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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Uma só vez na vida / Danielle Stel
Uma só vez na vida / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Uma só vez na vida

 

          

 

Em New York, quando neva na véspera de Natal, reina uma espécie de rouco silêncio, e se diria que brilhantes cores se mesclam com a neve.

Contemplando o Central Park de uma janela, pode-se ver cair a neve persistentemente e observar como tudo vai se cobrindo de um manto branco.

Tudo parece tão silencioso, tão mudo...

Entretanto, nas ruas ressonam os inevitáveis ruídos de Nova Iorque: o clamor das buzinas, os alarido das pessoas, o rumor dos passos, do tráfico, às vezes apenas levemente atenuados.

E no furor de última hora, na véspera de Natal, percebe-se algo mais: uma espécie de extraordinária tensão que espera explodir em risadas e em uma avalanche de presentes.

As pessoas se dirigem apressados para casa, com pilhas de pacotes nos braços; os coros infantis entoam canções de Natal; os inumeráveis Papais Noéis, alegres e com as bochechas avermelhadas, celebram a última noite acossados pelo frio, e as mulheres seguram firmemente seus filhos pela mão, lhes advertindo que tomem cuidado em não cair, para lhes sorrir em seguida com doçura.

Todo mundo tem pressa, transborda alegria, vibra ao uníssono com seus concidadãos, nesta noite única do ano...

Feliz Natal! Os porteiros saúdam, agitando a mão, contentes pelas gorjetas generosas das festas. Dentro de um dia, de uma semana, a emoção se evaporou, os presentes terão sido liberados de seus pacotes, consumiu-se o licor e gasto o dinheiro; mas na véspera de Natal, nada se esgotou ainda, já que tudo está por começar.

Para os meninos, trata-se da culminação de compridos meses de espera; para os adultos, o fim de várias semanas de agitação, de recepções, de compras, de lutar com a gente, de dar e receber presentes...

Esperanças brilham tão viçosas como a neve ao cair, e sorrisos nostálgicos, pela lembrança de infâncias longínquas e de amores a longo tempo esquecidos.

Época de recordações, de esperanças e de amor.

A neve seguia caindo sem cessar e o tráfego por fim tinha começado a diminuir.

Fazia um frio cortante, resistente, e só umas poucas almas valorosas caminhavam sobre a neve, que rangia sob seus pés.

A que se fundiu durante o dia se converteu agora em uma traidora capa de gelo debaixo dos seis dedos de neve recém caída.

Estava perigoso caminhar, e às onze da noite o tráfego era virtualmente inexistente.

Para uma cidade como New York, o silêncio que reinava parecia bem insólito.

Só de quando em quando se ouvia o som de uma buzina na distância, ou uma voz perdida chamando um táxi.

As vozes alvoroçadas de uma dúzia de pessoas que saíam de uma festa na rua 69Est ressonaram como campainhas no silêncio da noite.

Suas risadas, seus cantos eram como restos da diversão de que tinham gozado.

O champanhe tinha rolado em abundância; tampouco tinha faltado rum queimado e vinho quente com especiarias, uma enorme árvore de Natal e bolas com pipocas de milho.

Ao se despedir, todos os convidados receberam pequenos presentes, frascos de perfume, caixas de bombons, um livro.

Um ex-crítico de livros do New York Time e sua esposa, uma autora célebre eram os anfitriões; seus amigos, um grupo de gente interessante, no qual podia encontrar-se desde escritores até notáveis concertistas de piano, belezas espantosas e cérebros formidáveis.

Todos eles se encontraram apertados na vasta sala de estar do apartamento do casal, atendidos por um mordomo e dois serventes, que não cessaram de servir comidas e bebidas.

Como nos tradicionais coquetéis de outros Natais, a reunião se prolongaria até as três ou quatro da madrugada.

O grupo que se despediu antes de meia-noite era reduzido, e nele se encontrava uma miúda mulher loira, que usava um gorro de visom e um comprido casaco da mesma pele.

Todo seu corpo ficava envolto pelos quentes cortes de cor chocolate, e logo que aparecia seu rosto protegia-o do vento pela gola, quando se despediu por última vez de seus amigos com um gesto da mão e começou a caminhar em direção a sua casa.

Não quis compartilhar um táxi com eles.

Já tinha encontrado com muita gente durante a reunião, e agora desejava estar sozinha.

Para ela, a véspera de Natal era sempre uma noite conflituosa.

Durante anos, tinha-a passado em seu lar. Mas não esta noite. Não este ano.

Esta vez tinha sentido desejos de ver seus amigos, pelo menos por um momento.

Todos se mostraram gratamente surpreendidos e agradados ao vê-la na reunião.

-Que bom tornar a vê-la, Daphne!

-Está de volta?

-Trabalhando em algum livro?

-Acabo de começar um.

Os grandes olhos azuis possuíam uma afável expressão, e a delicada doçura de suas feições escondia sua idade.

-O que significa isso? Que o terminará na próxima semana?

Era uma escritora extremamente criativa, mas tinha passado o último ano trabalhando em um filme.

Daphne sorriu de novo, desta vez com maior contentamento.

Estava acostumada às brincadeiras de seus amigos.

Um indício de inveja..., de curiosidade..., de respeito.

Era uma mulher que inspirava as três coisas.

Daphne Fields era intensamente pessoal, voluntariosa, ambiciosa, resolvida, sempre visível nos círculos literários, entretanto quando se fazia presente, na realidade às vezes dava a impressão de não estar ali.

Sempre parecia manter-se em segundo plano, fora do alcance; não obstante, quando olhava para uma pessoa, esta sentia que seu olhar penetrava até o fundo de sua alma.

Causava a sensação de que via tudo, mas, ao mesmo tempo, queria passar despercebida.

Dez anos atrás era uma mulher diferente.

Aos vinte e três tinha sido gregária, divertida, extravagante..., e se sentia protegida e feliz.

Agora era mais serena; a risada de antigamente só se manifestava como um brilho fugaz em seus olhos; seu eco parecia haver-se refugiado em algum rincão de sua alma.

-Daphne?

Ela se voltou com presteza na esquina da Avenida Madison ao ouvir ruído de passos a suas costas, afogados pela neve.

-Sim, Jack.

Era Jack Hawkins, diretor da editoria Harbor e Jones, que geralmente publicava seus livros.

Tinha as bochechas avermelhadas pelo frio, e os azuis olhos, brilhantes e umedecidos por causa do vento.

-Quer que te leve no carro? Ela balançou a cabeça sorrindo, e Jack Hawkins se chocou ao comprovar de novo como era miúda, envolta no casaco de visom, as mãos com luvas de camurça negra que mantinham bem fechado a gola do casaco.

-Não, mas lhe agradeço. Na realidade, prefiro caminhar. Moro no final da rua.

-É tarde.

Também agora, como sempre que a via, sentia desejos de tomá-la entre seus braços.

Isso não queria dizer que o tivesse feito alguma vez.

Mas ficaria encantado em fazê-lo.

Um sentimento pareciado tomava outros homens que a conheciam.

Aos trinta e três anos, ainda parecia ter só vinte e cinco, e às vezes doze...

Era tão vulnerável, fresca e delicada...

Mas havia algo mais. Adivinhava-se tal desolação nos olhos daquela mulher que lhe comovia a alma, por muito espetacular que fosse seu sorriso, por cálida que fora seu olhar.

Era uma mulher solitária.

E não tivesse tido que sê-lo.

Se a vida fosse justa, não o teria sido. Mas era.

-É meia-noite, Daff... - protestou ele.

Vacilava em unir-se ao grupo que se afastava caminhando devagar em direção oeste.

-É véspera de Natal, Jack.

-E faz um frio de mil demônios.

Sorriu, e em seus olhos se refletiu a risonha expressão que denotava seu senso de humor.

-Não acredito que vão me violentar esta noite.

Ele sorriu por sua vez.

-Não, mas poderia escorregar e cair no gelo.

-E me fraturar o braço, ficando impossibilitada para escrever durante vários meses, não é assim? Não se preocupe. O término do próximo prazo de entrega não é até abril.

-Por todos os céus, vamos!Venha conosco tomar uma taça de vinho em casa.

Ficando nas pontas dos pés, lhe deu um beijo na bochecha enquanto lhe afagava o ombro com a mão.

-Veja, eu estou bem. Mas lhe agradeço.

Saudou-o com a mão, girou sobre seus saltos e se afastou caminhando rapidamente pela rua, com o queixo afundado dentro da gola do casaco, sem olhar nem a direita nem a esquerda, sem contemplar as vitrines nem os rostos das poucas pessoas que cruzavam com ela.

Era prazeroso sentir o vento no rosto, e enquanto se dirigia a sua casa, deu-se conta de que naqueles momentos experimentava um bem-estar que não tinha sentido em toda a noite.

A reunião tinha sido exaustiva, como sempre estavam acostumadas a serem recepções desse tipo; até quando pareciam divertidas e comparecessem a elas muitas pessoas conhecidas, sempre acontecia o mesmo.

Entretanto, aquela noite não tinha querido deixar de comparecer.

Não desejava ficar só em seu apartamento, não queria se agarrar às lembranças este ano...

Não queria...

Não podia suportar mais...

Ainda naquele momento, em que seu rosto se contraía ao contato com a neve, aquelas mesmas lembranças continuavam em sua mente, e apressou o passo como querendo fugir delas, como se isso fosse possível.

Quase de forma instintiva, correu até a esquina, lançou um olhar para comprovar se vinha algum veículo, não viu nenhum, e supôs que o semáforo estava em verde, que se corresse o suficientemente rápido, conseguiria cruzar a rua, poderia deixar as lembranças para trás.

Entretanto, sempre as levava consigo..., sobretudo na véspera de Natal.

Correndo mais velozmente ao cruzar a Avenida Madison, esteve a ponto de perder o equilíbrio ao escorregar no gelo, mas o recuperou abrindo os braços e agitando-os como pás de moinho.

Ao chegar à esquina, dobrou rapidamente à esquerda para cruzar a rua, e desta vez não levantou a vista a tempo de ver o carro, uma grande caminhonete rural de cor vermelha cheia de gente, que avançava rápido a fim de passar o semáforo antes que trocasse a luz verde.

A mulher sentada junto ao motorista soltou um grito, ouviu-se um golpe surdo, outro grito no interior do veículo e um estranho chiado ao deslizar o automóvel pelo gelo através do meio-fio. Quando por fim se deteve, durante um interminável momento tudo foi silêncio.

E logo todas as portas do veículo se abriram ao mesmo tempo, e meia dúzia de pessoas desembarcou dele.

Não houve vozes, nem exclamações, nem chiados, enquanto o motorista se aproximava da vítima do acidente, detinha-se junto a ela e ficava com a vista fixa na mulher que jazia como uma boneca de trapo rasgada, com o rosto afundado na neve.

-Oh, meu Deus!... meu Deus!

O homem permaneceu sem saber o que fazer por um instante, logo se voltou freneticamente para a mulher que tinha ao lado, com uma expressão de terror e fúria nos olhos, como se alguém tivesse que carregar a culpa do ocorrido, alguém que não fosse ele.

-Pelo amor de Deus, avisa à polícia!

Então se agachou junto à mulher, sem atrever-se a tocá-la, com medo de constatar que estivesse morta.

-Está... viva?

Outro homem, que exalava um forte cheiro de uísque, ajoelhou-se na neve ao lado do motorista.

-Não sei - respondeu.

Na vítima não se percebiam as agulhas do gelo que deveriam ter-se formado ao se congelar a respiração na gola de pele, frente a sua boca, nem movimentos, nem gemidos, nem nenhum outro sinal de vida.

E então o homem, que se animou a tocá-la, pôs-se a chorar baixinho.

-Matei-a, Harry..., matei-a...

Estendeu os braços a seu amigo, e os dois homens se abraçaram em silêncio, embargados pela angústia, enquanto se detinham dois táxis e um ônibus, dos quais desceram apressados seus motoristas.

-O que aconteceu?

De repente, tudo foi agitação, gritaria, explicações...

"Pôs-se a correr diante do carro..." "Não olhou..." "Não a vi..." "... O gelo..., não pude frear...".

-Onde demônio se mete a polícia quando se precisa?

O motorista lançava imprecações enquanto a neve caía em torno.

Sem nenhuma razão plausível repetia a canção natalina que tinham estado entoando uma hora antes.

"Noite de paz, noite de amor..."

E agora, aquela mulher jazia diante dele, sem vida ou agonizando, e não aparecia nem um maldito policial.

-Senhora..., senhora, pode me ouvir?

O motorista do ônibus estava ajoelhado junto a ela, com o rosto muito perto do dela, tentando sentir sua respiração. -Está viva.

Olhou para os outros

- Têm uma manta? –

Ninguém se moveu. E então, quase com raiva, exigiu:

-Me dê seu casaco.

Por um instante, o motorista da caminhonete pareceu abobalhado.

-Pelo amor de Deus, homem, esta mulher pode estar agonizando. Tire o casaco!

Então o homem obedeceu rapidamente, imitado por outros dois, e cobriram Daphne sob uma pilha de casacos.

-Não a movam.

O velho motorista do ônibus atuava como sabendo o que devia fazer, enquanto a agasalhava com os grossos casacos e lhe levantava ligeiramente a cabeça a fim de que seu rosto não congelasse ao contato com a neve.

Ao fim de uns momentos, apareceu a cintilante luz vermelha. Era uma ambulância municipal, e já tinham tido uma agitada noite até aquele instante, o que era habitual na véspera de Natal.

Seguia-os uma patrulha da polícia, que chegou soando a estridente sirene.

Os ajudantes da ambulância se precipitaram para o lugar onde Dapne jazia; os policiais chegaram à cena do acidente com mais lentidão, e o motorista da caminhonete dirigiu-se a eles, muito mais calmo, mas tremendo de frio, pois seu casaco cobria o corpo da vítima.

O motorista do ônibus observou como os ajudantes colocavam Daphne com todo cuidado na maca.

A mulher não proferiu nenhum som, nem nenhuma exclamação de dor.

O homem viu então que tinha feridas e arranhões na cabeça, mas não tinha sangrado durante o tempo que permaneceu com o rosto sobre a neve gelada.

O policial tomou declaração do motorista da caminhonete e lhe explicou que deveria submeter-se à prova para determinar se estava bêbado, antes que o deixassem ir-se.

Todos os outros manifestaram que estava sóbrio, que tinha bebido menos que todos durante a noitada e que Daphne tinha se deslocado para diante do veículo sem olhar para nenhum lado, e com a luz vermelha.

-Sinto muito. É a rotina.

O policial não demonstrou simpatia pelo motorista, nem seu rosto delatou emoção alguma quando contemplou o rosto de Daphne.

Uma mulher mais, uma vítima mais, um caso mais.

Quase toda noite via pessoas que se achavam em piores condições. Assaltos, ataques, assassinatos, violações.

-Está viva?

-Sim – respondeu o motorista do ônibus, assentindo brevemente com a cabeça.

-Por um fio.

Tinham colocado em Daphne a máscara de oxigênio e aberto o casaco de visom para auscultá-la.

-Mas a perderemos, se não nos apressarmos.

-Onde vão levá-la?

O policial continuava rabiscando seu relatório. "... mulher branca idade indeterminável..., provavelmente de uns trinta e tantos anos...".

O motorista da ambulância falou por cima de seu ombro enquanto fechava as portas.

-Vamos levá-la ao Lenox Hill, que está mais perto. Não acredito que pudesse resistir uma viagem mais longa.

-Vai sem documentos?

Isto ocasionaria outra dor de cabeça. Aquela noite já tinha enviado duas vítimas de assassinato não identificadas ao IML.

-Não. Por sorte, ela carregava uma bolsa.

-Está bem. Vamos segui-los. Lá tomarei os dados.

Com um seco movimento de cabeça, o motorista ocupou seu posto para levar sua carga ao Lenox Hill, enquanto o agente se voltava para o trêmulo motorista da caminhonete, que brigava para ficar de novo com o casaco.

-Vai me prender?

Agora parecia estar assustado. A celebração natalina se havia convertido em um pesadelo ao ver Daphne estendida sobre a neve.

-Não, a menos que esteja bêbado. Faremos a prova no hospital. Que um de seus amigos dirija e nos sigam até lá.

O homem assentiu com a cabeça e entrou no veículo, fazendo um gesto a um de seus amigos, que se sentou rapidamente ao volante.

Agora não houve bate-papos, nem risadas, nem alegria. Dentro da caminhonete reinava o silêncio, enquanto avançavam precedidos pelas estridentes sirenes para o Lenox Hill Hospital.

Na sala de urgências o clima era de frenética atividade, e um exército de pessoas vestidas de branco parecia atuar com a precisão de um corpo de baile.

Uma equipe composta por três enfermeiras e um médico residente se encarregou de Daphne imediatamente quando os assistentes da ambulância entraram com a maca de rodas, enquanto se solicitava a presença de outro residente e um interno.

O casaco de visom foi jogado sobre uma cadeira, e rapidamente lhe tiraram o vestido com a ajuda de tesouras. Tratava-se de um vestido de coquetel de veludo azul safira que Daphne tinha comprado em Giorgio's, em Beverly Hills, no começo do inverno, mas isso não tinha nenhuma importância agora que jazia no chão em pedaços em torno da maca.

-Fratura de pélvis..., do braço..., lacerações em ambas as pernas.

Apresentava uma ferida profunda na coxa, a qual agora sangrava.

-Esta quase afetou à artéria femoral...

O residente atuava com urgência, tomando notas, controlando seu pulso, observando sua respiração.

A paciente se encontrava em estado de choque, e tinha a pele tão branca como a neve sobre a qual tinha caido.

Agora tinha uma estranha aparência espectral, uma carência de individualidade, como se não tivesse rosto nem nome. Era tão somente um corpo mais. Simplesmente um de tantos casos. Mas grave.E se pretendiam lhe salvar a vida, todos compreendiam que deviam atuar com presteza e eficácia.

Um ombro se deslocou, e a radiografia lhes indicaria se também fraturou uma perna.

-Alguma ferida na cabeça?

O outro residente se apressou a responder, enquanto que olhe administrava uma injeção intravenosa.

-Uma considerável.

O residente mais velho franziu a testa enquanto dirigia o feixe luminoso de uma fina lanterna nos olhos da paciente.

-Céus! Diria que se jogou do alto do Empire State Building.

Agora que já não jazia sobre a neve, o sangue corria por seu rosto, e teria que suturar pelo menos uma dúzia de cortes no rosto.

-Chamem o Garrison. Vamos precisar dele.

O cirurgião plástico do hospital teve que ser substituído no que estava fazendo.

-O que aconteceu?

-Foi atropelada por um carro.

-Fugiu?

-Não. Deteve-se. A polícia diz que o motorista está a beira de um colapso.

As enfermeiras observavam em silêncio o trabalho dos residentes, e logo levaram Daphne na maca de rodas até a próxima sala de raios X.

Ela ainda não tinha dado sinais de vida.

As radiografias demonstraram que havia fratura de pélvis e braço; o fêmur apresentava uma fissura, e a placa do crânio permitiu descobrir que tinha sofrido menos dano do que eles temiam, mas apresentava uma severa concussão, por isso a tinham em observação se por acaso aparecessem convulsões.

Em meia hora já se encontrava na mesa de operações, a fim que lhe engessassem os membros fraturados, suturassem as feridas do rosto e fizessem todo o necessário para lhe salvar a vida.

Havia sinais de hemorragia interna, mas considerando o tamanho do veículo e a força do choque, era um milagre que ainda estivesse com vida. Tinha tido uma grande sorte. E os dados registrados em sua história clínica demonstravam que ainda não estava fora de perigo.

Às quatro e meia da madrugada a tiravam da sala de cirurgia para passá-la aos cuidados intensivos, e foi ali onde a enfermeira do turno de noite examinou sua ficha com demora e logo ficou observando Daphne em silencio com uma expressão de estupefação no rosto.

-O que acontece, Watkins? Não é a primeira vez que presencia um caso como este.

O residente da unidade a contemplava com uma careta cínica, e ela se voltou, enquanto, com olhos doloridos, murmurava:

-Sabe acaso quem é?

-Sim, uma mulher que foi atropelada por um carro na Madison pouco antes de meia-noite... Fratura de pélvis, fissura no fêmur...

-Sabe de uma coisa, doutor? Não chegará muito longe nesta profissão, a menos que aprenda a ver o que se oculta além do aparente.

Durante sete meses tinha-o visto exercer seu trabalho com precisão, mas com muito pouco espírito humanitário. Dominava a técnica, mas carecia de coração.

-Está bem - disse ele com tom fatigado. Dar-se bem com as enfermeiras não era seu forte, mas tinha chegado a convencer-se de que isto era essencial. - Então me diga quem é.

-Daphne Fields. -respondeu a enfermeira, com tom que denotava um respeito quase reverencial.

-Extraordinário. Mas esta mulher continua tendo os mesmos problemas que tinha antes que eu soubesse seu nome.

-Você alguma vez lê?

-Sim. Livros de medicina e revistas médicas.

Mas assim que respondeu com petulância e sem pensar a resposta, recordou que sua mãe lia todos seus livros. Por um instante, o irônico e jovem médico ficou silencioso.

-É muito famosa, não?

-Provavelmente é a autora mais famosa do país.

-Isto não muda em nada sua sorte.

De repente, seu rosto adotou uma expressão compassiva enquanto contemplava o corpo miúdo e imóvel coberto pelo lençol branco.

A máscara de oxigênio ocultava quase por completo suas feições.

-Que maneira horrível de passar o Natal!

Ambos observaram a paciente durante um longo momento e se dirigiram com passos lentos ao posto de serviço da enfermeira, onde os aparelhos de controle registravam os sinais vitais de todos os pacientes internados na iluminada unidade de cuidados intensivos.

Naquela dependência não havia forma de saber se era de dia ou de noite.

Tudo ali se desenvolvia num ritmo estável as vinte e quatro horas do dia.

Às vezes algum paciente ficava histérico por causa da iluminação permanente, do zumbido dos aparelhos de controle e os equipamentos de assistência vital. O lugar não era tranqüilo, mas a maioria dos pacientes que se encontrava naquela unidade estava muito grave para poder dar-se conta ou para protestar.

-Alguém verificou seus documentos, para ver se tem alguma pessoa a quem avisar?

A enfermeira gostava de pensar que uma mulher do porte de Daphne deveria contar com um exército de pessoas ansiosas para estar ao seu lado: o marido, os filhos, o agente literário, o editor, amigos íntimos e importantes. Entretanto, sabia também, por artigos que tinha lido no passado, quão zelosamente Daphne preservava sua intimidade.

Quase ninguém sabia nada a respeito de sua vida privada.

-Não levava nada mais que a carteira de motorista, um pouco de dinheiro, cartões de crédito e um lápis labial.

-Darei outra olhada.

Apanhou o volumoso envelope de papel que devia guardar no cofre, e se sentiu importante e um pouco bisbilhoteira ao revisar os pertences de Daphne. Tinha lido todos os livros daquela escritora, gostou muito dos homens e mulheres nascidos da imaginação de Daphne, e durante anos tinha tido a impressão que aquela mulher e ela eram amigas. E agora estava revolvendo sua bolsa como se fosse coisa que fazia todos os dias.

O público formava longas filas nas livrarias, durante duas ou três horas, só com o propósito de conseguir um sorriso ou um autógrafo em um livro, e ali estava ela vasculhando em sua bolsa como uma vulgar bisbilhoteira.

-Admira-a muito, não é verdade? -perguntou o jovem residente, que parecia intrigado.

-É uma mulher extraordinária, com uma inteligência surpreendente. -E então apareceu uma nova luz em seus olhos. - Ela tem dado a muitas pessoas uma imensa alegria. Houve vezes...

Sentiu-se um pouco estúpida falando daquela maneira, sobretudo ao médico residente, mas tinha que fazê-lo. Era o mínimo que podia fazer por aquela mulher que tanto necessitava agora de seus cuidados.

-Houve vezes em que conseguiu mudar minha vida..., em que me deu esperança..., em que fez que tudo adquirisse um novo sentido para mim.

Como quando Elizabeth Watkins perdeu seu marido em um acidente de aviação e desejou morrer também. Solicitou licença no hospital por um ano e se fechou em sua casa para chorar seu desconsolo, enquanto gastava em bebida a pensão de Bob. Mas algo que encontrou nos livros de Daphne lhe fez ver as coisas sob uma nova luz, como se aquela mulher a compreendesse, como se ela mesma tivesse experimentado o mesmo tipo de dor. E foi ela quem conseguiu que Elizabeth reagisse, que seguisse adiante, que voltasse para lutar. Retornou ao hospital, e em seu íntimo compreendeu que isto se devia a Daphne.

Mas como podia explicar isto a aquele médico residente?

-É uma mulher sensata e maravilhosa. E se agora se apresenta a ocasião de fazer algo por ela, eu o farei.

-Ela vai precisar.

Exalando um suspiro, o residente apanhou outro histórico clínico, mas ao mesmo tempo tomou nota mentalmente de dizer a sua mãe, na próxima vez que a visse, que tinha atendido a

Daphne Fields. Estava certo de que isto a impressionaria, como Elizabeth Watkins se mostrava impressionada.

-Doutor Jacobson - chamou-o a enfermeira com voz baixa quando ele se dispunha a sair.

-Sim?

-Ela vai se salvar?

O jovem médico vacilou um instante e logo encolheu os ombros.

-Não sei. É muito cedo para arriscar uma opinião. As feridas internas e a concussão ainda nos darão muito que fazer. Recebeu um forte golpe na cabeça.

Dito isto, ele se foi. Havia outros pacientes que requeriam sua atenção, não só Daphne Fields. Enquanto aguardava o elevador, perguntou-se o que seria que era capaz de gerar aquela espécie de mística no caso de uma pessoa como ela. Devia-se ao feito de que sabia criar uma boa narração, ou havia algo mais?  O que era que fazia com que as pessoas como a enfermeira Watkins se comportassem como se a conhecessem intimamente? Era tudo ilusão? Fosse o que fosse, esperava que não morresse.

Mortificava-lhe perder um paciente, mas se tratava de alguém importante, de alguém notável, ainda lhe causava maior amargura. Já tinha suficientes problemas sem necessidade de adicionar mais um.

Enquanto a porta do elevador se fechava às costas do médico, Elizabeth Watkins voltou para examinar os papéis de Daphne. Era estranho que não houvesse indicação de avisar a alguém em caso de acidente. Na bolsa não havia nada importante... Mas justo neste momento, em seu bolso interior, encontrou uma fotografia de um menino. Estava um pouco enrugada, mas parecia bastante recente. Era um lindo garotinho loiro, de grandes olhos azuis e uma saudável cor bronzeada.

Estava sentado debaixo de uma árvore, sorrindo alegremente e fazendo uns gestos curiosos com as mãos. Mas isto era tudo; além da carteira de motorista e os cartões de crédito, não havia nada mais que a nota de vinte dólares.

Seu endereço era Rua 69, entre as avenidas Park e Lexington, em um edifício que a enfermeira supunha ser elegante, guardado por um porteiro.

Mas quem estaria esperando-a em seu lar? Era curioso pensar que apesar da fascinação que os livros daquela mulher exerciam sobre ela, na verdade nada sabia a cerca de sua vida.

Nem sequer havia um número de telefone que pudesse chamar.

Enquanto Elizabeth dava voltas ao assunto, produziu-se uma alteração em um dos aparelhos de controle, e ela e outra enfermeira tiveram que ir atender ao paciente do leito. Tinha sofrido uma parada cardíaca na manhã anterior, e quando as enfermeiras chegaram junto a ele, inquietaram-se ao ver seu aspecto. Terminaram por passar mais de uma hora com ele. E só quando terminou o turno às sete da manhã, Elizabeth pôde voltar para quarto de Daphne.

As outras enfermeiras tinham estado controlando-a a cada quinze minutos, mas não se havia produzida mudança alguma nas últimas duas horas.

-Como vai?

-Igual.

-Seus sinais vitais permanecem estáveis?

-Não houve nenhuma mudança desde ontem à noite.

A enfermeira Watkins consultou de novo o histórico clínico e entao ficou contemplando o rosto de Daphne.

Apesar das bandagens e da palidez, havia algo sugestivo em seu rosto, algo que inspirava o desejo de que abrisse os olhos e, em seu olhar, poder compreender algo mais.

Elizabeth Watkins a contemplava em silêncio, roçando apenas sua mão com os dedos, e então as pálpebras de Daphne estremeceram ligeiramente, e a enfermeira pôde sentir os fortes batimentos de seu próprio coração.

Daphne abriu com lentidão os olhos, que percorreram a sala como se estivesse ofuscada.

Era evidente que não compreendia onde se encontrava.

-Jeff? -murmurou com voz apenas audível.

-Tudo está bem, senhora Fields.

A enfermeira supôs que Daphne Fields estava casada. Sua voz possuía uma doce cadência, um tom calmo, enquanto ela falava no ouvido de Daphne.

Era uma voz acostumada a dar consolo. Seja o que for que dissesse, sem dúvida provocaria um suspiro de alívio e daria a convicção de que, a seu lado, estava a salvo. Entretanto, Daphne se mostrou alterada e assustada enquanto seus olhos se esforçavam para enfocar o rosto da enfermeira.

-Meu marido...

Recordou o característico grito das sirenes da noite anterior.

-Seu marido está bem, senhora Fields. Tudo está bem.

-Foi procurar... a menina...Eu não pude..., eu não...

Fraquejaram-lhe as forças e não pôde prosseguir, enquanto Elizabeth lhe segurava brandamente a mão.

-Você está bem..., você está bem, senhora Fields.

Entretanto, enquanto falava, pensava no marido da escritora. O homem devia estar desesperado, perguntando-se o que teria ocorrido a sua mulher. Mas por que ela se encontrava sozinha a meia-noite na Avenida Madison, na véspera do Natal? Sentia uma tremenda curiosidade por tudo que se relacionava com aquela mulher, pelas pessoas que povoavam sua vida.

Seriam acaso como os personagens que criava em suas novelas? Daphne mergulhou de novo em um sono inquieto e profundo pela ação das drogas, e a enfermeira Watkins foi assinar a ficha de saída, mas não pôde deixar de perguntar à enfermeira que se encontrava em seu posto no novo turno:

-Sabe quem temos aqui?

-Me deixe adivinhar. Certamente, Papai Noel! Feliz Natal, Liz.

-O mesmo digo. -Elizabeth Watkins sorriu com ar fatigado. Tinha sido uma longa e pesada noite.

-A Daphne Fields.

Sabia que sua companheira tinha lido também vários de seus livros.

-É verdade?! - exclamou sua colega, surpresa. -O que aconteceu?

-Ontem à noite um carro a atropelou.

-Oh, meu Deus! -a enfermeira do turno do dia estremeceu.

-Está grave?

Lançou um olhar ao histórico clínico. Um adesivo vermelho circular indicava que o estado da paciente seguia crítico.

-Voltou da cirurgia às quatro e meia. Só faz uns minutos que recuperou os sentidos.

Disse à colega que anotasse. A outra enfermeira assentiu com a cabeça e olhou para Liz.

-Como é ela?

Mas em seguida se sentiu estúpida por ter perguntado. No estado em que se encontrava Daphne, quem poderia dizê-lo?.

-Não faça conta. -Sorriu com embaraço. -É que esta mulher sempre me intrigou.

Liz Watkins reconheceu abertamente a fascinação que sentia por ela.

-O mesmo acontece comigo.

-Está casada?

-Parece que sim. Perguntou por seu marido assim que recuperou o conhecimento.

-Ele está aqui? – perguntou intrigada, Margaret McGowan, a enfermeira que a substituía no posto.

-Ainda não. Não acredito que ninguém soubesse a quem avisar. Não havia dado algum em seus papéis. Avisarei ao pessoal da administração. O homem deve estar terrivelmente angustiado.

-Que surpresa para o dia de Natal!

As duas mulheres menearam tristemente a cabeça.

Liz Watkins exalou um suspiro, assinou e se foi. Mas antes de abandonar o hospital, deteve-se no escritório de internamento e lhes avisou que o marido do Daphne Fields se chamava Jeff.

-Isto não nos servirá de muito.

-Por que não?

-Seu número de telefone não consta na lista telefônica. Pelo menos, não há nenhuma Daphne Fields. Verificamos ontem à noite.

-Procure por Jeff Fields.

E só por curiosidade, Liz Watkins resolveu ficar mais uns minutos a fim de ver que resultados obtinham.

A funcionária ligou para informações, mas lhe disseram que não constava ninguém cadastrado com o nome de Jeff Fields.

-Talvez Fields seja um pseudônimo.

-Isto não ajuda muito.

-E agora o que faremos?

-Esperaremos. É muito provável que neste momento a família já esteja alarmada com sua ausência. Terminarão por telefonar à polícia e aos hospitais. Irão encontrá-la. Não é o mesmo como se fosse uma desconhecida.

Na segunda-feira, chamaremos seu editor.

A funcionária também tinha reconhecido o nome.

Olhou Liz com um brilho de curiosidade nos olhos.

-Que aparência tem?

-A de uma paciente atropelada por um carro.

Liz adotou uma patética expressão.

-Sobreviverá?

Liz soltou um suspiro.

-Assim o espero.

-Eu também. Céus, os seu são os únicos livros que leio. Se não sair desta com vida, terei que deixar de ler.

Aquelas palavras pretendiam ser agradáveis, mas Liz estava muito abatida ao sair do escritório.

Dava a impressão que a mulher que jazia na unidade de cuidados intensivos não era um ser humano, mas só o nome na capa de um livro. Ao sair à rua coberta de neve, banhada pelo sol de inverno, Liz Watkins pensava na mulher que se ocultava atrás do nome. Era estranho que fosse para casa levando a preocupação por algum paciente. Mas nesta ocasião se tratava de Daphne Fields, a mulher que, durante quatro anos, ela tinha considerado como uma pessoa conhecida.

Ao chegar à entrada do metrô da Avenida Lexington e da Rua 79, deteve-se de repente e se encontrou como que plantada olhando para o centro da cidade. O endereço que constava nos cartões de crédito se achava só a oito quadras do local onde ela se encontrava. Como podia deixar de ir ver Jeff Fields? Naquele momento devia estar enlouquecido, desesperado, ao não saber o que tinha acontecido a sua esposa.

Isto não era, por certo, um procedimento regular, mas afinal todos eram seres humanos. E, além disso, seu marido tinha direito de saber o que tinha ocorrido. Se ela podia dizer-lhe e lhe economizar uma busca desesperada, que mal havia nisto? Quase sem perceber começou a caminhar pela capa de sal recém pulverizado sobre a neve e, ao chegar à associação de Futebol da Rua 69, dobrou para a Avenida Park. Num instante, encontrava-se diante do edifício. Este era tal como tinha imaginado. Tratava-se de uma sólida construção de pedra, com uma marquise verde escuro e um porteiro uniformizado no interior da entrada. O homem lhe abriu a porta com expressão inquisidora e a única palavra que disse foi:

-Sim?

-O apartamento da senhora Fields?

Aquilo era extraordinário, disse ela para si mesma, enquanto enfrentava o porteiro. Durante quatro anos tinha sido leitora de seus livros, e agora se encontrava no vestíbulo de entrada de seu apartamento, como se fosse uma conhecida dela.

-A senhorita Fields não se encontra aqui.

A enfermeira percebeu que o porteiro tinha sotaque britânico. Era como um filme ou um sonho.

-Eu sei. Quero falar com seu marido.

O porteiro franziu o cenho.

-A senhorita Fields não é casada - disse com tom autoritário, e ela esteve a ponto de lhe perguntar se estava certo do que dizia. Possivelmente era novo no posto e não conhecia Jeff. Ou talvez Jeff fosse só um amante de Daphne... Entretanto, recordava a ter ouvido dizer "meu marido".

Por um instante, Liz se sentiu confusa.

-Há alguma outra pessoa em casa?

-Não.

O porteiro a olhava com receio, e ela resolveu lhe dar uma explicação.

-A senhorita Fields sofreu um acidente ontem à noite.

Como obedecendo a uma súbita inspiração, abriu o casaco para deixar a descoberto o uniforme e a meia branca, e logo lhe mostrou a engomada touca que sempre levava em sua bolsa de plástico.

-Sou enfermeira do Lenox Hill Hospital, e não encontramos em seus papéis o nome de nenhum familiar ou conhecido. Ocorreu-me que...

-Ela está bem? Perguntou o porteiro, verdadeiramente preocupado.

-Não sabemos. Ainda se encontra em estado crítico, e pensei que... Não vive ninguém com ela?

O homem negou com a cabeça.

-Ninguém. Uma faxineira vem todos os dias, salvo os fins de semana.E sua secretária, Barbara Jarvis; mas esta não voltará até a semana próxima.

Barbara assim havia dito quando lhe deu o abono de Natal por parte de Daphne.

-Não sabe como poderia me comunicar com ela?

O porteiro voltou a menear a cabeça, e então Liz se lembrou da fotografia do menino.

-E seu filho?

O homem a olhou estranhando, quase como se pensasse que a enfermeira estava louca.

-A senhorita Fields não tem filhos, senhorita.

Uma expressão desafiante apareceu em seus olhos, acompanhada de uma atitude reservada, e por uma fração de segundo Liz teve a impressão de que estava mentindo. Então, o porteiro a olhou nos olhos com ar altivo e distante.

-A senhorita Fields é viúva, sabe?

Aquelas palavras caíram em Liz Watkins como uma pancada, e ao fim de um instante, já que não havia nada mais que dizer, saiu do edifício no ar gélido da manhã natalina e sentiu que as lágrimas lhe umedeciam os olhos, não por causa do frio, mas sim da sensação de vazio que a embargava. Foi como se sentisse de novo a morte de seu próprio marido até na medula dos ossos, tal como não tinha deixado de experimentá-lo com o passar do doloroso primeiro ano posterior a seu falecimento. Assim, também ela sabia..., não era só sua imaginação. Ela sabia. Ela também o tinha vivido.

Enquanto se dirigia de novo à entrada do metrô, isto a fez sentir-se mais perto de Daphne. A escritora era viúva e vivia sozinha. E não tinha a ninguém no mundo, salvo a secretaria e uma faxineira. Liz Watkins ficou pensando que aquela era uma existência bem vazia, tratando-se de uma mulher que escrevia livros tão cheios de sensatez, de compaixão e de amor.

Talvez Daphne Fields estivesse sozinha no mundo como ela mesma. Aquilo parecia ser um vínculo a mais que se estreitava entre ambas, disse-se enquanto descia as escadas que a conduziam ao metrô que corria abaixo das ruas de Nova Iorque.

Daphne sentia-se como flutuando em sua própria bruma e uma brilhante luz parecia perfurar o manto de névoa de uma grande distancia.

Esforçava-se em se concentrar em si mesma, parecia aproximar-se por um tempo, e logo a bruma a envolvia de novo, quase como se estivesse navegando para um remoto lugar, perdendo de vista a praia, onde cintilava fracamente a luz do farol na distância. Entretanto, havia algo familiar na luz, nos ruídos, e até percebia um aroma que quase conseguia identificar. Não sabia onde se encontrava, mas tinha a sensação de ter estado ali anteriormente. Mesmo o ambiente lhe parecia remotamente conhecido, tinha a certeza de que os ruídos e os aromas guardavam uma estranha ameaça, algo terrível, desenquadrado.

E uma vez, enquanto seguia ali prostrada, sonhando, deixou escapar um gemido de angústia quando em sua mente distinguiu uma impenetrável barreira de chamas. Porém, a enfermeira acudiu rapidamente para seu lado e lhe aplicou outra injeção. Ao fim de um instante se esfumaram as lembranças, as chamas e até a dor.

Flutuava de novo em um manto de suaves e amaciadas nuvens, como as que se observam da janela de um avião, irreais, imaculadas, enormes..., o tipo de nuvens sobre as quais a gente desejaria dançar, pular e rodopiar.

Ouviu a si mesma rindo na distância, e em seu sonho voltou a ver Jeff de pé junto a ela, tal como tinha estado em uma época muito longínqua.

-Desafio-a a uma corridaa até aquela duna, Daffodil.

Daffodil...

DaffyDuck...

Daffy Queen...

FunnyFace...

Punha-lhe milhares de apelidos, e sempre havia uma risonha expressão em seus olhos, assim como também uma grande ternura. A corrida era um motivo de brincadeira para ambos, igual a todos seus outros jogos juvenis. As largas e musculosas pernas do Jeff competiam com os magros e graciosos membros dela, que junto a ele parecia uma menina dançando no ar, uma flor do verão na ladeira de uma colina, em algum lugar da França...

Seus grandes olhos azuis contrastavam com o bronzeado de sua cútis, e seus longos cabelos dourados flutuavam ao vento.

-Vamos, Jeffrey! Ria dele enquanto corriam pela areia.

Era veloz, mas não era um rival temível para Jeff.

E aos vinte e dois anos, parecia uma menina de doze.

-Vai, que você pode..., você pode! Mas antes de chegar à duna, lhe deu uma rasteira e a tomou entre seus braços, enquanto sua boca se apertava contra os lábios da jovem com aquela paixão desmedida que a deixava sem fôlego cada vez que a tocava, como se fosse a primeira vez, que tinha acontecido quando Daphne tinha dezenove anos.

Tinham se conhecido em um congresso do Colégio de Advogados que ela devia cobrir para o Daily Spectator de Columbia. Naquela época realizava sua especialização em jornalismo, e com surpreendente seriedade e intensa devoção, estava escrevendo uma série de artigos sobre os advogados jovens que se destacavam em sua profissão. Jeff a tinha detectado em seguida, e tratou de liberar-se de seus companheiros e convidá-la para almoçar.

-Não sei... Tenho que...

Ela levava o cabelo recolhido em um apertado coque em forma de oito sobre a nuca, com um lápis preso no mesmo, e sustentava entre os dedos uma caderneta de apontamentos, enquanto seus enormes olhos azuis pousavam nos dele com uma leve expressão risonha.

Parecia zombar dele sem dizer uma só palavra.

-Você também não teria que estar trabalhando?

-Trabalharemos juntos. Pode me entrevistar enquanto almoçamos.

Depois, meses mais tarde, o acusou de ser um presunçoso, mas na verdade não o era. Só desejava desesperadamente passar um momento em sua companhia. E conseguiu.

Compraram uma garrafa de vinho branco, laranjas, maçãs, pão francês e um pouco de queijo. Entraram no Central Park e alugaram um bote, com o qual passearam pelo lago conversando sobre o trabalho dele e os estudos dela, das viagens a Europa e os verões da infância passados no sul de Califórnia, Tennessee e Maine.

A mãe de Daphne era do Tennessee, e algo nesta evocava a delicadeza das jovens sulistas, até que, ao ouvi-la falar, a gente percebia a energia que irradiava e como era direta.

Tudo isto não coincidia com o conceito que Jeff tinha do que era uma beldade sulista.

Seu pai era de Boston, e faleceu quando ela tinha doze anos. Então foram viver no sul, para desgosto de Daphne, que não teve remédio senão suportar até que foi estudar em New York.

-O que acha sua mãe disto? Jeff tinha se mostrado extremamente interessado em tudo o que se referia a Daphne.

Em todo momento se mostrava ansioso por saber algo mais sobre o que ela contava.

-Considera-me um caso perdido, acredito - respondeu Daphne com um sorriso divertido e os olhos resplandecentes de novo, com um fulgor que penetrava Jeff até o mais profundo de sua alma.

Achava-a terrivelmente sedutora, doce e com grande atrativo sexual, e adivinhava nela um temperamento tempestuoso e desaforado.

-Cheguei à conclusão de que, apesar de todos seus esforços, sigo sendo uma maldita ianque. E não só isto, mas também cometi um delito imperdoável, ter talento.

-Sua mãe é contra o talento?

Jeff parecia divertido. Daphne lhe agradava. Gostava dela uma barbaridade, disse-se enquanto tratava de não fixar a vista no talho da saia de linho azul céu e nas torneadas pernas que deixava a descoberto.

-Minha mãe é contra o uso manifesto do talento.

As mulheres sulistas são muito sagazes. Talvez ardilosas seja um adjetivo que caia-lhes melhor. Muitas delas são inteligentes como demônios, mas não querem se manifestar.

"Desempenham um papel" - concluiu com um acento sulista digno de Scarlett O'Hara, e ambos se puseram a rir sob o quente sol de verão.

Era uma linda manhã de julho e agora o sol, ao aproximar-se do zênite, abatia-se com toda sua força sobre suas cabeças nuas.

-Minha mãe é licenciada em História Medieval, mas nunca o diz abertamente.

"Ela é só uma preguiçosa beldade sulista, você sabe?"

-disse, adotando de novo o doce acento do sul e o olhando com aqueles olhos azuis como o oceano.

-Faz tempo eu desejava ser advogada. Que tal é ser um? Ao perguntar voltou a adquirir a aparência de uma jovenzinha, e exalando um suspiro Jeff se reclinou contra a amurada do bote.

-Terei que trabalhar muito. Mas eu gosto.

Especializava-se em assuntos relacionados com o setor editorial, e isto intrigava a Daphne enormemente.

-Acaso pensa em ingressar na faculdade de Direito?

-Talvez - respondeu ela, mas em seguida meneou a cabeça. -Não, na verdade não. Pensei em algum momento. Mas acredito que me atrai mais a literatura.

-Estudar literatura?

-Não; escrever contos, artigos, não sei...

Corou ligeiramente e baixou os olhos. Sentiu-se um pouco perturbada ao lhe confessar o que na realidade desejava fazer. Possivelmente não o faria nunca. Só pensava de vez em quando.

-Um dia eu gostaria de escrever um livro. Um romance.

-Então, por que não o faz? Daphne riu enquanto lhe enchia de novo o copo.

-Assim, simples, não é?

-Por que não? É capaz de fazer qualquer coisa a que se proponha.

-Tomara eu estivesse tão segura disto.

E do que viveria enquanto escrevesse o livro? Quase lhe tinha esgotado o dinheiro que seu pai lhe havia deixado para custear os estudos, e lhe preocupava pensar que seus magros recursos não lhe bastavam para cobrir os gastos do ano que ainda lhe faltava cursar. Sua mãe não podia ajudá-la. Trabalhava em uma loja de modas em Atlanta, muito elegante por certo, mas só ganhava o necessário para o sustento de Camilla Beaumont.

-Poderia se casar com um homem rico - sugeriu-lhe Jeffrey sorrindo, mas Daphne não pareceu achar engraçado.

-Fala como minha mãe.

-É isto que ela gostaria?

-É obvio.

-E o que é que pensa fazer quando terminar os estudos?

-Procurar um emprego decente em uma revista, possivelmente em um jornal.

-Em New York?

Ela concordou com a cabeça e Jeffrey, sem saber por que, experimentou um grande alívio.

Então a olhou com interesse, inclinando a cabeça.

-Vai para a casa de sua mãe neste verão, Daphne?

-Não. Vou ficar na universidade também durante o verão. Assim poderei terminar antes.

Não dispunha de dinheiro para ficar perdendo tempo.

-Quantos anos você tem?

Parecia que era ele quem estava realizando a entrevista e não ela.

Daphne ainda não tinha feito nenhuma pergunta sobre o congresso do Colégio de Advogados, nem sobre seu trabalho. Desde que se afastaram do atracadouro no bote, não tinham feito mais que conversar de si mesmos.

-Dezenove - respondeu com um brilho desafiante nos olhos como se estivesse acostumada a que lhe replicassem que era muito jovem.

-Em setembro completarei vinte e passarei ao último ano.

-Estou impressionadíssimo!-exclamou ele sorrindo com doçura, e Daphne corou. -Falo sério. Columbia é uma universidade onde se exige muito dos estudantes. Deve-se ter firmeza nos estudos.

Pelo tom de sua voz, ela compreendeu que ele falava realmente a sério, e isto a agradou.

Simpatizava com Jeffrey. Quase demais. Ou talvez tudo se devesse ao calor do sol e do vinho, mas, enquanto o observava com atenção, disse-se que havia algo mais que isto. Era a curva de seus lábios, a ternura que descobria em seus olhos, a delicada força de suas mãos quando, de vez em quando, acionava firmemente os remos...; e a maneira que tinha de olhá-la, com inteligência e interesse, a sensatez com que falava...

-Obrigada... -respondeu com voz muito baixa.

-Como é o resto de sua vida? Daphne pareceu confusa diante da pergunta.

-O que quer dizer?

-O que faz em suas horas livres? Quero dizer além de simular que entrevista advogados ligeiramente bêbados no Central Park.

Ela se pôs a rir e suas gargalhadas ressoaram ao passar por baixo de uma ponte.

-Está bêbado? Deve ser por causa do sol, mais que do vinho.

-Não - replicou ele, meneando a cabeça quando saíam de novo à luz.

-Acredito que é por sua causa.

Então se inclinou para diante e a beijou, e naquela tarde ambos não voltaram ao congresso.

-Ninguém perceberá - assegurou-lhe ele enquanto se encaminhavam para o zoológico.

Riram com o hipopótamo, atiraram amendoins ao elefante e percorreram as jaulas dos macacos, rindo sem cessar e tampando os narizes.

Ele quis que Daphne desse um passeio montada em um ponei como se fosse uma garotinha, e ela,rindo, recusou.

Em vez disto, deram um passeio pelo parque em um cabriolé de aluguel, e por último caminharam sob as árvores da Quinta Avenida até chegar à Rua 94, onde ela vivia.

-Quer subir um pouquinho? -perguntou-lhe Daphne sorrindo inocentemente, e sustentando na mão a bola vermelha que Jeffrey tinha comprado no zoológico.

-Eu adoraria.

Mas sua mamãe aprovaria? Jeffrey tinha vinte e sete anos, e nos três anos seguintes a sua graduação na faculdade de Direito de Harvard, nem por um só momento tinha lhe ocorrido pensar na mãe de ninguém, nem se aprovaria ou não uma determinada conduta.

Isto era positivo, já que não havia mãe alguma com quem se preocupar. Tinha estado imerso em uma orgia contínua, assinada pelas saídas com moças e relações sexuais livres, desde que tinha saído da faculdade.

Daphne se pôs a rir enquanto apoiava as mãos sobre os ombros de Jeffrey.

-Não, senhor Jeffrey Fields, minha mãe não o aprovaria.

-Por que não? -perguntou ele, simulando estar ofendido.

Um casal que voltava do trabalho os olhou, sorrindo. Viam os jovens, de aparência agradável, e faziam um belo casal. Ele tinha os cabelos mais loiros que ela; seus olhos eram de um verde arrebatador; suas feições tão belamente cinzeladas como as dela, e sua energia juvenil contrastavam com a delicada figura da jovem, enquanto ele a rodeava com seus braços.

-Porque sou ianque?

-Não... -Daphne inclinou a cabeça, e ele sentiu que suas entranhas estremeciam ao lhe pôr as mãos na cintura.

-Porque é muito velho e muito arrumado... -sorriu e se liberou de seu abraço.

-E porque provavelmente terá beijado metade das garotas desta cidade, incluindo a mim. - concluiu, rindo de novo.

-Tem razão. Minha mãe também se escandalizaria.

-Bom, então sobe para tomar uma xícara de chá, e eu não contarei a sua mãe, se você não contar à minha.

A companheira de quarto de Daphne estava de férias; o apartamento era pequeno e sóbrio, modesto, mas não era feio. Ela preparou chá gelado e o serviu com folhas de hortelã, acompanhado de deliciosas bolachas de limão.

Jeffrey se sentou junto a ela no sofá, e quando deram conta já eram oito da noite, e ele não se sentia cansado nem estava aborrecido.

Não podia tirar os olhos dela, e dizia para si mesmo que tinha encontrado a mulher de seus sonhos.

-O que lhe parece se formos jantar?

-Ainda não se cansou de mim?

Daphne estava encolhida no sofá, sentada sobre seus pés recolhidos, e tinha a sensação de que as horas haviam passado voando como se fossem minutos. O sol acabava de ocultar-se atrás das árvores do Central Park, e tinham estado juntos desde antes do meio-dia.

-Não acredito que possa chegar a me cansar de você, Daff. Quer se casar comigo?

Ela se pôs a rir ao ouvir a pergunta, observando a expressão de seu pretendente, e descobriu uma estranha sombra em seus olhos.

-Além de ir jantar ou em vez disto?

-Falo sério.

-Está louco.

-Não-replicou ele, olhando-a com displicência-. Na realidade, sou inteligente como um demônio. Graduei-me entre os cinco primeiros da classe, tenho um emprego excelente e um dia serei um advogado famoso e influente. Você escreverá livros de êxito e... -calou-se, entrecerrando os olhos como ponderando a questão.

-Provavelmente teremos três filhos. Deveríamos ter dois, mas você é tão demoniacamente jovem que o mais provável é que cheguemos ao terceiro antes de completar trinta anos. O que me diz? Daphne não podia conter a risada.

-Continuo dizendo que está louco.

-De acordo. Deixaremos em dois filhos. E um cão. Uma perdigueira cor canela.

Ela riu, meneando a cabeça.

-Bom, pois um cão de raça francesa... Um chihuahua?

-Quer se calar?

-Por que?

De repente, ele adotou um ar infantil, e o coração dela deu um pulo como tinha ocorrido a Jeffrey naquela tarde.

-Não sou simpático?

-Acredito que é terrível. E que está louco de pedra. É este o método que usa com todas as mulheres ou só para conquistar inocentes estudantes como eu?

Êle olhou para ela muito sério e sereno.

-Nunca tinha proposto casamento a nenhuma mulher. Jamais.

Deixou-se cair contra o encosto do sofá.

-Quando nos casamos?

-Quando eu fizer trinta anos. Daphne cruzou os braços e ficou o olhando com expressão risonha.

Em troca ele meneou a cabeça com solenidade.

-Quando você tiver trinta anos, eu terei trinta e oito. Serei muito velho.

-E eu sou muito jovem. Telefone para mim dentro de dez anos.

De repente ela pareceu tornar-se mais amadurecida, mais segura de si mesma e dona de uma notável força, e ele adorou isto, enquanto se aproximava lentamente do lugar que Daphne ocupava no sofá.

-Se partisse daqui neste momento, telefonaria em dez minutos. Isto se pudesse esperar tanto tempo. Agora me diga, quer se casar comigo?

-Não.

Mas algo em seu interior ia se abrandando à medida que ele lhe aproximava.

-Amo-a, Daff, Embora pense que estou louco, mas não estou. E, acredite você ou não, posso lhe assegurar que vamos nos casar.

-Eu não tenho nem um centavo em meu nome.

Teve necessidade de dizer lhe como se estivesse falando a sério, como se na verdade fosse sincero. Mas o mais absurdo de tudo era que, no fundo, sabia que Jeffrey expressava seus mais íntimos e nobres sentimentos.

-Eu tampouco, Daff, mas um dia seremos ricos. Os dois. Enquanto isto poderemos sobreviver comendo estas fabulosas bolachas e bebendo este chá gelado.

-Fala sério, Jeff?

Daphne o olhava com olhos que delatavam a fragilidade de sua resistência. De repente, sentia a necessidade de saber a verdade. Possivelmente Jeffrey só estava jogando com ela... Deus não o quisesse.

Quando lhe acariciou a face com uma mão enquanto tomava a sua com a outra, sua voz era firme e rouca ao lhe dizer:

-Sim, muito a sério. Neste momento estou completamente seguro de que será o melhor que nos poderia acontecer, Daff. Eu sei. Se nos casássemos esta mesma noite, não nos arrependeríamos pelo resto de nossos dias. Uma coisa como esta só ocorre uma vez na vida. E não estou disposto a deixá-la escapar. Se resistir, não a deixarei em paz até que me escute. Porque sei que não me engano, e estou seguro disso.

Depois de um breve silêncio, disse:

-E acredito que você também está.

Os olhos do Daphne pousaram nos seus, e então ele descobriu o brilho de umas lágrimas em seus olhos.

-Tenho que pensar... Não estou segura de compreender o que passou.

-Eu sim. Apaixonamo-nos. Assim, simples. Poderíamos ter demorado cinco anos para nos encontrar, ou dez possivelmente, mas não foi assim. Conheci-a hoje, naquela tediosa reunião, e mais tarde ou mais cedo será minha esposa.

Beijou-a com ternura e ficou de pé, retendo ainda com firmeza sua mão.

-E agora vou me despedir, antes que cometa verdadeiramente uma loucura, como a atacar.

Ela riu, sentindo-se totalmente segura. Havia outros homens para quem nunca teria aberto a porta de seu apartamento, mas a respeito de Jeff, instintivamente tinha sabido que não corria risco algum.

Era uma das coisas que a tinham cativado assim que o conheceu: a sensação de segurança e de bem-estar que a embargava ao estar ao seu lado.

Com ele se sentia protegida, e se tinha dado conta disto quando se dirigiam do lago ao zoológico.

Certamente se devia à energia que irradiava dele, energia que, ao mesmo tempo, parecia moderada por uma profunda ternura.

-Telefonarei amanhã.

-Estarei na escola.

-A que hora vai pela manhã?

-Às oito.

-Então, telefonarei antes. Quer almoçar comigo? Ela concordou com a cabeça, dominada de repente por um temor que a abalava.

-Diz isto de coração?

-Com toda minha alma.

Beijou-a na porta, e ela sentiu que todas as fibras de seu ser vibravam como nunca.

Esta noite, enquanto permanecia deitada na cama pensando nele, tratando de esclarecer seus pensamentos, apoderou-se dela uma funda saudade que até então jamais havia sentido. Entretanto, tudo que lhe disse aquela noite tinha brotado de seus mais sinceros sentimentos.

Na manhã seguinte, ele telefonou as sete, e foi esperá-la na saída da escola de jornalismo as doze em ponto. Levava a jaqueta pendurada no ombro, a gravata em seu bolso, e seus dourados cabelos resplandeciam à luz do sol, e quando o viu da escadaria  se deteve, vacilante,presa de uma profunda timidez.Aquilo era muito diferente do acontecido no dia anterior.Não estavam imersos no barulho de vozes que reinava no Colégio de Advogados; não tinham tomado vinho; não se achavam em um bote nem se filtrava o sol do entardecer pelas janelas de seu apartamento.

Agora se encontrava sozinha diante daquele arrumado jovem loiro, de pé sob o sol do meio-dia, que lhe sorria orgulhosamente como se fosse seu dono.

E no fundo de seu coração, ela compreendia que o era, e que sempre o seria.

Tomaram um táxi e foram almoçar no Museu Metropolitano, onde ocuparam uma mesa junto à piscina, e quando Jeffrey a acompanhou de volta à escola, ela já voltava a sentir-se natural a seu lado.

Era um homem notável, e Daphne se encontrou de novo subjugada por sua energia, segura junto a ele, como no dia anterior.

Esta noite, ela preparou o jantar em seu apartamento, e também desta vez Jeffrey partiu cedo.

No fim de semana, ele a levou para visitar uns amigos em Connecticut, onde jogaram tênis, praticaram navegação a vela, e retornaram para casa com a pele bronzeada pelo sol.

Nesta ocasião Jeffrey a levou ao seu apartamento e foi ele quem cozinhou.

Foi ali onde por fim a tomou em seus braços e deslizou brandamente as mãos por sua pele morena e sedosa, e Daphne se sentiu morrer de desejo por ele.

Aquela noite ela passou aninhada em seus braços, e foi só na madrugada seguinte quando ele fez amor com toda sua ternura e todas as precauções que visam refrear a paixão do homem que está loucamente apaixonado por uma mulher virgem.

Ele o fez com mestria, e nesta noite se uniram de novo no apartamento de Daphne.

Desta vez foi ela quem tomou a iniciativa, e não foi Jeffrey quem se surpreendeu, a não ser ela, ao comprovar a força do desejo e a paixão que a dominavam.

Passaram o resto do verão deitando-se e levantando-se da cama, adaptando os horários a fim de não coincidir com os de seus companheiros de apartamento - a de Daphne havia retornado em fins de agosto-, até que por fim Jeff não pôde suportar mais e, durante as férias de Páscoa do último ano de estudos de Daphne viajou ao Tennessee com ela, e se casaram.

A cerimônia foi muito íntima, contando com a presença somente da mãe de Daphne e de uma dúzia de amigos.

Ela usava um vestido comprido de organdi branco e um enorme chapéu, com um buquê de flores silvestres e margaridas na mão, e sua mãe chorou tanto de alívio como pela sorte de ver a sua filha casada.

Camilla estava morrendo de leucemia, mas ainda não o havia dito a Daphne. Antes que os recém casados retornassem ao norte, ela contou a Jeffrey. Este lhe prometeu que cuidaria de Daphne eternamente. Ao fim de três meses, sua sogra estava morta, e Daphne, grávida de seu primeiro filho. Jeff voou a Atlanta com ela para o funeral, e foi ele quem se encarregou de tudo, além de consolar a sua chorosa esposa.

Agora Daphne não tinha a ninguém mais no mundo, salvo Jeffrey e o filho que tinha que nascer em março.

Todo o verão Jeffrey presenciou a dor de Daphne pela morte de sua mãe, enquanto montavam seu novo apartamento com os contados móveis que tinham juntado desde Atlanta.

Ela se graduou em junho, e em setembro conseguiu seu primeiro emprego na Collins Magazine, uma revista para mulheres que gozava de muito prestígio.

Jeffrey não achou muito certo que começasse a trabalhar estando grávida, mas por fim não pôs impecilhos, e teve que reconhecer que isto lhe fazia um grande bem.

Depois de Natal, Daphne pediu uma licença de dois meses e se preparou para receber seu filho.

Cada dia que passava se mostrava mais impaciente, até que Jeffrey viu desaparecer de seus olhos o pesar que a tinha arrasado durante todo o verão.

Ela não cessava de insistir que, sim era um menino, chamaria Jeffrey, mas seu marido desejava que fosse uma menina e que se parecesse em tudo com ela.

Quando de noite se deitavam, ele lhe tocava o ventre e sentia os chutes do bebê, e em seus olhos maravilhados se refletia todo seu amor.

-Não doem? -perguntava-lhe, pois se preocupava com tudo  referente a ela.

Não obstante, aos vinte e um anos, Daphne era a viva imagem da saúde, e ria de seus temores.

-Não. Às vezes causam uma estranha sensação, mas não doem.

Olhava-o radiante de felicidade, deitada a seu lado, e lhe assaltava um sentimento de culpa quando alargava a mão para lhe acariciar os seios.

Até agora, desejava-a, e faziam amor quase todas as noites.

-Não se importa, Jeff?

-Não, é obvio que não. É linda, Daff, até mais linda que antes.

Havia algo novo e luminoso em seu rosto quando os cabelos dourados se espalhavam em volta de seus ombros como um feixe de trigo, e seus olhos ardiam com um fulgor interior que Jeffrey conhecia pelos livros, mas que nunca antes havia visto na vida real. Sua esposa parecia cheia de promessas e de uma mágica alegria.

Daphne telefonou ao escritório depois de ter sentido as primeiras dores, e lhe contou com voz exuberante e quase eufórica.

Ele correu para casa para estar com ela, esquecendo do cliente que estava com ele, assim como da jaqueta pendurada detrás da porta de seu escritório, mas levando consigo um livro de leis que tinha na mão quando ela ligou; sentia-se um pouco nervoso, e mais assustado do que teria querido reconhecer.

Mas ao ver que ela estava esperando, sentada tranqüilamente em uma poltrona, compreendeu que tudo sairia bem, tal como sempre tinha saído, e, contagiado da emoção que ela sentia, encheu duas taças de champanhe.

-Por nossa filha.

-Por seu filho! -brincou ela com olhos zombadores, que naquele mesmo instante ficaram frágeis por um espasmo de dor.

Jeffrey se inclinou para ela e lhe agarrou a mão, esquecendo do champanhe e recordando tudo o que ambos tinham aprendido nas aulas a que tinham assistido durante dois meses.

Ajudava-a suportar a dor, uma vez que calculava o tempo de cada contração com o cronômetro que tinham comprado para isto, até que pressentiu, muito antes que ela, que era hora de ir para o hospital.

O médico já estava aguardando, e Daphne lhe sorriu com uma expressão quase majestosa, com a cabeça erguida, tão emocionada e tão orgulhosa que pareceu ainda mais vulnerável quando se encolheu agarrando-se a seu marido, ofegando pesadamente, mas com os olhos ainda brilhantes pela felicidade que compartilhavam, sem deixar transparecer apenas a dor que experimentava.

-É extraordinária, querida. Oh, meu Deus, como te amo!

Jeffrey a acompanhou até a sala de pré-parto, e permaneceu junto a ela, segurando sua mão e compassando sua respiração com a de sua esposa, e às nove, equipado com a máscara e a bata entrou na sala de partos junto com ela.

Às dez e dezenove minutos, diante de seus olhos atônitos e assustados, Daphne começou a empurrar com todas suas forças e, enquanto as lágrimas corriam pelo rosto de Jeffrey, nasceu sua filha. Aimee Camilla Fields apareceu sua cabecinha ao mundo proferindo um poderoso alarido, enquanto sua mãe lançava um grito de triunfo e de júbilo.

O médico sustentou a recém-nascida no alto, e em seguida foi posta entre os braços de Daphne enquanto Jeffrey as contemplava rindo e chorando ao mesmo tempo, sem deixar de acariciar os úmidos cabelos de sua esposa com uma mão, enquanto com a outra tomava os diminutos dedinhos da menina.

-Não é preciosa, Jeff? Daphne chorava, com um sorriso nos lábios, olhando Jeff com todo seu amor quando este se inclinou sobre ela para beijá-la docemente nos lábios.

-Você jamais me pareceu mais bela, Daff.

-Te amo.

As enfermeiras se retiraram, pois nunca chegavam a endurecer suficiente para não emocionar-se ante o milagre que presenciavam todos os dias, e os três permaneceram juntos todo o tempo que o permitiram.

Por fim, levaram Daphne a seu quarto.

Assim que ela dormiu, Jeffrey partiu para sua casa, onde chegou a meia-noite, para permanecer acordado na cama, pensando em sua filha, em sua esposa e em tudo que havia compartilhado com ela durante dois anos.

Os três anos seguintes passaram voando.

Quando Aimee fez um ano, Daphne voltou a trabalhar na Collins.

Tinha prolongado a licença tudo que pôde, e detestava ter que voltar para a revista, mas embora amasse muito a Aimee, também sentia um grande amor pelo trabalho.

Sabia que necessitava disto para poder continuar sendo quem era, e Jeff compreendia que não era suficiente para ela limitar-se a ser mãe e esposa, mas sim devia ser alguém ante si mesma.

Isto ele sempre tinha compreendido.

Uma babá ia diariamente a sua casa, uma mulher tão boa como uma avó, que Daphne tinha encontrado pouco depois da menina nascer.

Jeff ajudava a cuidar de noite, e nos fins de semana saíam a passear pelo parque ou iam ao campo visitar os amigos.

Sua vida familiar tinha uma mágica virtude, que comovia a todos seus conhecidos.

-Mas vocês dois não brigam nunca? -perguntou-lhes brincando um dos colegas de trabalho de Jeff num fim de semana que passaram em Connecticut. Tinha-lhes grande simpatia, mas invejava Jeff mais do que gostaria de reconhecer.

-Claro que brigamos. Pelo menos duas vezes na semana. Fazemos isto em dia fixo. Eu lhe dou umas pancadas, ela me insulta, os vizinhos avisam à polícia e, quando todo mundo partiu, ficamos vendo televisão.

Daphne lhe sorriu por cima da cabeça de Aimee e Jeff soprou um beijo.

Jeff continuava sendo o de sempre: divertido, carinhoso, franco, e tudo o que ela desejava encontrar num homem.

Para ela, seguia sendo um sonho feito realidade.

-Vocês dois me dão asco - falou a esposa do amigo.

-Como é possível que duas pessoas casadas sejam tão felizes? Não têm vergonha?

-Nem um pingo - respondeu Jeff, passando o braço sobre os ombros de Daphne, enquanto Aimee descia de seu colo atrás de um gato.

-Suponho que somos muito estúpidos para conseguir coisa melhor.

Mas isto era precisamente o extraordinário neles: ambos eram muito inteligentes, bons anfitriões e grandes piadistas.

-O Casal Perfeito – os chamavam seus amigos.

Às vezes Daphne se inquietava, pensando que aquilo era muito maravilhoso para que pudesse durar, mas o caso era que ao fim de cinco anos sua relação não tinha feito outra coisa que melhorar.

Ambos tinham crescido dentro do mesmo molde, e com exceção do gosto de Jeff pelo rugby, cujas partidas ia assistir nos domingos a tarde no Central Park, não havia absolutamente nada que Daphne tivesse querido modificar.

Era simplesmente o caso de duas pessoas que tinham encontrado o que melhor se adaptava a cada uma delas e que tinham tido a sensatez de cultivar isto.

O único problema que às vezes deviam enfrentar era uma ocasional escassez de recursos, o que, entretanto, nunca parecia ser um motivo de preocupação para Daphne nem para Jeff. Com trinta e dois anos, Jeffrey ganhava bons honorários como advogado, o que o permitia atender a suas necessidades, e o salário de Daphne na Collins servia para cobrir os gastos adicionais.

Tinham começado a pensar em ter outro filho, e quando Aimee já tinha três anos e meio, decidiram tentar de novo, mas não tiveram êxito.

-Mas é divertido tentar, não acha, boneca? -brincava Jeff um domingo pela manhã, que era o dia de Natal.

-Quer provar de novo?

-Depois de ontem à noite? Não acredito ter forças suficientes.

Logo depois de enfeitar a árvore e de preparar os presentes para Aimee, tinham estado fazendo amor até as três da madrugada.

Daphne lhe respondeu com uma careta, e ele lhe deu uma palmada no traseiro.

Sua vida sexual estava melhor que cinco anos atrás.

Ela se mostrava mais bonita à medida que amadurecia, e aos vinte e quatro anos possuía um ar mais feminino e parecia mais atrevida, como naquele momento, em que cruzou a sala, aproximou-se de Jeff e começou a lhe acariciar com o dedo o ventre nu, descrevendo delicados círculos naquelas zonas que mais o excitavam.

-Se continuar fazendo isto, vou te violentar!

Mas então Aimee entrou na sala como um foguete, com os braços carregados de brinquedos novos, e Jeff se cobriu rapidamente com uma toalha enquanto Daphne ajudava sua filha a vestir a boneca que Papai Noel havia lhe trazido.

-Sinto muito, querido.

-Meninas! -exclamou ele, revirando os olhos, enquanto se metia no chuveiro para tomar uma ducha.

Foi um dia tranqüilo, em que os três comeram peru com geléia e molho até que quase não podiam se mexer, e quando por fim Aimee se deitou à noite, eles se acomodaram frente à lareira da sala de estar, lendo o último número do Time, enquanto bebiam uma xícara de chocolate quente e contemplavam a árvore.

Foi um Natal perfeito, com aquela tranqüila tarde de domingo, culminando no momento em que Daphne se esticou no sofá e apoiou a cabeça nos joelhos de Jeff.

-O que é uma cadeia de montanhas do Peru?

-Rendo-me. O que é? -Ele não tinha habilidade alguma para lhe ajudar com a palavra cruzada que ela fazia todos os domingos, mesmo que fosse Natal.

-Como você faz para acertar esses malditos quebra-cabeças, Daff? Diabos, eu estudei em Harvard, graduei-me com honras, mas sou incapaz de encontrar três palavras seguidas.

Ela as terminava por volta de terça-feira, e não desistia até as ter resolvidos.

Apesar de seu marido nunca a ajudar absolutamente em nada, sempre lhe perguntava.

-E não me pergunte como se chamava a irmã do Beethoven, porque sou capaz de te jogar o chocolate quente em cima.

-Isto! -exclamou ela, sorrindo com malignidade. -Violência! Esta é a palavra que me faltava no vinte e três horizontal.

-Você me deixa louco! Vem. -ficou de pé e lhe estendeu a mão. -Vamos para a cama.

-Vamos esperar o fogo apaguar.

Seu quarto e o do Aimee se encontravam no segundo andar do duplex que haviam comprado no verão passado, quando ele teve o último aumento de salário. Daphne adorava a lareira, mas sempre lhe causava certa inquietação deixá-la acesa, sobretudo agora, que a árvore de Natal estava tão perto dela.

-Já pode desconectar seu dispositivo de alarme, pois já está quase apagada.

-Então, esperemos um pouco.

-Não. -Deu-lhe um beliscão nas nádegas. - Estou tão excitado que mal posso fixar os olhos. Acredito que colocou um afrodisiaco no chocolate.

-Frescuras! –Daphne sorriu e ficou de pé-Comporta-se como um maníaco sexual desde que o conheci. Você não necessita de afrodisiacos, Jeffrey Fields. O que lhe faz falta é um pouco de sal na comida para mantê-lo em estado normal.

Ele se pôs a rir e a perseguiu escada acima até seu quarto, onde a fez cair sobre a cama e começou a acariciá-la por debaixo do suéter.

Daphne perguntou-se, como não tinha deixado de fazê-lo fazia dois meses, se naquela ocasião ficaria grávida.

-Por que acredita que demora tanto esta vez? - perguntou ligeiramente preocupada.

No caso do Aimee, tinha ficado grávida quase na primeira tentativa, mas em agora ainda não tinham conseguido.

Jeffrey se limitou a sorrir, encolhendo os ombros,

-Talvez já esteja ficando velho... Diabo, possivelmente deveria lhe conseguir um novo modelo.

Daphne o olhou com uma grave expressão nos olhos, enquanto se despia.

-Jamais encontrarei outro homem como você, Jeff. Não importa se não podemos ter outro filho. Sabe quanto te amo?

-Quanto?-perguntou ele com voz rouca e profunda, enquanto estendia os braços e a atraía lentamente para si.

-Mais do que nunca poderá saber, meu amor. Suas palavras foram absorvidas pelos lábios de Jeff, que se uniram aos seus, e começaram a fazer amor sob o cobertor que Daphne tinha comprado para sua enorme cama de bronze.

Aquela cama era um motivo de brincadeira entre eles. O colchão chiava, e a cama toda balançava quando faziam amor, mas era uma antigüidade que tinham comprado em um leilão, e a adoravam. Também tinham adquirido outra menor para Aimee, e Daphne tinha encontrado uma colcha muito bonita, feita por sua avó, entre as coisas de sua mãe.

-Tenho que ir ver como está a nenén.

Sempre o fazia antes de deitar-se, mas esta noite sentia preguiça e cheia de sensualidade enquanto se encontrava entre os braços de seu marido, e a este ocorria o mesmo.

Por um instante, Daphne se perguntou se tinha de novo uma vida em seu ventre.

Tinham se amado com um ardor e um desejo tão intensos que ambos sentiam a esperança de que desta vez tinham gerado seu segundo filho.

Enquanto cochilava nos braços de Jeffrey, ela sonhava com aquele menino desejado, e não com a filha que tinham.

-A menina está bem, Daph.

Ele sempre gracejava porque Daphne adotava um ar muito solene quando à noite ficava de pé junto à cama de Aimee, contemplando à pequena de dourados cabelos que tanto se parecia com ela. E se a criança dormia muito profundamente, Daphne lhe punha um dedo debaixo do nariz para assegurar-se de que respirava.

-Fica tranqüila. Aimee está bem.

Daphne sorriu sonolenta, e em um segundo estava profundamente adormecida, nos confortáveis braços de Jeff.

Esteve dormindo na mesma postura durante horas, até que por fim se removeu ligeiramente, perdida em um sonho distante.

Encontravam-se junto a uma cascata, os três, ela, Jeffrey e Aimee, e o ruído do salto de água era tão ensurdecedor que perturbava seu descanso; mas havia algo mais que a incomodava, uma espécie de aroma característico de bosque.

Por fim, agitou-se junto a Jeffrey, ergueu-se tossindo, abriu os olhos, para se libertar do sonho, e ao olhar para a porta do quarto, descobriu que o ruído da água que a havia despertado era na realidade o crepitar das chamas, que como um muro se levantavam frente à entrada do dormitório.

-Jeff!...Santo Deus, Jeff! Saltou da cama meio enjoada, e ele começou a mover-se ao ser sacudido violentamente por Daphne, que se tinha posto a gritar.

-Jeff! Aimee! Jeff despertou bruscamente e em seguida se deu conta do que estava acontecendo, enquanto se esforçava para levantar da cama, para dirigir-se nu à porta do dormitório.

Daphne o seguiu, com os olhos arregalados de terror.

Jeff se viu detido pelas chamas e retrocedeu um passo.

-Oh, Deus, Jeff, a neném! -exclamou Daphne.

As lágrimas corriam por seu rosto, provocadas pela fumaça e o desesperador espanto; mas ele se voltou para ela, agarrou-a pelos ombros com energia e lhe gritou, a fim de se fazer ouvir por cima do rugido das chamas.

-Basta, Daff! O fogo é na sala de estar. Nós estamos a salvo, e não acontecerá nada com a nenén. Agora se enrole com a manta e desça pela escada o mais rápido que puder. Vou tirar Aimee da cama e a seguirei. Não há nada que temer! Entendeu?

Enquanto falava, Jeff ia a envolvendo com a manta com rápidos e ágeis movimentos, e logo a empurrou para a porta murmurando no seu ouvido:

-Te amo, Daff. Não me acontecerá nada.

Falou com absoluta convicção e logo se precipitou para o quarto de sua filha, enquanto Daphne se dirigia à escada, tratando de conservar a serenidade, com a certeza de que Jeff cuidaria de Aimee, como sempre cuidava delas...

Sempre..., sempre..., repetia-se sem cessar para si mesma enquanto descia a escada, tentando ver o que ocorria à suas costas. Porém, a fumaça parecia ter se tornado mais densa, e ela se sentiu como se flutuasse em uma nuvem de fumaça ocre, e não podia ver nada.

De repente se ouviu um ruído como de uma explosão atrás dela, mas quando o ouviu,parecia vir de uma grande distancia.

Daphne se afundou no sonho que tinha tido momentos antes, encontrando-se junto à cascata com Aimee e Jeff, e então se perguntou se tudo aquilo não seria também um sonho.

Experimentou um profundo alívio ao dar-se conta de que o era..., que era só um sonho..., só um sonho..., enquanto ficava adormecida sentia Jeff a seu lado...

Logo ouviu vozes em sonhos e, em seguida, percebeu um estranho e sobrenatural barulho... de novo aquele ruído tão familiar..., aquele ruído..., e as luzes que chegavam até ela através da bruma...

"Senhora Fields - diziam as vozes-, senhora Fields..."

De repente, as luzes voltaram violentamente brilhantes, e se encontrou em um lugar desconhecido, horripilante.

Sentiu que o terror percorria todo seu corpo como sangue ardente, incapaz de recordar como tinha chegado até ali nem por que, e começou a procurar Jeff..., apanhada entre o sonho e a realidade...

Tinha ataduras nas mãos e nas pernas, e sentia que uma capa espessa de pomada cobria seu rosto, e um médico a olhava com expressão penalizada enquanto ela gritava:

-Não, não!...Minha filha não!...Jeff não!...Nãoooo...!

Daphne Fields gritou nesta noite com voz quebrada e cheia de angústia, recordando que tinha visto antes aquelas luzes tão brilhantes..., depois do incêndio...

Era manhã do dia de Natal quando despertou, e a enfermeira da unidade de cuidados intensivos foi para seu lado e a viu ali estendida, tremendo, com os olhos dilatados e o rosto paralisado por uma aflitiva recordação.

Então tinha despertado, tal como despertou agora, sentindo a mesma profunda dor de agonia, que parecia transpassar todo seu corpo como a afiada folha de uma faca, do mesmo modo como havia sentido então, nove anos atrás, na noite em que Jeff e Aímee morreram levados pelo fogo.

Barbara Jarvis chegou ao Lenox Hill duas horas depois que Liz Watkins, que tinha procurado o número ao chegar a sua casa, ter lhe telefonado. Barbara foi em seguida, tremendo dos pés a cabeça.

Eram nove da manhã, e diferente da enfermeira de uniforme engomado que a acompanhava pelo corredor, Barbara Jarvis tinha o aspecto de não ter dormido a noite toda. Deitou-se tarde, e a notícia do acidente de Daphne a comoveu até as fibras mais íntimas de seu ser.

Tinham lhe comunicado que sua chefa se achava na unidade de cuidados intensivos do Lenox Hill e que podia visitá-la durante quinze minutos cada hora, com o pedido de que avisasse a seus familiares. Depois de telefonar, Liz Watkins se perguntou se a secretária iria ao hospital, e como seria.

Não tinha se mostrado muito simpática por telefone; não agradeceu a Liz que a houvesse avisado e se mostrou bem mais desconfiada a respeito das perguntas da enfermeira.

Liz suspeitou que se tratasse de uma mulher estranha, e a enfermeira que a viu aparecer em seu escritório teria compartilhado sua opinião.

Não era estranha, mas estava longe de ser simpática; ao perguntar pelo quarto de Daphne o fez com um ar sério, com uma atitude protetora.

Suas perguntas denotavam uma espécie de paranóia que provocou irritação e espanto à enfermeira.

Queria saber se tinha avisado à imprensa, se alguém já tinha ido visitar a senhorita Fields, se seu nome tinha sido colocado em algum registro geral e se as enfermeiras da unidade tinham idéia de quem era a paciente.

-Sim, algumas sabemos - respondeu a enfermeira, olhando a de cima em baixo. -Temos lido seus livros.

-Talvez seja assim. Mas ela não veio aqui para escrever. Não quero que a senhorita Fields seja incomodada.

Barbara Jarvis mostrava um aspecto imponente, ao plantar-se ali em toda sua considerável estatura, com os cabelos recolhidos em um coque e uma expressão de profunda confusão no olhar.

-Está claro? Se algum jornalista telefonar, nada de comentários, nada de histórias, nada de reportagens. A senhorita Fields detesta publicidade, e em momentos como estes, devem respeitar seu estado e deixá-la tranqüila.

A enfermeira se apressou a lhe responder:

-No ano passado tivemos aqui ao governador de New York, senhorita... Estava tão cansada que nem sequer recordava o nome daquela mulher, e por um instante esteve a ponto de chamá-la senhorita Bitch, pela conotação insultante que tinha aquele nome. -E o senhor governador gozou do maior isolamento enquanto esteve neste hospital. A senhorita Fields receberá a mesma atenção.

Entretanto, era evidente que a alta morena que tinha diante de si não acreditava em nem uma palavra do que lhe dizia.

Era notório o contraste que oferecia se a comparasse com sua chefa, que era uma mulher miúda, frágil, delicada e loira.

-Como vai ela?

-Não houve nenhuma mudança em seu estado desde que lhe telefonaram. Passou uma má noite.

Um brilho de preocupação se refletiu como um relâmpago nos olhos da Barbara Jarvis.

-Tem muitos dores?

-Não deveria ser assim, uma vez que está bem medicada, mas é difícil dizer...

Então a enfermeira se perguntou se Barbara poderia lançar alguma luz sobre os terrores que, sem dúvida nenhuma, tinham assaltado Daphne na noite anterior.

Sua voz se suavizou ao acrescentar:

-Passou uma noite terrível.

Explicou-lhe os pesadelos que Liz Watkins havia descrito em seu histórico clínico, e a expressão que percebeu nos olhos da Barbara Jarvis lhe confirmou que esta conhecia sua origem, mas não diria nada a respeito.

-Sofreu pesadelos..., sonhos..., possivelmente por causa da concussão. Mas não podemos afirmar.

A secretária guardou absoluto silêncio.

-Se deseja vê-la, você pode entrar por breve tempo. Está quase sempre inconsciente, por isto pode ser que não a reconheça.

Barbara assentiu com a cabeça e desviou a vista por volta dos quartos que se estendiam ao longo do corredor brilhantemente iluminado. Até para uma pessoa sã, aquele ambiente adquiria um caráter misterioso que impunha temor.

Por nenhuma parte se filtrava a luz do dia naquele corredor; tudo era resplandecente e frio sob a luz fluorescente. O resultado era muito impressionante.

Barbara Jarvis não tinha estado nunca antes em uma unidade de cuidados intensivos, embora soubesse que Daphne já tinha passado por esta experiência. Conheceu-a muito depois do trágico incêndio, mas uma noite Daphne lhe falou a respeito disso. Barbara sabia de tudo, sabia de Aimee e Jeffrey, e ao fim de três anos de estar ao seu lado conhecia muitas coisas mais sobre ela.

-Posso vê-la agora? A enfermeira assentiu com um gesto e a acompanhou ao quarto de Daphne.

Entrou em silêncio e, depois de contemplar Daphne, percorreu com o olhar os aparelhos de controle e pareceu aliviada ao comprovar que tudo estava em ordem.

Fazia uma hora que tinham lhe aplicado outra dose de Demerol, e a paciente estaria adormecida durante várias horas.

A enfermeira olhou para Barbara e viu que umas lágrimas se deslizavam por seu rosto enquanto aproximava-se de Daphne, tomava a delicada mão entre as suas, grandes e fortes, e a segurava como se Daphne fosse sua filha.

O pulso ainda era débil, e ainda era muito cedo para poder dizer se conseguiria sobreviver.

Barbara a observava contendo o fôlego, fazendo um esforço por não chorar, mas não pôde evitá-lo.

Ao fim, a enfermeira as deixou sozinhas, e Barbara permaneceu com o olhar fixo em sua amiga com expressão angustiada, até que a enfermeira voltou e lhe fez um gesto da porta.

Aquela mulher alta e de robusta aparência estava no mesmo lugar onde se encontrava quando a enfermeira se retirou.

Com supremo cuidado deixou repousar de novo a mão de Daphne sobre a cama e em seguida saiu do quarto.

Enquanto percorria o corredor de volta ao vestíbulo, caminhando com passo lento, não pôde dissimular a dor que sentia, mas assim que se deteve diante do escritório da enfermeira, voltou a adotar a serena expressão como se fosse uma máscara.

-Ficará bem? Os olhos da Barbara procuravam ofegantes por algo que não podiam encontrar: um sinal de ânimo, uma esperança, uma promessa.

Entretanto, era difícil de acreditar que Daphne pudesse sair com vida daquela agonia, depois de tê-la visto ali estendida, tão quieta, tão imóvel e tão frágil. Parecia que já estava morta.

Para Liz não servia de muito consolo constatar que Daphne inspirava a mesma devoção apaixonada a quem lhe era próximo como aos leitores de seus livros.

Mas Barbara Jarvis a olhava agora, implorando uma resposta, uma resposta que, salvo Deus, ninguém podia lhe dar.

-Ainda é prematuro dizer. É muito provável - disse com o doce tom de voz que tinha adquirido com os largos anos de prática. -Ou talvez não. Sofreu traumatismos generalizados.

Barbara Jarvis assentiu em silencio com um gesto, e se afastou lentamente até deter-se em frente um telefone público.

Ao sair da cabine, perguntou quando poderia voltar a ver Daphne, e lhe responderam que em uma hora.

-Gostaria de uma xícara de café? Poderá vê-la de novo durante quinze minutos, a cada hora.

Ou... possivelmente partisse, pois afinal era somente sua secretária.

Barbara pareceu ler os seus pensamentos.

-Ficarei. -Tratou de esboçar um ligeiro sorriso, mas isto pareceu lhe custar um esforço enorme. -Aceitaria a xícara de café. E logo, quase como se lhe doesse, falou:             - Obrigada.

Uma estudante de enfermagem a acompanhou até uma máquina de café convenientemente situada junto a um sofá estofado com vinil de cor azul, que havia sido testemunha de várias cenas dramáticas.

Até o aspecto do sofá pareceu deprimente a Barbara, ao imaginá-lo com gente sentada a espera que algum ser amado saísse vitorioso ou derrotado de sua luta contra a morte.

A enfermeira, vestida com uma bata azul, encheu uma xícara de fumegante café e a ofereceu a Barbara enquanto esta fixava seu olhar nos olhos da jovem.

-Você lê seus livros? Corando, a jovem enfermeira assentiu com a cabeça, e em seguida se afastou dela.

Liz Watkins chegou de volta às três, para se encarregar de seu turno.Barbara ainda estava ali, nervosa e com aspecto muito cansado.

Liz examinou o histórico clínico e comprovou que não havia nenhuma melhora.

Ao fim de um momento se aproximou para conversar com a Barbara, a quem ofereceu uma nova xícara de café.

Então observou à secretária com mais atenção; calculou que devia ter a mesma idade de Daphne e, por um instante, assaltou-lhe o desatinado impulso de lhe perguntar como era realmente Daphne, mas compreendeu que fazer aquela pergunta significaria despertar de novo a hostilidade da secretária, que a envolveria como uma nuvem irada.

-Há algum familiar ao que devêssemos avisar? Isto foi tudo que se atreveu a perguntar. Barbara vacilou só uma fração de segundo antes de responder:

-Não, nenhum.

Quis acrescentar que Daphne estava sozinha no mundo, mas isto não era totalmente certo e, por certo, tampouco se tratava de algo que importasse àquela mulher.

-Entendi que é viúva.

Barbara se surpreendeu que soubesse, mas assentiu com a cabeça e tomou um gole de café. O fato foi comentado uma vez no The Conwoy Show, mas ela não havia tornado a falar sobre este tema. Não queria que soubessem.

Agora a conheciam como a "senhorita" Fíelds, e se tirava disto era que nunca havia estado casada. A princípio,  pareceu a Daphne que isto era como trair Jeff, mas chegou à conclusão  que era preferível assim.

Não podia suportar a dor que lhe causava falar dele ou de Aimee. Só falava deles com...

Mas Barbara afastou aquele pensamento de sua mente, temendo o que pudesse ocorrer a ele agora.

-Não houve nenhuma chamada da imprensa? - perguntou, levantando a cabeça de repente, extremamente preocupada.

-Nenhuma - tranqüilizou-a Líz com um sorriso. -E eu me encarregarei deles. Não se preocupe. Não permitiremos que se aproximem nem por um instante.

Pela primeira vez Barbara se permitiu conceder um verdadeiro sorriso, e coisa estranha, por um instante quase até pareceu bonita.

-Ela detesta apaixonadamente a publicidade.

-Isto deve gerar uma dura luta, pois sem dúvida sempre a perseguem.

-É, sim... -Barbara sorriu de novo. -Mas é um gênio se esquivando dos jornalistas quando quer. Estando em excursão isto não é possível, mas até então sabe evitar as perguntas inconvenientes.

-É muito tímida? Líz ansiava ter algum dado que a aproximasse da Daphne de carne e osso.

Era a única pessoa célebre que sempre quis conhecer e agora, apesar de tê-la tão perto, Daphne Fields continuava sendo um enigma para ela.

Barbara Jarvis voltou a esquivar-se com cautela, mas sem mostrar-se hostil,

-É, em alguns aspectos. Em outros, absolutamente. Acredito que "retraída" seria um termo que a definiria melhor. É muito ciumenta de sua intimidade. Não é que as pessoas a assustem, mas prefere guardar certa distância. Salvo... -Barbara Jarvis ficou pensativa e adotou uma atitude distante por uns momentos. -Salvo com as pessoas que ama. Com elas se manifesta como uma menina alegre e feliz.

A imagem pareceu agradar a ambas as mulheres, e Liz sorriu ao ficar em pé.

-Sempre a admirei através de seus livros. Lamento ter que conhecê-la nestas dolorosas circunstâncias.

Barbara assentiu com a cabeça, seu sorriso se desvaneceu, e uma bruma de tristeza lhe nublou o olhar. Não podia acreditar que a mulher que adorava estivesse agonizando. E o pesar que oprimia seu coração se refletiu em seus olhos ao pousá-los em Liz Watkins.

-Avisarei quando puder voltar a vê-la - disse esta.

-Esperarei aqui.

Liz assentiu com um gesto e partiu apressadamente. Tinha perdido quase meia hora e tinha milhares de coisas a fazer. O turno de dia era o mais movimentado, era como trabalhar em dois turnos seguidos, e, além disto, tinha que cumprir com seu turno noturno. Seria um dia brutal e interminável, tanto para ela como para a Barbara Jarvis.

Quando as duas mulheres voltaram a entrar no quarto de Daphne, Barbara advertiu que a paciente abria os olhos e, depois de uma breve piscada, fechava-os de novo, enquanto ela dirigia um rápido olhar à enfermeira que a assistia, com uma expressão de pânico no rosto.

Entretanto, Liz permaneceu calada e serena enquanto tomava o pulso de Daphne, e logo sorriu para Barbara, acompanhando o sorriso com um gesto tranqüilizador da cabeça.

-Está se acalmando.

Quase ao mesmo tempo em que a enfermeira falava, Daphne voltavam a abrir os olhos e tentava se concentrar em Barbara.

-Daphne? –falou para sua chefa e amiga, sob a atenta observação de Liz.

Daphne abriu outra vez os inexpressivos olhos.

-Sou eu..., Barbara...

Desta vez os olhos permaneceram abertos, e se desenhou um ligeiro sorriso nos lábios da paciente; logo pareceu dormir por uns minutos, até que voltou a olhar para Barbara, tratando de dizer algo. Sua amiga se inclinou sobre ela para ouvir melhor o que lhe dizia.

-Deve ter sido... uma grande...festa..., pois a cabeça me dói...como um demônio...

A voz se apagou enquanto sorria como celebrando sua própria piada.

Os olhos de Barbara se encheram de lágrimas, apesar de estar sorrindo.

De repente, sentiu um grande alívio ao ouvir Daphne falar, e se voltou para Liz com uma expressão de triunfo, como se sua única filha tivesse pronunciado as primeiras palavras. Liz notou que tinha os olhos úmidos, pela fadiga e a emoção.

Reprovou-se por aquela amostra de debilidade, mas a ternura que aquela cena transmitia lhe chegava até o mais fundo de seu ser.

Aquelas duas mulheres formavam um estranho casal: uma tão miúda e frágil, e a outra tão alta e morena; uma tão segura ao falar, apesar de sua aparente de debilidade, e a outra tão solidamente constituída e, entretanto, tão submissa e reverente ante sua amiga.

Liz notou que Daphne se esforçava para falar novamente.

-Quais as novidades? -perguntou quase num sussurro, que Liz mal pôde ouvir.

-Não muitas. As últimas notícias que tive foram que tinha atropelado um automóvel. Disseram-me que ficou totalmente destruído.

Aquele era o tipo de brincadeiras que se faziam todas as manhãs; mas agora havia uma sombra de tristeza nos olhos de Daphne quando olhava para Barbara.

-Eu... também ...

-Isto são tolices, e você sabe.

-... me diga...a verdade...Como estou?

-Forte como um carvalho.

Os olhos do Daphne se fixaram na enfermeira, como procurando a confirmação para aquelas palavras.

-Você está muito melhor, senhorita Fields. E ainda se sentirá muito mais animada amanhã.

Daphne assentiu com a cabeça como uma menina obediente, como se acreditasse, mas de repente uma sombra de preocupação velou seu olhar.

Examinou o rosto de Barbara de novo, e sua expressão se endureceu antes de implorar:

-Não diga... nada ...ao Andrew.-Barbara assentiu.

-Peço-lhe ist o. Nem a... Matthew...

Barbara sentiu um baque no coração. Tinha temido ouvir aquelas palavras. Mas e se lhe acontecesse algo? E se amanhã não se sentisse mais animada, como tinha assegurado a enfermeira?

-Prometa-me isto.

-Prometo, prometo. Mas, pelo amor de Deus, Daff...

-... Não...

As forças a abandonavam; os olhos se fecharam e voltou a abri-los em seguida, desta vez com uma viva curiosidade.

-Quem... me... atropelou? -perguntou, como se isto pudesse suavizar a gravidade de seu estado.

-Um imbecil do Long Island. A polícia disse que não estava bêbado. O indivíduo alegou que você atravessou sem olhar.

Daphne tratou de assentir com a cabeça, mas fez uma careta de dor e demorou uns segundos.

Para recuperar o fôlego, enquanto Liz consultava seu relógio de pulso. Quase era hora de terminar a visita. Mas Daphne parecia disposta a falar com toda força.

-... Dizendo... verdade ...

Escutaram com atenção, mas ela nada mais disse, e então Barbara se inclinou sobre elapara lhe perguntar:

-O que, querida?

-O imbecil... - respondeu Daphne com voz baixa, mas com expressão risonha nos olhos - tem razão... Eu... não olhei...Estava pensando...

Seus olhos procuraram os de Barbara. Só esta sabia quão intolerável era para ela o Natal, quão dolorosas eram aquelas festas todos os anos desde que Jeff e Aimee tinham morrido no incêndio na noite de Natal. Além disso, este ano se encontrava sozinha, o que não tinha feito a não ser agravar a situação.

-Sei.

Assim, a lembrança de seus seres queridos quase lhe tinha tirado a vida. Ou acaso não desejava viver mais? Aquele horrível pensamento fez Barbara estremecer. Teria se jogado de propósito quando o veículo passou? Não era capaz de fazer uma coisa assim. Não, Daphne não... Ou sim, tinha feito?

-Tranqüilize-se, Daff.

-... Não permita... que o incomodem...Ele não teve...a culpa...diga lhes..que eu disse isso...-olhou para Liz para encontrar confirmação ao que pedia.Ela tinha sido testemunha.

-Eu... não recordo...nada..

-Está bem.

Mas uma expressão de tristeza lhe escureceu o semblante enquanto que seus grandes olhos azuis se enchiam de lágrimas.

-... Somente... as sirenes..., que soavam como...

Fechou os olhos, e as lágrimas desceram lentamente pela face até cair sobre o travesseiro.

Barbara tomou a mão, enquanto as lágrimas alagavam também seus olhos.

-Não chore, Daphne. Não pense. Agora tem que ficar boa. -E para lhe dar ânimos, acrescentou:

-Pensa no Andrew.

Daphne abriu de novo os olhos e ficou olhando fixamente para Barbara, enquanto Liz consultava seu relógio de pulso e dizia a Daphne:

-Agora vamos deixá-la descansar, senhorita Fields. Sua amiga poderá voltar a vê-la dentro de um momento. Quer que lhe apliquem algum calmante? Daphne negou com um gesto e pareceu aliviada em poder voltar a fechar os olhos. Antes que elas abandonassem o quarto, já tinha dormido. Quando já tinham percorrida a metade do corredor, caminhando uma ao lado da outra, Liz se voltou para Barbara.

-Há algo que nós devêssemos saber, senhorita Jarvis? -Seus olhos examinaram inquisitivamente os da secretária. -Às vezes, certa informação que pode parecer muito pessoal contribui favoravelmente à ajuda que podemos dar ao paciente.

Esteve tentada de acrescentar: "ajuda que pode redundar em que o paciente escolha entre viver ou morrer", mas não o fez.

-Ontem à noite ela teve terríveis pesadelos.

O tom de sua voz continha milhares de perguntas, e Barbara Jarvis assentiu, mas imediatamente levantou as barreiras de resguardo para Daphne.

-Você já sabe que é viúva.

Isto era tudo que parecia disposta a dizer, e Liz não insistiu.

-Compreendo.

Sem mais, separou-se de Barbara e se dirigiu a seu escritório, enquanto a secretária voltava para sofá estofado de vinil, depois de servir-se de outra xícara de café.

Sentou-se exalando um suspiro e se sentiu absolutamente exausta. Por que tinha lhe feito prometer que não diria nada ao Andrew? Ele tinha direito de saber que sua mãe corria perigo de morte. E se ela morrese, então o que faria? Daphne tinha tomado medidas necessárias para que nada lhe faltasse, partindo dos recursos que os livros escritos nos últimos anos tinham lhe proporcionado; mas ele necessitava muito mais que isto.

Necessitava de Daphne e de ninguém mais. E se sua mãe falecesse...

Barbara estremeceu, e seu olhar se perdeu entre a neve que começava a cair de novo do lado de fora, sentindo-se tão desolada como o panorama invernal que se oferecia a sua vista.

Daphne nada lhe havia dito de sua vida durante o primeiro ano que esteve trabalhando para ela.

Absolutamente nada.

Era uma autora de sucesso, aparentemente solteira, que trabalhava com mais firmeza que qualquer pessoa que Barbara conhecera, e sem vida privada, embora isto não lhe houvesse chamado a atenção.

Como poderia ter tempo para isto, publicando dois volumosos livros por ano?

Mas na véspera de Natal, dia em que Barbara ficou trabalhando até tarde, encontrou-a em seu escritório chorando.

Foi então que Daphne lhe contou o que ocorreu a Jeff..., a Aimee..., e sobre Andrew...

Andrew, o filho que concebeu na noite do incêndio fatal..., o menino que nasceu nove meses depois, quando ela já estava sozinha no mundo, sem família, sem marido, sem amigos, já que não queria ver ninguém que a recordasse de Jeff; o menino cujo nascimento tinha sido tão diferente de Aimee.

Quando Aimee nasceu, Jeff lhe segurava a mão, e sua filha rompeu em um pranto terminante, enquanto os pais a contemplavam com lágrimas de alegria e risadas de triunfo.

Andrew demorou trinta e oito horas para nascer - apresentava-se de nádegas-, com o cordão umbilical ameaçando lhe afogar, até que, por fim, ele e a mãe foram piedosamente liberados do sofrimento com uma cesárea.

O médico informou que o menino tinha proferido um surdo gemido ao sair do ventre da mãe, e todo ele ficou azulado enquanto a equipe médica trabalhava com afinco para salvar sua vida, e a de sua mãe.

Passados os efeitos da anestesia, Daphne se sentiu muito enjoada para querer ver seu filho ou segurá-lo nos braços.

Mas Barbara ainda recordava a expressão dos olhos de sua amiga quando lhe falou da primeira vez que o teve em seus braços.

Uma enfermeira o colocou neles, e de repente tudo deixou de doer, nada mais lhe importou no mundo, salvo aquela criatura, que ficou olhando-a fixamente e cujos traços eram idênticos aos de Jeffrey.

Pôs-lhe o nome Andrew Jeffrey Fields.

Quis pôr só o nome de seu pai, mas não teve coragem de fazê-lo.

Isto teria lhe trazido lembranças muito dolorosas cada vez que o chamasse "Jeff", por isto pôs Andrew.

Era o nome que ambos tinham escolhido quando estava grávida de Aimee se por acaso tivessem um menino.

Também contou para Barbara a alegria e a emoção que tinha sentido quando descobriu, seis semanas depois do incêndio, que estava grávida.

Aquilo foi o que a estimulou a seguir vivendo durante aqueles longos meses de pesadelo, a única coisa que afastou seu desejo de morrer.

E tinha sobrevivido, igual a Andrew, apesar do traumático parto.

Era um menino lindo, de bochechas rosadas e aspecto feliz.

Tinha os olhos azuis como o oceano, mas continuava parecendo-se extraordinariamente com seu pai.

Daphne tinha alugado um pequeno apartamento para os dois, e encheu o quarto do menino com retratos de Jeffrey, para que, um dia, o pequeno soubesse como era seu pai.

E em uma moldura de prata colocou uma fotografia de sua irmãzinha.

Só quando o menino completou três meses, Daphne começou a suspeitar que Andrew não fosse totalmente normal. Era a criança mais tranqüila e quieta que já tinha visto; era totalmente saudável, mas um dia ela deixou cair uma pilha de pratos no chão, quando o menino se encontrava tranqüilamente deitado em seu cesto na cozinha, e o pequeno nem sequer se sobressaltou.

Então Daphne bateu as mãos sonoramente junto ao ouvido de Andrew, e este se limitou a sorrir.

Um calafrio de terror lhe percorreu todo o corpo.

Não se atreveu a contar ao médico, mas na visita seguinte lhe fez algumas perguntas indiretas, e o profissional logo intuiu o que ela suspeitava.

De vez em quando, o menino proferia estranhos sons, mas não poderiam determinar até mais adiante se também era mudo.

Foi impossível estabelecer se o defeito era uma conseqüência dos traumáticos choques que ela tinha sofrido pouco depois de tê-lo concebido, ou da medicação indicada no hospital para o tratamento das queimaduras e feridas que o incêndio tinha produzido.

Tinha permanecido internada no hospital mais de um mês, submetida a uma intensa medicação, sem que ninguém suspeitasse que estivesse grávida.

Mas fosse qual fosse a origem da perda da audição, podia afirmar-se que a surdez do menino era permanente e total.

Daphne dedicou todo seu amor para ele, com um zelo protetor e uma determinação decidida.

Durante o dia, passava todos os momentos de vigília com ele, pondo o despertador para as cinco e meia da madrugada, a fim de estar preparada para qualquer emergência que pudesse apresentar-se e para assisti-lo nos momentos difíceis.

E estes aconteciam com freqüência.

No princípio, ela estava obcecada pelos riscos potenciais que constantemente o espreitavam.

Com o tempo, acostumou-se a adiantar-se aos perigos que corria ao não poder ouvir os sinais de advertência, como a buzina de um carro, o grunhido de um cão ou o chiado do óleo fervendo na frigideira.

Portanto, achava-se permanentemente sob uma intensa tensão.

Entretanto, havia momentos que lhe proporcionava uma alegria indescritível, preciosos momentos em que lágrimas de alívio e ternura corriam por sua face ao compartilhar sua vida com o menino.

Este era a criança mais risonha e feliz que possa imaginar-se; mas uma e outra vez ela devia enfrentar o fato de que sua vida nunca seria normal.

Por fim, tudo deixou de ter interesse em sua existência com exceção das atividades relacionadas com Andrew.

Não visitava os amigos, nunca ia ao cinema, pois todos os minutos do dia eram dedicados à seu filho, temendo deixá-lo com outra pessoa que não compreendesse tão bem como ela os perigos e frustrações que o rodeavam.

Ela carregava sobre seus próprios ombros todos os contratempos que se abatiam sobre o menino, e assim todas as noites se deixava cair na cama exausta, esgotada pelo tremendo esforço que fazia.

Havia vezes em que ficava aflita por suas próprias frustrações em seu trato com o menino surdo, em que o impulso de lhe gritar por algo que ele não podia fazer ou ouvir a obrigava a apertar os dentes e fechar os punhos para não lhe dar uma bofetada.

Na verdade, não era ao Andrew a quem queria castigar, mas ao cruel destino que tinha deixado surdo a seu adorado filho.

Penava sob um pesado e cansativo sentimento de culpa, secretamente convencida de que era ela a responsável pelo ocorrido, por não ter sabido como evitar.

Não tinha sabido evitar que Jeff e Aimee morressem abrasados pelo fogo, e agora tampouco nada podia fazer para mudar aquela brutal e definitiva realidade para Andrew.

Faltava-lhe o poder para modificá-la a favor de seu filho.

Lia todo livro que podia que tratasse sobre os problemas de crianças que nasciam surdas, e o levava a quantos especialistas havia em Nova Iorque, mas estes nada podiam fazer nem por Andrew nem por Daphne.

Ela enfrentava aquela realidade quase com fúria, como a um inimigo que tinha de combater.

Tinha perdido muito, e agora Andrew também sofria as conseqüências.

A injustiça do fato acendia uma raiva surda em seu interior, e por várias noites tinha pesadelos relacionados com o incêndio e despertava gritando.

Os especialistas que tinha consultado lhe aconselhavam que, com o tempo, seria conveniente colocar Andrew em uma escola especial, o que resultaria em benefício para o menino, já que seria impossível para ele relacionar-se com crianças normais.

Não se cansavam de assinalar que, apesar dos esforços que ela fizesse, se depararia com enormes obstáculos que não lhe seria possível superar.

Mesmo que Daphne fosse a pessoa que melhor o conhecia, inclusive ela tinha dificuldades para comunicar-se com ele, e os especialistas lhe advertiam que, com o tempo, causaria uma espécie de ressentimento contra o pequeno como resultado de seu fracasso.

Afinal, ela não era uma profissional, insistiam em reforçar, e o menino precisava desenvolver habilidades que ela não estava em condições de poder lhe ensinar.

Além disso, o constante isolamento em que vivia, em relação com outros meninos, gerava nele desconfiança e hostilidade, que se manifestavam nas estranhas ocasiões em que podia conviver com eles.

Os meninos normais não queriam jogar com ele porque o achavam diferente, e sua crueldade causava a Daphne tanto dor que deixou de levá-los aos campos de jogos do parque, Mas, contudo, resistia à idéia de que estivesse com meninos como ele, por isso se fechava com Andrew em seu pequeno apartamento, como dois prisioneiros, enquanto os especialistas continuavam insistindo em lhe aconselhar que deveria levá-lo para uma escola especial.

-Para uma instituição? -exclamou diante do especialista de mais confiança.

-Jamais farei uma coisa semelhante! Jamais!

-O que você está lhe fazendo agora é muito pior - respondeu o médico com amabilidade. -Não será para sempre, Daphne. Mas tem que aceitar os fatos. Você não pode lhe ensinar em casa o que ele precisa aprender. Precisa adquirir habilidades totalmente diferentes das que você pode lhe ensinar.

-Então eu as aprenderei - gritou-lhe, porque não podia gritar para a surdez de Andrew, ou para a vida, ou ao destino, ou aos deuses que tinham sido tão cruéis para com ela.

-Maldito seja! Aprenderei, e estarei noite e dia ao seu lado para ajudá-lo.

Mas isto ela já tinha feito, sem nenhum resultado.

Andrew vivia em um isolamento total.

-E quando você morrer? -perguntou-lhe o pediatra com toda crueldade. -Não tem direito de lhe fazer uma coisa semelhante. Desta maneira, estará dependendo absolutamente de você. Conceda-lhe o direito a viver sua própria vida, pelo amor de Deus. Em uma escola aprenderá a ser independente, a conduzir-se no mundo normal, quando chegar o momento.

-E quando ocorrerá isto? Quando tiver vinte e cinco anos? Trinta? Quando estiver completamente habituado a viver à margem do mundo? Vi essas pessoas lá em cima, falei com elas por meio de um intérprete. Nem sequer confiam nas "pessoas que ouvem", como eles as chamam. São todos uns anormais, por Deus! Alguns têm quarenta anos e nunca viveram em nenhum outro lugar além de uma instituição. Eu não o condenarei a este inferno.

O menino os observava falar, fascinado pelos gestos e expressões de seus rostos, mas não tinha ouvido as iradas palavras que sua mãe e o médico trocaram.

Durante três anos ela tinha lutado uma batalha pessoal, com a conseqüente deterioração lenta, mas incessante, de Andrew.

Era evidente que Andrew não poderia falar, e quando completou três anos, os renovados esforços de Daphne para introduzí-lo no mundo das crianças normais foram desastrosos.

Todos fugiam dele, como se de algum jeito soubessem que era tremendamente diferente.

Um dia o viu sentado na caixa de areia, observando os outros meninos com lágrimas correndo por seu rosto, para depois olhar para sua mãe como lhe perguntando: "O que tem de errado em mim?".

Ela correu até ele e o abraçou, balançando-o brandamente e o acompanhando em seu pranto, sentindo-se isolada e assustada.

Daphne compreendeu que tinha fracassado.

Um mês mais tarde, para Daphne a guerra tinha terminado.

Com pesar, começou a percorrer as escolas que com tanto desespero detestava, tendo a sensação de que em qualquer momento arrebatariam Andrew de suas mãos.

Não poderia enfrentar uma nova perda em sua vida; entretanto, sabia que, em caso de não fazê-lo, isto significaria a destruição do menino.

Liberá-lo era o último dom que devia lhe conceder.

Por fim encontrou uma escola que era a única em que aceitaria deixá-lo.

Estava situada na pequena cidade de New Hampshire, rodeada de abetos, com um lago e um riacho que serpenteava por seus campos, e junto ao qual tinha visto meninos pescando.

O que mais gostava do lugar era que não havia "estudantes" maiores de vinte anos.

Não os chamavam de "pacientes", "residentes" nem "internados", como tinha ouvido em outras instituições.

Chamavam de "meninos" e "estudantes", como às pessoas "normais".

A maioria voltava para suas famílias pouco antes de completar vinte anos, a fim de que pudessem concorrer à universidade quando o momento chegasse, ou trabalhar, ou para conviver com seus familiares, que durante tanto tempo lhes tinham dado seu apoio e os tinham esperado.

Enquanto Daphne percorria o lugar em companhia da diretora, uma solene mulher de cabelos brancos, ela experimentou de novo o peso da perda, ao saber que Andrew poderia passar ali até quinze anos de sua vida, ou quando menos oito ou dez.

Aquele era um sacrifício que lhe rasgava a alma, pois se tratava de seu único filho, o único objeto de seu amor, o único ser humano vivo que era unido a ela por laços de sangue.

E agora devia separar-se dele.

Os olhos voltaram a encher-se o de lágrimas só de pensar, e sentiu a mesma pontada de dor que tinha suportado durante os meses que esteve lutando até tomar aquela decisão.

Enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto, sentiu a mão da diretora sobre seu braço, e de repente se encontrou com a cabeça apoiada nos ombros daquela mulher, que a acolheu em um consolador e quente abraço, enquanto ela cedia ao pranto provocado por quatro anos de pesar, até desde antes que Andrew tivesse nascido.

-Você faz algo extraordinário por seu filho, senhora Fields, e eu sei como isto lhe é penoso.

Quando por fim os soluços acalmaram, ela perguntou-lhe:

-Você encontra-se empregada?

Daphne ficou chocada com a pergunta. Acaso temiam que não pudesse pagar a matrícula e a mensalidade? Tinha guardado o dinheiro que ela e Jeff possuíam, e tinha levado uma vida tremendamente simples.

Nem sequer tinha comprado um vestido novo depois do incêndio, e pretendia destinar a soma total do seguro de vida de Jeff ao pagamento da escola, durante o tempo que fosse necessário. Claro que, não tendo o Andrew com ela, poderia voltar a trabalhar.

Não o tinha feito após a morte de Jeff.

Primeiro teve que recuperar-se, e logo descobriu que estava grávida.

De qualquer modo, não lhe tinha sido possível trabalhar naqueles momentos, pois a morte de seus entes queridos a tinha transtornado.

Por sua parte, a Colhins lhe tinha dado uma generosa indenização quando aceitaram sua demissão.

-Não, não estou empregada, senhora Curtis, mas meu marido me deixou o suficiente...

-Não me referia a isto, - a diretora lhe sorriu com profunda ternura.

-Perguntava-me se você disporia de tempo para ficar aqui por uma curta temporada. Alguns pais o fazem. Durante os primeiros meses, até que os meninos se adaptam. E como Andrew é tão pequeno...

Havia outros cinco meninos de sua idade, o que tinha sido um dos fatores que contribuíram para tomar a decisão.

-Há uma pousada encantadora na cidade, gerenciada por um casal austríaco, e sempre poderá encontrar alguma casinha para alugar. Conviria que pensasse nisto.

Daphne se sentiu como se lhe tivessem anunciado a suspensão temporária da sentença, e o rosto se iluminou com um radiante sorriso,

-Poderia vê-lo todos os dias?

As lágrimas alagaram seus olhos de novo,

-No começo, sim - respondeu-lhe com tom afetuoso a senhora Curtis.

-Com o tempo, será preferível e conveniente para ambos que vá cortando as visitas. Além disso, deve ter em conta que ele estará terrivelmente ocupado com seus amiguinhos – acrescentou com um cálido sorriso.

A voz de Daphne não pôde dissimular uma entonação que traduzia sua infelicidade:

- Acredita que ele se esquecerá de mim? Pararam seu passeio, e a diretora a olhou fixamente.

-Senhora Fields, quero que compreenda que não vai perder Andrew. O que você fez foi lhe proporcionar tudo que ele precisa para poder levar uma vida útil quando se reintegrar à sociedade.

Ao fim de um mês, ela e Andrew empreendiam a viagem, e Daphne dirigia tão devagar quanto podia enquanto percorriam os campos da Nova Inglaterra.

Aquelas eram as últimas horas de sua antiga vida juntos, e ela desejava prolongá-las tanto quanto pudesse.

Sabia que não estava preparada para separar-se dele.

E de certo modo a beleza da paisagem ainda tornava mais difícil a situação.

As folhas mudavam de cor, e as colinas explodiam em vermelhos intensos e amarelos brilhantes; viam-se chácaras e celeiros, cavalos pastando nos prados e, de vez em quando, uma igreja pequenina.

De repente teve consciência do maravilhoso mundo que se abria além de seu apartamento e que ela desejava compartilhar com seu filho.

Ao longo da estrada apareciam vacas e infinidade de coisas que o menino nunca tinha visto, e agora as assinalava com o dedo, enquanto proferia os sons familiares como que querendo formular perguntas a sua mãe.

Mas como ela poderia lhe explicar aquele mundo cheio de gente, de aviões, de exóticas cidades, como Londres, São Francisco ou Paris? Então se deu conta das enormes carências do menino e do pouco que ela tinha conseguido lhe ensinar.

De novo a invadiu uma sensação de fracasso enquanto rodavam nas colinas vermelhas da Nova Inglaterra.

Todos os tesouros e brinquedos favoritos de Andrew se encontravam no carro: seu ursinho de pelúcia e um elefante de pano que ele adorava; os livros ilustrados que tinham olhado juntos, mas que ninguém podia ler para ele.

De repente, Daphne se encontrou pensando nestas coisas, e percebeu a dimensão do que não tinha podido lhe ensinar em comparação com os pequenos lucros.

Perguntou-se o que teria feito Jeff em seu lugar, se tivesse a oportunidade.

Talvez ele tivesse mais habilidade, ou mais paciência, mas do que estava certa era que não poderia sentir mais amor que o que ela sentia por aquela criança.

Amava-o com toda sua alma e, se tivesse podido lhe dar seus ouvidos, o teria feito.

Uma hora antes de chegar à escola pararam para comer um hambúrguer em um albergue, e então pareceu que se animava um pouco.

Andrew parecia emocionado pela viagem, e observava tudo que via seu redor com prazer.

Ela teria desejado poder lhe falar a respeito da escola, mas não havia maneira de fazê-lo.

Não podia lhe contar como era nem o que ela sentia, nem por que iria deixá-lo ali nem quanto o amava.

Durante os poucos anos do menino, ela só tinha atendido as suas necessidades físicas ou, no máximo, tinha-lhe mostrado os caminhões dos bombeiros correndo em silencio pelas ruas.

Jamais tinha sido capaz de compartilhar seus pensamentos ou sentimentos com ele.

Compreendia que seu filho tinha que saber que o amava.

Até agora, estivera com ele em todos os momentos, mas o que pensaria o menino quando o deixasse na escola? Como poderia explicar-lhe?

Saber que isto era impossível só contribuía para aumentar sua angústia.

A senhora Curtis, a diretora da escola, tinha alugado uma casinha na cidade em seu nome, e Daphne pretendia ficar ali até o Natal, a fim de poder visitar seu filho diariamente.

Entretanto, sua relação seria diferente da que tinham mantido até então, quando não se separavam um do outro durante as vinte e quatro horas do dia.

Sua vida jamais voltaria a ser a mesma, e Daphne sabia.

A situação mais penosa que tinha tido que confrontar em sua vida se apresentava agora ao ter que separar-se de seu filho, a quem desejava guardar mais que a sua própria vida, embora soubesse que isto era impossível.

Chegaram à escola pouco depois do anoitecer, e Andrew olhou em volta com surpresa, como se não compreendesse o que estava fazendo ali.

Olhou para Daphne, confuso, e ela sorriu, assentindo com a cabeça, enquanto o pequeno olhava com apreensão aos outros meninos.

Porém, aqueles meninos eram diferentes dos que tinha conhecido no Central Park, em New York, e foi como se instintivamente pressentisse que eram como ele.

Observou-os enquanto jogavam, assim como os gestos que faziam, e uma e outra vez os meninos iam para seu lado.

Foi a primeira vez que meninos de sua idade o acolhiam com carinho, e quando uma garotinha aproximou-se do Andrew, estendeu-lhe a mão e lhe deu um beijo, Daphne teve que voltar-se de costas para que seu filho não visse as lágrimas que corriam por sua face.

Andrew, por sua parte se limitou a olhar para menina com surpresa.

Foi a senhora Curtis quem o estimulou para unir-se aos outros, segurando sua mão e o levando ao redor da sala.

Daphne, ao o observar, sentiu que tinha tomado a decisão correta e que um novo mundo se abria para Andrew.

Enquanto isto, algo extraordinário aconteceu; o pequeno começou a aproximar-se daqueles meninos que eram como ele. Sorriu e riu e, por um instante, até se esqueceu de sua mãe.

Começou a fixar-se nos gestos que faziam com as mãos, e rindo imitou a um deles; em seguida, proferindo um som estranho, aproximou-se da menina que momentos antes lhe demonstrara carinho e a beijou.

Mais tarde, Daphne foi até ele para lhe dizer que estava indo, e o pequeno não só não chorou, mas também nem sequer se mostrou assustado ou infeliz.

Estava se divertindo muito com seus amiguinhos.

Reteve-o entre seus braços um instante, com um corajoso sorriso nos lábios, e logo se afastou correndo, temendo que as lágrimas brotassem de novo em seus olhos.

O pequeno não pôde ver a expressão alterada do rosto de sua mãe quando esta pegou a estrada para a cidade.

-Cuida de meu filho... - murmurou para um Deus que desde menina tinha aprendido a temer.

E desta vez fez votos para que Ele a escutasse.

Ao final de quinze dias, Andrew tinha se adaptado por completo a sua nova vida na escola, e Daphne tinha a impressão de sempre ter vivido naquela acolhedora cidade de Nova Inglaterra.

A casinha que a senhora Curtis tinha encontrado para ela era agradavelmente quente no outono frio; tinha uma cozinha típica das casas de campo e um forno de tijolos para assar pão, uma pequena sala de estar mobiliada com um magnífico sofá e cômodas poltronas diante de uma lareira, adornada com reluzentes vasos de cobre com flores, e no quarto havia uma antiga cama com dossel e uma colcha magnífica.

Era neste quarto que Daphne passava a maior parte do tempo, lendo e escrevendo seu diário.

Tinha começado a escrevê-lo quando soube que estava grávida; anotava nele aspectos de sua vida, reflexões e sentimentos, breves ensaios a respeito de sua concepção da vida.

Sempre pensava que, quando fosse mais velha, compartilharia seus escritos com Andrew.

No momento, proporcionava-lhe a possibilidade de derramar nele o que levava na alma, durante as longas e solitárias noites de New Hampshire.

Os dias ali eram resplandecentes e ensolarados, e ela dava intermináveis passeios pelos caminhos ladeados de árvores ou seguindo o curso de algum riacho, pensando em Andrew, e contemplando os picos nevados das montanhas.

Aquele era um mundo muito diferente de New York.

Havia celeiros com cavalos, vacas nos prados, colinas e pradarias por onde podia caminhar sem encontrar uma só alma viva, e freqüentemente o fazia.

Seu único desejava era poder compartilhar tudo com Andrew.

Durante anos, o menino havia sido sua única companhia.

Quase todos os dias ela ia visitá-lo na escola.

Isto significava para ela fazer um tremendo esforço de adaptação.

Durante quatro anos o menino tinha sido o centro de sua vida, e agora, de repente, não estava ao seu lado; algumas vezes a sensação de vazio era insuportável.

Cada vez mais a lembrança de Jeff e Aimee invadia sua mente.

A menina já teria completado oito anos, e às vezes, quando Daphne via alguma menina dessa idade, tinha que voltar o rosto, com os olhos cheios de lágrimas, e conter o desejo de estreitá-la entre seus braços.

Não deixava de dizer-se, no entanto, que não tinha perdido Andrew da mesma maneira.

Ele estava vivo, era feliz, contente, e ela fez por ele o que era mais conveniente ao seu estado.

De vez em quando, ia à escola, sentava-se em um banco do pátio, junto à senhora Curtis, e o via jogar e como aprendia a falar por gestos.

Ela também ela estava aprendendo a linguagem dos sinais, a fim de se comunicar melhor com ele.

-Sei como isto é difícil para você, senhora Fields. Para os meninos é mais fácil adaptar-se que aos pais. Para os pequenos é uma espécie de liberação. Aqui, por fim, estão longe de um mundo que não os aceitava.

-Mas este mundo o aceitará algum dia?

-Sim - respondeu com absoluta convicção a diretora. -Sem dúvida. Ele sempre será diferente, mas estará provido dos meios adequados; não haverá quase nenhum obstáculo que não possa superar com o tempo.

Sorriu-lhe amavelmente.

-Um dia ele lhe agradecerá.

Daphne sentiu desejos de lhe perguntar o que ela faria agora. O que faria sem seu filho? Parecia que a mulher tinha lido seus pensamentos, porque perguntou:

-Você pensou o que fará quando retornar para New York?

Para uma mulher sozinha, como Daphne, a ausência de Andrew provocaria um enorme vazio, e ela já sabia que fazia mais de cinco anos, desde que ficara grávida, que Daphne não trabalhava.

A maioria dos pais tinha um ao outro, ou tinham outros filhos, ocupações, atividades com o que preencher sua vida na ausência destes meninos.

Mas era evidente que Daphne não tinha nada disto.

-Voltará a trabalhar agora?

-Não sei...

Daphne deixou a frase flutuando enquanto fixava a vista nas longínquas colinas.

Como tudo seria vazio sem ele! Quase parecia mais doloroso agora do que quando o tinha deixado ali na primeira vez.

Por fim, a realidade ia se mostrando com toda sua crueldade.

Sua vida nunca voltaria a ser a mesma de antes..., nunca...

-Não sei - repetiu, tirando os olhos das colinas para pousá-los na senhora Curtis. Passou-se tanto tempo que duvido que queiram me aceitar de novo.

Sorriu, e o passar do tempo se manifestou em seus olhos.

Os anos passados tinham lhe dado lições dolorosas.

-Não pensou em ensinar a outras pessoas o que aprendeu com Andrew?

-De que forma? -perguntou Daphne com surpresa. Ela não tivera esta idéia em nenhum momento.

-Não existem muitos bons livros sobre este tema. Você mencionou que estudava jornalismo e que colaborava na Collins. Por que não escreve um livro ou uma série de artigos? Pense como teria ajudado a leitura de algo assim quando se deu conta pela primeira vez do que ocorria ao Andrew.

Daphne recordou a terrível sensação de solidão que sentiu,  a impressão de que ninguém no mundo compreendia seu problema.

-É uma idéia - disse, assentindo com a cabeça, enquanto observava como Andrew abraçava uma menina e logo saía correndo atrás de uma enorme bola vermelha.

-Possivelmente seja a pessoa ideal para levá-la a cabo.

Entretanto, a única coisa que sentia desejos de escrever era seu diário, noite após noite.

Agora tinha muito tempo livre, e quando chegava à noite não estava exausta, como lhe tinha ocorrido durante anos desde que tivera o Andrew.

Este era como qualquer outro menino de pouca idade, e estava constantemente em movimento, mas requeria mais atenção que a maioria dos meninos, já que tinha que vigiar que não corresse algum risco pelo fato de não ouvir; além disto, sempre tinha que o ajudar a vencer a frustração que experimentava por não poder se comunicar com outros.

Quando fechou o caderno de seu diário nesta noite, deitou-se, e na escuridão meditou sobre a sugestão da senhora Curtis.

Era uma boa idéia, mas ela não queria escrever a respeito de Andrew.

Tinha a sensação de que seria como uma violação da intimidade do menino como pessoa, e ela mesma não estava preparada para expor publicamente seus próprios temores e pesares.

Tudo era muito recente, e as feridas muito vivas, como as provocadas pela morte de Jeff e Aimee.

Tampouco nunca havia escrito sobre estes fatos.

Entretanto, sentia que estava tudo acumulado em seu interior, junto com outros sentimentos que se encontravam adormecidos faziam anos, como quando ainda era jovem e mulher.

Durante quatro anos, só tinha estado em contato com seu filho.

Não tinha havido nenhum homem em sua vida, e muito poucos amigos.

Não tinha tempo para isto.         

Não desejava compaixão.

Além disto, sair com outro homem teria sido como trair Jeffrey e tudo o que tinha existido entre eles.

De modo que tinha jogado todos seus sentimentos dentro de um poço, fechado todas as comportas e cuidara de Andrew ano após ano.

E agora não restava nenhuma desculpa.

O menino viveria na escola, e ela estaria sozinha em seu apartamento.

A perspectiva gerava nela o desejo de não retornar nunca mais a New York.

Queria se esconder na casa de New Hampshire e não sair mais.

Pelas manhãs dava longos passeios, e de vez em quando parava para tomar o café da manhã na pousada Austrian Inn.

O casal que a gerenciava parecia irmãos; ambos eram gorduchos e amáveis, e a esposa sempre perguntava por seu filho.

Pela senhora Curtis sabiam dos motivos de Daphne se encontrar ali.

Como em toda cidade pequena, as pessoas logo percebiam os forasteiros, conheciam as causas que os tinham levado à cidade, quando tinham chegado e quando partiriam.

Não era comum que aparecessem pessoas como Daphne; outros pais só iam à cidade para visitar seus filhos.

Muitos se hospedavam na pousada, e alguns faziam como Daphne, geralmente no verão.

Alugavam uma cabana ou uma casinha, onde se instalavam com seus outros filhos, e estavam acostumados a fazer uma festa da ocasião.

Entretanto, a senhora Obermeier pressentia que Daphne era diferente.

Havia algo mais calmo, mais concentrado na atitude daquela mulher miúda, delicada, quase uma menina.

Só quando se observavam seus olhos, percebia-se a maturidade que até superava os seus vinte e oito anos, e se tinha a certeza de que a vida nem sempre a havia tratado com doçura.

-Por que acredita que está tão sozinha? - a senhora Obermeier perguntou um dia a seu marido enquanto enchia uma cesta de rosquinhas doces e colocava uma bandeja de pãezinhos no forno.

As pessoas ficavam com água na boca só de ver os bolos e tortas que ela preparava.

-É provável que esteja divorciada. Um filho assim pode chegar a destruir um casamento, sabe? Possivelmente dava muita atenção ao menino, e o marido não soube aceitar.

-Parece tão sozinha!

O marido sorriu. Sua esposa sempre se preocupava com todo mundo.

-O mais provável é que simplesmente sinta falta do menino. A senhora Curtis disse que é muito pequeno, e que é seu único filho. Você também ficou assim quando Gretchen foi para a universidade.

-Isto foi muito diferente.

Hilda Obermeier olhou-o, convencida de que neste caso havia algo que seu marido não comprendia.

-Reparou em seus olhos?

-Sim – ele admitiu, esboçando um sorriso, enquanto o rubor tingia suas bochechas. - São muito bonitos.

E dando uma palmada no traseiro de sua esposa, saiu em busca de lenha.

Naquele fim de semana tinham muitos hóspedes.

Em pleno inverno sempre apareciam os que praticavam esqui.

E no outono o lugar se enchia de gente de Boston e New York, que ia para contemplar o espetáculo da mudança de cor das folhas das árvores.

Agora, porém, as folhas de cor laranja e marrom brilhante já tinham caído quase todas.

Estavam em novembro, e no Dia de Ação de Graças, Daphne foi à escola e saboreou peru com Andrew e outros meninos.

Depois praticaram alguns jogos, e ela ficou espantada quando seu filho se zangou com ela e lhe disse por gestos: "Não sabe fazer nada, mamãe!".

A fúria que brilhou em seus olhos lhe causou um calafrio, e se sentiu tão afastada de seu filho como nunca tinha estado.

De repente, sentiu ressentimento pela escola, por haver lhe tirado seu filho.

Sem dar-se conta, concentrou sua ira no pequeno, a quem repreendeu por gestos de aborrecimento.

A senhora Curtis, percebendo o incidente, falou com ela mais tarde para lhe explicar que os sentimentos de ambos eram normais.

As coisas mudavam agora muito rapidamente para Andrew e, em conseqüência, também para Daphne.

Ela não podia expressar-se na linguagem dos gestos com tanta rapidez que seu filho; cometia enganos e se sentia envergonhada e estúpida.

Entretanto, a senhora Curtis lhe assegurou que com o tempo melhoraria sua relação, e então compreenderia que havia valido a pena fazer o sacrifício.

Na hora do jantar, ela e Andrew já estavam bem; aproximaram-se da mesa segurando-se as mãos e, quando o menino disse sua oração por gestos, Daphne se sentiu tão orgulhosa que lhe pareceu que ia irromper em choro.

O pequeno, por sua parte, dirigiu-lhe um cálido sorriso.

Depois de jantar, Andrew jogou com seus companheiros, mas quando a fadiga o venceu aconchegou-se no colo de sua mãe, como estava acostumado a fazer no passado; um sorriso de felicidade iluminou o rosto do Daphne ao vê-lo dormido em seus braços.

O menino roncava surdamente em seu sono, e Daphne o abraçou com força, desejando que o tempo retrocedesse.

Levou-o para seu quarto, pôs-lhe o pijama e o agasalhou meigamente em sua cama, sob o olhar da funcionária.

Logo depois de olhar pela última vez o menino loiro adormecido, saiu em silêncio do quarto e desceu ao andar inferior, onde se encontravam outros pais. Mas nesta noite ela não desejava sua companhia.

Depois de deitar Andrew, sentiu o urgente desejo de retornar a sua casa.

Acostumou-se à solidão, a dar rédea solta a seus pensamentos e a lançar no diário tudo que levava na alma.

Conduziu o carro por um atalho que conhecia até que, de repente, soltou uma exclamação de surpresa, ao ouvir um ruído seco enquanto o veículo afundava a parte dianteira e parava. Tinha quebrado um eixo.

Ela, embora um pouco alterada, não tinha sofrido nenhum dano, e imediatamente se deu conta de como tivera sorte do acidente não ter acontecido na auto-estrada.

Claro que a sorte era duvidosa.

Encontrava-se sozinha em um caminho deserto a mais de dez quilômetros de sua casa.

A única claridade era a da lua, mas fazia um frio persistente e, apesar de ver o caminho claramente, o trajeto a pé até sua casa seria penoso por causa do vento cortante.

Subiu a gola da jaqueta, lamentando não ter apanhado as luvas e não estar com sapatos mais cômodos; como se tratava do Dia de Ação de Graças, havia calçado salto alto e um traje mais fino.

Seus olhos lacrimejavam pela ação do frio, as faces se avermelharam e os dedos das mãos ficaram rapidamente gelados, apesar de levá-las nos bolsos; então, afundou o rosto na gola da jaqueta e seguiu caminhando, já que não podia fazer outra coisa.

Estava caminhando a quase uma hora quando vislumbrou umas luzes que avançavam para ela, e de repente foi presa de pânico.

Até naquela tranqüila cidade algo desagradável podia acontecer.

Ela era uma mulher só em um escuro caminho rural, e se algo lhe acontecesse, ninguém ouviria seus gritos nem poderia ir ajudá-la.

Como um coelho assustado, deteve-se no meio do caminho diante das luzes que se aproximavam.

Logo, instintivamente, procurou refúgio atrás de uma árvore, com o coração pulsando velozmente e com tanta força que até podia ouvir suas batidas.

Perguntou-se se o motorista teria percebido de sua fuga.

O veículo ainda se encontrava bastante longe quando ela saiu do caminho.

Ao aproximar-se do lugar onde ela se achava escondida, viu que se tratava de um caminhão.

Por um momento pareceu que seguia seu caminho, mas de repente parou.

Daphne conteve o fôlego, aterrada, esperando.

A porta do caminhão se abriu e um homem desceu.

-Ei! Há alguém aí? Olhou para os lados do caminho por uns instantes.

Ela só pôde perceber que era muito alto.

De repente, sentiu-se ridícula por esconder-se daquela maneira.

Como lhe doíam os pés e as pernas de tanto frio, teve o impulso de sair de seu esconderijo e lhe pedir que a levasse, mas como poderia lhe explicar que estava se escondendo? Tivera uma reação estúpida, e agora devia agüentar as conseqüências.

O homem deu uma volta em torno do veículo, encolheu os ombros, voltou a subir na cabine e prosseguiu a marcha.

Quando o caminhão se perdeu na distância, Daphne saiu de trás da árvore com um sorriso estúpido nos lábios e falando em voz alta consigo mesma.

-Que tonta você é! Agora você congelará a alma até chegar em casa. Merece bem o castigo.

Logo começou a cantarolar uma canção, divertida por sua própria estupidez, dizendo-se que estivera muito tempo vivendo em uma grande cidade.

Não havia motivo algum para sentir-se alarmada nem ameaçada, mas já sentira aquela sensação no passado, e cada vez a sentia com maior intensidade.

Era como se, por sua falta de relação com as pessoas, tivesse cultivado um pavor feroz.

Além disto, sentia-se tão responsável por Andrew que de repente a assaltou o desesperado temor de que pudesse lhe ocorrer algo.

Continuou andando pelo caminho até um quilômetro e meio mais, quando de repente ouviu o distante ronronar do motor de um veículo à suas costas.

De novo sentiu o impulso de abandonar o caminho, mas desta vez meneou a cabeça e se disse com voz baixa:

 -Não há nada que temer.

Ao ouvir-se dizer estas palavras ainda se sentiu mais tola, mas se afastou para um lado do caminho e viu aproximar-se o mesmo caminhão de antes.

O veículo se deteve de novo, e desta vez pôde ver o condutor ao acender-se a luz da cabine quando ele abriu a porta.

Tinha feições rudes, cabelos grisalhos e largos ombros, e levava uma grossa jaqueta de couro, que mantinha bem fechada.

-Aquele carro na estrada é seu? Ela assentiu com a cabeça e sorriu nervosamente, notando que o homem tinha mãos grandes e rudes.

Como antes, um calafrio lhe percorreu a espinha, mas se dominou para não sair correndo.

Se fosse uma pessoa decente, pensaria que estava louca; se não o era, agora já era muito tarde para tentar se esconder.

Teria que enfrentar o que acontecesse da maneira que pudesse.

Sorriu, mas em seus olhos se refletia a cautela.

-Sim, é.

-Cruzei com você há uns momentos?-perguntou-lhe com ar confuso, enquanto a olhava de cima a baixo. Pareceu-me ver alguém no caminho, mas quando me detive não encontrei ninguém. Ao ver seu carro a uns quilômetros mais à frente, ocorreu-me que por alguma razão não consegui encontrá-la.

A expressão de seus olhos dava a entender que se dava conta de que havia algo que ela não queria que soubesse.

Com voz grave e rouca, mas cálida, continuou:

-Vi que tem um eixo quebrado. Posso levá-la em casa? Faz um frio terrível esta noite para ir caminhando.

Permaneceram uns segundos ali parados, enquanto ela examinava seus olhos, e logo assentiu com a cabeça.

-Eu agradeceria muito.

Daphne confiava que o homem atribuísse o tremor de sua voz ao frio, e na verdade nem ela mesma sabia já se era realmente assim.

Estava gelada até os ossos, e nem sequer pôde abrir a porta, pois tinha os dedos congelados.

O caminhoneiro a abriu, e ela entrou.

Ao final de um instante, ele abriu a outra porta e se instalou diante do volante, sem sequer lhe dirigir um olhar.

-Teve sorte de não andar pela estrada principal a oitenta por hora. Notou algo que pusesse lhe avisar?

-Não; só ouvi um ruído, a parte dianteira desabou para um lado e isto foi tudo.

Agora se sentia mais tranqüila, e o interior da cabine estava confortavelmente quente.

Doíam-lhe os dedos e tratava de esquentá-los soprando neles.

O motorista lhe ofereceu umas grossas luvas forradas de lã sem fazer nenhum comentário, e Daphne as pôs, enquanto o caminhão avançava em direção a sua casa.

Tinham passado quase cinco minutos quando o homem lhe falou de novo com sua voz grave e cansada. Tudo nele sugeria a força rude das montanhas.

-Sente-se mal? Ela negou com a cabeça.

-Não. Só tenho frio. Teria demorado um par de horas para chegar até em casa.

Então se lembrou de lhe dizer onde vivia.

-É a velha casa dos Lancaster, não? -perguntou ele, com assombro.

-Não saberia dizer. Aluguei de uma senhora chamada Dorsey, mas não a conheço pessoalmente. Tratamos tudo por correspondência.

 O caminhoneiro assentiu com a cabeça.

-Ela é sua filha. A velha senhora Lancaster faleceu no ano passado. Acredito que a filha não volta aqui há vinte anos. Vive em Boston. Está casada com um advogado.

Típico de uma comunidade pequena em que todo mundo conhece muito bem a vida dos demais.

Daphne sorriu ao pensar no temor que tinha sentido de ser assaltada.

Tudo o que aquele homem pretendia era lhe contar os falatórios da localidade.

-Você também é de Boston?

-Não. De New York.

-Veio para descansar?

Ele continuava a falar sobre coisas inconsequentes enquanto avançavam pelo caminho, mas agora Daphne soltou um suspiro. Não estava certa se queria lhe responder.

Ele pareceu dar-se conta em seguida, pois levantou a mão como se desculpando e logo voltou a fixar a vista na estrada.

-Fique tranqüila. Não tem obrigação de me responder. Faz tanto tempo que vivo aqui que já esqueci as boas maneiras. Todo mundo nesta cidade faz perguntas indiscretas, mas não me importam os motivos que a trouxeram aqui. Lamento.

Demonstrava tanta delicadeza que ela não pôde deixar de rir.

-Não se preocupe. Vim aqui para ficar junto de meu filho.

Eu o trouxe para interná-lo na... Howarth School.

Esteve a ponto de dizer "a escola dos surdos", mas as palavras se negaram a sair de seus lábios.

O caminhoneiro voltou para cabeça para ela.

Era o mesmo que tivesse dito, porque o homem sabia perfeitamente o que era a Howarth School. Todos os habitantes do lugar sabiam. Não era algo vegonhoso nem um segredo.

-Que idade tem seu filho? -E com um olhar inquieto, acrescentou: - Ou estou colocando o nariz onde não devo?

-Absolutamente. Tem quatro anos.

Franzindo o cenho, ele a olhou como compreendendo seus sentimentos.

-Deve ser muito penoso para você separar-se dele. É tão pequeno!

Curiosamente, então foi ela que teve desejos de lhe fazer perguntas.

Como se chamava? Tinha filhos? De repente, converteram-se em companheiros de viagem naquela escura estrada vicinal.

Minutos mais tarde, ele detinha o caminhão diante de sua casa, e saltou rapidamente da cabine para ajudá-la a descer.

Daphne quase se esqueceu de lhe devolver as luvas, e ao lhe fazê-lo sorriu olhando-o francamente nos olhos.

-Muito obrigada, se não fosse por você, teria demorado horas para chegar a casa.

O homem sorriu por sua vez, e ela vislumbrou uma risonha expressão em seus olhos que não havia percebido antes.

-Poderia ter economizado mais de um quilômetro se tivesse confiado em mim na primeira vez.

Daphne se ruborizou na escuridão e soltou uma risada.

-Sinto muito... Quase saí... -balbuciou, sentindo-se como uma garotinha junto a aquele homenzarrão.

-Estava escondida atrás de uma árvore, e estive a ponto de sair de meu esconderijo, mas, antes de tudo, pensei que era uma estúpida ao me ocultar.

Ele sorriu ao ouvir sua confissão franca enquanto a acompanhava até a porta.

-Provavelmente fez bem. A gente nunca sabe com quem vai se encontrar, e há alguns moços meio loucos nesta cidade. Estão em todas as partes hoje em dia, não só em New York. De qualquer modo, estou contente por tê-la encontrado e ter evitado que fizesse uma longa caminhada.

-Eu digo o mesmo.

Vacilou um instante sem saber se devia o convidar a entrar para tomar um café, mas não lhe pareceu correto.

Eram nove da noite, ela estava sozinha e, na verdade, ele era um desconhecido.

-Se posso fazer algo por você durante sua permanência aqui, pode me avisar. -Estendeu-lhe sua mão possante, e ela notou sua força enquanto lhe estreitava a sua. -Meu nome é John Fowler.

-Eu sou Daphne Fields.

-Muito prazer em conhecê-la.

Daphne abriu a porta com a chave e o saudou com uma mão en quanto ele retornava ao caminhão.

Ao final de uns instantes o veículo partiu, e Daphne se encontrou sozinha na casa, lamentando não tê-lo convidado para entrar.

Ao menos teria tido com quem conversar.

Nem sequer seu diário conseguiu despertar um interesse especial nela.

Continuava pensando em seu rosto rude, os cabelos grisalhos e as fortes mãos do desconhecido, e começou a experimentar uma viva curiosidade por saber algo mais a respeito dele.

Na manhã seguinte do Dia de Ação de Graças, Daphne foi à pousada e trocou as saudações de costume com a senhora Obermeier.

Tomou o café da manhã com ovos e bacon e croissants, e depois de comer perguntou ao Franz o que ele aconselhava fazer com respeito a seu carro.

Ele lhe indicou que fosse a uma das oficinas mecânicas da localidade.

Uma vez ali, pediu que rebocassem o automóvel até a cidade, e acompanhou o mecânico que conduzia a grua para lhe mostrar o lugar onde havia acontecido o defeito.

Mas, quando chegaram ao lugar, o veículo tinha desaparecido, e a única coisa que mostrava que tinha estado ali eram os rastros dos pneus no barro da vala, que demonstravam que o tinham rebocado.

-Alguém veio antes, senhora.

O moço que a tinha levado até ali ficou pensativo.

-Não avisou a ninguém para que viesse buscá-lo?

-Não.

Daphne contemplava com espanto o lugar onde tinha estado o automóvel.

Não havia dúvida de que aquele era o lugar, mas o veículo havia sumido.

-Acredita que podem tê-lo roubado?

-Talvez. Mass seria conveniente que verificasse nas outras oficinas. É possível que alguém tenha se encarregado de rebocá-lo para você.

-Isto é impossível. Ninguém sabia onde estava.

Além disto, ela não conhecia ninguém na cidade.

A menos...

Mas isto lhe pareceu improvável. Apesar de tudo, não o conhecia.

-Quantas oficinas existem mais na cidade?

-Duas.

-Bom, suponho que o melhor que posso fazer é passar por elas, e então, caso não o encontre, irei à polícia.

Recordou o que John Fowler tinha comentado na noite anterior a respeito dos "moços loucos" que havia na cidade.

Possivelmente algum deles o tinha roubado, embora não podia dizer-se que fosse uma jóia, sobretudo com o eixo quebrado.

O moço da grua a levou até a primeira das duas oficinas, e antes que ela entrasse para perguntar, viu seu automóvel, no qual já estavam trabalhando os mecânicos com jaqueta, jeans, grossas botas e as mãos cheias de graxa.

-É ele?

-Sim, é - respondeu Daphne sem sair de seu espanto.

-Está bastante avariado por baixo - explicou-lhe um deles com um sorriso jovial. Mas amanhã o deixaremos pronto. John Fowler nos disse que necessitava dele para o meio-dia, mas não poderemos repará-lo totalmente até então.

De modo que tinha sido ele.

-Quando o trouxe?

-Cerca das sete da manhã. Trouxe-o guinchado por seu caminhão.

-Sabe onde poderia encontrá-lo? O menos que podia fazer era agradecer-lhe Os dois moços negaram com a cabeça ao ouvir sua pergunta.

Corou ao recordar que na noite anterior tinha sentido medo de que a violentasse, e ao contrário tinha se revelado uma pessoa extremamente honesta.

-Trabalha na empresa florestal do Anderson, mas não sei onde mora - respondeu o rapaz ruivo.

Depois de agradecer, Daphne colocou as mãos nos bolsos do casaco e começou a caminhar para sua casa no outro lado da cidade.

Na metade de caminho, ouviu uma forte buzinada e viu o caminhão azul de John Fowler que parou a seu lado.

Levantou os olhos e o saudou com um sorriso.

-Estou muito agradecida. Você foi tão amável...

-Não tem importância. Posso levá-la a algum lugar?

Ela vacilou por uma fração de segundo e logo assentiu com a cabeça, enquanto John Fowler abria a porta.

-Suba.

E logo que ela se acomodou no amplo assento e virou para ele, com uma expressão risonha nos olhos ele perguntou:

-Tem certeza que não prefere se esconder atrás de uma árvore?

-Isto não é justo! -exclamou ela um pouco envergonhada, e ele soltou uma risadinha abafada.

-Tive medo que...

-Sei do que teve medo, e de fato o que fez foi muito acertado. Entretanto - acrescentou, sem deixar de olhá-la com um amplo sorriso-, parece um pouco insultante. Minha aparência é tão apavorante?

Mas ao reparar em sua estatura, ele mesmo respondeu a sua própria pergunta.

-Suponho que para uma pessoinha como você devo sê-lo, não é certo?

Sua voz adotou um tom amável e apareceu uma doce expressão em seus olhos.

-Não tive intenção de assustá-la.

-Nem sequer o vi quando me ocultei atrás da árvore.

Daphne ainda estava ligeiramente ruborizada, mas também em seus olhos havia uma expressão risonha.

Logo, enquanto se dirigiam para a casa, exalou um suspiro.

-Acredito que sou um pouco desconfiada desde..., desde que fiquei sozinha com meu filho. É uma responsabilidade enorme. Se algo me acontecesse...

Sua voz apagou-se, e ela voltou a pousar os olhos no rosto do caminhoneiro, perguntando-se porque tinha lhe falado assim; teve que reconhecer que havia algo nele que inspirava confiança.

John Fowler guardou silêncio durante um longo momento e, por fim, perguntou-lhe:

-Você é divorciada?

Ela meneou a cabeça lentamente.

-Não. Sou viúva.

Durante cinco anos tinha detestado aquela palavra.

-Sinto muito.

-Eu também.

Sorriu-lhe para que não se sentisse tão constrangido, e se detiveram diante da casa.

-Quer entrar e tomar uma xícara de café? Era o menos que podia oferecer em troca do favor que ele tinha feito.

-Eu adoraria. Estou livre até na segunda-feira, e não tenho nada para fazer. O que me sobra é tempo.

Seguiu-a ao interior da casa; penduraram os casacos em um cabide, junto à porta, e Daphne se dirigiu à cozinha para esquentar o café que tinha sobrado de manhã.

-Os moços da oficina me disseram que você trabalha na empresa florestal – ela comentou, falando por cima do ombro, enquanto tirava as xícaras.

-É verdade.

Então Daphne se voltou para ele, e ao vê-lo parado na porta, observando-a, se sentiu assaltada por um estranho desassossego.

Aquele homem a tinha recolhido na estrada a noite anterior e agora se encontrava a sós com ela na cozinha. Era um talador, um desconhecido, no entanto algo nele tinha-a induzido a convidá-lo para entrar.

Sentia-se atraída por ele e, ao mesmo tempo, sentia medo; mas, quando se voltou de costas deu-se conta de que a causa de seu medo não era ele, e sim ela mesma.

Como se tivesse pressentido seu nervosismo, Fowler abandonou a cozinha e se instalou no sofá da sala de estar.

-Quer que acenda a lareira?  A reação de Daphne foi instantânea, e ele percebeu uma expressão de alarme em seus olhos.

-Não! E, como se tivesse compreendido que ele tinha aberto uma parte de si que pretendia manter fechada à chave, acrescentou - Esquenta muito a sala. Geralmente, eu não...

-Está bem.

Aquele homem era extraordinário. Parecia compreender as coisas antes que ela mencionasse-as, como se tivesse o dom de ver o que ninguém percebia.

Isto a inquietava e, ao mesmo tempo, causava-lhe uma sensação de alívio.

-Você tem medo do fogo?  A pergunta foi formulada com naturalidade e tom afável, mas ela começou a sacudir a cabeça energicamente até que, por fim, deteve-se e assentiu com um gesto.

Colocou as xícaras de café sobre a mesa e parou diante dele.

-Perdi meu marido e minha filha em um incêndio.

Nunca havia dito aquelas palavras a ninguém, e ele ficou olhando-a como se desejasse lhe estender as mãos, com os olhos cinzentos examinando os dela.

-Você estava presente? – indagou com voz tão doce que as lágrimas afluíram aos olhos de Daphne.

Ela desviou o olhar e lhe ofereceu a xícara em que tinha servido seu café.

Não obstante, ele continuava olhando-a com olhos interrogadores.

-O menino também? Daphne soltou um suspiro.

-Estava grávida, mas eu não sabia. Durante os meses seguintes, deram-me tantos medicamentos no hospital..., para as queimaduras..., a infecção..., sedativos..., antibióticos... Quando descobri que estava grávida, já era muito tarde. Por isso Andrew nasceu surdo.

-Ambos têm sorte de estar vivos.

Agora ele compreendia por que Daphne se mostrava tão responsável a respeito de Andrew e como devia ter sido penoso para ela deixá-lo na escola.

-Às vezes a vida tem coisas estranhas - comentou, reclinando-se contra o encosto do sofá, com a xícara de café entre as mãos, que quase a cobriam por completo.

-Em certas ocasiões ocorrem coisas que não têm nenhum sentido, Daphne.

Surpreendeu-se que lembrasse seu nome.

-Eu perdi minha esposa a quinze anos em um acidente automobilístico, numa noite gelada e terrível. Era uma mulher admirável, boa, e as pessoas gostavam dela.

Sua voz se tornou mais cálida e baixa por causa da lembrança, e seus olhos se tornaram claros como um céu da manhã. - Jamais pude entender. Existindo tantas pessoas perversas, por que teve que ser ela?

-É o mesmo que senti quanto ao Jeff.

Era a primeira vez que falava disto com alguém, mas de repente sentia a necessidade de abrir-se com aquele desconhecido a respeito de seu marido, depois daqueles intermináveis cinco anos.

-Éramos tão felizes!

Não havia lágrimas em seus olhos, mas somente uma expressão fechada que John observou atentamente.

-Estiveram casados por muito tempo?

-Quatro anos e meio.

Ele moveu a cabeça pensativamente.

-Sally e eu tínhamos dezenove anos de casados. Casamos aos dezoito. -sorriu. - Éramos duas crianças. Trabalhamos muito os dois juntos, passamos aperto no princípio, mas logo tudo caminhou direito e estávamos muito bem. Era como se ela fosse parte de mim mesmo. Passei maus momentos quando a perdi.

Desta vez os olhos de Daphne pareceram querer consolá-lo.

-Eu também me senti muito mal ao perder Jeff. Acredito que durante um ano vivi entorpecida. Até depois de ter o Andrew. -Sorriu-. Deu-me logo tanto trabalho que já não tive muito tempo de pensar nisto, só em algumas vezes..., de noite...

Suspirou profundamente.

-Vocês tiveram filhos, John? Pareceu-lhe um pouco estranho pronunciar seu nome e o ouvir de seus próprios lábios.

-Não. Nunca. No princípio não quisemos ter. Não queríamos ser como outras pessoas, que se casavam ao sair da escola secundária e, em três anos, já tinham quatro filhos e passavam a vida se queixando e detestam-se mutuamente. Fizemos o propósito de não ter nenhum durante os primeiros anos, e depois pareceu-nos que era preferível continuar assim. Nunca lamentei...  e então, ela faleceu. Você é afortunada em ter o Andrew.

-Eu sei - respondeu ela com os olhos brilhantes ao recordar seu adorado filho.

-Às vezes penso que significa tanto para mim por causa de...  seu problema.

-Tem dificuldade em dizer a palavra adequada? John perguntou com uma voz tão carinhosa que ela se comoveu a ponto de sentir vontade de chorar ou de afundar seu rosto em seu peito para deixar que ele a estreitasse entre seus braços.

-Às vezes. Detesto o que significará para ele.

-Significará a necessidade de esforçar-se um pouco mais, de não conformar-se com a rotina diária. Isto possivelmente contribuíra para que seja melhor e mais forte. Assim o espero. Acredito que isto é o que aconteceu a você depois de tudo o que tive que passar.

O caminho reto não sempre é o melhor, Daphne. Nós achamos que sim, mas observe as pessoas que mais admira, e verá que geralmente elas triunfaram quando a vida não foi fácil, mas sobreviveram e amadureceram no meio da dor. As pessoas para as quais tudo é fácil não chegam a parte alguma. São as outras, as que escalam montanhas com a cabeça erguida, recebendo os arranhões em pleno rosto e com as pernas cobertas de feridas, que merecem nossa atenção. Não será um espetáculo fácil de contemplar, mas é possível que este seja o caminho que seu filho seguirá.

-Não teria desejado por nada do mundo que fosse assim.

-É obvio. Quem o desejaria? Mas conseguirá sobreviver, como você tem feito. E não acredito que tenha sido fácil. Ao contrário, deve ter sido tremendamente penoso para você.

Ela o olhou pensativa, sustentando seu olhar.

-Às vezes ainda é.

John assentiu com a cabeça.

-A que se dedica quando não vive em uma cabana de troncos?

Daphne vacilou um instante relembrando os cinco anos passados.

-A cuidar do Andrew.

-E o que fará agora que ele está na escola?

-Ainda não sei. Antes trabalhava para uma revista, mas faz muitíssimo tempo.

-Você gostava do trabalho?

Ela refletiu um segundo e logo assentiu.

-Sim, muito. Mas era mais jovem. Não sei se agora eu gostaria tanto. O emprego me parecia divertido quando estava casada com Jeffrey, mas passou tanto tempo...

Sorriu-lhe sentindo-se mais velha que Matusalém.

-Tinha vinte e quatro anos.

-E agora,quantos tem? – perguntou ele, sorrindo divertido. -Vinte e cinco? Vinte e seis?

-Vinte e nove - respondeu ela com ar solene, e John pôs-se a rir.

-Claro. Não fazia idéia que fosse tão velha. Eu, minha amiga, tenho tão somente cinqüenta e dois. Uma jovem de vinte e nove anos para mim é uma menina de colo.

John aparentava sua idade e ao mesmo tempo parecia mais velho.

Tinha alguma coisa que lhe dava a aparência de um respeitável ancião dotado de grande discernimento. Semelhante a um conhaque muito delicado e antigo. Terminaram de tomar o café, e então ele ficou de pé e olhou em torno.

-Sente-se bem aqui, Daphne? É um lugar muito acolhedor.

-Eu adoro. Às vezes penso que ficarei aqui a vida toda.

Daphne sorriu, observando-o. Era um belo exemplar de homem, mesmo aos cinqüenta e dois anos.

-Por quem ficaria aqui, por você ou pelo Andrew?

Ela quis responder que não estava certa, mas estava. Era por ele, e John descobriu a resposta em seus olhos.

-Deveria retornar a Nova Iorque o quanto antes possível. Não perca o tempo aqui, em uma cabana, desperdiçando a vida por seu filho. Deve voltar para junto de sua gente, seus colegas de trabalho, seus amigos. Tenho a impressão que estêve hibernando todos estes anos. E sabe de uma coisa? Não deve perder o tempo desta maneira. Quando menos pensar despertará de sua letargia, e você estará tão velha como eu, e então se perguntará o que fez com sua vida. O futuro lhe tem reservado algo melhor que isto, eu estou certo.

Os olhos do Daphne pousaram nos seus, e ele os viu escurecidos por toda a dor que a perda de seus entes queridos tinha lhe causado.

-Eu não estou tão certa disto. Não tenho objetivos notáveis, nem me sinto apressada pelo desejo de criar algo memorável, nem tenho sonhos de grandeza. Por que não poderia ser feliz aqui?

-Fazendo o que? Visitando o Andrew, se agarrando a ele quando o que deve fazer é o deixar em liberdade? Caminhando por escuros caminhos quando seu carro quebrar? Indo jantar na Austrian Inn nos sábados de noite? Vamos, senhora, eu não sei onde esteve você escondida todos estes anos, mas apenas em olhá-la me dou conta de que você merece algo melhor.

-Seriamente? Por quê?

-Porque é mais arisca que um esquilo e tremendamente bonita, tanto se quiser reconhecer ou não.

Daphne corou, e ele sorriu, enquanto pegava sua jaqueta.

-E agora que já falei pelos cotovelos e me portei como um estúpido, esgotando sua paciência com meus sermões, vou  com a música para outro lugar; vou ver como vai o conserto do carro para você.

-Não tem por que se incomodar.

Por um momento, e sabendo que era uma loucura, desejou que não partisse. Sentia-se confortável a seu lado, protegida e feliz. E agora voltaria a ficar sozinha.

Durante cinco anos tinha sido assim, mas de repente se sentia angustiada só de pensar.

John lhe sorria da porta.

-Sei que não tenho nenhuma obrigação, mas quero fazer. Simpatizo com você, senhora Daphne Fields.

E como se acabasse de ter uma idéia, perguntou:

-Por que não jantamos juntos um dia destes na pousada? Prometo não a incomodar com meus conselhos e sermões. É que sempre me chateia ver como uma moça e bonita desperdiça sua vida.

-Eu adoraria jantar com você, John.

-Bem, então está certo. - ficou pensativo um instante e logo disse sorrindo: - É muito cedo amanhã à noite?

Ela meneou a cabeça lentamente, perguntando-se se sabia o que estava fazendo, quem era aquele homem e por que sentia a necessidade de conhecê-lo melhor, de estar com ele.

-Seria magnífico.

-Passarei para lhe buscar às seis e meia. Horário do campo.

Saudou-a com uma inclinação de cabeça, sorriu e logo saiu, fechando suavemente a porta.

Daphne ficou de pé, observando-o pela janela.

Ele agitou a mão uma vez enquanto manobrava o caminhão para sair na estrada e, com uma derrapagem sobre o cascalho, o veículo se perdeu na distância.

Ela permaneceu um longo tempo sem mover-se de seu lugar, com o olhar fixo no caminho deserto, perguntando-se que rumo estaria tomando sua vida e quem era realmente John Fowler.

No sábado, John chegou pontualmente às seis e meia, usando a mesma jaqueta de pele, mas desta vez usava calça cinza, uma jaqueta de lã, camisa e gravata.

As roupas não eram finas nem caras, mas ele possuía certo estilo.

Sua aparência extraordinariamente máscula possuía o poder de realçar a superioridade de tudo quanto usava.

Daphne se comoveu por ele ter se vestido formalmente para sair para jantar com ela.

Aquele antiquado cavalheirismo a fascinava.

-Puxa! Está maravilhosa, Daphne.

Ela vestia uma saia branca e um suéter de um azul que quase rivalizava com a cor de seus olhos, e tinha posto o jaquetão de pele de ovelha que lhe dava a aparência de um peludo cachorrinho francês.

Tudo nela parecia suave e pequeno, no entanto aquela mulher irradiava uma energia que seu pequeno porte freqüentemente parecia desmentir.

Prendera o cabelo em um coque, e ele a observou com um tímido sorriso.

-Alguma vez usa o cabelo solto? Daphne vacilou um instante e logo meneou a cabeça.

-Ultimamente não.

Tinha-o usado solto para Jeff.

Nessa época lhe caía até mais abaixo dos ombros.

Mas isso tinha sido em outro tempo, em outra vida, em uma mulher que tinha sido para outro homem.

-Eu adoraria vê-lo solto alguma vez - confessou ele rindo baixinho, sem tirar os olhos dos dela. Devo lhe advertir que tenho uma queda pelas belezas loiras.

Entretanto, apesar do completo interesse que descobria nos olhos do John, ela se sentia segura ao sair da casa em sua companhia.

Já tinha sentido aquela sensação antes.

Possivelmente se devia a sua estatura, ou a sua atitude quase paternal, mas o caso era que sempre se sentia confortável junto a ele, como se aquele homem se encarregasse de cuidar dela, não importa o que ocorresse.

Não obstante, agora sentia que também se produzira uma mudança nela.

Tinha a certeza de que podia cuidar de si mesma.

Não sentia isto quando se casou com Jeff.

Agora não necessitava daquele homem.

Simplesmente, gostava dele.

Ele a levou para jantar na Austrian Inn, e os Obermeier se surpreenderam ao vê-los juntos, tratando de lhes dedicar uma atenção preferencial.

Tanto Daphne como John estavam entre seus clientes favoritos, e quando diminuiu a agitação na cozinha, Hilda olhou para seu marido com olhos intrigados e um sorriso de triunfo nos lábios.

-Como supõe que a conheceu?

-Ignoro-o, Hilda. E não é algo que nos importe - seu marido a repreendeu carinhosamente, sem que por isso tivesse sua curiosidade satisfeita ou deixasse de mostrar-se assombrada.

-Dá-se conta de que não tinha vindo jantar acompanhado desde que sua esposa faleceu?

-Dá-se conta de que não deveríamos estar falando disto, Hilda? São pessoas adultas, e o que fazem só importa a eles mesmos.  E se ele pode convidar a uma mulher bonita para jantar, por que não haveria de fazê-lo?

-Acaso falei que isto é ruim? Parece estupendo.

-Bem. Então lhes sirva o café e fecha o bico.

Deu-lhe uma afetuosa palmada no traseiro e saiu para o salão para ver se todos os clientes tinham o que haviam pedido.

Logo depois, viu John e Daphne conversando enquanto saboreavam o café; ele dizia algo engraçado, que ela escutava rindo como uma menina.

-E então o que você lhe disse? Seus olhos ainda conservavam uma expressão risonha.

-Que se não eram capazes de dirigir uma exploração florestal, podiam dedicar-se a dirigir um balé. E sabe de uma coisa? Que me enforquem se, em seis meses, eles já não venderam o negócio e se encarregaram de uma espécie de corpo de baile de Chicago.

Meneou a cabeça, com olhos brilhantes.

-Malditos estúpidos! Ele tinha lhe contado dos farsantes nova-iorquinos que vislumbraram a possibilidade de tomar conta de um negócio há uns anos atrás, a fim de justificar a dedução de impostos.

-Demônios! Não pus isto em marcha para que viessem dois imbecis de New York e mandassem tudo ao diabo.

-Você gosta de seu trabalho, John?

Aquele homem a intrigava. Sem dúvida era inteligente, instruído, estava à parte do que acontecia no mundo e, entretanto, passou toda a vida naquela pequena localidade da Nova Inglaterra, trabalhando com suas fortes mãos e dobrando as costas.

-Sim, eu gosto. Sinto-me bem. Nunca me senti confortável em um escritório.

Poderia ter feito este tipo de trabalho. O pai de Sally era um diretor de um banco local e desejava que eu trabalhasse com ele, mas aquilo não foi feito para mim. Eu gosto mais disto; todo o dia ao ar livre, brigando com os homens, trabalhando com as mãos.

Sorriu para ela.

-Tenho alma de operário, senhora Fields.

Mas era evidente que havia algo mais nele.

Não obstante, aquele trabalho lhe tinha dado vivência, força e um grande sentido da realidade, e lhe tinha oferecido a possibilidade de observar a natureza humana.

Era uma pessoa sensata, e à medida que transcorria a noite ela valorizava cada vez mais esta qualidade.

Depois das sobremesas ele a olhou longamente e tomou uma mão entre as suas.

-Ambos sofremos umas perdas terríveis e, no entanto, aqui estamos os dois, fortes e com vida. Conseguimos sobreviver ao desastre.

-Não sempre tive a certeza de conseguir.

Sentiu um grande alívio ao admiti-lo para outra pessoa.

-Sempre conseguirá seguir adiante. Mas ainda não está segura disto, não é mesmo?

-Às vezes tenho minhas dúvidas. Em certas ocasiões, penso que não conseguirei chegar ao dia seguinte.

-Conseguirá. - disse-lhe ele com sereno convencimento. - Mas possivelmente chegou o momento de deixar de lutar sozinha todas as batalhas.

Então, ele tinha pressentido que fazia um longo tempo que não havia nenhum homem em sua vida.

Daphne deixava transparecer a dor da mulher que quase esqueceu o doce contato do amor.

-Houve algum outro homem em sua vida depois da morte de seu marido, Daphne? Ou acaso não devia lhe fazer esta pergunta?

Ela sorriu com recato, e os enormes olhos da cor do oceano se tornaram ainda maiores.

-Pode perguntar o que quiser. Não, não houve. Na realidade... -acrescentou, corando, e John sentiu um desejo quase irresistível de beijá-la, - esta é minha primeira saída... desde ...

Não teve necessidade de completar a frase.

Ele entendeu.

-Que lástima, desperdiçar tanta beleza! Mas desta vez suas palavras eram muito diretas, e Daphne afastou seus olhos de John.

-Foi melhor assim. Deste modo, pude me entregar mais plenamente ao Andrew.

-E agora?

-Não sei... - respondeu, perturbada. - Não sei o que farei sem ele.

-Acredito - replicou John entrecerrando os olhos, fixos nela, - acredito que fará algo muito importante.

Daphne riu, sacudindo a cabeça, divertida pelo que ele havia dito.

-Por exemplo? Candidatar-me como deputada no Congresso?

-Possivelmente, se for isto o que deseja. Mas não é isto. Há algo no mais profundo de seu ser, Daphne, que se debate dolorosamente para aflorar. E talvez um dia destes você vai deixar que se manifeste abertamente.

Ela ficou pasma com suas palavras.

Ela também tinha pensado freqüentemente nisto, e a única válvula de escape que tinha para dar saída para aqueles sentimentos eram seus diários.

Por um instante, esteve tentada de lhe falar deles, mas lhe pareceu que era uma tolice.

-Você gostaria de dar um passeio?

Ficaram de pé, terminado o jantar, e John a seguiu até a porta da pousada, sob o olhar atento da senhora Obermeier, que os observava com evidente complacência.

-Fez amigos nesta cidade, pequena - disse John a Daphne ao sair. -A senhora Obermeier simpatiza com você.

-Eu também a acho muito agradável.

Eles caminharam em silêncio um ao lado do outro pelas ruas desertas, e logo ele colocou a mão enluvada de Daphne sob seu braço.

-Quando poderei conhecer o Andrew?

Não parecia haver nenhum obstáculo para isto.

Daphne tinha a impressão de que em poucos dias aquele homem tinha passado a fazer parte de sua vida, e embora não estivesse segura de como terminaria sua relação, o que não podia negar era que gostava.

De repente se sentia liberada dos laços que a tinham mantido presa durante anos, e agora tinha a sensação de ir um pouco à deriva; mas esta sensação era muito prazerosa.

Voltou o rosto para ele, enquanto foram caminhando, e contemplou o enérgico perfil de seu acompanhante.

Não estava segura se aquele homem entraria definitivamente em sua vida, mas não duvidava de que seria um amigo fiel.

-O que você acha de ir amanhã? Tenho que ir vê-lo à tarde. Você gostaria de me acompanhar?

-Eu adoraria.

Dirigiram-se com passos lentos ao caminhão de John, e este a conduziu até em casa.

Acompanhou Daphne à porta, mas ela não o convidou para entrar, coisa que ele tampouco parecia esperar.

Daphne o saudou com a mão enquanto fechava a porta, e ele entrou no veículo e se afastou, com a mente povoada de pensamentos vinculados com Daphne.

Andrew se encontrava aguardando do lado de fora, junto a dois conselheiros e alguns meninos quando Daphne e John chegaram à escola, e ela percebeu um brilho de desconfiança nos olhos de seu filho.

O pequeno ignorava quem era aquele homem, e possivelmente se sentiu intimidado pela estatura de John.

Mas Daphne teve a impressão de que ele não gostava do fato de que sua mãe estivesse acompanhada.

Dominava-o um instintivo sentimento possessivo, que ela tinha deixado florescer.

Estreitou-o rapidamente entre seus braços, beijou-lhe a face e o pescoço, aninhando seu rosto junto ao do pequeno e sentindo o calor familiar daquela criança que era uma parte tão importante de seu próprio ser.

Logo se separou e, por gestos, indicou-lhe que seu acompanhante era um amigo, como os que ele tinha na escola, e se chamava John.

Este se ajoelhou no chão junto a ele.

Desconhecia a linguagem dos sinais, que Daphne já tinha aprendido, mas parecia se comunicar com o menino com os olhos e com suas enormes e ternas mãos; em poucos minutos Andrew se aproximou vacilando, igual a um cachorrinho desconfiado.

Sem lhe dizer nem uma só palavra, John estendeu a mão e segurou a mãozinha de Andrew.

Então começou a lhe falar; com sua voz grave e doce, enquanto Andrew o observava com atenção.

Os olhos do pequeno estavam fixos nos de John, e em algumas ocasiões assentiu com a cabeça, como se entendesse o que lhe dizia.

Parecia haver-se estabelecido uma total e mútua comunicação entre eles, sob o olhar fascinado de Daphne.

Então, sem sequer olhar para sua mãe, Andrew conduziu John até a sombra de uma árvore, sob a qual se sentaram para "conversar".

O menino o fazia com gestos, e o homem lhe falava, e parecia que se entendiam, como se sempre tivessem sido amigos íntimos.

Daphne permaneceu afastada, observando com absoluta fascinação enquanto uma profunda emoção a invadia, mesclada de dor, por ter perdido outra porção do afeto de seu filho, e de felicidade, ao ver que John se sentia atraído por aquele ser que ela amava com toda sua alma.

E em algum lugar de seu coração brotava um ressentimento, ao comprovar com que facilidade tinham se aberto ao John as portas que conduziam ao mundo de silêncio de seu filho, quando ela tivera que lutar tão ferozmente para as conquistar.

Entretanto, por cima de tudo isto se impunha a ternura que ambos lhe inspiravam, ao vê-los retornarem, sorridentes e de mãos dadas, para junto dela.

Então começaram a jogar, e ao final de uns instantes os três riam cheios de felicidade.

As horas até o momento da refeição transcorreram como se fossem minutos.

Daphne mostrou a escola a John, orgulhosa de repente por ter tomado a decisão mais certa para o bem de Andrew.

Enquanto desciam pela escada que conduzia ao quarto onde dormia o menino, John a olhou com tanto afeto que ela teve a sensação de que se espalhava por todo seu corpo o calor dos estivais raios do sol do Mediterrâneo.

-Alguma vez alguém lhe disse como você é extraordinária, pequena? Daphne corou, enquanto ele lhe passava o braço pelos ombros e a estreitava contra seu corpo.

Era a primeira vez que o sentia tão perto, e lhe pareceu que uma força poderosa se apoderava dela, enquanto fechava os olhos.

-É valente e maravilhosa. Fez algo grandioso com o Andrew, e isto resultará em benefício para ambos.

E com voz baixa, que a tomou completamente de surpresa, acrescentou:

-E eu te amo por isto.

Daphne ficou imóvel um instante, o olhando sem saber o que dizer, e logo ele sorriu, inclinou-se sobre ela e lhe deu um beijo na testa.

-Tranqüilize-se, Daphne, não vou machucá-la.

-Obrigada – respondeu ela, sem estar muito certa por que o havia dito.

De repente, deslizou seu braço em torno da cintura de John e se apertou contra ele.

Tinha ansiado com desespero que alguém lhe dissesse o que John acabava de dizer, que ela não tinha abandonado Andrew, que aquilo era o correto, que tinha trabalhado bem.

-Muito obrigada.

John a estreitou brevemente e continuaram descendo a escada até em baixo, onde encontraram Andrew e seus companheiros dispostos a sentar-se à mesa para jantar.

Para eles tinha chegado a hora de partir, e desta vez Andrew choramingou uns minutos ao despedir-se.

Daphne o apertou contra seu peito com lágrimas nos olhos, murmurando docemente com os lábios sobre sua face:

-Te amo.

Logo se separou dele, para que Andrew pudesse ler as palavras em seus lábios, então o menino se jogou violentamente em seus braços proferindo um som rouco que significava: "Eu também te amo".

A senhora Curtis se aproximou e acariciou a face do pequeno, sorrindo com ternura, e perguntou-lhe por gestos se estava preparado para sentar-se à mesa.

Andrew pareceu titubear um instante; logo assentiu esboçando um sorriso, e depois de agitar a mão e lançar um beijo de despedida para sua mãe, e dirigindo um olhar amistoso para John, afastou-se deles para reunir-se com seus amiguinhos.

-Vamos ou deseja ficar mais um momento? John não queria apressá-la.

Quase experimentava em suas entranhas a dor viva que Daphne sentia.

Mas ela assentiu lentamente com a cabeça, sem tirar os olhos de seu filho, e logo se voltou para John, a quem dirigiu um franco olhar que traduzia o alívio que sentia ao tê-lo a seu lado.

-Você está bem?

-Sim. Vamos.

John a seguiu, enquanto ela se maravilhava com a sensação de bem-estar que a embargava ao ter alguém que se preocupava com ela, depois de estar sozinha por tanto tempo.

De repente, ao sentir o ar frio da noite em seu rosto, apressou-a o desejo de pôr-se a correr.

A dor de deixar Andrew se havia atenuado, e se sentia mais viva do que havia se sentido em muitos anos.

Pôs-se a rir e subiu no caminhão de um salto, como uma menina.

-É um menino magnífico, sabe? - John a olhava como compartilhando seu orgulho enquanto colocava o veículo em movimento. -Fez um estupendo trabalho.

-O mérito é todo dele. Não acredito ter nada que ver com isto.

-Está equivocada. Tem a ver, e muito. Não o esqueça.

Falava com um tom severo, enquanto se afastavam da escola, e comprovou com satisfação que Daphne parecia feliz.

-Quer jantar na pousada? Tenho a impressão de que devemos celebrar algo, embora não saberia dizer o que.

Seus olhos se encontraram e ficaram olhando-se fixamente.

Entre eles um forte laço ia se formando, e Daphne acabava de compartilhar com ele um dos momentos mais importante de sua vida.

Por sua parte, John estava comovido e agradado pelo fato de que lhe tivesse permitido conhecer o Andrew.

-O que lhe parece se eu preparar o jantar?

-Ah! Sabe cozinhar? -brincou ele, e ambos tornaram a rir.

-Olhe que como muito.

-Que tal uns espaguetes?

-Só isto! -exclamou John, simulando aborrecimento.

Daphne riu, sentindo-se como uma menina, e de repente, sem motivo algum, recordou da primeira vez que tinha cozinhado para Jeff em seu apartamento.

Fazia uma eternidade, e se sentiu envergonhada ao dar-se conta de que tudo parecia muito impreciso, distante no espaço e no tempo, e não totalmente real.

Às vezes tinha a sensação de que as lembranças de Jeffrey eram cada vez mais vagas e débeis.

-Só espaguete? A voz do John a trouxe de novo ao presente.

-Está bem. Que tal um bife? Com salada.

-Aceito. Com muito prazer - acrescentou ele, e Daphne voltou a rir.

-Deve sair muito caro te alimentar, John Fowler.

Ele pareceu achar divertida a expressão de seu rosto.

-Não precisa se preocupar. Ganho um bom salário como lenhador.

-Mas não é um trabalho perigoso? Daphne franziu o cenho, e ele gostou de ver que estava preocupada.

-Às vezes. Mas não sempre. Quase todos nós sabemos o que temos nas mãos. Temos que vigiar os novatos, os moços que assinam um contrato temporário para o verão. Se não ficamos com os olhos muito abertos, podem pôr suas vidas em perigo.

Ela assentiu silenciosamente enquanto paravam em frente à  sua casa.

Entraram, e durante a meia hora seguinte ela se dedicou a preparar o jantar.

Ele pôs a mesa e se ocupou dos bifes.

Daphne cozinhou os espaguetes e preparou a salada, enquanto John contemplava a lareira com ar sonhador.

Ela logo adivinhou o que ele estava pensando.

-Está bem, John. Se quiser, acende-a. Esta sala ficará muito bonita com o fogo aceso.

-Não faz falta. É bonita sem ele.

Entretanto, de repente ela também o desejou.

Queria deixar o passado para trás.

Estava farta dos temores, os medos e as angústias do passado.

-Vamos, acende o fogo.

Havia algo naquele homem que lhe infundia coragem.

-Não quero que você se altere, Daphne.

-Não temas, eu acho que já é hora de me liberar do passado.

Experimentou uma estranha sensação ao dizê-lo, mas logo considerou que não se tratava da sensação de ter traído sua lembrança.

John se levantou da mesa para pôr uma tora na lareira, e logo adicionou lenha miúda.

O fogo ardeu rapidamente, e Daphne permaneceu um momento contemplando-o em silêncio, pensando nem tanto naquele Natal fatal, mas nas muitas vezes que ela e Jeff ficavam em casa nos domingos de noite, lendo os jornais dominicais e aproveitando o calor e a luz.

Sem pronunciar uma palavra, John estendeu o braço por cima da mesa e lhe segurou a mão; então ela lembrou a impressão de sentir seu braço sobre os ombros na escola e a sensação de bem-estar que a tomava ao estar com ele.

-No que estava pensando há um instante? Parecia tão feliz!

Os olhos de Daphne refulgiam pelos reflexos do fogo, e ele supôs que estava pensando em Jeffrey.

-Pensava em você. Agradeço que me encontrasse na estrada naquela noite.

John sorriu diante da lembrança.

-Teria lhe encontrado antes se não tivesse se escondido.

Ambos riram ao recordar, e Daphne levou para a mesa duas xícaras de café fumegante.

-É uma boa cozinheira.

-Obrigado. Você também cozinha bem. Os bifes estavam no ponto.

Ele sorriu quase com uma sombra de tristeza.

-Tenho muita prática. Faz quinze anos que cozinho para mim.

-Por que não voltou a se casar?

-Nunca o desejei. Tampouco conheci ninguém que me interessasse até este extremo.

"Até este momento", quis acrescentar, mas não desejava inquietá-la, e sabia que estas palavras teriam causado nela este efeito.

-Suponho que não quis começar de novo. Mas você ainda é jovem para refazer sua vida, pequena.

Ela meneou a cabeça pensativamente, sem tirar os olhos de John.

-Eu não acredito. Há coisas que não podemos fazer "de novo" na vida; não se pode recriar o que já se foi. Isto só acontece uma vez na vida.

-Esta experiência em particular, sim. Mas surgem outras experiências que se tornam tão importantes quanto aquela. Só que são diferentes.

-Olhe quem fala! Seu caso não é diferente do meu.

-Sim. Você é mais afortunada.

-Seriamente? Por quê?

-Você tem o Andrew.

Ambos sorriram.

-De vez em quando, conheço alguma criança que desperta em mim a pena de não ter tido um filho.

-Ainda não é muito tarde.

Mas John pôs-se a rir.

-Sou um homem velho, Daphne Fields. Tenho cinqüenta e dois anos. Demônios, até poderia ser seu pai!

Ela, entretanto, limitou-se a sorrir, pois não o via sob aquela luz, e tampouco ele se sentia assim respeito a ela.

Eram amigos em diversos níveis.

Daphne nunca tinha tido um amigo como ele até então.

Talvez porque nunca tinha sido a mulher que era agora.

Com o correr dos anos, tornou-se forte, mais do que ela jamais tinha sonhado.

Sua fortaleza podia competir com a de qualquer homem.

Inclusive com a de um como John.

Sentaram-se no sofá, contemplando o fogo.

Ela não saía de seu assombro ao perceber como se sentia confortável ao lado do John.

Havia uma serenidade, uma calma em sua maneira de agir..., como se tivesse uma eternidade por diante e todo o tempo do mundo para desfrutar de cada precioso instante.

Os rudes traços, que pareciam ter sido esculpidos por um artista, pareciam bonitos sob o resplendor do fogo.

-John...

Daphne não conseguiu encontrar as palavras precisas.

Por fim, com voz calidamente rouca, disse a única coisa que lhe ocorreu.

-Estou contente de ter lhe conhecido.

John assentiu lentamente com a cabeça, experimentando o mesmo que ela sentia, e percebendo a paz e a compreensão que reinavam em sua relação.

Então, ele passou o braço por cima de seus ombros, e ela notou a mesma força contida que tanto a tinha confortado aquela tarde.

Gostava de sentir o peso de seu braço, o contato de sua mão e o aroma que exalava.

Era uma deliciosa mescla de loção pós-barba, lã, ar fresco e tabaco.

Sua fragrância harmonizava com seu aspecto, o aspecto de um homem viril, atraente, que tinha passado a vida entre as árvores nas montanhas.

Neste momento ele a olhou e descobriu uma lágrima que deslizava por sua face.

Isto o alarmou, e a estreitou ainda mais contra seu corpo.

-Está triste, querida? -perguntou-lhe com voz grave e terna..., mas ela negou com a cabeça.

-Estou feliz. Só por estar aqui, desta maneira...

Levantou os olhos para ele.

-Deve pensar que estou louca. O que ocorre é que voltei para a vida. Sinto-me como se tivesse estado morta durante um longo tempo. Pensava...

Era difícil para ela pronunciar aquelas palavras, mas tinha que dizê-las.

-Pensava que tinha que estar morta porque eles estavam. Se continuei vivendo foi exclusivamente pelo Andrew. Só por ele segui com a vida.

E agora voltava a viver por ela mesma.

Por fim.

John permaneceu calado durante um tempo interminável, com o rosto muito perto do dela, observando-a.

-Agora tem direito de viver sua vida, Daphne. Já cumpriu com sua obrigação.

Então a beijou docemente nos lábios, e para ela foi como se tivesse sido transpassada uma seta.

O contato de sua boca fez vibrar as fibras mais intimas de seu ser, e ficou sem fôlego, com os lábios presos aos do homem que a estreitava entre seus braços.

Logo tomou o rosto entre suas mãos e ficou por uns instantes contemplando-a, encantado.

-Onde esteve todos estes anos de minha vida, Daphne Fields?

Beijou-a de novo, e desta vez ela deslizou seu braço em torno do pescoço dele e o reteve apaixonadamente.

Desejava agarrar-se a ele por toda a eternidade e não separar-se jamais.

John, por sua vez, a abraçou como se também quisesse retê-la para sempre.

Suas mãos começaram a deslizar lentamente pelos ombros de Daphne, e logo acariciaram seus seios, até que por fim se introduziram por debaixo do suéter.

Ela proferiu um doce gemido, e John acentuou suas carícias, ao sentir a possante paixão que despertava no fundo daquela mulher.

De repente, imobilizou-se para separar-se dela no final de uns instantes e fixar o olhar em seus olhos.

-Não quero fazer nada contra sua vontade, pequena. Eu sou um homem amadurecido, e não quero me aproveitar de você.

Mas ela sacudiu a cabeça e o beijou, enquanto ele começava a tirar as presilhas que prendiam seus cabelos em um coque, e eles se soltaram caindo como uma cascata até seus ombros.

John afundou os dedos em sua cabeleira, e logo lhe acariciou o rosto e os seios de novo, até que suas grandes mãos se deslocaram até as pernas, e ela não pôde reprimir um estremecimento de prazer com seu contato.

-Daphne... Daphne... - murmurava ele.

Ambos continuavam no sofá em frente ao fogo, John com o corpo pulsando de desejo por ela; Daphne se levantou, segurou sua mão e o levou para a cama de seu quarto.

-Tem certeza? Ele sabia o longo tempo que Daphne tinha passado sozinha, e apenas o conhecia.

Tudo tinha acontecido muito rapidamente, e não queria que Daphne fizesse algo de que pudesse arrepender-se pela manhã.

Desejava conhecê-la a fundo, não só durante uma noite ou um momento passageiro.

-Completamente.

Sua voz não era mais que um sussurro enquanto ele a despia lentamente, até que por fim ficou nua diante ele, pequena, de formas perfeitas, seu corpo banhado pela luz da lua, e os loiros cabelos resplandecentes como fios de prata. John a levantou nos braços e a depositou sobre a cama; então tirou calmamente a roupa, que deixou cair no chão, e deslizou para junto dela.

O contato com sua pele acetinada foi quase insuportável, e o desejo de possuí-la se tornou tão intenso que não podia dominar-se.

Mas foi ela quem tomou seu rosto entre as mãos, quem o apertou contra seu corpo, enquanto se arqueava para ele, e lentamente, como uma lembrança esquecida aflorando com deliciosa violência, sentia que ele a penetrava e a levava nas asas do prazer até cúpulas que nem sequer com Jeffrey tinha alcançado.

John era um hábil e extraordinário amante.

Ficaram exaustos um junto ao outro, as pernas dela entrecruzadas com as dele, enquanto murmurava com os lábios encostados em seu pescoço que o amava.

-Eu também a amo, pequena. Oh, meu Deus, como a amo!

Enquanto John pronunciava estas palavras, ela o olhava com um sorriso sonolento, apertava-se contra seu corpo e, fechando os olhos, adormecia em seus braços, transformada de novo em mulher, em uma mulher que nunca tinha sido..., sua mulher, e dona de si mesma. Ele não se equivocou ao julgá-la. Os anos tinham a tornado forte, mais forte do que ela supunha.

-O que é isto? John segurava em suas mãos dois cadernos com capas de couro.

Eram seis da manhã do dia seguinte, e ele se encontrava nu na cozinha.

Daphne tinha levantado para lhe preparar o café da manhã antes que ele saísse para trabalhar, mas atrasaram-se arrastados por outra intensa explosão de paixão.

Ela olhou por cima de seu próprio ombro nu com um sorriso, sem sair de seu assombro por se sentir tão bem e confiante em sua companhia.

-O que? Ah, são meus diários!

-Vai me deixar ler isto algum dia?

-Claro.

Daphne pareceu ligeiramente perturbada ao pôr os ovos fritos com bacon sobre a mesa.

-Embora talvez lhe pareçam um pouco tolos. Joguei toda minha alma neles.

-Isto não tem nada de tolo. Então sorriu admirando o traseiro nu de Daphne.

-Sabe que tem um traseiro maravilhoso?

-Fecha o bico e tome seu café da manhã.

-Isto parece como o fim de um romance.

Seu romance, entretanto, apenas tinha começado.

Ainda tiveram tempo de entreter-se, para passar um “tempinho” mais antes que ele partisse para o trabalho uma hora mais tarde.

-Não acredito que hoje tenha energia suficiente para trabalhar, depois de tanto fazer amor tão deliciosamente.

-Bom, então fique em casa. Eu cuidarei de você.

-Claro que sim! -exclamou ele, soltando uma gargalhada enquanto subia o fecho da grossa jaqueta de pele que guardava no caminhão para trabalhar.

-Você sim sabe deixar um homem mal acostumado, Daphne Fields.

Mas enquanto a abraçava para despedir-se, ela disse com voz baixa:

-É você quem me deixa mal acostumada. Fez-me feliz como nunca fui, e quero que saiba.

-Lembrarei o dia todo. Na volta, comprarei alguns mantimentos e jantaremos em casa. Está bem?

-Parece perfeito.

-O que você fará?

Os olhos de Daphne brilharam maliciosamente um instante e ela sorriu.

-Talvez escreva algo em meu diário.

-Bom. Lerei quando voltar. Até mais tarde, pequena.

O caminhão se afastou fazendo ranger o cascalho do caminho, enquanto ela se despedia abanando a mão, com os peitos nus, da janela da cozinha.

O dia pareceu interminável a partir daquele momento, e se perguntou o que faria sem ele.

Pensou em ir ver Andrew, mas era muito cedo para uma nova visita.

De modo que ficou em casa, fez a limpeza e escreveu em seu diário.

Mas algo diferente ficou rondando sua cabeça toda a manhã, e depois de almoçar encontrou-se escrevendo um conto.

Saiu todo de uma vez, correntemente, e quando terminou, ficou olhando com espanto a dúzia de paginas que tinha escrito.

Era a primeira vez que lhe acontecia uma coisa semelhante.

Quando John chegou de noite, estava o esperando vestida com calça cinza e suéter vermelho brilhante.

-Como você está bonita, pequena! Como passou o dia?

-Senti sua falta.

Tinha a impressão de que ele sempre tinha feito parte de sua vida, que estivera esperando por ele todas as noites.

Cozinharam o jantar juntos, com os mantimentos que ele havia trazido, e John lhe contou anedotas que tinha escutado em seu trabalho.

Mais tarde, lhe mostrou o conto que tinha escrito, e John leu-o com atenção, sentados junto ao fogo.

-É maravilhoso, Daff! Olhou-a com orgulho e satisfação evidentes.

-Vamos, me diga a verdade, não é uma besteira?

-Diabos, não! É estupendo.

-É o primeiro que escrevo. Nem sequer sei de onde me veio a inspiração.

Ele acariciou seu sedoso cabelo, sorrindo.

-Daqui, pequena. E eu suspeito que aqui existam mais muitas histórias como esta.

Na verdade ela tinha encontrado uma fonte que desconhecia, e experimentava um alívio ainda maior que quando escrevia seu diário.

Nesta noite fizeram amor diante do fogo, e de novo na cama, e às cinco e meia da manhã repetiram a experiência.

Ele foi trabalhar com uma canção nos lábios, e desta vez ela não esperou até de tarde, mas se sentou para escrever assim que John se foi, e completou outro conto.

Era diferente do que tinha escrito no dia anterior, mas quando John o leu de noite, achou que era melhor.

-Tem um estilo incrivelmente original, Daphne.

A partir deste dia, John passou várias semanas lendo todos os diários dela. Quando chegou o Natal,já tinham estabelecido uma relação cômoda e fluida.

Ele havia mais ou menos se mudado para a casa dela, Andrew se tornava cada vez mais independente na escola e Daphne dispunha de mais tempo do que já tivera em muitos anos, o que lhe permitia dedicar-se a escrever contos todos os dias.

Alguns eram melhores que outros, mas todos eram interessantes, e todos possuíam o mesmo estilo característico.

Parecia que Daphne tinha descoberto uma faceta de sua própria personalidade que lhe era desconhecida, e tinha que reconhecer que adorava.

-Sinto-me tão feliz, John! Não sei, é difícil de explicar. Tenho a impressão de que tudo sempre esteve dentro de mim, sem eu saber.

-Talvez devesse escrever um romance - sugeriu John com expressão grave.

-Não seja tolo. A respeito de que?

-Não sei. Tente para ver o que sai. Sei que tem capacidade para fazê-lo.

-Não estou tão segura. Escrever contos curtos é diferente.

-Isto não significa que não possa escrever um romance. Tente. Demônios, por que não? Dispõe de tempo. Aqui não se pode fazer nada durante todo o inverno.

E era certo que nada teria que fazer, só visitar Andrew.

Daphne passava duas tardes com ele cada semana, e John a acompanhava cada fim de semana.

No Natal, era fácil comprovar que o menino era completamente feliz, que aceitava John com naturalidade e lhe contava coisas divertidas na linguagem de sinais, pois John agora já o compreendia.

Jogava alegremente com ele, e a maioria das vezes terminava levando Andrew sobre um ombro e a um de seus amiguinhos no outro.

John tinha chegado a sentir verdadeiro afeto pelo menino, e Daphne os contemplava com orgulho, maravilhada com a sorte que a vida tinha lhe proporcionado.

Parecia-lhe que, por fim, sumira toda a dor e a amargura do passado.

Agora a lembrança do Jeff se tornara mais suportável.

Só quando via alguma menina da idade de Aimee, experimentava ainda uma amarga pontada.

Mas até nestes casos era mais suportável, pois John possuía o dom de mitigar suas dores e sabia fazer com que se sentisse tranqüila e feliz.

De quando em quando levavam Andrew para casa com eles.

John sempre encontrava uma dúzia de pequenas tarefas que fazerem.

Pegavam lenha juntos, e John esculpia alguns animaizinhos aproveitando ramos e pequenos troncos.

Ajudava Daphne a assar biscoitos, e em uma ocasião pintaram uma velha cadeira de balanço de vime que John tinha descoberto no fundo de um celeiro vazio.

Tornava-se evidente que Andrew se voltava cada vez mais independente, e lhe era mais fácil comunicar-se com ambos.

Daphne dominava com mais precisão a linguagem dos sinais, por isto a tensão entre eles havia se atenuado.

Andrew se mostrava mais paciente com sua mãe quando esta cometia algum engano, e às vezes ria alegremente se ela interpretava errado algum sinal; então, sorrindo, explicava ao John por gestos que sua mamãe havia dito que ia cozinhar uma rã para o jantar.

Entretanto, a comunicação silenciosa que estabelecia com John continuava sendo profundamente comovente.

Os dois ficaram amigos, como se sempre tivessem compartilhado as mesmas experiências de vida, caminhando em silencio pelos campos, detendo-se para observar um coelho ou um gamo, sem que tivessem necessidade alguma de dizer-se nada, pois lhes bastava trocar um olhar.

Quando chegava o momento de retornar à escola, Andrew se sentava nos joelhos de John no caminhão e colocava suas mãozinhas sobre o volante junto às grandes e rudes mãos de John, sob o atento olhar de Daphne, que os contemplava com um sorriso nos lábios.

O pequeno sempre se mostrava contente de voltar para junto de seus companheiros, e já não era uma tortura separar-se dele.

Ela e John viviam suas próprias vidas, e Daphne se dizia que nunca tinha sido tão feliz em toda sua existência, o que se manifestava em sua escrita.

Em fevereiro, por fim, juntou energia para escrever um romance, e dedicava-se a ele com esforço, enquanto John se encontrava trabalhando; de noite, ele lia a produção do dia, acompanhando a leitura com seus comentários e louvores, sem que em nenhum momento tivesse dúvida alguma a respeito da capacidade de Daphne para levar a cabo sua obra.

-Se não fosse por você, não poderia fazê-lo.

Daphne estava recostada no sofá, em jeans e botas, enquanto sustentava uma pilha de páginas sobre seu colo.

Ele, por sua parte, estava cortando umas maçãs para ambos.

-Claro que poderia. Eu não tenho nada que ver com isto, sabe? Tudo surge de você mesma. É algo que leva dentro de si e que ninguém poderá lhe tirar jamais.

-Não sei... Ainda não consigo compreender de onde sai tudo isto.

-Isto não importa. Só deve compreender que está aí, em seu interior. Nada e nem ninguém pode interferir nem afetar seu desenvolvimento.

Daphne aceitou o pedaço de maçã que John lhe oferecia e se inclinou para ele para lhe dar um beijo.

Adorava sentir o contato de seu rosto em seus lábios, sobretudo no final do dia, quando tinha a aspereza da rude barba crescida.

Tudo nele era muito masculino, e possuía um extraordinário atrativo sexual.

-Continuo acreditando que você é o culpado. Se não fosse por você, não teria escrito nem uma só palavra.

Ambos recordaram com um sorriso que Daphne tinha escrito seu primeiro conto depois da primeira vez que fizeram amor.

Tinha-o enviado à Collins depois de primeiro do ano, para ver se o publicavam, e ainda estava esperando a resposta.

Em março, a resposta chegou de sua antiga chefe, Allison Baer. Tinham aceitado e lhe ofereciam quinhentos dólares.

-O que lhe parece, John, aceitaram meu conto?! Estão loucos!

Daphne o estava aguardando na porta, com uma garrafa de champanhe, o cheque e a carta de Allison.

-Felicidades! John se mostrou tão contente como ela, e celebraram na cama até altas horas da madrugada.

Ele brincava lhe dizendo que não o deixava dormir nunca, mas era evidente que ambos gostavam da situação.

A aquisição do conto pela Collins a estimulou, e ao longo de toda a primavera trabalhou com esforço no livro, de modo que em julho já o tinha terminado.

Ficou com a vista fixa nele, sustentando-o em suas mãos, avaliando o manuscrito, bastante assombrada pelo que tinha conseguido, e ao mesmo tempo entristecida pela perda daqueles personagens que tinham se tornados tão reais durante os meses que levou para escrevê-lo.

-E agora o que farei? Era um pouco como perder um emprego, e até quase lamentava tê-lo terminado.

-Esta, meu amor, é uma pergunta interessante.

John a contemplava transbordante de orgulho, com o torso nu, o rosto e os braços torrados pelo sol, enquanto saboreava uma cerveja depois de uma jornada exaustiva.

Tinha sido um verão maravilhoso.

-Não estou certo, mas acredito que deveria conseguir um agente literário. Por que não consulta a sua antiga chefe na Collins. Telefone amanhã mesmo.

Mas Daphne sempre detestava falar com ela.

Allison não deixava de reprovar a vida tão pouco natural que Daphne levava.

Ela não lhe havia dito nada a respeito de John, e ela supunha que Daphne continuava em New Hampshire a fim de estar perto de Andrew.

Sempre insistia em tratar de convencê-la de que devia voltar para New York e conseguir um emprego, mas Daphne encontrava, toda vez, a desculpa de que havia sublocado seu apartamento até setembro.

Depois desta data encontraria outras razões.

Na realidade não tinha nenhum projeto de afastar-se dali.

Era feliz com John, e desejava ficar em New Hampshire para sempre.

Entretanto, até John discutia em ocasiões sobre o assunto, dizendo que ela pertencia a New York, onde   

NB "os de sua classe" e onde a esperava um emprego interessante.

Considerava que ela não tinha que passar toda sua vida junto a um lenhador.

É obvio que não queria que partisse, e ela, por sua parte, não tinha intenção alguma de abandoná-lo, nem agora nem nunca.

-Como supõe que pode encontrar um agente?

-Talvez devesse pegar o livro, ir a New York e averiguar.

-Farei isto, sempre e quando você for comigo.

-Isto é uma tolice, meu amor. Para isto não necessita de mim em absoluto.

-Sim, necessito. -Sentada junto a ele, Daphne parecia uma garotinha-. Necessito de você para tudo. Ainda não se deu conta?

É obvio que John se dera conta, mas ambos sabiam que ela era capaz de desembaraçar-se sozinha, e da melhor maneira.

-O que eu faria em Nova Iorque?

Fazia vinte anos que John não punha os pés na cidade, e não tinha desejo algum de fazê-lo agora. Era feliz nas montanhas da Nova Inglaterra.

-De qualquer modo, por que não telefona a Allison amanhã e vê o que diz?

No dia seguinte Daphne não telefonou. Resolveu aguardar até o outono.

De certo modo, não estava pronta para se desprender do livro, e argumentava que desejava relê-lo algumas vezes mais, a fim de efetuar as correções definitivas.

-Covarde - disse John de brincadeira-. Não pode permanecer escondida eternamente, pequena.

-Por que não?

-Porque eu não consentirei. Vale muito para isto.

John sempre a fazia sentir que não havia nada no mundo que não fosse capaz de fazer.

Era notável como tinha recuperado a confiança em si mesma no correr dos meses que estava com ele. Também Andrew tinha mudado.

Agora já quase tinha cinco anos, já não era um bebê.

Em agosto, Daphne tinha pensado em unir-se com ele ao grupo de meninos e pais que iriam acampar, com o consentimento da senhora Curtis.

Aquele era um acontecimento muito especial para todos, e Daphne quis que John fosse com eles naquela excursão de quatro dias, para compartilhar a experiência com o Andrew, mas não foi possível.

Tinham uns vinte estudantes na exploração florestal, e todos os veteranos deveriam estar ali a fim de fiscalizar o trabalho dos "novatos".

-Não pode escapulir? -insistiu ela, com grande desencanto.

-Não posso realmente, querida. Tomara pudesse. Vocês vão se divertir muito.

-Não sem você.

Daphne quase fazia beicinho, e ele pôs-se a rir, pois adorava a menina que havia nela.

Na terceira semana de agosto partiram, providos com os sacos de dormir, as barracas de campanha e os cavalos.

Era uma nova experiência para os meninos viajar através dos bosques, e tudo que os rodeava era um descobrimento e causa de novas emoções.

Daphne tinha levado seu diário, a fim de poder anotar tudo nele para que depois John lesse; todas as coisas divertidas que Andrew fizesse, assim como os breves momentos que temia não recordar depois.

Entretanto, a maior parte o tempo passava escrevendo a respeito de John, e pensando na noite que passaram juntos antes da partida.

Aquela era a primeira vez que se separavam em nove meses, e Daphne se sentiu desfalecer diante da perspectiva de não o ter com ela.

Tendo perdido o ser amado uma vez, sentia-se tomada por um medo feroz ao ter que se separar de John.

Houve noites que até teve pesadelos de que um dia o perderia.

-Não se libertará de mim tão facilmente, pequena - murmurou ele junto a seu pescoço quando ela comunicou seus temores.

-Sou um tronco muito duro de cortar.

-Eu não poderia viver sem você, John.

-Claro que poderia. Mas não será necessário que faça a prova, e não será por muito tempo. Assim, divirta-se com os meninos, e depois me contará tudo o que fizeram.

O amanhecer a surpreendeu deitada junto a ele, depois de ter feito amor, sentindo a quente e suave carne masculina junto a sua coxa.

Aquele contato sempre causava um fundo estremecimento em todo seu corpo.

Em suas relações sexuais, John a deixou mal acostumada.

Apesar de que ele mesmo dizia ser um "velho", não havia nenhum sintoma de velhice em sua paixão.

Possuía o ardor de um homem com bem menos idade, unido a uma experiência que havia lhe permitido ensinar a Daphne coisas que ela não tinha conhecido antes.

Às vezes ela se perguntava se o gozo era tão grande simplesmente porque o amava.

Era sobre isto que escrevia em seu diário, aproveitando os momentos em que não estava brincando com Andrew.

Ela saboreava aqueles dias tão especiais que passava com seu filho, observando como brincava com seus amiguinhos, vivendo juntos no bosque e despertando pela manhã para contemplar aquela carinha radiante, que fazia muito tempo não via junto a ela ao acordar.

Retornaram para casa depois de quatro dias, como qualquer respeitável grupo de excursionistas, sujos, fatigados e relaxados, e acima de tudo felizes pelo que tinham vivido.

Os adultos tinham aproveitado a excursão tanto como os meninos.

Daphne deixou Andrew na escola, carregou o saco de dormir e a mochila para carro e sentou-se ao volante bocejando.

Não via o momento de reunir-se com John, mas ao chegar em casa não o encontrou.

Havia pratos na pia e a cama estava sem fazer.

Daphne sorriu enquanto se metia com grande satisfação sob a ducha.

Até que ele voltasse, já teria posto tudo em ordem.

Entretanto, enquanto estava na cozinha lavando os pratos, a forma de bater à porta pareceu-lhe pouco familiar.

Foi abrir com as mãos cheias de sabão e sorriu ao ver um dos amigos do John, um homem que não via muito freqüentemente, mas que gozava da estima de John, como ela bem sabia.

-Olá, Harry, como está? Daphne tinha um saudável tom bronzeado e parecia descansada e feliz, mas o amigo de John estava tenso.

-Quando voltou? Tinha uma grave expressão e havia uma profunda tristeza em seus olhos, como era habitual nele.

John sempre brincava dizendo que tinha uma cara como se tivesse morrido seu melhor amigo, mas o caso era que tinha uma esposa ranzinza e seis filhos, o que era suficiente para deprimir a qualquer um, como dizia John.

-Como está Gladys?

-Daphne, eu posso falar com você um minuto?

Desta vez, Harry parecia verdadeiramente perturbado.

De repente, Daphne ouviu às suas costas o tic-tac do relógio da cozinha.

-Claro. -enxugou as mãos nos jeans e se aproximou de Harry.

-Aconteceu alguma coisa ruim algo?

Ele assentiu lentamente com a cabeça, sem saber como dizer-lhe.

-Harry? O que aconteceu? O que se passou?

Os olhos de Harry semelhavam dois tristes seixos negros enquanto olhava para Daphne. As palavras não conseguiam sair de seus lábios, e entre ambos se fez um silêncio espectral.

-Vamos nos sentar. -Harry se deslocou nervosamente até o sofá, e ela o seguiu como em um sonho. -John está morto, Daphne. Morreu enquanto você estava ausente.

Ela sentiu que a sala dava voltas a seu redor, enquanto via o rosto de Harry na distância...

"John está morto. John está morto..."

Aquelas palavras brotavam de um sonho, não da realidade; isto não podia ter lhe acontecido, não a ela... , não de novo.

E de repente, no silêncio que os rodeava, Daphne ouviu uma mulher gritar, histericamente, com uma voz rouca.

-Não! Não! Não! O agudo grito se converteu em soluços.

Harry observava-a, ansioso por lhe explicar como ele tinha morrido, mas ela não queria ouvi-lo.

Isto não importava.

Ela já tinha passado por isto antes.

Entretanto, Harry, alheio aos seus sentimentos, começou a falar, enquanto Daphne cobria os ouvidos com as mãos e gritava e andava a esmo pela sala.

-Houve um acidente na exploração no dia que você se foi. Telefonamos para a escola, mas nos disseram que não tinham como se comunicar com você. Um destes malditos estudantes perdeu o controle de um guindaste, e uma carga de troncos caiu em cima de John...

 

Harry começou a chorar, e Daphne ficou o olhando com os olhos muito abertos.

-Fraturou a coluna e o pescoço. Nem sequer soube o que aconteceu.

Tampouco Jeff soube. Ou pelo menos disseram isto. Que importância podia ter? Que importância tinha agora? Olhava fixamente para Harry e só conseguia pensar em Andrew.

O que ia dizer a seu filho?

-Todos nós lamentamos até a alma. Enviaram os estudantes de volta para casa, e decidimos que o corpo ficasse na funerária. John não tem família aqui, nem em nenhuma outra parte. Todos faleceram. Não sabíamos o que você iria querer fazer... Gladys pensou...

-Fizeram bem.

Daphne estava pálida e tensa.

-Não se preocupe.

Ela já tinha passado por um transe similar.

Só depois que Harry partiu que as lágrimas afloraram em seus olhos, copiosos rios de silenciosas e angustiadas lágrimas.

Olhou em volta da sala e se sentou de novo.

John Fowler jamais voltaria para seu lar.

"Você pode se valer por si mesma, pequena." Recordava as palavras que ele havia dito no passado.

Mas ela não queria valer-se por si mesma.

Ela queria fazer sua vida com ele.

-Oh, John! Foi um murmúrio surdo, que se quebrou em sua garganta e ressoou no silêncio da cabana.

Ela recordou tudo o que haviam dito um ao outro, ele a respeito da perda de sua esposa e ela a respeito da perda de Jeff.

Aquilo tinha sido algo tão sem sentido como o que tinha ocorrido agora, e tampouco ela o compreendia melhor; entretanto, desta vez era diferente, pois Daphne sabia quão inútil seria agarrar-se às lembranças.

Entrou no bosque ao pôr do sol, e as lágrimas brotaram de novo enquanto contemplava o céu de verão e pensava em John, em seus largos ombros e grandes mãos, em sua voz grave e profunda; John, o homem que os tinha amado, a ela e a Andrew.

-Maldito! –Daphne gritou para o céu, que se tingia de uma cor alaranjada e malva. -Maldito seja! Por que teve que fazê-lo?

Permaneceu um longo momento ali, parada, com lágrimas fluindo livremente de seus olhos, enquanto o céu ia escurecendo com lentidão.

Logo, enxugou as lágrimas com as mangas da camisa de lenhador que usava e fez um gesto de assentimento.

-Está bem, meu amigo. Está bem. Seguiremos adiante. Só recorda que te amei.

Então, sem deixar de chorar, fixou o olhar no ponto sobre as colinas onde minutos antes o sol estivera e murmurou:

-Adeus.

Em seguida, com a cabeça curvada, encaminhou-se para sua casa.

Na manhã seguinte, Daphne despertou antes do amanhecer, naquela cama que de repente lhe pareceu muito grande para ela sozinha.

Permaneceu deitada, pensando em John e recordando as primeiras manhãs em que ficavam um junto ao outro, e freqüentemente seus corpos se fundiam em um só antes do amanhecer.

O sol foi entrando às escondidas pelas janelas, enquanto ela se sentia pesada, desejando não tornar a levantar-se nunca mais.

Não experimentava o horror e o pânico que a assaltaram quando morreu Jeff.

Agora sentia somente um enorme vazio, e se apoderava dela uma sensação de perda, uma pena sem fim, que a curvava como o peso de sua própria lápide sepulcral, enquantoacariciava uma e outra vez com os dedos da mente a ferida aberta...

As palavras cruzavam ritmicamente por seu cérebro: "John está morto..., está morto..., está morto..., Não voltarei a vê-lo nunca mais..., nunca mais..."

E o pior de tudo era que tampouco Andrew voltaria a vê-lo.

Como explicaria para seu filho?

Era quase meio-dia quando fez um esforço para levantar-se da cama, e sentiu um ligeiro enjôo ao ficar de pé.

Sentiu náuseas, um vazio no estômago, pois não tinha comido nada desde a manhã anterior; tampouco agora pôde provar qualquer coisa, enquanto aquelas palavras continuavam ressonando em sua cabeça: "John está morto... John está morto...".

Permaneceu meia hora sob a ducha, com o olhar perdido, enquanto a água batia sobre seu corpo como uma chuva furiosa, e levou quase uma hora mais para decidir-se a vestir jeans, uma camisa de John e uns sapatos.

Ficou com o olhar fixo no armário de ambos como se guardasse preciosos segredos de toda uma vida; entretanto, ela já tinha passado por uma experiência semelhante, e não estava disposta a deixar-se abater por isto.

Quando Jeff morreu, o conhecimento de que levava seu filho em seu ventre a havia ajudado a seguir adiante, mas nesta ocasião não contaria com semelhante ajuda: o milagre da vida para rebater o absurdo da morte.

Desta vez contava com a presença do mesmo Andrew.

Sabia que agora devia encontrar o caminho para aproximar-se dele, por seu bem e pelo seu próprio.

Ainda tinha a seu filho.

Dirigiu-se à escola em seu carro, aturdida e dominada ainda por uma estranha sensação; só quando viu Andrew brincando com uma bola começou a chorar de novo.

Ficou contemplando-o durante um longo momento, tratando de ordenar seus pensamentos e deter as lágrimas, mas parecia que estas não queriam deixar de fluir, até que finalmente o menino, ao voltar a cabeça, viu-a.

Então franziu o cenho, abandonou a bola e se dirigiu lentamente para ela com uma expressão preocupada nos olhos.

Ela se sentou sobre a grama e estendeu os braços, sorrindo em meio das lágrimas.

Agora ele era o centro de sua vida, como sempre tinha sido antes.

-Olá - disse-lhe por gestos, assim que o pequeno se sentou junto a ela.

-O que aconteceu?

Todo o amor e o amparo que sentiam um pelo outro se refletiam nos olhos de Andrew.

Seguiu-se uma interminável pausa durante a qual ela notou que suas mãos tremiam.

Não conseguia dominar-se para expressar-se por gestos. Por fim o fez.

-Tenho algo muito triste que lhe contar.

-O que? -perguntou o menino, surpreso.

Ela o tinha mantido afastado de dores e desastres, e ainda não tinha ocorrido nada como aquilo em sua vida.

Mas não havia modo algum de lhe evitar aquele desgosto.

O menino tinha crescido muito apegado a John.

O queixo de Daphne tremia, e os olhos se encheram de lágrimas ao estreitar seu filho entre seus braços.

Logo o soltou para expressar por gestos o que tinha que lhe dizer.

-John morreu enquanto estávamos no acampamento, querido. Sofreu um acidente. Eu soube ontem. Não voltaremos a vê-lo.

-Nunca mais? Andrew abriu muito os olhos com incredulidade.

Sua mãe assentiu e lhe respondeu por gestos:

-Nunca mais. Mas lembraremos sempre dele, e o amaremos, como eu amo a seu papai.

-Mas eu não conheço meu papai - argumentou o menino, com mãos trêmulas. - Eu amo o John.

-Eu também o amo. -As lágrimas deslizaram de novo pela face de Daphne. -Eu também o amo... -E acrescentou-: E também amo você.

Então ambos se abraçaram, enquanto o pequeno começava a chorar com entrecortados e guturais soluços, que rasgavam o coração de sua mãe.

Pareceu que transcorriam horas sem que nenhum dos dois se decidisse a romper o abraço.

Depois, deram um passeio em silêncio, de mãos dadas.

De vez em quando Andrew dizia algo em gestos a respeito de John, das coisas que tinham feito, de como se comportava com ele.

Daphne sentiu novamente como aquele homem tinha cativado seu filho sem precisar falar nem uma só palavra.

John era um homem que não necessitava das palavras.

Havia nele uma poderosa e rara essência que transcendia todo o resto, até o problema de Andrew e os medos de Daphne.

Surpreendeu-se quando Andrew lhe perguntou:

-Vai ficar aqui sem ele, mamãe?

-Sim. Você sabe que estou aqui por você.

Porém, ambos sabiam que isto não tinha sido inteiramente exato nos seis últimos meses.

Andrew havia se tornado cada vez mais independente, e Daphne ficou em New Hampshire por causa de John.

Entretanto, ela não podia ir-se agora.

Andrew precisava dela mais que nunca, e ela precisava dele.

As semanas restantes do verão transcorreram lentamente, enquanto Daphne sofria em silêncio por John.

Ao final de um tempo deixou de chorar, e tampouco voltou a escrever em seu diário.

Apenas provava a comida, e não via ninguém, somente Andrew.

A senhora Obermeier foi quem que finalmente foi até sua casa, e ficou aturdida pelo que viu.

Daphne tinha perdido mais de cinco quilos, tinha as feições tensas e um vinco de amargura em torno da boca.

A velha austríaca a estreitou entre seus braços, mas nem sequer então Daphne chorou.

Tinha superado a etapa da dor, e agora simplesmente resistia para sobreviver, sem saber muito bem por que, como se nem fosse por seu filho. Na realidade, nem sequer ele necessitava dela.

Andrew tinha a escola, e a senhora Curtis tinha sugerido que suspendesse as visitas.

-Por que não retorna a New York? -perguntou-lhe a senhora Obermeier diante da xícara de chá que Daphne apenas tinha provado. -Para seus amigos. É penoso para você permanecer aqui. Está repleto da presença dele.

Daphne também percebia, mas não queria retornar.

Queria ficar na cabana para sempre, com os objetos do John, com suas botas, com seu cheiro, com a aura de sua pessoa.

Muito antes de morrer, John já tinha abandonado o apartamento onde vivia.

-Quero ficar aqui.

-Isso não te faz nenhum bem, Daphne - disse a anciã com firmeza. - Não pode se agarrar ao passado.

Daphne esteve tentada de lhe perguntar por que não, mas ela já conhecia as respostas.

Já tinha passado antes por aquele transe.

Entretanto, isto não fazia a não ser agravar a presente situação.

Seu conto saiu na Collins em outubro, e Allison lhe enviou um exemplar com uma nota que dizia: "Quando, demônios, você vai voltar? Com carinho, Allie".

Mentalmente, Daphne respondeu: "Nunca".

Mas no fim de um mês recebeu uma carta da proprietária da cabana, que morava em Boston, lhe comunicando que seu contrato de aluguel tinha vencido, e que a cabana tinha sido vendida.

Pedia-lhe que a desocupasse até princípio de novembro.

Ela já não podia alegar como desculpa que tinha o apartamento de New York ocupado.

Seu inquilino se mudou os primeiros dias de outubro, por isto o único lugar para onde podia ir era New York.

Teria podido encontrar outra cabana ou apartamento em New Hampshire, mas isto não fazia muito sentido.

Só via Andrew uma vez por semana, e ele não lhe dava muita atenção.

O menino ficava cada vez mais independente, e a senhora Curtis tinha observado recentemente que tinha chegado o momento que se concentrasse por completo na escola.

De certo modo, as visitas de Daphne retardavam seus progressos, já que o menino se apegava a sua mãe.

Na realidade, era Daphne quem se agarrava a ele.

Fez as malas com todas suas coisas e as de John,  despachou-as por ônibus para New York, e pela última vez lançou um olhar em torno da cabana, com um nó na garganta, até que escapou dela um afogado soluço.

O pranto a sacudiu durante uma hora, sentada no sofá, onde chorou em silêncio.

Estava sozinha.

John tinha desaparecido.

Nada podia o trazer de novo à vida.

Foi-se para sempre.

Daphne fechou a porta quietamente ao sair, e apoiou o rosto contra ela, sentindo a madeira na face e recordando os momentos que tinha compartilhado com John.

Logo se afastou com passo lento para seu carro.

Tinha dado a Harry o caminhão de John.

Na escola, Andrew estava absorvido por suas atividades e seus amiguinhos.

Despediu-se dele com um beijo e lhe prometeu voltar dentro de algumas semanas, para passar juntos o Dia de Ação de Graças.

Hospedaria-se na Austrian Inn, igual aos outros pais.

A senhora Curtis não mencionou John quando Daphne se foi, apesar de tê-lo conhecido e de lamentar profundamente sua perda.

A viagem de carro para New York demorou sete horas.

Daphne não experimentou nenhuma emoção ao entrar na cidade e observar ao longe a familiar silhueta do Empire State Buiíding.

Aquela era uma cidade que ela não queria ver, um lugar ao qual não desejava voltar, pois já não era um lar o que ali a esperava, mas só um apartamento vazio.

O apartamento se encontrava em boas condições.

A inquilina tinha o deixado limpo.

Daphne lançou um suspiro ao descarregar a mala sobre a cama.

Inclusive ali habitavam fantasmas.

Devia enfrentar o quarto vazio do Andrew, onde se encontravam os jogos com os quais já não se distraíria, os livros que já não leria.

Os tesouros mais apreciados foram levados com ele para a escola, e o resto era algo que pertencia a uma idade que o menino já tinha superado.

Daphne se sentiu como se também ela tivesse superado o que aquele apartamento podia lhe dar.

Tinha um horrível aspecto urbano, que a deprimia depois de ter vivido tantos meses na cabana com vista para as colinas de New Hampshire.

Aqui só se oferecia a vista de outros edifícios, uma cozinha completamente diferente daquela tão cômoda a que estava acostumada, uma sala de estar com umas cortinas que se tornaram velhas, um antigo tapete puído pelas brincadeiras de Andrew e uns móveis que começavam a apresentar arranhões e desprendendo pequenas lascas.

Em outros tempos, tinha significado muito para ela e para seu filho.

Agora, sem ele, não tinha nenhum valor.

Limpou o tapete no primeiro fim de semana que passou no apartamento, trocou as cortinas e comprou novas plantas, mas o resto simplesmente ficou sem cuidado.

A maior parte do tempo dedicou-se a passear, tratando de adaptar-se a New York de novo, evitando voltar para apartamento.

Era de fato uma bonita época do ano, sem dúvida a melhor em New York, mas nem sequer aquele clima fresco, em que tudo parecia dourado pelos raios do sol, conseguia lhe levantar o ânimo.

Tudo isto não lhe importava nada.

Em seus olhos aparecia uma expressão sombria quando se levantava pela manhã e se perguntava o que faria com sua alma.

Dizia-se que devia sair e procurar um emprego, mas não tinha vontade de fazê-lo.

Ainda tinha dinheiro suficiente para seguir vivendo por um tempo sem trabalhar, e disse a si mesma que depois do Ano Novo começaria a pensar nisto.

Colocou o manuscrito em uma gaveta do escritório e nem sequer se deu ao trabalho de telefonar para sua antiga chefe, a Allie.

Mas um dia encontrou com ela em uma loja do centro, onde tinha entrado para comprar um pijama para o Andrew.

Durante o ano, o menino tinha crescido tanto que devia procurar roupa dois tamanhos maiores; a senhora Curtis tinha lhe enviado uma lista de tudo o que ele precisava.

-O que anda fazendo por aqui, Daff?

-Umas compras para o Andrew - respondeu ela com naturalidade.

Tinha pior aspecto que no ano anterior e Allison Baer não pôde deixar de perguntar-se o que lhe teria acontecido.

-Você está bem? -perguntou com uma sombra de preocupação nos olhos.

-Perfeitamente.

-E você?

-Bastante bem. -Daphne - disse-lhe sua amiga, tocando seu braço, com verdadeiro interesse em saber por que tinha tão mau aspecto-, não pode se agarrar a seu filho eternamente.

Seria possível que o fato de ter que deixar o menino na escola lhe causasse uma dor tão grande? Na realidade, isto não era saudável.

-Sei. Andrew está bem. Adora a escola.

-E você? Quando retornou?

-Há duas semanas. Quis lhe telefonar, mas estive muito atarefada.

-Escrevendo? -perguntou Allie, esperançosa.

-Na verdade, não.

Nem sequer queria pensar nisto agora.

Aquilo fazia parte de sua vida com John, e isto tinha terminado.

No que lhe dizia respeito, também tinha concluído sua carreira literária.

-O que aconteceu com o livro que conforme me disse estava escrevendo e que prometeu me mandar? Ainda não o terminou?

Daphne quis responder que não, mas não o fez.

-Sim, terminei-o neste verão. Mas então não soube o que fazer. Pensei que devia lhe telefonar para que me ajudasse a procurar um agente.

-E então? - Tudo em Allison tinha o ritmo trepidante de New York, e Daphne não se sentia com ânimos de suportá-la neste momento.

Aos cinco minutos de estar com ela, já se sentia cansada.

-Poderei vê-lo?

-Suponho que sim. Vou levá-lo.

-O que lhe parece se amanhã almoçarmos juntas?

-Não acredito que me seja possível... Eu...

Desviou o olhar, nervosa pela multidão que enchia a loja e pela pressão que Allie exercia sobre ela.

-Veja, Daff - disse-lhe esta, agarrando ligeiramente seu braço, - falando claro, tem pior aspecto agora do que quando partiu no ano passado.Na realidade, parece um despropósito. Tem que se reerguer. Não pode passar o resto de sua vida se escondendo das pessoas. Perdeu Jeff e Aimee, e Andrew está bem instalado nesta escola; pelo amor de Deus, agora deve fazer algo por si mesma. Vamos almoçar juntas e conversaremos sobre isto.

A perspectiva era verdadeiramente aterradora.

-Não quero falar disto.

Mas enquanto tratava de livrar-se de Allie, pareceu-lhe ouvir a voz de John na distância, que lhe dizia: "Vamos, pequena, você pode fazê-lo... Maldita seja, tem que fazê-lo...".

Quanta fé tinha nela, como estava emocionado com o resultado de seu livro! Deixar o livro fechado em uma gaveta era como negar ao John a satisfação de ver a obra concluída.

-Está bem, de acordo. Almoçaremos juntas. Mas não quero falar disto. Você me dirá o que devo fazer para encontrar um agente.

Encontraram-se no dia seguinte no Veau d'Or, e Allie se mostrou cheia de idéias e de sugestões interessantes.

Parecia disposta a examinar os olhos de Daphne, mas esta se manteve estritamente dentro do tema.

Allie lhe forneceu uma lista de agentes literários para que entrasse em contato com eles por telefone, pegou o manuscrito em suas mãos e lhe prometeu devolver logo depois do fim de semana.

Quando o fez, não podia conter sua euforia.

Considerava que era o melhor que tinha lido em muitos anos.

Daphne não pôde sentir menos que prazer pelo elogio.

Allie sempre tinha sido muito dura em suas críticas, e poucas vezes generosa com o aplauso.

Mas, neste caso, estava-a aplaudindo.

Indicou a Daphne qual agente da lista convinha contactar, e na segunda-feira ela assim o fêz, ainda convencida de que fazia isto por John.

Entretanto, não tardou para contagiar-se com o ardente entusiasmo de Allie.

Deixou o manuscrito no escritório da agente, achando que demoraria várias semanas para ter alguma notícia, mas em quatro dias, enquanto fazia a bagagem para ir celebrar o Dia de Ação de Graças com Andrew, Íris, a agente literária, telefonou às quatro horas e lhe perguntou se poderia vê-la na segunda-feira.

-O que lhe pareceu o livro? De repente sentiu um desejo irreprimível de saber.

Lentamente, ia voltando para a vida, e o livro ia se tornando importante para ela.

Era seu último vínculo com John, e também seu último vínculo com a sobrevivência.

-O que me pareceu? Honestamente? -Daphne conteve o fôlego. -Eu adorei. Allison tem razão; telefonou-me no mesmo dia que você trouxe isto. É o melhor que li em muitos anos.

Pode apostar que tem um ganhador seguro, Daphne.

Pela primeira vez em três meses, Daphne esboçou um autêntico sorriso, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.

Lágrimas de emoção e de alívio, e de novo sentiu aquela antiga dor, ao desejar compartilhá-lo com John e sentir uma vez mais que ele não estava nem estaria nunca mais a seu lado.

-Pensei que talvez na segunda-feira poderiamos almoçar...

-Vou viajar... - Daphne não queria se comprometer em almoçar com ela, mas sabia que no domingo estaria de volta à cidade. - De acordo.

-Onde? Allison tinha advertido a Íris que Daphne era uma pessoa difícil de tratar, que tinha ficado traumatizada pela morte de seu marido e de sua filha, e que, além disto,  tinha um filho em uma "instituição", por isto nunca se recuperou de tanta dor.

Allison sempre havia suposto que, pelo fato de que Andrew ser surdo, significava que, mentalmente, não era  "normal".

-No Cygne, à uma.

-Estarei lá.

-Ótimo. Ah, Daphne...

-Sim?

-Parabéns.

Depois de desligar, Daphne se sentou na beira da cama, pois suas pernas fraquejaram e o coração pulsava com força.

Tinham gostado do livro..., o livro que tinha escrito para John...

Era surpreendente.

Mais surpreendente seria que algum editor adquirisse os direitos.

A refeição do Dia de Ação de Graças com Andrew teve sua cota especial de alegria, mas nesta noite, quando se deitou na cama da Austrian Inn, não pôde conciliar o sonho, e sua mente começou a vagar inquieta de um lugar para outro.

Era difícil esquecer que um ano antes John a tinha recolhido naquele escuro caminho rural, e então tinha começado a vida para ambos, e que agora, só um ano mais tarde, tudo tinha terminado.

Agora tinha outra festa marcada para odiar.

O Dia de Ação de Graças e o Natal.

E sabia que este ano também Andrew tinha sentido.

Freqüentemente observou que o menino ficava pensativo, e em algumas ocasiões, com uma expressão ansiosa nos olhos, falou-lhe com gestos a respeito de John.

Andrew tinha muitas lembranças que compartilhar.

Demais, dizia-se a si mesma enquanto evitava passar diante de sua cabana.

Mas agora não podia permitir-se pensar em John, já que tinha que concentrar seus pensamentos em Andrew e nos progressos que o menino fazia na escola.

Desta vez, quando se despediu de seu filho, a separação não foi particularmente traumática, pois voltaria para as festas natalinas.

Deu um solitário passeio pelas colinas onde tinha espalhado as cinzas de John antes de retornar a New York, e se encontrou falando com ele em voz alta, sabendo que ninguém podia ouvi-la.

Contou-lhe sobre o livro e de Andrew, e logo, olhando para as profundidades do bosque e para o céu de inverno, murmurou:

-Como sinto sua falta!

Pareceu-lhe ouvir um eco dos pensamentos de John e soube que também ele sentia falta dela.

Possivelmente, de certo modo, era uma sorte ter se apaixonado por ele.

Talvez isto fosse o que importava, quando tudo tinha acabado.

Voltou para carro e retornou a New York, e nesta noite desabou sobre a cama, exausta.

No dia seguinte, colocou um vestido de lã branco, um grosso casaco negro e botas altas.

Fazia um frio glacial, e lhe parecia que fazia mil anos que não comparecia a um almoço deste tipo.

Agora lhe parecia estranho ter que encontrar-se com uma mulher para conversar sobre seu livro.

Recordava dos almoços com autores de quando trabalhava na Collins, mas o curioso do caso residia no fato de que nesta ocasião era ela a autora.

-Daphne? Sou Íris McCarthy.

A agente era uma ruiva muito polida, com uma coleção de elegantes anéis que refulgia em suas bem cuidadas mãos quando batia as unhas sobre a mesa.

Todo o tempo que durou o almoço passaram falando do livro, e quando lhes serviram o café e uma mousse de chocolate, começaram a conversar a respeito da idéia que tinha ocorrido a Daphne para um segundo livro.

Tratava-se de uma idéia que tinha comentado com John, e ele ficara entusiasmado.

O mesmo aconteceu com Íris, e Daphne sorriu satisfeita.

Parecia-lhe ouvir a voz de John lhe murmurando ao ouvido: "Isto, pequena..., você pode fazê-lo".

Quando terminaram de almoçar, já tinham escolhido os títulos dos dois livros.

Daphne ficou encantada com eles.

O primeiro se chamaria Anos Outonais, e era o que tinha escrito em New Hampshire, sobre uma mulher que fica viúva aos quarenta e cinco anos, e como consegue sobreviver a esta desgraça.

Era um tema que ela conhecia muito bem.

Íris comentou que havia "um grande mercado para este tema".

O segundo se chamaria simplesmente Agatha, a história de uma jovem que vive na Paris de pós-guerra.

Tratava-se de um argumento que ela tinha desenvolvido em forma de conto, mas que parecia poder dar para muito mais, e isto era o que Daphne deixaria que acontecesse.

Prometeu começar a trabalhar imediatamente, e logo o discutiria com Íris.

Nesta mesma tarde se encontrou sentada em seu escritório com a vista fixa em uma folha de papel em branco.

Quando as idéias começaram a fluir para o livro, ela deixou que seguissem seu curso.

A meia-noite já tinha um sólido esboço do princípio, e quando retornou das festas de Natal passadas com Andrew, o rascunho não só estava terminado, mas também cuidadosamente revisado.

O rascunho foi entregue a Íris em seu escritório, e a agente o aprovou.

Durante os três meses seguintes, Daphne se fechou em seu apartamento e trabalhou de dia e de noite.

Não era um livro fácil de escrever, mas a encantava.

A maioria das vezes estava tão concentrada que nem sequer atendia ao telefone.

Mas quando este tocou em um dia do mês de abril, Daphne se levantou da cadeira, soltou um grunhido e foi à cozinha para responder.

-Daphne?

-Sim. "Não, Drácula", sempre ficava tentada de responder.

Que outra pessoa poderia atender ao telefone? A donzela da torre? Era Íris.

-Tenho notícias para você.

Mas Daphne estava tão cansada que quase não lhe prestava atenção.

Tinha trabalhando no livro até as quatro da madrugada na noite passada e estava exausta.

-Acabam de me telefonar da Harbor e Jones.

-E? De repente, o coração de Daphne começou a pulsar rapidamente.

Nos últimos quatro meses tudo tinha começado a ter importância e sentido para ela.

Por seu bem, pelo de Andrew e pela memória de John.

Desejava que acontecesse, e lhe parecia que demorava muitíssimo tempo.

Não obstante, Íris lhe assegurou que quatro meses não eram nada.

-Gostaram?

-Poderíamos dizer que sim - respondeu Íris, sorrindo no outro extremo da linha. - Eu diria que uma oferta de vinte e cinco mil dólares significa que gostaram.

Daphne ficou boquiaberta, olhando fixamente o telefone.

-Fala a sério?

-Claro que falo a sério.

-Oh, meu Deus!... Oh, meu Deus! Íris! -Seu rosto se iluminou com um amplo sorriso, e olhou pela janela da cozinha para o glorioso dia que o sol de primavera tornava radiante. -Íris! Íris! Íris!

Afinal aconteceu, John tinha razão ela podia fazê-lo!

-E agora o que devo fazer?

-Almoçar com seu editor na terça-feira. No Four Seasons. Você se elevou ao topo do mundo, senhora Fields.

-Tomara que tenha razão!

Tinha quase trinta e um anos e estava a ponto de publicar seu primeiro livro, assim como almoçar com seu editor no Four Seasons.

Este sim era um almoço que não perderia por nada do mundo.

E não o perdeu.

Na terça-feira ao meio dia chegou na hora marcada, usando um vestido novo rosado, de Chanel, que comprou para a ocasião.

A diretora da editora era uma mulher de aspecto feroz com um sorriso carnívoro, mas até o final do almoço Daphne compreendeu que se dariam bem e que aprenderia muito com dela.

Começaram a comentar o segundo livro, sentadas à mesa próxima a um aquário, no centro do salão de mármore branco, rodeadas de garçons que se empenhavam em atendê-las.

A diretora da Harbor e Jones lhe perguntou se poderia dar uma olhada no que Daphne já tinha escrito de seu novo livro.

Ao final de um mês, recebeu uma segunda oferta, e quando acabou o livro em fins de julho, partiu de volta a New Hampshire para passar um mês junto a Andrew.

O primeiro livro foi lançado no Natal, dedicado a John, e fez um moderado sucesso, mas foi o segundo que consagrou Daphne.

Saiu na primavera, e quase em seguida figurou na lista dos livros mais vendidos do The New York Times.

Além disto, venderam os direitos para a edição de bolso por cem mil dólares.

-O que sente em ser uma autora de sucesso, Daff? -Allie sentia um orgulho maternal diante de sua consagração, e a tinha convidado para almoçar quando fez trinta e dois anos. -Diabos, eu deveria obrigá-la a pagar o almoço!

Mas era evidente que não lhe cobrava o reconhecimento pelo que tinha feito.

Havia-a devolvido ao mundo dos vivos quando Allison nem sonhava que conseguiria fazê-lo, e todos os que sabiam das angústias que tinha sofrido na vida se alegravam com profunda emoção com seu êxito.

-No que está trabalhando agora?

Tinha o terceiro livro bem avançado, que Harbor e Jones já lhe tinham comprado antes de terminar e tinham programado publicá-lo no verão seguinte.

-Em algo que chamei Pulsar do Coração.

-Eu gosto do título.

-Espero que você goste do livro.

-Eu gostarei, e também seus leitores.

Allie nunca tinha duvidado de seu talento nem um só instante.

-Estou um pouco inquieta por este. Vão me mandar viajar para promovê-lo.

-Já é hora.

-Alegro-me que ache assim. De que vou falar nas entrevistas que darei em Cleveland? Daphne ainda parecia tremendamente jovem, e era um pouco tímida, por isto a perspectiva de aparecer na televisão a deixava muito nervosa.

-Fale de você mesma. Isto é o que as pessoas desejam. Sempre me perguntam isto.

-E o que lhes diz?

Allison se limitou a lhe contar o estritamente necessário para que formasse uma idéia da realidade.

-Devo lhes dizer que tive uma vida trágica? Isto é precisamente o que não quero contar.

-Então conte como escreve seus livros, este tipo de coisas. -Soltou uma risadinha cheia de malícia. - Conte com quem sai ultimamente.

Daphne parecia tão animada no último ano que Allie supunha que tinha uma corte de pretendentes.

O que não sabia era que não havia nenhum outro homem na vida de Daphne, depois da morte de John.

Ela já imaginava que as coisas seriam assim, definitivamente.

Sabia que não poderia suportar a perda de outro ser querido, e não estava disposta a correr este risco.

-Por certo, quem é o homem de sua vida? Daphne sorriu.

-Andrew.

-Como está seu filho? Na realidade, Allie não se interessava muito em saber. Encantava se com os adultos, as pessoas vencedoras.

Nunca tinha se casado e não sentia uma especial predileção pelas crianças.

-Está muito bem. Bonito e grande, e sempre anda muito ocupado.

-Ainda continua na escola?

-E ficará lá por um longo tempo ainda. -Uma sombra de tristeza nublou os olhos de Daphne, e Allison lamentou lhe ter feito esta pergunta. -Espero que dentro de um par de anos possa trazê-lo de volta para casa.

-Parece-lhe sensato? -perguntou Allie com evidente surpresa.

Ela ainda acreditava que o menino era louco.

Mas Daphne sabia o que sua amiga pensava, embora não lhe guardase ressentimento por isto.

-Logo veremos. Há várias teorias que diferem umas das outras sobre este assunto. Eu gostaria de matriculá-lo em uma escola normal aqui, em New York, assim que esteja em condições de poder freqüentá-la.

-Isto não vai interferir em seu trabalho?

Allison nunca chegaria a entender e Daphne sabia. Como podia interferir em seu trabalho uma criança que ela amava com toda sua alma? Daphne sabia que inclusive resultaria em benefício para sua obra. Possivelmente complicaria um pouco as coisas, mas ela desejava este tipo de complicação.

-Bom, me fale da viagem. Aonde irá?

-Ainda não sei. Para a região do meio oeste, Califórnia, Boston, Washington DC. Pelo que todos dizem a loucura de sempre. Vinte cidades em outros tantos dias, sem dormir, sem comida quente, e com o espanto de não saber onde se encontra ao acordar pela manhã.

-Parece formidável.

-Imagino. Para mim parece muito com um pesadelo.

Daphne ainda tinha saudades da vida sossegada que tinha na cabana de New Hampshire, mas depois disto muita água passara sob as pontes, e aqueles tempos não voltariam nunca mais.

Acalentava a idéia de comprar um apartamento no East Sixties.

Depois de almoçar se dirigiu para casa para trabalhar no novo livro, como fazia todos os dias, todas as noites e todas as horas que não destinava a visitar o Andrew.

Assim tinha encontrado a forma de encher o vazio.

Um mundo de fantasia, cheio de gente que vivia e morria em sua cabeça, para distração de centenas de milhares de leitores, e de milhões nas edições de bolso.

Não havia nada mais em sua vida salvo o trabalho, mas valia a pena.

Antes de completar os trinta e três anos, o livro Apache de Daphne Fields alcançou o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos do The New York Times.

Daphne tinha triunfado.

-Como vai? Os olhos de Barbara pousaram desanimadamente na enfermeira, que estava verificando de novo os registros dos aparelhos de controle, mas não tinha motivo para perguntar.

Era evidente que não houvera nenhuma mudança.

Parecia incrível pensar que Daphne jazia naquela cama, tão imóvel, tão carente de vitalidade, tão desprovida daquela energia que, com tanta generosidade, dedicava às pessoas que necessitavam dela.

Barbara sabia melhor que ninguém que era capaz de mover montanhas.

Tinha-as movido por Andrew, por ela mesma e por Barbara, no correr dos anos.

Quando a enfermeira saiu de novo do quarto, Barbara fechou os olhos um instante, recordando o começo, o dia que conheceu Daphne, quando ela, Barbara, ainda vivia com sua mãe naqueles dias de pesadelo que agora lhe pareciam tão longínquos.

Tinha saído para comprar mantimentos, e voltava exausta e sem fôlego, depois de subir a escada, para seu apartamento sombrio e sujo do West Side, onde Barbara morava há anos, com sua mãe inválida.

Daphne tinha chegado a ela através de sua agente, que sabia que Barbara fazia trabalhos de datilografia em sua casa,  para complementar o baixo salário que ganhava como secretária, e para proporcionar-se secretamente uma via de escape daquela vida que detestava com desespero e daquela realidade que lhe era tão insuportável.

Os manuscritos lhe ofereciam uma dose de fantasia, a possibilidade de vislumbrar outros mundos, mesmo que isto representasse uma grande quantidade de trabalho.

Barbara havia transposto a porta com os braços ocupados pelas bolsas de mantimentos, para logo sentir, como sempre, o aroma de couve cozida e de carne consumida pela velhice.

E ali estava sentada Daphne, muito séria, calada, vestida simplesmente e envolta em uma aura de frescor.

Olhar para ela foi, para Barbara, como abrir uma janela e aspirar ar puro.

Os olhos de ambas as mulheres se encontraram imediatamente, e Barbara corou.

Ninguém ia a seu apartamento, era ela quem ia à agência literária para recolher o trabalho.

Barbara se dispunha a dizer algo a Daphne, quando ouviu a conhecida voz chorosa que perguntava:

-Você trouxe o arroz?

Barbara sentiu um urgente desejo de gritar, enquanto Daphne a observava, compreendendo logo a situação.

-Sempre compra o de pior qualidade.

A voz de sua mãe era, como de costume, chorosa e queixosa, sempre zangada e irritante.

-Sim, trouxe o arroz. Agora, mãe, por que não vai para seu quarto e se deita enquanto eu...

-E café?

-Também trouxe.

A velha começou a remexer nas duas bolsas de papel, fazendo estalos surdos com a língua.

Barbara tinha as mãos tremendo enquanto tirava a jaqueta.

-Mãe, por favor...

Olhou para Daphne como lhe pedindo desculpas, e esta lhe sorriu, tratando que aquela cena não lhe alterasse os nervos.

Mas só estando ali experimentava uma sensação de claustrofobia.

Sentia-se presa só de contemplar Barbara e sua mãe.

Por fim, a velha se fechou em um quarto, e Daphne pôde explicar os motivos que a levaram ali.

O manuscrito tinha chegado de volta a suas mãos ao final de duas semanas, perfeitamente datilografado, sem um só erro.

Daphne confessou que lhe parecia admirável que tivesse podido fazê-lo apesar de que sua mãe, sem dúvida nenhuma, deixava-a louca.

Parecia-lhe que Barbara levava uma vida horrível, e se perguntou por que teria resolvido viver com sua mãe.

A partir daquele dia, Daphne lhe levou outros trabalhos, rascunhos corrigidos, rudes apontamentos e notas ocasionais, e chegou um momento em que pediu a Barbara que fosse a seu apartamento e trabalhasse ali com ela.

Foi então que Barbara lhe contou finalmente a história de sua vida.

Seu pai havia falecido quando ela tinha nove anos, e sua mãe teve que trabalhar como uma louca para criá-la,  colocá-la nas melhores escola que fosse possível e, por fim, ajudá-la para que pudesse cursar os estudos pré-universitarios.

Assim, Barbara tinha ido à Universidade Smith e se graduou com honras, mas então sua mãe sofreu um derrame e não pode ajudá-la mais.

Agora era Barbara que tinha que trabalhar para cuidar da mãe, que durante dois anos esteve acamada.

Barbara se empregou como secretária de dois advogados, e de noite cuidava de sua mãe. Não sobrava tempo para muitas coisas mais, e contou a Daphne que nesta época estava permanentemente exausta.

A relação amorosa que tinha iniciado na universidade deu em nada, pois o jovem não quis compreender as exigências que a vida impunha a Barbara, e quando lhe propôs casamento, com lágrimas nos olhos ela se negou a separar-se de sua mãe.

Não tinha recursos para pô-la em um asilo, e sua mãe lhe implorou que não o fizesse.

Barbara simplesmente não podia abandoná-la, sobretudo depois dos anos que Eleanor Jarvis tinha passado trabalhando de dia e de noite em dois empregos para que ela pudesse ir à escola.

Aquela era uma dívida que teria que pagar, e sua mãe lhe isto recordava constantemente.

-Depois de tudo que fiz por você, quer me abandonar... -acusava-a choramingando, gerando em sua filha um sentimento de culpa.

Barbara não tinha intenção de abandoná-la.

Na realidade, não podia fazê-lo.

Passou dois anos cuidando de sua mãe, cuidando para que recuperasse a saúde, enquanto trabalhava no escritório dos advogados.

No final destes dois anos, seu chefe se separou de sua mulher e começou a cortejar Barbara.

O advogado sabia a vida que ela levava e sentia uma grande compaixão por ela.

Era uma jovem muito inteligente, e lhe chateava ver como desperdiçava sua vida daquela maneira.

Aos vinte e cinco anos tinha o aspecto de uma velha e se comportava como tal.

Era ele quem a impulsionava a sair em cada oportunidade que tivesse.

Estava acostumado a passar para procurá-la e conversava com sua mãe.

Esta protestava energicamente cada vez que Barbara saía, mas o advogado se mostrava firme com Barbara, a fim de lhe fazer compreender que devia aproveitar algo da vida para si mesma.

Ela tratava de passar com ele todo o tempo que podia, enquanto tentava, ao mesmo tempo, acalmar a sua mãe.

Aquela relação durou seis meses, e foi o único raio de sol que Barbara teve em sua vida.

No Natal, ele anunciou que se reconciliou com sua esposa.

Esta se encontrava na etapa difícil de sua vida, e sofria muitos transtornos; além disto, os filhos lhe causavam muitos problemas.

-Tenho responsabilidades, Barbara. Devo voltar para junto dela para lhe dar uma mão.

Necessita de mim. Não posso deixá-la sozinha...

Tratava de justificar-se, e Barbara o olhava com um sorriso amargo, enquanto as lágrimas brilhavam em seus olhos.

-E o que me diz de sua própria vida? Como fica tudo o que me dizia a respeito de pensarem minha própria conveniência e não dançar ao som que os outros tocam?

-Tudo isto é certo. Acredito em tudo que disse. Mas, Barb, tem que ser compreensiva. Isto é diferente. Ela é minha esposa. Em seu caso, trata-se de uma mãe possessiva, exigente e irracional que a tem subjugada. Tem direito de viver sua própria vida. Em troca, a minha pertence à Georgia também... Não se podem jogar vinte e dois anos pela janela.

E o que supunha que ela devia fazer a respeito de sua mãe? Sair pela porta e não voltar mais? O tipo era um merda, e ela só agora percebeu.

Voltou para sua esposa no dia seguinte, e o namorico acabou abruptamente.

Barbara deixou o emprego depois do Ano Novo, e ao final de duas semanas percebeu que estava grávida.

Analisou a situação durante uma semana, fechando-se em seu quarto e soluçando em silencio sobre o travesseiro.

Ela acreditava que ele a amava, que ele se divorciaria e se casaria com ela algum dia..., que afinal se liberaria de sua mãe.

E o que iria fazer agora? Não podia cuidar de uma criança sozinha, e abortar era algo que ia contra suas crenças.

Não queria fazê-lo.

Finalmente, decidiu lhe telefonar.

Encontrara-se para almoçar; ele se mostrou muito formal e um pouco distante.

-Está bem? -Ela assentiu, com expressão séria e sentindo-se tremendamente enjoada. -E sua mãe?

-Está muito bem. Mas o médico se mostra preocupado com seu coração.

Ao menos isto era o que dizia a Barbara, cada vez que esta mostrava vontade de ir ao cinema.

Agora não saía nunca.

Não tinha estímulos, e tampouco tinha vontade, pois estava permanentemente atormentada pelas náuseas.

-Tenho algo para lhe dizer.

-O que? -Em seguida se elevou um muro entre ambos, como se ele suspeitasse do que se tratava. -Não chegou seu último cheque? -Havia resolvido que ela deixasse o emprego, e ele tinha proposto lhe pagar uma importante soma como indenização a fim de amenizar seu sentimento de culpa.

"Sim, filho da puta - pensou ela -, mas esta vez não se trata de dinheiro. Trata-se de minha vida. E de seu filho."

-Estou grávida.

Não lhe ocorreu outra forma mais elegante de dizê-lo, e tampouco desejava procurá-la.

-Veja, isto representa um pequeno problema - disse ele, tratando de conservar a calma, mas seus olhos demonstravam nervosismo. -Tem certeza? Foi em algum médico?

-Sim.

-Tem certeza que é meu?

Mesmo conhecendo o tipo de vida que Bárbara levava, disse isto sem pestanejar.

Os olhos dela se encheram de lágrimas, que não demoraram em deslizar por seu rosto.

-Sabe de uma coisa, Stan? É um verdadeiro merda. Acredita seriamente que me deitei com outro?

-Sinto muito. Só pensei...

-Não. O que queria era se livrar.

Por um instante, ele não replicou.

Quando voltou a falar, sua voz tinha um tom mais amável, mas nem sequer tentou lhe segurar a mão enquanto ela continuava chorando.

-Conheço uma pessoa que...

Barbara estremeceu ao adivinhar o que ele queria lhe dizer.

-Não sei se poderei fazê-lo... Não posso...

Começou a soluçar convulsivamente, e Stan olhou com nervosismo a seu redor por cima do ombro.

-Veja, Barb, deve ser realista. Não tem alternativa.

E sem acrescentar nada mais, escreveu um nome em um papel, estendeu-lhe um cheque de mil dólares e entregou para Barbara.

-Ligue para este número e diga que é de minha parte.

-Por quê? Fazem preço especial para você? Parece que já se encontrou antes em uma situação semelhante.

Com expressão de desencanto, Barbara olhou para Stan; aquele não era o homem que ela conhecia, não era o homem em quem tinha acreditado..., o homem que supôs seria sua salvação.

-Poria Georgia em suas mãos?

Stan a olhou inexpressivamente durante um longo momento.

-Pus minha filha em suas mãos no ano passado.

Barbara baixou os olhos e enclinou a cabeça.

-Sinto muito.

-Eu também. -Essas foram as últimas palavras amáveis que lhe dirigiu, enquanto ficava em pé e fixava seu olhar nela. -Barb, faça isto logo. Termina com isto de uma vez. Vai sentir-se muito melhor.

Barbara levantou os olhos para ele.

-E se não fizer?

-O que quer dizer? -exclamou ele, quase cuspindo as palavras.

-Quero dizer, o que acontecerá se decidir ter a criança? Ainda tenho capacidade de decisão, sabe? Não sou obrigada a abortar.

-Isto fica inteiramente por sua conta.

-Quer dizer para não te chamar? Naquele momento Barbara o odiava com toda sua alma.

-Quero dizer que nem sequer sei se é meu filho. E estes mil dólares será todo o dinheiro que receberá de minhas mãos.

-Seriamente? -Barbara agarrou o cheque, olhou-o, rasgou-o pela metade e o devolveu para Stan. -Obrigado, Stan. Mas acredito que não vou precisar dele.

E sem mais, levantou-se e saiu do restaurante.

Chorou todo o caminho até sua casa, e esta noite sua mãe entrou bruscamente em seu quarto.

-Deixou-a plantada, não é? Voltou para junto de sua esposa. -Era tão maligna que quase parecia regozijar-se diante da dor de sua filha. -Sabia... Já lhe havia dito que não era boa coisa... Provavelmente, nunca se separou de sua mulher.

-Mãe, me deixe em paz..., por favor...

Barbara se esticou na cama e fechou os olhos.

-O que você tem? Está doente? -de repente compreendeu o que acontecia. -Oh, meu Deus... Está grávida, não é? Não é? Avançou para Barbara com uma expressão perversa no olhar e parou diante de sua filha.

Esta se levantou para fixar os olhos doloridos em sua mãe.

-Sim, estou.

-Oh, meu Deus, um filho ilegítimo... Sabe o que as pessoas falarão de você, puta imunda?

E desfechou uma bofetada que teve a virtude de despertar toda a frustração e toda a desesperança que se aninhavam na alma de Barbara.

-Deixe-me em paz, maldita! Aconteceu o mesmo com você e meu pai.

-Não é verdade... Nós estávamos comprometidos... Ele não era um homem casado. E se casou comigo.

-Casou-se porque estava grávida. E a odiava por tê-lo feito cair na armadilha. Muitas vezes ouvi o que lhe dizia quando brigavam. Sempre te odiou. Ele estava comprometido com outra...

Sua mãe voltou a esbofeteá-la, e Barbara desabou sobre a cama soluçando.

Nas duas semanas seguintes apenas se falaram nos momentos em que sua mãe lhe jogava na cara que tinha concebido um filho ilegítimo.

-Será sua ruína..., sua desgraça... Jamais voltará a encontrar um emprego.

Na verdade Bárbara também estava preocupada com isto.

Desde que se afastou do escritório de Stan, não tinha conseguido outro trabalho.

A partir do verão anterior o índice de desemprego não tinha feito mais que aumentar, e apesar de se apresentar com seu diploma “summa cum laude” da Universidade Smith, não conseguia encontrar nada.

E agora ia ter um filho.

Em última instância, não teve outra saída.

Sendo muito orgulhosa para pedir ao Stan o nome do médico conhecido dele, ligou para uma amiga, conseguiu o nome de outro médico e fez um aborto em New Jersey.

Voltou para casa de metrô meio enjoada, sangrando copiosamente no assento, e desmaiou assim que pôs o pé na plataforma.

Avisaram a sua mãe da sala de urgências do Roosevelt Hospital, mas a velha se negou a ajudar.

Quando Barbara chegou a sua casa ao fim de três dias, sua mãe a aguardava na sala de estar e disparou três simples palavras:

-Assassina de crianças.

A partir deste momento, aumentou o ódio que sentiam, e Barbara resolveu se mudar.

Então sua mãe sofreu outro derrame, e a jovem não pôde abandoná-la.

Tudo que Barbara desejava era ter seu próprio apartamento e seguir sua própria vida.

Em vez disso, conseguiu um subsídio de desemprego, já que Stan lhe permitiu alegar que a tinha despedido, e sua mãe obteve uma pensão, e assim puderam subsistir, embora a duras penas.

Barbara cuidou de sua mãe durante seis meses, até que esta se recuperou, e ao longo deste período nunca deixou que sua filha se esquecesse do aborto.

Era uma forma de vingar do ataque sofrido e da decepção que lhe tinha causado sua filha como ser humano.

Sem que desse por conta, Barbara vivia em um estado de depressão constante.

Afinal, conseguiu outro emprego, em outro esritório de advogacacia.

Entretanto, desta vez não houve namorico, não houve nenhum outro homem em sua vida, só sua mãe.

Tinha perdido o contato com todas as amigas da universidade, e quando telefonavam para ela, não se dava o trabalho de retornar a chamada.

O que podia lhes contar? Elas estavam todas casadas ou comprometidas ou cuidavam de seus filhos.

Em troca ela tinha tido um caso com um homem casado, feito um aborto, trabalhava como secretária e servia como enfermeira de dedicação completa para sua mãe.

Sua mãe a atormentava a todo instante lhe dizendo que necessitavam de mais dinheiro para viver.

Foi outra secretária da firma onde estava empregada quem lhe sugeriu que ficasse em contato com vários agentes literários, pois assim poderia dedicar-se a trabalhar de noite como datilógrafa em sua casa, e as tarifas que pagavam eram bastante convenientes.

De fato, em alguns casos eram muito boas.

Barbara seguiu seu conselho, e foi assim que Daphne Fields a encontrou, dez anos depois que começou a datilografar manuscritos em sua casa a horas a fio, quando já tinha se transformado em uma solteirona nervosa, solitária e calada, de trinta e sete anos.

 

Aquela mulher antigamente bonita, atraente e atlética, que tinha sido a presidente de sua irmandade e que se graduou com honras na Universidade Smith em Ciências Políticas, dedicava-se a datilografar manuscritos no quarto andar de um prédio de apartamentos do West Side, enquanto cuidava de uma mãe doente que cada vez se tornava mais e mais despótica.

A velha detestava tudo o que Barbara era, e odiava sua falta de espírito e de coragem.

Não obstante, era ela quem tinha conseguido afogar aquelas qualidades de sua filha.

E em grande parte por culpa dela, Barbara não tinha conseguido sobrepor-se ao trágico desenlace de sua relação amorosa e posterior aborto.

A princípio, Barbara ficou fascinada por Daphne, mas não se atrevia a lhe perguntar nada sobre sua vida.

Daphne dava a impressão de ser muito fechada e ciumenta de sua intimidade, como se guardasse uma infinidade de segredos.

Só ao fim de um ano que trabalhava para ela, uma noite que Barbara foi levar um manuscrito a seu apartamento, em uma hora bastante inoportuna, que as duas mulheres começaram a abrir-se uma com a outra.

Foi então que Barbara lhe falou de seu aborto e lhe confessou que vivia escravizada por sua mãe inválida.

Daphne escutou em silêncio a longa e infeliz história, e logo lhe contou tudo referente ao Jeff, Aimee e Andrew.

Sentaram-se no chão, e estiveram conversando e bebendo vinho até altas horas da madrugada.

Para Barbara parecia que tinha sido ontem, enquanto a contemplava estendida na cama do hospital, inerte, quase sem vida, ela, que só uns dias antes se apresentava tão enérgica.

Ao ouvir a história de Barbara, Daphne tinha manifestado com firmeza que devia abandonar sua mãe.

-Escuta, demônios, trata-se de sua sobrevivência! Ambas estavam ligeiramente bêbadas, e Daphne disparou estas palavras apontando-lhe com um dedo.

-O que posso fazer, Daff? Mal pode caminhar. Sofre uma cardiopatia, teve três derrames...

-Leva-a a uma residência para anciões. Ou não pode pagar?

-Poderia se me rasgasse de trabalhar, mas ela diz que se mataria. É o mínimo que posso fazer por ela...

Os pensamentos de Barbara voltaram ao passado.

-Colocou-me na escola e até me custeou os estudos pré-universitários.

-E agora está lhe arruinando a vida. Isto você não deve a ela. Acaso não pensa em si?

-Em mim? Não fica nada para mim.

-Claro que fica.

Barbara a olhou, desejando acreditar no que lhe dizia, mas fazia anos que não pensava em si mesma. Sua mãe já quase a tinha destruído.

-Você pode fazer tudo que se proponha a fazer.

Isso era o que John lhe dizia em sua cabana de New Hampshire.

Então Daphne falou dele para Barbara.

Era a primeira pessoa a quem contava.

No final da noite, já não havia segredos entre elas.

Uma e outra vez a conversa girava em torno de Andrew.

Ele era a única coisa deste mundo que interessava a Daphne, a única coisa que realmente contava, o único que colocava vigor e fogo em seus olhos.

-É afortunada por tê-lo.

Barbara a olhava com inveja. Seu próprio filho agora teria dez anos. Ainda pensava nele freqüentemente.

-Sei que sou. Mas a verdade é que não "tenho-o" neste sentido.

Uma expressão dolorida escureceu seu rosto.

-Está na escola. E eu devo viver minha própria vida.

Barbara teve a suspeita de que, a sua maneira, Daphne não vivia muito melhor que ela mesma.

Tinha a seu filho e seu trabalho, mas nada mais.

Não tinha nenhum homem em sua vida depois da morte de John, e ela se encarregava por todos os meios de que não houvesse.

Parecia que vários homens a tinham convidado para sair ao longo daqueles anos, velhos amigos de Jeff, um escritor que conheceu por intermédio de sua agente, pessoas que assistiam aos lançamentos literários; mas Daphne sempre recusou.

À sua maneira, estava tão só como Barbara.

E isso criava um laço que as unia.

Barbara confiava nela mais que em nenhuma outra pessoa, e depois que começou a ir trabalhar em sua casa, de vez em quando saíam para almoçarem juntas ou, os sábados pela tarde, iam às compras.

-Sabe uma coisa, Daphne? Penso que está louca.

-Isto não é uma novidade.

Sorriu para sua amiga enquanto examinava os vestidos pendurados nos cabides da Saks.

Barbara tinha conseguido escapar da tirania de sua mãe por toda uma tarde, e haviam resolvido passá-la juntas.

-Falo sério. É jovem e bonita. Poderia conseguir qualquer homem que a amasse muito. Pode me dizer o que está fazendo indo às compras comigo?

-Você é minha amiga e eu gosto de estar com você. E não necessito de nenhum homem.

-Esta é que é a loucura.

-Por quê? Muitas pessoas nunca sequer sonharam com a felicidade que eu consegui.

Em seguida se arrependeu de havê-lo dito, sabendo quão vazia tinha sido a vida de Barbara.

-Está bem - disse-lhe Barbara com um cálido sorriso que a rejuvenesceu de repente.

-Sei o que quer dizer, mas esta não é uma razão para render-se.

-É sim. Jamais poderei voltar a viver o que vivi com Jeffrey ou com John. Por que procurar um substituto?

-Não me parece uma reflexão razoável.

-Em meu caso, é. Não é possível encontrar outro homem como eles em toda a vida.

-Não é necessário que seja como eles. Pode ser diferente. Seriamente pensa viver assim durante cinqüenta anos?

Barbara pareceu horrorizar-se só de pensar.

-É uma loucura.

Em troca não lhe parecia uma loucura ter renunciado a viver sua vida em favor de uma mãe a que detestava.

Mas o caso era que não via a si mesma sob a mesma luz.

Daphne era bonita e delicada, e Barbara tinha pressentido desde o primeiro momento que triunfaria na vida.

Para Barbara, ambas viviam em mundos separados.

Entretanto, era Daphne quem vislumbrava uma sombra de esperança para sua amiga, e não cessava de pressioná-la para que saísse daquela angustiosa situação.

-Por que não se muda para outro lugar?

-Para onde? Para o Central Park com uma barraca de acampamento? E o que faço com minha mãe?

-Ponha-a em um asilo.

Aquilo já tinha se convertido em um estribilho entre ambas.

Assim, quando Daphne comprou um apartamento na Rua 69 Est, armou um plano e o expôs a Barbara, com o olhar brilhante pela excitação.

-Raios,Daphne, eu não posso!

-Claro que pode.

Daphne queria que Barbara se mudasse para seu antigo apartamento.

-Não posso manter duas casas.

-Espere até que tenha escutado o resto de meu plano.

Ofereceu-lhe um emprego de jornada completa com um magnífico salário que lhe permitiria realizá-lo amplamente.

-Quer que trabalhe para você? Fala a sério?

Os olhos de Barbara tinham se tornado resplandecentes como um céu estival.

-Seriamente?

-Seriamente, mas não acredite que estou lhe fazendo um favor. Preciso de você, diabos! É a única que sabe manter minha vida sem sobressaltos.

E não estou disposta a aceitar um "não" como resposta.

O coração de Barbara saltava de gozo, mas ao mesmo tempo estava aterrada. O que seria de sua mãe?

-Não sei, Daff. Tenho que pensar.

-Eu já pensei em tudo por você.

Daphne sorriu com uma careta.

-Não poderá ter o emprego a menos que se afaste de sua mãe. Trato feito?

Estava feito, e ambas sabiam.

Ao fim de um mês atormentando-se pelo que Daphne lhe havia dito, Barbara se armou de coragem para fazê-lo.

Daphne lhe serviu uma dose de bebida forte e a acompanhou de táxi a seu apartamento.

Despediu-se dela com um abraço e um beijo, e lhe desejou ânimo.

-Trata-se de sua vida, Barbara. Não a estrague. Não custa nada, e você já pagou sua dívida. Não esqueça isto. Quanto mais pode dar?...Quanto mais quer dar?

Barbara já conhecia a resposta. Pela primeira vez em muitos anos vislumbrava uma luz ao final do túnel, e correu para ela tão rapidamente e com tanta energia como pôde.

Subiu ao apartamento e disse a sua mãe que se mudava, e se negou a escutar as ameaças, os insultos, os anúncios de vingança ou a chantagem sentimental.

No mês seguinte sua mãe entrou em um lar geriátrico, e embora ela nunca quisesse reconhecer para Barbara, de fato se sentia feliz nele.

Convivia com pessoas de sua idade, e se juntou a um círculo de amigas entre as quais podia abrir o coração contra sua egoísta filha.

Assim que o novo apartamento de Daphne ficou pronto, Barbara se instalou no antigo e sentiu como se a tivessem libertado da prisão.

Sorriu agora ao recordar aquela sensação. Despertava pela manhã com o coração alegre e uma sensação de liberdade, preparava o café na ensolarada cozinha, se largava na cama, sentindo-se como se fosse a dona do mundo, e utilizava o quarto que Andrew tinha ocupado como escritório  quando levava trabalho para casa, o que ocorria freqüentemente.

Trabalhava para Daphne todos os dias das dez da manhã até as cinco da tarde, e quando ia para casa, sempre ia carregada com pilhas de papéis para datilografar.

-Pelo amor de Deus, não tem outra coisa que fazer? Por que não deixa isto aqui?

Mas enquanto Daphne dizia isto, ela mesma se sentava em seu escritório, disposta a trabalhar até altas horas da madrugada.

Ambas se davam bem, mas nenhuma das duas tinha uma vida normal.

Tudo que Barbara mais desejava na vida era compensar Daphne pelo que esta havia feito por ela. Tinha-a ajudado a liberar-se de sua mãe.

Entretanto, Daphne previa outro perigo: que Barbara a fizesse objeto de suas habituais submissão e devoção.

-Não me trate como sua mãe! Ela disse brincando quando Barbara apareceu levando seu almoço em uma bandeja enquanto Daphne estava trabalhando.

-Oh, calada!

-Falo a sério, Barbara, passou toda sua vida cuidando de sua mãe. Para variar, deve cuidar de si mesma. Seja feliz.

-Sou feliz. Adoro meu trabalho, sabe? Apesar de trabalhar para você ser exaustivo.

Daphne sorriu distraídamente e voltou a concentrar-se em seu trabalho, para ficar diante da máquina de escrever desde o meio-dia até as três ou as quatro da madrugada.

-Como consegue resistir?

Barbara a observava com assombro.

Daphne não parava nem um instante, salvo uma só vez depois de um longo momento para tomar uma xícara de café ou para ir ao toalete.

-Perderá a saúde, trabalhando desta maneira.

-Não acredito. Escrever me deixa feliz.

Entretanto, Barbara não teria usado a palavra "feliz" para descrever seu estado.

Nos olhos do Daphne sempre havia uma expressão que dizia às claras que não era feliz há muitos anos, com a exceção dos momentos seguintes às visitas a Andrew.

Os episódios de sua vida se achavam gravados no fundo de seus olhos, e não podia se livrar da dor que lhe tinha causado a morte de seus seres queridos.

Interpunha o gozo e a satisfação que lhe produzia sua obra entre ela e os fantasmas que conviviam com ela, mas não conseguia afastá-los de sua mente, embora poucas vezes fizesse algum comentário a respeito com Barbara.

Entretanto, quando se achava sozinha em seu escritório, sentava-se em frente da janela e sua mente vagava por lugares distantes..., por New Hampshire com John, ou por algum lugar que havia visitado com o Jeff..., ou apesar do férreo controle que exercia sobre si mesma, seus olhos se umedeciam pela lembrança de Aimee.

Esta era uma parte de sua alma que ninguém conhecia e ela tomava cuidado para que não a descobrissem; em troca falava para Barbara de seus mais íntimos sentimentos, e contava como tinha sido sua vida em diferentes ocasiões, do muito que sentia falta daqueles instantes, das pessoas que tinha perdido, como John, Jeff e Aimeee.

E sempre, sempre, falava de Andrew e do muito que sentia saudades.

Não obstante, agora levava uma vida diferente de quando Andrew vivia com ela.

Uma vida cheia de jantares de trabalho, realizações e êxito, de editores e agentes de publicidade, entre os quais destacava sua agente.

Possuía um claro discernimento para as questões econômicas, do qual não se deu conta antes, e exercia seu trabalho com talento, com mão direita leve e bom critério para agradar o gosto dos leitores.

A única coisa que detestava de seu trabalho eram as entrevistas que às vezes tinha que conceder para promover seus livros, porque não queria que ninguém colocasse o nariz em sua vida íntima ou lhe perguntasse por Andrew.

Queria proteger a seu filho de tudo isto.

Nada havia em sua vida pessoal que Daphne desejasse compartilhar com o mundo, e tinha certeza que seus livros falavam por si mesmos, embora reconhecesse que seus editores tinham o direito considerar a publicidade importante.

A questão apareceu de novo quando lhe pediram que aparecesse no Conroy Show de Chicago.

Vacilou, antes de tomar uma decisão, mordiscando o extremo de um lápis.

-O que quer que lhes diga, Daff? Deseja voltar de Chicago amanhã?

Tinham pressionado Barbara a manhã toda, e ela tinha que lhes dar uma resposta.

-Sinceramente? Daphne fez uma careta, esfregando o pescoço.

Tinha trabalhado até muito tarde em seu novo livro e esta manhã se sentia muito cansada.

Mas este era um tipo de cansaço que gostava, pois o livro andava bem, e sentia a gostosa sensação que sempre lhe causava o que fazia.

Não lhe importava a dor nas costas nem o inevitável peso que sentia nos ombros.

-Não, não quero ir a Chicago. Telefone para Murdock na Harbor e lhe pergunte se acredita que é importante.

Ela, porém, já conhecia a resposta.

Embora naquele momento não tivesse nenhum livro novo por lançar, a publicidade sempre era importante, e o Conroy Show de Chicago era um grande programa.

Barbara retornou em cinco minutos e se plantou diante ela com um triste sorriso.

-Quer realmente saber o que me respondeu?

-Não, não é necessário que me diga isto.

-Supunho que não.

Barbara a observou enquanto ela se afundava em uma cômoda poltrona lançando um suspiro e repousando a cabeça em um macio almofadão branco.

-Por que se mata trabalhando desta maneira, Daff? Não pode passar a vida fugindo.

Daphne parecia ainda uma menina ali sentada, embora todo seu ser irradiasse uma inegável maturidade.

Mostrava-se bondosa com todas as pessoas que se relacionavam com ela, os editores, sua agente, sua secretária, seus seletos amigos, seu filho, o pessoal da escola, os outros meninos.

Era complacente com todo mundo, salvo consigo mesma.

Impunha-se uma disciplina que poucos seres humanos seriam capazes de suportar, e estabelecia metas difíceis de alcançar.

Trabalhava quinze horas diárias, mas sempre se mostrava paciente, afetuosa, interessada nos problemas de outros.

A única pessoa com quem se mostrava implacável era ela mesma.

Jamais deixava que ninguém estabelecesse uma íntima relação com ela.

Tinha conhecido muita dor em sua vida, muita perda, e agora os muros que a protegiam eram infranqueáveis.

Barbara meditava sobre isto de novo enquanto a contemplava na cama do hospital onde jazia imóvel, e o eco das palavras de Daphne ressonava em sua cabeça.

-Não estou fugindo, Barb. Estou garantindo minha carreira, o que é muito diferente.

-Sério? Parece que é a mesma coisa.

-Talvez. -Com Barbara sempre era sincera. -Mas o faço por uma boa causa.

Daphne tratava de juntar uma fortuna para Andrew.

Algum dia seu filho precisaria, e ela desejava que não encontrasse obstáculos em sua vida.

Tudo que fazia parecia centrar-se em Andrew.

-Este conto eu sei de cor. Mas já fez bastante pelo Andrew, Daff. Por que não pensa um pouco em si mesma para variar?

-Já o faço.

-Ah, sim? Quando?

-Durante uns dez segundos, quando me lavo o rosto pela manhã.

Sorriu para sua amiga e confidente, mas havia coisas sobre as quais não queria falar.

-Então querem que eu vá a Chicago, não é?

-Pode interromper o livro?

-Se não houver outro remédio...

-Então, vamos?

-Não sei. -Franziu o cenho e olhou pela janela antes de pousar de novo os olhos em Barbara.

-Preocupa-me aparecer neste programa. Nunca participei dele e realmente não me atrai absolutamente.

-Por quê?

Entretanto, Barbara suspeitava da razão de seus receios.

Bob Conroy dava golpes baixos e sondava a alma das pessoas.

Contava com uma extraordinária equipe de produção, e sua habilidade estava em escavar a fim de desenterrar fragmentos ocultos do passado da pessoa, para jogar-lhe na cara quando apareciam em seu programa nacional de televisão.

Barbara sabia que Daphne temia que acontecesse isto.

Tinha se garantido pôr todo seu empenho para preservar sua vida íntima da curiosidade do público.

Jamais falava de Jeff, ou de Aimee, e se violentava quando saía à luz o assunto de Andrew.

Não queria que jamais se visse exposto à curiosidade venenosa ou aos falatórios das pessoas.

O menino vivia feliz fechado na Howarth School de New Hampshire, e não suspeitava sequer que tinha uma mãe famosa.

-Tem medo de enfrentar o Conroy, Daff?

-Sinceramente? Sim. Não quero trazer meu passado a tona.

Olhou para Barbara com seus enormes olhos azuis inundados de tristeza. A ninguém importa o que foi minha vida. Já sabe o que penso a respeito.

-Sim, mas não pode manter tudo em segredo eternamente. Se soubessem, seria tão terrível?

-Para mim, sim. Não desejo a compaixão de ninguém, e Andrew tampouco. Não necessitamos dela.

Levantou-se, nervosa, adotando um ar desafiante.

-Provavelmente a única coisa que aconteceria é que os leitores a amariam ainda mais.

Ela sabia melhor que ninguém o quanto que já a adoravam, pois se encarregava de responder à correspondência dos admiradores de Daphne.

De certo modo, esta estava acostumada a jogar sua alma em seus livros, de modo que os leitores tinham a impressão de conhecê-la pessoalmente.

De fato, conheciam-na melhor do que ela mesma queria reconhecer; os segredos de sua alma eram que contribuíam para tornar reais seus personagens, embora ela os apresentasse como frutos de sua imaginação.

-Eu não quero que me amem mais. O que quero é que gostem de meus livros.

-Talvez não exista diferença alguma entre uma coisa e a outra.

Daphne assentiu em silêncio e logo se levantou soltando um suspiro.

-Suponho que não tenho alternativa. Se não for, George Murdock não deixará jamais de me importunar. Passaram todo o ano tratando de me fazer aparecer neste programa.

Olhou para Barbara com um sorriso.

-Quer vir? Há lojas magníficas em Chicago.

-Deseja passar a noite lá?

-Claro.

Agora tinha um hotel favorito naquela cidade, como em todas as principais cidades do país.

Sempre escolhia os mais tranqüilos, os mais conservadores e até os mais elegantes da cidade.

Eram hotéis onde se hospedavam viúvas que usavam casacos de pele e as pessoas falavam em sussurros.

Daphne pedia as refeições em seu quarto, e gozava das comodidades que seu trabalho lhe proporcionava.

Adaptou-se perfeitamente àquela vida, e devia reconhecer que havia aspectos de seu sucesso que lhe davam uma grande satisfação.

Já não tinha que preocupar-se com dinheiro, com a tranqüilidade de saber que Andrew tinha o futuro assegurado.

Tinha investido bem seu capital, e adquiria roupas caras, antiguidades e pinturas que lhe agradavam, sempre que se apresentava a oportunidade.

Ao mesmo tempo, porém, não havia nada ostentoso em sua pessoa.

Não se servia de seu dinheiro para enfeitar seu êxito, tampouco o esbanjava em recepções, nem tratava de impressionar a seus amigos.

Sempre estava serena, agia com simplicidade e o resultado era sua notável integridade.

E, curiosamente, Daphne sabia com exatidão o que Jeffrey e John teriam esperado dela.

Tinha amadurecido plenamente, e lhe agradava saber disto.

-O programa vai ao ar às dez. Quer viajar de manhã ou à tarde? Poderia descansar um pouco e jantar antes de ir para o estúdio.

-Sim, mãe.

-Oh, calada! Barbara tomou notas em sua agenda e desapareceu, enquanto Daphne se instalava em seu escritório com o cenho franzido e fixava o olhar, que denotava preocupação, no teclado da máquina de escrever.

Havia dito para Barbara que tinha um estranho pressentimento a respeito do programa, que a preocupava.

E Barbara tinha respondido que se comportava como uma tola.

Agora esta recordava enquanto observava Daphne, tão ferida pelo veículo que a tinha atropelado.

Parecia que tinham se passado mil anos desde o dia em que foram a Chicago.

Daphne e Barbara chegaram ao estúdio às nove e meia em ponto.

Daphne usava um vestido simples de seda bege e tinha os cabelos recolhidos em um elegante e discreto coque.

Brincos de pérolas enfeitavam suas orelhas, e usava um anel com um lindo e grande topázio que tinha comprado no começo do ano na Cartier.

Estava elegante e envolta pelo êxito, mas nada nela parecia opulento e ostentoso. Isto era característico de Daphne.

Como sempre, Bárbara vestia um de seus conjuntos azul marinho.

Daphne sempre se divertia dizendo que tinha quatorze e que todos pareciam iguais, mas estava impecável, elegante, e seus negros cabelos caíam como uma suave e lustrosa lâmina até seus ombros.

Parecia mais jovem agora do que quando se separou de sua mãe.

E no último ano, Daphne tinha notado que se tornou mais atraente.

Parecia muito mais com a moça das fotos de sua época de universitária.

Agora, ao olhar para Daphne, havia uma expressão risonha em seus olhos.

Enquanto eram introduzidas na sala de espera, onde havia cômodas poltronas, um bar e uma garçonete para servi-las, Barbara se inclinou para ela e lhe disse em voz baixa:

-Não fique tão tensa, que ele não vai te morder.

-Como sabe?

Claro que sempre ficava nervosa antes de uma entrevista.

Em parte, era por isto que levava Barbara com ela.

Era agradável ir acompanhada de uma amiga, para conversar no avião, para que a ajudasse a resolver os inconvenientes quando se complicavam as coisas com respeito à reserva de hotel.

Barbara possuía uma maravilhosa habilidade para manter tudo em ordem.

Com Barbara presente, a bagagem nunca se extraviava, refeições chegavam ao quarto de Daphne na hora, sempre tinha revistas e livros à mão, os jornalistas eram acompanhados por ela à porta quando Daphne já estava cansada, e sempre tinha a roupa arrumada antes de apresentar-se às entrevistas.

Tinha a virtude de que tudo parecesse milagrosamente fácil.

-Quer uma taça? Daphne negou com a cabeça.

-Só me faltaria isto, entrar aí meio bêbada. Então sim que diria algumas coisas.

Ambas sorriram, e Daphne se instalou em uma poltrona.

Nem sequer em momentos como aquele gostava de beber.

-Senhorita Fields? -Um assistente de produção apareceu com a cabeça na porta. -Você vai entrar primeiro.

-Oh, céus!

-O senhor Conroy não quer fazê-la esperar.

Isto não fazia mais que piorar as coisas, pois ela não teria tempo de relaxar antes da entrevista e observar como se comportavam os outros; entretanto, também sabia que esta noite ela era a estrela.

-Preferiria que não me tivesse feito tamanho favor - disse Daphne a Barbara em voz baixa, sentindo as palmas das mãos úmidas.

Mas Barbara a tranqüilizou.

-Estará magnífica.

-Por quanto tempo ficarei no ar?

Era como pôr em marcha um cronômetro interno antes que o dentista lhe extraísse um molar.

Vinte minutos... “Posso suportar a dor durante vinte minutos... ou não?" Ao menos o dentista lhe aplicava anestesia para que não sentisse dor. Aqui lhe aplicavam o golpe ao vivo.

-Não me disseram isto. Perguntei ontem, mas a jovem me disse que Conroy não quer pôr um limite de tempo. Entretanto, não acredito que se estenda mais de quinze minutos.

Daphne concordou, ficando de pé, e naquele momento reapareceu o ajudante de produção e lhe fez gestos para que o seguisse.

-Até mais tarde, neném - murmurou Daphne.

Dirigiu um olhar a Barbara por cima do ombro, pensando na antiga citação: "Os que vão morrer te saúdam".

-Estará formidável.

Daphne firmou os olhos e saiu do salão, enquanto Barbara, provida de uma taça de vinho, dispunha-se a vê-la pelo monitor.

O ajudante de produção conduziu Daphne ao estúdio, indicou-lhe a cadeira que devia ocupar e prendeu-lhe um micro fone na gola do vestido, enquanto uma maquiadora arrumava seu rosto.

O cabelo estava perfeito, e o resto da maquiagem também.

A mulher fez um movimento de aprovação com a cabeça e desapareceu.

O ajudante de produção lhe fez um gesto de assentimento e ajustou os aparelhos de áudio antes de dizer a Daphne em um murmúrio:

-O senhor Conroy virá em seguida. Sentará alí. -apontou uma cadeira. – Ele fará os primeiros noventa  segundos sozinho, e logo apresentará você.

Daphne assentiu, observando que sobre uma mesinha baixa se encontravam seus dois últimos livros.

Em geral, estavam acostumados a lhe indicar os pontos principais em torno dos quais giraria a entrevista, mas Conroy não agia desta maneira.

Isto era precisamente o que a preocupava.

-Deseja um copo de água?

-Obrigado

Parecia-lhe que tinha os olhos muito abertos, sentia a boca seca, e notava que o suor lhe corria lentamente pelas costas.

Nesse instante apareceu Bob Conroy com seu traje escuro, a camisa azul claro e uma gravata vermelha.

Tinha quarenta e tantos anos e era inegavelmente de aparência agradável.

Entretanto, havia algo muito frio e resistente em seus olhos; tudo nele causava uma impressão de volubilidade, e parecia tremendamente artificial.

-Daphne?

Não. Mata Hari.

-Sim.

Sorriu-lhe, tratando de não perder a cabeça.

-Encantado de tê-la no programa. Como está o tempo em New York?

-Esplêndido.

Conroy se sentou e lançou uma olhada para verificar os ângulos que apresentavam as câmaras.

Mas antes que pudesse dizer algo mais, o ajudante de produção começou a contar, acendeu-se uma luz vermelha, e uma câmara avançou para o rosto do Conroy, enquanto ele esboçava o sorriso que possuía um atrativo sexual capaz de subjugar o público feminino de todo o país e anunciava o que os telespectadores veriam em seu programa nesta noite.

Tudo era exatamente como nos outros programas a que Daphne tinha assistido.

A um participante pediram que efetuasse o número onde parecia ser um seu cão bailarino e o despediram do estúdio sem sequer lhe agradecer, enquanto o apresentador fazia suas piruetas egocêntricas para encantar as suas admiradoras.

-Nosso primeiro convidado desta noite é uma mulher cujos livros a maioria de vocês têm lido, particularmente as senhoras...

Fez uma pausa para sorrir para a câmara, e logo pegou um dos dois livros que estavam na mesinha baixa antes de voltar a olhar para a câmara.

-Mas eu suspeito que seja muito pouco o que têm lido sobre a autora. Percebi que Daphne Fields é uma pessoa muito zelosa de sua intimidade.

Sorriu outra vez e se voltou lentamente para Daphne, enquanto a câmara a incluía também no enquadramento e uma segunda câmara avançava com lentidão para ela.

-É um prazer tê-la aqui conosco em Chicago.

-É um prazer estar aqui com você, Bob.

Daphne sorriu timidamente, sabendo que a câmara a mostraria de frente sem ter que voltar-se para ela.

Isto era o habitual, exceto em cidades atrasadas onde o único ângulo que as câmaras mostravam era o do apresentador.

Uma vez, em Santa Fé, Daphne esteve uma hora em um programa, sem dar-se conta de que tudo que os telespectadores viam era a parte de trás de seu penteado.

-Você vive em New York, não é mesmo?

Uma típica pergunta insignificante.

-Isto mesmo.

Daphne sorriu.

-Está trabalhando em um novo livro?

-Sim. Chama-se Amantes.

-Veja, é um título que combina tão bem como o anel com o dedo.

Conroy olhou profundamente nos olhos de suas telespectadoras.

-A suas leitoras adorarão. Como anda o trabalho de pesquisa? Soltou uma risadinha sugestiva, e Daphne se ruborizou ligeiramente sob a maquiagem.

-No geral, minha obra é fruto da imaginação.

Havia doçura em sua voz e em seu sorriso, e tinha um ar tão extraordinariamente delicado que a pergunta de seu entrevistador resultou impertinente, e sua atitude quase grosseira.

Mas ele a faria pagar caro, sempre o faziam.

Aquele era seu programa, e estava disposto a que continuasse sendo por longo tempo.

Daphne era tão somente flor de uma noite.

Era o pescoço de Conroy que estava em jogo, não o do Daphne, e disto ele não esquecia em nenhum momento.

-Vamos, vamos, uma mulher tão bonita como você... deve ter um exército de amantes.

-Não ultimamente.

Desta vez havia um brilho malicioso em seus olhos, e não se ruborizou.

Começava a pensar que sairia com vida daquele encontro.

Entretanto, a nota maliciosa tinha desaparecido da voz de Conroy quando se dirigiu a ela.

-Entendi, Daphne, que é você viúva.

Aquilo era algo que Daphne não esperava e, por um instante, a respiração quase lhe faltou.

Conroy tinha feito uma minuciosa investigação.

Assentiu com a cabeça.

-É uma pena. Mas - adicionou com voz que gotejava simpatia e compaixão - possivelmente é por isto que você escreve tão bem. Tem escrito muito a respeito de sobrepor-se a uma terrível perda, e é evidente que você o tem feito. Disseram-me que também perdeu a sua filhinha.

Os olhos de Daphne se encheram de lágrimas, comovida ao ouvir falar de Jeff e Aimee, e ficou ali sentada, com o coração no altar onde Conroy efetuava seu sacrifício.

-Não sei falar da relação de minha vida privada com a minha obra, Bob.

Daphne se debatia por recuperar sua compostura.

-Possivelmente deveria fazê-lo - disse ele com grave expressão e voz sonora. Isto a faria parecer mais autêntica aos olhos de seus leitores.

Pronto! Tinha-a apanhado.

-Enquanto meus livros sejam autênticos...

-Mas como podem ser - atalhou ele-, se o público não souber como é você?

Antes que ela pudesse replicar, Conroy perguntou:

-Estou certo ao dizer que seu marido e sua filha morreram em um incêndio?

-Sim.

Daphne aspirou profundamente, e Barbara, através do monitor, pôde ver que seus olhos se enchiam de lágrimas. Que canalhice! O filho da puta... Daphne tinha razão ao temer participar daquele programa.

-Era seu marido o personagem que descreveu em Apache?

Daphne balançou a cabeça. Era John.

De repente, presa de pânico, perguntou-se se estaria também informado de sua relação com ele; mas era impossível que tivesse averiguado isto.

-Que personagem tão interessante. Estou certo de que todas as mulheres de país se apaixonaram por ele. Poderia fazer um maravilhoso filme deste livro, sabe?

Daphne começou a recuperar-se, rezando para que terminasse a entrevista.

-Estou contente que acredite nisto.

-Vislumbra-se alguma perspectiva no horizonte?

-Ainda não, mas minha agente acredita que se apresentará.

-Daphne, diga-nos, quantos anos você tem?

Merda! Não perdoava nada. Mas ela riu baixinho.

-Tenho que dizer a verdade? -Entretanto, Daphne não fazia segredo de sua idade. - Estou caminhando para os trinta e três.

-Santo Deus!

Conroy a olhou de cima em baixo com admiração.

-Não parece. Eu não teria dado mais que vinte.

Aquilo era o que encantava suas telespectadoras.

Mas enquanto Daphne sorria, ele se inclinou para ela com aquela expressão condescendente que despertava tanta desconfiança em sua entrevistada, que ela de novo se sentiu acuada.

-E nunca voltou a casar-se. Quanto tempo faz que  você é  viúva?

-Sete anos.

-Deve ter sido um golpe terrível. -Com olhos que aparentavam inocência, perguntou: - Existe algum homem permanentemente em sua vida? Daphne quis gritar ou o esbofetear.

Estes tipos de perguntas nunca eram feitas aos escritores de sexo masculino, mas as mulheres resultavam numa presa fácil, pois de certo modo se pressupunha que a vida íntima de uma escritora formava parte integrante de sua obra e, por conseguinte, era de propriedade pública.

Um homem o teria mandado plantar batata, mas de qualquer modo ele nunca lhe faria uma pergunta deste gênero.

-Neste momento não, Bob - respondeu com um sorriso cordial.

Conroy sorriu docemente.

-Não sei se acredito. Você é muito bonita para estar sozinha. Além disso, existe este livro que está escrevendo agora..., como se chama, Amantes? -Ela assentiu com a cabeça. -Quando será lançado? Estou certo que todos seus leitores o estarão esperando contendo o fôlego.

-Espero que não estejam contendo o fôlego, pois o livro não será publicado até o próximo ano.

-Esperaremos.

Trocaram outro sorriso forçado enquanto Daphne aguardava o fim da entrevista, pois sabia que não podia demorar, e não via o momento de abandonar aquele estúdio, para que ele não fizesse mais perguntas.

-Há algo mais que desejava lhe perguntar, sabe? Daphne esperou, quase certa que seria sobre quem criara seu broche.

-Nosso próximo convidado também é escritor, mas não no mesmo campo que você. Seu livro não é uma obra de ficção. Está escrevendo uma magnífica obra sobre crianças autistas.

Daphne sentiu que empalidecia, pois pressentiu o que ia lhe perguntar, mesmo que fosse impossível que soubesse...

-Uma boa amiga minha de Nova Iorque, da Collins, onde você trabalhava, disse-me que você tem um filho autista. Possivelmente, do ponto de vista de uma mãe, possa lançar alguma luz sobre este tema.

Daphne o olhou com evidente ódio, se bem que estivesse pensando em Allie. Como pôde lhe dizer uma coisa como esta? Como tinha podido fazê-lo?

-Meu filho não é autista, Bob.

-Ah..., possivelmente entendi errado...

Daphne quase podia imaginar as telespectadoras ofegando.

Em dez breves minutos se inteiraram de que tinha perdido seu marido e sua filha em um incêndio, que tinha trabalhado na Collins, que não havia nenhum outro homem em sua vida até o momento, e agora acreditavam que seu único filho com vida era autista.

-Tem atraso mental?

-Absolutamente - respondeu Daphne, elevando a voz e o fulminando com o olhar. Que direito tinha aquele homem...? -Meu filho é surdo, está internado em uma escola para surdos, mas à parte seu defeito auditivo, é um menino maravilhoso, perfeitamente normal.

 

-Alegro-me por você, Daphne.

O filho da puta! Daphne estava a ponto de explodir. Tinha a sensação de ter sido exposta ao público completamente nua. Mas o que era pior, muito pior: tinha despido a seu filho.

-E celebro saber sobre Amantes. Agora, temo que nosso tempo tenha terminado. Mas esperamos poder vê-la de novo na próxima vez que voltar a Chicago.

-Eu adoraria.

Daphne lhe sorriu com os dentes apertados, e logo dedicou um sorriso aos telespectadores.

Então interromperam a emissão para passar os anúncios comerciais.

Com uma furiosa expressão mal dissimulada, Daphne desprendeu o microfone do vestido e o entregou ao Conroy.

-O que você tem fez é indesculpável.

-Por quê? Porque gosto da verdade? Agora Conroy não sorria.

Os sentimentos de Daphne não lhe importavam nada. O único que importava era ele mesmo, os telespectadores e os patrocinadores do programa.

-O que você ganha com isto? Que direito tem de fazer este tipo de perguntas?

-São as coisas que as pessoas querem saber.

-Estas são coisas que as pessoas não têm nenhum direito de saber. Não há nada em sua vida que queira manter resguardado? Não há nada sagrado para você?

-Eu não sou o entrevistado, Daphne. -respondeu Conroy friamente, enquanto o convidado seguinte ocupava seu lugar.

Daphne ficou o olhando fixo um instante sem lhe estender a mão.

-Então você pode considerar-se muito afortunado.

Dito isto, Daphne girou sobre seus saltos e abandonou o estúdio, para dirigir-se rapidamente à sala de espera, onde fez gestos a Barbara para que a seguisse.

Duas horas mais tarde voavam de volta a Nova Iorque.

Era o último vôo do dia, e chegaram ao La Guardia às duas da madrugada.

Às duas e meia, Daphne estava de volta a seu apartamento.

Barbara tinha seguido no táxi até sua casa.

Na Rua 69, Daphne fechou a porta, foi diretamente a seu dormitório sem acender as luzes, jogou-se sobre a cama e irrompeu em soluços.

Tinha a sensação de que toda sua vida tinha sido exposta publicamente nesta noite, com todo seu infortúnio e sua dor.

A única coisa que Conroy não sabia era a sua relação com o John.

Por sorte nunca tinha contado a Allie...

"E nos diga, senhorita Fields, é certo que você se deitava com um lenhador em New Hampshire?" voltou-se de costas na cama e permaneceu com a vista fixa no teto, pensando em Andrew.

Possivelmente era uma sorte que estivesse na escola.

Talvez se estivesse em Nova Iorque com ela, sua vida se teria convertido em um circo.

As pessoas como Allie o tratariam como se fosse uma raridade...

Autista..., atrasado... Daphne estremeceu só em pensar nestas palavras, e ficou imóvel até que dormiu, com o vestido bege que usava, com os rastros das lágrimas em sua face, e o coração dolorido como se o tivessem apedrejado.

Nesta noite sonhou com Jeffrey e com John, e despertou à manhã seguinte, com o telefone tocando, sentindo que a invadia uma de onda de terror..., temendo que tivesse acontecido algo a Andrew.

- Daphne, sente-se bem?

Era Íris. Tinha visto o programa.

-Estou viva. Mas não voltarei a fazê-lo de novo. Pode dizer a Murdock de minha parte, ou o direi eu mesma. Pode escolher, mas estou decidida. Minha vida no campo da publicidade chegou ao fim.

-Não deveria pensar assim, Daff. Foi só um mau programa.

-Possivelmente, para você. Mas não estou disposta a passar de novo um mau momento como este, e não tenho nenhuma necessidade de fazê-lo. Meus livros se vendem bem sem necessidade de me prostituir para que uns estúpidos pendurem minha roupa íntima em seu varal.

Entretanto, o que mais lhe doía era o que tinham feito ao Andrew.

Tinha lutado ferozmente para protegê-lo deste mundo, e num instante haviam derrubado todas as barreiras protetoras que ela tinha erguido e tinham o exposto à curiosidade do público como um menino "autista".

Ainda se estremecia pelo que lhe tinham feito.

E cada vez que pensava nisso, sentia desejos de matar Allie.

Teve que fazer um esforço para voltar a prestar atenção ao que Íris dizia.

Insistia para que aceitasse almoçar com ela no Four Seasons, mas Daphne não queria.

-Aconteceu algo grave?

-Não. Uma oferta muito interessante, mas quero falar dela com você, amadurecê-la um pouco. Quer vir ao meu escritório?

-Por que você não vem até minha casa? Não me sinto com ânimos de sair.

O certo era que desejava ocultar-se.

Ou voltar para a escola, para estreitar Andrew entre seus braços.

-De acordo. Passarei ao meio dia. Parece-te bem?

-Perfeito. E não se esqueça de telefonar ao Murdock.

Mas Íris planejava aguardar um pouco.

A publicidade para os livros de Daphne era muito importante para tomar uma decisão precipitada, e havia a possibilidade de que Daphne mudasse de idéia. Embora a conhecendo, o mais provável era supor que não o faria.

Era mais teimosa que uma mula, e o que mais lhe importava na vida fosse sua intimidade.

O fato de que esta tivesse sido violada em cadeia nacional de televisão sem dúvida havia sido uma experiência demolidora para ela.

-Daqui a pouco nos veremos.

Já eram dez horas, e Daphne ouviu quando Barbara introduziu a chave na fechadura, enquanto ela dirigia-se à cozinha calçada só com as meias e usando o enrugado vestido da noite anterior.

Por seu aspecto, podia-se pensar que tinha participado de uma festa onde tinha rolado muita bebida.

-Céus, que maraviha está esta manhã! Barbara usava calça cinza e um suéter vermelho, e tinha um radiante sorriso.

Daphne lhe fez uma careta enquanto punha a cafeteira no fogo.

Barbara entrou na cozinha e deixou a bolsa sobre a mesa.

Era uma das estranhas ocasiões em que não a via com um bloco de papel na mão.

-Acaso não dormiu ontem à noite? Barbara tinha estado muito preocupada com ela, mas não tinha se atrevido a lhe telefonar.

Esperava que Daphne tivesse dormido e suspeitava que sua amiga desejasse que a deixassem tranqüila.

Mas esta manhã Daphne estava em péssimo estado, e Barbara não quis amolá-la.

-Se me permite dizer, você parece mal. Não dormiu?

-Um pouco.

Barbara tomou um gole do café fumegante.

-Lamento o que ocorreu ontem à noite, Daff.

-Eu lamento mais ainda. Mas não voltará a acontecer. Acabo de lhe pedir para Íris que telefone ao Murdock.

-Não o fará.

Disse-o tão convencida que Daphne sorriu.

-Você tem calado a todo mundo, verdade? Talvez tenha razão.

Mas se ela não lhe falar, eu o farei.

-O que pensa fazer a respeito de Allison Baer?

Uma expressão maligna escureceu os olhos de Daphne.

-Francamente, eu a mataria. Mas me conformarei em dizer-lhe umas boas e não lhe dirigir a palavra nunca mais.

-Foi uma canalhice o que fez.

-Poderia perdoar-lhe quase tudo, mas não o que o disse a respeito de Andrew.

Ambas guardaram silêncio uns instantes, e Daphne soltou um suspiro enquanto se deixava cair em uma cadeira, com ar abatido e aspecto lastimoso.

Parecia que precisava de alguém que a ajudasse a despir-se, que lhe preparasse o banho e lhe escovasse o cabelo.

Barbara lamentou que não tivesse um marido para fazer lhe isso. Daphne teria sido uma excelente esposa para qualquer marido, e por sua vez necessitava de alguém que cuidasse dela.

Trabalhava muito, preocupava-se muito, e levava todos os problemas sobre suas frágeis costas.

Necessitava de um homem, igual a Barbara, mas não era provável que nenhuma das duas o encontrasse.

Por certo que Daphne não.

Ela nem sequer deixava que ninguém se aproximasse para lhe tirar o casaco; muito menos, pois, ia permitir a alguém que tivesse intenção de lhe propor casamento.

-Então, o que Íris queria?

-Não sei. Disse algo sobre uma oferta interessante. E se tratar-se de uma excursão publicitária - acrescentou Daphne, sorrindo maliciosamente e ficando de pé, - vou dizer que lhe dêem uma salsicha.

-Gostaria muito de ouvir. Quer que faça alguma chamada?

Daphne lhe entregou uma lista e foi tomar uma ducha.

Quando sua agente chegou cinco minutos antes do meio-dia, Daphne vestia uma calça de gabardina branca e um suéter de cachemira da mesma cor.

-Veja, está maravilhosa.

Íris sempre se mostrava impressionada por sua elegância tranqüla.

A maioria dos autores termina por tornar-se pretensiosa, mas Daphne não era destes.

Ela tinha estilo, e se destacava por seu ar distinto.

Às vezes, isto a fazia parecer maior do que era, mas assim era ela, e não era de estranhar que depois de tudo o que tinha passado ela parecesse mais velha.

Enfrentar as circunstâncias mais dolorosas da vida lhe tinha dado sensatez e ponderação, e uma enorme dose de compaixão.

-E bem, o que há de novo? -sentaram-se à mesa para almoçar e Daphne serviu uma taça de vinho branco para Íris, enquanto esta a olhava fixamente, examinando seu rosto.

-Está passando mal? Você trabalha muito.

Íris disse isto com o tom de uma mãe muito rígida, mas a conhecia o suficiente para ser capaz de ler em seus olhos o que lhe proporcionava a vida, tal como o fazia agora.

E não lhe custou muito perceber que Daphne estava cansada.

-O que a faz supor isto?

-Está emagrecendo, e pela expressão de seus olhos se diria que tem cento e cinqüenta anos.

-Na realidade, tenho. Cento e cinqüenta e dois, para ser mais exata. Farei cento e cinqüenta e três em setembro.

-Falo sério, Daphne.

-Eu também.

-De acordo, vou me ocupar de meus assuntos. Como anda o livro?

-Bastante bem. Eu o terei pronto dentro de um mês.

-E então o que fará? Algum plano?

-Pensei em passar uma temporada com o Andrew. Já sabe-acrescentou, olhando com amargura para sua agente, - meu filho autista.

-Daphne, não o tome tão a sério. Sempre dizem coisas como estas nos programas desta classe e nos jornais.

-Bom, pois não voltarão a dizer de mim nem de meu filho. Isto é definitivo. Falou com Murdock?

Seus olhos tinham um brilho resistente quando pousaram em Íris.

-Ainda não. Mas falarei.

Barbara tinha razão, e ela sabia. Íris dava um tempo.

-Se você não lhe falar, eu o farei. Falo muito a sério nesta manhã.

-Está bem, está bem. -Íris levantou uma mão, como implorando perdão. -Acima de tudo, há algo mais que quero conversar com você. Você recebeu uma oferta muito interessante.

-Para fazer o que? Daphne não parecia impressionada, mas demonstrava desconfiança.

A noite passada a escaldou terrivelmente.

-Para fazer um filme, na costa do Pacífico. - Íris parecia enormemente satisfeita, e Daphne se limitou a observá-la. -Estão interessados em adquirir os direitos de Apache. Os Comstock Studios telefonaram ontem depois de que você saiu.

Querem comprar o livro, mas também gostariam que pensasse na possibilidade de escrever o roteiro.

Daphne ficou em silêncio durante um longo momento.

-Você acha que posso fazê-lo? Não tenho experiência alguma.

Seus olhos refletiam preocupação.

-Não há nada que não possa fazer, caso se propuser a isto.

As palavras de Íris ressonaram como um eco das de John, e Daphne sorriu.

-Tomara que eu pudesse acreditar.

-Bom, eu acredito, e eles também. Ofereceram uma magnífica soma por tudo. Teria que se instalar lá de modo que também se encarregariam dos gastos, dentro do razoável.

-O que significa isso?

-Casa, comida, distrações, faxineira, automóvel e chofer.

Daphne ficou com a vista fixa em seu prato e logo olhou para Íris.

-Não posso aceitar.

-Por que não? -Íris se mostrou surpreendida. -Daphne, é uma oferta fabulosa.

-Não tenho nenhuma dúvida de que é, e eu adoraria lhes vender os direitos sobre o livro. Mas não posso escrever o roteiro.

-Por que não?

-Quanto tempo deveria ficar lá?

-Provavelmente um ano; alguns meses para escrevê-lo, e também querem lhe consultar durante a filmagem.

-Ao menos um ano. Possivelmente mais.

Exalou um suspiro enquanto olhava para sua agente com expressão grave.

-Não posso abandonar Andrew durante tanto tempo.

-Mas se ele nem sequer vive com você.

-Íris, eu vou vê-lo pelo menos uma vez por semana quando posso. Às vezes fico todo o fim de semana. Vivendo em Los Angeles, não poderia fazê-lo.

-Então, leve-o consigo.

-Ainda não está em condições de deixar a escola Por mais que eu quisesse, ainda não é o momento.

-Pode o colocar em uma escola lá.

-Isto seria muito penoso para ele. Não seria justo. -Meneou a cabeça resolutamente. -Não posso. Talvez dentro de alguns anos, mas não agora. Lamento muito. Possivelmente possa explicar-lhes.

-Não quero lhes explicar nada, Daphne. Do ponto de vista de sua carreira, é um suicídio. Penso que é um sacrifício que os dois teriam que fazer. Quero que pense, pela menos até na segunda-feira.

-Não mudarei de opinião.

Conhecendo Daphne, Íris compreendeu que assim seria.

-Cometerá um grave erro se não aceitar esta proposta. Este é realmente o seguinte passo importante em sua carreira. Se não o der, lamentará por toda sua vida.

-E como quer que explique isto a um menino de sete anos? Como posso lhe dizer que minha carreira é mais importante que ele?

-Pode explicar-lhe e, além disso, poderia tomar o avião e vir passar um par de dias com ele quando tivesse uma folga.

-E se não poder vir? Então, o que? Não posso nem telefonar para lhe explicar.

Isto fez Íris emudecer. Claro que não podia lhe telefonar.

Este era um aspecto em que Íris não tinha pensado.

-Não posso, Íris.

-Por que não espera para decidir?

Mas Daphne já sabia qual seria a resposta que lhe daria na segunda-feira, e depois que Íris partiu, falou com Barbara, sentada com as pernas encolhidas em uma enorme e cômoda poltrona branca.

-Você gostaria de ir se pudesse?

-Não estou muito certa. Para falar a verdade, não sei se seria capaz de escrever um roteiro, e viver um ano em Hollywood não é algo que me entusiasme. -Olhou em torno do bonito e pequeno apartamento lançando um suspiro e logo deu de ombros. -Mas não vale a pena pensar nisto. Não posso abandonar Andrew por tanto tempo, e possivelmente não seria sempre fácil escapar para vir vê-lo.

-No caso de que não pudesse escapar, por que não procurar uma maneira de que ele fosse te ver? Eu poderia ir levá-lo.

Embora nunca tivesse visto o menino, Barbara tinha a impressão de que o conhecia.

Daphne sorriu com o generoso oferecimento.

-Agradeço que me diga isto.

-Por que não conversa com a senhora Curtis quando for visitar Andrew este fim de semana, Daff?

Mas que sentido tinha em voltar ao assunto?

Nenhuma delas compreendia. Não podiam compreender.

Elas não sabiam o que tinha sentido ao descobrir que seu filho era surdo quando só tinha uns meses de vida, lutar para comunicar-se com ele, discutir com todos os médicos que aconselhavam interná-lo em uma instituição.

Não sabiam o que tinha sofrido ao pôr suas coisas em uma mala e o levar para New Hampshire..., ao lhe dizer que seu amigo John tinha morrido...

Não sabiam o que sentia em suas entranhas, nem o que representaria para ela encontrar-se a mais de quatro mil quilômetros de distância no caso de que algo chegasse a acontecer ao menino.

Não sabiam, e nunca poderiam compreendê-lo.

Não havia nada que pensar, disse-se uma vez mais quando pegou sua mala, colocou no carro e empreendeu a solitária viagem a New Hampshire para ver Andrew.

Daphne realizou a viagem em cinco horas, e chegou ao caminho de entrada da Howarth School quando começava a escurecer.

Ao chegar ali o coração sempre se apertava, não só por causa de Andrew, mas também pela lembrança de John.

Seus pensamentos sempre retornavam aos dias que tinham passado na cabana.

Entretanto, a escola estava brilhantemente iluminada, e ela sabia que em um momento veria Andrew.

Consultou o relógio e viu que chegava a tempo para jantar com ele.

A senhora Curtis se encontrava no vestíbulo quando ela entrou, e não pôde ocultar sua surpresa e complacência ao vê-la.

-Não sabia que viria esta semana, Daphne.

Com o correr dos anos ficaram amigas, e a senhora Curtis a tratava com intimidade; mas Daphne não se acostumava a fazê-lo, devido a sua idade avançada.

Não obstante, enviava-lhe todos seus livros, e Helen Curtis demonstrava que adorava.

-Como está nosso moço? Daphne tirou o casaco no vestíbulo e teve a sensação de ter chegado ao seu lar.

A Howarth School era cálida e acolhedora, e era notável como estava bem cuidada.

Tinha sido totalmente remodelada no verão anterior, e agora havia murais de pinturas nos corredores, que faziam as delícias dos meninos, que tinham pintado nuvens nos céus nas partes baixas.

-Não o reconhecerá! -respondeu a senhora Curtis com um sorriso.

-Cortou o cabelo de novo? As duas mulheres puseram-se a rir, ao recordar como havia ficado no inverno passado depois que ele e dois amiguinhos seus se divertiram com umas tesouras.

Andrew não se saiu tão mal como os outros dois.

E umas meninas que tinham lindas tranças loiras quase ficaram carecas, e pareciam uns patinhos molhados quando eles terminaram com elas.

-Não, nada disto. -A senhora Curtis meneou a cabeça com um sorriso. -Mas este mês deve ter crescido uns cinco centímetros pelo menos. Como verá, está enorme. Você vai ter que comprar roupa de novo.

-Obrigado, meu Deus, pelos direitos autorais! -E com olhar ansioso, perguntou:- Onde está?

Em resposta, a senhora Curtis apontou para a escada.

Andrew descia naquele momento, vestido com calça de veludo cotelê bege e uma camisa de flanela vermelha, e usava as botas novas de vaqueiro que Daphne tinha lhe levado na visita anterior.

O rosto do menino se iluminou com um amplo sorriso e seus olhos brilharam de alegria, enquanto ela se aproximava lentamente.

-Olá, querido. Como está?

Além de lhe falar por gestos, agora Daphne pronunciava as palavras, e o menino lia seus lábios sorrindo.

Então, Andrew a surpreendeu ao falar.

-Estou bem, mamãe... Como ... você está? A pronúncia era deficiente, mas qualquer um poderia entender o que havia dito.

-Senti sua falta.

E então se jogou nos braços de sua mãe, e ela o estreitou contra seu peito, contendo as lágrimas que com tanta facilidade enchiam seus olhos quando ele chegava.

Habituaram-se à sua nova vida, e os dias de solidão compartilhados em seu antigo apartamento pareciam um sonho longínquo.

Andrew tinha estado no novo, mas tinha falado a sua mãe, por gestos, que gostava mais do antigo.

Ela garantiu que também se acostumaria àquele, e mostrou qual seria seu quarto, dizendo que ele um dia moraria ali todo o tempo, como quando ocupavam o outro.

Entretanto, agora a única coisa que ocupava sua mente era a sensação de estreitar seu corpinho quente e macio contra o seu.

-Eu também senti sua falta.

Daphne se afastou um pouco para que o menino pudesse ver seu rosto enquanto ela dizia:

-O que você estava fazendo?

-Estou cultivando hortaliças!-parecia entusiasmado. -E colhi dois tomates.

Expressava-se com gestos, mas quando sua mãe lhe falava ele lia seus lábios, e parecia não ter nenhuma dificuldade em entender.

-Em pleno inverno? Como o fez?

-Em uma caixa enorme iluminada com luzes especiais, e quando a primavera chegar, vamos plantar flores do lado de fora.

-Que maravilha!

Entraram no refeitório segurando as mãos, e Daphne sentou-se com ele e os outros meninos, para saborear frango frito com espigas de milho e batatas assadas.

Todos riam e contavam piadas, por gestos.

Ela ficou até que Andrew foi dormir; agasalhou-o com todo cuidado e logo desceu para ver a senhora Curtis antes de partir.

-Teve uma boa semana? Havia uma estranha expressão em seus olhos ao formular a pergunta, e Daphne compreendeu instintivamente que tinha visto o programa na televisão. E quem não vira?

-Não muito boa. Ontem estive em Chicago.

Vacilou antes de acrescentar alguma coisa, mas não teve necessidade disto.

-Sei. Foi uma baixeza o que Conroy fez.

-Viu o programa?

-Vi. Mas não voltarei a assisti-lo nunca mais. É um canalha.

Daphne sorriu diante daquela expressão tão carrancuda, tão pouco característica nela.

-Você tem razão. Disse a minha agente que em conseqüência disso, não voltarei a participar de nenhuma outra campanha publicitária. Com isto tive o bastante. O que mais me chateia é que nunca fazem aos homens este tipo de perguntas. Claro que o pior foi o que disse a respeito de Andrew.

-Na realidade, isto não tem nenhuma importância, sabe? Você e ele conhecem a verdade, e o resto das pessoas se esquecerá disto.

-Possivelmente sim ou possivelmente não - respondeu Daphne, que não estava tão certa. -As pessoas intrometidas são muito especiais. Dentro de dez anos alguém desenterrará a fita de vídeo deste programa e elaborará uma história.

-Sua profissão não é um mar de rosas, mas deve ser muito gratificante.

-Às vezes.

Daphne sorriu, mas em seus olhos se via que algo a perturbava, e a senhora Curtis se deu conta disto.

-Aconteceu algo grave?

-Não..., na realidade não, mas..., preciso que me aconselhe. Pensei que possivelmente poderíamos falar em qualquer momento deste fim de semana.

-Por que esperar? Poderíamos conversar agora. Quer entrar e se sentar?

Fez um gesto para suas dependências privadas, e Daphne assentiu com a cabeça. Seria um alívio falar agora.

O apartamento da senhora Curtis na escola era pequeno e limpo como ela mesma.

Estava cheio de antiguidades muito bonitas da época da colonização, que ela mesma tinha comprado, e havia quadros com paisagens de New Hampshire.

Sobre uma mesinha baixa havia um vaso com flores frescas, e abaixo dela se estendia um tapete redondo que tinha adquirido em uma casa de antiguidades de Boston. De certo modo, parecia a casa de uma professora de escola, mas tinha um calor adicional, e algumas de suas coisas eram adoráveis.

Daphne olhou em torno, pois igual a tudo da escola, também aquele ambiente lhe era familiar.

Helen Curtis olhou em torno por sua vez, quase com nostalgia, mas Daphne não percebeu.

A senhora Curtis preparou um chá em sua cozinha, que serviu em delicadas xícaras floreadas de Spode com um guardanapo de encaixe.

-Bem, do que se trata, querida? Algo relacionado com o Andrew?

-Indiretamente, sim. - Daphne resolveu ir direta ao assunto. Tive uma oferta para fazer um filme. O Comstock Studios quer adquirir os direitos de Apache, o que é maravilhoso. Isto me obrigaria a ficar em Los Angeles durante um ano. E não acredito que deva fazê-lo.

-Por que não? A mulher parecia satisfeita e surpresa ao mesmo tempo.

-E Andrew?

-O que tem ele? Acaso quereria colocá-lo em uma escola lá?

Diante desta possibilidade, a senhora Curtis se mostrou preocupada. Sabia que, no momento, qualquer mudança seria difícil para ele.

Howarth tinha sido seu lar durante um longo tempo, e sofreria muito.

-Penso que colocá-lo em uma escola de lá representaria uma mudança muito brusca para Andrew. Não; se aceitasse ir, eu o deixaria aqui. Mas se sentiria abandonado.

-Não, se lhe explicarmos convenientemente. Não sentiria mais que qualquer outro menino de sua idade. Poderia lhe dizer que seu trabalho exige isto e que só seria por um tempo. Poderia ir lhe visitar, nós o acompanharíamos até o avião, ou você poderia vir visitá-lo.

-Provavelmente não poderia vir muito freqüentemente. Deduzo que, uma vez que comece a filmar, será quase impossível afastar-me de lá. Mas acredita seriamente que ele poderia ir?

-Não vejo por que não poderia – respondeu Helen Curtis com amabilidade, deixando a xícara de chá sobre a mesa. -Andrew está crescendo, Daphne, já não é um bebê, e adquiriu muitos conhecimentos práticos que o ajudarão a se desenvolver. -Ele já viajou de avião alguma vez? -Daphne negou com a cabeça. -Certamente adoraria.

-Não acredita que seria uma experiência muito dura para ele? Não me veria tão freqüentemente como agora.

-Tem que saber que outros pais não vêm de visita com tanta freqüência como você. É muito sortuda por poder fazê-lo; a maioria das mães não pode, já que têm seus maridos, outros filhos, empregos que as impedem... Você e Andrew são muito afortunados.

-E se eu for?

-Ele se adaptará. Não terá outro remédio.

Seria terrivelmente penoso separar-se de Andrew. Daphne sentia nascer nela um sentimento de culpa.

-Sei que não será fácil no princípio, mas fará bem a ambos. Poderia ser uma maravilhosa experiência para você. Partiria logo?

-Muito em breve. Este mês mesmo.

-Ainda teria algum tempo para prepará-lo.

Soltou um suspiro e ficou contemplando sua jovem amiga. Sentia um grande carinho por Daphne, pois era uma jovem com garra e dotada de uma grande ternura.

Ambas as qualidades estavam estampadas em seus livros e constituíam uma combinação fascinante.

-Temo que não eu tenha a mesma oportunidade para preparar você.

-Me preparar para que?

Daphne não pôde ocultar seu assombro, embora em sua mente ainda se debatesse a questão de separar-se de Andrew para ir a Los Angeles ou ficar junto a ele.

-Vou deixar a escola, Daphne. Vou me aposentar.

-É sério?

Daphne sentiu como se uma pedra lhe acertasse o coração.  Demorava a adaptar-se às mudanças e a perder as pessoas que amava.

-Mas por quê? A mulher de cabelos grisalhos pôs-se a rir.

-Obrigado por me perguntar isto. Eu acreditava que a razão fosse evidente. Estou ficando velha, Daphne. Já é hora de voltar para casa, e deixar a escola a cargo de alguém mais jovem, mais dinâmico.

-Mas isto é terrível!

-Não tem nada de terrível. Será um bem para a escola. Daphne, eu sou uma anciã.

-Não diga isto! -exclamou Daphne, irritada.

-Sou sim. Tenho sessenta e dois anos. São muitos anos. E não quero esperar que tenham que me tirar daqui em uma cadeira de rodas. Já é hora, me acredite.

-Mas se nunca esteve doente...

Daphne parecia uma menina a ponto de perder sua mãe.

Andrew se sentiria assim quando lhe dissesse que ia para Los Angeles.

E como poderia o deixar agora que a senhora Curtia também partiria? O menino se sentiria abandonado por todas as pessoas a quem amava.

Daphne olhou para Helen Curtis quase com desespero.

-Quem ocupará seu lugar? Como se alguém pudesse!

-Não acredite que é tão impossível. Minha antecessora estava convencida de que ninguém podia substituí-la, e ao final de quinze anos ninguém se lembra dela. E é melhor que seja assim. A escola é tão importante como as pessoas que a regem, e o que você quer é que essas pessoas sejam jovens e vitais e cheias de idéias novas. Há um homem maravilhoso que ficará no cargo por um ano. Atualmente dirige a Escola para Surdos de New York, e pediu uma licença por um ano para estudar como fazemos as coisas aqui. Esteve à frente da escola de New York durante oito anos, e considera que precisa renovar as idéias a fim de não estagnar-se. Certamente que terá ocasião de conhecê-lo. Amanhã o teremos conosco. Veio durante a semana para ambientar-se um pouco.

-Isto não acarretará muitas mudanças para os meninos?

-Não acredito. Nossa junta de diretores o aceitou, e ocupará o cargo por um ano. Matthew Dane goza de grande prestígio em nossa área. Por certo que no ano passado te dei um livro escrito por ele. Publicou três. Assim, terão algo em comum.

Daphne lembrou do livro, que lhe tinha parecido estar escrito com grande sensatez. Mas...

-Amanhã os apresentarei.

Então, esboçando um sorriso, ficou de pé.

-E se me perdoa que me mostre excessivamente maternal, direi que te faz falta uma boa noite de descanso. Parece extremamente cansada.

Daphne assentiu em silêncio, aproximou-se da Helen e fez algo que nunca tinha feito antes: rodeou-a com seus braços e a estreitou afetuosamente.

-Sentiremos sua falta, senhora Curtis.

Quando a boa mulher se separou dos braços de Daphne tinha os olhos cheios de lágrimas.

-Eu também sentirei falta de vocês. Mas virei de visita com freqüência.

Daphne se despediu dela e se dirigiu à pousada familiar, onde a senhora Obermeier a acompanhou a seu quarto e lhe deixou um recipiente térmico com chocolate quente e um prato de biscoitos.

Os habitantes da cidade tinham simpatia por Daphne; era uma celebridade que eles conheciam e uma mulher a quem respeitavam.

Alguns recordavam de John, e adoravam vê-la passear com Andrew.

Para eles, Daphne era uma mulher extremamente humana.

Estendeu-se na cama bocejando, serviu-se uma xícara de chocolate e a bebeu com uma expressão sonhadora no rosto.

De repente, estavam acontecendo muitas mudanças.

Apagou a luz e repousou a cabeça sobre o amaciado e grande traveseiro, e em cinco minutos já estava dormindo.

Nem sequer trocou de posição até que o sol começou a filtrar-se pelas janelas na amanhã seguinte.

No sábado pela manhã, depois de tomar o café da manhã na pousada, Daphne chegou à escola a tempo de presenciar como os meninos brincavam no jardim.

Andrew ria e jogava com seus amiguinhos, e quase nem se deu conta da chegada de sua mãe.

Nada de amostras de desespero nem desejos de agarrar-se à sua mãe, como Daphne sempre tinha imaginado que aconteceria quando o deixasse ali.

Agora, o menino compreendia seu modo de viver tão bem como ela, e às vezes melhor.

Ela quase se perguntava em algumas ocasiões como reagiria seu filho quando chegasse o momento de abandonar definitivamente a escola.

Ficaria muito sozinho sem a constante companhia dos outros meninos?

Isto a preocupava quando pensava no dia longínquo em que estaria preparado para voltar para casa.

Entretanto, então já seria maior, e a vida seria diferente.

Teria seus estudos e novos amigos, meninos que ouviriam, e não só de meninos como ele.

Ficou um momento contemplando, aguardando inconscientemente a chegada da senhora Curtis, para continuar a conversa da noite anterior. Mas quando voltou a vê-la, a mulher estava distraída em um bate-papo com um homem bem apessoado, alto e magro, que tinha um sorriso animado.

Daphne ficou olhando-o fixamente.

Aquele homem lhe parecia vagamente conhecido.

Naquele momento, a senhora Curtis se voltou e, ao vê-la, fez-lhe gestos para que se aproximasse.

-Daphne, queria lhe apresentar ao nosso novo diretor, Matthew Dane. Matthew, a senhorita Fields é a mãe do Andrew.

Também na escola a tratavam de senhorita, depois de ter se tornado uma escritora famosa.

Daphne estendeu a mão para saudá-lo, mas a expressão de seus olhos se tornou interrogadora.

-É um prazer conhecê-lo. Eu gostei muito de seu último livro.

Ele sorriu diante do cumprimento, e seu franco sorriso de moço lhe deu uma aparência de pessoa mais jovem; ninguém lhe teria dado quarenta anos.

-Eu adorei todos os seus.

-Você os leu? Daphne pareceu encantada e talvez assombrada, e ele pareceu achar divertido.

-Junto com uns dez milhões de leitores, imagino.

Daphne sempre se perguntava quem leria seus livros; passava horas e horas em seu escritório, criando personagens e situações, contudo era difícil imaginar que havia gente de carne e osso que lia seus livros.

Quando alguém lhe revelava tê-los lido, ela sempre se surpreendia.

O mais surpreendente de tudo era ver um desconhecido caminhando apressadamente pela rua com um de seus livros debaixo do braço.

"Ei, ouça..., este livro, eu o escrevi ...Gostou?...Quem é você?" Sorriu de novo para Matthew Dane, e seus olhos se encontraram, cheios de interrogações.

-A senhora Curtis comentou que você ficará em Howarth durante um ano. Será uma grande mudança para os meninos - disse Daphne, com uma sombra de inquietação nos olhos.

-Também será para mim.

Havia algo tranqüilizador naquele homem, que a olhava de sua considerável estatura.

Tinha um ar de adolescente, mas ao mesmo tempo emanava dele uma serena energia.

-Imagino que muitos pais estarão preocupados porque minha estadia aqui é só temporária, mas a senhora Curtis continuará a nosso lado para nos ajudar.

Dirigiu um rápido olhar à mulher, sorrindo, e logo voltou a pousar os olhos em Daphne.

-Acredito que todos saíremos beneficiados desta experiência. Temos muito que aprender uns com os outros...

Daphne assentiu.

-E existem novos programas que desejamos pôr em prática, em intercambio com a escola de New York.

Era a primeira vez que Daphne ouvia falar disto, e se mostrou intrigada.

-Um programa de intercâmbio?

-Algo assim. Como você sabe, a maioria de nossos alunos são maiores, e os daqui são pequenos. Eu e a senhora Curtis estivemos conversando sobre este particular, e acredito que poderia ser muito útil que alguns dos estudantes da escola de New York passassem algumas semanas aqui, para ver como é a vida no campo, possivelmente para estabelecer uma relação do tipo irmão maior com os meninos desta escola, e logo alguns dos pequenos poderiam ir a New York por uma ou duas semanas. Aqui levam uma vida muito isolada, e essa mudança poderia constituir uma interessante abertura para eles, sem sair de um meio que lhes é relativamente familiar. Veremos como podem desenvolver-se estas idéias.

Apareceu de novo o sorriso juvenil.

-Tenho alguns truques na manga, senhorita Fields. O importante reside em não apartar os olhos do objetivo que pretendemos alcançar para nossos meninos: incorporá-los ao mundo das pessoas dotadas do sentido do ouvido. Na escola de New York colocamos muita ênfase na leitura dos lábios por esta razão, mais que na linguagem dos sinais, porque se tiverem que ingressar no mundo dos ouvintes, tem que entender o que acontece seu redor, e apesar de haver-se criado uma nova consciência do problema, o certo é que muito pouca gente conhece essa linguagem. Não queremos condenar a estes meninos a viver só entre os que são como eles.

Era algo em que Daphne tinha pensado freqüentemente, e por isto agora olhou para Matthew quase com alívio.

Quanto antes ensinasse ao Andrew os conhecimentos práticos que o menino necessitava, antes poderia voltar para seu lar com ela.

-Eu gosto de sua teoria, senhor Dane. Por isto eu adorei seu livro. Pareceu-me muito sensato e realista e desprovido de sonhos absurdos.

-Oh - exclamou Matthew, com olhos brilhantes, - eu também  tenho alguns sonhos absurdos. Como fundar um internato para surdos e não surdos. Mas ainda falta muito para chegar a isto.

-Talvez não.

Olharam-se fixamente uns instantes, como se nascesse entre eles uma espécie de respeito mútuo, e logo os olhos de Matthew se enterneceram, como se tivesse esquecido da presença da Helen Curtis. Dois dias antes tinha visto Daphne no Conroy Show de Chicago, e tinha compreendido muitas coisas com respeito a ela que sentia sem a conhecer.

O que tinha constatado por meio do programa televisivo lhe provocava náusea como uma espécie de violação, e não desejava que ela soubesse que a tinha visto.

Não obstante, Daphne descobriu em seus olhos ao vê-lo vacilar, e também seu olhar foi eloqüente para Matthew.

-Viu-me no Conroy Show anteontem à noite, senhor Dane? -perguntou-lhe Daphne com voz baixa e triste, e com os olhos muito abertos.

Ele assentiu com a cabeça.

-Sim, vi-a. Pensei que você soube se sair bem.

Ela suspirou e meneou a cabeça.

-Foi um pesadelo.

-Não deveria lhes permitir fazer isto.

-Mas o fazem. Por isto não penso em conceder nenhuma entrevista mais, como disse à senhora Curtis ontem à noite.

-Nem todos são como Conroy, não acredita?

-A maioria é como ele. Não lhes interessa a obra que alguém faz. Querem colocar os narizes na intimidade, em seu coração, em suas vísceras, em sua alma. E se podem descobrir algo turvo, ficam encantados.

-Não havia nada de turvo nisto. Havia dor, pena e vida.

A voz do Matthew era como um quente abraço sob uma corrente de ar gelado.

-Lendo seus livros, a gente sabe mais a seu respeito do que ninguém possa lhe fazer dizer. Isto é o que desejava lhe expressar. Tenho descoberto algo sobre você em seus livros, mas ainda tenho descoberto mais coisas a respeito de mim mesmo. Eu não experimentei as perdas que você sofreu...

E em silêncio se maravilhava de como tinha conseguido sobreviver e manter-se tão íntegra.

-Mas todos nós sofremos perdas, perdas que machucam, que nos parecem as tragédias mais terríveis da terra. Eu li seu primeiro livro quando me divorciei uns anos atrás, e sua leitura atuou de uma maneira muito especial em mim. Ajudou-me a superar aquele transe.

Pareceu perturbado ao dizer isto.

-Li-o duas vezes e enviei um exemplar para minha esposa.

Aquelas palavras comoveram profundamente a Daphne.

Comprovar que seus livros significavam tanto para algumas pessoas era algo extraordinário o contemplou encantada; então olhou para Matthew Dane, para dirigir-se a ele por gestos.

-Senhor Dane, este é meu filho. Andrew, apresento-lhe o senhor Dane.

Mas quando Matthew Dane lhe falou por gestos, também o fez em voz normal, movendo cuidadosamente os lábios.

-Muito prazer em lhe conhecer, Andrew. Eu gosto de sua escola.

-Você é amigo de minha mamãe? -perguntou-lhe Andrew por gestos e com evidente curiosidade.

Matthew sorriu, dirigindo um rápido olhar a Daphne.

-Espero sê-lo. Vim visitar a senhora Curtis.

De novo lhe falou por gestos e em voz alta:

-Vou passar aqui todos os fins de semana.

Andrew o olhou com ar zombador.

-Você é muito grande para freqüentar a nossa escola.

-Sei.

-Você é professor?

-Sou o diretor de uma escola de New York, igual à senhora Curtis.

Andrew assentiu com a cabeça e, satisfeita sua curiosidade no momento, voltou-se para sua mãe, a quem abraçava, com seus loiros cabelos agitados pelo vento.

-Almoçará conosco, mamãe?

-Eu adoraria.

Cumprimentou Matthew e a senhora Curtis e seguiu Andrew ao interior da escola, enquanto o menino saltava e corria,  agitando a mão e fazendo gestos para seus amiguinhos.

Entretanto, era o novo diretor quem ocupava os pensamentos de Daphne.

Era um homem interessante.

Mais tarde voltou a vê-lo, caminhando por um corredor carregando com uma pilha de papéis.

Conforme havia dito a senhora Curtis, lia tudo que caía em suas mãos, correspondência, arquivos, informes e livros de contabilidade, e não deixava de observar os meninos.

Era muito meticuloso em seu trabalho.

-Passou um bom dia com o Andrew? Em seus olhos pardos havia interesse e ternura.

-Acho que sim. E a você parece que lhe impuseram muitos deveres.

Daphne lhe sorriu, e ele assentiu com um gesto.

-Tenho muito que aprender desta escola.

Detiveram se no corredor, e ela se fixou na amabilidade de sua voz.

-Acredito que todos nós temos muito que aprender com você.

Daphne estava intrigada pela ênfase que punha na leitura dos lábios, e tinha notado que falava com todos os meninos em voz alta ao mesmo tempo em que por gestos, e que os tratava como se pudessem ouvir.

-Por que é que você se dedica a isto, senhor Dane?

-Minha irmã nasceu surda. Éramos gêmeos. E sempre estive muito apegado a ela. O curioso é que entre os dois elaboramos nossa própria linguagem. Era uma linguagem a base de sinais muito extravagante, mas eficaz. Mas logo meus pais a puseram em uma escola - acrescentou denotando desassossego, - mas não era uma escola como esta. Era uma dessas escolas que havia trinta anos atrás, nas que alguém devia passar o resto de sua vida. Nunca aprendeu os conhecimentos práticos que necessitava, nunca lhe ensinaram nada que lhe permitisse reintegrar-se ao mundo.

Daphne não se atreveu a lhe perguntar o que tinha sido dela, mas Matthew esboçou seu sorriso carinhoso.

-Bom, foi assim que comecei nisto. Graças a minha irmã. Quando me formei, propus-lhe que fugisse da escola, e fomos viver mo México durante um ano, contando com o que eu tinha economizado trabalhando no verão como ajudante de pedreiro. Ensinei-lhe a falar, a ler nos lábios, e quando retornamos contamos a nossos pais. Ela já era maior de idade e, legalmente, podia fazer o que quisesse. Nossos pais tentaram que a declarassem incompetente, e em uma ocasião trataram de me fazer prender... Foi uma época terrível, mas minha irmã seguiu adiante.

Por fim Daphne se animou a lhe perguntar:

-Onde ela está agora?

O sorriso de Matthew ficou maior.

-Ensina na escola de New York. Ocupará meu posto enquanto eu estiver ausente este ano. Está casada e tem dois filhos; ambos ouvem perfeitamente, claro. Seu marido é médico. E é obvio agora nossos pais dizem que eles sempre souberam que minha irmã conseguiria superar suas deficiências. É uma jovem extraordinária, e você gostaria dela.

-Estou certa disto.

-Ela adora seus livros. A cara que fará quando souber que a conheci!

Daphne se ruborizou, pois lhe parecia uma tolice que uma mulher que tinha conseguido superar-se daquela maneira se deixasse impressionar pelos livros medíocres que ela escrevia.

Comparando-se com ela, depois do relato de seu irmão, Daphne se sentia muito insignificante.

-Eu gostaria de conhecê-la.

-Conhecerá. Virá à escola, e a senhora Curtis me contou que você vem aqui muito freqüentemente.

De repente, Daphne pareceu preocupada, e lhe examinou os olhos.

-Sim..., vinha...

Soltou um suspiro, e então ele indicou com um gesto as duas poltronas de um lado do vestíbulo.

-Quer sentar-se, senhorita Fields?

Estavam há quase meia hora de pé no vestíbulo, e ela assentiu com a cabeça.

-Peço lhe que me chame Daphne.

-Farei isto, se você também o fizer.

Daphne sorriu, e se sentaram.

-Algo me diz que tem algum problema - disse ele. -Posso fazer algo para lhe ajudar?

-Não sei. Eu e a senhora Curtis conversamos sobre isto ontem à noite.

-Está relacionado com o Andrew? Ela assentiu com um gesto.

-Sim. Ofereceram-me para fazer um filme em Hollywood. Isto significa que teria que passar um ano na Califórnia.

-E pensa em levar seu filho com você?

Matthew parecia contrariado, mas ela negou com a cabeça.

-Não, realmente penso que deveria deixá-lo aqui. Mas este é o problema. Andrew não poderia me ver...  Não sei se poderá suportá-lo, ou mais concretamente, não sei se deveria...

Levantou a vista para ele; seus enormes olhos azuis pousaram em Matthew.

-Na verdade, não sei o que fazer.

-É uma situação difícil. Nem tanto para o Andrew. Mas para você. Ele se adaptaria.

E com amabilidade, acrescentou:

-Eu poderia ajudá-lo. Todos o faríamos. Talvez se mostre zangado por um tempo, mas acabará por compreender. Além disso, este ano vou mantê-los muito ocupados. Penso fazer muitas excursões com eles, para que entrem em contato com o mundo tanto como seja possível. Aqui vivem um pouco isolados.

Ela assentiu. Matthew tinha razão.

-O que acharia se fosse visitá-la durante as férias?

-Acredita que poderia fazê-lo?

-Com a devida preparação. Definitivamente, este é o modo de vida que desejo para ele. O que se pretende é que seja capaz de tomar um avião, de ir de um lado a outro; que seja independente, para poder ver algo mais do mundo, e não só este lugar.

Dapnne assentiu lentamente com a cabeça.

-Mas é tão pequeno!

-Daphne, tem sete anos. Se fosse um menino normal, não vacilaria em fazê-lo tomar um avião, não é certo? Por que o tratar de maneira diferente? É um menino muito inteligente.

Enquanto o escutava, Daphne se sentia invadida por uma sensação de alívio, e os muros que tinha erguido mentalmente em torno de seu filho começaram a cair.

-E não só isto, mas também é importante para ele que você seja feliz, que a veja levar uma vida plena. Não pode agarrar-se a ele indefinidamente.

Não havia nenhuma recriminação em sua voz, só ternura e compreensão.

-Se fosse o caso, estaria somente a sete ou oito horas de vôo. Se aparecesse algum problema, lhe telefonaríamos, e de um salto estaria em Boston. Eu mesmo poderia lhe esperar no aeroporto, e em um par de horas estaria aqui. Pensando bem, não estaria muito mais longe que em New York.

Tinha uma maravilhosa maneira de resolver os problemas, de encontrar soluções, e fazer que tudo parecesse muito simples.

Agora compreendia como tinha conseguido convencer sua irmã para que abandonasse a escola e fosse com ele ao México.

Sorriu ao constatá-lo.

-Ouvindo-o tudo parece muito simples.

-Pode sê-lo; para você e para o Andrew, se propuser isto. Sua decisão deve apoiar-se no que você deseja fazer.

Um dia, ele também terá que tomar decisões, decisões independentes, decisões que lhe permitirão ser livre e forte e escolher por si mesmo, não por sua mediação.

Ensine lhe a fazê-lo o quanto antes possível. Você quer fazer um filme? Você quer ir a Hollywood durante um ano? Estas são as questões que deve ter em conta. Não Andrew.

Não deve renunciar a algo que é uma parte importante de sua vida por causa de seu filho.

Oportunidades como esta não aparecem muito freqüentemente, ou talvez sim para você. Mas se é importante para você, se é que você deseja, então faça. Diga-lhe, deixe que a idéia vá amadurecendo. Eu te ajudarei.

Daphne compreendeu que ele o faria.

-Tenho que pensar.

-Pense; podemos voltar a falar disto manhã. Deve estar preparada, pois é provável que Andrew reaja raivosamente, mas isto é o que se pode esperar de qualquer menino de sua idade se a mãe lhe diz que tem que separar-se dele. Deve compreender que a raiva e a reação são normais. Ser pai nem sempre é fácil.

Matthew lhe sorriu de novo.

-Eu fui testemunha do que minha irmã teve que passar. Ela também teve gêmeas. Suas filhas têm atualmente quatorze anos. E se lhe parece difícil brigar com um menino de sete, imagine o que deve ser quando têm o dobro desta idade, e são meninas! -Revirou os olhos. -Eu não resistiria!

-Você não tem filhos?

-Não. -Parecia lamentar-. Exceto os cento e quarenta e seis que deixarei na escola de New York em mãos de Martha, minha irmã. Minha esposa não quis ter filhos. Ela também era surda...

Daphne assentiu compreensivamente, acostumada como estava a tudo que podia chegar aquele término, que parecia pouco familiar a outras pessoas.

-Mas era muito diferente de minha irmã. Aterroriza-a pensar que seus filhos não pudessem ouvir. Tinha muitos traumas por causa de sua surdez. Ao fim, isso foi a causa de nossa separação - acrescentou dolorido.- Era modelo em New York, e era incrivelmente brilhante. Eu lhe dava aulas particulares durante algum tempo, e assim foi como nos conhecemos. Mas seus pais a tratavam como se fosse uma boneca de porcelana, e ela no teve um irmão louco como eu quando era adolescente. Fechou se em sua surdez. Ela constitui um exemplo perfeito do porque não deve tratar o Andrew de uma maneira diferente de como trataria a qualquer outro menino. Não lhe faça uma coisa semelhante, Daphne. Se o fizer, vai privá-lo de tudo que no dia de amanhã será fundamental para ele.

Guardaram silêncio uns instantes, cada um deles perdidos em seus próprios pensamentos. Matthew tinha pensado muito no caso de Daphne no decorrer da última hora.

Tinha-o feito participante de uma parte importante de sua vida, e Daphne compreendeu que tinha ganhado um amigo.

-Penso que tem razão, Matt. Mas me assusta terrivelmente deixá-lo aqui sozinho.

-Há muitas coisas na vida capazes de nos inspirar medo Mas no geral, também as coisas boas também os são. Pensa em todas boas coisas que tem feito em sua vida. Quais foram fáceis? Provavelmente, nenhuma, mas apostaria que sempre valeu a pena lutar por elas. E imagino que fazer um filme constitui um passo importante em sua carreira.

-Afinal, de que livro se trata?

-Apache.

Daphne lhe sorriu, orgulhosa de si mesma e nada envergonhada que ele percebesse isto.

-Este é meu livro favorito.

-O meu também.

Então, recolhendo sua pilha de papéis, Matthew ficou de pé.

-Ficará para jantar? -ela assentiu.

-Deverei tomar café contigo. Antes disto, vou comer um sanduíche lá em cima, assim poderei fazer os deveres.

Daphne recordou o que lhe havia dito.

As melhores coisas da vida não eram fáceis.

Ou não tinham sido para nenhum dos dois.

-Nos veremos logo, Matt.

Separaram-se ao pé dá escada, e ela ficou o observando um instante.

Ele se voltou como se pressentisse.

-E obrigado - acrescentou Daphne.

-Estou a suas ordens. Sempre lhe direi a verdade, Daphne, do que penso e do que sinto. Lembre-se quando estiver na Califórnia. Eu lhe direi como ele se encontra, e se necessitar de você, lhe avisarei. Então poderá tomar ou avião, ou eu mesmo porei o Andrew em um.

Ela assentiu, e Matthew a saudou com a mão e desapareceu no último patamar da escada.

Daphne estranhou que já desse como certo que ela que iria para a Califórnia.

Acaso lhe tinha lido os pensamentos? Como podia conhecer sua decisão antes que ela a tivesse tomado? Ou talvez ela já houvesse resolvido secretamente, e morria de vontades de partir.

Enquanto isto, não estava tão segura quando entrou na espaçosa sala de jogos para ver Andrew.

Ao vê-lo, seu coração se encolheu.

Como poderia separar-se dele? Era tão pequeno e tão tenro...

Mas nesta noite, enquanto jazia na cama da pousada, voltou a pensar em tudo isto, pesando os prós e os contra, pondo o dever, a obrigação e o amor em um prato da balança, e a fascinação, a curiosidade, a ambição e sua carreira no outro.

Era uma decisão difícil.

De repente soou o telefone; era Matthew.

Daphne se sobressaltou ao ouvir sua voz, e em seguida se perguntou se teria ocorrido algo.

-É óbvio que não. Se fosse isto quem lhe teria telefonado seria a senhora Curtis. Oficialmente, ainda não sou ou diretor, sabe, e não o serei até dentro de poucas semanas.

Estava pensando em sua decisão, e me ocorreu uma idéia.

Se ficar muito atarefada em Los Angeles em um determinado momento e não puder arrumar as coisas para que Andrew fosse te ver, poderia levá-lo para a casa de minha irmã. Teria que nos dar uma permissão especial, claro, mas estou certo que se divertiria muito. Minha irmã é um fenômeno, e suas filhas são extraordinárias. O que lhe parece?

-Não sei o que dizer-lhe, Matthew. Estou confusa,

-Não fique. No ano passado levei quarenta e três estudantes nossos para a minha casa para o jantar de Natal. Martha cozinhou, e seu marido promoveu uma partida de rugby no parque. Foi sensacional.

Daphne quis lhe dizer que ele também era, mas não se atreveu.

-Não sei como lhe agradecer por isto

-Não tem nada que agradecer. Só confie em mim e deixe  Andrew em minhas mãos.

Daphne ficou em silêncio por alguns segundos; era tarde, e Matthew tinha sido muito franco com ela. Desejava, pois, ser também com ele.

-Matt, é muito penoso para mim o deixar... Ele é tudo que tenho na vida.

-Sei. Ou pelo menos, imaginava - disse ele com voz muito doce. Andrew ficará bem, e você também.

Enquanto o escutava, Daphne se convenceu disto, e finalmente tomou a decisão.

-Creio que vou aceitar a oferta.

-Parece muito certo.

Suas palavras contribuíam para ser mais fácil o fato de ter tomado aquela decisão, e de repente lhe pareceu surpreendente que o tivesse conhecido naquela mesma manhã e já confiasse em seu julgamento, até o extremo de deixar seu filho em suas mãos.

-Quando voltar a New York, eu a apresentarei para minha irmã. Possivelmente você gostaria de vir aqui na próxima semana para conhecê-la, se é que dispõe de tempo.

-Encontrarei o tempo.

-Magnífico. Verei você pela manhã. E parabéns.

-Por quê?

-Por ter tomado uma decisão tão difícil. Além disto, eu tenho um motivo egoísta em tudo isto. Quero ver meu livro favorito convertido em um filme.

Daphne pôs-se a rir, e logo concordou.

Nesta noite, por fim, pôde dormir tranquilamente.

-Sei que parece muito tempo, querido, mas poderá ir me visitar durante as férias, e nos divertiremos muito na Califórnia; além disso, prometo vir te ver...

Daphne se desesperava para expressar-se por gestos, mas Andrew se negava a olhar para ela.

Tinha os olhos cheios de lágrimas.

-Andrew..., querido..., peço-lhe isto...

Também seus olhos se umedeceram, enquanto brigava para manter seu filho ao seu lado, no jardim da escola.

O menino se virou de costas, com os ombros caídos e a cabeça baixa, sacudido pelos soluços; e quando sua mãe quis puxá-lo brandamente para ela, começou a proferir uns horríveis sons guturais, e Daphne sentiu como se o coração se partisse.

-Oh, Andrew..., meu amor..., quanto eu sinto.

Oh, Deus, não podia fazer isto. Não podia fazer uma coisa semelhante a seu filho.

"Ele se adaptará", diziam-lhe.

Demônios,era como pretender que se adaptasse a uma nova vida depois de ter sofrido uma dupla amputação.

E por que ele tinha que fazer isto? Só porque tinha ocorrido a ela que desejava fazer um filme?

Daphne se sentiu má e egoísta, detestando a si mesma por ter tomado aquela decisão e pelo dano que evidentemente estava lhe causando.

Não podia fazer isto a seu filho.

O menino precisava dela consigo desesperadamente.

Depois de tudo...

Tentou pegá-lo em seus braços, mas Andrew não permitiu, e ela ficou olhando-o cheia de desânimo, quando Matthew Dane surgiu.

Ele os observou por uns instantes, sem dizer nada, e pela expressão de Andrew compreendeu imediatamente que Daphne lhe havia dito.

Aproximou-se lentamente deles e olhou para Daphne com um sorriso cálido.

-Vai passar logo, Daphne. Lembre-se do que eu lhe disse. Qualquer menino teria reagido assim, inclusive um menino dotado do sentido da audição.

-Mas ele não é dotado deste sentido - replicou Daphne, fulminando-o com um olhar e com voz cortante. - Ele é  especial.

Quis adicionar: "Maldito seja!", mas não o fez.

Tinha a certeza de que Matthew errou ao julgar a situação, que lhe havia dado um mau conselho a respeito de seu filho, e ela tinha cometido um engano ao escutá-lo.

Inclusive tinha sido um engano considerar sequer a possibilidade de mudar-se para o oeste por um ano.

Enquanto isto, Matthew não parecia disposto a desistir de sua primeira opinião, nem mesmo agora.

-É óbvio que é especial; todas as crianças são. É especial, mas não diferente. O que você pretende dizer é que Andrew é diferente. Não deve abonar seu defeito, Daphne. Isto não lhe fará nenhum bem. Qualquer menino de sete anos se mostraria contrariado ao saber que sua mãe vai para longe dele. Isto é normal. Outros pais se encontram em situações a que seus filhos devem se adaptar, situações causadas pelo nascimento de um irmãozinho, por um divórcio, uma morte, uma mudança, por problemas financeiros.

Não pode ficar criando eternamente um mundo perfeito para ele.

Seria impossível mantê-lo para sempre, e logo seria prejudicial para Andrew.

Além disso, pode realmente mantê-lo? Deseja fazê-lo?

Daphne quis gritar que ele não compreendia nada, e muito menos a responsabilidade que ela tinha para com seu filho.

Matthew a olhou nos olhos e, ao adivinhar o que estava pensando, sorriu-lhe.

-Está bem, adiante, me odeie. Mas o que lhe digo é certo. Se mantiver firme sua decisão, verá como lhe passa.

Então ambos se deram conta que Andrew os estava observando, e lia seus lábios.

Daphne se voltou para seu filho com uma expressão dolorida no olhar.

Desta vez lhe falou em voz alta assim como por gestos.

-Tampouco me sinto feliz com esta separação, meu amor. Mas acho que para mim é importante aceitar esta proposta.

Quero ir para Hollywood para fazer um filme baseado em um de meus livros.

-Por quê? –perguntou o menino por gestos.

-Porque será muito emocionante e é conveniente para minha carreira.

Como explicar a um menino de sete anos as exigências que impõe a execução do triunfo em uma carreira de toda sua vida?

-Prometo que você irá me visitar, e eu também voltarei para lhe ver. Não poderei vir todas as semanas, mas isto não durará para sempre...

Sua voz falhou, e então apareceu um brilho de interesse nos olhos do menino.

-Poderia ir de avião? Ela assentiu com a cabeça.

-Sim. Em um avião muito grande.

Isto pareceu despertar ainda mais seu interesse.

Logo baixou os olhos e deu um chute no chão.

Quando voltou a erguer os olhos, Daphne não estava certa do que acontecia na mente de seu filho, mas era evidente que não parecia tão desconsolado como momentos antes.

-Poderíamos ir a Disneylândia?

-Claro. -Daphne sorriu. -Poderemos fazer muitas outras coisas e até poderá ver como fazem um filme.

De repente, ajoelhou-se junto a ele e o tomou entre seus braços um instante antes de separar—se para que ele pudesse ver seus lábios de novo.

-Oh, Andrew, sentirei muito sua falta. Eu o amo com todo meu coração, e assim que terminar meu trabalho na Califórnia, eu voltarei e ficarei aqui, prometo-lhe isto.

E o senhor Dane diz que o levará a New York para que conheça sua irmã e as filhas dela...

-Possivelmente se nos mantivermos muito ocupados, e estudarmos tudo que possamos, o tempo passará mais rápido...

Isto era o que ela também desejava.

Queria que tudo já tivesse passado.

No fundo de seu coração não queria separar-se dele, mas compreendia que devia fazê-lo.

Por ela mesma.

Era a primeira vez em muitos anos que faria algo que desejava com toda sua alma, mesmo não sendo fácil.

De repente recordou tudo o que Matt havia dito na noite anterior.

As boas coisas da vida não eram fáceis, nem para ela nem para Andrew.

Algo na expressão do menino lhe dizia que embora não gostasse que ela fosse, estaria bem e não sofreria.

-Andrew, sabe... Quanto te amo? Daphne o observou, perguntando-se se lembraria do jogo que praticavam freqüentemente quando era menor.

-Quanto? -perguntou-lhe o menino por gestos.

Nos olhos do Daphne brilharam umas lágrimas que não chegaram a cair, ao comprovar que ele se recordava.

Abriu muito os braços e disse:

-Assim.

Logo o abraçou com força e murmurou apoiando os lábios em seus cabelos:

-Tanto como a minha própria vida.

Matthew os deixou sozinhos, e eles passaram uma hora tranqüila juntos, conversando de coisas que eram importantes para Andrew, sobre a viagem de sua mãe e que retornaria logo.

Contou que só iria dentro de um mês e que enquanto isto o visitaria com freqüência.

Logo falaram de quando ele fosse para a Califórnia, das coisas que fariam e como aproveitariam.

-Você vai me escrever? Os olhos de Andrew procuraram os de sua mãe com tristeza, e de novo ela sentiu uma pontada em seu coração.

Andrew era ainda muito pequeno, e a Califórnia para ele parecia como se estivesse em outro planeta.

-Sim. Prometo lhe escrever todos os dias. E você, vai me escrever? Mas desta vez o menino lhe sorriu.

-Tentarei me lembrar - respondeu brincando, e o coração de Daphne se aliviou.

Quando nesta noite retornou a New York, sentia-se como se tivesse escalado uma montanha.

Esvaziou a mala e começou a andar acima e abaixo pelo apartamento.

Finalmente seus pensamentos se afastaram de Andrew enquanto contemplava pela janela as brilhantes luzes de Manhattan.

De repente, sentiu-se exaltada pelo que fazia, e pela primeira vez em três anos teve consciência da realidade de sua carreira.

Iria para a Califórnia para levar Apache às telas! Bruscamente, sorriu e pôs-se a rir...

Realmente tinha conseguido!

-Aleluia! -murmurou baixinho.

Então se dirigiu ao seu quarto, deitou-se e apagou as luzes.

-Bem, menina - disse Daphne a Barbara sorrindo quando esta chegou na manhã seguinte. -Será melhor que se sente.

-O que aconteceu?

-Nós iremos.

Barbara ficou espantada.

-Para onde?

-Para a Califórnia, boba.

-Vamos fazer isto, Daff? Barbara não saía de seu assombro.

-Com certeza.

-E o que me diz do Andrew? Detestava perguntar lhe, mas tinha que fazê-lo.

-Contei-lhe neste fim de semana, e a princípio não pareceu muito contente, mas acredito que ambos conseguiremos sobreviver.

Então lhe contou aquilo que a senhora Curtis lhe havia dito e do novo diretor da escola.

-Andrew irá me ver, e eu voltarei para visitá-lo sempre que puder. Além disso, Matthew diz que o trará para New York, para visitar e escola para surdos e visitar sua irmã...

Sua voz se apagou, sufocada por um acesso de risada ao ver a confusão que aparecia no rosto de Barbara.

-É o novo diretor de Howarth.

-Matthew? Nossa, que confiança! -exclamou Barbara com olhos zombeteiros. -Devo pressentir a presença de um homem atraente?

-Muito atraente, como amigo, senhorita Jarvis, nada mais, eu asseguro.

-Bobagens! Você falou dele se fosse um deus. E diz que vai trazer o Andrew para visitar sua irmã? Demônios, se nem sequer me deixou conhecer o menino, e agora o confia a um desconhecido? Este indivíduo deve ser realmente extraordinário, Daff, ou você não permitiria que fizesse uma coisa semelhante.

-Tem razão, é extraordinário, e o ser humano mais inteligente e capaz que conheci no campo do ensino de pessoas com problemas auditivos, mas isto não significa que esteja interessada nele como homem, em nome de Deus.

Daphne ainda estava rindo.

-Por que não? É feio por acaso?

-Não - respondeu Daphne sem deixar de rir.

-Na realidade é muito bonito. Mas não se trata disto. Vamos falar de nós.

-Nós? Barbara continuava confusa. Tudo parecia assombrá-la nesta manhã.

-Quero que venha comigo.

-Está brincando? -sentou-se, com um pacote de correspondência de admiradores nas mãos.

-O que eu faria lá?

-Dirigiria minha vida, tal como faz aqui - respondeu Daphne sorrindo.

-Isto é o que eu faço? -Barbara lhe devolveu o sorriso.

-Dirijo sua vida? Imaginava que servia para algo mais que responder às cartas de seus fãs.

-Sabe muito bem para que serve.

Barbara sabia que era imprescindível para Daphne, e o muito que esta a amava.

Por sua parte, ela não podia esquecer que tinha sido Daphne quem a ajudou a liberar-se de sua antiga vida.

-Bem, virá comigo?

-Quando fazemos a malas? Amanhã parece muito tarde? Barbara estava radiante de alegria, e Daphne riu dela.

-Acredito que poderá esperar algumas semanas.

Primeiro temos que organizar as coisas aqui, e quero que esta tarde me acompanhe para ver Íris McCarthy, para que ouça do que se trata junto comigo. Penso que poderemos viajar no próximo mês. Assim teremos tempo de deixar tudo arrumado.

-O que pensa em fazer com o apartamento?

-Deixá-lo tal como está. Eu o usarei quando visitar o Andrew, e a Comstock pagará o aluguel de uma casa em Los Angeles, de maneira que os gastos não se duplicarão. Além disto, não quero que nenhum estranho durma em minha cama.

Fez uma careta, e Barbara pôs-se a rir maliciosamente.

-Ouça, acredito que não seria tão ruim, de vez em quando...

As duas mulheres trocaram um sorriso.

À tarde foram juntas ver a agente de Daphne, depois que Daphne levou Barbara para almoçar ano Plaza, onde brindaram à costa do Pacífico e à Comstock.

Tudo começava a se tornar emocionante.

Quando saíram do escritório de Íris às quatro e meia, Daphne mal podia esperar o momento de partir.

No táxi que as levava de volta ao apartamento, voltou-se nervosamente para Bárbara com o cenho franzido.

-Seriamente acredita que poderei fazê-lo, Barb? Diabos, quero dizer que não tenho a menor idéia de como se escreve um roteiro.

-Você saberá arrumar isto. Não deve ser muito diferente de um livro. Toca de ouvido, e eles lhe dirão o que querem.

-Assim espero - disse Daphne, sentindo um nó na boca do estômago, enquanto Barbara lhe batia na mão.

Na semana seguinte voltou a visitar Andrew.

Então o menino parecia ter se habituado à idéia de separar-se de sua mãe por um tempo.

Só protestou uma vez e sem muita convicção; o resto do tempo não fez mais que falar da Disneylândia e do filme, e se mostrava contente e feliz.

Daphne ficou assombrada com a rapidez com que tinha aceitado a nova situação.

As crianças eram realmente surpreendentes, pensou, e comentou para Matthew quando tornou a vê-lo, na hora de jantar, no refeitório da escola.

-Lembra que já lhe disse isto, Daphne? Ele sorriu quando terminavam de jantar, e ela fez uma careta.

Nesta semana ela também parecia contente e feliz, e muito mais jovem, com a loira cabeleira solta sobre os ombros, vestindo jeans e uma camisa de vaqueiro cáqui.

-Talvez, de modo que ande com cuidado.

-Olhe como tremo.

Falavam com ar zombador, e parecia ter se estabelecido uma agradável relação entre eles.

Matthew lhe contou o que tinha acontecido na escola de New York durante a semana, e ela explicou-lhe os planos preliminares para a realização do filme.

O tempo parecia voar enquanto conversavam, e Helen Curtis os deixou sozinhos depois do jantar, dizendo que tinha trabalho que fazer; e parecia que, para variar, Matthew estava ocioso.

-Não sei como você acerta em escrever estes livros tal como o faz, Daphne.

Matthew esticou as pernas para o fogo na acolhedora sala de estar da escola, depois que os meninos se deitaram.

Daphne não tinha vontades de partir para a pousada, e  além disto ainda era cedo.

Por outra parte, estava em boa companhia, e Matthew lhe agradava.

Dava gosto conversar com ele, e ela percebeu que tinham muito em comum. Andrew e o interesse que ele demostrava por suas obras os unia.

-Realmente não sei como faz.

Matthew pensava em Apache, e ela o olhou divertida.

-Como pode dizer isto? Você já escreveu três livros.

-Mas os meus não são romances, e sim, sobre um tema que me absorve as vinte e quatro horas do dia, quando como, quando durmo e até quando respiro. Isto não tem muito mérito - acrescentou com um sorriso.

-Pois me parece muito mais difícil do que eu faço. Deve ser muito preciso na exposição, e com estes livros ajuda a muitas pessoas, Matthew. Os meus narram histórias inventadas, e só o que fazem é entreter as pessoas.

Daphne sempre era modesta ao falar de sua obra, e Matthew gostava desta qualidade.

Falando com ela, ninguém teria adivinhado que era uma das escritoras mais lidas do país.

Era uma mulher brilhante, inteligente e divertida, e não fazia alarde de seus méritos.

-Está equivocada, Daphne. Seus livros fazem muito mais que entreter. Como lhe disse, um de seus romances me ajudou grandemente, e todas me proporcionaram um ensinamento... -ficou pensativo uns instantes. -A respeito das pessoas..., de suas relações..., das mulheres. Olhou-a com interesse. -Como sabe tanto sobre a natureza humana, levando uma vida tão solitária?

-O que o faz pensar assim?  Que levo uma vida solitária, quero dizer.

Daphne pareceu achar divertida a pergunta.

-Você mesma me disse isto a semana passada.

-Seriamente? –encolheu os ombros e sorriu-. Falo muito. Bom, suponho que não sobra tempo para nenhuma outra coisa.

Trabalho como um cão toda a semana, e logo tenho Andrew...

Matt a olhou com desaprovação um instante, e logo sua expressão se suavizou sob o resplendor do fogo.

-Não o use como desculpa.

Daphne o olhou com franqueza.

-Geralmente, não o faço. -E com um sorriso, adicionou:  -Só quando alguém me põe em um apuro, como você está fazendo.

-Sinto muito. Não era minha intenção...

-Claro era. O que me diz de você? Acaso a sua é uma vida plena?

-Às vezes – respondeu ele, evitando a questão. -Durante longo tempo tive medo de me envolver em uma relação sentimental, por causa da experiência com minha esposa.

-E agora? Parecia estranho interrogá-lo daquela maneira, como se fossem velhos amigos, mas Matthew era tão acessível e tranqüilo que não lhe parecia embaraçoso falar com ele.

Ela tinha a impressão de que se conheciam desde há muitos anos, e era como se estivessem em uma ilha deserta, de maneira que o resto do mundo não contava.

Sentados sozinhos diante do fogo, sentiam-se naturais um com o outro, e cada um sentia a curiosidade de saber o que interessava ao outro.

-Não sei... Não tenho muito tempo para manter uma relação formal atualmente. Tenho muitas preocupações de ordem profissional. -Voltou a sorrir-. E suponho que não encontrarei a mulher de minha vida durante o próximo ano, por estarrm um lugasr tão ermo.

-Nunca se sabe. Possivelmente a senhora Obermeier resolva separar-se de seu marido.

Ambos riram com a possibilidade, e Matthew a olhou atentamente por uns segundos com expressão grave.

Por Helen Curtis soubera do acontecido com John Fowler, mas não estava certo de poder abordar aquele assunto com ela ou se era um tabu.

-Alguma vez sentiu desejo de tentar de novo, Daphne?

Suspeitava que estivesse muito sozinha, e assim mesmo não parecia desejar a aproximação a outro homem; pelo menos, tinha a certeza de que isto não era de seu interesse.

Havia uma serenidade nela que recordava sua irmã, e sua afeição se encontrava nela mesma.

Dava a impressão de que se esquecera de que era mulher, e não queria recordar de novo.

Era evidente que tinha sido profundamente machucada.

Enquanto a contemplava sob o resplendor das brasas, Matthew descobriu em seus olhos uma tristeza infinita, e compreendeu que as coisas que ela sabia nunca lhe seriam confessadas.

-Não, não desejo tentar de novo, Matt. Já tive tudo que queria. Em duas ocasiões, por certo.

Daphne se surpreendeu com a facilidade com que lhe tinha escapado aquele segredo.

-Não seria justo pedir mais; seria estúpido..., e egoísta..., e uma grande tolice. Pensei que jamais voltaria a encontrar o que já tive uma vez, com meu marido, e então  conheci outra pessoa. Foi muito diferente, muito especial. Estive unida a dois homens extraordinários em minha vida, Matt. Não poderia pedir mais.

De modo que estava disposta a falar de Fowler.

-E então renuncia a isto? E o que fará durante os próximos cinqüenta ou sessenta anos?

A perspectiva de sua solidão o deprimia. Daphne merecia algo mais..., muito mais...

Merecia a companhia de um ser maravilhoso que a amasse.

Era muito boa, forte, jovem e inteligente para passar o resto de sua vida sozinha.

Ela, porém, sorriu filosoficamente.

-Não tenho nenhuma dificuldade em me manter ocupada. E um dia, quando menos pensar Andrew voltará para casa...

-Está usando-o de novo como uma desculpa - atalhou ele em um tom mais amável, menos reprovador. -Quando for maior será um moço extraordinário e totalmente independente. De maneira que não continue baseando sua vida nele.

-Não o faço, mas devo reconhecer que penso muito no momento de tê-lo de volta em casa.

Matthew sorriu sob a luz fraca do fogo.

-Este será um dia maravilhoso para ambos, Daphne, e não está muito longe.

Ela soltou um leve suspiro.

-Tomara soubesse com certeza. Às vezes tudo isto parece que durará indefinidamente.

Os olhos de Matthew pareceram perder-se em uma lembrança longínqua, como se pensasse nos anos que esteve separado de sua irmã quando era jovem.

-Isto mesmo eu estava acostumado a sentir a respeito de Martha. Ela esteve por quinze anos longe de casa, e não era um lugar como Howarth. Foi terrível para ela. Graças a Deus, já não existem lugares como aquele.

Daphne assentiu em silêncio e, ao final de um momento, ficaram de pé e resolveram que era hora de se despedir.

-Eu adoro conversar com você, Daphne.

Olhava-a com ternura enquanto a acompanhava até a porta, e então disse algo inesperado, que encheu a ambos de perplexidade.

Matthew não tinha intenção de dizer, mas não pode evitar.

-Andrew não é o único que sentirá sua falta no próximo ano.

Se o vestíbulo estivesse mais iluminado, ele veria que Daphne ruborizava; mas não estava, e ela estendeu sua frágil e miúda mão.

Ele a estreitou com a sua e a reteve por uns momentos.

-Obrigado, Matthew. Estou contente de saber que você estará aqui com o Andrew. Telefonarei a cada momento para saber como vai e ou que ele faz.

Matthew assentiu com a cabeça, sentindo-se só ligeiramente contrariado.

Mas não tinha direito a esperar mais.

Ele era só o diretor da escola onde seu filho estudava.

Nada mais.

Além disto, sabia como vida de Daphne era solitária, e algo lhe dizia que ela não faria nada para mudá-la.

Era uma mulher com uma grande tenacidade, que se ocultava atrás de muros sólidos.

-Não deixe de fazê-lo. Telefone quantas vezes quiser. Estarei aqui.

Então ela sorriu e se foi com um simples "boa noite", dito em voz baixa.

Enquanto retornava para a pousada dirigindo devagar, Daphne pensava em Matthew.

Era um homem encantador, e era uma sorte poder tê-lo na escola de Howarth.

Não obstante, teve que adimitir, muito para si mesma, que sentia algo mais por ele; um interesse vago, mas profundo, que a consumia, como se desejasse saber tudo sobre ele e passar horas e horas intermináveis conversando a respeito de mil coisas.

Não tinha experimentado nada semelhante desde que conhecera John Fowler, mas também estava certa de que não se deixaria levar de novo por aquele sentimento.

Nem com Matthew nem com qualquer outro homem.

Duas perdas eram suficientes.

Matthew Dane seria uma pessoa importante para ela, na vida de Andrew, por tudo o que poderia ensinar a seu filho a fim de que pudesse incorporar-se ao mundo das pessoas dotadas do sentido da audição.

Mas este seria o único papel que teria em sua vida; estava convencida disto, por mais que gostasse dele.

Estas coisas já não importavam, nem permitiria que fosse de outra maneira.

Era suficiente ter amado e perdido; não tinha desejo algum de voltar a amar desta forma.

Jamais.

Entretanto, era tão fácil imaginar que amava Matthew Dane! Era um homem admirável, simpático, capaz de inspirar amor.

Mas precisamente por esta razão devia manter-se em guarda.

Para estar segura de que estava a salvo.

Agora todo seu amor, todo seu sentimento, todo instante e todo pensamento eram para Andrew.

Ela vivia exclusivamente para ele.

E talvez um pouquinho para si mesma.

A viagem para a Califórnia era o primeiro sintoma disto.

A única coisa que Daphne deveria fazer na última sexta-feira que passava em Nova Iorque era fechar seu apartamento.

Tinha embalado todas suas coisas.

As malas aguardavam no vestíbulo, tudo estava preparado, e só faltava passar o último fim de semana com Andrew.

Voltaria no domingo de noite, deixaria o carro na garagem e tomaria o avião para Los Angeles em companhia de Barbara na segunda-feira de manhã.

Conforme o combinado, elas ficariam hospedadas no Beverly Hills Hotel, em uma suíte, até que encontrassem uma casa confortável e conveniente, e no final de uma semana de sua chegada a Los Angeles, teria que começar a trabalhar no roteiro.

De acordo com o contrato, dispunha de dois meses para terminar, e isto já estava lhe causando insônia.

Não deixou de pensar nisto durante todo o caminho até New Hampshire, e quando se instalou na pousada ficou tomando notas até altas horas da noite.

Passou a manhã seguinte com o Andrew, e como de costume almoçou em sua companhia, não saiu de seu lado por toda a tarde, nem na hora do jantar, e só então viu Matthew,que parecia tão cansado como ela se sentia.

-Diria que você teve uma semana dura - disse Daphne sorrindo, na hora do café.

Ele passou a mão nos cabelos castanhos e soltou um grunhido.

-Oh, Deus, e como foi! Quatro crises na escola de New York desde segunda-feira, e este é o último fim de semana que passo aqui como observador. Assumo oficialmente o cargo na próxima sexta-feira. A senhora Curtis partirá definitivamente na segunda-feira seguinte pela manhã, e se até então não sofrer um ataque de nervos, me darei por satisfeito.

-Bem vindo ao clube. Eu disponho de dois meses para escrever um roteiro, e já estou começando a sentir pânico.

Não tenho nem idéia do que estou fazendo, e cada vez que me sento diante de uma folha de papel, minha mente fica em branco.

Matthew sorriu ante aquela imagem, identificando-se com ela.

-Isto costumava me acontecer cada vez que chegava ao limite de tempo para terminar um livro. Mas, finalmente, preso de desespero, tirava forças da fraqueza para superar o problema. Você também o fará.

Provavelmente quando chegar a Los Angeles, tudo andará nos trilhos.

-Primeiro tenho que procurar uma casa.

-Onde se hospedará enquanto isto?

-Deixei com a senhora Curtis todos meus números de telefone. Estarei no Beverly Hills Hotel até encontrar casa.

Matthew revirou os olhos e tentou sentir pena dela sem muito êxito.

-Que vida dura, senhora!

-Sim, não é verdade? –respondeu ela com uma careta.

Só ficou conversando com ele uns instantes no vestíbulo antes de voltar para a pousada.

Matthew tinha que conversar com a senhora Curtis durante aquele último fim de semana, antes de instalar-se na escola de forma permanente, e Daphne estava exausta com o cansativo trabalho da longa semana.

Na manhã seguinte, como de costume, foi à igreja com Andrew, e voltou para a escola para passar o dia com ele.

Agora cada instante que compartilhava com seu filho era um instante precioso.

O menino se agarrava a ela mais que de costume, mas isto era de se esperar.

E ela sentia uma grande necessidade de estar tão perto dele quanto era possível, para o tocar, acariciar, abraçar, sentir seus cabelos deslizando entre os dedos a fim de poder recordar seu sedoso contato quando se encontrasse longe dele, sentir o aroma do sabonete em sua pele infantil quando se abraçavam.

Tudo nele se tornava muito mais especial agora, e de certo modo mais amado.

Aquele foi o fim de semana mais doloroso, e Matthew, pressentindo isto, procurou manter-se afastado deles.

Só quando Daphne se dispunha a partir, se aproximou de novo, observando com muda compreensão como abraçava seu filho, desejando juntar-se ao abraço quando viu aparecer as primeiras lágrimas nos olhos de Daphne.

Sabia que aquela despedida não seria fácil para nenhum deles.

Entretanto, Andrew se recuperaria mais rapidamente.

Era Daphne quem sofreria mais, preocupada com o menino, sem conseguir tirá-lo de seus pensamentos em nenhum momento, perguntando-se como estaria e desejando tê-lo junto a ela quando estivesse longe.

-Como vai isto? -disse por cima da cabeça de Andrew, fingindo não ter visto as lágrimas de Daphne.

-Dentro de umas horas ele se tranqüilizará, Daphne, por mais que chore quando você se for.

Ela assentiu com a cabeça, enquanto um soluço lhe subia na garganta, e então soltou um profundo suspiro.

-Sei. Ele estará bem, mas e eu, poderei resistir?

-Sim, poderá. Prometo-lhe isto. –Matthew tocou-a ligeiramente no braço. -E pode me telefonar quando quiser. Darei as últimas informações e a porei a par de seus progressos.

-Obrigado.

Daphne sorriu através das lágrimas e acariciou a cabeça de seu filho com ternura; então se inclinou para dizer a Andrew que era a hora de deitar-se.

Nesta noite ficou longo tempo junto a sua cama, falando-lhe da Califórnia, do muito que se divertiriam e de quanto sentiria falta dele.

Então, tristemente, proferindo aquele estranho som que sempre lançava quando estava triste, Andrew começou a chorar; ela estendeu os braços e o estreitou com força, e lhe disse por gestos:

-Vou sentir sua falta.

-Eu também.

As lágrimas corriam pelo rosto de Daphne.

Possivelmente era conveniente que o menino a visse chorar, pois assim compreenderia o muito que o amava.

-Mas nos veremos muito em breve.

Sorriu-lhe sem deixar de chorar, e por fim, o menino lhe sorriu também.

Daphne permaneceu a seu lado até que adormeceu.

Então desceu como se tivesse perdido seu melhor amigo, e encontrou Matthew que a estava esperando sentado em uma poltrona ao pé da escada.

-Ele dormiu?

-Sim.

Nos enormes olhos de Daphne se refletia uma grande tristeza, e nem sequer se esforçou em sorrir.

Sem dizer nada mais, Matthew a seguiu até a porta. Ela já se despedira da senhora Curtis antes de acompanhar o menino para a cama, pagara a conta da pousada e colocado a maleta no carro, por isto só faltava partir.

Como pressentindo que não tinha vontade de falar, Matthew a acompanhou até o automóvel.

Depois de abrir a porta, Daphne se voltou para ele, e Matthew então segurou seus ombros com as duas mãos.

-Nós também o amamos e cuidaremos muito dele, prometo-lhe isto.

Sempre o tinham feito antes, mas agora seria diferente, porque ela se acharia muito longe.

Tudo era mais doloroso que nos anos passados e ela tinha a sensação de haver envelhecido milhares de anos quando fixou o olhar nos olhos castanhos de Matthew.

-Sei. - Tinha sido testemunha de tantas perdas em sua vida, de tantas pessoas amadas... Agora o único que restava era aquele menino. - Não sirvo para isto, apesar de que já deveria ter me acostumado. Passei a vida me despedindo.

Matthew assentiu, pois ela parecia levar tudo escrito nos olhos.

-Isto é diferente, Daphne. Este é o momento mais difícil. Um ano agora parece uma eternidade, mas não é.

Ela sorriu.

Que estranha era a vida!

-Quando eu retornar, você terá passado um ano aqui, e estará se prepararando para partir.

-E todos nós teremos aprendido muitas coisas. Pense nisto.

As lágrimas brotaram de novo enquanto ela meneava a cabeça.

-Não posso... Só posso pensar na expressão de seu rosto na primeira vez que o trouxe para esta escola.

-Desde então já passou muito tempo, Daphne.

Ela assentiu.

Aquele tinha sido no começo do ano que viveu com John.

Por que tinha que terminar sempre com um adeus? Matthew então se inclinou e lhe deu um beijo no rosto.

-Boa sorte. E me telefone.

-Telefonarei.

Daphne ficou olhando-o de novo e por um momento teve o desatinado impulso de aconchegar-se em seus braços, para sentir-se segura como em outras ocasiões havia se sentido, quando não tinha que armar-se de cuidado todo o tempo.

-Cuide-se..., e cuida do Andrew também. -Entrou no carro e levantou os olhos para Matthew através do vidro aberto. -Obrigado por tudo, Matt. E boa sorte.

-Precisarei. - Em seu rosto apareceu o sorriso juvenil. -E você faça um formidável roteiro. Sei que o fará.

Ela sorriu e deu partida no carro, e enquanto se afastava agitou a mão para corresponder à saudação de Matthew.

Quando ela se perdeu na noite, ele ainda permaneceu ali de pé durante um longo, longo momento.

O avião aterrissou em Los Angeles com uma ligeira sacudida e deslizou pela pista até deter-se e taxiar para a porta de desembarque.

Barbara olhava emocionada pela janela, e Daphne sorriu.

Viajar com ela tinha sido como viajar com uma menina.

Tudo a fascinava, e tinha se mostrado excitada de New York até Los Angeles.

Daphne tinha se mantido mais calada que o habitual, e já tinha escrito três cartões para Andrew.

Agora seus pensamentos já não se concentravam nele.

Tinha consciência de que estava a ponto de iniciar uma nova vida.

Na saída foram recebidas pelo chofer que o Comstock tinha contratado para ela, um homem alto, de aspecto doentio e idade indeterminável, com traje negro e boina, e um longo bigode que acentuava o ar de tristeza de seu rosto.

Sustentava em suas mãos um cartão grande com o nome dela escrito com tinta vermelha: "Daphne Fields"

-Que sutileza! -exclamou Daphne, olhando para Barbara, divertida.

Sua secretária fez uma careta.

-Isto é Hollywood, Daff. Nada é sutil aqui.

Aquela acabou sendo uma sentença profética, como puderam comprovar ao chegar ao Beverly Hills Hotel.

Este se erguia com todo o esplendor que lhe outorgava o estuque rosado, rodeado de palmeiras, com o nome pintado na frente com brilhantes letras verdes.

No vestíbulo imperava o caos; as mulheres andavam em excesso de um lado a outro usando jeans apertados, correntes de ouro, blusas de seda, loiras cabeleiras e sandálias de saltos altos; os homens vestiam caros trajes italianos, ou calças ajustadas e camisas abertas até a cintura.

O aroma que flutuava no hotel era uma verdadeira sinfonia de perfumes caros; os carregadores se requebravam sob o peso de volumosos arranjos florais ou de pesadas malas Gucci, e o registro do hotel parecia a lista de prêmios da Academia.

-Senhorita Fields? Claro. Sua suíte está preparada.

Um carregador empurrava com ar solene o carrinho de mão carregado com sua bagagem entre as estrelas e os supostos produtores que se espalhavam ao redor da piscina, enquanto Daphne ficava fascinada diante do espetáculo que ofereciam aqueles corpos, também adornados com mais correntes de ouro, e ao observar que todo mundo bebia martinis ou vinho branco em pleno dia.

A "suite"  acabou tendo quatro dormitórios, três banheiros, uma geladeira provida de caviar e champanhe, e com uma vista de mais palmeiras; havia também um arranjo de rosas e uma caixa de bombons de parte da Comstock, com um cartão que dizia: " Nos veremos amanhã".

Então, de repente, Daphne se voltou para Barbara com expressão de terror.

-Não posso fazer isto - exclamou com voz tensa.

O carregador acabava de sair, e elas ficaram plantadas na enorme e floreada sala de estar de sua suíte.

Daphne tinha os olhos tão abertos como Barbara jamais os tinha visto.

-Barb, não posso.

-O que? Comer bombons? Brincar era a única esperança que restava a Barbara, pois era evidente que Daphne estava tomada de pânico.

-Não. Olhe tudo isto. É Hollywood. Que demônios estou fazendo aqui? Eu sou escritora. Não conheço absolutamente nada de tudo isto.

-Nem precisa conhecer. Tudo o que tem que fazer é se sentar diante de sua máquina de escrever e fazer o mesmo que fazia em casa. Esqueça todas estas tolices. É somente o cenário de uma vitrine.

-Não, não é. Não viu todos aí fora? Eles acreditam que é verdadeiro.

-Pelo amor do Deus, isto é um hotel. São todos de Saint Louis. Tranqüilize-se.

Barbara se serviu de uma taça de champanha, e Daphne sentou-se em sofá estampado de flores rosadas e verdes, com a expressão de uma menina órfã.

-Quero voltar para casa.

-Bom, pois eu não permitirei isto. Então, cale-se e aproveite a vida. Diabos, ainda não vi a Rodeo Drive.

Daphne sorriu, recordando a vida que Barbara tinha levado com sua mãe.

Havia uma distância enorme de tudo aquilo.

-Quer comer algo?

-Eu vomitaria

-Céus, Daff! Por que não se tranqüiliza e aproveita tudo isto?

-Aproveitar o que? Do fato de ter assinado um contrato para fazer algo que não tenho a menor idéia de como fazer, em um lugar que parece pertencer a outro planeta, a cinco mil quilômetros de onde está meu único filho? Pelo amor de Deus, Barbara, o que estou fazendo aqui?

-Ganhando dinheiro para seu filho.

Aquela era uma resposta que a convenceria, como Barbara bem sabia.

-Entendeu?

-Sim. -Mas isto era um fraco consolo. -Sinto-me como se me tivesse alistado na legião estrangeira.

-Voce já faz isto. E quanto antes começar a trabalhar, antes iremos embora daqui.

Isto não significava que Barbara tivesse vontade de ir, pelo contrário. Na verdade, estava encantada.

-Esta é uma boa idéia.

Daphne começou a desfazer a bagagem, e ao final de meia hora já tinha melhor aspecto.

Barbara telefonou ao estúdio e lhes disse que tinham chegado sãs e salvas, e depois disto foram à piscina para nadar.

Nesta noite jantaram tranqüilamente, deram uma olhada no Pólo Lounge, cheio de pessoas que pareciam atores, modelos, homens de negócios e obscuros personagens que possivelmente eram traficantes de drogas, e às dez em ponto já estavam na cama, Barbara  tomada pela emoção e  expectativa, e Daphne com uma sensação de temor com o futuro que lhe proporcionaria.

Na manhã seguinte tiveram uma reunião nos estúdios Comstock, e quando ao meio-dia voltaram de novo ao esplendor do hotel, Daphne tinha a vaga impressão que conseguiria sobreviver.

Tinha uma idéia mais clara do que desejavam fazer com Apache; tinha tomado inúmeras notas, e planejava pôr-se a trabalhar naquele mesmo dia.

Barbara também tinha planejado seu trabalho.

Estava com os nomes de meia dúzia de corretores de imóveis.

Iria se dedicar a procurar uma casa para alugar.

Também se comunicou com a agente de Daphne, e anotou todas as mensagens que Íris tinha para ela.

À tarde, as coisas pareciam andar nos trilhos.

Daphne havia trazido consigo sua máquina de escrever, tinha colocado uma mesa e uma cadeira em um canto, e começara a escrever enquanto Barbara ia para a piscina.

Quando ela retornou ao final de meia hora, Daphne ainda estava absorvida em seu trabalho.

Barbara acendeu as luzes.

Sua amiga se achava tão absorta no que estava fazendo que nem sequer se deu conta de que estava escurecendo.

-Hum? Daphne levantou a vista distraidamente, como sempre estava acostumada a fazer quando escrevia.

Tinha o cabelo recolhido sobre a cabeça com uma caneta atravessada nele, e havia posto uma camiseta esportiva e jeans.

-Ah, olá! Aproveitou o banho?

-Muito. Quer comer algo?

-Hum..., não..., talvez mais tarde.

Barbara adorava vê-la trabalhar, pois se concentrava completamente no que fazia.

Era de fato como presenciar o processo criador em atividade.

Às oito, pediu ao serviço de restaurante que lhes mandassem jantar para dois, e quando o levaram, tocou  Daphne no ombro.

Ela nunca lembrava de comer quando estava trabalhando; em Neww York, Barbara se limitava a depositar a bandeja sobre a escrivaninha e lhe recordar que a comida estava preparada.

-Hora do rancho.

-Bem. Espere um minuto.

O que significava, geralmente, uma hora, tal como ocorreu neste caso.

-Vamos, garota. Tem que comer.

-Em seguida.

Por fim, deixou de teclar e se recostou no encosto da cadeira com um suspiro, enquanto se espreguiçava e massageava os ombros.

Então sorriu para Barbara.

-Ah, que bom!

-Como vai?

-Não de todo mal. Sinto-me de novo como uma principiante.

Depois de jantar, voltou a sentar-se diante a máquina de escrever, e permaneceu ali até as duas da madrugada.

Na manhã seguinte, Daphne se levantou as sete, e quando Bárbara levantou, já estava teclando de novo.

-Deitou-se ontem à noite? -perguntou-lhe Barbara, pois sabia que às vezes não dormia a noite toda.

-Sim. Acredito que deviam ser duas horas.

-Está trabalhando a todo vapor, não é?

-Não quero parar enquanto conservo fresco na memória o que conversamos ontem.

Manteve-se firme todo o dia.

Barbara foi ver três casas, almoçou sozinha e então descansou junto à piscina.

Depois foi trabalhar em seu quarto, onde se dedicou a responder a correspondência dos admiradores de Daphne.

Voltaram a jantar em seus aposentos.

De certo modo, Barbara era como uma mãe para Daphne, mas não se importava.

Tinha muitos anos de experiência de quando vivia com sua mãe, e Daphne era um tesouro.

Era divertido estar com ela, seu trabalho era emocionante, e lhe parecia maravilhoso o fato de estar junto a um gênio como Daphne.

Claro que esta não se via com os mesmos olhos, mas Barbara sempre tinha isto em conta.

No quarto dia, Daphne telefonou à senhora Curtis para perguntar por Andrew, a quem, fiel a sua promessa, tinha escrito todos os dias.

A senhora Curtis disse-lhe que o menino estava bem e contente, e que se readaptou logo depois da partida dela.

Também lhe recordou que não voltaria a falar com ela até que Daphne retornasse a New Hampshire e fosse visitar seu novo lar.

O dia seguinte seria o último que passaria em Howarth.

Daphne desejou-lhe sorte de novo e desligou, pensando de repente em Matthew, perguntando-se o que estaria fazendo.

Sabia que provavelmente estaria enlouquecido preparando-se para abandonar a escola de New York.

-Como está Andrew? Barbara chegou com uma bandeja para Daphne, e esta levantou a cabeça sorrindo.

-A senhora Curtis diz que está muito bem. E então, como vai a procura de casa? Barbara fez uma careta.

-Vai bem, mas ainda é cedo. De todo modo, logo aparecerá algo. Quer uma piscina em forma de máquina de escrever, ou se conforma com uma que tenha forma de livro?

-Muito engraçada.

-Escuta, hoje vi uma em forma de coração, uma oval, uma em forma de chave e outra como uma coroa.

-Parece muito exótico.

-E é, e muito brega, mas o pior do caso é que eu adoro. Estou descobrindo um lado oculto de minha personalidade.

Daphne sorriu, divertida.

-Olhe, se aparecer aqui com a blusa aberta até a cintura, e cheia de correntes de ouro, acharei que está louca de pedra.

No dia seguinte, de brincadeira, Barbara assim o fez, e Daphne soltou uma sonora gargalhada.

-Chegamos aqui só há cinco dias e você já caiu na armadilha.

-Não posso evitar. Respira-se no ar. É mais forte que eu.

-Nada é mais forte que você, Barbara Jarvis.

Era um cumprimento sincero, mas Barbara balançou a cabeça.

-Isto não é verdade, Daff. Você sim que é. É a mulher mais forte que conheço, no melhor sentido da palavra.

-Tomara fosse verdade.

-E é.

-Você fala como Matthew Dane.

-Matthew de novo. -Barbara a observou atentamente-. Continuo acreditando que você perdeu a oportunidade de sua vida. Vi sua foto na contra capa de um de seus livros, e é fenomenal.

-E o que mais? O que é que eu perdi? A oportunidade de passar uma noite antes de partir de New York por um ano? Vamos, Barbara, que sentido tem isto? Além disto, ele não se declarou.

-Talvez o tivesse feito se lhe tivesse dado a ocasião de fazê-lo. E, afinal, vão voltar para New York.

-Matthew é o diretor da escola de meu filho. Isto seria uma indecência.

-Pense nele como escritor.

Porém, Daphne estava tratando de não pensar nele absolutamente.

Era um homem magnífico e um bom amigo.

E nada mais.

Como de costume, voltou a pôr mãos à obra depois do jantar.

Barbara ficou em seu quarto, lendo um livro.

No dia seguinte resolveu ir dar uma volta pela Rodeo Drive.

Tinha acabado tudo o que devia fazer para Daphne e neste dia não tinha casa para visitar, por isso decidiu fazer compras.

A limusine a deixou na Beverly Wilshire, e ela ficou olhando fascinada ao seu redor.

Uma bonita e larga rua se estendia diante dela, na qual se alinhavam luxuosas lojas que vendiam roupa, jóias, artigos de viagem e pinturas por um total de várias centenas de milhões de dólares.

Era surpreendente, pensou admirada, e pensou que havia um abismo entre aquele mundo e a pocilga de West Side que tinha compartilhado com sua mãe.

Sua primeira parada foi na Giorgio's.

Quando entrou, logo foi abordada por uma vendedora que usava sapatos de cor lavanda com altos saltos, pérolas e um vestido rosado e malva de Norell que custava dois mil dólares.

As etiquetas de preços que viu nos vestidos pendurados nos cabides estavam na mesma linha.

Barbara disse que "só queria dar uma olhada", que foi o que fez, esforçando-se por não soltar uma risada.

Na loja havia também um departamento com roupa para homem, onde se ofereciam casacos de visom e coletes de raposa prateada, preciosas camisas de camurça, couro e seda, e enormes quantidades de fabulosos suéteres de cachemira.

Barbara provou chapéus, admirou sapatos e, por fim, comprou um guarda-chuva em que aparecia "Giorgio's".

Sabia que Daphne zombaria sem piedade disto, mas fazia tempo que não comprava nenhum, e desejava adquirir algo.

Ao sair seguiu caminhando rua acima, até a Hermés e Celine e, finalmente, até a Gucci, uma loja enorme com um intenso aroma de couro, abarrotada de objetos de couro italiano cujos modelos eram desenhados por eles mesmos.

Ficou pasma diante um mostruário cheio de bolsas negras de mão de couro de crocodilo.

Havia uma em particular da qual não podia despregar os olhos.

Era uma bolsa de forma retangular, grande, de linhas simples, com um fecho do ouro e uma alça para pendurar no ombro; apesar do fato de estar confeccionado com a pele daquele caro réptil, não parecia nada pretensiosa.

Gostou porque não era ostentosa, mas não se atreveu a perguntar o preço.

Estava certa de que seria incrivelmente cara.

-Deseja examinar esta bolsa, senhora? Uma vendedora com um uniforme simples de lã negra abriu o mostruário e tirou a bolsa para mostrar para Barbara.

Esta esteve a ponto de negar-se a pegá-la, mas ao vê-la oscilar diante de seus olhos, não pôde resistir à tentação e aceitou.

Era suave ao tato e, olhando-se ao espelho, Barbara a pendurou no ombro.

Era um sonho.

-É a medida exata para sua estatura - disse a vendedora, com seu amável acento italiano.

Barbara a contemplava encantada, e só para ter o gosto, deu uma olhada à etiqueta do preço. Custava setecentos dólares.

-É muito bonita. -Com relutância, a tirou do ombro e a devolveu à vendedora. -Quero ver alguma outra coisa.

-É claro, senhora.

A bonita jovem loira lhe sorriu, enquanto Barbara dava uns passos.

Então viu que um homem alto e atraente a estava observando atentamente.

Olhou-o com certo embaraço ao pensar que possivelmente a tinha visto devolver a bolsa, e por um momento lamentou não poder voltar sobre seus passos para comprá-la.

Sentia-se um pouco incomodada ao percorrer aquelas lojas luxuosas, sem poder se dar ao luxo de comprar nada.

Enquanto isto, os olhos do desconhecido não se despregavam de seu rosto enquanto ela se afastava e contemplava uns lenços para o pescoço.

Estava pensando em comprar um para Daphne.

Esta tinha feito tanto por ela que seria um prazer lhe levar um presente enquanto trabalhava como uma escrava, fechada na suíte.

Quando entregava o lenço vermelho e negro que tinha escolhido a uma das vendedoras, notou que o homem que a estava observando a seguia.

Voltou-lhe as costas e fingiu não perceber, mas ao olhar por um dos elegantes espelhos viu que ele se aproximava lentamente.

O desconhecido se deteve atrás dela.

Usava calças de flanela cinza, uma camisa azul de elegante corte, com a gola desabotoada, um suéter de cachemira azul marinho descuidadamente colocado sobre os ombros, e se Barbara tivesse baixado a vista, teria adivinhado que os sapatos marrons eram da Gucci.

Não obstante, não tinha o ar dos cidadãos de Los Angeles; mas bem parecia nova iorquino, bostoniano ou da Filadelfia.

Tinha os cabelos da cor de areia, e olhos azuis.

Barbara calculou que estaria beirando os quarenta.

Enquanto o via refletido no espelho, teve a impressão de que o tinha visto antes em algum lugar, mas não sabia quem era nem conseguia determinar onde poderia tê-lo conhecido.

Seus olhos se encontraram no espelho, e com um sorriso envergonhado ele finalmente se aproximou.

-Lamento profundamente... por ter ficado olhando-a com tanta insistência, mas me pareceu...

"Agora soltará a conhecida frase: "Não a vi antes em algum lugar?", e colocará seu cartão na minha mão", pensou Barbara.

A expressão dos olhos de Barbara não era tão amável como lhe tinha parecido quando avançava para ela.

Enquanto isto, agora que a via mais de perto, esteve seguro de quem era.

Tinha mudado muito, mas sua aparência era a mesma, embora em seu rosto persistisse uma expressão distante, quase receosa.

Parecia que a vida não se mostrara generosa para Barbara Jarvis.

-Barbara?

-Sim - respondeu ela, sem que sua voz ou seus olhos demonstrassem amabilidade.

Mas o desconhecido sorriu agora, certo de que era ela.

-Sou Tom Harrington. Não sei se lembrará de mim. Conhecemo-nos no dia de meu casamento... Casei-me com Sandy Mackenzie.

Então Barbara se recordou, e seus olhos se arregalaram e o olhou com assombro.

-Oh, meu Deus!...Como me reconheceu? Passou tanto...

Enquanto calculava o tempo, Barbara parecia resistir a fazê-lo.

Tinha-o conhecido quando ela tinha vinte anos, fazia quase exatamente vinte anos.

Tom se casou com sua companheira de quarto do terceiro ano na universidade.

Sua amiga abandonou os estudos porque estava grávida, e se casaram na Filadélfia.

Barbara tinha assistido o casamento, e então o conheceu.

Mas desde aquele dia não havia voltado a vê-los.

Naquela época Tom era estudante de Direito, e depois de nascer seu primeiro filho, mudaram-se para a Califórnia.

-Como está? Como está Sandy? Tinham enviado cartões de Natal durante para Bárbara uma dúzia de anos, mas depois deixaram de fazê-lo.

De sua parte, ela tinha estado muito ocupada cuidando de sua mãe para poder lhes responder, mas lembrava de Sandy com carinho e, agora, de Tom também.

Então lhe sorriu carinhosamente.

-Ela está aqui?

Seria uma alegria voltar a vê-la, sobretudo agora que ela estava trabalhando para Daphne.

Não havia voltado a lhes escrever, porque não tinha nada de novo para contar.

O que iria dizer-lhes? Que estava vivendo em um pequeno apartamento deprimente com sua mãe, que cozinhava, e trabalhava como secretária em uma firma de advogado? Do que podia sentir-se orgulhosa então? Mas agora as coisas tinham mudado.

-Como estão os meninos?

Lembrava que tinham tido outro filho quatro anos mais tarde.

-Fabulosamente bem. Robert estuda arte dramática na UCLA, o que não nos entusiasma muito, mas tem talento para isto, e se é o que ele gosta... -Suspirou esboçando um sorriso.

-Sabe como são os jovens. E Alex está ainda em casa com sua mãe, e em abril fará quinze anos.

-Santo Deus! Barbara estava realmente surpreendida.

Um filho na UCLA e a filha a ponto de fazer quinze anos? Como tinha acontecido? Tanto tempo tinha transcorrido? Assim era, com efeito.

Estava tão aturdida que nem sequer tinha prestado atenção à resposta de Tom.

-E você o que faz? Mora aqui?

Barbara observou que ele dirigia um olhar para sua mão esquerda, mas ela não levava anel algum no dedo.

-Não, estou aqui por causa de meu trabalho. Minha chefa está escrevendo um roteiro, e residiremos aqui durante um ano.

-Que interessante! Trata--se de alguém conhecido?

Barbara sorriu com evidente orgulho.

-Daphne Fields.

-Deve ser um emprego interessante. Quanto tempo faz que vocês estão aqui?

-Uma semana - respondeu ela com um sorriso. -Estamos no Beverly Hills Hotel; é uma vida muito dura a nossa.

Ambos se puseram a rir, e então uma ruiva surpreendentemente bonita vestida com jeans brancos e uma blusa de seda branca se aproximou deles.

A jovem observou Barbara com seus penetrantes olhos verdes.

Não devia ter mais de vinte e cinco anos, no máximo.

Tinha a cútis cremosa de um camafeu, e sua avermelhada cabeleira lhe chegava quase até a cintura. Era uma jovem espantosa.

-Não encontro nada que fique bem - disse a Tom com uma careta, depois de decidir que Barbara não era uma mulher que pudesse inquietá-la. - Tudo é muito grande.

Barbara sorriu com franca admiração, porque faziam um magnífico casal, perguntando-se quem devia ser.

-Tomara eu tivesse este problema.

Mas havia uma amável expressão nos olhos de Tom ao olhar para Barbara.

-Você está maravilhosa, pouco mudou em todos estes anos.

Era uma mentira amistosa, mas lhe pareceu uma gentileza de sua parte.

Tom não parecia excessivamente incomodado com a presença da bela jovem que tinha a seu lado.

Barbara percebeu que Tom levava uma bolsa de compras cheia de artigos caros.

Não conseguia compreender qual o papel da jovem em sua vida com Sandy, mas sua apresentação em seguida lhe deu a explicação.

-Eloise, quero apresentar-lhe Barbara. -Sorriu para Barb e também para Eloise. -Barbara é uma antiga amiga de minha ex-esposa.

Então Barbara compreendeu que se divorciaram. De modo que aquela jovem era sua amante.

-Barbara Jarvis – disse ela, estendendo a mão, enquanto seu olhar procurava os olhos de Tom, com o desejo de lhe perguntar mais sobre Sandy, mas aquele não era o momento oportuno. - Muito prazer em lhe conhecer.

A ruiva não falou muito, mas foi examinar uma bolsa de mão de pele de crocodilo de cor bege, sob o atento olhar de Tom, que se voltou para Barbara com expressão risonha.

-Devo reconhecer que tem um gosto verdadeiramente extraordinário.

Isto não parecia lhe importar muito, nem parecia excessivamente entusiasmado com ela.

-Lamento saber de sua separação da Sandy. -Barbara parecia verdadeiramente compungida. Fazia oito ou nove anos que tinha deixado de receber os cartões de Natal. - Quanto tempo faz?

-Cinco anos.

-Ela voltou a se casar. -E depois de um momento de vacilação, adicionou: - Com Austin Weeks.

Barbara se sobressaltou ao ouvir aquela novidade.

-O ator? A pergunta era estúpida; quantos Austin Weeks podia haver? Weeks era um conhecido ator inglês, mas devia ter o dobro da idade de Sandy, e tinha sido um autêntico Romeu em sua época, embora Barbara pudesse comprovar que em seu último filme tinha a aparência extraordinariamente agradável.

-Como aconteceu?

-Tive que o representar em um caso legal muito importante e ficamos amigos... -encolheu os ombros, mas havia certa amargura em seus olhos; então se voltou para Barbara com um sorriso forçado. - Isto é Hollywood, sabe? Tudo faz parte do jogo. A Sandy adora o ambiente. Combina com ela como o anel com o dedo.

-E a você? Há vinte anos antes, quando Barbara apenas o conhecera no dia do casamento,tinha simpatizado com Tom.

Ela tinha sido dama de honra, e lhe parecia que era um jovem inteligente, perspicaz e decente, e felicitou Sandy pela sorte que tinha.

Sandy pareceu agradecida, mas sempre dava a impressão de estar... insatisfeita, inquieta, ansiosa.

Não gostava de estudar, e Barbara sempre teve a sensação de que tinha ficado grávida para poder se casar.

Tom vinha de uma influente família da Filadélfia, mas não era só isto que o tornava um bom partido.

Quando Barbara retornou à universidade, não podia pensar neles sem sentir um pouco de inveja.

-Você gosta disto, Tom?

-Muito, mas devo reconhecer que fiquei aqui estes cinco anos por causa dos dois meninos. E como exerci minha profissão aqui durante tanto tempo, seria difícil voltar para Nova York. -Barbara recordou que trabalhava como advogado relacionado à indústria cinematográfica, e por tanto se encontrava em seu ambiente; mas não parecia muito contente de viver em Los Angeles. -A gente se sente muito acomodado aqui ao final de um tempo. Vigie para não acontecer com você. Este ambiente cria hábito.

-Sei. -Sorriu por sua vez. - Já estou começando a gostar.

-Oh, oh, mau sinal.

Então, a vendedora que tinha atendido Bárbara voltou com o lenço embrulhado para presente, e Eloise voltou para junto de Tom; havia resolvido que a bolsa de couro de crocodilo de três mil dólares não lhe assentava bem.

-Foi um prazer voltar a lhe ver, Tom - disse-lhe Barbara,  estendendo a mão. - Cumprimente a Sandy de minha parte, quando a vir.

-Vejo Alex algumas vezes por semana, e então a vejo também.

De novo apareceu uma dolorida expressão em seus olhos.

Tinha sido traído por sua esposa e por um homem que considerava como um amigo.

Aquela cicatriz nunca desapareceria de sua alma.

-Darei lhe suas saudações. Se tiver tempo, deveria lhe fazer uma visita.

Então, Barbara titubeou.

Estando casada com Austin Weeks, que interesse teria Sandy em vê-la?

-Diga lhe que estou no Beverly Hills Hotel com Daphne Fields, e se quiser, que me ligue. Não quero me intrometer em sua vida.

Tom assentiu, e momentos depois Barbara se despedia, pensando como a vida era estranha e interessante.

-E então, conquistou a Rodeo Drive? -Daphne estava estendida no sofá, lendo a produção do dia; dava a impressão de ter trabalhado duro. -Como foi?

-Fabuloso.

Ainda tinha passado outras duas horas e meia rondando por Jourdan, Van Cleef, Arpels, Bijan e uma série de lojas mais, e por último entrou em um restaurante para comer um sanduíche.

Aquele foi outro espetáculo digno de se ver, e Barbara ficou encantada com a tarde que havia passado.

Até tinha comprado para si um traje de banho, um chapéu e dois suéteres.

-Eu adoro esta cidade, Daff.

Daphne sorriu.

-Sempre soube que estava louca. O que comprou?

Barbara mostrou, e logo lhe jogou a caixinha da Gucci no colo.

-E isto é para você, senhora chefe. Teria gostado de dar-lhe de presente o penhoar de arminho branco que vi na Giorgio's mas não era de seu tipo.

Barbara estava radiante de felicidade.

-Oh, demônios! Não pôde deixá-lo reservado? Ambas puseram-se a rir.

Daphne abriu a caixa e mostrou-se comovida e contente.

O vermelho e o negro era suas cores favoritas.

-Não devia tê-lo feito, boba. -Olhou a sua amiga com profundo afeto. -Está me deixando mal acostumada, Barb... Não poderia fazer nada sem você.

-Tolices. Ficaria perfeitamente bem sem mim.

-Alegro-me de não ter necessidade de fazê-lo.

-E então, como está ficando?

-Bastante bom. Mas realmente é como aprender um novo ofício. Sinto-me tão lenta às vezes!

-Dentro de pouco tempo se sentirá mais segura, e aposto que sairá com tanta fluidez como seus romances.

-Espero que os estúdios tenham a mesma opinião.

-Não duvide.

Naquele momento foram interrompidas pelo toque do telefone, e Barbara foi atender em seu quarto.

Quando Barbara saía, Daphne pedia ao posto telefônico do hotel que recebesse as chamadas para ela, e quando Barbara se encontrava presente atendia as inumeras chamadas dos corredores de imóveis em seu próprio quarto a fim de não incomodar Daphne.

Levantou o aparelho e sentou-se na beira da cama.

Ao menos tinha tido um dia de descanso na tarefa de procurar casa, mas desejava encontrar algo logo, pois sabia que para Daphne seria mais fácil trabalhar em um ambiente mais caseiro.

-Alô.

-Posso falar com Barbara Jarvis, por favor?

-Sou eu. Com a força do costume, pegou um bloco de papel e um lápis.

-Sou Tom Harrington.

Barbara ficou surpresa, e seu coração deu um salto.

Por que lhe telefonava? Mas era uma tolice ficar nervosa.

Tom era só o ex-marido de uma antiga amiga, que desejava mostrar-se amável.

-Alegro-me em ouvi-lo, Tom.

Quis perguntar logo o que podia fazer por ele.

Possivelmente, como a maioria das pessoas que chamavam, queria entrevistar-se com Daphne.

-Divertiu-se esta tarde?

-Muito. Percorri a Rodeo Drive de ponta a ponta.

-É um passatempo muito caro.

Tom dirigiu um olhar ao seu talão de cheques, que repousava sobre a cama a seu lado.

Eloise fazia estragos nele, mas não era diferente das demais.

Tinha havido dúzias de Eloises em sua vida nos últimos cinco anos, e nenhuma como Barbara.

-O que comprou?

Barbara sentiu-se perturbada, e se perguntou aonde Tom queria chegar. Por que tinha lhe telefonado?

-Algumas quinquilharias. Nada que possa comparar-se com o que está a seu alcance.

-Era muito bonita a bolsa que estava olhando na Gucci.

De modo que ele tinha notado.

Seus olhos pareciam captar tudo, e tinha estado observado-a durante um longo momento antes de decidir lhe falar.

-Temo que não esteja ao meu alcance.

Além disto, o que faria ela com uma bolsa de couro de crocodilo negro como aquela? Levaria seus lápis e suas agendas?

-Diga à sua chefa que lhe aumente o salário.

Ela ficou em silêncio. Não precisava dizer a Daphne uma coisa semelhante. Comportava-se muito bem com ela.

-Ou procure um bom homem para que lhe dê de presente.

-Temo que este não seja o meu estilo - respondeu Barbara, adotando de repente um tom frio.

-Não pensei que fosse - replicou ele com voz grave e amável.

Se tivesse pensado, não teria ligado.

Para isto já tinha Eloise.

Mas Barbara era diferente.

-Não pudemos conversar muito esta tarde. Você se casou?

-Não. Minha mãe adoeceu quando me graduei e durante muito tempo tive que cuidar dela – disse Barbara com naturalidade, sem ressentimento, pois isto era o que já tinha passado.

-Deve ter sido um golpe terrível para você - observou Tom, mas com tom de admiração.

Sandy não teria sido capaz de fazer uma coisa semelhante, e tampouco ele estava seguro se teria feito um sacrifício como aquele.

De fato, estava convencido de que não teria feito.

-Quando começou a trabalhar para Daphne Fields?

-Há uns quatro anos, nas horas livres, pois então tinha um emprego de horário completo.

-Você gosta do que faz?

-Eu adoro. Daphne é a melhor amiga que tenho, e é um sonho trabalhar para ela.

-Isto não é muito comum em uma mulher famosa.

Ele tivera oportunidade de conhecer algumas, e a maioria era de trato difícil.

-Daphne deve ser a exceção. É a mulher mais simples que conheci. Limita-se a fazer seu trabalho e vive tranqüilamente sua vida. É realmente um ser humano extraordinário.

-Isto é uma sorte para você. - Não parecia muito interessado em Daphne. - Ouça, hoje não tivemos oportunidade de conversar. O que lhe parece se logo mais tomarmos uma bebida juntos? Tenho que me encontrar com um de meus sócios na hora de jantar para discutir um par de contratos, mas calculo que por volta das nove já estarei desocupado. Poderia me esperar no Polo Louge se lhe parecer bem... - Deixou a frase em incerteza, e parecia um pouco nervoso.

Não se equivocava ao pensar que Barbara sabia guardar-se.

-O que me diz? Barbara guardou silêncio no outro extremo dá linha.

Na realidade, não tinha vontade de ir, e suspeitava que o "sócio" com quem tinha que jantar era a jovem ruiva.

Mas, por outra parte, ela não tinha nada que fazer.

Daphne ficaria escrevendo e não necessitaria dela para nada.

E Tom era um homem simpático.

Sem pensar duas vezes, tomou uma repentina decisão.

-De acordo. -Por que não? -Eu o verei no Louge às nove. Se me demorar, lhe telefonarei.

-Estará em seu quarto até então?

-Sim, quero me encarregar do jantar para Daphne.

-Acaso não sai? A imagem que Tom tinha dos escritores correspondia com a de um pessoal que passava a vida bebendo, farreando e assistindo a festas.

-Só muito poucas vezes, e nunca quando escreve. Agora está absorvida no roteiro, e não saiu de seu quarto desde que chegamos aqui.

-Não me parece muito divertido.

-Não é. Trata-se de um trabalho árduo. Realmente, trabalha com mais afinco que qualquer outra pessoa que conheço.

-Parece que está pronta para uma canonização - comentou Tom com um sorriso.

-No meu entender, sim.

Pareceu que Barbara queria lhe advertir que não criticasse Daphne, nem naquela nem em posteriores conversas.

Barbara defendia-a como uma sacerdotisa no altar de seu deus privado, tanto se isto fosse razoável como se não.

Assim era simplesmente como se sentia a respeito de Daphne.

-Até mais tarde, Tom.

-Espero com ansiedade o momento de revê-la.

E enquanto tomava banho e se barbeava antes de reunir-se com seu sócio em sua casa de Bel-Air, assombrou-se ao comprovar isto.

Barbara era atraente, mas não uma beleza espetacular.

Parecia mais interessante que sexualmente atraente, mais inteligente que bonita, mas havia algo nela que resultava sedutor, algo sólido, algo autêntico.

Dava a impressão de ser uma mulher com que alguém poderia conversar, rir, sentir-se cômodo e até confiar nela.

Tom Harrington nunca tinha conhecido uma mulher assim, mas já havia descoberto estas qualidades em Barbara vinte anos atrás, em marcado contraste com Sandy.

Sandy era uma jovem bonita e loira que fazia sua entrada na sociedade em New York, com deslumbrantes olhos azuis e um sorriso que fez estremecer todo seu ser.

Mas tinha sido muito malcriada por seus pais, e depois por ele mesmo, e sempre o havia humilhado, sobretudo nos últimos tempos, quando fugiu com Austin.

Levou seus dois filhos, e telefonou-lhe ao final de duas semanas.

Ele pensou em levá-la a julgamento por lhe tirar a custódia dos dois meninos, uma vez que haviam se divorciado, mas considerou que isto os teria destroçado, e não teve coragem  de fazê-lo.

Após isto não tinha havido ninguém importante em sua vida.

Não sabia por que, mas de repente sentia-se irresistivelmente atraído por Barbara.

No momento em que a tinha visto esta tarde, sentiu desejos de voltar a vê-la, mesmo se só para conversar com ela.

-Daff, já comeu? Barbara entrou no quarto e, dirigindo um olhar à bandeja, viu que não havia mexido em nada.

Com o cenho franzido, Daphne seguia teclando e nem sequer a ouviu.

-Daff..., ei, menina, a comida.

Daphne levantou a vista com um vago sorriso.

-Hum? Oh! Sim, está bem. Em seguida. Quero terminar isto antes de jantar.

E olhando-a por cima do ombro, perguntou-lhe:

-Vai sair?

-Só por um momento. Precisa que faça algo antes de ir?

-Não, estou bem. Lamento não ser muito divertida.

-Sei cuidar de mim mesma. - Começou a lhe contar do Tom, mas Daphne já estava teclando de novo. -Até mais tarde. E não se esqueça de comer.

Mas Daphne não lhe respondeu.

Sua mente se encontrava a quilômetros de distância, concentrada na cena, e Barbara fechou brandamente a porta a suas costas.

Tom deu a Barbara o nome de seu corretor de imóveis, e na tarde seguinte ela saiu com o corretor para ver as casas de Bel-Air e Beverly Hills, e encontraram exatamente o que procuravam em Bel-Air.

Era uma bonita casa em Cielo Drive, com três quartos com vista para um enorme jardim bem cuidado.

A casa e o terreno estavam rodeados de uma alta parede de ladrilhos, contra a qual cresciam arbustos e sebes, de modo que não parecia uma prisão, mas preservava a intimidade.

Havia uma vasta extensão coberta de grama e uma simples piscina retangular, uma sauna, uma banheira, e a casa era realmente linda.

Os pisos eram de mármore bege claro, havia grandes sofás brancos por todo lado, uma coleção de peças de arte moderna muito valiosa e uma cozinha que parecia atirada da House & Garden.

Toda a casa estava iluminada pela luz natural e se respirava um ambiente de tranqüilidade.

Havia uma biblioteca com prateleiras de madeira de pinho sem envernizar, que dava para a piscina, e era o lugar perfeito para que Daphne pudesse escrever.

Possuía tudo o que elas necessitavam.

E embora o aluguel fosse alto, não era tanto para que a Comstock protestasse.

Pertencia a um ator muito respeitado e a sua esposa, que se encontravam na Itália para fazer um filme.

Barbara ficou olhando em torno com um sorriso fascinado, enquanto o corretor a observava. Barbara foi abrindo todos os armários, todas as gavetas, e esteve revisando todos os quartos com extremo cuidado, pensando em sua chefa.

-Bem, o que lhe parece, senhorita Jarvis?  

-Acredito que nos mudaremos amanhã mesmo, se você não tiver inconveniente.

Trocaram um sorriso.

-Meus clientes ficarão encantados. Faz um mês que se foram. -Era um milagre que a casa não tivesse sido alugada antes, mas eles nos tinham imposto severas restrições a respeito do tipo de inquilino que queriam. - Sua chefe não desejará conhecê-la primeiro?

-Não acredito. -Enquanto Daphne estivesse atarefada com o roteiro, se Barbara alugasse uma cabana de palha, ela nem sequer se daria conta. - Está muito ocupada.

-Então, se lhe parecer bem, podemos ir ao meu escritório para assinar o contrato.

Barbara assinou o contrato por um ano, e ela e Daphne mudaram-se no dia seguinte.

Nesta noite Daphne rondou pela casa, para adaptar-se ao novo ambiente.

Às vezes parecia-lhe difícil trabalhar em seguida em um lugar novo, e estava tratando de pôr mãos à obra. Tinha arrumado suas coisas, e a máquina de escrever já estava instalada no bonito estúdio.

Tudo estava no ponto e esperando, mas Barbara tinha saído, e de repente ocorreu a Daphne que não sabia aonde ela tinha ido.

Ultimamente parecia ter se tornado muito independente em Los Angeles.

Dava a impressão de ter florescido desde que tinham chegado à Califórnia, e Daphne alegrava-se com isto.

A vida de Barbara nunca tinha sido muito excitante, e se era feliz em Los Angeles, Daphne era feliz também.

Mas enquanto se encontrava sozinha na cozinha, comendo uns ovos mexidos e pensando em seu roteiro, de repente sentiu-se mais só do que se sentia em muito tempo.

Começou a pensar em Andrew, nas refeições que tinham compartilhado juntos em seu apartamento, nos momentos dos dias anteriores à sua ida para a escola.

Então, imaginou-o em Howarth, e sentiu um doloroso desejo de abraçá-lo, acariciar e vê-lo.

Perdida naqueles pensamentos, rompeu em soluços e afastou o prato com os ovos mexidos.

Sentindo-se ela mesma como uma menina, apoiou a cabeça na mesa e chorou, sentindo saudades de seu filho.

Como consolo, prometeu a si mesma, enquanto assuava o nariz, que mandaria buscá-lo o quanto antes possível; mas enquanto isto tinha que armar-se de coragem.

O pior era pensar no que o menino estaria sentindo, e o temor de que pudesse estar sozinho em seu quarto chorando a fez derramar lágrimas de novo.

Foi presa de uma sensação de pânico, de desespero, com o convencimento de ter falhado, de ter cometido um equívoco ao ir para a Califórnia.

De repente compreendeu que precisava recuperar a tranqüilidade, que alguém lhe dissesse que seu filho estava bem; e só havia uma pessoa que podia fazê-lo: Matthew.

E sem sequer consultar o relógio para ver que hora era na costa do Atlântico, precipitou-se ao telefone da cozinha.

Com dedos trêmulos discou o número familiar, rezando para que ele estivesse acordado. Tinha que falar com alguém. Imediatamente.

Tinha discado o antigo número privado da senhora Curtis, e ao final de um instante uma voz rouca e grave atendeu; só ouvindo-a, já se sentiu menos sozinha.

-Matt? Sou Daphne Fields. -Sentiu um nó na garganta ao ouvir sua voz, e os olhos se encheram de lágrimas de novo, enquanto tratava de dominar-se. -Espero que não seja uma hora inoportuna para ligar.

Ele riu calmamente.

-Está brincando? Sobre minha escrivaninha tenho trabalho para duas ou três horas mais. É um prazer ouvir sua voz. Como está a Califórnia?

-Não sei dizer. Ainda não a vi. Tudo o que vi foi a suíte do hotel, e agora minha casa. Mudamos hoje. Queria lhe dar meu novo número de telefone.

Disse o número e, enquanto ele o anotava, recuperou sua compostura; ao lhe perguntar como estava Andrew, tratou de dissimular o tremor de sua voz.

-Está perfeitamente bem. Hoje aprendeu a andar de bicicleta, em duas rodas, mamãe. Não vê a hora de lhe contar isto. Queria escrever uma carta esta noite mesmo.

Tudo soava tão normal e tão saudável que de repente começou a perder o sentimento de culpa que a tinha assaltado.

Entretanto, havia um toque de tristeza em sua voz ao dizer:

-Como gostaria de estar aí.

Seguiu se um breve silêncio, enquanto Matthew imaginava as emoções que Daphne estava sentindo.

-Logo chegará este momento.

De novo guardaram um silêncio confortante.

-Está bem, Daff?

-Acredito que sim..., sim. -E exalou um suspiro. -Só que me sinto sozinha como um demônio.

-Escrever é uma tarefa muito solitária.

-Também o é separar-se de seu único filho. -Suspirou profundamente, mas não afloraram mais lágrimas. -Como estão as coisas em Howarth?

-Agitadas para mim, mas estou começando a me pôr em dia.

Antes de me instalar aqui pensava que dominava a situação, mas agora sempre há uma tonelada de relatórios para ler ou algum menino com quem tenho que falar. Estamos introduzindo algumas pequenas mudanças, mas nada que faça mover suas bases ainda. Eu a manterei informada.

-Agradeço por isto, Matt.

Pelo tom de sua voz, Matthew imaginou com Daphne estava cansada; lembrava uma garotinha a quem mandam para longe de casa e é tomada por uma saudade desesperadora.

Durante a pausa que se seguiu, ele tentou visualizá-la na longínqua Califórnia.

-Como é sua casa? Ela explicou, e ele pareceu impressionado, sobretudo quando disse a quem pertencia.

A conversa teve a virtude de distraí-la um pouco de sua dolorosa preocupação.

Até nisto Matthew era um mestre.

Era um homem sensível, inteligente e forte.

Entretanto, ela ainda sentia aquele profundo pesar por Andrew.

-Não sabe como sinto falta de vocês.

Matthew se sentiu comovido ao ver-se incluído.

-Nós também sentimos sua falta, Daphne.

A voz de Matthew soava cálida em seu ouvido, e se sentiu emocionada até o mais profundo de sua alma; enquanto permanecia na silenciosa cozinha às oito da noite, seu coração se enterneceu por aquele homem que conhecia há tão pouco tempo e que assim mesmo tornou-se seu amigo antes de partir.

-Sinto falta das nossas conversas, Matt.

-Sei... Não sei por que, mas esperava te ver por aqui no fim de semana passado.

-Tomara tivesse podido ir. Tenho a impressão de estar a um milhão de quilômetros de minha casa, apesar daqui ser tão bonito.

-Muito em breve estará de novo em sua casa.

De repente ela sentiu como se aquele ano que tinha pela frente fosse durar toda uma vida, e teve que conter as lágrimas enquanto ele seguia dizendo:

-Pense na grande oportunidade que se abre para você. Ambos aprenderemos uma série de novas e importantes lições durante este ano.

-Sim, suponho que sim...

-Como você está em Howarth?

Pouco a pouco foram recuperando a desenvoltura com que se tratavam na escola, e ela se sentiu reconfortada e menos sozinha.

-É como você esperava?

-Até o momento sim. Mas devo reconhecer... que sinto-me tão longe de New York como você na Califórnia.

Ele sorriu e se recostou no encosto da cadeira.

-New Hampshire é terrivelmente tranqüila.

Ela riu baixinho.

-Isto eu sei! Quando cheguei aí na primeira vez, para internar Andrew na escola, ficava nervosa só de ouvir o silêncio.

-Como conseguiu se acostumar? Matthew sorriu, recordando a expressão dos olhos de Daphne, e teve a sensação que desaparecia a distância que os separava.

-Fazia um diário, que foi como um amigo fiel. Curiosamente, acredito que foi assim que comecei a escrever. As anotações no diário se converteram em ensaios, comecei a escrever contos, depois escrevi o primeiro livro, e agora... -Olhou em torno da moderna cozinha. -E agora, olhe o que aconteceu: encontro-me na costa do Pacífico escrevendo um roteiro sem ter a mínima idéia de como se faz. Pensando bem, possivelmente será melhor que você se habitue ao silêncio e fique aí tranqüilo.

Ambos se puseram a rir.

-Senhorita Fields, você está se lamentando?

-Não. - Meditou sobre isto com um ligeiro sorriso. -Acredito que de fato estou relinchando. Quando o chamei, sentia-me sozinha como um demônio.

-Não deve se envergonhar disto. Na outra noite telefonei para minha irmã e lhe asseguro que eu estava a ponto de chorar. Pedi a uma de minhas sobrinhas que lhe transmitisse todos meus lamentos, com a esperança de despertar um pouco de compaixão em Martha.

 

-O que ela disse?

-Que eu era um ingrato, que me pagavam o dobro do que ganhava na escola de New York e que, por conseguinte, devia calar meu maldito bico e me dar por contente. -Riu ao recordar as palavras que sua sobrinha tinha repetido no telefone. - Minha irmã é assim. Tem razão, é óbvio, mas eu fiquei como um diabo. Implorava compaixão e recebia um chute no traseiro. Suponho que eu tenha merecido isto. Estes eram os argumentos que estava acostumado a utilizar com ela antes de irmos para o México.

-Como se viraram por lá? Daphne tinha perdido a vontade de escrever. Só desejava ouvir a voz de Matt.

-Oh, Deus, Daphne, ir para o México foi a coisa mais descabelada que tinha feito em minha vida! Mas eu adorava.

Vivemos na Cidade do México uma temporada. Passamos três meses em Puerto Vallarta, que naquele tempo era um pequeno povoado com ruas de paralelepípedos, onde ninguém falava inglês. Martha não só aprendeu a ler os lábios, mas também aprendeu a entender o espanhol – explicou com voz cheia de admiração e de amor por sua irmã.

-Deve ser uma mulher admirável.

-Sim - respondeu com ternura. -Ela é. Parece-se muito com você, sabe? Tem coragem e coração ao mesmo tempo, o que é uma estranha combinação. A maioria das pessoas que tiveram que suportar momento terríveis na vida tornam-se terríveis elas também. E este não é o caso de Martha, nem o seu tampouco.

Daphne perguntou-se que outras coisas ele sabia a respeito dela, além do que lhe tinha contado.

Mas naquele momento ele já havia resolvido confessar-lhe abertamente.

-A senhora Obermeier me contou o que aconteceu com seu amigo, o homem a que se referiu na última vez que conversamos.

Matt temia pronunciar seu nome, como se não tivesse nenhum direito de fazê-lo.

-Devia ser um homem maravilhoso.

-Ele era. - concordou ela com um suspiro, e tentou, inutilmente, não voltar a sentir a dor que lhe tinha causado sua perda. -Esta noite dizia a mim mesma como minha vida agora seria diferente se ele ou Jeff ainda vivesse. Suponho que não estaria aqui, queimando os miolos diante de uma máquina de escrever.

-Neste caso, não seria a mesma pessoa que é agora, Daphne. Todas estas experiências fazem parte de você. Isto, em parte, é que a faz ser tão especial.

Daphne perguntou-se se ele não teria razão.

-Não me atreveria a dizer que foi afortunada precisamente, mas de certo modo foi. Ocorreram-lhe coisas terríveis na vida, mas você soube forjá-las até convertê-las em ferramentas que pode usar e que constituem uma linda parte de seu ser. E isto é uma vitória total.

Na verdade, Daphne nunca havia se considerado uma pessoa vitoriosa, mas somente uma sobrevivente; entretanto, também compreendia que aos olhos das pessoas assim era como aparecia.

Tinha triunfado, alcançara o sucesso.

Mas havia mais que isto na vida, como ela sabia dolorosamente bem.

Muito mais.

Mesmo que agora já não o possuísse.

Entretanto, de uma ou outra maneira, Matthew Dane lhe fazia ter uma melhor disposição ante a vida e um melhor conceito de si mesma cada vez que falava com ele.

-Você é, sem dúvidas, um bom amigo, Matthew Dane. Graças a suas palavras, sinto-me com ânimos de sair e conquistar o mundo de novo.

-Há um mundo fabulosamente bonito para conquistar. Quem ensinou Andrew a andar de bicicleta? - Na realidade, ela já sabia antes de perguntar.

-Eu. Nesta tarde tive um momento livre, e ele tampouco tinha muito que fazer. Tinha-o visto observar aos meninos maiores que andavam de bicicleta e me chamou à atenção a expressão de seus olhos, de modo que saímos para ver o que acontecia, e Andrew o fez às mil maravilhas.

Daphne sorriu ao visualizar a cena que evocavam suas palavras.

-Obrigado, Matt.

-Também é meu amigo, sabe?

-É um menino afortunado.

-Não, Daff. O afortunado sou eu. Os meninos como o Andrew  fazem que a vida mereça a pena ser vivida.

A conversa esmorecia.

-Suponho que deveria desligar. Ambos temos trabalho que fazer.

Tornava-se confortante saber que quando ele se instalasse diante de sua escrivaninha, ela se sentaria diante da sua, e ambos trabalhariam de noite durante as mesmas horas.

-Dê meu carinho ao Andrew amanhã e um beijo bem grande.

-Darei. E Daphne... -Vacilou um instante, sem saber, como sempre, o que mais podia lhe dizer. -Estou feliz que me tenha telefonado.

-Eu também.

Matthew tinha conseguido tranqüilizá-la, e sentia-se contente ao saber que tinha um amigo a que podia recorrer.

-Voltarei a telefonar muito em breve.

Despediram-se, e então ela teve a sensação de que Matthew continuava a seu lado na cozinha.

Dirigiu-se a seu escritório e deu uma olhada no que tinha escrito, mas então entrou no quarto, vestiu um traje de banho e foi para a piscina.

A água estava morna, e sentiu uma deliciosa sensação quando entrou em contato com sua pele.

Deu umas braçadas pensando em Matthew.

Quando saiu da piscina, sentiu-se renovada, e voltou para o escritório depois de trocar de roupa.

Ao final de meia hora se encontrava de novo a milhares de quilômetros de distância, perdida em seu roteiro.

E em New Hampshire, Matthew Dane deixou de lado suas tarefas, apagou a luz e sentou-se diante do fogo, pensando em Daphne.

-Como ela é, Barb?

Barbara e Tom estavam deitados junto à piscina.

Tinham transcorrido duas semanas desde que mudaram para a nova casa, e ela mal avistava Daphne.

Esta estava concentrada em seu trabalho, e quase nem se dava conta do que ocorria a seu redor.

Barbara completava suas tarefas e toda tarde saía para encontrar Tom.

A vida de ambos tinha sofrido uma mudança radical em um par de semanas, desde o momento que se tornaram amantes.

Agora ele segurava brandamente sua mão enquanto contemplavam o pôr-do-sol.

Sempre ficava fascinado escutando as coisas que ela contava sobre Daphne.

-É uma trabalhadora incansável, terna, afetuosa e triste.

-Não é de estranhar. Aconteceram coisas terríveis em sua vida para matar a dez pessoas.

-Mas não a ela. Isto é o mais surpreendente em Daphne. É a mulher mais afetuosa e doce que conheço.

-Nisto eu não acredito - disse ele, meneando a cabeça e olhando-a fixamente nos olhos.

-Por que não? É verdade.

-Porque não há outra mulher mais afetuosa e doce que você.

Ao ouvi-lo dizer isto, ela se deu conta de novo de quão afortunada era.

Na verdade, era mais que Daphne.

Ficaram em silêncio uns instantes, enquanto Tom a observava e então se inclinava sobre ela e a beijava meigamente.

Nunca tinha sido tão feliz em sua vida e, durantes as duas semanas passadas, tinha podido contemplar como Barbara se abria diante dele como uma flor do verão.

Era alegre e feliz, e em seus olhos havia mais vida agora do que quando a tinha conhecido na universidade.

-Observe em você, amor.

Você também sofreu o seu.

Ninguém pode estar tão só e ser feliz.

Eu não estive sozinho, e sim amargo, era desgraçado.

-Não me pareceu que fosse muito desgraçado no dia que nos encontramos na Gucci.

Barbara gostava de brincar a respeito disto.

Eloise havia desaparecido fazia quinze dias, e souberam que estava vivendo com um jovem ator.

Enquanto isto, agora Barbara sabia que Tom havia se sentido desesperadamente só quando estava casado.

Ouviu sua confissão quando Barbara lhe abriu seu coração e considerou que podia confiar nele.

Tinha sido machucado cruelmente, muito mais que ela  mesma  ao  ficar grávida anos ante471s durante sua relação com o advogado.

Também tinha contado isto ao Tom, e ele a tinha estreitado entre seus braços enquanto ela se desfazia em lágrimas, dando rédea solta ao sentimento de culpa e a dor que havia sofrido durante treze anos e mantido em segredo no fundo de sua alma.

Então reconheceu que o que mais lamentava era ser muito velha para ter filhos.

-Não seja ridícula. Quantos anos você tem?

-Quarenta.

Ele tinha quarenta e dois, e olhou-a com ternura e determinação.

-As mulheres hoje em dia têm filhos aos quarenta e cinco, quarenta e sete e até aos cinqüenta anos. Quarenta anos não são nada do outro mundo. Existe alguma razão médica que a impeça?

-Não, que eu saiba.

Salvo que ela sempre se perguntou interiormente se o aborto a tinha afetado de alguma maneira e por este motivo não poderia mais ter filhos.

Durante anos não se preocupou por isto.

Era evidente que não tinha importância.

Mas Tom não estava de acordo com ela.

-Na realidade, é muito tarde. É ridículo ter filhos na minha idade.

-Se os deseja, é ridículo não os ter. Meus filhos me proporcionaram a maior alegria de minha vida.

Não se prive desta alegria, Barbara.

Tom tinha apresentado Bárbara a Alexandra, e então ela pôde compreender porque seus filhos o faziam tão feliz.

Era uma garota formosa, feliz e despreocupada, com a chamativa cabeleira loira de Sandy e o afável aspecto de seu pai.

Ainda não conhecia seu filho Bob, mas pelo que sabia, era muito parecido com Tom, e estava certa que também simpatizaria com ele.

Durante seis semanas Barbara manteve em segredo a vida que levava para Daphne.

Uma manhã, quando Barbara chegou a casa, encontrou Daphne sentada na sala de estar com um sorriso de bobo nos lábios.

-O que está acontecendo?

-Eu acabei!

-Acabou o que?

-Terminei o roteiro!

Estalava de energia e de orgulho, e tinha os olhos acesos pela excitação.

Experimentava a euforia que proporcionava o fato de ter terminado uma obra, e a secreta certeza de que quanto antes concluísse seu trabalho, mais cedo veria seu filho.

-Hurra!

Barbara deu-lhe um grande abraço, e abriram uma garrafa de champanhe.

Estavam já na terceira taça quando Daphne olhou-a com uma expressão maliciosa nos olhos.

-Bem, não vai me dizer nada?

-Dizer o quê? Barbara ficou com a mente momentaneamente em branco.

-Aonde você vai todas as noites enquanto eu queimo as pestanas escrevendo.

Daphne sorriu, e Barbara corou violentamente.

-E não me diga que esteve indo ao cinema.

-Queria lhe contar, mas...

Barbara levantou o rosto, com uma expressão sonhadora nos olhos, e Daphne exclamou:

-Oh, Deus, eu sabia! Está apaixonada!

E apontando-lhe o dedo, acrescentou:

-Não me venha agora dizer que quer se casar. Pelo menos, não até que terminemos o filme.

Barbara corou, pois Tom tinha mencionado o casamento pela primeira vez naquela noite, e sua resposta tinha sido muito semelhante à admoestação de Daphne.

Ele havia se sentido ferido pela sua lealdade para com sua chefa, mas concordou em esperar até o momento propício.

-Não vou casar-me, Daff. Mas devo reconhecer que... eu estou louca por ele.

Ao esboçar um amplo sorriso, pareceu ter quatorze anos em vez de quarenta.

-Alguma vez terei oportunidade de conhecê-lo? É uma pessoa respeitável? Vai merecer minha aprovação?

-Sim às três perguntas. É maravilhoso e eu o amo com loucura... Esteve casado com minha companheira de quarto da universidade, e encontrei com ele na Gucci, acompanhado por uma estúpida ruiva incrivelmente bonita, e...

Em poucas palavras, contou-lhe tudo por fim, e Daphne pôs-se a rir.

-Vá, parece que perdi muitas coisas, não? Em que ele trabalha? E não me diga que é ator!

Desejava toda felicidade para Barbara, e não queria que fosse machucada de novo.

De repente, franziu o cenho, pensando no que Barbara havia dito a respeito de que tinha se casado com sua companheira de quarto.

-Ainda está casado?

-É óbvio que não. Está divorciado e é advogado. Faz parte da firma Baxter, Shagley, Harrington e Row.

Daphne fez uma careta.

-Conhece-os?

-E você também, boba, ou deveria conhecer. Ainda não tivemos que tratar com eles, mas Íris me disse algo a respeito desta firma antes de sair de Nova Iorque. São os advogados da Comstock para tudo que se relaciona com nosso filme. Ele não sabia?

-Está dedicado exclusivamente a um caso por problemas de impostos de um de seus clientes.

-E o que aconteceu com sua esposa?

-Fugiu com Austin Weeks.

-O ator? -Daphne ficou estupefata uns instantes, e então se deu conta, como tinha ocorrido a Barbara dois meses antes, de que era uma pergunta estúpida. -Não faça conta, foi uma pergunta tola. Demônios, deve ter sido um  forte golpe para seu amigo. Austin Weeks deve ter duzentos anos.

-Pelo menos, mas é rico como o diabo e bem apessoado!

Daphne assentiu com a cabeça.

-Por certo, como se chama seu amigo?

-Tom Harrington.

Trocaram um lento sorriso, e Daphne pareceu satisfeita.

-Fico alegre por você, Barb.

Levantou a taça de champanhe e brindou pela felicidade de sua amiga com Tom.

-Desejo que vivam felizes eternamente...- E com um sorriso, adicionou: - Mas não antes que terminemos o filme.

Em seus olhos se percebia o mesmo brilho febril que Barbara tinha visto desde que chegaram a

Califórnia.

Toda sua aspiração era trabalhar interruptamente, terminar o quanto antes e voltar para casa.

Entretanto, Barbara agora via esta perspectiva quase com temor.

Ela não tinha pressa alguma em partir da Califórnia.

No dia seguinte, Barbara apresentou-a ao Tom.

Tomaram um drinque junto à piscina, e quando partiram, Barbara estava certa que Daphne tinha gostado dele.

A conversa foi amável, e ela beijou Tom no rosto ao despedir-se e lhe disse que cuidasse muito bem de Barbara.

Daphne acenou com mão enquanto eles se acomodavam no carro; então retornou com passo lento para junto da piscina e recolheu os copos.

Alegrava-se por Barbara, mas experimentava uma estranha sensação, como se visse a partida de dois seres queridos para uma longa viagem.

De certo modo, sentia-se como abandonada em uma praia deserta.

Nesta noite, enquanto preparava um sanduíche para jantar, resolveu telefonar para Matthew.

Como conseqüência de ter passado aqueles dois meses escrevendo sem cessar, ainda não conhecia ninguém em Los Angeles, e por isto ligava para o Matthew de vez em quando.

Ele havia se tornado um amigo íntimo, e era seu único contato direto com Andrew.

Mas quando lhe telefonou nesta noite, ele não estava na escola.

Daphne perguntou-se aonde teria ido.

Até então nunca tinha estado ausente, e de repente assaltou-a a dúvida que ele poderia ter saído com uma mulher.

Tinha a sensação de que todo mundo tinha companhia menos ela, e que o único que lhe restava era seu filho, e este se encontrava a quase cinco mil quilômetros de distância em uma escola para surdos.

Sentiu-se desesperadamente sozinha; e nem sequer o conforto de ter terminado seu roteiro conseguia diminuir sua dor.

Depois de jantar, deitou-se imediatamente, e ficou estendida na cama tratando de conter as lágrimas, enquanto desejava abraçar Andrew com toda sua alma.

O pessoal dos estúdios Comstock ficaram maravilhados ao ler o roteiro de Daphne.

Tinha ainda mais força que o livro, disseram-lhe, e todos estavam ansiosos para iniciar a filmagem.

Os atores tinham sido escolhidos há algum tempo, e também já haviam construído os cenários.

Começariam a rodar dentro de três semanas.

E depois de ser felicitada por todos os presentes, Daphne voltou para sua casa, satisfeita consigo mesma e muito excitada.

Tinham contratado Justin Wakefield para o papel principal, e embora ela achasse que possivelmente fosse muito bonito para o personagem, sentia-se extremamente impressionada por seu talento.

-Bem, senhora, como se sente?

Barbara sorria enquanto voltavam juntas para casa e entravam na sala.

-Não sei. Parece que estou em estado de choque. Na verdade esperava que dissessem que estava horrível.

Deixou-se cair no sofá branco e olhou em torno, meio desorientada.

Mas Barbara sorriu-lhe.

-Está louca, Daff. Sempre imagina que a editora também achará seus livros horríveis também e sempre ficam encantados.

-Então, estou louca. –encolheu os ombros com uma careta. Talvez tenha motivos para estar.

-O que vai fazer durante estas três semanas?

Daphne só conseguia passar três dias sem sentar-se diante de sua escrivaninha; o que não seriam para ela então aquelas três semanas? Mas Bárbara adivinhou o que passava por sua mente quando Daphne lhe sorriu.

-Está brincando? Vou telefonar para Matt esta noite mesmo para lhe pedir que embarque Andrew em um avião.

-Não deseja voltar para New York? Daphne negou com a cabeça e dirigiu um olhar à piscina.

-Acredito que ele aproveitará muito aqui, e possivelmente já é hora que veja algo mais do mundo que as quatro paredes da escola.

Barbara assentiu em silêncio, perguntando-se como seria, pois ainda não o conhecia pessoalmente.

Então Daphne a olhou com um cálido sorriso.

-Gostaria de ir a Disneylandia conosco?

-Nada poderia me agradar mais.

Tom teria que fazer uma viagem para New York por motivos profissionais, e ela já se sentia sozinha só de pensar nisto.

Aterrorizava-a imaginar como se sentiria quando finalmente retornasse a New York no final do ano.

Ainda não tinha aceitado sua proposta de casamento, com a desculpa de que não podia abandonar Daphne.

Ainda não.

Ao final de meia hora, Daphne levantou-se e telefonou para Matthew Dane em Howarth.

-Olá, Matt. Como está?

-Muito bem. Como anda o roteiro?

-Maravilhosamente. Já está terminado, e hoje soube que lhes agradou. Começaremos a filmar dentro de três semanas.

Só estavam esperando que eu o terminasse.

-Deve estar emocionada como um demônio.

Matthew parecia verdadeiramente satisfeito com o andamento de seu trabalho.

-E estou. E quero passar estas duas ou três semanas com o Andrew. Quando acredita que poderá colocá-lo em um avião? No outro extremo da linha, Matt consultou sua agenda com expressão preocupada.

-Poderia levá-lo a Boston no sábado, se quiser. É suficientemente logo para você?

Daphne riu.

-Não, mas está bem. Estou tão ansiosa para vê-lo...

-Sei.

Matthew sabia melhor do que ela suspeitava como havia se sentido só.

Podia adivinhar pelas vezes que tinha ligado.

E sempre se assombrava que uma mulher tão bonita, com tanto talento e gozando de tanto sucesso pudesse estar sozinha.

Imaginava que haveria uma multidão permanentemente a seu lado, sobretudo homens, mas ao mesmo tempo sabia que ela não desejava isto.

-Como andam as outras coisas, Daff?

-Que outras coisas? Desde que cheguei aqui não tenho feito outra coisa senão trabalhar. Agora me dei conta de repente que terminei o roteiro, e tudo o que faço é dormir. Hoje saí pela primeira vez, para ir aos estúdios, e foi como se tivesse ido para outro planeta.

-Bem vinda a terra, senhorita Fields. O que você e Andrew vão fazer durante o tempo que ele ficará aí?

-Para começar, iremos para a Disneylandia.

-Que menino afortunado! Matthew sorriu, imaginando como o menino se orgulharia disto diante dos outros meninos, mas sem malícia, pois não era uma criança perversa.

-Ainda não pensei o que faremos depois. Talvez só  aproveitemos a piscina, embora para falar a verdade, isto me mata. Penso que deveria estar trabalhando sem perder um minuto a fim de partir daqui o quanto antes.

-Alguma vez você faz uma pausa para aproveitar as coisas?

-Não, se posso evitar. Não vim aqui para me divertir, e sim para trabalhar.

Às vezes falava como se estivesse possuída por demônios, e Matthew sabia os motivos. Mostrava-se tão exigente consigo mesma para poder ver Andrew.

-Matt... – disse Daphne, com um tom que demonstrava preocupação. - Acredita realmente que não lhe acontecerá nada durante o vôo?  Se achar, poderia ir buscá-lo.

Embora tivesse que admitir que estivesse moída depois de dois meses de incessante trabalho.

Não obstante, por Andrew seria capaz de fazer qualquer coisa.

-Andrew ficará bem. Deixe-o, Daff. Deixe que exercite suas próprias asas. Este é um grande passo para ele.

-Mas e se lhe acontecer algo?

-Confie nele. E confie em mim. Verá como tudo sairá bem.

Havia tanto convencimento em suas palavras que Daphne não pôde deixar de acreditar.

Matthew telefonou no dia seguinte para dizer a hora de chegada do vôo.

Andrew viajaria de Boston a Los Angeles sem escala, e chegaria às três da tarde do outro dia.

Daphne perguntou-se como suportaria a espera durante mais vinte e quatro horas.

Desejava tanto poder voltar a estreitá-lo entre seus braços que cada segundo lhe parecia um século.

Matthew sorriu.

-Nota-se que está tão ansiosa como ele.

-Estou.

E então seu rosto voltou a adotar uma expressão grave:

-Ele não está com medo de viajar sozinho?

-Absolutamente. Acha que será muito emocionante.

Daphne exalou um suspiro.

-Não estou certa de estar preparada para isto, mesmo que ele esteja.

Durante anos Andrew tinha estado muito protegido, e agora, por sugestão de Matthew, teria que fazer a prova valendo-se de seus próprios meios, mesmo em algo tão simples como uma viagem a Califórnia, e isto a horrorizava.

-Do que tem medo, Darf? De que se torne independente? -perguntou-lhe ele com voz amável.

Isto lhe pareceu um golpe baixo, e logo apareceu um brilho de raiva em seus olhos da cor do oceano.

-Como pode dizer isto? Sabe bem que é isto que desejo que faça.

-Então o deixe tentar. Não faça que se sinta diferente a vida toda. Não tem que ser, a menos que você o faça assim.

-Está bem, está bem, já ouvi antes este sermão. Captei a mensagem.

As longas conversas por telefone tinham contribuído para nascer entre eles o tipo de amizade que lhes permitia zangar-se, e eles já o tinham feito antes, mas não por muito tempo.

No geral, Matthew sempre tinha razão.

-Daphne, seu filho se sentirá orgulhoso de si mesmo, e você também.

Ela sabia que isto era certo.

-Mas compreendo que este é o momento mais difícil. Amanhã a estas horas ambos estarão radiantes de felicidade. Não se esqueça de me telefonar quando chegar.

Agora era Matthew quem parecia uma galinha cuidando de seus pintinhos.

-Não esquecerei. Ligarei do aeroporto.

-Eu farei o mesmo de Boston.

E no momento em que ele ligou, começou a vigília de seis horas para Daphne, que ficou sentada junto ao telefone, consultando o relógio, temendo que algo saísse errado, que acontecesse alguma coisa ao avião, ou pior ainda, que durante o vôo Andrew não pudesse comunicar-se com as pessoas que o rodeavam, ou que algum menino o atormentasse, como tinha acontecido anteriormente.

Parecia-lhe terrível que tivesse que enfrentar o mundo de novo, completamente sozinho; e ao mesmo tempo, possivelmente isto era o mais conveniente.

Talvez Matthew tivesse razão e aquela era uma batalha que Andrew tinha que ganhar por seus próprios méritos, sem que ninguém compartilhasse sua glória nem a tirasse.

-Está bem? -perguntou-lhe Barbara, assomando a cabeça na porta do escritório; em seguida percebeu a tensão que seu rosto refletia.

-Alguma notícia?

-Só que já está a bordo do avião. Nada mais.

Barbara assentiu com a cabeça.

-Quer comer algo?

Daphne negou com um gesto.

Não conseguiria engolir nada.

Não podia deixar de pensar em Andrew, voando para ela de Boston.

Iria sozinha para esperá-lo no aeroporto, e Barbara os aguardaria em casa.

Tinham organizado uma pequena festa para recebê-lo, com chapéus de papel, um bolo, e um pôster que dizia: "Amamos você, Andrew. Bem-vindo à Califórnia".

Quando chegou a hora de ir ao aeroporto, Daphne tomou banho e vestiu uma calça de linho bege e uma blusa de seda branca, sandálias e uma jaqueta de seda branca, que Barbara tinhalhe comprado em Rodeo Drive.

Assentava-lhe muito bem, e estava muito elegante quando pegou a bolsa e se dirigiu à porta sob o atento olhar de Barbara.

Ao chegar à soleira voltou-se, seus olhares se encontraram, eentão, com um sorriso, Daphne saiu.

Barbara ficou maravilhada com o que tinha visto nos olhos de sua amiga.

Havia tanto amor que até chegou a sentir inveja; amor por um menino que era parte de sua alma, apesar de todos os problemas, pois surdo ou não, era seu filho e o amava com todo seu coração, com tudo que podia lhe oferecer.

No aeroporto, Daphne consultou o painel onde anunciavam as chegadas e soltou um suspiro de alívio.

O avião chegaria no horário, e se apressou para aproximar-se do portão de desembarque.

Ainda faltava meia hora, pois ela tinha chegado antes "no caso de"; fitou a pista, observando os aviões que aterrissavam ou decolavam, e sentindo que os minutos pareciam séculos.

Por fim, dez minutos antes da hora de chegada, não pôde mais, entrou em uma cabine telefônica e chamou Matthew.

-Chegou são e salvo? – indagou ele alegremente.

Então, Daphne respondeu com voz tensa:

-Ainda faltam dez minutos para a chegada do avião, mas não pude suportar mais. Tinha que ligar.

-O lance final, não é? Andrew estará bem, Daphne, prometo-lhe isto.

-Sei. Mas de repente me dei conta de que faz dois meses e meio que não o vejo. E se tiver mudado? E se me odeia porque o deixei para vir para cá?

Estava apavorada diante da perspectiva de ver seu próprio filho, mas Matthew sabia que isto era normal.

-Ele não a odeia, Daff. Ele te ama. Está ansioso para vê-la. Não fez mais que falar disto durante os dois últimos dias.

-Jura? Daphne parecia a ponto de ter um colapso nervoso.

-Juro. Vamos, menina, coragem. Andrew está prestes a chegar.

Consultou seu relógio, e no aeroporto Daphne viu que as pessoas se amontoavam diante da porta de saída.

-Faltam só cinco minutos.

De repente, ela sorriu, sentindo-se tola.

-Lamento ter lhe ligado. Senti-me muito nervosa...

-Escute, eu me sinto igual. Tranqüilize-se. Olhe, não se incomode em me telefonar até que cheguem em casa. Se não me ligar, saberei que chegou são e salvo. Mas não desperdice os primeiros instantes com ele correndo a procura de uma cabine telefônica.

-De acordo.

Então ela viu o avião, que taxiava pela pista para a companhia aérea.

Os olhos se encheram de lágrimas e lhe sentiu um nó na garganta.

-Oh, Matt..., já vejo o avião... Andrew chegou... Adeus.

Pendurou o aparelho, e Matthew sorriu, tomado também pela emoção.

Daphne permaneceu imóvel enquanto o avião se aproximava do portão de desembarque, e segurou com uma mão o corrimão enquanto o aparelho parava.

Em um instante começaram a sair os passageiros: cansados homens de negócios com suas pastas, avós que se ajudavam com suas bengalas, modelos com bolsas..., mas ela não via Andrew em parte nenhuma.

Daphne continuou em seu lugar, sem separar os lábios, percorrendo a multidão com o olhar, e então, de repente, viu-o.

Andrew sorria e ria, pego na mão de uma aeromoça, e logo apontou com o dedo para Daphne e exclamou quase com absoluta clareza:

-Esta é minha mamãe!

Com lágrimas correndo porseu rosto, Daphne se precipitou para ele e o estreitou entre seus braços, fechando os olhos fortemente e o apertando contra seu peito; então se separou dele para que pudesse ler seus lábios.

-Te amo tanto!

O menino riu contente e a abraçou de novo; quando se separou dela, moveu os lábios e disse:

-Eu também te amo, mamãe.

Andrew ficou fascinado pela limusine que os aguardava junto à calçada, assim como pelo pôster que lhe tinham preparado em casa, e pela piscina e o bolo.

Contou a Barbara todos os detalhes da viagem, movendo cuidadosamente os lábios e falando devagar, mas não tanto que ela não pudesse entender.

Depois de jantar, os três deram um mergulho na piscina e, por fim, Andrew foi para a cama.

Daphne o agasalhou, acariciando-lhe os cabelos loiros e lhe beijando meigamente a testa, enquanto ele finalmente adormecia.

Nesta noite esteve contemplando-o por longo tempo, sem poder acreditar que o tivesse tão perto de novo.

Andrew estava em casa.

Era a única coisa que conseguia pensar naquele momento; transcorreu muito tempo antes que saísse do quarto, e então encontrou Barbara que levava os restos do bolo para a cozinha.

-Tem um filho realmente extraordinário, Daff.

-Sei.

Pouco mais pôde dizer, pois nesta noite as lágrimas vinham a seus olhos por qualquer coisa, como lhe ocorreu agora ao sorrir para Barbara.

Em seguida, entrou em seu escritório para telefonar para Matt, e quando este respondeu , disse-lhe com voz trêmula:

-Ele conseguiu, Matt, conseguiu! Tentou lhe explicar como tinha sido a viagem, mas não demorou em tornar a chorar, soluçando ruidosamente pela alegria que sentia.

Matthew compreendia seus sentimentos enquanto aguardava que se acalmasse.

-É assim, Daff... Está bem..., está bem.

Sua voz era cálida e reconfortante, apesar de vir de cinco mil quilômetros de distância, e era como se a tivesse em seus braços, enquanto seus soluços acalmavam.

-De agora em diante, saberá fazer bonito. Haverá altos e baixos em sua vida, mas saberá superar todos os empecilhos.

Proporcionou a ele o que precisava, e isto é o melhor que podia lhe oferecer.

Ela, porém, sabia que Matthew e outros também tinham contribuído com seu grão de areia, proporcionando a ele algo que ela nunca teria podido lhe oferecer.

Ela só tinha tido o bom senso de permitir.

-Obrigado, Matthew.

Ele compreendeu o que Daphne queria dizer, e pela primeira vez em muitos anos notou que seus olhos se enchiam de lágrimas, e só com grande esforço conseguiu conter-se para não lhe dizer que a amava.

A viagem a Disneylandia foi um sucesso.

Barbara e Daphne aproveitaram tanto como o Andrew.

Em outro dia foram a Knotts Berry Farm; passaram uma tarde na Brea Tar Pits; percorreram os estúdios da Comstock em visita guiada, e todas as tardes nadavam na piscina.

As duas semanas de sua visita passaram rapidamente, e quando chegou o último dia, pareceu-lhes que só tinham transcorrido uns instantes.

Sentados junto à piscina, falavam-se por gestos, e os olhos de Andrew tinham uma expressão grave enquanto dizia a sua mãe as coisas de que mais tinha gostado e o muito que tinha simpatizado com Barbara.

Daphne sorriu e lhe disse que era uma grande amiga e que também gostava muito dela, e se surpreendeu diante da seguinte pergunta do menino.

-Você também será como ela, mamãe?

-O que quer dizer? -perguntou-lhe Daphne por sua vez, fazendo os sinais com lentidão, pois nunca tinha lhe ocorrido ser "como" Barbara.

-Você sabe, se terá alguém que a ame - respondeu Andrew, que tinha conhecido Tom com quem também tinha simpatizado quase tanto quanto com Matthew.

Pelo que percebia, era a pessoa que Andrew mais admirava.

Entretanto, a pergunta era difícil de responder.

Daphne reparou então que até a muito pouco tempo ela e seu filho não podiam manter uma conversa como aquela.

Agora o menino podia expressar-se falando de temas extremamente profundos, mediante sinais, e era capaz de seguir uma conversa lendo os lábios.

Já não existiam portas fechadas entre ela e seu filho; tinham sido todas abertas pelas pessoas que o amavam na escola de Howarth.

Mas como ela ficasse pensativa uns instantes, Andrew repetiu a pergunta.

-Não sei, Andrew. Não é tão fácil encontrar alguém que lhe ame. Isto é algo muito raro e especial.

-Mas já lhe aconteceu antes.

-Sim, é verdade.

Em seus olhos apareceu uma melancolia que o menino não tinha nunca visto antes.

-Com seu papai.

-E com o John.

Andrew continuava sendo fiel à memória de seu amigo, e ela assentiu com a cabeça.

-Sim.

-Eu gostaria de ter um pai como Matthew.

-É sério? Ela sorriu com ternura, entre triste e divertida.

Por muito que se esforçasse, sempre havia algo que não lhe dava, que não podia lhe dar.

Agora se tratava de um pai.

-Não acredita que poderia ser feliz só comigo? Aquela era uma pergunta importante, e Daphne observou seus olhos e suas mãos enquanto o menino respondia.

-Sim. Mas olhe como Barbara é feliz com o Tom.

Ela riu baixinho, pois o tom do menino era quase repreensivo; mas tinha posto o dedo na ferida.

-O caso deles é muito especial, Andrew. A pessoa não se apaixona todos os dias. Às vezes, isto só acontece uma vez na vida.

-Você trabalha muito - disse o menino com ar chateado. Nunca sai.

Como poderia saber tanto, sendo tão pequeno?

-O que acontece é que quero terminar o trabalho o quanto antes para voltar para casa com você.

A resposta de Daphne pareceu acalmá-lo, mas quando entraram em casa para almoçar, Daphne ainda não tinha saído de seu assombro pelo que seu filho lhe havia dito.

Andrew começava a vê-la tal qual era, com seus temores e seus defeitos, assim como com suas virtudes.

O menino estava amadurecendo, mais do que era necessário para poder tomar um avião sozinho.

Estava começando a raciocinar por si mesmo.

E ela se sentia ainda mais orgulhosa dele por isto.

-Possivelmente eu não necessito dr um homem como acontece com a Barbara.

Daphne voltou a tocar no assunto depois do almoço, como se quisesse convencê-lo.

-Por que não?

-Porque tenho você - respondeu ela, enquanto comiam a sobremesa.

-Isto é uma tolice. Eu só sou seu filho.

O menino a olhou como se sua mãe fosse realmente estúpida, e ela pôs-se a rir.

-É um osso duro de roer, não é? Andrew pareceu confuso com aquelas palavras, e Daphne lhe disse: -Não faça conta. Será melhor que nos apressemos ou perderemos o avião.

Desta vez a despedida não foi nada fácil.

Nenhum dos dois sabia com certeza quando voltariam a ver-se, e o menino se agarrou a seu pescoço com lágrimas rolando porseu rosto, enquanto Daphne fazia um esforço para manter sua compostura.

-Prometo-lhe que voltará logo, querido.

E se puder, irei a New York por uns dias.

-Mas estará muito ocupada com o filme - argumentou Andrew com um lamentoso gemido.

O menino se expressava muitas vezes verbalmente desde sua chegada.

-Mas eu tentarei, seriamente. E você também deve tratar de não ficar triste, e se divertir com seus amiguinhos da escola. Pense em todas as coisas extraordinárias que tem para lhes contar.

Mas, nenhum dos dois pensava nisto quando a aeromoça o conduzia para o avião.

Agora, ele era só um menino de sete anos e meio que não queria separar-se de sua mãe, e ela tinha a sensação de que lhe arrancavam a parte mais vital de seu ser.

Quanta vez tinha experimentado esta dor...; entretanto cada vez lhe parecia que era a primeira.

Barbara nada disse a Daphne enquanto esta chorava olhando fixamente o avião sem vê-lo; limitou-se a passar o braço por seus ombros e a estreitá-la contra si.

Agitaram freneticamente a mão quando o aparelho começou a afastar-se, sem saber se ele podia vê-las.

Fizeram em silêncio e com expressão sombria a volta para casa.

Daphne se fechou em seu quarto e desta vez não telefonou a Matthew.

Foi ele quem a chamou.

Pelo tom de sua voz, Matthew compreendeu em seguida como se sentia, o que já imaginava e por isto tinha lhe telefonado.

-Aposto que se sente muito desconsolada, não é verdade, Daff?  Ela sorriu entre as lágrimas e assentiu com a cabeça.

-Sim. Desta vez foi mais doloroso que nunca. É diferente quando o deixo na escola.

-Pensa que não é uma separação definitiva, que um dia destes o terá em casa para sempre.

Daphne assuou nariz e exalou um profundo suspiro.

-Parece difícil imaginar que este dia chegará.

-Chegará. E não demorará muito. Tenha em conta que nos dois próximos meses estará terrivelmente ocupada com seu filme.

-Tomara nunca tivesse assinado este maldito contrato. Deveria estar em New York, perto de Andrew.

Mas ambos sabiam que ela não acreditava sinceramente.

Em parte, era uma reação lógica diante da partida de seu filho.

-Bom então se apresse e termina este condenado filme para que possa voltar para casa. Não acredito que me incomodaria. Demônios, você é a única mãe com quem posso me queixar.

Daphne riu e se recostou na cama.

-Céus, Matt, às vezes a vida é tão cruel!

-Passou momentos piores.

-Obrigado por me recordar isto, replicou ela, mas sem deixar de sorrir.

-Foi um prazer.

Sabiam aceitar as brincadeiras que se faziam mutuamente, e ela estava acostumada a lhe contar todos seus problemas, os que se centravam no trabalho ou em Andrew; com exceção disto, pouca coisa mais tinha para lhe explicar.

-Quando começa o filme?

-Depois de amanhã. Estas duas últimas semanas, os atores estiveram provando o figurino, mas na realidade não começarão a rodar até dentro de um par de dias. Eu não tenho obrigação de ir ao estúdio até então. Provavelmente terei que reescrever algumas falas e ver como anda a filmagem. A partir deste momento, sou basicamente uma espécie de assessora. Agora o trabalho está nas mãos dos diretores e dos atores.

-Já conheceu os atores?

-Sim, a todos com exceção de Justin Wakefield. Estava rodando na América do Sul e acredito que terá chegado faz tão somente um par de dias.

-Terá que me dizer como ele é.

Matthew disse isto com um novo tom na voz, mas ela não percebeu.

-Provavelmente é um asno.

Um homem tão vaidoso como ele tem que ser um arrogante.

-Talvez não. Pode ser uma excelente pessoa.

-Enquanto faça um bom trabalho no filme, dou-me por satisfeita.

Tratava-se da história de um homem de nossa época com sangue índio apache em suas veias, com todas as implicações que este fato tinha para ele, assim como as responsabilidades e problemas que isto conduzia toda sua vida, por não haver assumido, até o momento em que finalmente o aceitava.

Independentemente do tema racial, era um estudo da natureza humana e do reconhecimento da própria identidade.

Possuía muita força, e todo mundo se surpreendia ao saber que sido escrito por uma mulher.

Se Justin Wakefield interpretasse bem o papel, poderia obter um prêmio da Academia, e Daphne achava que ele sabia disto.

Era um astro loiro espetacular, idolatrado por quase todas as mulheres do país, e sua participação certamente converteria Apache em um autêntico êxito.

-Pelo menos sabemos que sabe atuar.

-Se tiver um minuto, me chame para me dizer como andam ás coisas.

-Farei isto, e você sabe que desejo estar a par do que Andrew faz, por mais ocupada que esteja. No estúdio deve haver algum número em que possa me chamar. Telefonarei assim que souber.

Posteriormente, teriam que ir ao Wyoming para filmar os exteriores, mas para isto ainda faltavam muitos meses.

Primeiro tinham que filmar as cenas locais.

-Voltarei a lhe chamar logo, quando Andrew chegar.

-Obrigado, Matt.

Como de costume, tinha-a reconfortado, e ela sentia-se menos desconsolada com a partida de seu filho.

-Matt?

-Sim?

-Quem faz isto por você?

-O que? -perguntou Matt sem compreender.

-Te reconfortar. Você sempre está disposto a me escutar, e isto não é justo.

Matthew era a única pessoa em quem se apoiou em muitos anos, e às vezes experimentava um sentimento de culpa.

-Nesta vida temos que pagar um preço pelas pessoas queridas, Daff. Não preciso lhe dizer isto.

Ela assentiu em silêncio, pois ele tinha razão.

-Telefonarei mais tarde.

-Obrigado.

Desligaram, e Daphne perguntou-se como tinha se arrumado antes de conhecer Matthew.

A filmagem de Apache começou em um cenário interior dos estúdios Comstock, montado no estúdio A, às cinco e quinze da manhã de uma terça-feira.

Deviam ter começado na segunda-feira, mas não puderam fazê-lo porque a estrela principal, Maureen Adams, estava com gripe.

De acordo com os cálculos do gerente de produção, o atraso  custara ao estúdio vários milhares de dólares, mas isto já estava previsto na produção .

O atraso proporcionou um dia adicional a Justin Wakefield, que aproveitou para estudar seu papel e trocar impressões com o diretor, neste caso Howard Stern, um velho veterano de Hollywood, aficionado aos charutos, a botas de vaqueiro e a gritar como um desaforado com os atores; mas também era um gênio reconhecido por seus pares, e gozava de justa fama por seus brilhantes filmes.

Daphne encheu-se de satisfação ao saber que ela seria o diretor do filme.

Nesta manhã, Daphne levantou às três e meia, tomou banho, vestiu-se, preparou uns ovos mexidos para ela e para Barbara, e as quatro e quinze estava pronta para sair.

A limusine estava aguardando, e chegaram ao estúdio na hora fixada em ponto.

A maioria dos membros da equipe de filmagem já se encontrava ali, e o diretor fumava charutos e comia rosquinhas com os cenógrafos.

Maureen Adams se encontrava nas mãos de dois maquiadores.

Não se via Justin Wakefield em nenhuma parte.

Daphne saudou os diretores do estúdio, que tinham feito ato de presença para certificar-se de que tudo andava sobre os trilhos, e eles se encarregaram de apresentá-la ao diretor, o qual meteu a rosquinha no bolso da camisa e examinou seu rosto por um instante antes de lhe estender a mão esboçando um amplo sorriso.

-Tremendamente pequena, não? Mas bonita, tremendamente bonita. - Inclinando-se para ela, murmurou com um sorriso: -Deveria atuar no filme.

-Oh, céus, não! -exclamou ela, levantando a mão em sinal de protesto, rindo.

Howard Stern tinha um aspecto peculiar; tinha completo sessenta e tantos anos e seu rosto estava sulcado por profundas rugas, que de certo modo acentuavam favoravelmente seus traços.

Não era um homem de aparência agradável, e deve ter sido menos ainda em seus anos de mocidade, mas Daphne simpatizou com ele imediatamente.

Ela teve a impressão de lhe haver causado simpatia também.

-Emocionada por ser seu primeiro filme, senhorita Fields? Indicou um par de cadeiras com a mão, e se sentaram um junto ao outro, ele ocupando tudo ou assento com seu corpo grandalhão, e ela com todo o aspecto de uma garotinha, que o olhava, sorrindo de novo.

-Sim, muito emocionada, senhor Stern.

-Eu também. Eu gostei de seu livro. De fato, eu gostei muitíssimo. Sairá um extraordinário filme. E eu gosto de seu roteiro.

Com expressão displicente, adicionou:

-O Justin Wakefield também. Conheceu-o pessoalmente? Fixou seu olhar em Daphne, perdido em seus próprios pensamentos.

-Não, ainda não.

Stern moveu a cabeça afirmativamente.

-Um homem interessante. Inteligente, por ser um ator. Mas não esqueça que isto é o que é.

Contemplou-a de cima a baixo com admiração.

-Todos são iguais. Sei pelos muitos anos que tenho trabalhando com eles. A todos eles falta uma peça e têm algo adicional agregado, algo infantil, gratuito e maravilhoso. São irresistíveis, mas também são egoístas, malcriados e egocêntricos. Não se importam com nada e com ninguém, e a maioria só se interessa por si mesmo.

A princípio se surpreenderá, mas se os observar atentamente descobrirá uma semelhança em seu caráter. Ao final de um tempo, tudo fica mais claro. Há exceções, claro...

Nomeou uns poucos, todos nomes que ela conhecia e a quem tinha visto na tela.

-Mas são estranhos. Outros são...

Vacilou, sorrindo, como se conhecesse um segredo que ela ignorava, mas que não demoraria em descobrir.

-Bom..., são atores. Não se esqueça, senhorita Fields; isto lhe permitirá conservar a sanidade durante os próximos meses. Vão deixá-la louca, e a mim também. Mas, em última instância, faremos um extraordinário filme, e tudo terá valido a pena; Daremos as mãos, derramaremos algumas lágrimas e nos despediremos com um beijo. E nos esqueceremos das brigas, dos ciúmes e das diferenças. Recordaremos as brincadeiras, as risadas e os momentos extraordinários. Existe uma espécie de magia em tudo isto...

Com um gesto da mão, abrangeu todo o estúdio com um gesto majestoso.

Então ficou de pé, saudou-a com uma inclinação de cabeça, fixando seus risonhos olhos nos dela, e voltou a conferenciar com os cenógrafos.

Daphne sentia-se impressionada por aquele homem e por tudo que a rodeava, e ficou observando em silêncio os maquinistas, extras e encarregados de vestuário, assim como os técnicos de som e de iluminação, que iam de um lado a outro, realizando misteriosas tarefas, até que por fim às sete e meia produziu-se uma súbita agitação, acentuou-se a tensão no ambiente, e ela pressentiu que estavam a ponto de começar.

Quase no mesmo momento em que a atividade parecia maior, Daphne viu que de um dos camarins saía um homem vestido com jeans, uma camiseta esportiva e uma jaqueta com capuz, sapatos sem meias, e os loiros cabelos caídos na testa como os de um adolescente.

Dirigiu-se para ela com certa hesitação e timidez, até que finalmente sentou-se na cadeira que Howard Stern tinha ocupado momentos antes.

Lançou um olhar a Daphne, ao estúdio e logo depois de novo a ela, tenso e nervoso.

Daphne sorriu-lhe, adivinhando como se sentia e perguntando-se quem seria.

-Emocionante, não? Foi a única coisa que lhe ocorreu dizer, e ele pareceu achar divertido, enquanto a contemplava com seus profundos olhos verdes como  mar.

Havia algo familiar nele, mas não conseguia identificar.

-Sim, suponho que é. Sempre sinto um nó no estômago quando nos dispomos a começar a filmagem. Ossos do ofício, eu suponho.

Encolheu os ombros e colocou a mão no bolso para tirar um caramelo, colocou-o na boca e então, com certo embaraço por ter sido tão pouco delicado, procurou no bolso de novo e ofereceu um a Daphne.

-Obrigada.

Seus olhos se encontraram de novo, e ela sentiu que se ruborizava diante de seu olhar admirado.

-Está como extra neste filme?

-Não.

Ela balançou a cabeça, sem saber o que dizer.

Não queria lhe dizer que o tinha escrito, pois soaria muito pomposo.

Ele não insistiu.

Parecia absorto observando os preparativos no cenário; então, com bastante nervosismo, se pôs de pé e afastou-se.

Quando reapareceu, inclinou-se sobre ela olhando-a com um sorriso juvenil.

-Quer tomar algo? Daphne se sentiu agradecida.

Barbara tinha desaparecido fazia vinte minutos à procura de duas xícaras de café. Então concordou.

-Obrigado. Daria meu braço direito por uma xícara de café.

No estúdio fazia frio e havia correntes de ar, e ela estava cansada.

-Eu a conseguirei. Com creme e açúcar? Daphne fez um gesto afirmativo, e ele reapareceu ao final de uns instantes com duas fumegantes xícaras.

Nada teria podido fazê-la mais feliz.

Pegou a sua e tomou um gole lentamente, e quando levantou a vista para seu benfeitor, ele estava observando-a de novo com seus fascinantes olhos verdes.

-Você é muito bonita, sabia? -Daphne voltou a ruborizar-se, e ele sorriu. -E tímida. Eu adoro as mulheres tímidas.

E então revirou olhos e riu de si mesmo.

-Que tolices eu falo! Pareceria que provo centenas delas todos os dias.

-E não é isto o que fazem todos aqui?

Desta vez ambos riram, e ele parecia intrigado em saber quem era ela.

Via em seus olhos que ela era inteligente e esperta, que não era o tipo de mulher a quem se pode enganar facilmente.

Gostava disto, e não deixava de perguntar-se quem deveria ser.

-Não, nem todo mundo faz isto aqui. Ainda existem algumas pessoas decentes nesta cidade, inclusive neste meio..., possivelmente.

Sorriu, tomou o café quente e então deixou a xícara.

-Sinto curiosidade por você, senhorita. O que faz neste estúdio? Tinha chegado o momento de dizer a verdade.

-Escrevi o roteiro, mas é a primeira vez que faço uma coisa semelhante. De modo que tudo é novo para mim.

Então ele pareceu ainda mais intrigado.

-Quer dizer que você é Daphne Fields? -mostrou-se impressionado. - Tenho lido todos seus livros, e este é o que eu mais gosto.

-Obrigada – respondeu ela satisfeita.

-E agora devo lhe fazer a mesma pergunta. O que está você fazendo aqui?

Mas ao ouvir isto ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada, um som assombrosamente argênteo, e em seguida voltou a fixar os olhos nela, enquanto afastava o cabelo loiro do rosto com a mão e sorria.

De repente, Daphne adivinhou quem era e ficou estupefata.

Era tão bonito como aparecia em todos seus filmes, mas naquele ambiente parecia diferente, completamente fora de lugar e sem pretensões, com aquela velha jaqueta com capuz e os puídos jeans.

-Oh, meu Deus...

Ambos se puseram a rir.

Ele compreendeu que ela tinha adivinhado.

Era Justin Wakefield.

Ele estendeu a mão para estreitar a sua, e enquanto suas mãos se encontraram, olharam-se olho no olho

Havia algo mágico naquele homem, uma alegria infantil, um magnetismo em seus olhos que deixava qualquer um fascinado.

-Eu atuo em seu filme, senhora. E espero com toda minha alma que goste de minha interpretação.

-Pode estar certo disto - disse Daphne, sorrindo.

-Fiquei muito contente ao saber que havia aceitado o papel.

-Eu também - ele admitiu com franqueza.

-É o melhor que a sorte me trouxe em muitos anos.

Ela estava radiante de satisfação.

-Você escreve como um demônio.

-Tampouco você o faz de todo mal.

Os olhos de Daphne diziam às claras que estava brincando, e uma voz interior lhe disse que se encontrava flertando com o ídolo de cinema favorito dos Estados Unidos.

Experimentava uma estranha confusão ao estar ali sentada junto a ele.

E por alguma razão que não podia explicar, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se como uma mulher, não como um animal de carga nem como uma escritora, e nem sequer como a mãe de Andrew, mas sim como uma mulher.

Tinha atraído sua atenção, como o demonstrava a forma como lhe falava.

Mas fazia tanto tempo que não mantinha relação com um homem, com exceção de Matthew, com quem só falava de Andrew, que não sabia o que dizer.

Como sentiu que estava ficando nervosa, voltou a conversa para seu trabalho, pois naquele terreno se sentia segura.

Não se sentia completamente a salvo junto a aquele homem.

Justin Wakefield a observava muito atentamente, e ela temia dizer algo que depois talvez se arrependesse.

Possivelmente ele perceberia a solidão que ela sempre sabia dissimular tão habilmente, ou o doloroso vazio que a morte de John tinha deixado em sua alma.

-O que você acha do roteiro?

-Eu gosto, eu gosto muitíssimo, com certeza. Howard e eu nos reunimos ontem para discutir. Só há uma cena, no momento, que não me agradou.

-Qual? -inquiriu Daphne, repentinamente preocupada.

Mas havia uma afetuosa expressão nos olhos de Wakefield quando se inclinou para pegar o exemplar do roteiro que Barbara tinha deixado ao lado da cadeira de Daphne.

-Não se preocupe. É uma cena muito breve.

Era evidente que conhecia bem o roteiro, pois passou rapidamente as folhas e lhe mostrou a parte que não gostava.

Daphne lançou um olhar à página, assentiu com a cabeça e franziu o cenho ao levantar os olhos para ele.

-Pode ser que tenha razão. Eu mesma não estava muito de acordo com ela.

-Bom, esperemos para ver o que diz Howard. Ambos vamos ter que fazer uma série de mudanças e de adaptações antes de terminar a filmagem. Você o viu dirigir alguma vez?

Daphne balançou a cabeça, e ele pôs-se a rir.

-Pois você está convidada para ver. E não se deixe intimidar por ele. Tem um coração de ouro – acrescentou com um tenro sorriso-, e uma boca cheia de sapos e lagartos. Mas você se acostumará em seguida. Como todos.

-E vale a pena, pois o homem é um verdadeiro gênio. Aprenderá muito com ele. Eu trabalhei duas vezes com Howard, e em cada ocasião me ensinou coisas diferentes. Tem sorte de que seja ele quem dirige Apache. Todos nós temos.

E então, enquanto parecia acariciá-la com os olhos, disse-lhe em voz baixa:

-Mas ainda somos mais afortunados por ter você.

E com um sorriso que quase parecia um beijo, separou-se dela para ir trocar-se.

Neste momento, Bárbara voltou.

-Não consigo encontrar uma maldita xícara de café em parte nenhuma.

-Não se preocupe. Alguém me trouxe uma.

Mas Daphne tinha um ar distante.

Justin Wakefield era um homem extraordinário, e não estava certa se realmente gostava dele ou não.

Sem dúvida era inteligente, extremamente simpático, bonito como um demônio, divertido às vezes, mas não conseguia convencer-se de que fosse de carne e osso.

Como podia ser de carne e osso uma criatura tão linda?

-Parece que acaba de ter uma visão.

-Acredito que tive. Estive falando com Justin Wakefield.

-Como ele é? -Barbara se sentou na cadeira vazia, tentando não mostrar-se impressionada, mas estava. Morria de vontade  de conhecê-lo, e até o momento nem sequer o tinha visto no estúdio.

-É tão sedutor como se vê na tela? Daphne riu.

-Não estou certa. Tem aparência terrivelmente agradável, mas nem sequer o conheci quando se sentou a meu lado.

-Como foi isto?

-Parecia um rapaz qualquer. Suponho que esperava me deparar com algo diferente - respondeu-lhe Daphne com um sorriso.

-Quer dizer que sofrerei uma desilusão? -exclamou sua secretária e amiga, com assombro.

-Eu não diria isto.

Era difícil, com aquela pinta.

Enquanto ficava perdida em seus próprios pensamentos relacionados com ele, viu-o sair de seu camarim com calças de camurça muito apertadas de cor caramelo claro, como exigia o roteiro para o começo do filme, e um suéter branco com gola alta, que lhe dava a aparência de um jovem e loiro Marlon Brando.

Daphne notou que Barbara ficava sem fôlego.

-OH, meu Deus, é fenomenal! -murmurou Barbara.

Daphne sorriu sem tirar os olhos de cima de Justin.

Realmente o era com aquele traje.

Estava imponente, e seus músculos se destacavam sob a roupa, enquanto se dirigia para onde elas estavam.

Agora tinha os cabelos penteados para trás, como Daphne tinha visto nos filmes, e se parecia com o Justin Wakefield, o ator, não com o rapaz levado que tinha lhe oferecido uma xícara de café no estúdio.

Dirigiu-se diretamente para Daphne e se deteve junto a sua cadeira com um cálido sorriso.

-Olá, Daphne.

Seus lábios pareciam acariciar seu nome.

-Olá. -Daphne sorriu, tratando de parecer mais serena do que se sentia.

-Quero-lhe apresentar a minha secretária, Barbara Jarvis.

Barbara, Justin Wakefield.

Estreitou a mão de Barbara esboçando um simpático sorriso e logo se voltou e saudou Daphne antes de ir reunir-se com Howard Stern para começar a filmar, enquanto Barbara o contemplava com a boca aberta.

Daphne se inclinou para ela com um sorriso.

-Fecha a boca, Barb. Você vai deixar cair a baba.

-Santo céu! É incrivelmente bonito.

Não podia tirar os olhos dele.

Daphne olhou primeiro para Justin e logo observou a reação de Barbara.

Sem dúvida causava um grande efeito nas mulheres.

Estava certa disto, pois tinha que reconhecer que nem ela mesma podia afastar-se de sua fascinação.

Tornava se difícil resistir.

-Está bem, está bem.

-Sim, ele é. Mas há outras coisas na vida além de uma cara bonita.

Daphne falava como uma velha com experiência, e Barbara pôs-se a rir.

-Ah, sim? Por exemplo?

-Por exemplo, Tom Harrington, ou acaso tenho que lhe recordar isto? Barbara se ruborizou enquanto fazia uma careta.

-Está bem, está bem.

-Por certo, como andam as coisas?

Barbara suspirou e adquiriu uma expressão sonhadora.

-É um homem maravilhoso, Daff. Eu o amo e adoro seus filhos.

Mas parecia haver algo que ela preferia calar.

-Então, qual é o problema?

-Não há nenhum problema. -Barbara sorriu.

-Jamais fui tão feliz em minha vida, salvo quando me lembro de que quando menos pensar teremos que retornar a Nova Iorque.

-Ainda falta muito para isto, assim aproveite enquanto pode.

Não se amargure pensando no que acontecerá daqui a seis meses, pelo amor do Deus. Estas coisas não acontecem todos os dias.

Sorriu-lhe com ternura.

Para Barbara não tinha acontecido nunca antes.

Aos quarenta anos, estava loucamente apaixonada pelo homem ideal pela primeira vez em sua vida.

-Isto é o que digo ao Tom no primeiro momento. Uma coisa assim só acontece uma vez na vida, portanto não devemos deixar escapar a ocasião.

Daphne adotou uma expressão sonhadora e triste.

-Jeff me disse o mesmo, pouco depois que nos conhecemos... -perdeu-se na lembrança de seu marido e logo fixou o olhar em Barbara-. Tinha razão.

Outras coisas cruzam seu caminho, e cada momento, cada experiência, é diferente.

Cada uma delas só se vive uma vez.

E se deixar passar, a ocasião jamais volta a se apresentar.

Ela quase tinha deixado que isto ocorresse com o John, e sempre deu graças ao céu por não havê-lo permitido.

Fez um esforço para afastar a mente do passado e retornar ao presente.

-Inclusive isto, Barb. Inclusive esta louca aventura que estamos vivendo.

Nunca voltará a haver um primeiro filme para mim; nunca voltará a haver outra primeira vez na Califórnia para você...

Melhor será que aproveitemos este instante, porque é tudo tremendamente maravilhoso.

A gente nunca sabe com o que se encontrará ao dobrar uma esquina, ou com quem.

E por alguma razão, olhou para Justin Wakefield ao dizê-lo, e este se voltou como se houvesse sentido seu olhar pousado nele.

Suspendeu o que estava fazendo e fixou seus olhos nela, e Daphne sentiu um arrepio que percorria sua espinha, e ficou presa do magnetismo de seu olhar.

A rodagem do filme iniciou as nove e quinze, e ao meio dia a primeira cena tinha sido filmada duas vezes.

Howard Stern tinha soltado rugidos para os atores e tinha gritado para Justin que ele era um asno; Maureen Adams se pôs a chorar, dizendo que estava enjoada, e os diretores do estúdio tinham desaparecido, enquanto Daphne e Barbara observavam a filmagem completamente fascinadas.

A cabeleireira lhes assegurou que tudo aquilo era normal, e quando anunciaram que era a hora do almoço, todos pareciam tratar-se amigavelmente de novo.

Howard Stern passou um braço pelos ombros de Justin, lhe dizendo que estava satisfeito, e deu um beliscão no traseiro de Maureen Adams quando ela passou ao seu lado.

A atriz enviou um beijo a Howard e deu um baseado firmemente enrrolado para Justin antes de retirar-se ao seu camarim para descansar.

Então, Daphne tinha ficado sozinha, pois Barbara tinha ido telefonar para Tom.

-Bem, o que lhe pareceu a primeira manhã de filmagem? Justin se plantou com toda sua altura diante de Daphne.

As calças justas de camurça ajudavam a realçar sua incrível atitude.

Daphne procurou não deixar se arrastar pela atração que sentia para ele.

-Começo a suspeitar seriamente que estão todos loucos - respondeu-lhe com um sorriso, tentando adotar um ar displicente, sem conseguir.

Era um homem tão extraordinariamente bonito!

-Há um tempo atrás, teria dito o mesmo. Gostou da cena?

-Na primeira vez já me pareceu estupenda.

Era sincera ao dizê-o, pois realmente tinha gostado.

-Não foi. Howard tinha razão. Eu tinha que me enfurecer e não o fiz.

Voltaremos a tentar no final do dia, e à tarde começaremos com a cena de Maureen em seu apartamento.

Era uma cena em que ambos apareciam nus, e Daphne pareceu sobressaltar-se, apesar de ter sido ela quem a tinha escrito.

Além disto, aquela seqüência vinha muito mais adiante no filme, e lhe parecia que devia ser difícil interpretar justo depois da cena inicial, completamente fora de contexto.

-Não fique com esta cara, garota. Você a escreveu.

Justin parecia divertido.

-Sei. Mas como pode ser feito fora de contexto?

-Toda a filmagem é feita fora de contexto. Filma-se cena por cena, de acordo com um plano magistral e insano que Howard tem em sua cabeça, e logo se corta todo o filme como se fosse espaguete e voltam a juntar os pedaços. Aparentemente, a coisa funciona. Esta é uma arte de loucos.

Apesar isto, ele não parecia se preocupar muito.

Parecia que estava mais interessado em Daphne que em seu trabalho.

-Seu roteiro é uma obra de mestre, sabe, Daff? Seus olhos a acariciaram de novo.

-Obrigado.

-Posso lhe convidar para comer um pobre prato de almoço na cantina? Daphne se dispunha a lhe dizer que ia almoçar com sua secretária, mas lhe ocorreu que provavelmente Bárbara adoraria estar junto a Justin Wakefield durante todo o almoço.

-Sim, se puder levar a minha secretária.

-Claro que pode. Irei trocar de roupa. Voltarei em um minuto.

Fechou-se em seu camarim, levando na mão o cigarro que Maureen lhe tinha dado, e Daphne se perguntou se o fumaria agora ou mais tarde.

Naquele momento chegou Barbara, que voltava depois de telefonar para Tom.

-Acabo de aceitar um convite para almoçar - anunciou-lhe Daphne com cara de lhe ter preparado alguma travessura.

-Com quem?

-Com o Justin. Está bem para você?

Barbara prendeu o fôlego, e Daphne soltou uma gargalhada.

-Está brincando?

-Não.

Naquele momento Justin saiu de seu camarim, vestido com os jeans azuis e sapatos esportes.

Ainda estava com a maquiagem, e o cabelo penteado para trás.

Desta vez Daphne o teria reconhecido, contrariamente ao que tinha acontecido ao vê-lo na primeira vez pela manhã; parecia tao  arrumado como com o suéter branco e a calça de camurça.

-Prontas,senhoras? Daphne assentiu, enquanto Barbara simplesmente o olhava com os olhos muito abertos.

Ambas o seguiram até o enorme edifício da cantina, onde se encontraram em meio de um enxame de vaqueiros e índios, duas beldades sulistas e todo um exército de soldados alemães, assim como dois anões e um bando de crianças.

Barbara olhou em torno e pôs-se a rir.

-Sabem uma coisa? Isto parece um circo! Justin e Daphne fizeram coro às suas risadas.

Comeram hambúrgueres que tinham sabor de pedras, e ou molho de tomate picante parecia tinta vermelha; então Justin  lhes  trouxe  porções de pastéis de maçã e café. Quase sem dar-se conta já estavam de volta ao estúdio, e Justin se fechou em seu camarim.

Barbara colocou uma cadeira junto de Daphne e, enquanto aguardavam que começasse de novo a filmagem, Barbara ficou pensando em Justin.

Era fácil perceber que se sentia atraído por Daphne, mas apesar de ser tão bem apessoado, Barbara não acreditava que ela gostasse dele.

Era um pouco infantil e vaidoso, e ela tinha percebido que cada vez que via um espelho ou um vidro onde sua imagem se refletisse, Justin arrumava os cabelos ou se olhava de relance.

Isto a incomodava, mas também tinha a inequívoca impressão de que Daphne gostava.

Antes que pudesse dizer nada a Daphne, Justin saiu do camarim envolto em um roupão branco com capuz e calçado com chinelos.

O capuz lhe dava um ar misterioso e atraente, quase monacal; quando o tirou, sacudiu a loira cabeleira e sorriu.

Instantes mais tarde, despiu o roupão e entrou no cenário sem que nada cobrisse seu musculoso e belo corpo de compridos e bem proporcionados membros.

Maureen Adams o seguiu ao final de um momento, deixando cair a bata de cetim rosada na borda do cenário, segurando o roteiro em uma mão e passando a outra nos cabelos.

Mas não era Maureen quem chamava a atenção, e sim Justin.

Além de sua evidente beleza física, emanava de sua figura um incrível magnetismo, que tornava excitante contemplá-lo.

Daphne tratou de dissimular a impressão que lhe causava, mas fazia tanto tempo que não via um homem nu que se sentiu enfeitiçada por sua extraordinária beleza e seus membros atléticos.

-Detesto dizê-lo - confessou Barbara por fim-, mas está fenomenal.

Mas ao olhar para sua chefa, deu-se conta de que esta não a tinha ouvido.

Contemplava Justin de uma maneira que fez Bárbara se sentir nervosa.

Não obstante, quem podia censurá-la por isto? Aquele homem era simplesmente o que era: Justin Wakefield, o rei da tela.

Sua atuação era algo fascinante, e ao final de um instante, tanto Barbara como Daphne tinham esquecido de que estava nu.

Daphne parecia cravada na cadeira enquanto via como dava vida à cena que ela tinha escrito.

Justin a bordava como se fosse um precioso brocado, cobrindo sua nudez com seu gênio; várias vezes conseguiu que aparecessem lágrimas nos olhos de Daphne.

Com a cena tinha fascinado a todos os presentes.

Aquele homem não só era belo, mas também era um ator consumado.

Então, com a mesma desenvoltura com que se despojou do roupão , recolheu-o do chão e o vestiu, cobrindo em seguida a cabeça com o capuz e voltando-se para Daphne.

Parecia mais alto que na hora do almoço, e estava cansado; seus grandes olhos verdes pousaram nela como se lhe importasse saber sua opinião mais que a de qualquer outra pessoa.

-Fiquei encantada. Isto é exatamente o que desejava expressar quando a escrevi, se bem que se superou. Parece que sabia o que eu tinha em mente e que soubesse recriar com maior profundidade e emoção.

Justin mostrou-se enormemente agradecido ao vê-la tão impressionada.

-Isto é o que se supõe que devo fazer, Daphne - respondeu com amabilidade e modéstia, e Daphne gostou do que descobriu em seus olhos. É nisto que consiste a arte do ator.

Ela concordou, ainda impressionada por sua atuação.

Sem dúvida, tinha dado vida a seu livro.

-Obrigado. Será um filme sensacional.

Ela sentiu vibrar as fibras mais íntimas de seu ser pelo simples fato de tê-lo visto atuar, tomada de emoção.

Durante a semana seguinte, Daphne observou a Justin Wakefield completamente fascinada, enquanto ele a capturava entre os fios mágicos de sua teatrialidade como em uma teia de aranha.

Ela e Barbara almoçavam com ele todos os dias na cantina, e em algumas ocasiões outros membros do elenco se uniam a eles, mas logo ficou evidente que Justin Wakefield desejava estabelecer uma relação íntima com Daphne.

Conversavam a respeito de seus livros e dos filmes que ele tinha interpretado, das intenções de Daphne ao esboçar algum de seus personagens, de suas idéias filosóficas ao desenvolver um tema.

Conversaram longo tempo sobre Apache, e ele acreditava que o que lhe dizia contribuía para melhorar sua atuação no estúdio, que tudo isto devia a ela, pois conseguia fazer aflorar algo de seu interior cuja existência até então lhe era desconhecida.

-Realmente a artífice é você, Daff.

Encontravam-se no estúdio e compartilhavam uma lata de refresco de morango, uma beberagem infecta no dizer de ambos, mas a única bebida que ainda podiam extrair da máquina vendedora; e ainda estavam agradecidos por isto, pois estavam mortos de sede.

Era um dia muito quente e estavam lá há longas horas no estúdio.

-Não poderia fazê-lo sem sua presença. É minha melhor atuação. Pergunte ao Howard, ele lhe dirá isto.

Nunca consegui atuar desta maneira, dia após dia, durante tanto tempo.

Olhava-a com seus enormes olhos verdes e penetrantes.

-Falo a sério. Exerce uma influência maravilhosa em mim, Daphne.

Ela não sabia o que dizer.

-É você quem faz maravilhas com meu roteiro.

-Só isso? Parecia desiludido, como se desejasse que ela dissesse algo mais.

Mas ele não conhecia Daphne, como se mostrava cautelosa, os altos muros que havia levantado seu redor.

Então ele a surpreendeu ao lhe dizer:

-Conte-me algo a respeito de seu filho.

Foi como se Justin pressentisse que ao lhe falar do menino, possivelmente ela baixaria ligeiramente a guarda.

E não se equivocava.

Daphne sorriu e pensou em Andrew, que estava tão longe.

-É um menino maravilhoso, inteligente e muito especial.

É alto assim - adicionou, levantando a mão para indicar sua estatura.

Justin sorriu.

-Há umas semanas atrás, quando esteve aqui, levei-o na Disneylandia.

-Onde fica o resto do tempo? Com seu pai? Estrahava que uma mulher como Daphne tivesse renunciado à custódia de seu filho, e o tom de sua voz delatou sua surpresa.

-Não. Seu pai morreu antes que ele nascesse.

Atualmente lhe parecia mais fácil falar disso.

-Está em New Hampshire, em uma escola.

Justin assentiu com a cabeça, como se achasse razoável, e logo voltou a olhá-a nos olhos.

-Vivia sozinha quando ele nasceu?

-Sim.

Sentiu que se formava um nó na boca do estômago ao responder, pois fazia longo tempo que se libertou da lembrança de sua solidão.

-Deveu ser muito penoso para você.

-Foi, e...

Na realidade, não queria lhe falar disto, de como tinha descoberto que Andrew era surdo, do quanto foram terriveis  aqueles anos de solidão.

-Foram dias muito duros.

-Já escrevia naquela época? Era a primeira vez que Justin lhe fazia perguntas a respeito dela mesma.

Tinham conversado sobre Apache e seus demais livros , assim como dos filmes que ele havia feito, ao longo de toda a semana.

-Não, não comecei a escrever até mais adiante. Até que Andrew ingressou na escola.

-Sim.

Aposto que é difícil realizar um trabalho de criação tendo crianças ao redor. Fez bem em mandá-lo para a escola.

Ela sentiu como que se arrancassem suas vísceras ao lhe ouvir dizer isso.

Ele não podia saber o que ela sentia por seu filho nem o que tinha experimentado ao ter que separar-se de Andrew.

Além disso, seu comentário refletia um egoísmo que a aborrecia.

-Mandei-o para a escola porque não tive outro remédio.

-Porque estava sozinha?

-Por outras razões.

Algo lhe dizia que não devia lhe expor quais eram estas razões.

Ainda sentia uma profunda necessidade de proteger Andrew.

E teve o pressentimento de que Justin não compreenderia.

Possivelmente nem sequer o tentaria, e ela não queria testá-lo.

-Não tive outra opção.

De repente se sentiu muito cansada e velha.

O que sabia aquele homem de semelhantes pesar?

-Você não tem filhos, Justin?

-Não. Nunca senti a necessidade de procurar este tipo de prolongação de mim mesmo. Penso que, para muita gente, é uma forma de dar satisfação a si mesmo.

-Ter filhos? -exclamou ela com assombro.

-Sim, não se assombre. Muitas pessoas desejam ver-se reproduzidas, e vêem seus filhos como uma continuação de si mesma. Para isso, eu tenho meus filmes. Não preciso fazer filhos.

Era uma curiosa maneira de expor, pensou Daphne, mas possivelmente tinha sentido para ele.

Tratou de compreender seu ponto de vista.

Além de tudo, não era um homem carente de sensibilidade.

Não podia ser a julgar pela maneira que tinha encarnado o personagem de Apache durante a semana.

E se tinha opiniões diferentes das suas, estava disposta a escutá-las. Era o menos que podia fazer por ele.

-Esteve casado alguma vez? Agora sentia curiosidade por saber mais coisas dele.

Quem era? Que experiências o tinham levado a saber interpretar os sentimentos dos demais, como tinha demonstrado conhecer os dela através de seu livro?

-Ao menos, não legalmente -respondeu ele, meneando a cabeça- vivi com duas mulheres.

-Sete anos com uma e cinco com outra. De certo modo, não foi muito diferente de estar casado.

A única coisa que nos faltava era a certidão.

Em última instância, não há muita diferença entre uma coisa e a outra.

Com certidão ou sem ela, quando um dos cônjuges deseja separar-se vai, e eu continuava mantendo-as depois de que se foram.

Daphne assentiu com um gesto.

Depois de tudo, esta tinha sido sua situação com John.

Claro que ela supunha que, finalmente, teriam se casado.

Até teriam filhos, embora John tampouco sentisse grande necessidade de tê-los. Ele só necessitava dela.

E do Andrew, é óbvio.

-Vive com alguém agora? Pareceu-lhe que era uma falta de delicadeza lhe fazer aquela pergunta, mas agora sabiam muitas coisas um do outro.

Durante a última semana, tinham passado juntos quase quinze horas diárias.

Começavam a ter a sensação de encontrar-se em uma ilha deserta ou em um navio, condenados a viver em certa intimidade.

De novo Justin negou com a cabeça.

-Faz algum tempo que vivo sozinho. Este ano estive envolvido com alguém, mas por pouco tempo, pois ela não compreende as exigências desta profissão, e Deus sabe que deveria conhecer. É atriz, mas é uma jovenzinha de vinte e dois anos de Ohio, e simplesmente não entende minha posição.

-E qual é sua posição? Ou estou me metendo no que não é de minha conta? -perguntou Daphne prudentemente.

Mas ele sorriu.

Não se incomodava com as perguntas, e até gostava delas.

Adorava Daphne, e queria que soubesse como ele pensava.

-Nada disso, Daff. Quando terminarmos o filme, todos nós conheceremos até nossos mais íntimos segredos.

Vacilou um instante, analisando sua pergunta.

 -Não sei como lhe explicar isto as simplesmente não quero  me envolver de novo com alguém que não compreenda as exigências desta profissão. É exaustivo ter que estar sempre na defensiva. Ela é tremendamente ciumenta, e eu não posso ter alguém dependente de mim de dia e de noite. Preciso ter liberdade de movimentos. Preciso de tempo para meditar a respeito do que me proponho fazer, o que sou, o que penso e o que sinto. Estou melhor só que com alguém que me impeça de fazer todo isto.

Não era difícil estar de acordo com o que Justin dizia, e Daphne assentiu com um gesto; então ele pôs-se a rir, balançando a cabeça.

-Grosseiramente traduzido, acredito que isto significa: "ela não me compreende". Conhece esta expressão?

-Posso dizer que sim.

Daphne tomou um gole do refresco que estavam dividindo e riu.

-Acredito que este pode ser o motivo pelo qual estou sozinha. Seria muito difícil explicar a alguém por que trabalho dezoito horas por dia, para depois me arrastar até a cama às seis da manhã, sentindo-me como se me tivessem dado uma surra. Isto me sustenta, mas duvido que outra pessoa pense o mesmo. E não me conviria viver de outra maneira. No entanto, nenhum homem aceitaria isto completamente.

-Duvido que aceite.

Justin sorriu, sentindo-se em certo modo irmanado com ela.

-Só se tratar-se de alguém com os mesmos hábitos. Às vezes passo toda a noite lendo, até o nascer do sol. É formidável.

-Sim, é.

Ela sorriu também.

-Eu adoro isto. Sabe, talvez chegue um momento na vida em que é melhor estar sozinha. Eu antes não pensava assim, mas agora sim.

Em todo caso, serve para mim.

Deu-lhe o refresco, e Justin acabou com o conteúdo da lata e a deixou no chão.

-Eu não compartilho com sua opinião. Não quero ficar sozinho para sempre; mas tampouco quero conviver com uma pessoa que não seja adequada. Acredito que finalmente cheguei ao ponto em que prefiro viver sozinho que com uma mulher que não tenha nenhuma afinidade comigo.

Entretanto, ainda acredito, devo acreditar, que há alguém em alguma parte que se ajustaria a minhas necessidades e me faria feliz. Só que ainda não encontrei esta pessoa.

Daphne levantou a lata vazia.

-Boa sorte.

-Acredita que é impossível encontrá-la? -perguntou ele surpreso. -Seus livros, por certo, não sugerem que pensa assim. Dão a impressão de acreditar no amor e nas uniões felizes.

Não obstante, era evidente que possuía um profundo conhecimento da infelicidade e perda.

-Não credito que seja impossível, Justin. Eu a encontrei duas vezes.

-E o que aconteceu?

-Ambos os morreram.

-Que falta sorte! -exclamou ele, compassivo.

-Eu que o diga. Não acredito que isto aconteça mais de duas vezes.

-De modo que desistiu de procurar.

Como tratavam de ser sinceros, Daphne falou.

-Mais ou menos. Consegui tudo que desejava, e agora tenho meu trabalho e meu filho. Isto é suficiente.

-É realmente?

-É para mim. Por agora. Foi durante muito tempo. E não tenho desejo algum de modificar essa situação.

Isto não era totalmente verdade.

Havia vezes em que desejava sentir-se abraçada; mas temia com desespero sofrer outra perda.

-Não posso acreditar.

Examinou seu rosto com o olhar, mas não conseguiu descobrir as respostas que procurava.

-Em que é que não acredita?

-Que seja feliz assim.

-Mas sou. A maior parte do tempo. Ninguém é feliz em todos os momentos, nem sequer estando loucamente apaixonado.

-Não pode ser feliz vivendo sozinha para sempre, Daff. Não é saudável. Perde-se o contato com a vida.

-É isto o que se desprende de meus livros?

-Encontrei muita dor nestes livros, muita tristeza, muita solidão. Uma parte de seu ser está chorando.

Daphne riu quietamente.

-Fala exatamente como um homem, Justin, incapaz de acreditar que uma mulher possa sobreviver sozinha. Diz que é feliz em sua solidão; por que eu também não posso ser?

-Em meu caso, é temporário - reepondeu ele com franqueza.

-Em meu caso não.

-Está louca.

Justin achava seu raciocínio aborrecido.

Daphne era uma mulher bonita, vibrante, inteligente. Como  podia pretender viver sozinha o resto de sua vida?.

-Tudo o que diz é uma loucura.

E era também um desafio.

Revoltava-se ao pensar no que tinha feito de sua vida.

-Não se preocupe. Sou completamente feliz.

-Revolta-me pensar que está desperdiçando sua vida. É bonita, maldita seja, Daphne, e afetuosa e adorável, e tem um grande talento. Por que quer se isolar do mundo?

-Lamento ter lhe dito isto.

Mas não parecia particularmente contrariada, e não estava.

Ela tinha aceitado a sorte que lhe havia tocado na vida.

E era relativamente feliz.

Nesse momento, Howard Stern chamou todos para outras seis horas de filmagem, e quando abandonaram o estúdio neste dia, Justin tinha que encontrar-se com um amigo para tomar um drinque, de modo que Daphne partiu com Barbara sem o ver de novo.

Ao chegar em casa, Daphne se trocou, e saiu para nadar na piscina aspirando o balsâmico ar da noite.

Barbara lhe disse que ia encontrar-se com Tom.

-Não sei se voltarei logo ou não.

-Divirta-se. -Daphne lhe sorriu, boiando na água. -Cumprimente Tom de minha parte.

-Eu o farei. E não se esqueça de jantar. Você parece cansada.

-E estou. Mas comerei algo antes de me deitar.

Além disso, queria telefonar a Matthew antes que ficasse muito tarde.

Com o estranho horário de filmagem e a diferença horária entre a Califórnia e New Hampshire, cada vez ficava mais difícil lhe telefonar.

-Aproveite muito, Barb!

-Obrigado, procurarei aproveitar! -respondeu Barbara por cima do ombro.

Daphne ficou flutuando na piscina um bom tempo antes de envolver-se com uma toalha, para entrar na cozinha a fim de ver o que havia na geladeira antes de fazer o telefonema.

Deixou a toalha sobre o aparador e ficou usando só seu minúsculo biquíni vermelho, que pingava água no piso da cozinha.

No exato momento em que ia pegar o telefone para ligar para Matthew ouviu a campainha, e se perguntou quem poderia ser.

Supôs que possivelmente Barbara voltara para procurar algo e se esqueceu da chave.

Daphne se encaminhou ao vestíbulo e espiou pela janela lateral para ver quem chamava.

O visitante, porém, estava de costas e muito perto da porta para que pudesse vê-lo.

Só avistava uma parte do ombro, por isto se aproximou da porta e perguntou quem era.

-Sou eu, Justin. Posso entrar?

Ela abriu e ficou olhando-o sem poder disfarçar sua surpresa.

Justin usava jeans brancos, camisa branca e sandálias, e a acobreada cor bronzeada de sua pele parecia ainda mais escura à noite.

-Olá, como me encontrou?

-Nos estúdios me deram seu endereço.

-O que aconteceu?

Como nunca se viam nem se falavam fora das horas de trabalho, estava mais surpresa.

Além disto, estava cansada, faminta e molhada, e aquelas eram suas horas de descanso, e sentia a necessidade de ter um pouco de intimidade.

-Posso entrar?

-Claro. Quer comer algo? Espere um momento, que vou me vestir.

De repente se deu conta de que só usava o biquíni vermelho, e sentia-se incomodada diante dele.

-Não é necessário, sabe? Você me viu com menos roupa ainda.

Sorriu como um adolescente, e Daphne se pôs a rir.

-Era diferente. Foi por exigência da profissão. Isto não.

-Veja que profissão a nossa, em que tem que se despir para trabalhar!

-Faz-me pensar em outra profissão parecida.

Justin gostava de seu senso de humor.

-Está sugerindo que atuar se assemelha à prostituição?

-Às vezes - respondeu ela por cima do ombro, enquanto entrava no quarto.

Justin teve que conter o impulso de segui-la.

-A verdade é que tem razão.

Quando voltou, Daphne usava um caftán azul brilhante, da mesma cor que seus olhos, e tinha se penteado e posto umas sandálias.

Ele a olhou e assentiu aprovadoramente com a cabeça.

-Está adorável, Daff.

-Obrigado. Agora me diga do que se trata. Estou acabada. Dispunha-me a comer algo antes de me deitar.

-Imaginei isto, e me parece um absurdo. Estava indo para uma festa e me ocorreu que talvez você gostasse de me acompanhar. Na casa de Tony Tree.

Tony Tree tinha recebido cinco vezes o prêmio Grammy em cinco anos, e era sem nenhuma dúvida o cantor mais famoso do país.

Em outro momento teria sentido curiosidade em conhecê-lo; mas esta noite não.

-Pode ser divertido, mas sinceramente, não posso.

-Por que não?

-Porque estou exausta. Diabos,esteve trabalhando como um escravo todo o dia.Não está cansado?

-Não. Como eu gosto de meu trabalho, não me canso.

-Eu também gosto do meu, mas apesar de tudo me derruba. -Sorriu-lhe, pois não queria parecer antipática. -Acabaria dormindo pé.

-Não importa. Pensarão que está drogada. Assim não destoará.

Daphne riu de sua rápida resposta e teve que conter o impulso de desmanchar seus cabelos loiros bem penteados.

-Não seja teimoso. Estou morta de cansaço. Quer comer um sanduíche antes de ir? Eu vou preparar um para mim. Não tenho nenhum refresco de morango, mas possivelmente possa oferecer-lhe uma cerveja.

-Seria encantador. Onde está Barbara?

-Saiu com uns amigos.

Deu-lhe a cerveja, que tirou da geladeira, e começou a preparar o sanduíche.

Justin se sentou em um tamborete da cozinha e ficou contemplando-a.

Percebia sua silhueta nua através do caftán e agradou-lhe o que via.

Teria gostado mais de vê-la de biquíni, mas teria que conformar—se com o que lhe oferecia.

-Quer dizer que ela gosta de sair?

-Sim. Embora lhe custe acreditar, também é um ser humano.

Ambos tinham chegado à conclusão, uns dias antes, que não simpatizavam.

Barbara pensava que sob seu notável encanto se escondia um canalha sem coração, e Justin, por sua parte, estava convencido de que ela era uma amargurada que ainda se conservava virgem.

"É como uma velha diretora de escola"; havia-lhe dito ele finalmente, cansado dela intrometer-se sempre entre ele e Daphne.

Barbara tinha percebia como Daphne era vulneravel a seus encantos, embora ela negasse.

A secretária percebia algo perverso nele, que para Daphne passava despercebido.

-Acaso tem um amiguinho? -perguntou Justin, simulando surpresa e adotando o mesmo tom depreciativo que ultimamente utilizava quando falava dela.

-Sim, e é uma pessoa muito agradável com certeza.

Daphne se sentou em um tamborete no outro lado do balcão, de frente para Justin.

Apesar de tudo, era prazeiroso ter companhia enquanto comia seu sanduíche, apesar de que quando ele partisse seria muito tarde para telefonar para Matthew.

-Seu amigo é advogado.

-Deus os cria e eles se juntam. Certamente deve ser especialista em casos de defraudação ao fisco.

-Está ligado a indústria cinematográfica, conforme acredito.

-Oh, céus! Aposto que usa terno preto e correntes de ouro.

-Vamos, Justin, não seja mau.

-Por quê? Penso que é uma matrona estirada e antipática. Detesto-a.

-É uma mulher maravilhosa, e você não a conhece.

-Nem tenho vontade.

-A antipatia é mútua, o que não é nenhum segredo. E penso que estão se comportando como duas crianças.

-Ela me odeia - replicou Justin com tom de queixa.

Daphne sorriu.

-Barbara não o odeia. Não o vê com bons olhos, e na realidade tampouco o conhece. Faz muito tempo alguém a machucou severamente e por isto desconfia dos homens.

-Bem que podia me dizer. -deu-se conta quu suspeitava dele, e isso o irritava. -Não posso lhe oferecer uma xícara de café sem que me dê um fora.

Daphne estava ciente de tudo, e já tinha pedido a Barbara que medisse suas palavras.

As inimizades sobravam no estúdio.

-De todos os modos, me alegro de que esteja sozinha. Quando eu apareço, esta bruxa te protege como a Guarda do Vaticano.

-É muito possessiva, isto é tudo. Faz muito tempo que estamos juntas.

-Comporta-se como se fosse sua mãe.

Daphne sorriu.

-Às vezes me conviria ter uma mãe.

Era muito pesada a carga que suportava sobre suas costas, sozinha, e desde muito tempo, e Barbara era a única pessoa em anos que, pelo menos, tinha sabido aliviar alguns destes pesos.

Enquanto ela falava, Justin desceu do tamborete e contornou o balcão.

Deteve-se diante de Daphne e tomou seu rosto entre as mãos.

-Daphne, é uma mulher bela e desejável, e eu a desejo.

Ela sentiu que a invadia uma onda de temor e, ao mesmo tempo, que entre suas pernas despertava um desejo longamente esquecido.

-Justin, não diga tolices - disse-lhe com voz doce, que demonstrava o medo que a invadia.

-Não são tolices - respondeu ele ofendido. -Apaixonei-me perdidamente, e você pratica este jogo estúpido, ocultando-se atrás de seus muros.

-Por quê? Por que não deixa que te ame, Daff?

Daphne tinha os olhos úmidos e arregalados.

-Justin, peço-lhe... Temos que trabalhar juntos..., seria um engano terrível...

-O que? Você se apaixonar? É isto o que teme? Por quê? Somos duas pessoas fortes, inteligentes, com talento. Não acredito que possa haver melhor combinação. Nunca conheci alguém como você, e provavelmente você tampouco conheceu alguém como eu. Por que teria que deixar passar esta oportunidade? Quem sairá ganhando com o fato de que você seja tão rígida consigo mesma? Ao fim, um dia despertará e será uma mulher velha, e tudo terá terminado. A única coisa poderá dizer é que foi fiel à memória de dois mortos. Por que, Daphne..., por quê?

Então, Justin se inclinou para ela e a beijou, cobrindo a boca com a sua e obrigando-a a abrir os lábios com seu língua, até que conseguiu introduzí-la e ela sentiu seu agitado fôlego enquanto ele a rodeava com seus braços.

Sem respiração, Daphne se separou dele e ficou de pé.

De sua baixa estatura, olhou-o com olhos suplicantes.

-Justin, por favor..., não...

-Eu te quero, Daff. E não vou permitir que fuja disto. Não posso acreditar que não sinta nada por mim. Compreendemo-nos perfeitamente. Eu compreendo cada uma das palavras que escreveu, e por sua maneira de me observar quando atuo, dou-me conta de que se comovem todas as fibras de seu ser.

-Que importância tem isso? 

Daphne estava ainda meio zangada e meio assustada.

Justin tinha aparecido em sua casa, tinha-a beijado e agora se propunha a dar uma reviravolta em sua vida como se fosse uma meia.

Ela não consentiria.

Era perigoso.

Estavam fazendo um filme juntos, isto era tudo.

Não queria baixara guarda.

-O que é que pretende de mim, por todos os diabos? Uns amassos rápidos na cama? Um namorico por seis meses? Há dez milhões de estrelinhas jovens nesta cidade, Justin. Vá e se deite com uma.

Seus olhos se encheram de lágrimas e virou-se de costas para ele.

-E me deixe em paz de uma vez.

-É isto o que quer? Ela assentiu com a cabeça, sem voltar-se.

-Bem. Mas pense no que eu disse, Daff. Eu não quero dar uns amassos com uma jovenzinha. Isto eu posso fazer quando quiser e com quem eu quiser. Mas não posso ter outra mulher como você. Não há nenhuma outra como você. Eu sei, porque já procurei.

Daphne então se voltou para ele.

-Pois continue procurando. Logo a encontrará.

-Não, não a encontrarei.

A tristeza escurecia os olhos de Justin.

Por fim tinha encontrado o que queria, mas o rechaçava.

Não era justo.

Deveria tê-la possuído ali mesmo, na cozinha, mas não queria forçá-la, pois sabia que desta maneira a perderia para sempre.

Possivelmente se soubesse esperar, teria uma oportunidade...

-Quero que pense no que disse esta noite, Daphne. Voltaremos a falar em outro momento.

-Não, não falaremos mais.

Dirigiu-se para a porta de entrada e a abriu para que ele saísse.

-Boa noite, Justin. Eu o verei amanhã no estúdio, e não quero voltar a falar disto. Nunca mais. Está claro?

-Você não estabelece todas as regras, Daphne, não comigo.

Olhou-a com olhos brilhantes uns instantes e logo apareceu de novo neles o brilho juvenil que escondeu sua ira.

Mas Daphne não estava disposta a deixar-se abrandar.

-Eu faço minhas próprias regras. E você pode optar por respeitá-las ou se manter afastado de mim. Porque não quero me desentender com você se não respeitar meus sentimentos.

-Seus sentimentos estão mal encaminhados.

-Não é você quem pode me dizer isto. Estabeleci minha norma de conduta na vida e me guio por ela. Tomei esta decisão faz muito tempo.

-E se equivocou.

Roçou-lhe os lábios com os seus de novo e se foi, e quando Daphne fechou a porta atrás dele, apoiou-se nela, tremendo dos pés a cabeça.

O mais terrível de tudo era que acreditava no que havia dito, fazia muitos anos, e enquanto isto seu corpo estremecia de desejo cada vez que ele a beijara.

Mas ela não queria voltar a sofrer, não queria amar de novo e perder outra vez.

Não se deixaria convencer, por mais que ele falasse.

Não obstante, quando voltou para a cozinha, seu olhar posou no lugar onde tinham sentado, e sentiu que todo seu corpo começava a tremer de novo ao recordar seus beijos;

Soltando um gemido de angústia, agarrou a garrafa de cerveja vazia e a jogou contra a parede.

-Como estava a festa ontem à noite? Daphne tratava de adotar uma atitude despreocupada enquanto se sentava em uma mesa desocupada da cantina.

Todos tinham terminado de comer e retornaram ao estúdio, por isto, de repente, ficaram completamente sozinhos.

Nos olhos de Justin, ao contrário, havia uma expressão sombria quando se encontraram com os dela.

-Não fui.

-Oh! Que pena.

Daphne procurou mudar de assunto.

-Parece-me que a cena saiu muito boa hoje.

-Para mim não.

Afastou o prato e a olhou de cima em baixo.

-Não podia coordenar meus pensamentos. Fez-me voltar louco ontem à noite.

Não lhe disse que também tinha estado acordada quase toda a noite, debatendo-se contra seus sentimentos e perguntando-se se ele telefonaria.

As emoções que Justin despertava nela eram contraditórias, e era sua intensidade o que mais a transtornava.

Ela não queria sentir nada do que sentia.

Era algo que tinha desejado não voltar a sentir nunca mais.

-Como pode nos fazer isto, a você e a mim?

Justin parecia um menino a quem tivessem tirado os brinquedos de Natal, mas ela deixou o sanduíche no prato e o fulminou com o olhar.

-Eu não estou fazendo nada, nem a você nem a mim. Você e eu não somos um casal, por todos os diabos.

Não acredite em algo que, em última instância, só nos complicará mais a vida.

-De que, demônios, está falando? O que lhe parece tão complicado? É uma mulher sem compromissos, e eu estou procurando amor.  Então, qual é seu problema, senhora? Eu lhe direi.-Falava-lhe em um rouco murmúrio, e ela esperava que ninguém lhe ouvisse; de fato, havia muita atividade a  seu redor e não parecia que lhes prestassem atenção, para alívio de Daphne.

-Seu problema reside no fato de que está demasiado assustada para dar rédea solta a seus sentimentos de novo. Não dá valor para isto. Certamente o teve, porque se reflete em seus livros, mas de repente não se atreve a sair de trás de suas defesas para voltar a ser uma mulher. E sabe de uma coisa? Mais tarde ou mais cedo, isto se notará em sua obra se não tomar cuidado.

Não pode levar a vida que levar e esperar continuar sendo um ser humano. Deixará de sê-lo. Talvez já não o seja. Possivelmente só estou apaixonado por uma ilusão..., um ser imaginário... , um sonho...

-Se nem sequer me conhece, como pode estar apaixonado por mim?      

-Acredita que não a observo? Acredita que não a percebo em seus livros? Acredita que não compreendo Apache? O que pensa que estou fazendo na filmagem todos os dias? Estou dando vida aos ecos de sua alma. Conheço-a, menina! Oh, sim, é claro que a conheço! É você quem não conhece a você mesma. Não quer se conhecer. Não quer recordar quem é, ou o que é: uma mulher, uma formidável mulher, com necessidades autênticas, com coração e alma, e até com um corpo, que deseja ao meu tanto como o meu deseja o seu. Mas pelo menos eu sou honesto. Eu sei o que quero e sei quem sou, e não tenho medo de reconhecer. E dou graças a Deus por isto.

Dito isto, ficou de pé e se afastou da mesa, saiu da cantina batendo a porta e retornou ao estúdio.

Quando Daphne seguiu-o ao final de poucos minutos, não pôde deixar de sorrir.

Nenhuma mulher do país teria a coragem de resistir a Justin Wakefield, o que, pensava para si, terminava sendo divertido e triste ao mesmo tempo.

Toda a tarde e até bem tarde a noite, Daphne o viu repetir a mesma cena uma vez após a outra.

Howard Stern gritava para todo mundo; até pediu para Daphne que fizesse algumas mudanças na cena para ver se obtinha algum resultado positivo.

Entretanto, o problema não estava no texto, e sim no humor de Justin.

Ela se dava conta de que se sentia desesperadamente desgraçado, e parecia querer que o mundo inteiro soubesse.

Por fim, às dez da noite, dezessete horas depois de ter todos reunidos para começar a rodar pela manhã, Howard Stern se deu por vencido, não sem deixar de manifestar seu desgosto.

-Não sei o que lhes aconteceu hoje, mas este foi um dia perdido. Wakefield, pode levar a música e esta cara fechada para outro lugar. Amanhã quero todos aqui as cinco dá madrugada, e seja qual for o problema, será melhor que o metam no c....

Estas foram as últimas palavras que o ouviram dizer antes que partisse, e Justin se fechou em seu camarimbtendo a porta, sem dirigir a Daphne um único  olhar.

Mas teve o supremo cuidado em passar diante dela, a fim de que pudesse dar-se conta de como estava infeliz.

Daphne se encaminhou em silencio para a limusine em companhia de Barbara e se deixou cair no assento com um suspiro fatigado.

-Magnífico dia, não é? -comentou Barbara com um sorriso, enquanto se dirigiam para casa.

Mas Daphne não estava com humor para conversar.

Estava pensando em Justin, e se perguntava se não estaria equivocada em sua atitude.

O dia seguinte até foi melhor, só que desta vez ela e Justin não se dirigiram nem uma palavra.

Howard suspendeu a filmagem às sete e meia da noite.

Disse que estava farto de todos eles e que não queria voltar a vê-los dentro de um ano.

Entretanto, no dia seguinte tudo pareceu resolvido como por magia.

Quando Justin chegou ao estúdio, um fogo raivoso, ansioso e comovedor parecia arder em seus olhos, e conseguiu fazer vibrar as fibras mais íntimas de todos os presentes com sua atuação.

Ao final de quatro horas de filmagem sem repetir nenhuma cena, Howard se precipitou para ele e lhe deu um beijo em ambas as faces, enquanto era saudado com gritos de júbilo de todos os membros da equipe.

Por alguma razão, Justin tinha renascido de suas cinzas, e Daphne se sentiu menos culpada quando se dirigiu à cantina para almoçar.

Ficou surpresa ao ver que Justin se sentava em sua mesa.

Ela o olhou com um tímido sorriso.

-Hoje fez um extraordinário trabalho, Justin.

Não perguntou a que se devia a mudança de humor, mas fosse qual fosse, ela se alegrava de que  tivesse acontecido.

-Tinha que fazê-lo. Pelo Howard. Por minha culpa, todos sofriam.

Daphne assentiu, fixando a vista no prato e logo levantando os olhos para ele.

-Lamento tê-lo contrariado.

-Eu também. Mas o caso é que acho que vale a pena.

Daphne sentiu desejos de chorar ao ouvi-lo dizer isto, pois tinha a esperança de que houvesse resolvido deixá-la em paz.

-De todo modo, se for assim que você quer, Daff, penso que não tenho mais remédio que aceitar. Posso ser seu amigo? -perguntou-lhe com tanta humildade e ternura que os olhos de Daphne se encheram de lágrimas.

Ela segurou a mão e a reteve entre as suas.

-Já é meu amigo, Justin. Sei que não sou uma pessoa fácil de entender, mas me ocorreram tantas coisas dolorosas na vida... Não posso evitar. Tem que me aceitar como sou. Assim será mais fácil para ambos.

-Isto é muito difícil para mim, mas eu tentarei.

-Obrigado.

-No entanto, não posso evitar sentir o que sinto por você.

Daphne ainda pressentia que não a conhecia, e se sentia infeliz ao ver que era tão teimoso, mas possivelmente não pudesse evitar; e se verdadeiramente fossem ser amigos, não teria mais remédio do que o aceitar como era.

-Procurarei respeitar seus sentimentos.

-E eu respeitarei você.- Então soltou uma risadinha e murmurou:  -Mas continuo acreditando que está louca.

Daphne se pôs a rir francamente, e não pôde deixar de lhe dizer o que tinha pensado no outro dia.

-Dá-se conta de que sou p