Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
VERÃO PERIGOSO
Colocou-me o frágil embrulho nas mãos, inclinou a cabeça, recomendou que não deixasse o material onde alguém pudesse espreitar e afastou-se para apanhar o avião de regresso a Tóquio.
As horas mediatas foram mágicas. Num recanto debilmente iluminado de uma tenda de Fuzileiros, num ponto remoto das montanhas da Coreia do Sul, abri o embrulho e comecei a ler a inspirada descrição de um velho pescador que lutava com o seu enorme peixe e se esforçava por enxotar os tubarões que se mostravam dispostos a arrebatar-lho. Fiquei encantado desde as palavras iniciais de Hemingway, através dos serenos climaces, à coda como a de um órgão, mas estava tão deslumbrado com a pirotecnia que não me atrevi a redigir o relatório logo após a leitura.
Eu sabia que Hemingway era um necromante e adoptara todas as habilidades superiores balzaquianas existentes, todos os artifícios técnicos que Flaubert, Tolstoi e Dickens tinham considerado úteis, pelo que o seu trabalho parecia com frequência melhor do que na realidade era. O seu estilo agradava-me, porém ele provara em Across the River and Into the Trees que podia ser banal, e não queria comprometer-me publicamente, se repetisse a proeza.
Mas enquanto me mantinha sentado sozinho naquele recanto, as provas postas de lado, como se pretendesse furtar-me ao seu feitiço, tornou-se-me esmagadoramente óbvio que estava perante uma obra-prima. Nenhuma outra expressão servia para definir a história. O Velho e o Mar era um daqueles milagres incandescentes que os escritores dotados conseguem por vezes produzir. (Inteirar-me-ia mais tarde de que Hemingway a rabiscara na sua forma completa em oito semanas, sem a rever). E, à medida que ponderava a sua perfeição de forma e estilo, descobri-me a compará-la com as outras novelas como jóias que tanto tinham significado para mim FAhan Frome, de Edith Wharton, Youth, de Joseph Conrad, The Aspem Papers, de Henry James, e The Bear, de William Faulkner.
Quando situei apropriadamente o conto de Hemingway entre os seus pares, escondi as provas debaixo do meu saco-cama e sai para a noite coreana, agitado pelo contacto íntimo com a alta literatura, e, enquanto percorria o terreno difícil, decidi que, indiferente ao que críticos mais experientes do que eu haviam dito sobre anteriores inépcias de Hemingway, eu teria de proclamar que O Velho era uma obra-prima, e ao diabo com a prudência.
E com embaraço que confesso que não conservo uma cópia do que escrevi sobre o assunto. O meu parecer figurou em anúncios de página inteira por todo o país, e creio que afirme algo sobre o contentamento que escritores como eu sentiam por o campeão ter reconquistado o título. Ninguém que lesse as minhas palavras poderia duvidar de que se tratava de um livro merecedor de aquisição imediata.
De qualquer modo, a Life publicou a minha opinião entusiasticamente e pagou-me, mas eu ignorava que, enquanto o seu agente de Tóquio me entregava a ultra-secreta cópia das provas, — “a única que existe fora de Nova Iorque” — eram distribuídas mais seiscentas a formadores de opinião dos Estados Unidos e Europa, todas elas ultra-secretas e exemplares únicos. Quando a edição que continha a novela de Hemingway foi publicada na primeira semana de Setembro de 1952, já constituía uma sensação internacional. Uma das mais hábeis promoções jamais orquestradas redundara na venda imediata de 5318650 exemplares da revista na veloz ascensão da versão em livro ao topo da lista de best-sellers e num Prémio Nobel.
Hemingway revalidara o título de campeão com um estupendo knockout ao nono assalto.
O êxito do arrojado empreendimento editorial teve uma sequência surpreendente. A Life ficou tão encantada com o seu coup, que os editores resolveram tentar a sorte segunda vez, e quando olharam em volta em busca de um escritor capaz de nova proeza do género, lembraram-se do homem que se arriscara na altura em que necessitavam de uma declaração impulsionadora do lançamento do seu Hemingway.
Procurou-me outro emissário, em Tóquio, desta vez procedente, salvo erro, de Nova Iorque, com carradas de galões de executivo, portador de uma proposta deslumbrante.
- Tivemos um êxito sem precedentes com O Velho, de tal ordem que gostávamos de voltar a tirar água do mesmo poço. E estamos convencidos de que você é a pessoa indicada para o efeito.
Não há muitos Hemingways na praça.
Pode fazê-lo no seu próprio nível. Compreende o compor tamento dos homens em combate. Tem alguma história em em brião, num recanto do espírito?
Sempre procurei responder a perguntas destas com a máxima franqueza. Gosto de escrever. Aprecio o turbilhão e subtilezas das palavras à medida que se envolvem com as emoções humanas. Sem dúvida que possuía uma dezena de ideias, na sua maioria desprovidas de valor, quando examinadas de perto, porém duas ou três pareciam revestir-se de impacto real
- Participei em algumas missões aéreas de combate, na Coreia.
- Com a sua idade?
— E em muitas de patrulha à superfície. Vislumbro alguns prin cípios importantes.
Por exemplo?
E perigoso uma democracia envolver-se numa guerra sem a declarar. E moralmente errado enviar jovens para combater, en quanto os velhos ficam em casa e ganham um balúrdio sem im postos de guerra nem privações de qualquer espécie. E particularmente errado recrutar arbitrariamente alguns para a luta enquanto outros não menos válidos gozam de plena liber dade e ninguém os incomoda.
— A sua história faria rufar esses tambores?
- Eu não faço rufar tambores.
— Escreva-a. Creio que terá êxito.
Impelido por um entusiasmo que raramente me acudira e excitado pela perspectiva de seguir as pisadas de Ernest Hemingway, pus de lado todo o meu outro trabalho. A 6 de Julho de 1953, a Life apresentava a sua segunda novela completa numa edição intitulada As Pontes do Toko-ri. Ainda não passara um ano desde o grande êxito de O Velho e, como anteriormente, os editores protegeram-se, pedindo a outro escritor que autenticasse a legitimidade da sua oferta. Desta vez, recorreram a Herman Wouk para dizer coisas bonitas e, embora não me recorde do que escrevi acerca de Hemingway tenho bem presentes as palavras de Wouk a meu respeito: “Os seus olhos viram a glória”. Esta frase constituiu o cavalo de batalha dessa ocasião, mas um amigo meu que assinava uma crítica no New York Herald Tribune mostrava-se mais reservado:
Trata-se, segundo os dizeres publicitários prévios, da “primeira obra de ficção importante escrita expressamente para a Life”. Não sabemos se se pretende afirmar com isto que a revista encomendou uma obra de ficção importante a Mr. Michener, que se apressou a satisfazê-la, ou que o romance se converteu afortunadamente numa obra de ficção importante depois de completada. Na verdade, nem sequer sabemos se é mesmo uma obra de ficção importante...
Embora as vendas do meu esforço não se aproximassem das do de Hemingway, a segunda tentativa resultou suficientemente compensadora para que os editores começassem a procurar um terceiro e um quarto sucessor, convencidos de que se podia tornar um hábito anual. Creio que projectavam manter a corrente em actividade: eu aplaudia o esforço de Hemingway e a seguir produzia um, Wouk aplaudia o meu e depois produzia o dele e quem apoiasse o deste último escreveria o quarto. Infelizmente. Wouk não tinha nada na forja que desejasse lançar na corrida, pelo que a Life se voltou para um autor britânico de reputação quase igual à de Hemingway. Porém a sua novela caiu de bruços desastrosamente e o Número Quatro foi abandonado. A inovação da Life funcionou com uma novidade da autoria de Hemingway. Era moderadamente aceitável com alguém como eu, e um insucesso se o trabalho não fosse inspirado e compacto. A experiência morreu.
Encontrei-me com Hemingway apenas uma vez. No final de uma tarde invernosa em Nova Iorque, o meu velho amigo Leonard Lyons, articulista do New York Post e por vezes confidente e companheiro de viagem de Hemingway, telefonou-me
- O Papá voltou de Cuba. Estamos aqui com Toots. Aparece. Quando cheguei ao famoso bistro, deparou-se-me Shor no seu canto favorito, entretido a distribuir insultos:
- Imagina um homem da minha posição a perder um dia in teiro com um grupo de escrevinhadores.
Hemingway, Lyons e dois fulanos cujos nomes não fixei permutavam histórias da guerra e, embora Leonard me tivesse assegurado que o Papá queria conhecer quem se arriscara a defender publicamente as qualidades de O Velho, Hemingway não fez a menor alusão ao facto. Na realidade, mostrava-se tão embaraçado e grosseiro, que até se recusava a dar conta de que eu me tinha juntado ao grupo.
Duas coisas suavizaram-lhe a atitude. Em dado momento referindo-se à minha terra natal, observou:
- Nunca quis ser conhecido como “o talentoso escritor de Filadélfia”. Desejava alinhar ao lado dos campeões, como Flaubert e Pio Baroja.
Ficou surpreendido quando me ouviu dizer que uma ocasião visitara Baroja, um romancista muito terra-a-terra que me merecia profunda admiração. Pouco antes da morte deste último, Hemingway dissera ao sarcástico ancião “Era você que merecia o Prémio Nobel e não eu”. E referimo-nos com afecto ao espanhol de fibra rija.
No entanto, ainda foi mais surpreendente para Hemingway o facto de eu, certa vez, ter viajado com uma quadrilha de toureiros mexicanos, e ficou encantado ao inteirar-se de que conhecera os maiores do México, Juan Silveti, com o seu charuto, o destemido Luís Freg, afogado num acidente de barco em Mérida, Carnícerito de Méjico, morto na arena, o extraordinário Armillita, sem queixo e nunca atingido com gravidade, o expansivo Lorenzo Garza e o cativante Silvério Pérez.
Consagrámos longo tempo a esses espadas, Hemingway condenando a maioria dos mexicanos à segunda categoria, até que mencionei o espanhol Cagancho, o brilhante cigano que ele respeitara pela sua frontal cobardia. Isto levou-nos a uma discussão acerca das corridas de touros a que eu assistira em Espanha, ainda estudante universitário em férias, e quando Hemingway soube que na minha primeira em Valência — Domingo Ortega, Marcial Lalanda, El Estudiante - me deixara conquistar pelo sortilégio de Ortega, um lutador duro e obstinado, disse a Toots:
— Quem escolhe Domingo para seu herói, entende do assunto.
- A última vez que estive em Madrid, para as festas de São Isidro - expliquei -, ele era conselheiro do director de corrida e, lembrando-se de mim dos tempos em que o seguira, convidou- -me para lhe fazer companhia na tribuna.
Hemingway inclinou a cabeça num gesto de aprovação, mas não se decidia a agradecer-me o que escrevera acerca de O Velho, nem eu queria abordar o assunto. Pouco depois, em Julho de 1961, inteirei-me de que ele morrera aos sessenta e um anos de idade.
O último trabalho mais extenso de certa importância que Hemingway escreveu deveu-se a outra encomenda da Life e não é difícil imaginar os astutos editores da revista, numa sessão de estratégia de 1959, proporem — Não era estupendo se conseguíssemos convencer Hemingway a actualizar o seu livro sobre a vida tauro-máquica?
Todos os presentes, recordando o enorme êxito que a Life obtivera com O Velho,, decerto havia acolhido a sugestão de braços abertos, e Hemingway também a devia ter aprovado ao ser-lhe exposta.
Em 1930, ele publicara em Fortune um artigo erudito um pouco longo sobre as corridas de touros como desporto e indústria, o que conduzira, dois anos mais tarde, ao notável ensaio ilustrado Death in the Afternoon'. Acolhido desfavoravelmente pelos críticos, que não compreendiam a razão pela qual um escritor do seu talento perdia tempo com material tão árido, não tardou a converter-se num livro de culto.
Aqueles que gostavam de touradas reconheceram-no como sendo uma descrição opinativa, fiel e admirável de uma forma de arte que poucas pessoas que não dominassem a língua espanhola compreendiam. Assim, aplaudíamos (pois incluía-me nesse número) a coragem do autor ao apresentá-lo a um público indiferente e sabíamos que lhe estava destinada uma longa vida subterrânea. Era um livro levado da breca.
As décadas sucessivas viram-no guindar-se à respeitabilidade, com a Scribners a vender centenas de milhares de exemplares e fazer dezenas de edições. A medida que as corridas de touros ganhavam popularidade, comi várias produções cinematográficas de mérito que atraíram novos adeptos, Morte à Tarde tornou-se uma espécie de Bíblia, com frequentadores de livrarias
1 Morte à Tarde. (N. do T.)
que nunca tinham assistido a uma tourada a discutirem acaloradamente os feitos relativos de Belmonte, Joselito e Nino de Ia Palma. Eu fizera-me acompanhar do livro no México, quando viajava com os toureiros.
Em 1959, Hemingway voltou a visitar a Espanha e, durante o longo e belo Verão em que já começava a sofrer da acção destrutiva do mal que viria a aniquilá-lo — monomania de que o espiavam, suspeitas dos amigos mais dedicados, dúvidas quanto à sua capacidade de sobrevivência -, esse homem vigoroso, autêntica lenda da sua própria criação, regressou ao cenário vibrante da juventude. Teve a sorte extraordinária de chegar ao pais no momento em que dois jovens matadores admiravelmente bem-parecidos e carismáticos, cunhados, se preparavam para participar num longo mano a mano, que os conduziria, e aos seus seguidores, à maior parte das praças de touros famosas de Espanha.
Os matadores eram Euis Miguel Dominguin, de trinta e três anos, e, em geral, o mais artístico, e António Ordónez de vinte e sete, o brilhante filho de Cayetano Ordónez (que actuava com o nome de Nino de Ia Palma), o qual Hemingway enaltecera em Morte à Tarde. Equiparados em perícia e coragem, tinham a certeza de que proporcionariam um excelente espectáculo. Constituiu um Verão glorioso extremamente perigoso, conceito que o escritor adoptou para o título da sua série em três partes Verão Perigoso.
Alguns factos acerca do manuscrito que produziu são significativos. A Life incumbira-o de escrever um artigo incisivo de dez mil palavras sobre o que representava regressar àquele meio, mas ele ficou tão obcecado com o drama do Verão - a maior parte do qual apoiou numa base sólida — que se sentiu impossibilitado de pôr termo à torrente que lhe acudia. O primeiro rascunho continha cento e vinte mil. O manuscrito revisto, de onde os excertos da Life e o presente livro foram editados, englobava cerca de setenta mil. A actual versão que encerra perto de quarenta e cinco mil, pretende fornecer ao leitor um apanhado honesto do que havia de melhor no maciço assunto.
Não posso criticar o elevado número de palavras excessivas que Hemingway escreveu — cento e vinte e mil, quando bastavam dez mil-, porque também recorro a esse método com frequência. Tenho entregue com regularidade a revistas e jornais, o triplo ou quádruplo da quantidade exigida, prefaciadas pela nota que acompanhará estas páginas, quando as enviar á Scribners:
Estão autorizados a editar este excessivamente longo manuscrito em conformidade com o espaço disponível. São editores respeitados e os cortes fazem parte das suas atribuições.
Mesmo na preparação de um romance, escrevo persistentemente muito mais do que o exigido, após o que procedo à eliminação do supérfluo. Quando uma publicação recente me encomendou seis páginas palpitantes sobre um tópico premente, adverti:
- Em seis páginas, nem sequer posso dar as boas-tardes. Mas vocês ficam desde já autorizados a cortar o que lhes parecer bem.
Lamento não ter podido ouvir o que aconteceu no departamento editorial da Life, quando viram o resultado do seu pedido de dez mil palavras. Uma vez, um amigo enviou-me uma fotocópia de uma nota marginal inscrita num trabalho meu apresentado a outra revista: “Convém explicar a este filho da mãe que está a escrever para uma revista e não para uma enciclopédia”.
A Life decidiu recorrer ao bom amigo e companheiro de viagens de Hemingway, A. E. Hotchner, para editar o manuscrito, cortando-o sem contemplações. Concebido originariamente como um ensaio nostálgico, apareceria sob a forma do relato prolongado em três partes do peripatético duelo entre os dois matadores. Fui autorizado a ler a versão original da Segunda Farte da série da Life e posso assegurar com convicção que nenhuma revista publicaria o texto integral. E também nenhum editor de livros o desejaria fazer, porque a prosa era redundante, vaga em certas passagens e sobrecarregada de pormenores tauromáquicos. Duvido mesmo que jamais existam motivos para publicar o conjunto e posso afirmar que o próprio leitor que venera aquele escritor pouco fica a perder com a presente versão da obra. Em particular porque, a meu ver, Hotchner e os editores da Life executaram um excelente trabalho ao condensarem a expansividade de Hemingway de forma aceitável, e penso que os da Scribners ainda se esmeraram mais ao apresentar a essência neste livro.
Encontrava-me em Espanha acompanhando as actividades tauromáquicas depois de a série da Life ser publicada com o título combinado de Verão Perigoso, pelo que estava bem situado para determinar a sua aceitação entre o público internacional da especialidade, sem dúvida desconfiado e invejoso. Homens e mulheres, indistintamente, tomavam posição e o consenso parecia consistir no seguinte: Era óptimo que Dom Ernesto tivesse regressado. Descreveu a temporada com entusiasmo. Manifestou demasiada predilecção pelo seu rapaz favorito. E deviam encostá-lo a uma parede e fuzilá-lo pelas coisas que disse de Manolete.
E convicção generalizada entre os apreciadores de touradas que os dois maiores matadores da História recente foram Juan Belmonte, o deformado gnomo dos anos vinte, e Manolete, o espantalho alto e trágico da década de 1940. Há quem lhes junte o mexicano Carlos Arruza, falecido prematuramente, e adolescentes e turistas franceses consideram o recente fenómeno El Cordobés merecedor da inclusão no reduzido grupo, embora os puristas o encarem com desdém, em virtude das atitudes assumidas durante a lide.
Para um forasteiro americano, como Hemingway, apesar do seu longo serviço à arte, apresentar-se em Espanha e denegrir Manolete equivalia a um espanhol meter o nariz em Augusta e declarar que Bobby Jones não percebia nada de golfe. Tomei conhecimento de algumas acusações violentas, entre as quais, em alguns bares, a ameaça de espancar Hemingway se tornasse a aparecer lã, mas à mediada que o tempo passava a indignação atenuava-se, até que os próprios simpatizantes de Manolete reconheceram que o facto de um galardoado Nobel como ele encarar o alvo da sua obsessão com rigor, e numa revista com a circulação da Life,, era uma coisa desejável. Assim Dom Ernesto voltou a ser colocado no pedestal como santo patrono da arte.
Era mais grave, quanto a mim, a acusação de que, ao descrever o mano a mano entre os dois cunhados, Hemingway abusara da sua posição de escritor para se colocar abertamente do lado de um deles, Ordónez, que conhecia melhor e, sem dúvida, idolatrava. Denunciava repetidamente as suas preferências —justificadas pelas impressionantes actuações do homem —, em frases que um repórter imparcial não empregaria: “Não sei o que Luís Miguel (Dominguín) fez ou como dormiu na noite anterior à primeira corrida decisiva em Valência. Garantiram-me que se tinha deitado muito tarde, mas dizem-se sempre coisas depois de acontecer algo. Havia uma de que eu tinha a certeza: preocupava-se com a corrida e nós não”. (O destaque é meu).
Muito depois da publicação dos artigos, Hemingway confessou que não tratara Dominguín com imparcialidade e quase pediu desculpa, mas o mal estava feito. O presente livro representa um ataque injustificável a Dominguín, que, no longo duelo, não foi tão superado como o escritor pretende.
Não havia muito tempo que os artigos tinham sido postos a circular, quando começámos a inteirar-nos de rumores segundo os quais a Life considerava a sua publicação um desastre. Os leitores mostravam-se impacientes com as extensas divagações que nem a meticulosa revisão de Hocner conseguia eliminar. A novidade que saudara Morte à Tarde foi substituída por um tédio que levava os leitores a resmungar - “Já tínhamos lido, isto”. Garantiram-nos — erradamente, como se verificou — que a Life suspendera a série a meio caminho porque a receptividade se revelara tão negativa e constaram-nos outras versões - estas fidedignas como descobrimos posteriormente - de que o próprio Hemingway estava desgostoso com a situação pois compreendera, demasiado tarde, que cometera um erro ao recuar em primeiro lugar e escrever tão copiosamente, em segundo. Representantes da Life admitiram que não estavam inteiramente satisfeitos com a maneira como as coisas se haviam desenrolado. O texto não foi publicado sob a forma de livro e considerou-se que Hemingway ficara aliviado quando o assunto sucumbira de morte natural. Um aficionado do, Bar Choko comentou — Desta vez, foi morte em Setembro.
A minha opinião, então e agora, consistia em que ele se precipitara ao pretender regressar à juventude. Tentara apoiar-se demasiado na teia ténue esotérica de uma série de corridas de touros, mas produzira um manuscrito que revelava muito sobre uma das primeiras figuras da literatura americana. E um recorde que merece a pena possuir.
Para o amante da literatura taurina a descrição feita por Hemingway da histórica corrida de Málaga de 14 de Agosto de 1959, no Capitulo XI, constitui um dos resumos mais evocativos e exactos de um espectáculo do género jamais escritos. E uma obra-prima. Naquela tarde os dois cunhados lidaram um conjunto excepcional de touros Domecq, e a fama da corrida ainda vibra porque eles cortaram dez orelhas quatro rabos e duas patas. Nunca houvera uma actuação similar numa arena de categoria,
Hemingway podia ter concluído o seu manuscrito naquele tom elevado, mais por ser um artista que apreciava o drama e os imprevistos da arena, terminou a sua série com uma corrida de uma qualidade muito diferente e, nesse clima tragico-heróico, pôs termo ao que tinha para dizer sobre os dois homens cujos passos seguira de perto como um garoto maravilhado.
Aqueles - e são legiões e sensatos - que protestaram por Hemingway ter consagrado tanta atenção a um espectáculo brutal como as corridas de touros ou por um editor importante ressuscitar o seu ensaio ou ainda por eu defender a obra, só posso lembrar que muitos americanos, ingleses e europeus em geral encontraram nelas algo merecedor da sua curiosidade. O facto de um dos primeiros artistas norte-americanos decidir divulgâ-las, na sua juventude e no limiar da velhice, afigura-se-me digno de nota, e nunca me envergonhei de lhe seguir as pisadas.
As touradas— são muito menos bárbaras que o pugilismo americano, e a morte de homens ocorre com muito menor frequência — nos últimos anos houve qualquer coisa como sessenta nos ringues de boxe para uma nas arenas. E poucos americanos estão cientes de que o seu futebol - nos liceus e universidades -mata um número chocantemente mais elevado de jovens do que as corridas de touros e torna dezenas de outros paraplégicos.
Sem dúvida que a lide dos touros contém elementos de brutalidade mas ela também existe na cirurgia, caça e sistema fiscal. Verão Perigoso é o relato das coisas estimulantes, brutais e maravilhosas que aconteceram durante uma temporada em Espanha.
CENÁRIO
Como Verão Perigoso se concentra nas corridas de touros e seus participantes, na arena e nas tribunais, é essencial que o leitor compreenda e porventura procure também apreciar os rituais maravilhosos a que obedece esta forme de arte, esta dança da morte elaboradamente coreografada. Assim, algumas definições resultarão úteis.
Temporada época: aproximadamente de fins de Março até princípios de Outubro. O termo abarca todas as corridas em todas as arenas de Espanha, mas também há temporadas (que se estendem por diferentes meses) no México e Peru, por exemplo. O presente livro ocupa-se da excitante temporada espanhola de 1959.
Corrida: especificamente, uma tarde completa de lides, em geral com três matadores, cada um dos quais mata dois touros.
Plaza de toros: a maioria das cidades de Espanha tem um espaço considerado praça de touros, que por vezes consiste apenas num círculo rodeado de carroças ou outros carros de tracção animal. A de Madrid é a primeira do mundo, e a precedência entre os matadores determina-se depois de exercerem essas funções na capital. A majestosa plaza de Sevilha é a mais bonita e figura em segundo lugar. A da Cidade do México pode considerar-se, de longe, a maior, a de Ronda a mais antiga e bonita, mas muito pequena, e a de Bilbau aquela em que os aficionados são mais exigentes e os touros mais possantes.
Mano a mano: mão a mão. Duelo entre dois matadores de créditos firmados, que ocupam a arena sós, cada um dos quais mata três touros. A rivalidade pode revelar-se intensa, em particular se existe animosidade entre eles.
Cartel: literalmente cartaz,mas, por extensão, reputação nos círculos tauromàquicos, como “Tenho grande cartel em Barcelona”, analogia exacta da afirmação do vaudeville americano dos velhos tempos “Adoraram-me em Omaha”. Os protagonistas deste livro tinham um cartel enorme e equivalente.
Aficionado: pessoa que tem afecto por algo ou alguém. Diz-se especialmente daqueles que gostam de touradas. Hemingway era respeitado em Espanha como um verdadeiro e erudito aficionado.
La prensa: a imprensa. A imprensa taurina de Espanha é, sem comparação, a mais corrupta do mundo. Revela-se entusiástica, pitoresca, adulatória e disposta a vender-se com uma apreciação favorável a qualquer matador que lhe ofereça três dólares. E muito possível um jornalista assistir a uma corrida ao domingo em que o matador Sanchez foi tão deplorável que a Polícia teve de intervir para o proteger da indignação do público e escrever na segunda-feira que “apesar de lhe terem saído touros maus no sorteio conseguiu maravilhas e ouviu chamadas à arena e música, abandonando a praça aos ombros dos aficionados deslumbrados”.
OS TOUROS
Ganadaria: designação das pastagens e parques onde se faz a criação dos touros de corrida de gado. Cada ganadaria tem um nome, possui uma reputação própria e produz touros de características mais ou menos consistentes. Os Miura são famosos como causadores de vítimas. A ganadaria Concha e Sierra produziu excelentes exemplares durante muitas décadas. Diz-se que os Pablo Komero são tão “possantes como três camiões juntos”. Nestas páginas, Hemingway refere-se em termos encomiásticos aos Palha mas também gosta dos Cabaleda. Quando vi estes últimos, eram conhecidos depreciativamente por “biscoitozinhos”, devido à fraqueza das pernas e não se aguentarem nelas mesmo após o esforço mais limitado.
Divisa: marca para distinguir as coisas. Cada herdade tem as suas próprias cores, imediatamente reconhecidas pelo aficiona-do. No momento em que um touro de uma determinada herdade se prepara para entrar na arena, é-lhe implantada na giba uma pequena farpa com uma fita da sua divisa, para que exiba as cores identificativas.
Tienta: tenta. O ganadeiro enfrenta um dilema difícil. Pretende testar os seus touros jovens para verificar se serão bravos, mas Verão Perigoso não o pode fazer com um pano, porque eles aprendem depressa e têm boa memória. Se um touro descobrisse que não se encontrava ninguém atrás da capa para o atrair dai em diante ignoraria sempre esta última e investiria contra o homem que a segurasse. Nem o matador mais experiente resistiria dois minutos diante de um adversário elucidado nesse capítulo. Por conseguinte num dia de bom tempo, o ganadeiro incumbe alguns homens a cavalo munidos de varas de ver se os seus touros aceitam os castigos mas uma maneira ainda melhor consiste em observar a coragem da vaca-mãe, pois acredita-se que o touro adquire a da progenitora. Não existe aspecto mais aprazível da tauromaquia para o verdadeiro aficionado do que ser convidado para uma tenta de uma herdade famosa, pois assiste ao teste das vacas por verdadeiros matadores que utilizam capas autênticas. A boa disposição costuma generalizar-se e à medida que o tempo passa, os observadores são solicitados a tentar a sorte com alguma das vacas menos possantes. Acontece com frequência o matador director da tenta convidar uma jovem atraente para segurar uma ponta da larga capa, enquanto ele se conserva bem afastado segurando a outra. Com um pouco de sorte, a surpreendida vaca investe contra o espaço entre ambos. Hemingway foi convidado para muitas tentas e enfrentou numerosas vacas, proeza digna de respeito, pois algumas revelam-se tão perigosas como touros.
Encierro: de cerrar, fechar. A entrega dos seis touros da ganadaria na praça de touros onde serão lidados. Nos velhos tempos, envolvia um emocionante galope através das ruas, mas hoje são transportados em camiões.
Sorteo: sorteio. A altamente formalizada escolha dos seis touros para os matadores que os lidarão. Desenrola-se ao princípio da tarde da corrida, conduzido pelos bandarilheiros dos matadores, que procedem ao sorteio e depois vão comunicar invariavelmente a estes últimos “Obtivemos os melhores. Vão investir como se estivessem numa via-férrea”.
A INDUMENTÁRIA
Constitui quase uma honra inexcedível para um aficionado ser convidado a assistir, cerca das quatro da tarde, ao solene ritual da preparação do matador para a corrida. Começando pelas cuecas brancas mais reduzidas meticulosamente lavadas, porque se ele for atingido pelo touro no ventre ou virilha o tecido que penetrar no ferimento deve ser anticéptico, veste a farda tradicional cujas características remontam ao século XV11. As palavras trocadas não passam de murmúrios. Observam-se zelosamente os rituais da boa sorte.
Traje de luces: em tradução literal, fato de luzes, assim denominado em virtude dos cequins reluzentes que o ornamentam. A farda exigida ao torero é um belo e dispendioso fato feito de brocado e seda. O peón tem uma notavelmente coçada, enquanto o matador possui várias cada uma da sua cor para diferentes ocasiões. Durante a lide, sangue do touro, dos cavalos ou do próprio matador pode manchar o dispendioso traje, pelo que, após cada corrida, o assistente do toureiro o limpa com uma escova de dentes.
Capilla: capela. Em todas as praças de touros há uma capela para a oração anterior á corrida e todos os matadores que conheci a utilizavam ou a sua própria ambulante. Por muito afectado que um toureiro seja, tem plena consciência de que duas das maiores figuras do historial da tauromaquia foram mortas pelos seus touros. Vários outros menos famosos também perderam, a vida na arena, e eu próprio, conheci três que morreram e dois outros que ficaram incapacitados para sempre. Ate os mais destemidos rezam, porque em geral foram homens como eles que sucumbiram.
NA ARENA
Pátio de Caballos: Os matadores começam a reunir-se cerca de meia hora antes do início da corrida. Conversam com os admiradores e também admiram por sua conta, quando aparecem raparigas bonitas para os saudar. Sempre apreciei este período de nervosismo e excitação quase, tanto como a corrida em si.
Cuadrilla: equipa do matador: Todo o grupo de toureiros presta assistência ao matador, — os três bandarilheiros e capinhas e dois picadores - os quais, uniformizados a rigor, o seguem em solene fila indiana, quando entra na arena.
Torero: toureiro. Designação honrosa e respeitada de todos os participantes na arena, independentemente do facto de o indivíduo ser um matador de grande cartel ou um bandarilheiro principiante. “Sou um toureiro” é uma afirmação de enorme dignidade.
Matador: Esta famosa expressão, tão popular nas sociedades de língua inglesa, começou a ser empregue relativamente tarde em Espanha para designar o torero principal. O meu dicionário de espanhol clássico fornece apenas a acepção de assassino, pois a sua utilização corrente era então desconhecida. Hoje, a própria Espanha o aceita e o seu significado está estabelecido.
Novillero: principiante. Os jovens que pretendem tornar-se matadores submetem-se a uma aprendizagem rigorosa, enfrentando touros perigosos em localidades rurais em troca de pouco ou nenhum dinheiro, esperançados em despertar a atenção. Um comentário frequente, “O touro que lidei em Los Rinones tinha tanta experiência, que me indicou onde me devia colocar.”
Sobresaliente, ou sobrero: suplente. Tanto se diz do touro como do homem. Quando se colocam seis touros de uma ganadaria no touril para uma corrida, ficam de reserva um ou dois sobreros quase sempre de uma ganadaria diferente, para o caso de um dos efectivos sofrer algum acidente ou revelar mansidão. O sobrero é utilizado com frequência. Quando dois matadores actuam mano a mano, a direcção deve precaver-se com um terceiro matador, denominado sobresaliente, para a eventualidade de os dois efectivos ficarem incapacitados, o que por vezes acontece. Mas se apenas se ferir um deles com gravidade suficiente para recolher à enfermaria o outro tem de matar todos os touros que restarem. Vi por diversas vezes, nos primeiros momentos de um mano a mano, um dos matadores dar entrada na enfermaria, o que significava que o Número Dois tinha de lidar seis touros seguidos e numa ocasião histórica, ficaram ambos incapacitados nos cinco minutos iniciais. O lívido sobresaliente actuou bem e ouviu música.
Rejoneador: toureiro que lida a cavalo utilizando um rejón, lança de cabo alongado. Popular em Portugal, onde o touro não é morto mas também, um número de agrado em Espanha, onde o rejoneador, a cavalo, tem de matar o inimigo com um golpe poderoso. Só que isso raramente acontece. Em regra, o cavaleiro tem de descer da montada pegar numa muleta e espada comuns e abater assim o touro. Os puristas consideram a arte do rejón um pouco aborrecida, mas a colocação das bandarilhas — em que o cavaleiro larga as rédeas e conduz o cavalo unicamente com os joelhos -pode revelar-se emocionante, em particular quando duas com apenas vinte centímetros de comprimento são colocadas com uma das mãos. Uma das maiores especialistas do rejoneo foi Conchita Cintrón, filha de um oficial do exército peruano treinado em West Point, onde casou com uma norte-americana. Conchita era tão deslumbrante, que até os matadores mais “machos” se sentiam honrados por participar numa corrida com ela.
Banderillero: aquele que toureia e bandarilha com capote para o matador. Este difícil termo é empregue incorrectamente com maior frequência do que qualquer outro. Durante uma recente representação da ópera Carmen na televisão, o locutor exclamou “Olhem vêm aí os bandarilhas”. Vinham de facto, mas depositadas nos braços dos bandarilheiros.
Picador: aquele que pica. Cavaleiro fortemente protegido, munido de uma vara longa e pontiaguda com que pica o pescoço do touro para o obrigar a baixar a cabeça e o matador poder lidá-lo. Nos velhos tempos, que se aproximavam do fim quando Hemingway começou a assistir a corridas, um único picador podia ver cinco ou seis das suas montadas desprotegidas, mortas em plena arena. O facto suscitou um movimento de protesto, e o governo espanhol determinou que os cavalos se apresentassem devidamente protegidos, pelo que a sua morte em actividade se tornou menos frequente.
DIRECÇÃO DA CORRIDA
Presidente: director, inteligente. A lei civil atribui-lhe a responsabilidade do desenrolar normal da corrida. Denominado com frequência “juiz”, instala-se numa tribuna elevada sobranceira a tudo o que acontece na arena. Costuma ser coadjuvado por um ex-matador de renome, que o aconselha sobre as complexidades do espectáculo. E o director que determina se o matador deve receber algum trofeu e quais.
Alguaciles: ajudantes do director. Elegantemente trajados, no estilo antigo, montados num belo cavalo, um ou dois alguaciles precedem o paseo na arena, no início da corrida, após o que um desmonta e exerce as funções de transmissor das ordens do director. O alguacil fiscaliza o corte dos trofeus que o presidente autoriza e pode mais ou menos instruir os matadores sobre as suas obrigações.
Monosabio: macaco sagaz. Não veste traje de luces, cumpre as ordens do alguacil incita as montadas dos ptcadores para que se aproximem do touro e limpa a arena após a morte deste último. Várias vezes em cada temporada um monosabio é ferido e ocasionalmente morto.
Paseo: entrada formal dos matadores com as respectivas quadrilhas alinhadas atrás deles. São precedidos do alguacil a cavalo e os picadores encerram o cortejo. O matador, por ocasião da sua alternativa (apresentação formal em Madrid), situa-se a esquerda, visto da assistência, com o imediatamente mais antigo à direita e o mais jovem no meio. A música toca.
Espontâneo: todas as passagens de uma tourada são rigorosamente formalizadas, com uma excepção. De vez em quando, -digamos numa corrida em cada vinte — um rapaz mais entusiasmado, esperançado em alcançar a imortalidade, salta para a arena e, com um pano vermelho desenrolado apressadamente da cintura, corre para o touro, afasta-o do matador e efectua os passes que pode antes de a quadrilha o agarrar e arrastar para fora. Ocasionalmente, cerca de uma vez em cada três anos, um espontâneo comporta-se de um modo tão satisfatório que desperta a atenção de um empresário, o qual o contrata para uma novilhada tourada, para novilleros com novilhos.
A LIDE
Capear: actuar apenas com a capa. Ao sinal do director, soa o clarim, as portas do curro abrem-se e surge o primeiro touro da tarde. O matador mais antigo, lida-o com a pesada capa e, depois de actuar o melhor que sabe e pode, o segundo e terceiro matadores tentam a sorte por sua vez. Trata-se da parte poética e graciosa da corrida, apreciada por todos. Há numerosos passes complicados que receberam designações especiais, mas limitar-me-ei a descrever três.
Verónica: do nome da santa que socorreu Cristo com o lenço, quando arrastava a cruz para Gólgota. O maltratar, segurando a pesada capa de brocado revestida de seda amarela, incita o touro a investir nela e não nele. O toureiro deve conservar o olhar fixo e não tremer de medo. Tem igualmente de manipular a capa, de modo que o touro se volte de novo para ele, em vez de se afastar a correr sem rumo definido. Uma série de boas verónicas pode constituir o apogeu de uma lide artística.
Chicuelina: inventada por um matador dos anos vinte, Chicuelo, que Hemingway conhecia e respeitava. O matador segura a capa diante do touro, mas quando este investe puxa-a habilmente em torno do seu corpo e avança no momento em que passa veloz e pesadamente. E um passo de dança muito vistoso quando bem executado.
Mariposa: o matador coloca a capa atrás de si, conservando-a aberta para que as extremidades apareçam à direita e esquerda do seu corpo exposto. Em seguida, estimula o touro, atraindo-o primeiro com uma porção da capa e depois com a outra, ao mesmo tempo que dança para trás numa manifestação de graciosidade e bravura extraordinárias.
Pica: um dos termos que se não podem soletrar graciosamente, respeitante à arte do picador, que castiga o touro cravando a pesada vara no largo músculo da parte posterior do pescoço. Nos velhos tempos, quando os cavalos eram dilacerados com frequência, enquanto o picador os montava, este sofria pesados maus-tratos, quando o touro investia contra o seu corpo caído. Com as regras de hoje, que protegem a montada, o picador também pode ser derrubado, mas não se expõe aos riscos de outrora.
Quite: de quitar, tirar. Uma das fases mais importantes da corrida. O matador ainda com a pesada capa, corre para o touro, que se entretém a atacar o cavalo do picador, e afasta-o com lances que podem ser requintados na sua delicadeza e magistrais na maneira de dominar o animal. Segue-se um cálculo curioso. Se o touro pertence ao matador A e o domina com uma série de oito ou nove soberbos lances (o que acontece aproximadamente uma vez em cada quinze corridas), tem de tomar a seguinte decisão “Se eu permitir que o touro receba mais duas varas, como o costume exige, os outros dois matadores intervirão e talvez actuem ainda melhor do que eu. Vou portanto encerrar a parte do pica-dor imediatamente e privá-los da oportunidade. E claro que, mais tarde, quando o touro não estiver convenientemente cansado, posso ver-me em apuros para o dominar, mas estudarei o problema no momento apropriado”. Indica ao director que deseja os picadores afastados e deixa assim frustrados os dois rivais da corrida do dia. Evidentemente que quando estes últimos obtiverem um bom touro, procederão do mesmo modo para com ele.
Remate: Passe magistral que presenciei muitas vezes, e ainda não acredito. Depois de concluir uma série de lances, o matador quer deixar o touro numa posição estacionária, enquanto ele se prepara para a sequência seguinte, o que consegue por meio de uma torção do pulso que faz girar a extremidade da capa, deixando o touro totalmente perplexo por conseguir ver o homem e nunca poder atingi-lo. “Ao diabo com este disparate”, parece o animal dizer, e permanece imóvel como uma estátua.
Banderillas: bandarilhas, farpas longas enfeitadas com uma bandeira ou fitas destinadas a ser cravadas no cachaço do touro, quando investe. Os visitantes estrangeiros a Espanha costumam preferir esta parte da corrida em que um toureiro ágil e gracioso, possuidor de notável ligeireza de pernas, domínio dos braços e visão aguda corre segundo uma trajectória surpreendente, intercepta o touro no momento em que investe e inclina-se sobre os cornos para cravar habilmente as bandarilhas. As vezes, é o próprio matador que se encarrega disso, mas a maioria tem na sua quadrilha dois homens capazes de o fazer melhor, e estes últimos tornam-se populares especialistas. Vê-los actuar constitui um prazer.
Banderillas de fuego: nos velhos tempos, se um touro recusava cobardemente investir, ou não ficava suficientemente excitado com a lide, o director da corrida fazia sinal com uma bandeira vermelha, em face do que o alguacil entregava ao bandarilheiro farpas com explosivos dos santos populares junto da ponta metálica. Quando as bandarilhas eram cravadas, dava-se a explosão que assustava o animal e revelava então a movimentação necessária. Durante uma das primeiras corridas a que assisti, quando ainda desconhecia o pormenor, as experiências desenrolavam-se perto do lugar em que me sentava impressionando-me muito mais do que ao touro. Os fuegos foram considerados ilegais a partir de 1950, substituídos por bandarilhas negras, que significam vergonha. Dispõem de farpas extra longas que espevitam o touro mais letárgico.
A ALMA DA LIDE
Agora, saem todos da arena excepto o matador e os seus auxiliares imediatos. Os cavalos foram retirados. Os admiráveis arabescos dos bandarilheiros são esquecidos. O matador avança com um pequeno pedaço de tecido vermelho sobre um pau, invariavelmente seguro na mão direita, juntamente com a espada. Antigamente, a espada era verdadeira, mas na actualidade é de madeira, por causa do peso. A medida que a lide prossegue, o manejo do pano e espada e a sua transferência de mão para mão tornam-se cruciais.
Brindis, o brinde. Antes de iniciar esta parte solene da corrida, o matador toma uma posição abaixo da tribuna do director e pede autorização para dedicar o touro a algum aficionado notável ou amigo íntimo, com frequência uma senhora, de quem a seguir se aproxima. Com a muleta e a espada de pau na mão esquerda e a montilla ou montera (gorro do toureiro) na direita, ergue esta última em honra da pessoa saudada, volta as costas com brusquidão e atira-a por cima do ombro ao destinatário, que a conserva durante a faena e a devolve mais tarde. O brindis é um descendente directo do famoso grito dos gladiadores: “Ave, Caesar, morituri te salutamus”. (Salve, César, nós que vamos morrer saudamos-te). Quando a montera é restituída, no final da lide, a pessoa visada costuma ocultar nela uma nota de dez dólares.
Faena: tarefa, trabalho. Tudo o que acontece com a muleta entre a retirada dos picadores e o momento da morte. Em particular, claro, a sucessão de passes executados com a muleta, como na frase corrente que se lê nas publicações da especialidade “Ele teria conquistado uma orelha com a sua maravilhosa faena, mas perdeu-a devido à maneira belnel como matou”. Há numerosos passes englobados na construção de uma faena magistral, mas neste caso também só mencionarei alguns.
Muleta: um apresto do pano vermelho com que o touro é atraído no derradeiro acto da corrida. Muito mais pequeno que a capa e muito mais leve, representa a única protecção do matador, e o seu manejo artístico determina em grande parte o êxito da sua actuação.
Derechazo: o matador deve esmerar-se neste passe para conquistar cartel, mas obtém reduzido crédito disso. Não espera outra coisa, de resto. Com a espada de pau e a muleta na mão direita, a primeira destinada a conservar o pano estendido, mentido próximo do chão, o matador cita (desafia) o touro, deixa-o passar junto dele, em seguida volta a extremidade mais afastada da mu-leta para fixar o animal, antes de o fazer retroceder. Evidentemente que, em muitos casos, o touro não se apercebe do convite e contínua a correr, mas se um matador consegue seis ou sete derechazos consecutivos, metendo-o fixado, a multidão vibra.
Natural: com a muleta na mão esquerda, sem o auxílio da espada e por conseguinte, de área mais reduzida. Passe nobre com a muleta, aquele que conquista trofeus porque o matador segura o frágil pau na mão esquerda, a espada na direita e com frequência atrás das costas. Isto significa que, quando o touro investe, passa diante de todo o corpo exposto do matador antes de atingir a muleta. Um movimento em falso neste ponto tem como consequência um corno cravado no ventre. Alcançam-se reputações com os naturales, e nenhuma faena é considerada completa sem uma série ou uma tentativa nesse sentido, lima sequência de cinco ou seis é memorável.
Pase de pecho: passe de peito. Uma sucessão de naturales deve culminar com este vistoso passe, em que o touro, cujas últimas investidas foram baixas, agora avança impetuosamente de cabeça levantada, a escassos centímetros do peito do matador. Uma fotografia imortal de uma corrida mostra o exibicionista mexicano Luís Procuna, numa demonstração da sua versão do passe pés unidos como que de cimento, corpo erecto, sem mover um músculo, com uma expressão de triunfo no rosto, enquanto o touro investe com fúria, os cornos a curta distância da cara de Procuna.
Adorno: efeite, guarnição. Quando o matador se certifica de que o touro está na posição fixa, hipnotizado pelo último remate, fica em condições de fazer coisas surpreendentes. No telefono, pousa o cotovelo na fronte do animal, leva a mão à sua própria orelha e dirige o olhar para o espaço, como se falasse ao telefone. Ou abre a boca, introduz o corno do touro e crava-lhe os dentes. Ou ainda, empertiga-se, de costas para este último, que permanece perplexo, com o traseiro junto dos cornos. O mais popular é o adorno em que pousa um joelho na cara do touro, o nariz encostado ao focinho, como que desafiando-o a fazer um movimento. Confesso que não gosto dos adornos, porque ridicularizam o animal, mas há ocasiões em que me impressionam pelo seu arrojo. Garantiram- me que o matador pode prever pelo movimento muscular do touro quando o efeito do remate está na iminência de se extinguir, mas o adorno continua a ser um mistério para mim.
Rodillas: joelhos. Alguns dos passes mais excitantes, com a capa ou a muleta, são os executados pelo matador quando pousa um joelho, ou os dois, no chão. Podem dar origem a música.
A MORTE
Estoque: a verdadeira espada, estreita e muito aguçada. O cansado touro, com o cérebro transtornado pelas arremetidas fútes contra um homem que parece desaparecer sempre no último momento, a possante cabeça baixa em virtude das varas, bandarilhas e movimentos da muleta, encontra-se agora numa condição física em que o matador teri uma oportunidade de matar. Dirigindo-se à barrera, este entrega ao seu mozo de estoques a espada cerimonial com a qual conduziu a sorte da muleta e pega noutra, meticulosamente afiada e curvada para baixo na extremidade mortal, após o que se aproxima do touro, com a muleta na mão esquerda e mantida muito baixa. Não são muitos os homens capazes de fazer o que se torna necessário a seguir. Hemingway chamou-lhe “o momento da verdade", o instante fatal em que o inevitável carácter de um homem adquire supremacia, para revelar ao mundo aquilo que na realidade ele representa. Considere-se o conjunto complexo de coisas altamente hábeis que o matador tem de fazer naquele momento. Com a mão esquerda, deve manter a muleta baixa, certificando-se de que os olhos do touro se conservam fixos nela. Com a direita, tem que segurar a espada numa posição elevada, com o maior rigor. Com os pés nervosos, precisa de se deslocar para a frente num sentido cautelosamente calculado. A seguir, com, todas as partes do corpo em acção controlada e harmoniosa, tem de estender o braço arrojadamente por cima do corno, colocar a ponta da espada no local precisamente exacto e exercer pressão, até que a mão quase toca no cachaço. Se a operação for executada devidamente, a espada mata instantaneamente, mas isso só acontece uma vez em sessenta ou setenta tentativas. Na maioria dos casos, a ponta atinge o osso, segundo um ângulo errado, ou falha completamente o alvo. Quando tal acontece, a morte à tarde pode converter-se num espectáculo pouco agradável. Os jogadores de basebol costumam dizer “Quem marca um ponto anda de Cadillac”. Os toureiros poderiam afirmar que anda de Cadillac quem mata bem. A corrida mais deplorável pode ser salva por uma grande estocada.
Descabello: a arte de matar um touro moribundo, mas ainda de pé, utilizando uma espada apropriada com uma cruz a onze centímetros da ponta da lâmina. Essa cruz evita que a espada penetre totalmente como numa morte normal, porém a ponta exposta está extremamente aguçada. Utilizando apenas a mão direita, o matador, com a muleta, pode obrigar o touro a baixar a cabeça e expor o ponto em que a espinal-medula se liga ao crânio. Uma pressão rápida com a espada corta a espinal-medu-la, e o animal cai como que atingido por um tiro de espingarda no coração. No entanto, acontece com frequência o matador ter de efectuar três ou quatro tentativas, e o público da geral começa a gritar “Carniceiro Carniceiro”.
Recibiendo: de receber. Uma pessoa pode assistir a uma centena de corridas de touros e nunca ver uma verdadeira sorte de receber mortal, pela simples razão de que é uma operação tão perigosa que poucos matadores se mostram dispostos a tentá-la. Na sua forma perfeita, que vi executar diversas vezes pelos matadores Mondeno e El Viti, os quais fazem disso uma profissão, o toureiro efectua as mesmas coisas do matador vulgar, mas em vez de se precipitar para a frente, a fim de se encontrar com o touro a meio caminho, mantêm-se imóvel como uma estátua e aguarda que o animal se aproxime, dependendo da arremetida deste último o momento de lhe cravar a espada. Trata-se de uma proeza muito emocionante e os aficionados deliram, quando e executada devidamente. Hemingway era um grande entusiasta da estocada “a receber, porque, para ele, epitomava o mistério da tourada.
Puntillero: Não é fácil matar um touro. Uma vez por outra, uma estocada miraculosa faz com que caia imediatamente morto. O descabello também produz a morte imediata, seccionando a espinal-medula. No entanto, o touro médio não morre em qualquer destas maneiras. O que acontece é o matador cansá-lo e levá-lo às portas da morte com uma estocada que acabará por se revelar vital, mas o touro pode sobreviver muitos minutos antes de expirar. Vara resolver o problema, um puntillero está parado com um punhal curto muito aguçado e, quando o animal cai de joelhos, intervém e corta-lhe a espinal-medula. Vrocede exactamente como um matador com um descabello, com uma estocada rápida e violenta na base do crânio.
TROFEUS
Os toureiros actuam por dinheiro, mas também pela honra, trofeus e aclamações do público, como demonstram os importantes termos que se seguem.
Pundonor: brio. Manolete, Armillita do México e o meu matador Domingo Ortega definiram a honra na arena, mas, ocasionalmente, um sobrevivente já idoso como Limeno de Sanlucar de Barrameda que, ano após ano, se tem oferecido para enfrentar os homicidas Miuras e os possantes Pablo Romeros, quando homens mais jovens se recusam a entrar na arena com eles, revela ao mundo em que consiste o verdadeiro pundonor. Esses toureiros mantêm as corridas respeitáveis, e Hemingway prestou-lhes homenagem, tal como eu faço.
Musica: a primeira e mais agradável destas honrarias surge numa fase mais adiantada de uma faena notável, quando a banda começa a tocar. E possível que não seja concedida nenhuma das mais importantes, mas os jornais do dia segui informam Ouviu música no seu segundo touro”, e o leitor fica a saber que teve uma boa actuação.
Peticiones: pedidos. Se um toureiro ouviu música, é provável que os seus simpatizantes peçam ao director da corrida, no final dessa lide, que lhe conceda um trofeu mais valioso. “Ele ouviu pedidos, dirão os críticos.
Panuelos: lenços. Os espectadores fazem o pedido ao director acenando com lenços brancos e, se este não responde com prontidão, a praça de touros pode tornar-se quase branca. “Ele viu um mar de lenços.
Vuelta ai ruedo: circuito triunfar à arena. Se o director concede um trofeu importante, o matador efectua um circuito competo à arena — às vezes, dois ou três —, com o trofeu na mão erguida mas mesmo que não lhe seja concedido nenhum, um toureiro hábil em relações públicas, sobretudo se conta com um bandarilheiro sagaz na sua quadrilha, pode incitar o público a exigir uma vuelta. Nessa altura, o matador, fingindo-se embaraçado, dirige-se ao centro da praça pede desculpa ao director e encolhe os ombros, como quem diz “Mas eles exigem-no, e pode haver sarilho se não os satisfizer . E lá vai, seguido dos membros da sua quadrilha, que estimulam as emoções gerais. Vi um matador astuto efectuar duas voltas completas à arena apesar da opinião, em contrário do director, ao mesmo tempo que se negava merecedor de semelhante honra, mas...
Oreja: orelha. Não consegui descobrir a data em que se tornou hábito conceder a um matador uma orelha do touro que matou com coragem invulgar, mas constitui um momento excitante quando o director puxa do lenço e o faz baixar sobre o parapeito da sua tribuna para indicar que o alguacil pode apro-ximar-se do animal morto, cortar-lhe uma orelha e entregá-la ao matador o qual procede então, a um justificado circuito à arena, por entre as aclamações da assistência. Uma vez por outra, são concedidas duas orelhas por uma faena fora do vulgar e uma estocada excepcional.
Rabo, cauda: Quando comecei a assistir a corridas de touros, nos anos trinta, não eram concedidos raros, que eu soubesse, mas na altura em que tornei a visitar a Espanha, na década de, 1950, podia-se ver ocasionalmente cortar um - após a concessão das duas orelhas. Claro que, nos anos sessenta e setenta, presenciei ao corte de vários, na maioria dos casos sem justificação. Patac, nos últimos anos, nas ocasiões muito raras em que um matador actuou no apogeu da sua arte, excelentes chicuelinas comi a capa, uma série de naturales magistrais com a muleta e uma morte perfeita à primeira tentativa, porventura recibiendo -, tornou-se-lhe possível obter duas orelhas, o rabo e uma pata. “Todos los trofeos.
Salir en hombros: abandonar a arena pela porta principal, aos ombros. De vez em quando, os aficionados ficam tão extasiados com uma actuação que invadem a arena no final da lide, erguem o matador aos ombros e levam-no triunfalmente da praça em direcção ao hotel ou, mais provavelmente, a limusina que o aguarda.
Cornada: o touro também pode conquistar trofeus. Poucos matadores chegam ao final de uma temporada sem terem sido colhidos pelo menos uma vez. Um dia em que tomava banho com alguns, fiquei chocado com o número de cicatrizes antigas que exibiam e a extensão de alguma no ventre, era impressionante. Nos velhos tempos muitos daqueles ferimentos teriam sido fatais, mas com o advento da penicilina a maioria pode ser controlada. Ficam como advertências de que o touro por vezes também triunfa.
Indultado: em certas ocasiões, tão raras que a maior parte -dos aficionados, incluindo eu, nunca presenciou nenhuma, um touro revela-se tão heróico que o público não permite que seja morto. Às vezes, o matador, com os olhos marejados, pede ao director que poupe aquele incrível animal, que é então levado para as pastagens. Um caso famoso proporcionou uma das mais belas fotografias taurinas, o touro da ganadaria Cobaleda, Civilón, indultado em Barcelona, em 1936, por pedidos unânimes, vê-se de regresso à herdade originária pastando pacificamente, enquanto oito dos filhos de tenra idade do ganadeiro e alguns amigos, de mãos dadas, o rodeiam a uma distância inferior a cinco metros. O animal olha-os fixamente mas não faz qualquer movimento.
O ensaio de Hemingway na presente forma de livro será particularmente apreciado por dois grupos de pessoas. Os devotos da literatura americana que veneram este escritor entre os quais me incluo, encontrarão no texto uma despedida confusa de uma grandiosa figura lendária. Assistimos ao seu curioso comportamento para com a esposa, quando adopta várias jovens atraentes durante a feira de Pamplona. Observamos a nostalgia com que regressa aos bosques murmurantes perto de Roncesvalles. Depara-se-nos subitamente a sua própria afirmação de The Sun Also Rises “Escrevi acerca de Pamplona uma vez e foi definitivamente.
Algumas passagens ressoam com as autênticas pinceladas de Hemingway “...parámos na localidade seguinte, em que duas cegonhas se aninhavam no telhado de uma casa, onde a estrada descrevia uma curva inclinada. O ninho estava meio construído, a fêmea ainda não tinha posto os ovos e elas cortejavam-se. O macho tocava no pescoço da companheira com o bico e ela olhava-o com devoção cegonhal e depois desviava os olhos e ele tornava a tocar-lhe. Varámos e Mary tirou algumas fotografias mas a luz não era muito boa.
Obtemos numerosos indícios do seu temperamento, das suas bravatas, da sua preocupação com a morte, da sua intolerância perante os inferiores, da sua maravilhosa generosidade quando se identificava com alguém que considerava merecedor de respeito. Naqueles anos conheceu dois jovens americanos meus antigos, John Fulton, um rapaz de Filadélfia que aspirava a tornar-se toureiro, e Robert Vavra natural da Califórnia, que queria ser fotógrafo de animais. Ao escutar as suas histórias, Hemingway puxou impulsivamente de um cheque, que preencheu com a quantia de cem dólares, e, quando tentaram agradecer-lhe, limitou-se a dizer “Buena suerte.
Mas também podia ser implacavelmente agressivo. Quando conheceu outro amigo meu, Matt Carney, que sabia mais de touros do que ele, desafiou-o para uma cena de pugilato e em seguida afastou-se antes que trocassem um único soco.
As páginas do presente ensaio são instrutivas sobre um pequeno contencioso que envolveu o amigo dele, A. E. Hotchner. Alguns críticos, contrariados pela forma como este último parecia ter-se apropriado de Hemingway, acusaram-no de ser um impostor. Um artigo extremamente violento publicado pela revista Atlantic, após a saída do livro de Hotchner, Papa Hemingway, conseguiu mesmo fazer-me duvidar de que ele tivesse conhecido o mestre. Este manuscrito e as fotografias que apareceram com os artigos da Life, provam, porém, que não só o conheceu intimamente, mas também que Hemingway confiava nele. Congratulei-me ao tomar conhecimento da clarificação.
Aprecio em especial os parágrafos dispersos em que nos recorda a forma desprendida como trabalhava e a sua relutância em empregar vírgulas “...entrei na jaula de um lobo que tinha sido capturado recentemente no focal e brinquei com ele o que agradou a António. O lobo parecia saudável e tudo indicava que não sofria de hidrofobia pelo que calculei que a única coisa que podia fazer era morder, e por isso não vi inconveniente em entrar para verificar se podia trabalhar com ele. O lobo era muito manso, e reconhecia alguém que gostava de lobos.
A maior parte destes preciosos fragmentos foi mantida e proporciona vislumbres afectuosos do homem e do escritor. Por outro lado as sequências puramente de touradas foram drasticamente cortadas pelo que o aficionado devoto perde pormenores que lhe agradariam. Os editores da Life e os responsáveis pelo presente volume decidiram e muito bem, quanto a mim — eliminar da maioria das corridas os nomes e intervenções dos matadores que não fossem Dominguin e Ordónez. Mas alguém como eu, conhecedor dos suprimidos e respectivo historial, deplorará a ausência de parágrafos reveladores como os que se seguem:
Havia mais dois matadores no programa daquela tarde.
“Miguelin, um rapaz local baixo e cabeludo e palhaço destemido e Juan Garcia “Mondeno”, um moço alto, magro, circunspecto com uma serenidade, sangue-frio e pureza de estilo controlada que lidava os touros como se dissesse Missa num sonho. Foi o melhor dos novos toureiros que vi o ano passado.
Miguelin era a mesma figura cómica, mas um pouco mais desagradável. Tratava os touros com uma tal insolência e desdém que eles não lhe podiam retribuir e sabia o suficiente e possuía reflexos suficientemente bons para espalhar o seu mau gosto e desdém caricato por tudo o que tornava as touradas merecedoras de serem contempladas, como um xarope pegajoso por toda a arena. Fazia tudo menos mascar pastilha de goma quando efectuava os passes. Era um rapaz da terra e os conterrâneos adoravam as suas atitudes.
O segundo touro de Pepe Luís era difícil e de pernas frágeis. Ele executou excelentes lances isolados com a capa e tentou obter alguma coisa de jeito do animal, mas perdeu a paciência e desistiu.
O rapaz local Francisco Anton “Pacorro foi justifica-damente cauteloso com o seu primeiro touro que era muito perigoso e investia de ambos os lados. Ao princípio, os seus pés saltitavam para trás propositadamente. Por fim não conseguiu dominá-los e chegou a parecer que o touro abandonaria a praça vivo. Os conterrâneos foram impiedosos em especial os do sector do sol que, se pudessem dominar os seus pés teriam sido toureiros...
Com o último touro, que era bom, ele fez tudo o que pôde aos joelhos para controlar os nervos que obrigavam os pés a recuar. Quando conseguiu dominá-los empertigou-se e lidou o touro admiravelmente com os velhos e clássicos passes. Entrou excelentemente a matar mas atingiu o osso. Isso irritou-o e tornou a pousar os joelhos no chão para repetir a sorte. O touro colheu-o, atirou-o ao ar e o corpo desceu como um boneco de trapo e visivelmente ferido.
Repeliu as pessoas que pretendiam ajudá-lo, citou o touro com a muleta e entrou a matar com ímpeto. O animal resultou morto da reunião e tombou. Conduziram Pacorro pelo callejón à enfermaria sob as bancadas. As orelhas e rabo seguiram-no à sala de operações enquanto nós abríamos caminho por entre o apinhado callejón e passávamos por onde os touros eram esquartejados em direcção ao pátio empedrado dos cavalos dos picadores onde os carros se encontravam estacionados.
Eu era capaz de ler reminiscências como estas durante horas, mas confesso que, embora os aficionados como eu perdessem algo com os cortes, o mesmo não se pode dizer quanto ao leitor em geral. Com efeito a pletora de semelhante material - e trata-se de longas páginas suprimidas — alienaria de tal modo o público que o manuscrito talvez nunca fosse terminado pela maioria dos leitores, se o publicassem intacto.
O leitor tauromáquico desejará conhecer o que aconteceu ao conquistador Ordónez após os incandescentes triunfos durante aquele Verão perigoso de 1959. Em anos subsequentes, vi-o actuar umas duas dezenas de vezes e foi invariavelmente uma lástima. Conquanto outros o vissem tourear bem depois de 1959, nas ocasiões em que assisti parecia atarracado e esquivo, aparentemente aterrorizado com os touros bravos que enfrentava. Refugiava-se em todos os truques hediondos que Hemingway desprezava, não conseguindo nada digno de nota com a capa ou a muleta e matando com uma vergonhosa corrida para o lado.
Não obstante enchíamos as praças para o ver, na esperança vã de uma tarde final de triunfo honesto. Mas nunca aconteceu. Ao invés, assistíamos a reveses, ouvíamos assobios e apupos, agachãvamo-nos quando lhe atiravam almofadas e víamos a polícia preparar-se para o proteger, se os admiradores indignados tentassem invadir a arena. Hemingway foi poupado a essas indignidades. Viajara com Ordónez quando o matador era incomparável e foi acerca desse período áureo que escreveu.
Era estranho voltar de novo a Espanha. Nunca esperara que me permitissem tornar a visitar o país que eu mais amava depois da minha pátria e não o faria enquanto houvesse amigos meus presos. No entanto, na Primavera de 1953 em Cuba conversei com bons amigos que tinham combatido em lados opostos na Guerra Civil Espanhola a caminho de África e concordaram que eu podia voltar lá honrosamente se não retirasse nada do que escrevera e evitasse falar de política. Não havia necessidade de requerer visto. Já não era necessário para os turistas americanos.
Em 1953, nenhum dos meus amigos estava preso e tracei planos para levar a minha mulher Mary à feira de Pamplona e depois seguirmos para Madrid a fim de visitarmos o Museu do Prado e, se continuássemos em liberdade, prosseguiríamos em direcção a Valência para assistir às corridas de touros, antes de nos metermos no barco para África. Eu sabia que não podia acontecer nada a Mary porque nunca tinha estado em Espanha e só conhecia as pessoas mais irrepreensíveis. Portanto, se se envolvesse em apuros elas decerto acorreriam em seu auxílio.
Atravessámos Paris rapidamente, rolámos não menos velozmente através da França, via Chartres, Vale do Loire e estrada de Bordéus até Biarritz onde se encontravam várias pessoas à espera para se nos juntarem na nossa passagem a caminho da fronteira. Comemos e bebemos bem e combinámos uma hora para nos reunirmos no nosso hotel em Hendaye Plage e atravessamos a fronteira juntos. Um dos nossos amigos era portador de uma carta do duque Miguel Primo de Rivera, então embaixador de Espanha em Londres que se esperava operasse milagres se me visse em dificuldades. Isto animou-me vagamente.
Estava tempo ameaçador e mesmo chuvoso quando chegámos a Hendaia e continuava ameaçador na manhã seguinte o que não impediu de ver as montanhas de Espanha devido às nuvens densas e neblina. Os nossos amigos não apareceram no local combinado. Dei-lhes uma hora e depois mais trinta minutos. Por fim partimos para a fronteira.
O dia persistia carrancudo no posto de controlo. Apresentei os quatro passaportes na Polícia e o inspector examinou o meu demoradamente sem erguer os olhos. É uma coisa habitual em Espanha mas nunca tranquilizadora.
- E da família do escritor Hemingway? - Acabou por pergun tar, continuando a não me olhar.
— Somos parentes — admiti.
Folheou o passaporte e observou a fotografia.
— E Hemingway?
Perfilei-me e disse “A sus ordenes, o que significa não só às ordens como à disposição de alguém. Eu vira e ouvira dizê-lo em muitas circunstâncias diferentes e estava esperançado em o ter feito agora da maneira apropriada e no tom de voz conveniente.
Fosse como fosse, ele levantou-se, estendeu a mão e declarou:
- Li todos os seus livros e admirei-os sem excepção. Vou carim bar os passaportes e tentar ser-lhe útil na alfândega.
Foi assim que voltámos a Espanha e parecia-me bom de mais para corresponder à realidade. Cada vez que a Guardiã Civil nos mandou parar nos três postos de controlo ao longo do rio Bidassoa, eu esperava que nos dessem voz de prisão ou recambiassem para a fronteira. No entanto, os guardas limitaram-se a examinar os passaportes atenta e polidamente e mandar-nos seguir com acenos cordiais. Éramos um casal americano, um italiano jovial, Gianfranco Ivancich do Veneto, e um motorista também italiano de Udine, que se dirigia a San Fermines, em Pamplona. Gianfranco era um antigo oficial de cavalaria quel combatera ao lado de Rommel e nosso amigo íntimo que vivera connosco em Cuba quando trabalhava lá. Trouxera o carro para nos esperar em Le Havre. O condutor Adamo acalentava a ambição de se tornar proprietário de uma agência funerária. Alcançou-a e se o leitor morrer em Udine ele é a pessoa indicada para se ocupar da solene cerimónia. Nunca ninguém lhe perguntou de que lado da Guerra Civil Espanhola combatera. Para minha paz de espírito naquela primeira viagem eu às vezes esperava que tivesse sido dos dois. Seria perfeitamente possível vir a conhecê-lo bem e apreciar a sua versatilidade que era Leonardiana. Poderia combater por um dos lados em obediência aos seus princípios, pelo outro à sua pátria ou à cidade de Udine e se houvesse uma terceira facção envolvida poderia sempre lutar pelo seu Deus ou pela Companhia Lancia ou pela Indústria das Agências Funerárias às quais se mostrava igual e profundamente devotado.
Quem gostar de viajar alegremente, e eu gosto, deve fazê-lo com bons italianos. Encontrávamo-nos na companhia de dois excelentes num Lancia em condição satisfatória que trepava à estrada de saída do vale do Bidassoa com os castanheiros junto da faixa de rodagem e a neblina a dissipar-se à medida que subíamos, pelo que calculei que se teria extinguido por completo depois do Col de Velate quando desceríamos sinuosamente para o planalto de Navarra.
Este trabalho é acerca de touradas mas não me despertavam então interesse especial à parte o facto de desejar mostrá-las a Gianfranco e Mary. Esta vira Manolete actuar a última vez que aparecera numa arena do México. Era um dia ventoso e couberam-lhe os dois piores touros mas ela gostou da corrida, que foi muito má, e compreendi que se aquela lhe agradara apreciaria as touradas em geral. Diz-se que se uma pessoa consegue man-ter-se afastada das praças de touros durante um ano o pode fazer para sempre. Não é verdade mas contém algo de verídico e, à excepção das corridas no México, eu permanecera afastado catorze anos. Em todo o caso uma grande parte desse período foi como se estivesse preso, com a diferença de que tinha sido fechado fora e não dentro.
Eu lera, e amigos de confiança tinham-me falado, acerca de alguns abusos que haviam aparecido nas touradas nos anos da dominação de Manolete e seguintes. Para proteger os matadores de nomeada, cortavam as pontas dos cornos dos touros para depois os aguçarem, pelo que não se notava a diferença. Mas as pontas ficavam tão macias como uma unha cortada pelo sabugo e se fosse possível fazer o animal embater com elas na barreira doer-lhe-iam tanto que tomaria as maiores precauções para não voltar a atingir nada. Obter-se-ia o mesmo efeito ao investir contra a pesada protecção de lona com que então se envolviam os cavalos.
Com o comprimento dos cornos encurtado o touro perdia a noção da distância e o matador corria muito menos perigo de ser colhido. O touro aprende a utilizá-los na herdade durante os quotidianos embates e por vezes lutas vigorosas com os companheiros e vai assim aperfeiçoando o seu uso. Por conseguinte, os apoderados de alguns matadores de primeiro plano, que também tinham a seu cargo outros de menor cartel tentavam convencer os criadores a produzir aquilo a que nós chamamos meio-touro ou meio-toro. Trata-se de um animal com pouco mais de três anos para que não saiba utilizar os cornos muito bem. Para não ser demasiado forte de pernas e menos irredutível perante a muleta, não deve afastar-se muito do pasto para se dessedentar. Para que tenha o peso exigido querem-no alimentado com cereais a fim de que pareça um touro, pese como um touro e invista rapidamente como um touro. Mas na realidade j não passa de um meio-touro e o castigo suaviza-o e torna-ol tratável e, a menos que o matador o lide com cuidado, acabaj por se tornar inofensivo.
Pode ferir ou matar a qualquer momento com uma arremetida repentina ou mesmo um corno despontado. Muitos homens foram feridos por cornos despontados. No entanto um toura que os tem alterados é pelo menos dez vezes mais fácil de lidar e matar do que aquele que os conserva intactos.
O espectador médio não pode detectar os cornos despontados porque não tem experiência da matéria e não nota a leve aspereza cinzento-clara. Observa as pontas e vê a fina extremidade negra brilhante, sem saber que foi produzida esfregando os cornos com óleo de cárter. Isso proporciona-lhes um melhor brilho do que a graxa às botas mas para um observador experiente torna-se tão fácil de detectar como uma imperfeição num brilhante para um joalheiro e pode distinguir-se de uma distância muito maior.
Os apoderados sem escrúpulos da época de Manolete e dos anos subsequentes eram também com frequência os promotores, ou estavam ligados a eles e a certos criadores de touros. O ideal para os seus matadores era o meio-touro e muitos criadores concentravam-se em produzi-los em grandes quantidades. Criavam-nos tendo em vista o tamanho para facilitar a velocidade, docilidade e fúria fácil e depois alimentavam-nos com cereais para dar a impressão de pujança física. Não precisavam de se preocupar com os cornos, que podiam ser alterados e o público que presenciava os milagres possíveis de operar com semelhantes animais - homens que toureavam de costas, voltados para o público e não para o touro, quando este passava velozmente sob as suas axilas; homens que se ajoelhavam diante do feroz animal e pousavam o cotovelo esquerdo na orelha deste e fingiam que falavam ao telefone; homens que acariciavam os cornos e lançavam ao chão a espada e a muleta, enquanto olhavam a assistência como actores de terceira ordem, com o touro imóvel, sangrando e hipnotizado - esse público que contemplava números de circo supunha que estava em presença de uma nova Era de Ouro da tauromaquia.
Se os apoderados sem escrúpulos tinham de aceitar touros verdadeiros com os cornos inalterados fornecidos por criadores honestos existia sempre a possibilidade de acontecer alguma coisa aos animais nos corredores escuros e no curro onde eram reunidos depois de sorteados ao meio-dia anterior à corrida. Assim, se tivesse sido visto um touro de olhos brilhantes, firme nas quatro patas no apartado (sorteio e distribuição dos animais pelos respectivos compartimentos) e aparecia mais tarde na arena fraco nas pernas posteriores, havia a possibilidade de alguém lhe ter deixado cair uma saca de ração no cachaço. Ou se vagueava pela arena como um sonâmbulo e o matador tinha na sua frente um inimigo desinteressado que se esquecera da finalidade dos cornos que possuía, podia admitir-se a hipótese de lhe terem injectado uma dose substancial de barbitúricos.
Evidentemente que por vezes tinham de lidar um touro verdadeiro de cornos inalterados. Os melhores matadores conseguiam-no mas não gostavam porque envolvia grande perigo. Não obstante todos o faziam um determinado número de vezes por ano.
Portanto, por várias razões, em particular o facto de me ter afastado do espectáculo, eu perdera grande parte da minha velha inclinação para as touradas. No entanto, surgira uma nova geração de matadores e estava ansioso por vê-los actuar. Conhecera os pais deles, alguns muito bem, mas depois de uns morrerem e outros cederem ao medo ou outras causas decidiria não voltar a incluir um toureiro entre os meus amigos porque sofria muito com eles e por eles quando não podiam enfrentar o touro devido ao medo ou à incapacidade que este provoca.
Naquele ano de 1953 ficámos nos arrabaldes da localidade em Lecumberri e cobríamos os quarenta quilómetros até Pam-plona, onde chegávamos às seis e meia de cada manhã para assistir à passagem dos touros nas ruas às sete. Localizámos os nossos amigos no hotel de Lecumberri e embrenhámo-nos no habitual frenesim de sete dias. Após uma semana de festividades ininterruptas conhecíamo-nos uns aos outros razoavelmente e simpatizávamos uns com os outros, ou estávamos convencidos disso, o que significava que fora uma boa fiesta. A princípio eu julgara o Rolls Royce imaculado do conde de Dubley um pouco pretensioso. Agora considerava-o encantador. Foi assim que as coisas se passaram naquele ano.
Gianfranco incorporara-se numa das quadrilhas de dança e bebida composta por engraxadores e alguns aspirantes a cartei-ristas, pelo que a sua cama em Lecumberri o via poucas vezes. Criou um pouco de História dormindo na passagem sem vedação pela qual os touros entravam na arena a fim de ter a certeza de que acordaria para o incierro e não o perderia como acontecera uma manhã. De facto não o perdeu. Os touros passaram-lhe por cima e todos os componentes da sua quadrilha ficaram muito orgulhosos.
Adamo encontrava-se na praça todas as manhãs e queria que o deixassem matar um touro mas os dirigentes tinham outros planos.
O tempo era atroz e Mary ficou ensopada durante as corridas e contraiu um forte resfriado com febre que não a largou até Madrid. As corridas não foram particularmente boas à parte num pormenor histórico. Foi a primeira vez que vimos António Ordónez actuar.
Compreendi que era excepcional desde o primeiro lance longo e lento que executou com a capa. Equivalia a ver todos os grandes capistas, e havia muitos vivos a voltarem a actuar com a diferença de que ele era melhor. Depois, com a muleta, foi perfeito. Matou bem e sem dificuldades. Observando-o com aten-Çao e espírito crítico pressenti que se tornaria um matador Extraordinário se não lhe acontecesse nada. Ignorava então que seria extraordinário independentemente do que lhe acontecesse e aurnentar-lhe-iam a coragem e paixão com cada ferimento grave que sofresse.
Eu conhecera o pai Cayetano anos atrás e escrevera um retra-to dele e o relato das suas actuações em The Sun Also Rises. Tudo o que se desenrolara na arena naquele livro corresponde à realidade e à maneira como ele actuava. Todos os incidentes fora da praça de touros são imaginados. Ele sempre esteve ao corrente disto e nunca emitiu qualquer protesto.
Ao ver António enfrentar o touro reconheci que possuía todas as características do pai nos seus tempos áureos. Cayetano tinha perfeição técnica absoluta. Sabia dirigir os seus subalternos, os picadores e os bandarilheiros, de modo que toda a abordagem do touro, as três etapas que conduziam à morte, resultava ordenada e ponderada. António era muito melhor, pois cada lance que efectuava com a capa, desde o momento em que o touro surgia e cada intervenção dos picadores e a colocação de cada vara era tudo inteligentemente dirigido no sentido da preparação do animal para o derradeiro acto da tourada: a sua dominação por meio do pano vermelho da muleta que o prepara para a morte pela espada.
No toureio moderno não basta o touro ser simplesmente dominado pela muleta para poder sucumbir à intervenção da espada. O matador tem de executar uma série de passes clássicos antes de matar, se o touro ainda se encontra em condições de investir. Nesses passes o animal deve deslocar-se junto do corpo do matador ao alcance do corno. Quanto mais perto passar em obediência à citação e orientação do homem mais profunda a emoção experimentada pelo espectador. Os passes clássicos são todos extremamente perigosos e o touro deve ser sempre controlado pela flanela vermelha que o matador conserva sobre um pau de um metro de comprimento. Foram inventados muitos passes ardilosos em que é ele que se move junto do touro e não o inverso, ou aproveita a sua passagem, saudando-o, na realidade, ao passar em vez de controlar e dirigir os movimentos do inimigo. Os mais sensacionais desses passes de saudação efectuam-se com touros que investem em linha recta e o matador consciente de que não existe perigo relativamente lhe volta as costas para iniciar o passe. Poderia enfrentar um “eléctrico” da mesma maneira mas o público adora estes truques.
A primeira vez que vi António Ordónez compreendi que poderia executar todos os passes clássicos sem simulações, que entendia de touros, que podia matar bem se quisesse e que era um génio com a capa. Apercebi-me de que reunia os três requisitos de um matador coragem, perícia profissional e graciosidade em presença do perigo de morte. Mas quando um amigo mútuo me comunicou, ao abandonarmos a praça de touros no final da corrida, que António desejava que o procurasse no Hotel Yoldi, pensei “Não comeces outra vez a criar amizades entre os toureiros e sobretudo com este pois sabes que é bom e o que perderás se lhe acontecer alguma coisa”.
Por sorte nunca aprendi a escutar os conselhos que dou a mim mesmo ou as advertências dos meus receios. Por conseguinte ao avistar Jesus Córdoba, toureiro mexicano nascido no Kansas, que fala inglês perfeitamente e me tinha dedicado um touro na véspera, perguntei-lhe onde ficava o Yoldi e ofereceu-se para me acompanhar. Jesus Córdoba era um excelente rapaz e um bom e inteligente matador e agradava-me conversar com ele. Separámo-nos à porta do quarto de Ordónez.
António estava deitado na cama desnudo, à parte uma toalha de mãos que lhe servia de tanga. Notei os olhos em primeiro lugar, os olhos mais negros, brilhantes e alegres que alguém jamais viu, e o sorriso agarotado, e não pude deixar de me aperceber das cicatrizes na coxa direita. Estendeu a mão esquerda, pois a direita sofrera um corte profundo da espada na segunda morte, e disse:
- Sente-se na cama. Diga-me uma coisa. Sou tão bom como o meu pai?
Fitando aqueles olhos estranhos, enquanto o sorriso desaparecera juntamente com qualquer dúvida de que seríamos amigos, afirmei que o considerava melhor que o pai e expliquei como este fora bom. Depois falámos da mão. Garantiu que a poderia voltar a utilizar na arena dentro de dois dias. O corte era de facto profundo mas não afectara qualquer tendão ou ligamento. Foi efectuado o telefonema que ele pedira para a noiva, filha de Dominguin, seu apoderado, e irmã do matador Luís Miguel Dominguin, e afastei-me discretamente do aparelho. No final da conversa, despedi-me depois de combinarmos encontrar-nos em El Rey Noble com Mary e temos sido amigos desde então.
Quando vimos António actuar pela primeira vez, Luís Miguel Dominguin já tinha abandonado a actividade. Conhecemo-lo em Vila Paz, a herdade que ele acabara de comprar perto de Saelices na estrada de Madrid para Valência. Eu conhecia o pai de Miguel desde longa data. Fora um bom matador numa época em que havia dois de grande nomeada, e mais tarde um homem de negócios muito competente e astuto, descobrira e tornara-se apoderado de Domingo Ortega. Domtnguín e a mulher tinham cinco filhos, três rapazes e duas raparigas. Eles haviam sido todos matadores. Luís Miguel revelara-se dócil e talentoso em tudo, era um grande bandarilheiro e aquilo a que os espanhóis chamam um torero muy largo, ou seja, possuía um extenso repertório de passes e truques elegantes, e podia fazer tudo com um touro e matar tão bem como lhe aprouvesse.
Foi Dominguin, o pai, que nos convidou para visitar Luís Miguel na sua nova herdade e almoçar na nossa viagem para Valência. Mary, Juanito Quintana, um velho amigo de Pamplona, que foi o modelo do hoteleiro Montoya de The Sun Also Rises, e eu entrámos na casa fresca mergulhada na penumbra depois de suportarmos o calor de Julho de Castela Nova com o vento quente de África soprando as palhas dos campos da debulha ao longo da estrada. Luís Miguel era um homem bem-parecido, moreno, alto, sem ancas, apenas ligeiramente longo de mais no pescoço para um toureiro, com expressão grave, maliciosa, que variava do desdém profissional ao sorriso fácil. António Ordónez estava presente com Cármen, irmã mais nova de Luís Miguel. Era muito morena e bonita, com rosto admirável e bela compleição física. Estava noiva de António com o qual deveria casar naquele Outono e via-se sem dificuldade, em tudo o que faziam e diziam, como se amavam.
Inspeccionámos os animais, a criação e os estábulos e a sala de armas e entrei na jaula de um lobo que tinha sido capturado recentemente no local e brinquei com ele o que agradou a António. O lobo parecia saudável e tudo indicava que não sofria de hidrofobia, pelo que calculei que a única coisa que podia fazer era morder, e por isso não vi inconveniente em entrar para verificar se podia trabalhar com ele. O lobo era muito manso e reconhecia alguém que gostava de lobos.
Contemplámos a nova piscina que ainda não tinha sido cheia, e admirámos a estátua de bronze em tamanho natural de Luís Miguel, coisa rara para um homem ter na sua própria finca ainda em vida, e pensei que ele tinha melhor aspecto do que a estátua embora esta parecesse um pouco mais nobre. Mas é difícil um homem competir com a sua própria estátua de bronze na sua residência.
Quando tornei a ver Miguel foi em Madrid em Maio de 1954, depois do nosso regresso de África. Procurou-nos no quarto do Palace Hotel aonde toda a gente acudira após uma corrida particularmente má num dia de chuva e vento forte. O quarto estava cheio de gente e copos e fumo e demasiados comentários acerca de uma coisa que seria preferível esquecer e Miguel tinha mesmo mau aspecto. Quando se encontra no seu melhor, parece uma combinação de Don Juan e Hamlet bem-humorado, mas naquela tarde ruidosa apresentava-se circunspecto, acabrunhado e cansado.
Apesar de continuar na inactividade Miguel estava a pensar em Participar em algumas corridas em França c eu desloquei-me ao campo com ele um par de vezes em direcção ao Escoriai à sombra do Guadarrama enquanto se treinava com as jovens vacas de lide para ver de quanto tempo necessitaria para recuperar a forma para voltar a actuar na arena. Gostava de o ver trabalhar e do afinco com que o fazia, sem descansar nem poupar-se e da maneira como, quando começava a fatigar-se ou a ficar sem fôlego, redobrava de esforços até que era o animal que ficava exausto. Depois passava a trabalhar com outro, o suor brotando-lhe com abundância e respirando pesadamente para recobrar o alento enquanto aguardava a entrada do animal seguinte. Eu admirava-lhe a graciosidade, a facilidade, o toreo ou a forma como trabalhava com os touros baseada nas suas faculdades físicas, pernas maravilhosas, reflexos, impressionante repertório de passes e conhecimentos enciclopédicos dos touros. Constituía um profundo prazer vê-lo actuar e o campo era bonito na Primavera após o final da época das chuvas. Havia apenas um óbice pela parte que me tocava. O seu estilo não me emocionava absolutamente nada.
Não gostava da maneira como utilizava a capa. A minha boa estrela permitira que visse actuar todos os grandes capistas desde o início do toureio moderno com Belmonte e mesmo no campo era-me possível determinar que Luís Miguel não figurava entre eles. No entanto isso não passava de um pormenor e a sua companhia agradava-me profundamente. Ele tinha um humorismo sarcástico e revelava-se muito cínico e aprendi muitas coisas a seu lado quando permaneceu algum tempo connosco na Finca, em Cuba. Tínhamos longas conversas todos os dias em volta dia piscina depois de eu terminar de trabalhar. Na altura Luís Miguel não tencionava regressar às arenas e um dia pensava tornar-se numa coisa e no seguinte noutra. Costumava sair à noite com Agustin de Foxa, poeta espanhol que exercia as funções de secretário na embaixada espanhola. Este último desfrutava extremamente com a vida e, durante o seu período Foxa, quando Luís Miguel e o nosso motorista Juan regressavam à Finca pouco antes ou depois do romper do dia, o matador encarava seriamente a possibilidade de enveredar pela vida diplomática.
Também considerava a hipótese de se dedicar às letras. Creio que o seu raciocínio obedecia mais ou menos ao seguinte rumo: se Ernesto pode escrever deve ser fácil. Expliquei que não apresentava dificuldade especial desde que escrevesse bem e mostrei-lhe como procedia. Assim, durante dois dias, entretivemo-nos a escrever de manhã e ao meio-dia ele levava para a piscina o resultado dos seus esforços.
Miguel era um companheiro maravilhoso, um convidado perfeito, e revelou-me algumas das coisas mais levadas da breca que eu jamais ouvi acerca da vida e do meio tauromáquico.
Foi um dos elementos que tornou a campanha de 1959 tão ™ terrível. Se Luís Miguel fosse um inimigo e não meu amigo e irmão de Caymen e cunhado de António teria sido fácil. Fácil talvez não, mas só me preocuparia como ser humano.
Permanecemos em Cuba a trabalhar de fins de Junho de 1954 até Agosto de 1956. Eu estava algo amolgado com fracturas nas costas resultantes de desastres de avião em África e tentava recompor-me. Ninguém, podia prever como ficariam até que tivemos de as pôr à prova ao largo de Cabo Branco, Peru, durante a pesca de um enorme espadarte para as filmagens de O Velho e o Mar. Aguentei o esforço satisfatoriamente e quando o nosso trabalho naquela película terminou, para o melhor ou para o pior, passámos o mês de Agosto em Nova Iorque.
Partimos de barco de Nova Iorque a 1 de Setembro, dispostos a visitar a Espanha com escala prévia por Paris para vermos António actuar em Logrono e Saragoça e depois seguir para África onde tínhamos um assunto pendente.
Desembarcámos em Le Havre no meio de uma confusão de repórteres e fotógrafos de ambos os sexos e deparou-se-nos Mário Casamassima com um novo Lancia antigo. Fora enviado de Udine por Gianfranco para substituir Adamo que se tornara uma figura tão importante no mundo dos funerais em Udine e redondezas que tinha tanta dificuldade em se afastar da clientela como um obstetra popular.
Escrevia que estava desgostoso por não poder comparecer para partilharmos a Espanha juntos mas tinha a certeza de que Mário se mostraria digno da sua cidade natal que possuía o maior número de Landas per capita de qualquer parte do mundo. Era piloto de corridas e realizador da TV incipiente e podia encher o tejadilho do Lancia como uma mula de carga e com esse lastro ultrapassar todos os produtos que a Mercedes colocava na estrada. Era igualmente aquilo a que os franceses chamam debrouillard, o que significava que se se metia numa encrenca também era capaz de se desembaraçar dela e se alguém pretendia uma coisa ele podia obtê-lo não apenas comprando-a mas por empréstimo de um novo e dedicado amigo. Fazia amizades dessas todas as noites e em todas as garagens e hotéis. Não falava espanhol mas desenrascava-se sem dificuldade.
Chegámos a Logrono na altura exacta para assistir à corrida. Foi das boas. Os touros eram bravos, possantes, rápidos e violentos e os matadores actuavam cada vez mais perto até aos limites do possível e cada um fez o que pôde.
António quase me fez engasgar de assombro com a capa. Não o género de engasgamento em que as pessoas soluçam como no quadro clássico do francês na Queda da França mas aquele em que o peito e a garganta se contraem e a visão obscurece e enxerga algo que se supunha morto e extinto regressar à vida. A sorte era executada mais pura, bela, perto e perigosamente do que parecia possível e ele controlava o perigo e media-o com exactidão e um rigor micrométrico. Durante todo esse tempo dominava as investidas de um inimigo de meia tonelada, munido de uma arma mortífera em cada lado da cabeça, com uma capa de percal obrigando-o a deslocar-se para a frente e para trás diante do seu peito e joelhos e fazendo escultura com o animal na relação das duas figuras e o movimento lento orientador da capa que os envolvia resultava tão bonito como qualquer escultura que eu jamais admirara.
Quando concluiu a primeira série de verónicas, Rupertl Betville, o nosso amigo inglês e aficcionado de muitos anos, Juanito Quintana e eu entreolhámo-nos e abanámos as cabeças. Sentámo-nos impossibilitados de dizer coisa alguma. Mary se-gurava-me a mão com firmeza.
Agora que a parte inicial terminara ele faria o que melhor sa adaptasse ao touro e o que lhe parecesse também melhor pari realizar uma grande faena e por fim matá-lo-ia para me comprazer. Ele gosta de segredos e eu não conhecia aquele na altura. O segredo consistia em que ia matar recibiendo que é provocar a investida movendo o joelho esquerdo para a frente e agitando a muleta na mesma direcção e, no momento em que o touro investe, esperá-lo e quando baixa a cabeça, descobrindo o espaço entre as omoplatas, cravar a espada apoiada na palma da mão com o pulso firme e inclinando-se nesse sentido, pelo que homem e animal se convertem numa única figura no instante em que a lâmina se embebe até que ficam unidos, enquanto a mão esquerda, durante todo esse tempo, mantém a cabeça do touro baixa com a muleta também baixa, orientando-o para fora da reunião. É a maneira mais admirável de matar e o touro tem de ser preparado para isso ao longo da faena. E também a mais perigosa porque se o animal não estiver perfeitamente controlado pela mão esquerda e levantar a cabeça, a cornada localizar-se-á no peito. António matava touros recibiendo naquele Outono de 1956 para seu próprio prazer, para demonstrar ao público o que podia fazer, por orgulho de efectuar coisas que os outros não podiam ou não queriam e para me agradar.
Só me inteirei disso no final da temporada quando ele me dedicou um touro com as seguintes palavras:
— Ernesto, você e eu sabemos que este animal não vale nada mas vejamos se sou capaz de o matar como lhe agrada.
E fê-lo. Mas antes do termo da temporada o Dr. Tamanes, que era o médico particular dele e de Luís Miguel e um velho amigo, disse-me.
- Se tem alguma influência nele aconselhe-o a não exagerar. Você sabe onde a cornada o pode atingir e eu sou o seu médico.
Após a última corrida em Saragoça fiquei desgostoso e decidi >iao assistir a corridas nos tempos mais próximos. Sabia que António podia lidar qualquer touro e ser um dos maiores matadores de todos os tempos e não queria que o seu lugar na História lhe fosse negado ou ficasse comprometido pelas manobras que se desenrolavam. Eu não ignorava que o actual toureio, a maneira moderna de actuar era muito mais perigosa e desenrolada infinitamente mais perto e melhor do que nos velhos tempos e sabia que precisavam do meio-touro para o conseguir. Para mim era igual. Que se entretivessem com o seu meio-touro desde que fosse suficientemente corpulento para parecer respeitável e não um novilho ou um exemplar reconhecido de três anos e que tivesse os cornos intactos e não fosse alvo de qualquer truque. Mas algumas vezes e em determinadas cidades teria de enfrentar verdadeiros touros e eu sabia que ele seria capaz de o fazer e sair-se tão bem como os maiores toureiros.
Luís Miguel casara com uma mulher encantadora (interrompera a inactividade. No entanto actuava em França e no Norte de África. Em França os cornos dos bois eram cortados nas pontas segundo me informaram, pelo que eu não estava interessado em ir até lá. Resolvi esperar para o ver tourear quando actuasse em Espanha.
Por conseguinte, regressamos a Cuba e trabalhámos ao longo de 1957 e 1958 naquele país ou em Ketchum, Idaho. Mary cuidou maravilhosamente de mim num período mau e longo e com muito trabalho, mas graças a exercício abundante recuperei a saúde e vigor. António teve um ano estupendo em 1958. Estivemos quase a partir para lá por duas vezes mas eu não podia interromper o romance que escrevia.
Enviámos um cartão de boas-festas a António e Carmen pelo Natal no qual eu referia que perdêramos a temporada daquele ano mas não faltaríamos à de 1959 por preço nenhum e apareceríamos a tempo de participar na feira de Santo Isidro em meados de Maio em Madrid.
Quando chegou o momento custou-me abandonar a América e Cuba. A Corrente do Golfo começava a aproximar-se de terra e os enormes peixes voadores de asas negras começavam a aparecer no último dia em que desci o litoral em direcção a Havana no Pilar antes de voarmos para Nova Iorque onde embarcaríamos no navio que nos conduziria a Algeciras. Custava-me perder uma Primavera da minha vila longe da Corrente do Golfo mas no Natal prometera visitar a Espanha. No entanto fiz a mim mesmo a reserva de que se as corridas fossem preparadas ou falseadas regressaria a Cuba depois de explicar a António por que não podia ficar. Não diria nada a mais ninguém e eu sabia que ele compreenderia. Afinal não perderia a Primavera, Verão e Outono por nada deste mundo. Seria trágico perdê-lo e não foi menos trágico presenciá-lo. Mas não era uma coisa que se pudesse perder.
A viagem no Constitution começou com um bom tempo e sol que duraram um dia, após o que imergimos em chuva, vento e forte ondulação que persistiram quase até ao Estreito de Gibraltar. O Constitution era um navio grande e confortável com muitas pessoas simpáticas e cordiais a bordo. Chamávamos-lhe o “Constitution Hilton porque parecia o meio de transporte menos náutico em que qualquer de nós jamais viajara. Talvez “Sheraton-Constitution fosse mais apropriado mas dar-lhe-emos esse nome noutra ocasião. Em comparação com os velhos Normandie, lie de France ou Liberte, era como viver em qualquer hotel da rede Hilton ou ocupar um apartamento virado ao jardim no Ritz de Paris.
Depois de desembarcarmos em Algeciras, seguimos de carro para a residência da família Davis Bill, Annie e os dois filhos pequenos, nas colinas sobranceiras a Málaga, numa villa chamada La Consula. Havia um portão com um homem de guarda quando não estava trancado. E um longo caminho de saibro ladeado por ciprestes. Assim como um jardim arborizado tão atraente como o Botânico de Madrid. E uma casa enorme maravilhosa com aposentos espaçosos e passadeiras de esparto nos corredores e os quartos e todas as salas estavam cheios de livros e viam-se mapas antigos nas paredes e quadros de valor. Não faltavam as lareiras para quando fazia frio.
Havia uma piscina alimentada de água de uma nascente na montanha e o telefone brilhava pela ausência. Podia-se andar descalço mas fazia frio em Maio e os mocassines eram preferíveis para a escada de degraus de mármore. Comia-se estupenda-mente e bebia-se melhor. Todos se preocupavam apenas consigo próprios e quando eu acordava de manhã e me assomava à longa varanda que circulava o primeiro andar e contemplava os pinheiros do jardim até às montanhas e o mar e escutava o vento que murmurava entre as copas das árvores, reconhecia que nunca tinha estado num lugar tão extraordinário. Era o local ideal para trabalhar e comecei imediatamente.
Decorria o final da temporada taurina da Primavera na Andaluzia. A feira de Sevilha terminara. Luís Miguel devia actuar na primeira corrida de Espanha da época, no dia em que o Constitution atracara em Algeciras, mas enviara um atestado médico segundo o qual não podia comparecer devido a uma intoxicação de ptomaína. O facto afigurou-se-me um mau presságio e considerei que o mais sensato seria permanecer na Consula e trabalhar, nadar e assistir a uma ou outra corrida quando se realizasse a uma distância razoável. No entanto tinha prometido encontrar-me com António em Madrid para as corridas de Santo Isidro e precisava de recolher o material de que carecia para concluir o apêndice de Morte à Tarde.
Todos nos esperavam em Jerez quando ele actuara aí a 3 de Maio, segundo informação de Rupert Belville que apareceu em La Consula após a corrida ao volante de um Volkswagen cinzento com a configuração de um besouro que mantinha o seu metro e noventa de altura tão apertado como a carlinga de um avião de caça. António dissera-lhe: “Ernesto tem de trabalhar e eu também. Encontramo-nos em Madrid em meados do mês. Juanito Quintana acompanhava Rupert e perguntei-lhe - como estava António.
Melhor que nunca — respondeu. — Está mais confiante e absolutamente seguro. Passa todo o tempo com os touros. Espere até vê-lo.
Notou alguma coisa de anormal?
Não. Nada.
Como está a matar?
Entra alto, cruzando perfeitamente, com a muleta baixa na primeira vez. Se atinge o osso à primeira tentativa, na segunda baixa um pouco a espada. Não é baixo. Trata-se apenas de um pequeno desvio para atingir a artéria. Localiza o ponto onde ainda é alto e entra da maneira conveniente correndo todos os riscos. Mas aprendeu a evitar o osso.
Continua convencido de que tínhamos razão a seu respeito?
Si, hombre, si. E tão bom como supúnhamos e os maus- -tratos que tem sofrido fortaleceram-no. Não o diminuíram em qualquer aspecto.
- E Luís Miguel?
Não sei como isso vai ser, Ernesto. O ano passado, em Vitória, teve uma corrida de touros autênticos, Miuras, mas não como os antigos do nosso tempo. Bons mas autênticos e não foi capaz de lidá-los. Dominaram-no, e ele é um dominador.
Lidou algum animal sem os cornos alterados?
Talvez. Alguns. Mas não muitos, de certeza.
Está em boas condições?
Dizem que está estupendo.
Bem vai precisar.
Sim - admitiu Juanito. - António é um leão. Até agora so freu dez colhidas graves e depois de cada uma fica melhor.
Costuma participar numa corrida por ano - observei.
Sempre uma por ano.
Bati três vezes com os nós dos dedos no tronco volumoso do pinheiro do jardim junto do qual nos encontrávamos. O vento soprava com intensidade entre as copas e nos dias de corrida, e permaneceu connosco ao longo da Primavera e Verão. Eu nunca conhecera um Verão tão ventoso em Espanha e ninguém se lembrava de tantas colhidas graves numa temporada.
Para mim, o número elevado de matadores colhidos com gravidade em 1959 devia-se, em primeiro lugar, ao vento que descobria e expunha o toureiro quando actuava com a capa e a muleta deixando-o à mercê do touro e, em segundo, ao facto de todos os matadores terem entrado em competição com António Ordónez e tentarem emulá-lo, com ou sem vento.
A tourada perde o seu valor sem a rivalidade. No entanto tratando-se de dois grandes matadores converte-se numa rivalidade mortal. Porque quando um faz uma coisa e consegue fazê-la com regularidade sem que os outros o possam imitar e não constitui um truque mas uma proeza mortalmente perigosa somente possível graças a nervos, discernimento, coragem e arte perfeitos, o que faz aumentar a sua qualidade mortal, o outro, se tem uma falha temporária dos nervos ou discernimento, sofre uma colhida grave ou morre se tenta igualá-la ou excedê-la. Necessita de recorrer a ardis e quando o público aprende a distingui-los dos passes genuínos é derrotado na rivalidade e pode considerar-se afortunado se continua vivo ou em actividade. Juanito Quintana e eu conhecíamo-nos há trinta e quatro anos e havia dois que não nos víamos, pelo que tínhamos muito que conversar enquanto passeávamos no jardim naquela manhã. Falámos do que existia de errado nas corridas e do que se fazia para remediar os abusos e de quais supúnhamos capazes de funcionar ou impraticáveis. Víramos a arte quase destruída por esses abusos, pelos picadores que sangravam o touro quase até à morte, introduzindo a ponta de aço da vara no mesmo orifício e fazendo-o girar repetidamente, picando a espinal-medula, as vértebras e qualquer parte em que pudessem destruir o animal, em vez de tentarem fazê-lo apropriadamente para o cansar e fixar e obrigar a baixar a cabeça a fim de poder ser morto da forma conveniente. Sabíamos que qualquer erro cometido pelo picador se reflecte no seu matador ou, se este é jovem e pouco autoritário, no bandarilheiro confidencial ou no apoderado. Quase todos os abusos praticados nas corridas são imputáveis ao apoderado mas se o matador não concordasse poderia protestar.
Tocámos impressões sobre o facto de Luís Miguel e António terem como apoderados os dois irmãos do primeiro, Domingo e Pepe Dominguín. Concordámos que se tratava de uma situação financeira muito difícil, pois Luís Miguel considerar-se-ia um valor mais elevado na praça do que António devido à sua fama e serviços mais longos e este melhor matador e aproveitaria todas as oportunidades para o provar. Na verdade, tudo aquilo devia exercer efeitos indesejáveis na vida familiar mas excelentes em termos de espectáculo. E também parecia muito perigoso.
Os primeiros doze dias de Maio passaram muito depressa. Eu trabalhava desde manhã cedo e nadava um pouco ao meio-dia, mas com disciplina para me manter em forma. Almoçávamos tarde e íamos à cidade para recolher a correspondência e os jornais e visitávamos a Boite, um clube nocturno que parecia extraído de um romance de Simenon no grande Hotel Miramar sobranceiro ao mar no centro de Málaga onde conhecemos pessoas que trabalhavam lá e depois regressávamos às colinas para jantar muito tarde em La Consula. A 13 de Maio partimos para Madrid, a fim de assistirmos às corridas.
Ao percorrer de carro uma parte do país que não se conhece, as distâncias parecem maiores, os troços difíceis da estrada piores do que são, as curvas perigosas mais horríveis e os declives gradientes mais pronunciados. É como regressar à infância ou aos primeiros anos de vida. Mas o trajecto a partir de Málaga, através da estrada entre as montanha, é complicado mesmo para quem conhece todas as sinuosidades e vantagens que se podem aproveitar. Aquela primeira viagem de Málaga para Granada e Jaen, com um motorista que fora recomendado a Bill, revelou-se pavorosa. O homem cometeu erros em todas as curvas. Confiava na buzina para o proteger dos camiões repletos de carga que desciam, impossibilitados de fazer coisa alguma para o salvar se se equivocasse, e provocou-me suores frios tanto nas subidas como nas descidas. Tentei observar os vales e pequenas localidades e herdades que se espraiavam a nossos pés enquanto subíamos e olhei para trás para contemplar as cristas montanhosas que se prolongavam em direcção ao mar. Vi os troncos escuros dos sobreiros desnudos cuja cortiça fora arrancada um mês antes e olhei para baixo numa curva para admirar os campos de giestas de onde irrompiam picos calcários que se estendiam no sentido dos cumes de pedra e aceitava a condução estúpida e perigosa que tentava impedir que se tornasse suicida por meio de sugestões discretas ou ordens relativas à velocidade ou ultrapassagens.
Em Jaen, o motorista quase atropelou um homem numa rua, por conduzir com excesso de velocidade sem se preocupar com os peões. O facto tornou-o mais sensível aos conselhos e como havia uma estrada menos acidentada dali em diante prosseguimos mais tranquilamente, cruzando o vale do Guadalquivir em Bailén e alcançando outro planalto e região montanhosa, com a sombria Sierra Morena à nossa esquerda. Passámos pelos elevados montes de Navas de Tolosa onde os reis cristãos de Castela, Aragão e Navarra venceram os mouros. Era uma boa região para travar batalha defensiva ou ofensiva, depois de forçar a entrada do desfiladeiro e resultava estranho atravessá-la e pensar no quão difícil teria sido percorrer o mesmo terreno a dezasseis de Julho de 1212 e no aspecto que aquelas mesmas elevações desnudas teriam nesse dia.
A seguir enveredámos por uma subida íngreme e com muitas curvas, até à garganta de Despenaperros que separa a Andaluzia de Castela. Os andaluzes dizem que nunca nasceu nenhum bom toureiro a norte dessa garganta. A estrada é de boa construção e segura para um condutor experiente e no alto há vários restaurantes e pousadas que conheceríamos bem naquele Verão. Mas nesse dia continuámos em frente, agora num troço mais fácil, embora parássemos na localidade seguinte em que duas cegonhas se aninhavam no telhado de uma casa onde a estrada descrevia uma curva inclinada. O ninho estava meio construído, a fêmea ainda não tinha posto os ovos e elas cortejavam-se. O macho tocava no pescoço da companheira com o bico e ela olhava-o com devoção cegonhal e depois desviava os olhos e ele tornava a tocar-lhe. Parámos e Mary tirou algumas fotografias mas a luz não era muito boa.
Quando descemos para a região plana de vinhedos de Valdepenas vimos que as videiras quase não tinham um palmo de altura e a sua extensão prolongava-se até às colinas escuras. Rolámos pela nova e excelente estrada através da área vinícola e tentámos descortinar perdizes que pousassem junto da via-fér-rea que se estendia paralelamente à estrada e pernoitámos num parador, em Manzanares. Ficava apenas a cento e setenta e quatro quilómetros de Madrid, mas queríamos percorrer a região durante o dia, e a tourada só principiava às seis horas da tarde seguinte.
De manhã cedo, antes que alguém se levantasse na pousada, Bill, Davis e eu percorremos a pé três quilómetros por uma estrada secundária que desembocava no centro da velha vila de La Mancha, passando diante da praça de touros baixa, caiada de branco, onde Ignacio Sánchez Mejías fora colhido mortalmente e por ruas estreitas até à Praça da Catedral, após o que enfiámos pelo caminho das pessoas trajadas de preto que regressavam do mercado. Era um mercado asseado, bem abastecido, mas muitos compradores queixavam-se dos preços, em particular do peixe e carne. Depois de Málaga, onde eu não dominava o dialecto, revelava-se agradável voltar a ouvir o musical e límpido castelhano e compreender tudo o que diziam.
Tomámos café com leite em que mergulhámos pedaços de bom pão para o pequeno-almoço numa taberna, ingerimos alguns copos de vinho extraído directamente da pipa e comemos varias fatias de queijo manchego. A nova auto-estrada não passava pela localidade e o homem atrás do balcão disse-nos que poucos viajantes entravam nas tabernas actualmente.
Esta terra está morta, excepto nos dias de mercado - acrescentou .
Como vai ser o vinho este ano?
Ainda é cedo para se poder dizer alguma coisa - garantiu- -me. - O senhor sabe tanto como eu. É sempre bom e sempre o mesmo. As videiras crescem como a erva daninha.
Eu gosto muito dele.
Também eu. E por isso que digo mal. Nunca se diz mal de uma coisa de que não se gosta. Pelo menos agora.
Regressámos à pousada apressadamente. Era tudo a subir e um bom exercício e a vila atrás de nós triste e fácil de abandonar.
Quando acabámos de carregar a bagagem e saíamos do parque de estacionamento para a estrada secundária que conduzia à rodovia principal o motorista benzeu-se com fervor.
- Há alguma novidade? - perguntei.
Santigara-se uma vez na noite em que seguíamos de Algeciras para Málaga e pensei que passávamos pelo local de alguma tragédia horrível antiga e ele manifestava assim o seu respeito. Mas agora fazia um tempo estupendo e íamos percorrer uma estrada desprovida de troços acidentados com destino à capital, além do que as palavras que tinha trocado com o homem me haviam permitido chegar à conclusão de que não se tratava de um católico excessivamente devoto.
- Não, nenhuma em especial — replicou. — E só para chegar mos a Madrid sem contratempos.
“Não te contratei para que conduzisses por meio de milagres ou exclusivamente por intervenção divina”. Reflecti. “Um motorista deve contribuir com uma certa percentagem de métier e confiança e inspeccionar os pneus meticulosamente antes de convidar Deus para seu co-piloto. De súbito lembrei-me das mulheres e crianças envolvidas na situação e da necessidade de solidariedade neste mundo de permanência efémera c repeti o seu gesto. Em seguida, para justificar a porventura excessiva preocupação com a nossa segurança que me parecia prematura se tencionávamos passar três meses, dias e noites, nas estradas de Espanha e egoísta se passássemos esse tempo com os toureiros, pensei numa oração por todos os amigos cancerosos, por todas as jovens, vivas e mortas, e por que António lidasse bons touros naquela tarde. Esta última parte não se concretizou mas por outro lado chegámos a Madrid incólumes após uma viagem temerária através de La Mancha e a planície de Castela Nova e, sem prejuízo para o preço estipulado, o motorista foi recambiado para Málaga quando descobrimos, à entrada do Hotel Suécia, que não sabia arrumar um carro na cidade. Bill Davis incumbiu-se da tarefa e ocupou-se da condução durante o resto do ano.
O Suécia era um hotel novo e agradável nas proximidades do velho Cortes a curta distância da parte velha de Madrid. Por intermédio de Rupert Belville e Juanito Quintana, que nos tinham precedido, soubemos que António passara a norte no Hotel Wellington situado no nosso bairro elegante onde se encontrava a maioria dos estabelecimentos do género construídos recentemente. Queria dormir e vestir-se longe de casa para evitar a visita na sua residência dos jornalistas, admiradores, seguidores e promotores. Por outro lado, o Wellington também não ficava longe da praça de touros e, em virtude das condições caóticas que o tráfego nas ruas costuma assumir por ocasião das festividades de Santo Isidro, convinha que a distância fosse a mais curta possível. António gosta de chegar à praça com antecedência, e ncar imobilizado num engarrafamento é prejudicial para os nervos de qualquer pessoa.
A suite do hotel estava cheia de gente. Alguns dos presentes eram mais conhecidos. Outros via-os pela primeira vez. Havia Um circulo restrito de seguidores no salão. Na sua maioria de meia-idade. Dois eram jovens. Todos muito solenes. Viam-se numerosas pessoas ligadas à tauromaquia e diversos repórteres, dois dos quais de revistas ilustradas francesas, com fotógrafos. Os únicos que não apresentavam ares solenes eram Cayetano, irmão mais velho de António, e Miguelillo, que costumava entregar-lhe a espada.
Cayetalno queria saber se eu ainda possuía o frasco de prata de vodka.
- Ainda - confirmei. - Para as emergências.
- Isto é uma emergência Ernesto. Vamos para o corredor. Abandonámos a suite, brindámos à saúde um do outro, vol támos a entrar e procurei António. Encontrei-o a vestir-se.
Parecia o mesmo de sempre, à parte o facto de ter o aspecto de mais maduro e mais bronzeado em resultado da permanência na herdade. Não estava nervoso nem solene. Actuaria dentro de uma hora e um quarto e sabia exactamente o que isso significava e o que devia fazer e o que faria. Ficámos muito contentes por nos tornarmos a ver e o que quer que partilhássemos continuava vivo como no passado.
Não gosto de me manter muito tempo num quarto de vestir, pelo que depois de ele perguntar por Mary e eu por Carmen e ele dizer que jantaríamos juntos naquela noite, anunciei:
Agora, vou-me embora.
Volta mais tarde?
Com certeza.
Até logo — despediu-se e exibiu o sorriso malicioso que lhe brotava com naturalidade e facilidade sem o menor esforço mesmo antes da primeira corrida da temporada em Madrid. Pensava nela mas não estava preocupado.
Foi uma má tourada e a praça estava repleta. Os touros mostravam-se hesitantes e perigosos, detendo-se a meio das investidas. Foram igualmente hesitantes em avançar para os cavalos. Tinham sido excessivamente alimentados com cereais e apresentavam peso a mais para o tamanho e aqueles que investiram contra os cavalos fraquejaram nas patas traseiras e perderam o fôlego.
Vitoriano Valência que confirmava a alternativa de matador em Madrid demonstrou que não passava de um aprendiz com duas ou três actuações brilhantes no passado e nenhum futuro. Júlio Aparício, um matador completo e hábil, conduziu a lidia, a preparação e colocação dos touros, estupidamente. Não fez nada para lhes eliminar os defeitos e gastou o tempo a mostrar ao público que não investiam em vez de os obrigar a investir. Sofria do defeito do matador que ganhou muito dinheiro no início da carreira e prefere aguardar um touro sem dificuldades ou perigo do que obter de cada um aquilo que pode proporcionar. Não fez nada de jeito com qualquer dos seus animais mas bandarilhou-os hábil e prontamente e sem estilo para provar a quem estivesse interessado, e não a si próprio, que podia fazer alguma coisa com eficiência. Ninguém estava interessado.
António salvou a corrida de um desastre e forneceu a Madrid a primeira amostra daquilo em que se tornara. O seu primeiro touro não valia nada. Era hesitante com as cavalos e não queria investir francamente, mas António atraiu-o com suavidade e delicadeza por meio da capa, fixou-o, instruiu-o e encorajou-o deixando-o passar cada vez mais perto. Fabricou-o num touro lutador perante os nossos olhos. Através do seu próprio prazer e conhecimento do animal parecia incutir-lhe a compreensão na cabeça até se inteirar do que se pretendia dele. Se o touro tivesse uma ideia destituída de interesse António alterá-la-ia com subtileza e firmeza.
Desde a última vez que eu o vira actuar aperfeiçoara a utilizaÇao da capa até atingir na verdade a perfeição. Não se tratava apenas de lances admiráveis executados à passagem do touro nas suas investidas que todos os matadores desejam. Cada lance ntrolava e dirigia o inimigo e fazia-o passar na sua frente atraindo-o com a capa para depois o voltar e levar a retroceder, sempre com os cornos a escassos centímetros dele e a capa movendo-se tão suave e uniformemente no seu deslocamento que lembrava uma cena ao retardador numa película ou sonho.
Com a muleta não recorreu a truques. O touro agora pertencia-lhe. Fizera-o, aperfeiçoara-o e convencera-o sem o magoar ou castigar. Citou-o de frente com a muleta na mão esquerda e fê-lo passar diante dele e à sua volta repetidamente, após o que aproximou os cornos e todo o corpo do seu peito com o verdadeiro pase de pecho e com uma rotação do pulso preparou-o para a morte.
Entrou imediatamente, visando com cuidado um ponto elevado entre os topos das omoplatas e atingiu o osso e inclinou-se sobre os cornos. Na segunda vez fez pontaria para o mesmo ponto e a espada embebeu-se quase até ao punho. Quando os dedos de António começaram a ficar cobertos de sangue, o animal já morrera, embora ainda não o soubesse. António observou-o com a mão levantada, orientando-lhe a morte tal como orientara a única actuação do touro na sua curta existência e, de repente, este estremeceu e caiu pesadamente.
O segundo touro surgiu com pujança mas esgotou-se com os cavalos e começou a fraquejar das patas traseiras a meio das investidas. Era mau de ambos os lados e tinha derrotes irracionais com o corno direito e o esquerdo. A sua defesa não obedecia a qualquer plano. Estava nervoso, histérico e não se endireitava onde quer que António o colocasse e trabalhasse. Touros diferentes podem adquirir confiança em partes distintas da arena mas, embora António actuasse de perto, baixo e ritmicamente para depois o castigar com passes baixos fazendo-o girar sobre si próprio para tentar tomar posse dele e pôr termo às meias investidas e derrotes e correrias fortuitos, o touro mantinha-se parcialmente cobarde e histérico. Não era possível executar uma faena de tipo moderno com ele sem ir parar ao hospital. Desde que as corridas de touros principiaram só existe uma solução para semelhante género de animais: desembaraçar-se deles. Por conseguinte António desembaraçou-se.
Mais tarde, sentado na cama do quarto do Wellington, enquanto arrefecia após o banho de chuveiro, perguntou-me:
Contento com o primeiro, Ernesto?
Você sabe — respondi. — Toda a gente se apercebeu. Teve de o produzir. Teve de o inventar.
Sim, mas portou-se muito bem.
Naquela noite, quando jantávamos no Coto, um restaurante com mesas na sala e ao ar livre num jardim arborizado perto do velho Ritz e defronte do Museu do Prado, estávamos todos muito bem dispostos porque António fora extraordinário no primeiro touro, não tinha de actuar no dia seguinte, o que constitui o lapso de tempo ideal entre duas corridas, havia material nos currais que parecia maravilhoso e ninguém previa que as condições meteorológicas seriam horríveis. Havia o nosso grupo e o Dr. Manolo Tamames, médico pessoal e grande amigo de António e Luís Miguel, com a esposa, dois criadores de touros e António e Carmen. Era agradável voltarmos a estar juntos e conversámos e gracejámos sobre muitas coisas. A semelhança de todas as pessoas verdadeiramente corajosas, António exprime-se com desprendimento e gosta de dizer piadas e brincar com as coisas sérias, uma vez em que desfrutava alguém com naturalidade, comentei:
- E tão nobre e generoso... Que me diz daquilo que fez hoje ao seu grande amigo?
Ele e Aparício eram excelentes amigos. Num dos touros da sua primeira tarde na feira, este último esmerara-se em demonstrar ao público que se tornava impossível fazer coisa alguma com a capa com o animal que lhe coubera. No quite seguinte António afastou o touro do cavalo e executou seis belas comedidas e in-ermináveis verónicas com o touro de Aparício que destruíram por completo o dia do amigo e mostraram à assistência como o animal podia ser lidado se o toureiro quisesse aproximar-se dele e arriscar algumas das suas possibilidades de sobrevivência. - Pedi-lhe desculpa - replicou à minha pergunta.
Luís Miguel actuara na sua primeira corrida em Espanha em Oviedo, nas Astúrias, a sete de Maio e cortara as orelhas a ambos os touros. Participara na sua segunda em Talavera de Ia Reina a dezasseis do mesmo mês, no mesmo dia em que António enfrentava os mansos touros de Pablo Romelo em Madrid. Em Talavera Luís Miguel lidara animais de Salamanca e obtivera um grande triunfo cortando as duas orelhas e o rabo do primeiro e as orelhas do segundo. Encontrava-se em excelente condição e voltara a actuar passados dois dias em Barcelona. O público não enchera a praça de Talavera.
Além das duas corridas em Espanha, até então Luís Miguel actuara três vezes em França, em Aries, Tolosa e Marselha. Executara um trabalho brilhante. Os meus informadores garantiram que em todas elas os cornos dos touros tinham sido preparados em graus variáveis. Ele actuaria no dia seguinte em Nimes e António de imediato na mesma grandiosa arena romana.
Eu gosto de Nimes mas não me apetecia abandonar Madrid aonde acabávamos de chegar para uma viagem tão longa, a fim de ver lidar touros com os cornos alterados, pelo que decidimos ficar na capital.
Mais cedo ou mais tarde António e Luís Miguel teriam de actuar juntos em competição aberta porque a economia taurina atravessava um mau momento com os preços astronómicos que os apoderados pediam e só esses dois matadores poderiam encher uma praça com bilhetes tão caros. Como os conhecia bem a ambos e conhecia António ainda melhor e sabia agora que receberia muito menos do que Luís Miguel, compreendi que a confrontação seria terrível.
António regressou de França onde ele e Luís Miguel tinham triunfado em dias sucessivos. Este último cortara uma orelha do segundo dos seus dois touros a dezassete em Nimes, e, a dezoito, António cortara uma de cada um dos seus e as duas orelhas e o rabo no touro final que lidara e matara em substituição de El Trianero que fora colhido e sofrera um ferimento de oito centímetros no braço esquerdo ao tentar executar um passe de joelhos com a capa quando o animal entrara na arena.
O púbico delirara com António numa parte do pais onde Luís Miguel tinha grande cartel e sempre fora considerado o toureiro número um, e a rivalidade entre ambos achava-se agora desencadeada numa base internacional com fotógrafos e repórteres de publicações ilustradas de França e outros países da Europa que acudiam a Madrid para assistir à sua próxima corrida.
Mary achava-se a contas com um forte resfriado que contrairia num dia em que chovera com intensidade, após o terceiro touro durante a feira de Santo Isidro em Madrid. Tentara livrar-se dele mas a feria não nos permitia um momento de descanso com as corridas a começarem tão tarde que acabava por soprar o vento proveniente das Sierras que dizem capaz de matar um homem mas não de apagar uma vela, o que constituía uma conjugação de factores demasiado complexa para que ela lhe alcançasse o objectivo. Tentou repousar e deitar-se cedo e comemos na cama um par de vezes até que supôs que estava em condições de efectuar a viagem a Córdova a vinte e cinco de Maio. Rupert Belville deixara ficar o Volkswagen quando regressara a Londres e queria que o levássemos para Málaga, pelo que Bill Davis e eu no Ford inglês e Mary e Annie Davis no carro mais pequeno seguíamos velozmente para Córdova pela mesma região de Castela e La Mancha que percorrêramos antes e observámos que as videiras estavam muito desenvolvidas e o trigo fora maltratado pelo mau tempo que afectara a feria.
Córdova é uma cidade produtora de gado assim como de muitas outras corsas e o ambiente no Palace Hotel era alegre e cordial. E estava cheio. Mary e Annie chegaram um pouco depois de nós e uma amiga cedeu o quarto a minha mulher para descansar até à hora da corrida.
Foi uma corrida estranha. Pepe Luís Vásquez que fora um excelente toureiro, possuidor de um estilo muito delicado, regressara da inactividade para participar em touradas suficientes Para comprar a grande propriedade que ambicionava. Era um homem de trato agradável e companheiro leal dos outros toureiErnest Herningway ros mas, como estivera afastado dos touros muito tempo, os reflexos ressentiam-se e não conseguia dominar os nervos se o touro apresentava dificuldades que o tornavam perigoso. Engordara e as subtilezas e requintes do seu estilo pareciam agora, com as adiposidades e ausências de alegria na sua actuação, tristes e deploráveis e achava-se impossibilitado de encobrir o medo. Teve uma acção muito apagada em ambos os touros.
Jaime Ostos, um rapaz de Ecija, uma encantadora vila branca a oeste de Córdova na estrada de Sevilha, mostrou-se tão arrojado como o urso bravo das Sierras da sua região. A semelhança do urso era quase insensatamente corajoso quando enfurecido ou ferido e ainda parecia afectado em virtude de uma concussão que sofrera na sua última corrida com Luís Miguel em Barcelona. Gostei de o ver e preocupei-me com ele durante toda a tarde à medida que aumentava o perigo até que deu a impressão de semi-suicida. Eu sabia que actuava perante os seus conterrâneos e houvera um desaguisado no inicio da temporada, altura em que dissera que não actuaria na mesma praça com António. Tomando tudo isto em consideração dir-se-ia apostado em não sobreviver à presente época. No entanto, à parte pequenas colhidas, safou-se ao longo de todo o ano. Naquele dia em Córdova o seu trato branco e prateado estava coberto de sangue do touro de tão perto dele que passara. Ninguém pediu mais vezes ao touro que o matasse para depois o defraudar, graças a mera sorte, coragem, e intrepidez, do que Jaime Ostos. Cortou as duas orelhas do primeiro e também obteria as do segundo sem a forma infortunada como a espada se cravou.
O primeiro touro de António foi bom e de dimensões razoáveis, embora não enorme, e com cornos apropriados. Antóniol revelou-se admirável com a capa, avançando para o animal, dominando-o, depois lidando-o no seu maravilhoso estilo lentoJ Foi igualmente bom com a muleta e matou perfeitamente. Agitaram-se lenços em toda a praça mas o director da corrida não quis conceder a orelha. Que pretendiam algo de sobrenatural foi a única explicação que consegui apresentar a Mary.
O segundo animal não era um meio-touro. Parecia um exemplar de três anos na melhor das hipóteses, pequeno, com falta de peso e deploravelmente guarnecido. O público protestou ruidosamente e quando o director permitiu que os picadores interviessem os apupos recrudesceram. Eu também estava indignado e perguntava-me o que pensaria o apoderado de António que conseguiria se escolhera um touro daqueles. Com efeito, os veterinários nunca o deviam ter aprovado para participar numa corrida formal.
António mandou dizer ao director que desejava autorização para matar aquele touro e pagar o substituto e lidá-lo e matá-lo no final da corrida. Deferido o pedido, lidou o animal com a muleta, capeou-o duas vezes para o colocar no local conveniente, alinhou-o e matou-o bem com uma única tentativa.
O touro que ele comprara para compensar o deplorável quinto animal, irrompeu da escuridão do curro portador do par de cornos maiores, mais largos, longos e aguçados que eu jamais vira numa arena desde que regressara a Espanha em 1953. Era possante sem ser gordo e perseguiu um dos bandarilheiros ao longo da barreira e depois procurou-o no topo da vedação com o corno direito. António avançou e citou-o e quando o animal investiu moveu a capa, com lentidão e suavidade à sua frente fazendo-o mudar de rumo quando lhe conveio dominando-o por completo e dando uma lição sobre a maneira de lidar um verdadeiro touro de cornos grandes cada vez mais perto e lentamente e de uma forma mais admirável do que qualquer outro toureiro conseguiria enfrentar um meio-touro que tivesse sido preparado. Pediu ao director apenas uma intervenção do picador para que o animal não sofresse demasiados maus-tratos e explicou aos bandarilheiros como queria as farpas cravadas e em que terreno.
Vi-o aguardar com impaciência, sem desviar os olhos do touro um único momento, enquanto observava, analisava, reflectia e planeava. Indicou a Juan onde queria o touro colocado e em seguida assumiu o comando do animal com quatro passes baixos: o joelho esquerdo, perna e tornozelo na areia e a perna direita exposta enquanto fazia o touro avançar e recuar com magia da sua muleta, prometendo-lhe tudo, oferecendo-lhe um alvo e mostrando-lhe com suavidade que aquela parte do jogo da morte não magoava nem castigava.
Após esses passes o touro pertenceu-lhe e António reatou a lição de mostrar ao público o que um grande artista corajoso e conhecedor de touros podia fazer com um verdadeiro exemplar possuidor de cornos volumosos, longos e letais. Demonstrou todos os passes clássicos sem truques nem simulações ou quaisquer concessões, aproximando-se tanto do animal como Jaime fizera mas sempre com a situação dominada. Depois de exemplificar tudo e como se podia executar de tão perto e com tanta pureza e lentidão concluiu com um passe de pecho final, após o que alinhou o touro, despediu-se dele com um movimento da muleta, que depois baixou e enrolou, visou ao longo da espada, e entrou perfeitamente sobre os possantes cornos e o animal saiu morto debaixo da mão dele enquanto a multidão vibrava. O director concedeu as duas orelhas do touro e o público do sector sol transpôs a vedação para levar António e Jaime em ombros à volta da arena. O primeiro ainda resistiu mas conseguiram finalmente levantá-lo e era fácil verificar que a manifestação de entusiasmo não fora preparada. Havia demasiadas pessoas e estavam demasiado excitadas.
Naquela noite dormimos na residência do marquês dei Mérito nas colinas à saída de Córdova. Fora o antigo Mosteiro de São Jerónimo de Valparaiso e um dos lugares históricos de Espanha. Era maravilhoso percorrer a estrada ascendente de piso irregular que conduz a todos os lugares notáveis do país contemplando a sua austeridade medieval na escuridão e depois acordar na cela monástica convertida em quarto para observar a planície de Córdova e mais tarde explorar os jardins capelas e salas históricas à claridade do dia.
Não havia ninguém em casa. Peps Mérito insistira em que ficássemos lá porque os quartos nos hotéis eram reservados com antecedência e telefonara ao guarda de Madrid para que cuidasse de nós. Só tencionávamos passar lá aquela noite mas Mary teve febre e de manhã não se sentia com energias para viajar. Chamámos um médico da cidade e só conseguimos partir na tarde seguinte. Peps telefonou várias vezes para se certificar de que não nos faltava nada. Era um lugar excelente para permanecer e sem o establishment equivalia a acampar num palácio, coisa que raramente se pode fazer na vida civil.
Partimos para Sevilha sob mau tempo pouco depois do meio-dia seguinte e instalámo-nos no Hotel Alfonso XIII com a sua grandiosidade sem conforto e fomos comer à Casa Luís a caminho da tourada. Foi uma boa refeição e uma tourada péssima.
Os touros eram de má qualidade, incertos nas investidas, e foram praticamente assassinados pelos picadores. Não era propriamente a maneira como eles utilizavam as picas ou varas. Não faziam nada de ilegal no modo como picavam os touros. Colocavam-nos bem e firmemente no lugar apropriado e enfrentavam as investidas sem fazer girar as varas. No entanto havia algo de errado na construção destas, pelo que a extremidade metálica se cravava nos animais e o cabo de madeira acompanhava-a. O círculo de metal que se destina a evitar que a ponta penetre roais de onze centímetros desaparecia no corpo do touro, seguida do cabo. Os touros recebiam media-estocadas ou ferimentos de espada de meio-comprimento dos picadores e ninguém sabia ° que um matador conseguiria fazer com animais naquele esta-° Porque poderia avançar para ele semimorto e quase exangue.
As varas são inspeccionadas e seladas pelas autoridades e entregues ao picador por um funcionário do Governo pelo que não se podiam atribuir as culpas aos picadores ou aos matadores sob cujas ordens actuavam. Mas eu não vira varas comportar-se assim desde os velhos e maus tempos em França quando, se os promotores adquiriam seis touros possantes com cornos longos e pesados, a esfera de aço circular da extremidade da vara era por vezes miraculosamente feita de borracha e pintada com tinta de alumínio. Essas esferas, ou redondelas, podiam impedir tanto toda a cabeça e cabo de penetrar no corpo do touro como um punhal de borracha de se cravar na carne, e os animais chegariam às mãos dos matadores meio apunhalados mortalmente pelos picadores. Alguns de nós desencadeámos uma campanha enérgica contra esse e outros abusos da utilização das varas no Sul de França, nos velhos tempos, e eu achava-me profundamente familiarizado com todos os truques.
Naquele dia em Sevilha, como não me encontrava perto do corredor de acesso ao curro, nem no pátio de caballos antes da corrida, porque procurava Mary, a qual embora já não tivesse febre continuava adoentada e cansada, não tive oportunidade de examinar as varas. No entanto haviam sido inspeccionadas e aprovadas, pelo que deviam estar em ordem. Mas produziram estragos horríveis nos touros.
Depois da corrida António disse que a vara do seu segundo touro atingira uma artéria. E era absolutamente exacto. Penetrara o suficiente para alcançar várias e se o picador não acabasse por arrancá-la atingiria uma veia vital. Mesmo assim o sangue brotara com abundância do largo ferimento no cachaço e ao longo da perna, produzindo um longo rasto na areia.
Eu sabia como António podia brilhar com qualquer touro que oferecesse uma maneira de ser lidado. Pelo Natal escrevera-lhe que tencionava procurá-lo e divulgar num artigo a verdade, a verdade absoluta, sobre o seu trabalho e lugar na tauromaquia, a fim de haver um registo permanente, algo que perdurasse após o seu desaparecimento. Ele desejava que eu o fizesse e sabia que podia enfrentar tudo o que surgisse do curro. Agora, havia dois dias que só lhe calhavam touros pequenos e imaturos o que era culpa de alguém. Mostrava-se desgostoso sempre que isso acontecia e o touro de cornos enormes de Córdova custara-lhe quarenta mil pesetas. Ninguém se sentiu satisfeito no final daquela corrida em Sevilha.
Bill e eu partimos aos primeiros clarões da manhã para regressarmos a Madrid. As mulheres levantar-se-iam mais tarde e seguiriam no pequeno Volkswagen cinzento em direcção a Málaga na bonita estrada através e Antequera, e encontrar-se-iam connosco em Granada, onde Luís Miguel actuaria num dia e António noutro. Mary não tinha febre quando se deitara e eu esperava que um dia de descanso e o sol em La Consula a recompusessem. O programa era, porém, brutal, mas depois de Granada as corridas seguintes a que planeávamos assistir situavam-se todas a uma distância razoável de Málaga, onde instaláramos a nossa base.
Como seguimos para Madrid através de nuvens baixas e chuva não pudemos admirar a paisagem excepto durante breves abertas. Estávamos tão carrancudos com o tempo por causa das corridas e escassez de peso e de maturidade dos touros que alguém tentara introduzir no programa e Bill mostrava-se pessimista quanto ao nível da temporada. Nenhum dos dois gostava muito de Sevilha. Esta afirmação equivalia a uma heresia na Andaluzia e respectivos círculos tauromáquicos. Na verdade quem se interessa pelas corridas costuma experimentar uma sensação de misticismo acerca daquela cidade andaluza. No entanto eu acabara de me convencer ao longo dos anos de que havia mais touradas más aí do que em qualquer outro ponto do país.
Vimos alguns bandos numerosos de cegonhas à procura de comida sob a chuva e muitos tipos diferentes de falcões nas áreas arborizadas. Os falcões provocam-me sempre satisfação e viam-se em apuros para encontrar alimento devido ao mau tempo pois "o vento obrigava-os a procurar abrigo. A partir de Bailén, a estrada que passaríamos a conhecer bem estendia-se até ao planalto central e nas abertas da intempérie os castelos e pequenas povoações brancas desprotegidos do vento — não havia possibilidade de os proteger devido à variedade de rumos de que o vento soprava à medida que nos deslocávamos para o norte -salientavam-se banhados pela chuva dos campos de cereais e vinhedos que pareciam ter crescido mais meio palmo desde a nossa passagem para o sul três dias atrás.
Parámos para meter gasolina e aproveitámos para tomar um copo de vinho com umas fatias de presunto e azeitonas no bar da estação de serviço e no final impelimos tudo com café. Bill nunca ingeria bebidas alcoólicas quando tinha de conduzir mas eu conservava uma garrafa fria do leve rosado de Campanas na caixa frigorífica e utilizei-a para acompanhar uma sanduíche de queijo manchego. Adorava aquela região em todas as épocas do ano e sentia-me sempre feliz ao transpor a derradeira passagem e entrar na área áspera de La Mancha e Castela.
Bill tinha relutância em comer até chegarmos a Madrid. Estava convencido de que a comida lhe provocava sonolência na estrada e começava a treinar-se para os percursos de todo o dia e toda a noite que não fartariam. Gostava de comer e reconhecia melhor do que alguma outra pessoa que eu jamais conhecera, a boa comida e onde a obter em qualquer país. Quando visitou a Espanha pela primeira vez instalou arraiais em Madrid e depois percorreu de carro com Annie todas as províncias. Não havia cidade ou vila que não conhecesse e achava-se familiarizado com os vinhos, a cozinha local, as iguarias especiais e lugares onde poder apreciá-los em todas as localidades grandes ou pequenas.
Era um companheiro de viagem admirável e um homem de ferro ao volante.
Chegámos a Madrid a tempo de almoçar no Callejón num restaurante estreito e concorrido na Calle Becerra, onde comíamos sempre que estávamos sós por considerarmos que, de um modo geral, tinha a melhor cometida da cidade. Apresentava uma especialidade regional diferente cada dia mas servia sempre os melhoreis legumes, peixe, carnes e fruta existentes no mercado e uma cozinha simples maravilhosa. Havia vinho tinto, clarete e Valdepenas em jarros pequenos, médios ou grandes, qualquer deles excelente.
Bill revelou o seu apetite depois de emborcarmos alguns copos de Valdepenas da pipa no bar à entrada do restaurante onde aguardávamos que vagasse uma mesa. A ementa continha uma anotação segundo a qual uma dose de qualquer dos pratos oferecidos bastava para encher o estômago mas ele pediu um linguado grelhado seguido de uma especialidade regional das Astúrias que produziria o efeito indicado na ementa a pelo menos duas pessoas. No final observou:
- A comida daqui é muito boa.
E após o segundo jarro dos grandes de Valdepenas admitiu:
- O vinho também.
Entretanto eu comia uma dose de pequenas enguias fritas num molho de alho que pareciam rebentos de bambu levemente quebradiços nas extremidades mas com uma contextura mais mole. Enchiam um prato fundo dos grandes e tinham um sabor divinal e ao diabo com quem encontrasse a seguir numa sala pequena ou mesmo ao ar livre.
As enguias estão excelentes - declarei. - Ainda não me pos so pronunciar a respeito do vinho. Quer provar uma?
Talvez peça mera dose. Experimente o vinho. Acho que lhe vai agradar.
Mais um jarro dos grandes, por favor- pedi ao empregado.
Sim, Don Ernesto. Aqui, está. Já o tinha à espera. O proprietário aproximou-se.
Vai um bife? Os de hoje estão estupendos.
Guarde-os para logo à noite. E os espargos?
São muito bons. De Aranjuez.
Temos uma corrida em Aranjuez amanhã - informei.
Como está António?
Óptimo. Chegou de Sevilha ontem à noite. Nós viemos hoje.
Como foi em Sevilha?
Assim, assim. Os touros não prestavam.
Os senhores e ele vêm jantar cá?
Não creio.
Manterei a sala reservada disponível, se a precisarem. Eles gostaram da última refeição aqui?
Muito.
Boa sorte em Aranjuez.
Obrigado - agradeci.
Tivemos muito má sorte em Aranjuez mas não me assolavam pressentimentos ou presságios ominosos.
No dia anterior enquanto António actuava em Sevilha, Luís Miguel aparecia em Toledo com António Bienvenida e Jaime Ostos. A lotação estava esgotada. Fazia um tempo horrível, chuvoso, e os touros eram bem proporcionados mas de bravura irregular. Os cornos, em conformidade com todas as informações que obtive, tinham sido fortemente aparados. Luís Miguel portou-se bem com o primeiro e muito bem com o segundo. Cortou a orelha deste último depois de o lidar admiravelmente e obteria a outra se tivesse mais sorte com a espada.
Eu lamentava profundamente não o ter visto actuar em particular porque também não o veríamos no dia seguinte em Granada. Mas precisávamos de obedecer ao Calendário estabelecido e eu sabia que em breve teríamos oportunidade de o admirar na arena. Possuía a lista dos seus compromissos firmes e dos de António e não tardariam a actuar nas mesmas feiras e localidades. Depois participaram no mesmo programa e calculei que teriam de actuar sós juntos. Até lá eu acompanhava as actividades de Miguel o melhor possível através de pessoas que me mereciam confiança e assistiam às corridas dele.
Era um bom dia para corridas de touros em Aranjuez, a treze de Maio. O mau tempo fora-se e a cidade parecia lavada de fresco sob os raios solares. As árvores apresentavam-se verdes e as ruas pavimentadas ainda não estavam cobertas de poeira. Havia muita gente do campo com blusões pretos e calças cinzenta listradas da Província e uma multidão apreciável de Madrid. Dirigimo-nos ao velho café-restaurante à sombra das árvores e entretivemo-nos a observar o rio e os barcos de excursionistas. O rio tinha uma cor acastanhada e apresentava o caudal engrossado pelas chuvas.
Mais tarde os nossos dois convidados visitaram os jardins reais na margem do rio e Bill e eu atravessámos a ponte em direcção ao Hotel Delicias para nos avistarmos com António e obter as entradas de Miguelillo, o seu portador da espada. Paguei-lhe os quatro lugares na barreira, indiquei a um jovem repórter espanhol que escrevia uma série de artigos sobre António que o deixasse descansar, e expliquei porquê, e dirigi-me à cama para trocar algumas palavras com ele e dar o exemplo aos seus seguidores retirando-me quase em seguida.
Seguem directamente para Granada ou param pelo cami nho para dormir? - Perguntou-me António.
Tencionamos passar a noite em Manzanares.
Bailén é melhor. Eu conduzirei o carro e podemos conversar e depois comer em Bailén. A seguir continuarei para Granada no Mercedes e dormirei pelo caminho.
Onde nos encontramos?
- Aqui depois da corrida.
Muito bem! Até logo.
Sorriu e compreendi que se sentia bem e muito firme. Levei comigo o jovem repórter do Pueblo para fora do quarto. Miguelillo instalava o equipamento religioso portátil. O pesado estojo da espada trabalhado em relevo estava encostado à parede ao lado do toucador onde ele colocava os escapulários e a lamparina de azeite para arder diante da imagem da Virgem.
A lama em torno da pequena, velha, bonita, desconfortável e decadente arena começava a secar e principiava a levantar-se poeira. Entrámos, procurámos os nossos lugares e contemplámos a intimidade imediata da areia.
António lidou o primeiro touro de Sánchez Cobaleda. Era um exemplar grande, preto e perfeito com cornos enormes de pontas muito aguçadas. Citou-o com a capa com a elegância lenta, confiante e baixa das suas verónicas, aproximando-se tanto quanto possível e depois controlando-lhe as investidas para passar por ele cada vez mais lentamente e tão perto dos cornos quanto o arrojo lhe permitia. Como o público não vibrou como aconteceria em Madrid, efectuou o quite seguinte com chicuelinas menos perigosas menos clássicas, porém num delicado exemplo de floreado sevilhano com a capa. Ofereceu-a ao touro conservando-a à altura do peito. Depois voltou-se lentamente com ela à sua volta rodopiando vagarosamente para dentro e para fora da área de perigo a cada investida do inimigo. E muito agradável de observar mas trata-se basicamente de um truque e não de um lance. O touro começa a passar mas o toureiro gira lentamente para fora do seu alcance à medida que o animal penetra no seu território. Desta vez a assistência gostou. E nós também. E sempre bonito mas não produz qualquer efeito no nosso íntimo.
O touro avançou para a muleta com certo perigo tanto pela direita como pela esquerda e António trabalhou-o baixo como fizera com o de Córdova para o endireitar e incutir confiança. Passara-se algo na cabeça do touro; talvez as chicuelinas o tivessem desiludido. Eu vi isso acontecer em diferentes ocasiões. Agora António tinha de o lidar de muito perto para o estimular. Não era uma questão de uma alteração na sua visão. Tratava-se de algo que ocorria naqueles dez minutos de educação que o animal recebe e o ensina a morrer.
António insuflou-lhe confiança deixando-o dispor da perna direita como um objectivo sólido e depois mostrando-lhe como podia seguir o engodo sem dor e constituir um jogo.
Praticaram o jogo juntos com cada uma das mãos, em voltas sucessivas. Para cima e para baixo. “Aproveita agora, touro. Enrosca-te à minha volta, touro. Experimenta de novo, touro. Mais uma vez.
De súbito o touro teve um pequeno pensamento quando António o fazia circundá-lo. Interrompeu o jogo a meio de um passe longo, viu o corpo e tentou a sorte. O como errou o alvo por uma fracção de milímetros e a cabeça colidiu com António no momento em que passava. Este olhou para trás, atraiu-o com a muleta e fê-lo passar junto do peito.
A seguir repetiu toda a lição ao touro e obrigou-o a efectuar mais duas vezes o passe exacto em que quase o colhera. A multidão achava-se agora totalmente conquistada e António passou a actuar ao som da música que os espectadores tinham pedido. Finalmente matou. Entrou bem e a espada cravou-se com um minúsculo desvio do centro. Toda a assistência exigiu a orelha c agitou os lenços. Mas o touro caíra sangrando da boca como acontece a muitos dos mortos apropriadamente e o director d; corrida recusou o pedido embora o público continuasse a acena com os lenços até que o touro foi retirado da arena
António teve de dar uma volta à praça e sair duas vezes para saudar a assistência. Retirou-se circunspecto e irritado e disse algo a Miguelillo quando este lhe ofereceu um copo de aguo ttebeu um pouco com o olhar perdido no espaço e a segui bochechou e cuspiu a água para a areia. Mais tarde perguntei i o que ele dissera.
— “O que eu tenho de fazer para cortar uma orelha. Bem, ele mostrou-lhes.
Chicueto II era o segundo matador. E, ou era, baixo, com menos de um metro e cinquenta e cinco, grave, de expressão digna e triste. É mais corajoso que um texugo ou que qualquer animal e a maioria dos homens, suponho, e entrou na tauromaquia como novilheiro e mais tarde matador em 1953 e 1954 proveniente da terrível escola das capeas, touradas informais realizadas em praças públicas de povoações de Castela e La Mancha e em menor extensão noutras províncias onde os rapazes locais e grupos itinerantes de aspirantes a toreros enfrentam touros que por vezes já foram lidados repetidamente. Alguns animais que participam em capeas mataram mais de uma dezena de homens. São lidados em vilas e aldeias que não dispõem de meios para construir uma praça e colocando-se carroças em volta para bloquear as saídas do largo e são distribuídas aos espectadores varas pontiagudas de pastores a fim de impelirem os toureiros amadores para a arena improvisada ou espancá-los se pretendem abandoná-la.
Chicuelo II foi uma estrela das capeas até aos vinte e cinco anos de idade. Enquanto os toureiros de nomeada do tempo de Manolete e posteriores enfrentavam touros e meios-touros e outros de três anos com os cornos despontados, ele lidara animais com até sete anos de cornos intactos. Muitos deles tinham sido lidados anteriormente, pelo que eram tão perigosos como qualquer animal selvagem. Além disso fizera-o em aldeias onde não havia enfermarias, hospitais ou médicos. Para sobreviver tinha de ser um profundo conhecedor de touros e da maneira de se aproximar deles sem ser colhido. Sabia como permanecer vivo com touros empenhados em matá-lo e aprendera a executar todos os passos difíceis e ardilosos necessários e todos os truques de circo. Também aprendera a matá-los de forma competente e bem e possuía uma hábil e maravilhosa mão esquerda que o protegia quando entrava para matar e baixava a cabeça do touro perfeitamente para compensar a sua reduzida estatura. E, à parte de ser indiscutivelmente corajoso, era supremamente afortunado.
Naquela temporada abandonara a inactividade porque se aborrecera de tudo menos de lidar touros. Quando se retirara fizera-o por reconhecer que a sorte o protegia e não podia contar com ela eternamente. Agora reaparecia porque nada mais o excitava. Havia também, como sempre, o factor dinheiro envolvido.
Saiu-lhe um bom touro, suficientemente grande em contraste com a sua diminuta estatura para que o animal parecesse enorme. Dispunha de dois excelentes cornos e Chicuelo II desbobinou o seu justamente celebrado tratado sobre a maneira de conservar a vida na arena e passar o tempo mais perto do touro do que qualquer outra pessoa na posse das faculdades mentais se atreveria a fazer. Tirou partido da sensatez, reflexos maravilhosos e sorte surpreendente e executou um número apreciável de bons passes juntamente com os ardilosos e de circo existentes e fê-lo bem. Resultaria muito mais perigoso citar o touro de mais longe e recorrer aos passes clássicos. No entanto não parecia que fosse assim e Chicuelo efectuou tudo o que pôde de costas, olhando a assistência enquanto o animal se deslocava sob o seu braço estendido para lhe recordar Manolete o qual, com o seu apoderado, levara a tauromaquia à sua segunda teia mais baixa para depois ser colhido mortalmente e ao morrer tornara-se um semideus e escapara para sempre às críticas.
O público adorava Chicuelo II e com razão. Era um deles e dava-lhes aquilo que tinham aprendido a acreditar que era o toureio e fazia-o com um verdadeiro touro. Para tal necessitava de sorte mas também de profundos conhecimentos e da mais pura coragem. Atingiu o osso numa das vezes em que entrou para matar e a seguir cravou a espada mais acima, suspendendo-se dos cornos enquanto a extraordinária mão esquerda imobilizava o touro debaixo da palma.
O director concedeu-lhe as duas orelhas e Chicuelo deu a volta à arena, gravemente satisfeito. Gosto de o recordar como foi durante todo aquele Verão e não adianta pensar no que aconteceu quando a sorte o abandonou.
O segundo touro de António era bem constituído, de um negro brilhante, bem guarnecido de cornos e bravo. Entrou admiravelmente e vi que ele queria lidá-lo imediatamente. Principiara com a capa quando um aspirante a toureiro, um rapaz razoavelmente competente e bem-parecido, de camisa clara e calças azuis saltou do sector sol à nossa esquerda, transpôs a vedação e estendeu a muleta diante do touro. Enquanto os três bandarilheiros de António - Ferrer, Joni e Juan - corriam para ele para o segurar e entregar à Polícia antes que o touro o atacasse e ficasse perdido para a lide, o rapaz executou três ou quatro bons lances. Tirou partido do brio natural do touro e colocou-se de través nas investidas tendo, ao mesmo tempo, de evitar três homens velozes que tentavam dominá-lo e arrastar para fora da arena. Nada pode estragar um touro para um matador tão rápida e completamente como a intrusão de um espontâneo. O touro aprende com cada passe e um grande toureiro não executa um único sem ter em vista um resultado definido. Se o animal colhe um homem no início de uma faena, perde toda a inocência de contacto humano apeado em que a corrida formal se baseia. Mas eu via António observar o rapaz enquanto executava os passes com perícia e bem e, apesar de isso o expor a um possível desastre, não se mostrava preocupado. Estudava o touro e aprendia com cada movimento que fazia, Joni e Ferrer acabaram por agarrar o intruso que se deixou levar para a barreira sem protestar. António correu para ele com a capa, dirigiu-lhe algumas palavras rápidas, rodeou-lhe os ombros com o braço e apertou-o. A seguir afastou-se para se concentrar no touro. Agora conhecia-o bem e sabia como o devia lidar.
Os primeiros lances revestiram-se da elegância ponderada e inimitável que parecia interminável enquanto movia a caça diante do touro. Os espectadores sabiam que assistiam a algo que nunca tinham visto e não havia qualquer truque envolvido. Com efeito nunca tinham visto um matador felicitar e perdoar alguém que lhe podia ter destruído o touro e agora davam-se conta de uma coisa que, no primeiro, tinham visto mas não apreciado. António utilizava a capa como ninguém jamais fizera.
Conduziu o touro para que um dos irmãos Salas o picasse e recomendou:
- Tem cuidado com ele e faz o que eu disser.
O touro era bravo e possante e exerceu forte pressão, sob o aço colocado com perfeição. António afastou-o do picador e repetiu as mesmas verónicas lentas e bonitas.
Na segunda investida com a vara bem colocada o touro derrubou o cavalo e projectou Salas contra as tábuas da barreira.
Juan, o irmão e bandarilheiro confidencial, queria que o touro voltasse a investir contra os cavalos porque era muito forte e poderia utilizar mais duas varas para lhe cansar os músculos do cachaço e obrigar a baixar a cabeça a fim de ser mais fácil de matar.
- Não pretendas dar-me lições - advertiu António. - Quero-o tal como está.
Fez sinal ao director da corrida, pedindo autorização para mudar para bandarilhas. Após um único par destas tornou a pedir autorização para lidar o touro com a muleta.
Fê-lo com tanta suavidade, simplicidade e subtileza que cada passe parecia esculpido. Executou todos os clássicos e a seguir pareceu tentar aperfeiçoá-los e torná-los de linha mais pura e mais perigosos ao mesmo tempo que encurtava propositadamente os seus naturais encolhendo o cotovelo para fazer o touro aproximar-se mais do que se suporia que qualquer animal pudesse fazer. Era um touro possante, bravo e forte com bons cornos e António executou a faena mais completa e clássica a que eu jamais assistira.
Depois com tudo feito e o touro preparado para a morte julguei que ele tinha enlouquecido. Começou a efectuar os passes ardilosos de Manolete a que Chicuelo II recorrera só para mostrar aos espectadores que se era o que queriam deviam fazer-se daquela maneira. Trabalhava o touro na areia da arena onde os últimos três tinham sido picados e achava-se revolvida pelos cascos. No momento em que António citava o animal por detrás para efectuar um passe denominado girardilla, a pata direita do touro resvalou, inclinou-se e o corno desse lado cravou-se na nádega esquerda do toureiro. Não há lugar menos romântico nem mais perigoso para ser atingido e António provocara a colhida e sabia-o. Consciente da sua gravidade, enfurecia-se contra a possibilidade de se ver impedido de matar o inimigo e reparar o erro. O touro atingiu-o com violência. Vi o corno entrar e levantá-lo do chão. Mas pousou nos pés e não caiu.
O sangue começava a jorrar com abundância e António encostou-se às tábuas vermelhas da barreira como que para estancar a hemorragia. Como tinha a atenção concentrada nele não me apercebi de quem afastou o touro. O pequeno Miguelillo fora o primeiro a transpor a barreira e amparava-o com um braço, enquanto Domingo Dominguín, seu apoderado, e Pepe, o Irmão, saltavam para a arena. Todos avaliaram a gravidade do ferimento e o irmão, o apoderado e o portador da espada seguraram-no e tentaram conduzi-lo à enfermaria. No entanto ele repeliu-os com um gesto abrupto e bradou ao irmão.
- E consideras-te tu um Ordónez.
Encaminhou-se para o touro sangrando abundantemente e espumando de cólera. Eu vira-o fortemente enfurecido na arena noutras ocasiões e toureava com frequência imerso num misto de beatitude e irritação inteligente e mortífera. Mas tencionava matar o seu touro tão bem como um touro podia ser morto e sabia que tinha de o fazer sem demora antes que desmaiasse devido à perda de sangue.
Alinhou o animal e eu vi-o colocar a muleta cada vez mais baixa e visar o orifício da morte no topo entre as omoplatas, entrar perfeitamente e sair por cima do corno. A seguir levantou a mão ao mesmo tempo que encarava o touro e ordenava que caísse com a morte que lhe colocara dentro.
Conservou-se imóvel a sangrar sem permitir que lhe tocassem até que o touro vacilou e tombou para o lado. O sangue continuava a jorrar e os membros da sua quadrilha receavam tocar-lhe depois de ouvirem o que lhes dissera até que o director da corrida, em resposta aos lenços que acenavam e aos gritos, concedeu as duas orelhas, a cauda e uma das patas. António aguardou que lhe fossem levados os trofeus e eu via-o continuar a sangrar de pé enquanto abria caminho por entre a multidão em direcção à entrada da arena que conduzia à enfermaria. Por fim voltou-se e deu dois passos para começar a percorrer a arena mas caiu nos braços de Ferrer e Domingo. Embora estivesse perfeitamente consciente sabia que sangrava e não havia mais nada que pudesse fazer. A tarde terminara e ele necessitava de se preparar para voltar a tourear.
Na enfermaria o Dr. Tamanes examinou a ferida, viu o que tinha de enfrentar e a gravidade, fez o que era imediatamente necessário e enviou António para a clínica Ruber de Madrid para ser operado. A entrada da enfermaria o rapaz que saltara para a arena chorava.
António emergia da anestesia quando chegámos à Clínica Ruber. A ferida tinha quinze centímetros de profundidade no músculo glúteo da nádega esquerda. O corno penetrara junto do recto, quase lhe tocando, e rasgara os músculos em direcção ao nervo ciático. O Dr. Tamanes explicou-me que a três milímetros mais para a direita teria entrado no recto e atingido o intestino. E a menos do que essa distância em profundidade alcançaria o nervo ciático. Ele abrira a ferida, desinfectara-a, reparara os estragos e cosera-a deixando um dreno que funcionava por sucção graças a um dispositivo com sistema de relojoaria. Ouvia-se o seu tiquetaque como o de um metrónomo.
António ouvira-o noutras ocasiões. Tratava-se do seu décimo segundo ferimento grave produzido por um touro. O rosto man-tinha-se carregado mas os olhos sorriam.
Ernesto - murmurou, pronunciando o nome Erneschto, em andaluz.
Dói-lhe muito?
Por enquanto não. Mais tarde.
Não fale - recomendei. - Descontraia-se o mais possível. Manolo diz que não corre perigo. Se tinha de ser colhido não podia ser em melhor sítio. Informá-lo-ei de tudo o que ele me disser. Agora vou retirar-me. Procure descansar.
Quando volta?
Amanhã quando você acordar.
Entretanto. Carmen permanecera sentada na borda da cama pegando-lhe na mão. Beijou-o e ele fechou os olhos. Ainda não estava bem acordado e a dor a valer não iniciara por enquanto.
Carmen acompanhou-o à saída da clínica e repeti-lhe o que Tamames me dissera. O pai dela era matador. Tinha três irmãos igualmente matadores e agora estava casada com outro. Era bonita, adorável, atraente e calma em todas as emergências e calamidades. Acabava de atravessar a parte penosa e o seu trabalho achava-se apenas no princípio. Tinha aquele trabalho uma vez em cada temporada desde que casara com António.
Como foi possível? — Perguntou-me.
Não havia razão alguma para que acontecesse. Não tinha de acontecer. Ele não precisa de tourear de costas.
Diga-lho.
Ele sabe. Não tenho necessidade de lhe dizer.
Diga-lhe em todo o caso, Ernesto.
Não tem de competir com Chicuelo II. Compete com a História.
Eu sei.
Compreendi que ela pensava que o marido não tardaria a competir com o seu irmão favorito e a História assistiria ao desfecho da emulação. Lembrei-me de que, três anos atrás, quando conversávamos durante o jantar no apartamento deles alguém observara que seria maravilhoso e ganhariam muito mais dinheiro se Luís Miguel regressasse às arenas e actuasse mano a mano com António.
- Nem fale nisso - dissera Carmen. - Matavam-se um ao outro.
Agora disse:
- Boa noite, Ernesto. Espero que ele consiga dormir.
Bill Davis e eu ficámos em Madrid até António ser considerado livre de perigo. Após a primeira noite as dores começaram a valer e foram aumentando até excederem o limite da tolerância. A bomba de sucção com sistema de relojoaria ia extraindo o pus que se formava mas o ferimento estava inchado e duro sob a compressa. Custava-me vê-lo sofrer e não queria ser testemunha da agonia que suportava e da luta que travava para impedir que a dor o humilhasse nos momentos em que recrudescia de intensidade como o vento ascendendo na escala de Beaufort. Eu diria que atingira quase o grau dez ou mesmo a força de um ciclone, como medimos a dor na nossa família, no dia em que aguardávamos que Tamames chegasse para mudar o primeiro penso. É a altura em que se sabe, excepto no caso de possíveis complicações, se o inimigo foi ou não vencido. Se não existem vestígios de gangrena e o ferimento está limpo ganhou-se a batalha e no caso de uma colhida daquela natureza o matador pode regressar à arena dentro de três semanas ou menos, consoante o moral e o treino.
- Onde está ele? - Perguntou António. - Ficou de vir às onze. - Está noutro andar — informei.
- Se ao menos acabassem com o tiquetaque da máquina. Aguento tudo menos esse ruído.
Os matadores feridos que voltarão a tourear o mais depressa possível recebem o mínimo de sedativos, com base na teoria de que não deve haver nada que lhes afecte os nervos ou os reflexos. Num hospital americano talvez o mantivessem isolado da dor, “nevado, como costumam dizer. Em Espanha a dor é encarada muito simplesmente como uma coisa que o homem tem de suportar. Se ela não afecta os nervos do paciente tanto como as drogas é um pormenor que não entra em consideração.
- Não lhe pode dar nada para o aliviar? - Tinha eu pergunta do a Tamames um pouco antes.
- Já lhe dei ontem à noite. Ele é um matador, Ernesto.
António era de facto um matador e Manolo Tamames um grande cirurgião e verdadeiro amigo, mas trata-se de uma teoria dura quando posta em prática. António queria que eu ficasse a seu lado.
Não se sente um pouco melhor?
Dói-me muito, Ernesto. Talvez ele possa alterar a posição do tubo quando mudar o penso. Onde acha que está?
Vou mandar saber.
Estava fresco cá fora com algum vento procedente do Guadar-rama e a temperatura era agradável no quarto imerso na penumbra, mas António transpirava abundantemente devido à dor e comprimia os lábios cinzentos. Não queria descerrá-los mas os olhos não paravam de pedir a comparência de Tamames. A antecâmara estava cheia de gente que se sentava em silêncio ou se exprimia por murmúrios. Miguelillo recebia os telefonemas. A mãe de António, uma mulher roliça de rosto bronzeado, bem-parecida, com o cabelo penteado para trás entrava e saía do quarto, ou sentava-se a um canto e abanava-se ou aproximava-se da cama, Carmen atendia o telefone noutra sala quando não se sentava junto da cama. Na sala de espera os picadores e bandarilheiros sentavam-se ou permaneciam de pé. Apareciam constantemente pessoas que se retiravam depois de deixarem mensagens e bilhetes de visita. Miguelillo providenciava para que só os familiares se mantivessem no quarto. Tamames surgiu finalmente, seguido de duas enfermeiras, e mandou sair todos os que não deviam assistir ao que ia acontecer. Como sempre mostrava-se brusco, formal e humorístico.
— Que mosca lhe mordeu? — Perguntou a António. — Julga que não tenho outros doentes? Aproxime-se - indicou-me. - Distinto colega. Deixe-se estar aqui. Volte-o para o outro lado. Vá, volte-se de bruços. Não corre perigo de Ernesto ou de mim.
Retirou o penso e quando levantou a compressa cheirou-a rapidamente e passou-ma. Cheirei-a igualmente e larguei-a na bacia que uma das enfermeiras segurava. Não havia o mínimo odor de gangrena. Tamames olhou-me e sorriu. A ferida estava limpa, parecia um pouco irritada em torno de quatro da longa linha de pontos, mas o aspecto geral era satisfatório. Em seguida puxou o tubo de borracha e deixou apenas uma pequena secção introduzida.
Acabou-se o tiquetaque — anunciou. — Acalme os nervos. — Procedeu à desinfecção, colocou novo penso e deixou-me ajudá- -lo a aplicar o adesivo. — Agora a dor. A sua famosa dor. O penso tinha de ficar bem apertado. Compreende? O ferimento incha, o que é natural. Não se pode introduzir em qualquer parte do cor po uma coisa maior que o cabo de uma enxada com quinze cen tímetros de comprimento e produzir essa destruição nos músculos sem ficar com uma ferida que inche e provoque dores. O penso aperta-a, o que ainda agrava mais a situação. O que apliquei agora não é mais confortável?
E — admitiu António.
Então, não me fale mais em dores.
O doutor não sentiu as dores mais fortes - observei.
Nem você. Felizmente.
Afastámo-nos para o canto e a família voltou a aproximar-se da cama.
Quanto tempo? - perguntei.
Há-de tourear dentro de três semanas se não surgirem com plicações. É um ferimento enorme, Ernesto, e houve grande destruição de tecidos. Lamento que ele tivesse tantas dores.
E não foram poucas.
Irá ter consigo a Málaga para se recompor?
Creio que sim.
Óptimo. Hei-de despachá-lo para lá assim que estiver em condições de viajar.
Partirei amanhã à noite se ele estiver melhor e sem febre. Tenho muito trabalho à minha espera.
- Muito bem. Dir-lhe-ei se está em condições para se separar dele. Deixei dito que voltaríamos ao fim da tarde. De momento havia muitos familiares e velhos amigos e apetecia-me sair para a luz do dia com Bill e dar uma volta pela cidade. Sabíamos que tudo correria bem e não queríamos intrometer-nos. Ainda havia tempo para visitar o Museu do Prado antes que anoitecesse. Existe lá iluminação apropriada às diferentes horas do dia.
Quando António e Carmen desceram do avião no pequeno aeroporto de Málaga ele apoiava-se pesadamente a uma bengala e tive de o ajudar a dirigir-se para o carro, através da sala de espera. Passara uma semana desde que o deixara na clínica. Ele e Carmen apresentavam-se profundamente cansados da viagem e após um jantar tranquilo ajudei-o a seguir para o quarto.
- Costuma levantar-se cedo não é verdade, Ernesto?
Eu sabia que ele em regra dormia até ao meio-dia quando viajava e toureava e por vezes até mais tarde.
- Sim, mas você fique na cama até tarde. Durma, e descanse o mais que puder.
Quero sair consigo. Na herdade levanto-me sempre cedo. Às primeiras horas da manhã antes de o orvalho secar nos jardins subiu a escada e atravessou o corredor apoiado à bengala e apresentou-se no meu quarto.
Quer conversar? - perguntou.
Sem dúvida.
- Então vamos. - Pousou a bengala na cama. -Deixei de precisar dela. Guarde-a para si.
Caminhámos durante cerca de meia hora, enquanto eu o segurava firmemente pelo braço para que não caísse.
Que jardim... É maior que o Botânico de Madrid.
E a casa apenas um pouco mais pequena que o Escoriai. Mas por outro lado não há reis sepultados nela, pode beber-se vinho e é permitido cantar.
Em quase todos os bares e bodegas espanhóis está afixado o aviso de que é proibido cantar.
Cantaremos - disse ele. - Caminhámos até onde considerou o limite da sua resistência e comunicou-me:
Trouxe uma carta de Tamames para si com indicações sobre o tratamento que devo seguir.
Eu esperava que possuíssemos os medicamentos e vitaminas necessários ou houvesse possibilidade de os obter em Málaga ou Gibraltar.
- Voltemos para dentro e irei buscá-la para podermos começar. Não queremos perder tempo.
Separámo-nos no vestíbulo e ele encaminhou-se para o seu quarto, tentando caminhar com firmeza mas apoiando-se à parede com uma das mãos. Reapareceu com um pequeno sobrescrito de bilhetes de visita que me era dirigido. Abri-o e li a carta:
“Distinto colega: Pela presente confio o meu cliente Ordónez a seus cuidados. Se tiver de operar, faça-o com mano dura. Manolo Tamames.”
Começamos já o tratamento, Ernesto?
Acho que devíamos tomar um copo de Campanas rosado.
Parece-lhe indicado?
Usualmente, não a uma hora tão matutina, mas como laxante.
Podemos nadar?
Só quando a temperatura subir à tarde.
A água fria talvez me fizesse bem.
E talvez também lhe irritasse mais a garganta.
A irritação da garganta já me passou. Vamos nadar agora.
Mais tarde, quando o sol aquecer a água.
Está bem. Então, vamos dar mais uma volta. Fale-me de tudo o que aconteceu. Escreveu bem?
Uns dias bem, outros menos bem.
Comigo passa-se o mesmo. Há dias em que não se consegue escrever nada. Mas o público paga para ver escrever o melhor possível.
A sua escrita não tem sido nada má ultimamente.
Sim, mas sabe o que quero dizer. Há dias em que falta a inspiração.
De acordo, mas faço um esforço e puxo pela cabeça.
Também eu. Mas é maravilhoso quando se escreve a valer. Não há nada melhor.
Agradava-lhe muito, sempre, chamar escrita à faena.
Falámos de toda a espécie de coisas, dos diferentes problemas do artista no mundo em que ele vivia, do aspecto técnico e segredos profissionais, de finanças, às vezes de economia e política. As vezes de mulheres, com muita frequência de mulheres e de que devíamos tentar ser bons maridos, depois das mulheres, das mulheres dos outros, e das nossas vidas e problemas quotidianos. Conversámos todo o Verão e todo o Outono quando seguíamos de carro após as touradas para outras touradas e às refeições e a horas estranhas durante o período de recuperação. Entretivemo - nos como passatempo e divertimento a avaliar as pessoas no momento em que as víamos como se se tratasse de touros. Mas isso foi mais tarde.
Naquele primeiro dia em La Consula conversámos e gracejámos, contentes por o ferimento estar dominado e a recuperação iniciada. António nadou um pouco no primeiro dia. O ferimento ainda purgava e eu mudei o penso. No segundo dia caminhava com prudência mas sem coxear nem hesitar. Cada dia que passava ficava mais forte e melhor. Fazíamos exercício, nadávamos, praticámos tiro ao alvo no olival atrás do estábulos e treinámo-nos bem e comemos e bebemos bem e divertimo-nos. Por fim ele exagerou e foi tomar banho ao mar num dia de mau tempo e as ondas carregadas de areia abriram parcialmente o ferimento, mas eu verifiquei que sarava de modo satisfatório e desinfectei-o e apliquei a compressa e os adesivos.
Estávamos todos bem dispostos e dava a impressão de que Carmen e António tinham voltado à lua-de-mel. A necessidade de convalescer após a colhida proporcionara-lhes a oportunidade de um breve período de vida de casados normal no mês de Junho, e embora fosse pago caro em sangue e perda de honorários, aproveitavam-na o melhor possível e ela parecia cada dia mais bonita.
Partiram finalmente para a sua herdade, que ainda não tinham acabado de pagar, em Valgargado nos montes ondulantes da região de Medina Sidonia perto de Cádis.
Apliquei um último penso ao ferimento para a viagem na furgoneta Chevrolet que fora convertida em autocarro de transporte da quadrilha com o seu equipamento. Por último despedimo-nos e eles afastaram-se com António ao volante.
Luís Miguel actuara quatro vezes desde que António fora colhido em Aranjuez e todas as informações asseguravam que fora magnífico. Eu conversara com ele quando regressara dos seus grandes triunfos em Granada para visitar António na clínica e estava ansioso por vê-lo tourear. Tinha-lhe prometido que iríamos vê-lo a Algeciras, onde actuaria duas vezes.
Foi um excelente passeio ao longo da estrada marginal até Algeciras num dia soalheiro e ventoso. Eu estava preocupado com o efeito do vento na corrida, mas a praça de touros de Algeciras foi construída e situada de modo que recebe excelente protecção do forte vento leste a que chamam Levante. Na realidade trata-se da praça da costa da Andaluzia, à semelhança do Mistral na Provença, mas não preocupava os toureiros embora a bandeira no mastro no topo da praça se agitasse com intensidade.
Luís Miguel foi tão bom como os meus informadores haviam garantido. Mostrou-se orgulhoso sem ser arrogante, sereno, sempre à vontade na arena e com tudo o que se desenrolava perfeitamente dominado. Foi um prazer vê-lo dirigir as operações e assistir à manifestação da sua inteligência. Revelava a concentração respeitosa e absoluta no seu trabalho que distingue todos os grandes artistas.
Com a capa foi melhor do que me recordava de actuações anteriores mas as verónicas não me impressionaram. No entanto o repertório variado dos seus passes era admirável - infinitamente hábeis e executados com perfeição.
Era um bandarilheiro magistral e cravou três pares que se achavam à altura do trabalho dos melhores artistas da especialidade que eu vira. Não se tratava de números de circo nem se baseavam em posições determinadas. Em vez de galopar em direcção ao touro atraia-lhe a atenção desde o princípio e levava-o ao contacto, orientando-o por um exercício de geometria até que, quando o corno procurava o homem, levantava os braços bem alto e espetava as bandarilhas no ponto exacto em que se deviam situar.
O seu trabalho com a muleta foi eficiente e interessante. Os passes clássicos eram bem executados e ele dispunha de uma grande variedade de todos os tipos que utilizava extensivamente. Matou com perícia sem se expor demasiado. Calculei que podia matar realmente bem se quisesse. Compreendi por que fora o primeiro toureiro de Espanha e do mundo (é a maneira espanhola de classificar os lugares) durante muitos anos. Pressenti que constituiria um competidor perigoso para António, e ao observá-lo em ambos os touros — ainda foi melhor no segundo — não subsistia a menor dúvida no meu espírito de como a competição terminaria. Convenci-me depois de ver Luís Miguel executar o seu truque com o touro quando, após a preparação com a muleta, pôs esta e a espada de lado e ajoelhou-se cautelosamente dentro do campo visual do animal, incólume, diante dos cornos.
O público adorou aquilo mas depois de assistir duas vezes fiquei a saber como se fazia. E apercebera-me de outra coisa. Os cornos dos touros de Luís Miguel tinham sido despontados e depois restituídos à configuração normal e vislumbrei o brilho do óleo que dissimulava as manipulações efectuadas e lhes conferia o aspecto usual. Os cornos pareciam intactos, excepto para quem sabia como observá-los.
Luís Miguel encontrava-se em excelente forma, era um grande toureiro, possuía enorme classe, profundos conhecimentos, encanto extraordinário na arena e fora dela e constituía um competidor perigoso. Parecia ligeiramente cansado naquele princípio de temporada para quem tinha um calendário sobrecarregado à sua frente.
Eu sabia, porém, que António dispunha de uma vantagem concreta naquela fase do duelo. Lidara touros com cornos intactos em Madrid e vira-o actuar com o animal de guarnição descomunal em Córdoba. Agora, deparava-se-me Luís Miguel a enfrentar touros com os cornos preparados.
Entendidos que se sentavam perto de nós estavam conscientes disso mas não se importaram. Tinham vindo para assistir ao espectáculo. Outros que estavam metidos no negócio também não se apoquentavam. Fazia parte desse negócio. Mas a maioria dos espectadores ignorava-o. Eu estava ao corrente do facto e preocupava-me porque acreditava, ao vê-lo actuar, que Miguel tinha uma grande percepção e conhecimento dos touros e poderia enfrentar qualquer tipo deles e figurar entre os maiores da especialidade talvez ao lado de Joselito. Mas uma dieta daquele tipo de touro com as defesas alteradas afectá-lo-ia, subtil embora permanentemente, para os verdadeiros quando necessitasse de os lidar.
Após a corrida, encontrámo-nos com Miguelillo, que nos acompanharia à herdade de António. Abandonámos a cidade ao anoitecer e percorremos a estrada que trepava os arborizados contrafortes das elevações ocidentais da Europa, afastando-nos do mar e penetrando na região de cursos de água, lagoas secas e colinas ondulantes que se prolongavam para além da empoleirada vila mágica e branca de Vejar, em direcção à estrada secundária que circundava as elevações e servia de acesso à herdade de António. Chegámos tarde, jantámos à meia-noite e fomos para a cama logo a seguir. A herdade era uma bela porção de terreno com cerca de mil e duzentos hectares e água excelente. Havia vacas de reprodução, dois touros de cobrição e seis novilhos e seis touros prontos para participar em corridas. Os pastos nunca tinham sido utilizados para animais daquela natureza, pelo que se achavam em perfeitas condições. António reservara uma Parcela apreciável das terras para cultivar cereais. Procedia-se à safra naquele momento e saímos no Land-Rover para observar tudo de manhã cedo.
De regresso à casa caiada de branco com os seus celeiros, estábulos, capoeiras, pátios e construções para armazenamento dos cereais e alfaias agrícolas inteirámo-nos de que Luís Miguel, Jaime Ostos e dois criadores de touros viriam almoçar.
Foi um almoço prolongado, alegre e abundante com os quatro visitantes, António, eu e Rupert sentados a uma mesa do solário, e as nossas mulheres, Bill e um casal valenciano, grandes amigos de Carmen e António, noutra da enorme, fresca e escura sala de jantar. O facto recordou-me de certo modo aquelas refeições durante a guerra em que um dos generais que se detestavam desde os dias em West Point era o anfitrião no seu quartel-gene-ral e almoçavam no meio de uma supercordialidade, observando-se mutuamente na esperança de detectarem algum ponto vulnerável, novos defeitos, nervosismo ou decadência. Foi um almoço muito alegre e todos emitiram comentários jocosos a respeito dos outros, embora com prudência e as garras encolhidas. Luís Miguel e eu mostrámo-nos um pouco ásperos um com o outro, mas dentro de um mínimo de deferência. No fundo éramos todos amigos. Eu revelava cordialidade e ele também. No entanto a tensão entre Miguel e António vinha de longe. Fora um gesto atencioso da parte do primeiro visitar a herdade de António pela primeira vez e Carmen apreciara-o e ficara contente com isso.
Partimos para La Consula três dias depois. Haviam sido dias excelentes e eu sabia que António não tinha preocupações a respeito do ferimento e dormia bem e recompunha-se com rapidez. Encontrar-nos-íamos em Algeciras dentro de quatro dias, onde Luís Miguel voltava a actuar. Na segunda-feira a seguir à corrida, efectuaríamos uma viragem de um dia até Ronda. Depois António regressaria à herdade e começaria a treinar-se com o gado de reprodução que estava a ser testado e nós transporiamos as montanhas em direcção a La Consula para trabalhar até que ele principiasse a tourear.
Os touros de Pablo Romero que Luís Miguel lidou em Algeciras estavam em tão boas condições, tão firmes nas pernas e eram tão rápidos como os da mesma ganadaria que António enfrentava em Madrid, que tinham sido excessivamente pesados e deficientes. Luís Miguel foi soberbo toda a tarde. Não parecia tão fatigado como na semana anterior, mas isso talvez se devesse ao facto de ter podido repousar uma semana antes da nova corrida. Enfrentou o primeiro touro com os joelhos pousados na areja e executou uma bela larga. Todo o trabalho de capa foi excelente e as verónicas as melhores que eu jamais lhe vira executar. Dedicou o touro a Mary e a mim, proferindo o nome dela em voz alta e clara para que soubesse que se lhe destinava e se levantasse. Encontrávamo-nos a meia altura das bancadas acima de uma das entradas para a barreira e, levantados, não conseguíamos ouvir o que ele dizia limitando-nos a vê-lo mover os lábios. Mary estava muito excitada e corara. De repente ele atirou a montera e eu recolhi-a e entreguei-a a Mary e sentámo-nos para o ver executar uma faena maravilhosa com a muleta directamente a nossos pés adaptando-se ao touro e à sua velocidade, dominando-o e efectuando os passes lenta e admiravelmente em todo o seu longo e variado repertório. Atingiu o osso por duas vezes quando entrou para matar e fê-lo sempre tão bem que a tentativa merecia uma estocada. Na terceira vez embebeu a espada por completo. O público queria que lhe concedessem uma orelha devido à sinceridade das suas duas viagens com a espada mas o director da corrida discordou. A multidão ficou indignada e obrigou Luís Miguel a dar duas voltas à arena.
Com o segundo touro ainda foi melhor. Tratava-se de um exemplar perfeito para a sua lide. Não tinha um único defeito e Miguel apercebeu-se instantaneamente e executou seis verónicas sem alterar a posição dos pés. Cravou três pares de bandarilhas poder a poder do mesmo tipo da sorte anterior, citando o touro e puxando-o para si até que se deu a reunião e desviou-se no derradeiro instante ao mesmo tempo que estendia os braços por cima dos cornos do animal e cravava as bandarilhas verticalmente no lugar apropriado. Era um bandarilheiro extraordinário e eu sentia-me profundamente impressionado e emocionado com a sua perícia, conhecimentos e capacidade artística. Fazia tudo com uma graça e confiança fáceis e parecia contente e supremamente seguro de todos os seus movimentos.
Em seguida hipnotizou o touro com a oscilação lenta da muleta para a frente e para trás, estendida diante dos olhos do animal que eu observara antes. Aturdiu-o um pouco e fixou-o temporariamente. Pode conseguir-se o mesmo efeito com uma galinha colocando-lhe a cabeça debaixo da asa e embalando-a, para trás e para a frente com as mãos meia dúzia de vezes. Depois pousa-se no chão com a cabeça na mesma posição e fica imóvel, hipnotizada, durante uma hora ou mais até que acorde. Era uma habilidade de salão que obtinha grande êxito na África Oriental. As vezes eu punha uma dúzia de galinhas a dormir à entrada de uma cabana numa aldeia junto do Kilimanjaro quando precisava de uma coisa com urgência e havia necessidade de recorrer a truques mágicos para a obter.
Luís Miguel hipnotizava o touro com os passes lentos e depois ajoelhava-se diante dele dentro do seu campo visual, largava a espada e a muleta e voltava-lhe as costas. António e eu chamávamos a isso o truco ou truque. Era bom, mas não passava de um truque. O trabalho de Luís Miguel fora tão superior e brilhante que não necessitava daquilo. No entanto utilizava-o como medida de segurança contra o director da corrida e o público.
Quando acordou o touro e o fixou para o matar entrou bem com a espada e depois cortou a espinal-medula à primeira tentativa com o descabello. O animal tombou como se tivessem desligado a corrente eléctrica que o mantinha de pé. O bandarilheiro de Miguel cortou as duas orelhas em obediência ao sinal do director que acedeu às solicitações do mar de lenços que se agitavam na praça. A multidão desejava dar-lhe algo mais.
Após a corrida dirigimo-nos para o ambiente agradavelmente ruidoso e concorrido do velho Hotel Maria Cristina, em Algeciras. Passámos algum tempo com Luís Miguel e Mary inteirou-se do que ele dissera quando lhe dedicara o touro: “Mary e Ernesto dedico a morte deste touro à nossa amizade para que dure eternamente”. Ficámos sensibilizados e o facto tornou as coisas mais complicadas que nunca. Eu procurava ser absolutamente imparcial na minha apreciação de Luís Miguel e António mas a rivalidade começava a assumir o aspecto de uma guerra civil e, a neutralidade tornava-se cada vez mais difícil. Consciente de que Luís Miguel era um matador vastamente versátil e da perfeita condição em que se encontrava eu abarcava bem as dificuldades que se deparariam a António quando começasse a actuar nos mesmos programas.
Luís Miguel tinha o seu lugar a preservar. Considerava-se o primeiro matador de touros e era rico. Embora isto constituísse um factor de peso que transportava para a arena, adorava a lide e esquecia-se da abastança em que viva quando se achava em actividade. No entanto, desejava que as probabilidades se inclinassem a seu favor e isso envolvia encurtar o comprimento dos cornos dos touros. Também queria que lhe pagassem mais do que a António e era aí que se levantava o obstáculo perigoso. António possuía o orgulho do demónio. Estava convencido de que era melhor matador do que Luís Miguel e desde longa data. Sabia que ainda podia exceder mais a diferença independentemente da condição dos cornos dos animais que enfrentasse. Portanto, Luís Miguel era mais bem pago do que ele, e eu sabia que se tal acontecesse quando actuassem juntos, António daria largas à estranha qualidade latente existente.
A corrida de rivalidade de abertura realizou-se em Saragoça. Todos os que se interessavam pela tauromaquia e podiam proporcionar-se a despesa estavam presentes. Assim como todos os críticos de Madrid e o Grande Hotel achava-se superlotado à hora do almoço com criadores de touros promotores aristocratas titulares, antigos organizadores de corridas de cavalos e todo o pequeno grupo de seguidores de António. Havia igualmente muitos seguidores de Luís Miguel, políticos entidades oficiais e militares, Bill e eu almoçámos numa casa de pasto que ele conhecia e quando subimos ao quarto de António encontrámo-lo bem disposto mas um pouco indiferente. Eu pressentia sempre quando as pessoas o enervavam pela maneira como movia a cabeça como se tivesse o pescoço algo rígido e intensificação do sotaque andaluz. Disse que tinha dormido bem. Após a corrida seguiría-mos todos para Teruel onde jantaríamos. Comuniquei-lhe que Bill e eu partiríamos para lá directamente da praça de touros porque ele conseguiria maior velocidade no Mercedes. Tudo aquilo recordava-me demasiado a conversa antes da corrida de Aranjuez mas ele queria que fosse assim. Quando nos retirámos sorriu com naturalidade e piscou-me o olho como se tivéssemos um segredo. Não estava enervado mas um pouco tenso.
Passei pelo quarto de Luís Miguel a fim de lhe desejar touros bons. Também se apresentava um pouco tenso.
Era um dia quente e o sol de Junho quase insuportável. O primeiro touro de Luís Miguel entrou bem e investiu contra os picadores com vigor e determinação Luís Miguel tomou conta dele depois do primeiro quite e revelou a mesma boa forma, arrogância e domínio com a capa da última vez que o víramos actuar.
A seguir António lidou o touro com a capa quando este tornou a voltar-se para o picador. Atraiu-o ao centro da arena e fê-lo passar com extrema lentidão e perto, mantendo uma imobilidade quase escultural ao corpo e repetindo a sorte de uma maneira tão temerária que custava a crer que não se tratasse de uma ilusão de óptica. O público - e Luís Miguel - sabia que a diferença entre os dois rivais com a capa fora estabelecida.
Luís Miguel cravou dois pares de bandarilhas e um soberbo par final citando o touro e esperando-o até à última fracção de segundo antes de se desviar para o lado a fim de o colocar e em seguida rodopiou para fora da área de perigo. Era um admirável bandarilheiro.
Com a muleta assumiu prontamente o comando do touro e trabalhou-o de forma inteligente e bem com passes longos. Mas não havia magia nos seus movimentos. O quite de António com o seu, que não fora um touro tão fácil, absorvera-lhe parte das faculdades. Entrou para matar duas vezes sem resultado nem grande decisão. A seguir fê-lo melhor e metade da espada ficou rígida no orifício mortal e Luís Miguel e obrigou o touro a baixar a cabeça e o focinho a contactar com a muleta estendida cravou o descabello e tudo terminou. A multidão vitoriou-o e ele deu uma volta à arena de lábios comprimidos e um leve sorriso. Era uma expressão que passaríamos a conhecer bem naquele Verão.
O primeiro touro de António entrou bem. Ele citou-o e aproximou-se cada vez mais a cada lance adaptando-se-lhe e movendo a capa com o velho ritmo de parar o coração.
Manteve o animal intacto através do contacto com os picadores e uma vez colocadas as bandarilhas reatou a faena onde a interrompera lidando perfeitamente no mês anterior em Aranjuez. A colhida não o diminuíra de modo algum. Apenas lhe dera uma lição e ele iniciara a lide com toda a sua pureza de estilo tornando o touro seu parceiro e ajudando-o quase com ternura a roçar o corno de um modo tão letal quanto possível sem perder o domínio da situação. Por fim quando o touro deu tudo o que tinha António matou-o com uma única tentativa sobre os cornos. Para mim era um pouco baixo mas o público achou bem assim como o Director da corrida que lhe concedeu uma orelha.
Bill e eu descontraímo-nos. António regressava como se não se tivesse ausentado. Era isso que interessava. A dor e o choque não haviam produzido estragos no seu íntimo. Deixava transparecer um pouco de cansaço em torno dos olhos. Mas nada mais.
O segundo touro de Luís Miguel era fraco de pernas. Ele tentou trabalhá-lo bem e após um bom começo o animal perdeu a firmeza numa das patas. Miguel pediu autorização para pagar o substituto e lidá-lo a seguir ao de António. Depois desembaraçou-se do animal incapacitado e entrou o derradeiro touro de António.
Não era verdadeiramente bravo arrancava com lentidão e não servia para uma faena espectacular. Necessitava de ser dominado abaixado com a muleta e morto com prontidão. Ao invés, António principiou a trabalhá-lo e convertê-lo num touro a valer. Lidou-o admiravelmente com a capa antecipando e corrigindo-lhe os defeitos com a sua coragem e experiência. Era estupendo de observar mas muito sinistro. Todos os bandarilhei-ros estavam nervosos e notei o rosto branco e apreensivo de Miguelillo.
António julgou ter alinhado o touro com a muleta mas quando o citou de longe o animal travou a meio do passe e tentou atingir o corpo atrás da muleta. António manteve-o à distância necessária e livrou-se dele. O touro voltou a tentar. Nunca fora um exemplar para o género de lide que António tinha em mente. Este reconhecia-o agora e compreendia que exagerara a confiança que depositara nele. Por conseguinte efectuou os passes indispensáveis a fim de o preparar para a morte, posicionou-o e entrou por cima do corno com a espada levantada até ao punho na periferia inferior da área legal.
Luís Miguel recebeu o substituto, um touro possante com um pouco de peso a mais de Samuel Flores, bons cornos e destituído de más intenções e trabalhou-o no seu estilo. Colocou quatro pares de bandarilhas não do tipo muito dispendioso que cravara no primeiro touro mas da boa qualidade de Macy. Com a muleta revelou-se inteligente seguro e calmo. A seguir executou todos os truques que sabia que o público apreciava e fê-lo com perfeição. Na primeira tentativa com a espada entrou com algumas dúvidas. Na segunda visou o topo da área legal e tornou a enfiar metade da lâmina situada sólida e perfeitamente na região da aorta. Viu o boi sofrer a sua coronária e apagou-lhe as luzes com o descabello. Concederam-lhe as duas orelhas e o rabo.
- Luís Miguel vai ter de gastar muito dinheiro esta temporada se quiser dizer a última palavra com António a quarenta mil pesetas de cada vez - observou Bill.
Era certo que Luís Miguel o vencera no papel mas o sorteio dos touros depende da sorte ou assim se supõe e nos dois sorteados António ficara em vantagem. O touro suplementar levara a balança a inclinar-se a favor de Luís Miguel.
O dia de hoje foi instrutivo - declarei - Luís Miguel é muito inteligente e aquele quite de António no seu touro abalou-o. impressão ficou gravada nele. Verá. Foi o que António fez ao infortunado Aparício em Madrid.
Não esqueça que actua sempre depois de Luís Miguel - volveu Bill - O que também é uma grande vantagem.
Teremos de ir inventariando os substitutos.
Talvez vejamos um número apreciável deles.
Não acredito que a emulação dure tanto tempo.
Nem eu - admiti.
Eu estava exausto da corrida e do que tínhamos visto e sentido. Nunca gostei de conduzir depois de uma tourada mas tínhamos touros no dia seguinte às cinco horas em Alicante no Mediterrâneo e no outro a seguir às seis em Barcelona e no diato às cinco em Burgos. Uma pessoa precisa de ver as distâncias num mapa e conhecer o estado das estradas para compreender o que isso significa. Tínhamos viajado de carro naquele dia de Madrid para Saragoça e antes disso de Málaga para a capital. Uma grande parte da estrada de acesso a Teruel nunca foi reconstruída devidamente depois da Guerra Civil. Era estreita e perigosa de percorrer com certa velocidade à noite mas tratava-se do único caminho para atalharmos em direcção ao Mediterrâneo. Rolámos na escuridão tão velozmente quanto a segurança permitia ou talvez um pouco mais depressa e encontrámo-nos todos na pousada a norte de Teruel. Apesar de tarde serviram-nos uma boa refeição de acepipes bifes legumes e salada mista
Como se sente? - perguntei a António.
Muito bem. A perna não me incomodou. Só me senti um pouco cansado perto do fim. E você?
Fico sempre cansado depois de uma corrida desse género.
Preciso de algum tempo para arrefecer. Comi uma sanduíche de presunto com uma cerveja. Mas às vezes o estômago não pede comida. Esta refeição é excelente para uma hora tão adiantada.
Vai poder dormir bem daqui para diante?
Com certeza. Inclinarei o banco para trás e dormirei até Alicante. Prefiro viajar de noite e dormir de dia. Se uma pessoa dorme de noite pode acordar assustada. De dia acorda feliz.
Riu-se e começámos a trocar gracejos com os outros. Em princípio nunca falávamos da corrida na refeição tardia subsequente. Emitíamos comentários jocosos às vezes algo pesados e Charri, um basco rotundo e beberrão, devoto admirador de António que o seguia a toda a parte e assistia a todas as suas corridas, desempenhava o velho papel shakespeariano do Bobo. Contava anedotas divertidissimas ao mesmo tempo que servia de alvo aos nossos gracejos. Havia muitas coisas e pessoas para alvos de comentários cáusticos porque a fauna que encara a tauromaquia como um culto não é considerada possuidora de mente totalmente sã e os indivíduos adoradores dos matadores ainda se revelam mais vulneráveis que os outros.
Pouco depois da meia-noite os três carros partiram em direcção a Alicante através da noite e Bill e eu pedimos que nos acordassem ao romper do dia e enveredámos pela estrada por entre a leve neblina que pairou sobre a cidade e ao longo do rio até que o Sol nasceu e começou a evaporá-la. Passámos pelos locais onde se havia realizado a batalha e não tentei explicar a operação ou o cerco a Bill limitando-me a apontar várias características do terreno. Com elas em mente poderia compreender a luta em face de qualquer descrição. As distâncias eram todas mais pequenas como de costume e o frio e neve mortais tinham desaparecido. No entanto eu via muitos lugares que ainda me podiam assustar com a sua árida nudez.
A contemplação do terreno não reconstituía a batalha. Em todo o caso ajudava um pouco, como sempre, a expurgar algumas coisas que acontecem na Terra, para ver a escassa diferença que produziu nas colinas áridas que outrora se revestiam de grande importância. Enquanto rolávamos na estrada em direcção a Segorbe naquela manhã, eu reflectia que uma escavadora produzia mais violência numa colina do que a morte de uma brigada e que uma brigada, que ficara para trás a fim de defender uma posição de ser destruída, pode enriquecer o solo durante um breve período e acrescentar alguns sais minerais valiosos e uma certa quantidade de metal à elevação mas o mineral não é em quantidades susceptíveis de serem exploradas por minas e qualquer fertilização efectuada é lavada do solo estéril pelas chuvas da Primavera e Outono e degelo das neves do Inverno.
Havia alguns outros lugares que eu queria visitar uma vez que passaríamos por eles, lugares de que estava convencido que me recordava erradamente devido à precipitação, tensão ou distorções da visão resultantes do facto de estar sob fogo inimigo mas avistá-los-íamos mais cedo ou mais tarde e poderia então rectificar as incorrecções da memória. Havia alguns que desejava mostrar a Bill pela sua incredibilidade, mostrar-lhos como peças de museu do impossível na guerra. Mas indicara-lhe as posições na estrada sobranceira à aldeia de Guadarrama a caminho de Ávila e apresentavam-se tão ridiculamente absurdas de defender que não o censurei por não acreditar nas minhas palavras. Quando as avistei também duvidei embora a recordação originária delas fosse mais nítida que uma fotografia.
Congratulei-me quando chegámos a Segorbe, uma vila antiga bonita e intacta que atravessara várias vezes sem nunca ter tempo de me deter. Bill vivera lá com Annie e conhecia todos os cantos da terra. Tragámos um bom pequeno-almoço de café, queijo e fruta e comprámos alguns dos excelentes bordões que as pessoas do campo utilizam nas montanhas, feitos de uma madeira que eu só vira antes em África. Também adquirimos cerejas muito saborosas que guardámos na caixa frigorífica onde levávamos o vinho.
Descemos das montanhas e colinas passando pela velha vila escarpada assaz confusa de muralhas altas de Sagunto com a miscelânea romana e mourisca de construções impostas pelos conquistadores e o seu encantador ambiente medieval. De longe Sagunto parece-me sempre na iminência de escorregar ou deslizar como as telhas de um telhado íngreme que foi danificado e a parte superior, quando uma pessoa se encontra lá, dá a impressão de ser segura pelos cactos. Eu teria gostado de ficar para a percorrer mais uma vez e subir ao castelo, mas tínhamos touros em Alicante, pelo que prosseguimos por entre o tráfego dominical intenso de carros, motorizadas e bicicletas de pedais em direcção a Valência. A região era uma planície costeira verdejante que se estendia do mar até às colinas. Rolámos entre os troncos escuros e diferentes tonalidades de verde de laranjeiras e limoeiros e o verde prateado dos olivais e as casas eram brancas e emolduradas por palmeiras e renques de ciprestes.
O panorama tinha um aspecto de fertilidade que parecia mais ajardinado do que cultivado. A estrada estava repleta de condutores de domingo e os acidentes com motorizadas começaram a atingir a média de um, cada oito ou dez quilómetros.
Contornámos Valência e enveredámos pela estrada marginal nas proximidades da lagoa com a praia abandonada e a floresta de pinheiros de copas largas como guarda-chuvas à nossa esquerda. Soprava vento forte e a rebentação devia ser intensa. Veleiros cruzavam a lagoa e os arrozais verdejantes ondulavam ao vento. Ao longe do outro lado da lagoa avista-a-se a mancha branca das aldeias e o acastanhado das colidas escarpadas. Havia pescadores ao longo das margens e muitas motorizadas trarsportavam apetrechos de pesca. Continuavam a manter a sua taxa de acidentes. No entanto, esta baixou à medida que nos distanciávamos de Valência na estrada marginal para Alicante, mas voltou a aumentar ao aproximarmo-nos daquela cidade.
A viagem ao longo da costa era mais dramática e o litoral mais íngreme do que o do sul de Málaga, porém o tráfego dominical intenso interceptava a vista do mar azul que se desfazia nas rochas em baixo e foi agradável chegar à aprazível e próspera cidade de Alicante. Havia um novo hotel excelente, o Carlton, onde nos proporcionaram um quarto fresco e confortável com uma larga varanda, embora decorresse a semana da feira e tivéssemos explicado que partiríamos logo após a corrida de touros.
António estava bem disposto e parecia muito repousado e confiante. Dormira durante todo o caminho e chegado ao hotel deitara-se e só se levantara ao meio-dia. Reinava grande actividade. O promotor da praça de touros de Valência trocava impressões com ele sobre os touros que pretendia pelo que murmurámos umas palavras de escusa e saímos. Esperávamos Ed Hotchner que voara de Nova Iorque para Madrid mas chegara demasiado tarde para assistir à corrida de Saragoça e viria de avião ou de carro.
Bill e eu almoçámos com Domingo e o promotor de Valência, que era um amigo meu, e os dois promotores da praça de touros de Alicante. Elaboraram o programa para a feira de Valência. Seria com base em António e Luís Miguel e uma das corridas consistiria num mano a mano entre os dois.
Vai ser uma feria estupenda — profetizou Bill. Naquele mo mento apareceu Hotch sardento e indómito e pedimos algo para ele comer. Tivera uma viagem áspera no táxi e a situação apre sentara-se-lhe, de um modo geral, complicada mas esqueceu-se prontamente dos seus problemas quando lhe comunicámos que assistiríamos os três à corrida do callejón.
Que faço se o touro saltar para lá Papá? - perguntou.
Salte para a arena.
Que faço quando ele voltar para a arena?
Volte para o callejón.
É elementar — admitiu — Não haverá novidade. Naquela tarde quatro dos cinco touros de Juan Pedro Domecq foram ex celentes. António mostrou-se confiante e satisfeito com os seus dois e desbobinou a sua academia de como os touros deviam ser lidados com a sua primeira verónica e encerrou-a com a sua últi ma estocada. Cortou as duas orelhas e o rabo do primeiro e a orelha do quarto. Todos os movimentos que executava eram per feitos e clássicos. Mas não frios. Voltava a ser terno com os touros e orientava-os e dominava-os com graça e elegância para os matar com limpeza e perfeição. Era agradável observá-lo de tão perto e ouvir tudo o que dizia aos animais e à sua quadrilha enquanto actuava na lide perfeita.
No final dia corrida combinámos encontramos no Pepica, restaurante ao ar livre no Gran de Valência a norte do porto e na praia. Aguardava-nos uma viagem de toda a noite até Barcelona e uma secção da estrada, após a entrada na Catalunha, era realmente má. No hotel não nos deixaram pagar a conta. Encontrei alguns amigos de velhos amigos e dois velhos quando nos preparávamos para partir no carro. Tinham-nos visto na praça de touros e queriam despedir-se de nós. Expliquei-lhes que tornaríamos a passar por Aliciante quando nos dirigíssemos para a feira de Valência a vinte e três do mês seguinte.
Como se explica que regressasses às corridas. Ernesto? - perguntou um deles.
António.
Valeu a pena. Mas o resto é uma coisa detestável.
Estou a proceder ao levantamento. Ficarei inteirado quan do terminar.
Bem felicidades. Talvez nos vejamos em Valência. Em quantas corridas participa António aí?
Em cinco provavelmente.
Então até lá.
Enveredámos pela estrada ao anoitecer, na altura em que aqueles que tinham assistido à corrida regressavam a casa. Havia menos motorizadas e pouquíssimos acidentes e decidi que os condutores mais incompetentes deviam ter sido eliminados nas horas anteriores. De qualquer modo não são veículos muito nocturnos e costumam recolher cedo.
Bill queria conduzir sempre sem descanso. Gostava do tráfego e bicicletas e todos os veículos sem luzes divertiam-no. Não lhe agradava percorrer trajectos fáceis e lera um livro algo insensato e confuso sobre os loureiros e as provações e horrores que sofriam nas viagens de corrida para corrida. Todos conhecíamos o autor e não nos merecia particular simpatia, mas concluíramos, erradamente, que percorrera aquelas distâncias bárbaras. Bill pensava acertadamente que se o improvável indivíduo podia transpô-las noite após noite e sobreviver para escrever a esse respeito, ele, que era um condutor deplorável, não teria dificuldade em o exceder. Pressentindo e apreciando um evento desportivo, Hotch considerou estupendo que Bill quisesse manter-se ao volante permanentemente até morrer. Depois poderíamos escrever um livro sobre o assunto.
Não tem mesmo sono nenhum Bill ? - perguntei - Estive mos na estrada e de pé no callejón desde as seis da manhã.
Sentámo-nos para almoçar - lembrou.
Fez batota - interpôs Hotch. - Vamos obrigá-lo a comer de pé.
E se parássemos para tomar um café? — sugeri.
Parece-me uma ideia pouco desportiva - disse Hotch. - Se Bill é um cavalo não o podemos drogar.
Acha que o vão submeter ao teste da saliva no Pepica?
Não sei que instalações possuem. Nunca comi lá. Mas es tou convencido de que deve haver um teste à saliva numa cidade do tamanho de Valência.
É apenas no Porto de Valência - observou Bill com uma expressão sombria.
Anime-se homem — aconselhou Hotch — Faremos um teste como deve ser em Barcelona.
O jantar no Pepica foi maravilhoso, Era um restaurante grande, asseado, ao ar livre e a comida preparada à vista dos clientes. Podia-se escolher o que se quisesse para mandar grelhar, fritar ou cozer e os mariscos e iguarias do arroz à valenciana eram os melhores da praia. Sentíamo-nos bem dispostos após a corrida e estávamos todos com fome e comemos bem. O estabelecimento era gerido por uma família e todos se conheciam. Ouvia-se a rebentação do mar nas proximidades e as luzes reflectiam-se na areia molhada. Bebemos sangria - vinho tinto com sumo de laranja e limão — servida em jarros grandes e comemos salsichas locais para principiar, atum fresco, gambás e tentáculos de polvo fritos que sabiam a lagosta. A seguir uns comeram bifes, enquanto outros optavam por frango assado ou grelhado com arroz de açafrão pimentos e amêijoas. Era uma refeição muito moderada segundo os padrões valencianos e a proprietária manifestou o receio de que nos retirássemos com fome. Ninguém falou de touros. Eram 382 quilómetros até Barcelona e quando abandonámos o restaurante comuniquei a António que provavelmente pararíamos algures pelo caminho para dormir e nos encontraríamos no hotel.
No carro, Bill estava bem desperto e declarou que se sentia em condições de conduzir durante toda a noite. Esclareceu que a comida o reanimara em vez de provocar sono. Sugeri que parássemos em Benicarlo a uns 130 quilómetros da estrada marginal. Replicou que encostaria à berma se lhe disse o sono e pararia em Benicarlo se quiséssemos mas não via a mínima necessidade. Adormeci quase imediatamente e quando acordei já tínhamos passado Benicarlo e aproximávamo-nos de Vinaroz. Como faltava cerca de meia hora para amanhecer parámos numa casa de comidas aberta toda a noite e pedimos sanduíches de queijo e juntei as rodelas de uma cebola na minha, tomámos café e provámos o vinho local em companhia de alguns indivíduos da região que ainda estavam bêbedos da fiesta de Vinaroz no domingo. A orelha que um novilheiro cortara e os chifres do touro encontravam-se atrás do balcão. Estes tinham um tamanho apreciável e ninguém os cortara. O ar fresco do mar produzira-me fome e interessava-me ver a paisagem do troço que percorreríamos a seguir que tinha contemplado no dia em que o exército nacionalista abrira caminho em direcção ao mar e quase fôramos colhidos de surpresa. Por conseguinte esperámos que amanhecesse e rolámos ao longo do baixo Ebro em Amposta antes do nascer-do-Sol.
O dia principiava de um modo pouco animador, com vento e neblina provenientes do mar. A estrada era péssima e o panorama triste à claridade cinzenta. O Ebro que significara para nós tanto como o Marne ou o Aisne apresentava igualmente um aspecto pouco histórico. No entanto era castanho, como sempre, e a corrente forte.
O dia começava sombrio para mim mas esforcei-me por não transmitir a sensação aos outros e chegámos ao grande c acolhedor hotel de Barcelona a tempo de um sono reparador se fôssemos toureiros e conseguíssemos dormir de dia.
Do lado de fora da janela o vento forte sacudia as ramagens dos plátanos e chovia intermitentemente. Tudo indicava que teriam de suspender a corrida. No entanto a procura de bilhetes tinha sido elevada e eu sabia que se realizaria a menos que a areia estivesse demasiado molhada para tourear à hora de o espectáculo começar. Bill não quis tentar dormir e foi comprar os jornais. Eu experimentei mas não fui capaz. De qualquer modo no meu caso não tinha importância porque dormira bem no carro. Em todo o caso sentia-me preocupado com ele e o seu empenho de permanecer sempre ao volante. Procurei o portador da espada, Miguelillo, o qual informou que António dormira profundamente.
Quando me avistei com este último mostrou-se contrariado com o tempo mas ansioso por que a corrida se realizasse. Aguardava com entusiasmo a sua segunda oportunidade de competir com Luís Miguel. Referiu que a perna não o incomodara em Alicante.
Divertimo-nos imenso e comemos uma excelente refeição no Pepica — anunciou. — Não é verdade Bill?
Sem dúvida.
Como se está a aguentar? — perguntou-me.
O meu Bill é um cavalo - declarei.
Foi uma corrida violenta num dia péssimo e tanto Luís Miguel como António foram extraordinários. António Bienvenida era o matador mais antigo e encheu-se de brio para executar uma boa faena com a capa exibindo o sorriso sem alegria que parecia ter sempre dois movimentos formais: ranger os dentes e depois afastar os lábios para expor a estrutura dentária. Os seus touros - todos Sepulveda de Yeltes - foram difíceis e a única coisa que conseguiu foi torná-los com aspecto de ainda mais difíceis.
Luís Miguel obtivera por sorteio os dois melhores. E revelou—se soberbo com ambos. Sabia que não podia competir com António nas verónicas mais tentou e saiu-se melhor do que eu jamais o vira. Quando colocou a capa atrás das costas e efectuou os graciosos passes mexicanos de Gaona foi perfeito. Cravou três pares de bandarilhas em cada touro segundo o seu melhor estilo e o trabalho com a muleta resultou hábil, galante, belo e suficientemente próximo para dar a sensação da iminência de tragédia dentro da segurança maravilhosa. Matou um razoavelmente bem e o último com perfeição, cortando as duas orelhas e o rabo. A multidão delirou e vitoriou-o merecida-mente.
António conquistara o público com o seu belo trabalho de capa num quite ao primeiro touro de Bienvenida. Era um animal que não investia a menos que o induzissem a isso. António conseguiu fazer com que parecesse não ter o menor defeito.
No seu primeiro, terceiro da corrida, começou a chover de repente com intensidade. O animal foi bom de início e António ajustou a sincronização com ele exactamente, aproximando-se sempre o mais possível e movendo a capa empapada em chuva com uma lentidão delicada e calculada, enquanto a arena se tornava cada vez mais molhada e pesada. O touro não era realmente bravo e a sua coragem e inclinação para investir diminuíram sob o aguaceiro. António estimulou-o com a muleta e apoderou-se dele. No entanto o animal só servia para alguns belos derechazos e quando viu que nada mais podia fazer com ele debaixo da chuva torrencial colocou-o na posição apropriada e matou-o rapidamente.
A chuva parou durante a lide do quarto touro. Agora, no último, a multidão encontrava-se ainda em estado de grande excitação após o triunfo de Luís Miguel. O murmúrio que percorre a praça como um vento ondulante e não se extingue até que a porta se abre e surge o touro seguinte.
Observei-o com atenção. Em seguida vi que António fazia o mesmo e reflectia. O irmão Juan atraiu-o com a ponta da capa arrastando na areia e o animal seguiu-o. Não gostei do seu aspecto. Apercebi-me disso mas não compreendi imediatamente porquê. António ficou a conhecê-lo a fundo depois de o ver fazer três movimentos e soube o que tinha de enfrentar. No entanto avançou para ele a fim de provocar a investida e a seguir, ganhando um pouco de terreno de cada vez, mediu-lhe a velocidade com a capa dominando-lhe a imprevidência num ritmo controlado e acercando-lhe os cornos cada vez mais com os lances sucessivos, até que o colocou onde queria e afastou-se.
Quando o touro investiu contra os picadores todos os seus defeitos se tornaram visíveis para quem tivesse olhos de ver. Miguel obtivera dois excelentes e fora soberbo. António lidara dois ainda melhores no dia anterior e fora maravilhoso. Ambos podiam ser sempre admiráveis com bons animais para lidar. Pertenciam a uma classe em que isso não significava nada. Mas agora António tinha um touro que denunciava hesitação nas investidas e deveria ser lidado num terreno supremamente perigoso para investir e depois controlado absolutamente com o movimento do pano para que nunca desviasse a cabeça dele e tentasse colher o homem.
António enfrentou-o nas condições que o animal oferecia. Se fosse necessário lidá-lo onde existia um perigo mortal fá-lo-ia; mas conscientemente e não por ignorância. Se tivesse de se aventurar dentro do terreno do touro e dominá-lo com a suavidade lenta do movimento da muleta para que, àquela velocidade, o olhar do animal nunca se desviasse dela nem fosse afastada do seu campo visual por qualquer desejo do homem para abreviar o longo momento de verdadeiro perigo, fá-lo-ia. Se tivesse de superar Luís Miguel mantendo a sua pureza de estilo e sincronia dignas de um Bach, servindo-se daquele deficiente instrumento, não deixaria de o fazer. Se fosse morto, o facto careceria de todo e qualquer significado para ele naquele momento.
Por conseguinte, fê-lo, moldando o touro, instruindo-o e finalmente obrigando-o a gostar e colaborar. Começaram a levantar-se murmúrios de entre a assistência, até que passaram a irromper exclamações a cada passe incrivelmente belo. A seguir António passou a fazer tudo com música conservando-o tão puro como a matemática e tão terno, excitante e estimulante como o amor. Eu sabia que ele estimava os touros e os compreendia como um cientista. Era uma faena impossível de executar com o animal que recebera e eu vira centenas de variações do que os matadores podiam fazer para se desembaraçarem de uma forma mais ou menos honrosa de um touro como aquele. Ele tinha de superar Luís Miguel e era aquilo que a sorte lhe atribuíra para o conseguir. Portanto fê-lo.
Por fim matou, entrando perfeitamente e atingindo o osso por duas vezes antes de embeber a espada até à guarda do punho. Concederam-lhe uma orelha, embora a multidão exigisse as duas. É que atingira o osso por duas vezes.
O púbico levou ambos em ombros e a cena desenrolava-se em Barcelona.
No hotel, António mais cansado por ter sido transportado aos ombros do que propriamente pela corrida, exibia o sorriso discreto deitado na cama sob o lençol.
Contento, Ernesto?
Muy contento.
Eu também. Viu como ele actuou? Viu tudo a respeito dele? -Julgo que sim.
Vamos jantar em Fraga.
Óptimo.
Cautela na estrada.
Até logo em Fraga.
Luís Miguel encontrava-se noutro hotel e a multidão era tão compacta à entrada do nosso que não consegui ir lá cumprimentá-lo. O público apinhava-se à porta de ambos e foi pela primeira vez como nos bons velhos tempos.
Abandonámos finalmente a cidade no sentido contrário do tráfego intenso das pessoas que tinham ido passar o fim-de-se-mana alargado, pois o dia de São Pedro calhara a uma segunda-feira no campo e percorremos, ofuscados pelos máximos” dos veículos que regressavam cujo clarão se reflectia no piso molhado da estrada que atravessava a Catalunha em direcção a Aragão. O grupo reuniu-se-nos em Fraga, uma velha e linda vila sobranceira ao rio como uma localidade tibetana. Infelizmente, só conseguíamos enxergar uma rua lavada pela chuva e um grande bar de chapa de zinco onde os camionistas costumavam parar. A sala de jantar no primeiro andar estava fechada e os vinhos não eram famosos. Fomos buscar uma garrafa de bom uísque de Gibraltar ao carro e tomámo-lo com água mineral para nos defendermos da noite fria e húmida. Emborcámos duas doses por cabeça enquanto preparavam uns bifes de vitela sofríveis com ovos estrelados antecedidos de sopa.
António estava satisfeito mas cansado. Desagradava-lhe ser levado em ombros e o ferimento reabrira-se. Comemos rápida mas alegremente. Éramos como uma equipa que acabava de vencer um encontro difícil e tinha de voltar a jogar no dia seguinte. Discutimos onde pararíamos a seguir e verificou-se o consenso unânime de que o lugar mais indicado era o pavilhão de caça em Bujaraloz.
Quer que mude o penso da ferida? — perguntei a António.
Não é necessário. Miguelillo protegeu-a bem. Pode examiná- -la amanhã.
Durma bem.
Assim espero. A estrada é boa daqui em diante. Como se sente?
— Óptimo. Muy contento.
— Obrigue Bill a dormir - recomendou sorrindo - Mesmo que seja um cavalo há que cuidar dele.
— Basta dar-lhe flocos de aveia.
- Obrigue-o a dormir. E durma você também. Vemo-nos em Burgos.
Quando deixámos Saragoça para trás e percorríamos a planície com o Ebro à nossa direita, as suas colinas brancas à distância e atrás delas as primeiras elevações de Navarra, o tempo começou a melhorar embora as montanhas maciças da cordilheira Ibérica, à nossa esquerda, ainda estivessem envoltas em nuvens.
A seguir a Logroíio, depois de contornarmos Navarra e prosseguirmos pela periferia da região vinícola de Rioja, subimos os contrafortes da Sierra de Ia Demanda por entre árvores dispersas e do ponto mais elevado contemplámos o planalto de Castela Velha com, ao longe mais abaixo, a estrada ladeada de álamos que conduzia a Burgos.
A entrada em Burgos representa sempre um choque. Poderia ser qualquer cidade numa solução de continuidade nas colinas até que se avistam as torres da catedral e a seguir encontramo-nos dentro dela repentinamente. Tínhamos vindo para assistir à corrida pelo que recebi o impacto que o peso da sua pedra e história me produziu e Bill afastou-se para procurar um lugar para arrumar o carro nas ruas superlotadas em virtude da feria enquanto eu tentava localizar o grupo.
Avistei Joni e os bandarilheiros Ferrer e Juan à entrada do hotel. Os dois últimos acabavam de chegar do sorteio e disseram que os touros pareciam bons. Estavam convencidos de que a sorte lhes destinara os dois melhores. Mostravam-se todos bem dispostos mas cansados. A quadrilha fizera uma viagem árdua desde Barcelona, porém o moral era satisfatório. De resto, achavam-se habituados às dificuldades e aquela tirada de quatro dias não passava de um treino para o que aconteceria em Agosto e Setembro.
António estava em condição excelente. Dormira bem no carro e no hotel.
Foi uma corrida muito boa se bem que os touros Cobaleda se revelassem difíceis e perigosos. António teve um que só podia ser lidado pela direita. O corno esquerdo procurava o matador como uma foice. Por conseguinte lidou-o admiravelmente com a mão direita e matou-o bem.
O segundo também era difícil, mas ele modificou-o como fizera com o de Barcelona no dia anterior. Foi tão irrepreensível como sempre com a capa, executou uma bela faena clássica e matou muito bem cravando a espada um pouco sobre o alto. Concederam-lhe as duas orelhas. A actuação não podia ter sido melhor e nunca permitiu que as dificuldades do touro aflorassem.
Após a corrida seguimos para Madrid onde chegámos a tempo de um jantar tardio no Callejón. Bill efectuou toda a viagem ao volante sem permitir que o substituíssem. Tentámos contar o número de cordilheiras que tínhamos atravessado e calcular os quilómetros envolvidos mas acabámos por desistir. Não interessava. Era uma distância já percorrida.
Ao fim da tarde de dois de Julho, Annie e Mary apresentaram-se procedentes de Málaga tendo efectuado o percurso num único dia para nos mostrar do que eram capazes. Embrenhámo-nos nos meandros da Civilização e vida familiar durante dois dias e partimos para Pamplona, via Burgos. Efectuámos uma paragem nesta última cidade para assistir a uma corrida de Miuras Eram os melhores e mais impressionantes touros que vimos em toda a temporada um dos quais o mais nobre e completo que se me deparara em muitos anos. Na realidade fez tudo menos ajudar o puntillero a cravar-lhe a puntilla quando estava caído. Dormimos em Vitória e seguimos para Pamplona para participar na feira de São Firmino.
Pampolona não é um sítio para levar a mulher. Existem fortes possibilidades de adoecer, magoar-se ou ser ferida, ou pelo menos sofrer fortes e repetidos empurrões, ver vinho entornado em cima, perder-se ou tudo isto junto. Se alguém conseguisse sair ileso de Pamplona seriam Carmen e António mas ele não a quis levar. É uma fiesta para homens e a mulher só pode causar complicações, nunca por querer, claro, mas termina invariavelmente por se achar no foco delas. Evidentemente que, se fala espanhol para compreender que pretendem entrar com ela e não insultá-la, pode beber vinho ao longo do dia e noite e dançar com qual quer grupo de desconhecidos que a convidem, não se importa que lhes vertam vinho em cima, adora o barulho, música e foguetes incessantes, em particular aqueles cujas canas caem próximo dela ou lhe queimam a roupa se pensa que é sensato e lógico quão perto pode estar de ser morta por touros por mera brincadeira e gratuitamente, se não se constipa quando apanha chuva e aprecia as nijvens de poeira, ausência de método e refeições a horas irregulares, não precisa de dormir e consegue manter-se lavada e asseada sem dispor de água corrente, então podem levá-la lá. O mais certo é perderem-na em favor de um homem mais conveniente para ela.
Pamplona apresentava o aspecto babilónico de sempre, superlotada de turistas e caracteres típicos, mas com um núcelo duro do que há de melhor em Navarra.
Numa semana dormimos uma média de três horas por noite ao som dos tambores de guerra da região, de velhas melodias tocadas em gaitas de foles e trepidação constante de dançarinos. Escrevi acerca de Pamplona uma vez e foi definitivamente. Encontra-se lá tudo o de sempre, com a diferença de que a afluência de turistas aumentou em cerca de quarenta mil. Não deviam ser mais de quarenta quando estive lá pela primeira vez há cerca de quatro décadas. Agora em certos dias diz-se que chegam a juntar-se cem mil na cidade.
António tinha de actuar a cinco de Julho cm Tolosa, mas apareceu para o primeiro encierro no dia sete. Quisera tourear em Pamplona mas houve uma confusão com os contratos quando mudara de agente no início da temporada e fora com os irmãos Dominguín. Adorava a fresta e desejava participar nela connosco, o que fizemos com gosto. Quase não parámos durante cinco dias e noites. Em seguida ele teve de partir para Puerto de Santa Maria a fim de lidar touros de Bcnitez Cubrera, a doze de Julho com Luís Miguel e Pondueno. Foi a única vez em todo aquele ano que Luís Miguel o superou na arena quando actuaram juntos.
Mais tarde interroguei-o sobre isso. Ele disse que Luís Miguel obtivera os melhores touros mas a sua própria actuação não correspondera ao nível que mantivera em todas as outras corridas da temporada.
— Não chegámos a treinar realmente em Pamplona — obser vei.
- Talvez não treinássemos exactamente como devíamos - concordou.
Não tínhamos ido lá verdadeiramente para treinar, porém, o programa não incluía a sua colhida e um ferimento na perna direita produzido por um touro Pablo Romero ao princípio da manhã ao qual não voltara a prestar atenção depois de tratado e de receber uma injecção antitetânica. Dançara toda a noite para evitar que adquirisse rigidez e tornara a correr na manhã seguinte para mostrar aos seus amigos de Pamplona que não recusava as corridas por não gostar dos touros. Não ligou ao ferimento nem quis procurar o médico da praça de touros para evitar que se pensasse que se preocupava com isso, além do que não desejava provocar apreensão em Carmen. Quando, um pouco mais tarde, verifiquei que supurava, George Saviers, um médico amigo nosso de Sun Vailey, desinfectou-o e aplicou o penso apropriado até que António partiu para actuar em Puerto de Santa Maria, ainda por cicatrizar.
Inteirei-me depois, através de amigos, de que na realidade Luís Miguel teve dois touros ideais e perfeitos que lidou admiravelmente, após o que recorreu a todos os truques incluindo o de beijar um dos animais na cabeça. Quanto a António enfrentou dois destituídos de valor, o segundo dos quais particularmente perigoso. Não teve sorte ao matar o primeiro mas obteve tudo o que pôde do outro apesar de mau: matou-o excelentemente e recebeu a orelha. No entanto de um modo geral foi o dia de Luís Miguel.
Fiquei em Pamplona porque Mary fracturou um dedo do pé ao resvalar numa pedra quando tomávamos banho no Irati, o que a obrigava a utilizar uma bengala para caminhar com dificuldade e fortes dores. A fiesta talvez tivesse sido um pouco agitada de mais. Na primeira noite António e eu apercebemo-nos de um carro francês de linhas atraentes com uma moça bonita dentro acompanhada, pelo que se revelou ser um francês no momento em que António saltou para cima do capot para o obrigar a parar. Pepe Dominguín estava presente e quando os ocupantes da viatura se apearam informámos o francês de que se podia afastar, mas a rapariga era nossa prisioneira. Também confiscámos o carro porque carecíamos de transporte. O homem revelou-se muito afável. Apurou-se que ela era americana e ele limitava-se a indicar-lhe o caminho para o hotel onde uma amiga a esperava. Prometemos ocupar-nos de tudo e “Vive Ia france et les p o mm es de terre frites!.
Bill que conhecia todas as ruas de Pamplona, localizou a amiga da rapariga, que ainda era mais bonita que a nossa prisioneira, se tal se podia conceber, e mergulhámos todos na noite através das artérias obscuras da parte velha da cidade onde António conhecia um lugar em que queria que dançássemos e cantássemos. Mais tarde concedemos liberdade condicional às prisioneiras, que chegaram frescas, encantadoras e apresentáveis ao Bar Choko pela manhã, quando os primeiros tamborileiros e dançarinos se encaminhavam para a Plaza e continuaram a ser prisioneiras submissas, leais e adoráveis ao longo da feira de Valência no fim do mês.
A aparição com um par de prisioneiras provoca por vezes reacções desfavoráveis em alguns círculos matrimoniais mas as nossas revelaram-se tão ternas, dóceis, adaptáveis, joviais e felizes no cativeiro que mereceram inteira aprovação e até Carmen acreditou na nossa versão quando as conheceu na sua e minha festa de aniversário em La Consula, a vinte e um de Julho.
Entretanto tínhamos descoberto a maneira de superar a erosão da fiesta e fugir ao ruído que começava a afectar os nervos de alguns dos mais apreciados componentes do nosso grupo. Consistia em partir na tarde anterior, seguir até um local junto do rio Irati, perto de Aoiz, para efectuar um piquenique tomar banho e regressar a horas de assistir às corridas. Cada dia íamos mais longe pela margem do curso de água povoado por trutas e passámos a embrenhar-nos na vasta floresta virgem do Irati que permanecia inalterada desde a época dos Druidas. Eu supunha que encontraria as árvores abatidas e o panorama do local destruído mas continuava a ser a última grande floresta medieval com as suas imponentes faias e o espesso tapete secular de musgo mais agradável para uma pessoa se deitar que qualquer outra coisa do mundo. E cada dia nos aventurávamos mais longe regressando mais tarde para as corridas até que finalmente prescindimos da última, a novilhada, e penetrámos num local que não descreverei porque queremos voltar lá sem encontrar meia centena de carros ou jipes estacionados nas imediações. Pela estrada da floresta podíamos alcançar praticamente todos os lugares como referi em The Sun Also Kises embora fosse necessário percorrer uma certa distância a pé e trepar do Irati até Roncesvalles.
Ao descobrir a região virtualmente intacta e poder voltar a desfrutá-la e partilhá-la com as pessoas que me acompanhavam naquele mês de Julho sentia-me tão feliz como nunca e a multidão e modernização de Pamplona careciam de significado. Naquela cidade tínhamos os nossos velhos lugares secretos como o Marceliano, que visitámos de manhã para comer, beber e cantar após o encierro onde a madeira das mesas e das escadas era tão limpa e polida como as cobertas de teca de um iate, com a diferença de que as mesas apresentavam honrosos vestígios de vinho derramado. O vinho continuava tão bom como quando tínhamos vinte e um anos e a comida maravilhosa como sempre. Havia as mesmas canções e algumas novas boas que irrompiam das gaitas de foles e tambores. Os rostos outrora jovens eram agora tão velhos como o meu, mas todos nos recordávamos de como tínhamos sido. Os olhos permaneciam iguais e ninguém engordara. Não havia bocas rancorosas apesar do que os olhos tinham visto. As linhas de rancor em torno dos lábios são o primeiro sinal de derrota. Ninguém fora derrotado.
A nossa vida pública desenrolava-se no Bar Choko sob as arcadas junto do hotel que pertencera a Juanito Quintana. Foi nesse bar que um jovem jornalista americano me confidenciou que lamentava não ter estado em Pamplona connosco há trinta anos “quando você ia para o campo e conhecia as pessoas quando conhecia os espanhóis e se preocupava com eles o seu país e trocava correspondência, em vez de perder tempo sentado num bar em busca de adulação, emitindo comentários jocosos com os companheiros de bebida e assinando autógrafos. Havia muito mais e encontrava-se tudo numa carta que escrevera porque eu o censurara por não ter levantado uns bilhetes que comprara para ele a um velho amigo contratador que actuava em todas as feiras. Tinha pouco mais de vinte anos e deveria ser tão sensaborão na década de 1920 como no final da de 1950. Não sabia que o que se procura está sempre presente e é possível encontrá-lo e o seu rosto jovem bem-parecido já denunciava as linhas de amargura em redor dos lábios enquanto tentava pôr-me ao corrente das últimas novidades em Pamplona. Estava tudo lá e fora convidado para participar mas não conseguia vê-lo.
Por que perde tanto tempo com esse cretino? - perguntou Hotch.
Não é um cretino - esclareci. - É o futuro editor do Readers Digest.
Divertimo-nos em Pamplona e depois António actuou duas vezes em Mont de Marsan, França, onde foi maravilhoso, mas os touros tinham os cornos alterados pelo que nem comigo trocava impressões acerca daquelas corridas. Após o último voou para Málaga a fim de estar presente na festa do aniversário de Carmen e meu. Foi uma reunião estupenda e eu talvez não notasse que tinha sessenta anos se Mary não mo recordasse com subtileza. Mas a verdade é que acabei por ter o facto bem presente no espírito.
Tínhamo-nos tornado crescentemente eufóricos no melhor sentido da expressão, pois iniciámos o treino logo que António prescindiu da bengala após a grave cornada de Aranjuez. Havíamos falado da morte sem nos tornarmos mórbidos e eu revelara-lhe as minhas ideias a esse respeito, que careciam de valor porque nenhum de nós sabia absolutamente nada sobre o assunto. Eu podia ser sinceramente rude e por vezes transmitir a rudeza a outros, mas não se tratava disso naquela ocasião. António exercitava-se pelo menos duas vezes ao dia, em certas alturas toda a semana seguida, transpondo longas distâncias para o fazer. Todos os dias desafiava o perigo e prolongava-o para além dos limites do normalmente suportável pelo seu estilo de actuar. Só podia tourear como o fazia dispondo de nervos perfeitos e ignorando as preocupações. Na verdade a sua maneira de actuar sem truques dependia da compreensão do perigo e seu domínio, pelo modo como se adaptava à velocidade do touro ou falta dela, e controlo do animal por meio do pulso dirigido pelos músculos, nervos, reflexos, olhos, conhecimentos, instinto e coragem.
Se os reflexos não funcionassem devidamente não poderia tourear daquela maneira. Se alguma vez a coragem o abandonasse, por uma mera fracção de segundo, o encanto quebrar-se-ia e seria colhido ou trespassado. Além disso tinha de contar com o vento que o podia expor ao touro e matá-lo caprichosamente a qualquer momento.
Ele sabia tudo isto fria e completamente e o nosso problema consistia em reduzir o tempo de que dispunha para pensar no assunto ao mínimo necessário para se preparar para enfrentar todas essas coisas antes de entrar na arena. Era esta a habitual entrevista com a morte de António que tínhamos de considerar todos os dias. Qualquer homem a pode enfrentar, mas ser obrigado a atraí-la tanto quanto possível enquanto executa determinados movimentos clássicos e repeti-lo numerosas vezes para depois a desafiar com uma espada que tinha de cravar num animal que pesava meia tonelada e estimava resulta mais complicado do que enfrentar simplesmente a morte. Equivale a encarar a sua própria actuação como um artista criativo todos os dias e a necessidade de funcionar como um matador emérito. António tinha de matar rápida e implacavelmente e ao mesmo tempo conceder ao touro uma oportunidade de retaliar quando se deslocava diante dos seus cornos pelo menos duas vezes por dia.
Todas as pessoas envolvidas nas corridas se ajudam mutuamente na arena. Apesar das rivalidades e aversões é a irmandade mais unida que existe Somente os toureiros conhecem os riscos que correm e o que o touro pode fazer com os seus cornos aos seus corpos e mentes. Aqueles que não têm verdadeira vocação precisam de dormir com o touro todas as noites. Mas ninguém pode ajudar um toureiro imediatamente antes da corrida pelo que tentávamos reduzir o período de ansiedade aguda. Prefiro a expressão “angústia, angústia controlada”, a ansiedade.
António rezava sempre no quarto antes da corrida depois de os seguidores e aqueles que lhe desejavam felicidades se terem retirado. Se havia tempo na praça quase todos visitavam a capela para o fazer uma vez antes das cortesias. António sabia que eu rezava por ele e nunca por mim. Eu não toureava e deixara de rezar por mim durante a Guerra Civil de Espanha quando vira as coisas terríveis sucedidas a outras pessoas e reconhecera que isso seria uma manifestação de egoísmo. Para a eventualidade de as minhas preces carecerem de efeito, como podia muito bem acontecer, e ter a certeza de que alguém mais competente o fazia, inscrevi Carmen e António sócios da Associação do Fundo do Seminário Jesuíta de Nova Orleães. Havia uma classe em vias de ordenação que rezaria por eles todos os dias. Por conseguinte abreviámos o período de pensar naquelas coisas ao mínimo e estávamos eufóricos durante todo o tempo que mediava entre a corrida e a preparação imediata antes da entrada na arena. O ambiente de Pamplona era suficientemente eufórico para o efeito. E o grupo de La Consula ainda mais. Uma das atracções que Mary instalara no jardim era uma barraca de tiro que alugara a uma feira ambulante. António ficara um pouco chocado em 1956, quando Mário, o motorista italiano, segurara cigarros na mão durante forte ventania para eu cortar as pontas incandescentes com uma espingarda de calibre 22. Na festa, António colocou cigarros na boca para que eu suprimisse a cinza. Fizemo-lo várias vezes com as pequenas espingardas da barraca de tiro e a certa altura ele pôs-se a chupá-los para ver até onde podia encurtá-los.
Finalmente decidiu:
- Já fomos tão longe quanto possível, Ernesto. O último tiro roçou-me os lábios.
Pusemos termo ao passatempo enquanto continuávamos todos ilesos e recusei repetir a proeza com George Saviers, porque era o único médico presente e a festa estava apenas no princípio. Acabou por se prolongar pela noite dentro. Três dias depois tínhamos efectuado a viagem ao longo da costa e encontrávamo-nos em Valência para a primeira corrida da feira.
Fazia muito calor em Valência e os hotéis estavam superlotados. Não havia vagas no Royal embora as nossas reservas tivessem sido confirmadas em Alicante e o grupo instalou-se no velho, confortável e escuro Victoria logo que houve quartos disponíveis e utilizando o espaçoso bar com ar condicionado do Royal para ponto de encontro. A temperatura elevada afectava particularmente as mulheres e ensinámos-lhes as diferentes maneiras de percorrer a cidade pelas estreitas ruas transversais, aproveitando a sombra dos edifícios altos.
A primeira corrida constituiu um razoável desastre. Os touros de Pablo Romero bonitos e possantes como sempre iam-se abaixo das pernas ou desinteressavam-se rapidamente. António Bienvenida não pôde fazer nada com o primeiro, o qual era um trotador que se mantinha na defensiva, Bienvenida também se colocou na defensiva e defenderam-se um do outro até que ele matou defensivamente o animal em seguida arrastado para fora da arena. Eu acalentava a esperança de que o general Buck Lanham que viera de avião por causa do aniversário e da feira não concluísse que as touradas se resumiam àquilo. De momento exibia a expressão de quem mantinha em suspenso os comentários.
O primeiro touro de Luís Miguel começou veloz bravo e poderoso e ele aplicou-lhe o tratamento completo desde o grande cambiado com ambos os joelhos pousados na areia, até três pares de bandarilhas perto das tábuas. Dois foram colocados de forma admirável e vi que Buck principiava a entusiasmar-se. As bandarilhas são a coisa mais fácil de apreciar para o espectador, se não de avaliar, e Luís Miguel executava sempre a sorte como se as explicasse passo a passo e víamo-lo dar os passos com os seus próprios pés. Depois com a muleta o touro começou a asfixiar-se devido ao calor e ao seu peso e após alguns bons lances ficou sem fôlego refugiou-se na defensiva e finalmente no torpor Luís Miguel livrou-se dele com meia lâmina da espada introduzida habilmente.
Jaime Ostos foi enormemente valente com o terceiro touro, que era não menos enormemente estúpido e sem têmpera mas com suficiente tendência para explorar com o corno direito para o tornar perigoso desse lado. Jaime obteve dele tudo o que pôde com a mão esquerda e não teve sorte nas duas primeiras tentativas com a espada. Por último matou bem.
Luís Miguel teve um segundo touro muito bom e fez com ele tudo o que lhe víramos fazer em Algeciras quando se achava no apogeu da forma. Creio que com aquele animal atingiu o seu ponto alto na feira. Não podia fazer nada mais perfeito no seu estilo. O touro perdeu parte de um casco no início da faena com a muleta, mas por estranho que parecesse não passou a coxear e Luís Miguel executou cinco longas séries de passes cada um dos quais suscitou um entusiástico Olé! da assistência. Ao som da música procedeu a uma segunda metade que foi tão emocionante como a primeira. Em seguida efectuou todos os truques e por fim matou com limpeza alto e admiravelmente sem qualquer truque.
Fizera tudo o que podia e com perfeição e o seu triunfo foi completo e absoluto. Deu duas voltas à arena com o seu sorriso de lábios comprimidos que ultimamente se tornara triste. Apesar de não se mostrar arrogante, parecia pensar noutra coisa enquanto segurava as duas orelhas e a sua quadrilha o seguia devolvendo as carteiras e sapatos de senhora, flores, odres de vinho e chapéus de palha. Quanto aos charutos, ficavam com eles. Havia uma larga clareira no sector sol da praça que as pessoas da região nos seus fatos pretos e gorros cobertos de pó não tinham vindo ocupar e perguntei-me se seria nisso que Luís
Miguel pensava ao actuar de rosto grave ou ponderava que mais poderia fazer quando ele e António actuassem juntos.
No segundo dia com António Ordónez, Curro Girón e Jaime Ostos ainda havia mais lugares no sector sol e a praça apresentava apenas um pouco mais que meia casa. O calor era tão intenso como na véspera e soprava vento forte de África. António não se preocupou nem pensou na fraca assistência a partir do momento em que se encontrou na arena. Apercebera-se disso antes de entrar, quando lançara uma olhadela em redor. Desde que toureava havia sempre outros que ganhavam o dinheiro, o que não se lhe afigurava uma tragédia, embora necessitasse dele e soubesse, como era difícil obtê-lo na sua profissão e sobretudo conservá-lo pois ele e Carmen desejavam-no para concretização dos planos simples e razoáveis que tinham traçado.
Naquela corrida só houve dois touros bons. O primeiro de António não valia nada. Nós observávamos os acontecimentos das tábuas vermelhas quando o seu segundo entrou na arena. Era bom, rápido, bem guarnecido, aceitável de um lado quando Juan o atraiu com a capa, a arrastar na areia e do outro no momento em que Ferrer o citou António avançou com a capa e indicou a este último Fora. Queria estar só com o touro e em seguida citou-o e quando investiu de rompante preparou-se para executar os longos, lentos e intermináveis lances que eram como uma música profunda que apenas ele e o touro podiam ouvir. António conseguia sempre emocionar-me com a capa desde que o vira pela primeira vez em Pamplona seis anos atrás e naquele dia mostrava-se melhor que nunca. Ele assistira à faena de Luís Miguel na véspera e mostrava ao público a si próprio a nós e à História o que o rival teria de suplantar para vencer.
Passou para as bandarilhas depois de somente uma vara para manter o touro completamente intacto e observou com atenção enquanto Joni e Ferrer as colocavam. Em seguida pegou na espada e encaminhou-se para o touro.
Apoderou-se dele e baixou-lhe a cabeça com quatro passes baixos apoiado num joelho e depois executou a melhor, mais erecta, mais bela, completa e clássica faena com a muleta que eu lhe vira até então. Continha tudo o que existia de belo no que fizera anteriormente, mas havia também o admirável fluir da água ao descrever uma curva na crista de uma represa ou de uma queda. Era tudo constituído por uma única peça e cada passe esculpido. A assistência começou a manifestar-se com o ruído murmurante até que passou a rugir como os rápidos mais agitados, pelo que abafou a música. Foi como qualquer das suas grandes faenas e melhor do que todas. E o mais incrível era que o conseguira num dia ventoso.
Quando concluiu o trabalho com a muleta, entrou para matar quatro vezes, cada uma visando perfeitamente a área letal e atingindo sempre o osso. Por último cravou a lâmina com todo o impulso do corpo e o touro cedeu. Concederam-lhe a orelha apesar das quatro tentativas frustradas porque cada entrada que atingira o osso equivalia em perigo a uma estacada mortal. É impossível determinar o que lhe concederiam se tivesse produzido a morte à primeira.
Foi uma grande noite no Pepica na praia. A rebentação produzia uma espécie de palpitar na atmosfera. Estávamos todos bem dispostos e ninguém perdera o entusiasmo após a emoção da corrida. Éramos como uma tribo feliz depois de um assalto vitorioso ou uma morte importante. Os jarros de sangria circulavam esvaziavam-se com rapidez e não necessitávamos de comer cedo como costumávamos fazer por causa de António que partira de carro com destino a Tudela Navarra onde actuava no dia seguinte com Luís Miguel e Ostos. O treino a sério recomeçara no dia após a festa. Voltávamos a obedecer a um horário e hábitos regulares.
Luís Miguel actuara naquele dia em Palma de Maiorca e eu congratulava-me por ele não ter visto o que António fizera. Embora simpatizasse com ele, depois do que eu observara em Valência estava convencido de que não triunfaria da emulação que se desenrolava.
Tornava-se agora evidente que havia necessidade de incluir António e Luís Miguel no mesmo cartaz para encher uma praça aos preços elevados que obrigavam os organizadores a pedir. Se acontecesse alguma coisa a qualquer deles destruiriam o cabaz dos ovos de ouro. Mas iria acontecer algo. Eu nunca tivera tanto a certeza de uma coisa, e não duvidava de que António também o sabia. A noite perguntava-me como estaria Carmen a reagir porque era a melhor, mais ponderada, mais leal e inteligente de todos nós envolvidos naquele negócio de morte e dinheiro. Não podia vencer inteiramente por muito bem que tudo corresse, e eu alegrava-me por haver alguém de certa autoridade a rezar por ela.
Na quarta corrida de Valência, António e Luís Miguel encontraram-se na arena pela quinta vez da temporada. Os touros eram de Samuel Flores e Gregório Sánchez o terceiro matador. Fazia um dia enevoado de calor opressivo e a lotação estava esgotada pela primeira vez na feira. O primeiro touro de Luís Miguel mostrava-se hesitante, travava a meio das investidas e refugiava-se na defensiva com insistência. Ele trabalhou-o com cuidado e inteligência. O animal persistia em baixar o focinho para a areia e Miguel esforçava-se por levantá-lo e preparar o touro para a morte. Tratava-se de um animal que faria passar um mau bocado a qualquer toureiro. No entanto, ele matou-o rápida e habilmente à segunda tentativa. Não corresponderia ao que o público pagara para ver, mas não havia outra coisa para lhe dar e a maior parte dos espectadores reconheceu-o e aplaudiu. Miguel saiu uma vez para agradecer os aplausos e recolheu à barreira de lábios comprimidos.
O touro de António entrou a seguir e ele citou-o imediatamente para executar os mesmos lances lentos e admiráveis de todos os animais que investiam. Não se tratava de algo a que se dedicava raramente ou com um touro excepcional. Faziam parte do seu trabalho regular com a capa desde que conseguisse induzir o animal a investir e procurava sempre aperfeiçoá-los, cada vez mais perto e lentamente.
Luís Miguel colocou a capa sobre as costas e efectuou uma excelente série dos velhos lances Gaona, a fim de afastar o touro dos cavalos.
Com a muleta António executou uma faena que atingiu o nível de outra maravilhosa na sua primeira corrida em Valência. Revestia-se ainda de mais mérito porque o presente touro não era tão bom como o outro e teve de o conservar mais tempo com a muleta. Eu observava atentamente da barreira enquanto manobrava o animal, tendo-o sempre perfeitamente dominado, sem nunca permitir que o corno tocasse no pano, mas agitando este para o fazer rodar meio círculo à sua volta e depois mais meio círculo até o fazer descrever um círculo completo, enquanto o público se manifestava a cada passe. Também observava Miguel de vez em quando, mas ele conservava o rosto inexpressivo.
António matou finalmente depois de efectuar todos os passes bonitos, clássicos e realmente perigosos possíveis com um touro, preocupando-se sempre em aperfeiçoá-los. A assistência proporcionou-lhe uma longa ovação e o director da corrida concedeu-lhe as duas orelhas do touro.
Luís Miguel saiu para vencer no seu segundo touro e recebeu-o com ambos os joelhos pousados na areia e o belo lance com uma das mãos denominado larga cambiada. E espectacular e bonito mas de modo algum tão perigoso como fazer o animal passar lentamente com a capa segura nas duas mãos. No entanto o público adorou e com razão e Luís Miguel era um mestre na matéria.
Com as bandarilhas foi soberbo. Um dos pares que colocou podia considerar-se incrível. O touro esperou-o, junto das tabuas de flancos arquejantes e sangue jorrando dos ferimentos das varas, enquanto os olhos se fixavam em Miguel que se acercava com lentidão, braços estendidos para os lados e altos e farpas apontadas para a frente. Caminhou para além do ponto em que devia citar o touro e obrigá-lo a investir, a seguir para além do limite de onde aquela maneira de colocar as bandarilhas ainda se podia considerar segura e por fim para além de onde era possível, com o touro ainda a observá-lo, ter a certeza de o alcançar. Finalmente o touro investiu a três passos e Miguel esquivou o corpo para a esquerda e enquanto a cabeça do animal o seguia, colocou as bandarilhas e rodopiou para sair por cima do corno oposto.
Recebeu-o com a muleta junto das tábuas e trabalhou-o com derechazos. Entretanto eu conseguia ouvir o que ele dizia ao touro, a respiração pesada deste e o entrechocar das bandarilhas ao passar sob a muleta perto do peito de Miguel. O animal só fora picado uma vez, mas profundamente. Os músculos do pescoço eram fortes e Miguel obrigava-o a levantar a cabeça para os cansar e depois baixá-la para a estocada. No entanto, o touro sangrava com abundância e perdia as energias.
Miguel tomou as maiores precauções e efectuou os passes com suavidade quando o afastou das tábuas, mas perdia o domínio rapidamente. Por fim, tornou-se algo apático, e como não quisesse brincar, Miguel brincou com ele. Acariciou-lhe o corno, pousou o braço na testa e fingiu que lhe falava ao telefone. O touro nunca poderia responder, mas ainda menos agora que estava exangue, sem fôlego e impossibilitado de investir. Miguel orientou-o através de alguns movimentos que não passavam de tentativas, segurando o corno para o ajudar a concentrar-se, e depois beijou-o.
Fizera tudo o que podia com aquele animal excepto propor-lhe casamento, e a única coisa que restava era matá-lo Perdera-o ao mesmo tempo que o conquistara com as bandarilhas. Mas não se notara na altura.
O touro não dispunha de reservas de energias suficientes para investir a fim de ajudar Miguel com a espada. Este teria de entrar com força e alto e cravá-la se queria competir com António o que não era possível. Tentou cinco vezes sem conseguir embeber a lâmina. Não atingia o osso. Achava-se simplesmente impossibilitado de a cravar. A assistência permanecia estranhamente silenciosa. Aguardava que acontecesse algo a um homem que não lograva compreender.
Pensei que António o derrotara com a capa e a muleta e compadeci-me dele. De súbito, lembrei-me do problema que tivera em Tudela onde fora atingido por uma garrafa, o que provavelmente lhe pesava no subconsciente e produzia um bloqueio que o impedia de cravar a espada tal como um atirador titubeia no instante crucial. Mas não conseguia entrar para matar apropriadamente e depois de tentar cinco vezes com o touro a sangrar e a cabeça oscilante fez-lhe baixar um pouco mais o focinho com a muleta estendida na areia atingiu-o no pescoço com o descabello e desligou a corrente. António obteve um touro com o qual não era possível fazer nada. Demonstrou-o a si próprio e qualquer outro teria sido colhido ou desmoralizado ao prová-lo. Por fim matou-o rapidamente.
Naquela noite após a corrida, no quarto, deitado na cama sob o lençol depois de sair do chuveiro perguntou:
Que lhe parece?
Estamos a ganhar - afirmei.
Ficou satisfeito?
Sócio - observei empregando o termo que significa sócio e chamávamos um ao outro para dissimular a emoção.
Tenho uma surpresa para amanhã.
O que é?
Um pequeno piquenique na praia.
Vamos comer cedo e ir logo para a cama esta noite.
O que quer que seja que impede as pessoas de se preocuparem nos períodos entre combates existia em abundância naquele Verão e não vinha em garrafas, embora os jarros de sangria fossem frios e esvaziados com prontidão na atmosfera fustigada pelo vento quente e seco que soprava dia e noite. Sentíamo-nos contentes com a aproximação da grande corrida e comíamos deliciosos e frescos linguados ou os rougets a que os espanhóis chamam salmonetes e uma paella de açafrão com muitas variedades de marisco. Tínhamos consumido uma salada para começar e optámos por melão para a sobremesa. Esta qualidade de fruta aparecera tarde nesse ano mas agora estava bem madura, e de regresso à cidade assistimos ao deslumbrante fogo-de-artifí-cio. Naquela noite tudo parecia convertido em luz colorida que se despenhava do céu até que a aurora boreal irrompeu sobre a avenida da feira e extinguiu-se com o silvo das canas que caíam antes de a iluminação se acender.
Não sei o que Luís Miguel fez ou como dormiu na noite anterior à primeira corrida decisiva em Valência. Garantiram-me que se tinha deitado muito tarde mas dizem-se sempre coisas depois de acontecer algo. Havia uma de que tínhamos a certeza: preocupava-se com a corrida e nós não. Eu abstinha-me de o procurar para não o aborrecer com perguntas porque ele agora sabia que me encontrava no campo de António. Continuávamos a ser bons amigos mas desde que o vira actuar e estudara com diferentes tipos de touros estava convencido de que era um grande toureiro e António também em quaisquer circunstâncias. Eu acreditava que se este último não atacasse com demasiado ímpeto, ele e Miguel poderiam ganhar muito dinheiro desde que baixassem os preços dos bilhetes e cada um recebesse o mesmo. Se António recebesse menos aceleraria o ritmo até que se Miguel o tentasse igualar ou suplantar seria morto ou fendo com tanta gravidade que não continuaria a actuar. Eu sabia que António podia ser implacável e possuía um orgulho irredutível que nada tinha que ver com o egoísmo. Havia muitas coisas por detrás dele e comportavam uma faceta sombria.
Luís Miguel tinha o orgulho do demónio e uma sensação de superioridade absoluta que se justificava em muitos aspectos. Proclamara durante tanto tempo que era o melhor que acabara por acreditar. E tinha de acreditar para continuar. Agora António abalara-lhe gravemente a confiança e reaparecia inteiro de uma colhida desastrosa para o conseguir todas as vezes, com uma única excepção em que tinham actuado juntos. O alívio para Luís Miguel consistira em ter havido sempre um terceiro matador a actuar com eles, pelo que a comparação nunca fora absoluta. Luís Miguel podia ser sempre melhor que o terceiro homem. Agora teria de o ser apenas com António para competir. Não era o lugar mais aconselhável para um toureiro, dada a maneira como António estava a actuar e ainda menos se recebia mais dinheiro que este. António procedia de forma irresistível como um rio engrossado pelas chuvas e fazia-o ao longo da actual temporada e da precedente.
Era este o aspecto geral do panorama na manhã do dia anterior à corrida, quando saí para dar uma volta pela parte velha da cidade, ao amanhecer. Jogámos uma cartada com a maneira de passar o dia que produziu os frutos esperados. Passámo-lo numa velha, simples e confortável casa de campo e pavilhão de caça a uns cinquenta quilómetros da cidade na região de laranjais entre o mar e o vasto arrozal de Albufera, onde no Inverno se realizam as maiores caçadas aos patos bravos do mundo. Depois de se alcançar a praia, por entre as laranjeiras e o bosque de pinheiros de copas como guarda-chuvas, estende-se por oito brancos quilómetros de areia sem uma única casa. O vento continuava a soprar com intensidade e o mar apresentava ondulação apreciável.
Foi um dia agitado e maravilhoso na praia, durante o qual nos fartámos de nadar quando não estávamos a comer ou jogar futebol. A meio da tarde, decidimos não ir à corrida e acender uma fogueira cerimonial em que queimaríamos os bilhetes. A seguir reconhecemos que isso poderia dar azar, pelo que jogámos mais um pouco de futebol e depois nadámos até anoitecer, indo para lá da rebentação para depois nadarmos contra uma corrente forte que se movia de oeste para o largo. Chegámos a casa extenuados e deitámo-nos cedo como selvagens saudáveis após um dia de exercício árduo.
António dormiu profundamente e bem e acordou satisfeito e repousado quando eu acabava de regressar do sorteio dos touros. Tinham todos aspecto prometedor com cornos fortes fornecidos por Ignacio Sánchez e Baltazar Iban. O vento aumentara durante a noite e o céu apresentava-se encoberto. A ventania soprava com intensidade e parecia mais uma tempestade de Outono do que fins de Julho.
Sente rigidez? — perguntei.
Absolutamente nenhuma.
Os pés estão finos?
O meu pé direito inchara de tanto driblar e pontapear a bola descalço.
Sem dúvida. Nunca me senti melhor. Como está o tempo?
Há vento. Demasiado.
Talvez abrande para a tarde.
Não abrandou e quando a corrida principiou e o primeiro touro de Luís Miguel surgiu na arena o céu estava negro como na iminência de borrasca não havia sol e o vento soprava com fúria. Eu procurara-o antes para lhe desejar boa sorte. Ele mostrara-se sorridente e bem disposto como sempre com o mesmo velho encanto que exibia quando o visitava. No entanto Miguel e António exibiam expressões profundamente graves quando cruzaram a arena para as cortesias iniciais e se aproximaram das tábuas após a saudação ao director da corrida. O primeiro touro de Luís Miguel era rápido e com bom aspecto, de excelente configuração e possante, embora não excessivamente pesado e com cornos úteis. Investiu contra os cavalos com impetuosidade e tudo indicava que seria óptimo para a faena de Miguel. No entanto após as bandarilhas começou a fraquejar. Ele tentou trabalhá-lo do lado da praça menos batido pelo vento porém o touro não gostava visivelmente daquela área. Miguel levou-o mais para o interior da arena e a muleta estendia-se horizontalmente devido às rajadas. Actuou com perícia enfrentando as meias-investidas e dominando-o com inteligência. Procedia de modo satisfatório mas verifiquei que experimentava dificuldades em consegui-lo. O mecanismo no seu íntimo que fora afectado ainda não se encontrava reparado. Mas resistiu o suficiente para lhe permitir matar rapidamente.
O primeiro touro de António era mais difícil que o de Miguel. Apesar de possante, bem armado e bem constituído, era hesitante e tinha tendência para interromper as investidas. António avançou para ele com a capa e começou a convertê-lo num touro indiferente ao vento. Com a muleta encontrou a protecção que pôde perto das tábuas e obrigou o animal a gostar daquela área pela maneira como se acercava dele expondo-se constantemen-te. O touro começou a espevitar-se e não lhe permitindo que desviasse a atenção. António assediou-o com passes baixos da esquerda e continuou com alguns belos pases de pecho. Executou tudo sem solução de continuidade aparente para não quebrar a concentração do touro e mantê-lo no ritmo exacto. Foi uma faena excelente com toda a sua lentidão e graciosidade. Por fim colocou-o na posição mais conveniente, visou a área letal e cravou a espada. O animal caiu pesadamente quase como se tivesse sido atingido por uma bala. O ponto de entrada achava-se ligeiramente desviado para cima do lugar exacto, mas concederam-lhe uma orelha com a qual deu volta à arena. Ganhara o primeiro assalto.
O segundo touro de Luís Miguel era da ganadaria de Baltazar Iban, que substituíra, por determinação dos veterinários, um dos dois de Ignacio Sánchez, rejeitado por possuir cornos inadequados. O animal começou bem e Luís Miguel foi excelente com a capa. Atacava com vigor e achava-se empenhado em superar António. Mas ao chegar o momento das bandarilhas a assistência quis que fosse ele próprio a colocá-las e recusou. Fiquei sem compreender a atitude por se tratar daquilo que melhor efectuava no seu longo e variado repertório. Não sabia se se deveria ao amor-próprio e desejo de querer vencer António na especialidade deste ou a algo que pressentia acerca do touro. O público mostrou-se muito desapontado.
Miguel parecia ter razão pois o animal apagou-se rapidamente, embora não antes de ele executar uma excelente faena com a muleta, principiando com um estatuesco derechazo e fazendo-o seguir de uma série de naturais, excelentes lances baixos para a esquerda, que, dadas as dificuldades do vento e condição do touro, resultaram admiráveis. Depois entregou-se a alguns truques de Manolete e recuperou as simpatias do público. A seguir bastava-lhe matar para obter uma orelha. Mas experimentou as mesmas dificuldades para entrar. O mecanismo voltava a não funcionar e efectuou quatro tentativas com a espada antes de a conseguir cravar. Agora achava-se atrasado na competição e começava a escurecer e o vento a intensificar-se. A arena foi molhada para evitar que se levantasse areia com as rajadas e houve escassas trocas de palavras no callejón durante o intervalo.
Estávamos todos a sofrer com os dois matadores e o teste a que o mau tempo os sujeitava.
É desumano para ambos - disse-me Domingo, irmão de Luís Miguel.
E o tempo está a agravar-se.
Vão ter de acender a iluminação - interpôs Pepe o outro irmão - Depois do próximo touro já não se vê nada.
Miguelillo molhava a capa que António utilizaria para oferecer mais resistência ao vento.
— É uma barbaridade — declarou. — Que vento horrível. Mas ele é forte. Há-de conseguir.
Afastei-me um pouco ao longo da barreira e ouvi Luís Miguel que estava debruçado sobre a vedação dizer:
- Não sei o que me acontece com a espada. Estou um nojo com ela. - Parecia descontraído e exprimia-se como se comen tasse o trabalho de outrem ou um fenómeno que o intrigava. - Ainda falta um. Talvez que tudo se componha com esse.
Alguns amigos falavam-lhe, porém ele fixava os olhos na arena sem responder. António não olhava coisa alguma e pensava no vento. Coloquei-me a seu lado na barreira e conservámo-nos silenciosos.
Terminado o intervalo, o touro de António entrou na arena. Era negro, bem constituído, com bons cornos e aparentemente estúpido. Não acompanhava as capas com o menor interesse e quando António o conduziu em direcção ao picador, Salas, investiu contra o cavalo mas afastava-se rapidamente cada vez que a vara o atingia. O sobressaliente, ou suplente, que teria de matar os touros se Luís Miguel e António fossem colhidos pediu autorização para executar um quite e o animal atingiu-o com prontidão. António acudiu imediatamente em seu auxílio com a capa. O sobressaliente ficara com o calção da farda rasgado e perdera um sapato. Juan recolheu-o do chão e atirou-o por cima da barreira.
O touro ficou pior após as bandarilhas e não queria saber de nada. António tinha de segurar a muleta como uma vela ao vento para o trabalhar e colocar na posição para matar. Precisava de efectuar tudo graças à força exercida pelos pulsos, porque a muleta, estendida pelas rajadas, ondulava de facto como uma vela. Eu sabia que ele tinha o pulso direito magoado desde longa data, sendo apertado numa ligadura antes das corridas para que não o traísse no momento de matar. Agora não lhe prestava atenção, mas deslizou um pouco quando entrou para matar e a espada não entrou a direito. Quando regressou à barreira no final da faena ficou a meu lado. Tinha o rosto tenso e carregado e o pulso pendia como se fosse postiço. A iluminação acendeu-se e vislumbrei-lhe uma expressão intensa no olhar que nunca tinha notado na arena ou fora dela. Fez menção de dizer algo mas mudou de ideias.
- Que aconteceu? - perguntei.
Abanou a cabeça e volveu o olhar para onde as mulas arrastavam o touro para fora da arena. Sob o clarão das luzes o vento começava já a levantar a areia que fora molhada ainda não havia um quarto de hora.
- Este vento é terrível, Ernesto - observou em voz dura e estranha.
Eu nunca lhe ouvira a voz alterar-se na arena excepto quando se encolerizava, e nesses casos era baixa e não mais elevada que o habitual. O tom daquele momento também não era mais alto nem de lamentação. Ele queria estabelecer alguma coisa. Ambos sabíamos que iria acontecer algo mas aquele instante era o único em que ignorávamos a quem aconteceria. Perdurou apenas o suficiente para pronunciar as cinco palavras. Ele aceitou um copo de água de Miguelillo e cuspiu-a na areia, após o que pegou na pesada capa de toureio sem se preocupar com o pulso.
O último touro de Luís Miguel surgiu num tropel sob a iluminação. Tinha cornos grandes e era rápido. Perseguiu um banda-rilheiro por cima da vedação, investiu contra o burladero e perfurou as tábuas com o corno esquerdo. Tentou saltar para dentro da barreira mas não conseguiu. Quando os picadores entraram investiu bem e derrubou o cavalo. Luís Miguel mostrava-se seguro embora discreto com a capa. O vento expunha a sua fraqueza básica nas verónicas e tornava impossíveis os lances alegres com a capa por cima dos ombros. O touro estava nervoso e tinha leve tendência para se conter e travar com as patas traseiras e Miguel não queria colocar as bandarilhas. O público revelou-se ainda mais insistente do que fora com o seu segundo touro, mas ele recusou. O público não gostou. Uma das razões justificativas dos preços elevados das entradas era vê-lo colocar bandarilhas. Miguel começava a perder a simpatia dos espectadores mas estava convencido de que conseguiria trabalhar o touro com a muleta e executar uma boa faena que os reconquistaria. Escolheu o local menos ventoso da praça que logrou encontrar, onde o animal seria trabalhável, perto das tábuas e preparou-se para utilizar a encharcada e enlameada muleta. Pediu mais água e arrastou o pano vermelho pela areia para o tornar mais pesado.
O touro investiu bem e ele efectuou dois passes estatuescos com a espada e a muleta em ambas as mãos enquanto fazia passar todo o comprimento do corpo do inimigo debaixo do pano à medida que o levantava. Viu que ainda não o dominava por completo, pelo que efectuou quatro derechazos baixos para o castigar e apoderar-se dele. A seguir levou-o da proximidade das tábuas, onde o animal começava a manifestar indiferença. Luís Miguel executou mais dois derechazos e o touro pareceu melhorar. De súbito, quando iniciava um terceiro passe, o vento levantou a muleta e descobriu-o e o touro enfiou a cabeça por baixo e pareceu atingi-lo no ventre com o corno direito. O corpo voou para cima e o outro corno cravou-se-lhe na virilha ao descer. António acorreu para afastar o animal com a capa mas antes que alguém chegasse lá este último conseguiu investir contra Miguel mais três vezes, enquanto permanecia deitado de costas, e eu vi distintamente o corno direito cravar-se de novo na virilha.
António acabou por atrair o touro e Domingo, que saltara da barreira no momento em que Luís Miguel fora colhido, arrastou este para fora da área de perigo. Domingo, Pepe e os bandari-lheiros levantaram-no em seguida e levaram-no para a barreira. Nós ajudámo-los a conduzi-lo apressadamente à sala de operações por baixo das bancadas. Eu conservava-lhe a cabeça levantada. Luís Miguel pousava as mãos na região atingida e Domingo exercia pressão com o polegar na periferia do ferimento. Não se registava hemorragia c compreendemos que o corno não alcançara a artéria femoral.
Luís Miguel mostrava-se absolutamente calmo e muito afável e cortês com todos.
- Muito obrigado, Ernesto - disse quando lhe pousei a cabeça na almofada enquanto o despíamos e o Dr. Tamames rasgava a farda para expor a área atingida.
Havia um único ferimento. Situava-se no topo da coxa direita. Circular, com uns cinco centímetros de extensão e azulado nas bordas. Agora que Miguel se deitava de costas, o derramamento de sangue era todo interno.
Olhe, Manolo - indicou ao Dr. Tamames, pousando o dedo num ponto um pouco acima do local atingido. — Começa aqui e depois sobe assim até aqui. - Traçou a trajectória do corno na viri lha e parte inferior do abdómen. - Senti-o entrar.
Muchas gracias - replicou o médico em tom brusco e indi ferente. - Eu verificarei até onde foi.
A enfermaria parecia um forno, sem ventilação, c todos transpirávamos com abundância. Os fotógrafos trepavam à nossa volta, os flashes disparavam com insistência e repórteres de jornais e curiosos acumulavam-se à entrada.
- Vamos operar imediatamente — anunciou Tamames. — Ponha toda esta gente lá fora, Ernesto, e — acrescentou a meia-voz — você também.
Vi que Miguel se encontrava agora confortável na mesa e disse-lhe que voltaria mais tarde.
- Até logo, Ernesto - murmurou e sorriu.
Tinha o rosto cinzento e alagado em suor e o sorriso era terno. Havia dois agentes da Guardiã Civil à entrada e outros dois do lado de fora da porta.
- Façam sair toda a gente - disse-lhes. - Não deve entrar nin guém. Depois fiquem dois junto da porta e mantenham-na aberta para que o ar circule.
Eu não tinha o menor direito de dar ordens mas eles não sabiam e esperavam que alguém lhes dissesse o que deviam fazer. Efectuaram a saudação militar e começaram a esvaziar a sala. Saí com lentidão e mal me encontrei sob as bancadas corri para a entrada do callejón. Sobre a minha cabeça havia um rugido que irrompia repetidamente e quando me aproximei da barreira sob as luzes amarelas, António lidava um touro vermelho enorme cada vez mais perto e mais admiravelmente do que eu jamais o vira fazer com a capa.
Conservou o animal intacto e apenas permitiu uma vara. O touro era muito rápido e forte e mantinha a cabeça levantada. António queria-o veloz e ansiava por que as bandarilhas fossem colocadas. Era de facto bravo e ele estava convencido de que conseguiria baixar-lhe a cabeça apropriadamente. Deixara de se preocupar com o vento e tudo o resto. Deparava-se-lhe finalmente um touro bravo na feira. Era o último e nada o poderia alterar. O que fizesse com ele ficaria gravado toda a vida na memória das pessoas que assistissem.
Dedicou o touro a Juan Luís em cuja casa de campo tínhamos passado o dia anterior, atirou-lhe a montera e sorriu. A seguir fez com o touro tudo aquilo de que o maior matador era capaz e ainda melhor. Começou com os passes a duas mãos de Miguel sem mover os pés, purificando a linha da passagem e obrigando o animal a erguer bem a cabeça sob a agitação suave da muleta. Seria impossível os cornos moverem-se mais perto. Depois enveredou por naturais baixo, lentos, pela esquerda e fez o touro passar repetidamente à sua volta. Entretanto a multidão explodia a cada passe.
Após demonstrar a lentidão e beleza com que podia actuar, passou a revelar até que ponto se conseguia aproximar perigosamente. Excedeu os limites da prudência e pareceu tourear sob uma fúria controlada. Era admirável mas fora muito além do impossível e efectuava consistente e continuamente o que ninguém podia fazer e fazia-o com alegria e desprendimento. Eu desejava que parasse e matasse. No entanto, ele estava embriagado com a situação e executara tudo no mesmo pedaço de terreno que escolhera e cada série de passes achava-se ligada a todas as outras e cada passe a todos os passes.
Por fim colocou o touro na posição conveniente como se lhe custasse despedir-se dele, enrolou a muleta e entrou para matar. Atingiu o osso e a espada encurvou-se devido ao choque. Preocupei-me com o pulso magoado mas tornou a colocar o touro e visou um ponto um pouco mais alto. A lâmina embebeu-se até ao punho e ele permaneceu diante do touro com a mão levantada e observou-o inexpressivamente até que caiu morto.
Concederam-lhe as duas orelhas e quando se aproximou da barreira para recuperar a montem Juan Luís gritou-lhe em inglês:
Foi de mais.
Como está Luís Miguel? - perguntou-me António. Entre tanto circulava a informação de que a cornada perfurara os mús culos abdominais e abrira o peritoneu, mas não alcançara os intestinos. Miguel achava-se ainda sob o efeito da anestesia.
- Bem-respondi.-Não houve perfuração. Ainda está inconsciente.
- Vou vestir-me e iremos vê-lo.
Os espectadores afluíam à arena para o levar em ombros e ele tentava repeli-los. Mas eram muitos e acabaram por alcançar os seus intentos.
Da enfermaria caiada de branco com três camas da praça de touros onde fazia mais calor que na cela de uma prisão do Senegal, transferiram Luís Miguel numa maca para o quarto com ar condicionado do Royal a fim de seguir de avião para Madrid na manhã imediata. António e eu tínhamos ido vê-lo à enfermaria da praça logo que o meu amigo se vestira.
- Nós os três matadores dormimos aqui uma noite quando eu era novilheiro - explicou ele. - Fazia tanto calor como agora.
Luís Miguel estava fraco e fatigado mas bem disposto quando o vimos e retirámo-nos imediatamente para que descansasse. Emitiu um comentário irónico sobre o facto de eu dar ordens à Guardiã Civil e Domingo referiu que a primeira coisa que dissera quando acordara da anestesia fora Que homem seria Ernesto se soubesse escrever!. Três dias mais tarde encontrávamo-nos de novo todos juntos na Clínica Ruber de Madrid, com António numa cama do terceiro andar e Luís Miguel no primeiro. Duas semanas depois participavam no seu segundo mano a mano em Málaga. Foi assim que as coisas se passaram naquele ano.
Na manhã seguinte o grupo que estava junto desde Pamplona separou-se. Era um momento triste e ninguém desejava que acontecesse. António actuava em Palma de Maiorca no dia imediato e no outro a seguir em Málaga. Nós, os restantes, rumámos a Alicante, depois através de palmeiras e dos extensos pomares de Márcia, atravessámos Lorca, desembocámos na região montanhosa, percorremos os vales solitários com as casas caiadas de branco das aldeias e os rebanhos de ovelhas e cabras que levantavam nuvens de poeira na estrada, até que descemos e emergimos das colinas já ao anoitecer e transpusemos a entrada da ravina onde tinham fuzilado Federico Garcia Lorca e avistámos as luzes de Granada. Dormimos nessa cidade e fazia fresco no Alhambra pela manhã, chegando a La Consula a tempo de comer antes da corrida em Málaga.
Na manhã seguinte quando Bill e eu nos deslocámos a Málaga inteirámo-nos de que António fora colhido em Palma de Maiorca. Tinha sofrido uma cornada na coxa direita mais concluíra a faena brilhantemente com a muleta, entrara para matar bem e obtivera a orelha. Após a corrida tinham-no levado de avião rara Madrid.
Tentámos telefonar para a capital mas preveniram-nos de que teríamos de esperar pelo menos cinco horas. Não havia lugar no avião daquela noite para Madrid assim como no da manhã. Eu
Verão Perigoso tinha o forte pressentimento de que o ferimento era mais grave do que constava e Bill disse:
- Se está preocupado por que não seguimos para lá de carro depois do almoço? Agora já conhecemos a estrada.
Por conseguinte telegrafei a Carmen para informar de que chegaríamos de manhã e enviei mensagens de todos nós. Segundo a teoria de Bill as estradas espanholas, apesar das curvas e declives perigosos e das quatro cristas montanhosas que tínhamos de percorrer, ofereciam maior segurança durante a noite porque não havia praticamente circulação de carroças ou rebanhos e os carros particulares também eram poucos. Os grandes camiões que transportavam peixe do Mediterrâneo para Madrid eram conduzidos por indivíduos experientes e cautelosos que tinham cuidado com a utilização dos máximos. Em regra procurávamos viajar de dia porque gostávamos de admirar a paisagem, mas a teoria de Bill parecia sensata e chegámos à capital a tempo de comer alguma coisa e dormir antes de nos apresentarmos no hospital na altura em que António acordasse.
Encontrámo-lo a repousar com calma. Quando nos viu mostrou-se contente e jovial.
Eu sabia que viriam. Tinha a certeza ainda antes de Car men receber o telegrama.
Como vai isso?
O ferimento é mais profundo do que se pensava e estende- -se muito mais pelo músculo. O inconveniente em termos de recu peração é ter atingido a cicatriz de uma colhida antiga. Mesmo no centro.
Que fazia na altura?
A culpa é sempre nossa. Mas estava a proceder bem.
Vento?
Sim, mas numa arena diferente.
Não queria falar do assunto; apenas dos pormenores técnicos do ferimento e do tempo que tardaria a cicatrizar.
- Não se preocupe - recomendei. - Agora vou conversar com Manolo e Carmen e voltarei à tarde.
— Deixe-me enviar uma mensagem a Miguel. Eu escrevo-a e Carmen pode fazê-la descer pela janela atada a um cordel.
Ela estava tão satisfeita e aliviada por António não ter sido colhido com gravidade e o irmão poder agradecer ao factor sorte não se encontrar a contas com um ferimento importante que se apresentava eufórica como no dia do aniversário.
António escreveu o bilhete e ela e Miguelillo o portador da espada ataram-no a um cordel juntamente com um abre-cápsu-las e fizeram-no descer pela janela até à do quarto de Miguel. Era do seguinte teor “O escritor E. Hemingway solicita respeitosamente ao toureiro L. M. Dominguín que o receba. A resposta não tardou a seguir pela mesma via “Decerto com o maior prazer se o toureiro A. Ordónez não receia que ele contraía urticária através do contacto com L. M. O..
Luís Miguel estava com aspecto excelente, bem disposto e atencioso. A esposa era bonita, serena e simpática. Pareceu-me que ele perdera tudo o que lhe pesava no espírito e recuperara a confiança em si próprio. Agora não se mostrava apreensivo e o facto de António também ter sido colhido animara-o substancialmente.
As nove corridas da feira de Málaga haviam-se baseado em Luís Miguel e António, pelo que os organizadores tinham de rectificar o programa o melhor que pudessem. No entanto a sombra de ambos pairava sobre a feria e todos os matadores estavam empenhados em superá-los na sua ausência. Talvez fosse o lugar mais apropriado para o efeito.
Era agradável ter terminado a feira e estar de novo na tranquilidade de La Consula. Todas as tardes no final das corridas seguíamos a pé ou alugávamos uma tipóia da praça de touros para o Hotel Miramar cujo bar e terraços sobranceiros ao mar se achavam repletos de veraneantes pessoais abastados da cidade uma mescla de aficionados da tauromaquia, toureiros e seus seguidores, apoderados, criadores de touros, jornalistas, turistas, pervertidos sexuais estivais de ambos os sexos, simples conhecidos ou amigos aristocratas indivíduos suspeitos, contrabandistas de Tânger jovens cordiais dejeans outros menos abordáveis com idêntica indumentária, velhos amigos, ex-velhos amigos, cravas de bebidas e tipos inclassificáveis. Não se comparava à nossa adorável e saudável ainda que cansativa vida em Pamplona e caseira de Valência, mas era interessante e divertida até certo ponto. Eu só bebia Campanas que o empregado conservava frio num balde de gelo atrás do balcão e quando as conversas atingiam os decibéis da gaiola das aves de um parque zoológico retirávamo-nos e íamos ver dançar um par de jovens conhecidos no piso inferior onde as numerosas mesas se estendiam até ao mar. Mas ficávamos aliviados quando tudo terminava e sentíamos um grande prazer por não haver pessoas que nos interrogavam ou na maioria dos casos descreviam coisas que tinham visto mas não desejávamos abordar nem explicar.
António tivera alta do hospital e seguira para a herdade de Luís Miguel para se treinar na arena aí existente. Nós não nos inteirámos de nada de especial, excepto que a próxima corrida seria a catorze de Agosto se Luís Miguel estivesse em forma e António iria treinar-se para La Consula antes disso.
Apareceu três dias antes da corrida com o amigo Ignacio Angulo um basco de trato agradável e idade aproximada à dele e a quem chamávamos Natcho. António disse que a perna não o incomodava mas o ferimento nos tecidos da cicatriz sarara mais lentamente do que o normal. Estava ansioso pelo próximo mano a mano com Luís Miguel embora não quisesse pensar no assunto nem no toureio em geral ou mesmo falar disso. Recordava-se do bem que lhe fizera o dia que passara na praia antes da corrida de Valência e voltámos lá. Por fim após almoços alegres e descontraídos e jantares longos e não menos agradáveis juntamente com sono reparador à noite em resultado da natação no mar chegámos à véspera do grande dia. Ninguém voltara a referir-se à corrida até que ele disse:
— Amanhã visto-me no hotel da cidade.
Foi uma das touradas mais grandiosas a que jamais assisti Luís Miguel e António encaravam-na como a ocorrência mais importante das suas vidas. O primeiro convalescera da grave colhida em Valência e a forma como o ferimento cicatrizara restituíra-lhe a confiança que a faena incrivelmente perfeita e arrojo e coragem leoninos do segundo lhe tinham abalado. A colhida de António em Palma provara que não era invulnerável e constituía uma circunstância afortunada para Luís Miguel não ter presenciado o seu trabalho com o último touro na corrida de Valência. Duvido sinceramente que quisesse voltar a actuar com ele no mesmo cartaz se tivesse assistido. Com efeito não precisava de dinheiro apesar de o estimar e as coisas que lhe permitia adquirir. Acima de tudo interessava-lhe acreditar que era o maior matador vivo. Já não era mas podia considerar-se o segundo e no auge da sua carreira fora de facto um artista.
António dirigiu-se para a corrida com toda a confiança que sentira em Valência. O que acontecera em Maiorca afigurava-se-lhe destituído de significado. Cometera um pequeno erro que não queria discutir comigo e não repetiria. Há muito que se convencera de que era melhor matador que Luís Miguel. Provara-o recentemente em Valência e ansiava por tornar a prová-lo agora.
Os touros eram da ganadaria de Juan Pedro Domecq e nenhum parecia diferente, excepto o primeiro. Havia dois duros que poderiam causar dificuldades a outros matadores, mas não a Luís Miguel ou António. Miguel estava pálido, tenso e com ar fatigado quando principiou a lidar o primeiro touro que era perigoso e investia para ambos os lados com os cornos. Ele dominou-o com graciosidade cansada. Não se tratava de um animal que lhe permitisse brilhar mas trabalhou-o com inteligência e perícia e executou os lances que a condição do touro autorizava. Quando o matou entrou com firmeza, porém a espada deslizou para o lado e a ponta reapareceu através da pele atrás do cachaço. Um bandarilheiro extraiu a lâmina com uma volta da capa e Luís Miguel matou o inimigo com o descabello à primeira tentativa. Enquanto observava a faena da barreira eu sentia-me preocupado com o aspecto dele e esperava que utilizasse a espada melhor com o seu segundo touro. Embora aquele tivesse constituído um acidente deixara-me apreensivo.
Outra coisa que me apoquentava era o número elevado de fotógrafos e operadores cinematográficos presentes sem experiência de semelhantes ambientes. O mínimo movimento enquanto o matador trabalhava o touro que este conseguisse ver podia distrai-lo e obrigá-lo a investir, quebrando assim o domínio do primeiro com a capa sem que soubesse por que acontecera. Todos os habituais frequentadores do callejón estão ao corrente do facto e tomam a precaução de manter a cabeça abaixo do nível da vedação quando se movem e permanecer absolutamente imóveis quando o touro está voltado para eles. Um toureiro inconsciente ou criminoso apoiado às tábuas dentro da arena pode igualmente atrair-lhe a atenção com um pequeno movimento involuntário da capa e levá-lo a precipitar-se sobre um colega que se prepara para o matar.
O primeiro touro de António surgiu e ele citou-o com a capa como se estivesse a inventar a arte do toureio e tudo viesse a correr com perfeição absoluta desde o princípio. Foi assim que actuou durante todo o Verão. Naquele dia em Málaga tornou a superar-se a si próprio e fez poesia de movimento com a massa perseguidora opressiva e persistente do touro. Depois com a muleta esculpiu os passes com suavidade e lentidão convertendo toda a longa faena num poema. Matou-o com uma única estocada entrando perfeitamente e o ponto de penetração da espada três centímetros e meio abaixo do topo da área mortal. Concederam-lhe as duas orelhas e a assistência exigiu o rabo.
O segundo touro de Luís Miguel entrou a trote e eu reflecti que não se podia dizer que a sorte tivesse bafejado o rival de António. Tornava-se difícil obrigar o animal a manter-se imóvel o tempo suficiente para o avanço dos cavalos e as varas que lhe foram cravadas não lhe incutiram firmeza. Eu compadecia-me cada vez mais de Luís Miguel que acertava a situação sem se queixar. Não podia correr para colocar bandarilhas mas indicou com exactidão onde as queria cravadas. Conseguiram firmar um pouco o animal.
Luís Miguel enfrentou-o com passes lentos e baixos com ambas as mãos servindo-se da muleta. Pôs termo à tendência para o trote do animal e colocou-o de modo que investisse de um lugar e depois acompanhasse o pano ao ritmo que criava para ele. Capeou-o alto e por baixo do pano e depois começou a trabalhá-lo com naturais baixos e lentos com a espada na mão direita inclinada para fora a partir do quadril.
Alto empertigado de expressão grave sem se desviar um milímetro do terreno em que decidira trabalhar o touro ajustou a muleta para o nível normal dos olhos deste para que não tivesse de inclinar o pescoço e principiou a fazê-lo mover à sua volta no género de naturais que Joselito teria subscrito. Concluiu com um belo pase de pecho, o passe pela esquerda que levou os cornos do animal a roçar-lhe o peito e deixou as dobras da muleta deslizar ao longo do corpo do touro dos cornos até à cauda. A seguir endireitou o touro, enrolou a muleta no pau, visou o ponto crucial e entrou perfeitamente com todo o impacto possível. Era o terceiro da corrida morto à primeira tentativa. Miguel lidara-o admiravelmente e tivera de o preparar para o poder fazer com perfeição. Agora recuperara a espada e toda a confiança. Entrou com um sorriso depreciativo e aceitou as duas orelhas e o rabo modestamente, após o que deu volta à arena com eles. Notei que pousava com ligeira dificuldade o pé direito que o primeiro touro pisara mas não o dissimulava. Compreendi que a perna daquele lado lhe doía e ainda não se apoiava nela com inteira confiança. Reagia de uma forma extraordinária e eu nunca o admirara tanto.
Assolavam-me fortes dúvidas de que António pudesse ser melhor com a capa do que fora com o seu primeiro touro. Mas foi. Enquanto o observava da barreira tentava determinar como o conseguia e sempre de um modo tão belo. Eram a proximidade e a lentidão que esculpiam a figura e faziam cada passe parecer permanente. Mas eram a completa naturalidade e a clássica simplicidade com que via a morte rondá-lo como se lhe orientasse o caminho, ajudasse e tornasse sua companheira num ritmo crescente, que tornavam tudo tão emocionante.
Com a muleta, desta vez principiou com os quatro grandes passes baixos que costumava efectuar com o joelho e perna direitos estendidos na areia paira assumir o domínio do touro. Cada um era um modelo de execução mas não se tratava de um trabalho frio. Desenrolavam-se tão perto que os cornos passavam a milímetros das suas coxas ou do peito em cada vez. Não se debruçava sobre o corpo do animal depois de o corno passar. Não havia truques e cada passe constituía uma longa pausa na respiração das pessoas que contemplavam o homem e o touro. Eu nunca receava por António com a capa e não me acudiu a menor preocupação durante aquela maravilhosa faena, embora cada passe fosse dos mais difíceis e perigosos de executar numa arena. O touro era bom, muito melhor do que o de Miguel. António estava contente com ele e efectuava uma faena perfeita, bela e profundamente emocionante. Não o deixou à vontade por muito tempo e entrou perfeitamente para matar o amigo com uma única estocada.
Havia agora quatro touros mortos com uma estocada cada um, e a corrida representava um longo crescendo. Concederam a António as duas orelhas e o rabo e cortaram a parte inferior de uma pata. Deu volta à arena tão contente e despreocupado como se estivesse na piscina. O público insistiu em que recebesse mais uma ovação e ele pediu a Luís Miguel e Dom Juan Pedro Domecq, criador dos touros, que o acompanhassem.
Agora era a vez de Luís Miguel provar o que valia. Citou o touro com os dois joelhos pousados recorrendo a uma larga cambiada e quase permitindo que o animal lhe tocasse com o corno antes de o desviar com a capa. O touro era bom e ele aproveitou-o o melhor possível. Foi bem picado e Luís Miguel mandou colocar as bandarilhas rapidamente. Da barreira pareceu-me que estava muito cansado, mas ele não prestava a menor atenção à sua condição física, evitando absolutamente coxear e trabalhava com tanta paixão como se fosse um rapaz faminto no início da carreira.
Com a muleta colocou o touro um pouco afastado à as tábuas, encostou-se a elas e sentando-se no estribo - saliência de madeira que circunda o interior da barreira para os toureiros disporem de um trampolim para a transpor -, capeou-o cinco vezes junto do braço direito estendido que lhe indicava o caminho com o pano vermelho desfraldado. O animal passou em cada uma com um silvo de respiração anelante e o chocalhar das bandarilhas, as patas pesadas na areia, com o corno a curta distância do braço. Parecia uma sorte suicida mas com um touro bom que investia a direito não passava de um truque razoavelmente perigoso.
Depois disto, Miguel levou-o para o meio da arena e começou a executar passes clássicos com a mão esquerda. Parecia cansado porém confiante e actuava bem. Procedeu a duas séries de oito naturais num estilo admirável e quando executava um passe pela direita aproximando-se pela retaguarda o animal colheu-o. Do ponto em que me encontrava o corno pareceu penetrar no corpo e projectá-lo a mais de dois metros de altura. Os braços e pernas de Luís Miguel estenderam-se como os de um boneco, largando a muleta e a espada, e caiu de cabeça. O touro pisou-o tentando enfiar o corno mas não conseguiu. Acudiram todos de capas estendidas e desta vez foi o irmão Pepe que saltara da barreira que o arrastou para fora da zona de perigo.
Miguel levantou-se com prontidão. O corno não penetrara e introduzira-se entre as pernas para o levantar pelo que não havia qualquer ferimento.
Sem se preocupar com o que o animal lhe fizera, gesticulou para que os outros se afastassem e prosseguiu a faena. Repetiu a sorte em que fora colhido e voltou a fazê-lo como se pretendesse dar uma lição a si próprio e ao touro. Continuou com outros passes matematicamente próximos e correctos sem prestar a menor atenção ao que o inimigo lhe produzira. Tornou-os mais emocionais e um pouco ardilosos. O público gostou mais deles assim. No entanto lidava com limpeza e bem sem recorrer a qualquer dos truques do telefone. Por último matou bem, entrando com confiança como se nunca na vida se lhe tivessem deparado problemas com a espada. Concederam-lhe tudo como a António, e merecía-o. Terminada a volta à arena e quando se tornava impossível dissimular que coxeava, agora que a perna adquirira rigidez, chamou António para saudar o público do centro da arena. O director da corrida determinou que o touro também fosse arrastado uma vez em torno da arena.
Havia cinco touros mortos com outras tantas estocadas, quando surgiu o último e o ruído da multidão extinguiu-se no momento em que António avançou para ele com a capa e iniciou os passes longos, lentos e mágicos. Os espectadores não tardaram a soltar exclamações a cada um.
O touro pareceu coxear um pouco após a intervenção do picador, embora a vara tivesse sido bem colocada. Pareceu-me que magoara ligeiramente uma das patas dianteiras quando tentava atingir o cavalo através da espessa protecção. Não obstante a deficiência desapareceu ou, pelo menos, atenuou-se, quando Ferrer e Joni colocaram as bandarilhas, embora no momento em que António se aproximou com a muleta mantivesse uma atitude algo incerta nas investidas e manifestasse tendência para travar com as patas dianteiras em vez de levar a investida até ao fim.
Apoiado às tábuas da barreira, vi António tornear a dificuldade. Enfrentou a investida de mais perto do touro e depois alongou-a suavemente. Fê-lo deslocar-se com o movimento lento da muleta e, fixando-o com o pano, prolongou-lhe as investidas quase imperceptivelmente até que acabou por investir contra o pano vermelho de uma distância apreciável e os passes resultaram impecáveis. Todavia nada disto transparecia para a assistência, que apenas via um animal hesitante e relutante em investir, converter-se noutro que o fazia de uma forma perfeita e dava a impressão de extraordinariamente bravo. Ignorava que se António se tivesse limitado a actuar diante da cara do touro e tentasse demonstrar que este se recusava a investir como faz a maioria dos matadores, o animal manteria aquela atitude e ele deveria cingir-se a meios-passes. Ao invés ensinara-o a investir bem e passar completamente. Ensinou-lhe a efectuar aquilo que era na realidade perigoso e depois dominou-o e prolongou-o com o controlo mágico do braço e pulso até que passou a executar com o touro os mesmo passes esculpidos dos outros dois que trabalha com facilidade. Nada disto transparecia e após efectuar todos os grandes passes com aquele touro e com a mesma pureza de recorte e emoção da sua proximidade e perigo calculado o público pensou que lhe calhara meramente mais um animal nobre e extraordinário.
Executou uma faena perfeita e emocional com aquele touro, mantendo-o controlado nos passes longos e lentos, em qualquer dos quais, se se apressasse ou revelasse apenas um pouco abrupto, pararia a meio da investida e desviar-se-ia do pano para colher o matador. Esta maneira de tourear é a mais perigosa do mundo e naquele derradeiro touro António deu um autêntico curso da maneira de proceder.
Restava-lhe unicamente fazer uma coisa. Tinha de matar com perfeição absoluta, sem tomar qualquer vantagem para si próprio, nem baixar o ponto de entrada um único milímetro, ou uma simples sugestão para o lado, onde também penetraria com menores possibilidades de atingir o osso. Por conseguinte, quando enrolou a muleta e visou o alvo com a espada, apontou ao ponto mais elevado da área fulcral entre as omoplatas e cravou-a por cima do corno, a mão esquerda baixa e orientando com o pano. Ele e o touro formaram uma única massa sólida e quando saiu por cima do corno o animal tinha a longa morte de aço embebida no corpo e a aorta seccionada. António viu as patas tremerem e cederem ao peso subitamente insustentável e a segunda mano a mano chegou ao fim.
Faltavam ainda a histeria da multidão, as orelhas, o rabo, a pata, a volta à arena, pelo touro arrastado, o passeio triunfal dos dois matadores e do capataz da ganadaria de Domecq, levados em ombros até ao Hotel Miramar. Houve também as autópsias, a sensação purificadora de vazio após uma grande corrida, as coisas que dissemos uns aos outros, o jantar daquela noite em La Consula, e de manhã cedo partíamos num avião fretado para repetir tudo, com um pouco de sorte, na arena de Baiona, França. Os dados estatísticos tinham-nos precedido pela rádio e telegrama: dez orelhas, quatro rabos, e duas patas. Mas isso não significava nada. O importante era que os dois cunhados tinham actuado numa corrida quase perfeita que não fora manchada por qualquer truque dos toureiros ou manobras inconfessáveis dos apoderados ou organizadores.
O voo desde Málaga sobre as montanhas e planalto de La Mancha e Castela foi admirável aos primeiros clarões do dia e a visão das elevações íngremes e intermitentes permitiu-me avaliar o género de viagem por terra que teríamos efectuado. Antes de pousarmos em Madrid e seguir para França houve uma altura em que não me foi possível contemplar convenientemente a região amarelada com as suas estradas sinuosas e casas castanhas porque o piloto e o co-píloto deixaram Miguel e António ocupar os seus lugares. Que eu soubesse nenhum dos dois possuía o brevet de aviador e duvido que isso pudesse acontecer em qualquer outro país. A teoria consistia evidentemente em que um toureiro sabe fazer de tudo, e eu transpirei devido às bruscas variações de altitude e repentinas excentricidades do aparelho ao mesmo tempo que observava o solo agora pouco acolhedor até que o piloto reassumiu o comando das operações.
O aeroporto de Biarritz era novo, bem concebido, verde e irrepreensivelmente conservado. Chovera com intensidade e tinha havido uma tempestade procedente da Baía de Biscaia, e Baiona exalava um odor a lavada de fresco quando o sol surgiu à tarde. A cidade achava-se cheia de gente e havia apenas um quarto no hotel que António e eu partilhámos e providenciámos para que me fosse concedido quando ele partisse a seguir à corrida. Tinha de actuar em Santander na costa ocidental de Espanha no dia imediato e depois seguiria para Ciudad Real, onde, juntamente com Luís Miguel, participaria num novo mano a mano, a dezassete de Agosto. Eu passaria a noite em Baiona para ver este último tourear a dezasseis, enquanto António actuava em Santander, e depois voaria com Miguel para Madrid, a fim de me dirigir a Ciudad Real.
Havia vários dias que a lotação estava esgotada. A areia encontrava-se molhada e pesada embora brilhasse o sol. Os touros eram pequenos e alguns cornos tinham sido despontados tão radicalmente e depois aguçados e polidos para parecerem naturais que se me tornou impossível encarar a corrida como um verdadeiro teste entre os dois homens.
Luís Miguel tinha um joelho rígido em virtude da colhida de Málaga. Agravara-se durante o voo e a longa viagem não contribuíra para que melhorasse. Não tinha confiança em certos movimentos que fazia e reconhecia que perdera a segurança. Apenas conseguiu simular uma morte apropriada. Dois dos seus touros eram difíceis e o domínio do touro difícil já não se achava presente. O segundo revelou-se excepcionalmente bom e ele reuniu energias para contrabalançar a insegurança e dores, actuou bem com a capa e executou uma faena excelente que concluiu com os truques que o público adorava e esperava dele. Parecia em condição excelente quando efectuava todo esse trabalho com a muleta. Tornava-se rápida e genuinamente trágico, embora poucas pessoas se apercebessem então, mas esforçou-se por não coxear ou invocar pretextos para se retrair em qualquer dos touros. Matou o seu único touro bom com uma espada que entrou quase perpendicularmente ao arquear o braço. No entanto atingiu o ponto conveniente e concederam-lhe as duas orelhas. Com o último não fez nada além de sofrer galantemente e tentar espevitá-lo na medida do possível. Eu compadecia-me dele pois acreditava que atingira o apogeu em Málaga que jamais se repetiria.
António destruiu-o implacavelmente com os seus três touros. Dois eram melhores que os de Miguel, mas depois da triste actuação deste com o primeiro, sem dúvida inferior. António carregou no acelerador como um piloto de corridas empenhado em ultrapassar um rival a contas com uma avaria e conseguiu mais uma actuação perfeita e brilhante com a capa, a muleta e a espada. Cortou as duas orelhas. Como Luís Miguel reagira a isso com o bom trabalho no touro seguinte e cortara duas orelhas, António aumentou o ritmo com o animal imediato e deixou Miguel para trás com uma faena que nenhum toureiro poderia igualar. Esforçou-se quatro vezes mais do que era necessário para o vencer. Tornou a cortar as duas orelhas e o rabo após uma única estocada. Da barreira pude observar que baixava levemente a espada para ter a certeza. Mas aproximou-se perigosamente, ofegante, de boca aberta, saindo por cima dos cornos depois da estocada.
Finalmente, após a infelicidade de Miguel com o último touro, mostrou-se implacável. Aperfeiçoou a sua derradeira actuação, tornando-a ainda mais sólida e perigosa, acrescentou algumas coisas que sabia serem do agrado do público e a seguir tentou entrar pelo ponto mais elevado da área mortal. Atingiu o osso repetiu a tentativa com êxito e o touro morreu como o último do dia anterior. Cortou as duas orelhas e já partira para Santander quando cheguei ao quarto deixando um par de sapatos de toureio enlameados na casa de banho.
Na noite seguinte tomámos umas bebidas no terraço do excelente aeroporto de Biarritz com Miguel e os seus velhos amigos que conhecera na véspera ao almoço e seguimos para Madrid no avião fretado. No dia seguinte, Luís Miguel e António deviam actuar em mais um mano a mano, em Ciudad Real, cento e noventa e seis quilómetros a sul de Madrid na raia de La Mancha. Todas as corridas eram duras mas aquela seria particularmente difícil e o terceiro mano a mano em quatro dias. No imediato António actuaria em Bilbau, no País Basco, e Miguel na mesma praça vinte e quatro horas depois. Estávamos todos cansados e dormimos até sentirmos o avião pousar em Barajas.
Desde Pamplona que Hotch e António trocavam de identidade. Este último sentia-se muito orgulhoso por ter duas. Uma era o homem e a outra o toureiro. Como queria repousar na vida privada trocava de identidade com Hotch ao qual chamava Pecas ou El Pecas, “Sardento”. Admirava-o e estimava-o profundamente.
Pecas, — dizia — você é António.
Pois sim, Pecas - replicava Hotch. - É melhor ir trabalhar no cenário para a história do Papá.
Diga-lhe que estou a trabalhar nela agora. Está meio con cluída - dizia-me António - Que dia tive hoje, a escrever e jogar basebol!
A meia-noite do dia da corrida, dizia sempre:
Agora você volta a ser Pecas. Eu passo a ser António. Gostava de ser António daqui por diante?
Diga-lhe que pode ser António -' observava Hotch. - Não vejo nenhum inconveniente. Mas talvez seja melhor sincronizar mos os nossos relógios para termos a certeza.
Agora no mano a mano em Ciudad Real que se realizaria naquele dia passava muito da meia-noite António queria que Hotch vestisse um dos seus trajes de luces no seu quarto e conduzido à praça de touros como matador suplente, ou sobresaliente, que teria de matar os touros se Luís Miguel e António se ferissem. Desejava que Hotch tivesse de ser ou que fosse pelo menos António no dia da corrida e no decurso desta. Era absolutamente ilegal e eu não conhecia a gravidade das penas envolvidas se alguém visse Hotch. É claro que não seria o sobresaliente mas António queria que pensasse que era. Entraria como bandari-lheiro suplementar dele e todos pensariam que se tratava do matador suplente.
Quer fazer isso, Pecas? - perguntou António.
Naturalmente - assentiu Hotch. - Quem não quereria?
Assim é que gosto de ouvir o meu Pecas. Compreende por que gosto de ser Pecas? Quem não gostaria? No velho e sombrio hotel com escadas estreitas e quartos sem chuveiro nem casa de banho comemos uma boa refeição regional na apinhada e rui dosa sala de jantar. Ciudad Real estava cheia de gente de todas as localidades circundantes. Situa-se na periferia de uma grande região vinícola e havia largo consumo de bebidas e entusiasmo. Hotch e António vestiram-se no pequeno quarto do segundo e foi a preparação para uma corrida mais descontraída a que eu assistira. Miguelillo encarregava-se de ajudar ambos.
Que tenho de fazer exactamente? - quis saber Hotch.
Exactamente o que eu fizer quando estivermos à espera para entrar na arena. Juan tratará de o colocar e providenciar para que não haja problemas. Depois siga-nos e faça o que eu fizer. Finalmente vá para trás da barreira, fique ao lado do Papá e faça exactamente o que ele disser.
Que faço se tiver de matar os touros?
Que espécie de atitude é essa?
Queria apenas saber.
O Papá explica-lhe exactamente o que deve fazer em inglês. Não estou a ver que dificuldades possam surgir. Ele reparará em tudo o que eu ou Miguel fizermos mal. É o seu ofício. É assim que ganha dinheiro. Depois indica-lhe o que fizemos mal e você presta muita atenção e não o faz. A seguir diz-lhe como se mata o touro e você mata-o exactamente como ele disser.
Lembre-se que não deve deixar os matadores mal coloca dos na sua primeira aparição - adverti. - Seria uma manifesta ção de hostilidade. Ao menos espere até ser admitido no sindicato.
Não me posso sindicalizar já? - perguntou Hotch. - Tenho dinheiro na carteira.
Não pense no dinheiro - recomendou António quando eu traduzi. - Não se preocupe com o sindicato ou as coisas comer ciais. Concentre-se apenas na excelente figura que fará e no nos so orgulho e confiança em você.
Por fim deixei-os entregues às suas devoções e desci a escada para me reunir aos outros.
Quando eles apareceram, António exibia a mesma expressão sombria concentrada e reservada de antes de uma corrida com as pálpebras semicerradas para se isolar dos estranhos. O rosto sardento e perfil de jogador de basebol de Hotch apresentavam o ar do novilheiro experiente na iminência de grande oportunidade da sua vida. Inclinou a cabeça para mim com o semblante carregado. Ninguém diria que não era um toureiro e o traje de António assentava-lhe perfeitamente.
Finalmente encontrámo-nos na praça de touros à espera sob a arcada das bancadas junto da parede de tijolos caiada de branco diante da porta vermelha. Hotch parecia perfeito encostado à parede entre António e Luís Miguel.
A iminência da corrida exercia visível influência em António, colocando-o num estado que nunca exibira antes da abertura da porta. Todo o toureio em geral influenciava Luís Miguel desde longa data. No entanto a tensão aumentara a partir da actuação em Málaga.
Dei uma volta para observar como os picadores estavam montados e depois decidi transpor a porta e contornar a arena pelo callejón para me juntar a Miguelillo que devia estar a preparar os apetrechos, a fim de esperar por António e Hotch no final das cortesias. Dirigi algumas palavras aos bandarilheiros e a Luís Miguel e António.
Quem é o sobresalientet
El Pecas.
Ah... - E inclinou a cabeça.
Suerte, Pecas - desejei a Hotch.
Moveu a cabeça levemente. Também tentava sacudir a influência própria da corrida iminente.
Encaminhei-me para onde Miguelillo e o seu ajudante dispunham as capas e espadas embainhadas e enrolavam e apertavam os parafusos nos paus das muletas. Bebi um pouco de água da bilha e vi que a praça não se encheria.
Como está Pecas? — perguntou Miguelillo.
Foi à capela rezar pela saúde dos outros toureiros - infor mei.
- Cuide dele recomendou-me Domingo Dominguín. - Qual quer touro pode saltar.
As cortesias tinham começado. O nosso interesse concentrava-se em Pecas que caminhava com o grau de modéstia e confiança discreta apropriado. Desviei os olhos dele para ver se Miguel coxeava e verifiquei que não. Mostrava-se em boa condição física e confiante mas a expressão amargurou-se ao observar as clareiras nas bancadas. António avançava como um conquistador. Também viu os lugares vagos mas não se revelou impressionado.
Hotch entrou no callejón e deteve-se junto de mim.
Que faço agora? - perguntou em voz baixa.
Fique a meu lado e arranje uma expressão inteligente e reso luta mas não muito ansiosa.
Conheço-o?
Não muito bem. Vi-o tourear. Não somos amigos. Entre tanto, o primeiro touro de Luís Miguel entrara na arena. Ele escolhera para principiar o animal médio do lote de um peque no, um médio e um grande. Lidava-o com a capa e não parecia experimentar dificuldades com a perna magoada. O público sol tava exclamações a cada lance.
Trabalhou o touro diante de nós com a muleta. Começou bem, com bom estilo, foi melhorando, começou a ser muito bom e de repente o animal passou a perder bravura devido ao excesso de varas cravadas e perda de sangue. Tinham-no sangrado sem todavia cansarem os músculos do cachaço. Luís Miguel teve de entrar sete vezes e só conseguiu matá-lo à segunda tentativa com o descabello.
Que aconteceu? - perguntou Hotch.
Muita coisa — repliquei. — A culpa é dele e do touro em partes iguais.
Vai continuar assim até hão poder voltar a matar?
Não sei. O touro não colaborou nada mas ele não conseguiu manter a mão esquerda baixa nem entrar convenientemente.
Por que é tão difícil manter a mão esquerda baixa?
Por causa do perigo de morte.
Estou a ver...
O primeiro touro de António já entrara e ele efectuava o seu lento e belo trabalho de capa. Mas escolhera o pequeno para principiar e o público não o tomava a sério. Os touros eram da ganadaria de Gamero Civico de Salamanca e constituíam um lote desigual. Dois pequenos, um muito grande e três de corpulência mediana. Quando António se apercebeu de que não tomavam o animal a sério ao iniciar a sua faena clássica com a muleta e executar os verdadeiros passes recorreu aos de Manolete que fazem qualquer touro parecer bom e dedicou-se a toda a rotina manoletina olhando para a assistência enquanto capeava o inimigo. Matou com uma única estocada um pouco baixa e para o lado e concederam-lhe a orelha.
O touro seguinte de Luís Miguel era grande e muito possante. Derrubou o cavalo à primeira investida e os picadores tentaram o melhor que puderam atenuar-lhe a pujança e espírito combativo. Ficou tão maltratado que só lhe colocaram um par de bandarilhas.
Miguel tomou conta do animal semidestruído e procurou executar uma boa faena. Efectuou alguns passes excelentes mas não conseguiu ligá-los, excepto aqueles em que deu a impressão de que se apoiava no touro enquanto o guiava à sua volta.
Terminou bem, embebeu a lâmina da espada até ao punho e cortou a espinal-meduta com o descabello à primeira tentativa. Concederam-lhe uma orelha. Deu volta à arena com ela e depois saudou o público do centro. Uma parte não estava entusiasmada e demonstrou-o.
António iniciou a magia lenta com a capa. O touro investia com rapidez e em linha recta, e a capa, segura delicadamente, ondulava e movia-se à frente dele à sua velocidade exacta a escassos milímetros dos cornos António tomou as maiores precauções com o animal na intervenção dos picadores e colocação das bandarilhas. Com a muleta, principiou com quatro passes, rígido como uma estátua de pés unidos, não os movendo nunca desde a primeira investida até que o touro acabou de passar sob a muleta com os cornos roçando-lhe o peito pela quarta vez. A música começou a tocar e ele fê-lo mover-se à sua volta em quartos de círculo lentos, depois semicírculos e finalmente cansando-o com círculos completos.
É impossível de fazer - disse Hotch.
Ele é capaz de fazer um círculo e meio.
Não deixa grande coisa para Luís Miguel.
Miguel não terá problemas quando a perna se recompuser por completo - afirmei, esperançado em que fosse verdade.
Em todo o caso, isto está a impressioná-lo. Olhe para a cara dele.
É um touro excelente.
Não se trata disso. António não é humano. Está sempre a fazer coisas que nenhum ser humano consegue. Repare na cara de Luís Miguel.
Obedeci e notei-lhe a expressão grave, triste mesmo, e profundamente apreensiva.
Está a ver fantasmas - acrescentou Hotch. António termi nou, fixou o touro, visou o ponto letal, encheu os pulmões de ar e entrou por cima dos cornos com a muleta baixa e a arrastar. Matou com uma única estocada que penetrou até ao punho da espada e o animal caiu pesadamente. Cortaram as duas orelhas e o rabo e ofereceram-lhos. Ele aproximou-se de nós, sorriu-me e olhou Hotch como se não o visse. Avancei uns passos para lhe falar.
Diga a Pecas que está com aspecto estupendo - proferiu em inglês -Já lhe explicou como se mata?
Ainda não. ,
Explique-lhe.
Voltei para junto de Hotch e observámos o touro de Luís Miguel acabado de entrar na arena. Era o pequeno.
Que disse António?
Que você estava com aspecto estupendo.
Não é difícil. Que mais?
Que lhe explicasse como se mata.
Pode ser útil saber. Acha que vou ter de matar?
Não creio, a menos que queira pagar para matar o touro de reserva.
Quanto custa?
Quarenta mil pesetas.
Posso pagar com o cartão do Diners Club?
Duvido que o aceitem em Ciudad Real.
Então fica para outra vez. Nunca tenho comigo mais de vinte dólares em dinheiro. É uma coisa que se aprende na costa.
Posso emprestar-lhe o que precisar.
Não merece a pena, Papá. Só matarei se o tiver de fazer por António.
Luís Miguel actuava só com o seu touro, a curta distância do local onde nos encontrávamos. Ambos se esforçavam na medida das suas possibilidades, mas nenhum deles, após a faena de António, e entusiasmava mais do que os seus amigos pessoais, e os do touro não se achavam presentes, - Este último mostrava como um exemplar de Salamanca bem constituído se devia comportar e Miguel, como ele e Manolete, costumavam levar os espectadores ao rubro com os seus truques especiais até que um Miura levantara a cabeça exageradamente e liquidara Manolete. O touro acabou por se cansar da monotonia de passes e não tardou a deixar a língua pender. Cumprira a sua parte do contrato e agora necessitava da intervenção da espada como uma concessão especial para lhe pôr termo. Mas Luís Miguel ainda lhe arrancou mais quatro manoletinas antes de o fixar para a morte. Não entrou com muita fé e arrastava a perna ligeiramente. A espada atingiu o osso. Ele recompôs-se e a lâmina penetrou muito bem e o animal tombou graças a uma mescla de cansaço, à estocada, um corpo novo nas suas entranhas e ao desespero. Fizera tudo o que se esperava dele e constituíra um desapontamento para todos.
Luís Miguel muito em baixo - comentou Hotch. - Málaga foi maravilhoso.
Não devia tourear - declarei. - Mas insiste. Em Valência ia sendo morto. E em Málaga. Aquele touro grande quase o colheu hoje. Começa a preocupar-se.
Com quê?
A morte. — Não havia inconveniente em dizê-lo em inglês desde que fosse em voz baixa. - António transporta-a para ele na algibeira.
António escolhera o touro maior para o fim e mostrava-se tão implacável com Miguel como sempre. O trabalho de capa continha a magia de sempre e era mais próximo, lento e incrível. Os espectadores não o compreendiam mas aceitavam-no e nenhum outro trabalho de capa voltaria a revestir-se do mesmo significado para eles. António conservou o inimigo em boa condição para a muleta. Depois executou todos os grandes passes e demonstrou como deviam ser feitos, aproximando-os cada vez mais até parecer que nenhum matador poderia acercar tanto os cornos do touro do seu corpo. Fez o animal circundá-lo até ficar empapado em sangue enquanto o roçava dominado pelo braço estendido. Efectuou os mesmos passes de Luís Miguel e repôs-lhes todo o perigo e emoção que haviam desaparecido com Manolete em Linares. Sabia que não eram tão perigosos como os antigos, mas incutiu-lhes tudo o que tinham possuído e mais.
Enrolou a muleta lentamente diante do touro, apontou à área mais elevada entre as omoplatas com a espada, entreabriu os lábios, respirou fundo e entrou com ímpeto e firmeza por cima do corno. O animal estava morto quando a palma da mão atingiu o topo do cachaço negro e, enquanto António se empertigava levantando a mão direita, as pernas do touro cederam, oscilou e caiu com um baque.
- Afinal não teve de matar - observei a Hotch.
Miguel dirigia o olhar para a arena com uma expressão vaga. Registou-se a habituai histeria entre os espectadores e agitou-se um mar de lenços até que foram cortadas as duas orelhas depois o rabo e por último uma pata. Uma orelha costumava significar que o touro era oferecido ao matador pelo director da corrida a fim de vender a carne e todos os outros cortes são excessivos, como uma escala para determinar o grau de um triunfo. Mas achava-se agora estabelecido juntamente com muitas outras coisas que só servem para prejudicar a arte de tourear.
António chamou Hotch e disse-lhe:
- Vá dar a volta com a equipa.
Hotch saltou para a arena e contornou-a com Joni Ferrer e Juan que seguiam António com modéstia e decoro. Era um pouco irregular mas fora António que o convidara. Mantendo a sua dignidade de sobresaliente, Hotch não devolveu chapéus nem ficou com charutos. Poucos que o observassem duvidariam de que “El Pecas” seria capaz de participar na corrida, em caso de necessidade. A sua suposta competência desenhava-se na expressão de sinceridade e na maneira como caminhava. Em toda a praça apenas Luís Miguel se apercebeu de que não usava coleta. Mas se entrasse na arena para actuar diante de um touro a ausência da coleta não seria notada após o seu movimento inicial. O público pensaria que se soltara na primeira colhida.
Quando Bill e eu entrámos no pequeno quarto do hotel no topo da escada estreita, António estava empapado em sangue. Miguelillo despia-lhe o calção e a camisa de linho de fraldas longas estava virtualmente encharcada e pendia-lhe do estômago e quadris.
- Isto sai muito caro em camisas, Papá — disse-me.
António seguiria de carro para Bilbau naquela noite depois de jantar em Madrid, a fim de dormir lá e actuar na tarde imediata. Encontrar-nos-íamos em Bilbau no Carlton.
Ele ansiava por se dirigir para Bilbau, onde havia o público mais exigente de Espanha, além dos maiores touros, pelo que ninguém poderia jamais dizer que existira algo de obscuro ou duvidoso naquela campanha de 1959, em que ele actuou como nunca perante verdadeiros touros desde os tempos de Joselito e Belmonte. Se Luís Miguel também queria ir, muito bem. Mas seria uma viagem perigosa. Se tivesse como apoderado o pai, sensato cínico e conhecedor dos factores em jogo, em vez dos dois cordiais irmãos que precisavam da comissão de dez por cento dele e de António sempre que actuavam, nunca apareceria em Bilbau para ser destruído.
Era tarde quando partimos de Madrid mas o Lancia a que passáramos a chamar La Barata fez uma média estupenda e tragou sem dificuldade os quilómetros em direcção ao norte. Parámos numa velha casa de pasto de Burgos para que o nosso ex-motorista, Mário, que conduzira o carro desde Udine, Itália, antes do mano a mano em Ciudad Real pudesse comer uma truta dos ribeiros das colinas de Castela nas proximidades da cidade. Brilhantes e sarapintadas eram suculentas frescas e de carne firme, e os comensais podiam escolhê-las assim como as perdizes na cozinha. O vinho era servido em jarros de pedra e comemos o saboroso queijo de Burgos que eu costumava levar para Gertrude Stein em Paris, quando regressava de Espanha no comboio em terceira classe nos velhos tempos.
Mário conseguiu uma média excelente de Burgos para Bilbau. Como se tratava de um piloto de corridas não havia perigo, teoricamente, mas o ponteiro do velocímetro provocava-me suores frios cada vez que o olhava, La Barata possuía três tipos de buzinas. Uma significava “abram caminho que vamos passar”, mas depois de passarmos eu via jumentos cabras e os respectivos donos ficarem à espera de que surgisse o comboio.
Bilbau é uma cidade industrial e de navegação mercante situada numa depressão entre colinas junto de um rio. E é também grande, próspera e quente e húmida ou fria e húmida. Há uma bela região verdejante logo a seguir e os pequenos cursos de água que a atravessam são admiráveis. É uma urbe desportiva em que circulam quantias avultadas e conto lá muitos amigos. Em Agosto pode fazer mais calor do que em qualquer outro ponto do país à excepção de Córdoba. Naquele dia a temperatura era elevada mas não demasiado, com céu limpo e as largas artérias tinham um aspecto acolhedor.
Deram-nos quartos muito satisfatórios no Carlton que é um hotel excelente. A feira de Bilbau caracteriza-se por uma animação e sumptuosidade como nenhuma outra de Espanha e os toureiros usam casaco e gravata. Tínhamos estado em viagem durante tanto tempo que nos sentimos deslocados no elegante átrio, mas La Barata salvava a nossa posição social. Era o carro com melhor aspecto da cidade.
António estava tão bem disposto como quando nos havíamos separado. Gostava de Bilbau e a sua atmosfera abafada e riqueza não o perturbavam. Aí ninguém podia entrar no callejón. Até expulsavam os toureiros que tinham actuado na véspera e voltariam a fazê-lo no dia seguinte. Havia mais lei e autoridade em evidência que em qualquer outro lugar do país e a Polícia experimentou prazer especial em nos fazer contornar toda a praça em vez de nos deixar passar pela entrada sensata óbvia sempre utilizada até então.
Instalámo-nos finalmente nos nossos lugares e produziu-nos uma sensação estranha assistir a uma corrida das bancadas e não da barreira. António recorreu a toda a sua categoria como fizera ao longo da temporada e foi soberbo com os seus dois touros. Cortou as duas orelhas de ambos o máximo permitido em Bilbau. Tudo parecia fácil e simples ao executá-lo com perfeição e naturalidade e matou com a mesma facilidade e decisão.
Encantou o público e emocionou-o profundamente. Um homem sentado a meu lado disse:
- Faz-me reviver a sensação acerca das touradas que tinha desaparecido completamente.
António estava contente com os seus touros e conseguiu comunicar o contentamento à assistência que ficou tão contente como ele. Dir-se-ia que tudo se tornara belo e simples para todos.
A actuação de Luís Miguel no dia seguinte constituiu um profundo desapontamento. Começou bem e executou duas belas verónicas com o primeiro touro após alguns lances com a capa que se podiam considerar acima da mediania. Na sua competição com António o seu trabalho com a capa aperfeiçoara-se e na primeira parte da corrida mostrou-se calmo e firme. O touro era de compleição média e não oferecia dificuldades especiais para trabalhar embora não se tratasse de um exemplar excepcional. Miguel não se mostrava particularmente satisfeito, mas também não parecia contrariado. Atingiu o osso por duas vezes apesar de entrar bem até que introduziu cerca de três quartos da espada e o touro morreu.
O segundo era grande com cornos apreciáveis. Miguel manteve o bom trabalho de capa, porém o animal era difícil e potencialmente muito perigoso. Hesitava nas investidas e os cavalos e picadores hesitavam por sua vez em picá-lo Finalmente deu a impressão de que voltaria de novo aos cuidados de Luís Miguel, de cabeça erguida, difícil e praticamente por picar. Por conseguinte, o último picador esmerou-se por deixar a sua intervenção bem assinalada. Só o podia fazer em obediência a ordens.
De qualquer modo o touro ficou a cargo de Luís Miguel, mais difícil do que quando enfrentara os cavalos, e ele trabalhou-o de forma inteligente mas agora preocupado com a perna, tentando dominá-lo, fixá-lo e livrar-se dele. O animal procurava-o sempre por baixo do pano. Luís Miguel entrou duas vezes com precauções e escassa fé. O touro não merecia confiança e a perna do toureiro arrastava-se um pouco ao iniciar um movimento. A terceira tentativa introduziu pouco mais de metade da lâmina da espada mas fê-lo na área letal e o touro tombou. O público ficou desapontado e demonstrou-o.
Todos estavam com má impressão de Luís Miguel mas Tamares, o seu médico, mais do que ninguém. O ferimento que o matador recebera em Valência preocupava-o e a dor, surda e esporádica, tornara a colocá-lo, assim como as circunstâncias em que fora produzido, no primeiro plano das suas apreensões. A confiança de Málaga desaparecera e a perna tornava-se mais sensível à medida que a utilizava. O ferimento localizava-se na cartilagem semilunar. Era o género de lesão que acontece a um jogador de futebol quando sofre uma carga de lado e assenta mal o pé no chão. Tamares procurava reduzir a inflamação da cartilagem por meio de aplicações de ultra-sons. Se não o conseguisse e se inflamasse mais o joelho poderia paralisar inesperadamente. Ora isso correria o risco de matar Luís Miguel. Se a cartilagem fosse extraída talvez permanecesse imobilizado de três a seis semanas e era sempre possível, embora não provável, que representasse o seu fim como toureiro. Até então a cartilagem não se agravara muito nem causara estragos suficientes com o seu desgaste e irritação dos dois principais ossos da perna para que a paralisação resultasse iminente. Não obstante produzia dores e destruía a confiança de Luís Miguel.
Eu estava muito preocupado com ele que no entanto insistia em prosseguir o duelo com António. Depois de o ver actuar da última vez e recordar-se do que acontecera em cada mano a mano deles desde Valência convencera-me de que a rivalidade só terminaria com Luís Miguel morto ou destruído como matador. Ao observar a maneira como António actuava e a sua confiança e mestria absolutas sentia-me impossibilitado de admitir que voltasse a ser colhido. Apesar disso eu transpirava sempre com abundância em cada corrida. Em todo o caso nada indicava que seria colhido agora pois quase todas as colhidas se definem com antecedência e tal não acontecia mental, física ou tacticamente. Encontrava-se numa fase firme de inundação, extravasamento ou “excesso”. Mas o excesso era agora o seu estado normal e ele executava tudo dentro das regras que determinam como se deve proceder. Tourear com perfeição, ou seja devagar e admiravelmente, é sempre muito perigoso. No entanto ele possuía agora um tal domínio de todos os touros que tudo parecia fácil e suprimindo o medo da morte ganhara algo que dava a impressão de o blindar.
A feira de Bilbau era muito perigosa para António porque tinha lá muitos amigos ricos e importantes e havia uma vida social particularmente activa. Não era uma vida social sinistra como a de Madrid. No entanto ele deitava-se demasiado tarde e não efectuávamos os bons exercícios fatigantes nem conhecíamos a exaustão dos passeios pela estrada que a substituem e obrigam o matador a dormir o suficiente.
Isto transpareceu na sua penúltima corrida antes da final com Luís Miguel. Nenhum dos seus touros era bom e o último quase ficou cego durante a faena e já não devia ver bem quando entrou na arena. Também nenhum era apropriado para um bom trabalho de capa nem para uma actuação conveniente com a muleta e o primeiro revelou-se perigoso com a tendência para trotar e persistir em procurar o homem por baixo do pano. Um toureiro não podia sentir confiança ao utilizar a capa com um animal daqueles. Mas havia menos animação entre António e o touro quando o lidou com a capa do que aconteceria se se deitasse antes da meia-noite.
Durante dois dias chovera de manhã e o tempo melhorara antes de começar a corrida. A arena de Bilbau tinha um sistema de escoamento satisfatório e o pessoal incumbido da conservação da praça estava familiarizado com o clima da região e sabia o tipo de areia que devia ser empregue aquando da sua construção. Naquele dia a superfície apresentava-se molhada mas não escorregadia embora ao meio-dia tudo parecesse indicar que a corrida se desenrolaria debaixo de chuva. No entanto o sol acabou por surgir e não tardou a haver o calor húmido pesado e nuvens dispersas no céu.
Luís Miguel sentia-se melhor devido ao tratamento a que Tamares o sujeitava mas mostrava-se triste e preocupado. Um ano antes naquele dia o pai morrera após atroz sofrimento provocado pelo cancro e ele pensava nisso e noutras coisas. Embora se revelasse tão cortês como sempre a adversidade tornara-o mais suave. Não ignorava que a morte o espreitara de perto quando toureara com António nas últimas corridas importantes. Sabia que os actuais Palhas não se podiam comparar aos de outrora que eram super-Miuras, assim como que aquela cidade não era Linares. Mas acumulavam-se demasiadas coisas e a sorte começava a esgotar-se-lhe. Uma coisa era viver para ser o primeiro no mundo da sua profissão e isso constituir a única verdadeira convicção da sua vida e outra quase ser morto cada vez que tentava prová-lo e saber que somente os seus abastados e poderosos amigos, um certo número de mulheres bonitas e Pablo Picasso, que não assistia a uma tourada em Espanha nos últimos vinte e cinco anos, acreditavam nisso. O importante para ele era convencer-se e não apenas aos outros. Esses regressariam ao seu seio se ele acreditasse e pudesse torná-lo realidade. Estava pois disposto a tentar e existia a possibilidade de o milagre que operara cm Málaga vir a repetir-se.
No seu quarto António estava calmo e descontraído como um leopardo, deitado debaixo do lençol da cama. Demorámo-nos poucos minutos porque eu queria que descansasse. Mas imperava a alegria como acontecera ao longo de todo o Verão.
No piso principal, o bar e a saia de jantar estavam repletos com muitas pessoas à espera de mesa. Conseguimos finalmente comer numa de maiores dimensões com muitos velhos e novos amigos. Domingo Dominguín confidenciou-me que pensava que os Palhas seriam muito melhores que os de Valência. Dois eram um pouco leves mas pareciam mais possantes. Os lotes podiam considerar-se uniformes. Luís Miguel abriria a corrida com o primeiro dos mais pequenos. A praça achava-se completamente cheia e assistiam muitos altos dignitários do Governo. Dona Carmen Polo de Franco, mulher do Chefe do Estado, ocupava a tribuna presidencial com uma comitiva de São Sebastião.
O primeiro touro de Luís Miguel surgiu impetuosamente. Tinha boa estampa com cornos apreciáveis e parecia maior do que era. Miguel citou-o com a capa e executou bons lances. O primeiro quite também foi excelente. A perna lesionada não o incomodava aparentemente mas dava a impressão de triste quando se aproximou da barreira.
Com a muleta actuou perto do touro e efectuou alguns bons derechazos. Os passes foram melhorando gradualmente e adquiriu maior confiança com o touro. Eu observava atentamente o seu trabalho de pés e preocupava-me mas parecia correr tudo bem. Pegou na muleta com a mão esquerda e executou uma série de naturais. Eram aceitáveis para qualquer outro matador mas não se assemelhavam aos de Málaga e só o sector mais abastado da praça aplaudiu. Pediram música e Luís Miguel efectuou uma série de passes de perfil que Manolete popularizara e fê-lo muito bem. Por fim fixou o touro com dois passes largos que lhe mantiveram a cabeça levantada e o mesmerizaram e ajoelhou-se diante dele.
Uma parte do público gostou e outra parte não. António educara-lhe temporariamente o gosto para aquele género de actuação. Luís Miguel levantou-sé sem necessidade de utilizar o pau da muleta para se apoiar o que indicava que a perna se comportava bem. Comprimia os lábios e parecia desiludido. Entrou para matar razoavelmente bem e a direito. A espada foi colocada um pouco alta mas o touro começou a deitar sangue pela boca. Caiu pesadamente e não foi concedida qualquer orelha. Quanto a mim a lâmina fora bem colocada e costuma haver abundante derramamento de sangue quando uma artéria é cortada por uma estocada alta. Registaram-se aplausos prolongados e Luís Miguel saiu para saudar a assistência. Mantinha uma expressão sombria sem sorrir. No entanto a perna funcionava bem de contrário nunca se teria ajoelhado.
Surgiu o touro de António. Era quase idêntico ao de Luís Miguel e de constituição muito semelhante. Verificando que se revelava bom de ambos os lados, António iniciou a faena precisamente onde a interrompera na véspera. Era o mesmo trabalho de capa majestoso e admirável a que havíamos assistido ao longo da temporada e sentia-se o contentamento reaparecer nos murmúrios dos espectadores entre as exclamações constantes.
Após a colocação de um único par de bandarilhas pediu autorização para lidar o touro e começou a prepará-lo com a muleta. O animal mostrava-se um pouco lento a investir e António precisou de se aproximar mais para o citar. Depois de lhe incutir confiança com uma série de derechazos, que não o castigaram mas serviram para o acercar cada vez mais, a música começou a tocar e ele citou-o de mais longe com a muleta na mão esquerda. Entretanto conseguira avivá-lo e alongara a distância de que investiria.
O touro olhou-o de longe e António deixou-o aproximar e depois guiou-o com o pulso mantendo o pano em movimento lento rigorosamente necessário para o conservar através de uma série de naturais que eram próximos, lentos e perfeitos. Terminou com um passe que levou os cornos do animal a roçarem-lhe o peito e vi o pano vermelho da muleta libertar-se deles e em seguida deslizar pelo cachaço e resto do corpo, até à cauda.
Matou finalmente e a espada entrou até ao punho. A lâmina achava-se bem colocada, talvez uns três centímetros para a esquerda do topo da área letal, e António conservou-se diante do touro com a mão direita levantada, observando-o com os olhos negros de cigano; a mão erguida em triunfo para a assistência e o corpo inclinado para trás com arrogância, porém os olhos continuaram a observar como os de um cirurgião até que as patas traseiras do animal estremeceram, começaram a ceder e ele tombou morto.
Em seguida António rodou nos calcanhares, contemplou a assistência e o olhar de cirurgião desapareceu, enquanto o rosto se mostrava satisfeito com o trabalho executado. O toureiro nunca pode ver a obra de arte que produz. Não tem possibilidade de a corrigir como um pintor ou um escritor. Não a pode ouvir como o compositor musical. Apenas a pode sentir e escutar a reacção do público. Quando a sente e sabe que é excelente apodera-se dele e nada mais do mundo lhe interessa. Enquanto constrói a sua obra de arte tem consciência de que deve manter-se dentro dos limites da sua perícia e do seu conhecimento do animal. Chamam-se frios os matadores que deixam transparecer que estão a pensar nisso. António não era frio e o público agora pertencia-lhe. Erguia os olhos para as bancadas e tornava-o ciente, com modéstia, mas não humildade, de que o sabia e enquanto dava a volta à arena com a orelha na mão contemplava os diferentes segmentos de Bilbau, cidade que amava e se levantava à medida que passava e estava contente por lhe pertencer. Volvi o olhar para Miguel que parecia não fixar o seu em coisa alguma na barreira e perguntei-me se seria aquele o dia ou aconteceria noutro qualquer.
Jaime Ostos foi soberbo com o seu touro que era um pouco maior que os dois primeiros e excelente para trabalhar. Revelou-se excelente com a capa e firme e brilhante com a muleta. Os espectadores ficaram muito emocionados com a faena e foi-lhe concedida uma orelha embora experimentasse dificuldades com a espada.
Depois de Jaime dar a volta à arena com a orelha, os três matadores subiram à tribuna presidencial para saudar Dona Carmen Polo de Franco. Luís Miguel que era amigo do genro do Generalíssimo e ia à caça com o Chefe do Estado, enviou cumprimentos e o pedido de desculpa por não o fazer pessoalmente. No entanto tinha a perna suficientemente recuperada para subir à tribuna. Ou se não tinha tentou fazê-lo mas teve de voltar para baixo. O touro seguinte era seu.
Era um exemplar negro um pouco maior que o primeiro. Os cornos podiam considerar-se satisfatórios e irrompeu na arena com impetuosidade e bem. Luís Miguel citou-o com a capa, executou quatro verónicas lentas e sem vida e em seguida fê-lo passar em torno do peito com uma meia-verónica.
Mas não se conservou triste. Um dos seus maiores dons consistira sempre no conhecimento da maneira de orientar uma corrida e dirigir todos os movimentos na lide dos seus próprios touros. Tencionava obter tudo o que pudesse daquele e atraiu-o com a capa e fixou-o no lugar exacto de onde queria que investisse sobre o picador. Este avançou, levantou a vara e o touro investiu. O picador atingiu-o no momento em que estabeleceu contacto com o cavalo, pareceu rectificar um pouco a posição da vara quando o animal voltou a investir e Luís Miguel chamou-o a si e efectuou de novo quatro verónicas sem vida com o seu termo solene.
A seguir levou o touro para o local de investida mais uma vez. É um dos movimentos mais simples da tourada e ele fizera-o muitos milhares de vezes. Queria fixá-lo com uma ondulação da capa e as patas anteriores do animal fora do círculo pintado. Mas no momento em que se movia diante do cavalo, de rosto para o touro e costas para o picador, que mantinha a vara estendida e respectiva montada, o touro investiu sobre o cavalo e Luís Miguel encontrou-se na sua trajectória. O touro não prestou a menor atenção à capa e mergulhou o corno na coxa do matador projectando-o violentamente contra o cavalo. O picador atingiu o touro com a vara enquanto Luís Miguel ainda se encontrava no ar. O touro apanhou-o no ar e quando caiu atingiu-o várias vezes. O irmão de Luís Miguel, Domingo saltara para a arena a fim de o arrastar para fora da área de perigo, ao mesmo tempo que António e Jaime acudiam com as capas para afastar o touro. Toda a gente sabia que se tratava de um ferimento profundo e grave e dava a impressão de que alcançara o abdómen. Muitos espectadores pensavam que era mortal. Se Luís Miguel tivesse sido encostado ao cavalo, protegido por um colchão, decerto que seria, e o corno provavelmente atravessá-lo-ia. Apresentava o rosto cinzento quando o transportavam pelo callejón, mordia os lábios e pousava as mãos na área inferior do abdómen.
Não tínhamos possibilidade de chegar à enfermaria dos nossos lugares e a Polícia não permitia a passagem de ninguém no corredor, peio que me deixei ficar a observar enquanto António se ocupava do touro de Luís Miguel.
De um modo geral, quando um touro produz num matador um ferimento tão grave e porventura mortal como aquele, o toureiro que o substitui lida-o rapidamente e mata-o o mais depressa possível. António não quis saber disso. Era um bom touro e não o podia perder. O público pagara para ver actuar Luís Miguel. Ora este fora eliminado de uma maneira estúpida. Aquele era o seu público. Já que não podia assistir à actuação completa de Dominguin apreciaria o trabalho de Ordónez. Prefiro encarar a situação assim ou que António decidira acabar de cumprir o contrato de Luís Miguel. Fosse como fosse sem conhecer a gravidade do ferimento à parte de se situar na área superior da coxa direita, avançou com os nervos tão serenos como na altura em que lidara o seu último touro e ocupou-se do que acabava de ferir o rival. Os aplausos principiaram, a música surgiu e ele adaptou o touro ao seu estilo e passou a efectuar os passes incrivelmente perto. Executou uma faena excelente e por fim matou rapidamente, entrando bem, mas a espada penetrou cerca de cinco centímetros fora da parte superior da área total. O público aplaudiu. No entanto António sabia que apontara a lâmina de maneira a poder matar com prontidão.
Surgiram informações da enfermaria segundo as quais o ferimento se situava na parte inferior direita da virilha exactamente no mesmo ponto do recebido em Valência. O corno entrara no abdómen mas ainda não se sabia se havia alguma perfuração. Luís Miguel tinha sido anestesiado e naquele momento estavam a operá-lo. Por fim entrou o touro de António.
Era o maior até àquele momento. Tinha cornos apreciáveis e apareceu como se não valesse nada, olhando em volta e deslocando-se a trote, Juan ofereceu-lhe a cara e o animal ignorou-a e não perdeu tempo em saltar para o callejón pelo qual avançou até que a porta aberta lhe permitiu regressar à arena. Mas quando os picadores intervieram revelou bravura ao investir contra os cavalos. Os picadores mantiveram-no à distância e ele exerceu pressão vigorosa por baixo das varas, escavando com as patas e investindo contra a ponta de aço. António afastou-se para o citar com a capa, trabalhando-o como se não tivesse defeitos. Media a velocidade de investida com a aproximação de milímetros e adaptava-lhe a capa para assumir o comando do touro. Para o público todavia os passes pareciam revestir-se da mesma magia lenta e sem esforço de sempre.
Com as bandarilhas foi possível ver como o touro podia aprender a tornar-se difícil e perigoso e afigurou-se-me vê-lo descontrolar-se e transpirei com abundância durante o lapso de tempo que medeava até António se ocupar dele com a muleta e a espada. Observei que também suava embora do meu lugar não pudesse ouvir o que dizia a Ferrer e Joni.
Enquanto acompanhávamos todos os seus movimentos atentamente e o público se sentia maravilhado e soltava exclamações, explodindo a cada passe e aplaudindo no final de cada série, António, com a música a tocar, conduzia o touro, que parecera apenas grande, nervoso, vulgar e destituído de valor, através de um curso completo de tudo o que havia de clássico e belo no que um homem podia fazer com um animal bravo. Agora não existia espaço visível entre ele e o touro quando os cornos lhe roçavam o corpo. Atraía-o à velocidade que preferia e o domínio do pulso sobre o pano vermelho estendido formava a figura plástica no momento em que o corpo possante e a silhueta magra e elegante completavam a sua volta. Depois o pulso efectuava uma rotação e fazia o pesado touro negro, com a morte nos cornos, deslocar-se diante do seu peito mais uma vez na derradeira mais perigosa e difícil de todas as figuras. Ao vê-lo insistir naquele pase de pecho eu tinha a certeza do que ele se preparava para fazer. Infundia tudo a sensação de música mas não constituía um final em si. António preparava o touro para o matar recibiendo.
A maneira mais grandiosa de matar, se o touro ainda pode investir, é recibiendo. Trata-se da mais antiga perigosa e bela porque o matador em vez de correr para o touro permanece imóvel, provoca-lhe a investida e por fim, quando o animal avança, guia-o para além dele e pela direita com a muleta ao mesmo tempo que crava a espada alto entre as omoplatas. O perigo reside em que se a muleta não domina o touro perfeitamente e ele levanta a cabeça, o matador recebe o ferimento do corno em pleno peito. A cornada usual, se o animal levanta a cabeça quando o homem entra para matar, situa-se na coxa direita. No modo de matar recibiendo, para actuar apropriadamente o matador tem de aguardar o momento da investida em que o touro o colheria se esperasse mais dois ou quatro centímetros. Se se inclina para o lado, ou proporciona ao touro demasiado espaço para sair ao mover o pano, a espada penetra de lado.
“Espera até que ele vá colher-te”, é o axioma ligado a esta forma de matar. Poucos toureiros conseguem aguardar até ao instante crucial e possuir igualmente a mão esquerda suficientemente hábil e firme para guiar o touro baixo e à distância conveniente. Para este último trata-se basicamente do mesmo passe que o de peche e era por esse motivo que António o preparava com aqueles passes ao mesmo tempo que se assegurava de que ainda possuía o vigor para acompanhar o pano e não levantaria a cabeça ou pararia e hesitaria a meio da reunião. Quando o considerou pronto e intacto fixou-o abaixo de nós e preparou-se para matar.
Durante as longas viagens de noite tínhamos trocado impressões sobre essa maneira de matar e chegado à conclusão de que para António resultava mais fácil com a mão esquerda. Era apenas o risco envolvido que a tornava difícil. Esse risco consistia em embeber o corno com uma estocada no peito impelido pelos músculos do cachaço, capazes de levantar um cavalo ou perfurar as tábuas de cinco centímetros de espessura da barreira. Às vezes os cornos tinham pontas que podiam cortar a seda que revestia a capa como uma lâmina. Em alguns casos apresentavam-se lascadas pelo que o ferimento que produzissem podia ser tão largo como uma mão. Era de facto fácil para quem conseguia aguardar com serenidade para os ver avançar directamente para ele, sabendo que tinha de esperar até que o atingiriam infalivelmente no peito, de baixo para cima, se o animal levantasse a cabeça quando sentisse o aço penetrar-lhe no corpo. Sem dúvida que era fácil. O acordo a esse respeito era geral entre nós.
Por conseguinte António empertigou-se, visou o alvo ao longo da lâmina da espada e inclinou o joelho esquerdo para a frente ao mesmo tempo que deslocava a muleta na direcção do touro. Este investiu e a espada atingiu o osso num ponto elevado entre as omoplatas. António inclinou-se para a frente, a lâmina dobrou-se o grupo que devia estar unido separou-se e o agitar da muleta afastou o touro.
Ninguém dos nossos tempos cita duas vezes recibiendo. Isso pertence à época de Pedro Romero, esse outro grande toureiro de Ronda que viveu há anos. Mas António tinha de matar daquela maneira enquanto o touro tivesse forças ou disposição para investir. Assim voltou a fixá-lo, visou o alvo ao longo da lâmina, tornou a citá-lo com a perna e o pano adiantados e levou-o para onde deveria estar se a cabeça se levantasse. A espada atingiu novamente o osso o grupo separou-se mais uma vez e a muleta voltou a guiar. O animal para fora da zona de perigo.
O touro mostrava-se agora menos rápido mas António sabia que ainda possuía energias suficientes para mais uma investida. Tinha de o saber porém mais ninguém estava ao corrente disso e o público não conseguia acreditar no que via. A única coisa que António tinha de fazer para obter um grande triunfo com aquele touro era colocar-lhe a espada decentemente sem demasiada exposição do corpo ao perigo. No entanto estava disposto a compensar as vezes em que se valera de alguma vantagem para matar e, tinham sido muitas. Aquele touro recebera dois ferimentos inúteis no peito e agora receberia o terceiro. António podia ter cravado a espada um pouco abaixo ou para o lado de cada vez que o animal investira e ninguém o censuraria por fazê-lo recibiendo. Sabia perfeitamente onde a lâmina se embeberia sem dificuldade e rapidamente e, apesar disso, pareceria uma estocada boa ou pelo menos não muito má. Era o género de morte que se praticava com maior frequência naqueles anos de toureio. Mas ao diabo com aquilo agora. Desta vez ele expiaria todas as vantagens que aproveitara na intervenção com a espada.
Fixou o touro e a praça mergulhou num silêncio tão absoluto que ouvi o estalido quando uma espectadora atrás de mim fechou o leque. António visou o alvo ao longo da lâmina da espada, inclinou o joelho esquerdo para a frente, moveu a muleta na direcção do touro e quando este avançou aguardou até ao momento exacto em que os cornos o atingiriam, e a ponta da espada entrou e o animal fê-la continuar a embeber-se com o impulso, a cabeça baixa em obediência ao pano vermelho, enquanto a mão espalmada de António exercia pressão no punho da espada e a lâmina prosseguia no percurso implacável entre as omoplatas. Os pés dele não se tinham movido e formava um corpo único com o touro e quando a mão pousou na pele negra o corno já passara para além do seu peito e o touro morrera. Este ainda não o sabia e via o matador na sua frente com a mão erguida, não em triunfo, mas como se se despedisse. Eu calculava no que ele pensava mas por um momento tornou-se-me difícil ver-lhe o rosto. O touro também não o podia ver mas era uma expressão afável, estranha, do rapaz mais estranho que eu jamais conheci, Eme st Hemingway e por uma vez deixava transparecer compaixão na arena onde não há lugar para ela. Agora o touro sabia que estava morto e as pernas cederam e os olhos adquiriram um brilho vítreo enquanto António o via cair.
Foi assim que terminou o duelo entre António e Luís Miguel naquele ano. Já não havia qualquer verdadeira rivalidade para aqueles que se achavam presentes em Bilbau. A questão estava arrumada. Poderia ser reatada mas apenas do ponto de vista técnico. — No papel ou para ganhar dinheiro ou explorar o público sul-americano. Mas já não existia a menor dúvida quanto a quem era o melhor para quem assistira às corridas e vira António actuar em Bilbau. Talvez fosse apenas o melhor em Bilbau porque Luís Miguel tinha uma perna lesionada. Era possível que houvesse sempre uma maneira de ganhar dinheiro com semelhante suposição. Resultaria porém demasiado perigoso e terrível tornar a testá-lo perante um público real, numa arena espanhola com touros reais possuidores de cornos reais. Era uma coisa que fora resolvida e fiquei satisfeito quando surgiu a informação da enfermaria de que mais uma vez, embora o corno penetrasse profundamente no abdómen de Luís Miguel, não perfurara os intestinos.
Naquela noite, depois de ele se vestir, António e eu fomos vê-lo com o meu amigo ao volante. Ainda não arrefecera da corrida e trocámos impressões no quarto e depois no carro.
Como sabia que o touro tinha energias suficientes para in vestir uma segunda e terceira vezes? — perguntei.
Sabia - respondeu com simplicidade. - Como se sabe uma coisa?
Mas que conseguiu ver?
Fiquei então a conhecê-lo bem.
O seu ouvido?
Tudo. Eu conheço-o. Você conhece-me. É assim. Não espe rava que ele investisse?
Claro que esperava. Mas encontrava-me nas bancadas. Ê uma grande distância.
- São apenas uns dois metros e meio mas na realidade é mais de um quilómetro.
Luís Miguel tinha dores excruciantes no seu quarto. O corno penetrara no tecido da cicatriz do ferimento antigo de Valência ainda não totalmente sarado, rasgara-o e seguira a mesma trajectória até ao abdómen. Havia meia dúzia de pessoas presentes e Luís Miguel mostrava-se atencioso apesar do sofrimento. A esposa chegaria com a irmã mais velha dele de Madrid por via aérea pouco depois da meia-noite
Lamento não ter podido entrar na enfermaria disse eu - Como vão as dores?
Assim, assim, Ernesto - proferiu num murmúrio - Manolo há-de atenuar-lhas.
- Já o fez - replicou com um leve sorriso.
Quer que mande sair alguém?
Coitados. Mandou sair muitos da outra vez. Senti a sua falta.
Ver-nos-emos em Madrid. Se sairmos já, talvez alguns nos sigam.
Ficamos muito bem todos juntos nas rotogravuras.
Voltaremos a ver-nos na Ruber — prometi referindo-me à clínica.
Conservei o apartamento — informou.
Ernest Hemíngway
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