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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VECTOR / Robin Cook
VECTOR / Robin Cook

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

VECTOR

 

SEXTA-FEIRA, 15 DE OUTUBRO

Jason Papparis trabalhava no ramo dos tapetes há quase trinta anos. Começara na zona da Plaka, em Atenas, no final da década de sessenta, vendendo odres, capachos de carneira e tapetes de peles a turistas americanos. O negócio corria bem e dava-lhe prazer, em especial quando os seus clientes eram mulheres jovens, estudantes universitárias, às quais se oferecia sempre, cheio de solicitudes, para mostrar a vida noturna da sua amada cidade.

Um dia, o destino interveio. Numa noite abafada de verão, Helen Herman de Queens, Nova Iorque, entrou distraidamente na loja de Jason e acariciou alguns dos tapetes de excelente qualidade. Romântica incurável, Helen deixou-se arrebatar pelo irresistível apelo dos olhos profundos e ardentes de Jason e pela atmosfera mística da Grécia.

Jason correspondeu com igual fervor. Quando Helen partiu para os Estados Unidos, Jason sentiu-se inconsolavelmente só. Iniciaram, assim, uma troca de apaixonadas cartas, seguidas de um encontro. A viagem do grego a Nova Iorque inflamou ainda mais o fogo da paixão e Jason acabou por emigrar, casar com Helen e transferir os seus negócios para Manhattan.

A empresa prosperou. Os muitos contatos que Jason estabelecera ao longo dos anos com fabricantes de tapetes, quer na Grécia, quer na Turquia, deram-lhe uma posição de vantagem, assegurando-lhe uma espécie de monopólio no ramo. Em vez de abrir uma loja de venda a retalho em Nova Iorque, Jason fora sensato e optara pelo comércio grossista. Era um negócio simples: não tinha empregados e dispunha de apenas um escritório em Manhattan e um armazém em Queens. As encomendas e inventários ficavam a cargo de pequenas firmas independentes e, de quando em quando, contratava funcionários em regime temporário para efetuarem trabalho burocrático.

A empresa funcionava através de telefone e fax; por conseguinte, o gabinete de Jason estava sempre fechado à chave. Todas as manhãs, o carteiro introduzia o correio na ranhura da porta.

Nessa sexta-feira em particular, a correspondência aterrou no soalho com um ruído mais forte do que o habitual, devido a um pacote que vinha entre os sobrescritos. Sentado à secretária, Jason desviou a atenção dos livros de contabilidade. Olhando de relance para a franquia, reparou que era uma encomenda especial. No canto inferior esquerdo, o sobrescrito trazia uma advertência: Colocar o carimbo manualmente. A título de explicação lia-se: Conteúdo frágil!

Jason virou o pacote ao contrário. O papel era grosso, espesso, de boa qualidade. Não era o papel típico usado pela publicidade; no entanto, o remetente dizia: "Serviço de Limpeza A.C.M.E: Deixe o pó a nosso cargo." O endereço ficava na zona da Broadway.

Tornando a virar o sobrescrito, Jason notou que vinha diretamente em seu nome e não no da Firma de Tapetes Coríntios. Abaixo da morada, leu as palavras "pessoal e confidencial".

Com o polegar e o indicador, Jason tentou descobrir a origem do pacote, mas não chegou a qualquer conclusão. Vencido pela curiosidade, pegou no abre-cartas e cortou a parte superior. Ao espreitar para o conteúdo, viu um cartão dobrado feito de cartolina de qualidade idêntica à do papel do invólucro.

—Que diabos...?! — interrogou-se em voz alta.

Era tudo, menos a habitual publicidade. Retirou o cartão, surpreendido que um diretor de marketing tivesse conseguido convencer uma empresa de limpeza a enviar uma coisa tão cara. O cartão estava selado com uma presilha. No centro trazia uma só palavra: "Surpresa!"

Jason soltou a presilha e, imediatamente, o cartão deu um salto nas suas mãos e abriu-se. Ao mesmo tempo, um mecanismo acionado por uma mola libertou uma nuvem de pó, juntamente com uma mão-cheia de pequeninas estrelas reluzentes.

A princípio, Jason assustou-se com o movimento súbito e inesperado e espirrou várias vezes por causa do pó. Mas, logo a seguir, sorriu. Dentro do cartão vinha a seguinte legenda: "Chame-nos para limpar esta poeirada toda!"

Jason abanou a cabeça, espantado. Tinha de tirar o chapéu a quem quer que fosse o responsável por esse anúncio do Serviço de Limpeza A.C.M.E. Não havia dúvida de que era original, inteligente e... eficaz. Teve vontade de contratar a A.C.M.E, mas era desnecessário, já que a limpeza ficava a cargo do senhorio.

Jason atirou o cartão e o invólucro para o cesto dos papéis, depois debruçou-se para sacudir as pequeninas estrelas reluzentes que tinham ficado coladas à camisa. Sentiu cócegas no nariz e espirrou mais uma série de vezes, com tal força que os seus olhos se encheram de lágrimas.

Como acontecia sempre às sextas-feiras, Jason terminou o expediente cedo. Desfrutando do clima de outono, dirigiu-se a pé para a Estação Central, onde apanhou o comboio suburbano das cinco e um quarto. Quarenta e cinco minutos depois, quando estava prestes a chegar à sua paragem, sentiu a primeira pontada no tórax. O seu reflexo instintivo foi engolir em seco, mas de nada serviu. Pigarreou, também sem efeito. Deu umas pancadinhas no peito e inspirou fundo várias vezes.

A senhora que estava sentada ao lado de Jason baixou a ponta do jornal.

— Sente—se bem? — perguntou.

— Sim, não se preocupe — respondeu Jason, embaraçado, pensando com os seus botões se teria fumado mais do que a conta durante o dia.

Nessa noite, Jason tentou em vão ignorar as ocasionais pontadas no tórax. Helen percebeu que algo se passava, quando o viu brincar com a comida no prato em vez de a levar à boca. Estavam no restaurante grego onde costumavam ir pelo menos uma vez por semana, desde que a sua única filha saíra de casa para tirar um curso universitário.

— Tenho uma sensação esquisita no peito — confessou Jason por fim, quando Helen o interrogou.

— Espero que não estejas a chocar mais uma gripe.

Embora Jason fosse uma pessoa saudável, o fato de fumar demasiado tornava-o susceptível a infecções pulmonares, especialmente a gripes. Três anos antes, sofrera uma crise grave de pneumonia.

— Não pode ser uma gripe — comentou. — Ainda não estamos na época das gripes, pois não?

— E eu lá sei! — retorquiu Helen. — Não tenho a certeza, mas não foi por esta altura que apanhaste uma gripe no ano passado?

— Foi em novembro — corrigiu Jason.

Assim que chegaram a casa, Helen fez questão de tirar a febre a Jason. O termômetro marcava trinta e sete e quatro, pouco acima da temperatura normal. Puseram a hipótese de chamar o Dr. Goldstein, o médico de família, mas acabaram por decidir não o fazer. Não lhes apetecia incomodá-lo num fim-de-semana.

— Por que é que uma pessoa há de sentir-se mal sempre numa sexta-feira à noite? — queixou-se Helen.

Jason teve dificuldade em dormir. A meio da noite, foi assolado por uma crise de suores que o fez transpirar tanto que teve de tomar um duche. Enquanto se secava com a toalha, sentiu um calafrio.

— Está decidido — anunciou Helen, colocando vários cobertores sobre o marido que não parava de tremer. — De manhãzinha chamamos o médico.

— Ele não vai fazer nada — resmungou Jason. — Estou com gripe. Vai mandar-me ficar em casa, tomar umas aspirinas, beber muitos líquidos e essa treta toda.

— Talvez te receite um antibiótico — disse Helen.

— Ainda tenho uma embalagem de antibiótico que sobrou do ano passado — lembrou Jason. — Está no armário dos medicamentos. Vai buscá-la! Não é preciso chamar o médico.

O sábado foi um dia mau. Ao fim da tarde, Jason deu o braço a torcer e reconheceu que se sentia francamente pior, apesar das aspirinas, dos líquidos e do antibiótico. A pontada no tórax tornara-se uma dor intensa. A febre subira para os trinta e nove e quatro e tinha começado a tossir. Mas aquilo de que mais se queixava era de dores de cabeça e sentia os músculos do corpo doridos.

Todos os esforços para encontrar o Dr. Goldstein foram em vão. O médico decidira ir passar o fim-de-semana em Connecticut e a secretária aconselhou Helen a levar o marido às urgências.

Após uma longa espera, Jason foi finalmente examinado pelo médico de serviço ao banco, que ficou surpreendido com o seu estado, em especial depois de ver a radiografia ao tórax. Para alívio de Helen, o médico recomendou que Jason fosse imediatamente internado no hospital e passou o caso ao Dr. Heitman, que ficara encarregado de tratar os doentes do Dr. Goldstein. O diagnóstico apontava para uma gripe com um princípio de pneumonia e o médico das urgências decidiu ministrar antibióticos por via intravenosa.

            Pouco antes da meia-noite, quando foi levado para o quarto, Jason sentia-se pior que nunca. Queixava-se de dores terríveis no peito, que o dilaceravam sempre que tossia, e de dores de cabeça. Assim que o Dr. Heitman apareceu para examiná-lo, Jason suplicou que lhe aliviasse o sofrimento e o médico deu-lhe um analgésico forte.

Os comprimidos demoraram quase meia hora a fazer efeito. Por essa altura, já o Dr. Heitman se tinha ido embora. Jason estava estendido na cama esgotado, mas sem conseguir dormir. Sentia travar-se no seu corpo um combate mortal. Deixou cair a cabeça para o lado. Olhou para Helen na penumbra e segurou-lhe na mão, enquanto ela mantinha a sua silenciosa vigília. Uma lágrima sulcou uma das faces de Jason. Para ele, Helen continuava a ser aquela rapariguinha que entrara na sua loja na zona da Plaka há tantos, tantos anos...

A imagem de Helen começou a desvanecer-se à medida que uma dormência balsâmica se apoderava do corpo de Jason. À zero horas e trinta e cinco minutos, Jason Papparis adormeceu pela última vez. Felizmente nem se deu conta de mais tarde ser levado à pressa para os cuidados intensivos, a mando do Dr. Kevin Fowler, que fez tudo para salvar a sua vida, em vão.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

04h30

O ruído dos reatores do avião era aterrador. Durante a trajetória inexorável em direção ao solo, rugiram desesperadamente até que, de repente, se calaram num silêncio arrepiante como se, distraído, o piloto os tivesse desligado.

Horrorizado, Jack Stapleton seguia o rumo da aeronave de vôos domésticos, sabendo que a sua família se encontrava a bordo e que ele nada podia fazer. O avião ia despenhar-se! Impotente, berrou: NÃO! NÃO! NÃO!

Os gritos de Jack arrancaram-no piedosamente às garras do pesadelo recorrente. Sentou-se de costas direitas na cama, com a respiração ofegante, como se tivesse andado a correr de um lado para o outro num jogo de basquetebol. O suor escorria-lhe pela cana do nariz. Não sabia onde estava. Os seus olhos varreram o interior do quarto. O som descontínuo não provinha de um avião; era o telefone. A implacável campainha estridente estilhaçava a noite.

Jack olhou de imediato para o rádio-despertador, cujos dígitos brilhavam no escuro. Eram quatro e meia da manhã! Ninguém lhe telefonava àquela hora. Ao estender o braço para atender, lembrou-se com dolorosa nitidez daquela noite, oito anos atrás, em que fora acordado por um telefonema a informá-lo de que a sua mulher e os dois filhos tinham morrido.

Levantando o auscultador do descanso, Jack atendeu a chamada com a voz rouca de pânico.

— Ai, desculpa, acordei-te — disse uma voz feminina. Ouviam-se interferências na linha.

— Que idéia! — respondeu Jack, já suficientemente desperto para conseguir ser sarcástico. — Quem fala?

— É a Laurie. Desculpa ter te acordado, mas era importante explicou ela com uma gargalhada.

Jack fechou os olhos, depois tornou a consultar o relógio para ter a certeza de que não se enganara. Eram realmente quatro e meia da manhã!

— Ouve, não me posso demorar — prosseguiu Laurie. — Quero jantar contigo esta noite.

— Deves estar a brincar — disse Jack.

— Não, não estou a brincar — assegurou Laurie. — É importante. Tenho de falar contigo e queria que fosses ao jantar. Eu pago. Diz que aceitas!

— Acho que não tenho alternativa — respondeu Jack, relutante em aceitar o convite.

— Vou interpretar isso como um sim — anunciou Laurie. Quando nos virmos no serviço, combinamos os pormenores, está bem?

— Está — disse Jack. Afinal, não estava tão acordado como pensara; Sentia o cérebro a trabalhar ao ralenti.

— Ótimo — rematou Laurie. — Então, até logo.

Jack pestanejou quando se apercebeu de que Laurie desligara. Pousou o auscultador e observou-se, demoradamente na escuridão. Conhecia Laurie Montgomery há mais de quatro anos, desde que eram colegas no Instituto de Medicina Legal da cidade de Nova Iorque. Laurie era sua amiga; na verdade, mais do que amiga e, durante todo esse tempo, nunca lhe telefonara tão cedo. O motivo era simples: Laurie não tinha por hábito madrugar. Gostava de ler pela noite dentro e, de manhã, era um sacrifício saltar da cama com as galinhas.

Jack deixou cair a cabeça na almofada, fazendo tenções de descansar mais hora e meia. Ao contrário de Laurie, ele sim era madrugador, mas quatro e meia era demais!

Infelizmente, depressa se deu conta de que não ia conseguir dormir. O telefonema e o pesadelo não o deixavam adormecer. Depois de uma inquieta meia hora às voltas na cama, puxou os cobertores para trás e foi à casa de banho, com os pés enfiados nas pantufas de carneira.

Jack acendeu as luzes e observou-se ao espelho, enquanto passava a mão pelo rosto por barbear. Com um olhar distraído, mirou o dente incisivo esquerdo que estava lascado e a cicatriz no cimo da testa, recordações de uma investigação extracurricular que fizera por causa de um caso relacionado com doenças infecciosas. Inesperadamente, Jack tornara-se o gume incontestado das infecciosas, no Instituto de Medicina Legal.

Sorriu diante do seu reflexo. Se há oito anos alguém lhe tivesse oferecido uma bola de cristal para ele ver o futuro, não teria sido capaz de reconhecer-se. Naqueles tempos, era um indivíduo relativamente corpulento, nascido e criado no Midwest, um oftalmologista suburbano, conservador na sua maneira de vestir. Atualmente, era um médico legista magro e mediano, ao serviço do Município de Nova Iorque, com o cabelo grisalho cortado muito curto, um dente lascado e um rosto marcado. Quanto ao vestuário, preferia agora casacos de cabedal, calças de ganga coçadas e camisas de cambraia.

Tentando não pensar na família, Jack matutou sobre o estranho comportamento de Laurie, totalmente despropositado. Ela era sempre atenciosa e respeitava as regras de etiqueta; nunca telefonaria àquela hora sem um motivo forte. Jack interrogou-se sobre qual seria a razão.

Depois de barbeado, meteu-se no chuveiro, tentando imaginar por que carga de água Laurie teria telefonado a meio da noite para lhe fazer um convite. Costumavam jantar juntos com bastante freqüência, mas geralmente decidiam-no em cima da hora. Porque necessitaria Laurie de marcar encontro em plena madrugada?

Enquanto se secava com uma toalha, Jack decidiu telefonar-lhe. Era ridículo tentar adivinhar o que se passava na cabeça de Laurie. Já que ela o tinha acordado daquela forma, era mais do que natural ele pedir-lhe uma explicação. Porém, quando marcou o número, a chamada foi encaminhada diretamente para o atendedor automático. Pensando que ela poderia estar no duche, deixou-lhe uma mensagem pedindo-lhe que lhe ligasse assim que pudesse.

Quando Jack terminou o pequeno-almoço já passava das seis. Como Laurie ainda não tinha dito nada, tentou telefonar-lhe de novo. Para desgosto seu, ouviu uma vez mais o atendedor de chamadas. Desligou antes de terminar o papagueio da mensagem.

Como entretanto amanhecera, Jack considerou a hipótese de ir trabalhar mais cedo. Foi então que lhe veio à mente que talvez Laurie tivesse ligado do gabinete. Tinha a certeza de que ela não estava de serviço, mas podia ter surgido um caso que lhe interessasse em especial.

Jack ligou para o Instituto de Medicina Legal. Marjorie Zankowski, a telefonista do turno da noite, atendeu a chamada e disse-lhe que tinha a certeza absoluta de que a Dra Laurie Montgomery não se encontrava no gabinete. Acrescentou que o único médico presente era o que estava de serviço.

Com um sentimento de frustração a raiar a raiva, Jack desistiu e resolveu não gastar mais energias e neurônios tentando adivinhar o que iria na cabeça de Laurie. Dirigiu-se para a sala de estar e enroscou-se no sofá, com uma das suas muitas revistas sobre medicina legal ainda por ler.

Às seis e quarenta e cinco, Jack levantou-se, atirou a leitura para um canto e pegou na bicicleta de montanha Cannondale, que estava encostada à parede da sala, Com a bicicleta encavalitada no ombro, desceu os quatro lanços de escadas do edifício. De manhã bem cedo era a única hora do dia em que não se ouviam gritos de discussão vindos do apartamento 213. No rés-do-chão, Jack teve de desviar-se de alguns sacos do lixo que, durante a noite, alguém lançara pelo vão das escadas.

À saída do prédio, na Rua 106 Oeste, Jack sorveu uma golfada do ar de outubro. Pela primeira vez desde que acordara, sentia-se com energia.   Montou na bicicleta roxa e pedalou em direção ao Central Park, passando pelo campo de basquetebol do bairro, que estava vazio, à sua esquerda.

Uns anos antes, no mesmo dia em que levara um soco suficientemente forte para lhe lascar um dente, a primeira bicicleta de Jack fora roubada.  Dando ouvidos aos colegas, em especial a Laurie, sobre os perigos de andar de bicicleta na cidade, Jack decidira não comprar outra, mas, depois de ter sido assaltado no metrô, acabara por fechar negócio.

A princípio, enchera-se de cuidados com a sua nova bicicleta, mas o tempo foi passando e, aos poucos, Jack voltara às suas antigas tropelias. Entre a casa e o trabalho, satisfazia a sua sede de autodestruição, com dois assustadores passeios diários pelas ruas selvagens da cidade. Jack estava convencido de que já nada tinha a perder. As suas perigosas excursões de bicicleta, essa sua necessidade de brincar com o fogo, eram uma maneira de mostrar que, se a sua família morrera, ele devia ter morrido também e provavelmente acabaria por ir ao encontro da mulher e dos filhos mais cedo do que seria de esperar.

Quando Jack chegou finalmente ao Instituto de Medicina Legal, na esquina da Primeira Avenida com a Rua 30, tivera já duas longas discussões com motoristas de táxi e uma pequena desavença com um autocarro dos serviços municipalizados. Intrépido e sem perder o fôlego, deixou a bicicleta no rés-do-chão, junto dos caixões da Agência Funerária Hart Island, e subiu para a sala de identificações. A maior parte das pessoas ficaria com os nervos à flor da pele depois de tão penosa viagem, mas não Jack. As contendas e o cansaço físico acalmavam-no, preparando-o para as habituais correrias e tacanhices burocráticas do dia.

Quando passou por Vinnie Amêndola, Jack deu uma pancada no jornal do técnico da morgue, sentado no seu local preferido, a secretária da entrada. Jack acrescentou ao gesto uns bons-dias, mas Vinnie ignorou-o. Como sempre, estava entretido a decorar os resultados desportivos da véspera.

Vinnie trabalhava no Instituto de Medicina Legal a mais tempo do que Jack. Era um bom funcionário, apesar de quase ter sido despedido alguns anos antes, por ter passado para o exterior informações que haviam colocado o instituto numa situação constrangedora e posto em risco a vida de Jack e de Laurie. Em vez de ser mandado embora, Vinnie fora simplesmente repreendido e temporariamente suspenso, graças a circunstâncias atenuantes: o inquérito provou que fora vítima de extorsão por parte de um grupo de figuras suspeitas do submundo do crime. O pai de Vinnie tinha uma relação pontual com a Máfia.

Jack cumprimentou o Dr. George Fontworth, um médico legista corpulento que levava sete anos de vantagem sobre Jack na hierarquia do instituto. George preparava-se para começar a tarefa semanal de analisar todas as mortes ocorridas na noite anterior e decidir quais os cadáveres que seriam autopsiados e por quem. Daí estar a trabalhar tão cedo; normalmente, era o último a aparecer.

— Bela recepção — comentou Jack entredentes, quando George o ignorou, seguindo o exemplo de Vinnie.

Encheu a caneca com o café que Vinnie fizera ao chegar. Este entrava antes dos restantes técnicos, para dar assistência ao médico de serviço caso fosse necessário. Uma das suas competências era preparar o café na cozinha comum. De caneca na mão, Jack aproximou-se de George e espreitou por cima do ombro do colega.

— Não sejas bisbilhoteiro — repreendeu George em tom petulante, tapando os papéis espalhados à sua frente. Uma das birras e manias de George era não gostar que lessem por cima do seu ombro.

Jack e George Fontworth nunca se tinham dado bem. Jack era pouco tolerante para com pessoas medíocres e recusava-se, por uma questão de princípio, a esconder o que pensava. George podia citar nomes sonantes como referências, pois trabalhara com um dos monstros sagrados da medicina legal, mas Jack considerava-o pura e simplesmente medíocre, por conseguinte não lhe tinha qualquer tipo de respeito.

A reação de George fez despontar um sorriso em Jack, que sentia um prazer perverso em picar o colega.

— Alguma coisa interessante? — indagou, dando a volta à secretária.

Com o dedo indicador, começou a remexer nos ficheiros para ler os diagnósticos prováveis.

— Acabei de pôr esses ficheiros todos por ordem! — exclamou George, irritado.

Afastou a mão de Jack e tornou a endireitar as pilhas de papéis, ordenadas consoante a causa e tipo de morte.

— O que tens para mim? — perguntou Jack.

Uma das coisas que adorava na sua profissão era nunca saber o que se lhe iria deparar a cada dia. Estavam sempre a acontecer coisas novas, ao contrário de quando era oftalmologista. Naqueles tempos, Jack conseguia prever com três meses de antecedência como ia ser determinado dia.

— Guardei-te um caso relacionado com doenças infecciosas respondeu George — mas não me parece particularmente interessante. É teu, se quiseres.

— Por que é que o enviaram para aqui? — inquiriu Jack. — Não trazia diagnóstico?

— Trazia um diagnóstico provável — explicou George. — Registraram-no como uma possível gripe com princípios de pneumonia, mas o doente morreu antes de chegarem os resultados das culturas. Para complicar, a coloração de Gram não indicou nada. E, ainda por cima, o médico do sujeito resolveu ir para fora no fim-de-semana.

Jack pegou na pasta. O nome do doente era Jason Papparis. Jack puxou o relatório redigido por Janice Jaeger, a investigadora forense do turno da noite ou assistente hospitalar, geralmente chamada AH para abreviar. Enquanto lia os dados na diagonal, Jack acenou com a cabeça em sinal de aprovação. Janice era uma investigadora meticulosa. Desde que Jack sugerira que ela descobrisse sempre, em todos os casos de doenças infecciosas, se a pessoa em causa viajara ou tivera contato com animais, Janice nunca se esquecera de o fazer.

— Grande gripe! — comentou Jack, ao reparar que o doente estivera menos de vinte e quatro horas no hospital.

Notou também que o indivíduo era um fumador inveterado com um historial de problemas pulmonares. Era caso para perguntar se seria o agente infeccioso demasiado forte ou o doente invulgarmente susceptível.

— Queres ficar com esse ou não? — perguntou George. — Temos uma série de casos esta manhã. Já escolhi uns poucos para te dar, incluindo o de um recluso que morreu na cadeia.

— Que seca! — murmurou Jack. Sabia que casos como aquele costumavam ter repercussões complicadas a nível político e social. — Tens a certeza de que o Calvin, o nosso destemido chefe de serviço, não vai querer encarregar-se dele pessoalmente?

— Ele ligou bem cedo e disse-me para te passar o caso para as suas mãos — explicou George. — Foi contatado pelas altas instâncias da polícia, que acharam que eras a pessoa indicada para tratar do assunto.

— Que ironia! — comentou Jack, Perplexo. Tanto o chefe do serviço como o próprio diretor se queixavam da falta de diplomacia de Jack, acusando-o de ser incapaz de compreender a componente político-social da profissão de médico legista.

— Se não quiseres o caso da gripe, tenho aqui o de uma overdose — disse George.

— Fico com a gripe — optou Jack, que não gostava de overdoses. Eram casos repetitivos e o instituto estava cheio deles. Não requeriam qualquer tipo de esforço intelectual.

— Está bem — assentiu George, fazendo uma anotação na sua lista.

Ansioso por começar a trabalhar, Jack dirigiu-se para Vinnie e baixou-lhe a ponta do jornal. Vinnie fixou-o com os seus olhos taciturnos, negros como carvão. Era óbvio que não tinha gostado da brincadeira. Sabia o que o esperava; no fim de contas, a cena repetia-se quase todos os dias.

— Não me diga que quer começar já? — queixou-se Vinnie.

— Quem cedo madruga, Deus o ajuda — retorquiu Jack.

O corriqueiro ditado era a resposta que Jack tinha reservada para a habitual falta de entusiasmo matinal de Vinnie. O comentário nunca deixava de irritar ainda mais o técnico da morgue, apesar de já contar com ele.

— Ainda gostava de saber porque é que o doutor não entra à mesma hora que todos os outros médicos — resmungou Vinnie.

Apesar de tudo indicar o contrário, Jack e Vinnie davam-se às mil maravilhas. Como Jack fazia questão de entrar ao serviço cedo, acabavam sempre por trabalhar juntos e, ao longo dos anos, tinham estabelecido uma relação de equipa que funcionava sobre rodas. Jack preferia Vinnie a todos os outros técnicos e Vinnie preferia Jack. Como Vinnie dizia, Jack não costumava "meter o bedelho onde não era chamado".

— Por acaso não viste a Laurie? — perguntou Jack, enquanto se encaminhavam para o elevador.

— A doutora Montgomery é demasiado inteligente para vir trabalhar a esta hora da madrugada — retorquiu Vinnie. — É uma pessoa normal, ao contrário de certos médicos que eu conheço...

Quando passaram pela sala da telefonista, Jack avistou luz no cubículo do sargento Murphy. O sargento fazia parte da polícia de Nova Iorque e trabalhava no Instituto de Medicina Legal há vários anos. Raramente aparecia antes das nove.

Curioso por saber se o exuberante irlandês já tinha chegado, Jack fez um desvio e espreitou para dentro do gabinete. Não só Murphy lá estava, como tinha companhia. Sentado à sua frente encontrava-se o tenente Lou Soldano do Departamento de Homicídios, visita freqüente da morgue. Jack conhecia-o relativamente bem, especialmente por ser amigo íntimo de Laurie. Ao seu lado encontrava-se outro indivíduo discreto que Jack não sabia quem era.

— Jack! — chamou Lou assim que o viu. — Chega aqui, por favor. Quero apresentar-te uma pessoa.

Jack entrou no gabinete minúsculo. Lou levantou-se. Como habitualmente, o investigador apresentava-se com ar de quem passara a noite toda em claro. Não fizera a barba; as faces pareciam duas grandes manchas de fuligem e tinha olheiras profundas, Para cúmulo, a sua roupa estava engelhada, trazia desapertado o primeiro botão da camisa que um dia fora branca e o nó da gravata solto.

— Apresento-te o agente especial Gordon Tyrrell — anunciou Lou, fazendo um gesto na direção do indivíduo sentado ao seu lado. O sujeito pôs-se de pé e estendeu a mão.

— Isso significa que é do FBI? — perguntou Jack, dando-lhe um aperto de mão.

— Exatamente — respondeu Gordon.

Jack nunca dera um aperto de mão a um agente do Federal Bureau of Investigation. A sensação não foi propriamente a que antecipara. A mão de Gordon era esguia, quase efeminada, e a pressão dos dedos frouxa e tímida. O agente era um homem pequeno, de feições delicadas, em nada o estereótipo masculino que Jack imaginara desde miúdo. A sua indumentária era conservadora, mas impecável. Os três botões do casaco estavam apertados. Em quase todos os aspectos, era a antítese visual de Lou.

— Que se passa? — perguntou Jack. — Não me lembro da última vez que vi o sargento tão cedo aqui por estas bandas.

Murphy riu e ia dar uma resposta, mas Lou interrompeu-o.

— Houve um homicídio a noite passada que deixou o FBI bastante preocupado — explicou Lou. — Temos esperança de que a autópsia possa ajudar—nos a esclarecer o caso.

— De que tipo de caso se trata? — quis saber Jack. — Tiro ou facada?

— Um pouco de tudo — disse Lou. — O corpo ficou num estado miserável. Até tu és capaz de ficar mal-disposto quando o vires. Já foi identificado? — perguntou Jack.

Por vezes, no caso de cadáveres muito mutilados, a identificação era a parte mais difícil. De sobrancelhas arqueadas, Lou lançou um olhar a Gordon, sem saber ao certo qual o grau de confidencialidade exigido pelas circunstâncias.

— Não há problema — disse Gordon.

— Sim, já foi identificado — respondeu Lou. — É um tal Brad Cassidy, um cabeça-rapada branco de vinte e dois anos.

— Queres dizer que é um daqueles tarados racistas com tatuagens nazis, blusão de cabedal preto e botas da tropa? — perguntou Jack.

Já tinha visto escumalha daquela espécie a vaguear pelos parques da cidade. Vira muitos mais todas as vezes que voltara ao Midwest, para visitar a mãe.

— Acertaste em cheio — anuiu Lou.

— Nem todos os cabeças-rapadas têm insígnias nazis — explicou Gordon.

— Sim, tem toda a razão — concordou Lou. — Aliás, muitos já nem sequer rapam o cabelo. O estilo tem sofrido algumas alterações.

— Mas a música não — corrigiu Gordon. — Essa tem sido a característica mais consistente do movimento e não há dúvida de que faz parte do estilo.

— Aí está um assunto sobre o qual não entendo nada — admitiu Lou. — Nunca fui grande apreciador de música.

— Bem, é um pormenor importante no que toca aos cabeças-rapadas americanos — informou Gordon. — A música esteve na origem da ideologia de ódio e violência dos cabeças-rapadas.

— A sério? — perguntou Lou. — O movimento surgiu por causa da música?

— Olhe que não estou a exagerar — declarou Gordon. — Aqui nos Estados Unidos, ao contrário do que aconteceu em Inglaterra, os cabeças-rapadas começaram a aparecer como uma espécie de moda, como a dos punks, cujo objetivo era chocar através de um visual e comportamento ofensivos. Mas a música de grupos como os Skrewdriver, os Brutal Attack e outros quantos trouxe uma mudança. As letras promoviam uma filosofia de sobrevivência e revolta. Foi daí que nasceram o ódio e a violência.

— É especialista em cabeças-rapadas? — perguntou Jack, impressionado.

— Única e simplesmente por uma questão de necessidade — respondeu Gordon. — Aquilo que me interessa verdadeiramente são as milícias de extrema-direita, mas tive de alargar a minha área de investigação. Infelizmente, a Resistência Ariana Branca lançou a moda de recrutar cabeças-rapadas como uma espécie de tropa de choque, manipulando esses sentimentos de ódio e violência que a música tinha gerado. Agora, muitos dos grupos neofascistas seguiram-lhe o exemplo e recrutam miúdos para fazerem todo o trabalhinho sujo e põem-nos a consumir propaganda neonazi.

— Esses miúdos costumam atacar as minorias, não é? — perguntou Jack. — O que aconteceu no caso deste indivíduo? Alguém resolveu vingar-se?

— Os cabeças-rapadas têm tendência para lutar uns contra os outros, na mesma medida em que atacam grupos de fora — explicou Gordon. — Neste caso, foi uma rixa interna.

— Por que tanto interesse neste Brad Cassidy? — inquiriu Jack. — Pensei que quantos menos desses tipos andassem à Solta mais fácil seria para vocês fazerem respeitar a lei.

Vinnie enfiou a cabeça por entre a porta e informou Jack de que, se este pretendia continuar em amena cavaqueira, ele ia retirar-se para a sua secretária e retomar a leitura do New York Post. Jack mandou-o embora com um gesto.

— O Brad Cassidy tinha sido recrutado pelo FBI como informador — explicou Gordon. — Fez um acordo conosco que o anistiava de uma série de pequenos delitos em troca de colaboração, Estava a tentar infiltrar-se numa organização chamada Exército Popular Ariano ou EPA.

— Nunca ouvi falar nisso — comentou Jack.

— Eu também não — confessou Lou.

— É um grupo que atua na sombra — disse Gordon. — Tudo o que sabemos foi o que conseguimos interceptar na internet que, aliás, se tornou o principal meio de comunicação destes loucos neofascistas. A única coisa que averiguamos sobre o EPA é que está sediado algures na zona metropolitana de Nova Iorque e que recrutou alguns dos cabeças-rapadas da região. Mas o que mais nos preocupa são os rumores que correm sobre um grande acontecimento, marcado para breve. Receamos que estejam a planear um atentado.

— Como o que aconteceu em Oklahoma, quando puseram uma bomba no edifício Alfred P. Murrah — acrescentou Lou. — Um atentado terrorista de grandes proporções.

— Santo Deus! — exclamou Jack.

— Não sabemos o quê, nem quando, nem onde — rematou Cordon. — Temos esperança de que estejam apenas a fazer bluff e que isto não passe de exibicionismo, o que é natural neste tipo de grupo; mas não podemos correr riscos. Já que a contra-espionagem é a única verdadeira defesa contra o terrorismo, estamos a fazer tudo o que podemos. Notificamos as autoridades municipais que lidam com situações de emergência, mas, infelizmente, dispomos de poucos dados para lhes fornecer.

— Para já, a nossa única pista é um cabeça-rapada morto — informou Lou. — Por isso nos mostramos tão interessados na autópsia. Estamos à espera de obter uma pista, qualquer pista.

— Querem que faça já o exame post mortem? — perguntou Jack. — Ia agora tratar de um caso relacionado com doenças infecciosas, mas pode esperar.

— Pedi à Laurie para fazer a autópsia — confessou Lou, corando o máximo que lhe permitia a sua pele escura, típica do sul de Itália. — E ela disse que aceitava.

—Quando é que falaste com a Laurie? — inquiriu Jack.

— Hoje de manhã — respondeu Lou.

— A sério? — disse Jack. — Onde é que a apanhaste? Em casa?

— Na verdade, foi ela que me telefonou — explicou Lou. — Ligou-me para o telemóvel.

— A que horas? — insistiu Jack.

Lou hesitou.

— Foi por volta das quatro e meia da manhã? — perguntou Jack.

O mistério de Laurie adensava-se.

— Mais ou menos, sim — admitiu Lou.

Jack puxou Lou pelo cotovelo.

— Se nos dão licença... — disse, dirigindo-se a Gordon e ao sargento Murphy.

Jack levou Lou para a sala da telefonista. Marjorie Zankowski lançou-lhes um olhar de relance antes de retomar o seu tricô. O painel estava em silêncio.

— A Laurie também me ligou às quatro e meia — sussurrou Jack. — Acordou-me. Não me estou a queixar, até foi bom ela ter me acordado, porque eu estava a ter um pesadelo. Sei que eram precisamente quatro e meia, porque olhei para o relógio.

— Bem, talvez fossem quatro e quarenta e cinco quando ela me telefonou — emendou Lou. — Não me lembro ao certo. Foi uma noite agitada.

— Que queria ela? — perguntou Jack. — É uma estranha hora para andar a fazer telefonemas, não achas?

Lou fitou Jack com os seus olhos negros. Era óbvio que estava na dúvida se devia ou não revelar o motivo pelo qual Laurie lhe telefonara.

— Está certo, não tenho o direito de perguntar — cedeu Jack, erguendo as mãos num gesto de falsa defesa. — Em vez disso, vou dizer-te porque é que ela me ligou: quer jantar hoje à noite. Disse que tinha de conversar comigo. Isto faz algum sentido comparado com o que ela te disse?

Lou deixou sair o ar por entre os lábios cerrados.

— Não — respondeu. — Disse-me a mesma coisa. Também me convidou para jantar.

— Não estás a gozar comigo, pois não? — perguntou Jack, perplexo.

Lou abanou a cabeça.

— Que lhe respondeste? — perguntou Jack.

— Disse que sim, que ia jantar — retorquiu Lou.

— Que achas que ela tem para te dizer? — insistiu Jack.

Lou hesitou. Mais uma vez, era óbvio que se sentia pouco à vontade.

— Estava à espera que ela me dissesse que tinha saudades minhas. Sabes como é, qualquer coisa desse estilo...

Jack levou as mãos à cabeça, comovido. Estava claro que Lou gostava de Laurie, o que complicava a situação, pois Jack nutria o mesmo sentimento por ela, embora não quisesse admiti-lo.

— Não digas nada — pediu Lou.

— Eu sei, sou um imbecil. É que às vezes tenho ataques de solidão e sabe-me bem a companhia dela. Além disso, a Laurie tem uma relação ótima com os meus putos.

Jack tirou a mão da testa e pousou-a no ombro de Lou.

— Não és um imbecil, muito pelo contrário. Pensei que podias ajudar-me a perceber o que se passa com ela, mais nada.

— Vamos ter de lhe perguntar diretamente — concluiu Lou. — Ela disse que ia chegar um pouco atrasada hoje de manhã.

— Se bem conheço a Laurie, vai nos fazer esperar até logo à noite — comentou Jack. — Ela disse a que horas vai chegar?

 — Não — respondeu Lou.

— Até isso é estranho — analisou Jack. — Se estava acordada às quatro e meia da manhã, por que é que vai chegar atrasada?

Lou encolheu os ombros.

Jack voltou para a sala de identificações com a cabeça às voltas, a pensar em Laurie e em atentados terroristas. Estranha combinação... Dando-se conta de que, por enquanto, pouco ou nada podia fazer em relação a qualquer um dos assuntos, decidiu afastar Vinnie do seu jornal pela segunda vez e começar finalmente a trabalhar nos casos do dia. Estava ansioso por debruçar-se sobre um problema de resolução imediata.

Quando Jack e Vinnie passaram diante do gabinete de Janice Jaeger, Jack espreitou lá para dentro.

— Fizeste um excelente trabalho no caso Papparis — elogiou Jack.

Janice levantou os olhos da secretária. As suas olheiras estavam tão marcadas como sempre. Jack pensou com os seus botões se a investigadora jamais dormiria.

— Obrigada — disse Janice.

— Devias ir descansar — aconselhou Jack.

— Vou-me embora assim que terminar este assunto.

— Há alguma coisa que queiras acrescentar ao caso Papparis? — interpelou Jack.

— Acho que está tudo aí — respondeu Janice. — Exceto o fato de o médico com quem falei se ter mostrado bastante nervoso. Disse-me que nunca tinha visto uma infecção tão agressiva. Aliás, ele agradecia que lhe telefonasses depois de fazeres a autópsia. O nome e número de telefone dele estão nas costas do relatório.

— Ligo-lhe assim que chegarmos a alguma conclusão — prometeu Jack.

No elevador, Vinnie pronunciou-se:

— Este caso está a começar a assustar-me. Lembra-me aquele caso da peste que tivemos há uns anos. Espero que não seja o início de uma epidemia qualquer.

— Já somos dois — concordou Jack. — Se bem que me lembre mais os casos de gripe que surgiram depois da peste. Temos de ter cuidados redobrados para não haver contaminação.

— Nem é preciso avisar — disse Vinnie. — Vestia dois fatos de isolamento se pudesse.

Vinnie esterilizou-se e, enquanto Jack se dirigia para os vestiários para trocar de roupa, o técnico da morgue colocou o seu fato de isolamento. Depois, enquanto Vinnie entrava para a sala de autópsias, ou fosso, como lhe chamavam por se situar na cave do edifício, Jack analisou todo o material guardado na pasta, em especial o relatório de investigação forense redigido por Janice Jaeger. Nessa leitura mais minuciosa, Jack reparou num pormenor que lhe escapara da primeira vez. O morto trabalhava no ramo dos tapetes. Jack perguntou-se de que tipo de tapetes se trataria e de onde seriam provenientes. Tomou nota mentalmente para não se esquecer de averiguar junto dos investigadores forenses.

Em seguida, Jack colocou no negatoscópio o exame de raios X de Papparis tirado na morgue. A radiografia de corpo inteiro não era de grande utilidade em termos de diagnóstico. Em especial os pormenores da região torácica, que eram indefinidos. Não obstante, houve dois pormenores que chamaram a atenção de Jack. Em primeiro lugar, havia poucos indícios de pneumonia, o que era surpreendente face ao historial do doente, que indicava uma acelerada deterioração do sistema respiratório; em segundo, a parte central do peito situada entre os pulmões, anatomicamente designada por mediastino, parecia mais ampla do que seria normal.

Quando Jack vestiu finalmente o fato de isolamento, com o capuz, a máscara facial de plástico e sistema de filtração e ventilação HEPA, já Vinnie colocara o cadáver na mesa de autópsias e alinhara todos os frascos de colheita necessários.

— Que diabos esteve a fazer tanto tempo lá fora? — queixou-se Vinnie, assim que Jack entrou na sala. — A esta hora já tínhamos terminado a autópsia.

Jack riu-se.

— E olhe-me bem para este tipo — acrescentou Vinnie, apontando com a cabeça para o cadáver. — Acho que não vai poder ir ao baile de finalistas.

— Excelente memória — comentou Jack, que proferira aquela frase quando começaram a trabalhar no caso da peste que Vinnie mencionara antes. Tornara-se a pedra-de-toque do humor negro que ambos partilhavam.

— E não foi só disso que me lembrei — prosseguiu Vinnie. — Enquanto o doutor estava lá fora a meter o bedelho onde não era chamado, procurei picadas de artrópodes. Não encontrei uma única.

— Bela memória! — elogiou Jack. — Estou impressionado.

Durante o caso da peste, Jack explicara a Vinnie que os artrópodes, em especial os insetos e aracnídeos, desempenhavam um papel importante como vector na disseminação de muitas doenças infecciosas. Procurar provas da sua atuação era, nesses casos, uma tarefa fundamental da autópsia.

 — Daqui a nada dão-te o meu cargo.

— O que eu queria mesmo era que me dessem o seu salário — comentou Vinnie. — Quanto ao cargo, pode ficar com ele.

Jack efetuou o exame externo. Vinnie tinha razão: não havia indícios de picadas. Também não havia púrpura nem derrames, embora a pele tivesse uma ligeira coloração escura.

O exame interno correu de maneira completamente diferente. Assim que Jack abriu a cavidade torácica, a patologia tornou-se evidente. A superfície dos pulmões encontrava-se cheia de sangue, o que dava pelo nome de sufusão hemorrágica pleural. Havia uma série de hemorragias e sinais de inflamação nas estruturas localizadas entre os pulmões, que incluíam o esôfago, a traquéia, os brônquios principais, os grandes vasos e um conglomerado de nódulos linfáticos. Essa patologia era conhecida como mediastinite hemorrágica e estava na origem da extensa mancha que Jack detectara inicialmente no exame de raios X.

— Uau! — exclamou Jack. — Com uma hemorragia destas acho que não pode ter sido uma gripe. O quer que fosse, estava a disseminar-se como um verdadeiro mar de chamas.

Nervoso, Vinnie lançou um olhar de relance na direção de Jack. Tinha dificuldade em ver o rosto do médico, por causa do reflexo das luzes fluorescentes do teto na máscara de plástico. Vinnie não gostou do tom que Jack empregara. Jack Stapleton raramente ficava impressionado com o que via na sala de autópsias, mas dessa vez o caso mudara de figura.

— Que lhe parece? — perguntou Vinnie.

— Não sei — confessou Jack. — Mas a combinação de mediastinite hemorrágica com sufusão pleural faz-me lembrar algo que agora não me vem à mente. Qualquer coisa que li algures, mas não me recordo onde. Seja que vírus for, é extremamente agressivo.

Instintivamente, Vinnie deu um passo atrás, afastando-se do cadáver.

— Se não te importas, agradecia que não entrasses em pânico — admoestou Jack. — Vem cá e ajuda-me a retirar os órgãos abdominais.

— Está bem, mas prometa-me que vai ter cuidado — pediu Vinnie. — Às vezes é demasiado rápido com o bisturi. — Relutante, aproximou-se da mesa.

— Eu tenho sempre cuidado — gabou-se Jack.

— Pois claro! — respondeu Vinnie com sarcasmo. — É por isso que anda de bicicleta pela cidade.

Enquanto ambos se debruçavam atentamente sobre o corpo, começaram a entrar outros cadáveres. Foram colocados nas suas respectivas mesas junto dos técnicos da morgue, à espera de autópsia. Por fim, os outros médicos apareceram. Tudo indicava que ia ser um dia bastante atarefado no fosso.

—O que é que descobriste? — Perguntou uma voz por cima do ombro de Jack.

Jack endireitou-se e deu meia volta para fitar o Dr. Chet McGovem, seu colega. Jack e Chet tinham ambos entrado para o instituto no espaço de um mês. Davam-se muitíssimo bem, basicamente por partilharem uma verdadeira paixão e respeito pelo trabalho. Ambos tinham tentado outras áreas da medicina antes de enveredarem pela medicina legal. Em termos de personalidade eram bastante diferentes. Chet não possuía o sarcasmo de Jack e não tinha a mesma dificuldade em acatar ordens.

Jack fez uma descrição muito sucinta do caso Papparis e indicou a patologia do tórax a Chet. Mostrou-lhe inclusive a superfície de corte do pulmão, que revelava indícios mínimos de pneumonia.

— Muito interessante — comentou Chet. — A infecção deve ter sido transmitida pelo ar.

— Sem dúvida — corroborou Jack. — Mas por que tão poucos indícios de pneumonia?

— Não faço a mínima idéia. Tu é que és o especialista em infecciosas.

— Quem me dera que isso fosse verdade! — murmurou Jack, guardando cuidadosamente o pulmão no recipiente. — Tenho a certeza de que já encontrei algures esta combinação de sintomas, mas não consigo lembrar-me onde foi.

— Aposto que vais acabar por descobrir — assegurou Chet, preparando-se para sair.

Jack chamou-o e perguntou-lhe se tinha visto Laurie. Chet abanou a cabeça.

— Ainda não a vi hoje.

Jack levantou os olhos para o relógio de parede. Eram quase nove horas. Laurie já devia ter chegado há uma hora. Encolheu os ombros e voltou ao trabalho.

O passo seguinte era extrair o cérebro. Como Jack e Vinnie estavam habituados a trabalhar juntos, tinham definido uma manobra para abrir o crânio sem precisar de trocar indicações. Embora Vinnie fizesse grande parte do trabalho, era sempre Jack quem retirava a calota craniana.

— Quem diria... — comentou Jack assim que viu o cérebro.

Tal como nos pulmões, havia uma grande quantidade de sangue à superfície. Quando isso se verificava num caso de doença infecciosa, correspondia quase sempre a uma meningite hemorrágica; uma inflamação das meninges ao ponto de provocar uma hemorragia.

— Este tipo deve ter tido uma dor de cabeça dos diabos — disse Vinnie.

— Juntamente com uma dor lancinante no peito — concordou Jack. — O coitado do homem deve ter se sentido como se tivesse sido atropelado por um caminhão.

— O que é que encontrou, senhor doutor? — perguntou uma voz cava e ressonante. — Uma ruptura de um aneurisma ou uma vítima de traumatismo?

— Nem uma coisa nem outra — respondeu Jack. — Infecciosas. — Virou-se, ficando de frente para a imponente silhueta de dois metros do Dr. Calvin Washington, o chefe do serviço.

— Que conveniente! — retorquiu Calvin. — Contágios é consigo. Já tem um diagnóstico preliminar?

Calvin debruçou-se sobre a mesa para ver melhor. O seu corpo maciço e musculoso fazia com que a figura robusta de Jack parecesse comparativamente pequena. Sendo um africano-americano[1], enorme, atlético e talentoso, Calvin podia ter sido jogador de futebol profissional, mas o seu sonho era entrar para a faculdade de Medicina. O pai fora um conceituado cirurgião em Filadélfia e Calvin estava decidido a seguir a mesma carreira.

— Até a dois segundos atrás não fazia a mais pequena idéia — confessou Jack — mas assim que vi o sangue na superfície do cérebro percebi o que era. Lembro-me de ter lido um artigo sobre inalação de antraz há uns anos, quando andava a desenterrar material sobre doenças infecciosas.

— Antraz?

Calvin soltou uma gargalhada de descrença. Jack tinha a mania de inventar estranhos diagnósticos. Embora acabasse sempre por ter razão, antraz parecia estar para lá da realidade. Ao longo de toda a sua carreira de patologista, Calvin deparara-se com apenas um caso, o de um criador de gado de Olclaborna, e não tinha sido por inalação, mas através da vulgar contaminação cutânea.

— Para já, o meu palpite aponta para antraz — reforçou Jack. — Vai ser muito interessante ver se o laboratório confirma ou não as minhas suspeitas. Claro está que podemos chegar à conclusão de que este doente tinha um sistema imunitário completamente diferente. Nesse caso, o vírus podia ser uma variedade comum de micróbio patogênico.

— Infelizmente, diz-me a experiência que é melhor não fazer apostas consigo, mas olhe que escolheu uma doença demasiado rara, pelo menos aqui nos Estados Unidos.

— Bem, não sei se é assim tão rara — questionou Jack. Mas lembro-me de que estava associada a mediastinite hemorrágica e a meningite.

— E a hipótese de se tratar de meningococcus? — perguntou Calvin — Por que não escolher algo bastante mais comum?

— E possível que seja meningococcus — concordou Jack. — Mas não o poria no topo da lista, não com esta mediastinite hemorrágica. Além disso, não havia púrpura e, no caso de meningococcus, seria de esperar um abcesso cerebral.

— Bem, se chegar à conclusão de que se trata de antraz, avise-me o mais depressa possível — pediu Calvin. — Estou certo de que a Ministra da Saúde gostará de ser informada. Quanto ao seu próximo caso, já lhe comunicaram que quero que seja você a encarregar-se dele?

— Já — retorquiu Jack. — Mas por que eu? O Calvin e o diretor de serviço estão sempre a queixar-se da minha falta de diplomacia. Os casos de reclusos mortos na cadeia costumam suscitar uma grande agitação política. Tem a certeza de que quer o meu envolvimento?

— Os seus serviços foram expressamente pedidos por pessoas exteriores ao departamento — explicou Calvin. — Ao que parece, a comunidade africano-americana considera a sua falta de tato como algo de positivo. É bem verdade que me dá muitas dores de cabeça a mim e ao diretor de serviço, mas conseguiu estabelecer uma reputação de integridade profissional junto de alguns líderes políticos das minorias.

— Provavelmente à conta das minhas façanhas no campo de basquetebol do bairro — gracejou Jack. — Raramente faço batota.

— Por que é que tem sempre de deitar abaixo um elogio? — perguntou Calvin, irritado.

— Talvez porque os elogios me fazem sentir pouco à vontade — disse Jack. — Prefiro críticas.

— Que Deus me dê paciência! — exclamou Calvin. — Ouça, se você se encarregar do caso, talvez consigamos evitar boatos de que esta instituição está a tentar abafar a história.

— A vítima é africano-americana? — perguntou Jack.

— Claro — respondeu Calvin. — E o agente é branco. Percebeu agora?

— Percebi — disse Jack.

— Ótimo. Grite quando estiver pronto para começar. Eu ajudo-o. Ou, melhor ainda, fazemos a autópsia em conjunto.

Calvin saiu da sala. Jack olhou para Vinnie e resmungou:

— Vamos demorar três horas! O Calvin pode ser meticuloso, mas é lento que nem uma lesma.

— Qual é o grau de contágio do antraz? — indagou Vinnie.

— Não te preocupes que não vais apanhar doença nenhuma! — respondeu Jack. — Se bem me lembro, o antraz não se propaga de pessoa para pessoa.

— Nunca sei quando está a falar a sério e quando está a brincar — queixou-se Vinnie.

— Às vezes, nem eu sei — brincou Jack. — Mas, neste caso, podes confiar em mim.

Sem mais demoras, Jack e Vinnie encerraram o caso Papparis. Quando Jack estava a reunir os espécimes para ir entregar ao laboratório no andar de cima, Laurie entrou no fosso. Jack reconheceu-a pelo seu riso característico; o capuz e a máscara tapavam-lhe o rosto. À primeira vista, estava bem-disposta. Vinha acompanhada por outras duas pessoas, que Jack adivinhou serem Lou e o agente do FBI, ambos ataviados em fatos de isolamento.

Assim que pôde, Jack aproximou-se da mesa de autópsias, à volta da qual se agrupavam os recém-chegados. Nessa altura, já não se ouviam mais risos.

— Estás a dizer-me que este rapaz foi crucificado? — perguntou Laurie, segurando a mão direita do cadáver. Jack conseguiu ver um espigão espetado na palma.

— Exatamente — confirmou Lou. — E isso foi apenas o começo. Pregaram uma cruz a um poste de telecomunicações e depois pespegaram lá com o rapaz.

— Nossa Senhora! — exclamou Laurie.

— A seguir, arrancaram-lhe a pele — explicou Lou. — Pelo menos na parte da frente do corpo.

— Que horror! — insistiu Laurie.

— Acha que ele estava vivo quando lhe fizeram isso? — perguntou Gordon.

— Temo que sim — respondeu Laurie. — Pode ver-se pela quantidade de hemorragias. Não há dúvida de que estava vivo.

Jack aproximou-se com o intuito de chamar a atenção de Laurie e pedir-lhe uma conversa rápida, mas de repente avistou o corpo. Jack julgava que se tinha tornado imune à imagem da morte, no entanto, o cadáver de Brad Cassidy fê-lo suster a respiração. O rapaz fora crucificado, parcialmente esfolado, os olhos arrancados e os órgãos genitais amputados. Todo o seu corpo apresentava ferimentos superficiais causados por um instrumento cortante. A pele do tórax que fora retirada caía sobre as pernas. Nela, via-se uma enorme tatuagem de um viking. Uma pequena suástica nazi fora tatuada a meio da testa.

— Por que um viking? — perguntou Jack.

— Olá, Jack, meu querido — saudou Laurie em tom alegre. — Já despachaste o teu primeiro caso? Já te apresentaram o agente Gordon Tyrrell? Que tal o teu passeio de bicicleta desta manhã?

— Foi ótimo — disse Jack.

Dado que as perguntas se tinham sucedido em catadupa, respondeu apenas à última.

— O Jack teima em andar de bicicleta pela cidade — explicou Laurie. — Diz que lhe desanuvia o espírito.

— Nunca me pareceu particularmente seguro — comentou Gordon.

— E não é — concordou Lou — mas com o trânsito que atravessa a cidade, às vezes até eu não me importava de ter uma bicicleta.

— Deixa-te de coisas, Lou! — exclamou Laurie. — Deves estar a brincar.

Jack foi assolado por uma forte sensação de estranheza enquanto a conversa se desenrolava. Parecia-lhe absurdo estarem a falar de banalidades, todos eles ataviados em fatos de isolamento, diante de um cadáver mutilado. Jack interrompeu a troca de idéias sobre bicicletas e retomou a sua pergunta inicial sobre a tatuagem do viking.

— Tem a ver com o mito ariano — explicou Gordon. — Tal como o estilo das roupas e das botas, a imagem do viking foi importada do movimento skinhead inglês, onde teve início.

— Mas por que especificamente um viking? — repetiu Jack. — Pensei que gostavam de tudo o que fossem emblemas nazis.

— O interesse deles pelos vikings provém de uma versão revisionista da história — prosseguiu Gordon. — Os cabeças-rapadas acreditam que os vikings, como senhores dos mares e assassinos que eram, simbolizavam a honra e independência masculinas.

— É por isso que o Gordon crê que ele foi esfolado — disse Lou. — Quem o matou não o considerou digno de morrer com a imagem de um viking no corpo.

— Pensei que esse tipo de tortura tivesse acabado no fim da Idade Média — comentou Jack.

— Já vi uma série de casos semelhantes a este — declarou Gordon. — São miúdos violentos.

— E assustadores — acrescentou Lou. — São verdadeiros psicopatas.

— Desculpa, Laurie — interrompeu Jack. — Posso dar-te uma palavrinha? A sós?

— Claro — respondeu Laurie, pedindo licença aos dois agentes, ao sair da sala com Jack.

— Acabaste de chegar? — murmurou Jack.

— Entrei há uns minutinhos, sim — confirmou Laurie. — Que se passa?

— Ainda perguntas que se passa? — perguntou Jack. — Tu é que te andas a comportar de uma maneira muito esquisita! E, já agora, deixa-me dizer-te que este mistério todo está a dar comigo em louco! Que se passa? Porque queres falar comigo e com o Lou?

Jack conseguiu ver o sorriso de Laurie por detrás da máscara.

— Meu Deus, nunca pensei ver-te tão interessado! — comentou.

— Sinto-me lisonjeada.

— Anda lá, Laurie, deixa-te de tretas! Fala!

— A conversa é demorada — disse Laurie.

— Faz-me um resumo — pediu Jack. — Podes guardar os pormenores escabrosos para logo.

— Não — respondeu Laurie com veemência. — Vais ter de esperar até logo à noite, desde que eu ainda me tenha de pé.

— Que queres dizer com isso?

— Jack! Não posso conversar contigo agora. Falamos logo à noite, como combinado.

—Como tu combinaste — corrigiu Jack.

— Tenho de trabalhar — ripostou Laurie, dando meia-volta e regressando para junto da mesa de autópsias.

Jack sentia-se frustrado e com os nervos em franja. Nem queria acreditar que Laurie fosse capaz de lhe fazer uma coisa daquelas. Resmungando entre dentes, desencostou-se da parede e foi buscar os espécimes de Papparis. Queria entregá-los a Agnes Finn, para que ela fizesse o teste com anticorpos marcados com fluoresceina para o antraz.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

09h30

— Tchiórt! Tchiórt! Tchiórt! — gritou Iuri Davidov, dando um murro com o punho direito no volante do seu táxi amarelo Chevy Caprice.

Especialmente quando estava irritado, Iuri regressava à sua língua materna, o russo, e naquele preciso momento sentia-se furibundo. Estava preso num engarrafamento e rodeado por uma cacofonia de buzinas de automóveis. A sua frente, estendia-se uma massa indistinta de táxis amarelos com as luzes vermelhas dos travões em sinal de alerta. Pior ainda, o cruzamento seguinte estava a abarrotar de carros que seguiam numa rua perpendicular à sua, por isso, mesmo que o semáforo mudasse para verde, Iuri não tinha hipóteses de escapar ao trânsito.

O dia começara mal logo na primeira corrida de Iuri. Quando se dirigia para a Segunda Avenida, um ciclista amolgara-lhe a porta do lado do passageiro com um pontapé, queixando-se de que Iuri se tinha metido à frente dele. Iuri saltara do carro e presenteara o idiota com uma fiada de invectivas russas. A princípio, passou-lhe pela cabeça ser fisicamente mais agressivo, mas rapidamente mudou de idéias. O ciclista era da sua altura, tinha um corpo robusto, estava tão irritado quanto Iuri e encontrava-se claramente em melhor forma do que ele. Aos quarenta e quatro anos, Iuri deixara-se degradar. Estava demasiado pesado e flácido, e tinha consciência disso.

Uma pancada surda vinda da traseira do carro assustou Iuri. Debruçou-se através da janela aberta, sacudiu o punho e, no seu sotaque cerrado, amaldiçoou o motorista de táxi atrás de si por lhe ter batido.

— Vai levar no... — gritou o motorista. — Mexe-te!

— Aonde queres que eu vá?! — berrou Iuri. — És parvo ou fazes-te?

Iuri recostou-se no seu assento coberto com miçangas de madeira. Passou uma mão ansiosa pelo basto cabelo castanho, quase preto. Ergueu-se um pouco no banco para espreitar o reflexo no espelho retrovisor. Tinha os olhos inflamados e a cara vermelha. Sabia que devia acalmar-se, caso contrário acabaria por ter um enfarte. Do que ele precisava era de um copito de vodca.

— Que anedota! — resmungou Iuri em russo, enervado.

Não se referia à sua atual situação no meio do trânsito, mas à generalidade da sua vida, Metaforicamente, era uma vida que apresentava muitos pontos em comum com o trânsito engarrafado. Estava estagnada e, por conseguinte, Iuri perdera todas e quaisquer ilusões. Sabia, infelizmente por experiência própria, que o sedutor "sonho americano" que o motivara não passava de um logro, um logro projetado para o mundo pelos meios de comunicação social dominados pela comunidade judaico-americana.

Mais à frente, os carros começaram a rodar. Iuri meteu a primeira e avançou, com a esperança de chegar pelo menos ao cruzamento engarrafado, mas ainda não ia ser dessa. O automóvel que seguia antes do seu travou de repente e Iuri foi obrigado a fazer o mesmo. O táxi de trás tomou a bater-lhe. Essa segunda colisão, tal como a primeira, fora apenas um toque, com certeza demasiado ligeiro para provocar estragos, mas para Iuri constituiu a última gota de água.

Tornou a enfiar a cabeça pela janela.

— Mas que porra é esta? Tiraste a carta por correspondência?

— Cala-te, estrangeiro de merda! — gritou o condutor de trás. — Por que é que não voltas para o buraco de onde saíste?

Iuri ia responder, mas mudou de idéias. Recostou-se no banco e inspirou fundo, ruidosamente, como um pneu furado a esvaziar. O comentário do motorista de táxi despertara involuntariamente uma sensação de toská, que se abateu sobre Iuri como um cobertor pesado de lã. Toská é uma palavra russa com conotações de melancolia, ânsia, angústia, depressão, fadiga e nostalgia, sentimentos que surgem amalgamados sob a forma de uma profunda dor psíquica.

Iuri olhou em frente para o vazio. Nesse instante, a desilusão e a raiva contra a América foram varridas por uma lembrança. Diante de si, surgiu uma imagem sua e do seu irmão a caminho da escola, numa manhã cristalina e gelada, na cidade natal de Sverdiovsk, URSS. Viu a cozinha comum, com a família sempre bem-disposta à roda da mesa, e no fundo do coração lembrou-se do orgulho que sentiam por fazerem parte do poderoso Império Soviético.

É claro que haviam passado por algumas privações durante o regime comunista; por exemplo, de vez em quando, as mulheres tinham de esperar numa fila para conseguir arranjar leite e outros bens essenciais. Mas não era tão mau como as pessoas diziam; o quadro não era tão negro como os tolos dos americanos o queriam pintar. A verdade é que a noção de igualdade para todos, excluindo as altas instâncias do Partido, fora uma lufada de ar fresco e resultara num ambiente de camaradagem. E não havia dúvida de que tinham existido menos conflitos sociais na União Soviética do que da América. Na época, Iuri não se apercebera de como fora bom, mas, agora que se lembrava, estava decidido a regressar a casa. Iuri ia voltar para a Rossia matúchka, a "mãezinha Rússia". Tomara essa decisão há uns meses.

Porém, não partiria sem se vingar. Fora traído e rejeitado. Era chegada a hora da retaliação e Iuri ia atacar de uma maneira que chamaria a atenção de toda a gente nesse país presunçoso e fraudulento. Quando regressasse à Rússia, ofereceria a sua vingança como uma prenda a Vladimir Jirinovski, o verdadeiro patriota da ródna, a mãe-pátria, que seguramente devolveria à URSS a sua glória perdida, se a ocasião se apresentasse.

As cogitações de Iuri foram bruscamente interrompidas pelo barulho de uma das portas de trás do seu táxi a ser aberta com um puxão. Um passageiro atirou uma pasta de pele de avestruz para cima do banco e em seguida entrou para o automóvel.

Irritado, Iuri observou o cliente pelo espelho retrovisor. Era um indivíduo pequeno, de bigodinho, com um fato italiano de marca, camisa branca e gravata de seda. No bolso do casaco trazia, enfunado, um lenço a condizer. Iuri percebeu que devia ser um homem de negócios ou um banqueiro.

— Para o Union Bank, no número oitocentos e vinte da Quinta Avenida — disse o indivíduo, recostando-se no banco e abrindo a tampa do telemóvel.

Iuri continuou de olhar fixo no passageiro. Acabava de reparar num pormenor que lhe tinha escapado à primeira vista: o homem trazia um solidéu judaico.

— Passa-se alguma coisa? — perguntou o homem. — Está fora de serviço?

— Não, estou a trabalhar — respondeu Iuri em tom sombrio.

 Revirou os olhos antes de ligar o taxímetro e olhou pela janela para o trânsito engarrafado. Só lhe faltava essa: um banqueiro judeu, precisamente um dos pulhas que estavam a destruir o mundo.

Enquanto o homem fazia uma chamada, Iuri conseguiu avançar um pouco, a passo de caracol, e ocupar o lugar do carro que estava à sua frente na fila. Agora encontrava-se à beira do problemático cruzamento. Tamborilou no volante. Secretamente, regozijou-se com a idéia de mandar um grito ao judeu e pô-lo a andar dali para fora. Mas não o fez. Pelo menos o pulha pagava-lhe para estar parado no trânsito.

— Que engarrafamento! — exclamou o homem, assim que terminou o telefonema. Debruçou-se e enfiou a cabeça pela abertura que havia na divisória de plexiglás. — Se fosse a pé, chegava mais depressa.

— Esteja à vontade — respondeu Iuri.

— Não estou com pressa — informou o passageiro. — Sabe bem estar aqui sentado durante uns instantes. Felizmente a minha próxima reunião é só às dez e meia. Acha que consegue levar-me ao destino antes dessa hora?

— Vou tentar — disse Iuri com indiferença.

— Esse sotaque é russo? — inquiriu o homem.

— É — confirmou Iuri com um suspiro. O tipo ia dar com ele em louco.

— Não era difícil adivinhar, bastava ler o seu nome ali no cartão de taxista — comentou o homem. — Em que parte da Rússia vivia, Mister Iuri Davidov?

— Na Rússia Central — respondeu Iuri.

— Muito longe de Moscovo?

— A cerca de mil e trezentos quilômetros para leste. Nos montes Urales.

—O meu nome é Harvey Bloomburg.

Iuri olhou para o passageiro através do espelho retrovisor e abanou a cabeça imperceptivelmente. Intrigava-o que pessoas Como Harvey quisessem contar-lhe coisas pessoais. Iuri estava-se nas tintas para o nome de Harvey Bloomburg.

— Voltei de Moscovo há uma semana e picos — anunciou Harvey.

— A sério? — disse Iuri, endireitando-se.

Há muito tempo que Iuri lá não ia. Lembrou-se do prazer que sentira a primeira vez que visitara a Praça Vermelha, com a Catedral de São Basílio a reluzir como uma jóia arquitetônica. Jamais vira algo tão belo e comovente.

— Passei quase cinco dias lá — explicou Harvey.

— Tem sorte — respondeu Iuri. — E divertiu-se?

— Bah! — exclamou Harvey com um gesto de desprezo. — Estava ansioso por me vir embora. Assim que se acabaram as reuniões de trabalho, meti-me no primeiro avião para Londres. Moscovo está um caos, com tanto crime e a economia de rastos. Um verdadeiro desastre!

Iuri sentiu uma nova pontada de raiva, sabendo que os problemas que estavam a assolar a Rússia eram devidos a pessoas como Harvey Bloomburg e à conspiração sionista mundial. Sentiu as faces a arder, mas mordeu a língua para não falar. Agora é que precisava mesmo de uma vodca.

— Há quanto tempo vive nos Estados Unidos? — perguntou Harvey.

— Desde mil novecentos e noventa e quatro — grunhiu Iuri.

Tinham passado apenas cinco anos, mas pareciam dez. No entanto, Iuri lembrava-se do dia em que chegara aos Estados Unidos como se tivesse sido ontem. Partira de Toronto, no Canadá, depois de um problema que se arrastara durante três dias com o Departamento de Imigração norte-americano e que tivera como conseqüência a obtenção de um visto apenas temporário.

A odisséia de Iuri até pisar terras americanas fora extremamente cansativa e levara um ano. Tivera início em Novossibirsk, na Sibéria, onde trabalhava para uma empresa estatal chamada Vector. Ao fim de onze anos de serviço, perdera o emprego quando a firma decidira fazer cortes no orçamento e reduzir o número de funcionários. Felizmente, poupara alguns rublos antes de ser despedido e, depois de apanhar o avião, o comboio e várias boleias de camioneiros prestáveis, conseguira alcançar Moscovo.

Na capital, começaram os problemas. Dada a natureza delicada do seu antigo emprego, o FS13 (o serviço federal de segurança, o sucessor do KG13) foi notificado assim que ele entrou com o pedido de um passaporte internacional. Iuri foi detido e levado para a cadeia de Lefortovo. Passados alguns meses, conseguiu sair da prisão mediante um acordo através do qual aceitava trabalhar para outra empresa estatal, desta vez em Zagorsk. O problema é que não lhe pagavam, pelo menos não em dinheiro. Davam-lhe vodca e papel higiênico em vez de notas.

Iuri fugiu pela calada da noite, na véspera do solstício de inverno, e percorreu a pé e à boléia os mil quilômetros que o levaram até Tallinn, na Estônia. Foi uma viagem horrível, cheia de dificuldades, doenças, ferimentos, fome (que quase o matou) e um frio indescritível. O mesmo tipo de provações que os exércitos de Napoleão e Hitler sofreram e que redundaram em desastrosos fracassos.

Embora os estônios fossem tudo menos simpáticos para Iuri, sendo ele de etnia russa, e um grupo de jovens o tivesse espancado numa noite, Iuri conseguiu ganhar dinheiro suficiente para comprar documentos de identificação falsos, que lhe deram acesso a um emprego num cargueiro que atravessava o Báltico. Na Suécia, abandonou o navio e pediu asilo político.

As autoridades suecas puseram em causa o seu estatuto de refugiado, mas deixaram-no ficar no país a título provisório. Iuri pôde arranjar pequenos trabalhos que lhe permitira comprar um bilhete de avião para Toronto e daí rumo à Nova Iorque. Quando finalmente chegou aos Estados Unidos, ajoelhou-se como o papa e beijou o solo.

Muitas vezes, durante a sua longa e desesperada demanda para chegar a Nova Iorque, Iuri sentiu-se tentado a desistir, mas não o fez. Suportou todas as provações, agarrando-se à promessa da América: liberdade, riqueza e uma vida fácil.

O rosto de Iuri contraiu-se num esgar de desprezo. Bela vida lhe saíra na rifa! Mais parecia uma piada cruel. Todos os dias ele conduzia um táxi durante doze horas seguidas, por vezes catorze, só para conseguir sobreviver. Os impostos, a renda da casa, as despesas com a alimentação e os cuidados de saúde para si e para a sua gorda cara-metade, com a qual se casara para obter um visto de residência, estavam a dar cabo dele.

— Deve agradecer a Deus Todo-Poderoso por ter conseguido sair da Rússia na altura em que o fez — comentou Harvey, sem se aperceber do estado de espírito de Iuri. — Não compreendo como é que as pessoas conseguem agüentar.

Iuri não respondeu. Queria apenas que Harvey se calasse de vez por todas. De repente, o semáforo mudou para verde. Iuri pôs o pé no acelerador. O táxi precipitou-se para a frente, fazendo com que Harvey fosse atirado contra as costas do banco. Iuri agarrou o volante com força e deu uma guinada com uma chiadeira de pneus.

— Ouça lá, a reunião não é assim tão importante que valha a pena morrer por ela! — gritou Harvey do banco de trás.

Ao aproximar-se do cruzamento seguinte e de mais um semáforo encarnado, Iuri travou a fundo. As rodas traseiras do automóvel começaram a derrapar. Habituado àquelas andanças, Iuri meteu por uma rampa e o táxi passou disparado entre um autocarro e uma carrinha estacionada, detendo-se abruptamente atrás de um carro do lixo.

— Meu Deus! — exclamou Harvey do outro lado da barreira de plexiglás. — Que tipo de emprego é que você tinha na Rússia? Não me diga que era corredor de automóveis.

Iuri não respondeu.

Harvey chegou-se para a frente.

— Estou curioso — anunciou. — O que é que fazia? Na semana passada, apanhei um taxista que tinha sido professor de matemática antes de vir para cá. Disse que era licenciado em Engenharia Eletrotécnica. Nem dá para acreditar, não é?

— Pois olhe que eu acredito — disse Iuri. — Eu próprio tirei o curso de Engenharia.

Iuri tinha plena consciência de que estava a exagerar, já que não fora engenheiro e sim técnico, mas pouco lhe importava.

— Que área de Engenharia? — perguntou Harvey.

— Biotécnica — respondeu Iuri.

O sinal mudou e ele pôs o pé no acelerador. Assim que pôde, saiu detrás do carro do lixo e dirigiu-se para a zona alta da cidade, tentando apanhar todos os verdes pelo caminho.

— Mas que história a sua! — comentou Harvey. — E por que motivo ainda é motorista de táxi? Pensei que houvesse bastante procura de gente com as suas aptidões. A biotecnologia é uma das áreas que mais se tem desenvolvido no panorama da indústria.

— Tive problema com as equivalências — explicou Iuri. — Aquilo a que se chama um impasse.

— Bem, é uma pena — concluiu Harvey. — Se aceita um conselho, não desista. Vai ver que, no fim, valeu a pena.

Iuri não respondeu. Não era obrigado a aturar injúrias durante mais tempo. Não pretendia ficar no país.

— Ainda bem que ganhamos a guerra fria — suspirou Harvey. — Pelo menos, assim, o povo russo vai ter uma hipótese de alcançar um certo grau de prosperidade e conquistar as liberdades civis básicas. Só espero que não metam a pata na poça.

A irritação de Iuri transformou-se em raiva. Estava a dar em louco, constantemente bombardeado com um chorrilho de mentiras sobre a vitória da América na guerra fria e a queda do Império Soviético. A União Soviética fora traída no seu seio: primeiro por Gorbatchev e a sua estúpida glasnost e a perestroika, e depois por Yeltsine, cujo único objetivo era satisfazer o seu ego.

Iuri disparou a alta velocidade rumo à zona alta da cidade, fazendo gincanas por entre o trânsito, passando sinais vermelhos e intimidando os peões.

— Ei! — gritou Harvey. — Faça o favor de abrandar! Que raio se passa consigo?!

Iuri não respondeu. Sentia ódio da superioridade presunçosa de Harvey, das suas roupas caras, da pasta de pele de avestruz e, acima de tudo, daquele estúpido barretinho minúsculo preso com alfinetes aos míseros cabelos ralos.

— Ei! — berrou Harvey, batendo com os nós dos dedos na divisória de plástico. — Abrande ou eu chamo a polícia!

A ameaça da polícia inflamou a raiva de Iuri. A última coisa que queria era um encontro imediato com as autoridades. Afrouxou a pressão do pé no acelerador e inspirou fundo, para se acalmar.

— Desculpe, mas estava com medo que chegasse tarde à sua reunião.

— Preferia chegar lá vivo — retorquiu Harvey com brusquidão.

Daí em diante, Iuri respeitou os limites de velocidade exigidos pela lei, enquanto tentava a custo chegar à Quinta Avenida. Assim que o fez, percorreu a distância de quase dois quarteirões na direção sul. Encostou à frente do Union Bank, parou o carro e desligou o taxímetro.

Harvey apressou-se a sair do táxi. De pé no passeio, contou o dinheiro da corrida até ao último centavo e despejou as moedas na mão estendida de Iuri.

— Não mereço gorjeta? — perguntou Iuri.

— Merece tanto uma gorjeta como eu mereço levar com um espeto no olho — respondeu Harvey. — Considere--se com sorte por eu lhe pagar. — Deu meia-volta e passou pela porta giratória do elegante edifício de granito e vidro.

— Também não esperava gorjeta de um porco sionista! — gritou Iuri quando ele virou as costas.

Harvey fez-lhe um gesto com o dedo antes de desaparecer do seu campo de visão.

Iuri fechou os olhos por um instante. Tinha de controlar-se antes que fizesse alguma asneira. Desejou com todas as suas forças que Harvey Bloomburg vivesse na zona do Upper East Side, porque era essa a parte da cidade que Iuri tencionava devastar.

Inesperadamente, a porta de trás do táxi abriu-se e alguém se instalou no assento. Iuri virou-se.

— Estou fora de serviço — informou. — Saia!

— Pois esqueceu-se de ligar o sinal a indicar que estava fora de serviço — respondeu a mulher, indignada. Tinha uma pasta Louis Vuitton de um lado e, do outro, uma mala de couro com um computador portátil.

Iuri inclinou-se para o sinal de "fora de serviço" e mexeu no interruptor.

— Agora já está ligado — rosnou — Rua!

Iuri encostou o automóvel numa zona de cargas e descargas do outro lado da rua, de onde podia ver a entrada do edifício e pôs o motor em ponto morto. Decidira esperar, embora não soubesse ao certo por quê. Tinha de descobrir, de alguma maneira, qual o estado de saúde de Jason Papparis. Estava convencido de que o indivíduo recebera o pacote dos Serviços de Limpeza A.C.M.E, o mais tardar, na sexta-feira passada.

A espera acalmou Iuri, que pensava, entusiasmado, na execução do passo seguinte do seu grandioso plano. Ia poder dizer a Curt Rogers que o antraz era eficaz, o que significava que já só faltava testar a toxina botulínica. Para o dia fatídico, Iuri escolhera dois agentes em vez de apenas um. Queria erradicar toda e qualquer possibilidade de ocorrerem falhas tecnológicas. Os dois agentes matavam de formas completamente distintas, apesar de ambos serem propagados através de um pulverizador.

Iuri pôs a mão por baixo do banco, afastou a ferramenta para desmontar pneus que utilizava como arma de defesa e puxou a garrafinha de bolso. Merecia uma dose de vodca. Certificou-se de que ninguém estava a ver e levou rapidamente o líquido ardente à boca. Soltou um suspiro de alívio quando uma deliciosa sensação de calor se espalhou pelo seu corpo. Agora sentia-se ainda mais calmo, de tal maneira que até era capaz de identificar um ou outro ponto de luz na sua vida recente.

Uma das melhores coisas que acontecera a Iuri desde a sua chegada aos Estados Unidos fora conhecer Curt Rogers e o grande amigo deste, Steve Henderson, e estabelecer uma relação com eles. Fora essa relação que transformara o desejo de vingança de Iuri numa possibilidade concreta. O primeiro encontro acontecera por mero acaso. Depois de um longo dia de verão, Iuri parara num bar manhoso chamado Orgulho Branco, em Bensonhurst, Brooklyn. A sua garrafa de vodca há muito que chegara ao fim e Iuri necessitava desesperadamente de um copo, por isso não podia esperar até chegar a casa, em Brighton Beach.

Passava das onze da noite e o bar estava cheio de gente, escuro e barulhento; as paredes ressoavam com as batidas heavy-metal dos Skrewdriver. A maior parte dos clientes era constituída por jovens brancos da classe operária, todos de cabeça rapada, t-shirt sem mangas e um sem-fim de tatuagens. Iuri devia ter adivinhado o tipo de freqüência que ia encontrar por aquelas bandas. No exterior, vira uma série de reluzentes Harley Davidsons com insígnias nazis, encostadas na berma, mesmo à frente da porta aberta do bar.

Iuri lembrava-se de ter hesitado na entrada, decidindo se ficava ou não. O instinto dizia-lhe que o perigo pairava no ar como um miasma sobre um pântano. Sentia-se alvo de olhares hostis. Passada a relutância, resolvera correr o risco, por dois motivos: em primeiro lugar, pensou que, se fugisse, iriam todos atrás dele, como um cão feroz corre atrás da presa que de repente se põe em fuga; em segundo, precisava mesmo de um copo de vodca e havia fortes probabilidades de os restantes bares de Bensonhurst serem iguais àquele, intimidativos.

Sentou-se num banco que estava vago e apoiou os cotovelos no balcão, mantendo o olhar alto e firme. Assim que pediu uma bebida, o seu sotaque gerou um burburinho. À sua volta formou-se um círculo de jovens de sobrancelhas arqueadas. Iuri pensou que os sarilhos iam começar, quando, subitamente, os punks se afastaram e apareceu um indivíduo com bom ar, na casa dos trinta, quarenta anos, pelo qual os rapazes pareciam ter bastante respeito.

O recém-chegado era alto e seco, de cabelo louro cor de areia, muito curto, mas sem ser rapado. O estilo fazia lembrar o dos militares. Também ele trazia uma t-shirt vestida, mas de manga curta e com aspecto limpo e passado a ferro. No lado esquerdo da camisola, tinha bordado um capacete vermelho de bombeiro, sob o qual se lia "Corporação N° 7". Ao contrário dos cabeças-rapadas, parecia ter apenas uma tatuagem: uma pequena bandeira norte-americana no bíceps direito.

— Não sei se é corajoso ou simplesmente estúpido, por ir entrando assim, sem ninguém o convidar — disse o indivíduo louro. — Este bar é à porta fechada.

— Desculpe — gaguejou Iuri, fazendo tenções de levantar-se. O tipo louro colocou uma mão sobre o ombro dele para que Iuri permanecesse sentado.

— O seu sotaque parece russo — disse.

— Eu sou russo — admitiu Iuri.

— Judeu?

— Não! — respondeu Iuri abruptamente. — Claro que não! — A pergunta apanhou-o de surpresa.

— Vive em Brighton Beach?

— Isso mesmo — confirmou Iuri, nervoso, sem compreender que rumo a conversa estava a levar.

— Pensei que todos os russos que lá viviam eram judeus.

— Pois eu não — declarou Iuri.

O tipo sabia do assunto. Quase todos os exilados russos residentes em Brighton Beach eram judeus. Era uma das razões pelas quais Iuri tinha tão poucos amigos. Havia toda uma série de instituições judaicas de acolhimento a refugiados judeus. A comunidade judaica fora a única que recebera autorização para abandonar a Rússia durante o regime comunista, pelo que, quando se deu a queda da URSS, constituía já um grande núcleo naquela região dos Estados Unidos. Dada a sua falta de fervor religioso, Iuri havia sido ignorado.

— Será que detecto uma certa hostilidade em relação ao credo judaico? — perguntou o indivíduo louro.

Os olhos de Iuri saltaram de t-shirt em t-shirt, lendo os slogans que adornavam a parte da frente das camisolas dos cabeças-rapadas.

Viu frases como: "O Holocausto não passa de um mito sionista" e "Abaixo o Governo norte-americano ocupado pelos sionistas." Posto isso, Iuri julgou que era o momento oportuno para confessar a sua atual tendência anti-semítica.

Iuri nunca pensara nem bem nem mal dos judeus até as últimas eleições presidenciais russas. Foi então que se deixou cativar pela retórica neofascista de Vladimir Jirinovski e pela política neocomunista de Guennadi Ziugánov. Graças à sua toská e ao seu orgulho nacionalista ferido, Iuri fora um alvo fácil para as banais teorias de perseguição de ambos os demagogos.

— Parece-me que nos equivocamos, amigo — disse o indivíduo louro em resposta à confissão racista de Iuri, dando-lhe uma palmadinha nas costas. — Não só é bem-vindo neste bar, como faço questão de lhe pagar um copo.

O indivíduo louro estalou os dedos na direção do empregado de balcão, que se afastara enquanto o perigo estivera iminente. O empregado trouxe-lhes uma garrafa de vodca e encheu o copo de Iuri até cima.

— O meu nome é Curt Rogers — apresentou-se o indivíduo louro, sentando-se no banco alto ao lado de Iuri. — E este é o Steve Henderson. — Curt apontou para um sujeito ruivo, que se sentou do outro lado de Iuri.

Embora Steve fosse muito mais musculoso do que Curt, as semelhanças entre ambos eram grandes, em especial por causa da maneira de vestir. A t-shirt de Steve tinha exatamente a mesma insígnia.

O primeiro encontro conduziu a uma série de outros, pois os três homens partilhavam opiniões idênticas sobre diversos temas, além do sentimento anti-semita. Havia uma empatia particularmente forte no que tocava à opinião geral sobre o atual governo norte-americano.

— Aquela treta toda é ilegal, opressiva e inconstitucional — sussurrara Curt, quando o tema viera à baila pela primeira vez. — E só há uma solução. O governo dos Estados Unidos tem de ser derrubado pela força das armas. Não há alternativa. E tem de ser em breve, porque os sionistas estão cada vez mais fortes.

— A sério? — perguntara Iuri, que ficara chocado ao saber que havia americanos que não gostavam do governo.

E, segundo Curt, que era uma autoridade em tudo o que estivesse relacionado com o governo norte-americano, bem como com a história dos Estados Unidos, os descontentes não constituíam uma pequena minoria. Os patriotas, como Curt lhes chamava, estavam espalhados pelo país todo e dispunham de armas. Esperavam apenas um sinal para se insurgirem.

— Presta bem atenção ao que te vou dizer — murmurara Curt noutra ocasião. — Sei de fonte segura e incontestável que o governo está a treinar tropas turcas em montaria, com milhares e milhares de helicópteros. A menos que se ponha um travão neste governo de renegados, no futuro próximo vão acabar por levantar vôo de uma das bases e arrancar as armas a todos os patriotas deste país. Nessa altura, ficaremos impotentes perante os sionistas do mundo inteiro.

Naquela época, Iuri não sabia o que "incontestável" queria dizer, mas não se deu ao trabalho de perguntar, já que tinha compreendido a parte fundamental do discurso de Curt. O governo norte-americano era de longe mais perverso e perigoso do que imaginara. Tornou-se igualmente claro que tanto ele como Curt ansiavam por fazer alguma coisa para mudar a situação e, de fato, podiam ajudar-se mutuamente, porque serviam de complemento um ao outro.

Iuri possuía os conhecimentos tecnológicos e a experiência necessários para construir uma arma biológica de destruição maciça, enquanto Curt tinha homens que podiam arranjar os equipamentos e materiais requeridos. Curt criara uma milícia de cabeças-rapadas a que chamava Exército Popular Ariano e gabava-se de que as suas tropas de choque obedeceriam a qualquer ordem que lhes desse.

— Um pulverizador para combater pestes agrícolas? É canja! — dissera Curt em resposta a uma das primeiras perguntas de Iuri. —Podemos roubar um em Long Island, quando chegar a hora. Os agricultores utilizam-nos nos campos de batatas. A maior parte das vezes ficam por lá à mão de semear, à espera de serem roubados.

Semanas depois, enquanto bebiam vodca gelada, Curt, Iuri e Steve fizeram um acordo para darem início ao que chamavam “A Operação Glutão”. Iuri não sabia o que era um glutão, por isso Curt explicara que se tratava de um animal pequeno, extremamente agressivo e astucioso. Na época, Curt piscara o olho a Steve, porque, na verdade, Glutão era o nome de um grupo de jovens que entrava num clássico militante intitulado Amanhecer Violento. Era o filme preferido de Curt e de Steve. Nele, os Glutões enfrentavam um exército russo invasor.

Iuri queria batizar o seu estratagema de “Operação Vingança”, mas cedeu quando Curt e Steve propuseram sem arredar pé o nome Glutão. Curt explicou-lhe que seria uma referência óbvia para o submundo da extrema-direita.

Depois de terem bebido a vodca e deixado os copos sem uma única gota, Curt, Steve e Iuri entusiasmaram-se com o seu plano. A relação que os unia era, nas palavras de Curt, um casamento talhado no céu.

—Tenho o pressentimento de que esta vai ser a faúlha que ateia o incêndio — disse Curt. — Uma coisa com estas proporções em Nova Iorque tem, forçosamente, de dar origem à revolta geral. Perante isso, o atentado de Oklahoma vai parecer uma brincadeira de crianças.

Iuri estava-se nas tintas para a possibilidade de a Operação Vingança vir a gerar um motim à escala nacional. A única coisa que queria era dar uma estalada bem forte nos Estados Unidos. Toda e qualquer glória que daí adviesse, entregá-la-ia de bom grado ao movimento de Jirinovski e ao regresso do Império Soviético.

Uma pancada inesperada no pára-choques de Iuri acordou-o das suas divagações. Virou-se e deu de caras com uma fiscal dos parquímetros.

— Tem de tirar o seu táxi daqui — avisou a mulher. — Esta área é só para cargas e descargas.

— Desculpe — disse Iuri.

Pôs o carro em primeira e foi-se embora. Mas não andou muito, limitou-se a dar a volta ao quarteirão e regressou ao mesmo local. A fiscal já ia bem longe.

Iuri ligou os piscas para parecer que estava à espera de um cliente e saiu do carro. Ninguém entrara nem saíra da Firma de Tapetes Coríntios naquela meia hora, desde que ali chegara. Atravessou a rua a correr. Com as mãos de cada lado do rosto, inclinou-se contra o vidro do escritório e espreitou lá para dentro. Estava vazio. Não havia luzes acesas. Tentou abrir a porta, mas estava trancada.

Iuri deu uns passos para a esquerda e entrou na loja ao lado. Tinha visto uma série de pessoas a entrar e sair, enquanto estivera dentro do táxi, à coca. Era uma loja de filatelia. No interior, calados os sinos que se puseram a tocar quando entrou, reinava um silêncio sepulcral. O proprietário surgiu, vindo dos fundos, com uns minúsculos óculos de ver ao perto empoleirados na ponta do nariz bulboso. Na cabeça careca trazia um solidéu. Iuri pensou que o homem devia tê-lo prendido ao crânio com cola.

— Recebi uma chamada para vir buscar um tal Mister Papparis da Firma de Tapetes Coríntios — explicou Iuri. — Tenho o táxi ali parado. Infelizmente, a empresa está fechada. Por acaso não conhece Mister Papparis?

— Claro que conheço.

— Viu-o por aqui? — perguntou Iuri. — Sabe o que é feito dele?

— Não o vi o dia todo, mas não é de estranhar. Quase nunca nos cruzamos.

— Obrigado — disse Iuri.

— De nada.

Iuri dirigiu-se à loja do lado direito da Firma de Tapetes Coríntios, onde lhe deram a mesma resposta. Voltou para o táxi e pensou no que deveria fazer a seguir. Pensou em ligar para os hospitais do bairro, mas desistiu da idéia quando se lembrou de que não sabia a morada de Jason Papparis. Considerou a hipótese de procurar o número na lista telefônica, mas rapidamente se apercebeu de que seria um erro. Até então, Iuri fora extremamente cauteloso e não tinha qualquer espécie de vontade de correr riscos desnecessários. Dada a grandiosidade dos seus planos para Nova Iorque, a última coisa que queria era que houvesse um aviso prévio.

Iuri arrancou e foi-se embora. Quando chegou à esquina da Walker com a Broadway, lembrou-se de que a corporação de bombeiros de Curt e Steve ficava a cerca de seis quarteirões dali. Apesar de nunca ter visitado o local de trabalho dos seus parceiros de crime, decidiu aparecer por lá. Ainda não ia poder confirmar a eficácia do antraz, uma questão que Iuri considerava meramente acadêmica, mas poderia, pelo menos, informá-los de que a experiência estava em curso. Era uma notícia ótima, porque significava que, muito em breve, seria dada luz verde à Operação Glutão. Terminara a fase dos planos e preliminares. Agora, bastava produzir as devidas quantidades de cada um dos agentes e disseminá-los.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

11h30

— Achas que isto é mesmo necessário? — perguntou Steve Henderson. — Não me parece que valha a pena correr um risco tão grande só para ficarmos a saber meia dúzia de coisas.

Curt agarrou no braço do amigo e fê-lo parar. Estavam diante do edifício federal Jacob Javits, no número 26 da Federal Plaza. Centenas de pessoas entravam e saíam apressadamente do prédio onde trabalhavam cerca de seis mil funcionários do governo. Todos os dias, um milhar de civis visitava as instalações.

Curt e Steve envergavam as suas fardas azuis de bombeiros, acabadinhas de passar a ferro. Os sapatos pretos reluziam sob a luz forte de outubro. A camisa de Curt era de um azul mais claro do que a de Steve, e Curt tinha uma pequenina insígnia de ouro no colarinho, que comprara quando fora promovido a tenente, há quatro anos.

— Com uma operação destas proporções, é absolutamente imperativo fazermos o reconhecimento da área — sibilou Curt, lançando um olhar furtivo em volta para se certificar de que ninguém estava a reparar neles. — Não te ensinaram isso no exército? É um procedimento básico!

Curt e Steve eram amigos de infância. Haviam crescido juntos no bairro operário de Bensonhurst, em Brooklyn, e tanto um como o outro eram indivíduos sossegados, discretos e solitários que, com o passar do tempo, tinham criado laços muito fortes entre si, em especial durante o liceu, onde foram estudantes medianos, embora se tivessem destacado nos testes de aptidão, Curt com nota mais alta do que Steve. Nenhum praticara desporto, apesar de o irmão mais velho de Curt ser uma das lendárias estrelas de futebol de Bensonhurst. Basicamente, tinham "gozado a vida", como costumava dizer. Inscreveram-se ambos nas forças armadas: Curt após uma falhada passagem de seis meses pela universidade e Steve depois de ter trabalhado durante um ano para o pai, que era canalizador.

— O exército ensinou-me o mesmo que aprendeste nos fuzileiros — retorquiu Steve. — Não me venhas com essas tretas das tropas especiais.

— Então deves saber que no dia D não podemos entrar por aí dentro com o material às costas, sem antes termos feito o devido reconhecimento — explicou Curt — Para colocarmos o pó na conduta principal do ar condicionado, temos de saber como é que se chega até lá.

Steve lançou um olhar nervoso ao edifício enorme.

— Mas temos as plantas, sabemos que fica no terceiro andar.

— Por amor de Deus! — exclamou Curt, levando as mãos à cabeça, incluindo a que segurava a pasta A4. — Não admira que tenhas saído dos Boinas Verdes. Vais-te acobardar agora?

Ao contrário do que acontecera em relação às suas atabalhoadas carreiras acadêmicas, Curt e Steve tinham se destacado como militares, cada um na sua respectiva área. Curt fora para Camp Pendleton, na Califórnia, enquanto Steve seguira para Fort Bragg, na Carolina do Norte. Ambos ascenderam rapidamente a cabos. A hierarquia e o espírito de missão cativou-os e tornaram-se soldados exemplares, ávidos e solícitos. Nutriam um especial interesse por todo o tipo de armas, em particular por fuzis de assalto e pistolas, convertendo-se em atiradores condecorados.

Curt e Steve mantiveram uma troca irregular de correspondência durante anos; o fato de pertencerem a diferentes ramos das forças armadas e de estarem colocados em costas opostas constituiu um obstáculo para a sua amizade. As únicas vezes que se encontraram foi nas raras ocasiões em que as suas licenças coincidiram e se cruzaram em Bensonhurst. Então, voltavam aos bons velhos tempos e comparavam "histórias de guerra". Haviam ambos participado na Guerra do Golfo.

Embora nunca tivessem falado no assunto, quer Curt quer Steve pensavam que iriam seguir a carreira militar, mas tal não acontecera. Passados uns tempos, tanto um como o outro sentiram-se desiludidos com os seus respectivos setores.

A experiência de Curt fora, no entanto, mais difícil do que a de Steve. Tinha alcançado um cargo de chefia no treino de recrutas, numa equipa de elite dos fuzileiros especializada em operações de reconhecimento. Durante uma missão noturna extremamente dura, um recruta morrera. Curt tinha-o forçado a acompanhar o passo do pelotão e, como tal, a comissão de inquérito acusou-o de ter tido uma quota-parte da culpa. Ninguém se pronunciou sobre o fato de o rapaz nunca dever ter feito parte daquela equipa. Era um "meninim da mamã" que fora aceite apenas porque o pai era uma personalidade importante em Washington.

Embora Curt não tivesse sido castigado pelo incidente, a sua reputação ficou manchada e impediu-o de avançar na carreira. Curt sentiu-se derrotado e, mais tarde, furioso. A seu ver, o governo abandonara-o, quando ele dera o seu melhor pelo país. Na hora de se realistar, pediu a reforma antecipada.

A experiência de Steve fora diferente. Depois de um longo e frustrante processo de alistamento, havia sido finalmente aceite nos Boinas Verdes, mas tivera de desistir durante o período de vinte e um dias do treino de aptidão. Não por culpa sua: apanhara uma gripe. Quando lhe disseram que teria de voltar à estaca zero apesar de tudo o que fizera pelo exército, Steve resolveu seguir o exemplo de Curt e, com um sentimento de repulsa e traição, abandonou a carreira militar.

Após uma série de empregos menores, a maior parte deles como segurança privado, Curt fora o primeiro a entrar para o Departamento de Bombeiros de Nova Iorque. O trabalho agradou-lhe desde o primeiro instante, com a sua hierarquia ao estilo militar, as fardas, o espírito de missão, o sentimento de orgulho e uma parafernália de equipamento. Como não lidavam com armas, Curt tinha a noção de que não estava nos fuzileiros, mas era o mais parecido que poderia ter arranjado. Um dos outros aspectos positivos era poder viver em Bensonhurst.

Pouco depois, Curt incentivou Steve a seguir o seu exemplo e a fazer o exame de admissão aos bombeiros. Steve conseguiu o emprego e, puxando alguns cordelinhos, conseguiram ser ambos destacados para a mesma corporação e, mais tarde, para a mesma equipa. O círculo da sua amizade estava completo. Mudaram-se de novo para Bensonhurst e, uma vez mais, tornaram-se companheiros inseparáveis.

— Não é uma questão de cobardia — respondeu Steve, taciturno. — Só acho que estamos a correr um risco demasiado grande. Não há nenhuma inspeção dos bombeiros marcada para este edifício. E se ligarem para o quartel?

— Quem é que sabe se vai ou não vai haver uma inspeção? — perguntou Curt. — E que diferença faz se alguém telefonar para o quartel? O comandante está de férias. Além disso, andamos realmente a fazer inspeções e, por acaso, descobri que houve uma falha na última vistoria a este edifício. Se alguém fizer perguntas, dizemos que viemos verificar se a falha foi corrigida.

— Que tipo de falha era?

— O dono do café do átrio resolveu à última hora instalar um grelhador — respondeu Curt — e duvido que tenha pedido uma licença para o fazer. Ainda por cima, esqueceu-se de o ligar a um equipamento contra incêndios. Portanto, viemos certificar-nos de que essa lacuna foi retificada.

— Deixa-me ir até lá ver — disse Steve.

— Por que? Não acreditas em mim? — perguntou Curt.

Puxou do relatório da inspeção que trazia na pasta A4 e pespegou-o diante dos olhos de Steve.

— Diabos me levem! — exclamou Steve, depois de dar uma olhadela ao relatório. — É a desculpa perfeita.

— Estavas a duvidar da palavra de um ex-fuzileiro? — comentou Steve em tom sarcástico.

— Vai-te lixar! — brincou Steve.

Curt e Steve encaminharam-se para a entrada a passo militar, de cabeça erguida e costas direitas.

— Vai ser uma operação perfeita — sussurrou Curt. — Aqui neste prédio fica o maior quartel-general do FBI, a seguir à sede de Washington. Só de pensar nisso, fico todo arrepiado. Está quase a chegar a hora da vingança pelo que aconteceu em Ruby Ridge, em mil novecentos e noventa e dois, ao coitado do Randy Weaver.

— Quem me dera que estivessem aqui mais agentes do BAFT — disse Steve, referindo-se ao Federal Bureau of Alcohol, Tobacco and Firearms. — Se assim fosse, poderíamos vingar-nos pelo que aconteceu em Waco, no Texas, e, ao mesmo tempo, vingar-nos da seita do David Koresh.

— O governo vai perceber aonde queremos chegar, não te preocupes — rematou Curt.

— Tens mesmo a certeza de que o Iuri é capaz de levar isto avante? — perguntou Steve.

Curt deteve o amigo pela segunda vez, fazendo com que várias pessoas tivessem de desviar-se deles.

— Que raio se passa contigo? — interpelou Curt, em voz baixa. — Por que tantos pensamentos negativos, assim, de repente?

— Estava só a perguntar — desculpou-se Steve. — É que o tipo é um bocado esquisito, tu próprio o admitiste. E, ainda por cima, foi comuna.

— Mas agora não é comuna.

— Achas mesmo que as pessoas mudam? — perguntou Steve. — Ultimamente tem andado a dizer umas coisas estranhas, do estilo querer que a União Soviética se torne a unir.

— Para ter a certeza de que as ogivas nucleares estão a salvo — explicou Curt.

— Não sei se acredito nisso. E aquele comentário que ele fez sobre o Estaline não ter sido tão mau como as pessoas julgam? Que asneirada pegada! O Estaline matou trinta milhões de pessoas no seu próprio país!

— Sim, essa boca foi esquisita — concordou Curt, mordendo o lábio inferior.

Iuri tinha, de fato, alguns parafusos a menos: por exemplo, não queria limitar-se a arrasar o edifício Federal Jacob Javits; a idéia dele era disseminar o segundo agente, exatamente à mesma hora, em Central Park, para destruir toda a zona do Upper East Side. A premissa era aniquilar o maior número possível de banqueiros judeus. Curt considerava que atacar o edifício federal era mais do que suficiente, mas Iuri mantinha-se irredutível.

— Já fizemos muito por ele — prosseguiu Steve. — Mandamos os nossos putos roubar fermentadores à fábrica de cerveja de Nova Jersey. Temos-lhe fornecido todo o tipo de material. Pedimos ao Klan para nos mandar de Oklahoma aquelas caixas de terra maluca que, segundo o Iuri, teriam a tal bactéria de que ele necessita. Os tipos do sul devem estar a pensar que nos passamos dos carretos, a pedir-lhes terra de um curral.

— O Iuri disse que conseguia isolar a bactéria a partir da terra — explicou Curt. — Confirmei isso na internet, portanto deve ser verdade.

— Está bem — cedeu Steve. — É verdade que a bactéria botulínica e os micróbios do antraz se encontram na terra, especialmente em terrenos de criação de gado no sul, mas que outras provas temos em concreto? Nada! O Iuri ainda não nos mostrou nada. Não vimos a bactéria, nem sequer o laboratório que ele diz que montou na cave.

— Achas que ele está a gozar conosco? — perguntou Curt, passando-lhe pela cabeça a idéia de que Iuri poderia pôr em prática o plano de Central Park e deixá-los de mãos a abanar.

— Tudo é possível quando estamos a lidar com um estrangeiro, ainda por cima, russo. Aquele país odiou-nos durante setenta anos!

— Estás a ser paranóico — comentou Curt, fazendo um gesto com a mão que tinha livre. — O Iuri não está chateado conosco e eu sei que ele quer atacar este edifício do Estado. Está irritado com o governo, tal como nós, porque as autoridades recusaram-se a reconhecer a validade do diploma dele. Depois de ter passado anos a queimar as pestanas, o único emprego que arranjou foi como motorista de táxi. Também eu estaria irritado, se tivesse sido comigo!

— Mas como é que sabemos que ele tirou mesmo um curso universitário? — perguntou Steve.

— Tens razão — concordou Curt, já que não haviam conseguido verificar a informação.

— Talvez não seja a melhor hora para termos esta conversa — atalhou Steve. — Mas, agora que estamos prestes a correr um risco enorme ao entrar neste prédio onde nem sequer deveríamos estar, gostava que tivéssemos mais provas de que o Iuri anda a cumprir a parte que lhe toca.

— Achas possível que o Iuri não tenha trabalhado na indústria soviética de armas biológicas?

— Nisso acredito — disse Steve. — Ele sabe demasiado sobre o assunto para estar a inventar, especialmente aquela história da morte da mãe. O que me incomoda é o fato de a CIA não ter mostrado mais interesse por ele quando chegou aos Estados Unidos. Talvez tenha trabalhado na fábrica, mas como um mero empregado de limpeza e não como operário.

— A CIA não se interessou pelo caso porque ele chegou aos Estados Unidos demasiado tarde — explicou Curt. — Lembras-te de nos ter contado que duas sumidades das armas biológicas desertaram uns anos antes de ele vir para cá? Segundo consta, esses tipos disseram à CIA tudo o que era importante, incluindo que a União Soviética tinha violado a Convenção para as Armas Biológicas de mil novecentos e setenta e dois.

— Só estou a dizer que gostava de ter provas concretas do que o Iuri anda a fazer — disse Steve. — Uma prova qualquer. — Na semana passada, ele disse que estava prestes a testar o antraz.

— Já me contentava com isso — informou Steve. — Desde que o teste funcione.

— Tens uma certa razão, mas continuo a achar que devemos inspecionar o edifício. Não corremos risco nenhum, até porque o comandante está de férias.

— Está bem — concordou Steve. — Ainda por cima, temos esse relatório que foste desencantar.

— Então, estás disposto a isto?

— Estou — cedeu Steve.

Curt e Steve entraram pela porta giratória. Tiveram de esperar numa fila para passarem pelo detector de metais. Depois, o chefe da segurança encaminhou-os até a sala da manutenção.

— Até aqui, tudo sobre rodas — sussurrou Steve.

— Descontrai-te. Vai ser canja.

A porta da manutenção estava entreaberta. Curt avançou à frente de Steve e postou-se diante da secretária. O escritório estava cheio de gente ocupada a atender telefones e a escrever no computador.

— Em que posso ajudá-los? — perguntou a secretária, uma mulher corpulenta, banhada em suor apesar do ar condicionado.

Curt abriu a carteira e mostrou-lhe o distintivo do Departamento de Bombeiros. As únicas vezes que utilizava o distintivo era em funerais, preso a uma fita preta, quando vestia a farda especial.

— Inspeção — anunciou Curt.

— Com certeza. Deixe-me só chamar o engenheiro-chefe — respondeu a secretária, entrando num gabinete interior.

Curt olhou para Steve.

— Canja!

— Sentes a corrente de ar? — perguntou Steve.

— Sinto.

Steve levantou o polegar, Curt anuiu com a cabeça. Sabia o que Steve estava a pensar. Quanto mais ar circulasse dentro do edifício, mais eficaz seria a propagação do agente.

O engenheiro-chefe apareceu uns instantes depois. Era um indivíduo africano-americano de meia-idade, ataviado num fato escuro, camisa branca e gravata. Curt ficou surpreendido. Esperava um tipo de macacão e manchas de gordura. Olhou de relance para Steve, para ver se também ele estava espantado, mas Steve continuava com a mesma expressão imperturbável.

— O meu nome é David Wilson. Em que posso ajudá-los? Estranhei vê-los aqui, já que não temos uma inspeção marcada.

O tom de David não era de desafio, apenas inquisitivo.

— Correto — confirmou Curt. — Viemos fazer uma inspeção sem aviso prévio, para verificar se retificaram uma falha que descobrimos quando da nossa última visita e que estava relacionada com o grelhador lá de baixo. Mas, já que aqui estamos, gostaríamos de inspecionar os pormenores do costume: condutas, extintores, sistemas de alarme, mangueiras, detectores de fumo... sabe como é, inspeção de rotina.

— A unidade contra incêndios foi instalada assim que nos chamaram a atenção — disse David. — Enviamos a papelada diretamente para o Departamento de Bombeiros.

— Gostaríamos de verificar a unidade em si — insistiu Curt — por uma questão de segurança.

— Importam-se que um dos funcionários da manutenção os acompanhe? — perguntou David. — Estou a meio de uma reunião.

— Não, de todo — respondeu Curt em tom cordial.

Cinco minutos depois, Curt e Steve caminhavam na companhia de um indivíduo alto, magro e taciturno, envergando o fato-macaco que Curt esperara ver em David Wilson. O técnico da manutenção chamava-se Reggy Sims e era ajudante de eletricista.

A primeira coisa que verificaram foi o grelhador do café do átrio. Estava coberto de salsichas e hambúrgueres a crepitar na chapa, a postos para a chegada da hora do almoço. Curt precisou de apenas dois segundos para anunciar que a unidade contra incêndios estava a funcionar devidamente.

Quanto à inspeção geral, Curt e Steve seguiram o procedimento do costume e, obviamente, não tentaram fazer uma vistoria exaustiva. Se o técnico da manutenção ficou desconfiado, não o demonstrou, mas também não parecia ter pressa em voltar para a oficina.

— E o sistema de ar condicionado? — perguntou Curt

— O que é que tem? — inquiriu Reggy.

— Devíamos dar uma vista de olhos. Temos de saber como se desliga ou, pelo menos, como se isolam determinadas áreas, caso haja necessidade disso. Se deflagrar um incêndio não vamos querer que o fomo se espalhe por toda a parte, pois não? Onde é que fica o painel de controlos do ar condicionado?

— Na sala das máquinas, no terceiro andar — informou Reggy.

— E a conduta principal de entrada do ar?

— Também na sala das máquinas.

— Ótimo! — respondeu Curt. — Vamos dar uma espreitadela.

— Para quê? — perguntou Reggy.

— É obrigatório haver um detector de fumo junto da entrada do ar e outro na conduta de ar reciclado — explicou Curt. — Temos, no mínimo, de ver se lá estão. Na verdade, não nos devíamos limitar a vê-los, devíamos testá-los.

Reggy encolheu os ombros e indicou o caminho.

O barulho na sala das máquinas era atroz. Tratava-se de um espaço enorme, repleto de todo o tipo de equipamento, incluindo enormes painéis elétricos, caldeiras colossais, compressores e bombas. Uma espantosa variedade de canos, condutas e cabos saíam em todas as direções. Poucas pessoas sabiam o trabalho que era necessário para aquecer e arrefecer um prédio do tamanho do edifício Federal Jacob Javits, ou para os elevadores funcionarem, ou simplesmente para a água correr de uma torneira no trigésimo segundo andar, Requeria multa energia e maquinaria, a funcionar vinte e quatro horas em vinte e quatro,

As principais condutas de ar eram tão grandes que não pareciam condutas. Percorriam uma das paredes da sala desmesurada, antes de se ramificarem como uma imensa árvore abatida. De onde em onde, havia comportas que selavam a conduta como as escotilhas de um navio.

Reggy tinha de gritar para se fazer ouvir. Deu umas pancadas na parte lateral de uma das condutas e informou, aos berros, que nela passava o ar fresco puxado do exterior. Em seguida, mostrou o ponto onde se misturava com o ar reciclado.

Reggy caminhou ao longo da conduta e tornou a dar umas pancadas no metal.

— Os filtros encontram-se aqui — gritou. — Qual é a parte da conduta que querem inspecionar?

— A parte a jusante dos filtros — respondeu Curt, também aos gritos.

Reggy acenou com a cabeça. Dirigiu-se para um enorme interruptor de corrente e puxou-o, suavizando a cacofonia das máquinas.

— Este é o interruptor da ventoinha principal — explicou Reggy.

Depois, encaminhou-se para uma das portas tipo escotilha e destrancou-a. A comporta abriu-se rangendo sobre os gonzos.

— Estamos à nascente da ventoinha de circulação do ar — anunciou Reggy. — Quando está a funcionar, não se pode abrir esta porta. A força de sucção é demasiado forte.

Curt avançou para a porta e olhou para o interior escuro. Tirou a lanterna do cinturão e acendeu-a. Primeiro, dirigiu o foco para os filtros. Steve tentou espreitar por cima do seu ombro, mas a porta era demasiado estreita.

— Pode entrar, se quiser — convidou Reggy.

Curt inclinou-se e atravessou a ombreira. Tomou a apontar o foco para o filtro. Steve observou-o da sua posição junto da porta. Reggy dirigiu-se para a consola do ar condicionado e desligou o alarme que indicava uma queda de pressão no sistema.

— Estás a ver porque é necessário fazer o reconhecimento do espaço? — comentou Curt.

A conduta isolava grande parte do barulho que provinha da sala das máquinas.

— Tinha me esquecido dos filtros — admitiu Steve.

Curt apontou a lanterna na direção oposta. As enormes pás da ventoinha principal ainda giravam lentamente. Virando a luz para o teto, Curt descobriu o detector de fumo. Necessitaria de um escadote pra poder testá-lo.

— E este que nós queremos que dispare — disse. — Temos de encontrar uma conduta de ar reciclado de fácil acesso neste piso, para um dos nossos homens colocar uma bombinha de fumo.

— Achas que a consola tem algum botão específico para controlar este detector de fumo? — perguntou Steve.

— Em princípio, sim, mas, mesmo que não tenha, o painel vai indicar que o detector de fumo que disparou se encontra no sistema de ar condicionado. De uma forma ou doutra, teremos sempre um motivo para vir até aqui.

— Isso é se chegarmos antes da Sexta Corporação, que fica em Beekman Strect — alertou Steve.

— Não têm hipóteses de chegar primeiro — contrapôs Curt. — A Sexta Corporação vem do outro lado da Câmara. Antes de entrarem no prédio, já nós estaremos dentro desta conduta. Se nos temos de preocupar com alguém, esse alguém é a empresa de manutenção dos elevadores. Tomara que estejam demasiado ocupados a fazer descer todos os elevadores para o piso da entrada, como lhes compete.

— E depois, o que fazemos quando aqui chegarmos? — quis saber Steve. — Onde é que pomos o material? — Olhou em volta para o chão da conduta. Não havia espaço para esconder o quer que fosse.

— O Iuri diz que nos vai dar o material sob a forma de um pó muito fino, guardado em sacos de plástico selados. A única coisa que temos de fazer é deixar aqui os sacos e ligar os detonadores com temporizador. Quando dispararem, já nós estaremos bem longe.

— Então, não vai ser preciso esconder os sacos

— Não vejo porque — respondeu Curt.

— E se alguém aqui entrar depois de nós sairmos?

— Ouviste o ranger dos gonzos quando o Reggy abriu a comporta? — perguntou Curt. — Ninguém aqui vem. Mas, para não haver problemas, desligamos o detector de fumo e o sistema contra incêndios.

— Boa idéia — disse Steve. Depois, encolheu os ombros e acrescentou: — Acho que vai funcionar.

— É claro que vai funcionar! — confirmou Curt. — Anda! Vamos ver se encontramos uma boa conduta de ar reciclado neste andar e depois terminamos a nossa inspeção faz-de-conta. Temos de voltar para o quartel.

Não foi difícil encontrar uma conduta de ar reciclado adequada. Assim que saíram da sala das máquinas, Curt perguntou onde ficava a casa de banho dos homens mais perto dali. Enquanto Reggy esperava por eles à porta, Curt e Steve descobriram uma conduta com uma grelha fácil de retirar. Deduziram que ia dar diretamente ao detector de fumo que tinham acabado de ver.

— Um dos nossos homens só tem de tirar esta grelha e lançar uma bombinha de fumo lá para dentro — disse Curt — Deve ser suficiente para fazer o alarme disparar.

Meia hora depois, Curt e Steve tornaram a atravessar a praça à frente do edifício federal. O sol desaparecera por detrás de um banco de nuvens e intensas rajadas de vento espantavam os pombos. Curt teve de segurar a pasta A4 com firmeza, para os papéis não voarem. Entraram ambos para o veículo dos bombeiros que tinham deixado estacionado na berma.

Curt ligou o motor e embrenhou-se no trânsito.

— Já traçaste o plano de fuga? — perguntou Curt.

Tinha ficado decidido que, enquanto Curt se concentrava nos pormenores da operação em si, Steve deveria escolher o melhor itinerário para a fuga.

— Já está tudo tratado — anunciou Steve. — Tenho passado horas a navegar na internet todas as noites. Arranjei esconderijos seguros daqui até ao estado de Washington e depois até ao Canadá, se for necessário. Todas as milícias que contatei mostraram-se mais do que dispostas a cooperar.

— Ficaram curiosos para saber o que andamos a planear?

— Curiosos é pouco, ficaram em pulgas — disse Steve. — Mas só lhes disse que vai ser uma coisa em grande.

— Vamos transformar Os Diários de Turner em realidade — comentou Curt com uma gargalhada, referindo-se ao seu livro preferido, que andava a circular pelos grupos de extrema-direita violenta. Turner, o protagonista, dava início a uma rebelião, colocando uma bomba na sede do FBI em Washington.

Curt estava eufórico, nem queria acreditar que uma arma de destruição maciça lhe tinha aterrado no colo. Finalmente ia atacar o governo com um plano grandioso e dramático. Aqueles sacanas sionistas de Washington iam aprender da pior maneira que não podiam declarar guerra contra os seus próprios cidadãos, com a ajuda do FBI e do BATF como acontecera em Ruby Ridge e em Waco, nem conspirar para retirar das pessoas direitos tão importantes como o direito de possuir armas, nem apoiar o aborto, nem os gays, nem dar voz aos negros, nem tolerar a miscigenação. A acrescentar a tudo isso, havia ainda as questões da ilegalidade do fisco e da ajuda às Nações Unidas. A lista de ignomínias era interminável.

Curt abanou a cabeça ao pensar até que ponto o governo se afastara do seu mandato constitucional. Era bem feito o que ia acontecer. Claro está que haveria baixas civis, mas não podiam ser evitadas. Afinal, até a Revolução Americana registrara baixas civis. Tal como "o tiro ouvido no mundo inteiro", em 1775, a Operação Glutão ia ser épica e, se conseguisse gerar a "Quinta Era" da mesma maneira que a batalha de Bunker Hill auspiciara o nascimento de um novo governo, então Curt seria provavelmente considerado uma espécie de George Washington dos tempos modernos. Era um pensamento tão grandioso que lhe dava vertigens.

— Pode deflagrar uma revolta geral antes de conseguirmos chegar à costa oeste — comentou Steve. — Todas as milícias estão à espera de um sinal para pôr em marcha uma ação concertada. Mesmo que morram só metade das pessoas que o Iuri calculou para a Operação Glutão, este pode ser o grande momento que esperávamos.

— Estava a pensar precisamente isso — confessou Curt. Um sorriso de auto-satisfação espalhou-se pelo seu rosto, ao pensar que iria ser idolatrado nos jornais da extrema-direita na internet.

— Se houver uma revolta geral — prosseguiu Steve — acho que nos devemos esconder em Michigan. Ouvi dizer que as milícias de lá são as mais organizadas. Seria o lugar mais seguro.

— Como é que planeaste a nossa fuga da cidade? — perguntou Curt.

— Vamos até ao World Trade Center e apanhamos um comboio PATH de Nova Iorque para Nova Jersey — explicou Steve.  — Mas, antes disso, assim que chegarmos ao quartel, depois de termos colocado o material dentro do edifício, demitimo-nos. Entramos no gabinete do comandante e dizemos sayonara.

— Ele vai bater com a cabeça nas paredes — comentou Curt. Era a primeira vez que ouvia essa parte do plano e ainda não pensara bem no assunto.

— Não temos alternativa — disse Steve. — Temos de sair da cidade, especialmente se o Iuri decidir pôr em prática aquele plano maluco à mesma hora que o nosso. Não tenho tantas certezas como ele de que vá atingir o Upper East Side.

— Tens razão, mas porque é que não desaparecemos pura e simplesmente? Por que prestar contas a pessoas como o comandante?

— Porque, caso contrário, daríamos demasiado nas vistas — explicou Steve. — Punham-se imediatamente à nossa procura, inclusive pensando que poderíamos ter sido vítimas de uma trapaça qualquer. O Iuri diz que a utilização de uma arma biológica dá-nos uma vantagem de dois a cinco dias, antes de nos cair o céu em cima. Por essa altura, quero estar bem longe daqui.

— Acho que estás certo — cedeu Curt.

— Dizemos ao comandante que estamos fartos de tanta burocracia e falta de disciplina, o que não é mentira. Temos nos andado a queixar de que o departamento está a degradar-se.

— E se o comandante disser que não aceita os nossos pedidos de demissão?

— O que é que ele pode fazer? Acorrentar-nos?

— Claro que não — respondeu Curt, incomodado com a idéia de ter de enfrentar um comandante irado. — Mas talvez devêssemos pensar um pouco mais sobre essa parte.

— Por mim, tudo bem — anuiu Steve. — Desde que apanhemos o comboio para Nova Jersey o mais depressa possível, estou-me nas tintas para o que dizemos ou deixamos de dizer às pessoas. Tenho fé na nossa fuga. Escondi uma carrinha antiga numa oficina perto da nossa primeira paragem. Pegamos nela e seguimos para o esconderijo da Pensilvânia, onde nos espera outro veículo. Vamos usar um carro diferente em cada destino.

— Agrada-me a idéia.

Curt desviou para o quartel dos bombeiros em Duane Street e estacionou o carro numa das bermas, para não bloquear a saída dos reluzentes carros de incêndio encarnados. Steve e Curt entreolharam-se por um breve instante e levantaram os polegares em sinal afirmativo.

— A Operação Glutão está em marcha — anunciou Curt.

— Armagedon, aqui vamos nós.

Assim que saíram do automóvel, um dos mais recentes recrutas, Bob King, que estava entretido a polir a viatura número 7, levantou os olhos e chamou:

— Meu tenente!

Curt fitou o novato e arqueou as sobrancelhas.

— Passou por aqui um taxista à sua procura — gritou Bob. — Um tipo baixo, entroncado, com um sotaque que parecia russo.

Curt olhou para Steve, que lhe devolveu o olhar, horrorizado. Era óbvio que também não gostara da notícia. Tinham acordado que Iuri nunca deveria ir ter com eles ao quartel. O contato entre os três tinha se limitado a telefonemas e encontros no Bar Orgulho Branco.

— O que é que ele queria? — perguntou Curt com voz rouca. Teve de pigarrear para conseguir falar num tom normal. Numa operação dessas proporções, todo e qualquer descuido era inaceitável.

— Pediu para o tenente lhe telefonar — disse Bob. — Acho que ficou desapontado por não o ter encontrado.

— O que é que lhe fizeste? — perguntou outro bombeiro por detrás do caminhão-cisterna. — Esqueceste-te de lhe dar a gorjeta?

Quatro bombeiros, que estavam a jogar as cartas na entrada do edifício perto do passeio, desataram a rir. Os portões estavam abertos de par em par, deixando entrar a luz de outubro.

— Ele disse como se chamava ou deixou algum número de telefone? — perguntou Curt.

— Não — respondeu Bob. — Disse só para o tenente lhe telefonar. Pensei que soubesse quem ele era.

—Não faço a mínima idéia.

— Bem, pode ser que ele volte — rematou Bob.

Curt fez um sinal para que Steve o seguisse. Subiram para as instalações do pessoal, no andar de cima. Curt entrou para a casa de banho e verificou se os cubículos e o chuveiro estavam vazios, para ter a certeza de que se encontravam a sós.

— Não estou a gostar nada disto — despejou, num sussurro forçado. — Por que raio é que ele veio até aqui?

— Eu bem te disse que o tipo não era bom da cabeça.

Curt andava de um lado para o outro, como um animal enjaulado. O seu maxilar inferior, ligeiramente saído, mantinha-se cerrado. Não podia crer que Iuri tivesse sido tão estúpido.

— Tenho medo que o Iuri seja uma espécie de bomba-relógio ambulante — disse Steve. — Acho que vamos ter de falar com ele. Ao mesmo tempo, gostava de ver provas concretas que mostrem que ele não está a gozar conosco.

Curt fez que sim enquanto andava de um lado para o outro, depois deteve-se.

— Está bem — concordou. — A seguir ao trabalho, vamos a casa dele, em Brighton Beach, ver se lhe metemos na cabeça que precisa de ter cuidado com as questões de segurança. Depois, exigimos que nos mostre o laboratório e pedimos provas de que ele anda realmente a fazer o que diz.

— Sabes onde mora? — perguntou Steve.

— Oceanview Lane, número quinze — respondeu Curt.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

12h30

— Truz-truz! — disse uma voz.

Jack e Chet levantaram os olhos das suas respectivas secretárias e viram Agnes Finn, chefe do laboratório de microbiologia, parada à entrada do gabinete.

— Estou com uma sensação de déjà vu — comentou Agnes. — Infelizmente, é uma espécie de vu que me desagrada. — No seu rosto habitualmente duro, esboçava-se um sorriso hesitante. Era a primeira vez que Jack a ouvia dizer uma piada. Agnes trazia um papel na mão.

Jack percebeu imediatamente a que déjà vu ela se referia. Três anos antes, quando ele diagnosticara, para choque de todos, um surto de peste num estranho caso de infecciosas, Agnes fizera questão de entregar-lhe pessoalmente os resultados que o confirmavam.

— Não me digas que era antraz... — começou Jack.

Agnes puxou os óculos tipo fundo de garrafa para cima e deu o papel a Jack. Era o resultado de um teste direto de anticorpos fluorescentes a um dos nódulos linfáticos mediastinais. Em letras maiúsculas carregadas, lia-se: ANTRAZ POSITIVO.

— É inacreditável — comentou Jack, passando a folha a Chet, que o leu com idêntica surpresa.

— Pensei que gostarias de saber assim que saísse o resultado — disse Agnes.

— Sem dúvida — respondeu Jack, em tom distraído, com o olhar vago e o cérebro em polvorosa.

— Até que ponto o teste é fiável? — perguntou Chet.

— E cem por cento seguro — informou Agnes. — É muito específico e os reagentes são novos. Depois de todas as doenças exóticas que o Jack diagnosticou durante aquele surto de infecciosas, fiz questão de equipar o laboratório com o que há de mais moderno. Claro está que, para a confirmação final, incubamos culturas.

— Esta doença propaga-se através de esporos — disse Jack, como que acordando de um transe. — Existem testes para os esporos, ou têm de desenvolvê-los em laboratório para depois os analisarem?

— Existe uma reação em cadeia das polimerases ou teste RCP para os esporos — explicou Agnes. — Nós não o fazemos na microbiologia, mas penso que o Ted Lynch, do laboratório de AIN, poderá ajudar-te. Há alguma coisa que queiras testar para ver se tem esporos?

— Ainda não — respondeu Jack.

— Hum, não gostei nada desse tom de voz — queixou-se Chet. — Não me digas que estás a pensar fazer trabalho de campo?

— Não sei — confessou Jack, ainda perplexo. Um caso de inalação de antraz em plena Nova Iorque era tão inesperado como um surto de peste.

— Estás esquecido do que aconteceu da última vez que resolveste fazer trabalho de campo por causa de um caso de infecciosas? — perguntou Chet. — Eu avivo—te a memória: estiveste à beira da morte!

— Obrigado, Agnes — agradeceu Jack, ignorando Chet.

Virou-se para a sua mesa de trabalho e afastou os dossiers relacionados com a morte do recluso na cadeia, que Calvin queria resolvida com urgência. Retirou os papéis de dentro da pasta com o nome de Jason Papparis e folheou-os até encontrar o relatório da investigadora forense Janice Jaeger.

— Ei, estou a falar contigo — chamou Chet, que se irritava sempre que Jack lhe fazia orelhas moucas.

— Aqui está — disse Jack, segurando no relatório de Janice e apontando com o dedo para a frase que dizia que Jason Papparis trabalhava no ramo dos tapetes. — Olha!

— Já vi — comentou Chet com enfado. — Mas ouviste o que eu disse?

— O problema é não sabermos que tipo de tapetes... — pensou Jack em voz alta. — Acho que pode ser um dado importante.

Virou o relatório para ler o verso. Tal como Janice dissera, nas costas estava o nome e número de telefone do médico que tratara de Jason Papparis. Jack deu meia-volta e pegou no auscultador. Marcou o número e falou com a telefonista do Brorix General Hospital.

— Está certo — disse Chet com um gesto de desistência. — Não és obrigado a ouvir-me. Já sei que vais fazer o que te der na gana, independentemente do que os teus amigos possam pensar. — Irritado, Chet regressou ao seu trabalho.

— Importa-se de chamar o doutor Kevin Fowler pelo intercomunicador? — pediu Jack a uma funcionária do hospital.

Enquanto esperava, prendeu o telefone com o pescoço, para poder ler o seu exemplar do Tratado de Medicina Interna. As páginas do capítulo sobre doenças infecciosas tinham os cantos dobrados.

Jack procurou a alínea sobre o antraz, que ocupava apenas duas páginas. Quando, finalmente, o Dr. Kevin Fowler atendeu ao telefone, Jack estava quase a terminar a leitura do artigo.

Jack apresentou-se e explicou porque estava a ligar. O diagnóstico deixou o Dr. Fowler sem palavras.

— Nunca vi um caso de antraz — confessou. — Claro está que ainda estou a fazer o internato, por isso não tenho muita experiência.

— Pois agora faz parte de uma pequena elite — comentou Jack. — Estava aqui a ler que, nos últimos dez anos, houve apenas meia-dúzia de casos nos Estados Unidos, e todos eles sob a forma cutânea mais comum. O tipo de antraz que Mister Papparis contraiu por inalação costumava ser chamado "doença dos trabalhadores da lã", porque os doentes apanhavam a bactéria através do contato com peles e pêlo de animais contaminados.

— A única coisa que lhe posso dizer é que foi um caso fulminante — disse o Dr. Fowler. — Deus queira que nunca mais tenha de tratar um doente nas mesmas circunstâncias. Parece que apanhamos de tudo, aqui em Nova Iorque.

— Fez o historial do doente?

— Não, de todo — respondeu o Dr. Fowler. — Chamaram-me quando o doente já quase não conseguia respirar. O que sei sobre Mister Papparis é o que estava na ficha médica.

— Então, não sabe que tipo de empresa de tapetes ele geria?

— Não faço a mínima idéia — disse o Dr. Fower. — Por que não tenta falar com o médico que estava de serviço, o doutor Heitman?

— Tem o número de telefone dele?

— Com certeza. É um dos médicos do quadro.

Jack telefonou ao Dr. Heitman, mas ficou a saber que o médico se limitara a substituir o Dr. Bernard Goldstein que era, na verdade, o médico de família de Mr. Jason Papparis. Jack ligou, então, para o Dr. Goldstein. Esperou alguns minutos até conseguir falar com ele e a conversa foi pouco amigável e bastante impaciente. Jack não perdeu tempo e fez-lhe a pergunta.

— Como, que tipo de tapetes?! — perguntou o Dr. Goldstein, irritado.

Obviamente não gostava de ser interrompido a meio do dia com perguntas que lhe pareciam frívolas. A secretária mostrara relutância em incomodar o médico, mesmo depois de Jack ter dito que era uma emergência.

— Quero saber que tipo de tapetes Mister Papparis vendia — repetiu Jack. — Vendia tapetes largos ou outro tipo de produtos?

— Ele nunca disse e eu também nunca perguntei — respondeu o Dr. Goldstein, antes de desligar.

— Este tipo escolheu a profissão errada — comentou Jack em voz alta.

Depois procurou a pasta de Papparis e reparou que o corpo havia sido identificado pela esposa do falecido, Helen Papparis. O relatório trazia um número de telefone, que Jack marcou de imediato. Até então, não tinha querido incomodar a família.

Helen Papparis foi extremamente educada e contida. Se estava de luto, escondia-o bem, embora Jack desconfiasse que toda aquela delicadeza fosse a maneira de a senhora lidar com a perda do marido. Jack deu-lhe os pêsames, explicou qual era o seu cargo oficial e falou-lhe sobre o exótico diagnóstico. No fim, fez a pergunta sobre o negócio de Jason Papparis.

— A Firma de Tapetes Coríntios lidava exclusivamente com tapetes feitos à mão — disse Helen.

— Qual era a proveniência dos tapetes?

—A maior parte vinha da Turquia — respondeu Helen. Jack detectou uma hesitação na voz da mulher. — Alguns tapetes de pêlo eram importados da Grécia, mas a grande maioria era da Turquia.

— Portanto, o seu marido lidava com peles e couros, bem como com tapetes tecidos à mão — resumiu Jack com um sentimento de satisfação acadêmica. O mistério começava rapidamente a deslindar-se.

— Certíssimo — confirmou Helen.

Os olhos de Jack recaíram sobre o manual aberto à sua frente. A meio da alínea sobre o antraz, o autor descrevia que a forma animal do antraz constituía um problema numa série de países, incluindo a Turquia, e que produtos animais, em especial pêlo de carneiro, poderiam estar contaminados com os esporos.

— Ele lidava com carneira? — insistiu Jack.

— Sim, claro que sim — disse Helen. — O grosso do negócio eram os produtos de carneira e os odres.

— Bem, penso que solucionamos o mistério — rematou Jack, explicando o seu raciocínio a Helen.

— Que ironia! — comentou Mrs. Papparis sem qualquer ponta de rancor. — Foram precisamente os tapetes que nos permitiram ter uma vida confortável e que pagaram os estudos da nossa única filha numa das melhores universidades da costa leste.

— Mister Papparis recebeu alguma remessa de mercadoria recentemente?

— Recebeu uma há cerca de um mês.

— Tem algum desses tapetes em sua casa?

— Não — respondeu Helen. — O Jason achava que era suficiente passar o dia todo no escritório metido entre tapetes, por isso recusava-se a tê-los em casa.

— Dadas as circunstâncias, parece-me uma decisão sensata — concordou Jack. — Onde estão esses tapetes? Sabe se já foram vendidos?

Helen explicou que os tapetes estavam guardados num armazém, em Queens, e que possivelmente ainda não tinham sido vendidos. Acrescentou que a firma de Jason vendia por atacado, pelo que as encomendas chegavam meses antes de haver procura. Disse ainda que Mr. Papparis não tinha empregados, nem no armazém, nem no escritório.

— Então era Mister Papparis que tratava de tudo — comentou Jack.

— Sim, era ele que fazia o trabalho todo — confirmou Helen.

Jack agradeceu-lhe calorosamente e tornou a dar os pêsames à viúva. Em seguida, sugeriu-lhe que entrasse em contato com o médico de família e lhe perguntasse se havia algum antibiótico profilático, embora provavelmente ela não corresse qualquer perigo, dado que o antraz não se propagava de pessoa para pessoa e ela não estivera exposta às peles. Para terminar, avisou Helen de que, com certeza, seria contatada por outros especialistas do Ministério da Saúde. A senhora agradeceu-lhe o telefonema e desligaram.

Jack virou-se para Chet, que tinha ouvido a conversa toda.

— Parece que, desta vez, resolveste o caso bastante depressa — comentou Chet. — Pelo menos, assim, não vais ter de pôr a tua vida em perigo a fazer trabalho de campo.

— Estou desiludido — suspirou Jack.

— Por que? — exasperou-se Chet. — Fizeste um diagnóstico brilhante num tempo recorde e, ainda por cima, resolveste o que poderia ter sido um mistério epidemiológico bastante difícil.

— Mas o problema é precisamente esse — disse Jack, sem ânimo. — Foi demasiado fácil, demasiado rápido. O último caso relacionado com uma doença exótica foi um verdadeiro mistério e eu gosto de desafios.

— Não sei de que te queixas — criticou Chet. — Quem me dera que alguns dos meus casos tivessem uma conclusão tão simples, sem deixar pontas soltas.

Jack pegou no manual de medicina que continuava aberto e espetou-o diante dos olhos de Chet. Apontou para um parágrafo em concreto e mandou o colega de gabinete lê-lo. Chet obedeceu e, quando terminou a leitura, ergueu os olhos.

— Isso é que foi um desafio epidemiológico! — disse Jack. — Já pensaste? Uma mortandade provocada pela inalação de antraz, porque uma fábrica de armas biológicas andava a verter esporos para o exterior. Que calamidade!

— Onde fica Sverdlovsk?

— Como é que eu hei de saber? — respondeu Jack. — Mas é óbvio que fica algures na antiga União Soviética.

— Nunca tinha ouvido falar nesse incidente de mil novecentos e setenta e nove — confessou Chet, relendo o parágrafo. — Que anedota! Os russos tentaram encobrir o caso, dizendo que as pessoas tinham ingerido carne contaminada.

— Do ponto de vista médico-legal, seria um desafio fantástico disse Jack. — Sem dúvida mais estimulante do que descobrir um caso de antraz num vendedor de tapetes.

Jack pôs-se de pé. Passado o entusiasmo inicial, o seu rosto exibia agora uma expressão deprimida.

— Onde é que vais? — perguntou Chet.

— Vou falar com o Calvin — respondeu Jack. — Ele pediu-me que o avisasse imediatamente, se o resultado indicasse que se tratava de antraz.

—Anima-te! Parece que vais para um enterro.

Jack esboçou um sorriso. Dirigiu-se para o elevador e carregou no botão. O que Chet não sabia é que a sua inquietação tinha outro motivo além da rápida resolução do caso; estava preocupado com o mistério de Laurie. Por que razão teria ela telefonado às quatro e meia da manhã para marcar um jantar? E porque é que Lou também fora convidado?

Enquanto o elevador descia, Jack pensou como poderia vingar-se dela. A única idéia que lhe veio à mente foi comprar-lhe uma prenda de Natal nos próximos dias e depois começar a dar-lhe pistas confusas. Laurie ficava louca de curiosidade sempre que se tratava de prendas e o suspense dava cabo dela. Dois meses de expectativa deveriam ser uma vingança mais do que suficiente.

Quando saiu no primeiro andar, Jack já se sentia melhor. A idéia da prenda de Natal parecia-lhe cada vez mais deliciosa, se bem que agora teria de pensar no que iria oferecer-lhe.

Calvin estava no gabinete a ordenar as pilhas de papéis que todos os dias passavam pela sua mesa. A sua mão era tão grande que a maneira de segurar a caneta era cômica. Olhou para Jack, quando este se aproximou da secretária.

— Tem a certeza de que não quer fazer uma aposta no diagnóstico de antraz? — perguntou Jack.

— Não me diga que o resultado foi positivo? — Calvin recostou-se na cadeira, que gemeu sob o seu peso.

— Segundo a Agnes, era antraz — informou Jack. — O resultado das culturas está pendente.

— Diabos me levem! — exclamou Calvin. — Isto vai deixar muita gente nervosa no Ministério da Saúde.

— Na verdade, não creio — disse Jack.

— Ah não? — retorquiu Calvin. Jack nunca se cansava de o surpreender. — E por que raio diz isso?

— Porque a doença não se transmite de pessoa para pessoa, e porque se tratou de um caso pontual de exposição à bactéria e o único afetado foi o falecido, por motivos profissionais. A fonte de contágio encontra-se, segundo consta, trancada num armazém em Queens.

— Sou todo ouvidos, conte-me!

Jack explicou a história da Firma de Tapetes Coríntios e a recente remessa de tapetes e odres da Turquia. Calvin abanava a cabeça, enquanto Jack falava.

— Louvado seja Deus por estas pequenas benesses — comentou Calvin, endireitando a cadeira. As molas gemeram de novo, num longo queixume. — Vou pedir ao Bingham para ligar à Patricia Markham, a Ministra da Saúde. Por que não liga ao epidemiologista da Câmara, aquele com quem trabalhou no caso da peste. Como é que ele se chamava?

— Clint Abelard — respondeu Jack.

— Sim, esse mesmo. Ligue-lhe. Ajudará a fomentar a tal cooperação entre instituições que o presidente da Câmara tanto tem apregoado.

— O Clint Abelard não me ajudou praticamente nada — avisou Jack. — Naquela época, sempre que lhe ligava, ele nem sequer atendia os meus telefonemas.

— Penso que ele deve ter mudado de idéias face ao que aconteceu depois — disse Calvin.

— Por que não pedimos a outro elemento dos nossos quadros para fazer a chamada? Um dos empregados da limpeza, por exemplo.

— Deixe-se de sarcasmos! — repreendeu Calvin. — Não me crie problemas! Telefone ao homem e caso encerrado! Quanto à morte do recluso, em que pé estamos?

— O que quer dizer com "quanto à morte do recluso"? — perguntou Jack. — Viu o sangue nos músculos do pescoço e o osso hióide partido! O tipo foi estrangulado.

— E o cérebro? Descobriu alguma coisa?

— Alguma coisa como um tumor dos lóbulos temporais? — sugeriu Jack. — Para podermos dizer que o homem teve uma crise de convulsões que o deixou completamente louco e agressivo? Lamento, mas o cérebro nada tinha de anormal.

— Faça-me um favor e analise bem a histologia — pediu Calvin. — Encontre alguma coisa!

— O caso está nas mãos do nosso simpático toxicólogo — informou Jack. — Talvez ele descubra sinais de cocaína ou uma coisa do estilo.

— Quero o relatório completo, incluindo a certidão de óbito, em cima da minha secretária até quinta-feira — ordenou Calvin. — Já recebi uma chamada do gabinete do procurador-geral.

— Nesse caso, convinha ligar ao John DeVries. Um telefonema seu a pedir ao laboratório para acelerar a entrega dos resultados seria muito mais eficaz do que um grunhido meu.

— Eu ligo ao John — cedeu Calvin. — Mas, independentemente dos resultados que o John nos der, cabe-lhe a si certificar-se de que no relatório consta alguma coisa que deixe a dúvida em aberto, por mais pequena que seja.

Jack revirou os olhos e dirigiu-se para a porta. Tinha consciência do que Calvin estava a dizer nas entrelinhas, nomeadamente que o comissário da polícia falara com Bingham, para que este arranjasse uma justificação para o uso abusivo da força por parte dos agentes. Jack sabia que os reclusos podiam tomar-se muito violentos e não invejava quem tivesse de lidar com eles, mas, ao mesmo tempo, conhecia alguns casos de abuso de autoridade policial. Tirar conclusões para lá do que os fatos forenses permitiam era um caminho escorregadio que Jack se recusava a trilhar.

— Espere! — chamou Calvin, antes de Jack sair do alcance da sua voz.

Jack tomou a sentar-se no gabinete do chefe de serviço.

— Há mais uma pessoa a quem deve telefonar por causa do caso do antraz — disse Calvin. — Stan Thorriton, conhece-o?

— Claro.

Stan Thornton era diretor do Gabinete de Crise do presidente da Câmara e fora convidado para apresentar uma comunicação numa das conferências de medicina legal que se realizavam à quinta-feira, em nome da cooperação interinstitucional. O tema era como lidar com o número de mortos na eventualidade de um incidente envolvendo uma arma de destruição maciça.

Jack saíra perturbado da palestra. Antes, nunca pensara a sério nos problemas logísticos implícitos numa calamidade com um número astronômico de vítimas. Para começar, a dificuldade em identificar milhares e milhares de cadáveres afigurava-se-lhe algo de aterrador. Por último, o que fazer dos corpos?

—O que quer que eu lhe diga? — perguntou Jack.

— Exatamente o mesmo que me disse a mim — explicou Calvin. — Tendo em conta que se tratou de um caso isolado, o seu telefonema será uma mera cortesia, mas já que ele se referiu ao antraz durante a palestra sobre terrorismo e armas biológicas, tenho a certeza de que gostaria de tomar conhecimento do incidente.

— Mas por que eu? — lamuriou-se Jack. — Não tenho jeito nenhum para essas tretas de cortesia.

— Pois aprenda — rematou Calvin. — Além disso, o caso é seu. Agora vá-se embora, para eu poder trabalhar.

Jack saiu da área administrativa, parou no segundo andar para comprar um sanduíche numa máquina automática e depois subiu ao quinto piso. Embora tencionasse regressar diretamente ao seu gabinete, não conseguiu resistir e enfiou a cabeça na sala de Laurie. A sua idéia era pressioná-la mais uma vez quanto à natureza do "grande segredo". Infelizmente, Laurie não estava. O Dr. Riva Mehta, colega de gabinete, disse a Jack que Laurie estava numa reunião à porta fechada com os agentes da autoridade, no gabinete de Bingham.

Resmungando entre dentes por causa do rumo que o dia estava a tomar, Jack instalou-se na sua cadeira de trabalho.

— Continuas com o mesmo ar péssimo com que saíste daqui — comentou Chet. — Espero que não tenhas espicaçado o chefe de serviço para uma discussão.

Jack e Calvin desentendiam-se com freqüência. Calvin era apologista de regras rígidas e protocolos fixos, enquanto Jack considerava qualquer regra como um simples ponto de referência. Acreditava que a inteligência e os instintos naturais eram, de longe, mais práticos e eficazes do que ditames burocráticos.

— O meu dia não está a ser dos melhores — respondeu Jack evasivamente.

Coçou o cocuruto da cabeça e estalou os dedos, enquanto decidia qual das desagradáveis tarefas que lhe haviam sido confiadas iria despachar primeiro. Ao abrir a lista telefônica à procura do número de Clint Abelard, veio-lhe à mente uma idéia incômoda. Talvez Laurie tivesse recebido uma proposta de trabalho para algum lugar como Detroit, ou pior ainda, uma cidade algures na costa oeste. Fazia sentido; se ela fosse pedir transferência para outro local, certamente quereria dizer-lhe a ele e a Lou, e, dado que uma mudança como essa equivaleria sem dúvida a uma promoção, provavelmente estaria em pulgas para lhes contar. Por instantes, Jack fixou o olhar no vazio, tentando imaginar como seria a vida na Big Apple sem Laurie. Era um pensamento difícil de integrar; e deprimente.

— Esqueci-me de te falar da exposição no Met — lembrou-se Chet. — E uma exposição de Monet que a Colleen está morta por ver. Temos entradas para quinta-feira.

Chet mantinha uma relação com Colleen Anderson há três anos, pontuada por algumas rupturas. Ela era diretora de arte da Willow & Heath, uma empresa de publicidade de Madison Avenue. Jack conhecia quer Colleen, quer Willow e Heath, tendo entrado em contato com eles durante as suas investigações sobre o caso de doenças infecciosas que tanta reputação lhe dera.

— Por que não vens com a Laurie à exposição? — prosseguiu Chet. — A seguir, podíamos ir jantar fora.

Jack arrepiou-se perante a idéia de não ter Laurie por perto para ir com ele visitar museus. E isso não era nada comparado com as saudades que iria sentir todos os dias. Mas claro está que Chet desconhecia os sentimentos que o seu convite suscitara.

— Eu pergunto-lhe se quer ir — disse Jack. Pegou no telefone e marcou o número de Clint Abelard.

— Depois diz-me se vão — acrescentou Chet. — Se forem, peço à Colleen mais duas entradas. Como sócia do museu, ela arranja-as facilmente.

— Hoje à noite vou estar com a Laurie — comentou Jack, quando começou a ouvir o telefone a chamar do outro lado do fio. Tenho de falar com ela sobre uma série de coisas e, depois, faço-lhe o convite.

— Viste o cabeça-rapada que ela examinou hoje de manhã? — perguntou Chet. — Que espetáculo grotesco! Merecia um prêmio. É aterrador o que um ser humano é capaz de fazer a outro.

Jack pediu para falar com o epidemiologista da Câmara e disseram-lhe para esperar.

— Infelizmente, vi — disse Jack, tapando o bocal com a mão. O agente do FBI está convencido de que os autores do crime também são cabeças-rapadas.

— Aqueles putos são tarados — concluiu Chet.

— Sabes se a Laurie descobriu alguma coisa relevante que possa ajudar a polícia?

— Não faço a mínima idéia.

Quando o Dr. Clint Abelard finalmente atendeu a chamada, Jack fez um esforço para se mostrar simpático e bem-disposto. Infelizmente, o seu preâmbulo não obteve a mesma resposta.

— Claro que me lembro de si — disse Clint em tom seco. — coroner... para tornar o meu trabalho ainda mais difícil do que já é.

Jack mordeu a língua. Noutros tempos, quando Jack falara com Clint pela primeira vez, dera-se ao trabalho de explicar cuidadosamente a diferença entre um médico legista e um coroner. Um médico legista era especializado em patologia e sub-especializado em medicina legal, enquanto um coroner era um funcionário público ligado às leis que investigava casos de morte suspeita e que muitas vezes nem sequer possuía treino médico.

— Sabe que nós, os médicos legistas, tentamos sempre causar boa impressão — disse Jack.

—Qual é o motivo deste telefonema?

— Hoje de manhã, tivemos um caso de antraz por inalação — explicou Jack. — Pensamos que gostaria de saber. O doente veio do Bronx General Hospital.

— Um caso isolado?

— Exato — respondeu Jack.

— Obrigado.

— Não quer saber qual foi a origem do caso? — perguntou Jack.

— Isso compete-lhe a si averiguar — disse Clint, em tom monocórdio.

— Pode ser, mas, para que fique revistado, vou dizer-lhe a que conclusões chegamos.

Jack falou-lhe da Firma de Tapetes Coríntios, explicou que a empresa recebera recentemente uma remessa de tapetes e peles da Turquia, que estavam guardados num armazém em Queens, que Jason Papparis era o dono e único empregado e que nunca levara as mercadorias para casa.

— Obrigado — agradeceu Clint sem qualquer vestígio de emoção. — Admiro a sua astúcia. Se por acaso me deparar com algum mistério epidemiológico, pode ter a certeza de que entrarei em contato consigo para lhe pedir ajuda.

— Se não se importa, gostava de lhe fazer uma pergunta — tateou Jack, ignorando o sarcasmo de Clint. — Queria saber o que pretende fazer de concreto em relação a este caso de antraz?

— Vou mandar um dos meus assistentes a Queens, para selar o armazém.

— Só isso?

— De momento, estamos a braços com um surto de ciclosporos que está a exigir a atenção de todos os nossos funcionários — disse Clint. — Um caso isolado de uma doença não constitui uma emergência epidemiológica. Assim que pudermos, trataremos do assunto, desde que não surjam mais casos idênticos, claro está.

— Não duvido da sua competência, mas penso que... — começou Jack.

— Obrigado pelo seu voto de confiança — interrompeu Clint. E, sem avisar, desligou.

Jack pousou o auscultador.

— Quem diria... — disse, virando-se para Chet, que girara a cadeira para ouvir a conversa — Lá se foi a cooperação interinstitucional. Este tipo consegue ser mais sarcástico do que eu.

— Deves ter ferido mortalmente o orgulho dele quando trabalharam juntos no caso do surto de peste.

— Bem, vejamos se tenho mais sorte junto do diretor do Gabinete de Crise da Câmara Municipal.

— Por que é que lhe vais telefonar? — perguntou Chet, surpreendido.

— É um telefonema de cortesia. Ordens diretas do nosso chefe de serviço.

A chamada foi atendida por uma secretária, a quem Jack pediu para falar com Stan Thormon.

— É o mesmo tipo que nos deu aquela palestra sobre armas de destruição maciça?

Jack acenou com a cabeça. Para grande surpresa sua, o diretor em pessoa veio imediatamente ao telefone. Jack apresentou—se e explicou qual o assunto.

— Antraz! — exclamou Stan. Não havia dúvida de que Stan Thormon ficara impressionado com a notícia.

Ao contrário de Clint Abelard, bombardeou Jack com perguntas. Só depois de saber que a causa provável da doença estava controlada e que se tratava de um caso isolado é que a sua voz perdeu o tom aflito.

— Vamos jogar pelo seguro — pediu Stan. — Vou recorrer aos meus contatos no Ministério da Saúde, para termos a certeza de que não há mais nenhum doente na cidade com sintomas suspeitos.

— Parece-me uma boa idéia — concordou Jack.

— E vou pôr o tal armazém de quarentena.

— Isso já está a ser tratado — informou Jack, passando a relatar a sua conversa anterior com Clint Abelard.

— Ótimo! — exclamou Stan. — Eu próprio tinha pensado no Clint Abelard como uma das primeiras pessoas com as quais deveríamos falar. Vou unir esforços com a equipa dele.

"Boa sorte!", pensou Jack com os seus botões.

— Obrigado por ter avisado tão depressa — prosseguiu Stan. — Como referi na minha comunicação, os médicos poderão ser as primeiras pessoas a detectar os efeitos de um atentado bioterrorista. Quanto mais rápida for a resposta, maiores serão as probabilidades de controlar a situação.

— Não nos esqueceremos disso — tranqüilizou Jack, antes de terminar a conversa e desligar.

— Parabéns — disse Chet. — Ora aí está uma conversa muito civilizada.

— A minha capacidade diplomática interinstitucional deve estar a melhorar — gracejou Jack. — Não espicacei o tipo nem um pouquinho.

Jack recolheu os papéis do relatório sobre Jason Papparis e enfiou-os na pasta. Colocou-a de lado e debruçou-se sobre o caso do recluso que morrera na cadeia.

Durante uns minutos, reinou a paz no caos do gabinete, enquanto os dois médicos legistas se concentravam no trabalho que tinham em cima das suas respectivas secretárias. Chet colou os olhos ao microscópio, enquanto examinava com todo o cuidado a superfície de corte de um fígado, referente a um caso fatal de hepatite. Jack começou a delinear a patologia relevante para o caso do recluso.

Mas o sossego foi sol de pouca dura. Um estrondo como que de um tiro reverberou nas paredes do pequeno gabinete. Chet endireitou-se na cadeira e olhou para Jack, que proferiu uma série de impropérios, deixando-o ainda mais ansioso. Só então é que Chet percebeu que não estavam em vias de se tornarem as duas próximas vítimas estendidas na morgue. O estrondo fora provocado por uma caneta de tinta permanente que Jack atirara contra o tampo de metal da secretária.

— Caramba! Pregaste-me um susto dos diabos! — queixou-se Chet.

— Não consigo concentrar-me. — Que se passa?

— Tudo — respondeu Jack em tom evasivo. Não lhe apetecia conversar sobre Laurie, naquele momento.

— Isso é um bocadinho vago — comentou Chet. Jack inclinou-se e pegou na pasta do caso Papparis.

— Este caso, por exemplo.

— O que é que te incomoda, agora? — perguntou Chet, irritado. — Já fizeste o diagnóstico, comunicaste-o ao chefe de serviço, telefonaste ao epidemiologista da Câmara e inclusive ao diretor do Gabinete de Crise. Que diabos resta fazer?

Jack suspirou.

— Como já te disse antes, foi demasiado fácil. Parece um caso saidinho das páginas dos manuais e isso está a dar-—me cabo dos neurônios.

— Tretas! Acho que esse caso é só um pretexto para não falares daquilo que está realmente a preocupar-te.

Jack pestanejou e pousou o olhar no seu colega de gabinete, impressionado com a perspicácia de Chet. Por uma fração de segundo, pensou em contar-lhe o estranho telefonema de Laurie, mas resolveu ficar calado. Uma conversa como essa poderia acabar numa sessão de psicanálise e Jack não estava preparado para analisar os seus sentimentos por Laurie.

— Estou preocupado com outra coisa, sim — confirmou, com uma expressão exacerbada de angústia. — Estou irritado porque deixaram de dar o Seinfeld.

— Por amor de Deus! — exclamou Chet, irritado. — É impossível ter uma conversa séria contigo. Pois, como queiras! Remói lá os teus problemas, mas, se não te importas, fá-lo em silêncio. Se vires que não és capaz de estar quieto e calado, leva-—os para outro sítio qualquer!

Chet tornou a virar-se na cadeira e substituiu o slide do microscópio. Debruçou-se sobre a lente, resmungando entre dentes que Jack tinha um feitio insuportável.

— O Clint Abelard disse que ia pôr a Firma de Tapetes Coríntios de quarentena — informou Jack, batendo no ombro de Chet com um dos cantos da pasta referente ao caso Papparis, para ter a certeza de que Chet prestava atenção. — Mas... e o escritório aqui em Manhattan? E se o comerciante de tapetes resolveu levar algumas peles para o escritório? Não será melhor inspecionar os registros da empresa, para averiguar se alguma remessa recente já foi vendida e enviada para outro lugar?

Chet girou de novo a cadeira, para observar o rosto largo do colega. Percebeu que Jack estava a falar a sério.

— Que queres que te diga? — perguntou Chet.

— Quero que confirmes se as minhas preocupações são legítimas — disse Jack.

— Está bem — respondeu Chet. — Tens razão, portanto faz alguma coisa. Liga para o epidemiologista e certifica-te de que ele vai tratar de averiguar isso tudo. Deita as angústias cá para fora, a ver se tu e eu conseguimos trabalhar de uma vez por todas!

Jack olhou para o telefone e em seguida para Chet.

— Achas que devo? Ele não é propriamente um fã da minha pessoa e não me parece receptivo a sugestões, especialmente se for eu a apresentá-las.

— O tipo é um idiota, e daí? — disse Chet. — Pelo menos, ficas satisfeito por teres feito tudo o que estava ao teu alcance. Que importa o que o tipo possa pensar de ti?

— Acho que tens razão — concordou Jack, pegando no telefone. — Não posso esperar que todos gostem de mim, como eu.

Jack tornou a ligar para o epidemiologista da Câmara Municipal. A secretária pediu-lhe o nome e fê-lo esperar durante vários minutos. Jack fixou o olhar em Chet.

— O tipo está a ser um pouco passivo-agressivo — disse Chet, mas não desistas.

Jack acenou com a cabeça. Desenhou círculos interligados no bloco de apontamentos, depois tamborilou no tampo da mesa. Por fim, a voz da secretária fez-se ouvir de novo.

— Lamento, mas o senhor doutor está ocupado — informou. Terá de ligar mais tarde.

Jack desligou.

— Não devia estar surpreendido, pois não? Cada vez mais adoro esta treta da cooperação interinstitucional.

— Manda-lhe um fax — sugeriu Chet. — Alcanças o mesmo objetivo sem a chatice de teres de falar com o sujeito.

— Tive uma idéia melhor — disse Jack.

Pegou na ficha médica do doente e leu o número de telefone de Helen Papparis. Em seguida, ligou de novo para a desgostosa viúva do comerciante de tapetes.

— Peço desculpa por tornar a incomodá-la — disse Jack, depois de identificar-se.

— Não incomoda — sossegou Helen com a mesma delicadeza do anterior telefonema.

— Queria perguntar-lhe se alguém do Departamento de Saúde da Câmara falou consigo?

— Falaram, sim — respondeu. — Um tal de doutor Abelard telefonou-me pouco depois da nossa primeira conversa.

— Ótimo. Posso perguntar-lhe qual foi o teor da conversa?

— O doutor Abelard foi muito sucinto. Queria pedir-me a morada e as chaves do armazém. Depois, marcou um dia para os agentes da polícia virem cá a casa buscá-las.

— Perfeito — disse Jack. — E o escritório de Manhattan? O doutor Abelard perguntou alguma coisa em relação a isso?

— Não, absolutamente nada.

— Estou a ver... — murmurou Jack, lançando um olhar a Chet, que encolheu os ombros. Pensou durante uns instantes e, em seguida, acrescentou: — Eu gostava de dar uma vista de olhos ao escritório, se não se importa.

Chet pôs-se a agitar as mãos no ar e a desenhar a palavra não com a boca, silenciosa mas enfaticamente, vezes sem conta. Jack ignorou-o.

— Se acha que isso pode ajudar em alguma coisa — disse Helen — eu não me importo.

Jack explicou a Helen o que dissera a Chet, em especial a necessidade de verificar se alguma remessa recente fora vendida e enviada para outro lugar. A senhora compreendeu de imediato.

— Eu poderia passar por aí, para buscar as chaves...? — hesitou Jack.

— Não é necessário. A morada é Walker Strect, número vinte e sete. Na porta ao lado fica uma loja de filatelia. O proprietário chama-se Hyrnari Feingold e era amigo do meu marido. Ambos tinham um par de chaves da loja um do outro, no caso de haver alguma emergência. Posso telefonar-lhe, para ele saber que o senhor doutor vai passar por lá.

— Ótimo — disse Jack. — Entretanto, falou com o seu médico de família?

— Falei, sim. Ele vai enviar-me uns antibióticos e aconselhou-me a levar uma vacina.

— Parece-me uma idéia sensata.

Depois de desligar, Jack levantou-se e tirou o casaco de cabedal do cabide atrás da porta.

— Não queres saber a minha opinião sobre essa tua excursãozinha? — perguntou Chet.

— Não — respondeu Jack. — Eu sei qual é a tua opinião, mas já decidi que vou e assunto encerrado. Não consigo concentrar-me, por isso mais vale fazer alguma coisa útil. Além disso, assim vais poder trabalhar em paz. Toma conta das coisas por aqui, colega!

Chet fez um gesto de despedida, com cara de irritada resignação. Era uma loucura Jack ir visitar o escritório, mas, por experiência própria, sabia que não valia a pena tentar fazê-lo mudar de idéias quando já tinha tomado uma decisão.

Jack desceu as escadas até ao terceiro andar e, assobiando alegremente, espreitou para dentro do laboratório de microbiologia. Só de pensar no seu passeio de bicicleta pela baixa, daí a pouco, começou a sentir-se melhor.

Agnes Finn não pôde atendê-lo, por isso Jack falou com a supervisora de turno, que teve todo o gosto em dar-lhe um saco com frascos de cultura, luvas de borracha, máscara de microporos, uma bata de proteção e um capuz. Jack sabia que um fato de isolamento seria mais seguro, mas achou que não era necessário. Além disso, não seria fácil arranjar um de imediato e não queria esperar.

Não devia haver qualquer problema, pois estava convencido de que Jason Papparis apanhara a doença no armazém e não no escritório.

Com o saco na mão, Jack desceu à cave e tirou o cadeado da bicicleta, mas, em vez de dirigir-se diretamente para a baixa, seguiu para o Hospital Universitário. Apologista do ditado "um homem prevenido vale por dois", decidiu que era mais sensato levar alguns antibióticos profiláticos.

O passeio até à baixa foi divertido e decorreu quase sem incidentes. Jack desceu a Segunda Avenida, depois cortou para a Houston. Em seguida, meteu pela Broadway para chegar a Walker Street. Na Broadway, teve uma pequena discussão com o motorista de uma carrinha de entregas, mas bastou uma troca de palavras mais acaloradas e a carrinha arrancou em grande velocidade.

Jack prendeu a bicicleta a um sinal de “proibido estacionamento à esquerda” da Firma de Tapetes Coríntios. Dirigiu-se para a montra da loja e observou os tapetes e peles. Eram apenas meia dúzia e todos descorados pelo sol e cobertos por uma camada de pó, indício seguro de que ali estavam há anos. Jack percebeu que não faziam parte da nova remessa.

Com as mãos a fazer sombra, espreitou para dentro do escritório, parcamente mobiliado. Havia duas secretárias, uma meramente funcional, com os objetos do costume, e a outra a servir de suporte a uma fotocopiadora e um fax. Viu vários móveis de arquivo e, ao fundo, duas portas, ambas fechadas.

Jack encaminhou-se para a porta. O letreiro dourado brilhava em contraste com o interior escuro. Tocou na porta, mas estava trancada, como seria de esperar.

A loja de filatelia ficava à esquerda da firma de tapetes e Jack dirigiu-se imediatamente para lá. Os sinos da entrada apanharam-no de surpresa com o seu rouco tinir e fizeram-no tomar consciência de que estava tenso.

Dentro da loja, encontrava-se sentado um cliente a observar uma coleção de selos enfiada numa capa de plástico.

De pé, atrás do balcão, estava um indivíduo que Jack depreendeu ser o proprietário. Assim que levantou os olhos, Jack apresentou-se.

— Ali, doutor Stapleton — disse Hyman baixinho, como se proferir uma palavra fosse um ritual a respeitar na tranqüilidade filatélica, Fez sinal a Jack, para que se chegasse para o lado.

— Foi uma tragédia o que aconteceu a Mister Papparis — sussurrou, entregando-lhe um punhado de chaves presas a uma argola. — Crê que tenho motivos para ficar preocupado?

— Não — murmurou Jack. — A menos que Mister Papparis tivesse por hábito mostrar-lhe as mercadorias que recebia na loja.

 

Hyman abanou a cabeça.

— Sabe se Mister Papparis costumava trazer tapetes ou peles para o escritório? Isto é, não contando com os que estão na montra.

— Há muito que não o fazia — disse Hyman. — Há uns anos, quando vinha de fechar um negócio trazia-me umas amostras. Mas depois deixou de ter necessidade de andar por aí a falar com clientes.

 Jack segurou nas chaves.

— Obrigado pela sua ajuda. Daqui a pouco devolvo-lhas.

— Pode demorar o tempo que quiser. Fico contente por saber que anda a investigar o caso.

Jack voltou para junto da bicicleta e tirou as suas coisas do cesto. Em seguida, foi até a porta da loja de tapetes e destrancou-a. Antes de abri-la, colocou a bata, o capuz, as luvas e a máscara. Alguns transeuntes limitaram-se a abrandar o passo quando viram os preparativos de Jack, que considerou tamanha indiferença como um sinal da paz de espírito dos Nova-iorquinos.

Empurrou a porta e entrou. Havia algo de sinistro e assustador na possibilidade de alguns dos grãos de poeira que dançavam nos raios de luz filtrados da rua serem letais. Por uma fração de segundo, pensou que era melhor voltar para trás e deixar esse trabalho nas mãos de terceiros, mas, logo de seguida, censurou-se por ceder a uma superstição tão medieval. No fim de contas, estava razoavelmente protegido.

O escritório era espartano como lhe parecera visto da montra. Os únicos objetos decorativos eram uns postais de viagem das ilhas gregas, distribuídos pela Olympic Airlines, e um grande calendário de parede também com imagens da Grécia. Apesar de os tapetes e peles da montra estarem sujos de pó, o resto do escritório encontrava-se imaculado e tinha um leve cheiro a detergente. Aos pés de Jack, encontravam-se algumas cartas e revistas que tinham sido enfiadas na ranhura do correio. Jack apanhou-as e dirigiu-se para a secretária.

O tampo tinha um mata-borrão, um suporte de metal para guardar correspondência e várias imitações de vasos gregos antigos. A sala estava limpa e sem lixo. Diligentemente, Jack pôs as cartas numa das bandejas do suporte metálico.

Acendeu as luzes do teto. Tirou do saco a sua coleção de frascos de cultura e varreu várias superfícies para dentro dos tubos. Ao varrer a mesa, reparou numa coisa brilhante no centro do mata-borrão. Debruçou-se e descobriu que era uma diminuta estrela iridescente, de um azul cerúleo. Pareceu-lhe estranhamente fora de contexto naquele ambiente austero.

Espreitou para o cesto de papéis, vazio. Encaminhou-se para as duas portas fechadas. Uma dava para a casa de banho, onde varreu o lavatório e o tampo da sanita. A outra abria para um corredor que comunicava com a escadaria central do edifício. À exceção dos que estavam na montra, não havia quaisquer tapetes ou peles no escritório.

Quando acabou o trabalho de recolher amostras, Jack levou os frascos de cultura para a casa de banho e limpou a parte de fora de cada um, antes de tornar a guardá-los no saco em que os trouxera. Por fim, aproximou-se dos arquivadores. Queria descobrir tudo o que pudesse sobre a última remessa de tapetes e peles, e se tinham sido vendidos.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

15h45

Iuri levantou o olhar e fitou o presunçoso homem de negócios, enquanto ele contava as notas de dólar e as depositava na sua mão estendida. Iuri conduzira o indivíduo desde o Aeroporto de La Guardia até a sua elegante casa na zona de East Side. Durante a viagem toda, tivera de agüentar mais uma longa palestra sobre as virtudes americanas e a inevitável vitória na guerra fria. Dessa vez, a ênfase recaíra sobre Ronald Reagan e a maneira como conseguira, sozinho, vencer o "Império do Mal". O sujeito adivinhara a origem étnica de Iuri ao ver o nome no cartão de taxista. Daí despontara o monólogo sobre a superioridade dos Estados Unidos em todas as frentes: moral, econômica, política.

Iuri não proferira uma só palavra durante a interminável peroração, embora se tivesse sentido fortemente tentado a abrir a boca em alguns pontos do discurso. Os comentários do seu cliente tinham-no deixado a ferver de raiva, em especial quando este expressou, em tom condescendente, um sentimento de piedade para com o povo russo, que considerava subjugado pelo peso da insegurança nascida de uma perpétua inépcia governamental.

— Aqui tem mais uns dólares pela maçada — ofereceu o sujeito com uma piscadela de olho, juntando umas notas à pilha que Iuri tinha na mão: vinte e nove gastas notas de um dólar. A tarifa marcada pelo taxímetro, acrescida da portagem da Ponte Triboro, somava vinte e sete dólares e cinqüenta cêntimos.

— Isso é a gorjeta? — perguntou Iuri com claro desdém.

— Tem alguma reclamação a fazer? — perguntou o indivíduo, empertigando-se e arqueando as sobrancelhas com ar indignado. Tirou a pasta de baixo do braço e segurou-a como se pretendesse usá-la a jeito de arma de defesa.

Iuri levantou a mão do volante e retirou as últimas duas notas da pilha. Largou-as e ficou a vê-las esvoaçar até caírem no passeio.

A expressão do cliente passou de indignação a raiva e as suas faces ruborizaram-se.

— Um donativo para a economia americana — explicou Iuri, antes de pôr o pé no acelerador e arrancar a alta velocidade.

Pelo espelho retrovisor, viu o homem de negócios abaixar-se e apanhar o dinheiro da sarjeta. Essa imagem deu a Iuri a sua quota parte de satisfação. Era estimulante ver o homem agachar-se por uma quantia tão irrisória. Iuri nem queria acreditar como alguns americanos conseguiam ser tão tacanhos, apesar de toda a riqueza que ostentavam.

O dia melhorara radicalmente para Iuri, depois da sua vã tentativa de encontrar Curt Rogers e Steve Henderson no quartel dos bombeiros de Duane Street. Para comemorar o seu regresso iminente à rotina, resolvera ir a um pequeno restaurante russo, onde se sentou a uma mesa e almoçou uma borscht (uma sopa de beterraba) bem quente, acompanhada de um copo de vodca. A conversa com o dono do estabelecimento tornou o momento ainda mais agradável, embora falar na sua língua materna o deixasse um pouco melancólico.

Os clientes da tarde foram regulares e suportáveis. A maior parte manteve-se calada, exceto o último passageiro que apanhara no Aeroporto de La Guardia.

Iuri deteve-se num semáforo de Park Avenue. Tencionava seguir para a Quinta Avenida, na esperança de apanhar os melhores clientes dos hotéis daquela zona. Em vez disso, uma velhota de babuchas apareceu por entre os carros estacionados na berma e fez-lhe sinal. Quando o semáforo mudou para verde, Iuri encostou o carro para a senhora entrar.

— Para onde quer ir? — perguntou Iuri, observando o seu novo cliente pelo espelho retrovisor.

As roupas que envergava eram práticas e, embora não estivessem puídas, notava-se que haviam sido bastante usadas. Tinha ar de quem só podia pagar o passe de metrô.

— Rua Dez Oeste, número cento e sete — respondeu a mulher com um sotaque mais cerrado que o de Iuri, que o identificou de imediato. Era da Estônia, o que lhe trouxe à mente confusas lembranças.

Fizeram parte da viagem em silêncio. Pela primeira vez nesse dia, Iuri sentiu vontade de falar. Olhava com freqüência para a sua passageira. Havia algo de familiar nela. Instalara-se confortavelmente no banco de trás, com as mãos grandes no colo. Com as suas feições descontraídas de camponesa, uns olhos pequeninos e cintilantes e uma boca sorridente, irradiava paz interior.

— É da Estônia? — perguntou Iuri, por fim.

— Sou — respondeu. — E você? É russo?

Iuri acenou com a cabeça e observou a reação da mulher. Depois de anos de ocupação, havia um forte sentimento anti-russo na Estônia. Os sentimentos de Iuri pela Estônia não eram tão violentos como os que ele pensava que a senhora nutriria pela Rússia. Apesar de ter passado por dificuldades durante a sua odisséia até chegar à América, a verdade é que também conhecera pessoas simpáticas, generosas e prestáveis.

— Há quanto tempo está nos Estados Unidos? — perguntou a mulher, num tom desprovido de malícia.

— Desde mil novecentos e noventa e quatro.

— Quando abandonou a pátria, trouxe a sua família consigo?

— Não — respondeu Iuri a custo. De repente, sentia a garganta seca. — Vim sozinho.

— Deve ter sido muito difícil — comentou com simpatia. — E muito solitário.

A simples pergunta da senhora e a reação dela à sua resposta desencadearam em Iuri uma torrente de emoção, juntamente com uma sensação de vergonha por ter abandonado a família; se bem que o que deixara para trás não fosse muito. O sentimento de toská, com o qual se debatera pouco antes, regressou em força. Simultaneamente, percebeu por que razão a mulher lhe parecia tão familiar: lembrava-lhe a mãe, apesar de terem feições diferentes. Não foi propriamente o aspecto dela, e sim a sua postura, em especial aquela pujante serenidade, que lhe recordou a figura materna da sua infância.

Iuri não costumava pensar na mãe. Era demasiado doloroso. Nádia Davidov amava os seus filhos Iuri e Iegor, o mais novo, e protegera-os, na medida do possível, da fúria agressiva do pai, Anatoli, que os espancava ao menor gesto de provocação. Iuri ainda tinha marcas na barriga das pernas deixadas por uma sova que o pai lhe dera quando tinha apenas onze anos. Andava na quarta classe e acabara de entrar para os Jovens Pioneiros. Da farda fazia parte uma gravata encarnada, ao estilo dos escoteiros, presa com um alfinete em forma de bandeira vermelha, contendo um pequeno retrato de Lenine. Sem saber como, Iuri perdera o alfinete no caminho entre a escola e a casa, e quando à noite contara a Anatoli o sucedido, o pai ficara louco de raiva. Embriagado com quase um litro de vodca, espancara Iuri até o sangue manchar as calças da criança.

A maior parte das vezes, Nádia conseguia que as investidas noturnas alcoólicas do marido se concentrassem sobre ela. Regra geral, Nádia suportava estoicamente as pancadas e acutilantes injúrias de Anatoli. Depois postava-se em gesto de desafio entre o marido e os filhos, algumas noites com sangue a escorrer-lhe pelas faces. Anatoli continuava a gritar com ela, ameaçando-a com murros. Como ela não se movia e se mantinha em silêncio, ele agitava os punhos no ar, na direção dos filhos, e berrava que os mataria, se tomassem a fazer o que desencadeara essa crise. Então, cambaleava até ao único sofá da casa e desmaiava de tanto álcool e violência. A mesma cena repetia-se quase todas as noites, até Iuri entrar para o oitavo ano.

Em 1970, na véspera do Primeiro de Maio, o feriado nacional mais importante da União Soviética, Anatoli bebeu mais do que a sua dose normal de vodca. Com um mau humor pior do que habitualmente, trancou a porta, pôs a família na rua e entrou em coma alcoólico. Durante a noite, enquanto Nádia, Iuri e Iegor dormitavam nos bancos da cozinha comum a todo o prédio, Anatoli sufocou no próprio vômito. De manhã, encontraram-no morto, já com sinais de rigidez no corpo.

A vida tornou-se ainda mais difícil após a morte de Anatoli. A família foi obrigada a sair do apartamento de dois quartos no segundo andar e a mudar-se para um estúdio no último piso do edifício, onde fazia um frio de rachar no inverno e um calor sufocante no verão.

A maior dificuldade, porém, foi ficarem sem o salário de Anatoli, embora poupassem bastante em vodca.

Felizmente, Nádia foi promovida no ano seguinte, na fábrica de louças onde trabalhava desde que terminara o liceu, o que permitiu a Iuri continuar os estudos até ao décimo ano.

Infelizmente, com a idade, Iuri tornou-se um adolescente introvertido e belicoso, que se envolvia freqüentemente em brigas sempre que um dos colegas fazia troça dele. Na seqüência disso, os estudos ressentiram-se. As suas notas finais e os resultados dos exames não foram suficientes para poder entrar na universidade, como a mãe sonhara. Em vez disso, Iuri inscreveu-se num instituto politécnico da região e estudou para ser técnico de microbiologia. Tinham-lhe dito que havia uma procura cada vez maior nessa área, especialmente em Sverdiovsk. A favor de Iuri acrescia o fato de o governo ter aí construído um laboratório farmacêutico, para produzir vacinas destinadas a serem utilizadas em seres humanos e animais.

— Alguma vez voltou à Rússia desde que veio para os Estados Unidos? — perguntou a mulher estônia, depois de terem percorrido vários quarteirões em silêncio.

— Ainda não — disse Iuri, endireitando-se perante a idéia do seu iminente regresso.

Na verdade, já tinha inclusive reservado um vôo para Moscovo via Frankfurt, com partida do Aeroporto de Newark. Escolhera Newark, porque se situava a sudoeste de Manhattan. Tencionava partir assim que tivesse colocado a arma biológica em Central Park e não queria correr o risco de ir para o Aeroporto JK. Regra geral, o vento soprava de oeste para leste. A última coisa que queria era ser vítima do seu próprio atentado terrorista.

Obter o bilhete de avião não fora propriamente fácil. Iuri nunca chegara a arranjar um passaporte internacional russo e, embora tivesse um visto de residência atribuído pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras dos EUA, continuava desprovido de um passaporte norte-americano. Verdadeiro, isto é. Iuri tivera de comprar um passaporte falso, que não era de grande qualidade, pois precisava dele apenas para fazer a reserva da passagem. Como bom patriota que era, pensou que não seria difícil entrar na Rússia sem os documentos em ordem e não fazia tenções de regressar aos Estados Unidos.

— Eu e o meu marido fomos à Estônia no ano passado — disse a senhora. — Foi uma maravilha. As coisas estão a correr bem na zona do Báltico. Quem sabe um dia regressamos à nossa terra natal...

— A América não é o paraíso que finge ser perante o resto do mundo — criticou Iuri.

— Aqui, as pessoas têm de trabalhar muito — concordou a mulher — e é preciso ter cuidado. Ladrões é que não faltam para roubar o nosso dinheiro, como aqueles investidores e aqueles mentirosos que nos querem vender terrenos pantanosos na Florida.

Iuri acenou com a cabeça em sinal de acordo, embora, a seu ver, o verdadeiro ladrão fosse aquele a quem Curt Rogers chamava o GOS, Governo Ocupado pelos Sionistas. Não se referia apenas, metaforicamente, ao logro que era o "sonho americano"; o sentido de "ladrão" era literal. Os agentes do governo estavam sempre prontos a meter a mão no bolso de Iuri e a apropriar-se de cada cêntimo que ele ganhava. Se não eram os criminosos de Washington, eram os ladrões do governo estatal de Albany, ou os bandidos da Câmara Municipal de Manhattan. Segundo Curt, essa tributação excessiva era inconstitucional e, por conseguinte, violava a lei.

— Espero que consiga enviar dinheiro à sua família — prosseguiu a senhora, sem se aperceber do efeito que a conversa estava a produzir no motorista. — Eu e o meu marido fazemo-lo sempre que podemos.

—Não tenho família na minha terra — precipitou-se Iuri. — Estou por minha conta.

 — Sabia que não estava a ser cem por cento honesto. Tinha uma avó materna, alguns tios e tias, e uma série de primos em Lekaterimburgo, o atual nome de Sverdiovsk. Tinha ainda uma esposa gorda à sua espera em Brigliton Beach.

— Lamento — desculpou-se a senhora com um sentimento de compaixão estampado no rosto. — Não consigo imaginar como será não ter família. Talvez gostasse de passar os feriados conosco ...?

— Obrigado — respondeu Iuri. — É muito gentil da sua parte, mas estou bem...

Queria terminar a frase, mas sentiu-se engasgado. Hesitante, a sua memória recuou até 1979, o fatídico ano em que perdera a mãe e o irmão. Lembrou-se do dia 2 de abril, em particular.

O dia começara como qualquer outra jornada de trabalho, com o rouco despertador a arrancar Iuri das profundezas do sono. Às cinco da manhã era noite cerrada, uma vez que Sverdiovsk ficava aproximadamente à mesma latitude de Sitka, no Alasca. O inverno abrandara, mas a primavera ainda não tinha chegado. No interior do apartamento não se verificavam temperaturas negativas, como nas manhãs de fevereiro e março, mas, mesmo assim, o frio era intenso. Iuri vestiu-se às escuras sem acordar Nádia e Iegor, que só se levantavam às sete. Nádia continuava a trabalhar na fábrica de louça e Iegor estava no último ano do liceu, devendo terminar as aulas em junho.

Tomou um pequeno-almoço frio e frugal: pão duro e queijo, na cozinha comum do edifício, deserta àquela hora, e pôs-se a caminho da fábrica farmacêutica, em plena escuridão. Trabalhava na empresa a apenas dois anos, desde que acabara os estudos superiores, mas tivera tempo mais do que suficiente para se aperceber de que o laboratório não era o que parecia. Iuri não estava a fazer culturas microbiológicas para a produção de vacinas, como especificava o seu contrato. Embora na zona frontal do laboratório fossem, de fato, produzidas vacinas, Iuri trabalhava no interior das instalações, no espaço mais amplo da fábrica. As vacinas eram uma mera fachada para encobrir o que o KGB andava realmente a fazer. Na verdade, a fábrica de Sverdiovsk fazia parte do Biopreparat, o programa soviético de armas biológicas de destruição maciça. Iuri era apenas uma gota de água num oceano de cinqüenta e cinco mil trabalhadores espalhados por várias instituições em toda a União Soviética.

A fábrica era conhecida pelo inócuo nome de Complexo 19. No portão, Iuri deteve-se para mostrar o seu cartão de identificação. Sabia perfeitamente que o segurança da entrada era do KGB. Enquanto esperava pela aprovação, Iuri bateu com os pés no solo para combater o frio da madrugada. Não houve qualquer troca de palavras; era desnecessário. O guarda acenou com a cabeça, devolveu-lhe o cartão e Iuri entrou.

Iuri foi um dos primeiros funcionários do turno da manhã a chegar. A fábrica funcionava vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Cabia a Iuri, como empregado júnior, e a alguns dos seus colegas da mesma categoria, limpar toda a área interna, já que o pessoal encarregado da limpeza não tinha acesso ao local.

Nos vestiários, cumprimentou Alexis, o colega com quem partilhava um cacifo. Era demasiado cedo para conversas, especialmente porque nenhum dos dois tomara o primeiro café ou chá da manhã. Em silêncio, eles e outros dois companheiros vestiram os fatos de isolamento e ligaram os sistemas de filtração do ar. Não se deram sequer ao trabalho de olhar uns para os outros através das máscaras de plástico, enquanto se preparavam.

Devidamente apetrechado, o grupo postou-se junto da cabina de pressurização, até a porta se abrir automaticamente. Nenhum deles tentou meter conversa, enquanto a pressão descia na antecâmara. Quando a porta interior se abriu, dirigiram-se, calados, para os seus respectivos postos. Deslocavam-se lentamente nos seus fatos pesados, caminhando com as pernas rígidas, mais parecendo robôs futuristas do que seres humanos.

O início monótono de cada turno obedecia a uma rotina coreografada que não se alterava de semana para semana, nem de mês para mês, e aquela manhã em concreto, a manhã do dia 2 de abril de 1979, parecia igual a todas as outras. Mas não era. Os quatro jovens a caminho dos seus postos desconheciam a existência de um grave problema. Nenhum deles teve a mais pequena percepção da calamidade que estava prestes a rebentar.

A fábrica de Sverdiovsk lidava fundamentalmente com dois micróbios: Baciflus anthracis e Gostridium botulinum. As armas biológicas eram feitas a partir dos esporos do primeiro e da toxina cristalizada do segundo. O objetivo da fábrica era produzir a maior quantidade possível de ambos.

Quando Iuri começara a trabalhar no Complexo 19, passara por várias estações de trabalho, para se familiarizar com o funcionamento geral da fábrica. No final do primeiro mês de rotatividade, fora destacado para o departamento de antraz. Nesses dois anos na fábrica, trabalhou na linha de produção, onde as culturas líquidas saídas de gigantescos fermentadores eram secadas e depois moídas, para fazer um pó de esporos de antraz puro. A tarefa específica de Iuri era monitorizar as trituradoras.

As trituradoras eram tambores giratórios de aço, que continham esferas também elas de aço. Cuidadosos testes efetuados em animais, numa outra área da fábrica, concluíram que, para serem mais eficazes e letais, as partículas de pó deveriam ter cinco micra. Para obter essas dimensões, as trituradoras giravam a uma dada velocidade com esferas de aço específicas e durante um período de tempo predeterminado.

Normalmente, as trituradoras eram desativadas durante a noite, para uma manutenção de rotina. O processo de desativação era efetuado pelo supervisor do turno da noite. Os secadores, por seu lado, não eram desligados, funcionando assim continuamente, de forma a produzir uma grande quantidade de pequenas porções de massa acastanhada, que o turno do dia transformaria em pó. Era mais demorado secar essas porções do que moê-las.

Como habitualmente, Iuri começou por lavar o chão à volta das trituradoras com uma mangueira de alta pressão e água com elevado teor de cloro. Apesar de serem unidades estanques, costumavam escapar ínfimas quantidades de pó, especialmente se o contentor tivesse sido aberto para manutenção. Dado que uma quantidade microscópica era suficiente para matar uma pessoa, a limpeza diária era obrigatória, apesar de ninguém se aproximar do equipamento sem os fatos de isolamento devidamente vestidos.

No início, Iuri ficara aterrorizado por trabalhar num ambiente onde um agente mortífero era manipulado, mas, ao cabo de uns meses, habituara-se à idéia. Naquela manhã do dia 2 de abril, nem lhe passou pela cabeça preocupar-se com a sua segurança. Iuri era como Ivan Denisovich, o herói do romance de Soijenitsyrie, demonstrando uma vez mais, que os seres humanos têm uma extraordinária capacidade de adaptação.

Depois de terminar a limpeza, Iuri girou a enorme manivela que enrolava a mangueira. O esforço fez com que a sua testa ficasse orlada de gotas de suor. Bastava um gesto um pouco mais intenso para transformar o fato de isolamento numa sauna ambulante.

Arrumado o equipamento de limpeza, Iuri dirigiu-se para a sala de controlo e fechou a porta. A sala estava separada da trituradora por uma barreira de vidro. Quando a unidade entrava em funcionamento, o ruído era ensurdecedor, desagradável e, regra geral, enervante.

Iuri sentou-se diante do painel de controlos principal e inspeccionou os botões e interruptores. Estava tudo em ordem para começar a trabalhar. Concentrou-se, então, no livro de registro, pensando ansiosamente na pausa das nove horas. Era um dos seus momentos preferidos do dia, apesar de durar apenas meia hora. Quase conseguia sentir na boca o gostinho a pão e café acabado de fazer.

Com a mão enluvada, Iuri passou os dedos por cada coluna de dados, para se certificar de que as trituradoras tinham funcionado corretamente durante o último turno. Todas pareciam estar em ordem, até que chegou à coluna correspondente à leitura da pressão negativa do ar no interior da unidade. Enquanto perscrutava a página, reparou que a pressão subira lentamente ao longo do turno. Não ficou preocupado, porque o aumento era ligeiro e os números tinham-se mantido dentro dos parâmetros aceitáveis.

Olhou para a parte inferior da folha, onde o supervisor de turno fizera um resumo dos acontecimentos do dia. A leve subida da pressão fora devidamente anotada e a manutenção chamada para verificar a ocorrência. Por baixo dessa nota, os técnicos da manutenção tinham inserido um comentário, registrado às duas da manhã. Dizia simplesmente que a unidade fora vistoriada e que a causa do aumento da pressão fora detectada e retificada.

Iuri abanou a cabeça. O comentário da manutenção era estranho, porque não explicava qual fora a causa. No entanto, parecia não ter importância. Os dados haviam se mantido dentro da normalidade. Encolheu os ombros, pensando que não lhe competia preocupar-se com a falta de explicações da manutenção, já que o problema, fosse ele qual fosse, tinha sido retificado.

Quando considerou que tudo estava em ordem, pegou no telefone e ligou ao supervisor do turno de dia, Vladimir Guergiyev. Olhou para o relógio: eram quase sete horas e daí a pouco a sua mãe e o seu irmão levantar-se-iam.

— As trituradoras estão a postos, camarada Guergiyev — informou Iuri.

— Inicie a operação — ordenou Vladimir secamente, antes de desligar.

Iuri tencionava falar-lhe na estranha anotação que encontrara no livro de registro, mas a brusquidão do supervisor fê-lo mudar de idéias. Pousou o auscultador, mas, por breves instantes, pensou em telefonar-lhe de novo. Infelizmente, o caráter agressivo de Vladimir não incentivava esse tipo de espontaneidade. Iuri resolveu esquecer o assunto.

Ignorando por completo as terríveis conseqüências que daí adviriam, Iuri carregou no botão que colocava as trituradoras em funcionamento. Quase de imediato, o ruído desagradável das máquinas invadiu a sala de controlo. Assim começava a produção letal de antraz desse dia.

O sistema era automático. As porções de esporos secos eram transportadas por um mecanismo interno e despejadas nos tambores giratórios das trituradoras. Depois de moídas pelas esferas de aço, saíam pela base dos tambores sob a forma de um pó fininho, que era guardado em embalagens estanques, cujo exterior era, então, desinfetado. As embalagens prontas podiam, em seguida, ser colocadas em armas ou em ogivas de mísseis.

Iuri olhou imediatamente para os níveis da pressão interna. Assim que a unidade começou a funcionar, a pressão desceu automaticamente. Se alguma dúvida persistia por causa da estranha anotação do livro de registro, dissipou-se quando Iuri verificou que a pressão continuava a descer, regularizando o nível ligeiramente elevado de quando estivera desligada. Era óbvio que a manutenção retificara, de fato, o problema, como se podia ler no livro.

Iuri inspeccionou os restantes botões e instrumentos de leitura. Encontravam-se todos contidos nas suas respectivas áreas verdes, que indicavam o grau de segurança. Pegou numa caneta e começou a descrever o início do turno da manhã do dia 2 de abril, copiando cada dado na devida coluna. Quando chegou ao indicador de pressão interna, detectou algo que o surpreendeu. A pressão tinha continuado a descer e estava mais baixa que nunca, colada ao fundo da escala.

Iuri debruçou-se sobre o painel e deu uma pancada no instrumento com o nó do indicador da sua mão direita, para ver se a agulha do antiquado equipamento não estaria presa, mas ela nem se mexeu.

Iuri não sabia o que fazer, ou sequer se devia fazer alguma coisa. Não havia um limite mínimo de segurança para a pressão interna, apenas um limite máximo. O objetivo era manter o pó sujeito a uma constante corrente de ar, que entrava na máquina vinda do exterior. Por conseguinte, o fato de a pressão ser mais baixa do que habitualmente não fazia diferença, aliás, significava que o sistema funcionaria com maior eficácia.

Iuri tornou a olhar para o telefone e pensou em ligar ao supervisor, mas, uma vez mais, decidiu não o fazer. Vladimir já o repreendera por ele o incomodar com problemas que considerava supérfluos. Iuri não fazia tenção de ouvir outra descompostura. Vladimir não gostava de ser incomodado por causa de pormenores irrelevantes; era um homem muito ocupado.

Às oito horas, Iuri imaginou a mãe a caminho da fábrica de louça, situada a sudeste do Complexo 19. Nádia dizia que se lembrava de Iuri sempre que passava à frente do laboratório farmacêutico. Iuri nunca lhe contara que espécie de trabalho fazia, pois seria um risco demasiado grande para ambos.

O tempo arrastava-se. Iuri estava ansioso pelo intervalo das nove. Quando faltavam apenas quinze minutos, recomeçou a inscrever anotações no livro de registro. Quando os seus olhos recaíram no indicador da pressão interna, tornou a hesitar. A agulha não se movera da sua posição no fundo da escala.

Enquanto fitava o painel, Iuri sentiu uma angústia no peito. De repente, passou-lhe pela mente um pensamento aterrador.

Pelo amor de Deus, tomara que eu esteja errado! Rezou Iuri. Movido por instinto, inclinou-se e carregou no botão encarnado que dizia "Stop". A cacofonia que imperava na sala, originada pelas esferas de aço a bater dentro dos cilindros, deteve-se. Os ouvidos de Iuri zumbiam.

Tremendo de medo pelo que poderia encontrar, Iuri abriu a porta da sala de controlo. Atrás de si, ouviu o telefone a tocar. Em vez de atender, encaminhou-se para a extremidade da trituradora. A sua respiração era tão ofegante que o visor do capuz estava a ficar embaciado. Abrandou o passo quando se aproximou de uma série de portas verticais construídas na blindagem da máquina. Cada porta tinha vinte centímetros de largura por noventa de altura.

A mão de Iuri tremia, quando a esticou para destrancar uma das portas. Hesitou por uma fração de segundo antes de abri-la.

— Bliad! — exclamou, horrorizado. O compartimento estava vazio! Sem perder tempo, abriu cada uma das restantes portas. Todos os compartimentos estavam vazios. Nenhum dos filtros HEPA estava no sítio! Durante duas horas, o sistema estivera a deixar passar o ar para o exterior sem qualquer proteção.

Iuri recuou aos tropeções. Era uma catástrofe. Só então teve consciência de que o telefone continuava a tocar ininterruptamente. Sabia quem era: o supervisor de turno a perguntar por que motivo parara a trituradora.

Iuri correu para a sala de controlo, ao mesmo tempo que tentava calcular quantos gramas de antraz manipulado teriam atingido a pacata cidade, que ignorava ainda o seu destino. Quando se dirigira para a fábrica nessa madrugada, o vento soprava moderadamente de noroeste, o que significava que os esporos teriam sido transportados para sudeste, na direção do principal complexo militar. Mas, acima de tudo, iam no sentido da fábrica de louça!...

— É a quarta casa à direita — disse a estônia, arrancando Iuri ao seu pesadelo. Os dedos da mulher enfiaram-se pela divisória de plexiglás e apontaram para um lanço de degraus brancos.

Iuri apercebeu-se de que estava a transpirar copiosamente e sentia o rosto a ferver. Fora obrigado a recordar um acontecimento no qual, diariamente, evitava pensar. Passados vinte anos, a memória daquele dia terrível continuava a ter um efeito tão forte como se o estivesse a reviver.

A estônia pagou a corrida, antes de descer do táxi. Tentou dar uma gorjeta a Iuri, mas ele recusou-se a aceitar. Agradeceu-lhe a generosidade e o convite para passar os feriados com ela. Receava que ela visse o seu rosto transpirado e vermelho, pois poderia pensar que Iuri estava a ter um ataque cardíaco.

Enquanto a senhora subia os degraus de casa, Iuri ligou o sinal de "fora de serviço". Encostou o carro na berma, junto de uma boca de incêndio. Necessitava de recuperar o fôlego por uns instantes. Esticou a mão por baixo do banco e retirou a sua garrafinha de vodca. Depois de certificar-se de que ninguém o observava, bebeu um curto e revigorante gole, deixando o líquido deslizar pela garganta. A sensação era deliciosa e relaxante. A esmagadora ansiedade que o invadira minutos antes abrandou. Limpou a boca com as costas da mão.

As conseqüências das trituradoras terem estado a funcionar sem os filtros HEPA foram piores do que Iuri imaginara. Como ele temia, uma nuvem invisível de esporos de antraz deslocara-se para a zona sul da cidade, onde se situava o maior complexo militar e a fábrica de louça, Centenas de pessoas adoeceram por terem inalado antraz e a maior parte acabou por morrer, Entre as vítimas encontrava-se Nádia.

Os seus primeiros sintomas foram febre e dores no peito. Iuri adivinhou de imediato o que se passava, mas tinha esperança de que o seu palpite estivesse errado. Enquanto a mãe agonizava, Iuri guardou para si o terrível segredo. Nádia foi levada para um hospital especial e colocada numa ala à parte, com outros doentes que apresentavam os mesmos sintomas. O grupo incluía vários militares. A evolução da doença foi fulminante. Vinte e quatro horas depois, Nádia estava morta.

O KGB lançou, de imediato, uma campanha de contra-informação, afirmando que o problema fora originado por carcaças de gado contaminadas provenientes da fábrica de carne de Aramil. As famílias das vítimas não puderam reclamar os corpos dos seus entes queridos, pois todos os mortos foram enterrados em sepulturas profundas, numa parte remota do principal cemitério da cidade.

O sofrimento de Iuri foi terrível, mas não só por causa do trauma emocional provocado pela perda da mãe mas também pelo seu enorme sentimento de culpa, por saber que estava implicado naquela morte. Sendo o funcionário mais novo envolvido na calamidade, Iuri foi o bode expiatório escolhido. Embora o inquérito oficial que se seguiu sugerisse que grande parte da responsabilidade recaía sobre os funcionários da manutenção do turno da noite, e sobre o supervisor que não substituíra os filtros entupidos e se esquecera de registrar que os tinha retirado, foi Iuri quem assumiu o grosso da culpa. Teoricamente, deveria verificar se os filtros estavam no seu devido lugar antes de começar a operação, mas, como os filtros duravam meses e raramente eram trocados, ninguém os inspeccionava a título diário, e Iuri não fora industriado nesse sentido pelo seu supervisor, durante o período de formação.

Por questões de segurança nacional e do obrigatório secretismo, Iuri foi detido durante uns tempos numa prisão militar, em vez de numa cadeia normal, antes de ser enviado para a Sibéria. Aí, acabou por trabalhar noutra fábrica do Biopreparat, chamada Vector, localizada numa cidade que dava pelo nome de Novossibirsk. Embora a Vector fosse conhecida essencialmente pela produção de vírus destinados a armas biológicas, nos quais se incluía o vírus da varíola, Iuri foi destacado para uma pequena equipa, cuja missão era aperfeiçoar a eficácia do antraz e da toxina botulínica.

Quanto ao seu irmão Iegor, Iuri nunca mais o vira. Não fora infectado pela nuvem de antraz, mas não lhe tinha sido dada autorização para visitar Iuri, quer na cadeia militar, quer mais tarde na Sibéria. Depois de terminar os estudos em Junho, Iegor foi para a tropa. Em dezembro de 1979, enviaram-no para o Afeganistão, onde foi uma das primeiras baixas do pelotão invasor.

Iuri suspirou. Não gostava de recordar as suas desgraças passadas. Faziam-no sentir ansioso e descontrolado. Furtivamente, os seus olhos tornaram a perscrutar a vizinhança através do pára-brisas e dos espelhos retrovisores do táxi. Havia alguns transeuntes na rua, mas nenhum prestou atenção a Iuri. Engoliu mais um trago de vodca e tornou a guardar a garrafa, agora vazia, debaixo do banco. Uma vez mais, bebera a vodca toda antes de o dia chegar ao fim.

Como a sensação de ansiedade persistia, Iuri abriu a porta do automóvel e saiu, mas não se afastou do táxi. Limitou-se a espreguiçar-se e a esticar o corpo para um lado e depois para o outro, a fim de aliviar o desconforto crônico que lhe afetava as costas por passar o dia todo sentado. Inspirou fundo várias vezes, Ligeiramente mais calmo, voltou a entrar no carro. Estava prestes a ligar o sinal de serviço, quando percebeu que não se encontrava muito longe de Walker Street e da Firma de Tapetes Coríntios. Precisado de uma distração, decidiu fazer uma visita ao local. Sentir-se-ia muito melhor, se tivesse notícias positivas sobre o comerciante de tapetes.

Às três e meia, o trânsito urbano começava a coagular como acontecia sempre pouco antes da hora de ponta. Iuri demorou mais tempo do que pensara a chegar à Broadway, especialmente na zona de Canal Street. Lutando contra a impaciência, conseguiu por fim virar para a relativamente pacata Walker Strect.

Quando se aproximou da Firma de Tapetes Coríntios, esperava ver o escritório fechado como anteriormente. Estava disposto a encarar esse fato como mais uma prova de que Jason Papparis fora infectado pela bactéria e que, ou estava morto, ou encontrava-se às portas da morte. A dúvida que subsistia na mente de Iuri era se deveria ou não arriscar voltar à loja de filatelia e tornar a fazer perguntas. Mas, para sua surpresa e consternação, a porta da loja de tapetes encontrava-se aberta de par em par e as luzes estavam acesas.

Consternado, Iuri pôs o pé no travão e abrandou o automóvel, para tentar vislumbrar o interior da loja enquanto passava à frente da porta. De repente, viu Jason Papparis de pé diante de um dos arquivadores!

— O Góspodi! — murmurou Iuri entre dentes, apesar do seu ateísmo.

Parou o carro numa zona de cargas e descargas e virou-se no banco, para observar a porta aberta da firma de tapetes. Que diabo teria corrido mal? O pó tinha forçosamente de ser eficaz, porque usara todas as técnicas que ele e a sua equipa haviam desenvolvido na Vector. Nos mais de dez anos que trabalhara nas instalações da Sibéria, Iuri e os seus colegas tinham conseguido aumentar em quase dez vezes a eficácia do antraz manipulado. Esse aumento devia-se, em grande parte, a meros aditivos que maximizavam a suspensão e difusão das partículas no ar, embora se devesse também à forma como as culturas eram efetuadas. Iuri servira-se da mesmíssima técnica para conceber a sua atual arma.

Passou a mão pelo cabelo. Talvez a carta se tivesse extraviado ou sido entregue à pessoa errada. Ou talvez um funcionário dos correios a tivesse aberto, movido pela curiosidade. Iuri perguntou-se se não deveria ter utilizado um meio diferente para infectar Jason Papparis. Na altura em que lhe ocorrera a idéia da carta, parecera-lhe um plano perfeito.

Saiu do automóvel. Deixou os quatro piscas ligados e atravessou a rua a correr, desviando-se de uma bicicleta de montanha presa com cadeado a um sinal de "proibido estacionar” e passou pela loja de selos. Assim que se aproximou da montra da loja de tapetes, espreitou lá para dentro. Não havia sinais de Jason. Ambas as portas que avistava ao fundo do escritório estavam fechadas.

Depois de verificar que não havia nenhum fiscal dos parquímetros ou polícias por perto, Iuri encaminhou-se para a porta aberta. Hesitou por uns instantes, sem saber o que fazer. Um confuso sentimento de curiosidade impeliu-o a entrar. Precisava de falar com o comerciante de tapetes.

— Alguém chamou um táxi? — perguntou Iuri, numa voz débil e insegura.

Um vulto surgiu por detrás da secretária que servia de suporte à fotocopiadora e ao fax, segurando um maço de papéis na mão. Para espanto de Iuri, o homem envergava uma máscara cirúrgica, um capuz e uma bata. A imagem foi tão inesperada que Iuri recuou e saiu porta fora.

— Espere! — chamou Jack. Atirou os papeis que tinha na mão para cima da secretária e correu atrás do motorista de táxi. Apanhou-o já no passeio.

— Chamou um táxi, Mister Papparis? — perguntou Iuri, lançando um olhar na direção do automóvel parado. Só queria sair dali o mais depressa possível.

— Não sou Mister Papparis — informou Jack.

Descalçou as luvas de borracha e procurou a custo, por baixo da bata, o seu distintivo de médico legista. Mostrou-o a Iuri, que deu mais um passo atrás, pensando que era um distintivo da polícia.

— O meu nome é Jack Stapleton. Sou médico legista — apresentou-se. Guardou a carteira e tirou a máscara. — Conhecia bem Mister Papparis? Ele costumava usar os seus serviços com regularidade?

— Sou apenas um motorista de táxi — disse Iuri, num fio de voz. Não sabia ao certo o que era um médico legista, mas, perante aquele cartão oficial, era óbvio que trabalhava para o governo,

— Conhecia bem Mister Papparis? — insistiu Jack.

— Nem sequer o conhecia; nunca o transportei.

— Então, como sabia o nome dele?

— Recebi uma chamada para vir buscar um tal Mister Papparis,

— Hum, muito interessante... — comentou Jack.

Iuri sentia-se profundamente desconfortável. Não gostava de lidar com funcionários do Estado. Além disso, o indivíduo parecia-lhe levemente familiar, o que agravava ainda mais o seu desconforto. E, para cúmulo, fixava-o com um olhar curioso, quase desconfiado.

— Tem a certeza de que recebeu uma chamada de um Mister Papparis da Walker Strect? — perguntou Jack. — Mister Papparis da Firma de Tapetes Coríntios?

— Creio que foi isso que me disseram da central.

— Custa-me a acreditar — disse Jack. — Mister Papparis morreu durante o fim-de-semana.

— Ah! — exclamou Iuri. Tossiu nervosamente, enquanto tentava inventar uma explicação plausível, mas não lhe ocorreu nenhuma.

— Talvez ele tenha telefonado na semana passada? — sugeriu Jack.

— Pode ter sido.

— Penso que devíamos ligar para a central de táxis — disse Jack. — Precisamos de saber se Mister Papparis era um cliente regular. É que ele morreu com uma doença infecciosa rara, que estou ansioso por investigar. Toda e qualquer informação que eu conseguir obter sobre os afazeres de Mister Papparis na semana passada pode ser extremamente importante. Precisava de saber, em concreto, se ele esteve no armazém, em Queens. Também me interessam os contactos que ele teve, em especial na semana que passou e, mais especificamente, na sexta-feira.

—Posso dar-lhe o número da central — disse Iuri.

— Ótimo. Deixe-me só arranjar papel e caneta.

Enquanto Jack voltava a entrar no escritório da firma de tapetes, Iuri suspirou de alívio. Por instantes, pensara que tinha feito uma asneira das grandes por ter ido à loja. Agora, sabia que não havia qualquer problema. A central não ia dar informações. Nunca o fazia, especialmente se fosse sobre os táxis amarelos.

Jack regressou num minuto e apontou o número de telefone.

— De que tipo de doença morreu Mister Papparis? — perguntou Iuri, curioso por saber quais as suspeitas ou conclusões das autoridades.

— De uma doença chamada antraz.

— Já ouvi falar — disse Iuri. — É uma doença que afeta essencialmente o gado.

— Que surpresa! Como é que sabe isso?

— Vi alguns casos quando era miúdo — explicou Iuri. — Nasci na União Soviética, numa cidade chamada Sverdiovsk. Nas zonas rurais em redor do centro urbano, ocasionalmente algumas vacas e ovelhas ficavam infectadas.

— Já ouvi falar de Sverdiovsk — disse Jack. — Aliás, hoje mesmo. Li numa revista médica que houve uma fuga de antraz em Sverdiovsk, proveniente de uma fábrica secreta de armas biológicas.

               Iuri quase se engasgou, aturdido com o comentário casual de Jack. Foi completamente inesperado, especialmente por, pouco tempo antes, Iuri ter estado a torturar-se com a memória dessa calamidade.

             — Ouviu falar nesse incidente? — perguntou Jack. — Segundo consta, houve muita gente contaminada e várias mortes.

— Nunca ouvi dizer nada — respondeu Iuri, pigarreando.

— Não é de estranhar — comentou Jack. — Penso que o governo soviético não queria que se soubesse do caso. Durante anos, as autoridades tentaram convencer a população de que a origem da doença fora carne contaminada.

— Lembro-me de histórias sobre carne contaminada, sim — confirmou Iuri a custo.

— O incidente a que me refiro ocorreu em mil novecentos e setenta e nove — explicou Jack. — Vivia em Sverdiovsk nessa época?

— Creio que sim — respondeu Iuri em tom vago.

Sentiu que estava a tremer. Assim que pôde, despediu-—se de Jack e disparou em direção ao carro. Enquanto ligava o motor, olhou para trás. Jack estava entretido a colocar de novo a máscara e as luvas. Felizmente, não se pôs a tirar a matrícula de Iuri.

Iuri meteu a primeira e arrancou. A sua euforia fora sol de pouca dura. O pânico invadira—o uma vez mais. Embora a morte de Jason Papparis confirmasse a eficácia do antraz, Iuri estava preocupado por um funcionário do Estado andar a investigar o caso no local do crime, especialmente depois de ter estabelecido a ligação entre o antraz e a sua utilização como arma biológica. Iuri tivera o cuidado de infectar uma pessoa que pudesse ter apanhado a doença através da sua profissão. Esse fato seria suficiente para encerrar as investigações.

Apesar de angustiado, desligou o sinal de "fora de serviço". A hora de ponta era o horário nobre dos motoristas de táxi, desde que o trânsito não engarrafasse por completo. Iuri necessitava de dinheiro. Tinha de trabalhar, por isso arranjou um cliente pouco depois.

Durante a hora que se seguiu, fez pequenas corridas na zona de Manhattan e em vários pontos da cidade. Nenhum dos clientes o incomodou muito, ao contrário do trânsito. Preocupado e inquieto, sentia-se prestes a perder a paciência. Depois de vários pequenos incidentes, especialmente um na Terceira Avenida com a Rua 55, Iuri decidiu desistir. Quando o cliente chegou ao destino e saiu do táxi, deu o dia por terminado. Ligou o sinal de "fora de serviço" e conduziu até casa, em Brigliton Beach. Passava um pouco das cinco da tarde, o seu dia mais curto desde que tivera uma crise de gripe, há seis meses. Mas não fazia mal. Precisava simplesmente de um copo de vodca; a sua garrafinha chegara ao fim.

Durante a travessia da Ponte de Brooklyn, que parecia nunca mais acabar devido a um engarrafamento, Iuri torturou-se por causa do seu encontro com Jack Stapleton. Não conseguia entender o que estava por detrás do médico. O que o preocupava em particular era a eventualidade de Jack ter encontrado algum vestígio da carta dos Serviços de Limpeza A.C.M.E, se não mesmo a própria carta. Iuri não fazia a mínima idéia de que fim ela levara. Partira do princípio de que a carta iria parar ao lixo, como toda a correspondência publicitária. Mas, agora que Jack andava a bisbilhotar o local do crime, já não tinha tantas certezas.

A sul de Prospect Park, Iuri parou numa loja de bebidas alcoólicas para comprar uma garrafa de vodca. Mais tarde, em Ocean Parkway, com a garrafa escondida num saco de papel castanho, bebeu uns tragos enquanto estava parado num semáforo. Sentiu-se consideravelmente mais calmo.

Quando entrou na zona de Brigliton Beach e todos os sinais começaram a aparecer em alfabeto cirílico, a ansiedade de Iuri abrandou um pouco. Os caracteres tão familiares davam-lhe uma sensação de nostalgia. Iuri sentia-se como se já tivesse regressado à mãe Rússia. A calma devolveu-lhe a capacidade de raciocínio c a primeira coisa que lhe veio à mente foi que talvez devessem antecipar a data da Operação Glutão.

Pensando com os seus botões, Iuri acenou com a cabeça ao virar para a sua rua. Não havia qualquer dúvida de que antecipar a data seria vantajoso em termos de segurança. Não que ele estivesse com medo de ser apanhado; não queria, simplesmente, que suspeitassem dos seus planos. Para ser verdadeiramente eficaz, uma arma biológica devia ser lançada sem qualquer aviso prévio. Porém, antecipar a data não era tarefa fácil, pois acarretava dois grandes problemas.

O primeiro era que Iuri ainda tinha de testar a toxina botulínica, embora estivesse mais seguro da sua toxicidade do que se sentira em relação à patogenia do pó de antraz. O outro obstáculo era a produção. Queria produzir, pelo menos, um ou dois quilogramas de bacilo botulínico cristalizado. Não fazia diferença qual o agente que iria utilizar em Central Park e qual o que Curt usaria no edifício Federal Jacob Javits, pois tinha a certeza de que ambos seriam igualmente eficazes. A produção de antraz não suscitava problemas, pois já dispunha praticamente da quantidade necessária, mas o mesmo não se passava em relação à toxina botulínica. Andava a ter dificuldades com as culturas de Clostridium botulinum, que não estavam a desenvolver-se como queria, nem como previra.

Iuri abrandou quando se aproximou da sua casa, situada num amontoado de pequenas edificações, construídas nos anos vinte como residências de verão. Tinham, todas elas, estruturas de madeira e pequenos quintais com relvados minúsculos rodeados por sebes.

A casa de Iuri era uma das maiores e, ao contrário da maioria, contava com uma garagem onde cabiam dois automóveis. Iuri alugara a casa a um indivíduo que se mudara para a Florida, mas que não queria desfazer-se do seu pequeno imóvel em Brooklyn.

O portão da garagem rangeu ruidosamente quando Iuri o içou. O interior estava praticamente vazio, ao invés das outras garagens do bairro, que serviam, não para guardar carros, mas para empilhar todo o tipo de tralha até ao teto. O chão da garagem de Iuri estava manchado de óleo, dos veículos que por ela haviam passado nos últimos cinqüenta anos. Pairava no ar o cheiro bafiento à gasolina e tubo de escape. A um canto, via-se uma pequena coleção de ferramentas de jardinagem, incluindo um velho aparador de relva manual, encostado a uma parede. No lado oposto, encontravam-se um carrinho de mão, alguns pedaços de lenha que tinham sobrado e uma pilha de madeira.

Deixando o automóvel em segurança na garagem, Iuri pegou na garrafinha vazia e na já meio bebida garrafa de vodca e dirigiu-se para casa. Meteu a chave na fechadura da porta das traseiras, mas para surpresa sua, estava destrancada. Abriu-a e espreitou, desconfiado.

A casa de Iuri já fora assaltada uma vez, poucos meses depois de a ter alugado. Chegara por volta das nove horas e encontrara tudo de pantanas. Os ladrões, porventura irritados por não terem encontrado nada de valor, despejaram toda a sua frustração destruindo a parca mobília de Iuri.

Iuri pôs-se à escuta e ouviu a televisão no quarto de Connie. Foi então que reparou na carteira da mulher em cima da mesa de fórmica da cozinha, juntamente com os restos de uma embalagem de um dos take-aways da vizinhança.

Iuri estava casado há quase quatro anos, Conhecera Connie quando começara a trabalhar como motorista para a empresa de radiotáxis, e antes de ser proprietário do seu próprio veículo. Na época, sentia-se desesperado. O seu visto estava prestes a expirar. O casamento com uma cidadã norte-americana pareceu-lhe a única opção.

Connie era uma mulher africano-americana, na casa dos vinte, que aproveitara a chegada do russo para namoriscar com ele e quebrar o tédio da sua vida. Fez de tudo para lhe agradar, incluindo servir-se do seu cargo na central de táxis para assegurar trabalho regular a Iuri.

No início, Iuri sentira-se atraído por Connie, independentemente da sua necessidade de obter um visto de residência. Quando ainda era jovem, na União Soviética, adorava jazz, que associava aos negros norte-americanos. Travar conhecimento com um membro dessa nobre raça era uma aventura. Enquanto vivia em Sverdiovsk, nunca se cruzara com um negro, mas vira-os na televisão, em especial nos programas desportivos, e ficara francamente impressionado.

As atenções de Connie foram recebidas com um entusiasmo ainda maior, dado o sentimento de solidão que assolava Iuri. A comunidade judaica russa de Brigliton Beach, onde fora aconselhado a procurar casa, ignorava-o. Iuri e Connie começaram a sair juntos e a freqüentar bares onde tocavam bandas de jazz, quer em Manhattan, onde Connie vivia, quer em Brooklyn, perto da casa de Iuri. Nessa mesma época, Iuri apercebeu-se do racismo americano, que inicialmente o deixara perplexo, já que pensava que os africano-americanos seriam louvados pelo seu rico contributo cultural. Nunca antes ouvira o termo "preto", até ser acossado na rua em várias ocasiões por estar na companhia de Connie. Surpreendera-o também o fato de os familiares de Connie, em especial o irmão Flash e os amigos, não gostarem dele. Chamavam-lhe "branquelo", que veio a saber ser tão depreciativo como "preto".

Para Iuri, o casamento veio resolver tanto a questão do visto de residência, como o problema da solidão, pelo menos no início. Infelizmente, em breve descobriu que Connie não fazia tenções de ser o tipo de mulher que Iuri esperava, de acordo com os parâmetros da sua educação russa. Não mostrava qualquer espécie de interesse pelas tarefas domésticas e queria jantar fora todas as noites como haviam feito durante o seu curto namoro. Quando a ascensão de Iuri na escala social atingiu um impasse, dado que não podia servir-se dos seus conhecimentos de microbiologia, a menos que investisse seriamente num novo curso universitário, e quando percebeu finalmente que não podia abandonar o emprego de motorista de táxi, a sua tolerância para com o estilo de vida de Connie desvaneceu-se. Se não fosse o medo de perder o visto de residência, Iuri tê-la-ia posto na rua.

A paixão de Connie esmoreceu em igual medida. A princípio, vira Iuri como uma figura romântica vinda de uma terra distante para salvá-la da sua vida monótona. Mas, pouco tempo depois do casamento, Iuri desistira de sair e a única coisa que fazia, quando não estava a trabalhar, era beber vodca e consumir televisão. E, mais tarde, tornara-se violento. Nunca nenhum homem batera em Connie. Após o primeiro incidente, teve vontade de fazer as malas e sair de casa, mas não tinha para onde ir. Havia cortado todos os laços com a família, quando casara com Iuri contra a vontade dos pais. O orgulho não a deixava voltar para a casa paterna.

A maneira de Connie lidar com a infelicidade era comer. Afogava as mágoas num copo enorme de gelado, num pacote de batatas fritas ou num Big Mac, e fazia-o com freqüência. Com uma alimentação excessiva e uma vida sedentária, Connie começou a engordar a olhos vistos. Quanto mais Iuri bebia, mais Connie atacava o frigorífico.

À medida que se iam tornando prisioneiros dos seus respectivos vícios, a hostilidade entre ambos agravou-se. Iuri e Connie viviam na mesma casa, mas ignoravam a presença um do outro, exceto quando a inevitável proximidade desencadeava uma discussão. Essa troca estereotipada de agressões verbais transformava-se rapidamente em violência física e, nesses momentos, Connie era quem mais sofria.

O padrão quebrou-se quando Iuri conheceu Curt Rogers; e Steve Henderson. Não falou a Connie dos seus novos amigos, mas na seqüência dessa relação começou a passar a maior parte do seu tempo fora de casa. Curt e Steve nunca iam a Brigliton Beach. Iuri deslocava-se sempre até Bensonhurst, para se encontrar com eles. Connie convenceu-se de que Iuri tinha uma amante, crença essa que esteve na origem de várias brigas e agressões intermináveis.

De repente, de um dia para o outro, Iuri adquiriu o hábito de trancar-se na cave durante horas a fio. Nos primeiros tempos, pôs-se a martelar e a serrar com tal ruído e afinco que quase levou Connie à loucura. Sempre que ela perguntava o que andava a construir, Iuri respondia-lhe que não era da sua conta. Depois, começou a trazer vários tipos de equipamento, entre os quais Connie identificou umas potentes ventoinhas e uns grandes tambores de aço inoxidável, transportados por jovens de cabeça rapada, membros da escumalha branca. Connie tinha pavor deles e escondia-se sempre que apareciam.

Por mais do que uma vez, Connie exigiu saber o que se passava na cave, à qual também tinha direito, mas Iuri recusava-se a falar sobre o assunto. Connie pensou que Iuri andava a construir uma destilaria para produzir vodca. Quando lhe perguntou se era esse o segredo, Iuri atirou-se a ela e apertou-lhe o pescoço com as duas mãos.

— É uma destilaria, sim — rosnou Iuri. — Mas se contares a alguém, juro que te mato! E se algum dia fores bisbilhotar a cave, dou-te uma carga de pancada até ficares roxa. Estás proibida de ir lá baixo!

Connie tentou em vão libertar-se das mãos de Iuri, agarrando nos braços dele com toda a sua força, mas de nada serviu. Regra geral, quando se enfurecia, Iuri limitava-se a dar-lhe uns murros e nada mais. Mas dessa vez era diferente. Os olhos negros de Iuri perfuravam-na de um lado ao outro como o olhar de um louco.

Invadida por um medo aterrador, Connie começou a sentir-se sem forças, o rosto ingurgitado de Iuri perdeu a definição e os joelhos dela cederam. Só então Iuri a largou. Connie cambaleou, tentando recuperar o equilíbrio, e engasgou-se com a pressão que ele exercera na sua garganta. Lavada em lágrimas, saiu da sala a correr e atirou-se para cima da cama. A partir desse dia, absteve-se de fazer perguntas sobre o que se passava na cave. O quer que fosse, não merecia que ela pusesse a sua vida em risco.

Iuri ficou irritado por Connie estar em casa. Na segunda-feira, ela costumava trabalhar até as nove horas da noite. Essa presença inesperada veio juntar-se ao stress que se acumulara durante o dia e que fizera Iuri sentir-se como que numa montanha-russa emociona. Com uma mão trêmula, encheu um copo de vodca gelada, acabada de sair do frigorífico.

Apoiado no balcão da cozinha, bebeu um gole de vodca e observou os restos da comida de take-away. Ao fundo, ouvia o riso enlatado de uma série de televisão. Bebeu mais um pouco, numa tentativa de conter a raiva galopante. Enquanto engolia o néctar gelado, o seu olhar vagueou até pousar na porta da cave. Ficou estupefato quando percebeu que estava entreaberta.

— Mas que raio...!? — interrogou-se Iuri.

Geralmente, praguejava em russo, mas a sua amizade com Curt e Steve tornara-o igualmente fluente em inglês. Confuso e cada vez mais consternado, pousou o copo e encaminhou-se para a porta. Tinha a certeza de que a fechara de manhã, antes de se ir embora no táxi. Iuri habituara-se a trabalhar no laboratório da cave durante pelo menos uma hora pela manhã e outra ao fim do dia, para garantir que a sua mini fábrica de armas biológicas funcionava sobre rodas. As quartas-feiras, passava o seu dia de folga enfiado na cave. Era então que ligava a trituradora, aproveitando o fato de a maior parte dos vizinhos estar a trabalhar. A semelhança da trituradora de Sverdlovsk, esta fazia uma barulheira tremenda, apesar de não ter comparação possível em termos de tamanho.

A porta chiou quando Iuri a abriu de par em par. Acendeu as luzes e desceu as escadas. Deteve-se de repente, quando viu a porta de contraplacado e aço que colocara no laboratório. Alguém a arrombara com um pé-de-cabra, arrancando o ferrolho.

Iuri precipitou-se aos tropeções pela escada abaixo, cego de fúria. Soltava o ar dos pulmões por entre os maxilares cerrados de raiva e medo. O laboratório e a vingança que nele congeminava eram o centro da sua vida. Ver que o seu templo fora violado encheu-o de terror.

Para lá da porta de contraplacado ficava uma antecâmara, onde construíra um chuveiro e colocara garrafões de lixívia. Pendurado num cabide de madeira estava o fato de isolamento contra materiais de risco, que Curt conseguira trazer do quartel dos bombeiros. A máscara para o rosto era abastecida por um cilindro de aço cheio de ar comprimido. Sempre que Iuri trabalhava no laboratório, envergava o fato com o cilindro às costas, como a garrafa de um mergulhador.

A antecâmara tinha outras duas portas, ambas semelhantes à da entrada. Também estavam protegidas com cadeados, que haviam sido igualmente destruídos. Iuri abriu a porta da esquerda com um puxão. Era a despensa onde armazenava materiais: duas das paredes faziam parte dos alicerces que sustentavam a casa, uma terceira estava revestida de prateleiras do chão até ao teto, cheias de instrumentos microbiológicos, como Placas de Petri, filtros HEPA sobresselentes, gelose e frascos de colheita. O interior do compartimento não fora mexido, apesar do cadeado arrombado.

Preparando-se psicologicamente para o que poderia encontrar, Iuri aproximou-se da porta do laboratório. Acendeu as luzes de dentro antes de abrir a porta. Sabia que as ventoinhas estavam a funcionar devidamente, pela brisa que corria no compartimento. Sentia-a mover os seus cabelos e acariciar-lhe o rosto. Por uma questão de segurança, susteve a respiração enquanto perscrutava o interior do laboratório.

Os reluzentes fermentadores estavam alinhados mesmo a sua frente, ao longo da parede ao fundo da sala. A campânula que construíra ficava à direita. Funcionava como uma incubadora, com uma lâmpada e um termostato, e ainda como repositório do antraz e da toxina botulínica que já produzira para utilizar como armas biológicas.

A bancada encontrava-se à esquerda. Sobre o tampo, via-se o material de vidro que ele usava para cristalizar a toxina botulínica. Por trás da bancada, repousava a trituradora e o secador dos esporos de antraz.

O coração de Iuri começou a abrandar. O laboratório parecia em ordem, com tudo no seu devido lugar. Estava exatamente como ele o deixara de manhã, incluindo a posição do material em cima da bancada. Aliviado, fechou a porta, que assobiou à passagem de uma corrente de ar. Na moldura de madeira, Iuri colara uma borracha para a porta ficar hermeticamente selada.

Observou o cadeado arrombado. Embora a sua ansiedade tivesse diminuído, a fúria persistia. De repente, olhou para o chão. Junto do seu pé, encontrava-se uma batata frita manchada de ketchup, deixada cair por descuido. Connie!

Um riso abafado chegou até ele, vindo do andar de cima. Iuri estava possesso de raiva. Desfiando um rol de impropérios, precipitou-se escada acima, galgando os degraus de dois em dois. Quando chegou ao quarto, cuja porta estava encostada, abriu-a de sopetão.

Connie desviou o olhar do televisor. Estava deitada na cama, de barriga para cima. —Porque é que foste lá abaixo? — rosnou Iuri.

— Queria ver o que andas a fazer na minha cave — respondeu Connie. — Tenho todo o direito, já que passas o dia lá enfiado.

— Mexeste em alguma coisa?

— Não, não mexi em nada! Mas deixa-me que te diga uma coisa: aquilo é tudo menos uma destilaria, com aquela tralha toda que parece saída de um hospital!

— Já te vou ensinar a nunca mais me desobedeceres! — ameaçou Iuri, precipitando-se sobre a mulher.

Connie soltou um grito e rolou para o lado. O impacto de Iuri e o peso de Connie deram cabo das tábuas que suportavam o colchão de molas e a cama partiu-se.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

18h15

Curt seguia ao volante da sua carrinha Dodge Ram, com Steve no lugar do morto. Em Ocean Parkway, viraram para Oceanview Avenue e procuraram Oceanvicw Lane.

— Meu Deus! — exclamou Steve, ao observar o bairro. — Vivi em Brooklyn a minha vida toda e nunca tinha visto este amontoado de casinhas. Parece que estamos numa terriola da Carolina do Norte ou do Sul.

— Espanta-me como é que ainda não foram deitadas abaixo para construírem arranha-céus — disse Curt. — Está atento e vê se descobres Oceanview Lane. Deve ser um destes becos.

— É aquele — disse Steve, apontando para um pequeno letreiro pintado à mão, preso a um poste telefônico.

Curt desviou nessa direção e foi obrigado a abrandar consideravelmente. A rua era estreita e estava cheia de caixotes do lixo e folhas caídas.

Steve e Curt ainda estavam de farda. Assim que saíram do quartel, às cinco horas da tarde, pegaram no carro e dirigiram-se para Brigliton 13 cach. A viagem demorara cerca de uma hora. A noite caíra rapidamente sobre a cidade coberta de nuvens e a estrada estava escura, à exceção da área iluminada pelos faróis do automóvel. Não havia candeeiros de rua.

— Consegues ver os números das portas? — perguntou Curt. Steve riu-se.

— Isto mais parece um bairro de lata. Não vejo sinais nenhuns.

— Olha, aquele é o número treze — disse Curt, indicando um caixote do lixo com a morada pintada na borda. — O quinze deve ser o próximo.

Curt estacionou o carro junto de uma garagem fechada, desligou o motor e desceram da carrinha. Por instantes, analisaram a casa. Entalada entre as outras, tinha um ar um tanto ou quanto degradado e necessitava urgentemente de uma pintura.

— Não parece muito estável — comentou Steve. — Basta um toquezinho e as paredes vêm abaixo.

— Já pensaste na facilidade com que estas casas pegam fogo? — perguntou Curt.

Steve virou-se para fitar o amigo.

—Isso é uma sugestão?

Curt encolheu os ombros.

— É apenas um comentário a fixar. Anda, vamos fazer uma visitinha ao nosso camarada.

Abriram o portão da cerca de arame que vedava a fachada da casa. O caminho até a porta da entrada era de cimento rachado coberto por um tapete de folhas mortas. O pequenino relvado estava cheio de ervas daninhas.

Curt procurou a campainha, mas não havia nenhuma. Abriu a porta de rede rasgada e estava prestes a bater quando ouviu um estrondo enorme vindo do interior da casa. Curt e Steve entreolharam-se, surpresos.

— Que raio de barulho foi este? — perguntou Steve.

— Não faço a mínima idéia — respondeu Curt.

Preparava-se de novo para bater à porta quando ouviram outro estrondo, desta vez seguido do ruído de vidros partidos. Escutaram a voz de Iuri, a praguejar em russo.

— Parece que o nosso amigo comuna está a destruir a casa — comentou Steve.

— Esperemos que não tenha nada a ver com o laboratório — disse Curt. Bateu à porta com as pontas dos dedos, esperando que Iuri ouvisse.

Aguardaram uns minutos, mas como não obtiveram resposta, Curt tomou a bater. Desta vez, escutaram o som de passos e a porta abriu-se de repente.

— Visitas — anunciou Curt. Tentou passar por Iuri, para ver que diabo ele andava a partir.

A expressão de Iuri passou de raiva a espanto e depois a um claro regozijo, quando percebeu que eram os amigos. Embora continuasse vermelho como um pimento, sorriu de orelha a orelha.

—Olá! — saudou-os. Tinha a voz rouca.

— Estávamos aqui perto e pensamos fazer-te uma visitinha — explicou Curt.

— Ainda bem que apareceram — disse Iuri.

— Soubemos que passaste pelo quartel.

Iuri assentiu com a cabeça, entusiasmado.

— Fui à vossa procura...

— Foi isso que nos disseram — atalhou Curt, secamente.

— Não podes aparecer no quartel — avisou Steve.

— Por que?

— Se é preciso explicar-te o óbvio, parece-me que temos um problema — comentou Steve.

— A segurança é crucial numa operação como esta — explicou Curt. — Quanto menos pessoas souberem que nos conhecemos, melhor para todos nós, especialmente sendo tu estrangeiro. Não temos assim tantos amigos com sotaque russo, entendes? Se, de repente, apareces no quartel à nossa procura, claro está que os outros bombeiros vão achar estranho.

— Desculpem — murmurou Iuri. — Não pensei que tivesse mal, até porque vocês disseram que muitos dos vossos colegas partilham as vossas idéias.

— Alguns deles são bastante patriotas — admitiu Curt. — Mas não tanto como nós. Acho que devíamos ter sido mais claros em relação a isso. De qualquer maneira, agora já sabes que não podes aparecer no quartel.

— Está certo — anuiu Iuri. — Não torno a ir lá.

— Não nos convidas para entrar? — perguntou Curt.

Iuri espreitou por cima do ombro, na direção do quarto de Connie. A porta estava entreaberta.

— Sim, claro, entrem — convidou.

Afastou-se para lhes dar passagem e fez sinal a Curt e Steve para ficarem à vontade. Depois de fechar a porta, encaminhou as visitas para a sala de estar, onde se via um sofá baixo e puído, e duas cadeiras de espaldar. Pegou num molho de jornais que estava no sofá e atirou-o para o chão.

Curt sentou-se no sofá com os joelhos espetados quase à altura dos ombros. Steve equilibrou o seu corpo musculoso numa das cadeiras.

— Aceitam uma vodca geladinha?

— Prefiro uma cerveja — disse Curt

— Eu também — concordou Steve.

— Desculpem, mas só tenho vodca.

Steve revirou os olhos.

— Então, que venha a vodca — resignou-se Curt.

Enquanto Iuri foi buscar a garrafa ao frigorífico, Steve inclinou-se e sussurrou:

— Agora entendes por que estou preocupado. O tipo é burro. Nem sequer lhe passou pela cabeça que não devia ir ao quartel. Não percebeu que era asneira da grossa.

— Tem calma — aconselhou Curt. — Ele não teve treino militar, como nós. Devíamos ter sido mais explícitos com uma pessoa como ele, um amador. Temos de dar-lhe um desconto. Além disso, não nos podemos esquecer do favor enorme que ele está a fazer-nos ao construir uma arma biológica.

— Se é que algum dia vai estar pronta...

O barulho de um autoclismo chegou até eles, vindo do quarto de Connie, cuja porta estava aberta. Curt franziu a testa.

— Estarei louco ou acabo de ouvir um autoclismo?

— Ouviste, sim — confirmou Steve. — Mas não percebi de onde veio o som. Estas casas estão tão coladas umas às outras que talvez tenha sido o vizinho do lado.

Iuri entrou na sala de estar, trazendo três copos numa mão, cada um com vodca gelada até meio.

— Tenho uma notícia para vos dar — anunciou, pousando os copos na mesinha da sala e distribuindo-os em seguida.

— Acabamos de ouvir o som de um autoclismo — disse Curt. Pegou na bebida. — Parecia vir aqui de dentro.

— É provável — confirmou Iuri com um encolher de ombros e uma expressão de repulsa. — A Connie, a minha mulher, está no quarto.

Curt e Steve trocaram um olhar nervoso.

— O motivo que me fez passar pelo quartel... — começou Iuri.

— Alto aí! — interrompeu Curt — Nunca nos disseste que eras casado.

— Por que haveria de dizer? — Iuri olhou para Steve e depois para Curt, percebendo que tinham ficado tão aborrecidos com o seu estado civil como com a sua visita ao quartel.

— Disseste-nos que não tinhas ninguém, nem sequer amigos — lembrou Curt, irritado.

— E é verdade, não tenho ninguém, muito menos amigos.

— Mas és casado e a tua mulher vive contigo — ripostou Curt, lançando um olhar a Steve, que revirou os olhos, sem querer acreditar naquela conversa.

— Há uma expressão em russo sobre os barcos que se cruzam à noite em alto mar — explicou Iuri. — Ajusta-se que nem uma luva à minha situação com a Connie: somos dois barcos que se cruzam à noite. Não falamos um com o outro e quase nunca nos vemos.

Curt apoiou os cotovelos nos joelhos e esfregou as têmporas. Não queria acreditar que só agora estava a descobrir toda aquela história, muito menos depois dos planos que já tinha feito. Foi o suficiente para ficar com dores de cabeça.

— Achas que a tua mulher nos consegue ouvir lá do quarto? — perguntou Steve.

— Duvido. Além disso, ela está-se nas tintas para a nossa conversa. Passa o dia a comer e a ver televisão.

— Não ouço televisão nenhuma.

— Pois não, porque eu dei cabo dela antes de vocês chegarem — justificou Iuri. — Estava a deixar-me louco, aquele riso enlatado que metem nas séries para fingir que a vida aqui na América é só maravilhas.

— Devias, pelo menos, fechar a porta — avisou Curt com os dentes cerrados.

—Está bem — disse Iuri, dirigindo-se para a porta.

— Agora entendes o que tenho andado a dizer-te? — murmurou Steve. — O tipo é louco!

— Cala-te!

Iuri tomou a sentar-se na cadeira e bebeu um gole de vodca.

— A tua mulher sabe o que fazias, quando trabalhavas na União Soviética? — perguntou Curt em voz baixa, com medo da resposta. Quando Iuri disse que sim, sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

— E o laboratório? — interpelou Steve. — Ela sabe que supostamente montaste um laboratório na cave?

— Como... supostamente? — perguntou Iuri, ofendido pela insinuação.

— Nunca o vimos — explicou Steve. — Nunca vimos nada, depois de todo o esforço que fizemos para te arranjar o material de que necessitavas.

— Bastava terem pedido para o ver e eu mostrava-o em qualquer altura — retorquiu Iuri, indignado.

— Acalmem-se — sossegou Curt. — Não é preciso discutir. Mas talvez fosse boa idéia vermos o laboratório, para ficarmos mais descansados. Todos nós temos muita coisa em jogo nesta operação.

— Por mim, tudo bem — concordou Iuri.

Levantou-se, pousou o copo e conduziu-os até a porta que dava para a cave. Desceram as escadas em fila indiana. Iuri abriu a porta, segurando-a pelo ferrolho solto.

— Que aconteceu à porta? — perguntou Curt.

— A minha mulher andou a bisbilhotar, hoje à tarde — confessou Iuri. — Tinha-a avisado para não vir aqui abaixo e ela obedeceu-me sempre, até hoje. Há umas horas, resolveu descer e arrombar os cadeados com um pé-de-cabra. Mas não mexeu em nada, posso assegurar-vos disso.

— Mas, por que hoje? — inquiriu Curt, tentando manter a compostura. Não estava a gostar nada da história, que lhe parecia cada vez mais complicada.

— Ela disse que ficou curiosa, o que não tem lógica nenhuma, porque eu avisei que a matava se ela viesse aqui abaixo e mexesse em alguma coisa.

— Talvez tenhamos de fazer isso mesmo — disse Curt.

— O quê? Matá-la? — perguntou Iuri.

Por instantes, nenhum deles falou. Por fim, Curt acenou com a cabeça.

— Talvez. Como disse, trata-se de uma operação muito importante para todos nós. Porventura a coisa mais importante das nossas vidas. Para ficares com uma idéia do que sinto em relação a tudo isto, soube durante o fim-de-semana que havia um agente infiltrado no Exército Popular Ariano. Chamava-se Brad Cassidy. Hoje, o Brad Cassidy já não se encontra entre nós e o seu corpo ficou sem as partes de que tanto se orgulhava.

— A tua mulher é um risco enorme para a segurança da operação — explicou Steve. — Ela sabe o que se passa aqui?

— Até hoje, pensava que era uma destilaria.

— O que significa que descobriu que, afinal, não é uma destilaria — concluiu Curt.

— Exato.

— Isso é mau. Sabendo que trabalhavas na indústria de armas biológicas na União Soviética, não deverá ser muito difícil para ela juntar A mais B e adivinhar para que serve o laboratório.

— Vamos ver o laboratório — pediu Steve.

Iuri entrou na antecâmara, imediatamente seguido por Curt e Steve.

— Tens utilizado o fato de isolamento que te arranjamos? — perguntou Curt, apontando com a cabeça para a vestimenta pendurada no cabide.

— Sempre — respondeu Iuri. — Visto o fato sempre que venho para o laboratório. Não estou disposto a correr riscos. Quando abrir a porta interna, não entrem! Aconselho-os também a susterem a respiração, por uma questão de segurança. Vão sentir uma corrente de ar no compartimento.

Curt e Steve acenaram com a cabeça. Agora que estavam tão perto da verdade, interrogaram-se se seria realmente necessário entrar. Só de pensarem na eventual presença de um agente bioquímico invisível e letal, sentiam um arrepio percorrer-lhes a espinha e, pelo que já tinham visto, estavam mais do que dispostos a acreditar na palavra de Iuri. Mas, antes de poderem abrir a boca, Iuri entreabriu a porta interna e avançou. A medo, os dois bombeiros inclinaram-se para a frente e viram os fermentadores e outros equipamentos.

— Parece estar tudo em ordem — disse Curt, dando um passo atrás e fazendo sinal a Iuri para que fechasse a porta.

— Querem ver o produto acabado? — perguntou Iuri.

— Acho que não é necessário — respondeu Curt, rapidamente.

— Por mim, já vi o suficiente — corroborou Steve.

— Penso que, agora, devíamos subir e conversar com a tua mulher — sugeriu Curt. — Ela é o nosso novo problema. Temos de descobrir o que sabe ao certo.

Iuri fechou a porta.

— Hoje à noite, vou consertar estes cadeados — disse, antes de conduzi-los de volta ao andar de cima.

Enquanto Iuri ia ao quarto chamar Connie, Curt e Steve esperaram na sala, ambos de pé. Cada um bebeu um bom trago de vodca do seu respectivo copo, observando Iuri enfiar a cabeça dentro do quarto. Ouviram-no dizer alguma coisa, mas não perceberam o que era, embora o seu tom de voz denotasse que estava a ficar irritado. Por fim, Iuri virou-se para eles.

— Ela já vem, só que precisa de pedir licença às pernas para se mexer.

Curt e Steve trocaram um olhar de desagrado. O caso ia de mal a pior.

— Despacha-te, mulher! — gritou Iuri, impaciente.

Finalmente, a silhueta de Connie encheu a moldura da porta. O seu corpo monstruoso estava metido num roupão cor-de-rosa orlado com uma fita verde-água. Vinha de chinelos. O olho esquerdo estava roxo e tão inchado que mal abria e o canto da boca manchado por um fio de sangue seco.

Curt ficou de queixo caído, Steve deixou escapar uma exclamação em voz baixa. Estavam ambos estupefatos; com uma expressão de aturdida surpresa.

— Estes senhores querem fazer-te umas perguntas.

Iuri quebrou o silêncio e, a seguir, olhou para Curt, à espera que ele falasse. Curt teve de pigarrear e ordenar os pensamentos, para conseguir proferir uma frase com princípio, meio e fim.

— Mistress Davidov, tem alguma idéia do que se passa na sua cave? Sabe o que o seu marido anda a fazer?

Connie fitou os dois desconhecidos em ar de desafio.

— Não! — cuspiu. — Nem me interessa.

— Tem alguma suspeita? — Connie olhou para Iuri.

— Responde! — gritou-lhe o marido.

— Pensei que ele andasse a fazer vodca — explicou Connie.

— Mas já não pensa assim? — insistiu Curt. — Mesmo se eu lhe disser que aqueles tanques prateados vieram de uma destilaria?

— Quanto a isso, não sei, mas já vi daqueles pratinhos de vidro achatados no hospital. São usados para pôr bactérias.

Curt fez um sinal imperceptível a Steve, que lhe devolveu o gesto.

— Chega — disse Curt olhando para Iuri, que tentou mandar a mulher embora como quem afugenta um animal, mas Connie não saiu do lugar.

— Não volto para o quarto enquanto não me deres o teu televisor.

Iuri hesitou, mas por fim decidiu-se e foi ao quarto. Voltou instantes depois, carregando um pequeno televisor com uma antena antiga. Só então Connie virou costas e desapareceu.

— Eu nem acredito no que estou a ver... — murmurou Curt.

— Pois eu acredito — disse Steve. — E ainda perguntavas tu, hoje de manhã, antes de entrarmos no edifício federal, porque é que eu estava preocupado... Este tipo é pior do que eu imaginava.

— Bom, pelo menos é verdade que montou um laboratório. A nível científico, é evidente que sabe o que está a fazer.

— Sou obrigado a concordar contigo nesse ponto. Aliás, o laboratório é bastante melhor do que eu pensava.

Curt bufou ruidosamente, dominado por um sentimento de frustração. De repente, o inesperado som de uma série de televisão irrompeu, vindo do quarto de Connie. O volume foi baixado de imediato, a ponto de praticamente não se ouvir nada. Iuri apareceu logo depois. Fechou a porta atrás de si e dirigiu-se para a sala. Sentou-se, bebeu um gole de vodca e fitou as suas visitas com uma expressão de constrangimento.

Curt não sabia que dizer. Ficara chocado ao descobrir que Iuri era casado, mas casado com uma negra?! Ia contra todos os princípios de Curt e, no entanto, ali estava ele, metido num negócio com aquele sujeito.

Curt crescera num bairro operário branco, filho de um pai que trabalhava como pedreiro e que o espancava constantemente, recordando-lhe que ele não chegava aos calcanhares do seu popular irmão Pete, a estrela do futebol. Curt encontrou refúgio no ódio e abraçou de bom grado o fanatismo e intolerância que imperavam no bairro. Era, de longe, mais reconfortante e cômodo atirar as culpas para cima de um grupo social facilmente identificável do que analisar os próprios defeitos. Mas só quando Curt entrou para os fuzileiros e se mudou para San Diego é que o seu fanatismo bairrista se transformou em ódio racial, que, acima de tudo, repudiava a idéia de miscigenação.

Essa transição não se efetuara, porém, da noite para o dia. Surgira na seqüência de um encontro fortuito com um indivíduo que tinha quase o dobro da idade de Curt Estava-se em 1979 e Curt acabara de fazer dezenove anos. Terminara há pouco a recruta, que aumentara radicalmente a sua auto-estima. Curt e alguns dos seus novos companheiros, entre os quais se incluíam vários africano-americanos, tinham saído da base para irem a um bar em Point Loma. Tratava-se de um local freqüentado por pessoal das forças armadas, em especial mergulhadores da marinha e fuzileiros.

O bar estava escuro e cheio de fumo, iluminado por lâmpadas de fraca voltagem metidas dentro de antiquados capacetes de mergulho. A música pertencia sobretudo a uma banda que, mais tarde, Curt veio a saber serem os Skrewdriver. O indivíduo que se encarregava de alimentar a jukebox com moedas de 25 cêntimos estava sentado ao lado da máquina, sozinho a uma pequena mesa.

Curt e os amigos reuniram-se à volta do bar e pediram cerveja. Trocaram histórias de guerra sobre as suas experiências durante a recente recruta, rindo a bandeiras despregadas. Curt estava feliz. Era a primeira vez que tinha a sensação de fazer parte de um grupo. Inclusivamente, fora um dos melhores da recruta e havia sido eleito chefe de pelotão.

Cansado da batida monótona, Curt dirigiu-se para a jukebox. Já tinha bebido umas cervejas e estava eufórico. Analisou as diferentes opções musicais e retirou um punhado de moedas de dentro do bolso.

— Não gosta da música? — perguntou o homem que estava sentado na mesa pequena.

De pé, Curt olhou para o desconhecido. Era um indivíduo de estatura média, cabelo cortado à escovinha e feições vincadas, de lábios finos e dentes brancos muito certinhos. Estava bem barbeado e vestia uma t-shirt e calças de ganga passadas a ferro. No braço direito, no bíceps, tinha uma pequena tatuagem da bandeira americana. Porém, a sua característica mais impressionante eram os olhos. Mesmo na penumbra, Curt sentia-os penetrantes, quase hipnóticos.

— Não é má — respondeu Curt, endireitando as costas. Parecia que o desconhecido estava a avaliá-lo.

— Devia prestar atenção às letras, meu amigo — aconselhou o indivíduo, levando o copo de cerveja à boca.

— Ah sim? E o que é que dizem?

— Transmitem uma mensagem que poderia salvar este maldito país — declarou o sujeito.

Curt esboçou um sorriso amarelo. Olhou para os companheiros, pensando que deviam ouvir aquela conversa.

— Chamo-me Tim Melcher — apresentou-se, arrastando uma cadeira vazia com o pé. — Sente-se e deixe-me oferecer-lhe uma cerveja.

Curt olhou para a cerveja que tinha na mão. Estava no fim.

— Mexa-se, soldado — exortou Tim. — Dê um descanso a esses pés e faça um favor a si mesmo.

— Sou fuzileiro — anunciou Curt.

— Vai tudo dar ao mesmo — ripostou Tim. — Eu estive no exército. Primeira Divisão de Cavalaria. Cumpri duas missões no Vietnam.

Curt acenou com a cabeça. A palavra Vietnam deixava-o sem forças nas pernas. Era sinônimo de guerra a sério, ao contrário das lutas a fingir que Curt e os companheiros tinham andado a encenar. Lembrava-lhe também o irmão mais velho, Pete, a estrela de futebol de Bensonhurst. Oito anos mais velho do que Curt, tivera o azar de ser recrutado. Fora morto no Vietnam, um ano antes do fim da guerra.

Curt deu meia volta à cadeira, passou uma perna por cima e sentou-se. Recostou-se e acabou de beber a cerveja.

— O que é que vai beber? — perguntou Tim. — O mesmo?

Curt acenou com a cabeça.

— Harry! — disse Tim, chamando o empregado do bar. Traz-nos duas Budweisers. Como é que se chama, soldado?

— Curt Rogers.

— Agrada-me — aprovou Tim. — É um belo nome cristão. E condiz consigo.

Curt encolheu os ombros, sem saber o que pensar desse desconhecido, especialmente daquele olhar intenso. Com uma nova cerveja na mão, Curt começou a descontrair-se.

— Estou contente por o ter conhecido — disse Tim. — Quer saber por que?

Curt abanou a cabeça.

—Porque estou a organizar um grupo ao qual você e alguns dos seus companheiros deveriam juntar-se.

— Que tipo de grupo? — perguntou Curt em tom cético.

— Uma brigada fronteiriça — respondeu Tim. — Uma brigada fronteiriça armada. A patrulha oficial, que deveria proteger este país dos imigrantes ilegais, não anda a fazer o trabalho como devia. Cos diabos! A fronteira com o México mais parece uma peneira gigante!

— A sério? — Curt estava espantado. Nunca se preocupara muito com a fronteira, demasiado embrenhado nos problemas da recruta.

— Sim, a sério — troçou Tim. — Acredite em mim, que a situação é grave. Daqui a nada, quem passa a ser considerado minoria neste país é gente como eu e você e todos os nossos irmãos arianos.

— Nunca tinha pensado nisso — confessou Curt. Era a primeira vez, inclusive, que ouvia a palavra "ariano" e não sabia ao certo o que significava.

— Pois, então, veja se acorda — disse Tim. — Olhe que já está a acontecer. Este país está prestes a ser tomado de assalto por pretos, hispânicos, chinocas e gays. Cabe a gente como eu e você zelar pela nossa cultura estável e temente a Deus, onde as pessoas tenham de trabalhar para viver e os gays não andem por aí a pavonear-se. Escute o que lhe digo: não só essas raças estão a infiltrar-se na América por tudo quanto é lado, como ainda por cima se reproduzem que nem coelhos. É um problema dos diabos! Não podemos continuar de braços cruzados sem fazer nada. Se o fizermos, depois teremos de assumir as conseqüências.

— Onde é que vai arranjar armas para essa brigada fronteiriça? Se lhe passou pela cabeça a idéia maluca de as pedir a gente como eu, pode ir dar uma volta. Não podemos tirar armamento da base.

— As armas são fáceis de arranjar — disse Tim. — Tenho um arsenal e peras na minha cave, incluindo semi-automáticas, pistolas-metralhadoras, fuzis com mira telescópica e Glocks. Até tenho fardas para o pessoal, porque consegui recrutar dez tipos da marinha. Já começamos a fazer o patrulhamento.

— E já apanharam imigrantes ilegais? — perguntou Curt. Impressionado com as armas que Tim descrevera, a opinião de Curt sobre o desconhecido disparou em flecha.

— Claro que já! Apanhamos cerca de uma dúzia deles.

— E que destino lhes dão depois de os apanharem? Entregam-nos às autoridades?

Tim soltou uma gargalhada de escárnio.

— Se o fizéssemos, eles voltavam a tentar passar a fronteira na noite a seguir. A guarda fronteiriça acha que basta dar-lhes uns tabefes e pregar-lhes uns raspanetes, e depois põem-nos em liberdade.

— Então, o que é que vocês fazem? — insistiu Curt, adivinhando a resposta.

Tim debruçou-se sobre a mesa e sussurrou:

— Damos-lhes um tiro e enterramo-los. — Limpou as mãos bruscamente, como se estivessem sujas de lixo. — Assim, o assunto fica encerrado e pronto, não há mais nada a dizer.

Curt engoliu em seco, sentindo a garganta áspera. A idéia de matar imigrantes ilegais era, simultaneamente, excitante e assustadora.

— Tenho uns exemplares de uma revista aqui na pasta. Terei todo o gosto em oferecer-lhos, se os distribuir a pessoas como você e eu. Entende o que quero dizer quando digo você e eu?

— Sim, penso que sim — anuiu Curt. — Que tipo de revista é?

— A que trago hoje chama-se Sangue e Honra — esclareceu Tim. — Tenho outras, mas esta é bastante boa. É inglesa, mas aborda o tipo de assunto que estivemos a discutir. A Europa Ocidental está a braços com os mesmos problemas que nós. Também tenho um romance que é capaz de lhe interessar. Gosta de ler?

— Nem por isso — confessou Curt. — A não ser manuais sobre armas e coisas desse gênero.

—Talvez este livro consiga fazer de si um leitor assíduo — disse Tim. — É importante ler. — Debruçou-se sobre a pasta, abriu-a e retirou um livro de capa mole bastante grosso. — O título é Os Diários de Turner.

Entregou-o a Curt, que pegou no livro com ar céptico. Desde os tempos de liceu, o único romance que tinha lido era uma história pornográfica sobre uma rapariga universitária de Dallas, chamada Barbara. Folheou Os Diários de Turner e leu umas linhas. Nesse momento, ainda não sabia que aquele viria a ser o seu livro preferido.

Curt acabou por levar seis exemplares da revista Sangue e Honra, juntamente com Os Diários de Turner. Depois de ler quer um, quer outro, ficou cada vez mais entusiasmado, e preocupado, com as questões que Tim levantara. Curt fez questão de passar aquele material a pessoas que Tim considerava adequadas. Em breve, conseguira angariar um grupo de fuzileiros com interesses comuns e começaram a reunir-se à hora das refeições.

A relação de Curt com Tim Melcher criou raízes. Curt passava grande parte dos seus tempos livres com Tim, ajudando-o a organizar a brigada fronteiriça, à qual ele próprio se juntou, a par de outros fuzileiros do seu grupo. Quando Curt viu, finalmente, o arsenal que Tim escondia na cave, sentiu-se sexualmente excitado. Nunca vira uma coleção tão grande de armas e munições, a não ser durante as manobras nos fuzileiros. Tim possuía, inclusive, um conjunto de Kalachnikovs AK-47. Tecnicamente não eram tão boas como as semi-automáticas, mas tinham uma certa aura de romantismo.

A primeira incursão de Curt na brigada fronteiriça fora uma experiência inquietante. Começara auspiciosamente, com muitas gargalhadas e boa disposição. O grupo todo bebia cerveja, que tinham levado dentro de arcas congeladoras na mala dos carros, enquanto se dirigiam para sul num comboio de três veículos, ao longo da Interestadual 5. Em todos os jipes ouvia-se alto e bom som a música dos Skrewdriver, cujas cassetes Tim conseguira mandar vir de Inglaterra. O ambiente era de festa.

A norte da fronteira, viraram para leste, rumo ao deserto. Pararam num local que Tim selecionara previamente e armaram um acampamento. Montaram as tendas e fizeram uma fogueira. Ao cair da noite, lavaram os pratos, apagaram as chamas e dirigiram-se para a fronteira. Com os seus fatos camuflados, fundiam-se na paisagem, traídos apenas pelo riso da embriaguez.

Curt estava a divertir-se como nunca. Finalmente pertencia a um grupo que, segundo Tim, era puro em termos de raça e coeso em matéria de ideais. Sentia também que estavam a fazer algo de importante, embora não acreditasse verdadeiramente que fossem apanhar imigrantes ilegais desprecavidos. Quanto muito, pregavam-lhes um susto tal que voltavam todos a fugir para as suas terras.

Tim dividiu o grupo em equipas de dois e distribuiu-os pelo terreno a intervalos fixos, a cerca de quatrocentos metros da fronteira. Escolheu Curt como parceiro, deixando-o cheio de orgulho. Tim selecionara o melhor local para ambos se posicionarem: o cimo da colina mais alta da região.

Agacharam-se numa faixa de areia, com as rochas atrás de si a servir de encosto. Comodamente recostados, abriram as cervejas que traziam na arca. O ruído metálico das latas a abrir em uníssono era delicioso na vasta e árida escuridão.

Estava uma noite magnífica e agradável, especialmente porque as rochas irradiavam o calor que haviam armazenado durante o dia. Sobre as suas cabeças, a Via Láctea parecia salpicada por um milhão de diamantes. Uma brisa suave soprava dos lados do Pacífico, fazendo-se sentir na pele nua do rosto.

— Lindo, não é? — comentou Tim. Tirou o walkie-talkie do cinto e pousou-o numa rocha achatada. Usava-o para manter contato com as restantes equipas.

— É inacreditável — disse Curt. — Quando era miúdo e vivia em Brooklyn, não fazia a mínima idéia de que existia algo assim.

— E uma grande nação — concordou Tim. — Pena é que esteja a ir pelo cano abaixo por causa deste governo de merda.

Curt acenou com a cabeça, mas ficou calado, maravilhado com o cenário que o rodeava e entorpecido pela cerveja. A última coisa que lhe apetecia era mais uma conversa sobre o governo ocupado pelos sionistas.

Decorreram uns minutos em silêncio. Curt bebeu mais um gole de cerveja.

— Já tinhas feito incursões neste local? — perguntou Curt. — Tim insistia para que usassem termos militares sempre que possível. Várias vezes. —Viste o inimigo?

— Olá, se vi! — exclamou Tim. — E o inimigo foi bastante prestável — gracejou. — Foi uma caça aos patos bravos.

— Onde é que os viste?

Tim apontou com o dedo.

—Vinham dali, daquela ravina que parece um corte no horizonte.

Curt fez um esforço para ver. Precisava de uma certa dose de imaginação para acreditar que estava a olhar para uma ravina. Naquela escuridão, só conseguiria vislumbrar uma pessoa quando já estivesse mesmo em cima dele. Curt pensou com os seus botões o que aconteceria se, de repente, visse um grupo de homens surgir das trevas. Instintivamente, levou a mão ao coldre da Glock automática e abriu-o. Assim, seria mais fácil sacar da arma, se fosse necessário.

— Sei o que estás a pensar — disse Tim. — Deixa-me mostrar-te uma coisa.

Tim, correu o fecho do saco de lona que estava no chão, ao seu lado e tirou uma arma. Mesmo às escuras, Curt percebeu que era uma das armas preferidas de Tim, que nunca antes lha mostrara.

— É a minha predileta — explicou Tim, orgulhoso. — Só a uso em operações a sério, como esta.

Estendeu a arma a Curt, que pegou nela e a ergueu à altura dos olhos. Identificou-a imediatamente, apesar de nunca ter tido uma na mão. Era um fuzil Remington 308 com mira telescópica do armamento especial dos fuzileiros.

— Onde é que o arranjaste? — perguntou Curt, espantado.

— Pode-se comprar o que se quiser através de revistas como a Mercenário. Basta ler os anúncios que trazem na contracapa.

—Mas isto é uma arma dos fuzileiros — disse Curt. — Como e que alguém conseguiu deitar as mãos a uma raridade destas?

— Sei lá! Suponho que deve ter sido roubada ou alguém decidiu trocá-la por outra arma qualquer. Um dia, vais perceber que se fazem grandes negociatas na carreira militar.

— Estas armas são modificadas em Quantico, para uso dos fuzileiros — disse Curt, acariciando o punho.

— Sim, eu sei. Tem cano flutuante e revestimento de fibra de vidro. E o peso do gatilho foi ajustado para quinhentos gramas.

— Meu Deus, que maravilha! — exclamou Curt.

Nunca pensara ter uma Remington, a não ser em sonhos. Adorava todo o tipo de armas, mas nutria uma predileção especial pelas de alta tecnologia.

— A mira telescópica é imbatível — disse Tim. — Repara no tamanho. É uma mira telescópica de raios infravermelhos. Experimenta.

Curt empoleirou a arma no ombro, com todos os cuidados, e espreitou pela mira. A noite escura transformou-se miraculosamente numa película esverdeada. Mesmo a uma distância de várias centenas de metros, Curt conseguia distinguir todos os contornos da árida paisagem.

De repente, detectou movimento e puxou a espingarda ligeiramente para a esquerda. No centro do seu campo de visão, dois homens abriam caminho no escuro, avançando na diagonal em direção a Curt

—Virgem Santa! — exclamou Curt. — Tenho dois alvos em mira. Eu não acredito!

— A sério? — disse Tim, excitado. — Não tires os olhos deles, porque podes perdê-los de vista. Não são militares, pois não?

— Claro que não! Vêm de calças de ganga, camisa, chapéu de cowboy e transportam o que me parecem ser malas velhas de vinilo.

— Os meus parabéns, soldado! — felicitou Tim. — Apanhaste dois patos. Dispara duas rajadas rapidamente, para teres a certeza de que atinges os dois. Claro que, se conseguires centrá-los na mira, és capaz de conseguir abatê-los só com um tiro — disse Tim com uma gargalhada.

— Queres que os mate? — perguntou Curt, nervoso.

Evitara a todo o custo pensar sobre esse momento, especialmente por ter perfeita consciência de que os homens que tinha na mira não representavam um perigo imediato para si. Não se tratava de uma situação de combate, em que ele estava certo de que reagiria por instinto. Isto era uma espécie de emboscada a duas pessoas que nem sequer conhecia. Curt percebeu que estava a tremer, porque o campo de visão começou a dançar à frente dos seus olhos.

— Não; quero que vás ter com eles e armes uma discussão — respondeu Tim, em tom sarcástico. — Claro que quero que os mates! Bolas, tens todo o direito! Foste tu que os detectaste.

Curt sentiu a testa perlar-se de suor. Engoliu em seco, invadido por uma ânsia e indecisão que se espalharam pelo corpo. Nunca fizera uma coisa daquele gênero.

— Anda lá, pá — exortou Tim. — Não me desiludas a mim, nem ao teu país.

Curt não fazia tenção de desiludir Tim. Nesses últimos trinta e poucos dias, pela primeira vez na vida, sentia que fazia parte de um grupo coeso, movido por uma ideologia em que acreditava com toda a convicção. Finalmente, encontrara um lar espiritual e emocional, e estava ciente de que devia isso a Tim. Com o dedo no gatilho, inspirou fundo e premiu-o.

A espingarda deu um coice ao disparar, mas não suficientemente forte para que Curt perdesse os alvos de vista. Não caiu nem perdeu o equilíbrio, como vira nos filmes sempre que alguém disparava uma arma. Num instante, o indivíduo vinha a caminhar, no instante seguinte desaparecera. O segundo homem deteve-se assim que ouviu o tiro ecoar na escuridão da paisagem agreste.

Curt foi invadido por uma orgástica dose de adrenalina e uma tremenda sensação de poder. Sem pensar, fez pontaria ao segundo homem e premiu o gatilho. A arma tomou a dar um coice e o segundo alvo desapareceu. Curt baixou o fuzil. Por breves instantes, sentiu o cheiro refrescante de cordite no ar, antes de ser levado pela brisa.

— Então? — perguntou Tim, ansiosamente.

— Foram ambos abatidos.

— Excelente! — exclamou Tim, dando uma palmadinha no ombro de Curt, antes de pegar no walkie-talkie. Avisou as restantes equipas que ele e Curt iam enterrar dois alvos. Disse-lhes para não dispararem até ordem em contrário.

— Não quero que aqueles loucos se ponham a disparar contra nós — explicou Tim.

Tirou o fuzil das mãos de Curt, que lho entregou sem dizer nada. Tim pegou numa pá e numa picareta. Vamos. Mas mantém a tua Glock à mão, para o caso de os sacanas estarem feridos em vez de mortos. Podemos ter de lhes dar “o cu de grasse” ou seja lá qual for a expressão.

Curt seguiu Tim aos tropeções, sem abrir a boca. Passada a euforia inicial, sentia-se assolado por uma onda de dúvidas. Agora que alvejara realmente uma pessoa, não sabia como lidar com a idéia de ter posto fim à vida de outro ser humano. A névoa alcoólica que lhe toldava o espírito não era suficiente para apagar esse pensamento. O fato de Tim agir como se tivesse abatido duas moscas também não ajudava.

— Vamos, soldado! — exortou Tim por cima do ombro, quando percebeu que Curt estava a ficar para trás. Tim caminhava à frente, de lanterna em punho, avançando a passo firme pelo terreno rochoso.

Curt endireitou as costas e obrigou-se a andar mais depressa. Tinha vergonha que Tim desconfiasse do seu estado de espírito "cobarde". Demoraram quase meia hora a encontrar os corpos dos mexicanos, pois tiveram de vasculhar a área uma série de vezes. Quando a lanterna de Tim incidiu nos cadáveres, ele assobiou de admiração.

— Sim, senhor! Atingiste-os em cheio na cabeça.

Curt olhou para os cadáveres. Nunca tinha visto um morto, a não ser em funerais. Ambos os corpos tinham um pequeno orifício na testa, mas faltava-lhes um bom pedaço de crânio na nuca. O solo estava salpicado de bocadinhos de cérebro. O primeiro indivíduo ainda tinha a alça da mala na mão.

— Santo Deus! — murmurou Curt.

Tim levantou a cabeça num gesto brusco e fitou o recruta.

— Que se passa contigo? — perguntou.

— O que foi que eu fiz?

— Mataste dois imigrantes ilegais — respondeu Tim, irritado. Fizeste uma boa ação pelo teu país.

— Meu Deus! — repetiu Curt em voz baixa, abanando a cabeça. Os olhos dos dois mexicanos ainda estavam abertos e fixos nele. Curt sentiu as pernas bambas e uma ligeira tontura.

Tim agiu rapidamente. Deu um passo na direção do companheiro e aplicou-lhe um estalo com força. Soltou um palavrão por causa da dor e sacudiu a mão como se estivesse molhada.

Curt encolheu-se e, por uma fração de segundo, viu tudo vermelho. Tocou na face em brasa e, em seguida, olhou para os dedos à espera de ver sangue. Fixou o rosto de Tim.

— Estou aqui, ó durão — troçou Tim. Com a mão que lhe doía, fez um gesto para que Curt se aproximasse e lhe batesse também.

Curt desviou o olhar para a noite escura. Não queria lutar com Tim, porque, depois de ter parado uns instantes para pensar, sabia por que motivo ele lhe batera.

—Acobardaste-te — explicou Tim. Curt anuiu. Era a mais pura verdade.

— Ouve — disse Tim. — Vou contar-te uma coisa que não sabes sobre mim. Este ano, fui ordenado padre pela Igreja Cristã dos Verdadeiros Crentes, que faz parte de uma organização enorme, chamada Igreja da Identidade Cristã. Já ouviste falar nela?

Curt abanou a cabeça.

— É uma igreja que tem usado a Bíblia para provar que nós, brancos anglo-saxônicos, somos os descendentes diretos da tribo perdida de Israel. Todas as outras raças são rebentos de Satã, ou vermes, como estes hispânicos. — Tim deu um toque num dos mexicanos com a ponta da bota preta. — E por isso que temos a pele branca, enquanto a deles é preta, castanha, amarela ou como lhe queiras, chamar.

— És padre? — perguntou Curt, incrédulo. A personalidade de Tim tinha tantas facetas diferentes que punha a cabeça de Curt a andar à roda.

— Fiz os votos e tudo — disse Tim. — Por isso tenho conhecimento de causa. O importante é que a palavra de Deus na Bíblia diz que o juízo divino não está confinado ao corpo político. Isto é, que a violência não só é aceite, como necessária. A verdade, soldado, é que hoje fizeste o trabalho de Deus.

— Nunca ouvi dizer isso antes — confessou Curt.

— Já era de esperar. A culpa não é tua. O governo ocupado pelos sionistas não quer que as pessoas descubram a verdade, por isso não permitem que ela chegue às escolas, aos jornais, à televisão, que estão todos sob o seu controlo. Querem neutralizar-nos e a maneira de o fazer é diluindo-nos geneticamente, como acontecia no livro “Os Diários de Turner”, lembras-te?

— Não sei... — disse Curt, impressionado pela veemência de Tim e, acima de tudo, pela sua erudição.

— O Tratado de Cohen criou assembléias para obrigar os arianos brancos a casar com os vermes. A esse tipo de casamento dá-se o nome de miscigenação. Conheces esse termo?

— Não.

— Vês? E disso que eu estou a falar. E uma conspiração do GOS, o Governo Ocupado pelos Sionistas. Nem sequer querem que os miúdos aprendam o termo miscigenação, porque o objetivo deles é incentivar a humanidade a cometer esse pecado insidioso, que, aos olhos de Deus, constitui uma verdadeira abominação. E uma manobra de Satã, para eliminar o povo eleito de Deus. É o Holocausto ao contrário.

 

— Muito bem! — disse Curt abruptamente, acordando das suas deambulações pelos meandros da memória. — Está na hora de pormos as cartas na mesa. — Fitou Steve, que fez um gesto de assentimento com a cabeça. Curt desviou o olhar para Iuri.

— Que cartas? — perguntou Iuri. Apercebeu-se de que as suas visitas estavam lívidas, em especial Curt.

Curt revirou os olhos, falho de paciência.

— Por amor de Deus, é só uma maneira de dizer! Significa explicar tudo muito bem explicadinho, para não haver mais surpresas.

— Ah, está bem — disse Iuri, satisfeito.

— O que eu quero dizer é que, hoje, tu deixaste-nos chocados — disparou Curt. — Não só és casado, como a tua mulher é preta. E olha que isso não foi propriamente uma surpresa: foi um choque!

— Tinha de arranjar um visto de residência — explicou Iuri.

— Mas não devias ter casado com uma mulher negra! — gritou Steve.

— Que importância tem isso? — perguntou Iuri, embora desconfiasse da resposta. Nesses quatro anos desde que vivia nos Estados Unidos, tornara plena consciência dos preconceitos sociais que imperavam à sua volta.

Curt não respondeu, apesar da pergunta de Iuri ser completamente disparatada. Por instantes, pensou em explicar-lhe a questão tintim por tintim, tal como Tim Melcher lhe explicara há vinte anos. Mas resolveu não o fazer, porque, olhando para Iuri com atenção, Curt não era capaz de decidir se ele era ou não ariano.

— O casamento entre pessoas de raças diferentes, especialmente sendo uma delas branca, vai contra a lei de Deus — disse Steve.

— Nunca ouvi dizer isso.

— Bom, o que está feito, feito está — concluiu Curt, abanando a mão. — O que importa é o que vamos fazer agora. A tua mulher sabe que andas a mexer em bactérias na cave e sabe que trabalhaste na indústria soviética de armas biológicas. O mais provável é ela adivinhar que estás a fabricar uma arma biológica.

— Ela está-se nas tintas para o que eu faço ou deixo de fazer — anunciou Iuri. — Acreditem, que é verdade.

— Mas ela pode mudar de idéias de repente, o que seria péssimo — avisou Curt.

— Pode contar alguma coisa à família — lembrou Steve.

— Ela está de relações cortadas com a família. Exceto com o irmão, que é o único que se preocupa com ela.

—Então, imagina que ela conta alguma coisa ao irmão. Seja como for, não podemos correr o risco. Como dissemos há pouco, ela tem de ser eliminada. Tens alguma coisa contra? — perguntou Curt.

Iuri abanou a cabeça e bebeu um generoso trago de vodca.

— Ótimo. Pelo menos, concordamos em alguma coisa. O problema é como eliminá-la sem dar nas vistas. Suponho que, se ela desaparecer, alguém vai dar pela falta?

— Lá no emprego, sim — confirmou Iuri. — Ela trabalha na central de táxis.

— O que importa é fazê-lo de uma maneira que não meta a polícia ao barulho — disse Curt. — Ela tem algum problema de saúde?

— Para além da obesidade, que é óbvia... — acrescentou Steve. Iuri abanou a cabeça.

— Ela é bastante saudável.

— Pensando bem, talvez pudéssemos usar a obesidade como pretexto — propôs Steve. — Gorda como ela é, ninguém ia ficar espantado se ela tivesse um ataque cardíaco.

— Não é má idéia — concordou Curt. — Mas como é que fazemos com que ela tenha um enfarte?

Entreolharam-se. Nenhum dos três sabia como simular um ataque cardíaco.

— Eu podia provocar uma paragem respiratória — sugeriu Iuri. Curt e Steve arquearam as sobrancelhas.

— Muitas pessoas com excesso de peso morrem de falha respiratória — prosseguiu Iuri. — Quando chegássemos ao hospital, eu podia dizer que ela era asmática.

— E como é que o fazias? — perguntou Curt.

— Usando uma dose generosa da minha toxina botulínica — disse Iuri. — Tenho de testá-la, de qualquer maneira. Porque não usar a Connie como cobaia? Assim, posso ter a certeza quanto à dosagem adequada.

— E os médicos não iriam desconfiar?

— Não. Depois de a pessoa estar morta e sem conhecer os sintomas iniciais, não há motivo nenhum para suspeitas. E é preciso ter suspeitas, caso contrário ninguém se lembra disso. Existem inúmeras outras coisas que podem provocar um colapso respiratório.

— Tens a certeza?

— Claro que tenho. Fiz muitas experiências com a toxina botulínica, quando estava na União Soviética. Com uma dose grande, qualquer pessoa pára de respirar e fica roxa. O KGB estava particularmente interessado em utilizar a toxina para encobrir assassinatos, porque aquilo a que chamamos uma dose grande é, na verdade, uma quantidade mínima.

— Hum, estou a gostar da idéia — pronunciou-se Curt. — E há uma certa justiça poética nesta história. Afinal, a Connie é uma ameaça para a segurança da Operação Glutão. Quando é que o podes fazer?

— Hoje à noite — disse Iuri com um encolher de ombros. — Uma coisa que é sempre fácil é fazê-la comer. Logo, quando estiver mais calma, mando vir uma pizza e assunto encerrado.

— Bem — anunciou Curt, esboçando o seu primeiro sorriso desde que chegara — resolvido esse pormenor desagradável, falemos de coisas mais simpáticas. Qual era a novidade que tinhas para nos dar?

— Testei o antraz — disse Iuri, entusiasmado. Aproximando a cadeira, anunciou: — E tão eficaz como eu esperava.

— Em quem é que o testaste? — Face aos atuais problemas que envolviam Connie, a primeira preocupação de Curt era a segurança.

Iuri explicou que escolhera Jason Papparis, um comerciante de tapetes que corria o risco de contrair o antraz por causa das mercadorias que importava. Iuri acrescentou que, assim, evitava que as autoridades desconfiassem do que eles andavam a planear.

— Muito inteligente — comentou Curt. — Em nome do Exército Popular Ariano, louvo a tua astúcia.

Iuri permitiu-se um sorriso de auto-satisfação.

— Também temos novidades para ti — disse Curt e pôs-se a descrever a visita que ele e Steve tinham feito ao edifício Federal Jacob Javits, nessa manhã.

Contou a Iuri que a conduta de entrada do sistema de ar condicionado era perfeita para a colocação da arma biológica.

— Vão necessitar de um aerosol?

— Não, se a arma biológica tiver a forma de um pó muito fino. Vamos utilizar detonadores com temporizador para rebentar os sacos. As ventoinhas de circulação do ar encarregam-se do resto — explicou Curt.

— Isso quer dizer que vão ter de usar o antraz — deduziu Iuri.

— Por nós, tudo bem — concordou Curt. — Tens alguma objeção? Disseste-nos que os agentes são igualmente eficazes.

— Não, tudo bem. E só que tenho tido uns problemas com as culturas de toxina botulínica, que não estão a crescer ao ritmo que eu queria. Daqui a menos de uma semana, já devo ter a quantidade suficiente de antraz, mas necessito de mais três semanas para conseguir a dose da toxina.

— Acho que não convém esperarmos mais três semanas — disse Curt. — Sobretudo com os problemas de segurança que temos tido.

— Por que não usas o antraz em ambos os alvos? — sugeriu Steve. — Esquece a toxina, se a bactéria não está a colaborar.

— Porque a quantidade de antraz que tenho só chega para um alvo e não dois.

— Talvez seja um sinal da Divina Providência a dizer-nos que só devíamos atacar o edifício federal — concluiu Curt. — E que tal esqueceres a idéia de Central Park?

—Não! — respondeu Iuri com veemência. — Não abdico do parque.

— Mas por que? O atentado ao edifício federal será uma arma muito mais eficaz contra o governo e fará, pelo menos, seis ou sete mil vítimas.

— Todas elas funcionárias do governo — disse Iuri. — A minha idéia é atingir a cultura americana, que é tão falsa, em especial os banqueiros e homens de negócios judeus responsáveis pelo caos econômico que se vive atualmente na Rússia.

Curt e Steve trocaram um olhar de descontentamento.

— Esta cultura não tem raízes. As pessoas julgam que são livres, mas não são. Andam todas desesperadas à procura de uma identidade e de um estatuto social. Nós, os eslavos, podemos ter passado por algumas crises ao longo da história, mas pelo menos sabemos quem somos.

— Nem acredito no que estou a ouvir. Por que é que nunca disseste isso antes?

— Nunca perguntaste — respondeu Iuri.

— A América tem alguns problemas, sim — concordou Curt. — Mas a culpa é do GOS, que apóia palhaçadas como o controlo do armamento, a miscigenação, os passadores de droga pretos, os indigentes e os gays, que andam a dar cabo das nossas raízes primitivas. É contra isso que lutamos, sabendo que vamos sofrer algumas baixas durante o processo, o que é perfeitamente natural. Mas é o governo o nosso alvo.

— Na minha guerra não há civis — anunciou Iuri. — É por isso que quero atacar o Central Park. Com o vento certo como vector, vou arrasar uma grande parte da cidade. Estou a falar de centenas de milhares de baixas, talvez até mesmo de milhões e não milhares. É para isso que serve uma arma de destruição maciça. Para o que vocês querem fazer, bastava uma bomba normal.

— Nunca conseguiríamos entrar no edifício com uma bomba tão grande. A questão é essa. É fácil colocar um ou dois quilos de pó tipo farinha. — Curt hesitou. — Pelo menos, foi assim que nos descreveste o antraz.

— Está correto — confirmou Iuri. — É uma farinha tão fina que fica suspensa no ar.

Por instantes ficaram os três a olhar uns para os outros, cientes da tensão que pairava na sala.

— Muito bem — atalhou Curt, agitando as mãos. — Voltamos ao plano original e fazemos os dois atentados. O único problema, para resumir e concluir, é arranjar a quantidade suficiente de antraz e de toxina botulínica.

— Que é feito da camioneta de pesticidas que vocês me prometeram?

— As tropas localizaram uma, não te preocupes.

— E onde é que está?

— Estacionada nas traseiras de uma empresa de pesticidas, em Long Island — disse Curt. — É usada durante a colheita da batata. Está ali à mão de semear, sem qualquer tipo de proteção.

— Quero que a ponham na minha garagem!

— Mas que agressividade é essa? — interrogou Curt. — Com todas as surpresas que tinhas reservado para hoje, quem devia estar irritado éramos nós.

— Quero a camioneta na minha garagem e mais nada — exigiu Iuri. — Era esse o acordo. Já lá devia estar.

— Acho melhor teres cuidado com a maneira como falas — avisou Steve. — Caso contrário, pode ser que recebas uma visitinha das tropas de choque.

— Não me ameaces, se não, ficam de mãos a abanar. Saboto os vossos planos todos!

— Calma aí, pessoa! — interveio Curt. — Isto está a passar das marcas. Não vale a pena discutirmos uns com os outros, até porque está tudo bem. Vamos tratar de roubar a camioneta, trazê-la para cá e pô-la na tua garagem. Ficas satisfeito, assim?

— Foi isso que combinamos.

— Então, considera o assunto encerrado. Entretanto, vais ter de apagar a Connie, certo?

— Vou tratar disso hoje à noite — anunciou Iuri. Visivelmente mais descontraído, terminou a bebida.

— Ótimo! — Curt esfregou as mãos num gesto lento de ansiedade. — Agora vamos conversar sobre datas. E que tal se desistisses da toxina e utilizasses o segundo fermentador para o antraz? Daqui a pouco teríamos produto suficiente, não é verdade?

— Possivelmente.

— Realisticamente, estamos a falar de quanto tempo? — perguntou Curt.

— É uma questão de esperar até ao final desta semana, inícios da próxima, se tudo correr bem.

— Hum, isso é uma ótima notícia — observou Curt, forçando um sorriso. Levantou-se, seguido de imediato por Steve.

— Tenho uma pergunta para vos fazer — declarou Iuri. O que é um médico legista?

— Uma pessoa que examina cadáveres e determina quais foram as causas da morte — explicou Steve.

— Bem me parecia... — Iuri pôs-se de pé.

— Que pergunta tão estranha — comentou Curt. — Por que a dúvida?

— Quando voltei à loja do comerciante de tapetes, hoje, para ter a certeza de que ele tinha morrido, estava lá um homem a colher culturas e disse que andava a investigar o caso.

— Espera aí — exasperou-se Curt. — Não disseste que a idéia de infectar um comerciante de tapetes era, precisamente, evitar uma investigação da parte das autoridades?

— Eu não disse isso. Disse que as autoridades nunca suspeitariam de uma arma biológica.

— Mas as autoridades sabem que o antraz é utilizado como arma — insistiu Curt. — Mesmo assim, não vão ficar desconfiados?

— Não, porque têm uma explicação lógica para o caso. Vão ficar aos pulos por terem solucionado o assunto. E assim que essa gente funciona.

— E se não encontrarem uma fonte de contaminação? Ou puseste qualquer coisa nos tapetes, para eles encontrarem?

— Não, não pus nada nos tapetes — confessou Iuri.

— Isso pode levantar algum problema?

— Eventualmente, mas não creio.

— Mas não estás cem por cento seguro... — concluiu Curt.

— Cem por cento, não, mas ando lá perto.

Curt soltou um suspiro exasperado.

— De repente, parece que estamos rodeados de pontas soltas.

— Não vai haver qualquer problema — tranqüilizou Iuri. — E, de qualquer maneira, tínhamos de testar o produto. Não valia a pena usá-lo, se não fosse patogênico.

— Esperemos que estejas certo — rematou Curt, numa voz cansada. Levantou-—se e dirigiu-se para a porta. — Vamo-nos mantendo em contato. Mais logo, mando cá alguns dos rapazes entregar a camioneta.

— E se eu não estiver em casa?

— Acho bom que estejas — disse Curt. — Afinal, foste tu quem fez este estardalhaço todo por causa da camioneta.

— Mas preciso de resolver a questão da Connie. Vou ter de chamar uma ambulância, quando ela estiver bastante mal. Talvez até tenha de ir às urgências.

— Ah, sim... — recordou Curt.

— Já sei o que vou fazer. Quando sair com a Connie, deixo o portão da garagem aberto.

— Ótimo — concordou Curt. Despediu-se e saiu porta fora, seguido de Steve.

Os dois bombeiros saíram a passo rápido da casa de Iuri e entraram para a carrinha Dodge Ram, sem abrir a boca. Assim que fecharam as portas, Curt deu um murro no volante com o punho fechado.

— Metemo-nos com um louco! — rosnou.

— Vou tentar conter-me e não dizer "eu bem te avisei".

— Santo Deus, o homem quer matar civis e não gente do governo! — queixou-se Curt. — Aqui estamos nós, patriotas, a tentar salvar o país, e somos obrigados a lidar com um terrorista. Aonde é que este mundo vai parar?

— Acho que o desejo dele de ver a União Soviética novamente unida vai para além da história de saber que as ogivas nucleares estão seguras. O tipo é comuna e basta.

Curt ligou o motor e arrancou, numa autêntica gincana para evitar os caixotes do lixo.

— Talvez seja mesmo comuna. Mas o que me preocupa é que ele não faz a mínima idéia do que são normas de segurança, o que é péssimo; porque se as autoridades suspeitarem do que se está a passar vamos ter de repensar a operação toda. Quando começamos a planear isto, parecia tudo muito fácil.

— Que fazemos em relação ao Iuri?

— Não sei. O problema é que temos de alinhar no esquema dele, para deitarmos as mãos à arma biológica. Ele foi muito claro quando ameaçou sabotar o esquema todo. E isso deve significar que estaria disposto a destruir o laboratório.

— Então, vamos dar-lhe a tal camioneta de pesticidas?

— Não vejo alternativa — concluiu Curt, desviando para Oceanview Avenue. — Entregamos-lhe a camioneta, mas insistimos para que ele arranje os dois quilos ou dois quilos e meio de pó de antraz o mais depressa possível. Quanto mais rápido efetuarmos a Operação Glutão, melhor.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

18h45

Jack atravessou a Primeira Avenida em alta velocidade no cruzamento com a Rua 30, segundos antes de o semáforo ficar verde para o trânsito que seguia para a zona alta da cidade. Virou para o cais de cargas e descargas do Instituto de Medicina Legal e cumprimentou o segurança, transportando a bicicleta ao ombro até ao interior do edifício. Disse adeus a Marvin Fletcher, o técnico da morgue encarregado do turno da noite, que estava entretido no gabinete a preparar o trabalho das próximas horas.

Jack prendeu a bicicleta no sítio do costume, apanhou o elevador e dirigiu-se para o laboratório de toxicologia, no segundo andar. Já era tarde; tencionava ter voltado mais cedo para o instituto, mas a investigação aos arquivos da Firma de Tapetes Coríntios demorara mais tempo do que calculara.

John DeVries, o chefe de toxicologia, já tinha ido para casa. Jack não teve alternativa a não ser perguntar a um técnico do turno da noite se o chefe de serviço telefonara a apressar os resultados do caso David Jefferson. David era o recluso que morrera na cadeia e em relação ao qual Calvin estava tão preocupado. Infelizmente, o técnico de serviço nada sabia sobre o assunto.

Jack meteu-se no elevador e subiu ao sexto piso, para ir ao laboratório de ADN. Ted Lynch, o diretor, não estava disponível, por isso Jack deixou a sua coleção de frascos de cultura da Firma de Tapetes Coríntios nas mãos de um técnico. Pela manhã, queria que Ted procurasse vestígios de esporos de antraz através da ajuda da RU.

Servindo-se das escadas, Jack desceu ao quinto andar e passou pelo laboratório de histologia, na esperança de convencer a supervisora, Maureen O'Conner, a apressar a análise microscópica do caso Jefferson. Jack tinha uma boa relação de trabalho com Maureen, ao contrário do que acontecia em relação a John DeVries, mas de nada lhe serviu: Maureen também já tinha ido para casa.

A caminho do seu próprio gabinete, Jack espreitou para dentro da sala de Laurie, esperando descobrir, pelo menos, onde e quando iria ser o tão esperado jantar dessa noite. Porém, o gabinete de Laurie estava vazio e às escuras. Para piorar a situação, a porta encontrava-se fechada à chave, prova absoluta de que também ela já se fora embora.

— Francamente! — exclamou Jack em voz alta, sentindo—se num beco sem saída.

Resmungando entre dentes, percorreu toda a extensão do corredor até chegar ao seu gabinete. Por instantes, considerou a hipótese de não estar disponível o resto da noite, para que Laurie não conseguisse apanhá-lo, mas rapidamente desistiu da idéia. Não era o estilo dele e, além disso, estava realmente curioso.

Jack entrou na sala. Pelo menos Chet ainda estava a trabalhar, atarefado a escrevinhar num bloco amarelo de serviço.

— Ali, eis o regresso do aventureiro! — saudou Chet, assim que viu Jack. Pousou o lápis. — Acho que já posso deitar fora o relatório que preenchi a dar-te como desaparecido.

— Que graça! — comentou Jack, pendurando o casaco de cabedal.

— Pelo menos, voltaste são e salvo — disse Chet. — Como foi o trabalho de campo? A tua vida correu perigo? Quantas pessoas conseguistes enfurecer?

— Não estou com disposição para piadinhas — anunciou Jack. Deixou-se cair na cadeira, como se, de repente, tivesse ficado sem força nas pernas.

— Hum, a excursão não correu lá muito bem — comentou Chet.

— Foi um fiasco — confessou Jack. — Exceto o passeio de bicicleta.

— Não admira. Essa missão estava condenada à partida. Descobriste alguma coisa?

— Descobri que são precisas horas para analisar os arquivos de uma empresa, mesmo que seja pequena. E, depois de tanto esforço, dei com os burros na água. Tinha uma esperança perversa de encontrar um papel que dissesse que alguns dos tapetes turcos da última remessa tinham sido despachados para outros pontos, para poder esfregar essa informação na cara do Clint Abelard. Mas nada feito. A encomenda está guardada a sete chaves no armazém de Queens.

— Folgo em saber que as tuas intenções eram boas — gracejou Chet, rindo-se da sua própria piada.

— Se te ouço dizer, nem que seja entre dentes, "eu bem te avisei", risco-te do meu testamento — avisou Jack.

— Não tenciono rebaixar-me ao ponto de te dizer uma coisa tão óbvia — rematou Chet com uma gargalhada.

— Pois não, mas sei que é isso que pensas.

— Olha, convém que saibas que deram pela tua falta, mas não te preocupes, porque arranjei uma desculpa. Usei aquela tua história das freiras que tinham vindo visitar-te. Disse que elas estavam em Nova Iorque para um congresso de bowling e que tu foras ter com elas, para lhes dar as boas-vindas.

— Quem é que andou à minha procura?

— A Laurie, por exemplo — disse Chet. — Aliás, estava agora mesmo a escrever-te um bilhete.

Arrancou a primeira página do bloco e amassou a folha. Segurando a bola de papel entre o polegar e o indicador, lançou-a em cheio para o cesto do lixo.

— E que dizia o bilhete?

— Dizia que o jantar de hoje à noite é no Restaurante Élio's, na Segunda Avenida, às oito e meia.

— Oito e meia?! — exclamou Jack, irritado. — Por que tão tarde?

— Ela não disse, mas oito e meia não me parece uma hora assim tão tardia.

— Ela costuma jantar mais cedo — descaiu-se Jack.

Abanou a cabeça, exasperado por o mistério ser cada vez mais impenetrável. Lembrou-se do comentário de Laurie, feito às quatro e meia da manhã, sobre se ainda teria forças para se agüentar de pé, quando chegasse a hora do jantar. Se sabia que ia estar cansada, por que marcar o encontro para tão tarde?

— Ela não parecia nada preocupada com isso — disse Chet. — Aliás, se queres que te diga, estava particularmente bem-disposta. A sério?

— Diria mais: estava aos pulos.

— Já de manhã achei o mesmo...

— E como a vi tão satisfeita, falei-lhe na exposição de quinta-feira — acrescentou Chet.

— Aquela idéia de irmos os quatro ver a exposição de Monet?

Chet assentiu com a cabeça.

— Espero que não te importes...

— Qual foi a resposta dela?

— Disse que ficava muito lisonjeada por nos termos lembrado dela, mas já tinha planos.

— A Laurie usou mesmo a palavra "lisonjeada"?

— Estou a citá-la. Também me pareceu estranho, demasiado formal, o que não é nada o estilo dela.

— Quem mais andou à minha procura? — perguntou Jack, para desviar a conversa de Laurie, que estava a deixá-lo ainda mais curioso... e à beira de uma crise de ansiedade.

— O Calvin passou por aqui. Tinha ido à histologia e resolveu vir dar-te uma palavrinha, já que estava neste piso.

— Disse alguma coisa em concreto?

— Queria lembrar-te que tens de entregar o relatório do caso Jefferson até quinta-feira.

Jack fez um gesto de enfado.

— Isso depende do laboratório e não de mim.

— Bem, vou-me embora — anunciou Chet, levantando-se. Espreguiçou-se e pegou no casaco que estava atrás da porta.

— Posso perguntar-te uma coisa? — disse Jack. — Já que vives em Nova Iorque         a mais tempo do que eu. Qual é a relação entre os táxis amarelos e a central de radiotáxis?

— Os táxis amarelos ganham mais se apanharem os clientes que lhes fazem sinal na rua, em vez de atenderem as chamadas da central de radiotáxis. Os taxistas dizem que "parar é perder". Não querem ficar parados à espera de uma chamada ou terem de atravessar a cidade de uma ponta à outra e recusarem vários clientes pelo caminho. Ou andam de um lado para o outro ou perdem dinheiro.

— Então, porque é que muitos deles estão ligados à central?

— Para atenderem as chamadas, se quiserem — explicou Chet. — Mas não compensa. Geralmente, a central limita-se a indicar-lhes onde há mais movimento, se é na zona alta, na baixa ou no aeroporto, e quais as ruas a evitar, por causa do trânsito. Enfim, esse tipo de coisas.

Jack acenou com a cabeça.

— Era o que eu pensava.

— Por que esse interesse?

— Enquanto estava na Firma de Tapetes Coríntios, apareceu um motorista de táxi a dizer que ia buscar Mister Papparis — explicou Jack com um sorriso seco.

Chet riu-se.

— É a primeira vez que ouço dizer que um morto chamou um táxi. Pergunto-me de onde terá feito a chamada...

— Ou para onde quereria ir.

Chet soltou outra gargalhada, num tom igualmente superficial.

— O taxista deu-me o número da central de táxis. Liguei para lá e perguntei se o Jason Papparis era cliente habitual. Pensei que, se fosse, talvez a central soubesse quando foi a última vez que ele passou pelo armazém de Queens.

— Qual foi a resposta?

— Não foram nada prestativos — disse Jack. — Nem sequer me souberam dizer quando é que o Jason Papparis pediu o táxi. Disseram que não costumam dar informações sobre os motoristas e muito menos sobre os clientes.

— Que simpáticos! — comentou Chet. — Só pedindo uma ordem judicial, para obrigá-los a depor.

— Acho que não vale a pena.

— Mas não deixa de ser curioso — prosseguiu Chet. — Quando alguém chama um táxi em Nova Iorque, regra geral, não é um táxi amarelo que faz o serviço.

— Pois deixa-me contar-te um pormenor ainda mais curioso — disse Jack. — O motorista de táxi era um russo nascido e criado em Sverdlovsk.

— Sverdlovsk! — exclamou Chet. — A cidade soviética onde ocorreu aquela fuga de antraz numa fábrica de armas biológicas e que vem descrita no manual de medicina que me mostraste?

— Nem dá para acreditar, pois não? Que coincidência!

— Só mesmo em Nova Iorque — concluiu Chet. — Acho que não devíamos ficar admirados, já que tudo pode acontecer nesta cidade.

— O tipo até já tinha ouvido falar em antraz.

— A sério?

— Bem, não teria um conhecimento por aí além — acrescentou Jack. — Sabia apenas que era uma doença que afetava essencialmente o gado. Falou em vacas e ovelhas.

— Mesmo assim, sabe mais do que o comum dos nova-iorquinos.

Conversaram um pouco sobre o que tinham para fazer antes do fim-de-semana chegar, depois Chet despediu-se e foi-se embora. Jack virou-se para a secretária. Desmotivado, olhou para a enorme pilha de casos por resolver, colocada ao lado de um monte de slides de histologia. Pensou em pegar no microscópio e analisar os diapositivos, mas mudou de idéias quando olhou para o relógio. Já passava das sete. Sabendo que ainda tinha de fazer o caminho todo até casa, tomar um duche e vestir-se, e em seguida atravessar a cidade de bicicleta para chegar ao restaurante às oito e meia, decidiu que não tinha tempo para se pôr a trabalhar.

O trânsito na Primeira Avenida abrandara um pouco na última meia hora e Jack aproveitou a relativa tranqüilidade a partir do edifício das Nações Unidas. Seguiu ao longo da Rua 49, virou para Madison Avenue e depois para norte. Raramente fazia o mesmo percurso até a Grand Army Plaza, no extremo sudeste de Central Park. Aí, dava sempre uma volta ao fim do dia pela Fonte Pulitzer, para admirar a dourada e desnuda estátua da Abundância que a encimava. Depois, metia pelo interior do parque, a sua parte preferida da viagem. Com o passar dos anos, descobrira qual o itinerário mais prático e agradável, e fazia questão de apreciá-lo todas as noites.

Atento a eventuais ciclistas, joggers e adeptos dos patins em linha, Jack acelerou o ritmo. Embora as árvores ainda conservassem a maior parte das folhas, multas destas tinham já caído e rodopiavam na sua esteira, anunciando a inconfundível chegada do outono.

Jack adorava esse passeio rápido pelo parque, mas, simultaneamente, ficava sempre um pouco tenso. O paradoxo de estar isolado numa paisagem solitária dentro dos limites de uma cidade buliçosa como Nova Iorque trazia-lhe à memória a noite em que quase fora alvejado e morto, ali mesmo no parque, por um elemento de um gang. Era impossível ignorar que, nas sombras silenciosas de Central Park, o perigo andava à espreita.

Abandonou a serena escuridão e desembocou em pleno caos de Central Park West Avenue. Era uma espécie de regresso à civilização. Abrandando consideravelmente a velocidade, seguiu para norte, por entre as buzinas e travagens dos táxis amarelos. Na Rua 106, virou à esquerda.

Sabendo que não dispunha de muito tempo, Jack tinha pensado em ir diretamente para casa, mas não resistiu a passar junto do campo de basquetebol. Embora não pudesse jogar nessa noite, sentiu necessidade de parar a bicicleta e ver o que se passava.

O campo fazia parte de um amplo parque, quase todo de cimento, onde havia baloiços, barras e caixas de areia para as crianças mais pequeninas, e bancos para as mães babadas. Jack adorava basquetebol. Tinha jogado em Amherst, que nunca tivera uma equipa muito competitiva. Anos depois, quando se mudara para Nova Iorque, aventurara-se a entrar no campo só para treinar uns cestos sozinho. Por mero acaso, a equipa do bairro tinha um jogador a menos e, como tal, decidiu baixar os seus padrões de exigência e convidar Jack para jogar. Jack ficara imediatamente fascinado pelos jogos urbanos, animados e um tanto ou quanto violentos. Agora, sempre que o clima o permitia, era o seu ritual de quase todas as noites.

Durante um ano, Jack fora o único jogador branco daquela horda de africano-americanos do bairro, todos eles bastante jovens. Dois anos depois, outro par de intrépidos jogadores brancos juntara-se à equipa, bem como uma série de africano-americanos de uma faixa etária mais próxima dos quarenta e quatro anos de Jack.

Como jogador regular e fanático, Jack financiou novas tabelas, bolas e projetores de vapor de mercúrio. Este seu gesto filantrópico e simultaneamente egoísta fora o resultado de longas conversações com os líderes da comunidade local. O acordo final estipulava que Jack teria de pagar a remodelação das restantes áreas do parque. Jack aceitara sem pensar duas vezes, considerando que o negócio era mais do que justo, já que em troca seria recebido de braços abertos pela vizinhança.

Pedalou até junto da enorme vedação de arame que separava o campo de basquetebol do passeio. Sem tirar os pés dos pedais, agarrou-se à sebe para não cair. Tal como esperava, estava a decorrer um jogo e as equipas corriam de um lado ao outro do campo.

— Então, Doc? — gritou uma voz. "Doc" era a alcunha de Jack no bairro. — Onde é que te meteste? Mexe-te e junta-te à malta! Estás a pensar fugir ou quê?

Jack olhou para as linhas laterais do campo e viu o musculoso Warren Wilson a fazer dribles com uma bola por entre as pernas. A sua cabeça rapada reluzia sob os projetores. Estava junto de uns amigos, à espera de entrar em campo.

— Hoje não tenho tempo — respondeu Jack.

Warren afastou-se do grupo e dirigiu-se a Jack, acompanhado por Flash, um dos jogadores mais altos, cujo talento andava a par do de Jack. Warren estava a anos-luz de qualquer um dos dois.

Jack cumprimentou Flash com um aceno de cabeça, que foi correspondido. Como tinham aproximadamente as mesmas características em termos de jogo, costumavam fazer a marcação um do outro, quando estavam em equipas contrárias. Flash tinha a irritante mania de derrotar Jack quando estavam em situação de empate, acabando muitas vezes por ganhar o jogo. Daí nascera uma saudável rivalidade entre eles.

— Como é que não tens tempo? — perguntou Warren, debruçando-se sobre a vedação. — Quase não apareceste por cá, na semana passada. Acho que andas com as tuas prioridades todas maradas. Que idéia é a tua? Vais deixar que o trabalho interfira com o basquetebol? — Warren adorava atirar piadas a Jack a propósito das suas diferentes filosofias de vida e aquilo que para cada um era mais importante.

— Tenho de ir ter com a Laurie às oito e meia, a um restaurante que fica do outro lado da cidade — explicou Jack.

— Temos uma equipa de vencedores — disse Flash, na sua voz profunda e aveludada de barítono. — Eu, o Warren, o Spit e o Ron. Ainda há lugar para mais um, se se despachar. Ia ser um jogo e tanto!

—A idéia é tentadora — admitiu Jack.

— Vamos arrumar o adversário, que por agora está a ganhar — explicou Warren. — E assim começará uma nova dinastia. Mas não te atrases por nossa causa, vai lá ter com a tua miúda.

Jack olhou para o relógio e depois para o jogo. Sentia-se tentado a participar, mas isso implicava chegar tarde ao restaurante, mesmo que só jogasse uma vez. Acabou por abanar a cabeça e recusar o convite.

— Desculpem, mas hoje não dá.

— A Natalie tem andado a chatear-me a cabeça para sairmos os quatro, eu, ela, tu e a Laurie — disse Warren. — Não vos temos visto muito, ultimamente.

— Eu falo com a Laurie — prometeu Jack.

Enquanto não soubesse que enigma Laurie guardava, não podia ser particularmente otimista, em especial se envolvesse a ida dela para um lugar bem longe; a Califórnia, por exemplo. Só de pensar na eventualidade de Laurie ir embora, Jack sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

— Então, pá, sentes-te bem? — perguntou Warren, inclinando-se para observar o rosto de Jack por sobre a vedação.

— Sim, está tudo bem — respondeu Jack, afastando de si essa preocupação momentânea.

— Está tudo bem entre ti e a Laurie? — insistiu Warren. Não se chatearam, pois não?

— Não, está tudo bem — sossegou Jack. A verdade era que Laurie e ele praticamente não saíam há cerca de um mês.

— Acho que o melhor é ires dar uma corrida assim que tiveres tempo — aconselhou Warren. — Estás com cara de quem anda tenso.

— Tens razão, preciso de queimar energia. Amanhã à noite, na certa.

Jack despediu-se e, em seguida, atravessou a rua na diagonal em direção ao prédio. Sabendo que daí a pouco tornaria a sair, prendeu a bicicleta ao corrimão da entrada. Subiu até casa e enfiou-se na banheira.

Depois do duche, Jack analisou o seu parco roupeiro sem saber o que vestir e acabou por irritar-se por causa da sua estúpida indecisão. Não conseguia lembrar-se da última vez que hesitara tanto a olhar para a roupa. Por fim, vestiu as calças de ganga do costume, uma camisa de cambraia azul, uma gravata de malha azul escura e um casaco de tweed com cotoveleiras de pele. Passou a escova pelo cabelo, que teimava em fazer o que bem lhe apetecia, e desceu as escadas para ir buscar a bicicleta.

O passeio pelo parque decorreu sem incidentes. Desceu a Quinta Avenida até chegar à Rua 84, que o levou até à Segunda Avenida. O restaurante ficava perto da esquina. Com a mão a tremer ligeiramente, prendeu a bicicleta com os devidos cadeados. Assim que entrou no restaurante, pensou com os seus botões por que razão estaria tão ansioso.

O Restaurante Elio's estava cheio. À esquerda de Jack, o pequeno bar tinha cinco filas de pessoas à volta. À sua direita, ficava um grupo de mesas, onde jantavam as habituais personalidades televisivas que davam colorido ao espaço. Abrindo caminho por entre a multidão, Jack perscrutou os restantes clientes, em busca do rosto familiar de Laurie e da sua lustrosa cabeleira acobreada. Não a encontrou.

— Posso ajudá-lo? — perguntou uma voz num tom acima do ruído geral da sala. Tinha um leve sotaque gutural, provavelmente alemão.

Jack virou-se para o sorridente maitre d'hôtel.

— Penso que tenho uma mesa reservada — disse Jack. — Em que nome?

— Suponho que em nome de Montgomery.

O gerente consultou a lista.

— Ah, sim, claro. A doutora Montgomery ainda não chegou, mas uma das outras pessoas do grupo já cá está. Encontra-se no bar. Vou mandar preparar a mesa num instante.

A caminho do bar, Jack passou por entre as pessoas que esperavam de pé por uma mesa. Viu Lou sentado num dos bancos altos, agarrado a uma cerveja e dando umas passas num cigarro. Jack tocou-lhe no braço. Lou olhou para cima com uma expressão de cachorrinho abandonado.

— Não pareces nada bem-disposto — comentou Jack. Lou apagou o cigarro com ar culpado.

— E não estou. Fiquei preocupado com a Laurie depois de ter falado contigo, hoje de manhã. Como passei grande parte do dia com ela, reparei que estava esquisita, demasiado irrequieta. Quando, finalmente, ganhei coragem para lhe perguntar o que se passava, riu-se e disse que à noite ia ficar a saber. Tenho medo que esteja a pensar mudar-se para outra cidade, que tenha arranjado outro emprego. Há muita procura de médicos legistas, e olha que falo por experiência própria.

Jack não pôde deixar de sorrir. Olhar para Lou era como ver-se ao espelho e a imagem era confrangedora. Lou andara obviamente a torturar-se com as mesmas idéias que Jack.

— Vá, ri-te de mim — disse Lou. — Eu mereço.

— Não estou a rir-me de ti. Estou a rir de nós os dois. É que me passou exatamente o mesmo pela cabeça. Aliás, até fui mais longe e tentei adivinhar o sítio para onde ela vai: a costa oeste.

— A sério?

Jack fez que sim com a cabeça.

— Não sei se me ria ou se chore — queixou-se Lou. — É bom saber que há quem pense como eu, mas provavelmente significa que acertamos em cheio nos nossos palpites.

Jack recostou-se, para poder observar Lou com mais atenção. Ficou impressionado. O detetive dera-se ao trabalho de fazer a barba, para apagar aquela mancha escura que tinha sempre ao fim do dia, e pusera brilhantina no cabelo, que assim parecia molhado ao longo da risca feita a régua e esquadro. O casaco amachucado e as calças largas tinham-se eclipsado e, no seu lugar, Lou envergava um fato de bom corte, uma camisa acabadinha de lavar e uma gravata com o nó impecável. Mas o pormenor mais espantoso era que Lou tinha engraxado os sapatos.

— Nunca te vi de fato — reparou Jack. — Pareces saído das páginas de uma revista e olha que não estou a falar da Detetive. — Costumo usar fato quando tenho de ir a um funeral.

— Que idéia tão agradável — gracejou Jack.

— Perdão — disse o maitre d’hôtel, surgindo ao lado de Jack. — A mesa está pronta. Os cavalheiros gostariam de sentar-se já ou preferem ficar aqui no bar?

— Sentamo-nos já — respondeu Jack sem hesitar. Estava ansioso por fugir à nuvem de tabaco que chegava até si em segunda mão.

A mesa ficava ao fundo do restaurante e, para lá chegar, tiveram de manobrar cuidadosamente, já que a sala tinha tantas mesas quantas era possível encaixar entre quatro paredes. Assim que Jack e Lou se instalaram, apareceu um empregado trazendo um balde com champanhe gelado e duas garrafas de Brunello. Sem abrir a boca, começou a abrir o champanhe.

— Uhm... penso que se enganou no número da mesa — disse Jack. — Nós ainda não pedimos as bebidas.

— Esta não é a mesa da doutora Montgornery? — perguntou o empregado, com um sotaque espanhol e um bigodinho antiquado de pontas reviradas para baixo.

Embora o Elio's fosse um restaurante italiano, não havia dúvida de que os empregados eram francamente cosmopolitas.

— Sim, mas...

— Então, não há equívoco nenhum — declarou, fazendo saltar a rolha e depositando o champanhe no balde de gelo. Em seguida, abriu as duas garrafas de vinho.

— Parece um bom vinho — comentou Jack, segurando numa das garrafas e observando o rótulo.

— É ótimo — confirmou o empregado. — Já trago os copos.

Jack olhou para Lou.

— Não é o vinho da casa a que estou habituado.

— Agora é que estou mesmo nervoso — confessou Lou. — A Laurie costuma ser tão sovina!

— Tens razão — concordou Jack. Sempre que iam jantar fora, Laurie insistia em pagar a conta em separado.

Assim que o empregado regressou trazendo os copos, apressou-se a servir o champanhe a Jack e a Lou. Jack tentou dizer que preferiam esperar pela Dra. Montgomery, mas o empregado insistiu que eram as ordens que tinha.

Quando o empregado se afastou, Jack pegou na taça. Lou seguiu o seu exemplo e fizeram tilintar os copos sem trocar uma só palavra. Jack esforçou-se por sugerir um brinde, mas não lhe ocorreu nada apropriado ou espirituoso. Provaram o espumante em silêncio.

— Parece-me bom — disse Lou. — Mas nunca fui grande apreciador de champanhe. Associo-o sempre a grandes prêmios de fórmula um e corridas de bicicleta, em que no fim os vencedores abrem uma garrafa e borrifam a platéia de uma ponta à outra.

— Concordo plenamente.

Jack levou a taça à boca e, assim que o fez, viu Laurie. Trazia um fato de veludo negro, com umas calças que faziam jus às suas formas indiscutivelmente femininas. Para completar a toilette, exibia um colar de pérolas de três voltas. Jack achou-a de tal modo esplendorosa que quase se engasgou com o champanhe,

Jack e Lou puseram-se imediatamente de pé. O espaço era tão apertado que Lou deu um toque na mesa, derrubando a taça de champanhe. Por sorte, Jack ainda tinha a sua na mão.

— Que desastrado! — queixou-se Lou.

Laurie riu-se, pegou num guardanapo e limpou a mancha de vinho. O empregado apareceu prontamente, para dar uma ajuda.

— Obrigado por terem vindo — agradeceu Laurie, dando um beijo na face de cada um.

Foi então que Jack percebeu que Laurie não vinha sozinha. Atrás dela, estava um indivíduo muito bronzeado, de tez mediterrânica, com uma melena ondulada e basta, e uma boca cheia de dentes incrivelmente brancos. Era pouco mais alto do que Laurie, que tinha um metro e sessenta e sete, mas transmitia um ar de segurança e poder. Jack calculou que teria mais ou menos a sua idade. Envergava um fato de seda escuro, que fazia o de Lou parecer ter sido comprado nos saldos. No bolso do peito do casaco trazia um lenço colorido.

— Quero apresentar-vos o Paul Sutherland — anunciou Laurie, numa voz trêmula que denotava nervosismo.

Jack cumprimentou Paul, a seguir a Lou. Quando os seus olhos se encontraram, Jack não conseguiu distinguir onde terminavam as íris e começavam as pupilas. Era como espreitar para as profundezas de um berlinde negro. O aperto de mão era firme e determinado.

— Por que é que ainda estamos todos de pé? — perguntou Laurie.

A resposta de Paul foi puxar imediatamente uma cadeira para Laurie. Assim que ela se sentou, os outros fizeram o mesmo. O empregado apressou-se a encher as taças de champanhe.

— Gostava de propor um brinde — anunciou Laurie. — Aos amigos!

— Aos amigos! — ecoou Paul.

Tilintaram as taças e beberam o champanhe.

Seguiu-se um breve silêncio constrangedor. Jack e Lou não faziam a mais pequena idéia por que razão Laurie decidira levar um estranho a jantar com eles e não queriam perguntar.

— Bem... — disse Laurie, por fim. — Que dia nós tivemos, não foi, Lou?

— Sem dúvida.

— Espero que não leves a mal, se falarmos um bocadinho de trabalho, Paul. Aquele caso do cabeça-rapada de que te falei ocupou-me a mim e ao Lou durante praticamente o dia todo.

— Estejam à vontade — respondeu Paul. — Estou certo de que a conversa deve ser fascinante. Aquela série que costumavam dar na televisão sobre uma médica legista era uma das minhas preferidas.

— O Paul é executivo — explicou Laurie.

Jack e Lou acenaram com a cabeça em simultâneo. Jack ficou à espera de um comentário que esclarecesse de que tipo de executivo se tratava, mas Laurie mudou de assunto.

— Hoje fiquei a saber mais sobre a extrema-direita do que queria — prosseguiu. — Especialmente sobre as milícias de direita e os cabeças-rapadas.

— Eu não sabia absolutamente nada sobre a música que deu origem ao movimento dos cabeças-rapadas — acrescentou Lou.

— O que me impressionou, e me assusta, é saber que este movimento das milícias existe a nível nacional — continuou Laurie. — O agente especial do FBI, o Gordon Tyrrell, diz que deve haver cerca de quarenta mil militantes armados espalhados pelo país inteiro, à espera sabe Deus de quê.

— Acho que estão à espera que o governo impluda sob o peso de tanta burocracia — disse Paul. — Como se fosse uma espécie de estrela de neutrões. Nessa altura, os militantes vão estar em condições não só de sobreviver ao caos, mas especialmente de dominá-lo.

— E estão dispostos a dar uma ajudinha nesse processo de implosão — disse Laurie. — O agente Tyrrell disse que o objetivo supremo deles, e de tanta violência, é deitar abaixo o governo, agora que a União Soviética deixou de ser o arquiinimigo.

— A vingança também serve de pretexto — comentou Lou. Basta pensar no Timothy McVeigh, do atentado de Oklahoma de mil novecentos e noventa e sete. Segundo consta, o objetivo dele era vingar-se do que as autoridades tinham feito em noventa e três, em Waco, à seita do David Koresh.

— Naquela época, eu achava que uma pessoa como o Timothy McVeigh era uma aberração — confessou Laurie. — Mas, pelos vistos, há muitos mais como ele e isso é que me parece assustador. Existem quarenta mil potenciais Timothy McVeiglis e ninguém sabe quando é que vão atacar de novo e sob que pretexto.

— E como é que vão atacar — acrescentou Jack. — Lembram-se da palestra que o Stan Thorriton fez a pedido do Gabinete de Crise da Câmara? É bem possível que um desses loucos consiga deitar as mãos a uma arma biológica de destruição maciça.

— Que Deus nos ajude se algum dia isso acontecer — disse Laurie.

— O Gordon Tyrrell não acha que seja uma mera hipótese — avisou Lou. — O seu departamento de antiterrorismo acha que vai mesmo acontecer, resta saber quando. Pensem na quantidade de armas nucleares que existem na antiga União Soviética e que as autoridades não declararam.

— E se pedíssemos o jantar? — sugeriu Laurie, abanando a cabeça com ar de quem queria mudar de assunto. — Se continuarmos com esta conversa, vou acabar por perder o apetite.

O empregado dirigiu-se a mesa assim que o chamaram. Desfiou uma longa lista de pratos especiais, enquanto servia o resto do champanhe. Depois de todos terem feito o seu pedido, desapareceu rumo à cozinha.

— Só queria perguntar-te mais uma coisa sobre o caso do cabeça-rapada — disse Jack. — Descobriste alguma coisa na autópsia que possa ajudar o FBI?

Laurie suspirou e lançou um olhar a Lou.

— Nem por isso. Qual é a tua opinião, Lou?

— O teu palpite de que os ferimentos foram provocados por uma faca de serrilha pode ajudar — disse Lou. — Desde que encontrem a arma. A bala que extraíste do cérebro também poderá esclarecer alguns pontos, mas, antes de termos os resultados da perícia, não podemos avançar com nenhuma idéia. O fato de os pregos utilizados na crucificação serem de fabrico polaco não vai servir para nada, porque já cheguei à conclusão de que estão à venda em toda a parte.

— Então, esse tal Exército Popular Ariano continua a ser um enigma para as autoridades?

— Infelizmente, sim — respondeu Lou. — A única coisa que me deixa mais tranqüilo é que, de repente, os sites da internet relacionados com ele deixaram de ser tão concorridos. Temos esperança de que isso signifique que decidiram cancelar os projetos que tinham em curso.

— Esperemos que assim seja — concluiu Jack.

Os aperitivos foram trazidos para a mesa e o vinho tinto servido. Concentraram-se os quatro na comida e, por uns instantes, a conversa ficou reduzida ao mínimo indispensável. Jack observava Laurie sub-repticiamente, mas não conseguiu trocar um olhar com ela.

— Fala-nos do caso que estiveste a analisar hoje — pediu Laurie a Jack. — Ouvi dizer que também era muito interessante.

Jack pigarreou.

— Surpreendente, sim, mas quanto a interessante... um pouco. Era um caso de inalação de antraz.

— Antraz? — perguntou Lou, visivelmente interessado. — Isso é uma potencial arma biológica.

— Sim, sem dúvida — concordou Jack. — Mas, felizmente, ou infelizmente, dependendo do ponto de vista, este caso tem uma origem mais prosaica. A vítima tinha acabado de importar um monte de tapetes da Turquia, onde a doença é endêmica. Ao que parece, trata-se de uma vítima isolada e os tapetes estão em segurança, trancados num armazém de Queens. E a história termina aqui. Nem sequer consegui suscitar o interesse do epidemiologista da Câmara Municipal.

— Louvado seja o Senhor por estas pequenas benesses! — disse Laurie.

— Amém — acrescentou Lou.

As entradas foram servidas e, enquanto os quatro estiveram concentrados no jantar, a conversa manteve-se em terreno neutro, A demora em abordar a verdadeira questão, fosse ela qual fosse, estava a agravar a curiosidade de Jack. E para aumentar a sua ânsia existia aquela sensação, que não podia deixar de sentir, de que havia uma estranha familiaridade entre Laurie e Paul. Reparou na maneira como ela lhe tocava no braço e na formacomo ele limpara o canto da boca de Laurie com um guardanapo. Aos olhos de Jack, essas pequenas intimidades ficavam mal, porque de certeza se conheciam há pouco tempo. Finalmente, quando trouxeram os cafés, Laurie pigarreou e deu umas pancadinhas no copo com o garfo. Paul sorriu com um ar de satisfação e recostou-e. Era óbvio que, para ele, a festa era de Laurie.

— Vocês devem estar a pensar porque é que vos convidei para jantar — começou Laurie.

"Não, que idéia! Nem sequer pensei nisso", disse Jack para os seus botões, sentindo o coração disparar.

— Não sei muito bem como vos dizer isto, mas... — Laurie olhou para Paul, que encolheu os ombros como quem diz que também não sabia.

"Vá, despeja lá o que tens para dizer antes que eu vomite", proferiu Jack em silêncio.

— Antes de mais, acho que vos devo um pedido de desculpas — disse Laurie, fixando Jack e Lou alternadamente. — Desculpem por vos ter ligado tão cedo. Quero dizer, para vocês era cedo...

Jack pestanejou. Agora é que não estava a perceber nada. Por que é que era cedo para eles e não para ela?

— A explicação é que vos telefonei de França — anunciou Laurie. — Eu e o Paul fomos passar o fim-de-semana a Paris e eu liguei-vos do aeroporto, quando estávamos à espera de embarcar no Concorde para voltarmos para Nova Iorque.

Paul acenou com a cabeça, confirmando a história, que aterrou como uma bomba.

— O Paul tinha negócios a tratar em Paris — prosseguiu Laurie — e teve a generosidade de me convidar para ir com ele. Foi um fim-de-semana em cheio! — Olhou para Paul e esticou a mão direita, que ele segurou com carinho.

Com os maxilares cerrados, Jack esboçou um sorriso amarelo. Subitamente, viu Paul como uma cobra traiçoeira, que conseguira conquistar Laurie com esse seu gesto grandioso e tão galante: um fim-de-semana em Paris.

— Uma das coisas que aconteceu foi bastante inesperada. Pelo menos para mim...

Laurie mostrou a mão esquerda, que mantivera discretamente debaixo da mesa durante todo o jantar. Esticou-a por cima da toalha com o punho fechado. De repente, num gesto teatral, abriu a mão e estendeu os dedos.

Tanto Jack como Lou pestanejaram. Estavam a olhar para um diamante que parecia do tamanho de uma bola de golfe, enfiado no dedo anelar de Laurie. A luz da sala incidiu na pedra, que a refletiu com uma intensidade ofuscante.

— Vocês vão-se casar! — exclamou Lou, como se estivesse a descrever um cataclismo iminente.

O casal interpretou esse tom como sendo de admiração e não de pavor,

— É o que parece — respondeu Laurie com um sorriso. — Ainda não disse o sim definitivo, mas, como vêem, o Paul convenceu-me a aceitar o anel. Ainda nem sequer demos a novidade aos nossos pais. Vocês são os primeiros a saber.

— Que honra! — disse Jack, finalmente, enquanto o seu cérebro dava voltas e mais voltas em busca de uma explicação para aquela inesperada reviravolta. Sempre considerara Laurie demasiado madura para agora estar a comportar-se como uma adolescente.

— Isto foi um verdadeiro remoinho na minha vida — declarou Laurie, olhando para Paul, à espera que ele corroborasse a idéia.

— Eu usaria a palavra furacão — disse Paul com uma lasciva piscadela de olho.

Laurie e Paul mergulharam então, numa animada descrição de todas as coisas românticas que tinham conseguido fazer no mês anterior. Jack e Lou ficaram reduzidos a acenar com a cabeça nas deixas certas, enquanto mantinham os sorrisos forçados colados no rosto.

Quando as histórias chegaram ao fim, Paul levantou-se. Laurie observou-o carinhosamente, enquanto ele se dirigia aos lavabos. Virando-se de novo para os seus dois velhos amigos, soltou um suspiro.

— Ele é maravilhoso, não é?

Jack e Lou entreolharam-se na esperança de que o outro respondesse.

— Então? — insistiu Laurie.

Jack e Lou começaram a falar ao mesmo tempo e, de imediato, deram a palavra ao outro, educadamente.

— O que é isto? Um sketch cômico? — perguntou Laurie, desvanecendo-se o seu beatifico sorriso. — Que se passa convosco?

— Fomos apanhados de surpresa — confessou Jack, por fim. — Pensávamos que tinhas recebido uma proposta de trabalho e que nos ias deixar. Mas nunca pensamos que estivesses de casamento marcado.

— E por que não? Isso quase parece um insulto! Por acaso sou demasiada velha para me casar, é?

— Não foi isso que quis dizer — murmurou Jack.

— Há quanto tempo conheces este tipo? — perguntou Lou.

— Há dois meses — respondeu Laurie, na defensiva. — Sei que não é muito, mas acho que isso é irrelevante. Ele é inteligente, meigo, generoso, confiante e está disposto a assumir um compromisso. Para mim, essas qualidades é que são importantes. Especialmente a confiança e a capacidade de assumir uma relação séria.

Jack e Lou enfiaram a carapuça.

— Eu não acredito nisto! — criticou Laurie. — De todas as pessoas que conheço, pensei que vocês seriam as primeiras a ficar felizes por mim.

— Que tipo de negócios é que ele faz?

— E que tipo de pergunta é essa?

— Uma simples pergunta, nada mais — respondeu Jack, timidamente.

— Para dizer a verdade, não sei. E não me interessa. É ele que importa e não o que ele faz na vida. Vocês, homens, são insuportáveis.

— Os teus pais já o conhecem? — perguntou Lou.

— Claro. Conheci-o através dos meus pais.

— Que bom! — comentou Lou.

Laurie sorriu, desconsolada.

— Nunca pensei que a noite fosse terminar assim.

Nem Jack nem Lou sabiam o que dizer. Felizmente, foram salvos pelo regresso de Paul, que vinha animadíssimo, sem a menor idéia do que acontecera na sua breve ausência. Estava prestes a sentar-se quando Laurie se levantou.

— Acho que está na hora de irmos.

— Não tomamos um último copo no bar? — perguntou Paul.

— Acho que todos nós já bebemos o suficiente — declarou Laurie. — E como o Jack costuma dizer, amanhã é dia de escola.

Jack esboçou um sorriso. Sentia-se pior ainda por saber que tinha desiludido Laurie. Pôs-se de pé.

— Felicidades para ambos — disse com um entusiasmo falso. — E dadas às circunstâncias, eu e o Lou fazemos questão de oferecer-vos o jantar.

— Já está tudo tratado — anunciou Paul com um ar de superioridade. — O jantar é por nossa conta.

— Eu preferia pagar — insistiu Jack. — Afinal, parece-me justo.

— Que disparate — respondeu Paul. Esticou a mão e despediu-se de Jack e de Lou. — Foi um prazer conhecer os dois melhores amigos da Laurie. Não imaginam os elogios que elas vos faz, nem a quantidade de vezes que fala em vocês. É suficiente para qualquer um ter ciúmes — rematou, com uma gargalhada.

— Vemo-nos amanhã, no instituto — despediu-se Laurie. Deu meia-volta e atravessou o restaurante apinhado. Paul despediu-se uma última vez e correu atrás dela.

Jack olhou para Lou.

— Que queres fazer?

— Ir para casa e dar um tiro na cabeça.

— Queres companhia?

Afundaram-se nas cadeiras. Jack sentia-se em estado de choque. O fato de Laurie estar noiva era bem pior do que ela ir-se embora para outra cidade. Em vez de mudar-se para a costa oeste, era como se fosse para Vênus. O incidente fê-lo tomar consciência, de repente, de como andara a evitar pensar no futuro. O sentimento de culpa que nutria por causa da perda da sua família, não o deixava conceber a idéia de felicidade futura. Daí ter tanta dificuldade em assumir um compromisso.

Lou escondeu a cabeça nas mãos. Era a imagem perfeita da desolação.

— Sempre temi que a Laurie se viesse a casar, um dia. Especialmente contigo.

— Comigo? — surpreendeu-se Jack. — Eu tinha medo de que ela casasse contigo. Sei que vocês andaram juntos antes de eu aparecer pelo meio.

— Não valia a pena teres-te preocupado. Não ia dar certo, nunca. No curto espaço de tempo que saímos com uma certa regularidade, meti a pata na poça. À mínima discussão, pensava que ela ia acabar comigo e portava-me como uma besta. Estávamos os dois a dar em loucos, por isso decidimos ter uma longa conversa. Esta noite, quando ela falou de "confiança" como uma qualidade muito importante, estava a referir-se a mim.

— A boca sobre a capacidade de assumir um compromisso era para mim — disse Jack.

— O que é que correu mal entre vocês os dois? Nunca consegui perceber o que foi. Parecia que se davam tão bem! Tiveram uma educação semelhante, freqüentaram as melhores escolas... enfim, essa treta toda.

— Isso ajudou a ruptura — disse Jack. — Mas estou tão baralhado que nem eu sei as razões todas que nos fizeram separar.

— É uma tragédia! — queixou-se Lou. — Para ti e para mim. Pelo menos, se ela desse o nó contigo, eu podia continuar amigo dos dois. Quando ela casar com aquele idiota, nunca mais a vejo. Sempre imaginei que eu e a Laurie íamos ficar amigos para o resto da vida, mesmo se ela se casasse. Mas, hoje, depois de ver aquele pedregulho no dedo dela, percebi que esse tipo de amizade com que sempre sonhei está fora de questão.

— Pela minha parte, acho que estava à espera que o presente nunca mudasse — confessou Jack.

Lou acenou com a cabeça e pensou uns instantes antes de perguntar:

— Que achaste do tipo?

— É uma cobra traiçoeira — respondeu Jack sem qualquer hesitação. — Mas não sei até que ponto estou a ser objetivo. É óbvio que estou cheio de ciúmes. Irritou-me a maneira como passaram a noite toda a tocar um no outro.

— Também me irritou — corroborou Lou. — Pareciam dois adolescentes apaixonados. Que nojo! Mas também ponho a minha objetividade em causa. Acho que foi tudo demasiado rápido, como se o tipo andasse atrás do dinheiro dela, apesar de ela não ter dinheiro nenhum. Mas, claro está que isso pode ser a minha faceta cínica de detetive a falar por mim.

Jack abanou a cabeça, desolado.

— Podemos ficar aqui o resto da noite a dizer mal dele, mas a verdade é que o Paul é muito mais espontâneo do que nós, já para não falar na massa que tem. Um fim-de-semana em Paris! Nunca eu faria uma coisa dessas. Dava em louco só de pensar nas despesas e, obviamente, seria uma companhia péssima.

— Fico possesso por saber que há gente que consegue fazer esse tipo de coisa. Com a pensão que tenho de pagar à minha ex-mulher e com dois filhos para criar, tenho sorte se sobrarem uns tostões no fim do mês.

— Possesso não me parece a palavra certa... eu diria "invejoso".

Lou arrastou a cadeira e pôs-se de pé.

— Tenho de ir para a cama antes que me dê a depressão. Há dois dias que não durmo.

— Vamos.

Juntos, abriram caminho por entre a multidão do restaurante, sentindo-se ainda mais deprimidos à luz do ambiente festivo.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

22h15

Depois de Curt e Steve se terem ido embora, Iuri desceu ao seu querido laboratório. A primeira coisa que fez foi reparar os estragos que Connie causara ao arrombar os cadeados. Por uma questão de segurança, fixou os ferrolhos diretamente na porta em vez de substituir os parafusos. Assim, um intruso necessitaria de uma ferramenta consideravelmente mais forte do que um pé-de-cabra para os soltar.

Enquanto trabalhava, pensou na inquietante visita de Curt e Steve. A fúria deles surpreendera-o, em especial o desagrado que manifestaram ao saber que Iuri passara pelo quartel dos bombeiros, A explicação de que ele representava um risco para a segurança da operação por ser um estrangeiro com sotaque russo não o convencera. Nova Iorque era uma cidade cosmopolita; metade da população tinha sotaque.

Iuri pensou que devia existir outra razão para eles não quererem que aparecesse no quartel. Embora não fosse capaz de descortinar um motivo, a verdade é que ficara incomodado com a história toda. Pela primeira vez, começou a questionar a sua relação com Curt e Steve. Sabia que eles tinham preconceitos muito fortes, por isso ocorreu-lhe que talvez os tivessem em relação a ele e, se fosse esse o caso, então não eram seus amigos como pensara.

O outro motivo que os enfurecera, o fato de Connie ser negra, afigurava-se-lhe igualmente misterioso. Não tanto o preconceito em si, pois estava ciente do racismo de Curt e de Steve. O que o espantara fora o tamanho da raiva, tão desmesurada, e a explicação pseudo-religiosa que Steve arranjara. Desde o início, nem Curt nem Steve mostravam ser pessoas particularmente religiosas.

Por último, havia a questão da camioneta de pesticidas e do pulverizador. Iuri não entendia o porquê de tanta demora em entregarem-lhe o que pedira. Afinal, era um dos pontos cruciais do acordo que haviam feito. Sem isso, Iuri não podia levar a cabo a sua parte da operação. Necessitava de um pulverizador que fosse móvel, pois um fixo nunca seria tão eficaz.

Para consertar a porta interior do laboratório, Iuri vestiu o fato de isolamento e abriu a válvula do cilindro de ar comprimido. O regulador não era como aqueles normais que costumam ser utilizados pelos mergulhadores, já que mantinha o ar em circulação constante dentro do fato, impedindo a entrada de quaisquer partículas do exterior.

Era complicado trabalhar com o fato vestido, pois dificultava os movimentos e o calor tornava-se insuportável. Como Iuri sabia o risco que corria se não o usasse, não se importava com o desconforto, mas, de fato, demorava mais tempo a fazer fosse o que fosse.

Depois de arranjar a porta, dirigiu-se para o fermentador da Clostridium botulinum. Fez um teste para averiguar a concentração da bactéria e, uma vez mais, ficou desapontado. Não compreendia por que motivo as culturas continuavam a crescer a um ritmo tão lento. Estava certo de ter seguido cuidadosamente as condições de incubação que haviam colhido resultados tão bons, uma década atrás, quando manipulara a bactéria na União Soviética. A experiência fora concebida de maneira a obter um crescimento acelerado das culturas e uma produção máxima de toxina.

Iuri desconfiava de que devia haver ar dentro do fermentador. A Clostridium botulinum era uma bactéria que se desenvolvia na ausência de oxigênio; por conseguinte, Iuri utilizara dióxido de carbono em vez de ar nas culturas. Talvez houvesse uma falha no cilindro de dióxido de carbono que as tropas de Curt lhe tinham arranjado. Infelizmente Iuri não tinha possibilidade de o analisar e seria demasiado demorado esperar por um cilindro novo.

Iuri levantou-se de onde estivera agachado a verificar a temperatura interna do fermentador. Estava uns graus abaixo do nível ideal, por isso ajustou o termostato que fabricara a partir de um normal, de banho. O fato de a temperatura não ser a mais correta não ajudava ao desenvolvimento das culturas, mas também não servia de justificação para um atraso tão acentuado.

Pensou na hipótese que Curt sugerira, de parar com a produção de Clostridium botulinum e usar o fermentador para desenvolver antraz, ficando assim ambas as unidades a produzir esporos. Era uma idéia a considerar, já que seria a única forma de conseguir produzir material suficiente no espaço de tempo combinado. O único problema era que essa operação iria levar horas e, de momento, Iuri tinha uma preocupação maior: Connie.

Dirigiu-se para a campânula e ligou a ventoinha. Enfiou as mãos já enluvadas nas proteções de borracha presas a cada um dos orifícios abertos na parte da frente da campânula e pegou cuidadosamente no recipiente de vidro que continha o grosso da sua produção mais recente de toxina botulínica. Despejou uma parte num frasco pequeno.

Iuri utilizara a técnica de precipitação de ácido para concentrar e purificar a toxina. Depois de tornar a suspender a toxina numa solução aquosa, precipitara-a com sulfato de amônio, para formar uma amálgama cristalina de toxina pura combinada com uma proteína estabilizadora, que mais tarde secara e desfizera em pó.

Ficava menos apreensivo com a sua segurança quando manipulava a toxina botulínica do que quando mexia no pó de antraz. Embora tivesse sido vacinado contra ambos os agentes, ainda na União Soviética, sentia-se mais seguro da sua imunidade em relação à toxina do que aos esporos de antraz.

Depois de selar o pequeno frasco, Iuri lavou-o por fora antes de retirá-lo da campânula. Em seguida, executou a primeira fase do processo de desinfecção e descontaminação, pondo-se debaixo de um chuveiro e lavando-se com lixívia.

À saída do laboratório, submeteu-se à segunda fase, que incluía uma segunda passagem por água e lixívia. Só então despiu o fato de isolamento, desligou o tanque de ar comprimido e pendurou-os ambos nos seus respectivos cabides. Depois, levou o frasco com cuidado para a cozinha e escondeu-o no fundo do armário dos pratos, por cima da bancada.

Preparado para ouvir as inevitáveis agressões verbais de Connie, Iuri dirigiu-se para a porta do quarto e abriu-a. Como era hábito, Connie estava sentada na cama partida a ver televisão, ignorando o fato de o colchão e o estrado se encontrarem assentes diretamente no soalho.

— Que queres? — resmungou Connie, segurando um saco de gelo contra o olho esquerdo inchado.

— Vou pedir uma pizza — disse Iuri. — Pensei que talvez estivesses com fome.

Connie afastou o saco de gelo do rosto e observou o marido com curiosidade.

— O que é que tu tens? — perguntou em tom sarcástico. — Nunca te preocupaste se eu tenho fome ou deixo de ter.

— Estou com remorsos por te ter batido — disse Iuri, tentando parecer convincente. — Desculpa.

— Desculpa o tanas! — ripostou Connie. — Se pensas que com isso te devolvo o televisor, estás muito enganado, portanto desiste.

— Não quero que me devolvas o televisor. E desculpa por ter dado cabo do teu. Perdi a cabeça.

— Grande novidade!

— Não compreendes... — começou Iuri, tentando assumir um ar de penitente confesso. — O laboratório é muito importante para mim.

— Como se eu já não o tivesse adivinhado, a avaliar pela quantidade de horas que passas lá metido!

— Aquele laboratório vai ajudar-me a sair desta miséria — explicou Iuri. — Quero dizer, vai ajudar-nos a ambos.

Connie baixou o volume do televisor e apoiou-se num cotovelo.

— Que estás a querer dizer?

— Estou a tentar voltar ao ramo da microbiologia — disse Iuri. — Tenho de efetuar uma série de experiências para provar que sei o que estou a fazer. Talvez então consiga um emprego decente. Não quero ser motorista de táxi para o resto da vida.

— Que tipo de emprego?

— Qualquer coisa na área da microbiologia. Aqueles dois tipos que estiveram aqui hoje têm andado a ajudar-me, mas estão preocupados. É proibido por lei ter um laboratório numa casa particular e, se me meter em sarilhos, eles também vão ficar em maus lençóis.

— Pensei que tinhas de voltar a estudar, se quisesses trabalhar com bactérias.

— Não, se provar que tenho qualificações para o fazer. E se conseguir prová-lo e arranjar um bom emprego, então poderemos começar uma nova vida. Talvez até voltar a ir jantar fora, como fazíamos...

— Está bem, está! No dia trinta e um de fevereiro!

— Acredita em mim — pediu Iuri. — Mas, enquanto esse dia não chega, queres comer uma pizza ou não?

— Está bem — acedeu Connie. — Com pimento e anchovas. E pede, também uma caixa de gelado de nata com nozes.

— É para já — disse Iuri, fechando a porta com um sorriso forçado.

Uma coisa era certa: nada tirava o apetite àquela mulher. Mas ainda bem que ela pedira o gelado; seria melhor para a toxina botulínica, especialmente porque sabia que Connie acabaria por comer a caixa toda.

Iuri pegou no telefone da cozinha e ligou para a loja de pizza ao domicílio. Fez o pedido de Connie e depois o seu, uma pizza de tamanho normal com mozzarella, tomate e manjericão. Antes de desligar, pediu uma salada pequena e café. A noite ia ser longa.

Nervoso, pôs-se a andar de um lado para o outro. À medida que o tempo ia passando, sentia-se cada vez mais tenso. Embora se tivesse mostrado muito seguro à frente de Curt, a verdade é que não sabia ao certo o que ia acontecer a Connie quando ingerisse a toxina. Um dos seus problemas era não saber qual a quantidade que devia utilizar. Teria de deitar um pouquinho no gelado e fazer figas para que funcionasse. A única certeza que tinha era de que seria melhor usar toxina a mais do que a menos. Se Connie ficasse apenas doente e surgisse a suspeita de botulismo, ele seria apanhado com a boca na botija por causa do laboratório na cave.

Quando bateram à porta, Iuri apanhou um susto. Temendo que fossem mais problemas, espreitou por entre os estores e foi com alívio que viu o rapaz da pizza. Abriu a porta, pagou a encomenda e segurou nas caixas, que ainda vinham quentes.

Afastou os restos das embalagens de take-away que Connie deixara em cima da mesa e arranjou espaço para as caixas de pizza e o saco com a salada, o café e o gelado. A sua maior preocupação era o gelado. Retirou-o de dentro do saco e colocou-o sobre a bancada. Estava ligeiramente mole, pois não vinha numa embalagem térmica.

Iuri saiu discretamente da cozinha e foi até junto da porta do quarto. Encostou o ouvido à madeira. Connie continuava entretida a ver televisão, provavelmente deitada em cima da cama como há pouco.

De volta à cozinha, tentou abrir a embalagem de gelado sem a danificar. Assim que conseguiu, interrogou-se sobre como acrescentar-lhe a toxina. Teve receio de a pôr toda de uma só vez e de Connie sentir um gosto estranho e cuspir tudo. Depois de analisar as várias hipóteses ao seu dispor, pegou numa taça e despejou nela grande parte do gelado. Tirou o frasco do armário da louça. Sustendo a respiração, espalhou um pouco de toxina sobre a nata.

— Oh, que se lixe! — murmurou, despejando o resto na taça.

Ao todo, não passava de uma pitada, mas se a toxina era, de fato, tão letal como pensava, aquela dose era enorme, provavelmente capaz de acabar com a população toda de Brigliton Beach.

Iuri lavou o frasco na pia e deixou a água correr. Com um garfo, mexeu o gelado o melhor que pôde. Em seguida, pegou numa colher e tomou a vertê-lo para a caixa. A tarefa foi mais difícil do que esperava e, no fim, parecia que havia mais gelado do que à partida. Só a custo conseguiu encaixá-lo na embalagem e fechar a caixa.

Limpou a taça, mas, ainda assim, decidiu nunca mais a utilizar. Aliás, no dia seguinte, fazia tenções de a deitar fora, juntamente com o garfo e a colher.

Depois de lavar cuidadosamente as mãos, Iuri pegou noutra colher, na caixa de gelado e na embalagem com a pizza de pimentos, e dirigiu-se para o quarto de Connie.

— Estava a ver que nunca mais vinhas — comentou Connie, assim que Iuri abriu a porta.

— Onde queres que ponha as coisas?

— Aqui junto de mim, no chão — pediu Connie sem tirar os olhos do ecrã.

Iuri baixou-se e colocou a comida sobre o tapete. Deixou a colher em cima da caixa de gelado e endireitou-se.

Foi então que Connie olhou para ver o que ele tinha feito.

— Não quero gelado — disse ela.

— Como, não queres? — perguntou Iuri, consternado.

— Põe-no na porcaria do congelador! — gritou Connie. — Só vou comê-lo depois da pizza e não quero que derreta.

— Está bem — respondeu Iuri com alívio. Pegou no gelado e na colher e saiu do quarto. — Avisa quando o quiseres, está bem?

Connie deixou cair a cabeça para o lado e fitou Iuri de testa franzida.

— O que é que se passa contigo? Não costumas ser tão simpático.

— Já te disse que estou com remorsos.

— Quem me dera que tivesses ataques de remorsos mais vezes!

Iuri voltou para a cozinha. Murmurando um rol de adjetivos pouco simpáticos sobre Connie, guardou o gelado no congelador. Sentia as têmporas a latejar. Precisava de um copo de vodca. Tal como suspeitara, a noite ia ser longa.

 

— Okay, pessoal, vamos a calar! — gritou Curt ao grupo irrequieto.

Convocara um encontro do Exército Popular Ariano e estavam todos reunidos nos fundos do Orgulho Branco, na sala de bilhar. O proprietário do bar era Jeff Connolly, um velho conhecido de Curt. Jeff não era membro oficial do grupo, embora simpatizasse com a política do EPA: antigovernamental, antinegros, anti-semita, anti-hispânica, anti-imigração, antifeminista, antiaborto e antigay. Estava sempre disposto a esvaziar a sala de jogos para o EPA poder reunir-se.

Por insistência de Curt, a organização era completamente clandestina. Não havia cartões de sócio, nem sequer insígnias. Curt pedia a todos para nunca usarem o nome do grupo, embora ele e Steve o fizessem quando entravam em contacto com outras milícias através da Internet. À parte isso, as informações eram sempre passadas boca a boca. Para convocar aquela reunião, Curt não fizera telefonemas nem enviara mensagens escritas. Avisara uma pessoa cara a cara e essa, por sua vez, avisara outra e assim sucessivamente. Como a maior parte dos membros do EPA freqüentava o Orgulho Branco todos os dias sem exceção, a tarefa tornava-se mais fácil.

Curt recrutara oito cabeças-rapadas, recorrendo ao método que aprendera com Tim Melcher. Escolhia um adolescente num dos muitos bares de cabeças-rapadas da zona e metia conversa, que rapidamente se tornava uma espécie de entrevista. Sempre que pensava que o rapaz seria facilmente moldável aos seus ideais, começava, então, a pregar a sua ideologia. Era fácil, porque os cabeças-rapadas estavam ansiosos por pertencer a uma organização e por encontrar um alvo para o qual canalizar os seus instintos violentos. Além disso, Curt conhecia a luta e a mágoa desses adolescentes e, como tal, conseguia inflamar os seus ódios e preconceitos em estado embrionário.

Porém, não era fácil manter um grupo como esse sob controlo. Por um lado, muitos dos membros do EPA eram estúpidos como Iuri, e desconheciam as regras básicas da segurança. O fato de terem dado a Brad Cassidy a oportunidade de se juntar ao movimento, quando este decidira abordar diretamente alguns dos militantes, era bem exemplo disso. Todos acreditaram na história dele, menos Curt. Em primeiro lugar, suspeitava sempre de quem não crescera no bairro. Em segundo, ninguém era considerado membro do EPA sem antes ser entrevistado por Curt Durante a entrevista, Brad caíra em várias contradições. A partir daí, bastou pegar numa faca e em alguns metros de arame para a verdadeira história vir a lume. Brad Cassidy era um espião do governo.

O outro problema de Curt era a sede de violência dos seus recrutas, que tinha de ser canalizada na direção certa. Inicialmente, pensara que essa sede ficaria saciada entre missões com simples conversas sobre atos de agressão, mas veio a descobrir que falar não era suficiente. De vez em quando, Curt tinha de deixar os soldados percorrer zonas de Brooklyn, ou inclusive de Manhattan, à procura de alguém a quem dar uma sova, correndo o risco de serem apanhados pelas autoridades.

As roupas e as tatuagens também incomodavam Curt. Esforçava-se para que eles refreassem a sua maneira de vestir, dizendo que os seus atos deveriam falar por si. Seriam mais eficazes, explicava, se fossem capazes de passar despercebidos, mas era como falar para as paredes. Havia qualquer coisa naquelas t-shirts, insígnias nazis, cortes de cabelo e botas pretas que apelava aos instintos mais básicos deles e não havia quem conseguisse persuadi-los a mudar de opinião.

— Então, malta! — gritou Steve. — Não ouviram o que o Curt disse? Prestem atenção!

Kevin Smith e Luke Benn endireitaram-se junto da mesa de jogos. Batendo com a ponta dos tacos de bilhar no chão, puseram-se em sentido, embora com um ar desconjuntado. Stew Manson, que estava em plena discussão com Clark Eberson e Nat Jenkins, virou-se para Curt e cambaleou. Desde as oito que não parava de beber e não sentia nada. Mike Compisano, Matt Sylvester e Carl Ryerson levantaram os olhos do seu turbulento jogo de cartas. Mesmo no meio de um grupo como aquele, Cari destacava-se de todos os outros pela suástica que tinha grosseiramente tatuada na testa.

— Esta noite, temos uma missão — anunciou Curt. — Uma missão que exige subtileza, um termo cujo significado me quer parecer que vocês desconhecem.

Ouviram-se risinhos abafados.

— Temos de ir até Long Island — prosseguiu Curt. — Até Hampton Bays, mais precisamente, para roubar uma camioneta.

— Não é preciso fazer esse caminho todo só para roubar uma camioneta! — disse Stew, enrolando a língua. — Há muitas camionetas aqui mesmo, em Brooklyn.

— Trata-se de uma camioneta especial — explicou Curt. — Qual de vocês tem jeito para arrombar carros e fazer uma ligação direta?

A maior parte dos soldados virou-se para Clark Ebersol.

— Eu, suponho — respondeu Clark, um rapaz magro com a cabeça cheia de altos, que deviam dificultar consideravelmente a tarefa de rapar o cabelo. — Roubo carros desde os doze anos, para me divertir. — De momento, trabalhava numa oficina do bairro.

— O Compisano é bom a desativar alarmes — disse Kevin.

Kevin era ruivo como Steve, mas com o cabelo rapado era difícil de perceber, a não ser pelas sardas que lhe manchavam a pele. Com dezesseis anos, era o mais novo do grupo, embora fosse um miúdo grande e corpulento. Os outros tinham idades que iam até aos vinte e dois. Luke Benn era o mais velho.

— Estou habituado a lidar com alarmes de casas, não de automóveis — avisou Mike Compisano.

Apesar do nome italiano, Mike era um copinho de leite desde que nascera. As suas sobrancelhas louras eram quase invisíveis, conferindo-lhe uma expressão de perpétua surpresa.

— Pelo menos sabes alguma coisa sobre alarmes — disse Curt. — Isso pode dar jeito. Nesse caso, tu e o Clark vêm comigo e com o Steve. Os outros vão com o Nat.

De todos os soldados, Nat era aquele que gozava de melhor situação financeira. O irmão trabalhava no setor da recolha de lixo e era dono de uma carrinha como a de Curt, com duas filas de assentos.

— Stew, tu ficas aqui — ordenou Curt.

— O caraças é que fico! — ripostou Stew. — Eu vou aonde todos os outros forem.

— É uma ordem! — gritou Curt, perdendo a paciência. — Estás bêbedo. Levas umas cinco cervejas de vantagem sobre toda a gente e eu não quero pôr esta missão em risco.

— Porra, meu! — praguejou Stew.

— Não discutas! Vamos embora.

Enquanto Stew Manson amuava a um canto, o resto do grupo apressou-se a sair da sala de bilhar. Quase todos compraram cervejas para a estrada. A saída do bar, deixaram-se cair nos bancos dos seus respectivos veículos.

— Mantém-te atrás de nós a uma distância razoável — avisou Curt, antes de Nat ligar o motor da carrinha.

Nat levantou o polegar em sinal afirmativo. Segundos depois, a carrinha começou a abanar, ao som das batidas graves dos Brutal Attack. Nat tinha um sistema especial de colunas, com um woofer que puxava pelos graves ao ponto de fazer saltar os parafusos das portas.

Puseram-se em marcha, formando um combóio de dois veículos. Nat seguiu as ordens de Curt e manteve-se a uma distância segura da carrinha da frente. A meio caminho, em Long Island, pararam numa estação de serviço, para irem à casa de banho.

— Já quase não temos cerveja — disse Nat a Curt, diante do urinol. — Podemos parar na próxima estação para nos abastecermos?

— Acabou-se a cerveja até terminarmos a missão — ripostou Curt.

Como o fluxo de trânsito diminuíra drasticamente, a segunda parte da viagem foi bastante mais rápida. O congestionamento do centro urbano e dos subúrbios deu lugar à tranqüilidade de pequenos lugarejos, quintas e propriedades palacianas de verão.

Passava da meia-noite quando entraram em Sagamaunatuck, uma próspera cidade de veraneio, que fazia as vezes de grande entreposto comercial daquela parte da ilha. Abrandando deliberadamente para uma velocidade inferior ao limite imposto, Curt avançou ao longo da Main Street, a avenida principal. A maior parte das lojas estava fechada. Os únicos locais ainda com movimento eram os dois bares da zona, situados um à frente do outro, em lados opostos da estrada. Tinham as portas semi-abertas, para deixar entrar a brisa suave de meados de outubro. Em cada um havia apenas meia dúzia de clientes. Da rua, ouvia-se a música que emanava baixinho de ambos os estabelecimentos.

— Uma cidade pacata — comentou Steve.

— Esperemos que assim se mantenha — respondeu Curt.

— Ei, há ali uma charcutaria judaica bem porreira — disse Carl, excitado, apontando do banco de trás para a fachada às escuras. — Já viram aqueles letreiros tão estúpidos que puseram na montra? E tudo em estrangeiro!

— Não te entusiasmes — avisou Curt. — Viemos aqui para tratar de uma coisa e de nada mais.

Curt e Steve tinham feito o reconhecimento da área um mês antes e sabiam para onde se dirigir. A empresa de pesticidas ficava na rua seguinte, paralela à avenida principal.

Curt virou à esquerda na primeira esquina, seguiu ao longo da Banks Street e tomou a virar, agora para a Hancock. A Empresa de Pesticidas Wouton encontrava-se do lado direito, num edifício de um só andar. Um cartaz anunciava que a firma era especializada em material de construção, produtos agrícolas e comerciais. À direita, havia um parque de estacionamento rodeado por uma vedação de arame, com um portão trancado a cadeado. Três veículos com o logotipo da Wouton (uma vespa como as dos desenhos animados) estavam estacionados de frente para a parede lateral do edifício. Dois eram carrinhas, o terceiro uma camioneta com a carga coberta por uma lona.

Curt encostou junto da berma. Desligou o motor, apagou os faróis e fez sinal a Nat Para estacionar ao seu lado. Desceram os vidros, para poderem trocar algumas palavras.

— Quantos comunicadores tens? — perguntou Curt. Para coordenar as equipas em cada missão, Curt comprara um dispendioso sistema de walkie-talkies, que funcionava num raio de vários quarteirões.

— Dois — informou Kevin, sentado no banco da frente, ao lado de Nat.

— Toma mais um — disse Curt entregando-lhe um walkie-talkie extra. — Bom, o plano é o seguinte: quero dois tipos na esquina da Hancock com a Willow, com um rádio. Quero outros dois atrás de nós na esquina da Hancock com a Banks, com outro rádio. Nat, estaciona num sítio estratégico que te permita apanhar qualquer um dos grupos, se for necessário.

— E o que é que nós fazemos? — perguntou Kevin, irritado. — Ficamos aqui parados no escuro?

— Vocês vão ser atalaias, sua cabeça de alho chocho — ripostou Curt. — Vigias.

— E vigiamos o quê? — perguntou Kevin. — Esta terriola é uma pasmaceira.

— A bófia da região. A última vez que eu e o Steve aqui estivemos, eles andavam a patrulhar as ruas. Esperemos que não apareçam, mas se isso acontecer, encarreguem-se de os distrair. Façam o que for preciso para que os chius não nos chateiem, enquanto tiramos a camioneta da propriedade e a levamos conosco.

— Não estou a perceber — insistiu Kevin.

— Armem uma confusão — disse Curt, exasperado. — Discutam, gritem uns com os outros. Assim que os chuis virem o vosso aspecto, virão a correr para aqui que nem moscas atraídas pela merda. Se quiserem levar-vos para a esquadra, não resistam. Mas depois, já sabem: não abram a boca. Na pior das hipóteses, talvez tenham de passar a noite no xadrez, mas nada mais. Confiem em mim.

— Já percebi — respondeu Nat do lugar do condutor.

Kevin começou a dizer que não fazia tenções de passar a noite na gaiola, mas Nat deu-lhe uma palmada na cabeça e mandou-o calar.

— Nat, avisa-me pelo comunicador quando todos estiverem a postos — pediu Curt.

— Tudo bem — disse Nat, e arrancou.

Nat avançara apenas uns escassos quinze metros quando um carro-patrulha dobrou uma esquina e se dirigiu para as duas carrinhas.

— Merda! — praguejou Curt. — Baixem-se todos!

Curt e o resto do grupo baixaram-se no exato momento em que os faróis do carro-patrulha incidiram na carrinha.

— Era disto que eu tinha medo — sussurrou Curt.

O aparecimento inesperado da polícia lembrou-lhe o que acontecera no dia em que haviam roubado os fermentadores da destilaria de Nova Jersey. Um segurança surgira de repente, vindo do nada, quando eles estavam entretidos a soltar os canos. Curt esquecera-se de colocar vigias à espreita, por isso foram apanhados completamente de surpresa.

Infelizmente, o segurança era africano-americano e Stew Manson, que já tinha tomado a sua habitual dose olímpica de cerveja, descontrolou-se. Desatou a chamar "preto" ao guarda, que não estava armado, e com uma ferramenta pesada de canalizador deu-lhe uma pancada com força na cabeça. O crânio rachou-se como um ovo cru, aumentando em flecha o risco da missão. Em vez de um assalto, de repente, todos eles eram cúmplices de um assassínio. Desta vez, Curt estava decidido a evitar surpresas desse tipo.

— O que é que o Nat fez? — perguntou Steve.

— Não sei, não vi.

O carro-patrulha passou sem parar. Curt esticou o pescoço para ver no espelho retrovisor em que direção seguia o automóvel da polícia. Felizmente, não se deteve e virou à direita, para a Banks Street. Olhando em frente, Curt reparou que Nat parara no cruzamento e dois vultos saíram do carro. A porta do lado do passageiro fechou-se e a carrinha desapareceu de vista ao dobrar a esquina. Os dois homens desapareceram nas sombras. Curt soltou uma longa expiração. Nem se apercebera de que estava a suster o fôlego.

— Esperemos que não voltem tão depressa — disse Curt do banco de trás.

— Estou com um mau pressentimento — anunciou Steve.

— Também eu — concordou Curt. — Mas temos de ir buscar a camioneta.

— E se voltássemos amanhã à noite?

— Não faria diferença nenhuma e nós prometemos ao Iuri que lhe entregávamos a camioneta ainda hoje.

Ficaram os quatro em silêncio durante uns minutos, enquanto a tensão aumentava. Por fim, Mike perguntou:

— Alguém tem uma cerveja?

— Nada de beber até terminarmos a missão! — gritou Curt, irritado com a infantilidade dos seus soldados. Havia momentos em que pensava que não tinham um pingo de bom senso.

No instante em que Curt começava a ficar preocupado com a demora, o comunicador que tinha na mão vibrou. Carregou no botão de escuta e, por entre o ruído de fundo, ouviu Nat dizer que estavam todos a postos, o que significava que Kevin e Luke se encontravam na Willow Street, e Matt e Carl na Banks.

— Entendido — disse Curt, guardando o comunicador no bolso. — Está na hora, pessoal, toca a andar!

Saíram da carrinha; Clark empunhando um canivete e uma lanterna; Mike tinha duas pequenas chaves de parafusos, um alicate e vários metros de fio elétrico isolado. Curt debruçou-se sobre a parte de trás da carrinha e retirou um alicate robusto para cortar metais que trouxera do quartel dos bombeiros. Escondeu-o por baixo do casaco. Como a t-shirt que levava vestida era muito fina, sentiu na pele o frio do aço.

— Portem-se como se fôssemos funcionários da empresa e andássemos a verificar os equipamentos — avisou Curt, quando se aproximaram do portão. Sabia que bastava um dos moradores do prédio em frente chegar à janela e seriam imediatamente vistos.

Embora não existissem candeeiros de rua, havia alguma claridade. Estava uma noite límpida, com uma lua brilhante, convexa, espreitando por entre uma ou outra nuvem que passava veloz.

— Qual dos veículos levamos? — perguntou Clark.

— Em princípio, a camioneta — respondeu Curt. — Dependendo do que tiver dentro.

A pergunta de Clark fez Curt evocar a sua missão de reconhecimento a Sagamaunatuck, um mês atrás. Na altura, ele e Steve tinham visto essa mesma camioneta. Quando a encontraram, estacionada na rua principal, e a inspeccionaram, levava equipamento para controlo de pragas na carga, juntamente com cilindros de ar comprimido. O condutor era um indivíduo simpático, de barba e faces coradas, com um boné de basebol onde se via o logotipo da Wouton inscrito por cima da pala. Acabava de almoçar no restaurante da zona e vinha bem-disposto e conversador.

— Sim, isto é um pulverizador — dissera o homem em resposta à pergunta de Curt. Nem Curt nem Steve entendiam fosse o que fosse sobre pesticidas. — Mas só serve para substâncias em pó, não pode ser usado para pulverizar produtos líquidos.

— Tem um ar potente — comentou Curt, piscando o olho a Steve. Era exatamente aquilo de que eles precisavam, terminando assim uma busca que demorara uma semana.

— Olá se é! — exclamou o indivíduo, dando uma palmadinha afetuosa na máquina. — É topo de gama.

— Como é que funciona? — quis saber Curt.

— O pesticida em pó é colocado neste funil — explicou, apontando para uma caixa de metal pintada de verde-escuro. O equipamento era todo ele verde, à exceção dos bocais cor de laranja. Aqui dentro há um tambor que faz circular o pó com a ajuda de ar comprimido. Depois de passar por um sistema de medição, a centrifugadora projeta o pesticida, que é libertado juntamente com ar através destes bocais.

— Então é bastante eficaz — comentou Curt, à espera de confirmação.

— É incrível! — disse o homem. — A centrifugadora chega a atingir as vinte e duas mil RPM, fazendo circular cerca de trezentos metros cúbicos de ar por minuto. A essa velocidade, o ar é lançado pelos bocais a aproximadamente cento e sessenta quilômetros por hora.

Curt e Steve assobiaram em sinal de admiração e começaram a congeminar como levar a camioneta para a cidade. O plano que então engendraram estava, agora, a ser posto em prática.

— Temos de certificar-nos de que o carro-patrulha não anda aqui perto — disse Curt.

Pegou no walkie-talkie e falou com os restantes grupos. Depois de lhe terem assegurado que a área estava limpa, tirou o alicate de baixo do casaco e arrombou o cadeado. Passou a ferramenta a Steve, antes de retirar o cadeado partido. O portão rangeu assim que o abriu.

— Sejam rápidos — alertou Curt, enquanto corriam os três para a camioneta.

Steve levantou a ponta da lona. Ao luar, reconheceram de imediato o pulverizador verde-escuro.

— Mãos à obra — disse Curt a Mike e Clark.

Com uma enorme destreza, Clark enfiou o canivete no espaço entre o vidro e a parte de dentro da porta e, dando um leve jeito, destrancou-a num ápice. Olhou para Mike.

— Abre a porta — disse Mike, postado à frente da camioneta. — Se disparar o alarme, abre o capot.

— Esperem! — disse Curt. — Queres dizer que o alarme pode disparar?

— Se a camioneta tiver alarme, não há maneira de evitar que dispare — explicou Mike. — Mas não vai soar por muito tempo, desde que se consiga abrir o capot e desativar o mecanismo.

Curt perscrutou a vizinhança. Apesar de ser bastante tarde, ainda se viam algumas luzes acesas nos apartamentos do outro lado da rua. Percebendo que não tinha alternativa, exibiu uma cara de poucos amigos e fez sinal a Clark para prosseguir.

Assim que Clark abriu a porta, o alarme da camioneta disparou e os faróis começaram a piscar.

Clark levantou o capot e Mike apontou a lanterna para o motor. No espaço de segundos, que, para Curt, pareceram uma eternidade, a sirene parou e os faróis apagaram-se. Mike fechou o capot com o mínimo de ruído possível e deu a volta até junto do lugar do condutor. Clark estava já debruçado sobre o banco, a mexer com perícia nos fios por baixo do volante.

— Preciso de luz — disse Clark, espetando a mão por trás das costas. Mike passou-lhe a lanterna, como um corredor de estafetas passando o testemunho.

Com os ouvidos a zumbir ainda por causa do alarme, Curt observou a rua. Receava ver o prédio em frente iluminar-se de uma ponta à outra, mas tal não aconteceu. De repente, sentiu o walkie-talkie vibrar.

Enquanto levava o comunicador ao ouvido, o motor da camioneta pegou, fazendo um ruído rouco e engasgado.

— Merda, a bateria está em baixo — disse Clark, sentado ao volante. — A camioneta devia estar parada há muito tempo.

Curt carregou no botão de escuta. Até si chegou a voz de Nat, por entre os ruídos de fundo, anunciando que havia um problema.

— Que tipo de problema? — perguntou Curt, nervoso.

— O Kevin e o Luke foram atrás de uns maricas — explicou Nat.

— Por amor de Deus! — soltou Curt, exasperado. — Vai buscá-los e mete-os na carrinha! E os outros também.

— Entendido — respondeu Nat.

Curt levou as mãos ao céu.

— Que se passa?

— É melhor nem perguntares — disse Curt a Steve. — Vou acabar com eles!

— Têm cabos aí na carrinha? — perguntou Clark. — Acho que vamos ter de ligar a bateria à vossa, para que esta merda ande.

— Mas será que nada corre bem esta noite?

A Curt não agradava a idéia de ter de estacionar a sua própria carrinha no parque da empresa de pesticidas, mas não havia alternativa. Correu para o veículo. Enquanto Curt se instalava ao volante, Nat passou por eles na carrinha, em direção à Willow Street, e soou a buzina. Matt e Cari acenaram com um sorriso. Curt praguejou entre dentes. Onde é que fora desencantar aquela cambada de idiotas?

O mais rápido possível, Curt meteu a carrinha no parque, de frente para o veículo da Wouton. Deixou o motor em ponto morto, soltou o fecho do capot e saiu do carro. Retirou os cabos de ligação à bateria que estavam debaixo do banco. Mike pegou numa extremidade, enquanto Curt ligava a outra à bateria da sua carrinha.

Assim que fizeram a ligação, o motor da camioneta de pesticidas pegou. Curt retirou os cabos da bateria e Mike seguiu-lhe o exemplo.

— Muito bem — cuspiu Curt, nervoso. — Steve e Clark, metam-se nesta maldita maquineta e levem-na para o Orgulho Branco, mas não passem pelo centro da cidade e virem à esquerda aqui na Hancock! Respeitem o limite de velocidade, não pisem no acelerador! Se vos mandarem parar, a missão vai por água abaixo. Mike, tu vens comigo.

— Mas o bar está fechado — avisou Steve.

— Então, manda uma mensagem ao Jeff. — ripostou Curt. — Caramba, será que tenho de vos dizer tudo?!

Curt enfiou-se na carrinha e fez marcha atrás rapidamente. Depois, tornou a sair do veículo, enquanto Clark passava com a camioneta da empresa pelo portão.

— Onde é que vais? — perguntou Mike.

— Quero fechar o portão — disse Curt. — É escusado pôr um anúncio aqui fora a dizer que levamos a camioneta.

O portão fechou-se, rangendo. Subitamente, Curt ouviu gritos e pedidos de socorro vindos da Willow Street. Sentiu os pêlos da nuca eriçarem-se.

Curt meteu-se na carrinha e acelerou em direção à Willow Street, com os faróis apagados.

— Ouviste os gritos? — perguntou Mike.

— É claro que ouvi — respondeu Curt, irritado.

— Que seca! — comentou Mike. — Acabo sempre por perder a melhor parte.

Curt lançou um olhar fulminante ao recruta, mas conteve-se para não o mandar passear.

Com uma chiadeira de pneus, Curt travou a fundo em pleno cruzamento, para poder ver toda a extensão da Willow Strect. Identificou a carrinha de Nat ao fundo da rua, a cerca de meio quarteirão, na direção oposta à zona comercial da cidade. Deu uma guinada ao volante e dirigiu-se para lá. A direita, num relvado, distinguiu vultos no escuro a espancarem outros que estavam estendidos no chão. Em resposta ao tumulto, começaram a acender-se luzes em várias casas. Foi então que ouviu as sirenes da policia.

— Merda! — gritou Curt. Assim que parou atrás da carrinha de Nat, olhou pelo espelho retrovisor. As luzes intermitentes de um carro da polícia vinham diretas a eles.

— Mete-os dentro da carrinha do Nat! — rosnou Curt a Mike, que saltou da cabina, sem protestar. A situação era claramente de urgência.

Pelo espelho, Curt observou o carro-patrulha a aproximar-se. A princípio, pensou que o melhor era baixar-se e ficar escondido até o polícia sair do carro e juntar-se à confusão. Poderia, assim, meter prego a fundo e deixar os recrutas abandonados à sua sorte. Mas, depois, teve outra idéia. Como já participara em várias corridas de morte, sabia que a melhor maneira de dar cabo de um veículo era embater de marcha atrás na dianteira dele. Para isso, era crucial que o polícia estacionasse atrás de Curt, como ele queria. Felizmente, foi o que aconteceu.

Assim que o polícia começou a sair do carro, Curt engatou a carrinha em marcha atrás e pisou o acelerador a fundo. Os pneus patinaram, fazendo uma chiadeira estridente antes de começarem a rolar. A pesada carrinha precipitou-se para trás e ganhou uma velocidade considerável até embater no carro-patrulha.

Apesar de se ter preparado para o choque, Curt sentiu o pescoço dar um esticão durante o embate. O som fez lembrar o de latas de cerveja a serem esmagadas. A sirene do veículo, que até então rasgava a noite com o seu apito agudo, calou-se. O capot do carro-patrulha abriu-se e saiu um jato de fumo do motor.

Para Curt, o que importava era que a porta do lado do condutor fora arrancada das dobradiças e saltara para a estrada. O polícia, cuja mão continuava agarrada à porta, ficara estendido de barriga para baixo no alcatrão.

— Deus seja louvado! — comentou Curt. Meteu a primeira e puxou pelo acelerador.

No início, o carro-patrulha continuou preso ao pára-choques traseiro da carrinha. Curt recuou um pouco para depois tornar a avançar, conseguindo assim desprender os dois veículos. Ao olhar para a estrada, verificou que o polícia não se mexera.

Mais à frente, entre gritos e gargalhadas, os soldados entraram para a carrinha de Nat, à exceção de Mike, que correu para junto de Curt e se sentou no lugar do passageiro. A meio do relvado, viam-se duas figuras inertes, deitadas sobre as costas.

— Grande manobra! — berrou Mike, olhando pelo retrovisor para a dianteira espatifada do carro-patrulha. O motor parara de espirrar fumo e, agora, via-se apenas uma nuvem de vapor e poeira à luz dos faróis ainda acesos.

Curt não fez comentários. Arrancou e deteve-se adiante, ao lado da carrinha de Nat.

— Ouçam lá, ó palhaços — chamou, depois de abrirem os vidros. — Nada de paragens pelo caminho, respeitem o limite de velocidade e sigam diretamente para o Orgulho Branco para termos uma reunião! Entendido?

— Entendido — respondeu Nat por entre um novo ataque de riso.

Curt acelerou, abanando a cabeça, frustrado. A operação mais parecia saída de um filme cômico, mas não tinha piada nenhuma.

— O carro-patrulha parece prestes a incendiar-se — comentou Mike.

Curt lançou um olhar ao veículo e ia começar a explicar que o fumo era uma mera conseqüência do contato entre o fluido refrigerante e o tubo de distribuição quando se lhe deparou a última estúpida brincadeira dos seus recrutas: em vez de avançar Nat fez marcha atrás e passou com a carrinha por cima do polícia estendido na estrada de barriga para baixo. Curt sentiu um arrepio. Não via nas autoridades locais um inimigo, como acontecia no caso de agentes do FBI ou da polícia municipal.

Mike fixou o olhar em frente, quando Curt virou à esquerda no cruzamento seguinte, dirigindo-se de novo para a cidade.

— Eu sei porque é que o Kevin e o Lulce se atiraram àqueles dois paneleiros — disse.

— Acredito que sim — resmungou Curt, irritado e sem qualquer interesse.

Fosse qual fosse a explicação, Curt tencionava dar uma tremenda descompostura a Kevin e a Luke, assim que chegassem à base. Era imperdoável desobedecer a uma ordem, mesmo tratando-se de uma ordem implícita.

— Eram um casal inter-racial — explicou. — Um era branco, o outro era preto, e os sacanas iam de mão dada.

— Ali, agora entendo... — disse Curt, mudando genuinamente de opinião. Maricas e, ainda por cima, adeptos da miscigenação. Compreendeu que era, de fato, uma situação que dava azo a reações violentas.

 

Iuri pestanejou e abriu os olhos. Sentou-se no sofá, onde adormecera. Não sabia ao certo o que o despertara. Consultou o relógio. Passava um pouco da uma da manhã. Do quarto de Connie, de porta fechada, vinha o som do televisor.

Soltando meia dúzia de pragas em russo, Iuri pôs-se de pé e calçou os chinelos. Como tinha de levantar-se cedo para começar a trabalhar ao volante do táxi, costumava deitar-se cedo. Por conseguinte, desconhecia os hábitos noturnos de Connie, a não ser que ela ia para a cama depois dele. Mas uma da madrugada era realmente tarde. Havia fortes probabilidades de ela ter adormecido sem sequer provar o gelado de noz com natas.

De pé, Iuri encolheu-se ao sentir uma nevralgia nas têmporas. Estava a tremer. Foi invadido por uma sensação de náusea que o fez fechar rapidamente a caixa da pizza semi-comida, pousada em cima da mesinha da sala. Tinha um aspecto repugnante.

Iuri estava esgotado e sentia-se miserável. Engoliu o resto de vodca que estava no copo e tentou raciocinar. Tinha de fazer alguma coisa; não podia continuar à espera que Connie lhe pedisse a sobremesa.

Deteve-se por uns instantes junto da porta fechada. Interrogou-se se deveria bater ou simplesmente abrir, como costumava fazer nas raras ocasiões em que entrava no quarto dela. Acabou por abrir sem avisar.

Connie desviou o olhar do filme clássico que estava a dar na televisão e fitou Iuri durante breves instantes. Tinha o olho esquerdo mais inchado. Ao lado da cama, estava a caixa de pizza, aberta e vazia.

— Não queres o gelado? — perguntou Iuri num tom sério.

— Ainda estás acordado? Que se passa? Estás mal-disposto?

— Estou só cansado.

— Pensei que já tivesses ido para a cama.

— Adormeci no sofá — disse Iuri. — Então, queres o gelado?

— Pareces um cão atrás do osso com tanta insistência por causa do gelado. Já é tarde — anunciou Connie. — Estava quase a adormecer.

— Anda lá, come um bocadinho. Dei-me ao trabalho de o encomendar..

— Tens a certeza de que não estás doente? — perguntou Connie, de novo. — Estás tão esquisito que começo a ficar preocupada.

— Caramba! — gritou Iuri, perdendo a paciência. — Já te disse que estou com remorsos por te ter batido e dado cabo do televisor. Estou a tentar ser simpático, mas nem sequer me deixas.

— Agora, sim, já pareces o Iuri que eu conheço. Tudo bem, traz-me o gelado, se isso te acalma. E, já agora, aproveita e deita fora a caixa da pizza.

Aliviado mas à beira de um ataque de nervos, Iuri pegou na caixa e levou-a para a cozinha. Tirou o gelado do congelador e foi buscar uma colher à gaveta. Voltou para o quarto de Connie e entregou-lhe as duas coisas.

Com um grande esforço, Connie conseguiu sentar-se na cama e segurar na caixa e na colher.

— Este gelado foi aberto — disse, olhando para Iuri à espera de uma explicação.

Provei-o antes de jantar. Connie bufou.

— Não pediste licença.

Iuri não respondeu. Tinha os olhos colados ao telefone que se encontrava perto da cama de Connie. Não se lembrara de que ela poderia telefonar a alguém para descrever os seus primeiros sintomas, isto é, se realmente comesse o gelado. Aflito, não fosse ela ligar a um médico, Iuri percebeu que tinha de tirar o telefone dali.

— Estou a falar contigo — insistiu Connie. — Sabes que não gosto que mexam na minha comida.

— Tirei uma colherada, para provar.

— Foi uma vez só ou andaste aqui a fuçar com a colher?

— Foi uma colherada e nada mais. Abre e vê.

Connie resmungou, abrindo a embalagem. A superfície do gelado estava lisa e intocada.

Iuri não conseguia arranjar uma desculpa para tirar o telefone do quarto sem levantar suspeitas.

— Não vejo de onde é que tiraste uma colherada — disse Connie.

— Porque foi muito pequena — respondeu Iuri. — Por amor de Deus, esquece isso e prova o gelado!

— Está bem. Agora deixa-me em paz.

— É para já. Grita quando quiseres que venha buscar a caixa.

Espantada, Connie ergueu a sobrancelha que não estava inchada e fitou Iuri com desconfiança. Daí a pouco, tomou a olhar para o ecrã.

— Depois chamo-te... ou talvez não — anunciou.

Iuri saiu do quarto. Viu Connie levar distraidamente a colher à boca e engolir, antes que ele tivesse tempo de encostar a porta. Voltou para a sala de estar e sentou-se ao fundo do sofá, de maneira a conseguir ver o quarto de Connie. Era apenas uma nesga que estava aberta, mas deixava ver os pés da cama e as pontas dos dedos de Connie.

O tempo arrastou-se. Iuri não sabia se Connie estaria ou não a comer o gelado, embora o mais natural fosse que sim, já que, depois de começar, dificilmente parava. O filme nunca mais acabava, apesar de a banda sonora ter várias vezes atingido picos que pareciam anunciar o final. Iuri tinha esperança que Connie se levantasse para ir à casa de banho, dando-lhe tempo para entrar no quarto e roubar o telefone.

Finalmente, passados quarenta e cinco minutos, Connie fez-lhe a vontade, assim que o filme terminou.      .

Iuri pôs-se imediatamente em campo. Abriu a porta. A caixa de gelado estava no chão, ao lado da cama, com a colher lá metida. Infelizmente, a porta da casa de banho não se encontrava completamente fechada. A única fonte de luz no quarto era o televisor. No ecrã, via-se um anúncio.

Com o coração desenfreado, Iuri aproximou-se da mesa-de-cabeceira. Daí, conseguia ver uma parte da casa de banho, mas nem sinais de Connie. Pegou no telefone e esticou o fio até chegar à tomada de parede, atrás da mesinha cheia de pratos e copos sujos.

Ao passar a mão por baixo do fio, deu um encontrão na mesa-de-cabeceira. Alguns copos caíram e estilhaçaram-se. O barulho sobrepôs-se ao volume do televisor.

Pensando que Connie poderia aparecer a qualquer instante, arrancou o fio da parede. O gesto fez com que outro copo se partisse. Iuri agachou-se para pegar na caixa vazia de gelado. Como temia, a porta da casa de banho abriu-se de rompante e o corpo maciço de Connie apareceu na ombreira. Vinha a escovar os dentes.

— Que barulho foi esse? — perguntou, levando a mão à boca com medo de deixar cair pasta de dentes para o chão. Segurava a escova com o seu enorme punho fechado.

— Não sei — disse Iuri, esperando que ela não percebesse o que acontecera. — Deve ter sido na televisão. — Com a mão esquerda atrás das costas, tentava esconder o telefone, enquanto com a direita equilibrava a caixa de gelado. Levantou-o para que ela o visse: — Vim só buscar isto.

Connie estava cada vez mais espantada com o comportamento de Iuri, mas não fez comentários. Enfiou a escova de dentes na boca e voltou para a casa de banho.

Aliviado, Iuri saiu do quarto e correu para a cozinha. A primeira coisa que fez foi esconder o telefone debaixo da pia. Depois, lavou a caixa de gelado antes de a deitar fora. Fez o mesmo à colher, à taça que usara antes e ao garfo e à outra colher.

Com uma mão trêmula, Iuri tirou do armário um copo de balão e serviu mais uma dose generosa de vodca gelada. Necessitava desesperadamente do seu efeito tranqüilizante. No fundo, sentia-se desapontado consigo mesmo por estar tão nervoso.

Instalou-se no sofá e esperou. Infelizmente, não fazia a mínima idéia de quanto tempo teria de ali ficar. Perguntou-se o que aconteceria se Connie adormecesse antes de os sintomas se manifestarem. Teve medo que ela nunca chegasse a acordar.

Olhou para o relógio. Também estava preocupado por já serem duas da manhã e ainda não haver sinais da camioneta de pesticidas. Curt tinha prometido. Iuri pensou o que isso significaria para o futuro da Operação Glutão.

Apesar da ansiedade, tornou a adormecer. Quando acordou meia hora mais tarde, percebeu de imediato o que o despertara. Connie chamava-o insistentemente do quarto, mas de uma maneira estranha. Parecia incapaz de pronunciar o "R" do seu nome, como se estivesse bêbeda.

Iuri levantou-se, mas perdeu o equilíbrio. Teve de apoiar-se no braço do sofá para não cair. Depois, com as pernas bambas, dirigiu-se ao quarto da sua mulher e abriu a porta. Connie estava deitada na cama partida, mas havia algo de diferente na forma como o olhava. Em vez da habitual expressão enervada, Iuri percebeu que ela estava com medo.

— Que foi?

— Há qualquer coisa que não está bem — disse Connie com dificuldade em articular as palavras.

— O quê? — perguntou Iuri, fingindo-se irritado.

— Estou com dores de barriga e vomitei. Acho que o gelado me fez mal.

— Se te sentes mal, deve ser da pizza. Sempre que como anchovas, fico com os intestinos às voltas.

— Mas não são os intestinos que me incomodam.

— Então o que é? — disse Iuri, impaciente.

— Não consigo ver televisão — explicou Connie, pronunciando a custo o "T". — Estou a ver a dobrar. Vejo dois televisores em vez de um.

— Então, desliga-o e dorme. É tarde.

— Não consigo dormir. Estou nervosa e assustada por estar a ver tudo a dobrar.

— Experimenta tapar o olho que está inchado — sugeriu Iuri.

Connie levou a mão ao rosto.

— E agora?

— Vejo melhor assim — confirmou Connie. — Já não vejo dois televisores.

— Chama-me se te sentires pior — disse Iuri, virando-se para sair do quarto.

— Há mais uma coisa... — começou Connie, enrolando as palavras. — Estou com sede. Tenho a garganta completamente seca.

— Então, vai buscar um copo de água. — Iuri encostou a porta.

— Tenho medo de me levantar! — gritou Connie. — Tentei pôr-me de pé, mas fiquei tonta e sem forças. Quase caí.

— Com essas banhas todas, não admira.

— Traz-me água, por favor.

Iuri perguntou-se se a sede teria alguma coisa a ver com a toxina, mas não sabia. No entanto, os problemas de visão e a dificuldade em falar estavam, de fato, relacionados com os efeitos da toxina botulínica. O que o preocupava era os vômitos. Seria uma trágica ironia se Connie vomitasse a maior parte do veneno por ele o ter utilizado em demasia. Por outro lado, a náusea podia dever-se à absorção da toxina. Iuri não conhecia muito bem os sintomas do botulismo, a não ser em ratos, ratazanas, cães e macacos.

— Está bem, vou buscar água.

— Talvez fosse melhor ir ao hospital — disse Connie, sem pronunciar o "L".

— O quê? Por causa de uma dor de barriga? Não digas disparates!

— Tenho medo. Sinto-me esquisita!

— Vou buscar a água.

Iuri fechou a porta e entrou na cozinha. Os nervos estavam a dar cabo dele, muito mais do que pensara. Se um médico a visse agora, poderia descobrir o que se passava. Enquanto enchia um copo na torneira do lava-louça, ouviu uma súbita pancada forte na porta da entrada. O barulho inesperado fê-lo dar um salto. Iuri sentiu-se invadir pelo medo que só quem viveu sob um regime déspota e ditatorial conhece. Ficou também ele com a garganta seca. Bebeu um gole de água, segurando no copo com as duas mãos.

A tremer, espreitou por entre os estores da cozinha para ver quem estava lá fora. Ficara tão obcecado com o problema de Connie que se esquecera de Curt, até ver as feições dele iluminadas pela luz do quintal. Na penumbra, viu Steve de pé, atrás de Curt, com as mãos enfiadas nos bolsos.

No início, Iuri sentiu-se aliviado, mas, enquanto destrancava a porta, praguejou entre dentes. Vinham numa hora péssima.

— Temos uma prenda para ti, sócio — anunciou Curt, fazendo um gesto por cima do ombro.

Iuri olhou para a entrada da casa. Atrás da carrinha de Steve encontrava-se um veículo escuro; na porta do lado do condutor, lia-se em letras garrafais "Empresa de Pesticidas Wouton".

— Tem um pulverizador? — perguntou Iuri.

— Vamos meter esta porcaria na garagem e depois vemos isso — http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL296521-6174,00-JOGO+EUROPEU+ALERTA+CRIANCAS+PARA+ABUSOS+NA+INTERNET.htmldisse Curt.

— Está bem. Eu já venho. — Iuri fechou a porta e correu para a cozinha.

Pegou no copo de água e voltou para o quarto de Connie. Estendeu-lho, mas quando Connie tentou segurar no copo, ficou sem forças no braço.

— Estou demasiado fraca — disse, deixando cair a mão sobre a cama. — Custa-me respirar.

— Não te preocupes. Eu seguro no copo.

Levou-o aos lábios de Connie, mas ela não conseguiu levantar a cabeça. Engasgou-se e a água escorreu pelo queixo. Assim que tossiu, o seu rosto ficou encarnado.

— Vou encher o copo — disse Iuri.

Quis pousá-lo na mesa-de-cabeceira, mas estava tão cheia de coisas que teve de o pôr no chão, entre os cacos. Connie tentou falar por entre a tosse, mas Iuri ignorou-a. Saiu do quarto a correr e foi à cozinha buscar as chaves, antes de voltar para a entrada. Quando abriu a porta, percebeu que Curt não estava a gostar da brincadeira.

— Muito obrigado por nos deixares aqui fora, às escuras.

— Desculpem — disse Iuri, fechando a porta atrás de si. — Estou a resolver o problema da Connie.

— O que é que isso quer dizer?

— Ela ingeriu a toxina muito tarde — explicou Iuri, encaminhando-se para a garagem. — Só agora é que os sintomas estão a manifestar-se.

— Mas tens a certeza de que ela vai desta para melhor? — perguntou Curt, seguindo Iuri, enquanto Steve ia buscar a camioneta dos pesticidas.

— Penso que sim.

Iuri abriu o portão da garagem.

— Espera! — disse Curt. Agarrou no braço de Iuri e fê-lo parar. — Precisamos de certezas e não de palpites. Se alguma coisa correr mal, a operação toda corre perigo. Quero certezas.

— Dei-lhe uma dose suficiente para matar a população inteira de Brooklyn — ripostou Iuri. — Estás satisfeito? Deixa-me em paz!

Iuri e Curt entreolharam-se na penumbra do quintal.

— Preciso de ter a certeza de que entendes os procedimentos de segurança — disse Curt com brusquidão. — Esta chatice toda por causa da tua mulher misteriosa pôs-nos os nervos em franja.

— Estou a tratar do assunto como combinamos — retorquiu Iuri.

— Espero que sim. A verdade é que não podemos correr quaisquer riscos daqui para a frente. Hoje à noite, expliquei-te que tínhamos um agente infiltrado no Exército Popular Ariano, um tal Brad Cassidy. O que não te contei foi que ele trabalhava para o              FBI.

— Oh, não! — gemeu Iuri. — Como é que eles souberam?

— Até ver, não sabem nada sobre a Operação Glutão — disse Curt. — Devem andar preocupados com a questão das milícias em geral. Como nenhum dos soldados desconfia sequer dos nossos planos, penso que não estamos em perigo. O FBI deve ter interceptado alguma mensagem do Steve na Internet, quando ele fez contactos com outras milícias por causa do EPA. Mas o que importa é que temos de ser extremamente cuidadosos. E quanto mais depressa pusermos a operação em marcha, melhor.

— Concordo plenamente — disse Iuri.

— Pensaste na hipótese de utilizar o segundo fermentador para produzir antraz?

— Vou fazer isso assim que puder. Possivelmente amanhã, quando,a questão da Connie estiver resolvida.

— Ótimo! Agora, vamos tirar a porcaria da camioneta da rua, antes que alguém a veja. De certeza que os teus vizinhos iriam estranhar ver-te a mexer em pesticidas a meio da noite.

Iuri acendeu as luzes antes de entrar na garagem e deu a volta ao táxi. Steve estacionou a camioneta da Wouton, enquanto Iuri trancava o portão atrás de si. Curt contornou o veículo e colocou-se junto da carga. Soltou uma ponta da lona e puxou-a para trás, mostrando a máquina de pulverizar.

— Reconheces esta geringonça? — perguntou a Iuri.

— Não em particular, mas essas coisas cor de laranja parecem as bocas de um pulverizador.

— Bingo! — disse Curt. Inclinou-se e deu uma palmadinha na máquina.

— É um pulverizador de colheitas para pesticidas em pó. Seja qual for o pó que utilizares, tens de colocá-lo aqui, nesta caixa. Curt apontou para a peça, tal como o funcionário da Wouton fizera um mês atrás, quando ainda era verão.

— Então não é preciso misturar o agente num líquido? — perguntou Iuri, com o rosto iluminado como o de um garoto que acaba de receber uma bicicleta no Natal.

— Não, senhor — respondeu Curt. — Entra em pó e sai em pó e deixa-me que te diga que esta coisa é potente como o diabo. Disseram-nos que a ventoinha tem capacidade para libertar trezentos metros cúbicos de ar por minuto. A potência é regulável neste sistema de medição.

— É perfeito! — elogiou Iuri, admirado. O pulverizador era bem melhor do que ele pensava.

— Ainda bem que gostas, porque não foi fácil deitar a mão a este bichinho. Foi preciso suar muito e tivemos de enfrentar algumas situações desagradáveis. Agora, cabe-te a ti cumprir a tua parte do acordo.

— Estou a tratar disso — garantiu Iuri. — Não se preocupem.

— Assim espero.

Apertaram as mãos antes de voltarem a sair para a noite. Os dois americanos enfiaram-se na carrinha, enquanto Iuri os observava da berma da estrada.

— Amanhã conversamos outra vez — disse Curt. — Queremos saber como correu o resto da noite, no que toca à questão da tua mulher.

— Está certo — acedeu Iuri, dizendo adeus a Curt quando ele arrancou a carrinha e se foi embora.

Iuri deixou-se ficar por instantes a observar os faróis traseiros da Dodge Ram, até desaparecerem no local onde Oceanview Lane desembocava na Oceanview Avenue. Sentia-se cansado, mas menos tenso do que durante o dia todo. As incertezas que anteriormente o atormentavam desapareceram. Os seus instintos diziam-lhe que a Operação Glutão estava prestes a ser posta em prática. Deu-se inclusive ao luxo de sorrir, quando percebeu que em breve estaria na companhia de ilustres soviéticos, alguns deles os mais importantes da "Grande Guerra pela Pátria".

Uma rabanada de vento restolhou as folhas que atapetavam o quintal e fez bater a porta de rede insistentemente contra a moldura de madeira. O barulho trouxe Iuri de volta à realidade. Havia ainda muitas coisas a fazer antes do grande acontecimento, e a sua preocupação imediata era Connie.

Iuri apressou-se a voltar para dentro de casa e dirigiu-se ao quarto da sua mulher. Parou junto da porta, para ouvir o que se passava, mas o único som que chegava até si era o do televisor. Abriu a porta devagar, sem saber ao certo o que iria encontrar. Connie estava na mesma posição, mas mudara drasticamente de cor. A sua pele apresentava agora uma tonalidade arroxeada, em especial os lábios.

Iuri avançou para junto da cama.

— Connie? — chamou, puxando-a pelo braço.

Ela não se mexeu. Pegou-lhe no braço; estava inerte. Deixou-o cair sobre a cama. Baixou-se e aproximou o ouvido da boca dela. Só assim conseguiu ver que Connie ainda respirava, embora estivesse por um fio. Agarrou-lhe no pulso. Sentia uma pulsação, mas irregular e débil.

Endireitou-se. Perguntou-se se já seria hora de ligar para o 112 ou se deveria esperar mais um pouco. Era uma decisão difícil de tomar, porque não queria que Connie acordasse assim que lhe dessem oxigênio nas urgências. Se isso acontecesse, ela poderia contar aos médicos e enfermeiras a evolução dos sintomas. Ao mesmo tempo, achava melhor transportá-la para o hospital ainda com vida. Haveria menos perguntas sobre o porquê da demora em levá-la para o banco.

Iuri acendeu a luz da mesa-de-cabeceira antes de abrir o olho direito de Connie. A pupila estava dilatada e fixa. Era chegado o momento de ligar para as urgências.

Voltou para a cozinha e utilizou o telefone de parede. Tentou parecer o mais consternado possível, dizendo que encontrara a mulher desmaiada e quase sem respirar. Descreveu a cor dela e acrescentou que, durante a tarde, Connie tivera dificuldades respiratórias. Indicou a morada e disseram-lhe que iam mandar uma ambulância o mais depressa possível.

Regressou ao quarto e observou a mulher. Foi então que começou a preocupar-se com o olho inchado de Connie. Não queria que ninguém desconfiasse de violência doméstica, pois poderia levantar suspeitas de homicídio. Podia dizer que ela caíra, mas tinha medo que não fosse convincente, já que Connie estava deitada na cama. Quando viu a porta da casa de banho aberta, teve uma idéia.

Iuri deu a volta à cama e tentou levantar Connie. Infelizmente, ela era demasiado robusta e pesada para que ele conseguisse sentá-la, especialmente porque tinha o corpo inerte. Mudou de táctica e fê-la rolar ligeiramente sobre o lado esquerdo, de costas para ele, e passou as mãos por baixo dos braços dela. Apoiando um pé na beira do colchão, foi capaz de puxá-la devagar para si. Mas, de repente, aconteceu um desastre.

Assim que Iuri ergueu o tronco de Connie, o tapete sobre o qual estava de pé escorregou. Iuri caiu de costas e Connie aterrou em cima dele, deixando-o sem fôlego, incapaz de respirar.

Durante quase um minuto, Iuri tentou inspirar, mas, sob o peso de Connie, não conseguia. O quarto começou a esbater-se e ele pensou que ia perder os sentidos.

Num último gesto de desespero, Iuri contorceu-se para o lado, para ver se, pelo menos, sorvia um pouco de ar para não morrer asfixiado. Depois, foi uma questão de libertar-se do corpo flácido de Connie, de braços estendidos como as asas de uma águia.

Por fim, depois de muito esforço, Iuri soltou-se do abraço fatal de Connie. Pôs-se de pé a custo, inspirando fundo. Teve vontade de fugir dali, mas deu consigo preso ao chão, olhando para o corpo da mulher, agora de barriga para baixo. Tremeu, assolado por uma onda de pânico. No seu estado semimorto, Connie quase levara a cabo a sua vingança.

O som de uma sirene ao longe, cada vez mais próxima, arrancou Iuri ao seu estado de choque. Tinha de fazer alguma coisa. Seria difícil explicar como é que a sua mulher com um olho roxo fora parar ao chão, de barriga para baixo, ao lado de uma cama partida. Teria sido melhor deixá-la na cama como estava, mas era impossível tornar a colocá-la nessa posição.

              Ciente de que lhe restava pouco tempo, Iuri agachou-se. Puxou pelos braços de Connie e conseguiu virá-la, de maneira a ficar com a cabeça apontada para a casa de banho. Depois de pô-la de barriga para cima, tornou a passar as mãos por baixo dos braços dela e arrastou-a para a casa de banho. A idéia de Iuri era fingir que ela tinha caído e batera com a cara no lavatório.

À medida que o som da sirene se aproximava, Iuri observou a sua figura e a de Connie, para detectar eventuais problemas de última hora. Tudo parecia estar em ordem. Correu para o quarto, onde endireitou os lençóis que haviam caído quando puxara Connie para fora da cama.

Umas pancadas fortes na porta da entrada fizeram Iuri ir abrir a correr. Dois paramédicos irromperam pela casa dentro, assim que Iuri puxou a porta, Um era uma mulher, o outro um homem, ambos transportando equipamento médico.

— Onde está o doente? — rosnou a mulher. Iuri apontou.

— Na casa de banho, ao fundo daquele quarto.

Iuri seguiu os paramédicos, que correram para o quarto. Entraram na casa de banho apertada e começaram a tratar de Connie. A primeira coisa que fizeram foi dar-lhe oxigênio. Iuri fez figas para que não houvesse uma ressurreição milagrosa.

— Tem pulso e ainda respira — disse a mulher. — Mas está com má cor. É melhor ventilá-la.

Iuri observou os paramédicos a entubarem Connie, para lhe fazer chegar oxigênio aos pulmões. O tórax subiu ligeiramente, indicando que Connie estava a respirar melhor do que sem os tubos.

— Não há obstrução — disse o homem, enquanto comprimia o saco de oxigênio a intervalos regulares.

— O que é que aconteceu? — perguntou a mulher a Iuri, que estava de pé junto da porta, tentando parecer atormentado. Ela continuava a trabalhar enquanto falava, colocando elétrodos em Connie.

— Não sei — respondeu Iuri. — Ela passou a noite toda com alguma dificuldade em respirar, mas não era nada por aí além. Depois, ouvi um tombo e encontrei-a aqui neste estado.

A mulher acenou com a cabeça.

— Ela sofre de asma?

— Sim, bastante.

— E costuma ter alergias?

— Também.

— Queixou-se de dores no peito?

— Não, absolutamente nada.

A mulher tornou a acenar com a cabeça. Fez a leitura do eletrocardiograma e mostrou-o ao colega, comentando que a respiração estava muito débil, mas era regular. Ele concordou.

A mulher levantou os olhos para Iuri.

— Quanto é que a sua mulher pesa?

— Não sei — confessou. — Muito.

— Isso vejo eu — retorquiu a mulher.

Tirou o rádio do cinturão e comunicou com o hospital. Informou as urgências de que necessitavam de ajuda para transportar um paciente obeso que estava inconsciente, mas que, de momento, parecia estável. Disse que precisava de pelo menos mais três homens.

Foi com muita dificuldade que os paramédicos conseguiram tirar Connie da casa de banho, colocá-la numa maca e metê-la na ambulância. A presença de Iuri foi ignorada ao longo de todo o processo, mas deixaram-no ir na ambulância com Connie até ao hospital. Ela estava entubada e recebia oxigênio continuamente.

No hospital, Connie foi levada para a sala de observações, enquanto Iuri preenchia os dados relativos ao seguro da mulher. Depois, mandaram-no esperar num gabinete. A dada altura, apareceu um médico de rabo-de-cavalo e aspecto desleixado, que tornou a analisar o historial do caso, em especial o pormenor da asma e das alergias. Iuri disse que Connie tinha tido problemas respiratórios nos últimos tempos, pelo menos desde que estavam casados. Explicou ao médico que a mulher lhe falara de visitas constantes ao hospital e às urgências, antes de se conhecerem. Quanto a alergias concretas, Iuri disse que não sabia ao certo quais eram, mas tinha idéia de que estavam relacionadas com nozes, gatos, pó e pólen.

— Como é que ela está? — perguntou com relutância, quando o médico se preparava para ir embora.

— Sinceramente, não está nada bem — confessou o médico. — Receamos que tenha ficado demasiado tempo sem irrigação no cérebro. Não tem quaisquer reflexos periféricos, o que não é bom sinal a nível das funções cerebrais. Receio que o quadro não seja o melhor. Lamento.

Iuri acenou com a cabeça. Gostava de conseguir chorar, mas era incapaz. Em vez disso, enterrou a cabeça nos ombros e olhou para o chão. O médico passou a mão pelos ombros dele e desapareceu.

Uma hora depois, o mesmo médico voltou a aparecer na sala de espera. Desta vez trazia uma bata branca por cima do fato amarrotado; tipo pijama. O crachá dizia "Dr. Michael Cooper". Dirigiu-se a Iuri e sentou-se. Iuri fitou os olhos verde-acinzentados do médico.

— Receio ser portador de más notícias.

Iuri ficou visivelmente tenso. Na sua mente, via Connie levantar-se de repente, algures nas entranhas das urgências, e anunciar que começara a ver a dobrar por causa do gelado.

— A sua mulher faleceu — disse o Dr. Cooper em voz baixa e serena. — Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas não conseguimos salvá-la. Lamento profundamente.

Os olhos de Iuri encheram-se de lágrimas. O fato de serem lágrimas de felicidade não fazia diferença nenhuma; estava delirante por virem realçar o dramatismo da sua representação. Mas, acima de tudo, estava delirante por ter sabido livrar-se de Connie com a dose certa. Apesar de tanta ansiedade, conseguira; era um homem livre e Curt ia ficar satisfeito.

— Sei que deve ser um choque para si — prosseguiu o Dr. Cooper. — Ela era tão jovem.

— Obrigado — agradeceu Iuri, limpando as lágrimas com as costas da mão direita e certificando-se de que o gesto não passava despercebido ao médico. — Suponho que terei de tomar providências em relação ao corpo... Acha que alguém poderia ajudar-me? Não faço a mínima idéia do que é preciso tratar.

— Com certeza — disse o Dr. Cooper. — Posso pedir a uma assistente social para vir conversar consigo. Mas posso aliviá-lo um pouco de tanta tensão, dizendo-lhe que não necessita de tomar quaisquer providências por hoje.

— Ah, não? E por que?

— Porque a sua mulher vai ser transferida para o Instituto de Medicina Legal.

— Isso significa que vai ser autopsiada? — perguntou Iuri, consternado.

— Sim, isso mesmo. Mas posso garantir-lhe que as autópsias são efetuadas com o devido respeito pela pessoa falecida.

— Mas por que uma autópsia? — insistiu Iuri. — Já fez o diagnóstico.

— É verdade — concordou o Dr. Cooper. — Sabemos que a causa da morte foi uma crise respiratória aguda provocada por um historial asmático. Mas trata-se de uma pessoa muito jovem que, antes desta infeliz crise, era saudável, ainda que obesa. Pensamos que será melhor entregar o caso a um médico legista, na eventualidade de estar a escapar-nos algum pormenor. Mas não se preocupe. É um mero pro forma.

— Tenho a certeza de que não vos está a escapar nada — respondeu Iuri, abruptamente.

— Obrigado pelo seu voto de confiança, mas estou certo de que até o senhor saberá enfrentar melhor a perda da sua mulher, quando a causa desta tragédia for determinada sem que reste a menor dúvida. Compreende o que lhe estou a dizer?

— Sim, claro — respondeu Iuri a custo, sentindo a sua anterior ansiedade inundá-lo como uma avalancha.

 

TERÇA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO

06h43

Laurie ficou surpreendida por acordar antes do toque do despertador. Há anos que isso não acontecia. Era ainda mais espantoso tendo em conta que deveria estar com as horas trocadas por ter vindo de Paris na manhã anterior. Mas bastou um simples cálculo para perceber que já passava do meio-dia na capital francesa e, embora só tivesse passado dois dias lá, o seu organismo adaptara-se ao fuso horário parisiense.

Assim que Laurie se mexeu, o seu gato de oito meses de idade, Tom 2, levantou-se, espreguiçou-se e foi ter com ela à cabeceira da cama, para receber a sua dose habitual de mimos. Laurie fez-lhe a vontade com todo o prazer. Ao contrário do primeiro Tom, um vadio que Laurie salvara das garras dos serviços municipais e que morrera num acidente brutal, Tom-2 era um gato birmanês com pedigree, que ela comprara nos Felinos Fabulosos, na Segunda Avenida. A cor do seu pêlo não era muito diferente da tonalidade dos cabelos de Laurie, faltando-lhe apenas os reflexos acobreados.

Laurie saltou da cama com mais entusiasmo do que habitualmente. Desde que conhecera Paul, fazia um mês, andava muito bem-disposta. Dirigiu-se para a cozinha e ligou a máquina de fazer café, que deixara preparada de véspera. Em seguida, enfiou-se na minúscula casa de banho e entrou para o duche.

Laurie vivia naquele pequenino apartamento desde que começara a trabalhar no Instituto de Medicina Legal da cidade de Nova Iorque. Oito anos passados, já podia dar-se ao luxo de ter um poiso melhor, mas habituara-se ao seu apartamento no quinto andar. Além disso, como ficava a apenas onze quarteirões do instituto, costumava ir e vir a pé do trabalho, um luxo que estava ao alcance de muito poucos dos seus colegas.

Enquanto lavava o cabelo, Laurie pensou no jantar da noite anterior e não pôde deixar de sorrir. No início, ficara desapontada com a resposta de Jack e de Lou à sua grande novidade, mas depois de analisar o comportamento de ambos, mudara de idéias. Agora, achava que havia um certo cunho humorístico naquela reação óbvia de choque e no fato de nenhum dos dois ter sido capaz de lhe desejar felicidades. Tinha de admitir que sentia uma certa satisfação pessoal. Nem Jack nem Lou se mostraram dispostos a assumir um compromisso. O que esperavam eles que fizesse? Que deixasse a vida passar-lhe ao lado?

Laurie desconfiava a muito de que estavam ambos apaixonados por si, mas que tinham medo de dar rédea solta aos seus sentimentos. Embora apreciasse a amizade deles, a situação tornara-se frustrante, especialmente porque Laurie sempre desejara ter filhos. Sabia que Jack em particular necessitava de muito tempo para recuperar do trauma de ter perdido a família, por isso ela tivera paciência, mas era evidente que não podia deixar a sua vida pendurada, indefinidamente à espera. Laurie conhecia Jack há alguns anos e, durante todo esse tempo, não vira quaisquer sinais de recuperação. Para Laurie, a vida de Jack continuava a girar em torno daquele trágico acidente.

No caso de Lou, a história era outra. O seu complexo de inferioridade tinha raízes tão profundas que parecia imune a todo e qualquer gesto de Laurie, que tentara penetrar na sua couraça protetora através de inúmeras artimanhas, mas sem êxito. Na verdade, quanto mais ela se esforçava, mais ele se colocava na defensiva, acabando sempre por se envolverem numa discussão. Por fim, Laurie dera-se por vencida e resignara-se a contar apenas com a duradoura amizade de Lou.

Laurie enxugou o cabelo vigorosamente e desembaraçou-o com um pente, antes de usar o secador. Mais valia concentrar-se em coisas positivas, ou seja, em Paul Sutherland. A idéia fez despontar nos seus lábios um sorriso ainda maior.

Nos últimos anos, Laurie aprendera a analisar-se com mais perspicácia e intuição. Apercebeu-se de que toda a vida fizera escolhas racionais e cautelosas, uma característica que obviamente a mantivera no rumo certo, em termos de carreira, mas que por vezes havia sido bastante limitativa. Raramente correra riscos, a não ser numa ou duas pequenas rebeliões de adolescente. Agora, via em Paul uma nova oportunidade. Era como se lhe estivessem a oferecer uma volta no carrossel rodopiante da vida. A única coisa que tinha de fazer era esticar o braço e agarrar-se a um dos cavalos de madeira.

Com o cabelo devidamente arranjado, começou a pintar-se como fazia todas as manhãs. Não costumava usar muita maquiagem, por isso o ritual era rápido. Enquanto punha sombra nos olhos, pensou no seu louco romance com Paul. Sendo ele extremamente generoso e espontâneo, não só tinham ido a Paris, como também haviam passado fins-de-semana em Los Angeles e Caracas. Em Nova Iorque, comeram fora quase todas as noites em alguns dos melhores restaurantes da cidade; assistiram a peças de teatro, espetáculos de dança e de música clássica.

Depois de vestir-se, Laurie instalou-se na cozinha, para tomar o seu pequeno-almoço de cereais, fruta, iogurte e café. Enquanto comia, admitiu para si mesma que estava um pouco confusa com a rapidez do namoro. O pedido de casamento de Paul deixara-a atordoada, apanhara-a de surpresa. Ao mesmo tempo, sentia-se profundamente lisonjeada por estar com um homem que parecia gostar dela ao ponto de não querer perdê-la por nada desse mundo.

Ainda não aceitara o pedido de Paul a título oficial, porque queria ter uma última conversa com Jack e com Lou, mas em especial com Jack. Sabia que iam ficar magoados, mas era bem feito. Laurie sentia que tinha obrigação de ser franca e honesta com eles. Depois, caberia a ambos agir, ou para sempre guardarem silêncio. E se optassem por baixar os braços e ficar calados, Laurie tencionava saltar para o carrossel e construir uma vida ao lado de Paul, ainda que não partilhasse com ele a mesma atração animal que a uma tão loucamente a Jack.

A campainha da porta arrancou-a às suas cogitações. Laurie consultou o relógio. Interrogou-se sobre quem poderia ser às sete e meia da manhã. Aproximou-se do velho intercomunicador e levantou o auscultador. Carregou no botão e perguntou quem era. Apesar do ruído de fundo, reconheceu a voz de Paul.

Abriu-lhe a porta e correu pelo apartamento a tirar calcinhas do braço do sofá, um soutien de cima de uma mesa de apoio, e um par de meias que estavam caídas no chão. Quando chegara a casa na véspera, estava tão cansada que se fora despindo até chegar à cama, deixando à sua passagem várias peças de roupa espalhadas pelos cantos.

Quando ouviu bater à porta, espreitou instintivamente pelo óculo. Deparou com um dos olhos negros de Paul, que encostara o rosto à pequenina lente.

Laurie destrancou as várias fechaduras que um antigo morador mandara colocar e abriu a porta.

— És mesmo tolo — disse ela, troçando das palhaçadas de Paul, que tinha um lado brincalhão extremamente imprevisível e, por vezes, embaraçoso, como da vez que decidira entrar com ela para a minúscula casa de banho do Concorde. Quando saíram, Laurie tinha o coração nas mãos, mas mais tarde achara graça ao episódio e rira-se de si própria e do gorducho executivo que fingira não ter visto nada.

— Surpresa! — disse Paul, mostrando o ramo de flores de outono que trazia atrás das costas.

— Por que a surpresa? — perguntou Laurie.

— Por nada. Achei-as bonitas, quando as vi numa daquelas lojas de conveniência coreanas que estão abertas vinte e quatro horas por dia.

— Muito obrigada — agradeceu Laurie, dando-lhe um beijo ao de leve e pegando nas flores.

Enquanto ia buscar uma jarra, Paul tirou o casaco. Vestia um fato de executivo parecido com o que usara na véspera, ao jantar.

— Vem cá, se queres tomar café — chamou Laurie da cozinha.

Paul foi ter com ela instantes depois, com Tom-2 nos braços a ronronar alto e bom som.

— O que é que te apetece? — perguntou Laurie. — Vou beber café de filtro, mas posso preparar-te um café de máquina. — Terminou o arranjo de flores e colocou a jarra em cima da mesa.

— Não quero nada —— respondeu Paul vigorosamente. — Já bebi café que chegue para o dia inteiro, talvez até para a semana toda. Acordei com as galinhas por causa do telefone. Se na Europa não fossem seis horas a mais, a minha vida seria dez vezes mais fácil.

— Importas-te que acabe de tomar o pequeno-almoço? Já não tenho muito tempo.

— Claro que não — disse Paul, sentando-se à frente de Laurie, do outro lado da minúscula mesa. Continuou a fazer festas ao gato, que estava satisfeito no seu colo.

— Nunca pensei ver-te aqui logo pela manhã.

— Eu sei — concordou Paul com um sorriso malicioso. Mas tinha uma surpresa especial para partilhar contigo e achei que seria melhor fazê-lo ao vivo.

— Hum, que mistério! Que tipo de surpresa?

— Primeiro, deixa-me dizer-te que adorei conhecer os teus amigos, ontem à noite. São dois tipos incríveis.

— Ainda bem que gostaste, fico contente. Mas que surpresa é essa?

Paul sorriu. Conhecendo a curiosidade de Laurie, estava a fazer de propósito para a espicaçar ainda mais.

— Fiquei particularmente impressionado com a história de o Jack andar de bicicleta pela cidade — prosseguiu Paul.

— Paul! — exclamou Laurie, exasperada.

— E quanto ao Lou, acho que nunca conheci uma pessoa tão modesta como ele.

— Olha que atiro iogurte para cima da tua gravata de seda, se não me contares de uma vez por todas qual é a surpresa. — Laurie puxou a colher para trás com o dedo indicador da mão esquerda, transformando-a numa potencial catapulta em miniatura.

— Está bem, está bem — riu-se Paul, ao mesmo tempo em que levantava as mãos em gesto de rendição. Pressentindo o perigo, Toni-2 escapuliu-se do colo de Paul e desapareceu na direção da sala de estar.

— Tens cinco segundos — brincou Laurie.

— A surpresa é que vamos passar o próximo fim-de-semana à Europa — revelou Paul. — Na sexta-feira, apanhamos o Concorde para Paris e depois um vôo de ligação para Budapeste. E deixa-me que te diga que Budapeste se tomou uma das cidades mais interessantes da Europa. Vais adorar. Reservei uma suíte no Hilton com vista para o Danúbio.

Paul observou Laurie com um sorriso de auto-satisfação. Laurie retribuiu o olhar, mas não respondeu. O sorriso de Paul desvaneceu-se.

— Que foi?

— Não posso ir para Budapeste este fim-de-semana.

— Por que?

— Porque tenho de pôr o trabalho em dia, por que é que haveria de ser? — brincou Laurie. — Nunca tive tantos casos por resolver em cima da secretária.

— Vais deixar que o trabalho interfira nos nossos fins-de-semana? — perguntou Paul, estupefato. — Tens a semana toda para trabalhar.

— Mas tenho muito que fazer — disse Laurie. — Deixei uma série de coisas pendentes, especialmente por ter passado o dia de ontem todo a trabalhar com o FBI no caso do cabeça-rapada.

 Paul revirou os olhos.

— Já sei, vamos fazer o seguinte: anulamos todos os planos que tínhamos feito para esta semana. Afinal de contas, hoje ainda só é terça-feira. Desistimos inclusive da ida ao ballet na quinta-feira, apesar de eu ter tido de humilhar-me, suplicar e pedir de joelhos para conseguir arranjar aqueles bilhetes. Mas o que importa é o nosso fim-de-semana em Budapeste.

— Não posso ir para Budapeste! — repetiu Laurie, num tom que não dava azo a mais discussões.

Fez-se silêncio. Laurie fitou o seu futuro noivo. Paul não olhou para ela; ficou de olhos postos nas mãos, abanando ligeiramente a cabeça.

— Não estava à espera desta — confessou, quebrando o silêncio. Movia agora a cabeça quase imperceptivelmente, continuando de olhos baixos. — Tinha a certeza de que ias gostar da idéia.

— Não é que não goste da idéia — disse Laurie, num tom mais meigo. — Mas tenho outros compromissos, por causa do meu trabalho.

— Não me parece que esteja certo viveres em função do trabalho — comentou Paul. Por fim, levantou os olhos negros como carvão e pousou-os nela. — A vida é demasiado curta.

— Estás a ser injusto. No fim-de-semana passado fomos a Paris por causa do teu trabalho, embora nos tenhamos divertido imenso nos teus momentos de folga. Depreendo que o motivo da ida a Budapeste seja o mesmo, isto é, vais tratar de negócios. Se tu trabalhas ao fim-de-semana, por que é que eu não posso fazer o mesmo?

— É diferente.

— A sério? Não vejo por que.

Paul olhou para Laurie. De repente, ficara corado.

— Quanto a mim, a única diferença é que eu não posso levar o meu trabalho para Budapeste.

— Essa não é a única diferença — ripostou Paul.

— Então, dá-me exemplos.

Paul suspirou, abanando a cabeça.

— Não interessa.

— Claro que interessa, caso contrário não terias ficado tão chateado!

— Estou chateado porque não te apetece ir.

— Eu não disse que não me apetece ir — explicou Laurie. — Compreendes isso, ou não?

— Acho que sim — respondeu Paul com pouca convicção.

— Afinal, que negócios são esses? — quis saber Laurie, lembrando-se de que Jack fizera a mesma pergunta na véspera.

A verdade é que não fazia a mínima idéia do que se tratava e, até então, nunca lhe passara pela cabeça perguntar. Esperara sempre que ele lhe dissesse, quando fosse pertinente. Depois de ter saído com tantos homens que não paravam de falar sobre trabalho, Paul fora um alívio para ela. No entanto, começava a sentir que não era normal não saber nada sobre o trabalho dele.

— Isso importa? — perguntou Paul, contrariado.

— Não, não importa. — Laurie percebeu que Paul ficara magoado por ela insinuar que era importante. — E acho que não vale a pena discutir por causa disso.

— Tens razão. Desculpa por ter reagido mal. A verdade é que não tive hipótese de escolha em relação a esta viagem. Tenho mesmo de ir e, sinceramente, preferia que viesses comigo. Em vez de ser um fim-de-semana solitário, seria um verdadeiro prazer.

— Fico contente por sentires isso e agradeço o convite, mas não posso sair de Nova Iorque todos os fins-de-semana e já fomos para fora três vezes de seguida.

— Eu sei — cedeu Paul, esboçando um tênue sorriso.

Laurie fitou-o, olhos nos olhos, interrogando-se se ele estaria a ser sincero.

Paul ligou para a central de radiotáxis e deu a morada de Laurie. Teria todo o gosto em oferecer-lhe boleia, já que iam para os mesmos lados. A sua primeira reunião do dia era no edifício das Nações Unidas. Laurie ficou impressionada e ainda mais curiosa quanto à natureza do trabalho de Paul. Sentiu-se tentada a perguntar-lhe com quem ia encontrar-se, mas teve medo de ser demasiado indiscreta.

Laurie despediu-se de Paul à porta do Instituto de Medicina Legal e acenou-lhe quando o táxi arrancou em direção a norte, percorrendo a Primeira Avenida. Depois, deu meia volta e subiu as escadas do edifício de tijolos pintado de azul. Assim que entrou, percebeu que estava um tanto ou quanto aborrecida, e não fora essa a disposição com que acordara. Embora ela e Paul não tivessem discutido, tinham andado lá perto. Era o primeiro incidente da sua relação tão loucamente apaixonada. Esperava que não fosse um prenúncio do que estava para vir e que os laivos de chauvinismo que haviam pontuado as reações de Paul não estivessem a encobrir pontos de vista assumidamente machistas.

Atravessou a sala de espera e aproximou-e da porta que dava para o corredor do piso térreo.

— Se faz favor! — disse Laurie, tentando chamar a atenção de Marlene Wilson, a recepcionista africano-americana. Marlene tinha de ativar o mecanismo da porta para Laurie poder passar.

— Doutora Montgornery, espere! — gritou Marlene quando viu que era Laurie. — Tem umas pessoas à sua espera.

Um casal de meia-idade que Laurie não conhecia levantou-e de um dos sofás plastificados da sala de espera. O corpulento indivíduo usava um casaco de lã axadrezado em tons de vermelho e tinha a barba por fazer; nas mãos segurava um boné de caçador com proteções para as orelhas. A mulher tinha um ar frágil; a gola do seu casaco era de renda. Pareciam ambos saídos de uma pequena cidade do Midwest. Sentiam-se visivelmente intimidados e exaustos, como se tivessem viajado a noite toda.

— Posso ajudá-los em alguma coisa? — inquiriu Laurie.

— Esperamos que sim — respondeu o homem. — O meu nome é Chester Cassidy e esta é a minha mulher, Shirley.

Laurie recuou ao ouvir o apelido, percebendo que estava diante dos pais de Brad Cassidy. Automaticamente, veio-lhe à mente a terrível imagem do jovem torturado que autopsiara no dia anterior. Lembrou-se das órbitas vazias, do enorme prego espetado na palma da mão do rapaz, e da parte exposta do peito e do abdômen onde a pele fora arrancada em vida. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

— Em que posso ajudá-los? — repetiu Laurie, a custo.

— Foi a senhora doutora quem tratou do nosso filho Brad — explicou Chester. As suas enormes mãos nodosas amassavam distraidamente o chapéu.

Laurie acenou com a cabeça, embora "tratar" fosse um eufemismo perfeitamente inadequado para o que ela tivera de fazer.

— Gostávamos de lhe dar uma palavrinha — acrescentou Chester. — Conquanto tenha tempo, claro está.

— Com certeza — anuiu Laurie, apesar de não lhe apetecer nada ter aquela conversa. Tinha dificuldade em lidar com pais destroçados. — Mas acabei de chegar, por isso, se não se importam, esperem uns quinze minutitos, sim?

— Esperamos o tempo que for necessário — respondeu Chester. Com o braço a envolver os ombros da mulher, Chester voltou para o sofá.

Laurie pediu, uma vez mais, a Marlene para lhe abrir a porta. Apreensiva por causa do iminente encontro com a família Cassidy, subiu no elevador até ao quinto piso e entrou no gabinete. Pendurou o casaco atrás da porta. Um olhar de relance à pilha de ficheiros que estava em cima da secretária fê-la dar graças a Deus por ter sido tão firme em relação à viagem a Budapeste.

Encontrou a pasta do caso Brad Cassidy quase no cimo da pilha. Com o dedo indicador, passou as folhas até encontrar a ficha de identificação. Tirou-a e leu-a. Ficou curiosa por saber quem a preenchera. Estava assinada em nome de Helen Traumian, irmã do falecido.

De volta ao primeiro andar, alargou o percurso até a sala de espera, de maneira a passar pelo gabinete da telefonista e depois pela sala de identificações. Precisava de um café antes de enfrentar os Cassidy. Assim que entrou, deu de caras com Jack e com Vinnie, que iam a caminho do fosso. Como sempre, tinham começado a trabalhar antes de toda a gente.

— Podemos conversar? — perguntou Jack timidamente, no instante em que viu Laurie.

— Pode ficar para daqui a pouco?

Laurie observou Jack, curiosa: a timidez era tudo menos uma característica típica de Jack.

— Tenho um casal à minha espera na sala. Acho que estão cá há horas.

— É rápido — garantiu Jack. — Vinnie, vai descendo e prepara a sala de autópsias. Já vou ter contigo.

— E que tal se eu retomasse a leitura do meu jornal? — sugeriu Vinnie. — Não me apetece ficar sozinho lá em baixo, naquele fosso deserto, a olhar para as paredes. As suas conversas rápidas costumam demorar meia hora, se bem o conheço.

— Desta vez são só uns minutos — prometeu Jack. — Vai andando!

Vinnie foi-se embora, contrariado. Jack observou-o até ter a certeza de que não os ouvia. Depois, virou-se para Laurie, que preparava um café. Deitou um olhar a George Fontworth, mas percebeu que ele não estava a prestar-lhes atenção, entretido a ordenar os casos que tinham chegado durante a noite.

— Que é feito do anel de noivado com aquele diamante enorme? — perguntou Jack.

Laurie olhou para o dedo despido como se estivesse à espera de ver o anel.

— Escondi-o no congelador do frigorífico.

— Está à espera de melhores dias? — indagou Jack.

Laurie não pôde deixar de sorrir. Aquele comentário, sim, era típico de Jack.

— Ainda não estou oficialmente noiva — disse ela. — Fiz questão de frisar isso ontem à noite, se bem te lembras.

— Não estás enquanto não contares aos teus pais.

— E enquanto não resolver algumas coisas...

— Bem, de qualquer forma... — gaguejou Jack. — Queria pedir-te desculpa pelo que aconteceu ontem ao jantar.

— Pedir desculpa por que? — perguntou Laurie. Pedir desculpa também não era uma das características típicas de Jack.

— Por não ter mostrado mais entusiasmo em relação ao Paul — explicou Jack. — Parece um tipo simpático e achei incrível vocês terem ido passar o fim-de-semana a Paris. Eu era incapaz de fazer uma coisa dessas!

— Era só isso que me querias dizer?

— Acho que sim...

— Então, estás desculpado — rematou Laurie, em tom displicente.

Bebeu o café, lançou um sorriso rápido e forçado a Jack e saiu ao encontro dos Cassidy. Sabia que Jack estava atordoado e, provavelmente, confuso com o comportamento dela, mas não se importou. Não queria um pedido de desculpas, especialmente se não fosse sincero. O que Laurie queria ouvir de Jack era o que ele sentia em relação aos planos de casamento dela. Mas, agora que sabia que isso não ia acontecer, ficou frustrada.

Laurie espreitou primeiro para um dos pequenos gabinetes utilizados pelos familiares para fazerem o doloroso processo de identificação de um corpo. Antigamente, as pessoas tinham de ir à morgue ver o cadáver, mas era um procedimento demasiado cruel para quem ainda estava a tentar aceitar a morte de um ente querido. Agora usavam polaróides, que facilitavam a vida a toda a gente.

Depois de verificar que o gabinete estava razoavelmente limpo, foi ter com o casal Cassidy. Marido e mulher seguiram-na em silêncio e sentaram-se em duas das cadeiras de espaldar direito. Laurie apoiou os cotovelos no tampo manchado da secretária de madeira. No gabinete, além dos móveis, havia apenas uma caixa de lenços de papel, um caixote do lixo e uma série de cinzeiros lascados.

— Aceitam um café? — perguntou, à laia de preâmbulo.

— Não, obrigado — disse Chester, que entretanto despira o casaco. A camisa de flanela axadrezada estava apertada até ao pescoço. — Não queremos roubar-lhe muito tempo.

— Não se preocupe com isso, estamos aqui para servir o público — explicou Laurie. — Gostaria de aproveitar a ocasião para lhes apresentar as minhas condolências. Estou certa de que deve ter sido um choque terrível para os senhores.

— Por um lado, sim, por outro, não — respondeu Chester. O Brad era um rapaz rebelde ao contrário da irmã e do irmão, ambos mais velhos. Para ser franco, tínhamos vergonha da maneira como ele se vestia, especialmente daquela tatuagem nazi que ele fez na testa. O meu tio morreu na guerra contra os safados dos nazis. Eu e o Brad desentendemo-nos por causa da tatuagem, mas não serviu de nada,

— Por vezes é difícil compreender a revolta dos adolescentes — comentou Laurie, tentando desviar a conversa da aparência do rapaz. Um dos seus temores era que os pais pedissem para ver fotografias do filho, tiradas quando ele dera entrada na morgue. Eram imagens que não podiam ser vistas por qualquer pessoa, muito menos por um pai.

— O problema é que ele cresceu — prosseguiu Chester, enquanto Shirley abanava a cabeça em sinal de concordância — e continuou a andar em más companhias. Todos os amigos tinham insígnias nazis. Entretinham-se a perseguir e a espancar homossexuais e porto-riquenhos, enfim, pessoas que fossem diferentes.

— Foi assim que se meteu em sarilhos — acrescentou Shirley, abrindo a boca pela primeira vez. A sua voz era estranhamente aguda e estridente.

— Soube que ele teve problemas com a polícia — disse Laurie, começando a descontrair-se.

Parecia que os Cassidy queriam apenas conversar. Laurie compreendia essa necessidade, tendo em conta o sofrimento e surpresa causados pela morte prematura do filho. O único problema era que havia coisas que Lou e o agente Tyrrell lhe tinham dito sobre a vítima e que ela não podia revelar, como o fato de ele ser informador do FBI em troca de um acordo que o ilibaria de futuras acusações.

— A nossa filha, a Helen, disse-nos que fizeram coisas horríveis ao Brad — prosseguiu Chester. — Ele tinha vindo para Nova Iorque há pouco tempo e estava instalado em casa da Helen, mas ela não nos contou ao certo como foi que ele morreu. Por isso decidimos fazer a viagem até cá, para conversarmos com a senhora doutora.

— O que é que gostariam de saber? — indagou Laurie, na esperança de poder responder apenas em termos gerais.

Marido e mulher entreolharam-se, para ver qual dos dois falaria primeiro. Chester pigarreou.

— Uma das coisas que queríamos saber é se ele foi morto a tiro.

— Foi, sim, é verdade.

— Eu não te disse? — Shirley virou-se para Chester, como se a resposta de Laurie validasse a sua opinião. — "Todos os que empunham a espada, pela espada perecerão", São Mateus, 26.

— Sabe qual foi a arma utilizada? — perguntou Chester.

— Não, e talvez nunca venhamos a saber. A bala, claro está, vai ser examinada e, se houver suspeitas de uma determinada arma, o caso será devidamente investigado.

— Ele foi morto só com um tiro?

— Pensamos que sim — respondeu Laurie com menos ênfase. Não lhe agradava dar informações mais pormenorizadas, já que o homicídio de Brad ainda estava sob investigação.

— Então, talvez não tenha sido uma das armas dele — disse Chester a Shirley. — Se fosse, provavelmente haveria mais do que um ferimento de bala.

— O seu filho tinha muitas armas?

— Muitas — respondeu Shirley. — Foi assim que se meteu em sarilhos pela segunda vez. Chegamos a pensar que ele ia para a prisão. Não entendo o que os homens vêem nas armas.

— Nem todas as armas são ruins — disse Chester.

— Mas são quase todas, especialmente aquelas automáticas. — Shirley virou-se para Laurie e acrescentou: — Foi nisso que o Brad se envolveu. Pôs-se a vender espingardas.

— Onde é que ele as arranjava? — perguntou Laurie. A idéia de um jovem cabeça-rapada andar a vender armas no norte do estado deixava-a arrepiada.

— Não sabemos ao certo. Eram importadas da Bulgária, ou pelo menos eram fabricadas lá. Encontrei uma série delas escondidas no nosso celeiro.

— Que horror! — proferiu Laurie, ciente de que era uma resposta banal, mas sincera.

Dado o seu especial interesse por ferimentos causados por balas, já tinha sido chamada para analisar uma série de casos, mais do que qualquer outra pessoa do instituto. Não pôde deixar de pensar se porventura já teria autopsiado alguma vítima de um dos clientes de Brad Cassidy.

— Queríamos perguntar-lhe mais uma coisinha — hesitou Shirley. — Queríamos saber se o nosso filho sofreu muito na hora da morte.

Laurie desviou o olhar por instantes, enquanto procurava uma resposta adequada. Detestava ter de escolher entre a verdade e a compaixão. Era inegável que Brad Cassidy fora torturado sem piedade, mas de que serviria contar tamanho horror aos pais destroçados? Por outro lado, odiava mentir.

— Pode dizer a verdade — disse Chester, pressentindo o dilema de Laurie.

— Ele foi alvejado na cabeça e penso que terá tido morte imediata — respondeu Laurie, apercebendo-se de que encontrara uma saída. A sua afirmação não era cem por cento verdadeira, pois não estava a responder diretamente à pergunta de Shirley, mas também não era mentira. Cabia ao casal Cassidy interrogar-se sobre qual teria sido a ordem dos acontecimentos que precederam a morte de Brad.

— O Senhor seja louvado! — exclamou Shirley. — O Brad era um rapaz rebelde e de má índole, mas atormentava-me a idéia de ele ter sofrido.

— Fico contente por ter podido ajudá-los — disse Laurie. Afastou a cadeira da mesa, ansiosa, e, para evitar mais perguntas, pôs fim à conversa. — Se houver mais alguma coisa que eu possa fazer, não hesitem em telefonar.

Chester e Shirley puseram-se de pé. Estavam gratos a Laurie e o homem apertou-lhe a mão com vigor. Laurie deu-lhe um dos seus cartões, enquanto os acompanhava até a saída. Abriu a porta da sala de espera e deixou passar o casal.

Após uma última despedida, Laurie largou a porta, que se fechou automaticamente. Suspirou, então, de alívio.

— Estavas a fazer a identificação de algum cadáver que desconheço? — perguntou George Fontworth, debruçado sobre a lista de mortos, tentando organizar o horário das autópsias para esse dia.

— Claro que não! Eram os pais de um dos casos de ontem — respondeu Laurie, de olhar vago.

Agora que os Cassidy tinham ido embora, estava horrorizada por saber que Brad vendia armas, possivelmente a outros cabeças-rapadas. De acordo com o que o agente especial Gordon Tyrrell dissera na véspera, por armas mortíferas nas mãos de gente tão violenta e preconceituosa era abrir as portas a uma calamidade, especialmente porque as milícias nazis de extrema-direita andavam atarefadas a recrutar os cabeças-rapadas como tropas de choque.

"Aonde é que o mundo vai parar?", pensou Laurie, reforçando o seu veemente apoio à política de controlo de armas.

 

TERÇA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO

11h15

Iuri deixou o motor do táxi a trabalhar e foi abrir o portão da garagem. Apesar do cansaço, sorriu de satisfação ao ver a camioneta de pesticidas. O fato de estar ali parada à espera do grande dia era um motivo de profundo regozijo; dava sentido a tudo o que Iuri fizera até então e minorava a ansiedade que o consumia. Iuri estacionou o automóvel e fechou o portão. Não queria que ninguém visse a camioneta.

Ao chegar à porta das traseiras, hesitou por instantes e perscrutou a vizinhança. Tinha de certificar-se de que não estava a ser observado. Não era habitual entrar em casa a meio da manhã e o barulho da ambulância devia ter chamado a atenção dos vizinhos de madrugada. Porém, não viu vivalma. Estava um dia quente e pacato, típico do verão de São Martinho, com a temperatura a rondar os vinte graus centígrados. Por enquanto, nem os cães ladravam.

Assim que entrou em casa, Iuri foi diretamente ao frigorífico buscar vodca. Apoiou-se na bancada da cozinha e bebeu uma balsâmica golada. Continuava nervoso por Connie ter sido levada para o Instituto de Medicina Legal do King's Courity Hospital. Acompanhara o corpo para fazer a identificação, apesar de lhe ter sido dito que era desnecessário, já que o fizera previamente, no Coney Island Hospital. Mas decidira ir de qualquer forma, na esperança de falar com os médicos assim que terminassem a autópsia. Não chegara, no entanto, a ver sequer o médico legista. A pessoa com quem se cruzara apresentara-se como investigadora forense e explicara-lhe que a autópsia só seria efetuada a partir das oito. Pelo menos, Iuri ficara com a certeza de que ela anotara o historial de asma e alergias.

Eram cinco horas da manhã quando Iuri chegara finalmente a casa. Apesar de estar exausto, sabia que não ia conseguir adormecer. Estava demasiado tenso, por isso resolvera pegar no táxi e ir trabalhar um pouco durante a hora de ponta.

Fora uma decisão sensata. Não só ganhara um bom dinheiro, como o trabalho o ajudara a distrair-se das suas preocupações, pelo menos enquanto estava ocupado. Mas, assim que houve uma quebra, o caso mudou de figura e Iuri achou por bem voltar para casa. Além disso, tinha outras coisas importantes para fazer, em vez de passar o dia todo ao volante. Estava ansioso por regressar ao trabalho de laboratório,

Embora não tivesse fome, obrigou-se a si mesmo a comer uns cereais. O seu estômago vazio queixava-se da pizza que comera na noite anterior e do café em demasia, e agora da vodca. Enquanto comia, manteve os olhos colados ao telefone, A investigadora forense dera-lhe um número, para onde poderia ligar a perguntar quando é que o corpo de Connie seria enviado para a casa funerária que Iuri escolhera. Perguntou-se se o corpo já iria a caminho. Quanto mais depressa Connie saísse do Instituto de Medicina Legal, melhor.

Marcou o número. Para espanto seu, veio uma pessoa ao telefone, e não um atendedor de chamadas, como esperava. Identificou-se e perguntou pelo corpo da mulher.

— Importa-se de repetir o nome?

.           — Davidov — disse Iuri. — Connie Davidov.

— Espere um instante, enquanto procuro.

Iuri sentiu o coração acelerar. Detestava lidar com tudo o que fosse burocracia.

—Não encontro o nome Davidov — disse a telefonista. — Tem a certeza de que a sua mulher veio para a delegação de Brooklyn?

— Claro que tenho! Pois se eu estive aí de madrugada!

— Como é que se escreve Davidov?

Iuri soletrou o apelido, sentindo aumentar a ansiedade. Talvez tivessem feito o diagnóstico e a polícia já fosse a caminho de sua casa nesse preciso instante. Talvez...

— Ali, encontrei. Não admira que eu não o conseguisse descobrir, E que a sua mulher não foi autopsiada.

— Quer dizer que ainda não fizeram a autópsia?

— Não, não é isso. Os médicos decidiram que afinal não era necessário.

— Por que? — perguntou Iuri, pensando que era demasiado bom para ser verdade.

— Os médicos não costumam dar esse tipo de explicações às telefonistas. Terá de falar com a pessoa que está de serviço, o doutor Randolph Sanders. Aguarde um instante.

Iuri ainda tentou pedir à telefonista para não fazer a ligação, pois não sabia se queria realmente falar com o médico de serviço, mas ela já o tinha posto em linha, Do auscultador escorria uma música ambiente.

Enquanto esperava, Iuri tentou controlar a ansiedade. O fato de terem decidido não autopsiar Connie era uma excelente notícia, conquanto fosse verdade. Tamborilou nervosamente no tampo da bancada. Bebeu mais um pouco de vodca.

— Fala o doutor Sanders — anunciou uma voz, interrompendo a música. — Em que posso ajudá-lo?

Nervoso, Iuri explicou quem era e a informação que lhe haviam dado.

— Ah, sim — disse o Dr. Sanders. — Estou a par do caso. Fui um dos médicos que decidiram não fazer a autópsia.

— Então, o corpo pode ser levantado?

— Com certeza. A casa funerária que o senhor escolheu poderá vir buscar o corpo quando quiser. Penso que é a Strickland, não é?

— É sim. Será melhor eu ligar-lhes a avisar?

—Penso que o nosso departamento já o terá feito — disse o médico. — Se não, fá-lo-á em breve.

— Muito obrigado — agradeceu Iuri, disfarçando o entusiasmo, não fosse ser interpretado como aquilo que realmente era. — Diga-me uma coisa: por que é que mudaram de idéias? — inquiriu. — Devo confessar que fiquei aliviado por não terem feito a autópsia. Não queria que desrespeitassem o corpo da minha mulher depois de morta.

— Não mudamos de idéias — explicou o Dr. Sanders. — Nem todos os cadáveres que aqui chegam são autopsiados, há que determinar quais são os casos prioritários. Relativamente à sua mulher, o médico de serviço diagnosticou a causa da morte, que era consistente com o quadro de asma, agravado pelo problema da obesidade.

— Compreendo. Muito obrigado por me ter dado essas informações.

— De nada — disse o Dr. Sanders. — E os meus pêsames.

— Agradeço a sua atenção. Estou a atravessar um momento difícil.

Iuri pousou o auscultador, sentindo-se inundado por uma maravilhosa onda de auto-satisfação. Era como se o último obstáculo à Operação Glutão tivesse ruído e a meta se encontrasse já à vista. Estava ansioso por contar a novidade a Curt.

Lavou a tigela dos cereais, bebeu o resto da vodca e, em seguida, dirigiu-se para a cave. Enquanto destrancava a porta da antecâmara, pôs-se a assobiar. Entre tanta euforia, nem sequer se sentia particularmente cansado.

Tirou o cadeado da despensa e entrou no cubículo. De frente para as prateleiras, selecionou os frascos de cultura e os instrumentos que iriam ser necessários. Segurou no material todo e colocou-o junto da porta do laboratório. Muniu-se do equipamento de filtração do ar e, por fim, vestiu o fato de isolamento. Quando estava pronto, abriu a porta interior e pegou no material.

A primeira coisa que fez foi retirar as porções de antraz do secador e colocá-las na trituradora. Assim que ligou a máquina, deu graças a Deus por escutar dentro do capacete o som do ar comprimido; abrandava um pouco a barulheira das esferas de aço do cilindro metálico.

O passo seguinte era colher mais esporos de antraz do fermentador e colocá-los a secar. Feito isso, Iuri reabasteceu o fermentador com novas culturas, para que as bactérias continuassem a desenvolver-se rapidamente e produzissem novos esporos.

Por fim, concentrou-se no segundo fermentador. Uma vez mais, verificou o nível de crescimento da Gostridium botulinum e, de novo, verificou que não era o esperado. Iuri estava perplexo, mas parara de preocupar-se com o assunto desde que decidira utilizar o fermentador para produzir Bacilus anthracis. Com ambos os fermentadores a formar esporos de antraz, dentro de poucos dias teria os dois quilogramas, ou dois e meio, necessários.

Fez uma pausa para decidir o que fazer da cultura de Clostridium botulinuni. Apesar de a produção ser bastante menor do que esperara, a unidade continha uma quantidade colossal de bactéria. Olhou em volta, à procura de algo onde armazená-la. A única coisa que poderia resultar era servir-se dos frascos de cultura que estavam vazios, mas fora-os deitando fora à medida que avançava com o trabalho. O que tinha ao seu dispor não era suficientemente grande para guardar todo o volume do fermentador.

Restava apenas uma solução: despejar o conteúdo do fermentador diretamente no esgoto. Iuri pensou se isso teria alguma conseqüência que pudesse pôr as autoridades em alerta. Deteve-se por uns instantes, pesando os prós e os contras. Chegou à conclusão de que as fábricas de tratamento de esgotos não iriam preocupar-se com os níveis bacterianos do fluxo de entrada. Estariam interessadas apenas no fluxo de saída.

Convicto de que não haveria qualquer problema, Iuri pegou nas ferramentas de canalizador que deixara no laboratório e meteu mãos à obra. Tinha simplesmente de abrir algumas válvulas, já que, à partida, soldara os fermentadores ao esgoto para poder escoar os fluídos.

Abertas as devidas válvulas, observou o nível do fermentador a baixar. Uma válvula de escape colocada no cimo da unidade gorgolejou.

Quando o fermentador ficou vazio, Iuri despejou o conteúdo pelo cano abaixo. Depois, começou a encher o tambor com um caldo de novas culturas de antraz, obtidas a partir da cultura original que isolara na amostra de terra vinda de Oklahoma.

Assim que terminou, endireitou as costas. Deu uma palmadinha no fermentador, lembrando-lhe que todas as suas esperanças estavam depositadas nele. Em seguida, concentrou-se de novo na trituradora, para ver quanto tempo faltava para o ciclo acabar. Quando chegou ao fim e pôde retirar o pó de antraz, decidiu subir ao andar de cima e dormir uma longa e merecida sesta.

 

TERÇA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO

13h00

Jack atirou para cima da secretária o manual sobre doenças infecciosas que arranjara na biblioteca e praguejou em voz alta. Estava a tentar descobrir mais informações sobre o antraz. O caso de Jason Papparis continuava a incomodá-lo, mas não conseguia concentrar-se. Virou-se e olhou para a cadeira vazia de Chet, interrogando-se sobre o que seria feito do seu colega de gabinete. Estava ansioso por contar-lhe a sua mais recente experiência, que confirmava a suspeita de que os mulheres eram impossíveis de aturar.

Durante a noite, acordara atormentado por ter desiludido Laurie com a sua falta de entusiasmo pelo novo namorado. Embora tivesse plena consciência de que os ciúmes haviam interferido na sua avaliação de Paul, ainda assim sentia que o tipo tinha alguma coisa que não lhe agradava. Como dera a entender a Lou, estava relacionado com o gesto ultra-galante de seduzir Laurie com um fim-de-semana em Paris. Para Jack, esse tipo de comportamento cheirava-lhe a suborno. De acordo com a sua experiência, homens como Paul acabavam sempre por revelar um profundo machismo, assim que a relação estabilizava e a mulher ficava emocionalmente presa.

Por volta das quatro horas da manhã, Jack decidira engolir o orgulho. Embora lhe custasse, resolveu ir até ao fim e pedir desculpa a Laurie. Depois, faria um elogio a Paul, um qualquer que fosse capaz de inventar na altura. Levou horas a chegar a essa decisão. Tomou-a quando finalmente se apercebeu da importância que a amizade de Laurie tinha na sua vida.

Todavia, as coisas não haviam corrido como Jack imaginara. Pusera em prática aquilo que decidira fazer, mas Laurie quase nem ouvira o seu pedido desculpas; virara-lhe as costas e afastara-se. Depois disso, Laurie passara a manhã toda a fugir dele, sem se lembrar sequer de lhe agradecer por tão nobre gesto. Era uma daquelas situações às quais se aplica o ditado: preso por ter cão e preso por não ter. Laurie ficara irritada por ele não ter feito um único comentário simpático sobre Paul e, agora, estava irritada por o ter elogiado. Jack abanou a cabeça, sem saber que mais poderia inventar para remediar o caso.

Tornando a girar a cadeira, Jack esticou-se para pegar no telefone. Já que não conseguia ler os artigos sobre o antraz, pelo menos podia fazer uns telefonemas. Passara a hora anterior a ligar para meia dúzia de hospitais de Nova Iorque, para falar com os diretores de serviço das unidades de doenças infecciosas ou de medicina interna, no caso dos hospitais que não tinham uma unidade especializada na área.

Sempre que conseguira entrar em contacto com o respectivo médico, descrevera-lhe o caso de inalação de antraz que lhe chegara às mãos vindo do Bronx General Hospital e perguntara se haveria no serviço algum paciente que pudesse ter sintomas semelhantes. As respostas tinham sido todas negativas, mas pelo menos dessa forma Jack plantara as sementes da suspeita junto das pessoas certas. Assim, se aparecesse de fato um caso, ou se houvesse algum doente com um diagnóstico ainda em aberto, os médicos considerariam a possibilidade de tratar-se de antraz.  'Embora, verdade seja dita, não houvesse muitos casos de antraz nos hospitais de Nova Iorque.

O diretor do serviço de infecciosas do Centro Hospitalar Presbiteriano de Colúmbia atendeu a chamada de Jack, que fez a sua descrição pormenorizada do caso. Embora chocado com a história de Jason Papparis, o médico assegurou que não havia nenhum paciente na unidade com sintomas de antraz.

Jack desligou e olhou para as Páginas Amarelas abertas à sua frente, em busca do número de outro hospital. Antes que pudesse marcar os dígitos, tocou o telefone. Ansioso, levantou o auscultador, mas não era um médico a dar-lhe uma notícia potencialmente interessante. Era Mrs. Sanford, a secretária do diretor, com um recado que Jack já conhecia de ginjeira. O diretor de serviço queria falar com Jack sem demoras.

Sem paciência para aturar disparates burocráticos, como Jack costumava chamar às suas freqüentes desavenças com a administração, meteu-se no elevador e desceu ao primeiro andar. Como um aluno à espera de ser repreendido, postou-se diante de Mrs. Chery1 Sanford, que o cumprimentou com um sorriso e uma piscadela de olho. Ao longo dos anos, Jack e Chery1 tinham desenvolvido uma certa cumplicidade, já que, sempre que o diretor pedia para falar urgentemente com Jack, este, acabava por ter de esperar e aproveitava esses instantes para meter conversa com Chery1.

Jack piscou-lhe o olho, um gesto que fazia parte do método de comunicação não verbal que haviam criado. Significava que Jack podia ficar descansado, pois a reunião seria meramente rotineira, o que queria dizer que o diretor do serviço se sentia obrigado, e não motivado, a repreender Jack por uma qualquer transgressão que ele cometera.

— Que tal vai o seu rapaz? — perguntou Jack, sentando-se no duro sofá de vinilo, à frente da secretária. A porta do gabinete do diretor ficava à esquerda de Chery1 e estava sempre entreaberta, pelo que conseguiam ouvi-lo a falar ao telefone.

— Vai bem — disse Cheryl, orgulhosa. — Continua a ter cinco a todas as disciplinas.

— Isso é ótimo.

Por coincidência, Jack conhecia Amold, o filho de Cheryl, pois também jogava basquetebol e, uma vez por outra, aparecia para treinar no mesmo campo de Jack. Ainda estava a dar os primeiros passos, mas tinha queda para a modalidade. Cheryl, uma mãe solteira africano-americana, vivia num edifício na Rua 105, que Jack conseguia ver da janela do seu quarto.

— Ele diz que tem esperança de um dia vir a jogar basquetebol tão bem como o senhor doutor — comentou Chery1.

Jack soltou uma gargalhada.

— Vai ser dez vezes melhor do que eu — brincou, e não estava a exagerar. Amold acabara de fazer apenas quinze anos e, no entanto, era um jogador muito solicitado, inclusive por Warren.

— Preferia que ele seguisse o seu exemplo em termos de carreira e fosse para medicina — respondeu Chery1.

— Ele mostrou um certo interesse nisso — disse Jack. — Na semana passada, conversamos um pouco sobre o assunto, antes de começarmos a jogar.

— Ele contou-me. E agradeço-lhe a sua atenção.

— O Arnold é um rapaz às direitas. É sempre um prazer conversar com ele.

Nesse instante, o diretor de serviço, o Dr. Harold Bingham, soltou um grito para que Jack entrasse imediatamente no gabinete. Jack levantou-se e dirigiu-se para a porta. Ao passar pela secretária de Cheryl, ela sussurrou:

— Seja simpático! Não o irrite, senão ele fica mal-disposto o resto do dia.

O diretor estava escondido atrás da sua enorme secretária atulhada. Acabara de comemorar as sessenta e cinco primaveras e a idade estava-lhe estampada em cada ruga do rosto. Nos últimos quatro anos, desde que Jack começara a trabalhar no Instituto de Medicina Legal, o nariz bulboso de Bingham parecera alargar-se juntamente com a teia de capilares que se lhe propagara pelas asas das narinas. A luz que entrava pela janela atrás dele incidia na careca suada com um brilho ofuscante, que fez Jack fechar os olhos durante uns segundos.

— Sente-se! — ordenou o Dr. Bingham.

Jack obedeceu e ficou à espera da inevitável reprimenda. Não fazia idéia de qual era o motivo da conversa, mas sabia que podia ser qualquer um de uma longa lista de tópicos.

— Ainda não se cansou destes nossos encontros? — perguntou Bingham.

Semicerrou os olhos de aço frio, que estavam postos em Jack, analisando-o por detrás dos óculos de hastes metálicas. Embora parecesse mais velho do que Matusalém, o diretor continuava tão perspicaz como sempre e era uma verdadeira enciclopédia ambulante de medicina legal, em termos de experiência e conhecimentos. Era reconhecido internacionalmente como uma sumidade da área.

— Gosto de vir visitá-lo uma vez por outra — respondeu Jack, percebendo imediatamente que, com essa piada, já tinha pisado o risco, ignorando os conselhos de Chery1.

Bingham tirou os óculos e esfregou os olhos com os seus dedos grossos, Abanou a cabeça.

— Às vezes gostava que você não fosse tão astuto, porque então eu saberia exatamente o que fazer de si.

— Obrigado pelo elogio. Estava mesmo a precisar de um estímulo.

— A questão é que você é um chato dos diabos.

Jack mordeu a língua. Vieram-lhe à mente alguns ditos espirituosos, mas, lembrando-se de Cheryl, manteve a boca fechada. No fim de contas, a pobre coitada teria de aturar Bingham durante o resto do dia e o mau feitio do diretor era quase tão lendário como a sua bagagem intelectual.

— Faz idéia da razão por que é que o mandei chamar? — inquiriu Bingham.

— Prefiro não responder, para não me auto-incriminar — respondeu Jack.

Bingharn não foi capaz de reprimir um sorriso, que se desvaneceu tão depressa como surgira.

— Vem cheio de graça, hoje! Acabe lá com as piadinhas e escute! Recebi há instantes um telefonema da doutora Patricia Markliam, a Ministra da Saúde. Parece que você tem andado a incomodar o epidemiologista da Câmara, o doutor...

Bingham tomou a pôr os óculos e folheou a papelada que tinha diante de si, à procura do nome.

— Abelard — colaborou Jack. — Sim, esse mesmo.

— Qual foi o crime que cometi desta vez?

— O doutor Abelard está irritado, porque diz que você anda a fazer o trabalho dele. O que é que se passa consigo? Não tem trabalho suficiente aqui no serviço?

— Telefonei ao doutor Abelard, como o doutor Washington sugeriu, porque achei que ele gostaria de ser informado sobre o caso de antraz que diagnostiquei.

— Sim, foi isso que o Calvin me disse.

— Mas o doutor Abelard não ligou nada ao caso — explicou Jack. — Disse que trataria do assunto quando tivesse tempo, ou qualquer coisa desse gênero.

— A fonte de contágio está trancada num armazém em Queens, não é verdade?

— É — admitiu Jack.

— Apesar disso, você resolveu pôr-se em campo e foi remexer os arquivos da vítima — continuou Bingham, irritado. — O que é que se passa nessa sua cabeça? Ficou louco? E se alguém descobrisse? Nem sequer tinha um mandado judicial!

— Pedi licença à viúva — informou Jack com um encolher de ombros.

— Ali sim, isso servia-lhe de muito em tribunal — ripostou Bingham, sarcasticamente.

— Tinha receio que algumas das mercadorias que a vítima encomendara há pouco tempo já tivessem sido vendidas. Se assim fosse, o antraz ter-se-ia disseminado. Podíamos estar a braços com uma mini-epidemia.

— O doutor Abelard tem toda a razão — disse Bingham, a deitar fumo pelas ventas. — Isso não faz parte do seu trabalho e sim do dele!

— A nossa função é proteger as pessoas — argumentou Jack. Achei que havia um fator de risco que o doutor Abelard estava a ignorar e ao qual não deu a devida importância.

— Sempre que achar isso sobre um colega seu, venha ter comigo! — rugiu Bingham. — Em vez de ter andado por aí a brincar aos detetives, eu podia ter telefonado à Patricia Markham. Como Ministra da Saúde, ela tem autoridade para pôr as pessoas na linha. É assim que o sistema deve funcionar.

— Está bem — cedeu Jack com um encolher de ombros.

Pensando uma vez mais em Cheryl, decidiu não enveredar por uma discussão sobre a inépcia burocrática e a incompetência que grassava no funcionalismo público. A sua experiência como funcionário do Estado ensinara-lhe que, a grande maioria das vezes, se não fosse ele a mexer-se, mais ninguém o faria.

— Ótimo! Agora, rua! — gritou Bingham, apontando para a porta. A sua mente estava já a magicar o próximo problema do dia.

Jack levantou-se e saiu do gabinete do diretor de serviço. Deteve-se junto da secretária de Cheryl.

— Que tal me saí?

— Sinceramente? De zero a cinco, dava-lhe um três — criticou Chery1 com um sorriso de esguelha. — Mas, como costuma levar a nota mínima, o que geralmente significa que deixou o diretor à beira de um ataque apopléctico, diria que está a fazer progressos.

Jack despediu-se e saiu para o corredor, mas não foi longe. Calvin viu-o pela porta aberta do gabinete.

— Novidades sobre o caso do David Jefferson? — gritou Calvin.

— Nenhuma, ainda. Telefonou ao John DeVries da toxicologia, para ele despachar os exames de laboratório?

— Liguei logo depois de ter falado consigo.

— Está bem, então vou passar por lá agora.

— Não se esqueça de que quero o caso encerrado até quinta-feira!

Jack espetou o polegar em sinal afirmativo, sabendo, porém, que tal não seria muito provável, já que o laboratório não lhe iria entregar os resultados a tempo. Mas não valia a pena discutir o assunto naquele momento. Em vez disso, meteu-se no elevador e subiu ao quarto andar. Podia ser que se desse um milagre.

Jack encontrou John DeVries no seu diminuto cubículo interior e perguntou-lhe se já tinha os resultados referentes ao caso do recluso. John lançou-se num apaixonado lamento sobre a escassez de fundos na área da toxicologia. Jack saiu do laboratório com certezas redobradas de que o caso não estaria encerrado até quinta-feira.

Servindo-se das escadas, subiu ao sexto andar e entrou no laboratório de ADN. Ted Lynch, o diretor, encontrava-se de pé diante de um dos seus muitos equipamentos de alta tecnologia, rodeado por vários técnicos. O manual de instruções estava aberto em cima da bancada. Era óbvio que a máquina tinha uma avaria.

— Ah, eis a pessoa com quem eu queria falar — disse Ted, assim que viu Jack. Endireitou-se e esticou as costas.

Ted era um homem corpulento, antiga estrela de futebol da Ivy League.

O rosto de Jack iluminou-se.

— Isso quer dizer que tem resultados positivos para me dar?

— Exato — respondeu Ted. — Uma das amostras que me trouxe deu positivo no teste que fizemos para detectar esporos de antraz.

— A sério? — perguntou Jack, surpreendido. Apesar de se ter esforçado por conseguir recolher todas as culturas, não esperava quaisquer resultados positivos. — Qual das amostras, lembra-se?

— Lembro-me perfeitamente. Era a da estrelinha azul iridescente.

— Não posso crer! — exclamou Jack.

Recordava-se de ter encontrado a estrela no mata-borrão da secretária e de pensar que estava fora de contexto naquele ambiente espartano. Depreendera que devia ser o resquício de alguma festa a muito celebrada.

— Descobriu mais alguma coisa?

— Descobri — respondeu Ted, bem-disposto. — Pedi à Agnes uma amostra da cultura que ela retirou do paciente. Estamos neste preciso momento a fazer um teste de ADN, para averiguarmos se são idênticas. É natural que sejam, mas nada como confirmar.

— Sem dúvida. Mais alguma coisa?

— Que tipo de coisa? — perguntou Ted, levemente irritado. Tinha pensado que Jack iria ficar mais do que satisfeito com aqueles dados.

— Não sei. O gênio da tecnologia é você. Nem sequer sei o que lhe devo perguntar ao certo.

— Pois eu não sou adivinho. Tem de dizer-me o que quer saber.

— Bem... quero saber, por exemplo, se a estrela tinha um nível de contaminação alto ou baixo.

— E uma questão interessante — concordou Ted. Olhou em frente e, durante uns instantes, mordeu a bochecha por dentro, enquanto procurava uma resposta. — Terei de pensar nisso.

— E eu terei de descobrir como é que a estrela foi contaminada.

— Não estava no escritório da vítima?

— Estava. Encontrei-a em cima da secretária, mas a fonte que continha os esporos de antraz era o armazém e não o escritório. Ao que tudo indica, os esporos vinham numa remessa de tapetes e odres da Turquia.

— Estou a perceber..

— Suponho que os esporos podiam estar na própria vítima cogitou Jack. — Assim, quando o Jason Papparis voltou para o escritório e se sentou, eles caíram.

— Parece-me plausível — comentou Ted. — Mas também podemos pensar que ele tossiu e que a tosse libertou alguns dos esporos, já que se trata de um caso por inalação.

— É uma hipótese — concordou Jack. — Mas, seja como for, por que carga de água só havia esporos na estrela? Colhi amostras de vários pontos da secretária e foram todas negativas.

— Talvez ele tenha deitado a estrela cá para fora, quando tossiu — disse Ted, rindo.

— Bela sugestão — respondeu Jack, em tom sarcástico.

— Bem, deixo o trabalho de detetive a seu cargo. Agora tenho de dar atenção à minha máquina doente.

— Está bem — respondeu Jack, distraído.

Depois de sair do laboratório de ADN e descer as escadas até ao quinto piso, a sua cabeça continuou às voltas com o enigma da estrela contaminada. Tinha a incômoda sensação de que aquela estrela estava a querer dizer-lhe algo que não era capaz de decifrar, como se fosse um código e lhe faltasse a chave, Jack espreitou para o gabinete de Laurie, mas ela não estava. Riva, a colega de Laurie, levantou os olhos da secretária. Numa voz encantadora de sotaque indiano, informou Jack que Laurie ainda se encontrava na sala de autópsias.

Jack dirigiu-se para o seu gabinete, intrigado com o mistério da estrelinha reluzente. Ocorreu-lhe que talvez fosse feita de metal ou de plástico e que, por conseguinte, tivesse eletricidade estática, o que explicaria o fato de os esporos terem ficado agarrados.

Entrou no gabinete e sentou-se à secretária, obcecado com aquele enigma. Apoiou a cabeça nas mãos e tentou pensar.

— Que história é essa de uma estrela azul? Agora deste em falar sozinho? — perguntou uma voz.

Jack levantou os olhos e ficou surpreendido ao deparar com Lou. O detetive continuava com a mesma expressão desolada que exibira no bar, na noite anterior, mas voltara a assumir o seu aspecto eternamente desleixado. O fato de bom corte e os sapatos engraxados tinham desaparecido.

— Eu estava a falar em voz alta? — inquiriu Jack.

— Não, agora dei em adivinhar pensamentos. Posso entrar?

— Claro. — Jack puxou uma das cadeiras de espaldar direito que partilhava com Chet e aproximou-a da secretária. Deu uma palmadinha no assento.

Lou deixou-se cair na cadeira. Trazia a barba por fazer.

— Se andas à procura da Laurie, ela está lá em baixo, no fosso.

— Não, vinha falar contigo.

Jack levantou as sobrancelhas: — Que honra! Que se passa?

— Venho confessar uma coisa.

— Hum, isto está a ficar interessante.

— Sinto-me tão mal comigo mesmo que nem consegui dormir. Passei a noite em branco.

— Sei o que isso é.

— Não quero que fiques a pensar mal de mim.

— Vou tentar não o fazer. — Jack agitou os dedos, impaciente.

— Porque eu não costumo fazer este tipo de coisas, quero que acredites nisso.

— Pelo amor de Deus, Lou! Confessa-te lá! Se não, como é que te posso absolver?

Lou olhou para as mãos entrelaçadas e suspirou.

— Está bem, deixa-me adivinhar — prosseguiu Jack. — Masturbaste-te e tiveste pensamentos impuros.

— Não estou a brincar! — irritou-se Lou.

— Então, conta-me o que se passa, para eu não me pôr a adivinhar.

— Está bem. Fiz uma busca aos ficheiros da polícia para levantar informações sobre o Paul Sutherland.

— É só isso? — perguntou Jack, exagerando no tom de desapontamento. — Pensei que tinhas feito qualquer coisa mais perversa.

— Não deixa de ser um abuso de poder.

— Talvez, mas eu teria feito a mesma coisa — confessou Jack.

— A sério?

— Juro. E então, que encontraste?

Lou inclinou-se para a frente em jeito de conspiração.

— Ele tem cadastro — murmurou.

— Alguma coisa grave?

— Não muito, mas suponho que depende do ponto de vista. A acusação foi posse de cocaína.

— Só isso?

— Era uma quantidade considerável de cocaína — explicou Lou. — Não o suficiente para o incriminar por tráfico, mas o bastante para fazer uma festa de arromba. Como não refutou a acusação, levou pena suspensa e serviço comunitário.

— Vais contar à Laurie?

— Não sei. Era por isso que queria falar contigo.

— Oh, meu Deus...! — disse Jack, esfregando a testa. Era uma pergunta difícil.

— Primeiro, teria de perguntar a mim próprio por que motivo lhe iria contar.

Jack fez que sim com a cabeça.

— Eu entendo. Ela poderia fazer a mesma pergunta e, depois, ainda acabava por despejar a raiva no mensageiro da desgraça.

— É exatamente o que eu penso. No entanto, como amigo, acho que ela devia saber. Claro está que o Paul já lhe pode ter contado.

— A minha intuição diz-me que não o fez. Ele é demasiado convencido para isso.

— Concordo.

Pelo canto do olho, Jack viu um vulto encher a moldura da porta. Era Ted Lynch, do laboratório de ADN.

— Desculpe, não sabia que estava ocupado.

— Não tem mal — disse Jack. Fez as devidas apresentações, mas Ted e Lou já se conheciam.

— Não consegui parar de pensar na pergunta que me fez — disse Ted.

— Sobre o nível de contaminação da estrela azul?

— Hum... hum... E descobri uma maneira de o averiguar — anunciou Ted, entusiasmado. — Chama-se "tecnologia TaqMari". E uma nova técnica de RCP.

— Que quer dizer RCP? — perguntou Lou.

— Reação em cadeia das polimerases — explicou Jack. — É uma maneira de aumentar um pedacinho de ADN, para poder ser analisado.

— Ah, sim — disse Lou, fingindo que entendera.

— Seja como for, é uma técnica fantástica — adiantou Ted, ansioso. — Coloca-se uma determinada enzima na mistura de reação da RCP e a enzima devora cadeias simples de ADN, como naquele jogo de vídeo antigo, o PacMan, lembram-se?

Jack e Lou assentiram com a cabeça.

— Mas o mais espetacular é que, quando encontra uma sonda que esteja a marcar aquilo de que andamos à procura, a enzima avisa. Não é fantástico? Assim, podemos determinar a quantidade que se encontrava à partida na amostra, calculando apenas o número de duplicações que ocorreram na reação, já que estão relacionadas com o fator tempo.

Jack e Lou fitaram o entusiasmado perito em ADN, com cara de quem não entendeu patavina.

— Então, quer que faça o teste? — perguntou Ted.

— Sim, claro — respondeu Jack. — Seria ótimo.

— Vou já tratar disso — anunciou Ted, saindo tão depressa como entrara.

— Entendeste alguma coisa? — indagou Lou.

— Absolutamente nada — confessou Jack. — O Ted passa a vida lá em cima, fechado num mundo à parte. Foi por isso que montaram o laboratório de ADN no último andar. Assim, toda a gente acha que os resultados caem do céu.

— Tenho de ver se aprendo alguma coisa sobre ADN. É cada vez mais importante para o trabalho da polícia.

— O problema é que a tecnologia evolui demasiado depressa para conseguirmos acompanhá-la.

— Que história é essa da estrela azul? — perguntou Lou. — É a mesma estrela azul em que estavas a pensar, quando dei contigo a falar sozinho?

—Exatamente a mesma.

Jack contou a Lou a história da pequenina estrela reluzente, salientando o importante fato de ser o único objeto encontrado no escritório da Firma de Tapetes Coríntios que estava contaminado com esporos de antraz.

— Já vi umas estrelinhas dessas — disse Lou. — Aliás, o convite que recebi este ano para o Baile da Polícia trazia umas quantas dentro de um sobrescrito.

— Tens razão! Uma vez recebi um convite igual. Estava aqui a tentar lembrar-me onde é que já as tinha visto.

— Mas é estranho encontrar estrelas dessas numa empresa de tapetes — comentou Lou. — A menos que tenham feito alguma festa.

—Bem, voltemos à tua dúvida. Como é que vais decidir se contas ou não à Laurie que o namorado tem cadastro?

— Não sei. Acho que estava à espera que tu te oferecesses para lhe contar.

— Ah não, eu não! — exclamou Jack. — Isso é da tua competência. Foste tu quem desencantou essa informação, por isso cabe-te, a ti decidir o que fazer dela.

— Mas há mais...

Jack arrebitou as orelhas.

— Podes dizer.

— Descobri em que ramo de negócios ele trabalha.

— Isso vem nos arquivos da polícia?

Lou acenou com a cabeça.

— É traficante de armas.

Jack deixou cair o queixo em câmara lenta. A seu ver, o fato de Paul Sutherland ser traficante de armas era muito mais grave do que ter sido condenado por posse de cocaína, e Laurie precisava de saber.

— Ele costumava ter uma espécie de monopólio da importação das AK-Quarenta e Sete búlgaras, pelo menos até mil novecentos e noventa e quatro, quando foi decretado o Projeto de Lei contra o Crime e elas foram banidas, juntamente com outros dezoito fuzis de assalto semi-automáticos.

— O assunto é sério.

— Claro que é — concordou Lou. — Essas AK-Quarenta e Sete búlgaras são muito usadas pelas milícias de extrema-direita e por outros militantes chanfrados.

— Estava a falar em relação à Laurie. Fazes idéia de qual é a opinião dela sobre o controlo de armas?

— Não, nem por isso...

— Então, eu digo-te. Se pudesse, a Laurie acabava com as armas no país inteiro, inclusive na polícia. A especialidade dela é analisar ferimentos de bala.

— Ela nunca me disse isso — comentou Lou, magoado.

— Bem, seja como for, julgo que é muito mais importante contar-lhe que o futuro noivo é traficante de armas do que falar da detenção por posse de cocaína.

— Isso quer dizer que lhe vais contar?

— Que raio, porque é que tenho de ser eu?! Foste tu quem descobriu a informação e, de qualquer maneira, ela vai querer saber quem é a minha fonte. E óbvio que vou ter de dizer que és tu.

— Não importa. A verdade é que tens mais jeito do que eu para essas coisas. E, ainda por cima, vocês os dois têm tanto em comum!

— Cobarde! — disse Jack.

— E tu não és? — comentou Lou. — Anda lá! Vês a Laurie muito mais vezes do que eu; trabalham no mesmo sítio.

— Está bem, vou pensar no assunto. Mas não prometo nada.

O telefone de Jack tocou. Ele levantou o auscultador e respondeu, irritado. Assim que se apercebeu do seu tom, suavizou a voz. Era Marlene Wilson, a recepcionista.

— Espero não estar a incomodá-lo, doutor Stapleton — desculpou-se Marlene com um ligeiro sotaque sulista.

— De modo nenhum — disse Jack. — Que se passa?

— Estão aqui uns senhores para falar consigo. Está à espera de alguém?

— Que eu saiba, não. Como é que se chamam?

— Aguarde um instante, por favor.

— Olha, vou-me embora — anunciou Lou, levantando-se. É melhor sair daqui antes que a Laurie apareça.

— Dá notícias — despediu-se Jack. — Vamos ter de tomar uma decisão sobre esses dados sensíveis que descobriste.

Lou acenou com a cabeça e desapareceu de vista. Marlene velo de novo ao telefone.

— São Mister Warren Wilson e Mister Flash Thomas. Que lhes digo?

— Que estranho... Diga-lhes para subir.

Jack pousou o auscultador devagar. Nem queria acreditar que Warren tivesse vindo visitá-lo. Jack sugerira-o algumas vezes, pensando que o amigo gostaria de ver em primeira mão o que Jack fazia na vida. Era uma maneira de aliciá-lo a voltar aos estudos, mas Warren respondera que só entraria numa morgue depois de morto.

Jack pegou na cadeira que estava à frente da secretária de Chet e puxou-a para junto da outra. Saiu para o corredor e encaminhou-se para os elevadores. Calculara o tempo corretamente, porque as portas abriram-se de imediato, para dar passagem aos seus dois companheiros de basquetebol.

— Que lugar horrível! — criticou Warren com uma expressão de asco, rapidamente substituída por um sorriso. — Então, Doc, tudo bem? — Levantou a mão.

Jack deu-lhe uma palmada, como se estivessem a cumprimentar-se em pleno campo de jogo. Repetiu o gesto com Flash, que se sentia claramente mais intimidado do que Warren pelo ambiente à sua volta.

— Está tudo bem, como sempre — respondeu Jack. — Mas estou espantado com a vossa visita. É um choque ver-vos aqui, mas venham conhecer o meu gabinete.

Jack guiou-os pelo corredor fora.

— Que cheiro esquisito! — comentou Flash.

— Faz-me lembrar um hospital — acrescentou Warren.

— Um hospital onde eu não gostaria de entrar — disse Flash com um riso nervoso.

— Disseste que fazias autópsias num lugar chamado "o fosso" — começou Warren. — Mas olha que o edifício todo parece um fosso.

— De fato, está a precisar de umas obras — admitiu Jack. Fê-los entrar no gabinete e sentaram-se os três.

Jack sorriu.

— Deram-se ao trabalho de vir até aqui só para terem a certeza de que vou jogar logo à noite?

— Devias ter jogado ontem — disse Warren. — Podias ter partilhado a vitória conosco. Não perdemos um único jogo.

— Talvez hoje tenha sorte.

Warren olhou para Flash.

— Perguntas tu ou queres que eu pergunte?

— Pergunta tu — respondeu Flash, mexendo-se na cadeira, nervoso. Estava claramente preocupado com alguma coisa. Warren virou-se para Jack.

— O Flash recebeu uma notícia má, hoje de manhã. A irmã dele morreu.

— Lamento — disse Jack. Olhou para Flash, mas ele desviou os olhos.

— Ela ainda era nova, mais ou menos da tua idade. Foi uma morte repentina e o Flash acha que deve ter havido mão criminosa. Ela e o marido não se davam bem, entendes?

— Estamos a falar de um caso de violência doméstica? — inquiriu Jack.

— Se é isso que se diz quando o marido dá uns sopapos na mulher, sim.

— É um eufemismo que costumamos usar — explicou Jack. —Então, era um caso grave de violência doméstica — interrompeu Flash, acaloradamente.

— Calma — disse Warren, dando uma palmadinha reconfortante no ombro de Flash. Depois, virou-se para Jack e acrescentou: — Tive de convencer o Flash a não ir lá a casa dar cabo do maridinho da irmã.

— Aquele filho da mãe matou-a! — rosnou Flash.

— Calma, pá! — insistiu Warren. — Não tens a certeza disso.

— Tenho, sim.

Warren virou-se de frente para Jack.

— Estás a ver as chatices que tenho de aturar? Se o Flash for lá a casa, vai haver confusão. Alguém vai acabar morto e não me parece que seja aqui o Flash.

— E que posso eu fazer para ajudar? — perguntou Jack.

— Vê se descobres o que a matou — pediu Warren. — Se morreu de causa natural, então o Flash vai ter de despejar a raiva noutro lado, como nós os dois fazemos no campo de basquetebol.

Warren deu uma palmada carinhosa na cabeça de Flash, que reagiu com um gesto irritadiço.

— Para onde é que o corpo foi levado? — perguntou Jack.

— Para a morgue de Brooklyn. Pelo menos, foi o que disseram ao Flash no Coney Island Hospital, onde ela recebeu tratamento.

— Nesse caso, é fácil. Vou falar com a pessoa que estiver encarregada de fazer a autópsia e logo saberemos.

— Não vai haver autópsia — disse Flash abruptamente. — E é isso que me está a chatear. Levaram-na para a morgue para fazerem a autópsia, mas, entretanto, mudaram de idéias. Aqui há gato, está a perceber?

— Não necessariamente — respondeu Jack. — Nem todos os corpos que chegam ao Instituto de Medicina Legal são autopsiados. Aliás, o fato de não ter sido autopsiada significa que as probabilidades de ter havido um homicídio são mínimas. Como ela morreu num hospital, o médico de serviço teve de diagnosticar a causa da morte e, nesse caso, não é obrigatório efetuar a autópsia.

— O Flash está a pensar numa conspiração — explicou o Warren.

— Garanto-vos que não há conspiração nenhuma. Incompetência, talvez, mas conspiração, não.

— Mas... — começou Flash.

— Calma! — interrompeu Jack. — Eu vou averiguar o que aconteceu. Como é que ela se chamava?

— Connie Davidov.

Jack apontou o nome e pegou no telefone. Ligou para a delegação de Brooklyn, que estava sob a alçada do Instituto de Medicina Legal de Nova Iorque. Tecnicamente, Bingham era o diretor, embora a delegação de Brooklyn tivesse um chefe administrativo, Jim Bennett.

— Quem é o médico legista que está de serviço esta semana? — perguntou Jack à telefonista, que lhe deu a informação depois de ele se ter identificado.

— O doutor Randolph Sanders. Quer que o chame?

— Se não se importa — disse Jack, descontente.

Conhecia Randolph bastante bem e colocava-o na mesma categoria de incompetentes que George Fontworth. Tamborilou com o lápis enquanto esperava. Preferia lidar com qualquer um dos outros quatro médicos legistas de Brooklyn.

Quando Randolph atendeu o telefone, Jack não perdeu tempo com rodeios e perguntou diretamente por que razão Connie Davidov não fora autopsiada.

— Tenho de ir buscar a pasta — disse Randolph. — Por que é que quer saber?

— Pediram-me para analisar o caso — respondeu, sem explicar quem lho pedira. Se Randolph quisesse pensar que fora Bingham ou Calvin, Jack até agradecia.

— Espere um instante — pediu Randolph.

Jack virou-se para Flash, tapando o bocal com a mão.

— Davidov parece-me tudo menos um nome africano-americano.

— E não é — disse Flash. — O marido da Connie é branco.

Jack acenou com a cabeça, pressentindo que haveria outros motivos por detrás da hostilidade entre Flash e o marido de Connie para além da alegada história de violência doméstica.

—Ele dava-se bem com o resto da família?

— Ah! — exclamou Flash com desprezo. — A minha família cortou relações com eles os dois. Não queriam que a Connie casasse com ele, de maneira nenhuma.

— Já aqui tenho a pasta — anunciou Randolph do outro lado da linha, chamando a atenção de Jack. — E também o relatório do assistente hospitalar.

—Qual foi o diagnóstico?

— O médico que a observou, Michael Cooper, diagnosticou um ataque de asma como causa da morte. Havia um longo historial de asma, com uma série de internamentos e inúmeras visitas às urgências. Também sofria de obesidade, que não a deve ter ajudado nada a respirar quando começou a crise asmática. Além disso, parece que tinha várias alergias.

— Compreendo — disse Jack. — Diga-me uma coisa: viu o corpo?

— É claro que vi o corpo! — Randolph ficara claramente ofendido com a pergunta.

— No seu parecer profissional, havia sinais de violência doméstica?

— Se houvesse sinais de violência doméstica, eu teria feito a porcaria da autópsia! — respondeu Randolph, na defensiva.

— Havia sinais de asfixia? — insistiu Jack. — Petéquias hemorrágicas na esclerótica, alguma coisa desse gênero?

— Essas perguntas ofendem-me — ripostou Randolph.

— E a toxicologia? — perguntou Jack. — Fizeram amostras?

— Não houve autópsia! — retorquiu Randolph, enervado. — Não fazemos análises de toxicologia quando não há autópsia, e vocês também não!

Randolph desligou abruptamente. Jack levantou as sobrancelhas ao pousar o auscultador.

— Que tipo tão sensível! Se bem que, verdade seja dita, a minha falta de tato seja lendária. De qualquer maneira, ouviram a conversa?

Warren e Flash fizeram que sim com a cabeça.

— O médico disse que não havia sinais de violência doméstica — repetiu Jack. — É certo que o Randolph não é o melhor médico legista à face da terra, mas não é difícil identificar um caso de violência doméstica, ainda que ligeiro.

— Por que é que perguntaste pela toxicologia? — inquiriu Warren.

— As análises de toxicologia detectam venenos e coisas afins — explicou Jack. — Às vezes, surgem casos desses.

Warren olhou para Flash.

— Querem que eu continue a investigar o assunto? — indagou Jack.

Flash anuiu com a cabeça.

— Tenho a certeza de que ele a matou.

— Depois de tudo o que ouviste, porque é que não mudaste de opinião?

— Porque ela não tinha historial nenhum de asma nem de alergias.

— Tens a certeza? — perguntou Jack, espantado.

— Claro que tenho! Sou irmão dela, não sou? Ela tinha um pouco de asma quando era miúda. Mas quando digo miúda, estou a referir-me a quando ela tinha uns dez anos. Nos últimos tempos, falava com ela pelo menos uma vez por semana e ela não tinha alergia nenhuma, nem asma.

— Santo Deus! Isso faz com que o caso mude de figura.

— O que é que podes fazer? — perguntou Warren.

— Posso telefonar ao assistente hospitalar, para começo de conversa — disse Jack. — O médico que a tratou no Coney Island Hospital.

Como tinha as Páginas Amarelas abertas na secção "Hospitais", Jack não teve dificuldade em encontrar o número. Ligou e pediu para chamarem o Dr. Michael Cooper. Quando o médico atendeu a chamada, Jack seguiu o procedimento habitual: identificou-se e explicou o motivo do telefonema. Ao contrário de Randolph, Michael mostrou-se solícito e sem nada a esconder.

— Lembro-me da Connie Davidov, sim. Foi um caso difícil! Deu entrada praticamente moribunda. Os paramédicos disseram que ela estava cianótica quando chegaram lá a casa e mal respirava. Tinha caído na casa de banho, que foi onde o marido a encontrou depois. Deram-lhe oxigênio e entubaram-na. Quando entrou nas urgências, tinha acidose respiratória, com níveis baixíssimos de CO2 e baixa saturação arterial de oxigênio. Melhorou depois da entubação, mas o estado clínico manteve-se. Não tinha reflexos periféricos, apresentava midríase fixa e o EEG não indicava qualquer sinal de vida no cérebro. Não havia muito a fazer.

— Que tipo de barulho é que ela fazia ao respirar?

— Quando aqui chegou, respirava normalmente. Mas não achamos estranho, por causa da baixa saturação de oxigênio e do nível de acidose que tinha. Todos os músculos, incluindo os músculos lisos, estavam basicamente paralisados. Se pensarmos no tamanho dela, mais parecia uma baleia que deu à costa.

— Havia indícios de ataque cardíaco?

— Não — disse Michael. — O KG estava normal, embora o ritmo cardíaco fosse muito lento e houvesse algumas flutuações consistentes com os níveis baixos de saturação arterial de oxigênio.

— E sinais de enfarte cerebral?

— Eliminamos essa hipótese com uma TAC, que estava normal. Também fizemos uma punção lombar e o líquido cefalorraquidiano estava limpo.

— Tinha febre, lesões cutâneas ou quaisquer outros sinais de infecção? — insistiu Jack.

— Nada. Aliás, a temperatura do corpo estava abaixo do normal.

— E consta que ela tinha um historial de asma e alergias. Onde é que arranjou esses dados? Obteve-os através dos arquivos hospitalares?

— Não, foi o marido que me disse — respondeu Michael. — Apesar das circunstâncias, ele estava bastante calmo e conseguiu dar-nos várias informações sobre o historial da paciente.

Jack agradeceu-lhe e desligou. Virou-se para Warren e Flash.

— Isto está a ficar cada vez mais interessante. Não me parece que o caso tenha sido devidamente analisado. Acho que é melhor eu dar uma vista de olhos ao corpo.

— Podes fazer isso? — perguntou Warren.

— Por que não haveria de poder?

Jack tomou a pegar no telefone para tentar falar diretamente com Randolph, mas ninguém atendeu. Ligou para o número geral e pediu para chamarem o médico. Quando lhe perguntaram quem queria falar com ele, Jack apresentou-se e ficou à espera. A telefonista surgiu de novo em linha para dizer que Randolph estava ocupado. Jack deixou uma mensagem, explicando que ia a caminho do hospital.

— Parece que o doutor Sanders gosta de ser passivo-agressivo — comentou Jack, levantando-se. Pegou no telemóvel e na sua pequena máquina fotográfica e guardou ambos no bolso.

— Que querem fazer? Podem vir comigo, se desejarem.

— Queres ir? — perguntou Warren a Flash. — Não tenho nada para fazer agora.

Flash anuiu com a cabeça.

— Quero ir com isto até ao fim.

— Como é que vieram aqui ter? — perguntou Jack. Warren mostrou-lhe as chaves do carro.

— Deixei o carro estacionado aqui pertinho, na Rua Trinta.

— Ótimo. Vamos!

Desceram no elevador até a cave e estavam prestes a sair pela zona de cargas e descargas quando Jack se deteve.

— Estava a pensar... — começou. — Não sei como é que vou ser recebido em Brooklyn. É capaz de ser melhor levar o meu próprio equipamento.

—Que equipamento? — perguntou Warren.

— É uma longa história — atalhou Jack. — Esperem aqui fora, ao pé do carro. Eu já volto.

Jack entrou nas entranhas da morgue, passou pela sala de gavetões frigoríficos, onde os corpos eram armazenados antes da autópsia. Por sorte, cruzou-se com Vinnie, que ia a sair do fosso. Jack pediu ao técnico da morgue que lhe arranjasse uns quantos frascos para guardar amostras de diversos tipos de fluidos corporais, uma máscara, luvas de borracha, seringas, bisturis e uma sonda nasogástrica.

— Que diabo vai fazer? — perguntou Vinnie, fitando Jack com ar desconfiado.

— Provavelmente, escaldar-me — disse Jack.

— Vai fazer um trabalho por fora?

— Infelizmente, vou.

— Quer que vá consigo?

— Não — respondeu Jack — mas agradeço a atenção.

Vinnie não demorou muito a arranjar o material e, quando voltou para junto de Jack, este segurava na mão uma sacola que costumava utilizar para transportar uma muda de roupa da casa para o trabalho e vice-versa. Especialmente no verão, Jack transpirava copiosamente durante as viagens de bicicleta e precisava de tomar um duche e trocar de roupa no hospital.

Jack enfiou o material dentro da sacola, agradeceu a Vinnie e dirigiu-se para a zona de cargas e descargas. Encontrou Warren e Flash no passeio, discutindo uma vez mais se Flash deveria ou não confrontar o cunhado.

Quando entraram para o carro, os dois amigos de longa data pareciam zangados um com o outro. Jack instalou-se no espaçoso banco de trás, enquanto Warren e Flash ficaram à frente. O automóvel era um Cadillac de há cinco anos.

— Será que podemos fazer o caminho em paz? — perguntou Jack, esperando aliviar a tensão que pairava no ar.

— Ele é louco! — queixou-se Warren, lançando as mãos ao alto. — Vai meter-se numa alhada e ainda acaba por levar um balázio.

— Quem morreu foi a minha irmã — ripostou Flash. — Aposto que se tivesse sido a tua, tinhas vontade de fazer o mesmo que eu.

— Tu não tens a certeza se ela foi assassinada e a questão é precisamente essa. Por isso é que viemos falar aqui com o Doc.

— Escuta, Flash — disse Jack. — Tenho quase a certeza de que vou conseguir descobrir se houve ou não mão criminosa, mas tens de ser paciente. Posso só ter uma resposta para te dar daqui a um ou dois dias.

— Como, dois dias? — espantou-se Flash, dando meia-volta no banco para fitar Jack. — Pensei que fosse capaz de adivinhar assim que a visse.

— Talvez, mas, sinceramente, duvido, já que o Randolph não descobriu nada. Ele não é assim tão mau como médico legista. O que me interessa é ver se encontro vestígios de veneno.

— Que tipo de veneno? — perguntou Warren, olhando para Jack pelo espelho retrovisor.

— Cianeto, por exemplo. Claro que não se encaixa neste quadro, porque os níveis de oxigênio no sangue estavam baixos. Mas não deixa de ser uma hipótese a considerar.

— E que mais? — insistiu Warren.

— Outra hipótese é monóxido de carbono. Mas o problema é que os paramédicos disseram que ela estava cianótica, ou seja, tinha uma coloração azulada.

— É só? Não existem outros venenos?

— Que conversa é esta? Estás a pôr-me à prova, ou quê? — perguntou Jack.

 — Não, estou simplesmente interessado.

— Pois, mas estás a pressionar-me — disse Jack. — De qualquer forma, vou procurar sinais de barbitúricos, benzodiazepinas, como Valium, etilenoglicol e coisas desse gênero. Em comum têm todos o fato de provocarem colapso respiratório, que foi o que aparentemente aconteceu à Connie.

— Como é que o marido dela a poderia ter matado com monóxido de carbono? — perguntou Flash.

— Eles tinham carro?

— Sim. Até tinham garagem.

— Então, ele embriagou-a, ou deu-lhe um sedativo, para conseguir metê-la no carro, e depois deixou o motor a trabalhar dentro da garagem. Ou, melhor ainda, pôs o tubo de escape mesmo à beira dela. Quando a Connie estava quase morta, levou-a para a casa de banho e chamou o Cento e Doze.

— Ele não tinha forças para transportá-la para lado nenhum — disse Flash. — A Connie pesava cerca de cento e setenta quilos.

— Estava apenas a imaginar situações hipotéticas — explicou Jack. — Bolas, vocês hoje estão insuportáveis! Vamos embora!

— Tens de indicar-me para onde vamos — disse Warren.

— Para o King's Courity Hospital. Fica a sudeste de Prospect Park, em Brooklyn.

— Achas que vá pela circular FDR? — perguntou Warren.

— É melhor. Depois segue pela Ponte de Brooklyn e mete pela Flatbush Avenue.

Warren ligou o motor e arrancaram.

— Flash — chamou Jack do banco de trás, enquanto seguiam ao longo de East River. — Há alguma possibilidade de a tua irmã se ter suicidado?

— Não, nem pensar! — respondeu Flash, sem hesitação. — Não era o estilo dela.

— Costumava ter depressões?

— Não no sentido próprio do termo. Mas, de vez em quando, sim. Acho que era por isso que comia tanto. Sabia que tinha casado com um louco varrido.

— Por que é que dizes isso?

— O tipo não fazia a ponta de um corno — respondeu Flash, irritado. — Voltava do trabalho e punha-se a beber à frente do televisor. Não mexia uma palha, até que, de há uns meses para cá, começou a enfiar-se na cave o dia todo.

— A fazer o quê?

— A construir alguma coisa — disse Flash. — A Connie não me disse o que é que ele andava a fazer. Acho que nem ela sabia.

— Ela também costumava beber?

— Não — respondeu Flash. — Isto é, se está a falar de álcool. Já batidos, isso era outra história.

— E drogas?

— Ela não se metia na droga — disse Flash. — Nunca o fez.

— Onde é que ela vivia em Brooklyn?

— No número quinze de Oceanview Lane.

— Onde é que isso fica?

Em Brigliton Beach. Ela vivia num bairro giro, cheio de casinhas de madeira. No verão, podia ir a pé para a praia e nadar um bocado. Era porreiro.

— Hum... — murmurou Jack, tentando imaginar como seria o bairro. Não conseguia visualizar uma zona de casinhas de madeira dentro do perímetro de Nova Iorque.

Estacionar na área do King's Courity Hospital era um verdadeiro pesadelo, mas Warren não parecia incomodado. Na bagageira, tinha um velho caixote do lixo com o fundo cortado. Limitou-se a procurar um lugar à frente de uma boca de incêndio, estacionou o automóvel e tapou a boca com o caixote modificado. Jack pensou que, para viver numa grande cidade, era realmente necessário ter uma enorme dose de criatividade.

Warren e Flash detiveram-se à porta da delegação do Instituto de Medicina Legal.

— Acho que é melhor esperarmos aqui — disse Warren, olhando para Flash, que fez que sim com a cabeça.

— Por mim, tudo bem — respondeu Jack. — Vou tentar não demorar muito.

Jack entrou no edifício. Mostrou o distintivo à recepcionista, que nunca o vira antes. Impressionada, deixou-o passar.

Não querendo perder tempo, Jack dirigiu-se diretamente para o gabinete da morgue, ao lado da sala de autópsias, e entrou pela porta aberta. Sentado à secretária estava um dos técnicos.

— Boa tarde, sou o doutor Jack Stapleton e trabalho na delegação de Manhattan — anunciou em voz segura e forte. Mostrou a identificação, como fizera com a recepcionista.

— Como está? Chamo-me Doug Smithers. Em que posso ajudá-lo?

O indivíduo estava claramente surpreendido. Não costumava haver intercâmbio de médicos entre as delegações.

— Preciso de duas coisas: primeiro, se não se importa, mandava chamar o doutor Randolph Sanders. Pergunte-lhe se pode vir aqui abaixo, por favor.

— Está bem — respondeu Doug com uma pontinha de incerteza na voz.

Como técnico da morgue, não fazia parte das suas funções ser moço de recados dos médicos legistas. Pegou no telefone. Quando o médico atendeu, repetiu palavra a palavra a mensagem de Jack.

— Ótimo — comentou Jack. — Agora, queria que me fosse procurar um corpo de que ando à procura e que o levasse para uma sala onde eu pudesse examiná-lo.

— Quer que o ponha na mesa da sala de autópsias?

— Não — respondeu Jack. — Não vou fazer uma autópsia, quero apenas dar uma vista de olhos ao cadáver e levar algumas amostras de fluidos. Por isso, arranje-me simplesmente uma sala que tenha luz adequada.

Doug Smith pôs-se de pé.

— Qual é o número de registro?

— Não sei, mas o doente chamava-se Connie Davidov. Penso que deu entrada hoje de manhã.

— O corpo não está aqui.

— Deve estar a brincar!

— Não, não estou a brincar. Saiu há bocadinho, há cerca de meia hora.

— Merda! — gritou Jack, abanando enfaticamente a cabeça. Atirou a sacola para cima da secretária com um estrondo. Ficou vermelho de raiva.

— Lamento — disse Doug, baixando-se como se tivesse medo que Jack lhe batesse.

— A culpa não é sua — sossegou Jack. Estalou os dedos, frustrado.

— Para onde é que levaram o corpo?

Doug folheou o livro de registro que estava sobre a mesa. Com o dedo indicador, seguiu a coluna de alto a baixo.

— Foi para a Casa Funerária Strick1and.

— Onde é que isso fica?

— Penso que é na Caton Avenue, perto do Cemitério de Greenwood.

— Jesus Maria José! — murmurou Jack. Começou a andar de um lado para o outro, pensando no que fazer a seguir.

— Doutor Stapleton? — disse uma voz com um claro tom paternalista. — Não acha que está um pouquinho longe dos seus domínios?

Jack levantou os olhos para a porta. Na ombreira, encontrava-se o Dr. Randolph Sanders. Era um pouco mais velho do que Jack, com o cabelo quase todo grisalho puxado para trás, acentuando o seu rosto estreito. Usava óculos de aros pretos grossos que lhe davam um ar de coruja. Na hierarquia do Instituto de Medicina Legal, Randolph estava bastante à frente de Jack, tendo quase vinte anos de carreira.

— Pensei dar um salto até aqui para o ajudar, que bem precisa — ripostou Jack.

— Não diga disparates! — redargüiu Randolph com desdém. — Por que carga de água mandou embora o corpo da Connie Davidov, quando sabia que eu vinha cá?

— Recebi um recado misterioso, dizendo que talvez nos viesse visitar, mas não especificava que queria ver o corpo.

— Eu devia ter previsto que ia acontecer, já que era preciso ser muito inteligente para depreender que eu vinha ver o corpo.

— Não tenho obrigação nenhuma de ficar aqui a ouvir os seus disparates infantis — disse Randolph. — Faça boa viagem até Manhattan. — Deu meia volta sobre os calcanhares e desapareceu.

Jack saiu para o corredor. Chamou Randolph, que já se ia embora.

— Pois deixe-me dizer-lhe uma coisa. A Connie Davidov não tinha asma nem alergias. Era uma mulher perfeitamente saudável que, de repente, sofreu um colapso respiratório sem ter tido um ataque cardíaco nem um enfarte cerebral. Se este tipo de caso não requer autópsia, então não sei quais é que precisam.

Randolph parou diante dos elevadores e virou-se.

— Como é que sabe que não tinha asma nem alergias?

— O irmão dela disse-me.

— Então, agora é a minha vez de lhe dizer uma coisa — ripostou Randolph com desdém. — Quem me fez o historial da mulher foi, pura e simplesmente, o nosso investigador forense mais experiente. Posto isto, acredite em quem quiser. Eu prefiro confiar num profissional.

Randolph deu meia-volta e, calmamente, carregou no botão do ascensor. Olhou de relance para Jack, por cima do ombro, com um sorriso paternalista.

Jack preparava-se para argumentar contra o último comentário de Randolph quando se apercebeu de que era ridículo estar a discutir com um indivíduo tão burro como aquele. Além disso, não servia de nada armar uma zaragata com Randolph. Abanando a cabeça, voltou para o gabinete da morgue e pegou na sacola. Doug fitou-o com um ar curioso, mas nada disse.

Deitando fumo pelas ventas, Jack saiu da delegação de Brooklyn e caminhou ao longo do passeio em direção ao carro de Warren. Este e Flash encontravam-se apoiados ao capot do Cadillac. Ansiosos, olharam para Jack assim que o viram aproximar-se, mas Jack não abriu a boca e limitou-se a entrar para o banco de trás do automóvel.

Warren e Flash entreolharam-se com um encolher de ombros, antes de entrarem eles também para o carro. Viraram-se os dois para fitar Jack, que tinha os lábios cerrados.

— Estás com cara de poucos amigos — comentou Warren.

— Pois estou — admitiu Jack. Espreitou pela janela durante uns instantes, pensando com os seus botões.

— Que aconteceu? — perguntou Flash.

— Enviaram o corpo para a casa funerária.

— A que propósito? Sabiam que vinhas cá.

— É uma história complicada e tem a ver com a rivalidade que existe entre os médicos — disse Jack. — É difícil de explicar e provavelmente vocês nem sequer acreditavam.

— Está bem, confiamos na tua palavra — respondeu Warren. — Então, que fazemos?

— Não sei. Estou a pensar.

— Eu sei o que vou fazer. Vou até Brigliton Beach — anunciou Flash.

— Cala-te, pá! — avisou Warren. — Isto já se resolve.

— Resolve o tanas! Se ela fosse branca, nada disto teria acontecido.

— Flash, não é essa a questão — disse Jack.      É verdade que há muito racismo em Nova Iorque, estás certíssimo quanto a isso, mas não é o que se passa neste caso, acredita em mim.

— Por que não pedes à casa funerária para mandar o corpo para trás? — sugeriu Warren.

— Quem me dera que fosse assim tão fácil. O problema é que este caso pertence à delegação de Brooklyn e eu trabalho na sede de Manhattan, o que significa que há muita politiquice metida pelo meio. Teria de pedir ao diretor do serviço para o fazer, o que deixaria o chefe de Brooklyn na defensiva, pois partiria do princípio de que isso era um reflexo da maneira como anda a administrar a delegação. E, assim, em três tempos gerávamos uma grande confusão burocrática. Além disso, iria demorar séculos. Quando a papelada estivesse pronta, os telefonemas feitos e as guerrinhas solucionadas, a casa funerária já teria embalsamado o corpo, ou pior ainda, já o teria cremado.

— Merda! — exclamou Warren.

— Está decidido, vou a Brigliton Beach — reiterou Flash.

— Não, vamos todos à casa funerária — propôs Jack. — É capaz de levantar algumas ondas, mas não temos alternativa para evitar que o Flash se auto-destrua. Pode ser que tenhamos sorte. Fica na Caton Avenue, perto do Cemitério de Greenwood. Tens um mapa?

Warren fez que sim com a cabeça e pediu a Flash para o tirar do porta-luvas. Enquanto os dois se debruçavam sobre o mapa, Jack tentou imaginar o que os esperaria na casa funerária. Depreendeu que o proprietário não iria ter grande vontade de os ajudar.

— Vamos ter de entrar de rompante na casa funerária e apanhar os, funcionários desprevenidos — explicou Jack.

Warren levantou os olhos.

— O que é que queres dizer?

— Temos de encontrar o corpo e analisá-lo antes que eles tenham tempo sequer de raciocinar.

— Mas és médico legista; és um funcionário da Câmara.

— Sim, mas este não é um procedimento normal e o dono da casa funerária não vai gostar da idéia. O sistema funciona da seguinte forma: o corpo é levantado pelo parente mais próximo, neste caso o marido, apesar de ser a casa funerária quem se encarrega de ir buscar o cadáver. Ninguém pode mexer no corpo sem o consentimento do marido. Claro está que não queremos que eles avisem o marido porque, se ele for culpado como o Flash diz, vai fazer um escarcéu.

— Por que não dizes que trabalhas na delegação de Brooklyn e que te esqueceste de fazer uma coisa?

— Porque o proprietário da casa ia direitinho telefonar para a delegação de Brooklyn, a perguntar por que razão não pediram para devolver o corpo. Não se esqueçam de que esta casa funerária trabalha com os médicos legistas de Brooklyn e conhece-os a todos. Eu aparecer por lá, assim de repente, é muito estranho. Vão por mim.

— Então, que sugeres? — perguntou Warren.

— Estou a pensar.. Encontraram a rua no mapa?

— Acho que sim — respondeu Flash.

— Vamos antes que eu perca a coragem!

Depois de avançarem uns quarteirões, Jack teve uma idéia. Pegou no telemóvel e ligou para o gabinete de Bingham. Como esperava, Cheryl Sanford atendeu a chamada com a sua voz melíflua. Jack identificou-se e perguntou se o diretor andava por perto e se podia ouvir a conversa.

— Não — disse Chery1. — Está numa reunião no gabinete da Ministra da Saúde.

— Melhor ainda. Escute, Cheryl, estou com um problema e preciso da sua ajuda.

— Posso meter-me em sarilhos se o ajudar? — perguntou Cheryl, desconfiada. Conhecia Jack de ginjeira, dada a quantidade de vezes que ele fora chamado ao gabinete de Bingham.

— É possível que sim — admitiu Jack. — Se isso acontecer, eu assumo total responsabilidade. Mas é por uma boa causa.

Jack explicou a morte da irmã de Flash, o dilema em relação ao corpo de Connie e a questão do historial médico que apontava para mão criminosa. Por fim, a natureza generosa e o sentido de justiça de Chery1 prevaleceram. Concordou em ouvir, pelo menos, o que Jack estava a pensar fazer.

Jack pigarreou.

— Se receber uma chamada da Casa Funerária Strick1and, durante a próxima meia-hora, a pedir para falar com o diretor, diga que ele está com a Ministra, o que é verdade. Mas depois acrescente que o doutor Jack Stapleton foi autorizado a recolher amostras de fluidos do cadáver de Connie Davidov.

— É só isso? — perguntou Chery1.

— É. Se quiser ir mais longe, pode dizer que ia ligar-lhes mais cedo, mas entretanto esqueceu-se, por causa da reunião com a Ministra.

— Que mente tortuosa, Jack! — comentou Chery1. — Mas é por uma boa causa, especialmente se se tratar, de fato, de um homicídio. Seja como for, não se preocupe, que eu faço-o.

— Prefiro pensar que sou hábil, e não tortuoso — brincou Jack. Agradeceu a Chery1 em seu nome e em nome de Flash, despediu-se e desligou.

— Parece que o problema está resolvido — disse Warren.

— Veremos.

Jack não estava cem por cento seguro. A experiência dizia-lhe que os proprietários das casas funerárias costumavam melindrar-se facilmente e eram muito picuinhas. Havia uma série de eventuais obstáculos. Se a casa tivesse muitos funcionários, Jack imaginava-os inclusive a agarrá-lo para ele não fugir.

A Casa Funerária Strickland era uma mansão de dois andares, em estuque, que pertencera outrora a algum residente rico de Brooklyn. Estava pintada de branco, numa aparente tentativa de lhe dar um ar mais alegre. Continuava, porém, a ser uma construção atarracada e lúgubre de estilo indefinido. Todas as janelas estavam cobertas por pesadas cortinas. Do parque de estacionamento, via-se uma parte do Cemitério de Greenwood, povoado de lápides.

Warren puxou o travão de mão e desligou o motor.

—Tem um ar ominoso, não tem? — comentou Jack.

— O que é que fazem lá dentro? — interrogou-se Warren. — Sempre pensei nisso.

— Não queiras saber — respondeu Jack. — Vamos despachar isto antes que eu perca a coragem.

— Esperamos aqui — disse Warren, lançando um olhar a Flash, que anuiu.

— Ah, não! Desta vez, não! — exclamou Jack. — Quando há pouco usei o plural era a sério. Vou fazer uma mini-invasão e para isso preciso da vossa presença intimidatória. Além disso, Flash, tu és familiar da Connie, o que nos dá uma certa legitimidade.

— Estás a falar a sério? — perguntou Warren.

— Podem crer que sim. Venham e não discutam.

Jack dirigiu-se com ar determinado para a porta, levando a sacola na mão. Ouvia os passos de Warren e de Flash atrás de si, relutantes. Não os recriminava por isso. Sabia que, emocionalmente, não estavam preparados para o que iriam ver.

O interior da casa funerária era o habitual: madeiras escuras, cortinas de veludo, luz suave e hinos como música de fundo, transmitindo uma imagem geral de serenidade. No átrio da entrada, estava aberto um livro de visitantes em cima de uma escrivaninha. Ao lado, de pé, encontrava-se uma mulher de vestido negro e aspecto austero. Ao centro da sala, à direita, via-se um caixão aberto sobre um catafalco colocado à altura da cintura e rodeado por algumas filas de cadeiras de abrir. O lado de dentro da tampa era forrado a cetim branco. Jack quase conseguia ver o perfil de quem ocupava o ataúde.

— Posso ajudá-lo? — perguntou a mulher num murmúrio.

— Pode — respondeu Jack. — Onde está o proprietário?

— No escritório — disse a mulher. — Quer que vá chamá-lo?

— Sim, por favor. E depressa, se não se importa. É uma emergência.

Jack olhou por cima do ombro para Warren e Flash, que estavam mesmo atrás de si.

— Merda! — sussurrou Warren. — Tens a certeza de que precisas de nós?

— Certeza absoluta — respondeu Jack, sussurrando também. — Tenham calma.

Minutos depois, o preocupado proprietário surgiu vindo de uma porta lateral, acompanhado por dois homens musculosos de fato, que poderiam muito bem ser seguranças de discoteca nas horas vagas. O dono da casa funerária parecia ter sido escolhido a dedo, com o seu impecável fato negro, uma imaculada camisa branca e o cabelo empastado de brilhantina irrepreensivelmente penteado. O único pormenor que destoava era a tez: estava bronzeado como se tivesse acabado de chegar de umas férias na Florida.

— O meu nome é Gordon Strick1and — apresentou-se em voz baixa. — Consta que se trata de uma emergência. Em que posso servi-lo?

— Chamo-me Jack Stapleton — anunciou Jack com o seu melhor ar autoritário. Pôs o seu distintivo à frente do nariz de Gordon. — Estou aqui em representação do doutor Harold Bingham, do Instituto de Medicina Legal de Manhattan.

Gordon inclinou a cabeça para poder ver o rosto de Jack por detrás do distintivo.

— Já ouvi falar nesse nome. Em que é que isso nos diz respeito, aqui em Brooklyn?

— Trago ordens para examinar o corpo de Connie Davidov — explicou Jack — E para recolher amostras de fluidos corporais. Suponho que terá recebido um telefonema nesse sentido?

—Não, não recebemos qualquer telefonema — disse Gordon. O lábio superior começou a contrair-se, como um tique.

— Nesse caso, as minhas desculpas pela intrusão, mas precisamos realmente de ver o corpo. — Deu um passo em frente, na direção de uma porta dupla que abria para o centro do edifício.

— Alto! — ordenou Gordon, erguendo a mão. — Quem são estes senhores?

— Este senhor chama-se Warren Wilson — apresentou Jack, apontando com a cabeça na direção de Warren. — É meu assistente. Este outro senhor é Frank Thomas, irmão da falecida.

Jack apercebeu-se de que aquela história era muito pouco plausível, já que ambos os seus amigos iam vestidos ao estilo hip-hop, versão personalizada. Warren parecia tudo menos um profissional de saúde, por mais imaginativo que se fosse.

— Não compreendo — disse Gordon. — O corpo foi levantado por Mister Davidov e ele também não nos contatou para avisar que os senhores viriam aqui.

— Estamos a investigar um eventual homicídio — anunciou Jack. — Acabamos de ter acesso a novos dados.

— Homicídio? — repetiu Gordon. A freqüência do tique agravou-se.

— Precisamente — confirmou Jack. Deu mais um passo, forçando Gordon a recuar. — Agora, se não se importa, indique-nos o caminho para a sala onde guardam os corpos recém-chegados, para podermos fazer o nosso trabalho e ir embora.

—O corpo está na sala onde fazemos o embalsamamento — disse Gordon. — Temos estado à espera de instruções da parte de Mister Davidov, que ficou de telefonar assim que o corpo aqui chegasse.

— Então observaremos o corpo nessa sala. Para nós, tanto faz.

Atrapalhado, Gordon deu meia-volta e empurrou as portas. Jack, Warren e Flash seguiram-no. Os lacaios silenciosos de Gordon fechavam o cortejo.

— Este procedimento vai contra todas as regras — queixou-se Gordon, falando sem olhar para qualquer um deles, assim que entraram na sala. — Também não fomos contactados pela delegação de Brooklyn. Talvez fosse melhor eu ligar-lhes.

— Seria mais rápido ligar diretamente para o doutor Harold Bingham. Sabe, certamente, que a delegação de Brooklyn está sob a alçada da sede de Manhattan.

— Não sabia.

Jack puxou do telemóvel, marcou o número memorizado e passou o telefone a Gordon, que pegou nele e o encostou ao ouvido. Jack ouviu Chery1 atender a chamada com o seu habitual preâmbulo: "Gabinete do doutor Harold Bingham, diretor do Serviço de Medicina Legal. Em que posso ajudá-lo?".

O grupo deteve-se à beira de uma segunda porta dupla, enquanto Gordon falava com Chery1. Jack conseguia ouvir apenas uma ou outra resposta de Chery1. Gordon acenava com a cabeça e dizia "compreendo", "sim", "com certeza". Por fim, disse:

— Obrigado, Mistress Sanford; compreendo perfeitamente e não precisa de pedir desculpa. Farei o que puder para ajudar o doutor Stapleton.

Gordon desligou e devolveu o telemóvel a Jack. Assim que segurou no telefone, Jack reparou que o lábio de Gordon começara a tremer sem interrupção. Era óbvio que o sujeito não se sentia nada à vontade com aquela situação, mas a sua indignação estava aplacada, pelo menos para já.

— Por aqui — indicou Gordon, apontando para a porta dupla.

O grupo entrou na sala de embalsamamento, que exalava um cheiro enjoativo a desodorizante adocicado. O espaço era mais amplo do que Jack imaginara, aproximadamente do tamanho do fosso onde trabalhava quase todos os dias. Mas, ao contrário da sala de autópsias, que tinha oito mesas de operações, aqui havia apenas quatro, duas das quais ocupadas. A mesa mais distante suportava o cadáver de um homem, que estava a ser embalsamado; a mais próxima tinha o corpo de uma mulher obesa.

— Mistress Davidov está aqui — disse Gordon, apontando para o cadáver junto deles.

— Ótimo — disse Jack.

Apressou-se a pousar a sacola num carrinho que puxou para perto de si. Abriu o saco que envolvia o cadáver e olhou para os dois amigos, imóveis junto da porta. Warren não conseguia tirar os olhos do processo de embalsamamento que decorria ao fundo da sala; Flash olhava fixamente para a irmã. Os rostos de ambos tinham perdido a cor. Jack podia imaginar o que estaria a passar-lhes pela alma.

Estalou as mãos para evitar que a situação fosse de mal a pior. O barulho ressoou como um tiro na sala de azulejos. Todos deram um salto, inclusive as duas pessoas que estavam a embalsamar o cadáver levantaram os olhos da sua horrenda tarefa, espantadas.

— Muito bem — anunciou Jack cheio de energia, como se adorasse o que estava prestes a fazer. — Vamos meter mãos à obra, para que estes senhores possam voltar aos seus afazeres. Frank Thomas, reconhece esta mulher?

Flash fez que sim.

— É a minha irmã, Connie Thomas Davidov.

— Tem a certeza absoluta? — perguntou Jack, olhando pela primeira vez para o rosto do cadáver.

Ficou imediatamente surpreendido com os sinais óbvios de um traumatismo. O olho esquerdo tinha uma coloração arroxeada e estava tão inchado que mal abria. A pele da maçã do rosto tinha um hematoma.

— Absolutíssima — reforçou Flash. Deu um passo em frente e apontou para o olho inchado. — E aquele sacana bateu-lhe como costumava fazer.

— É melhor não tirar conclusões precipitadas — avisou Jack, baixinho. — Lembra-te de que os paramédicos a encontraram caída na casa de banho, um sítio extremamente perigoso para uma queda, por causa de coisas como o lavatório, a banheira, a sanita, já para nem falar nos toalheiros e nas torneiras.

— Há cerca de um mês, almocei com ela e vi que tinha o olho exatamente assim — recordou Flash, ignorando Jack. — Disse-me que ele a tinha esmurrado. Só não saí dali a correr para ir dar uma carga de pancada ao sacana porque ela me obrigou a prometer que não faria nada.

— Está bem, mas vê se te acalmas — continuou Jack em voz baixa.

Agora que estava prestes a recolher as preciosas amostras, não queria que Flash estragasse tudo. Assim sugeriu que Flash esperasse lá fora. Flash obedeceu sem abrir a boca; deu meia-volta, abriu as portas de rompante e saiu. Perante um mero aceno de cabeça do proprietário, os dois pesos-pesados da casa funerária saíram atrás de Flash.

— É uma situação muito penosa para ele — explicou Jack. — É melhor fazermos o nosso trabalho e ir embora o quanto antes.

Gordon aproximou-se da mesa, enquanto Jack calçava as luvas de borracha.

— Espero que não esteja a pensar deixar marcas visíveis no corpo — avisou Gordon. — Não sabemos se o Mister Davidov pretende um velório de caixão aberto ou não.

—Vamos apenas recolher amostras de fluidos corporais — tranqüilizou-o Jack.

Fez sinal para que Warren se aproximasse e entregou-lhe vários frascos. Tinha de fingir que Warren era, de fato, seu assistente, para justificar a sua presença intimidatória. Jack queria-o presente na sala, porque tencionava fazer exatamente aquilo que Gordon lhe pedira para não fazer, isto é, tirar uma amostra da pele do rosto onde se via o hematoma. Claro está que também gostaria de ter amostras do cérebro, fígado, rins, pulmões e tecido adiposo, mas não lhe ocorria uma maneira segura de levar a cabo essa tarefa.

A primeira coisa que fez foi pegar na máquina fotográfica. Antes que Gordon pudesse protestar, tirou uma série de fotos ao corpo, em especial ao traumatismo facial. Teve o cuidado de posicionar a cabeça de forma a conseguir captar o máximo possível com a objetiva. Entretanto, procurou indícios subtis de estrangulamento ou asfixia, mas não encontrou nenhum.

Depois de guardar a máquina, terminou o seu rápido, mas minucioso exame externo. Enquanto trabalhava ia fazendo uma descrição oral destinada a Warren. Referiu que não havia sinais de injeções, à exceção das iatrogênicas, nenhum trauma a não ser no olho e na face, nem quaisquer indícios de doença infecciosa.

Em seguida, Jack pegou na sua coleção de seringas e começou a colher amostras de fluidos. Retirou sangue do coração, urina da bexiga, humor vítreo das órbitas oculares, e líquido cefalorraquidiano do sistema nervoso central. Depois, colocou a sonda nasogástrica e retirou parte do conteúdo do estômago. Trabalhou rapidamente, com medo de ser apanhado antes de terminar o que tinha para fazer. Warren tentou manter os olhos fechados o tempo todo.

O proprietário da casa funerária recuara até ficar contra a parede. Manteve-se de pé, atento, com os braços cruzados. Era óbvio pela sua expressão e pelo tique constante que não estava a gostar da atitude de Jack, mas ficou em silêncio... até ver o bisturi de Jack reluzir sob a luz fluorescente.

— Espere! — gritou Gordon ao ver a faca.

Afastou-se da parede e aproximou-se rapidamente da mesa.

— O que é que vai fazer?

— Já está feito — disse Jack.

Endireitou-se e colocou uma porção de tecido facial e da pálpebra num frasco. Retirara a amostra a uma velocidade recorde.

— Mas tinha prometido — gaguejou Gordon. Sem querer acreditar no que via, observou o corte no rosto de Connie.

— Eu sei, mas percebi que era forçoso certificarmo-nos de que este olho inchado não foi conseqüência de um processo infeccioso. E, com a minha habitual precisão cirúrgica, retirei uma pequeníssima amostra. Estou certo de que conseguirá disfarçá-la com o seu talento genial para maquiar os mortos.

— Isto é inconcebível! — queixou-se Gordon.

Debruçou-se para analisar o estrago e ficou horrorizado. A seu ver, era tudo menos pequeníssimo. O rosto de Connie ficara terrível e irrevogavelmente marcado.

Com o máximo de rapidez possível, Jack guardou todos os frascos de amostras, os instrumentos usados e inclusive as luvas de borracha viradas do avesso dentro da sacola e fechou-a. Sentia-se um assaltante de bancos que acabara de receber o dinheiro e tinha de efetuar rapidamente a sua fuga. Agarrando Warren pela manga da sweatshirt com capuz, arrastou-o para a porta.

— Vamos embora depressa, mas sem pânico — sussurrou.

Passaram a primeira porta dupla, ouvindo ao fundo as imprecações de Gordon. Depois de transporem a segunda porta, começaram a procurar Flash, mas não havia sinais dele. Quando saíram do edifício, encontraram-no a andar de um lado para o outro no passeio.

— Vamos! — ordenou Jack.

Dirigiram-se os três em passo acelerado para o automóvel. Jack não receava serem perseguidos, mas queria ir embora o mais depressa possível. Sabia que tinha ido demasiado longe com a sua manobra para obter a amostra de pele. Para o dono de uma casa funerária, desfigurar um rosto era o pior dos pecados.

Enfiaram-se no carro. Warren arrancou e seguiram em direção à Prospect Park, sem trocarem uma só palavra. Foi Flash quem finalmente quebrou o silêncio.

— Então, não vão dizer nada? O que é que descobriram?

— Descobri que nunca mais vou entrar numa casa funerária, a não ser depois de morto — disse Warren. — Que diabos estavam eles a fazer àquele tipo da mesa do fundo? A aspirar-lhe as entranhas? Quase me passei da cabeça. Meu Deus, foi a pior experiência da minha vida!

— Ou seja — irritou-se Flash — não descobriram nada sobre o que aconteceu à Connie.

— Temos as amostras de que necessitávamos — apaziguou-o Jack. — Agora vais ter de ser paciente. Como disse, só teremos resultados concretos depois de as amostras serem analisadas em laboratório.

— Eu vi que ele lhe deu um murro — disse Flash. — E para mim, isso basta.

Warren deitou um olhar a Jack pelo espelho retrovisor.

— Já viste o que tenho de aturar com este tipo? É o mesmo que falar com uma parede.

— Escuta, Flash — disse Jack acaloradamente — pus a minha carreira em risco por tua causa, estás a entender?

— Estou... — cedeu Flash com relutância.

— Posso meter-me num sarilho dos diabos, se o Strickland ou a delegação de Brooklyn levantarem ondas por causa disto, especialmente se as amostras não indicarem nada. Portanto, o mínimo que espero receber de ti em troca é a promessa de que não vais à casa do teu cunhado.

— E aquele olho negro? — perguntou Flash.

— Vou repetir pela última vez: não sabemos como é que isso aconteceu — disse Jack. — Tirei uma amostra da pele e logo veremos o que nos dizem as análises. Pode ter sido o resultado de um murro, mas, por outro lado, pode não ter sido. Acredita que já vi quedas em casas de banho com conseqüências bem piores. Aliás, já vi casos de pessoas que morreram do próprio tombo.

— Vá lá, Flash, promete — pediu Warren. — Se não, quem fica ultra-chateado sou eu. Caso não saibas, há multas outras coisas que eu preferia ter feito hoje, em vez de ir parar àquela casa funerária, estás a perceber?

— Está bem, prometo — cedeu Flash. — Estão satisfeitos

— Aliviados é o termo correto — respondeu Jack.

Pela janela, contemplou o trânsito da hora de ponta e perguntou-se qual o preço que teria de pagar por andar a brincar com o fogo.

 

TERÇA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO

16h35

A neve estendia-se como um manto imaculado em toda a extensão da Colina da Pátria. Iuri e o irmão, Iegor, tinham-na batizado assim por ser a melhor encosta para descida de trenós de toda a União Soviética. Equilibrando-se num trenó que ambos tinham construído a partir de restos de madeira e metal, lançaram-se pela íngreme encosta. Iegor ia à frente, Iuri atrás.

Para Iuri, era como mergulhar numa terra mágica. A neve cristalina rodopiava à volta deles enquanto desciam velozmente rumo às quintas do lago Niznije. Parecia que voavam e Iuri gritava, deliciado.

Quando deslizavam em direção à estrada principal, viram um trenó vindo dos lados da cidade, puxado por dois cavalos brancos como a neve. À medida que se aproximava, Iuri começou a ouvir as campainhas a tilintar ao ritmo do galope das montadas. O som tornou-se cada vez mais forte até que Iuri acordou do seu sonho preferido. O retinir não provinha dos sinos, mas da campainha do telefone.

Sentando-se de repente, Iuri quase desmaiou. Tentou equilibrar-se e inclinou-se para a frente, apoiando a cabeça nos joelhos. Quando se sentiu melhor, levantou-se devagar. A tontura passara, mas o telefone continuava a tocar com insistência.

Iuri pôs-se de pé sobre as pernas ligeiramente bambas e dirigiu-se para a cozinha. Adormecera no sofá e, ao olhar de relance para o relógio, percebeu que dormira profundamente durante mais de quatro horas. Arrancando o auscultador do descanso, falou numa voz rouca e teve de pigarrear para se fazer ouvir.

— Fala Gordon Strickland. Peço desculpa por incomodá-lo, Mister Davidov, mas surgiu um problema e penso que o senhor deveria ser informado.

Iuri esfregou a testa, enquanto a sua mente adormecida se debatia com o nome Strickland. Sabia que já o tinha ouvido, mas não se lembrava em que contexto. Então, subitamente, veio-lhe à lembrança. Era a casa funerária que ficara de tratar do corpo de Connie.

— Que tipo de problema? — perguntou Iuri. A sua mente lutou contra o sono. Não gostara da palavra "problema".

— Aconteceu uma coisa muito invulgar — prosseguiu Strickland. — Pouco depois de o corpo da sua pobre mulher aqui ter chegado, apareceram três indivíduos pedindo para ver o cadáver e colher amostras.

— Que espécie de amostras?

— Fluidos corporais, para análise — disse Gordon. — Queria pedir-lhe desculpa por esta confusão toda e por não lhe ter ligado de imediato a pedir a sua autorização. Infelizmente, foi tudo muito rápido e inesperado. Traziam permissão do diretor do Instituto de Medicina Legal, mas agora, pensando melhor, tenho dúvidas quanto à legalidade do procedimento. Talvez fosse melhor aconselhar-se junto de um advogado. Poderá ter motivos suficientes para pedir uma indenização à Câmara.

— Não estou a perceber... A minha mulher não foi autopsiada.

— Precisamente — confirmou Gordon. — Por isso é que esta situação é tão invulgar. Trabalho neste ramo há quase trinta anos, sucedendo ao meu pai que dedicou a vida toda a esta carreira, e nunca me tinha acontecido uma coisa assim, nem a ele.

— Quem eram esses indivíduos — quis saber Iuri. Entalou o auscultador entre o pescoço e o ombro, para poder ir buscar um copo. Tirou a vodca do frigorífico e serviu-se de uma dose, que vinha bem a calhar.

— Um deles era médico legista, um tal doutor Jack Stapleton. Trazia um assistente com ele...

— Qual era o nome do médico? — perguntou Iuri, interrompendo o dono da casa funerária a meio da frase. Mesmo estando meio a dormir, Iuri teve a sensação de que conhecia aquele nome de algum lugar e não era boa coisa.

Quando Gordon repetiu o nome, Iuri bebeu mais um gole de vodca. Jack Stapleton era o indivíduo que encontrara na Firma de Tapetes Coríntios!

— O médico legista veio também acompanhado por um familiar da sua mulher — continuou Gordon. — Pelo menos foi o que nos disseram. Apresentou-se como Frank Thomas, embora eu tenha ouvido o doutor Stapleton tratá-lo pela alcunha de "Flash".

Iuri sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Pegou numa das cadeiras da cozinha e puxou-a para perto do telefone, para poder sentar-se. Subitamente, ficara sem força nas pernas. Flash Thomas era a única pessoa no mundo que Iuri verdadeiramente temia. Não só era um homem grande e musculoso, como já ameaçara Iuri em varias ocasiões. A última vez fora por telefone, dizendo que, se Iuri tomasse a bater em Connie, ele ia até Brigliton Beach e matava-o.

— Ainda aí está? — perguntou Gordon. Iuri não fizera qualquer comentário à sua última afirmação.

— Sim, ainda aqui estou — respondeu Iuri a custo.

O seu coração batia desenfreado. Qual seria o significado de Flash Thomas andar na companhia daquele misterioso Jack Stapleton? Que estranha coincidência seria essa?

— Necessitamos que nos dê instruções — repetiu Gordon. — Pretendia fazer um velório de caixão aberto?

— Não! — gritou Iuri, exaltado. Lentamente, acalmou-se. — Não, quero que seja o mais simples possível. Estou certo de que seria essa a vontade da Connie.

— Mas terá de vir até cá para escolher um caixão.

— Qual é o mais barato?

— Seria melhor o senhor deslocar-se até aqui — insistiu Gordon na sua melosa voz de negociante. — Podemos mostrar-lhe a gama completa, indicando quais as vantagens e desvantagens de cada um.

— E se fosse cremada?

— Podemos tratar disso, mas teria de escolher um caixão à mesma.

— Quero que ela seja cremada! — disse Iuri. — E o mais depressa possível. Ainda hoje, se possível!

— E não quer que se faça um velório ou se reze uma missa?

— Não. De acordo com as minhas convicções religiosas, ela deve ser cremada o mais depressa possível.

— Com certeza — anuiu Gordon.

— Que tipo de amostras é que o doutor Stapleton colheu?

— Apenas um pedacinho de tecido e alguns fluidos — respondeu Gordon, nervoso.

— Eu não queria que mexessem no corpo dela — queixou-se Iuri.

Perguntou-se a que propósito esse tal Dr. Stapleton se teria lembrado de colher amostras, depois de as autoridades terem já decidido que não iria haver autópsia.

— Pouco mais posso fazer, a não ser reiterar o meu pedido de desculpas — disse Gordon. — Mas, compreenda, por favor, que a situação fugiu ao meu controlo.

— Passarei por aí amanhã ou depois, para escolher uma urna para as cinzas e fazer contas consigo.

— Agradeço muito.

— Entretanto, certifique-se de que o corpo é cremado, antes que seja violado de novo.

— Tratarei imediatamente disso — prometeu Gordon.

Iuri desligou o telefone e atravessou a cozinha sem ver por onde ia. Teriam as autoridades alguma suspeita sobre a toxina botulínica? Não compreendia como. Quanto a Flash Thomas, representava uma ameaça a título imediato. Iuri tentou imaginar o que faria se o cunhado aparecesse de repente à sua porta. Era uma idéia aterradora. Iuri nunca conseguiria defender-se dele, se Flash o apanhasse. Sabia que tinha de fazer alguma coisa para se proteger, mas não podia abandonar o laboratório, muito menos até ter a dose final de produto.

Olhou para o relógio de parede que estava por cima do frigorífico e teve uma idéia. Eram quase cinco horas, o que significava que Curt sairia do trabalho daí a pouco. Pegou no telefone e ligou para as informações, para saber o número do quartel dos bombeiros de Duane Street. Telefonou de seguida para lá e, quando um dos bombeiros atendeu, pediu para falar com o tenente Curt Rogers.

— Um momento.

Iuri olhou para a porta das traseiras, por onde tinha entrado quando chegara à casa de manhã. Verificou se estava trancada, mas não: esquecera-e de correr o trinco. Pôs-e de pé e esticou o fio do telefone ao máximo, até conseguir chegar à porta. Trancou o fecho, que fez um apaziguante ruído.

— Fala o tenente Rogers — disse Curt num tom adequado à sua graduação.

— Curt, é o Iuri. Preciso da tua ajuda. — Seguiu-se um silêncio prolongado.

— Curt, ainda aí estás?

— Por que demônios decidiste ligar para aqui? — rosnou Curt entre dentes. — Pensei que tinha sido bem claro quando disse que não podias ter qualquer contato com o quartel.

— Disseste que não podia ir aí, mas não avisaste que também não podia telefonar.

— O quê?! Será que tenho de explicar-te tudo tintim por tintim? — sibilou Curt. — Puxa pelos neurônios! Tens um sotaque russo, que se nota tanto ao telefone como ao vivo. Não quero que ninguém daqui descubra que tenho contatos com um russo.

— Mas eu precisava mesmo de telefonar! — explicou Iuri. — Como disse, estou com um problema.

— Que tipo de problema? — perguntou Curt, irritado.

— Preciso de uma arma. Disseste-me que tu e o EPA têm montes de armas; pois estou a pedir-te apenas uma.

— Para quê?

— Por causa do irmão da Connie. Acabo de saber que ele foi à casa funerária ver o corpo dela.

— E daí?

— E daí?! Tu viste-a ontem à noite. Dei-lhe um murro e, há tempos, o irmão dela disse que, se eu tornasse a chegar-lhe a roupa ao pêlo, me matava.

— Virgem Santíssima! — exclamou Curt, irado.

— Estou a falar a sério. O tipo é um negro grande e musculoso e eu não pretendo ficar aqui a trabalhar no laboratório sem ter uma arma de defesa.

— Está bem, arranjo-te a merda de uma arma.

— Preciso dela já.

— Saímos do emprego às cinco. Levamos-ta a casa a essa hora.

— Obrigado.

— Pois... — respondeu Curt e desligou.

Iuri pousou o telefone, abanando a cabeça com um ar deprimido. Tinha pensado contar a Curt a história de Jack Stapleton, depois de falar no irmão de Connie, mas mudara de idéias ao ouvir o tom dele. Uma vez mais, mostrara-se extremamente hostil e irritado, tal como na noite anterior. Aos olhos de Iuri, era uma atitude totalmente inadequada entre duas pessoas que teoricamente estavam a trabalhar em equipa. Foi obrigado a concluir, pela segunda vez, que Curt não era seu amigo.

De um só trago, acabou com o resto da vodca e deixou o copo no lava—louça. Em seguida, pensou se ainda teria tempo para equipar-se e ir ao laboratório inspecionar o segundo fermentador, antes de Curt chegar. Por fim, acabou por decidir que se sentia mais seguro nas proximidades do seu pó de antraz.

 

TERÇA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO

17h00

Jack pediu a Warren que o deixasse na Rua 30, ao lado do Instituto de Medicina Legal, para que pudesse entrar no edifício pela zona de cargas e descargas. Queria evitar cruzar-se com o diretor de serviço ou com Calvin, na eventualidade de a sua aventura em Brooklyn já ter provocado um tumulto. Antes de qualquer confronto, precisava de ter na sua posse os resultados das análises às amostras de Connie Davidov. Serviriam de justificação para o seu ato.

A intuição de Jack dizia-lhe que, provavelmente, Flash tinha razão e que a morte fora, de fato, vítima de mão criminosa. Excluídas as hipóteses de ataque cardíaco, enfarte cerebral e doenças infecciosas, a causa mais provável da morte seria envenenamento, dado o historial de violência doméstica. A teoria tornava-se ainda mais credível perante aquele olho negro. Embora Jack tivesse tido relutância em admiti-lo diante de Flash, o seu juízo profissional indicava-lhe que o hematoma no olho fora causado por um traumatismo e não por uma infecção, e que esse mesmo traumatismo fora conseqüência de um murro e não de uma queda na casa de banho.

Na esperança de conseguir obter o seu álibi o quanto antes, bem como provas suficientes para abrir uma investigação criminal, Jack dirigiu-se se diretamente para o laboratório de toxicologia no quarto piso. Evitou propositadamente o supervisor, John DeVries, que certamente o faria esperar durante uma semana ou mais. Em vez disso, Jack procurou Peter Letterman, o técnico magro, louro e andrógino que mais parecia casado com o trabalho. Jack já o vira a trabalhar às dez da noite.

— Preciso desesperadamente da sua ajuda — disse, sem sequer cumprimentar o técnico, assim que o viu junto da unidade de cromatografia gasosa.

Peter ergueu as sobrancelhas. Estava habituado a ouvir todo o tipo de súplicas para que se ultrapassassem as habituais demoras do laboratório. Não havia dúvida de que o departamento precisava de mais verbas, mas por outro lado todo o instituto necessitava de fundos adicionais.

— Posso ir parar ao olho da rua, se não obtiver um resultado positivo nestas amostras — explicou Jack, pousando a sacola e remexendo nos frascos, enquanto fazia a Peter um resumo do que acontecera durante a tarde.

A história da casa funerária fez despontar um sorriso no rosto adolescente de Peter, geralmente sério.

— Acha que estou a inventar esta treta toda, não acha? — perguntou Jack ao reparar na expressão de Peter.

— Não, não acho — respondeu Peter. — O que me está a contar é demasiado incrível para ter sido inventado.

— Ainda bem. Então, entende que posso escaldar-me por causa disto?

— Ah, sim, sem dúvida! — respondeu Peter prontamente.

— Nesse caso, ajuda-me?

— O que quer que eu procure?

— Qualquer coisa que provoque colapso respiratório, o rol habitual de barbitúricos, claneto, monóxido de carbono, etilenoglicol... olhe, tudo aquilo que lhe vier à mente. Por agora, não é necessário fazer uma contagem, basta encontrar vestígios de qualquer uma dessas coisas.

— Está bem. Vou dar uma vista de olhos.

— Quando é que o pode fazer?

— Quer que o faça agora? — perguntou Peter, sorrindo. — Posso analisar as amostras rapidamente, para ver se descubro algum desses indícios.

Incapaz de controlar-se, Jack atirou os braços para cima de Peter e abraçou-o.

Peter estava com um ar embaraçado quando Jack o soltou. Tinha o rosto vermelho e não conseguia fitar Jack olhos nos olhos.

— Vou para o meu gabinete — avisou Jack. — Tenho muito que fazer. Dê-me uma apitadela assim que terminar.

Peter assentiu com a cabeça.

— Um dia destes, ofereço-lhe um jantar — disse Jack, dando uma palmadinha nas costas de Peter.

— Está bem — aceitou Peter, pegando nos frascos.

— Deixe-me só preencher o registro antes disso. Temos de seguir os procedimentos habituais, no caso de isto vir a servir de prova numa investigação criminal.

Saindo do laboratório de toxicologia, Jack subiu as escadas até ao quinto andar. Sentia-se bastante melhor. Dando uma passada larga, espreitou para o serviço de histologia. Maureen O'Conner, a supervisora, estava de casaco vestido, pronta para se ir embora.

— Que sorte a minha! — disse Maureen no seu engraçado sotaque irlandês. — Estou atrasada para uma conferência sobre patologia e eis que me aparece o Príncipe Encantado, bem-disposto e disponível.

As gargalhadas de ambos ecoaram entre as quatro paredes. Jack e o seu colega de gabinete, Chet, eram os únicos médicos legistas do sexo masculino que se mantinham solteiros, e Maureen e a sua equipa de histologia composta por mulheres divertiam-se a atirar-lhes piadas. Oportunidades não faltavam, já que o gabinete deles ficava ao fundo do corredor.

— Eu não tenho conferência nenhuma — disse uma das assistentes de Maureen. — Estou livre em todos os sentidos. — Ouviram-se risos redobrados.

Jack abriu a sacola e retirou o frasco que continha o fragmento de pele do rosto de Connie.

— Que seca! — queixou-se Maureen. — Afinal, não era uma visita social.

Jack sorriu.

— Desta vez, a única coisa que vim pedir é que me arranjem slides desta amostra de pele, mas pode ser amanhã.

— Ouviram, meninas? — disse Maureen, alto e bom som, seguida de um coro de entusiásticos "siiiiim".

Maureen pegou no frasco e entregou-o à técnica que estava mais próxima de si.

.— Considera o trabalho feito — disse a Jack. — Que tipo de coloração?

— O habitual. Quero ter a certeza de que a patologia é um traumatismo e não uma infecção.

— Para quando necessitas dos resultados?

— Quanto mais cedo, melhor.

— Por que é que eu ainda me dou ao trabalho de perguntar? — comentou Maureen, olhando para cima, como se estivesse a falar com Deus.

Jack saiu do laboratório de histologia e percorreu o corredor. Quando se aproximou do gabinete de Laurie, viu que a luz estava acesa. Deteve-se junto da porta e deparou com Laurie e Lou, ambos sentados e sem trocar palavra. Olhava cada um para seu lado, num ambiente tenso.

— É um velório? — perguntou Jack.

Laurie e Lou levantaram os olhos. Laurie visivelmente irritada, Lou com um ar penitente.

— Fazem uma bela parelha, vocês os dois — disse Laurie, quando viu Jack.

Jack ergueu as mãos.

— Rendo-me. Qual foi o meu crime?

— Contei-lhe o que descobri sobre o Paul Sutherland — confessou Lou. — E disse-lhe que tu também já sabias.

— Ah! — comentou Jack. — E como temíamos a ira recaiu sobre o mensageiro da desgraça.

— Nem penses em defendê-lo — avisou Laurie. — Ele não tinha o direito de andar a meter o nariz onde não era chamado. Eu sei quem não lhe pediu para o fazer!

— Tens razão, mas, dadas as circunstâncias, penso que devias ficar a par do tipo de negócios em que o teu futuro marido anda metido.

— Que conversa é essa? "Tipo de negócios"? — perguntou Laurie com raiva redobrada. — Que raio estás a insinuar?

— Só lhe contei a parte da cocaína — explicou Lou.

— Ups!! — disse Jack, engolindo em seco.

— O Paul não é traficante de droga — disse Laurie indignada, se é isso que estás a insinuar.

— Posso entrar? — perguntou Jack.

— É melhor — ripostou Laurie. — E é bom que te expliques.

Jack puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Lou. Fitou Laurie diretamente nos olhos. Ela devolveu-—lhe o olhar, em tom de desafio.

— O Paul Sutherland é traficante de armas — anunciou Jack à queima-roupa.

Os olhos verde-azulados de Laurie saltaram de Jack para Lou e vice-versa.

— Como é que sabes? — perguntou num tom que perdera parte da anterior raiva.

— O Lou descobriu isso na mesma altura em que encontrou a acusação de posse de cocaína.

Lou fez que sim com a cabeça, com uma expressão de culpa. Fitou as mãos pousadas no colo.

— E que me interessa isso, se ele é ou deixa de ser traficante de armas? — disse Laurie em tom ligeiro, fingindo que era uma informação irrelevante.

Nem Jack nem Lou responderam. Conheciam Laurie demasiado bem para se deixarem enganar pela sua atuação.

— Que tipo de armas?

— Por enquanto, não tenho a certeza — disse Lou. — Mas, até mil novecentos e noventa e quatro, ele especializava-se em armas de assalto AK-Quarenta e Sete de fabrico búlgaro.

O rosto de Laurie ficou sem um pingo de sangue.

— Eu e o Lou tivemos uma conversa para decidir qual dos dois devia contar-te — explicou Jack. — Mas, seja como for, achamos que devias saber, tendo em conta a tua opinião sobre o controlo de armas.

Laurie acenou com a cabeça, suspirou e desviou o olhar. Jack não tinha a certeza se ela estava irritada ou triste, ou ambas as coisas. Durante um longo minuto, ninguém se pronunciou. Por fim, Laurie quebrou o silêncio:

— Muito obrigada, meus senhores, por cumprirem o vosso dever cívico. Já fui informada, portanto, se me dão licença, tenho muito trabalho para pôr em dia.

Jack trocou um olhar com Lou. Puseram-se ambos de pé e colocaram as cadeiras no lugar que lhes pareceu mais indicado. Despediram-se, mas não obtiveram resposta de Laurie que, entretanto, pegara numa das pastas e parecia concentrada na leitura de um relatório.

Jack e Lou percorreram o corredor em direção ao gabinete de Jack. Só abriram a boca quando estavam demasiado longe para que Laurie pudesse escutá-los.

— Ia dar-te os parabéns pela tua coragem, mas felizmente percebi a tempo que tencionavas contar-lhe só uma parte da história e passar-me a batata quente para as mãos.

— Ainda bem que apareceste — confessou Lou. — Ela estava a fazer-me sentir tão mesquinho que eu próprio comecei a duvidar dos meus princípios.

— Continuo a achar que foi melhor para a Laurie — disse Jack. — Mesmo que o tenhamos feito a pensar em nós e não nela.

— Eu devia tentar ver as coisas dessa maneira — concluiu Lou sem entusiasmo.

— Escuta, tens uns minutitos livres? Queria falar-te de um caso que me veio parar às mãos.

Lou consultou o relógio.

— Estou tão atrasado que mais meia hora não vai fazer diferença.

— Nem é preciso tanto — assegurou Jack.

Conduziu Lou até ao gabinete e acendeu as luzes.

— Onde é que o Chet se meteu? Não lhe ponho a vista em cima desde manhã e ele não costuma desaparecer sem deixar rasto.

Lou sentou-se, enquanto Jack pegava numa folha que estava em cima da secretária.

— Hum — murmurou, depois de ler o recado.  — É do Ted Lynch, o guru do ADN. Parece que a estrelinha azul da Firma de Tapetes Coríntios estava altamente contaminada de esporos de antraz. Diz que não havia espaço para nem mais um esporo. Que estranho...

— O que é que isso quer dizer?

— Não faço a mínima idéia — confessou Jack, atirando o papel para cima da mesa. — Acho que está a querer dizer-me alguma coisa, mas não sei o quê. E como se alguém tivesse mergulhado a estrela numa tigela de antraz.

— Conta-me o tal caso que querias discutir comigo — pediu Lou.

Jack narrou-lhe a história de Connie Davidov. Lou escutou atentamente e sorriu quando chegou à parte da casa funerária.