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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VIAGEM A IXTLAN / Carlos Castañeda
VIAGEM A IXTLAN / Carlos Castañeda

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

VIAGEM A IXTLAN

 

No sábado, 22 de maio de 1971, fui a Sonora, no México, procurar Dom Juan Matus, um feiticeiro yaqui, com quem eu mantinha relações desde 1961. Pensei que minha visita naquele dia não seria em nada diferente das dezenas de vezes que eu o visitara nos dez anos em que fora seu aprendiz. Os fatos que ocorreram naquele dia e nos dias seguintes, porém, foram portentosos para mim. Naquela ocasião, meu aprendizado terminou. Não foi uma retirada arbitrária de minha parte, e sim uma terminação em boa-fé.

Já apresentei o caso do meu aprendizado em duas obras anteriores: A Erva do Diabo e Uma Estranha Realidade.

Minha suposição básica em ambos os livros foi que os pontos de articulação na aprendizagem de ser feiticeiro eram os estados de realidade não comum provocados pela ingestão de plantas psicotrópicas.

Nesse ponto, Dom Juan era um especialista no uso de três dessas plantas: Datura inoxia, conhecida comumente como estramônio; Lophophora williamsii, conhecida como peiote; e um cogumelo alucinógeno do gênero Psilocybe.

Minha percepção do mundo pelos efeitos desses psicotrópicos fora tão bizarra e impressionante que fui forçado a supor que aqueles estados eram os únicos meios de me comunicar e aprender aquilo que Dom Juan estava querendo ensinar-me.

Essa suposição estava errada. Com o propósito de evitar quaisquer mal-entendidos sobre meu trabalho com Dom Juan, eu gostaria, oeste ponto, de esclarecer as seguintes questões:

Até aqui, não fiz qualquer tentativa de colocar Dom Juan num meio cultural. O fato de ele se considerar um índio yaqui não significa que seu conhecimento da feitiçaria seja sabido ou praticado pelos índios yaquis em geral.

Todas as conversas que tive com Bom Juan durante o aprendizado foram em espanhol, e foi somente devido a seu perfeito domínio daquele idioma que eu consegui obter explicações complexas de seu sistema de crenças.

Conservei a prática de me referir àquele sistema como feitiçaria e também conservei o costume de me referir a Dom Juan como feiticeiro, porque eram categorias que ele mesmo usava.

Como consegui escrever a maior parte do que foi mencionado no princípio do aprendizado, e tudo o que foi dito nas suas fases posteriores, coligi copiosos apontamentos de campo. A fim de tornar esses apontamentos legíveis e ainda conservar a unidade dramática dos ensinamentos de Dom Juan, tive de tornar a redigi-los, mas o que suprimi, acredito, é irrelevante, em relação aos pontos que desejo comentar.

No caso de meu trabalho com Dom Juan, limitei meus esforços unicamente em considerá-lo um feiticeiro e adquirir sociedade no conhecimento dele.

A fim de apresentar meu argumento, devo explicar primeiro a premissa básica da feitiçaria conforme Dom Juan a apresentou a mim. Ele disse que, para um feiticeiro, o mundo da vida diária não é real, como acreditamos que seja. Para um feiticeiro, a realidade, ou o mundo que todos conhecemos, é apenas uma descrição.

A fim de revalidar essa premissa, Dom Juan concentrou seus melhores esforços no sentido de me conduzir a uma convicção sincera de que o que eu pensava como sendo o mundo próximo era apenas a descrição do mundo, a qual me tinha sido inculcada desde o momento em que nasci.

Ele mostrou que todos que entram em contato com uma criança são um mestre que lhe descreve o mundo sem cessar, até o momento em que a criança é capaz de perceber o mundo conforme descrito. Segundo Dom Juan, não temos recordação daquele momento portentoso, simplesmente porque nenhum de nós poderia ter qualquer ponto de referência para compará-lo com qualquer outra coisa. A partir daquele momento, porém, a criança é sócia. Ela sabe a descrição do mundo; e sua qualidade de sócia torna-se completa, imagino, quando ela é capaz de fazer todas as interpretações perceptíveis adequadas que, conformando-se com aquela descrição, a revalidem.

Para Dom Juan, portanto, a realidade de nossa vida diária consiste num fluxo interminável de interpretações perceptíveis que nós, os indivíduos que partilhamos de uma sociedade específica, aprendemos a fazer em comum.

A idéia de que as interpretações perceptíveis que constituem o mundo têm um fluxo é congruente com o fato de correrem ininterruptamente e serem raramente, se alguma vez o são, suscetíveis de indagação. De fato, a realidade do mundo que conhecemos é aceita tão normalmente que a premissa básica da feitiçaria, de que a nossa realidade é apenas uma das muitas descrições, mal poderia ser considerada uma tese séria.

Felizmente, no caso de meu aprendizado, Dom Juan não estava nada preocupado em saber se eu podia ou não levar a sério a tese dele, e passou a elucidar seus pontos, a despeito de minha oposição, minha descrença e minha incapacidade de compreender o que ele dizia. Assim, como mestre de feitiçaria, Dom Juan procurou descrever o mundo para mim, desde a primeira vez em que conversamos. A dificuldade em entender seus conceitos e métodos devia-se ao fato de que as unidades de sua descrição eram estranhas e incompatíveis com as minhas.

O argumento dele era que me estava ensinando a "ver" em oposição a simplesmente "olhar" e que "parar o mundo" era o primeiro passo para "ver".

Durante anos eu considerara a idéia de "parar o mundo" uma metáfora misteriosa que não queria dizer nada, na verdade. Foi só durante uma conversa informal que se realizou no final de minha aprendizagem que eu vim a compreender plenamente seu âmbito e importância como uma das teses centrais do conhecimento de Dom Juan.

Estávamos conversando sobre vários assuntos, de maneira informal. Contei-lhe a respeito de um amigo meu e seu dilema com o filho de nove anos. O menino, que tinha morado com a mãe nos últimos quatro anos, estava no momento morando com o meu amigo, e o problema era o que fazer com o garoto. Segundo meu amigo, o pequeno era desajustado na escola; não se concentrava e não se interessava por nada. Era dado a crises de raiva, mau comportamento e fugia de casa.

— Seu amigo tem mesmo um problema — disse Dom Juan, rindo.

Eu queria continuar a contar-lhe todas as coisas "terríveis" que o garoto tinha feito, mas ele me interrompeu

— Não precisa dizer mais nada sobre o coitado do menino — falou. — Não há necessidade de você ou eu pensarmos nos atos dele, de uma maneira ou de outra.

O jeito dele era abrupto e sua voz firme, mas então ele sorriu.

— O que meu amigo pode fazer? — perguntei.

— O pior que ele poderia fazer era forçar o garoto a concordar com ele.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que aquele menino não deve ser espancado, nem assustado pelo pai quando não se comporta do jeito que o mesmo deseja.

— Como é que o pai lhe poderá ensinar alguma coisa, se não for enérgico com ele?

— Seu amigo deve deixar que outra pessoa bata no menino.

— Ele não pode deixar que outra pessoa toque no filhinho dele! — repliquei, surpreendido com essa sugestão. Dom Juan pareceu divertir-se com minha reação e deu risada.

— Seu amigo não é um guerreiro — disse ele. — Se fosse, saberia que a pior coisa que se pode fazer é confrontar os seres humanos de cara.

— O que faz um guerreiro, Dom Juan?

— Um guerreiro procede estrategicamente.

— Ainda não entendo o que quer. dizer.

— Quero dizer que, se seu amigo fosse um guerreiro, ajuda-ria o filho a parar o mundo.

— Como é que meu amigo pode fazer isso?

— Ele precisaria de um verdadeiro poder pessoal. Precisaria de ser feiticeiro.

— Mas ele não é. — Nesse caso, tem de usar meios comuns para ajudar o filho no sentido de mudar sua concepção do mundo. Não é parar o mundo, mas tem o mesmo efeito.

Pedi que ele explicasse suas palavras.

— Se eu fosse o seu amigo — disse Dom Juan — começaria contratando alguém para surrar o garotinho. Iria a um antro de marginais e contrataria o tipo mais mal-encarado que encontrasse.

— Para assustar o guri?

— Não só para assustar o guri, seu bobo. Aquele pequeno tem de ser parado, e ser surrado pelo pai não o fará. Se a gente quer parar seus semelhantes, deve-se estar sempre fora do círculo que os oprime. Assim, a gente sempre pode dirigir a pressão.

A idéia era absurda, mas, de certo modo, atraía-me.

Dom Juan estava com o queixo apoiado em sua palma esquerda. Seu braço esquerdo estava apoiado junto ao peito, num caixote que servia de mesinha. Ele estava de olhos fechados, mas seus olhos se mexiam. Senti que ele me estava olhando através das pálpebras fechadas. Essa idéia me assustou.

— Diga o que mais o meu amigo deve fazer com seu filhinho.

— Diga-lhe que vá a um antro de marginais e escolha cora muito cuidado um bandido muito mal-encarado — continuou. — Deve escolher um jovem. Um que ainda tenha força.

Dom Juan, então, expôs uma estratégia estranha. Eu devia dizer a meu amigo que mandasse o sujeito segui-lo, ou esperar por ele num lugar onde ele fosse com o filho. O homem, diante de uma deixa previamente combinada, a ser dada depois de algum mau comportamento da criança, deveria saltar de seu esconderijo, pegar o pequeno e surrá-lo com vontade.

— Depois que o sujeito o assustar, seu amigo deve ajudar o menino a recuperar a confiança em si, de qualquer maneira. Se ele proceder assim umas três ou quatro vezes, garanto-lhe de que o menino vai-se sentir diferentemente com relação a tudo. Vai mudar sua concepção do mundo.

— E se o susto fizer mal a ele?

— Um susto nunca faz mal a ninguém. O que faz mal ao espírito é ter sempre alguém atrás da gente, dando na gente, dizendo o que se pode e o que não se pode fazer.

— Quando o menino ficar mais comportado, você deve dizer a seu amigo para fazer uma última coisa por ele, Tem de arranjar um meio de ver uma criança morta, talvez num hospital ou numa clínica de um médico. Deve levar o filho lá e mostrar a criança morta a ele. Tem que providenciar para que o menino toque no cadáver uma vez com a mão esquerda, em qualquer lugar, menos na barriga. Depois que o menino fizer isso, ficará novo. O mundo nunca mais será o mesmo para ele.

Compreendi então que durante os anos de nossa ligação, Dom Juan tinha empregado comigo, embora em escala diferente, as mesmas táticas que estava sugerindo que meu amigo usasse com o filho. Perguntei-lhe a respeita. Respondeu que todo aquele tempo ele estava tentando ensinar-me a "parar o mundo".

— Você ainda não o conseguiu — disse ele, sorrindo. — Nada parece adiantar, porque você é muito teimoso. Mas se você fosse menos cabeçudo, provavelmente já teria parado o mundo com qualquer das técnicas que lhe ensinei.

— Que técnicas, Dom Juan?

— Tudo o que lhe ensinei foi técnica para parar o mundo. Alguns meses depois daquela conversa, Dom Juan conseguiu aquilo que resolvera fazer, ensinar-me a "parar o mundo".

Aquele fato monumental em minha vida me levou a reexaminar detalhadamente todo o meu trabalho de dez anos. Tornou-se evidente para mim que minha suposição original sobre o papel das plantas psicotrópicas era falsa. Elas não eram a característica essencial da descrição do mundo por um feiticeiro, mas apenas um auxílio para cimentar, por assim dizer, partes da descrição que eu não tinha conseguido perceber de outro modo. Minha insistência em me apegar à versão padronizada da realidade me tornava quase surdo e cego aos objetivos de Dom Juan. Portanto, foi simplesmente minha falta de sensibilidade que provocara o uso delas.

Revendo todos os meus apontamentos de campo, tive noção de que Dom Juan me dera o grosso da nova descrição bem no princípio de nossa ligação, no que ele chamava "técnicas para parar o mundo". Eu tinha desprezado aquelas partes dos apontamentos em minhas obras anteriores porque não pertenciam ao uso das plantas psicotrópicas. Agora, eu as reintegrei propriamente no âmbito total dos ensinamentos de Dom Juan e elas compreendem os primeiros 17 capítulos desta obra. Os três últimos capítulos são os apontamentos de campo abrangendo os acontecimentos que culminaram no fato de eu "parar o mundo".

Resumindo, posso dizer que, quando comecei o aprendizado, havia outra realidade, isto é, havia uma descrição feiticeira do mundo, que eu não conhecia.

Dom Juan, como feiticeiro e mestre, ensinou-me aquela descrição. O aprendizado de dez anos a que me submeti consistiu, pois, em estabelecer aquela realidade desconhecida desvendando sua descrição, e acrescentando partes cada vez mais complexas, à medida que eu avançava.

O término do aprendizado significou que eu tinha aprendido uma nova descrição do mundo de maneira convincente e autêntica, e assim eu me tomara capaz de obter uma nova percepção do mundo, de acordo com sua nova descrição. Em outras palavras, eu tinha conseguido ser sócio.

Dom Juan declarou que para chegar a "ver" a pessoa tinha primeiro de fazer "parar o mundo". "Parar o mundo" era, de fato, uma descrição apropriada de certos estados de consciência em que a realidade da vida diária se altera porque o fluxo da interpretação, que normalmente corre ininterruptamente, foi detido por uma série de circunstâncias alheias àquele fluxo. Em roeu caso, a série de circunstâncias alheias a meu fluxo normal de interpretação foi a descrição feiticeira do mundo. O requisito de Dom Juan para "parar o mundo" era que a pessoa tinha de estar convencida; em outras palavras, tinha de aprender a nova descrição num sentido total, com o propósito de opô-la contra a velha, e assim romper a certeza dogmática, de que todos partilhamos, de que a validade de nossas percepções, ou nossa realidade do mundo, não deve ser posta em dúvida.

Depois de "parar o mundo", o passo seguinte foi "ver". Com isso Dom Juan significava o que eu gostaria de classificar como "reagir às solicitações perceptíveis de um mundo fora da descrição que aprendemos a chamar de realidade".

Meu argumento é que todos esses passos só podem ser compreendidos em termos da descrição a que pertencem; e como é uma descrição que ele me procurou dar desde o princípio, devo deixar que os ensinamentos dele sejam a única fonte de ingresso nela. Assim, deixei que as palavras de Dom Juan falassem por si.

                                                                                                                                   C. C. 1972

 

 

 

 

"Parando o Mundo"

 

Reafirmações do mundo que nos rodeia

 

— Falaram-me que o senhor conhece muita coisa sobre plantas — disse eu a um velho índio na minha frente.

 

Um amigo meu tinha acabado de nos aproximar, saindo da sala, e nós nos apresentamos. O velho me dissera que seu nome era Juan Matus.

 

— Foi seu amigo quem lhe disse isso? — perguntou ele, com naturalidade.

 

— Foi, sim.

 

— Colho plantas, ou melhor, deixo que elas me colham — disse ele, baixinho.

 

Estávamos na sala de espera de uma estação rodoviária no Arizona. Perguntei-lhe, num espanhol muito formal, se ele permitiria que lhe fizesse algumas perguntas.

 

— Será que o cavalheiro (caballero) permite que lhe faça algumas perguntas?

 

Caballero, derivada da palavra caballo (cavalo), originariamente significava um cavaleiro ou nobre a cavalo. Ele me olhou com um ar curiosa.

 

— Sou um cavaleiro sem cavalo — disse ele, com um largo sorriso, e acrescentou: — Já lhe disse que meu nome é Juan Matus.

Gostei do seu sorriso. Achei que, evidentemente, ele era homem que apreciava a franqueza e resolvi ousadamente fazer-lhe um pedido. Disse-lhe que estava interessado em colher e estudar plantas medicinais. Falei que me interessava especialmente pelo emprego do cacto alucinógeno, o peiote, que eu estudara exaustivamente na Universidade de Los Angeles.

 

Achei que minha exposição estava muito séria. Eu estava muito controlado e me parecia a mim mesmo perfeitamente razoável.

 

O velho sacudiu a cabeça devagar, e eu, encorajado pelo silêncio dele, acrescentei que, sem dúvida, seria proveitoso para nós nos reunirmos e conversarmos sobre o peiote.

 

Foi naquele momento que ele levantou a cabeça e me olhou bem dentro dos olhos. Foi um olhar formidável. No entanto, não era de maneira alguma atemorizante nem ameaçador. Era um olhar que me varava. Fiquei logo de língua presa e não consegui continuar a falar de mim. Foi assim que terminou nosso encontro. Mas ele deixou uma vaga esperança. Disse que talvez eu pudesse um dia visitá-lo em sua casa.

 

Seria difícil avaliar o impacto do olhar de Dom Juan, se não se levar em consideração o inventário de minha experiência na singularidade daquele fato. Quando comecei a estudar antropologia, e assim conheci Dom Juan, já era perito em "me arrumar". Tinha saído de casa vários anos antes e, no meu critério, isso significava que eu sabia tomar conta de mim mesmo. Sempre que eu era rejeitado, geralmente conseguia o que queria por lisonja, ou concessões, ou então ficava zangado, discutia, e se não conseguia nada, eu gemia e reclamava; em outras palavras, havia sempre alguma coisa que eu sabia que podia fazer, nas circunstâncias, e nunca em minha vida um ser humano deteve meu impulso tão rápida e positivamente como o fez Dom Juan naquela tarde. Mas não foi apenas uma questão de me fazer calar a boca; já houvera ocasiões em que eu ficara incapacitado de dizer uma palavra a meu adversário por causa de algum respeito inerente que eu sentisse por ele; porém, ainda assim, minha raiva e frustração se manifestavam em meus pensamentos. Mas o olhar de Dom Juan me confundiu ao ponto de não poder pensar com coerência.

 

Fiquei extremamente intrigado com aquele olhar estupendo e resolvi procurá-lo. Preparei-me durante seis meses, depois daquele primeiro encontro, lendo a respeito dos usos do peiote entre os índios americanos, especialmente sobre o culto do peiote entre os Índios das Planícies. Li todas as obras que encontrei e, quando achei que estava preparado, voltei ao Arizona.

 

Sábado. 17-de dezembro de 1960

 

Encontrei sua moradia depois de muito investigar junto dos índios locais. Era o princípio da tarde quando cheguei e estacionei defronte da casa. Eu o vi sentado num caixote de leite. Pareceu reconhecer-me e me cumprimentou quando saltei do carro.

 

Trocamos cumprimentos sociais e depois, falando francamente, eu confessei que tinha sido muito insincero quando conversara com ele pela primeira vez. Tinha-me gabado de conhecer muita coisa sobre o peiote, quando, na verdade, não sabia de nada a respeito. Passou a fitar-me. Seus olhos eram muito bondosos.

 

Disse-lhe que, durante seis meses, tinha lido para me preparar para nosso encontro e que, dessa vez, realmente sabia bastante mais.

 

Ele riu. Obviamente, havia algo que ele achava engraçado em minhas palavras. Estava rindo de mim e eu me senti meio confuso e ofendido.

 

Parece ter notado meu desapontamento e assegurou-me de que, apesar de eu ter tido boas intenções, não havia realmente meio de me preparar para nosso encontro.

 

Fiquei pensando se seria próprio eu perguntar se aquela afirmação teria algum sentido oculto, mas não o fiz; contudo, ele parecia estar afinado com meus pensamentos e explicou o que queria dizer. Disse que meus esforços lembravam a ele a história de certas pessoas que determinado rei havia perseguido e mandado matar. Disse que, na história, os perseguidos não podiam ser distinguidos dos perseguidores, a não ser por insistirem em pronunciar certas palavras de maneira especial, só deles; essa falha, naturalmente, foi sua perdição. O rei mandou fazer bloqueios nas estradas em pontos estratégicos, e um funcionário determinava a todos os homens que passavam que pronunciassem uma palavra chave. Aqueles que a pronunciavam do mesmo jeito do rei, viveriam; mas os que não o fizessem eram executados imediatamente. O ponto central da história era que, um dia, um rapaz resolveu preparar-se para ultrapassar o bloqueio da estrada, aprendendo a pronunciar a palavra chave da maneira exata como o rei gostava.

 

Dom Juan disse, com um vasto sorriso, que, de fato, o rapaz levou "seis meses" para aprender aquela pronúncia. E então chegou o dia da grande prova; o rapaz, muito confiante, chegou ao bloqueia da estrada e esperou que o funcionário lhe pedisse para pronunciar a palavra.

 

Naquele ponto, Dom Juan, muito teatralmente, parou a sua narrativa e olhou para mim. A pausa dele foi muito estudada e me pareceu meio forçada, mas eu não liguei. Eu já tinha ouvido o tema da história. Tinha a ver com os judeus da Alemanha e como se podia saber quem era judeu pela maneira de eles pronunciarem certas palavras. Eu também conhecia o final: o rapaz seria apanhado porque o funcionário tinha esquecido a palavra chave e lhe pediu para pronunciar outra, muito semelhante, mas que o rapaz não tinha aprendido a dizer corretamente. Dom Juan pareceu estar esperando que eu perguntasse o que acontecera, e eu o fiz.

 

— O que aconteceu com ele? — perguntei, tentando parecer inocente e interessado na história.

 

— O rapaz, que era bem matreiro, percebeu que o funcionário tinha esquecido a palavra chave e, antes que o homem pudesse dizer alguma coisa, confessou que se tinha preparado durante seis meses.

 

Fez outra pausa e olhou para mim maliciosamente. Dessa vez, ele me pregara uma peça. A confissão do rapaz era um elemento novo e eu não sabia mais como acabaria a história.

 

— Bem, e o que aconteceu então? — perguntei, realmente interessado.

 

— O rapaz foi executado imediatamente, é claro — respondeu, dando uma boa gargalhada.

 

Gostei muito de ver a maneira como ele tinha captado meu interesse; acima de tudo fiquei satisfeito de ver como ele tinha ligado a história a meu caso pessoal. De fato, parecia tê-la construído para se adaptar a mim. Ele estava zombando de mim de uma maneira muito sutil e artística. Ri com ele.

 

Depois, eu lhe disse que, por mais burro que eu parecesse, estava realmente interessado em aprender alguma coisa sobre plantas.

 

— Gosto muito de caminhar — falou ele.

 

Pensei que ele estivesse propositadamente mudando de assunto para não me responder. Não queria antagonizá-lo com minha insistência.

 

Perguntou-me se eu queria dar um passeiozinho no deserto com ele. Respondi logo que gostaria muito de passear no deserto.

— Isso não vai ser brincadeira — disse ele, num tom de advertência.

 

Falei que queria seriamente trabalhar com ele. Insisti que precisava de informações, qualquer informação, sobre o uso de ervas medicinais, e que estava disposto a pagar-lhe pelo seu tempo e esforço.

 

— Você vai trabalhar para mim — disse eu. — E pagarei seu salário.

 

— Quanto me pagaria? — perguntou. Percebi um tom de ganância na voz dele.

 

— O que você achar adequada — respondi.

 

— Pague meu tempo... com o seu tempo — disse ele. Achei que ele era um sujeito muito especial. Disse-lhe que não estava entendendo o que ele queria dizer. Respondeu que não havia nada a falar a respeito das plantas e, dessa forma, tomar meu dinheiro era coisa em que nem podia pensar.

 

Olhou-me de maneira penetrante.

 

— O que você está fazendo no seu bolso? — perguntou ele, franzindo a testa. — Está brincando com sua atiradeira?

 

Ele se referia ao fato de eu estar tomando notas num bloquinho dentro do bolso enorme de meu casaco de couro.

Quando eu disse o que estava fazendo, ele começou a rir. Falei que não queria perturbá-lo escrevendo diante dele.

 

— Se quiser escrever, escreva — disse ele, — Não me perturba.

 

Caminhamos pelos arredores até ficar quase escuro. Não me mostrou planta alguma, nem falou nada sobre elas. Paramos para descansar um pouco junto de uns arbustos grandes.

— As plantas são coisas muito especiais — disse ele, sem olhar para mim. — São vivas e sentem.

 

No momento exato em que ele disse aquilo, uma rajada forte de vento sacudiu o chaparral do deserto em volta de nós. Os arbustos faziam um barulho de matraca.

 

— Está ouvindo isso? — perguntou ele, levando a mão direita ao ouvido, como que para ajudar a audição. — As folhas e o vento estão concordando comigo.

 

Eu ri. O amigo que nos apresentara já me avisara para ter cuidado, pois o velho era muito excêntrico. Pensei que a "concordância com as folhas" fosse uma de suas excentricidades.

 

Caminhamos mais um pouco, mas ele ainda não me mostrou planta alguma, nem colheu nenhuma. Simplesmente passava pelos arbustos, tocando-as de leve. Depois, parou e sentou-se numa pedra e disse-me que descansasse e olhasse em volta.

 

Insisti em falar. Mais uma vez eu lhe disse que queria muito aprender a respeito das plantas, especialmente o peiote. Pedi-lhe que fosse meu informante, em troca de algum tipo de recompensa monetária.

 

— Você não me precisa pagar — respondeu. — Pode perguntar-me o que quiser. Falarei o que sei e então lhe direi o que fazer com isso.

 

Perguntou-me se eu concordava com aquela combinação. Fiquei encantado. Depois, ele acrescentou, enigmaticamente:

 

— Talvez não haja nada a aprender sobre as plantas, porque não há nada a dizer sobre elas.

 

Não entendi essa assertiva, nem o que ele queria dizer com aquilo.

 

— O que foi que disse? — perguntei.

 

Ele repetiu suas palavras três vezes e depois todo o local foi abalado pelo ronco de um jato da Força Aérea voando baixo.

 

— Pronto! O inundo acaba de concordar comigo — disse ele, levando a mão esquerda ao ouvido.

 

Eu o achava muito divertido. O riso dele era contagiante.

 

— É do Arizona, Dom Juan? — perguntei, mim esforço para manter a conversa em torno de ele ser meu informante.

 

Olhou para mim e meneou a cabeça, confirmando. Sem olhos pareciam estar cansadas. Eu via o branco debaixo das pupilas dele.

 

— Nasceu nessa localidade?

 

Ele tornou a menear a cabeça, sem me responder. Parecia ser um gesto afirmativo, mas também se assemelhava a batida nervosa de cabeça de uma pessoa que está pensando.

 

— E você, de onde é? — perguntou ele.

 

— Sou da América do Sul.

 

— É um lugar grande. Vem de toda ela? — Os olhos dele eram penetrantes.

 

Comecei a explicar as circunstâncias de meu nascimento, mas ele me interrompeu.

— Nisso somos parecidos — disse ele. — Agora moro aqui, mas, na verdade, sou um yaqui de Sonora.

 

— E mesmo! Pois eu venho de... Ele não me deixou terminar.

 

— Sei, sei — interrompeu, — Você é quem você é, de onde quer que seja, assim como eu sou um yaqui de Sonora.

 

Os olhos dele estavam muito brilhantes e seu riso, estranhamente perturbador. Fez-me sentir como se me tivesse pilhado numa mentira. Tive uma sensação especial de culpa. Tinha a impressão de que ele sabia de alguma coisa que eu não sabia ou não queria contar.

 

Meu estranho constrangimento aumentou. Ele deve ter notado, pois levantou-se e me perguntou se eu queria ir comer num restaurante na cidade.

 

A volta a pé para a casa dele e depois a ida de carro à cidade me fizeram sentir-me melhor, mas eu não estava muito descansado. Sentia-me de algum modo ameaçado, embora não pudesse atinar com o motivo para isso.

 

Quis dar-lhe uma cerveja, no restaurante. Ele disse que nunca bebia, nem cerveja. Ri comigo mesmo. Não acreditei nele; o amigo que nos aproximara dissera-me que "o velho está bêbado de cair, a maior parte do tempo". Não me importei de pensar que ele podia estar-me mentindo a respeito da bebida. Gostava dele; havia alguma coisa muito calmante em sua pessoa.

 

Minha fisionomia deve ter exprimido urna certa dúvida, pois passou a explicar que, quando era moço, ele bebia, mas que um dia tinha simplesmente deixado de beber.

 

— As pessoas não se dão conta de que podemos cortar qualquer coisa de nossas vidas, a qualquer momento, assim. — Estalou os dedos.

 

— Acha que podemos deixar de fumar ou de beber com essa facilidade? — perguntei.

 

— Por certo! — disse ele, com muita convicção. — Fumar e beber não significam coisa alguma, se quisermos deixar.

 

Naquele momento a água que fervia na cafeteira fez um barulho,

 

— Escute isso! — exclamou Dom Juan, com os olhos brilhando.

 

— A água fervente concorda comigo. — Então, ele acrescentou, depois de uma pausa: — O homem pode obter concordância de tudo o que o cerca.

 

Naquele momento crítico, a cafeteira fez um ruído positivamente obsceno, gorgolejante. Ele olhou para a cafeteira e disse baixinho:

 

— Obrigado — falou, sacudindo a cabeça, e depois deu uma gargalhada sonora.

 

Fiquei surpreendido. O riso dele era alto demais, mas eu estava realmente divertido com tudo aquilo.

 

Minha primeira verdadeira "sessão" com meu informante terminou ali. Despediu-se na porta do restaurante. Eu lhe disse que tinha de fazer umas visitas e que gostaria de tomar a vê-lo no fim da semana seguinte.

 

— Quando é que estará em casa? — perguntei.

 

— Quando você chegar — respondeu, examinando-me.

 

— Não sei exatamente quando poderei ir.

— Então venha e não se preocupe.

 

— E se você não estiver?

 

— Estarei lá — disse ele, sorrindo, e se afastou.

 

Corri atrás dele e perguntei se se importava de que eu levasse comigo uma máquina para tirar fotografias dele e da casa.

 

— De jeito nenhum — respondeu, franzindo a cara.

 

— E um gravador de fita? Você se importaria cora isso?

 

— Acho que também não há possibilidade disso.

 

Fiquei aborrecido e comecei a me irritar. Não via um motivo lógico para a sua recusa. Dom Juan sacudiu a cabeça, negativamente.

 

— Não pense nisso — falou, com veemência, — E, se ainda me quiser ver, nunca mais mencione tal coisa.

 

Tentei um último argumento. Disse-lhe que as fotografias e gravações eram indispensáveis para meu trabalho. Respondeu que só havia uma coisa indispensável para qualquer coisa que fizéssemos. Ele a chamou de "o espírito".

 

— Não se pode passar sem o espírito — disse ele. — E você não tem isso. Preocupe-se com tal fato, e não com os retratos.

 

— O que é quê... ? — Interrompeu-me com um movimento da mão e recuou alguns passos.

 

— Não deixe de voltar — falou baixinho, e acenou um adeus.

Apagando a história pessoal

 

Quinta-feira, 22 de dezembro de 1960

 

Dom Juan estava sentado no chão, junto à porta da sua casa, encostado na parede. Ele virou um caixote de leite e me convidou a sentar e ficar à vontade. Ofereci-lhe uns cigarros. Tinha levado um pacote. Falou que não fumava, mas que aceitava o presente. Conversamos sobre o frio das noites do deserto e sobre outros assuntos banais.

 

Perguntei-lhe se estava atrapalhando as ocupações dele. Olhou para mim com a cara meio franzida e disse que não tinha nada para fazer e que eu podia ficar com ele a tarde toda, se quisesse.

 

Eu tinha preparado uma genealogia e quadros de parentesco que queria completar, com o auxilio dele. Também tinha compilado, da literatura etnográfica, uma longa lista de traços culturais que, segundo se dizia, pertenciam aos índios da região. Queria examinar a lista com ele e marcar os itens que lhe fossem conhecidos. Comecei com os quadros de parentesco.

 

— Como você chamava seu pai?

 

— Eu o chamava de Papai — respondeu ele, muito sério. Fiquei meio contrariado, mas continuei, supondo que ele não tivesse entendido. Mostrei-lhe o quadro e expliquei que um espaço era para o pai e outro espaço para a mãe. Dei como exemplo as diferentes palavras asadas em inglês e em espanhol para pai e mãe. Pensei que talvez devesse ter escolhido a mãe.

 

— Como você chamava sua mãe? — perguntei.

 

— Eu a chamava de Mamãe — respondeu, num tom inocente.

— Quero dizer, que outras palavras você usava para chamar seu pai e sua mãe? Como os chamava? — disse eu, tentando ser paciente e educado.

 

Ele coçou a cabeça e olhou para mim com uma expressão estúpida.

 

— Puxa! — disse ele. — Agora você me pegou. — Deixe-me pensar.

 

Depois de um momento de hesitação, pareceu lembrar-se de alguma coisa e eu me preparei para escrever.

 

— Bem, — disse ele, como se estivesse pensando muito seriamente — de que outro jeito os chamava? Eu os chamava: Ei, Papai! Ei, Mamãe!

 

Ri, contra a vontade. A expressão dele era realmente cômica e, naquele momento, eu não sabia se ele era um velho absurdo caçoando de mim ou se era realmente um palerma. Com toda a minha paciência, expliquei-lhe que essas eram questões muito sérias e que era muito importante para meu trabalho preencher os formulários. Tentei fazê-lo compreender a idéia de genealogia e de história pessoal.

 

— Quais eram os nomes de seu pai e sua mãe? — perguntei. Olhou-me com olhos límpidos e bondosos.

 

— Não perca seu tempo com esse tipo de besteira — disse ele, baixinho, mas com uma foiça insuspeitada.

 

Eu não sabia o que dizer; era como se alguma outra pessoa tivesse pronunciado aquelas palavras. Um momento antes, ele era um índio desajeitado e burro, coçando a cabeça; e depois, num instante, inverteram-se os papéis: era eu o burro e ele olhava para mim com um olhar indescritível, que não era de arrogância, nem desafio, nem raiva nem desprezo. Seus olhos eram límpidos e penetrantes.

 

— Não tenho história pessoal — disse ele, depois de uma longa pausa. — Um dia eu descobri que a história pessoal não me era mais necessária e, como a bebida, eu a deixei de lado.

 

Não entendi bem o que ele queria dizer com aquilo. De repente, senti-me inseguro, ameaçado. Lembrei-lhe que me havia garantido de que não havia mal em lhe fazer perguntas. Reafirmou que não se importava.

 

— Não tenho mais história pessoal — disse ele, fitando-me atentamente. — Larguei-a um dia, quando senti que não era mais necessária.

 

Fiquei olhando para ele, tentando decifrar os significados ocultos de suas palavras.

— Como é que a pessoa pode largar sua história pessoal? — perguntei, com vontade de discutir.

 

— Primeiro, é preciso ter o desejo de largá-la — respondeu. —  E depois é preciso passar a harmoniosamente cortá-la, pouco a pouco.

 

— Por que a pessoa havia de ter esse desejo?

 

Eu tinha um apego muito forte por minha história pessoal. Minhas raízes de família eram profundas. Sentia sinceramente que, sem elas, minha vida não tinha continuidade, nem objetivo.

 

— Talvez você possa dizer-me o que quer dizer com abandonar a história pessoal — continuei

 

— Acabar com ela, é o que quero dizer — respondeu, de maneira mordaz.

 

Insisti que eu não devia ter entendido o que ele dissera.

 

— Veja seu caso, por exemplo — falei. — Você é um yaqui. Não pode modificar isso.

 

— Sou? — perguntou, sorrindo. — Como é que sabe disso?

 

— É verdade! — disse eu. — Não posso saber disso com certeza, a essa altura. Mas você o sabe e é isso que importa. É isso que toma tal fato história pessoal.

 

Achei que havia acertado um tento.

 

— A circunstância de eu saber se sou ou não um índio yaqui não toma isso história pessoal — respondeu ele. — Só quando outra pessoa sabe disso é que tal fato se torna história pessoal. £ eu lhe garanto que nunca ninguém há de saber disso ao certo.

 

Eu tinha escrito o que ele dissera de maneira desajeitada. Parei de escrever e olhei para ele. Não conseguia entendê-lo. Revi mentalmente minhas impressões sobre ele, e a maneira misteriosa e sem precedentes pela qual me olhara no nosso primeiro encontro, o encanto com que assegurava que conseguia concordância de tudo em volta dele, seu humor aborrecido e sua esperteza, sua. expressão de burrice de boa-fé quando lhe perguntei pelo pai e pela mãe, e depois a força inesperada de suas declarações, que me tinham estraçalhado.

 

— Você não sabe o que sou, não é? — disse ele, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Nunca saberá quem ou o que eu sou, porque não tenho uma história pessoal.

 

Perguntou-me se eu tinha pai. Respondi que sim. Ele disse que meu pai era um exemplo do que ele estava pensando. Pediu-me que eu me lembrasse o que meu pai pensava de mim.

 

— Ele sabe de tudo a seu respeito — falou. — E assim seu pai tem uma imagem de você. Sabe quem você é e o que faz, e não há força no mundo que possa fazê-lo mudar de idéia a seu respeito.

 

Dom Juan disse que todo mundo que me conhecia tinha idéia a meu respeito e que eu alimentava aquela idéia com tudo o que eu fazia.

 

— Você não vê? — perguntou, teatralmente. — Você tem de renovar sua história pessoal contando a seus pais, seus parentes e amigos tudo o que faz. Por outro lado, se não tiver história pessoal. Não há necessidade de explicações; ninguém fica zangado nem desiludido com seus atos. E, acima de tudo, ninguém o prende com seus pensamentos.

 

De repente a idéia esclareceu-se em minha mente. Quase sabia dela, eu mesmo, mas nunca a examinara. Não ter uma história pessoal era realmente um conceito atraente, pelo menos no nível intelectual; dava-me, porém, uma sensação de solidão que eu achava ameaçadora e desagradável. Queria discutir meus sentimentos com ele, mas me controlei; havia alguma coisa de terrivelmente incongruente naquela situação. Sentia-me ridículo procurando entrar uma discussão filosófica com um velho índio que obviamente não tinha a "sofisticação" de um estudante universitário. De alguma maneira, ele me afastara de minha intenção original de lhe perguntar acerca de sua genealogia.

 

— Não sei como viemos a falar sobre isso, quando eu só queria uns nomes para meus quadros — disse eu, procurando conduzir a conversa de volta ao tema que eu queria.

 

— É muito simples. Acabamos falando disso porque afirmei que fazer perguntas sobre o passado da gente- é uma bosta.

 

O tom dele era enérgico. Vi que não havia meio de fazê-lo mudar de idéia, de modo que mudei de tática.

— Essa idéia de não ter história pessoal é coisa que os yaquis praticam? — perguntei.

 

— E uma coisa que eu pratico.

 

— Onde aprendeu isso?

 

— Aprendi no correr de minha vida.

 

— Foi seu pai quem lhe ensinou isso?

 

— Não. Digamos que eu o aprendi sozinho e agora vou-lhe dar o segredo disso, para você não ir embora de mãos vazias.

 

Baixou a voz para um sussurro teatral. Ri das palhaçadas dele. Tive de admitir que ele era esplêndido naquilo. Atravessou-me a cabeça a idéia de que eu estava na presença de um ator nato.

 

— Escreva isso — disse ele, com ar condescendente. — Por que não? Você parece ficar mais à vontade quando escreve.

 

Olhei para ele e meus olhos devem ter revelado minha confusão. Bateu na coxa e riu muito satisfeito.

 

— É melhor apagar toda a história pessoal — disse ele devagar, como que me dando tempo para escrever a meu modo desajeitado — porque isso nos deixaria livres dos pensamentos estorvantes dos outros.

 

Não podia acreditar que ele realmente estivesse dizendo aquilo. Tive um momento de grande confusão. Ele deve ter visto em minha fisionomia o meu tumulto íntimo e utilizou-o imediatamente.

 

— Veja seu caso, por exemplo — continuou. — Neste momento, não sabe se vai ou se fica. £ isso porque eu apaguei minha história pessoal. Pouco a pouco, criei uma névoa em torno de minha vida. £ agora ninguém sabe ao certo o que sou, nem o que faço.

 

— Mas você mesmo sabe quem é, não sabe? — interrompi.

 

— Claro que.., não — exclamou ele; e rolou no chão, rindo de meu olhar espantado.

 

Parou o tempo suficiente para me fazer crer que ia dizer que sabia, sim, como eu esperava. O subterfúgio dele me parecia muito ameaçador Cheguei a ter medo.

 

— É esse o segredinho que lhe vou contar hoje — disse ele, em voz baixa. — Ninguém conhece minha história pessoal. Ninguém sabe quem sou nem o que faço. Nem mesmo eu.

 

Apertou os olhos. Não estava olhando para mim, mas além de mim, por cima de meu ombro direito. Estava sentado de pernas cruzadas, de costas retas, mas parecia estar muito relaxado. Naquele momento, era a própria imagem da ferocidade. Imaginei que ele fosse um chefe índio, um "guerreiro pele-vermelha" das românticas sagas de fronteira da minha infância. Meu romantismo me transportou e uma sensação muito traiçoeira de ambivalência me envolveu. Podia dizer sinceramente que gostava dele e, ao mesmo tempo, tinha um medo mortal dele. Manteve aquele olhar estranho por um momento prolongado.

 

— Como posso saber o que sou, quando sou tudo isso? — disse ele, abarcando toda a redondeza com um gesto da cabeça. Então, olhou para mim e sorriu. — Pouco a pouco, deve criar uma névoa em torno de si; deve apagar tudo em volta de si até que nada possa ser considerado coisa sabida, até não haver nada de certo nem de real. Seu problema agora é que você é real demais. Seus esforços são por demais reais; seus estados de espírito também. Não se fie tanto nas coisas. Precisa começar a se apagar.

 

— Para quê? — perguntei, com truculência.

 

Neste momento, vi claramente que ele me estava aconselhando um comportamento. Em toda minha vida, tinha um acesso quando alguém procurava dizer-me o que devia fazer; a simples idéia de me dizerem o que fazer me colocava imediatamente na defensiva.

 

— Você disse que queria aprender a conhecer as plantas — respondeu, calmamente. — Quer conseguir alguma coisa por nada? O que você pensa que isso é? Combinamos que você me faria perguntas e eu lhe diria o que sei. Se não quiser, não há mais nada a dizer um ao outro.

 

Sua terrível franqueza me agastou e, de má vontade, concordei que ele tinha razão.

 

— Então vamos dizer que seja assim — continuou. — Se quer aprender a respeito das plantas, como não há realmente nada a dizer sobre elas, você deve, entre outras coisas, apagar sua história pessoal.

 

— Como? — perguntei.

 

— Comece com coisas simples, assim como não revelar o que você realmente faz. Depois, deve abandonar todas as pessoas que o conheçam realmente bem. Assim, você construirá uma névoa em tomo de si.

 

— Mas isso é absurdo — protestei. — Por que as pessoas não me podem conhecer? O que há de errado nisso?

 

— O que há de errado é que, uma vez que o conheçam, você é coisa em que eles se fiam e, desse momento em diante, não poderá romper o fio dos pensamentos deles. Pessoalmente, gosto da liberdade total de ser desconhecido. Ninguém me conhece com certeza absoluta, como as pessoas o conhecem, por exemplo.

 

— Mas isso seria mentir.

 

— Não estou preocupado com mentiras ou verdades — disse ele, severamente. — As mentiras só são mentiras se você tem uma história pessoal.

 

Argumentei que não queria propositadamente mistificar as pessoas, nem iludi-las. A resposta dele foi que eu iludia todo mundo, de qualquer maneira.

 

O velho tinha tocado num ponto fraco em minha vida. Não parei para perguntar o que ele queria dizer com aquilo, nem como é que ele sabia que eu mistificava as pessoas o tempo todo. Simplesmente reagi à declaração dele, defendendo-me com uma explicação. Disse que era triste para mim saber que minha família e meus amigos acreditassem que eu não era de confiança, quando, de fato, eu nunca pregara uma mentira em minha vida.

 

— Você sempre soube mentir — disse ele. — Só o que faltava era que não sabia por que fazê-lo. E agora sabe.

 

— Não vê que já estou mesmo farto de as pessoas acharem que não mereço confiança? — protestei.

 

— Mas isso é verdade — respondeu ele, convicto.

 

— Que diabo, homem, não é!

 

Minha reação, em vez de obrigá-lo a ficar sério, levou-o a rir histericamente. Cheguei a desprezar o velhinho, por sua insolência.

 

Infelizmente, ele estava certo a meu respeito. Depois de algum tempo, eu me acalmei e ele continuou a falar.

 

— Quando a gente não tem história pessoal, nada do que se diga pode ser considerado uma mentira. O problema com você é que tem de explicar tudo a todo mundo, obrigatoriamente, e ao mesmo tempo você quer conservar a frescura, a novidade daquilo que faz. Bem, como não pode entusiasmar-se depois de explicar tudo o que faz, você mente para poder continuar.

 

Eu estava realmente perplexo com o rumo de nossa conversa. Escrevi todos os detalhes de nossas palavras do melhor modo que pude, concentrando-me no que ele dizia, em vez de parar para pensar nos meus preconceitos ou nos seus significados.

 

— De agora em diante — disse ele — você deve simplesmente mostrar às pessoas o que quiser mostrar-lhes, porém sem nunca dizer exatamente como o fez.

 

— Não posso guardar segredos! — exclamei. — O que você está dizendo é inútil para mim.

 

— Então modifique-se! — falou, num tom cortante, com um brilho feroz nos olhos.

 

Parecia um estranho animal selvagem. E, no entanto, era muito coerente em suas idéias, e muito explicito. Meu aborrecimento cedeu lugar a um estado de uma confusão irritante.

 

— Como vê — continuou — nós só temos duas alternativas: ou consideramos tudo certo e real, ou não. Se adotarmos a primeira, acabamos caceteados mortalmente conosco e com o mundo. Se adotarmos a segunda e apagarmos a história pessoal, criamos uma névoa em volta de nós, um estado muito emocionante e misterioso, em que ninguém sabe de onde sairá o coelhinho, nem mesmo nós.

 

Argumentei que apagar nossa história pessoal só poderia aumentar nossa sensação de insegurança.

 

— Quando nada é certo, permanecemos alertas, sempre atentos — disse ele. — É mais emocionante não saber por trás de qual arbusto o coelhinho está escondido do que se comportar como se a gente soubesse de tudo.

 

Ele não disse mais nada por muito tempo; talvez uma hora tenha-se passado, num silêncio total. Eu não sabia o que perguntar. Por fim, levantou-se e pediu que o levasse de carro até à cidade vizinha.

 

Eu não sabia por que nossa conversa me esgotara. Estava com vontade de dormir. Pediu-me para parar no caminho e disse que, se eu quisesse descansar, deveria subir ao topo de um morrinho ao lado da estrada e deitar-me de bruços, com a cabeça virada para leste.

 

Ele parecia estar com uma grande urgência. Eu não quis discutir, ou talvez estivesse cansado demais até para falar. Subi o morro e fiz o que ele mandara. Só dormi dois ou três minutos, mas foi o suficiente para restaurar minha energia.

 

Fomos ao centro da cidade, onde ele me disse para deixá-lo saltar.

 

— Volte — falou, saindo do carro. — Não deixe de voltar.

 

Perdendo a importância própria

 

Tive oportunidade de conversar a respeito de minhas duas visitas anteriores a Dom Juan com o amigo que nos aproximara. Na opinião dele, eu estava perdendo tempo. Contei-lhe, detalhadamente, os temas de nossas conversas. Achou que eu estava exagerando e romantizando um velho caduco.

 

Havia muito pouca possibilidade na minha natureza para romantizar um velho tão absurdo. Eu achava sinceramente que as criticas que ele fizera sobre minha personalidade haviam seriamente minado meu apreço por ele. No entanto, eu tinha de confessar que elas tinham sido sempre a propósito, bem definidas e ao pé da letra.

 

O ponto crucial de meu dilema naquele momento era minha falta de vontade de aceitar o fato de que Dom Juan era bem capaz de demolir todas as minhas concepções prévias do inundo, e minha falta de vontade de concordar com meu amigo que achava que "o velho índio estava era maluco". Senti-me obrigado a fazer-lhe outra visita antes de me resolver.

 

Quarta-feira, 28 de dezembro de 1960

 

Logo que cheguei a sua casa, ele me levou para dar um passeio a pé pelo chaparral do deserto. Nem olhou para o saco de mantimentos que eu lhe levara. Parecia que estava a minha espera.

 

Andamos durante várias horas. Não colheu nem me mostrou planta alguma. Mas ensinou-me "uma forma correta de andar". Disse que eu devia enroscar de leve os dedos ao caminhar, para manter a atenção no caminho e nas adjacências. Falou que meu modo normal de caminhar era debilitante e que a pessoa nunca devia carregar nada nas mãos. Se fosse preciso carregar alguma coisa, devia-se usar uma mochila, ou qualquer tipo de sacola a tiracolo. A idéia dele era que, forçando as mãos em uma posição determinada, a pessoa era capaz de ter mais vigor e mais percepção.

 

Não quis discutir e enrosquei os dedos como ele mandou e continuei a andar. Minha percepção não mudou em nada, nem meu vigor.

 

Começamos a nossa caminhada de manhã e paramos para descansar por volta do meio-dia. Eu estava transpirando e quis beber de meu cantil, mas ele não deixou, dizendo que era melhor só beber um gole d'água. Cortou umas folhas de um arbusto amarelado e mascou-as. Deu-me algumas, dizendo que eram excelentes e que, se eu as mastigasse devagar, minha sede desapareceria. Não desapareceu, mas não me senti mal, tampouco.

 

Pareceu ler meus pensamentos e explicou que eu não tinha sentido os efeitos benéficos da "maneira certa de caminhar" nem de mascar as folias porque era jovem e forte e meu corpo não notava nada porque era um pouco burro.

 

Ele riu. Eu não estava disposto a rir e isso pareceu diverti-lo mais ainda. Corrigiu sua declaração anterior, dizendo que meu corpo não era propriamente burro, mas apenas adormecido.

 

Naquele momento, um corvo enorme voou bem por cima de nós, grasnando. Aquilo me assustou e comecei a rir. Achei que o momento era para risos, mas, para meu completo espanto, ele sacudiu meu braço com força e me fez calar a boca. Estava com uma expressão muito séria.

 

— Isso não foi brincadeira — disse ele severamente, como se eu soubesse do que ele estava falando.

 

Pedi uma explicação. Disse-lhe que era absurdo que o fato de eu rir do corvo o deixasse zangado, quanto tínhamos rido da cafeteira.

 

— O que você viu não foi um simples corvo! — exclamou.

 

— Mas eu o vi, e era um corvo — insisti.

 

— Não viu nada, seu tolo — falou, numa voz ríspida.

 

A grosseria dele era injustificável. Disse-lhe que não gostava de irritar as pessoas e que talvez fosse melhor eu ir embora, pais ele não parecia estar disposto a ter gente por perto.

 

Riu às gargalhadas, como se eu fosse um palhaço fazendo graças para ele.Minha contrariedade e constrangimento aumentaram proporcionalmente.

 

— Você é muito violento — comentou, com displicência. — Leva-se muito a sério.

 

— Mas você não estava fazendo a mesma coisa? Levando-se a sério quando ficou zangado comigo?

 

Respondeu que ficar zangado comigo era a última coisa que ele tinha na cabeça. Olhou para mim de maneira penetrante.

 

— O que você viu não foi uma concordância do mundo — disse ele. — Os corvos voando nunca são uma concordância. Aquilo foi um presságio!

 

— Um presságio de quê?

 

— Uma indicação muito importante a seu respeito — respondeu, enigmaticamente.

 

Naquele instante mesmo o vento soprou o galho seco de um arbusto bem para a frente de nossos pés.

 

— Isso foi uma concordância! — exclamou, olhando para mim, os olhos brilhantes, e deu uma gargalhada.

 

Tive a impressão de que ele estava implicando comigo, inventando as regras de sua estranha brincadeira, enquanto caminhávamos, de modo que ele podia rir, mas eu não. Meu aborrecimento tomou a crescer e eu lhe disse o que achava dele.

 

Não ficou nada zangado nem ofendido. Riu; e o riso dele me deixou ainda mais angustiado e frustrado. Achei que ele estava propositadamente me humilhando. Resolvi, naquele instante, que para mim já bastava de "trabalho de campo".

 

Levantei-me e disse que queria começar a voltai para a casa dele porque tinha de partir para Los Angeles.

 

— Sente-se! — falou, imperiosamente. — Você fica melindrado como uma velha. Não pode partir agora, porque ainda não terminamos.

 

Eu o detestei. Achei que era um homem desprezível. Começou a cantarolar uma idiota canção popular mexicana. Obviamente, ele estava imitando algum cantor popular. Alongava certas sílabas e contraia outras, fazendo da canção uma coisa muito cômica. Era tão engraçado que acabei rindo.

 

— Está vendo, você ri dessa canção tola — disse ele. — Mas o homem que a canta assim e aqueles que pagam para ouvi-lo não riem; acham que é sério.

 

— O que quer dizer com isso? — perguntei.

 

Pensei que ele tinha arrumado aquele exemplo de propósito para me dizer que eu tinha rido do corvo porque não o levara a sério, assim como não levara a canção a sério. Mas ele tornou a me confundir. Disse que eu era como o cantor e as pessoas que gostavam de sua canção, convencido e muito sério a respeito de alguma tolice que ninguém de juízo devia considerar.

 

Depois, recapitulou, como que para refrescar minha memória, tudo o que dissera antes sobre o assunto de "aprender a respeito das plantas". Frisou muito que, se eu realmente queria aprender, teria de «modelar a maior parte de meu comportamento.

 

Meu aborrecimento aumentou, a ponto de eu ter de fazer um esforço supremo até para tomar notas,

 

— Você se leva a sério demais — disse ele, devagar. — E muito importante, na sua concepção. Isso tem de mudar! Considera-se tão importante que acha que tem razão para se aborrecer com qualquer coisa. E tão importante que pode ir embora, se as coisas não lhe agradam. Imagino que você pense que isso demonstra força de caráter. Isso é besteira! Você é fraco e convencido!

 

Tentei protestar, mas ele não deu atenção. Mostrou-me que em minha vida eu nunca chegara a terminar nada por causa daquela idéia despropositada de importância que eu dava a mim mesmo.

 

Eu estava assombrado diante da certeza com que ele dizia as coisas. Era verdade, é claro, e isso me deixava não só zangado, mas também ameaçado.

 

— A importância própria é outra coisa que tem de ser abandonada, assim como a história pessoal — explicou, num tom teatral.

 

Eu certamente não queria discutir com ele. Era óbvio que eu levava uma desvantagem tremenda; ele não ia voltar para casa até estar disposto a isso, e eu não sabia o caminho. Tinha de ficar com ele.

 

Fez um movimento repentino e estranho, parecendo estar cheirando o ar em volta de si, sacudindo a cabeça ligeira e ritmadamente. Demonstrava estar num estado de alerta incomum. Virou-se e olhou para mim, com uma expressão de perplexidade e curiosidade. Seus olhos percorreram meu corpo, como que buscando alguma coisa específica; depois, levantou-se abruptamente e começou a andar depressa. Estava quase correndo. Acompanhei-o. Ele manteve um passo muito acelerado por quase uma hora.

 

Por fim, parou junto de um morro pedregoso e nós nos sentamos à sombra de um arbusto. A caminhada me extenuara completamente, embora eu estivesse de melhor humor. Era estranho como eu tinha mudado. Estava quase exultante; porém, quando tínhamos começado a andar depressa, depois de nossa discussão, eu estava furioso com ele.

 

— É muito esquisito — falei — mas estou-me sentindo muito bem.

 

Ouvi o crocitar de um corvo à distância. Dom Juan levou o dedo à orelha direita e sorriu.

 

— Foi um presságio — disse ele.

 

Uma pedrinha rolou pelo morro e fez barulho ao cair no chaparral. Ele riu alto e apontou na direção do ruído.

 

— E isso foi uma concordância — falou.

 

Depois, perguntou-me se eu estava pronto para falar a respeito de minha importância própria. Eu ri; minha sensação de zanga estava tão distante que não conseguia nem conceber como podia ter ficado tão zangado com ele.

 

— Não posso entender o que me está acontecendo — comentei. — Fiquei zangado e agora não sei por que não estou mais aborrecido.

 

— O mundo que nos cerca é muito misterioso. Não revela seus segredos tão facilmente.

Eu gostava de suas frases enigmáticas. Eram provocadoras e misteriosas. Não sabia dizer se eram plenas de significados secretos, ou se eram apenas tolice.

 

— Se algum dia voltar a este deserto — disse ele — não se aproxime daquele morrinho pedregoso onde paramos hoje. Evite-o como a peste.

 

— Por quê? O que é que há nele?

 

— Não é o momento para explicar — respondeu. — Agora, estamos tratando de perder a importância própria. Enquanto você achar que é a coisa mais importante do mundo, não pode apreciar lealmente o universo em volta de si. É como um cavalo com antolhos, só o que vê é você separado de tudo o mais. — Examinou-me por um momento. — Vou falar com minha amiguinha aqui — disse ele, apontando para uma plantinha.

 

Ajoelhou-se em frente dela e começou a acariciá-la e a falar-lhe. A princípio não entendia o que ele estava dizendo, mas depois ele trocou de língua e começou a falar com a planta em espanhol. Filou umas banalidades, e depois levantou-se.

 

— Não importa o que você diz para a planta — falou. — Pode também inventar as palavras; o que é importante é o sentimento de gostar dela, de tratá-la como igual.

 

Explicou que um homem que colhe plantas tem de desculpar-se todas as vezes que as apanha e deve garantir-lhes que um dia seu próprio corpo servirá de alimento para elas.

 

— Assim, no final, as plantas e nós ajustamos as contas — disse ele. — Nem nós nem elas são mais ou menos importantes.

 

— Vamos, fale com a plantinha — insistiu. — Diga-lhe que não se sente mais importante.

 

— Cheguei a me ajoelhar diante da planta, mas não consegui forçar-me a falar com ela. Senti-me ridículo e ri. Mas não estava zangado.

 

Dom Juan bateu nas minhas costas e disse que não tinha importância, que pelo menos eu tinha controlado o meu mau humor.

 

— De agora em diante, fale com as plantinhas — disse ele. — Fale até você perder todo seu senso de importância. Fale com elas

 

poder fazê-lo defronte dos outros. — Vá até aqueles morros e exercite-se sozinho.

 

Perguntei se valia eu falar com as plantas calado, em pensamento. Ele riu e bateu em minha cabeça.

 

— Não! — disse de. — Tem de falar com elas numa voz alta e clara, se quiser que lhe respondam.

 

Fui para o local determinado, rindo comigo mesmo das excentricidades dele. Até tentei falar com as plantas, mas a minha sensação de ridículo era forte.

 

Depois do que considerei um intervalo adequado, voltei para onde ele estava. Eu tinha certeza de que Dom Juan. sabia que eu não tinha falado com as plantas.

 

Não olhou para mim. Fez sinal para eu me sentar a seu lado.

 

— Olhe bem para mim — falou, — Vou ter uma conversa com minha amiguinha.

 

Ajoelhou-se diante de uma plantinha e, por alguns momentos, mexeu e contorceu o corpo, falando e rindo. Achei que ele estava maluca.

 

— Essa plantinha me disse para lhe contar que ela é boa de se comer — falou ele, levantando-se de sua posição ajoelhada. — Disse que um punhado delas conserva a saúde da pessoa, e que há uma quantidade crescendo ali. — Dom Juan apontou para um lugar numa encosta a talvez uns 200 metros de distância. — Vamos verificar.

 

Ri da palhaçada dele. Estava certo de que encontraríamos as plantas, pois ele era especialista na região e sabia onde se encontravam as plantas comestíveis e medicinais.

 

Enquanto nos dirigíamos para o lugar, disse-me, com naturalidade, que eu devia prestar atenção na planta, pois era tanto alimento quanto remédio.

 

Perguntei-lhe, jocosamente, se a planta acabara de lhe contar isso. Ele parou de andar e me examinou com um ar de descrença. Depois, sacudiu a cabeça de um lado para outro.

 

— Ah! — exclamou ele, rindo. — A sua esperteza o torna mais tolo do que eu pensava. Como é que a plantinha pode contar-me aquilo que eu sei desde que nasci?

 

Então passou a explicar que sempre soube das diferentes propriedades daquela planta especifica e que ela acabara de lhe dizer que havia uma porção delas crescendo no local que ele mostrara, e que não se importava de que ele me dissesse aquilo.

 

Quando chegamos à encosta, encontrei um canteiro inteiro das mesmas plantas. Eu quis rir, mas ele não me deu tempo. Quis que eu agradecesse às plantas. Sentia-me extremamente encabulado e não consegui fazê-lo.

 

Sorriu com benevolência e pronunciou outra de suas frases enigmáticas. Repetiu-a três ou quatro vezes, como que para me dar tempo de decifrar seu significado.

 

— O mundo que nos cerca é um mistério — disse ele. — E os homens não são melhores do que as outras coisas. Se a plantinha é generosa conosco, devemos agradecer-lhe, senão talvez ela não nos deixe partir.

 

O modo como ele me olhou ao dizer aquilo me deu um calafrio. Fui depressa para junto das plantas e disse: "Obrigado" em voz alta. Ele começou a rir, aos arrancos, quieto e controlado.

 

Caminhamos por mais uma hora e depois tomamos o caminho de casa. Em certo momento, fiquei para trás e ele teve de esperar por mim. Olhou para meus dedos, para ver se eu os enroscara. Eu não o fizera. Disse-me, imperiosamente, que sempre que eu caminhasse com ele tinha de observar e imitai os maneirismos dele, ou então não ir de todo.

 

— Não posso ficar esperando-o como se você fosse uma criança — disse ele, ralhando.

 

Aquelas palavras me lançaram nas profundezas do constrangimento e confusão. Como seria possível que um homem tão velho pudesse andar tão melhor do que eu? Pensava que eu era atlético e forte e, no entanto, ele tinha mesmo de esperar que eu o alcançasse.

 

Enrosquei os dedos e, estranhamente, consegui acompanhar o rítmo muito acelerado dele sem qualquer esforço. Na verdade, as vezes sentia que minhas mãos estavam-me empurrando para a frente.

 

Eu estava exultante. Estava muito feliz, caminhando à toa com o velho índio. Comecei a falar e perguntei várias vezes se ele podia mostrar-me umas plantas de peiote. Olhou para mim, mas não disse «ma palavra.

A morte é uma conselheira

 

Quarta-feira, 25 de janeiro de 1961

 

— Um dia você pode ensinar-me a respeito do peiote? — pedi. Ele não me respondeu e, como antes, apenas olhou para mim, como se eu estivesse maluco.

 

Eu já lhe mencionara o assunto várias vezes em conversa, e em cada oportunidade ele franzia a testa e sacudia a cabeça. Não era um gesto afirmativo nem negativo; parecendo mais um gesto de desespero e descrença.

 

Ele se levantou abruptamente. Estávamos sentados no chão defronte da casa dele. Um gesto quase imperceptível da cabeça foi o convite para eu acompanhá-lo.

 

Fomos para o chaparral do deserto seguindo uma direção sul. Falou repetidamente enquanto andávamos que eu tinha de estar ciente da inutilidade de minha importância própria e de minha historia pessoal.

 

— Seus amigos — disse ele, virando-se para mim de repente. — Aqueles que o conhecem há muito tempo, você tem de abandoná-los rapidamente.

 

Achei que ele estava maluco e que sua insistência era idiota, mas não disse nada. Olhou bem para mim e começou a rir.

 

Depois de uma longa caminhada, fizemos uma parada. já ia sentar-me para descansar, mas ele me disse que fosse a uma distância de uns 20 metros para falar com uma porção de plantas, numa voz clara e alta. Eu estava pouco à vontade e apreensivo. As estranhas exigências dele já estavam insuportáveis e eu tornei a dizer-lhe que não conseguia falar com as plantas, pois me sentia ridículo. Seu único comentário foi que meu sentimento da própria importância era imenso. Ele deve ter tomado alguma resolução súbita e disse que eu só devia tentar falar com as plantas quando me sentisse à vontade e natural a esse respeito.

 

— Você quer aprender sobre elas e, no entanto, não quer ter trabalho algum — falou, acusadoramente. — O que está querendo fazer?

 

Minha explicação foi que eu queria informações autenticas sobre o uso das plantas, e por isso pedira para ele ser meu informante. Tinha até proposto pagar-lhe pelo seu tempo e trabalho.

 

— Devia aceitar o dinheiro — disse eu. — Assim, nós dois estaríamos melhor. Então, eu podia perguntar-lhe tudo o que quisesse porque você estaria trabalhando para mim e eu pagaria por isso. O que acha disso?

 

Olhou-me com desprezo e emitiu um ruído obsceno com a boca, fazendo o lábio inferior e a língua vibrarem, exalando com muita força.

 

— É isso o que eu penso disso — falou; rindo, em seguida, histericamente diante da expressão de completa surpresa que devia estar estampada em meu rosto.

 

Era óbvio para mim que ele não era homem com quem fosse fácil lidar. A despeito da idade dele, era exuberante e incrivelmente Corte. Eu tinha pensado que, sendo tão velho, ele poderia ser o "informante" perfeito para mim. Os velhos, como eu sempre pensara, seriam os melhores informantes porque eram fracos demais para fazer ostra coisa senão falar. Dom Juan, ao contrário, era um caso triste. Eu achava que ele era intratável e perigoso. O amigo que nos apresentara tinha razão. Era um velho índio excêntrico; e embora não estivesse fora de si por causa da bebida a maior parte do tempo, como dissera meu amigo, era ainda pior, pois era maluco. Tornei a sentir a terrível dúvida e apreensão que já experimentara antes. Pensei que tinha vencido aquilo. Na verdade, eu não tivera a menor dificuldade em me convencer de que queria tornar a visitá-lo. Mas ocorrera-me a idéia de que talvez eu também fosse um pouco maluco, ao ver que gostava de estar com ele. A noção dele, de que meu sentimento de minha própria importância era um obstáculo, tivera realmente um impacto sobre mim. Mas tudo aquilo aparentemente só era um exercício intelectual de minha parte; no momento em que me defrontei com seu comportamento esquisito, comecei a ficar apreensivo e queria partir.                                                                       

 

Falei que éramos tão diferentes que não havia possibilidade de nos darmos bem.

 

— Um de nós tem de mudar — disse ele, olhando para o chão. — E você sabe quem é.

 

Começou a cantarolar uma canção popular mexicana e depois levantou a cabeça de repente e olhou para mira. Seus olhos eram ferozes e ardentes. Eu queria desviar o olhar, ou fechar os olhos, mas, para meu completo assombro, não consegui livrar-me do olhar dele.

 

Pediu-me para dizer o que tinha visto em seus olhos. Falei que não havia visto nada, mas ele insistiu que eu tinha de dizer o que é que os olhos dele me fizeram sentir. Lutei para fazê-lo compreender que a única coisa que seus olhos me faziam sentir era o meu constrangimento, e que a maneira de ele olhar para mim era muito desconcertante.                                      .

 

Não desistiu. Continuou olhando insistentemente para mim. Não era um olhar diretamente ameaçador, nem mau; era, antes, uma expressão misteriosa, mas desagradável.

 

— Perguntou-me se ele me fazia lembrar de algum pássaro.

 

— Um pássaro?

 

Ele riu como uma criança e desviou o olhar.

 

— Sim — disse ele, baixinho. — Um pássaro, um pássaro muito engraçado!

 

Tomou a fitar-me e mandou que eu me lembrasse. Disse, com uma convicção extraordinária, que ele "sabia" que eu já tinha visto aquele olhar.

 

Meus sentimentos naquele momento eram de que o velho me provocava, contra meu desejo sincero, cada vez que ele abria a boca. Retribuí seu olhar num desafio óbvio. Em vez de se zangar, começou a rir. Batia na coxa direita e gritava como se estivesse montando um cavalo selvagem. Depois, ficou sério e me disse que era da máxima importância que parasse de lutar com ele e me lembrasse daquele pássaro engraçado de que ele estava falando.

 

— Olhe dentro de meus olhos — disse ele.

 

Seus olhos eram extraordinariamente ferozes. Havia alguma expressão neles que realmente me lembrava alguma coisa, mas eu não tinha certeza dó que seria. Pensei naquilo por um momento e depois, de repente, percebi uma coisa: não era a forma dos olhos dele, nem a forma de sua cabeça, mas alguma ferocidade fria no seu olhar que me lembrara da expressão dos olhos de um falcão. No próprio momento daquela percepção ele estava olhando para mim de esguelha e, por um momento, fez-se um caos total em minha mente. Pensei ter visto as feições de um falcão, em vez das de Dom Juan. A imagem foi rápida demais e eu estava bastante perturbado para dar mais atenção aquilo.

 

Num tom muito excitado, falei que podia jurar ter visto as feições de um falcão no rosto dele. Teve outro acesso de riso.

 

Já havia visto a expressão dos olhos dos falcões. Eu costumava caçar quando era menino e, segundo meu avô, caçava bem. Ele tinha uma granja de galinhas Leghorn e os falcões eram uma ameaça para o negócio dele. Caçá-los era não só funcional, mas "certo". Até aquele momento, esquecera-me de que a ferocidade dos olhos daqueles pássaros me perseguira durante anos, mas estava tão longe no meu passado que eu pensava ter perdido tal recordação.

 

— Eu costumava caçar falcões — disse eu.

 

— Eu sei — respondeu Dom Juan, com naturalidade.

 

O tom dele encerrava tanta certeza que eu comecei a rir. Achava que ele era um sujeito absurdo. Tinha a audácia de parecer que sabia que eu caçava falcões. Sentia um grande desprezo por ele.

 

— Por que fica tão zangado? — perguntou, num tom de preocupação sincera.

 

Eu não sabia por quê. Começou a me sondar de maneira muito desusada. Pediu que eu tornasse & olhar para de e lhe contasse a respeito do "pássaro muito engraçado" do qual ele me lembrava. Lutei contra ele e, por desprezo. falei que não havia nada para dizer. Então, senti-me obrigado a perguntar-lhe por que ele dissera saber que eu havia caçado Calções. Em vez de responder, comentou novamente meu procedimento. Disse que eu era um camarada violento, capaz de "espumar na boca" por qualquer coisa. Protestei que isso não era verdade. Eu sempre tivera a idéia de ser bem-humorado e tratável. Repliquei que era culpa dele por forçar-me a me descontrolar, com suas palavras e atos inesperados.

 

— Por que a zanga? — perguntou.

 

Examinei meus sentimentos e reações. Não havia mesmo necessidade de me zangar com ele. Tornou a insistir para eu olhar dentro de seus olhos e contar-lhe a respeito do "estranho falcão". Mudara tua terminologia; antes dissera "um pássaro muito engraçado", e substituiu isso por "estranho falcão". Essa mudança resumia uma alteração em meu estado de espírito. De repente, fiquei triste.

 

Apertou os olhos até virarem dois riscos e disse, numa voz superteatral, que estava "vendo" um falcão muito estranho. Repetiu aquilo três vezes, como se estivesse mesmo vendo pássaro ali, diante de si.

 

— Não me lembra? — perguntou. Eu não me lembrava de nada disso.

 

— O que há de estranho no falcão? — perguntei.

 

— É você quem deve dizer-me — falou ele.

 

Insisti que não tinha meio de saber a que ele se referia, e que, portanto não lhe podia dizer nada.

 

— Não lute comigo! — exclamou. — Combata sua preguiça lembre-se.

 

Estorcei-me seriamente por um momento para decifrá-lo. Não me ocorreu que eu podia muito bem tentar lembrar-me.

 

— Houve uma época em que você via muitos pássaros — disse ele, como para me ajudar.

 

Contei-lhe que, quando eu era menino, morara numa fazenda e tinha caçado centenas de pássaros.

 

Ele disse então que, se fosse assim, eu não devia ter dificuldade alguma em lembrar-me de todos os pássaros engraçados que havia caçado. Olhou para mim formulando uma pergunta com os olhos, como se tivesse acabado de me dar a última deixa.

 

— Já cacei tantos pássaros — falei — que não me lembro de nada deles.

 

— Este pássaro é especial — respondeu ele, quase num sussurro. — Este pássaro é um falcão.

 

Tornei a imaginar aonde ele queria chegar. Estaria implicando comigo? Estaria falando sério? Depois de um longo intervalo, tornou a me pedir para recordar. Vi que era inútil para mim tentar acabar com sua brincadeira; a única alternativa era brincar com ele.

 

— Refere-se a um falcão que eu cacei?

 

— Sim — sussurrou, de olhos fechados.

 

— Então isso aconteceu quando eu era menino?

 

— Sim.

 

— Mas você disse que está vendo um falcão na sua frente agora.

 

— E estou.

 

— O que está querendo fazer-me?

 

— Estou tentando fazer você recordar.

 

— 0 quê? Pelo amor de Deus!

 

— Um falcão rápido como a luz — disse ele, olhando-me dentro dos olhos.

 

Senti que meu coração havia parado.

 

— Agora, olhe para mim — falou.

 

Mas não olhei. Ouvia a voz dele como um som vago. Uma recordação estupenda me havia dominado completamente. O falcão branco!

 

Tudo começou com as explosões de raiva quando meu avô foi contar suas galinhas Leghorn. Estavam desaparecendo de maneira constante e desconcertante. Ele organizou e executou pessoalmente uma vigilância meticulosa e, depois de dias de uma vigília constante, finalmente vimos um grande pássaro branco fugindo em pleno vôo com uma galinha Leghorn nas garras. O pássaro era veloz e parecia conhecer sua rota. Desceu por trás de umas árvores, agarrou a galinha e voou de volta por uma abertura entre dois galhos. Aconteceu tão depressa que meu avô mal o percebeu, mas eu o vi e sabia que era realmente um falcão. Meu avô disse que, se fosse, tinha de ser albino.

 

Empreendemos uma campanha contra o falcão albino e, por duas vezes, pensei tê-lo apanhado. Ele chegou a largar a presa, mas conseguiu fugir. Era rápido demais para mim. Também era muito inteligente; nunca mais voltou para caçar na granja de meu avô.

 

Eu teria esquecido daquilo se meu avô não me tivesse importunado para caçar o pássaro. Durante dois meses, persegui o falcão albino por todo o vale onde morava. Estudei os hábitos dele e quase podia adivinhar sua rota de vôo, mas, no entanto, sua velocidade e suas aparições repentinas sempre me confundiam. Podia gabar-me de ter evitado que ele pegasse sua presa, talvez todas as vezes em que nos defrontávamos, mas nunca consegui pegá-lo.

 

Durante o tempo em que travei a estranha guerra contra o falcão albino, só me aproximei dele uma vez. Eu o tinha perseguido o dia todo e estava cansado. Tinha-me sentado para descansar e adormeci debaixo de um alto eucalipto. O grito repentino de um falcão me acordou. Abri os olhos sem fazer nenhum outro movimento e vi um pássaro esbranquiçado empoleirado nos galhos mais altos do eucalipto. Era o falcão albino. Estava finda a caçada. Seria um tiro difícil; eu estava deitado e o pássaro estava de costas para mim. Veio uma rajada de vento repentina, e eu a aproveitei para disfarçar o ruído de erguer minha espingarda calibre 22 para fazer pontaria. Eu queria esperar até o pássaro se virar ou começar a voar, para não perdê-lo. Mas o falcão albino ficou imóvel. A fim de dar um tiro mais certeiro, eu teria de me mover, e ele era rápido demais para isso. Pensei que a melhor alternativa era esperar. E esperei, por um tempo interminável. Talvez o que me tenha afetado fosse a longa espera, ou talvez a solidão do lugar em que o pássaro e eu estávamos; de repente, senti um frio pela espinha e, num gesto inexplicável, levantei-me e fui embora. Nem olhei para ver se o pássaro tinha voado.

 

Nunca dera muita importância a meu ato final com o falcão albino. No entanto, foi terrivelmente estranho eu não ter atirado nele. Já havia matado dúzias de falcões. Na fazenda onde me criei, caçar pássaros ou qualquer animal era coisa natural. Dom Juan escutou atentamente enquanto eu lhe contava a história do falcão albino.

 

— Como é que você sabia a respeito do falcão albino? — perguntei.

 

— Eu o vi — respondeu.

 

— Onde?

 

— Bem aqui defronte de você.

 

Eu não estava mais disposto a discutir.

 

— O que significa tudo isso? — perguntei.

Respondeu que um pássaro branco como aquele era um presságio, e que não o matar era a única coisa certa a fazer.

 

— A sua morte lhe deu um ligeiro aviso — disse ele, num tom misterioso. — Ele sempre vem como um calafrio.

 

— De que está falando? — perguntei, nervoso. Ele me deixava mesmo nervoso com sua conversa de fantasmas.

 

— Você sabe muita coisa sobre os pássaros — disse ele. — Já matou muitos deles. Sabe como esperai. Aguardou pacientemente durante horas. Sei disso. Estou vendo.

 

Suas palavras provocaram um grande tumulto dentro de mim. Achei que o que mais me aborrecia nele era a certeza que ele tinha. Não suportava sua firmeza dogmática em assuntos de minha vida sobre os quais nem eu tinha certeza. Afundei-me em minha sensação deprimida e não o vi debruçar-se sobre mim até que ele cochichou alguma coisa em meu ouvido. A princípio, não entendi e ele repetiu. Disse-me para virar com naturalidade e olhar para uma pedra à esquerda. Disse que minha morte estava ali olhando para mim e que, se me virasse quando ele fizesse sinal, eu poderia vê-la.

 

Fez-me sinal com os olhos. Eu me virei e pensei ver um rápido movimento por cima da pedra. Um calafrio me percorreu o corpo, os músculos de meu abdômen se contraíram involuntariamente e eu senti uma sacudidela, um espasmo. Depois de um momento, controlei-me e expliquei a sensação de ter visto a sombra fugaz como uma ilusão de óptica provocada por ter virado a cabeça tão abruptamente.

 

— A morte é nossa eterna companheira — falou Dom Juan, com um ar muito sério. — Está sempre à nossa esquerda, à distância de um braço. Ela o estava espreitando quando você observava o falcão branco; sussurrou em seu ouvido e você sentiu o frio dela, como hoje. Ela sempre o espreitou. Sempre o fará, até o dia em que o tocar.

 

Estendeu o braço e me tocou de leve no ombro, estalando ao mesmo tempo a língua. O efeito foi devastador; eu quase vomitei.

 

— Você é o menino que seguia a caça e esperou pacientemente, como a morte espera; sabe bem que a morte está à nossa esquerda, assim como você estava à esquerda do falcão branco.

 

As palavras dele tiveram o estranho poder de me lançar num terror inexplicável; minha única defesa foi o impulso de escrever tudo o que ele dizia.

 

— Como é que alguém pode sentir-se tão importante quando sabe que a morte está no seu encalço? — perguntou ele.

 

Tinha a impressão de que minha resposta não era realmente necessária. Eu não podia ter dito nada, mesmo. Um novo estado de espírito me dominara.

 

— O que se deve fazer quando se é impaciente — continuou ele — é virar-se para a esquerda e pedir conselhos a sua morte. Você perderá uma quantidade enorme de mesquinhez se sua morte lhe fizer um gesto, ou se a vir de relance, ou se, ao menos, tiver a sensação de que sua companheira está ali, vigiando-o.

 

Tornou a debruçar-se e cochichou em meu ouvido que, se eu me virasse para a esquerda de repente, ao seu sinal, tornaria a ver minha morte na pedra. Seus olhos me fizeram um sinal quase imperceptível, mas não ousei olhar.

 

Disse-lhe que acreditava nele e que não precisava insistir mais naquilo, pois eu estava apavorado. Deu uma de suas gargalhadas ruidosas.

 

Respondeu que o assunto da morte nunca era abordado demais. Argumentei que seria inútil eu meditar sobre minha morte, pois essa idéia só me traria incômodo e medo.

 

— Você é cheio de besteiras! — exclamou. — A morte é a única conselheira sábia que possuímos. Toda vez que sentir, como sente sempre, que está tudo errado e você está prestes a ser aniquilado, vire-se para sua morte e pergunte se é verdade. Ela lhe dirá que você está errado; que nada importa realmente, além do toque dela. Sua morte lhe dirá: "Ainda não o toquei".

 

Sacudiu a cabeça e parecia estar esperando minha resposta. Eu não tinha nenhuma. Meus pensamentos estavam numa carreira desenfreada. Ele desfechara um golpe tremendo em meu egocentrismo. A mesquinharia de me aborrecer com ele era monstruosa, à luz de minha morte.

 

Tinha a impressão de que ele estava plenamente consciente de minha mudança de disposição. Dom Juan virara a maré a seu favor. Sorriu e começou a cantarolar uma canção mexicana.

 

— Sim — disse ele, baixinho, depois de uma longa pausa. — Um de nós dois tem de mudar, e depressa. Um de nós dois tem de tornar a aprender que a morte é a caçadora e que está sempre à nossa esquerda. Um de nós dois tem de pedir conselhos à morte e largar as malditas mesquinharias que são próprias dos homens que Vivem suas vidas como se a morte nunca os viesse tocar.

 

Ficamos ali calados por mais de uma hora e depois recomeçamos a andar. Cruzamos o chaparral do deserto durante horas a fio. Não lhe perguntei se havia alguma finalidade naquilo; não importava. Não sei como ele me fizera recapturar uma antiga sensação, uma coisa que eu já esquecera de todo, a alegria pura de simplesmente me mover, sem nenhum objetivo intelectual naquilo. Eu queria que ele me deixasse ter um vislumbre do que eu tinha visto por cima da pedra.

 

— Deixe-me ver aquela sombra de novo.

 

— Você quer dizer, sua morte, não é? — respondeu, com um tom de ironia na voz. Por um momento, hesitei em exprimi-lo.

 

— Sim — disse eu, por fim. — Deixe-me tornar a ver minha morte.

 

— Agora não. Você está sólido demais.

 

— Como?

 

Começou a rir e, por algum motivo desconhecido, o riso dele não era mais ofensivo nem traiçoeiro, como tinha sido antes. Não achei que estivesse diferente, do ponto de vista do tom, da força ou do espírito; o novo elemento era meu estado de espírito. Diante de minha morte pendente, meus receios e meu aborrecimento eram uma tolice.

 

— Então, deixe-me falar com as plantas — pedi.

 

— Agora você está bom demais — disse ele, rindo. — Passa de um extremo ao outro. Fique quieto. Não há necessidade de falar com as plantas a não ser que queira saber os segredos delas, e para isso você precisa de um propósito muito inflexível. Portanto, guarde suas boas intenções. Tampouco há necessidade de ver sua morte. Basta sentir a presença dela em volta de você.

 

Assumindo a responsabilidade

 

Terça-feira, 11 de abril de 1961

 

Cheguei à casa de Dom Juan de manhã cedo no domingo, dia 9 de abril.

 

— Bom dia, Dom Juan. Como estou contente por vê-lo! Olhou para mim e deu uma risada baixinha. Tinha ido até meu carro enquanto eu o estacionava e manteve a porta aberta enquanto eu pegava uns embrulhos de mantimentos que tinha levado para ele.

 

Fomos para a casa e nos sentamos junto à porta. Era aquela a primeira vez que eu realmente tinha noção do que estava fazendo ali. Durante três meses eu ficara realmente ansioso por voltar ao "campo". Era como se uma bomba-relógio instalada dentro de mim tivesse explodido e, de repente, eu me lembrasse de alguma coisa transcendental. Lembrara-me de que uma vez em minha vida eu fora muito paciente e eficiente.

 

Antes que Dom Juan me pudesse dizer qualquer coisa, fiz-lhe a pergunta que me ocupava muito a cabeça. Durante três meses eu estivera obcecado com a idéia do falcão albino. Como é que ele sabia sobre tal incidente, quando eu mesmo tinha esquecido daquilo?

 

Riu, mas não respondeu. Supliquei que me contasse.

 

— Não foi nada — disse ele, com a convicção de sempre. — Qualquer pessoa poderia dizer que você é estranho. Você é tolhido, só isso.

 

Achei que ele estava-me apanhando desprevenido e me encurralando de uma maneira que me desagradava.

— É possível a uma pessoa ver sua morte? — perguntei, procurando ficar dentro do assunto.

 

— Claro — respondeu, rindo. — Ela está aqui conosco.

 

— Como sabe disso?

 

— Sou um velho; com a idade a gente aprende todo tipo de coisa.

 

— Conheço muita gente velha, mas eles nunca aprenderam isso. Como foi que você o conseguiu?

 

— Bem, digamos que eu sei todo tipo de coisa porque não tenho história pessoal e não me sinto mais importante do que alguma outra coisa, e também porque minha morte está sentada comigo bem aqui. — Estendeu o braço esquerdo e mexeu os dedos como se estivesse realmente afagando alguma coisa.

 

Eu ri. Sabia aonde ele me estava conduzindo. O velho diabo ia tornar a me marretar, provavelmente em relação a minha importância, mas, dessa vez, não me incomodei. A recordação de que um dia eu tinha tido uma paciência formidável me enchera de uma euforia tranqüila e estranha, que dissipara quase toda minha intolerância e nervosismo no referente a Dom Juan; o que eu sentia era uma impressão de assombro diante dos atos dele.

 

— Quem é você, realmente? — perguntei.

 

Pareceu espantar-se. Abriu os olhos até ficarem enormes e piscou como um pássaro, fechando as pálpebras à semelhança de uma veneziana. Elas se abaixavam e levantavam de novo e seus olhos permaneciam focalizados. Essa manobra me assustou e eu recuei; e ele começou a rir como uma criancinha.

 

— Para você, sou Juan Matus e estou às suas ordens — disse ele, num exagero de cortesia.

 

Depois, fiz outra pergunta séria:

 

— O que foi que me fez no dia em que nos conhecemos? — Referia-me ao olhar que ele me lançara.

 

— Eu? Nada — respondeu, num tom inocente.

 

Descrevi o que havia sentido quando ele olhou para mim e como fora incongruente o fato de eu ficar sem poder falar por causa daquilo.

 

Riu até às lágrimas. Tornei a sentir uma certa animosidade em relação a ele. Eu pensava estar sendo tão sério e pausado, e ele estava sendo tão "índio" com suas maneiras grosseiras.

 

Parece que ele percebeu meu estado de espírito e parou de rir de repente. Depois de uma longa hesitação, disse-lhe que seu riso me aborrecera porque estava procurando, seriamente, entender o que me acontecera.

 

— Não há nada para entender — respondeu, sem se perturbar. Repassei para ele a seqüência de fatos incomuns que tiveram

 

lugar desde que eu o conhecera, a começar com o olhar misterioso que ele me lançara, até a recordação do falcão albino e perceber sobre a pedra a sombra que ele disse ser minha morte.

 

— Por que está-me fazendo tudo isso?

 

Não havia truculência em minha pergunta. Só estava curioso em saber por que eu, em especial.

— Você me pediu para lhe contar sobre as plantas — disse ele.

 

Notei um tom de sarcasmo em sua voz. Parecia estar fazendo a minha vontade.

 

— Mas o que me contou até agora não tem nada a ver com as plantas — protestei.

 

Falou, em resposta, que leva tempo para aprender sobre elas. Achei que era inútil discutir. Entendi, então, a idiotice total das resoluções fáceis e absurdas que eu tomara. Quando estava em casa, tinha" prometido a mim mesmo que nunca me ia enraivecer nem me contrariar com Dom Juan. Na situação de fato, porém, no minuto em que ele me repelia, eu tinha outro acesso de raiva. Sentia que não havia meio de interagir com ele e isso me enraivecia.

 

— Pense em sua morte agora — disse Dom Juan, de repente. — Ela está a um braço de distância. Pode tocá-lo a qualquer momento, de modo que você não tem realmente tempo para pensamentos nem estados de espírito bestas. Nenhum de nós tem tempo para isso. Quer saber o que foi que eu fiz com você quando nos conhecemos? Eu o vi, e vi que você pensava estar mentindo para mim. Mas não estava, não realmente.

 

Disse-lhe que sua explicação me confundia mais ainda. Respondeu que era por isso que ele não queria explicar seus atos, e que as explicações não eram necessárias. Falou que a única coisa que contava era a ação; agir em vez de falar.

 

Puxou uma esteira de palha e deitou-se, apoiando a cabeça num embrulho. Acomodou-se e depois disse que havia mais uma coisa que eu tinha de fazer, se quisesse mesmo aprender a respeito das plantas.                                                                     

 

— O que havia de errado com você quando o vi, e o que ainda há de errado agora, é o fato de você não gostar de assumir responsabilidades pelo que faz — falou devagar, como que para me dar tempo de entender o que ele dizia. — Quando estava-me contando todas aquelas coisas na estação de ônibus, você sabia que eram mentiras. Por que estava mentindo?

 

Expliquei que meu objetivo tinha sido encontrar um "informante chave" para o meu trabalho. Dom Juan sorriu e começou a cantarolar uma cantiga mexicana.

 

— Quando um homem resolve fazer alguma coisa, tem de ir até o fim — afirmou. — Mas ele tem de assumir a responsabilidade daquilo que faz. Não importa o que fizer; primeiro, ele tem de saber por que o faz, e depois tem de prosseguir com seus atos sem ter dúvidas ou remorsos a respeito.

 

Examinou-me. Eu não sabia o que dizer. Por fim, arrisquei uma opinião, quase um protesto:

 

— Isso é impossível!

 

Perguntou-me por quê; e eu respondi que, talvez, idealmente, era isso que todos pensavam que deviam fazer. Na prática, porém, não havia meio de evitar dúvidas e remorsos.

 

— Claro que há um meio — respondeu, com convicção. — Olhe para mim. Não tenho dúvidas nem remorsos. Tudo o que faço é minha resolução e minha responsabilidade, A coisa mais simples que faço, por exemplo, levá-lo para dar um passeio no deserto, pode bem significar minha morte. A morte me persegue. Portanto, não tenho lugar para dúvidas nem remorsos. Se eu tiver de morrer em conseqüência de levá-lo para passear, então terei de morrer.

 

“Você, ao contrário, acha que é imortal e as decisões de um homem imortal podem ser anuladas ou motivo de arrependimento ou de dúvida. Num mundo em que a morte é o caçador, meu amigo, não há tempo para remorsos nem duvidas*. Só há tempo para decisões”.

 

Argumentei, com sinceridade, que, em minha opinião, esse era um mundo irreal, pois era construído arbitrariamente, tornando-se uma forma de comportamento e dizendo que era essa a maneira de proceder.

 

Falei sobre a história de meu pai, que me pregava sermões sem fim sobre as maravilhas da mente sã em corpo são, e como os rapazes deviam temperar seus organismos com privações e feitos de competições atléticas. Ele era um homem moço;. quando eu tinha oito ano", ele só tinha 27. No verão, em geral, ele chegava da cidade, onde era professor, para passar pelo menos um mês comigo na fazenda de meus avós, onde eu morava. Era um mês horrível para mim. Contei a Dom Juan um caso era relação ao comportamento de meu pai que eu achei que poderia aplicar-se à situação presente.

 

Quase imediatamente após chegar à fazenda, meu pai insistia em dar um longo passeio a pé, comigo ao lado, para podermos conversar; e, enquanto conversávamos, ele fazia planos para irmos nadar, todos os dias às seis da manhã. De noite, ele ajustava o despertador para as cinco e meia, para ter bastante tempo; pois, as seis em ponto, tínhamos de estar dentro d'água. E quando o despertador tocava de manhã, ele saltava da cama, punha os óculos, ia até à janela e olhava para fora. Eu até já decorara o monólogo que se seguia.

 

Hmmm... Um pouco nublado hoje. Escute, vou deitar-me de novo por uns cinco minutos mais. O. K. ? Só vou esticar os músculos e ficar bem desperto, invariavelmente ele tomava a pegar no sono e dormia até às dez, às vezes até o meio-dia.

 

Eu disse a Dom Juan que o que me aborrecia era o fato de ele se recusar a desistir de suas resoluções, obviamente falsas. Repetia aquele ritual todos os dias até que eu, por fim, feria a susceptibilidade dele, recusando-me a acertar o despertador.

 

— Não eram resoluções falsas — replicou Dom Juan, obviamente defendendo meu pai. — É só que ele não sabia como sair da cama.

 

— De qualquer forma — falei — eu sempre desconfio de resoluções irreais.

 

— Então o que seria uma resolução real? — perguntou Dom Juan, com um sorriso ladino.

 

— Se meu pai reconhecesse para si mesmo que não podia ir nadar às seis da manhã, mas talvez o conseguisse às três da tarde.

 

— Suas resoluções insultam o espírito — comentou Dom Juan, com um ar muito sério.

 

Achei até que havia percebido um tom de tristeza na voz dele. Ficamos calados um bocado de tempo. Minha irritação tinha desaparecido. Pensei em meu pai.

— Ele não queria nadar às três da tarde. Você não entende? — falou Dom Juan.

As palavras dele me fizeram saltar. Disse-lhe que meu pai era um fraco, bem como seu mundo de atos ideais que ele nunca praticava. Eu estava quase gritando.

Dom Juan não disse uma palavra. Sacudiu a cabeça devagar, ritmadamente. Eu estava muito triste. Pensar em meu pai sempre me dava uma sensação de destruição.

— Você acha que era mais forte, não é? — perguntou ele, num tom displicente.

 

Respondi que sim, e comecei a contar-lhe todo o tumulto emocional por que meu pai me fizera passar, mas ele me interrompeu.

 

— Ele era malvado para você?

 

— Não.

 

— Era mesquinho com você?

 

— Não.

 

— Fazia tudo o que podia por você?

 

— Sim.

 

— Então, o que havia de errado com ele?

 

Eu já ia gritar outra vez que ele era fraco, mas controlei-me e abaixei o tom de voz. Sentia-me meio ridículo, sendo interrogado por Dom Juan.

 

— Por que você está fazendo tudo isso? — falei. — Nós devíamos estar falando de plantas.

 

Eu estava mais aborrecido e deprimido do que nunca. Falei que ele não tinha o direito, nem mesmo as qualificações, para julgar meu procedimento, e ele deu uma gargalhada.

 

— Quando você se zanga, sempre se sente virtuoso, não é? — disse ele, e piscou como pássaro.

 

Ele tinha razão. Eu tinha uma tendência para me sentir justificado por estar zangado.

 

— Não vamos falar de meu pai — disse eu, fingindo estar alegre. — Vamos falar de plantas.

 

— Não, vamos falar de seu pai — insistiu, — É por aí que devemos começar, hoje. Se você acha que era tão mais forte do que ele, por que não ia nadar às seis da manha, em vez dele?

 

Respondi que não podia acreditar que ele estivesse realmente me perguntando aquilo. Sempre achara que nadar às seis da manhã era coisa de meu pai, não minha.

 

— Também era coisa sua, desde o momento em que você aceitou a idéia — retrucou Dom Juan, rispidamente.

 

Eu disse que nunca a aceitara, que sempre soubera que meu pai não era sincero consigo mesmo. Dom Juan me perguntou, com displicência, por que eu não exprimira minhas opiniões na época.

 

— A gente não diz essas coisas aos pais — falei, numa explicação fraca.

 

— Por que não?

 

— Não se fazia isso em minha casa, só isso.

 

— Já fez coisas piores em sua casa — declarou, como um juiz num tribunal. — A única coisa que você nunca fez foi polir seu espírito.

 

Havia uma força tão devastadora em suas palavras, que elas ficaram ressoando em minha cabeça. Arrasou todas as minhas defesas. Não podia argumentar com ele. Procurei refúgio escrevendo minhas notas.

 

Tentei uma última débil explicação e disse que toda a vida eu tinha encontrado gente do tipo de meu pai, que, como ele, de alguma maneira, me pegavam para os pianos deles e que em geral me deixavam dependurado.

— Você está reclamando — disse ele, baixinho. — Passou a vida toda reclamando porque não assume a responsabilidade de suas decisões. Se assumisse a responsabilidade pela idéia de seu pai de ir nadar às seis da manhã, você teria nadado, sozinho, se necessário, ou lhe teria dito que fosse para o diabo na primeira vez que ele abrisse a boca, depois de conhecer as suas artimanhas. Mas você não disse nada. Portanto, era tão fraco quanto seu pai. Assumir a responsabilidade de nossas decisões significa que estamos prontos a morrer por elas.

 

— Espere, espere! — falei. — Você está torcendo tudo.

 

Não me deixou terminar. Ia dizei-lhe que só tinha usado meu pai como exemplo de uma maneira não realista de agir, e que ninguém, em seu juízo perfeito, estaria disposto a morrer por uma coisa tão idiota.

 

— Não importa qual seja a decisão — disse ele. — Nada poderia ser mais ou menos sério do que qualquer outra coisa. Não vê? Num mundo em que a morte é o caçador, não há decisões pequenas ou grandes. Só há decisões que tomamos diante de nossa morte inevitável.

 

Não pude dizer nada. Talvez uma hora se tenha passado. Dom Juan estava perfeitamente imóvel em sua esteira, embora não estivesse dormindo.

 

— Por que me diz tudo isso, Dom Juan? — perguntei. — Por que está-me fazendo isso?

 

— Você me procurou — disse ele. — Não, não foi assim, foi-me trazido. E fiz um gesto para você.

 

— Como?

 

— Você podia ter feito um gesto para seu pai, nadando por ele, mas não fez, talvez porque fosse muito criança. Já vivi mais do que você. Não tenho nada pendente. Não há pressa em minha vida, de modo que posso fazer um gesto por você.

 

De tarde, fomos dar uma volta. Acompanhei o passo dele com facilidade e tornei a assombrar-me com sua extraordinária forma física. Andava tão lepidamente e com passos tão seguros que, junto dele, eu parecia uma criança. Tomamos uma direção para leste. Reparei que ele não gostava de falar enquanto andava. Se eu me dirigia a ele, parava de andar para me responder.

 

Depois de umas duas horas, chegamos a um morro; sentou-se e fez sinal para eu me sentar a seu lado. Declarou, num tom melodramático, que me ia contar uma história.

 

Disse que era uma vez um rapaz, um índio miserável, que vivia entre os brancos de uma cidade. Ele não tinha casa, nem parentes, nem amigos. Tinha ido para a cidade para fazer fortuna e só encontrara miséria e dor. De vez em quando, ganhava alguma coisa, trabalhando como um burro, mas aquilo mal dava para uma migalha; do contrário, ele tinha de mendigar ou roubar para poder comer.

 

Dom Juan contou que, um dia, o rapaz foi à feira. Ele subia e descia as ruas meio tonto, os olhos loucos ao verem todas as coisas boas reunidas ali. Ficou tão alucinado que não viu onde pisava e terminou tropeçando numas cestas e caindo por cima de um velho.

 

Este carregava quatro cabaças enormes e tinha acabado de sentar-se para descansar e comer. Dom Juan sorriu, com um ar matreiro, e disse que o velho achou muito estranho que o rapaz tivesse tropeçado nele. Não ficou zangado, e sim assombrado por que motivo aquele determinado rapaz havia de cair em cinta dele. O rapaz, ao contrário, ficou zangado e disse-lhe que saísse de seu caminho. Não estava nada preocupado com o significado daquele encontro. Não tinha reparado que seus caminhos tinham realmente se cruzado.

 

Dom Juan imitou os movimentos de alguém correndo atrás de alguma coisa que está rolando. Disse que as cabaças do velho tinham caído e estavam rolando pela rua. Quando o rapaz viu as cabaças, achou que tinha encontrado comida para aquele dia.

 

Ajudou o velho a levantar-se e insistiu em ajudá-lo a carregar as cabaças pesadas. O velho lhe disse que estava a caminho de sua casa nas montanhas e o rapaz insistiu em ir com ele, pelo menos parte do caminho.

 

O velho tomou o caminho das montanhas e, enquanto caminhavam, deu ao rapaz parte da comida que tinha comprado na feira. O rapaz comeu à grande e, quando ficou satisfeito, reparou como as cabaças eram pesadas e agarrou-as com força.

 

Dom Juan abriu os olhos e, com um sorriso diabólico, falou que o rapaz perguntou: "O que está levando nessas cabaças?" O velho não deu resposta, dizendo que ia levá-lo a um companheiro ou amigo que poderia aliviar as aflições dele e dar-lhe conselhos sábios a respeito das coisas do mundo.

 

Dom Juan fez um gesto majestoso com as duas mãos e disse que o velho chamou o veado mais lindo que o rapaz já vira. O veado era tão manso que chegou perto dele, andando em volta. Era todo reluzente. O rapaz estava boquiaberto e viu logo que se tratava de um "veado espírito". O velho então lhe disse que, se ele quisesse ter aquele amigo e sua sabedoria, bastava largar as cabaças.

 

O sorriso de Dom Juan retratava a ambição; disse que os desejos mesquinhos do rapaz foram espicaçados ao ouvir aquele pedido. Os olhos de Dom Juan fizeram-se miúdos e diabólicos, ao pronunciar a pergunta do rapaz: "O que é que leva nessas quatro cabaças enormes?"

 

Dom Juan disse que o velho serenamente respondeu que estava carregando comida: pinole e água. Ele parou de contar a história e andou em círculo umas duas vezes. Eu não sabia o que ele estava fazendo. Mas parece que era parte da história. O círculo parecia retratar os pensamentos do rapaz.

 

Dom Juan disse que, naturalmente, o rapaz não acreditou em nada daquilo. Calculou que, se o velho, que obviamente era um mágico, estava disposto a dar um "veado espírito" por suas cabaças, então estas deviam estar cheias de um poder inacreditável.

 

Dom Juan tornou a fazer uma careta com um sorriso diabólico e disse que o rapaz tinha declarado que queria ficar com as cabaças. Fez-se uma longa pausa, que pareceu marcar o fim da história. Dom Juan ficou calado e, no entanto, eu tinha certeza de que ele queria que eu lhe perguntasse a respeito, e eu o fiz,

 

— O que aconteceu com o rapaz.

 

— Ele ficou com as cabaças — respondeu ele, com um sorriso de satisfação.

 

Outra longa pausa. Eu ri. Pensei que aquela tinha sido bem uma história "de índio". Os olhos de Dom Juan brilharam quando ele me sorriu. Tinha um ar de inocência. Começou a rir aos pouquinhos e me perguntou:

 

— Não quer saber das cabaças?

 

— Claro que quero saber. Pensei que era o fim da história.

 

— Ah, não — disse ele, com um olhar malicioso. — O rapaz pegou as cabaças e correu para um lugar isolado e as abriu.

 

— O que encontrou? — perguntei.

 

Dom Juan olhou para mim e tive a impressão de que ele estava ciente de minha ginástica mental. Ele sacudiu a cabeça e riu.

 

— E, então, — insisti — as cabaças estavam vazias?

 

— Só havia comida e água dentro das cabaças — respondeu. — E o rapaz, num acesso de fúria, despedaçou-as de encontro às pedras.

 

Falei que a reação dele era muito natural... qualquer pessoa na situação dele teria feito o mesmo. A resposta de Dom Juan foi que o rapaz era um tolo, que não sabia o que buscava. Não tinha conhecimento do que era o "poder", de modo que não podia dizer se o havia encontrado ou não. Não assumira a responsabilidade por sua decisão e, portanto, ficara com raiva de seu engano. Esperava ganhar alguma coisa, e não ganhou nada. Dom Juan raciocinou que, se eu fosse o tal rapaz e se tivesse seguido minhas inclinações, eu teria acabado zangado e com remorsos e, sem dúvida, passaria o resto da vida com pena de mim mesmo e daquilo que tinha perdido.

 

Depois, explicou o procedimento do velho. Espertamente, tinha alimentado o rapaz, para dar-lhe "a audácia da barriga cheia", e assim o rapaz, só encontrando comida nas cabaças, arrebentou-as num acesso de fúria.

 

— Se ele tivesse consciência de sua decisão e assumisse a responsabilidade por ela — falou Dom Juan — teria tomado a comida e ficado mais do que satisfeito com ela. E talvez até tivesse compreendido que aquela comida também era poder.

 

Tornando-se caçador

 

Sexta-feira, 23 de junho de 1961

 

Assim que me sentei, bombardeei Dom Juan com perguntas. Ele não me respondeu e fez um gesto impaciente com a mão, para eu me calar. Parecia estar num estado de espírito sério.

 

— Estive pensando que você não mudou em nada, nesse tempo em que esteve tentando aprender sobre as plantas — disse ele, num tom de voz acusador.

 

Começou a passar em revista, em voz alta, todas as modificações de personalidade que me recomendara. Disse-lhe que tinha pensado muito seriamente no assunto e tinha chegado à conclusão de que não poderia fazê-las, pois todas contrariavam meu íntimo. Ele respondeu que simplesmente pensar nelas não bastava, e que tudo o que ele me dissera não fora dito de brincadeira. Tornei a insistir que, embora eu tivesse feito muito pouco no sentido de ajustar minha vida pessoal as idéias dele, eu realmente queria aprender o uso das plantas.

 

Depois de um silêncio prolongado, perguntei-lhe, ousadamente:

 

— Quer ensinar-me a respeito do peiote, Dom Juan? Respondeu que as minhas intenções simplesmente não bastaram e que saber a respeito do peiote — ele o chamou de "Mescalito"; pela primeira vez — era um assunto sério. Parecia que não havia mais nada a dizer, mas de tardinha preparou uma prova para mim; apresentou um problema sem dar qualquer indicação para a sua solução: encontrar um lugar ou ponto benéfico na área bem defronte da porta da casa dele, onde sempre nos sentávamos para conversar, um lugar onde eu pudesse supostamente sentir-me perfeitamente feliz e revigorado. Durante a noite, enquanto eu tentava encontrar o "ponto", rolando pelo chão, por duas vezes percebi uma mudança de coloração no chão de terra batida, uniformemente escuro, da área designada.

 

O problema me deixou exausto e eu adormeci num dos lugares em que tinha observado a mudança de cor. De manhã, Dom Juan me acordou e me comunicou que eu tinha tido uma experiência de grande êxito. Não só eu encontrara o ponto benéfico, como também achara o seu oposto, um ponto negativo ou inimigo, e as cores associadas a ambos.

 

 

Sábado, 24 de junho de 1961

 

Fomos para o chaparral do deserto de manhãzinha. Enquanto caminhávamos, Dom Juan explicou-me que encontrar um ponto "benéfico" ou "inimigo" era uma necessidade importante para um homem no sertão. Eu queria conduzir a conversa para o assunto peiote, mas ele se recusava terminantemente a falar a respeito. Avisou-me de que não devia nem mencionar isso, a não ser que ele mesmo abordasse o assunto.

 

Sentamo-nos para repousar à sombra de uns arbustos altos, num local de vegetação espessa. O chaparral do deserto em volta de nós ainda não estava de todo seco; o dia estava quente e as moscas me perseguiam, mas não pareciam atormentar Dom Juan. Pensei se ele estaria apenas ignorando tais insetos, mas então reparei que elas não estavam mesmo pousando no rosto dele.

 

— Às vezes, é preciso encontrar depressa um lugar benéfico ao ar livre — continuou Dom Juan. — Ou talvez seja necessário saber depressa se o lugar onde se vai descansar é mau. Uma vez, nós nos sentamos para descansar junto de um morro e você ficou muito zangado e perturbado. Aquele ponto era seu inimigo. Um corvozinho lhe deu um aviso, lembra-se?

Lembrava-me de que ele tinha feito questão de me dizer para, no futuro, evitar aquela área. Também me recordava de que eu tinha ficado zangado porque ele não me deixara rir.

 

— Eu pensava que o corvo que voou por cima de nós era um presságio só para mim — disse ele. — Eu jamais teria suspeitado de que os corvos também eram seus amigos.

 

— De que está falando?

 

— O corvo foi um presságio — continuou. — Se você soubesse dos corvos, teria evitado o lugar como a peste. Mas nem sempre os corvos estão por perto para dar aviso, e você deve aprender a encontrar por si um lugar bom para acampar ou descansar.

 

Depois de uma longa pausa, Dom Juan, de repente, virou-se para mim e disse que, para encontrar um bom lugar para repousar, bastava eu envesgar os olhos. Lançou-me um olhar vivo e, num tom de voz confidencial, disse-me que eu tinha feito exatamente aquilo quando estava rolando na varanda dele, e assim eu tinha, conseguido encontrar dois pontos e suas cores. Fez-me saber que tinha ficado impressionado com meu feito.

 

— Nem sei o que fiz — disse eu.

 

— Você envesgou — explicou, com ênfase. — É essa a técnica; deve ter feito isso, embora não se lembre.

 

Dom Juan então passou a descrever a técnica, que, segundo ele, levava anos para ser aperfeiçoada, e que consistia em se forçar gradativamente os olhos a verem separadamente a mesma imagem. A falta de conversão redundava em uma imagem dupla do mundo; essa dupla percepção, segundo Dom Juan, dava à pessoa a oportunidade de avaliar as modificações nos ambientes, que os olhos normalmente não conseguiam perceber.

 

Dom Juan me quis persuadir a tentá-lo. Assegurou-me de que não fazia mal à visão. Disse que eu devia começar olhando aos pouquinhos, quase com os cantos dos olhos. Apontou para um arbusto grande e me mostrou como devia fazer. Tive uma sensação estranha, vendo os olhos de Dom Juan dando olhares incrivelmente rápidos para o arbusto. Os olhos dele me faziam lembrar os de um animal esquivo, que não consegue olhar em linha reta.

 

Caminhamos por uma hora, talvez, enquanto eu tentava não focalizar o olhar em nada. Então, Dom Juan me pediu para começar a separar as imagens percebidas por cada um de meus olhos. Depois de mais uma hora, fiquei com uma tremenda dor de cabeça e tive de parar.

 

— Você acha que conseguiria encontrar, sozinho, um lugar bom para repousarmos? — perguntou.

 

Eu não tinha idéia de qual seria o critério para "um lugar bom". Explicou-me, pacientemente, que olhar aos pouquinhos permitia que os olhos destacassem vistas incomuns.

 

— Como o quê? — perguntei.

 

— Não são propriamente vistas — disse ele. — São mais como impressões. Se você olhar para um arbusto ou uma árvore ou uma rocha, onde possa querer descansar, seus olhos podem fazê-lo sentir se aquele é ou não o melhor local de repouso.

 

Tornei a pedir que ele me descrevesse quais eram aquelas sensações, mas ou ele não podia descrevê-las, ou simplesmente não queria fazê-lo. Disse que eu devia praticar escolhendo um lugar e depois ele me diria se meus olhos estavam funcionando ou não.

 

Em certo momento, avistei o que pensei ser uma pedrinha, que refletia a luz. Não conseguia vê-la se focalizasse meus olhos nela, mas, varrendo a área com olhares rápidos, percebia um vago brilho. Mostrei o lugar a Dom Juan. Ficava no meio de uma área sem sombra, despida de arbustos espessos. Ele riu muito e perguntou por que eu havia escolhido aquele determinado ponto, Expliquei que tinha visto um brilho.

 

— Não me importa o que você vê. Podia até ver um elefante, O que você sente é o importante.

 

Eu não sentia nada, em absoluto. Lançou-me um olhar misterioso e disse que gostaria de poder fazer minha vontade e sentar-se para descansar comigo ali, mas que se ia acomodar em outro lugar, enquanto eu verificava minha escolha.

 

Sentei-me, enquanto ele olhava para mim com curiosidade de uma distância de uns nove ou dez metros. Depois de alguns minutos, ele começou a rir alto. Por algum motivo, seu riso me deixou nervoso. Fiquei irritada. Achei que ele estava caçoando de mim e fiquei zangado. Comecei a examinar meus motivos para estar ali. Havia positivamente algo de errado na maneira como estava prosseguindo toda minha experiência com Dom Juan. Sentia-me um simples joguete nas mãos dele.

 

De repente, Dom Juan avançou sobre mim, correndo a toda, e puxou-me pelo braço, arrastando-me por uns três metros ou mais. Ajudou-me a levantar-me e enxugou o suor de sua testa. Então, reparei que ele se tinha esforçado ao máximo. Bateu em minhas costas e disse que eu tinha escolhido o lugar errado e que ele teve de me acudir depressa, pois sabia que o ponto em que eu havia sentado estava preste a dominar todos meus sentimentos. Eu ri. A figura de Dom Juan avançando sobre mim era muito engraçada. Ele tinha realmente corrido como um rapazinho. Seus pés se moviam como se estivessem agarrando o pó macio e avermelhada do deserto para dar uma cambalhota por cima de mim. Eu o vira rindo-se de mim e depois, em alguns segundos, estava-me arrastando pelo braço.

 

Depois de algum tempo, ele me disse que continuasse a procurar um lugar bom para repousar. Continuamos a caminhar, mas eu não percebi nem "senti" coisa alguma. Talvez, se eu estivesse mais relaxado, teria notado ou sentido alguma coisa. Mas eu não estava mais zangado com ele. Por fim, apontou para umas pedras e nós paramos.

 

— Não fique desapontado — falou Dom Juan. — Leva muito tempo para treinar os olhos direito.

 

Eu não disse nada. Não ia ficar desapontado por causa de uma coisa que não entendia de iodo. No entanto, tive de confessar que, já por três vezes desde que começara a visitar Dom Juan, eu ficara muito zangado e agitado quase ao ponto de enjoar, por me sentar em lugares que ele considerava maus.

 

— A questão é sentir com seus olhos — disse ele. — Seu problema é que você não sabe o que sentir. Mas isso virá com a prática.

 

— Talvez deva dizer-me, Dom Juan, o que preciso sentir.

 

— Isso é impossível.

 

— Por quê?

 

— Ninguém lhe pode dizer o que deve sentir. Não é calor, nem luz, nem clarão, nem cor. É outra coisa.

 

— Não pode descrevê-la?

 

— Não. Só lhe posso dizer qual a técnica. Uma vez que você aprenda a separar as imagens e comece a ver cada coisa em dobro, deve focalizar sua atenção na área entre as duas imagens. Qualquer modificação digna de nota deve processar-se ali, naquela área.

 

— Que tipos de modificações são elas?

 

— Isso não é importante. A sensação que você tem é o que conta. Cada homem é diferente do outro. Hoje, você viu um brilho, mas isso não significou nada, pois não havia sensação. Não lhe posso dizer como sentir-se. Tem de aprender isso sozinho.

 

Descansamos em silêncio por algum tempo. Dom Juan cobriu o rosto com o chapéu e ficou imóvel, como se estivesse dormindo. Absorvi-me em meus apontamentos, até que ele teve um movimento repentino que me assustou. Sentou-se abruptamente e virou-se para mim, de testa franzida.

 

— Você tem jeito para caçar — disse ele. — E é isso que devia aprender, a caçar. Não vamos mais falar das plantas. — Inflou as bochechas e depois acrescentou, francamente: — E creio que nunca falamos, não é? — E riu.

 

Passamos o resto do dia caminhando em todas as direções, enquanto ele me dava uma explicação incrivelmente detalhada a respeito de cascáveis. Como fazem os ninhos, como se movimentam, seus ' hábitos periódicos, esquisitices no seu comportamento. Depois, passou a corroborar cada um dos pontos que mencionara e, por fim, pegou e matou uma cobra grande; cortou-lhe a cabeça, limpou suas vísceras, tirou-lhe a pele e assou a carne. Seus movimentos tinham tal graça e perícia que era um prazer o simples fato de ficar perto dele. Eu escutava e assistia, fascinado. Minha concentração era tão completa que o resto do mundo praticamente desaparecera para mim.

 

Comer a cobra foi uma volta difícil ao mundo das coisas comuns. Senti náuseas quando comecei a mastigar um bocado de carne de cobra. Era uma repugnância infundada, pois a carne era deliciosa, mas meu estômago parecia uma unidade independente. Eu mal podia engolir. Achei que Dom Juan ia ter uma crise cardíaca, de tanto rir,

 

Depois, sentamo-nos relaxadamente para descansar à sombra de umas rochas. Comecei a trabalhar em minhas anotações, e a quantidade delas me fez perceber que ele me havia dado uma porção espantosa de informações sobre cascavéis.

 

— Seu espírito de caçador voltou — disse Dom Juan de repente, de cara séria. — Agora, você está fisgado.

 

— Como?

 

Queria que ele explicasse uma declaração de que eu estava fisgado, mas ele apenas riu e repetiu-a.

 

— Como é que estou fisgado? — insisti.

 

— Os caçadores sempre hão de caçar. Eu também sou caçador.

 

— Quer dizer que caça para ganhar a vida?

 

— Caço para viver. Posso viver da terra, em qualquer lugar. — Ele indicou o local em volta com a mão. — Ser um caçador quer dizer que a pessoa sabe muita coisa — continuou. — Significa que a pessoa vê o mundo de diversas maneiras. Para se ser caçador, é preciso estar em equilíbrio perfeito com tudo o mais, senão a caça se tornaria uma tarefa sem significado. Por exemplo, hoje pegamos uma cobrazinha. Tive de lhe pedir desculpas por cortar-lhe a vida tão repentina e definitivamente; fiz aquilo sabendo que minha própria vida também será cortada um dia, de maneira muito semelhante, repentina e definitivamente. Assim, ao todo, nós e as cobras estamos em situação de igualdade. Uma delas nos aumentou hoje.

 

— Nunca concebi um equilíbrio desse tipo quando eu caçava — falei.

 

— Isso não é verdade. Você não se limitava a matar animais. Você e sua família comiam a caça.

 

Suas palavras tinham a convicção de alguém que tivesse estado lá. Naturalmente, ele tinha razão. Houve ocasiões em que eu havia fornecido a carne de caça para minha família. Depois de hesitar um momento, perguntei:

 

— Como é que sabia disso?

 

— Há certas coisas que eu sei — disse ele. — Mas não lhe posso dizer como.

 

Contei que minhas tias e tios chamavam todos os pássaros que eu pegava de "faisões".

 

Dom Juan disse que podia facilmente imaginar que eles chamassem um pardal de "faisãozinho", e fez uma imitação cômica de como o mastigariam. Os extraordinários movimentos dos maxilares dele me davam a impressão de que ele estava mesmo mastigando um pássaro inteiro, com ossos e tudo.

 

— Acho mesmo que você tem jeito para caçar — disse, fitando-me. — E nós andamos no galho errado. Talvez você esteja disposto a mudar seu modo de vida para se tornar um caçador.

 

Lembrou-me de que eu tinha descoberto, com pouco esforço, que no mundo havia pontos bons e maus para mim; acrescentou que eu também tinha encontrado as cores específicas associadas a eles.  — Isso significa que você tem jeito para caçar — declarou.

 

— Nem todos que tentassem encontrariam suas cores e seus lugares

ao mesmo tempo.

 

Ser caçador parecia muito bom e romântico, mas era um absurdo para mim, pois não gostava especialmente de caçar.

 

— Não precisa interessar-se pela caçada, nem gostar dela — respondeu, diante de minha reclamação. — Você tem uma tendência natural. Creio que os melhores caçadores não gostam mesmo de caçar; caçam bem, só isso.

 

Eu tinha a impressão de que Dom Juan era capaz de vencer qualquer discussão e, no entanto, ele afirmava que não gostava nada de falar.

 

— é o que lhe disse a respeito dos caçadores — explicou. — Não è preciso gostar de falar. Tenho um jeito para isso e falo bem, é só.

 

Eu achava sua agilidade mental muito engraçada.

 

— Os caçadores devem ser indivíduos muito ajustados — continuou. — Um caçador deixa muito pouca coisa ao acaso. Todo este tempo estive tentando convencê-lo de que deve aprender a viver de maneira diferente. Até hoje não consegui. Não havia nada a que você se pudesse agarrar. Mas agora é diferente. Eu lhe devolvi seu velho espírito de caçador e, talvez, por meio dele você se modifique.

 

Protestei que eu não queria tornar-me caçador. Lembrei-lhe de que, no princípio, eu só queria que ele me contasse a respeito das plantas medicinais, mas que ele me desviara tanto de meu propósito inicial, que eu não me lembrava mais claramente se eu queria ou não aprender a conhecer as plantas.

 

— Bom — disse ele. — Muito bom mesmo. Se não tem uma idéia tão clara do que deseja, pode ficar mais humilde.

 

— Digamos uma coisa. Para os seus propósitos, não importa realmente que aprenda sobre as plantas ou sobre caçar. Você mesmo já me disse isso. Está interessado em tudo o que lhe puderem dizer. Não é verdade?

 

Eu tinha dito aquilo a ele para definir o âmbito da antropologia e para conseguir que ele fosse meu informante.

 

Dom Juan riu, obviamente consciente de seu comando sobre a situação.

 

— Sou um caçador — disse ele, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Deixo muito pouco ao acaso. Talvez eu deva explicar-lhe que aprendi a ser caçador. Nem sempre vivi do jeito que vivo hoje. Num ponto de minha vida, tive de mudar. Agora estou-lhe apontando a direção. Estou guiando você. Sei do que estou falando; uma pessoa ensinou-me tudo isso. Não descobri tudo sozinho. — Quer dizer que teve um mestre. Dom Juan?

 

— Digamos que alguém me ensinou a caçar da mesma maneira que lhe quero ensinar agora — falou, mudando de assunto depressa.

 

“Creio que antigamente caçar era um dos atos mais notáveis que o homem podia praticar — disse ele. — Todos os caçadores foram homens poderosos. De fato, o caçador tinha de ser poderoso de saída para poder suportar os rigores daquela vida”.

 

De repente, fiquei curioso. Estaria ele se referindo a uma época talvez anterior à Conquista? Comecei a sondá-lo.

 

— Quando transcorreu essa época?

 

— Antigamente.

 

— Quando? O que quer dizer "antigamente",

 

— Quer dizer antigamente, ou talvez queira dizer agora, hoje. Não importa. Em certa época, todo mundo sabia que o caçador era o melhor dos homens. Hoje, nem todos sabem disso, mas há bastante gente que sabe. Eu o sei, e um dia você o saberá. Entende o que digo?

 

— Os índios yaquis acham isso a respeito dos caçadores? É isso o que quero saber.

 

— Não necessariamente.

 

— E os índios pimas?

 

— Nem todos. Mas alguns.

 

Citei vários grupos vizinhos. Queria que ele declarasse positivamente que a caça era uma crença partilhada e praticada por algum povo específico. Mas ele não quis responder diretamente, de modo que mudei de assunto.

 

— Por que está fazendo tudo isso por mim, Dom Juan? — indaguei.

 

— Estou fazendo um gesto por você — falou, baixinho. — Outras pessoas já fizeram gestos semelhantes por você; um dia você também fará um gesto por outros. Digamos que é a minha vez. Um dia, descobri que, se queria ser um caçador digno de respeito próprio, teria de mudar meu modo de vida. Eu costumava gemer e reclamar muito. Tinha bons motivos para me sentir lesado. Sou índio e os índios são tratados como cães. Não havia nada que eu pudesse fazer para remediar isso, de modo que só restava minha tristeza. Mas então minha boa sorte me poupou, e alguém me ensinou a caçar. E compreendi que viver como eu vivia não valia a pena... de modo que mudei.

 

— Mas eu estou satisfeito com minha vida, Dom Juan. Por que havia de modificá-la?

 

Começou a cantarolar uma canção mexicana, muito baixinho, e depois entoou a melodia. A cabeça dele subia e descia acompanhando o ritmo da canção.

 

— Acha que você e eu somos iguais? — perguntou, numa voz

Sua pergunta me pegou desprevenido. Senti um zumbido estranho nos ouvidos, como se ele tivesse gritado as palavras, o que não fizera; no entanto, havia um tom metálico na voz dele, que reverberava em meus ouvidos.

 

Cocei o interior de meu ouvido esquerdo com o dedo mindinho de minha mão esquerda. Meus ouvidos comichavam o tempo todo e eu tinha adquirido um tique nervoso de coçar o interior deles com o dedo mindinho de uma das mãos. O movimento parecia mais uma sacudidela de todo meu braço. Dom Juan ficou olhando meus movimentos, aparentemente fascinado.

 

— E então... somos iguais? — perguntou.

 

— Claro que somos iguais.

 

Naturalmente, eu estava sendo condescendente. Eu tinha muita afeição por ele, embora, às vezes, não soubesse o que fazer dele; no entanto, no meu íntimo eu ainda acreditava, embora nunca o dissesse, por ser um estudante universitário, um homem do sofisticado mundo ocidental, que eu era superior a um índio.

 

— Não — disse ele, calmamente. — Não somos.

 

— Ora, por certo que somos — protestei.

— Não — replicou, baixinho. — Não somos iguais. Sou um caçador e um guerreiro e você é um fresco.

 

Fiquei boquiaberto. Não podia acreditar que Dom Juan tivesse realmente dito aquilo. Larguei meu bloco, olhei para ele, embatucado, e depois, naturalmente, fiquei furiosa.

 

Fitou-me com olhos calmos e controlados. Desviei o olhar. E então ele começou a falar. Pronunciava as palavras com clareza. Saíam macias e mortíferas. Disse que eu estava sendo fresco por outras pessoas. Que não estava travando minhas próprias batalhas, e sim as batalhas de gente desconhecida. Que eu não queria aprender a conhecer plantas nem a caçar nem coisa alguma. E que o mundo dele, de atos, sentimentos e decisões precisas, era infinitamente mais eficaz do que a idiotice trapalhona que eu chamava de "minha vida.

 

Depois que ele acabou de falar, fiquei paralisado. Tinha-se expressado sem truculência, nem convencimento, mas com tal poder e, no entanto, com tamanha calma, que eu nem estava mais zangado.

 

Ficamos calados. Eu estava constrangido e não conseguia pensar em nada de adequado para dizer. Esperei que ele rompesse o silêncio. Passaram-se horas. Dom Juan foi ficando imóvel aos poucos, até seu corpo adquirir uma rigidez estranha, quase assustadora; ficou difícil distinguir seu vulto, pois escurecia, e por fim, quando estava tudo escuro como breu em volta de nós, ele parecia ter-se fundido no negrume das pedras. Seu estado de imobilidade permaneceu tão total que era como se ele não existisse mais,

 

Já era meia-noite quando, afinal, entendi que ele poderia e ficaria ali imóvel naquele sertão, naquelas pedras, talvez para sempre, se preciso. Seu mundo de atos, sentimentos e decisões precisas era realmente superior.

 

Toquei de leve no braço dele e as lágrimas me inundaram.

Ser inacessível

 

Quinta-feira, 29 de junho de 1961

 

Mais uma vez Dom Juan, como acontecera durante quase uma semana, assombrou-me com seu conhecimento dos detalhes específicos sobre o comportamento da caça. Ele primeiro explicava e depois corroborava uma série de titicas de caçadas baseadas sobre o que chamava de "as esquisitices das codornas". Fiquei tão absorto nas explicações dele que um dia inteiro se passou sem eu notar o correr das horas. Até esqueci de almoçar. Dom Juan observou, caçoando, que era coisa rara eu pular uma refeição.

 

No fim do dia, ele tinha apanhado cinco codornas numa armadilha muito engenhosa, que me ensinou a montar e armar.

 

— Duas bastam para nós — disse ele, soltando três.

 

Depois, ensinou-me a assar a codorna. Eu tinha querido cortar uns arbustos para fazer uma churrasqueira, como meu avô fazia, forrada de galhos verdes e folhas, e tapada com terra, mas Dom Juan disse que não havia necessidade de machucar os arbustos, pois já tínhamos ferido as codornas.

 

Depois de comermos, caminhamos com muita calma para um local pedregoso. Sentamos numa encosta arenosa e eu disse, de brincadeira, que, se ele tivesse deixado por minha conta, eu teria cozinhado as cinco codornas, e meu churrasco teria ficado muito mais gostoso do que o assado dele.

 

— Sem dúvida — falou. — Mas se você tivesse feito tudo isso, talvez não saíssemos daqui inteiros.

— O que quer dizer com isso? — perguntei. — O que nos teria impedido?

 

— Os arbustos, as codornas, tudo em volta teria contribuído.

 

— Nunca sei quando você está falando sério.

 

Ele fez um gesto de impaciência fingida e estalou os lábios.

 

— Você tem uma noção variada do que significa falar seriamente — disse ele. — Eu rio muito porque gosto de rir e, no entanto, tudo o que digo é inteiramente sério, mesmo que você não entenda. Por que o mundo há de ser só o que você pensa que é? Quem lhe deu autoridade para dizer isso?

 

— Não há provas de que o inundo seja diferente — respondi.

 

Estava escurecendo. Comecei a pensar se não estaria na hora de voltar para casa, mas ele não parecia estar com pressa e eu estava-me divertindo.

 

O vento estava frio. De repente, ele se levantou e disse que tínhamos de subir ao topo do morro e ficar num lugar livre de arbustos.

 

— Não tenha medo — falou. — Sou seu amigo e verei que não lhe aconteça nada de mau.

 

— O que quer dizer? — perguntei, alarmado. Dom Juan tinha a faculdade mais traiçoeira de me levar do maior prazer ao medo.

 

— O mundo é muito estranho nessa hora do dia — disse ele. — Foi isso o que quis dizer. Não importa o que você vir, não tenha medo.

 

— O que vou ver?

 

— Ainda não sei — respondeu, olhando ao longe, para o sul. Ele não parecia estar preocupado. Também fiquei olhando na mesma direção.

 

De repente, empertigou-se e apontou com a mão esquerda para um lugar escuro nos arbustos do deserto.

 

— Lá está — disse ele, como se tivesse estado à espera de alguma coisa que aparecesse de repente.

 

— O que é? — perguntei.

 

— Lá está — repetiu ele. — Olhe! Olhe! Não vi nada, só os arbustos.

 

— Está aqui agora — disse ele, numa voz muito urgente. — Está aqui.

 

Uma rajada de vento repentina tocou-me naquele momento, fazendo meus olhos arderem. Fiquei olhando para o lugar. Não havia absolutamente nada fora do comum.

 

— Não vejo nada — falei.

 

— Você acabou de senti-lo — respondeu. — Agora mesmo. Entrou nos seus olhos e o impediu de ver.

 

— De que está falando?

 

— Eu o trouxe de propósito para cima de um morro — disse ele. — Somos muito evidentes aqui e alguma coisa se aproxima de nós.

 

— O quê? O vento?

 

— Não só o vento — respondeu, severamente. — Pode parecer que é o vento para você, pois só conhece o vento.

Forcei meus olhos a espiarem os arbustos do deserto. Dom Juan ficou calado junto de mim por uns momentos; depois, foi para o chaparral e começou a cortar galhos grandes dos arbustos vizinhos; pegou oito e fez um apanhado. Mandou que eu fizesse o mesmo e que me desculpasse em voz alta às plantas por mutilá-las.

 

Quando juntamos dois apanhados, fez-me correr com eles para cima do morro e deitar-me de costas entre duas pedras grandes. Com uma rapidez incrível, ele dispôs os galhos de meu apanhado tapando meu corpo todo; em seguida, cobriu-se da mesma maneira e cochichou através das folhas para eu ver como o falado vento ia parar de soprar, depois que nós nos disfarçamos.

 

Em certo momento, para meu assombro total, o vento realmente parou de soprar, como Dom Juan predissera. Aconteceu tão gradativamente, que eu não teria reparado na mudança, se não estivesse esperando por ela. A princípio, o vento soprava pelas folhas em meu rosto, e depois aos poucos tudo foi ficando quieto em volta de nós.

 

Cochichei para Dom Juan que o vento tinha parado e ele sussurrou de volta que eu não devia fazer qualquer barulho ou movimento perceptível, pois o que eu chamava de vento não era vento nenhum e tinha uma vontade própria e podia reconhecer-nos.

 

Eu ri, nervoso. Numa voz abafada, Dom Juan chamou minha atenção para a quietude em volta de nós e sussurrou que ele ia pôr-se de pé e que eu devia acompanhá-lo, afastando os galhos com muito cuidado, com a mão esquerda.

 

Levantamo-nos ao mesmo tempo. Dom Juan olhou um pouco para longe, em direção ao sul, e depois virou-se abruptamente, para oeste.

 

— Furtivo. Muito furtivo — murmurou ele, apontando para um lugar no sudoeste.

 

— Olhe! Olhe! — disse ele.

 

Olhei com toda a intensidade que pude. Queria ver o que ele estava mostrando, mas não notei nada. Ou melhor, não distingui nada que eu não tivesse visto antes; só havia os arbustos que pareciam estar agitados por um vento suave; eles ondulavam.

 

— Está aqui — falou Dom Juan.

 

Naquele momento, senti uma rajada de ar em meu rosto. Parecia que o vento tinha realmente começado a soprar, depois que nos levantamos. Eu não podia acreditar; tinha de haver uma explicação lógica para aquilo. Dom Juan riu baixinho e me disse para não cansar minha cabeça tentando entender por raciocínio.

 

— Vamos pegar uns galhos outra vez — disse ele. — Não gosto de fazer isso com as plantinhas, mas tentos de fazer você parar.

 

Pegou os galhos que tínhamos usado para nos cobrir e amontoou terra e pedrinhas sobre eles Depois, repetindo os mesmos movimentos de antes, cada um de nós colheu oito galhos novos. Enquanto isso, o vento continuava a soprar sem cessar. Eu o sentia despenteando o cabelo por cima de minhas orelhas. Dom Juan cochichou que, depois que ele me cobrisse, eu não deveria fazer o menor movimento, nem ruído. Depressa, colocou os galhos sobre meu corpo; depois, deitou-se e cobriu-se.

 

Ficamos naquela posição por uns 20 minutos e, durante esse tempo, ocorreu um fenômeno muito extraordinário: o vento tornou a passar de uma rajada forte e contínua para uma vibração suave.

 

Contive a respiração, esperando o sinal de Dom Juan. Em certo momento, ele afastou os galhos delicadamente. Eu fiz o mesmo e nós nos levantamos. O topo do mono estava muito quieto. Só havia uma vibração suave nas folhas do chaparral vizinho. Os olhos de Dom Juan estavam fixos num lugar entre os arbustos, ao sul de onde estávamos.

 

— Lá esta de novo! — exclamou, em voz alta.

 

Dei um salto, sem querer, quase perdendo o equilíbrio, e ele me ordenou, numa voz alta e imperiosa, que olhasse.

 

— O que devo ver? — perguntei, aflito.

 

Ele disse que ele, o vento ou o que fosse, era como uma nuvem ou uma espiral bem acima dos arbustos, rodopiando e subindo o morro para onde estávamos.

 

Vi uma ondulação se formando nos arbustos, à distância.

 

— Lá vem ele — disse Dom Juan em meu ouvido. — Veja como nos procura.

 

Bem nesse momento, uma forte rajada de vento tocou meu rosto, como já fizera antes. Mas dessa vez, minha reação foi diferente. Fiquei apavorado. Eu não tinha visto o que Dom Juan descrevera, mas tinha notado uma onda muito misteriosa agitando os arbustos. Não quis entregar-me a meu medo e, propositadamente, procurei qualquer explicação plausível. Disse comigo mesmo que devia haver contínuas correntes de ar naquela área, e que Dom Juan, conhecendo bem toda a região, não só estava ciente disso, como era mentalmente capaz de traçar sua ocorrência. Bastaria ele deitar-se, contar e esperar que o vento amainasse; e depois que ele se levantasse, era só esperar que aquilo se repetisse.

 

A voz de Dom Juan me sacudiu de meus exercícios mentais. Dizia-me que estava na hora de sair. Eu remanchei; queria ficar para ter certeza de que o vento ia amainar.

 

— Não vi nada, Dom Juan — disse eu.

 

— Mas observou alguma coisa fora do comum.

 

— Talvez possa dizer-me de novo o que eu devia ver.

 

— Já lhe disse — replicou, — Uma coisa que se esconde no vento e parece uma espiral, uma nuvem, uma névoa, uma cara que gira. — Dom Juan fez um gesto com as mãos para indicar um movimento horizontal e vertical. — Move-se numa direção específica — continuou ele. — Ou revolve ou gira. Um caçador tem de saber tudo isso para poder movimentar-se corretamente.

 

Queria fazer-lhe a vontade, mas ele estava tentando tanto provar o que dizia que não tive coragem. Ele olhou para mim por um momento e eu desviei o olhar.

 

— Acreditar que o mundo é só como você pensa é burrice — falou. — O mundo é um lugar misterioso. Especialmente no crepúsculo. — Apontou para o vento com o queixo. — Aquilo pode seguir-nos — disse ele. — Pode-nos fatigar, e até nos matar.

 

— Aquele vento?

 

— Nessa hora do dia, no crepúsculo, não existe vento. Nessa hora do dia, só existe o poder.

 

Ficamos sentados no topo do morro por uma hora. O vento soprou forte e constantemente o tempo todo.

 

Sexta-feira, 30 de junho de 1961

 

De tardinha, depois de comermos, Dom Juan e eu fomos para a área defronte da porta dele. Sentei-me no meu "ponto" e comecei a trabalhar em meus apontamentos. Ele deitou-se de costas, com as mãos cruzadas sobre a barriga. Havíamos ficado em casa o dia todo, por causa do "vento". Dom Juan explicou que tínhamos perturbado o vento de propósito e que era melhor não brincar com ele. Tive até de dormir coberto de galhos.

 

Uma súbita rajada de vento fez Dom Juan levantar-se de um salto, com uma agilidade incrível.

 

— Que diabo — disse ele. — O vento está procurando você.

 

— Essa não, Dom Juan — falei, rindo. — Essa não, mesmo. Não estava sendo cabeçudo, é só que eu achava impossível concordar com a idéia de que o vento tivesse vontade própria e me estivesse procurando, ou que nos tivesse descoberto, acompanhando-nos ao topo do morro. Eu disse que a idéia de um "vento voluntarioso" era uma visão do mundo meio simplista.

 

— Então o que é o vento? — perguntou, num tom de desafio. Expliquei com paciência que as massas de ar quente e frio produziam pressões diferentes e que a pressão fazia com que as massas de ar se movessem vertical e horizontalmente. Levei algum tempo para explicar todos os detalhes da meteorologia básica.

 

— Quer dizer que o vento é só ar frio e ar quente? — perguntou, num tom perplexo.

 

— Creio que sim — respondi, — gozando meu mudo triunfo. Dom Juan parecia estar boquiaberto. Mas, então, ele olhou para mim e começou a dar gargalhadas.

 

— Suas opiniões são definitivas — disse ele, num tom sarcástico. — São a palavra final, não é? Para um caçador, porém, suas opiniões são uma boa bosta. Não faz diferença que a pressão seja um ou dois ou dez; se você vivesse aqui no sertão, saberia que, durante o crepúsculo, o vento se torna poder. Um caçador digno desse nome sabe disso e age de acordo.

 

— Como é que ele age?

 

— Ele usa o crepúsculo e aquele poder oculto no vento.

 

— Como?

 

— Se for conveniente para ele, o caçador se esconde do poder cobrindo-se e ficando imóvel até passar o crepúsculo e o poder o ter selado dentro de sua proteção. — Dom Juan fez um gesto de envolver alguma coisa com as mãos. — Sua proteção é como...

 

Ele parou, procurando uma palavra, e eu sugeri um "casulo".

 

— Isso mesmo — disse ele. — A proteção do poder sela você como dentro de um casulo. Um caçador pode ficar ao relento, sem que nenhuma, onça ou coiote ou verme nojento o apoquente. Uma onça pode chegar até junto do nariz do caçador e cheirá-lo, e se o caçador não se mexer, a onça vai embora. Posso garantir-lhe isso.

 

“Mas se o caçador, ao contrário, quiser ser notado, basta que fique de pé em cima de um morro no momento do crepúsculo e o poder o procurará e atormentará a noite toda. Portanto, se o caçador quiser viajar de noite ou se quiser ficar desperto, tem de se mostrar ao vento”.

 

"Eis aí o segredo dos grandes caçadores. Mostrar-se e esquivar-se no momento exato.”

 

Senti-me meio confuso e pedi que ele recapitulasse o que dissera. Dom Juan explicou com muita paciência que ele tinha usado o crepúsculo e o vento para demonstrar a importância da interação entre a gente se esconder e se mostrar.

 

— Você deve aprender a tornar-se propositadamente disponível e não disponível — disse ele. — Tendo em vista sua vida atual, você está sempre disponível, sem querer.

 

Protestei. Minha impressão era que minha, vida se tornava cada vez mais secreta. Ele disse que eu não tinha entendido, e que não estar disponível não queria dizer esconder-se ou ser misterioso, e sim ser inacessível.

 

— Vou dizer cm outras palavras — continuou ele, com paciência. — Não faz diferença esconder-se, se todos sabem que você se está escondendo.

 

"Seus problemas agora provêm daí. Quando você se está escondendo, todos sabem que se está escondendo, e quando você não está, está disponível para todo mundo marretá-lo.”

Eu estava começando a sentir-me ameaçado e procurei logo defender-me.

 

— Não se explique — disse Dom Juan, secamente. — Não há necessidade. Somos todos tolos, todos nós, e você não pode ser diferente. Em uma ocasião em minha vida, eu, como você, fiquei disponível várias vezes, até não sobrar mais nada de mim, para nada, talvez, a não ser chorar. E foi o que eu fiz, tal como você.

 

Dom Juan me examinou por um momento e depois deu um suspiro.

 

— Mas eu era mais moço do que você — continuou. — Mas um dia, fiquei farto, e me modifiquei. Digamos que um dia, quando me estava tornando um caçador, aprendi o segredo de estar disponível e não estar disponível.

 

Disse-lhe que as palavras dele estavam além do meu alcance. Eu realmente não entendia o que ele queria dizer com estar disponível. Ele usara a expressão idiomática espanhola ponerse al alcance e ponerse en el medio del camino (pôr-se ao alcance e pôr-se no meio de um caminho movimentado).

 

— Você deve levar-se embora — explicou. — Deve retomar-se do meio de um caminho movimentado. Todo seu ser está lá, de modo que não adianta você se esconder; só imaginaria que está escondido. Estar no meio do caminho significa que todo mundo que passa assiste a suas idas e vindas.

 

A metáfora dele era interessante, mas era ao mesmo tempo obscura.

 

— Você fala enigmaticamente — disse eu.

 

Fitou-me por um bocado de tempo e depois começou a cantarolar uma melodia. Endireitei-me e escutei atentamente. Sabia que, quando Dom Juan entoava uma melodia mexicana, estava prestes a me marretar.

 

— Ei — disse ele, sorrindo e olhando bem para mim. — O que é que aconteceu com sua amiguinha loura? Aquela pequena de quem você gostava de verdade.

 

Devo ter olhado para ele como um raio de um idiota. Ele riu, divertido. Eu não sabia o que dizer.

 

— Você me contou a respeito dela — falou, tranqüilizando-me. Mas eu não me lembrava de lhe ter contado nada a respeito de ninguém, muito menos de uma pequena loura.

 

— Nunca mencionei nada disso a você — repliquei.

 

— Claro que sim — disse ele, como se terminando a discussão.

 

Eu quis protestar, mas ele me impediu, dizendo que não importava de que maneira sabia a respeito dela, e o que era importante era o fato de que eu havia gostado dela.

 

Senti uma onda de animosidade contra ele me invadindo.

 

— Não disfarce — disse Dom Juan, secamente. — Este é um momento em que deve eliminar seus sentimentos de importância. Você um dia teve uma mulher muito querida, e um dia você a perdeu.

 

Comecei a imaginar se algum dia eu teria contado a respeito dela a Dom Juan. Cheguei à conclusão de que nunca houvera oportunidade para isso. Mas podia bem ter sucedido. Cada vez que saíamos de carro juntos, sempre conversávamos incessantemente sobre tudo. Não me lembrava de tudo sobre o que falávamos, porque não podia tomar apontamentos enquanto dirigia. Fiquei um tanto tranqüilizado com essas conclusões. Disse-lhe que ele tinha razão. Tinha havido uma loura muito importante em minha vida.

 

— Por que ela não está com você?

 

— Ela foi embora.

 

— Por quê?

 

— Por muitos motivos.

 

— Não havia tantos motivos. Só um. Você se tornou disponível demais.

 

Gostaria muito de saber o que ele queria dizer com isso. Ele tornara a me tocar. Parecia estar ciente do efeito de suas palavras e franziu os lábios num sorriso malicioso.

 

— Todo mundo sabia a respeito de vocês dois — disse ele, com uma convicção inabalável.

 

— Foi errado?

 

— Foi muito errado. Ela era uma bela pessoa.

 

Exprimi o sentimento sincero de que essa maneira de plantar verde dele me era odiosa, especialmente o fato de ele sempre dizer as coisas com a segurança de alguém que tivesse estado presente e assistido a tudo.

 

— Mas isso é verdade — disse ele, com uma candura desarmante. — Eu vi tudo mesmo. Ela era uma bela pessoa.

 

Eu sabia que não adiantava discutir, mas fiquei, zangado com ele por tocar naquela ferida de minha vida, e disse que a pequena em pauta não era tão bela pessoa, afinal, e que, era minha opinião, ela era meio fraca.

 

— E você também é — disse ele, calmamente. — Mas isso não é importante. O que conta é que você a procurou por toda parte; e isso a torna uma pessoa especial em seu mundo; e, para uma pessoa especial, a gente só devia ter boas palavras.

 

Sentia-me encabulado; uma grande tristeza começou a se apoderar de mim.

 

— O que está fazendo comigo, Dom Juan? — perguntei. — Você sempre consegue deixar-me triste. Por quê?

 

— Agora está-se deixando levar pelo sentimentalismo — disse ele, num tom acusador.

 

— Qual a finalidade de tudo isso, Dom Juan?

 

— Ser inacessível é a finalidade — declarou. — Só mencionei a recordação dessa pessoa como um meio de lhe mostrar diretamente o que não consegui mostrar-lhe com o vento. Você a perdeu porque estava acessível; estava sempre ao alcance dela e sua vida era uma rotina.

 

— Não! — disse eu. — Está enganado. Minha vida nunca foi uma rotina.

 

— Era e é uma rotina — falou, dogmaticamente. — é uma rotina diferente que lhe dá a impressão de não ser uma rotina, mas eu lhe asseguro de que é.

 

Eu queria ficar de mau humor e mergulhado em tristeza, mas, por algum motivo, os olhos dele me deixavam agitado; pareciam empurrar-me sempre para a frente.

 

— A arte do caçador é tornar-se inacessível — disse ele. — No caso daquela loura, significaria que você teria de tornar-se um caçador e vê-la raramente. Não como você fazia. Ficou com ela dia após dia, até que o único sentimento que restava era o tédio. Não é verdade?

 

Não respondi. Achei que não precisava. Ele tinha razão.

 

— Ser inacessível significa que você toca o mundo que o cerca moderadamente. Não come cinco codornas; come uma. Não danifica as plantas só para fazer uma churrasqueira. Não se expõe ao vento, a não ser que seja imprescindível. Não utiliza e espreme as pessoas até elas mirrarem e sumirem, especialmente aquelas que você ama.

 

— Nunca utilizei ninguém — falei, sinceramente.

 

Mas Dom Juan afirmava que sim, e, dessa forma, eu podia dizer francamente que ficava cansado e caceteado com as pessoas.

 

— Não estar disponível significa que você propositadamente evita esgotar-se a si e aos outros — continuou. — Significa que você não está faminto nem desesperado, como o pobre filho da mãe que acha que nunca mais vai comer na vida e então devora toda a comida que pode, todas as cinco codornas!

 

Dom Juan estava positivamente fazendo falsete comigo. Eu ri, c isso pareceu agradar-lhe. Tocou de leve em minhas costas.

 

— Um caçador sabe que atrairá a caça várias vezes para sua armadilha, de modo que não se preocupa. Preocupar-se é tornar-se acessível, acessível sem o saber. E depois que você se preocupa, agarra-se a qualquer coisa, em desespero; e uma vez que você se agarra, é provável que se esgote ou esgote a quem ou o que você se estiver agarrando.

 

Disse-lhe que, em minha vida diária, era inconcebível ser inacessível. Meu argumento era que, para funcionar, eu tinha de estar ao alcance de todas as pessoas que tivessem alguma coisa a ver comigo.

 

— Já lhe disse que ser inacessível não significa esconder-se, nem ser misterioso — disse ele, calmamente. — Não significa tampouco que você não possa lidar com as pessoas. Um caçador usa seu mundo com parcimônia e ternura, sem considerar se o mundo é de coisas, plantas, animais, pessoas ou poder. Um caçador trata intimamente com seu mundo e, no entanto, é inacessível a esse mesmo mundo.

 

— Isso é uma contradição — falei. — Ele não pode ser inacessível se está ali no seu mundo, hora após hora, dia após dia.

 

— Você não entendeu — disse Dom Juan, paciente. — Ele está inacessível porque não está espremendo o mundo até este perder a forma. Ele o toca de leve, fica o tempo que precisa, e depois passa adiante rapidamente, quase sem deixar marca.

 

Romper as rotinas da vida

 

Domingo, 16 de julho de 1961

 

Passamos a manhã toda observando uns roedores que pareciam esquilos gordos; Dom Juan os chamava de ratos-d’água. Ele comentou que eles eram muito despachados em fugirem ao perigo, mas, depois de conseguirem correr mais do que qualquer predador, tinham o hábito terrível de parar, ou mesmo subir numa pedra, ficar de pé em suas pernas traseiras e olhar em volta, arrumando-se.

 

— Eles têm uma vista excelente — disse Dom Juan. — Você só se pode mover quando estiverem correndo, de modo que tem de aprender a prever quando e onde eles vão parar, para também parar ao mesmo tempo.

 

Fiquei absorto, observando-os e tive o que seria uma festa para os caçadores, pois vi muitos deles. E por fim, conseguia prever seus movimentos todas as vezes.

 

Dom Juan, então, ensinou-me a fazer armadilhas para apanhá-los. Explicou que um caçador tem de gastar tempo para observar os locais onde comiam e faziam seus ninhos, para poder saber onde localizar suas armadilhas; depois, preparava-as de noite e no dia seguinte a única coisa a fazer era espantá-los, para eles se espalharem para dentro de seus dispositivos.

 

Pegamos uns paus e começamos a construir os alçapões. Já tinha quase acabado o meu e estava pensando, entusiasmado, se funcionaria ou não, quando, de repente, Dom Juan parou e olhou para seu pulso esquerdo, como se estivesse consultando um relógio que nunca possuiu, e disse que, pelo relógio dele, estava na hora do almoço. Eu estava segurando um pau comprido, ao qual estava querendo dar a forma de um arco, dobrando-o num círculo. Automaticamente, larguei-o com o resto de minha parafernália de caça.

 

Dom Juan olhou para mim com uma expressão de curiosidade. Depois, imitou o ruído de apito de uma sirena de fábrica na hora do almoço. Eu ri. O som da sirena estava perfeito. Fui para junto dele e vi que me estava fitando. Ele sacudiu a cabeça, de um lado para outro.

 

— Que diabo — disse ele.

 

— O que é que há? — perguntei.

 

Tornou a imitar o gemido prolongado de um apito de fábrica.

 

— Terminou o almoço — disse ele. — Volte ao trabalho. Fiquei confuso por um momento, mas depois achei que ele estava brincando, talvez porque não tivéssemos realmente nada para. preparar para o almoço. Eu estava tão absorto com os roedores que tinha esquecido de que não tínhamos provisões. Tornei a pegar o pau e tentei dobrá-lo. Depois de um momento, Dom Juan tornou a "apitar".

 

— Hora de ir para casa — disse ele. Examinou seu relógio imaginário e depois olhou para mim, piscando o olho. — São cinco horas — falou, com o ar de uma pessoa revelando um segredo.

 

Pensei que ele, de repente, tinha enjoado de caçar e estava desistindo de tudo aquilo. Larguei tudo e comecei a me aprontar para partir. Não olhei para ele. Supus que ele também estivesse preparando as coisas dele. Quando acabei, olhei para ele e o vi, sentado, de pernas cruzadas, a pouca distância de mim.

 

— Estou pronto — falei. — Podemos ir quando quiser. Levantou-se e subiu numa pedra. Ficou ali, a mais ou menos um metro e meio acima do solo, olhando para mim. Pôs as mãos dos dois lados da boca e fez um barulho muito prolongado e penetrante. Parecia uma sirena de fábrica amplificada. Virou-se num círculo completo, fazendo o barulho gemido.

 

— O que está fazendo, Dom Juan? — perguntei.

 

Ele disse que estava dando o sinal para o mundo inteiro ir para casa. Fiquei completamente no ar. Não podia saber se ele estava brincando ou se tinha simplesmente ficado doido. Observei-o atentamente e procurei relacionar aquilo que ele estava fazendo com alguma coisa que ele pudesse ter dito anteriormente. Quase não tínhamos conversado, durante a manhã, e eu não me lembrava de nada de importante.

 

Dom Juan continuava ali, de pé, em cima da pedra. Olhou para mim, sorriu e tomou a piscar o olho. De repente, fiquei alarmado. Dom Juan levou as mãos aos dois lados da boca e soltou outro assobio prolongado.

 

Disse que eram oito horas da manhã e que eu tinha de arrumar toda a minha tralha de novo porque tínhamos um dia comprido pela frente.

 

A essa altura, eu estava completamente confuso. Em alguns minutos, meu receio transformou-se num desejo irresistível de fugir dali. Achei que Dom Juan estava maluco. Já ia fugindo quando ele desceu da pedra e se aproximou de mim, sorridente.

 

— Acha que estou maluco, não é? — perguntou.

 

Respondi que ele me estava assustando demais, com seu comportamento inesperado.

 

Falou que estávamos quites. Não entendi o que ele queria dizer. Estava muito preocupado com a idéia de que seus atos pareciam completamente dementes. Explicou que tinha tentado propositadamente assustar-me com seu comportamento inesperado, porque eu mesmo o estava fazendo subir pelas paredes com meu comportamento esperado. Acrescentou que minhas rotinas eram tão dementes quanto ele assobiar.

 

Fiquei chocado e assegurei-lhe de que não tinha rotinas, na verdade. Disse-lhe que acreditava mesmo que minha vida fosse uma bagunça devido à falta de rotinas saudáveis.

 

Dom Juan riu e me fez sinal para sentar junto dele. Toda a situação mudara de novo, de maneira misteriosa. Meu medo desapareceu assim que ele começou a falar.

 

— Quais são as minhas rotinas? — perguntei.

 

— Tudo o que você faz é rotina.

 

— Não somos todos assim?

 

— Nem todos. Não faço as coisas por rotina.

 

— O que provocou tudo isso, Dom Juan? O que foi que eu fiz ou disse que o levou a agir como agiu?

 

— Você estava-se preocupando com o almoço.

 

— Não lhe disse nada; como é que você sabia que eu estava preocupado com o almoço?

 

— Você se preocupa em comer todos os dias, por volta do meio-dia, e por volta das seis da tarde, e por volta das oito da manhã — disse ele, com um sorriso malicioso. — Preocupa-se com comida a essas horas, mesmo que não esteja com fome.

"Bastou eu soprar o apito para mostrar seu espírito de rotina. Seu espírito está treinado para trabalhar a um sinal.”

 

Olhou-me, formulando uma pergunta com os olhos. Não pude defender-me.

 

— Agora, está-se preparando para fazer da caça uma rotina — continuou. — Já estabeleceu seu ritmo na caça: fala à hora certa, come à hora certa e dome à hora certa.

 

Eu não tinha nada a dizer. A maneira de Dom Juan descrever meus hábitos de comida era o padrão que eu usava para tudo na vida. No entanto, eu achava realmente que minha vida era menos rotineira do que a da maioria de meus amigos e conhecidos.

 

— Agora já sabe muita coisa sobre a caça — continuou Dom Juan. — Será fácil para você compreender que um bom caçador sabe de uma coisa acima de todas as outras... conhece a rotina de sua presa. É isso que o torna um bom caçador.

 

"Se você se recordar da maneira como procedi para lhe ensinar a caçar, talvez compreenda o que quero dizer. Primeiro, ensinei-lhe a construir e preparar suas armadilhas; depois, ensinei-lhe a rotina da caça que você queria e, em seguida, experimentamos as armadilhas com a rotina dela. Essas partes são as formas externas da caça.

 

"Agora, tenho de lhe ensinar a parte final, e a mais difícil, sem comparação. Talvez se passem anos antes de você poder dizer que a compreende e que é um caçador.”

 

Dom Juan parou, como que para me dar tempo. Tirou o chapéu e imitou os movimentos de se ajeitar dos roedores que estávamos observando. Pareceu-me muito engraçado. A cabeça redonda dele o fazia parecer um daqueles roedores.

 

— Ser um caçador não é apenas apanhar a caça na armadilha — prosseguiu. — Um caçador digno desse nome não apanha a caça porque prepara as armadilhas, ou porque conhece a rotina de sua presa, e sim porque ele mesmo não tem rotina. É esta a vantagem que ele leva. Não é em absoluto como os animais que persegue, fixado por rotinas pesadas e esquisitices fixas; é livre, fluido, imprevisível.

 

O que Dom Juan me dizia me parecia uma idealização arbitrária e irracional. Eu não concebia uma vida sem rotinas. Queria ser muito honesto com ele, e não apenas concordar ou discordar dele. Achei que o que ele tinha em mente não era possível de ser realizado, por mim nem por ninguém.

 

— Não me importa o que você ache — disse ele. — A fim de ser um caçador, você tem de romper as rotinas de sua vida. Tem-se saído bem nas caçadas. Aprendeu depressa e agora pode ver que é igual à sua presa, fácil de prever.

 

Pedi-lhe que ele fosse explícito e me desse exemplos concretos.

 

— Estou falando da caça — disse ele, calmamente. — Portanto, refiro-me às coisas que os animais fazem; os lugares onde comem; 6 lugar, o modo e o tempo que dormem; onde fazem seus ninhos; como caminham. São essas as rotinas que lhe estou indicando, para você poder tomar ciência delas no seu próprio ser.

 

“Já observou os hábitos dos animais do deserto. Eles comem ou bebem em certos lugares, fazem seus ninhos em pontos especiais, deixam seus rastros de certas maneiras; na verdade, tudo o que fazem pode ser previsto ou reconstituído por um bom caçador”.

 

"Como já lhe disse, a meus olhos você se comporta como sua presa. Uma vez em minha vida alguém me disse a mesma coisa, de modo que você não é o único. Nós todos nos comportamos como a presa que perseguimos. Isso, naturalmente, nos torna presa para alguma outra coisa ou alguém. Ora, o cuidado do caçador, que sabe de tudo isso, é deixar de ser uma presa ele mesmo. Entende o que quero dizer.”

 

Tornei a exprimir a opinião de que a tese dele era impraticável.

 

— Leva tempo — disse Dom Juan. — Você poderia começar deixando de almoçar todos os dias ao meio-dia. — Olhou para mim e sorriu com benevolência. A expressão dele era muita engraçada e me fez rir. — Existem certos animais, porém, que são impossíveis de se perseguir — continuou. — Há certos tipos de veados, por exemplo, que um caçador de sorte poderia encontrar, por pura coincidência, uma vez na vida.

 

Dom Juan fez uma pausa teatral e olhou-me de maneira penetrante. Parecia estar esperando uma pergunta, mas não fiz nenhuma.

 

— O que você pensa que os torna tão difíceis de encontrar e tão raros? — perguntou ele.

 

Eu dei de ombros, pois não sabia o que dizer.

 

— Eles não têm rotinas — disse ele, num tom de revelação. — E isso que os torna mágicos.

 

— Um veado tem de dormir de noite — falei. — Isso não é uma rotina?

 

— Por certo, se o veado dormir todas as noites numa certa hora e em certo lugar. Mas aquelas criaturas mágicas não procedem assim. Na verdade, um dia você poderá verificar isso por si. Talvez seja seu destino perseguir um deles o resto de sua vida.

 

— O que quer dizer com isso?

 

— Você gosta de caçar; talvez um dia, em algum lugar do inundo, seu caminho cruze o de uma criatura mágica e você passe a persegui-la.

 

“Uma criatura mágica é um espetáculo. Tive a felicidade de cruzar o caminho de uma delas, uma vez. Nosso encontro se deu depois de eu já ter aprendido e praticado muito para caçar. Certa vez eu estava numa floresta de árvores grossas nas montanhas do México Central, quando, de repente, ouvi um assobio suave. Era desconhecido para mim; nunca, em todos meus anos de vagar pelo sertão, eu ouvira um som como aquele. Não consegui localizá-la; parecia vir de vários lugares. Pensei que talvez eu estivesse rodeado por uma manada ou um bando de animais desconhecidos”.

 

“Tornei a ouvir o assobio provocante; parecia vir de todos os lados. Então compreendi minha boa sorte. Notei que era uma criatura mágica, um veado. Vi ainda que um veado mágico conhece a rotina dos homens comuns e a rotina dos caçadores”.

 

"E muito fácil imaginar o que faria um homem comum numa situação daquelas. Primeiro de tudo, seu medo o tornaria imediatamente uma presa. E uma vez que ele se torna uma presa tem dois caminhos a seguir. Ou foge, ou fica firme. Se ele não estiver armado, normalmente corre para o campo aberto e foge à toda. Se está armado, prepara a arma e depois fica firme, ou permanecendo rígido no mesmo lugar, ou caindo por terra.

 

"Um caçador, ao contrário, quando anda de tocaia no mato, nunca entra em lugar algum sem verificar seus pontos de proteção e, portanto, ele imediatamente se abriga. Pode jogar o poncho ao chão ou pendurá-lo em uma árvore, como engodo, e depois esconder-se para esperar até a caça dar o próximo passo.

 

"Assim, em presença do veado mágico eu não procedi como nenhum dos dois. Rapidamente, fiquei de pernas para o ar, plantando uma bananeira, e comecei a gemer baixinho; cheguei a chorar, soluçando por tanto tempo que pensei desmaiar. De repente, senti uma brisa suave; alguma coisa estava cheirando meu cabelo, por trás de minha orelha direita. Tentei virar a cabeça para ver o que era; caí e sentei-me a tempo de ver uma criatura radiosa olhando para mim. O veado olhou para mim e eu lhe disse que não lhe faria mal. E o veado falou comigo.”

 

Dom Juan parou e olhou para mim. Eu sorri, sem querer. A idéia de um veado falante era bastante incrível, para dizer o mínimo.

 

— Ele falou comigo — disse Dom Juan, com um sorriso.

 

— O veado falou?

 

— Sim.

 

Dom Juan levantou-se e pegou sua trouxa de parafernália de caça.

 

— Falou mesmo? — perguntei, perplexo. Dom Juan. riu, às gargalhadas.

 

— O que foi que ele disse? — perguntei, meio de brincadeira. Achei que ele estava mexendo comigo. Dom Juan. ficou calado por um momento, como se estivesse querendo recordar-se, e depois seus olhos reluziram e ele me disse o que o veado falara.

 

— O veado mágico disse: "Olá, amigo" — continuou Dom Juan. — E eu respondi: "Olá.” Depois, ele me perguntou: "Por que você está chorando?"; e eu disse: "Porque estou triste.” Então, a criatura mágica chegou junto de meu ouvido e disse, tão claramente como eu estou falando agora: "Não fique triste.”

 

Dom Juan olhou dentro de meus olhos. O olhar dele tinha um brilho de malícia pura. Voltou a rir com vontade.

 

Eu falei que o diálogo dele com o veado tinha sido meio bobo.

 

— O que é que você esperava? — perguntou, ainda rindo. — Eu sou índio.                                                     

 

Seu senso de humor era tão extravagante que não pude deixar de rir com ele.

 

 — Não acredita que um veado mágico possa falar, não é?

 

— Sinto muito, mas não consigo acreditar que aconteçam coisas assim — respondi.                                                                 

 

— Não me admira — disse ele, tranqüilizando-me. — E uma das coisas mais danadas.

 

A última batalha na Terra

 

Segunda-feira, 24 de julho de 1961

 

No meio da tarde, depois de termos vagado horas no deserto, Dom Juan escolheu um lugar para descansarmos numa zona sombreada. Assim que nos sentamos, ele começou a falar. Disse que eu já tinha aprendido muita coisa a respeito de caça, mas que não me modificara como ele desejava.

 

— Não basta saber construir e preparar armadilhas — falou. — Um caçador deve viver como caçador a fim de aproveitar ao máximo sua vida. Infelizmente, as modificações são difíceis e acontecem muito devagar; às vezes, leva anos para o homem convencer-se da necessidade de mudar. Eu levei anos, mas talvez não tivesse jeito para caçar. Creio que para mim o mais difícil foi querer realmente modificar-me.

 

Assegurei-lhe de que compreendia isso. De fato, desde que ele começara a me ensinar a caçar, também eu começara a reavaliar meus atos. Talvez a descoberta mais teatral para mim tenha sido que eu gostava dos modos de Dom Juan. Gostava dele como pessoa. Havia alguma coisa sólida em seu comportamento; sua maneira de proceder não deixava dúvidas sobre sua capacidade e, no entanto, ele nunca se aproveitara dessa vantagem para exigir qualquer coisa de mim. Seu interesse em modificar minha vida, em minha opinião, era quase uma sugestão impessoal, ou talvez fosse mais um comentário abalizado sobre meus fracassos. Fazia-me ter muita consciência de meus fracassos, mas eu não via como é que os métodos dele podiam consertar alguma coisa em mim. Eu acreditava sinceramente que, diante do que eu desejava fazer na vida, seus métodos só me trariam infelicidade e privações, e daí o impasse. Mas eu aprendera a respeitar a capacidade dele, que sempre se exprimira em termos de beleza e precisão.

 

— Resolvi mudar minhas táticas — disse ele.

 

Pedi que ele explicasse; suas palavras eram vagas e eu não tinha certeza se ele estava ou não se referindo a mim.

 

— Um bom caçador muda sua maneira de ser tantas vezes quantas são necessárias — respondeu. — Você mesmo sabe disso.

 

— Em que está pensando, Dom Juan?

 

— Um caçador deve não só conhecer os hábitos de sua presa, como também saber que há forças neste mundo que dirigem os homens e os animais e tudo o que é vivo.

 

Parou de falar. Esperei, mas ele parecia ter chegado ao fim do assunto.

 

— A que forças se refere? — perguntei, depois de uma pausa prolongada.

 

— As forças que dirigem nossas vidas e nossas mortes.

 

Dom Juan parou de falar e pareceu estar tendo grande dificuldade para decidir o que dizer. Esfregou as mãos e sacudiu a cabeça, estufando as bochechas, Por duas vezes, fez-me sinal para me calar, quando comecei a pedir-lhe que explicasse suas palavras enigmáticas.

 

— Você não vai poder fazer-se parar com facilidade — disse ele, por fim. — Sei que você é teimoso, mas isso não importa. Quanto mais teimoso for, melhor será quando você afinal conseguir modificar-se.

 

— Estou-me esforçando ao máximo — falei.

 

— Não. Discordo. Você não se está esforçando ao máximo. Só disse isso porque lhe soa bem; na verdade, você vem dizendo isso a respeito de tudo o que faz. Há anos que se vem esforçando ao máximo, à toa. Alguma coisa deve ser feita para remediar isso.

 

Senti-me forçado, como sempre, a defender-me. Dom Juan, em geral, parecia visar sempre meus pontos mais fracos. Lembrei-me então de que, cada vez que eu tentava defender-me contra as críticas dele, acabava fazendo papel de bobo, e parei no meio de um longo discurso explicativo.

 

Dom Juan examinou-me curiosamente e riu. Falou, num tom muito bondoso, que já me dissera que nós todos éramos tolos. Eu não era exceção.

 

— Sempre se sente forçado a explicar seus atos, como se fosse o único homem no mundo a errar — disse ele. — È seu sentimento de importância. Você tem isso em alto grau; também possui história pessoal demais. Por outro lado, não assume a responsabilidade de seus atos; não está usando sua morte como conselheira e, acima de tudo, é acessível demais. Em outras palavras, sua vida é uma confusão tão grande quanto era antes de eu conhecê-lo.

 

Mais uma vez, fui invadido por uma onda de orgulho e quis argumentar, dizendo que ele estava errado. Fez-me sinal para me calar.

 

— A gente deve assumir a responsabilidade por estar num mundo fantástico — disse ele. — Estamos num mundo fantástico, sabe.

 

Concordei com a cabeça.

 

— Não estamos falando da mesma coisa — continuou. — Para você, o mundo é fantástico porque, se não está caceteado com ele, está com raiva dele. Para mim o mundo é fantástico porque é estupendo, assombroso, misterioso, insondável; meu interesse tem sido convencê-lo de que você deve assumir a responsabilidade de estar aqui, nesse mundo maravilhoso, neste deserto maravilhoso, nessa época maravilhosa. Queria convencê-lo de que deve fazer todos os atos contarem, já que só vai ficar aqui pouco tempo; na verdade, tempo de menos para presenciar todas as suas maravilhas.

 

Insisti que ficar caceteado com O mundo ou ter raiva dele fazia parte da condição humana.

 

— Então modifique-a — respondeu, secamente. — Se você não reagir a esse desafio, mais vale estar morto.

 

Desafiou-me a citar uma questão, um assunto em minha vida, que tivesse concentrado todos os meus pensamentos. Exemplifiquei cora a arte. Sempre quisera ser artista e, durante anos, tentara sê-lo. Ainda conservava a recordação dolorosa de meu fracasso.

 

— Você nunca assumiu a responsabilidade de estar neste mundo insondável — disse ele, num tom acusador. — Portanto, nunca foi um artista, e talvez nunca venha a ser um caçador.

 

— É o melhor que posso fazer, Dom Juan.

 

— Não. Você não sabe o que é o melhor que pode fazer.

 

— Estou fazendo o que posso.

 

— Novamente errado. Pode fazer melhor. Só há uma coisa errada com você... pensa que tem muito tempo. — Parou e olhou para mim como se esperando minha reação. — Você pensa que tem muito tempo — repetiu.

 

— Muito tempo para quê, Dom Juan?

 

— Pensa que sua vida vai durar para sempre.

 

— Não pensa, não.

 

— Então, se não pensa que sua vida vai durar para sempre, o que é que está esperando? Por que a hesitação para modificar-se?

 

— Já lhe ocorreu, Dom Juan, que eu posso não querer modificar-me?

 

— Já me ocorreu, sim. Eu também não queria modificar-me, conto você. No entanto, não gostava de minha vida; estava farto dela, como você. E agora, não há que chegue, para mim.

 

Assegurei com veemência que a insistência dele para modificar minha vida era assustadora e arbitrária. Disse que realmente concordava com ele, em certo nível, mas o simples fato de ser sempre ele o mestre que ditava as ordens tornava a situação insustentável para mim.

 

— Você não tem tempo para essa encenação, seu tolo — falou, em tom severo. — Isso, o que quer que esteja fazendo agora, pode ser seu último ato neste mundo. Pode bem ser sua última batalha. Não ha poder que garanta que você vai viver mais um minuto.

 

— Sei disso — concordei, com uma raiva controlada.

 

— Não. Não sabe. Se soubesse disso, seria um caçador. Retruquei que eu tinha consciência de minha morte pendente, mas que não adiantava falar disso, pois eu não podia fazer nada para evitá-la. Dom Juan riu e disse que eu parecia um cômico, representando um número mecanicamente.

 

— Se esta fosse sua última batalha na terra, eu diria que você é um idiota — falou, calmamente. — Está desperdiçando seu último ato na terra em algum estado de espírito estúpido.

 

Ficamos calados por um momento. Meus pensamentos estavam desenfreados. Ele tinha razão, é claro.

 

— Não tem tempo, meu amigo, não tem tempo. Nenhum de nós tem tempo — disse ele.

 

— Concordo, Dom Juan, mas...

 

— Não adianta concordar comigo — retrucou, com rispidez. — Em vez de concordar tão prontamente, o que você tem de fazer é agir a respeito, Aceite o desafio. Modifique-se.

 

— Assim?

 

— Isso mesmo. A modificação a que me refiro nunca se dá aos poucos; acontece de repente. E você não se está preparando pata esse ato repentino que trará uma modificação total.

 

Achei que ele estava exprimindo uma contradição. Expliquei-lhe que, se eu me estivesse preparando para uma modificação, certamente me estaria modificando aos poucos.

 

— Você não mudou nada — replicou. — É por isso que pensa que está mudando aos poucos. No entanto, talvez um dia você se surpreenda, mudando de repente e sem qualquer aviso. Sei que isso é assim e, dessa fôrma, alo perco de vista meu interesse em convencê-lo.

 

Não pude continuar a discutir. Não tinha certeza do que realmente eu queda dizer. Depois de uma pequena pausa, Dom Juan continuou a explicar sua opinião.

 

— Talvez eu deva expor a coisa de outro modo — disse ele. — O que recomendo que você faça é notar que não temos nenhuma garantia de que nossas vidas continuem indefinidamente. Acabei de dizer que a. mudança vem de repente e inesperadamente, bem como a morte. O que pensa que podemos fazer a respeito?

 

Pensei que Dom Juan estivesse fazendo uma pergunta retórica, mas ele fez um gesto com as sobrancelhas, pedindo que eu respondesse.

 

— Viver o mais felizes possível — falei.

 

— Certo! Mas você conhece alguém que viva feliz?

 

Meu primeiro impulso foi dizer que sim; achei que podia citar uma porção de gente que eu conhecia como exemplos. Mas, pensando bem, eu sabia que meu esforço seria uma tentativa vã para me exonerar.

 

— Não — respondi. — não conheço, de fato.

 

— Pois eu conheço — disse Dom Juan. — Há pessoas que têm muito cuidado com a natureza de seus atos. Sua felicidade é agir com a plena consciência de que não têm tempo; portanto, seus atos têm um poder especial; têm um sentido de...

 

Dom Juan parecia estar procurando os termos. Coçou as têmporas e sorriu. Então, de repente, levantou-se, como se tivesse terminado a conversa. Pedi-lhe que concluísse o que me estava dizendo. Sentou-se e franziu os lábios.

 

— Os atos têm poder — disse ele. — Especialmente quando a pessoa que age sabe que aqueles atos são sua última batalha. Há uma estranha felicidade em se agir com o pleno conhecimento de que o que quer que se esteja fazendo pode bem ser o último ato sobre a terra. Recomendo que você reconsidere sua vida e veja seus atos sob essa luz.

 

Discordei dele. A felicidade, para mim, era supor que havia uma continuidade inerente em meus atos e que eu poderia continuar a fazer, à vontade, aquilo que estivesse fazendo no momento, especialmente se gostasse daquilo. Disse-lhe que meu desacordo não era banal, mas vinha da convicção de que o mundo e eu tínhamos uma continuidade determinável.

 

Dom Juan pareceu divertir-se com meus esforços para fazer sentido. Riu, sacudiu a cabeça, coçou o cabelo e por fim, quando falei de uma "continuidade determinável", atirou o chapéu no chão, pisoteando-o. Acabei rindo da palhaçada dele.

 

— Você não tem tempo, meu amigo — falou. — é essa a desgraça dos seres humanos. Nenhum de nós tem tempo suficiente, e sua continuidade não tem significado neste mundo assombroso e misterioso.

 

"Sua continuidade só o torna tímido — disso ele — Seus à toa não podem ter o discernimento, o poder, a força compulsiva que tira os atos de um homem que sabe que está travando sua última batalha na terra. Em outras palavras, sua continuidade não o torna feliz nem poderoso.”

 

Confessei que tinha medo de pensar que ia morrer e acusei-o de me causar muita apreensão com sua preocupação e conversas constantes sobre a morte.

 

— Mas nós todos vamos morrer — disse ele. — Apontou para uns morros ao longe. — Há alguma coisa ali esperando por mim, por certo; e eu irei ter lá, também por certo. Mas talvez você seja diferente e a morte não esteja esperando por você, de todo.

 

Ele riu diante de meu gesto de desespero. -— Não quero pensar nisso, Dom Juan.

 

— Por que não?

 

— Não tem significado. Se estiver lá fora esperando por mim, por que hei de me preocupar com isso?

 

— Não disse que você deve preocupar-se.

 

— Então o que devo fazer?

 

— Utilizá-la. Concentre sua atenção no elo entre você e sua morte, sem remorsos, nem tristeza, nem preocupação. Focalize sua atenção sobre o fato de que você não tem tempo e deixe que seus atos sigam de acordo. Deixe que cada um de seus atos seja sua última batalha na terra. Só nessas condições é que tais atos terão seu devido poder. Senão eles serão, enquanto você viver, os atos de um homem tímido

 

— E é assim tão terrível ser um homem tímido?

— Não. Não é se você vai ser imortal, mas, se você vai morrer, não há tempo para timidez, simplesmente porque esta o leva a agarrar-se a alguma coisa que só existe em sua imaginação. Acalma-o quando todo está quieto, mas então o mundo assombroso e misterioso abre a boca para você, como abrirá para todos nós, e, nesse momento, compreenderá que seus métodos seguros não eram nada disso. Ser tímido impede que examinemos e exploremos nossa situação de homens.

 

— Não é natural viver com a idéia constante da morte, Dom Juan.

 

— Nossa morte está esperando e este mesmo ato que praticamos agora pode bem ser nossa última batalha na terra — replicou, numa voz solene. — Eu a chamo batalha porque é um conflito. A maioria das pessoas passa de um ato a outro sem qualquer conflito nem pensamento. Um caçador, ao contrário, avalia cada ato; e como tem um conhecimento íntimo de sua morte, procede sabiamente, como se cada ato fosse sua última batalha. Só um tolo deixaria de perceber a vantagem que um caçador leva sobre seus semelhantes. Um caçador dá à sua última batalha o devido respeito. É mais que natural que seu último ato na terra seja o que há de melhor nele. É agradável, assim. Amortece seu medo.

 

— Tem razão — concordei. — é só que é difícil de aceitar.

 

— Você vai levar anos para convencer-se e depois levará anos para agir de acordo. Só espero que você tenha tempo para isso.

 

— Fico com medo quando você fala assim — disse eu. Dom Juan examinou-me com uma expressão séria em sua fisionomia.

 

— Já lhe disse; este mundo é fantástico — continuou. — As forças que dirigem os homens são imprevisíveis, assombrosas; e, no entanto, o esplendor delas é uma coisa de se ver.

 

Parou de falar e tornou a olhar para mim. Parecia estar prestes a me revelar alguma coisa, mas conteve-se e sorriu.

 

— Existe alguma coisa que nos dirige? — perguntei.

 

— Por certo. Há poderes que nos dirigem.

 

— Pode descrevê-los?

 

— Não, a não ser chamá-los de forças, espíritos, ares, ventos, ou coisa que valha.

 

Queria sondá-lo mais, porém, antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, levantou-se. Fiquei olhando para ele, boquiaberto. Levantara-se com um único movimento; seu corpo simplesmente se sacudiu e ele estava de pé.

 

Eu ainda estava pensando na habilidade invulgar necessária para um movimento tão rápido, quando ele me ordenou secamente que perseguisse um coelho, o pegasse, matasse, pelasse e assasse a carne antes do anoitecer. Olhou para o céu e disse que eu teria tempo suficiente.

 

Automaticamente saí, procedendo como já fizera muitas vezes. Dom Juan caminhava a meu lado, acompanhando meus movimentos com um olhar inquiridor. Eu estava muito calmo, movimentando-me com cuidado, e não tive a menor dificuldade em apanhar um coelho macho.

 

— Agora mate-o — falou Dom Juan, secamente.

 

Pus a mão na armadilha para agarrar o coelho. Já o tinha segurado pelas orelhas e o estava puxando para fora, quando uma repentina sensação de terror me invadiu. Pela primeira vez desde que Dom Juan começou a me ensinar a caçar, ocorreu-me que ele nunca me ensinara a matar a caça. Nas dezenas de vezes em que tínhamos percorrido o deserto, ele mesmo só matara um coelho, duas codornas e uma cascavel. Larguei o coelho e olhei para Dom Juan.

 

— Não posso matá-lo — disse eu.

 

— Por que não?

 

— Nunca fiz isso.

 

— Mas já matou centenas de pássaros e outros animais.

 

— Com uma arma, não com minhas mãos.

 

— Que diferença faz? Chegou a hora desse coelho.

 

O tom de Dom Juan me chocou; era tão autoritário, tão sagaz, que não deixava dúvida alguma de que tivesse chegado realmente a hora do coelho.

— Mate-o! — ordenou, com uma expressão feroz nos olhos.

 

— Não posso.

 

Berrou comigo que o coelho tinha de morrer. Disse que suas perambulações naquele lindo deserto tinham chegado ao fim. Eu não tinha nada de remanchar, pois o poder ou o espírito que dirige os coelhos conduzira aquele determinado animal para minha armadilha, bem à beira do crepúsculo.

 

Uma série de sensações e pensamentos confusos me invadiu, como se os sentimentos estivessem ali esperando por mim. Senti, com uma clareza agonizante, a tragédia do coelho, por ter caído em minha armadilha. Em alguns segundos, minha mente repassou os momentos mais críticos de minha vida, nas muitas ocasiões em que eu própria fora o coelho.

 

Olhei para ele e ele olhou para mim. O coelho tinha recuado para o lado da gaiola; estava quase encorajado, muito quieto e imóvel. Trocamos um olhar sombrio e esse olhar, que interpretei como um desespero mudo, cimentou uma identificação completa, de minha parte.

 

— Para o diabo com isso — falei, em voz alta. — Não vou matar coisa alguma. O coelho vai ficar livre.

 

Uma emoção profunda me fez estremecer. Meus braços tremiam, ao tentar agarrar o coelho pelas orelhas; ele se movia depressa e escapuliu. Tentei de novo e errei novamente. Fiquei aflito. Tive uma sensação de náusea e depressa chutei a armadilha, para despedaçá-la e deixar o coelho fugir. A gaiola era inesperadamente forte e não se quebrou como eu pensava. Minha aflição passou a ser um sentimento insuportável de angústia. Com toda minha força, bati na beira da gaiola com o pé direito. As tábuas estalaram. Puxei o coelho para fora. Tive um momento de alívio, que no instante seguinte foi destruído. O coelho ficou dependurado inerme de minha mão. Estava morto.

 

Eu não sabia o que fazer. Preocupei-me em descobrir como ele tinha morrido. Virei-me para Dom Juan. Estava-me fitando. Uma sensação de terror me deu um calafrio.

 

Sentei-me junto de umas pedras. Estava com uma tremenda dor de cabeça. Dom Juan pôs a mão em minha cabeça e cochichou em meu ouvido que eu tinha de pelar o coelho e assá-lo antes de terminar o crepúsculo.

 

Eu estava enjoado. Ele, com muita paciência, falou comigo como se falasse com uma criança. Disse que os poderes que dirigiam os homens ou os animais tinham conduzido aquele coelho especial para mim, da mesma maneira que me conduzirão para a minha própria morte. Disse que a morte do coelho fora um dom para mim, da mesma maneira que minha morte será um dom para alguma coisa ou alguém.

 

Eu estava tonto. Os simples acontecimentos daquele dia me haviam arrasado. Procurei pensar que era só um coelho; mas não conseguia livrar-me da incrível identificação que eu sentira com ele.

 

Dom Juan disse que eu precisava de comer um pouco da carne dele, nem que fosse um bocadinho, a fim de dar validade a minha descoberta.

— Não posso fazer isso — disse eu, debilmente.

 

— Somos pó nas mãos daquelas forças — disse ele rispidamente. — Por isso, deixe de se achar importante e utilize esse presente devidamente.

 

Peguei o coelho; estava quente. Dom Juan debruçou-se e cochichou em meu ouvido:

 

— Sua armadilha foi a última batalha dele na terra. Já lhe disse, ele não tinha mais tempo para percorrer este deserto maravilhoso.

Tornar-se acessível ao poder

 

Quinta-feira, 17 de agosto de 1961

 

Assim que saltei do cano, queixei-me a Dom Juan de que não me estava sentindo bem.

 

— Sente-se, sente-se — falou baixinho, e quase me levou pela mão para a varanda dele. Ele sorriu e bateu em minhas costas.

 

Duas semanas antes, no dia 4 de agosto, Dom Juan, conforme resolvera, mudou de tática comigo, deixando, que eu ingerisse uns botões de peiote. No auge de minha experiência alucinógena, brinquei com um cachorro que morava na casa em que se realizou a sessão de peiote. Dom Juan interpretou minha interação com o cachorro como um fato muito especial. Dizia que, em momentos de poder, tais como o que vivi então, o inundo das coisas comuns não existia e a gente não podia fiar-se em nada, que o cão não era realmente um cão, e sim a encarnação de Mescalito, o poder ou divindade contida no peiote.

 

Os efeitos posteriores daquela experiência foram uma sensação geral de fadiga e melancolia, mais a incidência de sonhos e pesadelos excepcionalmente vívidos.

 

— Onde está seu equipamento de escrever? — perguntou Dom Juan, quando me sentei na varanda.

 

Eu tinha deixado os cadernos no carro. Dom Juan foi até o veículo e, com cuidado, pegou minha pasta e levou-a para mim. Perguntou se eu costumava carregar minha pasta quando caminhava. Respondi que sim.

 

— Isso é loucura — falou. — Já lhe disse para nunca carregar nada nas mãos, quando caminhar. Arranje uma mochila.

 

Eu ri. A idéia de carregar meus apontamentos numa mochila era cômica. Falei que normalmente usava terno e que uma mochila por cima de um terno seria uma coisa ridícula.

 

— Ponha o paletó por cima da mochila — disse ele. — é melhor que pensem que você é corcunda do que estragar seu organismo, carregando tudo isso por aí.

 

Ele me disse para pegar o bloco e escrever. Parecia estar-se esforçando propositadamente para me deixar à vontade. Tornei a reclamar do desconforto físico e da estranha sensação de infelicidade que eu estava sentindo.

 

— Você está começando a aprender — disse ele, rindo. Então, tivemos uma longa conversa. Ele disse que Mescalito, permitindo que eu brincasse com ele, me apontara como um "homem escolhido" e que, embora ele estivesse espantado com o presságio, por eu não ser índio, ia-me transmitir certos conhecimentos secretos. Disse que ele próprio tivera um "benfeitor" que lhe ensinara a tornar-se um "homem de conhecimento".

 

Senti que alguma coisa terrível ia acontecer. A revelação de que era o homem escolhido dele, mais a indubitável estranheza dos modos dele e o efeito devastador que o peiote tivera sobre mim provocaram um estado de apreensão e indecisão insuportáveis. Mas Dom Juan não ligou para meus sentimentos e recomendou que eu só pensasse na maravilha de Mescalito brincar comigo.

 

— Não pense em mais nada. — falou. — O resto virá por si. Levantou-se e me afagou na cabeça e disse, num tom muito suave:

 

— Vou ensinar-lhe a ser um guerreiro da mesma maneira que lhe ensinei a caçar. Mas devo avisar-lhe de que aprender a caçar não fez de você um caçador, nem aprender a ser guerreiro o transformará em guerreiro.

 

Tive uma sensação de frustração, um desconforto físico que era quase angústia. Queixei-me dos sonhos e pesadelos vívidos que eu vinha tendo. Pareceu pensar um momento s depois tornou a sentar-se.

 

— São sonhos fantásticos — disse eu.

 

— Você sempre teve sonhos fantásticos — retrucou.

 

— Estou-lhe dizendo, dessa vez são mesmo mais esquisitos do que qualquer coisa que eu já tenha sonhado.

 

— Não se preocupe. São apenas sonhos. Como os sonhos de qualquer sonhador comum, não têm poder. Assim, para que se preocupar com eles ou falar a respeito?

 

— Eles me incomodam, Dom Juan. Não há alguma coisa que eu possa fazer para acabar com eles?

 

— Nada. Deixe-os passar — disse ele. — Agora, chegou o momento de tornar-se acessível ao poder, e você vai começar lidando com sonhar.

 

O tom de voz que ele usou quando falou "sonhar" me fez pensar que ele estava usando a palavra de maneira muito especial. Eu estava pensando numa pergunta adequada para fazer quando ele recomeçou a falar.

 

— Nunca lhe falei a respeito de sonhar, porque até agora eu só estava ocupado em lhe ensinar a ser um caçador — disse ele. — Um caçador não se preocupa com a manipulação do poder e, portanto, seus sonhos são apenas sonhos. Podem ser pungentes, porém não são sonhar.

“Um guerreiro, por outro lado, procura o poder e um dos caminhos para o poder é sonhar. Pode-se dizer que a diferença entre um caçador e um guerreiro é que este está a caminho do poder, enquanto aquele não sabe nada, ou muito pouco, a respeito do poder”.

 

"Não cabe a nós resolver quem pode ser um guerreiro, e quem só pode ser caçador. Essa decisão é do reino dos poderes que dirigem os homens. É por isso que você brincar com Mescalito foi um presságio tão importante. Aquelas forças o dirigiram para mim; levaram-no à estação de ônibus, lembra-se? Algum palhaço trouxe você a mim. Um presságio perfeito, um palhaço apontando você. Assim, ensinei-lhe a ser caçador. E depois o outro presságio perfeito, o próprio Mescalito brincando com você. Entende o que eu digo?"

 

A estranha lógica dele era arrasadora. Suas palavras criavam visões minhas sucumbindo a alguma coisa assombrosa e desconhecida, alguma coisa com que eu não contava e que eu nem imaginava que existisse, nem em minhas fantasias mais extravagantes.

 

— O que você propõe que eu faça? — perguntei.

 

— Torne-se acessível ao poder; trate dos seus sonhos — respondeu. — Você os chama de sonhos porque não tem poder. Um guerreiro, sendo um homem que busca o poder, não os chama de sonhos, mas sim realidade.

 

— Quer dizer que ele considera os sonhos a realidade?

 

— Não considera nada como outra coisa. O que você chama de sonho é real para um guerreiro. Deve compreender que um guerreiro não é um tolo. Um guerreiro é um caçador imaculado que caça o poder; não é bêbado nem doido, e não tem nem tempo nem vontade de fingir, mentir a si mesmo ou dar um passo errado. O jogo é muito caro para isso. Está arriscando sua própria vida ordenada, que ele levou tanto tempo para ajustar e aperfeiçoar. Não vai jogar tudo isso fora por cometer um engano de cálculo tolo, tomando uma coisa por outra.

 

“Sonhar é real para um guerreiro porque nisso ele pode agir deliberadamente, pode escolher ou recusar, pode escolher dentro de uma variedade de itens aqueles que conduzem ao poder e depois pode manipulá-los e utilizá-los, enquanto que, num sonho comum, ele não pode agir deliberadamente”.

 

— Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real?

 

— Claro que é real.

 

— Tão real como o que estamos fazendo agora?

 

— Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.

 

As premissas de Dom Juan sempre me atraíram, num certo nível. Eu podia entender facilmente que ele gostasse da idéia de que a gente podia fazer qualquer coisa nos sonhos, mas não podia levá-lo a sério. O salto era grande demais.

 

Ficamo-nos olhando por um momento. As declarações dele eram loucas e, no entanto, ele era, ao que eu sabia, um dos homens de cabeça mais fria que já conhecera.

 

Disse-lhe que não podia acreditar que ele considerasse seus sonhos uma realidade. Ele riu, como se soubesse da enormidade de minha posição insustentável, depois levantou-se sem dizer uma palavra e entrou em casa.

 

Fiquei ali sentado por muito tempo, num estado de letargia, até Dom Juan me chamar para ir aos fundos da casa. Ele tinha feito uma papa de milho e me deu uma tigela.

 

Perguntei-lhe acerca do tempo que a gente passava desperto. Queria saber se ele tinha um nome para isso. Mas ele não entendeu, ou não quis responder.

 

— O que é que você chama isso, que estamos fazendo agora? — perguntei, significando que o que fazíamos era a realidade, em oposição aos sonhos.

 

— Chamo isso de comer — respondeu, contendo o riso.

 

— Chamo isso de realidade — disse eu. — Porque nosso ato de comer está-se realizando de fato.

 

— Sonhar também se realiza — replicou ele, rindo. — Bem como caçar, caminhar, rir.

 

Não insisti na discussão. Porém, nem que me estendesse além de meus limites, eu não poderia aceitar a premissa dele. Pareceu estar deliciado com minha aflição.

 

Assim que terminamos de comer, ele disse, displicentemente, que íamos dar uma volta a pé, mas não iríamos vagar pelo deserto como havíamos feito antes.

 

— Dessa vez é diferente — falou. — De agora em diante vamos a lugares de poder; você vai aprender a se tornar acessível ao poder.

 

Tornei a exprimir meu conflito. Disse que ainda não estava preparado para aquele esforço.

 

— Ora vamos, está-se entregando a receios tolos — disse ele baixinho, batendo nas minhas costas e sorrindo com benevolência. — Estive tratando do seu espírito de caçador. Você gosta de passear comigo por esse lindo deserto. É muito tarde para desistir.

 

Começou a se encaminhar para o chaparral do deserto. Fez sinal com a cabeça para eu acompanhá-lo. Eu poderia ter ido para meu carro e partido, mas eu gostava de passear naquele lindo deserto com ele. Gostava da sensação, que só experimentava em companhia dele, de que este mundo é realmente assombroso, misterioso e, no entanto, belo. Como ele dizia, eu estava fisgado.

 

Dom Juan levou-me para os morros a leste. Foi uma longa caminhada. O dia estava quente; mas o calor, que normalmente me seria insuportável, por algum motivo não incomodava.

 

Caminhamos um bom pedaço numa garganta, até Dom Juan parar e sentar-se na sombra de umas pedras. Peguei umas bolachas de minha mochila, mas ele disse para não me ocupar daquilo.

 

Disse que eu devia sentar-me num lugar proeminente. Apontou para uma pedra isolada, quase redonda, a uns três ou quatro metros de distância, e ajudou-me a trepar em cima dela. Pensei que ele também fosse sentar-se ali, mas, em vez disso, só subiu até a metade, para me dar uns pedaços de carne-seca. Falou, com uma cara muito séria, que era carne de poder e devia ser mastigada muito lentamente, sem ser misturada com qualquer outro alimento. Depois, voltou para o lugar sombrio e sentou-se, encostado numa pedra. Ele parecia estar descansando, quase sonolento. Ficou na mesma posição até eu acabar de comer. Em seguida, sentou-se reto e inclinou a cabeça para a direita. Parecia estar escutando atentamente. Olhou para mim umas duas ou três vezes, levantou-se de repente e começou a perscrutar as redondezas com os olhos, como faria um caçador, Automaticamente, eu gelei onde estava, movendo só os olhos para acompanhar os movimentos dele. Com muito cuidado, pôs-se por detrás de umas pedras, como se estivesse esperando que surgisse alguma caça na área onde estávamos. Percebi então que nos encontrávamos numa curva redonda, como uma enseada, na garganta de um leito seco, rodeados de pedras de arenito.

 

De repente, Dom Juan saiu de detrás das pedras e sorriu para mim. Esticou os braços, bocejou e dirigiu-se para a pedra onde eu estava. Relaxei a posição e sentei-me.

 

— O que aconteceu? — perguntei, baixinho.

 

Ele me respondeu, gritando, que não havia ali nada com que se preocupar. Senti um choque imediato, no estômago. A resposta dele era inadequada e me parecia inconcebível que ele gritasse, a não ser que tivesse um motivo específico para isso.

 

Comecei a deslizar para descer da pedra, mas ele me gritou que ainda tinha de ficar lá mais um pouco.

 

— O que está fazendo? — perguntei.

 

Sentou-se e escondeu-se entre duas pedras na base do rochedo onde eu estava e depois disse, numa voz muito alta, que só tinha olhado em volta porque acreditava ter ouvido alguma coisa.

 

Perguntei se ele tinha ouvido um animal de porte. Levou a mão ao ouvido e gritou que não conseguia ouvir-me e para eu gritar as palavras. Eu não me sentia à vontade, gritando, mas ele insistia para eu falar mais alto. Gritei que queria saber o que se estava passando, e ele gritou de volta que não havia mesmo nada por ali. Berrou, perguntando se eu via alguma coisa fora do comum de cima da pedra. Respondi que não, e ele me pediu que lhe descrevesse o lugar para o sul.

Ficamos ali gritando um para o outro, e depois ele me fez sinal para descer. Fui ter com ele, e então me cochichou no ouvido que a gritaria era necessária para tornar conhecida nossa presença, pois eu tinha de me tornar acessível ao poder daquele olho-d’água específico.

 

Olhei em volta, mas não vi o olho-d’água. Mostrou que estávamos em pé em cima dele.

 

— Há água aqui — disse ele, num sussurro — e também poder. Há um espírito aqui e temos de atraí-lo para fora; talvez ele o persiga.

 

Eu queria saber mais a respeito do dito espírito; mas ele insistiu no silêncio total. Advertiu-me para que ficasse inteiramente parado e não desse um pio, nem fizesse o menor movimento para revelar nossa presença.

 

Aparentemente, era fácil para ele permanecer em imobilidade completa durante horas a fio; para mim, porém, era uma tortura. Minhas pernas ficaram dormentes, as costas doíam, e a tensão dominou meu pescoço e ombros. Todo meu corpo ficou dormente e frio. Eu estava no maior desconforto, quando, afinal, Dom Juan se levantou. Saltou para pôr-se de pé e estendeu a mão para me ajudar a levantar.

 

Quando estava tentando esticar as pernas, percebi a facilidade inconcebível com que Dom Juan se pusera de pé num salto, depois de horas de imobilidade. Levei algum tempo para meus músculos recuperarem a elasticidade necessária para caminhar.

 

Dom Juan dirigiu-se de volta a casa. Ele caminhava muito devagar. Estabeleceu uma distância de três passos que eu devia observar para acompanhá-lo. Andou em zigue-zague pelo caminho normal, atravessando-o quatro ou cinco vezes em diversas direções. Quando por fim chegamos à casa dele, já era de tardinha.

 

Tentei interrogá-lo a respeito dos acontecimentos daquele dia. Explicou que falar não era necessário. No momento, eu tinha de deixar de fazer perguntas, até estarmos num lugar de poder.

 

Eu estava louco para saber o que ele queria dizer com aquilo e tentei cochichar uma pergunta, mas ele me deu a entender, por um olhar frio e severo, que estava falando sério.

 

Ficamos sentados na varanda dele horas a fio. Eu trabalhava nos meus apontamentos. De vez em quanto, ele me dava um pedaço de carne-seca; por fim ficou muito escuro para escrever. Tentei pensar nas novidades, mas uma parte de mim se recusava a fazê-lo e eu adormeci.

 

Sábado, 19 de agosto de 1961

 

Ontem de manhã eu e Dom Juan fomos à cidade de carro e tomamos o café num restaurante. Aconselhou-me a não mudar muito drasticamente meus hábitos alimentares.

 

— Seu organismo não está acostumado à carne de poder — disse ele. — Ficaria doente se não comesse sua comida.

 

Ele mesmo comeu com apetite. Quando caçoei dele, apenas respondeu:

 

— Meu corpo gosta de tudo.

 

Por volta do meio-dia, voltamos a pé à garganta. Passamos a nos fazer notar pelo espírito por meio de "conversas barulhentas" e um silêncio forçado que durou horas.

 

Quando saímos dali, em vez de voltar para casa, Dom Juan partiu em direção das montanhas. Chegamos primeiro a umas encostas suaves e depois subimos ao topo de uns morros altos. Lá, Dom Juan escolheu um lugar para repousar na área aberta e sem sombra. Disse-me que teríamos de esperar até o anoitecer e que eu tinha de me comportar da maneira mais natural possível, o que incluía fazer todas as perguntas que quisesse.

 

— Sei que o espírito está lá, pairando — disse ele, em voz muito baixa.

 

— Onde?

 

— Lá nos arbustos.

 

— Que tipo de espírito é?

 

— Quantos tipos existem? — respondeu, com uma expressão enigmática.

 

Nós dois rimos. Eu estava fazendo perguntas por nervosismo.

 

— Ele aparecerá no crepúsculo — disse ele. — Temos de esperar.

 

Fiquei quieto. Não tinha mais perguntas.

 

— Este é um momento em que temos de continuar a falar — disse Dom Juan. — A voz humana atrai os espíritos. Há um deles à espreita lá agora mesmo. Estamos nos tornando acessíveis a ele, de modo que continue a falar.

Tive uma sensação idiota de vazio. Não conseguia pensar em nada para dizer. Ele riu e bateu nas minhas costas.

 

— Você é mesmo um chato — disse ele. — Quando tem de falar, perde a língua. Vamos, dê trabalho a suas gengivas. — Fez um gesto cômico de bater as gengivas, abrindo e fechando a boca muito depressa. — Há certas coisas de que falaremos, de hoje em diante, somente em lugares de poder — continuou ele. — Eu o trouxe aqui porque esta é a sua primeira prova. É um lugar de poder, e aqui só podemos falar do poder.

 

— Não sei nem mesmo o que é o poder — disse eu.

 

— O poder é uma coisa com que o guerreiro lida — explicou.

 

— A princípio é uma coisa incrível e rebuscada; é difícil até pensar nele. É isto que lhe está acontecendo agora. Depois, o poder torna-se um assunto sério; a pessoa pode não o possuir; ou pode até nem perceber plenamente que ele existe e, no entanto, sabe que há algo ali, algo que antes não era observado. Em seguida, o poder se manifesta como uma coisa incontrolável que acontece à pessoa. Não me é possível dizer como acontece nem o que é, realmente. Não é nada e, contudo, faz com que apareçam maravilhas diante de seus olhos. E, por fim, o poder é uma coisa na gente, uma coisa que controla os atos da gente e, contudo, obedece a nosso comando.

 

Fez-se uma pausa curta. Dom Juan perguntou-me se eu tinha entendido. Senti-me ridículo dizendo que sim. Pareceu notar a minha consternação e deu uma risada.

 

— Vou-lhe ensinar agora mesmo o primeiro passo para o poder

 

— disse ele, como se me estivesse ditando uma carta. — Vou-lhe ensinar a organizar-se para sonhar.

 

Olhou para mim de novo e perguntou se eu sabia o que ele queria dizer. Eu não sabia. Mal o acompanhava, de todo. Explicou que "organizar-se para sonhar" significava ter um controle preciso e pragmático sobre a situação geral de sonho, comparável ao controle que a pessoa tem sobre qualquer escolha no deserto, tal como subir um morro ou ficar à sombra de uma garganta.

 

— Deve começar com alguma coisa bem simples — falou. — Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.

 

Dei uma risada alta. O tom dele era tão natural que era como se me estivesse dizendo para fazer alguma coisa comum.

 

— Por que está rindo? — indagou ele, surpreso.

 

— Como posso olhar para minhas mãos em meus sonhos?

 

— Muito simples: focalize seus olhos nelas, assim.

 

Inclinou a cabeça para a frente e ficou olhando para as mãos, de boca aberta. O gesto dele foi tão cômico que eu tive de rir.

 

— Seriamente, como é que você pode esperar que eu faça isso? — perguntei.

 

— Como lhe disse — respondeu ele, bruscamente. — Naturalmente, pode olhar para o que bem entender... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.

 

"Pense nisso como uma coisa distraída. Imagine todas as coisas inconcebíveis que você poderia realizar. Um homem em busca do poder quase não tem limites em seu sonhar.”

 

Pedi que ele me desse umas indicações.

 

— Não há indicações — disse ele. — É só olhar para suas mãos.

 

— Devia haver mais coisas para você me contar — insisti. Sacudiu a cabeça e apertou os olhos, olhando para mim em

olhadelas curtinhas.

 

— Cada um de nós é diferente — falou, por fim. — O que você chama de indicações seria apenas o que eu mesmo fiz quando estava aprendendo. Não somos iguais; não somos nem mesmo vagamente parecidos.

 

— Talvez que qualquer coisa que você diga me ajude.

 

— Seria mais fácil para você simplesmente começar olhando para suas mãos.

 

Ele parecia estar concatenando as idéias e sacudiu a cabeça para cima e para baixo.

 

— Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma — disse ele, depois de um longo silêncio.

 

— O truque de aprender a organizar-se para sonhar obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?

 

Confessei que, embora eu compreendesse o que ele tinha dito, era incapaz de aceitar a premissa dele. Apresentei o argumento de que, num mundo civilizado, havia dezenas de pessoas que tinham ilusões e não conseguiam distinguir o que se passava no mundo real do que se passava em suas fantasias. Falei que essas pessoas eram sem dúvida doentes mentais, e minha aflição aumentava cada vez que ele recomendava que eu agisse como um louco. Depois de minha longa explicação, Dom Juan fez um gesto cômico de desespero, pondo as mãos no rosto e suspirando alto.

 

— Deixe seu mundo civilizado para lá — disse ele. — Deixe-o em paz! Ninguém lhe está pedindo para agir como um louco. Já lhe disse, um guerreiro tem de ser perfeito a fim de lidar com o poder que ele busca; como é que você pode conceber que um guerreiro não saiba diferençar as coisas?

 

"Por outro lado, você, meu amigo, que sabe como é o mundo real, ficaria tateando e morreria num instante se tivesse de depender de sua capacidade para dizer o que é real e o que não é".

 

Evidentemente, eu não tinha exprimido o que tinha em mente. Cada vez que eu protestava, estava simplesmente expressando a frustração insuportável de estar numa situação insustentável.

 

— Não estou querendo torná-lo um homem doente e maluco — continuou Dom Juan. — Pode fazer isso sozinho, sem auxílio de minha parte. Mas as forças que nos dirigem trouxeram você a mim e estive tentando ensinar-lhe a modificar suas maneiras estúpidas e viver a vida forte e limpa de um caçador. Depois, as forças o encaminharam de novo e me disseram que você devia viver a vida impecável de um guerreiro. Parece que não o Consegue. Mas, quem sabe? Nós somos tão misteriosos e assombrosos quanto este mundo insondável. Por isso, quem sabe de que você será capaz?

 

Havia uma nota de tristeza sob as palavras de Dom Juan. Queria desculpar-me, mas ele continuou a falar.

 

— Não precisa olhar para suas mãos — disse ele. — Como eu já disse, escolha o que quiser. Mas escolha uma coisa de antemão e encontre-a em seus sonhos. Referi-me as suas mãos porque elas estarão sempre ali.

 

"Quando elas começarem e mudar de forma, você deve desviar o olhar delas e escolher outra coisa, e depois tornar a olhar para suas mãos. Leva muito tempo para aperfeiçoar essa técnica.”

 

Eu estava tão absorto, escrevendo, que não tinha reparado que estava ficando escuro. O sol já desaparecera no horizonte. O céu estava nublado e o crepúsculo, iminente. Dom Juan levantou-se e lançou uns olhares furtivos para o sul.

 

— Vamos andando — disse ele. — Temos de caminhar para o sul até o espírito do olho-d’água se manifestar.

 

Caminhamos por uma meia hora, talvez, O terreno mudou abruptamente e chegamos a um sitio árido. Havia um grande morro redondo, onde o chaparral estava queimado. Parecia uma cabeça calva. Fomos para lá. Pensei que Dom Juan ia subir a encosta suave, mas ele parou e ficou numa posição muito atenta. Seu corpo mostrava estar tenso, como uma única unidade, e ele estremeceu. Depois, relaxou e ficou ali de pé, frouxo. Não entendia como é que ele conseguia manter o corpo ereto enquanto os músculos estavam tão relaxados.

 

Naquele momento, uma rajada de vento muito forte me sacudiu. O corpo de Dom Juan virou-se na direção do vento, para oeste. Não usou os músculos para se virar, ou pelo menos não os usou da maneira que eu usaria os meus para fazê-lo. O corpo de Dom Juan parecia mais ter sido puxado do lado de fora. Era como se alguma outra pessoa tivesse arrumado o corpo dele para se virar em outra direção.

 

Fiquei olhando para ele. Fitou-me pelo canto do olho. A expressão na cara dele era de determinação e propósito. Todo seu ser estava atento e olhei para ele, assombrado. Eu nunca estivera em uma situação que exigisse uma concentração tão estranha.

 

De repente, o corpo dele estremeceu como se tivesse levado uma ducha de água fria. Ele se sacudiu de novo e depois começou a caminhar como se nada houvesse acontecido.

 

Acompanhei-o. Nós bordejamos os morros pelo lado leste até estarmos na parte do meio; ali, ele parou, virando-se para oeste.

 

De onde estávamos, o topo do morro era menos redondo e liso do que parecia, à distância. Havia uma gruta, ou cavidade, perto do topo. Olhei para ali fixamente porque Dom Juan estava fazendo o mesmo. Outra forte rajada de vento me deu um calafrio. Dom Juan virou-se para o sul e examinou a área com os olhos.

 

— Ali! — disse ele num cochicho, apontando para um objeto no chão.

 

Esforcei-me para ver. Havia alguma coisa no chão, talvez a uns seis metros de distância. Era marrom claro e, ao olhar para aquilo, a coisa estremeceu. Focalizei toda minha atenção nela. O objeto era quase redondo e parecia estar enroscado; na verdade, lembrava um cachorro enroscado.

 

— O que é? — cochichei para Dom Juan.

 

— Não sei — sussurrou ele de volta, espiando o objeto. — O que lhe parece?

 

Disse-lhe que parecia um cachorro.

 

— Muito grande para ser um cachorro — falou, calmamente. Dei uns dois passos em direção à coisa, mas Dom Juan me deteve com cuidado. Tornei a olhar para ela. Era positivamente algum animal, adormecido ou morto. Eu quase conseguia ver-lhe a cabeça; suas orelhas eram salientes como as de um lobo. A essa altura eu estava certo de que era um animal enroscado, Pensei que poderia ser um bezerro vermelho. Comentei em tom baixo com Dom Juan. Respondeu que era por demais compacto para. ser um bezerro e, além disso, tinha as orelhas pontudas.

 

O animal tornou a estremecer e então vi que ele estava vivo. Podia até vê-lo respirando, mas não parecia respirar ritmadamente. Sua respiração parecia mais uns estremecimentos irregulares. Naquele momento, tive uma percepção súbita.

 

— É um animal que está morrendo — disse eu a Dom Juan.

 

— Tem razão — cochichou, — Mas que tipo de animal?

 

Eu não conseguia distinguir suas feições. Dom Juan deu alguns passos cautelosos para a coisa. Eu o acompanhei. Já estava bem escuro e tivemos de dar mais dois passos para conservar o animal à vista.

 

— Cuidado — cochichou Dom Juan em meu ouvido. — Se for um animal moribundo, pode saltar sobre nós, com suas últimas forças.

 

O animal, fosse o que fosse, parecia estar nas últimas; sua respiração era irregular, seu corpo sacudia-se espasmodicamente, mas ele não mudou de sua posição enroscada. Num dado momento, porém, um espasmo tremendo chegou a levantar o animal do chão. Ouvi um grito desumano e o animal esticou as pernas; suas garras eram mais do que assustadoras, davam náuseas. O animal caiu de lado, depois de esticar as pernas, e em seguida rolou de costas.

 

Ouvi um rugido formidável e a voz de Dom Juan gritando:

 

— Fuja depressa!

 

E foi exatamente o que fiz. Corri para o topo do morro com uma rapidez e agilidade espantosas. Quando estava a meio caminho, olhei para trás e vi Dom Juan de pé no mesmo lugar. Ele me fez sinal para descer. Corri pelo morro abaixo.

 

— O que aconteceu? — perguntei, inteiramente sem fôlego.

 

— Acho que ele está morto — respondeu.

 

Avançamos cautelosamente para o animal. Estava esparramado de costas. Quando me aproximei mais, quase gritei de susto. Vi que ainda não estava completamente morto. Seu corpo ainda tremia. As pernas, que estavam levantadas, sacudiam-se violentamente. Ele estava positivamente agonizante.

 

Fui para a frente de Dom Juan. Uma nova sacudidela moveu o corpo do animal e eu consegui ver sua cabeça. Virei-me para Dom Juan, horrorizado. A julgar pelo corpo, o animal era obviamente um mamífero e, no entanto, tinha um bico, como uma ave.

 

Fiquei olhando para aquilo num terror completo e total. Minha mente recusava-se a acreditar. Estava abismado. Não conseguia articular uma palavra. Nunca, em toda minha vida, eu vira uma coisa daquela natureza. Algum ser inconcebível estava ali diante de meus olhos. Eu queria que Dom Juan me explicasse o que era aquele animal incrível, mas só conseguia balbuciar. Ele estava-me fitando. Olhei para ele e depois para o animal, e então alguma coisa destro de mim organizou o mundo e vi logo o que era o animal Fui até ele e apanhei-o. Era um galho grande de um arbusto. Tinha sido queimado e talvez o vento tivesse soprada alguns resíduos queimados que ficaram presos no galho seco, dando assim a aparência de um animal grande, bojudo e redondo. A cor dos detritos queimados o fazia parecer marrom claro, em contraste com a vegetação verde.

 

Ri de minha idiotice e expliquei, entusiasmado, a Dom Juan, que o vento soprando por ele o fizera parecer um animal vivo. Pensei que ele ficaria satisfeito com o modo como eu desvendara o mistério, mas ele se virou e começou a caminhar para cima do morro. Eu o segui. Meteu-se dentro da depressão que parecia uma gruta. Não era um buraco, e sim uma reentrância rasa no arenito. Dom Juan pegou uns galhinhos e usou-os para juntar a terra que se acumulara no fundo da depressão.

— Temos de nos livrar dos carrapatos — explicou.

 

Fez-me sinal para eu me sentar e disse que me acomodasse, pois íamos passar a noite ali. Comecei a falar do galho, mas ele me mandou calar a boca.

 

— O que você fez não é nenhuma vitória — falou. — Você desperdiçou um belo poder, um poder que soprou vida naquele ramo seco.

 

Ele disse que a verdadeira vitória seria eu me largar e seguir o poder, até o mundo deixar de existir. Não parecia estar zangado comigo, nem desapontado com minha atuação. Declarou várias vezes que aquilo era apenas o começo, que era precisa tempo para lidar com o poder. Deu um tapinha em meu ombro e caçoou dizendo que, um pouco antes, naquele mesmo dia, era eu a pessoa que sabia o que era e o que não era real.

 

Fiquei encabulado. Comecei a desculpar-me por minha tendência de ser sempre tão seguro de meus métodos.

 

— Não importa — disse ele. — O ramo era um animal real e estava vivo no momento em que o poder o tocou. Como o que o manteve vivo foi o poder, o problema era, com em sonhar, conservar a visão daquilo. Entende o que eu digo?

 

Eu queria perguntar outra coisa, mas ele me fez calar e disse que eu devia ficar completamente em silêncio, mas acordado a noite toda, e que ele só é que ia falar, um pouco.

 

Disse que o espírito, que conhecia a voz dele, podia ser dominado pelo som dela e deixar-nos em paz. Explicou que a idéia de a pessoa se tornar acessível ao poder tinha sérios reflexos. O poder era uma força devastadora, que podia facilmente conduzir a pessoa a sua morte e tinha de ser tratado com muito cuidado. Ser acessível ao poder era coisa que tinha de ser feita sistematicamente, mas sempre com muito cuidado.

 

Implicava em tomar a presença da pessoa evidente por uma demonstração controlada de conversas altas ou qualquer outro tipo de atividade ruidosa, e depois era obrigatório observar um silêncio prolongado e total. Um rompante controlado e uma quietude controlada eram a marca de um guerreiro. Explicou que, corretamente, eu deveria ter conservado a visão do monstro vivo por mais um pouco. De maneira controlada, sem perder a razão nem ficar louco de emoção ou medo, eu deveria, ter tentado fazer "parar o mundo". Falou que depois que eu tinha corrido morro acima como para salvar minha vida, estava num estado perfeito para "parar o mundo". Combinados naquele estado estavam o medo, o assombro, o poder e a morte; disse que um estado daqueles seria bem difícil de se repetir.

 

— O que quer dizer "parar o mundo"? — cochichei no ouvido dele.

Lançou-me um olhar feroz antes de responder que era uma técnica praticada por aqueles que estavam à caça do poder, técnica em virtude da qual o mundo, como o conhecemos, era levado a se desmoronar.

 

Disposição de guerreiro

 

Cheguei de carro à casa de Dom Juan na quinta-feira, dia 31 de agosto de 1961 e, antes mesmo de podei cumprimenta-lo, ele meteu a cabeça pela janela do carro, deu-me um sorriso e disse:

 

— Temos de ir a um lugar de poder bem distante e já é quase meio-dia.

Abriu a porta do Carro, sentou-se junto de mim no assento dianteiro e me disse para dirigir para o sul, por uns 110 quilômetros; depois viramos para leste, numa estrada de terra, que seguimos até chegar às encostas das montanhas. Parei o carro fora da estrada, numa depressão que Dom Juan escolheu porque era suficientemente funda para esconder o carro de vista. Dali, fomos diretamente para cima dos monos baixos, atravessando uma área vasta, plana e deserta.

 

Quando escureceu, Dom Juan escolheu um lugar para dormirmos, exigindo um silêncio total.

 

No dia seguinte, fizemos uma refeição frugal e continuamos nossa viagem em direção ao leste. A vegetação não era mais de arbustos do deserto, e sim de verdejantes arbustos e árvores e de montanhas.

 

Pelo meio da tarde, subimos ao topo de um penhasco gigantesco de um conglomerado rochoso que parecia um paredão. Dom Juan sentou-se e me indicou que também me sentasse.

 

— Isto é um lugar de poder — falou, depois de uma pausa. — Neste lugar, há muito tempo, foram enterrados guerreiros.

 

Naquele momento, um corvo voou bem por cima de nós, grasnando. Dom Juan acompanhou o vôo dele fixamente.

 

Examinei a rocha e estava pensando como e onde os guerreiros teriam sido sepultados quando ele me deu um tapinha no ombro.

 

— Aqui não, seu bobo — disse ele, sorrindo. — Lá embaixo. Apontou para o campo bem abaixo de nós, ao pé do penhasco, para leste; explicou que o campo em questão era rodeado por um curral natural de rochas. De onde eu estava sentado, podia ver uma área de talvez uns cem metros de diâmetro e que parecia, um círculo perfeito. Arbustos espessos cobriam sua superfície, disfarçando as rochas. Eu não teria notado sua redondeza perfeita se Dom Juan não a mostrasse.

 

Ele disse que havia dezenas de lugares como aquele espalhados no antigo mundo dos índios. Não eram exatamente lugares de poder, como certos morros ou formações de terra que eram a morada dos espíritos, mas, antes, lugares de esclarecimento, onde a pessoa podia aprender, onde se podiam encontrar soluções para dilemas.

 

— Só o que tem a fazer é vir aqui — explicou. — Ou passar a noite nesse rochedo, a fim de pôr em ordem seus sentimentos.

 

— Vamos passar a noite aqui?

 

— É o que pretendia, mas um corvozinho acabou de me dizer para não fazê-lo.

 

Tentei descobrir mais a respeito do corvo, porém ele me fez calar, com um movimento impaciente da mão.

 

— Olhe para aquele círculo de pedras — falou. — Fixe-o em sua memória e depois, um dia, um corvo o levará a outro desses lugares. Quanto mais perfeita sua redondeza, maior o poder.

 

— Os ossos dos guerreiros ainda estão aqui sepultados? Dom Juan fez um gesto cômico de duvida e depois deu um largo sorriso.

 

— Isto não é um cemitério — disse ele. — Ninguém está sepultado aqui. Falei que antigamente os guerreiros se enterravam aqui. Quis dizer que eles vinham aqui para se enterrarem por uma noite, ou por dois dias, ou pelo tempo que precisassem. Não afirmei que os ossos dos mortos estão enterrados aqui. Não me preocupo com os cemitérios. Não há poder neles. Há poder nos ossos de um guerreiro, porém eles nunca estão nos cemitérios. E ainda há mais poder nos ossos de um homem de conhecimento e, no entanto, seria quase impassível encontrá-los.

 

— Quem é um homem de conhecimento, Dom Juan?

 

— Qualquer guerreiro pode tornar-se um homem de conhecimento. Conforme já lhe disse, um guerreiro é um caçador impecável que caça o poder. Se ele tiver êxito em sua caçada, pode tornar-se um homem de conhecimento.

 

— O que é que você...

 

Ele parou minha pergunta com um movimento da mão. Levantou-se e fez sinal para eu segui-lo, começando a descer o lado íngreme do penhasco. Havia uma trilha marcada na face quase perpendicular, levando à área redonda.

 

Lentamente, abrimos caminho descendo a trilha perigosa e, quando chegamos embaixo, Dom Juan, sem parar de todo, conduziu-me através do espesso chaparral até o meio do círculo. Ali, usou uns galhos secos grossos para limpar um lugar para sentarmos. O ponto também era perfeitamente redondo.

 

— Pretendia enterrá-lo aqui a noite toda — disse ele. — Mas agora sei que ainda não está na hora. Você não tem poder. Só vou enterrá-lo por pouco tempo.

 

Fiquei muito nervoso com a idéia de ficar fechado e perguntei como ele pretendia enterrar-me. Riu como uma criança e começou a juntar galhos secos. Não deixou que o ajudasse e disse que eu devia sentar-me e esperar.

 

Jogou os galhos que estava recolhendo dentro do círculo limpo. Depois, mandou que eu deitasse cora a cabeça para leste. Pôs meu paletó debaixo de minha cabeça e fez uma gaiola em volta de meu corpo. Construiu-a enfiando na terra macia pedaços de galhos de uns 80 centímetros. Os galhos, que terminavam em forquilhas, serviam de suporte para uns paus compridos que davam à gaiola uma armação e a aparência de um caixão aberto. Fechou a gaiola-caixote colocando raminhos e folhas sobre os paus compridos, encerrando-me dos ombros para baixo. Deixou minha cabeça de fora, com o paletó servindo de travesseiro.

 

Em seguida pegou um pedaço grosso de madeira seca e, usando-o para cavar, soltou a terra em volta de mim e cobriu a gaiola com ela.

 

A armação era tão sólida e as folhas tão bem colocadas que não entrou terra alguma. Eu podia mover minhas pernas livremente e podia até deslizar para dentro e para fora.

 

Dom Juan disse que, normalmente, o guerreiro construía a gaiola e depois deslizava para dentro dela e a lacrava por dentro.

 

— E os animais? — perguntei. — Podem esfregar a terra da superfície e entrar na gaiola e fazer mal ao homem?

 

— Não, isso não é coisa que preocupe um guerreiro. é coisa que o preocupa porque você não tem poder. Um guerreiro, por outro lado, é guiado por seu propósito inflexível e pode livrar-se de qualquer coisa. Nenhum rato, nem cobra nem onça o poderia importunar.

— Para que eles se enterram, Dom Juan? — Para o esclarecimento e o poder.

 

Experimentei uma sensação extremamente agradável de paz e satisfação; o mundo naquele momento parecia estar à vontade. A tranqüilidade era divina e, ao mesmo tempo, enervante, Eu não estava acostumado com aquele tipo de silêncio. Tentei falar, mas ele ordenou que me calasse. Depois de algum tempo, a tranqüilidade do lugar afetou meu estado de espírito. Comecei a pensar em minha vida e minha história pessoal e tive uma sensação conhecida de tristeza e remorso. Falei que eu não merecia estar ali, que o mundo dele era forte e justo e eu era fraco e que meu espírito tinha sido desviado pelas circunstâncias de minha vida.

 

Ele riu e ameaçou cobrir minha cabeça cora terra, se eu continuasse a falar aquelas coisas. Disse que eu era um homem. E, como todo homem, eu merecia tudo o que fosse destinado ao homem — alegria, dor, tristeza e luta — e que a natureza dos atos da pessoa não tinha importância, enquanto ela agisse como guerreiro.

 

Baixando a voz até quase um sussurro, ele disse que, se realmente achava que meu espírito estava desviado, eu simplesmente teria de endireitá-lo, purgá-lo, fazê-lo perfeito, pois não havia nenhum outro trabalho em todas as nossas vidas que valesse mais a pena. não endireitar o espírito era procurar a morte, e isso era o mesmo que não procurar nada, desde que a morte nos alcançará, não importa o que acontecer. Calou-se por muito tempo e depois disse, com grande convicção:

 

— Procurar a perfeição do espírito do guerreiro é o único empreendimento digno de nossa virilidade.

 

As palavras dele agiram como um catalisador. Senti o peso de meus atos passados como um fardo insuportável e estorvante. Confessei que não havia esperança para mim. Comecei a chorar, falando sobre minha vida. Disse que estava errando havia tanto tempo que ficara calejado à dor e à tristeza, a não ser em certas ocasiões em que eu percebia minha solidão e desamparo.

 

Ele não disse nada. Agarrou-me por debaixo dos braços e puxou-me para fora da gaiola. Sentei-me, quando ele me largou. Dom Juan também se sentou. Fez-se um silêncio difícil entre nós. Achei que ele me estava dando tempo para me controlar. Peguei meu caderno e escrevi, nervosamente.

 

— Você se sente como uma folha à mercê do vento, não é? — disse ele, por fira, olhando fixamente para mim.

 

Era exatamente como eu me sentia. Ele parecia ter empada em relação a mim. Disse-me que meu estado de espírito lembrava-lhe uma canção e começou a cantar num tom baixo; sua voz era muito agradável e as palavras me transportaram. "Como estou longe do céu onde nasci. Uma imensa nostalgia me invade o pensamento. Agora que estou tão só e triste, qual folha ao vento, às vezes quero chorar, às vezes quero rir de saudade ("Que lejos estory del cielo donde henacido. Immensa nostalgia invade mi pensamiento. Ahora que estoy tan solo y triste cual hoja al viento, quisiera llorar, quisiera reir de sentimiento. ")

Ficamos um tempo enorme sem dizer uma palavra. Afinal, Dom Juan rompeu o silêncio.

 

— Desde o dia em que você nasceu, de uma maneira ou de outra, as pessoas têm feito alguma coisa a você.

 

— Está certo — concordei.

 

— E têm feito coisas a você contra sua vontade.

 

— É verdade.

 

— E agora você está indefeso, como uma folha ao vento.

 

— Certo, é assim que é.

 

Falei que as circunstâncias de minha vida, por vezes, tinham sido arrasadoras. Escutou com atenção, mas eu não conseguia saber se ele estava apenas sendo simpático ou se realmente se interessava, até que percebi que ele estava tentando disfarçar um sorriso.

 

— Por mais que você sinta pena de si mesmo, vai ter de mudar isso — disse ele, em voz baixa. — Não condiz com a vida de um guerreiro.

 

Ele riu e tornou a cantar a canção, mas mudou a entonação de certas palavras; o resultado foi um lamento cômico. Observou que o motivo pelo qual eu gostara da canção fora porque em minha própria vida eu não fizera outra coisa senão encontrar defeito em tudo e lamentar-me. Não pude discutir com ele. Tinha razão. No entanto, eu acreditava ter motivos suficientes para justificar minha impressão de ser como uma folha ao vento.

 

— A coisa mais difícil deste mundo é adquirir a disposição de um guerreiro — disse ele. — Não adianta ficar triste, queixar-se e achar justificativa para isso, acreditando que alguém está sempre nos fazendo alguma coisa. Ninguém faz nada a ninguém, muito menos a um guerreiro.

 

— Você está aqui, comigo, porque quer estar aqui. A essa altura, já devia ter assumido plena responsabilidade, de modo que a idéia de estar à mercê do vento fosse inadmissível.

 

Levantou-se e começou a demonstrar a gaiola. Pegou a terra e colocou-a de volta onde a tirara e com cuidado espalhou todos os pauzinhos pelo chaparral. Depois, cobriu, o círculo limpo com detritos, deixando o lugar como se nada o tivesse tocado.

 

Comentei sobre a habilidade dele. Respondeu que um bom caçador saberia que tínhamos estado lá, por mais cuidado que ele tivesse, pois os rastros dos homens não podiam ser completamente apagados.

 

Sentou-se de pernas cruzadas e me disse para acomodar-me o melhor possível, virado para o ponto em que ele me enterrara, e ficasse quieto até que minha tristeza passasse.

 

— Um guerreiro se enterra a fim. de encontrar o poder, não para chorar de pena de si mesmo — disse ele.

 

Procurei explicar, mas ele me mandou parar com um movimento impaciente da cabeça. Disse que tivera de me puxar da gaiola depressa porque minha disposição estava intolerável e ele receava que o lugar se ressentisse contra minha moleza e me fizesse mal.

 

— A autocomiseração não condiz com o poder — disse ele. — A disposição de um guerreiro exige controle sobre si e, ao mesmo tempo, exige que ele se entregue.

 

— Como pode ser? — perguntei. — Como ele pode controlar-se e entregar-se ao mesmo tempo?

 

— é uma técnica difícil — falou.

 

Ele pareceu estar pensando se devia ou não continuar a falar. Por duas vezes, demonstrou estar a ponto de dizer alguma coisa, mas conteve-se e sorriu.

 

— Ainda não passou sua tristeza — disse ele. — Você ainda se sente fraco e não adianta falar na disposição de um guerreiro agora.

 

Passou-se quase uma hora, num silêncio total. Então, abruptamente perguntou-me se eu tinha conseguido aprender as técnicas de "sonhar" que ele me ensinara. Eu havia praticado assiduamente e, depois de um esforço colossal, tinha conseguido um certo controle sobre meus sonhos. Dom Juan tinha toda razão ao dizer que a gente podia interpretar os exercícios como uma distração. Pela primeira vez na vida eu pensava com prazer na hora de dormir.

 

Dei-lhe um relato detalhado de meu progresso. Fora relativamente fácil para mim aprender a manter a imagem das minhas mãos depois de me ordenar olhar para elas. As visões, embora nem sempre de minhas próprias mãos, duravam aparentemente muito tempo, até que afinal eu perdia o controle e me absorvia em sonhos comuns previsíveis, Eu não tinha determinação alguma quanto ao momento em que eu me daria a ordem para olhar para as mãos, ou para outras coisas dos sonhos. Apenas acontecia. Num dado momento, lembrava-me de que tinha de olhar para minhas mãos e depois para o ambiente. Mas havia noites em que eu não me lembrava de fazê-lo de todo.

 

Pareceu ficar satisfeito e queria saber quais as coisas comuns que eu encontrava nas visões. Não consegui pensar em nada de especial e comecei a me explanar sobre um pesadelo que eu tinha tido na véspera.

 

— Não comece com tanta fantasia — disse ele secamente. Falei que tinha registrado todos os detalhes de meus sonhos.

Desde que eu começara a treinar olhar para minhas mãos, meus sonhos se tornaram muito importantes e minha sensação de recorda-los aumentara ao ponto de poder lembrar-me de todos os detalhes. Ele disse que acompanhá-los era uma perda de tempo, pois os detalhes e a nitidez não eram nada importantes.

 

— Os sonhos comuns ficam muito nítidos quando a pessoa começa a organizar-se para sonhar — disse ele. — Essa nitidez e clareza são uma barreira formidável, e você está pior do que qualquer pessoa que eu já tenha conhecido na vida. Tem a pior das manias. Escreve tudo o que pode.

 

Para dizer a verdade, eu acreditava estar fazendo o que era certo. Ter um registro meticuloso de meus sonhos me dava uma medida de clareza quanto à natureza das visões que eu tinha enquanto dormia.

 

— Pare com isso! — falou, imperiosamente. — Não o ajuda em nada. Você só se está desviando do propósito de sonhar, que é o controle e o poder.

 

Deitou-se e cobriu os olhos com o chapéu, falando sem olhar para mim.

 

— Vou lembrar-lhe todas as técnicas que deve treinar — disse ele. — Primeiro, deve focalizar seu olhar sobre suas mãos, como ponto de partida. Depois, desvie o olhar para outras coisas e olhe para elas de relance. Focalize o olhar sobre o máximo de coisas que puder. Lembre-se de que, se olhar só rapidamente, as imagens não mudam. Depois, volte a suas mãos.

 

"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.

 

"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado.”

 

Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.

 

— O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar — disse ele. — Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um ligar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo... depois, obrigue-se a ir lá.

 

"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem. "

 

Quando escrevi essas palavras, tive a impressão de que estava realmente maluco. Eu estava mesmo anotando instruções loucas e esforçando-me ao máximo para cumpri-las. Tive uma onda de arrependimento e constrangimento.

 

— O que me está fazendo, Dom Juan? — perguntei, sem realmente querer dizer aquilo. Ele pareceu espantar-se. Fitou-me por um momento e depois sorriu.

 

— Tem-me feito a mesma pergunta uma porção de vezes. Está-se tornando acessível ao poder; você o está caçando e eu estou apenas dirigindo-o.

 

Inclinou a cabeça para o lado e me examinou. Segurou meu queixo com uma das mãos e minha nuca com a outra, e depois mexeu minha cabeça para diante e para trás. Os músculos de meu pescoço estavam muito tensos, e o movimento da cabeça diminuiu a tensão. Dom Juan olhou para o céu por algum tempo e pareceu examinar alguma coisa ali.

 

— Está na hora de irmos — falou secamente, e levantou-se. Caminhamos numa direção leste até chegarmos a um bosquezinho de árvores pequenas num vale entre dois morros grandes. Já eram quase cinco da tarde. Ele falou, com displicência, que poderíamos ter de passar a noite ali. Apontou para as arvores e disse que por ali havia água.

 

Retesou o corpo e começou a cheirar o ar como um animal. Eu via os músculos da barriga dele se contramão em espasmos curtos e muito rápidos, e ele bufava e inspirava pelo nariz muito depressa. Disse para eu fazer o mesmo, e que descobrisse por mim onde estava a água. Com relutância, tentei imitá-lo. Depois de uns cinco ou seis minutos de uma respiração acelerada eu estava tonto, mas minhas narinas tinham-se limpado de maneira extraordinária e eu conseguia até perceber o cheiro de salgueiros do rio. Mas não sabia dizer onde estavam.

 

Dom Juan disse-me para descansar alguns minutos e depois me pôs para fungar de novo. A segunda vez foi mais intensa. Eu chegava a distinguir um sopro de salgueiro vindo da minha direita. Caminhamos naquela direção e encontramos, a uns 500 metros, um brejo com água estagnada. Demos a volta e passamos para uma meseta plana um pouco mais elevada. Acima e em volta da pequena elevação, o chaparral era muito denso.

 

— Este lugar está cheio de onças e outros felinos menores — disse Dom Juan, com naturalidade, como se fosse uma observação banal.

 

Corri para o lado dele e ele deu uma gargalhada.

 

— Normalmente, eu não viria aqui de todo — continuou. — Mas o corvo apontou nesta direção. Deve haver alguma coisa de especial nisso aqui.

 

— Temos mesmo de ficar aqui, Dom Juan?

 

— Temos. Senão eu teria evitado esse lugar.

 

Eu estava muito nervoso. Falou para eu ouvir atentamente o que ele tinha a dizer.

 

— A única coisa que se pode fazer num lugar como este é caçar onças — disse ele. — Por isso, vou ensinar-lhe a fazer isso. Há uma maneira especial de construir uma armadilha para os ratos que vivem em volta dos olhos-d’água. Eles servem de isca. Os lados da gaiola são feitos de modo a cederem e põe-se espetos muito pontudos dos lados. Os espetos ficam escondidos quando a gaiola está armada e não interferem em nada a não ser que alguma coisa caia sobre a gaiola, e nesse caso os lados cedem e os espetos penetram aquilo que bate na armadilha.

 

Não entendi o que ele queria dizer, mas ele fez um desenho na terra e me mostrou que, se os paus laterais da gaiola fossem colocados em pontos ocos, como pivôs, na armação, a gaiola cairia para os dois lados, se alguma coisa pesasse sobre ela.

 

Os espetos eram lascas pontudas e afiadas de madeira dura, que eram colocadas em volta da armação e presas a ela.

 

Dom Juan disse que, geralmente, um monte pesado de pedras era colocado sobre uma rede de paus, ligados à gaiola e dependurados bem acima dela. Quando a onça chegava à armadilha com as iscas de ratos-d’água, normalmente tentava quebrá-la, golpeando-a com as patas, com toda a força; então, as lascas entravam nas palas dela, e a onça, num frenesi, dava um salto, desencadeando uma avalancha de pedras em cima de si.

 

— Talvez um dia você tenha de pegar uma onça — disse ele. — Elas têm poderes especiais. São muito sabidas e o único jeito de pegá-las é tapeá-las com a dor e o cheiro dos salgueiros.

 

Com uma rapidez e habilidade espantosas, construiu uma armadilha e, depois de uma longa espera, pegou três roedores gorduchos, que pareciam esquilos.

 

Disse-me que apanhasse um punhado de galhos de salgueiro da beira do brejo e me obrigou a esfregar a roupa com eles, fazendo ele o mesmo. Depois, com rapidez e habilidade, teceu duas redes simples de caniços, pegou um bocado de plantas verdes e lama do brejo e levou tudo de vota à meseta, onde se escondeu.

 

Enquanto isso, os roedores com cara de esquilo tinham começado a guinchar muito alto.

 

Dom Juan me falou de seu esconderijo, dizendo-me para usar a outra rede, pegar um bom bocado de lama e plantas e trepar aos galhos mais baixos de uma árvore próxima da armadilha onde estavam os roedores.

 

Dom Juan disse que não queria ferir a onça nem os roedores, e por isso pretendia atirar a rede na onça, se ela chegasse à armadilha. Disse-me para ficar alerta e atirar minha rede na onça depois que ele o fizesse, a fim de espantá-la e fazê-la fugir. Recomendou que eu devia ter muito cuidado para não cair da árvore. Suas instruções finais foram para eu ficar tão estático que me misturasse com os galhos.

 

Mão consegui ver onde Dom Juan estava. Os guinchos dos roedores tornaram-se extremamente altos e, por fim, ficou tão escuro que eu mal distinguia os contornos gerais do lugar. Ouvi um ruído súbito e próximo de passos e uma exalação felina abafada; depois, um grunhido muito baixo e os roedores pararam de guinchar. Foi então que vi a massa escura de um animal bem debaixo da árvore onde eu estava. Antes mesmo de eu poder certificar-me de que era uma onça, ela lançou-se contra a armadilha. Porém, quando a estava alcançando, alguma coisa atingiu-a e a fez recuar. Atirei minha tralha, como Dom Juan me dissera para fazer. Não acertei, mas fiz um barulho enorme. Naquele instante, Dom Juan soltou uma porção de berros lancinantes, que me deram calafrios pela espinha; e a onça, com uma agilidade extraordinária, saltou para a meseta e desapareceu.

 

Dom Juan continuou a provocar aqueles ruídos penetrantes mais um pouco e depois disse-me para descer da árvore, apanhar a gaiola com os esquilos, correr para a meseta e chegar onde ele estava o mais depressa que pudesse.

Num espaço de tempo incrivelmente breve eu, estava junto de Dom Juan. Este me disse para imitar seus gritos da melhor maneira possível, visando manter a onça à distância, enquanto ele desmontava a armadilha e soltava os roedores.

 

Comecei a gritar, mas não consegui produzir o mesmo efeito. Minha voz estava rouca, devido à emoção. Ele disse que eu devia entregar-me e gritar com sentimento, pois a onça ainda estava por ali. De repente, percebi plenamente a situação. A onça era real. Soltei uma série de magníficos berros lancinantes.

 

Dom Juan ria às gargalhadas. Deixou-me berrar um pouco e depois disse que tínhamos de sair dali no maior silêncio possível, pois a onça não era tola e provavelmente estaria voltando para o lugar onde nos encontrávamos.

 

— É certo que ela nos seguirá — falou. — Por mais cuidado que tenhamos, deixaremos um rastro tão largo quanto a Estrada Pan-Americana.

 

Eu caminhava muito próximo a Dom Juan. De vez em quando, ele parava por um minuto, para escutar. Num dado momento, começou a correr no escuro e eu o acompanhei com as mãos estendidas na frente de meus olhos para proteger-me dos galhos.

 

Afinal, chegamos à base do penhasco onde tínhamos estado antes. Dom Juan disse que, se conseguíssemos subir até em cima sem sermos estraçalhados pela onça, estaríamos seguros. Ele foi na frente, para mostrar o caminho. Começamos a subir, no escuro. Não sei como, eu o seguia com passos certeiros. Quando estávamos quase em cima, escutei um estranho grito de animal. Era quase como o mugido de uma vaca, só que mais prolongado e rouco.

 

— Suba! Suba! — gritou Dom Juan.

Apressei-me a subir na escuridão total, na frente de Dom Juan. Quando ele chegou ao topo plano do penhasco, eu já estava sentado, tomando fôlego.

 

Rolou pelo chão. Por um momento, pensei que o esforço fora demasiado para ele, porém Dom Juan estava rindo de minha escalada veloz.

 

Ficamos sentados num silêncio total por umas duas horas e depois voltamos para meu carro.

 

Domingo, 3 de setembro de 1961

 

Dom Juan não estava em casa quando acordei. Trabalhei em minhas notas e tive tempo de pegar lenha do chaparral vizinho antes de ele voltar. Eu estava comendo quando ele entrou em casa. Começou a rir do que ele chamava minha rotina de comer ao meio-dia, mas aceitou meus sanduíches.

Disse-lhe que o que tinha acontecido com a onça era estranho para mim. Em retrospecto, parecia irreal. Era como se tudo tivesse sido encenado para mim. A sucessão de acontecimentos fora tão rápida que eu, realmente, não tivera tempo para ter medo. Eu tinha tido suficiente tempo para agir, mas não para pensar nas circunstâncias. Ao escrever minhas notas, ocorreu-me a questão: será que eu realmente vira a onça? O episódio do galho seco ainda estava fresco em minha memória.

 

— Foi uma onça — disse Dom Juan, imperiosamente.

 

— Foi um animal real, de carne e osso?

 

— Claro.

 

Contei que ficara desconfiado por causa da facilidade de todo o fato. Era como se a onça estivesse esperando ali e fosse treinada para fazer exatamente o que Dom Juan planejara. Ele não se alterou com minha barragem de comentários cépticos. Apenas riu.

 

— Você é engraçado — disse ele. — Viu e ouviu a onça. Ela estava bem debaixo da árvore onde você se escondeu. Ela só não o cheirou e o atacou por causa do salgueiro. Eles abafam todos os outros cheiros, mesmo para os felinos. Você estava com um monte de galhos de salgueiro no colo.

 

Falei que não era que duvidasse dele, mas que tudo o que acontecera naquela noite era extremamente estranho aos acontecimentos de minha vida diária. A certa altura, ao escrever minhas notas, cheguei a ter a impressão de que Dom Juan poderia ter representado o papel de onça. Mas tive de abandonar a idéia porque havia realmente visto o vulto de um animal quadrúpede investindo contra a gaiola e depois saltando para a meseta.

 

— Por que você faz tanta onda? — disse ele. — Não passou de um gato grande. Deve haver milhares de gatos naquelas montanhas. Grande coisa. Como sempre, está focalizando sua atenção na coisa errada. Não faz diferença se era uma onça ou minhas calças. O que conta são suas sensações naquele momento.

 

Em toda minha vida, eu nunca vira, nem ouvira um grande gato do mato à procura de presas. Quando eu pensava naquilo, não me conseguia conformar de ter estado pertinho do animal. Dom Juan escutou pacientemente enquanto eu repassava toda a experiência.

 

— Por que o assombro tão grande pelo gato grande? — perguntou, com uma expressão indagadora. — Você já andou por perto da maior parte dos animais que vivem nessas bandas e nunca ficou tão impressionado com eles. Você gosta de gatos?

 

— Não gosto, não.

 

— Bem, então esqueça-se disso. De qualquer forma, a lição não era sobre aprender a caçar onças.

 

— Sobre que era?

 

— O corvozinho me apontou aquele local determinado, e ali eu vi a oportunidade de fazê-lo compreender como se age quando se está no estado de espírito de um guerreiro. Tudo o que fez ontem à noite foi realizado no devido estado de espírito. Você estava controlado e, ao mesmo tempo, entregando-se quando saltou da árvore para apanhar a gaiola e correr para junto de mim. Não estava paralisado de medo. E depois, perto do topo do penhasco, quando a onça soltou um urro, você se mexeu muito bem. Estou certo de que não acreditaria no que fez, se olhasse de dia para o penhasco. Teve certo grau de abandono e, ao mesmo tempo, um certo controle sobre si mesmo. Não se descontrolou a ponto de molhar as calças e, no entanto, descontrolou-se a ponto de escalar aquele paredão na escuridão total. Podia ter pisado em falso e morrido. Para escalar aquele paredão no escuro, você teve de se segurar e se entregar ao mesmo tempo. É isso que eu chamo estado de espírito de um guerreiro.

 

Falei que, fosse o que fosse que ele tivesse feito naquela noite, era resultado de meu medo e não de qualquer disposição de controle e abandono.

 

— Sei disso — replicou, sorrindo, — E eu queria mostrar que você pode forçar-se além de seus limites, se estiver com disposição para isso. Um guerreiro faz a sua própria disposição. Você não sabia disso. Foi o medo que o deixou na disposição de guerreiro, mas, agora que você sabe a respeito, qualquer coisa pode deixá-lo nesse estado de espírito.

 

Queria discutir com ele, mas meus motivos não estavam claros. Eu sentia um aborrecimento inexplicável.

 

— É conveniente sempre agir nesse estado de espírito — continuou. — Isso acaba com as besteiras e deixa a pessoa purificada. Foi uma grande sensação quando você chegou ao topo do penhasco, não foi?

 

Falei que entendia o que ele queria dizer e, no entanto, achava que seria idiotice tentar aplicar o que ele me ensinava à vida diária.

 

— Precisamos da disposição de guerreiro para todos os atos — disse ele. — Senão, ficamos fracos e feios. Não existe poder numa vida que não lenha essa disposição. Olhe para si. Tudo o ofende e perturba. Geme e reclama e acha que todo mundo está abusando de você. E uma folha à mercê do vento. Não existe poder em sua vida. Que sentimento feio isso deve ser!

 

"Um guerreiro, ao contrário, é um caçador. Calcula tudo. Isso é controle. Mas, uma vez terminados seus cálculos, ele age. Entrega-se. Isso é abandono. Um guerreiro não é uma folha à mercê do vento. Ninguém pode empurrá-lo; ninguém pode obrigá-lo a fazer coisas contra si ou contra o que ele acha certo. Um guerreiro é preparado para sobreviver e ele sobrevive da melhor maneira possível.”

 

Gostei da posição dele, embora a considerasse nada realista. Parecia simplista demais para o mundo complexo em que eu vivia.

 

Ele riu de meus argumentos e eu insisti que a disposição de um guerreiro não podia ajudar-me a dominar a sensação de estar ofendido, ou de ser ferido de fato pelos atos de meus semelhantes, como no caso hipotético de ser fisicamente atormentado por uma pessoa cruel e maldosa, colocada num posto de autoridade. Ele confessou que o exemplo era adequado.

 

— Um guerreiro pode ser ferido, mas não ofendido — disse ele. Para um guerreiro, não há nada de ofensivo nos atos de seus semelhantes, enquanto ele estiver agindo dentro da disposição correto.

 

“Na outra noite, você não ficou ofendido com a. onça. O fato de ela nos perseguir não o irritou. Não o ouvi maldizê-la, nem que ela não tinha o direito de nos perseguir. Podia ter sido uma onça cruel e maldosa, ao que você soubesse. Mas isso não pesou para você, quando estava tentando evitá-la. A única coisa que interessava era sobreviver. E isso você fez muito bem”.

 

“Se estivesse sozinho e a onça o tivesse pegado e estraçalhado até à morte, não lhe ocorreria sequer reclamar ou ficar ofendido com os atos dela”.

 

"A disposição de um guerreiro não é assim tão rebuscada para seu mundo ou o de qualquer pessoa. Você precisa dela para poder livrar-se de todas as besteiras.”

 

Expliquei meu raciocínio. A onça e meus semelhantes não estavam num pé de igualdade, porque eu conhecia os maneirismos íntimos dos homens, enquanto que não sabia nada a respeito da onça. O que me ofendia em meus semelhantes era que eles agiam maldosamente e em plena consciência.

 

— Sei disso, sei disso — falou ele, pacientemente, — Conseguir a disposição de um guerreiro não é coisa fácil. É uma revolução. Considerar a onça e os ratos-d’água e nossos semelhantes como iguais é um ato magnífico do espírito do guerreiro. É preciso poder para fazer isso.

 

Uma batalha de poder

 

Quinta-feira, 28 de dezembro de 1961

 

Saímos numa viagem de manhã bem cedinho. Fomos para o sul e depois para leste, para as montanhas. Dora Juan tinha levado cabaças com comida e água. Comemos no carro antes de começarmos a caminhar.

 

— Fique junto de mim — disse ele. — Essa região é desconhecida para você e não vale a pena arriscar-se. Você está à procura do poder e tudo o que fizer conta. Vigie o vento, especialmente lá para o fim do dia. Vigie-o quando ele mudar de direção e troque de posição, de modo que eu sempre o proteja dele.

 

— O que vamos fazer naquelas montanhas, Dom Juan?

 

— Você está caçando poder.

 

— Quero dizer, o que vamos fazer, em especial?

 

— Não há planos, quando se trata de caçar poder. Caçar poder ou caçar caça é a mesma coisa. Um caçador caça o que Se apresentar a ele. Assim, ele deve estar sempre num estado de preparação.

 

“Já sabe a respeito do vento, e agora pode caçar o poder no vento sozinho. Mas há outras coisas que você não conhece e que são, como o vento, o centro de poder em certos momentos e em certos lugares”.

 

"O poder é um negócio muito especial — disse ele. — É impossível precisá-lo ou dizer o que realmente é. é uma sensação que a gente tem sobre certas coisas. O poder é pessoal. Pertence só à gente. Meu benfeitor, por exemplo, sabia fazer uma pessoa cair mortalmente doente, só de olhar para ela. As mulheres definhavam depois que ele punha os olhos sobre elas. No entanto, ele não fazia as pessoas adoecerem o tempo todo, somente quando estava envolvido o seu poder pessoal.”

 

— Como é que ele escolhia quais as pessoas que queria tornar enfermas?

 

— Isso eu não sei. Nem ele mesmo sabia. O poder é assim. Comanda a pessoa e, no entanto, obedece a ela. Um caçador de poder o apanha e depois armazena-o, como seu achado pessoal. Assim, o poder pessoal cresce, e pode haver o caso de um guerreiro que tem tanto poder pessoal que se torna um homem de conhecimento.

 

— Como é que a gente armazena o poder, Dom Juan?

 

— Isso também é outra sensação. Depende de que tipo de pessoa é o guerreiro. Meu benfeitor era um homem de temperamento violento. Armazenava poder por meio daquela sensação. Tudo o que ele fazia era forte e direto. Deixou-me uma recordação de alguma coisa abrindo caminho, esmagando tudo em volta. E tudo o que lhe acontecia se passava assim.

 

Eu disse a ele que não entendia como é que o poder podia ser armazenado por uma sensação.

 

— Não há meio de explicar isso — falou, depois de uma longa pausa, — Terá de fazê-lo sozinho.

 

Pegou as cabaças com a comida e prendeu-as às costas. Entregou-me um cordão com oito pedaços de carne-seca presos e disse que o pendurasse ao pescoço.

 

— Isso é comida de poder — disse ele.

— O que a torna comida de poder, Dom Juan?

 

— E a carne de um animal que tinha poder. Um veado, um veado excepcional. Foi meu poder pessoal que o trouxe até mim. Esta carne nos sustentará durante semanas, meses se necessário. Mastigue bem alguns pedacinhos dela de cada vez. Deixe o poder penetrar lentamente em seu corpo.

 

Começamos a caminhar. Eram quase onze horas da manhã. Dom Juan tornou a lembrar-me do que devia fazer.

 

— Vigie o vento — disse ele. — Não deixe que ele o engane. E não o deixe fatigá-lo. Mastigue sua comida de poder e esconda-se do vento atrás de meu corpo. O vento não me fará mal; nós dois nos conhecemos muito bem.

 

Conduziu-me a uma trilha que levava diretamente às altas montanhas. O dia estava nublado e ia chover. Eu via nuvens de chuva baixas e nevoeiro lá em cima das montanhas, descendo para a área em que estávamos.

 

Caminhamos num silêncio total até umas três horas da tarde. Mastigar a carne-seca era realmente revigorante. E vigiar as mudanças repentinas da direção do vento tornou-se uma coisa misteriosa, ao ponto em que todo meu corpo parecia sentir as mudanças, antes de elas acontecerem de fato. Eu tinha a impressão de que podia perceber as ondas do vento como uma espécie de pressão na parte superior de meu peito, nos meus brônquios. Cada vez que ia sentindo uma rajada de vento, meu peito e minha garganta comichavam.

 

Dom Juan parou um momento e olhou em volta. Parecia estar-se orientando e depois virou para a direita. Reparei que ele também estava mastigando a carne-seca. Sentia-me muito lépido e nada cansado. O trabalho de perceber as mudanças no vento era tão absorvente que eu nem me dera conta do tempo.

Caminhamos para dentro de uma garganta profunda e depois subimos por um lado para um pequeno platô do lado escarpado de uma montanha enorme. Estávamos bem no alto, quase no topo da montanha.

 

Dom Juan subiu numa rocha imensa na extremidade do platô c me ajudou a fazer o mesmo. A rocha era situada de tal maneira que parecia um domo em cima das paredes de um precipício. Nós a contornamos devagar. Por fim, tive de andar sentado, agarrando-me à superfície com os calcanhares e as mãos. Eu estava ensopado de suor e tive de enxugai as mãos várias vezes.

 

Do outro lado, vi uma gruta rasa, muito grande, perto do topo da montanha. Parecia um salão escavado na rocha. Era arenito que tinha sido transformado pela erosão numa espécie de sacada com dois pilares.

 

Dom Juan disse que íamos acampar ali, que era um lugar muito seguro por ser raso demais para ser um covil de onças ou quaisquer outros predadores, aberto demais para ser um ninho de ratos, e ventoso demais para os insetos. Ele riu e disse que era um lugar ideal para os homens, desde que nenhuma outra criatura viva o podia suportar.

 

Escalou até lá como um cabrito-montês. Fiquei maravilhado com sua estupenda agilidade. Arrastei-me devagar pela rocha, sentado, e depois tentei correr subindo o lado da montanha, para chegar à saliência. Os últimos metros me deixaram completamente exausto. Perguntei, brincando, a Dom Juan qual a verdadeira idade dele. Eu achava que para chegar à saliência da maneira como ele chegara, a pessoa tinha de ser extremamente jovem e estar em forma.

 

— Sou tão jovem quanto queira ser — falou. — Isso, também, é uma questão de poder pessoal. Se você armazenar poder, seu corpo pode executar façanhas incríveis. Ao contrário, se você desperdiçar poder, ficará gordo e velho num instante.

A extensão da saliência era orientada numa linha leste-oeste. O lado aberto da formação, semelhante a uma sacada, ficava ao sul. Caminhei para a extremidade oeste. A vista era magnífica. A chuva tinha-nos rodeado. Parecia um lençol de material transparente pendurado sobre as terras baixas.

 

Dom Juan falou que tínhamos tempo suficiente para construir um abrigo. Disse-me que fizesse um monte de todas as pedras que conseguisse transportar para a saliência, enquanto ele juntava uns galhos para o telhado.

 

Dentro de uma hora, ele havia construído uma parede de uns 30 centímetros de espessura na extremidade leste da saliência. Devia ter uns 60 centímetros de comprimento e 90 de altura. Teceu e amarrou uns montes de galhos que tinha apanhado e fez um telhado, prendendo-o em duas varas compridas, que terminavam em forquilhas. Havia outra vara do mesmo comprimento presa ao próprio telhado e que o sustentava do outro lado da parede. A estrutura parecia uma mesa alta com três pernas.

 

Dom Juan sentou-se de pernas cruzadas debaixo dela, na beiradinha da sacada. Disse-me para sentar junto dele, à sua direita. Ficamos calados por algum tempo.

 

Dom Juan rompeu o silêncio. Disse-me, num cochicho, que devíamos agir como se não houvesse nada de extraordinário. Perguntei se havia alguma coisa especial que eu devesse fazer. Eles respondeu que eu devia ocupar-me, escrevendo, e fazê-lo como se estivesse sentado à minha mesa, sem nenhuma outra preocupação na vida senão a de escrever. Num dado momento, ia me cutucar, e então eu devia olhar para onde ele estivesse apontando com os olhos. Advertiu-me de que, não importa o que eu visse, não devia pronunciar uma única palavra. Só ele podia falar impunemente porque era conhecido de todos os poderes daquelas montanhas.

 

Obedeci às instruções dele e escrevi por mais de uma hora. Fiquei absorto em meu trabalho, De repente, senti um tapinha no braço e vi os olhos e a cabeça de Dom Juan se moverem, apontando para uma massa de névoa a uns 200 metros de distância, que descia do topo da montanha. Dom Juan cochichou em meu ouvido, num tom que mal se ouvia.

 

— Passe os olhos para lá e para cá naquela névoa — disse ele. — Mas não olhe diretamente para ela. Pisque os olhos e não os focalize. Quando vir um ponto verde na beira da névoa, aponte-o com os olhos.

 

Movi os olhos da esquerda para a direita pela névoa que lentamente descia sobre nós. Talvez uma meia hora se tenha passado. Estava ficando escuro. A névoa movia-se muito devagar. Num certo momento, tive a impressão repentina de ter visto um vago brilho à minha direita. A princípio, pensei ter visto uma moita verde através da névoa. Quando olhei diretamente, não vi nada, mas quando olhava sem focalizar, distinguia uma vaga zona esverdeada. Apontei-a para Dom Juan. Ele apertou os olhos e olhou para ela.

 

— Focalize os olhos naquele ponto — cochichou em meu ouvido. — Olhe sem piscar até ver.

 

Eu queria perguntar o que devia ver, mas ele me lançou um olhar feroz, como que para me lembrar de que eu não podia falar.

 

Tornei a olhar. O bocado de névoa que tinha descido estava pendurado como se fosse um pedaço de matéria sólida. Estava amontoado bem no ponto em que eu percebera a tonalidade verde. Quando meus olhos se cansaram de novo e eu envesguei, a princípio vi o bocado de névoa superposto ao restante, e depois vi uma fina tira de névoa no meio, parecendo uma estrutura fina e sem sustentação, uma ponte ligando a montanha acima de mim e a massa de névoa diante de mim. Por um momento, pensei poder ver a névoa transparente, que estava sendo soprada do cume da montanha, passando pela ponte sem desmanchá-la. Era como se a ponte fosse mesmo sólida. Num instante, a miragem tornou-se tão completa, que eu chegava a distinguir a parte mais escura situada abaixo da ponte, em oposição à coloração clara de arenito de seus lados.

 

Fiquei olhando para a ponte, boquiaberto. E depois, ou eu me levantei a seu nível, ou a ponte baixou a meu nível. De repente, eu estava olhando para uma viga reta em minha frente. Era uma viga muito comprida, sólida, estreita e sem grades, mas suficientemente larga para se poder andar sobre ela.

 

Dom Juan sacudiu-me pelo braço com força. Senti minha cabeça pulando para cima e para baixo, e então vi que meus olhos estavam coçando horrivelmente. Esfreguei-os inteiramente sem querer. Dom Juan continuava a me sacudir até eu tornar a abrir os olhos. Despejou um pouco d'água da cabaça dele na mão e borrifou-me o rosto. A sensação foi muito desagradável. A água estava tão fria que as gotas pareciam feridas em minha pele. Então, reparei que meu corpo estava muito quente. Eu estava febril.

 

Dom Juan deu-me logo água para beber e depois jogou água em minhas orelhas e no meu pescoço. Ouvi um pio de ave, muito alto, prolongado e soturno. Dom Juan escutou atentamente por um momento e depois empurrou as pedras do muro com o pé e fez desabar o telhado. Atirou o telhado no mato e as pedras todas, uma a uma, pela beirada abaixo.

 

— Beba um pouco d'água e mastigue sua carne-seca — cochichou, em meu ouvido. — Não podemos ficar aqui. Aquele grito não foi de um pássaro.

 

Descemos da saliência e começamos a caminhar em direção a leste. Em pouco tempo, ficou tão escuro que era como se houvesse uma cortina diante de meus olhos. A névoa parecia uma barreira impenetrável. Eu nunca imaginara como a neblina pode atrapalhar, de noite. Não podia entender como é que Dom Juan conseguia andar. Segurei-me no braço dele como se eu fosse cego.

 

For algum motivo, eu tinha a sensação de estar andando na borda de um precipício. Minhas pernas se recusavam a mover-se. Minha razão confiava em Dom Juan, c eu estava racionalmente disposto a continuar, mas meu corpo não, e Dom Juan tinha de me arrastar na escuridão total.

 

Ele devia conhecer o terreno minuciosamente. Em certo ponto, parou e me fez sentar. Não ousei largar o braço dele. Meu corpo sentia, sem dúvida alguma, que eu estava sentado numa montanha árida, como um domo, e que, se eu me movesse um centímetro para a direita, cairia num abismo. Estava inteiramente certo de estar sentado numa encosta curva da montanha, porque meu corpo movia-se inconscientemente para a direita. Imaginei que estivesse fazendo isso para conservar a verticalidade, por isso tentei compensar, inclinando-me para a esquerda, de encontro a Dom Juan, o mais que pude.

 

Ele, de repente, afastou-se de mim, e sem o apoio de seu corpo, caí ao chão. Tocar o chão devolveu meu sentido de equilíbrio. Eu estava deitado numa área plana. Comecei a fazer um reconhecimento de minhas vizinhanças imediatas pelo tato. Reconheci folhas e galhos secos.

 

Houve um relâmpago repentino que iluminou todo o lugar, e um trovão tremendo. Vi Dom Juan de pé à minha esquerda. Notei árvores enormes e uma gruta pouco atrás dele.

 

Dom Juan disse-me para entrar no buraco. Engatinhei para dentro dele e sentei-me, encostado à pedra. Senti que Dom Juan se inclinava para cochichar que eu tinha de ficar completamente quieto.

 

Houve três relâmpagos, um atrás do outro. De relance, vi Dom Juan sentado de pernas cruzadas à minha esquerda. A gruta era uma formação côncava, suficientemente grande para ali se sentarem duas ou três pessoas. O buraco parecia ter sido cavado na base de uma rocha. Achei que tinha sido realmente sensato de minha parte entrar ali; pois, se estivesse andando, teria batido com a cabeça na pedra.

 

O brilho do relâmpago deu-me uma idéia de como era espessa a massa da névoa. Observei os troncos de árvores enormes destacados contra a massa opaca e clara da névoa.

 

Dom Juan sussurrou que a névoa e o relâmpago possuíam um pacto e que eu tinha de manter uma vigília exaustiva porque estava empenhado numa batalha de poder. Naquele momento, um esplêndido relâmpago tornou toda a cena fantasmagórica. A névoa era como um filtro branco que tomava fosca a luz da descarga elétrica e a difundia uniformemente; a névoa era como uma densa substância branca, pendurada entre as árvores altas; mas, bem defronte de num, no nível do chão, a névoa estava-se dissipando. Eu distinguia plenamente as características do terreno. Estávamos numa floresta de pinheiros. Árvores muito altas nos cercavam. Eram tão grandes que eu podia jurar que estávamos entre as sequóias, se não soubesse antes onde estávamos.

 

Houve uma barragem de relâmpagos, que durou vários minutos. Cada um tornava mais discerníveis as coisas que eu já observara. Bem defronte de mim, vi uma trilha bem marcada. Não havia vegetação nela. Parecia terminar numa clareira.

 

Havia tantos relâmpagos, que eu não conseguia distinguir de onde vinham. Mas a paisagem tinha sido tão profusamente iluminada que eu me sentia mais à vontade. Meus receios e incertezas tinham desaparecido assim que houve luz suficiente para erguer a pesada cortina da escuridão. Assim, quando houve um longo intervalo entre os relâmpagos, eu não fiquei mais desorientado pelas trevas que me cercavam.

 

Dom Juan cochichou que eu provavelmente já tinha olhado bastante, e que devia focalizar minha atenção no som da trovoada. Percebi, abismado, que não tinha prestado atenção alguma à trovoada, a despeito do faro de ter sido realmente tremenda. Dom Juan acrescentou que eu devia acompanhar o som e olhar na direção de onde eu achava que vinha.

 

Não havia mais barragens de raios e trovoada, mas apenas lampejos esporádicos de luz e som intensos. A trovoada parecia vir sempre da minha direita. A névoa estava levantando, e eu, já acostumado à escuridão de breu, conseguia distinguir massas de vegetação. Os raios e a trovoada continuavam e, de repente, todo o lado direito abriu-se e consegui ver o céu.

 

A tempestade elétrica parecia estar-se deslocando para a minha direita. Houve outro relâmpago e vi uma montanha distante, à extrema direita. A luz iluminava os fundos, destacando a massa da montanha. Vi umas árvores em cima dela; pareciam decalques pretos nítidos, superpostos sobre o céu brilhantemente branco. Cheguei a ver nuvens cúmulos sobre as montanhas.

 

A névoa limpara completamente em volta de nós. Havia um vento constante e eu ouvia o farfalhar das folhas nas árvores grandes à minha esquerda. A tempestade elétrica estava longe demais para iluminar as árvores, mas suas massas escuras continuavam discerníveis. A luz da tempestade, porém, permitiu que eu visse que havia uma cadeia de montanhas distantes à minha direita e que a floresta se limitava ao lado esquerdo. Parecia que eu estava olhando para um vale escuro, que eu não conseguia ver de todo. O lugar onde pairava a tempestade ficava do lado oposto do vale.

 

Então, começou a chover. Encostei-me na pedra o mais que pude. Meu chapéu era uma boa proteção. Estava sentado com os joelhos dobrados de encontro ao peito e só minhas pernas e sapatos se molharam. Choveu por muito tempo. A chuva era morna. Eu a sentia nos meus pés. E, finalmente, adormeci.

 

Os cantos dos pássaros me despertaram. Olhei em volta, procurando Dom Juan. Ele não estava ali; normalmente, eu teria pensado que ele me teria deixado ali sozinho, mas o choque de constatar onde estava deixou-me paralisado.

 

Levantei-me. Minhas pernas estavam ensopadas, a aba de meu chapéu, encharcada, e ainda havia nela um pouco d'água, que me molhou. Eu não estava absolutamente numa gruta, e sim debaixo de umas moitas cerradas. Tive outro momento de uma confusão sem igual. Encontrava-me num trecho de terra plana, entre dois pequenos morros de terra cobertos de arbustos. Não havia árvores à minha esquerda, nem vale à minha direita. Bem defronte de mim, onde eu tinha visto a trilha da floresta, havia um arbusto gigantesco.

 

Recusei-me a acreditar no que estava vendo. A incongruência de minhas duas versões de realidade me fez lutar por uma explicação qualquer. Ocorreu-me ser perfeitamente possível eu ter dormido tão profundamente que Dom Juan me carregasse nas costas para outro lugar, sem me acordar.

 

Examinei o lugar onde eu tinha dormido. O chão estava seco ali, bem como a terra no ponto ao lado, onde Dom Juan estivera.

 

Chamei-o umas duas vezes; então, tive um acesso de ansiedade e berrei o nome dele o mais alto que pude. Ele saiu de detrás de umas moitas. Vi logo que ele sabia do que se passava. O sorriso dele era tão malicioso que acabei rindo também.

 

Não queria perder tempo brincando com ele. Fui dizendo logo o que se passava comigo. Expliquei com o maior cuidada todos os detalhes de minhas alucinações daquela noite. Ouviu sem interromper. Mas não conseguiu ficar sério e começou a rir por umas duas vezes, mas logo se controlou.

 

Pedi que Dom Juan comentasse os fatos, umas três ou quatro vezes; mas ele só sacudia a cabeça, como se o caso também fosse incompreensível para ele. Quando terminei meu relato, ele olhou para mim e disse:

 

— Você está com um aspecto horrível. Talvez queira ir ao mato.

 

Riu um pouco e depois falou para eu tirar as roupas e torcê-las, para elas secarem. O Sol estava brilhante. Havia muito poucas nuvens. Era um dia frio, ventoso.

 

Dom Juan afastou-se, dizendo que ia procurar umas plantas e que eu podia compor-me e comer alguma coisa; só o chamando quando estivesse calmo e forte.

 

Minhas roupas estavam realmente molhadas. Sentei-me ao Sol para me enxugar. Achei que o único meio de relaxar era pegar meu caderno e escrever. Comi enquanto trabalhava em meus apontamentos.

 

Depois de umas duas horas, estava mais calmo e chamei Dom Juan. Ele respondeu de um lugar perto do topo da montanha. Disse-me para juntar as cabaças e subir para onde ele estava. Quando cheguei ao lugar, encontrei-o sentado numa pedra lisa. Ele abriu as cabaças e serviu-se de um pouco de comida. Deu-me dois pedaços grandes de carne.

 

Eu não sabia por onde começar. Havia tantas coisas que queria perguntar. Ele pareceu entender meu estado de espírito e tornou a rir, divertido.

 

— Como está-se sentindo? — perguntou, num tom brincalhão. Dom Juan disse que eu me sentasse na pedra chata. Falou que a pedra era um objeto de poder e que eu ficaria novo depois de estar ali por um momento.

 

— Sente-se — ordenou ele, secamente. Ele não sorriu. Seus olhos estavam penetrantes. Automaticamente, sentei-me.

Explicou que eu estava sendo descuidado com o poder, agindo morosamente, e que eu tinha de acabar com aquilo, senão o poder se viraria contra nós dois e nunca sairíamos com vida daqueles montes desertos. Depois de uma pausa, perguntou, com naturalidade:

 

— Como vai o seu sonhar?

 

Expliquei-lhe como se tornara difícil para mim dar-me a ordem de olhar para minhas mãos. A princípio, tinha sido relativamente fácil, talvez por causa da novidade do conceito. Eu não tinha tido a menor dificuldade em me lembrar de que tinha de olhar para minhas mãos. Mas a emoção tinha passado e, em algumas noites, eu não conseguia fazê-lo de todo.

 

— Você deve usar uma tira na cabeça para dormir — disse ele. — Arranjar uma tira para a cabeça é uma coisa complicada. Não lhe posso dar uma porque você mesmo é que tem de fazê-la, do princípio ao fim. Mas só pode fazê-la depois que tiver uma visão dela no sonhar. Entende o que digo? A tira da cabeça tem de ser feita de acordo com a visão específica. E tem de ser uma tira atravessada que caiba direitinho ao alto da cabeça. Ou então, pode ser como um gorro apertado. Sonhar fica mais fácil quando a gente usa um objeto de poder em cima da cabeça. Você poderia usar seu chapéu, ou pôr um capucho, como um frade, e dormir, mas esses objetos só provocariam uns sonhos intensos, e não sonhar.

 

Ficou calado por um momento, e depois passou a contar-me, numa rápida barragem de palavras, que a visão da tira da cabeça não precisava ocorrer só em "sonhar", e que podia suceder também em estados despertos e como resultado de qualquer fato longínquo e totalmente não relacionado, como vigiar o vôo dos pássaros, o movimento da água, as nuvens, etc.

 

— Um caçador do poder vigia tudo — continuou. — E tudo lhe conta algum segredo.

 

— Mas como se pode ter certeza de que as coisas estão contando segredos? — perguntei. Achei que ele podia ter uma fórmula específica que lhe permitisse fazer interpretações "corretas".

 

— O único jeito de ter certeza é seguir todas as instruções que lhe tenho dado, a começar do primeiro dia em que me veio ver — respondeu. — A fim de possuir o poder é preciso conviver com ele. — Sorriu, indulgente. Parecia ter perdido sua ferocidade; chegou a me cutucar de leve o braço. — Coma sua comida de poder — insistiu ele.

 

Comecei a mastigar um pouco da carne-seca e, naquele momento, tive a percepção súbita de que tal alimento continha alguma substância psicotrópica, e daí as alucinações. Por um momento, quase senti um alívio. Se ele tivesse posto alguma coisa na carne, minhas miragens eram perfeitamente compreensíveis. Pedi que ele me dissesse se havia alguma coisa na "carne de poder".

 

Ele riu, mas não respondeu diretamente. Insisti, garantindo-lhe que não estava zangado, nem mesmo aborrecido, mas que tinha de saber para poder explicar os fatos da véspera satisfatoriamente para mim. Pedi e implorei afinal que ele me dissesse a verdade.

 

— Está completamente biruta — disse ele, sacudindo a cabeça, num gesto de incredulidade. — Tem uma tendência insidiosa. Insiste em querer explicar tudo a seu jeito. Não há nada na carne, a não ser poder. Este não foi posto ali por nenhum outro homem, e sim pelo próprio poder. é a carne-seca de um veado e esse animal foi um dom para mim, da mesma maneira que um certo coelho foi um dom para você não faz muito tempo. Nem você nem eu pusemos nada no coelho. Não lhe pedi para secar a carne dele, pois esse ato necessita de mais poder do que o que você tinha. Mas eu lhe disse que comesse a carne. Não comeu muito, por causa de sua própria burrice.

 

"O que lhe aconteceu ontem à noite não foi nem brincadeira, nem uma peça. Você teve um encontro com o poder. A névoa, o escoro, os raios, a trovoada e a chuva foram todos parte de uma grande batalha de poder. Você teve a sorte dos principiantes. Um guerreiro daria tudo para ver uma batalha dessas. "

 

Meu argumento era de que todo aquele acontecimento não podia ser uma batalha do poder, porque não fora real.

 

— E o que é real? — perguntou Dom Juan, muito calmamente.

 

— Isto, que estamos vendo, é real — disse eu, apontando para as vizinhanças.

 

— Mas assim também era a ponte que você viu ontem à noite, e a floresta e tudo o mais.

 

— Mas se eram reais, onde estão agora?

 

— Estão aqui. Se você tivesse suficiente poder, poderia evocá-las de volta. No momento, não pode fazer isso porque acha que ajuda muito continuar a duvidar e a ranzinzar. Não é assim, meu amigo. Não é, não, Existem mundos sobre mundos, bem aqui na nossa frente. E não são nada de se rir. Ontem à noite, se eu não lhe tivesse agarrado o braço, você teria andado naquela ponte, quisesse ou não. E, antes disso, tive de protegê-lo do vento, que o estava procurando.

 

— O que teria acontecido se você não me protegesse?

 

— Como você não tem poder suficiente, o vento provavelmente o teria feito perder seu caminho e talvez até o matasse, empurrando-o para dentro de alguma garganta. Mas a névoa é que foi a coisa importante ontem à noite. Duas coisas poderia ter-lhe acontecido, no nevoeiro. Poderia ter atravessado a ponte para o outro lado, ou poderia ter caído e morrido. Ambas dependeriam do poder. Mas, uma coisa é certa. Se eu não o protegesse, você teria de caminhar naquela ponte, de qualquer maneira, É essa a natureza do poder. Como já lhe disse, ele o comanda e, no entanto, está sob seu comando. Ontem, por exemplo, o poder o teria forçado a atravessar a ponte e depois teria ficado sob suas ordens para sustentá-lo enquanto você caminhasse. Eu o fiz parar porque sei que você não tem os meios de utilizar o poder e, sem esse poder, a ponte se desmoronaria.

 

— Também viu a ponte, Dom Juan?

 

— Não. Só vi o poder. Pode ter sido qualquer coisa. O poder para você, dessa vez, foi uma ponte. Não sei por que uma ponte. Nós somos criaturas muito misteriosas.

 

— Já viu uma ponte na névoa, Dom Juan?

 

— Nunca. Mas isso é porque não sou igual a você. Vi outras coisas. Minhas batalhas de poder são muito diferentes das suas.

 

— O que foi que viu, Dom Juan? Pode contar-me?

 

— Vi meus inimigos na minha primeira batalha de poder na névoa. Você não tem inimigos. Não odeia as pessoas. Eu odiava, naquela época. Tinha o capricho de odiar as pessoas. Não faço mais isso. Venci meu ódio, mas, naquela época, meu ódio quase me destruiu.

 

“Sua batalha de poder, ao contrário, foi bela. Não o consumiu, Agora é que se está consumindo com seus próprios pensamentos idiotas e suas dúvidas. é a sua maneira de ter caprichos. A névoa foi impecável com você, que tem uma afinidade com ela. Deu-lhe uma ponte estupenda, e aquela ponte estará ali na névoa, de hoje cm diante. Ela se revelará a você várias vezes até que um dia terá de atravessá-la”.

 

“Recomendo urgentemente que, de hoje em diante, você não ande em regiões de nevoeiro sozinho, até saber o que está fazendo”.

 

"O poder é um negócio muito misterioso. A fim de possuí-lo e comandá-lo, é preciso dominá-lo de saída. Mas é também possível armazená-lo aos pouquinhos, até a pessoa ter o suficiente para se suster numa batalha de poder.”

 

— O que é uma batalha de poder?

 

— O que lhe aconteceu ontem à noite foi o princípio de uma batalha de poder. As cenas que você viu eram a sede do poder. Um dia elas terão um significado para você; aquelas cenas tinham um grande significado.

 

— Não me pode contar o significado delas, Dom Juan?

 

— Não. Aquelas cenas são sua própria conquista pessoal, que você não pode partilhar com ninguém. Mas o que aconteceu ontem à noite foi apenas o princípio, uma escaramuça. A batalha de verdade terá lugar quando você atravessar aquela ponte. O que estará do outro lado? Só você saberá isso. E só você saberá o que existe no fim daquela trilha pela floresta. Mas tudo isso é alguma coisa que poderá ou não lhe acontecer. A fim de viajar por essas trilhas e pontes desconhecidas, é preciso a pessoa ter suficiente poder próprio.

 

— O que acontece se a gente não tem suficiente poder?

 

— A morte está sempre à espreita, e quando o poder do guerreiro definha, a morte simplesmente o toca. Assim, aventurar-se pelo desconhecido sem poder é burrice. A pessoa só encontrará a morte.

 

Eu não estava realmente escutando. Continuava a brincar com a idéia de que a carne-seca poderia ter sido o meio de provocar as alucinações. Aliviava-me pensar assim.

 

— Não se esforce tentando decifrá-lo — falou, como se lesse meus pensamentos. — O mundo é um mistério. Isto, o que você está olhando, não é tudo o que existe. O mundo é multo mais do que isso, tão mais, na verdade, que chega a ser infindável. Por isso, quando você tenta decifrá-lo, só o que faz é tentar tornar o mundo conhecido. Nós estamos bem aqui, no mundo em que você chama de real, apenas porque nós dois o conhecemos. Não conhece o mundo do poder e, portanto, não o pode transformar numa cena conhecida.

 

— Sabe que não posso realmente discutir isso — disse eu.

 

— Mas minha mente tampouco pode aceitá-lo. Ele riu e tocou de leve minha cabeça.

 

— Você é doido mesmo — falou. — Mas não tem importância. Sei como é difícil viver como guerreiro. Se tivesse seguido rainhas instruções e praticado todos os atos que lhe ensinei, a essa altura já teria suficiente poder para atravessar aquela ponte. Poder suficiente para ver e fazer parar o mundo.

 

— Mas para que eu havia de querer o poder, Dom Juan?

 

— Você agora não pode pensar num motivo. Mas, se conseguir armazenar suficiente poder, de mesmo lhe dará um bom motivo. Parece coisa de louco, não é?

 

— Para que você quis poder?

 

— Sou como você. Não o queria. Não encontrava um motivo para tê-lo. Detinha todas as dúvidas que você tem e nunca segui as instruções que me davam, ou nunca pensei fazê-lo; no entanto, a despeito de minha burrice, armazenei poder suficiente e, um dia, meu poder pessoal fez o mundo desmoronar-se.

 

— Mas por que alguém haveria de querer parar o mundo?

 

— Ninguém quer, é essa a questão. Mas acontece. E uma vez que você sabe como é que é parar o mundo, entende que há um motivo para isso. Sabe, uma das artes de um guerreiro é fazer o mundo desmoronar por um motivo específico e, depois, tornar a restaurá-lo a fim de continuar a viver.

 

Falei que talvez o meio mais seguro de me ajudar seria dar-me um exemplo de um motivo específico para se fazer desmoronar o mundo.

 

Ele ficou calado por um instante. Parecia estar pensando no que deveria falar.

 

— Não lhe posso dizer isso. é preciso poder demais para saber isso. Um dia você viverá como guerreiro, a despeito de sua vontade; então talvez tenha armazenado tanto poder pessoal que possa responder você mesmo a essa pergunta.

 

"Já lhe ensinei quase tudo o que um guerreiro precisa saber para sair pelo mundo a armazenar poder sozinho. Mas sei que não é capaz de fazer isso e tenho de ter paciência com você. Sei, por experiência, que é uma luta da vida toda ficar-se sozinha no mundo do poder. "

 

Dom Juan olhou para o céu e as montanhas. O Sol já estava descendo para o este e as nuvens de chuva formavam-se rapidamente nas montanhas. Eu não sabia que horas eram; tinha esquecido de dar corda ao relógio. Perguntei-lhe se ele sabia dizer-me as horas, e ele teve um tal acesso de riso que rolou da pedra para dentro das moitas. Em seguida, levantou-se e esticou os braços, bocejando.

 

— Ainda é cedo — disse ele. — Temos de esperar até que a névoa se junte no topo da montanha e então você tem de ficar de pé sozinho aqui nessa pedra e agradecer à névoa seus favores, Deixe que ela venha e o envolva. Estarei aqui por perto para ajudá-lo, se precisar.

 

Por algum motivo, a idéia de ficar sozinho no nevoeiro me apavorava. Sentia-me idiota por reagir de maneira tão irracional.

 

— Você não pode sair dessas montanhas desertas sem exprimir seus agradecimentos — disse ele, num tom firme. — Um guerreiro nunca vira as costas ao poder sem compensar os favores recebidos.

 

Deitou-se de costas, com as mãos debaixo da cabeça e cobriu a cara com o chapéu.

 

— De que modo devo esperar a névoa? — perguntei. — O que devo fazer?

 

— Escreva! — respondeu ele, de debaixo do chapéu. — Mas não feche os olhos nem lhe dê as costas.

 

Tentei escrever, mas não conseguia concentrar-me. Levantei-me e me movimentei por ali, agitado. Dom Juan levantou o chapéu e olhou para mim com um ar aborrecido.

 

— Sente-se! — ordenou.

 

Disse que a batalha de poder ainda não havia terminado e que eu tinha de ensinar meu espírito a ser impassível. Nada do que eu fizesse deveria revelar meus sentimentos, a não ser que eu quisesse ficar preso naquelas montanhas.

 

Levantou-se e fez um gesto de grande urgência. Disse que eu devia agir como se não houvesse nada fora do comum, pois os lugares de poder, como aquele em que nos encontrávamos, tinham a propriedade de esgotar as pessoas perturbadas. E assim a pessoa podia criar laços estranhos e prejudiciais com um lugar.

 

— Esses laços prendem o homem a um lugar de poder, às vezes para toda a vida — explicou. — E este não é o lugar para você. Não foi você quem o encontrou. Por isso, aperte o cinto e não vá perder as calças.

 

As advertências dele agiram sobre mim como um encantamento. Escrevi durante horas, sem interrupção. Dom Juan tornou a dormir e só acordou quando a névoa estava a uns cem metros, descendo do topo da montanha. Levantou-se e examinou as vizinhanças. Olhei em volta, sem virar de costas. A névoa já tinha invadido as terras baixas, descendo das montanhas à minha direita. Do meu lado esquerdo, a paisagem estava clara; mas o vento parecia estar vindo da direita, empurrando a névoa para os baixios, como que para nos cercar.

 

Dom Juan sussurrou que eu deveria permanecer impassível, de pé onde me encontrava, sem fechar os olhos, e que não poderia virar-me até estar completamente envolto pela névoa; só então seria possível iniciar nossa descida.

 

Abrigou-se ao pé de uns rochedos um pouco atrás de mim.

 

O silêncio naquelas montanhas era uma coisa magnífica e, ao mesmo tempo, tenebrosa. O vento suave que impelia a névoa dava-me a impressão de que ela estava sibilando em meus ouvidos. Bocados grandes de neblina desciam morro abaixo como pedaços sólidos de matéria esbranquiçada, rolando para cima de mim. Cheirei a névoa. Era uma mistura especial de um perfume pungente e fragrante. E então fui envolvido por ela.

 

Eu tinha a impressão de que a névoa estivesse trabalhando em minhas pálpebras. Elas estavam pesadas e eu queria fechar os olhos. Estava com frio. Minha garganta me coçava e eu queria tossir, mas não ousava. Ergui o queixo e estiquei o pescoço para aliviar o desejo de tossir e, ao olhar para cima, tive a impressão de poder realmente ver a espessura da massa de névoa. Era como se meus olhos pudessem avaliar a espessura atravessando-a. Meus olhos começaram a se fechar e eu não conseguia vencer o desejo de adormecer. Eu achava que ia cair no chão a qualquer momento. Naquele instante, Dom Juan deu um salto e agarrou-me pelos braços e me sacudiu. O choque foi o suficiente para me devolver minha lucidez.

 

Cochichou em meu ouvido que eu tinha de descer o morro correndo o mais que pudesse. Ele ia seguir atrás de mim porque não queria ser esmigalhado pelas pedras que eu pudesse revolver na passagem. Disse que eu era o líder, pois era minha a batalha de poder, e que eu tinha de estar com a cabeça fria e entregue, para conduzir-nos em segurança para longe dali.

 

— É isto — disse ele, em voz alta, — Se você não tiver a disposição de um guerreiro, talvez não possamos mais sair da névoa.

 

Hesitei um momento. Não estava certo de poder encontrar meu caminho para descer daquelas montanhas.

 

— Corra, coelho, corra! — gritou Dom Juan, empurrando-me delicadamente pela encosta.

 

Última posição de um guerreiro

 

Domingo, 28 de janeiro de 1962

 

Por volta das dez da manhã Dom Juan entrou em casa. Ele tinha saído ao amanhecer. Cumprimentei-o. Ele deu uma risada e, fazendo palhaçada, apertou minha mão e me cumprimentou cerimoniosamente.

 

— Vamos fazer uma viagenzinha — disse ele. — Você vai-nos levar de carro a um lugar muito especial, à busca do poder.

 

Ele abriu duas sacolas de rede e colocou duas cabaças cheias de alimentos em cada uma, atou-as com uma corda fina e entregou-me uma das redes.

 

Dirigimo-nos com vagar para o norte por uns 600 quilômetros e, em seguida, largamos a Rodovia Pan-Americana e tomamos uma estrada de cascalho para oeste. Havia horas que meu carro parecia ser o único na estrada. Enquanto ia dirigindo, reparei que não estava conseguindo ver pelo pára-brisa. Esforçava-me ao máximo para ver as cercanias, mas estava muito escoro e meu pára-brisa eslava cheio de insetos esmagados e poeira.

 

Disse a Dom Juan que tinha de parar para limpar o pára-brisa. Mandou que eu continuasse a dirigir, nem que tivesse de me arrastar a três quilômetros por hora, botando a cabeça para fora da janela para ver. Falou que não podíamos parar até termos alcançado o nosso destino. Num certo ponto, ele me disse para virar à direita. Estava tão escuro e poeirento que nem mesmo os faróis ajudavam grande coisa. Saí da estrada com muita trepidação. Eu estava com medo dos ressaltos, mas a terra estava bem. batida.

 

Dirigi por uns cem metros à velocidade mínima possível, de porta aberta para poder olhar para fora. Por fim, Dom Juan disse-me para parar. Falou que eu tinha estacionado bem atrás de uma pedra grande, que esconderia meu carro.

 

Saltei do carro e dei uma volta, guiado pelos faróis. Queria examinar o lugar, pois não tinha idéia de onde estava. Mas Dom Juan apagou as luzes. Disse em voz alta que não havia tempo a perder, e que eu trancasse o carro para podermos partir.

 

Entregou-me minha rede com as cabaças. Estava tão escuro que eu tropecei e quase as deixei cair. Dom Juan me ordenou, num tom firme, mas delicado, que eu me sentasse até que meus olhos se acostumassem com a escuridão. Porém, meus olhos não eram o problema. A dificuldade era um nervoso peculiar, que me fazia agir como se estivesse distraído. Eu estava atrapalhando tudo.

 

— Aonde vamos? — perguntei.

 

— Caminharemos na escuridão total até a um lugar especial — disse ele.

 

— Para quê?

 

— Para descobrir com certeza se você é ou não capaz de continuar a caçar o poder.

 

Perguntei-lhe se ele estava propondo uma prova e se, no caso de eu fracassar na prova, ele ainda continuaria a falar comigo e me contaria a respeito do conhecimento dele.

 

Escutou sem me interromper. Em seguida, falou que o que estávamos fazendo não era uma prova, que esperávamos um presságio, e que, se o presságio não aparecesse, a conclusão seria que eu não tinha conseguido caçar o poder e, nesse caso, eu estaria livre de qualquer outra imposição, livre para ser tão burro quanto quisesse. Disse que, acontecesse o que acontecesse, ele era meu amigo e sempre conversaria comigo.                                   

 

— Não sei como, eu sabia que ia fracassar.

 

— O presságio não virá — falei, brincando. — Sei disso. Tenho um pouco de poder.

 

— Não se preocupe — replicou; rindo; e dando-me um tapinha nas costas. — O presságio virá. Sei disso. Tenho mais poder do que você.

 

Achou essa declaração engraçadíssima. Bateu nas coxas, bateu palmas e deu gargalhadas.

 

Dom Juan prendeu minha sacola de rede às minhas costas e disse para eu andar um passo atrás dele e pisar nas suas pegadas o máximo possível. Num tom muito dramático, cochichou:

 

— Este é um passeio de poder, de modo que tudo conta. Disse que, se eu pudesse andar nas pegadas dele, o poder que ele dissipava ao caminhar seria transmitido para mim. Olhei para meu relógio- eram onze da noite.

 

Ele me fez ficar perfilado como um soldado em posição de sentido. Depois, puxou minha perna direita para a frente e me fez permanecer de pé como se tivesse acabado de dar um passo à frente. Alinhou-se em minha frente na mesma posição e depois começou a andar, depois de repetir as instruções de que eu devia tentar imitar suas pegadas perfeitamente. Disse, num cochicho muito claro, que eu não tinha de me preocupar com coisa alguma, a não ser pisar nas pegadas dele, e não devia olhar nem para a frente nem para os lados, só para o chão, onde ele estava pisando.

 

Partiu numa marcha muito descansada. Não tive a menor dificuldade em acompanhá-lo; estávamos caminhando num terreno relativamente duro. Por uns 30 metros, acompanhei o ritmo dele e segui suas pegadas perfeitamente; depois, olhei para o lado um instante e, quando vi, tinha-me chocado com ele.

 

Ele riu e me disse que eu não machucara seu tornozelo, ao pisar nele com meus sapatos imensos, mas que, se eu fosse continuar a fazer tolices, um de nós estaria aleijado de manhã. Rindo, falou, numa voz muito baixa, mas firme, que não pretendia machucar-se por causa de minha burrice e falta de concentração e que, se eu tomasse a esbarrar nele, teria de andar descalço.

 

— Não sei andar sem sapatos — disse eu, numa voz alta e rouca.

 

Dom Juan morreu de rir e tivemos de esperar até ele parar. Tornou a me garantir que falava sério. Estávamos viajando para tocar o poder e as coisas tinham de ser perfeitas.

 

A idéia de caminhar no deserto sem sapatos me assustou incrivelmente. Dom Juan disse, pilheriando, que minha família provavelmente era do tipo de fazendeiros que não tiravam os sapatos nem para ir para a cama. Ele tinha razão, é claro. Eu nunca andara descalço e caminhar no deserto sem sapatos teria sido um suicídio para mim.

 

— Este deserto está cheio de poder — cochichou Dom Juan em meu ouvido. — Não há tempo de ser tímido.

 

Recomeçamos a andar. Dom Juan manteve uma velocidade razoável. Depois de algum tempo, reparei que tínhamos deixado o terreno duro e estávamos caminhando na areia macia. Os pés de Dom Juan afundavam nela e deixavam pegadas fundas.

 

Caminhamos várias horas antes de Dom Juan fazer uma parada. Não parou de repente, avisando-me antes que ia fazê-lo, evitando que esbarrasse nele. O terreno estava duro de novo e parecia-me que estávamos subindo uma ladeira.

 

Dom Juan disse que, se eu precisasse ir ao mato, que fosse, uma vez que, daí em diante, teríamos um bom pedaço, sem nenhuma parada. Olhei para o relógio; era uma hora da manhã.

 

Depois de um descanso de uns dez ou quinze minutos, Dom Juan determinou que eu me alinhasse e recomeçamos a andar. Ele tinha razão, foi um bom pedaço. Eu nunca havia feito nada que exigisse tamanha concentração. O passo de Dom Juan era tão rápido e a tensão de vigiar cada passo chegou a tais extremos que, em certo momento, eu nem notava mais que estava andando. Não sentia os pés nem as pernas. Era como se estivesse andando no ar e alguma força me estivesse carregando sempre para a frente. Minha concentração fora tão total que não reparei na mudança gradativa da luz. De repente, percebi que podia ver Dom Juan na minha frente. Via os pis dele e suas pegadas, em vez de praticamente adivinhar, como eu fizera a noite toda.

 

Num dado momento, ele inesperadamente saltou para um lado e meu impulso ainda me levou por mais uns 20 metros. Quando diminuí a marcha, minhas pernas ficaram fracas e começaram a tremer, até que acabei caindo por terra.

 

Levantei os olhos para Dom Juan, que me estava examinando calmamente. Ele não parecia estar cansado. Eu estava ofegante e banhado em suor frio.

 

Dom Juan virou-me na minha posição deitada, puxando-me pelo braço. Disse que, se eu quisesse recuperar minhas forças, teria de deitar-me com a cabeça virada para leste. Pouco a pouco, fui relaxando e repousando meu corpo dolorido. Por fim, tive suficiente energia para me pôr de pé. Quis olhar para o relógio, mas ele me impediu, pondo a mão sobre meu pulso. Com muita delicadeza, ele me virou para olhar para leste e disse que não havia necessidade de meu maldito relógio, que estávamos num tempo mágico e que íamos descobrir com certeza se eu era ou não capaz de procurar o poder.

 

Olhei em volta. Estávamos no topo de um morro muito grande c alto. Eu queria andar até uma coisa que parecia com uma borda ou uma fenda na rocha, mas Dom Juan deu um salto e me deteve.

 

Mandou imperiosamente que eu ficasse no lugar em que tinha caído até que o Sol aparecesse por detrás de uns picos negros de montanhas, não longe dali.

 

Apontou para o leste e chamou minha atenção para uma pesada formação de nuvens no horizonte. Disse que seria um bom presságio se o vento soprasse as nuvens a tempo de os primeiros raios do Sol tocarem meu corpo em cima do morro.

 

Disse-me que ficasse quieto, com minha perna direita para a frente, como se eu estivesse andando, e que não fitasse diretamente o horizonte, mas que olhasse sem focalizar a vista.

 

Minhas pernas ficaram muito duras e a barriga da perna doía. Era uma posição agonizante e os músculos de minhas pernas estavam muito doloridos para me sustentar. Agüentei o quanto pude. Já estava a ponto de cair. Minhas pernas tremiam incontrolavelmente, quando Dom Juan desistiu de tudo aquilo. Ele me ajudou a sentar-me.

 

A formação de nuvens não se tinha movido e nós não tínhamos visto o Sol surgindo no horizonte. Dom Juan unicamente comentou:

 

— Que pena.

 

Eu não quis perguntar logo quais eram as implicações de meu fracasso, mas, conhecendo Dom Juan, estava certo de que ele tinha de seguir os ditames de seus presságios. E não houvera nenhum presságio naquele dia. A dor de minhas pernas desapareceu e senti uma onda de bem-estar. Comecei a trotar, para soltar os músculos. Dom Juan disse-me, muito baixinho, para subir um morro vizinho e apanhar umas folhas de um determinado arbusto e esfregar minhas pernas, para aliviar a dor muscular.

 

De onde eu estava, via claramente um arbusto grande c verde. As folhas pareciam estar muito úmidas. Eu já as usara. Nunca achei que me haviam ajudado, mas Dom Juan sempre afirmava que o efeito de plantas realmente amigas era tão sutil que a pessoa quase não o notava e, no entanto, elas sempre produziam os resultados devidos.

 

Desci correndo um dos morros e subi o outro. Quando cheguei ao topo, vi que o esforça quase fora demais para mim. Tive dificuldade em tomar fôlego e estava enjoado. Agachei-me e depois me debrucei um pouco, até me sentir relaxado. Então, levantei-me e quis pegar as folhas que ele tinha sugerido. Mas não encontrei o arbusto. Olhei em volta. Eu tinha certeza de estar no lugar certo, mas naquele lugar do cume do morro não havia nada que se assemelhasse nem vagamente àquela determinada planta. No entanto, aquele tinha de ser o ponto em que eu a vira, Qualquer outro lugar estaria fora do campo de visão de alguém olhando de onde Dom Juan havia observado.

 

Desisti da busca e voltei para o outro morro. Dom Juan sorriu com indulgência, quando expliquei meu engano.

 

— Por que o chama de engano? — perguntou.

 

— Obviamente, o arbusto não está lá — disse eu.

— Mas você o viu, não foi?

 

— Pensei que sim.

 

— O que está vendo no lugar dele agora?

 

— Nada.

 

Não havia absolutamente nenhuma vegetação no ponto em que eu pensava ter visto a planta. Tentei explicar o que eu vira como uma distorção de óptica, uma espécie de miragem. Eu estava realmente exausto e, devido a meu cansaço, poderia facilmente ter pensado ver alguma coisa que eu esperava que estivesse ali, mas que não estava ali de todo.

 

Dom Juan deu uma risada baixinho, e ficou-me fitando por um momento.

 

— Não vejo engano algum — disse ele. — A planta está lá no topo do morro.

 

Foi minha vez de rir. Examinei o lugar todo com cuidado. Não havia aquelas plantas à vista e o que eu tinha tido era, no meu entender, uma alucinação.

 

Dom Juan muito calmamente começou a descer o morro e fez sinal para que eu o acompanhasse. Subimos juntos o outro morro a ficamos bem no lugar onde eu pensava ter visto o arbusto.

 

Eu ria com a certeza absoluta de que estava certo. Dom Juan também sorria.

 

— Vá até o outro lado do morro — falou Dom Juan. — Lá encontrará a planta.

Argumentei que o outro lado do morro tinha estado fora de meu campo de visão, que podia haver uma planta lá, mas que isso não queria dizer nada.

 

Dom Juan me fez um sinal com a cabeça para acompanhá-lo. Foi rodeando o morro até o topo, em vez de subir diretamente, e, de forma teatral, postou-se ao lado de um arbusto verde, sem olhar para ele. Virou-se e olhou para mim. Era um olhar estranhamente penetrante.

 

— Deve haver centenas de plantas como esta, por aqui — falei. Dom Juan, com muita paciência, desceu o outro lado do morro, e eu atrás. Procuramos um arbusto semelhante por toda parte, mas não havia nenhum à vista. Percorremos uns 500 metros até encontrarmos outra planta.

 

Sem dizer uma palavra. Dom Juan me levou de volta ao primeiro cume de morro. Ficamos ali por um momento e, em seguida, ele me levou em outra excursão para procurar a planta, mas na direção oposta. Varremos a área e encontramos mais dois arbustos, talvez a um quilômetro e meio de distância. Eles tinham crescido juntos e se destacavam como uma mancha de um verde rico e intenso, mais luxuriante do que todos os arbustos vizinhos. Dom Juan olhou para mim com uma expressão séria. Eu não sabia o que pensar daquilo.

 

— Isso é um presságio muito estranho — disse ele. Voltamos ao cume do primeiro morro, fazendo uma volta grande, para que nos pudéssemos aproximar dele de uma nova direção. Parecia estar fazendo questão de me mostrar que havia muito poucas plantas daquelas por ali. Não encontramos nenhuma no caminho. Quando chegamos ao topo do morro, sentamo-nos num silêncio total. Dom Juan desamarrou suas cabaças.

 

— Você se sentirá melhor depois que comer — falou.

 

Ele não conseguia esconder sua satisfação. Estava com um imenso sorriso, e me deu um tapinha na cabeça. Eu me sentia desorientado. Os novos acontecimentos eram perturbadores, mas eu estava por demais faminto e cansado para realmente pensar neles.

 

Depois que comi, senti muito sono. Dom Juan disse-me que usasse a técnica de olhar sem focalizar para encontrar um ponto bom para dormir no cume do morro em que eu tinha visto o arbusto.

 

Escolhi um lugar. Apanhou os detritos daquele ponto a com eles fez um círculo do tamanho do meu corpo. Com muita delicadeza, puxou uns galhos frescos dos arbustos e varreu a área dentro do círculo. Só fez os movimentos de varrer, pois não chegava a tocar a terra com os galhos. Em seguida, tirou todas as pedras superficiais da área dentro do círculo e colocou-as no centro, depois de separá-las meticulosamente em dois montes de número igual.

 

— O que está fazendo com essas pedras? — perguntei.

 

— Não são pedras — disse ele. — São cordões. Vão conservar seu ponto suspenso.

 

Ele pegou as pedras menores e marcou com elas a circunferência do círculo. Espaçou-as muito regularmente e, com o auxílio de um pau, prendeu cada pedra firmemente no chão, como se fosse um pedreiro.

 

Não me deixou entrar no círculo, e disse que eu andasse em volta dele e olhasse o que ele estava fazendo. Contou 18 pedras, seguindo uma direção contrária aos ponteiros do relógio.

 

— Agora, corra para a base do morro e espere — disse ele. — E eu vou até à borda para ver se você está no lugar certo.

 

— O que vai fazer?

— Vou atirar cada um desses cordões para você — disse ele, apontando para o monte de pedras maiores. — E você terá de colocá-los na terra no ponto que eu indicar, da mesma maneira que eu coloquei as outras.

 

“Você deve ter um cuidado infinito. Quando a gente lida com o poder, tem de ser perfeito. Aqui, os erros são fatais. Cada uma destas é um cordão, um cordão que nos pode matar, se o deixarmos por aí à solta; de modo que você não pode ter erros. Tem de fixar o olhar no ponto em que vou atirar o cordão. Se você se distrair com qualquer coisa que seja, o cordão se tornará uma pedra comum e você não conseguirá distingui-la das outras pedras por aí.”

 

Sugeri que seria mais fácil se eu carregasse os "cordões" para baixo do morro um de cada vez. Dom Juan riu e meneou a cabeça.

 

— Elas são cordões — insistiu. — Têm de ser atirados por mim e têm de ser apanhados por você.

 

Levamos horas para fazer esse trabalho. O grau de concentração necessário era extremo. Dom Juan me lembrava a toda hora para ser atento e focalizar meu olhar. E tinha razão em fazê-lo. Pegar uma certa pedra que vinha despencando morro abaixo, deslocando outras pedras no caminho, era realmente uma coisa de enlouquecer.

 

Depois de fechar o círculo completamente e subir o morro, pensei em cair morto. Dom Juan tinha pegado uns galhinhos e feito um emaranhado no círculo. Entregou-me umas folhas e disse que as pusesse por dentro das calças, encostadas à pele de minha região umbilical. Falou que elas me conservariam quente, e eu não precisaria de um cobertor para dormir. Enfiei-me dentro do círculo. Os galhos faziam uma cama relativamente macia e eu adormeci logo.

 

Já era de tardinha quando acordei. O dia era ventoso e nublado. As nuvens estavam compactas, nuvens de cúmulos; porém, para oeste, eram finas nuvens cirros, e o Sol brilhava de vez em quando.

 

O sono me renovara. Sentia-me revigorado e feliz. O vento não me incomodava. Mão estava com frio. Levantei a cabeça com o braço e olhei em volta. Eu não havia reparado ainda, mas o topo do morro era bem alto. A vista para oeste era impressionante. Eu via uma vasta área de morros baixos e depois o deserto. Havia uma cadeia de picos de montanhas marrom escuro para o norte e leste, e, para o sul, uma extensão interminável de terra, morros e montanhas azuis à distância.

 

Sentei-me. Dom Juan não estava à vista. Tive um medo repentino. Achei que ele podia ter-me deixado ali sozinho e eu não sabia voltar para meu carro. Deitei-me de novo no emaranhado de galhos e, estranhamente, minha apreensão sumiu. Tornei a ter uma sensação de tranqüilidade, um raro senso de bem-estar. Era uma sensação inteiramente nova para mim; meus pensamentos pareciam ter sido desligados. Eu estava feliz. Sentia-me saudável. Uma exuberância muito tranqüila me enchia. Um vento suave soprava do oeste e varria todo meu corpo, sem me provocar frio. Eu o sentia no rosto e em volta das orelhas, como uma onda suave de água tépida que me banhava e recuava, e depois me banhava novamente. Era um estranho estado de ser que não tinha paralelo em minha vida ativa e desajustada. Comecei a chorar, não de tristeza ou autocomiseração, mas de alguma alegria inefável e inexplicável.

 

Eu queria ficar naquele ponto para sempre e poderia ter ficado, se Dom Juan não tivesse chegado e me arrancado dali.

 

— Basta de descansar — disse ele, puxando-me para que me levantasse.

 

Levou-me muito calmamente para dar uma volta pela periferia do topo do morro. Caminhamos devagar e inteiramente calados. Ele parecia estar interessado em me fazer observar a paisagem em volta de nós. Apontava para as nuvens e as montanhas com um movimento dos olhos ou do queixo.

 

A paisagem, naquele fim de tarde, era magnífica. Evocava em mim sensações de assombro e desespero. Lembrava-me de cenas de minha infância.

 

Subimos ao ponto mais alto do morro, um pico de rocha ígnea, e nos sentamos confortavelmente encostados na pedra, virados para o sul. A extensão infinita de terras para o sul era realmente majestosa.

 

— Fixe tudo isso em sua memória — cochichou Dom Juan em meu ouvido. — Esse ponto é seu. Hoje de manhã você viu, e foi este o presságio. Você encontrou este ponto vendo, O presságio foi inesperado, mas aconteceu, Você vai caçar poder, quer queira, quer não. Não é uma decisão humana, nem sua nem minha.

 

"Agora, a dizer a verdade, este cume de morro é o seu lugar, seu lugar querido; tudo que está em volta de você está sob seus cuidados. Você tem de cuidar de tudo aqui e, em compensação, tudo cuidará de você.”

 

De brincadeira, perguntei se tudo era meu. Ele disse que sim, num tom muito sério. Eu ri e disse-lhe que o que estávamos fazendo me lembrava de como os espanhóis que conquistaram o Novo Mundo dividiram as terras em nome do seu rei. Subiam ao cume de uma montanha e reivindicavam todas as terras que pudessem ver em uma determinada direção.

 

— É uma boa idéia — disse ele. — Vou-lhe dar todas as terras que você puder ver, e não apenas em uma direção, mas em volta de você. — Levantou-se e apontou com sua mão estendida, virando o corpo para completar um círculo. — Toda essa terra é sua — falou.

 

Eu ri bem alto. Ele deu uma risada e me perguntou:

— Por que não? Por que não lhe posso dar essas terras?

 

— Você não é proprietário dessas terras — disse eu.

 

— E daí? Os espanhóis tampouco as possuíam e, no entanto, as dividiram e as doaram. Portanto, por que você também não pode tomar posse delas?

 

Examinei-o para ver se conseguia perceber o verdadeiro estado de espírito por detrás do sorriso dele. Ele deu uma gargalhada e quase caiu da pedra.

 

— Todas essas terras, até onde você possa enxergar, são suas. — continuou, ainda sorrindo. — Não para utilizar, mas para recordar. Esse cume de morro, contudo, é seu para utilizar para o resto de sua vida. Estou-lhe dando isso porque você mesmo o encontrou. É seu. Aceite-o.

 

Eu ri, mas Dom Juan parecia estar falando muito sério. A não ser por seu sorriso engraçado, ele parecia acreditar mesmo que me podia dar aquele pico de morro.

 

— Por que não? — perguntou, como se lesse meus pensamentos.

 

— Aceito-o — disse eu, jocosamente. O sorriso dele desapareceu. Apertou os olhos, ao fitar-me.

 

— Cada rocha, pedra e arbusto neste morro, especialmente no topo, estão sob seus cuidados — falou. — Cada verme que vive aqui é seu, amigo. Pode utilizá-los e eles podem utilizá-lo.

 

Ficamos calados por um momento. Meus pensamentos' eram anormalmente escassos. Senti vagamente que a repentina mudança no estado de espírito dele me ameaçava, mas não estava com medo, nem apreensivo. Eu apenas não queria mais falar. Por algum motivo, as palavras pareciam inadequadas e seu significado, difícil de precisar. Eu nunca me sentira assim com respeito a conversas e, ao perceber meu estado de espírito estranho, comecei depressa a falar.

 

— Mas o que posso fazer com esse morro, Dom Juan?

 

— Fixe em sua memória todas as suas imagens. É a este lugar que você virá ao sonhar. É o lugar onde você encontrará os poderes, onde os segredos um dia lhe serão revelados.

 

“Você está caçando poder e é este o seu lugar, o lugar onde você armazenará seus recursos”.

 

"Não faz sentido para você agora. Portanto, deixe que, por enquanto, seja uma tolice.”

 

Descemos da pedra e ele me conduziu para uma pequena depressão em forma de cuba, do lado oeste do topo do mono. Nós nos sentamos e comemos ali.

 

Sem dúvida havia alguma coisa de indescritivelmente agradável para mim naquele topo de morro. Comer, como repousar, era uma sensação rara e desconhecida.

 

A luz do Sol poente tinha um brilho rico, quase de cobre, e tudo nas vizinhanças parecia ter uma tonalidade dourada. Eu estava totalmente entregue a observar a paisagem; nem queria pensar.

 

Dom Juan falou-me quase num sussurro. Disse-me que reparasse em todos os detalhes do ambiente, por pequenos ou triviais que fossem. Especialmente as características da paisagem mais em evidência na direção oeste. Disse que eu devia olhar para o Sol, sem focalizar a visão, até ele desaparecer no horizonte.

 

Os últimos minutos de luz, bem antes do Sol tocar num manto de nuvens baixas de névoa, foram, num sentido total, magníficos. Era como se o Sol estivesse incendiando a terra, acendendo-a como uma fogueira. Senti uma sensação de vermelhidão em meu rosto,

 

— Levante-se! — gritou Dom Juan, puxando-me.

 

Ele deu um salto para se afastar de mim e mandou, numa voz imperiosa, mas urgente, que eu trotasse no ponto em que estava de pé.

 

Enquanto corria no mesmo lugar, comecei a sentir um calor invadindo meu corpo. Era um calor acobreado. Eu o sentia no céu da boca e no "teto" de meus olhos. Era como se a parte superior de minha cabeça estivesse ardendo com um fogo frio que irradiava um brilho acobreado.

 

Algo dentro de mim me fazia trotar cada vez mais depressa, quando o Sol começou a desaparecer. Num dado momento, senti realmente que eu era tão leve que podia alçar vôo. Dom Juan, com muita firmeza agarrou meu pulso direito. A sensação causada pela pressão da mão dele me devolveu um sentido de sobriedade e compostura. Lancei-me ao chão e ele sentou-se a meu lado.

 

Depois de alguns minutos de descanso, ele se levantou calmamente, deu um tapinha em meu ombro e fez sinal para eu segui-lo. Tornamos a subir ao pico da rocha ígnea onde nos tínhamos sentado 'antes. A rocha nos protegia do vento frio. Dom Juan rompeu o silêncio.

 

— Foi um belo presságio — disse ele. — Que estranho! Aconteceu no fim do dia. Você e eu somos muito diferentes. Você é mais uma criatura da noite. Prefiro o brilho jovem da manhã. Ou melhor, o brilho do Sol da manhã me procura, mas foge de você. Por outro lado, o Sol poente o banhou. Suas chamas o fustigaram sem queimá-lo. Que estranho!

 

— Por que é estranho?

 

— Nunca vi isso acontecer. O presságio, quando ocorre, tem sido sempre no reino do Sol jovem.

 

— Por que é assim, Dom Juan?

 

— Não é hora de falar nisso — respondeu, rispidamente. — Saber é poder. Leva muito tempo para dominar poder suficiente para sequer poder falar a respeito.

 

Eu quis insistir, mas ele mudou de assunto bruscamente. Perguntou do meu progresso em "sonhar".

 

Eu tinha começado a sonhar com lugares determinados, como a escola e as casas de uns amigos.

 

— Você estava nesses lugares de dia ou de noite? — perguntou.

 

Meus sonhos correspondiam à hora do dia em que eu normalmente estava habituado a estar naqueles lugares: na escola, de dia; e nas casas dos amigos, de noite.

 

Sugeriu que eu podia tentar "sonhar" enquanto cochilava durante o dia, verificando se eu conseguia visualizar o lugar escolhido como era na hora em que eu estava "sonhando", Se eu estivesse "sonhando" de noite, minhas visões do local deviam ser da noite. Falou que o que a pessoa experimenta "sonhando" tem de ser congruente com a hora do dia em que o "sonhar" se realiza; senão as visões que se podem ter não são "sonhar" e sim sonhos comuns.

 

— Para se' ajudar, deve escolher um objeto específico que pertence ao lugar aonde você quer ir e focalizar sua atenção nele — continuou. — Nesse topo de morro aqui, por exemplo, você agora tem um arbusto específico que deve observar até ele ter um lugar em sua memória. Você pode voltar aqui enquanto sonhar, simplesmente recordando aquele arbusto, ou recordando esta pedra onde estamos sentados, ou recordando qualquer outra coisa aqui. É mais fácil viajar sonhando quando se pode focalizar num lugar de poder, como este. Mas se você não quiser vir aqui, pode usar qualquer outro lugar. Talvez a escola que você freqüenta seja um lugar de poder para você. Use-a. Focalize sua atenção em qualquer objeto lá e depois encontre-o sonhando.

 

“Do objeto específico que você recordar, deve voltar para as suas mãos e depois para outro objeto, e assim por diante”.

 

“Mas, agora, deve focalizar sua atenção sobre tudo o que existe nesse topo de morro, pois este é o lugar mais importante de sua vida. — Olhou para mim, como que a julgar o efeito de suas palavras. — Este é o lugar em que você morrerá — disse ele, em voz baixa. Eu me remexi, nervoso, mudando de posição, e ele sorriu”.

 

“Terei de vir com você muitas vezes a este morro — falou. — depois você terá de vir sozinho, até ficar saturado dele, até o morro estar exsudando você. Saberá quando estiver repleto dele. Esse topo de morro, como está agora, será então o local de sua última dança.”

 

— O que quer dizer com minha última dança, Dom Juan?

 

— É este o lugar de sua última posição — disse ele. — Você morrerá aqui, não importa onde esteja. Todos os guerreiros têm um lugar onde morrer. Um lugar de sua predileção, encharcado de recordações inesquecíveis, onde acontecimentos poderosos deixaram sua marca, um lugar em que ele presenciou maravilhas, onde os segredos lhe foram revelados, um lugar em que ele armazenou seu poder.

“Um guerreiro tem a obrigação de voltar àquele lugar de sua predileção cada vez que toca o poder, a fim de armazená-lo ali. Ou ele vai lá caminhando ou sonhando”.

 

“E por fim, no dia em que termina seu prazo de estada na terra e ele sente o toque da morte em seu ombro esquerdo, seu espírito, que está sempre pronto, voa para o lugar de sua predileção e ali o guerreiro dança até à sua morte”.

           

“Cada guerreiro tem uma forma específica, uma postura de poder específica, que ele desenvolve durante sua vida. É um tipo de dança. Um movimento que ele executa sob a influência de seu poder pessoal”.

 

"Se um guerreiro agonizante tem um poder limitado, sua dança é curta; se seu poder for grandioso, sua dança é magnífica. Mas, quer seu poder seja pequeno ou imenso, a morte tem de parar para -assistir à sua última posição na terra. A morte não pode alcançar o guerreiro que está contando a luta de sua vida pela última vez, até ele terminar sua dança. "

 

As palavras de Dom Juan me deram um calafrio. A quietude, o crepúsculo, a paisagem magnífica, tudo parecia estar colocado ali como cenário para a imagem da última dança de poder do guerreiro.

 

— Pode ensinar-me essa dança, apesar de eu não ser guerreiro? — perguntei.

 

— Qualquer homem que caça poder tem de aprender essa dança — disse ele. — E, no entanto, não lhe posso ensinar, agora. Em breve, você poderá ter um adversário digno e então eu lhe mostrarei o primeiro movimento do poder. Tem de acrescentar os outros movimentos por si, com o correr da vida. Cada movimento novo tem de ser obtido numa luta de poder. Assim, a bem dizer, a postura, a forma de um guerreiro, é a história de sua vida, uma dança que aumenta à medida que ele cresce em poder pessoal.

 

— A morte pára mesmo para ver um guerreiro dançar?

 

— Um guerreiro é apenas um homem. Um homem humilde. Ele não pode modificar os desígnios de sua morte. Mas seu espírito impecável, que armazenou o poder depois de privações tremendas, certamente pode deter sua morte por um momento, um momento suficientemente longo para deixá-lo regozijar-se pela última vez ao recordar seu poder. Podemos dizer que é um gesto que a morte tem para com aqueles que possuem um espírito impecável.

 

Senti uma ansiedade imensa e falei só para aliviá-la. Perguntei-lhe se ele conhecia guerreiros que tivessem morrido e de que maneira sua última dança afetara a morte deles.

 

— Pare com isso — retrucou, secamente. — Morrer é um negócio monumental. É mais do que esticar as pernas e ficar duro.

 

— Também dançarei em minha morte, Dom Juan?

 

— Por certo. Você está caçando poder pessoal, embora ainda não viva como guerreiro. Hoje, o Sol lhe deu um presságio. A melhor parte do trabalho de sua vida será efetuada no final do dia. Evidentemente, você não gosta do brilho jovem da primeira luz. Viajar de manhã não lhe agrada, Mas seu tipo é o Sol poente, amarelo-enveIhecido, e maduro. Você não gosta do calor, só do brilho.

 

"E assim, dançará a sua morte aqui, em cima deste morro, no fim do dia. E em sua última dança contará de sua luta, das batalhas que venceu e as que perdeu; contará suas alegrias e perplexidades ao encontrar o poder pessoal. Sua dança lhe contará os segredos e as maravilhas que você armazenou. E sua morte ficará aqui sentada, assistindo.

"O Sol poente brilhará sobre você sem queimá-lo, como fez hoje. O vento será suave e o topo do morro tremerá, Quando você chegar ao fim de sua dança, olhará para o Sol, pois nunca mais o verá, desperto ou sonhando, e então sua morte apontará para o sul. Para a vastidão.”

 

O passo do poder

 

Sábado, 8 de abril de 1962

 

— A morte é um personagem, Dom Juan? — perguntei, sentando-me na varanda.

 

O olhar dele revelava confusão. Dom Juan estava segurando um saco de mantimentos que eu lhe trouxera. Com cuidado, ele o colocou no chão e sentou-se defronte de mim. Senti-me encorajado e expliquei que queria saber se a morte era uma pessoa, ou como uma pessoa, quando assistia à última dança de um guerreiro.

 

— Que diferença faz? — perguntou.

 

Eu lhe disse que a imagem era fascinante para mim e eu queria saber como é que ele chegara a isso. Como ele sabia que se passava assim.

 

— É tudo muito simples — respondeu, — Um homem de conhecimento sabe que a morte é a última testemunha porque ele vê.

 

— Quer dizer que você já testemunhou em pessoa a última dança de um guerreiro?

 

— Não, Uma pessoa não pode ser testemunha assim. Sã a morte pode fazer isso. Mas eu já vi minha própria morte me espiando e já dancei nessa ocasião, como se estivesse morrendo. No fim de minha dança, a morte não apontou em direção alguma, e meu lugar predileto não estremeceu, despedindo-se de mim. Por isso, meu tempo na terra ainda não expirou e eu não morri. Quando tudo isso aconteceu, eu tinha um poder limitado e não entendia os desígnios de minha morte, por isso acreditei estar morrendo.

 

— Sua morte era como uma pessoa?

 

— Você é um sujeito engraçado. Acha que vai entender fazendo perguntas. Não creio, mas quem sou eu para dizer?

 

“A morte não é como uma pessoa. É mais uma presença. Mas também se poderia dizer que ela não é nada e, no entanto, é tudo. E ambas as coisas estarão certas. A morte é o que se queira”.

 

"Fico a vontade com as pessoas, de modo que a morte para mim é uma pessoa. Também sou dado a mistérios, de modo que a morte tem olhos ocos para mim. Sei olhar através deles. São como duas janelas e, no entanto, se movem, como se movem os olhos. E assim posso dizer que a morte, com seus olhos ocos, olha para o guerreiro enquanto ele dança pela última vez na terra.”

 

— Mas isso é só para você, Dom Juan, ou é o mesmo para os outros guerreiros?

 

— É o mesmo para todos os guerreiros que tenham uma dança de poder e, no entanto, não é. A morte assiste à última dança de um guerreiro, mas a maneira pela qual o guerreiro vê sua morte é um assunto pessoal. Podia ser qualquer coisa... um pássaro, uma luz, uma pessoa, um arbusto, uma pedra, um pedaço de névoa, ou uma presença desconhecida.

 

As imagens de morte de Dom Juan me perturbavam. Eu não encontrava palavras adequadas para exprimir minhas perguntas e gaguejei. Ficou olhando para mim, sorrindo, e me encorajou a falar.

 

Perguntei-lhe se a maneira pela qual o guerreiro via sua morte dependia da maneira como fora educado. Usei os índios yumas e yaquis como exemplos. Minha própria idéia era de que a cultura determinava o modo pelo qual a pessoa veria a morte.

 

— Não importa como se é criado — disse ele. — O que determina a maneira de se fazer qualquer coisa é o poder pessoal. O homem é apenas a soma de seu poder pessoal, e essa soma determina como ele vive e como morre.

 

— O que é o poder pessoal?

 

— O poder pessoal é um sentimento — respondeu. — Uma coisa como ter sorte. Ou pode-se chamá-lo de um estado de espírito. O poder pessoal é uma coisa que a pessoa adquire sem considerações de sua origem. Já lhe disse que um guerreiro é um caçador de poder, e que lhe estou ensinando a caçá-lo e armazená-lo. A dificuldade com você, que é a mesma com todos nós, é a de se convencer. Precisa acreditar que o poder pessoal pode ser usado e que é possível armazená-lo, mas até agora ainda não se convenceu.

 

Respondi que ele tinha vencido e que eu estava tão convencido quanto possível. Ele riu.

 

— Não é esse o tipo de convicção de que estou falando — disse ele. Bateu em meu ombro, dando dois ou três soquinhos de leve, e acrescentou, com uma risada: — Não me precisa agradar, sabe.

 

Senti-me na obrigação de lhe assegurar de que estava falando sério.

 

— Não duvido — disse ele. — Mas estar convencido significa que você pode agir sozinho. Ainda terá de se esforçar muito para fazer isso. Ainda falta muita coisa por fazer. Você está apenas começando.

 

Calou-se por um momento. Sua fisionomia adquiriu uma expressão de placidez.

— É engraçado como, às vezes, você me faz lembrar eu mesmo — continuou. — Eu também não queria seguir o caminho do guerreiro. Achava que todo esse trabalho era sem significação, e, como todos vamos morrer, que diferença faria para mim ser guerreiro? Eu estava enganado. Mas tive de descobrir isso sozinho. No dia em que você compreender que está enganado, e que certamente faz muita diferença, poderá dizer que está convencido. E então pode seguir sozinho. E sozinho, poderá até tornar-se um homem de conhecimento.

 

Pedi que ele explicasse o que queria dizer por homem de conhecimento.                                                                      

 

— Um homem de conhecimento é aquele que seguiu fielmente as provações do aprendizado — disse ele. — Um homem que, sem se precipitar nem se deter, foi tão longe quanto possível para decifrar os segredos do poder pessoal.

 

Discutiu o conceito em termos sucintos e depois abandonou-o, como tema de conversa, dizendo que eu só me devia preocupar com a idéia de armazenar poder pessoal.

 

— Isso é incompreensível — protestei. — Não posso mesmo imaginar o que você está pretendendo.

 

— Caçar poder é um fato estranho — retrucou. — Primeiro tem de ser uma idéia e depois tem de ser organizado, passo a passo, e depois, bum! Acontece.

 

— Como é que acontece?

 

Dom Juan levantou-se. Começou a esticar os braços e a arquear as costas como um gato. Seus ossos, como sempre, estalaram todos.

 

— Vamos — disse ele. — Temos uma longa viagem pela frente.

— Mas há tantas coisas que lhe quero perguntar — falei.

 

— Vamos para um lugar de poder — falou, entrando na casa.

 

— Por que não guarda suas perguntas para quando estivermos lá? Pode ser que haja oportunidade de conversar.

 

Pensei que íamos de carro, de modo que me levantei e me dirigi para o automóvel, mas Dom Juan me chamou da casa e disse que pegasse minha rede com as cabaças. Estava-me esperando à beira do chaparral do deserto atrás da casa dele.

 

Temos de andar depressa — disse ele.

 

 Chegamos às encostas mais baixas da Sierra Madre Ocidental por volta das três da tarde. O dia fora quente, mas, no fim da tarde, o vento esfriou. Dom Juan sentou-se numa pedia e me fez sinal para fazer o mesmo.

 

— O que vamos fazer aqui desta vez, Dom Juan?

 

— Você sabe muito bem que estamos aqui para caçar poder.

 

— Sei disso. Mas o que vamos fazer neste lugar, em especial?

 

— Você sabe que eu não tenho a menor idéia.

 

— Quer dizer que nunca segue um plano?

 

— Caçar poder é um negócio muito esquisito — explicou. — Não há possibilidade de se planejar com antecedência. É por isso que é tão emocionante. Porém, um guerreiro procede como se tivesse um plano, porque confia em seu poder pessoal. Sabe com certeza que esse poder o fará agir da maneira mais correta.

Observei que as afirmações dele eram um tanto contraditórias. Se um guerreiro já possuía poder pessoal, para que o estava caçando?

 

Dom Juan ergueu as sobrancelhas e fez um gesto de pretenso aborrecimento.

 

— É você quem está caçando poder pessoal — disse ele, — E eu sou o guerreiro que já o possui. Perguntou-me se eu tinha um plano e eu disse que confio em meu poder pessoal para me orientar e que não preciso de ter um plano.

 

Ficamos calados por algum tempo e depois recomeçamos a caminhar. As encostas eram muito íngremes e escalá-las era muito difícil e fatigante para mim. Mas parecia que a resistência de Dom Juan não tinha limites, Ele não corria nem se apressava. Seus passos eram firmes e incansáveis. Reparei que ele não estava nem transpirando, mesmo depois de ter subido uma ladeira enorme e quase vertical. Quando alcancei o cume, Dom Juan já estava lá, esperando-me. Quando me sentei ao lado dele, senti que meu coração estava preste a estourar no peito. Deitei-me de costas e o suor escorria de minha testa.

 

Dom Juan riu muito e me rolou para um lado c outro. O movimento me ajudou a recuperar o fôlego. Falei que estava simplesmente assombrado com suas façanhas físicas.              

 

— Há muito tempo que estou tentando chamar sua atenção para elas — disse ele.

 

— Você não é nada velho!

 

— Claro que não. Estive tentando fazer você notar isso,

 

— Como é que você consegue?

— Não faço nada. Meu corpo se sente bem, só isso. Eu me cuido muito e, portanto, não tenho motivo para me sentir cansado ou mal disposto. O segredo reside não no que você faz consigo, mas no que você não faz.

 

Esperei uma explicação. Ele parecia estar ciente de minha incapacidade de entender. Sorriu com um ar matreiro e levantou-se.

 

— Este é um lugar de poder — disse ele. — Descubra um lugar para acamparmos aqui em cima deste morro.

 

Comecei a protestar. Queria que ele explicasse o que eu não devia fazer com meu corpo. Ele fez um gesto imperioso.

 

— Basta de papo — disse ele, baixinho. — Desta vez, limite-se a agir, para variar. Não importa quanto tempo você leve para encontrar um lugar adequado para descansar. Pode levar a noite toda. Também não é importante que você encontre o ponto; o importante é você tentar encontrá-lo.

 

Larguei meu bloco e levantei-me. Dom Juan lembrou-me, como já fizera inúmeras vezes, sempre que me pedia para encontrar um lugar de repouso, de que eu tinha de procurar sem focalizar em nenhum ponto determinado, apertando os olhos até minha visão ficar turva.

 

Comecei a andar, examinando o terreno de olhos semicerrados. Dom Juan andava um pouco à minha direita e para trás de mim.

 

Primeiro, cobri a periferia do cume da colina. Minha intenção era caminhar numa espiral até o centro. Mas depois que eu cobri a circunferência do cume do morro, Dom Juan me fez parar.

 

Disse que eu estava permitindo que minha preferência pela rotina me dominasse. Num tom sarcástico, acrescentou que eu certamente estava cobrindo a área toda sistematicamente, mas de uma maneira tão automatizada que eu não conseguiria perceber o lugar adequado. Falou ainda que ele mesmo sabia onde ficava, de modo que não havia nenhuma possibilidade de eu improvisar.

 

— Então, o que devo fazer? — perguntei.

 

Dom Juan me fez sentar. Depois, pegou uma única folha de vários arbustos e deu-as para mim. Mandou que eu me deitasse de costas, afrouxasse o cinto e colocasse as folhas de encontro à pele em minha região umbilical. Supervisionou meus atos e mandou que eu apertasse as folhas contra o corpo com ambas as mãos. Em seguida, mandou que eu fechasse os olhos e me avisou que, se eu quisesse resultados perfeitos, não deveria largar as folhas, nem abrir os olhos, nem tentar sentar-me quando ele mudasse meu corpo para uma posição de poder.

 

Agarrou-me por debaixo do braço direito e me fez girar. Tive um desejo invencível de espiar pelas pálpebras semicerradas, mas Dom Juan pôs a mão sobre meus olhos. Mandou que eu só me ocupasse com a sensação de calor que viria das folhas.

 

Fiquei imóvel por um momento e depois comecei a sentir um calor estranho emanando das folhas. Primeiro, eu o senti com as palmas de minhas mãos; depois, o calor estendeu-se a meu abdômen, e por fim invadiu praticamente todo meu corpo. Dentro de alguns minutos, meus pés ardiam com um calor que me lembrava as ocasiões em que eu tinha tido febre alta.

 

Descrevi a Dom Juan a sensação desagradável e que eu queria tirar os sapatos. Ele disse que me ia ajudar a levantar-me, que eu não devia abrir os olhos até ele me mandar e que devia continuar a apertar as folhas a meu estômago, até encontrar um bom lugar para repousar.

 

Quando me pus de pé, ele me cochichou no ouvido que devia abrir os olhos e caminhar sem um plano, deixando que o poder das folhas me puxasse e me guiasse.

 

Comecei a andar a esmo. O calor de meu corpo era incômodo. Eu acreditava que estava com muita febre, e fiquei absorto tentando imaginar de que jeito Dom Juan produzira aquilo.

 

Ele caminhava atrás de mim. De repente, soltou um grito que quase me deixou paralisado. Explicou, rindo, que os ruídos abruptos espantam os espíritos nocivos. Apertei os olhos e caminhei para um lado e outro por uma meia hora. Nesse intervalo, o calor incômodo de meu corpo se transformara num calorzinho agradável. Tive uma sensação de leveza, ao andar pelo cume do morro. Mas fiquei desapontado; esperava, por algum motivo, perceber algum tipo de fenômeno visual, mas não havia qualquer modificação na periferia de meu campo de visão, nem cores fora do comum, nem clarão nem massas escuras.

 

Por fim, fiquei cansado de apertar os olhos e os abri. Eu estava de pé diante de uma pequena saliência de arenito, que era um dos poucos lugares rochosos sem vegetação do cume da colina; o resto era de terra, com pequenos arbustos espaçados. Parecia que a vegetação tinha queimado algum tempo antes e os novos brotos ainda não estavam plenamente amadurecidos. Por algum motivo desconhecido, achei que a saliência de arenito era linda. Fiquei diante dela por muito tempo. E depois, simplesmente, sentei-me sobre ela.

 

— Bem! Bem! — falou Dom Juan, dando-me um tapinha nas costas.

Depois, disse-me para puxar as folhas com cuidado de debaixo de rainha roupa e colocá-las na pedra. Assim que afastei as folhas de minha pele, comecei a esfriar. Tomei meu pulso. Parecia estar normal.

 

Dom Juan riu e chamou-me de "Dr, Carlos", pedindo-me para tomar o pulso dele. Disse que o que eu tinha sentido era o poder das folhas e que aquele poder me esclarecera e me possibilitara fazer meu trabalho.

 

Afirmei, com toda a sinceridade, que não tinha feito nada de especial, e que me sentei naquele lugar porque estava cansado e porque achava a cor do arenito muito bonita.

 

Dom Juan não disse nada. Estava de pé a pouca distância de mim. De repente, deu um pulo para trás e, com uma agilidade incrível, correu e saltou por cima de uns arbustos para uma alta crista de uma rocha a certa distância.

 

— O que é que há? — perguntei, alarmado.

 

— Veja em que direção o vento vai soprar as suas folhas — disse ele. — Conte-as rapidamente. O vento está chegando. Guarde a metade e torne a colocá-las junto de sua barriga.

 

Contei vinte folhas. Enfiei dez debaixo da camisa e, depois, uma forte rajada de vento espalhou as outras dez numa direção para oeste. Tive uma sensação esquisita, ao observar as folhas sendo sopradas, de que uma entidade real estava propositadamente varrendo-as para a massa amorfa dos arbustos verdes.

 

Dom Juan voltou para onde eu estava e sentou-se junto de mim, à minha esquerda, virado para o sul.

 

Não trocamos uma palavra, por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. Estava exausto, Queria fechar os olhos, mas não ousava. Dom Juan deve ter notado meu estado e disse que eu podia dormir. Disse-me que colocasse as mãos sobre o abdômen, por cima das folhas, e que tentasse sentir que estava deitado suspenso na cama de "cordões" que ele me havia feito no "lugar de minha predileção". Fechei os olhos, e uma recordação da paz e plenitude que eu experimentara ao dormir naquele outro cume de colina me invadiu. Eu queria descobrir se podia mesmo sentir que estava suspenso, mas adormeci.

 

Acordei pouco antes do pôr-do-sol. O sono me refrescara e revigorara. Dom Juan também dormira. Abriu os olhos ao mesmo tempo que eu. O dia estava ventoso, mas eu não sentia frio. As folhas na minha barriga pareciam ter agido como uma fornalha, um aquecedor de algum tipo.

 

Examinei as vizinhanças. O lugar que eu escolhera para descansar parecia uma bacia pequena. A pessoa podia sentar-se nela como num sofá comprido; havia uma parede rochosa que servia de encosto. Descobri também que Dom Juan tinha trazido meus blocos e os colocara sob minha cabeça.

 

— Encontrou o lugar certo — disse ele, sorrindo. — E tudo se passou como eu lhe disse. O poder o guiou para cá sem qualquer plano de sua parte.

 

— Que espécie de folhas você me deu? — perguntei. O calor que se irradiou das folhas e me conservou num estado tão confortável, sem cobertas ou roupas grossas, foi realmente um fenômeno absorvente para mim.

 

— Eram apenas folhas — respondeu ele.

 

— Quer dizer que eu podia pegar folhas de qualquer arbusto e elas teriam o mesmo efeito sobre mim?

 

— Não. Não quero dizer que você mesmo possa fazer isso. Não tem poder pessoal. Afirmo, apenas, que qualquer tipo de folhas o ajudaria, desde que a pessoa que as desse a você tivesse poder. O que o ajudou hoje não foram as folhas, e sim o poder.

 

— O seu poder, Dom Juan?

 

— Suponho que se possa dizer que foi o meu poder, embora isso não seja precisamente certo. O poder não pertence a ninguém. Alguns de nós podem juntá-lo e depois ele pode ser dado diretamente a outra pessoa. A chave para o poder armazenado é que ele só pode ser utilizado para ajudar outra pessoa a armazenar poder.

 

Perguntei-lhe se isso significava que o poder dele se limitava apenas a ajudar os outros. Dom Juan explicou pacientemente que ele podia utilizar o poder pessoal dele como quisesse, em tudo o que ele próprio quisesse, mas quando se tratava de dá-lo diretamente a outra pessoa, era inútil, a não ser que aquela pessoa o utilizasse para soa própria busca de poder pessoal.

 

— Tudo o que o homem faz depende de seu poder pessoal — continuou. — Portanto, para aqueles que não tem nenhum, os feitos de um homem poderoso são incríveis. É preciso poder para apenas conceber o que é o poder. é isso que tenho sempre tentado dizer-lhe, Mas sei que você não compreende, não porque não queira, mas porque tem muito pouco poder pessoal.

 

— O que devo fazer, Dom Juan?

 

— Nada. Continue assim. O poder há de encontrar um jeito. Levantou-se e virou-se, num círculo completo, olhando para tudo que nos cercava. O corpo dele se movia ao mesmo tempo que os olhos; o efeito total era o de um brinquedo mecânico que girasse num círculo completo num movimento preciso e inalterado.

 

Olhei para ele, boquiaberto. Escondeu um sorriso, ciente de meu espanto.

 

— Hoje. você vai caçar poder nas trevas do dia — disse ele, sentando-se

— Hoje à noite você vai aventurar-se naqueles morros desconhecidos. No escuro, não são morros.

 

— O que são?

 

— São outra coisa. Uma coisa inimaginável para você, pois nunca presenciou a existência deles.

 

— O que quer dizer, Dom Juan? Sempre me assusta com essas conversas misteriosas.

 

Ele riu e me chutou a perna de leve.

 

— O mundo é um mistério — falou. — E não é nada como você o imagina. — Pareceu refletir por um momento. Sua cabeça sacudiu para cima e para baixo, ritmadamente. Depois, ele sorriu e disse: — Bem, também é como você imagina, mas não é só isso, o mundo; é muito mais do que isso. Você já vem descobrindo tal fato há tempos, e talvez hoje à noite acrescente mais uma peça.

 

O tom dele me deu um calafrio.

 

— O que está pretendendo fazer? — perguntei.

 

— Não planejo nada. Tudo é resolvido pelo mesmo poder que permitiu que você encontrasse esse ponto.

 

Dom Juan levantou-se e apontou para alguma coisa à distância. Supus que ele quisesse que eu me levantasse para olhar. Tentei erguer-me de um salto, mas, antes de me levantar completamente, Dom Juan me empurrou para baixo com toda a força.

 

— Não lhe disse para me seguir — falou, numa voz severa. Depois, abrandou o tom e acrescentou: — Você vai ter uma noite difícil, e vai precisar de todo o poder pessoal que puder conseguir. Fique onde está e poupe-se para mais tarde.

 

Explicou que não estava apontando para nada, mas apenas se certificando de que certas coisas estavam lá. Assegurou-me de que estava tudo bem e disse que eu devia ficar sentado quieto e tratar da vida, pois tinha muito tempo para escrever antes de ficar tudo escuro. O sorriso dele era contagioso e muito tranqüilizador.

 

— Mas o que vamos fazer, Dom Juan?

 

Sacudiu a cabeça de um lado para outro, num gesto exagerado de descrença.

 

— Escreva! — comandou ele, dando-me as costas.

 

Não havia mais nada a fazer. Trabalhei em meus apontamentos até ficar escuro demais para escrever.

 

Dom Juan permaneceu na mesma posição o tempo todo em que fiquei trabalhando. Parecia estar absorto, contemplando a distância para o lado do oeste. Mas assim que parei, ele se virou para mim e disse, em tom de brincadeira, que as únicas maneiras de me fazer calar a boca eram me dar o que comer, ou me fazer escrever ou me pôr para dormir.

 

Pegou um embrulhinho de sua mochila e abriu-o, como um ritual. Continha pedaços de carne-seca. Entregou-me um pedaço e pegou outro para si e começou a mastigá-lo. Informou-me, com naturalidade, que era comida de poder, de que ambos necessitávamos naquela ocasião. Eu estava com fome demais para pensar na possibilidade de a carne-seca conter alguma substância psicotrópica. Comemos num silêncio total, até acabar a carne, e então já estava bem escuro.

Dom Juan levantou-se e esticou os braços e as costas. Sugeriu que eu fizesse o mesmo. Disse que era boa prática esticar o corpo todo depois de dormir, ficar sentada ou caminhar.

 

Segui o conselho dele e algumas das folhas que eu conservava debaixo da camisa escorregaram pelas pernas de minhas calças. Eu não sabia se devia tentar apanhá-las, mas ele falou para eu não me incomodar, que não havia mais necessidade delas e eu devia deixar que caíssem à vontade.

 

Então, Dom Juan chegou muito perto de mim e cochichou em meu ouvido direito que eu devia segui-lo muito de perto e imitar tudo quanto ele fizesse. Disse que nos encontrávamos a salvo naquele ponto porque estávamos, por assim dizer, à beira da noite.

 

— Isso não é a noite — cochichou ele, batendo os pés na pedra onde estávamos. — A noite é lá fora. — E apontou para a escuridão que nos cercava.

 

Depois, inspecionou minha sacola de rede para ver se as cabaças de comida e meus blocos estavam presos; e, em voz baixa, disse que o guerreiro sempre verifica que esteja tudo em ordem, não porque acredite que sobreviva à prova por que vai passar, mas porque isso faz parte de seu procedimento impecável.

 

Em vez de me aliviar, suas advertências me deram a certeza absoluta de que meu fim se aproximava. Tive vontade de chorar. Eu tinha certeza de que Dom Juan estava plenamente ciente do efeito de suas palavras.

 

— Confie em seu poder pessoal — falou, em meu ouvido. — É isso tudo o que temos neste inundo misterioso.

 

Puxou-me de leve e começamos a caminhar. Tomou a dianteira, alguns passos à minha frente. Eu o acompanhava com os olhos fixos no chão. Por algum motivo, não tinha vontade de olhar em volta, e focalizar meu olhar no chão me dava uma estranha calma; aquilo quase me hipnotizava.

 

Depois de uma caminhada curta, Dom Juan parou. Cochichou que a escuridão total se aproximava e que ele ia na minha frente, mas que me daria sua posição imitando o pio de uma certa coruja. Lembrou-me de que eu já sabia que sua imitação especial era rouca no princípio e depois se tornava suave como o pio de uma coruja de verdade. Avisou-me para estar prevenido contra os pios de outras corujas que não tivessem essa característica.

 

Quando Dom Juan acabou de me dar todas essas instruções, eu estava praticamente em pânico. Agarrei-o pelo braço e não o queria largar. Levei dois ou três minutos para me acalmar o suficiente para poder pronunciar as palavras. Um tremor nervoso corria pelo meu estômago e abdômen, impedindo-me de falar coerentemente.

 

Numa voz calma e baixa, disse-me para eu me controlar, pois a escuridão era como o vento, uma entidade desconhecida à solta, que poderia pegar-me se eu não tivesse cuidado. E eu tinha de ser inteiramente calmo para poder lidai com ele.

 

— Você deve entregar-se, para seu poder pessoal poder fundir-se com o poder da noite — falou, em meu ouvido. Depois, explicou que ia passar à minha frente; e tive outro acesso de um medo irracional.

 

— Mas isto é loucura — protestei.

 

Dom Juan não ficou zangado nem impaciente. Riu baixinho e sussurrou uma coisa em meu ouvido que eu não entendi bem.

 

— O que foi que você disse? — perguntei alto, os dentes batendo.

 

Dom Juan tapou minha boca com a mão e disse, cochichando, que um guerreiro agia como se soubesse o que estava fazendo, quando, na verdade, não sabia nada. Repetiu uma frase três ou quatro vezes, como se quisesse que eu a decorasse. Falou:

 

— Um guerreiro é impecável quando confia em seu poder pessoal, sem considerar que ele seja pequeno ou grande.

 

Pouco depois, perguntou-me se eu estava bem. Fiz sinal que sim e ele rapidamente desapareceu de vista, sem qualquer ruído.

 

Tentei olhar em volta. Eu parecia estar num lugar com uma vegetação cerrada. Só conseguia distinguir a massa escura de arbustos, ou talvez pequenas árvores. Concentrei minha atenção nos ruídos, mas não havia nada de extraordinário. O uivar do vento abafava todos os outros sons, a não ser pios esporádicos e penetrantes de grandes corujas e de outras aves.

 

Esperei um pouco, com a maior atenção. E então ouvi o pio rouco e prolongado de uma corujinha. Eu não tinha dúvida de que fosse Dom Juan. Vinha de um lugar atrás de mim. Virei-me e comecei a caminhar naquela direção. Movimentava-me devagar, porque me sentia inexplicavelmente atrapalhado na escuridão.

 

Caminhei por uns dez minutos. De repente, uma massa escura saltou em minha frente. Dei um grito e caí sentado. Meus ouvidos começaram a zunir. O susto foi tão grande que cheguei a perder o fôlego. Tive de abrir a boca para respirar.

 

— Levante-se — disse Dom Juan, baixinho. — Não tive intenção de assustá-lo. Só vim encontrá-lo.

Falou que tinha estado observando minha maneira idiota de andar e que, quando eu me movia no escuro, parecia uma velha aleijada tentando andar na ponta dos pés entre poças d'água. Achou aquela imagem engraçada e riu bem alto.

 

Depois, passou a demonstrar uma maneira especial de caminhar no escuro, uma maneira que ele chamava "o passo do poder". Inclinou-se diante de mim e me fez passar as mãos pelas costas e joelhos dele, para ter uma idéia da posição de seu corpo. O tronco de Dom Juan estava ligeiramente inclinado para a frente, mas sua espinha permanecia reta. Os joelhos, também, postavam-se ligeiramente dobrados.

 

Andou devagar na minha frente, para eu poder observar que ele levantava os joelhos quase até o peito cada vez que dava um passo. E depois, ele chegou a correr e sumir de vista, retornando em seguida. Eu não podia imaginar como é que ele podia correr na escuridão total.

 

— O passo do poder é para correr de noite — cochichou, em meu ouvido.

 

Ele disse que eu o experimentasse. Falei que tinha certeza de que ia quebrar as pernas caindo numa fenda ou batendo em alguma pedra. Dom Juan, muito calmamente, disse que o "passo do poder" era inteiramente seguro.

 

Repliquei que o único meio de eu compreender seus atos era supor que ele conhecesse aqueles morros a perfeição; evitando", assim, os obstáculos. Dom Juan pegou minha cabeça em suas mãos e cochichou com veemência:

 

— É noite! E ela é poder!

 

Largou minha cabeça e depois disse, baixinho, que, de noite, o mundo era diferente, e que sua capacidade de correr no escuro nada tinha a ver com seu conhecimento daqueles morros. Falou que a chave para aquilo era deixar o poder pessoal correr livremente, para poder fundir-se com o poder da noite, e que uma vez que o poder tomasse conta, não haveria hipótese de um deslize. Acrescentou, num tom muito sério, que, se eu duvidasse, que pensasse um momento no que estava acontecendo. Para um homem da idade dele correr por aqueles morros àquela hora seria suicídio, se o poder da noite não o estivesse guiando.

 

— Olhe! — disse ele; e correu rapidamente para dentro da escuridão, retornando em seguida.

 

A maneira de ele mover o corpo era tão extraordinária que eu não podia acreditar no que via. Ele parecia trotar no mesmo lugar por um momento. Seu modo de levantar as pernas me lembrava um corredor fazendo seus exercícios preliminares para aquecer-se.

 

Então, ele me disse que o seguisse. Eu o fiz com o maior constrangimento e inquietação. Com um cuidado enorme, tentava olhar onde pisava, mas era impossível calcular a distância. Dom Juan voltou e trotou a meu lado. Cochichou que eu tinha de me entregar ao poder da noite e confiar no pouco poder pessoal que eu tinha, senão eu nunca conseguiria mover-me com liberdade e que a escuridão só me atrapalhava porque eu confiava na minha visão para tudo o que fazia, sem saber que outra maneira de me mover era deixar que o poder fosse o guia.

 

Experimentei várias vezes, sem sucesso. Eu simplesmente não me conseguia largar. O medo de machucar minhas pernas era imenso. Dom Juan mandou que eu continuasse a me mover no mesmo lugar e tentar sentir como se estivesse realmente usando o "passo do poder".

 

Depois, ele disse que ia correr na minha frente e que eu devia esperar seu pio de coruja. Desapareceu na escuridão antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Fechei os olhos e trotei no mesmo lugar, com os joelhos e o tronco dobrados, talvez por uma hora. Pouco a pouco, minha tensão começou a diminuir, até eu ficar razoavelmente à vontade. Então, ouvi o pio de Dom Juan.

Corri uns cinco ou seis metros na direção de onde vinha o grito, procurando "entregar-me", conforme sugerira Dom Juan. Mas quando tropecei num arbusto, minha sensação de insegurança logo voltou.

 

Dom Juan estava-me esperando e corrigiu minha postura. Insistiu em que eu devia primeiro enroscar os dedos contra as palmas das mãos, esticando o polegar e o indicador de cada mão. Depois, disse que, em sua opinião, eu só estava cedendo a meus sentimentos de inaptidão, pois eu sabia muito bem que podia sempre ver razoavelmente, por mais escura que fosse a noite, se eu não focalizasse os olhos em nada e ficasse examinando o chão bem defronte de mim. O "passo do poder" era semelhante a procurar um lugar para descansar. Ambos exigiam um sentido de abandono e de confiança. O "passo do poder" exigia que a pessoa ficasse com os olhos grudados no chão, diretamente em frente, pois o menor olhar para o lado acarretaria uma alteração no fluxo do movimento. Explicou que inclinar o tronco para a frente era necessário a fim de baixar a vista e o motivo para levantar os joelhos até o peito era que os passos tinham de ser muito curtos e seguros. Avisou-me de que eu ia tropeçar muito a princípio, porém explicou que, com a prática, eu poderia correr tão depressa e em segurança quanto de dia.

 

Durante horas procurei imitar seus movimentos e ficar no estado de espírito recomendado por ele. Com muita paciência, ele trotava no mesmo lugar na minha frente, ou então partia numa corrida curta e voltava para onde eu estava, para eu observar como ele se movimentava. Chegava a me empurrar para me fazer correr alguns metros.

 

Depois, ele sumiu e me chamou com uma série de pios de coruja. Inexplicavelmente, movimentei-me com uma confiança inesperada. Ao que eu soubesse, eu não tinha feito nada que justificasse essa sensação, mas meu corpo parecia ter ciência das coisas sem pensar nelas. Por exemplo, eu não via propriamente as pedras afiadas em minha frente, mas meu corpo sempre conseguia pisar nas beiradas e nunca nas feridas, a não ser acidentalmente, quando eu me desequilibrei por me haver distraído. O grau de concentração necessário para ficar examinando a área bem defronte tinha de ser total. Conforme Dom Juan me avisara, qualquer olhar para o lado ou muito para a frente alterava o fluxo.

 

Depois de uma longa busca, localizei Dom Juan. Ele estava sentado junto de umas formas escuras que se assemelhavam a árvores. Veio em minha direção e disse que eu estava indo muito bem, mas que estava na hora de parar parque ele já estava usando o assobio dele havia muito tempo e estava certo de que, àquela altura, já podia ser imitado por outros.

 

Concordei que estava na hora de parar, Eu estava quase exausto com meus esforços. Senti um alívio e perguntei-lhe quem iria imitar o grito dele.

 

— Poderes, aliados, espíritos, quem sabe? — disse ele, num sussurro.

 

Explicou que aqueles "entes da noite" geralmente faziam sons muito melodiosos, mas levavam desvantagem para reproduzir a dissonância dos gritos ou assobios humanos. Advertiu-me de que sempre parasse de me mover quando ouvisse um som desses e que, habitualmente, conservasse em mente tudo o que ele dissera, pois, em alguma outra ocasião, eu poderia ter de fazer a devida identificação. Num tom tranqüilizador, falou que eu já tinha uma boa idéia do que fosse o "passo do poder" e que, para dominá-lo, eu só precisava de mais um empurrãozinho, que eu poderia levar em outra ocasião em que nos aventurássemos novamente dentro da noite. Deu-me um tapinha no ombro e declarou que estava pronto para partir.

 

— Vamos sair daqui — disse ele; e começou a correr.

 

— Espere! Espere! — gritei, freneticamente. — Vamos caminhar.

 

Dom Juan parou e tirou o chapéu.

 

— Puxa! — disse ele, num tom de perplexidade. — Estamos numa sinuca. Você sabe que não sei andar no escuro. Só sei correr. Se eu andar, vou quebrar as pernas.

 

Eu tinha a impressão de que ele estava sorrindo quando disse aquilo, apesar de não poder ver o rosto dele.

 

Acrescentou, num tom confidencial, que estava velho demais para andar e que o pouquinho do "passo do poder" que eu aprendera naquela noite tinha de servir para a eventualidade.

 

— Se não usarmos o "passo do poder", seremos ceifados como grama — cochichou ele em meu ouvido.

 

— Por quem?

 

— Há coisas na noite que agem sobre as pessoas — murmurou, num tom que me deu calafrios.

 

Disse que não era importante eu ficar junto dele, porque ia dar sinais repetidos de quatro pios de coruja de cada vez, para eu poder acompanhá-lo.

 

Sugeri que ficássemos naqueles morros até o amanhecer e então partíssemos. Ele retrucou, num tom muito dramático, que ficar ali seria suicídio; e mesmo que saíssemos com vida, a noite teria esgotado nosso poder pessoal a ponto de não podermos evitar sermos vítimas do primeiro risco do dia.

 

— Não vamos mais perder tempo — disse ele, com uma nota de urgência na voz. — Vamos sair daqui.                       

 

Garantiu-me de que tentaria ir o mais devagar possível. Suas instruções finais foram para eu não dar um pio, acontecesse o que acontecesse. Deu-me a direção geral aonde íamos e começou a se movimentar bem mais devagar. Eu o segui, mas, por mais devagar que ele se movesse, não conseguia acompanhá-lo, e ele desapareceu nas trevas.

 

Após ficar sozinho, verifiquei que estava andando bem rapidamente, sem o perceber. E isso foi um choque para mim. Tentei conservar aquele ritmo por muito tempo e, depois, ouvi o pio de Dom Juan, um pouco à minha direita. Ele assobiou quatro vezes seguidas.

 

Depois de muito pouco tempo, ouvi de novo seu pio de coruja, dessa vez a minha extrema direita. Para poder segui-lo tive de dar uma volta de 45 graus. Comecei a mover-me nessa nova direção, esperando que os três outros pios da série me dessem uma orientação melhor.

 

Ouvi um novo assobio, que colocava Dom Juan quase na direção de onde vínhamos. Parei e escutei. Ouvi um ruído muito forte a certa distância. Alguma coisa como duas pedras batendo uma na outra. Esforcei-me para ouvir e percebi uma série de barulhinhos, como se duas pedras estivessem sendo batidas de leve. Ouvi outro pio de coruja e então notei o que Dom Juan queria dizer. Havia alguma coisa realmente melodiosa nele. Era positivamente mais prolongado e ainda mais musical do que o de uma coruja de verdade.

 

Tive uma estranha sensação de medo. Meu estômago contraiu-se como se alguma coisa me estivesse puxando do meto do meu corpo. Virei-me e comecei a semitrotar na direção oposta.

 

Ouvi um vago pio de coruja à distância. Houve uma sucessão rápida de mais três pios. Eram de Dom Juan. Corri naquela direção. Senti que ele devia estar a uns 500 metros e, se ele mantivesse aquela velocidade, em breve eu estaria inexplicavelmente só naqueles morros. Não podia compreender por que Dom Juan queria correr na frente, quando podia correr em volta de mim, se precisava manter aquele ritmo.

Então, reparei que parecia haver alguma coisa se movendo comigo à minha esquerda. Eu quase podia vê-la, na periferia extrema de meu campo visual. Já ia entrando em pânico, mas uma idéia calmante me passou pela cabeça. Eu não podia ver nada nó escuro. Queria olhar naquela direção mas tive medo de perder o impulso.

 

Outro pio de coruja me sacudiu de minhas meditações. Vinha da minha esquerda. Não o acompanhei porque era, sem dúvida, o canto mais doce e melodioso que eu já ouvira na vida. Mas não me assustou. Havia algo de muito atraente, ou provocante, ou mesmo triste nele.

 

Neste momento, uma massa escura muito veloz atravessou em minha frente, da esquerda para a direita. Seus movimentos repentinos me fizeram olhar para a frente, perdi o equilíbrio e bati ruidosamente de encontro a uma moita. Caí de lado e então ouvi o pio melodioso a alguns passos à minha esquerda. Levantei-me, mas antes de poder avançar de novo ouvi outro grito, mais possante do que o primeiro. Era como se alguma coisa ali quisesse que eu parasse para escutar. O som do pio da coruja era tão prolongado e suave que dissipou meus temores. Eu teria chegado a parar se, naquele preciso momento, não tivesse ouvido os quatro pios ásperos de Dom Juan. Pareciam estar mais próximos. Dei um salto e parti naquela direção.

 

Depois de um momento, tornei a notar um certo clarão ou onda na escuridão à minha esquerda. Não era propriamente uma coisa vista, mas antes uma sensação, e no entanto eu estava quase seguro de o estar percebendo com os olhos. Movia-se mais depressa do que eu e tornou a atravessar da esquerda para a direita, fazendo-me perder o equilíbrio. Dessa vez não caí e, estranhamente, fiquei aborrecido por isso. De repente, fiquei zangado, e a incongruência de meus sentimentos me lançou num verdadeiro pânico. Tentei acelerar minha marcha. Queria dar um pio de coruja, eu também, para fazer Dom Juan saber onde eu estava, mas não ousava desobedecer às instruções dele.

 

Naquele momento, uma coisa horrível me chamou a atenção. Havia realmente alguma coisa como um animal à minha esquerda, quase me tocando. Involuntariamente, dei um salto e virei para a direita. O susto quase me sufocou. Eu estava tão intensamente aguilhoado pelo medo que não tinha nenhum pensamento na cabeça, ao me mover no escuro o mais depressa que podia. Meu medo parecia ser uma sensação orgânica, que não tinha nada a ver com meus pensamentos. Achei aquilo muito fora do comum. Em toda minha vida, meus temores sempre tinham uma base numa matriz intelectual e tinham sido provocados por situações sociais ameaçadoras, ou por pessoas procedendo para comigo de maneira perigosa. Dessa vez, porém, meu medo foi uma verdadeira novidade. Vinha de uma parte desconhecida do mundo e me atingiu numa parte desconhecida de mim mesmo.

 

Ouvi um pio de coruja muito perto e um pouco à minha esquerda. Não peguei os detalhes do som, porém parecia ser de Dom Juan, Não era melodioso. Diminuí a marcha. Seguiu-se outro pio. Ouvi a aspereza dos assobios de Dom Juan, de modo que acelerei. Um terceiro assobio veio de perto. Eu distinguia uma massa de rochas, ou talvez árvores. Ouvi outro pio de coruja e pensei que Dom Juan me estivesse esperando porque estávamos fora da zona de perigo. Eu estava quase na borda da área mais escura, quando um quinto pio me fez gelar onde estava. Esforcei-me para ver adiante na área escura, mas um súbito farfalhar à minha esquerda me fez virar a tempo de ver um objeto preto, mais preto que o resto, rodando ou deslizando a meu lado. Soltei uma exclamação e saltei para longe. Ouvi um som característico, como se alguém estivesse estalando os lábios, e depois uma massa escura muito grande saiu da área escura. Era quadrada, como uma porta, e tinha talvez uns dois metros e meio ou três metros.

 

Sua aparição tão repentina me fez gritar. Por um momento, meu susto não teve tamanho, mas um segundo depois eu estava assombrosamente calmo, olhando para a forma escura.

 

Minhas reações, no que me dizia respeito, foram outra novidade total. Uma parte de mim mesmo parecia impelir-me para a área escura com uma insistência misteriosa, enquanto que outra parte de mim resistia. Era como se eu quisesse descobrir com certeza, por um lado, e por outro eu quisesse correr dali histericamente,

 

Eu mal ouvi os pios de coruja de Dom Juan. Pareciam estar muito próximos e frenéticos; eram mais longos e ásperos, como se ele estivesse assobiando enquanto corria em minha direção.

 

De repente, parece que consegui controlar-me e virar; e, por um momento, corri, justamente como Dom Juan queria que eu fizesse.

 

— Dom Juan! — gritei, quando o encontrei.

 

Ele tapou minha boca com a mão e me fez sinal para acompanhá-lo e nós dois trotamos num ritmo cômodo até chegarmos à saliência de pedra onde tínhamos estado antes.

 

Ficamos sentados na pedra num silêncio absoluto por mais ou menos uma hora, até o amanhecer. Então, comemos a comida das cabaças. Dom Juan disse que tínhamos de ficar na saliência até o meio-dia, e que não íamos dormir, e sim conversar como se não houvesse nada de anormal.

 

Pediu-me para contar com detalhes tudo o que me acontecera desde o momento em que me deixou. Quando terminei a narração, ele ficou calado por muito tempo. Parecia estar afundado em seus pensamentos.

 

— Não parece que as coisas estejam muito bem — disse ele, por fim. — O que lhe aconteceu ontem à noite foi grave, tão grave que você não pode mais aventurar-se sozinho na noite. De hoje em diante, os estes da noite não o deixarão em paz.

 

— O que me aconteceu ontem à noite, Dom Juan?

 

— Encontrou por acaso uns entes que existem no mundo, e que agem sobre as pessoas. Você não sabe nada a respeito deles porque nunca os encontrou. Talvez fosse mais próprio chamá-los de entes das montanhas; não pertencem realmente à noite. Eu os chamo entes da noite porque nós os percebemos no escuro mais facilmente. Estão aqui, em volta de nós, a todas as horas. De dia, porém, é mais difícil percebe-los, simplesmente porque o mundo nos é conhecido, e aquilo que é conhecido tem precedência. No escuro, ao contrário, tudo é igualmente estranho e muito poucas coisas têm precedência, de modo que somos mais suscetíveis a esses entes de noite.

 

— Mas eles são reais, Dom Juan?

 

— Claro! São tão reais, que normalmente eles matam as pessoas, especialmente as que se perdem no mato e não têm poder pessoal.

 

— Se você sabia que eles eram tão perigosos, por que me deixou ali sozinho?

 

— Só há um meio de aprender... e este é fazendo as coisas. Só falar do poder não adianta. Se você quer saber o que é o poder, e se quer armazená-lo, tem de tratar de tudo você mesmo.

 

"O caminho para o conhecimento e o poder é muito difícil e muito longo. Você pode ter notado que não o deixei aventurar-se no escuro sozinho até ontem à noite. Não tinha suficiente poder para isso. Agora, você tem o suficiente para travar uma boa batalha, mas não para ficar sozinho no escuro.”

 

— O que aconteceria se eu ficasse?

 

— Você morreria. Os entes da noite o esmagariam como a um inseto.

— Isso significa que eu não posso passar uma noite sozinho?

 

— Pode passar a noite sozinho na cama, mas não nas montanhas.

 

— E as planícies?

 

— Isso só se aplica ao mato, onde não há pessoas em volta, especialmente o mato das altas montanhas. Como a morada natural dos entes da noite são as rochas e fendas, de agora em diante você não pode ir às montanhas, a não ser que tenha armazenado suficiente poder pessoal,

 

— Mas de que modo posso armazenar poder pessoal?

 

— Você o está fazendo vivendo da maneira que eu recomendei. Pouco a pouco, está tapando todos seus pontos de drenagem. Não precisa ser metódico nisso, pois o poder sempre dá um jeito. Veja meu exemplo. Eu não sabia que estava armazenando poder quando comecei a aprender as maneiras de um guerreiro. Como você, eu achava que não estava fazendo nada de especial, mas não era assim. O poder tem a peculiaridade de passar despercebido quando está sendo armazenado.

 

Pedi que explicasse como ele chegara à conclusão de que era perigoso para mim ficar sozinho no escuro.

 

— Os entes da noite se moveram à sua esquerda — disse ele, — Estavam procurando fundir-se com sua morte. Especialmente a porta que você viu. Era uma abertura, sabe, e o teria puxado, até você ser obrigado a transpô-la. E isso teria sido seu fim.

 

Mencionei a circunstância de que eu achava muito estranho que as coisas sempre acontecessem quando ele estaca por perto, e que parecia que era ele quem preparava todos os fatos. As ocasiões em que eu estivera sozinho no mato de noite tinham sempre sido perfeitamente normais e sem acidentes. Eu nunca vira sombras nem ruídos estranhos. Na verdade, eu nunca me assustara com coisa alguma.

 

Dom Juan deu uma risada baixinho e disse que tudo era prova de que ele tinha suficiente poder pessoal para convocar mil coisas em seu auxílio.

 

Tive a impressão de que ele, talvez, estivesse sugerindo que tinha realmente convocado algumas pessoas como seus colaboradores. Dom Juan pareceu ler meus pensamentos e riu alto.

 

— Não se canse com explicações — falou. — O que eu disse não tem sentido para você, simplesmente porque ainda não possui suficiente poder pessoal. No entanto, tem mais do que quando começou, de modo que as coisas estão começando a lhe acontecer. Já teve um possante encontro com a névoa e os raios. Não é importante que você compreenda o que lhe aconteceu naquela noite. O importante é que você adquiriu a recordação daquilo. A ponte e tudo o mais que você viu naquela noite um dia se repetirão, quando você tiver suficiente poder pessoal.

 

— Com que finalidade tudo aquilo se repetirá, Dom Juan?

 

— Não sei. Não sou você. Só você pode responder a isso. Somos todos diferentes. Foi por isso que tive de deixá-lo sozinho ontem à noite, apesar de saber que era mortalmente perigoso; você tinha de se pôr à prova contra aqueles entes. O motivo pelo qual escolhi o pio da coruja foi porque essas aves são os mensageiros dos entes. Imitar o pio da coruja os faz aparecer. Eles se tornaram perigosos para você não porque sejam naturalmente malévolos, mas porque você não era impecável. Há alguma coisa muito fantasista em você, e eu sei o que é. Só me está fazendo a vontade. Você tem feito a vontade de todo mundo sempre, é claro, e isso o coloca automaticamente acima de todos e de tudo. Mas você mesmo sabe que não pode sei assim. É apenas um homem e sua vida é muito curta para compreender todas as maravilhas e todos os horrores deste mundo deslumbrante. Portanto, essa sua atitude de querer agradar é falsa; ela o reduz a uma dimensão mesquinha.

 

Eu queria protestar. Dom Juan me pegara, como já o fizera dúzias de vezes. Por um momento, fiquei zangado. Mas, como já tinha acontecido antes, quando comecei a escrever desliguei-me o suficiente, ficando impassível.

 

— Acho que tenho uma cura para isso — continuou ele, depois de um longo intervalo. — Até você concordaria comigo se se lembrasse do que fez ontem à noite. Correu tão depressa quanto qualquer feiticeiro, somente quando seu adversário se tornou insuportável. Nós dois sabemos disso e acredito que já encontrei um adversário valoroso para você.

 

— O que vai fazer, Dom Juan?

 

Não deu resposta. Levantou-se e esticou o corpo. Parecia contrair todos os músculos. Mandou que eu fizesse o mesmo.

 

— Você deve esticar o corpo muitas vezes durante o dia — disse ele. — Quanto mais vezes, melhor, mas somente depois de um longo período de trabalho ou de repouso.

 

— Que tipo de adversário você vai encontrar para mim? — perguntei.

 

— Infelizmente, só os nossos semelhantes são nossos adversários valorosos — respondeu. — Outros entes não têm vontade própria e a gente precisa ir encontrá-los e atraí-los. Nossos semelhantes humanos, porém, são inclementes.

 

Já conversamos muito — falou, abruptamente, virando-se para mim. — Antes de partirmos, você tem de fazer mais uma coisa, a mais importante de todas. Vou-lhe dizer uma coisa agora, para você estar descansado quanto ao motivo por que está aqui O motivo por que você continua a vir me ver é muito simples: cada vez que esteve comigo, seu corpo aprendeu certas coisas, mesmo contra seu desejo. E, afinal, seu corpo agora precisa de voltar para mim, para aprender mais. Digamos que seu corpo sabe que vai morrer, embora você nunca pense nisso. Assim, eu estive contando a seu corpo que também eu vou morrer e, antes de morrer, eu gostaria de mostrar a seu corpo algumas coisas, as quais você mesmo não lhe pode dar. Por exemplo, seu corpo precisa do temor. Gosta disso. Seu corpo precisa do escuro e do vento. Seu corpo agora conhece o passo do poder e mal pode esperar para experimentá-lo. Seu corpo precisa do poder e mal pode esperar para experimentá-lo. Seu corpo precisa do poder pessoal e mal pode esperar para tê-lo. Portanto, digamos que seu corpo volta para me ver porque eu sou amigo dele.

 

Dom Juan ficou calado por muito tempo. Parecia estar lutando cora seus pensamentos.

 

— Já lhe disse que o segredo de um corpo forte não está no que você faz com ele, mas no que não lhe faz — falou, por fim. — Agora, chegou a hora de você não fazer o que faz sempre. Fique aqui sentado até partirmos e não faça.

 

— Não estou entendendo, Dom Juan.

 

Pôs as mãos sobre meus apontamentos e os tirou de mim. Cuidadosamente, fechou as páginas de meu caderno, prendeu-o com seu elástico e depois atirou-o como um disco dentro do chaparral.

 

Fiquei chocado e comecei a protestar, mas ele tapou minha boca com a mão. Apontou para um arbusto grande e disse-me que fixasse a atenção não nas folhas, mas nas sombras das folhas. Disse que correr no escuro não precisava de ser provocado pelo temor, e podia ser uma reação muito natural de um corpo jubilante que sabia o que "não fazer". Ficou repetindo em meu ouvido direito que "não fazer o que eu sabia como fazer" era a chave do poder. No caso de olhar para uma árvore, o que eu sabia como fazer era focalizar imediatamente a folhagem. As sombras das folhas ou os espaços entre as folhas nunca me ocupavam. Suas últimas advertências foram para começar a focalizar as sombras das folhas de um único galho e depois, aos poucos, passar a toda a árvore e não deixar que meus olhos voltassem para as folhas, pois o primeiro passo propositado para armazenar o poder pessoal era permitir ao corpo "não fazer".

 

Talvez fosse devido à minha fadiga ou excitação nervosa, mas fiquei tão absorto nas sombras das folhas que, quando Dom Juan se levantou, eu conseguia quase agrupar as massas escuras de folhagens tão bem como eu normalmente agrupava a folhagem. O efeito geral era espantoso. Eu disse a Dom Juan que gostaria de me demorar mais. Ele riu e deu um tapinha em meu chapéu.

 

— Já lhe disse — falou ele. — O corpo gosta de coisas como esta.

Depois, explicou que eu devia deixar que meu poder armazenado me guiasse pelas moitas até meu caderno. Empurrou-me delicadamente para o chaparral. Andei a esmo por um momento e depois encontrei-o. Pensei que, subconscientemente, eu devia estar lembrado da direção em que Dom Juan o atirara. Esclareceu o fato, dizendo que eu fora diretamente ao caderno porque meu corpo estivera mergulhado durante horas em "não fazer".

 

Não fazer

 

Quarta-feira, 11 de abril de 1962

 

Quando chegamos em casa, Dom Juan recomendou que eu trabalhasse em meus apontamentos como se nada me houvesse acontecido, e que não mencionasse nem pensasse em qualquer dos fatos que experimentara.

 

Depois de um dia de descanso, ele declarou que tínhamos de sair da região por alguns dias porque era aconselhável ficar a certa distância daqueles "entes". Disse que eles me haviam afetado profundamente, embora eu ainda não estivesse observando o efeito deles, porque meu corpo não era suficientemente sensível. Mas, dentro de pouco tempo, eu ficaria gravemente doente se não fosse para meu "lugar de predileção" para me purificar e restaurar.

 

Partimos antes do amanhecer; dirigimo-nos para o norte e, depois de uma exaustiva viagem de carro e uma caminhada rápida, chegamos em cima do morro de tardinha.

 

Dom Juan, como já fizera antes, cobriu o lugar onde eu dormira com galhinhos e folhas. Depois, deu-me um punhado de folhas para pôr junto da pele de meu abdômen e me disse que me deitasse para descansar. Arrumou outro lugar para si um pouco à minha esquerda, a um metro e meio mais ou menos de minha cabeça, e também se deitou.

 

Em coisa de minutos, comecei a sentir um calor divino e uma sensação de supremo bem-estar. Era uma sensação de conforto físico, de estar suspenso no ar. Eu concordava plenamente com a afirmação de Dom Juan de que o "leito de cordões" me faria flutuar. Comentei sobre a qualidade inacreditável de minha experiência sensorial. Dom Juan disse, com naturalidade, que o "leito" era feito para isso.

 

— Não posso acreditar que isso seja possível! — exclamei.

 

Dom Juan levou minha declaração ao pé da letra e ralhou comigo. Disse que estava farto de eu estar sempre agindo como um ser extremamente importante, que tem de ter provas repetidas vezes de que o mundo é desconhecido e maravilhoso.

 

Tentei explicar que uma exclamação retórica não tem significado. Retrucou que, se fosse assim, eu poderia ter escolhido outra expressão. Parecia estar seriamente contrariado comigo. Levantei o corpo um pouco e comecei a pedir desculpas, mas ele riu e, imitando meu jeito de falar, sugeriu uma série de exclamações retóricas hilariantes que eu poderia ter usado em vez daquela. Acabei rindo do absurdo calculado de algumas das alternativas que ele propôs.

 

Ele riu baixinho e, num tom de voz suave, lembrou-me de que eu devia entregar-me à sensação de flutuar.

 

A sensação calmante de paz e plenitude que eu experimentava naquele lugar despertava emoções profundamente sepultadas dentro de mim. Comecei a falar sobre minha vida. Confessei que eu nunca havia respeitado nem gostado de ninguém, nem mesmo eu, e que sempre achara que eu era inerentemente mau, e assim minha atitude para com os outros era sempre envolta de certa bravata e desafio.

 

— É verdade — disse Dom Juan. — Você não gosta nada de si. Cacarejou e me disse que tinha "visto" enquanto eu falava. Sua recomendação era de que eu não devia ter remorsos por nada do que tivesse feito, pois que isolar nossos atos como sendo maus, feios ou mesquinhos era dar uma importância exagerada a si mesmo.

Mexi-me nervosamente e a cama de folhas fez um barulho farfalhante. Dom Juan disse que, se eu quisesse descansar, não deveria fazer minhas folhas se sentirem agitadas, e que eu deveria imitá-lo e ficar deitado sem fazer qualquer movimento. Acrescentou que, no "ver" dele. tinha encontrado um de meus estados de espírito. Lutou por um momento, aparentemente para encontrar uma palavra adequada, e disse que o estado de espírito em questão era um em que eu me encontrava freqüentemente. Descreveu-o como uma espécie de alçapão que se abria em momentos inesperados e me engolia.

 

Pedi-lhe para ser mais específico. Respondeu que era impossível ser específico sobre "ver". Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, ele me pediu para relaxar, mas não dormir, e que ficasse num estado de consciência o máximo possível. Disse que o "leito de cordões" era feito exclusivamente para permitir ao guerreiro alcançar um certo estado de paz e bem-estar.

 

Num tom dramático, Dom Juan declarou que o bem-estar era uma condição que a gente tinha de cultivar, uma condição que se tinha de conhecer a fim de procurá-la.

 

— Você não sabe o que é o bem-estar, porque nunca o experimentou — disse ele.

 

Discordei. Mas ele continuou a argumentar que o bem-estar era traia realização que a pessoa tinha de procurar propositadamente. Disse que a única coisa que eu sabia procurar era um senso de desorientação, mal-estar e confusão.

 

Ele riu, zombeteiro, e explicou que, para conseguir realizar a façanha de me tornar infeliz, eu tinha de trabalhar muito intensamente, e que era um absurdo eu nunca ter percebido que podia trabalhar do mesmo jeito para me tornar completo e forte.

— O truque está naquilo a que se dá importância — disse ele — Ou a gente se faz infeliz, ou se faz forte. O trabalho é o mesmo.

 

Fechei os olhos e tornei a me relaxar e comecei a sentir que estava flutuando; por um momento, era como se eu estivesse realmente me movendo através do espaço, como uma folha. Embota fosse completamente agradável, a sensação me fazia lembrar de ocasiões em que eu tinha ficado enjoado e tonto e tinha a impressão de estar girando. Pensei que, talvez, eu tivesse comido alguma coisa estragada.

 

Ouvi Dom Juan falando comigo, mas não me esforcei realmente para ouvir. Estava tentando fazer mentalmente uma lista de todas as coisas que eu tinha comido naquele dia, mas não consegui interessar-me por isso. Não parecia ter importância.

 

— Veja como muda a luz do Sol — disse ele.

 

Sua voz era clara. Assemelhava-se à água, fluida e morna, O céu estava inteiramente limpo de nuvens para o oeste e o Sol estava espetacular. Talvez o fato de Dom Juan estar-me dando sugestões tornasse o brilho amarelado do Sol da tarde realmente magnífico.

 

— Deixe que esse fulgor o acenda — disse Dom Juan. — Antes de o Sol se pôr hoje, você tem de estar perfeitamente calmo e restabelecido, pois amanhã ou depois você vai aprender a não fazer.

 

— Aprender a não fazer o quê? — perguntei.

 

— Não pense nisso agora — respondeu. — Espere até estarmos naquelas montanhas de lava. — E apontou para uns picos distantes, serrilhados e ameaçadores, na direção do norte.

 

Quinta-feira, 12 de abril de 1962

 

Chegamos em pleno deserto perto das montanhas de lava de tardinha. À distância, as montanhas de lava, de um marrom escuro, eram quase sinistras. O Sol estava muito baixo no horizonte e brilhava sobre a face ocidental da lava solidificada, tingindo seu castanho escuro com uma gama ofuscante de reflexos amarelos. Eu não conseguia afastar os olhos. Aqueles picos eram realmente fascinantes.

 

No fim do dia, avistamos as encostas mais baixas das montanhas. Havia muito pouca vegetação em pleno deserto; eu só via cactos e uma espécie de capim alto que crescia em tufos.

 

Dom Juan parou para descansar. Sentou-se, encostou suas cabaças de comida com cuidado de encontro a uma pedra e disse que íamos acampar naquele lugar para passar a noite. Ele escolhera um lugar relativamente alto. De onde eu estava, vislumbrava uma grande distância em volta de nós.

 

Era um dia nublado e o crepúsculo logo tomou conta da área. Fiquei absorto vendo a rapidez com que as nuvens vermelhas do oeste desapareciam num cinza escuro, espesso e uniforme.

 

Dom Juan levantou-se e foi ao mato. Quando ele voltou, a silhueta das montanhas de lava era uma massa escura. Sentou-se junto de mim e chamou minha atenção para o que parecia ser uma formação natural nas montanhas para nordeste. Era um lugar que tinha uma coloração muito mais clara do que as vizinhanças. Enquanto toda a cadeia de montanhas de lava parecia ser uniformemente marrom no crepúsculo, o lugar para onde ele apontava era amarelado ou um bege escuro. Eu não imaginava o que podia ser. Fiquei olhando para aquilo durante muito tempo. Parecia estar-se movendo; achei que estava palpitando. Quando apertei os olhos, chegou a ondular, como se o vento o movesse.

— Olhe fixamente! — ordenou Dom Juan.

 

Em certo momento, depois que mantive o olhar por bastante tempo, senti como se toda a cadeia de montanhas se estivesse deslocando para mim. Essa sensação foi acompanhada de uma agitação desusada na boca do estômago. O desconforto tornou-se tão forte que me levantei.

 

— Sente-se! — berrou Dom Juan. Mas eu já estava de pé. Do meu ponto de vista, a formação amarelada estava mais baixa nas encostas das montanhas. Tornei a sentar-me, sem afastar os olhos, e a formação passou para um lugar mais alto. Fiquei olhando um pouco e, de repente, arrumei tudo na devida perspectiva. Percebi que aquilo que eu havia olhado não estava nada nas montanhas, e sim era um pedaço de pano verde-amarelado dependurado de um cacto alto na minha frente.

 

Ri alto e expliquei a Dom Juan que o crepúsculo tinha contribuído para criar uma ilusão de óptica.

 

Ele se levantou e foi até o lugar em que estava dependurado o pedaço de pano, pegou-o, dobrou-o e colocou-o na sacola.

 

— Por que você está fazendo isso? — perguntei.

 

— Porque este pedaço de pano tem poder — disse ele, com displicência, — Por um momento, você estava indo bem com ele e não se pode saber o que poderia ter acontecido se você ficasse sentado.

 

Sexta-feira, 13 de abril de 1962

 

Ao raiar do dia, nós nos dirigimos para as montanhas. Elas estavam surpreendentemente distantes. Ao meio-dia, chegamos a uma das gargantas. Havia água em algumas poças rasas. Sentamo-nos para descansar à sombra de uma rocha saliente.

 

As montanhas eram porções de um monumental fluxo de lava. Esta, solidificada através dos milênios de erosão, transformara-se numa rocha porosa marrom escura. Somente algumas ervas resistentes cresciam entre as rochas e nas frestas.

 

Olhando para cima, para as paredes quase perpendiculares do canyon, tive uma sensação esquisita na boca do estômago. As paredes tinham centenas de metros de altura e me davam a impressão de se estarem fechando sobre mim. O sol estava quase a pino, um pouco para sudoeste.

 

— Levante-se aqui — disse Dom Juan, e manobrou meu corpo até eu estar olhando para o Sol. Ele me disse que olhasse fixamente para as paredes das montanhas acima de mim.

 

O espetáculo era estupendo. A altura magnífica do fluxo de lava abalava a imaginação. Comecei a calcular que erupção vulcânica devia ter sido. Olhei para cima e para baixo dos lados do canyon várias vezes. Fiquei absorto contemplando a riqueza de cores no paredão de rocha. Havia pontos de todos os tons imagináveis. Havia tufos de musgo cinza claro ou líquen em cada pedra. Olhei bem para cima de onde me encontrava e reparei que a luz do Sol estava provocando os reflexos mais lindos quando batia nos pontos de lava solidificada.

 

Olhei para um lugar nas montanhas em que o Sol se refletia. À medida que ele se movia, a intensidade diminuía até desaparecer completamente:

 

Olhei para o outro lado do canyon e vi outra área com as mesmas lindas refrações de luz. Contei a Dom Juan o que estava acontecendo. Depois, vi outra área de luz, em seguida outra em um lugar diferente, e mais outra, até que todo o canyon estava manchado de grandes porções de luz.

 

Eu estava tonto; mesmo que fechasse os olhos, continuava a ver as luzes brilhantes. Segurei minha cabeça entre as mãos e tentei engatinhar para debaixo da rocha saliente, mas Dom Juan agarrou meu braço com firmeza e, imperiosamente, me disse que olhasse para as paredes das montanhas e procurasse distinguir pontos de escuridão pesada no meio dos campos de luz.

 

Não quis olhar, porque a claridade incomodava meus olhos. Falei que o que me estava acontecendo era semelhante a olhar para uma rua ensolarada através de uma janela e depois ver a esquadria da janela como um quadro escuro em toda parte.

 

Dom Juan sacudiu a cabeça de um lado para outro e começou a dar risadas. Largou meu braço e nós tornamos a nos sentar debaixo da rocha saliente.

 

Eu estava escrevendo minhas impressões das vizinhanças quando Dom Juan, depois de um longo silêncio, falou num tom dramático.

 

— Eu o trouxe aqui para lhe ensinar uma coisa — disse ele. — Você vai aprender a não fazer. Mais vale falar a respeito porque não há outro meio de você prosseguir. Achei que você poderia pegar o não fazer sem eu ter de dizer nada. Mas enganei-me.

 

— Não sei de que está falando, Dom Juan.

 

— Não faz mal. Vou dizer-lhe uma coisa que é muito simples, mas muito difícil de fazer; vou falar-lhe sobre não fazer, a despeito do fato de não haver meio de falar sobre isso, pois é o corpo que o faz.

 

Olhou de relance e depois disse que eu tinha de prestar a maior atenção ao que ele ia falar. Fechei o caderno, mas, para assombro meu, ele insistiu para eu continuar a escrever.

— Não fazer é tão difícil e tão possante que você nem deve mencioná-lo — continuou ele. — Só pode fazê-lo quando tiver parado o mundo; só então é que você pode falar a respeito livremente, se 6 isso que você quer.

 

Dom Juan olhou em volta e apontou para uma pedra grande.

 

— Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer — disse ele.

Nós nos olhamos e ele sorriu. Esperei uma explicação, mas ele ficou calado. Por fim, tive de falar que não havia entendido o que ele queria dizer.

 

— Aquilo é fazer! — exclamou.

 

— Como?

 

— Isso também é fazer.

 

— De que é que está falando, Dom Juan?

 

— Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você “você” e eu “eu”.

 

Disse-lhe que a explicação dele não esclarecia coisa alguma. Ele riu e cocou as têmporas.

 

— É este o problema de se falar — disse ele. — Sempre faz a gente confundir as questões. Se a gente começa a falar a respeito de fazer, sempre se acaba abordando outro assunto. é melhor apenas agir.

 

"Tome aquela pedra, por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer,”

 

Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.

— Mas fazem, sim! — exclamou. — Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo. — Tornou a apontar para a pedra. — Aquela pedra é uma pedra por causa de todas as coisas que você sabe fazer em relação a ela — continuou. — Chamo isso de fazer. Um homem de conhecimento, por exemplo, sabe que aquela pedra só é uma pedra por causa de fazer, de modo que, se não quiser que a pedra seja uma pedra, hasta ele não jazer. Entende o que eu digo?

 

Eu não estava entendendo nada. Ele riu e fez uma nova tentativa para explicar.

 

— O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo o mundo — disse ele. — Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente.

 

Examinou-me com curiosidade. Parei de escrever. Só queria escutá-lo. Continuou a explicar que, sem esse certo "fazer", não haveria nada de conhecido naquele ambiente.

 

Inclinou-se e apanhou uma pedrinha entre o polegar e o indicador da mão esquerda e segurou-a defronte de meus olhos,

 

— Isto é uma pedrinha porque você conhece o fazer necessário para torná-la uma pedrinha — disse ele.

 

— O que está dizendo? — perguntei, com uma sensação de sincera confusão.

 

Dom Juan sorriu. Parecia estar querendo esconder um prazer malicioso.

 

— Não sei por que você está tão confuso — disse ele. — As palavras são a sua predileção. Você devia estar no céu.

 

Lançou-me um olhar misterioso e ergueu as sobrancelhas duas ou três vezes. Depois, tomou a apontar para a pedrinha que estava segurando defronte de meus olhos.

 

— Digo que você toma isto uma pedrinha porque conhece o fazer necessário para isso — falou. — Agora, para poder parar o mundo você tem de parar de fazer.

 

Ele parecia saber que eu continuava sem entender e sorriu, sacudindo a cabeça. Depois, pegou um galhinho e apontou para a borda irregular da pedrinha.

 

— No caso desta pedrinha — continuou — a primeira coisa que fazer lhe faz é diminuí-la até este tamanho. For isso, a coisa certa a fazer, o que um guerreiro faz quando quer para o mundo, é aumentar a pedrinha, ou qualquer outra coisa, não fazendo.

 

Levantou-se e colocou a pedrinha num rochedo e depois disse que eu me aproximasse para examiná-la. Recomendou que eu olhasse para os buracos e depressões da pedrinha e tentasse distinguir seus mínimos detalhes. Falou que, se eu conseguisse distinguir os detalhes, os buracos e depressões desapareceriam e eu entenderia o que significa não fazer.

 

— Esse raio de pedrinha ainda vai deixá-lo maluco hoje. — disse ele.

 

Eu devia estar com uma expressão de confusão. Olhou para mim e deu uma gargalhada. Depois, fingiu que estava zangado com a pedrinha e deu nela umas duas ou três vezes com o chapéu.

 

Pedi que ele esclarecesse suas palavras. Argumentei que lhe era possível explicar tudo o que quisesse, se fizesse um esforço.

Bom Juan me lançou um olhar ladino e sacudiu a cabeça, como se a situação fosse desesperadora.

 

— Claro que posso explicar qualquer coisa — disse ele, rindo. — Mas você entenderia?

 

Fiquei agastado com a insinuação.

 

— Fazer o leva a separar a pedrinha da pedra maior — continuou. — Se quiser aprender a não fazer, digamos que você tem de uni-las.

 

Apontou para a sombrinha que a pedrinha lançava na pedra grande e disse que não era uma sombra, e sim uma cola que ligava as duas. Depois, virou-se e afastou-se, dizendo que mais tarde me viria controlar.

 

Fiquei olhando para a pedrinha por muito tempo. Não conseguia focalizar minha atenção nos mínimos detalhes dos buracos e depressões, mas a pequena sombra que a pedrinha lançava sobre a pedra grande tornou-se um ponto muito interessante. Dom Juan tinha razão: era como uma cola. Movia-se e variava. Eu tinha a impressão de que estava sendo espremida de debaixo da pedrinha.

 

Quando Dom Juan voltou, eu lhe contei o que tinha observado sobre a sombra.

 

— É um bom começo — disse ele. — Um guerreiro pode descobri; uma porção de coisas através das sombras. — Depois, ele sugeriu que eu pegasse a pedrinha e a enterrasse em algum lugar.

 

— Por quê? — perguntei.

 

— Está olhando para ela há muito tempo. Ela agora tem alguma coisa de você. Um guerreiro sempre tenta mudar a força de fazer transformando-o em não fazer. Fazer seria deixar a pedrinha por aí, pois não é mais do que uma pedrinha. Não fazer seria proceder com essa pedrinha como se fosse alguma coisa mais do que uma simples pedra. Nesse caso, aquela pedra o absorveu por muito tempo e agora é você, e, sendo assim, não a pode deixar por aí, e tem de enterrá-la. Se quiser ter poder pessoal, porém, não fazer seria transformar aquela pedra em um objeto de poder.

 

— Posso fazer isso agora?

 

— Sua vida não está bastante ajustada para fazer isso. Se você visse, saberia que sua preocupação transformou aquela pedrinha em uma coisa bem sem atrativo; e, portanto, a melhor coisa que você pode fazer é cavar um buraco e enterrá-la e deixar que a terra absorva seu peso.

 

— Tudo isso é verdade, Dom Juan?

 

— Dizer que sim ou que não seria fazer. Mas como você está aprendendo a não fazer, devo dizer-lhe que realmente não tem importância se tudo isso é verdade ou não. É aqui que o guerreiro leva vantagem sobre o homem comum. O homem comum se importa em saber se as coisas são verdadeiras ou falsas, mas um guerreiro não. Um homem comum procede de maneira específica com as coisas que ele sabe serem verdade e de maneira diversa com o que sabe não ser verdade. Se se supõe que as coisas são verdadeiras, ele age e acredita no que faz. Mas se as coisas são supostamente falsas, ele não quer agir, ou não crê no que faz. Um guerreiro, ao contrário, age em ambos os casos. Se se supõe que as coisas são verdadeiras, ele age a fim de estar fazendo, Se se supõe que as coisas são falsas, ele ainda assim age, a fim de não fazer. Entende o que digo?

 

— Não. Não estou entendendo nada — respondi.

 

As palavras de Dom Juan me deixavam num estado de espírito truculento. Eu não conseguia aceitar o que ele estava dizendo. Disse-lhe que era besteira e ele troçou de mim, afirmando que eu não tinha um espírito impecável nem naquilo que eu mais gostava de fazer, que era falar. Chegou a zombar de meu domínio da palavra, achando-o falho e inadequado.

 

— Se você quer ser todo boca, seja um guerreiro de boca — disse ele, rindo às gargalhadas.

 

Eu estava deprimido. Meus ouvidos zuniam. Estava sentindo um calor incômodo na cabeça. Estava mesmo encabulado e, suponho, corado. Levantei-me, andei até o chaparral e enterrei a pedrinha.

 

— Eu estava implicando um pouco com você — disse Dom Juan, quando voltei e tornei a. me sentar. — Mas sei que, se você não falar, não entende. Falar para você é fazer, mas falar não serve e, se você quiser entender o que eu quero dizer com não fazer, tem de executar um exercício simples. Como estamos interessados em não fazer, não importa que faça o exercício agora ou daqui a dez anos.

 

Mandou que eu me deitasse e pegou meu braço direito, dobrando-o no cotovelo. Depois, virou minha mão para a palma ficar voltada para a frente; curvem meus dedos, de modo que minha mão ficou na posição de quem está segurando uma maçaneta e depois começou a mover meu braço para a frente e para trás, num movimento circular que parecia o ato de empurrar e puxar uma alavanca presa a uma roda.

 

Dom Juan disse que um guerreiro executava esse movimenta cada vez que queria expulsar alguma coisa de seu corpo, como uma doença ou uma sensação desagradável. A intenção era empurrar e puxar uma força adversa imaginária até a pessoa sentir um objeto pesado, um corpo sólido, opondo-se aos movimentos livres da mão. No caso do exercício, não fazer consistia em repeti-lo até se sentir o corpo pesado com a mão, a despeito do fato de a pessoa não poder acreditar que fosse possível senti-lo.

 

Comecei a mover o braço e, dali a pouco, minha mão ficou gelada. Comecei a sentir uma espécie de polpa em volta dela. Era como se eu estivesse remando numa substância líquida, pesada e viscosa.

 

Dom Juan fez um movimento súbito e agarrou meu braço para parar o movimento. Meu corpo todo tremia como se abalado por alguma força oculta. Examinou-me quando me sentei e, depois, andou em volta de mim, antes de tornar a sentar-se onde estava antes.

 

— Já fez bastante — disse ele. — Pode executar esse exercício em outra ocasião, quando tiver mais poder pessoal.

 

— Fiz alguma coisa errada?

 

— Não. Não fazer é só para guerreiros muito fortes e você ainda não tem o poder de lidar com isso. Agora, só vai apanhar coisas horrendas com as mãos. Portanto, faça-o pouco a pouco, até sua mão não ficar mais fria. Quando ficar quente, você chega a poder sentir as linhas do mundo com ela.

 

Parou para me dar tempo de perguntar a respeito das linhas. Mas antes de eu ter oportunidade, começou a explicar que havia um número infinito de linhas que nos ligavam às coisas. Disse que o exercício de não fazer que ele acabava de descrever ajudaria a qualquer pessoa a sentir uma linha que saísse da mão que se movia, uma linha que a pessoa poderia colocar ou lançar sempre que quisesse. Bom Juan disse que aquilo não passava de um exercício porque as linhas formadas pela mão não eram suficientemente duráveis para ter um valor real numa situação de fato.

 

— Um homem de conhecimento utiliza outras partes de seu corpo para produzir Unhas duráveis — explicou.

 

— Que partes, Dom Juan?

 

— As linhas mais duráveis que o homem de conhecimento produz partem do meio do corpo. Mas ele também as pode fazer com os olhos.

 

— São linhas de verdade?

 

— Por certo.

 

— Pode-se vê-las e tocá-las?

 

— Digamos que se pode senti-las. A parte mais difícil do modo de vida de um guerreiro é entender que o mundo é uma sensação. Quando a pessoa está não fazendo, gente o mundo, e o consegue por meio dessas linhas.

 

Ele parou e me examinou com curiosidade. Ergueu as sobrancelhas, abriu os olhos e piscou. O efeito foi como os olhos de uma ave piscando. Quase imediatamente, senti uma sensação de desconforto e repugnância. Era como se alguma coisa estivesse fazendo pressão sobre minha barriga.

 

— Entende o que digo? — perguntou Dom Juan, desviando o olhar.

 

Falei que estava com náuseas e ele respondeu, displicentemente, que sabia disso e que estava tentando fazer com que eu sentisse as linhas do mundo com os olhos dele. Eu não podia admitir a idéia de que ele mesmo me estivesse fazendo sentir daquele jeito. Exprimi minhas dúvidas. Eu não podia conceber a idéia de que ele estava causando minha sensação de náusea, pois ele não tinha tido qualquer contato físico comigo.

 

— Não fazer é muito simples, mas muito difícil — disse ele. — Não é uma questão de entender, mas de dominar a coisa. Ver, naturalmente, é a realização final de um homem de conhecimento, e ver só é conseguido quando a pessoa parou o mundo pela técnica de não fazer.

 

Sorri, sem querer. Não tinha entendido o que ele queria dizer.

— Quando a gente faz alguma coisa com as pessoas — continuou — o interesse devia ser só de apresentar o caso aos corpos delas. é isso que tenho feito com você até agora, deixando que seu corpo saiba. Quem se importa se você entende ou não?

 

— Mas isso não é justo, Dom Juan. Quero entender tudo, pois, do contrário, vir aqui seria uma perda do meu tempo.

 

— Uma perda do seu tempo! — exclamou, imitando meu tom de voz. — Você é mesmo convencido.

 

Levantou-se e disse que íamos caminhar até o pico de lava à direita.

 

A escalada foi um negócio terrível. Era um verdadeiro alpinismo, Só que não tínhamos cordas para nos ajudar e proteger. Dom Juan me disse repetidamente que não olhasse para baixo; e teve de me puxar umas duas vezes, quando comecei a deslizar pela pedra. Eu estava muito vexado porque Dom Juan, tão velho, tinha de me ajudar. Disse-lhe que estava em má forma física porque tinha muita preguiça de fazer exercício. Respondeu que uma vez que a pessoa alcançasse um certo nível de poder pessoal, os exercícios ou qualquer treinamento desse tipo não eram necessários, pois a única coisa que se precisava, para estar numa forma impecável, era empenhar-se em não fazer.

 

Quando chegamos no topo eu me deitei. Estava com vontade de vomitar. Ele me rolou de um lado para o outro com o pé, como já tinha feito uma vez. Pouco a pouco o movimento restabeleceu meu equilíbrio. Mas eu estava nervoso. Era como se estivesse esperando que alguma coisa aparecesse de repente. Sem querer, olhei umas duas ou três vezes para os lados. Dom Juan não disse nada, mas também olhou na mesma direção.

 

— As sombras são uma coisa estranha — disse ele, de repente. — Você deve ter notado que há uma que nos segue.

— Não notei nada disso — protestei, em voz alta.

 

Dom Juan falou que meu corpo havia notado nosso perseguidor, a despeito de minha oposição obstinada; e assegurou-me, num tom de voz confidencial, de que não havia nada de mais em ser seguido por uma sombra.

 

— E apenas um poder — falou. — Essas montanhas são cheias deles. E tal e qual um daqueles entes que o assustaram na outra noite.

 

Perguntei se eu podia percebê-la eu mesmo. Respondeu que, de dia, eu só poderia sentir sua presença.

 

Queria que ele me explicasse por que chamava aquilo uma sombra, quando, obviamente, não era igual à sombra de uma pedra. Respondeu que as duas tinham as mesmas linhas e, portanto, ambas eram sombras.

 

Apontou para uma grande pedra bem diante de nós.

 

— Olhe para a sombra daquela pedra — falou. — A sombra é a pedra e, no entanto, não é. Observar a pedra a fim de saber o que é a pedia é fazer, mas observar a sombra é não fazer.

 

"As sombras são como portas, as portas de não fazer. Um homem de conhecimento, por exemplo, sabe dos sentimentos mais íntimos dos homens observando suas sombras.”

 

— Há movimento nelas? — perguntei.

 

— Pode-se dizer que há movimento nelas, ou pode-se dizer que as linhas do mundo aparecem nelas, ou pode-se dizer que os sentimentos vêm delas.

 

— Mas como é que os sentimentos podem vir de sombras, Dom Juan?

 

— Acreditar que as sombras são apenas sombras é fazer — explicou. — Essa idéia é um pouco burra. Pense nisso assim. Há tanto mais em tudo no mundo que, obviamente, deve haver mais nas sombras também. Afinal de contas, o que as torna sombras é apenas o nosso fazer.

 

Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer.

 

— Aproxima-se o fim do dia — falou Dom Juan, olhando para o céu, — Você tem de usar esse Sol brilhante para fazer um último exercício.

 

Ele me levou a um lugar em que havia dois picos do tamanho de um homem, paralelos um ao outro, a mais ou menos um metro e meio de distância um do outro. Dom Juan parou a dez metros deles, virando para o oeste. Marcou um ponto onde eu deveria postar-me de pé e disse que eu olhasse para as sombras dos picos. Falou que eu devia olhar para elas e envesgar como eu envesgava normalmente quando examinava o chão procurando um lugar para descansar. Esclareceu suas instruções dizendo que, ao procurar um lugar de repouso, a pessoa tinha de olhar sem focalizar, mas, ao observar as sombras, era preciso olhar atravessado, conservando, porém, focalizada uma imagem nítida. A idéia era deixar que uma sombra se superpusesse à outra, atravessando-se os olhos. Explicou que, por este processo, a pessoa podia verificar uma certa sensação que emanava das sombras. Comentei que suas palavras eram vagas, mas ele garantiu que não havia realmente meio de descrever o que queria dizer.

 

Minha tentativa de fazer o exercício foi vã. Esforcei-me até ficar com dor de cabeça. Dom Juan não ligou a mínima a meu fracasso. Escalou um pico em forma de domo e gritou lá de cima para eu procurar duas pedras estreitas e compridas. Mostrou com as mãos o tamanho das pedras que queria.

 

Encontrei dois pedaços de pedra e dei-os a ele. Dom Juan colocou cada pedra em uma fenda, a uma distância de uns 30 centímetros, mandou que eu me postasse por cima delas, virado para o oeste, dizendo para eu fazer o mesmo exercício com as sombras delas.

 

Dessa vez, a coisa foi totalmente diferente. Quase imediatamente, consegui atravessar os olhos e percebi suas sombras individuais como se estivessem fundidas numa só. Reparei que o fato de olhar sem convergir as imagens dava à sombra única que eu tinha formado uma profundidade incrível e uma espécie de transparência. Fiquei olhando, sem poder acreditar. Cada buraco da pedra, na área em que meus olhos estavam focalizados, era nitidamente distinguível; e a sombra composta, superposta neles, era como uma película de uma transparência indescritível.

 

Eu não queria piscar, com medo de perder a imagem que estava mantendo tão precariamente. Por fim meus olhos doloridos me obrigaram a piscar, mas não perdi em absoluto a visão do detalhe. Na verdade, ao umedecer a córnea, a imagem ficou ainda mais nítida. Nessa altura, reparei que era como se eu estivesse olhando de uma altura imensa para um mundo que eu nunca vira. Também reparei que podia percorrer as vizinhanças da sombra sem perder o foco de minha percepção visual. Então, por um instante, perdi a noção de estar olhando para uma pedra. Senti que estava chegando a um mundo, vasto além de tudo o que jamais eu concebera. Essa percepção extraordinária só durou um segundo e depois tudo se desligou. Automaticamente, ergui os olhos e vi Dom Juan de pé, logo acima das pedras, olhando para mim. Ele tapara o Sol com o corpo.

 

Descrevi a sensação rara que tivera e ele explicou que fora obrigado a interrompê-la porque "viu" que eu ia me perder nela. Acrescentou que era uma tendência natural em todos nós termos caprichos quando ocorriam sentimentos daquela natureza, e que, cedendo a esse capricho, eu quase tinha transformado não fazer em meu velho conhecido fazer. Disse que o que eu devia ter feito era manter a vista sem sucumbir a ela, pois, de certo modo, fazer era uma maneira de sucumbir.

 

Reclamei que ele podia ter-me avisado antes o que devia esperar e o que devia fazer, mas ele disse que não podia adivinhar se eu conseguiria fundir as sombras ou não.

 

Tive de confessar que estava mais aturdido do que nunca com esse não fazer. Os comentários de Dom Juan foram que eu deveria estar satisfeito com o que tinha feito, pois uma vez na vida tinha agido corretamente, que reduzindo o mundo eu o aumentara, e que, embora estivesse longe de sentir as linhas do mundo, havia usado corretamente a sombra das pedras como uma porta para não fazer.

 

A declaração de que eu aumentara o mundo reduzindo-o intrigou-me profundamente. O detalhe da rocha porosa, na pequena área em que meus olhos estavam focalizados, era tão vivido e tão precisamente definido que o topo do pico redondo se tornava um vasto mundo para mim; e, no entanto, era realmente uma visão reduzida da pedra. Quando Dom Juan tapou a luz e eu me encontrei olhando como faria normalmente, o detalhe preciso embaçou-se, os buraquinhos na pedra porosa tornaram-se maiores, a coloração marrom da lava seca tornou-se opaca e tudo perdeu a transparência brilhante que fazia da rocha um mundo verdadeiro.

 

Dom Juan, então, pegou as duas pedras, colocou-as delicadamente numa fenda profunda e sentou-se de pernas cruzadas virado para oeste, no lugar onde tinham estado as pedras. Bateu num ponto ao lado dele, à esquerda, e mandou que eu me sentasse.

 

Ficamos calados por muito tempo. Depois, comemos, também em silêncio. Foi só depois que o Sol se pôs que ele, de repente, se virou e me perguntou sobre meus progressos em matéria de "sonhar".

 

Respondi que tinha sido fácil no princípio, mas que, no momento, eu tinha deixado completamente de encontrai minhas mãos nos sonhos.

 

— Quando você começou a sonhar, estava usando meu poder pessoal, por isso era mais fácil — disse ele. — Agora, você está vazio. Mas tem de continuar a tentar até ter suficiente poder seu. Entende, sonhar é o não fazer dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará não fazendo.

 

Nós nos olhamos.

 

Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar — continuou ele. — Tudo o que eu possa dizer será apenas não fazer. Mas, se lidar com não fazer diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará.

 

— Não sei, Dom Juan, Não confio em mim.

 

— Não é questão de confiar em ninguém. Tudo isso é assunto da lota de um guerreiro; e você continuará a lutar, se não sob seu próprio poder, então talvez, sob o impacto de um adversário valoroso, ou com o auxílio de alguns aliados, como o que já o está seguindo.

 

Fiz um movimento brusco e involuntário com o braço direito. Dom Juan disse que meu corpo sabia muito mais do que eu suspeitava, pois a força que nos estava seguindo estava à minha direita. Falou, em voz baixa e confidencial, que, por duas vezes naquele dia, o aliado tinha chegado tão junto de mim que ele tivera de intervir e detê-lo.

 

— Durante o dia as sombras são as portas de não fazer — disse ele. — Mas, à noite, como muito pouco fazer prevalece no escuro, tudo é sombra, inclusive os aliados. Já lhe falei sobre isso quando lhe ensinei o passo do poder.

Ri alto e meu próprio riso me assustou.

 

“Tudo o que lhe ensinei até agora foi um aspecto de não fazer — continuou ele. — Um guerreiro aplica não fazer a tudo no mundo e, no entanto, não lhe posso dizer mais a respeito do que já lhe falei hoje. Deve deixar que seu próprio corpo descubra o poder e a sensação de não fazer”.

Tive outro acesso de cacarejar nervoso.

 

"É burrice sua escarnecer dos mistérios do mundo simplesmente porque conhece fazer o escárnio" — disse ele, com uma cara séria.

 

Falei que não estava escarnecendo de nada ou ninguém, mas que era mais nervoso e incompetente do que ele pensava.

 

— Sempre fui assim — disse eu. — E, no entanto, quero modificar-me e não sei como. Sou muito inadequado.

 

— Já sei que você acha que não presta — disse ele. — Isso é seu fazer. Agora, para afetar esse fazer, vou recomendar que você aprenda outro fazer. De hoje em diante, e por um período de oito dias, quero que você minta para si mesmo. Em vez de se dizer a verdade, que você é podre, feto e inadequado, você se dirá que é o oposto, sabendo que está mentindo e que é completamente sem esperança.

 

— Mas qual a finalidade de mentir assim, Dom Juan?

 

— Pode prendê-lo a outro fazer e então pode compreender que ambos os fazeres são mentiras, irreais, e que prendê-lo a qualquer deles é uma perda de tempo, pois a única coisa que é real é o ser em você, que vai morrer. Chegar a esse ser é o não fazer do eu.

O círculo do poder

 

Sábado, 14 de abril de 1962

 

Dom Juan experimentou o peso das cabaças e concluiu que tínhamos esgotado nossas provisões e que estava na hora de voltar para casa. Mencionei, naturalmente, que íamos levar pelo menos uns dois dias para chegar à casa dele. Respondeu que não pretendia voltar. a Sonora, mas que ia a uma cidade na fronteira, onde tinha de cuidar de uns negócios.

 

Pensei que íamos começar a descida por uma garganta, mas Dom Juan dirigiu-se para noroeste, nos altos planaltos das montanhas de lava. Depois de aproximadamente uma hora de caminhada, ele me levou a uma garganta profunda, que terminava num ponto em que dois picos quase se juntavam. Ali, havia uma encosta, que ia até quase o topo da cadeia, uma encosta estranha, que parecia uma ponte côncava inclinada entre os dois picos. Dom Juan apontou para um lugar na face da encosta.

 

— Olhe fixamente para ali — disse ele. — O Sol está quase a pino.

 

Explicou que, ao meio-dia, a luz do Sol poderia ajudar-me a não fazer; Então, deu uma série de ordens: afrouxar todas as roupas ajustadas que eu vestia, sentar-me de pernas cruzadas e olhar atentamente para o ponto que ele determinara.

 

Havia muito poucas nuvens no céu e nenhuma para oeste. O dia estava quente e o Sol raiava sobre a lava solidificada. Fiquei olhando fixamente para o lugar determinado.

 

Depois de uma longa vigília perguntei o que, exatamente, eu deveria procurar. Ele ordenou que me calasse, com um gesto impaciente da mão.

 

Eu estava cansado. Queria dormir. Cerrei os olhos; eles estavam comichando e eu os esfreguei, mas minhas mãos estavam úmidas e o suor fez meus olhos arderem. Olhei para os picos de lava através de olhos semicerrados e, de repente, toda a montanha se iluminou.

 

Falei a Dom Juan que, se apertasse os olhos, poderia ver toda a cadeia de montanhas como uma formação complexa de fibras de luz. Ele me disse que respirasse o menos possível, para conservar a visão das fibras de luz e para não olhar intensamente, e sim com naturalidade para um ponto no horizonte bem acima da encosta. Segui suas instruções e consegui conservar a visão de uma extensão interminável coberta por uma teia de luz.

 

Dom Juan sussurrou baixinho que eu devia tentai isolar as áreas de escuridão dentro do campo de fibras de luz e que, logo depois de encontrar um ponto escuro, eu deveria abrir os olhos e verificar onde ficava aquele ponto na face da encosta.

 

Eu não conseguia perceber áreas escuras. Apertei os olhos e depois os abri, várias vezes. Dom Juan aproximou-se de mim e apontou para uma área à minha direita e depois para outra, bem defronte de mim. Tentei mudar a posição de meu corpo; pensei que, talvez, se eu mudasse minha perspectiva, conseguiria perceber a suposta área de escuridão para a qual ele estava apontando, mas Dom Juan sacudiu meu braço e me disse, severamente, para ficar quieto e ter paciência.

 

Voltei a apertar os olhos e tornei a ver a teia de fibras de luz. Olhei para ela por um momento e, depois, abri mais os olhos. Naquele instante, ouvi um ronco baixinho — podia facilmente ser explicado como o som distante de um avião a jato — e então, de olhos bem abertos, vi toda a cadeia de montanhas diante de mim como um campo enorme de pontinhos de luz. Foi como se, por um breve instante, algumas pintas metálicas na lava solidificada estivessem refletindo o Sol, todas juntas. Depois, a luz do Sol embaçou-se e, de repente, apagou-se; e as montanhas se tornaram uma massa de rocha marrom opaca, ao mesmo tempo que o dia se tornava frio e ventoso.

 

Queria virar-me para ver se o Sol desaparecera atrás de alguma nuvem, mas Dom Juan segurou minha cabeça e não me deixou mover. Disse que, se eu me virasse, poderia ver de relance um ente das montanhas, o aliado que nos estava seguindo. Explicou que eu não tinha a força necessária para suportar uma visão daquelas, e depois acrescentou, num tom calculado, que o ronco que eu ouvira era a maneira especial de um aliado proclamar sua presença. Em seguida, levantou-se e declarou que íamos começar a escalar a encosta.

 

— Aonde vamos? — perguntei.

 

Apontou para um dos lugares que ele isolara como sendo um ponto de escuridão. Explicou que não fazer lhe permitira isolar aquele ponto como um possível centro de poder, ou talvez como um local em que se poderia encontrar objetos de poder.

 

Alcançamos o ponto que ele queria depois de uma escalada difícil. Ele ficou imóvel em minha frente por um momento. Tentei aproximar-me dele, mas Dom Juan me fez sinal com a mão para parar. Parecia estar-se orientando. Eu via as costas da cabeça dele se movendo, como se ele estivesse passando os olhos para cima e para baixo das montanhas, e depois, com passos seguros, ele se dirigiu para uma saliência. Sentou-se e começou a limpar um pouco de terra solta da pedra com a mão. Enfiou os dedos em volta de um pedacinho de rocha protuberante, limpando a terra em derredor dele; após, mandou que eu o desencavasse.

 

Depois que desloquei o pedaço de rocha, ele me disse que o pusesse imediatamente dentro de minha camisa, pois era um objeto de poder, que me pertencia. Disse que me estava dando aquilo para eu guardar e que eu deveria poli-lo e cuidar dele.

 

Logo depois disso começamos a nossa descida para uma garganta, e umas duas horas depois estávamos em pleno deserto, ao pé das montanhas de lava. Dom Juan caminhava a uns três metros na minha frente e num ritmo bem acelerado. Rumamos para o sul até pouco antes do pôr-do-sol. Uma pesada formação de nuvens no oeste nos impediu de ver o Sol, mas paramos até que ele tivesse supostamente desaparecido no horizonte.

 

Dom Juan, então, mudou de rumo e dirigiu-se para sudeste. Subimos uma colina e, ao chegar ao topo, vi quatro homens se dirigindo para nós, vindos do sul.

 

Olhei para Dom Juan, Nunca havíamos encontrado gente em nossas excursões e eu não sabia como proceder. Mas ele não se mostrou preocupado. Continuou a caminhar, como se nada tivesse acontecido.

 

Os homens andavam como se não tivessem pressa; caminharam para onde estávamos de maneira descansada. Quando chegaram perto, vi que eram quatro jovens índios. Pareceram reconhecer Dom Juan. Este se dirigiu a eles em espanhol, Os rapazes falavam com cortesia e o trataram com muito respeito. Só um deles falou comigo. Perguntei a Dom Juan, num cochicho, se eu também podia falar com os rapazes, e ele fez sinal que sim.

 

Depois que conversei com eles, mostraram-se muito simpáticos e comunicativos, especialmente o que falou primeiro comigo. Disseram-me que estavam pesquisando cristais de quartzo de poder, e que tinham vagado pelas montanhas de lava por muitos dias, mas que não tinham tido sorte.

 

Dom Juan olhou em volta e apontou para um lugar rochoso a uns 200 metros de distância.

 

— Ali é um bom lugar para acampar um pouco — disse ele.

 

Começou a caminhar para as rochas e nós todos o seguimos. O lugar que ele escolhera era muito pedregoso. Não havia arbustos ali. Sentamo-nos nas pedras. Dom Juan declarou que ia voltar ao chaparral para juntar galhos secos para fazer uma fogueira. Quis ajudá-lo, mas ele cochichou que se tratava de uma fogueira especial para aqueles valentes rapazes e que não precisava de minha ajuda.

 

Os rapazes sentaram-se em volta de mim, num círculo cerrado. Um deles sentou-se com as costas de encontro às minhas. Eu estava meio constrangido.

 

Quando Dom Juan voltou com uma pilha de galhos, elogiou os rapazes pelo seu cuidado, dizendo-me que eles eram aprendizes de um feiticeiro e que era regra fazer um círculo e ter duas pessoas sentadas de costas encostadas no centro quando se ia numa expedição à caça de objetos de poder.

 

Um dos rapazes me perguntou se eu já tinha encontrado algum cristal. Respondi que Dom Juan nunca me levara para procurá-los.

 

Dom Juan escolheu um lugar junto de uma pedra grande e começou a fazer uma fogueira. Nenhum dos rapazes se mexeu para ajudá-lo, mas ficaram olhando para ele com atenção. Depois que todos os paus estavam ardendo, Dom Juan sentou-se encostado na pedra. O fogo estava à sua direita.

 

Parece que os rapazes sabiam do que se estava passando, mas eu não tinha a menor idéia de como agir quando se lidava com aprendizes de feiticeiro.

 

Fiquei olhando para os rapazes. Estavam sentados virados de frente para Dom Juan, formando um perfeito semicírculo. Então, notei que Dom Juan estava diretamente na minha frente e que dois dos rapazes se haviam sentado à minha esquerda e os outros dois à minha direita.

 

Dom Juan começou a contar a eles que eu estava nas montanhas de lava para aprender a não fazer e que um aliado nos tinha seguido. Achei que aquele era um começo muito dramático, e tinha razão. Os rapazes mudaram de posição, sentando-se com suas pernas esquerdas metidas debaixo dos assentos. Eu não observara como estavam sentados antes. Supus que estivessem sentados como eu, de pernas cruzadas. Um olhar para Dom Juan me mostrou que também ele estava sentado com a perna esquerda metida debaixo dele. Ele fez um gesto quase imperceptível com o queixo, apontando para meu jeito de sentar. Eu displicentemente dobrei a perna esquerda debaixo de mim.

 

Dom Juan uma vez me dissera que era aquela a posição que um feiticeiro usava quando as coisas estavam incertas. Mas sempre a considerei uma posição fatigante. Achei que seria um grande esforço para mim ficar sentado dessa maneira, enquanto ele estivesse falando. Dom Juan parecia estar bem ciente de minha situação e, de maneira sucinta, explicou aos rapazes que os cristais de quartzo podiam ser encontrados em certos pontos determinados daquela região, e que, uma vez localizados, tinham de ser levados a deixar sua morada por meio de técnicas especiais. Dessa forma, os cristais se tornavam o próprio homem e seu poder passava além de nossa compreensão.

 

Disse que normalmente os cristais de quartzo eram encontrados em feixes e que cabia ao homem que os encontrasse escolher cinco das mais compridas e bonitas lâminas de quartzo e separá-las de suas matrizes. Quem as encontrasse seria responsável pela sua lapidação e polimento a fim de torná-las pontudas e perfeitamente adaptadas ao tamanho e formato dos dedos de sua mão direita.

 

Depois, falou que os cristais de quartzo eram armas usadas na feitiçaria, que geralmente eram lançados para matar, e que penetravam no corpo do inimigo e depois voltavam à mão do dono como se nunca a tivessem deixado.

 

Após, contou da busca do espírito que transformaria os cristais comuns em armas e disse que a primeira coisa que se tinha a fazer era encontrar um lugar propício para atrair o espírito. Esse lugar tinha de ser no alto de um morro e podia ser encontrado passando-se a mão, com a palma virada para a terra, até se descobrir um certo calor com ela. Nesse lugar, devia-se fazer uma fogueira. Dom Juan explicou que o aliado era atraído pelas chamas e se manifestava por meio de uma série de ruídos constantes. A pessoa em busca do aliado tinha de seguir a direção dos ruídos até que ele se revelasse, e depois lutar e derrubá-lo, dominando-o. Era nesse ponto que a pessoa podia fazer o aliado tocar os cristais para impregná-los de poder.

 

Avisou-nos de que havia outras forças à solta naquelas montanhas de lava, as quais não se assemelhavam aos aliados; não faziam barulho, aparecendo apenas como sombras passageiras, e não tinham nenhum poder.

 

Dom Juan acrescentou que uma pena de um colorido vivo ou alguns cristais de quartzo muito polidos poderiam atrair a atenção de um aliado, mas que, no final de contas, qualquer objeto teria o mesmo efeito, pois o importante não era encontrar os objetos, e sim a força que os impregnaria de poder.

 

— De que adianta ter cristais lindamente polidos se você nunca encontrar o espírito que dá o poder? — disse ele. — Por outro lado, se você não tiver os cristais e encontrar o espírito, pode pôr qualquer coisa no caminho dele, para ser tocada. Podem pôr seus paus no caminho, se não encontrarem outra coisa.

 

Os rapazes riram. O mais audacioso deles, o que primeiro falara comigo, riu alto. Reparei que Dom Juan tinha cruzado as pernas e estava sentado de maneira relaxada. Todos os rapazes também tinham cruzado suas pernas. Tentei passar com naturalidade para uma posição mais descansada, mas meu joelho esquerdo parecia ter um nervo ou músculo machucado, e tive de me levantar e trotar no mesmo lugar por alguns minutos.

 

Dom Juan disse uma piada. Falou que eu não tinha prática de me ajoelhar, porque, desde que comecei a andar com ele, havia anos eu não me confessava.

 

Aquilo produziu uma grande agitação entre os rapazes. Eles riram, aos arrancos. Alguns cobriram os rostos e deram risadas nervosas.

 

— Vou mostrar uma coisa a vocês — disse Dom Juan, com naturalidade, depois que os rapazes pararam de rir.

 

Meu palpite era de que ele ia-nos mostrar alguns objetos de poder que tivesse na sacola. Por um momento, achei que os rapazes iam-se agrupar em volta dele, pois fizeram um movimento repentino juntos. Todos se inclinaram ligeiramente para a frente, como se fossem levantar-se, mas, então, todos meteram a perna esquerda debaixo do assento, naquela posição misteriosa que tanto machucava meus joelhos.

 

Enfiei a perna debaixo de mim com a naturalidade possível. Vi que, se eu não me sentasse sobre o pé esquerdo, isto é, se ficasse numa posição semi-ajoelhada, meus joelhos não doíam tanto.

 

Dom Juan levantou-se e deu a volta à pedra grande, até sumir de vista. Ele devia ter alimentado o fogo antes de se levantar, enquanto eu estava ajeitando a perna, pois a lenha nova estalava ao se acender e chamas compridas surgiram. O efeito era extremamente dramático. As chamas dobraram de tamanho. De repente, Dom Juan apareceu por detrás da pedra e ficou de pé onde tinha estado sentado. Tive um momento de perplexidade. Dom Juan havia colocado um esquisito chapéu preto. O objeto tinha bicos dos lados, junto das orelhas, e era redondo em cima. Ocorreu-me que, na verdade, era um chapéu de pirata. Ele vestia um casaco comprido, preto, de abas como fraque, preso por um único botão metálico reluzente, e tinha uma perna de pau.

 

Ri comigo mesmo. Dom Juan parecia um bobo em sua fantasia de pirata. Comecei a pensar onde teria arranjado aquela indumentária ali no mato. Supus que devia esta: escondida atrás da pedra. Comentei comigo mesmo que a Dom Juan só faltava uma venda num olho e um papagaio no ombro para parecer o próprio pirata.

 

Dom Juan olhou para todos os membros do grupo, varrendo os olhos lentamente da direita para a esquerda. Depois, olhou para cima de nós, para a escuridão. Ficou naquela posição por um momento; depois, voltou para trás da pedra e desapareceu.

 

Não reparei como ele caminhava. Obviamente, devia estar com o joelho dobrado, para poder aparentar um homem de perna de pau; quando se virou para dar a volta à pedra, eu devia ter visto a perna dobrada, mas eu estava tão intrigado com os atos dele que não prestei atenção aos detalhes.

 

As chamas perderam sua força no momento mesmo em que Dom Juan foi para trás da pedra. Achei que sua coordenação tinha sido magnífica; ele devia ter calculado quanto tempo levaria para arder a lenha que tinha acrescentado à fogueira, arrumando o aparecimento e saída de acordo com esse cálculo.

 

A mudança na intensidade do fogo foi muito dramática para o grupo; houve uma onda de nervosismo entre os rapazes. Quando as chamas diminuíram de tamanho, os rapazes voltaram juntos a uma posição de pernas cruzadas.

 

Eu esperava que Dom Juan saísse de detrás da pedra logo e se sentasse, mas ele não apareceu. Ficou escondido. Esperei, impaciente. Os rapazes estavam sentados, com uma expressão impassível nas fisionomias.

 

Eu não conseguia entendei o que Dom Juan pretendia com toda aquela farsa. Depois de esperar por muito tempo, virei-me para o rapaz à minha direita e perguntei-lhe, em voz baixa, se alguma das peças que Dom Juan vestira — o chapéu engraçado e o fraque comprido — e o fato de ele estar numa perna de pau tinham algum significado para ele.

 

O rapaz olhou para mim com uma expressão vazia e esquisita. Parecia estar confuso. Repeti minha pergunta e o outro rapaz ao lado dele olhou bem para mim, tentando ouvir.

 

Eles se olharam, aparentemente na maior confusão. Falei que, a meu ver, o chapéu, a perua de pau e o fraque faziam dele um pirata.

 

A essa altura os quatro rapazes tinham-se juntado em volta de mim. Riram baixinho e se remexeram, nervosos. Davam a impressão de não encontrar palavras. Por fim, o mais ousado deles falou comigo. Disse que Dom Juan não estava de chapéu, nem de casaco comprido e, certamente, não usava perna de pau, e sim portava um capucho ou xale preto na cabeça e uma túnica preta retinta, como a de um frade, que lhe ia até os pés.

 

— Não! — exclamou baixinho outro dos rapazes, — Ele não tinha capucho.

 

— Isso mesmo — disseram os outros.

 

O rapaz que tinha, falado primeiro olhou para mim com uma expressão de incredulidade total.

Afirmei que tínhamos de passar em revista o que havia acontecido, com muito cuidado e calma, e que tinha certeza de que Dom Juan queria que o fizéssemos, e por isso nos deixara a sós.

 

O rapaz à minha extrema direita disse que Dom Juan estava de andrajos. Tinha vestido um poncho todo rasgado, ou algum tipo de casaco de índio e um sombrero muito surrado. Segurava uma cesta cheia de coisas, mas ele não tinha certeza de que objetos eram. Acrescentou que Dom Juan não estava propriamente vestido de mendigo, e sim como um homem voltando de uma viagem interminável, carregado de coisas estranhas.

 

O rapaz que vira Dom Juan com um capucho preto disse que ele não tinha nada nas mãos, mas que seus cabelos estavam compridos e revoltos, como se ele fosse um louco que acabasse de matar um frade e tivesse vestido as roupas dele, porém sem conseguir esconder sua loucura.

 

O rapaz à minha esquerda deu uma risadinha e comentou como tudo era estranho. Disse que Dom Juan estava vestido como um homem importante que acabava de desmontar do cavalo. Tinha perneiras de como para montaria, grandes esporas, um chicote com que batia em sua palma esquerda, um chapéu chihuahua de copa cônica e duas pistolas automáticas, calibre 45. Afirmou que Dom Juan era a imagem de um ranchero abastado.

 

O rapaz à minha extrema esquerda riu, encabulado, e não se ofereceu para revelar o que vira. Pedi que o fizesse, mas os outros não se mostraram interessados. Ele parecia muito encabulado para falar.

 

O fogo já se ia apagando, quando Dom Juan saiu de detrás da pedra.

 

— Acho melhor deixarmos os rapazes trabalharem — disse ele. — Despeça-se deles.

 

Dom Juan não olhou para eles. Começou a caminhar devagar, para me dar tempo de me despedir. Os rapazes me abraçaram.

 

Não havia chamas no fogo, mas as brasas refletiam bastante claridade. Dom Juan parecia uma sombra negra a pouca distância, e os rapazes eram um círculo de silhuetas estáticas, bem definidas. Er