d'Azur, que estaria na estação à hora combinada e que contava que o marido fosse ter com ela pontualmente.

Didier aceitou, sem a menor reflexão, as explicações que ela lhe deu, e quando à noite se encontraram na gare de Lião, ambos foram encantadores e pareciam animados das melhores intenções a respeito um do outro.

Valencourt não conhecia ainda bastante aquela que aceitara como sua mulher para poder distinguir no seu semblante as emoções por que podia ter passado, mas reparou que tinha o olhar magoado e parecia muito fatigada.

Não era talvez mais que uma impressão, porque, apesar da sua mania de observação, que o levava por vezes longe de mais, podia enganar-se.

Entretanto, quando propôs a Claude deitar-se, esta mostrou-se satisfeita por ver acabar aquele interminável convívio, durante o qual não sabia o que dizer, além da conversa vulgar entre dois viajantes que se não conhecem e que só falam dos locais já visitados e das especialidades dos restaurantes.

Quando a intensidade da luz foi diminuída no compartimento, Didier calculou que a mulher já estava deitada, e entrou para se deitar, por sua vez.

Claude mandara reservar dois lugares; por conseguinte, as duas camas estavam em frente uma da outra.

Sentado sobre a sua cama, Valencourt despiu-se em silêncio e um pouco pelo tacto: descalçou-se, tirou a gravata e o colarinho, substituiu o fato por um pijama; em resumo, tratou de uma infinidade de pequenas coisas necessárias mas pouco poéticas, e isto tudo pareceu a Claude, que o observava com os olhos semicerrados, de um à vontade ultrajante.

De novo a jovem milionária teve a deprimente impressão dessa manhã e encarou aquele casamento como uma calamidade irreparável.

Esse homem desconhecido era o seu marido e dera-lhe o direito de tomar diante dela atitudes que a chocavam, como a que acabava de ter, ao tirar os sapatos.

Aquele acto que censurava ao seu companheiro como uma incorrecção, parecer-lhe-ia natural feito por um estranho qualquer, que o acaso fizesse compartilhar com ela o lugar de uma noite no comboio.

Aquele movimento foi a gota de água destinada a fazer transbordar todo o desgosto que sentia desde a manhã. Uma lágrima de despeito rolou pela face, em seguida a essa, outra, e, assim, enormes soluços a agitaram toda. Sentia-se muito desventurada.

Procedera como uma insensata, desposando um homem desconhecido, sem perceber que na vida de uma rapariga o mais importante é não perder a liberdade e esperar com paciência, acreditando na felicidade que há-de vir, enquanto ela não aparece.

Sacrificara totalmente esta grande coisa: a sua independência. Sacrificara-a por quem? Por um homem que não conhecia, a quem pagava e que se lhe vendera por dinheiro.

A tristeza deste acto irremediável foi tão forte que não pôde mais dominar-se, e deixou ouvir soluços convulsivos.

Didier, que começava a adormecer, ergueu-se rapidamente! e escutou.

Suspeitando do drama que se passava ao seu lado, levantou-se de um salto e, inclinado sobre Claude, tentou consolá-la.

Passou-lhe o braço em volta dos ombros para a puxar a si, num gesto de amparo igual ao que faria por qualquer criança aflita.

- Que posso fazer para a consolar?

Considerava, porém, este choro, benéfico, visto desafogar a mágoa dominada desde pela manhã. Julgava, como efeito, ter adivinhado o que levara a milionária a pretender tão estranho casamento.

Para que uma rapariga bela, saudável e rica como Claude, recorresse a Michot para encontrar um marido, impondo condições tão singulares, era preciso, na verdade, que quisesse afastar da vida todo o amor, verdadeiro ou fingido.

Qualquer homem que a desposasse normalmente, exigiria ser tratado como um verdadeiro marido e gozar todos os privilégios que lhe competiam.

Assim, Claude, quer quisesse ou não, teria de suportar o amor ou simulacro de amor, da parte desse homem. Daqui, deduzia Didier que a jovem desejaria afastar da sua vida apenas essas manifestações.

Ora, Claude tinha um aspecto muito saudável para que se pudesse admitir, a seu respeito, a suspeita de qualquer anomalia física, e Valencourt pensava, com lógica, que um projecto de casamento tão extravagante só podia ter sido concebido pelo cérebro de uma mulher vítima de um desgosto de amor.

Concluía, pois, que Claude se casara por despeito, para se vingar de um pretendente infiel ou para excitar remorsos e ciúme a um namorado desastrado...

A menos que quisesse esconder assim o seu sentimento por qualquer outro que não lhe correspondesse.

Foi, pois, animado por esta convicção que se dispôs a amparar aquela mulher, que chorava perto dele.

Disto se ressentiram as primeiras palavras, que instintivamente pronunciou diante daquele desgosto da recém-casada:

- Não deveria ter aceitado estar três semanas sem nos vermos, como me impôs no dia em que lhe fiz a minha primeira visita. Conhecendo-nos melhor, teria ocasião de apreciar mais a fundo os seus verdadeiros sentimentos e os inconvenientes deste casamento de romance... Tenho a idade e a experiência bastante para prever o seu desgosto, se pudesse calcular de que se tratava, Creia, porém, que, se ainda hoje há alguma coisa a fazer, estou inteiramente ao seu dispor.

A princípio, Claude não compreendeu sequer o sentido das palavras de Didier. Sentiu apenas que a voz baixa daquele homem fazia um acompanhamento doce às suas lágrimas, e embalava o seu desgosto com um murmúrio agradável ao ouvido.

Entretanto, a maneira familiar como lhe falara admirou-a. Ao mesmo tempo, aquele braço que sentia à sua volta deu-lhe uma sensação estranha, e, bruscamente, repeliu-o.

- O que poderia fazer por mim? - perguntou, com certa hostilidade.

- Posso fazer o necessário para quebrar os laços que nos prendem e restituir-lhe a liberdade, se assim o quiser.

- Acha que pode restituir-me a liberdade? perguntou, admirada daquele oferecimento tão espontâneo.

- Acho que sim. Tomaria para mim todas as culpas para lhe deixar a possibilidade de casar com aquele que ama, se essa pessoa ainda é livre.

Surpreendida, Claude deixou de chorar durante alguns instantes.

- A quem se refere? Que pessoa pode estar livre?

- O homem por quem chora e por causa de quem fez este louco casamento.

Calou-se uns momentos e, depois, continuou, docemente:

- Vê, minha filha, que nunca nos devemos casar por despeito? Querendo fazer sofrer outra pessoa, ferimo-nos a nós próprios.

- Não me casei por despeito respondeu, continuando a chorar.

Didier puxou para o peito a cabeça desesperada onde se agitava um tão grande desgosto, e, ternamente, a sua mão acariciou aqueles cabelos sedosos, que lhe roçavam a face.

- É claro que, quando sentimos despeito, não nos detemos a analisá-lo, mas foi, decerto, por causa de outra pessoa que se decidiu a este casamento.

- Não, não! -respondeu a rapariga com a máxima sinceridade - Não houve outra pessoa.

Mas esta afirmação não o convenceu.

- Não foi por se lembrar de outro homem que chorou esta manhã na Administração? - insistiu.

- O que é que imagina? - protestou Claude, levantando a cabeça - Porque quer que eu tenha pena de alguém?

- Porque suponho que é a ideia do irremediável, posto entre si e ele, que a faz chorar esta noite.

Apesar de toda a tristeza, Claude desatou a rir. O engano do seu marido pareceu-lhe, de súbito, muito engraçado.

- Bem depressa deduziu isso tudo!... Afianço-lhe que se engana e que não choro por qualquer recordação.

- Não tem, pena de quem quer que seja? -perguntou Valencourt, tentando adivinhar o enigma daquele desespero.

- Não! - repetiu a jovem - Mas é delicioso tudo isso que imaginou-disse, tornando a rir Julgou, então...

E logo, limpando e enxugando os olhos, explicou:

- Bem vê que, se amasse outro homem, como diz, seria a ele que escolhia, visto que a minha fortuna me teria permitido abater os obstáculos que houvesse.

Didier não respondeu, convencido como estava de que em amor nem sempre o dinheiro chega para aplanar certas dificuldades.

- No entanto, chora, e se não é um desgosto de amor...

- Afirmo-lhe que não é nada disso. O meu desgosto vem da ideia de que fiz uma grande asneira, escolhendo-o.

- Muito obrigado.

- Um marido que eu comprava, era tão extraordinário que, de repente, perdi a confiança em mim.

- Se o mal não é outro, esse não é grande.

- Em todo o caso, estou presa, agora.

- Também eu! -observou tranquilamente.

- Mas o senhor é um homem. É muito diferente!

- Julgo que a Independência e a liberdade são bem mais preciosas para um homem que para uma mulher, visto que esta está sempre presa ao seu sexo, ao seu pudor, ou aos seus preconceitos.

- Talvez! Mas o senhor encontrou neste contrato compensações... materiais.

- Ah! Sim, o dinheiro!...

Fez uma pequena pausa e concluiu:

- Quer dar-me o prazer de afastar da sua ideia essa questão de dinheiro, que a torna injusta, mesmo em relação a mim? Um homem instruído e bem-educado tem sempre probabilidade de casar com uma mulher rica, e não deve, por conseguinte, contentar-se com uma desconhecida.

- No entanto, foi o que o senhor fez.

- Perdão! -respondeu o advogado sem se atrapalhar - Esqueceu-se de que fugi de certa rapariga, que encontrei no baile, vestida de verde, e que só voltei porque me disseram que não era aquela que me destinavam.

Claude sorriu, divertida, ao recordar a cena.

- É verdade que, até certo ponto, me escolheu. - Preferi-a à outra, é incontestável. De resto,

parece-me que também, consigo própria...

- Oh! Eu...

- Afirmaram-me, no entanto, que tinha examinado vários candidatos.

- Sim, disseram-lhe a verdade, mas, ao ouvir a maneira como fala, julgar-se-ia que o senhor era o eleito e isso seria um pouco de exagero.

- Visto que pretende que não há na sua vida qualquer outra imagem... que não tem pena de ninguém...

- Não pretendo, afirmo!

Didier também sorriu, como se o tom peremptório daquela afirmação lhe agradasse.

- Pois bem - disse alegremente - se não há alguém na sua vida, tanto faz que seja eu como qualquer outro.

- Caminha depressa! - protestou, assustada.

- Visto que não há outro no caminho...

Até então estivera encostada a Didier, mas desprendeu-se de novo.

- Será necessário que lhe lembre já as nossas convenções? - perguntou com afectada dignidade.

- De modo algum - replicou, divertidíssimo, o advogado TenhO uma memória esplêndida e actualmente não desejo infringi-las, mas, como marido, regozijo-me por não ter de lutar contra uma recordação, tanto mais difícil de vencer quanto a sua imaginação de mulher daria, involuntariamente, ao ausente, inúmeras qualidades que não possuo.

- Tem medo das comparações? - perguntou a jovem, trocista.

- São sempre para recear, quando o pequeno deus Amor não está presente; para vendar os olhos da pessoa que as faz.

- Afinal - concluiu Claude, mais calma por estas reflexões - é, talvez, melhor assim e fui tola há pouco em me afligir. Este casamento consigo não é tão ridículo como parece.

- Evidentemente!... principalmente se quiser ter boa disposição e muita indulgência. -Do meu lado, haverá a mais sincera deferência e a melhor galantaria. Assim limitada, a nossa união arrisca-se a ser edificante e a servir de modelo a todos os jovens pares modernos.

- Belo! Vai acabar por me convencer de que fiz uma escolha acertadíssima.

- Estou convencido disso! - concordou Didier, sem pestanejar - É, decerto, muito melhor do que imagina.

O seu sorriso ambíguo não deixava perceber se o dizia a sério ou não.

Enquanto falava, ajudara-a a estender-se confortavelmente, e por fim perguntou-lhe:

- Posso esperar que repouse tranquilamente, agora?

- Não acaba de me assegurar que quase me saiu a sorte grande na lotaria do casamento? Simplesmente - continuou, afectando um ar pudibundo para eu não duvidar das suas afirmações, peço-lhe que não fique mais tempo em peúgas ao pé de mim. É preciso não esquecer aquela correcção de que me falava há bocadinho.

- Tem razão e peço-lhe desculpa, mas se não me quer ver de novo junto de si na mais sumária toilette, não torne a chorar, mesmo porque, minha senhora, vou fazer-lhe uma confidência: tenho horror às lágrimas femininas. Ou são sinceras, e impressiona-me dolorosamente ver chorar uma mulher sem poder dar-lhe consolação, ou não são, e acho horripilante ter de assistir a uma comédia pouco estética.

Tinha-se aproximado da cama que lhe pertencia e ia deitar-se.

Ouvindo as últimas palavras de Didier, Claude, subitamente agressiva, soergueu-se e, apoiando-se no cotovelo, perguntou:

- Poderei saber, senhor Valencourt, em qual das categorias pôs as minhas?

- As suas? - perguntou o rapaz.

Parou, estendeu os braços, bocejando o mais tranquilamente possível, e respondeu:

- As suas? Classifico-as como o orvalho- benéfico, das que ajudam o Sol a fazer abrir as flores. São lágrimas de garota... de garota sincera e inocente que não conhece as agruras da vida e chora inconscientemente, porque uma estrela se apagou no céu, ou porque a chuva desmanchou os seus caracóis dourados. As suas lágrimas, minha senhora pequenina? Tenho de dizer-lhe que são sem, motivo e sem continuação e só servem para lhe acalmar os nervos. E agora, minha querida amiga, resta-me dizer-lhe até amanhã e desejar-lhe boa-noite. Por enquanto é apenas uma criança grande e eu um seu vassalo.

Puxou a roupa para os ombros e pareceu cair no mais profundo sono, sem ver os olhos brilhantes de indignação com que Claude o fitava.

"Uma garota! Lágrimas inconscientes! Minha querida amiga! ". Como falava tão ligeiramente aquele homem a quem pagava.

Por sua vez, passou nos lábios de Claude um estranho sorriso e pensou:

"Este homem é irritante! ".

Era o seu feitio combativo que acordava. Aquela mulher, que arvorara orgulhosamente a exigência de uma correcção sem limites, propunha-se agora a si própria fazer qualquer coisa que surpreendesse o marido para o obrigar a contar com ela.

- Este rapaz precisa de ser metido na ordem... tenho a impressão de que não me toma a sério!

 

Claude e o seu estranho marido entraram sem grandes percalços na vida conjugal. Embora, em verdade, se não conhecessem um ao outro, a sua correcção salvou o que a situação criada por ambos podia ter de extraordinária.

Para afastar Didier dos seus antigos hábitos e das relações que podia ter na capital, a jovem milionária resolveu trocar Paris pela Cote d'Azur na própria noite do casamento, como se se tratasse realmente duma vulgar viagem de núpcias.

Nice e os seus arredores ofereciam, naquele princípio de ano, numerosas atracções, graças às quais, pensava ela, Didier se sujeitaria mais facilmente à forma especial que queria impor-lhe no seu convívio e, ao mesmo tempo, iria conhecendo a nova vida a que estava destinado... aquela vida de conforto e de luxo que ele ignorava e que a jovem milionária lhe daria a conhecer com certo regozijo íntimo.

Para maior liberdade, deu seis semanas de férias a Maria Jousserand, desolada por ver que podiam dispensá-la durante tanto tempo, e decidiu levar consigo apenas Celine, que começava a afeiçoar-se-lhe.

Ao contrário dela, Didier não levou consigo qualquer criado de quarto. Para as suas necessidades particulares tinha o recurso do criado do hotel, a

quem as suas gorjetas assegurariam zelosos serviços.

O luxuoso hotel onde se hospedaram, em Nice, favoreceu as suas primeiras conversas a sós, sem contudo lhes permitir a mais leve intimidade.

Os seus aposentos compunham-se de dois quartos, separados por um salão comum.

Tinha cada um o seu quarto de vestir e sala de banho, por isso só se viam cuidadosamente vestidos para o passeio ou para as refeições.

Nunca Didier entrou no quarto de Claude e esta fingiu não perceber que o casamento lhe criava certos deveres junto do homem que escolhera e desposara.

Valencourt ocupava-se sozinho dos cuidados da sua roupa e do seu fato, como se não se lembrasse de que a companheira podia pregar-lhe um botão ou escolher-lhe uma gravata.

Da mesma maneira, Claude nunca pensou em perguntar ao marido por qual dos seus vestidos tinha preferência, ou que passeio lhe seria mais agradável.

Eram simplesmente dois estranhos, cada um vivendo em sua casa sem parecer preocupar-se um com o outro.

Havia dez dias que se tinham casado e nem a mais leve aproximação se dera entre eles.

Se Valencourt parecia, pela sua atitude afável e natural, muito à vontade com Claude, esta mostrava-se reservada. Embora habituada a mandar e a agir segundo o seu capricho, não passava de uma rapariguinha, e se bem que não desse por isso, uma timidez inerente à sua pouca idade afastava-a de Didier, que mal conhecia e de quem instintivamente o seu pudor íntimo tinha receio.

É muito interessante decidir que se compra um marido e que este há-de fazer o que lhe mandarem, mas a verdade é que, terminada a cerimónia, uma rapariga irrepreensivelmente honesta e bem-educada encontra-se sozinha com um homem que tem direitos sobre a sua pessoa e que pode abusar da situação e não cumprir as promessas de correcção a que se obrigara, e sente instintivamente a necessidade de se manter ela própria sob uma grande reserva para não dar ao companheiro ocasião de transpor os limites permitidos.

Claude nunca pensara que Didier pudesse intimidá-la e, no entanto, agora, que estava casada, notava, contrariada, que na sua presença media todos os gestos e palavras.

Este estado de espírito não podia de maneira alguma criar mais intimidade entre os dois esposos, tanto mais que a Valencourt, conformando-se cortesmente com a atitude da mulher, não tentava nunca encaminhar as coisas doutra maneira.

Se Claude estava alegre, o marido dava livre curso ao seu feitio folgazão e vivo, mas se a mulher estava triste e silenciosa, Didier não diligenciava de modo algum romper o seu mutismo e confinava-se também numa reserva taciturna muito natural, como se sentisse mais feliz em poder deixar fugir os pensamentos em lugar de estar constrangido- a fazer um esforço para manter uma conversa.

Alguma coisa ainda na atitude do advogado impedia Claude de se mostrar completamente no seu natural, alegre e exuberante: o marido parecia de vez em quando examiná-la curiosamente. Muitas vezes, sentia pesar sobre si o seu olhar com uma espécie de curiosidade, pormenorizando-lhe todos os gestos e analisando-lhe todas as palavras.

Aquele olhar não tinha malevolência, mas sentia-lhe a investigação e acuidade, como se representasse para o seu companheiro- um enigma extraordinário que ele se esforçava por decifrar.

Por vezes, nos lábios de Didier aparecia um estranho sorriso, que vinha como que sublinhar uma observação íntima e até certo ponto irónica.

Parece-me, Didier, que tem uma certa propensão para troçar. Já tenho notado que no seu rosto prepassa amiúde uma alegria cujo motivo não se explica facilmente.

- A humanidade é por vezes divertida de observar.

- No entanto, gostaria de não lhe servir pessoalmente de assunto para estudo.

- Tudo o que a senhora faz é delicioso! -protestou- Tem, em verdade, uma franqueza e uma rectidão que excluem toda a ideia de crítica. vou fazer-lhe um elogio, minha linda senhora. Tem em mim um admirador.

- A sério?

- A sério, sim.

Claude corou de prazer, porque a frase lhe pareceu merecida e sincera.

Entretanto, nem por isso deixava de surpreender, de longe em longe, o tal sorriso trocista na boca silenciosa de Didier.

"Afinal - dizia consigo, indulgente, à maneira de compensação - isto dá um certo ar alegre à nossa vida, que até aqui tem sido bastante monótona. Este pobre Didier não protesta nunca contra as minhas exigências e há momentos em que tenho a impressão de o levar pela rédea, tão cortesmente me acompanha a toda a parte, apesar do aborrecimento que parece causarem-lhe certos passeios".

com efeito, sempre que se juntavam era para algum divertimento em conjunto com outros hóspedes do hotel ou com amigos cosmopolitas, que Claude tinha em grande número naquela cidade luxuosa onde se reúnem pessoas de todas as raças.

Bailes e concertos sucediam-se, bem como reuniões, corridas, batalha de flores, tudo diversões a que Claude não queria faltar.

Apesar de toda a sua correcção, o marido não mostrava o menor interesse por qualquer daquelas festas que davam à jovem milionária tão grande prazer. Embora não lhe fizesse a mais leve observação, Claude notava a sua falta de entusiasmo e a necessidade de se isolar o mais possível.

"Didier não está habituado à vida de sociedade e não se sente à vontade junto dos outros - pensava - Há-de habituar-se.

Assim, procurava cada vez mais fazê-lo frequentar essas festas, convencida de que procedia com todo o bom-senso e preparava sabiamente um risonho futuro.

Entretanto, já duas ou três vezes, pretextando dores de cabeça, uma carta a escrever ou qualquer outra coisa no género, Didier a deixara ir sozinha a sítios onde estava indicado que a deveria acompanhar.

Nesses dias, Claude não se sentia muito feliz entre os amigos, cuja intimidade procurava.

"O quê? - perguntava a si própria, com certa inquietação - Não posso agora passar sem a presença de Didier? Seria ridículo, da minha parte, achar indispensável um homem a quem pago! ".

As sensações, porém sentem-se, mas não se discutem nem se escolhem, e a pobre milionária teve de confessar a si própria que se divertia menos quando o marido não estava junto dela para compartilhar o seu prazer.

"É formidável! Agora surjo com uma alma de mulher casada. De mulher casada estúpida, tola, quieta e egoísta! Está bonito, isto! É absolutamente ridículo.

Esta ideia divertiu-a, mas não a curou, e, sem que nada pudesse mudar nos acontecimentos, começava a convencer-se de que também não lhe apetecia sair quando o marido não o fazia.

Para justificar o seu pouco entusiasmo, dizia:

"As doenças morais são contagiosas, como as outras. É a misantropia de Didier que começa a transmitir-se-me. É preciso que trate disto, para evitar que o senhor meu esposo tenha sobre mim tamanha influência! "

E para fugir a este ascendente que o companheiro podia ter sobre ela, Claude saía, embora contrariada.

"Isto é para o desafiar! " - pensava.

Na realidade, era ela a vitima, visto que se impunha a si mesma distracções que lhe não davam o menor prazer.

 

Naquele dia, estavam sentados no terraço de uma casa de chá, no Passeio aos Ingleses, em Nice.

Era a hora de aperitivo. Acabava de dar meio-dia e uma infinidade de ociosos enchia o maravilhoso lugar que contorna o mar azul.

Pareceu a Claude que os olhos de Didier reflectiam, de novo, grande aborrecimento, e amistosamente observou:

- Admiro-me de que não goste deste lindo sol que nos inunda. Ainda ontem tinha esse mesmo ar cansado.

Valencourt encolheu os ombros.

- Não acuse o sol de contribuir para o meu pouco entusiasmo. O que me aborrece é toda essa gente que nos rodeia, porque tenho o horror da multidão e das suas exibições.

- Mas ela desfila na nossa frente sem se confundir connosco.

- Este terraço de café está repleto de gente e todos nos olham, quando passam, porque nesta cidade, cheia de estrangeiros em evidência, todos querem conhecer-se uns aos outros.

- Não gosta de Nice? - perguntou Claude, cujo olhar se demorava, com satisfação, no vaivém da multidão que passava na sua frente.

- Nice é uma cidade encantadora e confortável, onde se podem gozar horas deliciosas, desde que se não viva como vedeta, pretendendo a admiração da multidão.

A jovem sorriu.

- Mas nem o senhor nem eu pretendemos chamar a atenção de alguém.

- Assim o julgo. No entanto, hospedámo-nos no hotel mais luxuoso e temos de mudar de fato três ou quatro vezes por dia.

- Oh! Didier, acabará por se habituar, verá. É sempre assim no princípio de uma vida nova. Há hábitos a tomar...

- Hábitos que são maçadas, porque nos obrigam a leis estreitas e difíceis.

- Não acho. Talvez por me ter habituado desde pequena, sinto-as até agradáveis. Há-de concordar, mais tarde, que, quando nos acostumamos a elas, acabam por nos parecer indispensáveis.

Pelos olhos de Valencourt passou um brilho trocista.

- Está convencida disso e é já qualquer coisa!

observou - infelizmente, porém, tenho medo de

dar-lhe qualquer desilusão, porque sou um verdadeiro selvagem.

Não! - disse Claude, categoricamente - É

como uma planta que mudassem dum terreno para outro e à qual faltasse criar raízes.

- Sim, tenho de me adaptar - murmurou lentamente- Tenho de me adaptar!

E como a frase assim repetida tivesse para ele uma graça especial, nos seus lábios prepassou, de novo, o sorriso que tanto irritava Claude, mas que, desta vez, lhe passou despercebido.

- Confesse, no entanto - insistiu a rapariga, para o arreliar - que nem tudo lhe parece desagradável na vida luxuosa que levamos. Por exemplo, as nossas refeições não o aborrecem.

- Concordo, mas é para lamentar que não possamos comer sem ter ao lado o chefe de mesa espiando todos os nossos movimentos. Além disso, aborrece-me a ideia de que não posso beber uma chávena de chá senão em casas luxuosas, onde uma infinidade de pessoas bebe ao mesmo tempo a mesma bebida insípida, pagando-a, como nós, a peso de ouro.

- E ainda se lamenta, feliz mortal! -exclamou Claude, graciosamente, envaidecida de o ouvir pormenorizar o luxo que podia permitir-se.

O sorriso de Valencourt acentuou-se.

- Se tratamos, apenas, de verificar o imenso poderio da sua fortuna, concordo em absoluto que a senhora pode pagar à larga o luxo e o conforto que nos rodeiam.

- E isso não basta para realizar os seus sonhos? Ingrato!

De súbito, Didier fitou a mulher.

- Perdão! -disse - Não deixo de reconhecer a sua boa vontade em me ser agradável, e que não me passou despercebida, mas a verdade é que adoro a solidão, e a esta cidade luxuosa teria preferido qualquer outro canto mais íntimo para os nossos primeiros passos da vida conjugal.

- No entanto, não contava ir a Veneza? - observou Claude sem se aperceber do tom irónico da sua voz - Nós faríamos ali muito má figura, ao lado dos pares amorosos que frequentam a cidade encantada.

- Evidentemente, Veneza não estava indicada para um casal como nós.

Calou-se um momento. Evocava uma sombra do passado... Uma gôndola com almofadas macias, um músico invisível fazendo ouvir barcarolas de amor, lâmpadas de cores, e, junto da sua face, a doce carícia de uma cabeleira de mulher, cuja cabeça descansara no seu ombro. Teve um estremecimento e, maquinalmente, curvou o braço, como para suster ainda o corpo delicioso que surgiu na sua memória.

- Ah! Veneza! - murmurou - A cidade dos amantes e dos beijos inesquecíveis... a pátria do sonho e das ilusões...

- Conheço-respondeu Claude - Estive lá há dois anos... Então era livre... e tinha muitos pretendentes! Esperava ainda o "Príncipe encantador", em vez de casar de uma maneira tão extravagante!

Valencourt fitou de relance a sua companheira.

- Também lá estive há alguns anos. É claro que não estava só e não me seria desagradável voltar lá agora.

Claude não pestanejou, mas pela rapidez da resposta percebeu que o marido não teria nunca dificuldade em responder às suas impertinências.

Houve um silêncio, durante o qual Didier parecia absorto por encantadora visão.

Maquinalmente, Claude tirou da malinha uma comprida boquilha incrustada de pedrarias, e com o olhar perdido no céu, onde as gaivotas descreviam curvas elegantes, aspirou duas ou três vezes, com volúpia, o cigarro que acabava de acender.

- Pense o que quiser, mas concorde que esta hora é deliciosa!

- É uma maravilha, visto que lhe agrada - respondeu Didier - Mas o que é isso?

Acabava de reparar na enorme boquilha.

- Oh! Claude- protestou - Guarde depressa esse detestável objecto, que só poderá servir, quando muito, na mais recatada intimidade.

- A que se refere?

- Ao seu cigarro! Peço-lhe que apague isso. Tenho horror às mulheres que fumam em público.

As faces da rapariga coloriram-se levemente. Era a primeira vez que o marido lhe fazia tão nitidamente uma censura.

- Que ideia! Não sou a única mulher que fuma aqui. Ora olhe à sua volta... Isso, actualmente, é admitido em todos os meios!

- Mas a senhora é a única que me interessa. Peço-lhe que tenha a bondade de apagar imediatamente o cigarro e de guardar essa horrível boquilha.

- Em primeiro lugar, essa boquilha é muito bonita.

- Sobretudo, custou muito cara.

- Não se faz melhor no género...

- Esse objecto entre lábios graciosos tem pouca estética.

- É a sua opinião, mas não a minha.

Muito calmo, Didier levantou-se e disse:

- Como quiser, minha querida amiga. Pode continuar. Encontrar-nos-emos, logo, no restaurante.

Claude só teve tempo de o segurar pela manga do casaco.

- Onde vai, Didier?

- Comprar um jornal. vou ter consigo, depois, ao hotel.

- É uma criancice - observou, rindo nervosamente.

Nunca, até ali, Didier mostrara na sua presença tal firmeza de vontade. Era, também, a primeira vez que se opunha aos seus desejos, e, então, por uma coisa tão pequena!

Num relance, observou o rosto aparentemente indiferente do marido e logo, apagando o cigarro, enraivecida, retorquiu:

- Pode ficar agora, mas há-de concordar que é despotismo.

O seu olhar endurecido fitava Valencourt, que voltou a ocupar o seu lugar.

- Realmente, não o imaginei tão antigo. É fenomenal.

- Deploro que uma mulher bem-educada imite os homens ou essas que pretendem ser independentes, tanto mais tratando-se daquela que usa o meu nome!

- Mas não se melindra que faça isso na intimidade! Afinal, a sua preocupação é apenas pela opinião dos outros. Não me parecem ideias muito largas!

- Já lhe falei do meu desprezo pelas exibições!

- É formidável! Chega a parecer incrível!

Não disse mais nada, mas de aí por diante passou a observar Valencourt e sentia-se cada vez mais admirada.

Aquele homem tinha o horror dos bons hotéis, dos restaurantes de luxo, dos pontos de reunião elegantes, de todos os sítios onde podiam ser vistos. Recearia, de facto, chamar a atenção sobre eles? Seria pelo mesmo motivo que a tinha proibido de fumar em público? Começou a sentir-se mal.

"O que significará isto? "

Era uma pergunta que fazia inúmeras vezes a si própria.

Cada vez que Didier discordava dos seus hábitos luxuosos de mulher rica e de sociedade, Claude inquietava-se. O passado do marido inquietava-a.

Em que meios teria vivido até ali? Principalmente, por que motivo receava tanto chamar a atenção dos outros, vivendo entre os frequentadores das mais luxuosas casas?

Já tinha assistido a vários escândalos passados entre pessoas que se apresentavam com grande nome e títulos pomposos, embora não fossem mais que vulgares aventureiros.

Temia sempre que o marido tivesse na consciência qualquer acto inconfessável que viesse a descobrir-se um dia ou outro.

Por mais que repetisse a si mesma que Valencourt era de boa família, que as informações fornecidas pela SelectAgence eram excelentes, que o advogado, cujas maneiras observava dia a dia, era imdiscutivelmente uma pessoa bem-educada, a pérfida inquietação nunca a deixava por completo.

Por nada, ela reincidia.

Quando, por exemplo, Didier voltava bruscamente a cabeça à passagem de um grupo; quando franzia o sobrolho ao entrar num café muito cheio; quando se mostrava fatigado se lhe falavam numa festa elegante a que devia assistir, quando, enfim, procurava esquivar-se ao desempenho de certos deveres mundanos que pareciam encantar Claude, mas aos quais o marido só se resignava sacrificado, a mulher atribuía sempre isto às consequências do passado. Em determinada altura, a jovem milionária começou a observar que certas pessoas olhavam para o marido com grande insistência, como se soubessem quem ele era.

Assim, o duque de Chalonges, que Claude conhecia vagamente, voltou-se rapidamente para olhar Didier, que pareceu não o ter visto e continuou Imperturbavelmente o seu caminho, enquanto ela, parada, observava, em silêncio, o pasmo do fidalgo.

- Conhece o duque de Chalonges? - perguntou ao marido.

- Talvez! Não me lembro bem, o nome não me é estranho.

- Mas ele conhece-o.

- É possível. No Tribunal há tanta gente que repara em nós sem que vejamos.

- Mas o senhor nunca advogou.

- Justamente, porque escutava os outros, o que é muito mais extraordinário.

Desnorteada por tão pretensiosa resposta, a rapariga calou-se.

Julgou um dia que ia por fim conhecer a verdade. Estavam sentados em Monte-Carlo, no terraço de um grande café, defronte do Casino.

O tempo estava um pouco frio, e enquanto Claude se embrulhava nas suas peles caras, Didier tirou, para melhor o pôr na cabeça, o boné de turista que levava naquele dia.

Um desconhecido que parara a alguns metros de distância e teve ocasião de ver o advogado em cabelo, aproximou-se alegremente, exclamando:

- Valencourt!

Este, com uma fugitiva expressão de aborrecimento, viu-o chegar e, dominando-se, levantou-se para lhe estender a mão.

- Pol Moraine! Que surpresa!

Dizendo isto, voltou completamente as costas a Claude, como se pretendesse conservá-la estranha à sua conversa. O desconhecido, parecendo não perceber a sua táctica, extasiava-se ante o feliz encontro e ameaçava demorar-se.

Então, Didier, voltando-se para a mulher, sem lhe apresentar o desconhecido, desculpou-se:

- Dá-me licença? Volto já.

E levou tranquilamente o intruso para longe, enquanto a recém-casada fazia as mais variadas suposições.

Quando voltou, não pôde deixar de lhe dizer:

- Maçava-o muito apresentar-me o seu amigo? Reparei que se afastou para falar com ele.

- Para não apresentar um homem que não é da sua esfera.

- Companheiro de escola, não?

- Não. Um colega de meu primo... um vago Poeta, que tem, por vezes, veleidades de grande pessoa e toma um tom demasiado familiar.

- Oh! A familiaridade de um poeta pode tomar-se à conta de originalidade.

- Entretanto, não quis expô-la a isso.

Era dito muito nitidamente para que Claude pudesse pensar em discutir essa opinião, mas muitas vezes de aí por diante lhe veio à ideia que Didier afastara dela a única pessoa do seu conhecimento Que tinham encontrado. A distância revia o sorriso estranho de Valencourt, quando ela lho fizera notar, e sentia um inexplicável aperto de coração, como se representasse uma grave ameaça para si.

 

Um dia em que Claude Insistiu para o marido a acompanhar a um desafio de ténís, O advogado pôs-se a rir. Talvez compreendesse a significação deste raciocínio... O certo é que teve vontade de a enganar e lhe disse muito a sério:

- Em boa verdade, não há pessoas honestas que possam gabar-se de nunca terem cometido qualquer acto contra as leis. O homem honesto é puro até ao dia em que alguém descobre nele um patife e entre estes dois extremos não há, muitas vezes, senão uma questão de sorte. Um, deixou-se apanhar, enquanto o outro, por acaso, ou POr ser mais astucioso, pôde cometer impunemente a sua má acção. Ora, dos dois, a maior parte das vezes o menos criminoso é que se descobre, por ser menos velhaco.

- É horrível pensar semelhante coisa! -protestou Claude com vivacidade - Dessa maneira...

- Eu - perguntou alegremente Didier - Eu penso que... sou tão criminoso como os outros! Apenas tive a sorte de escapar ao castigo.

- Isso é bonito! -disse Claude, entre assustada e surpreendida, olhando-o de um modo que o fez dar uma gargalhada.

- É que um advogado tem uma prática especial de virar as leis e interpretar como melhor lhe convém os artigos do Código Penal. Parece-me que estou a escandalizá-la!

- Acho que o caso não é para menos!

- Ora, Claude! Reflicta. A senhora própria...

- Que horror! Eu sou uma rapariga honesta.

- Também me parece. Entretanto, está bem certa de que nunca praticou uma acção contrária às leis?

Tinha-lhe agarrado a mão, que apertava afectuosamente, mas a rapariga afastou-se com repulsa.

- NãO me toque. Depois do que acaba de me declarar... Depois da sua confissão... já não poderei mais dormir tranquila. O que pode ter feito para ser um criminoso e lhe dar, assim, o receio de que o reconheçam? Perguntava a mim própria, muitas vezes, o que motivava o seu horror pela multidão... Meu Deus! É de arrepiar pensar no que terá feito de mal!

- E usa o meu nome! -acrescentou o rapaz, divertidíssimo com a indignação da esposa - Não se esqueça, Claude, de que é minha mulher e deve compartilhar do meu destino, ainda mesmo que este seja uma ignomínia.

- É espantoso!

- Absolutamente monstruoso!

Claude fitou-o, de sobrolho franzido -ante a sua alegria.

- Como pode rir-se de semelhantes coisas? observou, cada vez mais calma, porque começava a perceber que ele troçava.

- Porque a sua ira é cómica ao máximo. Disse-lhe que era um criminoso COmo todos os outros homens; nada mais, nada menos.

- Mas as pessoas que eu conheço são honestas.

- Então, também eu sou, se para isso basta não ter sido ainda condenado.

- Ainda!... Serve-se de umas palavras!...

- Porque penso em tudo o que uma reputação de homem honesto pode comportar de erros inconfessados e censuráveis. É preciso tão pouca coisa para conhecer os rigores do Código! Basta descer de um carro sem ter pago o seu lugar; caçar sem licença de porte de arma; impingir uma moeda falsa, que outro nos passou, sem que déssemos por isso; pescar durante o defeso; mudar de casa, esquecendo uma dívida insignificante; apostar nas corridas fora da zona destinada para isso; entrar numa casa suspeita para beber um café; aumentar a velocidade do carro, depois de ter esborrachado uma galinha... Sei lá! Todos os dias praticamos actos contrários às leis do país em que vivemos. Se todos eles fossem reprimidos e castigados, não haveria um único homem sem cadastro. Por exemplo, a senhora e eu...

- O quê?

- Imagina que o nosso casamento não está à margem do Código? Casam-se as pessoas para fundarem uma família e não para permitir à fantasia de cada um expandir-se livremente ao abrigo das leis. Não praticámos nós um abuso de confiança contra o oficial que nos casou? O ultraje ao magistrado, no exercício das suas funções, visto que nos comprometemos e jurámos fazer coisas que sabíamos não querer e além de tudo utilizámos um estado civil para fins que a lei não previu? Acha ser irrepreensível, pagando a um homem para que ele lhe dê o seu nome? E acha-me a mim dentro da lei, tendo aceitado semelhante contrato? E Michot? E o seu notário? Poderão eles alegar boa fé? Vamos, acredite-me, Claude, e não me olhe tão inquieta quando passo rapidamente diante de alguém Que me fita: não tenho certamente mais do que o desejo de não aturar um desses homens honestos Que a senhora conhece e cujas taras ocultas são, segundo todas as probabilidades, muito piores do que as minhas.

Claude calou-se, pasmada diante da tese estranha de Didier. Reflectia no que o marido acabava de dizer, procurando um argumento para lhe opor e não o encontrava.

- Realmente - disse por fim - não lhe pesam na consciência mais do que essas diabruras que acaba de mencionar?

- E acha que não é bastante?

- Acho que é pouca coisa.

- E, no entanto, se fôssemos acusados de um crime maior... digo acusados e não culpados, a opinião pública, com uma indignação hipócrita, apropriar-se-ia de todos esses pequenos factos, que acha de pouca importância, e alcunhar-nos-ia, sem dificuldade, de infames ou de tarados.

O lindo rosto de Claude ensombrou-se.

- Acha que o nosso casamento... -perguntou, hesitante.

- Seria singularmente comentado pela imprensa e pelo público? Evidentemente que sim.

- E, no entanto, estou convencida de que não fazemos mal algum.

- Na sua opinião, talvez, mas se encararmos o problema sob o ponto de vista pátria e sociedade, somos culpados de nos esquivar aos deveres que incumbem aos cidadãos de dar soldados ao País.

Subitamente, o rosto de Claude desanuviou-se, como se só então compreendesse o sentido das reflexões do marido e disse-lhe asperamente:

- Ouça, Didier: se desviou a conversa para preparar uma aproximação mais íntima entre nós, sem ter o ar de faltar às suas promessas, iludiu-se por completo. Quero preveni-lo já de que perde o seu tempo. Interessa-me pouco a opinião pública e aquilo a que chama os deveres dum casamento.

Impelido de novo tão claramente para o seu lugar no momento em que menos esperava, Didier ficou sem saber o que dizer.

Encantado de se fazer ouvir, não se preocupara muito com a interpretação que a mulher poderia dar às suas palavras. Quando, passados uns momentos, percebeu o sentido que ela lhes atribuira, soltou franca gargalhada.

- É muito curioso o que acaba de dizer! observou - O que imaginou? Asseguro-lhe, minha querida amiga, que a sua virtude não foi nem um momento ameaçada. Apenas me diverti a mostrar-lhe o valor que tem, na maioria dos casos, a reputação falsa de honestidade que acompanha certas pessoas, incluindo-a a si e a mim, mas não tive de modo algum o desejo de perpetuar a raça... pelo menos por agora.

A sua voz tornara-se tão irónica que Claude corou, envergonhada, e, não sabendo como esconder a confusão, disse, passado um momento, fingindo um grande desdém:

- Honesto como é, decerto não poderia esquecer nenhuma das suas promessas!

Mas Didier retorquiu, outra vez irónico:

- Entre casados, essas promessas e até juramentos não têm grande valor. Muitas vezes se falta a eles, mas é preciso para isso que haja amor.

- E então? - insistiu Claude, que um demónio invisível incitava à discussão.

- Parece-me que o amor falta neste quarto.

- Felizmente!

Didier não respondeu e mostrou-se de súbito muito atento ao jogo difícil que os dois campeões faziam brilhantemente.

Entretanto, nos seus lábios o eterno sorriso de escárnio reaparecia...

 

Agora, que estava casada, Claude examinava todos os gestos e atitudes do marido.

Antes do casamento recusara-se a conhecer Didier e depois de ser sua mulher sentia necessidade imperiosa de saber tudo o que lhe dizia respeito. Do mais insignificante dos seus actos ou palavras deduzia coisas extraordinárias que a atormentavam, como se só pudesse encará-las pelo lado mais desagradável.

Primeiro descobriu que aquele rapagão de feitio alegre e sorriso trocista era terrivelmente basbaque. Qualquer coisa na rua o divertia: uma resposta engraçada de criança, um dito inesperado de um ébrio ou uma graçola desbocada, tudo lhe prendia a atenção.

Claude fixou várias cenas desse género que pareciam ter entusiasmado o marido.

Foi assim que num dos seus passeios quotidianos, Valencourt, que caminhava a seu lado, a deixou subitamente para se dirigir para junto de um grupo, parado a meio da rua, mas próximo ao passeio.

Tratava-se de um desses incidentes vulgaríssimos que se encontram a cada passo.

Um pequeno vendedor de flores tinha sido quase derrubado por um táxi, cujo condutor, gesticulando e gritando, tentava desculpar a sua falta de destreza, atribuindo ao pobre pequeno culpas tremendas.

A multidão divertia-se com o incidente porque o garoto tinha a resposta pronta e retorquiu às injúrias do motorista com exclamações curiosas.

Quando Claude se aproximou do grupo todos riam e aos seus ouvidos chegou este fim de frase:

Vai-te, cavaleiro das rodinhas!

Ao mesmo tempo, Didier voltou-se para ela com um olhar risonho ao ouvir a saída do garoto.

- O pequeno tem graça! -observou, rindo.

Claude teve um trejeito de desdém.

Achava o marido ingénuo e um tanto ridículo.

- Acha isto divertido? - perguntou.

- Decerto que sim. Admiro o espírito, seja de quem for e o petiz tem, na verdade, respostas muito engraçadas.

E, voltando-se para o pequeno, que começara a oferecer flores a quem passava, pediu:

- Dá cá uma rosa!

- Oh senhor, leve todas!... São ramos mais caros, mas por terem caído vendo-os a quatro francos.

Didier sorriu.

- Não, só uma rosa... esta. Guarda o troco e toma conta nos táxis quando atravessares as ruas.

Enquanto o garoto, extasiado, olhava a nota de dez francos dada por Didier, este voltava para junto de Claude, que não se mexera.

- São flores humildes - disse a meia voz, estendendo-lhe a rosa e acrescentando, sorrindo Não comprei um ramo porque tive receio de que se maçasse a levá-lo, mas bem vê que era preciso indemnizar a criança, de qualquer maneira. Tem, na verdade, muita graça, o garoto.

Claude não respondeu, mas um encolher de ombros acompanhou o seu obrigado um pouco seco. O desdém apossava-se dela.

"Gosta de ficar embasbacado pela rua. Justamente o género de homem que não tolero".

Achava também que Didier gostava de espectáculos bizarros, absolutamente indignos de prenderem a atenção de um homem de sociedade.

Não saberia explicar porque lhe desagradava que o marido se interessasse por um vendedor de flores ou por qualquer outro dos muitos que andam pelas ruas, mas o certo é que, fazendo isto, Didier se mostrava pouco elegante.

"Um homem fino só pode ter desdém por esta gente". "E ainda se fosse só este defeito! "

Além de tudo. Didier aparecia-lhe como sonhador, lunático ou poeta. Não sabia bem como classificá-lo, mas não o achava decorativo numa altura em que toda a gente se esforçava por ser prática e positiva.

Um belo dia, quando o acaso de um longo passeio os tinha levado muito alto, no flanco da montanha, para lá das gargantas de Dalluis, o advogado fizera, de súbito, sinal ao motorista para parar.

- O que se passa? -perguntou Claude, impaciente, porque o sítio era selvático, a estrada perigosa e ela tinha pressa de sair da estreita garganta.

- Silêncio! disse Didier - Ali, não vê?

O seu braço estendido mostrava a descida a pique, a um dos lados da estrada, muito profunda naquele lugar. Majestosa, magnífica, uma águia planava por cima do rio. Via-se num nível um pouco abaixo daquele onde estava o carro.

- Que maravilha - murmurou Didier como

para si próprio Que vigor naquela asa imóvel!

Sabe - continuou, dirigindo-se a Claude-que é

raríssimo poder ver-se de tão perto aquela fase do voo de uma águia?

- Evidentemente - respondeu Claude, distraída. Didier ficou ainda uns momentos absorto na sua contemplação, até que a ave imperial, deixando-se cair de súbito como uma flecha, desapareceu bruscamente na sombra da colina.

- Que maravilha! -repetiu - Não acha, querida amiga?

- Sim, estou encantada por ver que isto o diverte! - redarguiu com um suspiro, perante o que considerava mais uma mania do marido.

Cheia de inquietação, observava-o, e pensou:

"É um sonhador. Deve ser um advogado muito curioso! Nem é de admirar que não tenha causas... ".

Uma coisa que tinha ainda o dom de surpreender ou irritar Claude, segundo a disposição do momento, era o estranho costume de Didier não fazer caso dos programas marcados e aceites para os passeios quotidianos. Estava decidido-toda a gente o sabia - que, se o Passeio dos Ingleses era destinado aos elegantes quase até ao fim, do lado oeste, do lado leste estes não podiam ir além da Praça Massena, sob pena de comprometer a sua reputação de elegância.

Talvez em certos dias se pudesse ir até ao Mercado das Flores e dar uma volta pela cidade velha, mas isto a título de turismo. Nunca ninguém, porém, devia aventurar-se a dobrar o Cabo do Castelo e chegar até aos longos cais desertos do pequeno porto. Apesar de tudo isso, era ali que Didier levava Claude a maior parte das vezes.

- Mas onde vamos nós? - perguntou a rapariga- uma vez, cheia de estranheza.

- Quero mostrar-lhe um pequeno canto dos trópicos - respondeu o advogado - Um lugar encantador que descobri na última quinta-feira, enquanto a senhora estava naquele famoso concerto, em Canes.

- Ah! Sim! -retorquiu Claude, amargamente

- Lembro-me muito bem que nesse dia uma terrível enxaqueca o impediu de sair.

Didier fingiu não ouvir a alusão, e explicou, com toda a calma:

- O ar puro e a solidão fazem muito bem à saúde.

Depois de ter dito este axioma como um princípio indiscutível, abriu um pequeno portão e afastou-se para deixar passar Claude.

- Entrai no meu domínio havaiano, senhora!

Existia ali um pequeno jardim, no côncavo dos rochedos vermelhos, bem expostos ao sol.

Diante deles estendia-se um bosquezinho de coqueiros elegantes, de grandes bananeiras e aloés, que davam, com efeito, a impressão de um recanto tropical. Por entre os ramos floridos das mimosas via-se o mar cintilante.

- Agrada-lhe este local? - perguntou Didier.

- Sim, a decoração é estranha... original, mas não é nada um sítio elegante, sabe? - acrescentou, puerilmente, depois de relancear um olhar à sua volta.

- Não se inquiete disse Didier com ar trocista - Visto que não é um sítio elegante não será aqui surpreendida por qualquer dos seus conhecimentos.

E de novo teve um rápido e irónico sorriso.

- Assim o espero! -respondeu a jovem - Mas há-de concordar que, sendo uma pessoa com o horror das exibições e de tudo o que possa chamar a atenção, se torna bastante notado pela escolha dos passeios. Espero, com efeito, que não nos encontrem e estimo que isso se não dê, porque chamaria muito mais a atenção sobre nós, creia, do que o facto de me verem, no outro dia, fumar um simples cigarro, neste ano da graça de 1943!

Ria, um pouco nervosamente, porque até agora não tinha esquecido o autoritarismo de Didier.

Muitas vezes, desde então, a conversa dos dois esposos tomara aquele tom meio agressivo.

Entretanto, as distracções ou as singularidades de Didier continuavam a ser consideradas como coisas inocentes e permitidas, que não podiam, em verdade, merecer uma censura séria.

Certa manhã, porém, o desacordo entre ambos tomou um aspecto mais grave.

Nesse dia, Claude vestira para o passeio habitual, antes do almoço, um lindo vestido branco, reminiscência das modas antigas e última novidade daquela Primavera.

Uma sombrinha minúscula, como as que usaram há séculos as nossas antepassadas, completava o conjunto, fresco e gracioso.

Antes de sair, relanceou ao espelho do seu quarto um olhar satisfeito mas soltou um suspiro.

Porquê?

É que Claude era bonita, mas, exactamente como a jovem da canção antiga, gostava que lho dissessem.

Ela bem o sabia!...

E a canção continua:

Ela gostava que lho dissessem, já se vê!

Ela gostava que lho dissessem.

Infelizmente, porém, Claude estava casada e de tão pouco tempo que os mais atrevidos flirts não podiam ousar uma aproximação.

Esta tranquilidade fora, a princípio, um alívio para ela, demasiado adulada e já cansada desses aduladores. Sim... mas, enfim... se Claude não tivesse um espelho, ainda poderia duvidar dos seus encantos, mas um espelho é um admirador muito frio.

Quanto a Didier, diante da mulher, sempre bonita, e sempre vestida com o mais requintado gosto, mesmo na intimidade, envolvia-a, por vezes, num longo olhar, que a muitas pessoas poderia parecer admirativo. Esse olhar, porém, infelizmente, era silencioso e não bastava.

Certamente, uma palavra elogiosa num tom muito conjugal teria desagradado a Claude como uma insuportável incorrecção, mas havia um meio termo e este silêncio era excessivo.

Ela gostava que lho dissessem, Ela era bonita... bem o sabia! já se vê!

Entretanto, respeitando as convenções, Didier não lhe fazia nunca o mais leve elogio.

Ora, naquela manhã, com o seu fresco vestido de Primavera, Claude seguia o marido, que caminhava para o cais do Paillon, esse antigo rio; cujo leito estava, então, quase completamente seco.

- Não é, provavelmente, um lugar elegante! disse Valencourt, sorrindo ligeiramente - Mas, confesse, querida, que este recanto é bem pitoresco!

Em frente de ambos abria-se, a perder de vista, o vale luminoso e azul, confinado ao fundo pelas montanhas cobertas de neve.

- Sim, talvez! -respondeu Claude.

Elegante e requintada, mas não espontaneamente artista, era mais sensível à beleza de um espectáculo organizado propositadamente para o prazer dos olhos que ao encanto grandioso da pura e simples Natureza.

Além de tudo, aquele bairro operário no extremo da cidade parecia-lhe totalmente despido de beleza.

Enquanto procurava avidamente o que podia assim interessar Didier, naquele aspecto que ela achava absolutamente de bilhete postal, viu-o, de súbito, descer uma pequena escada de pedra e avançar pelas lajes secas do leito de Paillon.

Começava a habituar-se às fantasias do marido, pasmado e sonhador ao máximo, mas ainda assim não teve limites O seu espanto ao ver qual era o estranho itinerário do passeio.

Valencourt avançava, tão rápido e facilmente como se seguisse por uma rua bem cuidada.

Encaminhava-se para um pequeno grupo de lavadeiras, iguais às que se viam em todos os tempos, junto das margens daquele avaro rio, dividido em inúmeros fios de água.

Parou diante de uma delas, que, um pouco isolada das outras, manejava o batedor com desembaraço.

Entretanto, passada a primeira surpresa, Claude fez um movimento de impaciência.

O que fazia ali, junto do parapeito de pedra, olhando aquele singular marido que passeava no leito do rio seco?

"Pareço uma galinha que chocou um ovo de pata

- pensou - Que ridícula! "

Descontente, deu três passos para se afastar e voltar para o hotel, onde deviam almoçar naquele dia. Depois, voltou para trás.

Didier não se decidia a segui-la... Seria conveniente deixá-lo para lhe dar uma lição? Ou valeria mais ir ter com ele e mostrar-lhe que era disparate levar assim uma rapariga de sociedade para um sítio daqueles?

A sua natureza combativa optou por esta última resolução e decidiu ir ver o que podia assim interessar o seu original marido.

Desceu, pois, por sua vez, ao leito do rio, com os seus saltos altíssimos, cambaleando a cada passo. Achava aquele passeio inconveniente e ridículo.

Quando chegou junto de Didier, estava bastante mal-humorada. Sem se aperceber da irritação da mulher, o advogado observava a lavadeira isolada, que era uma bela rapariga, nova, morena e delgada, de grandes olhos negros, tipo vulgar naquela região cheia de sol.

Claude, vendo-a de perto, concordou consigo própria que a rapariga era deveras bonita e cativante.

- Reparou como estas mulheres têm gestos harmoniosos? - perguntou, com toda a naturalidade, a Claude, que cambaleava entre os pedregulhos.

- Não reparei em nada senão no sítio disparatado onde o trouxe o seu entusiasmo popular e na figura triste que fazemos aqui.

- Acho que um rio não é um lugar disparatado para ver as lavadeiras. Confesso que me interessam sempre os gestos profissionais e os movimentos exigidos por um ofício. O hábito e a instintiva economia de esforço criam uma firmeza e um ritmo verdadeiramente belos. Esqueço-me do tempo a ver o batedor nas mãos desta rapariga... que é, aliás, um lindo tipo de mulher.

- Já percebi que se esquece - retorquiu Claude com um sorriso de ironia - Afinal, talvez não perca o tempo, porque no dia em que tiver de advogar a causa de uma lavadeira, pode ser-lhe útil conhecer os seus usos e costumes.

Depois acrescentou, numa voz propositadamente muito doce, mas trocista:

- E enquanto não chega esse retumbante sucesso, talvez fizéssemos bem em voltar para o hotel, para almoçar. com este passeio encantador vamos chegar atrasados.

- Não me parece! -respondeu fleumaticamente Valencourt, olhando o relógio - Acho até que teremos tempo de tomar um Porto no bar do Negresco...

- Hoje não me apetece Porto - - respondeu Claude, aborrecida com a tranquilidade do marido - Mas não quero de maneira alguma privá-lo de tomar o aperitivo na casa do preto da esquina, com as suas admiradoras. Isso é, naturalmente, mais conforme aos seus gostos e aos seus hábitos, do que bons hotéis e restaurantes elegantes, que tanto desdém lhe merecem.

O advogado encarou-a de frente.

- Aos meus gostos? Talvez! Não sei bem. Aos meus hábitos? Ainda não! - replicou com a maior calma - Em todo o caso, não farei hoje essa experiência. Vamos - E condescendentemente - Dá-me licença que lhe ofereça o meu braço! Receio que torça um pé, neste piso tão pouco confortável.

- Obrigada. Asseguro-lhe que não!... Posso muito bem andar sozinha.

Claude acabava de ver, a alguns passos, na sua frente, a jovem lavadeira, com uma trouxa de roupa à cabeça, harmoniosa e bem equilibrada no seu passo leve e elástico.

- Admire este ritmo! - insistiu Didier, sincero e sem malícia - É belo como uma dança! E esta linha da cabeça? Só as mulheres habituadas desde criança a levar fardos à cabeça têm esta linha real de pescoço. Repare, Claude! Esta rapariga é uma harmonia viva! Que bem lhe vai aquele lenço cor de laranja, cruzado no peito. Era de mais.

Claude, oscilando desastradamente sobre os saltos bastante altos, sentia-se ridícula.

Ela, cujo famoso vestido branco, elegante e caro, não obtivera sequer um olhar, sentia-se ferida por aquele elogio ao velho lenço cor de laranja.

- É para ouvir a enternecida expressão do seu entusiasmo pelas raparigas de Nice que lhe pago?

- perguntou bruscamente, esquecendo toda a etiqueta.

Teve um riso seco e nervoso e acrescentou, encolhendo os ombros:

- De resto, isto é o menos, mas a verdade é que é demasiado plebeu. Tanto, que chega a parecer anormal. Deviam ter mencionado essas tendências na ficha do senhor Michot.

Didier não respondeu, deixando habilmente passar a tempestade e evitando até que lhe aparecesse nos lábios o habitual sorriso de escárnio.

A volta ao hotel foi silenciosa, mas durante o almoço Valencourt mostrou-se solícito e gentil.

Soube mesmo arranjar maneira de fazer um cumprimento cheio de delicadeza e de tacto ao célebre vestido branco e desta vez o semblante de Claude desanuviou-se um pouco.

 

Claude sentira, quando do incidente de Paillon, mais arrelia que despeito. Além de que teria sido estranho e até ridículo mostrar-se ciumenta na sua situação de casada, só de nome, pois não havia, em verdade, motivo para isso naquele dia.

Reflectindo no caso, compreendera afinal que o marido era bastante original e sonhador para se interessar pela beleza de um gesto ou de um rosto, exactamente do mesmo modo que pela beleza de uma paisagem.

A pequena lavadeira não podia, decididamente, fazer-lhe sombra e Claude chegou a arrepender-se de ter dito aquelas palavras ásperas e disparatadas, que aliás não teria chegado a dizer se não se sentisse enervada pelo vento que a despenteava e pelas pedras que lhe faziam doer os pés.

Assim, quase ficara agradecida a Valencourt de ter, com tanto tacto, dado pouca atenção ao seu mau humor.

O incidente parecia de todo esquecido, mas um outro se deu, uma noite, nas salas de jogo de Monte-Carlo e este, mais grave, veio revelar à milionária vários aspectos do passado de Valencourt, que ela conhecia tão mal.

A noite ia já avançada e desde o princípio Claude tinha declarado com um sorriso infantil:

- Não fique ao pé de mim, Didier... Vai dar-me má sorte... Como quer que estejam dois recém-casados juntos, numa sala de jogo? Isso nunca se viu! Não se pode ser feliz... das duas maneiras ao mesmo tempo.

- Muito bem! -aprovou Didier - vou afastar-me, embora, para dizer a verdade, imaginasse que podia servir-lhe de mascote... Enfim, minha querida, sigamos o hábito, se assim o prefere.

Valencourt não precisava de esforçar-se por parecer irónico, se bem que evitasse sempre qualquer expressão que pudesse ferir Claude, cuidado que esta não tinha, pois sentia-se sempre despeitada e vexada por não ser ela a vencedora nas pequenas escaramuças passadas entre ambos.

Nessa noite, pois, madame Valencourt passou sozinha de uma mesa a outra, tendo a sua beleza emoldurada por um sumptuoso vestido.

Jogava por snobismo ou porque gostava dessas atitudes, mas era demasiado rica para se empenhar em ganhar ou sentir-se afectada com a perda. Experimentava, por vezes, a leve embriaguez do jogo, apenas o bastante para a distrair um momento, mas não para se lhe entregar com convicção. Algumas vezes perguntava a si própria, sinceramente:

"O que encontrará esta gente no jogo- para se prender assim? É divertido, na verdade, mas não vejo o que possa justificar a expressão ansiosa de todas estas caras, este ricto amargurado e o olhar louco de alguns. Todas estas criaturas parecem possessas! ".

Didier não jogava e, segundo o seu costume- a Sua mania, como dizia Claude - observava.

Tinha ficado imóvel durante muito tempo no vão duma janela, passando despercebido, mas examinando atentamente a colecção de rostos, crispados ou radiantes pelos sentimentos mais diversos.

É preciso confessar que, para quem tem a mania da observação, como parecia ter Valencourt, as salas de Jogo? do casino de Monte-Carlo, com o seu público cosmopolita, são um bom campo de estudo.

Didier tinha, pois, circulado entre as longas mesas rodeadas por duas filas de jogadores atentos, uns de pé, outros sentados.

Não se demorou mais que uns instantes em cada uma, e Claude, que, momentos a momentos, o olhava de longe, viu-o, surpreendida, apertar a mão a pessoas que, como ele, vagueavam por entre as mesas. com alguns tinha até conversado uns instantes.

Claude, em quem, certamente por contágio, o vício da observação se desenvolvia rapidamente, notou que todos os homens e até casais que se tinham aproximado do marido, pareciam ser pessoas da melhor sociedade.

"É esquisito! - pensou - Didier, que se mostra tão selvagem e não quer falar a ninguém quando está comigo, mostra-se, esta noite, muito sociável e parece-me bem relacionado".

De novo surgiu no seu espírito o ponto de interrogação que tanta vez lhe ditava o passado do marido.

Subitamente estremeceu, ouvindo, a alguns passos dali, a voz de Didier.

Havia de volta daquela mesa do trente-quarante uma verdadeira multidão seguindo interessada uma partida curiosa, e Claude, que não podia aproximar-se da mesa de jogo, encontrou-se encostada a uma coluna sem que lhe fosse possível nesse momento libertar-se.

Ora, do outro lado da mesma coluna estava Didier conversando com uma rapariga.

Esta era alta e loura, muito pintada, de uma beleza quase insolente e vestida de um modo espalhafatoso.

"Didier tem umas relações muito variadas!

pensou - Esta não me parece nada uma senhora de sociedade".

Reconheceu a voz de Didier, sem bem compreender as suas palavras, mas a resposta da rapariga loura deu-lhe um sobressalto.

- E eu então - dizia ela - Não imaginas o prazer que tenho em te ver e o êxito que isso vai ser, para mim, amanhã, em Paname! Serei a que tornou a ver Valencourt, o fugitivo. Valencourt, desaparecido há... meses.

- Exageras!... Talvez quatro semanas.

- Afinal, o que te aconteceu? Uma maçada? Mulher? Uma herança? Estamos todos ansiosos por notícias.

- Nada disso, filha... Viajo ao sol como os lagartos!...

- Ora! -disse a loira, incrédula,

- O quê? Não sou livre de viajar sem fazer nada?

Claude não ouviu o resto do diálogo. Didier certamente tinha-se afastado e a mulher loira seguíra-o.

Estava pasmada e, por um instante, sentiu-se sem forças, como se fosse desmaiar. Depois, um movimento de cólera sacudiu-a.

"O que faz Didier com aquela mulher? "

Repetia a si própria as poucas palavras ouvidas de relance e delas depreendia duas coisas que a faziam sofrer: Didier tratava por tu aquela mulher, e quase a tinha renegado, visto que não confessara o seu casamento.

"Viaja ao sol! O que significará aquela mentira? "

Como a loira o fitara! Como os olhos lhe brilhavam e com que ar radiante se afastara com ele!

Claude pensou que devia ir ter com o par e, aparecendo, obrigar o marido a apresentar-lhe a desconhecida. Devia ser divertido ver a cara do advogado, surpreendido pela mulher a conversar com uma senhora... duvidosa!

Procurou adiantar-se, mas não conseguiu fazê-lo, tal era a quantidade de gente que a rodeava e fazia dela como que uma prisioneira.

Vão lá fazer compreender a uma infinidade de jogadores interessados numa bela partida, a uma infinidade de jogadores ofegantes, cuja vida está toda condensada num olhar ansiosamente fito nuns algarismos, que é preciso afastarem-se para deixar passar uma mulher mal disposta.

Pacientemente, ou antes, impacientemente, mas com perseverança, Claude foi afastando, um a um, os membros daquela barreira viva que a rodeava.

Quando se encontrou, finalmente, num espaço livre de onde podia ver quase toda a enfiada de salas, verificou que o par desaparecera.

Ficou, ali, imóvel e enervada.

Perguntava a si própria para onde poderia o marido ter levado a bela loira, quando ouviu junto de si a sua voz, que lhe dizia, no tom mais franco e afável:

- Suponho que quererá ir, agora, para o hotel, não é verdade, Claude? Quer que chame o carro?

A jovem olhou-o fixamente; sentia-se incapaz de dizer uma palavra, mas viu-o com um aspecto tão natural, tão semelhante ao que costumava ter, que perguntou a si mesma se o que presenciara momentos antes não teria sido apenas uma alucinação.

- Sim, vamos! - respondeu então a custo. Estava pasmada ante a calma de Didier. O marido vinha só... por conseguinte, não falara durante muito tempo com a rapariga loira.

Prudência, por causa dela, ou, em verdade, a outra ser-lhe-ia indiferente?

- Uff! -fez Didier, com satisfação, logo que se instalou ao lado de Claude, no automóvel confortável e ultramoderno que os levara a Nice - Uff! Tenho sempre pressa de sair destas enormes caixas.

- A sério? - perguntou Claude, pensativa.

- Sim, a sério! Principalmente, esta noite. A mulher não lhe respondeu.

Teria falhado, daquela vez, o famoso espírito de observação de Didier? Parecia que sim. Foi num tom de simplicidade que perguntou, passados alguns instantes:

- Na verdade, diverte-se, Claude, assistindo a estas cerimónias?

- Está a fazer troça de mim? - perguntou a rapariga, subitamente agressiva - Parece-me que é a si que se deve fazer essa pergunta...

- A mim maçam-me! - disse Valencourt com simplicidade -O tempo -podia empregar-se muito melhor... mais inteligentemente... e até mais agradavelmente!

Então Claude deu uma gargalhada de tal modo forçada que chamou a atenção do marido.

- No entanto, não parecia nada aborrecido esta noite... longe de mim... Não me dirá o qualificativo que convém à sua atitude... ou antes, ao seu procedimento inconveniente?

- Inconveniente?

- Incorrecto, se prefere...

- Preferia qualquer outra palavra mais justa. Não me parece que tenha sido, esta noite, diferente do que costumo.

- Prova de que nos outros dias não é franco.

- Não percebo.

Valencourt voltou-se para Claude, surpreendido, querendo ver-lhe as feições, mas naquele sitio da estrada a escuridão era quase completa.

Entretanto, com a maior calma, continuou:

- Quer explicar-se, Claude? Confesso que não a compreendo. Se é uma brincadeira, não entendo a graça e se é a sério, deve haver um mal-entendido. Fale claramente, peço-lhe.

Não teve resposta, mas, neste instante, numa volta, uma lâmpada da estrada projectou dentro do carro a sua luz intensíssima e Didier viu em Claude uma expressão tão grave que compreendeu não se tratar de brincadeira.

Querendo, apesar de tudo, ser conciliador, procurou a mão da mulher, murmurando:

- Vamos, minha querida, explique-se. O que há? Mas este contacto e o tom familiar desencadearam em Claude uma reacção ainda mais violenta.

- Isso é de mais! Faça tudo o que quiser, senhor de Valencourt! Fale com as suas amantes na minha frente, mas, por favor, não se faça inocente, porque tenho horror à mentira!

- Também eu! -respondeu Didier, firmemente e sem se exaltar, embora não compreendesse a razão destas censuras - Odeio a mentira e vejo desolado, que nos atolamos nela. Façamos a diligência por encontrar a verdade, quer? Estou certo de que há aqui um mal-entendido. Quer dizer-me, claramente, quem ou o que a chocou?

- Didier, não me exaspere com esse tom de santidade. Acredite que isso- não é digno de si! Olhe, tenho vontade de mandar parar o carro e de o pôr fora. Sim, deixá-lo aqui, para ir ter com aquela mulher!

- Que mulher?

- Oh!

Aquela exclamação continha o máximo de revolta.

- Como pode perguntar-me isso? Aquele grande cavalo de cabelos amarelos!

- Ah -exclamou Didier- Agora percebi. Refere-se a Gaby Florise.

- Ria-se! É isso, mostre-se cínico! Afinal, é preferível.

- Mas, Claude, rio-me porque é uma grande tolice. Gaby Florise não é minha amante, nem o foi nunca.

- Enfim, conhecem-se!

- Decerto. Toda a gente conhece Gaby Florise.

- Mas, não tinha necessidade de ocultar que é casado.

- Ah! Bem, ouviu-nos... Acho que a minha vida íntima não interessa nem a essa mulher, nem aos seus amigos.

- Isso não impede, entretanto, que se tratem por tu, como verdadeiros amigos.

- Naturalmente! Gaby trata por tu todos os homens. Podia-nos ter conhecido no berço...

- Não chegará a fazer-me acreditar...

- Que Gaby Florise não é nada para mim? Meu Deus! Como hei-de fazer-lhe ver a verdade, salvo afirmando-lhe o meu gosto, exclusivo, por mulheres jovens, de verdade! E isso não depende de mim, infelizmente.

Toda a cólera de Claude desapareceu de súbito.

Nunca Didier fizera uma alusão tão directa à situação anormal de ambos... nunca, principalmente, ele dissera um infelizmente tão lamentoso.

Infelizmente!

De que maneira estranha aquela palavra soou aos seus ouvidos!

Sentiu-se desarmada, principalmente porque não queria conversar com o marido a respeito da sua vida conjugal.

- Enfim -disse num tom que pretendia ser calmo e esforçando-se por conservar o triunfo alcançado- quero acreditá-lo, mas isso ser-me-ia mais fácil se escolhesse as suas relações mundanas entre pessoas menos espalhafatosas e de uma beleza menos insolente. Confesso que aquela mulher é muito interessante.

- Como aquela boa Gaby ficaria contente se a ouvisse! - exclamou Didier, rindo francamente Um elogio desses, feito por uma mulher bonita e elegante como Claude! E jovem! Jovem a valer! Nem todos os dias a pobre Gaby poderá gabar-se de semelhante coisa! É certo que foi muito formosa, já o meu pai o dizia. Só porque a sala de jogo estava mal iluminada é que pôde confundir a pintura de Florise com a frescura da mocidade...

Claude não respondeu, mas intuitivamente o marido sentiu que a nuvem passara e não resistiu ao prazer de continuar.

- Ou talvez tivesse alguma prevenção a seu favor! - acrescentou maliciosamente.

Nos seus lábios passou o estranho sorriso e pelos olhos um brilho não menos estranho.

Mas tudo se perdeu na sombra do carro e Claude não deu pelo ar trocista com que Didier sublinhava sempre tudo o que ela dizia ou fazia.

 

Claude e Didier ceavam, nessa noite, em Juan-les-Pins, num restaurante em voga.

As lâmpadas multicores, escondidas em cestos floridos, projectavam tons variegados nos vestidos claros das mulheres, favorecendo a beleza dessas loucas bonecas.

À volta das mesas todos os lugares estavam ocupados por artistas conhecidos, rainhas de beleza, verdadeiras senhoras, estrangeiros bronzeados como turcos, todo um mundo variado entre o qual a jovem milionária se entretinha e cujos nomes gostava de citar, como se em verdade representassem conhecimentos seus.

Há, assim, muitas pessoas que se julgam da alta sociedade só por saberem o nome das pessoas que a ela pertencem.

Desde que casara, Claude tinha um certo prazer em enumerá-los: em primeiro lugar, porque estava convencida de que precisava de educar Didier e, depois, porque julgava maravilhá-lo mostrando-lhe que conhecia tanta gente em evidência.

Numa mesa próxima daquela que ocupava o" jovem par, estava uma mulher rodeada por cinco ou seis indivíduos que caprichavam em se mostrar solícitos. Era alta e delgada, estava muito pintada, e vestia com uma elegância audaciosa, que fazia convergir para ela os olhares das outras mulheres. A sua cabeça bonita, embora não fosse distinta, o cabelo platinado e o riso sem timidez, fazia com que as cabeças se voltassem para a ver, sem que ela mostrasse o mais ligeiro embaraço.

Claude reconheceu-a, e com curiosidade fitou o marido- Este não parecia até aqui ter reparado na sua ruidosa vizinha.

Entretanto, como o riso dela se ouvisse um pouco mais alto, Valencourt fitou a mulher que tão abertamente mostrava querer chamar a atenção sobre si. Observou-a um momento, e passado esse instante de observação recomeçou a comer tranquilamente.

Claude examinou o marido em silêncio. Didier surpreendeu o seu olhar fito nele.

- Em que pensa? - perguntou.

- Admiro, ou antes, verifico a serenidade de certos rostos masculinos.

- A serenidade de... E olhava para mim? Será então a mim que se refere?

- É. com que calma pôde reconhecer aquela mulher! Os homens têm muito sangue-frio! Ou, talvez, o instinto da mentira...

- Muito obrigado pela observação. Mas de que mulher fala?

- Daquela para quem olhou durante tanto tempo.

- Eu? Ah!... Da senhora ruidosa aqui do lado?

- Sim!

- Meu Deus, acho-a insignificante. Faz muito barulho. Tem um riso bonito, mas abusa um bocado.

- Nem sempre pensou assim.

- Como?

De novo Didier se voltou.

- Peço-lhe -interveio Claude- que não se volte assim, pois prefiro que ela não perceba que falamos a seu respeito.

- Tanto mais que não a conheço! -afirmou Valencourt, deixando de a olhar.

Claude teve um sorriso forçado.

- Não se julgue na obrigação de mentir, meu amigo! -pediu com um gesto de desdém- Visto que estou ao corrente, é inútil essa comédia. Desta vez, Didier olhou-a bem de frente.

- Asseguro-lhe que não conheço aquela mulher... a senhora teima que sim... Diga-me, então, como se chama e em que circunstâncias a encontrei.

Indignada, a milionária olhou o marido, como se de súbito descobrisse nele um ser repelente ignorado até ali.

- Quem melhor que o senhor pode conhecer aquela pessoa? -perguntou duramente.

- Mas quem é ela, afinal?

- Uma sua antiga simpatia.

- Minha antiga...

- Sim, a Jojó, das Fantasias Italianas.

Didier olhou-a sem compreender e de súbito, recordando-se, exclamou:

- Ah! Jojó, que me passou um tão triste diploma de temperança!

E o seu olhar agudo de novo fitou a pessoa em questão, como se quisesse fotografá-la.

- Talvez, sim!... É a Jojó -concordou- Não a tinha reconhecido. Os seus cabelos loiros e o rosto restaurado de fresco transformaram-na por completo. É extraordinária uma tal mudança.

- É curioso -observou Claude- A mim não me parece nada mudada! De resto, ela conheceu-o logo, porque a ouvi falar de si com as pessoas que estão na sua mesa.

Didier estava contrariado e expandiu de repente o seu mau humor.

- Está disposta a falar daquela mulher durante toda a refeição? -perguntou um pouco desabridamente.

- Porque não? Incomoda-o?

- O que me incomoda -disse secamente- é o prazer que sente em me colocar em situações equívocas. Visto que reconheceu Jojó, podia ter escolhido outra mesa em lugar de vir sentar-se aqui.

- Não receava comparações.

- Como pode admitir semelhante paralelo? protestou, irritado- Não compreendo a ânsia que têm as mulheres honestas de se porem ao nível dessas infelizes.

- Talvez porque os próprios homens não as diferençam bem, quando assim lhes apetece. Assim, eu sou a mulher que desposou por dinheiro, ela é a mulher com que o senhor o gastou. Concorde que juntar estas duas aventuras a tão poucos metros de distância é de certo modo picante.

- Continue, visto que isso lhe dá tanto prazer; não responderei mais.

Estava, na verdade, aborrecido. Claude, porém, sem mesmo dar por isso, sentia imenso prazer em desafiá-lo e pôs-se a rir, divertida, ante o seu descontentamento.

- Parece-me que se zanga muito depressa. Será por ter pena de já não possuir aquela bela mulher?... Impressiona-o vê-la em brilhante companhia, ou aborrece-o sentir-me ao seu lado... representando o fio de ouro que o prende e impedindo-o de ir ter com ela?

Desesperado, Valencourt encarou-a com um olhar ríspido. Aquela pequena Claude, com a sua maneira provocante, conseguira levá-lo ao rubro.

Merecia uma lição e ele ia dar-lha imediatamente, para que de outra vez fosse mais discreta.

- vou responder prontamente a todas as suas perguntas - sibilou entre dentes - Não recrimine se não a si, se a sacrificar um tanto neste assunto.

Dizendo isto, Didier levantou-se e Claude ficou desnorteada.

Compreendia que tinha ido demasiado longe e que o marido ia fazer alguma coisa de violento... Talvez sentar-se ao lado da outra, deixando-a... apresentá-las uma à outra... ou ainda tirar aquela mulher da mesa onde estava com os seus companheiros.

Fosse como fosse, a pobre Claude sentia-se responsável pelas loucuras que o marido pudesse cometer e, bruscamente, agarrou-lhe o braço:

- Didier, peço-lhe que fique junto de mim. A refeição está acabada e iremos tomar o café noutro lado.

O rapaz fitou-a de novo com os seus olhos cor de aço, pensando ainda: "vou dar-lhe uma lição".

Porém, sobre o braço que a mulher continuava a agarrar, sentiu a tremura da sua mão, ao mesmo tempo que lhe viu o rosto pálido e alterado pela angústia. A emoção que mostrava fez mais para acalmar a sua cólera que tudo o que ela pudesse dizer.

Afinal, não passava de uma garota mal-educada e o susto que acabava de sentir bastaria, talvez, para a tornar mais reservada daí por diante.

Em silêncio, sentou-se de novo no seu lugar. Claude agradeceu-lhe com um sorriso, mas notou que ele mordia nervosamente os lábios e continuava a fitá-la altivamente. Pouco à vontade, tentou acabar de cear. Vermelha de emoção e com o coração a bater, sentia a impressão de ter escapado a um grande perigo.

"De que pólvora são alguns homens feitos! " pensou.

Não percebia porque Didier se zangara tão facilmente. A menos que aquela expressão fio de ouro, de que ela se servira, o tivesse feito zangar.

Bem sabia que o marido não gostava das alusões às condições financeiras do seu casamento.

Ele, tão calmo, tão correcto sempre, deixava de o ser quando se tocava neste assunto.

Passados alguns instantes, Claude olhou timidamente à sua volta. Felizmente, ninguém notara o incidente.

Só agora se alarmava ao pensar no escândalo que podia ter-se dado à frente de toda aquela gente e o seu olhar inquieto tornou a fitar Valencourt, que comia tranquilamente um cacho de uvas.

De que seria capaz aquele marido, cuja ira ela ainda não conhecia? Afinal, -toda aquela correcção que mostrava talvez não passasse de um disfarce para o seu feitio violento e fogoso...

- Acabou, Claude?

Estas palavras, ditas cordialmente, tiraram a jovem do suplício em que a punham os seus pensamentos. De novo levantou os olhos para o marido, que a examinava com aquele ar meio indulgente, meio trocista, a que já estava habituada. Conciliadoramente, sorriu e respondeu:

- Sim, podemos ir.

Ajudou-a a vestir o casaco e levou-a até à porta. Na rua, deu-lhe familiarmente o braço, mantendo-a contra ele. Caminharam assim, algum tempo, em silêncio.

- Os homens são, por vezes, impulsivos e fogosos; não devem ser muito estimulados - observou passado tempo.

- São pólvora! -balbuciou a jovem, repetindo a palavra que lhe ocorrera momentos antes.

- Sim, pólvora, de que é preferível não provocar a explosão.

- Não torno mais! -prometeu, aconchegando-se a Didier.

Toda a sua confiança voltara e era como uma lufada de ar fresco que lhe refrescasse a alma.

com que doçura o marido soubera desculpar-se sem a acusar! No fundo, não era mau o seu companheiro.

Porque sentia, então, por vezes, a necessidade de o exasperar, como se a distraísse ver quanto tempo podia ele suportar os seus sarcasmos sem se indignar? Era ridículo e perigoso.

Não é o homem - e a mulher também - na realidade, o mais temível dos animais ferozes? Para que irritá-lo?

Instintivamente, tomou consigo própria a resolução de se mostrar dócil e discreta.

Ela, que nunca admitia a ideia de se incomodar por alguém, começava a achar natural tentar dominar-se em atenção a Didier. A pouco e pouco ia cedendo terreno e mostrando-se conciliadora, mas teria ficado muito surpreendida se pensassem em fazer-lho notar.

 

Em vão Claude tinha batido à porta do quarto do marido.

- Onde está o senhor? - perguntou à criada de quarto.

- Não sei, minha senhora.

- bom, de qualquer maneira, deve estar no hotel. Peça-lhe para vir falar-me.

- Sim, minha senhora.

Celine afastou-se sem convicção e foi bater à porta do quarto de banho do patrão.

Depois, não obtendo resposta, desceu ao rés-do-chão.

Tinha visto, momentos antes, Valencourt descer no elevador e supunha que devia ter saído, mas como convencer de uma coisa destas uma recém-casada, principalmente tratando-se de Claude Frémonde, que não admitia a menor contradição?

Além disso, era uma hora da madrugada, os patrões tinham voltado do teatro havia um quarto de hora, e, seguramente, a senhora Valencourt não compreenderia com facilidade a necessidade do marido tornar a sair a semelhante hora.

Ao fim de uns dez minutos Celine reapareceu.

- O porteiro diz que viu o senhor sair há bocadinhO.

- Sair? - protestou Claude, com os olhos esgazeados de espanto.

Depois, notando que Celine a observava:

- É isso, sim! O senhor já me tinha dito que precisava de ir falar a um amigo.

Ficando só, porém, deu largas à sua surpresa. O marido saía de noite. O que queria isto dizer?

Tinha feito uma figura ridícula diante da criada, reclamando tão peremptoriamente o marido, e Celine iria certamente rir-se dela com os outros criados, contando que três semanas depois de casar, o patrão saía sozinho de noite, e a senhora o mandava procurar por toda a parte.

Mas como poderia ela esperar semelhante coisa? Quem imaginaria que Didier saía de noite? Passou a mão pela fronte ardente, onde a enxaqueca começava a fazer-se sentir.

- É imperdoável que Didier me exponha a uma situação tão desgraçada. Devia, ao menos, ter-me prevenido.

Por um momento, viu o marido vindo dizer-lhe, depois de a ter trazido ao hotel: "Boa-noite. Claude, durma bem, enquanto eu volto a sair, sozinho e livre! "

Esta ideia foi-lhe dolorosa. Nunca aceitaria semelhante declaração do marido, sem procurar opor-se aos seus projectos.

com efeito, para que precisaria Didier de sair à uma hora da manhã?

Talvez para ir jogar... no Casino ou nalguma dessas casas onde os homens vão perder o seu dinheiro e, muitas vezes, o de suas mulheres. Não era muito limpa essa história! Claude sabia que muitos homens, de aparência correcta, têm a mania de jogar noites inteiras, até ao amanhecer, sem que as mulheres saibam, mas a verdade é que não escolhera Didier para que ele contraísse semelhantes vícios.

Isso era bom para certos indivíduos do seu meio distinto, que procuram de noite uma compensação para a vida demasiado elevada que fazem de dia... para todos esses mundanos, saturados de bem-estar e de prazer, que procuram no jogo emoções violentas.

Ora Didier não era um cansado da vida, nem Um verdadeiro snobe, e não ia, por conseguinte, passar uma noite inteira a jogar como esses homens que Claude conhecia...

Mas, de súbito, alarmou-se. O marido era, talvez, um jogador incorrigível, cujo passado ignorava. Não lhe tinham dito que ele gastara já, estouvadamente, tudo o que os pais lhe tinham deixado?

A ideia de ter casado com um jogador impenitente não era nada risonha. Claude fechou os olhos sob penosa impressão: o dinheiro que foge, que desaparece, sem que se possa limitar a sua fuga...

Evidentemente, a sua fortuna era bastante grande para liquidar algumas dívidas de jogo, mas até onde seria conveniente pagar? E poderia uma mulher fazer isso por um marido desposado de um modo tão singular?

Felizmente que Floch tinha estabelecido um contrato de casamento que previa tudo e ela poderia sempre recorrer ao divórcio para se libertar das loucuras de Didier. Mas, em verdade, que pena ter de chegar a isso!

O seu companheiro era encantador, correcto, solícito, sempre bem-humorado e, sob certos pontos de vista, tinha chegado a admirá-lo. Era espirituoso, bom conversador, e ela achava as suas observações cheias de ironia.

Enfim, fisicamente, era um homem de bom aspecto, apresentando-se com elegância e distinção, pelo braço do qual gostava de se mostrar em público.

Confessava a si mesma que não lhe desagradaria ver, pelos olhos das outras mulheres, que estas lhe cobiçavam o marido e sabia-o bastante simpático para lisonjear o seu amor-próprio.

Além disso, Didier tinha uns olhos cinzentos, sonhadores e audaciosos, cuja carícia Claude gostava de encontrar e que davam uma impressão profunda e encantadora.

Valencourt era, de facto, um camarada, do qual, incontestavelmente, se orgulhava. Nunca um marido aceite normalmente reuniria tantas qualidades como este, descoberto por uma agência matrimonial. Decerto que o divórcio, em caso de perigo, era uma salvaguarda maravilhosa, mas agora seria desagradável para Claude ter de recorrer a ele, mesmo para se pôr ao abrigo das desvantagens que podia trazer-lhe um marido jogador.

Porém, para que estava a supor todas aquelas coisas? Para que encarar tudo pelo pior? Porque Didier saira naquela noite ia julgá-lo já um estróina incorrigível?

É curioso como as imaginações de vinte anos se esquecem rapidamente.

No dia seguinte falar-lhe-ia naquilo que a inquietara, e estava convencida de que ele lhe explicaria tudo de uma maneira satisfatória e muito diferente do que imaginara primeiro. com efeito, foi o que aconteceu. Logo que disse a Didier que o tinha mandado procurar, o advogado concordou, sem hesitar, que tinha saído quase em seguida a deixá-la.

- Não tinha sono e fui fumar um cigarro ao ar livre.

- Um cigarro? Mas Didier só voltou ao amanhecer!

O rapaz olhou-a, espantado, percebendo que Claude espreitara a sua entrada.

- É certo - concordou, sem se desmanchar voltei bastante tarde... ou bastante cedo, como quiser!

- Quando fechou o jogo, não? Foi jogar?

De novo Didier fitou a mulher, mas não disse nada, e um vago sorriso entreabriu-lhe os lábios delgados. Sem afectação, acendeu um cigarro, do qual tirou algumas fumaças, e, depois, simplesmente, como quem afirma uma coisa para ficar sabida de vez, retorquiu:

- Não joguei. Não sou jogador e não compreendo a atracção irresistível que o jogo exerce sobre certos homens. Se é isso que receia, faz mal, minha querida amiga; não me parece que tenha nunca ocasião de me encontrar numa sala de jogo nem tão-pouco num bar. Não jogo nem bebo.

- Mas então o que fez até às sete horas da manhã?

Desta vez a pergunta fê-lo sorrir. E, muito conciliador, respondeu:

- Vamos, Claude, não insista. Saí, acabou-se. Visto que não tem de recear o pano verde e o álcool, que importa o resto?

Mas Claude ruborizou-se de súbito. Um pensamento atravessou-lhe o cérebro.

- Uma mulher! -balbuciou, como se esta suposição a deixasse paralisada - Passou a noite com... Oh! Didier, como pôde fazer semelhante coisa?

Valencourt evitou olhá-la, temendo que o seu ar trágico pudesse exigir uma resposta muito clara.

- Vamos, vamos! - disse, levantando a cortina da janela e olhando para fora - Deixe Isso, Claude, peço-lhe! Parece-me que a minha assiduidade junto de si é inegável. A minha correcção não pode ser discutida e basta a hora a que eu saí para lhe mostrar que o meu procedimento é impecável.

- Uma mulher! - repetiu ela, desnorteada Mas eu não arranjei um marido para ir ter com outra mulher!

- Também o não arranjou para que morra de sede! Ora suponha que esta noite... eu tive sede! É uma necessidade natural, não é verdade? Ora aqui está, compreende?

Tinha-se voltado para ela e falava com um sorriso conciliador.

- Lamento, minha querida, que tenha dado pela minha ausência. Que precisão tinha, à uma hora da madrugada, de me mandar chamar? Não foram as noites feitas para dormir?

- Sim, mas justamente eu não dormia, e não admito que, sabendo ou não, vá de noite... ter... Ah! Não! Isso não! E essa mulher? É sem dúvida a de Monte-Carlo, aquela loira alta de quem falou com tanto desdém...

- Claude, não faça suposições menos lisonjeiras para outrem.

- Sei lá! Uma mentira a mais ou a menos, não deve custar-lhe!

- Não me parece que lhe tenha mentido...

- Que sei eu? Essa história é de tal forma estranha! O meu marido foi esta noite encontrar-se com uma mulher! Não posso aceitar essa ideia.

Didier sorriu com indulgência.

- As mulheres muito novas exageram sempre o alcance de certos actos masculinos. Asseguro-lhe, minha boa Claude, que não tem razão para censurar as minhas ausências! Sou bastante discreto e não cometo abusos.

- Mas não as tolero. São inadmissíveis, e Michot...

- Por favor, deixemos de parte Michot- protestou, elevando a voz - Ele nunca disse que eu devesse renunciar a todos os meus privilégios, mas sim que tinha de a respeitar. Ora isso está certo, mas a natureza tem as suas exigências e esta cena é absolutamente disparatada.

- Então - perguntou a rapariga, erguendo-se

- acharia bem que eu saísse de noite para ir encontrar-me com um homem qualquer?

Didier deu uma gargalhada.

- Está a dizer tolices, Claude.

- No entanto, se amanhã me apetecesse proceder como o senhor?

- Mas não, porque é uma rapariga honesta.

- Ah! Perdão, no casamento os direitos são iguais e a fidelidade recíproca.

- Num casamento normal, evidentemente que teria o direito de me censurar aquilo que representasse uma infidelidade, mas para esposos convencionais como nós, o caso nem se discute.

- Nessas circunstâncias, admite a hipótese de eu fazer uma partida igual à sua?

- Mas, porque a faria? É uma mulher séria e bem equilibrada e como tal merece a mais absoluta confiança.

- Mas, se eu não fosse?

Estas suposições pareciam divertir prodigiosamente Didier.

- Se não fosse? - repetiu ele, rindo - Pois bem, provavelmente, não teria casado consigo!

- Poderia não lhe ter revelado os meus devaneios nocturnos se não no fim de um mês de casada, exactamente como o senhor fez.

- Era impossível... ou então a nossa vida seria diferente do que é.

Desta vez ria francamente.

- Enfim, não parece conceber a possibilidade de que lhe faça o mesmo?

- com efeito, não ponho semelhante coisa na minha imaginação.

- Entretanto, afirmo-lhe que se recomeçar com semelhante inconveniência, farei imediatamente o mesmo que fizer.

- Não acredito! - retorquiu Didier, sorrindo. Continuava risonho e bem humorado, como se

o que estava dizendo não tivesse grande importância e o divertisse.

Bem ao contrário, Claude discutia com veemência, embora o tom travesso, mas correcto, do marido, a constrangesse a uma certa moderação.

- Dessa maneira - continuou ela - por estar certo de que sou uma mulher honesta, pode entregar-se de noite aos mais disparatados passatempos?

- Ainda uma vez mais, querida amiga, exagera. A minha atitude foi absolutamente correcta, e, tendo em vista o respeito e as atenções com que a tenho tratado até aqui, não devia sequer ter dado pela minha ausência desta noite.

E ameaçando-a graciosamente com o dedo, disse ainda, destacando bem as palavras:

- Há um quarto de hora, minha senhora pequenina, que questiona comigo por um motivo pelo qual eu devia censurá-la, em lugar de ouvir as suas recriminações de garota ingénua.

Esta maneira de virar a questão irritou Claude.

- Querem ver que sou eu quem anda mal? O senhor passa a noite fora do seu domicílio, divertindo-se com outras, a gastar o dinheiro da mulher e segundo parece, devo ainda agradecer.

- Silêncio! - interveio Didier, pasmado ante as proporções que tomava o incidente - Em primeiro lugar, não desvie a questão para esse ponto. Faça-me o favor de não falar em dinheiro, assunto que, como sabe, me irrita ao último ponto. A sua fortuna, o meu nome e o nosso casamento não têm lugar neste debate. Saí esta noite e tive a infelicidade de lhe desagradar. Este é que é o caso. Para a outra vez esperarei que tenha adormecido. Parece-me que é o melhor que tenho a fazer.

- Nesse caso, vai recomeçar?

- Não me atrevo a garantir-lhe o contrário! afirmou categoricamente.

- Então convença-se que procederei de igual maneira... e sem grande demora...

Valencourt olhou para a mulher e disse passados uns instantes:

- Seria pena, Claude!

- Porquê?

- Porque nos entendemos bem os dois, os nossos feitios ligam menos mal e somos mais unidos que muitos pares casados por amor.

- E depois?

- Depois, se em verdade, por medida de represália... insisto sobre este ponto porque estou convencido de que não é inclinada para aventuras...

- Se lhe pagar na mesma moeda, meu caro senhor, achará, decerto, que andei bem.

- Talvez não! Sabe-se lá a reacção que semelhante acto tem sobre um homem?

- Lamentará ter-me feito chegar a semelhante extremo, é o que há de mais seguro.

- Ou partirei, muito simplesmente.

Havia momentos que Claude passeava no quarto como uma fera enervada, mas esta frase do marido fê-la estacar.

- Partir?... Para onde?

- Não sei! Uma vez, há alguns anos, uma mulher quis experimentar comigo essa brincadeira...

- E depois?

- Fui-me embora, simplesmente.

- Para Asnières?

- Só acordei na Alexandria.

- É um pouco longe para voltar! - retorquiu Claude ironicamente.

- Por isso não voltei... e não tornei mais a ver essa mulher.

- Nunca mais?

- Não.

- Foi radical!

- Como vê.

Claude reflectiu um instante e, depois, rindo, disse um pouco trocista:

- Comigo, talvez não vá a Alexandria.

- É provável, porque estou menos enamorado. A resposta indignou Claude.

- Além disso, está casado e eu represento para si obrigações e vantagens.

- Por conseguinte, iria naturalmente para menos longe.

- Evidentemente.

- Mas creia que seria tão radical como da outra vez.

- Na volta?

- Não, na despedida!

Claude encolheu os ombros como se não ligasse importância a estas ameaças, que classificava de fanfarronadas.

Então, Didier, pondo-lhe docemente a mão sobre o ombro, disse:

- Bem vê, menina minha mulher, que há brincadeiras que se não devem fazer nem mesmo consigo... principalmente consigo... Tenho, por vezes, mau feitio e se se divertisse com certas coisas que me não agradassem, nada me obrigaria a aceitá-las.

- Coisas que se dizem!...

- De qualquer maneira, vale mais não querer tirar a prova!

As suas duas mãos agarraram a cabeça da jovem revoltada, fitando bem de frente os seus olhos, brilhantes de ira.

- Criança grande, muito franca e muito recta, mas ignorando completamente a vida; não quebre o seu brinquedo. Haveria lágrimas nos seus belos olhos, que o orgulho faz brilhar... lágrimas cujo travo não conhece... e não quero fazê-la chorar.

Uma emoção súbita apertou a garganta de Claude. Como lhe parecia, agora, dolorosa aquela discussão com o marido! Porém, caprichosa como era, quis fazer triunfar a sua vontade e pediu ainda:

- Prometa-me não tornar a ver essa mulher! Uso o seu nome e não deve expor-me a passar ao lado de uma rival desconhecida, que riria de mim!

- Vaidade!

- Não. Simples moral. Sofri terrivelmente, esta noite, ante as mil suposições que fiz quando compreendi que se tratava de uma mulher. Pareceu-me Que tudo andava à volta... Era humilhante e horrível!

- Vaidade - repetiu Didier, tristemente, abandonando aquela cabeça orgulhosa, cujos lábios vermelhos lhe apetecia beijar. Claude sacudia a cabeça.

- Vaidade ou não, não quero! Prometa-me, Didier, que não recomeçará.

O rapaz fez um gesto fatigado, que correspondia ao seu pensamento:

"Estranha mentalidade, a das mulheres, que precisa de uma mentira para adormecer os seus receios".

E logo, em voz alta, num tom decidido:

- Está combinado que não sairei de noite.

- Como é bom! -exclamou num impulso de vitória, que, por momentos, a fez encostar-se ao peito do marido.

Triunfava. Tudo nela gritava a satisfação da sua vontade.

- Senhor meu esposo -continuou, radiante, depois desta discussão terminada com vantagem sua, segundo lhe parecia - prometo não pensar mais em... todas aquelas coisas! Esqueci tudo e, agora, tenho confiança em si.

Triunfante, quis ser magnânima e estendeu francamente a mão para a de Didier, não só na intenção de lhe agradecer, mas de selar uma promessa para o futuro.

- Estamos sempre de acordo e bons camaradas, não é verdade?

- Muito bons amigos - concordou o rapaz, sorrindo tristemente e beijando-lhe as pontas dos dedos.

- É delicioso entendermo-nos tão bem! -exclamou, entusiasmada - Didier tinha razão, há pouco. A nossa união é espantosa! Faz inveja a muitos casamentos de amor que conheço. É estupenda!

- Uma maravilha!

Valencort aprovara-a espontaneamente, mas se Claude observasse os seus olhos, veria que naquelas pupilas de aço, fugindo a fitá-la, se reflectia uma dúvida, de que não falava... uma restrição mental que julgava legítima, mas que guardava para si.

 

"Minha querida amiga:

"Peço-lhe desculpa de partir para Paris sem ter tempo de esperar a sua volta do passeio. Acabo de receber um telegrama reclamando urgentemente a minha presença junto de uma pessoa muito querida, que está enferma.

"Estou inquietadíssimo e sigo no primeiro comboio.

"Beijo-lhe a mão, minha querida amiga, confessando-me seu respeitoso

Didier Valencourt

Surpreendida, Claude releu duas vezes aquela carta. Decididamente, o marido começava a desprender-se. Agora partia deixando-a sozinha em Nice.

Em primeiro lugar, que história seria aquela? Uma pessoa querida, doente? Era órfão e não tinha irmãos nem irmãs, segundo lhe afirmara Michot, quando lhe dissera que não queria um marido com família.

Quem era então esse doente?

Naturalmente, uma mulher!

O marido não se privava. Além de uma aventura nocturna, havia agora uma doente...

Onde iria isto parar?

Teria, ao menos, podido explicar que laços o prendiam a essa pessoa. Um amigo? Um parente? Era, com certeza, uma mulher... Uma antiga amante, provavelmente. Talvez aquela por causa de quem fora até Alexandria.

Não lhe tinha confessado o seu amor por essa mulher infiel? com certeza que se tratava dela. É bom de dizer que se não perdoa e que se deixa de amar aqueles que nos fazem mal, porque logo que a morte ameaça um ente querido tudo volta à primeira forma.

De novo o espírito da milionária começou a trabalhar, arquitectando as mais variadas suposições.

"Nem sequer me indica o seu regresso-observou amargamente - Dir-se-á que entre nós não há o menor laço de intimidade. Somos dois estranhos que vivem juntos, sem se conhecerem. Eu falo da minha infância, dos meus pais, dos meus amigos, dos sítios onde vivi, das regiões que atravessei. Ele nunca me diz nada, nem sequer da mãe. Se algumas vezes, em conversa, procuro falar-lhe do primo romancista, único parente que lhe resta, encolhe os ombros e responde-me secamente: "É um original". Como se se tratasse de alguém de quem tivesse que se envergonhar... Enfim, vamos a ver quantos dias durará esta ausência. Decerto não me deixará sem notícias".

De facto, no dia seguinte teve um telegrama:

" Não poderei voltar antes de alguns dias. Peço-lhe me desculpe - Valencourt

- Ora aqui está! -disse, amarrotando o lacónico telegrama - Quer queira quer não, tenho de concordar, porque ele coloca-me diante de uma decisão já tomada.

Ficou de mau humor durante alguns dias, embora todas as manhãs recebesse umas palavras do marido, provando correctamente que não a esquecia.

Dera como endereço o nome de um grande hotel, próximo da Étoile, e Claude telefonou por várias vezes para esse hotel, perguntando pelo marido. Teve, porém, sempre a infelicidade de telefonar em ocasiões em que Didier estava ausente.

"Não percebo! -pensou - Oficialmente, ocupa um quarto nesse hotel, mas parece que nunca está. Em tudo é pouco franco! Ainda bem que, intimamente, o que ele faz me é indiferente! "

Umas vezes sem coragem, outras deveras arreliada, imaginava mil represálias para se vingar do ausente, mas não tinha ainda tomado qualquer resolução quando ele voltou.

Recebeu-o friamente, esperando com certa altivez as explicações a que se julgava no direito de lhe exigir.

Mas, talvez cansado da viagem, Didier contentou-se em desculpar-se, laconicamente, da sua partida precipitada e dos poucos dias passados longe de Nice. Como nada mais acrescentasse, Claude interrogou-o, num tom irónico:

- É talvez indiscreto da minha parte perguntar-lhe quem era essa pessoa tão doente, pela qual deixou tudo?

- Não é indiscreta, Claude - respondeu Didier, tristemente - Devia ter-lhe já dito que se tratava de uma velha parenta... a mais preciosa amiga que tenho tido.

- Velha? -retorquiu num tom de dúvida.

- Sim, infelizmente, velha e deprimida! Claude, que se preparava para troçar, viu de súbito humedecerem-se os olhos do marido, e como ele desse meia volta para se dirigir ao seu quarto, alcançou-o, prontamente, e agarrou-lhe o braço.

- Didier-disse com a sua espontaneidade habitual, que fazia esquecer os traços desagradáveis do seu feitio - peço-lhe perdão de ter duvidado de si! Informou-me que estava inquietadíssimo, mas vi nestas palavras apenas uma maneira de se esquivar a responder-me.

- Está desculpada, Claude, e não devia mesmo ter-lhe deixado transparecer a minha emoção... Estava apoquentado, e só isso pode justificar-me. A sua dúvida foi muito natural, porque é um sentimento bem feminino...

- Acredite que acompanho a sua mágoa! - balbuciou, um pouco confusa, julgando ver nas palavras do marido o esforço calculado para ser correcto.

- Agradeço-lhe - respondeu, sem abandonar o seu tom fatigado, mas impecável - Sei como é boa e estou-lhe infinitamente grato.

Claude deixou-o afastar-se. Tanta cortesia gelava-a. Parecia-lhe que aqueles poucos dias de separação tinham acentuado mais a falta de intimidade entre ambos.

Mais do que nunca, eram estranhos um ao outro e não havia entre os dois qualquer laço ou interesse comum. Pela primeira vez, Claude sentiu-se mal com esta maneira de viver, tanto mais que estava arrependida de não ter acolhido melhor o regresso daquele cujo nome usava.

Quando se tem um desgosto é que certas palavras têm valor, e ela percebia, agora, que, Indignada contra o que chamava a audaciosa ausência do marido, não soubera dizer as palavras de carinho e compaixão adequadas à circunstância.

Didier era sincero e tivera, na verdade, preocupação e desgosto. Então, aquele homem tão correcto, que mostrava sempre um ar irónico, sabia assim inquietar-se e sofrer por uma velha doente?

"A mais preciosa amiga! "-dissera.

Mas, porque nunca lhe falara nisso?

De pé, em frente da porta fechada que separava a sala do quarto do marido, Claude ficou imóvel, hesitando no que devia fazer.

Ir ter com ele? Para lhe dizer o quê?

Uma vez mais levantara-se no seu caminho o obstáculo das convenções sobre as quais tinham baseado o seu contrato de casamento.

Em realidade, só as aparências os uniam. Momentos antes, ele dera-lhe as explicações a que tinha direito, e, embora o fizesse com a máxima cortesia, não passara daí, e não tinha permitido, sequer, sondar a sua mágoa.

"Perdoe-me! Não devia mesmo ter deixado transparecer a minha emoção! ".

Como esta frase marcava bem o abismo que os separava! Esposos aparentes, nada existia que os aproximasse. Teria sido isto, realmente, o que aquela romântica rapariga desejara, pedindo à Selectagence que lhe escolhesse um marido?

Percebia, agora, que, afinal, só ela tomara a sério aquele casamento. Considerando Didier como um esposo a valer, ousara impor-lhe os seus gostos e as suas exigências.

Apesar das condições especiais em que casara, tomara logo os direitos e o tom de uma mulher legitima, enquanto ele, ao contrário, se mostrara sempre reservado como quem se conserva na expectativa.

Não pedia nada, não exigia nada, e parecia desinteressar-se de tudo o que dissesse respeito, exclusivamente, à mulher. Sim, tudo lhe era indiferente... salvo que fumasse, e isso mesmo, só quando estivesse presente.

"Porque usa o meu nome! " - explicara ele.

À parte isto, nada lhe importava. Aceitava tudo com muita correcção, mas com uma indiferença absoluta.

Claude respirou longamente, depois deste minucioso exame da situação. Não estavam as coisas assim, no melhor acordo, entre os dois? Não era a realização de uma camaradagem delicada, mas indiferente, que pretendera, depois de ter lido o famoso romance espanhol, de múltiplas e romanescas peripécias?

Entretanto, não estava completamente satisfeita com o que conseguira, porque o autor estrangeiro não previra semelhante indiferença da parte do marido.

Seria porque Claude não merecesse o seu companheiro? Era feia, desgraciosa? Das que não impressionam os homens? Era possível que um homem a quem pertencia legalmente pudesse mostrar-se insensível à sua constante presença?

Evidentemente que a jovem não queria viver até ao fim o romance espanhol. Ter-lhe-ia sido muito desagradável apaixonar-se pelo marido que comprara. Bastava esta ideia para sentir no seu íntimo uma grande revolta.

Em compensação, teria sentido grande prazer sabendo o marido apaixonado. Antecipadamente gozava a satisfação de o moderar... as palavras que são como um banho frio... o escárnio, que sabe aguçar o apetite... o riso, que desperta mais o desejo... enfim, o que contava gozar, e que sonhara para passar o tempo que conseguisse conservar-se indiferente junto de Didier, e tudo parecia fugir-lhe.

E isto, naturalmente, porque se casara.

- Fale-me da sua velha, amiga, Didier! -pediu ao marido quando tornaram a estar juntos - Porque não me fala, nunca, dos seus ou daqueles que estima?

- Nunca pensei que esse assunto pudesse interessá-la! - respondeu laconicamente.

O seu olhar altivo fitava as pessoas que passeavam na sua frente e, diante do silêncio um pouco hostil que guardou durante alguns instantes, Claude não ousou repetir a pergunta, mas fez um oferecimento que, segundo lhe parecia, devia ser melhor aceite.

- Conhece a pequena capela de Laghet, não é verdade? Faz-se lá uma constante peregrinação e gostava de ir ali consigo levar uma vela por intenção da sua amiga doente. Desagrada-lhe?

Didier não respondeu logo, como se pesasse todos os termos da proposta.

- Aceito acompanhá-la a Laghet! -disse, por fim - Iremos quando quiser.

- Esta tarde mesmo, pode ser. Vamos logo, depois do almoço e tomamos lá o chá.

Como quiser.

O automóvel, seguindo pela estrada da Grande Cornija, transformou este pequeno passeio numa magnífica e longa excursão.

Depois das esplêndidas perspectivas da estrada cheia de impressionantes meandros, os cantos ver de antes do vale ensombrado, ao fundo do qual se ergue o pequeno santuário de Laghet, rodeado pelo seu adro original, eram um encanto.

- Conhece a lenda? - perguntou Claude, inquieta, antes de entrar na capela.

- Não; conte lá!

Explicou-Lhe, então, que uma crença popular atribui um valor milagroso à primeira visita que se faz a uma igreja.

- Compreende, Didier? Pedem-se três coisas e Deus faz-nos, pelo menos, uma.

- Mas isso é uma mina de ouro! - respondeu, rindo - Os turistas que visitam muitas igrejas podem ter a certeza de ver realizados todos os desejos.

Enquanto Claude acendia uma vela e ficava absorta nas suas orações, Didier examinou, com atenção, a capelinha que a gratidão dos fiéis ornava havia vários séculos de uma pitoresca maneira. A própria ingenuidade das promessas interessavam-o.

- Aqui está uma Virgem democrática - observou, quando Claude foi ter com ele - Parece ter, unicamente, protegido os humildes.

- É verdade! -respondeu fervorosamente Tem-se a impressão de encontrar aqui a fé popular em toda a sua força. Ninguém se atreve a escarnecer nem a exprimir uma dúvida, e os que não crêem devem calar-se ante a bela e eloquente simplicidade destas promessas.

- Muito poético e muito curioso! -disse ainda, quando se sentaram no terraço do último café existente naquele lugar.

Claude inclinou-se para Didier.

- Pensou nos seus três desejos? -perguntou com malícia, mas corando um pouco pela indiscrição da pergunta.

- Estou certo de que também se não esqueceu deles! - respondeu, sorrindo.

- É verdade! Pedi com fé, porque me pareceu que nesta pequena igreja estava mais perto do céu do que nas grandes catedrais.

- Se a lenda for verdadeira, está, pois, certa de realizar-se uma das coisas que pediu. Há-de dizer-me qual foi, se isso lhe acontecer.

- Posso dizer-lhe já quais foram as três coisas que pedi; não faço segredo delas, visto que dizem respeito a nós dois.

- Não é possível!

- Sim, é...

- Então, escuto-a.

- Em primeiro lugar, pensei na sua parenta, visto que tínhamos vindo por causa dela... na senhora doente... na sua amiga...

- Muito agradecido - respondeu o rapaz cortesmente.

- Em seguida, pedi para que a minha vida actual fosse, também, a de amanhã.

- A de amanhã?

- Sim... Didier e eu... que isto não mude!

O advogado sobressaltara-se um pouco e soltara uma exclamação em tom grave.

"Será possível? " - perguntou a si próprio.

Disfarçadamente, a milionária tentava decifrar no semblante do companheiro qual a impressão causada pela sua surpreendente declaração, mas o marido não deixava com facilidade adivinhar o que sentia.

Ao fim de um instante, perguntou, olhando-a curiosamente:

- É então feliz, assim, Claude?

- Sim... muito feliz. Não acha?

- As férias trazem encantos, porque se sabe que elas não podem durar perpetuamente.

- Mas nós não estamos em férias.

- No entanto, é um pouco isso.

A subtileza das respostas de Didier não escapavam a Claude.

- Nada nos Impede de continuar sempre esta vida, se ela nos agradar assim! -observou - Sempre! Sempre...

- Que engano! O acaso basta para decidir de outra maneira.

- Ora! O acaso no casamento! Este é uma coisa positiva, parece-me.

- Que se baseia, apenas, numa certidão de registo civil.

- Isto chega, creio eu.

- O que vale um papel, diante do misterioso destino que o futuro reserva para cada um!

- O que quer dizer?

- Que se amanhã aparecesse no seu caminho o amor, com os seus fortes encantos, penso que não seria a nossa certidão de casamento o bastante para a prender junto de mim.

- Porque não? Há a minha promessa e o dever!

- Fracos laços! A voz do amor é a mais invencível contra todos os obstáculos... é a mais poderosa de todas as desculpas e de todas as absolvições.

Pelo rosto de Claude passou um vislumbre de malícia.

- Admite, então, a possibilidade de o deixar alguma vez? -perguntou, alegremente.

- Já tenho pensado que isso pode acontecer... Chegará o dia em que sinta a necessidade de fixar solidamente a sua vida.

- com prejuízo seu?

- Quem sabe? Há um provérbio que diz que uma desgraça serve sempre para alguma coisa.

- O senhor é filósofo. As minhas felicitações!

- retorquiu.

- Não há razão para isso - respondeu Didier

- A vida ensina-nos que tudo tem o seu papel bom.

- Ainda assim, actualmente, está no seu direito de se julgar por muito tempo tranquilo e ao abrigo de certos cuidados materiais... bem desagradáveis quando se não tem fortuna.

Valencourt conseguiu, a custo, conter o riso.

Decididamente, aquela questão do dinheiro tinha para ele uma graça inaudita.

"É preciso rever o nosso contrato de casamento -pensou Claude - O procurador do meu marido deve ter-lhe preparado habilmente grandes vantagens em caso de rompimento... ".

Como, reflectindo nisto, ficasse silenciosa, foi Didier quem recomeçou a falar.

- Nunca pensou, Claude, que podia ser eu quem primeiro quisesse recuperar a liberdade? - perguntou docemente.

- Didier?

Nos seus grandes olhos passara uma surpresa.

- Que loucura poderia levá-lo a um acto tão prejudicial aos seus interesses?

- Sabe-se lá! -volveu o marido com a maior calma - Os homens têm, por vezes, a ânsia de se evadir para outro ambiente e contemplar novos horizontes. Resistirei às tentações a que tantos outros não têm resistido?

Claude relanceou-lhe um olhar indignado.

- É tudo o que tem a dizer para me tranquilizar?

- Para que mentir? Porventura, saberemos nós o que faremos amanhã?

Por um momento, a jovem milionária ficou enleada. Aquele endiabrado marido tinha uma tal maneira de equilibrar as coisas, nivelando-se com ela num pé de igualdade, que chegava a perguntar a si própria se seria preferível rir-se ou mostrar a sua indignação.

Não poderia, também, dar-lhe uma pequena lição? Recordar, por exemplo, o seu contrato, a que ele parecia não ligar importância?

- Sei o que me reserva o futuro! - afirmou Claude, arrogantemente - Sou leal, e, provavelmente, conservar-me-ei fiel ao compromisso que tomei, enquanto o não esquecer.

- É um belo programa - respondeu Didier, muito sério -O que eu não compreendo é que inutilize a sua vida por mim, que sou, apenas, seu marido na aparência.

- Não é por si - replicou ela, feliz por poder dizer esta frase que iria magoá-lo- é apenas por respeito à palavra dada.

- Ficam-lhe muito bem esses sentimentos.

De novo troçava, o que havia algum tempo tinha o dom de enervar Claude.

Para se vingar, ia dar-lhe qualquer resposta inesperada, daquelas de que parecia ter o segredo, quando o marido lhe fez uma pergunta tão imprevista que a levou a esquecer tudo o mais.

Nunca amou, Claude?

Era tão formidável semelhante indiscrição, que se fez vermelha, perguntando a si própria se seria conveniente responder.

Poderia, sem se envergonhar, dar-lhe a conhecer a verdade?

"com um homem tão trocista como Didier, não se sabe nunca o que será conveniente dizer! -reflectiu.

Mas, por outro lado, era perigoso inventar uma mentira, porque num dia mais ou menos próximo seria a primeira a desmentir-se.

- Esteve para me acontecer isso várias vezes

- confessou simplesmente - mas por perceber sempre que o homem que ia amar era indigno de mim, dominava-me e fazia calar o meu coração.

- Pois bem -disse Didier firmemente- a isso não se chama amar! Quando o amor vier... falo do verdadeiro amor, daquele que se não domina, Porque se impõe fortemente... estou convencido, Claude, que não será senhora de si. Nessa altura a nossa certidão de casamento não pesará na balança das suas hesitações e encontrará então peremptórias razões para desatar os fragilíssimos laços que a prendem a mim.

- E então o senhor? -insistiu de novo, como Se lhe interessasse muito mais aquilo que ele pudesse fazer um dia, do que o seu próprio procedimento- Se encontrar alguma vez uma mulher que lhe agrade?...

- Naturalmente, sigo-a! - confessou lealmente -Era preciso muito estoicismo para me portar de oUtro modo.

- E o senhor não é um herói! -observou um pouco nervosamente.

- Só se deve ser herói em casos extremos.

- Acha então que não me deve nada... Que nenhuma obrigação o liga a mim?

Ou por querer ou não, o seu tom tornava-se agressivo.

Didier fitou-a com pasmo. Era bem curiosa de observar a mentalidade daquela rapariga, que fora a primeira a falar do divórcio, antes mesmo de se casarem.

Por certo quereria, no dia em que esse se tornasse necessário, ser ela quem tomasse a iniciativa de o pedir.

"Orgulho e vaidade! " -pensou.

E no rosto de Claude, que tentava decifrar, não podia ler-se outra coisa.

- Tudo o que acabamos de dizer, baseia-se apenas em suposições -continuou Didier- Tanto Claude como eu, ignoramos totalmente o que o futuro nos trará... É muito curioso que ele tenha feito cruzarem-se os nossos caminhos... Por isso não podemos adivinhar o que nos reserva o destino, nem tentar modificá-lo.

- Parece-me que dá um largo quinhão da nossa vida ao acaso!

- Porque temos de o sofrer! Se não está admirada de me ver ao seu lado é porque tem uma grande confiança no poder da sua vontade, e esquece-se de contar com as forças desconhecidas que regem os nossos actos. Afirmo-lhe que estou admirado de que use o meu nome! Todos os dias julgo que vou acordar e verificar que esta aventura não passa de um sonho.

Claude desatou a rir. O seu mau humor passageiro desaparecia ante a afirmação do marido que comparava o casamento de ambos a um sonho.

"Um belo sonho para ele... Uma maravilhosa aventura que não contava viver... É isto o que ele pensa" -imaginara Claude com toda a sinceridade.

E sem duvidar da sua cega pretensão, aceitava esta conjectura como uma homenagem que Didier lhe prestava.

 

Já dissemos que Claude era muito autoritária. Habituada desde criança a ver toda a gente obedecer-lhe, tomava, por vezes, com Didier, um modo despótico, que o fazia irritar.

Nesses momentos, o rapaz mostrava-se distraído, parecendo preocupado com outra coisa diferente das palavras proferidas pela mulher e, se esta insistia, na intenção de o levar a praticar aquilo que pretendia e que a ele não lhe agradava, respondia, então, cortesmente, mas negando-se, de uma forma terminante, sem transigir.

O seu não era claro, firme e definitivo.

Claude conhecia, então, o olhar glacial e duro que a desafiava, e, apesar de todo o seu aprumo, era ela quem, instintivamente, recuava.

Pelo menos, foi assim ao princípio da vida em comum, porque, pela continuação, desejando não se mostrar numa atitude que lhe parecia desfavorável, Claude evitou levar tão longe, com o marido, as suas pretensões de domínio.

Por sua vez, o advogado, não se sentindo ameaçado no seu livre arbítrio, foi mais conciliador e condescendeu mais facilmente com os desejos da sua companheira.

Mas não se usufrui durante anos de uma autoridade absoluta, sem que de vez em quando ela se manifeste.

Foi o que sucedeu a Claude ainda uma vez, numa noite em que não dormia.

Maria Jousserand contara, outrora, ao notário, certas manias da sua antiga discípula e falara, entre outras, na de acordar as pessoas nas noites de insónia.

Ora, uma noite em que não podia conciliar o sono, Claude fez o mesmo com o marido. Foi Celine a encarregada de chamar Valencourt.

- A senhora manda pedir o favor de ir falar-lhe.

Acordado em sobressalto, Didier informou-se:

- O que há? A senhora está doente?

- Não, senhor, mas não pode dormir.

- Na verdade? Que horas são?

- Três horas da manhã.

- O quê? Três horas? E a senhora manda-me chamar?

Celine sorriu, mas não ousou dizer nada.

- Acontece muita vez à senhora não poder dormir?

- Acontece.

- E acorda-a sempre que não tem sono?

- Habitualmente... bem como à senhora Jousserand... mas como esta, agora, não está cá...

- É talvez, por isso, que a senhora me chama.

- Talvez, sim...

- bom, vou ver o que se passa.

Ninguém gosta que lhe quebrem o sono, e Valencourt achou que a sua mulher abusava um pouco. Enfim, podia estar doente... era bem natural, neste caso, que o mandasse chamar.

Passados dez minutos, o tempo necessário para enfiar um roupão por cima do pijama e alisar com uma escova o cabelo, Didier foi ao quarto de Claude.

Era a primeira vez que a via com a toilette da noite.

- O que há, minha querida amiga? -informou-se cortesmente, mas sem inquietação, vendo-a de esplêndida aparência.

- É horrível. São três horas e ainda não fechei os olhos.

- E depois?

- Não sei o que tenho! -respondeu, mais tímida ante a brevidade da pergunta.

- Ontem à noite quis, forçosamente, comer lagosta à americana e em seguida bebeu dois cokctails, com o pretexto de fazer descer o crustáceo. Façanhas como esta não se fazem impunemente!

- Não o mandei chamar para criticar os meus actos -respondeu Claude, mas de bom humor.

- Evidentemente que não! -concordou Didier, bocejando.

E, passado um momento, acrescentou:

- Que posso fazer por si?

- Não sei; o facto é que não durmo.

Didier relanceou um olhar a Claude e às duas raparigas, porque a criada de quartos daquele andar também fora acordada.

Pelos lábios do advogado passou um sorriso.

- E, naturalmente, como não dorme, os outros também não devem dormir? -perguntou, trocista.

- Quem me dera que toda a gente ressone!...

Mas é horrível estar sozinha, às voltas na cama toda a noite.

- É, na verdade, muito desagradável -concordou, com ironia- Isso acontece-me algumas vezes, mas ainda não me tinha lembrado de a mandar chamar.

Pelo seu rosto passou um vislumbre de alegria. Que ideias lhe teriam vindo?

Voltando-se para as duas criadas, a quem a vivacidade do seu gesto surpreendeu, disse, simulando um descontentamento súbito:

- O que fazem aí? Vão-se deitar!

- Mas...

- Como? -interrompeu o advogado, sem lhes dar tempo de acabar- A senhora dá-me a honra de me mandar chamar, às três horas da manhã, e vocês cometem o abuso de ficar aqui?

- Perdão... - interveio Claude, que ouvia, estupefacta, o marido- Chamei-as para estarem ao pé de mim...

- Vão! Vão! Saiam! -insistiu Didier, gritando com força, para que a sua voz fosse mais alta que a de sua mulher e fingindo não a ouvir- Não são cá precisas!

As duas criadas afastaram-se precipitadamente. Apesar da voz grossa com que Didier lhes falara, tinham adivinhado no seu olhar que o que ele pretendia, na realidade, era assegurar-lhes uma noite melhor do que aquela que a senhora queria fazer-lhes passar.

- O que tem, meu amigo? Porque mandou embora as minhas criadas? -perguntou Claude ao marido, logo que estas sairam.

- Nada tinham que fazer aqui! -respondeu com a maior naturalidade- São indiscretas e trata-as bem de mais, Claude. É deplorável. Vigiam-na como se dependesse delas. A Claude é uma criança e privam-na inteiramente da sua liberdade.

Sentando-se, familiarmente, na beira da cama, agarrou-lhe as duas mãos e guardou-as entre as suas.

- Minha querida!... Como abençoo a sua falta de sono! É tão agradável estarmos aqui os dois a esta hora. Deixe ver, primeiro, as mãozinhas; não tem febre!... Não, porque não estão muito quentes. E o pulso?... Normal. A cabeça?... Nada de enxaqueca?

Docemente, afagava a testa, para onde caía, graciosamente, uma madeixa de cabelo. Depois, a sua mão, mais audaciosa, desceu numa carícia até ao ombro, que aparecia através da renda.

- Minha querida... como foi gentil chamando-me para junto de si! com esta maldita obrigação que me impôs, não posso tomar nenhuma iniciativa!... Foi mesmo um pouco cruel em ter exigido a minha palavra a respeito de coisas tão naturais entre casados... Felizmente que de si tudo é permitido! É delicioso que se tenha lembrado, esta noite, de que sou seu marido.

Cobria-lhe as mãos de beijos, que, pouco a pouco, iam chegando até aos pulsos e se aventuravam mais alto.

- Que lindos braços!

- O senhor não está bom!

Ante o gesto demasiado audacioso, Claude, de um salto, saiu da cama pelo lado oposto àquele onde estava o marido.

- Endoideceu, com certeza! -disse com voz alterada.

Didier fitou-a um instante, sem responder, mas o seu sorriso era tão atrevido, tão intensamente trocista, que desnorteou a mulher.

- A sua hesitação é muito natural, minha querida! -continuou- Vamos, volte para o seu lugar. Foi tão gentil em não querer ficar só na sua cama!

- Está enganado... não quis...

- Acordar-me inutilmente às três horas da manhã? Pois decerto. E eu que dormia tão bem!

Descuidosamente, levantou-se, bocejando.

- Felizmente que a noite não acabou e que temos ainda algumas horas diante de nós... para estarmos juntos.

Claude observava os seus movimentos, cheia de inquietação, como se o marido fosse uma fera de quem houvesse tudo a temer.

- Vá-se embora! -pediu numa voz sem timbre- Eu... prefiro ficar só!

- Que pena ter mudado tão depressa de opinião.

De novo a examinava com um olhar cheio de impertinência.

- É deliciosa, assim, Claude... Os cabelos soltos, pálida... os olhos cheios de sono... esse vestuário que lhe vai tão bem! E, além de tudo, essa emoção que a faz tremer... Abençoado Morfeu, que a abandonou esta noite. Tenho a impressão de que foi ele quem ma deu.

- Não, não! Engana-se! O que imagina?...

Didier ficou um momento diante dela. De pé, do outro lado da cama, de mãos nos bolsos e a cabeça altiva, bem levantada, nos lábios o seu eterno sorriso, parecia dominar de novo a sua emoção.

Depois, mudando subitamente de tom, disse-lhe da mesma maneira como costumava falar-lhe:

- Vá, deite-se outra vez! Por hoje, admito ter- me enganado a respeito das suas intenções, mas, por favor, não torne a comer, à noite, lagosta à americana, ou então não acorde as pessoas se outra ceia a impedir de dormir. Dá a impressão de uma mulher... desequilibrada... cujos nervos precisam de... ser sacudidos.

- O senhor abusa!

- Às três horas da manhã, só num caso de doença se acordam os outros. Diz que me enganei. É possível! Mas qualquer outra pessoa se teria enganado, asseguro-lhe.

Tranquilamente, afastou-se, mas, antes de desaparecer, voltou-se:

- Boa noite, Claude.

- Boa noite...

Um último olhar, ainda um sorriso trocista e saiu.

Imóvel, Claude viu a porta fechar-se. A audácia daquele homem era incrível! Ele, que habitualmente era tão correcto, atrever-se a imaginar...

Corava de despeito. Claude exercera sempre este despotismo à sua volta e ninguém que dependesse dela se tinha permitido falar-lhe assim.

Teria o seu pessoal, alguma vez, feito as terríveis suposições que Didier citara?

"-Uma mulher desequilibrada... Nervos que tinham precisão de..."

Sentia-se desnorteada. Em verdade, mandando-o chamar, naquela noite, não pensara que ele pudesse interpretar dessa maneira a sua conduta. Era absolutamente humilhante para ela, mas o que mais a impressionava era a atitude do marido.

Nunca tinha calculado que fosse tão pouco cortês e sentia, agora, que se enganara redondamente, fiando-se no seu arzinho de santidade.

- Que aprumo deve ter com as mulheres! Ainda há pouco se mostrou bem pouco tímido!

Era a primeira vez que via o marido assim vestido e atribuía ao fato -ou, antes, à falta de fato

- uma parte da impressão que lhe causara.

"Um homem com fato de passeio ou de baile é bem diferente do mesmo homem de roupão. Enquanto o primeiro parece de uma correcção inexcedível, o outro tem todo o ar do libertino. Acontece com os fatos, naturalmente, o mesmo que com a alma. Por isso, nunca se deve ver um homem em pijama! ".

E de novo se sentia inquieta diante daquele homem cujos sentimentos ignorava, e que apenas conhecia na aparência.

Em boa verdade, de onde viera ele? O que fez até agora? Ignorava tudo e antes de adormecer pensou nestas coisas durante muito tempo. No seu cérebro ia uma tempestade; desta vez tinha seriamente os nervos à flor da pele e gostaria que lhe aparecesse alguém sobre quem pudesse descarregar o seu mau humor.

Entretanto, com os olhos esgazeados e sem conseguir adormecer, ficou sozinha, no quarto, e a sua mão não procurou a campainha para chamar a criada, como costumava fazer.

Dominada pela espantosa atitude do marido, receava vê-lo aparecer outra vez com o seu irritante sorriso e o seu olhar atrevido.

 

Claude receava encontrar Didier no dia seguinte e que este aludisse com alguma frase trocista ao que se passara durante a noite, deixando-a pouco à vontade. Mas não foi assim.

Quando, ao vê-lo, Claude se sentiu corar e desviou o olhar, temendo encontrar o do marido, este, ao contrário, dirigiu-lhe a palavra com a maior simplicidade.

Enquanto trocavam frases banais a respeito do tempo e das notícias lidas nos periódicos dessa manhã, Claude reparou que, olhando-a de revés, Valencourt tentava ver reflectirem-se no seu rosto os pensamentos que podia ter-lhe sugerido a cena da véspera.

Embora, porém, nenhum deles aludisse ao caso, Claude sentia que não se desvanecera a impressão de surpresa causada pela atitude provocante do marido.

Assim, no restaurante, a jovem, cujo espírito de observação estava agora mais refinado, teve ocasião de notar vários traços do carácter íntimo do advogado.

Almoçavam no meio de uma assistência numerosa, quando a sua voz levemente trocista perguntou, alegremente:

- Didier, porque olha com tanta insistência as mulheres que nos rodeiam?

- Eu?

A admiração do advogado era sincera e Claude sorriu.

- É muito curioso e não dá pela acuidade de certos olhares. Assim, há dez minutos que olha para aquela senhora morena, que está à esquerda. Estive a observá-lo e vi que por dez vezes os seus olhos quiseram desprender-se dela, que parecem influir sobre si à maneira de um imã que o atraísse, obrigando-o a continuar o seu exame. Valencourt sorriu.

- Nunca imaginei que lhe merecesse tanta atenção.

- Claro! Está sabido que nesses momentos eu não conto!

- Protesto!

- Não proteste, porque seria falta de sinceridade. Vamos, senhor meu marido, começo a conhecê-lo! Isto não é uma censura que lhe faço e peço-lhe mesmo que não o tome assim. Simplesmente, diverte-me observá-lo e sublinhar, hoje, a sua maneira de proceder.

O rapaz pôs-se a rir.

- A Claude é terrível. Não me atrevo mais a olhar para ninguém, diante de si.

- Seria pena, porque olha bem e com uma naturalidade...

- Ora vejam!

- Assim, quando chegamos a um restaurante, sei perfeitamente como faz! continuou ela, animando-se- Vai ver se é ou não como eu digo. Logo que se senta relanceia um olhar à volta, para saber se entre as pessoas que nos rodeiam há alguém conhecido que o incomode.

- Perdão! Ninguém me incomoda.

- Enfim, pelo menos dá essa impressão. Depois, um outro olhar para distinguir certas pessoas de categoria... O senhor tem instinto, e quase sempre aquelas por quem se digna tomar interesse são pessoas de valor e, amiudadas vezes, bastante conhecidas.

Que bom cão de caça se teria feito de mim!

- Não ria! -disse Claude, sorrindo- É quase isso! Descobre logo numa sociedade aqueles com quem vale a pena preocupar-se. Mas, quando se trata de mulheres, o seu olhar anima-se e, de superficial, torna-se profundo e por vezes indiscreto.

- Mas é horrível, o que acaba de dizer! E eu que me julgava a pessoa mais reservada deste Mundo!

- Sim, o senhor talvez, mas os seus olhos! Afirmo que os seus olhos têm todas as audácias!

- São uns libertinos que mereciam ser encarcerados por detrás de uns vidros escuros!

- Isso torná-los-ia hipócritas, mas não conseguiria dominá-los, porque os julgo incorrigíveis.

- Tenho-os mimado doidamente e tenho-lhes dado todas as liberdades. Agora é tarde para os proibir de olhar isto ou aquilo... seriam capazes de ir contra as minhas proibições.

- É evidente. Por isso, quando é uma mulher que eles descobrem... uma mulher bonita, já se vê... brilham logo.

- Quer dizer que têm bom gosto...

- Sim, e brilham... Então olha a mulher... a mulher bonita... primeiro o rosto, depois o decote, ? vestido, volta ainda ao rosto, analisando-lhe a expressão... Adivinho que procura saber de que género de mulher se trata. Coloca-a na sociedade, dá-lhe uma personalidade e, feito isto, recomeça o seu exame físico. De repente, sinto que a despe e QUe através das suas roupas observa a sua plástica e se apossa do seu corpo!

- Silêncio! -protestou o rapaz, divertido

Isso são segredos de alcova.

- Sim, evidentemente! - concordou Claude, desta vez menos sincera -Esse facto de a despir, embora com a vista, perturba por vezes a mulher de quem se trata e a mim incomoda-me, porque assisto. Nestes momentos, Didier, esquece-se de que estou ao seu lado... Eu não conto, não sou nada.

- Exagera!

- Sim, nessas ocasiões, não devo valer muito para si. Na realidade, qual é o meu papel, no meio disto tudo?

Alegre como o faziam estar as observações de Claude, o advogado teve vontade de lhe dizer que ela era apenas espectadora, e, em verdade, a humorística palestra dos dois permitia essa resposta atrevida.

Absteve-se, porém, correctamente, de o dizer, o que não evitou que o seu pensamento se transmitisse, porque o rosto da mulher alterou-se e respondeu:

- Bem sei que sou a esposa e não conto, mas isso não é uma razão para que me esqueça totalmente.

E, debruçando-se para o marido como para criar intimidade entre ambos e melhor fazer penetrar o seu pensamento, afirmou:

- Acredite, Didier, que não sou ciumenta. Longe de mim tal pensamento e no estado de espírito em que nos casámos isso seria inadmissível, mas não deve esquecer que acompanha uma senhora. É muito desagradável e muito humilhante para aquela que está a seu lado! Diante de mim, evite, pois, olhar para outras mulheres. Um marido deve observar uma certa conduta para com a sua mulher. Por favor, não perca o domínio de si com tamanha facilidade!

julgo que exagera e que através de tudo estou muito menos na lua do que imagina, mas se isso me acontecer... involuntariamente, asseguro-lhe, chame a minha atenção! E agora, que me fez essas observações, esforçar-me-ei por me distrair menos.

Claude aceitou, com satisfação, essa promessa, cheia de boa vontade, o que não a impediu de responder:

- Bem vê que não é com o meu assentimento que o seu espírito se evola! Hoje, porém, vejo que consegui distraí-lo e que há um quarto de hora não pensa na senhora morena que está na mesa da esquerda! É um grande triunfo que obtive sobre ela.

- Claude é infinitamente melhor que aquela mulher e, naturalmente, muito mais bonita que todas essas bonecas pintadas ao lado das quais passamos todos os dias. Acredite que entre elas e Claude nunca fiz uma comparação que lhe fosse desfavorável.

E como a viu corar de prazer, acrescentou, para a convencer melhor da sua sinceridade:

- Sei que tenho a mania de observar tudo o que se passa à minha volta... e seria quase inqualificável se este hábito de decifrar as coisas não fosse, acima de tudo, uma necessidade de análise, uma necessidade intelectual. Asseguro-lhe que, quando fito uma mulher e mesmo quando a dispo, como diz. não é o meu instinto de homem que desPerta! A impressão é absolutamente cerebral. Sou um sonhador que sonha acordado, ou um psicólogo que inconscientemente procura motivos; como quiser, contanto que seja uma coisa neste género o que vê em mim dominando o resto e mais nada.

- É possível e agradeço-lhe ter-mo dito. Fora deste campo, é, geralmente, um camarada encantador, com quem me sinto em perfeita comunhão de ideias... É também a sua opinião, não é verdade?

- Absolutamente! -respondeu com a mais perfeita amabilidade.

- Sim, em comunhão de ideias -continuou Claude, fitando-o mais demoradamente- A não ser quando me anuncia, como no outro dia, que precisa de ir a Paris tratar de negócios.

- Mas eu diligenciei vê-la e desculpar-me antes de partir.

- Bem sei, bem sei! Foi muito correcto, mas concorde, Didier, que não distingo bem que género de negócios pode tê-lo feito voltar a Paris, ainda uma vez!

- Foi só ida e volta!

- Bem sei que não podia ver a capital em menos tempo. Entretanto, um negócio... um negócio urgente não era um pretexto muito sério... Não tem fortuna e não compreendo que espécie de negócio podia exigir a sua presença imediata em Paris.

A expressão de Valencourt transformou-se. Chamado por uma carta que não lhe mostrara, partira um pouco precipitadamente, mas tinha voltado com igual rapidez. Não via em que o seu procedimento pudesse ser censurável. Aquela mulher que tanto o prendia, quereria acorrentá-lo por completo?

Como Didier se calasse, Claude recomeçou com amargura:

- Ultrapasso certamente os direitos que me concede, interrogando-o. Os seus negócios não são comigo, nem devem interessar-me, assim como a doença dessa senhora cujo grau de parentesco ignoro.

- Aqui está uma conversa que ameaça tornar-se desagradável! -interrompeu, friamente, Valencourt- Tenho a impressão de nunca ter sido menos atencioso consigo e lamento ter que lho lembrar.

- Não! Peço-lhe que não tome esse tom cerimonioso, porque as minhas reflexões não querem ser agressivas. Didier é um companheiro agradável, e agradeço-lhe muito a sua impecável correcção.

- Prefiro essa linguagem.

- Sim - repetiu Claude - um companheiro agradável. Talvez como marido é que...

- É que deixo a desejar? -perguntou o rapaz, trocista.

- Nem mesmo isso! -respondeu Claude com um sorriso que procurava atenuar a audácia da observação- Tenho a ideia... parece-me que não consegue entrar na pele da personagem.

- Tenho o ar de marido de comédia?

- Disse a expressão da verdade. Dá-me a impressão de não se integrar completamente no estado de homem casado.

A reflexão de sua mulher agradou a Didier. Aquela pequena Claude não era tola e fazia comentários muito a propósito.

Sem procurar vexá-la, concordou:

- Confesso que não estou bem seguro da minha situação. Tenho, talvez, o aspecto de um pássaro pousado num ramo... um pássaro que levantará voo um dia...

- Percebo. Falou de mim, ao menos, a alguém dos seus conhecimentos?

- A ninguém.

- Nem mesmo a essa senhora... sua velha amiga?

- Ainda não.

- Porquê?

- Espero.

- Espera o quê?

- Não sei! Possivelmente, a catástrofe que me levará de novo à minha casa de rapaz solteiro.

Claude registou a palavra: ele tinha dito catástrofe!

- Tem pouca confiança! -replicou- Em quem ou em quê? Em si, em mim ou no futuro?

- Talvez em todos três. Uma coisa é certa: é que não me instalo, como diz. Quer acreditar que algumas das minhas malas ainda estão cheias? Que não despejei nenhuma das minhas gavetas e a minha roupa está sempre em ordem? Bastar-me-ia uma hora para as acabar de encher e afivelar.

- É horrível essa reserva! Porquê?... O que pode recear?

- Nada e tudo, provavelmente! Um capricho do acaso fez com que se tornasse minha mulher. Outra fantasia do destino pode afastar-me da sua vida. As unhadas do destino parecem-se com as do gato: não se vêem chegar, por isso não nos podemos livrar delas.

- É estranho - volveu Claude, pensativa Sempre imaginei que os laços do casamento fossem sérios.

- Tem razão, o casamento é uma coisa séria, mas bem vê que num caso como o nosso tudo é convencional.

- No entanto, o oficial do Registo Civil e toda a nossa papelada afirmam que somos casados...

Disse estas palavras com a voz trémula, o que sem querer notou. Porque se comovia assim tolamente por um assunto daqueles? E aprumando-se num esforço que dominava ao mesmo tempo o moral e o físico, repetiu, desta vez quase indiferentemente:

- Estamos casados.

- É verdade! Usa o meu nome e é minha mulher perante a Lei.

- Isso dá-lhe vontade de rir?

- Sim, porque me faz lembrar o senhor gordo com uma fita tricolor a tiracolo que nos fez um discurso a respeito dos nossos deveres recíprocos, e isto não pode deixar de me dar vontade de rir.

- Não toma nada a sério! -respondeu a rapariga, rindo também- E naturalmente a ideia que faz do casamento ressente-se disso.

- E tem uma ideia diferente a esse respeito?

- Sim, talvez! -confessou Claude- Mas como me parece ainda muito mais original do que a sua, é preferível não lha dizer. E afinal, não temos razão para criticar muito o casamento, porque estes dois meses passaram como um sonho.

- Dois meses! -redarguiu Didier com um estremecimento- Há dois meses?

- Sim, sim! E como vê não se tem aborrecido comigo!

Claude parecia encantada, mas o marido, não encarando a questão do mesmo modo, continuou, Pensativo:

- Nunca julguei possível viver dois meses esta vida insípida e inútil!

- É um êxito que me cabe a mim!

- Não! - respondeu Valencourt, gravemente É uma ociosidade que recairá talvez um dia sobre si, minha linda senhora.

Claude sorriu.

- Porque lhe parece sempre que deve trabalhar para viver, Didier! Ora vamos, acredite-me! A vida é bela quando é isenta de cuidados. Habitue-se de vez às vantagens que ela lhe oferece.

Valencourt não respondeu. Por um instante, olhou a mulher, que o belo sol aureolava de ouro e, depois, os seus olhos erraram pelo mar, onde ao longe uma vela parecia perdida entre a água e o céu. Comparou-se àquele barquito sacudido pelos elementos. Estava ali naquele dia, mas onde o levaria o futuro se o vento soprasse contra ele?

Aquela pequena Claude era uma companheira encantadora, e nada mais.

Ele sonhava aventuras e coisas extraordinárias. Aquele casamento, começado em fantástico romance, prolongava-se como uma história sensata e normal.

Claude confessava que se instalara de todo na sua situação de mulher casada e chegaria um dia em que, naturalmente, lhe caísse nos braços e se tornasse, de facto, sua mulher, sem lutas, sem emoção, sem amor...

Aquilo que ele supusera uma sequência de escaramuças e tumultuosas aventuras, acabaria prosaicamente numa vida metódica, ociosa, insípida, pelos hotéis, onde todos os dias se seguem monotonamente as habituais convenções de snobismo ridículo e costumes antiquados, que a sociedade classifica de bom tom.

Tanto bastava a Claude, visto ser dessa sociedade elegante, mas a ele, por quanto tempo suportaria ainda essa vida, com o seu feitio de pardal vagabundo habituado a voar sob todos os céus e a quem ofereciam uma gaiola dourada?

 

- É a terceira vez que lhe faço a mesma pergunta, meu amigo, e não me responde. Didier fitou a mulher.

- Escuto-a! -replicou placidamente.

- Por onde vagabundeava ainda? Falo-lhe e não me ouve!

- O meu pensamento estava longe. Perdoe-me!

- O seu pensamento não estava longe. É aquela mulher só, da mesa próxima, quem lhe interessa. É, naturalmente, a tal dama da noite, que encontra aqui, com todo o prazer.

Didier franziu o sobrolho. O tom acerbo de Claude irritou-o subitamente.

- Não sei o que quer dizer. Não conheço aquela mulher, mas reparo que tem um semblante mais amável do que o seu neste momento. O que significam esse aspecto carrancudo e esse mau humor?

- Imagina que é muito agradável comer em frente de um homem totalmente ocupado com outra mulher?

- Poderei realmente ter essa aparência? Chegámos agora mesmo, mal começaram a servir-nos e Já tive tempo de me mostrar assim tão incorrecto?

- Não tem que se desculpar com uma questão de minutos, porque todos os seus instantes me pertencem.

- Não exagere. Ainda não abdiquei da minha independência em seu proveito.

- Engana-se, porque não casei consigo para outra coisa e não lhe pago para ficar pasmado diante das vizinhas que se sentam perto de nós.

Didier empalideceu um pouco. No entanto, o seu sorriso irónico, agora mais raro, reapareceu.

- Não gosto muito, Claude, que me atire assim com o seu dinheiro, e já lho tenho dito. Se soubesse a triste figura que faz a sua fortuna junto ao seu ar aborrecido, comparado ao rosto amável das outras mulheres...

Os olhos da milionária faiscaram.

- Não me provoque! Sinto-me capaz de coisas inauditas. Esta manhã recusou-se a acompanhar-me, dizendo que tinha de escrever, e um quarto de hora depois de o ter deixado vi-o no Passeio dos Ingleses com um homem que, por sinal, tinha bem mau aspecto e ia mal vestido. O senhor ia alegre, discutindo com entusiasmo e parecendo muito excitado. Ora, nunca comigo condescende em ir para esse passeio, pretextando sempre que há muita gente, e eu, pobre diabo, acabo por ceder e desistir de sair. Afinal, parece que é a minha presença que o incomoda, e que esta manhã o Passeio dos Ingleses não era uma exibição de gente de todas as espécies. com um estranho torna-se acolhedor, não? Da mesma maneira observei que quando vai comigo faz o possível por passar despercebido, não cumprimenta ninguém e finge que não tem conhecimentos. Esta manhã vi-o falar a imensas pessoas, a quem apertou a mão, o que prova que, longe de mim, é sorridente e amável, e quando eu estou é sorumbático e reservado.

- Porque as pessoas que cumprimentei esta

manhã não chegaram a interessar-me quando vou consigo.

- Não acredito. Se não fossem pessoas de uma certa ordem, nem se lembraria da sua existência. Conheço-o bastante, meu amigo, para não acreditar que mantenha relações inconfessáveis. Não, mas a verdade é que costuma sair com a sua mulher e como não quer dizer que é casado, finge não conhecer ninguém. Assim é que é. Tem vergonha de mim!

Didier encolheu os ombros. O que havia de responder? Consigo próprio pensava que tudo que Claude dizia era verdade. As suas observações eram justas!... A mulher era boa observadora.

Não questionava sem razão, mas que podia fazer?

Naquela manhã precisava de conversar a sério com um homem vindo especialmente de Paris para isso, mas não pudera dizê-lo a Claude, que exigiria, depois, uma infinidade de explicações.

É que, com efeito, Claude instalava-se decididamente na sua vida de mulher casada, como lhe dissera dias antes. Interrogava-o, queria saber, fazia Perguntas que não acabavam mais e que chegavam até à tirania. O que aconteceria se começasse a metê-la em todos os seus segredos?

Pela sua parte, Claude usava de uma grande franqueza e contava tudo o que fazia. O marido não ignorava o nome de nenhuma das pessoas com Quem ela se dava e a sua vida era clara, limpa e sem dissimulação.

Tratava-o como um verdadeiro confidente. A esse respeito era irrepreensível. Só tinha razão de queixa do seu despotismo. Mandava e decidia tudo, e nem sequer lhe vinha à ideia a possibilidade de o consultar sobre a escolha de um vestido ou a necessidade de uma compra. Da mesma maneira, quando se tratava de passeios indagava quais as preferências do marido, mas fazia sempre prevalecer as suas.

Nunca lhe fazia concessões senão quando Didier invocava um pretexto para não a acompanhar. Então, compreendendo a razão da sua verdadeira recusa, oferecia outro itinerário, pretendendo prendê-lo junto de si.

Em resumo, se ele lhe correspondesse da mesma maneira com a sua confiança, as suas relações seriam evidentemente mais cordiais.

Mas eles tinham feito um casamento de razão, desgraçadamente, e isto era o bastante para não os dispor a um certo à-vontade. O amor poderia ter surgido entre eles no começo desta estranha associação, mas a chama mal brilhara apagara-se logo, devido à atitude reservada de Claude, que desconfiava do seu companheiro e pretendia aproveitar todas as vantagens que lhe dava aquele casamento, em que tudo fora previsto e regulado antecipadamente.

Nada mata o amor ou o impede de nascer como esses caminhos preparados em que tudo foi de antemão calculado. O amor precisa de fantasia e Didier começava a considerar a presença de Claude como um hábito que ameaçava tornar-se fastidioso,

Todo o dinheiro da milionária conseguiria alguma vez atenuar esta impressão?

Tais pensamentos iam girando no cérebro de Didier, que acabou em silêncio a refeição. Não viu o ar indignado da mulher, que achava inexplicável aquele mutismo.

Não notou, tão-pouco, a contracção dos seus lábios, como para impedirem as palavras de fugirem e quando depois de ter olhado em volta fitou distraidamente a senhora da mesa próxima, causa indirecta da questão, não reparou no brilho irado dos olhos que espiavam os seus.

E pensando com ironia como seria divertido se um dia dissesse a Claude "Guarde o seu dinheiro, que eu recupero a minha liberdade", não se apercebeu de que sorria ao mesmo tempo que, sem a ver, continuava a olhar a sua linda vizinha.

O que são as coisas! Didier, sonhador, que tão belos passeios dava até à lua, sem perigo para ninguém, acabava de desencadear, pelo seu sorriso involuntário e o seu olhar distraído, uma catástrofe de consequências incalculáveis.

Claude não tivera, para apaziguar a sua ira, uma benéfica meditação. Ignorando os motivos que faziam sorrir o marido e não tendo nele a fé que inspira a confiança e faz nascer a indulgência, sentiu-se humilhada pelo seu silêncio, e, vendo no olhar dele um desafio, indignou-se com o sorriso que parecia dirigido a outra. Então, o gesto fatal, embora involuntário, surgiu.

Agarrou no copo cheio de vinho e sem calcular, sem dar conta do escândalo que isto ia motivar e as consequências que podiam resultar daqui, atirou ? seu conteúdo à cara de Didier.

Isto passava-se no Palácio do Mediterrâneo, à hora do almoço, no meio de uma quantidade de pessoas que iriam gozar o caso, comentando-o. Atingido pelo duche, cujo líquido frio o arrancou do seu entorpecimento, Didier estremeceu. Instintivamente, agarrou no guardanapo e enxugando o rosto o melhor que pôde, fitou-a, pasmado.

Claude notou um sincero espanto de admiração naquele olhar, que parecia voltar de muito longe, ao mesmo tempo que via extinguir-se o brilho indulgente que até então tivera.

com os braços e as pernas quebrados e todo o corpo agitado por uma tremura, verificava o desastre praticado: o peitilho da camisa e a gravata manchados irremediavelmente.

Viu o marido, de olhos desvairados fitos nela, limpar com o lenço o que o guardanapo não pudera enxugar e em seguida levantar-se, afastar-se, e só compreendeu que ele se tinha ido embora quando à sua volta soaram risos.

O escândalo que praticara fez-lhe subir ao rosto um rubor que se destacava na excessiva palidez. com os cotovelos na mesa, tentou enfrentar os olhares trocistas que convergiam sobre si.

Como era natural, entre o público escolhido daquele restaurante elegante, ninguém se atrevia a fazer um comentário de maneira que Claude ouvisse, mas os olhares e os sorrisos censuravam claramente aquele gesto disparatado.

O caso só fora visto por quem estava sentado nas mesas contíguas e o silêncio de ambos, bem como a impecável atitude de Didier, tudo contribuira para limitar o escândalo.

Um murmúrio sublinhava a cena, murmúrio mais ou menos favorável, conforme as palavras eram ditas por homem ou por mulher.

- É levada do demónio, a garota!

- Teve um gesto ordinaríssimo!

Mas que linha com que ficou!

É uma descarada!

Claude recobrara o sangue-frio. De cabeça erguida e muito calma, mostrava-se indiferente à curiosidade geral de que era objecto.

Na realidade, não via nem ouvia nada e não procurava tomar uma atitude. Depois daquele violento movimento de cólera ficara abatida diante do seu gesto, de que nunca se teria julgado capaz, e intimidada ao pensar na reacção que ele podia ter causado em Didier.

Isto, principalmente, fora como uma pancada na cabeça e Claude teve a impressão de uma desgraça irreparável. À medida que iam passando os minutos, esta sensação ia-se agravando até à angústia.

Bem tentava convencer-se de que não valia a pena inquietar-se. O mais simples bom-senso mostrava-lhe que aquele homem correcto devia ter querido, primeiro que tudo, reparar a desordem material causada pelo seu gesto, e, decerto, tinha ido ao hotel lavar-se e mudar de roupa.

Ora não era natural que depois do que se passara lhe apetecesse ir outra vez ter com a mulher, para acabarem de almoçar juntos.

Assim, pensando melhor, chegou à conclusão de que não valia a pena esperar Didier no restaurante. Simplesmente, não queria dar aos outros a impressão de ir ter com o marido imediatamente.

Por uma questão de dignidade, era preciso ficar ali e continuar a comer, embora com a garganta oprimida nada conseguisse engolir.

Era preciso ficar e parecer despreocupada. Mais tarde, no hotel, onde Didier devia esperá-la, teria com ele uma explicação tempestuosa. Era necessário pôr as coisas a claro.

Por um singular fenómeno, a sua cólera voltava gradualmente, e o seu impulso, que no próprio momento chegara a surpreendê-la e quase a envergonhá-la, começava a parecer-lhe natural.

A refeição tornava-se-lhe interminável. O interesse geral desviara-se já para outros assuntos e poderia sair sem se tornar notada.

Entretanto, por um capricho quase infantil, ficou até ao fim, e só depois de lhe servirem a fruta e ter chupado três uvas, decidiu levantar-se. Demorara o tempo preciso para se fazer esquecer e também para que Didier não pudesse pensar que corria atrás dele. Deixou sobre a mesa uma nota de cem francos para pagar a refeição e saiu.

 

Um pouco febrilmente. Claude chamou a criada de quarto depois de se ter certificado de não estar ninguém na sala, terreno neutro entre os aposentos do marido e os dela.

- Vá prevenir o senhor de que o espero - disse a Céline.

Visto que era preciso ter uma explicação, quanto mais depressa melhor.

Teve uma pequena decepção quando a criada lhe respondeu:

- O senhor saiu.

- Como? Há quanto tempo?

- Não há muito. O senhor entrou quando eu estava a almoçar e saiu pouco depois.

Está bem! -volveu Claude- vou descansar um pouco e tornarei a chamá-la antes de sair.

Quando Céline se retirou, Claude recostou-se, pensando:

- Mudou de roupa e elegantemente vestido deve ter saído para ir procurar-me no Palácio do Mediterrâneo. Afinal é uma boa intenção que é preciso levar em conta. vou esperá-lo aqui porque não se pode demorar, com certeza. Espero meia hora e se não voltar nesse espaço de tempo, pior para ele. Havemos de ver!

Esperou a meia hora prometida, depois um quarto de hora de tolerância... o outro ainda.

À medida que o tempo passava, ia-se enervando cada vez mais...

Se ao menos Maria Jousserand estivesse ao seu lado, a querida confidente compartilharia da sua contrariedade... e receberia, naturalmente, o reflexo do seu nervosismo!

Mas a governanta, desde que fora ter com Claude a Nice, mostrava-se muito discreta e para não maçar os recém-casados propusera a si própria visitar sozinha todos os arredores. Quase todos os dias arranjava uma nova excursão, e nessa mesma manhã anunciara a sua ida a Menton, de onde só devia voltar no fim do dia.

Bruscamente, Claude levantou-se e chamou Céline- Já esperara demasiado.

Era-lhe preciso, agora, o seu mais elegante vestido de tarde.

- Depressa, depressa! O meu chapéu novo que Veio ontem de Paris... O carro à porta do hotel! E a caminho para Monte-Carlo!

Estava subitamente agitada, excitada.

Ah! O senhor não volta! Sua Excelência sente-se vexado e amua! Pois quando voltar ao hotel e não me encontrar, será a sua vez de esperar.

Estes pensamentos vinham-lhe tumultuosamente, enquanto o carro a levava, numa velocidade louca, por aquela admirável estrada da Meia Cornija, até Monte-Carlo. Era o caminho que costumava preferir, por ser mais desafogado e mais belo que a estrada velha, desde há alguns anos metida, como uma rua da cidade, entre as numerosas construções modernas. O motorista, sabendo a sua preferência, seguira por ali sem sequer lhe perguntar.

Mas, naquele dia, Claude preocupava-se pouco com a paisagem. A sensação da velocidade aumentava pouco a pouco o seu nervosismo, a tal ponto que, quando chegou à famosa casa de jogo, ia cheia de febre.

E neste estado começou a jogar e fê-lo com tanto entusiasmo, de tal modo empenhada em se atordoar e não pensar em nada, que conheceu nesse dia, pela primeira vez, a grande emoção do jogo.

Jogou com uma audácia doida, ganhou, perdeu, tornou a ganhar, completamente presa nessa espécie de paixão que aniquila todos os outros sentimentos e que faz esquecer ao próprio jogador o valor das quantias que arrisca.

Este entusiasmo, porém, desapareceu de repente. No meio daquela multidão febril, que enchia as salas de jogo, Claude sentiu-se bruscamente muito só.

Eram seis horas. Tinha passado a hora do chá e começava a do aperitivo. Pensou que Didier tinha talvez voltado e a esperava, para aquele fim de tarde, que eles passavam sempre juntos. Então, muito depressa, tão depressa como decidira ir, quis voltar ao hotel.

Onde está o senhor? -perguntou a Céline

logo que chegou- Vá ver se o encontra.

Admirou-se quando lhe disseram que ainda não tinha voltado.

- Quando regressar, previna-me. Quero vê-lo, irei ter com ele...

Foi tudo quanto ordenou.

Sentia a cabeça oca, pareceu-lhe que tudo andava à volta e que nessa vertigem um pouco de si própria se volatilizava: a sua mocidade, a sua despreocupação, o seu orgulho, a sua confiança!...

Alguma coisa desabava que nunca mais voltaria e que ela nunca mais conseguiria fazer ressuscitar. Apesar desta impressão desanimadora teve energia precisa para não mandar chamar Maria Jousserand, que já devia ter voltado.

Não queria deixar transparecer o seu desassossego pela ausência de Didier. Enquanto ninguém conhecesse os seus desentendimentos, podiam imaginar que eles não existiam.

ÀS oito horas tornou a perguntar pelo marido, calculando que a essa hora já devia ter entrado, visto ser a hora de vestir-se para o jantar.

Mas naquela noite não devia cumprir essa formalidade, porque às dez da noite continuava ausente. À meia-noite ainda não tinha aparecido.

Então Claude compreendeu que o marido castigava o seu impulso e para a vexar passava a noite fora.

- Vingar-me-ei!... Vingar-me-ei, e há-de arrePender-se.

Ameaça vã, cuja inutilidade sentia. A ideia de Que nada podia contra o marido ausente enfureceu-a.

- Ah! o senhor está vexado e ainda não voltou?

Pois bem, vou-me embora! E a que horas? De noite? Sim, de noite, e quando ele chegar há-de aborrecer-se, e desta vez com razão!

Depois de enfiar rapidamente um elegante vestido de baile, meteu-se no carro, que mandou seguir para Canes, onde ia cear num restaurante em moda. Encontrou ali dois casais que conhecia um pouco e que, vendo-a só, insistiram para que fosse sentar-se à sua mesa.

Assim, em alegre companhia, encontrou ali toda a excitação fictícia que sentira de tarde em Monte-Carlo.

Claude, habitualmente tão reservada, surpreendeu-se a falar muito depressa e a rir alto e nervosamente. À sobremesa aceitou um cigarro, um daqueles famosos cigarros que o marido não podia vê-la fumar em público, e acendeu-o com uma espécie de desafio e revolta contra a autoridade do marido ausente.

A noite passou-se assim, no meio da conversa e dos risos, até ao momento em que, de súbito, como em Monte-Carlo, tudo lhe pareceu sombrio à sua volta, os frequentadores elegantes da casa, a decoração luxuosa, a orquestra persa e as suas músicas dolentes.

A impressão foi tão nítida que lhe deu uma sensação de frio, como se de repente entrasse num deserto glacial.

Os seus companheiros inquietaram-se, surpreendidos pela brusca mudança do seu semblante.

- Não se sente bem? Está doente?

- Não, não é nada. Um arrepio.

- É preciso cuidado. A febre é muitas vezes precursora de uma doença. Quer que a vamos acompanhar?

- Obrigada - agradeceu Claude, precipitadamente - vou retirar-me, tenho o meu carro à espera. Não se incomodem.

De novo teve a necessidade imperiosa de estar só, longe do ruído e das luzes, longe principalmente daquela multidão frívola, onde uma preocupação verdadeira não tem lugar, e onde um coração que sofre parece não poder sequer suspirar.

 

O pequeno mostrador eléctrico, discretamente incrustado na parede, por cima da porta, marcava onze horas quando Céline abriu as persianas do quarto de Claude.

A jovem deitara-se muito fatigada, quase ao amanhecer, e Maria Jousserand tinha recomendado que não a acordassem cedo.

A primeira ideia foi informar-se ainda do marido, mas teve receio de que Céline ficasse intrigada com tantas perguntas, mesmo porque, decerto, já tinha notado a sua inquietação.

Esperou, pois, um bocado, e só quando já estava vestida perguntou com o ar mais desprendido:

- Não sei se o senhor teve tempo de voltar. Não é provável, mas em todo o caso vá ver.

- O senhor continua ausente.

Claude fechou os olhos sem fazer o mais leve comentário, mas disse consigo:

"Continua amuado! Sua Excelência é caprichoso e ficou aborrecido! É preciso, no entanto, dar-lhe a perceber que não ganha nada em se amuar comigo".

Até então não estivera inquieta, mas apenas aborrecida por ter provocado aquela questão, cujas consequências desagradáveis se prolongavam.

O pior de tudo era aquele peitilho de camisa manchado de vinho, numa grande nódoa que alastrava como se fosse sangue!

Um gesto lamentável de que não ficasse nenhum traço, desapareceria bem mais depressa do que aquele que deixara um sinal. Aquela mancha indelével era como uma ferida difícil de cicatrizar.

Um guardanapo bastava para enxugar a face do ofendido e dois minutos depois nada já restava do mal feito, senão a camisa com aquela mancha horrível.

O marido devia ter atravessado a sala do restaurante, saído do Palácio do Mediterrâneo para ir até ao hotel, tudo isto com o peitilho da camisa manchado, que lhe dava como que uma marca de ridículo aos olhos dos estranhos.

Quando evocava esta visão sentia uma tristeza infinita. Como tinha podido cometer semelhante inconveniência sendo uma pessoa bem-educada?

Não compreendia, de modo algum, aquela falta de domínio sobre si mesma. Passadas vinte e quatro horas não percebia, ainda, o que motivara tal cólera. Que sentimento a revoltara assim, fazendo dela uma fera? Que loucura se apossara do seu espírito, obrigando-a a cometer um gesto tão fora de propósito? Não compreendia.

Já muitas vezes tivera Didier as mesmas distracções sem que pensasse em irritar-se. Não podia explicar a si própria aquele gesto irreflectido, provocado por uma espécie de crise nervosa.

Por certo, Didier teria percebido que não estava no seu estado normal ao proceder assim.

Logo que terminou o minucioso arranjo da sua toilette foi ao quarto do marido. Parecia-lhe que devia fazer desaparecer a malfadada camisa, ou mandá-la lavar para que o advogado não a tornasse a ver.

Procurou-a em vão, na roupa suja. A prova da sua ira já ali não estava. Didier antecipara-se mandando-a lavar.

De súbito, o quarto e a casa de banho deram-lhe a impressão de uma grande ordem.

Um par de luvas usadas, sobre a mesa, e um maço de cigarros na chaminé davam ao quarto um aspecto de estar desocupado.

com o coração apertado e sem pensar no que fazia, abriu os armários. Gravatas amarrotadas e um ou outro colarinho solto, nas prateleiras. Nada mais.

De repente, compreendeu. O quarto estava vazio. O marido levara tudo. com o coração sobressaltado tocou uma campainha.

- Quando saiu o senhor? - perguntou ao criado que apareceu.

- Ontem ao princípio da tarde, minha senhora. Ajudei-o a fechar as malas, e o automóvel do hotel levou-o à estação, ao comboio das duas horas.

- O comboio de Paris?

- Sim, minha senhora.

- Bem, bem! O senhor terá chegado a tempo?

- Certamente que sim, porque saiu com muita antecedência.

- Sim, sim, pode sair. Muito obrigada. Claude sufocava. Didier tinha partido!

Aquelas malas, sempre prontas, que ele não quisera desmanchar, pensando que um capricho podia afastá-los um do outro, tinham servido de novo. Tivera razão em não as desfazer... Aquelas malas tinham servido... para partir... muito depressa... para longe dela...

Voltou para o quarto, cambaleando, como um farrapo agitado pela tormenta.

Quando Maria Jousserand e Céline apareceram por ter ouvido os seus gemidos, jazia quase inanimada, atravessada na cama, pobre arbusto frágil que a tempestade dobrara. Os seus lábios apertado:- só se abriam para lamentos de criança fraca e inconsciente. Nunca a infeliz sentira na sua alma despótica e caprichosa um tão grande desgosto.

com os punhos crispados nos olhos, sem que uma lágrima corresse para lhe aliviar o mal, assim se manteve durante horas a consumir-se.

Assustadas ante tamanho desespero, a dama de companhia e a criadita não sabiam sequer o que haviam de fazer, porque, às primeiras palavras que tinham dito, Claude fizera-lhes sinal para se calarem e irem-se embora. O seu desgosto só a ela podia interessar.

Pelo meio da tarde, Maria Jousserand, tendo mandado sair Céline para ficar a sós com Claude, conseguiu, enfim, fazer com que esta a ouvisse.

- Vamos, Claude, o que significa isto? Minha filha, explique-me! Desde ontem que sofre sozinha, por um motivo que não compreendo... Se tem um desgosto, deixe-me chorar consigo!

Claude ergueu-se e fitou a dama de companhia com uns olhos que pareciam de doida.

- Jousserand -disse numa voz irreconhecível

- Está tudo acabado!... Foi-se embora!...

- Quem se foi embora?

- Didier.

- O senhor... partiu?

- Sim.

- Quando? E para onde?

- Ontem... talvez para Paris ou para outro sitio. É horrível!

- Que diz, Claude? Porque havia o senhor de ter partido? Verá que volta e que a sua ausência não é definitiva.

- Levou as suas coisas.

- É impossível.

- Sim, levou tudo.

- Mas é preciso um motivo para o marido deixar a mulher! Minha pobre Claude, não esteja a inventar razões para se apoquentar. O senhor Valencourt com certeza vai voltar.

- Não. Bem sinto que não, e a culpa é minha!

Dizendo isto, soluçava convulsivamente. Encostada ao ombro da mulher que a tinha criado, abandonava-se, finalmente, ao seu desgosto, chorando lágrimas sem fim.

E através dessas lágrimas os seus lábios secos iam pronunciando frases cujo sentido Maria Jousserand não compreendia:

- Uma vez foi até ao Egipto, mas não se tratava da sua mulher... eu não fui infiel. Simplesmente, ela amava-a! E depois há aquela camisa horrível! Ai! Aquela camisa! Que recordação!

Num dado momento, Claude enxugou os olhos e muito a sério perguntou:

- É muito longe a Alexandria?

- No Egipto.

- Sim, mas demora muito para ir e voltar? A velhota julgou-a louca.

- Minha filha, não diga tolices. O que iria o senhor Valencourt fazer à Alexandria, tão longe de si? Amuos há sempre entre os casais, mas, felizmente, não duram muito tempo, porque marido e mulher acabam sempre por se reconciliarem.

Claude ficou um instante silenciosa, com o olhar fixo, evocando o rosto do marido, as suas expressões, a sua atitude para com ela.

O seu semblante alterou-se e, fitando a dama de companhia, disse ainda:

- Didier avisou-me de que, se partisse, não voltaria.

- Frases! Os homens gostam todos de dizer frases. A que propósito lhe disse isso?

- Tinha-o ameaçado de dormir fora de casa se ele fizesse isso mais alguma vez. Seguir-lhe-ia o exemplo.

- Sim, foi uma das tais ameaças que os homens não gostam de ouvir, porque exigem, através de tudo, a fidelidade feminina. Não é que isso lhes interesse muito, mas por uma questão de amor-próprio!... Simplesmente, Claude não dormiu fora! É uma pessoa honesta, bem-educada, que não pode ter ferido o orgulho de seu marido.

- Ai! O orgulho do meu marido! -confessou Claude, segurando a cabeça com as mãos e soluçando de novo, angustiosamente.

Maria Jousserand acariciou com a mão a cabeça da jovem.

- Conte-me, minha filha! O caso é, provavelmente, muito menos grave do que imagina.

Claude enxugou os olhos e contou:

- Foi muito simples. No Palácio do Mediterrâneo, acabávamos de nos sentar à mesa e estava a falar com o meu marido, não me lembro em quê, mas decerto nalguma coisa pouco importante. Enfim, falei com ele, que não me respondeu. Estava voltado para um determinado ponto da sala... sigo o seu olhar e encontro o tal ponto... Era uma mulher, talvez bonita... Em suma, uma mulher! Chamei-o uma, duas, três vezes, mas ele ficou absorto na sua contemplação. Não respondeu, não fez um sinal, nada! Então, mais rápida que o pensamento, a minha mão agarrou o copo que o criado acabava de encher... e pronto! Didier apanhou tudo na cara. Compreende agora?

Maria Jousserand ficou surpreendida.

- Oh! Claude, minha querida pequenina -balbuciou- E foi a menina... a menina?

Apenas sabia repetir estas palavras e o rosto transtornara-se-lhe de tal maneira que, apesar do seu desgosto, Claude não pôde deixar de rir. Sentia-se aliviada por aquela espécie de confissão e o ar indignado da sua velha professora levava-a de novo ao tempo da sua infância, quando era uma garota terrível e encontrava um estranho prazer em arreliar a pobre senhora.

- Sim, minha Jousserand, fui eu que fiz isso e confesso que quando vi o ar trágico do meu marido, levantando-se da mesa sem uma palavra, pensei que tinha cometido um crime... com todo aquele vinho no peitilho da camisa, que fazia como que uma mancha de sangue... e toda aquela gente me olhava em ar de censura!

- E depois?

- Como? Pois não lhe chega isto, Jousserand? Acho que para o Palácio do Mediterrâneo e em pleno almoço já é bastante sensacional!

- Demasiado sensacional, até, minha pobre pequena! Pergunto-lhe o que fez depois desse impulso.

- Depois desse impulso, minha boa amiga, fiquei tranquila.

Calou-se um momento e o seu olhar vago parecia reviver a cena.

Mais lentamente, recomeçou:

- Não foi tão fácil, como pode imaginar, ficar tranquila, fingindo-me calma e impassível... na verdade, não vi nada nem quis ver nada, mas tive a impressão de que toda a gente que estava no Palácio do Mediterrâneo tinha os olhos em mim. Não imagina como é pesado!

- Estou desolada por não ter estado ao pé de si - desculpou-se a velhota, que tinha a impressão de que não procedera bem, visto que se divertira enquanto a sua pequena Claude suportava semelhante provação- Ah! Se eu pudesse prever!

- Que quer, minha pobre Jousserand? Estas coisas nunca se podem prever, porque, se pudessem, ter-me-ia levantado da mesa logo em seguida a Didier, sem me prender com o que os outros pensariam e teria chegado aqui a tempo de lhe pedir para ficar junto de mim. Serviu-me bem ter feito frente àquela gente toda até ao fim da refeição! Cheguei aqui precisamente alguns minutos depois da sua saída.

De novo deixou cair a cabeça nas mãos. Todo o seu desgosto revivia, só de falar na fuga do marido.

- E agora, quando o tornarei a ver? Como irá tudo isto acabar? Que complicação!

- Não exagere as coisas, minha filha. Um marido volta sempre para junto da mulher quando é pobre e ela rica. Bem vê que há sempre uma altura em que volta o espírito prático aos homens. Na primeira impressão, estão prontos a todas as loucuras, mas depois, a sangue-frio, raciocinam e salvam os seus interesses. Ignoro o que o seu marido tencionava fazer quando partiu, mas verá que volta, porque na sua mão está o que lhe falta a ele. Naturalmente, ainda esta noite aparece, à hora do jantar, com um ramo de flores na mão, a dizer-lhe, muito convencido: "O que fez, Claude, é inqualificável, mas eu quero ser razoável por nós dois; por conseguinte, não falemos mais no caso e acabou-se tudo". Ora, como a Claude também não pede outra coisa, fica o caso arrumado e tudo vai bem! Ah! Os homens são todos os mesmos!

A ideia da volta de Didier com flores na mão fez sorrir Claude. com pouco se aviva a esperança num coração que nunca sofreu deveras e Maria Jousserand tinha encontrado as palavras que encorajam e consolam.

- À hora do jantar! -murmurou Claude, pensativa, consultando o relógio.

- Sim, próximo das oito horas -precisou a velhota com tocante convicção.

Claude, que rejeitara o almoço, aceitou o chá que Céline lhe levou.

Tão persuadida estava de que o marido ia voltar, que às sete horas se vestiu cuidadosamente. Em certa altura, vendo-se ao espelho e verificando que a sua palidez e o seu ar melancólico lhe ficavam bem, disse consigo:

"Por dinheiro? Sim, os homens são práticos, mas ainda mesmo assim não sou tão feia que lhe mereça

o seu desinteresse! ".

Passados alguns instantes, procurando uma maneira de se vingar das horas inquietas que Didier lhe tinha feito passar, murmurou:

"Se o ameaçasse de não lhe pagar a pensão, seria capaz de se aborrecer de mim? ".

Entretanto o relógio deu oito horas, oito e meia, nove, e Didier não apareceu, nem sequer o tal ramo, que podia ter sido encomendado a qualquer florista.

com os olhos enxutos, Claude seguia a marcha dos ponteiros e foi tão forte a sua decepção que se levantou, enfurecida.

"Maria Jousserand tem razão. Finalmente, depois de tudo o que tenho feito por Didier, ele não tem o direito de prolongar tanto o nosso desacordo! Mas Sua Excelência quer fazer-me pagar caro ter-lhe ferido o amor-próprio! Foi menos exigente quando aceitou casar comigo, apesar das condições humilhantes em que o coloca o nosso contrato. Agora, como tem dinheiro no bolso, depois de três meses de casamento e de... honorários, pode pagar-se o luxo de ficar algum tempo longe de casa! ".

Quando a carteira estivesse vazia, voltaria! Claude sabia-o bem.

"Bem diz Jousserand que os homens acabam sempre por pensar no lado prático da questão! O que é preciso ver nessa altura é se aceito o seu regresso e como o recebo".

Em verdade, Claude sentia-se cheia de boa vontade e reconhecia ter andado mal. Lamentava o movimento de cólera, mas era preciso também que Didier não exagerasse. Todos os dias as mulheres têm gestos de nervosismo deploráveis, sem que por esse motivo os maridos se julguem autorizados a abandonar os lares. Dessa maneira, onde se iria parar?

E para que serviria o casamento se não pusesse os cônjuges ao abrigo das consequências de um mau humor importuno?

Durante vários dias atormentou-se com todas estas ideias e após ter contado as horas, começou a calcular quantos dias a separavam do fim do mês... da época em que habitualmente Didier recebia o cheque da quantia posta à sua disposição.

Claude não fazia questão de dinheiro com o marido e para que ele pudesse gastar à vontade, pagava-lhe adiantada e generosamente, não se contentando com a quantia combinada, visto que Didier estava sempre pronto a liquidar as mil despesas pequeninas que faziam quando estavam juntos. O marido também não era avarento. Claude fazia-lhe essa justiça. Didier nunca reparara muito se as coisas eram dela ou dele, no momento de pagar uma conta. A este respeito era de uma elegância inexcedível.

Entretanto, ninguém podia negar que era generosa com ele e que os seus actos, no que respeitava a dinheiro, denotavam sempre atenções e delicadezas.

O marido podia envaidecer-se, mas nada lhe dava o direito de se mostrar egoísta nem ingrato. Não se deixa assim uma mulher tão delicada comoela fora, sem se preocupar com as repercussões que isto pudesse ter.

Para principiar, Claude decidiu não se enclausurar no quarto. Ia recomeçar os passeios e associar-se a todas as festas e diversões.

Maria Jousserand acompanhá-la-ia, como noutro tempo, antes do seu casamento. E foi o que se deu. De novo encontraram em toda a parte a jovem milionária e a sua dama de companhia. Mas, sem que Claude desse por isso, o feitio do marido contagiara-a.

Viram-na passar altiva, reservada, distante, entre todas aquelas pessoas com as quais se não preocupava. Os seus olhos pensativos, que pareciam não distinguir ninguém, continuavam, no entanto, a fitar os grupos, procurando talvez entre a multidão uma silhueta masculina, que não descobria... de um homem alto, elegante, de ar altivo e que parecia andar sempre na lua.

Terminou o mês e começou outro sem que Didier voltasse para junto de Claude.

Do rosto emagrecido da milionária tinham desaparecido os sorrisos, afastados por um pensamento absorvente. Os olhos secos, sonhadores, de fundas olheiras azuladas, pareciam perseguir sempre um sonho, as mãos diáfanas tinham gestos de cansaço e de indiferença.

Claude, porém, evitava falar em Didier. Mostrava desinteressar-se completamente daquele marido que tinha comprado e que assim faltava a todos os compromissos.

Quando Maria Jousserand lhe falava dele, encolhia os ombros e respondia com um aspecto de indiferença e um pouco cansado:

- Foi-se embora. O pior é para ele! Já não o espero. Não cumpriu as cláusulas do contrato que nos liga e é bem natural que lhe sofra as consequências. Porque deve calcular, Jousserand, que as coisas não se vão passar com a simplicidade que ele imagina!...

Era só o que a sua dedicada companheira conseguia fazê-la dizer. Claude não se confessava. Pelo contrário! Tentava muitas vezes retomar o tom alegre e um pouco traquinas com que noutros tempos falava à sua antiga mestra.

Depois daquele instante de abandono em que desabafara com Maria Jousserand, achou-se nova e forte e pretendeu esconder sob uma aparência tranquila a altivez de não ter necessidade nem de auxílio nem de compaixão.

Se não fossem as enormes diferenças observadas nos seus hábitos, as olheiras nos seus grandes olhos de criança, a languidez do seu sorriso e a diferença com que aceitava tudo, Maria Jousserand poderia imaginar que a ausência de Valencourt não a afectava grandemente.

Mas a antiga professora conhecia bem a rapariga que educara e não se deixava enganar assim. Assustada da mudança sem exemplo que observava na vida daquela a quem tanto queria, a dama de companhia verificava todos os dias os progressos do mal que ia arruinando secretamente a sua querida discípula.

Vendo mais claro do que ela, cujo orgulho não abrandava e não a deixava ver a si própria, a boa senhora compreendia que o regresso de Didier era indispensável à felicidade de Claude e na impossibilidade de fazer outra coisa para que o infiel voltasse, rezava novena sobre novena, pedindo a Deus Que trouxesse o ausente, aquele marido pródigo qUe, sem se preocupar com os seus interesses, ao contrário do que qualquer outro faria, não ia ter com a mulher tão fabulosamente rica.

Às escondidas, Maria Jousserand tinha escrito ao notário Floch e a Michot, o director da Select'Agence. A ambos pedira a maior reserva sobre o caso, visto que o fazia sem dar parte a Claude, mas a ambos também pediu o mesmo serviço: descobrir Didier Valencourt.

Se pudesse ir ter com o marido da sua querida pequena, tinha a certeza de que o seu carinho por ela havia de ditar-lhe as palavras precisas para resolver o marido vagabundo a voltar ao lar.

Era deplorável pensar que Claude lhe tinha dito um dia:

- Jousserand, sofri muito, mas foi sua a culpa, porque me educou muito mal. Condescendendo com todos os meus caprichos, suportando todos os meus disparates, não me repreendendo nunca, fez a minha infelicidade. Nunca ninguém me tinha dito que a felicidade de uma mulher vem da sua docilidade, da sua indulgência e da sua resignação, e eu imaginei que tinha todos os direitos e que me eram devidas todas as concessões. Pobre de mim, que fui sozinha a supor semelhante coisa! Não soube a tempo evitar a desgraça que ia atingir-me e pago hoje a minha tardia experiência.

Teria Claude o direito de falar assim, só porque um homem, um marido de agência... pobre e arrogante... um homem que talvez não passasse de um aventureiro... se atrevera a abandoná-la?

Mas a jovem milionária perdera, decididamente, a cabeça, pois tinha um dia chegado a dizer esta abominação:

- Se Didier voltasse, dar-lhe-ia o dobro ou o triplo da quantia que lhe tinha estipulado, ou antes, deixaria de lha dar, e a minha fortuna seria sua. Foi uma loucura minha querer fazer contas, pois tudo deve ser comum entre casados e não está certo que um tenha mais do que outro. Quando me lembro de que gastava, por mês, nos meus vestidos, o triplo do que lhe dava!... Era absolutamente ilógico e não pode, de modo algum, surpreender-me que o meu marido se não tenha afeiçoado a mim.

- Mas, Claude, está a dizer tolices! Toda a gente diria, decerto, que era muito generosa com o que dava.

- Cale-se, Jousserand: bem sabe que não conhece nada deste assunto. Disse-me que ele voltaria, e como viu, não voltou.

A dama de companhia baixou a cabeça. Infelizmente, Claude dizia a verdade.

A experiência que Maria Jousserand julgava ter, a respeito dos homens, falhara por completo: nem todos voltavam quando tinham os bolsos despejados.

Além de tudo, os dias iam correndo, sem que as coisas mudassem. Nem Michot nem Floch sabiam dizer o que fora feito de Didier.

Da mesma maneira, as novenas e todas as velas que ela acendia por intenção de Claude, na igreja, não tinham adiantado nada!

Havia já dois meses que Didier tinha partido. Claude mantivera-se com muita dignidade, mas a si própria confessava que durante essas longas semanas, cada dia que passava, o acordar era mais doloroso.

Ao princípio acontecia-lhe ficar no hotel, sem Querer sair, pretextando fadiga ou dores de cabeça, embora no seu íntimo soubesse que ficava para esperar. Esperar o quê?

Era cada vez mais evidente que Didier saira de Nice e que não voltaria ali. Entretanto, isto parecia-lhe pouco lógico, e não conseguia persuadir-se de que, só por um copo de vinho despejado na cara, um homem casado deixasse a mulher.

Comparado a tantas tropelias que suportam às vezes os homens casados, às suas mulheres, irascíveis, levianas ou ciumentas, o seu gesto, embora pouco elegante, era ainda assim inofensivo.

Por outro lado, Claude dava uma grande importância ao facto de estarem casados. Apesar de tudo o que Didier pudesse dizer, os laços do casamento e as certidões tinham algum valor. Ela usava o nome do advogado e por muito que ele quisesse afastar-se, não deixaria por isso de ser a sua mulher.

Este raciocínio, que fazia vinte vezes por dia, levava-a a acreditar que Didier não partira para tão longe como poderia supor-se. Talvez estivesse bem próximo, amuado, sim, mas não completamente desinteressado dela.

Desta maneira, quando percorria febrilmente todos os pontos de reunião elegante, restaurantes, chás, salas de jogo e concertos, não era para se distrair ou atordoar-se, mas na esperança, sempre perdida e reavivada, de encontrar o marido ou de ter notícias dele.

Engano completo, pois não voltava a vê-lo, ninguém lhe falava dele e nem pelo telefone nem por escrito lhe havia chegado a notícia de que vivesse em qualquer sítio.

O fugitivo não dera sinais de vida... Claude já não tinha esperança de que ele lhos desse.

Era em tudo isto que pensava naquela manhã em que ficara na cama até mais tarde, enquanto o sol maravilhoso se reflectia no mar.

De súbito, sentiu um grande abandono. Para que obstinar-se em lutar contra o destino?

Ainda bem que só o seu amor-próprio tinha entrado em combate. O que se passara era o bastante para uma pessoa tão orgulhosa como ela e com raciocínio e bom-senso poder fazer calar esse amor-próprio tão revoltado.

Quando quisesse, saberia afastar de si todas essas contrariedades e voltar à vida feliz de outras épocas. Para isto precisava apenas do tempo necessário a liquidar este assunto e curar a sua ferida de vaidade.

Felizmente, o coração não entrara em jogo e nem um único dos seus sentimentos fora atingido. Esta ideia não podia caber no espírito da sua velha mestra, mas era digna da corajosa e positiva mulher moderna que se orgulhava de ser.

Indignação, cólera, um certo desdém por si própria? Sim, até àquele dia admitira tudo isto, mas nada mais. Pensando assim a respeito dos seus sentimentos, poderia analisar com a maior lucidez os do marido.

"Ofendi-o publicamente e para um homem tão orgulhoso como Didier essa injúria é maior que para qualquer outro. Deve supor que toda Nice conhece a aventura e por isso não voltará aqui".

Bruscamente, teve horror ao que a rodeava: o sol, o mar, as palmeiras e até o seu elegante quarto do hotel, tudo se lhe tornou odioso. Tudo lhe lembrava o seu gesto fatal, as suas impaciências, o seu Pesar e as suas angústias.

Não! Não ficaria ali nem mais um momento.

Tocou uma campainha e deu ordem para que arranjassem as malas. A governanta regozijou-se com esta decisão, que ia talvez mudar as ideias da sua antiga discípula.

- Mas se o senhor Valencourt voltar a Nice? arriscou-se a perguntar, convencida de que era preciso prever tudo.

- Esperei já o bastante. Não voltará aqui.

- Talvez seja uma conclusão demasiado rápida...

- Porque pensa isso?

Maria Jousserand hesitou. Havia certos assuntos que Claude não gostava de a ver abordar.

- Vá... acabe, uma vez que começou...

- Penso - começou, procurando as palavras penso que o senhor de Valencourt está habituado a viver com luxo e, dentro em pouco, há-de achar-se sem dinheiro. Então... sabe que os cavalos não esquecem nunca o caminho que leva à manjedoura?

- Precisamente por isso, irá ter comigo onde eu estiver. De resto, isto não pode continuar assim. vou pedir o divórcio.

- O divórcio?

Maria Jousserand ficou pasmada. Evidentemente, era uma solução, mas andaria Claude como devia, levando as coisas a este extremo.

Um marido que se afasta para não voltar, é muito desagradável, mas será o divórcio o bastante para trazer serenidade à esposa abandonada?

Para que Claude retomasse o nome de solteira bastaria apagar a lembrança do homem com quem casara!

Voltarão a sorrir os lábios tristes só porque um juiz decide que marido e mulher são livres e podem recomeçar a vida, cada um de seu lado?

com pouca fé no remédio, a dama de companhia suspirava. Se, na verdade, só o orgulho da jovem milionária estava em jogo, por certo a satisfação de privar Didier das vantagens de um rico casamento seriam um bálsamo para curar as feridas do amor- próprio de Claude, mas Maria Jousserand não estava de modo algum convencida de que só o brio da jovem tivesse sofrido.

Aquela palidez, aquela tristeza involuntária, bem como o desprendimento que mostrava, agora, por tudo o que dantes a encantava, indicavam que não se tratava, apenas, de uma questão de vaidade.

Maria Jousserand não sabia, precisamente, que laços íntimos existiam entre os dois esposos. Claude nunca lhe falara a esse respeito, mas pensava que um marido é um marido e que a sua antiga discípula parecia feliz enquanto o marido estivera junto dela.

Quatro meses era um espaço de tempo muito pequeno para criar entre os dois qualquer coisa de inalterável, mas, assim mesmo, uma pessoa com os princípios de Claude não devia achar bem divorciar-se com aquela facilidade.

 

Em Paris, Claude começou logo a tratar o assunto, mas antes de pensar em divórcio era preciso tentar saber o que tinha sido feito de Didier.

Abstraindo-se da questão de amor-próprio, sentia-se incapaz de ir ao seu encontro e explicar-lhe lealmente o que os separava. Não o julgava obstinado nos seus ressentimentos, nem percebera nunca que fosse vaidoso, mas, enfim, visto que andara mal, aceitava dar-se por vencida.

Infelizmente, porém, exactamente como acontecera a Maria Jousserand, esbarrou com a ignorância do notário e do director da Selectagence.

com Floch, a milionária dissimulou a sua decepção, mas com Michot o caso foi diferente, visto que lhe pagava bastante caro.

- É absolutamente inadmissível que o senhor não saiba onde pára o seu antigo cliente. Que empregados são os seus que não servem para descobrir uma morada?

Michot ficou sufocado. Nunca ouvira falar assim tão levianamente da sua casa.

- A minha agência é séria! -protestou - E o meu pessoal impecável. Simplesmente, sabia que o seu marido estava em Nice consigo e não me podia vir à ideia que fosse necessário vigiá-lo.

- No entanto, o seu interesse devia ser precisamente que este casamento desse bom resultado e fosse duradouro.

- É certo, mas ao fim de três meses não me parecia possível que Valencourt a abandonasse. Francamente, minha senhora, eu próprio me censuraria se tivesse semelhante pensamento.

- No entanto, vê como as coisas estão...

- O seu marido é inteligente e o natural é que defendesse os seus interesses.

- A principal preocupação de Didier era salvaguardar o seu orgulho.

O director da Selectagence pensou que, com uma mulher como Claude, o orgulho do advogado devia ter sido posto à prova muita vez, mas teve o bom-senso de não falar em tal. Contentou-se em fingir que concordava com a sua rica cliente.

- Na verdade - concluiu com ar angustiado o seu marido era muito vaidoso!

- Diga antes que era o orgulho personificado!

- Fora disso, tinha bom feitio?

- Sim. Era um homem calmo, altivo, superior...

de sorriso irónico e aparência correcta, sempre impecável. Somente, não sabia perdoar uma ofensa.

- Deveras? - perguntou Michot, surpreendidíssimo de que um homem que de certa maneira se tinha vendido, pudesse ser tão pretensioso.

- Mais ainda do que imagina! Há mulheres que num impulso de ira dão uma bofetada aos maridos ou lhes atiram um copo de vinho à cara. Pois com Valencourt não seria preciso tanto, porque antes disso ir-se-ia embora.

- Em geral, os homens não gostam de bofetadas

- observou Michot, suavemente.

- É natural! Também não é disso que se trata. Não. Nada disso! Quero simplesmente dizer que muitos homens suportam movimentos nervosos das suas mulheres e que Didier nunca os aceitaria. Partiu servindo-se do primeiro pretexto, como se esperasse apenas que ele surgisse. Em boa verdade, nunca se adaptou ao casamento.

- Nunca se adaptou? - perguntou o homem de negócios, esgazeando os olhos.

- Não. Parecia sempre convencido de que estava junto de mim apenas provisoriamente. Nem chegou a desmanchar as malas para poder partir de novo com mais facilidade, quando nos separássemos, dizia ele.

Michot ia de surpresa em surpresa.

- O quê, falava assim?

- Sim, várias vezes aludiu à separação, que era fatal quando um de nós encontrasse o amor.

- Então encarava abertamente a possibilidade de a deixar?

- Encarava, principalmente nestes últimos temPos... o nosso casamento, para ele, tinha um ar de brincadeira, e não tomava a sério as vantagens materiais que lhe tinha assegurado. Era tal qual como se nunca tivesse contado com elas.

- Isto é muito extraordinário, com efeito. Ele já nos tinha admirado, a Floch e a mim, quando da redacção do contrato.

- Houve alguma coisa nessa altura? Não me falou nisso.

- Porque era insignificante, mas o seu notário e eu reparámos na minúcia com que analisaram e corrigiram o contrato. Parecia que tinham receio que lhe exigissem de mais, no caso de se divorciar.

- Quer isso dizer que, mesmo antes de casar, já previa um rompimento. Como havemos de nos admirar, depois disso, que aludisse tanta vez a uma possível separação?

Calou-se, pensando num passado do qual todos os pormenores lhe pareciam, a distância, de uma extraordinária clareza.

- Agora compreendo que me falava assim a fim de me preparar para os acontecimentos. Talvez mesmo só esperasse a primeira ocasião para se evadir...

- Mas, então... haverá, nisto, uma mulher? Michot não media muito as palavras quando as

coisas não caminhavam a seu gosto.

- Não sei! -balbuciou Claude, desnorteada Não quis nunca admitir essa hipótese. Dá-me a impressão de uma falta de asseio moral!...

Encostou-se à secretária do director e com a cabeça nas mãos reflectiu, silenciosamente.

O semblante de Michot ensombrou-se. No fundo, tinha neste caso a sua parte de responsabilidade; aquele homem que casara com Claude Frémonde parecera-lhe, sempre, muito extraordinário. Além do exame estranho feito ao contrato, havia também o encontro inicial em casa do banqueiro Simão Wass, em que Valencourt se metera, positivamente, à cara do director da Selectagence.

Aquele rapaz que se gabava com tanta facilidade de ter gasto a fortuna herdada dos pais, afirmava não ter causas, aquele homem sem fortuna a quem a maior soma de dinheiro parecia não impressionar e que guardava cheques sem pestanejar, aquele pretendente bizarro, enfim, que nenhuma exigência de Claude fizera hesitar, fora indicado por ele!

Sim, Michot agora tinha motivos para se acusar de ter visto mal. Para um homem hábil como se orgulhava de ser, deixara-se, positivamente, enganar.

- Estou desolado por lhe ter apresentado esse homem - disse com a sua habitual franqueza Teria preferido vê-la escolher um dos outros dois pretendentes que lhe mostrei, mas a senhora nem sequer quis examiná-los.

- Não me agradavam.

- Talvez se tivessem tornado mais amáveis.

- É possível, mas, naturalmente, pelo meu dinheiro; por isso, preferi Didier.

- Infelizmente, deu-lhe uma decepção, e não foi bom marido.

- Pelo contrário. Valencourt era impecável. Correcto, cortês, solícito. Além disso, era novo, espirituoso e encantador. Um marido ideal!

- Mas, há pouco, disse... falou em defeitos...

- Porque ele se zangou estupidamente, por uma coisa de nada. É um orgulhoso. Além disso, era... um POUCO frio... Nunca abandonava a sua reserva. Não tinha uma palavra de amor nem um galanteio.

- Evidentemente, visto que estava combinado não lhe permitir nada disso.

Claude encolheu os ombros e respondeu com ar carrancudo:

- Proibido! Proibido!... Claro que todas as mulheres desejam que as respeitem, mas isso não impede que lhes façam a corte e tentem vencer a sua reserva.

- Ah! Era isso que esperava do seu marido? Michot estava pasmado. Depois das exigências

da sua cliente, tão concisas a este respeito quando da primeira conversa, tinha bem razão para se surpreender com o que estava ouvindo.

- Meu Deus - exclamou Claude, tranquilamente- Entre casados, uma vez que se conhecem, é natural que o marido procure obter certos favores em relação com os seus privilégios! Pois bem, o senhor de Valencourt nunca mostrou reparar nos meus vestidos ou na cor dos meus olhos. Era insensível a todas as minhas graças e parecia não se aperceber de que eu era uma mulher... a sua mulher! Pode gabar-se de ter encontrado um homem extraordinário! Hei-de fazer propaganda da sua casa como agência matrimonial.

- Perdão! -exclamou Michot, que não gostava de brincadeiras com coisas sérias - Não ponha em causa a minha agência. Exigiu um marido correcto e arranjei-lho. Se me tivesse dito que, em realidade, queria viver com ele o mais puro sonho de amor, o caso era diferente.

Claude fez-se vermelha de indignação e protestou:

- Não, não desejava aquilo que o senhor imagina. Teria gostado, sim, de ter um marido solícito, meigo, fazer arreliá-lo mostrando-me caprichosa, e enfim, encorajá-lo, fazendo-o esperar...

- Até ao dia em que o quisesse mandar passear!

pois bem, minha senhora, se me tivesse exposto um tal programa, nem sequer a teria ouvido. Como imaginou que um homem se poderia sujeitar a tal coisa?

- Em toda a parte! Isto faz-se em todos os países! Nunca leu romances estrangeiros? - respondeu Claude impetuosamente - Para que havia eu de pagar um marido se não para ele ser solícito comigo?

Michot estava cada vez mais admirado.

- Se foi com esses argumentos que quis prender o senhor de Valencourt junto de si, lamento muito ter de dizer-lhe que já não admira absolutamente nada que ele se tenha ido embora.

Aquela rapariga começava, decididamente, a enervá-lo com as suas pretensões de milionária que pensa pagar tudo com o seu dinheiro.

Ora, o director da Selectagence não era pessoa que mandasse dizer estas coisas por ninguém. Concordava, intimamente, que não fora muito hábil e contava aproveitar esta experiência para o futuro, mas não podia admitir que lhe atribuíssem toda a responsabilidade desta estúpida história.

Michot punha os cônjuges em contacto, mas se o casamento não resultava bem, não era culpa da agência.

- Um marido trata-se com uma certa contemplação- concluiu - Ou então foge e escusam de correr em sua perseguição.

Indignadíssima, Claude levantou-se. Do mesmo modo que o seu interlocutor, não admitia que lhe atribuíssem a responsabilidade do caso.

- Pois bem! -disse num dos seus impulsos habituais- Um marido também se pode deixar. Parece-me que o divórcio foi feito apenas para servir os descontentes. Concedo-lhe quinze dias para tornar a encontrar o senhor de Valencourt e se passar esse prazo sem se saber nada, peço o divórcio. Tanto pior para si e para ele... Suponho que para si, pessoalmente, isto seja indiferente, apesar das vantagens materiais que também auferia. Quinze dias, ouviu? Nem mais um!

Em vão Michot tentou acalmar Claude, que saiu furiosa com ele e consigo própria. Aquele homem era idiota, pensando que ela tinha sido agressiva com Didier!

Pelo contrário! Não se tinha mostrado conciliadora e amiga? Não tinha procurado ser-lhe agradável? Era certo que com Didier isto não lhe custava!

Só com os outros tinha prazer em se mostrar déspota. Se há pouco fora impulsiva com o director da agência é porque realmente Michot não parecera importar-se muito com a fuga de Didier.

Indignara-a, além de tudo, aquela reflexão em que o director lhe atribuira o desejo de viver um sonho de amor! Era estúpido, aquele homem, não compreendendo o que queria dizer! Aspirava apenas a uma convivência amável, uma espécie de namoro com um homem agradável. Nada mais! Tal qual como num romance espanhol em que o homem rodeava a mulher de mil cuidados carinhosos, louco por ela sem que esta parecesse dar por isso.

Era apenas o que procurava e desejara. Sim, com Didier teria sido encantador esse jogo. Mas o seu companheiro não tinha nada de um herói de romance... nem mesmo de um romance espanhol, e desiludira-a por completo.

Ora Michot não queria, decididamente, compreendê-la.

Além de tudo, Claude começava a perceber que na vida as coisas não acontecem como nos romances. Examinando bem o que se passara entre ela e o marido, chegou à conclusão de que tudo, desde o princípio, tinha sido diferente do livro, prometedor de tantas alegrias.

Como Claude continuasse de mau humor e precisasse de descarregar o seu descontentamento sobre alguém ou alguma coisa, logo que o carro a deixou à porta de casa foi direita ao quarto. Ali, Jousserand estava a arrumar roupa num armário.

- Como vai isso, minha querida Claude, vai melhor? - perguntou a velhota, vendo-a entrar como um pé de vento.

- Muito bem! -respondeu distraidamente a milionária, procurando com a vista qualquer coisa que sabia estar perto.

Vendo o romance espanhol cuidadosamente arrumado sobre a mesa, agarrou-o e começou a rasgá-lo raivosamente.

- Que banalidade de livro! Que história ridícula! É com isso que se consegue demolir o cérebro das raparigas, como se fosse possível realizar-se semelhante casamento!

Maria Jousserand, sem ter coragem de dar um passo, olhava-a, assustada.

As páginas do livro eram arrancadas e desfeitas. Muitas delas jaziam em bocados pelo tapete persa.

- O que é, minha filha? Porque rasga assim esse romance?

- Porque está cheio de coisas completamente idiotas! Tudo isto deve ser consumido pelo fogo! Chame Céline para levar estes papéis e queimá-los imediatamente.

- Essa execução alivia-a, minha filha? -perguntou humildemente aquela mulher que assistira já a tantas cenas análogas.

- Liberta-me principalmente de certas ilusões e de algumas ideias românticas! Começo a ter outra alma e uma noção mais justa de certas coisas. Vejo mais claro. Aquele livro tinha-me feito perder totalmente a razão! Teria acabado por me convencer de que era forçoso apaixonar-me pelo meu marido... Mas, agora, acabou-se tudo. Estou calma e sensata! Tomei uma decisão a respeito da minha vida: se dentro de quinze dias Didier não voltar e não souber onde está, peço o divórcio. Sim, o divórcio! Então, tudo estará acabado e será o ponto final desta estupidíssima história!

- O divórcio?... Um ponto final? - perguntou Maria Jousserand, abanando tristemente a cabeça.

- E, depois? - disse Claude, enraivecida - Não aprova o divórcio?... Afinal, o que me liga a Didier não passa de um casamento civil!

- Meu Deus, talvez tenha razão, minha pequena Claude, o divórcio é um ponto final por vezes muito oportuno... Simplesmente... simplesmente...

- Simplesmente, vai ainda aparecer com um argumento irritante, não?

- Não! De maneira alguma. Penso... parece-me, pelo menos, que devia esperar mais algum tempo antes de tomar qualquer decisão.

- Ora! Eu já sabia. Quando me casei fiz tudo depressa de mais, segundo a sua opinião. Devia ter esperado não sei que encontro improvisado pela providência... ter-me guardado para o homem que Deus me destinava, que poria inesperadamente no meu caminho um dia ou outro. Achava que era um erro procurar casar. Segundo dizia, só se deve desposar aquele ou aquela que o destino introduz imprevistamente na nossa vida. Na sua opinião, sem a intervenção do acaso nenhum casamento pode resultar bem.

- Os bichos seguem o seu instinto e é assim que fazem.

- Sim, mas, felizmente, nós não somos bichos. Além disso, deve regozijar-se, visto que está prestes a ser anulado o casamento que tanto censurou.

Mas a velhota continuava a abanar a cabeça. Certamente, nunca tinha sido favorável à ideia do casamento de Claude com Didier. Desaprovava-o abertamente e fizera toda a oposição que lhe permitia o seu fraco poder. Lutara mesmo contra aquela união, em nome de todos os seus velhos preconceitos e dos princípios em que fora educada.

Agora, porém, que os acontecimentos lhe davam razão, em lugar de triunfar estava sinceramente desolada. O divórcio parecia-lhe tão lamentável como o casamento.

Só a felicidade de Claude lhe interessava e essa parecia-lhe muito incerta, de qualquer maneira que se encarassem as coisas. Um divórcio!

- Minha pobre filha, não será, por certo, o divórcio o que há-de trazer um sorriso aos seus lábios!

 

Passou o prazo de quinze dias sem que houvesse a mais pequena mudança. Ao princípio, Claude troçava e ia contando os dias.

- Ainda faltam quinze dias... doze... dez... oito... etc.

Mas quando as duas semanas estavam prestes a terminar, deixou de falar no caso.

Maria Jousserand regozijava-se, pensando:

"A minha Claude tem juízo. Vai tentar encontrar o marido antes de tomar uma resolução que seria definitiva".

Nisto, enganava-se. Quando chegou o décimo sexto dia, Claude, que deixara de falar no marido, saiu da sua apatia.

Valencourt não dava sinal de vida e Michot continuava sem saber o seu paradeiro. Normalmente, as coisas não podiam continuar assim.

Um único facto admirava a milionária. Didier não tomava a iniciativa de pedir o divórcio, embora fosse Claude quem dera motivos para isso.

O copo de vinho que lhe atirara à cara equivalia a uma grave injúria em público, e ele poderia servir-se disso para obter, judicialmente, uma separação vantajosa.

O marido, pensava, queria deixar-lhe a responsabilidade toda do rompimento definitivo.

"É possível que tudo isto seja uma prova de delicadeza, mas, naturalmente, se eu esperar de mais para tomar uma decisão, será ele quem agirá".

Esta suposição foi-lhe dolorosa. Para qualquer lado que se voltasse, via que os acontecimentos a fechavam num círculo e que era preciso libertar-se.

"Se não for eu, será ele! Se houvesse a possibilidade de chegarmos a um acordo, Didier não teria tomado tantas precauções para eu não poder ir ter com ele. Deseja, por certo, que o divórcio se pronuncie, dando como único motivo o abandono do domicílio conjugal e não por outra razão... razão de que provavelmente eu tomaria conhecimento se soubesse onde está".

Naturalmente, estas deduções levavam-na até uma conclusão dolorosa para o seu amor-próprio e que mesmo Michot encarava como possível.

"Certamente, não vive só, e deixou-me para ir ter com uma mulher... talvez aquela por causa de quem veio de Nice a Paris... a sua velha amiga, que, provavelmente, tem a minha idade".

Este pensamento fez-lhe o efeito do vitríolo sobre uma ferida. Todo o seu ser estava em ebulição.

"Não posso! Não, não quero esperar mais tempo! A minha hesitação começa a ter o aspecto de uma fraqueza. Aquele marido que eu comprei está a troçar comigo! É preciso terminar com isto o mais depressa possível. Acaba-se o casamento, acaba-se a comédia! Casarei com outro que ao menos tenha atenções comigo, ainda que seja só pela minha fortuna".

Não ousava, sequer, esperar ser amada por si própria.

Uma noite, disse a Maria Jousserand:

- Telefone a Floch pedindo-lhe uma entrevista, pois preciso falar-lhe amanhã. Desejo que ponha, quanto antes, um advogado ao meu serviço.

- Está decidida, Claude?

- Certamente que sim. Absolutamente decidida.

- Minha filha, sabe que um divórcio, exactamente como um casamento, é para toda a vida?

- O divórcio é, mesmo, muito mais do que o casamento - respondeu Claude com amargura Porque, em geral, é definitivo, enquanto que o casamento não.

- É bem verdade, isso! -concluiu a velhota com um suspiro.

- Ora o casamento, pelo menos o nosso casamento, não nos comprometeu a grande coisa, nem ao mieu marido nem a mim!

- vou telefonar - disse Maria Jousserand, para terminar aquela conversa que lhe era particularmente penosa.

No dia seguinte, Claude foi falar com Floch. Encontrou-se também com o advogado doutor Kransin, que o notário lhe apresentou. No estado de enervamento e de cansaço em que estava, Claude ter-se-ia aconselhado com toda a gente que pudesse dar um pouco de sossego ao seu espírito fatigado.

Teve de explicar a sua triste história ao velho notário e ao brilhante advogado, e, em resposta às suas confidências, afirmaram-lhe que tudo iria bem, que o seu caso estava em boas mãos e tudo se arranjaria.

- Tranquilize-se, minha senhora - diziam O seu caso é, sem dúvida, um pouco excêntrico, mas cada causa tem o seu carácter próprio e pode estar certa de que as suas indicações serão levadas em conta.

A milionária acreditava pouco neles.

- Agradeço-lhes e tenho muita confiança em ambos, mas isto é de tal modo subtil que receio muito...

- Não receie nada, minha senhora. Se a subtileza não existisse, havia de se arranjar um advogado para a inventar. De resto, subtileza é o nosso elemento; estamos como o peixe na água.

O notário acariciou, paternalmente, a mão de Claude e o advogado beijou-lhe, com um sorriso, as pontas dos dedos.

Afirmaram ambos:

- Tenha confiança, minha senhora, que tudo há-de arranjar-se!

"Também estes! - pensou Claude - Decididamente, é a fórmula consagrada, porque também jousserand me diz a mesma coisa, segundo creio, com igual falta de convicção. Não vejo o que poderá arranjar-se nem como".

Suspirou. Todas as frases que lhe diziam para dar-lhe coragem faziam-lhe o efeito de medicamentos difíceis de tomar. Os conselhos de todos pareciam-lhe mais desastrosos que o mal, mas sentia-se incapaz de sozinha decidir fosse o que fosse.

"De tudo o pior, o que mais me custa, é ver que o que se passa é por minha culpa! ".

Agora conhecia o remorso em toda a sua grandeza. Cada um dos seus actos em relação a Didier parecia-lhe absolutamente estúpido, e o marido beneficiava com este juízo.

Por causa dos seus nervosismos sucessivos tornava-se necessário o divórcio, com o qual Claude não se conformava. A separação não lhe era agradável. Em primeiro lugar, era uma humilhação para a sua vaidade. Divorciar-se era confessar que fora mal sucedido aquele casamento, que pessoas de juízo não tinham aprovado e ao qual tinham previsto pequena duração e um triste futuro.

Ia dar razão àquela irritante perspicácia. Tanto pior! Claude estava demasiado habituada a fazer o que queria para ligar grande importância à opinião das pessoas que a rodeavam.

No fundo, o que mais a assustava era propriamente a questão do divórcio, porque receava que aquele acto não resultasse muito bem, visto que um divórcio era, como ela dissera a Jousserand, absolutamente definitivo e Claude estava cada vez menos convencida de se querer divorciar.

Das longas explicações que lhe tinham dado Floch e o doutor Kransin, apenas uma lhe prendera a atenção. Antes do divórcio haveria aquilo a que se chama audiência de conciliação, à qual a lei obriga os cônjuges a assistir.

- Então o senhor Valencourt assistirá? -perguntou, fingindo-se desinteressada, embora fosse, na verdade, a única que desejava.

- É obrigado a isso! - respondeu o advogado. Daí por diante, Claude, encantada, concordou

abertamente com a opinião do notário, que entendia que o divórcio era o único meio de pôr termo a uma situação anormal, que podia estorvar de uma maneira intolerável o futuro daquela mulher jovem, rica e bonita, que podia aspirar a todas as alegrias da vida.

Visto poder tornar a ver o marido, Claude achava que devia insistir no pedido de divórcio.

"Não posso encontrá-lo de outra maneira! -repetia a si própria, enraivecida-Tanto pior para ele! Vamos ver-nos frente a frente ainda uma vez, e aconteça o que tiver de acontecer!".

 

O dia tão esperado e tão temido por Claude chegou, finalmente. Devia apresentar-se no Palácio da Justiça às treze horas. Nunca tinha ido ali se não em pequena, numa ocasião para visitar a Sainte-Chapelle. Conservava apenas uma vaga ideia de ogivas e vitrais com muitas cores, de um edifício com pedras escuras, muito rendilhadas, qualquer coisa de solene, de muito antigo e de imponente.

Ora o oficial de justiça a quem acabava de mostrar a sua contra-fé levava-a por um longo corredor pintado de verde e castanho, em direcção a uma escada de largos degraus de madeira. Em cima, depois de ter subido três andares, encontrou-se numa longa galeria, iluminada por janelas vulgares e que não tinha nada um aspecto solene nem da Idade Média.

Aquela galeria constituía uma espécie de terreno neutro entre as salas de espera dos homens e das senhoras. Ao meio estava o gabinete do juiz, de que apenas se via a pequena porta.

Empregados circulavam, impedindo cortesmente, com a sua presença, qualquer comunicação entre as salas de espera, ou, para melhor dizer, entre os adversários que estavam em ambas.

Claude sentou-se, antecipadamente resignada a esperar muito, no meio de um grande número de senhoras que tinham chegado antes dela e que naturalmente deviam ser chamadas primeiro.

Fitou as suas companheiras, cada uma por sua vez, e notou que entre elas havia uma certa semelhança... um ar de gravidade precoce, feita de ilusões, de fadiga e de desgostos. Todas que ali estavam tinham visto mais ou menos depressa, e mais ou menos completamente, desmoronar-se o seu primeiro sonho de felicidade.

Nenhuma tinha o aspecto despreocupado dos vinte anos nem a tranquila irreflexão de solteira.

Um advogado veio sentar-se entre Claude e uma senhora vestida de escuro, dando a esta longas explicações.

Ouvia-o de vez em quando falar nos filhos. Devia haver ali um verdadeiro drama e a mulher tinha uma expressão dolorosa e envelhecida.

Claude olhou-a com uma espécie de respeito e receio. Quanto aquele ente devia ter sofrido, e quanto tempo! Já não era nova.

Que paciência ou que pobre amor a teria feito suportar uma vida que finalmente se lhe tornara intolerável?

Ao lado daquele caso trágico, o de Claude parecia-lhe uma criancice. Não tinha brincado aos casamentos, e brincado sem perigo, defendida como estava pela sua fortuna, como por uma armadura? Brincara aos casamentos e agora brincava aos divórcios! Simplesmente, o brinquedo tornara-se doloroso!

Pensativa, baixou a cabeça, curvando os ombros sob os pensamentos demasiado pesados que lhe apareciam cada vez mais negros.

Sempre que o meirinho dizia um nome, estremecia, vendo afastar-se a mulher que se dirigia ao gabinete do juiz, enquanto no outro extremo da galeria um homem que usava o mesmo apelido desaparecia pela mesma porta.

Iam ambos para onde os impelia o seu destino. Por vezes, a entrevista liquidava-se em poucos minutos; os esposos estavam resolvidos irrevogavelmente à separação e bastava o tempo necessário para o juiz lhes fazer as perguntas da praxe e o escrivão registar as suas respostas negativas.

Outras vezes, porém, era mais demorado, muito mais demorado...

Claude pensava angustiadamente que atrás daquela porta fechada devia haver discussões apaixonadas em que se decidiam duas existências. Para ela era o desconhecido que ia sair daquele gabinete do juiz... o dado da sorte que ia cair pró ou contra a sua felicidade.

Então, para fugir ao turbilhão dos seus pensamentos, tentou interessar-se por aquelas mulheres que a rodeavam. Muitas não podiam estar quietas...

algumas formavam grupos e trocavam confidências. Outras, audaciosamente, saíam da sala e davam alguns passos na galeria, tentando ver no outro extremo os maridos, que podiam ter feito o mesmo.

Os empregados fechavam os olhos enquanto os dois adversários se mantinham a uma certa distância, mas impediam com uma firme cortesia qualquer aproximação ou troca de palavras que pudesse tornar-se violenta.

Uma mulher morena, de olhar atrevido, que tinha ficado muito tempo fora da porta, voltou enervadíssima e foi sentar-se no banco ao lado de uma lacrimosa tagarela e disse-lhe em confidência:

- O meu está lá... vi-o... e ele também me viu. Fez-se pálido e deitou-me uns olhos!...

- Não lhe falou?

- Não! Já dissemos bastantes coisas desagradáveis um ao outro. Bem vê, há quatro anos que não nos entendemos e que nos insultamos... estou farta!

- Ainda assim - disse a outra, pensativamente

- enquanto nos insultamos o caso não é grave. com eles ali, ainda tudo pode ter arranjo, mas depois de se irem embora, o que se há-de fazer?

Claude pôs-se à escuta. Embora dito com palavras vulgares, havia ali perto outro coração que sofria como o seu.

"Quando eles se vão embora... o que se há-de fazer? "

Todo o pobre desespero humano cabia naquelas palavras. Tinha-as dito uma mulher que chorava e Claude sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Entretanto, a morena continuava:

- Vá ver!... Pode ser que o seu também lá esteja!

Mas a outra teve um gesto de desalento.

- Não... ele não me quereria ver, e isso far-me-ia ainda mais tristeza.

Esta não tinha dito o meu. Renunciara a toda a ideia de posse.

Fez-se de novo silêncio. A maior parte dos lugares estavam agora vagos. Claude olhou o relógio. Eram quatro e meia. A sua vez ia chegar. Então teve um momento de ansiedade.

O que fazia naquele lugar? Como tivera a loucura de pedir o divórcio?

Uma brincadeira? Sim, infelizmente. Uma brincadeira estúpida e trágica, na qual se arriscava a felicidade!

Didier estaria na sala dos homens? Não o sabia!

Tal como aquela pobre mulher que chorava, não se atrevera a ir ver. Como teria ele vindo, se queria precisamente fugir? Como teriam logrado saber onde parava?

Não, Didier não estava ali. Tinha a certeza disso. O meirinho apareceu no limiar da porta e chamou na sua voz monótona:

- Senhora Didier Valencourt.

 

Quando entrou no modesto gabinete do juiz, Claude sentiu-se desfalecer.

Para ela, não encontrava ali ninguém. O juiz lá estava sentado atrás de uma simples mesa de madeira negra, e a seu lado, junto de outra mesa mais pequena, o escrivão, mas para Claude aqueles dois homens não contavam. Desde o momento em que não via Didier, não estava ninguém. Sentiu frio no coração.

- Queira sentar-se, minha senhora - convidou o juiz, benevolamente, indicando-lhe a única cadeira de que dispunha.

Aceitou; mal se sustinha de pé. Entretanto, no movimento que fizera para se sentar, ficou voltada para a porta, justamente no instante em que o marido entrava.

Levou instintivamente as mãos ao coração, que batia como um doido. Didier viera... tornava a vê-lo!

A sua única preocupação, naquele instante, era mostrar um ar impassível e toda a sua força se concentrou neste desejo.

Aconteceu, naturalmente, o mesmo com Didier, porque, com a mais glacial correcção, curvou-se diante da mulher num impecável e breve cumprimento.

O juiz rompeu o pesado silêncio com o à-vontade profissional. O longo hábito de presenciar casos difíceis e talvez uma certa bondade natural, fizeram-no encontrar a atitude melhor e mais justa, que era uma cordialidade discreta, exprimindo-se com grande simplicidade. Era um homem de rosto fino e pálido, olhar agudo e sorriso benevolente.

Começou pelas fórmulas da praxe, a identificação do casal; depois, sempre segundo o preceito, interrogou directamente a queixosa.

- Foi a senhora Valencourt quem pediu o divórcio contra o senhor de Valencourt, seu esposo?

Às outras perguntas Claude só pudera responder com um aceno, mas a esta última ficou aniquilada como se fosse uma censura de que não soubesse justificar-se. No seu rosto lívido, apesar de ter as faces e os lábios pintados, só os olhos tinham vida.

Sentia pesar sobre ela o olhar interrogador do juiz e o olhar impenetrável do marido. Era-lhe impossível articular uma única palavra.

- Peço-lhe, minha senhora, que esteja calma e que responda às minhas perguntas com a máxima clareza - pediu o magistrado com toda a afabilidade - Estou aqui para ouvir tudo o que quiser dizer-me... Fale, pois, com a máxima confiança.

Como se esta última palavra, confiança, possuísse um poder mágico, a voz voltou subitamente a Claude, que respondeu com decisão e quase com violência:

- Sim, pedi o divórcio...

Calou-se um segundo e continuou, ainda com mais força:

- Pedi... mas não o quero!

- Perdão, minha senhora, não percebo bem...

- É muito simples, senhor juiz, não quero... Não me quero divorciar!

Apesar da sua longa experiência, o magistrado ficou pasmado, tanto por esta decisão inesperada como pelo tom áspero em que era feita.

- Quer dizer, minha senhora, que desiste do requerimento feito contra...

- Sim, é talvez dessa maneira que é preciso dizer - interrompeu Claude com vivacidade - Arranje tudo, tudo como quiser, senhor juiz. Só sei uma coisa: é que não quero divorciar-me. Fiz isto, unicamente, para tornar a encontrar o meu marido. Compreende bem, para o tornar a ver... uma vez que era esta a única forma de o conseguir, segundo me disseram.

- Tornar a vê-lo?... Já não quer divorciar-se? Não, porque seria uma monstruosa injustiça, visto que fui só eu que procedi mal.

- Sim, senhor juiz. o meu marido foi sempre impecável! É um homem correcto, sério e bem-educado... Todas as culpas foram minhas. Reconheço-o. Fui eu e só eu que andei mal.

Faltaram-lhe as forças, não porque a confissão humilhante lhe fosse dolorosa, mas porque a comoção lhe apertava a garganta e a tensão de nervos que a fizera falar desaparecera, deixando-a exausta.

Premeditara confessar lealmente os seus erros e não tinha hesitado. Dissera consigo que se a injúria - aquele gesto estúpido no Palácio do Mediterrâneo - fora feita em público, a reparação devia, também, ser dada diante de testemunhas, para que a ferida do amor-próprio de Didier pudesse curar-se.

Entretanto, naquele instante percebia que o reconhecimento dos seus erros não lhe dava uma grande superioridade, visto que Didier continuava impenetrável e glacial. Trémula de comoção e de desalento, repetiu:

- Não, não quero divorciar-me.

- Muito bem, minha senhora - respondeu o magistrado com essa espécie de resignação condescendente com que as pessoas crescidas aceitam os caprichos das crianças amimadas.

E, voltando-se para Didier, acrescentou:

- Ouviu?

- Ouvi perfeitamente! -respondeu o advogado com voz calma.

Conservara-se até ali senhor de si e só o seu olhar um pouco mais brilhante que de costume teria denunciado, para quem o conhecesse bem, a sua emoção.

- Ouvi, mas a decisão desta senhora não pode de maneira alguma interromper a marcha do processo. Como sabe, fiz apresentar pelo meu advogado uma demanda reconvencional... Deve ter aí essas diversas peças do processo...

- com efeito-disse o juiz folheando um maço de documentos que tinha na sua frente - Sob o ponto de vista legal, tudo está regular, mas hoje temos, principalmente, de encarar a situação moral e a diferença que pode trazer esta nova decisão da senhora Valencourt. Já pensou nisso?

- Não tenho que desdizer o que decidi! -respondeu friamente Didier.

- Vejamos, meu caro senhor, não pode pôr de parte este novo factor. Quer que o examinemos?

- Parece-me que não é necessário. Há, porém, um engano desta senhora, que não quero deixar prevalecer: todos os erros estão da minha parte e não da sua, neste triste caso. Fui eu que abandonei o domicílio conjugal e minha mulher, a quem não tenho nada que censurar... Insisto sobre este ponto, senhor juiz: esta senhora é de uma conduta irrepreensível.

- Sim, naturalmente! -disse o juiz, condescendente - A senhora Valencourt afirmava há pouco...

Mas Didier interrompeu-o com firmeza:

- Esta senhora é generosa e quer pela sua indulgência igualar a nossa parte de culpas, embora não mereça a mais pequena piedade da sua parte. Apesar de tudo, mantenho o meu pedido de divórcio.

O juiz olhou alternativamente aquele que falara com tão fria energia e a mulher cujo rosto exprimia o mais fundo desalento.

Instintivamente, a sua piedade ia para esta última, que era, na verdade, bonita e que afinal representava a moral, visto que rejeitava a ideia de divórcio que o marido aceitava com tanta facilidade. Mas, embora não parecesse, o juiz tinha uma certa consideração pela pessoa de Valencourt, e hesitou:

- Então, decide - perguntou prudentemente.

- Que o processo siga os seus trâmites. O magistrado suspirou.

- Bom! -disse, sem entusiasmo. E, dirigindo-se a Claude:

- Ouve, minha senhora? Vejo-me forçado... Uma vez mais Claude interrompeu o bom juiz. Desde que o marido começara a falar não deixara

de o fitar e um desespero transparecia no seu olhar alucinado.

- O que quer isso dizer? - perguntou - Visto que retiro o meu requerimento... que não quero...

Uma tremura convulsiva agitava-a.

- Não compreendo. Foi Didier quem pediu o divórcio? Mas foi isso, não é verdade?

- Sim, sou eu quem o pede! -disse Valencourt lentamente, acentuando bem as palavras numa voz bem firme - Não vejo em que isso possa surpreendê-la, minha senhora, visto que...

Não acabou.

com os braços estendidos num gesto de súplica, Claude encaminhou-se para ele.

- Não, não!... - soluçava perdidamente - Peço-lhe, Didier! Não quero... não quero!

Vacilava, tão fraca e tão pálida, que o advogado se ergueu, julgando que ela ia cair.

- Então, Claude, peço-lhe que se acalme. Bem sabe que este casamento não pode durar: era uma loucura, em que nunca devia ter consentido. É preciso, é absolutamente preciso que isto acabe... compreenda-me, isto não pode durar. Mas Claude repetia sempre:

- Não quero! Não quero!

Como tentava agarrar-se a Didier, este afastou-a.

- Vamos, seja razoável! Deve ter energia, hoje, que se apresenta a ocasião de arranjar as coisas de uma forma sensata. Este divórcio é absolutamente indispensável à nossa felicidade... à felicidade de ambos.

- Não, não, Didier! Não quero!

Era apenas uma infeliz que o desespero desnorteava.

- Não quero, Didier, peço-lhe... - dizia num gemido, num lamento, numa espécie de soluço sufocado- Eu... amo-o...

Cambaleou e caiu inanimada.

Ouvindo estas palavras ditas por sua mulher, Valencourt pareceu também cambalear, como se tivesse sido atingido em pleno coração. Completamente transtornado, deixou transparecer a sua comoção.

- Claude... Claude querida!

Tinha-a levantado e tomara-a nos braços, contra si, para que não tornasse a cair. Tremia tão fortemente e estava tão perturbado que foi o escrivão quem o ajudou a instalá-la na cadeira; depois, como estas síncopes não são raras nas audiências de reconciliação, tirou da gaveta um frasco de sais, que costumava servir em casos idênticos e passou-o várias vezes sob as narinas de Claude.

Não é mais do que uma ligeira síncope - explicou ele - Passará depressa. Vê? Já abriu os olhos.

Afastou-se, deixando o lugar ao marido.

- Claude, minha querida Claude - repetia Didier numa voz rouca, velada por intensa comoção, enquanto tentava ler nos grandes e marejados olhos de Claude.

De pouco serve ser muito calmo, muito ponderado e enérgico, até por vezes um poucocinho trocista, principalmente quando outros homens estão presentes. Na ocasião precisa, todos se desnorteiam. Aquela pequena Claude, tão decidida e tão orgulhosa, desmaiando na sua frente ao confessar-lhe o seu amor, soubera acordar a sua sensibilidade de homem impassível.

Naquele momento, Valencourt dominava a custo a comoção. Qualquer coisa como um soluço oprimia-lhe a garganta e aos olhos assomavam duas lágrimas teimosas.

Pouco a pouco, Claude recuperava os sentidos e os lábios agitavam-se. Muito baixo e muito depressa, murmurava palavras ininteligíveis a princípio, mas que Didier entendeu melhor que ninguém.

- Não... não... não quero! Era apenas... para O tornar a ver... para o tornar a ver...

Claude, minha querida!

Valencourt esquecera a presença do juiz e do escrivão. Inclinado para a mulher e amparando-a com o braço vigoroso, só pensava em tranquilizá-la. -Minha querida Claude. Acabou-se... Esqueçamos tudo! Estamos juntos, sempre juntos, minha querida!

Pressagiando uma boa solução ao conflito, o juiz, Hcom um sorriso benevolente, e para não importunar o casal, fingiu-se absorto na leitura dos papéis que tinha na sua frente.

Diante da sua mesa negra, o escrivão desenhava gravemente uma árvore, na margem de uma folha de papel quase cheia, e, olhando de revés, ia observando a cena.

Didier continuava a amparar a mulher, enquanto Claude, recuperando os sentidos por completo, se deixava levar, com a cabeça sobre o ombro do marido, a face encostada à face dele e a mão na de Didier, que, sem dar por isso, lha apertava apaixonadamente.

Esta carícia silenciosa, depois daqueles minutos de uma tão intensa comoção, foi-lhe infinitamente agradável e permitiu-lhe dominar-se inteiramente antes de sair do gabinete do juiz.

Valencourt, em silêncio e ainda comovido, amparava a mulher, que limpava os olhos ao lenço de renda, reduzindo-o a uma bola.

O juiz sorria, feliz pelo resultado, convencido de que contribuira de certa maneira para ele.

O escrivão encolheu os ombros.

- Mais dois que o orgulho impedia de se reconciliarem! - resmungou - Se se fizesse caso do que eles dizem, imaginar-se-ia que nenhum destes vaidosos liga importância ao casamento!

No fundo, estava contente com aquele resultado. Era uma história engraçada para contar, à noite, em casa, à esposa.

- Casal Leboeuf-Ridal! -chamou, retomando de novo o seu ar indiferente.

Os casos vulgares continuavam.

 

Dídier desceu a escada, levando pelo braço a mulher. O ar frio acabou de refazer Claude, bem como aquele braço firme a que se amparava.

Aquela escada monumental que do Palácio da Justiça leva à Praça Dauphine rememorou em Didier uma outra escada mais pequena que descera com Claude uns meses antes.

Sorriu ao recordar tudo aquilo em semelhante instante. Que aproximação!

Parando a meio da escada, inclinou-se para Claude e disse-lhe com um ar terno, embora malicioso:

- Lembra-se, minha querida, daquele imbecil marido que não devia mudar nada da sua vida de solteira?

A rapariga fez-se vermelha como uma cereja.

- Que tonta que eu era! - respondeu, confusa

- Resta-me a desculpa de nesse tempo não o conhecer.

Didier apertou um pouco mais o braço que levava enlaçado no seu.

"Uma Claude vermelha e confusa não é nada desagradável! " - pensava com o coração radiante.

Teve, porém, a delicadeza de não acentuar muito esta sua impressão.

- Tem o seu carro? - perguntou pouco depois.

- Não. Vim de táxi, para não intrometer ninguém neste assunto íntimo. Os criados ficam tão contentes com as nossas contrariedades!

- Mas, felizmente, o meu carro está ali! -disse Valencourt com a maior simplicidade, sem reparar na surpresa que as suas palavras causavam a Claude

- Onde quer que a leve? À sua casa ou à minha?

- À sua! -disse a jovem espontaneamente, temendo ver partir de novo aquele marido tão extraordinário, que, depois de tão grande ausência e de uma reconciliação tão comovente, se mostrava como se nunca a tivesse deixado.

Valencourt tinha feito sinal a um motorista de libré que conduzia um belo carro.

- Para casa! -ordenou.

Claude instalou-se em silêncio no esplêndido automóvel, um tanto surpreendida de ver que o marido, que conhecera pobre advogado sem causas, possuía um carro tão bom.

Mas não sentia necessidade de saber minúcias. Mal refeita das horas angustiosas que acabava de passar, e com as lágrimas ainda prontas a reaparecer, contentava-se placidamente em viver o momento presente. Didier estava ali ao seu lado e isso bastava-lhe.

O marido passara-lhe o braço à volta da cintura e sustinha-a contra si. Parecia pensativo. Não previra certamente que levaria Claude para sua casa e dizia consigo que seria necessário dar-lhe certas explicações que não podia adiar.

Fora tão extraordinário aquele casamento!

Tinha a consciência de que não falara inteiramente verdade quando dessa ocasião, mas, agora, que a sua união ia tornar-se uma coisa séria, seria preciso esclarecer tudo.

Sua mulher não podia levar-lho a mal. Não! Sentir-se-ia até lisonjeada. Felizmente, havia agora entre ambos o amor, cuja confissão feita por Claude lhe cantava ainda nos ouvidos.

Mas Didier era um homem honesto e não queria aproveitar-se, por pouco que fosse, das palavras pronunciadas pela esposa num momento de desespero.

"É preciso, primeiro, que se ponha tudo a claro entre nós. Depois, veremos".

O caso levava-os a pensar o mesmo e dava-lhes idênticos escrúpulos, porque, enquanto o marido fazia este raciocínio, Claude, meditando também, sentia-se numa situação um pouco falsa e humilhante. Impelida pelo seu desgosto, dissera talvez coisas que a sangue-frio nunca seria capaz de pronunciar. Não é costume em amor serem as mulheres as primeiras a falar.

Era pois, a ele, que competia daí em diante tomar as iniciativas. Assim, Didier perguntou-lhe:

- Claude, adivinhou que a tinha enganado?

- Sim -disse numa voz que mal se ouviu.

- Devo, pois, dizer-lhe que não estou só, na minha casa.

- Ah!

Foi a única palavra com que pôde responder a semelhante confissão. Desde que a tinha deixado, encarara todas as perspectivas e até aquela.

Como Didier se calasse, um pouco embaraçado, Claude perguntou:

- Uma mulher?

- Sim.

- Que ama?

- Naturalmente... Não se admire das minhas palavras e faça antes o possível por me compreender! - acrescentou calorosamente- Claude foi a aventura, com todas as ilusões e ansiedades, enquanto ela, a velha e preciosa amiga de quem já lhe falei, é toda a minha vida... a única mulher que até agora contou para mim, aquela a quem devo tudo: o que sou e o ambiente harmonioso e calmo que me rodeia, e que me é necessário.

Falava com a máxima sinceridade. Via-se bem que não tinha qualquer intenção de a fazer sofrer; nem sequer imaginava o efeito doloroso que podiam ter as suas palavras.

No entanto, cada uma delas se cravava como uma flecha no coração de Claude.

- Meu Deus! -balbuciou, apavorada- O que vou então fazer à sua casa e como vai essa mulher acolher a minha chegada?

- Muito bem, naturalmente, visto que Claude é a minha mulher.

- Então eu?... -perguntou, pasmada.

- Agora - respondeu sinceramente, sem calcular a interpretação que a jovem ia dando às suas confidências- preciso de toda a sua indulgência, minha querida Claude.

A milionária não disse nada. O marido falara-lhe num tom de tão absoluta confiança que não soube o que havia de responder.

De resto, tinham chegado ao seu destino e o carro ia abrandando a marcha, enquanto o motorista tocava fortemente a buzina.

A noite caira já...

Pararam diante de uma grande casa de bom aspecto, onde um porteiro veio abrir a porta principal.

O carro passou por um corredor de abóbada, entrou num pátio espaçoso e foi encostar-se diante de uma escada elegante que dava acesso a um pequeno palacete antigo, que ocupava o fundo do pátio.

Claude ia cheia de surpresa. Tendo descido primeiro, relanceou um olhar à fachada de dois andares. As janelas eram de pequenas colunatas, datando do Primeiro Império. Só as janelas de cima estavam iluminadas.

- Entre, querida, e seja bem-vinda! -disse Valencourt, afastando-se para lhe dar passagem.

Pareceu-lhe que a voz do marido estava diferente, e essa mudança, que lhe agradou, comoveu-a extraordinariamente. A sua vinda à casa onde ele habitava era o bastante para a emocionar.

Atravessaram um vestíbulo e, em seguida, uma sala, na qual Didier apenas acendeu um candeeiro, para verem por onde iam.

Claude distinguia mal, na penumbra, mas os móveis pareceram-lhe elegantes e ricos. Valencourt ia à sua frente, com o à-vontade de um dono de casa que mostrasse as suas salas a um convidado.

Depois desta sala, atravessaram uma outra, também elegantemente mobilada e em seguida o advogado abriu uma última porta.

- Eis-nos na minha casa, Claude. Esta sala é o meu gabinete de trabalho.

Deu a volta aos comutadores eléctricos e acenderam-se dois candeeiros, velados por grandes abat-jours de cores pálidas, que espalhavam uma claridade doce e quente.

De todo aquele gabinete emanava uma sensação de calma encantadora. A impressão de intimidade aumentara com grande fogo de lenha que ardia na chaminé, fogo romântico, que quase não se encontrava em Paris se não na tradição dos tempos passados.

Solícito, Valencourt ajudou a mulher a tirar o chapéu e o casaco e instalou-a, comodamente, numa cadeira confortável, junto do lume.

- Descanse, Claude, e fiquemos silenciosos, se o silêncio lhe faz bem.

Ficou de pé, com as costas voltadas para a chaminé e o rosto um pouco escondido na sombra dos abat-jours.

- Prefere estar só? -perguntou ainda- Deve ter precisão de repouso...

- Não! Não! Não me deixe só -pediu Claude precipitadamente.

O silêncio recaiu entre eles. Estavam comovidos, tinham ambos muitas coisas para dizer e prefeririam, talvez, cair nos braços um do outro, sem qualquer explicação.

Entretanto, a milionária examinava aquela casa, em que tudo era luxuoso e de um gosto requintado, sem uma nota que soasse mal ou um pormenor que desagradasse à vista, desde os admiráveis tapetes orientais, de cores discretas, até às delicadas gravuras que havia nas paredes e às encadernações esmaecidas da biblioteca.

Sobre uma mesa de ónix desfolhavam-se rosas numa taça de cristal negro.

Didier não perdia de vista a mulher, enquanto esta ia examinando tudo à sua volta. Por fim, não podendo dominar-se por mais tempo, Claude disse:

- É estranho!...

- O quê?

- Tudo... este gabinete tão belo, tão harmonioso...

- Agrada-lhe?

- Se me agrada! - respondeu, convicta Nunca imaginei assim o gabinete de trabalho de... um advogado. Principal...

- De um advogado pobre e sem causas! concluiu Didier, sorrindo- E tinha razão. Porém, não há motivo para que isto tenha o aspecto de um gabinete de advogado.

- Ah!

Nada disto lhe parecia muito claro. Os esclarecimentos que o marido pudesse ainda dar, iam naturalmente fazer-lhe mal, como o pouco que já lhe dissera, e sentia-se fraca, alquebrada, e com tão pouca coragem!...

Como não havia de admirar-se do luxo espalhado à sua volta, nem da elegância requintada daquela casa, que dava directamente para um jardim?

De longe, através das vidraças fechadas, o olhar de Claude viu um sumptuoso ninho de verdura, que, decerto, um jardineiro tinha conseguido a peso de ouro.

Nada fora esquecido. Os muros desapareciam escondidos por plantas preciosas, que pareciam prolongá-los sob a espessa folhagem. As áleas, cuidadosamente arranjadas com largas pedras, entre as quais crescia um musgo baixinho e uma relva aveludada, estendia-se em declive até um espelho de água, que reflectia o céu e onde um repuxo cantava, espalhando gotas irisadas sobre pequenos rochedos e plantas aquáticas.

Era, em menos de duzentos metros quadrados, todo um éden em miniatura, sobre o qual abria apenas a porta de vidro do gabinete de trabalho de Didier, como se aquele jardim tivesse sido imaginado e realizado só para ele.

- A decoração e o silêncio incitam ao trabalho!

- observou a milionária- Deve ser bom meditar aqui.

Passado um momento, perguntou, timidamente:

- Foi... a sue amiga que arranjou tudo isto?

- Foi - disse Didier, rindo - Para me prender um pouco junto dela. Eu sou tão vagabundo!... De resto, não há nada como a imaginação de uma mulher que estima um homem, para rodear de harmonia o quadro que possa agradar a esse mesmo homem.

Claude não respondeu. Tinha a alma dilacerada. Pensou, de súbito, no que oferecera ao marido, ela, com toda a sua fortuna: o luxo banal e barulhento dos hotéis para onde o tinha levado... a vulgaridade dos chás elegantes, dos restaurantes de noite e dos bailes pagos que se parecem todos com a mais enfadonha monotonia.

Recordou o desdém de Valencourt por todas essas reuniões mundanas, de que ela tanto gostava, o seu desprezo pelas multidões, e o seu enervamento, todas as manhãs, à hora do passeio, a que chamava exibição.

Evocou o prazer que lhe davam os passeios na montanha, e como se distraía a olhar um garoto na rua ou uma lavadeira cujos gestos eram naturais.

Aquilo que outrora lhe parecera incompreensível, era hoje absolutamente claro. Não eram gostos plebeus que Didier tinha, mas sim um desejo enorme de se evadir daquele turbilhão postiço e ilusório em que ela o obrigava a viver.

Sentiu, de repente, uma terrível humilhação por ser tão rica. O que tinha facultado a seu marido, com todos os seus milhões, podia-se comparar àquela atmosfera de paz e de beleza, criada à sua volta por uma mulher que preparara tudo tão carinhosamente?

A voz do advogado veio tirá-la do abismo em que a lançavam os seus pensamentos.

- Claude, antes de entrar em explicações, preciso de entregar-lhe alguns papéis inúteis. Como vê, sou uma pessoa muito ordenada, visto ter guardado papéis desnecessários...

Dizendo isto, entregou-lhe um sobrescrito em que Claude pegou maquinalmente.

- O que é? -perguntou, inquieta.

com a cabeça, Didier fez-lhe sinal para abrir, ao que obedeceu, tirando de dentro vários cheques.

- O que é...

Mas não acabou. Reconheceu os cheques que tinha assinado. Os três cheques de doze mil francos que lhe tinha entregue no princípio de cada mês, segundo o contrato feito quando do seu casamento, e mais três, dados na intenção de o reembolsar das contas de hotel e várias outras despesas.

com o sobrescrito numa das mãos, e os cheques na outra, olhou o marido sem compreender.

- Porque não os recebeu?

- Por duas razões, das quais cada uma era bastante: a primeira, é porque não precisei...

- Ah!

- Sim. A segunda, é porque não estão passados em meu nome.

- Como?

- Não, Claude. Eu não sou aquele que imagina. Desde o primeiro dia há um engano a respeito da minha identidade.

- Meu Deus! -gemeu, aflita.

No entanto, não teve uma censura para lhe dirigir. Apenas, no seu rosto, muito pálido, deslizaram duas lágrimas.

Havia tantos meses que pressentia um mistério à volta de Didier!... Iria chegar agora o momento de o desvendar?

Desvendar o quê? Que catástrofe lhe estava reservada em que devia submergir-se a sua felicidade ainda tão pouco estável?

Porque é que Didier só hoje falava... Depois de a ter ouvido rejeitar o divórcio, que daria a cada um deles um destino diferente?

Sentia aproximar-se a desgraça... Tudo se desmoronava à sua volta. Iria transformar-se em desastre, talvez em desonra, ou outra coisa mais grave, aquele belo sonho de um marido escolhido a seu gosto?

Claude teve a impressão deprimente de que tudo o que ia saber devia martirizá-la e diminuí-la mais ainda.

- Como eu queria morrer! -balbuciou.

A morte parecia-lhe um alívio. Mas Valencourt surpreendera este murmúrio, e ele, que até aqui parecera encantado em mistificar a mulher, teve pena daquela dor silenciosa.

A princípio, só lhe vieram aos lábios estas palavras:

- Claude, minha querida Claude! Peço-lhe perdão! Não quis inquietá-la!

Muito meigamente, agarrou-lhe as mãos.

- Minha querida, o que imaginou? Ouça-me, vou explicar-me bem...

Sorriu, apesar de tudo divertido pela sua inquietação e feliz do que tinha para lhe revelar.

Puxou para junto de Claude uma almofada de couro e sentando-se-lhe aos pés, começou:

- Não sou Didier de Valencourt, advogado, como está escrito nos seus cheques. Sou seu primo, e uso o mesmo nome e apelido.

- Primo dele? -repetiu a jovem, sem compreender.

- Sim, Didier Valencourt sou eu, e o meu primo, advogado, é também Didier Valencourt. É isto assim por uma fantasia das nossas mães, que eram cunhadas, e tinham, por acaso, o mesmo nome, e, naturalmente, depois de casarem, o mesmo apelido. Eram muito amigas e esta semelhança de estado civil foi para elas a causa de aventuras muito divertidas... Inocentes enganos que foram a grande distracção da sua mocidade. Quiseram dar-nos a nós, seus filhos, igual presente e confesso que, por vezes, dele usamos e abusamos de uma forma aliás inocente.

- Então... o nosso casamento? Foi a sua mais recente brincadeira?

- Deixe-me continuar, querida. Julgar-me-á depois, e, embora não seja advogado, permita-me que defenda eu próprio a minha causa.

- Mas então?...

Um raio de luz acabava de penetrar no cérebro de Claude e, sem continuar a ouvir o que Didier lhe dizia, interrompeu bruscamente:

- Mas então, se é Didier Valencourt e não o advogado... é... o outro? É...

- O escritor, o poeta! -concluiu, sorrindo Sim, Claude, o seu poeta!

Mas a jovem não compreendia a substituição.

- Não percebo a utilidade dessa mentira.

- Porque não sou, apenas, minha querida Claude, um poeta dos que cantam o luar, mas também e, sobretudo, um romancista, um analista do coração humano, um pesquisador de casos de consciência e de aventuras extraordinárias, se prefere que digamos assim. Esta é a minha desculpa, compreende?

Claude ficou silenciosa, inconscientemente, sentindo-se feliz e envergonhada com a ideia de que o marido era um homem honesto e célebre.

- Mas o nosso casamento não foi uma brincadeira! - continuou Didier- Ao principio, confesso que foi, da parte do romancista psicólogo que sou, uma... experiência.

- Da qual eu fui a cobaia?

- Precisamente! -respondeu Valencourt, com toda a calma- Ou, antes, de que ambos fomos as cobaias, porque me parece que em lugar de ficar como simples espectador, entusiasmei-me também com a aventura. Compreendi-o logo na primeira noite em que nos encontrámos, naquele baile, lembra-se? Compreendi que ia deixar-me prender e que era preciso defender-me com uma couraça de desinteresse e ironia... Ora não sabia duas coisas. A primeira... perdoe, Claude, agora posso dizer-lhe isto... a primeira é que ia ser, com a sua atitude, a minha melhor defesa.

- Oh! -exclamou a jovem, admirada.

- Sim, minha querida. Deu-me uma grande decepção, confesso... O anúncio da Selectagence sorriu-me... singularmente! Creio que há raios que fulminam sem serem os do amor. Entusiasmou-me, principalmente quando soube que se tratava de uma rapariga nova, bonita, rica e que podia com facilidade, com demasiada facilidade, encontrar o marido dos seus sonhos.

- Sim, com demasiada facilidade -concordou Claude, sonhadora.

- Em resumo, o processo seduziu-me pela sua originalidade; a sua audácia e semelhante decisão revelavam a personalidade invulgar de quem se atrevia a tanto.

- E depois?

- Depois... como dizer-lho? Sofri uma decepção, não dada pela sua pessoa nem pela sua beleza!... Nem mesmo pelo seu encanto. De mais sentia a influência dele! Mas havia além disto uma atitude artificial de preconceitos, de pretensões de mulher muito rica, de caprichos ridículos de garota amimada.

Claude teve um gesto de protesto.

- Deixe-me acabar, peço-lhe! Exasperava-me sentir a verdadeira Claude através disto, e indignava-me contra a Claude aparência por me esconder a outra. Quanto mais tempo passava, mais isto se agravava. A mulher superior que entrevira, revelava-se totalmente ciumenta, de um nervosismo ridículo, como qualquer mulherzita vulgar... e a aventura que sonhara tão bela, transformava-se numa coisa banal.

A jovem não respondia. Estava sucumbida. Tudo o que Didier dizia era justo, reconhecia-o, mas cada uma das suas palavras magoavam-na. Eram outras tantas feridas no seu amor-próprio.

O marido não era o aventureiro que temera, muito pelo contrário. Era Valencourt, o escritor conhecido, uma pessoa em evidência e ao mesmo tempo um homem honesto, do qual uma mulher podia envaidecer-se e orgulhar-se.

Claude era a mulher que tentara humilhar aquele homem... comprá-lo com o seu dinheiro!

Não era mais do que isso... simplesmente, estupidamente, uma mulher rica sem mais nada.

Em lugar de se regozijar com a sua imensa felicidade - estranho feitio o seu - sofria profundamente como nunca tinha sofrido.

Acima de tudo, sentia-se humilhada diante daquele marido que julgava ter comprado e que hoje lhe aparecia dominando-a, com todo o seu valor, a sua notoriedade e até a sua generosidade!

Entre ela e Didier erguera-se de súbito um montão de obstáculos.

Valencourt, que a observava, admirou-se do seu ar triste no momento em que esperava uma explosão de alegria. E como se conservasse silenciosa, apertou-lhe as mãos para lhe chamar a atenção.

- Em que pensa, minha querida Claude?

- No nosso casamento - respondeu, muito séria

- Penso que teve uma decepção enorme, que não precisava da minha fortuna e que não lhe dei nada em troca do seu nome. Penso, também, que nos enganámos a respeito um do outro. Didier foi roubado, visto que não correspondia ao que esperava, e não sei se tenho, de facto, o marido que desejei. compreende? É demasiado belo o que me oferece hoje. É um estranho, e quanto maior ele é, mais pequena me sinto ao seu lado.

Estendeu a mão e agarrou os cheques que pusera em cima da mesa. Olhou-os tristemente um instante e com um suspiro atirou-os para o fogo.

- Acabou-se a comédia! -murmurou com um esforço para não chorar.

Admirado e ansioso, Didier fitava-a. Claude levantou-se.

- Agradeço-lhe, senhor Valencourt! - disse gravemente- Foi hoje muito bom e muito generoso, visto que condescendeu em continuar a ser meu marido, mas eu não sabia então de que homem se tratava... que era esse escritor glorioso de que toda a gente admira o talento e o êxito merecido. Não passo de uma rapariga vulgar, incapaz de prender a atenção de um homem como o senhor. A decepção que uma vez teve comigo repetir-se-ia a cada passo.

- Mas, Claude, está a dizer tolices...

- Não - retorquiu - Tinha razão, há pouco, quando disse que este casamento não podia durar. Tinha razão!

- Porque me diz tudo isso, uma vez que nos amamos e que vamos ser verdadeiros esposos?

Neste momento, Didier não brincava, e o seu sorriso de troça desaparecera, mas Claude, muito pálida, despedia-se, sem reparar na sua emoção.

- Digo-lhe adeus, senhor Valencourt, e peço-lhe que me perdoe ter perturbado a sua vida com a minha ridícula história de casamento de agência.

A ideia talvez fosse boa, mas eu não soube realizá-la.

com os olhos cheios de lágrimas e os movimentos incertos, agarrou no chapéu e no casaco.

Amparava-a o orgulho. Era sincera, de resto, no seu desejo de partir, porque tinha a impressão de que tudo agora a separava do marido, demasiado glorioso, mas não podia evitar a tristeza de ver acabar, assim, o seu romance... o seu belo romance, que terminava em lamentável humilhação.

Didier encaminhou-se para ela. Num gesto enérgico, que o nervosismo tornava imperioso, tirou-lhe das mãos o casaco de peles e atirou-o para um canto do aposento.

- Ouça-me primeiro, Claude, antes de me deixar... Não acabei de lhe dizer porque...

- Para quê? Tudo o que possa dizer-me não evita que as coisas sejam como são! -interrompeu Claude- Como vê, as nossas explicações afastam-nos em lugar de nos aproximar.

Didier reconheceu a justeza do que a mulher lhe dizia e registou esta lição. Um marido jovem, quando encontra, de novo, a esposa, depois de um longo mal-entendido, tem mais e melhor que fazer para provar o seu amor do que procurar explicações complicadas.

Então agarrou Claude pelos ombros e puxou-a para si.

- Minha querida Claude, que estive prestes a perder... Meu amor, que me quer deixar, sem compreender que a adoro e que não poderia passar sem ela...

Claude afastou-o meigamente.

- Não, senhor Valencourt. Não fale em amor! Sabe que há pouco foi compaixão... só compaixão que o prendeu junto a mim!... E a sua compaixão... não a quero... Sinto que não poderia aceitá-la. Não, o senhor não me quer e sem a minha cegueira o nosso divórcio seria agora um facto consumado.

- Engana-se, Claude! Sentia-me muito infeliz com semelhante procedimento, de que nunca teria tomado a iniciativa, embora convencido de que não me tinha amor. Também sofri com o seu desdém e a sua frieza... O marido sofreu em mim, mais do que pode supor e neste momento penso com prazer que a minha querida Claude, a orgulhosa, a altiva, a riquíssima Claude Frémonde, que rejeitava todos os pretendentes à sua mão, se humanizou por mim, por mim só, sem saber quem eu era, e ignorando, por conseguinte, que escolhia um marido digno e de quem não tinha de que se envergonhar.

- E foi pensando num amor... possível da minha parte, que confirmou o meu pedido de divórcio?

Na sua voz adivinhava-se uma dúvida e Didier percebeu que não seria com aqueles argumentos que lograria convencê-la.

- Vá, venha aos meus braços, querida incrédula

- disse, sorrindo- não se recuse! Assim, bem junto de mim, deixe-me dizer-lhe que atravessei metade da Europa para chegar a tempo a esta audiência que representava a minha última probabilidade de a ver... e talvez de a prender.

- Para onde tinha, então, partido?

- Em cruzeiro, para a costa da Noruega.

- Tinha ido, assim, tão longe?

- Sim... para fugir à tentação de voltar para junto de si.

- Mas porquê?

- Para salvaguardar a minha dignidade. O seu gesto, no Palácio do Mediterrâneo, desnorteou-me. Sentia bem o ciúme, mas atribuía-o a despotismo e não ao amor. Dizia para mim que, se deixasse adivinhar os meus sentimentos, ia brincar cruelmente comigo e fazer-me sofrer.

- Ah! Didier! Se soubesse quanto chorei de noite, esperando-o!

- Não podia calcular. Bem ao contrário, persuadi-me de que o seu procedimento procurava, apenas, prender-me para fazer de mim um farrapo.

Claude tinha encostado a cabeça ao peito do marido e, de olhos cerrados, ouvia a divina música.

- Amava-me e partiu! -balbuciou, felicíssima.

- Sim, parti. E, de cada vez que a sua lembrança me assaltava, mais violentamente mandava o capitão acelerar a marcha do iate e seguir mais para o Norte. Sempre mais para cima... É que eu não estava bem seguro de resistir à voz do amor se a sentisse perto de mim.

- Então porque voltou?

- Porque, em Tromsoe, encontrei uma carta do meu advogado, avisando-me de que Claude pedia o divórcio. Então fiquei sem força... Custasse o que custasse, era preciso que estivesse aqui... que a visse e que soubesse qual era a sua atitude.

Calou-se um instante e, depois, baixinho, ao ouvido dela, murmurou:

- Minha adorada! Fiquei tão feliz, há pouco, vendo que a minha querida Claude me queria só a mim, sem se importar que eu fosse o escritor rico e conhecido...

- Nunca suspeitei da verdade. Não há direito de enganar assim as pessoas!

- Só tenho uma desculpa, minha querida: a espécie de embriaguez que senti... aquele oferecimento original de casamento... Mesmo sem a conhecer, entusiasmei-me e a verdade é que podia ter resultado muito pior.

- E não me parece que tenha resultado muito bem! -respondeu.

- Na verdade, casar um homem com uma mulher sem a amar e perceber, alguns meses depois, que está enamorado dela, é uma catástrofe para a sua independência.

Tinha-se sentado e procurava puxar Claude para os joelhos, mas esta defendia-se um pouco.

- Disse, há momentos, que tinha tido uma decepção.

- com efeito. Mas o que não sabe é que a mulher orgulhosa e fria que me fez sofrer se revelou, aos meus olhos, através doutro prisma. Foi em Laghet, quando a vi ajoelhar simplesmente e orar por uma mulher doente, que não conhecia e de quem podia julgar-se no direito de ter ciúmes. Nesse dia, a minha pequenina Claude pareceu-me muito grande, muito boa, e quando, com toda a simplicidade, me confessou, como uma ingénua rapariga, que tinha pedido à Virgem que lhe conservasse a sua modesta felicidade junto de mim, pus-me a brincar e a dizer tolices para lhe não deixar adivinhar a minha comoção e para que a Claude não pudesse perceber que também eu tinha feito, inconscientemente, a mesma súplica.

Ouvindo esta doce evocação, Claude pôs-se a chorar. A voz do marido emocionava-a, despertando todo o amor escondido havia meses. Ah! Era-lhe indiferente que Didier fosse o advogado ou o romancista. O que ela amara em Laghet e por quem orara, era bem o mesmo que lhe falava, hoje, apertando-a nos braços.

Longamente, os lábios de ambos encontraram-se num primeiro beijo que os unia, enfim, para sempre. Mas, de súbito, Claude desprendeu-se bruscamente daqueles braços que a seguravam ternamente.

- Não! -protestou- Diz que me quer e veio aqui ter com uma outra mulher... com a sua amiga de sempre!

Num salto, Didier pôs-se de pé e, contente, abraçou-a de novo.

- Louca! Querida louca! A mulher que eu adoro vai ficar felicíssima de a ver aqui... Sente-se, tranquilamente, quer? E espere-me um instante.

Claude obedeceu sem procurar compreender. Era tão alegre o tom em que Didier falava que não queria continuar a duvidar. Sentia-se tão feliz acreditando nele!

Valencourt desapareceu por detrás duma porta e daí a pouco ouviu-se uma campainha de telefone.

Quando tornou a aparecer, disse, sorrindo, francamente:

- Ela espera-a!... Quer vir, minha querida?

Claude levantou-se e seguiu docilmente o marido, adivinhando que ele não podia, com tal satisfação, preparar-lhe uma surpresa desagradável.

Atravessaram de novo as duas salas e depois o vestíbulo. Um ascensor levou-os ao segundo andar, onde Claude vira, ao chegar, as janelas iluminadas.

- Entre - convidou Valencourt, abrindo a porta de uma deliciosa salinha forrada de azul.

Sentada junto de uma mesa, sob a luz suave de um candeeiro velado de rendas prateadas, uma mulher, de rosto ainda novo, aureolado de lindos cabelos brancos, recebeu-os, ao aproximarem-se, com um sorriso cheio de carinhosa indulgência.

Claude avançou com o coração pleno de uma doce comoção, reparando que o escritor se parecia extraordinariamente com aquela senhora. Esta levantou-se, de seguida, e estendeu simplesmente as suas mãos para a jovem.

- Minha filha! Minha querida filha! -disse Esperava-a havia muito. Venha abraçar-me, depressa.

Já Claude estava nos braços da linda mãezinha, que lhe sorria, fitando-a.

- Conheço-a já muito bem! -continuou, olhando-a, encantada- O meu coração de mãe adivinhou a sua existência nas meditações melancólicas do meu filho. E os seus silêncios falavam-me de si mais do que tudo o que ele pudesse dizer-me. Muitas vezes, durante a minha doença, senti a sua presença junto de nós dois, embora estivesse afastada... Esperava-a e fico contente por ter vindo.

- Oh! Didier! -censurou Claude ternamente quando mais tarde ficou só com o marido- Porque nunca me falou de sua mãe, tão boa e tão afectuosa, e se referia a ela chamando-lhe sempre uma velha amiga?

- Claude tinha exigido que o seu marido não tivesse família e eu não sabia como acolheria as minhas confidências sobre este assunto.

- Certamente com muito mais satisfação do que a que sentia ante a ideia daquela amiga tão querida e tão preciosa, de quem tinha ciúmes.

Vendo-o sorrir, calou-se.

- Como fui tonta! -exclamou passado um momento- Era preciso que fosse ingénua para acreditar que na vida se podia viver um romance, uma história inteiramente inventada por um escritor.

- Talvez fizéssemos bem, agora, queimando esse famoso livro espanhol que lhe fez tanto mal! disse Didier, sorrindo.

- Como soube isso? -perguntou Claude, envergonhada e corando.

- Encontrei, um dia, esse livro sobre a mesa da sala; trouxe-o para o ler e fiquei identificado; também a agência...

- Então, quando partiu... tão bruscamente... sem me deixar a possibilidade de ir ter consigo? Queria, também, deixar-me para sempre? -perguntou tristemente.

Mas Didier fechou-lhe a boca com um beijo.

- Silêncio, minha querida! Promete que nunca mais imagina nada de desagradável a meu respeito?

Não lhe disse minha mãe que estava sempre triste longe de si?

- Sim, é verdade! -exclamou Claude, aconchegando-se-lhe ao peito- O livro será queimado, mas de tudo isto ficou-me um belo marido, um marido ideal! Adoro-o, Didier!

 

Fiel e imparcial narrador desta história, tão romanesca que parece datar dos tempos antigos de antes da Guerra, devo, até ao fim, conservar os meus leitores ao facto de tudo que se passou com os meus heróis.

Apesar de um inquérito muito minucioso e de muitas entrevistas pedidas, foi absolutamente impossível chegar a saber qual dos dois, o jovial casal ou o director da Selectagence, foi o mais feliz com este final fora de moda, que é um casamento de amor e um par de namorados!

Michot está radiante e diz que o casamento do escritor com a simpática Claude Frémonde é a sua coroa de glória. Este enorme êxito tornou-o orgulhoso e ainda mais ambicioso do que era. Pretende, segundo afirmam certos colegas seus, acrescentar a palavra amor ao programa da sua casa.

Como esta palavra foi definitivamente abolida do código ao mesmo tempo que dos nossos costumes, é preferível não insistir nestes boatos tendenciosos, que certamente só pretendem prejudicar â prosperidade da Selectagence.

Quanto ao jovem casal, que se apressou em pedir a bênção da igreja para a sua união, dá-nos pouco

assunto: tal qual como os povos felizes que não têm história.

Passados alguns anos de vida conjugal ainda não tornaram a falar em divórcio, o que é o cúmulo da despreocupação. É possível até que tenham a originalidade de ficar juntos toda a vida.

Para um romancista na moda e uma rapariga entusiasta do progresso, como parecia ser Claude Frémonde, isto assemelha-se a um desafio ao bom-senso, tão conhecido dos nossos contemporâneos, a menos que os nossos heróis não tenham querido muito simplesmente evidenciarem-se, fazendo pasmar as multidões.

Têm dois filhos, que educaram segundo o espirito prático da nossa época e de uma maneira absolutamente moderna.

Um rapazinho muito esperto e que, compreendendo já as dificuldades da luta pela vida, decidiu que, quando for um homem de vinte anos, irá fundar no interior de África um bar estival, no género do Palm Beach de Monte-Carlo, onde o nu integral será exigido a todos os clientes.

Esta criança virá a ser, naturalmente, uma das glórias da nossa terra.

Infelizmente, porém, a irmãzinha é, ao contrário dele, muito retrógrada apesar de seus sete anos, e parece reservar aos pais grandes decepções. Gosta de brincar com bonecas, não quer estudar, tem medo de andar em avião e não gosta de desportos, recusando-se, terminantemente, a praticá-los.

Quando lhe falam do futuro, declara querer ser como as damas de outras épocas: uma senhora com um marido e muitos meninos!

É formidável!

Todos os colegas, amigos e admiradores do grande escritor se mostram muito contristados, embora evitem generosamente falar aos pais naquela criança anormal, cujo destino será terrivelmente desgraçado.

Só Michot não perde a confiança a respeito desta garota. Simplesmente, promete a si próprio descobrir-lhe, quando chegar o momento oportuno, um marido ultra-ideal.

 

 

                                                                                Max Du Veuzit  

 

                      

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