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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Um Mundo Transparente / Morris West
Um Mundo Transparente / Morris West

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Um Mundo Transparente

 

Esta é uma obra de ficção, baseada num caso registrado sucintamente por Carl Gustav Jung, em seu livro autobiográfico Memó­rias, Sonhos, Reflexões. A anamnese não está datada e é estra­nhamente incompleta. Sempre achei que Jung, escrevendo nos úl­timos anos de sua vida, ainda se sentia perturbado pelo episódio e predisposto a editá-lo, ao invés de registrá-lo em detalhes.

Resolvi situar esta história no ano de 1913, o período da histó­rica desavença de Jung com Freud, o começo de sua paixão perpé­tua por Antonia Wolff e o início de seu prolongado colapso.

O personagem da mulher sem nome é uma criação do romancista, mas se conforma às informações limitadas fornecidas na ver­são de Jung sobre o encontro.

O personagem de Jung, seus relacionamentos pessoais, atitudes e práticas profissionais se baseiam nos volumosos registros disponíveis. Mas são minhas, como não poderia deixar de aconte­cer, a interpretação desse material e sua expressão verbal.

Quanto ao resto, cada romancista é um fabricante de mitos, explicado e justificado pelo próprio Jung em seu Prólogo a Memó­rias, Sonhos, Reflexões: "Posso apenas fazer relatos objetivos, posso apenas 'contar histórias': se essas histórias são ou não 'ver­dadeiras' não é o problema. O importante é se o que conto é a minha fábula, a minha verdade."

 

MAGDA…

Berlim

Ontem, à meia-noite, toda a minha vida se transformou numa ficção: um lúgubre conto de fadas teutônico, com duendes e fan­tasmas, amantes fatídicos em castelos em ruínas, com ruídos so­brenaturais e teias de aranha.

Tenho agora de viajar, de véu como uma esposa enlutada, por­que meu rosto é conhecido por muitas pessoas, em muitos lugares. Tenho de me registrar em hotéis sob um nome falso. Nas frontei­ras, tenho de usar documentos falsos, pelos quais paguei um res­gate real a Gräfin Bette... que evidentemente não é uma Gräfin, uma condessa, mas tem sido alcoviteira para os Hohenzollerns e sua corte há 25 anos.

Como disfarce de emergência... e para certos colóquios sexuais, que ainda me interessam... levarei um pequeno guarda-roupa de trajes masculinos, feitos para mim em tempos mais alegres por Poiret, em Paris. Até mesmo este registro, que escrevo sozinha, deve conter invenções e pseudônimos, a fim de resguardar os meus segredos dos olhos curiosos de camareiras e seus acompanhantes do sexo oposto.

Mas a verdade está aqui... tanto quanto posso distingui-la ou suportar contar... e a história começa com uma pilhéria amarga. Ontem foi meu aniversário e comemorei na casa de encontros de Gräfin Bette, com um homem à beira da morte em minha cama.

O incidente foi angustiante para mim, mas nada tinha de excepcional para Gräfin Bette. Os cavalheiros de meia-idade que se entregam a violentos esforços sexuais são propensos a ataques do coração. Todos os bordéis de qualidade possuem os meios de re­solver prontamente esses problemas. O médico da casa propor­ciona o tratamento de emergência. Morto ou vivo, o infortunado é vestido e transportado com toda presteza para sua casa, clube ou um hospital. Se não tem o seu próprio cocheiro ou chofer, Gräfin Bette providencia, sempre um homem que sabe manter a boca fe­chada e dispõe de um catálogo de mentiras convincentes para ex­plicar o estado de seu passageiro. Os inquéritos policiais são ra­ros... e a discrição policial é sempre uma mercadoria altamente ne­gociável.

Aquele caso, no entanto, não era tão simples. Meu companheiro e eu éramos hóspedes pagantes no estabelecimento da Grä­fin. Ele era um homem titulado, um coronel na Guarda Militar do Kaiser. Sou uma personagem conhecida na sociedade. Sou também médica e por isso era-me evidente que o coronel sofrera uma oclu­são da coronária e que um segundo incidente naquela noite, sempre uma possibilidade em tais casos, certamente o mataria.

Ele era casado, mas não muito feliz no casamento, diga-se de passagem, com uma sobrinha do Kaiserin. Dissera à esposa que estaria participando de uma reunião de oficiais do estado-maior. Essa história, graças a Deus e ao código de honra dos Junkers, poderia resistir perfeitamente. Mas meu coronel acabaria sendo en­tregue à esposa, vivo ou morto, e não haveria meios de ocultar seu estado cardíaco ou as outras lesões, como lacerações na região lombar, duas vértebras lascadas e prováveis danos renais.

Gräfin Bette resumiu a situação, objetivamente, em seu sotaque das sarjetas de Berlim:

—   Vou resolver toda essa confusão. Pagarei o que for necessário. Mas quero que compreenda uma coisa: você não é mais bem-vinda aqui. Antigamente era divertida. Agora é perigosa. Ha­verá uma esposa e um filho, o próprio Kaiser e todo um regimento de cavalaria, clamando por sangue pelo que aconteceu. Se quer meu conselho, banque a esperta agora e desapareça por algum tempo. Outra coisa: vou precisar de dinheiro... muito dinheiro.

Perguntei quanto e ela indicou a quantia exata que eu recebera pelos seis cães de caça que vendera naquela manhã ao Príncipe Eulenberg. Não perguntei como ela sabia da quantia ou como cal­culara a conta. Tinha o dinheiro na bolsa e paguei sem protestar. Ela deixou-me para arrumar as minhas roupas e velar o paciente, que estava fibrilando terrivelmente. A Gräfin voltou 45 minutos depois, com um jogo de documentos pessoais em nome de Magda Hirschefeld e uma passagem de primeira classe no expresso da meia-noite para Paris. Também me trouxe um casaco preto de sarja, um tanto velho, e um chapéu preto de feltro, com um véu. Comentei jocosamente que estava parecendo uma babá inglesa. Gräfin Bette não achou graça.

—   Estou lhe fazendo um favor que você não merece. Cada vez que ouço falar a seu respeito, ultimamente, tem sido um pouco louco, um pouco mais abominável. Compreendo agora o motivo.

Perguntei-lhe o que pretendia fazer com o coronel e ela me disse bruscamente:

— Não é da sua conta. O que você não sabe, não pode prejudicá-la ou a mim. Não gosto de você, mas sempre cumpro os meus acordos. E agora trate de sair daqui.

Meu coronel estava inconsciente, mas ainda vivo, quando Bette praticamente expulsou-me da casa, através do quintal e do portão dos fundos, onde um carro aguardava para me levar à esta­ção. Cheguei três minutos antes da partida e paguei uma gorjeta generosa ao chefe do trem para me arrumar um compartimento va­zio. Tranquei a porta e me arrumei para dormir.

Nessa noite, pela primeira vez, tive o pesadelo: o sonho da caçada através do vale negro, a queda do meu cavalo e depois ser trancada nua numa bola de vidro, que rolava interminavelmente por um deserto de areia vermelha como sangue.

Acordei emaranhada nos lençóis, suando de terror e gritando por papai. Mas meu pai há muito que estava morto e os gritos foram abafados pelo gemido do apito do trem, ecoando pelas terras cultivadas de Hanover.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Sei que estou muito perto da loucura e sinto um medo desespe­rado. Vagueio à noite, dominado pelo pânico, por paisagens de pe­sadelo, mares de sangue e ravinas entre montanhas escarpadas, ci­dades mortas e brancas sob a Lua. Ouço o troar de cascos e o latido de cachorros, não sei se sou o caçador ou o caçado.

Quando acordo, é um estranho o que vejo no espelho, de olhos desvairados e hostil. Não consigo ler um livro, pois as palavras se misturam numa algaravia incompreensível. Resvalo para depres­sões apáticas, explodindo em iras irracionais que aterrorizam meus filhos e reduz minha esposa a lágrimas ou recriminações amargas. Ela me atormenta a procurar conselhos médicos ou tratamento psi­quiátrico. Mas sei que esta doença não pode ser curada por um vidro de remédio ou as inquisições de um analista.

Por isso, para ratificar a minha sanidade, idealizei um ritual. E recito a litania da minha vida para o estranho no espelho, da se­guinte maneira:

—   Meu nome é Carl Gustav Jung. Sou um médico, professor de medicina psiquiátrica, um analista. Tenho 38 anos de idade. Nasci na aldeia de Kesswil, na Suíça, no dia 6 de julho de 1875. Meu pai, Paul, era um pastor protestante. Minha mãe era uma moça local, Emilie Preiswerk. Sou casado, com quatro filhos e um quinto a caminho. O nome de solteira de minha esposa é Emma Rauschenbach. Nasceu perto do Lago Constanza... que às vezes ela parece pensar ser o centro do mundo...

A narração se prolonga por todo o tempo em que faço a barba. O propósito é me manter fixado no espaço, tempo e circunstâncias, evitar que me dissolva no não-ser. Tomo sozinho o café da manhã, em silêncio, porque ainda estou espanando as teias de aranha dos meus sonhos.

Depois do café, passeio pela beira do lago, recolhendo pedras e seixos para construir o modelo de aldeia que está começando a assumir formas mais definidas no fundo do meu jardim. É um pas­satempo infantil, mas prende a minha mente errante às realidades físicas simples: a água fria, o formato e a textura das pedras, o som do vento nas árvores, o mosqueado do Sol no gramado. Enquanto essa parte do ritual continua, ouço vozes e às vezes vejo persona­gens do passado. Ocasionalmente, ouço a voz de meu pai, expondo a doutrina cristã de seu púlpito, em Kesswil:

—   Um sacramento, meus caros irmãos, é um sinal exterior e visível de uma graça interior. A graça representa uma dádiva gra­tuita de Deus...

Há muito que já rejeitei a religião que meu pai pregava. O Deus dele não tem lugar em minha vida, mas a graça, a dádiva gratuita... oh, como tem! Ela me é concedida todas as manhãs, quando meu ritual é concluído e, pontualmente, ao badalar das 10 horas, minha Antónia entra em minha vida...

Minha Antónia...! É verdade, posso dizer isso, muito embora minha posse não seja completa nem perpétua, como eu gostaria. Somos amantes, mas mais do que amantes. Penso às vezes que efetuamos um casamento mais completo do que o legal que me une a Emma. Toni me entregou seu corpo, tão generosamente, tão ar­dentemente, que só de ouvir os seus passos ou o som de sua voz sinto-me vivo e transbordando de desejo. Minha dádiva para ele é de si mesma, uma sinceridade de espírito, uma saúde de emoção, uma integridade, uma harmonia entre o consciente e o subcons­ciente. Quando ela veio a mim, como paciente, era a princesa adormecida na floresta encantada, aprisionada por sarças e trepa­deiras. Despertei-a. Removi os pesadelos e confusões de seu longo sono. Quando ela ficou curada, converti-a em minha discípula. E depois ela se tornou minha companheira e colaboradora.

Agora, em meu próprio momento de terror, os papéis estão invertidos. Sou o paciente. Ela é a médica amada cuja voz me acalma, cujo contato transmite a dádiva curadora.

Estou me tornando lírico. Sei disso. Mas é somente em particu­lar que assim posso ser: para este diário secreto, durante as horas em que Antônia e eu passamos juntos, trancados em meu quarto na torre, onde ninguém mais pode entrar sem ser convidado. Mesmo aqui, porém, nossa comunhão não é completa. Flertamos, sorri­mos, nos acariciamos... e, acreditem ou não, até trabalhamos!... mas nunca fazemos amor, porque Toni se recusa a entregar-se ao clímax na casa de outra mulher. Lamento profundamente, mas não posso deixar de admitir a sabedoria da atitude. Emma já está mor­bidamente ciumenta e não nos atrevemos a correr o risco de ser­mos descobertos no ato sexual.

É claro que esse retardamento da liberação aumenta minha tensão emocional. Mas há compensações, na medida em que Toni é forçada a manter uma certa isenção, o que é valioso em nosso relacionamento clínico. Do meu lado, por mais que eu o deseje, não posso exigir a extinção de todas as minhas perplexidades em sua abundante feminilidade. Seria a mesma coisa que me embriagar até o torpor ou me atordoar com opiatos e adormecer a murmurar que está tudo bem com o mundo.

Assim, todas as manhãs nos saudamos ternamente. Ela faz café para nós dois. Cuidamos da correspondência. E depois traba­lhamos juntos na análise dos conflitos psíquicos que estão me dila­cerando.

Apesar de nosso relacionamento clínico nessas sessões, estou vivo e atento, a cada instante, à sua presença sexual. Estudo a curva dos seios, a queda da saia em torno das coxas, a mecha de cabelos que cai pela têmpora. Sinto um intenso excitamento se­xual. Mas ela permanece calma e fria, como uma rainha do gelo, da maneira que lhe ensinei, a formular suas perguntas:

—   O que sonhou ontem à noite? Estava relacionado com os símbolos que temos discutido?

Estávamos discutindo hoje uma nova seqüência, que não tinha relação... ou pelo menos assim parecia... com quaisquer outras que eu experimentara anteriormente. Eu estava numa cidade na Itália. Sabia que era em algum lugar do Norte, porque me lembrava de Basiléia. Mas era mesmo a Itália e o presente, sem qualquer som­bra de dúvida. As pessoas vestiam roupas modernas. Havia bici­cletas, ônibus e até mesmo um bonde. Eu descia pela rua quando deparei com um cavaleiro em armadura completa, uma armadura do século XII, com uma cruz vermelha de cruzado no peito. Ele estava armado com uma espada grande e se adiantou como um conquistador, sem olhar para a direita nem para a esquerda. O mais extraordinário era que ninguém reparava. Parecia que eu era o único que o via. Senti a força enorme de sua presença, uma im­pressão de revelação iminente, se pudesse segui-lo. Mas eu não podia...

A interpretação do sonho levou-me e a Toni muito perto de uma desavença. Eu estava... e ainda estou... convencido de que continha alegorias mágicas e alquímicas, relacionadas com o fol­clore antigo: os Cavaleiros da Távola Redonda e a busca pelo Santo Graal... que simbolizava a minha própria busca pelo sentido no meio da confusão.

Toni discordou categoricamente. Disse que o cavaleiro era Freud. Era ele o cruzado solitário, não reconhecido pelos indife­rentes. Alegou que eu reconhecia o valor e a força dele, mas não podia segui-lo porque não podia aceitar o impulso fundamental de suas idéias... e porque minha afeição por ele se transformara em hostilidade.

Comecei a ficar tenso, como sempre acontece no limiar de outro acesso de ira irracional. E foi nesse instante que ela suspen­deu a discussão, aproximou-se de mim e comprimiu minha cabeça latejante contra o peito, embalando-me.

—   Calma, calma... Não vamos discutir nesta linda manhã. Estamos ambos nervosos e cansados. Passo metade da noite acor­dada, a pensar em você e desejá-lo. Por favor, leve-me até em casa esta noite e faça amor comigo.

Se ela fosse agressiva ou tímida, eu poderia ficar com raiva por horas a fio, como às vezes faço com Emma. Mas sua ternura me desarma totalmente e às vezes me leva à beira das lágrimas.

Mesmo assim, ela não cede um palmo sequer no debate clínico. Está convencida de que meus problemas com Freud contri­buem para a minha psicose. Admito isso para mim mesmo, mas ainda não posso admitir para ela. Nunca lhe falei do estupro ho­mossexual a que fui submetido na juventude nem do conseqüente elemento homossexual em minha afeição por Freud, como é difícil libertar-me do domínio dele.

Mais cedo ou mais tarde, no entanto, a verdade vai aflorar, na medida em que continuemos juntos na minha análise. Mas ainda não! Por favor, Deus, ainda não! Sou um tolo de meia-idade, ca­sado, apaixonado por uma moça de 25 anos. Quero desfrutar a ex­periência enquanto me for possível. Prevejo batalhas iminentes com Emma; e se meu sinistro Doppelganger (sósia) algum dia me controlar, estarei perdido para toda alegria e esperança. Ao invés de suportar esse desespero, seguirei o exemplo do meu velho amigo, Honegger, lançando-me no sono eterno.

 

MAGDA...

Paris

Pela primeira vez em 20 anos não estou hospedada no Crillon, mas sim numa pensão modesta, perto da Etoile. Faço as refeições na pensão e passeio por aquela parte da cidade, onde é quase im­possível me encontrar com amigos ou conhecidos. Há um quiosque aqui perto em que se vende jornais estrangeiros e já encomendei um exemplar diário do Berliner Tageblatt.

Até agora, ainda não encontrei qualquer alusão ao meu coronel ou a meu destino. A única referência à minha presença em Berlim foi uma breve notícia: "O Príncipe Eulenberg acaba de adquirir seis cães de caça de alta classe, que estão sendo preparados em sua propriedade báltica para a temporada que se aproxima."

Assim, analiso a lógica da situação. Meu coronel está vivo ou morto. Se está morto, vão dar a notícia na coluna de obituário. Certamente o enterrarão com todas as honras militares: tambores em surdina, um cavalo sem montaria com as botas vazias nos estri­bos, os disparos de canhão, toda a panóplia do absurdo militar. Se ele está vivo, deve estar pelo menos temporariamente inválido e terá de encontrar alguma explicação plausível para a esposa. Sei que ele é um mentiroso épico em assuntos eróticos, mas o episódio exigirá muito de seu talento.

Há, no entanto, uma possibilidade mais sinistra: a de que meu coronel esteja em convalescença, mas conspirando a minha ruína. Ele não tem motivo para me amar. Pode perfeitamente estar com medo de chantagem... uma das poucas coisas em que jamais me empenhei. Contudo, ultimamente se tem falado muito das novas lutas entre as grandes potências. A Bulgária atacou a Sérvia e a Grécia. Aqui no Ocidente circulam histórias de espiões, anarquis­tas e assassinos. Há apenas três meses houve um atentado contra a vida do Rei Alfonso da Espanha. Se o Kaiser e seu coronel quise­rem se livrar de mim, poderão providenciar com a maior facilidade. É notícia antiga que o Kaiser anda atualmente muito sensível com a honra de sua corte. Até mesmo seu real primo da Inglaterra comen­tou em certa ocasião:

Willy é tão rude!

E eu quase fui arruinada pelos rumores que me identificaram, erroneamente desta vez, como "a beldade eqüestre por quem o Kaiserin está supostamente apaixonado".

Assim, por enquanto, permaneço recatadamente em minha pensão, perto da Etoile. Leio os jornais da manhã, faço algumas compras, dou um passeio como uma dama e rezo para que Gráfin Bette em Berlim conceda o valor devido ao dinheiro. Costumo gra­cejar a respeito, mas a verdade é que não é absolutamente engra­çado. Estou assustada, profundamente chocada... não pelo que al­guém possa me fazer, mas pelo que fiz a mim mesma. Um poço negro abriu-se a meus pés de repente e estou cambaleando à beira da destruição.


A única maneira pela qual posso explicar é recordar o que aconteceu há 20 anos, quando eu acabara de concluir os meus es­tudos. Papai levou-me e a Lily num cruzeiro pelo Extremo Oriente. Viajamos no navio capitânia da velha Royal Dutch Line, passando por Hong Kong, Xangai, Índias Orientais, Sião e Cingapura. Desembarcamos um dia em Soerabaya. Estávamos atraves­sando o mercado quando subitamente houve pânico. As pessoas corriam em todas as direções, gritando desesperadamente. Vimos um malaio correndo em nossa direção, golpeando incessantemente com um cris grande e curvo. Estava bem perto de nós, talvez a uns 10 metros, quando um guarda holandês matou-o com um tiro. Papai explicou que era a única maneira de deter o homem. Ele estava amok, dominado por um acesso de ira maníaco-homicida, contra a qual nenhuma razão podia prevalecer.

— ...e por isso se tem de matá-lo — arrematou papai, à sua maneira fria e sorridente. — É uma misericórdia para ele e um ato necessário à ordem pública. Esse tipo de loucura se transmite como a peste entre esta gente.

Fico imaginando o que ele teria dito se visse a filha amok no quarto da casa de encontros de Gräfin Bette. Começou como um jogo sexual comum, embora um tanto violento. Meu coronel, um homem grande e robusto, sempre rigoroso com seus soldados, gos­tava de se humilhar com as mulheres. Exigia que o insultassem e o punissem por faltas fictícias. Eu era a companheira perfeita para a sua fantasia. Sou alta, atlética, uma boa amazona e bastante co­nhecida nos círculos de caça. Eu também gostava do jogo... e diga-se de passagem que gosto da maioria das experiências sexuais. Mas de repente não era mais um jogo. Eu era uma fúria a bradar, transbordando de iras vingativas que afloravam do nada. Tinha vontade de matar o homem. Açoitei-o e espanquei-o com o cabo do chicote de montaria. E foi somente a visão de seu ataque cardíaco... o peito se contraindo, a boca contraída num ricto ofegante de agonia... que me chocou de volta à realidade. Era difícil acredi­tar que eu estivera tão perto do assassinato... e tanto gostara da experiência.

Recordando agora, do meu refúgio discreto em Paris, é bem fácil acreditar que a experiência pode se repetir e que da próxima vez talvez eu não seja tão afortunada. Alguma coisa está me acon­tecendo... vem me acontecendo há bastante tempo... que não posso explicar.

Todas as noites, antes de deitar, eu me estudo nua no espelho. Tenho todos os motivos para ficar satisfeita com o que vejo. Estou com 45 anos de idade. Já tive um filho, mas meus seios estão fir­mes, a pele é clara, os músculos tão fortes quanto os de uma jo­vem. Meus cabelos ainda mantêm o seu castanho avermelhado na­tural. Há uns poucos sulcos denunciadores em torno dos olhos, mas com uma iluminação generosa e maquilagem cuidadosa difi­cilmente se tornam visíveis. Minha menstruação ainda é regular e não comecei a experimentar qualquer dos desconfortos da meno­pausa. Se eu sair esta noite, como me sinto tentada a fazer, irei ao Dorian Club ou farei uma visita a Nathalie Barney. E poderei fazer uma opção, entre homem ou mulher.

A mudança, qualquer que seja, está ocorrendo dentro de mim. É como se... de que maneira explicar?... como se uma porta se abrisse em meu cérebro e todas as espécies de criaturas estranhas e aberrantes ficassem em liberdade. Escaparam ao controle agora. Não posso recapturá-las. Nem todas são cruéis e furiosas, como a que me dominou no estabelecimento de Gräfin Bette. Outras são fantásticas, espirituosas, dissolutas, transbordando de especula­ções desenfreadas e exuberantes; mas seguem os seus próprios ca­prichos e não a minha orientação. Tanto posso dar um salto mortal nos jardins das Tuilleries como fazer um amor lésbico com Nathalie Barney inesperadamente.

É justamente isso o que me perturba. Detesto perder o controle. Com os homens, cavalos e cachorros sempre mandei; com as mulheres, sou uma terna amiga ou a inimiga mais insidiosa. Jamais fui dependente do álcool ou das drogas, embora tenha consumido tudo. Foi papai quem me ensinou essa lição, à sua maneira infor­mal, tão agradável:

— Jamais se apaixone por uma garrafa ou um cachimbo de ópio. Não há diversão ou futuro em qualquer das duas coisas. Ja­mais se entregue ao sexo com um estranho. A sífilis faz o diabo com o organismo. Não se esqueça de que o único amante que pode quebrar o seu coração é aquele de quem depende...

Eu gostaria que ele estivesse aqui agora, a fim de poder fazer-lhe as perguntas que estão me atormentando.

— O que se faz quando não se pode confiar em si mesma? A quem se pode recorrer quando não se consegue ler as placas das ruas? O que faço com todos esses estranhos que estão dentro de minha cabeça?

Mas isso é tolice. Vontade é uma coisa que dá e passa. Papai já se foi há muito tempo e não posso passar o resto da minha vida conversando sobre banalidades com a viúva de um deputado e de­fendendo minha virtude inexistente contra um vendedor de vinhos de Bordeaux que me afaga o joelho por baixo da mesa. Quaisquer que sejam os riscos, tenho de escapar deste lugar. Portanto, esta noite vou ao Dorian's e ao que possa me acontecer naquele desfile de aberrações...

Aberrações? Mas quem sou eu para falar? Pertenço ao Dorian's há mais tempo do que me agrada lembrar. De acordo com papai, geralmente um cronista fidedigno das coisas do demi-monde, o clube foi fundado por Liane de Pougy, que foi cortesã de luxo de seu tempo. O rei de Portugal gastou uma fortuna com ela. O Barão Bleichroder, Lorde Carnarvon, o Príncipe Strozzi e Maurice de Rothschild pagaram o seu tributo em paixão e dinheiro. A pai­xão ela explorava implacavelmente. O dinheiro ela gastava como água com as garotas que escolhia como amantes, os lutadores e as aberrações das excursões por Montmartre.

O clube seria o seu espetáculo particular de aberrações, onde poderia arrancar um pouco mais de seus clientes complacentes. O gerente era Dorian, um gnomo corcunda da Córsega que parecia com Polichinelo, tinha um temperamento explosivo, um desdém profundo pela maior parte da humanidade e um coração tão grande quanto a sua corcunda.

Papai costumava visitar tanto a Pougy como Dorian sempre que ia a Paris. Ela o consultava sobre as aflições de seu ofício. E ele tratava das dores reumáticas que atormentavam o corpo retor­cido de Dorian. Quando a Pougy quis vender sua parte do clube, foi papai quem financiou Dorian para comprá-la. Por isso, um belo dia em herdei um título de sócia vitalícia.

Quando meu marido morreu e minha filha pequena foi viver com a tia, fiquei com uma vasta fortuna e uma ampla variedade de apetites urgentes, que só poderiam ser satisfeitos em segredos, a menos que eu quisesse me transformar também numa cortesã de luxo. O Dorian's tornou-se o meu ponto de encontro em Paris.

Quando me apresentei e mostrei o velho cartão de papai, Dorian me abraçou e prontamente me designou como sua médica pessoal. Lembro nitidamente como ele me sorriu maliciosamente, compri­miu o indicador contra o nariz e me disse:

Uma troca justa, hem? Você me mantém saudável e eu a manterei livre de problemas. Eu gostava de seu papai. Ele era bas­tante arrojado, mas tinha mãos que sabiam curar... e que classe! Os milordes ingleses não eram capazes de esnobá-lo. Os alemães nunca se atreviam a intimidá-lo. E os franceses não podiam compreendê-lo. E até hoje não sei se eu próprio podia com­preendê-lo. Nunca entendi o que ele queria fazer com você... Era um homem com idéias estranhas a respeito da criação de uma filha... Mas isso não é da minha conta. Alguns gostam de peixe e outros de galinha, mas nunca se pode saber qual a melhor enquanto não provar,- não é mesmo?

Dorian está mais velho agora, pois uma década já se passou. Os cabelos estão brancos, os ossos rangem quando ele se movi­menta. Tem a palidez seca de uma criatura das cavernas. Mantém criados pessoais sempre por perto: um sujeito silencioso e sinistro de Ajácio e uma garçonete de Calvi, que dá a impressão de que pode estrangular um boi com as mãos nuas. A garçonete cuida da casa. O homem de Ajácio é a sombra de Dorian, sempre perto, quase invisível, mas perigoso como uma víbora.

Quando visito Dorian, sempre vou primeiro à sua casa, no Quai des Orfèvres. É uma cortesia ritual. Sou sua médica. Devo examiná-lo. Depois, acompanhados pelo corso grande e silencioso, atravessamos o pátio com calçamento de pedras até o clube, onde se exibem os exóticos de Dorian.

Resolvi naquela noite usar o meu traje de Poiret, calça preta, paletó preto de smoking, jabó branco, com um manto forrado em seda azul-escura para cobrir tudo. Enquanto me vestia, fiquei pen­sando se poderia revelar a Dorian o apuro em que me encontrava. Somos bons amigos, mas em nosso circo do absurdo a malícia é sempre um elemento no jogo do amor.

Mas eu não precisava me preocupar. Dorian sabia de tudo... mais até do que eu, na realidade. Meu coronel estava vivo e se recuperando em sua propriedade na Prússia Oriental. Recobrara-se do ataque cardíaco, mas ainda estava com as costas engessadas. Renunciara à guarda militar do Kaiser para assumir um posto no estado-maior... Não haveria represálias para mim, mas eu faria me­lhor se nunca mais pusesse os pés em Berlim.

—   Conseguiu escapar dessa sem conseqüências piores. — Dorian foi conciso em relação ao episódio. — Mas se não pode se controlar, não entre nesses jogos. Posso lhe garantir que os prus­sianos costumam às vezes se tornar um tanto brutais... E agora me examine e diga quanto tempo ainda tenho para viver.

Enquanto eu examinava o seu corpo pequeno e grotesco, escu­tando os roncos dos pulmões, tateando os calombos ósseos na espinha e os nódulos em cada articulação, ele me fazia uma preleção, como um mestre-escola:

—   Ah, as mulheres! Todas vocês são umas tolas! Jamais compreendem que estão jogando contra a casa... e que a casa sempre acaba ganhando. Veja o seu caso, chérie! É forte, rica e inteligente, mas sua resistência está se esgotando, a pele se desgastando. Es­tará em breve com os nervos à flor da pele. E é nesse momento que o protesto começa, a gritaria se desencadeia. Só que você não es­tará gritando por socorro, mas clamando por sangue. E quando se der conta os guardas estarão levando-a para a cadeia.

Ele estendeu a mão e me afagou o rosto, com a mão pequena e artrítica, contraída como uma garra de pássaro. O gesto era ao mesmo tempo terno e ameaçador.

  • Você me preocupa, chérie. Posso ler como um catecismo de criança a maioria das mulheres que vem aqui. Um homem lhes fez mal. E elas sofrem as angústias da meia-idade. São lésbicas... ou solitárias procurando por emoções novas. Estão entregues ao álcool ou às drogas, quando não às duas coisas. Mas você é dife­rente. Num momento é uma madona, com um sorriso meigo e os seios cheios de leite para amamentar o mundo; no instante seguinte é Medusa, com veneno na boca e uma cabeleira feita de serpentes.

  • Também assusto você, Dorian?

  • Assustar-me? — Ele riu, uma risada estranha e encapelada, que terminou num acesso de tosse. — Mas de jeito nenhum! Eu a conheço muito bem. Além do mais, ninguém se atreve a assustar um corcunda. Passam a mão na minha corcunda. Você pode fazê-lo também, se quiser. Está precisando de alguma sorte. Vamos, pode me esfregar.

    A palavra "esfregar" era um código tacitamente acertado entre nós. Era o seu brado por conforto sexual de uma amiga que não riria dele nem revelaria os segredos de seu corpo distorcido. E eu me sentia feliz em atendê-lo. Deus sabe que era um ato bastante rápido, mas eu não sentia ressentimento nem repulsa por realizá-lo. A contrário, experimentava um curioso ímpeto de ternura. Queria proporcionar-lhe prazer, fazê-lo sentir-se um homem, observá-lo depois, satisfeito e sonolento, enquanto tomávamos um conhaque. E foi nesse momento que ele me confrontou com sua pergunta abrupta:

  • Por que faz isso... esse ato de domadora de leão?

  • Domadora de leão?

    A idéia era tão incongruente que desatei a rir. Mas Dorian ficou prontamente furioso.

  • Não estou brincando. É assim que você é conhecida agora em todo o circuito europeu: La Dompteuse des Lions.

  • Não vejo onde está a graça.

  • E não há graça nenhuma. É uma reputação perigosa. O que consegue com esse comportamento louco?

  • Nada.

  • Então por que faz isso?

  • Não sei, meu pequeno amigo. Juro que não sei. Quando acontece, é uma explosão de ira, uma tempestade de fogo. Quase não sei mais quem eu sou.

  • Onde está vivendo agora?

  • Numa ratoeira, junto com outros camundongos. É uma pensão perto da Etoile.

  • Pode receber lá?

  • Não.

  • Pois então passe esta noite aqui. Use o meu quarto de hóspedes. Vou apresentá-la a alguém que a deixará tranqüila como uma freira na missa.

  • Obrigada, mas não quero. Eu não poderia suportar homem algum neste momento.

  • E quem falou num homem? —- Ele ajeitou meus cabelos com os dedos pequenos, que pareciam garras. — Trata-se de uma moça como a que Safo cantou em Mitilenos. Acho que você está precisando agora de alguém como ela. Além do mais, o que você tem a perder? Se dormirem felizes e despertarem amigas, ambas estarão bem melhor do que agora.

    Ele tinha razão. Nada perdi. E ganhei alguma coisa... ou pelo menos assim penso. Ela se aconchegou contra meus seios como uma criança e clamou:

    —   Ame-me, mãezinha! Ame-me! Leve-me de volta para dentro de você!

    Pensei em minha filha perdida e fui gentil com ela. Depois, também me projetei pela boca de seu ventre, mas descobri-a muito pequena e muito apertada para permitir-me a entrada. Apesar disso, não me senti furiosa, porque ela queria ansiosamente me acolher. Não era sua culpa o fato da casa ser tão pequena e ainda não ter sido habitada. Adormecemos, nos braços uma da outra, talvez não felizes, mas ternas e serenas.

    Despertei por volta das três horas da madrugada. Ela dormia na curva do meu braço, os lábios comprimidos contra o meu seio. O luar incidia em seu rosto e descobri com um pequeno choque de surpresa que era quase tão velha quanto eu, com os mesmos pés-de-galinha nos cantos dos olhos, os mesmos sulcos descendo dos lábios. Não senti qualquer arrependimento, qualquer desaponta­mento. Tive apenas a súbita e pungente recordação de meu pai, sorrindo do outro lado da mesa do café da manhã, depois de minha primeira aventura que se prolongara pela noite inteira. E ele disse:

  • É um problema e tanto, não é mesmo?

  • Peço que me desculpe, papai. — Oh, Deus, como eu era presunçosa! — Mas não tenho qualquer problema.

  • Então tem muita sorte! — Ele ainda me sorria, como Til Eulenspiegel. — Quando eu era jovem, nunca sabia o que dizer a elas depois.

  • Mas já aprendeu agora?

    Dois podiam participar daquele jogo de provocação.

  • Claro. Sempre digo a mesma coisa: Obrigado e, com muito pesar, adeus.

  • Isso deve trazer lágrimas aos olhos delas.

  • Não, não traz. — Ele riu, acenando para mim com um croissant. — Mas deixa uma situação indefinida. Não se deve fazer uma inimiga de graça. E se pode ter sorte bastante para manter uma amiga para uma noite fria de inverno.

    Eu não queria manter a minha menina-mulher. Retirei-me sem acordá-la e deixei dinheiro no travesseiro. Esgueirei-me pelo cin­zento do falso amanhecer e peguei um fiacre para me levar de volta à pensão. O cocheiro estava soturno, o cavalo esfalfado demais para um trote. Mas por cima do barulho dos cascos nas pedras do calçamento, pude ouvir Lily a cantar uma canção de ninar da minha infância:

 

— Num cavalo de balanço cheguei em Banbury Cross

Para ver a linda dama num cavalo branco

Anéis nos dedos e sininhos nos pés

A música fazendo por onde quer que passe.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Estou empenhado agora numa viagem mais perigosa do que qualquer outra já realizada pelos antigos navegadores... uma via­gem ao centro de mim mesmo. Devo descobrir quem eu sou, por que eu sou. Tenho de chegar a um acordo com o demônio que vive dentro de minha pele. Tenho de argumentar com meu pai, há muito morto, sobre o Deus que ele pregava e eu rejeitei. Tenho de con­versar com minha mãe, também morta, a quem jamais aprendi a amar. Tenho de encontrar o homem que me estuprou quando eu era um menino e os deuses sinistros que me atormentam os sonhos de adulto. Tenho de cortar os laços que me prendem a Freud e podem estar certos de que isso não é tão fácil como um divórcio! Tenho de me afastar da última praia conhecida e me aventurar pelo oceano tempestoso do meu próprio subconsciente.

Há terror nisso tudo. E eu me empenho em luta, nas horas lúgubres depois da meia-noite. Sou como um marujo a contemplar um mapa antigo, em que o cartógrafo, um pouco além das Colunas de Hércules, desenhou terríveis monstros que cospem fogo e es­creveu a legenda: "Cuidado, marujo! Aqui há monstros e a beira do mundo." Estou familiarizado com os monstros. Tenho sonhado com toda uma coleção: o falo gigante de um olho só na caverna, a pomba que fala com uma voz humana, os cadáveres vivos de Alys-camps, o escaravelho preto e as rochas que esguicham sangue! Há sempre uma que outra dessas beldades de vigília junto ao meu tra­vesseiro.

Estendo a mão no escuro para tocar Emma, trazê-la para perto de mim, em busca de conforto e segurança. Ela deixa escapar um pequeno gemido de contrariedade e rola para longe de mim, a mão cobrindo o púbis. Esse gesto defensivo me irrita. Jamais me forcei a ela. Compreendo perfeitamente que, com dois meses de gravidez, ela pode estar se sentindo avessa ao sexo. Mas ela não imagina como me sinto solitário neste leito conjugal, como estou exposto a todos os meus inimigo fantasmagóricos. Se eu não tivesse Toni em minha vida neste momento, poderia muito bem estar reduzido à impotência.

Claro que há muito mais envolvido do que uma aversão sazonal ao sexo. Emma sempre foi um tanto auto-erótica. Na verdade, ela chegou a confessar isso a Freud, na última carta que lhe escre­veu. Assim, ela tem menos necessidade física de mim do que eu dela. Minha doença mudou-me e mudou o meu papel na família. Tornei-me um compromisso e não mais um trunfo. Não estou mais trabalhando na clínica. Deixei de dar aulas, porque não consigo me concentrar nos textos mais simples. Minha relação de pacientes particulares é lamentavelmente pequena. Não sou mais o arrimo da família e estamos subsistindo da herança de Emma. Assim, ela se tornou a matrona vietrix, a matrona vitoriosa, segura em seu papel de geradora dos filhos, segura em seu amor próprio, enquanto o meu está reduzido pela doença e a dependência financeira. Ela é capaz agora, finalmente, de exercer a sua sutil vingança por minhas infidelidades, reais e imaginárias.

Não reivindico a virtude sexual. Não sou promíscuo, mas também não sou monógamo por natureza. Acho que os gregos encon­traram a combinação certa: uma esposa para a casa e os filhos, a cortesã ou o amigo para companheirismo, o lupanar para os praze­res desenfreados, quando se quer. Nossa impassível sociedade cal­vinista suíça impõe restrições intoleráveis a homens e mulheres. Num bom casamento, sempre se precisa de liberdade para vaguear um pouco.

É claro que Emma não vê as coisas dessa maneira e procuro não levantar a questão. Já estamos tendo cenas por causa de Toni e Emma não hesita em enumerar, alto e bom tom, algumas das mi­nhas indiscrições no passado... como a mulher Spielrein que que­ria, a qualquer custo, ter um filho meu!

O exercício da psicologia analítica está repleto de tentações. Mesmo quando se é tão virtuoso quanto um eremita numa camisa de cilício, não se consegue resistir a todas. Quando uma mulher despe a sua alma, é muito mais perigosa do que ao simplesmente tirar a blusa e a saia. E as rejeitadas espalham o escândalo. Aque­las a quem se cede, como um gesto de afeição, tornam-se vorazes como mênades.

Assim, é-se condenado por fazer e é-se condenado por não fazer. E sua esposa agrava o problema, ao se virar para o outro lado na cama e cobrir o sexo com a mão, como uma virgem de Botticelli. Ao diabo com tudo isso! É melhor estar de pé e trabalhando do que deitado aqui, no escuro, acalentando medos antigos e uma ansiedade na virilha.

O gabinete está frio e silencioso, como uma tumba. Gostaria que Toni aqui estivesse, para lhe acrescentar calor e fogo. Sinto-me tentado a telefonar para ela; mas nem mesmo eu sou tão egoísta ao ponto de acordá-la às duas horas da madrugada! Sirvo-me de uma dose grande de conhaque. Encho o cachimbo. Abro no atril o livro preto em que registro cada passo da minha peregrinação ao que será, conforme rezo, a iluminação final. Ponho na mesa as fi­chas das análises de sonhos em que Toni e eu temos trabalhado. Ponho ao lado um bloco, caderno de desenho, meus lápis e crayons. Acendo o cachimbo. Inalo a fumaça, satisfeito. Tomo um gole lento e prolongado de conhaque.

— E agora — digo a mim mesmo, digo ao meu sinistro Doppel­gänger — e agora vamos começar. Vamos ver se podemos fazer sentido um para o outro.

Pego o lápis preto, o lápis macio, e tento escrever... No mesmo instante me sinto bloqueado. Não consigo traduzir minhas fantasias em escrita linear. É somente com o maior esforço que posso escrever as perguntas simples, rituais: "Quem sou eu? Onde eu vivo? Qual é a minha profissão?..."

Depois de alguns minutos, abandono o exercício inútil. Bebo. Aspiro a fumaça sedativa. Mergulho no devaneio. Torno a pegar o lápis e começo a desenhar meu sonho. Enquanto desenho, ingresso numa serenidade maravilhosa. As paredes do gabinete se desfa­zem. Minhas roupas desaparecem. Estou nu diante de um grande penhasco de rocha ocre, desenhando com um bastão de carvão.

Faço primeiro um grande círculo, confiante e perfeito como o "O" de Giotto. Dentro do círculo desenho um homem e uma mu­lher. Ela é jovem, acaba de atingir a plena feminilidade. Ele é velho e venerável, cabelos brancos compridos, a barba lhe caindo sobre o peito. Empunha um cajado. Tem um ar de serena autoridade. Realço o sorriso que lhe contrai os cantos da boca. Por trás de mim, uma voz profunda emite um elogio:

—   Melhor! Muito melhor!

Viro para me defrontar com a pessoa que falou. Ali, parados à minha frente, estão o velho e a moça. Fico atordoado de espanto. Olho do desenho para a realidade. A moça ri da minha perplexi­dade. O velho sorri e diz:

—   É muito simples. Sou Elias e esta é Salomé. Você sonha conosco e nos pinta num paredão. Quem é você?

Não posso responder. Contemplo a minha própria nudez e me sinto envergonhado. Sacudo a cabeça.

  • Não sei quem eu sou.

    O velho declara:

  • Não importa. Sabemos quem você é.

A moça estende a mão. Eu a pego, hesitante. Ela me puxa para perto de si e do velho. Estou calmo novamente. Lembro que meu nome é Carl Gustav Jung e fico orgulhoso ao lhes comunicar. Sen­tamos juntos, numa rocha lisa. E pergunto, respeitosamente:

—   Elias, senhor, esta jovem é sua filha?

—   Diga a ele, criança. O velho está divertido com a pergunta, mas não a responde diretamente. — Diga a ele o que você é para mim.

  • Sou tudo... filha, esposa, amante e protetora.

  • Está satisfeito, Carl Gustav Jung?

  • Estou espantado. Não estou satisfeito.

—   Não tem direito a estar satisfeito. Vire-se de novo para o paredão e termine o desenho...

Quando me viro, estou de volta a meu gabinete. O cachimbo está ardendo no cinzeiro. O conhaque está derramado e enxugo com o lenço. Mas há de fato um desenho em meu caderno. O cír­culo é perfeito como o "O" de Giotto. O velho e a moça são exa­tamente como os sonhei e desenhei no paredão de rocha... O que isso significa? Como posso assimilar tal fenômeno?

E é então que me lembro de uma coisa. Passo uma hora vascu­lhando pelas prateleiras. Escrevo anotações furiosamente... Não há qualquer dificuldade agora com o escrito linear. Por volta das quatro horas da madrugada tenho três pequenos esboços de histó­rias. Simão, o Mágico, um dos primeiros gnósticos, viajou com uma jovem de um lupanar. Lao Tzu, o sábio chinês, apaixonou-se por uma dançarina. Paulo, o Apóstolo, assim diz a lenda, estava ter­namente afeiçoado à Virgem Tecla...

Todas histórias antigas! Mas que mágico cósmico plantou-as em meu subconsciente? Elias e Salomé estão presentes em mim agora, como se eu pudesse estender a mão e tocá-los. Se não eram reais... em alguma forma especial de realidade!... como eu poderia ter sonhado com eles? Toda a nossa história está assim sepultada em nosso subconsciente, esquecida, mas disponível, esperando apenas para ser invocada, como o fogo-fátuo das águas escuras e pantanosas?

Não posso enfrentar a questão agora. Fecho o livro de desenho. Saio para o cinzento enevoado do falso amanhecer. Paro na praia, jogando seixos no lago e gritando interminavelmente:

— Elias!... Elias!... Salomé, meu amor! Minha única resposta é um adejar de asas, quando uma galinha-d'água sobrevoa os baixios.

 

MAGDA...

Paris

Presenciei esta amanhã um espetáculo triste e absurdo. Eu estava descendo a Champs Elysées, pensando em minha noite no Dorian's e procurando por um café apropriado para comer alguma coisa. Um vendedor de frutas, desses que servem aos restaurantes locais, passou diante de mim, carregando um cesto com laranjas na cabeça.

Ele tropeçou numa pedra do calçamento e cambaleou para a frente. O cesto caiu de sua cabeça e as laranjas rolaram em todas as direções. Algumas se partiram; outras foram recolhidas na cor­rida por um trio de colegiais; muitas foram chutadas para a sarjeta pelos pedestres que passavam.

O vendedor ficou imóvel por um momento, hipnotizado e im­potente, olhando para a cascata de frutas douradas. Depois, como cu era a testemunha mais próxima, virou-se para mim em fúria e gritou em italiano:

É tudo culpa sua! Culpa sua!

Ele levantou a mão e fez o sinal dos chifres para mim. Jogou o cesto a meus pés e se afastou. Sua raiva era tão infantil, a acusação tão absurda, que desatei a rir. Mas descobri que estava tremendo quando me sentei no café. O incidente não era mais cômico, mas mágico e sinistro. Estava de volta subitamente à paisagem do meu sonho. As laranjas eram bolas de vidro e uma "Eu" nua estava encerrada dentro de cada uma, nenhuma dessas "Eus" podia falar com outra.

Foi um momento de puro horror, o mesmo horror que me dominou no dia em que meu melhor cavalo de caça enlouqueceu por baixo de mim e tive de fustigá-lo e galopá-lo até a exaustão. Havia a mesma pontada lúgubre de mal que eu experimentara ao encon­trar Alexander, meu cão de caçar lobos, morto diante da minha porta, com um sangue espumante em torno do focinho... e três dias depois meu caramanchão foi destruído por algum vândalo com um machado!

O gesto dos chifres, o sinal primitivo de exorcismo, não era mera vulgaridade. Eu parecia com uma feiticeira? Tinha mau-olhado? Havia a marca de Caim em minha testa? Abri a bolsa e tirei o espelho, dei uma olhada. O espelho revelou-me apenas que eu estava pálida e que o homem na mesa por trás estava tentando concluir se eu era uma prostituta que começava a trabalhar cedo ou uma dama indiscreta que saíra para um passeio.

Mas isso também não ajudava. Convenceu-me de que só podia haver um futuro dos mais desolados para uma viúva de meia-idade que chorava ao café da manhã na Champs Elysées e fazia amor à meia-noite com estranhos em bordéis. Eu tinha a sensação de que um alçapão se abrira sob os meus pés e estava caindo intermina­velmente pela escuridão.

O homem atrás de mim levantou e aproximou-se, indagando polidamente:

—   Madame não está se sentindo bem? Talvez eu possa ajudar em alguma coisa?

  • Obrigada, mas estou perfeitamente bem.

  • Madame tem certeza?

    Eu tinha certeza absoluta. E tinha certeza também que precisava da ajuda de alguém. O problema era onde ir e o que dizer quando lá chegasse. Falo seis línguas, inclusive húngaro, mas ne­nhuma delas é adequada para exprimir a vida que tenho levado desde que era pequena.

    É fácil falar sobre o sexo. Não importa quão bizarros sejam os seus gostos, sempre se pode encontrar uma audiência atenta. Mas o resto... minha infância no castelo encantado, os ritos primitivos mas estranhamente belos de minha iniciação na feminilidade, meus anos na universidade e residência em hospital... é constituído de histórias de uma terra distante, até mesmo de outro planeta! Não tenho certeza se posso fazer com que essas histórias sejam com­preensíveis para qualquer outra pessoa.

    Além do mais, a mesma sombra se projeta sobre todas, a sombra da árvore do enforcado, não há como explicar isso ao café com croissants. Até mesmo papai, que podia aceitar a maioria das aber­rações humanas, jamais discutia esse assunto comigo. Ele sabia o que eu fizera e por que, mas o mais próximo que chegou de uma admissão de seu conhecimento foi um comentário seco:

    —   Espero, minha querida filha, que você não fale durante o sono.

    Desde que papai morreu e o marido que eu adorava me foi arrebatado prematuramente, tenho dormido em muitas camas es­tranhas, com uma vasta galeria de homens e mulheres. Vários se mostraram perfeitamente capazes de fazer chantagem, mas nenhum jamais insinuou que revelo segredos durante o sono.

    Até agora, está tudo bem. Mas, como Dorian me advertiu, minha resistência está chegando ao fim. Não posso suportar eter­namente esses deslocamentos desenfreados da devassidão maníaca à depressão mais profunda. Preciso de um amante firme, um amigo, um confidente... talvez mesmo um confessor.

    O pensamento me intriga. Representa a mais estranha de todas as soluções para uma mulher que jamais teve quaisquer convicções religiosas. Papai era um racionalista antiquado, que me ensinou que a vida começa e termina aqui, que devemos tirar o melhor proveito. Ele costumava dizer:

    — Eu os tenho cortado vivos e esquartejado mortos. Jamais encontrei qualquer vislumbre de Deus ou de uma alma.

    Eu amava tanto a papai que nunca me ocorreu questionar qualquer uma de suas opiniões. Não as questiono agora, mas avento a idéia de que pode ser agradável virar uma católica e poder entrar num confessionário todos os sábados, recitando os meus pe­cados e saindo tão limpa quanto um lenço novo.

    É um pensamento ocioso e totalmente ilógico. Se você não acredita em Deus e não acredita no pecado, por que se preocupar? Mas a verdade é que se preocupa. Empalidece ao sinal de chifres e converte laranjas caídas no chão em símbolos mágicos.

    Eu me sinto culpada... não, eu me sinto ridícula e envergonhada, porque estou me jogando fora, pedaço por pedaço, como confete num casamento. Até mesmo uma prostituta tem mais bom senso. Vende o que tem. O mais engraçado é que essa parte de mim é realmente cuidadosa. Uma frugalidade camponesa, como papai costumava dizer.

    Dirijo a minha propriedade como qualquer negócio. Minhas contas são meticulosas e sempre apresentam um lucro. Compro as melhores roupas..., mas sempre obtenho um desconto, porque as uso com elegância e nos lugares em voga. Quando vendo animais, sempre consigo fazer os melhores negócios. Num leilão, posso fa­rejar a extensão dos lances a 100 passos de distância.

    Sou recatada e discreta na sociedade polida. A maioria dos meus amigos ficaria chocada se soubesse como sou devassa em meus prazeres, como sou desbocada nas conversas na cama. Já houve um tempo em que essa vida dupla parecia inebriante e exci­tante. Agora, é uma experiência perigosa, um passeio noturno por um beco fétido, repleto de sombras ameaçadoras...

     

    Paguei o café e segui para a casa bancária de Ysambard Frères, a fim de sacar dinheiro contra a minha carta de crédito. Esperava que Joachim Ysambard, o mais velho dos dois irmãos, me convidasse para almoçar. Joachim está agora na casa dos 60 anos, de cabelos brancos, espirituoso e sábio em matéria de mulher. Há 10 anos tivemos um verão amoroso em Amalfi. Ele voltou para casar com a segunda esposa, um casamento de grande conveniên­cia, uma aliança dinástica com uma tradicional família banqueira alsaciana. Milagrosamente, permanecemos amigos... provavel­mente porque, mesmo na cama, ele me lembrava muito de papai.

    Ele estava em reunião quando cheguei, mas o secretário transmitiu-me um recado, pedindo que esperasse para almoçar. Até lá, o irmão Manfred gostaria de trocar algumas palavras comigo. Manfred está com cinqüenta e poucos anos, garboso como um ma­nequim, impecavelmente polido, mas estranhamente insípido. Ja­mais casou. Pelo menos ao que eu soubesse, não tem nenhuma amante permanente, do sexo feminino ou do masculino. Uma aura monacal paira em torno dele, que eu acho desconcertante e às vezes repulsiva. Por outro lado, Joachim fala dele com respeito e admiração:

    —   Manfred é um gênio. Entende de comércio como nenhuma outra pessoa. Pode começar com uma pilha de fardos de chá no Tibet e daí a pouco estará entregando lã em Bradford, ouro em Flo­rença, lingotes de ferro no Ruhr e um lucro vultoso em nossos livros em Paris...

    Sou obrigada a concordar com tudo isso. A administração de Manfred converteu meus recursos franceses numa segunda for­tuna; mas ele dispensa os meus agradecimentos com um desdém altivo:

  • Não há qualquer mágica, Madame. É uma simples questão de troca, numa escala ligeiramente maior que a do mercado muni­cipal. A verdadeira habilidade consiste em calcular bem as oportu­nidades... O que me leva a seus negócios. Joachim e eu aconse­lhamos a que invista agora pelo menos metade do seu capital fora áa Europa.

  • Por algum motivo especial?

  • Uma redução do risco. Há luta nos Bálcãs. O resto da Europa estará em guerra dentro de um ano.

  • Como pode ter tanta certeza?

    Ele permitiu-se um sorriso condescendente.

    —   Os antigos augures estudavam as entranhas de pássaros. Somos muito mais desenvolvidos. Observamos os movimentos do carvão, minérios, produtos químicos e dinheiro. Neste momento, por exemplo, todos os regimentos de cavalaria da Europa estão procurando cavalos de remonta e lugares para guardá-los. Claro que é uma loucura... um absurdo de generais senis. Um ano de guerra moderna e o cavalo estará tão obsoleto quanto a espada de lâmina larga. Contudo, este seria um momento excelente para ven­der o seu haras.

Ele fez uma pausa e depois acrescentou uma farpa:

—   Sua reputação, como uma criadora, ainda é alta. A proprie­dade se encontra em ótimas condições. Nosso conselho é vender agora, no auge do mercado, investindo o resultado com Morgan, em Nova York. Isso lhe proporcionaria uma base segura no Novo Mundo, caso as circunstâncias a obriguem a deixar a Europa.

Eu lhe disse que não podia imaginar quaisquer circunstâncias que me obrigassem a deixar a Europa. Ao que ele me censurou:

  • A guerra é uma coisa extremamente inconveniente, minha cara. Desperta as paixões mais vis do homem, proporciona des­culpa e oportunidade para satisfazê-las. Você é... como eu poderia dizer?... bastante conhecida, mas não muito bem considerada em lodos os níveis da sociedade. É vulnerável às intrigas e manipula­ções.

  • Manipulações? É uma estranha palavra para se usar.

  • O que não impede que seja acurada. Deixe-me mostrar-lhe uma coisa.

    Minha pasta estava em cima da mesa. Ele abriu-a, pegou uma carta e estendeu para mim. O cabeçalho dizia "Société Vickers et Maxim".

    A carta, endereçada a Manfred Ysambard, estava escrita com uma letra enfática e esparramada:

 

"Prezado Colega:

Tenho o prazer de comunicar que, por decisão unâ­nime de nossos diretores, Ysambard Frères foram escolhi­dos para banqueiros de La Société Vickers et Maxim e de La Société Française des Torpilles Whitehead. Esperamos uma associação prolongada e proveitosa com você e seu estimado irmão. Talvez possamos iniciá-la com um jantar em minha casa, ao qual deverá convidar aquela cliente linda e muito especial sobre quem conversamos na semana passada e a quem peço agora para ser apresentado.

A bientôt,

Z.Z."

 

A assinatura eram dois "Z" muito firmes. Perguntei quem era o autor. Manfred ficou embaraçado. Foi a primeira vez que o vi corar.

  • O nome dele é Zaharoff... Basil Zaharoff. Está metido em tudo... aço, armamentos, navegação, jornais, bancos...

  • E como ele soube de mim?

  • Posso lhe garantir que não foi de nossa parte, Madame. Joachim poderá confirmá-lo. Foi Zaharoff quem mencionou o seu nome para nós. Ficamos surpresos ao constatar quantas informa­ções ele dispunha a seu respeito e de seus negócios. Mas esse é o tipo de homem que ele é. Está envolvido no mais alto nível de política... com reis, imperadores, presidentes. E possui o melhor serviço de informações particular do mundo.

  • E por que ele estaria interessado em mim?

    Eu esperava uma resposta evasiva, mas Manfred estava ansioso por uma confissão:

  • Zaharoff usa mulheres como aliadas em suas operações. Paga bem e sem a menor hesitação por serviços e informações. Ele está a par de toda a sua história. E conhece também a história de seu pai. Insinuou outros assuntos de que não temos conheci­mento... Em suma, ele prestou um grande serviço a Ysambard Frères. Pede em troca um favor modesto... uma apresentação a você.

  • E se eu me recusar a conhecê-lo?

  • Ele encontrará outro meio de promover o encontro. É um homem muito determinado.

  • Também posso ser determinada.

  • Por favor! Havia um tom de desespero na voz de Man­fred. — Deixe-me tentar explicar esse Zaharoff. Ele negocia com armamentos militares, em vasta escala. Representa, por exemplo, a companhia britânica Vickers. Gostaria muito de adquirir o controle da companhia francesa Schneider-Creusot. O que ele faz então? Discretamente, começa a comprar ações da Banque de l'Union Pa­risienne, uma instituição que pertence à Schneider-Creusot, en­carregada de levantar recursos para eles e outras indústrias france­sas. Zaharoff já participa de seu conselho de administração. Mesmo assim, ele ainda nos oferece grandes contas, para que nos (ornemos também seus aliados. Ao final, pode estar certa, ele aca­bará controlando a Schneider-Creusot... Se ele quer conhecê-la, haverá de consegui-lo... de um jeito ou de outro. Por que então não fazê-lo da forma mais graciosa? Vamos reunir dois dos nossos clientes mais eminentes. Está certo?

  • O que Joachim pensa de tudo isso?

  • Pergunte a ele pessoalmente, durante o almoço.

     

    A resposta que Joachim me deu foi tão clara quanto o repique de um sino de igreja em meio a uma geada:

  • Se metade dos rumores que tenho ouvido são procedentes, você precisa de um protetor. E quem melhor do que Zaharoff, o homem mais poderoso da Europa?

  • Por que acha que eu preciso de um protetor, Joachim?

  • Por causa de sua idade. — Joachim presenteou-me com um tênue sorriso. — E por causa de uma crescente tendência para in­discrições sexuais.

  • Como você poderia saber dessas coisas, meu caro Joachim?

  • Soube algumas por intermédio de meus próprios informantes...

  • E outras, sem dúvida, por intermédio desse Basil Zaharoff.

  • Correto.

  • Como ele é na cama, Joachim?

  • Como posso saber? — Joachim estava apenas um pouco divertido. — Meu palpite é de que ele não a quer absolutamente em sua própria cama.

  • Está dando a impressão de que ele é um proxeneta.

  • Os rumores são de que ele começou assim... como um agente para os bordéis de Tatavla.

  • Parece ser o fim do mundo.

  • E o antigo bairro grego de Constantinopla.

  • E agora esse grego, esse turco, o que quer que ele seja, está usando Joachim Ysambard como seu proxeneta!

Foi uma crueldade calculada, a que eu não pude resistir. Joachim digeriu o insulto em silêncio. A resposta dele foi afável, quase como se pedisse desculpas:

—   Eu gostaria de poder lhe dizer que os banqueiros têm as mãos mais limpas que os aliciadores de bordéis. Mas não é o que acontece. Estamos investindo milhões em canhões, explosivos e gás venenoso. Estamos emprestando dinheiro por toda parte. As­sim, não poderemos perder, qualquer que seja o lado que saia vito­rioso. Eu deveria me sentir envergonhado. Mas não estou. Traba­lho por dinheiro, casei por dinheiro. Você foi uma das poucas in­dulgências que me custou dinheiro...

—   E está querendo agora cobrar a dívida?

  • Não seja vulgar! Além do mais, estou lhe prestando um favor. Zaharoff precisa de uma mulher para tomar conta de seus sa­lões e cultivar seus clientes. Ele vai instalá-la como uma duquesa.

  • E vai me expulsar como uma criada grávida quando a festa acabar? Não, obrigada.

  • A decisão é sua, é claro. — Joachim estava deliberadamente formal. — Agora, quanto as suas questões financeiras...

  • Aceitarei o seu conselho. Venderemos a propriedade e o fia­ras, investindo tudo nos Estados Unidos. O que mais deve ser li­quidado?

  • Manfred e eu vamos preparar uma lista. Discutiremos o assunto antes de sua partida de Paris. Onde poderemos entrar em contato com você?

  • A partir de amanhã, no Crillon. Resolvi voltar à circulação.

  • Por favor, pense em Zaharoff.

    —   Está certo, Joachim. Obrigada por cuidar de meus interesses.

    —   O prazer é sempre nosso, minha cara.

    E esse foi outro capítulo encerrado, outra amizade morta e en­terrada. Ao sair para o movimento intenso da tarde na Rue St. Honoré, senti-me mais uma vez ridícula e envergonhada. Um homem que fora meu amante estava me tratando como uma merca­doria, um objeto de barganha no mercado. Pior ainda era a sua pressuposição de que eu deveria ficar muito feliz com a transação.

    O que estava acontecendo comigo? O que os outros viam em meu rosto que eu não podia enxergar em meu próprio espelho? Por que haveriam de presumir que logo eu, a mais independente de todas as mulheres, precisava subitamente de um protetor? E mesmo que fosse o caso, como se atreviam a me oferecer um mas­cate de armas arrivista de Tatavla?

Não percebi o humor da situação até estar de volta ao meu quarto na pensão. Estava pagando um bom dinheiro por companhia pior todas as noites da semana; estava pagando não para ser prote­gida e sim para ser explorada; e em vez de estar instalada como uma duquesa, era um alvo para cada policial e pronexeta em ação. Joguei-me na cama e desatei a rir, até que chorei e chorei e chorei...

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Está quente hoje, excessivamente úmido. Nuvens escuras de tempestade se acumulam sobre o lago. Estou trabalhando desde o amanhecer, recolhendo pedras na beira do lago e empilhando-as imito à minha pequena aldeia, separando por tamanho e textura, listou despido da cintura para cima, como um trabalhador braçal. O rosto e o corpo estão coberto de suor e poeira, mas eu me sinto relaxado e contente.

Emma e as crianças estão passando o dia com amigos que têm uma villa perto do pico do Sonnenberg. Toni armou uma mesa de jogo sob a macieira grande e está trabalhando em suas anotações. Ela preparou um jarro de limonada e trouxe toalhas limpas, a fim de que possamos tomar um banho antes do almoço e trocar de roupa na casa do barco.

Não conversamos muito. Não há necessidade. Sentimo-nos contentes por estar juntos, cada um levado pela correnteza de um devaneio particular, como dois córregos em confluência. Enquanto vou erguendo a minha aldeia de brinquedo, é como se estivesse reconstruindo a infância com fragmentos e cacos da memória, como a legenda do pai de minha mãe, o Pastor Preiswerk, que todas as quartas-feiras recebia o fantasma de sua primeira esposa, para grande consternação da segunda, que lhe deu 13 filhos!

Meu pai também era um pastor protestante, um homem inteli­gente e gentil, irremediavelmente frustrado pelas limitações de uma pequena paróquia rural e uma teologia superada que ele nunca teve a coragem de examinar. Assim, ele se refugiou nas reminiscências: os bons tempos de antigamente, os anos românticos de estudante, os louros que conquistou como um graduado em Línguas Orientais, que nunca mais tornou a ler. Ele discutia freqüentemente com minha mãe, uma mulher grande e jovial, quente como pão fresco, que adorava companhia e conversa. A experiência posterior leva-me a acreditar que as discussões tinham também uma base sexual. Não sei dizer onde estava a culpa. A hipocrisia dos suíços em as­suntos sexuais está às vezes além da imaginação. O fato é que minha mãe foi resvalando cada vez mais fundo na depressão e pas­sou um longo período sob cuidados hospitalares.

Tenho sentimentos estranhamente ambivalentes em relação a ela. Por trás daquela personalidade afetuosa, gorda e exuberante havia outra à espreita, poderosa, sombria, autoritária, que não ad­mitia contradições. Eu estava convencido de que esta personali­dade podia contemplar meus olhos e ver o que acontecia dentro de meu crânio. Meus sentimentos em relação a ela afetaram todas as relações posteriores com as mulheres. Por muitos anos, minha rea­ção à palavra "amor" sempre foi de dúvida e desconfiança. O mais antigo e, sob certos aspectos, mais profundo sonho-experiência é sobre o meu relacionamento com meus pais e o deles entre si.

Descobri neste sonho, numa campina por trás de nossa casa, uma entrada para uma passagem subterrânea. Entrei e me vi numa vasta câmara, com um trono real. E no trono estava um falo, tão grande quanto uma árvore. Seu único olho, cego, estava fixado no teto. Ouvi a voz de minha mãe dizendo:

— Olhe só para isto! É o devorador do homem!

O sonho se repetia noite após noite. Eu sentia tanto pavor de ir para a cama que acabava provocando discussões com meu pai, a quem não me atrevia a contar o que vira.

O sonho, como qualquer analista pode dizer, está sujeito a toda uma gama de interpretações. Tenho continuado, todos os anos, a encontrar novos sentidos para ele. Recordando-o agora, porém, neste jardim ao verão, sinto-me compelido não ao terror, mas ao desejo pela bela criatura que está sentada ao alcance de minha muo.

Aproximo-me dela. E ela me serve limonada, leva o copo a meus lábios. Depois, enxuga-me o suor do rosto e do corpo. O contato de sua mão é como uma carga de eletricidade... e dou um pulo, como a rã de Galvani. E suplico:

  • Eu quero você.

    Ao que ela me diz:

  • Eu também o quero.

E então... uma dádiva dos deuses mais velhos!... as primeiras gotas de chuva caem, o primeiro relâmpago risca o céu. Toni reco­lhe os cadernos de anotações e corremos para o abrigo da casa do barco.

Não há súplica agora, não há protesto. Enquanto Toni se despe, faço uma cama com as almofadas e velas do meu barco. E ali nos deitamos, enquanto a tempestade explode em fúria lá fora, com raios e trovoadas, pedras de granizo grandes como balas a caírem sobre o telhado. Esbraveja por uma hora ou mais, abatendo-se sobre o lago. Ninguém pode nos incomodar. Emma nao deixará Sonnenberg antes da tempestade acabar. As criadas estão presas dentro da casa. Toni e eu estamos livres e felizes como crianças. Nosso ato de amor é desenfreado e mais ardente do que qualquer outro de que já desfrutamos antes. Quando toda a paixão se esgota, ficamos deitados peito contra peito, enrolados nas velas brancas, escutando o zunido do vento e o tamborilar da chuva, o ranger da macieira encurvada sob a carga de frutas novas.

Depois, como sempre acontece, a tristeza lenta e inexorável do resultado nos envolve. Toni se agarra a mim, desesperadamente, murmura o velho refrão:

—   Não seria maravilhoso estar assim durante todo o tempo? Não seria lindo não ter de tomar precauções? Detesto ser a pessoa que se levanta e volta para casa. Por que não nos conhecemos antes de Emma ter aparecido? Não gostaria que pudéssemos casar?

Não me atrevo a dizer a ela que uma aliança de casamento muda tudo; que não há receita melhor para o tédio que amor du­rante o ano inteiro com uma esposa legal; que metade da emoção que partilhamos deriva dos riscos da descoberta. Posso ainda menos explicar-lhe como os sonhos-símbolos se transformam rapi­damente para mim: como a caverna-útero onde o falo reina, erecto e triunfante, se torna uma câmara fúnebre, onde um horrendo verme branco é o único vestígio de vida.

A própria Toni é magicamente transfigurada nesta região inde­finida do pós-coito. Um momento ela é Salomé, irmã, esposa, amante e protetora. No instante seguinte ela é a criada que tomava conta da casa para meu pai e para mim, enquanto minha mãe es­tava no hospital. Ela tem os mesmos cabelos pretos lustrosos, a mesma pele fosca, o mesmo cheiro de mulher e também solta risadinhas quando lhe coço as orelhas com a língua.

Quando a chuva pára, a magia também cessa. Toni se levanta de um pulo e se veste apressadamente. E vai formulando todas as perguntas habituais:

—   Meus cabelos estão arrumados? Os lábios estão machucados? A bainha está esticada?

Eu lhe abotoo a blusa, dou um último beijo e a despacho de volta ao trabalho na casa. Ela lá estará quando Emma chegar em casa com as crianças. Torno a guardar as velas nos sacos de lona, empilho as almofadas meticulosamente, tranco a porta e retomo o meu trabalho na aldeia de brinquedo.

Entre os seixos, encontrei esta manhã um curioso fragmento de cristal, de formato cónico. Dará uma esplêndida cúpula para a igreja. A igreja me faz pensar em Deus, a Trindade, Jesus Cristo e meu pai, seu representante oficial. Meu pai conduzia os funerais. Os mortos eram encerrados em caixas pretas, carregadas nos om­bros de homens em sobrecasacas e botas pretas, depois enterrados em buracos na terra. E meu pai dizia:

—   Deus os chamou. Jesus, o Salvador acolheu-os em seu reino.

Assim, para minha mente infantil, Jesus Cristo tornou-se uma figura sinistra e ameaçadora, cujo reino era o mundo inferior das trevas, a terra de toupeiras cegas, dos grilos barulhentos e dos monstros de um olho só.

É claro que o monstro de um olho só pode aparecer em qual­quer parte. Esta casa, por exemplo, bem perto da igreja que estou construindo, é para mim um lugar sinistro. O homem que aqui vivia era um amigo de meu pai e também meu amigo. Costumava me em­prestar livros. Alimentava minha paixão infantil pela pintura e desenho. Levava-me a pescar e nadar. Ensinou-me os rudimentos de arqueologia. Proporcionou-me a primeira visão dos símbolos eróti­cos dos gregos, romanos e refinados eruditos da Renascença. E numbelo dia de verão, quando estávamos tomando banho num canto isolado do lago, ele tentou primeiro me seduzir ao sexo oral. Quando recuei, em medo e repulsa, ele me agarrou, empurrou meu rosto contra uma árvore e me estuprou.

Foi uma experiência dolorosa e humilhante, ainda mais porque, misturada com o meu senso de ultraje moral, havia a convic­ção de que falhara de alguma forma ao amigo que recorrera a mim embusca de conforto. O elemento de prazer na cópula confundiu-me ainda mais. Eu chegara ao orgasmo e ejaculara. O homem mais velho prontamente usou essas sensações agradáveis para justificar a sua invasão de mim e a cooperação compulsória que me impusera na sodomia.

Mesmo agora, já na meia-idade, poucos minutos depois de minha união ardente com Toni, a recordação daquele outro en­contro ainda me atormenta e confunde. Impregna todo o meu rela­cionamento com Freud, por quem acalentei uma grande afeição, o sentimento de um filho pelo pai, de um discípulo por um mestre amado. Mas o relacionamento sempre foi mais complexo do que isso... muito grego, muito platônico. Sou o companheiro-de-armas, que partilhou a manta no acampamento e que agora o deserta para lutar sobre outra bandeira, por uma causa diferente.

Mas devo dizer que há também em Freud, apesar de suas afe­tadas maneiras vienenses e da sutileza hebraica, um pouco do al­goz.... assim como há em mim um toque da fêmea que deseja ser dominada e há em Toni o macho latente que deseja me dominar.

Há um padrão em tudo isso que começo gradativamente a compreender e estou tentando codificar. O problema é que careço do vocabulário. Quando eu era mais jovem, costumava me queixar bem alto que os filósofos e teólogos criavam palavras intermináveis para as proposições mais simples. Compreendo agora o motivo. Quanto maior a palavra, mais magia contém, melhor se torna uma capa para a ignorância humana. Mas depois que é incluída no ri­tual, a palavra mágica se transforma em palavra sagrada. Desafiá-la é heresia e, pior ainda, blasfêmia!

Ponho a cúpula no campanário da minha igreja de brinquedo e recuo para admirar o efeito. E faço, em voz alta, uma pergunta ao morto:

—   O que acha, Pai? Seu Deus vai gostar da casa que construí para Ele?

A indagação é um desafio a meu pai morto, cujas fórmulas de fé não são mais válidas para mim. É também uma recordação deli­berada de um sonho da infância. No sonho, eu vi Deus, o Pai, antigo e poderoso, entronizado no céu azul, exatamente por cima da torre de nossa catedral. Enquanto eu observava, estarrecido, Deus soltou um peido trovejante e um cagalhão divino caiu sobre o telhado da igreja, achatando-o contra o chão.

Era para mim um sonho de libertação... Deus rejeitando a ten­tativa do homem para encerrá-lo em sistemas e rituais. Contudo, aqui estou, em meu próprio jardim, reconstruindo a casa-prisão da minha infância. Por quê? Meu pai não pode me explicar. Está en­cerrado em seu caixão preto, debaixo da terra, onde tudo é dife­rente.

No reino secreto do inconsciente nada é completamente o que parece ser. O morto fala e o vivo é mudo. O falo é um deus caniba-lístico empanturrado de sangue. O útero úmido clama pelo estu­prador. O estuprador viola por um amor que não pode experimen­tar. Jano, o guardião de duas caras do portão, vê o passado e o futuro, mas é cego ao presente e inconsciente da eternidade que inclui a todos.

Subitamente, Elias e Salomé estão presentes para mim. Mostro a minha aldeia. Falo das memórias que evoca. E pergunto:

—   Alguma coisa disso tudo faz sentido para você, Elias? E para você, Salomé, minha irmã, meu amor?

Percebe pela primeira vez que Salomé é cega e que há agora um terceiro personagem, uma serpente imensa e preta, com olhos que brilham como obsidiana. A serpente se aproxima de mim e enrosca o corpo em minha perna. É obviamente uma criatura amis­tosa, mas sinto medo. Salomé estende a não para me tranqüilizar. Eu me encolho ao seu contato. Elias sorri, à sua maneira lenta e sabida, depois me provoca:

—   Está com mais medo de Salomé do que da serpente. Reconheço que estou mesmo, porque hoje ela me lembra de

minha mãe, em seus ânimos mais sombrios, quando parecia olhar dentro de minha cabeça. Sinto que os olhos cegos de Salomé vêem mais que os olhos da serpente. E depois, tão subitamente quanto chegaram, eles se vão. A única outra criatura viva no jardim é um tordo pardo, bicando a terra molhada em busca de minhocas.

 

MAGDA...

Paris

Às 10 horas desta manhã, quando eu estava tomando café em minha antiga suíte no Crillon, um criado me trouxe um bilhete. Informou que um chofer uniformizado estava esperando lá em­baixo por uma resposta. O bilhete era de Basil Zaharoff.

 

"Prezada Madame:

Nossos amigos mútuos, os irmãos Ysambard, são exce­lentes banqueiros, mas, na diplomacia do coração, não passam de crianças. Encarreguei-os da missão de promo­ver um encontro informal com madame num jantar em minha casa. Eles não realizaram a missão. Resta-me ape­nas esperar que não tenham prejudicado meu crédito com madame.

Desejo, ansiosamente, conhecê-la. Há muito que ad­miro sua beleza, seu senso de classe e sua independência de espírito.

Poderia me conceder a grande honra de jantar comigo esta noite? Se consentir, aparecerei pessoalmente para buscá-la às oito horas.

Pode estar certa de que não sou o ogre que às vezes me descrevem. Tenho uma desconfiança saudável de todos os outros homens, mas também a mais ardente admiração pelas mulheres.

Por favor, diga que aceita.

Z.Z."

 

O duplo "Z" estava rabiscado, com um desdém imperial, por toda largura da página. Ele sabia que eu aceitaria. Como poderia deixar de fazê-lo? Eu me sentia como Eva, com a velha serpente a piscar-me e oferecer uma segunda mordida na maçã da árvore do conhecimento. Há muito tempo que deixara o Éden. O que tinha a perder? Rabisquei um bilhete aceitando o convite para jantar e convidando-o a tomar champanha em minha suíte antes.

Telefonei para meu costureiro e pedi que me mostrasse alguns vestidos ao meio-dia. Depois combinei com André para fazer os meus cabelos e ajudar a me arrumar às cinco e meia. Ambos fica­ram deliciados ao me ouvirem. A vida andava um tanto insípida ultimamente. Eles esperavam que eu ateasse alguns fogos de artifí­cio em Paris.

A chegada de Basil Zaharoff foi precedida de presentes e bilhe­tes de explicação: um vasto arranjo de flores de verão, "porque esta é uma ocasião festiva"; um frasco de cristal com perfume, "feito em minha própria perfumaria em Grasse"; uma tigela de caviar, com gelo e devidamente adornada, "para acompanhar o champanhe". Em contraste com essa opulência, o homem propria­mente dito era um modelo de charme discreto. Apesar da origem levantina, Basil Zaharoff era a própria imagem de um tradicional aristocrata europeu. Era alto, feições aquilinas e fortes, cabelos brancos e uma pequena barbicha, impecavelmente aparada. Os olhos eram castanhos, com um faiscar divertido. Suas maneiras eram frias e corteses. As primeiras palavras foram um elogio:

  • Madame, é ainda mais linda do que eu imaginava.

  • E o senhor é um hóspede extravagante, mas bem-vindo.

  • O que esperava?

  • Alguém um pouco mais formidável.

    Isso pareceu agradá-lo. Senti que ele precisava da lisonja, gostava que as pessoas o respeitassem. Percebi agora que os olhos castanhos eram irrequietos. Avaliavam tudo. Perduravam apenas nos detalhes sensuais. Podiam se tornar implacáveis e assustado­res, pensei. E acabei lhe perguntando:

    —   Por que estava tão ansioso em me conhecer?

    Ele não respondeu imediatamente. Percebi que era outra de suas pequenas manobras. Sempre dava tempo a si mesmo para pensar, antes de responder até mesmo à pergunta mais simples. Ele abriu cuidadosamente a garrafa de champanha, serviu os dois copos e estendeu um para mim, declarando:

    —   Vamos brindar ao encontro, antes de tentarmos explicá-lo. A uma nova amizade e que seja prolongada!

    Bebemos. Ele fez um canapé de caviar, ofereceu-me e ficou esperando por aprovação. Somente depois é que estava pronto para responder à pergunta.

    —   Por que eu queria conhecê-la? É agradavelmente notória. Possui beleza, classe e uma certa imprudência que não posso dei­xar de admirar. Tem idade suficiente para soletrar todas as pala­vras e eu também estou velho o bastante para me sentir entediado com as jovens virgens que acabaram de sair da escola. E depois, é claro...

    A hesitação foi apenas longa o suficiente para ser intrigante.

    —   ... Há o fato de que há muitos anos conheci sua mãe. Achei que devia a mim mesmo o prazer de conhecer a filha que é tão parecida com ela.

    Senti um choque breve e intenso, depois um súbito ímpeto de raiva por constatar que minhas defesas haviam sido rompidas tão depressa. Expliquei friamente que nada sabia a respeito de minha mãe, nem mesmo o nome dela. Zaharoff não deixou transparecer qualquer surpresa ou emoção.

    —   Houve motivos para isso. Não tenho certeza se foram bons motivos... mas os seres humanos são animais estúpidos. Seu pai era um homem brilhante, mas também podia ser estúpido... como todos os húngaros!

    —   Também conheceu papai?

    —   Por algum tempo. Depois, como acontece na vida, perdemos o contato... Mas vamos deixar as reminiscências para depois do jantar. É somente quando as pessoas se conhecem que o pas­sado faz sentido e o futuro se define com segurança... Para come­çar, posso chamá-la de Magda?

    —   Claro.

    —   E você pode me chamar de Zed-Zed... como fazem todos os meus amigos.

    O instinto advertiu-me novamente a não fazer qualquer comen­tário. Eu era supostamente capaz de soletrar todas as palavras. Obviamente, Zaharoff estava definindo as regras básicas para qualquer relacionamento que pudesse se desenvolver. Em tal rela­cionamento, tudo seria determinado por éditos com aquele vigo­roso duplo "Z" por baixo. Zed-Zed assinaria as ordens para o banqueiro; Zed-Zed ordenaria o café da manhã na cama ou amor com o altear de uma sobrancelha; Zed-Zed podia igualmente orde­nar um banimento ou uma execução..., mas ele escrevia cartas tão graciosas!

    Era também um anfitrião gracioso. Jantamos à deux em sua casa. Os criados estavam de libré, a porcelana era antiga de Sèvres, os talheres de ouro, a roupa de mesa bordada em Florença. Zaharoff tratava todo esse refinamento com uma indiferença estu­dada, mas dispensou grande atenção ao cardápio e à sua participa­ção nos preparativos. O patê foi feito de acordo com sua receita particular; a sopa foi temperada com seu próprio buquê de ervas. Ele tinha um jogo de trinchantes pessoal para a carne. Tinha tam­bém um pequeno mot para a ocasião: para o mundo ele era um maitre des forges, um antiquado mestre na fabricação do ferro, como Krupp ou Schneider; mas ali, em sua casa, era um maitre-chef, que ainda podia ensinar algumas lições a seu próprio chef. Fez uma grande cerimônia com os vinhos, instruiu-me, de forma um tanto pedante, sobre cada um, observou-me atentamente para ver minha reação. Perguntei-me se estaria sendo testada como uma candidata à cama ou para a equipe de fornecedores de Torpilles Whitehead.

    Calculei que ele devia ter em torno dos 65 anos de idade. Calculei também que ainda era vigoroso ou pelo menos ambicioso na cama... o que os franceses chamam de três vert. O corpo era es­belto. O aperto de mão era firme e seco. Aproveitava todas as oportunidades para fazer um contato físico, por mais fugaz que pu­desse ser.

    Da minha parte, eu não tinha qualquer objeção a seus pequenos estratagemas. Sou sempre curiosa pelos encontros sexuais e já tivera algumas surpresas muito agradáveis com homens da idade de Zaharoff. Mesmo assim, estava disposta a ser cautelosa com ele. Não queria mais cenas de ópera que pudessem subitamente esca­par ao controle. Além do mais, havia no ar uma lufada de perigo. Assim, quando passamos para a sala de estar, onde tomaríamos o café, resolvi estimulá-lo:

    — Estava dizendo que conheceu meus pais.

    Ele sorriu e afagou-me a mão, como a louvar minha paciência.

    — Deixe-me ver... Conheci seu pai primeiro, no início da década de 1860. Eu estava em Atenas, um jovem imigrante do Le­vante, tentando ganhar a vida na capital. Fazia ponto no Hotel Grande Bretagne, pagando uma taxa diária ao porteiro, que me permitia atrair compradores para as lojas de souvenirs e atuar como guia para turistas. Seu pai estava hospedado no hotel. Lem­bro dele como um jovem solteiro, bonito e obviamente rico, que estava sendo assediado por todas as mulheres em idade casadoira no hotel.

    "O porteiro identificou-o como o Conde Kardoss, de uma antiga família húngara, residente em Viena, médico e cirurgião por profissão. Informou também que ele era um ardente colecionador de antigüidades e experiências sexuais. Se eu pudesse orientá-lo, poderia conquistá-lo. E foi justamente o que fiz. Ele me gratificava generosamente. Mantive-o fora de encrencas e providenciei para que recebesse tudo por que pagava. Quando ele partiu, estávamos tão próximos de ser amigos quanto era possível para um nobre húngaro e um pequeno aliciador de Tatavla.

    "A próxima vez em que o encontrei foi um ano depois, em Londres. Eu tentava iniciar uma pequena firma de importação, com um capital mínimo que tomara emprestado com um tio. Seu pai trabalhava como assistente de um famoso cirurgião de Londres que se especializava em ginecologia. Encontramo-nos por acaso numa manhã de domingo, em St. James Park. Seu pai estava passeando com uma das mulheres mais lindas que já conheci. Ele não se ofere­ceu para apresentá-la. Era evidente que queria que eu me afastasse o mais depressa possível. Trocamos cartões e combinamos nos en­contrar, ao final da semana, para almoçar, num modesto restau­rante grego no Soho.

    "Seu pai explicou a situação em que se encontrava neste almoço. A jovem era a esposa de um personagem titulado da equipe do vice-rei da Índia. O marido ainda tinha 12 meses para servir. Ela voltara antes porque os rigores do clima indiano haviam sido excessivos para sua constituição frágil. O cirurgião famoso era o conselheiro médico dela. O assistente dele, seu pai, tornou-se o amante. Arrisquei o comentário de que ela parecia tão saudável quanto uma potranca premiada. Seu pai riu e disse que ela era não apenas saudável, mas também engravidara recentemente dele.

    "Comentei que tanto ele como a dama ficariam arruinados se esse pequeno problema se tornasse público e que a solução apro­priada parecia ser um aborto seguro e discreto. Seu pai disse que estava pensando em outra solução. Voltaria imediatamente à Eu­ropa e montaria um consultório em Baden-Baden. A dama o segui­ria, depois de um curto intervalo, a pretexto de visitar amigos no exterior. De uma distância segura, ela poderia acertar tudo com o marido, discretamente, providenciando o divórcio, tendo o filho e vivendo em felicidade com seu amado médico. Mas..."

    Zaharoff deixou escapar um pequeno suspiro teatral de pesar, antes de acrescentar:

  • Mas não foi assim que as coisas correram.

  • Obviamente. Mas o que aconteceu?

  • Seu pai deixou Londres e foi para Baden. Era simpático e bem-apessoado, muito bem recomendado. Não demorou muito a ter uma clínica próspera. A dama se retardou em Londres por tanto tempo quanto seu estado permitia. Depois, acompanhada pela criada, Lily Mostyn, ela seguiu viagem para uma visita amplamente divulgada a amigos no Continente. Disse que estaria em casa a tempo de receber o marido quando ele desembarcasse do navio de volta da índia... E foi justamente o que ela fez!

    Fiquei olhando fixamente para ele, chocada. Zaharoff deu de ombros, com uma expressão pesarosa.

  • Ela viveu com seu pai até que você nasceu e se recuperou do parto. Um dia saiu de casa sozinha e nunca mais voltou. Você foi amamentada por uma ama-de-leite local. Lily Mostyn ficou para ajudar seu pai a criá-la.

  • E minha mãe?

  • Voltou para o marido, que pouco depois herdou o título de um ducado no oeste da Inglaterra. Ela deu-lhe um herdeiro, viveu os seus dias virtuosos entre Londres e a propriedade rural, foi se­pultada ao lado do marido na catedral local.

  • Não é de admirar que meu pai a odiasse.

  • Acho que sua mãe também tinha queixas — censurou-me Za­haroff, gentilmente. Seu pai era um conquistador incorrigível. Estava sempre atrás das mulheres, dia e noite. Atacava qualquer coisa de saia, em qualquer lugar... Como você própria deve saber.

    Não coro facilmente, mas essa última frase zombeteira fez o sangue afluir-me ao rosto. E desafiei-o, furiosa:

  • Como pode saber de tudo isso?

  • Todo o meu negócio depende de informações acuradas. Meus pesquisadores são bem pagos e muito meticulosos.

    Lembrei tardiamente da advertência de Manfred Ysambard de que Basil Zaharoff possuía o melhor serviço particular de informa­ções do mundo. E me perguntei o quanto ele saberia a meu res­peito. Apresentei-lhe a pergunta, diretamente. A resposta dele foi suave, mas devastadora:

    —   Creio que disponho de uma biografia autêntica. Sua história acadêmica, por exemplo: uma mulher se sair tão bem quanto você em medicina foi algo fenomenal. Sei de seu casamento e da morte prematura de seu marido. Conheço a sua situação financeira, que é sólida, mas pode ser melhorada. Estou a par dos problemas que teve com sua filha. Tenho um registro completo de suas aventuras sexuais...

    Abri a boca para protestar, mas ele silenciou-me, erguendo a mão.

  • Fique calma, por favor. Não há vergonha, não há grande mistério. Sou proprietário de algumas das casas em que você se diverte: a de Gräfin Bette, por exemplo, a Orangerie, em Nice, o Dorian's aqui em Paris... Muitos dos meus negócios começam nes­ses lugares. A conversa de alcova pode vender uma ampla varie­dade de produtos, como morteiros, canhões de campanha, submari­nos, aço de alta qualidade... Você ficaria surpresa com o que se pode conseguir.

  • Não fico mais. — Tratei de me render, com toda a elegância que era possível. — Já sei que é um personagem formidável.

  • Posso dizer a mesma coisa a seu respeito, minha cara. Deveremos trabalhar juntos muito bem.

  • Trabalhar juntos?

    Eu não esperava uma resposta tão abrupta.

    —   Por que não? Temos tudo a ganhar e nada a perder. Permi­ta-me ser franco. Nós dois somos intrusos... e proscritos também, diga-se de passagem. Claro que conheço a história da caçada à ra­posa e da pobre mulher que caiu na cerca viva e morreu quando você tentava reanimá-la. Uma história muito triste, sobre a qual nada se poderá provar. Também já surgiram ficções em minha vida e dezenas de documentos tentavam provar que eram fatos. Os fo­rasteiros precisam inventar vidas para si, identidades temporárias, nomes de cobertura, toda essa bobagem. Mas tais manobras se tornam desnecessárias depois de algum tempo. A partir do mo­mento em que se tem o poder nas mãos... e pode estar certa de que eu tenho... ninguém mais se importa que você seja um maître des forges, um vigia de bordel ou o Dalai Lama...

    —   Não acha que está se arriscando muito a contar tudo isso?

    —   O conhecimento a põe em risco. Madame, não a mim. Por­tanto, fique quieta e preste atenção!

    Ele estava agora brusco e ameaçador. Os olhos frios observavam atentamente as minhas reações.

    —   Há uma guerra iminente para explodir na Europa. Posso até lhe indicar a data aproximada do começo: o verão do próximo ano. Vou ficar sentado aqui em Paris e controlar essa guerra... com ca­nhões Vickers, torpedos Whitehead, aço Krupp, níquel francês, veículos Skoda, navios Clyde e instrumentos de precisão suíços. Sou o mercador a que todos têm de recorrer... o fabricante de ferro para atender aos exércitos do mundo e o dono dos bordéis para atender aos generais e políticos.

    —   E onde eu entro nesse projeto grandioso?

    Ele sorriu-me por cima do copo de conhaque. Subitamente, era o jovem irrequieto de sorriso insinuante, que explorava os turistas no Grande Bretagne.

    —   Você será a madame do maior bordel do mundo, com filiais em todas as capitais e clientes de todas as cortes e gabinetes. Será minha anfitriã quando eu precisar de você e a amante de qualquer homem ou mulher que eu indicar. Será da sua conta o que fizer como atividade secundária. Terá uma receita garantida de 100 mil libras esterlinas por ano, depositada em parcelas mensais num banco suíço. Roupas, transporte, alojamentos e... como posso di­zer? ... a necessária mise en scène serão debitados como despesas de representação às minhas empresas.

  • É uma oferta generosa.

  • Você valerá até a última moeda.

  • E depois?

  • O que tem depois?

  • Precisarei de garantias para a minha aposentadoria, uma espécie de seguro, como quer que prefira chamar.

  • Haverá, é claro, uma gratificação substancial na aposentadoria. Mas seguro? Tudo dependerá de você, minha cara Magda.

O melhor seguro que pode ter é a manutenção da minha boa von­tade. Basta perdê-la e estará na estaca zero, numa rua de mão única para o nada.

Não contestei esse ponto. Acreditava nele implicitamente. Em vez disso, perguntei:

—   O que o leva a pensar que estou qualificada para o métier?

Ele também tinha uma resposta para isso já definida em sua cabeça. Recitou-a como se fosse uma lista de compras no arma­zém:

  • Um: é uma mulher bonita e inteligente, com uma obsessão por experiências sexuais. Sua satisfação será o meu proveito. Dois: é financeiramente independente e por isso acima do suborno. Três: e médica, possui um conhecimento de drogas e venenos, assim como de sua aplicação em situações pessoais e políticas. Quatro: é vulnerável a seus próprios vícios. Sua lealdade está garantida pela necessidade de proteção. Cinco: só pode vicejar num ambiente ar­tificial e sou o melhor homem do mundo para proporcioná-lo... Tudo isso faz sentido?

  • Faz, sim, conforme está explicando agora. E um homem muito persuasivo, Zed-Zed. Mas eu gostaria de pensar a respeito por alguns dias.

  • Não há problema. Não se deve mesmo assumir esse tipo de contrato levianamente. Não é nada fácil rompê-lo.

  • Obrigada por ser tão atencioso.

  • Por favor, minha cara! Os melhores negócios são feitos com calma e deliberação... Por outro lado, o melhor amor é sempre resultante do impulso. Eu gostaria de ir para a cama com você... agora!

  • Nada me agradaria mais... Mas eu lhe suplico, meu amigo, não esta noite. — Percebi de novo a ira aflorar subitamente nos olhos dele e apressei-me em explicar: — Não gostaria muito de mim. É o momento errado do mês. Mas lhe prometo que será como quiser na próxima vez. Posso procurá-lo amanhã?

  • Quando quiser, minha cara. Tenho certeza que passaremos a nos encontrar com muita freqüência.

    Ele levantou-me e abraçou-me. Beijou-me com a boca aberta, acariciou-me com mãos experientes. Reagi com ardor suficiente para persuadi-lo de meu interesse, mas a verdade é que nada sen­tia. O que era estranho para mim e um tanto assustador. Posso ser despertada facilmente.... até mesmo por um sorriso, um perfume ou uma carícia no rosto. Com aquele homem, no entanto, eu me sentia seca e morta, como uma folha no inverno ao sabor do vento.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Toni está hoje com gripe e tem de ficar na cama. Emma está deli­ciada por me ter só para si e me exorta a levá-la e às crianças para velejar no lago. É um lindo dia, com uma brisa amena soprando, sinto-me facilmente tentado a sair de meu sufocante isolamento. Enquanto Emma prepara um cesto de piquenique, vou com as crianças aprontar o barco.

Experimento uma pontada de culpa momentânea ao arrumar as velas e almofadas em que Toni e eu fizemos amor. A culpa acar­reta uma recordação física do momento e encosto o tecido áspero no rosto, como se fosse um lenço ou uma echarpe. Agatha, minha filha mais velha, uma menina precoce de nove anos, pergunta:

—   Por que está fazendo isso, papai?

Balbucio a desculpa que é apenas para sentir se a vela está úmida. Ela e Anna me ajudam a prender as velas nas adriças. Os pequenos, Franz e Marianne, dobram as cobertas da cabine e ajei­tam as almofadas. A conversa infantil deles me alegra e me faz recordar um mundo mais simples, do qual estou ausente há muito tempo.

Quando Emma desce, vestindo uma musseline de verão, expe­rimento outra pontada de pesar, por um tempo perdido e distante. Ela está com 30 anos agora e grávida de nosso quinto filho. Conhe­ci-a quando ela tinha apenas 16 anos e me lembro de haver dito a mim mesmo:

—   Esta é a moça com quem vou casar.

Eu a amava naquele tempo. Continuo a amá-la agora, mas amor é uma palavra-camaleão e nós, seres humanos, mudamos de cor mais depressa que as palavras que falamos.

Emma é a antiga Basiléia, a velha classe burguesa, dinheiro antigo de mercador. Sou da classe rural, o filho de um pastor pobre lutando para sair do estábulo. Nossas primeiras brigas foram por dinheiro. Ela o tinha. Eu não tinha. Nossas brigas seguintes foram sobre precedência. Quando comecei a adquirir reputação como clí­nico, analista e professor, Emma sentiu-se privada da atenção so­cial que até então aceitara como natural. Assim, os aprestos do casamento atormentam a nós dois. Amamos um ao outro, mas somos freqüentemente constrangidos a ser menos do que amantes um para o outro.

O vento enfuna a vela mestra. Afasto-me do atracadouro e vamos deslizando pelo lago. As crianças gritam de prazer quando o barco se inclina, Emma pega a cana do leme, enquanto eu prendo a bujarrona e as escotas da vela mestra, enrolo os cabos de atraca­ção. As faces de Emma estão coradas, os olhos brilham de satisfa­ção. Ao passar por ela, deliberadamente roço a mão em seu seio e tento lhe plantar um beijo nos lábios. Ela não recusa a carícia, mas ainda há aquele primeiro olhar apressado para as crianças, o retraimento instintivo, como se eu tivesse feito algo indecente. Para disfarçar minha irritação, faço um gesto mais largo e lhe afago o pescoço, como uma amante desajeitado. Agora ela me empurra e o barco balança. As crianças estão assustadas. Emma está irritada. A incipiente ternura do momento está perdida para sempre. Emma sabe disso, mas não faz qualquer gesto para mim. Concentra sua atenção nas crianças. Sinto-me culpado outra vez porque tenho ciúme de minha própria prole. Lembro-me do comentário de Freud:

— Já saldei a hipoteca sobre o meu casamento!

Não compreendi na ocasião o que ele estava querendo dizer, mas já comecei a entender como os gestos não retribuídos podem se acumular como registros num livro-caixa, até que toda a eqüi­dade do casamento está consumida.

Nesse exato momento o barco de um vizinho, muito mais rápido que o meu, passa de través e nos priva do vento. É uma brin­cadeira comum entre os marujos. O vizinho ri e trocamos insultos cordiais. O barco dele se chama Pegasus e exibe, pintado na vela, um cavalo alado. O cavalo me faz lembrar de uma seqüência de sonho que registrei em A Psicologia de Dementia Praecox. Um cavalo em arreios de couro está suspenso no ar. Os arreios se rompem. O cavalo cai, mas depois sai galopando, arrastando em sua esteira um imenso tronco. O cavalo sou eu, elevado em minha profissão, mas constrangido pela família e vínculos profissionais. Consigo livrar-me dos arreios, mas ainda estou estorvado pelo tronco, que é, como o falo-árvore, uma imagem da minha própria sexualidade opressiva. Freud escreveu-me a respeito desse sonho e disse que só podia se referir ao fracasso de um matrimônio rico. Isso foi há muito tempo. Meu casamento com Emma ainda está intacto. Mas é verdade que Deus sabe que às vezes eu gostaria de estar livre de sua miscelânea de obrigações... e gostaria que minhas necessidades sexuais fossem aliviadas por satisfações sexuais cor­respondentes!

O vento aumenta um pouco e sou obrigado a me concentrar nas manobras, abandonando a análise de sonhos e situações anti­gos, já rígidos demais para serem mudados. Emma distribui bolo e cordial para as crianças, serve um copo de cerveja para mim. Ba­temos as nossas canecas e gritamos juntos, entoando canções anti­gas em dialeto, canções de estudantes que meu pai ensinou-me, trechos de Lieder que Emma puxa com sua voz meiga e clara. O camponês em mim se delicia com essa diversão simples, ao ar livre. O outro ego, atormentado pelo demônio, rejeita essa simpli­cidade rústica e se aprofunda cada vez mais no quem, de onde e no sinistro porquê das coisas.

Tenho de confessar... pelo menos para mim mesmo... que esta nova disciplina de análise submete os seus praticantes a um grande risco. Quando eu trabalhava no Hospital Psiquiátrico Burgholzli, em Zurique, lidei com centenas e centenas de pacientes. Bleuler dirigia o hospital com uma eficiência quase monástica. Não tínha­mos permissão para beber. Levantávamos às seis e meia da manhã e tínhamos de estar prontos para uma reunião da equipe às oito e meia. Datilografávamos os nossos relatórios. Os residentes junio­res tinham de chegar até às 10 horas da manhã..., pois depois disso os portões eram fechados e eles não tinham chave. Era uma disci­plina rigorosa e havia muitos hiatos em nosso conhecimento... mas nossa atenção estava concentrada fora de nós próprios, estava fo­calizada nos pacientes.

Em meu estado atual, toda a minha atenção está concentrada em mim mesmo. Sou o paciente. Sou o clínico. E me pergunto se é por isso que nosso grupo de pioneiros... Freud, Adler, eu, Fe­rencz, todos os outros... é tão endógamo quanto uma tribo monta­nhesa do Atlas. Nós nos queixamos como mulheres. Acalentamos ressentimentos. E encontramos insinuações em cada palavra ca­sual.

Em nossa conferência em Bremen começamos a falar sobre os homens dos pântanos, cujos cadáveres mumificados, alguns clara­mente vítimas de execução ritual, são freqüentemente descobertos nas turfeiras da Alemanha e Dinamarca. Freud ficou furioso. Era quase como se sentisse que ele próprio era uma possível vítima... e literalmente desmaiou! Minha proposição é de que lhe era impossí­vel ser objetivo até mesmo sobre uma questão de arqueologia local.

  • Você está a quilômetros daqui, Carl! Emma interrompe meus devaneios com a velha pergunta banal: — Sobre o que está pensando?

  • Bremen. Como Freud desmaiou quando estávamos conversando sobre os homens dos pântanos. O que foi mesmo que ele

disse?

—   Lembro perfeitamente. Ele ficou bastante irritado. E disse: "Por que vocês têm sempre de falar sobre cadáveres?" Você fez um gracejo a respeito, comentando: "Nem sempre, meu caro amigo. Com mais freqüência, falo sobre lindas mulheres."

Ela me faz lembrar também de outra coisa. Depois do incidente, meus sonhos tornaram-se obcecados com os mortos. Eu so­nhava, por exemplo, que estava em Alyscamps, perto da cidade francesa de Áries, descendo por uma avenida de sarcófagos. E eles de fato existem. Remontam aos merovíngios. No sonho, enquanto eu passava por cada caixão, o corpo mumificado lá dentro se mexia e ressuscitava...

Afasto a macabra fantasia da mente e me concentro em seguir para uma pequena enseada, onde vamos lançar âncora e almoçar. As crianças querem nadar. Emma diz que a água está muito fria. Nao contradigo a ordem dela. Pego uma caixa de material e um vidro de iscas, ponho as crianças a pescar do barco. Emma e eu bebemos vinho branco, comemos coxas de galinha, aipo e pão fresco, feito em casa. Faço um brinde a ela e digo que é a melhor esposa do cantão. Ela me lança um estranho sorriso de viés e me diz:

—   É bom ouvir isso, Carl. Mas meus talentos não estão limita­dos à cozinha e aos cuidados das crianças.

Eu lhe apalpo a barriga e declaro que seus outros talentos nunca foram contestados Ela se abranda, mas apenas um pouco. Já co­mentou algumas vezes que os europeus podem não praticar a cir­cuncisão feminina, mas fazem tudo o mais para desencorajar as mulheres da procura do prazer fora do casamento. É um assunto espinhoso e não tenho a menor intenção de discuti-lo num barco a balançar num lago varrido pelo vento. Desabotoo a calça e urino por cima da murada. Por trás de mim, ouço o pequeno Franz anunciar, em sua voz sibilante:

—   Vejam! Não falei? O de papai é enorme!

Emma e as meninas desatam a rir. Também rio. Dentro da minha cabeça, porém, é como se um fogo irrompesse. Lembro de outra enseada, em outro lago, uma voz profunda e cordial a me exortar:

—   Veja como fica grande e duro. Pegue-o com suas mãos. Pode sentir. Antigamente cada jardim romano tinha o seu Pã priápico e jovens e velhos o tocavam para ter sorte.

Essa recordação sempre me volta quando penso em Freud e na dificuldade de escapar de sua influência e autoridade... Uma das lições que devo ensinar a meu filho é que nunca se deve urinar contra o vento, especialmente quando sopra das cavernas escuras e profundas da memória.

 

MAGDA...

Paris

Esta noite, com toda a crueldade indiferente de um califa, Basil Zaharoff violou-me. Aviltou-me, despojou-me de todos os resquí­cios de amor próprio e depois se ofereceu para comprar-me, como uma égua de cria num leilão.

Ele fez mais do que isso. Destruiu uma coisa que era bela para mim. Invadiu meu Éden particular, pisoteando as ilusões da minha infância, as imagens tão acalentadas de papai e Lily. Despejou es­cárnio sobre todos nós. Eu gostaria de poder lhe dar uma mentira, mas não me foi possível. Assim, daqui para a eternidade, ele pode fazer chantagem comigo com o que sabe a respeito de minhas ori­gens, desconfia de meu casamento, seu prelúdio e conseqüência... e o que cada madame em atividade terá prazer em informá-lo a respeito de minhas necessidades e aberrações sexuais.

Voltando para o Crillon, eu me sentia fisicamente nauseada. Queria parar o carro e vomitar na sarjeta, mas não podia permitir que o chofer de Zaharoff se tornasse testemunha de minha humi­lhação. Reprimi a náusea até estar trancada em meu quarto, quando então despejei a boa comida e os vinhos clássicos de Zaharoff no vaso. Depois, ainda vestida, joguei-me na cama e fiquei olhando sem ver para a cena pastoral pintada no teto.

Quem concebeu o padrão de minha vida, a vida de Magda Liliana Kardoss von Gamsfeld, foi um mestre de todas as ironias. Eu, que subira tão alto, estava agora caída na poeira. Eu, a domadora de leões, estava subjugada por um mero estalar do chicote. Eu, que conhecia todos os truques do ofício de marafona, estava mais machucada do que uma virgem rural em seu primeiro encon­tro com o aliciador do bordel.

O mais estranho era que eu não podia culpar Zaharoff. Podia até mesmo admirar o gênio frio de sua maquinação. Ele sabia que eu não ficaria chocada com qualquer coisa que pudesse me pedir. Já fizera tudo antes... e muitas vezes sem o estilo de Zaharoff. De certa forma, eu era a parceira perfeita para ele. Éramos o rei e a rainha do mesmo naipe do baralho. Enquanto eu servisse aos inte­resses do rei, ele me manteria em bom estado.

Se ficássemos juntos, sem desavença, sem divórcio, sem traição de rivais, podíamos até nos tornar amigos. Há uma espécie de con­forto na sociedade de baixa extração, onde todos sabem como sole­trar as mesmas palavras obscenas. Mas... e esse era o medo que me fazia sufocar... a partir do momento em que fizesse um pacto com Basil Zaharoff, nunca mais possuiria qualquer parte de mim mesma. Os termos seriam inegociáveis e eternos. Não haveria des­conto dos juros, não haveria remissão da dívida final. Quando Me­fistófeles vier cobrar o pagamento, Fausto... ou Fausta agora!... deve entregar sua alma.

Mas por que se preocupar? Papai garantira-me que eu não tinha alma. Eu também procurara em vão por uma alma nas salas de dissecação de uma dúzia de hospitais. Então por que hesitar? O dinheiro era bom, as condições de trabalho de primeira classe, o seguro total. O que era esse precioso ego que eu me descobria subitamente relutante em entregar?

O quarto começou a girar e fiquei nauseada de novo. Depois do espasmo e do vômito, tirei as roupas sujas, fiquei de molho por um longo tempo num banho quente, depois me enrosquei na cama com o companheiro das minhas noites solitárias: um velho boneco de trapos. Lily o fizera para mim... só Deus sabe há quantos anos! Ela costurara fios pretos pelo rosto para fazer com que parecesse com um ovo rachado, como Humpty Dumpty, o personagem de história infantil com a forma de um ovo que cai e se espatifa irre­mediavelmente. Lily me ensinara a cantiga que as crianças inglesas cantavam a respeito dele:

 

Humpty Dumpty estava sentado num muro.

Humpty Dumpty teve uma grande queda.

Todos os cavalos do rei e todos os homens do rei

Não conseguiram juntar Humpty Dumpty.

 

Senti que resvalava para a escuridão. Ouvi-me a sussurrar, com uma voz de criança:

Lily, onde você está? Lily...!

E depois ouvi os latidos de cachorros, o troar de cascos em galope e mais uma vez estava de volta ao pesadelo...

Estou caçando com as pessoas de sempre. É primavera, o campo todo está em flor. Descobrimos uma raposa, que está se­guindo para as colinas. Os cães estão atrás dela, latindo sem parar. Estou na vanguarda da caçada, logo atrás da matilha. A raposa nos leva para um desfdadeiro entre penhascos altos e negros. Galopo para a frente. Mas, quando saio do outro lado, descubro que estou sozinha. Não há cachorros, não há caçadores, apenas a pequena carcaça ensangüentada da raposa... A paisagem mudou. Ao meu redor há um deserto plano de areia vermelha, por cima do qual o Sol arde como um imenso olho vermelho. Meu cavalo empina e me derruba. Quando levanto os olhos descubro que o cavalo desapare­ceu. Estou sozinha no deserto... Estou nua e tenho a cabeça raspada como uma freira. Estou aprisionada numa grande bola de vi­dro, que rola interminavelmente, pondo à mostra todas as minhas partes íntimas, enquanto o olho vermelho me fita fixamente e um silêncio terrível escarnece de mim...

Ao despertar, estou enroscada na posição fetal, apertando Humpty Dumpty entre as pernas, como se, ainda por nascer, aca­basse de tê-lo dado a luz. Tive de me forçar a esticar-me na cama e olhar para o relógio. Ainda eram apenas três horas da madrugada, mas senti o impulso de escrever o sonho, seu prelúdio e conse­qüência. Era quase como se papai estivesse me falando, repetindo o antigo refrão:

— Escreva cada anamnese, menina! Indique os sintomas claramente. Certifique-se de que registrou toda a seqüência clínica... ou se não o fez, que sabe pelo menos onde estão os hiatos. Pode então procurar pela lógica. O diagnóstico é justamente isso: lógica e probabilidades... Mas se o seu primeiro registro é desorganizado, acaba por se confundir e põe o paciente em risco. Anote tudo, escreva...

Assim, ainda obediente ao primeiro homem que amei, ajeitei Humpty Dumpty à minha frente e comecei, incoerentemente a princípio, depois com maior fluência, a escrever a minha própria anamnese, assim...

Minhas primeiras recordações são de cheiro de mulher, gosto de leite e o seio grande e macio de minha ama-de-leite. Recordo coisas da cozinha: carne assada, pastinaca cozida, noz-moscada, cravo, maçãs cozidas, mãos sujas de farinha de trigo batendo a massa para fazer o pão.

Ouço vozes de mulheres, cantos, risos, conversas; vozes de homens, saudando e grunhindo. Botas pesadas ressoam em lajes de pedra. Sujeitos afáveis, que cheiram a vacas, mato cortado, cerveja azeda e tabaco, levantam-me e jogam-me para o teto. Depois, ajei­tam-me em seus colos e me alimentam com Strudel quente e creme batido.

Há todo um caleidoscópio de outras imagens: gralhas nos olmos pelo caminho, vacas com úberes pesados voltando lenta­mente para casa na hora da ordenha, Lily e eu dançando por uma campina dourada de dentes-de-leão e botões-de-ouro. Há uma geo­grafia para tudo isso, mas não tem muita importância em compara­ção com o fato de que foram tempos e lugares felizes. Durante os dois primeiros anos de minha infância, Lily e eu vivemos numa propriedade rural ao sul de Stuttgart. Papai trabalhava na Klinikum em Tubingen e tinha dois dias de clínica particular em Stuttgart. Às vezes ele se juntava a nós nos fins de semana, outras não aparecia. Quando vinha, sempre tinha os bolsos recheados de presentes, ria muito e recendia a água de lavanda.

Mais tarde, quando eu tinha quatro ou cinco anos, nós nos mudamos para Silbersee, em Land Salzburg. Papai vendera suas propriedades na Hungria e comprou um pequeno castelo barroco, com uma dependência de fazendeiros meeiros, que criavam gado leiteiro, porcos e cavalos, cortavam madeira no alto das encostas. O castelo também proporcionava a receita do aluguel de uma casa de hóspedes e um Stube (quarto) na aldeia.

Nessa ocasião, papai era o cirurgião principal do Hospital da Caridade em Salzburgo e também tinha uma grande clínica particu­lar na cidade. Tinha o que chamava de "diversões sociais" em Viena, onde ocasionalmente também era chamado a operar. A des­crição que Zaharoff fez dele, um conquistador inveterado e rico, sem muito interesse por sua profissão, é uma patente falsidade. Suas visitas ao Schloss Silbersee tendiam a ser esporádicas. Havia ocasiões em que passávamos três a quatro semanas a fio sem vê-lo. Seu agente dirigia a propriedade. Lily dirigia a minha vida... a go­vernanta tradicional, mãezinha, irmã mais velha para uma criança que poderia ter sido insuportavelmente solitária, mas que foi imen­samente feliz, pelo menos naqueles poucos anos.

Como posso descrever essa Lily Mostyn a quem tanto amei? Em contraste com as camponesas de nossa convivência, louras, de busto grande, costas e nádegas largas, Lily parecia uma boneca, de Dresden. Mas sob os adornos sóbrios, a blusa recatada, a saia e as anáguas, havia o corpo de uma atleta.

Ela podia correr, pular, plantar bananeira, dar saltos mortais, nadar como uma foca. Quando lhe perguntei como aprendera todas essas coisas, ela inclinou a cabeça como um papagaio zombeteiro e me disse, num forte sotaque do Lançashire:

Quando você ficar maior, meu bem, com os ossos firmes, vou lhe mostrar como se faz. Faremos exercícios em nosso quarto e encontraremos uma campina tranqüila em que esses campônios de Salzburgo não poderão nos ver. É outro segredo que teremos...

Tudo era um segredo com Lily. Ela me ensinou inglês "para podermos dizer do que gostamos na presença dos criados". Fez papai nos ensinar húngaro "porque ele prefere sua língua natal quando está na cama". Uma pausa e ela se alongou na explicação:

—   É o que todo homem faz. Mas ele não pode falar com a parede, não é mesmo? Além do mais, se eu puder falar a maldita língua talvez as pessoas me tomem pela Condessa Kardoss... o que eu não me importaria de ser. Mas nunca receberei a proposta.

Perguntei por que não. Ela se agachou diante de mim e explicou com um sorriso jovial:

—   Porque seu pai nunca vai casar com ninguém. Não o culpo, depois da experiência com sua mãe. Além do mais, você conhece o velho ditado: quanto mais mulheres se conhece, menos disposto se fica a se contentar com uma só. Quanto a mim, mesmo não ca­sando, como poderia obter algo melhor do que tenho? Eu, a filha de um camponês do Lancashire! Vivo num castelo. Recebo três vezes mais do que poderia ganhar na Inglaterra. Tenho uma criança para amar... que é você, minha querida menina. Tenho um homem para me amar... o que seu papai não faz com freqüência suficiente, porque está ausente a perseguir prostitutas de luxo e viúvas ricas em Viena. Mas quando ele está aqui é maravilhoso. Ele toma cuidado para não me deixar grávida... e não me traz a doença. Na Inglaterra, eu estaria suspirando para casar com um empregado de banco ou um mestre-escola... E agora vamos nos despir, tomaremos um banho quente juntas e depois jantaremos de peignoir...

É claro que eu não compreendia metade das coisas que ela me dizia. Mas também não precisava. Era suficiente que ela falasse, me tocasse, beijasse e acariciasse. Esta é a minha recordação mais terna de Lily e meu pai. Eram intensamente sensuais. Abraçavam o mundo por todos os sentidos. Tocavam-no, saboreavam-no, ouviam-no como música, aspiravam-no como perfume. Lily trans­mitia prazer quando escovava os meus cabelos e entrançava-os. Era como se estivesse manuseando filamentos de ouro. Quando me oferecia uma flor para cheirar, punha as mãos em concha em torno dela, a fim de que não escapasse nada do perfume. Quando me ensinava uma canção sempre dizia: "Escute bem que esta é linda!" Quando me dava banho, cada contato em cada lugar era uma carí­cia e um despertar.

Creio que era isso o que fazia com que meu pai fosse um cirur­gião tão bom... e um amante tão desejável! Manuseava a pele hu­mana como se fosse o tecido mais precioso do mundo. Tinha uma queixa constante em relação aos colegas:

Eles cortam os tecidos como açougueiros. E dão os pontos como sapateiros, deixando traumas por toda parte.

Vê-lo limpar e fazer um curativo no talho da mão de um campo­nês era uma lição de cuidado meticuloso e gentileza absolutamente gratuita. Cada vez que voltava para casa ele me examinava com um cuidado clínico, da cabeça aos pés. A experiência era como ser beijada por borboletas. Ele gostava de comer e de beber, mas ja­mais o fazia em excesso. Saboreava cada porção. Observar Lily e papai enroscados no sofá grande, diante da lareira acesa, era como observar um par de gatos lindos e suaves, sentindo-se orgulhosa por ser a gatinha de um casal assim.

Nós três não tínhamos vergonha um do outro... e nenhum medo de intromissão. Nossos aposentos no Schloss (castelo)... meu quarto, o quarto de Lily, nosso banheiro, a sala de estar e os apo­sentos de papai só tinham acesso através de uma única antecâ­mara, além da qual nenhum criado podia passar sem ser chamado.

Uma vez dentro da suíte, no entanto, podia-se passar livremente de um cômodo para outro. Podíamos ficar nus na janela, contemplando o pôr-do-sol sobre os picos distantes dos Tauern Al­pes. Ou podíamos puxar as cortinas e nos aconchegarmos na segu­rança sensual de um reino de conto de fadas. O que acontecia nesse reino era o maior e o mais zelosamente guardado de todos os segredos.

Quando papai estava em casa, ele nos pertencia completamente. Recebíamos hóspedes... em jantares, festas e caçadas, mas nenhum forasteiro, homem ou mulher, jamais se alojava no Schloss. E tenho de admitir que Lily e eu também não conhecíamos o interior dos alojamentos de papai em Salzburgo ou Viena. Não sei quantas outras vidas ele levava; mas em Silbersee tinha apenas uma e éramos o centro dela.

Em tudo, menos na legalidade, constituíamos uma família. Papai dormia com Lily. Quando ele estava ausente, Lily voltava a seu próprio quarto, ao lado do meu. Eu me aconchegava com os dois, como qualquer criança faz com os pais. Lily foi a minha primeira professora... a única, até que eu tivesse idade suficiente para ser enviada a uma escola interna para meninas. Ela me ensi­nou a ler, escrever, matemática, línguas e os rudimentos de música e piano.

Papai sempre me examinava meticulosamente sobre o trabalho que eu realizara desde a sua última visita. Insistiu também que eu aprendesse equitação. Assim, tanto eu como Lily aprendemos os elementos de equitação. Tudo isso era bastante normal para a filha pequena de um médico rico... um nobre e um húngaro ainda por cima!..., mas o resto da minha educação foi decididamente hetero­doxa. Creio que foi o que os franceses costumavam chamar une education sentimentale. Só mais tarde, muito mais tarde, é que comecei a compreender que se tratava de um esforço de papai para completar, pela fantasia, as deficiências de sua própria carreira sentimental. Estou convencida, por exemplo, que ele estava lou­camente apaixonado por minha mãe, que realmente queria casar com ela e fundar uma família. Não resta a menor dúvida de que ele queria um filho. Em vez disso, teve uma menina bastarda e um ferimento de que seu orgulho masculino nunca mais se recuperou.

Apesar das mulheres médicas serem raras e consideradas, se não como feiticeiras, pelo menos como excêntricas, ele me mani­pulou cuidadosamente para escolher a medicina como uma car­reira. Estimulava-me a fazer perguntas sobre seu trabalho. Contava-me histórias médicas pitorescas: de Cos, a ilha da cura, das artes dos antigos egípcios e das ervas mágicas, como digitalina e heledoro. Gradativamente, foi desviando minha atenção para os seus compêndios. Usava o próprio corpo, o de Lily e o meu para me ensinar fisiologia e anatomia, as funções glandulares. Pacien­temente, ao longo de muitos anos, sondou as escolas de medicina que aceitavam mulheres e fez amizade com membros importantes de seus corpos docentes. Foi somente depois que ele morreu, quando eu estava examinando sua correspondência, que com­preendi quanto tempo e empenho ele dispendera para encontrar uma escola que me aceitasse.

Estava obcecado com a continuidade sob outros estranhos aspectos. Lembro de ouvi-lo explicar, quando eu era bem pequena, que Uma mulher casada adotava o nome do marido. E, depois ele acrescentou:

Mas é claro que a mulher também pode ficar com seu próprio nome. É justamente isso o que quero que você faça. Mantenha sempre um Kardoss no nome. Promete que fará isso?

Fiz um juramento solene, a maior e mais sagrada promessa. Disse que um dia lhe daria um neto. Mas nisso, finalmente, lhe falhei. Mas ele também me falhou. Não! Não foi fracasso. Foi al­go mais: desinformação, má orientação, uma mentira incutida em minha vida infantil. Ele e Lily mudam as placas; quando sou capaz de lê-las, já estou muito longe numa rua de mão única, sem saída no outro lado. Não é estranho? Zaharoff me disse a mesma coisa, em outras palavras, mas odiei-o por isso...

É muito tarde e estou bastante cansada, mas devo tentar defi­nir esse pensamento. Está comigo há muito tempo, enroscado como uma serpente preta, no limiar do sonho. Papai estava ten­tando conceber uma criatura impossível: um filho que continuaria seu nome e sua presença no planeta e uma filha em quem pudesse possuir a mulher que o abandonara, desfrutá-la e, de uma maneira estranha e sutil, exercer sua vingança.

Ele alcançou seu objetivo não pela crueldade, mas sim pela indulgência. Minha educação sentimental foi realizada no isola­mento de uma estufa. Fui levada à vida sexual, como me disseram que os orientais fazem com suas prostitutas-crianças, pela serena sedução. Papai era um médico bom demais para submeter-me a traumas, mas a cada ano me atraía mais intimamente para si mesmo, aproximava-me do momento em que me iniciaria... terna­mente, de maneira maravilhosa... e me prenderia a ele mais forte­mente do que qualquer amante jamais poderia conseguir. Toda a minha vida é testemunho de como ele foi bem-sucedido.

E Lily? A minha Lily, a quem ainda amo e de quem sinto às vezes uma saudade profunda? Ela foi a minha primeira madame! Por que ela fez isso? Creio que, a princípio, ela não via qualquer mal nisso. Era uma jovem saudável e exuberante, para quem se jogar na cama era tão natural quanto dançar. Mais tarde, porém, quando comecei a substituí-la como companheira de papai na cama, ela não podia deixar de saber o que fizera. Tentara me usar para mantê-lo. Ao final, ela o perdeu e todos nos perdemos uns aos outros.

Agora me encontro ao final daquela rua de mão única, o nariz batendo com força contra um muro de tijolos. Não posso seguir em frente. Se voltar, cairei direto nos braços de Basil Zaharoff... Tal­vez a única solução seja pular por cima do muro...

Aí está! O pensamento saiu, escrito com a minha própria mão de médica. Já libertei outros da prisão da vida. Não seria muito difícil conceber uma saída impecável e sem dor para mim mesma. O que você acha, Papai? E você, Lily?

 

JUNG...

Zurique

Estou confuso agora, atormentado dia e noite por meus confli­tos com Freud sobre a interpretação do tabu do incesto. Receio o que acontecerá em nosso congresso em Munique, em setembro, quando isso e todas as nossas divergências relacionadas serão re­moldas da maneira mais sectária e quando o nosso relacionamento pessoal será final e publicamente destruído.

Freud encara o desejo do incesto da mesma forma que a todos os outros fenômenos psíquicos, como enraizado no impulso sexual. Eu o considero como o símbolo de algo mais profundo e primor­dial, relacionado com os mitos do sol. Não é o intercurso que se deseja, mas o renascimento, que só pode ser realizado pelo rein­gresso no útero da mãe... Da mesma forma, discordo totalmente do conceito de Freud sobre a sexualidade infantil... Parece-me... Mas por que repassar coisas antigas? Freud é obstinado. Está casado com a autoridade e não com a verdade. O respeito que eu sentia por ele foi erodido. Não posso mais manter nosso relacionamento.

E aí está justamente o problema pessoal. Não posso manter o relacionamento..., mas também não posso destruí-lo. É muito forte, muito complexo. É como uma trepadeira tropical, cujas raízes se espalham por toda parte e cujos tentáculos se arremessam e con­tornam cada escaninho da minha psique.

Primeiro, ele foi meu mentor; depois, muito depressa e muito facilmente, adotei-o como a figura do pai na síntese da minha vida adulta. Sentia-se lisonjeado por qualquer palavra de louvor que me oferecesse. Creio que ele também se sentia lisonjeado, embora nunca o admitisse expressamente. Ele gostava da deferência de um homem que tinha muito mais anos de experiência clínica. Afinal, a experiência institucional de Freud era mínima, enquanto eu traba­lhara por anos em Burgholzli, com mil ou mais pacientes sob ob­servação diária. Eu idealizara e aplicava testes clínicos, obtivera indicações estatísticas valiosas, que ainda são usadas.

Mas nosso relacionamento se aprofundou. Desenvolvi uma "paixonite" por ele, uma fixação intensamente erótica, impreg­nada da minha experiência juvenil de estupro homossexual por um homem mais velho. Fui franco com Freud a respeito disso. Ele confessou sentimentos similares por mim e por outro colega. Isso fez com que nosso relacionamento se tornasse mais aberto, mas nem por isso menos difícil.

Quando começamos a divergir radicalmente em questões de teoria, Freud suplicou-me que o apoiasse, a fim de preservar sua autoridade como líder de nosso círculo e proporcionar pelo menos um consenso doutrinário visível para nossa ciência que nascia. Mas fiquei abalado quando ele invocou nossa amizade. Era quase como se estivesse fazendo chantagem com material do confessionário. Senti... e ainda sinto... que o único remédio era o bíblico: meter o machado na raiz da árvore e derrubá-la.

Eu gostaria que fosse tão fácil fazer quanto dizer...! A quem mato primeiro? O professor, o pai, o amante? E quando, se algum dia, eu extipar a todos de minha vida psíquica, o que restará? Com quem posso partilhar a experiência da vergonha e perda?

Emma compreende alguma coisa do que me aflige. Ela se tornou uma analista relativamente boa... embora não tão perspicaz e brilhante como Toni. Ela também manteve uma amizade e corres­pondência com Freud, algo que condeno, mas não posso proibir. Contudo, Emma nada sabe do elemento homossexual em minhas relações com Freud e está muito mais preocupada com a nossa situação familiar. Meus acessos de ira a transtornam e às crianças. Ela ainda está ressentida com episódios antigos com pacientes do sexo feminino. Tem ciúmes de Toni e se desespera com a sua constante presença em nossa casa. Acha que minha nova existência como consultor é muito difícil de explicar para os vizinhos e ami­gos. Era muito mais fácil quando ela podia explicar meus títulos: diretor-clínico do Burgholzli e professor da Universidade. Nós, suíços, precisamos muito de categorias, se desejamos conviver harmoniosamente.

Estou envolvido num dilema ainda maior com Toni. Ela está perfeitamente a par do aspecto pai-filho de minha fixação por Freud. Conhece a minha necessidade de uma figura de pai forte para substituir a de meu pai a quem amei, mas não podia respeitar totalmente porque sempre se recusou a uma confrontação comigo sobre as questões da fé e dúvida. Tudo isso posso discutir livre­mente com Toni. Mas o outro problema... não! Nosso relaciona­mento sexual é intenso e ardente. Estremeço só de pensar o que aconteceria se subitamente eu a confrontasse com a imagem avil­tante e brutal do estupro per anum.

Assim, fico sozinho com esse demônio. Devo enfrentá-lo em segredo. À medida que cresce a repulsa por mim mesmo, também aumenta o ressentimento contra Freud. É um ressentimento que se estende ao pequeno círculo de aduladores que se pavoneiam em torno dele, como cortesãos cercando o Rei-Sol... "O mestre dis­corda!... O mestre está ofendido!... O mestre isso, o mestre aquilo!" É de se pensar às vezes que ele é o próprio Buda, ao invés de um judeu vienense cujas melhores idéias estão prejudicadas pela mania de grandeza!

Esse é outro problema entre nós. Por motivos óbvios, nenhum dos dois quer traduzi-lo em palavras. Freud é um judeu que foi perfeitamente capaz, sem maiores dificuldades, de dispensar a reli­gião de sua raça. Para ele, toda e qualquer religião é um mito criado pelo homem, uma muleta para a psique doente, que devesse ser descartada antes que se possa proclamar a cura final. Eu sou um suíço alemão, criado na Igreja Luterana. Abandonei a religião de meu pai, mas nunca a busca por uma divindade que faça sentido para mim e a quem possa me dedicar como um ser humano racio­nal. Não considero os mitos do homem, os contos de fada e as diversas religiões como uma muleta. Encaro-os como sacramentos de cura, como símbolos pelos quais o homem expressa a sua percepção do mistério e ajusta sua psique ao fardo.

Sei que alguns dos freudianos intransigentes me consideram um místico ou alguma espécie de poeta fracassado, envolvido como um diletante com a ciência da mente. Alguns têm até espalhado rumores insidiosos de que apresento sintomas de demência pre­coce. Esquecem que minha experiência é muito mais longa que a deles e escrevi o que é, até agora, o trabalho mais autorizado sobre o assunto.

Mas esses intrigantes têm me prejudicado. Minha clínica sofreu. Diversos pacientes me abandonaram. Sou forçado a me com­prazer com as manobras sórdidas de explorar pacientes ricos, que não são absolutamente neuróticos, mas estão simplesmente ente­diados ou em confronto com as circunstâncias de suas vidas.

Sinto-me envergonhado por isso. Fico furioso por ter de me rebaixar por dinheiro. Sei que estou me projetando muito além das fronteiras de Freud. Estou convencido de que um dia alcançarei uma verdade muito além da extensão da imaginação dele. Sou atraído para essa verdade como a mariposa para a chama da vela, embora ainda não possa avistar a luz ou determinar o caminho para alcançá-la.

Toni chega tarde, ainda pálida e tossindo da gripe. Eu a repreendo, digo que deveria ter permanecido na cama. Ela protesta:

—   Estou melhor trabalhando. Na cama, acabo ficando com febre, a desejá-lo, esperando que apareça para me visitar.

Explico com alguma impaciência que Emma e as crianças que­riam passear de barco e não posso recusar esses pedidos familiares mais simples. Toni aceita o argumento com relutância. É neste ponto que o sapato aperta. A posição dela nesta ligação é sempre um degrau abaixo do meu. Profissionalmente, ela ainda é uma aprendiz. Como amante, fica em segundo lugar para a esposa e a família. Quando lhe asseguro que ela é sempre a primeira em meu coração, Toni lembra que meu coração é uma terra estranha, algu­mas vezes brutal e hostil. Há um momento breve e amargo em que parece que vamos discutir novamente; mas depois ela se rende. Trocamos um beijo e o gosto amargo se foi. Ela me fala de um sonho que teve durante o cochilo à tarde:

—   ...Minha cabeça estava cheia de você e o corpo doía com a necessidade de recebê-lo. Adormeci e sonhei que era uma gaivota sobrevoando o lago. Vi-o sentado na praia, de pernas cruzadas, como um oriental. Você estava nu e sozinho. Desci ao seu encon­tro; mas quando me aproximei, havia outro homem com você. Ele o abraçava e acariciava, de uma forma sexual... como eu própria faço. Quando me viu, ele sacudiu os braços, gesticulando para que eu me afastasse. Voei para longe, mas tornei a me aproximar e fiquei voando em círculos, bem alto, observando o ato amoroso. Não demorou muito para que Emma descesse até a praia e come­çasse a bater no homem com o guarda-chuva. Tratei de fugir, por­que não queria que ela me visse...

Enquanto escuto Toni a descrever o sonho sinto um ímpeto de emoção, como um fluxo de enchente, águas lamacentas, turbulen­tas, repletas de estranhos detritos. Será que ela descobriu o sinistro segredo que me atormenta? Será que o comuniquei a ela, por algum mecanismo do inconsciente? O sonho ocorreu a Toni enquanto eu estava absorvido no devaneio sobre o mesmo assunto, no barco ancorado na pequena enseada. É uma situação que se apresenta com uma freqüência cada vez maior: coincidência, sincronia, coi­sas acontecendo no mesmo momento do tempo, sem conexão de causa e efeito, mas ainda assim intimamente relacionados na natu­reza. A conexão merece um exame mais meticuloso no contexto da experiência psíquica. Não confio em mim mesmo para comentar imediatamente sobre o sonho. Sento à minha mesa, tomo algumas anotações sucintas do conteúdo e depois, da maneira formal que adotamos para as discussões clínicas, pergunto a Toni:

  • Antes de pegar no sono, você sabia que eu ia velejar?

  • Não. Mas era um dia tão bonito que pensei que você poderia sair no barco.

  • Houve algum outro gatilho para o sonho?

  • Claro. Um pássaro branco voou diante de minha janela e pensei: "Sorte sua! Eu bem que gostaria de poder voar assim!" E devo ter cochilado logo depois.

    Assumi um tom taxativo:

  • Quero que me diga agora, sem qualquer reflexão, o que o sonho significa para você.

  • Ora, é perfeitamente claro! — Ela me responde com aquela inocência límpida que tão facilmente me desarma. — Ficou evi­dente, mesmo enquanto eu estava sonhando. Temos conversado muito a respeito do anima e do animas, o elemento feminino em cada homem, o elemento masculino em cada mulher. O você que eu vi na praia era o seu anima, o seu elemento feminino. O Buda em meditação nunca exibe qualquer órgão sexual masculino. O homem que o estava solicitando era o macho em mim, meu ani­mas. Estávamos fazendo amor assim porque na vida real nossos papéis estão invertidos. Por causa da nossa situação, eu tenho de persegui-lo. Você é passivo e feminino, até que me apresento para excitá-lo. Quando isso acontece, é claro, você se torna plenamente masculino. Mas qualquer que seja o papel que possamos assumir, Emma sempre aparece para nos separar... É de fato um sonho bas­tante banal, sem qualquer mistério.

    —   Não vamos descartá-lo tão facilmente. Você ficou excitada com o meu elemento feminino?

  • Claro.

  • E poderia admitir tal inversão de papéis na vida real?

  • É justamente isso o que diz o sonho, Carl: tenho de tolerar durante todo o tempo. Você não vem atrás de mim como um apai­xonado ardoroso. Eu é que tenho de sair atrás de você, aprovei­tando cada momento de sua companhia. Sei que você me deseja, mas fica esperando aqui, até que eu venha ao seu encontro. Claro que você é o ativo quando fazemos amor, mas antes e depois... isso mesmo... os papéis se invertem. Não estou me queixando. Estou apenas enunciando um fato, interpretando meu sonho.

  • Vamos supor que eu lhe diga, Toni Wolff, que está mentindo para mim, que nunca teve um sonho assim, que está empe­nhada num jogo e inventando evidências clínicas. Qual seria a sua resposta?

  • Há três respostas, seu velho rabugento! Estou mentindo. Estou dizendo a resposta. Estou oferecendo um sonho interpretado que se ajusta à nossa situação. Pode escolher!

    Sinto-me bastante tentado a acusá-la de mentir e descarregar todos os meus temores e frustrações num acesso de raiva. No mesmo instante, porém, percebo que é justamente isso o que Toni espera. Ela está me fitando com a mesma expressão, meio diver­tida, meio ameaçadora, que eu costumava encontrar no rosto de minha mãe, quando ela olhava dentro de minha cabeça. Sei que, se discutirmos, acabarei tendo de pedir desculpas, explicar-me... e desta vez o meu segredo vai se revelar! Terei de contar a história sórdida do meu estupro e da minha fixação erótica por Freud... Toni pressente a verdade. O sonho é sua estratégia para forçar-me a revelar tudo.

    Assim, faço a mesma coisa de sempre. Minto. Pego as mãos dela e a puxo para mim. Beijo-a nos lábios, acaricio os seios e digo:

    —   Faço brincadeiras de mau gosto porque sinto muita saudade de você. Claro que acredito no sonho. Diz a exata verdade sobre você e eu. Estamos tão pertos que somos uma só pessoa... todas as nossas partes estão misturadas, como frutas numa torta.

    Mal eu acabara de falar quando ouvimos Emma chamando as crianças no jardim. Tratamos de nos separar apressadamente. Toni volta para a sua mesa, eu vou para a minha. Estou furioso porque me sinto ridículo. Toni ainda está com seu ânimo provocante. Alisa a blusa sobre os mamilos e ri para mim.

    — Gostaria de saber se Emma está com seu guarda-chuva.

 

MAGDA...

Paris

Acordei esta manhã com uma profunda depressão suicida, convencida de que devo consertar minha vida ou terminá-la. Ob­viamente, não havia meio de consertá-la numa associação com Basil Zaharoff; portanto, eu tinha de resolver esse problema ime­diatamente. Mas como? Só podia ser por um sim ou não. Zaharoff não toleraria manobras. Ele era um proxeneta experiente demais para ser enganado por ardis femininos. Se eu quisesse recusar, teria de confrontá-lo e convencê-lo de minha inadequação para o papel que me destinara.

Forcei-me a tomar um banho, fiz uma trouxa com as roupas sujas e tranquei todo o material que escrevera durante a noite. Chamei depois a criada para me trazer um chá de camomila e um saco de gelo. Estava com uma terrível dor de cabeça, contra a qual até mesmo os novos tabletes alemães de aspirina proporcionavam pouco alívio. Fiquei chocada quando me contemplei no espelho. A pele estava tão pálida quanto leite, os lábios lívidos, os pés-de-galinha gravados fundos em torno dos olhos, o medo estampado no rosto... um medo de desastre iminente e ameaça futura... evidente para que o mundo inteiro visse.

Liguei para Basil Zaharoff às 10 horas. O valete informou que ele estava dormindo e não podia ser incomodado. Passara mal du­rante a noite e o médico acabara de se retirar. Informei ao criado que também passara mal. Ele ficou imediatamente em pânico. Mr. Zaharoff desconfiara de uma ostra estragada na refeição da noite anterior. Agora, não podia haver mais a menor dúvida. Eu poderia fazer o favor de permanecer no hotel? Mr. Zaharoff me telefonaria pessoalmente assim que se recuperasse. Enquanto isso, por favor, tome todo cuidado, Madame! Vou mandar o médico para aí ime­diatamente!

E ele apareceu como um visitante celestial, deixando-me atur­dida. Era Giancarlo di Malvasia, colega dos meus tempos de estu­dante em Pádua e do serviço de internos em Viena. Ele estava agora com quarenta e poucos anos, mas ainda era bonito como Lúcifer, ainda o mesmo florentino exigente que manifestara outrora a sua ambição de tornar-se o maior médico do mundo e depois optara pelo celibato com a Ordem Soberana dos Cavaleiros de Malta.

Sempre fôramos colegas cordiais, mas por algum motivo a química do sexo jamais se apresentara entre nós. Eu era masculinizada demais para ele. Ele era por demais um esnobe toscano para que pudesse lhe confiar minha estranha história. Mas conseguíra­mos manter uma amizade cautelosa e um respeito profissional. Trabalháramos juntos em rondas por enfermarias, em aulas de ana­tomia, em correspondência ocasional sobre casos difíceis. Perdê­ramos o contato quando eu abandonara a medicina. Eu fora infor­mada por papai que Giancarlo estava desenvolvendo uma clínica lucrativa entre os internacionais que faziam anualmente o circuito europeu. E eu esperava que ele não estivesse muito bem informado de minha reputação desabonadora.

Ele se mostrou discretamente deliciado por me ver... ainda aquela maldita condescendência florentina!... e polidamente interessado por minha associação com Basil Zaharoff. Examinou-me meticulo­samente, depois relaxou o suficiente para fazer um elogio mordaz:

  • Minha cara Magda, você parece 10 anos mais moça do que tem o direito. Meus cumprimentos.

  • E também lhe apresento os meus, Gianni. É evidente que você realizou todas as suas ambições.

  • Nem todas. — Ele deu de ombros e fez uma pequena careta de desagrado. — Não sou mais um candidato à Ordem Soberana dos Cavaleiros de Malta.

    —   E isso o preocupa?

    —   Meu casamento me preocupa muito mais. É uma união sem filhos, sem amor nem conveniência.

    —   Sinto muito.

  • Por favor! — Ele levantou a mão, num gesto depreciativo. — É preciso aprender a conviver com o inevitável. E como estão as coisas para você? Sei que é viúva e tem levado uma vida variada e divertida. Esse... ahn... caso com Zaharoff é novo?

  • Esse "caso", como você o chama, meu caro Gianni, está limitado a um jantar com ostras estragadas. Zaharoff apresentou determinadas propostas que, neste momento, encaro com muitas restrições.

  • Espero que possa manter as coisas assim. — Giancarlo franziu o rosto, remexeu-se desconfortavelmente na cadeira. — Ele é um homem perigoso. Sou seu médico pessoal e ele me paga como príncipe, mas não hesitaria em me cortar a cabeça se eu o irri­tasse... Mas não devo me intrometer em sua vida. Fique na cama hoje. Tome apenas chá de limão e torradas sem manteiga. Não será capaz de voltar a enfrentar ostras por um longo tempo.

    Ele fez menção de se retirar. Supliquei-lhe que ficasse mais um pouco e conversasse comigo. Disse-lhe que precisava desespera­damente de conselho... conselho médico, sob o juramento de Hi­pócrates. Ele lançou-me um olhar inquisitivo prolongado e depois perguntou, visivelmente contrafeito:

  • Tem certeza de que isso é sensato? Não sou o seu médico regular. Nada sei de sua história médica. Além do mais, nunca me especializei em ginecologia. Posso recomendá-la a um excelente médico...

  • Vamos decidir isso depois que você ouvir o que tenho a dizer. Por favor, Gianni! Preciso de uma opinião objetiva, mas não quero discutir o problema com um estranho total.

  • Está certo. — Ele acomodou-se na beira da cama e pegou minha mão entre as suas. — Pode falar.

    Era agora uma questão de palavras e fiquei de repente atordoada. Desatei a chorar, até que finalmente consegui balbuciar:

  • Oh, Gianni, estou metida numa terrível confusão! Toda a minha vida é uma confusão! Não sei mais o que fazer!

  • Também não saberei, enquanto você não me explicar a situação. — Ele tirou o lenço do bolso e me entregou para enxugar as lágrimas dos olhos. — E agora que já chorou, vamos tentar ser profissionais, está bem?

    Tateei outra vez em busca das palavras apropriadas e acabei por encontrá-las:

  • Viena, Professor Richard von Krafft-Ebing. Lembra-se dele? Lembra de seu livro de Psicopatologia Sexual e das discus­sões que tínhamos a respeito?

  • Lembro, sim.

  • Havia uma frase que ele costumava usar em todas as suas aulas sobre os aspectos judiciais da sexualidade. "Il faut tonjours avoir pitié de ceux qui ont le diable au corps." Sempre se deve ter pena daqueles que têm o diabo no corpo. Pois sou assim, Gianni. Já vi tudo, fiz tudo... mas nada apaga o incêndio. Sou conhecida da polícia e dos profissionais dos circuitos do submundo. Por isso é que Zaharoff quer que eu trabalhe para ele. Quer que eu dirija os seus bordéis europeus. Se eu aceitar, obtenho proteção e ganho uma fortuna. Se eu recusar, fico com o diabo que vive em meu corpo. Antes de você aparecer aqui, esta manhã, eu estava dis­posta a acabar com tudo... Para onde posso recorrer, Gianni? Quem ajuda pessoas como eu? E não me despreze, por favor...

    Eu desprezava a mim mesma. Sentia-me abjeta, rastejando diante de um homem que não via há anos, derramando lágrimas sentimentais em seu lenço de seda. Ele não respondeu. Levantou-se abruptamente, foi até a janela e ficou parado ali por um longo tempo, olhando para as flores no terraço ensolarado. O rosto es­tava na sombra quando tornou a se virar para mim. E fez-me uma pergunta estranhamente irrelevante:

  • Você é uma crente? Pertence a alguma fé... católica, luterana, waldensiana?

  • Não. Já pensei muitas vezes que gostaria de ser uma croyant..., mas nunca tive o impulso autêntico ou a aptidão para a religião. Por que pergunta?

  • Poderia ajudar muito se tivesse uma fé. Ajudou a mim. Na verdade, tenho certeza de que nunca conseguiria agüentar sem isso.

  • Agüentar o quê?

    Ele sentou e tornou a pegar minha mão. Estava sorrindo agora, um sorriso frio e irônico que transfigurava as feições aristocráticas com um toque patético extraordinário.

—   Está querendo dizer que trabalhamos juntos durante tantos anos e nunca adivinhou? Eu tinha pavor de você... de todas as mulheres. Você costumava me chamar de esnobe. Eu não o era realmente. Estava tentando criar uma identidade para mim. Seria um homem da Renascença, um daqueles jovens galantes da corte de Lorenzo, o Magnífico. A verdade é que sou incuravelmente ho­mossexual. Minha mãe me pressionou ao casamento. Os pais de minha esposa compeliram-na ao casamento com uma família rica e nobre. Foi um erro terrível para nós dois. Estamos tentando a anu­lação na Rota Romana, mas é um processo prolongado e lamenta­velmente dispendioso. Enquanto esperamos, minha esposa arru­mou um amante... pelo que não posso culpá-la. E eu...

Ele parou de falar. Fiquei esperando, até que parecia que o silêncio se prolongaria interminavelmente, quando então resolvi estimulá-lo:

  • E você...?

  • Fiz as pazes com Deus. Voltei à igreja e ingressei na Ordem Terceira de São Francisco. Dedico parte do meu tempo a trabalho de caridade entre os pobres.

    Ele o anunciou com tanta simplicidade que fiquei desconcertada. Era a primeira vez na minha vida que ouvia uma confissão de fé e não sabia se devia rir ou chorar. Indaguei cautelosamente:

  • E acha que isso muda tudo para você?

  • Não, não muda nada. Ainda me sinto atraído pelos homens e não pelas mulheres. Mas vivo no celibato e acredito que há mé­rito e propósito no sacrifício. Descobri que penso cada vez menos nos meus próprios problemas e cada vez mais nos problemas dos outros... E quando chegam os dias de desespero... e pode estar certa, minha cara Magda, que são muitos... rezo e sinto que não estou sozinho...

  • Você tem sorte. Eu não tenho o menor talento para a devoção.

    Ele sacudiu a cabeça, o rosto sombrio novamente.

  • Não é talento. É uma graça, um dom. Por que Deus concede a alguns e não a outros é um mistério... talvez o mais pertur­bador de todos os mistérios.

  • Mas isso não me ajuda, não é mesmo? E, perdoe-me, mas também não é muito favorável à seu Deus.

—   A fé é justamente isso... viver com o paradoxo. Compreendo o seu ceticismo, mas me pergunto se não poderia pelo menos ouvir alguns conselhos religiosos... Para pessoas como nós, minha cara Magda, a doutrina do perdão, de um novo começo, encerra um grande conforto. Ao invés de nos encararmos como exóticos e aberrações, passamos a nos considerar como uma espé­cie de eleitos, carregando uma cruz mais pesada, para cumprir um destino maior. Sei que estou parecendo um missionário de aldeia, mas também estive muito próximo do desespero total. E foi então que um velho padre, que tinha sido o capelão de nossa família, persuadiu-me a fazer um retiro com os Camaldoli, que têm um grande mosteiro perto de Florença. Por fora é um lugar sombrio, mas lá dentro encontrei tanta serenidade, tanta compaixão pelos aflitos... Eu gostaria de poder partilhar com você, de explicar em palavras melhores do que disponho...

Ele estava tão solene que cheguei a temer a possibilidade de cair na gargalhada. Lembrei-me de cercá-lo nas salas de aula, ten­tando imaginar por que não conseguia arrancar a menor faísca de reação sexual! Todos aqueles olhares maravilhosos desperdiçados num jinocchio! Foi nesse instante que tive o impulso louco de arrastá-lo para a cama e fazer tudo o que era possível, ensiná-lo a sentir prazer. Um retiro com os Camaldoli, orações para curar o desejo sexual? Deus do céu! Senti-me contente por papai não estar ali para escutar toda aquela baboseira. Mas, felizmente, consegui me controlar. Fiquei sentada na cama, recatada, olhos abaixados, as mãos cruzadas no colo, esperando que aquele casmurro aristocrático acabasse o seu pequeno sermão. E fiquei surpresa com a pergunta que ele fez em seguida:

—   Há quanto tempo desistiu da prática médica?

  • Há mais de uma dúzia de anos. Meu marido morreu de câncer. Tratei-o durante a doença. Foi o meu último paciente.

  • Manteve a leitura atualizada... as últimas publicações, os novos textos?

    —- Não. Por que pergunta?

    —   Tenho acompanhado o trabalho psicanalítico de Freud, Jung e seus associados. Compareci há dois anos à conferência deles em Weimar. Os estudos que apresentaram eram de alta qua­lidade e repletos de novas percepções sobre os distúrbios psicóti­cos e neuróticos. As análises dos sonhos, o exame dos relacionamentos familiares e ancestrais... achei tudo extremamente valioso para enfrentar os meus próprios problemas e tratar os de meus pa­cientes. Mas é claro que não estou preparado e não estou bastante capacitado para me lançar à prática analítica em tempo integral. Talvez um dia... Contudo, minha cara Magda, ocorre-me que você bem que poderia consultar um dos especialistas nesse campo... A análise não resolve necessariamente o problema, mas o reduz a proporções humanas. Deixar de ser uma sombra gigantesca proje­tada sobre a parede...

    —   E como o ajudou? Eu ainda estava querendo provocá-lo. Não pode ser mais poderosa do que Deus... embora seja mais tolerável que o confinamento solitário num mosteiro.

    Ele riu pela primeira vez e havia um tom de divertimento genuíno no som.

    —   Sei disso. Você ainda pensa que sou um pomposo esnobe florentino preso às contas do rosário da mãe. Mas fiz a minha via­gem pelo inferno... e por uma misericórdia singular consegui so­breviver. O mesmo cajado que me serviu não vai necessariamente sustentá-la... Mas, como Dante, você precisa de uma guia, alguém para falar na viagem terrível. Caso contrário vai acabar enlouque­cendo.

    Senti-me subitamente envergonhada. Era uma cadela auto-destrutiva, escarnecendo de um bom homem porque ele sondava muito perto da verdade. Apresentei um pedido de desculpas con­trafeito. Ele dispensou-o com um sorriso.

    —   Vamos analisar qual dessas pessoas poderá melhor ajudá-la. Freud é a escolha mais óbvia. É o expoente mais arrojado e mais sagaz da sexualidade humana em todos os seus aspectos. En­quanto Krafft-Ebing lidava com sintomas e manifestações, Freud procura origens e fatores determinantes. Por outro lado, senti pes­soalmente uma certa antipatia pelo homem. Ele é judeu, é claro... e reconheço que tenho um preconceito histórico contra a raça. É um homem brilhante, mas um tanto propenso à arrogância...

    Giancarlo teve a graça de corar ao fazer esse comentário.

    —   Já sei, já sei... Também sou arrogante. Mas uma coisa me perturba em Freud. Ele exclui totalmente qualquer conceito reli­gioso do homem, qualquer crença em Deus ou na intervenção di­vina nos assuntos humanos. Para mim, isso é uma negativa drástica de seu sistema. Jung, por outro lado, está explorando os símbolos históricos que recorrem em nossa vida consciente e inconsciente. Ele abarca a experiência religiosa, embora nem sempre a defina em termos ortodoxos. Há também pessoas como Bleuler, um clínico muito experiente, os americanos, Putnam e Brill, um jovem discípulo de Freud, entusiasmado e muito inteligente, chamado Jones. Contudo, levando tudo em consideração, eu recomendaria Jung. Ele está em Zurique, bem perto, sei que aceita pacientes particula­res. Na verdade, todos aceitam. A psicanálise é muito comentada como uma nova ciência, mas ainda não é tão lucrativa quanto a medicina normal...

    Ele estendeu a mão e levantou-me o queixo. Fui forçada a fitá-lo.

  • Não encare a sugestão levianamente. A menopausa é um período difícil em qualquer circunstância. Você precisará de ajuda, se quer passar pela sua sem traumas maiores. O que me diz? Gos­taria que eu mandasse um bilhete para Jung e lhe pedisse para recebê-la?

  • Deixe-me pensar um pouco, Gianni. E se eu me decidir a ir, escreverei para ele pessoalmente... E se eu me decidir em con­trário, talvez você possa me encontrar um convento confortável na Toscana.

  • Poderia lhe arrumar uma dúzia. Todos acolhem com a maior satisfação uma penitente rica. — Ele fez uma pausa, antes de acrescentar, sombriamente: — Não acha que estaria mais segura num convento do que com Basil Zaharoff?

  • Sei disso. E talvez você possa me ajudar a cuidar dele.

  • Como?

  • Ele sabe que você está me visitando. Pode dizer a ele que me recuperei das ostras, mas estou apresentando sintomas de his­teria aguda.

  • Vou lhe dar um conselho, Magda. Trate com Zaharoff de maneira simples e brusca. Pode estar certa de que Zaharoff não vai querer argumentar. Não é assim que ele age. Se você rejeitar a proposta dele, o assunto estará encerrado..., mas peça a Deus para nunca ter de recorrer a ele em busca de ajuda no futuro!

    Ele se inclinou e beijou-me de leve na testa, disse-me que lhe telefonasse se houvesse uma recorrência da náusea e depois foi embora, sem maiores cerimônias. Continuei deitada por um longo tempo, olhando para as ninfas pintadas no teto e desejando que ali estivesse um homem ou uma mulher para partilhar minha solidão.

 

Cochilei durante a tarde até que, às seis horas, Basil Zaharoff foi anunciado. Ele parecia um pouco abatido, mas estava elegante como sempre. Disse que viera apresentar desculpas por meu incô­modo e pela inadmissível negligência do pessoal de sua cozinha. O pedido de desculpas assumiu a forma de uma pulseira de ouro an­tigo, com um fecho de diamantes e rubis. Prostestei que não pode­ria aceitar o presente.

Zaharoff mostrou-se intransigente. Pôs a pulseira em meu pulso e fechou-a. Foi somente então que me permitiu falar. E lhe apresentei minha decisão. Não podia aceitar sua proposta. Apressei-me em explicar, humilhando-me para apaziguar a vaidade do califa que se escondia por trás da máscara de cavalheiro.

—   Senti-me lisonjeada e tentada por sua oferta. Resolveria muitos problemas para mim, mas também poderia criar muitos para você. É o tipo de homem que admiro muito. Sua estima e apoio significariam muito para mim, mas tenho de ser muito honesta. Não tenho certeza se posso contar com minha estabilidade. Estão acontecendo coisas dentro de mim que ainda não compreendo. Sou médica. Reconheço os sinais de stress, a erosão do autocontrole. Ainda não estou na menopausa, mas este pode ser um péssimo período para mim. Você estará envolvido em assuntos da maior importância. Precisa de uma pessoa de maior confiança do que eu...

Descobri-me novamente em lágrimas, de puro alívio pelo fato das palavras terem saído. Zaharoff tratou diligentemente de me confortar.

—   Por favor, minha cara dama, não chore! Lamento a perda de seus talentos, é claro, mas aprecio sua honestidade e espero que possamos continuar bons amigos.

—   É o que eu também quero, pode estar certo.

Ele abraçou-me. Disse que eu era linda e desejável. Lembrou-me da minha promessa. Que melhor ocasião do que agora para nos distrairmos? Isso mesmo, que ocasião melhor podia ha­ver? Se eu queria me livrar do tigre, tinha primeiro de cuidar para que a fera estivesse sonolenta e amistosa.

Talvez seja este o único testemunho que jamais se dará em defesa de Basil Zaharoff, proxeneta de Tatavla que vendia a morte pela Europa e nunca viu uma gota de sangue nas próprias mãos. Ele era um amante habilidoso e, para sua idade, surpreendente­mente vigoroso.

Ele também me fez um elogio. Estava se vestindo para ir embora e eu o ajudava a ajustar a gravata de seda. Pegou-me o rosto entre as mãos velhas e macias, dizendo com um sorriso de pesar:

— Minha cara Magda, eu gostaria que reconsiderasse minha oferta. Se você se tornasse uma profissional, certamente seria a maior do ramo!

Naquela noite tive novamente o pesadelo da bola de vidro. Desta vez, no entanto, não era o olho do sol que escarnecia de mim. Era Basil Zaharoff. Ele rolava a bola interminavelmente, com a ponta de sua bengala, batendo no vidro até que apareceram gran­des rachaduras, como no rosto de Humpty Dumpty. Eu estava en­colhida lá dentro, nua, uma mulher-feto, pensando com que forma monstruosa iria nascer, quando a casca de vidro se rompeu e fui derramada sobre a areia vermelha de sangue.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Relendo o material escrito neste diário particular, fico surpreso com sua simplicidade e objetividade. Em minha obra publicada sou freqüentemente prolixo, sempre inibido, exageradamente literário, como se tudo o que eu digo esteja impregnado de mistério deifico. Escrevo aqui como sinto, à maneira brusca de um homem do campo.

Em público, na companhia dos outros, eu me conformo ao ritual, uso a linguagem mágica, jogo os meus búzios um pouco mais alto para provar como sou realmente um feiticeiro poderoso. Tam­bém minto, quando isso serve a meus propósitos; mas a verdade é que todos mentimos, de uma maneira ou de outra, porque nem sempre somos cientistas. Somos também adivinhos... lidando com símbolos misteriosos e o material dos sonhos.

Tive um novo sonho ontem à noite. Quero fixá-lo em seus con­tornos, antes que Toni chegue. Quero estudá-lo antes de começarmos a analisá-lo juntos. Não devo ser apanhado desprevenido, como aconteceu no sonho dela da gaivota...

...Eu estava num trem. Sabia que estava voltando à Suíça, procedente de algum lugar ao norte. Olhei de repente pela janela e vi que toda a terra, até onde a vista podia alcançar, estava debaixo d'água. Não era água parada, mas uma vasta onda amarela rolando para o sul, na direção dos Alpes, que se erguia como uma muralha contra a torrente. Percebi que a onda estava repleta de destroços, árvores, animais, fragmentos de casas, roupas e cadáveres huma­nos, milhares e milhares. Mesmo enquanto eu observava, a cor da inundação mudou. Era agora vermelha... vermelha de sangue. Co­mecei em seguida a distinguir entre os mortos pessoas que eu co­nhecia. Freud estava ali, assim como Honegger, Emma, as crian­ças e meu próprio pai. Senti-me oprimido pelo medo e a vergonha, porque eles estavam mortos e eu estava vivo, não queria sair do vagão aconchegante e me arriscar a morrer afogado...

Foi nesse momento que Emma começou a me sacudir. Eu a assustara com meus gritos e a machucara enquanto me debatia no pesadelo. Tratei de fazê-la dormir e depois desci para passar o resto da noite em meu gabinete.

Vou escrever agora o que não me atrevo a dizer a Emma ou mesmo a Toni. Este sonho deixou-me apavorado. Em meu trabalho clínico, no Burgholzli, notei que os sonhos de caos, visões de dis­túrbios e destruição mundial, são quase sempre um sintoma de es­tado esquizoide associado com demência precoce.

O paciente sabe que sua personalidade está se fragmentando, explodindo em pedaços, como acontece com uma serra circular quando é acionada por tempo demais e muito depressa. Mas ele não pode definir a experiência em palavras. Sonha com isso. Gra­dativamente, a fronteira entre sonho e realidade vai se diluindo. E finalmente não pode mais distinguir uma coisa da outra. Ele se abandona a um estado de ilusão permanente, que não obstante tem a sua própria lógica... a lógica da insanidade esquizofrênica.

O simples fato de eu estar escrevendo estas linhas comprova-me que ainda posso distinguir o sonho da realidade. Mas a adver­tência já existe. Talvez nem sempre seja assim... como testemu­nham meus diálogos no jardim com Elias e Salomé, que são cria­ções do meu inconsciente, mas que às vezes são tão reais para mim quanto Emma e Toni. Não posso enfrentar este medo sozinho, em meu gabinete, nas horas frias entre a meia-noite e o amanhecer. Assim, começo a dissecar o sonho, frase por frase, como um gra­mático:

 

Estou viajando num trem...

 

Um viajante é móvel, sem raízes. Não tem nada a prendê-lo ao tempo e espaço. Está isolado em seu próprio meio de transporte, de onde vê o mundo, embora não possa fazer contato. É exata­mente o meu caso, desde que renunciei ao meu cargo no hospital e à minha cadeira na universidade. Tenho viajado muito, pela Eu­ropa e exterior. Tenho comparecido a muitas conferências, mas estou privado do contato diário com meus colegas.

 

Lá fora, a terra está engolfada por uma grande inundação...

 

Desde que a Bulgária invadiu a Sérvia e a Grécia, em junho deste ano, toda a Europa está angustiada pelo medo de hostilidades entre as Grandes Potências. A Suíça, é claro, permanecerá neutra, daí a imagem-sonho dos Alpes se levantando como uma barreira contra a inundação... Assim, em contraste com minha jornada para trás ao encontro de Elias e Salomé, talvez este sonho seja uma experiência profética, um vislumbre clarividente do futuro. Sinto-me outra vez inquieto enquanto avento essa possibilidade. É exatamente o tipo de lógica espúria que o paciente esquizóide constrói para si mesmo na demência precoce. Passo rapidamente para a imagem seguinte.

 

Vejo cadáveres de pessoas que conheço...

 

Este é um símbolo menos assustador. Exprime desejo, mas não intenção. Como todo homem casado que já se empenhou num ro­mance extraconjugal, tenho fantasias em ser solteiro e livre nova­mente. Esposa e família são obstáculos para essa liberdade. Meu inconsciente acalenta o pensamento de que, se eles morressem, todos os meus problemas estariam resolvidos. Freud e meu pai se associam em outro contexto. Meu pai está morto. Estou livre de seu domínio. Se Freud estivesse morto, eu herdaria o seu manto de autoridade.

 

Estou oprimido de vergonha porque não quero sair do vagão aconchegante...

 

Isto é quase uma imagem no espelho do momento, há poucos dias, em que Emma, levada ao desespero por um dos meus acessos de raiva, acusou-me amargamente:

Você só pensa em si mesmo, Carl. É sempre o que você quer, nunca o que podemos precisar de amor, atenção e simples gentileza. Tranca-se em seu gabinete como um ogre em sua ca­verna. Partilha seus segredos com a amante e não com a esposa. Talvez pense que está realizando alguma coisa que fará com que tudo valha a pena... mas não para nós, Carl! Não para nós! As crianças vivem para o hoje, não para o amanhã. E eu quero o hoje tanto quanto as crianças. Sinto na maior parte do tempo que estou lhe acenando em despedida numa estação ferroviária e não sei se você voltará algum dia.

Formulei protestos veementes, mas no fundo do coração sabia que ela estava certa. Sou um homem egoísta... e ainda mais porque estou apavorado com as rachaduras e divisões em mim mesmo. Preciso da segurança que Toni me proporciona. Fujo das respon­sabilidades que a vida familiar me impõe porque estou muito longe da realização das minhas ambições pessoais. Sou veemente e agressivo porque tenho tantas incertezas. Assim, por mais fluente que seja a minha análise do pesadelo, sei que é um sonho de caos e mais cedo ou mais tarde terei de reconhecer suas advertências se­cretas.

Encho o cachimbo e pego a garrafa de conhaque. Vejo um certo risco neste hábito de beber de madrugada e por isso me limito a única dose, mas generosa. Se Toni estivesse aqui ou se Emma fosse mais ansiosa sexualmente, eu não precisaria absolutamente beber. Ainda estou com apenas 38 anos e não pretendo de jeito nenhum viver como Simão, o Estilita.

A imagem desse velho rabugento, empoleirado em sua coluna no deserto, vivendo de pão, água e tâmaras secas, realizando todas as funções naturais à vista dos devotos, me intriga. Vejo a sua estranha existência como uma paródia da minha. Quero me retirar da convivência com as pessoas. Preciso me exibir, para ter reco­nhecidos os méritos do meu trabalho. As duas necessidades nunca chegam a se conciliar totalmente. Meus colegas me encaram como um excêntrico arrogante. Meus pacientes... pelo menos algum de­les, comentam minhas libertinagens.

Simão me lembra de nosso eremita suíço, o Abençoado Klaus de Fluëli. Visitei seu santuário quando era menino, em companhia de meu pai. Neste mesmo dia conheci uma menina que atormentou meus sonhos por um longo tempo. O Irmão Klaus, o Abençoado, parece ter descoberto a fórmula para a beatitude nesta vida e na outra. Ele era casado. Tinha filhos. Mas passou apenas a metade de sua vida com a família, levando a outra metade a comungar na maior felicidade consigo mesmo e seu Criador, numa ermida.

Talvez seja essa a resposta para mim. Encontrar um pedaço de terra, construir uma ermida e ali me refugiar, sempre que o lar-vida se tornar insuportável. Toni poderia se juntar a mim. Não creio que Emma levantaria muitas objeções... especialmente se isso afas­tar Toni de sua presença em Küsnacht.

Abro o caderno de desenho e começo a desenhar uma torre de pedra, à beira do lago. Cerco com uma muralha, dentro da qual posso levar minha vida de eremita. Haverá um poço no pátio e bastante lenha, já cortada e amarrada, para o inverno. Haverá também um lugar, no qual farei o registro enigmático das minhas obras e dias. Farei os móveis pessoalmente, com ferramentas sim­ples de camponês... um enxó, rasoura, serra, martelo de madeira, uma plaina afiada em pedra de amolar. Haverá flores, uma horta de temperos, cebolas penduradas das vigas da cozinha. Haverá lam­parinas e velas, um forno de ferro para fazer pão e assar carnes como nos campos.

Quando desenho a planta térrea de toda construção, noto que consiste de duas figuras geométricas: um quadrado encerrado den­tro de um círculo. Lembro que foi de um círculo que Elias e Sa­lomé emergiram para a minha vida consciente. Eu os invoco, mas eles não respondem.

Mas sinto uma presença na sala. É mais poderosa que a de­les, mas também muito mais simples. Invoco também a esta. Não há resposta, mas o silêncio parece se intensificar ao meu redor, como se a presença estivesse se tornando mais sólida.

Involuntariamente, pego o lápis e refaço os contornos do quadrado... um, dois, três, quatro. Da mesmo forma automática, es­crevo uma letra em cada lado da figura, como se estivesse armando um problema de geometria. As letras em seqüência são Y H W H. Fico olhando para elas por um longo tempo. É, de repente, o signi­ficado se torna evidente. O que escrevi é o Tetragrammaton, o símbolo hebraico de quatro letras para o nome indizível de Deus.

Mais uma vez, meu inconsciente deixou aflorar material de seu depósito de mito e símbolo. O círculo e o quadrado são figuras perfeitas. O Tetragrammaton é o símbolo da perfeição suprema a que chamamos Deus. O silêncio, o silêncio sólido, envolve-me, assim como o Criador envolve toda a sua criação...

Olho novamente para a figura. Lembro de tê-la visto em muitas variações e com diversos acréscimos em textos orientais. É o mandala, o símbolo da perfeição, da suprema chegada. A torre que tenho sonhado será para mim um lugar de sossego e repouso. Tenho certeza agora que a construirei e que, convidado ou não, Deus ali se apresentará a mim.

Não será o Deus do meu pai, um jurista rigoroso, contando as delinqüências de suas criaturas em algum ábaco divino. Não será o Deus dos católicos que insiste em pôr seus sacerdotes castrados em chapéus de abas largas e saias pretas. Ao contrário, será a di­vindade estampada em todos os corações, oculta no inconsciente coletivo de toda a raça, a qual os velhos gnósticos perceberam, a qual os canonistas e teólogos obscureceram por trás de suas fórmu­las...

Nestas horas lúgubres, antes do cantar do galo, deparei com uma verdade importante. Para mim, Carl Gustav Jung, não há es­tada real para a sabedoria. Para chegar ao futuro devo voltar ao passado. Para alcançar o sol devo penetrar no reino escuro do in­consciente. Para atingir a sanidade da união com a Unidade, devo me arriscar à loucura desenfreada dos possuídos.

Como o velho Martinho Lutero, cheguei ao momento da deci­são. "Hier stehe ich? Ich kann nicht anders. Gott hilfe mir!" Aqui estou, não posso fazer de outra forma. Deus me ajude. O silêncio opressivo pesa sobre mim como um manto de chumbo.

 

MAGDA...

Paris

Estou mais calma hoje. Consegui apaziguar Basil Zaharoff. Estou livre para cuidar de algumas decisões pessoais. Os irmãos Ysambard sugerem que eu reinvista uma parte do meu capital nos Estados Unidos. Depois de minhas conversas com Zaharoff, estou convencida de que eles estão certos. Haverá guerra na Europa. Um pé no Novo Mundo será um seguro confortador. Eles sugerem também que eu venda minha propriedades, com suas valiosas cria­ções. O mercado está alto. Posso aplicar a receita sobre uma base mais ampla, reduzindo o meu risco nas conseqüências da guerra. Estou um tanto dividida em relação a essa proposta.

A união da propriedade de papai em Silbersee com a de meu falecido marido, perto de Gamsfeld, deixou-me com uma das mais ricas fazendas de Land Salzburg. Todas as minhas raízes estão ali, as recordações mais doces de papai e Lily e do único outro homem a quem já amei, meu marido Johann, Ritter von Gamsfeld.

Conheço a região como a palma da minha mão. Posso recitar a história de cada Schioss e santuário. Falo o dialeto. Conheço todas as antigas canções e danças. Cresci com os filhos e filhas dos fazen­deiros locais. Renunciar à minha herança seria como cortar a mão direita... e, no entanto, o problema já está de certa forma resol­vido, porque não sou mais bem-vinda no lugar em que nasci.

Na noite anterior à minha partida para Berlim, a fim de entregar os cavalos que vendera ao Príncipe Eulenberg, o responsável pela criação foi me procurar. O nome dele é Hans Hemeling. Tem 60 anos, um tirolês, um verdadeiro leão entre os homens, com uma juba branca e o rosto curtido pelo tempo, a própria imagem do herói de sua terra, Abdreas Hofer. Quando cheguei em Silbersee, bem pequena, ele era um dos cavalariços. Foi ele quem me sentou em meu primeiro pônei, pegou-me no colo e enxugou minhas lá­grimas quando sofri a primeira queda. Juntos, ele e eu criamos al­gumas das melhores linhagens de criação de cavalos na Europa. Agora, no entanto, ele se tornava meu acusador, sombrio e ameaçador como um juiz prestes a passar a sentença de condenação.

— Você pega Apollo, nosso melhor garanhão. Deliberadamente, leva-o para junto das éguas. E depois, quando ele fica irre­quieto, você o açoita e esporeia, deixando-o coberto de sangue, faz com que galope até a exaustão. Destrói o coração de um animal extraordinário. Por que, pelo amor de Deus? Por quê? Seu próprio cachorro se aproxima para ser afagado. O focinho suja o seu traje de montaria. Você o espanca quase até a morte. E tenho de acabar o sofrimento dele com um tiro, enterrando-o entre as roseiras. E depois você se levanta à meia-noite e corta as roseiras. Já sei, já sei... Jura que não fez isso. Talvez até acredite que não o fez. Mas acontece que eu vi. Como acha que nossa gente recebe essas coi­sas? Pois vou lhe dizer, Madame. Acham que é uma Hexe, uma feiticeira. Se não for embora, eles acabarão por deixá-la... e eu irei junto. E se pensa que pode cuidar da propriedade com estranhos, é melhor não tentar. Seu gado será roubado, as plantações serão queimadas... Isso só não aconteceu ainda porque eu disse a eles que você está indo para Berlim a fim de receber tratamento médico e que eu ficarei tomando conta de tudo aqui... Não discuta! Faça apenas o que estou dizendo. Pelo menos sabe que sou honesto. Não ficará sem um Pfennig. Mas se permanecer aqui, acabará per­dendo tudo.

Eu sabia que ele estava certo. Desde os dias de loucura que podia sentir a hostilidade se acumulando ao meu redor, como uma muralha de fogo. Apelei para que Hans me explicasse a mim mesma. Ele deu de ombros, com um ar de cansaço.

Não sei. Gostaria de saber. Você sempre foi turbulenta. Seu marido... que Deus o guarde... domou-a por algum tempo. Depois que ele morreu, você voltou a ficar desenfreada. Eu pen­sava que estava apenas precisando de outro homem forte para enchê-la de filhos. Se eu fosse mais jovem e solteiro, teria me can­didatado ao papel. Mas tudo isso pertence ao passado. Você está se comportando como se estivesse bezaubernde, enfeitiçada. Até mesmo os animais podem senti-lo. Não sei se está precisando de um médico para cuidar de sua cabeça ou de um sacerdote para expulsar os demônios que a invadiram.

Era a velha conversa dos campos, mas me atingiu com mais impacto do que qualquer retórica. Temos uma igreja em cada co­lina e um santuário em cada encruzilhada. Apesar disso, os antigos deuses e demônios germânicos vivem nas florestas escuras, nos penhascos e pequenos lagos nas montanhas. Eles sempre foram mais reais para mim do que todos os santos de gesso. Eu os co­nheço de histórias junto ao fogo, de conversas na cozinha, das len­das das velhas sobre encantamentos e exorcismos. Depois dos meus acessos de ira assassina, eu podia perfeitamente acreditar que toda uma legião de espíritos malignos se instalara dentro de meu crânio. Assim, não mais resisti a Hans. Abaixei a cabeça como uma criança arrependida e disse-lhe que ficaria ausente até que o demônio saísse de mim. Voltaria para casa quando isso aconte­cesse.

Ele não se abrandou, advertindo-me bruscamente:

—   Não tenha pressa em voltar. E me escreva antes de sequer pensar em voltar. Nossa gente tem uma memória longa.

A mensagem era óbvia. Nunca esqueceriam nem perdoariam o que eu fizera. Por isso, naquela manhã em Paris telefonei para Joachim Ysambard e disse que concordava com todas as suas reco­mendações. Devia vender a propriedade e os animais, recompensar devidamente os empregados e investir o que restasse nos Estados Unidos. Joachim ficou satisfeito com o meu bom senso. Indagou dos meus planos para o futuro. Perguntei-lhe se não gostaria de tirar outras férias comigo em Amalfi. Ele riu e desligou.

...Para mim, no entanto, não é mais uma questão de riso. Estou agora desesperadamente sozinha. Antes de poder fazer quaisquer planos, preciso estar curada da loucura que me aflige. As palavras de Hans Hemeling ainda me perseguem:

—   Não sei se está precisando de um médico para cuidar de sua cabeça ou de um sacerdote para expulsar os demônios que a inva­diram.

É o conselho de Giancarlo, só que em palavras diferentes. Mas ambos, pelo que me parece, estão prescrevendo uma dose forte de magia: a magia da religião antiga ou a magia de uma nova espécie de curandeiros pela fé, trabalhando sem cartas anatômicas, sem padrões de procedimento clínico e certamente sem promessa de cura.

Lembro de papai a me dizer como, no mundo antigo, os pacientes que sofriam de distúrbios mentais eram levados para a ilha sagrada de Cos. Ali, depois dos preparativos rituais, eram subme­tidos à "experiência do deus", que parece ter sido uma combina­ção de êxtase hipnótico e uma terapia primitiva pelo choque e ter­ror. Papai explicou que se tratava de um exemplo profundo de sa­bedoria curativa. O paciente era renovado, renascido. A "expe­riência do deus" era como o batismo para os cristãos, o ponto de partida do qual começava a sua nova vida. Mas, primeiro, ele tinha de pagar o preço: os longos rituais, as lustrações mágicas, as infu­sões de drogas sedativas. Finalmente, no santuário mais interior, na escuridão e no medo, ele tinha de dar um salto para o mistério.

Tenho de dar o mesmo salto, na escuridão de algum confessio­nário ou no consultório de um analista. Não é o mistério que me aterroriza. E o risco, simples e brutal. Até que ponto posso confiar no homem, sacerdote ou médico que ouvir minha confissão? Co­nheço tudo sobre a ética profissional e o juramento hipocrático, mas já estive em muitos cômodos e muitas camas para confiar minha vida ao critério de meus semelhantes. Mas se eu não fizer a confissão, todo o exercício será inútil. Serei como a paciente que informa estar com uma enxaqueca, enquanto um câncer vai cres­cendo em sua barriga.

Sendo assim, minha cara Magda, o que vai fazer? Não pode permanecer trancada numa suíte do Crillon pelo resto de sua vida. Não pode ficar circulando pelos bordéis elegantes, sabendo que cada aventura será inevitavelmente comunicada a Basil Zaharoff ou à polícia. Não pode fazer absolutamente quaisquer planos, por­que sem uma cura radical o futuro para você é a terra do demônio. Não é a culpa que a atormenta. E algo muito mais sinistro. Apren­deu que não existe excitamento maior do que ter uma vida em suas mãos, sabendo que pode extingui-la como a chama de uma vela. Não há orgasmo mais potente do que o produzido pelo ato de execução. Você já o experimentou. Está obcecada em repeti-lo... e é o que fará, mais cedo ou mais tarde.

Aí está! Já disse, já escrevi, a verdade sobre Magda Liliane Kardoss von Gamsfeld. Como se pode ver, compreendo a mim mesma. Por que então preciso da intervenção de um analista? E certamente um sacerdote não pode ajudar, porque não sou absolu­tamente uma penitente... Mas estou com medo. Minhas mãos tre­mem tanto que mal consigo segurar a caneta. Não posso ficar sozi­nha. Estendo a mão para o telefone e peço à telefonista para me ligar com o Dr. Giancarlo de Malvasia...

Ele foi muito gentil, bastante preocupado. Levou-me para almoçar num restaurante sossegado na île. Disse que levantara cedo e fora à missa para rezar por mim. Fiquei tão comovida que me senti disposta a contar toda a história terrível, ali mesmo. Mas ele me impediu:

  • Confesso que me senti tentado a aceitá-la como paciente e tratá-la aqui em Paris, com a ajuda de alguém como Flournoy ou Janet. Na missa, porém, ficou evidente que isso seria um erro. Somos vulneráveis demais um ao outro. Poderíamos aumentar os riscos um do outro. Mas, por outro lado, seria perigoso para você apenas me contar sua história em fragmentos. Deve ser tudo ou nada.

  • É justamente esse o meu problema, Gianni... tudo ou nada! Você não sabe, não pode saber, como sou vulnerável à chanta­gem... Em quantos de seus colegas pode realmente confiar, ter cer­teza de que ficarão de boca fechada em relação a seus pacientes?

  • Alguns... mas admito que nem todos.

  • E quantos padres?

  • Com um padre é diferente. A situação é anônima. Você pode se confessar em qualquer igreja que quiser, ao padre que es­colher. O confessionário é escuro. Você não passa de uma voz sem corpo. Sua narrativa é uma questão de substância, não de circuns­tância. Você não precisa escrever um romance a respeito de seu furto ou adultério. Pode procurar o padre como a Cristo. Ele o absolve de seus pecados, em nome de Cristo. Pelo mérito de Cristo, e você é restaurada à graça.

  • Parece maravilhoso. Adultério no sábado, absolvição no domingo. Um autêntico passe de mágica. Agora você vê, agora não está mais vendo!

    Eu estava escarnecendo e ele sabia disso, mas era sagaz o bastante para compreender e perdoar.

    —   Creio que não entendeu, minha cara. Não é a inocência que é restaurada, mas o relacionamento entre Criador e Criatura. A criança diz que está arrependida. O Pai torna a acolhê-la na famí­lia. Mas levamos as cicatrizes de nossas loucuras até o dia de nossa morte. Creio que o verdadeiro valor da psicologia analítica talvez seja o de nos fazer compreensíveis para nós mesmos e, por conse­guinte, toleráveis para nós mesmos.

    Isso pelo menos fazia sentido. Por experiência amarga, sei que meu piores excessos foram cometidos quando o amor próprio es­tava em seu nível mais baixo. Repeti a primeira pergunta:

—   Até que ponto posso confiar no sigilo profissional de Freud ou Jung?

Gianni deu de ombros, resignado.

—   O que posso dizer? Em Weimar, ouvimos os rumores habi­tuais sobre os dois. Ao que parece, Jung teve relações complicadas com diversas mulheres. Mas ambos são líderes em seu campo. O risco da indiscrição deles deve ser avaliado contra o risco do seu próprio desejo de se matar. Está agora à beira do colapso. Aceite o meu conselho. Deixe Paris amanhã e vá procurar Carl Jung... Use outro nome, se isso a deixar mais tranqüila.

Ele tirou um bloco de receita do bolso, escreveu umas poucas linhas e estendeu a folha para mim. O bilhete estava endereçado ao Dr. Carl Gustav Jung, em Zurique, e dizia:

 

"Prezado colega:

Deve se lembrar que nos conhecemos rapidamente em Weimar. A portadora é uma dama eminente, que conheço há muitos anos. É por minha recomendação que ela se apresenta a você. Por motivos pessoais, ela deseja perma­necer anônima, pelo menos por enquanto. Peço que a re­ceba e ofereça todo o conselho que puder.

Saudações respeitosas,

Gian Carlo di Malvasia"

—   Leve isso! — disse Gianni, ansiosamente. — Parta agora, em nome de Deus, vá conversar com o homem! Talvez seja a sua última esperança!

Não foi a eloqüência dele que me persuadiu, nem mesmo o próprio senso de necessidade. Foi o bilhete de Basil Zaharoff, que encontrei à minha espera no hotel:

 

"Minha cara Magda:

Já conheci muitas mulheres na vida, mas nunca houve qualquer uma que tenha me proporcionado uma variedade tão generosa de prazeres. Não posso suportar a idéia de perdê-la, mesmo depois de apenas um encontro maravi­lhoso. Parto esta noite para Londres, a fim de me encon­trar com Lioy e George. Assim que eu voltar, vamos jantar juntos e renovar nossa paixão.

Quero também conversar com você sobre outra idéia. Compreendo agora que a proposta que lhe apresentei era muito rígida e opressiva para uma mulher cheia de inicia­tiva como você. Tenho certeza de que poderemos definir outra associação mais flexível, mas nem por isso menos lucrativa para ambos.

Beijo a sua mão. Beijo os seus doces lábios. Levo você em meu coração nas viagens.

Com todo amor, Z.Z."

 

Rasguei a carta em pedacinhos e joguei no vaso. Liguei depois para a portaria e pedi que me mandassem a lista dos horários de trem e um Guia Thomas Cook dos hotéis da Europa. Fui depois até a pequena farmácia onde minha assinatura é conhecida e mi­nhas prescrições são sempre aceitas. O velho farmacêutico levan­tou uma questão cautelosa ao ler minha receita.

—   Madame, deve compreender que isto é letal. Vou pôr um lacre de cera no vidro como medida de segurança.

Agradeci por sua solicitude e expliquei que um dos meus cachorros estava com um tumor incurável e devia ser destruído. E eu o amava tanto que queria pô-lo para dormir pessoalmente.

—   Ah, Madame! O velho se tranqüilizara prontamente. Está me lembrando de seu pai. Ele era um homem extraordinário... de grande coração, de grande ternura!

Oh, Papai, se você soubesse em que tipo de mulher sua filha se converteu... Mas você sabia, não é mesmo? Nunca o admitiu, mas sabia. E o único comentário que me fez parecia uma fala de uma peça de Schnitzler:

—   Espero, minha cara, que você não fale durante o sono.

Pode ficar sossegado, Papai: se esta última e desesperada magia não funcionar, tratarei de dormir, um sono longo e profundo, não mais serei capaz de revelar qualquer dos meus segredos ou dos seus. Estou perfeitamente calma agora. Está vendo? Posso até sor­rir para mim mesma no espelho. Lembro de uma das lições de his­tória de Lily sobre a execução do rei inglês Charles I, como co­mentei que o pobre coitado devia ter sentido muita dor.

—   Não acredite nisso, menina dissera Lily, com sua voz mais feliz. Parece complicado, mas é muito rápido. E assim que sua cabeça é decapitada, não tem mais nenhuma preocupação neste mundo!

 

CARL GUSTAV JUNG

Zurique

O sonho do caos, sobre a grande inundação, tornou-se agora

Uma questão de debate intenso e às vezes acerbo entre Toni e eu. Ela insiste que minha análise é por demais superficial, que estou enganado ao interpretar o sonho como profecia e que os símbolos do desejo de morte contêm sugestões muito mais sinistras do que estou disposto a admitir.

Argumento que ela está incorrendo no mesmo equívoco de Freud. Ele tende a encarar o inconsciente como empenhado numa espécie de jogo insidioso de esconder-pegar com o consciente. Para ele, as imagens de sonho acalentadas não passam de uma cortina de fumaça para obscurecer a realidade insuportável. Não concordo absolutamente com isso. O sonho é tão natural quanto respirar.

O inconsciente é como um sótão em que está guardado todo o material inutilizado ou inutilizável de nossa experiência pessoal e tribal, na maior confusão: antigas fotografias de casamento, o xale da avó, os diários do bisavô. Esses materiais afloram da mixórdia por acaso, como acontece quando crianças brincam no sótão ou uma criada curiosa começa a revirar relíquias empoeiradas. A na­tureza não está armada para nos enganar. Nem mesmo nós pró­prios estamos armados para nos enganarmos. Acontece apenas que não podemos enfrentar ao mesmo tempo todas as informações e emoções que nos são transmitidas. Assim, consignamos uma parte para o sótão do inconsciente.

Estou escrevendo sobre isso muito calmamente. Mas a discussão de hoje com Toni foi tudo menos calma. Foi agravada por uma carta constrangedora que Toni abriu, com o resto da correspon­dência da manhã. A carta era de Sabina Spielrein, que não faz muito tempo estava suplicando que eu lhe desse um filho... nosso pequeno Siegfried! Oh, Deus, como sou assediado por essas mulhe­res! Não posso viver sem elas. Não posso viver com elas. Se eu tivesse dinheiro, faria as malas e partiria para a África amanhã mesmo!

Uma nova cadeia de desastres começa, como sempre parece acontecer atualmente, durante a madrugada. Tenho novamente o sonho do caos, mas desta vez com novos elementos.

...Elias está no trem. Está vestido como o chefe do trem. Leva-me ao meu compartimento. Salomé já está lá. E está nua. Estende a mão para me tocar. Há um cesto grande de vime no banco, ao lado dela. A serpente está dentro do cesto. Ouço o roçar do seu corpo contra o vime.

Sinto-me outra vez apreensivo com Salomé. Estou esperando por Toni. Não quero ter sexo com uma moça cega que anda com uma serpente. O trem parte e novamente vejo a inundação... ama­relada a princípio, depois vermelha de sangue... rolando pela terra. Reconheço os mesmos corpos balançando nas ondas. Desta vez no entanto, há uma criatura viva: um lindo garanhão preto. Vejo o peito e a cabeça nobre, enquanto o animal se debate para sair da água. Quando chega mais perto, vejo os olhos desvairados, as na­rinas fremindo, os músculos poderosos do pescoço. Tento agora sair do trem e salvá-lo. Bato em vão na janela, até que vejo o gara­nhão ser tragado pela água vermelha de sangue. Grito em deses­pero e acordo.

Misericordiosamente, Emma ainda está adormecida. Vou em silêncio para o meu gabinete, preparo o cachimbo e o conhaque, começo a registrar os novos elementos do sonho. Estou muito lú­cido. O que escrevo contém diversas idéias novas e estimulantes... A próxima coisa de que me lembro é de Emma chamando e o sol da manhã invadindo a sala. Emma está de pé ao lado da mesa de Toni, servindo o café. Fico surpreso e grito no mesmo instante:

—   Mas que diabo, Emma! Já não falei para não me interromper aqui?

Ela responde à maneira afável e controlada que é sua reação habitual à minha grosseria:

—   Não grite comigo, Carl. Já está ficando tedioso. Gostaria de se lavar antes de eu servir o café? Tem uma túnica limpa na cadeira.

É somente então que percebo o meu estado. O rosto está pega­joso de ter ficado sobre cinza e conhaque derramado. As mãos estão imundas. As mangas estão encharcadas de conhaque. Os pa­péis estão manchados. Há uma marca grande de queimadura na superfície de couro da mesa. Cambaleio até a pia e me contemplo no espelho. O comentário de Emma é apropriado, mas redundante:

—   Você está uma sujeira só.

Murmuro um pedido de desculpas com o rosto cheio de espuma do sabonete:

  • Sinto muito. Devo ter...

  • Você estava exausto e completamente bêbado. Uma noite dessas ainda vai incendiar a casa com esse horrível cachimbo.

    Tiro a camisa suja, passo uma esponja pelo corpo e me enxugo, depois visto a túnica de camponês que é o meu traje de traba­lho. Vou oferecer um beijo de bom dia a Emma. Ela me vira um rosto frio, entrega-me o café e se afasta dois passos da minha pre­sença contaminada. E ataca enquanto ponho um biscoito na boca e tomo um gole de café:

    —   Isso é uma loucura, Carl. Por cinco vezes consecutivas pas­sou a noite inteira acordado. Fuma como uma chaminé. Está be­bendo demais. Vai acabar se matando.

    Engasgo com o café, o que estraga completamente o efeito da resposta:

    —   Pelo amor de Deus, Emma! Você exagera tudo. Acordei às duas horas da madrugada, saindo de um pesadelo terrível. Não consegui dormir de novo. E não queria incomodá-la. Resolvi des­cer para registrar o sonho e preparar as anotações para uma análise adequada. Tomei um copo de conhaque. Jamais tomo mais do que isso... Estava cansado e acabei dormindo... Isso é um crime? Além do mais, pude realizar bastante trabalho... e bom trabalho! Venha até aqui que vou lhe mostrar.

    Vou até a mesa, pego as folhas manchadas e estendo para ela. Emma pega, dá uma olhada na primeira folha. Sua expressão muda. Examina o resto do material, um total de três folhas, depois me olha, horrorizada. Pergunto qual é o problema. E ela me diz, a voz muito baixa:

    —   Carl, tudo isso é bobagem. Um absurdo total. E a letra... é apenas um rabisco!

Recupero as folhas de papel. As palavras que posso decifrar não fazem o menor sentido. Constituem uma algaravia de alemão, latim, grego e nenhuma língua. Murmuro débeis desculpas:

—   Devia estar mais exausto do que imaginava. Os refugos do corpo vão se acumulando e ocorre uma narcose temporária. Os padrões de pensamento se tornam confusos. A letra vagueia...

Ela se aproxima, põe a mão em meu ombro, gentilmente. Parece subitamente investida de autoridade. Fico contente em tê-la comigo. E ela me adverte, ternamente:

—   Sente, por favor, Carl. Precisamos conversar.

Ela me leva para a mesa. Desabo na cadeira. Ela puxa outra cadeira e senta de frente para mim. Pega as minhas mãos e as aca­ricia enquanto fala. Parece que toda uma era se passou desde que fizemos o último contato assim, pele a pele.

—   Carl, quero que preste toda atenção ao que vou dizer. Você é um homem doente. Tudo aponta para isso: os pesadelos, a insó­nia, as depressões, os acessos de raiva que tanto assustam as crianças... Seja honesto com você mesmo. O que diria se um dos seus pacientes na clínica produzisse estas páginas de absurdo?

—   Clinicamente, este material é irrelevante. — Senti-me imediatamente irritado – A fadiga extrema ou a simples anoxia podem produzir o mesmo efeito.

  • Está bem, está bem... Vamos admitir que o material é irrelevante, mas todo o resto não é. Por favor, meu querido! Será que não compreende que estamos desesperadamente preocupados com você?

  • Também estou preocupado comigo.

  • Pois então me diga... depois de tudo o que me ensinou!... se eu fosse uma paciente e o procurasse com todos os sintomas que você apresenta, qual seria o seu diagnóstico?

    Serviria apenas para agravar a situação se eu lhe dissesse que os intrigantes me acusam de sofrer de demência precoce, que eu reconheço sintomas esquizoides pelo menos primários e ciclos maníaco-depressivos. Em vez disso, tento me esquivar a uma res­posta:

    —   Eu ainda não estaria preparado para apresentar um diagnós­tico. É muito cedo. Os sintomas são muito variados. Recomen­daria um exame físico completo. Depois, se não houvesse qualquer patologia física, gostaria de pôr o paciente em análise, por um pe­ríodo experimental.

—   Neste caso, meu querido médico... Ela me afaga o rosto com a barba por fazer e me coage ternamente. — ...por que não segue as suas próprias determinações?

Estamos agora em terreno mais fácil. Ela sabe que procurei Lansberg para um exame físico. E conhece a conclusão dele. Estou tão firme quanto um touro premiado, a não ser por uma ocasional pressão sangüínea lábil, que está associada com o stress emocional. Mas isso não a satisfaz e ela insiste:

  • Você sabe perfeitamente que o problema não é físico.

  • Tem razão. Por outro lado...

  • Então por que não se submete à análise?

    —   Com quem, pelo amor de Deus? Bleuler, Ferenczi, Jones? Eles não estão à minha altura!

    É um velho motivo de discórdia entre nós. Sei que ela se corresponde com Freud. Sei que ela acha que minhas desavenças com Freud são exageradas e inflamadas pelos meus maus humores. Como eu esperava, ela se lança de cabeça na armadilha.

  • Pois então recorra a Freud! Sei que vocês têm discordado em muitas coisas, mas...

  • Discordado? Não acredito mais nele. Não posso mais confiar nele. O homem é um dogmático irremediável. Desmaia quando é confrontado com um pensamento desagradável. E assim conse­gue afastar tudo o que não lhe convém, como uma mulher com seus humores!

    Estou decidido a encerrar a discussão. Levanto e vou até a janela, onde fico parado, silencioso e hostil, olhando para o jardim. Emma se recusa a abandonar a discussão. E torna a me desafiar:

    —   O que está vendo aí fora, Carl? Elias? Salomé?

    Fico chocado e furioso. Jamais discuti esses personagens com ela. E confronto-a bruscamente:

  • Como sabe deles? Por acaso andou bisbilhotando meus papéis?

  • Sabe que nunca fiz isso, Carl... Você fala no sono. Fala para si mesmo, em voz alta, enquanto anda de um lado para outro do gramado. Quem são essas pessoas, Carl? O que significam em sua vida?

    E de repente eu não estou mais furioso. Estou cansado e amedrontado, como uma criança assustada. E respondo com a voz cansada.

  • Não sei quem são. Tudo o que posso dizer é que são personificações do meu subconsciente. Tudo o que sei é que me sinto contente e seguro quando Elias está presente. E que não gosto de Salomé. Mas parece que não posso ter um sem a outra.

  • Pode vê-los agora?

  • Não, não posso.

    Emma me contempla fixamente, por um longo momento de si­lêncio; e depois, com uma tristeza estranha e fria, ela me diz:

    —   Vou lhe dizer o que vejo, Carl. Vejo um grande homem bastante próximo de um colapso mental. Vejo o antigo diretor clí­nico do Burgholzli, o mais brilhante professor da matéria na uni­versidade, balbuciando para si mesmo, como um de seus pacientes. Digo a mim mesma que este é o meu marido. Eu o amo. Estou grávida do seu quinto filho... e me pergunto se ele estará racional o bastante para reconhecer o bebê quando nascer!

    Ela chora e esconde o rosto nas mãos. Sinto-me envergonhado por tê-la magoado tanto. Adianto-me e tento confortá-la, mas sua angústia se despeja numa torrente de palavras entrecortadas:

    —   Você não sabe e não se importa como é terrível! Acordo numa cama fria... As crianças não mais o conhecem. Têm medo de se aproximar de você. E você fica trancado aqui... como um mons­tro numa caverna. Não posso mais suportar! Já é demais!

    Envolvo-a com os braços e a balanço de um lado para outro, como a uma criança, sem dizer nada. Depois, tão gentilmente quanto sei fazer, tento argumentar:

  • Emma, meu amor, sinto muito. Do fundo do coração, peço desculpas..., mas não tenho palavras para explicar o que acontece quando essas tempestades sinistras começam dentro de mim... A única coisa que sei é que não posso resistir. Tenho apenas de me livrar da fúria e esperar que a sanidade sobreviva. É por isso que me escondo aqui... para lhe poupar o espetáculo...

  • Mas não pode se esconder para sempre! Precisa de ajuda!

  • Sei disso..., mas sei também como é pequena a ajuda concreta que se pode obter.

  • Como pode dizer isso... logo você, entre todas as pessoas?

  • Porque esta ciência nossa, esta medicina da mente, ainda está na infância. Os métodos são experimentais. Os procedimentos são incompletos... E por isso me pergunto se não estou sendo im­pelido... ou mesmo chamado!... a efetuar uma viagem além dos limites conhecidos. Talvez seja isso o que Elias significa: um pro­feta do Antigo Testamento, que foi levado para o céu numa carrua­gem de fogo!

  • Não é o céu que vejo em seus olhos, Carl. É às vezes o sofrimento dos condenados. E nada posso fazer.

  • Eu também não posso. Sou como uma folha levada pelo vento. Não tenho outra alternativa que não me deixar levar por essas tempestades do subconsciente e descobrir para onde, final­mente, me levam.

  • Está correndo um risco terrível.

  • Não chega a ser um risco tão grande.

  • É para nós.

  • Você é a âncora que me prende à realidade. Você, as crianças, nossa vida nesta casa.

  • Até agora, Carl, a âncora resiste. Mas não tenho certeza se poderemos agüentar por muito mais tempo. Também somos huma­nos. E precisamos de um pouco de alegria em nossas vidas.

    A veemência dela me deixa chocado. Sempre contei muito com a estabilidade de Emma. Tento acalmá-la, com palavras suaves:

  • Sei disso... e é o motivo pelo qual quero que me esqueça, enquanto estou enfrentando esta crise. Ignore os meus estados de ânimo. Deixe-me ir e vir como me aprouver. Trate-me como... como um móvel. Concentre seus pensamentos no próximo bebê. Construa sua vida em torno das crianças...

  • E o deixo a lutar sozinho contra os seus demônios?

  • Não estarei sozinho. Toni Wolff vai registrar a experiência e me ajudar a analisá-la. Ela já enfrentou a sua própria crise. Com­preende que, de certa forma, ninguém mais pode ajudar.

    Sou um tolo de boca grande. As palavras mal acabaram de ser pronunciadas quando a tempestade explode em meus ouvidos:

    —   Não posso acreditar no que estou ouvindo, Carl. Deixe-me ver se entendi direito. Você admite que está numa situação de crise psíquica. Não confia em Freud. Diz que Bleuler e Ferenczi não estão à sua alutra. E me considera inadequada. Mas se coloca nas mãos de uma moça de 25 anos que já foi sua paciente. Isso faz sentido?

  • Faz para mim. Ela pode ser jovem, mas é brilhante. E a preparei e...

  • E o que, Carl? Vamos, diga a verdade!

    Agora é a minha vez de entrar num acesso de raiva. É assim que o jogo se processa. É mais fácil insultarmos um ao outro do que nos descartarmos das ilusões. Grito para Emma:

  • A verdade é que você faz uma cena por causa de toda mulher que aparece em meu consultório... e estou cansado de seu ciúme patológico!

  • E por que eu não deveria ficar com ciúme? Pense em todos os escândalos que já tivemos. Você é um tolo com as mulheres. Demonstra todo seu grande charme e elas ficam pensando que é um convite para a cama. Às vezes é, outras não, mas lhe acarreta uma péssima reputação e prejudica a clínica. Com Toni, porém, é muito mais do que isso. Você quer que ela entre para a família!

  • Ela tem um lugar legítimo em minha vida... assim como você!

  • Lugar legítimo? Por favor, Carl, explique-me o que está quereatío dizer comisso.

  • Você é minha esposa, a mãe de meus filhos, a dona da casa.

    Enquanto digo essas frases pomposas, tenho uma visão súbita e cômica de meu pai desfiando o seu sermão dominical. E como meu pai, ignoro a comédia e sigo adiante:

  • Você tem o meu amor, meu respeito e minha lealdade inabalável. Toni começou como minha paciente... Sua experiência pessoal de doença mental e sua inteligência natural fazem com que se torne uma colaboradora valiosa.

  • E na cama, Carl? Como ela é na cama? O que vocês fa­zem? Lêem relatos de casos médicos um para o outro?

    Antes que eu tenha a oportunidade de responder, a porta se abre e Toni entra. Traz a correspondência da manhã e um novo chapéu de verão que pende de uma fita rosa. Cumprimenta a nós dois jovialmente. Larga a correspondência na mesa e mostra o chapéu a Emma.

  • O que acha deste chapéu? Eu mesma o aprontei.

  • É lindo!

    Emma está fria, mas meticulosamente polida. Não é por nada que ela foi criada entre os bons burgueses da Basiléia. Toni olha de um para outro, procurando alguma explicação para aquele mo­mento de animação suspensa. E, finalmente, indaga:

  • Desculpem, mas interrompi alguma coisa? Se assim é, posso dar uma volta pelo jardim.

  • Não, pode ficar. Já acabamos. Emma acrescenta uma palavra de despedida para nós dois: Vou seguir o seu conselho, Carl. Vou... e devo... concentrar minha vida nas crianças. Elas têm uma necessidade especial de mim agora. Quanto a você, Toni, Carl me disse que estará orientando a análise dele. Ele tem muita fé em sua grande capacidade. Espero, para o bem de todos nós, que seja justificada... o que me faz lembrar que deve pedir a Carl que lhe mostre as anotações que escreveu ontem à noite. São bas­tante reveladoras.

    A porta se fecha, batida com um pouco mais de força além do necessário. Toni indaga, com alguma irritação:

    —   O que aconteceu?

    Não posso mentir desta vez. O melhor que posso fazer é atenuar o drama. E lhe digo, dando de ombros:

  • Trocamos algumas palavras mais ásperas. Ela acha que devo fazer análise com Freud. E eu disse que prefiro trabalhar com você.

  • E é claro que ela disse: "Mas isso é maravilhoso! O melhor tratamento para qualquer psicose é ir para a cama com Toni!"

    Isso faz com que ambos comecemos a rir. Mas o riso contém alguma coisa de apreensão, como as risadinhas de crianças escu­tando histórias de fantasmas em torno de uma fogueira agonizante. Nós nos beijamos, nos abraçamos. Estou cheio de desejo por ela, mas Toni se desvencilha rapidamente e vai para trás de sua mesa. É óbvio que ainda está me punindo pela carta da Spielrein. Menciona o comentário de Emma a respeito das minhas anotações. É mais fácil mostrar do que explicar. A reação dela é idêntica à de Emma:

  • Santo Deus! Isto é uma mixórdia total! Um absurdo completo!

  • Fadiga tóxica. Tento novamente descartar a importância do incidente. Fiquei acordado por cinco noites consecutivas.

  • Ficaria muito melhor se passasse a noite comigo.

  • Concordo plenamente, meu amor. Mas não posso sair furtivamente pelos campos às duas horas da madrugada.

  • Iria me encontrar acordada. Sabe que também preciso de você.

    Mais uma vez, estamos à beira de uma discussão. Sempre se resume à mesma coisa: a precedência de esposa, amante e outras mulheres na minha vida tão complicada. Penso às vezes que seria maravilhoso ter o poder da bilocação, como certos místicos cris­tãos e feiticeiros primitivos supostamente possuíam. Por outro lado, talvez não fosse, no final das contas, uma idéia tão boa assim. Dis­cutir com duas mulheres ao mesmo tempo pode ser uma experiên­cia por demais extenuante.

    Concluo que está na hora de ser objetivo e profissional. Volto à minha mesa. Toni traz o seu caderno de anotações. Começamos a análise dos novos elementos no sonho de caos. Tenho de dizer uma coisa a respeito de Toni: por mais irritada que ela fique por causa de nosso romance, em questões clínicas se torna 100 por cento profissional. O primeiro ponto que ela destaca é a presença do garanhão preto no sonho. Recorda que o cavalo é sempre eu. E também sempre o animal está com algum estorvo. No sonho ante­rior arrastava um tronco grande. Neste, está tentando em vão en­contrar terra firme no meio da inundação. E finalmente se afoga... como eu tenho medo de me afogar, num mar de problemas pes­soais.

    Conversamos em seguida sobre Elias. Ele é o chefe do trem no sonho. Controla o trem e o destino de todos que estão a bordo. Podemos dormir em segurança sob a sua tutela. Para mim, ele é o arquétipo da figura de pai perfeito.

    Salomé, no entanto, mudou o seu papel. Não é mais a filha, amante e protetora de Elias. É a mulher hostil, assumindo o papel de uma sedutora nua para mim, um homem que não sente o menor desejo por ela. Há uma relação evidente com Sabina Spielrein, que eu pensara ter saído de minha vida para sempre. Mas agora ela voltou. E não a quero. Tenho Toni. Pela primeira vez, Toni aban­dona o seu papel profissional e me faz uma pergunta mordaz:

    —   Já pensou alguma vez que pode chegar o dia em que estará falando a meu respeito exatamente como estamos falando agora de Sabina Spielrein?

    Protesto vigorosamente que meus sentimentos pela Spielrein não passaram de uma fascinação momentânea. Fui levado a isso pela compaixão e pela dependência que ela tinha de mim, durante a sua doença.

  • Foi exatamente assim que nos unimos — lembra Toni, suavemente. — Eu também passei de paciente a discípula, colega e amante.

  • Como uma colega, lembre-se, por favor, que estamos numa situação clínica, em que você não tem o direito de se intrometer nos meus sentimentos particulares.

    Toni fica corada. Os olhos se enchem de lágrimas. E ela protesta, amargamente:

  • Santo Deus, como você consegue ser, às vezes, tão brutal!

  • E você se mostra sem o menor tato, estúpida e pouco profissional! Neste momento, não sou seu amante, mas sim seu pa­ciente. O fato de eu estar no controle de mim mesmo não faz a menor diferença. Em outras circunstâncias, com outra pessoa, você poderia causar um grande dano.

  • Perdoe-me, Doutor! — Ela está ainda mais furiosa. — Tenho pouca experiência nessas questões. Este é o meu primeiro romance com um homem casado.

  • E permita-me lembrar que entrou nisso com os olhos aber­tos.

  • Tem toda razão. Mas também entrei com o meu todo, corpo e alma. Não sou como você. Não posso dividir minha vida em pequenas fatias e distribuí-las como um bolo... Isto é para você, isto é para Emma, isto é para Tia Mary... Eu sou eu, Toni Wolff, uma coisa inteiriça. E se isso não lhe agrada, sinto muito.

  • Ao contrário, gosto muito. Como seu ex-médico, estou orgulhoso de sua personalidade madura e estável!

    Ela desata a chorar, bate com o caderno de anotações em minha mesa e corre para a porta. Grito no mesmo instante, como um sargento-instrutor:

    —   Pare aí!

    Ela pára. Eu a censuro brutalmente:

    —   Você não é uma criança. É uma mulher inteligente, livre para fazer as suas próprias opções na vida. Neste momento, no entanto, você tem a responsabilidade de uma médica. Preciso de­sesperadamente de sua ajuda nesta análise. E agora trate de se con­trolar e vamos voltar ao trabalho!

    Vejo o quanto custa a ela controlar as emoções. É um esforço físico, angustioso de se observar. Finalmente ela ergue a cabeça, num gesto de orgulho, vira-se para me fitar.

    —   Estou a seu serviço, Doutor. Se concorda, acho que devemos agora considerar o elemento de desejo de morte nas duas ver­sões do sonho.

    Respondo que preferia não me envolver demais nos detalhes menores. Preferia discutir por algum tempo o contexto maior: a vasta inundação obliterando a terra. Ela me lembra, com um forma­lismo frio:

    —   Sei muito bem o que preferia fazer. Mas não me disse mui­tas vezes que o assunto que o paciente menos deseja discutir é justamente o que está mais próximo da essência de seu problema? Assim, se não se importa, vamos conversar sobre o seu desejo de morte... para Emma, para Freud, para seus próprios filhos... Vamos indagar o que você fará ao invés de matá-los... porque o ritual tem de ser consumado, na realidade ou em símbolos...

 

MAGDA...

Em viagem

Estou viajando de trem para Zurique, num compartimento reservado exclusivamente para mim. Jantarei no vagão-restaurante e voltarei para o compartimento, onde ficarei lendo até dormir. Ao chegar, vou me hospedar no Baur au Lac, numa suíte com vista para o lago. Depois de instalada, vou pensar na melhor maneira de entrar em contato com esse famoso Dr. Jung.

Agora que comecei a viagem, sinto-me quase alegre. A vida finalmente simplificou-se ao que Lily costumava chamar de Esco­lha de Hobson, a opção entre o que nos é oferecido ou nada. Se Jung puder me ajudar, se puder me mostrar como aceitar o passado e projetar um futuro tolerável, longe da terra dos demônios, então acatarei tudo agradecida. Se ele nada puder fazer, então amém! O passo para o nada é bem curto. Tenho a chave na bolsa: um pe­queno vidro azul, lacrado com cera vermelha.

Antigamente, antes de eu me casar... e depois também!... adorava intensamente viajar de trem. Sempre me proporcionava uma grande excitação sexual. Não havia como saber a quem se podia encontrar nos corredores ou no vagão-restaurante, quais os encon­tros à meia-noite que se podia marcar entre a sopa e o queijo. Desta vez, no entanto, não sinto essa excitação. Não tenho a menor disposição para encontros casuais. Não posso suportar os rituais surrados do amor com um estranho. Até mesmo a leitura ao deitar é escolhida para me distrair da preocupação sexual: um romance sobre o detetive inglês Sherlock Holmes e seu cronista, o Dr. Watson.

Apesar de tudo, eu me visto cuidadosamente para o jantar e não fico alheia aos olhares de admiração e aos comentários sussur­rados dos homens quando entro no vagão-restaurante. O maitre me instala, como pedi, numa mesa para dois. Prometeu também que vai providenciar, se possível, outra mulher para partilhar a mesa. Quando chego, porém, o outro lugar ainda está vazio. Já estou co­meçando o segundo prato quando chega a minha companheira de jantar. O maitre a apresenta como Mademoiselle de Launay. Por um instante, contemplo-a aturdida. Ela é a própria imagem de Use Hellmann. A razão me diz que não pode haver qualquer relação possível. Esta moça tem apenas vinte e poucos anos. É francesa. Use era austríaca e nunca teve filhos. Tento superar o momento de constrangimento com um sorriso e uma explicação:

—- Peço que me perdoe, mas você é igualzinha a uma moça que conheci outrora. Sente-se, por favor. E espero que me permita dizer que é muito bonita.

A refeição transcorre agradavelmente. Ela tem boas maneiras, é extremamente simpática. Conta-me que vai para a casa de paren­tes em Locarno. Não estou realmente interessada. A aparência dela continua a me absorver. Sempre que ela vira a cabeça de uma maneira determinada, vejo Use Hellmann, companheira dos meus dias de escola, que casou com o homem que eu queria para mim.

As aventuras de Mr. Sherlock Holmes se tornam insípidas em comparação com esse item de história pessoal. O livro fica por ler, enquanto permaneço acordada na escuridão, reconstituindo o drama que começou naqueles tempos distantes e cujo último ato ainda está para ser encenado, em Zurique...

Quando eu tinha 14 anos, papai decidiu que devia me afastar do que classificava de "camponeses e aldeões". Devia ser prepa­rada para o meu destino como uma jovem dama de alta classe. Em suma, estava na hora de eu ingressar numa escola interna. Depois de muita correspondência e consultas a amigos, Papai e Lily con­cluíram que o melhor lugar para mim era a Academia Internacional Para Moças. Esse estabelecimento de nome pomposo estava si­tuado perto de Genebra e era dirigido por uma mulher dinâmica, a Condessa Adrienne de Volnay.

O regime prometido pela condessa incluía: "Uma ampla educação nas artes, treinamento constante na etiqueta social, exercí­cios regulares em conformidade com as necessidades do físico fe­minino, lazer cuidadosamente supervisionado, com visitas a mu­seus, concertos, óperas e festivais populares, contatos regulares mas devidamente acompanhados com rapazes de boa família e moral impecável."

Recordando agora, posso reconhecê-la como uma educadora muito à frente de seu tempo. Produzia mulheres instruídas e poli­das. Proporcionava-nos uma vida confortável, uma disciplina tole­rável, mas eficiente e consideravelmente mais liberdade do que ou­tros estabelecimentos similares da época.

Eu gostava da academia... provavelmente porque estava melhor preparada para isso do que a maioria das colegas. Lily me ensinara muito bem e pude facilmente me sair bem nos estudos. Mais do que isso... graças a papai!... minha educação sentimental era muito mais avançada que a de minhas colegas. Eu começara a menstruar aos 12 anos. Compreendia minha própria anatomia e suas funções. Fora ensinada a me considerar uma mulher, embora jovem. As funções e precauções sexuais me haviam sido ensina­das. As marés crescentes de desejo em meu corpo não me eram desconhecidas, como também não eram, diga-se de passagem, os meios de satisfazê-las.

Assim, era muito fácil para mim assumir o papel de líder, uma espécie de Guardiã dos Mistérios em nossa Academia Internacio­nal. Minha amizade era cortejada. E eu não me sentia envergo­nhada de tirar proveito disso. Todas me queriam como uma "amiga especial", mas a única que escolhi foi Use Hellmann, que vinha da parte leste de Land Salzburg e era assim quase uma vizinha. Fui eu quem lhe proporcionou a primeira experiência de sexo entre garo­tas. Ela era também um troféu que eu podia ostentar, pois era alta, esbelta e rica, de longe a mais bonita entre todas nós.

Olhando para trás, posso perceber agora que havia uma diferença fundamental entre nós. Eu era a filha única de uma aliança exótica. Use era a quarta de seis irmãos, com três rapazes mais velhos e duas moças menores. O que quer que eu tivesse, conforto, oportunidade, amor, deferência, era meu por direito. Se não me era oferecido, eu não discutia. Simplesmente me apossava. Anexava as coisas... e as pessoas também. Mademoiselle Felice, que admirava o meu talento para as línguas, era a minha professora de francês. Rudi, que nos ensinava equitação, era o meu instrutor, Laurent, que era o mais bonito dos rapazes que participavam de nossas au­las de dança, era o meu parceiro... até que eu resolvia transferi-lo para Use ou uma de nossas admiradoras menores.

Use, por outro lado, era bem treinada na estratégia social. Tinha de ser, para sobreviver com três irmãos vigorosos e duas irmãs mais moças, uma mãe anêmica e um pai que era um grande empresário em mineração e metalurgia. Ela queria ser protegida. Gostava de ser protegida. Precisava de uma amiga para estimular sua confiança com os rapazes. Sentia-se feliz em pagar um tributo por esses serviços; mas a partir do momento em que fixava sua atenção num objetivo, usava todos os recursos para alcançá-lo. Por mais estranho que possa parecer, foi ela quem me ensinou a ser ciumenta.

Papai tinha o hábito de me visitar no meio do período, geralmente quando estava a caminho de Paris com alguma nova amante. Lily aparecia duas vezes por ano e eu estava instruída a apresentá-la sempre como "Tante Liliane", a irmã de minha falecida mãe da Inglaterra. Na primeira vez em que me visitou, papai levou a Use e a mim para almoçar num restaurante à beira do lago em Genebra, muito elegante, muito caro. Dois minutos depois de estarmos sen­tados, Use já estava representando para papai, como uma jovem Sarah Bernhardt. Adejava em torno dele. Tocava sua mão, admi­rava suas roupas, soltava risadinhas de seus gracejos. Papai retribuía a representação como o veterano Casanova que ele era. Fi­quei tão furiosa que tive vontade de vomitar na sopa. Mas de nada adiantava ficar furiosa com papai. Tinha-se de entrar no jogo dele, toujours gai, sempre o cavalheiro feliz. Mas eu sabia muito bem que, se algum dia convidasse Use para uma visita a Silbersee, ha­veria amor sob as estrelas na primeira noite e depois um inferno a pagar para Lily e para mim.

Não falei nada com Ilse. Não podia de jeito nenhum permitir que ela soubesse que me transtornara. Depois disso, porém, dis­creta e gradativamente, comecei a substituí-la como minha corte predileta. Falei sobre o incidente a Lily em sua visita seguinte. Ela soltou uma risadinha hesitante e fez um comentário amargo:

—   Está absolutamente certa, menina. À medida que seu pai vai ficando mais velho, suas loucuras se tornam mais jovens e mais dispendiosas. Teremos de vigiá-lo, nós duas, caso contrário alguma sem-vergonha vai acabar ostentando os brasões dos Kardoss e usando os diamantes de sua avó.

Foi provavelmente essa troca de confidências que nos preparou para o que aconteceu em Silbersee no meu 17.° aniversário. Eu estava em casa nas férias de verão. Papai promovera uma festa de dia inteiro para mim: almoço nos jardins com amigos e vizinhos, uma orquestra de ciganos trazida de Salzburgo, baile no terraço enquanto a noite caía, um jantar com champanha, as carruagens chamadas às 10h30min, a fim de que as famílias pudessem voltar para casa numa hora apropriada. Use Hellmann compareceu com os pais. Eu a convidara porque era a minha maior amiga na escola e não poderia causar muito mal com a proximidade dos pais. Mesmo assim, ela flertou afrontosamente com papai; muitas vezes me perguntei depois até que ponto a sua presença naquele dia teve relação com o que se seguiu.

Lembro que era quase meia-noite. Estávamos reunidos na suíte lá em cima, Lily, papai e eu, tomando um último copo de champa­nha e recordando os acontecimentos do dia. Houve um momento de silêncio sonolento e depois, a propósito de nada, papai disse:

  • Lily, minha querida, não acha que a nossa Magda está linda?

  • Está, sim.

    Ela se inclinou e me beijou nos lábios. Lembro de lhes ter dito, bonito do mundo. Papai também me beijou... um beijo de amante.

Ele me levantou, pegou no colo e levou para o seu quarto. Eme disse, com um sorriso:

— Terá mais uma surpresa de aniversário, meu amor. Vai passar de moça para mulher.

De certa forma, eu sempre soubera que aconteceria assim. Os dois me haviam levado passo a passo, cada um mais agradável do que o outro, para o momento da iniciação. Haviam-me ensinado meios suficientes de me satisfazer e assim aquele momento seria deles, somente deles. Juntos, eles me despiram, juntos, excitaram-me lentamente, com uma infinidade de pequenos prazeres. Depois, quando parecia que eu não podia suportar a espera por mais tempo, papai, tendo Lily como testemunha e mestra de cerimônias, converteu-me numa mulher... e garantiu que nenhum homem pode­ria jamais apagar sua memória de minha mente e corpo.

Mesmo agora, enquanto o trem avança ruidosamente pela noite, o êxtase se repete, num relance. Quando acaba, durmo cal­mamente, no escuro. Papai está morto há muito tempo e Lily é uma velha que vive com seu gato num chalé de pedra em Cots-wolds. Recebe uma pensão minha, paga todos os meses pelos ir­mãos Ysambard. Nunca mais tornamos a nos encontrar desde que ela deixou a Europa, depois de meu casamento. O pároco local a vigia para mim. Tenho pensado às vezes que gostaria de visitá-la e resgatar um pouco de nosso amor perdido, antes de sua morte. Mas o pároco me diz que ela está quase que totalmente surda... e não posso me imaginar a gritar todos os nossos segredos para os ouvidos de uma rua inteira, numa aldeia inglesa.

Isso parece estranho? O que não posso perdoar a papai é o fato de que, depois desse extraordinário ritual de passagem, ele me obrigou a voltar à escola por mais um ano. Disse que eu precisava terminar o curso. Tinha de me qualificar para ingressar numa fa­culdade de medicina. Argumentei, supliquei de joelhos que me conseguisse tutores e me permitisse ficar estudando em Silbersee. Mas ele não concordou. A Academia Internacional Para Moças realizara um esplêndido trabalho. Era lá que eu tinha de terminar o curso. Até hoje não posso entender o raciocínio dele. Como pôde fazer uma coisa dessas? O que esperava de uma jovem saudável, que ele próprio despertara tão plenamente? Será que não compreendia que toda a companhia que eu tinha na escola era de moças pubescentes e "rapazes de boa família e moral impecável"? E mesmo que a moral deles não fosse impecável, que possível charme poderiam ter para mim agora?

Assim, durante o último ano na academia, fiquei completamente desvairada, uma fera selvagem, com uma ferocidade calcu­lada, que surpreendeu até a mim mesma. Papai queria que eu ter­minasse o curso? Pois muito bem! Eu o faria com toda distinção. Eu queria conquistar a liberdade? Pois muito bem! Eu a compraria a qualquer custo. Meu comportamento na escola foi irrepreensível. Em conseqüência, deram-me liberdades e privilégios que eram ne­gados a outras. Duas vezes por semana eu ia a Genebra para fazer pesquisas na biblioteca da universidade. Fiz um curso avançado de adestramento na escola de equitação. Tinha lições de canto no fim de semana, na Ópera, com Madame Corsini, uma discípula de Jenny Lind.

Também consegui, aproveitando o horário, ter uma sessão regular de cama com Rudi, o professor de equitação, além de interlu­dios interessantes com alguns estudante da universidade e uma li­gação esporádica, mas altamente dramática, com um tenor de ópera que praticava no corredor de Madame Corsini.

Ao final do ano acadêmico, voltei para casa completamente exausta, com notas altas em todas as matérias e um terrível ataque de pneumonia. Papai tratou-me. Lily aconchegou-me. Papai infor­mou que conseguira para mim uma vaga na Universidade de Pá­dua, que tem uma das mais antigas e mais eminentes faculdades de medicina da Europa. Fiquei deliciada. A vida continuou, no plá­cido verão em Silbersee.

Mas não era mais a mesma coisa. Nunca mais voltaria a ser como antes. Nós três ainda partilhávamos os aposentos. Ainda va­gueávamos em todos os estágios de ausência de roupas. Às vezes nos metíamos juntos na cama e reencenávamos os jogos antigos. Mas isso também era diferente. Não havia agora uma diversão au­têntica. Era inquietante, insatisfatório, artificial.

Notei que papai estava engordando. Lily ainda mantinha seu corpo esguio e infantil. Fazia ginástica todos os dias e insistia para que eu a acompanhasse. Os cabelos dela, porém, começavam a ficar grisalhos e as primeiras rugas denunciadoras apareciam em seu rosto. Embora o sorriso ainda fosse maravilhoso e sempre houvesse manifestações do antigo humor malicioso, ela era visi­velmente insegura e às vezes infeliz. Tinha ciúmes de papai e era possessiva em relação a mim. Eu não podia culpá-la. Enquanto eu estava na escola, papai deixava-a sozinha por semanas a fio e ela ficava vagueando pelo Schloss vazio. Confessou-me que tivera duas ligações rápidas, uma com Hans Hemeling e outra, que Deus a perdoe, com um jovem padre no Pfarrhaus, cujos superiores prontamente transferiram para Viena. Mas nenhuma das duas liga­ções fora satisfatória:

—   Porque seu pai é o melhor, menina. Ele sabe como dar tudo o que uma mulher quer. O problema é que ele se entedia antes de nós. O que ele procura são os primeiros botões, não as flores ple­namente desabrochadas.

Eu podia entender o que ela estava querendo dizer. Não era mais um botão de flor e papai estava também entediado de mim. Como Lily, eu era agradável de ter por perto, para afagar e desfru­tar como uma companheira de diversões. Mas assim que ele se sentia revigorado, pulava a cerca em busca das potrancas do pasto ao lado. Perguntei a Lily o que achava que podíamos fazer. Como sempre, ela tinha um plano... um segredo que somente nós duas devíamos conhecer.

—   Seu pai está perdendo o vigor, como pode perceber. Já não agüenta mais essa correria de ida e volta a Viena. Arrumou uma garota em Salzburgo, com quem é muito sério... ou pelo menos tão sério quanto poderá ser com alguma mulher. A coisa já está acon­tecendo há um ano. Ele gostaria de trazê-la para cá, mas eu estou em seu caminho e o mesmo ocorre com você... e além do mais ainda podemos revelar segredos, não é mesmo? Pois ouça agora o que sugeri. Você vai para a universidade em Pádua. Ele não quer que você viva sozinha e desprotegida. Não quer que tenha uma reputação desfavorável na universidade. Por isso, convenci-o a deixar-me cuidar da casa para você, num lugar decente. Haverá um quarto para ele, quando quiser nos visitar... o que inevitavel­mente acontecerá, pode estar certa, menina, porque seu pai está realmente empenhado em estimular sua carreira. Nós duas teremos a nossa própria vida... e se nossos homens não nos satisfazerem, sempre teremos uma à outra. O que acha, menina?

—   Eu a amo tanto, Lily, que seria capaz de comê-la viva.

O registro dos cinco anos seguintes é quase irrelevante para o meu caso atual. Papai nos instalou num apartamento elegante, com um encanamento funcional e um teto de Tiepolo. Também pagava uma arrumadeira e uma cozinheira. Foi um bom tempo, um pe­ríodo feliz. Lily e eu vivíamos como duas irmãs, cuidando uma da outra, partilhando confidências, rindo das desventuras. Na univer­sidade, fui a princípio uma presença insólita, transformando-me num pequeno fenômeno quando foram revelados os resultados do ano letivo. Recebia mais atenção do que precisava como mulher, mas conseguia conduzir minhas ligações amorosas sem que os co­legas tomassem conhecimento. Não era muito difícil. Eu precisava de homens maduros. A vida era preciosa demais para ser desperdi­çada com jovens inexperientes.

Papai me visitava de vez em quando, sempre sozinho, mas sempre a caminho ou saindo de algum romance complicado. Nas longas férias de verão, dependendo da situação de nossas vidas amorosas, viajávamos juntos para novos lugares, como Escandiná­via, África, Inglaterra e uma vez Petrogrado. Foi lá que papai disse o seu mot famoso, que ao final se mostrou profético.

Lily e eu passáramos o dia inteiro num flerte complicado com dois lindos suecos do nosso grupo, numa excursão ao palácio cons­truído por Catarina. Eles eram casados e estavam acompanhados pelas esposas. Resolvemos lhes atrair a atenção e, se possível, empenhá-los numa conversa. Papai finalmente explodiu, exaspe­rado:

—   Santo Deus! Sei agora o que Catarina, a Grande, deve ter sido! Deus nos salve das mulheres predadoras!

Quando lembrei-lhe que passara a vida inteira sendo perseguido por mulheres assim, ele prontamente protestou:

—   Absolutamente! A iniciativa é sempre minha! Eu é que as persigo! E no instante em que uma mulher assume o papel de Diana, a Caçadora, trato de cair fora! Mas vocês duas... eu não as deixaria à solta numa sala mortuária!

Como estudante de medicina, eu passava tempo mais do que suficiente em salas mortuárias; mas o efeito que tinham em mim era o de apenas reforçar a sensação de inutilidade que me atormen­tava nos momentos de depressão. Refletindo agora, a escutar o gemido lamentoso do apito do trem, compreendo que sou comple­tamente diferente de papai. Sou... ou era... uma médica muito efi­ciente. Meus diagnósticos eram bons, a cirurgia precisa. Mas não tinha a mesma gentileza de papai, seu cuidado com o tecido, sua aversão ao trauma desnecessário. Imagino que sempre encarei a medicina como uma estação de muda, um posto de recuperação na estrada para a extinção. A morte não representava um terror para mim e por isso mesmo seu corolário, a vida, até mesmo a minha, não merecia muito respeito. O que estava envolvido para mim não era a compaixão, mas o combate, uma luta pelo poder: quão depressa eu podia atenuar a dor insuportável; por quanto tempo podia adiar o fim inevitável... É estranho que eu me lembre disso agora, enquanto realizo esta viagem só para optar entre viver e morrer.

Mas o amor também tem sido assim para mim, um exercício do poder: atrair, manter, exigir satisfação, descartar quando assim de­cido. As únicas pessoas que nunca amei assim foram papai, meu marido e Lily. Nunca pude encontrar com mais ninguém o que eles me deram. Eu não podia comandá-los. E jamais quis descartá-los. Foram eles que finalmente se ausentaram. Fico pensando no que está faltando em mim, como o perdi. Teria sido quando mamãe desapareceu? Ou quando papai invadiu a minha feminilidade e deixou-me sem qualquer sonhos, mas apenas com recordações e desejos?

Outro pensamento me ocorre nesta viagem ruidosa mas solitá­ria para Zurique. Fui criada na Áustria, numa província católica. Passei cinco anos em Pádua, a cidade de Santo Antônio, o Mila­greiro, cuja imensa tumba é cercada todos os dias por peregrinos em busca de favores. Já visitei mosteiros e igrejas, tratei de freiras e padres. Mas nenhuma de suas convicções ou atitudes ficou gra­vada em mim, muito menos penetrou na armadura do meu ceti­cismo. Por que será? Como Gianni di Malvasia sugere, será possí­vel que o dom da fé me tenha sido negado, ao capricho de algum comediante divino? Ou há uma carência em mim, uma ausência de alguma faculdade, como o paladar, olfato ou percepção das cores? Até hoje, isso nunca me incomodou. Mas agora começa a me deixar perturbada. Nunca me senti tão solitária em toda a minha vida como neste momento. Se eu resolver acabar com tudo, seria bom ter alguém para conversar antes de partir. Mesmo que Deus seja uma ilusão, seria confortador ter alguém para balbuciar o seu nome em meu ouvido. Eu me contentaria até com menos... sentar num banho quente, como Petrônio, o Árbitro, com um amigo a me segu­rar a mão e manter uma conversa agradável, enquanto a vida se esvai lentamente, sem qualquer dor.

Há toda uma litania de objeções ao meu desfrute de um fim tão sereno. E vou recitando, ao ritmo das rodas nos trilhos:

— Cortei as rosas, bati no cachorro, maltratei o cavalo, casei com o homem que vivia na casa de Johann, Ritter von Gamsfeld...

 

JUNG...

Zurique

Toni e eu ainda estamos empenhados na análise do meu desejo de morte. Repassamos juntos todos os registros dos meus sonhos. É espantoso verificar com que freqüência e em quantos contextos diferentes o mesmo motivo ocorre. O que estamos tentando fazer agora é relacionar o sonho-desejo com seu objetivo na vida real e examinar a minha própria ligação com esse objetivo.

Hoje estamos mais felizes. Reagi ontem à noite ao desafio dela. Enquanto Emma dormia, durante a madrugada, saí de casa furtivamente e fui de bicicleta até a casa de Toni. Passamos quatro horas maravilhosas. Quando saí, o dia começava a romper sobre o lago. E quando Emma acordou e me procurou, eu estava de barba feita e arrumado, trabalhando diligentemente em minha mesa. E não fumara desta vez! E não havia manchas de conhaque no que provou ser anotações extremamente úteis!

Toni também está com a mente mais serena. Não é apenas a liberação sexual, embora ela me assegure que foi enorme; é o fato de que me atrevi a fazer alguma coisa por ela. A visita noturna foi uma aventura que poderia ter me custado caro. Se Emma tivesse descoberto. A explosão que ela teve no outro dia ainda me per­turba. Sempre presumi que nós, como bons e respeitáveis suíços, permaneceremos casados, não importa o que possa acontecer no enclave de nosso casamento. Agora, porém, já não tenho tanta cer­teza. Se Emma achar que minhas ofensas são intoleráveis, pode muito bem tomar a decisão de pegar as crianças e voltar para sua família, que certamente a receberia e confortaria. Por outro lado, se minha reputação ficar por demais prejudicada, também posso tomar uma decisão, a de mandar tudo para o diabo, pegar o meu chapéu e partir com Toni. Ela ficaria muito feliz por vivermos jun­tos, com ou sem o benefício da bênção clerical. Desestimulo qual­quer especulação a esse respeito, mas sei que está na mente dela e sempre à espreita no fundo da minha. No final das contas, Freud parece sobreviver a esse tipo de situação melhor do que eu. Des­confio que "amortizar o casamento" significa que ele tem algum acerto com a irmã da esposa. O que explicaria por que se mostra tão sensível às minhas opiniões publicadas sobre o tabu do incesto. Pois ele ouvirá muito mais a respeito em Munique, quando setem­bro chegar... Obviamente, Freud é o objetivo claro de um desejo de morte e Toni continua a martelar nesse tema específico:

  • Freud é a nova figura de pai em sua vida. Adotou-o para substituir seu pai natural, que lhe faltou quando ainda estava vivo, em relação a quem você se sente culpado, agora que ele está morto. Tem uma profunda afeição emocional por Freud, mas vai matá-lo.

  • Isso não é acurado. Meu subconsciente acalenta o desejo de morte. E o expressa em sonhos. Meu consciente... e minha consciência... rejeita o pensamento.

  • Não é verdade! — Toni está bastante resoluta. Não vai permitir que eu me esquive à discussão. — Você vai matar Freud. E vai fazê-lo na conferência em Munique. Vai contestar publica­mente uma de suas doutrinas fundamentais. Vai disputar com ele a presidência da Sociedade Psicanalítica e provavelmente vencerá. O que representa tudo isso que não um duelo até a morte?

    Claro que é verdade. Reconheço e a elogio por sua precisão e capacidade. Ela descarta o cumprimento, impacientemente.

  • Por favor, Carl, não faça isso comigo. Não agora. É muito importante. Estamos começando a fazer algum progresso. Há algo mais por trás dessa situação de Freud e temos de encontrá-la jun­tos... No último sonho de caos você viu o garanhão preto. Certo?

  • Certo.

    Ela folheia suas anotações, até encontrar a referência. Lê para mim:

  • ...Vi a parte dianteira e os músculos poderosos do pes­coço... Mas não viu a parte posterior?

  • Não.

  • Como sabia que era um garanhão?

  • Imagino que foi pela constituição do animal, a força, o...

    —   A parte posterior estava oculta, mas você sabia que havia um pênis e testículos. O que está tentando esconder que se rela­ciona com a sua masculinidade? Por favor. Carl! Tem de ser ho­nesto, caso contrário não poderei ajudá-lo.

    E, de repente, quero contar tudo para ela. As palavras saem incontrolavelmente: a alegria culpada, a vergonha amarga, a trans­ferência para Freud do episódio homoerótico não resolvido, meu medo de como ela poderia encará-lo. Ao final, estou balbuciando como um colegial, meu orgulho desmoronado. Toni me afaga a ca­beça inclinada e repete interminavelmente:

    —   Calma... calma... calma...

    É como se ela estivesse acalmando uma criança assustada. Depois que todas as minhas lágrimas estão gastas, ela me enxuga as faces, segura meu rosto entre as mãos e me sorri com uma ter­nura grave.

    —   Agora finalmente sei que você me ama, Carl. Deu-me a maior de todas as provas possíveis: sua confiança.

    —   Eu lhe dei a parte mais podre de mim.

    —   Não diga isso! Nunca mais me diga isso! O que esperava de si mesmo... um menino, o filho de um pároco, com um homem a quem amava e no qual confiava? Gostaria apenas que você tivesse desfrutado toda a coisa, ao invés de carregar o sentimento de culpa por todos esses anos. Será que não percebe, Carl, que isto consti­tui uma grande parte de seu problema? Tudo o que você faz é pela metade, meio acabado, meio desfrutado... eu, Emma, todas as ou­tras que entram e saem de sua vida, até mesmo seus filhos. Você os quer e ao mesmo tempo não quer. Tudo é uma transação. Sem­pre tenta calcular se o que recebe vale o que está pagando. Não há qualquer alegria nisso.

    —   Então talvez hoje seja o começo da alegria.

    É um desejo, mais do que uma esperança. Toni está bastante satisfeita consigo mesma, porque arrancou um pequeno demônio do bosque cerrado que é a minha alma. Ela não compreende que há legiões a mais espreitando das moitas. Mesmo assim, ela tem moti­vos para estar orgulhosa e eu para me sentir agradecido pelo fato dessa história sórdida ter finalmente aflorado.

    Estou calmo agora. Ela pergunta se estou pronto para continuar a sessão. Respondo que sim. Enquanto a água estiver fluindo, não feche a comporta. Sua pergunta seguinte me choca, como é justamente a intenção dela:

  • Como vai matar Emma e as crianças?

  • Isso é monstruoso!

    —   Não. É a lógica da psique. O que você sonha é o que deseja. E o que deseja é o que vai realizar, de fato ou simbolicamente. Assim, meu querido, meu amor, tente responder, por favor. Não recue agora.

    Mas eu bato em retirada. Não lhe contarei meus pensamentos sobre divórcio, um novo casamento, todo esse caos social. Em vez disso, lanço uma isca para desviá-la do assunto:

    —   Disse ontem a Emma que ela deve me deixar seguir o meu caminho. Ela deve concentrar sua vida em si mesma e nas crian­ças.

    Toni reflete por um longo momento e finalmente acena com a cabeça em assentimento.

    —   Se está falando para valer, isso representa uma sentença de morte para uma mulher. Se algum dia me dissesse isso, eu teria certeza de que está tudo acabado entre nós. Mas tem certeza de que falou para valer?

    Estou agora num dilema. Se respondo que sim, sou um horror de um homem, que casa com uma mulher, gera cinco filhos nela e depois a abandona entregue à própria sorte. Toni percebe a minha hesitação. E continua a inquisição:

  • Você ama Emma?

  • Amo.

  • Ama seus filhos?

  • Claro.

  • Então por que deseja a morte deles?

  • Porque se interpõem entre nós dois.

  • Mas por que não pode amar a todos nós?

  • Não há bastante de mim para isso.

    —   Ah, então você os mata para salvar a si mesmo e não para me possuir!

    —   Isso é dialética e não análise. Vamos mudar de assunto. Ela já disse o que queria. Está preparada para mudar de assunto sem qualquer protesto. Agora ela começa, mais placida­mente, a desenvolver outra linha de inquisição. Desta vez estou disposto a cooperar, porque também me interessa. Toni pergunta:

  • O trem... disse que estava vindo de algum lugar ao norte.

  • Era o que parecia.

  • Para onde estava indo?

  • Para casa... aqui para a Suíça.

  • E a inundação não o deteve?

  • Não. Continuou a seguir em frente. As águas nunca deram a impressão de ameaçar o trem.

  • É por isso que queria permanecer lá dentro?

  • Exatamente... até que vi o garanhão.

  • Encontra algum padrão nisso, qualquer analogia com a sua vida?

    Mais uma vez me mostro inibido, relutante. Toni me força a ajustar as peças do quebra-cabeça e acabo admitindo a relação entre sonho e realidade.

  • ... Eu estou, pelo menos no momento, numa espécie de retiro. Preciso disso. Apego-me à privacidade que tenho aqui. Pre­ciso da segurança de uma rotina de família. Se o casamento se rompesse, acho que eu não seria capaz... pelo menos agora... de suportar. Se eu perdesse você, também estaria perdido. Quando não a encontrei no trem, senti-me terrivelmente perturbado.

  • Então deixe-me perguntar uma coisa importante, Carl. Seu presente está aqui. Precisa da segurança de seu lar. Mas onde vê o futuro?

  • Haverá outro lar, não muito longe daqui. Meu futuro, meu verdadeiro futuro, está dentro de minha cabeça. Sei disso. Tenho certeza absoluta. Espere um instante. Tenho uma coisa para lhe mostrar.

    Pego os desenhos que fiz da minha torre, da planta do terreno, ao mesmo tempo um mandala e o Tetragrammaton. Explico com um cuidado afetuoso. Digo a ela que ainda não encontrei o local, mas isso acontecerá um dia. E acrescento que, no instante mesmo em que fazia o desenho, já o encarava como o lugar em que pode­ríamos ficar juntos. O rosto de Toni se ilumina de prazer. Ela está como uma jovem noiva, contemplando a planta de sua primeira casa. Quando guardo os desenhos, a luz se apaga e as perguntas assumem um tom mais sombrio.

    —   Por que Salomé é cega?

  • Não tenho certeza. Estou procurando por relações com esse fato. Você deve saber que no Oriente as moças cegas são muitas vezes treinadas para se tornarem prostitutas. São muito procuradas por homens mais velhos, por serem hábeis e sensíveis... e por não poderem observar as devastações da idade nos clientes. E aqui na Europa as cegas são treinadas em massagem e fisioterapia. São ex­celentes manipuladoras... As duas idéias estão relacionadas no so­nho. Salomé é uma pessoa de baixa extração. E é também a es­posa, amante e protetora de um velho.

  • Quero lhe fazer outra pergunta, Carl. Em seu primeiro sonho muito importante, o da caverna subterrânea, viu o falo como um deus gigantesco de um olho só. Também era cego? E até que ponto você é cego, Carl?

    —   Não estou entendendo.

    —   Deixe-me apresentar o problema de outra maneira. Fez amor comigo ontem à noite. Sei que faz amor com Emma, quando pode. Qual é a diferença? Ou nós duas somos apenas gatas pardas na escuridão?... Não, não fique furioso! Isso é muito importante e você o sabe perfeitamente!

    O humor da situação me atinge e desato a rir. Toni fica desconcertada. Indaga o que é tão engraçado. Digo a ela que talvez seja melhor eu chamar Emma para se juntar a nós, a fim de não ter que dar a mesma explicação duas vezes. Por onde ela gostaria que eu começasse? A parte física do intercurso? O ciclo menstrual das mulheres? As variedades de estímulos para cada sexo? A ausência excita o desejo? A proximidade o extingue? Ela acaba rindo tam­bém e concorda em abandonar o assunto. E no instante seguinte se joga em meu colo. O que realmente faz diferença:

    —   Como vê a si mesmo, Carl? O que você é?

    Sei o que ela está perguntando. E sei por quê. Já tivemos muitas discussões e fizemos muitas definições especulativas sobre a natureza da saúde mental. Chegamos juntos a uma noção de uni­dade, um estado assentado em que um indivíduo reconhece a si mesmo como uma entidade, não necessariamente completa ou per­feita, mas aceitável e tolerável. Criei a palavra "individuação" para expressar tanto o processo de crescimento como o estado de chegada.

A gata não questiona que é uma gata. A zebra não tenta mudar suas listras... Assim, quando Toni me pergunta quem eu sou, tenho de lhe responder sinceramente que ainda não sei. Esta é a natureza da minha doença. Perdi a certeza, não apenas dos meus objetivos, mas também de quem é o homem real por trás da "persona", a imagem pública de Carl Gustav Jung. Tento explicar e ela me es­cuta atentamente, segurando as minhas mãos.

—   Meu amor, sou como o homem que perdeu a sombra. Porque não tenho sombra, não tenho qualquer prova de que existo. É por isso que preciso de você. Prova que sou concreto, substancial, não apenas uma fantasia das minhas próprias fantasias... É por isso que sou insatisfatório para Emma e ela para mim. Emma está criando uma família, com um novo filho no ventre. Precisa de um homem para sustentá-la e à prole. Não pode me carregar também, como um bebê mamando no seio. Assim, ficamos ressentidos um com o outro, magoamos um ao outro... E sei que ela tem mais motivos de queixa do que eu. Só que isso não ajuda. A visão da realidade dela é mais forte do que a minha, assim como a sua tam­bém é. Neste momento, estou na nuvem do desconhecimento... Como está vendo, a verdadeira questão não é o que eu sou, mas o que serei. Alguma vez já lhe contei que queria ser um arqueólogo quando comecei os meus estudos na universidade?

  • E por que não foi?

  • Por um simples motivo econômico. Basiléia ficava perto de casa. Meus pais não tinham condições de me enviar para qualquer outro lugar. Mas Basiléia não tinha um curso de arqueologia. Por isso, acabei estudando medicina. Olhe para mim agora! Houve uma concessão... e as concessões nunca funcionam muito bem.

  • Não se subestime. É um médico excelente.

  • Já fui, quando estava na clínica. Agora sou o paciente... e como todos os pacientes estou concentrado em mim mesmo. Mas alguma coisa me diz que posso ter viajado e viajarei ainda mais pelo mundo físico, mesmo assim minha verdadeira exploração será pelo país inexplorado da mente. Lembre-se do velho chavão. Non foras ire: In interiore homine habitat veritas... A verdade habita dentro de um homem. Ele não precisa sair para encontrá-la. Às vezes é uma viagem assustadora. Freqüentemente tenho a sensa­ção de que estou caindo da beira do mundo. Mas devo continuar. Talvez meu destino final não seja o de curar, mas o de alguém que arrisca a própria sanidade para buscar as ervas curativas e as fór­mulas mágicas que outros homens vão usar...

Talvez...! É tudo um grande talvez, até que ela torna-a me abraçar e faz com que minha virilidade se manifeste outra vez, convertendo-se em minha sombra, a fim de que eu possa suportar, pelo menos por um breve instante, impávido ao sol... E, como sempre, há um pensamento posterior irônico. A sombra, a partir do momento em que se reúne com a substância, nunca mais vai em­bora!

 

MAGDA...

Em viagem

Paramos na fronteira suíça às quatro horas da madrugada para os formalismos de entrada e alfândega. Ponho um chambre e saio para o corredor, observando a movimentação de passageiros, car­regadores e vendedores na plataforma. O chefe do trem me oferece uma xícara de café em sua pequena cabine, onde um jovem suíço está verificando passaportes. Ele sorri e me dá uma "Greuszi" e pergunta se estou entrando na Suíça em férias.

Respondo que estou indo procurar um eminente médico suíço, Dr. Carl Jung. O nome nada significa para ele. É um rapaz do campo, de Appenzell. Faz um pequeno gracejo sobre a sua igno­rância. E me diz, em schweizerdeutsch, que não conhece nenhum Jungdoktor, mas há uma linda Jungmädchen com quem ele vai ca­sar assim que obtiver sua promoção.

Ele olha para os meus anéis e pergunta se sou casada. Também faço o meu pequeno gracejo, dizendo que não sou mais uma Jung­mädchen, mas sim uma Junggesellin, uma mulher solteira. Nesse momento ele abre meu passaporte. É um homem que vai subir na vida. Não pestaneja ao verificar minha idade no documento.

Ainda restam três horas de viagem. Volto para a cama e tento me interessar pelo drama de vida e morte de Sherlock Holmes e do infame Moriaty. Vão esforço! Minha própria história de amor e violência é muito mais emocionante e preciso lhe impor alguma espécie de ordem, antes de me encontrar com Jung.

A primeira pergunta que qualquer médico faz a um paciente novo é sempre a mesma: "Qual é o problema? O que o traz a mim?" Como poderei responder?... "Sempre gostei de prazeres sexuais violentos. Agora estou enlouquecendo e tenho medo de matar o próximo homem que levar para a cama." Ou pode ser de outra maneira: "Começa com incesto e vai se desenvolvendo até o homicídio. Tenho uma propensão para as duas coisas. Como pode ver, Doutor, tenho um pequeno problema." Talvez fosse mais sim­ples dizer: "Vamos nos poupar os constrangimentos mútuos, meu caro colega. Dê-me um exemplar do seu Psicopatia Sexual e assi­nalarei os trechos mais relevantes."

No papel, parece uma farsa de mau gosto. Hoje ou amanhã, no entanto, Jung vai me fazer a pergunta de rotina e terei de respon­dê-la em palavras que não me caracterizem imediatamente como uma criminosa, uma lunática ou uma mentirosa patológica... Tal­vez a melhor tática seja agir como a maioria dos pacientes: apre­sentar uma longa lista de sintomas não-específicos e deixar que o médico descubra sozinho qual é a doença. Pelo menos assim terei tempo para avaliar esse milagreiro psíquico, antes de me lançar a uma confissão total. Além do mais, se ele é de fato, como Gianni insinua, um conquistador inveterado, poderemos ter uma sessão das mais interessantes: dois médicos, cada um fazendo um diagnós­tico das enfermidades sexuais do outro!

Às nove horas da manhã estou instalada no hotel, de banho tomado, vestida e pronta para o Dia do Juízo Final... que eu gosta­ria que acabasse o mais depressa possível. Chamo o gerente. Digo que preciso permanecer incógnita durante minha estada. Devo ser conhecida por um nom de guerre, madame Hirschfeld. Desejo também, se ele quiser me fazer essa gentileza, que entre em con­tato com o Dr. Carl Gustav Jung, em sua casa, em Kusnacht, mar­cando uma consulta para mim sob aquele nome. Ele deve me iden­tificar apenas como uma hóspede recém-chegada de Paris e reco­mendada por um eminente médico daquela cidade, Dr. di Malvasia.

O gerente sente-se perfeitamente feliz em me atender. Compreende as idiossincrasias dos ricos... e só posso ser rica para poder pagar as minhas atuais acomodações, uma suíte grande, com vista para o lago, que hoje está cinzento e encapelado, sob o céu de tempestade. O gerente também se mostra discretamente informa­tivo a respeito de Herr Doktor Jung. Até recentemente, ele era o diretor clínico do Burgholzü, a imensa clínica do cantão para as pessoas com problemas mentais, que verei no caminho para Kusnacht. Ele era também professor na universidade, mas se afastara recentemente. Era uma presença bastante conhecida, embora um tanto controvertida, no novo movimento psicanalítico.

   Mas é claro que se trata de um homem de grande reputação e talento indiscutível. — Este comentário foi em deferência à minha sensibilidade. — Os padrões médicos da Suíça estão entre os mais altos do mundo... E agora, se Madame me der licença, vou cuidar de tudo. Voltarei com uma resposta o mais depressa possível.

Vinte minutos transcorrem antes que ele volte. O contato com o Dr. Jung foi um tanto difícil. Ele falou primeiro com a esposa, depois com uma certa Fräulein Wolff, que parece ser uma espécie de assistente especial. E finalmente, depois de muita demora, pôde falar com o próprio grande homem. O Dr. Jung foi um tanto brusco a princípio, obviamente relutante em se preocupar com uma pa­ciente nova que lhe caía do céu de repente. Ao final, no entanto... o gerente dá de ombros, numa insinuação de indignação... o as­sunto foi resolvido com a sugestão discreta de que Madame pode­ria perfeitamente pagar pelo trabalho dele.

O Herr Doktor me receberá às 11 horas. O gerente tomara a liberdade de providenciar um automóvel com chofer para me levar a Kusnacht, esperar e me trazer de volta ao hotel. O lugar não fica muito longe, uma viagem de apenas 15 minutos de automóvel, não mais do que isso. Agradeço profusamente. Ele é igualmente pro­fuso em suas asserções de que não foi nada.

   Qualquer coisa que precisar, Madame, absolutamente qual­quer coisa!

E depois ele me deixa, com uma hora sem nada para fazer, antes do momento do juízo final. Passo o tempo no jogo de me vestir, procurando pelo melhor traje com que me apresentar. A imagem deve ser suave, estival, feminina: renda ou musselina, um chapéu grande, uma sombrinha florida. Que o Dr. Jung descobrisse por si mesmo qual a variedade de caráteres oculta por trás dos atavios.

A maquilagem deve ser suave e sutil, sem linhas muito acen­tuadas, sem muito rouge. Assim... Tenho de confessar que estou agradavelmente surpresa pelo que vejo no espelho. Há um toque de juventude, uma tênue lembrança de inocência, que há muito tempo não tenho notado.

Confiro o conteúdo da minha bolsa: um lenço rendado, perfume, batom, um estojo de pó-de-arroz, cartões de visita, um enve­lope recheado de francos suíços, a fim de que, o que quer que aconteça, o Dr. Jung se sinta adequadamente recompensado... e, como não podia deixar de ser, o meu passaporte para o esqueci­mento, o pequeno frasco azul lacrado com cera vermelha... Está na hora de partir. Está na hora de dizer uma oração... se eu conhe­cesse alguma.

Minha suíte fica no segundo andar. Desço a escada cerimonio­samente. As cabeças se viram no saguão. Até mesmo os impassí­veis suíços tomam conhecimento quando La Dame Inconnue faz a sua entrada. Um empregado se apressa em me abrir a porta. O porteiro cumprimenta e me entrega aos cuidados do chofer, que me instala em esplendor real no assento traseiro de um imenso His­pano Suiza. Enquanto nos afastamos, percebo uma certa ironia. Aqui estou, uma assassina, desfilando como uma rainha, enquanto Maria Antonieta seguiu para a guilhotina como uma assassina, numa carroça. O único problema é que perdi a coragem de desfru­tar irrestritamente a ironia.

 

A casa do Dr. Jung é simpática, mas indistinta, abeira do lago. É uma casa alta, quadrada, de dois andares, os contornos rompidos por uma torre redonda, cuja base constitui a entrada e cuja parte superior dá para o lago de um lado e para a base da colina do outro. O terreno não é muito grande. O acesso à casa, a partir da estrada, é por um caminho comprido e reto, flanqueado por árvores frutífe­ras, pereiras, cerejeiras e macieiras. Há canteiros de flores nas margens do gramado e uma horta na cerca mais distante. Ao me aproximar da porta, tenho a atenção atraída para uma inscrição em letras góticas, por cima da arcada. É em latim. "Vocatus atque non vocatus, deus aderit... Quer seja chamado ou não, Deus estará presente." Tenho a impressão de lembrar que uma frase similar, em grego, estava inscrita por cima do santuário do oráculo de Del­fos.

Toco a campainha. Depois de uma espera prolongada, a porta é aberta por uma mulher alta, de boa aparência, beirando os 30 anos. É simpática, mas um pouco atarantada. Pede desculpas por me manter à espera.

—... Acabei de despachar as crianças para um piquenique com a babá. É o dia de folga da empregada e por isso estou fazendo todo o trabalho da casa. — Ela sorri e todo o seu rosto se ilumina. — Também não sou muito boa nessas coisas. Mas entre, por favor. Sou Emma Jung. Deve ser a nova paciente, Frau... Aí está! Es­queci inteiramente o nome!

Frau Hirschfeld. E não se incomode, por favor. Estou muito grata pelo Dr. Jung concordar em me receber imediata­mente.

Ela me conduz a uma pequena sala de espera, ao lado do vestí­bulo. Deixa-me ali, prometendo que o Doutor estará pronto para me receber dentro de poucos minutos. Tenho a impressão de que ela provavelmente está grávida. Seu rosto possui aquela curiosa aparência de máscara e há olheiras escuras e profundas. Parece uma mulher procriando depressa demais, enquanto os primeiros fi­lhos ainda estão presos as suas saias.

Pego uma revista da pilha em cima da mesa. É a edição de 1912 do Anuário de Pesquisa Psicanalítica e Psicopatológica. Contém um longo ensaio do Dr. Jung intitulado Mutações e Símbolos da Libido. Mal consegui ler duas páginas da prosa compacta quando Emma Jung volta para me levar à presença do marido. Levanto e descubro que estou um pouco tonta. Respiro fundo, aliso a saia, fico empertigada como um soldado se preparando para a inspeção. Acompanho Emma Jung pela escada acima. Ao chegarmos no pa­tamar, diante do gabinete do Doutor, compreendo que alcancei o ponto do qual não posso mais voltar.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Esta manhã é de tempo Fõhn, o vento quente, parado e úmido, o ar se comprimindo sobre o vale como um denso manto cinzento. Todos estão de mau humor. As crianças estão irrequietas. Emma tem uma acesso de enjôo matutino pior que o habitual. Toni está irritada com as cólicas menstruais. E eu estou cansado de todos... inclusive de mim mesmo.

Insisto em que a babá saia com as crianças para um piquenique. Emma protesta que pode chover e não quer que as crianças fiquem expostas a uma tempestade. Alego que pedirei ao velho Ludwig Simmel para levá-las em sua charrete; se chover, as crian­ças poderão se abrigar sob a capota de lona. Mas é preciso que saiam de casa de qualquer maneira; caso contrário, todos nos leva­remos mutuamente à loucura.

Emma acaba cedendo, embora relutante. Ando meio quilôme­tro pela estrada para combinar tudo com Simmel. Como todas as pessoas, ele está sofrendo com o Föhn e não quer sair de casa. Ofereço o dobro do pagamento que ele normalmente cobra. Sim­mel concorda, de má vontade. Volto para casa num humor ainda pior do que antes.

Estou na metade do caminho para a porta da frente quando estaco abruptamente. Sinto como se tivesse esbarrado numa mura­lha de aço. Nada vejo, mas posso sentir a obstrução nas pontas dos dedos. E como o testado dos antigos romanos, uma barreira de escudos interligados, por trás da qual a legião avançava. Sinto que as legiões também estão aqui. E sei que, neste momento, me são hostis. Pertencem ao nível mais profundo do meu inconsciente; mas agora estão liberadas, como uma influência maligna para me atormentar. E seu poder é enorme.

Tento me adiantar, penetrar pela muralha invisível. Não consigo. Viro-me e volto na direção do portão. Sou novamente detido antes de dar três passos. Estou cercado por um círculo sólido de hostilidade. Fico completamente imóvel. Levanto a voz, num grito de socorro:

Elias! Elias!

Um momento depois, posso sentir que a muralha está se desvanecendo e que as criaturas por trás estão recuando para escuri­dão de onde emergiram. Volto para a casa suando e tremendo, como se estivesse com febre. Digo a Emma para preparar o lanche do piquenique e mandar a babá aprontar as crianças para saírem dentro de meia hora. Emma me segue até o gabinete, onde Toni está abrindo a correspondência da manhã. Ela informa que, du­rante a minha breve ausência, houve um telefonema do gerente do Baur Au Lac. Uma das hóspedes, uma certa Frau Hirschfeld, quer me ver ainda esta manhã. Algum médico em voga de Paris reco­mendara-a a mim. Respondo a Emma que a última coisa do mundo de que preciso hoje é uma nova paciente. Emma se mostra inesperadamente obstinada. E me diz, taxativamente:

   Acho que está cometendo um erro, Carl. Deus sabe que não estamos bastante bem para que você comece a rejeitar pacientes. Você próprio disse muitas vezes que gostaria de ter um contato com os grandes hotéis de turistas. Pois esta é a sua oportunidade.

Este é o momento que Toni escolhe para afirmar sua autoridade como minha analista, dizendo bruscamente:

   Acho que não deveria receber pacientes por alguns dias. Estamos fazendo progressos tão extraordinários com a análise do sonho que preferia que não fosse distraído por qualquer outra coisa.

Isso é demais para mim. Viro-me para ela, dominado pela fúria.

  • Cale a boca, Toni! Tomarei as minhas próprias decisões!

  • Como achar melhor, Doutor.

    Ela volta a se concentrar na correspondência, usando a espátula como se fosse uma adaga e os envelopes minha carne viva. Não estou disposto a admitir esse tipo de demonstração de mau humor na presença de Emma. E digo rispidamente a Toni:

       Por favor, ligue para o Baur Au Lac e comunique ao gerente que eu gostaria de falar com ele. — Em seguida, apresento desculpas a Emma, indiretamente. — Você tem toda razão. Receberei essa mulher, quem quer que ela seja. Como você ressaltou, o Baur Au Lac é uma boa ligação. — Obrigada, Carl.

    Ela me oferece um breve sorriso de agradecimento e se retira. E um instante depois Toni explode comigo:

  • Deus do céu, você é um verdadeiro animal! Estava apenas tentando proteger sua privacidade e você me trata como se eu fosse uma criada insignificante!

  • Você mereceu. Jamais interfira em qualquer situação entre minha esposa e eu.

  • Jamais interfira? — Toni está quase sufocando de raiva. — Essa não! Sou sua prostituta, babá, amante... e você me diz para não interferir... Nunca, mas nunca mesmo, vou compreender como sua mente funciona.

    Estendo a mão para pegar o telefone. Ela me arrebata o aparelho e faz a ligação. Quando o gerente atende, combino receber Frau Hirschfeld às 11 horas. O nome do homem de Paris que a recomendou, Malvasy, Malvoisier, algo parecido, nada significa para mim. Mesmo assim, como Emma diz, tudo é dinheiro... e como estamos precisando! Digo a Toni:

  • Eu gostaria que você estivesse presente durante a consulta.

  • Como quiser, Doutor.

  • Vamos manter essa rixa tola durante o dia inteiro?

  • Não há qualquer rixa, meu caro Doutor. Acaba de ensinar qual é o meu lugar. E pode estar certo de que, daqui por diante, permanecerei nele.

  • Isso é ótimo. Pode então levar o seu caderno de anotações para a minha mesa. Quero registrar uma coisa imediatamente.

    Começo a ditar a experiência que acabei de ter no jardim. Per­cebo que a ira de Toni se atenua, à medida que sua curiosidade profissional é despertada. Ela avalia prontamente a minha descri­ção do testudo, a muralha de pseudos. Ressalta com razão que o escudo não é uma arma, mas uma defesa. Não seria possível que as legiões invisíveis estivessem tentando proteger a si mesmas... de mim? Ela procura explicar esse insólito pensamento:

       ... Já descreveu muitas vezes a si mesmo como acossado ou habitado por um demônio. Em outras ocasiões, já se descreveu como uma pessoa "numinosa", em quem a força reside mas sem que disso tenha conhecimento ou seja capaz de controlá-la...

    Ela faz uma pausa, como se estivesse à procura das palavras certas, depois continua, com uma exuberância estranha e inespe­rada:

       Nunca lhe ocorreu que pode ser a influência hostil e que esses espíritos, emanações, personificações... como quer que pre­fira chamá-los... talvez estejam com medo de você? — Ela me lança um sorriso de lado, hesitante. — Pode estar certo de que não estou tentando ser importuna. Sei que estou horrível hoje. Fiquei menstruada e sempre me porto assim nessas ocasiões. Mas é você que está deixando a todos irritados, Carl. As crianças têm de sair para um piquenique! O velho Simmel cobra caro demais! Cuide de suas maneiras, Toni! Sim, eu quero, não, não quero. Não é de admirar que tenha até assustado os fantasmas no jardim!

    Rimos juntos, apesar de tudo. Trocamos um beijo e nos acariciamos. Tomamos um copo de conhaque sub-reptício, só para brin­dar o reencontro. Acendo o cachimbo e voltamos a conversar sobre o fenômeno. Subitamente, sem qualquer motivo aparente, lembro uma citação do Fausto de Goethe, que descreve exata­mente a constelação de personagens ou influências que experimen­tei. "Anda lá por fora, está no ar..."

    Há aqui uma chave para um enigma que ainda não fui capaz de resolver. É o enigma do tempo: passado, presente, futuro, agora, depois. Estou dragando memórias, símbolos, mitos e arquétipos que têm raízes enterradas nas névoas da pré-história. Apesar disso, também me pertencem. Eu lhes dou outro formato. E lhes concedo outro nome, passo adiante... Ou não? Não teriam se apossado de mim, como o vento se apossa do junco oco, criando a sua própria música de um instrumento passivo? Sei que não se trata de uma ciência. Não há qualquer método, não há lógica, não há seqüência de causa e efeito. Em vez disso, é um ato de criação espontânea. Fra Angélico sonha com o paraíso e pronto!... desenhado no teto em abóbada. Dante sonha com o inferno e as palavras ressoam plangentes através dos séculos... "Nessun maggior' dolore che ricordarsi del tempo felice, nella miseria." Não existe dor maior do que recordar um tempo feliz, na miséria.

    Também estou procurando por palavras para expressar a natu­reza do ato à semelhança de Deus quando Emma anuncia que Frau Hirschfeld acaba de chegar. E no mesmo instante sou invadido por um medo irracional, um terror absurdo. Não quero receber essa mulher. Nada de bom resultará do encontro. Mas é tarde demais e não tenho qualquer motivo válido para lhe recusar a entrada agora. Dois minutos depois ela entra em meu gabinete... e imediatamente toma posse, como uma rainha entrando nos domínios de um vas­salo.

    Ela possui toda a beleza da maturidade. Está vestida elegantemente. Exibe uma esplêndida segurança de gestos e movimentos. Domina o meu refúgio de estudioso como uma grande atriz domina um teatro de província. Sinto o impacto de uma vontade forte e um espírito arrebatado.

    Meu medo irracional se converte em reverência e depois num desejo intenso. Espero que nem Toni nem Emma percebam isso em meu rosto... Compreendo que todos os meus desejos sempre foram por mulheres mais jovens e pelas que eram emocionalmente dependentes de mim. E fico imaginando como seria me apaixonar por alguém que sabe de tudo. E, depois, me pergunto: se ela sabe de tudo, por que então veio me procurar? Deus o ajude, Carl Jung, seu suíço hipócrita! Está transtornado e atraído por essa mulher, mal pode esperar o momento de assediá-la!

 

MAGDA...

Zurique

Esse Carl Jung é um homem atraente. É alto, sem barriga, corpo atlético e uma postura militar. Os cabelos são cortados bem rentes e olhos brilham de inteligência. O aperto de mão é firme e seco. Ele me lembra vagamente de papai quando jovem... talvez por alguma coisa na expressão, uma insinuação de malícia, a ma­neira como me esquadrinha, meio de lado, como um comprador de cavalos a examinar uma potranca promissora.

A moça é interessante; não chega a ser bonita, mas possui um charme élfico, cigano. Mostra-se eficiente, possessiva, muito a as­sistente do grande homem:

— Pode me dar seu chapéu e sombrinha, Madame?... Por favor, sente-se ali, junto à mesa do Doutor. Precisamos de alguns detalhes pessoais, antes de começarmos a sessão...

Precisamos? Sinto muito, minha cara, mas uma de nós duas estará fora desta sala dentro de cinco minutos. Posso lhe garantir, com toda certeza. Jung está ansioso em me deixar à vontade. En­trego-lhe a carta de apresentação de Gianni. Ele a lê e devolve. Sorri e faz um gracejo pedante:

   Etimologicamente, não está muito acurada. Madame é pseudônimo e não anônima... Mas Hirschfeld é um rótulo tão bom quanto qualquer outro... pelo menos por enquanto! O nome é menos importante do que a pessoa. Mas precisamos de alguns fatos a respeito dela. Miss Wolff tomará as anotações. E eu farei as per­guntas.

Ele se empoleira na beira da mesa, balançando as pernas compridas. Miss Wolff, um bloco de anotações na mesa, senta na ca­deira por trás da mesa, fitando-me. Tenho a impressão de que se trata de alguma espécie de ritual para estabelecê-la como uma per­sonagem no palco. Ainda estou determinada a impedir que ela permaneça ali por muito tempo. Jung começa o interrogatório:

  • Quanto anos tem, Frau Hirschfeld?

  • Estou com 45 anos.

  • Casada ou solteira?

  • Sou viúva.

  • Há quanto tempo?

  • Quinze anos.

  • Filhos?

  • Uma filha.

  • E qual a idade dela?

  • Dezenove anos.

  • Qual é a sua nacionalidade?

  • Isso é importante?

  • Talvez sim, talvez não.

  • Então digamos que sou européia.

  • Qual é a sua língua materna?

  • Sou igualmente fluente em inglês, francês, italiano, alemão e húngaro.

  • Como ocupa seu tempo?

  • Eu costumava praticar a medicina. Mas deixei depois da morte de meu marido. Desde então, tenho cuidado de uma pro­priedade rural, onde crio cavalos e cachorros.

  • Onde estudou medicina?

  • Itália e Áustria, com algum trabalho de pós-graduação em Londres.

  • Pode me fornecer um sumário de sua saúde, em termos médicos?

  • Em criança, tive caxumba, catapora, sarampo e resfriados comuns. Na vida adulta, não tive doenças mais graves nem sofri qualquer cirurgia. Não tenho problemas respiratórios, cardiovascu­lares ou urinários. Embora esteja com 45 anos, minhas menstrua­ções ainda são regulares e não experimentei qualquer dos sintomas da menopausa. Faço exercícios regularmente. Meu tônus muscular é excelente.

  • O que me diz da atividade sexual?

  • Não tenho amante permanente, mas sou adequadamente sa­tisfeita.

  • Com que freqüência?

  • Muito adequadamente, obrigada, Doutor.

  • Bom... — Ele me lançou um sorriso feliz. — Goza de excelente saúde, possui uma vida sexual bastante adequada. O que a está perturbando?

    Aí está, simples e objetiva, a pergunta que eu tanto temia. Ainda não estou preparada para respondê-la. E digo a ele, com um formalismo meticuloso:

       Com o devido respeito, Doutor, e com toda a deferência para Miss Wolff, desejo consultá-lo a sós.

    Ele não recusa prontamente. É evidente que precisa salvar o constrangimento de sua jovem colega, que provavelmente não é tão recatada quanto parece. E por isso me diz, inicialmente:

  • Miss Wolff é minha assistente e colega de confiança. Suas percepções são extremamente valiosas no diagnóstico.

  • Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Mesmo assim...

  • Por favor! — Ele levanta a mão, num gesto de admoestação. — Deixe-me acabar, por favor. Respeito o seu desejo de privaci­dade. Mas, sendo médica também, deve compreender as precauções que se precisa tomar com um novo paciente. Alguns dos meus podem se tornar bastante violentos. Já houve até um que me amea­çou com um revólver carregado. Entre as pacientes, há as que aca­lentam determinadas ilusões... e espalham falsos rumores... de que são os alvos de desejo concupiscente ou tentativa de estupro.

    Eu lhe asseguro, com o meu sorriso mais recatado, que não sou violenta nem me deixo dominar por ilusões. Ele cede, com bom humor. Diz a Miss Wolff para nos deixar a sós. Deverá estar pronto para voltar a trabalhar com ela dentro de duas horas... o que, conforme me explica, é o limite máximo de resitência para paciente e analista, numa única sessão. Miss Wolff se retira e co­mento que ela parece ser uma jovem muito competente... e bas­tante bonita. Ele fica obviamente lisonjeado, por procuração.

  • Ela é bastante brilhante, excelente poeta, eminente analista.

  • E é evidente que também é devotada.

       Também somos devotados a ela. Neste ofício, sempre se precisa de colegas leais e discretos.

    Não posso deixar de lhe conceder o reconhecimento devido por isso: nada de concessões, uma saudação à ausente, uma homi­lia sucinta sobre a confiança profissional. Preparo-me para uma nova rodada de perguntas. Em vez disso, porém, ele me dá um sorriso encorajador e alguns conselhos gentis:

       Sei como se sente. É como alguém lhe pedir para se despir em plena Bahnhofstrasse. Mas deixe-me tentar explicar como fun­cionamos. É bem diferente do diagnóstico físico, quando os parâ­metros do corpo e suas estruturas e funções internas determinam a lógica de nossas investigações... Assim, a menos que haja uma dis­função no próprio cérebro, os analistas lidam sempre com elemen­tos intangíveis, imensos quebra-cabeças, em que as peças se espa­lham por toda parte, no passado e no presente. Estamos mais preo­cupados com os sonhos do que com as realidades... com os crimes que nunca são cometidos e aqueles que são perpetrados com uma estranha espécie de inocência. Deve compreender que o analista não é um juiz. Em vez disso, é um detetive, como aquele inglês famoso, Mr. Sherlock Holmes. Ele espera poder se converter tam­bém num curador, já que uma parcela considerável de nossa saúde mental depende da compreensão de nós mesmos e de aceitar o que somos capazes de compreender... Portanto, deve se lembrar sem­pre de duas coisas. Nada tem a temer de mim... e nada do que possa me dizer conseguirá me surpreender. Já ouvi tudo. Já sonhei tudo... porque as coisas que perdemos, boas ou más, em nossas vidas cotidianas, tratamos de comprensar nos sonhos...

    É como se ele me lançasse um salva-vidas no meio de um mar tempestuoso. Agarro-o desesperadamente. E lhe digo, na maior an­siedade:

    É justamente uma das coisas que me trouxeram até aqui.

Estou tendo um pesadelo recorrente, que muito me transtorna e me deixa sempre exausta e deprimida.

   Pois então me fale a respeito. Tomarei anotações, enquanto fala.

Agora que comecei, é um alívio falar. Descubro-me a reviver todos os detalhes do sonho, a caçada implacável, a vasta solidão do deserto, a pequena carcaça ensangüentada da raposa, eu própria nua, encerrada na bola de vidro, rolando interminavelmente, sob o olho zombeteiro do sol.

Jung me escuta em silêncio. Mostra-se deliberadamente neutro. Seus olhos observam cada expressão de meu rosto, cada gesto. Parece tomar as anotações em alguma forma de taquigrafia. E per­gunta, quando termino:

  • Já contou esse sonho a outra pessoa?

  • Não. Por que pergunta?

       É que o relata vividamente. É uma contadora de histórias natural. Eu gostaria agora de lhe fazer algumas perguntas a res­peito. Tente responder espontaneamente... sem elaborar qualquer coisa só para me agradar. Se não puder responder, não hesite em dizê-lo. Se não quiser responder, diga-o também. Entendido?

    Entendido... Ele está enunciando as regras desse novo jogo e dizendo que pode compreendê-las melhor do que eu. A primeira pergunta é uma surpresa:

  • De que sexo era a raposa?

  • Fêmea.

    Fico aturdida ao me ouvir responder tão positivamente.

       Pode me dizer os nomes de quaisquer das pessoas que a acompanhavam na caçada?

  • Não.

  • Quem matou a raposa?

  • Não sei, mas acho que foram os cachorros.

  • Por que o cavalo a derrubou?

  • Também não sei.

  • Quais as mulheres que têm suas cabeças raspadas?

       Freiras e criminosas, mulheres que precisam se submeter a operações cranianas.

       Qual delas você é no sonho?

       Como jamais desejei ser uma freira e nunca fui submetida a uma operação craniana, suponho que só resta a criminosa. A bola é certamente uma prisão.

       O que a leva a dizer isso?

       É assim que me sinto... sempre há um sentimento de culpa depois do sonho.

       Sente-se culpada também durante o sonho?

       Não. Sinto-me ridícula, como se um voyeur estivesse me olhando no banho.

  • E o sol é voyeur?

  • Isso mesmo.

  • Conte-me como acorda.

       Como...? Ah, sim... estou enroscada, numa posição fetal. Tenho de fazer um esforço para me esticar e enfrentar o novo dia.

    Ele toma mais algumas anotações e depois me oferece um sorriso de aprovação.

       Está indo muito bem. Continue relaxada. Deixe tudo sair. É um prazer tratar com uma mulher inteligente... e bonita ainda por cima.

    Agradeço o elogio. Sei que estou sendo lisonjeada, mas fico contente. E me pergunto por quanto tempo a pavana vai continuar. Mas as perguntas logo recomeçam:

       Tem convicções religiosas? Pertence a alguma seita ou comunhão?

    É de novo a mesma pergunta de Gianni. Só que desta vez a respondo de maneira diferente:

       Não. Papai era um racionalista antiquado, que me ensinou que a vida começa e termina aqui mesmo e que temos de aproveitar o melhor dela, enquanto podemos.

  • E ainda acredita nisso? —- Claro.

  • Qual era a profissão de seu pai?

  • Era um cirurgião e dos melhores. Costumava dizer "já os cortei vivos e retalhei mortos, mas jamais encontrei qualquer vis­lumbre de Deus ou de uma alma". Eu tinha um grande amor por papai. Acho que simplesmente adotei suas convicções e hábitos de pensamento.

  • Sua mãe era uma crente?

  • Não sei. Ela me deixou quando eu era recém-nascida.

       Deixou-a?

       Deixou a nós dois. Fui amamentada por uma ama-de-leite. Lily e papai me criaram.

       E sua mãe?

       Nunca mais tornamos a vê-la. Papai nunca falou dela. Des­cobri recentemente, por acaso, que ela morreu como uma duquesa, na Inglaterra. — Percebo que cometi um erro e disse mais do que tencionava. Desajeitadamente, tento reparar os danos. — Como pode ver, há bons motivos para eu querer permanecer anônima... ou seria pseudônima?

    Jung sorri e acena com a cabeça em assentimento. Mas sinto agora que ele está cauteloso. Talvez pense que uma duquesa na família é esnobação demais.

       Menciona uma Lily. Quem é ela?

       Era a companheira de minha mãe quando ela veio para a Europa, a fim de me ter. Lily apaixonou-se por papai e ficou para cuidar de mim. Era a mulher que eu precisava... mãe, irmã, amiga!

       Mas seu pai e ela jamais casaram.

    —- Não. Ele queria desesperadamente casar com minha mãe..., mas depois do que aconteceu, perdeu inteiramente o interesse pelo matrimônio.

       Já que estamos falando da família, quero que me diga de seu marido, sua filha... tudo o que puder se lembrar.

— Casei quando estava com 25 anos, um ano depois de concluir o treinamento médico. Meu marido era austríaco, o herdeiro de uma grande propriedade e de um título de nobreza menor. Tinha trinta e poucos anos. Fui sua segunda esposa. A primeira morreu de repente, sem lhe dar qualquer filho. Era um homem maravilhoso e eu estava perdidamente apaixonada por ele. Vivíamos em sua propriedade e eu exercia a medicina nas aldeias ao redor. Fiquei grávida no primeiro ano e tivemos uma filha. Esperávamos por um filho, para herdar o título, mas tal não aconteceu. Éramos ambos jovens, haveria outros filhos... Só que a realidade foi diferente. Quando nossa filha estava se aproximando do quarto aniversário, meu marido contraiu câncer. A invasão foi rápida. Não demorou muito para que houvesse uma metástase por toda parte. Ambos sabíamos que não havia qualquer esperança. O único desejo dele era morrer em casa, comigo. E meu único desejo era fazer com que sua morte fosse a mais fácil possível. Contratei uma enfer­meira, mas assumi pessoalmente os cuidados médicos... Como um médico, vai compreender meu tratamento.

  • Ainda não me disse qual foi.

  • Doses cada vez maiores de sedativos, a fim de manter a dor sob controle.

  • O que também deprime os sistemas cardiovascular e respiratório, acarretando a morte prematura.

  • Isso mesmo.

  • E seu marido morreu serenamente?

  • Uma morte tão serena e rápida quanto possível, sem despertar suspeitas e indagações... Mas houve semanas longas e terrí­veis... e quando a devastação e os sintomas se tornaram assustado­res, tive de manter minha filha longe do quarto em que o pai agoni­zava. Foi nessa ocasião que o problema começou.

  • Que problema?

  • Depois de algum tempo, notei que ela parecia estar sentindo medo de mim. Tentei várias vezes descobrir o motivo. Foi a enfermeira quem finalmente me explicou tudo. Ela podia ouvir o pai gemendo e chorando. E me via saindo do quarto com os ins­trumentos a serem esterilizados e panos ensangüentados para serem queimados. E passou a ter a idéia obsessiva de que eu era alguma espécie de feiticeira tentando matar seu pai.

  • O que, de certa forma, você era mesmo.

  • Certo... Mas a criança não tinha qualquer meio de saber exatamente o que acontecia.

  • As crianças não precisam saber das coisas. Absorvem tudo, como esponjas. Tentou alguma vez explicar as coisas à sua filha? Não o tratamento, mas os problemas da doença do pai?

  • Muitas vezes, mas parecia que eu nunca seria capaz de fazê-la entender. E ela foi se retraindo cada vez mais... O mais terrível é que me descobri a ficar ressentida com minha filha. Ela era uma constante acusadora. Ao final de um dia longo e amargo, com um homem agonizante, eu achava a presença dela insuportá­vel. Houve momentos, momentos assustadores, em que quase tive vontade de matá-la... E sabia também que era perfeitamente capaz de fazê-lo. Assim, finalmente, conversei com a irmã de meu ma­rido, que tinha uma família grande. Ela se ofereceu para ficar com a menina, até que tudo acabasse.

  • E o que aconteceu?

  • Ela era muito feliz... a não ser quando eu ia visitá-la. Havia então cenas histéricas terríveis. Mesmo depois da morte de meu marido, não houve o menor jeito de persuadi-la a voltar para ca­sa. Por isso, parecia mais certo deixá-la como integrante de uma família grande e feliz.

  • Alguma vez se arrependeu dessa decisão?

    Pela primeira vez, estou confrontada com uma pergunta sobre a qual preciso pensar antes de responder. Não me sinto tentada a mentir a respeito. O problema é simples: no passado, sempre me recusei a enfrentar essa indagação. Mas, finalmente, consigo con­verter em palavras o que sinto:

       Arrependida? Não acho que foi a melhor solução para nós duas. Sou uma mulher muito apaixonada, mas não creio que possua qualquer talento real para a maternidade.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Mal temos 20 minutos de sessão e já estou profundamente per­turbado pelo que tenho ouvido. O mais impressionante... não, a coisa mais assustadora nesta mulher é a sua total lucidez, sua per­cepção plenamente racional do que ela é e da história que está me revelando. Não me deixo enganar por suas respostas a respeito do sonho, que é a projeção mais clara possível de uma enorme culpa sobre algum problema que ainda está para ser revelado.

Ela é tão positiva em relação ao sexo da raposa morta quanto eu era sobre o sexo do garanhão no meu sonho de caos. A bola de vidro é obviamente um útero, além de uma prisão. Ela desperta em posição fetal, despreparada para enfrentar um amanhecer hostil. Não lhe ocorreu ou está escondendo o seu conhecimento de que os bebês nascem quase sem cabelos. Falou também muito sumaria­mente sobre a mãe que a abandonou e sobre a própria filha, que por sua vez abandonou.

Ela descreve a si mesma como muito arrebatada. Estou consciente de que se trata de uma personalidade bastante explosiva, capaz num momento de um autocontrole excepcional e no instante seguinte de uma devastadora explosão de energia. E como um bas­tão de dinamite, inerte e aparentemente inofensivo na mão, mas capaz de demolir um prédio inteiro. Em meu próprio estado instá­vel, sinto-me ameaçado por ela. Mas essa ameaça é ambivalente. Por um lado, há uma intensa atração sexual. Por outro, sinto uma hostilidade latente, tão forte quanto a dos arquétipos invisíveis no jardim. Os desejos de morte dela correspondem, de uma maneira sinistra, aos meus. Ela admite ter apressado a morte do marido, embora por motivos de compaixão. Quase que certamente há ou­tros relacionamentos de amor-ódio ocultos por trás dos símbolos do sonho.

Por isso, não quero prolongar esta análise por um momento a mais do que o necessário. Tendo começado, não posso, eticamente, encerrá-la de uma forma brutal e perigosa. Devo pelo menos encaminhá-la para tratamento com outra pessoa. Para isso, preciso saber até que ponto sua lucidez se estende, com que pres­teza sua razão nos levará à raiz do problema. Para atenuar a tensão que já se acumulou, sugiro um pequeno passeio pela beira do Iago, enquanto continuamos a conversa.

Na saída, temos de passar pela cozinha. Minha paciente sai na frente para o jardim, enquanto eu me retardo para pedir a Emma que mande um café para o gabinete. Já estou com a mão na maça­neta da porta quando ouço as vozes de Emma e Toni alteadas em raiva. Fico imóvel e ouço a discussão sem qualquer constrangi­mento. É Emma quem parece estar no controle da discussão.

  • Será que não compreende que estamos com um homem muito doente nas mãos?

  • Claro que compreendo. Passo mais tempo com ele do que você... oito horas por dia no gabinete, às vezes mais.

  • Se ele ficar pior, acho que poderá agüentá-lo?

  • Por que pergunta a mim? Você é a esposa.

  • E você é a amante!

  • Eu o amo.

       Eu também o amo. Assim, devemos pelo menos tentar ser francas uma com a outra. Você não é a primeira rival que já tive. E provavelmente não será a última.

  • Não seja condescendente comigo!

  • Estou lhe pedindo para me ajudar.

  • Santo Deus, você é uma mulher extraordinária!

  • Estou com quatro filhos e esperando o quinto. Os acessos de raiva de Carl aterrorizam a todos nós. Os pequenos não com­preendem o problema do pai. E ele é cego para os problemas dos filhos. Tenho de protegê-los e manter a família unida, enquanto puder. Não posso brigar com você. Não tenho certeza se quero. Percebo que Carl a está manipulando, como faz com todas as pes­soas. Tudo o que peço é que se divirtam fora daqui... nunca na minha casa! Está certo?

  • Por que o atura?

  • E você?

  • Eu o amo.

  • Eu também... E esse é o único motivo pelo qual eu a aturo, minha cara.

  • A situação não pode continuar assim.

  • Mas vai continuar, enquanto ele quiser.

    Já ouvi o bastante. Sinto-me envergonhado e triste... e bastante tolo para encontrar algum conforto no fato de duas mulheres me amarem tanto que são capazes de brigar por mim. Seja como for, este não é o momento apropriado para pedir café. Afasto-me furtivamente e vou me encontrar com a paciente, junto à casa do barco. Ela está examinando a cidade de brinquedo que estou cons­truindo com as pedras recolhidas à beira do lago. Aproveito isso como um pretexto para o que tenho de dizer a ela:

       Comecei como uma terapia. Como a maioria das pessoas na meia-idade, estou passando por uma crise psíquica. Passei a fazer análise com Miss Wolff, a quem conheceu. Toda e qualquer análise implica uma viagem para trás, em busca de todas as placas de avisos por que passamos... Isto é um modelo da aldeia em que nasci. O homem que está vendo à sua frente foi moldado aqui, não apenas pelos pais, por tudo e por todos ao seu redor, mas também por todos que passaram por lá antes: os homens que construíram a igreja, os pedreiros que cortaram as pedras, as mulheres que prepa­raram o pão e prescreveram os medicamentos populares para as doenças das pessoas. Todos nós refletimos um passado que já es­quecemos, mas que está enterrado fundo em nosso subconsciente.

Nossos sonhos recordam essa herança longa e antiga... Está vendo aquela rua ali, a que desce da igreja?

  • Estou, sim. O que há com ela?

  • Um dia vi o diabo passando por aquela rua.

    Ela ri. A risada parece franca e inocente.

  • Está brincando, não é mesmo?

  • Não. Estou falando sério. O que vi foi um padre católico, de batina preta e um chapéu preto de aba larga que parecia um par de chifres. Para a minha mente suíça e luterana, no entanto, ele era o diabo. Muitos anos se passaram antes que eu conseguisse entrar numa igreja católica sem experimentar um calafrio de ter­ror...

  • Que coisa mais estranha!

  • Não é tão estranho assim. A mesma coisa aconteceu com sua filha pequena, quando começou a identificá-la como uma feiti­ceira... Ainda me debato com a memória de minha própria mãe, que era na maior parte do tempo uma camponesa afetuosa, simples e tagarela, mas que tinha também um estranho lado cigano que costumava me apavorar.

    Ela se abaixa e pega uma pedra alongada, colocando-a como um lintel sobre a entrada de um chalé inacabado. E me diz, em voz baixa e serena:

  • Sei o que está tentando me dizer. Ajuda saber que outras pessoas têm problemas que não são muito diferentes dos meus. Mas deve compreender que tenho levado uma vida muito estranha... e conheci alguns personagens bastante insólitos. Acho extrema­mente difícil confiar nas pessoas... mesmo em nossa profissão mé­dica. Na semana passada, em Paris, meus próprios banqueiros, os homens que administram os meus bens, tentaram me forçar a uma situação comprometedora com um homem muito rico, a quem queriam como cliente.

  • E você acha que sou capaz de fazer alguma coisa assim?

  • Todos somos capazes disso, Dr. Jung. Mas todos mesmo.

  • O que aceitaria como prova de que pode confiar em mim?

  • O que pode oferecer?

Ela fala isso bruscamente, como uma camponesa barganhando num mercado. Mas sinto que está falando sério. Reflito por um momento. Pergunto a mim mesmo por que tenho de negociar com ela. Trata-se de uma mulher adulta, perfeitamente sã. Por que eu deveria me arriscar para curá-la? Por uma vez, estou disposto a ser honesto: porque a desejo, porque quero que se torne minha deve­dora. Assim, proponho a barganha:

  • Se estiver disposta a me confiar os seus segredos, estarei disposto a lhe revelar duas informações a meu respeito, uma muito pessoal e a outra profissional. Qualquer uma das duas poderia me prejudicar consideravelmente, se fosse divulgada. Dessa maneira, cada um ficará obrigado pela segurança do outro. Ameaça igual, fidelidade igual. Parece uma barganha razoável.

  • E é mesmo. Mas por que está tão interessado? Eu não corta­ria meu dedo mínimo para persuadir um dos meus pacientes a fazer uma apendicectomia.

    Estou furioso agora pela manipulação dela e respondo bruscamente:

  • Talvez seja porque tenho uma visão diferente dos meus pacientes.

  • E como me encara, Doutor?

  • É justamente esse o problema, Frau Hirschefeld. Não é apenas você, mas todos nós. Não vivemos sozinhos, mas juntos. Dependemos uns dos outros. E estamos perdidos no momento em que esquecemos isso... como partículas ígneas arremessadas do sistema solar para serem abafadas e perdidas para sempre na escu­ridão do espaço exterior. Quando chegou à minha casa, não notou uma inscrição por cima da porta?

    Para grande surpresa minha, ela cita a frase, literalmente:

  • Vocatus atque non vocatus, deus aderít... Ela também traduz a frase no sentido original: Quer seja chamado ou não, o Deus estará presente... Gostaria de saber o que a frase lhe signi­fica, Doutor.

  • Significa o inverso do que você diz que acredita: que a vida humana é uma viagem inútil para lugar nenhum. Não sou mais um cristão ortodoxo. Não posso sequer atribuir um sentido à palavra Deus. Mas sei que estou tateando a caminho de uma verdade sobre quem Ele é e o que nós somos. Sei que apesar dos muitos erros que cometi na vida... e Deus sabe que foram abundantes... não posso abdicar da busca por um sentido. Você é uma pessoa que encontro na estrada dos peregrinos. Mesmo que apenas por isso, já é impor­tante para mim. Não posso passar por você indiferente e deixá-la morrer numa vala.

    Fico surpreso com a minha própria veemência. Fico ainda mais surpreso quando ela se inclina, pega a minha mão como uma criança e diz suavemente:

       Desculpe. Acredito no que está me dizendo. Juro que quero confiar em você. E aceito sua barganha.

    Aponto de novo para a aldeia, para o próprio chalé em que ela acabou de colocar uma pedra. E digo:

       Aqui está o primeiro fato, a quem só contei a uma única pessoa, em toda a minha vida. Aquele chalé era a casa de um ho­mem, um amigo da família, que tinha o meu amor e confiança, na infância. E um dia ele me violentou. Foi uma experiência que in­feccionou minha mente por um longo tempo e afetou muitos rela­cionamentos em minha vida adulta.

    Ela abre a boca para falar, mas trato de silenciá-la prontamente.

  • Não diga nada, por favor. Não quero discutir o assunto. O segundo fato é que em algum lugar deste país há uma mulher vi­vendo em liberdade, embora eu saiba positivamente que se trata de uma assassina. Ela esteve internada no Burgholzli para tratamento de uma doença depressiva aguda. O prognóstico era negativo. De­pois de muito esforço, consegui identificar a causa da doença. Em profunda aflição por causa de um casamento inadequado, ela as­sassinara um dos filhos. O fato de poder partilhar o conhecimento levou-a por um longo percurso na direção da cura total. Alterei os registros, suprimi os indícios incriminadores e dei-lhe alta. Minha assinatura está no documento. Assim, tecnicamente, sou culpado de um ato criminoso. Não quero também discutir os detalhes... Já tem agora a sua garantia. Está disposta a confiar em mim?

  • Antes, tem de explicar o que quer de mim.

    Fico assustado. Já estou comprometido, mas ela ainda tenta recusar qualquer contrato. Seguro-a rudemente pelos braços e obrigo-a a me fitar.

       Está bem, vou lhe dizer! Deve me pegar pela mão e levar para o deserto dos seus sonhos, para aquela bola de vidro, em que você está enroscada, de cabeça raspada, não como uma freira, mas como uma criminosa, com todas as suas partes íntimas à mostra... Tem de me mostrar o que o olho vermelho do sol vê, o que sua filha viu e fugiu por causa disso. Quero conhecer o segredo que a trouxe até minha casa e está agora compelindo-a mais uma vez a se destruir.

Ela se desvencilha bruscamente e recua. É um ato de rejeição amarga. Ela sacode a cabeça vigorosamente, de um lado para ou­tro. E as palavras saem com extrema violência:

—   Não! Não! Não! Ainda é uma barganha péssima. Estou furioso agora e não controlo as palavras:

—   De que você tem medo, mulher? De histórias indecentes? Conheço tudo o que há para conhecer. Conheço homens e mulhe­res que comem merda para alcançarem o orgasmo. Assassinato? Também sei disso. Fui atacado por uma paciente com um facão de cozinha. De que mais você não pode falar? Estupro? Mutilação? Incesto? Sua vida está em jogo. Madame! Não permita que umas poucas palavras rudes se interponham no caminho para salvá-la!

A reação dela é estranha. Ao invés de ficar chocada, como eu esperava, sendo levada à submissão ou histeria, ela adquire subi­tamente uma calma gelada. Seu tom é quase de compaixão por minha estupidez quando diz:

Ainda não compreende, não é mesmo. Doutor?

—   Não compreendo o quê?

—   Não é das perguntas que tenho medo, mas da resposta que você pode me dar ao final. Se essa resposta for a errada, estarei liquidada.

Ela remexe na bolsa e tira um pequeno vidro azul, lacrado com cera vermelha. Estende para mim. Tenho de dar um passo à frente para pegá-lo. O rótulo é de uma farmácia em Paris. A inscrição é cuidadosa: "Ácido Prússico, Veneno, Não Pode Ser Tomado." A mulher me observa enquanto leio. Está esperando alguma reação violenta da minha parte. Não sabe que já representei esta cena an­tes. Também não sabe que não me oponho ao suicídio, quando a vida se torna intolerável. Dou de ombros e lhe devolvo o vidro.

  • Não é o que eu escolheria para acabar com a minha vida. De qualquer forma, a vida é sua, Madame. Não tente usar isso para fazer chantagem comigo.

  • Ainda não está entendendo. Não quero fazer chantagem com você. Estou apenas enunciando um fato. Você é quem está carregando a pistola. E eu estou jogando a roleta russa. Se você me falhar, estou fora do jogo. E faço uma saída dolorosa, rápida e final... Tudo o que você perde, meu caro Doutor, é uma paciente que não queria mesmo, desde o início.

— Não é verdade, Madame. Eu lhe ofereci a única garantia que tenho: o restante da minha reputação já bastante abalada. Quanto à cura, você sabe perfeitamente que não há qualquer garan­tia. Seu pai era um cirurgião. Nunca sabia o que ia descobrir quando abria algum pobre coitado na mesa de operação. É matar ou curar para todos nós. Uma péssima barganha? Tem razão. Mas é a única que nos é oferecida... a todos nós! Se não gosta, sinto muito. Feche as cortinas e se lance ao sonho eterno.

Viro-me bruscamente e a deixo ali. Não olho para trás. Ela pode me seguir ou não, conforme preferir. Aproximo-me da cozi­nha na ponta dos pés e paro para escutar novamente. A discussão já acabou. Minhas duas mulheres parecem empenhadas numa con­versa pacífica sobre a melhor maneira de fazer uma torta de maçã. Estico a cabeça para dentro da cozinha e pergunto humildemente se o café pode ser servido no gabinete.

 

MAGDA

Zurique

Estou fascinada por esse homem. Sinto a sua fraqueza. É ob­viamente um mulherengo e sua sensualidade é tão transparente quanto a de um jovem camponês. Possui uma língua rude e um temperamento explosivo. Acho que ele revidaria na mesma moeda, se alguém, homem ou mulher, o pressionasse demais. Eu o estava espicaçando, deliberadamente, porque o gerente do Baur Au Lac insinuara que fora apenas a perspectiva de honorários polpudos que o levara a me receber.

Ele provavelmente é venal. A medicina é uma profissão que lida com uma magia dispendiosa. Esta medicina da mente é uma novidade ainda mais dispendiosa. Mas não tenho a menor dúvida sobre a sinceridade desse homem. Quando ele falou sobre a busca e a estrada dos peregrinos, não era uma simples retórica. Estava falando a sério. Ele se importa... e está furioso porque pensa que estou tentando trapacear em nosso acordo.

O que fazer agora? Continuo no jogo ou pego o meu chapéu e sombrinha e volto para casa? Jung não vai ceder. Ou conto a minha história ou ele me mostrará a porta. Conclusão? Engulo o orgulho, ponho outra pedra na aldeia de brinquedo, sigo o mestre de volta a seu gabinete e estendo as mãos para os torniquetes.

   Sendo assim... — anuncia ele, enquanto mergulha um biscoito no café — vamos voltar às coisas que a perturbam, as coisas que a levaram a procurar ajuda. Em primeiro lugar, há o pesadelo recorrente. Voltaremos a isso depois. Quais são os outros proble­mas?

Dou o mergulho... não o grande, do trampolim mais alto, mas sim o menor, no lado raso da piscina.

  • Tenho problemas em minha propriedade, uma espécie de revolta dos camponeses. Minha gente pensa que sou uma feiticeira. O responsável pelo haras diz que devo ficar ausente por um longo período, caso contrário todos os empregados irão embora. E se eu tentar contratar estranhos para cuidar da propriedade, eles queima­rão tudo.

  • O responsável pelo haras está dizendo a verdade?

  • Está.

  • Por que sua gente pensa que você é uma feiticeira?

    Falo sobre o cavalo, o cachorro e as roseiras. Ele me espeta a ponta do lápis e diz bruscamente:

  • Conte-me o resto.

  • Como assim?

  • Por favor, não vamos começar com jogos. Por que passou com o garanhão perto das éguas?

  • Acho que foi por curiosidade.

  • Acho coisa nenhuma! Você cria animais. O que havia para deixá-la curiosa? Sabe o que acontece quando um garanhão sente o cheiro das éguas. Você própria estava no cio?

  • Não seja vulgar, Doutor!

  • Então não minta para mim! Em que período do mês era para você?

  • Está bem. Eu também estava no cio.

       E sabia que montar o garanhão a levaria ao orgasmo? Sim ou não?

       Deus do céu, mas que mente obscena!

       Está ficando cada vez mais obscena. Já tinha acontecido antes, não é mesmo?

       Já, sim.

  • E sempre havia crueldade. Tinha de machucar alguém, quebrar alguma coisa.

  • Não... nem sempre. No passado, acontecia apenas raramente. Agora, no entanto, está acontecendo com uma freqüência cada vez maior... e tenho medo. Houve uma época em que jamais acontecia. Tem de acreditar nisso.

  • Claro que acredito, só que isso não encerra o assunto. Voltaremos a isso mais tarde.

    Ele está gentil agora. É como eu. Quando as pessoas se subme­tem, fica calmo e simpático. Toma umas poucas anotações e depois acrescenta:

       Fale-me a respeito dessa época distante em que essas coisas desagradáveis jamais aconteciam.

    Ele mergulha outro biscoito no café. Rio e lhe digo que Lily costumava fazer a mesma coisa. Ele pergunta se Lily fazia parte dos "bons tempos".

       Claro que sim. Ela era a parte maior e a melhor... depois de papai. É engraçado... Uma das minhas recordações mais antigas é de Lily me balançando nos joelhos e entoando uma cantiga infan­til:

 

Vá de cavalo de balanço a Banbury Cross

Para ver a linda dama num cavalo branco...

 

Eu ficava excitada e trêmula de prazer com o movimento, o cheiro do perfume dela, o farfalhar das roupas contra sua pele. É estranho como coisas assim ficam com a gente e continuam a nos excitar.

Fico imaginando se ele sabe que estou excitada agora... e se sabe, por que não apresenta alguma reação. Parece um garanhão bastante vigoroso. Eu lhe pergunto:

   Você tem memórias sexuais?

  • Todo mundo tem. Neste momento, porém, estou interessado na sua. Fale-me mais a seu respeito e de Lily.

  • Quando fomos viver em Silbersee...

    A palavra escapa antes que eu compreenda que ofereci outra pista para a minha identidade. Torcendo para que ele não tenha percebido, sigo adiante, apressadamente:

       Tínhamos uma pequena criação de cavalos... animais de aluguel e de carga para os caçadores e fazendeiros locais. Papai insistiu que tanto Lily como eu aprendêssemos a montar. Depois que adquirimos confiança suficiente, saíamos com papai para visi­tar outras propriedades. Se papai não estava em casa, Lily e eu fazíamos as visitas juntas.

    A pergunta seguinte dele me pega completamente desprevenida:

  • Seu pai falou alguma vez a respeito de sua mãe?

  • Nunca. E só lhe perguntei uma vez. Ele me olhou da maneira mais estranha e disse: "Sinta-se contente por ela ter ido em­bora. Nunca me amou. Nunca amou você. Era a Rainha da Neve, que tinha um bloco de gelo no lugar do coração. Mas não precisamos dela, não é mesmo? Sou o seu príncipe, você é minha princesa e Lily cuidará de nós dois para todo o sempre, amém. E agora prometa que nunca mais falará sobre a Rainha da Neve. Nunca, nunca, nunca mais!" Como era inevitável, prometi.

  • E nunca pensava nela?

  • Pensava às vezes. Lembro de uma ocasião em que vi um desenho da Rainha da Neve num livro de contos de fadas. Fiquei surpresa por descobrir que ela era tão bonita. E me senti tentada a mostrar a ilustração a papai..., mas Lily disse que eu não deveria fazer isso. Só serviria para deixá-lo furioso. Fiquei com medo de que, se ele ficasse zangado demais, poderia ir embora e nunca mais voltar. Ele passava tanto tempo ausente que esse era um medo bastante real para mim.

    Sinto-me de repente um tanto inibida. Estou falando sozinha. E digo isso a Jung. Ele ri e me acena para continuar:

       É a melhor coisa que pode acontecer. Fale-me mais a respeito de sua vida... onde foi mesmo?... Silbersee.

    Começo, hesitante a princípio, depois com um entusiasmo crescente, relatando minha infância no Schloss, Lily e eu vivendo a nossa existência encantada, enquanto papai vinha e ia, como algum bravo cavaleiro andante dos tempos áureos. Falo das estadas de papai e das intimidades sensuais felizes que partilhávamos. E des­cubro surpresa que estou feliz por partilhar as recordações com meu novo amigo, o Dr. Jung.

       Uma manhã, quando eu era bem pequena, entrei no quarto de papai e encontrei-o a fazer amor com Lily. Ela estava montada em cima dele, como um jóquei. Ao me ver, papai riu e me chamou, fez-me participar da diversão. Sentei no peito dele. Lily passou os braços em torno de mim e começou a cantar Vá num cavalo de balanço, enquanto nós três balançávamos e ríamos, como se fosse uma simples brincadeira... Isso o choca, Doutor?

  • Não. Deveria chocar?

  • Algumas pessoas podem achar estranho.

  • Você achou estranho?

   Não. Era puro prazer. E foi ficando cada vez melhor, à medida que eu crescia. Tinha o melhor de dois mundos... a vida numa grande propriedade, a semeadura e a colheita, o acasala­mento e a criação dos animais, as horas aconchegantes e maravi­lhosas em nosso paraíso particular no Schloss. Lily e papai prepararam-me para a puberdade. Lily ensinou-me as coisas de moça. Papai mostrou-me seus livros médicos, ensinou-me como os bebês são concebidos e nascem, como as mulheres devem conduzir suas vidas sexuais. Eu o adorava. Faria qualquer coisa para agradá-lo. Queria ser como ele tanto quanto possível. Foi por isso que tomei a decisão de me tornar uma médica.

   Qual era o nome de seu pai?

   Não, Doutor, não me pergunte isso. Não é justo. Ele me sorri, maliciosamente.

  • Um pequeno teste. Por que o seu nome é tão importante? Está me dizendo coisas muito mais íntimas.

  • Porque dessa maneira posso contar tudo como um conto de fadas. Se não tenho um nome, as histórias não me pertencem, não é mesmo?

  • Já entendi. Por favor, relate-me outros contos de fadas.

  • Fui uma garota terrível quando tive de ir para a escola interna, a fim de aprender a ser uma jovem dama de classe. O mais difícil foi me manter discreta em relação às coisas que aprendera com Lily e papai. Sentia-me muito mais velha e mais sábia que todas as garotinhas tolas que viviam soltando risadinhas no dormi­tório, depois que as luzes apagavam. E, às vezes, eu também me sentia solitária.

  • Mas, obviamente, acabou se acomodando, não é mesmo?

  • Claro. Aprendi como tirar proveito do meu conhecimento secreto. Tornei-me uma líder, não uma seguidora. Comecei a fazer contatos fora da escola. A maneira pela qual consegui tudo isso foi me matriculando nos chamados "cursos opcionais". Eram dados por professores particulares, em suas próprias casas ou estúdios. Assim que me tornei uma sênior, por exemplo, persuadi papai a me deixar entrar num curso de equitação avançado, perto da escola. A academia era dirigida por um antigo capitão de cavalaria e seus dois filhos. Um deles era um tanto bronco, mas o outro, Rudi, era muito bonito. Na sela, ele parecia um príncipe. Ele sabia disso e eu vivia provocando-o por causa de sua arrogância. Sabia que ele me queria, porque cada vez que conversávamos podia perceber sua erecção se comprimindo contra o culote... Um dia ele me desafiou a montar um grande garanhão preto que a academia acabara de comprar para reprodutor. Era um lindo animal, mas de maus bofes, um animal arisco e manhoso. Mal me acomodei na sela quando ele começou a corcovear e empinar, tentando todos os recursos para se livrar de mim. Continuei me agarrando na sela, determinada a levar a melhor, mesmo que morresse na tentativa. Açoitava e esporeava o cavalo, levando-o em voltas intermináveis, a galope, até o momento em que compreendi que o dominara. Meu excitamento foi tão grande que cheguei ao orgasmo... uma violenta explosão de prazer, que me deixa excitada cada vez que a lembro. Mesmo agora, meu caro Doutor.

    Ele não morde a isca. Seus olhos estão fixados no caderno de anotações. Ainda escrevendo, ele pergunta:

  • E o que aconteceu depois?

  • Continuei a montar o garanhão preto até que ele ficasse completamente quieto e imóvel, depois desmontei e joguei as ré­deas para Rudi. Estava encharcada e cheirando a sexo. Rudi ficou me olhando e disse: "Puxa, como eu gostaria que você me mon­tasse assim!" Soltei uma risada e disse: "Por que não?" Subimos para o celeiro de feno e fizemos amor... Só que, depois do gara­nhão, Rudi foi um grande desapontamento. Não tinha a capacidade de permanência.

    Faço o comentário como um gracejo. Ele não reage. Escreve outra anotação e formula outra pergunta:

  • Quantos anos você tinha quando isso aconteceu?

  • Acho que 17 anos... talvez um pouco mais.

  • Mas é evidente que não foi a sua primeira experiência sexual.

  • Claro que não. Já tinha feito todas as experiências habituais... não, essa é a palavra errada, pois não eram experiências. Aprendera como me excitar até o orgasmo. Tinha uma relação lés­bica bastante feliz com uma moça na escola... e vários episódios com estudantes de Genebra. Nenhum deles foi importante. Eu sabia mais do que eles. A maioria era ansiosa demais ou muito inexperiente. Papai costumava dizer que um bom amante precisa de tanto treinamento quanto um atleta.

       Seu pai era um bom amante?

       O melhor! O melhor mesmo! Ele era tudo que uma mulher...

    Paro de falar abruptamente, horrorizada com o que acabei de revelar. Sinto o rubor se espalhar como uma onda impetuosa pelo peito e rosto. Não sou capaz de enfrentar os olhos de Jung. En­terro o rosto nas mãos. E um momento depois ouço-o falar, como se fosse de muito longe:

       Chore o quanto quiser. Vou lhe servir um conhaque.

    Ao passar, ele põe a mão em minha cabeça, como se estivesse concedendo uma bênção. Sinto-me absurdamente agradecida pelo gesto. Pelo menos prova que não sou uma leprosa.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Confesso uma singular satisfação. A narrativa da mulher, tão vívida e às vezes tão alegre, sobre sua infância e as relações com o pai, convence-me de que estou certo e Freud está totalmente er­rado em relação ao tabu do incesto. Posso dizer, sem vaidade, que tenho muito mais experiência do que ele no assunto.

Freud é um homem citadino, nascido e criado na cidade. Sou um homem do campo. Na Suíça, há muitas pequenas comunidades das montanhas em que as relações incestuosas, em diversos graus de consagüinidade, são bastante comuns. As mais comuns são entre pai e filha, numa família grande, entre irmão e irmã, entre primos. A menos que haja violência envolvida ou uma destruição total do vínculo entre marido e mulher, as relações incestuosas são freqüen­temente duráveis e felizes. Não acarretam muita hostilidade na pe­quena comunidade fechada, que as aceita como a margem ligeiramente anormal dos costumes locais.

Há, no entanto, questões mais profundas envolvidas... e é nessas que tenho divergido de Freud e seus lacaios. O incesto sempre teve um aspecto mítico e sagrado. Os reis do Antigo Egito casavam com as irmãs. Muitos dos mitos de regeneração são incestuosos em sua natureza.

A narrativa desta mulher possui todas estas características. Ela vive num mundo fechado... um paraíso de prazeres infantis. O pai dela é um príncipe; ela é uma princesa. Como um amante, ele sem­pre foi o melhor! Até a mãe perdida é uma linda rainha do gelo. Lily, a mãe substituta, é ao mesmo tempo a criada, a dama de companhia e a confidente da corte. É somente mais tarde, quando a realidade invade esse Éden, que o relacionamento triplo inevita­velmente se deteriorará. Se posso acreditar na história que me está sendo contada, a mesma atitude mítica prevalece com o pai. Ele nunca leva mulheres para casa. Nenhuma pessoa de fora invade os aposentos superiores. O jardim encantado permanece inviolável. O encanto será rompido se o portão for aberto e estranhos do mundo exterior tiverem acesso.

É esse o momento em que o problema começa... e ainda estamos muito longe da definição de que problema pode ser. As narra­tivas da infância e adolescência são claras, vívidas e coerentes. As outras, com exceção do sonho, ainda são meros esboços. Quer acabar com elas o mais depressa possível. "...Sim, fui cruel com o garanhão e o cachorro... Sim, fiquei sexualmente excitada com a experiência... Eu amava meu marido. Senti muito quando ele mor­reu... Minha filha pensava que eu era uma feiticeira. Perdi-a... Triste, triste, triste!... E se você não me salvar, não me recompen­sar com paz e justificativa depois de toda aflição por que estou passando, vou me matar com ácido prússico..." Ela é médica. Sabe que há meios mais fáceis, se não mais rápidos, de morrer do que envenenamento por cianureto. Mas o pequeno vidro azul com o rótulo de veneno é uma ameaça dramática a mim.

Também conheço essa pequena peça teatral. Lembro da moça no Burgholzli... também um caso de incesto, só que não houvera violação... que se refugiara num mundo de mito e fantasia totais. Ela vivia na lua. Encontrava um demônio alado, que se transfor­mava num belo homem. Todas as transformações mágicas de feiúra em beleza! Ela foi finalmente curada e devolvida a uma vida nor­mal. No dia em que assinei o seu certificado de alta do tratamento, ela me presenteou com uma pistola carregada. E explicou que, se eu lhe falhasse, iria me balear... Pois esta não pode me alvejar com um vidro de ácido prússico. Pode, no entanto, encenar uma cena de suicídio em minha porta. Espero que ela seja suficientemente racional para não fazer isso, mas nunca se pode saber com certeza.

Enquanto tomamos o conhaque... estou interessado em ver como ela reage a uma dose relativamente grande de álcool... em­penho-me em mostrar-lhe que a experiência de incesto é mais comum do que se imagina e que não deve sentir-se humilhada por isso. A reação dela é de genuína surpresa.

  • Humilhada? Por quê? Nunca...! Será que não entende que eu estava preparada para isso? Meu pai foi o único homem que podia dar sentido a um universo bizarro. Nada o chocava. Nada era imperdoável, exceto a hipocrisia.

  • Mas ele nunca perdoou a deserção de sua mãe.

  • Isso é verdade...

  • E você tinha de cuidar para nunca incorrer no desprazer dele... caso contrário também poderia ser expulsa do Éden para sempre.

  • Nunca pensei na coisa dessa maneira. — Ela não rejeita o pensamento. Examina-o, com um estranho ar de tristeza. — Mas é bem possível. Eu lhe disse que as idas e vindas de meu pai eram sempre irregulares. Mas se ele se ausentava por mais tempo do que eu esperava, sempre me sentia apreensiva, chorava. Costumava imaginar que alguma coisa lhe acontecera... que talvez alguma outra mulher-feiticeira o tivesse arrebatado de mim.

  • Ele costuma puni-la... ameaçá-la?

  • Nunca! — Ela é bastante enfática. — Era função de Lily me disciplinar. Papai apenas me desfrutava. E eu o desfrutava. En­quanto ele estivesse presente, meu mundo era um jardim do Éden. Tudo era possível. Nada era proibido. Eu era a Eva afortunada que tinha o domínio do lugar.

  • Vamos ser específicos agora. Quando seu pai teve pela pri­meira vez um intercurso completo com você?

  • No meu 16.° aniversário. Ele me disse que era o seu presente especial.

  • Fale-me a respeito... tudo o que puder se lembrar.

    A narrativa torna a fluir simples e livremente. O prazer dela na recordação é evidente. Está desapontada porque pareço não parti­lhá-lo. Igualmente vívida... e isso me parece muito significativo... é a descrição de sua ira e desapontamento por ser enviada de volta à escola depois desse ritual de passagem. Converto o problema para ela aos termos de nossa metáfora original:

  • Portanto, voltar para a escola foi como ser expulsa do Éden?

  • Isso mesmo, foi como me senti. Era uma planta de estufa, transplantada subitamente para um clima frio. Pela primeira vez, vi-me como uma coisa insólita. O que me ressentia era com o fato de não ter tido qualquer preparação para a experiência.

  • E como então agüentou?

  • Já lhe disse... assumi o controle da situação.

    Ela ri, pesarosa, toma um gole de conhaque. Larga o copo e tira um dos anéis. É um anel de sinete. A pedra é jade, com um emblema entalhado. Ela me diz:

  • Este é o brasão de papai. O emblema é um punho com uma cota de malha, empunhando uma clava. A divisa, muito difícil de ler, é Nemo me impune lacessit. Ninguém me provoca impunemente. Quando fiquei mais velha, papai costumava lembrá-lo de vez em quando. E me dizia: "Não precisa usar a clava. Na maioria das vezes, basta apenas brandi-la com um ar feroz e conseguirá o que quer."

  • Mas você fez às vezes mais do que brandir, não é mesmo?

  • Às vezes.

  • Maltratou garanhões. Espancou um cachorro até a morte. Cortou roseiras com um machado. O que fez com pessoas? — De­volvo o anel e espero, enquanto ela o põe no dedo. — Você está fora do paraíso agora. É inverno em seu mundo. E é evidente que se sente ameaçada. O que faz, por exemplo, com amantes que a irritaram?

    Obviamente, é um ponto sensível. O rosto dela fica sombrio. Ela estende a mão para o copo de conhaque. Estendo a mão e retiro o copo. Sorrio e digo para ela:

       Não precisa disso para responder a uma pergunta tão sim­ples.

    Ela retruca prontamente:

  • Não é uma pergunta simples. É uma porção de perguntas diferentes, todas misturadas.

  • Tem razão. Peço desculpas. Vamos ser bem simples. Já brutalizou animais. Alguma vez brutalizou pessoas?

  • Sim. — É um monossílabo brusco, relutante. Depois, ela acrescenta: — E se quer que eu lhe conte a respeito, então vou precisar desse conhaque.

    Torno a encher o copo e o devolvo. Pergunto, tão descontraidamente quanto posso:

       Tem alguma dependência do álcool? Não se zangue, por favor. É uma pergunta clínica e tenho certeza que compreenderá.

    Ela me concede um sorriso de lado e levanta o copo em sauda­ção antes de responder.

  • Pergunta clínica, resposta clínica. Gosto do álcool. Não sou dependente. Também não sou viciada em nicotina, ópio, morfina ou qualquer outra droga. Já experimentei todas. Aprendi a não confiar em nenhuma. E devo isso também a papai. Ele costumava dizer: "Experimente tudo. Mas não dependa de nada, a não ser de si mesma. O álcool destrói as células cerebrais, a sífilis faz o diabo com o organismo... e as drogas deprimentes não são boas para a sua vida sexual." A pergunta está respondida, Doutor?

  • Sobre esse assunto, está. E agora responda à primeira pergunta.

  • Seja brutalizei pessoas? Já, sim. E ainda o faço. Tenho essa reputação nos círculos que freqüento. E também desenvolvi um gosto intenso por isso. Tenho medo, muito medo, de algum dia ir longe demais e acabar com um cadáver em minha cama... Na maioria das vezes, mantenho um controle absoluto, como estou fa­zendo aqui com você. Às vezes, porém, fico completamente des­controlada e sinto uma vontade irresistível de brutalizar as pessoas.

Pergunta por que vim procurá-lo. Tive de deixar uma certa cidade européia por causa de um incidente sadomasoquista. O homem... um parceiro disposto, diga-se de passagem... ficou bastante ferido e ainda sofreu um ataque cardíaco. Tive de fugir às pressas. Fiquei bastante assustada... Foi como... como...

  • Como maltratar o garanhão e espancar o cachorro quase até a morte?

  • Isso mesmo.

  • E experimentou o orgasmo em cada caso.

  • É verdade.

  • Como se sente em relação a esses incidentes?

  • Sinto-me como uma aberração, porque são excessivos. Sinto-me ameaçada, porque posso ter a polícia à minha procura.

  • Faz esse tipo de coisa por dinheiro?

  • Não. Faço por diversão. Se alguém me pagar depois, muito bem.

  • São jogos muito perigosos.

  • Sei disso.

  • Sente-se culpada por causa deles?

  • Não. Gostaria de ser diferente... normal, se pode me entender. Mas culpada? Suponho que a verdade é que não sei o que a palavra significa. Não tenho certeza se alguma vez já experimentei um sentimento de culpa. Espere um instante. Sei o que quero di­zer, mas tenho de encontrar as palavras certas. É terrivelmente importante para mim. Posso dar uma volta pelo jardim durante al­guns minutos?... Não, você não deve ir junto comigo! Preciso ficar sozinha.

    Concordo e ela sai sozinha. Graças a Deus que ela ainda está lúcida, ainda está racional. Eis outra experiência que eu gostaria de comunicar a Freud e a alguns de seus colegas tão dogmáticos. Numa clínica como Burgholzli, lida-se sempre com baixas reais. Na prática particular, encontra-se muitos pacientes que são pes­soas de meia-idade, cujos suportes psíquicos... religião, vida fami­liar, realização na carreira ou, simplesmente o padrão de mitos por que viveram tanto tempo... desmoronam de repente. São como al­pinistas surpreendidos por uma nevasca no Jungfrau. Perderam inteiramente todo e qualquer senso de orientação. Procuram deses­peradamente por apoios para os pés e mãos. Aderem como molus­cos ao penhasco, do qual uma rajada súbita pode arrancá-los, ar­remessando-os para o vazio. Rezam para que o guia apareça e os tire do paredão rochoso e gelado, antes de morrerem.

    Esta mulher é assim. Ela é tão sã quanto eu... provavelmente muito mais sã, segundo Emma e Toni. A sessão que estamos tendo agora não é análise. Estou simplesmente extraindo uma confissão. Ainda resta ver se será uma confissão completa. E só Deus sabe o que vai acontecer quando ela pedir por absolvição. Enquanto ela passeia pelo jardim, recuperando o controle, vasculho rapidamente sua bolsa. É uma precaução que adoto há anos com todas as mulhe­res que se tornam minhas pacientes. Algumas carregam pistolas, outras andam com facas, já deparei até com limas de unhas letais.

    Os únicos itens significativos são o pequeno vidro azul com ácido prússico e meia dúzia de cartões de visita, guardados num compartimento interno da bolsa. No canto superior esquerdo de cada cartão está gravado um brasão... um capacete de cavaleiro, por cima de um escudo, no qual aparece o emblema do punho numa cota de malha empunhando uma clava. A divisa é a mesma: "Nemo me impune lacessit." O nome gravado no cartão é "Magda Liliane Kardoss von Gamsfeld".

    Sei agora, embora nunca possa revelar, quem é minha cliente. Em húngaro, de que conheço alguma coisa, em decorrência de meus contatos com Ferenczi, Kardoss significa um punho. No dia­leto austríaco, a palavra "gams" significa um camurça. Em ale­mão, um "hirsch'" significa um veado. O pseudônimo dela se ba­seia numa simples troca de nomes, fácil de decifrar. E subconscien­temente ela está também espalhando pequenas pistas de sua identi­dade para que eu as siga: o brasão do pai, o nome da propriedade dele, Silbersee, o fato... ou será uma ficção?... de que a mãe era uma duquesa inglesa. Isso é animador. Ela quer que eu siga as pistas. Quer me levar à verdade. Mas, como diz Hamlet, os sonhos podem se converter em qualquer coisa. Eis o problema!

    Ponho tudo de volta na bolsa, pego numa prateleira um exem­plar do livro de Friedrick Greugers, Símbolos e Mitologia dos Povos Antigos. Acomodo-me para ler até que ela termine sua meditação e... queira Deus... esteja pronta para me contar por que gosta de ferir as pessoas e por que não tem qualquer conceito de culpa.

     

MAGDA

Zurique...

Passeio desta vez sob as árvores frutíferas, na frente do jardim. As macieiras e pereiras estão carregadas de frutos. Há uma fra­grância de rosas e madressilvas, um zumbido de abelhas, sono­lento, no ar parado. Minha cabeça está zumbindo como uma col­meia, com uma multidão de pensamentos para os quais não consigo encontrar palavras. Nunca estive antes submetida a essa espécie de inquisição e compreendo agora como é grande o passo de render sua intimidade a outra pessoa.

De certa forma, pelo menos para mim, a privacidade física já não tem mais muita importância. Mas desde que a infância termi­nou, com o meu virtual banimento para a Academia Internacional Para Moças, tenho resguardado minha vida interior, como um se­gredo inviolável. Tornou-se quase uma obsessão que somente eu deva conhecer toda a lógica dos meus atos. Na realidade, o su­cesso de minhas aventuras dependia do sigilo. Agora, no entanto, esse Carl Jung está me dissecando como um cadáver na lousa e estou impotente para protestar.

Mal dei a primeira volta pelo gramado quando Emma Jung apa­rece, com um cesto, luvas e tesoura de poda, a fim de cortar rosas para a casa. Ela me cumprimenta afavelmente e pergunta:

  • Como está indo?

  • Não sei. Comecei de repente a me sentir confusa. E saí para recuperar o equilíbrio.

  • Isso é ótimo. A primeira sessão é sempre uma provação. Mas não deve deixar que Carl exija demais de você.

  • Até agora, ele tem sido muito atencioso... embora eu tenha a impressão de que o deixei furioso duas ou três vezes.

    Ela dá de ombros, num gesto de resignação.

       É o jeito dele. Terá de se acostumar. Bem que digo a ele que não é com todos os pacientes que dá certo. Também sou uma analista. Carl me treinou e troco correspondência com Freud. Tra­balho principalmente com mulheres. Mas desde que as crianças nasceram, porém, tenho sido mais a Hausfrau, a dona-de-casa.

    Sinto-me atraída para ela imediatamente. É uma mulher aberta, simpática, despretensiosa. Ofereço-me para segurar o cesto, en­quanto ela corta as flores. Ela parece contente por minha compa­nhia... Explico que já exerci a medicina e estou interessada em saber como funciona o processo analítico. E fico impressionada pela simplicidade de sua resposta:

       Para meus pacientes, comparo a formação de um caráter a tricotar uma roupa. Sabe o que acontece quando se comete um erro? Todo o padrão fica estragado. Há entáo uma opção: pode-se acabar a roupa, mas ficará sempre defeituosa e feia; ou se pode desfazer tudo até o primeiro erro e começar de novo. A análise é isso, basicamente. O trabalho é tedioso. O paciente se mostra as­sustado, às vezes se torna hostil. O analista precisa recorrer a todas as suas reservas de paciência, honestidade e coragem... Mas não se esqueça de que até agora só tratei de casos muito simples. Carl cuida de casos muito mais difíceis do que eu me atraveria a tentar. Adota às vezes uma atitude bastante firme. Digo a ele que é como cortar salsa com um cutelo de açougueiro. Ele ri desdenho­samente e responde que devo cuidar apenas de minhas próprias coisas.

    Emma Jung sorri, um sorriso pequeno e tolerante, de mulher para mulher, depois acrescenta:

       Um homem difícil de se conviver às vezes, mas brilhante e cheio de preocupação por seus pacientes. Posso perguntar quem a recomendou a ele?

    Ela conhece Giancarlo di Malvasia, sentou ao lado dele no almoço durante a conferência em Weimar, ficou encantada com sua elegância e espírito, não conseguiu arranhar o seu esnobismo flo­rentino. Rimos juntas. Ela corta um botão de rosa amarela e me entrega.

       Combina com seu vestido... que é muito bonito, diga-se de passagem. Tem muito bom gosto.

  • Obrigada.

  • Posso lhe oferecer um conselho?

  • Claro. Eu ficaria agradecida.

       Já constatei que há dois pontos de perigo em toda análise, especialmente para uma mulher. O primeiro é quando a transferên­cia ocorre.

    É uma palavra nova para mim. Pergunto o que significa e ela explica:

       É um processo, inconsciente a princípio, pelo qual a paciente se identifica tão intimamente com o analista que se torna completamente e às vezes também morbidamente dele. Há oca­siões em que o analista também cai na mesma armadilha. Ele se torna profundamente afeiçoado à paciente que é tão dependente como uma criança... É praticamente a mesma coisa que se apaixo­nar. Freud é bastante incisivo a esse respeito. Ele me disse uma vez: "A cura é efetuada pelo amor." O perigo seguinte ocorre quando a paciente é levada a compreender claramente o defeito ou o incidente que causou a neurose. É sempre um terrível choque, porque nunca é o que se espera. É quase como perder alguém a quem se ama. A pessoa sabe que acontece com as outras, mas nunca imagina que pode acontecer consigo mesma... E se tem de enfrentar a coisa sozinha. Não pode virar as costas ao guia que conduziu-a ao momento da revelação... Perdoe-me! Sei que é uma mulher forte e inteligente. Conseguirá superar todos os obstáculos. Estou apenas tentando prepará-la um pouco.

    Ela está também me advertindo: "Não pise na grama." Normalmente, fico irritada quando uma mulher faz isso comigo. É como um desafio para um duelo e me ponho imediatamente de guarda. Mas não desta vez, não com esta mulher. Acho que ela é sensata, gentil e bem-intencionada. É o que tento lhe dizer, mas ela recusa o cumprimento:

       Não precisa dizer nada. Estou falando isso apenas porque já vi muitas baixas nesta profissão. As pessoas são competentes e dedicadas, mas estão lidando com um material altamente inflamável: a psique humana. Nem todas sabem como manuseá-la. Em nosso grupo, já tivemos dois suicídios e diversos colapsos. O próprio Carl está sob grande tensão neste momento. E isso contagia todos em casa.

    É evidente que ela está esperando uma reação. Resolvo perguntar, gentilmente:

       O que está tentando me dizer, Frau Jung?

       No momento em que a vi, senti que era uma mulher excep­cional. Senti-me instantaneamente atraída por você. Em outras cir­cunstâncias, eu lhe pediria que se tornasse minha amiga. Agora, porém, devo simplesmente lhe dizer: tome cuidado! Tome cuidado consigo mesma, tome cuidado com o meu Carl. Receio que possam ser perigosos um para o outro...

    Ela tira o cesto do meu braço e me dá um empurrão gentil na direção da casa.

       E agora deve entrar. Está pagando cada minuto do tempo!

    Ainda estou com o botão de rosa. E fico pensando se não de­veria entrar com a rosa entre os dentes e estalando castanholas, como uma cigana. Jung está lendo. Fecha o livro e gesticula para que eu sente.

       Descansada e pronta novamente? Pois então vamos em frente! Estava me dizendo que não entendia o sentimento de culpa. Alguma vez já desapontou a si mesma?

  • Muitas vezes.

  • E o que faz quando isso acontece?

 

  • Empurro para o fundo da mente e continuo a viver. Às vezes, quando me lembro, censuro a mim mesma por ser uma tola.

  • Isso é sentimento de culpa, quer seja você, a vizinha ou o próprio Deus quem faz o julgamento pelo ato. Por que deu tanta importância a isso?

  • Porque ainda acho que há mais do que isso... e não entendo porque jamais senti. Está sendo condescendente comigo, Doutor. Não faça isso, por favor. Estou lhe pagando para me ajudar. — Tiro da bolsa o envelope cheio de francos e aceno para ele. — Aqui estão os seus honorários. Quer agora ou depois?

    Sei que é um insulto, mas acho que está na hora de revidar golpe por golpe. Ele é mal-humorado e combativo. Bate com a mão na mesa vigorosamente.

       Dinheiro não compra os meus serviços, Frau Hirschfeld.

   E me intimidar não conquista a minha confiança, Doutor. Ele me olha fixamente, em silêncio, por um longo momento,

depois ri, levanta-se, pega as minhas mãos e as leva a seus lábios. Não há qualquer sugestão de galanteria no gesto. É apenas simples e comovente.

  • Desculpe. São os truques do ofício. Passa-se por todo o repertório com uma paciente nova, procurando pelo caminho certo. Podemos começar de novo?

  • Claro. Sei que preciso de ajuda, mas também não sou uma idiota.

  • Poderia estar mais segura se fosse. Não costumam executar os idiotas por assassinato. E é isso o que pode lhe acontecer, se continuar com esses bizarros exercícios. Conte-me o que deixou-a tão assustada.

    Faço uma descrição sucinta do incidente com meu coronel na casa de Gräfin Bette. Ele não fica satisfeito. Quer mais.

       Preciso saber o que se passa em sua cabeça antes, durante e depois de um episódio assim. Não precisa se apressar. Tente voltar para trás e analisar a coisa de uma posição clínica.

    Não é fácil, mas acabo conseguindo fazer o que ele está me pedindo.

  • Em primeiro lugar, sempre acontece quando estou entediada, solitária, deprimida... quando me sinto mal-humorada co­migo mesma e com o mundo. Começo a fazer fantasias de atos sexuais. Todos eles... exceto os que são com mulheres... envolvem violência e sou a agressora. As fantasias se tornam obsessivas, até que preciso fazer de qualquer maneira o que estou sonhando. E por isso que uso os bordéis. Há uma porção de amadores ricos, como eu, que pagam pelas acomodações, mas não pelas parceiras ofereci­das. É claro que contrato um profissional, se não há amadores dis­poníveis. Quando o jogo começa, estou num estado de extrema excitação, intensificando-se rapidamente para o frenesi e se trans­formando abruptamente numa fúria cega. Nesse instante, sou capaz de até retalhar meu parceiro. Não o amo. Eu o odeio. Se ele é forte e briga comigo, lutamos até o orgasmo. Se é fraco e sub­misso, eu o espanco sem qualquer misericórdia, até chegar ao meu orgasmo. Até esse momento, estou completamente descontrolada. Depois, fico exausta, afetuosa, agradecida, a melhor das compa­nhias. Tomo um banho e visto as melhores roupas, saio para jantar fora.

  • Com seu parceiro?

  • Nunca. Este é um mundo fechado. Se nos encontramos fora dele, tratamo-nos como se fôssemos estranhos.

  • Ou como inimigos.

  • Talvez, às vezes. A chantagem não é uma coisa desconhecida.

    Ele permanece em silêncio por algum tempo, estudando-me por cima dos dedos entrelaçados. E depois envereda por um novo caminho:

  • Há uma coisa que me confunde em sua história.

  • O que é?

       Primeiro, você teve essa infância encantada, esse despertar mágico e bonito para a feminilidade. E depois há um hiato... que terá de preencher para mim... seus anos de solteira como estudante na universidade. Temos em seguida um casamento maravilhoso e tumultuadamente feliz, que termina, tristemente, com a morte prematura de seu marido e a alienação de sua única filha... É terrí­vel, mas por ocasião da morte de seu marido você estava com 30 anos, era rica e bonita. Eu seria capaz de apostar que não demora­ria a casar de novo. Estatística e psicologicamente, é esse o pa­drão... Em vez disso, você se lança numa vida sexual sórdida e promíscua, sadomasoquista em suas características e tão ignomi­niosa que atrai a atenção da polícia. Pode me explicar por quê? O que a levou a empreender essa viagem tão longa pelo pior lado da vida?

    Respondo que é uma história longa e complicada. Ele precisará ter muita paciência comigo. Jung me pergunta se pode fumar. Quando o cachimbo está aceso, ele o usa para gesticular para mim. E ordena, bruscamente:

       Continue! Continue! Está desperdiçando o meu tempo e o seu dinheiro!

    Fico furiosa.

       Não me fale assim! Está me retalhando como um açougueiro. Deixe-me pelo menos um pouco de dignidade.

    Ele sacode a cabeça num gesto de resignação cansada. É evidente que me considera uma idiota.

       Dignidade, Madame, é um manto fino num inverno sombrio. Por favor, continue!

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Creio que, finalmente, consegui lançá-la à parte crucial da his­tória, aquela que deve nos conduzir ao cemitério em que os corpos estão enterrados. Uso as palavras num sentido metafórico, mas tenho o pressentimento inquietante de que a metáfora está bem próxima do fato.

Não estou muito a par do áemi-monde. Quando eu era jovem, em Paris, minha pobreza, uma educação puritana e o medo de in­fecção me mantiveram relativamente casto. Nos anos melhores, consegui ter algumas diversões da monogamia. Mas nunca tive di­nheiro suficiente para me entregar às diversões ou perversões dos ricos... as quais, de qualquer forma, não são muito disponíveis em Zurique. Contudo, sei o bastante do mundo dourado para com­preender que protege muito bem sua intimidade e que Magda Li­liane Kardoss von Gamsfeld pode estar exagerando suas loucuras perigosas a fim de ocultar um problema muito mais grave.

Há uma outra possibilidade que não devo ignorar: que ela está sofrendo, como eu, de uma fragmentação da personalidade, de tal forma que parece que todas as bestas do subconsciente estão em liberdade para ameaçá-la. Neste caso, é bem possível que tudo o que estou ouvindo não passe de um elaborado conto da carochinha.

Ainda nem começamos a analisar o sonho dela. Estou esperando que as coisas que ela está prestes a me contar possam escla­recer alguns de seus significados. Quando ela começa a narrativa, percebo uma nítida mudança de estilo. Não está mais reconsti­tuindo as alegrias sensuais da infância e tentando me converter num parceiro substituto. Agora, é uma jovem adulta, partilhando seu prazer pela viagem e pela descoberta intelectual.

Papai deu-me Pádua como os príncipes antigos davam terri­tórios e domínios a seus filhos. Fez-me compreender que o pre­sente era precioso, uma parte de sua própria juventude. Estudara medicina em "Il Bo", quando Pádua ainda era uma cidade dos Habsburgos, onde a polícia austríaca patrulhava as vielas e os es­piões de Metternich se misturavam com os conspiradores do Ri-sorgimento, no Caffè Pedrocchi. Como papai era jovem e húngaro, não estava interessado em austríacos, tchecos, eslovacos ou croa­tas, dedicando toda a sua simpatia à causa italiana. Como estava constantemente apaixonado por mulheres italianas, casadas e soltei­ras, tornou-se um conspirador assíduo e experiente. Tinha um amplo estoque de histórias de fugas por um tris de maridos ciumentos e zelosos agentes do imperador... Chegamos, nós três, logo de­pois de Ferragosto, para arrumar um apartamento, resolver os de­talhes burocráticos para a permanência e formalizar meu ingresso na universidade. Papai alojou-nos no melhor hotel, contratou um cocheiro para nos servir todos os dias e pôs-se a mostrar minha nova herança: Veneza, Vicenza, as Colinas Euganéias, os esplendores da planície lombarda... e Pádua propriamente dita, a cidade de Santo Antonio, o Milagreiro, de Lívio e Petrarca, Boccaccio e Tasso, dos grandes nomes da história da medicina. Papai gabava-se que podia andar pela cidade de olhos vendados e recitar todas as suas glórias como uma litania: "Giotto e Mantegna pintaram aqui. Erasmo deu aulas de filosofia, Vesalius ensinou anatomia, Fracastorius propôs a primeira teoria válida do contágio, Morgagni des­creveu a tuberculose renal e as lesões hemiplégicas, Leonardo da Vinci fez desenhos anatômicos para textos de Mercantonio della Torre!"

Ela pára de falar de repente, embaraçada com seu relato eloqüente. Trato de estimulá-la, ansiosamente:

  • Continue, por favor. Está despertando para um mundo mais amplo. A experiência é importante e emocionante... Você se apai­xonou por Pádua?

  • Pela cidade... e novamente por papai. O quarto em meu coração que estava fechado, desde que ele me obrigara a voltar à academia na Suíça, estava outra vez aberto.

  • E se tornaram amantes outra vez?

Não. Eu tinha agora um novo papel. Era o filho com quem ele podia partilhar as experiências de sua juventude.

  • E você gostou disso?

  • Claro. Parecia completar as coisas entre nós.

  • Seu pai determinou o papel ou você simplesmente adotou-o, por instinto?

    Ela pensa a respeito por algum tempo e depois admite, relutan­temente:

  • Eu diria que papai o determinou... não expressamente, pois ele nunca agia assim, mas indiretamente.

  • De que forma exatamente?

  • Primeiro, havia a questão de como eu, uma mulher, se ajustaria na turbulência da escola de medicina. Não que as mulheres estudantes fossem desconhecidas em Pádua. Há a estátua de uma mulher no alto da escadaria principal: Lucrezia Cornaro, filha de uma família nobre, que defendeu sua tese como Doutora em Letras no salão principal. Mas a escola de medicina era diferente. Papai sorriu-me, à sua maneira insólita, dizendo: "Pessoalmente, sugiro uma apresentação um tanto masculina, a George Sand. Esta é a era dos dândis. E você vai ficar muito atraente de calça. Vão achá-la um tanto esquisita, é claro, mas depois de um mês você será parte do cenário... e não haverá mais mãos a levantarem suas saias em momento inconvenientes. Para ser franco, conheço a mulher que pode aprontar seu guarda-roupa. É a supervisora da Fenice, em Veneza. É ela quem desenha as roupas para a Duse. "Foi assim que passei a usar o meu primeiro terno masculino e expliquei o quanto papai queria um filho... e como era complicado o amor que tinha por mim.

  • Sentia-se à vontade em roupas masculinas?

  • Não eram roupas masculinas. O estilo podia ser masculino, mas isso era tudo. Seja como for, eu me sentia inteiramente à von­tade. E ainda me sinto... só que agora estou na moda.

  • Gostava do disfarce?

  • Não era um disfarce. Era... como posso explicar?... a manifestação de uma atitude. Eu queria trabalhar em termos de igual­dade com os estudantes do sexo masculino. Queria ser o máximo de um filho que fosse possível para papai... Isso parece muito estranho?

    Eu gostaria de poder dizer a ela que para mim, Carl Gustav Jung, não é absolutamente estranho, mas perturbadoramente fami­liar. A mulher que me fita neste momento é minha Salomé para a vida: filha, amante, protetora... talvez filho também. Será isso o que significa a serpente em meus sonhos? Pressiono minha pa­ciente por mais detalhes:

    —   De que outras formas seu pai determinou o seu papel como um filho?

    Desta vez ela deixa escapar um pequeno riso de constrangimento.

    —   Foi outra vez indiretamente. Ele disse que estava preocupado com minha segurança física. Os estudantes paduanos eram tradicionalmente rebeldes e turbulentos. Nos tempos antigos, eles tinham um agradável costume chamado "chi va li". Significava li­teralmente "quem vai lá?" Era um desafio a qualquer estranho que passasse pelas adegas ou bordéis nas proximidades de "Il Bo". O transeunte era obrigado a pagar uma taxa ou então era espancado por estudantes embriagados... Assim, papai resolveu que eu tinha de aprender a me defender. Levou-me a uma salle d'armes, diri­gida por um piemontês chamado Maestro Arnaldo, que me ensinou os elementos básicos da esgrima e como disparar uma pistola.

Ela faz uma pausa, pensativa.

  • Papai comprou-me depois uma bengala com um florete e uma pistola pequena. Jamais usei o florete. Lily o mantinha em casa para se defender. A pistola provou ser útil em algumas oca­siões... certa vez com um inglês bêbado num barco que descia o Brenta. Além disso, papai forneceu-me determinados privilégios masculinos: um cartão de sócio do Club delia Caccia, onde Lily e eu podíamos sempre alugar cavalos, o acesso permanente a um salão de jogo em Veneza, que era também um ponto de encontro para amantes e corações solitários, e uma confortável margem de crédito na agência local do Banco Padovano. Quanto a outras di­versões, papai me disse: "Terá de descobrir os seus. Se for estú­pida bastante para engravidar, volte imediatamente para casa. Pelo menos terá um trabalho bem feito e sem recriminações."

  • Um trabalho bem feito e sem recriminações. Aproveito a frase e tento forçá-la a analisar o sentido junto comigo. Não acha que é um comentário terrivelmente a sangue-frio para um pai dizer a uma filha... ou mesmo a um filho? Ele não lhe ensinou qualquer moralidade?

    Ela pensa na pergunta por alguns segundos e depois responde, dando de ombros:

  • Acho que alguma. Mas foi tudo muito simples e pragmático. Não minta, porque ao final acabará se contradizendo. Por que rou­bar? Tem mais do que pode usar... e você poderia perder amigos e acabar na prisão. Quanto ao sexo, é uma diversão, até você sentir vontade de casar e ter filhos. Mas se quiser se divertir na lama, vai ficar toda suja... Era mais ou menos isso.

  • E isso ainda a satisfaz?

  • Não, mas é tudo o que tenho. Não tenho absolutamente qualquer senso religioso. O que aparentemente você tem. Foi por isso que Gianni o recomendou.

  • Gianni? O nome nada me diz por um momento, mas logo acabo me lembrando. Ah, sim... nosso colega italiano. Qual é mesmo o nome dele?

  • Malvasia. Sua esposa lembra-se dele perfeitamente. Sentaram lado a lado num almoço em Weimar. Ele é católico. É também homossexual e deixou que a família o persuadisse a casar. É muito infeliz, mas afirma que sua religião ajudou-o a aceitar a situação. Acha que isso é possível?

  • Claro que é.

  • Eu gostaria que me explicasse como. Gianni tentou, mas tive a impressão de que era uma testemunha um tanto tendenciosa. Para ele, o importante era poder confessar os pecados a um padre e ter a certeza de ser perdoado por Deus. É muito reconfortante, mas como pode alguém acreditar em algo assim?

    Já falamos nisso antes, mas rapidamente, especulativamente. Agora, ela tornou a levantar o problema. Não sei se ela quer criar uma diversão ou se está genuinamente procurando esclarecimento. De qualquer forma, devo lhe oferecer uma resposta objetiva. E começo de uma maneira amena:

    —   Vamos ver até que ponto a prepararam em Pádua. Temos de definir os termos primeiro. O que é religião? Dê-me uma res­posta simples e objetiva, conforme a compreende.

    Ela pensa por um momento e depois, com mais do que uma insinuação de malícia no sorriso, aceita o desafio.

  • Está certo. Doutor. Incominciamo... vamos começar! Religio: um nome latino. Significado genérico: um vínculo, um dever, uma obrigação para a reverência. Religião: um sistema de crença e culto. Exemplos: cristianismo, animismo, islamismo. Chega?

  • Está indo muito bem, minha cara colega.

  • Poderia então me dar uma definição em troca?

  • Se eu puder.

  • O que é insanidade?

  • Outra palavra de origem latina. Sa nus, saudável. Insanus, não saudável. Significado genérico: não de mente saudável, men­talmente perturbado. Contudo, na linguagem comum, a palavra é usada de maneira ampla para abranger toda uma variedade de sin­tomas, da simples histeria a estados de ilusão obsessiva ou demên­cia violenta. Posso agora lhe perguntar o motivo da pergunta?

  • Vamos reunir as duas definições: religião e insanidade. Tomemos um exemplo concreto para testar a nossa lógica. Gianni di Malvasia acredita em Deus, na Igreja Católica, na confissão au­ricular... em tudo enfim! Você acredita num Deus. Não sabe quem ou o que ele é, mas grava a sua crença por cima da porta. "Cha­mando ou não chamado, Deus estará presente." E eu? Não acre­dito em nada disso: nem em Deus, nem na igreja, em nada que eu não possa ver, cheirar, ouvir e tocar. Não é possível que todos nós estejamos certos. Um de nós, pelo menos, deve estar insano, por definição: vítima de um estado de ilusão obsessiva. Qual de nós? Gianni, você ou eu?

   A resposta, minha cara colega, é bem simples. Nenhum de nós está insano. As definições são inadequadas e a lógica é imper­feita.

As palavras mal saíram de minha boca quando compreendo que cometi um erro terrível. Deixei que ela me levasse a uma dis­cussão acadêmica, para a qual não estou preparado. Se permito que continue nesses termos escolásticos, ambos terminaremos ba­tendo de cabeça contra um muro de tijolos... e será ela quem ainda estará rindo. Por uma vez, ao que parece, sou forçado a um ato de humildade. Tenho de admitir minha ignorância. Contudo, ainda sou vaidoso bastante para revesti-la de sabedoria. Pego o bloco de desenho e um lápis preto. Ela está de pé atrás da minha cadeira. Ela se inclina por cima de meu ombro e seu perfume me envolve, a proximidade de seu corpo me excita. Desenho um semicírculo. Depois, desenho três figuras, homem, mulher e criança, sobre a linha reta do diâmetro. Explico a ilustração:

   Este é o conceito mais simples e mais primitivo do homem sobre si mesmo e seu habitat. Ele vive numa terra plana, sob um céu em domo. A terra está repleta de criaturas, grandes e peque­nas. O céu tem o Sol durante o dia, a Lua e as estrelas à noite, um padrão sempre diferente de nuvens, das quais saem o trovão, o relâmpago e a chuva. Entre a terra e o céu os ventos sopram, ame­nos ou impetuosos, de acordo com a estação. O homem e sua companheira, a mulher, são animais que sonham, animais que fazem perguntas. Quem vive lá em cima, além das nuvens? Se an­darmos o bastante cairemos da beira da terra? Quem nos fez? O que acontece quando morremos? O que faz o trovão e o raio? Homem e mulher não têm respostas e por isso as inventam. Criam contos de fadas, mitos que transmitem aos filhos. Com base nos mitos, os filhos desenvolvem religiões, sistemas de crença. Promo­vem rituais, constituem autoridades. Fazem imagens de seus deuses, constroem templos para consagrá-los e simbolizam sua pre­sença nas coisas humanas... E tudo se ajusta perfeitamente, tudo funciona, até que o sistema é pressionado pelos acontecimentos. Se o rei se torna um tirano, seu povo se revolta e o mata. Se a pesti­lência se abate sobre a terra e o deus se mostra indiferente a todas as oferendas postas a seus pés, então ele é derrubado de seu pedes­tal, o santuário é devastado e a tribo aturdida procura por um novo protetor...

Subitamente, ela chega mais perto de mim. Suas mãos me tocam as faces, depois me cobrem os olhos. Seus lábios roçam em minha orelha quando ela sussurra:

   É um homem muito esperto. Dr. Jung. Mas será que acredita em metade de tudo isso?

Um momento depois ela está de volta à sua cadeira, recatada como uma colegial, esperando por um louvor ou uma censura. Re­cuso-me a oferecer qualquer dos dois. Termino a minha pequena homilia, embora um pouco menos retoricamente do que no co­meço:

   ... E esse é o estado em que você se encontra agora. A ética do Éden não funciona no mundo grande. Os pássaros canoros de­sapareceram. Agora, há apenas abutres e corvos... Papai não está mais presente e os outros homens que você conheceu não querem ocupar o lugar dele. Também não quero, diga-se de passagem.

No mesmo instante ela está em fúria. Meio que espero que ela se levante da cadeira e me agrida. Observo, com uma preocupação clínica, como a mudança ocorre rapidamente, como ela tem difi­culdade para se controlar. Sorrio e tento apaziguá-la:

   Não fique zangada, por favor. Não estou escarnecendo de você. Gosto de ser acariciado... especialmente por uma linda mu­lher. Mas não era comigo que estava flertando. Você reconstituía uma cena, os dias felizes com papai em Pádua.

Ela levanta a cabeça bruscamente, num gesto de desafio que já é familiar.

  • Nem todos foram felizes! Não pense assim! Ao final, Lily e eu ficamos satisfeitas quando ele foi embora.

  • Por quê?

  • Pela primeira vez em minha vida, eu o vi bêbado e violento. E isso me deixou chocada. O que mais me chocou foi que Lily podia controlá-lo, enquanto eu não conseguia. Papai não me permi­tia chegar perto dele. Ameaçava matar-me se eu o tocasse.

       Não acha que devemos conversar sobre isso?

    Ela me lança um sorriso fraco e indeciso, aponta para o meu desenho.

       Não é uma história tão bonita quanto a sua.

    Não me atrevo a dizer-lhe agora que a minha história é um conto de fadas, um mito. Nunca aconteceu. O homem é um animal feroz e perigoso, terrível na raiva, brutal no cio, desesperado na morte. A única coisa esperançosa nele é o anjo-espírito que espia de vez em quando de seus olhos selvagens, que prega, embora ra­ramente, uma gentileza para a sua mão letal.

 

MAGDA...

Zurique

Não posso deixar de admirar esse homem. Apesar de toda a sua fraqueza... e não havia absolutamente qualquer dúvida sobre sua reação quando me aproximei dele e acariciei-o!... é ao mesmo tempo simpático e hábil. Aceitou meu pedido de anonimato..., mas eu já lhe falei mais do que tencionava. Não tem importância. Ad­miro sua sutileza. Ele me conduz como um cavalo empacado, ora adulando, ora me chicoteando, a fim de me obrigar a enfrentar o primeiro grande obstáculo: meu estranho relacionamento com pa­pai. Estou pronta agora para dar o salto. Posso senti-lo a me pres­sionar com os joelhos, dando-me rédea, esperando pelo momento em que precisarei dele para o esforço final na superação do obstá­culo... Se deixarmos este para trás, os outros não parecerão tão formidáveis. Sendo assim, Doutor, lá vamos nós! Lá vamos nós!

— Estávamos instaladas no apartamento... com Tiepolo no teto e banheiros tão grandes quanto as Termas de Caracalla. Lily estava brigando com as criadas. Eu discutia com o decorador sobre a combinação das cortinas com as colchas das camas. Papai há dias que se mostrava irrequieto... "Como um cachorro a rondar", co­mentou Lily. "Eu não ficaria surpresa se saísse uma noite e o en­contrasse a uivar para a Lua." Ao café da manhã, ele anunciou que já cumprira o seu dever conosco e estava agora pronto para ir em­bora. Se precisássemos dele... e que Deus evitasse que isso acon­tecesse!... poderíamos encontrá-lo no Daniele. Se ele não estivesse lá, seu velho amigo Morosini saberia onde localizá-lo. Lily disse, desdenhosamente: "Morosini uma ova! Ele arrumou uma nova mu­lher. Mas pelo menos teremos sossego por algum tempo." Tam­bém me senti contente por vê-lo fora da casa. Já não agüentava mais a história paduana, Harvey, Linacre, Dante Alighieri, as na­ções e línguas que formavam a população estrangeira da universi­dade. Comprara todos os meus livros. Queria agora me aninhar no apartamento que seria o meu lar e o de Lily pelos próximos cinco anos. Era a minha primeira experiência de tomar conta de uma casa e eu estava gostando. Mas papai encarava o apartamento como uma estalagem de posta, onde as criadas eram virtuosas ou repulsivas...

Paro de falar, porque Jung não parece estar prestando atenção. Ele escreve continuamente em seu caderno de anotações. Fico irri­tada, porque estou me esforçando ao máximo para fazer com que a história seja interessante. Ele levanta os olhos, franze o rosto e indaga por que parei de falar.

   Porque parece que o estou aborrecendo.

   Não diga bobagem! — Ele é brusco, irritado. — Você não é uma atriz e eu não sou uma audiência. Esta é uma entrevista clí­nica. Continue, por favor.

Tenho de me controlar novamente. E desta vez lhe conto a história de maneira objetiva, sem qualquer floreio:

   Papai voltou para casa três dias depois. Era quase meia-noite. Lily e eu já estávamos vestidas para dormir, lendo no salão. Ouvimos batidas violentas na porta da frente e a voz de papai gri­tando obscenidades. Corremos para lhe abrir a porta. Ele estava embriagado e imundo. Passou por nós e subiu a escada camba­leando, indo para seu quarto. Lily e eu o seguimos. Quando nos viu paradas na porta, ele jogou a valise em nossa direção e ordenou que saíssemos. Aproximei-me. Ele parecia não saber quem eu era. Quando estendi a mão para tocá-lo, ele me esbofeteou, com toda força. Cambaleei para trás, quase caí. E depois ele começou a me insultar, com os piores nomes de que podia se lembrar... No ins­tante seguinte vi Lily atravessar o quarto correndo, para cima dele.

Ela levantara a camisola até os joelhos. Usava chinelas turcas, com pontas de metal. Lembro de ter pensado que ela parecia uma gali­nha furiosa a defender seus pintinhos. Lily disse apenas uma pala­vra, "Desgraçado!", depois chutou papai na virilha, com toda força. Ele vomitou, dobrando-se ao meio com a dor, depois caiu no chão, se contorcendo. Lily levou-me apressadamente para fora do quarto, trancando a porta e deixando-o lá dentro. Ela me levou para seu quarto, deitou-me na cama, deu-me conhaque e uma dose de hidrato de cloral, ficou comigo até que caí no sono. É uma mis­tura muito forte, como deve saber. Não acordei antes de meio-dia do dia seguinte.

  • E esse é o fim da história?

  • É a minha parte. A seguinte é de Lily e por isso em segunda mão. Enquanto eu dormia, ela voltou ao quarto de papai. Ele es­tava estendido no chão, roncando em meio ao próprio vômito. Ela despiu-o, lavou-o, arrastou-o para a cama, depois limpou o quarto e livrou-o das roupas sujas. Deixou-o dormir até nove horas, de­pois acordou-o, serviu o café da manhã, contou o que ele fizera comigo, ouviu o que acontecera com ele e mandou-o visitar o bar­beiro e os banhos turcos. Depois disso, ao que parece, ele alugou um cavalo e saiu a galope pelos campos, na direção das colinas Euganéias. Quando voltou para casa, pouco antes do pôr-do-sol, ele me tomou nos braços e chorou como um bebê. Suplicou-me que o perdoasse. O que fiz, é claro. Nunca pude lhe recusar qualquer coisa. Depois disso, porém, nada foi jamais como antes. Ele partiu para Silbersee dois dias depois. Ficamos ambas contentes por ele ter viajado.

    Jung inclina a cabeça para o lado, como um papagaio zombeteiro, e pergunta:

  • Posso agora saber o motivo para todo esse drama de em­briaguez?

  • Parece que papai levou sua nova amante ao Teatro Fenice para uma apresentação de Don Giovanni. E lá, num camarote em frente, estava minha mãe, seu marido inglês e um rapaz que era obviamente o filho deles. Papai deixou sua companheira no cama­rote, voltou ao Daniele, fez a mala e, em companhia do barqueiro que o levou ao outro lado do Mestre, entregou-se a uma bebedeira de 48 horas. Por algum milagre, ele foi acabar em nossa porta. Quando me viu, pensou que estivesse na presença de minha mãe...

aparentemente eu era muito parecida... e despejou-me todos os in­sultos que acumulara por 20 anos... Como pode perceber, foi tudo muito simples... e terrivelmente triste!

   Acho que está longe de ser tão simples quanto você gostaria, minha cara — repreende-me Jung, gentilmente. Você nunca perdoou seu pai completamente por aquela noite, não é mesmo?

   Não.

   O que exatamente você não pôde esquecer nem perdoar?

As palavras me ficam presas na garganta como uma espinha de peixe. Vão me sufocar antes que eu possa expeli-las. Jung me pres­siona rispidamente:

  • Fale logo, menina! Fale logo, pelo amor de Deus!

  • Ele estava falando para minha mãe, não para mim.

  • Sei disso! Continue!

   Mas ele estava falando a meu respeito. Havia um... um tom horrível de triunfo em sua voz. Ele disse: "Você escapou, mas tenho Magda! Ela é sua filha, mas é muito melhor na cama do que você jamais foi! Será a melhor prostituta do mundo quando eu aca­bar com ela! Sua filha! Sua maldita linda filha! Talvez possamos cruzá-la com aquele potrinho que estava em seu camarote, hem?

Estou chorando agora. Não posso parar. Detesto ficar assim. Por que ele me forçou a essa humilhação? Por que ele não diz nada?... Sinto que estou de volta à minha bola de vidro, rolando interminavelmente pelo deserto vazio. Agora, graças a Deus, ele se aproxima de mim. Agacha-se à minha frente, descerra-me os pu­nhos, põe um lenço entre minhas mãos. Depois levanta meu queixo, obrigando-me a fitar seus olhos. Estão gentis, cheios de compai­xão. Ele me dá um sorriso estranho, beija as pontas dos dedos e transfere o beijo para os meus lábios.

   Foi muito bom, menina. Sei que é terrível, mas agora podemos começar a encontrar algum sentido juntos. Enxugue os olhos. Levante-se e ande pela sala por alguns minutos.

Ele me ajuda a levantar e me ampara até que estou firme. Depois me leva a uma estante para mostrar sua coleção de livros sobre alquimia. É um estratagema simples, mas funciona. Começo a me acalmar. Ele senta à mesa, escreve anotações, enquanto ainda estou andando. Começa a falar descontraidamente sobre pa­pai e eu:

   Para você é um choque terrível, como não podia deixar de acontecer. O conto de fadas se inverteu. O príncipe transformou-se num sapo. As palavras de amor se converteram em obscenidades, os gestos de amor viraram atos de violência. Você não é mais o alvo da afeição de seu pai. É o instrumento da vingança dele contra a mulher que o abandonou. É tudo repulsivo, ainda mais porque o bom senso lhe diz que tudo isso fervilhava na mente dele há anos. Você se sente suja, humilhada, corrompida. Eva está expulsa do paraíso. Tenta encobrir sua vergonha com folhas de parreira... e começa a odiar o homem que a envergonhou. Ela nunca teve cer­teza absoluta dele. Embora fosse um príncipe, ela sabe há muito tempo que ele era corrompido, egoísta e pervertido. Ela, pobre mu­lher, está presa entre as pedras do moinho, ao mesmo tempo uma conspiradora e uma vítima. Nossa princesa desiludida vira-se para sua mãe, a Rainha da Neve, com o coração de gelo. A mãe estava certa ao abandonar aquele monstro. A crueldade da mãe estava totalmente justificada, porque isso a tornara invencível e invulne­rável... Minhas palavras fazem sentido?

Claro que fazem sentido, mas eu gostaria que fosse tudo tão simples quanto parece. Ele me diz que devo refletir sobre o que acabou de falar. Devo indagar a mim mesma se o padrão que des­creveu se ajusta plenamente ao meu comportamento. E devo tam­bém começar a ter uma participação ativa na análise. Ele olha para o relógio. Diz que minhas duas horas se esgotaram. Fizemos um bom progresso. Retomaremos a história no mesmo ponto, em nossa próxima entrevista. Poderia ser amanhã, na mesma hora? Fraulein Wolff marcará a sessão. Amanhã? A palavra me lança a um pânico cego. Atravesso a sala correndo e lhe suplico, desespe­radamente:

   Se eu o deixar agora, sei que não terei coragem para voltar. Será que não compreende? É como o grande salto nos testes de hipismo. A partir do instante em que se começa, tem de ser ir até o fim. Se hesita, mesmo que apenas um pouco, o cavalo vai empacar abruptamente e derrubar a pessoa na sela. Vamos continuar, por favor!

Ele não gosta absolutamente da idéia. Já estou exibindo sinais de tensão. É difícil também para ele. Isto não é como o diagnóstico físico. Os indicadores estão freqüentemente ocultos em alguma frase ou gesto simples. Se o analista não estiver alerta, podem pas­sar desapercebidos. Argumento com ele tenazmente. E finalmente chegamos a um acordo. Irei para o hotel, almoçarei e voltarei às três horas. Trabalharemos até cinco e meia, no máximo. Há, no entanto, uma condição. A esta altura, devo ter completado o que ele chama de minha biografia: a descrição de meus atos e dias. A análise virá depois. Mas devo estar disposta a lhe expor todos os fatos hoje.

Feito o pacto, ele parece não ter qualquer pressa em me dispensar. Observa-me com um sorriso, enquanto ajeito a maquilagem no espelho. Põe as mãos em meus ombros e me vira para fitá-lo, dizendo:

   Estou muito satisfeito com você. Obriguei-a a um momento difícil esta manhã, mas você superou-o muito bem... Aproveite o almoço. E mais uma coisa: agora que já nos conhecemos, não pre­cisa se vestir tão formalmente. Use algo mais informal. Vai ajudá-la a relaxar.

Tenho o impulso súbito de beijá-lo, mas me contenho. Não quero ser uma daquelas mulheres tolas de que Frau Jung me falou, que se amparam como crianças em seu analista. Na porta, estendo a mão e agradeço a ajuda. Ele ri e cita o provérbio antigo:

   O médico ferido é o que melhor cura.

Enquanto ele me acompanha até o portão, através das maciei­ras e das roseiras em flor, estou consciente de sua autoridade, sen­sível ao seu vigor físico. É um homem grande, corpulento e impul­sivo. Fico imaginando como ele seria na cama... e qual de nós dois conduziria essa sinfonia.

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Fico observando enquanto ela se afasta no vasto automóvel e desejo ter condições para possuir um que tivesse a metade do ta­manho. É uma afronta aos meus bens modestos. A opulência dela me irrita. Até agora, esta mulher nunca teve de se preocupar com o custo de qualquer coisa. Senti-me profundamente ofendido pela maneira como ela sacudiu aquele envelope cheio de dinheiro diante de meu rosto. Mas compreendi, imediatamente depois, que era um ato de desespero. Sua arrogância, a brutalidade que ela alega praticar, contrasta estranhamente com a imagem da menina sistemati­camente corrompida por um pai devasso e uma babá conivente.

A imagem da fêmea dominante, a mater terrible, é endêmica na mitologia masculina. É repugnante para a maioria dos machos, mas enormemente sedutora para outros. Pessoalmente, não encontro o menor prazer nisso. Fico mais comovido pelo espetáculo da ino­cência, destruída e explorada... talvez o que me transforma numa presa tão fácil para mulheres dependentes e também faz com que essa Magda Kardoss von Gamsfeld seja um estudo de tipologia tão fascinante.

Passeio por algum tempo, sozinho no jardim, tentando definir um sumário clínico. Primeiro e acima de tudo, ela é absolutamente racional. Em qualquer tribunal de justiça seria considerada sã e responsável por suas ações. Tendo em vista os seus antecedentes e educação, qualquer alegação de atenuantes num caso criminal seria quase que certamente rejeitada... Por que tenho de começar por aqui, com uma pressuposição de criminalidade? Sei que é um po­tencial no caso dela. Não tenho qualquer prova de que seja um fato. O coronel em Berlim era um parceiro consensual, como presumivelmente são todos os seus outros associados. A crueldade com animais nunca se tornou uma causa de acusações. Mesmo as­sim, o conteúdo do sonho, as perguntas sobre perdão, o medo de que possa perder a coragem e fugir, tudo sugere uma culpa enorme, subconsciente.

Contudo, ela tem muito pouco senso moral. Em questões sexuais, é promíscua com ambos os sexos. Em seus episódios de ninfomania, procura a catarse pela crueldade; mas está mais preo­cupada com a intervenção da polícia do que com os danos à sua vida psíquica. As raízes da doença são bastante claras: estímulo sexual excessivo durante a vida pré-pubertária e pubertária, o longo relacionamento incestuoso com o pai, que era um psicótico óbvio, a situação ambivalente com Lily, a mãe substituta.

Mais uma vez, fico impressionado com a semelhança de nossas naturezas e sintomas. O animus, o princípio masculino, é bastante forte nela, enquanto o anima, o princípio feminino, é forte em mim. Há violência em nós dois. Há momentos em que me sinto tentado a aplicar uma boa surra, ao melhor estilo camponês, em alguns dos aduladores de Freud. Também sou obsessivo e estou me tornando cada vez mais. Sou propenso a raivas súbitas e mergulhos abruptos na depressão. Sou atormentado pela culpa, que nem sempre posso definir, e por impulsos e experiência sexuais ambivalentes.

Até mesmo nossos sonhos se harmonizam estranhamente. Somos ambos prisioneiros de um mundo transparente, ela no globo de vidro, eu por trás da janela do compartimento do trem. Ambos vemos o garanhão num contexto de morte e desastre. Não me es­capou que, mesmo ao suplicar que continuássemos a sessão, ela usou uma metáfora de cavalo: a "puissance", o teste de força do cavalo para saltar obstáculos.

Portanto, existe entre nós a possibilidade de comunicação sem palavras, de interação instintiva, que pode se tornar proveitosa ou perigosa. A boa coisa é que ambos fomos educados na mesma dis­ciplina, a medicina, ela mais amplamente do que eu, que tive de me contentar com Basiléia, enquanto ela se lançou no fluxo da tradi­ção em Pádua, onde artes, letras e medicina floresciam juntas. Tal­vez um dia, se eu tiver algum sucesso com ela, possamos partilhar um campo de estudo... Pelo menos ela é mais madura que a Spielrein, que realmente se converteu quase num desastre para mim!

O que me lembra que devo fazer duas perguntas. Por que ela renunciou à medicina? O que ela fará, agora que não pode mais voltar à sua propriedade na Áustria?

Normalmente, Toni e eu comemos alguma coisa por volta de meio-dia, em meu gabinete, a fim de que o ritmo do meu trabalho e a privacidade de nossa comunhão não sejam interrompidos. Hoje, como as crianças estão ausentes, Emma sugere que nós três almo­cemos juntos. Não há meio que me permita recusar decentemente. Mas essas ocasiões em que nós três nos reunimos estão sempre impregnadas de tensão, na medida em que cada mulher tenta afir­mar seus direitos à minha pessoa e atenção.

Estou agora envolvido num novo dilema. Como regra, não dis­cuto meus pacientes particulares com Emma. Não é justo com ela; não é justo com eles. Zurique é uma cidade pequena e a mulher do médico deve estar acima de qualquer suspeita de intriga. Com Toni é diferente. Ela é minha discípula, minha colega, minha arquivista.

Deve estar à par de tudo o que acontece. No almoço, porém, as duas se mostram curiosas com o meu novo caso; assim, para man­ter a paz, tenho de ser um pouco mais acessível. Ambas ficam surpresas... desconfiadas seria uma palavra mais acurada... quando lhes digo que Magda Hirschfeld está voltando depois do almoço. Emma comenta acidamente:

  • Ao que eu saiba, Carl, você nunca fez isso antes. Sempre disse que duas horas é o limite para uma sessão eficaz.

  • Sei disso, mas trata-se de um caso excepcional. Ela se abriu muito depressa. Pode perder a coragem e recair no silêncio igual­mente depressa. Concedi-lhe tempo extra com a condição de com­pletarmos o levantamento biográfico esta tarde.

  • Ela já lhe disse o seu nome verdadeiro?

    A pergunta é de Toni. Eu poderia matá-la por indagar isso. Respondo que ela não me disse, mas é uma questão que não tem a menor importância.

  • Não é um pouco arriscado? Se alguma coisa imprevista acontecer, você vai parecer um tanto tolo se nem ao menos souber o nome de sua paciente.

  • Não haverá qualquer inconveniente. — Estou irritado com essa referência indireta às minhas indiscrições passadas, mas faço um esforço para não deixar transparecer. — Tenho um bilhete do seu médico em Paris que me recomenda para lhe conceder o ano­nimato. Em caso de extrema necessidade, a direção do Baur Au Lac terá um registro de seus documentos de identidade. Além do mais, o fato de eu aceitar seu primeiro pedido contribuiu para que pudesse extrair outras e mais relevantes informações.

  • Ela é muito bonita. — A admiração de Emma não é totalmente inocente. — E aquelas roupas devem ter custado uma for­tuna.

  • Ela é uma viúva rica... e alegre. — Toni é uma mímica excelente e imita com perfeição o jeito de falar de minha paciente. — Não tenho amante permanente, mas sou adequadamente satis­feita... Aposto que ela é mesmo! Eu diria até que é uma autêntica antropófaga!

    Uma coisa extraordinária acontece no momento em que ela diz essas palavras. É como se eu fosse acometido de catalepsia. Fico mudo e rígido. Não estou mais à mesa, mas sim de volta à caverna subterrânea, olhando para o grande deus-falo cego, enquanto a voz de minha mãe me adverte:

       Olhe bem! Esse é o devorador de homem!

    Parece que uma era transcorre antes que a visão se dissolva e eu esteja de volta à normalidade. Mas nenhuma das duas notou qualquer coisa de estranho, porque Emma está dizendo, à sua ma­neira serena e judiciosa:

       Uma antropófaga? Ela não me deu essa impressão. Conver­samos no jardim. Ela é muito inteligente e extremamente simpá­tica. Mas acho que isso nada significa. Tenho certeza de que há mulheres inteligentes e simpáticas que são antropófagas... Qual é a sua opinião, Carl?

    Não me deixarei atrair para essa armadilha... nem por todo o chá da China! E respondo:

       Ainda não tenho muitas opiniões. Já estabeleci que há uma fixação paterna intensa, com obsessões sexuais relacionadas. Es­pero encontrar algum sentido esta tarde.

    As duas mulheres compreendem a advertência, mas Toni está disposta a se arriscar mais do que Emma. E me pergunta, solici­tante:

       Gostaria que eu escrevesse suas anotações antes de eu voltar? Levaria apenas uma hora.

    E isso a poria exatamente onde não quero tê-la, bem no meio de um relacionamento que mal comecei a acalentar. Obrigado, minha cara, mas não! Você já tem privilégios suficientes. Preciso de um campo particular para pisar! Respondo a Toni que prefiro deixar o sumário para depois do término da sessão. Ela pode tirar a tarde de folga e levarei as anotações ao seu apartamento depois. Ela aceita de bom grado. Significa que poderemos ter uma ou duas horas na cama. Emma simula ignorar esse pequeno estratagema tão transparente e faz a conversa voltar à minha paciente:

  • Estou muito interessada em acompanhar o desenvolvimento deste caso.

  • Desenvolvimento? Como assim?

  • Ela já é de uma certa idade... pode-se dizer que está plenamente desabrochada. A maioria de seus problemas em situações de transferência surgiu com mulheres muito mais jovens.

    Não há qualquer censura no tom dela. Os olhos estão inocentes de malícia. Tento parecer sensato e profissional, como se não tivesse percebido a lâmina sob a bainha de veludo.

       Não espero muita dificuldade. Ela é bastante racional em relação a seus problemas. É uma médica bem preparada. Se tenho algum receio desta vez é o de que ela possa cometer suicídio, ao invés de enfrentar um colapso progressivo. O impulso para a des­truição, que é evidente em suas relações sexuais, pode finalmente se consumar na autodestruição.

    Já falei mais do que desejava a respeito da paciente, mas isso nos ajuda a superar o momento de constrangimento. Toni absorve o pensamento e pergunta:

  • Como se manifesta esse impulso destrutivo?

  • Ninfomanía obsessiva periódica, culminando em episódios sado-masoquistas.

  • Eu falei... — Toni não pode resistir ao pequeno triunfo. — Uma verdadeira antropófaga!

  • Não estou de acordo. — O protesto frio de Emma me surpreende. Ela é normalmente reticente nas conversas, preferindo se calar a provocar uma discussão. — Talvez ela não goste realmente dos homens e por isso cada episódio deve terminar destrutiva­mente. Também há homens assim. Morreriam se fossem chamados de homoeróticos, mas suas relações com as mulheres são sempre impregnadas de crueldade. Não concorda, Carl?

    Não posso fazer outra coisa que não concordar... e tratar de escapar o mais depressa possível. Compreendo agora, com um es­tranho ímpeto de medo nas entranhas, que Emma aceitou o meu conselho. Ela deixará que eu siga o meu caminho incerto; vai igno­rar minhas digressões e concentrar sua vida nas crianças; mas fará isso sem ilusões e se reservará o direito de ser o que lhe aprouver e dizer o que lhe aprouver em sua própria casa...

    Antes de Toni voltar para casa, temos um curto e infeliz inter­ludio no gabinete. Ela está fervendo de raiva e não se importa que eu também fique furioso.

       Eu lhe pergunto, Carl: por quanto tempo mais isso pode continuar? Tive uma sessão com ela na cozinha esta manhã. Ela me disse que achava que você podia perfeitamente ficar mental­mente perturbado... e queria saber o que eu faria a respeito. Ela está disposta a abdicar de tudo, exceto de ser Frau Doktor Jung.

Que espécie de casamento é esse? Por que você e eu temos de agir sorrateiramente como criminosos, só porque nos amamos? E que cena no almoço! Ela estava nos retalhando como maçãs para uma torta e você se limitou a ficar sentado plácidamente, assentindo e consentindo, como se... como se estivesse conversando sobre as manchetes da manhã. Já chega para mim, Carl! Eu seria capaz de ir à Lua por você. Farei as malas e fugirei com você no momento que quiser. Mas não vou ficar aqui a suportar esse tipo de tortura. E também não vou permitir que você suporte!

Ela é surda a qualquer argumento. Não se deixará ser persuadida. Ao final, deixo-a ir embora. Quando a noite cair, ela estará penitente e faminta por amor. Não a culpo por ficar furiosa. Tam­bém não culpo Emma. O culpado sou eu mesmo. Sou como o ma­caco guloso com o punho preso no pote de castanhas. Quero pegar tudo. E nada terei, a menos que me contente com uma de cada vez!

É verdade que há dias, como hoje, em que me sinto cansado de todas essas mulheres bem-educadas, com suas listas de exigências. Anseio em sair desta cidade sufocante e ir para algum lugar selva­gem, onde não precise argumentar, discutir e definir... onde possa apenas dançar ao som dos tambores, me acasalar no chão, sob as moitas, não me preocupar com nada depois.

Um pensamento, à guisa de pós-escrito. Imagino o que aconte­ceria se eu expusesse a mesma idéia a Madga Liliane Kardoss von Gamsfeld. Meu palpite é de que ela diria "Ótimo, vamos partir agora mesmo, selar um cavalo e seguir viagem!" O mais triste é que nunca aprendi a montar a cavalo. Mas, com um bom professor, eu poderia aprender rapidamente!

 

MAGDA.

Zurique

Eu me sentia como uma criança ao sair da escola quando deixei a casa de Jung. Queria gritar, cantar, dançar, rolar pelas cam­pinas verdejantes. Mas a reação se impôs antes da metade do ca­minho de volta ao hotel. Mergulhei numa depressão profunda. O ar estava opressivo de ameaça. As colinas pareciam prestes a se pro­jetarem e me sepultarem. Ao passar pelo saguão do Baur Au Lac a sensação era de que estava desprovida da pele. Cada olhar, cada sussuro, acarretava uma dor insuportável.

Sozinha no quarto, fui dominada pelo pânico e confusão. A cabeça parecia repleta de camundongos, guinchando e correndo em todas as direções. Tinha vontade de berrar. Em vez disso, fiquei parada no meio do quarto, calada e rígida, tentando recuperar o controle. Quando finalmente consegui estava tremendo da cabeça aos pés, encharcada de suor, como um paciente febril.

Tirei as roupas, tomei um banho quente, vesti um quimono japonês, pedi que chá e sanduíches ingleses fossem mandados para o quarto, depois deitei na cama e fiquei pensando na situação. Não havia qualquer dúvida agora: era muito mais frágil do que imagi­nava. Lembrei como o Prof. Lello, em Pádua, costumava descre­ver o progresso de determinadas infecções pneumônicas:

A mudança de condição subaguda para aguda e crítica é muitas vezes súbita e dramática. O paciente não está preparado para isso. Até mesmo um médico experiente pode ser apanhado de surpresa.

Eu mesma constatara freqüentemente que pacientes que resistiram ou adiaram o tratamento médico por um longo tempo se dete­rioravam rapidamente a partir do momento em que se colocavam sob cuidados médicos. A vontade de resistir parecia subitamente se desvanecer, depois que se entregavam a um curador profissional. A mesma coisa está agora acontecendo comigo. Minha breve sepa­ração de Jung... não mais do que uma hora para o almoço... deixou-me num terror desenfreado, como se fosse arrebatada das mãos do salva-vidas num mar tempestuoso. Quando o garçom trouxe o almoço, mantive-o no quarto por tanto tempo quanto era possível numa conversa superficial. Era um velho que gostava de falar e senti-me agradecida por isso. Qualquer coisa era melhor do que os guinchos e correrias dos camundongos dentro de minha ca­beça.

Depois que ele se retirou, comi e bebi com um cuidado delibe­rado, cortando os sanduíches em padrões geométricos, fazendo com que cada pedaço perdurasse por um longo tempo, tentando comparar o gosto daquele café com os sabores de todos os outros cafés que já tomara, durante todos os meus anos de viagens. Fi­nalmente, quando eu parecia novamente estável, instalada com re­lativa firmeza no plano da simples realidade, comecei a pensar em Carl Gustav Jung.

Ainda não sei até que ponto posso confiar nele, o quanto posso contar com sua força e julgamento. Fiquei comovida com o seu comentário súbito de que o médico ferido é quem melhor cura. Lembrei-me de novo do Prof. Lello, que costumava fazer um dis­curso aos estudantes sobre o juramento hipocrático. Era um ho­mem de extrema simplicidade e ao chegar à frase primum non nocere"... primeiro não fazer o mal, ele dizia:

   Quando ficarem doentes, quando cortarem o dedo ou larga­rem um martelo em cima do dedão do pé, não se esqueçam da experiência. Vai ensinar a nunca infligir dor desnecessária a quem já está sofrendo...

Claro que sou uma renegada e traidora dessa profissão de fé e ética. Inflijo dor para me proporcionar prazer. É por isso que pre­ciso mais de Jung do que apenas compaixão e compreensão. É por isso que fiquei furiosa quando ele descartou a questão da culpa de maneira tão indiferente. É por isso que sua conversa sobre ficções, mitos e contos de fadas deixou-me com uma indagação angustiante: será que ele tem medo da certeza, faz uma profissão de dúvida, porque no fundo está tão confuso como qualquer um de seus pa­cientes? Lembrei das palavras serenas mas pungentes de Emma Jung:

   Em nosso grupo, já tivemos dois suicídios e diversos colap­sos. O próprio Carl está sob grande tensão neste momento. Esta­mos todos.

Se minha impressão é certa, ele está tentando enfrentar a pres­são exatamente como eu... pela liberação sexual. Imagino se ele compreende, como acontece comigo, que com a passagem dos anos se precisa de mais e se obtém menos... e se paga mais caro.

Um francês, como não podia deixar de ser, descreveu melhor, com a pena mergulhada em ácido: "L'amour Coûte cher aux vieillardas"... O amor custa caro aos velhos. E às velhas? Ainda não estou velha, mas pago mais... muito mais do que a maioria... pelas insatisfações especiais.

Mas ainda estou me esquivando à questão de Jung e eu. Depois que eu lhe expulsar toda minha história, como cartas de taro, o que vai acontecer? Já sei o que sou e me odeio. Já sei, pelo menos em parte, por que sou assim; e Jung, sem dúvida, pode me ajudar a compreender o resto. A verdadeira questão é o que ele pode me ensinar ou prometer para me mudar e fazer com que o amanhã seja suportável.

Não é uma questão excepcional. Apresenta-se todos os dias, a todos os médicos. O que se diz ao paciente, homem ou mulher, em quem se acaba de diagnosticar uma doença terminal? O Prof. Lello costumava dizer, enigmaticamente:

   Os pacientes lhe dirão... desde que sejam sensatos o bastante para compreenderem o que ele está dizendo.

Mas estou dizendo muitas coisas contraditórias a Jung. Como ele pode ter certeza das minhas intenções? Como eu própria posso ter certeza? Meu medo é de que, como no passado, eu me desco­brirei num momento de suspensão, um tempo de inverno, com apenas um sim ou um não entre viver e morrer. Essa foi a primeira admoestação brutal de Jung:

   A vida é sua, Madame. Não tente fazer chantagem comigo com isso.

A advertência de Emma Jung foi mais humana, embora não menos clara: o momento da revelação será um choque terrível e terei de enfrentá-lo sozinha. Subitamente, o significado dessa nova palavra, "transferência", fica evidente para mim... tão evidente quanto meu apetite sexual por Carl Jung. Farei qualquer coisa, ab­solutamente qualquer coisa, para prendê-lo a mim, a fim de que, no momento final, ele não me abandone.

Ele gostaria de uma mudança de roupas? Ótimo! Uma coisa informal? O tenue de matelot que Poiret desenhou para mim: calça de shantung azul, blusa listrada de algodão, sandálias abertas, echarpe na cabeça. É mais Côte d'Azur do que Zurique, mais pas­sear de iate do que reunião de senhoras no Baur Au Lac. Mas... e que tudo mais se dane!... o homem terá o que pedir.

Quanto à biografia, será tão próxima da verdade quanto a memória puder me levar. Descobri uma coisa. A confissão sexual é fácil com esse homem. Sob o seu formalismo profissional espreita um camponês concupiscente, que gosta de uma história obscena e sabe que as mulheres também gostam. Mas quando nos adiantamos e começamos a explorar o lado escuro da lua, o que acontece? Ele está cheio de maneirismos de classe média e, desconfio muito, pre­conceitos de classe média. O camponês expansivo e obsceno se veste e fala como um petit-mallre, Se meu palpite está certo, ele tem um casamento de três ângulos, mas o orienta como um burguês e não como um boêmio.

É bem possível que isso aconteça porque ele não tem condições para ser de outra forma. Gianni di Malvasia explicou que a análise é uma profissão em que não se prospera rapidamente. Pergunto-me o que aconteceria se eu jogasse uma bolsa de moedas de ouro em sua mesa e dissesse:

—   Vamos, meu amigo! Temos pesquisas muito interessantes para realizarmos juntos!

Minha primeira impressão é de que ele pegaria o ouro, se levantaria e sairia da casa sem esperar ao menos para pegar uma camisa extra. O segundo palpite é de que eu acordaria uma noite para encontrá-lo agachado, nu, em algum santuário à beira do ca­minho, esperando que o deus mudo falasse... E o terceiro palpite é de que provavelmente seria bastante tola para tirar as roupas e juntar-me a ele.

Está na hora de ir. As cabeças se viram novamente quando atravesso o saguão, em meu traje de marinheiro de Poiret. Ouço uma voz inglesa a dizer:

—   Por Deus, mas que mulher extraordinária!

Fico tentada a me virar e dizer à mulher que ela não sabe da missa a metade... e se algum dia o marido quiser se livrar dela, posso oferecer a receita certa!

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Para os nossos austeros padrões suíços, ela está vestida como uma marafona francesa. Para o meu gosto, ela está muito atraente. A calça exibe as suas pernas compridas de dançarina e a cintura fina. A blusa realça a projeção dos seios, que não são muito gran­des nem muito pequenos. A echarpe na cabeça confina os cabelos e deixa à mostra a boa estrutura óssea do rosto, bem talhado como um camafeu antigo. Faço um elogio. Ela o aceita com um sorriso. E depois, imediatamente, voltamos à função. Peço a ela para me falar de sua vida de estudante em Pádua, para descrever em deta­lhes qualquer incidente ou aventura que foi significativo em sua vida posterior. Sem a menor hesitação, ela se lança à narrativa:

—   O que papai fez comigo foi um choque terrível. Teve, no entanto, o mesmo efeito de me mandar de volta à escola na Suíça para terminar o curso. Fiquei determinada a alcançar o sucesso, estabelecer as minhas próprias credenciais naquele mundo novo de vida universitária. Deve compreender que Pádua era uma cidade orgulhosa, onde se reuniam estudantes de todas as línguas e na­ções. Os ingleses e escoceses há muito que se haviam instalado ali como uma "Nazione", com direitos especiais e uma tradição hon­rosa. Thomas Linacre, médico de Henrique VII da Inglaterra, Edward Wootton, médico de Henrique VIII, estudaram lá. As es­colas de medicina de Leyden, Edinburgh, Filadélfia, Columbia e Harvard tiveram as suas raízes em Pádua. Aprendemos isso desde o início. Ensinaram-nos a ter orgulho disso com gente de fora, até mesmo nos mostrarmos arrogantes, se fosse necessário. A nossa escola era a mais respeitável da Europa... e peço que me perdoe por dizer isso, Dr. Jung.

Eu a perdoo. Estou feliz por verificar que ela se mostra tão excitada com a recordação da juventude. E pergunto a mim mesmo, ceticamente, por quanto tempo isso vai durar.

—   Mesmo agora, ainda sou uma boa estudante. Se aceito um desafio, tenho de trabalhar bem ou prefiro não fazer. O estilo pa-duano de ensino atribuía grande responsabilidade ao estudante. Os exames, tanto orais como escritos, eram rigorosos. Assim, eu le­vava uma vida regular durante a semana: aulas durante o dia, uma ou duas horas na cantina, depois voltava para casa, ao encontro de Lily, tomava um banho, mudava de roupa, jantava e escrevia ano­tações do dia. Não estava muito ansiosa por intimidades com ou­tros estudantes. Sentia-me vulnerável demais. Tinha segredos de­mais. Estava contente, pelo menos no início, em representar o papel da aristocrata exótica, desconhecendo o cenário estudantil, dependente... e como era dependente!... do cavalheirismo de seus acompanhantes... Aprendi, no entanto, bem depressa, que os ho­mens italianos já estão incuravelmente estragados aos 10 anos de idade e que qualquer mulher que se casar com um deles precisa ter a tolerância da Paciente Griselda... Os professores eram os melho­res do mundo. Os assistentes eram mal pagos e de qualidade variá­vel. Alguns não hesitavam em aceitar um envelope com dinheiro por ocasião dos exames, em troca de uma boa nota e de uma boa raccomandazione. Foi-me sugerido que eu poderia pagar em espé­cie. Minha resposta habitual era de que eu preferia enfrentar o rei­tor ou um professor catedrático se precisasse negociar o corpo para ser aprovada...

—- Mas, de um modo geral, sua vida acadêmica foi tranqüila?

   Foi, sim. Tive um ou dois romances menores, que não tive­ram maiores conseqüências. Não tinha a menor vocação para ensi­nar aos jovens as coisas da vida. Além do mais, fizera outra desco­berta. Os romances na Itália são altamente públicos. Nomes, da­tas, lugares e comportamentos sexuais são discutidos abertamente. E eu não queria fazer parte de tal scena!...

Ela faz uma pausa, antes de continuar:

   Os fins de semana eram diferentes. De sexta a segunda eu vivia em outro mundo: o Club delia Caccia, o salão de jogo em Veneza, o teatro, todo o circuito social. Havia uma coisa em papai que eu jamais percebera até aquele momento. Seu nome era bom, seu crédito era bom e nenhuma de suas mulheres jamais teve uma palavra desfavorável para dizer a respeito dele. É claro que Lily e eu tirávamos proveito disso. Ninguém sabia direito onde eu me enquadrava na cronologia da vida de papai. Era evidente que eu nascera de alguma ligação ilegítima e minha presença numa festa sempre proporcionava pelo menos uma hora de comentários. Lily me instruíra muito bem na diplomacia social. Se eu quisesse manter todas as portas abertas, devia ser diferente com as matronas em público, permitir que seus filhos me cortejassem respeitosamente e flertar com seus maridos em particular.

  • Pensou alguma vez em casamento nessa ocasião?

  • Não apenas pensei, mas até recebi um pedido de casamento formal.

  • De quem?

  • Ele era de uma família veneziana rica e tradicional. Creio que um dos seus ancestrais foi um Doge.

  • Mas não o aceitou?

  • Claro que aceitei. Por que não? Ele era bonito, romântico, rico e estúpido o bastante para que eu não tivesse a menor dúvida de que poderia controlá-lo.

  • E o que aconteceu?

  • Esqueci de uma pequena cláusula do contrato. Ele era católico-romano. Eu não era nada... ateia, para ser mais exata. Ele teria de obter permissão da Igreja para casar comigo. Seria um ca­samento quase secreto. A cerimônia seria realizada por trás do altar principal ou na sacristia. Eu teria de receber instruções de um padre para compreender as convicções morais e religiosas de meu marido. Teria de prometer que todos os meus filhos seriam criados na fé católica... Era demais. Recusei, com meus agradecimentos. A mãe dele ficou tão feliz que me abraçou e disse que eu era uma moça nobre, com uma natureza maravilhosa. Ela escreveria para seu irmão bispo, pedindo que dissesse uma missa por minha inten­ção. E como a minha intenção era a pior possível naquele mo­mento, eu não podia entender qual a vantagem daquilo. Mas beijei mãos e faces e depois voltei a Pádua.

  • De coração partido?

  • Qualquer coisa menos isso. Estava exuberante, pronta para qualquer coisa. Na semana seguinte, no Caffè Pedrocchi, eu estava contando a história... com floreios dramáticos, é claro!... a um grupo de amigos de meu curso de anatomia. Eram todos spiriti libe­rad, livres-pensadores e anticlericais. Um deles propôs-me uma aposta: que eu não me atreveria a fazer uma confissão no Duomo. Perguntei o que ele estava disposto a apostar. Ele disse que pagaria um jantar para todos, com um chitarrista para tocar. Aceitei. Os rapazes... todos haviam estudado em conventos... trataram de me ensinar o ritual e o Ato de Penitência, que eu deveria recitar ao final da confissão. Era bastante curto para que eu pudesse decorá­lo em poucos minutos. O empenho seguinte foi escolher uma boa lista de pecados. Acabamos nos definindo por fornicação, adultério e o que concordamos em chamar de atos anormais. Segundo meus amigos, isso acarretaria inevitavelmente um diálogo dos mais interes­santes com o confessor, que eu deveria repetir para eles, como parte da aposta...

  • E você foi até o fim?

  • Sem a menor apreensão... Não, isso não é verdade. Quando chegou o momento, eu estava apavorada. Tinha a sensa­ção de que estava me metendo em alguma coisa mágica. Senti a mesma coisa quando... mas isso já é outra história. Tenho de aca­bar esta primeiro...

    Não percebo para onde tudo isso está levando. A história do pedido de casamento e a rejeição dela foi contada de maneira indi­ferente e irreverente, como uma conversa descontraída numa reu­nião social. Talvez não seja mais do que isso. Mas ela parece mais interessada neste novo episódio, mais ansiosa no tom de voz, mais expressiva nos gestos. Por isso, não faço qualquer comentário e deixo-a continuar.

       Na tarde de sábado... é o dia de confissão para os católicos, eles purificam suas almas em preparativos para o domingo... os rapazes me acompanharam até a catedral e se ajoelharam comigo, perto do confessionário. Havia uma fila grande à minha frente. Fi­quei esperando, mais e mais nervosa a cada momento que passava. O que tornava tudo pior era o fato de que, um pouco à frente, numa capela lateral, havia uma fileira comprida de peregrinos pas­sando pela tumba de Santo Antonio, tocando-a, beijando-a, inclinando-se para as pedras, como se a magia do Milagreiro se transmitisse através de seus lábios e pontas dos dedos. Era uma cena fantástica. Aqueles devotos acreditavam realmente que esta­vam em comunhão com o santo morto há tanto tempo e que pode­riam contar com ele para atender a suas preces sussurradas. Como pode perceber, eu estava quase chorando e disposta a perder a aposta quando chegou a minha vez de ir para o confessionário. Mas os rapazes não permitiram. Empurraram-me para a frente e no instante seguinte eu estava dentro do confessionário.

    Uma coisa curiosa ocorre neste momento. Ela se levanta e começa a representar a cena, usando-me como o padre, ajoelhando-se no chão ao meu lado, pondo as mãos nos braços da minha cadeira.

    — O padre estava sentado como você agora, só que estava por trás de uma pequena grade. Estava com a cabeça abaixada, o queixo apoiado na mão. Eu não podia ver seus olhos, mas podia cheirar o que ele almoçara... alho e vinho rascante. Ajoelhei-me como estou fazendo agora. Fiz o sinal-da-cruz e falei, como os rapazes me haviam ensinado: "Abençoe-me, Padre, porque eu pe­quei. Um ano já se passou desde a minha última confissão. E fiz muitas coisas horríveis desde então." Ele pergunta que tipo de coi­sas. "Tenho ido para a cama com uma porção de homens. O homem com quem estou deitado agora é casado. Às vezes faço isso por dinheiro e depois, muitas vezes, os clientes querem... ahn... atos bastante estranhos." E foi nesse instante que tive uma grande surpresa. Ele perguntou, gentilmente: "Não tem outro meio de ga­nhar a vida? Precisa mesmo se prostituir?" Eu não estava prepa­rada para isso. Murmurei alguma coisa sobre como era difícil encontrar emprego. Ele disse: "Se está sendo sincera, vá ao Hospital Mater Misericordiae. Sei que estão precisando de ajudantes na co­zinha e faxineiras para as enfermarias. É um trabalho árduo, mas pelo menos será independente." Depois ele me fez um pequeno sermão sobre reformar minha vida e confiar na misericórdia de Deus. Disse-me que recitasse o Ato de Penitência, fez o sinal-da-cruz sobre mim e acrescentou que eu fosse em paz e corrigisse minha vida. Os rapazes se agruparam ao meu redor quando saí da igreja, querendo saber o que acontecera. Tentei fazer com que pa­recesse muito engraçado, mas não havia a menor graça. Eu queria realmente acreditar que podia acontecer, que alguém podia apagar todo o passado com umas poucas palavras mágicas. Não é uma tolice?

    Ela diz isso com uma risada, mas está à beira das lágrimas. Sinto-me tentado a pegar seu rosto entre minhas mãos e beijar seus lábios, para confortá-la. Mas não me atrevo a fazê-lo. Já fui envol­vido nisso antes. Primeiro, ela queria que eu fosse seu pai; agora, quer que eu me torne seu confessor. É tentador aderir ao jogo, mas acontece que sou sua única âncora na realidade e não posso renun­ciar a isso. Ajudo-a a levantar e lhe digo para sentar novamente. Ela faz um muxoxo de criança desapontada e se queixa:

       Não gosta da minha história. Será que a contei muito mal? Mas aconteceu realmente.

    Esse ato de menininha é tão estranho à sua persona normal que temo por um momento que ela possa estar regredindo incons­cientemente, a fim de evitar uma realidade desagradável que está à frente em sua narrativa. Aplico o velho medicamento, uma censura firme:

       Pelo amor de Deus, não tente esses truques comigo! E uma mulher madura. Sua história é fascinante..., mas não precisa apresentá-la como uma história infantil para suas bonecas.

    Como estou esperando, ela fica furiosa e esbraveja comigo:

  • Vá para o diabo! Nunca mais fale assim comigo! Não sabe como estou me esforçando para lhe dar o que está querendo!

  • É justamente esse o problema. Você está se esforçando demais. E eu não quero coisa alguma. O que ambos precisamos é da verdade... e quanto maior for a simplicidade com que for dita, melhor será. Não tente adivinhar como vou reagir a isso ou por quê. Isso é apenas da minha conta. Como se sentiria se um pa­ciente seu não se contentasse apenas em descrever os sintomas, mas também insistisse em fazer o diagnóstico? Está me enten­dendo?

    Ela compreende perfeitamente. Mas eu também tenho de com­preender. Nunca antes ela revelou tanto de si mesma a alguém. Quando recai na encenação, é simplesmente por pânico, não por­que está querendo se exibir. Assim, fazemos novamente uma tré­gua. Lembro que ela se referiu a outra história... alguma coisa com um elemento de magia.

       Magia? Ah, sim, estou lembrando agora...

    Ela começa a assumir outro personagem, a estudiosa intelectual, possuidora de um curioso conhecimento. Fico esperando, respeitosamente.

  • Alguma vez já tomou o Caffè alia Borgia?

  • Ao que eu saiba, nunca. O que é?

  • É café, conhaque de damasco, creme e canela. Era a bebida ritual na reunião mensal da Sociedade Scotus.

    Estamos entrando em outro jogo. Digo a ela que nunca ouvi falar da Sociedade Scotus. Ela fica deliciada com a sua pequena vitória.

    Mas conhece o homem pelo qual recebeu esse nome.

  • Conheço?

  • Tem obras dele em sua estante.

  • Tenho?

  • Tem, sim. É Michael, o Escocês, século XIII. Ele traduziu Aristóteles da versão árabe de Averroés e ensinou o texto em To­ledo, Salamanca e Pádua. Era considerado um mago. Escreveu três obras que sobreviveram: De Fisiognomía, De Geração...

  • E de Alquimia! — Eu me apresso em arrematar e assim sou atraído para o jogo. Mas é claro! E Pádua sempre foi conhecida como um centro das artes alquímicas e de necromancia.

  • Bravo! Ela me aplaude e se apressa em enfeitar a história. Sabia que há até mesmo uma versão da lenda de Fausto em que um estudioso de Cambridge chamado Ashbourner vendeu sua alma ao diabo em troca de um Doutorado em Teologia em Pádua? Ele tentou não cumprir a sua parte do acordo e foi encontrado afogado no Cam.

  • E como topou com tudo isso?

  • Não foi por acaso. Li a respeito. A vantagem de se estudar em Pádua era a de se conhecer também as artes liberais e não ape­nas a medicina clínica e a cirurgia. A Sociedade Scotus foi fundada no tempo de meu pai. Pretendia ser uma associação de estudiosos interessados nos fenômenos ocultos. Na verdade, era uma cober­tura para atividades anticlericais e anti-Habsburgos. No meu tempo, ainda era anticlerical, só que bastante mais frívola. Seus membros brincavam com magia negra, diabolismo, a restauração de antigos ritos e cultos. Provavelmente já esqueceu como tudo isso estava em voga naquela época. Lembre-se de toda a repercus­são que Huysmans alcançou com A Rebours!

    Percebo de repente que ela não está simplesmente representando a intelectual. É evidente que já leu muito. E conhece o que leu em seu contexto social. Ainda não entendo, porém, para onde essa história está levando. Ela continua:

       Mas sempre me senti inquieta com tudo aquilo. Não era uma participante relutante. Mas, como uma descrente, tinha de concordar que tudo não passava de uma pantomima. E na maioria das vezes era uma oportunidade para algum sexo estremamente teatral. Costumávamos nos reunir numa casa de campo perto de Abano e realizávamos as cerimônias numa capela abandonada na propriedade. O único papel que eu refugava era o da mulher nua, deitada no altar de pedra durante a Missa Negra. Primeiro, não gostava do homem que representava Satã, e segundo, sentia vaga­mente que estávamos lidando com algo perigoso. Não compreendia que o perigo estava dentro de mim e não fora...

    Ela hesita. Fico esperando. Se ela puder romper esse bloqueio sem estímulo, significa que efetuamos um grande progresso. E, fi­nalmente, ela o consegue, de uma maneira indireta:

  • Disse esta manhã que minha história era contraditória... uma infância feliz, um casamento feliz e depois o que chamou de "uma vida sexual promíscua, de características sado-masoquistas''. Está lembrado?

  • Claro que lembro. Mas não sabia que as palavras haviam calado tão fundo.

  • Fiquei me perguntando: Onde começou? Como começou? Parece exagerado, mas acho que começou com a Sociedade Scotus.

  • Com a Missa Negra?

  • Não. Com outra coisa. Tem aqui alguma referência sobre as escavações em Pompeia... referências pictóricas?

  • Tenho certeza que sim. Meu interesse por arqueologia jamais se desvaneceu.

    Encontro o livro. Folheamos juntos. Finalmente ela me pára nas páginas sobre a Villa Del Misteri, onde se acredita que os afrescos descrevem a celebração do culto de Isis. Uma das ilus­trações mais notáveis é a que mostra uma jovem despida, curvada sobre os joelhos da sacerdotisa, sendo flagelada por uma atendente. Olho para a minha paciente. Ela está pálida e transtornada. Sua voz é trêmula quando começa a falar:

  • É isso! Reencenamos toda a cerimônia em uma de nossas sessões em Abano. E eu fui a encarregada da flagelação. Fiquei surpresa ao descobrir quanto a vítima e eu gostamos. Ela estudava escultura na Escola de Belas Artes. Foi o começo de uma ligação entre nós que se prolongou por quase um ano... Não tentei repetir a experiência na ocasião. Encontramos outras coisas para nos di­vertir. Mais tarde, porém, quando ocorreu a grande crise na minha vida, acho que eu já estava preparada. Mas é estranho que esti­vesse associado a um ato religioso.

  • Não é tão estranho assim. — Sinto-me muito gentil com ela neste momento. Ela está trabalhando comigo e não contra mim, como fazem tantos pacientes nos primeiros estágios da análise. Por isso, tento partilhar com ela algumas observações e percepções. — Religião, sexo e sofrimento constituem provavelmente a mais cons­tante trindade das experiências humanas. Pense a respeito por um momento. A religião, que já definimos juntos, trata do mistério, o mistério de nossas origens, nossos fins, nosso relacionamento com o cosmos, com o mistério do próprio sofrimento. Qual é o símbolo que nos confronta em toda igreja cristã? O crucifixo, o corpo de um homem torturado, pregado numa cruz de madeira... O sexo é um ato tanto divino como animal. É o começo da vida. É também a pequena morte. A fúria de amantes não está muito distante da fúria da violação e matança. O primeiro impulso do amante desapontado é infligir dor à pessoa outrora amada... Olhe para as imagens de Hieronymus Bosch e verá o princípio prazer-dor distorcido numa visão sexual do inferno.

       É assim mesmo que tenho me sentido ultimamente, como se o inferno fosse um hospício e eu estivesse encerrada dentro dele.

    É a confissão mais simples e pungente que ela já fez desde que começamos a sessão. Resolvo continuar por esse caminho durante mais algum tempo, lançando iscas conversacionais e observando como ela reage.

  • Quero lhe fazer uma pergunta. Pode parecer insultuosa, mas não é essa a intenção. Falou várias vezes, com muita calma e franqueza, de suas ligações sexuais com mulheres. Não são violen­tas. Você encontra grande satisfação nelas. Suas relações com os homens, por outro lado, são agressivas e violentas. Sente-se divi­dida entre os sexos? Sente-se parte mulher, parte homem?

  • Não, não me sinto. — Ela é enfática, mas bastante calma. — Eu me vejo como uma pessoa inteira, uma mulher. Meus gostos podem não ser como os de todo mundo, mas são meus e eu sou eu.

  • Está satisfeita com você mesma?

  • Sabe que não. Tenho um medo terrível.

  • De quê?

  • Que esse eu seja um acidente incurável. Já deve ter visto recém-nascidos monstruosos. Temos tudo na medicina. Não há qualquer esperança para eles. Estão além da razão, além do amor, até mesmo além dos cuidados... É assim que me sinto em relação a mim mesma.

    —- E é por isso que está se agarrando a várias idéias religiosas. Em qualquer sociedade religiosa, a confissão está associada ao re­nascimento. Abandone o velho Adão, assuma o novo Cristo. Eva, que provocou a queda do homem, é agora Maria, a mãe de Deus, que carregou o Salvador em seu útero.

    Há um longo momento de silêncio. Depois, ela se levanta, aproxima-se e me beija na testa. Passo a mão por seu rosto, em reconhecimento, e pergunto:

  • Para que foi isso?

  • Para lhe agradecer por ser tão compreensivo. Peço desculpas por ter sido rude com você.

    Uma campainha de advertência começa a soar em minha cabeça. Digo a ela que compreendo alguma coisa, mas não tudo. Ainda temos um longo caminho a percorrer. Nenhum dos dois pode se permitir a complacência.

  • Por exemplo: poderia me falar mais a respeito dessa escultora com quem partilhou a cena de flagelação e com quem iniciou depois uma ligação amorosa?

  • O nome dela era Alma de Angelis. Tinha 25 anos. Vinha do sul.... Cápua, se bem me lembro. Ela pequena e morena, cabelos pretos, compridos e lustrosos, olhos maravilhosos, que pareciam grandes demais para o seu rosto. A escultura, como deve saber, é a mais árdua das artes. Trabalha-se em madeira, pedra ou bronze, o puro esforço físico é enorme. Uma recordação intensa que tenho é das mãos dela. Eram fortes e calejadas, como as de um operário. Lembro que perguntei a Alma por que ela queria se dedicar a um trabalho assim. Ela me disse que o pai esculpia em mármore, fa­zendo monumentos funerários. Ela era filha única. O pai queria desesperadamente um filho homem, a quem pudesse transmitir sua arte e vê-lo fazendo algo melhor que anjinhos para sepulturas. Ele juntou dinheiro suficiente para mandar Alma estudar em Pádua. Sob esse aspecto, ela era muito parecida comigo. Só que, como uma autêntica meridional, estava desesperadamente apavorada de ter de voltar para casa e confessar que perdera a virgindade. Por isso, ela estava madura para o tipo de relacionamento que tivemos. Prometi que, antes de sua volta para casa, faria a tradicional restauração cirúrgica de hímen... Mas rompemos muito antes disso e perdemos o contato.

  • Você se sentia feliz, enquanto a ligação perdurou?

  • Acho que sim. Foi uma dessas ligações que sobreviviam aos trancos e barrancos, com drama alto num dia, tédio no seguinte. Grandes cenas de ciúme. Muitos ressentimentos e queixas. Uma ligação tipicamente italiana. Havia elementos calculistas para nós duas. Ela me introduziu na boêmia de pintores, escultores e artífices de todos os tipos. Eu lhe proporcionei uma incursão pelo luxo que ela jamais conhecera e nunca teria condições de desfrutar. Lily sempre a agradava e, conforme descobri mais tarde, costu­mava lhe enviar dinheiro por muito tempo depois que a nossa liga­ção terminou.

  • Se me perdoa dizê-lo, parece que está contando tudo isso com uma considerável isenção. Muito diferente das narrativas sobre sua infância. Por que isso?

    —Porque me sinto diferente... muito diferente... em relação a esse período. Depois daquela cena terrível com papai, eu estava determinada a não permitir que ninguém, nunca mais, pudesse me manipular através das minhas emoções. Assim, de certa forma, transformei-me numa atriz. Podia rir, chorar, fazer amor, divertir-me por todos os meios possíveis. Só tirava a máscara e assumia minha personalidade genuína quando estava em casa com Lily. Eu sabia de tudo a respeito de Lily; ela sabia de tudo a meu respeito; e ainda nos amávamos. Se alguma vez acalentava alguma dúvida, era sempre dissipada pela visão de Lily com a camisola levantada, correndo pelo quarto para chutar papai nos colhões!

    As palavras saíram com uma satisfação tão intensa que ambos rimos. Aproveito o momento de relaxamento para acrescentar outra sugestão.

  • Já lhe ocorreu que estava tentando viver em Pádua a mesma vida que tivera no Schloss Silbersee? Seus aposentos ainda eram um Éden particular, onde bem poucos estranhos tinham per­missão para penetrar. É verdade ou não?

  • Claro que é verdade. — Ela não hesita e vai mais longe. — Crianças que são criadas em famílias grandes e vão para a escola são muito afortunadas. Ao se tornarem adultas, são aceitas como parte do grupo, Até mesmo suas loucuras são abertas e partilhadas. Suas aventuras se tornam parte do folclore tribal... Para mim, no entanto, foi totalmente diferente. Eu era a menina extraordinária. Soube desde pequena, porque Lily e papai assim me ensinaram, que todos os meus privilégios dependiam do segredo. Comecei com uma culpa secreta; uma mãe que fugiu e nunca mais voltou. Mais tarde, é claro, tive muitas outras, as relações sexuais em casa, as aventuras na escola e toda a vida de estufa, pela qual me sentia cada vez mais culpada, porque não podia partilhar com ninguém.

Está na ponta da minha língua lembrar que, na sessão pela ma­nhã, ela foi bastante taxativa ao declarar que jamais experimentara culpa, não podia definir o sentimento. Mas, felizmente, permaneço calado. Ela volta à nossa discussão anterior de fé e perdão. Per­gunta francamente:

  • Acha que há alguma possibilidade de uma solução religiosa para mim?

  • Se você quiser, provavelmente há.

  • Não estou entendendo.

  • Vou tentar explicar. Você pode procurar qualquer dos grupos religiosos que existem no mundo... muçulmano, budista, calvi­nista, católico, luterano, quacre, a lista é interminável. Apresenta-se ao sacerdote, como as pessoas faziam com meu pai, por exem­plo. Você diz: "Estou perdida e nas trevas. Fui informada de que você tem a luz. Quer partilhá-la comigo? Sou impura e desejo ser purificada." A resposta de todos será a mesma: "Claro que temos a luz. Estamos dispostos a partilhá-la. Há sempre perdão e uma vida nova para uma penitente. Entre! Deixe que lhe ensinemos. Depois, quando estiver pronta e disposta para a graça, nós a rece­beremos na comunidade dos eleitos."

  • Mas que comunidade devo escolher? Que lado é o certo? Qual Deus é o verdadeiro?

  • Se é que alguém é.

  • Exatamente! Se é que alguém é. Mas tenho visto pessoas serenas e felizes, totalmente em paz em suas convicções religiosas.

  • Gostaria que me falasse sobre as que mais a impressionaram.

  • Está zombando de mim?

  • De jeito nenhum! Mas neste tipo de análise os fatos pequenos são muito importantes.

  • Está certo. Vou dar um exemplo. Durante todo o tempo que passamos em Pádua costumávamos receber visitas de freiras e monges mendicantes, angariando recursos para diversas obras de caridade, como hospitais, orfanatos e abrigos para mulheres decaí­das. Os monges apareciam sozinhos. As freiras estavam sempre em duplas, uma velha, outra jovem. As minhas prediletas eram uma dupla de Clarissas Pobres de um lar para enjeitados perto do centro da cidade. A mais velha era uma mulher grandalhona, de rosto re­dondo e risonho, que parecia e falava como uma lavadeira de al­deia. A mais jovem era excepcionalmente bonita. Tinha a pele branca como leite. Dava a impressão de que acabara de sair de uma cerâmica de Della Robbia.

    "Lily e eu sempre oferecíamos café e torta de maçã às duas. Elas ficavam satisfeitas pela oportunidade de descansar os pés de­pois de muito andarem pela cidade. Acabamos por conhecê-las bas­tante bem. A mais velha era exatamente o que parecia, filha de camponeses de uma localidade perto de Ferrara. A outra era filha de um juiz de Siena. O nome dela, na religião, era Irmã Damiana. Era muito instruída, falava inglês, francês e alemão, tocava piano maravilhosamente.

    "Quando indaguei o que a levara a entrar para o convento, ela me deu uma estranha resposta: 'Fui chamada. E respondi.' Quando indaguei como fora chamada, por voz, trombetas ou um arauto celestial, ela riu e disse: 'É como se apaixonar. Não há pa­lavras para descrever.' Quando indaguei se alguma vez já estivera apaixonada, ela respondeu que sim, que até estivera noiva. Mas o noivo morrera um mês antes do casamento.

    "Ela costumava me chamar de Dottoressa. Quando a grande epidemia tifóide se abateu sobre Pádua, ela pediu a Lily e a mim para ajudar nos cuidados com as crianças na instituição. Todos os estudantes de medicina mais adiantados foram recrutados para tra­balhar na saúde pública. Assim, ao chegar ao orfanato, eu já tinha trabalhado por oito ou dez horas. Mas a devoção daquelas mulhe­res, especialmente da minha jovem amiga, deixava-me envergo­nhada e fazia com que eu continuasse a trabalhar. Pensando nisso agora, ela foi a única que jamais conseguiu me deixar envergo­nhada, sem dizer uma palavra sequer.

  • Alguma vez partilhou confidências com ela?

  • Sobre a minha vida? Nunca. Damiana jamais perguntou e o que eu tinha a contar não se enquadrava em conversa de convento. Houve, no entanto, um dia estranho, pouco antes da epidemia co­meçar a definhar. Eu estava sentada numa cama, num dos dormitó­rios, umedecendo o rosto de um menino frágil, que era um caso perdido. Eu estava furiosa por dentro com a estupidez e ignorância que permitiam que uma epidemia assim acontecesse. Damiana aproximou-se, pôs a mão em minha testa e disse suavemente: "Mas que pensamentos tempestuosos! Tanta raiva! Um coração tão ansioso! Fique calma! O amor lhe chegará no momento oportuno!" Desatei a chorar. Ela me abraçou, até que recuperei o con­trole. Lembro de ter pensado que não pude sentir seus seios atra­vés do tecido grosso do hábito...

  • Manteve-se em contato com ela depois?

  • Ela morreu um ano antes de eu deixar Pádua. Ela teve tuberculose, mas poderia ser salva. Passei a odiar essas ordens reli­giosas desde então. Talvez sejam melhores agora, mas naquele tempo na Itália estavam empenhadas em salvar os pobres e igno­rantes para Cristo... e matavam a sua própria gente com desnutri­ção, estafa e pura negligência desumana.

    É a primeira vez que a vejo furiosa em relação a alguém que não ela própria. Contento-me em fazer um pequeno comentário:

  • É evidente que gostava muito dela.

  • Eu a amava. E amava-a de uma maneira que jamais conheci, antes ou depois. Graças a Deus que ela nunca soube o tipo de mulher que eu era!

  • Talvez ela soubesse.

  • Não poderia saber. Morreu cedo demais. E acho que eu deveria me sentir contente por isso.

    Ela está quase à beira das lágrimas. Noto como ela se empenhou em reprimi-las. Finalmente ela consegue exibir um sorriso trêmulo e pede para mudar de assunto.

  • Está certo. O que mais pode me contar que foi significativo em sua vida em Pádua?

  • Significativo? É uma palavra difícil. Significativo... Deixe-me pensar... Por um lado, tornei-me uma boa médica. Compreendi o que era a profissão. Era eficiente na cirurgia e acurada no diagnóstico. O Prof. Lello costumava dizer que eu tinha tudo que um bom médico precisa... exceto coração. Ele estava certo. Eu vivia atormentada pela idéia de que a medicina é uma profissão dedicada à inutilidade. Ao final, todos os nossos pacientes acabam morrendo. Enterramos nossos sucessos e nossos fracassos na mesma sepultura...

    Há alguma coisa insólita na última frase, mas não consigo defi­nir o que seja. É como ouvir um sino distante que está rachado. Apresento uma das perguntas da minha lista:

   Por que finalmente renunciou à medicina? Ela me olha com uma expressão de surpresa.

   Pensei que já tivesse explicado. Tratei de meu marido durante sua doença fatal. Esse foi o fracasso que cumulou tudo. E abandonei a medicina para sempre.

Ainda estou interessado em saber como ela enterrava sucessos e fracassos na mesma sepultura. Mas não tem importância. Escrevo uma anotação e espero que o assunto se esclareça por si mesmo mais tarde. Pergunto se há mais algum material útil a ser extraído do período em Pádua.

   Que mais? Ah, sim... Lily teve um grande caso de amor. Durou apenas um ano... até menos do que isso..., mas foi a coisa mais extraordinária que já lhe havia acontecido. Lily e eu saímos a passear a cavalo num fim de semana e chegamos a uma pequena aldeia chamada Arqua. Lily, que levava um Guia Baedeker até mesmo para a cama, anunciou que aquele era o lugar em que Pe­trarca vivera durante os últimos anos de sua vida e que as assinatu­ras de Lorde Byron e Teresa Guiccioli podiam ser encontradas no livro de visitantes.

"Encontramos a casa de Petrarca, no alto de uma colina, com o gato do poeta, mumificado, numa caixa de vidro por cima da porta. Encontramos a assinatura de Byron... e também a de Te­resa. Passeamos pelo pequeno jardim, dando para as colinas e os vinhedos. Depois, quando já estávamos montando para voltar, o grande amor de Lily apareceu, subindo pelo caminho num grande cavalo baio..."

Ela está, obviamente, gostando dessa parte da história e por isso a deixo saboreá-la plenamente.

   Era um lindo cavalo e um cavaleiro ainda mais extraordiná­rio. Ele não era jovem. Descobrimos depois que já estava perto dos 70 anos. Mas se comportava como um príncipe na sela, emper­tigado, com a cabeça grande e arrogante bem erguida, como a es­cultura eqüestre Gattamelata, de Donatello, fora do Duomo, em Pádua. O rosto era fino, com uma barba comprida, bigode abun­dante, de pontas caídas. Tinha um nariz adunco, como o bico de uma águia, olhos escuros e penetrantes, a boca fina, que raramente sorria e sempre mostrava uma insinuação de crueldade. Parou o cavalo e nos cumprimentou em italiano. Lily fitou-o boquiaberta por um momento e depois anunciou, em seu mais puro sotaque de Lancashire:

Santo Deus! Eu o conheço!

O estranho sorriu... e os olhos escuros se abrandaram num faiscar infantil.

Conhece, Madame? Pois então, pelo amor de Deus, diga-me quem sou. Eu detestaria morrer na ignorância.

Você é... você é aquele explorador, Richard... Desculpe, Sir Richard Burton. Já vi sua fotografia no Time.

Ele tirou o chapéu, com um gesto largo, desmanchando-se em agradecimentos.

Madame, salvou meu dia do desastre total. Sou de fato o explorador, atualmente cônsul de Sua Majestade Britânica em Trieste. Encontro-me em férias do meu posto, libertado da minha escrivaninha e misericordiosamente de licença de uma esposa a quem amo profundamente, mas não posso tolerar por mais que um mês a fio. Não é culpa dela. Sou um marido insuportável.

"Lily fez uma apresentação ansiosa de si mesma e de mim. Fizemos uma segunda excursão pela casa e jardim de Petrarca, paramos respeitosamente sob as figueiras, enquanto nosso novo. conhecido declamava dois dos Sonetos a Laura. Montamos em se­guida e voltamos para o clube junto com ele, a fim de entregarmos os cavalos e pegarmos nossa carruagem. A iniciativa óbvia era convidar Burton para jantar. Ele aceitou. Durante a refeição, ele mostrou-se encantador, escandaloso e com muitas histórias explên-didas sobre os seus primeiros dias no Sind, sua fatídica expedição com Speke e muito mais. Quando ele finalmente foi embora, Lily e eu estávamos flutuando por todo o mapa.

"Na visita seguinte, apenas 48 horas depois, ele teve um violento ataque de malária. Nós o pusemos na cama, no quarto de papai. Examinei-o. Era evidente que se tratava de um caso crô­nico. O fígado e o baço estavam bastante inchados. Receitei os medicamentos apropriados e Lily cuidou dele. Já eram amantes quando ele se recuperou para poder viajar. Quando censurei Lily, ela respondeu:

"— O que estava esperando? Ele é um homem insistente e eu sou uma mulher sempre disposta. E a esposa deve ter uma concor­rência muito pior do que eu. Ele já viu tudo e fez tudo... e graças a Deus eu era experiente o bastante para aceitá-lo.

Depois, o que foi terno e um pouco triste, ela pegou-me as mãos, comprimiu-as contra o peito e suplicou-me:

— Por favor, Magda, querida, não tente roubá-lo de mim, está bem?

"Jurei que não o faria e estava falando a sério. Ele era velho demais para mim e... sei que isso vai parecer estranho... me assus­tava. Sabia demais a respeito de tudo. Fizera a peregrinação a Meca disfarçado em médico árabe. Entrara na cidade proibida de Harar, na Etiópia. Espionara para Napier no Sind e escrevera um relato escandaloso sobre prostituição masculina e feminina em Ka-rachi, que perseguiu-o pelo resto da vida. Não tinha princípios mo­rais para apregoar. Matara homens. Estava empenhado em traduzir dois clássicos eróticos do mundo árabe, As Mil e Uma Noites e O Jardim Perfumado. Sempre tive a sensação de que ele estava olhando dentro de minha cabeça e rindo do que via.

A atitude dele com Lily era muito diferente. Adorava sua simplicidade e vulgaridades naturais. Quando ele ficava muito exu­berante ou furioso na embriaguez, Lily o censurava até a submis­são. Ele podia aparecer a qualquer hora e ia embora sem avisar. Tinha os bolsos sempre cheios dos presentes mais estranhos: uma pulseira de pêlos de elefante, um amuleto de âmbar esculpido, um anel de engaste feito por algum ourives balcânico.

Ele apareceu um dia pouco antes de meio-dia. Lily saíra com a empregada para comprar frutas e legumes. Sentei com ele para tomar café. Ele segurou-me pelos ombros e obrigou-me a virar para fitá-lo. As mãos pareciam de ferro. Os olhos escuros eram hipnóti­cos. E falou suavemente, quase um sussurro:

— Você é uma selvagem, Magda. Eu costumava domesticar falcões na índia e por isso sei o que precisa. O único motivo pelo qual nunca a toquei é que ando cansado demais para me importar. Lily é a mulher certa para mim. Ela sabe o que eu quero e quando quero, sabe quando preciso me enroscar e dormir... O problema é que não estarei aqui por muito mais tempo. E você sabe disso. Verificou meu fígado durante aquele último ataque de malária. E tenho uma porção de outras coisas que contraí de Salt Lake em Utah a Jeddah na Arábia. Gostaria de deixar alguma coisa para Lily, mas sou um homem pobre e tudo o que tenho vai para minha esposa Elizabeth. Ela é uma boa mulher, com o coração de uma leoa, mas sempre precisei de uma sucessão de potrancas e um que outro potro para variar. Mas trouxe uma coisa e quero que você a guarde para Lily e só entregue depois que eu me for. Ela vai rir muito... E se eu deixasse para Elizabeth, tenho certeza que ela queimaria...

"Ele me entregou um pacote pequeno e chato, costurado em lona, com um ponto de fazedor de velas. E suplicou:

"— Não abra, está bem? Deve ser um privilégio de Lily.

"Depois, ele me lançou um olhar prolongado e avaliador. Eu sabia que ele estava tentando decidir se devia ou não me beijar. Finalmente sacudiu a cabeça e sorriu-me.

"— Nada disso. É cedo demais para você e muito tarde para mim. Eu gostaria de ser jovem bastante para desfrutá-la. E detesta­ria ser o homem que lhe falhou...

"Ele morreu três meses depois. Lily ficou desolada. Foi pre­ciso muito tempo para que se recuperasse. Ficou com o pacote por várias semanas antes de ter coragem de abri-lo. Lá dentro, escrita com a letra de Burton, havia uma tradução de O Jardim Perfu­mado. Costumávamos ficar sentadas na cama lendo uma para a outra. Mais tarde, soube que Elizabeth Arundell Burton foi acu­sada de queimar aquele manuscrito e diversas outras obras da Eró­tica de Burton. Talvez ela o tivesse mesmo feito e aquela fosse uma cópia especial para Lily. Não sei. Presumo que Lily ainda a tem. Imagino o que dirá o vigário quando a encontrar entre os per­tences de Lily, depois que ela morrer. Pelo que sei, ela tornou-se uma velha muito empertigada!

Ela encerra a história com esse insólito elegíaco. Assim, tenho quase certeza de que já acabamos com Pádua. Ela própria está cansada do relato. Sugiro um momento de pausa e ofereço um co­nhaque ou um cordial. Ambos preferimos o conhaque. Como diver­são, vasculhamos juntos os meus livros e encontramos mais frag­mentos de informações inúteis sobre Michael, o Escocês. Desco­brimos que Dante o colocou no quarto círculo do inferno, que Boccaccio o inclui entre os grandes mestres da necromancia e que ele aparece num pequeno afresco em Florença, um homem baixo, magro, de barba em ponta, vestido como árabe... Descubro tam­bém um pouco mais a respeito de minha cliente. Ela sabe muito bem como usar o material de pesquisa. Lê latim e grego, mas o mesmo acontecia com Messalina, que era uma devassa e uma mu­lher muito perigosa.

Devo ter servido uma dose exagerada de conhaque. Posso sentir que está me subindo à cabeça. Normalmente, gosto da primei­ra onda de relaxamento que acompanha uma dose de álcool. Mas não agora. Estamos chegando ao momento que os antigos curado­res gregos chamavam de "experiência do Deus". É um instante de extremo perigo, em que a paciente se submete à Presença ou se descontrola numa fúria destrutiva. Assim, minha cara Madame, se já está pronta, vamos nos concentrar e começar nossa análise das últimas coisas, seu Eschaton particular, o dia do juízo final e da dissolução, quando a crosta desaparece de seus olhos e verá tudo absolutamente claro!

 

MAGDA...

Zurique

Compreendo agora por que Jung estava relutante em prolongar a sessão. São apenas quatro horas da tarde e já estou consciente da fadiga. O álcool ajuda, a princípio. Faz-me sentir relaxada, franca e cordial. Mas também afrouxa meus controles e deixa-me vulnerável a qualquer pressão súbita do exterior ou tensão do inte­rior. Sei que tenho falado livremente e estou surpresa por descobrir quanto material esquecido foi revelado sob a inquisição curiosa de Jung. Há anos que não pensava em Irmã Damiana ou Alma de Angelis. Quanto ao caso de Lily com Sir Richard Burton, pensava que estava consignado ao sótão há décadas!

Jung me diz que ainda quer acompanhar a cronologia da minha vida, mas sem se deter por tempo demais em recordações tênues ou sem importância. Ele diz, com toda razão, que os marcos na estrada geralmente são visíveis a uma longa distância... Explico que os dois anos subseqüentes à universidade foram muito impor­tantes em meu desenvolvimento pessoal e é essencial gastar algum tempo neles.

Digo isso com alguma astúcia. Conheço minha história. Ele não conhece. Preciso de tempo e uma nova infusão de coragem para me levar ao momento da verdade e a superá-lo. Acho que Jung compreende. Apesar de sua estrutura corpulenta e das rea­ções óbvias à minha presença feminina, há muito de feminino nele. Há momentos em que ele pára de raciocinar e adivinha... e o palpite geralmente está certo. Posso sentir também quando ele está sendo condescendente comigo e quando está querendo me bloquear. Isso sempre acontece nos momentos em que estou tentando enganar a mim mesma.

Penso, no entanto, que já o convenci de que possuo uma inteli­gência, leio algo mais do que revistas de modas e posso soletrar todas as palavras no dicionário médico. Ele me pergunta se esta­mos prontos. Asseguro que estamos. Ele começa com uma asser­tiva simples:

  • Você deixou Pádua com um diploma de médica.

  • E dos melhores.

— Que planos tinha para uma carreira futura?

—   Ainda eram vagos, porque eu não concluíra meu treinamento. Papai conseguira-me um período de interna no Allegemeines Krankrenhaus, em Viena. Seu colega, Freud, também trabalhava lá, se bem me lembro. Depois disso, eu queria fazer um curso de pós-graduação em Edinburgh ou Londres. Mas papai, por motivos óbvios, não estava muito satisfeito com essa perspectiva... E de­pois? Eu tinha uma vaga idéia de que gostaria de levar minha vida como papai, manter Silbersee e exercer a profissão em Salzburgo ou Innsbruck... Antes, porém, havia a grande viagem oceânica que papai me prometera como recompensa pela formatura. Eu estava pronta para mudar. Todos estávamos. Papai estava agora na casa dos 50 anos, ainda atrás de mocinhas, mas começando a imaginar se não deveria encontrar alguma viúva simpática e aristocrata, com rendimentos próprios, assentando em companhia dela. Lily, en­trando na meia-idade, estava mais possessiva e ocasionalmente ra­bugenta. E eu? Estava cansada. O último ano fora brutalmente di­fícil: horas intermináveis no hospital, madrugadas a estudar, pouca diversão... e para cumular tudo isso um acesso de bronquite no inverno de que não conseguia me livrar... Não tinha qualquer amante regular e pouca disposição para procurar um. Tudo o que queria era terminar aquele ano e conquistar uma liberdade de que nunca desfrutara.

Jung me olha com um sorriso malicioso e diz:

  • E uma coisa estranha para dizer. Eu pensaria que era a mais livre de todas as mulheres mortais, com sua própria casa, dinheiro em abundância, uma acompanhante complacente e um pai ainda mais complacente.

  • Não está entendendo. A coisa de que eu mais queria libertar-me era do passado... de tudo o que parecia me distinguir das outras pessoas. E pensava que a viagem que papai planejara seria um ponto parágrafo, a partir do qual poderia iniciar um novo capítulo.

       E foi o que aconteceu?

       Foi, sim, embora não como eu esperava... A viagem propriamente dita foi uma experiência maravilhosa. Embarcamos em Rotterdam, em acomodações de primeira classe, no navio principal da Royai Dutch Line: cabinas separadas para todos, porque "so­mos todos velhos o bastante para precisarmos de privacidade", como explicou papai. Ele ainda está nessa!, pensei. Nossa rota passava pelo Canal de Suez para Aden, Colombo, Cingapura, Soerabaya, Saigon, Xangai, Hong Kong. Os outros passageiros eram mercadores holandeses, funcionários do serviço colonial holandês, comerciantes ingleses e um amplo sortimento de esposas e crian­ças... Não se preocupe! Não vou lhe descrever toda uma excursão de um Guia Baedeker. Mas amei cada dia e cada noite da viagem. Sentia-me livre. Sentia-me uma mulher por conta própria.

    "Fiz amizade com o médico de bordo, que depois de superar o espanto por descobrir uma colega do sexo feminino tornou-se um companheiro agradável, se bem que um tanto persistente. Eu es­tava, no entanto, muito mais interessada num homem que embar­cou em Aden. No instante em que o viu, Lily apertou meu braço e disse: 'É assim que Dick Burton devia parecer quando era jovem!' Ele tinha o mesmo porte arrogante, o mesmo rosto de gavião, olhos penetrantes e boca cínica. Mas suas maneiras eram dez vezes me­lhores que as de Dick Rufião. Falava suavemente, bebia pouco e sempre tinha cortesias discretas. Seu nome era Avram Kostykian. o que levou papai a ignorá-lo, com um dar de ombros: 'Judeu armênio. Pode-se encontrá-los em qualquer lugar onde haja comér­cio. Se eu fosse você, não investiria muito tempo nele.' Não gostei do tom de papai e prontamente lhe respondi. Também falei que escolheria as minhas próprias companhias. Ele tornou a dar de ombros e se afastou. Foi a primeira vez que percebi como era pro­fundo o preconceito dele. Quando contei a Lily, ela riu e disse que eu não sabia a metade. Nenhum judeu na Áustria poderia esperar por promoção no exército ou serviço civil. Até mesmo um cirur­gião militar raramente ia além do posto de capitão.

    Fico surpresa ao perceber Jung corando e revirando a caneta nervosamente. Pergunto à queima-roupa:

  • Também não gosta de judeus?

  • Não muito. — Pelo menos ele é franco. E acha também que precisa se explicar: — Meu colega Freud é judeu. Mas mesmo com ele esbarro em determinadas limitações que são tipicamente semi­tas. A herança ariana, o inconsciente ariano, é muito mais rico em potencial do que o judeu.

    Ele sorri e dá de ombros, num gesto desdenhoso.

       Provavelmente sou apenas tão preconceituoso quanto seu pai. Nenhuma das minhas ligações com mulheres judias jamais terminou bem.

    Tento não deixar transparecer, mas ele me desapontou. Per­gunto a mim mesma: se ele tem preconceito contra toda uma raça, como vai reagir ao tomar conhecimento de minha categoria tão es­pecial? Além disso, sua confissão de outras ligações parece mais uma jactância de mau gosto do que um lapso de língua. Ele sabe que já conheci sua esposa. Preferia que ele mantivesse suas liga­ções para si mesmo... E se não terminaram bem, a culpa teria sido mesmo da mulher? Descubro uma satisfação perversa em prolon­gar a história do meu encontro com Kostykian.

       Como papai presumira, ele era um comerciante, só que muito especial. Negociava com pedras preciosas: rubis, esmeral­das, safiras, mas especialmente pérolas. Viajava por todo o Oriente, por onde quer que trabalhassem os mergulhadores de pé­rolas, comprando os seus estoques. Quando descobriu que eu es­tava interessada, ele passava horas a fio em minha companhia, mostrando-me seus tesouros, contando histórias dos mergulhado­res e dos homens que os obrigavam a trabalhar até que desmorona­vam nos bancos, de mercadores chineses, indianos e malaios, que passavam horas sentados a apostar sobre o valor de uma pérola, enquanto o "descascador" trabalhava. Sabe o que é um descasca-dor?

       Confesso que não, Madame. Mas tenho certeza de que vai me contar.

    Por alguma razão, Jung está amuado e um pouco impaciente. Digo-lhe que deveria estar interessado, porque um descascador faz exatamente o que ele, como analista, tenta fazer comigo.

       Uma pérola é constituída de muitas camadas de nácar depositadas pela ostra sobre o irritante original na concha. Às vezes até uma boa pérola tem defeitos na camada exterior: buracos míni­mos, pequenas marcas. Tais coisas reduzem consideravelmente o seu valor. Mas se as marcas não foram muito profundas, podem ser removidas tirando-se camadas de nacár, até se chegar a uma pele perfeita, imaculada... É um trabalho delicado e meticuloso, qual­quer erro pode ser terrivelmente dispendioso. Assim, pode imagi­nar a cena num kampong malaio ou um armazém chinês: todos aqueles rostos impassíveis observando, enquanto uma camada de­pois de outra é removida, sem que se saiba se toda a pérola está afetada ou se será revelada uma beleza de valor inestimável.

    "Kostykian contou-me a história de maneira maravilhosa. Pos­suía uma sensibilidade de poeta para pessoas e lugares. E o melhor de tudo é que me ensinou como descascar uma pérola: desafiou-me a isso, dizendo: 'Você é uma cirurgiã. Tem um bisturi e uma pinça. Tome aqui! Vou lhe ensinar!' Ele me entregou uma pérola rosa, com quase um centímetro de diâmetro. Era muito esburacada e provavelmente seu valor era mínimo. Kostykian mostrou-me como iniciar a operação e continuar com golpes mínimos, meticu­losos e pacientes. Ao final de duas horas, eu tinha uma pérola rosa perfeita, com cerca de um terço de centímetro de diâmetro. Kosty­kian deu-me a pérola como presente. Montei-a num broche, mas acabei perdendo em algum lugar, depois que casei.

       Uma história encantadora. — O comentário de Jung é seco. — Mas poderia explicar o que isso tem a ver com os nossos pro­blemas?

    O comportamento dele me irrita tanto quanto a sua atitude desdenhosa em relação aos judeus. Dou uma resposta impertinente:

    — Claro que posso. Kostykian foi um homem que me deu muito e jamais pediu qualquer coisa de mim. Ele me levou aos mercados de pedras preciosas em Colombo e Bangkok. Ensinou-me como avaliar uma pedra: a seda numa esmeralda, a distribuição de cor numa safira, a diferença entre um rubi do Sião e o de um vermelho-de-sangue-de-pombo da Birmânia. Era tão atencioso e, ao mesmo tempo, tão desapaixonado que comecei a pensar se não seria como Gianni di Malvasia e preferia o amor dos homens. Na noite anterior à nossa separação, em Cingapura, ele me explicou o motivo: "Sou casado. Tenho esposa e quatro filhos em Alexandria. Eles são o centro da minha vida. Embora eu passe apenas quatro meses do ano em casa, eles estão comigo, cada dia e cada noite. Levo uma estranha existência, como você pode ver. Encontro pes­soas estranhas, nos lugares mais estranhos. A vida é barata, as mulheres ainda mais baratas. Muitas vezes me oferecem uma ga­rota, apenas pela primeira opção numa pérola grande. Sou um homem de paixões fortes. As pedras preciosas são coisas estra­nhas. Pode-se desejá-las como se deseja uma mulher. Por isso, tenho de manter minhas paixões sob controle rigoroso. Sei que es­tarei perdido no primeiro deslize, assim que baixar as defesas. E serei como um pião, girando de porto em porto, sem chegar a parte alguma... Você, minha Magda, é a maior e a mais doce tentação que já tive... E agora vamos trocar um beijo de boa-noite e despe­dida. Já terei desembarcado quando você acordar, pela manhã.'

    Encontrei um pacote na minha cabina, em cima do travesseiro. Era uma safira pequena, mas muito pura, de um azul intenso, bem brilhante. Havia também um bilhete. Lembro-o nitidamente, palavra por palavra: 'O peso é dois quilates. Há uma pequena in­clusão no ápice, mas será preciso um perito para percebê-la. Nada é perfeito neste mundo. Pela primeira vez na vida, estou lamen­tando uma coisa que não fiz. Obrigado pelo imenso prazer de sua companhia. Avram.'

    Jung cruza as mãos, depois une as pontas dos dedos e me espia por cima.

  • Gostaria de saber por que você conta essa história com tanta satisfação.

  • Porque depois de todos os meus outros casos, desde papai e Lily em diante, sempre me senti usada, privada de alguma liber­dade especial que deveria me pertencer por direito. Nunca soube muito bem o que era... até mesmo o pagamento a uma prostituta em cima da lareira poderia ajudar! Mas com Avram Kostykian, o judeu armênio, tudo foi um ato livre entre amigos. Quando falei isso a papai, ele se limitou a dizer, relutantemente: "É sempre um erro generalizar." Lily deu-me um chute furtivo por baixo da mesa e comentou bruscamente: "Nunca diga eu não falei. É o cúmulo da falta de educação."

  • Talvez seja essa a solução para o seu problema. Jung se recosta em sua cadeira e ri maliciosamente. Encontre um judeu casado virtuoso que lhe dê safiras de presente e não queira levá-la para a cama.

  • Não pense que não considerei essa possibilidade!

    Não posso conter uma risada, mesmo contra a vontade. Jung pressiona, impacientemente:

       Há mais alguma coisa que queira me contar a respeito da viagem?

    Menciono o malaio que enlouqueceu em Soerabaya e foi morto a tiros diante de nossos olhos. Falo da semelhança entre minhas fugas violentas e a arremetida demente e assassina do malaio pelas ruas. Jung escreve anotações copiosas nesse momento e depois me apresenta uma pergunta inesperada:

  • O fim para o homem enlouquecido é uma bala na cabeça. Está querendo dizer que a morte é também a única solução para você?

  • Pode ser. Tenho de enfrentar tal possibilidade, não é mesmo? Se você não puder fazer nada por mim...

    Ele bate com a mão em cima da mesa e se lança a uma longa diatribe:

       Eu lhe falei logo no início! Não me chantageie com a sua vida! Não fui em quem a deu. Não posso tirá-la. E também não sou um fazedor de milagres. Também não exorcizo demônios. Análise não é cirurgia. Não se pode extirpar o órgão doente, costurar a paciente e mandá-la para o chá e sanduíches em casa. É um esforço mútuo para definir a causa de uma psicose e eliminá-la, se possível, ou pelo menos propiciar uma convivência. Aprender a viver com o problema, entende? Viver! É claro que, se você quiser, pode se persuadir a morrer, como o nativo sob a praga do feiticeiro. Se é isso o que você quer, então nada posso fazer para ajudá-la.

    Desta vez a ira dele não é uma encenação. Compreendo que Jung, como eu, está ficando cansado. Não devo mais provocá-lo. Também não devo deixar que ele me provoque. Peço desculpas.

Digo que compreendo que estamos ambos tensos, que estou real­mente tentando cooperar. Ele se abranda prontamente e torna a me sorrir.

  • Pelo menos você sabe agora que a análise não é uma brincadeira para crianças. Quando se começa a vasculhar o incons­ciente, nunca se sabe quais os estranhos animais que vão aparecer de repente. Tente resumir para mim. A viagem foi ou não um su­cesso?

  • Para mim, foi um sucesso total. Conheci um mundo que nunca imaginara... um mundo belo, cruel, indiferente, em que uma existência individual nada significava. Na China, meninas recém-nascidas eram abandonadas no meio do lixo. No Japão, pais ven­diam as filhas para a prostituição. Por toda a Ásia, milhões de pes­soas morriam em inundações, fomes e epidemias. Na índia, os bri­tânicos desprezavam os mestiços que geravam. Em Java, os holan­deses casavam com as mestiças. No Sião, o rei ministrava a morte em cada reunião de seus ministros. Em Bornéu, os nativos caça­vam cabeças humanas como troféus. Tais experiências me puseram em meu lugar... meu lugar pequeno e obscuro... e senti-me grata.

    "Mesmo assim, foi bom voltar a Silbersee, com três meses de folga antes de iniciar o trabalho no Allegemeines Krankrenhaus, em Viena. A propriedade envelhecera, como todos nós. Voltando para casa em férias eu não notava muito a mudança. Agora, porém, era evidente que tudo estava se deteriorando. O Schloss e as casas dos rendeiros precisavam ser rebocados e pintados, nossos móveis tinham de ser reformados, os jardins estavam invadidos pelo mato, as contas irregulares, os criados indolentes e indiferentes. Papai passava tanto tempo ausente que, ao voltar, queria apenas relaxar e bancar o aristocrata rural.

    "Compreendi pela primeira vez o quanto um filho homem teria sido importante para ele naquele período de sua vida. Também pela primeira vez, compreendi como eu era uma criatura mimada e ego­cêntrica. Sabia que poderia cuidar de Silbersee. Tendo Lily para me ajudar, poderia cuidar de tudo e ainda cumprir o meu período de interna em Viena. O problema seria fazer com que papai con­cordasse. Não tinha qualquer idéia das disposições de seu testa­mento. Mas conhecia muito bem a disposição de sua mente: as mulheres eram feitas para a cama e não para os negócios. Um ata­que frontal a seus preconceitos não me levaria a parte alguma.

    "Minha oportunidade surgiu quando, duas semanas depois de nossa volta, ele caiu doente, com pneumonia. O caso foi grave e deixou-o muito fraco e mais dependente do que eu jamais o vira. Ele se mostrava às vezes bastante infantil, rabugento e exigente. Finalmente, depois de uma longa conversa com Lily, resolvi en­frentar a situação com ele. Fiquei espantada com a minha própria veemência. Falei que ninguém poderia fazer tanto quanto ele, cui­dando de uma clínica movimentada, mantendo a mão firme nas salas de operações e ainda por cima administrando uma proprie­dade tão grande como Silbersee. Eu não podia cuidar de sua clínica e não poderia orientar sua vida amorosa. Mas podia e iria assumir a administração de Silbersee, sob duas condições: que eu soubesse que ela me seria deixada no testamento e que todos soubessem que eu era a Chefe, a Patroa, a Arbeitgeberin!

    "Papai tentou se esquivar, com promessas de amanhã, algum dia, muito em breve. Declarei categoricamente que iria embora e me instalaria em Viena se ele não quisesse fechar o acordo. Talvez eu não conseguisse ganhar uma fortuna, mas certamente teria o suficiente para comer e me abrigar da chuva. Finalmente, o orgu­lho masculino satisfeito, ele concordou. Foram preparados os do­cumentos que me transferiam Silbersee, com uma cláusula que im­pediria meu marido de ficar com a propriedade, se eu casasse. En­quanto papai vivesse, partilharíamos a renda em partes iguais. De­pois de sua morte, eu assumiria o encargo de dar uma pensão a Lily. Quaisquer que fossem os outros compromissos que papai ti­vesse... com mulheres ou crianças de que eu nada sabia... ele po­deria provê-las com seus recursos pessoais, que eram substanciais. Tornei-me por fim uma proprietária rural, com os pés firmemente plantados em minha própria terra!

    Jung me lembrou nesse momento, friamente:

  • Da qual você está agora exilada. Já pensou para onde irá? O que vai fazer?

  • Silbersee está à venda. Provavelmente passarei muito bem longe de lá. A guerra na Europa parece inevitável. Os exércitos estão pagando preços elevados por animais de raça e haras.

  • E para onde irá depois?

  • Neste momento, nem mesmo sei para onde irei depois que deixar Zurique.

  • Talvez possamos persuadi-la a permanecer na Suíça.

  • Se puder me ajudar, meu caro Doutor, ficarei feliz em me instalar na casa ao lado!

  • Minha esposa poderia objetar a isso. Mas tenho certeza de que poderemos lhe encontrar alguma linda residência em outro ponto à beira do lago.

    É uma dessas conversas inebriantes que encerram toda uma gama de insinuações sexuais. Fico feliz em reagir. Mas, depois dos comentários dele sobre Kostykian e sobre suas ligações com mu­lheres judias, permaneço cautelosa. Ele acrescenta uma observa­ção inesperada:

  • Deixando a brincadeira de lado, se você vai continuar a análise comigo, precisaremos ficar relativamente próximos um do outro, estabelecer uma rotina de conferência e comunicação. Ajuda às vezes visitar uma paciente, embora eu não transforme isso num hábito. Mas podemos deixar para discutir tudo isso depois... Vamos voltar à história de sua vida... Era a dona de Silbersee, uma médica formada, tinha uma carreira brilhante pela frente. Apren­dera que, no plano cósmico, seu passado anti-convencional não tinha muita importância. Em suma, tudo era à seu favor. O que aconteceu em seguida?

  • Assumi o controle de Silbersee, tendo Lily como minha fiel ajudante. Pus em ordem todos os cantos da propriedade, acertei todas as contas. Promovi Hans Hemeling de cavalariço a supervi­sor da criação, comecei a vender os reprodutores ordinários que havíamos usado por tempo demais. Transformei Lily na castelã do Schloss. Ela podia se comportar como uma fúria por causa de mó­veis empoeirados e comida desperdiçada, mas no momento se­guinte toda a criadagem estava rindo com suas piadas obscenas em dialeto. Estávamos sendo trapaceados no Stubel e na casa de hós­pedes, recebíamos muito abaixo dos preços do mercado nos contratos de madeira. Nosso gado era vendido por intermédio de um leiloeiro local, que tinha uma combinação para os lances com um grupo de açougueiros de Salzburgo e Innsbruck.

    "Fui golpeando a torto e a direito, sem me importar com quem atingia... Ao final do primeiro mês, quase tivemos uma nova re­volta dos camponeses. Fui apelidada de Zickzackblitz, o raio, porque ninguém sabia onde eu iria atacar em seguida. Mas quando pintores e carpinteiros começaram a trabalhar no Schloss e depois nas casas da propriedade, quando os jardins começaram a ficar arrumados e obtivemos preços melhores no mercado, quando Hans e eu trou­xemos o nosso primeiro garanhão árabe da melhor qualidade e uma égua para a reprodução, então o clima mudou. Fraulein Zickzackblitz tornou-se a Meisierin e a notícia de nossa reforma começou a se espalhar pela região.

    "Lily sugeriu que criássemos um clube de caça local, de acordo com o modelo inglês, acrescentando os ornamentos elegan­tes que conhecêramos na Lombardia. Teríamos assim um mercado para os nossos cavalos. Transformaríamos o Stubel no ponto de concentração. Importaríamos cachorros ingleses e alemães e os criaríamos para a matilha. Papai adorou a idéia. Dava toda uma nova dimensão à sua vida social um tanto murcha. E depois da primeira reunião, ele comentou feliz: 'Maravilhoso! Eu não sabia que havia tantas mulheres bonitas ainda escondidas dentro de casa!'

    "Quando parti para Viena, a propriedade era de novo um empreendimento próspero. Podia confiar em Lily e Hemeling. Eu vol­taria a cada duas ou três semanas para verificar a operação e des­frutar de meus domínios. Na noite anterior à minha partida, papai convidou-me para tomar um conhaque em seu gabinete. Era um acontecimento raro. Ele nunca foi um homem de confidências. Gostava de flutuar pela vida doméstica como um filósofo em resi­dência, distribuindo palavras de sabedoria, uma carícia distraída a Lily ou a mim, palmadas vigorosas nas nádegas das criadas... e apenas a ilusão de intimidade. Desta vez, no entanto, era óbvio que ele se empenhara a fundo para me preparar um discurso espe­cial.

    Levamos uma vida divertida, Liebchen, nós três. Mas parece que sobrevivemos muito bem. Você se saiu melhor do que jamais imaginei. Estou muito orgulhoso de você, mesmo que não esteja orgulhoso de mim mesmo. Gostaria que houvesse algum meio de transmitir meu título a você, mas não há. Mesmo que você tivesse um filho, não há nada que eu possa fazer além de pedir ao Imperador que conceda a ele um título de nobreza. Uma das mi­nhas amigas na corte pode dar um jeito de apresentar o pedido ao Imperador... Haveria uma indicação de ilegitimidade no brasão, mas isso não teria a menor importância. De qualquer forma, não posso apresentar o pedido enquanto não houver um neto... Por­tanto, essa é a questão: quais são os seus pensamentos em relação ao casamento? Sei que tem de cumprir um ano de trabalho em Viena. E há mais um ano na Inglaterra, uma perspectiva que não me deixa muito feliz. Mas pode ir, se é o que está querendo. De­pois disso, você estará tão madura quanto qualquer moça pode estar para um casamento decente. Já tem uma propriedade sua, das melhores que existem. É muito atraente. Sei que não tem vivido como uma freira, mas precisa assentar algum dia... Mas com quem? Não quero vê-la nas garras de algum mercador miserável, com muito dinheiro, mas sem qualquer linhagem. Por outro lado, se estamos falando em linhagem isso significa alguém que está se apresentando no mercado do casamento pela segunda vez... talvez um viúvo na casa dos 40 anos, com filhos pequenos ou, melhor ainda, sem família. O problema é que todos os jovens fidalgos já estão comprometidos com moças que começam a se apresentar na corte... Sinto muito, mas é essa a realidade. Você é dez vezes mais mulher do que elas, mas seu atestado de nascimento a prejudica. Pelo menos não precisa se tornar uma dançarina ou corista. Tem uma profissão e seu próprio dinheiro... Mas o que vamos fazer com isso? Posso pedir a Louisa von Grabitz para sondar o mercado, se você quiser. Ela cobra honorários, é claro, mas é a menos intri­gante de todas essas matronas que promovem uniões...

"Quanto mais ele falava, mais furiosa eu ficava. Não parava de pensar: a desfaçatez do homem! Não pedi para nascer. Não pedi para ser a filha-esposa de papai. E se eu era mercadoria usada no mercado do casamento, de quem era a culpa? Acabei explo­dindo:

A verdade, papai querido, é que ainda não quero casar. E quando quiser, escolherei pessoalmente meu marido, mesmo que tenha de fazer outra viagem a Hong Kong para encontrá-lo!

E como seu pai reagiu a essa declaração?

  • Creio que com alívio. Ele não queria realmente se incomodar. Já cumprira o seu dever. Se eu queria pular até a Lua em per­nas de pau, o problema era meu. Quaisquer que fossem os seus defeitos, ele me mantivera afastada dos music-halls e das ruas. Em sua ética estranha, elitista, isso era mais do que a maioria dos bas­tardos tinha o direito de esperar de seus progenitores.

  • Quer dizer que se separaram como amigos quando você partiu para Viena?

  • Por pouco. Naquela noite, quando papai e Lily se apronta­vam para deitar, ele me convidou a acompanhá-los... Apenas um carinho, Liebchen, pelos velhos tempos." Eu já ia dizer que os ve­lhos tempos haviam acabado e nunca mais queria saber deles quando Lily... que Deus a guarde!... salvou-nos de outra cena ter­rível. Ela riu e disse: "Escute, seu bode velho, não se consuma na abertura. Poupe-se para a grande ária." E depois ela arrastou-o para o quarto, cantando La ci darem la mano.

"Sonhei com minha mãe naquela noite. Estávamos em pleno inverno. Eu esperava na neve do lado de fora dos portões do Schloss Silbersee. Minha mãe se aproximou, num trenó puxado por cavalos brancos, com sininhos de prata. Ela estava envolta por arminho branco. Eu sabia que era ela já à distância. Fiquei parada no meio da estrada e acenei para que o cocheiro parasse. Em vez disso, ele chicoteou os cavalos e passou direto por mim, enquanto minha mãe permanecia indiferente, com o sorriso frio e cruel da Rainha da Neve.

Jung pensa nessa informação por algum tempo, depois consulta suas anotações. Marca diversos trechos e depois comenta:

  • Aqui tem outra coisa que acho curiosa. Por que, durante tantos anos, você nunca pediu informações sobre sua mãe? Se não de seu pai, mas pelo menos de Lily? Por que não foi a Londres ou ao lugar em que nasceu e descobriu o que queria saber? Teria sido um trabalho de detetive muito simples. Outra coisa que não posso compreender é a reticência de Lily sobre o assunto, especialmente quando você se tornou mais velha e capaz de compreender.

  • As respostas, meu caro Doutor, são tão simples que se tornam patéticas. Por que não insisti por informações? Porque fora condicionadapor toda a minha vida a não fazê-lo. Por que não fui à Inglaterra e descobri a verdade? Porque tinha medo exatamente do que aconteceu no sonho: que minha mãe pudesse me deixar aban­donada na rua. Por que Lily não me contou a verdade? Porque, como só recentemente descobri, Lily foi o motivo para o rompi­mento. Lily estava deitando com meu pai durante a gravidez de minha mãe. Lily usou a minha sedução para manter papai. Ela me amava, é verdade. Não resta a menor dúvida quanto a isso. Mas papai lhe pagava os salários e obtinha tudo o que exigia dela. Lily era a oportunista perfeita. E o que papai mais precisava era de silêncio. Até o dia em que voltou à Inglaterra, o que Lily disse a respeito de minha mãe combinava exatamente com o que papai havia falado. Minha vida, minha felicidade, dependia dos dois. Por que eu deveria arriscar-me a perdê-los para o sorriso frio e desde­nhoso da Rainha da Neve? É por isso que nunca tentei me introme­ter na vida de minha filha. Ela provavelmente sente a mesma coisa em relação a mim.

       Já escreveu alguma vez para sua filha?

       Várias vezes, nos primeiros tempos da separação. Nunca recebi uma resposta.

       Mas ela era apenas uma criança!

       Sei disso. Depois de algum tempo, não se consegue mais encontrar as palavras certas. O que se pode dizer? "Não sou uma feiticeira. Sou sua mãe e a amo. Quero abraçá-la e beijá-la, com­pensar todos os anos perdidos." É muito bonito, mas se você grita, escreve ou canta por muito tempo para um quarto vazio acaba fi­cando doida. Já falou de seus próprios casos de amor, Doutor. Nunca teve vontade de dizer alguma coisa e descobriu que não havia ninguém para escutar? Nunca sentiu vontade de dizer coisas ternas, mas sabendo que apenas ecoariam de volta num muro de pedra?

 

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

A declaração dela é muito pungente e muito simples para ser qualquer outra coisa que não a verdade. Seu golpe de adaga contra a minha jugular... "seus próprios casos de amor, Doutor"... foi desferido com a mão firme, os olhos não pestanejaram. O resto... a Sociedade Scotus, a cena de flagelação, a paixão profana com Alma de Angelis, o amor sagrado com Irmã Damiana, a afeição platônica por Kostykian, o Judeu Errante, que põe pedras preciosas nos travesseiros das mulheres e deixa suas virtudes imaculadas... é demasiado. Não passa de uma mixórdia de verdade, material de sonho e desejo de realização arquétipo.

Não tenciono desafiá-la por causa disso. O material é valioso, de qualquer forma. Contudo, não estou preparado para engoli-lo, como o bolo de piche e haxixe que Daniel deu ao Grande Dragão. O importante é que, quanto mais nos aproximamos do momento da revelação, mas minha paciente se divide, como se fosse uma ameba. Até agora, temos três personalidades separadas: a alma condenada, agarrando-se às imagens da inocência perdida; Fraulein Zickzakblitz, senhora de Silbersee, sã e prática, impondo a ordem com seu chicote de montaria; a mãe desolada, lamentando a filha perdida, desprovida até mesmo da capacidade de comunicar seu amor e sofrimento... Pois veremos, no momento oportuno, qual dessas três personalidades é a mais durável!

Ela está sentada muito empertigada, esperando que eu continue o interrogatório. Não digo nada. Vou até ela, paro atrás da cadeira, começo a lhe massagear os ombros e pescoço. Os múscu­los estão duros como madeiras, contraídos num espasmo. Depois de algum tempo, ela deixa escapar um suspiro de prazer e relaxa, sob o meu contato. Depois, desabotoa os dois primeiros botões da blusa e baixa a gola, a fim de que eu possa trabalhar em sua pele nua. Começo a induzi-la, em ritmo com o movimento:

   Vamos agora. É mais fácil do que falar. Revela muito mais a nós dois. Feche os olhos. Aqui está você, livre dos pesadelos.

Por algum tempo ela se abandona, na maior felicidade, ao meu contato; depois, pega a minha mão direita e a puxa para baixo, roçando-a com os lábios. E declara calmamente:

   Já chega. Obrigada, meu caro. Gostei muito. Mais um pouco e estaremos ambos entrando em águas quentes.

Noto o tratamento carinhoso com satisfação e o prazer dela com delícia por ter sido capaz de despertá-la. Puxo a sua cabeça para trás e a beijo na testa, depois volto para a minha cadeira. Ela abotoa a blusa e me fita, meio sombria, meio divertida, sensual como uma gata junto ao fogo. Estou exultante. O contato físico foi feito. O primeiro bastião foi rompido. Tempo e paciência nos leva­rão ao interior do castelo. E nesse instante, ela me surpreende com uma declaração franca:

   Tenho a impressão de que não estava me escutando, meu caro Doutor. Fico lhe dizendo que seduzo facilmente e depois me comporto pessimamente. Acho que você também seduz facilmente e depois se pergunta por que as coisas ficam complicadas. Não deveríamos iniciar quaisquer jogos que não estivéssemos dispostos a levar até o fim... Mas obrigada por me querer. Isso ajuda mais do que imagina.

Sorrio e dou de ombros, também agradeço. Gosto igualmente de ser desejado, num momento de minha vida em que me sinto como o patinho feio. Encerrado o interludio, porém, estamos de volta à realidade. Peço a ela para me falar de sua vida como interna no Hospital Geral de Viena. Mas ela ainda não está pronta para isso.

  • Eu gostaria antes de lhe falar sobre Ilse.

  • Use? Não me lembro desse nome.

  • Ainda não a discutimos.

  • Ela é importante para sua história?

  • Ela se torna importante mais tarde.

  • Pois então fale-me a respeito dela.

  • Ela era minha amiga na escola em Genebra. Também vivia em Land Salzburg. O pai dela era proprietário de minas e um grande financista. Tive uma ligação amorosa de colegial com ela. Papai gostaria de seduzi-la, mas não chegou a fazê-lo, porque eu não a convidava para se hospedar em Silbersee. Ela era bonita, simpática e quase sedutoramente estúpida. Ela e os dois irmãos foram os primeiros membros do nosso novo Clube de Caça. Use era carne de primeira no mercado de casamento. A mãe era uma criatura lúgubre e anêmica. O pai era rico, muito rico... e ansioso em encontrar um marido nobre para a pequena Use. Nossas reu­niões mensais de caça em Silbersee constituíam ocasiões ideais para o desfile dos potrinhos promissores, sobre os quais ela sempre pedia a minha opinião abalizada. Use era uma dessas moças que vivem num mundo róseo de ilusão. Recordava incidentes do tempo de escola que nunca haviam ocorrido, nunca poderiam ter ocor­rido. Nossa ligação colegial, que terminou no dia em que a vi revi­rando os olhos para papai, era para ela uma ligação eterna. Eu teria de ser dama de honra em seu casamento, madrinha de seus filhos, amiga íntima dela e do marido que ainda não encontrara... Uma sessão com Use era como se empanturrar de Sachertorie, Terminava-se pegajoso e enjoado, farto de qualquer coisa doce...

  • Uma descrição muito objetiva. Use está agora gravada em meu coração. Podemos seguir adiante, por favor?

    Queria saber de Viena. Desde o início foi uma estranha experiência. Já falei que papai me conseguira uma vaga como in­terna no Allegemeines Krankrenhaus Ele me deu cartas de apre­sentação para a direção e três ou quatro médicos veteranos com quem trabalhara ao longo dos anos. Instalou-me num apartamento confortável, entre a Alsengrund e a Josefstadt, de onde se podia facilmente ir a pé até o hospital. Deu-me uma carta para os seus banqueiros. E isso foi tudo! Não havia contatos sociais, não havia amigas, não havia mais nada. Ele levara uma vida particular por todos aqueles anos. Não havia motivo para que a complicasse agora, com uma filha intelectual que tinha um atestado de nasci­mento defeituoso.

    "Claro que fiquei magoada e furiosa. Mas, a esta altura, desenvolvera uma reação automática. Se aquelas eram as regras do jogo, eu jogaria de acordo até o fim... sem pedir favores, sem dar quartel! Apresentei meus cumprimentos aos sêniores, agradeci profusamente por seus bons ofícios a meu favor e depois me retirei resolutamente para as fileiras dos juniores. Fiz contato com Gianni di Malvasia, que estava alojado com um jovem amigo num aparta­mento um tanto deprimente perto da Herrengasse. O amigo era um estudante de piano e composição. Nem o apartamento deles nem o dos vizinhos podia acomodar um piano de cauda. Ofereci o uso de meu apartamento para os exercícios, assim como uma refeição caseira ocasional, em troca da companhia deles em concertos e da introdução na vida jovem da cidade.

    "Tudo correu bem. Gianni, à sua maneira pomposa, era muito protetor. Eu compreendia suas necessidades e agonias esporádicas. Não demorou muito para que tivéssemos um pequeno círculo de amigos. Fazíamos toda a ronda juntos: os lugares mais baratos na ópera, vinho e dança em Grinzig, reservados nas casas noturnas mais baratas e turbulentas na cidade velha... Conheci as pessoas mais interessantes que se podia imaginar. Há em Silbersee um re­trato meu feito por Klimt. Estou seminua, envolta num manto mul­ticolorido, que ele pintou depois. Conheci Schnitzler e não gostei dele. Achei-o um esnobe insuportável. Lina Loos adotou-me por algum tempo. Mas acabou se cansando de mim, porque eu não sabia pintar nem escrever. Foi um período estranho e frenético. Era conhecido como Apocalipse Alegre, mas combinava perfeita­mente com a nossa disposição.

    "Já trabalhou num hospital público. Sabe como é. É-se terrivelmente jovem. Passa-se os dias e muitas noites com os doentes, os agonizantes, todas as vítimas sangrentas de uma cidade grande. Pensa-se que é resistente, mas não se é. Depois de algum tempo, a inutilidade da condição humana começa a nos apavorar."

    Consulto as anotações e lembro a ela que já fez um comentário similar antes. E o cito:

       Enterramos os nossos sucessos e fracassos na mesma sepultura.

    Peço que me explique.

  • Tentarei, mas, por favor, seja paciente. Tenho de dar um passo de cada vez. Deve compreender o que estou querendo dizer ao falar em inutilidade. Nunca ficou deprimido ao olhar por aquelas fileiras de leitos e compreender o quanto os pacientes esperavam de você e quão pouco podia lhes dar? Causou-me alguma coisa boa. Fez com que eu me tornasse mais gentil. Por outro lado, causou-me também muito mal.

  • Que espécie de mal?

    Pela primeira vez, ela parece embaraçada. Faz um grande esforço para dizer:

       Por muito tempo foi infernal para a minha vida sexual. Eu acordava ao lado de algum corpo belo e jovem, ficava imaginando que coisas terríveis estariam acontecendo lá por dentro. Gianni disse que isso acontecia com todos os estudantes de medicina. Era preciso superar. Ele chegou a fazer um gracejo: "Dizem que a jus­tiça é uma deusa cega. Acho que o amor também tem de ser cego." Meu problema era que, ao final, a venda caía, justamente no momento errado.

    Anoto essa frase também. Sublinho-a várias vezes. Mas ciente de que ela está preparada apenas para um passo de cada vez, deixo-a continuar.

       Um dos resultados inevitáveis era que, em nosso tempo de folga, procurávamos nos divertir ao máximo, só para esquecer a tragédia. Mesmo assim, ainda se intrometia em nossas consciências. Minha introdução ao baixo-mundo de Viena ocorreu muito cedo. Numa noite de inverno, por volta das 11 horas, eu estava aconche­gada diante da lareira, lendo, quando Gianni bateu na porta. Tinha uma carruagem à espera. Queria que eu me vestisse imediata­mente, pegasse meus instrumentos e o acompanhasse. Por que logo eu?, indaguei. Estava pensando que se tratava de um aborto mal­feito. Havia muitos casos assim e os jovens internos eram chama­dos para consertar os estragos. Eles não tinham licença para a prá­tica particular e por isso havia sempre um elemento de risco. Gianni me explicou que a amante de um amigo seu estava tendo um filho. Era um parto difícil e ele precisava de ajuda. Levou-me para um prédio de apartamentos sórdido, perto da Burggasse. São vários blocos e ainda existem. São conhecidos como Bassena-Wohningen, apartamentos-bacia, porque só há uma torneira em cada andar e um único vaso comunitário... O prédio era tão som­brio quanto uma prisão e o Hausmeister (porteiro) que nos espiava de seu compartimento de vidro parecia um velho mastim vigilante. Gianni lhe deu uma nota e ele nos deixou passar.

    "A paciente era uma moça, não tinha mais que 18 anos, magra e desnutrida, já estava adiantada num trabalho de parto muito difí­cil. O rapaz com ela era um estudante do conservatório, que arru­mava dinheiro para comer e pagar a escola tocando acordeão numa adega. O apartamento era apenas pouco melhor que uma chou­pana. O próprio Gianni levara toalhas e lençóis, um cesto e man­tas para o bebê. Foi um parto invertido, difícil e complicado. Ti­vemos de usar fórceps e finalmente fazer uma incisão, para que a criança saísse viva. Foi por um tris e continuamos a trabalhar até o amanhecer, trazendo a mãe de volta da fronteira da morte. Assim que as lojas abriram, mandamos o jovem pai comprar provisões. Ele mal passara pela porta quando o Hausmeister entrou furioso, gritando escândalo, ameaçando despejo, a performance habitual dessa raça tão especial.

    "Eu já estava começando a gritar em resposta quando Gianni me conteve. E apresentou o mais belo desempenho que eu já tes­temunhara. Explicou que éramos médicos numa missão de miseri­córdia. Certamente umas poucas horas de distúrbio era algo melhor do que uma morte na casa. Quanto ao escândalo... ora, como uma autoridade encarregada da saúde pública, ele notara diversas in­frações escandalosas e perigosas naquele prédio... instalações sani­tárias imundas, pias sujas, acúmulos de lixo, ratos que transmitiam doenças... Ele parou de falar de repente e depois, com uma expres­são de grande surpresa e preocupação, pediu ao Hausmeister que pusesse a língua para fora, tossisse, curvasse o corpo e tocasse os pés com as pontas dos dedos da mão, toda uma comédia de absurdo médico. E, finalmente, disse: 'Meu amigo, está precisando de ajuda quase tanto quanto esta mãe e este bebê. Vá me procurar no hospital. Pergunte por mim no ambulatório, entre três e quatro horas. Não posso prometer nada... nunca se pode em casos como o seu. Mas farei o melhor que puder por você... desde que, é claro, eu possa contar com você para cuidar dos meus amigos aqui!'

    "O homem estava quase rastejando de pânico. Indagou suplicante o que ele tinha. Gianni sugeriu que eu deveria examiná-lo também e oferecer uma segunda opinião. Submeti-o à mesma ro­tina. E minha opinião final foi de que ele estava em péssimo es­tado. Tinha um caso agudo de escatologia serpiginosa que poderia se desenvolver, se não fosse tratada, para uma proctalgia incurá­vel... A esta altura, o pobre coitado não sabia se fora baleado ou envenenado. Gianni assegurou-lhe solenemente que faria o melhor possível... desde que não houvesse qualquer aborrecimento para a jovem mãe e seu bebê... No hospital, Gianni tratou-o eficazmente com um purgante e uma semana de doses de placebos. Visitei a mãe e a criança todos os dias, até que ficaram fora de perigo...

    Digo a ela que é uma história encantadora. Se ela estivesse no palco, no Burgtheater, certamente não haveria um único olho seco na audiência. Mas, por favor, eu gostaria de saber qual fora o signi­ficado do incidente.

       O significado, meu caro Doutor, é que a criança morreu um mês depois. O casal se separou pouco depois. A moça voltou às ruas e começou a me encaminhar suas amigas, para se certificarem de estarem em condições quando fossem examinadas pelo pessoal de saúde pública da cidade. O pai da criança é agora um maestro famoso. Perguntou-me sobre enterrar sucessos e fracassos. Eis a sua resposta.

    Tenho certeza de que não é a resposta inteira. Mas, por enquanto, será suficiente. Faço uma pergunta simples:

  • Ligações amorosas... alguma coisa importante durante esse período?

  • Não... nem era possível. Eu trabalhava como um burro de carga no Krankrenhaus. Apesar de todos os preconceitos que fervi­lhavam naquele lugar... contra as mulheres, contra judeus, contra a psiquiatria, reformas na administração, socialismo e húngaros... eu estava determinada a provar que era uma médica de primeira cate­goria. Assim, diversão era apenas diversão. E eu ainda precisava ter um lugar e um tempo que me pertencessem exclusivamente.

       O que fazia quando estava sozinha?

       Lia, tocava piano, cozinhava, consertava minhas roupas, sonhava.

       Com o quê?

       Principalmente com Silbersee. O que faria quando voltasse na próxima vez, as melhorias que introduziria... Cheguei a planejar um grande Baile da Caça, definindo todos os detalhes mental­mente... exceto um.

       Qual?

       Quem seria o meu acompanhante. Não havia qualquer homem tão especial assim em minha vida.

       Já houvera alguma vez?

  • Não. Apenas papai... Os outros eram amigos, companhei­ros de cama. Jamais precisei tanto deles que quisesse mantê-los.

  • Portanto, apesar de sua educação, viagens, treinamento como médica, uma parte de você permanecia ancorada na infância e nas experiências sexuais da adolescência. Tentou excluir a expe­riência de incesto, mas nenhum homem jamais se igualou a seu pai como amante. Sua afeição a Lily tinha todos os tipos de elementos. Ela era mãe, irmã, confidente, companheira lésbica... É isso mesmo?

       Nunca defini assim na minha mente, mas é isso mesmo.

       E para cada uma dessas pessoas, em relação às quais sente culpa e vergonha... ou pelo menos embaraço... tratou de proporcionar a si mesma um Doppelgänger idealizado. Para Lily, encontrou a virgem linda e devota, Irmã Damiana, chamada a Deus prematuramente. Ela a compreende como Lily. Ela lê seus pensamentos. Mas o relacionamento não está maculado pelo sexo. Portanto, não pode sentir os seios dela por baixo do hábito. No lugar de seu pai tem o nobre viajante Avram Kostykian. Ele sai diretamente do mito do Santo Graal, o cavaleiro gentil, puro, sem mácula, que lhe mostra o mistério da pérola e deixa uma safira quase perfeita, mas jamais quer sexo com você.

    Fico esperando que ela se mostre furiosa. Isso me deixaria mais feliz. Significaria que estamos chegando perto do núcleo do problema. Mas não é o que acontece. Ela se mantém calma, zom­beteira, até mesmo um pouco condescendente.

  • Está querendo me dizer, Doutor, que inventei essas pes­soas?

  • Claro que não. Estou dizendo apenas que, inconsciente­mente, você... como posso explicar?... rearrumou-as em sua mente, da maneira como um retratista rearruma sua modelo ao transferi-la para a tela. É uma questão de corte, de ênfase, luz e sombra. É um ato de criação artística.

  • Ou, em termos mais bruscos, uma mentira.

  • Muito ao contrário. É um ato de verdade. Está dizendo não apenas o que essas pessoas foram por si mesmas, mas o que repre­sentaram para você, o que se tornaram para você com a passagem do tempo. Eu poderia lhe contar a história de Kostykian de três maneiras diferentes. Os fatos seriam os mesmos em cada caso, mas o significado seria totalmente diferente. Gostaria que eu tentasse?

  • Não, obrigada. — Ela ri. — Aceito o argumento. O que eu gostaria de saber é o que...

    Somos interrompidos por uma comoção doméstica. As crianças e a babá chegaram. Há muitos gritos estridentes e muita dis­puta pela atenção da mãe. Emma bate na porta um momento de­pois e introduz a babá. A mão dela está envolta por um lenço ensangüentado. Ela se cortou num pedaço de arame farpado. O trabalho é profundo. Vai da base do dedo mínimo até a quina da mão. Vai precisar de alguns pontos. Peço a Emma para ferver água, trazer gaze, algodão, desinfetante, agulha e linha. Minha paciente se oferece para ajudar. Aceito. Ela me disse que costu­mava ser muito hábil na cirurgia. Podemos assim comprovar pelo menos essa história. Ela prende uma toalha na cintura, se lava na minha bacia e depois, com um mínimo de desconforto para a vítima e sem muito espalhafato, limpa, desinfeta, costura e faz um cura­tivo no ferimento. A babá fica agradecida. Emma está deliciada. Sabe que eu levaria duas vezes mais tempo, resmungando o tempo todo e deixando a babá em lágrimas. Por minha parte, fico discreta­mente satisfeito. É mais uma pequena intimidade. Mas guardo meu elogio até ficarmos a sós:

  • Foi uma demonstração de grande classe, minha cara colega.

  • O que mais esperava? Um estudante de primeiro ano de medicina dificilmente poderia ter errado num trabalho assim. Mas fico contente por saber que você aprovou. Tenho a impressão de que você pensa que metade do que estou lhe dizendo não passa de ficção.

    Decido ser brusco com ela. Estamos longe demais agora para ficarmos lidando com meias-verdades. Mais uma vez, peço a sua compreensão profissional para o que estamos tratando.

  • Sejamos francos um com o outro. Sempre se tem de ser cético em todos os diagnósticos. Você sabe muito bem que todo alcoólatra com cirrose do fígado dirá que é um bebedor moderado. A vítima de úlcera confessa apenas indigestão ocasional... Pergun­tei, há algum tempo de nossa entrevista, como começaram seus episódios de sadismo. Você disse... onde foi mesmo?... ah, aqui está!... você disse "sempre que me sinto horrível em relação a mim mesma". Em outras palavras, sua visão de si mesma muda. Não posso aceitar simplesmente a persona, a máscara, com que você se apresenta a mim num determinado momento. Tenho de descobrir todos os outros elementos do ego por trás dessa máscara... Os so­nhos e até mesmo os devaneios representam os elementos dinâmi­cos em nossas vidas. Os fatos simples... a cor de uma casa, a dire­ção de uma rua, se tomamos chá ou café numa determinada refeição... são os elementos estáticos. Portanto, faça-me o favor! Já é muito tarde para se tornar inibida. Limite-se a me contar a história como a recorda.

  • E você, meu amigo, lembre-se, por favor, de que preciso de muita ajuda, daqui por diante.

  • Prometo que não esquecerei... Você terminou seu período como interna em Viena. Presumivelmente, recebeu a licença para praticar medicina e cirurgia.

  • Foi-me oferecido mais do que isso. Um posto de ensino, se eu quisesse aceitar. Havia uma vaga para assistente da cadeira de cirurgia abdominal. Era o primeiro degrau de uma escada muito alta. Eu não tinha certeza se queria escalá-la. Usei a desculpa que queria fazer um ano de pós-graduação em Edinburgh ou Londres. Depois disso, sentiria mais confiança em minha capacidade. Tratei de me despedir, ofereci uma festa desenfreada para meus amigos num restaurante húngaro e depois voltei a Silbersee.

    "Descobri que papai estava em Munique, 'no cio pela diva de Gledermaus', explicou-me Lily. Desejei-lhe boa sorte e me pus a conferir as contas e os problemas da criação de animais. Fiz a ronda a cavalo dos nossos domínios, escutei Lily me relatar todas as intrigas locais. Estava em casa há menos de uma semana quando recebi uma carta de Use Hellman. Surpresa! Milagre! Estrelas ex­plodem por todo o céu! Ela se apaixonara pelo homem mais mara­vilhoso do mundo, o próprio Príncipe Encantado. O nome dele era Johann Dietrich. Também tinha um título, Ritter von Gamsfeld. Ele a pedira em casamento. Use aceitara. O pai consentira. O noi­vado seria anunciado num grande baile. Eu receberia um convite formal muito em breve. Nós três deveríamos comparecer, papai, Tante Liliane e eu. E tudo o que planejáramos poderia agora acon­tecer: eu seria dama de companhia, madrinha, a amiga sempre amada de sua felicidade conjugal... Parecia o Purgatório em fitas rosas, mas não havia saída.

    "Procuramos o nome von Gamsfeld no Almanaque de Gotha. O título era menor, mas muito antigo. Fora dado primeiro a um dos irmãos de Wof Dietrich, o bispo-guerreiro de Salzburgo. A pro­priedade da família estava localizada não muito longe de Bad Ischl e foi classificada por nossos informantes locais como 'considerá­vel'. Tudo indicava que a minha pequena Use veria o seu sonho se converter em realidade. Papai Hellman alcançaria o seu sonho de financista, um casamento da agricultura, mineração e a mais antiga nobreza austríaca. A pergunta que Lily me fez não era de todo despropositada: 'Se aquela cabeça-de-vento conseguiu pegar um prêmio desses, por que você também não pode? Pense a respeito, menina. Tem trabalhado muito, por tempo demais... e as diversões noturnas não a ajudam em nada!' É claro que eu não tinha uma resposta pronta para isso. Limitei-me a dizer que ia sair a cavalo para verificar como andava o corte de madeira. Se ela quisesse me acompanhar, seria ótimo. Mas, por favor, chega de sermões sobre o estado sagrado do matrimônio!

  • Mas, obviamente, você ficou pensando no assunto.

  • Claro! É o que toda moça faz. Lily tocara num ponto sensível. Eu era a melhor. Era bonita, rica e capaz... mas era a pequena cabeça-de-vento quem conseguia o Príncipe Encantado!

  • E o que você fez?

  • A mesma coisa que Lily. Comecei a pensar em roupas. A festa de noivado seria suntuosa... um grande baile na mansão Hellman, perto de Bad Ischl. Os convidados seriam acomodados para passar a noite no Hotel Drei Mören, alugado do porão ao sótão para a ocasião. Seria a opulência do regime antigo, mas ao estilo rural, a fim de agradar aos dignitários locais. Lily e eu resol­vemos que iríamos de Landestracht. Fizemos três viagens a Salzburgo para providenciar tudo. Quando papai finalmente apareceu em Silbersee, pálido e desgastado das longas esperas nos camarins da diva e depois em ceias pela madrugada, nossos vestidos já esta­vam prontos. Ele ficou tão impressionado que resolveu que tam­bém iria numa idumentária local. Decidiu também que, pela pri­meira vez, deixaria que eu usasse as jóias de sua mãe, peças lindas e antigas, ao estilo húngaro, feitas por ourives de Viena e Budapeste. Vovó deve ter sido uma mulher imensa, porque algumas das jóias eram pesadas demais para mim. Mas havia outras que combi­navam perfeitamente com o meu traje, um colar e um par de pulsei­ras. Usei o anel com a safira que Avram Kostykian me dera e que eu mandara engastar em Viena...

    Fico mais uma vez impressionado com a natureza extraordina­riamente complexa desta mulher. O que estou ouvindo agora é pura conversa de mulher, prosaica e natural: roupas, jóias, os me­xericos sociais. Espero que a figura furtiva torne a emergir, o espí­rito sombrio que estimula a ira em seus olhos e as fúrias orgíacas nos bordéis. Tento coagir a sombra a aparecer com uma pergunta brusca:

  • Por que seu pai não lhe deu simplesmente as jóias da mãe? Não posso imaginar que ele próprio as usasse. Por que ele as man­teve guardadas, quando tinha uma filha crescida para usá-las?

  • Não sei. A resposta dela é franca e espontânea. Mas não era uma coisa que me perturbasse. As jóias pertenciam a ele. Podia fazer o que bem quisesse com elas. Lily tinha a teoria de que ele guardava as jóias para o caso de algum dia casar. Poderia assim dá-las à esposa. Sei que ele comprava jóias para suas amantes, mas nunca lhes deu qualquer uma que tivesse sido de minha avó.

    Ela faz uma pausa, me olha e solta uma risada constrangida.

  • Você é um suíço austero. Não imagina como os húngaros podem ser loucos. Eles são verdadeiros azougues, jamais ficam pa­rados pelo tempo suficiente para se poder entendê-los.

  • O que aconteceu com as jóias ao final?

  • Ele deu-as a Lily.

  • Mas que coisa extraordinária!

  • Talvez não seja tão extraordinária assim. Mas falarei sobre isso mais tarde... Onde era mesmo que estávamos?

  • Nos preparativos para o baile de noivado de Ilse Hellman.

  • Ah, sim... Os convites chegaram, com folhas de ouro em quantidades suficiente para dourar a torre da Catedral de São Es­tevão. E veio o dia... pode imaginar como foi?... um dia perfeito de outono, o tempo claro e ameno, as folhas ainda não haviam caído, ainda estavam douradas, avermelhadas, cor de âmbar. Havia arran­jos especiais para mim. Papai e Lily foram alojados no Drei Mören. Eu fui conduzida à mansão Hellman, instalada num quarto ao lado do de Use, a fim de podermos conversar, nos vestir juntas. Imaginei se ela não gostaria também que passássemos a noite jun­tas na cama, depois que o Príncipe Encantado fosse castamente para o seu sofá... Desculpe. Tudo isso é retrospecto. Eu não me sentia tão ácida na ocasião. Mas era realmente um pouco difícil engolir toda aquela doçura.

  • Também foi difícil engolir o Príncipe Encantado?

    A mudança nela está começando. É como se uma luz fosse apagada. Há uma terrível tristeza de inverno em sua voz que enre­gela o coração. Ela não me fita. Baixa os olhos para as costas das mãos, que estão em seu colo, inertes e imóveis. E diz:

    —   Oh, não! Não foi absolutamente difícil aceitá-lo. Era o homem mais bonito que eu já vira. E eu o quis mais do que qual­quer outra coisa ou pessoa em toda a minha vida...

    Espero em silêncio pelo resto. Lentamente, ela levanta a cabeça para me fitar. Os olhos dela estão desolados. As faces estão lívidas, como mármore branco. Lembro da descrição de sua mãe, a Rainha da Neve, com um pedaço de gelo no lugar em que deveria estar o coração. Ela não precisa de estímulo, as palavras se despe­jam num fluxo firme, inexorável:

    —   Era o autêntico coup de foudre. Se nunca sentiu, ninguém poderá lhe descrever como é. Ali estava aquela linda criatura, um homem alto, louro, de olhos brilhando, transbordando de virili­dade, metido no uniforme de gala da Cavalaria Imperial, inclinando-se sobre minha mão, dizendo como estava satisfeito em me co­nhecer, o quanto Use falara a respeito de nossa amizade et pata ti et patata, und so weiter, interminavelmente... Pude sentir que corava do umbigo à testa... logo eu, entre todas as pessoas! Fiquei re­zando para não bancar a tola e desfalecer aos pés dele... Vejo que está sorrindo. Não o culpo por isso. Estou com 45 anos e ainda me lembro daquele momento tão nitidamente como se estivesse acon­tecendo agora. Falamos a respeito de renascimento. Pois alguém nasceu em mim naquela noite, alguém tão impetuoso e ardente que nunca mais pude controlá-lo. Eu queria Johann Dietrich com toda força do meu copo e alma e ali estava ele ficando noivo daquele bolo de caramelo derretido! Foi ainda pior quando dancei com ele. Descobri que era também inteligente. Ouvira falar do que eu es­tava fazendo em Silbersee. Perguntou se poderia fazer-me uma vi­sita um dia e dar uma olhada nos meus animais. Talvez eu pudesse aconselhá-lo sobre medidas similares em Gamsfeld. Podíamos até determinar um campo de caça lá. Não precisávamos fazer concor­rência, podíamos realizar um empreendimento conjunto... Como um cavalariano, ele estava interessado em...

    "Use apareceu neste momento e afastou-o dali. Mas fiquei admirando cada palavra como se fosse um diamante... Ele ainda não estava perdido para mim, pelo menos enquanto o casamento não se consumasse. E, Deus querendo, nem mesmo depois disso!

    "Depois que o baile finalmente terminou, foi servida uma refeição ao amanhecer e dos dois apaixonados trocaram os seus últi­mos beijos castos, Use foi para o meu quarto. Estava excitada de­mais para dormir. Meteu-se na cama comigo e ficou falando sem parar. Escutei atentamente, com o maior interesse, arquivando todas as informações para referência futura. Queria saber tanto quanto ela sabia a respeito daquele paradigma de Gamsfeld. Quando ela finalmente cansou e aconchegou-se em meu ombro, comecei a lhe fazer amor, como nos tempos de escola em Genebra. Depois de uma noite de valsas e amor frustrado, ela estava exci­tada demais para resistir. Protestou débilmente que ainda me amava, mas queria se guardar para Johann. Eu não sabia o que havia que valesse a pena guardar, mas disse as mesmas mentiras doces que Lily e papai me haviam dito: que ela não estava rou­bando nada de Johann, apenas enriquecendo-o com um corpo pronto e experiente. Use adormeceu com os lábios em meu seio, a perna por cima da minha, os cabelos roçando em meu rosto. Eu ainda estava acordada quando o sol nasceu e os meninos da fa­zenda começaram a trazer as vacas para a ordenha. Podia ouvir claramente o som dos sinos das vacas, ressoando pelo vale. Olhei para Use pensei como seria maravilhoso se ela simplesmente desa­parecesse... soprada para longe como uma folha de outono...

    Olhando agora para este rosto lindo e pálido, estes olhos brilhantes, contemplando uma paisagem que ninguém mais pode per­ceber, sinto um súbito terror, como se um dedo gelado se insi­nuasse em meu coração. Compreendo perfeitamente o que ela está me dizendo. É o desejo de morte que todos nós acalentamos, em algum momento de nossas vidas. Já o tive deitado ao lado de Emma, enquanto minha mente e corpo estão absorvidos por outra mulher. Já o tive contra meu pai. Já o tive contra Freud... e Toni, inquisidora implacável do meu coração secreto, afirma que estou determinado a consumá-lo em Munique.

    Nesse momento, uma porta de ferro se abre nos recessos profundos do meu inconsciente e mil criaturas estranhas emergem para me assediar: um anão horrendo com o rosto de Freud, uma ave pulando com o rosto de uma menina, o esqueleto chocalhante de algum monstro pré-histórico, um Siegfried, incomparavelmente bo­nito, com um ferimento ensangüentado no peito e que grita "Você me matou, você, você, você...!" O assédio parece se prolongar uma eternidade. Mas quando olho para a minha paciente percebo que ela nada reparou. Ainda está absorvida no momento encantado do desejo de amor e desejo de morte, o momento de corrupção que deve preceder o momento da posse.

    Constato mais uma vez a estranha concordância de nossas experiências psíquicas. A dissociação que acabei de experimentar, a sensação de perder o controle sobre mim mesmo e sob a influência de forças externas, é exatamente a mesma que ela experimenta em seus momentos orgíacos... Não, espere um pouco! Não é exata­mente a mesma coisa. Eu sou constantemente assediado. Ela é sempre a agressora... Percebo de repente que ela não está mais sentada, mas sim de pé à minha frente, com as mãos estendidas. Pergunto, defensivamente:

    —   O que é?

    Ela me suplica, humildemente, como uma garotinha:

    —   Por favor! Estou muito assustada. Segure minhas mãos por um momento.

    Fito os olhos dela. Não encontro astúcia, não vejo malícia. Não tenho certeza se ela sequer me percebe. Está contemplando o caleidoscópio de seu próprio ego e não a minha confusão cere­bral. Pego as mãos dela. E me levanto. Puxo-a para mim, aperto-a contra meu corpo. Sinto uma pontada de desejo por ela. Ela não reage. Não resiste. Aceita a minha efusão como uma espécie de gratidão desesperada. Meu desejo se desvanece rapidamente. De­pois de um momento, ela se desvencilha de meu abraço com o formalismo gracioso da infância.

  • Obrigada. Eu precisava disso. Não está zangado comigo, não é mesmo?

  • Por que eu deveria estar? Ao contrário, estou feliz por verificar que você confia em mim... e tenho um profundo respeito por sua coragem... Está pronta para continuar?

 

MAGDA...

Zurique

Continuo, porque tenho de continuar. A tarde vai chegando ao fim. Meu tempo está se esgotando. Prometi concluir minha biogra­fia até o final desta sessão. Imediatamente depois será necessário tomar uma decisão. Carl Jung pode ou não me ajudar? Mais impor­tante ainda: ele continuará disposto a me ajudar, depois de conhe­cer toda a história?

Se ele não puder ou não quiser, então deixarei Zurique imedia­tamente. Há um trem noturno para Milão e Roma. Embarcarei nele. Se vou desembarcar em algum lugar já é outra questão. Há uma certa ironia na idéia de iniciar uma jornada entre os puritanos de Zurique e encerrá-la, uma peregrinação para a eternidade, em algum lugar no caminho para Roma, a Cidade Eterna. Ouço a voz de Jung me perguntando:

—   Alguma coisa engraçada? Não quer partilhar a diversão?

É mais fácil mentir do que explicar o humor da morte no trem noturno. E digo a ele:

—   Estava lembrando a nossa viagem de volta a Silbersee, depois do baile. Papai cochilava no canto, deixando escapar peque­nos grunhidos, sempre que sua cabeça batia na janela da carrua­gem, a cada curva. Lily estava completamente desperta, mas um tanto desgrenhada, depois de uma noite agitada e de se arrumar às pressas. Eu estava de olhos vermelhos e cansada, mas com a ca­beça repleta de pequenos demônios a se agitarem incessantemente. Lily apontou para papai e murmurou:

— Não sei onde ele se meteu ontem à noite. Desapareceu logo depois da última valsa e só tornei a vê-lo quando apareceu para o café da manhã, dizendo que acabara de fazer uma visita ao bar­beiro. Não sei quem ele pegou para a cama. Mas não se pode dei­xar de tirar o chapéu ao velho demônio e reconhecer que é rápido como um raio... E como está você, menina? Vi você dançando com Dietrich. É melhor tirar essas estrelas dos olhos, porque nin­guém vai romper aquele noivado. Ouvi toda a história ontem à noite da irmã viúva de Frau Hallman. É uma legítima personagem de pantomima para a sua coleção... parece uma das irmãs feias de Cinderela! A mãe de Dietrich morreu há cinco anos. O pai morreu no ano passado. Johann fica com o título, mas só obtém a proprie­dade depois que casar. Até lá, apenas recebe a renda. Ao que pa­rece, o velho não queria que a propriedade fosse comprometida por dívidas de jogo ou dissipada em mulheres. Mas há outros legados a serem pagos... a parentes e servidores, assim como uma quantia polpuda para a mulher que o pai estava mantendo quando morreu. Assim, o jovem Johann precisa de dinheiro imediatamente. E que melhor maneira de consegui-lo do que por um casamento rico? Eu diria que ele está ganhando pelos dois lados, amor e dinheiro. Use se baba por ele e Johann parece gostar muito dela... Mas creio que você já entendeu o que estou querendo dizer: se estivesse circu­lando, poderia estar também no mercado!

"Senti-me tentada a dizer que já estava no mercado e tencionava continuar até o lance final do arremate. Mas estava cansada demais para discutir. Limitei-me a comentar que Johann Dietrich queria conversar conosco a respeito de uma operação conjunta de criação de animais e talvez outro clube de caça em Gamsfeld.

"Lily pensou a respeito por alguns minutos e depois concluiu que era uma boa idéia. Com um capital maior, poderíamos adquirir os melhores reprodutores. Gamsfeld tinha algumas vantagens sobre Silbersee para o treinamento. Havia mais terra plana. Ficava mais perto do entroncamento ferroviário para Viena, Munique, Carintia e Itália... Poderíamos fazer os cruzamentos e criar os animais du­rante os primeiros meses em Silbersee, despachando-os em seguida para o treinamento em Gamsfeld... Hans Hemeling era excelente em seu trabalho. Eu poderia tratar dos animais, assim como dos seres humanos. Em tudo e por tudo, uma idéia esplêndida... desde que eu mantivesse as mãos nos bolsos do casaco, pelo menos quando Use Hellman estivesse por perto... Era disso que eu estava sorrindo. Era preciso levantar muito cedo para enganar Lily Mostyn! Papai também tinha um comentário a fazer, quando foi acor­dado por um solavanco numa curva mais fechada. A propósito de nada, ele anunciou:

"— Estou muito impressionado com o jovem Dietrich... muito impressionado. Tem mais inteligência do que se poderia esperar de um oficial de cavalaria. Tem uma tia viúva que toma conta da casa para ele em Gamsfeld. O nome dela é Sibilla. Uma mulher atraente, de língua suave e muito esperta. Convidei-a para nos visi­tar em Silbersee...

"Não fiz qualquer comentário. Pensei: Por que o demônio não poderia ter dedicado alguns pensamentos às perspectivas de casa­mento da filha?

Percebo de repente que Jung me observa atentamente. Seus olhos não deixam meu rosto um momento sequer. Não está escre­vendo anotações, apenas batendo com o lápis contra os lábios. Sei o que ele está pensando. Está entediado com toda essa bobagem. Abro os braços, num gesto de rendição.

  • Está bem! Vou dizer expressamente! Eu queria Johann Dietrich. Desde o primeiro momento que resolvi conquistá-lo de qual­quer maneira. Não tinha nenhum plano. Mas tinha uma proprie­dade grande, o coração de Use e um pequeno acesso à vida de Johann. Tinha de partir daí... e foi o que fiz, assim que chegamos a Silbersee.

  • Pois me conte tudo! — Jung sorri, com um divertimento malicioso. — Tenho muito que aprender sobre mulheres apaixona­das.

  • Escrevi cartas. Para Papai Hellman e a esposa, com agradecimentos efusivos por sua hospitalidade, que eu esperava que me permitissem retribuir em Silbersee. Para Use, escrevi um verda­deiro hino de louvores apaixonados: como ela estava linda; que homem esplêndido ela arrumara; como eu me sentia feliz por saber que ela estava feliz; como Johann mencionara que gostaria de co­nhecer nossa propriedade em Silbersee e talvez iniciar um em­preendimento conjunto conosco, como teríamos prazer em recebê-lo para uma visita, acompanhado por Ilse, é claro... mais a tia dele,, o pai e a mãe dela, até o gato e o cachorro, se assim quisessem! E para quando, o mais breve possível, gostariam de sugerir a visita? Na carta para Johann fui muito formal e bem-educada. Use era minha amiga, minha amiga querida. Sentia-me muito feliz por ela e por ele. Quanto à sua visita a Silbersee, que ficasse à vontade, no momento que escolhesse! Falei sobre hanoverianos, holsteins e puros-sangues ingleses, sobre experiências de que ouvira falar de cruzamentos com pôneis de Connemara. Informei-o sobre a minha visita iminente à Inglaterra e semeei a idéia de que poderíamos investir juntos num bom garanhão inglês... Jung indaga, amavelmente:

  • Por uma questão de interesse, de quanto tempo dispunha antes que o casamento fosse sacramentado?

  • Do outono à Páscoa... Para manter a tradição, a pequena Use tinha de ser uma noiva da Páscoa e Johann precisava comple­tar mais dois meses de serviço com o regime antes de renunciar ao seu posto...

    —   Não era muito tempo para romper um noivado tão sólido.

    —   Sei disso. Teria sido mais fácil roubar o Landesbank. Mas eu estava disposta a qualquer coisa.

—   Contudo, ainda não tinha a menor idéia do que Johann Dietrich sentia por você.

  • Isso não tinha a menor importância. Eu sabia que tinha mais do que qualquer coisa que Use tivesse... e podia fazer vinte vezes melhor qualquer coisa que ela fizesse para um homem,

  • Mas que confiança!

Jung começa a rir. Também desato a rir.

—   É uma forma de loucura. A pessoa fica absolutamente con­vencida de que o mundo exterior funciona pelas mesmas regras que existem dentro de sua cabeça... No meu caso, parecia que era jus­tamente esse o caso... Poucas semanas depois do noivado, Johann e Ilse foram nos visitar em Silbersee. Estavam acompanhados pela tia de Johann, a que causara tanta impressão em papai e parecia estar igualmente impressionada com ele. Como parte das mudanças em Silbersee e para atender aos hóspedes do clube de caça, convertêramos dois dos chalés mais próximos em casas de hóspedes. Foi lá que alojamos Use, Johann e Tia Sibilla. Percorremos a pro­priedade a cavalo, tendo Hans Hemeling como guia. Hemeling causou a melhor impressão em Johann, que não era absolutamente o herdeiro ocioso e indiferente. Ele falou francamente de seus pro­blemas.

"O pai dirigira a propriedade com extrema eficiência, mas jamais permitira que Johann tivesse qualquer participação na administração. Houvera um estremecimento nas relações entre os dois nos últimos anos da vida do pai, porque este instalara a amante no solar familiar. Por isso, Johann permanecera com seu regimento, em serviço integral. Agora, havia muito tempo perdido a recuperar. Estava ansioso em saber como nos reorganizáramos em Silbersee, como conseguíramos restaurar o moral entre os rendeiros. E, de­pois, ele disse uma coisa que atiçou minhas esperanças como um vento soprando por carvões em brasa:

— Espero que possa transmitir alguma coisa a Use. Ela é maravilhosa e eu a amo muito, mas nunca precisou se defender sozi­nha. Mas depois de casarmos vou precisar de muita ajuda em Gamsfeld. Você é diferente. Recebeu uma educação profissional. É excepcionalmente confiante, algo que muito admiro. E você ainda conta com Lily. Adoro aquela mulher. Ela tem sal na língua e o demônio no coração! Gosto também de seu pai. Ele tem muita classe...

—   Os elogios foram profusos, pelo que estou vendo. Mas não houve mãos dadas, beijos, pequenos momentos de revelação?

—- Não. Mantive-me prudente como uma freira.

  • E Ilse?

  • Ficou aturdida. Agora eu teria de bancar a mãezinha, além de todos os outros papéis, ensinando-lhe os elementos de adminis­trar uma propriedade. A Tia Sibillla de Johann era uma mulher decidida e Ilse não queria que ela assumisse a posição de dona-de-casa. Prometi que Lily e eu faríamos tudo o que fosse possível para sua instalação como castelã.

    "Ao final do dia, tivemos um jantar ao estilo rural no Schloss e depois os acompanhamos até o chalé de hóspedes. Papai interveio nesta altura, propondo levar a todos até a aldeia para música de cítara e Schuplattler. Eu sabia que ele queria na verdade escapar com a Tia Sibilla. Os amantes desejavam ficar a sós. Lily e eu optamos por ir deitar cedo.

    "Quando eles foram embora, na manhã seguinte, Johann Dietrich entregou-me uma nota promissória no valor de três mil coroas de ouro, a metade para a aquisição de um reprodutor puro-sangue inglês, se eu encontrasse o certo. Poucas semanas depois parti para a Inglaterra, com Hans Hemeling, para comparecer ao leilão anual de potros em Newmarket. Hans voltaria com os animais. Eu per­maneceria em Londres para um estudo de pós-graduação de dois meses, no Hospital St. Mark, no East End, onde se estava reali­zando um trabalho excepcional com fístulas e tumores malignos.

    "Parecia uma medida apropriada. Papai prometera ficar em casa e cuidar de Lily e da Propriedade. Eu não via qualquer sen­tido em esperar que Johann Dietrich desenvolvesse uma paixão in­tensa por mim. Quanto mais cedo começássemos a fazer negócios juntos, poderíamos nos ver com maior freqüência. A ausência po­deria não fazer com que seu coração se tornasse mais afetuoso... mas pelo menos estaríamos ligados por três mil coroas de ouro. Muitos romances já floresceram de sementes menores. E eu tinha outra idéia...

    —   Espere um instante! Jung levanta a mão, num gesto auto­ritário. Você estava indo para Londres. Ficaria sozinha por dois meses. Não houve qualquer menção de sua mãe? Não discutiu o assunto com seu pai ou com Lily?

  • Claro que conversamos sobre o assunto.

  • E qual foi o resultado?

  • Como sempre, terminou num beco sem saída.

  • Explique como, por favor.

    —   Papai assumiu a mesma atitude de sempre: nenhuma infor­mação, a recusa em falar a respeito. Por ele, minha mãe estava morta, enterrada e esquecida. Minha necessidade de informação era como uma cólica de verão; acabaria passando.

    —   E Lily?

    —   Lily assumiu uma posição diferente desta vez. Compreendia meus sentimentos... sempre compreendia. Ela própria era filha adotiva. Foi a primeira vez que admitiu isso e ainda não tenho certeza se era verdade. Seja como for, ela alegou ter sentido as mesmas pontadas de curiosidade em relação aos pais que eu agora experimentava por mamãe. Mas acrescentou que era como o quarto trancado no castelo do Barba Azul: ao se abrir a porta, podia-se encontrar coisas de que não se gostaria e nunca mais se poderia esquecer. Ela disse mais uma coisa, que ficou gravada em minha mente: "Há um traço de frieza nos ingleses, meu bem, es­pecialmente na aristocracia. Eles podem ser muito cruéis e ciosos de suas prerrogativas quando seus interesses estão ameaçados. Eu preferia que você não se arriscasse a isso. Não se esqueça de que fui uma babá, um grau acima da arrumadeira e da cozinheira. Mas nunca tive permissão para me sentar à mesa e fazer uma refeição junto com os aristocratas... É claro que você também é uma aristo­crata, mas por que se arriscar a que uma mulher arrogante a olhe através de uma lorgnette como se fosse um bicho na folha de al­face?" ... Isso explica?

  • Deve bastar. Como conseguiu ingressar no Hospital Saint Mark?

  • Da maneira como conseguia tudo, naquele tempo. Escrevi para lá, anexando cópias de minhas qualificações e cartas de meus professores em Pádua e Viena.

  • E assim, deixando o romance na expectativa em Gamsfeld, você chegou a Londres...

    —... com uma carta de crédito para o Coutts Bank e uma carta de apresentação ao embaixador de Sua Majestade Imperial na Corte de St. James. Como eu não tinha patente de nobreza, não havia perigo de ser apresentada à sociedade. Nas minhas creden­ciais profissionais tornavam-me um nome respeitável, se bem que um tanto exótico, no livro de visitantes da embaixada. Fui a New-makert com Hans e comprei nosso primeiro reprodutor importante. Demos ao animal o nome de Macedon, porque esperávamos que se tornasse um conquistador mundial como Alexandre, o Grande. De­pois que Hans voltou à Áustria, apresentei-me no Saint Mark e fui me instalar na Baker Street. Ia e voltava do trabalho todos os dias num cabriole de aluguel. Foi o período mais infeliz da minha vida. A única coisa que me mantinha era o orgulho. Não podia deixar que papai ou Johann me vissem voltando para casa como um cachorri­nho escorraçado.

    —   Qual era o problema?

    —   Tudo! O tempo era horrível, com um nevoeiro compacto ou uma chuva fina a cair por semanas a fio. Meus alojamentos pare­ciam um deserto congelado. Os ingleses que eu conhecia pareciam ancorados nuni mar de sargaços sexual, entre a masturbação, ma­soquismo e amor grego nos banhos turcos... E Ilse Hellman casou com Johann Dietrich, graças a uma autorização especial, uma se­mana antes do Natal.

  • Santo Deus! O próprio Jung se surpreendeu com essa parte da história. O que aconteceu? Não me diga que ela ficou grávida em Silbersee. Isso seria demais.

  • Não foi isso. A mãe dela ficou muito doente. Todos acha­vam que ela poderia morrer antes do Natal. E ela queria ver a pequena Use casada antes de deixar esta vida. Johann não levantou quaisquer objeções. Significava apenas que ele entraria mais cedo na posse da propriedade deixada pelo pai. Papai Hellman ficou feliz por poder resolver tudo logo de uma vez. A mãe de Use mor­reu na véspera de Ano-Novo... enquanto eu espiava por um mi­croscópio uma secção de sarcoma no Hospital St. Mark!

    No instante seguinte Jung e eu estamos nos desmanchando em risadas. Era mesmo demais para se acreditar. E, no entanto, foi exatamente assim que aconteceu... Só que eu não estava rindo em Londres quando o telegrama de Lily chegou. Estava chorando de­sesperadamente, de raiva e desapontamento.

    —   Havia neve até os tornozelos nas ruas, mas fui a pé até Piccadilly e entrei no Café Royal, onde fiquei observando um homem de lábios grossos a fazer epigramas para uma mesa repleta de jovens, que absorviam suas palavras de qualidade duvidosa... Não, isso não é verdade! Achei que ele estava tendo um ótimo desempenho. Lembro que fui até a mesa com um copo de champa­nha na mão e lhe disse isso. Quando me apresentei, pelo nome e profissão, com bastante sobriedade, ele pegou-me a mão e anun­ciou com um floreio: "Madame é magnífica! Uma médica e ainda por cima uma cirurgiã! Cavalheiros, ainda há esperança para nós, se... os céus nos guardem... formos atacados pela sífilis! Madame dança? Esplêndido! Acabei de escrever uma peça sobre uma dançarina com interesse pela cirurgia. O nome dela é Salomé. Dança para o Rei Herodes, que a presenteia com a cabeça de João Batista numa bandeja. Acha que poderia representar o papel?"

    Jung está começando a ficar impaciente. È evidente que não está interessado em minhas reminiscências vagas da Londres literá­ria. Ele me exorta a voltar ao fio principal da história:

    —   Concluiu o seu curso de pós-graduação no Saint Mark. Vol­tou à Áustria. O que aconteceu em seguida?

  • Fui fazer uma visita a Johann e Use em Gamsfeld. Johann, o jovem proprietário, feliz por ter deixado o exército, tinha a ca­beça cheia de planos para a propriedade. Use, a jovem esposa, ainda desabrochando, tentava desesperadamente engravidar... Fui duplamente bem acolhida: como sócia nos negócios de Johann e como médica particular de Ilse. Até mesmo tia Sibilla ficou con­tente em me ter como hóspede. Eu era um vínculo, mesmo que tênue, com papai, cuja atenção já se tornara um tanto esporádica. Johann e eu decidimos que, assim que a primavera chegasse, abri­ríamos o Clube de Caça em Gamsfeld e passaríamos a dirigir os dois haras em cooperação, cada um se concentrando no desenvol­vimento de linhagens diferentes...

  • E mesmo com toda essa intimidade, não houve nada mais profundo entre vocês? Johann não demonstrou qualquer interesse sexual? Não houve avanços de sua parte? Use não sentiu ciúmes?

  • Não, não houve nada mais profundo. E não houve ciúmes. Avanços sexuais?... Não se esqueça, meu caro Doutor, que eu tinha grande experiência nesse tipo de manipulação. As pessoas se acostumavam a situações que outros poderiam considerar escanda­losas. Era a coisa mais natural do mundo que eu freqüentasse o quarto de Use, saísse a cavalo em companhia de Johann, em Silbersee ou Gamsfeld. Era comum nós quatro... porque Tia Sibilla era uma aliada em Gamsfeld, da mesma forma que Lily em Silbersee... sentarmos em roupas de dormir, tomando um último drinque, abraçando-nos em seguida, antes de irmos para a cama. Os abraços podiam significar o que quer que se preferisse pensar a respeito. A última coisa do mundo que eu queria era um escândalo. Queria continuar a ser exatamente o que era: Senhora de Silbersee, a Frau Doktor Kardoss, amada de meus pacientes, amiga íntima de Jo­hann, Ritter von Gamsfeld, e sua rica e adorável jovem esposa...

  • Deve ter sido um relacionamento bastante complexo.

  • Na superfície, era muito simples.

  • E você se empenhou para mantê-lo.

  • Com a maior determinação.

  • O que esperava ganhar com isso?

  • Exatamente o que ganhei: casar com Johann Dietrich, dar-lhe uma filha e me tornar a Senhora de Gamsfeld.

  • Presumo que vai explicar como isso aconteceu.

  • Acho que já sabe, meu caro Doutor. Eu matei Ilse Hellman.

     

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Eu já sabia? Sei agora? Quero saber mais? Meu consciente se empenha em colocar a declaração tão simples que ela acaba de fazer numa estrutura de razão. Em termos concretos, eu não sabia como ela cometera o crime. Ainda não sei. Sou um médico de men­tes doentes que distorcem a realidade. Tinha ouvido uma narrativa, cada palavra da qual podia ser uma ficção. Não tivera tempo para comprovar sua verdade ou analisar seus significados ocultos.

Por outro lado, a inquietação de meu próprio subconsciente, a súbita liberação de arquétipos e violência, afirma que é verdade o que estou ouvindo. É como se uma corda tangida num piano tivesse desencadeado toda uma série de vibrações. Quer seja verdade o que as palavras dizem... isso é outra questão. Quando Toni me diz que tenciono matar Freud em Munique, está falando de um ato moral, com conseqüências morais, não uma transgressão prevista no código penal.

Quero saber mais? Tenho de saber. Testemunhei o que esta confissão tem custado à minha paciente. Sei o que me tem custado. Cada um de nós deve extrair algum benefício da experiência. Há também outro motivo. Estou tão ligado a ela, mesmo por essa breve experiência de um dia, que tudo que a afeta também me atinge, num mistério especial de conjunção. Ainda não estamos unidos no corpo, mas nossos subsconscientes estão muito íntimos. Não obstante, tenho de lidar... e lidar com extremo cuidado... com o consciente. Levanto-me da cadeira e fico andando pela sala, de­vagar, tomando cuidado para não passar perto demais dela, até acabar o que devo dizer:

Fizemos um acordo esta manhã para garantir que permane­ceria em sigilo tudo o que fosse dito nesta sala. O acordo continua em vigor. Tendo chegado até este ponto, consumamos uma espécie de sacramento...

Antes de terminar de pronunciar as últimas palavras já estou percebendo que me comporto como um idiota pomposo, proferindo banalidades, como meu pai no púlpito. Estou parado junto à es­tante. Ela se aproxima de mim. Também tem algo a dizer.

  • Não estou preocupada. Essa parte ficou definida em minha mente há algumas horas. Afinal, depois que uma pessoa se junta aos Vogelfreier, os fora-da-lei, a próxima parada é no céu. E posso efetuar esse vôo no momento em que me decidir.

  • Sei disso. Mas preciso ter certeza de uma coisa. Há muita metáfora e símbolo neste negócio. Você matou mesmo Use Hell-man, fisicamente?

  • Matei mesmo, fisicamente e por um ato premeditado. Mas nenhum tribunal do mundo poderia jamais me condenar.

  • Teve cúmplices?

  • Não.

  • Johann sabia?

  • Nunca desconfiou.

  • Quem mais sabia então?

    —   Ninguém. Lily adivinhou. Papai adivinhou. Mas ninguém mais soube com certeza, até agora.

  • Como cometeu o crime?

  • Isso é importante?

    —   A partir deste momento, tudo é importante. É minha paciente. E é você quem está em perigo agora.

  • E se importa muito?

  • Claro que me importo.

  • Por quê?

    —   Não sei, mas me importo. E agora, pelo amor de Deus, conte-me o resto da história!

    Viro-me para voltar à mesa. Ela me segura pela manga, faz-me virar no meio de um passo e me beija em cheio nos lábios. O misté­rio da conjunção está completo: por um longo momento, ficamos unidos, como os pequenos bonecos copulando que se costuma en­contrar em lojas de curiosidades. O momento passa. Ela me afasta e torna a sentar na cadeira dos pacientes. Presenteia-me com um sorriso estranho, meio triste, e com um comentário irônico:

    —   Compreendo agora por que os católicos usam uma tela de arame no confessionário.

    Lembro a ela, com um sorriso, que sou um analista e não um confessor; portanto, as regras do jogo são diferentes. Ela começa de novo; enquanto vai falando, aumenta em mim a compreensão de que acabei de abraçar uma assassina e descubro que a experiência é das mais estimulantes.

    —   Tudo foi planejado durante a primeira caçada em Gamsfeld. Organizamos a coisa como um festival de um dia inteiro: a caçada à raposa pela manhã, um desfile dos nossos animais depois do al­moço, um baile ao cair da noite, com fogos de artifício e muita cerveja na aldeia para os habitantes locais. Trouxemos uma parte do nosso pessoal em Silbersee, cavalariços e outros ajudantes, a fim de que todos vissem que se tratava de um empreendimento con­junto... Pode me emprestar um lápis e uma folha de papel? Há uma certa quantidade de geografia envolvida. Ficará mais fácil se acompanhar no papel...

    Ela puxa a cadeira para perto da mesa e desenha um número oito, com o círculo de cima muito maior que o de baixo. Faz uma cruz no círculo inferior.

    —   Isto é Gamsfeld propriamente dito: o castelo, que é pequeno, mas muito antigo. Fica no alto de uma colina, cercado por um muro, com habitações no interior para os criados. Abaixo, neste primeiro vale redondo, há 300 acres de colinas. O perímetro é cercado por colinas. As campinas ficam nas encostas inferiores, depois há bosques de pinheiros, em seguida a linha da neve, penhas­cos e uma vegetação raquítica. É onde ainda se pode encontrar a gams, a camurça... Aqui, onde se encontram as duas partes do de­senho, é um desfiladeiro, com cerca de um quilômetro e meio de largura, entre duas colinas. Mais além, como pode perceber, o ter­reno volta a se abrir em pastos, campinas e pomares, divididos por muros baixos de pedras. No alto do oito fica a aldeia, muito antiga, muito bonita na primavera e verão, mas sombria e depressiva no inverno...

    "Sabíamos que teríamos um grupo grande para a caçada e Johann queria agradar o pessoal da aldeia. Combinamos concentrar os caçadores e cães na praça da aldeia, onde se faria a primeira refeição e se tomaria uma bebida final antes da partida. Assim, o açougueiro, o padeiro, o estalajadeiro, os rendeiros e trabalhadores poderiam partilhar uma parte da receita. Seguiríamos depois para ás campinas, onde havia maior possibilidade de se se encontrar uma raposa. Os cães seriam soltos e a caçada começaria. Tenta­ríamos levar a raposa pelo desfiladeiro para o outro vale, onde o terreno era mais difícil, mas os riscos de danos para a área culti­vada eram menores.

    "Por sugestão minha, Johann tomara providências contra acidentes. Mandamos que os homens da fazenda capturassem uma raposa e a mantivessem presa. Se não encontrássemos nossa pró­pria raposa antes de alcançarmos o desfiladeiro, os homens solta­riam o animal cerca de meio quilômetro à nossa frente, a fim de que os cães e os cavaleiros pudessem ter uma presa a perseguir... A segunda providência foi convidar o médico local a acompanhar a caçada... e levar os instrumentos da profissão. Com isso, haveria três pessoas para cuidar de possíveis vítimas, que seriam recolhi­das por uma carroça de feno seguindo a cavalgada.

    "Finalmente, nós quatro, Johann Dietrich, Hans Hemeling, Ilse e eu, cobrimos todo o percurso, anotando os perigos para os cavaleiros novatos ou que não conhecessem o terreno. Havia di­versos: uma ribanceira no córrego do moinho, onde haviam enca­lhado e apodrecido troncos que desciam do alto da colina, uma coelheira, cheia de buracos e túneis, onde tanto cavalo como cava­leiro podiam se machucar, e um muro de pedra, mais alto que os demais, parte do antigo complexo de construções, com uma vala cheia de escombros no outro lado. Um bom cavaleiro, numa boa montaria, poderia transpô-lo facilmente, mas um mau cavaleiro se arriscaria a quebrar o pescoço. Concordamos em assinalar os peri­gos e alertar os caçadores antes de partirmos.

    "Perguntei a Ilse se sabia pular direito sobre os obstáculos. Johann respondeu por ela: 'Use é muito boa. Já saímos juntos mui­tas vezes. Mas não quero que ela corra riscos desnecessários. Su­giro que ela vá junto de você, Magda. Use não precisa provar coisa alguma para esses homens do campo em seus imensos cavalos ou para meus amigos da cavalaria, que são treinados para assumir ris­cos. Mas já avisei a ela para contornar o obstáculo, se tiver alguma dúvida. Quando a matilha está em disparada, latindo sem parar, tudo pode acontecer!'

    "Ouvi pela primeira vez um retinido de ciúme entre os sininhos de prata. Use não queria ouvir um sermão na minha presença. Era perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. A Senhora de Gamsfeld tinha um nome a zelar. Queria que Johann se sentisse orgulhoso dela... Amém! Que assim fosse! Fui absorvida de qual­quer responsabilidade. O que era exatamente o que eu planejava."

    Mas certamente, Madame... Até mesmo para mim, o suíço austero de Küsnacht, uma questão óbvia se apresenta. É a raposa quem dá a direção, não os caçadores. Como poderia prever este ou aquele obstáculo em que o acidente seria encenado? Afinal, seu pescoço estava também em perigo... para o carrasco, se as coisas saíssem erradas.

    Ela me concede um breve sorriso condescendente e sacode a cabeça.

    —   Não está entendendo, meu caro colega. Os pontos de perigo não passavam de uma diversão, uma distração. Não havia qualquer garantia de que chegaríamos perto de um deles. Mas numa corrida de obstáculos, uma caçada pelos campos, há perigo a todo instante. Acidentes acontecem com a maior facilidade. Use Hellman era uma amazona medíocre. Montava de lado na sela, como uma per­feita dama. Eu sou uma boa amazona... muito boa mesmo... mon­tava como um homem. Pode compreender assim que estava tudo a meu favor. Johann e seus amigos sairiam atrás de uma raposa. Eu queria pegar uma mulher. Seguiria junto de Ilse Hellman, até o momento final...

    Não resta a menor dúvida de que a voz que sai por sua boca, o fogo que ilumina seus olhos, são expressões da sombra, o elemento de seu ego sinistro e primitivo. Começo a compreender como é profunda a divisão dentro de sua psique e o que ela está realmente querendo dizer ao afirmar que, por um lado, não tem instintos reli­giosos ou morais e, por outro, anseia desesperadamente um apoio na fé. Lembro nitidamente dos relatos que já li sobre a suposta possessão diabólica. Tenho certeza de que muitos casos são fenô­menos que pertencem aos estados de demência precoce. Estou convencido de que esta mulher, embora se comportando com total racionalidade, está em certos momentos completamente dividida ao meio, como um tomate cortado... Exorto-a a continuar. Tenho de confessar que me sinto irresistivelmente atraído por esse relato de um assassinato, feito pela própria assassina.

    —   Todos levantamos cedo em Gamsfeld, a fim de recebermos os convidados quando chegassem à aldeia. Era uma linda manhã de primavera, ensolarada, amena, com a geada ainda rachando sob as patas dos cavalos, os primeiros botões rompendo nos galhos des­folhados pelo inverno. Johann, Ilse e eu partimos juntos. Johann, treinado na cavalaria, montava o seu cavalo predileto, um grande Furioso da Hungria. Eu montava Celsius, um hanoveriano que fora treinado pessoalmente por mim, um saltador hábil, firme como um relógio suíço. A montaria de Use era um presente de Johann, uma linda égua meio árabe, do haras em Radautz. Era uma égua jovem e fogosa. Use, esplêndida num traje de montaria novo, igualava-a em beleza e classe, se não mesmo em inteligência...

    "Sei que parece estranho, um elogio à mulher que eu queria matar. Mas o que preferia em vez disso? Uma mentira? Ela estava realmente deslumbrante. E sua montaria era também uma beleza. Só que eu não sabia o quanto ela poderia suportar sobre pressão. Mas é claro que não haveria pressão naquele dia. Estávamos saindo para uma diversão saudável, ao melhor estilo rural, com a banda da aldeia tocando na praça, as moças de avental engomado e Dirndls dominicais correndo de um lado para outro, com cerveja, pão e salame, todos os aristocratas de muitos quilômetros ao redor prontos para participarem de uma caçada à raposa a l'anglaise, em Gamsfeld.

    "Use seguia perto de Tia Sibilla. Aproximei-me delas e lembrei a Use das advertências de Johann. Que os homens tomassem a dianteira. A partir do momento em que soassem os gritos dos ca­çadores ao avistarem a raposa, todos disparariam, como um regi­mento de hussardos. Use estava nervosa agora e contente por me ter ao lado. A pequena égua estava também irrequieta e difícil de controlar. Use queixou-se: 'Não a conheço muito bem. Não sei como poderá reagir.' Eu disse que ela mantivesse a mão firme. Não havia pressa. Se ela quisesse rédea nas cercas, que lhe desse. Se vacilasse, então contornasse o obstáculo, ao invés de se arriscar a uma queda. Eu a acompanharia por todo o caminho, mas saltaria os obstáculos na frente. Meu Celsius tinha uma andadura firme e daria confiança à pequena égua... Tia Sibilla acrescentou o seu próprio conselho: ' Pode confiar em Magda. Fique junto dela e vol­tará para casa sã e salva.' Era exatamente o que eu estava preci­sando, um testemunho positivo de que tomara o maior cuidado com a minha querida amiga Use. Soou nesse momento a trompa do mestre-caçador. Os cachorros partiram, trotamos atrás deles, dei­xando a praça, avançando por uma rua de calçamento de pedras, passando pela pequena ponte em arcada... diziam que tinha nove séculos... e alcançando as campinas. Os cachorros foram soltos e os cavaleiros se espalharam pelos pastos...

    "Tivemos sorte. Encontramos nossa raposa a menos de um quilômetro da ponte, um macho grande e lustroso, que surgiu de trás de uma cerca de pedra e disparou na direção do desfiladeiro, com os cachorros em seu encalço. Ao primeiro grito, Use partiu em meio galope, como eu sabia que aconteceria. Ela levou diversos esbarrões no primeiro ímpeto, quase foi derrubada da sela, acabou ficando para trás, junto de Tia Sibilla e de mim.

    "Sibilla censurou-a. Eu, a amiga querida e fiel, encorajei-a. 'Vamos alcançá-los. Passaremos facilmente pelas próximas duas cercas e depois estaremos em cima da matilha...' Ela concordou e passamos por três cercas de pedra com uma graça incomparável. Adiantei-me em meio galope e Use logo me alcançou. Era uma brincadeira de criança, um exercício de adestramento que eu cos­tumava fazer com Rudi, nos velhos tempos, em Genebra. Passa­mos as duas cercas seguintes com uma facilidade ainda maior. Use estava inebriada de excitamento. E gritava: 'Vamos logo! Agora! Agora!' Estávamos a três campos de distância do grupo principal. Tínhamos de passar por duas cercas de pedra, uma cerca viva com uma vala além e depois, assomando à nossa frente, de um ângulo completamente diferente, o muro de pedras, com a vala cheia de detritos...

    "Era o momento. Eu sabia que tinha de decidir... agora ou nunca. A vala cheia de detritos poderia matar a nós duas. Se eu estivesse avaliando direito, a cerca viva poderia ser a última fron­teira para Use. Respondi aos gritos dela: 'Vamos embora!' Passei pelas duas primeiras cercas, voando, com Use três metros atrás de mim. A égua tropeçou depois do segundo salto, mas recuperou o equilíbrio e logo estava de novo atrás de mim, enquanto eu partia para a cerca viva. Johann e eu anotáramos aquele obstáculo du­rante a nossa ronda. A vala no outro lado era larga e íngreme, mas qualquer ginete poderia superar o obstáculo sem maiores dificulda­des... até mesmo Use. Ela estava logo atrás de mim quando saltei, não reto, mas com uma ligeira inclinação para o seu lado. Passei pela vala facilmente. Mas a pequena égua, prejudicada em sua an­dadura pelo meu desvio, estancou no último momento e Use foi projetada por cima da cerca viva, caindo de cabeça na vala.

    "Não há quedas boas... apenas as afortunadas. O que não foi o caso daquela. Use estava viva, mas inconsciente, o corpo grotes­camente distorcido. O sangue escorria pelo nariz e ouvidos, um lado do crânio estava arrebentado pelo impacto contra uma pedra pequena e pontiaguda, na parede da vala. Os primeiros cavaleiros a chegarem ao local foram Tia Sibilla e papai. Tia Sibilla, anden regime até as pontas das luvas de montaria, olhou para Use, aba­lada mas sem lágrimas, anunciando: 'Vi tudo acontecer. A pobre criança calculou mal o salto. Que coisa horrível! Vou buscar so­corro!'

    "Papai ajoelhou-se comigo e fez um exame rápido, murmurando em seguida: 'Teremos sorte se ela ainda estiver viva quando a levarmos para casa. Se estiver, então trabalharemos nela juntos. O médico local cuidará da anestesia. Você me assistirá.' Os ho­mens chegaram com a carroça. Ajeitamos Ilse lá dentro da forma mais confortável possível. Papai e eu acompanhamos a carroça de volta ao castelo...

    "Johann estava desesperado, mas se comportava como um soldado. Mandou que seu mordono e meu Hans Hemeling cuidas­sem dos convidados, depois subiu para o quarto em que Sibilla e Lily despiam Use, enquanto papai, o médico local e eu nos prepa­rávamos para a cirurgia que parecia possível... e que não represen­tava muita coisa. Havia uma fratura com afundamento no crânio, fraturas na estrutura vertebral central e, pela aparência das coisas, uma profusa hemorragia craniana. Johann perguntou: 'Há alguma esperança?' O médico da aldeia deixou a resposta para papai, que foi gentil mas firme em sua opinião: 'Infelizmente, não muita. Poderíamos fazer um pouco melhor no hospital, mas ela morreria antes de chegarmos lá. Precisamos do seu assentimento para traba­lho de emergência agora... mas não conte com milagres.'

    "Johann estava sombrio e pálido. Disse simplesmente: 'Façam o que puderem, por favor.' Depois, ele se inclinou e beijou Use na testa, saindo em seguida com Sibilla e Lily, deixando-nos sozinhos para fazermos nosso trabalho. O médico da aldeia demonstrou ser competente e criterioso. Em sua opinião, as lesões cranianas eram extensas e irreparáveis. A fratura espinal significaria provavel­mente a paralisia permanente. Em tudo e por tudo, seria uma mise-ricórida se ela não sobrevivesse. Papai acenou com a cabeça em concordância. Como eu estava na presença de dois médicos mais velhos e experientes, não tinha opiniões a oferecer. Papai sugeriu que cuidássemos primeiro do afundamento craniano e verificásse­mos a contusão que havia por dentro. Depois de uma hora de tra­balho inútil, tamanhas eram as lesões, limitamo-nos a costurar tudo de novo e enfaixar o crânio. Ajeitamos Ilse na cama e chamamos Johann.

    "Foi papai quem deu o veredicto. Ela não ia sobreviver. E o mais misericordioso era deixá-la morrer tranqüilamente, sem efe­tuar mais nenhum serviço de açougueiro. Johann desmoronou por completo. Ajoelhou-se ao lado da cama, o rosto enterrado nas mãos, chorando como uma criança desconsolada. O médico da al­deia indagou com muito tato se não deveríamos chamar o padre para ministrar a extrema-unção. Tia Sibilla já mandara chamá-lo. Eu, que nunca antes presenciara aquele serviço, fiquei assistindo junto com os outros. Ao ouvir as palavras finais, senti... pode acre­ditar nisso?... uma alegria intensa por saber que tudo terminaria em breve.

    "Mas o fim ainda não chegara. A vigília foi mais longa do que qualquer um de nós esperava. Por volta das oito horas da noite eu estava sentada no quarto, com Johann e Tia Sibilla. Ansiava em aconchegar Johann em meus braços, mas não me atrevia a deixar transparecer o que sentia por ele. Eu estava fazendo vigília por Ilse, minha amiga mais querida, a companheira do meu coração de mulher.

    "Subitamente, ela começou a rolar a cabeça de um lado para outro, sobre o travesseiro, emitindo estranhos gritos animais. Si­billa e Johann olharam para mim e indagaram o que estava aconte­cendo. Expliquei da melhor forma possível que as sinapses no cé­rebro estavam distorcidas e que as ações não passavam de refle­xos. Mas Johann gritou: 'Será que não percebe que ela está se machucando? Por favor, ajude-a! Por favor!' Respondi que faria o que pudesse. Pedi que os dois saíssem do quarto. Despejei um pouco de clorofórmio num chumaço de algodão e pus sob o nariz de Ilse. O cheiro daria a impressão... a todos, menos a papai... que eu ministrara mais anestésico. Matei-a em seguida com uma inje­ção de ar na artéria femural, onde a picada não seria notada.

    "Chamei papai e o médico local 10 minutos depois. Eles declararam-na morta. Houve as lamentações habituais ao lado da cama. O médico local assinou o atestado de óbito. Meu pai assinou como testemunha. O padre deu a última bênção, apresentou suas condolências à família e foi embora. Johann, paralisado pelo deses­pero, recusou-se a sair do quarto, até que as mulheres entraram para lavar o corpo e prepará-lo para o agente funerário.

    "O resto foi uma seqüência de rituais, irreais como as cenas pintadas num vaso antigo. Tia Sibilla suplicou-nos que ficássemos em Gamsfeld até o funeral. Comecei a ficar cautelosa, pela pri­meira vez. Não era parte do meu plano ser comentada como uma possível consorte para o viúvo Ritter von Gamsfeld. Assim, apresentei a desculpa que tinha coisas a fazer em Silbersee e embarcaria no mesmo trem que Hans, que estava levando os cavalos de volta. Mas prometi que voltaria a tempo para o funeral.

    "Lily não estava tão feliz quanto eu. Sentia ciúmes das aten­ções de Tia Sibilla com papai e tinha palavras amargas a dizer sobre o fato da aristocracia ser sempre a aristocracia e acertar suas coisas sem a menor consideração pelos sentimentos dos outros. Sugeri que ela voltasse a Silbersee comigo e com Hans, deixando papai entregue a seu próprio destino. No trem, ela ofereceu uma surpresa. Resolvera passar férias na Inglaterra, muito em breve, enquanto as flores da primavera ainda estavam desabrochadas e os jardins exibiam a sua melhor aparência. Há muito tempo que não visitava a Inglaterra e estava ansiosa em rever a velha terra...

    "Declarei que era uma idéia maravilhosa, justamente o que ela estava precisando. Papai estaria muito difícil e eu estava sempre ocupada... 'Muito ocupada, meu bem!', disse Lily, tristemente. 'Muito ocupada mesmo! E tão esperta que fico imaginando onde aprendeu tudo isso!' Havia uma farpa naquela isca, mas preferi ignorá-la. Tinha certeza de que umas férias na Inglaterra era exa­tamente o que Lily precisava. Prometi que lhe daria um presente de 50 coroas para ajudar nas despesas de viagem.

    "O funeral em Gamsfeld foi suntuoso, um espetáculo feudal, com estranhos protocolos locais, que não faziam o menor sentido para nós, estrangeiros, Auslanders. Num lado da sepultura ficaram Johann, Tia Sibilla e outras pessoas da família dele. No outro esta­vam Papai Hellman e seus filhos. Fiquei com os Hellmans... uma testemunha muda e enlutada da triste perda de minha amiga que­rida. Papai Hellman segurou-me a mão, passou o braço por meus ombros e disse que sempre me consideraria como sua segunda filha.

    "Ao deixarmos o cemitério junto à igreja, Johann alcançou-me e suplicou, com uma humildade que me levou às lágrimas: 'Por favor, poderia continuar a trabalhar como havíamos planejado? Preciso desesperadamente me manter ocupado. Use estava tão en­tusiasmada com o projeto que tenho certeza que ela gostaria que eu continuasse. Tia Sibilla também quer. Ela acha que você é uma das mulheres mais corajosas e completas que já conheceu... e adora a sua presença. Quero ir a Silbersee de vez em quando, se você per­mitir. Gamsfeld vai ser agora um lugar terrivelmente solitário...' Se eu pudesse me mudar para Gamsfeld naquele momento, não teria hesitado. Mas a pequena colônia em Gamsfeld era povoada por camponeses sagazes e de línguas afiadas. Se eu nada mais apren­dera na vida, pelo menos sabia ficar sentada pacientemente por trás de minhas defesas, esperando chegar o momento oportuno...

  • Quero saber uma coisa. Durante tudo isso, não sentiu culpa, dúvida ou medo?

  • Não senti outra coisa além de triunfo.

    É uma declaração extraordinária; apesar disso, acredito nela plenamente. Todos os meus próprios sonhos de morte prepararam-me para compreender. Ela está falando de um mo­mento em que a sombra, o elemento sinistro de ego, está em com­pleto controle, em que toda a culpa é suprimida e o indivíduo se sente como um conquistador, entrando na cidade vencida sobre um tapete de cadáveres, sem qualquer pontada de remorso. Somente depois, talvez muito depois, é que o conquistador descobre que se apoderou de uma cidade devastada pela peste, onde os corpos dos mortos poluem os poços e os ratos necrófagos são transmissores da Peste Negra.

    O sonho dela faz sentido agora. Todos os seus elementos estão contidos na história macabra que acabo de ouvir: a caçada, a queda, a raposa morta, ela própria encerrada num globo de vidro, nua sob o olho acusador do sol, o símbolo de Deus mais primitivo. É a própria bola de vidro que me interessa agora. É ao mesmo tempo como uma prisão, um lugar de exposição, um útero, uma cápsula em que ela pode se manter viva e salva, além do contato de mãos hostis. Menciono todas essas questões rapidamente. Ela não as contradiz. O sonho serviu a seu propósito. Levou-a a salvo até a mim, exposta mas ainda intocável. Lembro a ela que temos um limite de tempo e devemos continuar. E perguntei:

  • Voltou a Silbersee depois do funeral?

  • Voltamos todos. Mas já não era a mesma coisa. Nunca mais voltaria a ser.

  • Por que não?

    — Porque meu coração estava com Johann e Gamsfeld e uma alquimia estranha e tenebrosa começara a se processar entre papai, Lily e eu... Começou com a química complexa da idade. Papai, bonito, simpático, jovial, extremamente egocêntrico, era agora um cavalheiro um tanto corpulento, aproximando-se dos 60 anos, com um olho bem treinado para mocinhas e uma crescente dependência da companhia e serviços de mulheres que haviam passado em muito da juventude. Ele precisava ser mimado. Precisava ser tran­qüilizado de que todos os seus elementos viris continuavam em perfeito funcionamento e que sua atração podia excitar todas as mulheres nas vizinhanças. O que ele não precisava, a coisa de que fugia como a praga, era do casamento. Assim, quando alguém como Tia Sibilla, experiente, persuasiva e persistentemente polida, começou a envolvê-lo, ele tendia a se entregar primeiro e depois a fugir em pânico... apenas para se descobrir caçado por outras mu­lheres predatórias, que estavam pensando apenas em dinheiro.

    "O que ele nunca pôde perceber foi que a única pessoa com quem talvez fosse feliz no casamento era Lily. Ela o teria mimado até o limite, perdoado todas as suas infidelidades e ainda teria amor e calor do corpo para partilhar quando ele voltasse para casa. Ten­tei persuadi-lo uma centena de vezes, mas nada adiantou. Papai não podia e não queria perceber. Toda a sua educação fora contra tal noção. Um cavalheiro nunca se casa com alguém abaixo dele. Ele podia descer até o nível dos plebeus, mas jamais lhes permitia subir até sua posição... Se alguém o acusava desses preconceitos antigos, ele protestava e dizia com veemência: 'Mas que besteira! Que besteira!' O que não o impedia de apegar-se a todos os preconceitos.

    "Lily, 10 anos mais moça, mas encalhada nos baixios da soltei­rona aos quarenta anos, foi se tornando cada vez mais amargurada. Ainda era uma mulher atraente, ainda fazia exercícios todos os dias, mas havia fios brancos no cabelo, um certo ar matronal e cada vez menos sorriso em seus olhos... e depois que voltamos de Gamsfeld, um estranho e furtivo afastamento de mim. Fingi não perceber por algum tempo. Estava constantemente ocupada, com Silbersee, com o projeto de Gamsfeld e com uma clínica que abrira na aldeia para aliviar um pouco a carga do nosso idoso médico. Um dia, porém, Lily tanto me irritou que parti para o ataque. Disse a ela que estava cansada de seus acessos infantis de mau humor e que agora era o momento de falar, se ela tinha alguma coisa na mente.

    "E Lily disse. Falou alto e em bom tom, no mais puro sotaque do Lancashire. Ela dera os melhores anos de sua vida a papai, a mim, a Silbersee. E terminara num beco sem saída. Não passava de uma governanta com uns poucos privilégios. Não tinha respeito, não tinha amor. Papai se pavoneava sempre que a tal Sibilla estava por perto... e depois esperava que Lily lhe massageasse as costas e o preparasse para o seu próximo grande romance. Era demais!... 'Quanto a você, mocinha, eu a tenho amado como se fosse minha própria carne e sangue. Mas não a conheço mais. Você me assusta agora... Sei que diz que me ama. E provavelmente me ama mesmo, à sua estranha maneira. Mas se quisesse desesperadamente alguma coisa, não hesitaria em passar por cima de mim para consegui-la. Há um demónio em você, menina. Já o vi espreitando desses seus lindos olhos... Sei o que você fez. Sei o que está fazendo agora. E não quero estar presente para testemunhar o resultado...' E depois Lily desatou a chorar, correu para se trancar em seu quarto.

    "Minha primeira reação foi uma raiva fria... fria demais para expressar com palavras, graças a Deus! Não disse nada para me defender, nada para responder à acusação velada. Enquanto me acalmava, compreendi que o silêncio era a única armadura de que precisava. Com a família de Johann e Papai Hellman do meu lado, quaisquer acusações que Lily pudesse fazer seriam interpretadas apenas como as fantasias de uma solteirona na menopausa.

    "Mais tarde, naquele mesmo dia, Lily foi me procurar, pálida e arrependida, suplicou-me que a perdoasse. Não pensava de fato a metade das coisas que dissera. Não estava se sentindo bem. A tra­gédia em Gamsfeld deixara-a terrivelmente transtornada. Por mais que a amasse, papai era às vezes um monstro... Abracei-a e beijei-a, disse que fora apenas um mal-entendido, era melhor es­quecer. Quanto mais cedo ela pudesse partir em férias, melhor se­ria.

    "E foi nesse instante que Lily ofereceu-me outra surpresa. Enquanto estivesse na Inglaterra, poderia... apenas poderia... procu­rar um pequeno chalé no campo, um lugar para onde pudesse se retirar e viver serenamente quando o momento parecesse conve­niente. Ela não tinha nenhum capital guardado e papai sempre dis­sera que lhe daria uma pensão... Assegurei-lhe que isso não seria problema. Mas era mesmo necessário pensar com tanta antecedên­cia? Sempre esperara que ela ficasse comigo e me ajudasse a criar os meus filhos.

    "Lily contemplou-me em silêncio por um algum tempo, com uma expressão inquisitiva. Os olhos se encheram de lágrimas. Ela sacudiu a cabeça. 'Tenho pensado nisso também, meu bem. Mas não daria certo. O tipo de vida que temos levado... você não ia querer transmitir isso a seus filhos. Meu palpite é de que Johann Dietrich vai pedi-la em casamento e você aceitará. Ele vai querer um filho e você provavelmente lhe dará. Se puder manter tudo puro, depois disso, estará segura e feliz. Mas não será fácil, como sei muito bem!'

    "Ela viajou para Londres poucos dias depois. Papai estava operando em Viena. Hans Hemeling conduziu-a até a estação. Fi­quei contente por me livrar dela durante algum tempo. Johann Die­trich estava vindo para Silbersee.

 

MAGDA...

Zurique

É muito estranho. Confessei, sem qualquer restrição, todo um catálogo de crimes e finalmente até homicídio premeditado. Apesar disso, não tenho me sentido desorientada, procurando pelas pala­vras certas. Ao contrário, deixei-me até arrebatar às vezes pela nitidez das minhas recordações e a eloqüência espontânea de uma atriz... Agora, porém, ao ter de falar de amor e casamento, descubro-me a balbuciar, dominada pelo constrangimento.

Jung, que está começando a parecer tão cansado quanto estou me sentindo, se remexe na cadeira e pergunta irritado o que está me bloqueando. Tento fazer um gracejo. Respondo que é uma his­tória de amor e que há muito tempo não tenho amado. Jung me diz bruscamente:

  • Não diga bobagem! O que você ainda tem a esconder? O sétimo véu caiu há muito tempo! Continue a história. Johann ia visitá-la. Para quê? Negócios, prazer, um pedido de casamento?... E então?

  • Disse a mim mesma que era para tratar de negócios. Ainda não estava construindo castelos de sonho. Presumivelmente ele queria também o prazer da minha companhia. Isso ele poderia ter. Mas precisaria saltar muitos obstáculos antes que pudesse ter algo mais. Eu era uma mulher com uma certidão de nascimento errada. Aprendera com Lily que a amante raramente chega ao leito nup­cial. Assim, por mais que eu o amasse, por mais que o desejasse, obrigaria Johann a se comportar de acordo com as regras.

    "Lily viajara para Londres, papai estava em Viena. Portanto, a discrição estava garantida. Johann ficaria alojado na casa de hós­pedes. Hans Hemeling designaria um dos jovens cavalariços para servir como valete dele. Se Johann me desejasse à noite, tanto me­lhor. Ele teria apenas de declarar seu amor, oferecer-me um con­trato de casamento e eu me derreteria em seus braços... depois da cerimônia!

    "Havia outro motivo para a minha cautela. Eu estava totalmente atraída por ele, mas não o conhecia intimamente. Use ficara extasiada com sua experiência na lua-de-mel. Mas isso não signifi­cava muita coisa, pois ela também ficara extasiada comigo, muito antes da lua-de-mel. É claro que tudo nele me agradava. Gostava de sua presença viril, da impressão de força e solidez, até mesmo de integridade que ele irradiava. Mas também o vira abalado e chorando, ao lado do leito de morte de Use. Precisava saber quanto espaço ela ainda ocupava no coração de Johann, o quão difícil po­deria ser substituí-la... Havia muito o que aprender. Johann também precisaria aprender alguma coisa: que ali em Silbersee eu era Meisterin, a Frau Doktor, era eu quem sentava à cabeceira da mesa e tocava o sino para comandar o serviço...

    —   Bravo! — Jung bate com as mãos, num aplauso irônico. — Esta é uma verdadeira história de amor. Sei que vou acabar cho­rando no lenço... Força, solidez, integridade... Corteje-me com amor, não com diamantes! Serei a esposa, não a amante! Deus do céu! O que deu em você? Cometeu homicídio porque tinha um fogo nas entranhas e achava que aquele era o único homem do mundo que podia extingui-lo. Mas ele tinha de provar que era capaz. Ver­dade ou mentira?

    —   Verdade!

    —   Pois então vamos seguir logo com isso, pelo amor de Deus! O que aconteceu quando Johann Dietrich chegou?

    —   Por que tem de ser tão grosseiro assim, Dr. Jung?

  • Porque estou cansado e você ainda está empenhada em jogos estúpidos.

  • Sinto muito, mas também estou cansada!... Senti um aperto no coração no instante em que vi Johann. Ele emagrecera. Estava tenso, controlado, a tal ponto que se podia sentir que ao menor contato começaria a vibrar, como uma corda de violino. Mas estava também muito calmo, muito atencioso, agradecido pelo menor ser­viço. Veio no trem da manhã e o almoço foi a primeira refeição que fizemos juntos. Foi uma espécie de partida de esgrima, com per­guntas especulativas, respostas polidas, esquivas nas áreas mais sensíveis... Depois do almoço, sugeri um passeio a cavalo, pelas terras em que cortávamos madeira, até o topo do Silberberg, de onde se tinha uma vista espetacular de toda a região... três lagos e os desfiladeiros até os Alpes Tauern.

    "Foi uma subida lenta e confortável. Seguimos pelos caminhos dos lenhadores até passarmos pela linha da neve, passando então por prateleiras rochosas e trechos de moitas úmidas. Lá em cima, o ar era como vinho... vinho grego, com o sabor de seiva de pi­nheiro... e o espaço era como uma explosão silenciosa que abria como um vendaval todas as portas da mente...

    "No topo do Silberberg há picos gêmeos, agulhas altas de rocha, que os habitantes locais chamam de Chifres do Corno. Entre eles há um pequeno lago, profundo e de águas escuras, refletindo os "chifres", as nuvens, e as estrelas à noite. Prendemos os cavalos à beira do lago e sentamos, lado alado, num bloco de rocha virado para o sul, na direção do Sol.

    "Johann, que se mantivera calado durante todo o percurso, disse com uma súbita veemência: 'Santo Deus, eu já havia até es­quecido o que é ser livre! Tenho vivido as últimas semanas como um duende numa caverna subterrânea!' Minha vontade era me in­clinar e abraçá-lo. Em vez disso, porém, continuei sentada, jo­gando seixos no lago e dizendo todos os chavões de simpatia usuais: ainda era muito cedo, o tempo curava tudo, isso e mais aquilo... Ele me deu um estranho sorriso enviesado e encostou a ponta de um dedo nos meus lábios. Disse que eu não estava enten­dendo nada. A última coisa de que ele precisava era de tempo. Quanto menos pudesse ficar remoendo, melhor seria. E, por favor, nada de compaixão! Era a pior prescrição possível. Quando se era um Dietrich, tinha-se de fazer das tripas coração, enfrentar com firmeza a adversidade, como o velho, como Tia Sibilla...

    "O que mais o atormentava era saber que a morte de ílse era de sua inteira responsabilidade... Responsabilidade dele? Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Mas ele me garantiu que se sentia culpado... às vezes a ponto de pensar em suicídio... por toda a terrível tragédia... Era difícil explicar, mas ele precisava falar. Amara Use profundamente. O casamento, embora breve, fora muito feliz. Contudo, lá no fundo, ele sabia que fora um erro. Use era uma criança, uma criança linda e apaixonada, com um dote substancial... uma união perfeita, ao estilo antigo. Ela adorava o marido, continuaria a adorá-lo, crescendo como uma árvore nova à sombra do grande carvalho... O problema é que ele não queria uma esposa-criança. Queria uma companheira, uma amante, uma amiga. Se Use tivesse vivido... ele provavelmente acabaria arru­mando uma amante, como fizera o pai. Ilse fora poupada dessa infelicidade; mas se não houvesse o casamento, ela ainda estaria viva. Os momentos finais em Gamsfeld atormentavam seus sonhos e os momentos em que estava desperto... Pronto! Pelo menos tinha falado, descarregado. Lamentava me assoberbar com seus proble­mas, mas sentia-se melhor por ter-me contado.

  • E você?Jung ainda está irritado, me provocando. Deve ter se sentido muito melhor. Não havia qualquer suspeita, não havia rival. O que aconteceu depois?

  • Da maneira como está se comportando agora, Doutor, não vou representar a cena do balcão de Romeu e Julieta. Jantamos e ficamos conversando até tarde, como costumávamos fazer em Gamsfeld. Eu estava louca por ele. Na hora de ir para a cama, mal conseguia me controlar. Mas dei um jeito. Mandei-o para o chalé de hóspedes e passei uma noite angustiada e solitária em meus aposentos. No dia seguinte, trabalhamos pela manhã e saímos para um passeio a cavalo de tarde. E quando tomávamos um drinque antes do jantar, ele me pediu, formalmente.

  • O que exatamente ele pediu? — Jung está rindo como um colegial malicioso. — Companhia? Amor? Amizade?

  • E casamento! Assim que os proclamas pudessem ser decen­temente apresentados e as dispensas obtidas... isso mesmo, não havia como escapar da Santa Madre Igreja desta vez!... assim que tudo ficasse acertado.

  • E você, é claro, aceitou?

  • Está enganado, meu caro colega. Rejeitei-o. Disse que o amava muito, que o amara desde o primeiro instante em que o co­nhecera. Estava profundamente comovida, profundamente honrada com o seu pedido de casamento. Mas a memória de Use ainda era muito recente para mim e para ele também. Não suportaria parti­lhar o coração dele com um fantasma. Eu era uma mulher de tudo ou nada... Havia outras coisas que ele precisava também com­preender. Eu não era uma criança-esposa... Era um espírito libe­rado, com minha carreira e minhas propriedades. Não renunciaria a qualquer das coisas num contrato de casamento. Também não era uma viagem. Amara e fora amada. Mas se casasse com ele, seria fiel até a morte. Quanto à Igreja, eu reconhecia que na Áus­tria e no Império se estava preso a isso. Mas não me converteria. Consentiria, no entanto, que os filhos fossem criados como católi­cos... Não falei tão bruscamente como estou fazendo agora, mas foi a substância. Pedi-lhe que pensasse a respeito com muito cui­dado e me escrevesse depois que voltasse a Gamsfeld.

    Jung joga a cabeça para trás, caindo na gargalhada.

  • Estava mesmo fazendo um jogo duro. "Se me quer, ponha por escrito!" Foi muita desfaçatez de sua parte. E como ele rea­giu?

  • Ele era muito mais cavalheiro do que você, meu caro Doutor. Não riu. Disse-me que já sabia qual seria a sua resposta. Ele me amava. Queria-me para esposa. Queria-me para a mãe de seus filhos... Nada podia mudar isso. Mas respeitaria meus desejos e me escreveria de Gamsfeld... Ele voltou para casa no dia seguinte. E dez dias depois a sua carta chegou. Era terna e apaixonada, como eu sempre esperara. Havia boas notícias também. O arcebispo con­sentira em nosso casamento. Em consideração à minha total dispo­sição de ter os filhos batizados e educados como católicos, ele até concedera uma dispensa para um casamento público na igreja em Gamsfeld. Pelo acordo de casamento, eu ficaria com Silbersee em meu nome; na falta de um herdeiro do sexo masculino, Gamsfeld passaria para mim, no caso da morte de Johann.

    —   Assim, finalmente, tinha tudo o que queria. O que Lily achou de tudo isso?

  • Eu estava feliz.

  • Realmente feliz?

  • Naquela ocasião? Absolutamente feliz.

  • Apesar das suspeitas de Lily?

—   Como já falei, quem daria importância ao que ela pudesse dizer? O que poderia provar? Além do mais, ela pretendia voltar para sua terra. Dependia de mim para uma pensão... e, apesar de tudo, Lily ainda me amava.

  • Tem certeza absoluta disso, não é mesmo? -— Claro que tenho.

  • E como seu pai recebeu a notícia?

—   Bom... Isso vale pelo menos um comentário separado. Estávamos sentados ao jantar, na primeira noite depois que ele voltou de Viena. Como o homem antiquado que era, papai me ensinara a só falar de negócios à sobremesa. E foi nessa ocasião que lhe con­tei. Ele pareceu não ficar surpreso, mas deu a impressão de que não sabia o que dizer. Finalmente falou, com uma admiração relu­tante: "Não posso deixar de cumprimentá-la, menina. Nem mesmo sua mãe era tão dura e fria." Ele encheu o copo de vinho e levantou-o num brinde. "À seu casamento! Desejo-lhe sorte! E es­pero que não fale no sono!"

Há silêncio no quarto agora. Jung está escrevendo rapidamente em seu caderno de anotações. Não está mais sorrindo. Alguma coisa entre nós mudou, abruptamente. Compreendo, talvez tarde demais, que ele é um hábil interrogador, conciso e objetivo num momento, terno em outro, às vezes um bufão obsceno. Mano­brou-me a fazer revelações que há poucas horas teriam parecido impossíveis. Ele olha para mim e aponta a ponta do lápis, como uma varinha de condão. E me diz, gravemente:

—   Acabamos com a história agora. Você já me disse os fatos básicos a respeito de seu casamento, a doença de seu marido, o afastamento de sua filha, a morte de seu marido. Mas alguma coisa está faltando. Tenho um esboço, não um quadro. Quero saber mais a respeito de seu casamento... não a cronologia, não os eventos... mas o sabor, a sensação, quando mudou, como mudou. Sei que esta parte é difícil. Mas, por favor, tente, para o seu próprio bem.

— O sabor, a sensação? Não houve um sabor ou uma sensação. Havia centenas. E mudavam todos os dias. Provavelmente vai sorrir quando eu lhe disser que, ao subir ao altar com Johann, eu realmente desejava ser uma noiva virgem. Naquela noite, na cama, fiquei contente por não ser. Foi um êxtase que pareceu apagar o passado para nós dois, um renascimento num mundo puro. Fize­mos um pacto de que todos os nossos ontens seriam eliminados ao nascer do sol. Para nós dois, seria apenas hoje e amanhã. Johann me disse o quanto sentira a alienação do pai e quanto queria um filho. E eu, que jamais tivera uma mãe, lhe disse quanto desejava me tornar uma mãe. Era um idílio de verão e nos sentíamos imen­samente felizes.

"Trabalhávamos juntos muito bem. Johann possuía um talento natural para o comando e organização. Os homens da aldeia e os rendeiros da propriedade tinham o maior respeito por ele. Johann gostava do trabalho físico e ficava satisfeito por sua capacidade de cortar lenha, colher feno e domar um cavalo como os melhores camponeses. Quanto a mim, eu era a consorte de meu marido, não uma esposa doméstica a censurar as criadas, tricotar e servir chá. O pessoal de Gamsfeld precisou de algum tempo para se acostumar com a Senhora da Mansão sentada na cerca do curral de ades­tramento cu, quando tivemos a nossa epidemia anual de gastroenterite entre os bebês, fazendo as rondas com o médico da aldeia. Meu dia de maior orgulho foi quando Johann voltou para casa, já bem tarde, depois de pagar os colhedores de frutas, e anunciou: 'Você já foi aceita, meu amor. A mulher do padeiro deu o seu nome à primeira filha...'

"No princípio, deixei que Lily e Hans Hemeling ficassem dirigindo Silbersee. Depois das férias, Lily parecia mais relaxada, menos apreensiva consigo mesma e com o seu futuro. Comprara um chalé, que estava sendo preparado. Assim que eu estivesse de­vidamente ajustada no matrimônio, ela iria embora. Quando fiquei grávida, quatro meses depois do casamento, perguntei a Lily se não estaria disposta a mudar de idéia e ficar como babá do bebê. Ela recusou, firmemente. Eu disse a ela que era lamentável que, havendo tanta felicidade a partilhar, eu não pudesse partilhar com ela. Lily lançou-me um olhar estranho, meio hostil, meio compadecido, e disse: 'Fico pensando, menina, o que será necessário para lhe ensinar a verdade. Ambas somos prostitutas. Ambas somos afortunadas. Eu estou terminando a vida como uma mulher respei­tável, enquanto você fez um casamento rico e, com a graça de Deus, vai ter um filho. Mas não pressione demais a sua sorte. Não pode continuar a se arriscar.' Eu não podia também ficar furiosa. Dei de ombros e abandonei o assunto.

"Disse a Lily que poderia partir no momento que julgasse mais conveniente. Hans Hemeling seria perfeitamente capaz de dirigir a propriedade durante a minha ausência. Eu escreveria imediata­mente para o Coutts Bank, acertando tudo para o pagamento da pensão dela. Como sempre, Lily deu a última palavra: 'Você é agora a senhora de Silbersee, meu bem. Mas já faz muito tempo que sou amante de seu pai. Ele é que deve me dizer quando é o momento certo.'

"Como e quando ele disse isso a Lily, eu nunca soube. Sei que deu a ela as jóias de sua mãe, porque ele me disse, em seu estilo indiferente, depois que tudo estava consumado. Sei que a acompa­nhou até Londres. Ele me disse isso também. Eu estava em Gamsfeld quando tudo aconteceu. Lily não se despediu de mim. Deixou um bilhete para mim com papai. Eu li e depois queimei.

  • O que dizia o bilhete?

  • Era apenas uma citação da Bíblia. Alguma coisa sobre o Senhor fazendo uma marca em Caim...

    Jung acena com a cabeça em reconhecimento e me dá a citação, palavra por palavra:

    —   "E o Senhor fez uma marca em Caim para que não o matasse quem o encontrasse. E Caim saiu da presença do Senhor e foi habi­tar como um fugitivo na terra, a leste do Éden."

    Ele está obviamente mais impressionado do que eu. Esquece que não fui criada no mesmo contexto de pensamento. Explico que posso ter ficado magoada com a dissolução de meu relacionamento com Lily, mas me sentia feliz porque ela fora embora. Foi só mais tarde, muito mais tarde, que experimentei a tristeza e compreendi o quanto ainda significávamos uma para a outra.

    —   Tia Sibilla permaneceu em Gamsfeld. Fiquei feliz por isso. Ela podia cuidar do castelo, deixando-me livre para trabalhar com Johann. Além disso, a presença de Tia Sibilla era um testemunho constante da minha inocência. Todas as semanas íamos juntas co­locar flores viçosas na sepultura de Ilse. Ela acompanhava Johann à igreja, a fim de que eu não precisasse apostatar de minha respei­tável descrença... Por meu turno, encorajei-a no projeto de atrair papai, que estava se tornando desesperado e um tanto desenfreado, depois da partida de Lily... Em suma, era uma vida de família. Mas agora era a minha família e Johann e eu achávamos que merecía­mos toda a felicidade que tínhamos.

  • Mereciam? — Jung foi levado a sair de seu silêncio. — Pelo assassinato?

  • Por que está tão furioso comigo? Perguntou como eu me sentia na ocasião, não o que sinto agora.

  • Desculpe. Fiquei distraído por um momento. Continue, por favor.

    Fico irritada com o lapso dele. Afinal, se ele está tendo agora uma ligação extraconjugal ou se já as teve no passado, deve saber que a satisfação depende de uma ilusão de inocência, uma justifica­tiva por um código ou outro. A pessoa fornica pelo prazer dos amantes. O adultério tem de ser atribuído a uma culpa do parceiro: a esposa que não compreende, o marido que não pode proporcio­nar satisfação. Os ladrões que assaltam casas entrando pelos telha­dos ou janelas altas são acrobatas malogrados. Até mesmo os as­sassinos não precisam de explicações muito complicadas para justi­ficar seus atos. Já os negociantes de armas, como Basil Zaharoff, não precisam absolutamente de qualquer justificativa... Jung quer saber o que me está incomodando. Eu lhe digo claramente. E ele fica contrariado.

  • Vamos deixar a polêmica de lado, está bem? Já pedi desculpas. E foi para valer. Continue, por favor.

  • Acho que o bebê vem em seguida. Ficamos ambos desapontados por não ser um menino. Mas ainda havia muito tempo e muito amor, a criança era linda e saudável. Johann queria que a menina tivesse o meu nome, Magda. Declarei que preferia Anna Sibilla. Ela teria assim parte do meu nome e todo o nome de Tia Sibilla. Depois, como um algo mais, acrescentamos Gunhild, que era o nome da irmã casada de Johann... O que mais posso dizer? Com uma menina pequena na casa, um pai orgulhoso e uma mãe saudável, com leite em abundância, não podia deixar de ser um período feliz. Houve muitas costuras, tricôs e bordados, de tal forma que o dia do batizado de Anna Sibilla até parecia o dia de Papai Noel, com presentes empilhados bem alto no vestíbulo.

    "Foi também a primeira ocasião em que vi papai incapaz de controlar uma situação. Quando pus a criança em seus braços, a fim de que ele pudesse ser fotografado com a primeira neta, papai ficou intensamente constrangido e escapou, imediatamente depois, para a privacidade do gabinete de Johann. Encontrei-o ali uma hora depois, contemplando um copo grande com conhaque. Não estava bêbado o bastante para se mostrar furioso, mas a poucos passos de ficar sentimental. Ao me ver, ele levantou o copo e disse: 'À vida... hem? Sempre continua, apesar de tudo!' Depois, ele pegou-me a mão e puxou-me. Fiquei rígida no mesmo instante, com medo de que ele pudesse estar embriagado a ponto de querer me machucar. Mas ele largou-me a mão no instante seguinte, como se fosse um carvão em brasa.

    "E depois, inesperadamente, ele me disse: 'Sua mãe está morta. Aconteceu quando eu estava em Londres, com Lily. Não quis transtorná-la, enquanto estava grávida. Seja como for, isso encerra a conta para nós dois.' Tudo o que eu pude dizer foi: 'Obrigada, papai. Obrigada por ser tão atencioso.' E saí da sala, deixando-o sozinho. Peguei a menina e subi para lhe dar o seio. Lembro de ter pensado: 'Você está indo muito bem, minha que­rida. Pelo menos tem sua própria mãe para amamentá-la. ' E de­pois, sem qualquer motivo, comecei a chorar. Não parava de cho­rar e Johann teve de vir me confortar, enquanto Tia Sibilla expli­cava, com uma tolerância condescendente: 'É a depressão que se segue ao parto. Muitas mulheres a têm. Passará dentro de poucos dias. E depois você voltará a ser feliz como um passarinho!'

  • E foi o que aconteceu? — pergunta Jung, secamente.

  • Claro. Quando cansei de amamentar o bebê, Johann arrumou uma ama-de-leite na aldeia. Não demorou muito para que eu pudesse sair novamente e o acompanhasse por toda parte. Silbersee precisava de uma visita. Hans Hemeling estava trabalhando bem, queria apenas que eu reforçasse a sua autoridade de vez em quando. E, depois, começamos a viajar, visitando os grandes ha­ras, Einseideln, Lipizza, Bois-Roussel, Landshut, Janow Podlaski... Ainda era muito cedo para nos juntarmos a essa compa­nhia tão eminente, mas começamos a ser conhecidos como com­pradores criteriosos, cujos registros de nascimentos mereciam ser observados. Foi um período feliz e voltar para casa era sempre maravilhoso. Anna Sibilla era uma criança feliz. Por que não? Os pais adoravam-na. A tia delirava. Havia todo um exército de criadas entusiasmadas só para servi-la. Eu ainda tentava conceber outra criança... e desta vez, com toda certeza, seria um menino!... mas por algum motivo não estava acontecendo.

    "Não havia qualquer explicação discernível. Ambos éramos saudáveis e potentes. Mas não demorou muito para que Johann começasse a se queixar de que sentia-se apático e cansado. Ele perdeu o apetite, começou a emagrecer. Uma noite, quando está­vamos fazendo amor, ele soltou um grito de repente e queixou-se que eu o machucara. Acendi a luz e mandei que ele ficasse deitado quieto, enquanto eu o examinava. Havia um caroço duro no saco escrotal. Os nódulos linfáticos na virilha estavam aumentados. De manhã, bem cedo, enviei um telegrama para papai, no hospital em Salzburgo. Ele veio imediatamente, examinou Johann e confirmou meu diagnóstico: carcinoma testicular, que já se disseminara, atra­vés dos nódulos linfáticos. Sabe o que isso significava há 20 anos, Doutor... e até mesmo hoje, em 1913! Significava uma orquiotomia e um longo e doloroso declínio até a morte.

    "Juntos, papai e eu comunicamos a sentença de morte a Johann... Não pense jamais que a criação não faz qualquer diferença. Em cavalos ou homens, sempre conta. Nunca me senti tão orgu­lhosa do meu homem como naquele momento. Ele me abraçou fir­memente, por um longo tempo. E depois me pediu que saísse do quarto. Precisava ficar sozinho por algum tempo. Iria se encontrar conosco lá embaixo assim que estivesse pronto.

    "Enquanto esperávamos por ele, papai e eu saíamos para o terraço ensolarado e realizamos um conselho de guerra. A operação seria realizada em Salzburgo. Depois, traríamos Johann de volta a Gamsfeld com uma dupla de enfermeiras. Perguntei a papai por quanto tempo ele poderia viver. Papai disse que não passava de um palpite, mas calculou em seis meses, certamente menos que um ano. E, depois, ele me perguntou: 'Como está sua coragem?' Inda­guei porque queria saber. E ele disse, taxativamente: 'Porque você terá de decidir até que ponto os dois conseguirão agüentar. Se eu estivesse no lugar dele, estaria agora carregando a minha pistola e procurando um lugar tranqüilo para estourar os miolos... É por isso que sugiro que você trate dele... trabalharei com você, como cirurgião especialista... e mantenha o médico local à distância, na medida do possível. Ele é muito religioso. Qualquer indício de es­cândalo e ele recuará no mesmo instante. Não se esqueça de que os católicos ainda se recusam a enterrar os suicidas em campo santo. Mas nós dois assinaremos o atestado de óbito.'

  • Seu pai estava sugerindo um pacto de morte com Johann? indaga Jung.

  • Ao contrário. Ele estava me perguntando se eu teria coragem bastante para acabar sozinha com a vida de Johann, quando chegasse o momento. Respondi que teria. Ele acenou com a ca­beça em aprovação e disse: 'Ótimo! Mas não perca a sua determi­nação. Sabe como vai ficar terrível ao final.'

    "Johann desceu para se encontrar conosco pouco depois. Estava pálido, mas controlado. Disse que ia à aldeia para conversar com o Padre Lukas, o pároco local. Ofereci-me para acompanhá-lo. Johann me beijou e disse que preferia ir sozinho. Senti-me ma­goada e excluída. Papai disse calmamente: ' Deixe-o sozinho. Cada um precisa chegar a seu próprio acordo com a morte. E a religião ajuda, quando se é um crente autêntico.' Desatei a chorar. Papai abraçou-me, beijou-me os cabelos, depois conduziu-me lentamente ao roseiral, onde encontramos a pequena Anna colhendo rosas com Tia Sibilla. Papai disse: 'Fique com a menina. Darei a notícia a Sibilla.' Peguei minha filha e levei-a para ver os potrinhos recém-nascidos no campo mais distante.

    "O jantar naquela noite foi uma refeição sombria. Papai e eu partiríamos na manhã seguinte, levando Johann para o hospital em Salzburgo. Eu ficaria num hotel até que ele estivesse pronto para voltar para casa. Tia Sibilla permaneceria em Gamsfeld e cuidaria da pequena Anna. Durante o café, Johann disse: 'Lamento submetê-la a tudo isso, mas há uma coisa que eu gostaria que você soubesse. Nunca fui especialmente religioso, mas tive hoje uma longa conversa com o Padre Lukas. Ele ouviu minha confissão, ajudou-me a encontrar alguma paz com o que vai acontecer. Estou lhe dizendo isso porque não quero que se desespere por mim. Peço apenas que me segure a mão e me ajude a enfrentar tudo como um homem!'

    "Sei que isto vai parecer absolutamente irracional... mas foi como se ele tivesse batido uma porta na minha cara. Eu matara para conquistá-lo. Estava disposta a morrer por ele. Estava dis­posta a deitar a seu lado e deixar que a vida também se esvaísse de meu corpo, se ele assim desejasse. Em vez disso, porém, abrupta­mente, ele se afastava, ingressava num quarto secreto, ao qual me era vedada a entrada. E odiei-o, por aquele único e absurdo mo­mento. Odiei o seu Deus. Odiei o Padre Lukas, odiei tudo, tudo... E depois a voz serena de Tia Sibilla interrompeu os meus deva­neios lúgubres: 'Quando Johann voltar para casa e as enfermeiras se instalarem, vamos precisar de mais espaço. Há dois quartos vagos junto do meu. Sugiro que sejam convertidos numa enferma­ria... Se concordarem, tomarei todas as providências necessárias enquanto estiverem em Salzburgo.' No mesmo instante recuperei a sanidade. Mas... e espero que isso faça sentido... eu vira os demô­nios sinistros e sabia que estariam sempre à espreita, a minha es­pera.

  • Faz sentido. Jung está agora gentil e solícito. Quando algo assim acontece numa família, a situação se torna muito difícil para todos.

  • Não dá para descrever como foi difícil e terrível. Para Johann, havia o trauma da mutilação, a dor constante, os longos dias e noites de aceitar a dissolução, a gradativa desagregação. Para mim, havia o horror diário de observar o que era feito com aquele corpo outrora tão bonito, que eu matara para possuir, de saber o que estava acontecendo por dentro dele, de ver o espírito que o habi­tara a se retrair cada vez mais para o seu próprio mundo do cres-púsculo.

    "Eu entrava no quarto para confortá-lo e o encontrava com um rosário nas mãos, desfiando as contas, olhando fixamente para o crucifixo, como se extraísse forças daquele outro corpo mutilado. Padre Lukas aparecia todos os dias para lhe dar a comunhão e rezar com ele. Saiu um dia do quarto de Johann e disse: 'Seu ma­rido é um homem muito próximo de Deus. Aceitou seu sofrimento e ofereceu-o como um sacrifício para o seu bem-estar e o da criança.' Ele falou gentilmente, bem-intencionado. Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Mas achei que a noção era grotesca. Que espécie de Deus era aquele que fazia comércio com o sofri­mento humano?

— Fale-me a respeito de seus dias pede Jung, suavemente. Como se ajustou à situação? O que fazia?

Tínhamos um plantão de enfermeiras dia e noite e assim eu podia constituir uma rotina tolerável fora do quarto de doente. Trabalhava com as enfermeiras quando Johann era banhado e os curativos trocados. E depois cuidava dos problemas da proprie­dade até a hora do almoço. Geralmente saía com Anna, na charrete, o que ela adorava. Ao meio-dia dava almoço a Johann, depois ia ao gabinete para atualizar a correspondência e as contas. Tia Sibilla assumia os cuidados de Anna durante essa parte do dia. Ensinava-a a ler, costurar e desenhar. E também insistia sempre: 'Esta criança precisa de companhia de sua própria idade. Vou tra­zer algumas crianças da aldeia para brincarem com ela.' Tia Sibilla fez isso várias vezes, mas parecia nunca dar certo. O abismo entre a aristocracia e os habitantes da aldeia era profundo demais... até mesmo o dialeto era uma barreira.

"À medida que o pai foi piorando, Anna começou a ter problemas. Não suportava o cheiro da enfermaria. Não podia associar o vulto pálido e encolhido na cama com o pai outrora bonito e vigoroso. Tinha pesadelos, versões confusas do folclore local que ouvira das criadas sobre duendes, gigantes e bruxas, vampiros e lobisomens... Comecei a ter também os meus pesadelos: Use, nas roupas com que fora enterrada, sentada na cama de Johann a lhe contar como eu a matara; Johann erguendo o crucifixo e me amal­diçoando; o mais horrível de todos, eu mesma fazendo amor com Johann e me descobrindo a abraçar um cadáver em decomposição. Depois de uma noite de pesadelos, eu costumava detestar a perspectiva de entrar na enfermaria. O corpo na cama, com os olhos pacientes do sofrimento e o sorriso débil, estava próximo demais das minhas fantasias. O contato de sua mão emaciada no meu rosto queimava como fogo. Foi nessa ocasião que comecei a notar o medo que Anna sentia de mim, encolhendo-se assustada quando eu a abraçava. E o estado de Johann começou a se deteriorar rapi­damente. A dor era constante agora e tínhamos de mantê-lo sob doses maciças de morfina. Quando passava o efeito de cada dose, ele começava a gritar, um grito de agonia abafado, entremeado com uma litania de orações entrecortadas: 'Jesus, Maria e José, ajudem-me... ajudem-me... Foi depois de uma dessas sessões de gritos que Anna me viu saindo do quarto, com uma seringa e um pano ensangüentado nas mãos, fugindo de mim como um animal aterrorizado.

"Conversei com Tia Sibilla naquela noite. Ela me recomendou que mandasse Anna para a casa da irmã de Johann, Gunhild, que tinha uma porção de filhos pequenos. Tia Sibilla ofereceu-se para acompanhá-la e ficar lá até que Anna estivesse ambientada. Con­cordei prontamente. A óbvia repulsa da menina a mim era um pe­sadelo demasiado. Um dia depois que elas partiram, papai chegou de Salzburgo, em sua visita semanal. Ao ver o estado em que Jo­hann se encontrava, ele praguejou baixinho e disse que já era de­mais. Não podia permitir que sequer um cachorro sofresse tanto.

"Desta vez fomos parceiros na morte. Enchemos Johann de morfina, a tal ponto que o coração mal batia. Chamamos o padre da paróquia e lhe pedimos que ministrasse a extrema-unção... e de passagem garantimos uma testemunha clerical para o estado termi­nal de Johann. Naquela noite, ao prepararmos Johann para dormir, mandei que a enfermeira saísse do quarto, sob um pretexto qual­quer. Papai aplicou nele morfina suficiente para matá-lo. Quando a enfermeira voltou, papai disse bruscamente: ' Podemos perdê-lo esta noite.' A enfermeira fez o sinal-da-cruz e disse: 'Seria uma misericórdia. O pobre coitado já sofreu demais.' E uma hora de­pois, enquanto eu cochilava em meu quarto, tudo acabou. A en­fermeira cruzou as mãos de Johann sobre o peito, enrolou o rosário nos dedos, fechou os olhos. E, depois, chamou-me para vê-lo.

"Não fui capaz de chorar. E não sabia como rezar. Inclinei-me e beijei a testa fria, puxei o lençol por cima do rosto e saí do quarto. Fui ao quarto de papai. Ele estava deitado na cama, de calça, em mangas de camisa, lendo. Não disse uma só palavra. Entregou-me uma pílula branca e um copo com água, obrigou-me a tomá-la. Puxou-me para a cama, ao seu lado, aninhou minha ca­beça em seu ombro e pôs-se a me embalar, como costumava fazer quando eu era bem pequena.

— Durma, minha pequena, durma.

Os anjos velam por você.

"Meu último pensamento, enquanto resvalava por um buraco negro e profundo no chão, foi o seguinte: Anjos? Papai agora tam­bém está metido na religião. Não terei em breve mais ninguém com quem conversar... E isso, meu caro Doutor, é a história da minha vida. Agora já sabe de tudo.

  • Menos uma coisa.

  • Que coisa?

  • A transição. A mudança da esposa enlutada para a viúva-negra... a aranha que devora o macho.

  • Você é mesmo um desgraçado!

  • A transição! Como aconteceu?

  • Que importância isso tem?

  • Preciso saber e você precisa me contar. São cinco horas. Ainda lhe resta meia hora. Não há tempo para ficar com rodeios... A transição: como, quando, onde?

  • Deixe-me chegar lá à minha maneira.

  • Contanto que cheguemos lá!.

  • Enterramos Johann ao lado de Use, no cemitério da igreja em Gamsfeld. Todos ficaram comovidos com o gesto. O amor tudo conquista! Mas se eles soubessem... Fui depois para a casa de Gu-nhild, perto de Semmering, a fim de buscar a pequena Anna. E a mesma história de antes se repetiu. Ela fugiu de mim, gritando. Gunhild, uma mulher maternal e efusiva, ficou igualmente aflita por mim e pela criança. Ofereceu-se para ficar com Anna, criá-la em sua família feliz e tumultuada, até que ela tivesse idade sufi­ciente para racionalizar seus terrores. Fiquei feliz em aceitar. Mi­nhas emoções estavam em carne viva. Não estava em condições de lidar com uma menina transtornada.

    "Voltei a Gamsfeld e conversei com Tia Sibilla sobre a situação. Se ela quisesse permanecer como a castelã em Gamsfeld, eu faria uma excursão por todos os maiores haras da Europa, mos­trando os nossos livros de criação e fazendo os contatos que preci­saríamos para o desenvolvimento futuro de Silbersee e Gamsfeld. Sibilla ficou feliz com o acerto. Tinha recursos próprios substan­ciais. Com residência de graça e uma anuidade por seus serviços em Gamsfeld, ela poderia se manter com classe e ainda continuar em sua corte interminável com papai. Disse-me ironicamente que preferia não casar com ele agora, pois isso poderia tirar um pouco do tempero da vida.

    "Fui a Viena, a fim de comprar roupas para a viagem. Papai encontrou-se comigo. Levou-me para jantar e ofereceu-me alguns conselhos simples e vulgares. Eu era uma viúva recente, rica e ma­dura, um alvo natural de todos os caçadores de fortuna. Ele suge­ria... não, recomendava com a maior veemência!... que eu tirasse da cabeça todos os pensamentos de um novo casamento por algum tempo e tratasse de me divertir. Como eu era agora também uma mulher de negócios, não haveria de querer manchar a minha repu­tação. Eu estaria convivendo com pessoas animadas, mas se qui­sesse arrancar dinheiro delas teria de manter a cabeça fria e uma certa discrição básica. Assim, seria útil ter acesso a determinados estabelecimentos, onde mulheres como eu, viúvas ou simplesmente à procura de diversões extraconjugais, poderiam encontrar o pra­zer e a satisfação de que precisavam, sem risco pessoal ou estigma pessoal. Ele ofereceu-me uma relação escrita: Paris, Londres, Viena, Berlim, todas as capitais européias. Ele também me entre­gou uma porção de cartões pessoais, escrevendo em cada um: 'Esta é minha querida amiga Magda. Por favor, cuide bem dela.' Não tive a coragem de comentar que parecia perigosamente com alcovitar a própria filha. Papai não teria compreendido. Eu apren­dera há muito tempo, naquela noite de sua terrível embriaguez em Pádua, que ele realmente me via não como um fruto de suas viri­lhas, mas como uma obra de suas mãos... a melhor prostituta do mundo!

    "Perguntou como me tornei a viúva-negra. Foi exatamente assim... por intermédio de papai! Quando deixei-o, depois de jan­tar, estava bastante embriagada e irrequieta para telefonar para o estabelecimento indicado em Viena. Uma voz de mulher atendeu. Apresentei-me como Magda, uma amiga do Dr. Kardoss. Fui con­vidada a ficar esperando no saguão do meu hotel. Uma carruagem iria me buscar. E se eu assim desejasse, também me levaria de volta. Foi fixado o pagamento, a ser efetuado em coroas de ouro. Todos os serviços estão cobertos por esse pagamento. Era bastante vultoso. A mulher pediu-me que usasse um vestido de noite.

    "A carruagem chegou. Fui levada para o interior. As janelas estavam pintadas de preto. Assim, eu não tinha a menor idéia do lugar para onde estava indo. Meia hora depois fui introduzida numa propriedade suntuosa, a casa grande cercada por um vasto par­que... Não houve perguntas sobre a minha identidade. O dinheiro e o cartão de papai foram suficientes. Minha anfitriã, uma mulher bem vestida e bem falante, na casa dos 40 anos, perguntou qual era o meu prazer. Indaguei o que ela tinha a oferecer. Tudo e qualquer coisa. Eu disse a ela que, como era a minha primeira noite naquele lugar maravilhoso, gostaria de examinar todo o cardápio. E isso, meu caro Doutor, foi exatamente o que fiz. Encontrei vários pratos que me agradaram e passei a pedi-los onde quer que fosse... o resto já está em suas anotações. Como pode ver, não o atrasei. Ainda nos restam 25 minutos!

    Meu tom irreverente o deixa irritado. E ele me diz, bruscamente:

    —   Não vejo nada de engraçado no que acabou de me contar.

  • Também não vejo! — E a minha vez de ficar irritada. — Mas o que você está querendo? Sangue? Pode ter isso também. O marido que eu amava morreu de uma maneira horrível. Sou um pesadelo para minha única filha. Meu próprio pai despachou-me numa ronda de bordéis, por achar que era a maneira mais segura de eu viajar. O fato de que ele estava certo não torna a situação mais fácil. O que mais você quer? Uma descrição detalhada das orgias num bordel de luxo? Pode verificar tudo em Krafft-Ebing... a menos que prefira que eu tire as roupas e faça uma demonstração prática! Mas anote uma coisa, meu caro colega. Quando estou lá, sei pelo menos que estou viva. Posso estar meio fora de mim de desejo, mas estou celebrando a vida e não a morte!

  • É uma mentirosa, Madame. — Ele me contradiz com uma fria brutalidade. — Para você, cada história de amor termina numa câmara de horrores. Seus próprios sonhos lhe dizem a verdade. Não está casada com a vida, mas sim com a morte!

    E de repente tudo é demais. Não agüento mais olhar para seus olhos acusadores. Não suporto mais esta inquisição terrível, inútil, de um dia inteiro. E desato a chorar...

     

    Muito tempo se passa antes que eu consiga me recuperar. Quando torno a levantar os olhos, descubro que Jung desapareceu. Sua esposa está parada diante de mim, segurando um copo com cordial. Ela sorri e me entrega o copo.

    Carl pediu que lhe trouxesse isto. Ele voltará daqui a pouco. Está passeando pelo jardim, pondo os pensamentos em ordem. Foi uma longa sessão, extenuante para os dois. Beba, por favor.

    Tomo um gole e enxugo os olhos. Fico pensando por que me sinto como se um rolo compressor tivesse me achatado. Emma Jung se acomoda na beira da mesa e me fala de sua maneira serena e persuasiva:

  • Eu avisei, não é mesmo? Não sei quais são os seus problemas, mas é evidente que atingiu o primeiro ponto de crise. É sem­pre angustiante. Sente-se nua e envergonhada, como se fosse a única pessoa em descompasso com o mundo. Mas não é o que acontece. O mais difícil é aceitar a si mesma pelo que é, sentir-se contente pelo bem e perdoar a si mesma pelo mal... Desculpe, mas falei sem querer. Você é paciente de Carl e não minha. Mas sei que ele está muito preocupado com você.

  • Ele tem uma maneira estranha de demonstrá-lo.

    Tento fazer um gracejo, mas não é assim que sai. Estou novamente à beira das lágrimas. Emma se inclina, pega a minha mão, aprisiona-a entre as suas palmas e a mantém em seu colo. Sinto-me estranhamente confortada, como se houvesse uma corda salva-vidas, segurando-me à sanidade. A voz suave dela me acalma como um acalanto:

    —   Tenho de explicar uma coisa a respeito de Carl, porque ele não consegue explicar muito bem a si mesmo, neste momento de sua vida. Embora Carl tenha sido criado num mundo tacanho, como o filho de um pároco rural, seus antepassados nos dois lados eram pessoas estranhas e brilhantes. O avô, por quem ele foi bati­zado, passou um ano na prisão em Berlim, como suspeito de cum­plicidade no assassinato de um oficial russo. E depois ele seguiu em frente na vida, para tornar-se um médico extraordinário, reitor da universidade e Grão-Mestre da Maçonaria suíça. Era também dramaturgo e ensaísta. E ainda encontrou tempo para ter 13 filhos! Havia uma lenda na família de que ele era o filho ilegítimo de Goethe... Mas ninguém tem respeito em relação a isso. A avó ma­terna de Carl era supostamente possuidora da chamada segunda visão. E aparentemente a mãe dele tinha percepções fantásticas das pessoas...

    Ela ri e me afaga a mão.

    —   É uma estranha herança para se absorver. E quando você acrescenta isso à curiosidade irrequieta de Carl e sua recusa obsti­nada em aceitar as coisas comuns... então há problemas para nós e vantagens para seus pacientes. Vocês dois são muito parecidos. Pude senti-lo desde o momento em que nos encontramos. Não sei se isso é bom ou mau, mas a verdade é que existe... Ah, sim, eu já ia esquecendo! Carl quer mais algum tempo com você, antes de ir embora. E depois ele gostaria de acompanhá-la de carro à cidade. Tem alguns papéis para levar a Miss Wolff.

    —   Eu poderia mandar que o chofer os entregasse. Isso pouparia uma viagem a seu marido.

    Ela aperta-me a mão com um pouco mais de força.

  • Acho que Carl está querendo trabalhar um pouco com ela. Ele me disse que não precisava aprontar seu jantar.

  • Neste caso, posso convidá-la a jantar comigo, no Baur Au Lac? Se não se importa em deixar as crianças com a babá por duas horas, eu agradeceria muito se aceitasse. Esta noite, entre todas as noites, não quero jantar sozinha. Mandarei o carro buscá-la e de­pois trazê-la de volta.

    Ela hesita por um instante, mas acaba aceitando, com a condi­ção de que eu combine tudo com o marido.

    —   Não quero que ele pense que estou me intrometendo no seu território. Mas sei que ele ficará fora até tarde e... Oh, Deus, tam­bém não quero jantar sozinha!

    Combinamos tudo para oito horas. Providenciarei para que o jantar seja servido em meus aposentos. Podemos ter uma conversa de mulher... tirar os sapatos, ficar à vontade. Decubro-me subita­mente calma outra vez. O chão é sólido sob os meus pés. Esta conspiração feminina e a certeza de que Jung está tendo um caso com sua assistente restauram meu contato abalado com a reali­dade. São coisas que posso compreender. O resto pertence à câ­mara dos horrores. Eu gostaria de poder esquecer os horrores, mas não posso. A porta para a câmara está aberta agora e os morcegos negros estão voando pela face da lua... Emma Jung dá um aperto afetuoso final em minha mão e me adverte:

    —   Arrume-se antes de ele voltar. Seu nariz está lustroso, o batom borrado. Há um espelho por cima da bacia...

    Sinto-me grata por seu bom senso inabalável. Sob alguns aspectos, ela me lembra de Lily. Eu gostaria que meu contato com a realidade fosse tão firme e obstinado quanto o dessas duas mulhe­res...

     

CARL GUSTAV JUNG...

Zurique

Estou envergonhado pelo que fiz. Fico parado aqui, mexendo nas pedras da minha aldeia inacabada, meditando em minha cruel tolice. Peguei as palavras de uma paciente, que me foram ditas em confiança e sigilo, e usei-as como um açoite para levá-la à submis­são. Transformei a verdade que ela me contou numa mentira, de­volvi para ela como um escárnio. E depois fugi, quando vi o seu efeito devastador. Chamei Emma da cozinha, dei uma desculpa precipitada sobre um dia comprido e uma explosão histérica, deixei-a a lidar com a crise.

Não sei quais os danos que causei, até que ponto a empurrei de volta para sua situação psicótica. Não sei o que posso salvar de toda a confusão. Tudo o que sei é que não posso deixá-la partir assim. Tenho de voltar e tornar a conversar com ela. O pequeno frasco azul em sua bolsa não é um adereço teatral. É um instru­mento de morte e estou convencido que ela tem coragem bastante para usá-lo, a partir do momento em que suas esperanças se extin­guirem. Devo voltar a ela..., mas ainda não. Pedi a Emma que a mantivesse no gabinete sob um pretexto qualquer, até que ela re­cupere o controle e eu tenha os pensamentos em ordem.

Por que fiz essa coisa incrível? Por quê? Por quê?... Não há sentido em me lançar num acesso de raiva. Isso é outra mentira. Sei muito bem por que assumi essa atitude... por vinte motivos diferen­tes, todos abomináveis! Há uma frase que recolhi na América, em minha primeira visita. Expressa irritação, raiva, vulnerabilidade... Eles dizem: "Esta pessoa está me dando nos nervos." Pois esta Magda Hirschfeld está me dando nos nervos. Ela já está me envol­vendo e dominando, sondando e investindo contra minhas fraque­zas, verificando as trancas de todas as portas secretas do meu inconsciente. Ela é como a serpente preta de Salomé, enroscada den­tro de mim, os anéis se apertando com uma força cada vez maior, enquanto me sibila baixinho: "Estou aqui! E estou esperando!"

Sei o que ela está esperando. Disse-me claramente, desde o início. Leu a inscrição por cima de minha porta. E leu certamente como uma promessa, que o oráculo mudo falaria, que o deus oculto se apresentaria. Quando isso não acontecer, ela me culpará, por­que sou o homem que fez a inscrição e que solicita a crença e as oferendas dos peregrinos. Não quero ser desmascarado como um charlatão. Eu a odeio pela ameaça que representa para a minha personalidade instável.

Eu a odeio, mas também a invejo. O que sonho em segredo, ela se atreveu e fez. Representou todos os papéis, em todos os mis­térios sexuais. Tenho sonhado apenas com pompas priápicas e des­frutado meus pequenos prazeres furtivamente, em segredo. Ela se atreveu também a cometer assassinato e escapou impune. Tenho sonhado em assassinato, mas o mais próximo que jamais chegarei será um panfleto, um discurso, uma objeção capciosa em alguma conferência, algum ato mesquinho e desprezível, antes ou depois da cama... Que Deus me salve, sou um covarde e impostor!

É justamente isso o que estou querendo dizer. Que Deus eu invoquei? O velho de barba branca, lá no céu, que destruiu minha catedral com seu cagalhão? Ou o falo-deus na caverna, cego e ameaçador? Ou existirá outro a que me mantenho deliberadamente cego, de quem tenho um medo mortal, sobre o qual vou tecendo teias de fantasia, a fim de evitar a luz branca de sua Realidade?

Qual deles mostrarei a Magda Hirschfeld, quando ela perguntar: "Pode me abrir os olhos e me fazer ver o que meu marido viu, murmurando as suas litanias nas longas noites de agonia?" Sei que ela vai perguntar isso... e tenho tentado evitar a pergunta, acusando-a de uma paixão pela morte!

Elias! Onde você está? Preciso de você agora. Tenho de voltar à casa, subir a escada e entrar na sala em que Salomé me espera. É um longo percurso. Não posso agüentar sem sua companhia... O problema é que amo Salomé, mas também tenho medo dela. Sua serpente preta está dentro de mim. Mas como eu poderei penetrar nela? Era isso o que eu estava tentando fazer, arrombar a porta, entrar, sair da tempestade...

Estou em pânico. Sinto que estou resvalando deste mundo para aquela outra terra, o mundo distante do inconsciente. E me agarro, como um afogado, ao objeto tangível mais próximo. É o tronco da macieira que se esparrama por cima da casa do barco e abriga a minha aldeia de brinquedo. Encosto o rosto no tronco áspero. Le­vanto a mão e sacudo os galhos. Maçãs pequenas, ainda verdes, caem no chão. Uma delas me bate na cabeça. Como Isaac New­ton, descubro que a lei da gravidade ainda prevalece. Estou de volta à terra. Caminho relutantemente para a casa. Minha paciente está calma outra vez. Consertou a maquilagem. Está conversando cordialmente com Emma. E oferece seu breve protesto:

—   Estou recuperada agora. Sua esposa foi muito gentil. Ela me disse que você vai jantar fora. Perguntei se ela aceitaria jantar co­migo no Baur Au Lac. Mandarei buscá-la e trazê-la em casa, sã e salva.... Espero que não se incomode. Não estou querendo jantar sozinha esta noite.

Importar-me? Claro que não! Por que deveria? Terei toda uma noite livre com Toni... e sem possíveis censuras depois. Também terei uma queixa útil para manter em reserva: não aprovo minha esposa mantendo um contato íntimo com meus pacientes! E de­pois, porque nada na vida é tão perfeito como se deseja, tenho um desapontamento particular. Não posso agora visitar minha paciente no hotel, como tencionava, depois da visita a Toni. Faço Emma sair da sala e tento promover a paz com Magda Hirschfeld.

—   Você teve um dia difícil, mas conseguiu se sair muito bem. Sei que meu último comentário pareceu rude e brutal. Na análise, usa-se essa técnica algumas vezes, a fim de forçar uma mudança brusca de direção. Estava sendo muito irreverente com uma ques­tão muito séria. Isso indicava uma atitude oposta. Estava sob grande tensão. Poderia tentar evitar ou esconder alguma coisa im­portante. Tive de lembrá-la, asperamente, que não estávamos em­penhados em jogos.

Ela me lança um olhar demorado e inquisitivo, um sorriso de dúvida.

—   Chamou-me de mentirosa. Disse que eu estava casada com a morte, não com a vida. São acusações terríveis. Se sou uma men­tirosa, estou desperdiçando tempo e dinheiro aqui. Se estou casada com a morte, tenho uma passagem de primeira classe para a lua-de-mel. Em suma, você estava sendo gratuitamente cruel. Esse é o meu vício. Reconheço-o sem qualquer hesitação. Você me deve um pedido de desculpas e uma explicação.

O ataque dela me pega de surpresa. Não tenho opção que não pedir desculpas.

  • Desculpe. Foi um dia comprido e difícil para nós dois... Vamos marcar outro encontro para amanhã.

  • Antes de fazer isso...

  • Pois não?

  • Eu gostaria de ter a explicação.

  • De quê?

  • Das acusações. Pensa mesmo que sou uma mentirosa?

  • Não. Mas, como um profissional prudente, tenho de considerar tal possibilidade. Preciso testar sua história, antes de poder aceitá-la como uma base para o diagnóstico. Até agora, ainda não tive tempo para fazer isso. Não se ofenda, por favor. Estou tra­tando a todo momento com as fantasias mais requintadas... As pessoas entram em delegacias de polícia e confessam crimes que nunca poderiam ter cometido. Mulheres na menopausa denunciam tentativas de estupro. Solteironas idosas são visitadas por anjos em suas camas...

    Ela ri ligeiramente e abre os braços em rendição.

  • Nada de estupro. Nada de anjos. E agora outra pergunta: sou insana?

  • Não.

  • Qual é o problema comigo?

  • Exatamente o que me disse. Qualquer que seja o nome que eu possa dar, não vai mudar o fato: você se entrega obsessivamente com uma freqüência crescente a encontros sado-masoquistas, alternando com aventuras lésbicas. Esse é o fato. Os motivos e explicações vão emergir durante a análise. Se trabalharmos bem juntos, vão aparecer mais depressa e será muito mais fácil efetuar um ajustamento psíquico. Tudo o que fizemos até agora foi definir os antecedentes e estabelecer um quadro de sintomatologia.

  • E o diagnóstico?

  • Ainda é muito cedo para se fazer algum. Há muito mais trabalho a ser feito.

  • E vale a pena fazer esse trabalho?

  • Você é que tem de responder a isso. O quanto valoriza a sua vida, o seu ego?

  • Não dou um valor muito alto.

  • Então o que espera de mim?

  • Não sei direito. — Ela franze o rosto, pensando na pergunta por um momento, antes de oferecer uma resposta, à sua maneira fragmentada. — Papai e Lily criaram-me num paraíso particular, mas transformaram-me num animal exótico, desajustado para viver em qualquer outro lugar... não apenas desajustado, mas perigoso também, porque só penso em mim mesma e na minha própria so­brevivência. Assim, imagino que estou agora procurando por al­guém como papai... não, como Johann!... para me mostrar como encontrar um lugar no mundo cotidiano. Não posso voltar ao útero e nascer de novo. Por isso preciso de um guia, um mentor. E é claro que você não é o único candidato.

    Ela fala isso com um pequeno sorriso furtivo, que torna a me deixar irritado. Estou cansado demais para provocações. Preciso saber.

  • E quem é o outro afortunado?

  • Basil Zaharoff. Ele é considerado o maior negociante de armas do mundo. Vende tudo o que se precisa para uma guerra. E efetua muitas de suas vendas através de suborno e de mulheres. Ofereceu-me um emprego... como madame de todos os seus bor­déis e controladora das mulheres que operam como suas agentes. A opinião a meu respeito é a mesma de papai... e outra vez vou citar literalmente... "se você se tornasse profissional, minha cara Magda, seria a melhor do mundo".

  • E está seriamente interessada nisso?

  • Não posso deixar de estar. O pagamento é generoso e a proteção garantida.

  • Mas ainda não aceitou.

  • Não, ainda não aceitei. Gianni di Malvasia sugeriu que eu conversasse primeiro com você.

  • Por que logo eu?

  • Ele disse... e novamente estou citando... "Jung abrange a experiência religiosa, embora nem sempre a defina em termos or­todoxos".

  • Ele tem razão, adoto-a nesse sentido: aceito que existe e que para muitas pessoas... milhões em todo o mundo... modifica a vida profundamente. Mas quero ser bem claro, Madame. Não posso lhe dar a experiência religiosa. Não posso dotá-la de qual­quer fé. Não discutirei com você qualquer sistema de fé. Pode me procurar como uma cristã e sairá como uma cristã. Pode chegar ateia e sairá como uma ateia. Também não negocio com absolvi­ções, como fazem os católicos.

  • Mas tem uma promessa inscrita em sua porta: "Quer seja chamado ou não, Deus estará presente." Onde ele está? Ainda não ouvimos falar dele.

    Nosso breve debate parece deixá-la extenuada. Ela solta um riso seco e dá de ombros, em resignação.

    —   Se Lily estivesse aqui agora, diria que é a linha de Humpty Dumpty.

    —   Como? Nunca ouvi antes essa expressão.

    Ela explica que Humpty Dumpty é o personagem de uma cantiga infantil inglesa. Recita para mim, bem devagar, a fim de que eu possa pegar todas as palavras:

 

"Humpty Dumpty sentou no muro,

Humpty Dumpty sofreu uma queda.

Todos os cavalos do rei

E todos os homens do rei

Não puderam juntar Humpty de novo."

 

A cantiga é engraçada, mas não significa muita coisa para um suíço estúpido de Basiléia.

  • Quem era Humpty Dumpty?

  • Era um ovo!

    —   Ahn... E quando ele caiu do muro... Mas é claro! Não se pode juntar de volta um ovo quebrado! Muito engraçado!

    É evidente que não é engraçado para ela. E ela formula, num tom de tristeza profunda, a pergunta que eu estava temendo:

    —   Matei um cachorro, um cavalo e uma mulher. Arruinei a vida de uma criança. Pode me juntar de volta? Pode me fazer in­teira?

    Sinto-me comovido até quase as lágrimas. Também gostaria que Deus estivesse presente para me ensinar as palavras curado­ras. Faço-a levantar e a mantenho à distância dos braços, dizendo, tão gentilmente quanto posso, a única verdade que conheço:

    —   Não posso mudar o que está feito. Não há cura para o homicídio. Não é uma doença. É um ato que acarreta penalidades de acordo. Mas não podem ser aplicadas a você. É como um soldado que volta da guerra. Tem muita sorte, porque ainda pode, com o tipo de ajuda que um analista é capaz de oferecer, mudar a si mesma.

    —   Mudar para o quê?

  • Para o que quiser ser. Hábitos podem ser alterados. Síndromes obsessivas podem ser modificadas. Você é médica e sabe disso perfeitamente. Quanto ao resto, sempre pode encontrar um canto tolerante do mundo para se entregar a suas preferência se­xuais...

  • Mas será que não entende que é a razão que estou precisando conhecer, o motivo, o impulso?

  • Você não gosta do que é. Não acha que isso é razão suficiente?

  • Por mais estranho que possa parecer, não é. Posso parar de ser o que sou, a qualquer momento. Uma dose, um tiro de pistola... e tudo estará acabado. Mas se houvesse alguma outra coisa, se pudesse acreditar que tenho uma alma que seria salva pelo arre­pendimento, admitida em algum paraíso eterno, então haveria um bom motivo para a mudança. Observei Johann durante a doença. Ele tinha uma coisa que fazia com que todos os outros, todo o nosso amor, todo o nosso cuidado, fossem completamente dispensáveis. Ele acreditava piamente numa vida depois da morte. Para mim, no entanto, a vida depois da morte não passa de um mito... o que é terrível.

  • Mesmo assim, por que desperdiçar tantos anos bons? Ainda tem muito o que viver pela frente.

  • Mas que espécie de vida? — Ela tenta se desvencilhar de mim, mas a seguro firme, até que relaxe de novo. — Será que não entende? Já tive tudo! Amor, paixão, uma filha, dinheiro... Mesmo a suprema emoção de extinguir uma vida humana, apagá-la como uma chama de vela, sabendo que estava segura e impune! O que mais pode me oferecer, Doutor?

    Eu a solto. Ela se vira, vai até a janela que dá para o lago, onde as nuvens de tempestade estão se concentrando. As águas estão cinzentas, toda a paisagem é ameaçadora. Nada servirá agora que não a honestidade total, o que eu puder oferecer de sabedoria e o que puder partilhar do amor que tem sido ampla e facilmente dispensado. Chego mais perto, mas não a toco. Escolho as pala­vras cuidadosamente, como se fossem jóias numa bandeja de ouro:

    —   Minha cara colega, minha cara mulher! Não conheço qual­quer outra maneira de responder que não tentar partilhar com você a experiência por que estou passando neste momento. Eu lhe su­plico que seja paciente comigo. Não é fácil converter em pala­vras... Eu estou... há muito tempo que isso acontece... num estado muito parecido com o seu. Tenho sonhos monstruosos. Estou ob­cecado por fantasias sexuais e de violência criminosa. Creio que estou numa situação pior do que a sua, porque freqüentemente perco contato com a realidade e me descubro a dialogar com ema­nações do meu próprio inconsciente. Mas sei, por experiência e por longos contatos com pessoas mentalmente doentes no Burgholzli, que a barreira entre a fantasia e o ato é uma muralha de papel, facilmente rompida. É por isso que compreendo o seu crime. Compreendo os seus excessos. Compreendo os seus medos. Eu poderia me sentir feliz se estivesse fazendo as mesmas coisas que você, no mesmo circuito. Pode estar certa de que eu me ajus­taria facilmente ao circo das aberrações. Tenho impulsos suicidas como você... e sonhos de homicídio. E muitas vezes me tranco nesta própria sala para enfrentar o meu sinistro Doppelgänger...

    "Mas algo mais está também me acontecendo... algo estranho, bom e bonito. Estou aprendendo mais e mais sobre a maneira como funciona a psique humana, como o passado se entrelaça na tapeçaria dos nossos sonhos, como o futuro se converte em reali­dade a partir de nossas imaginações mais desvairadas. Tenho de fazer muita força para encontrar algum sentido. Quase sempre fico apavorado. Mas às vezes... apenas algumas vezes... a visão é quase ofuscante, como ver o Sol depois de uma semana de tempes­tades... Pergunta o que haverá em seguida para você? Pois eu lhe digo: uma infinidade de novas experiências, novas visões, novas esperanças, talvez também novos amores..., mas jamais verá tudo isso de um quarto de bordel ou do interior de um caixão...

    Não posso dizer mais nada. Ela permanece de pé, a cabeça abaixada, o rosto desviado de mim. Fico esperando, vazio e imó­vel, como a taça de Omar Khayyam, virada para baixo, sobre a relva. E quando finalmente ela me fita, fico profundamente cho­cado. O rosto dela é uma máscara de ódio, a língua um açoite de desdém:

    — Palavras, meu caro Doutor! Retórica e nada mais! Converta-me, se pudert Transforme a canibal numa cristã, como os missionários faziam! Mas não me venda fumaça!

    Estou junto dela numa passada. Agarro-a pelos pulsos e a viro para mim. Puxo-a para perto, a fim de que possa absorver minhas palavras... ira ao invés de beijos... boca a boca!

    —   Como se atreve a ser condescendente comigo, sua cadela estúpida? Como se atreve a trazer seus truques de bordel para cá? Veio suplicando por ajuda. Quando é oferecida, você a rejeita. Há lágrimas no que lhe falei... lágrimas, sangue e sofrimento para mim e para minha família. Tentei converter tudo isso em moedas que pudessem comprar para você e outros pacientes uma trégua dos pesadelos que os atormentam. Mas não! Você não quer isso! Quer o circo das aberrações e a dança da morte. Pois então desfrute como quiser. Mas não encene o que tem dentro de você em minha casa!

    Solto-a e me viro, enojado. Ela continua onde está, massageando os pulsos doloridos. Ainda estou com raiva e me viro no­vamente para ela.

    —   Tem dívidas a pagar, Madame! Não pode ressuscitar os mortos. Não pode proporcionar à sua filha a infância que ela per­deu... Mas ainda pode fazer algumas emendas. É treinada nas artes da cura. Há lugares e pessoas clamando por bons médicos. Quanto paga pelo privilégio de aviltar um ser humano num bordel? Há ca­ridades que poderiam aproveitar muito bem esse dinheiro e...

    Ela rejeita toda a idéia com um gesto de repulsa e uma nova erupção de veneno:

    —   Vai começar de novo... o mesmo clichê de sempre. Purifique-se com boas ações. Dê esmolas para se juntar aos bons. Meu marido fazia isso. Meu próprio pai castrou-o e ofereceu os colhões dele, sua vida e seu sofrimento, a fim de comprar para si mesmo e para mim e minha filha um lugar no paraíso... Mas quem estará lá quando eu abrir a porta? Ninguém, absolutamente nin­guém!

    É um grito de puro desespero e cometo o erro de responder. Gentilmente, tento argumentar com ela.

    —   Controle-se, por favor. Entendeu tudo errado. Não estou lhe oferecendo ingressos para o paraíso. Não sei onde fica o pa­raíso. Mas sei onde fica o inferno... dentro de nossas cabeças! E o criamos para nós mesmos!

    Por um breve momento, parece que ela vai se curvar a mim. No instante seguinte, porém, ela se lança a mim, num violento ata­que físico, esmurrando-me o peito, tentando me retalhar o rosto com as unhas, rosnando interminavelmente como uma tigresa.

    —   Vá para o diabo! Seu maldito hipócrita suíço! Deus... o... amaldiçoe!

    Sou experiente nesse tipo de situação da clínica, onde se preci­sava de braços fortes e olhos na nuca, com dois mil pacientes in­ternados. Agarro-a pelos pulsos e cruzo os seus braços, fazendo-a soltar um grito de dor. Ela é muito forte, mas lentamente a forço a se abaixar, enquanto um intenso desejo sexual me invade e res­pondo insulto com insulto.

    —   Dois podem travar o mesmo jogo, menina! É o que você queria desde o início, não é mesmo? A salvação no feno com Rudi ou papai, talvez mesmo com o garanhão na baia!

    Ela ainda se debate, mas agora adere também ao jogo.

    —   Está vendo? Você é pior do que eu! Também gosta de ma­chucar as pessoas. É um charlatão. E seu Deus não passa de uma impostura. Pelo menos posso admitir o que sou...

    Obrigo-a a ficar de joelhos. Ela grita que já chega. Solto-a finalmente. Ela envolve minhas coxas com um braço e com a outra mão tenta desabotoar-me a braguilha. Antes que eu possa me des­vencilhar, antes que ela possa se apoderar de minha ereção, chego ao orgasmo. Fico parado ali como um idiota, ejaculando o sêmen que me mancha a calça, enquanto ela permanece ajoelhada, como alguma devota desapontada, tateando no santuário do deus cego, que está se transformando num verme diante de seus olhos...

     

    Quando passa o momento lamentável, eu a levanto e lhe digo bruscamente para se arrumar. Examino os danos à minha calça. Não foram muito amplos. A bata cobrirá a maior parte. E enquanto Emma estiver acompanhando a paciente até a porta, posso ir furti­vamente ao quarto e trocar de calça. É um incidente constrange­dor, mas não representa propriamente uma novidade na história de muitas relações apressadas. Enquanto Magda Hirschfeld está se ar­rumando, sento-me à mesa e escrevo as últimas anotações. Ela senta na cadeira dos pacientes e diz, recatada:

    —   Pelo menos já viu agora como acontece... raiva, violência, rendição. Cheguei ao orgasmo junto com você. Só lamento que não tenha sido melhor. Parece que a coisa funciona melhor com profis­sionais... Para onde vamos depois daqui?

    —   Creio qu