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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UMA AVENTURA EM ÉVORA MONTE / Magalhães & Isabel
UMA AVENTURA EM ÉVORA MONTE / Magalhães & Isabel

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

- Ai! Quem foi o engraçadinho?... Luísa acabava de apanhar com um ovo, mesmo em cheio no alto da cabeça. Voltou-se logo para trás, furiosa, à procura do agressor. Mas não viu ninguém na rua.

- Só queria saber quem é que me atirou isto!   - resmungou em voz alta,   enquanto tentava limpar o cabelo e a camisola com um lenço.

- Luí-sa! Espera por mim! - chamou a irmã, assomando à esquina.

- Está bem, mas despacha-te!

Teresa deu uma corrida e deteve-se a poucos metros de distância.

- Oh! O que foi que te aconteceu?

- Ora, Teresa, que pergunta desnecessária! Acertaram-me com um ovo, não estás a ver?

respondeu a Luísa irritada.

- Tens o cabelo todo pegajoso!

- Claro que tenho! Se não tivesse é que era para admirar, não achas?

- O melhor é ires a casa passar a cabeça por água...

- Hoje só dizes calinadas, Teresa! Não sabes que vamos receber o ponto de Português à primeira hora? Não quero faltar a esta aula por nada deste mundo...

- Eu podia receber o teu ponto!

- Não! Quero lá estar para ver a cara da professora. Ela deve ter ficado parva quando viu que eu tinha um «Excelente»!

- Não estejas a contar com isso - advertiu a Teresa. - Se estás a contar com isso, ainda tens uma desilusão!

- Ai, estás tão chata, Teresa! Não vou ter desilusão nenhuma!

Luísa virou-lhe as costas e avançou em direcção à escola em passo acelerado. A perspectiva de receber uma boa nota quase a tinha feito esquecer o incidente desagradável. Mas as palavras da irmã tinham-lhe devolvido o mau humor.

Teresa, percebendo que não valia a pena insistir, seguiu-a, encolhendo os ombros.

 

 

 

 

Como era o último dia de aulas, não levavam mochilas, apenas um dossier e a caneta, por precaução. Mas o mais certo era não fazerem nada. As férias de Carnaval começavam no dia seguinte e, como de costume, o ambiente devia ser de euforia. Apesar das proibições, havia sempre engraçadinhos a atirar ovos e farinha para cima dos colegas, além das insuportáveis bisnagas. Era cada banho! Uns riam, outros gritavam, as empregadas ficavam fulas, os professores ralhavam e, de uma maneira geral, os alunos iam fazendo cada vez mais disparates, até que o último toque de campainha mandava toda a gente para casa.

 

- Odeio o Carnaval! - suspirou a Teresa. -- E eu então...

 

- Lembras-te quando tivemos de ir mascaradas a uma festa chatíssima?

 

- Qual festa?

 

- Àquela dos bichos. Todas as crianças tinham de se vestir de bichos...

 

- Já sei! Mas isso foi há uma data de anos!

 

- Pois foi. E que bucha horrível! Quem se divertia eram os paizinhos, muito babados a olharem para nós... nem podíamos brincar para não estragarmos os fatos...

 

- E tivemos de estar horas e horas a tirar fotografias...

 

- Foi um horror!

 

Distraídas com a conversa, as gémeas viraram à esquerda, sem se aperceberem que eram seguidas por dois vultos.

 

- Mãos ao ar!

 

Instintivamente olharam para trás e... dois esguichos certeiros encharcaram-lhes a cara.

 

- Parvos!

 

- Idiotas!

 

- Qual é a ideia, ha?

 

- Há dias em que o melhor que uma pessoa tem a fazer é não se levantar da cama! Já me acertaram com um ovo e agora aparecem vocês a bisnagar...

 

Perante a fúria das gémeas, Pedro e Chico recolheram as pistolas de água no bolso do anorak, e aproximaram-se.

 

- Calma! Também não é caso para tanta gritaria! - disse o Pedro num tom conciliador.

 

- Claro que é! Uma data de água suja na cara é muito agradável, não?

 

- Ora empresta-me cá a tua pistola, que eu faço-te o mesmo a ver se gostas!

 

- Em primeiro lugar, a água não é suja! Enchemos as bisnagas na torneira, está bem?

 

- E depois, «como é Carnaval, ninguém leva a mal» - gracejou o Chico.

 

- Hum! Carnaval! Odeio o Carnaval! Detesto máscaras, bisnagas, brincadeiras parvas, partidas, ovos, farinha...

 

- Eh! Tu hoje acordaste virada para o lado esquerdo! Já agora odeias tudo...

 

Luísa ia a ripostar, mas o Pedro interrompeu, colocando-se no meio dos dois com ar muito solene.

 

- Ora ainda bem que odeias o Carnaval e não tencionas perder tempo a mascarar-te...

 

- Porquê? - perguntaram as gémeas em coro.

 

- Porque tenho uma proposta para vos fazer.

 

- Proposta?

 

- Que proposta?

 

- Uma proposta que é um convite. A minha mãe foi chamada pela Câmara de Estremoz para ir àquela zona do Alentejo fazer uma campanha de vacinas durante esta semana. Como estamos em férias de Carnaval, lembrou-se de nos levar a todos com ela. Nós os quatro e o João, claro!

 

- Fazer vacinas? - estranhou o Chico.

 

- Não, que ideia! Enquanto ela faz o trabalho que tem a fazer, nós podemos explorar as redondezas. Parece que aquilo por ali é giríssimo.

 

- Nós só conhecemos o Alentejo de passagem, quando vamos para o Algarve - disse a Teresa.

 

- Eu também conheço mal. E a minha mãe diz que vale imenso a pena.

 

- Mas onde é que ficamos instalados? Em Estremoz?

 

- Vamos acampar?

 

- Quase... - começou o Pedro.

 

Quase? O que é isso de ir «quase acampar»?

 

- Se me deixares explicar, já ficas a saber.

 

- Então diz lá.

 

- Vamos para uma vila pequena, muito gira, toda dentro de muralhas, que se chama EVORAMONTE...

 

- Porquê? A tua mãe não vai para Estremoz? Que complicação!

 

- Calma, Teresa, que chata!

 

- Hoje também toda a gente me chama chata! - resmungou ela, cruzando os braços e fitando a biqueira dos sapatos, meio amuada.

 

Pedro ignorou-a e continuou:

 

- Não há complicação nenhuma, é tudo até simplicíssimo: a Câmara de Estremoz tem uma casa em Evoramonte que está disponível. Não vive lá ninguém. Pôs essa casa à disposição da minha mãe, mas só um dos quartos é que está mobilado. Ela instala-se ali. E nós acampamos nas outras divisões. É mais prático, porque dormir ao relento agora no Inverno...

 

A ideia começava a tomar forma e a sorrir-lhes! Saírem de Lisboa por alguns dias, acamparem de novo juntos, longe de tudo e de todos, fazerem só o que lhes apetecesse... que a mãe do Pedro com certeza não ia andar atrás deles, já que tinha o seu trabalho para fazer!

 

- Isso era bestial - suspirou o Chico. Estou tão farto de aulas que cavar daqui uns dias vinha mesmo a calhar...

 

- E! Tinha muitas vantagens - concordou a Teresa, lembrando-se que a mãe costumava aproveitar sempre aquele tipo de folga para lhes mandar fazer certas tarefas. Desta vez o mais provável, era terem de limpar e arrumar a despensa. E, além disso, ouvira falar em marcar hora para o dentista... - Eu cá por mim alinho - decidiu, sem mais hesitações.

 

- Eu também!

 

- Então...

 

Pedro não pôde acabar a frase. A campainha da escola atroou os ares e as gémeas dispararam a correr, gritando:

 

- Logo combinamos!

 

- Vamos receber o ponto de Português!

 

- Até logo!

 

- Até logo!

 

O carro avançava devagar, por causa do peso. A mãe do Pedro parecia muito bem-disposta e guiava com o banco todo chegado para trás e os braços esticados. Tinha acabado de fazer um comentário qualquer acerca da delícia daquelas estradas, quase sem movimento. Mas eles não prestaram grande atenção. Através das janelas, observavam a paisagem e descobriam, encantados, o verdadeiro Alentejo.

 

Era uma terra toda plana, que os olhos podiam abarcar de uma só vez até à linha do horizonte. Os campos estavam cultivados, mas não se via ninguém por ali. E das poucas casas que se avistavam, pequeninas, brancas, não saía fumo pela chaminé. Assim, dir-se-ia que as pessoas, concluídos os trabalhos do campo, voltavam para dentro das árvores, das fontes, dos riachos, e aí permaneciam confundidas com as próprias coisas, fazendo parte delas, por um acto de magia.

 

- É tudo tão diferente quando se vem para ficar - comentou a Teresa, falando em voz baixa sem saber porquê.

 

- Pois é! Quando vamos para o Algarve, nem olhamos à volta!

 

A atmosfera de encantamento desapareceu com o falar das gémeas. E a conversa prosseguiu, banal, enquanto se mexiam e acotovelavam no banco de trás, conscientes agora de irem apertados.

 

- Eu quando vou para o Algarve, só olho para os marcos da estrada, a ver quanto falta!

 

- Vocês também vão o caminho todo a perguntar «ainda falta muito? Ainda falta muito?» - interrompeu a mãe do Pedro.

 

- Vamos! - confessou a Teresa. - E geralmente acabamos por ouvir dois ou três berros do meu pai, farto de nos aturar...

 

Riram todos com aquela tirada.

 

- Pelos vistos é a mesma coisa em toda a parte! - disse o Pedro.

 

- Sabem como é que nós costumávamos chamar ao Alentejo? - perguntou a Teresa.

 

- Não. Como era?

 

- Como passamos por aqui geralmente em Agosto e faz um calor de morte, chamávamos-lhe «o caldeirão».

 

- E que caldeirão! Lembras-te quando tivemos um furo? O pai ficou com a camisa encharcada em suor!

 

- E eu perdida com dores de cabeça! Assim que chegámos à primeira bomba de gasolina, bebi para aí um litro de água sem parar...

 

- E depois ficaste cheia de dores de estômago!

 

- É o que eu digo! Somos todos iguais! A mim já me aconteceu exactamente a mesma coisa...

 

- E a mim! - disse o João.

 

- E a mim também! - acrescentou o Chico.

 

Olharam-se, sorrindo, com uma certa cumplicidade. Por que seria tão divertido sentirem que tinham tido, todos eles, experiências semelhantes?

 

- Então tratem de aproveitar agora a ver o Alentejo num dia fresco - aconselhou a mãe do Pedro.

 

- Fresco e lindo! Eu gosto destes dias assim.

 

- Olhem além ao fundo! - gritou o Chico de repente. - Já se vê EVORAMONTE!

 

- Como é que sabes?

 

- Só pode ser...

 

- E é mesmo! - disse a mãe do Pedro. Um monte, não muito alto, mas gordo e redondo, onde as muralhas e o castelo pareciam pousados como uma coroa, impunha-se a meio da planície. E de certo modo atraía-os. Por momentos, tiveram a sensação estranha de que não viajavam normalmente dentro de um carro mas que flutuavam no espaço, sugados de longe por uma terra misteriosa.

 

«Que sítio para uma aventura!», pensou o João.

 

- Mãe, pare aí por favor...

 

A voz do Pedro foi tão peremptória, que a mãe parou mesmo, antes de perguntar:

 

- O que foi? Estás mal disposto?

 

- Estou, estou... - respondeu ele com ar maroto.

 

E, sem pedir autorização, abriu a capota do carro, sacou da máquina de filmar, e pôs-se em pé dentro do carro.

 

- Vou fazer um travelling inesquecível!

 

- O que é isso de travelling! - perguntou a Luísa.

 

- Travelling   é uma palavra inglesa que significa viajar. Mas em linguagem cinematográfica significa que a câmara está em movimento... Vou fazer um travelling importante, meus amigos! Os heróis aproximam-se de Evoramonte! Palpita-me que muitas coisas inesperadas se vão passar aqui!

 

- Nem pensem que se vão meter outra vez em encrencas! - disse logo a mãe.

 

- Ora, mãe! Férias não são férias, se não houver aventura...   arranque lá devagarinho, para eu fazer o meu travelling!

 

A mãe sorriu, compreensiva, e fez deslizar o carro suavemente.

 

- Está bem, mas só um bocadinho, senão ficamos cheios de frio!

 

A vila de Evoramonte ultrapassava tudo o que eles tinham sonhado! Uma parte mais recente tinha sido construída fora das muralhas, e aquela meia dúzia de casas, de uma brancura que quase feria a vista, arrumadinhas à volta de um pequeno largo e aconchegadas na encosta do monte, eram já bem bonitas! Mas a surpresa vinha depois, quando, após a subida, por uma estrada que era mais um caminho que outra coisa, se passava para o lado de dentro das muralhas. Quase dava a sensação de viajar no tempo e não no espaço! Tudo ali era antigo, belo, forte e de certo modo espontâneo. As ruas estreitinhas, via-se mesmo que tinham nascido ao acaso, à medida das necessidades que era como as vilas cresciam dantes. Paredes grossas, toscas, de poucas aberturas, portas minúsculas, aqui e além rasgadas em ogiva. E bem ao centro, uma espécie de torre, diferente de tudo o que tinham visto até então.

 

- Que castelo assombroso! - exclamou a Teresa.

 

- Isto não é bem um castelo, é uma torre. Chama-se Paço de Homenagem e parece que tem uma história gira, mas eu não sei bem como é - disse a mãe do Pedro.

 

- Já repararam que a torre é quadrada, mas os cantos são redondos?

 

- Claro! Não vês que cada canto é um torreão?

 

- Nunca vi nada assim! - disse a Luísa, encantada.

 

- É natural, sabes? Esta construção é única no país.

 

- Palavra?

 

- Acho que sim. Pelo menos foi o que me disseram.

 

- Apetecia-me imenso ir ver por dentro arriscou a Teresa, impulsiva como de costume.

 

- Calma! Temos de nos instalar primeiro.

 

- E onde é a casa para onde vamos?

 

- Já tem a chave?

 

- Não, mas vamos parar aqui o carro e perguntar. Há uma senhora que mostra os monumentos, e ficou combinado que ela nos receberia.

 

- Então, há vários monumentos aqui dentro?

 

- Variadíssimos!   Igrejas   e   capelas   são umas poucas. Mas agora basta de conversas...

 

O carro foi arrumado a um canto, e a mãe do Pedro saltou lá de dentro, ágil e despachada, logo seguida pelos seus cinco companheiros.

 

- Hum! Que bom é esticar as pernas outra vez!

 

O Chico espreguiçou-se com volúpia.

 

- Vinha mesmo apertado entre vocês duas! Estão a ficar muito gordas...

 

- Gordas? Nós?

 

- Gorda era a tua avó!

 

- Scht! Não sejam malcriadas - ralhou o João.

 

As gémeas falavam assim à vontade, porque a mãe do Pedro se tinha afastado em direcção a duas mulheres vestidas de preto, que conversavam na soleira da porta.

 

- Faz favor... - ia a começar.

 

Mas não foi preciso explicar ao que vinha.

 

- A senhora deve ser a médica que chegou de Lisboa! - disse logo uma delas, muito simpática.

 

- Sou, sou...

 

- Então vamos lá a ver a casa. É por aqui.

 

- Vale a pena levar o carro?

 

- Hum... é pertinho, vai-se bem a pé. O pior são as bagagens.

 

- Então eu levo. Indique-me o caminho, sim?

 

- É logo aqui adiante.

 

De facto, alguns metros à frente, a mulher fez sinal que parasse. E indicou uma fachada antiga, caiada de branco como todas as outras, mas com uma data a vermelho por cima da porta.

 

- 1787 - leu o Pedro em voz alta. - Sensacional! Nunca estive instalado numa casa tão antiga.

 

A mulher sorriu, orgulhosa. Toda a gente gosta de ouvir gabar as coisas da sua terra! E fez rodar a chave na fechadura.

 

- Pronto - disse. - Está tudo muito limpinho, senhora doutora, mas só um quarto é que tem mobília!

 

- Eu sei! Eu sei! Não se preocupe! Já vimos preparados com tudo o que precisamos.

 

- Então se quiserem alguma coisa, sabem onde eu moro...

 

- Obrigadinha!

 

A mulher retirou-se e a mãe do Pedro hesitou um instante.

 

- Que foi, mãe? - perguntou o Pedro, percebendo aquele gesto de dúvida.

 

- Estou a pensar que o melhor era vocês tirarem as bagagens e ficarem aí a arrumar tudo. Eu ainda queria ir a Estremoz e por isso o melhor é não perder tempo...

 

- Não quer ver a casa?

 

- Vejo depois - decidiu ela. - Vá lá, tirem tudo aqui do carro depressinha, está bem?

 

As gémeas precipitaram-se logo para a mala e carregando sacos-camas, mochilas e cestos com comida deixaram o carro livre num instante.

 

- Até logo! - disse a mãe, já a fazer a manobra para voltar para trás.

 

- Adeus!

 

Nenhum deles ousou confessar, embora fosse evidente, que preferiam assim. Era mais divertido explorarem uma casa desconhecida, sem adultos atrás. Mas tiveram medo que o Pedro se ofendesse e calaram-se.

 

- Vá, Chico, que estás aí na frente, empurra a porta! Não vamos ficar aqui especados toda a tarde!

 

Chico obedeceu. E perante o olhar deliciado de todos, surgiu uma escadinha íngreme, de madeira. Como seria a casa por dentro?

 

- Quem é o primeiro a entrar?

 

- Sou eu! - disse o João. - Deixem-me ser eu!

 

- Está bem, entra!

 

Um a um, subiram a escada, carregados de bagagem e fazendo soar os passos na madeira. Era um ruído bom de ouvir, uma espécie de saudação amigável entre eles e a casa que os recebia. Um cheiro indefinido mas agradável penetrou-lhes as narinas.

 

«Todas as casas têm um cheiro característico», pensou o Pedro.

 

Lá no alto havia um patamar minúsculo, com três portas.

 

- Deixa cá ver o que há aqui!

 

Chico empurrou a porta da direita e entrou numa divisão rectangular, onde tinham instalado de propósito uma cama, uma cómoda e duas cadeiras.

 

- Aqui tens o quarto para a tua mãe...

 

- Óptimo! Então ponham aí as bagagens dela e vamos explorar o resto.

 

- Estou morto por ver onde é que vou dormir.

 

- Venham por aqui - disse a Teresa. Adoro «descobrir» casas!

 

- E esta parece ser tão gira!

 

De facto a casa era gira, mas muito mais pequena do que se podia pensar. Resumia-se a esse quarto, uma cozinha enorme e duas outras divisões pouco comuns: uma espécie de sótão, quase totalmente ocupado pelo mecanismo do relógio, que badalava horas de modo a serem ouvidas em toda a povoação. E a «cadeia». A cadeia era o único quarto ao nível da rua. Tinha o chão cimentado e uma janela bastante grande, com grades de ferro.

 

A descoberta destas duas divisões extra foi um alvoroço! O João queria por força dormir na torre do relógio, mas os outros dissuadiram-no.

 

- Vai ser uma barulheira, não consegues dormir toda a noite!

 

- Consigo! - insistia ele. - Eu durmo como uma pedra!

 

- Vais ver a pedra! De meia em meia hora tens uma badalada...

 

- E de hora a hora, uma data delas! Vem para baixo connosco, não sejas idiota.

 

Ele acabou por concordar.

 

Depois disto, tinham procurado, frenéticos, a porta para a cadeia. Mas não encontraram nada, até que Luísa deu um berro.

 

- Achei! Achei!

 

Olharam todos para ela, que dava pulos num canto da cozinha.

 

- Achaste o quê?

 

- A entrada para a cadeia.

 

- Não vejo porta nenhuma! - disse a Teresa.

 

- Eu não disse que achei a porta, disse que achei a entrada, que é um pouco diferente.

 

E, com ar triunfante, apontou o chão. Um rectângulo de soalho podia erguer-se, puxando uma argola de ferro. Pedro enfiou-lhe os dedos e levantou as tábuas sem dificuldade.

 

- A isto chama-se um alçapão. Quem quer descer? - perguntou, indicando-lhes o escadote que conduzia àquela cobiçada divisão.

 

É claro que todos quiseram descer. E depois de muitas discussões, ficou combinado assim: Pedro e Chico dormiam lá em baixo. As gémeas e o João instalavam-se na cozinha.

 

- Podemos até comunicar por sinais! tinha dito a Luísa. - Querem ver?

 

Com o punho cerrado, deu duas pancadinhas no chão. «Poung! Poung!» O barulho de oco soava forte, grave.

 

- Podíamos combinar um código qualquer, para se estivermos em perigo - disse a Teresa, já a pensar em aventuras. - Não acham?

 

João suspirou fundo e desviou os olhos.

 

- O que é que tens? - perguntou o Pedro. As gémeas cruzaram um olhar rápido, de entendimento.

 

- O que é que tens? - insistiu o Pedro.

 

- Ha... nada!

 

Chico aproximou-se do amigo e pôs-lhe a -mão no ombro.

 

- Estás chateado, pá?

 

- Ai, vocês são tão tapados! – resmungou a Teresa. - Ainda não perceberam o que é que ele tem?

 

- Não! - disseram logo o Pedro e o Chico.

 

- Tem saudades do Faial É ou não é, João?

 

- É, pronto! E não se fala mais nisso pediu ele, afastando-se para um canto.

 

- Não vale a pena ficares assim, João. Quando uma pessoa tem um problema deve falar nele, para aliviar! Tu tens saudades do Faial! Nós também temos. A minha mãe foi uma chata em não o querer trazer, mas, verdade se diga, não cabia no carro...

 

- Eu sei, eu sei! - disse o João muito sério. - E agora se falássemos de outra coisa?

 

- Também acho. Vamos falar de comida propôs o Chico, esfregando as mãos. - Vocês não têm fome?

 

- Já cá faltava a comilice...

 

Embora troçando do amigo, as gémeas foram as primeiras a abrir os cestos. Puxaram a mesa para ao pé da janela e puseram-lhe em cima várias caixas plásticas.

 

- Se logo à noite estiver muito frio - disse o Pedro, olhando a enorme chaminé alentejana -, podíamos acender uma fogueirinha ali para nos aquecermos.

 

- E aproveitávamos para aquecer a comida. Há coisas que eu não gosto lá muito de comer frias...

 

- É verdade, não esperamos pela tua mãe?

 

- Não, nem pensar! O que ficou combinado foi «cada um amanha-se». Ela tem muito que fazer, e vai à vida dela. Nós fazemos o que quisermos !

 

- Óptimo, então.

 

À volta da mesa, comeram ao acaso, panadinhos de peru, fruta, fatias de bolo de laranja, quadrados de chocolate, sem se preocuparem muito em decidir se aquilo era lanche ou jantar. Comiam à mão, e a seguir lambiam a ponta dos dedos sem cerimónia.

 

«Uma das coisas boas destes programas», pensou o Pedro, «é não haver horários, nem obrigações, nem regras a cumprir. Acho que é preciso ser Selvagem alguns dias por ano, para poder ser um homem civilizado o resto do tempo...»

 

Divertido com os seus próprios pensamentos, esteve vai não vai para os comunicar aos amigos. Mas não teve coragem. Naquele momento comiam todos em silêncio, com o olhar perdido no vago. Pedro sentiu que todos eles pensavam em alguma coisa especial e que não deviam ser interrompidos. Respirou fundo e encostou a cabeça à janela. Lá fora caía um entardecer tão lindo, tão sereno! Estava-se ali bem, sem dúvida. Mas um breve mal-estar inexplicável apertou-lhe o coração.

 

«Que será que eu tenho?», perguntou a si mesmo. «Devo estar a tornar-me filósofo ou coisa parecida...»

 

E em voz alta, acrescentou:

 

- Sinto-me esquisito...

 

- Tem graça, também eu... - disse logo o Chico, agitando-se como se quisesse afastar de si qualquer coisa invisível que o incomodava.

 

- Se fôssemos dar uma volta a pé? - propôs a Teresa.

 

- Eu cá por mim ia.

 

- E eu também. Mas o melhor é irmos já, que está a escurecer não tarda.

 

- E esta tralha? - perguntou o João, apontando a balbúrdia que deixavam em cima da mesa.

 

- Arruma-se depois!

 

- Boa!

 

Saltando os degraus a dois e dois, saíram para a rua de roldão, ansiosos por respirarem o ar fresco e se libertarem da estranha melancolia que os atacara.

 

- Hum! Cheira a campo! - disse o Chico, enchendo o peito de ar. - Isto faz-me saudades de Rates. Foram sensacionais aquelas férias em tua casa, João! (*)

 

- E estas também vão ser. Para já, vou dar a volta ao castelo, ou torre, ou lá o que isto é declarou a Teresa, toda despachada.

 

- E nós vamos contigo!

 

Juntos, subiram a pequena elevação de terreno que conduzia à torre. Àquela hora a população tinha recolhido para jantar e não se via ninguém nas ruas. O grupo seguiu pela direita, sempre com os olhos postos na torre. Era fascinante! Mais própria de um conto de fadas que de outra coisa qualquer!

 

«Continuo com uma estranha sensação que não sei definir», pensou o Pedro. «Será por estarmos aqui sozinhos?»

 

Nesse preciso momento, surgiu na frente deles um personagem exótico, tão exótico que não podia fazer parte daquela terra!

 

Hesitaram um instante, mas não era possível ignorá-lo. De resto ele parecia fazer tudo para dar nas vistas!

 

- Este tipo quer que a gente olhe para ele

- murmurou a Luísa ao ouvido da irmã.

 

(’) Ver Uma Aventura entre Douro e Minho, 6.° volume desta colecção.

 

- É esquisito mas é bonito, não achas? respondeu-lhe ela no mesmo tom.

 

Luísa sorriu e não disse nada. O homem olhava-os com insistência, de alto a baixo. E a pouco e pouco foi-se aproximando.

 

Era alto e magro, muito bem constituído. Tinha uma cara invulgar, de traços rijos, pele escura e uns deslumbrantes olhos azuis muito pestanudos. Usava o cabelo comprido, despenteado, a condizer com a roupa de ganga bastante coçada e com o chapéu de abas largas, perfeitamente inútil àquela hora do dia. Uma argola de metal branco na orelha completava o quadro.

 

«Ou é um tipo original, ou quer-se armar», pensou o Pedro. «Será um turista?»

 

- Vocês também estão aqui à espera? perguntou ele inesperadamente.

 

Tinha uma voz forte mas doce, que perturbava.

 

Surpreendidos com a abordagem, aproximaram-se dele.

 

- À espera de quê? - balbuciou a Luísa. O homem sorriu. Levantou uma sobrancelha e olhou as gémeas de lado.

 

- Não sabem?

 

- Não! - respondeu a Teresa, já irritada com tantas poses.

 

Ele ignorou o tom de desafio. Inclinou ligeiramente a cabeça e explicou falando muito baixinho.

 

- Em certa época do ano, ao alvorecer, abre-se aqui uma brecha no tempo...

 

- Uma brecha no tempo? - interrompeu o Chico. - Que diabo é isso?

 

- Ora, ora, ora! Então vocês nunca viram séries de ficção científica? - E sem esperar pela resposta, continuou: - Abre-se uma espécie de porta no tempo, uma porta que permite visitar o futuro, ou recuar ao passado... podemos avançar cem anos ou recuar duzentos. Nunca se sabe.

 

Terminou a frase quase num sussurro. E deixou-se ficar ali quieto alguns instantes, os olhos faiscando com uma luz estranha. Parecia um feiticeiro, pronto a começar rituais de feitiçaria...

 

- E isso acontece aqui, e só aqui, em Evoramonte... sabem porquê? Porque esta terra é muito especial. Foi aqui que terminou uma guerra terrível, pavorosa, que virou irmãos contra irmãos, pais contra filhos... Uma guerra que só podia ter fim quando dois reis se olhassem frente a frente. E foi aqui, sabem? Em Évora-monte... Dois reis que eram irmãos... frente a frente... 1

 

Com um gesto brusco endireitou-se, deixando a frase em suspenso. Antes de se afastar, repetiu ainda:

 

- Aguardem! Aguardem o alvorecer. Depois, desapareceu por trás da torre, caminhando com passadas largas.

 

As gémeas, meio apalermadas, fitaram os amigos. Quem seria aquele homem?

 

- Este tipo... - começou o Pedro.

 

- Deve ser um idiota! - declarou o Chico, muito prático. - E quis divertir-se à nossa custa.

 

-- Achas?

 

- Claro, Luísa!

 

- A conversa era bastante parva...

 

- Uma porta no tempo... - disse a Teresa, com ar vagamente sonhador.

 

- Eu ainda gostei mais da outra... os dois reis que eram irmãos...

 

- A história tinha graça - disse o João.

- Uma guerra que só podia acabar quando dois reis irmãos se olhassem frente a frente...

 

- Mas é uma estupidez! - insistiu o Chico.

 

- Não acho...

 

- Pois não! - troçou o Pedro. - As meninas não podem ver um cabeludo de olhos azuis, que ficam logo caidinhas e acham uma maravilha todas as imbecilidades que ele se lembrar de dizer...

 

- Parvo!

 

- Tu querias era ter olhos azuis! - Pedro riu-se.

 

- Sabem o que lhes digo? Vou voltar para casa. Quero estender-me um bocado no meu saco-cama, a ouvir música. Não sei porquê, mas estou cansadíssimo.

 

- Música? Trouxeste o gravador?

 

- Trouxe, sim. E várias cassetes porreirinhas.

 

Bestial! Voltaram, então, para casa e lá estiveram a ouvir música. Mas o serão não durou muito.

 

Talvez por causa da mudança de ares, sentiam-se muito ensonados. Decidiram deitar-se sem esperar o regresso da mãe do Pedro.

 

Teresa foi das primeiras a recolher. Aconchegou-se no saco-cama, ajeitou a almofada e fechou os olhos. Sem saber porquê, voltou a ouvir, como em sonhos, a voz do desconhecido:

 

«Uma fenda no tempo... esta terra é especial... dois reis olharam-se frente a frente, para acabar a guerra... dois reis que eram irmãos...»

 

Encolheu-se, agora abraçada à almofada.

 

- O tipo de há bocado tinha uma voz tão bonita, não achas? - perguntou-lhe a irmã, bocejando.

 

- Hum...- Vamos lá a ver se ele tinha razão e acontece alguma coisa ao alvorecer...


Chico abriu os olhos e mexeu-se dentro do saco-cama. Que horas seriam? A luz pálida da manhã coava-se por entre as grades, enchendo o quarto de sombras. Pedro dormia ainda a sono solto, com a boca entreaberta. Ficava um pouco diferente assim sem os óculos.

 

Lá de cima também não vinha ruído nenhum, certamente as gémeas e o João dormiam regalados.

 

Muito quieto, ponderou duas hipóteses: deixar-se ficar estendido mais um bocado ou levantar-se e ir dar uma volta.

 

«Hum! Passear sozinho não é lá muito divertido...»

 

E se acordasse os outros? Provavelmente ficavam danados!

 

«Ninguém podia reclamar, no caso de eu ter um súbito e violento ataque de tosse!», pensou, divertido.

 

Mas desistiu logo. Eles que dormissem até lhes apetecer!

 

Esticou os braços e as pernas com volúpia, bocejou longamente e depois levantou-se. Deitou mãos às grades da janela, e contraiu os músculos para içar o corpo de modo a poder espreitar lá fora. Mas... o que viu deixou-o sem fala!

 

Junto à torre, passeavam para cá e para lá, dois homens altos, esbeltos, trajando uniformes de gala do século passado.

 

- Os dois reis! - balbuciou assombrado. E foi como se tornasse a ouvir as palavras do desconhecido.

 

«Abre-se uma fenda no tempo... passamos para outra época...»

 

Seria verdade afinal? Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Se tivessem mesmo recuado no tempo, era... era como? E, ainda na dúvida, esfregou os olhos com força, até doer. Talvez aquilo fosse um sonho!

 

Com a cabeça encostada às grades, olhou de novo a fachada da torre. E lá estavam os dois reis, agora acompanhados por uma mulher de vestido comprido e sombrinha igual. Não falavam uns com os outros e andavam em círculos, como três almas penadas.

 

- Pedro! - gritou finalmente. - PEDRO! Saltou para o chão e pôs-se a abanar o amigo com violência.

 

- Pedro, acorda! Pedro!

 

- Ha? O que foi? - perguntou ele, estremunhado.

 

- A fenda! A porta...

 

- Ah, é isso... - e Pedro mastigou em seco. - Não te assustes. Não há porta, é um alçapão...

 

- Pedro, não é nada disso, pá! A porta no tempo... Passámos para outra época... já não estamos no século XX!

 

- Ó Chico, que idiota! Acordares-me com a aldrabice dessas! - resmungou, já perfeitamente desperto. - Dá-me daí os meus óculos, mas é...

 

Chico estendeu-lhos num gesto maquinal e repetiu:

 

- Ouve, eu não estou a mentir! Levanta-te e vem à janela! As pessoas na rua estão vestidas à antiga! Anda ver - pediu o Chico, num desespero.

 

Pedro levantou-se, pachorrento. Que disparate pegado...

 

- Vamos lá a ver essa gente de outros tempos! - disse, meio trocista.

 

- Vê, pá! Vê! Ora sobe aqui! Espreita! Assim que olhou lá para fora, Pedro emitiu uma espécie de gorgolejo de aflição e fitou o amigo, atónito.

 

- Vês? *

 

PEDRO, A PORTA NO TEMPO. PASSAMOS PARA OUTRA ÉPOCA...

 

- hum... meu Deus! O que é que a gente faz?

 

- Sei lá! O melhor é irmos acordar as gémeas e o João! Temos de descobrir uma maneira de sair daqui...

 

- Pois é - disse o Pedro, muito pálido. - Se recuámos no tempo, o problema é saber como é que se torna a avançar... Temos de ter calma...!

 

Com passos inseguros, subiu o escadote direito ao alçapão. Um zumbido forte dentro da cabeça impedia-o de raciocinar. Chico seguiu-o sem nada dizer.

 

Lá em cima os outros três dormiam placidamente. Como a janela tinha portadas de madeira, a luz só penetrava pelas frinchas e a cozinha estava mergulhada na obscuridade.

 

- Sacode-os com cuidado! - ordenou Pedro, em voz baixa. - Eu vou chamar a minha mãe.

 

Deslocando-se em bicos de pés, para evitar qualquer ruído, o que lhe parecia mais prudente! Pedro dirigiu-se ao quarto da mãe e empurrou a porta de mansinho.

 

- Mãe! - chamou em surdina. - Mãe! Mas as surpresas ainda não tinham acabado.

 

A cama estava desfeita e vazia. A mãe não estava lá!

 

Atarantado, deu dois passos em frente. «E agora? E agora o que é que eu faço?» Automaticamente, pegou num bilhete deixado em cima da dobra do lençol, mas teve de o ler várias vezes até captar a mensagem. Que afinal de contas era muito simples.

 

Com o papel amachucado entre os dedos, regressou à cozinha.

 

- Tenho de ter uma ideia! - repetiu em voz alta. - Tenho de ter uma ideia!

 

- O que é que tens, tu também? - refilou a Teresa, colocando-se diante dele com os braços cruzados.

 

- Há? Vocês estão parvos, ou quê?

 

- Teresa, o Chico não te explicou?

 

- Já expliquei tudo, pá! Mas elas não acreditam em mim!

 

- Claro que não! - interveio a Luísa, ainda deitada no seu canto. - Como é que quere que eu acredite que recuámos pelo menos cei anos e que o mais certo é não voltarmos à nossa época? Julgas que sou atrasada mental, não

 

- Para partida de Carnaval podiam ter pensado em qualquer coisa verosímel! Essa não convence ninguém - concordou o João, que também se deixara ficar no saco-cama.

 

- Mas não é partida de Carnaval! Juro!

 

- Olha, vai contar essa à tua mãe! Pode sér que ela acredite!

 

- A minha mãe saiu. Deixou um bilhet em cima da cama. Não sei é se ela saiu antes ou depois de isto acontecer...

 

As gémeas olharam para o Pedro, já na dúvida. Ou ele era um actor de primeira ou estava mesmo assustadíssimo! Nunca o tinham visto assim. Dobrava e desdobrava o papelucho entre os dedos, lívido, quase a chorar...

 

- Não sei se estamos só nós, sozinhos, no século XIX...

 

Chico abriu as portadas com uma expressão grave e disse-lhes:

 

- Cheguem aqui. Venham ver a populaça de Evoramonte.

 

Aproximaram-se todos, já sem reclamar. Lá fora, o grupo tinha aumentado bastante. Homens e mulheres, com roupas de outros tempos, passeavam por ali, como se esperassem alguma coisa. Um grupinho pequeno conversava, junto ao torreão da direita.

 

- Meu Deus! - exclamou a Teresa. - Era verdade!

 

- O que é que a gente vai fazer? - perguntou a Luísa, apavorada.

 

Nenhum deles respondeu. Durante alguns instantes permaneceram no mais absoluto silêncio, apertando-se uns de encontro aos outros, como quem busca protecção.

 

«Ainda bem que somos cinco!», pensou o Chico. «É muito bom sermos cinco!»

 

Pedro foi o primeiro a recuperar a calma:

 

- Ouçam... o tipo de ontem disse que se abria uma porta no tempo, não foi? E que estava aqui   precisamente à espera disso. Então o que temos a fazer é procurá-lo. Ele deve saber como encarar esta gente, deve ter um plano, não lhes parece?

 

- Sim... acho que sim!

 

- E deve saber como é que se regressa!

 

- Se não houvesse dificuldade em regressar ao nosso tempo, isto até era uma experiência fantástica!

 

- Pois era... o pior é se não conseguimos regressar - disse a Luísa, lutando consigo mesma para não entrar em pânico.

 

- Claro que conseguimos! - disse o Pedro, fazendo-se forte. - Se não encontrarmos o gajo, nós mesmos resolvemos o problema...

 

- PEDRO! - berrou de repente o João.

 

- O que foi? - perguntaram todos em coro.

 

- Olha, olha! - João, de braço estendido, apontava a janela. - Olhem só! Olhem só!

 

Precipitaram-se todos para a janela e... embaciaram os vidros, com a suas exclamações de espanto.

 

- Ah!

 

- Oh!

 

- Então era isto!

 

- Que estúpidos que fomos...

 

- Eu bem dizia que não podia ser! começou a Teresa.

 

- Deixa-te disso, minha linda - atalhou logo o Chico. - Tu estavas tão assustada como nós!

 

- Mas ao princípio não acreditei.

 

- Nem eu, ora! Parecia a todos um absurdo!

 

Com uma sensação magnífica de alívio, permaneceram algum tempo encostados à janela, a conversar e a observar a balbúrdia fascinante que ia lá por fora. Estavam portanto a fazer um filme em Evoramonte! Em volta das personagens, que tanto os tinham assustado ainda há pouco, girava agora todo o pessoal técnico, com a sua variada maquinaria: microfones, máquinas de filmar, auscultadores... e a animação era incrível! Uns davam ordens, outros tomavam apontamentos, toda a gente girava de um lado para o outro, superatarefados. Mas era óbvio, mesmo para eles, que nunca tinham visto filmar, que todos se divertiam com o seu trabalho. Havia um não sei quê no ar, que transmitia entusiasmo e alegria. E um certo exibicionismo também. A população residente na vila, curiosa, juntava-se em pequenos grupos, a ver. Técnicos e actores fingiam ignorá-los, mas no fundo gostavam daquela presença e admiração muda... o que também não era para estranhar. Afinal de contas, só há cinema, se houver público...

 

- Que sorte, já pensaram? Vamos poder assistir às filmagens!

 

- Talvez nos deixem entrar no filme disse a Luísa, cheia de esperança.

 

- Estás doida!

 

- Não estou nada. Às vezes pode ser que precisem de alguém que passe ao longe! Eu já me contentava com isso.

 

- Ora, isso também eu!

 

- E eu! Mas não acredito...

 

- E é melhor não acreditares.   O filme pelos vistos passa-se no século XIX, e a nossa roupa é bem do século XX! - lembrou o Pedro.

- Não há a mínima hipótese de sermos contratados para passar ao longe.

 

- És um desmancha-prazeres, que chato! -*- resmungou a Luísa.

 

- Sou é realista.

 

- Olhem lá, vocês não querem ir até lá fora ver aquilo de perto?

 

- Queremos. Mas primeiro vou tomar o pequeno-almoço.

 

- Oh, Chico, só pensas em comer!

 

- Com a emoção matinal, fiquei esfomeado - brincou ele. - E vocês não sentem uma espécie de buraco no estômago?

 

Todos concordaram com o Chico. Mas a pressa de se juntarem à equipa de filmagens era tanta que se limitaram a arrebanhar algumas bolachas e restos de bolo. Luísa abriu uma embalagem de leite com chocolate e bebeu umas goladas, no que foi imitada pelos outros. E sem mais delongas, saíram para a rua.

 

Rodeado por uma imensidão de gente, um dos actores perfilava-se, impecável no seu uniforme rico de enfeites. Era bem vistosa aquela roupagem! Abstraindo-se do mundo que o rodeava, o actor exibia uma expressão grave e séria. Certamente iria aparecer sozinho no écran,i pelo menos durante alguns segundos.

 

- Que engraçado este contraste! - disse a Teresa. - Quando vemos um filme, os actores! parecem mexer-se sozinhos em cena, e afinal enquanto fazem o seu papel, estão rodeados de montes de gente!

 

- Nem sei como é que eles não se desmancham a rir! - comentou o João.

 

- Sobretudo quando têm de chorar. Já pensaram o que é uma pessoa a soluçar de desgosto, ali no meio, com tudo a ver?

 

- E as cenas de amor? - lembrou a Teresa, divertida. - Duas pessoas aos beijos, com os microfones por cima, as máquinas na frente e tudo a ver?

 

- Eu cá tinha vergonha...

 

- Por isso é que não és actriz, Luísa.

 

- Isso agora é que vamos a ver...

 

- Querias!

 

- Bom - disse o Chico, com ar malandro.

 

- Talvez ela tenha sorte, quem sabe? Talvez a contratem para uma cena de beijoca com aquele gajo de ontem à noite...

 

- Ai, que parvo!

 

- Ei! - disse o Pedro, estalando os dedos.»

- Tinha-me esquecido completamente do tipo de ontem à noite!

 

- E o que é que isso tem?

 

- Tem muito! Foi por causa dele que apanhámos um susto quando vimos esta gente assim vestida. Foi ele que nos sugestionou com aquela conversa parva... para que é que ele teria feito aquilo?

 

- Para se divertir à nossa custa!

 

- O imbecil!

 

- Ele será actor?

 

- Sei lá!

 

- Vejam se ele está por aí...

 

As gémeas puseram-se em bicos dos pés, tentando vislumbrar o homem do chapéu de abas largas, mas assim à primeira vista não deram com ele. Chamou-lhes a atenção, no entanto, um outro, sentado numa cadeira de lona, a cuja autoridade todos pareciam obedecer. com gestos largos e voz grossa, dava indicações para a direita e para a esquerda, mas elas não conseguiram perceber o que dizia.

 

- Ele não fala português, pois não? - perguntou o Chico, também estranhando aquele linguajar.

 

- Não deve falar, porque é francês... já viram o nome que está escrito na cadeira?

 

- V. Lenoir. Como é que sabes que é francês? - perguntou o João.

 

- Porque estudo Francês desde o princípio deste ano! E nos livros de Francês há sempre pelo menos um homem que se chama Lenoir!

 

- Ah!   É verdade...   - disse   o Chico.

- Este meu jeito para línguas é uma bucha! Acho que nunca vou aprender a falar bem nem inglês nem francês! Por que é que não havemos de falar todos a mesma língua?

 

- Por favor, agradecíamos que se afastassem um pouco e mantivessem silêncio!

 

Uma rapariga nova, dejeans e cabelo curtinho, acabava de os interpelar, com um sorriso agradável, que fazia nascer uma covinha em cada bochecha.

 

«Que grande borracho!», pensou o Chico, olhando-a fixamente.

 

- Cheguem-se para lá, está bem? - pediu ela, agora mais informal.

 

As gémeas, em vez de se afastarem, aproximaram-se ainda mais, olhando-a também fixamente. Uma pessoa daquele mundo cobiçado ali a falar com elas, era bom de mais! Queriam fazer-lhe mil perguntas, saber como era pertencer a uma equipa de filmagens, o que é que se sentia... mas, talvez por desejarem saber tanta coisa ao mesmo tempo, não lhes ocorria uma única frase. Ela, no entanto, não pareceu estranhar a reacção das gémeas e riu-se.

 

- Vamos começar a filmar. É preciso silêncio - explicou de novo.

 

- É actriz? - balbuciou a Luísa, consciente da inutilidade da pergunta.

 

Estava na cara que podia ser tudo menos actriz!

 

- Não. Eu sou assistente de realização!

 

- Que maravilha! - disse a Teresa.

 

A rapariga riu-se de novo. E olhou com outra atenção o grupinho que a rodeava.

 

- Achas uma maravilha ser assistente de realização? - perguntou com ar de gozo.

 

- Eu cá acho... adorava trabalhar no cinema!

 

- Mas olha que se trabalha muito! Isto não é só divertido, como parece.

 

- Mas também é divertido, não é?

 

- Bom, não digo que não. Pelo menos para quem goste!

 

- Eu adorava!

 

A conversa decorria apenas entre a rapariga e as gémeas. Os três rapazes tinham-se limitado a olhar para ela, encantados. Era bonita a valer!

 

- Vocês não calculam é a estafa que a gente apanha de vez em quando!

 

- Ai, eu não me ralava!

 

- Nem eu - disse o Pedro, interferindo pela primeira vez. - Para trabalhar consigo, valia a pena a canseira...

 

Mal acabou de falar, corou violentamente. A rapariga deu uma gargalhada sonora.

 

- Gostei! Há muito tempo que não ouvia um piropo assim!

 

Estendeu o braço e fez-lhe uma festa na cabeça, o que não agradou lá muito ao Pedro, Porque se sentiu tratado como um miúdo. Mas o que ela disse a seguir deixou todos num grande alvoroço.

 

- Talvez vocês acabem por ter sorte, sabem? Vão ser precisos figurantes.

 

- Figurantes? - perguntou a Luísa, de olhos arregalados. - Para «figurar» no filme?

 

- Claro! Se não para que seria?

 

- Palavra?

 

- Palavra. E prometo lembrar-me de vocês... se agora se afastarem um pouco e ficarem caladinhos, está bem?

 

Acenando-lhes amistosamente, virou costas e foi-se embora, com um andar meio gingado, a que a obrigavam osjeans muito justos.

 

Eles recuaram uns metros, sentindo o coração aos pulos dentro do peito.

 

- Era o máximo! - murmurou a Luísa.

 

- Era bem melhor que estarmos à rasca, no século XIX; há?

 

- É isso mesmo, Chico! A realidade pode ser muito melhor do que a ficção científica!

 

Apesar de a mesma cena ter sido filmada vezes sem conta, nenhum deles arredou pé dali. Por um lado, era divertido estar no meio daquela gente; por outro, temiam perder a grande oportunidade de serem contratados.

 

- Se eu fosse o actor, já estava chateado que nem um peru! - exclamou o João quando percebeu que iam começar tudo do princípio mais uma vez.

 

- Por que será que filmam e tornam a filmar a mesma coisa? A mim parece-me que já estava bem!

 

Uma voz desconhecida respondeu ao Pedro:

 

- Dizes isso porque não és o realizador! Voltaram-se todos ao mesmo tempo para ver quem lhes falava. E deram de caras com uma senhora baixinha, de cabelo preto e olhos acinzentados. Tinha um ar despachado, risonho e trazia com ela uma quantidade incrível de livros e dossiers, que carregava nos braços, com jeito de quem pega num bebé ao colo. Quem seria?

 

- Estão a gostar? - perguntou, afável.

 

- Estamos, claro!

 

- Eu nunca tinha visto filmar.

 

- Nem tu nem nenhum de nós, Teresa! A senhora fitou as gémeas com interesse.

 

- Que engraçado, vocês duas são iguaizinhas!

 

Elas endireitaram-se e sem querer fizeram o mesmo sorriso. Na cabeça de ambas uma ideia acabava de tomar forma: seriam precisas gémeas para o filme? Duas caras iguais? Se assim fosse, que maravilha!

 

- A senhora está encarregada de contratar figurantes? - perguntou a Luísa cheia de esperança.

 

Ela riu-se.

 

- Não! Isso não é comigo. Porquê? Vocês gostavam de entrar no filme?

 

- Adorávamos! - responderam todos em uníssono, ao mesmo tempo que falavam em círculo em volta dela.

 

- É actriz? - perguntou o Chico.

 

- Eu actriz? Que ideia! Não tenho jeito nenhum para representar! E digo-te mais, nem sequer sou «gente do cinema».

 

Perante o olhar interrogativo de todos, continuou:

 

- Sou professora de História na faculdade e historiadora. Mas agora, de há um ano para cá, tenho estado a trabalhar para esta equipa de cinema, como consultora. *

 

- Consultora? - perguntou o João, sem perceber muito bem que tipo de trabalho ela faria.

 

- Sim. É que este filme é um filme histórico.    

 

- Ah!

 

- Bem, e quando é assim, é necessário que haja alguém que perceba de história para não se cometerem erros.

 

- Quer dizer que tudo o que estão a filmar aconteceu mesmo na vida real? :

 

Ela riu-se de novo com a pergunta do Pedro.

 

- O argumentista, ou seja, a pessoa que escreve o argumento para o filme, baseou-se em factos históricos. Mas depois romanceou um pouco, para dar mais interesse.

 

- Então e a senhora?

 

- O que é que eu faço no meio disto tudo? É muito simples: estou atenta aos pormenores. Reparem que há coisas que aconteceram de uma maneira mas podiam perfeitamente ter acontecido de outra...

 

- Por exemplo? - interrompeu a Luísa.

 

- Olha, vamos supor que uma personagem do século passado morreu de doença, na cama. O argumentista pode perfeitamente imaginar essa morte de uma forma mais violenta, uma cena de facada ou de tiroteio, para ter mais impacte junto do público.

 

- Para ser mais impressionante?

 

- Pois. Mas não pode nunca é atirar essa personagem para debaixo de um automóvel...

 

- Claro! Não havia automóveis no século XIX! - disse logo a Teresa.

 

- Mas não me diga que os argumentistas não sabem essas coisas!

 

- Vocês são tão cómicos! - disse a senhora, rindo. - Claro que sabem! Mas é sempre preciso uma consulta por causa dos pormenores. Aí é que pode haver falhas. Por exemplo, se aparecer alguém a trazer um copo de água, não pode ser umpyrex, porque também não havia... É preciso cuidado na escolha dos fatos, dos sapatos, dos costumes e até da linguagem!

 

- Deve ser um trabalho giro, o seu! - disse o Pedro, lançando uma mirada à tralha que ela trazia nos braços, - Tem de ler muito para ter a certeza de como as coisas eram na época do filme, não?

 

- É evidente!

 

Naquele momento, surgiu por detrás dela o homem de chapéu de abas largas. com um dedo sobre os lábios fez-lhes sinal para que não falassem. E tapou os olhos da consultora, perguntando em voz cava:

 

- Adivinha quem eu sou!

 

- Ora, Lívio! Só podes ser tu!

 

Ele riu-se e passou-lhe então o braço à volta dos ombros, num gesto familiar.

 

- Pronto,   Maria   Augusta!   Adivinhaste! Agora apresenta-me aos teus amigos.

 

- Já nos conhecemos ontem, não se lembra? - perguntou a Luísa, com uma certa agressividade na voz.

 

- Nós? Conhecemo-nos? - disse ele, fingindo não recordar o encontro da véspera.

 

- Não se lembra? - insistiu a Luísa, mais espevitada ainda.

 

- Que partida é que lhes pregaste? - perguntou a Maria Augusta com ar entendido. E, virando-se para eles: - Este Lívio anda sempre a dizer disparates a toda a gente. Ele é o argumentista do filme, sabem? E tem excesso de imaginação.

 

- Ah! Agora já percebo! - disse o Pedro.

 

- Percebes? Isso significa que és um rapaz inteligente - declarou ele, com um sorriso insinuante. - Os escritores, os romancistas, os argumentistas, não se contentam com a realidade tal como ela é. Precisam de inventar histórias...

 

- Mas talvez não seja necessário gozarem à custa dos outros, ha? - interrompeu a Teresa.

 

- Eu não quis gozar à vossa custa, propriamente. Foi uma brincadeira!

 

- De mau gosto! - resmungou o Chico.

 

- Afinal o que é que tu lhes fizeste? perguntou a Maria Augusta, já curiosa.

 

Ele disfarçou:

 

- Venham daí todos ao bar tomar qualquer coisa.   Houve um pequeno problema técnico e ainda demora um bocado a recomeçar a filmagem.

 

Sem esperar resposta, encaminhou-se para uma tenda de campanha que tinha sido montada no extremo da vila, para servir de bar. Quase os empurrou a todos na frente, e limitou-se a acrescentar:

 

- O que eu fiz até foi bom para eles! Inventei uma história que os encheu de emoção. E as emoções fortes é que dão cor à vida...

 

Descontraído e brincalhão, acabou por divertir a malta toda. Sentados à volta de uma mesa, conversaram um grande bocado sobre isto e aquilo, riram, contaram anedotas. Ele era de facto uma animação. Uma coisa, no entanto, continuava a obcecá-los: conseguiriam ou não ser figurantes? E ficaram gratíssimos à Maria Augusta quando ela se virou para o amigo e lhe disse:

 

- Tem de se arranjar maneira de meter esta miudagem simpática na figuração. Têm umas caras tão giras, não achas?

 

Chico olhou-a, com ar malandro:

 

- Eu sou o mais giro de todos! Quando começarem a contratar, comecem por mim.

 

- Eh! Convencido!

 

- «Gaba-te cesto, que vais à vindima!»

 

- É isso mesmo, sim senhor! - disse Lívio levantando-se numa atitude teatral. - Neste mundo do espectáculo, quem fica muito caladinho num canto não se safa! Ele faz bem em chamar a atenção para si, se quer alguma coisa...

 

- O que você quer dizer é que um artista tem de ser um bocadinho vaidoso, é? - perguntou o João.

 

- Claro!

 

Pedro sorriu e disse, com uma certa malícia na voz:

 

- E os argumentistas? Têm de ser como?

 

- Ah! - respondeu ele com um brilho no olhar. - Esses podem ser como quiserem! E, num tom mais confidencial: - Eu, por exemplo, sou vaidosíssimo!

 

- Não precisava de confessar, sabe? Nós já tínhamos percebido!

 

Lívio apertou o nariz da Luísa entre os dedos:

 

- Atrevidota! És muito esperta, sabes?

 

- Sei! E, portanto, trate de nos meter no filme, a mim e à minha irmã, pelo menos. Verá que assim melhora muito a qualidade da fita...

 

Riram todos com aquela tirada.

 

- Pelos vistos aprendeste a lição! - disse a Maria Augusta. - Vês, Lívio? Fizeste das gémeas umas gabarolas. Agora tens de lhes dar um pequeno papel.

 

- Vamos lá a ver, vamos lá a ver!

 

Antes de saírem, Lívio olhou-os a ’todos longamente, um por um, deixando-lhes o coração em alvoroço. Qual deles iria escolher?

 

O convívio com a malta do cinema era realmente cheio de surpresas. Eufóricos, não tinham parado quietos um minuto sequer.

 

- Hoje conhecemos imensa gente importante, já repararam? - perguntou o Pedro, contando pelos dedos: - A assistente de realização, a consultora, o argumentista...

 

- E a actriz principal! Hum! Que bonita que ela é! - suspirou o Chico.

 

- Por acaso é gira e simpática.

 

- Não é nada peneirenta, e isso prova que o Lívio só disse parvalhadas.

 

- Prova e não prova - considerou o Pedro. - Não é peneirenta, mas tem de ter uma certa confiança em si, um certo gosto em se mostrar! Se não, não podia ser actriz!

 

- Isso é verdade. E no fundo talvez fosse isso mesmo que o Lívio queria dizer com aquela conversa! - concordou a Luísa.

 

- Pois! Ele é tão exagerado que quando diz uma coisa parece que quer dizer outra!

 

- Lá estão vocês a desculpar o gajo! O que ele disse é muito simples: os actores têm de ser gabarolas! Pronto!

 

- Não é bem assim, Chico.

 

- É, é! Vocês é que não querem que seja e arranjam tretas para poder dar razão ao gajo...

 

- Chico fez uma pausa e piscou-lhes o olho:

 

- Tudo por causa daqueles olhos azuis... ha?

 

- Ora, lá estás tu!

 

Tinham ido a casa num instante buscar casacos porque estava a arrefecer. Para não gastarem dinheiro resolveram fazer umas torradas e o João encarregou-se disso. As gémeas, penduradas na janela, seguiam com interesse o movimento da rua em frente e do largo junto à torre, onde, embora em pausa, a malta do cinema continuava a movimentar-se. Agora já só os miúdos da vila andavam por ali de roda deles. O resto da população retomara os seus afazeres de todos os dias, circulando com vagar entre as casas, as hortas, os pequenos currais. O céu tingia-se, às pinceladas cor-de-rosa, cada vez mais vivo, o que, no dizer do povo, significava continuação de bom tempo. Os técnicos de som tinham ficado contentes quando ouviram um homenzinho dizer isso, mas, pelo sim pelo não, foram confirmar a notícia, sintonizando o boletim metereológico na rádio.

 

- Algum de vocês sabe como se chama o filme? - perguntou o Pedro.

 

- Não!

 

- Gostava de saber. E em que época se passa, ao certo, também.

 

- Olha - disse a Teresa -, vem ali quem te podia dar todas essas informações...

 

- Quem? - perguntou ele, chegando-se à janela.

 

- A Maria Augusta...

 

- Chama-a.

 

- Achas?

 

-- Experimenta lá! Pode ser que queira vir aqui comer umas torradinhas e conversar connosco... Ela é tão amorosa!

 

- Talvez! Não se perde nada em experimentar.

 

As gémeas abriram a janela e gritaram:

 

- Maria Auguuuusta!

 

Ela parou logo a meio do caminho e olhou para cima:

 

- Ah! São vocês! Olá!

 

- Não quer subir?

 

- Eu?

 

- Sim! Se tem tempo, claro!

 

- Venha comer umas torradinhas durante o intervalo!

 

- Torradinhas? Até não era má ideia!

 

- Então suba! Suba!

 

Chico precipitou-se escada a baixo e abriu-lhe a porta, e os outros receberam-na cheios de entusiasmo. Ofereceram-lhe a melhor cadeira, puseram-lhe na frente uma pilha de torradas doiradinhas, compota, marmelada, e uma caneca de loiça com chocolate quente. Depois sentaram-se à volta da mesa, de braços apoiados no tampo e expressão ansiosa de quem quer perguntar, perguntar, perguntar até rebentar!

 

Maria Augusta sorriu-lhes, de forma compreensiva.

 

- Já percebi tudo, meus amigos. Querem saber coisas, não é? Eu também tenho um filho, mais ou menos da vossa idade, conheço essa expressão à légua! O que é que querem saber? Digam lá...

 

- Aaaa... - começaram todos ao mesmo tempo, desmanchando-se a rir logo em seguida.

 

- Calminha! Todos de uma vez não dá. Se eu vos desse a palavra, ha?

 

- Pode ser - disse a Teresa, tentando evidenciar-se para lhe darem a palavra em primeiro lugar. Mas o truque não funcionou. Maria Augusta virou-se para o Pedro.

 

- Tu, por exemplo, o que é que querias saber?

 

- Eu gostava de saber em que época se passa este filme.

 

- Este filme é no tempo das lutas liberais. Sabem o que foram as lutas liberais?

 

- Não! - responderam todos.

 

- Nós só demos História de Portugal até aos   Descobrimentos.   Mas   essas   lutas   acho que já ouvi falar, é depois dos Descobrimentos, não é?

 

Maria Augusta riu-se com gosto.

 

- Meu Deus! Tanta ignorância... Mas a culpa não é vossa, é de quem não vos ensinou! As lutas liberais foram no século XIX, e acabaram precisamente há cento e cinquenta anos.

 

- Ah!

 

- Mas que lutas foram, afinal?

 

- Bem, eu posso contar assim em duas palavras. Mas não é fácil, sabem, porque este período da História é tão rico que se torna difícil resumir.

 

- Mas tente, sim? - pediu a Luísa. - Já agora ficávamos a saber.

 

Maria Augusta barrou cuidadosamente uma fatia de pão com doce de framboesa. Deu uma trincadinha e comentou:

 

- Hum! Que delícia!... Bem, vamos lá a ver se consigo tornar esta explicação simples e interessante.

 

Encorajados pelo facto de a sua convidada lanchar com prazer visível, todos deram largas ao apetite. E foi mastigando alegremente torradas com doce, quadrados de marmelada e triângulos de queijo que se prepararam para ouvir a história.

 

- Vocês naturalmente não sabem que no princípio do século XIX os exércitos de Napoleão invadiram Portugal.

 

- Napoleão era imperador de França, não era?

 

- Era.

 

- Ah! Então já ouvi falar, quando estivemos na Quinta da Amendoeira (!)- E até sei que os portugueses escondiam as coisas mais valiosas dentro da parede, para os soldados franceses não levarem...

 

Maria Augusta sorriu:

 

- Sim senhor! Vocês sempre sabem mais do que eu julgava! Ainda bem.

 

- Mas conte lá.

 

- Bom, quando se soube que os exércitos franceses estavam a caminho, a família real portuguesa resolveu fugir para o Brasil, que nessa altura pertencia a Portugal, era uma colónia.

 

- Palavra? Que cobardolas!

 

- Não foi bem um acto de cobardia, sabes?

 

(’) Ver Uma Aventura nas Férias do Natal, 2.° volume desta colecção.

 

Naquela altura era impossível fazer frente aos soldados franceses e vencer. Assim, se os reis estivessem no Brasil, era como se Napoleão tivesse ocupado apenas uma pequena parte de Portugal, esta aqui da Europa. E Portugal continuava independente, do outro lado do oceano...

 

- Vistas as coisas assim, parece que nem foi má ideia!

 

- Pois não. Foi, digamos, uma estratégia.

 

- Mas e depois?

 

- Bom,   a história é muito comprida e complicada, mas eu vou dizer só o essencial: os portugueses que ficaram, ajudados por ingleses, conseguiram expulsar os exércitos de Napoleão de cá para fora. Mas a verdade é que, quando grupos de pessoas se encontram, mesmo que seja para lutar, acontece sempre uma coisa: transmitem-se ideias.

 

- Ideias?

 

- Sim, mesmo que se não queira, mesmo que não se faça de propósito. Naquela época os franceses espalharam por toda a Europa os seus ideais de liberdade e fizeram-no também através das invasões.

 

- Mas o que é que isso tem?

 

- Tem muito. E sabes porquê? Antes, os reis podiam governar só pela sua cabeça. O Poder estava absolutamente na mão do rei.

 

- E depois já não era assim?

 

- Não, as ideias de liberdade fizeram nascer em Portugal um movimento que se chamou movimento liberal. E houve uma revolução em 1820, para implantar essas novas ideias.

 

- Isso quer dizer que o povo já não queria mais reis?

 

- Não, mas queria que parte do Poder passasse para as mãos de representantes do povo; que o rei governasse conforme as leis escritas numa Constituição... E fez-se a primeira Constituição Portuguesa, em 1822.

 

- E o rei concordou? - perguntou o João, de olhos muito abertos.

 

- O rei estava no Brasil! - lembrou a Teresa.

 

- Pois estava, e teve de voltar. Era o rei D. João VI. Mas morreu pouco depois e então é que começou «a dança».

 

- A dança?

 

- Sim, a parte da História de que vocês vão gostar mais. Porque até aqui falei-lhes de ideias gerais. Agora vou passar ao concreto, que geralmente é mais empolgante. Ora digam cá, quando morria o rei o que é que acontecia?

 

- Subia ao trono o filho mais velho.

 

- Isso mesmo. Mas neste caso não podia ser assim, porque o filho mais velho do rei D. João, que se chamava D. Pedro, tinha ficado no Brasil, ajudara a tornar o Brasil independente e era agora imperador do Brasil.

 

- Não podia ser imperador do Brasil e rei de Portugal, de facto. Mas o rei D. João não tinha mais filhos?

 

- Havia outro, D. Miguel. Mas D. Miguel não aceitava as novas ideias do liberalismo nem queria governar apoiado numa Constituição.

 

- Então como é que se resolveu o problema?

 

- Foi complicado, sabes? E demorou. Se eu explicasse tudo agora era muito confuso. Mas, muito resumido, muito resumido, foi assim: o rei D. Pedro abdicou de ser imperador do Brasil, deixando lá o seu filho, e voltou para Portugal. O País dividiu-se ferozmente: uns a favor de D. Pedro e das novas ideias de liberdade, eram os liberais; outros a favor de D. Miguel e do governo centralizado nas mãos do rei, eram os miguelistas ou absolutistas. E depois de várias peripécias o País envolveu-se numa sangrenta guerra civil, que virou irmãos contra irmãos, pais contra filhos...

 

Aquela frase soou-lhes vagamente conhecida. E, sem querer, endireitaram-se todos com um mesmo movimento brusco. Maria Augusta não percebeu o porquê daquela reacção, mas, lendo-lhes no olhar um interesse ainda mais vivo, continuou, após uma pausa breve:

 

- Foram uns anos terríveis. E ora estavam vencedores os miguelistas ora os liberais. Morreu muita gente. Cometeram-se atrocidades de parte a parte. Foi um tempo de luta, de luta com ódio. Uns, que lutavam por acreditar mesmo nos seus ideais, com convicção, achavam que valia a pena tudo para os alcançar. Portanto, arriscavam a própria vida e matavam quem fosse preciso. Outros, nem percebiam bem ao certo por que é que estavam a lutar. Tomavam partido por D. Pedro ou por D. Miguel cegamente, sem raciocínio. E matavam os partidários do outro movimento, também sem raciocinar. Era possível, por exemplo, que uma pessoa, ou um grupo, fosse calmamente no seu caminho e, interceptados por assaltantes, acabassem todos mortos só porque eram miguelistas e os outros liberais... ou vice-versa. Morreu muita gente sem ser necessário. Foi tremendo.

 

- Por que é que não tentaram resolver a coisa a bem? - perguntou a Teresa, com uma grande ingenuidade. - Por que é que não fizeram eleições? Podiam votar, e ganhava a maioria!

 

Maria Augusta sorriu e franziu-se com uma expressão indefinível. Ficou uns instantes calada, e eles tiveram a sensação de que ela não sabia ao certo o que havia de dizer a seguir. Suspirou fundo, abanou a cabeça e prosseguiu finalmente, num tom de quem quer abreviar o assunto.

 

- Nem sempre é possível proceder como dizes, minha linda. Às vezes é preciso lutar. E estas foram então as tais lutas liberais, em que se baseia o filme.

 

- E quem é que ganhou?

 

- Os liberais. D. Miguel rendeu-se aqui precisamente, em Evoramonte, a 26 de Maio de 1834.

 

Teresa levantou-se, com as mãos apertadas de encontro ao peito e um olhar luminoso.

 

- Já sei! Os dois reis que eram irmãos! D. Miguel e D. Pedro... Vieram aqui, olharam-se frente a frente... e não foi preciso mais nada para que acabasse a guerra e se fizesse a paz! É isso! Era isso que ele queria dizer!

 

- Ele quem? - perguntou a Maria Augusta, admirada com aquela discursata incongruente.

 

- Não ligue, Maria Augusta! Isso foram as parvoíces do Lívio na outra noite...

 

E em poucas palavras Pedro explicou como Lívio os tinha assustado na noite da chegada. Ela achou um piadão!

 

- Aquele Lívio! - disse, com certa condescendência. - Está sempre a inventar maluqueiras.

 

- E as meninas perdem a cabeça com as maluqueiras dele! - resmungou o Chico.

 

- Ai, perdem, perdem! Nem vocês sabem até que ponto! Mas deixemos isso agora - disse a Maria Augusta virando-se para a Teresa.

- Tenho imensa pena de os desiludir, mas os dois irmãos não se encontraram.

 

- Ai, não?!

 

- Não. Mandaram os seus representantes aqui a Evoramonte assinar a convenção que pôs fim à guerra. D. Miguel enviou o general Azevedo Lemos. E D. Pedro mandou o duque da Terceira e o marechal Saldanha. A casa onde se encontraram, à entrada da vila, tem uma lápide a assinalar o facto.

 

- Oh, que pena! - disse a Luísa. - Era tão gira aquela ideia de dois irmãos se olharem frente a frente...

 

- Pois é, é tão gira que o Lívio exigiu que fosse assim no filme!

 

- Mas isso não é a verdade histórica, ele vai enganar o público! - reclamou o Pedro.

 

- Ele quer lá saber disso - riu a Maria Augusta. - Diz sempre que não é professor, e que quem quiser saber como foi que estude! E mais! Que fez um argumento para emocionar o público, e que o público só se emociona se vir os reis... Enfim, é lá com ele e com o realizador.

 

- Eu se pudesse mandava mudar isso declarou o Pedro.

 

- Olha, pois eu cá não. Deixava ficar os reis - respondeu a Luísa.

 

- Vês? «Cada cabeça, cada sentença!» brincou a Maria Augusta.

 

- Como é que se chama o filme?

 

- Ventos de Guerra - disse a Maria Augusta, levantando-se. - Gostei muito de estar aqui com vocês, mas tenho de me ir embora.

 

- Obrigadíssima pela visita!

 

- Adorámos!

 

Despediram-se todos no patamar, quando ela deu com a mão uma pancada na testa.

 

- Ah! Já me esquecia de vos dizer! Andei a averiguar e parece que vão mesmo contratar figurantes. O Lívio já falou ao realizador em vocês.

 

- Palavra? - perguntaram todos a uma só voz.

 

- Palavra!

 

As gémeas abraçaram-se, saltando e pulando desajeitadamente. Os rapazes fizeram uma certa troça, mas assim que a Augusta saiu deram também largas à excitação, cada um à sua

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maneira. O Chico pôs-se aos murros na porta, o João aos pontapés numa bola de papel, o Pedro ensaiou várias poses, acabando por reproduzir a figura de uma estátua de Lisboa, bem sua conhecida:

 

- Eu quero ser o Saldanha!

 

- E eu quero ser o tambor-mor!

 

O mesmo risinho na garganta, a mesma comichão na boca do estômago, fazia de cada um deles naquele momento a pessoa mais feliz do mundo. E após vários tipos de voltas e reviravoltas acabaram por se enlaçar todos no mesmo abraço, aos guinchos.

 

- Foi um dia em cheio! - exclamou o Pedro com satisfação.

 

- E ainda não acabou. Pode ser que nos reserve alguma espécie de aventura.

 

- Não tenhas ilusões, Luisinha. Por hoje acho que não acontece mais nada. Mas amanhã...

 

- Deixa-te disso. Ainda temos umas poucas de horas pela frente. Muita coisa pode acontecer.

 

Luísa distanciou-se um pouco do grupo, balançando o andar nos ténis novos, cor de morango, que tinha convencido a mãe a comprar-lhe.

 

Ao lanche entornara de propósito parte do chocolate quente em cima da roupa, para ter de se mudar. E foi à mochila buscar aqueles ténis, que ela adorava ao máximo. Se estava à beira de ser contratada para o cinema, o melhor era andar bem arranjada! Arranjada para dar nas vistas, como tinha dito o Lívio. Eram pensamentos que não ousava confessar a ninguém. Nem à irmã. De resto, não devia ser preciso.

 

O grupo descia a estrada calmamente, à conversa, para fazer um pouco de exercício. A equipa das filmagens tinha-se dispersado. Alguns juntaram-se para ir dar uma volta de automóvel; outros ficaram pelos quartos a descansar; outros ainda ocupavam-se a cuidar da sua sofisticada maquinaria.

 

Chico, que não podia estar quieto muito tempo no mesmo lugar, propusera um passeio até à parte baixa da vila, àquelas casas que ficavam fora das muralhas. A ideia agradou a todos e lá foram.

 

Caminhavam em fila indiana, pela berma, encantados com a paisagem. Dali, o Alentejo parecia outro, porque era visto de cima. A planície ganhava dimensão. Em vez de circularem ao nível das árvores, era como se planassem sobre aquela terra, riscada pela copa redonda das oliveiras, plantadas a direito, em linha, muito arrumadinhas.

 

Sentiam-se leves, contentes, a cabeça a estoirar de ideias e projectos.

 

- Como é que se chama este monte onde fica a vila? Sabes, Pedro?

 

- Deve ser Evoramonte! - interrompeu a Luísa, virando-se para trás.

 

- Que disparate! Evoramonte é a vila. Este pico redondo faz parte da serra de Ossa.

 

- Falou o sábio! - troçou Chico, arremessando para longe uma pedrinha que apanhara do chão.

 

- Vocês são muito engraçados! Estão sempre a perguntar-me coisas, e depois preferiam que eu não soubesse a resposta!

 

- Não é nada disso, sabes muito bem!

 

- Já não se pode brincar contigo, é?

 

- Oh! Claro que pode!...

 

No fundo, aquilo era falar por falar, sem significado. Conversa mole, como dizem os brasileiros.

 

Já estavam muito perto e resolveram dar uma corrida. Ao entrarem no larguinho de casas brancas, centro único da parte nova da vila, foram atraídos por um coro de vozes masculinas, que cantava:

 

Ó rama, ó que linda rama Ó rama da oliveira O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira.

 

Era um cantar bonito e forte, que enfeitava o entardecer. Uma ideia mal esboçada atravessou o espírito da Luísa, quando ouviu a segunda parte:

 

Que anda aqui na roda inteira Aqui e em qualquer lugar Ó rama, ó que linda rama Ó rama do olival.

 

- Estes versos, ou esta música, não sei bem, têm qualquer coisa a ver com esta paisagem...

 

- Ai tem, tem! - troçou o Chico. - Não sabias que só se pode cantar aqui? Se cantares noutro lado vais presa.

 

- És um bruto e não percebes nada. Ainda agora descemos o monte, com aqueles olivais todos na frente... Agora esses versos... Parecem-me próprios, acho que lhe assentam bem, fazem parte da planície... Olha, não sei explicar!

 

- Então não expliques, que ninguém se importa.

 

Chico aplicou um caldo amigável no pescoço da amiga e entrou na taberninha onde os homens cantavam. Eram quatro, velhotes, carecas. Jogavam cartas à volta de uma mesa, com os seus copitos de vinho na frente. Pareciam dispor de todo o tempo do mundo, tal o vagar com que faziam os mais pequenos gestos. Que contraste entre eles e a malta do cinema, sempre atacada de urgências.

 

As gémeas detiveram-se a olhá-los, mas Chico chegou-se logo ao balcão a pedir um sumol bem geladinho. Mesmo no Inverno, gostava das bebidas assim.

 

Como a loja estava mal iluminada, não distinguiram as feições de uma mulher ali presente.

 

- Então? Não se fala? - perguntou ela.

 

- Maria Augusta! Não a vimos! Ou melhor, não reparámos que era você!

 

- Eu sei. Traziam a luz do dia dentro dos olhos, não é? Quando se entra num sítio mais escuro não se vê logo tudo.

 

Augusta, encostada ao balcão, bebericava uma água mineral. A pilha de livros do costume estava poisada na mesa ao lado.

 

- Vim dar um passeio para desentorpecer as pernas e a caminhada fez-me sede.

 

- Também a nós.

 

- Olhem lá, há uma coisa que eu ainda não percebi - disse ela, entre dois golos. - Afinal o que é que vocês estão aqui a fazer?

 

- Nós? Aqui em Evoramonte?

 

As gémeas, atropelando-se como era hábito, lá explicaram a história das férias de Carnaval. Os rapazes ainda tentaram meter a colherada, mas em vão. Elas pareciam duas gralhas. Nunca mais se calavam, insistindo em relatar todos os pormenores.

 

- Pronto, pronto! Já percebi! Quer dizer que a mãe do Pedro nunca se sabe a que horas pode regressar. É isso?

 

-É, é.

 

- Então escutem lá, vocês querem jantar connosco?

 

- Ha? - foi a resposta geral. Parecia-lhes bom de mais o que acabavam de ouvir para acreditarem às primeiras.

 

- Sim! Naquela barraca tipo circo, onde estivemos há bocado, é que vai ser servido o jantar à malta toda. Sobra sempre imensa comida. Tenho muito prazer em que sejam meus convidados.

 

- Uaú! - gritou o Chico sem se conter.

 

- Vêem? Vêem como o dia ainda não tinha acabado? - perguntou a Luísa, virando-se para os amigos.

 

- Já percebi que aceitam - disse Maria Augusta. - Estejam lá em cima às oito em ponto. Eu agora tenho de ir andando.

 

Retirou várias moedas do bolso do casaco, pousou-as em cima do balcão e saiu com ar vagamente absorto.

 

- Porreiro! Vamos jantar com os actores!

- exclamou o Chico.

 

- E com o realizador! E com o realizador, que é muito mais importante para nós...

 

- Desta noite não passa! Vai-nos contratar!

 

- Não te ponhas com isso! - aconselhou o João.

 

- Queres uma aposta? - respondeu logo a Luísa.

 

- Olhem - disse o Pedro. - A Maria Augusta esqueceu-se da livralhada toda aqui! Vamos atrás dela!

 

Embora corressem para a porta imediatamente já não a viram em parte nenhuma.

 

- Onde é que ela se meteu? - perguntou o João, admirado. - Evaporou-se no ar, com certeza, para desaparecer tão depressa!

 

- Não faz mal - disse o Pedro. - Levamos os livros para cima e entregam-se à hora do jantar.

 

- Devíamos ir subindo agora. Daqui a nada escurece e não temos lanternas para iluminar a estrada.

 

- Acho bem - disse o Pedro. - E prefiro ir guardar estes livros em casa até logo. Era chato se perdêssemos algum.

 

O caminho de volta custou mais a fazer, pois a subida era bastante íngreme. Mas lá foram até casa e aí não fizeram outra coisa senão olhar para o relógio. O tempo arrastava-se com uma lentidão exasperante! Tão exasperante que resolveram sair de novo e percorrer as muralhas.

 

- Maria Augusta! Maria Augusta! - chamou o Pedro da entrada da tenda.

 

Ela fez-lhes sinal para entrarem, da cabeceira da mesa onde se tinha instalado para jantar.

 

- Que giro isto está assim! - disse a Luísa, olhando em volta.

 

Várias mesas rectangulares, encostadas umas às outras, estavam preparadas para a refeição que se ia seguir. Pilhas de fruta punham uma nota colorida nas toalhas brancas. Em volta circulava aquela gente, na animação do costume. Falavam e riam bastante alto, conscientes do seu próprio corpo, como se estivessem a ver-se ao espelho.

 

Lá ao fundo, o realizador conversava animadamente com a actriz principal e outra rapariga mais baixinha mas muito bonita também.

 

Um pouco intimidados, apesar de tudo, rodearam a Maria Augusta.

 

- Sentem-se aqui e estejam à vontade disse ela.

 

- Quem é aquela rapariga que está com o realizador e com a actriz principal? - perguntou o Chico.

 

- É uma actriz secundária.

 

- Que bonita!

 

- É bonita, é. E estou convencida de que se faz uma boa actriz à medida que ganhar experiência.

 

- Ela tem pouca experiência?

 

- Tem. Participou num documentário feito em Paris no ano passado, e agora entra neste filme. O realizador gosta muito dela mas ainda não lhe deu o papel principal.

 

- É verdade, por que é que o realizador é francês? - perguntou o Pedro.

 

- Porque este filme é uma co-produção luso-francesa.

 

- O que é que isso quer dizer?

 

- Quer dizer que é pago com dinheiro francês e português, e que é feito por franceses e portugueses.

 

- Ah!

 

- Como é que se chamam estas duas actrizes? - perguntou a Luísa.

 

- A principal é Valéria Dupont. É filha de mãe portuguesa e pai francês. A outra é Adélia qualquer coisa, não me lembro bem.

 

Alguns empregados espalharam pela mesa travessas de loiça com frangos assados e batatas fritas em quantidades industriais. As pessoas foram tomando os seus lugares e começaram a servir-se.

 

- Tudo tão apetitoso e eu quase já não tenho fome! - lamentou-se a Teresa.

 

- Não tens fome? Porquê?

 

- Olha, porque desde que me sentei tenho estado a comer pão caseiro com manteiga e tartex.

 

- Também eu.   Sinto-me   completamente embuchada!

 

- Eu cá por mim não tenho esses problemas - disse o Chico, servindo-se abundantemente.

 

- Vocês preferem perna ou peito? - perguntou o Pedro.

 

- Eu gosto de perna, de peito, de asa...

 

- Tu queres é comer, Chico. Que brutamontes !

 

- Eh, eh! Sou eu e a actriz principal! Aquela frase do Chico fê-los levantar os olhos para o canto onde Valéria Dupont estava sentada. Admirados, verificaram que ela tinha no prato um frango inteiro, ao qual arrancava lascas com uma expressão voraz. Já tinha as mãos todas engorduradas e a boca lambuzada como as miúdas pequenas.

 

- A...

 

João ia a começar uma frase mas suspendeu a meio, pensando que seria pouco delicado fazer comentários à maneira como os actores comiam. As gémeas, embora morrendo de curiosidade, também não ousaram dizer nada.

 

Seriam costumes da gente do cinema? De soslaio observaram a Maria Augusta. Também ela seguia com assombro as atitudes da actriz. E pelos vistos não era só ela. A pouco e pouco as conversas cessavam em redor, deixando de se ouvir o tilintar de loiças e talheres. Todas as cabeças estavam voltadas para o mesmo sítio. A única pessoa que continuava a comer, desvairada, sem se aperceber de que era o alvo de todas as atenções, era a bonita Valéria Dupont. O primeiro frango já tinha desaparecido, e ela atacava agora o segundo, alternando com batatas fritas às mãos-cheias. À volta dela a bagunça era incrível porque, como enchia de mais a boca, de vez em quando ficava aflita sem conseguir mastigar e tinha de beber água ou vinho para empurrar a comida. Além de peles e ossos de frango espalhados na toalha, havia já também manchas de água e vinho a alastrar.

 

- Mas que diabo vem a ser isto? - disse alguém ao lado deles.

 

- O que é que se passa com ela? - perguntou Maria Augusta à maquilhadora.

 

- Sei lá!

 

Ao silêncio inicial sucedeu um zunzum de comentários cruzados, a subir de tom. O realizador e o argumentista levantaram-se ao mesmo tempo e, um de cada lado, disseram-lhe qualquer coisa em voz baixa que não deu para entender. A reacção dela foi incrível. Levantou-se aos gritos:

 

- Deixem-me!   Deixem-me!   Deixem-me! Como um técnico de som tentasse segurá-la por um braço, ela deu-lhe um encontrão que, por inesperado, quase o virou de pantanas. E então foi o fim! Embalada na gritaria, largou ao murro e ao pontapé a torto e a direito, acabando por atirar duas carcaças de frango à cabeça do realizador...

 

As gémeas tinham feito sinal aos amigos por debaixo da mesa, e agora, passado o primeiro espanto, riam baixinho que nem umas perdidas.

 

- Esta gente é completamente doida! disse o Pedro com uma expressão tão cómica que o Chico não se conteve:

 

- Ah! Ah! Ah!

 

Aquela gargalhada sonora serviu para despoletar uma verdadeira onda de riso. E enquanto três homens dominavam Valéria e a levavam dali, o resto da malta ria, ria, ria a bandeiras despregadas.

 

- Ah! Ah! Ah!

 

- Oh! Oh! Oh!

 

A tenda parecia de facto um manicómio, com homens e mulheres agarrados ao estômago, que já doía, saltando nas cadeiras, dobrando-se sobre a mesa, rindo até às lágrimas.

 

As gémeas, estafadas, acabaram por escorregar para o chão e ali ficaram, aos soluços.

 

- Mas que coisa doida!

 

- Acho que tive uma paragem de digestão!

 

- E eu também! Parece que engoli pedras! O problema das gémeas devia ser geral.

 

Ninguém mais comeu grande coisa. O jantar acabou de uma forma bastante atabalhoada. A pouco e pouco, em grupos, foram saindo cá para fora. E o ar frio da noite a todos soube bem.

 

- Não consigo ir já para casa - disse o Pedro. - Se me deito agora não prego olho.

 

- Vamos dar um passeio a pé, aqui mesmo dentro das muralhas - propôs o João. - Eu também não queria ir já para a cama.

 

Devagarinho, foram andando por uma ruela bastante escura, de chão empedrado.

 

- Como é que vocês interpretam o que se passou?

 

- Sei lá, Teresa! Aquilo não tem interpretação possível.

 

- Ah! - disse o Pedro de repente, aplicando uma palmada na testa. - Esqueci-me.

 

- Esqueceste-te? De quê? - perguntaram todos.

 

- Dos livros! Os livros da Maria Augusta. Uma voz desconhecida interpelou-os:

 

- Vocês têm os livros da Maria Augusta? Voltaram-se admirados e deram de caras com o argumentista.

 

- Ai, que susto!

 

- O senhor tem a mania de aparecer assim...

 

- Eu? Eu já aqui estava. Vocês é que apareceram.

 

- Oh!

 

- Vocês têm os livros da Maria Augusta? - insistiu ele, chegando-se mais.

 

- Temos. Estão lá em casa. Ela esqueceu-se dos livros na taberninha e nós guardámo-los. Porquê?

 

- Porque... por nada!

 

- Diga lá - pediu a Teresa. - O que é que os livros têm de especial?

 

- Hum... é cá uma ideia.

 

- Conte, não seja chato!

 

- bom - começou ele. - Já mais de uma vez que ela se queixou de que lhe têm roubado livros, sabem? E aqueles têm muito que se lhe diga. Se há uma explicação para o que se passou esta noite ao jantar, essa explicação está nos livros...

 

- Nos livros?

 

- Sim, sim! Mas não falem disto a ninguém.

 

com o ar misterioso do costume, fez meia volta e desapareceu rua acima.

 

- Que gajo tão esquisito! - comentou o Chico.

 

- Aquilo que ele disse é tão estranho!...

 

- A resposta está nos livros... - murmurou o Pedro. - Se fôssemos para casa folheá-los, ha?


Assim que chegaram a casa desceram pelo alçapão, direitos ao canto do Pedro, onde os livros tinham ficado cuidadosamente guardados. Mas... alguém tinha estado ali.

 

- Meu Deus, tudo remexido! - exclamou o João.

 

- É espantoso! Quem será que fez isto?

 

- E para quê? Não havia nada que valesse a pena roubar!

 

- Os livros! - gritaram as gémeas em uníssono.

 

- Onde é que deixaste os livros, Pedro?

 

- Aqui! - disse ele, apontando o canto vazio.

 

- Que horror! O que é que a gente vai dizer à Maria Augusta?

 

Consternados, olharam uns para os outros. Não tinham a mínima ideia sobre o valor daqueles livros, mas pelos vistos deviam ser especiais para justificarem um assalto.

 

- O que é que vocês acham? - perguntou o Pedro. - O ladrão roubou os livros por serem raros e valiosos, ou porque contêm qualquer segredo, como diz o Lívio?

 

- Sei lá! A gente não pode acreditar naquele tipo assim às primeiras. Ele é tão exótico! respondeu o Chico.

 

- É exótico, é! Mas a verdade é que desapareceram.

 

- E depois?

 

- Depois? Depois é muito simples. Tem de haver alguma verdade naquilo que o Lívio disse.

 

- Ora, Luísa! O que ele disse é uma estupidez!

 

- Estupidez não!

 

- Estupidez sim! Como é que queres que o ataque de loucura da actriz principal tenha alguma coisa a ver com os livros de História da Maria Augusta? Há?

 

- Se eu soubesse não havia mistério nenhum!

 

- E não há!

 

- Há sim! Há! Há!

 

Luísa e Chico discutiram aos berros, irritadíssimos um com o outro. Teresa tentou acalmar a irmã, mas apanhou uma cotovelada no estômago.

 

- Ai, que me magoaste!

 

- Não te metas onde não és chamada.

 

- Eu só queria acalmar-te!

 

- Estou calmíssima! Não vês que estou calmíssima? - gritou a Luísa, vermelha de excitação.

 

- Pois   olha,   não   parece!   - troçou   o Chico.

 

- Acabem lá com isso...

 

- Não te metas tu também!

 

- Então berrem para aí à vontade - disse o Pedro, voltando-lhes as costas.

 

E, para fingir que não prestava atenção nenhuma ao que diziam, pôs-se a recolher peças de roupa que o assaltante atirara para ali ao acaso, quando rebuscava nas coisas dele à procura dos livros. Num gesto automático, abriu a mochila para guardar as coisas e tirou lá de dentro, espantado, uma saia.

 

- Esta agora!... Como é que uma saia das gémeas veio parar à minha mochila?

 

- Ha? - perguntaram logo as duas.

 

- Isto, olhem! Foram vocês que guardaram aqui a vossa roupa?

 

- Nós? Não! Claro que não!

 

Aquele assunto da saia vinha mesmo a calhar para acabar com a discussão. Nenhum deles confessou que se sentia aliviado, mas aproveitaram para mudar de tom.

 

- Vê lá se tens aí mais alguma coisa nossa - disse a Luísa, muito pressurosa. - Aí ou noutro lado. Ajuda-me a procurar, Chico.

 

Chico sorriu disfarçadamente e entrou no jogo. Pelos vistos a Luísa queria fazer as pazes, e era o melhor.

 

- Não vejo mais nada - disse ele. - Mas isto quer dizer que também mexeram nas vossas coisas lá em cima. Queres que eu vá ver se falta alguma coisa?

 

- Não vale a pena - disse o Pedro. - O que eles queriam eram os livros.

 

- Isso é o que falta provar - disse de repente o João, surpreendendo os amigos.

 

- O quê?

 

- Não era os livros que eles queriam.

 

- Por que é que estás a dizer isso, João? perguntou a Teresa, aproximando-se dele.

 

- Porque os livros estão ali! - respondeu ele, apontando para debaixo do saco-cama do Chico.

 

Olharam todos naquela direcção. E precipitaram-se logo em seguida a apanhá-los, com muitos ah! e oh!

 

O que seria que os ladrões queriam, afinal?

 

As gémeas juntaram os livros um a um, empilhando-os em cima da cadeira.

 

- Que sensação esquisita! - disse a Teresa. - Não sei se devo sentir-me aliviada ou não!

 

- Porquê?

 

- Porque se não roubaram isto roubaram outra coisa.

 

- Infelizmente não é assim - disse o Pedro.

 

- Ha?

 

- Fui eu quem trouxe os livros para aqui continuou ele. - Não estão todos. O ladrão levou pelo menos um certo dossier preto, bastante grosso.

 

- Viste o que tinha esse dossier?

 

- Não reparei bem, mas parece-me que eram fotocópias.

 

- Fotocópias, Pedro? Isso é que não pode ter valor nenhum!

 

- As fotocópias em si, claro que não. Mas tudo depende do conteúdo. Talvez o que lá estava escrito fosse importante.

 

- Sabem o que é que eu acho? - disse a Teresa. - Acho que devíamos procurar o Lívio e obrigá-lo a explicar-se melhor. Ele deve saber alguma coisa com interesse para desvendar este mistério.

 

- Talvez   tenhas   razão - concordou   o Chico.

 

- Ah! - fez a Luísa com ar malandro. Então sempre concordas que há um mistério para desvendar...

 

- Não comecem... - pediu o João.

 

- Fica descansado que não há mais gritos. Eu dou o braço a torcer. Luísa, tinhas razão. Há um mistério e vamos desvendá-lo juntos.

 

Luísa riu-se, satisfeita.

 

Na manhã seguinte decidiram levar a cabo o projecto de procurar o argumentista e obrigá-lo a falar.

 

- O melhor é separarmo-nos - propusera a Luísa.

 

- Achas? A vila é tão pequena que depressa o encontramos. Basta dar uma volta por aí disse a Teresa.

 

- Não! Eu concordo com a Luísa. Pode ser que ele não esteja na vila, e seja preciso ir lá abaixo à parte nova.

 

- Bem, então está bem. Como é que nos dividimos?

 

- Nós vamos as duas.

 

- Rapazes para um lado, raparigas para o outro?

 

- Pode ser.

 

Antes de saírem combinaram ainda que quem encontrasse o argumentista não lhe contava nada e procurava levá-lo até casa. O «ataque» devia ser feito na presença de todos, pois certamente seria mais eficaz.

 

Parte da equipa de filmagem estava a filmar no interior do Paço de Homenagem, e os que não eram lá precisos deambulavam por ali. Estava mais fresco, e qualquer coisa indefinível na cor do céu, no cheiro do ar, indicava mudança de tempo. No entanto, aquela paisagem soberba atraía as pessoas, e vários membros do grupo descansavam em pontos estratégicos, espraiando os olhos pelos campos em redor.

 

Uma silhueta conhecida chamou a atenção das gémeas.

 

- Olha ali em cima a actriz secundária. Como é que ela se chama?

 

- Adélia.

 

- Se fôssemos falar com ela? Talvez saiba por onde anda o argumentista.

 

- É boa ideia.

 

Para lá se dirigiram, muito despachadas. A Teresa meteu conversa, mas a reacção da rapariga foi absolutamente inesperada. Olhou-as de alto a baixo com ar superior e fez de conta que não entendia o que diziam. Perplexas, as gémeas hesitaram. Seria francesa?

 

- Qu’est-ce que vous voulez? - perguntou ela, com uma sobrancelha erguida.

 

- Ah! - disse a Luísa para a irmã. - Não percebe o que dizemos. Só fala francês...

 

- Tem graça, ontem quando a Maria Augusta nos falou desta actriz não fiquei com a ideia de que fosse francesa. E tu?

 

- Também não. Tanto mais que se chama Adélia.

 

- Pode ser Adéle...

 

- Que pena! É uma chatice não falarmos todas a mesma língua, não achas?

 

- Acho. Mas como não falamos, o melhor é ir embora procurar outra pessoa - disse a Luísa, muito prática.

 

A rapariga, após outra mirada sobranceira, tinha-se desinteressado completamente das gémeas e voltara a olhar a paisagem. Era bonita a valer. Mas aquela sim, parecia bem vaidosa. Embora não comentassem entre si, as gémeas pensaram o mesmo: que ela não estava a ver coisa nenhuma, mas sim a ensaiar poses! O mais certo era ter a esperança de que alguém a observasse de longe e a achasse linda.

 

- Que mulher tão irritante! - disse a Teresa entredentes, quando já se afastavam.

 

- Uf! Que parva!

 

- Que peneirenta! Não gosto nada dela...

 

Como caminhavam de cabeça baixa verificaram que o empedrado irregular daquela rua se prestava muito bem para o jogo do costume: só pisarem uns sítios e não pisarem outros.

 

- Vamos jogar? - perguntou a Luísa.

 

- Vamos, pisa só nas pedras brancas... com todo o cuidado, avançaram em bicos de pés, os braços ligeiramente afastados do corpo para manterem o equilíbrio.

 

- Aí não vale, essa pedra é cinzenta! gritou a Teresa.

 

- Vale, vale! É a mais branca de todas!

 

- Não é nada! Tens de saltar!

 

Teresa deu um pulo para a frente, tentando equilibrar-se numa pedra mais clara.

 

- O que vem a ser isto? - perguntou uma voz conhecida. - Estão a treinar para o circo?

 

- Você tem a capacidade de se tornar invisível, com certeza! - resmungou uma.

 

- De onde é que apareceu? - perguntou a outra.

 

- Tal como disse a tua irmã, tenho a capacidade de me tornar invisível! - declarou ele, com um brilho malicioso nos olhos, que ainda ficaram mais azuis.

 

- Oh!

 

- Oh, não! Tenho vindo a segui-las há horas, mesmo ao vosso lado - continuou ele. Ora venham cá.

 

Agarrou-as pelos ombros e disse em voz baixa, como se fosse um grande segredo.

 

- Vocês não são igualzinhas. Há uma coisa muito simples que as distingue...

 

- Como é que sabe? - perguntou a Luísa.

 

- Eu? Eu sei tudo!

 

- Ai, sabe? Então diga lá o que é que nos distingue.

 

- Não digo. É um segredo a ficar entre nós.

 

- Você não diz porque não sabe. Está a fazer bluf.

 

Lívio riu-se e soltou-as.

 

- Ninguém consegue enganar estas cabecinhas iguais, ha?

 

Elas riram-se também. O tipo era chanfrado, mas tinha graça. E era um grande borracho, de facto!

 

- Olhe lá - começou a Luísa -, nós precisávamos de falar consigo.

 

- Lívio! Lívio! - interrompeu uma voz esganiçada.

 

As gémeas voltaram-se para trás, admiradas. Afinal como era? A parva da actriz secundária já lá vinha, aos pulinhos, toda derretida. E falava português perfeitamente.

 

- Olá, Adélia! Por onde é que andaste?

 

- Eu? Estive ali a ver a paisagem. Uma pessoa não se cansa de olhar para estes campos. É tão repousante!

 

- Mentirosa - rosnou a Luísa baixinho.

 

- Não entras na cena que estão a filmar? perguntou ele.

 

Ela fingiu-se amuada.

 

- Não! Bem podias ter-me incluído neste pedaço da história. Adorava aparecer naquelas salas lindíssimas do Paço de Homenagem.

 

- Sabes por que é que não o fiz? Porque eu quero que todos vejam as colunas magníficas, os tectos em ogiva, os capitéis trabalhados. Se tu lá estivesses ninguém reparava em nada senão em ti!

 

Ela sorriu, muito dengosa, e agarrou-lhe um braço.

 

- Lá estás tu com essas coisas... Pareciam ter-se esquecido da presença das gémeas, que, irritadíssimas, resolveram ir-se embora. Não valia a pena tentar convencê-lo a acompanhá-las até casa porque, ocupado a namoriscar aquela estúpida, dali não arredava pé tão depressa.

 

Um pouco adiante ainda se voltaram para trás. O parzinho estava agora sentado debaixo do arco de uma igreja.

 

- Olha para ele! - disse a Teresa. - Deixar-se embeiçar por uma pedante daquelas...

 

- Ela,   também,   agarra-se com unhas e dentes...

 

- Vamos embora ter com os rapazes. Talvez logo à tarde seja possível falar com o Lívio.

 

- Achas que eles já regressaram?

 

- Hum, é natural.

 

De facto, os rapazes esperavam-nas à porta, na maior excitação. Falavam os três ao mesmo tempo, gesticulando muito. O João saltitava ora num pé ora no outro. O Chico tinha duas rosetas encarnadas nas bochechas.

 

- Sensacional!   Sensacional!   -   dizia o Pedro.

 

- Ei! O que foi que vos aconteceu? - perguntou a Teresa.

 

- Adivinhem!   -   gritaram   os   três,   ao mesmo tempo.

 

- Não sei, digam lá.

 

- Temos entrevista marcada! - disse o Pedro, radiante. - Logo à tarde vamos falar com o realizador.

 

- E nós?

 

- Vocês também podem vir - explicou o Chico, com ar condescendente. - Mas só para ver quem é que ele escolhe...

 

- Porquê? - refilou a Luísa.

 

- Porque ele precisa de dois rapazes para um pequeno papel.

 

- Ah! - disseram as gémeas com um sorriso contrafeito. - Sendo assim...

 

- Pois é! - Pedro estava animadíssimo.

- O pior é que nós somos três!

 

- Quem é que ele irá escolher?

 

- Logo se vê!

 

- Que sorte que vocês têm!

 

- Calma,   Teresa.   Por enquanto   só   está previsto que dois tenham sorte. Um de nós vai ficar tristíssimo...

 

- Ora! Terá de saber perder com desportivismo!

 

Muito antes da hora marcada já estavam todos a postos para a conversa com o realizador. Qual deles seria escolhido? Para disfarçarem o nervosismo falavam de tudo menos disso.

 

- Não tarda muito começa a chover - disse o Pedro, fingindo-se interessadíssimo nas nuvens cinzentas que se iam amontoando no horizonte.

 

- Se chover têm de parar as filmagens respondeu o Chico.

 

- Podem continuar, com os interiores. Esta cena agora, por exemplo, vai ser quase toda lá dentro, na casa onde foi assinada a Convenção.

 

- Há uma coisa que eu não percebo - disse o Chico. - Por que é que os reis vieram assinar a Convenção nesta casinha, em vez de irem à torre?

 

- A Maria Augusta já me explicou, a mim e à Luísa. É que a torre naquela altura estava em ruínas. O encontro entre os representantes dos reis foi aqui, na casa onde vivia o médico de Evoramonte.

 

- Mas então como é que estiveram a filmar cenas dentro da torre?

 

Ora! Ou arranjaram tudo de modo a parecer que está em ruínas, ou foi uma daquelas fantasias do Lívio, que não se rala nada com a verdade histórica.

 

- Aquele gajo é mesmo cómico! Não se rala com a verdade histórica, e ontem fez uma cena porque queria aqui a verdadeira mesa em que foi assinada a Convenção. Teve de vir emprestada do Museu de Estremoz.

 

- Olhem agora, que giro. Estão a filmar a entrada do rei...

 

- Só queria saber como é que os fios eléctricos não vão ficar no filme.

 

- Isso é só uma questão de enquadramento

- disse o Pedro, com ar entendido. - Estive a falar com o cameraman e ele explicou-me.

 

- Esse é bem simpático, não é?

 

Os rapazes procuravam mostrar-se calmíssimos; só que uma roseta encarnada em cada bochecha era um indício claro da sua ansiedade. As gémeas é que não aguentaram mais e abordaram o assunto:

 

A verdadeira mesa em que foi assinada a Convenção está reproduzida na página 123.

 

- Afinal a que horas é que ele vos recebe?

 

- Daqui a nada.

 

- O que é que vocês sentem neste momento? - perguntou a Luísa, olhando-os bem nos olhos, com a maior desfaçatez.

 

- O que é que sentimos? Sei lá!... - respondeu o Chico desviando o olhar para outro lado.

 

- Eu calculo! - disse a Teresa. - Cada um de vocês está a pensar assim: «Deus queira que seja eu, Deus queira que seja eu...»

 

- Não sejas parva!

 

- É ou não é? Vá, confessa!

 

- E se fosse? - perguntou o João de queixo no ar.

 

As gémeas riram-se:

 

- Era o mais natural!

 

A conversa foi interrompida pela chegada da assistente de realização. Simpática como de costume, trazia uma camisola grossa de lã beije e os mesmos jeans apertadíssimos.

 

- Como vêem não os enganei, ha? Sempre são preciosos figurantes!

 

- Quando é que ele nos recebe? - perguntaram em coro, rodeando-a.

 

- Agora. Ele vem aí, olha para vocês... e depois diz qual é que quer.

 

- Só assim, sem falar connosco?

 

A rapariga sorriu e passou o braço à volta dos ombros do João:

 

- Os realizadores *de cinema são geralmente pessoas muito especiais, sabes?

 

Olharam para ela sem perceberem bem o que lhes queria dizer. Mas nenhum deles abriu a boca.

 

- Bom... - continuou a rapariga. - Ser realizador é qualquer coisa de especial, é um cargo importante...

 

Parecia vagamente embaraçada. Luísa não resistiu e desfechou:

 

- O realizador é um vaidosão que não se digna a falar com os figurantes, é isso?

 

Ela deu uma gargalhada gostosa e exclamou:

 

- Oh, que idades magníficas! Quem me dera ser da vossa idade, para poder dizer tudo o que penso na cara das pessoas.

 

- E por que é que não diz?

 

- Hum! A vida complica-se bastante depois dos quinze anos, sabes?

 

E com uma festa amigável na cabeça de Luísa, concluiu:

 

- Bom, vamos deixar-nos agora de filosofias, sim? Dentro de momentos o realizador sai daquela porta, olha para vocês e o mais natural é que me diga, a mim, qual de vocês deve fazer o teste.

 

- O teste?

 

- Claro! Uma pessoa pode servir para um papel à primeira vista e depois verificar-se que não dá. Tem de fazer um testezito rápido.

 

- Mas como é o teste?

 

- É ser filmado.   Dizem-vos para fazer qualquer coisa, rir ou chorar, ou dizer uma frase. Filmam, e depois logo se vê...

 

Os rapazes sentiram um frio no estômago. A ideia de um teste, não sabiam bem porquê, era aterrorizante! E a essa sensação desagradável juntou-se uma espécie de nó na garganta quando viram o realizador surgir à porta e fazer sinal à assistente.

 

Era um homem de estatura média, com uma cabeleira tão farta que quase parecia um capachinho. Usava óculos escuros, muito escuros, provavelmente de propósito, para não se perceber para onde é que ele estava a olhar e em que é que estava a pensar. Fosse por isso ou por outra coisa, a verdade é que os óculos impediam a comunicação.

 

Fascinados, seguiram-lhe todos os movimentos e, embora estivessem bastante perto, era como se estivessem longe, muito longe.

 

«Não há dúvida de que este homem sabe criar uma distância entre ele e os outros», pensou o Pedro.

 

- Já nem sei se gostava de ser escolhido murmurou o João. - Não sei porquê mas ele mete medo...

 

A rapariga já lá vinha, gingando, toda satisfeita. E eles verificaram que o realizador não esperou nem um minuto! Virou as costas e entrou de novo na casa onde decorriam as filmagens.

 

- Pronto, amigos! Para já ele quer que as gémeas façam testes.

 

- Nós? - perguntaram as duas, espantadas.

 

- Mas não era um papel para dois rapazes?

 

- Era. Era e é. Mas vocês podem perfeitamente fazer papel de rapazes.

 

Num impulso, as gémeas abraçaram-se. Era uma sorte tão inesperada! Mas depois lembraram-se quanto os amigos deviam estar decepcionados e viraram-se para eles:

 

- Bem... - começou a Luísa.

 

- É preciso saber perder com desportivismo, não foi o que disseste? - perguntou o Pedro, tentando mostrar-se à altura. Só que lia-se-lhe na cara um grande desapontamento.

 

- Vocês com certeza vão recusar-se a fazer o teste, não vão? - perguntou o Chico.

 

- Recusar? Estás parvo?

 

- Qual é a ideia?

 

- É que ainda há bem pouco tempo vos ouvi dizer que odiavam tudo o que fossem máscaras... Ora para entrarem neste filme têm de se mascarar.

 

- Mas é completamente diferente! – disse logo a Teresa.

 

- Não tem comparação!

 

- Porquê? Eu cá acho que é a mesma coisa. Pedro meteu-se na conversa:

 

- O Chico tem razão, sabem? Vocês vão ter de se mascarar, mascarar duplamente: de rapazes, e de rapazes do século XIX. Como não gostam, o melhor é desistirem!

 

- Isso é conversa fiada! - respondeu a Luísa, encolhendo os ombros. - Eu cá por mim não desisto. Vocês querem é convencer-nos, mas não têm sorte nenhuma.

 

Os rapazes riram-se:

 

- Claro! Claro que não desistem, eu já sabia!

 

- Estávamos só a brincar...

 

- Então, meninas! Vamos ao teste?

 

- Vamos! - disseram logo as duas, prontamente.

 

- Podemos assistir?

 

- Podem. Venham daí.

 

- O teste! O teste! O teste! - repetiu a Luísa, saltitando de contente.

 

E o teste foi qualquer coisa de memorável para todos. Primeiro, as gémeas tiveram de andar de um lado para o outro, na frente das câmaras. Depois mandaram-nas rir, chorar, dizer adeus, dizer olá... E o melhor foi que, passado o primeiro impacte, ambas descobriram que tinham imensa facilidade em representar. O rapaz que filmava piscou o olho à assistente de realização e fez um comentário elogioso:

 

- Sim senhor! Estas duas atrevidas vão longe!

 

- Eu logo vi que iam ser um sucesso disse a rapariga, amorosa como sempre.

 

Teresa e Luísa coraram de felicidade. Ambas pensavam o mesmo naquela altura: talvez um dia pudessem vir a representar a sério, ter um papel importante num filme qualquer. A assistente de realização virou-se para elas e foi como se lhes tivesse lido os pensamentos:

 

- Quem sabe se têm futuro no cinema, ha?

 

- Ah... Eu gostava!

 

- E eu também!

 

- Isto é que foi um dia cheio de surpresas, não foi? - disse ela, já a caminho da porta daquele estúdio improvisado.

 

Só que a maior surpresa ainda estava para vir! Um homem apareceu a correr, esbaforido:

 

- Esperem! Esperem aí!

 

- O que foi?

 

- É preciso fazer mais testes.

 

Aquela frase fez com que todos arrebitassem as orelhas.

 

- Ha?

 

- Sim. O realizador quer que façam testes também aos rapazes.

 

- Para quê? - perguntou o Pedro, dando um passo em frente.

 

- É preciso mais figurantes.

 

Parecia bom de mais para ser verdade! As gémeas atiraram-se ao pescoço dos amigos sem cerimónia.

 

- Bestial! Vamos todos entrar no filme!

 

- Calma - disse o técnico. - Só podem ter a certeza depois de mostrarem o que valem aqui para a minha câmara de filmar...

 

- Claro! Mas eles são sensacionais, vai ver - declarou a Luísa, muito confiante.

 

- De que tipo de figurantes é que o realizador precisa? - perguntou o Pedro, curioso.

 

- Precisa de mendigos. Pelo menos três mendigos.

 

- A pedir esmola? - interrompeu o João, de olhos arregalados.

 

- Para aí, não sei! Ou vagabundos. De qualquer modo preparem-se para aparecer no écran bem esfarrapados. Havia muita miséria naquela época.

 

- Não está mal, ó Pedro, há? Para quem queria ser o marechal Saldanha!... - brincou a Teresa.

 

- Deixa lá, o que eu quero é aparecer no écran, mesmo esfarrapadinho e tudo.

 

- Atenção,   malta!   Deixem-se   agora   de conversas que eu tenho mais que fazer. Vamos começar o teste?

 

Fez-se silêncio.

 

- Quem quer ser o primeiro?

 

- Eu! - disse o João, avançando. - O que é que quer que eu faça?

 

Finge que te sentes mal.

 

Para grande espanto de todos, João contorceu-se imediatamente, como se estivesse perdido com dores de estômago. Depois deu dois passos para a frente e declarou:

 

- Agora tenho dores de dentes...

 

De expressão franzida, levou a mão à bochecha, gemeu baixinho, balançou a cabeça com tanta convicção que até ficou pálido! O teste acabou com tudo às palmas.

 

- Bravo! Bravo! João!

 

- Nunca pensei que tivesses tanto jeito!

 

- Nem eu! - disse ele, embaraçado com os cumprimentos mas muito feliz.

 

- Falta o Pedro e o Chico.

 

- Vamos lá a ver se também se desenrascam!

 

Pedro tossicou para aclarar a voz.

 

- O que é que querem que eu faça? Naturalmente não tenho muito jeito, mas vou tentar.

 

A sensação de fazerem parte daquela equipa era absolutamente incrível.

 

- Sinto uma coisa porreira aqui dentro dissera o Chico, espalmando a mão no peito. Parece que vou levantar voo!

 

- É como se fôssemos balões cheios de gás, não é? Acho que podia elevar-me no ar, no ar, no ar!

 

Luísa correu diante dos amigos, com os braços erguidos, inspirando de boca aberta o ar frio da tarde, que lhe fez comichão na garganta.

 

- Pareces uma maluquinha, Luísa! - disse o Pedro, que tentava conter-se.

 

Ainda estava abananado com os últimos acontecimentos. O teste dele tinha sido, sem dúvida, o que correra pior. Houve um momento até em que pensou desistir. Mas a rapariga e o técnico foram estupendos.

 

- Nunca mais hei-de esquecer como aqueles dois me ajudaram - disse ele aos amigos, recordando a paciência e a calma com que ambos tinham conduzido a sua actuação.

 

- Ela, sobretudo! E disse coisas em que eu nunca tinha pensado, sabes?

 

- O quê, por exemplo?

 

- Que depois de uma pessoa fazer qualquer coisa muito bem é natural que os outros fiquem inibidos. O que prejudicou o Pedro foi ser a seguir ao João.

 

- Achas que é mesmo assim? Ver os outros fazer coisas bem feitas até pode servir de incentivo.

 

- Eu cá por mim acho que umas vezes ajuda outras desajuda! Depende de muitos factores.

 

- É! Depende... e este até era um tema giro para debater numa aula - disse o Pedro, já a imaginar-se nas aulas de Português, a fazer uma proposta originalíssima, quando a professora pedisse sugestões de temas para debate.

 

- Lá estás tu, sempre a pensar no mesmo. Aulas! Aulas! Estamos em férias, Pedro! E acabámos de ser contratados, todos, para entrar num filme!

 

Luísa acabou a frase quase a gritar.

 

- Entrar num filme! Entrar num filme! berrou então a Teresa. - Vamos correr! - e disparou pela rua a cima, dando largas à sua alegria.

 

Os outros seguiram-na, correndo também, cada um o mais depressa que podia, de novo possuídos pela sensação magnífica e tonta de que podiam voar...

 

O resto da tarde foi passado quase todo assim, a correr de um lado para o outro, sem destino, aos guinchos, aos pulos. Não havia dúvida de que precisavam de queimar energias. Mas acabaram por se cansar. E, não conseguindo afastar-se por muito tempo daquela gente e daquela maquinaria fascinante, lá se foram infiltrando para assistir a mais um pedaço das filmagens.

 

- Ficamos aqui sem fazer barulho, para não correrem connosco - disse a Teresa em voz baixa.

 

- Então começa por te calares tu!

 

- Schut!

 

- ACÇÃO! - gritou o realizador, ouvindo-se logo de seguida a pancada seca da claquete: «CLAC!»

 

Àquela voz de comando respondeu um silêncio absoluto. A actriz principal entrou, pela esquerda, com um passo decidido. Parecia muito segura de si.

 

«E que bonita!», pensaram os rapazes.

 

Só que, para estupefacção geral, em vez de dizer a frase prevista no guião, deu um grito:

 

- QUERO UMA EMPADA!

 

O realizador levantou-se, furioso. Os técnicos suspenderam as suas actividades e durante alguns segundos ficaram imobilizados de espanto.

 

- Que vem a ser isto? - murmurou o outro actor em cena.

 

- OUVIRAM? QUERO COMER! QUERO UMA EMPADA!

 

Só o cameraman continuava a filmar, como se não fosse nada com ele.

 

- Coupez - gritou o realizador, de braço erguido.

 

- Corta! - traduziu a assistente, embora não fosse necessário.

 

- O que é que ela tem?

 

- Fome... - disse alguém, com ar irónico.

 

A actriz parecia louca. Gritava, esbracejava, levou mesmo a mão à cabeça e quase arrancou a cabeleira postiça.

 

- Ajudem! Ela teve outra crise! - pediu um técnico que tentava segurá-la. - Não vêem que preciso de ajuda?

 

Foram precisos de novo vários braços para a aguentar. E, meio desmaiada, foi dali ao colo para a enfermaria. O realizador saiu para a rua, atirando a porta com força. E eles aproveitaram para se misturarem com o resto do pessoal, que comentava o facto com grande perplexidade.

 

- Mas o que é que ela tem?

 

- Nunca vi uma coisa assim...

 

- As actrizes são todas doidas - declarou um dos carpinteiros. - Eu estou farto de ver coisas destas e até pior!

 

- Será assim, será! Há muita gente doida por aí. Mas olha que esta foi sempre uma rapariga equilibrada. Nunca a vi fazer cenas parvas!

 

- Hum! - o carpinteiro encolheu os ombros, céptico.

 

- Palavra! É uma rapariga amorosa e perfeitamente normal!

 

- O que é que aconteceu? - perguntou o argumentista,   que   entrou   naquele   momento acompanhado pela Maria Augusta.

 

- Foi a Valéria. Teve outro ataque - explicou prontamente a Luísa. - Pôs-se aos gritos que queria uma empada.

 

- Uma empada? Tens a certeza?

 

- A sério! Toda a gente aqui ouviu. Maria Augusta ficou pensativa. Sentou-se num banco, sempre abraçada a uma data de livros, com o olhar perdido no vago. Parecia esquecida da presença dos outros, que continuavam a discutir o assunto sem chegar a nenhuma conclusão.

 

- Teresa e Luísa, depois de girarem em volta, recolhendo opiniões diversas daqui e dali, olharam para ela e estranharam que continuasse no canto sozinha.

 

- Maria Augusta! - chamou a Luísa.

 

- Ha?

 

- Está a sentir-se mal, também?

 

- N...ão! - balbuciou ela. - Não, estou óptima.

 

- Mas olhe que não parece.

 

- Estou preocupada, só isso. Aqui há qualquer coisa que dá que pensar.

 

Os rapazes, entretanto, aproximaram-se também, e Pedro aproveitou para fazer a pergunta que lhe queimava os lábios:

 

- Acha que os seus livros têm alguma coisa a ver com estes ataques da actriz principal? - perguntou a medo.

 

- Por que é que pões essa hipótese? Alguém te sugeriu isso?

 

- Para dizer a verdade, foi o Lívio que disse qualquer coisa no género, naquela noite em que jantámos convosco.

 

Maria Augusta pareceu hesitar um instante mas depois decidiu-se:

 

- Isto aqui está muito confuso, meninos. Venham comigo dar uma volta, tomar um refresco. Conversamos melhor noutro sítio.

 

Ninguém se fez rogado. Em silêncio, seguiram-na até à casa de uma velhota, lá para os lados da Igreja da Misericórdia. Várias pessoas da vila tinham cedido quartos para o pessoal do cinema se instalar. Maria Augusta tinha tido sorte, pois o quarto que lhe coubera era dos melhores.

 

- Estejam à vontade, hã? Eu vou ali à cozinha buscar sumos, que estamos todos a precisar!

 

- Obrígadíssimo! - disse o Pedro. - Não sei se foi do nervoso, mas tenho a garganta seca!

 

- Também eu, também eu!

 

- Quer ajuda? - perguntou a Luísa.

 

- Não, deixem-se aí ficar, que a dona da casa não gosta de barafundas. Eu venho já, não demoro.

 

De facto não demorou. Daí a nada estavam todos a chupar por uma palhinha colorida sumo de laranja bem gelado e delicioso! Maria Augusta bebeu dois copos de enfiada e depois respirou fundo.

 

- Quando me devolveste os livros, Pedro, deste pela falta de um dossier preto, lembras-te?

 

- Sim, lembro.

 

- Esse desaparecimento tem-me preocupado bastante, mas confesso que não sabia o que havia de fazer...

 

- Tinha alguma coisa importante?

145

- Tinha, sim. Era ali que eu guardava fotocópias de um livro muito antigo, com receitas! de venenos. !

 

- Receitas de venenos? Para quê?

 

- Receitas de venenos também fazem parte da História, meus amigos. Venenos e outras coisas, como poções mágicas, mezinhas...

 

- Ó Maria Augusta! Não posso imaginar que uma pessoa evoluída acredite nessas coisas - disse o Pedro.

 

- Pedro, Pedro! Não é uma questão de acreditar ou não acreditar. Essas coisas existiram. Antigamente, quando as pessoas estavam doentes, tratavam-se com mezinhas variadas, Chá de laranjeira para os nervos, pão ensopado em vinho e coberto com canela para fortalecer, papas de linhaça para a tosse... eram remédios caseiros. Se a doença não era grave, às vezes até faziam efeito. E é interessante saber de que produtos se socorriam os nossos antepassados. Alguns são a base de medicamentos modernos.

 

- Está bem, mas poções mágicas é uma treta!

 

Claro que é uma treta. O que é giro é ler aquelas páginas e ver como as pessoas estavam convencidas de que resolviam os seus casos de amor com o sangue de uma galinha preta, morta em noite de luar... ou com um trevo de quarto folhas colhido de madrugada. Tem interesse para estudar a mentalidade das pessoas, entendes?

 

- Isso entendo. Não vejo é relação nenhuma entre essas fotocópias e os ataques da actriz!

 

- Ai, eu vejo muito bem! - disse logo Luísa. - A pessoa que roubou o dossier encontrou um veneno ou uma poção mágica fácil de preparar e... - Luísa levantou-se. Rebolou os olhos, mexeu um caldeirão imaginário, provou um líquido também imaginário e acrescentou:

- Depois fez com que a actriz tomasse umas colheradas e pronto! Ela teve aqueles ataques.

 

- Olha lá, Luísa, por que é que tu não escreves um romance? Tens cá uma imaginação!

 

- E hei-de escrever um dia.

 

- Sabes o que é que parecias há bocado? - perguntou o Chico. - Uma bruxa.

 

- Era isso mesmo que eu queria parecer, sabes? - disse ela, toda contente. - E pelos vistos consegui.

 

- A ideia é engenhosa - declarou o Pedro. - Só não te lembraste de uma coisa.

 

- O quê?

 

- Quem quereria pôr a actriz a fazer figuras de parva e a comer à bruta, que nem um animal?

 

- Quem é que ganhava com isso? Sim, quem é que ganhava com isso? - repetiu o Chico. - Sem motivo, a tua história é uma estupidez.

 

- Não é bem assim - interrompeu a Maria Augusta. - A verdade é que, como vocês mesmos contaram, alguém foi à vossa casa rebuscar tudo. E no fim de contas levaram o meu dossier, não foi?

 

- Foi.

 

- Esse   dossier   continha   exclusivamente receitas de venenos, poções, mezinhas. E já várias vezes tinha desaparecido sem eu perceber como.

 

- Pois! O Lívio também nos disse isso.

 

- Como é que desaparecia?

 

- Não sei. Ou pousava os livros aqui ou ali e quando voltava a pegar-lhes faltava esse.

 

- Mas apareceu sempre?

 

- Apareceu. Daí que talvez eu tenha agora uma explicação para os factos, que antes me deixavam confusa.

 

- Qual? - perguntaram todos, ansiosos.

 

- A pessoa que roubava o dossier deve ter seleccionado alguma receita fácil de preparar. Andou à cata dos ingredientes... e ia-me devolvendo sempre os papéis para eu não armar sarilho.

 

- E agora?

 

- Agora já devia ter tudo. Foi buscar o dossier uma última vez para confirmar o modo de preparação. Preparou o que quer que seja e misturou na comida ou na bebida de Valéria!

 

- Mas para quê?

 

- Isso é que falta descobrir. Quando soubermos isso sabemos tudo.

 

- Então acha que algumas dessas poções mágicas fazem mesmo efeito? - perguntou o Chico, ainda na dúvida.

 

- O erro é chamar-lhe poção mágica, sabes? Trevos colhidos de madrugada não fazem efeito nenhum, mas há mezinhas muito eficazes.

 

- Pode ser assim, Maria Augusta. Eu concordo consigo. Mas se a pessoa queria uma determinada receita podia copiá-la. Não precisava de andar sempre a roubar os mesmos papéis disse a Teresa.

 

- Isso é verdade. Mas a pessoa pode nunca ter tido tempo. Das outras vezes o livro desapareceu e tornou a aparecer pouco depois.

 

- Desta vez é que já lá o têm há mais tempo!

 

- Daí eu pensar que desta vez foi para preparar a poção...

 

- E acha que ainda devolvem o dossier - duvidou o Chico.

 

«TOC, TOC, TOC.» Alguém bateu à porta. E, como se viesse de propósito para responder à pergunta do Chico, apareceu a dona da casa, toda vestida de preto com um xailinho à volta dos ombros. Na mão trazia o tão falado dossier

 

- Senhora dona Maria Augusta - disse ela, com uma vozinha suave -, vieram trazer isto para a senhora.

 

- Quem? - perguntaram todos à uma.

 

- Não sei,   meus filhos.   Entregaram-me pela janela, e como já está escuro não vi quem era. Não tem importância, pois não?

 

- Não... não se preocupe - disse a Maria Augusta com um sorriso forçado.

 

- Oh, que dia este! - suspirou a Luísa baixinho.

 

Pedro não percebeu muito bem por que é que tinha acordado. Sentia o corpo pesado e doía-lhe vagamente a cabeça.

 

«Que horas serão?», pensou, tacteando em volta à procura do relógio. Soergueu-se com algum esforço e apoiou-se no cotovelo. Pela janela gradeada coava-se uma luz ténue. O ar estava insuportavelmente abafado.

 

«Vem aí uma bruta trovoada!», suspirou, voltando a deitar-se.

 

Fechou os olhos com força, sabendo no entanto com certeza que tão depressa não voltava a adormecer. Suspirou fundo e passou a mão pelos cabelos, divertindo-se a ouvir um «crchch».

 

- Estou cheio de electricidade. Tomara que comece a chover! - disse em voz alta, esquecido de que ao seu lado o Chico continuava a dormir a sono solto. Ou talvez desejando acordá-lo. Uma trovoada como aquela que se aproximava não era coisa agradável de enfrentar sozinho.

 

Um estrondo formidável, logo seguido de uma cortina de chuva, cada vez mais densa, acelerou-lhe o bater do coração. E Pedro sentou-se na cama improvisada, sem perceber o porquê daquele susto, pois chuva era exactamente o que tinha acabado de pedir.

 

Olhou o Chico de soslaio. Hesitou, sem saber se o havia de acordar ou não.

 

- Que coisa! O gajo dorme que nem uma pedra!

 

Impaciente, atirou a roupa para trás e levantou-se. A janela atraía-o de uma forma estranha, quase como se fosse um imã.

 

Encostou a cabeça às grades e seguiu, fascinado, um risco de luz em forma de £ , que rasgou o ar com estrépido mesmo por cima do casario. Os vidros tilintavam com o ribombar do trovão.

 

- Bolas! Está mesmo aqui ao pé... Espero bem que haja por aí um pára-raios!

 

- Pedro! - chamou o Chico, acordando finalmente. - O que é isto?

 

- Isto é uma trovoada, pá! O que é que querias que fosse?

 

- Uah! Que chatice, estava a dormir tão bem!

 

- Eh, pá! Safa... Este caiu aqui mesmo!

 

- Anda para aqui ver, Chico, que vale a pena.

 

Os dois rapazes fitaram-se, tentando ver se havia medo nos olhos do outro. E havia... mas envergonhado e inconfessado! Num movimento brusco viraram-se ambos para a janela, crispando as mãos à volta das grades. com uma voz ligeiramente insegura, Pedro tentou gracejar:

 

- Achas que as pessoas que aqui estiveram em tempos tinham medo da trovoada?

 

Com receio de que o amigo pudesse ouvir-lhe o bater do coração, Chico entrou no jogo, ou seja, desatou a falar desse outro assunto.

 

- Talvez fosse a única ocasião em que se sentiam felizes por estar aqui dentro... ha?

 

Naquele momento surgiram na escada as gémeas, espavoridas:

 

- Pedro! Chico!

 

- Estão acordadas?

 

- Que trovoada horrível!

 

- Não tenham medo - disse logo o Pedro, sentindo-se de repente muito forte.

 

- Isto não tem perigo nenhum - acrescentou o Chico. - E além do mais está a afastar-se.

 

- Como é que sabes? - perguntou a Luísa, um pouco mais calma por os ver tão serenos.

 

- É muito fácil - explicou o Pedro. Basta contar os segundos entre o aparecimento do relâmpago e o som do trovão...

 

- Porquê?

 

- Porque o som propaga-se à velocidade de 340 metros por segundo. Se, por exemplo, entre o relâmpago e o trovão contares 10 segundos, basta multiplicar por 340. São 3400 metros, ou seja...

 

- Três quilómetros e tal - interrompeu o Chico.

 

- Mas isso é pouquíssimo! :

 

- É mais que suficiente para não te cair uma faísca em cima - disse o Pedro, assumindo um ar paternal.

 

- Era engraçado, mas, depois de ter explicado isto, sentiu-se muito mais calmo. Não era só a explicação fria e científica dos factos mas também o facto de se aperceber de que, graças ao   que   dizia,   as   gémeas   iam   perdendo   o medo...

 

- Vamos contar os segundos no próximo trovão? - pediu a Teresa, e apeteceu-lhe imenso fazer aquela experiência.

 

De novo uma luz resplandecente iluminou por um momento o céu escuro.

 

- 1... 2... 3... 4... 5... 6... 7... - contaram em coro, acompanhando o «bip, bip» dos relógios de pulso.

 

Um estrondo imenso interrompeu a contagem e olharam-se todos no fundo dos olhos, com uma sensação violenta, que era medo mas era bom.

 

- 7 vezes 340 dá 2380 metros - disse o Pedro.

 

- Quase dois quilómetros e meio, viram? - Já vai longe, acho...

 

As gémeas arrepanharam a pele da garganta, onde uma espécie de bola sufocante se desfazia aos poucos. O trovão ressoava ainda com estrondos cavos e profundos, de encontro às encostas, cumes e recôncavos da serra de Ossa. Encostados uns aos outros, olhavam a noite num silêncio arrebatado.

 

- Voltou a luz!

 

A vozita estremunhada do João, que tinha entrado há pouco sem eles darem por isso, chamou-os à realidade. Para lá da cortina de chuva, que agora caía mansa, respingando nas lajes do caminho, a luz débil de um candeeiro deixava entrever o tronco rachado do enorme plátano destruído por um raio certeiro.

 

- Eh, pá! Isto deve ter sido em grande! balbuciou o João.

 

- Se foi! - responderam-lhe os outros. E cada qual à sua maneira procurava disfarçar o medo que de novo sentiam.

 

- Do que a gente se livrou, meu Deus!

 

- Se estivéssemos lá fora nem sei o que podia ter acontecido!

 

Bastante abaladas, as gémeas sentaram-se no chão.

 

- Não vale a pena estarem a pensar no que teria acontecido se estivessem lá fora - disse o Pedro para as acalmar. - A verdade é que estavam cá dentro e não aconteceu nada.

 

- Eu sei, eu sei, mas dá cá um arrepio...

 

- Já pensaste nas pessoas que andavam na rua?

 

- Ninguém andava na rua, com certeza. E se andava foi a correr para casa.

 

- Eu não falo das pessoas aqui de Evoramonte, mas das outras que, por exemplo, iam de carro, na estrada, sem ter onde se abrigar...

 

Luísa falava com os olhos muito abertos, brilhantes de pavor.

 

- Achas que morreu alguém, fulminado por um raio?

 

- Desculpa lá, Luísa, mas parece que estás a fazer de propósito, que te queres assustar a ti mesma!

 

Ela calou-se e baixou a cabeça. Talvez o Pedro tivesse razão no que acabava de dizer. Ou talvez não. Naquele momento não sabia interpretar os seus sentimentos. Estava assustada, disso não havia dúvida! Mas pensaria aquelas coisas horríveis porque no fundo queria continuar assim, ou porque mesmo sem ela querer o susto se prolongava? Abanou a cabeça com força para afastar de si ideias tristes e propôs:

 

- Se fôssemos todos lá para cima? Podíamos improvisar uma ceata.

 

- Boa ideia! - concordou logo o Chico.

 

- Foi pena a tua mãe hoje não vir dormir a casa, Pedro! Acho que me sentia mais segura com um adulto por perto! - disse a Teresa, ainda possuída por um certo mal-estar.

 

- A minha mãe teve de dormir em Estremoz e deve estar no primeiro sono! E nós vamos comer biscoitos lá para cima. Anda daí! Upa!

 

Pedro estendeu a mão à Teresa para a ajudar a levantar-se do chão.

 

- Também acho! - disse o Chico. - Dá cá a outra mão, Teresa, e salta daí!

 

- Não preciso de ajuda para me pôr em pé!

- declarou ela, erguendo-se sem qualquer dificuldade.

 

- Ainda bem! Mas parecias tão abatida...

 

- Parecia, mas não estava! E para me ajudar bastava um de vocês.

 

- Que ingrata, ha, Pedro? - brincou o Chico, fingindo-se ofendido, mas no fundo todo satisfeito por ver a Teresa já a refilar como era seu costume.

 

- Não comeces com essas coisas que me estás a irritar!

 

- Pois para a outra vez não contes comigo - continuou ele no mesmo tom. - Podes estar para aí em dificuldades que não te ajudo.

 

E o pior é para ti, que, aqui entre nós, eu sou o mais forte!

 

- És o mais forte mas o Pedro tem mais ideias! - interrompeu a Luísa.

 

- Tem mais ideias uma ova! Eu tenho tantas ideias como ele, se for preciso!

 

- Isso querias tu!

 

- E se não discutissem? - pediu o João, chateado.

 

Chico não lhe deu ouvidos. Meio a brincar, meio a sério, continuou:

 

- Pois é! Para vocês o Pedro é uma espécie de personagem principal e eu uma personagem secundária, não é?

 

- Calem-se! - berrou Pedro de rompante.

- A minha cabeça! Descobri! Descobri!

 

Olharam todos para ele, admirados. De pé, agitadíssimo, parecia prestes a fazer uma revelação importante. Tão importante que as palavras se lhe enrolavam na garganta.

 

- O que foi?

 

- Desembucha, pá!

 

- Descobri! Já sei quem tentou envenenar a actriz principal!

 

- Quem?

 

- Está na cara! Foi a actriz secundária! - O quê?

 

- Por que é que dizes isso?

 

- Só pode ser ela! É a única pessoa a ter interesse em que a Valéria faça cenas idiotas, se descontrole, coma muito e fique gorda! Assim ela tinha a sua grande oportunidade! Passava a actriz principal!

 

- Ah! É capaz de ser, é!

 

- Não vejo outra explicação!

 

- Como é que te lembraste dela?

 

- Por causa da conversa do Chico, que eu era o principal e ele o secundário...

 

- Eu estava a brincar, pá!

 

- Pois estavas. Mas de repente compreendi. Ninguém gosta de se reconhecer como «secundário»! E a gaja deve ser ambiciosa, deve estar morta por passar a ter papéis mais importantes.

 

- Que estúpida!

 

- Estúpida, não! Até era natural que ela quisesse progredir! O que está mal é usar este método.

 

- É incrível!

 

- Pois é! - disse a Luísa. - Se ela queria ser a principal devia era tentar aperfeiçoar o seu trabalho. Agora envenenar outra pessoa é um crime.

 

- Mas ela não a quis matar. Pelos vistos procurou no tal livro uma receita especial, que arrumasse com ela sem a matar.

 

- Mesmo assim acho incrível!

 

- E é!

 

- Temos de ir dizer... - Pedro suspendeu a frase a meio.

 

- O que foi?

 

- Ficámos tão excitados com a nossa descoberta que nos esquecemos de uma coisa: não temos provas!

 

- Ha?

 

- Não temos provas. Assim, meus amigos, bico calado! Se falamos no assunto ainda correm connosco!

 

- Mas não podemos dizer nem à Maria Augusta?

 

- A ninguém!

 

- Então o que é que fazemos? Nada?

 

- Fazemos a única coisa possível: estar alerta.

 

- Se a gente conseguisse apanhá-la em flagrante...

 

- Isso era bestial!

 

- Eu cá - disse o Chico -, se a visse a preparar o veneno fazia-lhe assim... - e, imobilizando a Luísa com um apertão, gritou: - Alto aí, sua bandida!

 

- Ai! Larga-me, parvo!

 

As gémeas estavam numa pilha de nervos. com a trovoada, tinham dormido muito pouco, o que as fazia sentir o corpo pesado e entorpecido.

 

- Logo hoje! - queixara-se a Teresa. Logo hoje, que vamos começar a filmar!

 

- Tenho os olhos inchados, não tenho? perguntou a Luísa, inquieta.

 

Pela primeira vez na vida ambas desejavam ter ali um espelho à mão.

 

- Estou agoniada...

 

- Isso é dos nervos. Come qualquer coisa e passa-te.

 

- Não posso. Fechou-se-me o estômago. Não passa nada...

 

- Então bebe leite. Talvez ajude. Mas, diz lá, tenho os olhos inchados ou não?

 

Teresa fitou a irmã distraidamente:

 

- N...ão! Acho que não!

 

- Que bucha, Teresa. Sinto-me com cara de cão imbecil!

 

Teresa riu-se com aquela ideia tonta.

 

- Então eu devo sentir-me como? com cara de gato genial?

 

- Ó meninas, despachem-se depressa! chamou o Chico da escada. - Já andam à nossa procura!

 

Os rapazes tinham saído mais cedo, ansiosos por se juntarem à malta do cinema, na esperança de conseguirem montar uma vigilância apertada à rapariga de quem suspeitavam. Pedro e João continuavam por lá, mas o Chico, vendo que procuravam as gémeas, dirigira-se apressadamente até casa.

 

- Então! Descem ou não descem?

 

Com as pernas a tremer, uma impressão esquisita nos músculos do pescoço e o estômago virado ao contrário, as gémeas desceram a escada uma atrás da outra.

 

- Ih! Que cara de enterro! Se vão para lá assim adeus contrato!

 

- Não nos enerves mais do que já estamos, sim?

 

- Descontraiam-se, vá! Isto é um dia único na vossa vida!

 

Chico empurrou-as até uma casinha situada ao fundo da vila. Era ali que os actores se vestiam, penteavam e pintavam. A porta abriu-se e apareceu uma rapariga nova, com um frasco de vidro na mão. Sorriu-lhes, acolhedora:

 

- Ora aqui temos as tais gémeas que vamos preparar para fazerem de rapazes!

 

Chico abriu os braços num gesto declaradamente teatral e disse, com uma acentuada pronúncia brasileira:

 

- O dia em que as gémeas entraram para o cinema! Foi o início de uma carreira brilhante...

 

Elas fizeram-lhe uma careta. Depois, entre tímidas e encantadas, entregaram-se nas mãos da costureira, da cabeleireira, da maquilhadora, sem se atreverem a pronunciar palavra. Um espelho enorme, encimado por luzes fortes, devolvia-lhes a sua própria imagem, que não reconheciam, transformada pelas roupas e pelas tintas.

 

- Vocês são mesmo igualzinhas, ha? disse a cabeleireira. - Aposto que toda a gente as confunde, não?

 

Luísa limitou-se a responder:

 

- Sim.

 

- Não estejam nervosas que não vale a pena.

 

A costureira era mais velha que as outras duas. Um pouco gorda, tinha um ar maternal e era muito simpática. Aliás, eram todas muito simpáticas. Pareciam achar graça a tê-las ali e a ocuparem-se delas.

 

- Toda a gente fica nervosa antes de entrar em cena - disse a cabeleireira. - Então a primeira vez ainda é pior. Mas daqui a nada passa...

 

A maquilhadora empunhou uma borla com pó-de-arroz:

 

- Ora, vamos lá transformar estas carinhas bonitas!

 

- Fazemos papel de rapazes e também temos de nos pintar? - perguntou a Luísa, com uma voz sumida.

 

- Claro! As luzes são muito fortes e todos têm de se pintar, senão ficavam com umas caras esquisitíssimas...

 

- Ah!

 

- Luísa - disse a Teresa baixinho. – Os rapazes vão fazer tanta troça de nós...

 

- Não ligues. E talvez não façam. De ’momento devem ter mais em que pensar.

 

Com efeito, os rapazes pensavam em tudo menos nas gémeas. Sentados numa pedra, procuravam passar despercebidos para poderem ouvir a conversa que se desenrolava em frente deles. O argumentista comentava com o director de som os últimos acontecimentos:

 

- Vê lá tu, pá, que a Valéria está outra vez com aquelas crises! Parece louca! O Lenoir está fulo! Nunca o vi assim e trabalho com ele há vários anos.

 

- Pudera! Já pensaste na despesa que é manter este pessoal todo aqui em Evoramonte? Estas idiotices fazem atrasar horrivelmente a continuação das filmagens, o que significa um bruto prejuízo.

 

- Se ela continua assim ainda a põem fora.

 

- O pior é arranjar quem a substitua. Uma boa actriz não cai do céu aos trambolhões sempre que é preciso.

 

- Em último caso a Adélia pode substituí-la.

 

Chico deu uma cotovelada no Pedro e João perguntou entredentes:

 

- Acham que este é cúmplice?

 

- Hum... não sei.

 

- Palpita-me que não - disse o Pedro.

 

- O que é que a gente pode fazer? Detesto não poder fazer nada.

 

- Ouçam todos! - ordenou o Pedro, esticando o queixo na direcção dos dois homens, que continuavam a conversar encostados a um poste.

 

- ...   e podíamos sugerir ao Lenoir que experimentasse a Adélia para este papel...

 

- Sabes tão bem como eu que o realizador gosta pouco de sugestões! Ele que resolva o problema como entender! Talvez a esta hora já esteja resolvido.

 

- Não creio. A Valéria continuava deitada, muito mal disposta.

 

- Quem te disse?

 

- Foi a Adélia. Tinha acabado de a visitar e garantiu-me que ela estava mesmo péssima.

 

- Mas com quê?

 

- Não sei, não perguntei.

 

- Onde é que está metida a Adélia? Talvez pudesse explicar-nos melhor o que é que a outra tem.

 

- Daqui a bocado vem ter connosco. Agora deve estar no quarto, fechada a sete chaves. Mandou-me embora com ar misterioso e disse-me que precisava de ficar só. Mulheres! Coisas de mulheres! - com um misto de desprezo e condescendência.

 

- Pedro! - disse o Chico, levantando-se.

- É agora ou nunca.

 

- Ha?

 

- Vamos procurá-la, já! Aposto que, se quis ficar só, foi para preparar a poção, ou mezinha, ou veneno, como preferires!

 

- Mas...

 

- Não há mas nem meio mas! Vamos procurá-la.

 

- Espera, pá! Deixa-me falar! Queres ir procurá-la onde? Não sabes onde é que ela está instalada!

 

- Sei, sim senhor! Quando fui levar as gémeas à cabeleireira vi a Adélia entrar numa casa lá perto.

 

- Óptimo! Então toca a andar!

 

Os rapazes afastaram-se rapidamente pela rua abaixo. E, com passos furtivos, procuraram a casa que o Chico indicou.

 

«Ora aí está!», pensou o Chico. «Acertámos à primeira!»

 

Empoleirados numa árvore, os três rapazes observavam tudo através de uma janelinha pequena. No interior do quarto, Adélia movia-se bastante à vontade. Não lhe passava pela cabeça que alguém estivesse a vê-la! Naquela casa não vivia mais ninguém. O dono trabalhava em Lisboa e tinha-a comprado para passar fins-de-semana. Adélia fizera questão de se instalar ali, e ninguém pensou que esse facto tivesse alguma coisa de especial.

 

A parte da frente e as janelas maiores davam para uma rua onde circulavam constantemente os seus colegas. Mas o quarto das traseiras era muito sossegado. Ideal para preparar as poções sem ser incomodada! Aquele livro da Maria Augusta tinha vindo mesmo a calhar! Que ela já andava à procura da melhor maneira de se livrar da Valéria, mas não sabia como! Um dia, porém, teve ocasião de folhear o famoso dossier preto num intervalo das filmagens, ainda em Lisboa, no estúdio. Primeiro rira muito com as receitas malucas. Mas depois uma ideia começou a tomar forma. Se experimentasse? Os ingredientes não eram lá muito fáceis de encontrar, mas no campo talvez fosse mais simples... com um sorriso maldoso ligou o bico eléctrico e pôs-lhe em cima a panelinha do costume:

 

- Ferve, ferve! Ferve, minha poção mágica...

 

i Os rapazes viram-na mexer os lábios mas, à distância, não perceberam de todo o que dizia. No entanto, não lhes passou despercebida aquela expressão esquisita, e acharam qualquer coisa de familiar nos gestos com que metia algo dentro da panela.

 

- Parece uma bruxa dos desenhos animados - disse o João.

 

- É isso! Estava a tentar perceber quem é que ela me recordava...

 

- bom - lembrou o Chico, muito prático.

- Agora temos a certeza. O que é que fazemos? Entramos por ali dentro?

 

- Calma! - pediu o Pedro. - Nós pensamos que acertámos porque viemos para aqui à espera que ela estivesse a preparar uma poção... Como ela tem qualquer coisa ao lume, tirámos as nossas conclusões. Mas podem ser precipitadas!

 

- Qual quê?.! Eu tenho a certeza!

 

- E se ela estiver só a fazer um chazinho? Hã?

 

- Chá numa panela?

 

- E nesse caso por que é que não está na cozinha? - disse o João. - Tudo nesta atitude é suspeito, Pedro. Temos de fazer alguma coisa.

 

- Se ao menos pudéssemos ver os ingredientes que ela usa...

 

- Vamos arrombar ”a porta, Pedro! Entra comigo e logo vês!

 

- Não sei...

 

- Tive uma ideia! - João quase caiu do tronco abaixo com o entusiasmo. - Já sei o que vamos fazer!

 

- O que é?

 

- Eu vou chamar a Maria Augusta, que é a única pessoa que pode acreditar em nós logo às primeiras. Ela também anda desconfiada de qualquer coisa deste género...

 

- E nós?

 

- Vocês ficam aqui a vigiá-la. Se for preciso aparecem e não a deixam sair nem destruir o que está a fazer. Mas o melhor era cairmos-lhe em cima de surpresa!

 

- És genial, João!

 

- Concordam?

 

- Claro! Vai, vai lá! Mas não te demores! Ágil como um macaco, João deu um salto e desapareceu rua acima.

 

«Maria Augusta! Onde está a Maria Augusta?», pensava, com o coração acelerado.

 

Não foi preciso procurar muito. Um grupo discutia em altos berros, junto à torre. No meio deles estava Maria Augusta, gesticulando com força:

 

- Eu sei! Eu sei o que estou a dizer!

 

- Ó Maria Augusta, mas isso é uma estupidez !

 

- Não é, garanto!

 

João chegou-se a ela, ansioso, e puxou-lhe uma manga. Ela sacudiu-o e não ligou.

 

- Roubaram o meu dossier com receitas antigas de venenos e mezinhas. Devolveram-mo com menos uma folha, cortada com muito jeitinho. Eu já desconfiava, mas agora tenho a certeza. Alguém anda a envenenar a Valéria com as minhas poções... É por isso que ela tem estas crises!

 

Maria Augusta estava tão enervada por não acreditarem nela que quase tinha uma crise também.

 

- Por favor...

 

João olhou em volta. Percebeu que aquela explicação não convencia ninguém. E resolveu agir. Se procedesse normalmente, o mais certo era nem o ouvirem. Tinha de chamar a atenção com um disparate qualquer. Encheu-se de coragem e... atirou-se para o meio deles aos gritos:

 

- Ela tem razão! Ela tem razão! Eu também estou envenenado! Acudam!

 

Perante o assombro geral, João torcia-se e retorcia-se, deitava a língua de fora, fingia vomitar, rebolava os olhos... Alguém tentou agarrá-lo, mas ele já contava com isso! Um golpe de rins e zás! Fugiu esbracejando.

 

- Ela está ali a fazer o veneno, eu vi... Ai, ai, ai!

 

Gritando e berrando cada vez mais alto, avançou pela rua aos tropeções:

 

- Venham! Acudam! É ali...

 

O truque resultou em cheio. Foram todos atrás dele. Quando o Pedro e o Chico viram aquele maralhal todo não hesitaram nem um segundo. Atiraram-se em voo picado e arrombaram a janela com os pés.

 

Adélia deu um grito e recuou:

 

- O que é que vocês querem?

 

- Nós? Isto!

 

Pedro pegou numa folha de papel que estava em cima da mesa. Ela tentou arrebatar-lha, mas ele fugiu.

 

- Vai ter muito que explicar, minha cara amiga - disse o Chico, com ar superior.

 

«Pum! Pum! Pum!»

 

Abram a porta!

 

Pedro não se fez rogado. A malta entrou de rompante e ele exibiu a folha:

 

- Olhem! Olhem para isto!

 

Foi Lívio quem pegou no papel e leu em voz alta.

 

- É incrível!

 

- Espantoso!

 

- Nunca pensei!

 

- Não acreditava nisto se não estivesse a ver!

 

Chico, com um pano a proteger a mão, levantou a panela do lume e cheirou. Depois virou-se para a assistência, perguntando:

 

- Alguém quer provar? Foi gargalhada geral.

 

- Agora é preciso tratar da saúde das duas! disse o técnico de som. - Esta, no mínimo vai ser expulsa. A outra, coitada, precisa dos cuidados de um médico.

 

- A minha mãe é médica e deve estar aí a chegar de Estremoz!

 

No dia seguinte tudo voltou à normalidade, embora as conversas continuassem a versar o mesmo assunto. Adélia regressou a Lisboa, depois de ter apanhado uma valente descompostura de todos. Mas Valéria não quis dar parte à polícia.

 

As filmagens prosseguiram, com grande sucesso dos figurantes, sobretudo do João.

 

- Enganaste-nos bem, ha? - tinha dito a assistente do realizador. - Fizeste uma fita à altura! Tens muito jeito para representar!

 

À hora do almoço puderam confraternizar com a equipa inteira, pois foram de novo convidados. E, felizes, lá andaram de mesa em mesa, já com perfeito à-vontade. Mas mais felizes eram talvez o Chico e o Pedro a quem Valéria abraçava ternamente.

 

- Vocês foram sensacionais!

 

- Ora... - respondeu o Chico, embaraçado.

 

«Se estivesse aqui um jornalista agora é que era bom!» pensou o Pedro. «Adorava aparecer com ela na primeira página de um jornal.»

 

 

                                                                  Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada

 

 

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