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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VINGANÇA DE AMOR / Hannah Howell
VINGANÇA DE AMOR / Hannah Howell

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

                                   França, 1458

A lealdade estava acima de tudo, até mesmo do amor!

Quando Cameron MacAlpin conhece a identidade da bela jovem que é atirada a seus pés como pagamento de uma dívida de jogo, mal consegue acreditar na própria sorte! Avery Murray é a arma perfeita para usar contra Payton, o irmão dela, que desonrou a única irmã de Cameron. Entretanto, seu plano de pagar na mesma moeda o insulto contra seu clã é ameaçado pela própria Avery, que o induz a esquecer a vingança em favor da paixão…

Avery se sente insultada ante as acusações de seu captor contra Payton. Embora Cameron não faça segredo de que pretende usá-la para se vingar, ela fica mais irritada ainda quando ele a seduz. E o pior é que Avery se sente muito atraída pelo cavaleiro viril. Com coragem e paixão, concede-lhe por vontade própria o que ele pretendia ter… seu corpo e seu coração!

 

 

 

 

— Por que trouxe a moça para cá?

Sir Bearnard, um homem pesadão, flexionou o braço musculoso de modo displicente, a fim de segurar com mais firmeza a jovem desvanecida que capturara e, com olhar preguiçoso, fitou o amo, sir Charles DeVeauxx.

— Capturei-a de surpresa — respondeu.

— Não o enviei aos Lucette para raptar mulheres. Existem muitas ao redor de meus domínios, ansiosas por satisfazer as necessidades de qualquer homem.

— Fizemos tudo que nos ordenou, milorde. Encontrei por acaso esta moça quando deixávamos as ruínas incendiadas do castelo dos Lucette, e pensei que ela serviria como pagamento de uma dívida que contraí.

— Que dívida? — Com a mão esquerda, sir Charles coçou o queixo pontudo com os longos dedos cobertos de anéis, tentando, sem sucesso, ver melhor a cativa de sir Bearnard.

— Uma aposta que perdi para sir Cameron MacAlpin — replicou o outro, franzindo a testa ante a risada discreta do amo.

— Além dessa moça ser pequena como uma criança, estar suja e com a pele arranhada, devo lembrá-lo de que nosso cavaleiro escocês, MacAlpin, fez voto de castidade.

— Sim, notei que não quer saber do sexo feminino, apesar de ser assediado.

— Bem, faça como quiser, mas creio que sir Cameron vai preferir receber sua aposta em moedas sonantes.

— Quem sabe se lhe oferecer as duas mulheres…

— Duas? Só vejo uma.

— A outra é ainda menor que esta, e não passa de uma menina. Mas sir Renford a tomou para si porque faz seu tipo.

— Então tente sua sorte — replicou sir Charles, dando de ombros. — Em breve Cameron MacAlpin nos deixará, e talvez esteja disposto a ser condescendente e negociar. Quem sabe até pague pelos favores da jovem. Mas lembre-se, se ela nos causar problemas, será você quem arcará com as conseqüências, Bearnard.

Avery, a moça cativa, sentiu que seu raptor fazia um leve sinal de cabeça, como a dizer que compreendia. Estava tão furiosa que precisava fazer força para se manter quieta e de olhos fechados, enquanto sir Bearnard deixava a presença do homem de olhar frio, encaminhando-se para a saída do grande salão.

Esse bruto, pensou Avery, acabara de tentar destruir todos que lhe eram caros, e no momento pretendia usá-la como pagamento de uma dívida!

Não conseguia acreditar como sua visita à família da mãe, que começara de forma tão feliz, terminara de maneira tão trágica e sangrenta. Quantos de seus primos teriam morrido sob as espadas dos homens de DeVeauxx? Será que tudo fora destruído? E onde estaria sua prima Gillyanne? Não passava de uma criança, mal tinha treze anos. Todas essas perguntas estavam na ponta de sua língua, mas Avery tinha certeza de que o brutamontes que a carregava jamais as responderia.

Quando, por fim, pararam à frente de uma pesada porta e ele bateu, Avery fez uma careta de dor. Cada batida rude aumentava sua terrível dor de cabeça. A porta se abriu, e ela gemeu de leve, enquanto Bearnard a arrastava para dentro, sem delicadeza, fazendo suas pernas baterem na parede.

Avery tentou observar o aposento onde haviam entrado, mas seus cabelos impediam-lhe a visão. Então o grosseiro sir Bearnard atirou-a ao chão, sobre uma espessa pele de carneiro estendida diante da lareira. A queda brusca a deixou zonza, aumentando sua dor de cabeça de tal modo que temeu desmaiar.

— E o que temos aqui? — perguntou uma voz profunda com forte sotaque escocês.

— Uma mulher — redargüiu sir Bearnard.

— Isso posso ver. Mas por que a trouxe para mim?

— Para pagar minha dívida.

— Mesmo que estivesse disposto a aceitá-la como forma de pagamento — disse com a voz gélida e arrastada — ela não parece valer nem a metade do que você me deve.

Ante tal insulto dito com voz tão calma, Avery cerrou os dentes, e decidiu que já fingira um desmaio por tempo demais. Atirou para trás os cabelos despenteados, e quase soltou um grito. O homem de pé em frente a sir Bearnard, que a fitava com ironia, parecia um gigante, e não porque o visse de baixo para cima, estendida como estava sobre a pele de carneiro.

O estranho usava botas de macio couro de cervo, e a calça de lã marrom realçava as pernas longas e bem-feitas. A camisa de linho branco estava aberta, revelando o ventre rijo e o tórax largo. Sua pele era muito morena, e Avery refletiu que até ela, com a tez dourada pelo sol, parecia pálida diante daquele deus musculoso.

O rosto magro e escuro não demonstrava o menor traço de emoção, emoldurado por uma cabeleira negra que caía em ondas suaves até um pouco abaixo dos ombros largos. Eram feições quase bonitas, refletiu Avery. O homem possuía um queixo firme, maxilares pronunciados, nariz longo e reto, e uma boca que, apesar de severamente cerrada no momento, era muito sensual.

Entretanto o que realmente chamou a atenção de Avery foram os olhos do estranho, os mais escuros que já vira, sob um par de sobrancelhas bem delineadas e cílios espessos. Pareciam negros e duros como pedaços de carvão. Avery concluiu que havia pouca chance de receber misericórdia ou auxílio por parte daquele homem. Por fim, deixou que ele visse sua raiva, e recebeu em troca um leve arquear das sobrancelhas negras.

— Ouvi dizer que em breve o senhor e seus homens nos dei­xarão, sir Cameron — disse Bearnard.

— Dentro de dois dias — replicou o homem moreno.

— Receio não ter tempo de juntar a quantia que lhe devo até essa data.

— Então não deveria ter apostado.

O devedor ficou vermelho como um pimentão.

— Sim, fui precipitado. Mas poderá obter alguma coisa com essa mulher. Use-a, peça resgate ou venda-a.

— Capturou-a no ataque contra os Lucette?

— Oui, logo à saída dos portões.

— De modo que ela pode ser uma camponesa e não valer nem um tostão de resgate.

— Non, sir Cameron, veja seu traje. Nenhuma aldeã usa roupas assim.

Quando o homem moreno se inclinou para examinar de perto seu vestido, Avery deixou extravasar o ódio que sentia. Com gesto rápido, ergueu a perna, e tentou dar-lhe um pontapé, mas ele foi mais ágil, apesar do tamanho. Segurou-a, rodeando-lhe a panturrilha com os longos e fortes dedos. As saias subiram, revelando seu corpo e, mortificada, Avery viu-se assim exposta por um longo tempo.

Engoliu em seco, ultrajada, quando, com gesto súbito, o estranho ergueu-lhe o vestido ainda mais, e olhou por baixo dele, mantendo um sorriso no rosto.

— Calções… — murmurou.

Sir Bearnard também deu uma olhada, antes que Cameron voltasse a baixar as vestes de Avery, e comentou:

— Estranha indumentária para uma mulher.

— Então não andou provando do presente que está me oferecendo? — perguntou Cameron.

— Non, juro! Capturei-a apenas para oferecê-la ao senhor. Sir Cameron continuava agachado junto a Avery, mantendo erguida sua perna, que passou por baixo do braço esquerdo, dei­xando-a ainda mais irada com a total imobilidade. O homem a tratava como se fosse um cavalo que desejasse comprar. Entretanto o que a deixava tensa e amedrontada não era sua modéstia ofendida, mas o temor de ser descoberta. Um instante depois os dedos longos deslizaram para cima, roçando a adaga presa à coxa. Avery praguejou, e quando ele a fitou com um brilho divertido no olhar, não baixou o rosto.

— Acredito no que diz, sir Bearnard — sussurrou Cameron com sua voz arrastada, enquanto removia a adaga da bainha, soltava a perna da jovem, e endireitava o corpo.

— Maldição! — exclamou sir Bearnard, balançando a cabeça com desalento. — Jamais pensei que tivesse que revistá-la à procura de armas. Afinal, não passa de uma mulher.

Dessa vez Avery tentou chutar seu raptor, mas com rapidez ele também se esquivou, e ela ajeitou as saias de modo decente. Enquanto sir Cameron, com o cenho franzido, examinava a adaga, um rapaz se aproximou. Avery refletiu que era da sua idade, com dezoito anos ou um pouco menos. Era ruivo, contrastando com a pele morena de Cameron, alto, e muito magro.

O rapaz olhou para a arma, relanceando em seguida o olhar surpreso para Avery, e murmurou em inglês:

— Cameron, é uma…

— Já percebi, Donald — interrompeu o outro, no mesmo idioma, cortando a frase do rapaz.

Donald continuou a fitar a jovem, e comentou:

— Tem olhos de gata.

— Sim, e começo a acreditar que é arisca como os mais selvagens felinos — acrescentou Cameron, franzindo as sobrancelhas quando voltaram a bater na porta. — De repente me tornei muito requisitado — murmurou em francês, relanceando um olhar para sir Bearnard.

— Bearnard, bastardo gordo! Sei que está aí dentro! — bradou uma voz profunda.

— Alguém o procura — comentou Cameron. — É melhor ver o que desejam.

— Já paguei minha dívida? — quis saber Bearnard.

— Ainda estou pensando a esse respeito.

Sir Bearnard apressou-se a abrir a porta, e um homem grande, de cabelos castanhos, irrompeu no aposento, porém Avery só tinha olhos para a menina franzina que ele arrastava.

— Gillyanne! — exclamou, tentando se mover sobre a pele de carneiro, mas sendo detida por sir Cameron que, de modo delicado mas possessivo, colocou um dos pés calçado com a bota sobre seu peito.

— Pode levar de volta esta pequena rameira — disse sir Ren-ford, atirando Gillyanne para Bearnard. — Está doente!

Sir Bearnard relanceou um rápido olhar na direção de Gillyanne, e deu um passo atrás, as mãos erguidas, como se evitasse tocá-la.

A menina ignorou os dois homens e correu para o lado de Avery, mas parou a meio caminho, soltando um grito agudo, quando Cameron apontou-lhe a espada.

— Mataria uma criança?— perguntou Avery, a voz embargada de medo.

— Ela está doente — repetiu Cameron.

Avery olhou para a prima e começou a sorrir. A pele branca de Gillyanne estava coberta por manchas e vergões, e os olhos ligeiramente estrábicos estavam inchados e vermelhos.

— Morangos?— perguntou à menina.— Deram-lhe morangos para comer?

— Sim.. Não… — gaguejou Gillyanne. — Havia morangos nos aposentos do homem, e quando não estava olhando, enfiei alguns na boca.

Cameron hesitou um segundo, e em seguida embainhou de novo a espada.

— Então foi um truque. — Assim dizendo, retirou o pé de cima de Avery e franziu a testa quando a criança se atirou nos braços delgados da moça. — Uma farsa. A menina é alérgica a morangos e sabia disso. Que esperta!

— Acha que seria mais honrado se permitisse que aquele porco francês a violentasse? — dardejou Avery.

— É apenas uma criança — murmurou Donald, relanceando um olhar de nojo na direção de sir Renford.

— Assim parece — replicou sir Cameron. — Creio até que essas duas vieram da Escócia.

— Os Lucette têm parentes lá. Acha que é certo essa criança doente tocar a moça?

— Por quê? Seu valor irá diminuir? Não tema. O que aflige a menina pequena não é contagioso.

— Então aceita as duas como forma de pagamento? — apressou-se a perguntar sir Bearnard.

— E tenho escolha? Se as duas não me trouxerem lucro, irei procurá-lo, Bearnard, certo?

Avery ficou um tanto surpresa ao notar que sir Bearnard em-palidecia e concordava com um aceno trêmulo de cabeça.

— Deus o proteja em sua jornada para casa, sir Cameron.

— Um escocês — sussurrou Gillyanne, enquanto sir Cameron conduzia Bearnard até a porta. — Estamos salvas agora?

— Não tenho certeza — replicou Avery no mesmo tom. — Ele nos aceitou como pagamento de uma aposta que o outro perdeu. Isso não depõe muito bem a seu favor. E também não me parece digno de grande confiança. Além disso, há algo no nome MacAlpin que me preocupa, mas não consigo atinar por quê. — A porta se fechou por trás de sir Bearnard, e Avery tocou de leve o rosto da prima. — Será que isso vai passar logo?

— Sim. Só coça.

— Deixe que eu falo -— comandou Avery, enquanto sir Cameron voltava.

O rapaz fitou as duas jovens franzinas que acabara de receber como pagamento. Barganhar mulheres era algo que o desagradava, mas há muito descobrira que era um dos poucos homens a pensar assim. Provara ter raras coisas em comum com aqueles ao lado de quem lutara nos últimos três anos. Ele e seus homens tinham se isolado cada vez mais dos outros cavaleiros, e isso trouxera problemas. Cameron apenas rezava para não ter mais dificuldades pelo caminho até alcançar a Escócia, seu lar, e, se Deus permitisse, onde viveria em paz.

A presença da moça mais velha o deixava pouco à vontade. Estava descabelada e suja, e parecia destemida, qualidade rara em uma donzela. Usava calções e trazia uma adaga atada na linda coxa. Cameron a considerava bonita e misteriosa ao mesmo tempo, e isso o alarmava.

Durante os vinte e oito anos de sua existência, descobrira que as mulheres que o atraíam sempre causavam problemas. Não estava satisfeito por perceber que a frágil garota de dourados olhos felinos despertava em seu íntimo a febre que conseguira manter sob controle nos últimos três anos, conservando-se casto sem gran­de esforço. Porém, no momento isso parecia bem difícil.

Examinando-a com atenção, tentou descobrir por que se sentia inquieto, com o sangue pulsando nas têmporas. Ela era pequena e de pé, mal atingiria seus ombros. Era também muito delgada, em nada parecendo as mulheres voluptuosas que o atraíam no passado. Os seios eram miúdos mas empinados e firmes, além de tentadoramente redondos.

A cintura era estreita e os quadris arredondados. Cameron já vira que possuía lindas pernas bem torneadas, e o leve tom dourado de sua tez combinava com a cor dos olhos. Donald tinha razão, refletiu. Ela possuía olhos de gata, da cor do âmbar, levemente oblíquos, o que aumentava sua aparência felina. O rosto era em formato de coração, com um nariz pequeno e uma boca polpuda. Tudo isso emoldurado pelos cabelos castanho-dourados com reflexos rubros, que lhe chegavam até os quadris.

Cameron passou os dedos pelos cabelos negros, no íntimo pra­guejando. Era uma mulher linda, da cabeleira selvagem aos pequenos e delicados pés. Impossível negar sua beleza. Se pretendia ser fiel aos votos de castidade, precisava ficar afastado dela, algo que era quase impossível, pois viajariam juntos para a Escócia.

— Quem é você? — perguntou por fim.

Por um breve instante Avery pensou em mentir, mas logo decidiu que seria tolice. Gillyanne jamais conseguiria manter uma farsa por muito tempo, uma vez que era muito jovem e ingênua.

— Sou Avery Murray, filha de sir Nigel Murray e de lady Gisele. Meu pai é um dos Murray de Donncoill. Esta é minha prima, Gillyanne Murray, filha de sir Eric e de lady Bethia Murray de Dubhlinn.

Avery franziu a testa ao ver que, em questão de segundos, a expressão de Cameron mudara da surpresa para raiva.

— Cameron, não foi um Murray que…

— Sim, Donald — resmungou ele, segurando Avery pelo braço e fazendo-a levantar. — Conhece um certo sir Payton Murray, senhorita?

— É meu irmão — respondeu ela, imaginando o que Payton poderia ter feito para causar tanta ira naquele homem.

Afastou-se dele, sentindo um frio no coração ao vê-lo sorrir de modo frio.

— Parece que o velho Bearnard pagou sua dívida muito bem, afinal — murmurou Cameron.

— Minha família e a de Gillyanne o recompensarão por nos devolver sãs e salvas.

— Sem dúvida que pagarão. Parece que afinal o destino sorriu para mim. Um tolo que venci nos dados acabou de me entregar a irmã do bastardo covarde que violentou minha irmã!

Avery arregalou os olhos para o desconhecido, estupefata com a incrível acusação. Então uma sensação de puro ódio a possuiu. Soltou uma praga, ergueu o punho fechado, e desfechou-lhe um murro na boca. Cameron também praguejou, mas o ataque inesperado o fez perder o equilíbrio. Esbarrou em uma banqueta e caiu de costas, arrastando consigo Avery, que ficou sobre ele, e logo agarrou-o pelos cabelos, batendo com sua cabeça no chão.

Em seguida levantou-se com pressa e tentou fugir, porém ele a reteve pelas saias. Com um grito, Avery voltou a tombar, e começou a espernear, enquanto Cameron a segurava pelos pulsos. Com o canto do olho, a jovem viu Gillyanne se aproximar e, um instante depois, os braços finos da criança seguraram seu agressor pelo pescoço.

— Donald! — berrou sir Cameron.— Tire essa menina infernal de cima de mim!

Se Donald não teve muito trabalho para afastar Gillyanne, Cameron teve muito menos ao imobilizar Avery.

— Meu irmão não é estuprador! — gritou ela.

— Minha irmã diz que sim — retrucou Cameron.

— E ouviu essa mentira aqui, nos domínios desse porco assassino, DeVeauxx?

O tom de voz cheio de desprezo com que Avery pronunciou o nome de seu anfitrião deixou Cameron curioso, mas ele afastou o pensamento.

— Foi meu primo Iain quem me contou, e agora estou livre para voltar para casa e acertar esse assunto.

De repente Avery se lembrou de onde ouvira pela primeira vez o nome MacAlpin. Melhor dizendo, lera-o em uma carta enviada pela família. A mãe se referira a "um pequeno mal-entendido" que devia ser esclarecido entre os Murray e os MacAlpin.

Avery estivera pronta para escrever de volta perguntando que pequeno mal-entendido" era aquele, quando o ataque de De­Veauxx acontecera. No momento entendia por que sua mãe pre­ferira que ela e a prima ficassem onde estavam. O estupro de uma jovem de estirpe era crime sério que poderia conduzir a uma longa e sangrenta guerra entre feudos.

— Já conheceu meu irmão ou alguém de minha família? — perguntou.

— Conheci sir Balfour Murray na corte — replicou Cameron, retirando um par de algemas de um móvel, e atirando-o sobre a cama.

Avery foi acorrentada ao leito, mas estava preocupada com Payton, e perguntou:

— E onde foi que meu irmão cometeu esse suposto estupro?

— Na corte. Iain e minha tia levaram minha irmã para lá a fim de lhe arranjar marido. Minha irmã nada contou a respeito do estupro até voltarem a Cairnmoor. Por fim revelou que não era mais pura e que talvez estivesse grávida. Iain tentou solucionar o problema de modo pacífico e discreto, mas seu irmão se nega a assumir a culpa e casar com Katherine, minha irmã.

— Por que Payton tiraria à força de sua irmã o que tantas outras desejam lhe dar de boa vontade?

— Creio que desconhece seu próprio irmão e do que é capaz. Assim dizendo, Cameron agarrou Gillyanne pela mão e conduziu-a até a porta do quarto.

— Vou mandar que lhe dêem um banho. — Fitou Avery por cima do ombro. — E darei a mesma ordem a seu respeito.

— Como poderei tomar banho e me vestir algemada?

— Parece ser uma moça esperta. Tenho certeza que dará um jeito.

 

Avery olhou para o vestido quando as duas criadas que a haviam ajudado a se banhar saíram do quarto. Era azul-escuro, rendado e muito bonito, até ter sido rasgado de um lado a fim de que ela o vestisse com o pulso algemado. Imaginou onde o bárbaro Cameron conseguira traje tão delicado. Se o comprara para presentear uma amante ou parente, agora estava arruinado, e isso lhe causou uma ridícula alegria.

Fitou a pesada algema que a prendia à cama, e tentou de novo livrar o pulso, mas foi em vão. Naquele instante, Cameron entrou no quarto, e Avery imaginou a peça de ferro rodeando o pescoço de seu algoz e apertando sem misericórdia. Esse pensamento a espantou porque não costumava ser tão cruel, mas no momento a raiva a deixava louca.

— Onde está Gillyanne? — perguntou ao ver que ele entrara sozinho.

— Deixei-a com as outras mulheres.

— Que mulheres?

— Existem algumas que viajam com meus homens.

— Prostitutas! Deixou uma menina com prostitutas?!

Não são nada disso. Duas já estão casadas e as outras em breve casarão também.

— Bem, quero ficar com minha prima. Gillyanne vai ficar preocupada e amedrontada se continuarmos separadas.

O olhar que Cameron lhe lançou a fez perceber que não o convencera.

— As mulheres irão mimá-la, não se preocupe. Ficaram felizes com sua companhia.

Cameron sentou-se na beira da cama e retirou as botas. Não havia dúvida que Avery estava furiosa, refletiu. Os olhos dourados brilhavam de raiva, e as pequenas mãos estavam cerradas. Se estivesse naquele instante de posse da adaga, o degolaria, sem dúvida.

Cameron assoprou a vela, e deitou-se na enorme cama, passan­do os braços por trás da cabeça. Avery levantara-se e mantinha-se de pé, algemada à cama.

— Deite-se — ordenou ele.

— Ao seu lado? De jeito nenhum!

— Muito bem. Fique de pé aí, indefesa, pelo resto da noite. Pouco me importo.

A palavra "indefesa" a fez ranger os dentes. Se a corrente que a prendia fosse um pouco mais longa, talvez conseguisse usá-la para esmurrar a cabeça de seu algoz. Deliciou-se com essa fantasia por um instante, e depois suspirou. Mesmo que pudesse fazer isso, Cameron não ficaria parado, esperando que ela o golpeasse.

Sim, na verdade estava indefesa. A idéia de se deitar a tentava, mas sabia como os homens podiam se transformar em um segundo de respeitosos e amigáveis em feras ameaçadoras.

Devagar, sentou-se no chão e recostou-se na beira da cama, apoiando a cabeça no colchão. Seria delicioso subir no leito e descansar o corpo exausto, porém era loucura ficar ao lado de um homem estranho que, ainda por cima, odiava sua família.

Avery observou o físico musculoso de Cameron, e lembrou-se de que ele não lhe dissera como pretendia usá-la na vingança contra seu irmão. Ainda não tentara violentá-la, apesar de estar presa.

A idéia de acusarem Payton de um crime tão bárbaro a fez estremecer. Era preciso provar que Cameron estava errado. Voltou a observar o corpo grande e musculoso, concluindo que sem dúvida ele era perigoso, apesar do rosto bonito. Não podia relaxar a guarda, pensou.

— O que pretende fazer comigo? — perguntou por fim, sem conseguir ficar quieta, e ansiosa por obter respostas.

Cameron abriu um olho e a fitou, vendo apenas sua cabeça surgir na beirada da cama. Parecia muito delicada e inocente, refletiu, sentindo-se em parte com remorso por causa da vingança que planejava. E também continuava muito atraído por sua beleza, portanto vingança e desejo eram uma combinação perigosa.

— Pretendo seduzi-la — respondeu com calma.

Mas logo ficou aborrecido ao ver a expressão de surpresa no olhar de Avery se transformar em zombaria.

— Verdade?— disse ela.— E como é tão forte e bonito acredita que cairei aos seus pés?

— Seria bom que usasse de bom senso, menina.

— Prefiro vê-lo morto, mas não podemos ter tudo que desejamos, concorda?

— Quanta violência! Uma jovem delicada como você deveria refletir mais antes de dizer palavras tão duras.

— E acrescente mutilação a isso.

— Vejo que precisa ser domada. Deixaram que se tornasse muito voluntariosa. Farei com que em breve suas palavras a meu respeito se tornem doces.

— Não seja tão presunçoso!

Mas, com gesto rápido, Cameron voltou-se na cama e puxou-a pela corrente. Avery lutou e esperneou, em vão. Quando viu-se ao seu lado sobre o colchão, tentou esbofeteá-lo, porém Cameron a segurou com força.

— Trégua, gata selvagem — sugeriu com um sorriso malicioso.

— Não sou fraca nem vulgar, e não me submeterei a beijos ou afagos. Em especial quando sei que só fará isso para humilhar meu irmão.

Enquanto falava precisou admitir para si mesma que o sorriso de Cameron o deixava ainda mais bonito, apesar da expressão arrogante.

— Foi seu irmão quem me humilhou.

— Payton jamais faria o que alega. Não foi ele quem trouxe vergonha para sua irmã.

— Ela não é mais pura.

— E você? É puro? Ninguém parece se escandalizar com isso — dardejou Avery com olhar de zombaria.

Cameron a fitou assombrado. Como ela podia comparar um homem a uma mulher?

— Não é a mesma coisa.

— Mas seu raciocínio é que se pode forçar uma mulher a se entregar, e depois puni-la por não ser mais virgem. A irmã mais velha de Gillyanne, Sorcha, foi brutalmente surrada e violentada. Alguns inimigos de seu pai a pegaram, e pretendiam fazer o mesmo com minha outra prima, Elspeth, mas meus tios Eric, Balfour e Fither os impediram. Em breve Sorcha se tornará freira, porque não suportou a vergonha. — Tomou fôlego, e fitou Cameron com severidade. — Ante o horror de tal crime, acha mesmo que meu irmão infligiria tal sofrimento a uma moça?

Cameron ponderou, e depois disse:

— Talvez minha irmã não tenha se explicado bem. Pode ser que tenha sido seduzida e não violentada. Não importa. Ele roubou-lhe a inocência e se recusa a devolver sua honra pelo casamento. Então tomarei a sua virgindade como vingança, minha jovem.

— Que romântico! — replicou Avery com ironia. — Sinto-me no sétimo céu ante sua proposta tão tentadora e gentil.

Com gesto exagerado e sarcástico, bateu os cílios, fingindo animação.

Surpreso consigo mesmo, Cameron sentiu vontade de rir, mas conteve-se. Nada via de engraçado na irmã de sir Payton, e não era homem de rir à toa. Lady Avery era tão pequena e frágil, que tinha receio de pressionar-lhe o corpo com o seu, entretanto possuía uma língua afiada e não hesitaria em atacá-lo fisicamente se pudesse.

Deslizou o olhar para seus lábios e percebeu que desejava bei­já-la. Começou a inclinar a cabeça em sua direção, e notou que ela ficava tensa.

— Diga que não pretende fazer isso — murmurou Avery em tom severo, apesar de desejar o beijo também.

— Pretendo, sim. E não pense em me morder. — Apoiou o peso do próprio corpo sobre Avery, e segurou-lhe o rosto.— Quero satisfazer minha curiosidade.

Antes que ela pudesse replicar, beijou-lhe a boca, fazendo-a lutar contra a onda de calor e desejo que a possuiu. Incapaz de resistir, entreabriu os lábios e permitiu que o beijo se tornasse mais sensual.

Sentia um estranho alívio por estar presa à cama. Não queria que Cameron percebesse a vontade que sentia de se esfregar de encontro ao seu tórax viril, acariciar as costas largas e morenas, e passar os dedos pelo rosto másculo e bonito. Esforçava-se para manter a respiração normal, mas seu coração batia de modo desordenado.

Entretanto, enquanto a paixão crescia em seu corpo, também o medo dominava sua mente. Não conseguia entender o que estava acontecendo consigo. Aquele homem pretendia desonrá-la, e atirá-la como uma carcaça sem valor de volta para sua família, na esperança de se vingar. Acusara e insultara seu irmão, assim como todo o seu clã. Era um completo estranho, e a aceitara como pagamento de uma dívida de jogo, portanto os únicos sentimentos que podia lhe devotar eram ódio e desprezo.

Contudo, bastara um beijo para fazê-la arder em chamas invisíveis e poderosas. Ansiava por arrancar-lhe as roupas, acariciá-lo e beijá-lo, desejava tê-lo dentro de seu corpo com tamanha inten­sidade que lhe causava dor.

Quando, por fim, Cameron ergueu o rosto, Avery manteve os olhos fechados. Sua mãe sempre brincava com seu pai, dizendo que podia ler-lhe os pensamentos só pelo fato de fitá-lo, e temia que o estranho notasse a paixão que lhe despertara.

— Olhe para mim, Avery — ordenou Cameron com voz rouca, segurando-lhe o queixo.

Por seu lado também se sentia atônito com a força do desejo. Nada havia em Avery Murray que devesse atraí-lo tanto assim. Era magra demais, impertinente e com um gênio terrível. Mesmo assim sabia que a desejava com uma força e impetuosidade extraordinárias.

A desculpa de não ter uma vida sexual há muito tempo parecia esfarrapada. Avery despertava algo mais profundo em seu ser, além de mera luxúria momentânea. Já notara que seus olhos cor de âmbar revelavam seus sentimentos, e queria fitá-los sem parar.

— Abra os olhos, menina.

— Não posso. Estou enojada demais.

Cameron poderia ter-se ofendido muito com essas palavras, porém o tom quente com que foram pronunciadas o deteve. Sem dúvida era uma mulher muito obstinada e teimosa. Afastou-se um pouco, e olhou na direção da porta do quarto.

— Oh, Donald! — exclamou, sem parar de observar o rosto de Avery. — Por que trouxe a outra menina para cá?

— Gillyanne? — Avery abriu os olhos bem depressa, mas logo percebeu que fora um truque. — Bastardo mentiroso!

Cameron sentiu-se triunfante ao perceber o brilho da paixão na expressão do rosto bonito. Mas havia raiva também nos olhos dourados, e não soube definir se era ódio por ele ou por si mesma, pelo fato de se sentir atraída.

De modo automático, afastou-se mais um pouco. Tanto desejo em uma moça inexperiente podia ser perigoso, refletiu. Não queria complicações em sua vida. Era melhor usar de cautela, entretanto não conseguia desistir.

— Sim — murmurou com um sorriso e a voz rouca. — Mas também sou o homem que deseja. Por que não desiste de lutar, menina?

Tanta arrogância fez Avery engasgar. Sim, ela o desejava, em­bora fosse difícil admitir. Cameron MacAlpin era um homem extremamente atraente, muito alto, forte e perigoso e, como diria seu irmão Payton, ela já estava madura para o amor.

Além disso, Cameron parecia ser muito experiente em questões de sexo, e podia virar a cabeça de qualquer mulher com seus beijos. O pensamento a deixou ainda mais furiosa. Será que ele acreditava ser irresistível?

— Por que não se arrasta de volta para o esgoto de onde veio? — acabou por dizer com fingida doçura.

— E pensar que essas palavras saíram da mesma boca delicada que acabei de beijar.

— Ilude-se a meu respeito, senhor.

— Não, é você quem está se enganando.

Cameron rolou para o outro lado do leito, lutando contra a vontade de permanecer ao lado de Avery. Tornou a colocar os braços por trás da cabeça e notou, com um sorriso, que ela não tentara se levantar.

De repente percebeu que lamentava o fato de tê-la conhecido em circunstâncias tão ruins, e praguejou em silêncio. Era um pensamento perigoso que o podia fazer afastar-se do caminho da vingança e do celibato. Aprendera a duras penas o quanto as mulheres podiam ser traidoras, e não pretendia deixar que uma moça magra de olhos de gata o iludisse. Por certo um dia abandonaria a vida de castidade, mas não pretendia deixar que a paixão o dominasse outra vez.

Fitou Avery, que se afastara tanto para a beirada do leito que qualquer movimento a faria cair no chão. Como se obedecesse a uma ordem muda, ela o fitou também.

A expressão sombria no rosto másculo a deixou perplexa. Por certo ele percebera que a excitara, e deveria estar muito vaidoso, como qualquer outro ficaria nessas circunstâncias. Entretanto parecia muito aborrecido.

Por seu lado, Cameron refletia que não devia se entregar ao desejo se planejava a vingança.

Por um breve instante, Avery sentiu-se tentada a transformar sua fraqueza em uma arma, e seduzi-lo, mas logo percebeu que seria tolice. Embora não ignorasse o que acontecia entre um homem e uma mulher quando estavam na cama, acabara de receber seu primeiro beijo e não possuía a menor experiência nessa área. Suspirou e tratou apenas de resistir.

— Se não deseja dormir, podemos voltar ao nosso jogo — provocou Cameron.

— Obrigada, tolo. Acabaria vomitando.

— Deveria tomar mais cuidado com a língua.

— É uma ameaça?

— Pode ser.

— Nossa! Estou tremendo de medo!

— Não me provoque demais, menina, ou…

— Ou o quê? Vai me bater? Já me acorrentou, insultou, e planeja me desonrar em uma tentativa errada de se vingar de meu irmão. Perdoe-me se mais ameaças me deixam insensível.

Cameron a encarou sem nada dizer, porque não tinha argumentos. Fechou os olhos e decidiu imaginar algo melhor para intimidar Avery Murray. Iria dar-se ao trabalho de descobrir alguma coisa criativa e diferente com que ameaçá-la. Mas isso ficaria para a manhã seguinte.

Com gesto brusco, ergueu-se da cama e deixou o quarto.

 

— Avery!

A voz de Gillyanne a fez parar de admirar as costas de Cameron, que apeava do cavalo e se afastava. Embora estivesse muito feliz por rever a priminha que sem dúvida estava bem, o alívio não foi muito grande.

Durante dois dias permanecera acorrentada à cama, e no momento estava amarrada pelos pulsos à sela de seu algoz. Se era assim que seria tratada até chegar na Escócia, desejava que seu clã fosse a Cairnmoor e matasse todos os MacAlpin que encontrasse no caminho. Na verdade, iria aplaudir.

— Você está bem, Gillyanne? — perguntou.

A menina olhou estupefata para as cordas que prendiam Avery ao cavalo, e depois encarou Cameron com fúria. Mesmo em se tratando de uma criança frágil, era bom ver que alguém estava do seu lado, pensou Avery.

— Sim — replicou Gillyanne. — As mulheres cuidaram bem de mim, mas só me deixaram vê-la hoje. Permitiram que fizesse de tudo, menos o que fosse contra as ordens de sir Cameron. Porém consegui ouvir algumas conversas, e nem todos os outros homens concordam com os planos do amo. Mas são unânimes quanto a se vingarem de Payton.

— Meu irmão não cometeu nenhum crime — replicou Avery com veemência.

— Não precisa defendê-lo para mim, Avery. Sei que ele é inocente.

Sempre foi um dos poucos meninos de nosso clã que nunca se irritava com nossas provocações e brincadeiras. Um rapaz como Payton, que não ficou furioso quando sujei suas botas com excremento de porco, nunca machucaria uma moça.

Avery sorriu.

— Então foi você, Gillyanne.

— Sim, naquele dia estava muito endiabrada. — Ambas riram, esquecendo suas agruras por um breve instante. — Como estão lhe tratando, Avery?

— Bem. Vê como sir Cameron passou um laço de seda nas cordas que me prendem? Apesar de sua cara zangada jamais me machucou de verdade.

— Pretende seduzi-la e lançar vergonha sobre nossas famílias.

— Tem razão, Gillyanne. Mas não se preocupe porque ainda não concretizou seu intento.

— Bem, agüente firme, até sermos salvas.

Muito simples, refletiu Avery com um suspiro. Não contara para a prima que Cameron estava sempre provocando-a de modo sensual, tocando-a, dizendo palavras gentis e sedutoras, e roubando beijos. O fato de cada vez mais aceitar aquelas carícias a perturbava muito. Por sorte, estar presa nesse momento fazia com que alimentasse seu ódio. Caso Cameron deixasse de tratá-la como prisioneira, seria muito difícil resistir à tentação, concluiu com desânimo.

— Para dizer a verdade, prima Gillyanne, não sei se terei forças para resistir por muito tempo.

Sorriu ao ver a expressão chocada da menina. Gillyanne pigarreou.

— Sim, sir Cameron é um homem muito atraente.

— Mas sua alma é negra pelo pecado, e está tentando me fazer pecar também.

— Tem quase dezenove anos, Avery. Já deve ter passado por tentações e resistiu com bravura.

— Creio que nunca fui tentada de verdade.

— Está apaixonada por Cameron MacAlpin?

— Gillyanne, o homem me prendeu com correntes a uma cama, agora me amarrou ao cavalo, e quer me usar para vingar-se de um suposto crime de meu irmão, lançando lama sobre minha família, e forçando Payton a um casamento indesejado. Seria louca se o amasse!

— Nem tanto. Cameron acredita no que a irmã lhe contou, e se você não está apaixonada, pelo menos sente-se atraída por ele.

Avery suspirou.

— Tem razão.

Gillyanne deu um tapinha no ombro da prima.

— Faça o que puder para resistir com bravura, mas não a culparei se fraquejar. — Sorriu para Avery, porém logo voltou a ficar séria. — Um dia ele perceberá que a irmã mentiu.

— Sim, e buscará remediar o mal que fez— resmungou Avery.

— Bem, se nessa época você o amar em vez de apenas sentir atração por ele, não seria nada mau que se casassem.

— Cale-se, Gillyanne. Cameron está voltando.

MacAlpin notou o olhar que as primas trocaram e sorriu. As duas eram mais corajosas do que muitos homens que conhecia. E estavam ansiosas para feri-lo, concluiu com uma ponta de preocupação.

— Volte para a companhia das outras — ordenou a Gillyanne, sorrindo ante a careta que a menina fez. Dirigiu-se a Avery: — Quando crescer, esta criança causará muitos problemas para os homens.

— Ótimo — replicou a cativa. — Será uma jóia rara a ser disputada, e ninguém a terá com facilidade.

— Do modo como tenho você?

— Tem razão. Fui atirada aos seus pés como uma mercadoria. Obteve a arma para se vingar de minha família, entretanto terá que lutar muito.

— Verdade?

Assim dizendo, acercou-se dela, mantendo-a presa entre o cavalo e seu corpo. A proximidade o fez sentir o sangue correr-lhe quente nas veias, e o olhar de Avery obrigou-o a rezar para que não estivesse iludido. Ela também o desejava, tinha certeza.

A traição feminina fizera com que se afastasse do amor e o deixara inseguro a respeito do próprio julgamento em relação às mulheres. Muito arrogante no passado, pensara poder ler os corações de suas amantes, porém se enganara. Iludira-se diversas vezes e, ao procurar o amor, encontrara apenas decepção, até que seu coração ficara empedernido e não conseguira mais se surpreender ou magoar, dando as costas para os sentimentos mais profundos.

Mas Avery Murray era diferente de todas que já conhecera. Talvez fosse o brilho de seu olhar ou sua intransigência em ceder.

Perturbada com a proximidade, Avery, murmurou:

— Bastardo!

— Pare de me adular com palavras carinhosas, menina — redargüiu Cameron com sarcasmo.

Avery hesitou entre a vontade de rir e o desejo de dar-lhe um chute na perna. Mas era o riso o que mais a preocupava. Homens com presença de espírito e respostas bem-humoradas sempre a haviam atraído. Entretanto, antes que tivesse tempo de refletir sobre isso, Cameron a ergueu nos braços e a colocou sobre a sela com delicadeza, montando em seguida.

Mal fustigou o cavalo, Avery percebeu que a viagem seria um tormento. O corpo musculoso de Cameron a comprimia por trás, e ela estava aninhada entre suas pernas como se fossem amantes. Os braços longos e fortes a circundavam, enquanto manejavam as rédeas, fazendo-a sentir que era uma espécie de abraço, e que teria que senti-lo durante horas. A cada movimento da montaria seus corpos se roçavam. Mal haviam transposto os portões das propriedades de DeVeauxx, e já sentia-se tonta de desejo.

Tentou se afastar um pouco, mas Cameron a forçou a voltar à mesma posição, apertando-a com delicadeza. Avery ficou rígida, mas isso aumentava o desconforto, e poderia acabar caindo do cavalo, arrastando Cameron na queda.

A imagem dele estirado sobre uma poça de lama a divertiu, mas seria perigoso. Estava amarrada pelos pulsos à sela, e poderia ser arrastada a galope.

Entretanto, a idéia de ver Cameron cair do cavalo continuou a diverti-la, e ele percebeu.

— Vejo que está bem-humorada hoje e isso me alegra.

— Estava pensando como seria divertido vê-lo cair com o rosto na lama — replicou Avery com fingida meiguice.

Cameron achou melhor conter o riso, e tratou de tossir para disfarçar. Ela era mesmo muito audaciosa. Apesar da maciez do corpo delicado contra o seu, sabia que por dentro era feita de aço. Seria uma longa e árdua batalha até fazê-la admitir que o queria também. Se a fizesse ficar de joelhos na sua frente, Avery rastejaria para longe, refletiu. E não desejava possuí-la à força.

— Se cair, você cairá comigo— disse, mas não se referia apenas ao cavalo.

— Sei disso. Por isso não tentei derrubá-lo da sela.

— Admirável de sua parte.

— Também acho. E por falar nisso, é bom de vez em quando dar uma olhada para trás. Pode haver inimigos à espreita.

— Sim, além disso tenho você a minha frente, sem armas mas sempre um perigo.

— Refiro-me a DeVeauxx, e não estou brincando. Desconfio daquele homem.

— Agora se preocupa com a minha segurança?

— Não seja presunçoso! Minha prima segue logo atrás e quero que chegue sã e salva à Escócia. Além do mais — acrescentou Avery com voz suave — , gostaria de ser livre para atentar pessoalmente contra a sua segurança.

— É uma mulher muito dura, Avery Murray. Mas por que odeia tanto DeVeauxx?

— Ele e seus vassalos são porcos assassinos. Já devem ter matado muitos de meu clã.

— Talvez sim, mas creio que seu ódio é muito antigo.

Por um momento Avery desejou dizer-lhe para cuidar da própria vida, mas desistiu. A longa luta entre os DeVeauxx e os Lu-cette não era segredo, assim como os problemas que os primeiros haviam infligido aos seus familiares no passado. Decidiu que seria bom contar a história, pois sabia que os MacAlpin nunca tinham se passado para o lado daqueles assassinos, fosse qual fosse a quantia em ouro que oferecessem, e isso era bom. Sentia-se feliz por Cameron e sua gente não estarem envolvidos com aquela corja.

— Tudo começou com minha mãe, embora antes disso os De­Veauxx já tivessem atormentado minha família. Sempre abusaram dos mais fracos ou com menos fortuna. Pela paz e por dinheiro minha mãe foi obrigada a se casar com lorde Michael DeVeauxx, apesar de sua péssima reputação. E tudo que se dizia a respeito desse nobre era verdade. Certa noite minha mãe o encontrou mutilado e com o pescoço cortado. Horrorizada, ela fugiu.

— Por quê? — quis saber Cameron. — Foi ela quem o matou?

Não havia condenação em sua voz, e embora Avery não entrasse em todos os detalhes escabrosos do primeiro casamento da mãe, sabia que fora terrível. E Cameron devia conhecer a reputação cruel dos DeVeauxx.

— Não — — respondeu. — Mas poderia tê-lo feito se quisesse. Ninguém a condenaria porque sofreu muito com aquele casamento, e por várias vezes ela se queixou que queria se libertar daquele tormento. Meu pai a ajudou a fugir para a Escócia, esperaram passar um ano de sua fuga, então se casaram. Mais tarde apurou-se que tinham matado Michael DeVeauxx para vingar o estupro que cometera contra uma moça, e minha mãe ficou livre para sempre. — Avery suspirou. — Mas a semente do ódio já estava plantada. Nem todos os DeVeauxx acreditaram na inocência de minha mãe, e seu casamento desastroso só intensificou a beligerância entre as duas famílias. — Sorriu com tristeza. — Talvez, no fundo, não desejassem a paz, apenas ter sempre alguém para detestar e lutar.

— E quem sabe os DeVeauxx não gostaram de ver um parente ser exposto como depravado e cruel.

— Sim, é possível. E também detestaram o fato de minha mãe herdar uma fortuna como sua viúva. Mas foi um prêmio pequeno para tudo que sofreu.

Cameron sorriu.

— Fique tranqüila. Depois de tudo que me contou, estou com olhos nas costas também.

Avery aquiesceu com um gesto de cabeça. Desejaria saber o que acontecera com os homens de sua família, após a luta. Nos últimos dois dias obtivera poucas informações, e parecia que a matança não fora muito grande, afinal. Rezava para que alguém informasse sua mãe, mas iriam se passar meses até que fizessem contato. Avery fechou os olhos, tentando esquecer o horror que presenciara.

Em breve pararam para descansar. Ela já não conseguia resistir à pressão das coxas musculosas contra as suas, e estivera a ponto de capitular. A única satisfação que sentia era saber que Cameron também não era indiferente.

Assim que seus pulsos ficaram livres das cordas, correu para um canto a fim de ter um pouco de liberdade. Cameron fora cuidar de outras coisas, e deixara um de seus homens, Rob, como guar­dião. Mas Rob era gentil, e Avery não se sentiu prisioneira.

Depois de respirar bastante ar puro, foi procurar Gillyanne. Quase sorriu ao ver a prima surgir em meio às árvores. Por certo sentira a mesma necessidade de liberdade, refletiu. Um homem corpulento chamado Colin tomava conta da pequena, que parecia furiosa. Mais divertido porém era que o homenzarrão parecia temer Gillyanne.

— Vai querer ouvir a conversa com minha prima? — dardejou a menina, encarando o pobre guardião.

Dessa vez Avery não conteve o riso, ao ver que Rob e Colin davam um passo atrás.

— Estão apenas cumprindo ordens, Gillyanne.

— Sei disso, e só por esse motivo agüento tudo como uma dama, e não tento golpeá-lo na cabeça com um pau. — Respirou fundo, e depois cruzou as mãos com delicadeza. — Pronto! Estou calma.

— Respirar fundo ajuda?

— Às vezes, quando não estou furiosa de verdade. Como você mesma disse, não é culpa de Colin, mas daquele demônio que insiste em prendê-la nas grades da cama e na sela dos cavalos. Por falar nisso, como vai você, Avery?

A jovem passou o braço pelo ombro da prima, e começou a caminhar ao seu lado.

— Bem.

— Sério? A mim parece que está muito preocupada.

— É uma menina observadora, prima.

— Tia Maldie sempre diz isso. Porém, você também tem seus dons. Pressentiu o perigo no dia que os DeVeauxx nos atacaram.

— Grande coisa! Não ajudei em nada!

— Estamos vivas. E se tivéssemos sido pegas totalmente desprevenidas poderíamos ter morrido também. E você alertou nossos homens, embora tarde demais. Só podemos rezar pelas almas dos que morreram.

— Espero que não tenham sido muitos — suspirou Avery.

— Precisamos nos concentrar nos problemas atuais.

— Sim. E em como manter Payton a salvo.

— É verdade — replicou Gillyanne, lançando um olhar perspicaz para a prima. — E como manter seu coração tranqüilo. A paixão machuca.

Avery sabia que não adiantava tentar iludir a prima. Apesar de muito jovem, Gillyanne era sagaz.

— Meu único consolo é que Cameron também sofre — replicou. — Mas estou à beira de capitular.

— Meu Deus! Então é preciso pensarmos em um plano para fazer com que a vitória de nosso raptor não seja muito doce.

— Só desejo que Payton saiba que não fui desonrada, e que me entreguei de livre vontade.

— Sem dúvida isso diminuirá a alegria de sir Cameron. Naquele instante o cavaleiro se aproximava das duas moças, e Avery não pôde deixar de sentir o coração acelerado. Até certo ponto era compreensível, justificou-se. Cameron possuía um físico maravilhoso e, afinal, era um homem muito bonito.

Com os dentes cerrados, Avery sussurrou de modo que só a prima a ouviu:

— Primeiro farei com que esse homem sofra e me deseje tanto que a última coisa em que queira pensar seja em vingança.

 

— Estamos complacentes — comentou Avery para Gillyanne enquanto passeavam no acampamento dos MacAlpin.

— Acha mesmo? — A menina mais nova parou para observar uma pequena flor azul. — É uma bela época do ano para ser com­placente.

— Certo. Entretanto parece que esquecemos ser prisioneiras, e sobre os planos de Cameron a respeito de Payton.

— É difícil pensar em coisas desagradáveis quando a primavera enche o ar de beleza e alegria. Fico admirada ao notar sua frieza, Avery.

— É que ele nos trata com tanta delicadeza e consideração que na verdade é complicado acusá-lo de alguma coisa. E é isso que me preocupa. Às vezes me esqueço do porquê estamos com Mac­Alpin.

— Pensei que seu plano fosse fazê-lo se apaixonar por você. Pelo menos foi o que me disse há três dias.

Avery suspirou.

— Creio que estou confusa. O mau humor de Cameron está acentuado, mas não sei se por causa de minhas constantes provocações ou porque é assim mesmo. Estará nervoso por me desejar ou devido à vingança contra meu irmão?

— Acho que é o desejo por você. Avery sorriu com tristeza.

— Mas para mim os sentimentos são mais profundos do que mera luxúria.

— Então aja como a prima Elspeth.

— Persegui-lo até que se case comigo? — Avery soltou uma gargalhada. — Não tenho a habilidade de Elspeth. E não com­preendo como posso gostar de Cameron quando ele conspira contra Payton.

Gillyanne lançou um olhar severo para a prima.

— Precisa se resolver e tentar conquistá-lo a qualquer custo… De tal modo que seu único pensamento seja você. Do contrário, o caminho conduzirá à dor e ao sofrimento. Creio que não podemos escapar de nosso inimigo, Avery.

— Também penso assim. Quem sabe mais uma boa provocação seja produtiva?

As duas se entreolharam com um sorriso. Gillyanne olhou sobre o ombro, e comentou:

— Rob e Colin estão muito entretidos em sua conversa. Devemos usar de bom senso ou de audácia?

— Vamos ser audaciosas desta vez. Vou contar até três, e depois fugiremos para os bosques. — Sorriu de leve. — É muito provável que sejamos recapturadas, mas vale a tentativa de irritar Cameron.

Gillyanne acenou de modo positivo, e arregaçou as saias, enquanto Avery fazia o mesmo.

— Um, dois, três!

E as duas primas saíram correndo.

Cameron praguejou ao ouvir as vozes alteradas no acampamento. Enfiou por dentro da camisa o mapa que examinava com o primo Leargan, e levantou-se depressa. A única coisa que o preocupou ao ver as duas meninas Murray tentando escapar, foi o quanto poderiam correr.

— Malditos Rob e Colin! — praguejou. — Disse-lhes para vigiarem de perto aquelas duas!

— Não pode culpá-los por tudo — argumentou Leargan, acompanhando o primo. — As duas não passam de meninas e estavam se comportando muito bem.

— O que nos devia ter alertado. Leargan riu.

— Fala como se elas fossem mulheres perigosas e experientes.

— A mãe de Avery conseguiu ludibriar os vingativos De-Veauxx durante um ano, e agindo quase sempre sozinha. Então o pai de Avery conseguiu tirá-la da França apesar da alta soma oferecida para quem a capturasse. Sua prima Elspeth acabou de se casar com sir Cormac Armstrong, um solteiro empedernido, por­tanto as mulheres dessa família são perigosas, sim!

— Meu Deus! — exclamou Leargan, impressionado. — Então talvez as meninas tenham aprendido alguns truques.

— Sim, e correm muito também. Siga a menor!

— As duas são pequenas, Cameron.

— Vá atrás de Gillyanne. Perseguirei o outro foco de problemas.

Ignorando a risada do primo, Cameron saiu correndo.

A fuga de Avery o deixara furioso, porque parecia que a jovem não se sentia tão atraída pela convivência entre ambos. Ou então, refletiu, o desejasse tanto que resolvera fugir para não ceder à tentação.

Um sorriso curvou-lhe os lábios ao persegui-la em meio ao bosque. Não tinha a menor intenção de deixá-la escapar, no momento em que se aproximava da vitória. Quando haviam acampado ali para passar a noite, percebera como Avery evitava seu olhar e respirava de modo apressado. E durante a cavalgada muitas vezes ela deixara escapar leves suspiros ao seu toque.

Não era o espírito de vingança que o fazia correr pela mata naquele instante, mas a determinação de não deixar escapar por entre os dedos o objeto de seu intenso desejo.

Avery fez sinal para Gillyanne tomar a direita, enquanto ela enveredava mais para a esquerda. Podiam se ver enquanto corriam, mas assim forçavam seus perseguidores a se espalhar. Lançando um rápido olhar sobre o ombro, Avery percebeu que apenas duas pessoas as seguiam. Cameron e seu belo primo Leargan, que perseguia Gillyanne. Sentiu um frêmito de alegria ao notar que Cameron tomava a direção esquerda para continuar em seu encalço, mas ele tropeçou em uma pedra e perdeu vantagem.

Então Avery, rápida como um raio, cortou a frente de Leargan com um movimento decidido, fazendo-o cair ao solo. Com gesto audaz, retirou-lhe o punhal da cintura e encostou-o em seu pescoço.

Os gritos de Gillyanne a fizeram erguer a cabeça e ver que a prima fora capturada por Cameron, então gritou a plenos pulmões:

— Fazemos um trato?

— Não — replicou Cameron. — E jamais verá de novo sua querida Gillyanne se ferir meu primo.

— Assim espero— murmurou Leargan sentindo o fio da lâmina na pele do pescoço.

Com um suspiro, Avery deixou-o livre. O rapaz se ergueu de pronto.

— Pode me devolver o punhal, por favor, senhorita?

De dentes cerrados, ela obedeceu, entregando-lhe a arma. Quando Gillyanne correu para o seu lado, acariciou os cabelos da me­nina com alívio. Não estava muito preocupada com o castigo que receberia, apesar do ar furioso de Cameron. A essa altura já sabia que o nobre jamais a machucaria.

— Pensou de fato que conseguiria escapar? — perguntou ele, segurando-a pelo braço e conduzindo-a de volta ao acampamento.

— Sempre se pode sonhar — murmurou Avery com raiva.

— E aonde pensava chegar sem cavalos e suprimentos?

Era uma boa pergunta, mas Avery não pretendia dar o braço a torcer, fazendo papel de tola.

— Pensamos em pedir abrigo na primeira igreja que encontrássemos.

— Sim — apoiou Gillyanne.

— Espera que eu acredite nisso? — dardejou Cameron, sem obter resposta das duas fugitivas. Ao aproximar-se dos guardas, vermelhos de vergonha, avisou. — São pequenas e frágeis, mas não se iludam. Gostam de dar trabalho.

Quando Avery e Gillyanne foram levadas para o outro canto, murmurou para Leargan:

— São muito espertas para pensar que essa fuga daria certo.

— Então o que pretendem?

— Estão apenas tentando me irritar.

— Acha que Cameron percebeu que queríamos deixá-lo furioso? — perguntou Gillyanne, sentada com Avery na tenda do líder, e saboreando a refeição da noite.

— Pode ser que sim — replicou a prima mais velha. — Mas creio que tentará descobrir um motivo mais secreto.

— Ele não confia nas mulheres, certo?

— De jeito nenhum.

— Então a vitória será maior se conseguir conquistar seu coração.

— No caso de Cameron ter um coração…

— Acho que tem, só esconde esse fato. Alguns homens são assim.

— E alguns se recusam a entregá-lo a qualquer mulher.

— Mas ele a deseja, Avery.

— Luxúria não é afeto, Gillyanne, e os homens sentem isso por qualquer rabo-de-saia. Atração física nada tem a ver com questões do coração ou da alma.

— Espero que quando me apaixonar seja por um homem mais flexível — ponderou a pequena Gillyanne.

— Faço votos que assim seja.

Assim dizendo, Avery observou Cameron passear pelo acampamento, conversando com seus homens, e suspirou.

— Confesso a você, prima, que a única coisa que me impede de me atirar nos braços desse bastardo é saber que ele usaria essa fraqueza contra minha família.

— Então sente mesmo uma atração irresistível?

— Creio que sim. — Avery observou o objeto de seus pensamentos penetrar na mata com o primo Leargan. — Várias vezes hoje tive ímpetos de atirá-lo da sela, mas na verdade era porque desejava cair sobre ele, e…

— Então faça isso!

Avery fitou a prima com um sorriso triste.

— Faria, mas sei que no fundo ele deseja me seduzir por vingança.

Gillyanne ergueu os olhos para o alto em um gesto de impaciência.

— Acredite em mim, prima! A última coisa em que ele estará pensando quando essa hora chegar será em vingança. Não se lembrará nem da irmã ultrajada nem de Payton. Só precisa fazer com que Cameron entenda que não lhe tirou nada, mas que você está dando porque quer. Deixe-o perceber que está se entregando por­que assim o desejou.

— É um jogo perigoso — murmurou Avery, admirada com a esperteza precoce da prima.

— Sim, mas o prêmio valerá a pena, não acha? O fim das vinganças e sua liberdade.

— Tem razão.

— Muito bem! Quando pretende se entregar a Cameron Mac-Alpin?

— Não sei. Antes que isso aconteça, pretendo atormentá-lo até não poder mais.

As duas riram com vontade.

— Estão às gargalhadas — comentou Cameron de mau humor, enquanto retornava ao acampamento com Leargan.

O outro sorriu.

— São duas meninas fora do comum.

— Duas gatas selvagens que adoram me atormentar.

— E você deseja a mais velha com todas as forças.

— Não disse isso, Leargan.

— Nem precisa.

— Bem, pelo menos tenho um incentivo para perpetrar minha vingança — replicou Cameron com expressão sombria, odiando admitir a verdade.

— Não prefere esperar até chegarmos em casa para pensar com calma?

— Fala como minha tia e Iain. De nada adianta esperar. Payton Murray pagará pelo crime que cometeu, e tornará minha irmã uma mulher honesta.

— E se isso acontecer, você também agirá de modo correto?

— Como assim? Leargan suspirou.

— Pretende seduzir Avery para obrigar Payton a fazer a coisa certa com sua própria irmã. Se ele obedecer, continuaremos tendo uma jovem desonrada sem marido. — Fitou Cameron com severidade. — Avery, uma moça que nada fez de mau.

— Não quero uma esposa — resmungou Cameron, ressentido pela lógica contida nas palavras do primo.

— Entretanto acha que sir Payton Murray precisa se casar mesmo contra a vontade. É uma pessoa contraditória, primo.

— E você será um homem morto se não parar com este assunto, Leargan.

O outro calou-se, não por medo mas por prudência, e isso deixou Cameron satisfeito.

Aproximou-se da tenda, e pediu:

— Leargan, leve Gillyanne para as outras mulheres.

O outro obedeceu, entrando na tenda e retirando a menina. Quando o primo se afastou com a prisioneira, Cameron fez Avery sair também e sentou-se ao seu lado junto ao fogo. Desejava apagar da mente as palavras de Leargan, mas parecia impossível. Não podia negar que seu plano era injusto. Exigia que Payton Murray restituísse a honra de sua irmã, porém pretendia enxovalhar a de Avery. Tratou de convencer a si mesmo que Payton trouxera desgraça para si e que precisava pagar. Por seu lado, não desejava arrumar uma esposa.

Quando Avery se levantou e entrou de novo na tenda, Cameron pegou o odre de vinho que ela deixara ali, e tomou um grande gole, desejando se embriagar. Isso faria com que esquecesse Avery, e o sentimento de culpa, por algumas horas. Infelizmente teriam mais um longo dia de viagem e só um tolo desejaria viajar com ressaca, concluiu.

Por fim, levantou-se e entrou na tenda também. A visão da jovem deitada em seu catre fez com que sentisse o calor do desejo. Queria arrancar as próprias roupas, deitar-se ao lado, e possuí-la com fúria. Estava louco para provar cada centímetro de seu corpo virginal e ouvi-la gritar seu nome toda trêmula.

Com o coração batendo forte e as mãos suadas, lavou-se a um canto da tenda, deitou-se ao lado de Avery e, como sempre fazia, amarrou seu pulso ao dela com uma tira de linho.

— Não pensou que poderia escapar hoje, pensou? — questionou-a em tom brando, seus ombros se tocando no escuro.

Sorriu ao senti-la estremecer com a proximidade, e concluiu que não sofria sozinho.

— As oportunidades devem ser aproveitadas — retrucou Avery.

Sentia-se desesperada porque quase não conseguia se mover, e precisava ficar com o corpo colado ao dele.

— Sem comida, água, cobertores ou cavalos? — insistiu Cameron.

— Encontraríamos o que precisássemos no percurso.

Cameron ignorou a idéia absurda.

— E em terras infestadas por seus velhos e poderosos inimigos?

— Parece que na Escócia também não estarei cercada de amigos e aliados — retrucou Avery com ironia.

Com gesto brusco, Cameron rolou o corpo e postou-se sobre ela.

— Não sou seu inimigo.

— Claro que não! Como sou tola! Por amizade pretende me humilhar e usar isso contra meu clã.

— E se alguém ferisse um membro de sua família, Avery? Esqueceria o mal, faria uma prece pelo infrator, e tudo estaria acabado?

— Não usaria inocentes para tentar punir os culpados. E não estou dizendo com isso que meu irmão é um criminoso.

Cameron suspirou e beijou-a. O modo como ela correspondeu de imediato o fez estremecer de volúpia. Avery arqueou o corpo e encostou-se ao peito rijo. Com um autocontrole sobre-humano, Cameron afastou-se e fitou-a. Sabia que poderia possuí-la naquele instante, e que ela se entregaria de boa vontade. Era tolice continuar se negando esse prazer, mas algo o fazia recuar.

Queria que Avery se entregasse de corpo e alma, e não apenas por desejo físico.

— Por que se nega a admitir que está louca por mim?

— O que existe entre nós é apenas o espírito de vingança.

— Não é a vingança que me faz tremer ao seu lado, confesso.

— Pois me sinto muito calma e plácida como um lago no verão. — Avery ignorou a risada irônica de Cameron. — Não me usará para ferir minha família.

— Só contra um parente seu. Payton.

— Lutarei com unhas e dentes para defender meu irmão do mesmo modo que luta por sua irmã. Durma bem, sir Cameron.

Não obteve resposta, e tratou de fechar os olhos. Mas logo Cameron murmurou:

— Você irá ceder, Avery Murray… O que sente por mim é forte demais.

— Talvez. Mas não me deixarei ser usada contra meu irmão.

Aquele "talvez" deixou Cameron em estado de graça. Era mais do que Avery já prometera até então. Fechou os olhos e tentou acalmar o clamor do sexo. Era preciso dormir. Pela manhã iria redobrar os esforços para fazê-la ceder e transformar o "talvez" em "sim."

Esperava apenas não enlouquecer antes que isso acontecesse.

 

Suas mãos estavam livres, e Avery mal podia acreditar em tanta sorte. Duas noites atrás, ela e Gillyanne tinham feito Cameron persegui-las e, como esperavam, ele se tornara mais vigilante e determinado a seduzi-la. Duas noites excitantes e longas, mas cheias de frustração também.

Os dias também não eram melhores, e ambos estavam exaustos pelo autocontrole a que eram obrigados a se entregar. Por isso, refletiu Avery, estava no momento sentada na garupa do cavalo de Cameron, as mãos livres de cordas, mesmo que fossem de seda ou linho. Por certo ele estava cansado demais para se lembrar desse detalhe importante, refletiu.

Avery olhou ao redor e viu Gillyanne perto das outras mulheres. Se conseguisse chamar a atenção da menina poderiam fugir de novo. Gillyanne sabia montar muito bem, e dessa vez partiriam com suprimentos. Avery imaginou por que continuava ali sentada na sela e já não galopava com a prima para longe.

A resposta a sua hesitação podia ser resumida em uma só palavra, para seu espanto e desgosto: Cameron.

Como se o tivesse conjurado, ele surgiu ao lado do cavalo. Colocou a mão em sua perna e acariciou-a, mas a arrogância e ar de triunfo com que a fitou fizeram Avery tomar uma decisão.

Sorriu de modo lânguido para seu raptor, e então golpeou-o no rosto, fazendo-o cair de costas no solo. Em seguida, fustigou a montaria, que saiu a galope, e bradou o nome de Gillyanne. Para seu alívio a prima foi rápida, e bastou fazer o cavalo reduzir um pouco a marcha para que a menina subisse na garupa com agilidade.

Enquanto se distanciavam, Avery pôde ouvir, risonha, os gritos de Cameron as suas costas.

O cavaleiro MacAlpin levantou-se praguejando. Não estava admirado por ver como Avery conduzia bem seu alazão ou como a pequena Gillyanne subira com agilidade na sela em movimento. Nada que as duas fizessem poderia surpreendê-lo, refletiu, em especial se elas soubessem que iriam irritá-lo.

Esperando não demonstrar seu desespero, começou a dar ordens a torto e a direito, satisfeito por ver que Leargan já corria para o seu lado com dois cavalos arreados.

— Não diga nem uma palavra! — resmungou para o primo, subindo na sela e saindo a galope.

Leargan ignorou a ameaça, enquanto seguia ao seu lado.

— Creio que não conseguirá alcançá-las. Seu alazão é o mais veloz de todos, e a moça é excelente amazona.

— Não conhece a região e ignora por onde seguir.

— Talvez, mas só precisam se manter fora de nosso alcance. E era isso mesmo que Cameron temia. Como as duas não tinham destino certo, não saberia localizá-las de imediato. Isso significava que teria que seguir pistas e rastros, processo demorado que daria às fugitivas uma grande vantagem.

O pior era pensar que talvez soubessem como apagar pistas. As jovens Murray já haviam provado habilidades raras em pessoas do sexo frágil. Entretanto Cameron estava determinado a não se deixar derrotar por uma dupla de mulheres magras e pequenas, mesmo que as tivesse que perseguir até os portões de Donncoill.

Passava do meio-dia quando Avery decidiu que já estavam bem longe e poderiam descansar um pouco. Ela e Gillyanne apearam no pequeno bosque que haviam descoberto e que era perfeito. Sombreado e fresco, com um riacho e grama macia para o cavalo.

Gillyanne ajudou-a a cuidar da montaria, e depois ambas se deixaram cair à sombra de uma árvore. Vários minutos se passaram até que tiveram forças para examinar as bolsas amarradas na sela, em busca de comida e bebida.

Para alegria de Avery, também encontraram o mapa de Cameron, e ela o estudou, enquanto comia com a prima bolos de aveia, e tomava um pouco de vinho.

— É difícil saber para onde ir quando desconhecemos onde estamos — murmurou Gillyanne, apoiando-se ao tronco da árvore e fechando os olhos.

— Sim, mas logo que descobrirmos nossa localização este mapa será de grande ajuda — replicou Avery, relaxando ao seu lado.

— Acha que Cameron nos perseguirá por muito tempo?

— Mais do que gostaríamos. É um homem teimoso.

— E roubamos seu cavalo preferido. Avery sorriu ante o comentário.

— É verdade. Entretanto creio que irá nos perseguir porque somos duas garotas que o fizeram de tolo.

— Isso abala o ego masculino.

— E Cameron MacAlpin é muito orgulhoso.

— Fiquei surpresa com sua súbita decisão de fugir— comentou Gillyanne.

Avery suspirou.

— Não foi assim tão súbita. Hesitei, mas então ele me lançou aquele olhar…

— Que olhar?

— O que dizia "posso e vencerei". Então o empurrei. — Gil­lyanne soltou uma risada, e Avery prosseguiu:— Esse foi o grande erro de Cameron. Se tivesse me fitado de outro modo, com doçura e humildade, talvez ainda estivesse lá no acampamento, sentada no cavalo, e tentando me decidir. Uma parte de mim desejava ficar, confesso, e só pensava que, se conseguisse fugir, jamais o veria de novo.

— Não seja tão dura consigo mesma. — Gillyanne acariciou a mão da prima. — Considerando seus sentimentos em relação a Cameron é natural que não quisesse deixá-lo, em especial para sempre. Payton compreenderia.

— Só me arrependo de não ter me entregado a ele pelo menos uma vez.

— Concordo.

— Verdade, Gillyanne?

— Sim. Paixão tão forte é algo raro. Nossos pais nos disseram isso, e Elspeth também. É o que todas buscamos. Paixão com amor e carinho. Quero viver o que nossos pais viveram, Avery. E essa chance já apareceu para você. — A menina piscou um olho de modo maroto. — Tente pensar que foi culpa de Cameron se não se entregou.

— Sim, é culpa daquele tolo e da sua irmã mentirosa. Talvez nossa fuga tenha sido para o melhor, porque perderia a cabeça se me visse diante da acusadora de meu irmão.

Assim dizendo, Avery levantou-se e ajeitou a saia. — É melhor prosseguirmos viagem. Poderemos ir mais devagar agora.

— Tem certeza? — perguntou Gillyanne, seguindo a prima. — Não vimos sombra de Cameron ou Leargan até este momento. Mas naquele exato instante notou algo se movendo entre as árvores.

— Maldição! Não posso acreditar que nos encontraram! Entretanto, olhando com mais atenção, concluiu que devia ser apenas um coelho correndo entre os arbustos.

— Não são eles. — Suspirou aliviada.

Montaram, e Gillyanne enlaçou a cintura da prima. Atravessaram o riacho e penetraram na mata densa do outro lado. Logo voltaram a pressentir movimento.

— Quem será desta vez, Avery?

— Não sei. Parece o som de vozes. É melhor nos escondermos.

— Não é preferível sair a galope?

— Estão muito perto e nos ouvirão — sussurrou a mais velha, conduzindo o cavalo para um grupo de árvores grandes que forneciam muita sombra. — Que outros cavaleiros além dos MacAl­pin podem estar rondando a mata por aqui?

Assim dizendo, inclinou-se sobre a sela e, em meio à folhagem, divisou um pequeno exército de homens que davam água aos cavalos. Os escudos que traziam a fizeram estremecer. Eram as armas dos DeVeauxx, e sem dúvida isso lhes traria problemas.

— Avery? — murmurou Gillyanne em tom de pergunta.

— Quieta! Talvez consiga ouvir algo que dizem.

Mas logo concluiu que ouvira mais do que precisava. DeVeauxx queria o dinheiro de Cameron, além de pedir resgate por ela e a prima, e pouco se importava em matar quantos MacAlpin fosse necessário. Fora tolice pensar que tal homem as deixaria escapar, assim como o nobre rico que alojara. Cameron prestara serviços aos DeVeauxx durante três anos, mas no momento já não lhes interessava mais.

Avery sabia que sua escolha era difícil. Devia continuar fugindo com Gillyanne ou voltar ao acampamento e avisar Cameron? Suspirou, percebendo que seu coração já decidira por ela.

— Os DeVeauxx pretendem pegar os MacAlpin de surpresa e matá-los — disse Gillyanne, lendo seus pensamentos.

— Sim. Creio que foi sorte estarmos aqui.

— Vamos voltar e alertá-los?

— Assim que descobrir como fazer isso sem chamar a atenção dos DeVeauxx.

Gillyanne balançou a cabeça, compreendendo.

— Tinha certeza que faria isso. Avery lançou-lhe um olhar irritado.

— É mesmo?! Afinal Cameron quer nos usar para se vingar de Payton, pedir resgate por você e me desonrar. Ele e seus homens estiveram confraternizando com os DeVeauxx, apesar de não serem aliados. — Respirou fundo, contrariada consigo mesma. — Deveríamos estar desejando boa sorte aos DeVeauxx.

— Tem razão, mas não é o que faremos…

Avery fustigou o cavalo na direção do riacho, e resmungou.

— Não. Vamos pôr nossos pescoços a perigo, tentando salvar nossos captores. Entretanto Cameron e seus homens não merecem a morte nas mãos dessa súcia.

— Acha que poderemos chegar no acampamento antes dos De­Veauxx?

— Vamos tentar. Não parecem estar com muita pressa.

— Talvez desconheçam a localização exata.

Começaram a trotar em silêncio. Avery rezava para terem sucesso. Apesar da situação em que Cameron MacAlpin a metera e suas acusações contra Payton, por certo não desejava vê-lo morto ou aleijado, nem seus companheiros. Suspeitava que faria o mesmo ainda que não o amasse. Embora tivesse tido pouca convivência, passara a gostar de todos os MacAlpin e não queria que caíssem nas mãos assassinas dos DeVeauxx.

Entretanto tudo que podia fazer no momento era se manter viva com Gillyanne, e chegar a tempo.

— Jesus! Veja, Cameron!

A voz de Leargan soara abafada, como se a surpresa fosse grande demais.

Cameron olhou na direção onde o primo apontava, e praguejou. Estava radiante por ver Avery e Gillyanne se aproximando, ainda muito longe, entretanto sentia-se confuso. Haviam executado uma surpreendente fuga apagando os rastros. Ele já admitira a derrota, entretanto lá vinham as duas, galopando na direção do acampamento e de seus captores.

— Acha que se perderam e andaram em círculos? — perguntou Cameron com ar de dúvida.

— Ficaria muito espantado se fosse assim tão simples — retrucou Leargan.

— Então por que estão voltando?

— Talvez porque tenham percebido que dos males, o menor é você. Estão sendo seguidas, primo.

Cameron voltou a praguejar, e fustigou o cavalo que começou a galopar, ao ver dois homens que surgiam no encalço das moças. Sentiu alívio ao ouvir Gillyanne gritar, alertando-o. Fez um sinal para que Leargan enfrentasse o homem da esquerda, enquanto se concentrava no da direita.

Avery sentiu um nó na garganta quando Gillyanne gritou o alerta. Com uma rápida mirada para trás, viu os dois cavaleiros de DeVeauxx que se aproximavam depressa. Seria uma corrida e tanto para saber quem chegaria primeiro ao acampamento dos Mac-Alpin, e rezou pela vitória.

Então Gillyanne gritou de novo, fazendo-a olhar para trás outra vez. Aterrorizada, percebeu que os dois cavaleiros já estavam muito próximos e poderiam agarrar a prima. Mas logo deu-se conta dos dois homens que vinham galopando da direção contrária, e embora desejasse unir-se a eles, achou mais prudente continuar se dirigindo ao acampamento.

— Cameron e Leargan— anunciou Gillyanne.

— Já vi — replicou Avery com entusiasmo.

— Podemos parar de correr agora?

— Claro que não. Os homens de DeVeauxx estão mais perto do que imaginei, e precisamos dar uma rápida explicação para Cameron… caso ele me deixe falar.

— Quanto tempo mais?

— Dez minutos, se continuarmos nesse passo.

— Ora! Continue galopando, prima!

— É isso que estou fazendo.

Cameron observou sua espada trespassar o homem da direita, que caiu ao solo, e com gesto hábil segurou as rédeas do outro cavalo. Fitou Leargan, que fizera o mesmo com o homem da esquerda. Quando percebeu que Avery continuava em corrida desabalada na direção do acampamento, resmungou por entre os dentes cerrados, arrastando o cavalo capturado, enquanto Leargan o imitava.

— Por que ela continua a galopar? — questionou Leargan, perseguindo Avery e Gillyanne ao lado do primo.

— Creio que a pergunta certa seria por que esses DeVeauxx assassinos estão aqui — murmurou Cameron.

— Tem certeza que eram homens de DeVeauxx?

— Absoluta. Reconheci o que acabei de matar.

— Um ataque?

— Receio que sim.

Leargan praguejou, e depois disse:

— As meninas Murray estão tentando nos salvar.

Cameron fez um aceno, concordando. Isso iria lhe trazer problemas. Era óbvio que Avery e Gillyanne tinham desistido da fuga e da liberdade para alertá-lo do perigo, inclusive expóndo-se muito. Seus homens julgariam que as duas mereciam uma recompensa.

Enquanto galopava, Cameron tentou se convencer de que esse era o único motivo que impelira Avery para agir como agira. Liberdade e uma escolta de volta para casa. Entretanto não conseguiu. Apesar do cinismo que o acompanhava há muito tempo, recusava-se a incluir Avery no rol de trapaceiras.

Mas de qualquer modo pretendia seguir com seu plano, refletiu. Sua irmã precisava ser a mola que o impulsionava. Usar Avery continuava sendo a melhor maneira de retribuir o insulto sofrido por Payton Murray e fazer com que o rapaz marcasse o casamento. Como mulher de família nobre, Avery compreenderia seus motivos e por que não podia lhe dar a liberdade.

— Ataque! — gritou ela naquele momento, irrompendo no meio do acampamento dos MacAlpin, e freando o cavalo, que empinou com um relincho. — Os DeVeauxx estão chegando para lutar!

— Mas… não são nossos inimigos — disse Rob.

— Agora são! — replicou Cameron, irrompendo no acampamento. — Querem as moças porque sabem que valem muito, e são inimigos de seu clã.

— Estão muito perto? — quis saber um outro. Cameron fitou Avery.

— Os dois que pegamos eram arautos?

— Sim. Gillyanne e eu vimos um pequeno exército dos De­Veauxx. Diria que dentro de minutos chegarão todos.

— Ou menos — ajuntou Gillyanne, apontando para uma nuvem espessa de poeira que surgia ali perto.

Avery e Gillyanne viram-se empurradas pelas outras mulheres do acampamento, todas carregando quanta comida e bebida podiam. Três pajens e dois escudeiros as acompanharam, trazendo os cavalos. Distanciando-se do acampamento e tomando abrigo sob as árvores, esperaram. Era seu papel, como membros do sexo frágil, observar de longe e estar preparadas para fugir, caso seus homens perdessem a batalha. Apenas um dos pajens ficaria ali, escondido, até que tudo terminasse, para poder narrar o desenlace aos aliados e parentes e deixá-las saber sobre os feridos a recolher.

Enquanto observava o pequeno grupo de Cameron se preparar para enfrentar um número bem maior de cavaleiros, Avery começou a rezar, pedindo para que os MacAlpin não tivessem que pagar um preço muito alto pela loucura de combater contra os DeVeauxx, e que ela e a prima não caíssem nas mãos dos velhos inimigos de seu clã.

A batalha foi dura, mas Cameron fez com que seus homens se postassem sobre uma parte mais alta do acampamento, formando um círculo com arqueiros no meio. Em breve era impossível para Avery observar todos os detalhes, portanto focalizou a atenção em Cameron, prendendo a respiração a cada ataque de um homem dos DeVeauxx.

Por fim viu alguns cavaleiros dos MacAlpin por terra, e rezou por suas almas. Parecia que muitas horas já haviam transcorrido, mas era provável que fossem apenas minutos. Logo percebeu que os MacAlpin estavam vencendo, e que os inimigos começavam a cair como moscas. Viu um deles amparar um outro ferido e sair correndo, seguido pelos demais.

Quando por fim todos os DeVeauxx remanescentes desapareceram, Avery observou Cameron cair de joelhos. Correu em sua direção, seguida pelas outras mulheres, desejando que estivesse apenas cansado, e não ferido.

 

Com o olhar ainda pousado na poeira erguida pela debandada dos soldados de DeVeauxx, Cameron deixou-se cair devagar de joelhos. Ainda teve forças para fazer sinal a um de seus homens a fim de que seguisse os que fugiam para certificar-se de que não voltariam. Então, caiu por terra.

A batalha fora breve e feroz, mas sentia-se exausto, como se tivesse lutado o dia inteiro. Ao seü lado, Leargan arquejava, asse-gurando-se com um olhar que o primo estava vivo, e Cameron refletiu que poderia descansar um pouco antes de conferir as baixas de seu pequeno exército.

Um toque suave no braço o fez sair do estupor em que se encontrava. Ergueu os olhos e viu Avery fitando-o com olhar sombrio e preocupado. Então a culpa o dominou com garras ferozes.

Devia a própria vida e a de seus homens àquela moça. O certo seria deixá-la partir em paz, porém no íntimo sabia que não faria isso. Seu desejo por ela e a ânsia de vingar a irmã o impediam.

— Está ferido? — perguntou Avery sem deixar de fitá-lo um só segundo.

— Não tenho certeza — replicou Cameron, examinando o próprio corpo.

— Parece que sofreu apenas um corte profundo no braço.

— E meus homens?

— Um morreu, outro ficou gravemente ferido, e três poderão se salvar se forem bem cuidados. — Sem atinar com o relato rápido e preciso que lhe dera, Avery espalhou ungüento sobre a ferida de Cameron e começou a tratá-la.— Poderia dar uns pontos se deixar. Fará com que fique com uma cicatriz menor.

— Deixe a cicatriz.

Avery não se surpreendeu com a resposta. O mesmo homem que partia para a batalha sem pestanejar era o que temia levar pontos nas feridas. Isso nunca deixava de ser motivo de surpresa e divertimento. Recolheu os objetos de primeiros socorros e levantou-se para ir ajudar os outros feridos. Com gesto impulsivo, voltou a se inclinar e beijou Cameron de leve na boca. Seu olhar de completo estupor a fez perceber que agira certo. Saiu correndo antes que ele tivesse tempo de se recuperar do choque.

— Parece que está mais perto da vitória do que pensei — mur­murou Leargan para o primo.

Cameron piscou diversas vezes, tentando voltar à realidade, e gaguejou:

— Você ainda está aí?

Leargan ergueu-se com um gemido, ajudando Cameron a fazer o mesmo.

— Avery sem dúvida é boa enfermeira também — observou o líder dos MacAlpin.

— E Gillyanne não fica atrás — acrescentou Leargan. — A pequena Murray ajuda a prima com presteza e perícia.

— — Começo a acreditar que nada existe que uma mulher Murray não saiba fazer. É irritante! — comentou Cameron. Leargan sorriu, mas logo ficou sério.

— Salvaram nossas vidas. Ficamos alertas e não fomos pegos de surpresa. Seria o nosso fim se isso não sucedesse.

— É verdade, primo.

— As duas jovens Murray desistiram de uma ótima oportunidade para fugir.

Cameron soltou um suspiro resignado.

— Concordo com isso também. Entretanto duas moças sozinhas correm o risco de deparar com graves perigos e problemas.

Leargan observou Cameron com expressão séria, e depois disse, como a falar consigo mesmo:

— Não vai desistir de seus planos.

— É impossível.

— Pela honra de sua irmã?

— Sim. Avery Murray poderia ser uma santa ou um anjo na terra que ainda assim cumpriria o meu dever. Preciso restaurar a honra de minha irmã, e Avery é meu trunfo certo. Porém, pretendo ser mais brando.

— Não tentará desonrá-la?

— É inútil prometer isso a você.

— E nem pensei que fosse prometer. Seu desejo por ela é muito forte, eu sei.

— Muito bem, Leargan — resmungou Cameron, olhando em torno. — Não podemos ficar aqui muito tempo, mas será em vão viajarmos para longe porque arriscaríamos a recuperação dos feridos.

— Direi aos homens que desfaçam o acampamento e procurem ir por outro lugar.

Cameron observou o primo se afastar e depois concentrou-se em sua gente. Os corpos dos soldados de DeVeauxx já tinham sido despojados de todos os objetos de valor e estavam sendo arrastados para serem deixados na floresta. Cameron sentia-se orgulhoso de seus homens, e dirigiu-se para um canto onde havia quatro deles estirados no chão. Um já estava coberto por uma mortalha, o outro jazia pálido e quieto, e os demais praguejavam e gemiam enquanto as meninas Murray cuidavam de suas feridas, fazendo-o ter certeza de que pelo menos aqueles se salvariam.

Voltando-se para o que estava pior, ajoelhou-se. Sentiu um aperto no coração ao ver como era jovem. Não podia ter mais de dezoito anos. Era Peter, que imaginara que uma viagem à França lhe traria aventura e riqueza. Moço demais para pensar na morte, refletiu Cameron, e a batalha que haviam acabado de travar não fora com reis que defendiam seus reinos, mas com um assassino imoral que se recusava a perder algum dinheiro.

— Ainda pode sobreviver — murmurou Avery, acercando-se. Cameron sentiu a pulsação do rapaz, e percebeu que era estável apesar de muito fraca.

— Não parece que agüentará uma longa viagem — comentou com voz triste.

— No momento não, mas aparentemente a ferida provocou poucos danos aos órgãos internos e parou de sangrar. Se não tiver febre e viajar sem atropelos, poderá se recuperar depressa — disse Avery como boa enfermeira.

— E quanto tempo teremos que esperar?

— Dois dias, talvez menos — respondeu ela com segurança.

— Mudaremos para outro acampamento assim que Leargan encontrar um bom lugar.

Assim dizendo, Cameron virou a cabeça e olhou para a mortalha.

— Quem era?

— As mulheres disseram que se chamava Adam. Cameron sentiu uma pontada de remorso pela alegria que o invadiu, pois não se tratava de parente ou amigo.

— Um homem que se uniu a nós na viagem, um mercenário que pensava obter mais dinheiro trabalhando em grupo. — Virou-se para Avery e perguntou de maneira inesperada: — Por que voltou?

A jovem suportou o olhar com serenidade.

— Posso desejar minha liberdade, mas não à custa dos outros, meu senhor.

— E eu que pensei que fosse pelos meus belos olhos — replicou ele com ironia, escondendo a emoção.

— O senhor é tão bonito como uma noite sem luar.

Assim dizendo, Avery ergueu Peter até que o rosto do rapaz repousou em seu ombro. Então, bem devagar, começou a lhe dar água, pressionando-lhe a garganta para forçá-lo a engolir.

— Por que está fazendo isso?— dardejou Cameron, sentindo-se ridículo pelo ciúme que o assaltara.

— Coloquei algumas ervas medicinais na água para fortalecê-lo e ajudar a recuperar o sangue perdido.

— Não a vi fazer isso com os outros.

— Porque suas feridas são superficiais. Estão praguejando e gemendo bem alto, sinal de que tudo vai bem.

Cameron sorriu.

— Então quando Peter começar a esbravejar vai considerá-lo curado?

— Sim. — Com gentileza, Avery voltou a pousar o corpo com­balido do rapaz sobre o cobertor. — Em geral homens à beira da morte não se queixam de dor ou de remédios ruins. Quando falam alguma coisa é para tentar se lembrar dos pecados que cometeram e reconhecer que têm medo da morte.

— Viu muitos homens morrer?

— Demais— murmurou Avery de modo sucinto, levantando-se e se afastando.

Uma hora mais tarde mudaram de acampamento. A pouco mais de uma milha havia outra clareira pequena com um riacho e grama para os cavalos. E uma colina ao lado permitia que se montasse guarda, de modo que os DeVeauxx não conseguiriam se aproximar sem serem notados.

Quando todas as tendas foram armadas, Cameron tomou banho e comeu, sentindo-se pronto para deitar. Olhou em torno à procura de Avery, e ficou irritado ao ver que retornava com Gillyanne do riacho sem nenhuma escolta.

Quando a jovem se dirigiu ao local preparado para os enfermos, Cameron se aproximou com largas passadas e segurou-a pelo pulso.

Ignorando os olhares de desaprovação de seus homens, carregou-a para a sua tenda. Mas era óbvio que perdera o apoio de todos para seus planos de vingança, pensou. Para os demais Avery se transformara em uma mistura de heroína e boa samaritana, porém Cameron não conseguia entender como os outros homens haviam esquecido com tanta facilidade a desonra de sua irmã que se abatera sobre todo o clã.

Assim que a fez entrar na tenda, foi tomar vinho, e Avery sentou-se sobre as peles de animais que serviam de cama, começando a tirar as botas.

— Presumo que isto significa que minha boa ação de hoje de nada valeu — disse com voz tranqüila.

— É impossível— replicou ele com monossílabos, sentando-se por sua vez em um baú. — Preciso de você para que seu irmão repare o mal que fez.

— Por que não tenta apenas arrastá-lo até um padre em vez de me usar para seus propósitos?

— Iain me disse que tentou fazer isso, mas não deu certo. Seu irmão escapou da armadilha.

Avery não pôde deixar de rir.

— Acredito. Payton sabe fugir desses perigos.

— Então tem como hábito seduzir moças indefesas e sair sem punição?

— Não, seu tolo… — replicou ela com voz macia, despindo-se e ficando apenas com as roupas de baixo.

Por um instante pensara em dormir completamente vestida, mas estava cansada daquele jogo que a fazia preservar a modéstia. As roupas íntimas que ela mesma fizera, de linho cru, eram o suficiente, concluiu.

O súbito silêncio que recaiu na tenda a fez perceber com satisfação que Cameron estava surpreso. Tratou de se deitar e puxar o cobertor até o queixo.

Por seu lado, Cameron sentia-se estupefato por ver que, tirando a roupa com tanta simplicidade, ela o tratava como se fosse um pai, um irmão ou mera criada de quarto. Como um homem que não significasse uma ameaça a sua pureza, concluiu com irritação.

Até o momento fizera um bom trabalho de sedução, pois diver­sas vezes a vira estremecer e gemer de desejo. Avery precisava se sentir pouco à vontade diante dele!

— Feche a boca, controle a língua, e pare de me chamar de tolo — resmungou.

Mas as meras palavras "boca" e "língua" o deixaram excitado.

— Pensei ter dito isso em tom de brincadeira — justificou-se Avery./

Era/verdade, refletiu Cameron. Chamara-o de tolo com voz aveludada e suave como mel. Decidiu continuar falando de sua vingança, porque assim esqueceria o desejo físico que o invadia. Não pensava em seduzi-la essa noite. Afinal, depois do que ela passara, seria cinismo demais. Era melhor dar-lhe uma noite de descanso, refletiu com seus botões.

Mas, incapaz de dar-lhe trégua, provocou:

— Já a ouvi chamar sir Payton de belo, galante, doce, honrado, bravo, inteligente… Será que é um verdadeiro santo? Um monge casto? Jamais utiliza tantas qualidades para iludir as mulheres?

Percebeu, satisfeito, que conseguira enfurecê-la, e isso lhe trouxe uma alegria quase infantil.

— Meu irmão não precisa iludir ninguém! — dardejou Avery.

— Ao contrário, às vezes tem problemas para tirar as damas de sua cama! Elas se recusam a deixá-lo!

— Só quero ver sir Payton ajoelhado na frente de um padre, casando-se com minha irmã e restaurando a honra da família!

— E continuo afirmando que Payton nunca seduziria uma moça contra sua vontade. Se de fato tivesse dormido com sua irmã iria admitir. Certa vez disse cara a cara a um Douglas que dormira com sua noiva. Fez isso para alertar o homem sobre a falsidade de sua amada e, de fato, descobriram que ela já havia se entregado a uma série de cavaleiros. Isso demonstra que meu irmão é uma pessoa digna.

Mas Cameron achou que fora um tanto ingênuo da parte de Payton. Um homem não saía contando que dormira com a noiva de outro, em especial de um Douglas, família muito orgulhosa. No momento queria irritar Avery ao ponto de fazê-la ficar o mais longe possível e evitar a tentação.

— Essa história só prova que seu irmão não tem consideração pelos outros. Se pretendeu pintá-lo com as cores de um santo não conseguiu.

Avery refletiu que havia uma certa razão nas palavras de Cameron, mas não daria o braço a torcer.

— Payton não é santo, porém não costuma se aproximar de virgens. Por certo sabia que sua família procurava marido para sua irmã, e não iria se meter com ela.

— E eu tenho certeza que se aproveitou de Katherine sem intenção de casar.

Assim dizendo, Cameron começou a se despir também, o que fez Avery perder a fala. Era-lhe muito difícil resistir àquele físico másculo e forte, mas os insultos não podiam ficar sem resposta.

— Payton quer uma esposa, sim! Não faz objeção ao casamento, contanto que não lhe seja imposto com uma espada em seu pescoço.

— Se não queria casar com minha irmã, não deveria tê-la seduzido.

Avery resistiu à tentação de dar-lhe um soco. No fundo sabia que, como irmão, era bonito da parte de Cameron demonstrar tanta fé na moça. Entretanto tinha certeza de que ela mentira. De súbito percebeu que toda aquela discussão era em vão. Cameron nunca cederia nem ela, cada qual defendendo seu ponto de vista e seu parente querido. Entretanto…

— Quando foi a última vez que viu sua irmã? — perguntou à queima-roupa.

Cameron franziu a testa.

— Há dois anos.

— Bem, vi Payton há poucos meses.

— E daí?

— Creio que sou mais chegada a ele do que você à sua irmã. Payton nada me disse sobre ter seduzido uma moça e estar sendo pressionado a casar. Talvez Katherine tenha aprontado uma armadilha porque se apaixonou por ele.

— Então acha que seu santo irmão é um prêmio e tanto, certo?

— É jovem, forte, bonito e herdeiro de muitas terras. Cameron pressentiu que seu plano de briga não estava dando muito certo para o seu lado, e atacou:

— Ótimo! Dará um excelente marido.

— Tolo!

— Não insulte seu captor, menina.

— Também fui tola em pensar que ficaria agradecido pelo que fiz hoje por você e seus homens.

— Em parte mudei de idéia. Não a usarei em meus planos a fim de expô-la a vergonha. Manterei nossas intimidades de modo confidencial. Seu clã não precisará ser humilhado, pois ficarei de boca calada e jamais revelarei que a possuí.

— Como é bondoso! Estou emocionada com tanta generosidade!

Assim dizendo, Avery deu-lhe as costas, no íntimo aliviada por saber que sua família não sofreria as conseqüências. Agora só lhe restava resolver se iria se entregar de boa vontade e conquistar o coração de Cameron MacAlpin. Mas não seria aquela noite, percebeu.

— Durma bem, Avery — murmurou ele, fazendo-a estremecer.

— Tenha pesadelos horríveis, MacAlpin — replicou ela com fingida meiguice.

Cameron riu, enquanto Avery fechava os olhos com força, na tentativa de dormir. Seu futuro era incerto, mas a insônia só a deixaria zonza e incapaz de raciocinar com clareza. Precisava tomar uma séria decisão, e era necessário para isso estar descansada na manhã seguinte.

 

O sangue fervia em suas veias, e tudo porque mãos fortes a acariciavam e lábios escaldantes a beijavam. Uma onda de intenso desejo físico a possuía, e isso a fez despertar. Avery agarrou o homem sobre seu corpo, gemendo de prazer, enquanto ele acariciava-lhe os seios. Serpenteou os quadris, fazendo-o grunhir de desejo.

O som profundo e rouco deixou-a ainda mais excitada. Cameron a estava seduzindo, e ela se entregava com avidez e delícia.

Grande parte de seu ser queria continuar com as carícias e beijos, porém o que lhe restava de bom senso a fez lutar. Permitir se atirar de cabeça à paixão não era a maneira certa de tomar uma decisão que sem dúvida a deixaria de coração partido.

Segurou os pulsos de Cameron, sentindo-se ao mesmo tempo aliviada e triste ao vê-lo recuar.

— Não passa de um malandro traiçoeiro, Cameron MacAlpin. Sua voz soara estranha, também rouca e hesitante, enquanto lutava contra o desejo feroz que a dominava.

— Está me dizendo para parar, Avery?

— Sim.

— Por quê? É evidente que me deseja.

Assim falando, deslizou um dedo pelo mamilo intumescido e rosado de um dos seios brancos, e viu Avery estremecer.

— Arrogante — sussurrou ela com o que lhe restava de forças para resistir. — Saia de cima de mim!

Cameron hesitou um segundo, e em seguida, praguejando, rolou para o lado. Com gestos bruscos, desamarrou os laços que a prendiam, e saiu do leito. Sabia que se não fizesse isso sem demora, não conseguiria resistir e a tomaria à força.

Seduzi-la enquanto dormia já fora um gesto ignóbil, refletiu. Não queria descer ainda mais baixo para satisfazer seu desejo.

Entretanto não podia esquecer de como, inconsciente, ela retri­buíra com ardor suas carícias. Seu coração dizia que em breve a cena se repetiria.

Avery deixou escapar um suspiro de alívio ao vê-lo vestir as roupas, e tratou de acalmar as batidas do próprio coração, evitando demonstrar ainda mais o quanto o desejava. Quando longos minutos se passaram sem que ele dissesse nada, perguntou:

— Está aborrecido?

— É melhor sair logo daqui senão a tomarei à força.

— Mesmo assim ainda lhe diria não.

— Pode ser que sua boca pronunciasse a palavra, mas seu corpo, tenho certeza, não responderia assim. Vi como se comportou há pouco.

— Estava adormecida! Não sabia o que fazia.

Em resposta ele retornou ao leito, tomou-a pelos ombros, e deu-lhe um beijo de tirar o fôlego. Por fim, fitou-a com olhos embaçados de desejo. /

— Você me quer, menina, e em breve descobrirá que suas negativas não valem tanto sofrimento.

Embainhou a espada e deixou a tenda, fazendo Avery suspirar mais uma vez e levantar-se para se lavar e vestir com os trajes já muito usados e remendados, porque a aurora despontava. Estava confusa e não sabia o que fazer. Não precisava que Cameron, com seu jeito arrogante, lhe jogasse no rosto que ela o desejava. Essa era uma verdade com a qual convivia desde que o vira pela primeira vez; e sua prima Elspeth lhe confidenciara que existiam homens que só se sentiam tocados pelo amor depois que experimentavam várias vezes do corpo de uma certa mulher.

Avery desejava ver os olhos de Cameron brilhar com algo mais do que mero desejo. Ansiava por ver ternura e afeto no rosto bonito e másculo. Caso um dia se separassem, desejava deixar-lhe uma lembrança inesquecível, não só no corpo como na alma, que o fizesse suspirar pelo que perdera.

O problema era dar-lhe o que desejava sem que isso se tornasse uma completa vitória para o orgulhoso MacAlpin. Uma possibilidade seria ela seduzi-lo, e não o contrário. Isso o deixaria chocado e surpreso, caso visse que ela tomara a iniciativa em vez de apenas responder aos seus avanços.

Avery sorriu. Era um plano atraente e, para começar, ficaria claro que estava concedendo o que os dois desejavam, mas por iniciativa própria, e não como um troféu a ser conquistado.

Ao deixar a tenda, Avery deparou com Gillyanne e as outras mulheres, preparando a primeira refeição para todos no acampamento, e correu a juntar-se ao grupo. Em breve viu-se atolada de trabalho, inclusive cuidando dos feridos.

Três das mulheres dos soldados de Cameron eram Joan, Marie e Therese, muito parecidas entre si, de baixa estatura, roliças e com cabelos e olhos castanhos. Apenas Anne, a esposa de Ranalds, um dos mais antigos soldados de Cameron, se sobressaía do grupo. Era alta, morena, voluptuosa, despachada e um tanto mandona.

Mas isso não deixava de ser bom, porque as outras três, não muito espertas, necessitavam de alguém para liderá-las. Enquanto cuidava de Peter com Anne, Avery ouviu as outras três discutirem de modo acalorado, em uma mistura de francês, gálico e inglês com forte sotaque, sobre quem fazia melhor os bolos de aveia. Trocou um olhar divertido com Anne, e percebeu que Gillyanne tentava pôr panos quentes na discussão.

— Não sei como uma entende o que a outra fala — comentou Avery, balançando a cabeça com resignação.

Os olhos cinza de Anne brilharam de modo zombeteiro.

— Só quando ficam nervosas grasnam como um bando de gansas. As francesas estão aprendendo inglês bem depressa, e irão todas se dar muito bem em Cairnmoor.

Vendo que Peter adormecera, Avery observou Anne por um instante, e depois perguntou sem rodeios:

— Conhece a irmã de Cameron?

— Não muito bem. Sou apenas a esposa de um soldado. Avery compreendeu.

— Então ela é orgulhosa?

— Não devo falar mal da irmã do lorde — replicou Anne com um suspiro. — Entretanto todos nós devemos nossas vidas a você e Gillyanne. Já que o lorde não parece querer recompensá-las com a liberdade, talvez seja justo que saiba com o que vai se deparar em Cairnmoor. — Levantou-se e fez Avery segui-la. — Vamos pegar um pouco de vinho, sentar à sombra de uma árvore e conversar.

Assim que se instalaram sob um grande carvalho, Avery perguntou:

— Existe algo que devo saber sobre a irmã de Cameron Mac­Alpin? Não sei como isso poderá melhorar minha situação.

— Talvez não mude muita coisa — concordou Anne. — Entretanto ajudará a entender um pouco sobre a moça cujas palavras a conduziram à situação atual.

— Quer dizer… suas mentiras? Anne sorriu.

— Não se deve andar por aí chamando a irmã do lorde de mentirosa. Entretanto muitos entre nós acreditem que ela é isso mesmo, ou que se enganou nas acusações. — Deu uma risada ao ver que Avery erguia os olhos para o alto em sinal de impaciência. — A moça nunca teve mãe, que morreu de parto. O velho lorde também faleceu quando ela ainda era muito criança,. Existe a tia Agnes, mas essa é mais ingênua que Joan, Marie e Therese juntas. Uma senhora doce e boa, porém não consegue distinguir uma mentira nem que esteja sob o seu nariz. — Fez uma/pausa, e depois continuou: — Sir Iain, primo de lorde Cameron, é um bom homem, mas não sabe educar uma menina, e sir Carrieron também era muito jovem e nunca estava em casa.

— Então Cameron foi pai e irmão, e sem dúvida se sente culpado, imaginando que não cumpriu sua missão muito bem.

— Isso mesmo. Katherine, a irmã, foi estragada por mimos, e era uma garota magra como um espeto da última vez que a vi. Mal fez dezesseis anos e tem uma verdadeira corte aos seus pés, todos prontos a satisfazer seus mínimos desejos.

— E no momento deseja o meu irmão. — Avery franziu a testa e tomou um gole de vinho. — Mimos necessitam de dinheiro, e pensei que… Ouvi dizer que Cameron vendeu uma espada valiosa para os DeVeauxx…

— Acha que ele é pobre? Não. Apenas quis deixar a Escócia por uns tempos. Sofreu uma desilusão amorosa, e por isso fez voto de castidade.

Avery piscou diversas vezes, muito surpresa, então lembrou-se das palavras ouvidas aqui e ali no dia em que fora capturada.

— Quando foi que fez esse voto?

— Há quase três anos. Pelo que sei, tem-se mantido fiel à promessa.

Após o primeiro choque, Avery sentiu-se frustrada. Será que depois de tantos anos de abstinência e tendo-a ao lado o tempo todo, Cameron sentia apenas necessidade de possuir uma mulher? O instinto lhe dizia que não, mas sua auto-estima acabava de ser abalada. Levou um susto quando Anne bateu-lhe na mão com gesto de simpatia.

— Não é por isso que nosso lorde a quer, menina.

— Tem certeza?

— Sim. Nesses três anos sempre foi frio com as mulheres, e algumas o tentaram bastante. Porém, bastou olhar para você e todos os bons propósitos dele desapareceram em um piscar de olhos.

— Sorriu com ar experiente. — Oh! Sendo homem deve pensar que é o celibato que o deixou tão excitado, mas no íntimo sabe que isso não é verdade. Gosta de você pelo que é. — Suspirou e prosseguiu: — Mas duvido que mude de idéia sobre vingar-se de seu irmão, a não ser que descubra a mentira de Katherine.

Avery animou-se.

— Então você a considera uma mentirosa!

— Ela fez o tipo da acusação que não se pode aceitar sem provas, e todos nós, mulheres e homens do grupo, concluímos que o lorde não sabe de toda a verdade. — Fitou Avery com simpatia.

— E conhecendo você e Gillyanne como conhecemos agora, é difícil imaginar que defenderia seu irmão com tanta veemência, caso ele fosse um mau-caráter. Entretanto, para lorde Cameron, só o que Katherine diz tem valor.

— Sim, e agora compreendo por quê. Acha que nunca deu suficiente atenção à irmã. — Avery voltou os pensamentos para o motivo de Cameron ter feito voto de castidade. — Falou de uma desilusão amorosa do lorde. Deve ter sido terrível.

— Ora! Lorde Cameron já superou isso, e nem sei se estava amando de verdade. Teve muitas desilusões amorosas porque não soube escolher suas mulheres. Avery fez uma careta.

— Conheço o tipo. Louras de olhos azuis e muitas curvas no corpo. Daquelas que sorriem, batem os cílios e remexem os quadris. Isso excita os homens. — Anne soltou uma risada, e Avery prosseguiu: — O tipo que acha que quer tudo e não concede nada de verdade. Pensei que Cameron fosse mais esperto.

— Nenhum homem é inteligente para esse tipo de coisa, até que descubra que a verdadeira beleza está no coração. E mesmo assim, muitos continuam lançando olhares para as outras. Um homem bom não trai a amada, porém não está livre das louras deste mundo, com seus seios fartos e olhares lânguidos.

— São uns tolos… — Avery suspirou, levantou-se, e arrumou as saias. — De volta ao trabalho.

Foi a vez de Anne fazer uma pergunta direta.

— Pretende se entregar a lorde Cameron?

— Uma Murray nunca se entrega. Bem… não com freqüência. — Piscou um olho para Anne. — Pretendo deixar o lorde confuso e inseguro.

— Creio que já fez um bom trabalho a esse respeito.

— Ah! Mas em breve darei a estocada final. Agora que já se acostumou com minhas negativas e insultos, pretendo me tornar boazinha e partir para o ataque.

Dirigiu-se ao acampamento, deixando Anne às gargalhadas.

Pelo resto do dia Avery tratou de não conversar com Cameron, e isso não foi difícil. O lorde passou o tempo todo tomando conta dos homens para que o acampamento fosse bem vigiado. Por seu lado ela ajudou com as refeições e cuidou dos feridos. O jovem Peter continuava a se recuperar a olhos vistos.

Aos poucos Avery foi percebendo que todos no acampamento eram contra os planos de vingança do líder, e achavam que ela e Gillyanne mereciam a liberdade em recompensa pelo salvamento e lealdade. Concluiu que poderia tentar fugir de novo com Gillyanne, que ninguém a impediria.

O problema era que já não desejava fazer isso.

Essa relutância a preocupava, pois parecia uma deslealdade com Payton. Deveria tentar escapar para que Cameron não a usasse como instrumento de vingança, obrigando o irmão a um casamento sem amor. Precisava conquistar o coração de MacAlpin, refletiu. Mas e se não conseguisse?

— Por que está com essa expressão preocupada? — perguntou Gillyanne, sentando-se com Avery em frente à tenda do chefe. — Pretendo ter companhia alegre para o jantar.

Avery confidenciou seus pensamentos para a prima.

— Está apaixonada por Cameron e tem chance de fazê-lo amá-la também. Payton compreenderá e, afinal, tentamos escapar. Mas há um detalhe em que não pensou.

— Qual?

— Somos apenas duas moças, e teremos que enfrentar grandes perigos, caso fujamos com sucesso. Precisaríamos chegar a um porto na França, pegar um navio e depois cruzar a Escócia até chegar a Donncoill. Creio que Payton não gostaria disso apenas porque queremos livrá-lo do casamento com Katherine. Imagine como ele se sentiria caso algo de ruim nos acontecesse.

A lógica do raciocínio de Gillyanne deixou Avery sem argumentos. Mas será que não queria apenas concordar porque amava Cameron? Por fim, concluiu que a prima, com sua pouca idade mas muito juízo, estava certa. Payton não gostaria que arriscassem suas vidas. Ficaria devastado se uma desgraça se abatesse sobre as duas, apenas por causa de um casamento.

Conhecendo o irmão como conhecia, sabia que gostaria de resolver o problema por conta própria. Por fim encarou Gillyanne.

— Tem razão.

A menina riu, comendo com prazer.

— Este é um momento histórico! Concordou com as idéias de outra pessoa.

— Não seja impertinente — replicou Avery com fingida irri­tação, contendo um sorriso. — Sou sua prima mais velha!

Gillyanne ignorou a brincadeira, e quis saber.

— Está de fato amando sir Cameron?

— Sim. Apesar de às vezes querer bater na sua cabeça com uma panela de ferro. — Riu para a prima. — Não é um amor cego e tolo, Gillyanne. E sei muito bem que nem tudo será um mar de rosas só porque o amo.

— Deveria ser. O amor é um bem precioso.

— Sim, porém só porque o amo não quer dizer que ele sente o mesmo a meu respeito.

— Os homens às vezes são decepcionantes… — comentou Gillyanne. — Quero tanto que você seja feliz!

— E serei, querida, mesmo que apenas por um certo tempo. — Avery deu de ombros. — E se não conseguir conquistar seu coração, pelo menos terei lembranças para carregar pelo resto da vida e ficarei feliz. Quando as cicatrizes se forem, restarão as recordações.

Naquele instante o objeto da conversa, Cameron MacAlpin, aproximou-se de cenho franzido, e Gillyanne murmurou sem ser ouvida:

— Às vezes ele não faz muito o tipo romântico.

Avery refreou uma risada, mas ao perceber que a diversão das duas o deixava ainda mais irritado, tratou de rir às claras. Não conseguia deixar de considerar divertido que um homem tão forte e poderoso se sentisse inseguro com ela e Gillyanne.

Beijou a prima no rosto, viu-a se afastar, e voltou-se para Cameron, lançando-lhe um lindo sorriso. Percebeu como ficava surpreso e constrangido.

— Esse é só o começo — murmurou para si mesma, sem parar de sorrir.

A não ser que fraquejasse e Cameron tomasse as rédeas do jogo que pretendia jogar, planejava deixá-lo quase louco de incerteza. Iriam se tornar amantes naquela noite, decidiu, mas tomaria toda a iniciativa e faria valer seu poder de mulher. Cameron poderia cantar vitória depois, porém sempre saberia que não fora o verdadeiro vencedor.

 

Cameron tinha certeza de que Avery estava tramando alguma coisa. Havia um brilho suspeito em seus olhos, e sua atitude era dócil demais. Já que não havia meio de escapar porque estavam em sua tenda e prestes a se deitar, não atinava qual era o jogo, e isso o deixava muito nervoso.

Talvez Avery quisesse algo e fosse usar de estratégia feminina para obter. A expressão de Cameron tornou-se ainda mais sombria. Toda mulher nascia sabendo certos truques, lembrou para si mesmo. Mas ela veria que não era bobo.

Quando Avery começou a tirar a roupa com gestos lentos, como fizera na noite anterior, lorde MacAlpin sentiu o sangue começar a ferver nas veias. Ela o estava provocando, sem dúvida. Nenhuma fêmea seria tão ingênua para tirar as vestes na frente de um homem sem saber que despertava seu interesse.

Depois dos longos dias e noites em que ele a provocara, Avery por certo conhecia o efeito que produzia em seus sentidos. Bem, pensou com seus botões, dois podiam jogar aquele jogo, e ele iria atormentá-la também.

A jovem engoliu em seco ao vê-lo começar a se despir também. Ia ser difícil manter a liderança no jogo. Admirando o físico rijo e musculoso, espantou-se ao lembrar que sempre vira os jovens primos e irmãos em trajes menores, mas a reação que tinha à vista de Cameron era diferente. Afastou o rosto, aborrecida. Era ela quem devia seduzi-lo, e só ela iria dominar a situação, pensou.

Apenas com sua roupa de baixo, Avery refletiu qual o próximo passo a tomar. Não fazia idéia de como seduzir um homem. Na verdade, poucas vezes fora assediada por rapazes, sendo muito magra e de gênio forte. Era óbvio que os homens gostavam de carnes fartas e braços roliços, quadris redondos e meneios provocantes. Avery suspeitava que nem na idade madura teria essas formas, e saber que Cameron a desejava assim mesmo, delgada e com seios pequenos, a fazia temer ainda mais a situação.

Percebendo que ele a observava, tratou de desatar a parte de cima do corpete, e começou a passar um pano úmido nos braços e seios, com gestos lentos, cantarolando em um sussurro.

— Quer me levar à loucura? — disse Cameron de súbito com voz rouca.

Para uma moça inexperiente, Avery sabia muito bem como provocar, completou consigo mesmo.

— Tento não ir para a cama suja.

— Não está cheirando mal.

— Então meu nariz é mais sensível que o seu.

— Talvez só esteja querendo se exibir como uma gata. Com os seios surgindo sob o decote aberto, ela se voltou e encarou-o. Os olhos negros do lorde brilhavam de desejo, o tórax rijo arfava, e os punhos estavam cerrados. A certeza de que ela podia deixar um homem tão bonito e atraente naquele estado de excitação era inebriante, e Avery precisou se recordar que o plano era seduzir e não ser seduzida.

— Exibir? — replicou com voz suave. — Mas estou tão quieta no meu canto…

— Já disse mais do que o necessário, menina, apenas com a linguagem do corpo. Não pode ser tão inocente para pensar que tirando a roupa na minha frente, desse modo, ficarei indiferente. Ninguém seria tão tola ou ingênua.

— Inocente, tola e ingênua. Está me descrevendo de modo pouco lisonjeiro. Começo a pensar que fui amaldiçoada.

— Creio que sou eu o amaldiçoado.

Seduzi-lo não seria uma tarefa simples, ponderou Avery consigo mesma, já que Cameron a criticava sem parar. Tentou vasculhar na memória o que os homens de sua família mais admiravam nas mulheres e, respirando fundo, aproximou-se e espalmou as mãos no tórax forte.

Cameron observou os dedos pequenos e delicados, e depois a fitou com intensidade. Havia uma expressão de curiosa inocência no rosto de Avery, entremeada por um brilho de desafio no olhar. Estaria querendo provocá-lo até às últimas conseqüências para, no último momento, dizer não? Era um jogo que já tivera a oportunidade de experimentar. A estratégia feminina de conceder um pouco, se esquivar, conceder de novo, negar… até obter o que desejava.

Entretanto o instinto lhe dizia que Avery não brincaria dessa maneira inescrupulosa, apenas porque não fazia idéia de seu poder sobre um homem… mais claramente falando, sobre ele, Cameron Mac-Alpin. E isso o deixava ainda mais incerto sobre suas intenções.

— Acha mesmo? — disse ela. — Será que as bruxas lançaram um encanto em você?

— Começo a crer que sim — murmurou Cameron, não resistindo à tentação de tomar as mãos pequenas nas suas. — Estou vivendo um verdadeiro tormento.

— Já me chamaram de muitas coisas, mas nunca de tormento.

— Então os homens de Donncoill são cegos ou idiotas.

— É um cumprimento, Cameron? Porque se for, este é um instante inesquecível.

Com gesto indolente, deslizou a mão para a cintura de MacAl-pin, fingindo uma carícia, mas na verdade tentando se manter de pé, porque seus joelhos fraquejavam.

— É uma jovem impertinente. — Cameron estremeceu, ao sentir os dedos leves acariciando-lhe a cintura. — Brinca com fogo, Avery, e devo confessar que não compreendo qual é seu jogo.

— Quem disse que estou jogando?

Assim dizendo, deslizou-lhe um dedo sobre o ventre rijo e sentiu que ele apertava sua outra mão com força. Ficou espantada ao ver como era fácil excitá-lo, mas conteve a arrogância. Era apenas um homem de sangue quente, e qualquer outra em seu lugar o excitaria naquele momento, refletiu, tentando manter o bom senso. Era preciso lembrar que, havia três anos, se mantinha celibatário.

Entretanto tentou convencer-se de que as palavras de Anne eram verdadeiras, e que ele desejava apenas Avery Murray. Sim, pensou, seria a primeira mulher que ele iria possuir depois de um longo tempo. Correu o dedo em volta do umbigo de Cameron e sentiu-o estremecer.

— Se continuar fazendo essas coisas, menina, poderá dizer não o quanto quiser que farei ouvidos de mercador — murmurou com voz rouca.

— Talvez não diga nada.

Então, com gesto súbito, ele a tomou nos braços e depositou-a sobre o leito de peles, o corpo forte sobre o seu. Era isso que desejava, pensou Avery, triunfante. Sentir o calor daqueles braços que a enlouqueciam, e desaparecer sob a força dos beijos sensuais.

Sabia que o fizera perder o autocontrole, e que por mais que se congratulasse quando tudo tivesse acabado, sempre lembraria que fora ela quem dera o primeiro passo.

Com um gemido abafado, Cameron a beijou. Foi um beijo avas-salador, que demonstrava todo seu desejo. Avery enlaçou-lhe o pescoço e respondeu com paixão, imaginando se tanta ferocidade seria conveniente na primeira vez em que faria amor. Então ele acariciou-lhe os seios, fazendo-a esquecer de tudo.

Cameron lutou para desatar os laços do corpete, mas seus dedos tremiam. Seu único consolo era que Avery parecia tão ansiosa quanto ele. Por fim conseguiu seu intento, e ergueu-lhe a barra bordada da roupa, sempre beijando-a com ardor. Quando os seios brancos surgiram, ficou estático.

Atirou a última peça de roupa para um canto da tenda, e depois segurou Avery pelos pulsos, impedindo-a de fazer um gesto instintivo, e tentar se cobrir. Possuía seios pequenos e perfeitos, fir­mes e redondos como maçãs, com mamilos rosados que o faziam desejar beijá-los a noite inteira.

Lutando para manter o controle, Cameron admirou o resto do corpo virginal, a pele dourada pelo sol, e retirou o restante da roupa que o impedia de admirá-la em toda a sua beleza. Os quadris eram delicados, as pernas longas e bem-feitas.

Gemeu de modo rouco, compreendendo que teria que se esforçar para possuí-la de modo gentil. Ansiava em se afogar no calor dos seios túmidos, e se perder entre as pernas brancas e macias, porém Avery era virgem, e devia ser preparada para a primeira experiência.

Abraçou-a com delicadeza, deliciando-se com a maciez da pele firme. Jamais se sentira tão excitado com uma mulher. Até o perfume que emanava de Avery, uma mistura de lavanda e pele limpa, o enlouquecia. Fitou-a com olhar embaçado, e ela voltou a cingir-lhe o pescoço.

O modo como Cameron a olhava fazia-a vibrar de desejo e sentir-se bela e sensual, pela primeira vez na vida. Embora ansiasse por ser possuída, queria prolongar aquele momento de enlevo.

Cameron beijou-lhe o seio com a delicadeza de asas de borboleta, e o prazer foi tão intenso que a fez gemer e se contorcer, sentindo a excitação do corpo masculino. De modo instintivo, deslizou os dedos, retendo entre a mão o órgão rijo mas, para seu espanto, Cameron retrocedeu com um gemido rouco.

— Não, menina, pare de fazer isso, senão terminarei sem que tenha tido tempo de aproveitar.

Avery não sabia se entendera bem essas palavras, mas tratou de obedecer. Permaneceu quieta, enquanto Cameron acariciava-lhe o ventre e as coxas, o que deixou-a quase louca de desejo e amedrontada a respeito do que viria a seguir.

— Está úmida como uma flor orvalhada — murmurou ele ao seu ouvido.

— Vai ficar falando ou agir?— provocou Avery com voz rouca e entrecortada, procurando brincar para esconder a emoção.

Cameron sorriu, e fez com que ela entreabrisse as pernas.

— Talvez doa da primeira vez, menina — avisou.

— Doerá mais se não acontecer.

— Não há mais chance de me fazer parar. Nem em um milhão de anos.

Avery prendeu a respiração, sentindo-o invadir seu corpo, e uma parte de seu ser entrou em pânico.

— Podemos brincar assim sem que eu tire sua virgindade.

— Não! — Ela passou-lhe uma perna pelo quadril. — Ficaria tudo… incompleto.

Com gesto súbito, pressionou o corpo com força contra o dele, e uma dor aguda a invadiu, ao sentir o hímen dilacerado. Mas por fim estavam unidos, da maneira mais próxima que um homem e uma mulher podiam se unir fisicamente. Ondas de paixão voltaram a dominá-la, e gemeu.

Cameron começou a se mover, murmurando palavras desconexas ao seu ouvido, e fazendo-a abraçá-lo com fúria e segui-lo no mesmo ritmo. Uma estranha tensão crescia dentro de seu corpo, fazendo-a desejar mais e mais.

— Cameron…

— Não lute, meu amor. Venha… Continue…

Os dedos experientes a afagavam, e Avery estremeceu. Sensações deliciosas a invadiam, e apertou-lhe o corpo, enquanto a tensão aumentava. De repente Cameron enrijeceu, gritou seu nome, fazendo-a gritar também e penetrar em um mundo de deleites jamais imaginado.

Por fim ele rolou o corpo para um lado, enquanto Avery se sentia fraca demais para se mexer. Depois de alguns momentos Cameron a estreitou entre os braços, de modo gentil, fazendo-a renascer e sorrir de encontro ao peito musculoso.

De fato, não mantivera o autocontrole o tempo todo, mas estava satisfeita consigo mesma. Cameron jamais poderia negar que fora ela mesma quem se oferecera e o seduzira. Fosse lá o que acontecesse daquele momento em diante, se tivessem um futuro juntos ou não, sabia que jamais se arrependeria dessa primeira vez.

Ainda era inocente de várias maneiras, mas sabia, no fundo de seu coração, que essa era uma paixão única e rara. Amor, concluiu consigo mesma, e suspirou com uma ponta de melancolia, pois sabia muito bem não ser amada do mesmo modo. Naquele momento prometeu a si mesma que, mesmo sem ser retribuída, manteria as lembranças boas em seu coração.

Cameron sentiu que Avery suspirava, e o remorso o invadiu.

— Está arrependida?

— É melhor não discutirmos esse assunto, porque existe uma grande chance de dizer algo que irá me aborrecer.

Cameron a apertou com força, determinado a tornar aquela noite inesquecível.

— Então irá voltar a gritar comigo? — perguntou, erguendo as sobrancelhas com um sorriso irônico.

— Não. Cortarei seu pescoço com uma colher e seus soldados ficarão irritados.

Cameron riu, ainda surpreso pelo fogo que existia naquele corpo de menina delicada, e Avery sentiu-se bem entre seus braços.

Dentro de minutos ela voltou a se encostar no peito rijo de modo convidativo e MacAlpin soube, com uma pitada de amargura, que seria muito difícil afastar-se. Precisaria se esforçar muito para manter o plano original e não se esquecer da ofensa cometida contra sua irmã.

A paixão o deixara tolo, e era a mais forte que já sentira na vida. Estremeceu ante o contato dos lábios de Avery, que o acariciavam de modo delicado. Precisava demonstrar-lhe que não seria manipulado com facilidade, refletiu. Entretanto, quando ela deslizou os dedos mais para baixo de seu corpo, achou que seria tolice não permitir que tentasse.

— Descanse — murmurou, enquanto se deixava excitar outra vez. — Amanhã estará dolorida.

— Já fiquei com dores no corpo depois de cavalgar o dia inteiro, e ninguém me impediu de voltar à sela na manhã seguinte.

Com gesto rápido, Cameron tornou a se posicionar sobre seu corpo, fazendo-a rir.

— Para um homem tão grande você é muito ágil. Gosta que o acaricie assim?

— Muito — murmurou ele, beijando-lhe os mamilos intumescidos, e fazendo-a serpentear o corpo com sensualidade.

Beijaram-se com paixão, e Avery reprimiu a vontade de perguntar se já estavam perto do porto e se ele a mandaria embora. Precisava se controlar, pensou. Não queria desperdiçar o prazer daquela noite, e acabou prometendo a si mesma que não permitiria que a paixão a deixasse estúpida.

 

Avery fez uma leve careta de dor ao se erguer, depois de ajudar Peter a comer seu mingau. Estava dolorida, e, sem dúvida, fazer amor a obrigara a exercícios físicos diferentes dos que costumava fazer. Precisava de um bom banho quente, mas esperaria até a noite. Se resolvesse se banhar naquele instante, teria a impressão que todos no acampamento saberiam o motivo.

Quando Anne pediu-lhe para recolher gravetos para o fogo, Avery aceitou de bom grado e dirigiu-se ao bosque. Isso impedia que tivesse a sensação de que todos a observavam, sabendo o que fizera com Cameron. Tinha certeza de que levaria algum tempo até se acostumar com a posição de amante, e como todos sabiam que não seria para sempre, isso a deixava muito constrangida.

— Como se sente agora que é uma mulher completa? — perguntou Gillyanne, aproximando-se.

— Como sabe o que fiz? — replicou Avery um tanto irritada. — Está escrito na minha testa?

Gillyanne riu e balançou a cabeça em negativa.

— Não está nada diferente, o que me desaponta. Só que me revelou o que pretendia fazer, e não posso acreditar que Cameron tenha recusado.

— Bem, não recusou, e me sinto esquisita. Não estou envergonhada, apenas inquieta. Gostaria que ninguém bisbilhotasse.

— Vai passar. Tenho certeza que ninguém a menosprezará por saber que se entregou ao chefe, porque a maioria do acampamento não concorda com as idéias de vingança de Cameron.

— Isso não irá agradá-lo nem um pouco.

— Talvez o faça raciocinar melhor.

— Esperemos que sim.

— E o que deseja que ele pense, Avery?

— Que será muito duro me abandonar agora que somos amantes.

— Talvez uma pancada na cabeça ajude. Foi a vez de Avery rir.

— Creio que sim.

A prima fitou-a com seriedade.

— E o que fará se ele não perceber que necessita de sua presença e não pode viver sem você?

Morrerei, pensou Avery. No entanto, respondeu:

— Sobreviverei.

Sentiu alívio ao ver que Gillyanne dava as costas e ia ajudá-la, recolhendo alguns gravetos.

— Preciso perguntar por que está tão bem-humorado? — comentou Leargan, enquanto selava os cavalos com Cameron, preparando-se para caçar e trazer alimento ao acampamento.

— Existem assuntos que não são da sua conta — replicou o líder, apertando as tiras de couro da sela.

— Bem, se não deseja que ninguém por aqui perceba, pare de olhar para a moça com tanta… animação.

— Pensei que há dias estivesse fitando-a assim.

— É verdade, mas de certa forma seu olhar mudou. No momento, parece dizer que sabe muito bem o que o espera hoje à noite.

Sem replicar, Cameron montou no cavalo e saiu do acampamento. Por certo o primo tinha razão, refletiu. Em vez de aparentar apenas ansiedade, agora sentia-se ansioso e feliz. Devia estar irradiando felicidade, sabendo que encontraria à noite braços femininos acolhedores, e uma mulher desejável. Sim, desejava Avery Murray com todas as forças de seu corpo, e só com muita obstinação conseguira sair do leito nessa manhã, porque ansiava por permanecer na tenda e fazer amor o dia inteiro.

Na verdade, pensou, nem mesmo uma semana de paixão intensa seria o suficiente para saciar sua fome, e só em pensar nisso sentia-se excitado.

Tratou de fitar o primo que galopava ao seu lado, e respondeu:

— Meus sentimentos não devem ser surpresa para ninguém. Quis isso desde o início e, afinal, é um assunto que só diz respeito a mim e a Avery.

— Acha mesmo? Todos gostam dela e da pequena prima impertinente. As Murray salvaram nossas vidas, ajudam as outras mulheres, são boas enfermeiras, e por isso o jovem Peter vai ficar bom. Você é o lorde e irão segui-lo sem hesitação, porém isso não significa que desistam das próprias convicções. Rechaçam a idéia de Avery ser usada, lançada na lama… e depois repudiada.

— Esqueceu-se da vergonha que Katherine sofreu?

— Não, porém Avery Murray nada tem a ver com isso. A validade de seu plano terminou quando descobrimos o tipo de pessoa que ela é. Agora sua vingança não faz sentido. Deveria ter desistido de seduzi-la e a usado apenas para negociar o casamento de sir Payton.

— Sim, poderia ter feito isso. Entretanto foi ela quem me seduziu ontem. — Cameron sorriu ao ver a expressão atônita no rosto do primo. — É verdade. E não precisou usar muitas artimanhas, pois não é segredo que a desejei desde que a conheci. Mas no momento estou me questionando sobre a validade do plano. — Franziu a testa. — De repente, não gostaria que o desejo físico fizesse parte dessa história. Ontem cheguei a tentar dissuadi-la, mas Avery quis se entregar.

— Bem, você fez a moça perder a cabeça. — Leargan sorriu, brincando com o primo, mas logo ficou sério. — Case com ela.

— Seria muito difícil e estranho negociar um irmão por minha esposa.

— Troque Gillyanne por Payton.

Porém Cameron pareceu não ouvir, e prosseguiu:

— Se Avery fosse minha esposa, os Murray não acreditariam que pretendesse barganhá-la para concretizar meus propósitos. — Suspirou, irritado. — As mulheres são umas pestes! Doces e meigas quando querem alguma coisa, mas rápidas para apunhalá-lo pelas costas quando encontram campos mais verdes. No momento Avery é gentil, mas não sei por quanto tempo será assim.

Leargan balançou a cabeça como se não concordasse.

— Está desconfiando da moça sem motivos. Desconfia de todos os homens porque alguns são desonrados? Não. Entretanto nega a honra de todas as mulheres porque algumas o traíram.

— Muitas — corrigiu Cameron, mas a verdade contida nas palavras do primo não podia ser esquecida. — A única coisa que importa é fazer Katherine se casar com o homem que a seduziu. E se ele a deixou grávida, a criança precisa de um pai. Só posso conseguir reparação por meio de Avery e Gillyanne.

— É um homem teimoso, primo.

— Por quê? Apenas por ficar ao lado de Katherine? Avery agiria do mesmo modo se fosse para defender sua família, e esperaria que eu compreendesse.

— Isso implicaria que ela tem senso de honra e lealdade, por­tanto vê que tenho razão, e que não pode incluir todas as mulheres no mesmo rol.

Assim dizendo, Leargan esporeou o cavalo e se afastou, pondo um fim à conversa. Praguejando, Cameron o seguiu. Começava a perceber que seu julgamento sobre as mulheres talvez fosse errado, mas o cinismo e a desconfiança eram um escudo para se proteger da atração que Avery lhe despertava.

Estava contente com o fim da discussão. A sugestão de Leargan para que se casasse com ela o assustava. Era tentador demais, e agora que provara das delícias de seu corpo, a tentação de tê-la sempre e quando desejasse era ainda maior.

Para seu espanto, podia imaginar um futuro ao lado de Avery, com um bando de filhos. Não! Ela em breve precisaria ir embora. O que compartilhavam no momento era passageiro. Para seu próprio bem e o de Katherine, não podia permitir que o envolvimento se tornasse permanente.

Avery suspirou com prazer ao entrar no banho com ervas aromáticas. Achara engraçado o fato de Cameron viajar sempre com sua enorme banheira e as peles que lhe serviam de leito, e parecia que seus homens aprovavam esses luxos como algo normal.

Enquanto aproveitava a água quente, de olhos fechados, imaginou como deveria tratar Cameron. Eram agora amantes, e seria difícil mudar essa situação. MacAlpin era muito teimoso e estava decidido a usá-la para pôr as mãos em Payton e fazê-lo desposar Katherine.

Por outro lado, não confiava nas mulheres. Isso a deixava na desconfortável posição de fazê-lo perceber que ela era leal e a mulher certa. Afinal, salvara a vida de todos no acampamento, trabalhava muito para manter os soldados bem alimentados e com conforto, e ainda cuidava dos feridos. Além do mais, passara a esquentar a cama do lorde, e sem dúvida Cameron estava contente com isso.

Considerou a possibilidade de abrir seu coração para ele, mas desistiu. Cameron pensaria que era um novo jogo ou estratagema, e sua desconfiança a respeito das mulheres em geral o faria inter­pretar os gestos de carinho apenas como um meio de ela alcançar seus objetivos. Isso a magoaria muito, refletiu.

Então só lhe restava compartilhar a paixão enquanto durasse. Embora Cameron não notasse, ela punha seu coração e sua alma em cada beijo e carícia. Quem sabe, algum dia, Cameron MacAlpin conseguisse enxergar além do mero desejo físico.

Talvez, pensou Avery, de olhos fechados no banho, sua atitude o fizesse pelo menos mudar de idéia a respeito do caráter das mulheres em geral. Seria um pequeno consolo depois que se separassem, mas valeria a pena.

De repente sentiu uma presença na tenda, abriu os olhos, e viu Cameron ao lado da banheira, sorridente e sem roupa. Sabia que devia estar com expressão de espanto ao vê-lo entrar no banho também, mas tudo acontecera depressa demais. Estivera mergulhada nos próprios pensamentos de tal maneira que nem notara sua presença na tenda.

— Tem certeza de que esta banheira agüentará nós dois? — perguntou, enquanto ele se sentava com cuidado.

— Sim, mas talvez me arrependa dessa impetuosidade. Meus homens vão achar que estou muito perfumado. — Sorriu. — Bem, pelo menos não é essência de rosas, e logo voltarei a ficar suado e o aroma desaparecerá.

— E como planeja ficar suado? — inquiriu Avery, embora o olhar quente que recebeu a fizesse compreender muito bem. — Vai lutar? Treinar seus homens?

— Lutar. Com você. A noite toda. Vire-se que vou lavar suas costas.

Avery obedeceu, mas murmurou embaraçada:

— Estava quase terminando o banho…

— Mas faltavam as costas, certo?

Ela calou-se, segura de que Cameron tinha mais coisas em men­te que apenas esfregar-lhe as costas. Estremeceu quando sentiu a mão forte sobre sua pele, e ficou irritada consigo mesma. Aquele homem tinha o poder de deixá-la fora de si.

— Levante-se, Avery — ordenou, fazendo o mesmo.

Prendendo a respiração, ela obedeceu, enquanto Cameron começava a banhar-lhe as pernas, porém o toque mudara e mais parecia uma carícia. Quando por fim parou, Avery sentiu uma onda de alívio ao pensar que o tormento acabara, mas quase soltou um grito ante o beijo que recebeu na nuca. Cerrou os punhos ten­tando resistir.

Sentia-se exposta, de pé na banheira, como uma escrava em um leilão, entretanto o olhar carregado de desejo no rosto másculo a impedia de tentar se esconder. Como uma estátua, continuou a sentir os beijos e as carícias.

— Pare, Cameron… — protestou com voz fraca.

— Não, Avery. Não quero parar.

E ela se entregou ao prazer, relaxando para que continuasse por horas. Cameron a deixava louca de desejo, e quase gritou para que a tortura terminasse logo. Então, com gesto súbito, ele a fez sentar sobre seu corpo e a penetrou, beijando-lhe os seios molhados. Em breve Avery gritou de verdade, alcançando o clímax quase ao mesmo tempo que o amante.

Vários momentos se passaram, até que ele a fez se reerguer e tirou-a da banheira, começando a enxugá-la. Quando terminou, foi a vez de Avery arrancar-lhe a toalha da mão, e secar as gotas brilhantes do corpo musculoso. Em seguida, com instinto sensual, inclinou-se e lambeu as que restavam em seu pescoço, mordiscan-do-lhe a pele. Em breve a excitação o dominou de novo e, sem esperar, tomou-a nos braços, derrubando-a sobre o leito de peles.

Sem conseguir se conter dessa vez, Cameron despejou todo o seu desejo possuindo-a com ferocidade, sem esperar que ela alcançasse o mesmo pico de delírio. Tentou se desculpar mas, ao penetrá-la, percebeu que Avery já estava pronta para recebê-lo, com a avidez de uma mulher apaixonada.

Seguiu-se um ato sexual frenético, que terminou com Cameron desabando nos braços de Avery, a respiração entrecortada. Sabia que era muito pesado, mas não conseguia se mover. Um sorriso aflorou-lhe aos lábios. Se continuasse com aquela paixão desmedida, chegaria a Cairnmoor de maca.

A lembrança de seu lar o fez pensar que isso seria o fim de seu envolvimento com Avery, e tratou de afastar a idéia. Recusava-se a pensar na separação quando seu corpo ainda ansiava por ela de maneira surpreendente.

— Precisamos tomar algumas providências, menina — disse, depositando-lhe um beijo na testa escaldante. — Se continuarmos a nos entregar assim ao desejo em breve não conseguirei montar a cavalo.

— Está ficando velho? — brincou ela, deslizando um dedo pelo tórax rijo.

— Que engraçado! Deveria estar exausta para fazer esse tipo de pilhéria.

— Recupero-me com facilidade. — Bocejou, sentindo o sono invadi-la, e encostou-se a ele. — Isso que está nos acontecendo é… normal?

Cameron riu de mansinho.

— Tem medo de ser excomungada ou algo assim? — Incapaz de se conter, voltou a acariciá-la. — Não tema, Avery. Nada fizemos que muitos homens e mulheres não tenham feito ao longo dos séculos, e sem dúvida não é o demônio quem a está possuindo.

Sim, pensou Avery, se o amor conduzia ao inferno, a maioria dos homens de sua família iria queimar depois da vida na Terra.

— Tinha razão quando disse que iria suar — brincou em voz alta. — Também estou toda molhada.

— Quer que esfregue suas costas outra vez? — ofereceu-se Cameron com um sorriso malicioso.

Estremecendo um pouco porque a água já estava fria, Avery entrou na banheira, e depois se enrolou na toalha, voltando para a cama. Foi a vez de Cameron se lavar, mas quando regressou, abraçou-a com fúria.

— Cameron, está muito frio — protestou.

— Então vamos nos esquentar.

Deslizou a mão para o meio das coxas macias, e Avery gemeu de prazer, fazendo-o admirar a disposição perene da jovem para o amor.

— Sem dúvida já me esquentei— sussurrou-lhe ao ouvido com voz rouca.

Avery sentiu um frêmito percorrer-lhe o corpo, ante a sensualidade contida na voz máscula.

— Pensei tê-lo ouvido dizer que precisávamos nos refrear um pouco.

Mas em resposta Cameron recomeçou a beijá-la.

— Dessa vez irei mais devagar — prometeu com o timbre de voz que a deixava excitada. — Irei saborear cada centímetro de seu corpo sem pressa.

— Mas estava preocupado em não poder montar a cavalo.

— Posso caminhar, ou farei com que um dos homens me carregue.

Deslizou a língua sobre um dos mamilos túmidos, fazendo Avery suspirar.

— Quer mesmo me levar à loucura, Cameron MacAlpin?

— Completamente.

— Oh, meu Deus…

Avery suspeitava que era a última coisa coerente que diria nas próximas horas.

 

Os DeVeauxx outra vez. Incrédulo, Cameron olhou para Leargan e ambos praguejaram.

Embora os dois primos tivessem partido na frente dos demais para garantir que a trilha seguida estava livre, na verdade não esperavam encontrar problemas. Estavam indo muito bem em direção ao porto de onde embarcariam, e os quatro dias no acampamento, aguardando que os feridos melhorassem, não os tinham perturbado. No momento a última coisa que desejavam era encontrar os DeVeauxx de novo, mas lá estavam os inimigos, acampados ali perto.

— Depois de todos os homens que perderam no ataque, pensei que tivessem desistido — comentou Cameron.

— Sim, não faz muito sentido — replicou Leargan. — Talvez fosse bom espioná-los mais um pouco, quem sabe na verdade não estejam atrás de nós.

Após considerar a sugestão por um instante, Cameron acenou de modo positivo. Começaram a rondar de perto o acampamento inimigo, depois desmontaram e amarraram os cavalos. Esgueiran-do-se pelas árvores, alcançaram o final do acampamento e ficaram agachados nas sombras. Cameron quase praguejou ao ver uma figura conhecida deixar uma tenda ali perto. Sir Charles De­Veauxx, que raramente viajava com seus homens.

Enquanto observavam, viram uma pequena mesa ser montada e recoberta por fina toalha de linho e louça elegante. Por fim uma cadeira entalhada foi colocada à frente, e sir Charles sentou-se para degustar sua refeição. Com raiva, Cameron imaginou que os homens a seu serviço não eram tão bem alimentados quanto o lorde.

Ficaram no aguardo, e quando sir Charles já estava no terceiro prato, um dos soldados se aproximou da mesa.

— Onde estão os MacAlpin? — perguntou DeVeauxx, enxugando a boca com o guardanapo rendado.

— Aqui perto, senhor — respondeu o homem.

— E o prêmio que busco?

— A sorte estava conosco. Conseguimos pegá-lo sem despertar suspeitas.

Um frio percorreu a espinha dorsal de Cameron. Sabia que não falavam de moedas de ouro, que estavam guardadas na bagagem e jamais seriam roubadas sem que alguém desse o alarme, pois tudo fora colocado bem no centro do acampamento.

O mal-estar de Cameron aumentou, pois enquanto ruminava sobre todas as possibilidades, continuava pensando em apenas uma. DeVeauxx enviara seus homens para raptar alguém, e sabendo da rixa antiga com os Murray, algo lhe dizia quem era a vítima.

Fitou Leargan e notou o mesmo ar sombrio que seu rosto devia estar demonstrando naquele instante. Sem dúvida o primo chegara à mesma conclusão. De maneira sucinta mas compreensível, perguntou:

— Ficamos?

Leargan acenou que sim. Lutando para permanecer calmo, Cameron aguardou, o tempo todo rezando para estar errado.

Avery deixou o acampamento por um segundo, a fim de ter um pouco de privacidade. Quase sorriu ao ver um dos guardas observá-la, procurar Gillyanne com o olhar, e prosseguir com seu trabalho. Os homens de Cameron por certo haviam decidido que quando as duas primas não estavam juntas, não havia possibilidade de fuga. Avery sentiu-se tentada a fugir só para provocá-los, mas sabia que era infantilidade.

Desejosa de esticar as pernas depois de galopar o dia inteiro, caminhou devagar pelo bosque, mantendo-se atenta para não perder a trilha do acampamento. Havia uma semana prosseguiam sem parar em direção do porto onde embarcariam para a Escócia.

Parecia que Cameron não dava trégua a ninguém, e embora Avery compreendesse sua necessidade de voltar para casa, resolver os problemas com a irmã e rever a querida Escócia depois de tantos anos, sentia-se magoada com a pressa demonstrada.

Tinha certeza que Cameron trataria de se desvencilhar do relacionamento entre os dois assim que solucionasse a questão com Payton, em Cairnmoor. Apesar de repetir o tempo todo para si mesma que não devia ser tola, era impossível parar de pensar no sofrimento após a separação.

Com freqüência pensava como o problema de Katherine poderia ser resolvido sem que Cameron lançasse mão dela e de Gillyanne. Se a irmã de Cameron pudesse ser desmascarada como a mentirosa que era, tudo estaria resolvido. Entretanto Avery sabia que era uma missão muito difícil. Conseguira poucas informações a respeito de Katherine, porém o certo era que a moça sabia muito bem como conseguir o que desejava, e queria Payton. A única chance era que Cameron se apaixonasse por Avery Murray, e estivesse tão ansioso para tê-la sempre ao lado que encontrasse outra solução para o problema da irmã. Porém Avery sabia que as pro­babilidades de isso acontecer eram mínimas.

Amoras maduras chamaram sua atenção, e ela apressou-se a colhê-las. Dariam uma excelente sobremesa no acampamento onde os pratos principais eram carne e mingau. Fazendo uma espécie de bolsa com a saia, começou a recolher as frutas, mas algo a fez sentir um calafrio.

Fitou a mata, entretanto nada viu. Quando estava prestes a olhar para trás, sentiu que uma mão poderosa apertava-lhe a boca.

Avery deixou as saias caírem, fazendo as amoras rolarem para todos os lados, e tentou livrar-se do que parecia uma barra de ferro sobre seus lábios. Gemeu ao sentir que agarravam seus pulsos por trás das costas. A mão parou de pressionar-lhe a boca, mas logo uma mordaça foi colocada no lugar e ela nem teve tempo de recuperar o fôlego ou gritar por socorro. Apesar de seus esforços, foi erguida com facilidade e atirada sobre um ombro musculoso. O homem que a carregava saiu correndo para longe do acampamento dos MacAlpin.

Momentos depois, foi atirada de braços sobre a sela de um cavalo, e sentiu que o ar lhe faltava. Enquanto tentava respirar, seu raptor esporeou a montaria, partindo a galope.

Avery fez força para não perder os sentidos, tentando ver quem era o homem, e percebeu que eram três cavaleiros, suas vestes e montarias demonstrando que deviam ser nobres ou, pelo menos, mercenários bem-remunerados. Ao chegarem a um outro acam­pamento, porém, Avery percebeu a importância do problema. Zonza, com dor de cabeça e enjoada, foi arrancada do cavalo e colocada de pé com rudeza.

Só então viu o estandarte dos DeVeauxx. Foi levada a uma tenda, enquanto rezava para não se deparar com um de seus inimigos, mas logo viu-se frente a frente com sir Charles. Por certo ele já sabia quem ela era.

Alguém derramou-lhe vinho garganta abaixo, e Avery agradeceu por isso, apesar da brutalidade. Reunindo toda a coragem, disse em tom despreocupado:

— Isso está se tornando monótono. Há mais alguma dívida a ser saldada? Ou acha que sir Cameron pagará para me ter de volta?

— Sir Cameron não terá oportunidade de reavê-la — replicou sir Charles, examinando-a com atenção.

— Por quê? Meu preço no mercado aumentou tanto assim?

— Sem dúvida que sim, minha cara. Você é uma Murrày. Avery lutou contra o pânico que a possuiu e retribuiu com um olhar de pura e inocente confusão.

— Quem, meu senhor?

— Não perca meu tempo e o seu com fingimento. Seu clã do lado francês, os Lucette, exige sua volta e a de sua prima. Recusam-se a acreditar que eu não as raptei.

— E o que lhe importa o que os Lucette pensam?

— Nada, exceto que a preocupação demonstrada me faz pensar que você será muito útil.

— Como?

Avery rezou para se tratar apenas de um resgate ou de uma troca entre prisioneiros, mas a resposta fez seu sangue gelar nas veias.

— Ainda não sei. Até agora só pensei em tirá-la das mãos de sir Cameron. Como isso já foi feito, preciso ponderar sobre todas as possibilidades. Creio que o escocês a seduziu, certo?

— Sir Cameron fez voto de celibato, e pretendia me devolver para meu pai e minha mãe.

— Ah, sim! A assassina e seu amante que a ajudou a escapar da justiça.

— Minha mãe não matou ninguém. Ficou provado que era inocente, e os verdadeiros assassinos foram enforcados.

— Pelo menos foi assim que os Lucette quiseram que acreditássemos. Já não importa, é um crime antigo, embora sua mãe, lady Gisele, tenha aproveitado bem a fortuna que recebeu. Entretanto, me pergunto: quanto ela estaria disposta a pagar para ter a filha de volta?

— Creio que seu rei não irá gostar de sua atitude, milorde.

Sir Charles levantou-se e, devagar, caminhou até Avery, fazendo-a estremecer ao sentir que tocava seus cabelos em desalinho e, sem o menor pudor, acariciava um de seus seios. Permaneceu quieta, forçando-se a não revelar o nojo que sentia, e continuou a fitar o homem a sua frente de modo frio e sereno.

— Fico pensando como seu pai e sua mãe se sentirão caso a envie de volta para casa com um bastardo no ventre — murmurou sir Charles, retomando ao seu lugar e tomando um gole de vinho.

— Então sugiro que se lembre como o primeiro marido de minha mãe morreu.

— Pensa em me assassinar?

— Se puder, eu o farei em um piscar de olhos.

— Que audácia! Será interessante ter esse fogo em meu leito. — Com gesto lânguido, acenou para o homem que trouxera Avery. — Coloque-a em minha tenda, Anton, e certifique-se de que não haja objetos pontiagudos ao redor.

Avery não lutou enquanto era conduzida à tenda, ciente de que seria em vão. Achou ridículo seu interior, que mais parecia a alcova luxuosa de um castelo. O guarda desamarrou-lhe os pulsos, mas logo voltou a prendê-la no pé da cama.

Assim que o homem saiu, Avery fitou o fogo no centro da enorme tenda sem nada ver. Precisava agarrar-se a um fio de esperança para manter a força. Cameron viria em seu encalço, mas o que a angustiava era o fato de que faria isso não porque a amava, mas pela honra e porque necessitava dela para realizar seu plano.

— Não seja idiota, Avery — murmurou para si mesma. — Os motivos não importam, contanto que ele venha.

Rezou para que isso não custasse muito caro aos MacAlpin, e que chegassem antes de sir Charles violentá-la.

Cameron respirou fundo, tentando se acalmar. Ouvira e vira, junto a Leargan, quando sir Charles ameaçara Avery, e a raiva o cegara por um momento. Se não fosse pelo primo que o deteve com rapidez, teria cometido um erro fatal, irrompendo, desprotegido, no acampamento dos DeVeauxx, e decepando a mão do patife que ousara tocar em sua amante.

Já mais calmo, seguiu Leargan até os cavalos.

— Preciso voltar — disse, ao alcançar a montaria, apertando as rédeas com força para manter a serenidade.

— Claro que sim — concordou Leargan. — Fico imaginando como Michael DeVauxx morreu — murmurou, tentando animar o outro.

— Dizem que o castraram e depois o degolaram.

— E como descobriu isso?

— Inquiri o porquê de Charles querer atacar os Lucette e aprendi muito sobre essa rixa. Avery me contou a versão de sua mãe sobre a história, que é a correta. Sem dúvida existe muita ganância envolvida. — Cameron montou, acrescentando: — Precisaremos de mais homens.

Leargan imitou-o e, devagar, começaram a se afastar, antes de disparar a galope.

— A tenda de sir Charles foi colocada em um ponto ridículo, na beira do acampamento — comentou Leargan.

— Então precisaremos de alguns soldados para causar tumulto, e outros para atacar a tenda do chefe.

— É isso mesmo.

— E precisamos desfazer nosso acampamento e prosseguir. É inútil ficarmos sentados, esperando por uma represália dos De­Veauxx. Creio que terei que matar sir Charles — concluiu Cameron em um murmúrio, esporeando a montaria antes que Leargan tivesse tempo de replicar.

Encontraram sua gente mergulhada em um grande tumulto. O desaparecimento de Avery já fora detectado, e Cameron não castigou

Rob, encarregado de protegê-la, porque o pobre homem jamais pensara que a jovem tivesse inimigos pessoais.

Isso fora tolice sua, pensou Cameron. Sabia sobre o ódio entre os DeVeauxx e o clã de Avery, e deveria ter previsto que sir Charles pensaria em raptá-la. Pelo menos Gillyanne estava a salvo, refletiu, ao ver o olhar febril da menina.

— Tem certeza que sir Charles DeVeauxx sabe quem Avery é? — perguntou Gillyanne com voz embargada.

— Temo que sim, criança. Ouvi o próprio sir Charles dizer isso. Leargan e eu estávamos bem perto.

— Jesus! Ele vai machucá-la — gemeu Gillyanne.

— Acho que não— mentiu Cameron, tentando acalmar a jovem.

— Obrigada por tentar me consolar. Sei que os homens De­Veauxx machucam as mulheres. Só me pergunto como Avery não pressentiu o perigo.

— Por certo a pegaram de surpresa. Gillyanne suspirou.

— Avery é ótima para sentir a aproximação do perigo. Já deu o alarme antes de um ataque dos DeVeauxx em nossas terras. Mas talvez nem sempre dê certo.

— Avery pressente o perigo? — repetiu Cameron, estupefato.

— Sim. Parece sentir o cheiro no ar. Seu pai também. Porém isso só acontece de vez em quando, e hoje não aconteceu. — Gillyanne viu os homens formarem um círculo ao redor de Cameron.

— Pretendem salvá-la?

— É esse o plano. Mas não creio que sua vida esteja em risco — acrescentou para não apavorar a menina.

— Contanto que Avery não tente matar sir Charles… Cameron conduziu seus homens de volta ao acampamento dos DeVeauxx, tentando esquecer as últimas palavras de Gillyanne, mas no íntimo sabia que Avery não era mulher de aceitar com passividade seu destino. Pelo menos, refletiu, tinha certeza de que ela não estava com seu punhal, e isso a livraria de problemas.

— Seu plano é bom. Salvaremos a moça — disse Leargan, interrompendo seus pensamentos.

— Contanto que ela não tente se salvar sozinha — resmungou Cameron.

— Duvido. Está bem guardada. — Leargan riu. — Já deve estar acostumada com correntes e cordas.

Cameron tratou de ignorar a indireta do primo. Deus! Jamais ousaria machucar Avery ou Gillyanne, embora fossem suas prisioneiras, e esperava que soubessem disso.

Deixando os cavalos a uma distância segura com dois homens montando guarda, Cameron e o resto dos soldados aproximaram-se do acampamento inimigo sem fazer ruído.

Ao ver que sir Charles já entrara na tenda, o líder dos MacAlpin sentiu um frio na espinha. Com gestos, ordenou a quatro homens que se esgueirassem até o outro lado do acampamento, permanecendo com Leargan, Rob e Colin. Precisavam esperar.

Cameron estreitou os olhos, tentando ver o que acontecia na tenda, mas era impossível avisar Avery que estava ali para salvá-la.

Só o pensamento de que sir Charles poderia violentá-la o deixava tenso. Definia seu interesse por Avery Murray como uma enorme atração física, e não desejava que outro homem desfrutasse do mesmo. Além disso, apreciava sua companhia. Era uma jovem divertida e esperta, justificou-se. Não era o suficiente para tentar salvá-la?

Mas seus homens cortaram o fio de seus pensamentos, pois, conforme o plano, haviam ateado fogo a duas carretas do outro lado do acampamento, espantando os cavalos, que corriam de um canto ao outro, causando um grande tumulto entre os soldados.

Sorrindo, Cameron dirigiu-se para a parte de trás da tenda de sir Charles.

 

O olhar de sir Charles ao entrar na tenda deixou Avery temerosa, sentindo-se uma vítima humana de algum sacrifício pagão, e desejando ter seu punhal. Por certo, se matasse DeVeauxx, seria morta também sem piedade, mas valeria a pena, refletiu.

— É assim que seu valoroso amante escocês a mantém segura? — perguntou o nobre com ironia.

Avery replicou em francês:

— Ele só amarra um dos meus pulsos. É mais corajoso que o senhor…

Prendeu a respiração, ao vê-lo desembainhar a espada.

— Deve tomar mais cuidado com as palavras, mulher, em especial na situação em que está.

— Não perca a paciência, senhor. Caso me matasse poderia manchar seus lençóis com meu sangue.

— Bem, é um ponto a considerar.

Assim dizendo, sir Charles se aproximou e começou a desamarrar os laços do corpete de Avery, fazendo-a pensar que era tão insensível e depravado como o primeiro marido de sua mãe. Tratou de manter o sangue-frio, e perguntou com ar de troça:

— Pretende me devolver nua à família?

— Não. Sou um cavalheiro. Irei devolvê-la com uma rica veste de prostituta. Como a que meu primo deu a sua mãe, há muitos anos.

Avery mordeu o lábio para não rogar por clemência. Jamais daria essa satisfação a um DeVeauxx. Entretanto a falta de paixão ou desejo nos olhos de sir Charles a deixava mais preocupada que se estivesse louco para possuí-la. Fazia tudo aquilo para humilhá-la, concluiu, e isso a deixou muito amedrontada.

Percebeu naquele instante que DeVeauxx brincaria com ela durante muito tempo, até deixá-la louca de vergonha e medo, implorando para ser violentada de uma vez e terminar com o suplício.

Sir Charles abriu-lhe a camisa de linho e analisou os seios brancos, franzindo a testa.

— São pequenos. Gosto de seios grandes.

— Se soubesse disso teria me esforçado para comer mais e engordar.

Ignorando o sarcasmo, ele continuou:

— Entretanto possuem uma certa beleza. — Assim dizendo, acariciou-os por alguns instantes. — Continua fria, minha cara?

— Quer uma reação? Aproxime-se mais que vomitarei em seu rosto.

Avery reteve um grito ao receber uma bofetada. O gesto também fora frio e calmo, como tudo que sir Charles fazia, e isso a fez pensar que estava sonhando, um horrível e longo pesadelo.

Por certo ninguém podia ser tão indiferente como o homem que a acariciava naquele instante, refletiu.

— Pensou que as roupas a protegeriam? — perguntou o lorde, tirando um punhal do cinto.

Com gesto rápido cortou o resto dos trajes de Avery de cima a baixo, deixando-a despida.

— Tem um belo corpo e parece muito limpa. Gosto disso.

— Vou matá-lo!

— Agora? Não creio que esteja em posição de fazer ameaças.

— Sou paciente quando é preciso. Esperarei. Amanhã, depois, daqui a dois anos… Não importa. Quando a oportunidade surgir, e surgirá, irei matá-lo e de tal maneira que a morte de seu primo parecerá misericordiosa.

Antes que sir Charles tivesse tempo de responder, um tumulto do lado de fora da tenda despertou-lhe a atenção.

— Preciso ver o que aqueles tolos estão fazendo. Quando voltar, porém, quero me divertir ouvindo todos os planos que pretende arquitetar para me matar.

Com gesto íntimo, acariciou-a no meio das coxas, fazendo-a estremecer, e depois saiu da tenda.

Avery respirou fundo diversas vezes, a fim de se recompor. Sentia-se enjoada, mas não sabia se devido ao ódio ou aos dedos frios que a tinham tocado. Sir Charles pretendia humilhá-la de maneira atroz, e precisava manter-se firme, pensou.

De repente Cameron e Leargan surgiram junto ao leito, e Avery sentiu-se tão grata e feliz que nem se preocupou com a própria nudez.

— Onde está sir Charles? — quis saber o senhor dos MacAlpin, soltando-a, enquanto Leargan dava as costas de modo discreto.

— Saiu para ver o motivo do barulho — replicou Avery, esfregando os pulsos doloridos, enquanto Cameron soltava seus tornozelos.

— Maldição! Queria matá-lo! Leargan, não perca aquele bastardo de vista.

Assim dizendo, Cameron cobriu Avery com a blusa rasgada e depois arrancou o lençol da cama, atirando-o em suas costas como um manto. — Ele a violentou?

— Não. Creio que pretendia me atormentar por muito tempo antes de me possuir.

— Jesus! Quando puser as mãos nesse homem…

— Não fará isso.

— Agora é impossível, mas em breve…

— Não! — replicou Avery. — Porque serei eu a matá-lo.

Com gesto súbito agarrou sobre o leito o punhal com que Cameron cortara as cordas que a prendiam, e correu para fora da tenda. Ele a segurou com dificuldade, fazendo-a espernear como louca. Entretanto o cuidado que tomava para não feri-lo com a arma o fez perceber que não estava de todo fora de si.

Mas estavam perdendo tempo e desperdiçando a chance de uma fuga bem-sucedida, e quando Cameron já pensava em tomar me­didas drásticas com Avery, que não parava de espernear, Leargan regressou e, pedindo desculpas como o cavalheiro que era, estapeou-lhe o rosto.

Foi o bastante para deixá-la desacordada e, com um suspiro, Cameron a colocou sobre os ombros.

— Desculpe-me, primo — sussurrou Leargan com voz contida.

— Não tínhamos escolha — replicou Cameron, correndo para fora e reunindo-se aos outros homens. — Na verdade estava a ponto de fazer o mesmo quando você chegou. Não havia tempo de fazê-la raciocinar com clareza. Embora também deseje matar Charles DeVeauxx, é melhor mantermos a cabeça fria, senão toda a família de loucos virá em nosso encalço.

— Certo. Agora só temos que nos preocupar com a segurança de Avery. Chegou a estuprá-la?

— Não — replicou Cameron, acabando de montar a cavalo, e tomando Avery dos braços do primo que a segurara. — Pretendia torturá-la com constantes insultos e ameaças. Não me admira que Avery desejasse matá-lo com as próprias mãos.

Assim que todos os homens montaram, Cameron esporeou o cavalo partindo a galope, e se afastando do acampamento dos De­Veauxx, que estava em verdadeira polvorosa.

Alguns soldados perseguiam os cavalos apavorados com o fogo, outros, pegos de surpresa pelos MacAlpin, lutavam em desvantagem ante os homens bem armados de Cameron. Sir Charles desaparecera.

Agora seria uma longa corrida até o porto, porque Deveauxx não aceitaria com passividade a perda de sua prisioneira, em especial quando lhe fora tirada com tanta facilidade, fazendo-o parecer um tolo.

Duas horas mais tarde o grupo dos MacAlpin reuniu-se com o resto dos amigos. Cameron enviou alguns homens para apagar a trilha, e tranqüilizou Gillyanne e Anne a respeito de Avery. Viajariam sem parar por mais duas horas, decidiu, e depois acampariam para que Avery pudesse repousar um pouco.

Leargan não lhe batera com força, entretanto ela continuava inconsciente. Cameron aceitara sua palavra de que não fora estuprada, porém ela destilava ódio por todos os poros. O que sir Charles lhe fizera? Encontrara-a nua, as roupas cortadas por faca, por­tanto DeVeauxx a assediara de algum modo, refletiu.

Quando à noite pararam a cavalgada, Avery já despertara mas sentia-se zonza. Cameron desmontou e ordenou que sua tenda menor fosse armada, com as peles e mais cobertores. Deu instruções para que os demais pertences permanecessem na carreta, de modo que pudessem partir bem depressa ao amanhecer.

— Preciso de um banho — resmungou Avery, quando Anne e Gillyanne se aproximaram para saudá-la.

Algo no tom de voz dela fez Cameron perceber que não devia contrariá-la, mas hesitou.

— Não pretendia acender fogueiras — explicou.

— Não me importo se a água estiver gelada. Preciso de um banho.

— Há um riacho aqui perto — disse Anne. — Pode se banhar lá. Gillyanne e eu a acompanharemos. — Avery concordou com um gesto de cabeça, e Anne voltou-se para a prima menor. — Leve-a ao riacho, menina. Seguirei com sabão, roupas secas e limpas. Vá!

Assim que as duas Murray se afastaram, Anne fitou Cameron.

— Foi violentada?

— Disse que sir Charles não abusou de seu corpo, e acredito, porque não tem marcas. Entretanto estava nua quando a encontramos. Queria matá-lo, e lutou tanto para persegui-lo que Leargan precisou dar-lhe um soco de leve. Significa que aquele bastardo atormentou-a muito.

— Deixou-a com medo — resumiu Anne com um suspiro.

— Tenho certeza que sim. Mas isso a deixaria tão zangada a ponto de querer matá-lo?

— Pode ser.

Sem saber o que dizer, Cameron viu Anne afastar-se. Preocupado com a reação violenta de Avery e seus gritos de ameaça contra DeVeauxx, chamou Rob e ordenou que a vigiasse sem descanso.

Naquele momento Leargan se aproximou, e Cameron externou sua preocupação.

— Apesar de todas as ameaças e brigas, Avery nunca tentou me matar, Leargan.

O primo sorriu.

— Bem, ela não tem medo de você.

— Muitas mulheres me temem e, de certa forma, ameacei seu clã.

Leargan relanceou um olhar crítico para o primo, e comentou:

— É um homem carrancudo, grande e forte, mas não assusta Avery. Talvez seja preciso rosnar de vez em quando.

— Cale a boca! — brincou Cameron.

— Já calei. — Mas com expressão séria continuou: — Avery irá precisar de você agora, portanto trate de ser mais… doce. — Passou os dedos por entre os cabelos, um tanto constrangido. — Não sei bem como se faz isso, mas por certo apenas um banho não a fará se sentir restabelecida. Vai precisar de simpatia para dissipar os aborrecimentos.

— Sorcha, a irmã mais velha de Gillyanne, foi estuprada — disse Cameron em voz baixa.

— Bem, isso pode explicar o pavor de Avery.

— Sim. Boa noite, Leargan. Talvez não saiba como consolar uma moça apavorada, mas não posso deixá-la sozinha.

— Claro que não.

— Afinal, ainda pode estar com a idéia fixa de matar o homem.

— Está mais calma, menina?— perguntou Anne, após esfregar o corpo de Avery de cima a baixo e vesti-la com roupas limpas.

— Um pouco. Ainda quero matar aquele bastardo, mas a loucura terminou. — Sorriu para Gillyanne, que começou a pentear seus cabelos ainda molhados.— E tenho que me vingar de Leargan e de seu soco.

— Bastará gemer de vez em quando e tocar seu queixo com ar triste, que Leargan ficará de joelhos, implorando perdão.

Avery riu de leve.

— Não sei se desejo atormentá-lo tanto assim. — Estremeceu de leve e passou os braços ao redor do corpo. — Pensei que um banho afastaria a lembrança do toque das mãos de sir Charles, mas ainda consigo sentir.

— Pobre menina. — Anne abraçou-a.

— Pare de pensar em coisas desagradáveis. — aconselhou Gillyanne, acabando de trançar os cabelos da prima. Olhou para a outra margem do riacho. — O que Rob está fazendo aqui?

— Creio que está me vigiando — murmurou Avery.

— Cameron não pode imaginar que tentaria fugir depois de tudo que passou!

— Sim, mas talvez pense que agarrarei uma faca, e correrei para o acampamento dos DeVeauxx a fim de apunhalar sir Charles. — Avery segurou as mãos de Gillyanne e Anne, feliz com a companhia segura das amigas. — É melhor voltar para a tenda de Cameron e assegurar que já não estou tendo um acesso de fúria. Se tivesse matado sir Charles, os bosques e estradas da França estariam agora infestados de DeVeauxx em busca de vingança. Foi o que aconteceu com minha pobre mãe, e ela era inocente.

Gillyanne aquiesceu.

— Talvez se permitir que Cameron a abrace esta noite, ele possa afastar os maus pensamentos.

— Pode ser… É melhor mesmo que aquele grandalhão tenha alguma utilidade — brincou Avery.

As três riram com vontade.

Depois que entrou na tenda, percebeu como Cameron a observava com atenção. Apenas vestindo as roupas de baixo, voltou-se e fitou-o deitado na cama de peles, e com o maravilhoso físico à mostra. Avery ficou contente por ele não ter mudado de atitude apenas pelo que lhe acontecera naquele dia. Era o mesmo homem das noites anteriores e, de certa forma, isso fazia o trauma diminuir.

— Se está esperando que de repente eu vá começar a soltar espuma pela boca, agarrar sua espada e sair correndo no meio da noite, vai perder seu tempo.

— Seria bem engraçado — replicou Cameron com um leve sorriso.

Ela correu para o seu lado.

— Acha isso divertido?

— O que o bastardo fez com você, Avery?

— Além de me prender à cama, rasgar minhas roupas de cima a baixo com um punhal, e ameaçar colocar a semente de um odioso filho seu em meu ventre?

— Sim, além disso, embora essa descrição que fez me dê vontade de arrancar o coração de DeVeauxx.

— Perfeito, com a condição de que me deixe ajudá-lo — replicou Avery, começando a acariciar-lhe o tórax de modo lento e sensual. — Também me tocou, e com tanta frieza no olhar, que foi pior do que se o fizesse com luxúria. Nunca consegui com­preender antes a extensão da maldade dos DeVeauxx e o que minha mãe teve de enfrentar.

— Sem dúvida ela é uma mulher corajosa— replicou Cameron, tratando de esconder o ódio que sentia no coração contra sir Charles.

Avery beijou-lhe o peito, mas Cameron lutou contra o desejo, imaginando que seria insensível de sua parte, depois do que ela passara. Avery compreendeu, mas insistiu. Precisava das carícias do homem amado para esquecer o trauma vivido.

— Não vai me dar um beijo de boa-noite? — pediu, esfregando o pequeno pé na perna musculosa.

— Se fizer isso não irei parar. Agora que conheci sua paixão, não consigo mais me controlar.

Então Avery passou-lhe os braços pelo pescoço, e murmurou:

— Aqabe com o frio em meu corpo, Cameron.

Ele a fitou por um instante, e depois beijou-a, ambos se entregando às delícias do ato de amor. As carícias e gemidos invadiram a tenda, e Avery parecia um náufrago agarrado à tábua de salvação.

Quando por fim Cameron se afastou, exausto e sem fôlego, ela aninhou-se em seus braços, sentindo-se salva e protegida.

— Isso ajudou, menina? — perguntou o lorde, beijando-lhe a testa com meiguice.

— Sim. Já não sinto frio.

— Então descanse. Logo amanhecerá.

— Acha que temos que correr para o porto? DeVeauxx irá nos perseguir? — Quando sentiu que ele hesitava, continuou: — Nem pense em me mentir. Sir Charles fará isso apenas porque deseja me ter para se vingar de minha mãe, certo?

— Existe essa possibilidade, mas não permitirei que o bastardo volte a pôr as mãos em você.

Avery achou estranho que um homem desejoso de usá-la também como vingança condenasse um outro pelos mesmos motivos, mas calou-se. Cameron não agia por ganância nem malícia, e jamais a machucaria.

Talvez machucasse seu coração, mas isso era outra coisa. Entretanto sir Charles sem dúvida faria tudo para destruí-la física e espiritualmente.

— Empatamos — murmurou ele, já tonto de sono.

— Como assim?

— Salvou minha vida e de meus homens, e hoje salvei a sua. A dívida está paga, e tudo voltou à estaca zero.

Avery concluiu que estava cansada demais para começar uma nova discussão.

 

Ao se aproximarem do rio que precisavam cruzar, Avery sentiu-se inquieta. Olhou em volta sem ver sinal de perigo. Os homens ao redor também pareciam não ter visto nada, entretanto a sensação continuava.

— Algo errado, Avery?

A jovem relanceou um olhar para Gillyanne sentada atrás, na sela. Ficara surpresa quando Cameron as despachara juntas no mesmo cavalo, porém logo observara como um bando de homens as circundava na cavalgada. Não era uma guarda para impedi-las de fugir, refletiu, mas para protegê-las dos DeVeauxx, portanto, tolerável. Sem dúvida era a forma mais eficaz de mantê-las em segurança. Cameron sabia que Gillyanne também corria perigo.

— O rio parece profundo e suas águas são bravias — observou Avery.

— Sim, mas poderemos cruzá-lo. Avery tornou a olhar em volta.

— Estou tão apreensiva…

— Os DeVeauxx ficaram para trás, prima.

— Tem razão. Talvez seja o fato de estarmos fugindo há três dias que me deixou exausta e vendo sombras onde não existem. E estamos nos dirigindo para a Escócia muito depressa. Então chegaremos a Cairnmoor e minha história terá seu desfecho.

— Está perdendo tempo ruminando esses pensamentos sombrios, em vez de tentar conquistar de uma vez por todas aquele teimoso. Creio que tornou-se muito importante para sir Cameron. Salvou-a das mãos de sir Charles e preocupa-se em mantê-la a salvo.

— Precisa de nós duas para fazer Payton casar com a irmã.

— Sim, no princípio era só isso, mas as coisas mudaram, tenho certeza. Além disso, Cameron possui outros motivos para se preo­cupar tanto com você…

Avery suspirou.

— Às vezes também penso assim, entretanto não é o que nós duas pensamos que interessa, mas sim o que Cameron deseja.

Na garupa, Gillyanne aquiesceu, balançando a cabeça com compreensão.

— Os homens têm idéias diferentes, mas isso não significa que não criem juízo antes que seja tarde demais. Às vezes, é preciso que percam algo para entender o quanto era valioso.

Avery não parava de se admirar com a perspicácia da jovem prima.

— Se Cameron sente que sou valiosa de algum modo, irá tentar se afastar de qualquer maneira. É um homem que guarda o coração a sete chaves.

— Ninguém consegue fazer isso para sempre.

— Bem, não podemos nos preocupar com isso agora. — Avery franziu a testa ao se aproximar com o resto do grupo da margem do rio para cruzá-lo. — Seria bom que houvesse uma ponte.

— Esse rio a deixa muito preocupada, não?

:— Tenho um pressentimento. — Fitou Donald, que colocava alguma bagagem na carreta, e voltou-se para Cameron, que parara ao seu lado. — Talvez fosse conveniente o jovem Donald atravessar a cavalo.

— Está tudo bem, Avery — replicou ele, emocionado com a preocupação que ela demonstrava em relação a sua gente. — A carreta agüentará bastante peso.

— Tem razão.

Mesmo assim Avery sentia-se tensa ao ver o veículo penetrar na água com Rob adiante, tentando conter o cavalo nervoso. Voltou-se para falar outra vez com Cameron, mas descobriu que ele já se afastara. Cerrou os dentes, e tornou a observar a cena no rio. Começava a admitir que era uma tola, e fustigou o cavalo para seguir os demais, porém seu coração acelerou ao perceber que a carreta tombava ligeiramente para o lado.

Por certo a roda direita traseira caíra em um buraco e, com o movimento brusco, Donald soltou um grito e afundou no rio, a forte corrente começando a arrastá-lo.

Ninguém partiu em seu socorro, fazendo-a perceber que não havia nadadores entre os MacAlpin. Alguns homens penetraram no rio a cavalo para salvar o rapaz, mas a profundidade das águas dificultava o avanço dos animais. Dois soldados quase conseguiram agarrar o infeliz, mas os animais se recusaram a prosseguir.

Com um suspiro irritado, Avery esporeou o cavalo, fazendo-o entrar nas águas.

— Segure as rédeas — ordenou a Gillyanne, enquanto retirava as botas e o pesado manto.

Cameron já percebera sua intenção e se aproximava. Avery sabia que iria tentar impedi-la, mas ela era a única que poderia tentar salvar o rapaz. Montando de lado na sela, arregaçou as saias, passou-as no meio das pernas, e amarrou-as na cintura. Cameron estava prestes a alcançá-la, quando Avery penetrou nas águas frias, mergulhou, e nadou na direção de Donald.

— Colin, faça com que todos circundem as margens— ordenou Cameron. — Leargan, venha comigo. Aquela menina tola vai se matar — gritou, galopando ao longo do rio, sem perder Donald e Avery de vista.

— Minha prima nada muito bem — berrou Gillyanne para se fazer ouvir entre o rumor das pessoas, dos cavalos e das águas turbulentas, enquanto seguia Cameron.

O líder dos MacAlpin praguejou ao ver a pequena segui-lo, em vez de acompanhar os demais. Respondeu no mesmo tom:

— Já percebi, mas Donald tem o dobro de seu tamanho. Não se sentiu tranqüilo ao ver que Gillyanne se calava.

Não era fácil, mas Avery ignorou o frio intenso da água, embora penetrasse nos ossos como um punhal. As roupas ensopadas pesavam muito, dificultando seus movimentos. Entretanto mantinha os olhos em Donald, e continuava a nadar. O rapaz esperneava, e isso era bom, porque o ajudava a permanecer na superfície e protelar a descida rio abaixo.

Quando ele percebeu que era seguido, denotou um medo ainda maior.

Com cautela, Avery se aproximou, ciente de que um afogado em pânico poderia levar os dois à morte.

— Donald — gritou, tentando convencê-lo a deixá-la ajudá-lo.

— Avery, não quero morrer afogado — replicou o rapaz, engolindo água.

— Não morrerá se fizer o que eu mandar. Compreendeu?

— Sim.

— Fique calmo. Estou me aproximando, e não vai querer me acertar com um braço, vai?

— Não. Estou com frio, Avery.

— Sei disso. — Com gesto rápido, aproximou-se o suficiente para passar um braço por trás, circundando-lhe o tórax. — Encoste em mim, Donald. Relaxe. — Ficou surpresa ao ver como ele obedecia sem hesitar, depositando toda a confiança nela. — Bata as pernas com calma… Isso mesmo. Mais devagar… Isso! — Vislum­brou alguns arbustos encravados em pedras mais próximas à mar­gem. — Vou puxá-lo, e continue movendo as pernas. Vamos nadar até aquelas plantas.

— Não seria melhor irmos direto para a margem?

— As pedras estão mais perto e poderemos nos segurar até que joguem uma corda. Donald, você é muito pesado. Posso mantê-lo na superfície, mas não conseguirei arrastá-lo por muito tempo.

— Estou vendo sir Cameron.

— Ótimo. Irá nos jogar a corda.

Assim que alcançaram os arbustos nas pedras do rio, Avery certificou-se que o rapaz se segurara bem, antes de soltá-lo. Então tratou de se agarrar também aos galhos molhados e, para sua alegria, viu Cameron, Leargan e Gillyanne na margem. O chefe dos MacAlpin segurava uma corda grossa.

— Vou agarrar a corda quando a atirarem — Avery avisou Donald. — Não largue os arbustos, mesmo que se soltem. Não tenha medo. Iremos atrás de você e a madeira o manterá flutuando.

— Mas vai precisar de minha ajuda para amarrar a corda em sua cintura — protestou Donald.

— Você primeiro, e não discuta comigo — comandou, ao perceber que ele relutava. — Sei nadar, Donald, portanto terá que ser resgatado em primeiro lugar.

Depois de duas tentativas, Avery agarrou a corda que Cameron atirara. A pedra que amarrara na ponta para que se tornasse mais pesada a atingira no ombro e deixaria um hematoma, mas já estava acostumada a se machucar.

— Vou passar a corda pelo seu peito e quero que respire fundo — disse a Donald, rezando para que os dedos enregelados conseguissem atar os nós. — Quando gritar que estamos prontos, tome fôlego, porque poderá engolir água mas será rápido. Entendeu?

— Sim, milady.

— E tente boiar quando sentir a corda repuxada. Será mais fácil.

— Avery respirou fundo e gritou.

— Pronto!

Tomando fôlego, Donald soltou os galhos. Com rapidez foi puxado para a margem, e Avery aguardou que a corda fosse atirada de novo, entretanto não conseguia pegá-la por causa dos dedos enregelados, e começou a entrar em pânico.

— Avery não consegue segurar a corda! — gritou Gillyanne.

— Vamos tentar mais uma vez — murmurou Cameron. Mas Gillyanne já começava a tirar as próprias roupas, mur­murando:

— — Vai ficar com cãibras cada vez piores.

— Menina, não pode estar pensando em ir resgatá-la.

— É isso mesmo que pretendo fazer. — Enquanto falava, Gillyanne ficou apenas com a roupa de baixo. — Há corda suficiente para me amarrar e deixar um bom pedaço para Avery?

— Não posso permitir que faça isso.

— Precisa. Nenhum de vocês sabe nadar, e se as mãos de Avery estão geladas demais para conseguir segurar a corda, em breve terá que soltar os arbustos.

Praguejando, sem tempo para arquitetar outro plano de salvamento, Cameron passou a corda pela fina cintura de Gillyanne, e deixou um bom pedaço livre para Avery.

— Se achar que corre perigo, irei içá-la de volta — avisou.

— Tudo bem.

Assim dizendo, Gillyanne mergulhou nas águas profundas.

— Meu Deus — sussurrou Leargan, passando um cobertor sobre as costas do pobre Donald, que tremia como vara verde. — Precisamos acrescentar à lista de qualidades das jovens Murray que são excelentes nadadoras. — Observou, de modo tenso, Gillyanne se mover com fortes braçadas em direção a Avery. — Precisamos aprender a nadar também.

Cameron limitou-se a concordar com um gesto de cabeça, os olhos fixos em Avery. Sabia que ela agira com bravura e desprendimento, salvando Donald, e sentia-se contente pelo rapaz, mas se essa aventura acabasse bem, prometeu a si mesmo, iria estrangulá-la por ser tão ousada.

Enquanto isso, dentro do rio, Avery murmurou:

— Gilly? Não devia se arriscar tanto.

Passando a corda pela cintura da prima, a menina replicou:

— Nem você.

— A água é mais gelada do que imaginei.

— Por certo tem neve derretida, não pensou nisso, sua tola? Está pronta?

Assim dizendo, Gillyanne testou o nó da corda.

— Sim.

Avery mal teve tempo de tomar fôlego, e Gillyanne já fizera um sinal a Cameron. Logo ambas foram puxadas para a margem com velocidade. Ao atingirem terra firme, deixaram escapar um longo suspiro.

Nada foi dito enquanto as duas primas eram cobertas por pesadas mantas. Apesar do frio e do cansaço, Avery podia sentir a raiva de Cameron, que a cingira com os braços, enquanto se reuniam ao grupo.

Aborrecida, pensou que deveria estar agradecido por ter salvo um de seus homens, mas tratou de se aquecer e ignorar o mau humor dele. Se pretendia brigar, era melhor esperar até que descansasse.

Quase dormindo, viu-se nas mãos de Anne, que apressou-se, junto com as outras mulheres, a secar e vestir outras roupas nas meninas Murray. Por fim, sempre em silêncio, Cameron as recebeu e colocou na carreta das bagagens, cobrindo-as com peles. Avery podia ouvir Donald conversando, e percebeu que tudo estava bem.

— Não quero descansar — protestou Gillyanne, enquanto Cameron a cobria.

— Sua missão no momento é ajudar a aquecer essa teimosia em forma de mulher — dardejou o chefe.

Avery entreabriu os olhos, e murmurou, enquanto Cameron se afastava:

— Estou com frio, Gillyanne. A menina acercou-se.

— Encoste-se em mim.

— Ouvi Donald falar, e sei que se recuperou.

— Sim. Não sente frio como você, ou talvez ficou dando braçadas com tanto vigor que a temperatura do corpo subiu.

Avery disse, tonta de sono e cansaço:

— Por que será que Cameron está tão furioso?

— Talvez porque sua presa quase morreu, ou porque esteve a ponto de perder a amada e nem pensou na irmã ultrajada. Está zangado porque você se arriscou e ele não tinha condições de ajudar Donald. Os homens detestam demonstrar fraqueza.

— Muita gente não sabe nadar — murmurou Avery, em meio ao sono que a possuía.

Gillyanne balançou a cabeça concordando, e bocejou também.

— Estou exausta como você.

— Não precisa me convencer a dormir, pois já estou dormindo. Mal terminou de falar, e Gillyanne observou-lhe a respiração compassada. Naquele instante Cameron aproximou-se e acariciou a face de Avery, ficando embaraçado ao perceber que a caçula ainda não dormia. Tentou disfarçar.

— Ela parou de tremer — comentou.

— Sei disso — replicou Gillyanne, ajeitando-se entre as peles.

— Quem ensinou as duas a nadar tão bem?

— Parentes.

— De qualquer modo, foi muito corajoso o salvamento de Do­nald. Com quem Avery se parece? Com o irmão?

— Não, com seu pai, que é meu tio Nigel. Payton é uma mistura dos pais. Muito bonito. As mulheres são loucas por ele, apesar de ser muito magro.

Cameron não conseguiu ocultar a curiosidade.

— E por que é tão magro?

— Talvez porque a maioria da família é assim. Mas tem cabelos louros e pele dourada como a de Avery. É muito alto e elegante. Posso imaginar como sua irmã se sentiu atraída.

Por um instante Cameron a fitou com severidade, e depois murmurou:

— Avise se sentir que Avery está febril.

Mesmo dando ordens aos homens e procurando um local seguro para passar a noite, Cameron não conseguia esquecer as palavras de Gillyanne. A descrição que fizera de Payton o perturbara.

Será que Katherine o vira e se apaixonara de tal maneira a ponto de mentir para conquistá-lo? Não negava que a irmã era mimada, e que sempre conseguia o que desejava. Talvez Payton não correspondera ao seu interesse, e ela se ofendera, acusando-o de algo que não fizera. Kate não imaginara que sua mentira teria tanta repercussão, e agora não sabia como consertar o que fizera.

Cameron praguejou, achando que estava sendo desleal com a irmã. Se continuasse com aquela linha de pensamento, acabaria considerando-a uma mulher disposta a passar por cima de tudo e todos a fim de conseguir seus objetivos. Mas… e se fosse isso?

Tratou de pensar em Payton com mais brandura. Já duvidava muito de estupro, e começava a não acreditar também na sedução. E tudo isso porque passara a conhecer as meninas Murray muito bem. Não podia acreditar que Avery e Gillyanne, tão corretas e nobres, defendessem a ovelha-negra da família com tanta veemência.

Restava a possibilidade de sir Payton e Katherine terem mantido um romance, e Cameron apegou-se a essa idéia. Apesar de Avery ter dito que o irmão não se envolveria com uma virgem, Katherine podia ter engravidado e entrado em pânico.

Fosse como fosse, refletiu, a irmã precisava de um marido. Acusara Payton, e todos sabiam disso. Não era possível que a jovem tivesse mentido sobre tudo. Sir Payton a seduzira e precisava remediar a situação.

Cameron só desejava mais informações a respeito do irmão de Avery. Isso o ajudaria a amadurecer as idéias sobre o que fazer ao chegar em Cairnmoor. Afinal, não devia ofender ou insultar o homem que seria seu cunhado.

Voltou à carroça, e encontrou Gillyanne e Anne debruçadas sobre Avery.

— Algo errado? — perguntou, tentando não parecer muito nervoso.

— Precisamos parar de correr, milorde — disse Anne.

— O que há com Avery?

Ao mesmo tempo que fazia a pergunta, Cameron não desejava ouvir a resposta, ante o olhar preocupado de Anne.

— Está com febre, milorde — respondeu a mulher. Cameron sentiu um frio na espinha.

 

— Calor…

— Sei disso, menina. — Cameron voltou a umedecer o pano na tigela de água fresca e, com muito cuidado como vinha fazendo nos últimos três dias, molhou o rosto de Avery, pela mi­lésima vez. — Vai passar.

Avery entreabriu os olhos e tentou fixá-los no dono daquela profunda e conhecida voz.

— Cameron? Está muito quente.

— É a febre. — Começou a banhar-lhe os braços. — O mergulho no rio a deixou doente.

— Então vou morrer.

— Não! Vai vencer este obstáculo também.

— Estou muito cansada. Onde estão mamãe e tia Maldie? Cameron sentiu um aperto no coração ao perceber que ela não raciocinava com clareza como imaginara. Derramou um pouco da beberagem de ervas que Gillyanne preparara e insistia que desse à Avery, e segurou-a pelos ombros, mantendo a cabeça encostada em seu peito.

Considerava um milagre uma criatura tão frágil suportar a febre por tanto tempo.

— — Foi tia Maldie quem fez isso? — — murmurou a jovem, depois de beber.

Cameron ajeitou-lhe a cabeça no travesseiro.

— Sua tia não está aqui. Continuamos na França.

Avery pareceu de súbito apavorada.

— DeVeauxx! — sussurrou. — Não deixe que me toque!

Cameron segurou-lhe as mãos.

— Jamais, menina. Juro que o manterei afastado! — Suspirou ao ver lágrimas rolando dos olhos cor de âmbar. — DeVeauxx nunca mais encostará um dedo em você. Não permitirei.

— Mas… pretende me deixar.

— Não, meu bem. Ficarei ao seu lado como um anjo da guarda.

— Por enquanto. Depois me abandonará. E não tive tempo para fazer com que me desejasse para sempre…

Cameron beijou-lhe a testa escaldante.

— Mas já a desejo. Não demonstrei isso?

— Só na cama, nada mais. Preciso de tempo, e não tenho… Não consegui fazê-lo me amar como eu o amo… Não é justo… O amor deve ser correspondido… Não é justo…

Porém Avery interrompeu as palavras balbuciadas, mergulhan­do em um sono profundo.

Devagar Cameron se levantou, serviu-se de um grande copo de vinho, e bebeu de um só gole. Avery delirava, disse a si mesmo. Estava mergulhada em um mundo de sonhos e lembranças, e talvez o tivesse confundido com outro.

Quem sabe falava de um homem que só existia em sua fantasia, refletiu. Mas se Avery se referia a ele, Cameron MacAlpin, isso representava um grande problema. Precisava devolvê-la à família sob ameaças, e fazer Payton se casar com Katherine. Duvidava que, ciente disso, Avery o amasse.

— Caso pretenda se aproveitar do que ela disse em delírio, corto seu pescoço.

Cameron voltou-se, nada surpreso em ver Gillyanne, embora a expressão fria no rostinho bonito o surpreendesse.

— Tem razão, sua prima está delirando, e diz coisas sem sentido. Não levei a sério o que ouvi.

Gillyanne sorriu com ironia.

— Se isso o faz se sentir melhor, não vou discutir.

Cameron ponderou que às vezes era difícil acreditar que Gillyanne só tinha treze anos, pois agia como uma mulher adulta.

A menina se aproximou e colocou a mão sobre a testa da prima, comentando:

— Parece que as ervas não estão fazendo efeito.

— Mas também não houve piora.

— Sim, entretanto a febre já deveria ter cedido. Anne está preparando um banho frio e vamos mergulhá-la na água.

— Acha aconselhável?

— Minha tia Maldie costuma recomendar para quem está com febre.

Cameron achou melhor não discutir. Assim que Avery adoecera, percebera que as recomendações da tal tia Maldie eram sagradas. Mas já que os ensinamentos da senhora haviam conservado Avery com vida até o momento, por certo devia saber o que fazia.

Apenas parecia estranho dar um banho frio quando Avery adoecera por causa das águas geladas do rio.

— Leargan está se preparando para procurar DeVeauxx— disse Gillyanne, observando-o com o olhar inteligente que sempre o desconcertava. — Está esperando que vá ao seu encontro. Quando voltar já teremos banhado Avery.

— Creio que ela gostará de lavar os cabelos. Gillyanne sorriu ante o comentário.

— Sim. Providenciaremos isso.

Com medo de começar a falar o que não devia na frente da garota, Cameron tratou de ir ao encontro de Leargan. Disse a si mesmo que era ridículo se sentir tão embaraçado diante de uma criança, entretanto sempre tinha a impressão que Gillyanne lia pensamentos, e trespassava qualquer armadura interna que se usas­se para despistar ou se preservar. Sentia-se tentado a perguntar-lhe o que via quando o fitava com tanta atenção, só para saber se sua confusão mental se dissipava, porque também não conseguia, nos últimos tempos, analisar os próprios sentimentos.

Após responder ao primo que desejava saber sobre a saúde de Avery, partiu do acampamento ao seu lado. A tarefa de procurar saber se DeVeauxx os seguira e estava perto não o fazia esquecer da doente, e cada vez se sentia mais angustiado.

A mera possibilidade de ela morrer o desesperava, mas recusava-se a analisar a razão disso. A única coisa de que tinha certeza é que estava enfeitiçado por sua sensualidade, e não conseguia esquecer as noites de amor. Desejava-a com uma força que jamais imaginara possível.

— O bastardo desistiu de nos perseguir, ou vai nos surpreender nas docas — disse Leargan.

Voltaram para o acampamento, e Cameron comentou:

— Precisamos chegar ao porto de qualquer maneira, mas com muita cautela.

— E ainda temos dias de viagem pela frente. Mesmo que a febre diminua pela manhã, Avery precisará de vários dias de repouso até ficar forte o suficiente para prosseguir viagem, e mesmo assim devagar para não fatigá-la.

— Sim, mas isso dará muito tempo para DeVeauxx se preparar. Quem sabe terei o prazer de matá-lo por fim. Avery está apavorada e, mesmo delirando, teme que o maldito se aproxime. — Cameron sorriu. — Gillyanne me disse que quer sair à procura de DeVeauxx e trazer sua cabeça cortada para oferecê-la à prima.

Leargan riu.

— E tenho certeza que fala sério. Sempre que a menina menciona DeVeauxx seu rosto fica duro como pedra, e seus olhos brilham de ódio. Sua irmã foi estuprada, e parece que os Murray não têm piedade por estupradores.

Cameron aquiesceu e confessou:

— Por isso começo a duvidar que sir Payton tenha violentado Katherine. Creio que Avery e Gillyanne não o defenderiam se fosse culpado.

— E se Katherine mentiu de fato?

— Não sei. Preciso conversar com ela. Mas mesmo que tenham tido um breve romance, a honra de minha irmã foi maculada, e Payton precisa consertar o erro. Em especial se ela estiver grávida. Katherine precisa de um marido.

— Se forçá-lo a se casar perderá Avery, e não creio que isso o deixe indiferente — replicou Leargan.

— Nenhum homem está disposto a mandar embora uma mulher que esquenta seu leito com prazer.

Mal disse as palavras, Cameron envergonhou-se por falar desse modo sobre Avery, mas consolou-se que era pelo melhor, e que precisava manter a indiferença.

— Tem razão — replicou Leargan em tom irônico, deixando perceber que não acreditara na explicação do primo.

Isso deixou Cameron ainda mais irritado, e o fez continuar.

— Tanta atividade sexual depois de três anos de celibato deixam um homem confuso. Quando tudo estiver resolvido, vou arranjar uma amante experiente em tempo integral.

— Sim, uma prostituta mercenária é tudo do que precisa para se esquecer de Avery.

Cameron lançou um olhar feroz para o primo, aborrecido pela mania que Leargan adquirira de bancar sua consciência.

— E você precisa de uma martelada na cabeça para manter a boca fechada — rosnou.

Leargan sorriu mas ficou quieto. Entretanto Cameron sabia que não silenciaria os próprios pensamentos. A última coisa que desejava admitir para o primo é que nos últimos dias sentia um medo terrível de perder Avery. Tentava se convencer que era apenas luxúria combinada à simpatia pela moça. Admitir que seus sentimentos iam além disso era impossível. Seria uma tragédia.

Quando penetraram no acampamento, viu todos agrupados em frente a sua tenda.

— Avery morreu — murmurou, sentindo um medo horrível de desmontar e se inteirar das novidades.

— Ou se recuperou — acrescentou Leargan. — Só há um modo de saber, Cameron.

Era a última coisa que o chefe dos MacAlpin desejava fazer, entretanto apeou do cavalo, também, e encaminhou-se para a tenda.

Alguém cantava com voz melodiosa e forte, e era isso que reunira todos em frente à tenda. A canção era conhecida, uma balada francesa sobre o amor, e Cameron sempre a considerara tola. Mas naquele momento não pensava assim, e perdoou Rob ao vê-lo chorar de emoção.

Quando o último acorde terminou, uma mão surgiu por um breve instante na abertura da tenda, desaparecendo a seguir, e então as pessoas começaram a se afastar, mas Cameron segurou Donald pelo braço.

— Quem estava cantando?

— Gillyanne — respondeu o rapaz.

— A menina tem aquela voz?! — exclamou Leargan, estupefato.

— Sim, e não entendo por que não canta com freqüência. Rob sempre chora quando a ouve.

— Como nunca ouvi antes? — quis saber Cameron.

— Gillyanne só começou a cantar quando Avery adoeceu e milorde está ausente do acampamento. Anne diz que isso acalma Avery. Gillyanne é tímida. Portanto resolvemos não insistir para que cantasse. Anne nos fez prometer que não a incomodaríamos com isso, portanto fingimos ignorar.

— Então foi a mão de Anne que vi surgir na fenda. Estava avisando que terminara, e que todos se afastassem. — Quando Donald acenou que sim, Cameron sorriu. — Vá me buscar algo para comer e beber, rapaz.

Quando o soldado se afastou, Leargan perguntou ao primo:

— Acha que Gillyanne tem consciência do quanto sua voz é bela?

— Creio que não. Deve se considerar boa cantora, mas não suspeita que faça um homenzarrão como Rob chorar de emoção.

— Bem, vou me deitar e fingir que não ouvi um anjo — disse Leargan se afastando.

Cameron sorriu, e entrou na própria tenda, quando Gillyanne se preparava para sair. A menina ficou corada, como se desconfiasse que ele a ouvira cantar, e isso o surpreendeu. Como alguém podia se envergonhar de um dom tão maravilhoso?

— Como está Avery? — perguntou. — O banho frio adiantou?

— Aproximou-se do leito e passou os dedos pelo rosto da jovem.

— Parece mais fresca.

— Sim. Foi muito bom. Faremos de novo, embora ela não tenha gostado.

— Voltou a si? Gillyanne riu.

— E como! Praguejou e chamou de demônios todas que a for­çaram a entrar na água fria.

Anne soltou uma gargalhada.

— A menina tem um extenso vocabulário.

Assim dizendo, passou um braço pelo ombro de Gillyanne, levando-a para fora da tenda.

— É claro que está muito febril — tagarelou Gillyanne, toman­do a defesa da prima. — Não se deve levar em conta o que uma pessoa com febre diz, verdade? Seria muita tolice.

Cameron resistiu ao desejo de dar uma palmada na menina só de brincadeira. Quando crescesse iria dar muito trabalho aos homens pensou, e gostaria de estar por perto para assistir. Suspirou, imaginando que isso jamais aconteceria. Embora quisesse que Payton Murray casasse com sua irmã, duvidava que um dia faria o mesmo e arrumasse uma esposa.

Quando terminou a refeição que Donald lhe trouxe, lavou-se e fitou Avery sobre o colchão de penas que mandara desembrulhar só para ela. Poderia deitar-se ao seu lado se quisesse, mas desde que ela adoecera apenas dormitava, sempre preocupado. Por fim, com cuidado, o corpo moído de cansaço, estirou-se na beirada do colchão, fitando-a.

O rosto de Avery estava mais fino, e os caldos que a faziam engolir não eram suficientes para repor-lhe as forças.

— Não morrerá, Avery — murmurou, beijando-lhe a face. Embora não pudesse mantê-la ao seu lado, desejava que fosse feliz. Na verdade, não com outro homem, mas com sua família. Não suportava a idéia de ver Avery, tão cheia de vida, morta e fria. Era injusto que falecesse antes de ter tido tempo de viver plenamente.

— Deus, não permita que essa febre maldita a consuma — sussurrou.— Precisarei saber que está viva e feliz em algum lugar, rindo, discutindo e insultando alguém. Prefiro saber que estará com outro do que morta. Portanto, trate de viver, Avery Murray, mesmo que seja apenas para não me ver infeliz.

Cameron beijou-lhe os lábios escaldantes, apoiou a cabeça no travesseiro, fechando os olhos. Precisava dormir um pouco, entretanto temia que, adormecendo, não a ouvisse pedir água ou gemer.

De repente algo úmido o fez abrir os olhos. Fitou-a, e viu que suava muito. Tocou-lhe a testa, e, emocionado, sentiu-a fresca.

Saiu da cama como um raio, e foi chamar Anne e Gillyanne ali perto. As duas pediram que as deixassem a sós com Avery na tenda, e ele começou a andar de um lado para o outro, como uma fera nervosa.

— Pode entrar agora — chamou Anne, no momento em que, impaciente, ele pretendia irromper na tenda.

— Que gentileza a sua me convidar a entrar — rosnou com sarcasmo.

— Silêncio! — pediu Gillyanne pondo um dedo sobre os lábios.

Depois apontou para Avery, que dormia placidamente. Cameron mal conseguia acreditar.

— Tem certeza que a febre desapareceu? — quis saber.

— Sim. Demos um pouco de caldo e o remédio — disse Anne. — Trocamos sua roupa por outras mais pesadas. Dormirá o resto da noite. O pior já passou, tenho certeza. Boa alimentação e repouso é tudo que necessitará.

Quando as duas saíram, Cameron voltou a se deitar e abraçou Avery, feliz pelo frescor de seu corpo.

— Cameron?

— Não, sou o bicho-papão — brincou, tentando esconder a emoção que o invadia ao ouvir-lhe a voz normal.

— Verdade? Não sabia que o bicho-papão era tão pelúdo — replicou ela com voz pastosa.

— Não sou! — revidou, fingindo-se ofendido, mas deliciado por ver que Avery recuperara a veia irônica.

— Estive doente?

— Lutou contra a febre por três dias, mas parece que venceu a batalha.

— Então não prosseguimos viagem.

— E ficaremos por aqui mais alguns dias, até que possa continuar.

— Então DeVeauxx poderá nos alcançar.

— Não se preocupe com isso, menina. Descanse. É do que precisa. Podemos discutir sobre o bastardo mais tarde. Talvez ele espere por nós no porto. Agora, durma.

— Gostaria de discutir com você, mas estou muito cansada. Avery bocejou e aconchegou-se a Cameron.

— Quando ficar mais forte, me sentirei feliz se brigarmos de novo — brincou ele.

Sentia-se radiante como uma criança ao sabê-la fora de perigo. Talvez fosse melhor parar de pensar no futuro, refletiu, e gozar o presente em sua companhia. Em breve ambos adormeceram.

 

Avery sorriu de modo lânguido ao ver Cameron se lavar antes de colocar a roupa. Seria o último dia que passariam no acam­pamento. Ela já lhe custara uma semana de atraso com a febre e a recuperação, mas havia uma parte em seu íntimo que ansiava por se fingir de doente para continuar ali, ao lado do chefe dos MacAlpin. Entretanto isso era impossível.

Tratou de pensar que a imobilidade a irritava, assim como os remédios amargos que ainda precisava tomar, e que uma mulher doente o faria se tornar indiferente. De modo despreocupado, admirou-lhe o torso, e a pequena marca que tinha junto ao umbigo.

De repente a imagem de um menino pequeno, de cabelos e olhos negros surgiu diante de seus olhos. Viu-se rindo e beijando a criança que se chamava Alan e, quando Cameron a fitou de modo desconfiado, voltou o rosto para o outro lado.

— Está tudo bem, Avery? Parece nervosa.

— Não é nada. Pode mandar Gillyanne aqui?

— Claro!

Envergonhada, percebeu que ele imaginava que queria a prima para ajudá-la em suas necessidades pessoais, mas aproveitou-se disso para disfarçar a ansiedade.

Assim que Cameron foi embora, Gillyanne chegou.

— Precisa de alguma coisa, prima?

— Não. — Avery deixou a cama, recusando a ajuda da menina. — Dê-me um minuto para me lavar, e depois precisamos conversar.

Gillyanne sentou-se na cama, enquanto a prima desaparecia atrás do cobertor que fora estendido para lhe dar mais privacidade.

— Está pálida, Avery. Enjoou de novo?

— Não, mas tive um choque.

Naquele instante Donald entrou com seu café da manhã e, para aborrecimento das duas, o rapaz estava conversador e resolveu ficar por alguns minutos. Quando afinal saiu, Avery apressou-se a encarar a prima.

— Descobri algo importante, Gillyanne, mas primeiro preciso lhe fazer umas perguntas. Lembra-se do menino Alan, que Elspeth e seu marido Cormac encontraram sozinho no bosque?

— Sim, pobre garoto! Abandonado para morrer. Mas tudo terminou bem, porque Elspeth toma conta dele.

— E é um menino muito moreno.

— Sim, olhos e cabelos negros, e… — Gillyanne fez cara de espanto, compreendendo onde a prima queria chegar. — Não!

— Alan tem uma marca peculiar, certo? Gillyanne concordou.

— Um sinal em forma de estrela junto ao umbigo.

— Maldição! — Avery recostou-se nos travesseiros com um repelão. — Creio que descobri quem é seu pai.

— Cameron? Tem certeza?

Em rápidas palavras Avery contou sobre a marca do chefe Mac­Alpin.

— Tem certeza que o sinal de Alan era em forma de estrela?

— Sim. Por quê? Quer que olhe a marca de Cameron?

— Não sei o que pensar, Gillyanne.

— Ele precisa saber.

— Mas e o que será de Elspeth e de Cormac? Amam o menino, e Alan já cresceu o suficiente para se considerar um membro da família.

— Sim, mas Elspeth e Cormac sabem que Alan tem um pai em algum lugar, e acho que pensariam como eu se soubessem sobre Cameron.

Embora Avery desejasse argumentar, sabia que Gillyanne tinha razão.

— Bem, vá ver se ele ainda está no acampamento e traga-o aqui. É melhor resolver isso logo, antes que perca a coragem.

— Acha que Cameron vai querer ficar com o menino?

— Sim. Porém o que me aborrece é que ele me traiu, mentindo que tinha um filho. Voltei a desconfiar dele e só posso rezar para que ele me faça acreditar de novo.

Quando Gillyanne saiu da tenda, Avery tomou um gole de vinho a fim de ter forças. Chegava a desejar que a prima não encontrasse Cameron. Entretanto, minutos depois, ambos entraram, e ela decidiu ir direto ao assunto.

— Vamos lá, Gillyanne — ordenou com voz serena.

A menina começou a desatar os nós da camisa de MacAlpin, expondo seu ventre.

— Que história é essa? — perguntou ele, ajeitando a roupa com gesto rápido.

— Não seja pudico. Desejo que Gillyanne dê uma olhada na sua marca de nascença.

— Já vi a barriga de muitos homens — corroborou a menina. — Além de seus soldados, tenho primos e irmãos que estão sempre de torso despido. Deixe-me olhar.

— Cameron, pode me dar um voto de confiança? É importante. Ante as palavras de Avery, Cameron ficou quieto, e Gillyanne voltou a levantar-lhe a camisa, observando a marca com atenção.

— É a mesma? — quis saber Avery.

— Idêntica — replicou Gillyanne com firmeza. — Até a cor avermelhada.

As duas se entreolharam por um instante, e depois fitaram o chefe do grupo, em um misto de tristeza e surpresa, fazendo-o ver que tinham algo para lhe dizer e não era nada agradável. Tomou um gole de vinho, e deixou que Avery enchesse o copo outra vez. A notícia devia ser de fato muito ruim, refletiu.

— Pretendem me contar algo que não me deixará contente, acertei?— Ambas acenaram que sim, fazendo-o suspirar.— Então contem logo.

— Primeiro preciso lhe fazer algumas perguntas — disse Avery, bebendo para dissipar o nó na garganta. — Teve uma amante chamada Anne Seaton antes de deixar a Escócia?

O rosto de Cameron ficou rijo como se fosse uma estátua, e isso foi o suficiente para Avery.

— Sim — replicou ele com voz rouca. — Foi minha amante por um certo tempo antes de minha partida para a França.

— Muito ou pouco tempo antes?

Avery rezou para que ele dissesse muito tempo, porque imaginava que Cameron seria um ótimo pai para Alan. Mas se a resposta fosse outra, então ela levaria um grande choque.

— Pouco tempo — replicou ele afinal. — Abandonei-a quando a peguei em flagrante com outro homem, e parti para a França pouco depois.

— E Anne Seaton vivia em um vilarejo à beira da estrada onde de vez em quando o rei passava com sua comitiva?

— Sim, comprei-lhe um chalé nos arredores da vila. Do que se trata afinal, Avery?

— Por favor, Cameron, tenha paciência. — Suspirou fundo e prosseguiu. — Então você a encontrou com outro homem?

— Acabara de fazer-lhe uma breve visita naquela manhã e havíamos feito amor, se quer saber. Depois deveria partir para a corte. O outro devia estar à espera, porque entrou no chalé assim que saí.

— Tomou certos cuidados antes de se deitar com ela? — perguntou Gillyanne.

Cameron ficou chocado com a pergunta direta da menina. Só havia um motivo para tal questionamento, refletiu. Com voz contida respondeu:

— Não. Anne me disse que era estéril.

— Mentira, Cameron — replicou Avery com calma. — Ela teve um filho de olhos e cabelos negros, pele morena, e uma marca de nascença parecida com uma pequena estrela perto do umbigo. A última vez que dormiu com Anne Seaton foi… marcante.

— Como sabem de tudo isso? E como ouviram falar de Anne Seaton?

— Só conhecemos a história. Foi nossa prima Elspeth que soube sobre essa mulher, embora todos ignorassem quem era o pai da criança. Parece que apenas ele, o homem de quem comprou o chalé, e o outro com quem Anne o traiu, sabiam de sua existência, Cameron. Minha prima foi capturada certa vez por sir Colin Mac-Rae e mantida naquele chalé por um certo tempo. — Avery cruzou os braços sobre o peito. — Agora, tome coragem. Anne morreu. Foi enforcada e queimada por bruxaria. Embora isso seja mentira, a mulher era uma assassina, porque nos fundos da casa encontraram enterrados os corpos de dois homens e três recém-nascidos. Parece que se livrara das crianças indesejáveis que tinha com muitos homens.

— Meu Deus! — gemeu Cameron, enojado ao descobrir que fora íntimo de mulher tão perversa. — E esse menino de quem falou?

— Manteve-o vivo, apesar de ninguém saber se pretendia matá-lo logo. Anne tomou-se de ódio por você tê-la abandonado e, por vingança, não batizou nem deu um nome à criança.

— Maldita! — rosnou Cameron.

— Há mais para contar, espere — prosseguiu Avery, aliviada por compreender que Cameron não abandonara o filho, apenas ignorara sua existência até então. — Depois que Anne foi executada, o povo do vilarejo deixou o menino nos bosques para morrer.

— O rosto de Cameron empalideceu, e Avery sentiu pena de seu sofrimento. — Elspeth e Cormac o encontraram, levaram-no para sua casa, e o batizaram com o nome de Alan.

— Então pedirei a criança também, quando negociar vocês duas por Payton.

A frieza na voz de Cameron, que falava como se ela fosse uma mercadoria, quase fez Avery chorar, mas manteve o autocontrole. O orgulho lhe dava forças e precisava pensar em Alan. Era necessário convencer Cameron que não poderia simplesmente reclamar o filho e carregá-lo para longe. Era preciso que entendesse que o menino era muito pequeno e não podia ser tirado da família que conhecia, pois isso o deixaria traumatizado.

— Não pode fazer isso — replicou por fim, sem se admirar com a reação.

— Ele é meu filho! — bradou Cameron com raiva, atirando o copo para um canto da tenda. — Não pode decidir sobre seu destino. Não permitirei que outra mulher me faça de tolo outra vez. Ficarei com meu garoto!

— Mas é impossível arrancá-lo de Elspeth sem mais nem menos — redargüiu Avery, a raiva também surgindo em suas palavras.

— Tente ver além de seus próprios interesses, Cameron. Alan é uma criança pequena. Quando retornar à Escócia, ele já estará com

Elspeth e sua família por mais de um ano. É a única família que conhece.

— Eu sou seu pai!

— Sim, mas Alan é muito pequeno para entender isso. Não pode apenas irromper na sua vida e exigir seus direitos sem pensar nos sentimentos da criança.

— E por que sua prima desejaria mantê-lo ao seu lado?

— Não nos insulte! Acha que Elspeth precisa de seu bastardo? Já tem o filho de seu marido e sua própria filha. Adotou Alan porque é bondosa, como seu marido. Se o pai do menino nunca fosse encontrado, cuidariam dele a vida inteira, amando-o de todo o coração. — Fitou-o com ar de súplica, e prosseguiu: — Mas não se esqueceram de que existe um pai em algum lugar, e sabem que poderá aparecer a qualquer instante, reivindicando a criança. Entretanto lutarão para que não o arranque de seus braços de um momento para o outro. Esperam que entenda que isso causaria um grande sofrimento a todos. Tudo deve ser feito com cuidado e devagar.

— E, é claro, não perceberão que têm um grande trunfo nas mãos quando eu tentar obrigar sir Payton a se casar com Katherine — replicou Cameron com sarcasmo. — Acha que sou idiota?

— Neste exato momento, sim.

Cameron fitou Avery por um breve instante, e depois saiu da tenda, fazendo-a recostar-se nos travesseiros. Gillyanne parecia imersa nos próprios pensamentos, e Avery aproveitou para meditar. Sentia-se muito magoada. Cameron usara palavras insensíveis o tempo todo. Embora esperasse que toda a amargura e raiva viessem à tona, não sabia que seria tão frio. Pensar que Cameron ima­ginava que pretendia utilizar Alan para seus próprios propósitos a deixava furiosa. Sim, a paixão não era nada quando se tratava de sentimentos verdadeiros, refletiu.

— As coisas estão melhorando — comentou com os dentes cerrados, quando Leargan entrou na tenda com expressão furiosa.

— O que fez com Cameron, em nome de Deus? Saiu daqui como se fosse perseguido por uma legião de demônios!

— Conte a ele, Gillyanne. Vou descansar um pouco.

A menina não se fez de rogada, e quando terminou seu relato, Leargan passou as mãos pelos cabelos em um gesto de espanto.

— Anne Seaton, aquela bruxa maldita, deixou o túmulo para vir assombrar meu primo — murmurou.

— Ele a amava? — quis saber Avery.

— Não. Bem, talvez um pouco, mas apenas por questões sexuais.

— E Cameron acreditou nela. Leargan aquiesceu.

— Quando a flagrou com outro, horas após tê-la deixado, ficou devastado. Mas Anne pareceu se divertir com o fato. Já levara muitos homens para a cama, inclusive amigos de Cameron. Era uma mulher má em todos os sentidos.

— Sim — concordou Gillyanne. — Creio que Cameron está envergonhado por ter sido amante de tal megera.

— Eu ficaria — disse Leargan. — Meu primo parecia estar curado das feridas do passado, mas essa descoberta fez tudo retornar à tona. Lamento muito.

— Eu também. Mas vá ao seu encontro. Cameron está muito perturbado para ser deixado sozinho — disse Avery.

— O choque não levará muito tempo para se dissipar. — concordou Gillyanne.

Leargan hesitou um instante, e depois saiu, resmungando:

— Vou procurar Cameron.

Assim que ele saiu, as duas primas se entreolharam.

— As coisas não correram muito bem — comentou Gillyanne.

— Descobrir os crimes de Anne Seaton deixou Cameron arrasado.

— E fora de si.

— Bem, vai passar. Mas foi a traição de Anne que o fez ficar ainda mais descrente de todas as mulheres, a ponto de fazer voto de celibato.

Gillyanne franziu a testa.

— Porém isso tudo aconteceu há três anos.

— Sim, mas é muito teimoso e, já descobri, gosta de remoer as mágoas.

— Meu Deus!

— Concordo.

 

— Cameron ainda está mal-humorado?

Avery sorriu para a prima, que acabara de pular para dentro da carroça e se acomodara ao seu lado. Depois de quase uma semana de viagem, a jovem já se sentia apta a montar a cavalo, mas fora forçada a permanecer na carroça, olhando para as costas de Cameron, que poucas vezes retornara à tenda, depois da revelação sobre Alan. Passara o resto do tempo espionando o porto, junto a Leargan.

— Sim — respondeu. — Só resmunga, e dorme com os soldados do lado de fora da tenda.

— Cabe ao pobre Leargan agüentar o primo ranzinza— brincou Gillyanne.

No dia em que Avery contara sobre o menino, Cameron fora tomar banho no rio, e depois Leargan o encontrara lá. Ninguém sabia ao certo, mas tinham começado uma briga, e voltado ao acampamento machucados e sangrando. Parecia que os homens descarregavam parte da tensão com socos, pensara Avery.

Entretanto Cameron continuava pensativo, e o tempo ia passando, dificultando a aproximação entre os dois.

— Talvez devesse dar-lhe um soco também — murmurou para si mesma, com um sorriso.

Gillyanne ouviu e soltou uma risada.

— Pode ser uma boa idéia. Parece que Cameron sente tudo com muita profundidade, e isso o irrita. Gostaria de ser frio como um peixe, mas é muito emocional.

— Seria bom que direcionasse as emoções para mim.

— Oh! Isso já acontece. Mas luta muito para se manter afastado. Como homem, pensa que se puser barreiras entre vocês dois conterá os sentimentos.

— Às vezes, Gillyanne querida, parece que julga todos os homens umas crianças tolas.

— Quando se trata de emoções, amor e todos os assuntos do coração, são muito cegos, sim, e tolos. Mas as mulheres também, talvez com menos freqüência. Alguns membros do sexo forte acham que o amor enfraquece, e isso os atemoriza. Adoro meu pai e tios, e acho que são brilhantes, fortes, carinhosos e muito mais. Entretanto, pelo que já ouvi dizer, custaram a assumir seu amor pelas mulheres da família.

— As duas riram, e Gillyanne continuou:

— Pense bem. Se Cameron se sentiu tão ferido porque uma amante o traiu, sem dúvida possui um coração bem grande.

— Já pensei nisso. E daí?

— Não deixe que ele a ignore, Avery. O tempo está acabando. Não é traidora nem falsa, e Cameron precisa saber disso, ainda mais porque em breve terá que se confrontar com as mentiras da irmã. — Pousou um braço no ombro da prima. — Não permita que ele se esqueça do quanto foi leal com o grupo, corajosa no rio e fiel a Payton.

— Em outras palavras, acha que devo me insinuar em sua mente e nunca mais sair?

— Exatamente.

— Então farei isso, assim que ele retornar.

— Acha que os DeVeauxx estão de tocaia?

— Tenho certeza que sim.

— Pressente algum perigo?

— Não — replicou Avery. — — E rezo para estar certa.

Cameron encostou-se ao muro de um dos prédios que formavam o beco sombreado onde se escondia com Leargan. Sabia que Charles DeVeauxx estaria a sua espera, mas conservara a tênue esperança de que tivesse desistido.

Entretanto seus inimigos estavam espalhados pela agitada cidade portuária, e não seria fácil trazer sua gente para a embarcação onde fizera reservas: Encontrara o capitão de um grande navio disposto a levar todos, e isso fora uma grande sorte.

Disposto a pagar a viagem com generosidade, tinha certeza que o capitão não alertaria os DeVeauxx, porém a dúvida era saber como colocar sua gente no navio, assim como os cavalos e a bagagem, antes que zarpasse.

— Precisamos reduzir o número dos soldados inimigos — disse Leargan, encostado no muro oposto ao de Cameron.

— Sim. — Cameron franziu a testa, olhando na direção da taberna onde DeVeauxx e seus soldados se concentravam.

— Mas não há tempo suficiente para que entre lá e corte o pescoço de sir Charles.

— Planejava dar-lhe uma morte lenta.

— Ainda está zangado porque ele tocou na jovem Murray?

— Sim, mas concluí que fiz mal em abandonar o celibato. Em breve estaremos em Cairnmoor e terei que negociar Avery por Payton, portanto é melhor terminarmos logo com nosso caso.

— Se pensa assim…

Cameron fitou o primo com irritação.

— Não precisa ser irônico. Leargan deu de ombros.

— Acho que é muito teimoso e cabeça-dura, e perdi a paciência. Se quer permear sua vida pelo passado, vá em frente. Entretanto me reservo o direito de dar-lhe quantos socos quiser enquanto não parar de desconfiar de todas as mulheres que não pertencem ao nosso clã, só porque se envolveu com prostitutas na juventude.

— Direito seu — resmungou Cameron. — Mas também me reservo o privilégio de dar-lhe uma surra mais tarde por se meter na minha vida.

— Trato feito.

— Vamos voltar para o acampamento. Temos planos a fazer.

Angustiada, Avery ouviu o relato de Cameron e Leargan sobre a quantidade de homens de sir Charles que infestavam a cidade portuária. O plano de eliminar alguns enquanto o grupo dos Mac-Alpin entrava no navio era muito arriscado. Não podia deixar de pensar que Cameron se tornara inimigo dos DeVeauxx por sua causa. Quando ia abrir a boca para dizer que a devolvessem ao homem, Gillyanne murmurou:

— Precisam distraí-los.

— Isso ajudaria, menina— concordou Cameron. — Mas como já usamos esse truque quando resgatamos Avery, sem dúvida De­Veauxx está prevenido agora.

— Sim, pensando em debandada de cavalos e fogo em carretas. É preciso inventar algo diferente para que não levante suspeitas logo. Alguma coisa que permitisse entrar com seus homens e bagagens no navio bem debaixo do nariz de sir Charles.

Os olhos de Cameron brilharam.

— É isso que quero fazer.

— Muitos navios admitem peregrinos que vão visitar lugares sagrados na Inglaterra.

— Gillyanne, às vezes me surpreendo com sua esperteza — comentou Avery, fazendo a prima corar.

— Deve haver uma parte de sua gente que os DeVeauxx não conhecem — prosseguiu a menina, fitando Cameron. — Essas pessoas poderiam passar pelo inimigo apenas escondidas por um manto.

Animada, Avery ajuntou:

— Um grupo pequeno, quem sabe uma dúzia de pessoas e uma carreta bem cheia, além de uns cavalos. Gillyanne faria parte.

— Eu?

— Sim. Um pequeno e modesto grupo de peregrinos não chamará atenção, em especial se no meio deles houver uma menina que fez promessa de cantar hinos sacros o tempo todo da viagem. Isso prenderá a atenção do vilarejo.

Se Gillyanne cantasse pelo percurso da cidade até as docas, chamaria tanta atenção que certamente os demais do grupo não seriam notados. Seria a distração perfeita, refletiu Cameron. Entretanto, poderia colocar a pequena em perigo.

— Não posso arriscar a vida da menina — disse o chefe, ignorando os murmúrios de frustração ao redor.

— E também não posso cantar na presença de tanta gente — protestou Gillyanne. — Além disso, por que acham que isso prenderia a atenção das pessoas?

— Sua voz é maravilhosa e a maioria dos povoados não tem oportunidade de ouvir um belo canto. — Avery voltou-se para Cameron. — Não creio que Gillyanne correrá grande perigo.

Com relutância, o líder dos MacAlpin concordou, sob a condição que alguns dos "peregrinos" fossem soldados jovens e fortes.

Tudo resolvido, Avery foi ajudar Anne, escolhida para compor o grupo junto a Gillyanne.

Ranald, o marido de Anne, e mais três soldados com aparência discreta, seriam os demais "peregrinos." Leargan começou a organizar a arrumação das carretas para que transportassem o maior número possível de objetos. A grande quantidade de bagagem dos peregrinos seria fácil de explicar. Diriam que levavam estátuas como pagamentos de promessas, velas e círios.

— Estou arrependida por ter dado essa idéia — gemeu Gillyanne, enquanto Avery a arrumava.

— Foi uma inspiração — replicou a prima.

— Sim, mas fiz isso porque percebi que ia sugerir que a entregassem para aquele porco.

— Tem razão. Porém, por certo, Cameron não aceitaria a sugestão.

— Bem, agora terei que cantar passando pelo meio de um bando de estranhos. — Gillyanne franziu a testa. — Aliás, nem sei como todos sabiam sobre meu canto.

— Deixe para lá, menina— redargüiu Anne, ajeitando o manto.

— Meu papel será mais difícil, porque terei que conter o riso ao ver meu homem vestido de padre.

— Ranald conhece muitas preces e bênçãos — justificou Avery

— e fala francês sem sotaque. Anne deu de ombros.

— Tem um dom para as línguas, e decora tudo que ouve, além de ser bom mímico. Mas será divertido vê-lo fazer o papel de santo para variar.

As três riram.

— Vamos logo. Quanto mais cedo isso terminar melhor. Avery foi unir-se ao grupo que entraria no vilarejo do lado oposto. Os suprimentos tinham sido amarrados nos cavalos é nas costas dos homens. Seria o grupo que daria mais problema, pensou Avery, enquanto fazia questão de carregar um fardo nas costas também. Um cavalo não subia a rampa de um navio com facilidade. O plano fora bem-estruturado, mas mesmo assim sentia-se inquieta.

Ficou frustrada por não ter oportunidade de falar com Cameron, porque ele seguia com Leargan, Rob, Colin e dois outros homens, com a missão de silenciar o maior número possível de soldados dos DeVeauxx ao entrarem na vila.

Só conseguiu acenar, e os grupos se separaram. A cada passo em direção do vilarejo, Avery rezou para que tudo desse certo. Se falhassem, voltaria às mãos de sir Charles, porém seu coração temia mais por Gillyanne.

Cameron soltou o homem que acabava de matar, arrastando o corpo para um canto escuro do beco. Detestava terminar com uma vida dessa maneira, atacando por trás. Deixara a maioria dos guar­das de Deveaux apenas desacordados com um golpe na cabeça, amarrados e amordaçados. Entretanto esse homem em particular notara um de seus soldados esgueirando-se para o navio e ia dar o alarme. Fora necessário silenciá-lo com rapidez, embora Cameron preferisse uma luta limpa, frente a frente com o inimigo.

Então, como se fosse para acalmar sua alma inquieta, a linda voz de Gillyanne ressoou no ar. Sorriu ao ver como o mundo parecia silenciar de repente, e escutou, embevecido, escondido nas sombras. Parecia que até os cães tinham se sentado nas patas traseiras para ouvir. Esperava apenas que seus homens não ficassem embasbacados, como sempre ficavam, ao ouvir a menina cantar, pois havia muito trabalho a fazer. Seu canto era, de fato, uma espécie de sortilégio que enfeitiçava.

Mantendo o pequeno grupo de Gillyanne sob suas vistas, Cameron avançou em direção do navio. Já percebera que vários dos seus circundavam a nave, e rezou para que esses já estivessem a bordo quando os "peregrinos" chegassem. Viu uma sombra se aproximar, ficou tenso, mas logo relaxou ao perceber que era Leargan.

— Quase todos embarcaram — comunicou o primo. — Dentro de minutos irão se encarregar dos cavalos. A menina concentra as atenções gerais com seu canto. Parece que estão todos enfeitiçados… Até o bastardo sir Charles.

Assim dizendo, acenou na direção da taberna.

Cameron seguiu-lhe o olhar e praguejou. O modo como sir Charles observava Gillyanne e seu grupo o deixou nervoso. Teria reconhecido alguém? E se decidisse raptar Gillyanne para ter sua voz como diversão particular?

Avery ficara ao lado do capitão no tombadilho, encostada à balaustrada do navio, envolta em seu manto, e ouvindo Gillyanne cantar. Tudo parecia estar correndo bem, mas a inquietação insistia em dominá-la. Nos últimos tempos duvidava de sua habilidade para detectar o perigo, porque suas emoções estavam exacerbadas. Quando Gillyanne fez uma pausa, Avery sorriu para o capitão que enxugava uma lágrima furtiva.

— Minha prima canta muito bem, não? Seu pai, sir Eric Murray, lorde de Dubhlinn, tem muito orgulho dela.

-— Sir Eric? É parente do MacMillans de Bealachan?

— Sim, são seus sobrinhos. Deram um pedaço de suas terras a minha prima porque a adoram.

— Também sou um primo distante.

O sobrenome do capitão era MacMillan, portanto a revelação não a surpreendeu.

— Bem, fico feliz por saber que um parente nos guiará pelas águas. — Suspirou e balançou a cabeça com apreensão. — Só espero que minha prima embarque sã e salva.

— E por que não? A menina corre perigo?

— Não tenho certeza, mas sir Charles DeVeauxx poderá tentar raptá-la para gozar de sua bela voz sempre que desejar.

— Francês bastardo! — sibilou o capitão MacMillan, acenando para seus homens.

Sorrindo, Avery viu os marujos se armarem até os dentes. O capitão já prometera protegê-los dos DeVeauxx, mas agora que sabia ter parentes a bordo, tornara-se mais obsequioso.

Avery notou que Cameron e mais homens se aproximavam da embarcação. O líder e Leargan deixaram os demais entrarem no navio, e ajudaram as outras mulheres a puxar as carroças e cavalos rampa acima. Gillyanne permanecia nas docas, cantando, enquanto o "padre" Ranald abençoava o mar e a embarcação.

Avery começava a relaxar, quando, de repente, sir Charles saiu correndo e agarrou a menina, mantendo uma faca encostada em seu pescoço. Ranald os encarou, mas não podia usar a espada sem ameaçar a vida de Gillyanne. Cameron e Leargan, no primeiro degrau da rampa, permaneciam estáticos, sem nada poder fazer.

— Pensou que me enganaria com essa brincadeira, lady Avery? — gritou sir Charles.

— Como adivinhou? — replicou ela de modo calmo, revelando o rosto sob o manto.

— Sir Renford — apontou para o homem a sua direita. — Reconheceu a menina. Um homem sempre se recorda de uma fêmea que quis possuir e não conseguiu. Sugiro que desça até aqui se deseja voltar a ouvir essa voz maviosa.

Avery reconheceu o nobre dissoluto que desistira de Gillyanne por causa da erupção em seu rosto, devido aos morangos, e dis-punha-se a obedecer, mas foi detida por Rob, que a segurou pelo braço. Sem tirar os olhos de sir Charles, Cameron fez um sinal para seus homens. Logo os arcos e flechas apontaram para o peito de DeVeauxx, que percebeu que também morreria, caso atentasse contra a vida de Gillyanne.

— Largue a criança, DeVeauxx — gritou Cameron em francês. — Não há como vencer. Pensou que esses "peregrinos" não tinham armas?

De modo lento sir Charles afastou a faca de Gillyanne, e atirou-a na direção de Ranald, que a segurou e correu para o navio. Com gesto irônico, o lorde acenou para Avery.

— Até a próxima vez.

— Se depender de mim isso não acontecerá — replicou Avery da balaustrada. — Estou farta da França.

Cameron, Leargan e o resto de sua gente entraram no navio, que logo zarpou.

 

— Bem, estou vendo que esta viagem não será o interlúdio romântico que esperava.

Cameron voltou-se de cenho franzido, e encarou Avery.

— Meus pulsos estão amarrados à balaustrada.

— Sim. — Avery agachou-se ao seu lado, pensando que nunca vira um homem tão abatido. — Rob teve medo que caísse no mar por causa do enjôo.

— E Leargan? — questionou Cameron, olhando de um canto ao outro do navio.

— Anne e Gillyanne já o desamarraram e levaram para a cama.

— E como isso pode ajudar alguém com maresia? Os leitos também balançam o tempo todo.

— Sim, mas temos uma poção que vai ajudar a superá-la. Fizemos uma quantidade enorme, porque quase a metade de seus homens estão se sentindo mal.

Cameron fitou-a com atenção, e viu que estava com a pele bronzeada pelo sol e fresca como uma rosa.

— Tem tomado sua própria poção?

— Não.

Avery limpou-lhe o suor do rosto, refletindo que precisava lhe administrar mais uma dose do remédio.

— Claro que não! — rosnou ele, mal-humorado. — Devia ter imaginado que uma jovem Murray também era excelente mari­nheira! Fazem tudo bem-feito!

Avery começou a desatar-lhe os pulsos.

— Na verdade, Gillyanne e eu nunca viajamos de navio, a não ser para a França.

— Ótimo! Significa que é uma privilegiada e não sofre de enjôo.

— Pare de ser desagradável. Ninguém tem culpa se seu estômago é fraco.

— Há quanto tempo estou amarrado aqui?

— Estamos no fim do segundo dia de viagem — respondeu Avery, passando-lhe um braço pela cintura, ajudando-o a ficar ereto, e conduzindo-o à cabina.

Cameron recordava de modo vago alguém lhe entornando uma beberagem amarga goela abaixo, e percebeu que era a primeira vez que se sentia melhor desde que embarcara.

— Não precisa ficar tão próxima de mim — murmurou. — Devo estar cheirando mal.

— É verdade, e já lhe preparei um banho em minhas acomodações.

— Então não tenho uma cabina?

— Não. São poucas, e o capitão as deu para as mulheres, embora no momento estejam abarrotadas de homens passando mal. — Lutou para ampará-lo enquanto abria uma porta. — Agora ficará hospedado na minha.

Cameron quis protestar, mas sentia-se muito zonzo. Equilibrou-se enquanto Avery lhe dava uma beberagem de ervas e começava a despi-lo. Esse arranjo iria arruinar seus planos de se manter afas­tado dela, refletiu o chefe dos MacAlpin, mas logo concluiu que estava muito doente para pensar em sexo.

A poção tinha um gosto horrível, mas bebeu tudo e aceitou o vinho que Avery lhe ofereceu para tirar o amargor da boca. Mergulhou na água tépida da banheira com um suspiro de prazer, voltando a perceber que já não sentia enjôo.

Apesar de horrorosa a beberagem fizera efeito.

— Seu remédio é bom — disse, enquanto Avery lhe lavava os cabelos.

— Faz efeito a partir da quarta dose — replicou ela, inclinan-do-o para trás e jogando um jarro de água nos cabelos negros. — Acabou de tomar a sexta.

— É tão ruim que estou surpreso que não tenha aumentado o mal-estar.

Avery riu de modo suave, e começou a esfregar-lhe as costas. Deixá-lo no tombadilho por quase dois dias fora difícil, mas Cameron estivera tão mal e indócil que fora preciso tomar medidas drásticas, e fazê-lo engolir o remédio de qualquer jeito. Entretanto o pior já passara, e poderia repousar na cabina limpa e arejada.

Continuou a sorrir, pensando que naquele momento Cameron MacAlpin estava à sua mercê. Gillyanne tinha razão. Era bobagem manter-se afastada dele. O tempo corria sem dar tréguas, e ainda desejava permanecer em seus braços por mais um pouco. Se Cameron a mandasse embora quando chegassem a Cairnmoor, só haveria tristeza no futuro. Não permitiria que a despojasse das poucas horas de felicidade que lhe restavam.

Enquanto esfregava suas pernas e pés, percebeu que ele começava a ficar excitado. Ainda me deseja, pensou, e precisa acabar de negar a si mesmo essa paixão.

— Creio que posso me enxugar sozinho — disse Cameron, saindo da banheira.

Avery entregou-lhe a toalha, e foi atender alguém que batia na porta da cabina. Dois homens entraram, colocaram uma bandeja com comida a um canto, e mudaram a água da banheira. Quando saíram, Cameron já estava vestido e sentado à mesa, fitando a refeição com um certo desânimo.

— Pode comer um pouco — disse Avery, dirigindo-se à banheira com água quente e começando a tirar as próprias roupas. — Mas vá com calma. Seu estômago ainda está fraco.

Cameron reteve o fôlego ao vê-la deslizar a roupa de baixo para os pés, e começou a mastigar um pedaço de pão. A visão do corpo esguio o fez desejá-la com ardor. Sem dúvida que sua saúde melhorara muito, refletiu, tomando um gole de vinho que não conseguiu acalmar-lhe o ardor.

Avery agia como se ainda fossem amantes, concluiu de cenho franzido. Não fazia sentido, porque há mais de uma semana não a procurava e ela deveria ter percebido a frieza e o claro sinal de rejeição. É claro que a reação de seu corpo o fazia ver que ainda a queria, mas talvez fosse melhor dizer-lhe cara a cara e sem rodeios que o relacionamento terminara.

Cameron a observou enquanto se vestia e sentava-se à mesa também, os longos e espessos cabelos dourados emoldurando-lhe o rosto e caindo até os ombros. Avery sorriu de modo inocente, fazendo-o perceber que iria ignorar a indiferença dos últimos dias. Manteve-se rígido, tentando dominar a atração sexual que ela exer­cia sobre seu corpo.

— Qual é o seu jogo agora, menina?— perguntou de improviso.

— Jogo? — Avery cruzou as pernas de modo lânguido, dei­xando o roupão se abrir e exibindo as coxas. — Por que diz isso?

Forçando-se a não olhar para as pernas bem torneadas, ele a encarou com fingida frieza.

— Porque do modo como a tratei na última semana uma jovem inteligente como você tentaria me esquecer. Entretanto, cuida de mim, me dá banho, me alimenta, sorri e… provoca.

— Pensei que estivesse apenas melancólico nos últimos tempos.

— Não.

— Então o que foi?

— Estava pensando como as mulheres são traiçoeiras.

Não se surpreendeu ao ver um brilho de raiva nos olhos de Avery.

— Bem — replicou ela — , quando só se convive com prostitutas e adúlteras, é de se esperar tais pensamentos que negam honra e lealdade ao sexo feminino.

— Pode ser, menina. — No íntimo Cameron sabia que existiam mulheres de valor no mundo, entretanto sentia uma absurda necessidade de agredir. — Mas nem todas que conheci eram prostitutas ou adúlteras. Uma foi minha noiva, jovem nascida em berço de ouro, supostamente casta e boa.

— Casou-se com ela?

— Não, o noivado terminou. Quinze dias antes do casamento, ela veio ficar em Cairnmoor com minha mãe, seus servos e alguns soldados, incluindo um primo distante chamado Jordan.

Fez-se um silêncio pesado, e Avery tirou suas próprias conclusões bem depressa.

— Ela e Jordan eram amantes?

— Sim, e não eram primos de verdade. O tal Jordan revelou ser o filho de um antigo e grande inimigo de meu pai. Os dois planejavam usar a festa do casamento para introduzir seus soldados em nossa casa. Minha família, os vassalos e eu seríamos assassinados. Já haviam introduzido uma meia dúzia de homens dentro dos muros do castelo, e eles começaram a realizar o plano sujo. Cameron respirou fundo, e continuou:

— Seis pessoas desapareceram no espaço de poucos dias, e depois encontramos seus cadáveres no fundo do fosso.

E você se culpa por essas mortes, pensou Avery, desejando consolá-lo. Em voz alta perguntou:

— Como descobriu o que planejavam?

— Fui aos aposentos de minha noiva resolver uns detalhes de última hora, vi Jordan entrando de modo furtivo, e encostei o ou­vido na porta. Muito simples.

Avery estremeceu.

— E descobriu que falavam a seu respeito. Cameron riu de modo irônico.

— Sim. Ouvi seus planos e o que acontecera com os desaparecidos. Também soube que minha noiva estava muito contente por­que não teria que consumar o casamento comigo. Temia que eu, um bruto, tocasse sua pele aveludada.

— Preferia cavaleiros louros e magros que cortavam o pescoço dos que os recebiam em seus lares. — Avery ficou feliz ao vê-lo suspirar, agradecido pelo apoio. — É difícil ver quem mente sob sorrisos gentis e gestos suaves. A lisonja é tão agradável que a tendência é nos iludir. O que fez, Cameron?

— Fechei os portões, prendi os traidores, e quando o resto de sua soldadesca chegou, peguei-a de surpresa e enforquei todos.

Era duro ouvir isso, mas Avery sabia que Cameron fora mais misericordioso do que muitos, que sem dúvida proporcionariam uma morte lenta e dolorosa para seus inimigos.

— E sua noiva? — quis saber.

— Deixei-a viver mais uns dias em Dairnmoor cheia de medo, e depois fiz com que voltasse para casa coberta de vergonha. — Fez um breve silêncio sem deixar de fitá-la, e depois perguntou à queima-roupa. — E você? Quem a traiu?

Surpresa por ver que Cameron lera sua alma, respondeu:

— Oh! Um rapaz, um pouco antes de ir para a França. Meus pais me levaram à corte, e creio que esperavam que arrumasse um marido. Para encurtar a história, isso não se revelou uma tarefa fácil, pois não deixei todos os homens caídos aos meus pés. Entretanto havia um jovem que demonstrou grande interesse por mim. — Sorriu de modo envergonhado. — Como nunca havia sido cortejada antes, confesso que me deixei iludir. Dizia-se à boca pequena que era um conquistador e vagabundo, que preferia passar o tempo nos leitos das mulheres em vez de trabalhar, mas me iludi pensando que sempre chegava a hora de um homem se emendar e escolher esposa.

Cameron pressentia como essa história iria terminar, e precisou resistir à tentação de pedir para que parasse, a fim de evitar-lhe sofrimento. Não conseguia imaginar como os outros homens ignoravam a beleza de Avery e o fogo que emanava de seu delicado corpo. De repente sentiu uma vontade enorme e irracional de encontrar o tal rapaz e dar-lhe uma surra memorável. Após o inci­dente com sir Charles sentia-se muito protetor para com Avery.

— Mas seu namorado não pensava em constituir família?

— Talvez quisesse tomar jeito, porém não comigo. Enquanto me cortejava mantinha um relacionamento com uma mulher casada, e acabei flagrando os dois no jardim, durante uma festa. Depois descobri que seu interesse pela tal moça baseava-se no dinheiro. — Avery suspirou, dando de ombros. — Percebi então que o que desejava na vida não estava na corte.

— Sem dúvida ele era louro e muito bonito — comentou Cameron tentando brincar.

Dessa vez ela riu com vontade.

— Tinha cabelos negros, pele muito branca, e olhos azuis. Quando voltei ao salão da festa, o marido da moça me perguntou se eu a vira, e… Bem, digamos que descobri nessa noite que a pele muito clara tende a produzir os piores hematomas.

Cameron ergueu o copo em um brinde.

— Garota perversa! O marido deu uma surra em seu namorado traidor.

— Sim, mas foi um erro deixar o orgulho falar mais alto. O marido poderia ter matado os dois. O rapaz só levou uma grande sova porque era um molóide que não sabia lutar.

— Que estranho! Em geral as mulheres gostam dos homens fortes. Por que seu pretendente era tão requisitado?

Os olhos de Avery brilharam com malícia.

— Parece que possuía outros predicados que agradavam o sexo fraco, em especial entre as quatro paredes de um quarto.

— Avery! — exclamou Cameron, fingindo-se chocado.

— Não se preocupe. Só ouvi dizer. Não cheguei a constatar.

— Muito bem. Mas só queria lhe dizer que acho os homens loucos por não lhe darem atenção. É magra, porém seu corpo é bem-feito, e tem olhos lindos.

— Muito obrigada, milorde — replicou ela em tom de troça, mas no íntimo emocionada com o elogio espontâneo.— E descobri que tenho um fraco por cavaleiros morenos e belicosos.

Piscou um olho de modo brejeiro.

Sem conseguir resistir por mais tempo, Cameron agarrou-a e puxou-a para seu colo.

— Sente-se melhor, não? — perguntou Avery com voz rouca, enquanto ele lhe acariciava as pernas.

— Sim — ele replicou, beijando-a.

— Não vai ficar melancólico de novo?

— Impossível prometer isso, porque sei que tenho um filho que a mãe não batizou e que quase morreu na floresta.

Avery pressentiu que Cameron desejava se desculpar pela semana de indiferença, e essa era a melhor maneira que encontrara.

— Muito cruel, admito, em especial da parte das pessoas que o abandonaram para morrer.

— Porque era moreno como o demônio, de olhos e cabelos negros, e a marca em seu ventre provava isso — murmurou Cameron com amargor.

Era isso que mais o magoava, refletiu Avery. Cameron sabia que não era o tipo mundano e elegante que agradava a maioria das mulheres. Não sabia elogiar nem paparicar, costumava ser mal-humorado, e era provável que muita gente se surpreendesse ao saber que ela o amava.

O cavaleiro MacAlpin tornara-se seu anjo. Por sua vez concluiu que as outras eram tolas por não perceber a beleza contida nas feições másculas e nos misteriosos olhos escuros.

— Então sou uma grande pecadora — disse, afinal — , porque sempre desejo beijar a marca que tem junto ao umbigo.

Cameron estremeceu e, com voz contida, disse:

— Ninguém jamais dirá que não satisfaço os desejos de uma dama.

Sim, pensou Avery, beijando-o com paixão. Era sua dama que não desejava perdê-lo e voltar para Donncoill sozinha. Com gesto suave, desamarrou-lhe a túnica, beijando o tórax rijo. Cameron suportou as carícias tentadoras o mais que pôde, e por fim a segurou com fúria, fazendo-a sentar na cadeira, e principiando a beijar os seios brancos.

— É linda, Avery. Feita de seda, ouro e mel. Acariciou-a pelo corpo todo, até fazê-la gemer de prazer. Avery o fez compreender que desejava muito mais do que simples beijos, então Cameron a fez deitar-se e a penetrou de modo sensual, iniciando uma cavalgada que se encerrou com ambos gritando e se retorcendo no clímax do desejo.

Avery desabou em seus braços, exausta. Um pensamento engraçado cruzou-lhe o cérebro. Cada vez que fazia amor parecia depois que iria morrer de cansaço, então como é que seus pais agüentavam a vida de casados havia mais de vinte anos? Era surpreendente ainda estarem vivos! Porém, tanta paixão produzira uma enorme família. E o melhor era que continuavam trocando olhares carinhosos, mesmo depois de tantos anos.

Uma batida na porta da cabina a fez voltar à realidade e ter medo que alguém os visse naquela posição.

— Prima — disse a voz de Gillyanne. — Venha ver o céu estrelado.

Depois ouviram-se os passos da menina que se distanciava, fazendo Avery respirar aliviada e murmurar:

— Creio que acabei de ver estrelas. Cameron riu.

— Venha, menina,

Ambos começaram a se vestir, e ela voltou a ser a enfermeira prestimosa.

— Terá que continuar tomando o remédio três vezes ao dia até chegarmos em terra firme.

— E tem ervas medicinais suficientes? Mais da metade de meus homens estão enjoados.

— Pode-se fazer uma enorme quantidade da beberagem com um punhado de ervas, e nem todos os soldados ficaram tão doentes como você e Leargan. Alguns precisarão apenas de mais um dia para se acostumarem com o balanço do navio.

— Vamos ver as estrelas — murmurou Cameron.

De mãos dadas, deixaram a cabina. O chefe dos MacAlpin voltara a ficar de bom humor, e Avery precisou fazer força para não perguntar se tudo voltara a ficar bem entre os dois. Seu amor-próprio se rebelava pelo fato de ter sido posta de lado e depois o aceitado de volta como um carneirinho dócil. Prometeu a si mesma que se chegassem a ficar juntos um dia, iria ensiná-lo a se desculpar e dar explicações. Não doíam para quem as dava, mas machucavam quem não as recebia.

 

— Não percebi o quanto sentia saudade da Escócia — disse Avery, de pé na colina pedregosa ao lado de Gillyanne, enquanto admirava o campo ao redor. — Juro que após um dia aqui já me sinto diferente.

— Faz frio — resmungou a prima, apertando o manto ao redor do corpo.

— Não é nada romântica, Gilly.

— Sou, mas detesto congelar sob o vento do norte.

— O que precisa é de mais substância nos ossos.

— Olhe quem está falando! Uma moça que pode ser derrubada com o toque de uma pena.

— Ainda estou de pé, apesar de tudo. — Avery ajeitou atrás da orelha uma mecha de cabelos agitada pelo vento. — Creio que ganhei alguns quilos.

— Sim, se não soubesse que sua menstruação continua, diria até que está grávida.

— Sabe que se alguém cair dessa colina pode se machucar muito? — replicou Avery com os olhos semicerrados, fazendo a prima rir. — Gostaria de já estar em Donncoill — murmurou, fitando os MacAlpin preparando o acampamento.

Gillyanne segurou-lhe a mão, dando-lhe apoio. — Também penso assim, mas primeiro iremos para Cairnmoor. Avery aquiesceu e lutou contra as lágrimas que teimavam em rolar por seu rosto.

— Não consegui fazê-lo mudar de idéia.

— Nem poderia. Cameron tem certeza que a irmã é uma mulher desonrada e que nosso Payton é o responsável. A menos que seu irmão se case por livre vontade, teremos que fazê-lo assumir o compromisso. Nossos pais e demais irmãos fariam o mesmo. — Fez uma pausa e suspirou. — O problema é que a moça está mentindo, tenho certeza. Lançará mão da hombridade e caráter de Payton para torná-lo seu marido. Detesto ficar insistindo nessas teorias tristes, mas trate de manter essa idéia na cabeça senão irá sofrer muito mais.

— Então por que me esforço tanto para fazer Cameron me amar?

— Porque está apaixonada.

— Isso tudo irá me fazer muito infeliz.

— Tente pensar na alegria que nossos pais sentirão ao nos rever.

— E você é quem mais merece isso, Gilly. Apenas gostaria que não tivesse passado por tantos problemas.

— Ora! E quando foi que a felicidade chegou de graça para alguém?

— O que acha que estão tramando lá em cima? — perguntou Cameron para Leargan, enquanto observavam Avery e Gillyanne na colina.

— Procurando uma pedra bem grande para fazê-la rolar sobre você?! — conjeturou o primo, sorrindo ante o olhar aborrecido do outro.

— Desde que desembarcamos ontem tem sido um poço de piadas sem graça.

— Não sabia o quanto desejava rever estas terras. As urzes, colinas, rochas…

— Os cardos, o frio, a chuva… Leargan riu e balançou a cabeça.

— Ora, admita! Está feliz por ter voltado. Também sentia saudade.

Cameron sorriu de leve.

— É verdade. Vai ser ótimo chegar a Cairnmoor. Franziu a testa, pensando em Avery e Gillyanne.

— Não acho que aquelas duas estejam tramando alguma coisa, Cameron. Talvez estivessem com saudade da Escócia também.

— Ou se questionam de que lado fica Donncoill e se têm parentes aqui por perto.

— Com medo de que seus planos nos levem a uma guerra de feudos?

— Não, enquanto tiver as duas para negociar por Payton. E não estou ameaçando sua vida, só quero que se case com Katherine.

— Para alguns rapazes isso é o mesmo que uma sentença de morte. — Depois de um momento, Leargan tratou de emendar: — Não estou me referindo especificamente a sua irmã.

— Bem, não posso imaginar os Murray derramando sangue por causa disso.

— E o perfeito sir Payton será o marido ideal.

— A perfeição pode ser irritante. Leargan soltou uma gargalhada.

— Acho que está com ciúme, primo.

Avery sentou-se ao lado de Cameron e observou-o dormir. Caso o tempo se mantivesse firme e a estrada que seguiam fosse plana e sem obstáculos, poderiam chegar a Cairnmoor dentro de quatro dias. Então, pensou com tristeza, Cameron a trocaria por Payton, a mandaria para casa e destruiria sua vida. Não sabia como iria suportar tanto sofrimento.

Podia compreender a questão de honra, orgulho e lealdade pela irmã, refletiu, mas como Cameron conseguia imaginar que obrigando Payton a um casamento daria a felicidade a Katherine?

Além disso, depois de tanto tempo juntos, sabia que despertara-lhe algum afeto. Mas talvez isso fosse muito pouco, e era o que mais temia. Estava preparada para ser negociada por Payton, porém tinha medo de que, na hora do adeus, lorde MacAlpin a tratasse com frieza.

Com cautela, levantou-se, afastou-se de Cameron, e começou a se vestir. Não podia permitir que ele destruísse a beleza de suas lembranças, refletiu. Precisava ter o consolo de poder lembrar dos momentos maravilhosos, embora breves, que haviam usufruído juntos. Se pudesse evitar o olhar sem emoção de Cameron na hora da despedida, tudo estaria bem.

Após guardar algumas roupas e suprimentos em uma sacola, esgueirou-se para fora da tenda. Ninguém montava guarda ali perto, pois não esperavam que fugisse de novo. Respirando fundo, Avery mergulhou nas sombras dos bosques que circundavam o acampamento.

Quando já se embrenhara o suficiente, olhou para trás. Doía-lhe deixar Gillyanne, mas sabia que a prima compreenderia seu gesto. Não podia arriscar a vida de alguém querido em sua fuga, mas tinha certeza de que ninguém no grupo dos MacAlpin faria mal à menina.

Afastou-se bastante do acampamento, imaginando até onde poderia chegar. A menos que Cameron acordasse e desse por sua falta, só notariam que fugira pela manhã. Então, segundo seus cálculos, dispunha de três horas, talvez mais. Se estivesse indo na direção certa, seria o suficiente, pensou.

Quando se reunisse com a família, diria que Gillyanne estava bem, e que confiava na integridade do chefe dos MacAlpin. Cameron jamais machucaria uma mulher ou uma criança, tinha certeza.

Isso poderia aliviar Payton e dar-lhe chance de escolher que caminho tomar. Só esperava que Cameron não entendesse sua fuga como uma traição.

— Desapareceu? O que quer dizer com isso?

Ouvindo o próprio grito ecoar pelo acampamento, Cameron tratou de respirar fundo e se acalmar. Quando acordara e não vira Avery a seu lado, imaginara que fora tomar um pouco de ar. Em­bora um tanto decepcionado por não poder começar o dia fazendo amor outra vez, de nada suspeitara.

Entretanto, depois que se vestiu e Donald lhe trouxe o café da manhã, começara a ficar preocupado. Havia muitos perigos no bosque e, no momento, além de inquieto, estava desconfiado e com raiva.

— Alguns de seus pertences desapareceram — anunciou Anne, entrando na tenda.

Cameron fitou Gillyanne.

— Ela não fugiria sem você.

A menina deu de ombros e nada disse. Cameron insistiu:

— Aonde iria?

— Donncoill.

— Não sabe como chegar lá.

— Avery teve uma longa conversa com o capitão MacMillan. Creio que pode ter aprendido os caminhos.

Cameron não pensara nessa possibilidade e maldisse a própria cegueira.

— Não parece muito preocupada pelo fato de Avery tê-la dei­xado para trás — comentou com mau humor, evitando os olhos observadores de Gillyanne.

— Sei que não me fará mal — replicou ela com segurança. — Não corro perigo.

— E Avery também não corria— dardejou Cameron.— Jamais lhe faria mal.

— Não sei, não. Creio que a pobre Avery resolveu não esperar para vê-lo estragar tudo.

Cameron não tinha certeza do que a menina queria dizer com aquilo, mas antes que abrisse a boca de novo, Leargan entrou para avisar.

— Os cavalos estão todos no acampamento. Avery saiu a pé.

— Então será fácil encontrá-la. — Assim dizendo, Cameron saiu da tenda como um raio e dirigiu-se até os cavalos. Parou ao ver que Leargan o seguia. — Irei sozinho.

— Acha que é seguro?

Assim dizendo, Leargan se aproximou para ajudá-lo a arrear a montaria.

— Quem sabe? Mas irei só. Assuma o comando do acampamento. Quando encontrar aquela menina tola, voltarei.

— Por que não a deixa ir embora? Que diferença fará?

— Se por algum milagre encontrar a família, revelará que Gillyanne não corre perigo em minhas mãos, e perderei meu outro trunfo.

— E se a encontrar e levar para Cairnmoor, partirá seu coração.

— Avery conhecia meus planos desde o princípio— murmurou Cameron, montando na sela. — Jamais menti.

— Talvez não com palavras, porém…

Mas Leargan interrompeu-se, balançou a cabeça com desalento, e afastou-se do cavalo.

— Pense nisso, Leargan. São três dias de galope daqui até Donncoill, imagine a pé. Uma jovem sozinha durante tanto tempo corre muitos perigos.

Assim dizendo, Cameron fustigou o cavalo, que saiu a toda a brida. Rumou na direção de Donncoill, esperando que Avery ti­vesse seguido as informações do capitão MacMillan. Quando fugira na França, encontrara o acampamento com facilidade, aler-tando-o a tempo sobre o ataque dos DeVeauxx, portanto era óbvio que tinha senso de direção.

Mas seria difícil encontrá-la em um bosque tão grande, com tantos lugares para se esconder. E caso se perdesse…

"Se a encontrar e levar para Cairnmoor, partirá seu coração", dissera Leargan. E Cameron não conseguia esquecer as palavras de Gillyanne. "Creio que a pobre Avery resolveu não esperar para vê-lo estragar tudo."

Começava a compreender. Avery Murray não era uma viúva solitária, esposa adúltera ou cortesã experiente. Fora uma virgem, e ele a deflorara, fato que sempre era muito importante na vida de uma mulher. Na maioria dos casos os romances acabavam com o fim da paixão, entretanto o relacionamento dos dois era muito peculiar.

Apesar de cínico por causa das mulheres que haviam passado por sua vida, não podia deixar de pensar que a história com Avery era diferente e bonita. Entendia agora por que ela não desejava ver tudo terminar como ele planejara, portanto fugira para se poupar do sofrimento.

Praguejou, recordando as palavras que Avery murmurara em seu delírio de febre. Dissera que o amava mas que não conseguira conquistar seu amor.

Durante muito tempo tratara de esquecer aquelas frases, mas fora em vão. Será que mesmo delirante Avery dissera a verdade, revelando os próprios sentimentos? Era fácil para uma moça inexperiente confundir desejo físico com amor.

Avery permeava suas ações sempre guiada pelo coração. Mas havia também uma outra explicação para sua fuga. Desejava salvar Payton, e alertar a família que os MacAlpin estavam blefando, e que não iriam matar seu irmão caso não se casasse com Katherine.

Sim, tudo fazia sentido. E poderia inclusive alegar que Cameron a seduzira, de modo que não tinha moral para julgar Payton.

Entretanto balançou a cabeça, negando a idéia a si mesmo. Sem dúvida, caso Avery alcançasse a família, falaria de seus planos, mas isso não a transformava em uma traidora, pois tinha tanto direito de proteger seu irmão como ele em relação a Katherine.

No íntimo sabia que Avery apenas impediria que Payton fizesse um casamento sem amor. Afinal, se desejasse prejudicá-lo e ao seu clã, não teria dado o alarme no dia do ataque de DeVeauxx ao acampamento.

Esporeando o cavalo, ergueu a cabeça e disse a si mesmo que a única coisa importante no momento era encontrá-la. Os demais problemas tinham-se tornado insignificantes. Avery era uma jovem frágil, sozinha nos bosques, e os perigos nessas condições eram enormes e incontáveis. Precisava encontrá-la antes que algo de mau lhe acontecesse.

Era quase meio-dia quando por fim a encontrou. Já estava tão desesperado que não sabia se a beijava ou surrava. Ao subir uma pequena colina, deparou com Avery sentada junto a um riacho, os pés descalços dentro da água cristalina, e uma postura de descanso e alívio.

— Espero que esteja cheia de bolhas — resmungou consigo mesmo, disfarçando a alegria.

Tomando cuidado para não chamar sua atenção, foi se aproximando.

Avery mexeu os pés na água. Doíam muito por causa das várias horas de marcha, e temia chegar exausta a Donncoill.

— Talvez devesse ter roubado um cavalo — murmurou.

— Então poderia mandar enforcá-la como ladra.

A voz profunda e forte as suas costas não a surpreendeu, pois no íntimo esperara revê-lo, porque o amava muito. Sem se voltar, replicou:

— Não poderia negociar meu cadáver por Payton. Cameron decidiu ignorar a resposta petulante, e indagou com rudeza:

— Parou para pensar que me deixou sozinho na cama?

— Coitado! Aborrecido por não poder se divertir comigo logo cedo?

Deixou escapar um leve grito quando ele a segurou pelo braço e a fez levantar, voltando-a para si, e fitando-a nos olhos com uma expressão irada.

— Em primeiro lugar — sibilou MacAlpin — , jamais voltará a chamar o que existe entre nós dois de "diversão". — Não sabia por que isso era a coisa mais importante a dizer no momento, porém Avery o deixava louco de raiva. — Em segundo, nunca mais volte a sair sozinha pelos bosques.

— Recuso-me a voltar com você.

Cameron fez força para não sacudi-la como um saco de farinha.

— Vai comigo, nem que tenha de amarrá-la na sela. Foi um ato muito estúpido! Pensei que era uma mulher inteligente. Levaria uma semana ou mais para chegar a pé a Donncoill, se chegasse! Além do mais acabou de ter muita febre e o clima da Escócia é rigoroso. — Lançou um olhar para a sacola caída sobre a relva. — Também não trouxe suprimentos suficientes, e dentro de um dia não teria mais o que comer. Os bosques estão cheios de animais selvagens, e duvido que as pessoas com quem topasse fossem todas boas e gentis. — Tomou fôlego. — Por fim, poderia se ferir, e não conseguir mais caminhar. Quem a ajudaria então?

— Chega— sussurrou Avery com firmeza.— Talvez não tenha considerado todas as possibilidades, mas estava com pressa.

Sabia que Cameron jamais entenderia seus motivos para partir. Se não a amava, não compreendia seu sofrimento e o quanto desejava afastar a dor. Fora tolice fugir durante à noite e encetar, sozinha e desprevenida, uma jornada tão longa, mas o desespero a motivara.

Olhou os próprios pés, e comentou:

— Estão imundos de novo.

Cameron quase riu, apesar da preocupação e da raiva. Avery parecia uma criança triste e aborrecida ao mesmo tempo. Bem, jamais lhe prometera amor eterno, refletiu, e se ela não entendera isso, a culpa era só sua.

Fez com que sentasse na grama e voltou a banhar-lhe os pés. Desejaria poder aliviar sua dor moral também, mas Avery precisava entender suas responsabilidades de chefe do clã.

Depois de enxugá-la com a borda do próprio manto, esticou-o na relva e a fez sentar. Seus olhos se encontraram e, sem que precisassem dizer uma só palavra, começaram a se acariciar e beijar com doçura. Quando, por fim, seus corpos se uniram, Cameron murmurou:

— Não vai ficar triste.

— É a terceira ordem? — replicou Avery, enlaçando-o com as pernas.

— Sim.

Quando permaneceram deitados, ofegantes e cansados, Cameron tentou se fazer entender melhor.

— Mudaria as coisas se pudesse, mas devo agir como a honra e o dever me obrigam.

Avery apenas aquiesceu com um gesto de cabeça, e sua passividade o fez sentir uma pontada fria no coração.

 

O castelo de Cairnmoor era colossal. Avery o fitou, prendendo o fôlego, enquanto subiam a cavalo o caminho que levava aos portões. Um pequeno lago contornava a propriedade de um lado, que se erguia, majestosa, da rocha em que fora edificada. Um fosso-enorme circundava os outros três lados do castelo, e Avery refletiu que sua família teria muito trabalho para libertar Gillyanne e ela daquele lugar, caso fosse necessário.

Sua atenção foi desviada para os gritos de boas-vindas que sau­davam a volta de Cameron e seu grupo. Era evidente que todos apreciavam seu chefe. A medida que se aproximavam, Avery pôde ver que as pessoas eram bem vestidas e com boa aparência, o que denotava fartura.

Quando alcançaram o pátio interno do castelo e Cameron a ajudou a apear, Avery foi empurrada para o lado pelos vassalos que ansiavam por cumprimentar seu líder, e quando Gillyanne se aproximou, segurando-lhe a mão, sentiu-se menos só. Uma dor aguda invadiu-lhe o coração, porque desejava rever sua própria família, e as lágrimas nos olhos da prima a fizeram perceber que Gillyanne sentia o mesmo. Apesar de saber que revendo seu clã diria adeus a Cameron, sua saudade não diminuía.

Um senhor alto e elegante se aproximou com um sorriso feliz. Os cabelos raiados de branco e algumas rugas no rosto eram os únicos traços que o diferenciavam de Cameron. Avery não se surpreendeu ao ouvir que era o primo Iain.

Ficou tensa quando Cameron se aproximou com o parente para apresentá-la, pois não sabia o que as pessoas em Cairnmoor pensavam de Payton.

— Ora! Por fim se casou, rapaz? — perguntou Iain, beijando as mãos de Avery e Gillyanne.

Contra sua vontade, Cameron ficou vermelho como um camarão e, evitando fitar os sorrisos irônicos das duas, apresentou:

— Primo Iain, esta é lady Avery Murray e sua prima, lady Gillyanne.

— Murray? — O senhor franziu a testa, mas não havia ódio em seu belo rosto. — Parentes de sir Payton Murray?

— Sim — respondeu Cameron. — Avery é sua irmã.

— Bem, existe uma história que desejo ouvir, e Katherine está ansiosa para vê-lo, primo. As senhoras desejam ir para seus aposentos e, quem sabe, tomar um banho quente?

— Obrigada, milorde— disse Avery.— Paramos faz meia hora para nos refrescarmos, e imagino como todos do clã desejam confraternizar com os que regressaram.

Os homens aquiesceram, e as duas jovens seguiram Iain, Cameron e Leargan para o interior do castelo.

— Que lugar fabuloso — murmurou Gillyanne ao ouvido da prima. — Por certo é o lado rico da família.

Penetraram no enorme saguão e viram as ricas tapeçarias nas paredes. Ocuparam lugares na mesa principal à esquerda de Cameron, e de frente para sir Iain e Leargan. Avery serviu-se de pão, queijo, frutas e carnes frias, enquanto Cameron contava suas aventuras para o primo mais velho, que, com olhar penetrante, parecia ler nas entrelinhas.

Quando o senhor se preparava para fazer uma pergunta a Avery, um murmúrio se elevou no salão, anunciando a entrada de alguém importante, e Cameron sussurrou:

— Katherine.

Avery soube que estava prestes a conhecer a mulher que armara uma cilada para Payton. Observou a jovem que, com gestos graciosos, se aproximou da mesa e abraçou Cameron.

Katherine era alta, com formas exuberantes, e de cabelos negros como o irmão. A pele era branca como marfim, e seus olhos de um azul profundo. Avery estremeceu ao perceber que o olhar em sua direção era curioso mas também calculista.

Além disso, algo lhe dizia que não havia sinceridade no abraço que dava em Cameron, e que tudo fazia parte de uma encenação. Um rápido olhar para Gillyanne a fez saber que a prima pensava o mesmo.

— Venha, irmã, sente-se à mesa conosco.

Cameron sentia-se inquieto porque o abraço de Katherine não o emocionara.

— Esta mulher está sentada no meu lugar — protestou Katherine, apontando para Avery.

Surpreso com a grosseria, Cameron ralhou.

— Sente-se ao lado de Leargan.

— Posso trocar de lugar — ofereceu-se Gillyanne. — Apesar de exausta pela viagem, não me custa levantar um instante, e Avery fará o mesmo, e lady Katherine poderá repousar seu belo traseiro no…

— Gillyanne! — interrompeu Cameron, fuzilando Leargan e Iain com um olhar, porque os dois continham o riso com dificuldade. — Katherine se sentará perto de Leargan, e todos poderemos conversar.

— Ainda bem que não pediu para ela se sentar ao meu lado — a menina disse baixinho para Avery.

A prima mais velha tratou de enfiar-lhe na boca um pedaço de maçã, enquanto vencia a tentação de dar um chute por baixo da mesa em Leargan, que parecia estourar de vontade de rir.

— Quem são estas mulheres? — inquiriu Katherine, sentando-se ao lado do primo e fitando Gillyanne.

Cameron fez as apresentações, e o modo frio como as três responderam o fez suspirar, apreensivo. A batalha parecia já ter sido declarada. Com gesto disfarçado, estudou o semblante frio e petulante da irmã, e percebeu, assombrado, que já não confiava tanto em sua palavra. Katherine tornara-se uma estranha, uma bela e jovem mulher que não conhecia.

Essa idéia o deixou triste e frustrado. E isso acontecera por sua própria culpa, refletiu. Em Cairnmoor nunca tivera tempo para ela, e depois fora para a França, deixando-a aos cuidados de outros parentes. Quem sabe agora, que voltara, poderia refazer o vínculo entre os dois.

— Então são parentes de meu Payton — disse Katherine com segurança.

— Avery é sua irmã.

— Verdade?

Foi apenas uma palavra, mas Avery compreendeu que nas entrelinhas a outra quisera comentar como uma moça magrela e com roupas surradas podia ser aparentada com um homem tão bonito e elegante como Payton Murray. E o modo de Cameron franzir o cenho a fez perceber que ele entendera o mesmo.

— Continua afirmando que sir Payton Murray a seduziu? — perguntou o irmão.

Katherine fitou-o com arrogância.

— Creio que a palavra que usei foi estupro.

Com o canto do olho Cameron viu que Avery segurava Gillyanne pelo ombro, impedindo-a de se levantar, e continuou:

— É uma acusação muito grave, menina. Tem certeza disso? Katherine fitou-o mais um instante, e depois desviou o rosto, com um erguer de ombros e um suspiro exasperado. Com gesto teatral pegou um lenço bordado do bolso da saia, e enxugou os olhos. Depois, com lábios trêmulos e os longos cílios negros encobrindo-lhe o olhar, murmurou:

— Talvez não tenha usado o termo correto. No meu desespero por ter sido tratada de modo tão leviano e depois abandonada, desejei ferir Payton como ele me feriu.

Um rumor a sua esquerda fez Cameron desviar o olhar para as primas. Avery batia nas costas de Gillyanne.

— O que houve?

— Ela engasgou com um pedaço de maçã. Cameron voltou a fitar a irmã.

— Lamento por sua dor, Katherine.

— Não é sua culpa — replicou Katherine, ajeitando as saias sobre o ventre. — Porém temo que meu amante desleal tenha me deixado grávida.

— Meu Deus! — murmurou Gillyanne, fitando o ventre arre­dondado de Katherine. — Parece que pelo menos isso é verdade!

— Concordo — replicou Avery no mesmo tom — , mas por certo não foi Payton. Jamais negaria a paternidade, portanto está claro que se recusa a desposá-la porque sabe que a criança não é sua.

— Então a pergunta a ser feita é quem é o culpado?

— Primeiro precisamos descobrir de quantos meses é a gravidez e quando Katherine esteve na corte — sussurrou Avery para a prima. — Necessitamos rezar para que os criados não lhe votem uma cega lealdade, senão será difícil descobrir a verdade.

— Senhoras… — disse Cameron, percebendo a conversa furtiva. — Algum problema?

— Não — replicou Avery. — Eu e Gillyanne estávamos apenas lastimando quantas boas mulheres são abandonadas pelos amantes.

Cameron ficou vermelho ao notar o sorriso angelical de Gillyanne, e disse para a irmã:

— Não sofrerá por isso, Katherine. — Voltou-se para um criado. — Traga pena e papel. Escreverei a sir Payton.

— Não adiantará, Cameron — disse a jovem MacAlpin. — Ele se recusa com frieza a atender qualquer chamado.

Ignorando o comentário, Cameron tomou da pena que o criado se apressara a trazer.

— Posso forçar seu amante a honrar o compromisso, Katherine.

Interrompeu-se ao ver Avery e Gillyanne se erguerem com um repelão, muito magoadas.

— Creio que desejo me recolher — disse Avery sem fitar o anfitrião.

Cameron tomou-lhe a mão.

— Entenda que sou obrigado a agir assim. Avery afastou-se com brusquidão.

— Sei disso, mas não esperava tanta frieza. Onde ficam meus aposentos?

— Acomodem lady Avery no quarto de minha mãe — comandou Cameron — e lady Gillyanne no quarto ao lado.

A menina permaneceu ainda um pouco, enquanto Avery se afastava e, fitando-o com seriedade, disse:

— Espero que essa pena arranque seus olhos.

— Gilly — chamou Avery. Quando a menina se aproximou, perguntou: — O que estava fazendo?

— Agradecia Cameron pela ótima refeição.

Assim que a porta do salão se fechou e as meninas Murray desapareceram, Cameron deu um suspiro de alívio, fitando Lear-gan com ferocidade.

— Acha tudo isso divertido? O primo apontou para a carta.

— Isso? Não, mas me divirto muito com Gilly. É um demônio de criança! Se não tivesse o dobro de sua idade ficaria tentado a esperar que crescesse mais um pouco para torná-la minha esposa.

— Mas, Leargan — sibilou Katherine — , ela é um pouco estrábica e seus cabelos parecem um ninho de ratos.

— Personalidade vale mais que beleza — replicou Leargan, falando como se fosse com uma criança retardada mental. Voltou-se para o primo. — Cameron, menciona seu filho na carta?

— Que filho? — quis saber a irmã. — Não me diga que a magrela o culpa de tê-la engravidado?

— Não insulte lady Avery — murmurou Cameron de dentes cerrados.

Katherine sorriu com malícia.

— Instalou-a no quarto ao lado do seu para vigiá-la melhor? — De repente pareceu pensar e, colocando a mão no peito, arre­galou os olhos. — Oh! Faria isso por mim, meu irmão? Pretende se vingar nela por minha causa? Que nobre!

Embora soubesse que Katherine não tinha obrigação de gostar de Avery, Cameron sentiu uma raiva surda.

— O que acontece entre lady Avery e mim não é da sua conta, Kate. O menino a quem Leargan se refere é um bastardo de minha ex-amante. Em um golpe do destino, a prima de Avery e seu marido o encontraram perdido e o acolheram.

— Bem, isso livra da responsabilidade e esse casal merece mesmo seus agradecimentos.

Cameron piscou diversas vezes, estupefato com as palavras insensíveis da irmã a respeito de seu filho. Afinal, era seu sobrinho! Voltou-se para Leargan, que mantinha uma expressão indecifrável.

— Mencionarei na carta que Avery e Gillyanne me contaram sobre o menino Alan e que existe uma forte possibilidade de ele ser meu filho. Entretanto deixarei claro que esse assunto deverá ser analisado com calma, e nada tem a ver com sir Payton.

— Pretende acolher a criança? — perguntou Katherine com ar surpreso.

— Vá descansar, irmã. É óbvio que as surpresas do dia a deixaram tonta. Conversaremos no banquete de hoje à noite.

Assim que Katherine se retirou do salão, Cameron se concentrou na carta. Sabia que Leargan desejava conversar, mas evitou-o. Por fim selou o envelope e entregou-o a Rob e Colin para que o levassem a Donncoill.

Recostou-se na cadeira, tomou um gole de vinho e ficou surpreso por ver que não se sentia satisfeito.

— Então está feito — comentou Leargan.

Cameron não respondeu. Deveria se sentir triunfante por ter dado o primeiro grande passo para salvar a honra da irmã, mas um enorme vazio jazia em seu peito.

— Talvez devesse ter esperado um pouco mais — prosseguiu Leargan.

— Por quê?

— É evidente que Katherine está mentindo. Uma hora diz que foi violentada, depois alega que exagerou…

— Duvida que sir Payton seja o pai de seu filho?

— Se ela já admitiu que talvez não tenha sido estupro, pode ter mentido sobre o resto também.

— Preciso acreditar em minha irmã. Ela está de fato grávida, e se não aceitar sua palavra que Payton é o pai, a envergonharei perante todos.

— Tinha esperanças que lady Katherine estivesse mentindo sobre a gravidez — comentou Avery, deitando-se na enorme e confortável cama.

— Mas mente sobre o resto — replicou Gillyanne, sentando-se na beirada.

— Sei disso. Payton se nega a assumir a responsabilidade, por­tanto tenho certeza que ele não é o pai da criança. Cameron não conhece meu irmão, e tudo que sabe sobre nossa família é o que ouviu dizer, portanto também tem o direito de duvidar de nossa palavra, já que somos parentes.

Embora usando de lógica, Avery sofria. Cameron fizera exatamente o que dissera que faria desde o início. Apesar da paixão que lhe demonstrava, não arredara um centímetro do plano de vingança. Como se lesse seus pensamentos, Gillyanne murmurou:

— Poderia ter pensado um pouco em você.

— Gilly, sua única irmã está gerando um bastardo.

— Não é justo para Payton, que deve ter dito a verdade, e também para você e Cameron, que se amam e serão separados. Tudo porque a bela Katherine se entregou a algum lacaio ou algo assim, mas deseja um marido nobre.

— E Katherine irá transformar a vida de meu irmão em um verdadeiro inferno, tenho certeza. Não o ama, e só deseja satisfazer seu orgulho ferido.

Naquele momento Anne e Therese entraram no quarto, e logo Gillyanne saiu. Avery observou os trajes luxuosos em verde e dourado que Anne trazia nos braços.

— O lorde envia para usar no banquete de hoje.

— Banquete?

— Para celebrar nosso retorno. São vestidos de lady Katherine.

— Ela é maior que eu. Tenho seios pequenos.

— Mas estes vestidos são de quando ainda era mais magra. — Anne sentou-se e suspirou. — Soube que lorde Cameron enviou uma carta exigindo a presença de sir Payton em Cairnmoor. É um tolo!

— Não, Anne. É um homem atormentado pelas queixas da irmã. Meus tios e primos fariam o mesmo em seu lugar. O único problema é que Katherine está mentindo, e nesse ponto creio que de fato Cameron poderia ser mais esperto, mas se deixa iludir porque a ama.

— Esperava que ele solucionasse o caso sem mandá-la embora, Avery?

— Sim, porém agora que constatei que Katherine está de fato grávida…

— Reparei que o lorde a instalou no quarto ao lado do seu.

— Acha que devo trancar minha porta?

— Não. Faça amor com ele de tal maneira que não a esqueça jamais.

Avery sorriu.

— É o que pretendo fazer.

— Ótimo! Experimente os vestidos e farei os reparos necessários.

Avery vestiu o traje dourado e depois o verde.

— Usará o segundo amanhã. Lady Katherine foi muito generosa dando-lhe os vestidos. Na verdade, tinha oferecido uma roupa marrom horrorosa, mas sua criada particular nos mostrou onde guar­dava os trajes que já não usa, e eu e Therese escolhemos à vontade. Gillyanne também terá lindos vestidos. São nobres e irão se trajar como as moças elegantes que devem ser.

— Para impressionar Katherine?

— Isso mesmo. E quando estiver a sós com lorde Cameron, trate de usar seu encanto.

 

— Estão vivas?

— Sim, mamãe, sãs e salvas. Payton sorriu, fitando os pais, tios e tias. As mulheres choravam, abraçando umas às outras, e depois se agarrando aos homens, que lutavam para controlar a própria emoção, evitando as lágrimas.

— Onde estão elas? — perguntou por fim o pai de Avery.

— Em Cairnmoor, aos cuidados de sir Cameron MacAlpin — replicou Payton.

— Por que ele não as enviou para casa? — quis saber a mãe.

— Porque deseja algo em troca.

— Um resgate? De quanto?— bradou sir Eric. — Não costumo ceder às extorsões, mas faremos tudo para ter nossa Gilly de volta.

— E nossa filha Avery — acrescentou sir Nigel, observando Payton com atenção. — Quanto?

— Não se trata de quanto mas de quem — corrigiu Payton com serenidade.

— Quem? — replicou a mãe, franzindo a testa, e logo arrega­lando os olhos com compreensão. — Sim! MacAlpin! Aquela jovem terrível!

— Gisele, esqueceu de me contar alguma coisa? — perguntou sir Nigel à esposa, com voz calma mas olhar feroz.

— Deixe-me explicar, mamãe — atalhou Payton. — Da última vez que estive na corte conheci uma moça que tentou me atrair. Como era nobre e fora levada para lá a fim de encontrar marido, fiz o máximo para evitá-la. Em certas ocasiões sua insistência me obrigou a ser mais duro do que desejava, e como é muito mimada, não gostou de minha atitude. — Sorriu de modo tranqüilo. — Então voltei para casa e esqueci o episódio, mas logo recebi uma mensagem de seu guardião, sir Iain MacAlpin, dizendo que a jovem alegava ter sido violentada por mim. — Neste ponto Payton ergueu a mão, pedindo silêncio ante os protestos indignados dos parentes, e voltou a sorrir. — Também exige que vá a Cairnmoor sem perda de tempo e case com a moça que, diz ele, arruinei, lady Katherine MacAlpin.

— Sim — murmurou lady Gisele. — Payton me contou o episódio mas pensei que logo a verdade seria descoberta.

— Começo a perceber nosso problema — resmungou Nigel.

— Meu problema — corrigiu Payton, continuando a história. — Repliquei que Katherine mentia e desafiei seu guardião a me apresentar as testemunhas que alegavam meu crime.

— Não foi muito conciliador de sua parte.

— Pode ser, mas fiquei furioso. Em seguida fui comunicado que a moça estava grávida. É claro que neguei a paternidade. Bem, as queixas continuaram por um certo tempo e depois terminaram. Pensei que tivessem descoberto a verdade em Cairnmoor, e esqueci o fato, lamentando apenas que não se tivessem desculpado comigo. — Payton fitou a carta que trazia nas mãos. — Parece que o guardião de Katherine estava apenas esperando a volta de sir Cameron.

— E agora sir Cameron o acusa de estupro?

— Creio que está em dúvida, porque ainda não fez isso. Entretanto Katherine insiste em dizer que sou seu amante e pai da criança que traz no ventre. Caso vá para Cairnmoor e aceite ser seu esposo, Cameron nos restituirá Avery e Gillyanne.

— Como foi que ele pôs as mãos em nossas meninas?

— Parece que prestou algum serviço para um tal sir Charles DeVeauxx.— Payton sorriu ao ver a expressão de repulsa no rosto da mãe. — Recusou-se a atacar alguns inimigos dos DeVeauxx e preparava-se para partir, quando conheceu as duas. O resto da história elas mesmas contarão, diz a carta.

— Bastardo! — dardejou sir Nigel.

— Mas está com a faca e o queijo na mão — comentou Gisele.

— Acha que poderá fazer mal às meninas?— perguntou Bethia.

— Não — replicou Payton. — Algo me diz, segundo seu modo de escrever, que nada lhes fará de mau, entretanto não as devolverá com facilidade.

— Então talvez seja conveniente irmos até lá e pegarmos Avery e Gillyanne de volta — disse Nigel.

— Não — redargüiu Payton. -— Irei sozinho a Cairnmoor. Gisele segurou a mão do filho.

— Mas sir Cameron o fará desposar aquela moça e você não a ama. Além disso seu primogênito não será sangue do seu sangue.

— Verdade, porém não posso deixar minha irmã e Gillyanne como prisioneiras em Cairnmoor. E quem me diz que as ameaças não virão em breve e que sir Cameron se queixe com o rei? Irei, mas isso não quer dizer que me casarei com Katherine. Tentarei arrancar-lhe a verdade, e para tanto preciso ir até lá. E sir Cameron menciona mais uma coisa. — Passeou o olhar pelos parentes. — Diz que Avery e Gillyanne apresentaram uma forte possibilidade de ele ser o pai de Alan.

— Oh, meu Deus! — exclamou tia Maldie. — Elspeth vai ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

— Mas sir Cameron escreve que o caso do menino é algo à parte e o discutirá depois. Fiquei tentado a barganhar Alan pela minha liberdade, mas isso despedaçaria o coração de Elspeth. Não o farei. Se sir Cameron é pai do menino, pertencem um ao outro, mas o processo de mudança deverá ser feito com muito cuidado.

Porém lady Gisele pensava no filho.

— Katherine é uma mentirosa, e seu casamento com ela será um erro, meu filho.

Payton pousou a mão no ombro da mãe.

— Arrancarei a verdade, com a ajuda de Avery e Gillyanne.

Assim que as meninas Murray deixaram o salão em Cairnmoor, Cameron recostou-se na cadeira e tomou um grande gole de vinho. Sua irmã saíra em seguida, e embora desconfiasse que as três mulheres iriam se confrontar, resolveu ficar fora da questão. Que elas resolvessem seus problemas sozinhas. Só esperava que não houvesse derramamento de sangue, refletiu com um sorriso.

Havia uma semana que exigira a presença de sir Payton em Cairnmoor, mas parecia uma eternidade. A chegada do nobre deveria solucionar o problema, porém seria o fim de seu relacionamento com Avery, que agia de modo muito estranho.

Desde que a pusera no quarto ao lado do seu, esperara encontrar sempre a porta aferrolhada, entretanto a cada noite ela o recebia de braços abertos, e era uma amante excepcional. Devia ter algum plano em mente, ponderou pela milésima vez, só que não conseguia atinar com o que ela ganharia com isso. Aborrecido, voltou a encher o copo com vinho.

— Avery o transformou em um bêbado, meu rapaz?

— Quem sabe, Iain. — Cameron sorriu para o parente mais velho. — Cada vez que nos reunimos nas refeições, fico esperando que Katherine e Avery se lancem uma sobre a outra.

Iain acenou, com compreensão.

— Comer nesse clima dá indigestão.

— É cansativo.

— Sim, e parece cansado, meu rapaz.

Do outro lado da mesa, Leargan soltou uma gargalhada. — Não é apenas a briga entre as mulheres que cansa meu primo. Todas as noites ele…

— Leargan — resmungou Cameron em tom ameaçador.

— Ora, primo! Sabe que jamais seria indelicado com Avery. Mas devo estar com inveja. Daria tudo para ter uma moça tão meiga e apaixonada ao meu lado.

— É óbvio que preciso ser mais discreto— comentou Cameron, franzindo a testa. — Mas creio que Avery está tramando alguma coisa.

— E o que pode ser? — questionou Leargan com ar de troça. — Deixá-lo tão cansado que não conseguirá possuir outra mulher depois que a abandonar?

Cameron decidiu ignorar o sarcasmo.

— Avery está sendo dócil demais. Afinal, pretendo mandá-la embora, quero que seu irmão case à força com Katherine, e ela age como se tudo estivesse bem e não existisse ressentimento. É orgulhosa e geniosa. Por que está agindo assim?

— Bem, por certo não está sendo amável com Katherine — comentou Iain.

— Tem razão. Às vezes penso em deixar um de meus homens vigiando as duas para que não se matem.

— Talvez Avery compreenda que você não tem escolha.

— De vez em quando penso que espera me ver encontrar outra saída para o problema.

— Mas Katherine sem dúvida está grávida.

— Gravidez que, segundo Avery, não é responsabilidade de seu irmão — lembrou Cameron.

— Enquanto Katherine precisa de um marido e aponta o dedo contra sir Payton.

Cameron voltou-se para Iain.

— Acha que minha irmã está mentindo? Passou mais tempo com ela do que eu.

— Sem dúvida Katherine é capaz de mentir, mas não posso afirmar nada — retrucou Iain.

Cameron suspirou.

— Falhei em meus deveres de transformá-la em uma pessoa correta.

— Não se torture. Todos nós a mimamos quando era criança, mas também lhe demos bons exemplos. Katherine não é apenas mimada, mas vaidosa também, e pouco gentil com os subordinados. E isso ninguém lhe ensinou.

— Claro que não! Nem o senhor nem tia Agnes são esnobes. — Cameron fez uma pausa e depois perguntou: — Conheceu sir Payton?

— Superficialmente.

— Ouvi dizer que é um poço de perfeição. Iain sorriu.

— Fiquei admirado pelo modo como as moças o perseguiam, mas nunca ouvi nenhum comentário que o desabonasse. Algumas palavras irônicas de homens enciumados, mas foi tudo. Fiquei muito surpreso quando Katherine o acusou, porém precisei acreditar. Afinal, é do nosso clã.

— Não teve escolha — concluiu Cameron. — Mas acreditou na história do estupro?

— Não. Em primeiro lugar, com a popularidade de que desfruta, Payton não precisava empregar tais métodos, e Katherine em nenhum momento apresentou o ar devastado de quem sofrera trauma tão terrível. Hoje acredito que se algo existiu foi sedução, e com a permissão dela.

— Começo a pensar que Katherine planeja conseguir o homem que deseja, me forçando a ajudá-la — disse Cameron.

— Então não apresse o casamento — aconselhou Leargan.

— Impossível esperar demais.

— Uma ou duas semanas não farão grande diferença. Cameron remexeu-se na cadeira de maneira desconfortável.

— Detesto admitir, mas começo a duvidar de Katherine. Tenho observado tudo que diz e faz desde que voltei, e estou sempre pensando que é uma mentirosa.

— Então deixe que as meninas Murray descubram a verdade.

— Acha que estão tentando fazer Katherine cair em uma ar­madilha?

— Com certeza. E trate de ficar vigilante também.

Katherine ergueu os olhos do bordado que fazia, e fuzilou Avery e Gillyanne com uma expressão irada.

— Vocês duas não têm outro lugar para ficar?

— Não — replicou Avery, sentando-se em frente.

Passeou o olhar pelo solário das senhoras do castelo. Era um cômodo adorável, em especial durante o dia. Observou a boa e gorducha tia Agnes que, como sempre, dormitava junto à lareira. Avery duvidava que a gentil e ingênua senhora tivesse sido uma boa guardiã para a esperta Katherine.

Naquele instante Gillyanne sentou-se no mesmo sofá que Katherine, e Avery sufocou uma risada. Era típico da prima se apro­veitar do fato de que Katherine não a suportava e se sentia inquieta ao seu lado.

— Ouvi dizer que se uma pessoa mentirosa bebe água benta sua língua fica negra, apodrece e cai — disse a menina, estendendo um copo para Katherine.

— Crendices de camponeses — resmungou a outra sem aceitar a água, e dando um tapa na mão de Gillyanne. — Por que está apalpando meu estômago?

— Para ver se não colocou uma almofada aí — replicou Gillyanne com toda a calma.

— Carrego o filho de sir Payton e vocês sabem disso.

— Não.

Katherine lançou um olhar de desprezo para as duas primas.

— Claro! Não querem admitir. Recusam-se a imaginar que ele possa ser um sedutor sem coração, e que usou uma moça de modo torpe.

— Payton não é santo — redargüiu Avery com voz tranqüila, sabendo que isso irritava a outra. — Entretanto não seduziria ou violentaria uma virgem para depois negar-se a assumir as conseqüências.

— Está dizendo que não era virgem quando conheci seu irmão? — replicou Katherine, deixando o bordado de lado.

Avery pensou que a outra pusera palavras em sua boca, pois nem pensara nessa possibilidade. Entretanto, voltando a fitar a velha tia Agnes que dormia, concluiu que era bem capaz de Katherine já ter aprontado das suas muito antes de conhecer Payton.

— Não — disse em voz alta. — Apenas mantenho que seu amante não é Payton.

— Então por que desejaria me casar com ele?

— Porque é bonito, rico e todas as mulheres a invejariam. Suspeito que o verdadeiro pai de seu filho não tem todas essas qualidades.

— Ótimo! Agora está me acusando de levantar as saias para um pobretão qualquer?

— Muitos cavaleiros dignos não possuem fortuna.

— Tenho um dote maravilhoso, e não preciso me preocupar em casar com um homem rico.

— Então por que não se casa com o homem que a deixou grávida em vez de insistir em levar um inocente ao altar?

— Acha impossível que seu irmão tenha me desejado? — dar-dejou Katherine com um sorriso de sarcasmo. — Já virei a cabeça de muitos rapazes.

— Acredito que sim, porque é muito bonita. Sem dúvida Payton poderia admirá-la, mas não a levaria para a cama. Meu irmão não é tolo, e sabia que estava em busca de marido. Payton ainda não pretende se casar, e por certo se afastou de você.

— Talvez a atração que sentiu por mim tenha sido muito forte.

— Fitou as duas Murray com desdém. — Pelo menos tenho predicados que atraem os homens.

— Mas parece que não é muito inteligente, pois acha que essa mentira dará certo — replicou Avery.

— Não será preciso. Basta que possa me casar com quem desejo. — Levantou-se de repente e se aproximou da senhora ador­mecida, acordando-a com certa rudeza. — Vamos nos recolher, tia Agnes. — Voltou-se para Avery. — E se pensa que dormindo com meu irmão Cameron vai conseguir evitar esse casamento, está muito enganada!

Assim que a jovem se retirou com a velha senhora, Avery olhou em volta, procurando algo para descarregar a fúria. Gillyanne se aproximou.

— Tenho certeza absoluta que Katherine mente sobre Payton.

— Sem dúvida! A cada dia suas palavras revelam isso. E o pai da criança deve ser um homem pobre.

— Não podemos permitir esse casamento.

— Katherine deve ter tido amantes na corte. Não aqui em Cairn-moor, pois todos acabariam sabendo, e ela não poderia mentir.

— Payton logo chegará, e poderemos perguntar se a viu com outros nos bailes da corte. Precisamos obter um nome. Creio que Cameron começa também a suspeitar de Katherine.

— Mesmo assim quer obrigar Payton a esse casamento.

— Porque não surgiu outra possibilidade até o momento. Precisamos conversar com a criada particular de Katherine.

Gillyanne seguiu a prima até a porta.

— A mulher foge de nós.

— Então precisamos da ajuda de Anne.

Ao saírem, esbarraram com Cameron e Leargan.

— Verei você mais tarde — avisou Avery. — No momento preciso resolver uma coisa com Gillyanne.

Cameron aquiesceu, e observou-a afastar-se. Depois voltou-se para o primo.

— Vai tentar me convencer de que as duas não estão planejando alguma coisa?

— De jeito nenhum. Concordo com você.

 

— Alguém viu Avery? — perguntou Cameron, entrando no solário das senhoras.

Passeou o olhar pelo cômodo, refletindo que sempre gostara daquele recanto, embora no momento estivesse carregado com um clima de tensão e raiva. Gillyanne sentava-se ao lado de Anne, fingindo bordar, mas encarando Katherine o tempo todo.

Cameron conhecia esse olhar, que parecia desnudar todos os pensamentos de uma pessoa.

Anne conservava o rosto placidamente inclinado para o trabalho de agulha, mas mantinha vigilância sobre as duas moças. Do outro lado, tia Agnes cochilava, como sempre, alheia ao que se passava ao redor.

— Perdeu sua concubina? — perguntou Katherine. Cameron ia repreendê-la com raiva, mas mudou de idéia.

— Corrija-me se estiver errado, Katherine, porém não é você quem está aí sentada, com o ventre inchado pela semente de um homem? — Calou-se ao vê-la enrubescer, e depois prosseguiu: — Então trate de tomar cuidado quando falar de lady Avery. E volto a fazer a mesma pergunta. Alguém a viu?

— Está nos jardins — respondeu Gillyanne. — Recebeu notícias de nossas famílias?

— Sir Payton chegará pela manhã. Não perdeu tempo, porque enviei uma carta há oito dias. — Cameron abriu a porta. — Vou avisar Avery.

— Cameron — disse Katherine.

— Sim?

— Diga a essa menina insuportável para parar de me fitar desse jeito.

Lorde MacAlpin sabia como esses olhares perturbavam, e tratou de satisfazer a irmã.

— Gillyanne, pare de olhar para Katherine.

Avery arrancou umas ervas-daninhas, perguntando-se por que a jardinagem não parecia acalmá-la como sempre acontecera no passado. Acabou concluindo que antes não sofria por amor.

Se fosse esperta, trancaria sua porta para Cameron, que nunca lhe dava esperança para o futuro, refletiu. Tinha todo o direito de dar-lhe as costas, mas sabia que não faria isso. Aliás, se o expulsasse de seu leito, iria contra o plano de fazer com que ele a amasse tanto quanto o amava, e de se tornar imprescindível na vida dele. Só desejava que Cameron lhe desse alguma pista para saber se estava conseguindo seu objetivo.

Suspirou e ergueu o rosto para o céu. Era hora de se preparar para o jantar e precisava tomar um banho. Ergueu-se para deixar o jardim, e quase esbarrou em Cameron.

— Veio aqui me dizer algo ou só me admirar toda suja de terra? — perguntou com ar de riso.

Quando ele apenas a fitou de modo atento, Avery inquiriu:

— Algo errado?

— Não. Estou apenas procurando um ponto limpo no seu rosto para beijá-la.

Avery riu, mas o rosto de Cameron tornou-se sério.

— Seu irmão chegará ao amanhecer.

— E então poderei partir com Gillyanne?

— Sim, caso sir Payton aceite as condições.

— Gostaria de ter uns momentos a sós com Payton antes de deixar Cairnmoor. Não o vejo há meses e por certo continuarei sem vê-lo por muito tempo depois de amanhã.

— Está bem.

Haviam chegado ao saguão do castelo, e Avery dispunha-se a subir as escadarias, quando viu Katherine descendo os degraus.

— Rolou com sua amante na lama? — perguntou a jovem, fitando Avery de cima a baixo com repulsa.

Por certo ela nunca se suja, pensou a jovem Murray, sorrindo ante a tensão de Cameron. De repente, rápida como um raio, subiu os degraus que a separavam de Katherine, tomou-lhe o rosto alvo entre as mãos, beijou-a nas duas faces, e deu-lhe um abraço aper­tado que deixou o rico vestido manchado.

— Vou sentir saudade, Katherine — sussurrou, percebendo o olhar furioso da outra. — Mas acho que a recíproca não é verdadeira.

Voltou a subir as escadas, arregaçando as saias, quando Cameron perguntou:

— Avery, quer jantar comigo em meus aposentos?

Só havia uma razão para tal convite, pensou ela. Era a última noite que passariam juntos. Naquele instante soube que devia mandá-lo para o inferno, mas respondeu:

— Sim, estarei lá dentro de uma hora.— Fitou o próprio vestido sujo, e emendou: — Duas horas.

Avery permaneceu enrolada na toalha de linho e abriu a porta para Anne de modo distraído. Seria sua última noite com Cameron… por um certo tempo. Não ousava nem pensar na palavra "sempre", embora essa palavra ficasse rondando sua mente como um punhal erguido e pronto a ferir seu coração. Precisava manter uma certa esperança no futuro, ou desperdiçaria seu encontro chorando o tempo todo.

Pensava também que gostaria de usar algo especial, e Anne pareceu ler seus pensamentos, porque arrancou-lhe das mãos a roupa de baixo usual.

— Nada disso! Não esta noite.

— E por que não?

— Será a última que passará em Cairnmoor… por um certo tempo.

— Quanto otimismo! Anne ignorou o comentário.

— Uma ceia especial foi enviada aos aposentos de lorde Cameron. Terão privacidade.

— Nada é muito particular neste castelo.

— Em especial porque todos se interessam por seu relacionamento com o amo. — Sorriu, satisfeita. — Gostamos muito dos dois. Vista isso!

Assim dizendo, exibiu o que trazia suspenso no braço.

Avery prendeu a respiração ao ver a transparência da camisola e do roupão que pareciam ter mais rendas que tecido. Eram da cor do ouro com o rendado em negro. Um escândalo, concluiu, algo digno de uma cortesã de luxo.

— Onde encontrou essa roupa vergonhosa, Anne?

— Lembra-se de ter dito duvidar que Katherine fosse a flor pura e imaculada que todos acreditam ser? Bem, creio que tem razão. Estas não são as vestes adequadas para uma jovem casta.

— Katherine?! Meu Deus! Encontra as coisas mais interessantes nos seus armários! — Avery riu. — Entretanto ainda não flagrou um homem escondido ali.

— Lamento. Se ela dividiu o leito com algum dos rapazes daqui, eles são muito discretos a esse respeito. Vamos lá! Vista-se!

— São lindas, mas vou me sentir nua. Além do mais, se pertencem a Katherine, ficarão muito largas em mim.

— Nada disso. — Com gesto rápido, Anne vestiu a camisola em Avery.— Ficou perfeita, e o roupão pode ficar um pouco largo, não terá importância.

Avery examinou o resultado, e riu.

— Continuo me sentindo despida. O que Cameron vai dizer? Anne soltou uma gargalhada.

— Ficará tão surpreso que não dirá nada.

Cameron bebericava vinho enquanto andava de um lado para o outro. Parecia que seria a primeira noite com Avery, mas já eram amantes havia várias semanas, e essa, na verdade, era a última noite juntos.

Esse pensamento o deixou muito ansioso, e tratou de não pensar a respeito. Naquele instante ela entrou, fazendo-o voltar-se para fitá-la e ficar estático.

As roupas que Avery usava revelavam cada curva de seu corpo de maneira mais provocante que se estivesse completamente nua.

— Onde conseguiu essas vestes? — perguntou com voz rouca, aProximando-se e tocando um dos seios brancos entre as mãos.

— Anne as trouxe para mim.

— Onde será que as encontrou?

— Isso não vem ao caso, já que está satisfeito.

— Como não ficaria?

Avery estremeceu de prazer. Quando ouvia sua voz profunda e cheia de paixão nada mais interessava no mundo.

— Tire o roupão— pediu Cameron sem afastar o olhar do corpo perfeito que parecia cintilar sob o tecido dourado.

Avery corou.

— Não há muita roupa por baixo.

— Sei disso. Quero admirá-la enquanto jantamos.

— E por que não tira sua túnica também?

— Quer me ver despido à mesa?

— Tem suas fantasias e eu as minhas — replicou Avery em tom malicioso.

Pouco falaram enquanto comiam e, de vez em quando, Avery colocava uma cereja entre os lábios do amante, que a fazia beber vinho de sua taça.

— O modo como me fita, menina, me faz esquecer de que sou um homenzarrão feio de pele muito morena e sobrancelhas cerradas e negras.

Avery ergueu-se e deu a volta na mesa.

— Ah, Cameron! É um homem muito bonito. — Sentou-se em seu colo, e acariciou-lhe os cabelos. — Tem um físico forte e musculoso e olhos penetrantes como brasas acesas. Suas cicatrizes traduzem sobrevivência e vitórias.

Com a sensualidade natural de uma mulher apaixonada, beijou-lhe o ventre rijo, fazendo-o gemer de prazer.

— Será uma noite inesquecível — murmurou, deslizando os lábios para o peito musculoso. — Teremos lembranças para o resto de nossas vidas…

— Porque amanhã…

Avery colocou um dedo sobre sua boca, fazendo-o calar.

— Não diga nada. Vamos ignorar o futuro e aproveitar o momento.

Assim dizendo, continuou a acariciá-lo até Cameron cerrar os olhos e buscar forças para manter o controle mais um pouco. Por fim, com gesto rápido, ele a fez descer de seus joelhos, e sentaram em uma poltrona de espaldar alto. Posicionando-se entre suas pernas, possuiu-a de modo lento e voluptuoso, fazendo-a tombar a cabeça para trás, e soluçar de prazer.

Beijou-lhe os seios brancos e túmidos, e a dança do amor foi intensificando o ritmo, até seus corpos vibrarem no auge da paixão.

— Quero ver seu desejo aumentar a cada instante, até o fim — sussurrou-lhe Cameron ao ouvido.

Avery deixou-se levar, seguindo o clamor do sexo, porque na­quela noite não podiam existir reservas ou falsos pudores.

Mais tarde Cameron tomou de um pedaço de linho, umedecen-do-o em uma jarra com água. Depois deslizou o tecido macio pelo corpo de Avery, enxugando-lhe o suor, e fazendo-a vibrar com os gestos sensuais e acariciadores. Ofereceu-lhe hidromel, bebida for­te que logo lhe subiu à cabeça.

Beijou-lhe os longos cabelos dourados e murmurou:

— O que deseja de mim, Avery? Peça o que quiser. Esta é uma noite mágica.

Deixe-me ficar com você para sempre!, bradou seu coração, mas ela respondeu com ar de riso:

— Estou preocupada em sobreviver depois de tanto prazer. Beije-me sem parar. Adoro seus beijos.

— Termine sua bebida.

— Estou zonza.

— Ótimo! É esse meu plano — replicou ele, deslizando os lábios pelo lóbulo da orelha rosada, fazendo-a estremecer e gemer.

— Beije todo o meu corpo, Cameron, como sabe fazer.

— Nunca antes beijei cada centímetro do corpo de uma mulher. Ela pareceu muito surpresa.

— Verdade? Não consigo acreditar! É um homem tão experiente quando se trata de sexo…

— Talvez, mas sempre me relacionei com mulheres muito vividas que já haviam passado por centenas de experiências, e isso me desgostava um pouco. Mas você, Avery, é diferente. Tomei-a virgem e sou seu primeiro homem. Seu corpo é uma flor que desabrochou sob minhas mãos, delicioso, inocente e limpo. — Suspirou e voltou a beijá-la com desejo. — Sempre quero acariciar cada parte de sua pele, e nunca fico satisfeito.

Ela riu com suavidade.

— Por isso me embebedou com hidromel? Para que ficasse solta e sem inibições?

— Talvez, mas não era preciso, pois você sempre se entrega de maneira total e absoluta. Minha fome é insaciável, como a de uma fera. A cada novo contato fico ansiando pelo próximo.

Tomou um púcaro de geléia de amora sobre a mesa, e fitou-a com um brilho malicioso no olhar, fazendo-a compreender, mesmo sem palavras, quais eram suas intenções. De modo vagaroso e deliberado, espalhou a geléia sobre seu corpo macio.

— Creio que passamos da espontaneidade para a licenciosidade muito depressa — comentou Avery, fechando os olhos e se entregando às delícias.

— Bela palavra… licenciosidade… — murmurou Cameron, muito ocupado em deslizar os lábios pelos seios intumescidos.

 

A batida seca à porta e a voz de Leargan não era o que Cameron desejava ouvir logo cedo. Aconchegou-se ao corpo sedoso de Avery e manteve os olhos fechados. Sorriu ao perceber que começava a se sentir excitado de novo, e isso era inacreditável, já que haviam passado a noite fazendo amor.

— Cameron! Saia da cama!

— Vá embora, Leargan!

Mal gritara, temeu acordar Avery, mas ela apenas resmungou sobre o barulho, continuando a dormir.

— Um certo sir Payton aguarda no salão principal.

Todo o calor abandonou o corpo de Cameron. De modo lento, libertou-se dos braços de Avery, embora ansiasse por permanecer ao seu lado. Tratou de lembrar-se que Katherine estava grávida e precisava de um marido. Isso lhe deu forças para sair da cama. O dever o chamava, batendo na porta com alarde, e era obrigado a obedecer. Não era apenas irmão de Katherine, mas o senhor de Cairnmoor, e não tinha escolha.

Entreabrindo a porta do quarto, avisou Leargan que desceria em dez minutos. Então fez suas abluções matinais, lutando para ignorar a longa noite de prazer que tivera com Avery. Quando acabou de se vestir, ela acordou, e isso o deixou inquieto. Sabia que era covardia, mas gostaria de ter saído do quarto em silêncio. Afinal, o que havia a dizer?

— Payton chegou — disse Avery, adivinhando, e sentando-se na cama, enquanto afastava os cabelos do rosto.

— Sim, e espera por mim lá em baixo no grande salão — respondeu Cameron, cerrando os punhos ante o desejo de tocá-la mais uma vez.

Avery enrolou-se no lençol e deixou o leito.

— Posso falar com ele a sós antes de partir?

— Sim.

— Obrigada. Irei aguardá-lo em meus aposentos. Cameron a observou enquanto rumava para o seu quarto, envolta no lençol.

— Avery?

— Sim?— Ela parou junto à porta de conexão, mas sem fitá-lo. — Não há nada a dizer.

— Creio que não. — Cameron esfregou os dedos no peito, sem saber por que se sentia tão mal. — Espero que…

— Também espero, Cameron, mas não sei se pela mesma coisa.

O som da porta se fechando com um estalido seco o fez estremecer. Tratou de direcionar os pensamentos para o próximo passo, e pensou que mandaria alguém limpar seu quarto de cima a baixo, nessa manhã. Assim esperava não sentir mais o perfume de Avery.

Um grupo de mulheres se formara perto do grande salão, e quando viram o senhor do castelo, deram passagem, com um rumor de saias. Murmuravam sobre o recém-chegado que, de pé ao lado de Leargan, aguardava.

Sem dúvida sir Payton Murray era um homem bonito, refletiu Cameron com certa irritação. Não muito alto ou de físico avantajado, mas algo lhe dizia que poderia manejar a mais pesada espada com facilidade. Estava bem vestido e cada gesto denotava nobreza e elegância.

Era como Gillyanne o descrevera, sem tirar nem pôr, além de ser muito jovem.

— Quantos anos tem? — perguntou-lhe à queima-roupa, aproximando-se dos dois homens.

— Farei vinte e um dentro de um mês — respondeu Payton com tranqüilidade.

— Mas possui um título de nobreza há vários anos?

— Sim, o rei me premiou por bravura quando tinha dezessete anos.

— Salvou o príncipe de morrer afogado — explicou Leargan com animação.

Cameron serviu-se de vinho, e observou o primo, que sorria sem parar.

— Tem algo a dizer, Leargan? Senão nosso convidado pensará que somos um bando de tolos sorridentes.

— Sir Payton, conheça sir Cameron MacAlpin — apresentou Leargan, sem perder a calma.

— Payton, meu querido!

Três pares de olhos se voltaram para a porta, e viram Katherine, passando pelo grupo de mulheres e correndo na direção do recém-chegado. Com gestos tranqüilos, o rapaz evitou que a jovem o sufocasse de abraços e, esquivando-se, beijou-lhe a mão com polidez.

A jovem dama fez uma expressão de desagrado, entretanto não escapou ao olhar observador de Cameron a ausência de verdadeira emoção por parte da irmã.

— Saiam do caminho, por favor — disse uma outra voz feminina à porta.

Ante o som, Katherine enrijeceu, murmurando:

— Pensei que a pequena estivesse dormindo.

Payton desviou o olhar frio da jovem, e exclamou com um sorriso:

— Gillyanne, meu amor!

Graciosa, a menina se atirou nos braços do primo. Após erguê-la do chão e beijá-la, ele a fez tocar com os pés os luxuosos tapetes, e observou:

— Está muito bonita, Gilly.

— Sim. As turbulências e problemas não conseguiram me prejudicar — brincou ela.

— Tem razão, querida. Só a fizeram se transformar em uma jovem encantadora.

— Que gentileza!

— Obrigado. Tento ser um cavalheiro sempre.

— Pensei que estivesse de saída— interrompeu Katherine, postando-se entre os dois primos que se divertiam com a troca de brincadeiras.

— Sentirá minha falta? — perguntou Gillyanne com expressão angelical, e sem esperar resposta, virou-se para Cameron:— Creio que não serei convidada para o casamento. A propósito, quando será?

Cameron sabia que havia mais do que mera curiosidade na pergunta de Gillyanne, e respondeu:

— Daqui a uma ou duas semanas.

— Mas, Cameron… — protestou Katherine. — E meu filho?

— O que tem ele? Não vai a lugar nenhum.

A jovem pareceu chocada com a resposta, enquanto Payton e Leargan fixaram o olhar em seus copos de vinho, tentando conter o riso. Gillyanne encostou-se em Cameron, que a cingiu com os braços.

— Quem diria! Você tem senso de humor — disse ela, dirigin-do-lhe um sorriso.

— Devo ter mesmo, porque ainda não a estrangulei.

— Sempre querida por todos, Gilly? — provocou Payton.

— Por algumas pessoas, pelo menos — replicou a menina. — Onde está Avery?

— Sim. Onde está minha irmã? — questionou Payton, fitando Cameron.

Analisando o olhar do recém-chegado, Cameron teve a nítida impressão que por trás do rosto bonito e das maneiras elegantes, Payton Murray era um leão pronto a lutar por seus entes queridos e seus direitos. Até o momento nada vira de errado no rapaz e, de modo estranho, isso o irritava um pouco.

— Avery deseja um rápido encontro com você antes de deixar Cairnmoor — disse Cameron. — Espera-o em seus aposentos. Decidi libertar sua irmã e sua prima já, em um gesto de boa vontade, esperando que cumpra com seu dever, sir Payton.

— Vou levá-lo até ela — prontificou-se Gillyanne. — depois pegarei meus pertences e trarei para baixo. Diga a Avery que esperarei aqui.

— Será um breve encontro, Gilly. Bowen disse que aguardará duas horas e já se passou uma desde que cheguei.

— Bem, se o prazo se esgotar irei até os portões e lhe direi para esperar mais um pouco. — Gillyanne relanceou um olhar para Cameron e explicou: — Bowen é o capitão da nossa guarda e muito protetor a meu respeito.

Assim que Payton e Gillyanne saíram, Cameron voltou-se para Leargan.

— Quantos homens dos Murray estão sentados do lado de fora de meus muros?

— Cerca de quarenta. Tenho a impressão que a mensagem que nos enviaram é que caso as moças não apareçam dentro de duas horas, os Murray ficarão desconfiados de nossas intenções. É me­lhor nos assegurarmos que tal não aconteça.

— Sim — concordou Cameron. — A última coisa que desejo é uma batalha.

— Bem, jamais poderiam tomar Cairnmoor com um punhado de soldados — intrometeu-se Katherine. — Não há motivo para preocupação.

— Creio que não deseja que mate os homens de sir Payton até se ver casada com ele.

A irmã cerrou os lábios demonstrando aborrecimento.

— Vejo que voltou a ficar mal-humorado. Vou me retirar. Assim que Katherine se afastou, Cameron despencou em sua cadeira favorita. Mal acordara e a manhã já prenunciava um dia cheio de problemas, refletiu com seus botões.

Avery sentava-se na cama, olhando para sua pequena bagagem, e contendo as lágrimas. Anne e Therese tinham acabado de visitá-la em seus aposentos para desejar-lhe uma boa viagem, e ambas agiam como se soubessem que em breve voltaria. Avery desejava muito acreditar nisso, entretanto tudo em que conseguia pensar naquele momento era que Cameron jamais expressara seu amor e o desejo que ficasse. Nem uma vez, nem no auge da paixão, ele dera a perceber que não desejava o fim do romance.

Ergueu o rosto quando a porta do quarto se abriu, e lá estava Payton, trazendo-lhe alegria e dor ao mesmo tempo. Amava-o de todo o coração, mas essa visita assinalava o início de sua jornada de volta para casa, longe de Cameron MacAlpin.

Contendo-se, sorriu para o irmão, que olhou ao redor e comentou:

— Deram-lhe um belo quarto. Você e Cameron são amantes?

— Pergunta nada sutil, mano.

— São?

— Sim, mas não precisa ficar com ar de aborrecimento. Entreguei-me de boa vontade.

— Então Cameron não a seduziu para vingar-se?

— Bem, no início o plano era esse. Disseram-lhe que você estuprou sua irmã, e só eu e Gillyanne estávamos por perto para defendê-lo. — Suspirou, resignada. — Não fomos testemunhas muito confiáveis.

— Porém Cameron já não acredita nisso.

— Tem razão. Não sei muito bem quando foi que mudou de opinião, mas de fato isso aconteceu. E seus planos a meu respeito mudaram também. Desistiu de enxovalhar minha honra, e sei que me deixaria em paz… se eu quisesse.

— Menina terrível! — exclamou Payton, sorrindo, mas logo ficando sério outra vez. — Você o ama.

— Desesperadamente — admitiu Avery com simplicidade.

— Entretanto ele a está mandando embora.

— Creio que não tem alternativa. Quer ver a irmã casada com você, agora que a sabe grávida.

— A criança não é minha.

— Não precisa me dizer isso, Payton. No momento em que Cameron me disse que você renegara a paternidade soube que não era o culpado. Portanto, sei também que jamais dormiu com Katherine.

— Mas MacAlpin insiste em me casar com a irmã, e espera que, com seu gesto de boa vontade, permitindo que vocês duas partam para Donncoill, eu me submeta.

— Sim e não. Cameron tem dúvidas, Payton. Eu e Gillyanne sabemos disso.

Payton praguejou em voz baixa, e começou a andar de um lado para o outro.

— Mesmo assim quer me forçar ao casamento.

— Tem uma irmã solteira e grávida. Katherine admitiu com relutância que não foi violentada mas seduzida, entretanto insiste que você é o pai de seu filho. O que o pobre Cameron pode fazer?

— Nada, e compreendo sua posição. Entretanto isso não diminui o terror que sinto de tornar aquela jovem minha esposa.

Avery abraçou-o.

— Quando será o casamento?

— Em uma ou duas semanas. — Payton examinou o rosto da irmã. — Por que será que esta notícia a deixou tão feliz?

— Porque é uma prova de que Cameron duvida da palavra de Katherine.— Encostou as mãos no peito.— Oh, meu irmão! Ainda temos tempo de provar que Katherine é uma mentirosa, e Cameron deu-lhe oportunidade para livrar-se dela, postergando o casamento. Será que não percebeu isso?

— Sim, pensei o mesmo, mas será difícil descobrir a verdade. Avery fez um gesto animado com a mão.

— Conseguiremos, não se preocupe.

— Gostaria de ter a sua confiança, mana.

— Terá.

Payton sorriu.

— Tenho certeza de que você e Gillyanne formam uma dupla e tanto. Foi por isso que quis se encontrar a sós comigo? Para me dar esperanças?

— Sim, e para me assegurar que compreende as razões de Cameron e por que me tornei sua amante. Isso não é segredo em Cairnmoor, e logo ficaria sabendo, meu irmão. Além do mais, Katherine vai encher os seus ouvidos tentando me denegrir. Amo Cameron, e me entreguei porque quis. Só queria lhe dizer isso cara a cara, Payton.

— Crê que quando a poeira assentar Cameron tentará trazê-la de volta para se casar?

— Não sei— respondeu Avery, contendo as lágrimas.— Todos acham que voltarei, mas Cameron não me dá esperanças. Nunca fala de amor, apesar de me desejar e se importar comigo. É um homem cheio de cicatrizes morais, Payton, e conheço seu passado para saber que é digno de compreensão. — Balançou a cabeça, suspirando. — Mas isso não importa. Seu problema, meu irmão, é o mais sério no momento.

— Bowen está liderando nossos homens e me deu duas horas para entregar-lhe você e Gillyanne.

— Meu Deus! — Avery cruzou os braços sobre o peito. Bem, tenho informações para lhe dar e é preciso falar depressa. Ouvi mexericos entre os criados que Katherine teve um romance secreto na corte. Precisamos procurar um nobre rural, bonito, alto e forte. Ruivo, de olhos castanhos. É pobre e tem seis irmãos. — Avery observou a surpresa de Payton. — Conhece esse homem?

— Sei que existe algo que devo me lembrar, mas não consigo. Virá com o tempo. Tenho duas semanas, e já é um bom início. — Inclinou-se e pegou os pertences de Avery, segurando-a pelo braço. — Precisamos ir agora, antes que Bowen tente derrubar os portões.

— Gillyanne, se não parar de me fitar atirarei a toalha da mesa sobre você! — ameaçou Cameron, cerrando o cenho.

A menina apenas riu.

— Sentirei sua falta, lorde MacAlpin.

— E sou tolo o suficiente para dizer que sentirei o mesmo, menina.

— Payton e Avery se aproximam, é hora de partir. — Gillyanne ergueu-se, beijou-o no rosto, e murmurou: — Não fique triste. Preste atenção no que ouve. Tudo dará certo no final, mas só se esquecer o passado.

Do outro lado da mesa, Leargan ergueu-se e acompanhou a menina até a porta.

— Minha jovem, se você fosse um pouco mais velha e eu um pouco mais moço, não a deixaria escapar. Faríamos um belo par.

— Acabaria deixando-o louco, sir Leargan.

— Sim, mas seria uma doce loucura. — Beijou-a no rosto e a fez aproximar-se de Avery, que parara às portas do grande salão. — Também sentirei sua falta, minha bela Avery.

De modo inesperado, Leargan tomou-a nos braços e deu-lhe um profundo e longo beijo. Ouviu-se algo se espatifando no chão, e quando o beijo terminou, voltou-se e viu que um pajem erguia a cadeira que Cameron deixara cair.

Leargan sorriu com satisfação e olhou para Avery, que comentou:

— Gosta de se arriscar, não, milorde?

Virou-se para o dono do castelo, acenou, e Cameron retribuiu com um cumprimento frio.

Chegaram aos portões e Bowen abraçou as jovens com emoção. Quando montaram a cavalo, Avery lutou para não olhar para trás.

— Cameron não disse nem uma palavra — lamentou-se.

— Onde está Leargan? — berrou Cameron.

— Foi caçar — respondeu Payton.

— Muito esperto! Está fugindo de mim.

— Foi só um beijo.

— Pois devia ter impedido que fizesse isso com sua irmã!

— Avery não se incomodou muito. Leargan só quis se despedir. — Payton recostou-se na cadeira e mudou de assunto. — Quer realizar o casamento dentro de alguns dias?

— Preciso encontrar um padre e fazer arranjos. Dentro de quinze dias será melhor.

Assim dizendo, deu as costas e saiu do salão.

Payton balançou a cabeça com tristeza. O dono do castelo de Cairnmoor lutava contra os próprios sentimentos, refletiu.

Seus pensamentos foram interrompidos por Leargan, que surgiu do outro salão.

— Cameron já foi?

— Sim.

O primo suspirou.

— Não é o pai da criança de Katherine, certo?

— Não, mas posso descobrir quem é. Quer me ajudar, sir Leargan?

— Claro. O que deseja?

— Sempre que eu estiver a sós com minha suposta noiva, peço-lhe que fique por perto para ouvir a conversa.

— Pensa fazê-la admitir a mentira comigo como testemunha?

— Sim. Preciso de alguém confiável. Minha palavra não bastará.

— Pode contar comigo! — exclamou Leargan, estendendo a mão.

 

Contra a vontade, Cameron viu-se fitando a cadeira que Avery costumava ocupar no quarto. Há uma semana não fazia outra coisa senão recordar os momentos vividos a seu lado.

Nos dois primeiros dias tentara beber para esquecer, mas quando despertara de um sono pesado com dor de cabeça e sentado na mesma cadeira, desistira. Nem queria imaginar o que dissera a Leargan, que sempre o levava para a cama quando não conseguia andar.

Avery permanecia em seus sonhos, com seus olhos lindos, sua voz, o modo como o fitava quando faziam amor. Fora a única mulher que o fizera sentir-se bonito e um grande amante, refletiu, meio envergonhado.

Deixou o quarto com brusquidão. Precisava mergulhar no trabalho e, ao fim do dia, sentir-se exausto para não pensar na pele suave de Avery. Entrou no grande salão onde Leargan e Payton comiam e conversavam como dois grandes amigos. Resmungando um cumprimento, ia sentar-se quando viu um pote de amoras, e isso o fez recordar os momentos de loucura que vivera com Avery. Irritado, agarrou o pote, atirou-o na parede, e deixou a sala.

Leargan fitou os cacos e murmurou:

— Nem quero saber por que isso o deixou tão furioso.

— Também não — concordou Payton.

— Cameron está piorando.

— Bem, pelo menos parou de beber.

Ambos caíram na risada.

— Não devíamos rir. O pobre-coitado está sofrendo.

— Sem dúvida, e sei o motivo de seu sofrimento.

— E irá aceitá-lo quando se casar com Avery? — — perguntou Leargan com segurança.

— Confesso que não sei o que ela viu nesse homenzarrão de cabelos e olhos tão escuros, mas no fundo é isso que importa e, sim, irei aceitá-lo muito bem.

— Acha que por sua vez Avery concordará em ser sua esposa quando Cameron recobrar a razão?

— Claro que sim. Nós os Murray costumamos ter um único amor na vida, e rezo para minha irmã conquistar o seu em breve.

— Breve? — replicou Leargan. — Então está prestes a descobrir a verdade, Payton?

— Sim. Conversei com todas as criadas em Cairnmoor, e todas foram muito prestativas. — Sorriu ao ver a expressão maliciosa de Leargan, e prosseguiu: — Também conversei com tia Agnes.

— Agnes? É um amor de criatura e a amo muito, mas não me parece que se possa ter uma conversa proveitosa com ela.

— É preciso separar o joio do trigo, Leargan. Descobri coisas interessantes em meio ao seu tagarelar inconseqüente.

— Então acredita já saber o suficiente para arrancar a verdade de Katherine?

Payton balançou a cabeça de maneira afirmativa.

— E pretendo seguir um conselho que Gillyanne me deu antes de partir. Disse-me para deixar Katherine irritada, porque ela não mede as palavras quando se zanga. Precisarei rejeitá-la.

— Mas já fez isso.

— Sim, mas Katherine pensa que agora estou em suas mãos. Acredita ter vencido o jogo e enganado todos nós. É hora de negar-lhe tudo que pensa ter conseguido, inclusive viagens à corte.

— Vai ficar furiosa.

— Isso mesmo. — Payton ergueu-se. — E irei provocá-la para que me conte seu sucesso com os outros homens.

— E quando pretende agir? — quis saber Leargan, levantan-do-se também.

— Hoje à noite. Com um passeio nos jardins.

— Boa estratégia. Terei muitos lugares para me esconder ali.

— Que sujeira é essa?! — exclamou Anne, entrando no salão com Therese. — Geléia? — Voltou-se para Payton sem cerimônia. — Foi o senhor quem fez isso?

— Não, senhora. Foi seu amo.

Anne balançou a cabeça, confusa.

— Não entendo. Pensei que gostasse de geléia de amora, mas é a segunda vez que faz isso.

— Segunda? — repetiu Payton.

— No dia que o senhor chegou, encontrei um púcaro quebrado nos aposentos de lorde Cameron, e havia suco de amora espalhado em sua túnica e nos lençóis, e…

Foi interrompida pelas risadas de Leargan e Payton, que saíram do salão.

— Os homens são criaturas esquisitas — resmungou Anne. — O que será que imaginaram quando contei a história da geléia no quarto?

— Quem sabe lorde Cameron usou-a com propósitos… eróticos? — sugeriu Therese.

Anne pareceu pensar.

— Bem, eu e meu marido gostamos de usar mel em nossas brincadeiras noturnas.

Foi a vez das duas darem boas gargalhadas.

 

Cameron olhou para o copo com vinho e imaginou se não seria bom ficar bêbado de novo. O trabalho não resolvera seu problema. Relanceou um olhar pelos demais presentes. Leargan e Payton continuavam a conversar como grandes amigos, Katherine estava aborrecida por não receber atenção, e o primo Iain ouvia com paciência uma das longas e enfadonhas histórias de tia Agnes.

Cameron suspirou. Sentia falta de Avery e a cada dia a saudade aumentava.

— Irmão — disse Katherine em voz bem alta a fim de atrapalhar a conversa de Payton. — Os criados andam roubando alimentos e limpando mal o castelo.

— Por que diz isso?

— Havia geléia espalhada pela sala e levaram horas para limpar tudo.

Leargan fitou o primo com um olhar malicioso.

— Sim, há pessoas que apreciam muito geléia.

Cameron remexeu-se na cadeira, pouco à vontade. Conhecia Leargan muito bem para saber que seu segredo erótico de alguma maneira fora descoberto. Payton salvou-o do embaraço, dizendo:

— Um esplêndido jantar, sir Cameron, como sempre. — Fez um cumprimento e levantou-se. — Creio que darei um passeio nos jardins para fazer a digestão.

— Que ótima idéia! — exclamou Katherine, levantando-se e postando-se ao lado do rapaz.

Sem nada dizer, Payton deu-lhe passagem e seguiu logo atrás. Observando-o, Cameron refletiu que ele pouco fazia para agradar sua irmã. Voltou-se para Leargan a fim de fazer um comentário a esse respeito, mas viu que o primo também já se levantara e seguia o casal de modo sorrateiro. Isso o deixou desconfiado.

— Não precisa acompanhar os dois ao jardim — disse tia Agnes. — Leargan irá vigiá-los.

— Por isso os seguiu?

— Oh, sim! Sempre os segue. É um homem tão prestimoso e discreto! Nunca deixa que os dois pombinhos o vejam para dei­xá-los à vontade. Pode ir dormir, Cameron. Trabalhou muito hoje.

A velha senhora deu um longo suspiro, o que prenunciava o início de uma longa conversa, e Cameron ficou ansioso. Não desejava magoar a meiga tia Agnes e deixar a mesa, porém precisava saber o que Leargan e Payton tramavam. Foi então que Iain salvou a situação, perguntando à velha senhora se gostara do vinho.

Ela deixou escapar outro grande suspiro, e Cameron aproveitou para sair correndo da sala. Todos no castelo sabiam que sempre que lhe perguntavam isso, a boa senhora passava uma hora com­parando todos os vinhos que conhecia desde os tempos de criança.

Sabendo que o pobre Iain ficaria preso por muito tempo, prometeu para si mesmo compensá-lo no futuro pelo aborrecimento, mas naquele instante tinha coisas mais importantes com que se ocupar.

Procurando não fazer ruído, penetrou nos jardins que ocupavam a parte de trás do castelo, e que tinham sido o orgulho de sua mãe. Logo viu Payton apoiado na beira do poço circundado por canteiros.

Katherine postava-se a sua frente, denotando irritação. No lado oposto e um pouco mais distante, observou uma sombra. Era Leargan.

Silenciosamente, Cameron circundou o local onde Katherine e Payton se encontravam, e sentou-se em uma pedra encravada no meio de um caramanchão coberto por folhagens. Algo lhe dizia que talvez fosse ouvir uma conversa desagradável, mas forçou-se a ficar ali. Tinha certeza que Leargan também estava prestando atenção.

— Vamos, Payton, querido — dizia Katherine. — Não acha que já foi frio o bastante comigo?

— Não — replicou o irmão de Avery — , continuarei protestando contra essa intriga que criou.

— Tolice! Por que não pensa em tudo que teremos juntos? Nosso casamento poderá trazer bons frutos.

— Quais?

— Bem, iremos compartilhar do mesmo leito — murmurou Katherine com voz sensual.

— Não.

— Como não? — O riso da jovem soou trêmulo. — Seremos marido e mulher. É claro que dormiremos juntos.

— De jeito nenhum. Recuso-me a dormir ao seu lado até que tenha essa criança.

— Por quê? Pensa que não será parecida com você?

— Já que não sou o pai, é muito provável que assim seja.

— E o que ganhará se não dormir comigo? É claro que a essa altura todos sabem que não sou virgem, mas é a sua palavra contra a minha, e manterei que foi você meu sedutor. Iremos à corte francesa porque sei que em breve viajará.

— Deve ter perdido muito tempo pesquisando a minha vida, Katherine. Estou lisonjeado. Mas o que a faz pensar que a levarei comigo à França?

— Porque serei sua esposa.

— E eu seu amo e senhor. Não me atrai a idéia de levá-la comigo para todos os lugares.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que Cameron estremeceu. Percebia o que Payton tentava fazer, e tirava o chapéu para sua sagacidade. Mas, infelizmente, Katherine estava demonstran­do que não era o amor ou uma grande paixão que a faziam desejar o rapaz como marido a todo custo. Queria seu prestígio e fortuna, pairar de corte em corte, regozijando-se com a inveja das outras mulheres e a admiração dos homens.

Cameron sabia que mais verdades terríveis seriam descobertas, porque Katherine ficava cada vez mais aborrecida com a atitude de Payton, e sempre perdia o bom senso quando era contrariada. Isso ele sabia sobre a irmã. Katherine tentaria magoar Payton, e iria mostrar-lhe como fora pego na armadilha, fazendo papel de tolo.

— Serei sua esposa — repetiu ela com voz trêmula. — Aonde irei quando você viajar de corte em corte?

— Ficará aqui com seu irmão. E também com minha família.

— Não pode fazer isso.

— Posso fazer o que quiser — replicou Payton com voz fria e áspera. — Como você mesma diz, será minha esposa, e quando a criança que carrega no ventre nascer, poderei proclamar a verdade aos quatro ventos.

— Não fará isso!

— O filho não é meu!

— Mas irá se parecer comigo e será meu primogênito. Meu irmão Cameron ficará feliz, e não vai querer ouvir seus protestos.

— Sim, vejo que planejou tudo muito bem — disse Payton. — Mas acontece que já sei quem é seu amante e pai de seu filho. Um rapaz ruivo de olhos castanhos que conheceu na corte, chamado Malcolm. Cometeu um sério erro, Katherine.

— Não! Foi você quem o cometeu. Nunca deveria zombar de mim! Meu irmão não permitirá que me desonre, e precisará se casar comigo.

— Apenas se não conseguir provar suas mentiras.

— Por que insiste em dizer que a criança não provará nada a seu respeito?

— Porque Malcolm Saunders é ruivo de olhos castanhos, e tem uma marca de nascença nas costas. Se a criança nascer com essas características…

— É mentira!

— Malcolm irá comprovar a verdade. É um homem bom, mas você só conseguiu ver que é pobre. Apenas quis usá-lo para o seu prazer, e ele fez parte do seu plano.

— Malcolm não tem marca nenhuma! — gritou Katherine. — E, afinal, como pode saber disso?

— Conversei com meu escudeiro, e Gil me disse que já nadou com Malcolm e viu a marca. Com certeza, preocupada em seduzi-lo, não reparou nesse detalhe, Katherine. Saiba, de uma vez por todas, que não pretendo dormir com você, e que a verdade será revelada.

— Maldito! Talvez o bebê não tenha essa marca. Malcolm é o sétimo filho — proclamou Katherine, sem perceber que caíra na armadilha.

— Mas é o primogênito da terceira esposa de seu pai.

No caramanchão, Cameron pôs as mãos no rosto. Sua irmã mentira, e era provável que tivesse armado o plano logo de início para conseguir um marido rico e favorecido na corte. Nos últimos tempos começara a acreditar que Katherine não era sincera, porém jamais imaginara que fosse tão maquiavélica e sórdida. E pelo bem dessa menina mimada e egoísta, mandara embora o amor de sua vida. Avery.

Sim! Essa era a verdade que tentava sufocar no peito. Porém, não iria mais negar seus sentimentos. Amava Avery de todo o coração, e estragara o relacionamento por causa de uma mentira. De modo vagaroso, deixou o esconderijo no caramanchão.

— Não faz mal — dizia Katherine, sem saber que era vigiada. — Meu irmão tomará meu partido sempre. Não permitirá que você me deixe, Payton.

— Está enganada — disse Cameron, surgindo no meio dos arbustos espessos que até aquele momento o haviam escondido. — Agora eu também quero me afastar de você.

Leargan se aproximava pelo outro lado e, vendo-se desmascarada, Katherine suplicou:

— Payton me forçou a dizer coisas que não são verdadeiras, Cameron. Não é o que parece.

Mas deu um passo atrás ao perceber a expressão furiosa do irmão.

— Cale-se. Tinha minhas dúvidas, mas acreditava que amasse sir Payton. No início pensei que tivesse sido estuprada, depois você mesma admitiu que fora seduzida e, por fim, compreendi que nada do que disse é verdadeiro. É uma mulher sem coração, Katherine.

— Deixe-me explicar, meu irmão.

— O quê? Que não se importa com quem magoa e faz sofrer contanto que satisfaça seus desejos? Começou essa história acusando Payton de estupro, e isso poderia tê-lo levado à morte. — Suspirou fundo para se acalmar. — Ficará longe das minhas vistas até que o jovem Malcolm Saunders venha a Cairnmoor e se case com você.

— Mas… não passa de um pobretão! Já me pediu em casamento, porém o rejeitei!

— Terá seu dote quando se casarem. Vá embora, Katherine, já!

Sentiu-se aliviado quando ela obedeceu, pois temia perder o controle e esbofeteá-la. Quando a irmã sumiu dentro do castelo, voltou-se para Payton e Leargan.

— Os dois estavam planejando isso há algum tempo, não?

— Sim — respondeu o irmão de Avery. — Minha irmã e Gillyanne conseguiram algumas pistas antes de partirem, mas, para ser franco, joguei verde para colher maduro quando mencionei o nome de Malcolm Saunders. Atirei a isca, e Katherine se entregou.

— E devo supor que não existe a tal marca de nascença nas costas do rapaz.

— Não.

Cameron percebeu que daria uma gargalhada se não estivesse tão transtornado.

— Bem, sir Payton Murray, está livre. Quanto a você, Leargan, vá procurar Saunders imediatamente, traga-o aqui, e que se case com Katherine. Considerando que já se sente atraído pela beleza de minha irmã, e com seu dote em terras e moedas, creio que o rapaz não fará objeções.

— Cameron, precisamos conversar — disse Payton, quando o senhor de Cairnmoor começava a dar as costas.

— Sobre o quê?

— Avery.

Cameron balançou a cabeça em desacordo.

— Acho que agüentei tudo que podia por um dia — murmurou com voz cansada.

Assim dizendo, rumou de volta ao castelo.

— Pobre homem — lamentou Leargan. — Essa revelação o arrasou.

— Acredito que tenha sido uma dupla revelação, meu amigo.

— O que quer dizer? É como sua prima Gillyanne? Lê a mente das pessoas?

— Não, apenas penso que o choque a respeito de Katherine não foi tão grande porque ele já suspeitava da irmã. Estou me referindo a uma outra revelação… — Payton sorriu para Leargan e deu-lhe um tapa amigável no ombro. — Vamos procurar o feliz noivo.

— Estava querendo dizer que a segunda revelação… significa que Cameron descobriu seu amor por Avery?

— Sim, mas até ver Katherine casada, duvido que deseje falar sobre isso.

 

Cameron ergueu o rosto com cautela, fitando a poção que al­guém colocara a sua frente. Não acreditava que mergulhara na bebida durante quatro dias, sentindo pena de si mesmo. Lembrou-se de que o casamento de Katherine já acontecera, assim como a grande festa que se seguira. Apenas ele mesmo, figura patética, Leargan e Payton, permaneciam no salão. Foi Payton quem lhe ofereceu a poção, e Cameron a bebeu de um só gole.

— Meu Deus! — gemeu. — Por que os remédios sempre têm um gosto tão ruim?

— Penso o mesmo — disse o irmão de Avery, colocando um pão na frente do anfitrião. — Coma. Ajudará a fazer efeito.

— O que ainda faz aqui?

— Tinha de me assegurar que Katherine estaria casada e que o perigo desaparecera de minha vida.

— Bem, ela já casou, e agora pode partir. Leargan providenciará uma escolta de dois homens para que chegue são e salvo a Donncoill.

— Que anfitrião atencioso! — brincou Payton. — Mas ainda não estou pronto para partir.

— Katherine já foi embora, certo?

— Deixou o castelo há algumas horas, lamentando ir para terras distantes com seu marido. Pode parar de beber.

Cameron voltou-se para Leargan.

— Conversou com o jovem Malcolm?

— Sim. Um bom rapaz, de gênio dócil e educado, mas inteligente e firme, de modo que Katherine logo descobrirá que não poderá dominar o marido. Malcolm está muito feliz, pois o dote lhe permitirá uma vida segura, tornou-se cavaleiro, e tem uma bela esposa e um filho a caminho. Espero que Katherine aprenda a dar valor a essas coisas.

— Quando foi que Malcolm se tornou cavaleiro? — quis saber Cameron.

— Quando fomos à corte buscá-lo, paramos para comunicar ao seu pai as boas-novas — respondeu Payton. — Sir Saunders, que é cavaleiro, pediu ao rei para conceder o título ao filho. Malcolm resolveu manter segredo e só contar a novidade para Katherine mais tarde.

Cameron sorriu.

— O rapaz parece saber como controlar minha irmã.

— E terá a ajuda de sua antiga ama que o adora, e de sua tia Grizel. Ambas são mulheres fortes e enérgicas — disse Payton.

— E Grizel tem quatro filhas que a acompanham, além dos irmãos de Malcolm, e suas esposas — acrescentou Leargan.

— Jesus! — exclamou Cameron. — Será que a propriedade que lhes dei de presente de casamento conterá tanta gente?

— Katherine se queixou que não ia conseguir dormir com tantas pessoas em volta, mas o marido a assegurou que a manterá bem aquecida e tranqüila sob as peles do leito.

Os três homens riram, e Cameron suspirou.

— Pena que perdi tudo isso.

— Estava bêbado como um gambá — replicou Payton. — Katherine aprenderá a ser uma boa esposa com a ajuda da ama e da tia de Malcolm. Levará tempo, porém tudo se arranjará. Foi uma sorte sua irmã ter encontrado Malcolm, que é um rapaz sério e manterá suas terras prósperas.

— Não queria mais ver Katherine por aqui, mas não podia dei­xá-la sem nada — justificou-se Cameron sem necessidade.

— E será cuidada com carinho, embora ainda esteja zangada. Em breve aprenderá a dar valor ao que realmente importa. Malcolm Saunders tornou-se cavaleiro e proprietário de boas terras que os irmãos o ajudarão a manter. Portanto, tivemos um final feliz… a não ser por você e minha irmã — acrescentou Payton em voz baixa. — E agora é o momento de falarmos sobre isso.

Cameron fitou-o, pensando que era muito jovem, entretanto denotava bom senso e força. Desejava dizer-lhe que o que acontecera entre ele e Avery não era da sua conta, mas sabia que seria falso. Avery era irmã de Payton, seu sangue e carne. Além disso julgara mal o rapaz, e quase arruinara sua vida com um casamento forçado, refletiu. Então, limpando a garganta, começou:

— Na verdade não há muito a dizer.

— Há, sim. Todos em Cairnmoor conhecem seu romance com Avery.

— Mas continuo vivo, e já que seu pai ainda não ameaçou pôr abaixo os portões de meu castelo, é porque ela não quer mais saber de mim.

— Mas você a quer?

A pergunta direta obrigava Cameron a uma resposta honesta.

— Sim, embora isso não importe. Mandei-a embora sem uma palavra. Deveria…

— Não sou a pessoa certa para ouvir suas confidências— cortou Payton. — Deve falar com Avery. — Inclinou-se e fitou-o nos olhos. — Deseja se casar com ela?

— Sim.

O próprio Cameron ficou surpreso com a resposta rápida que deu. Há muito tomara a decisão de jamais se casar, por causa da noiva traiçoeira que tivera. Desde então nenhuma mulher o fizera recuar um milímetro sequer dessa decisão. Até conhecer Avery.

Tentara tirá-la do pensamento e do coração desde o momento em que a conhecera, mas fora em vão. Durante os dias após sua partida tentara se convencer que fora apenas atração física, e que lamentava só a perda de seu calor no leito, e que, com o tempo, se ficassem juntos, a paixão se extinguiria.

Entretanto essa idéia desaparecera no dia em que ouvira a confissão de Katherine nos jardins, e percebera o quanto seu engano o faria sofrer. E não podia fazer nada, porque ofendera e magoara Avery demais. Mas naquele momento o irmão de sua amada oferecia uma oportunidade para reverter suas ações. Seria muito tolo se não aceitasse sua ajuda.

— Uma última pergunta — disse Payton. — Ama minha irmã?

Fitando o copo que mantinha na mão, Cameron decidiu que não era hora de ser falso.

— Sim — murmurou.

— Ótimo. — Payton recostou-se na cadeira. — Agora ouça meu plano.

 

— Está melancólica.

Avery voltou-se da janela e sorriu para a prima Elspeth. Encontravam-se no aposento da torre e trabalhavam com tapeçarias. Elspeth manejava a agulha com serenidade, mas Avery ainda não conseguira se concentrar, e levantara-se para olhar pela janela. Não parava de pensar em Cameron, que deveria ter lutado para mantê-la ao seu lado. Porém, não era bela como Elspeth, por exemplo, e os homens só faziam loucuras por moças lindas.

— Fiz algo que a aborreceu? — quis saber a prima. Refletindo que todos os seus parentes eram pessoas muito preocupadas umas com as outras, sentou-se em um tamborete, e respondeu:

— Não. Estava pensando como você é bonita com seus cabelos negros e olhos verdes. Parece-se mais com minha mãe do que eu mesma. — Sorriu. — Confesso que tenho uma ponta de inveja das pessoas bonitas. Possuo um irmão lindo, primas belíssimas e…

— É linda também — cortou Elspeth. — Talvez não tenha o tipo de beleza que os poetas e trovadores louvam, mas faz um tipo encantador. Acho que se considera muito magra, mas isso lhe dá uma leveza e elegância de fada. Tem cabelos lindos, olhos de uma cor única e uma pele invejável.

— E bons dentes também — brincou Avery. Elspeth riu.

— Sim. Avery, poucas mulheres correspondem aos ideais dos poetas. Por outro lado, já notou que a maioria dos homens também não se parece com os descritos pelos grandes escritores?

— Bem, Payton, seu marido Cormac e meu pai estão bem próximos da perfeição.

— Mas os poetas idealizam muito. E sabe o que Cormac me disse a respeito da primeira vez que me viu? Gostou da minha voz. E sempre fala que adora meus cabelos eternamente despenteados. Admira meus pés também. — Riu com vontade.— Percebe? Nada que a literatura preza atraiu meu marido para mim. Portanto Cameron viu algo diferente em você. Não precisa disfarçar, sei que está pensando nele.

— E Cameron é o pai de Alan. Por isso vim aqui visitá-la, Elspeth.

A prima suspirou.

— Ele cuidará bem do meu Alan?

— Tenho certeza que sim. E é seu direito levar o menino.

— Sim. Em sua carta, Cameron concordou em conquistá-lo aos poucos, o que demonstra sensibilidade. Além disso, não existe uma chance de você se tornar a senhora de Cairnmoor?

— Não sei.

— Mas teve um romance com sir Cameron MacAlpin. Então Avery levantou-se, encostou-se na parede, e contou sua história de amor para Elspeth. Explicou como tudo começara como uma vingança, e a obsessão de Cameron, que o fazia desconfiar das mulheres em geral.

Por fim, Elspeth murmurou:

— Meu Deus! Três anos de celibato!

— O que pode explicar seu desejo por mim. No íntimo estava louco para voltar a dormir com uma mulher.

Elspeth balançou a cabeça, discordando.

— Não. Se fosse apenas luxúria, bastariam um ou dois encontros para fazê-lo se sentir desgostoso consigo mesmo e se culpar por não ter cumprido o voto de celibato. Pelo que me contou, foi mais que uma simples atração física.

— Gosto de pensar assim, pois para mim foi muito mais. E, certa vez, quando chamei o que existia entre nós de diversão, ele quase me bateu.

— Ora, Avery! Aí está! Ele também a ama.

— Acha mesmo?

— Sim, e no fundo você sabe disso, só tem medo de acreditar. Quando um homem pouco se importa com uma mulher não liga para o que ela diz a respeito de seus encontros amorosos. No máximo Cameron diria alguma palavra elogiosa a você, porém não ficaria furioso.

— Mas, de qualquer modo, me mandou embora.

— Precisava fazê-lo, e você sabe disso. Dera sua palavra que a devolveria a seus pais quando resolvesse o problema com a irmã, e Payton já se encontrava em Cairnmoor. Mas fazer com que vol­te… é uma outra história, e uma incógnita para Cameron.

— Payton continua em Cairnmoor e terá de se casar com a falsa da Katherine. Quem sabe a essa altura já está vivendo um inferno como seu marido.

Elspeth sorriu.

— Muito dramático. Não se esqueça de que Cameron adiou o casamento por quinze dias. Quem sabe a essa altura já esteja provada a inocência de seu irmão?

— Pare de me dar esperanças, Elspeth.

Mas no íntimo Avery agarrava-se à idéia de que talvez as coisas não fossem tão ruins assim. Entretanto não tinha notícias de Cairnmoor, desde que partira. Seus pensamentos foram interrompidos quando a prima a fez sentar ao seu lado e a abraçou.

— Ama-o muito, não?

— Sim. Parece que uma parte de mim foi arrancada. Sem Cameron em minha vida, nunca mais serei feliz.

— Compreendo seus sentimentos. E Cameron é um bom amante?

— Quer me fazer sofrer com as recordações, prima? — Avery sorriu com triste ironia. — Creio que sim. Mas algo me diz que ele ignora a própria sensualidade. A última noite em que ficamos juntos confessou que fez comigo coisas sobre as quais só ouvira falar. Nunca foi tão íntimo e espontâneo com outras mulheres. Senti que eu o fazia revelar o melhor de si.

Elspeth acenou, concordando.

— Cormac também confessou ter tido várias aventuras, mas que só se realizou plenamente comigo.

Avery fitou a carta que tinha nas mãos. Fora-lhe entregue havia uma hora, e o mensageiro pedira-lhe para que mantivesse segredo. Ainda não tivera coragem de lê-la. Era de Payton, e sentia uma enorme curiosidade para saber o que ele lhe dizia.

Após uma rápida refeição, voltara à torre com a missiva no bolso da saia, porém continuava a manter o envelope fechado. Temia que as notícias de Cairnmoor a fizessem sofrer.

— Por favor, leia! — pediu Elspeth.

— Não posso, com você aqui.

— Ora! Não contei a ninguém que recebeu essa carta, e se desejar, também não revelarei seu conteúdo.

— Promete?

— Sim. Seu irmão não corre perigo.

Avery ansiava por acreditar nisso. Será que Payton escrevia que, afinal, tudo terminara bem, que a mentira de Katherine fora revelada e continuava um homem livre? Então por que mandara uma carta em vez de simplesmente voltar para casa?

— Tem medo de saber algo sobre Cameron que a magoará? — perguntou Elspeth com suavidade.

— Sim, mas por que Payton me pediu segredo?

— Existe a chance de ele estar correndo perigo?

— A única ameaça era de se casar com Katherine. Gillyanne o aconselhou a irritá-la bastante, porque assim talvez a fizesse contar a verdade.

— Quem sabe foi isso que ele fez, Avery.

— Acha que está me escrevendo para que esqueça Cameron para sempre?

— Também é uma possibilidade. Se Payton de fato se casou com Katherine contra sua vontade, nossa família virará as costas para os MacAlpin. Por outro lado, se revelou que Katherine mentia, Cameron talvez se sinta muito envergonhado e pense que você nunca mais desejará vê-lo.

— Meu Deus… — suspirou Avery. — Que confusão! Culpa e vergonha. Dois sentimentos que os homens odeiam.

— Quer que leia a carta para você? — ofereceu-se a prima. Mesmo sabendo que era covardia, Avery aquiesceu, entregando-lhe o envelope. Cerrou os punhos, à medida que Elspeth lia primeiro em silêncio. Mas os minutos foram passando, e sentiu a ansiedade dominá-la. Por que a prima não começava a leitura em voz alta?

— Há algo errado não é? — perguntou por fim, sem conter a impaciência.

— Errado não, mas estranho. Payton quer que você vá encontrá-lo, mas não explica por quê. Diz que tem a ver com o casamento e com fatos que descobriu.

— Será que deseja minha ajuda para descobrir a verdade?

— Talvez, mas poderia escrever isso sem rodeios. Deus! — suspirou Elspeth. — Só espero que não tenha descoberto que o pai da criança é um homem de nosso clã. Entretanto, se assim fosse, teria motivos para tentar falar com você a sós e resolver a questão.

— Se sua hipótese está correta, então Payton deveria sair correndo de Cairnmoor, porque a hospitalidade terminaria no momento que Cameron soubesse da verdade. — Refletiu um instante, e continuou: — Como espera que chegue logo ao castelo dos Mac­Alpin?

Elspeth leu.

— Escreve que a encontrará em uma igreja a meio caminho de Cairnmoor. Pede que parta esta noite sem falar com ninguém, e diz que haverá homens a sua espera para levá-la até ele no local do encontro. Esses homens se chamam Leargan, Rob e Colin, além de seu escudeiro Gil, e Jamie Thomas.

— Conheço todos, mas não sei se devo causar aborrecimentos para meus pais, desaparecendo outra vez — murmurou Avery.

— Aqui diz que Payton enviou outra carta para eles, a fim de serená-los durante sua ausência. Essa outra carta chegará amanhã, depois que você tiver partido. — Elspeth ergueu o rosto da missiva e fitou a prima com um sorriso. — Estarei aqui para acalmá-los, não se preocupe. Avery, faz só uma semana que partiu de Cairnmoor, e o casamento ainda não deve ter acontecido. Não perca as esperanças.

— Tento, mas é difícil.

— Bem, primeiro precisa descobrir o que Payton deseja. — Elspeth levantou-se, segurando Avery pelas mãos. — Irei ajudá-la a partir sem ser notada. Então, dependendo do que seu irmão lhe contar, poderá prosseguir viagem até Cairnmoor e se reencontrar com Cameron. — Soltou uma risada. — E quando o rever, deixe-o falar primeiro. Não bata com um castiçal na cabeça do pobre homem.

 

Sir Nigel sentava-se na beirada da cama e, aborrecido, observava a esposa andar de um lado para o outro do quarto. Era tarde e o senhor desejava dormir um pouco, mas sabia que só poderia descansar quando a esposa, Gisele, se acalmasse. Não tinha certeza por que ela estava tão furiosa. Avery estava a salvo. Payton asse­gurara isso na carta que lhes chegara às mãos, e escrevera que a irmã amava sir Cameron MacAlpin, fato de que sir Nigel tinha certeza.

Entretanto as idéias de sua esposa eram diferentes, porque bradou:

— Roubaram nossa filha para que se case longe daqui! É isso que Payton diz na carta! Talvez ela se case em Cairnmoor.

— Querida, Avery está bem.

— Como pode dizer isso? Sir Cameron trabalhou um certo tempo para os DeVeauxx!

— E logo percebeu o erro, e os deixou. Jamais lutou contra os Lucette na França, nem contra os Murray na Escócia.

Lady Gisele não se deu por vencida.

— Quer forçar nosso Payton a se casar com aquela… criatura mentirosa?

— Essa "criatura" é irmã de Cameron, e ele precisa acreditar. Faria o mesmo em seu lugar.

— Desejava proporcionar a Avery uma linda festa de casamento — choramingou a mãe, voltando ao outro ponto.

Nigel afagou-lhe o ombro.

— Poderá fazer isso no batizado de seu primeiro neto.

— Minha Avery está grávida?! — exclamou Gisele de olhos arregalados.

— Não que eu saiba, mas nós os Murray somos uma raça fértil, e logo ela nos dará as boas novas.

— Quero ir a Cairnmoor e conhecer esse homem.

— Dentro de quinze dias, querida.

— Por que tanto tempo assim?

— Porque serão recém-casados e precisam ficar a sós. Tiveram, até o momento, uma relação atribulada, e precisam aparar as arestas. Além do mais… — Sir Nigel baixou o tom de voz. — Ainda tenho ganas de dar-lhe uma surra porque sei que Cameron Mac-Alpin seduziu minha filha, e você precisa se acalmar.

— Que tal uma semana?

— Não. Quinze dias.

— Muito bem, como quiser. Mas não esperaremos esse prazo para partir. Iremos no décimo dia para chegarmos lá em quinze, viajando bem devagar como você gosta.

— Combinado.

— Obrigada.

— Tem certeza que seus pais não virão no encalço de Avery berrando por vingança?

Payton suspirou, recostando-se em um dos bancos da minúscula capela, e observou Cameron andar de um lado para o outro do altar como uma fera enjaulada.

— Minha mãe até poderia pensar em fazer isso, mas meu pai a impediria — retrucou com voz de tédio.

Cameron franziu a testa.

— Pensei que seu pai é quem estaria ansioso para pôr as mãos em mim.

— Ele já sabe que vai se casar com Avery, e se chegou a dormir com ela, o matrimônio reparará a situação. Além disso, Avery deve estar choramingando pelos cantos em Donncoill, e meu pai já percebeu os sentimentos por você.

Assim dizendo, Payton levantou-se e dirigiu-se à porta da pequena igreja de pedra, a fim de dar uma olhada na estrada, como fizera já uma dúzia de vezes.

— Tem certeza que Avery me ama? — resmungou Cameron as suas costas.

Também espiou para fora e viu o grupo de pessoas que aguar­davam por ela há mais de uma hora. Insistiu com ar aborrecido.

— Creio que a pergunta é pertinente já que estou prestes a desposar sua irmã.

— Foi razoável da primeira vez — replicou Payton com paciência. — E aceitei as doze vezes seguintes que perguntou a mesma coisa. Mas agora já é demais.

Praguejando, Cameron deixou-se cair em um dos bancos de madeira da capela. Ansiava por estreitar Avery nos braços, e acei­tara o plano de Payton sem pestanejar. Mas sua incerteza aumentara à medida que a semana transcorria. Embora não estivesse de fato raptando Avery, porque seu irmão era conivente, estava preparando uma armadilha e impelindo-a para um compromisso que ainda não aceitara.

A única esperança que o mantinha fortalecido era a paixão que Avery sempre demonstrara, e a declaração de amor que fizera quando delirava de febre. Entretanto, com o passar dos dias, aquilo já não lhe parecia uma prova contundente de amor.

Porém não iria desistir do plano, refletiu pela milionésima vez. Precisava de Avery como uma planta precisa do sol e, apesar de já ter admitido a si mesmo que a amava, não se sentia feliz. Os dias e noites sem ela eram um tormento, e necessitava dar um fim nisso de uma maneira ou de outra.

Fitou Payton, que se revelara um homem generoso e gentil, muito compreensivo e bem-humorado. Precisava se casar de qualquer jeito com Avery, porque os papéis haviam se invertido, e agora era seu irmão quem exigia uma reparação.

— Sei que os homens sempre ficam nervosos antes do casamento — comentou Payton com sua eterna calma — , mas você está exagerando. Disse que a quer e a ama, portanto qual é o problema?

— Comigo está tudo bem, mas sua irmã pode não querer se casar.

— Foi sua amante.

— Isso é atração física.

— Sim, mas as mulheres do meu clã não se entregam a não ser quando amam de verdade, e em geral é o mesmo homem a vida inteira. Avery me disse que o ama.

— Talvez tenha confessado isso apenas para que não me enfrentasse em um duelo.

— E quem garante que não fiquei furioso desde o início? — Payton sorriu mas não esperou pela resposta, e continuou: — Avery não teria concordado em ser sua amante se não o amasse. Sei que as mulheres de minha família não são as flores delicadas e tímidas que os poetas apreciam, mas têm muito senso de moral.

— Jamais disse que Avery é imoral — replicou Cameron, temeroso que o futuro cunhado desejasse começar uma briga.

Mas Payton continuou a expor suas idéias, sem se incomodar com os comentários.

— Avery dormiu com você diversas vezes porque decidiu que era o homem certo.

— O quê?!

— Minha irmã o escolheu. Digamos que decidiu que você era o seu homem. E quando uma Murray escolhe um companheiro, é surpreendente o que faz para prendê-lo ao seu lado. Porque, com freqüência, os homens não percebem logo a sorte que tiveram. Avery o escolheu e o ama. Portanto, tudo farei para que seja feliz.

— Gostaria que ela tivesse conversado essas coisas comigo — queixou-se Cameron. — Só falou de amor quando ardia em febre, delirava, e pensei que não sabia o que dizia.

— Teria mais fé em suas palavras febris se fosse você. Cameron resolveu não replicar, mas considerando o pouco que dera a Avery em troca de tudo de bom que ela fizera para sua gente e para ele mesmo, não se surpreenderia se agora se recusasse a desposá-lo.

— Só não quero obrigá-la a fazer o que não deseja — acabou por murmurar.

— Pode ficar aborrecida, mas irá ceder. Não acredita? Pense que terá de confrontar meus pais.

— É melhor fazer isso casado com Avery.

— Sem dúvida, e não se esqueça de que continua sendo o homem que a raptou para se vingar de mim e me obrigar a casar com Katherine.

Cameron fitou Payton com ar sombrio.

— Fico imaginando se todas as jovens que o acham irresistível sabem o quanto é irritante às vezes.

Payton sorriu com ironia.

— Guardo essa qualidade para meus amigos homens.

— Isso é um motivo para me fazer duvidar se quero ingressar na sua família. Terei um cunhado irritante.

— Está hesitando?

Cameron suspirou e balançou a cabeça em negativa.

— Não posso, mesmo sabendo que terei você e Gillyanne como parentes.

— Ora! Ainda não conhece o resto da família.

— É grande?

— Sim, se contar os aliados e os parentes afins. Temos os irmãos e irmãs de Cormac, marido da prima Elspeth, e o lado do tio Eric, os MacMillan, que estão sempre nos visitando, e…

Cameron ergueu a mão.

— Chega! Minha família é bem menor. Leargan, Iain, tia Agnes e, é claro, Katherine.

Payton ficou sério à menção do nome da jovem.

— Poderá perdoá-la um dia, Cameron? Já a perdoei.

— Sim, se demonstrar que está de fato arrependida e se cuidar bem do marido. Mas acredito em milagres. Pelo menos a família de Malcolm educará bem meu sobrinho. — Baixou a cabeça com ar triste. — Falhei na educação de minha irmã.

— Não me sentiria culpado se fosse você, Cameron. Deu-lhe o que podia, e Katherine tinha Iain e Agnes, e muitas outras pessoas a sua volta, que lhe deram bons exemplos. Às vezes uma pessoa decide tomar um caminho errado e não há nada a fazer, porém sempre é tempo de voltar atrás e se emendar.

— E Alan? — perguntou Cameron, mudando de assunto com brusquidão. — Vive feliz com Cormac e a esposa?

— Sim, e é tratado como seu filho. Deus sorriu para o menino quando pôs Elspeth em seu caminho.

Cameron suspirou, concordando com um gesto de cabeça.

— Em parte me pergunto se devo tirá-lo dos pais adotivos. Afinal, se Avery me der um filho, Alan não será meu herdeiro.

Entretanto é sangue do meu sangue, jamais o vi, mas o quero ao meu lado, e o tornarei um homem rico, com terras e recursos.

— Claro que sim. Levará tempo, mas o terá. Elspeth e Cormac estão tristes, porém sempre souberam que existia um pai que poderia reclamar a criança um dia. E ficarão muito felizes porque seu novo lar será junto a Avery.

— Sua irmã e Gillyanne dizem que ele se parece muito comigo e tem a mesma marca de nascença.

— Sim, mas não é mal-humorado como o pai — provocou Payton.

— Bem, quem sabe em breve ficarei mais bem-disposto. Naquele instante Anne surgiu à porta da capela.

— Ela está chegando — anunciou. — Chamem o padre! Payton fitou Cameron com seriedade.

— Avery poderá ficar zangada com esta surpresa e desejar ex­plicações. Quer continuar com o plano?

Cameron não hesitou.

— Não vejo a hora de ter minha noite de núpcias.

Avery franziu a testa ao se aproximarem da capela. Fora uma longa viagem, mas agradável. O tempo permanecera bom, e sua escolta era simpática. Entretanto, apesar de conversarem sobre tudo, os homens nada diziam sobre o que iria acontecer, e ainda ignorava por que Payton a chamara.

A visão de Anne e Therese junto à entrada da capela a animou, mas ao mesmo tempo a deixou mais curiosa. O que faziam ali? Porém, tratou de sorrir ao desmontar e correu a cumprimentá-las. Sedenta, aceitou a bebida que Anne lhe ofereceu.

— É diferente — comentou após um gole. — Parece hidromel. Anne concordou.

— Sim, em parte, porém é mais forte.

— Muito, e preciso estar sóbria quando conversar com Payton. Onde está ele?

Assim dizendo, tomou mais um gole da bebida estranha. Era gostosa e mataria sua sede.

— Espera por você na igreja. Avery sorriu.

— É bom revê-las. Senti saudade. — Franziu o cenho ao ver que Therese andava a sua volta, tirando a poeira de seus trajes. — Não se preocupe. Payton não vai ligar se me vir suja da viagem.

— Precisa ficar bonita — replicou Therese, retirando-lhe o manto e atirando-o nos braços de Leargan, todo sorridente.

Avery não entendeu muito bem o comentário, mas disse:

— Tem razão. Deve-se entrar em uma igreja sempre com roupas limpas. — Examinou o próprio traje com olhar crítico, e acrescentou: — Talvez fosse melhor Payton me encontrar aqui fora.

Mas, incentivada por Anne, terminou a bebida, e, sem cerimônia, atirou a garrafa para Leargan, sem saber por que tomava uma atitude tão despreocupada.

— É melhor conversarem com privacidade lá dentro — disse Anne.

Assim dizendo, começou a arrumar os cabelos de Avery com gestos rápidos.

— Deus quer me ver bem penteada também?

— Ficará mais bonita com os cabelos soltos e escovados.

— Faz sentido — murmurou Avery, na verdade sem entender nada, e começando a se sentir leve como uma pena, além de muito zonza. Por fim Anne colocou uma coroa de flores em sua cabeça.

— Estou bonita agora?

— Linda! Sente-se feliz?

— Sim. O sol brilha e, como sempre, Leargan está sorrindo como um tolo. – Parou de falar e colocou a mão sobre os lábios.

— Será que disse isso? Que falta de educação da minha parte! Vejam! Leargan está entrando na igreja. Devo tê-lo ofendido.

— Não, foi dar uma palavra com Payton.

Avery sentia-se cada vez mais zonza e com vontade de rir.

— Quero cheirar as flores — disse com um ar meio idiota.

— Depois, querida. Agora precisa falar com Payton. Temos uma surpresa para você.

— Adoro surpresas! — exclamou Avery, batendo palmas, e completamente tonta com a bebida.

— Ótimo! Quem sabe assim não ficará com tanta raiva de nós todos mais tarde— resmungou Anne, arrastando a recém-chegada para dentro da capela.

— Ela está pronta — avisou Leargan, postando-se ao lado de Cameron no altar.

— Então não causará problemas? — quis saber Payton.

— Não, está alegre como um passarinho.

— Certo. Vou voltar para o meu canto para que ela não me veja ao entrar. Zonza do jeito que está, não podemos perder tempo.

Cameron passou a mão nos cabelos negros, fazendo uma careta.

— Preferia que a tivessem deixado consciente.

— Seria melhor — replicou Leargan. — Mas seu irmão a conhece bem, e sabe que poderia causar dificuldades, aborrecida por não ter sido avisada dos planos. Já fez a viagem cheia de suspeitas.

Entrando na igreja naquele instante, Avery perguntou a Anne:

— Por que tanta gente? Todos vão falar com Payton? Cameron ficou tenso quando ela o viu. Avery arregalou os olhos, e depois brindou-o com um amplo sorriso inocente, o que o encheu de remorso pelo que ia fazer.

— Saudações, Cameron, meu cavaleiro moreno — disse ela, aproximando-se do altar. — Deveria estar furiosa com você.

Ele a cingiu pelos ombros e beijou-a de leve nos lábios, mur­murando:

— Isso pode esperar, não, meu amor?

— Claro! Não se briga dentro de uma igreja. — Avery semi-cerrou os olhos ao ver um padre surgir a sua frente. — Meu Deus! Fez-me viajar para assistir o casamento de Payton e Katherine?

— Não se trata desse casamento — murmurou Cameron, fazendo-a ajoelhar-se ao seu lado, na frente do sacerdote.

— Então ainda posso ficar feliz.

— Espero que sim, menina. De todo coração, assim espero.

Avery franziu a testa quando o padre começou a falar. O discurso era conhecido, mas precisava fazer força para se concentrar, pois sua cabeça girava como um rodamoinho. Sentia-se mergulhando em uma doce neblina, e então o padre lhe fez uma pergunta que não ouviu muito bem.

— Diga sim, Avery — ordenou Cameron.

Uma irritante vozinha em seu cérebro dizia-lhe para ficar alerta, mas Avery sabia que era impossível.

— Sim — respondeu.

As perguntas continuaram para ela e Cameron, e todas foram respondidas, enquanto mantinha um sorriso tolo nos lábios, sem entender muito bem o que estava acontecendo.

Quando Cameron a fez levantar, sentiu uma grande tontura e encostou-se no peito forte do cavaleiro. Ele a beijou de leve, e Avery tentou enlaçá-lo pelo pescoço e prolongar o beijo, mas foi impedida com um gesto rápido. Naquele momento teve certeza de ver Payton sorrindo, no fundo da capela, mas o irmão logo desapareceu.

Fitou Cameron, tentando permanecer séria.

— Começo a não me sentir mais tão alegre.

— Bem, precisamos manter sua alegria.

— Verdade? Trouxe geléia de amora?

Avery ouviu alguém soltar uma gargalhada, e soube que era Leargan. Voltou-se para lançar-lhe um olhar de reprimenda, mas titubeou e quase caiu. Cameron a segurou a tempo.

— Obrigada — murmurou com o eterno sorriso inconseqüente. Em seguida deslizou para o chão, e o noivo a tomou nos braços.

Estavam casados, pensou ele, e Avery não fazia a menor idéia disso. Mais um motivo para dar-lhe explicações e pedir desculpas.

— O que foi que Anne lhe deu? — quis saber Leargan.

— Uma beberagem que usa como analgésico— respondeu Therese ao seu lado.— Misturada com hidromel para disfarçar o gosto. Cameron relanceou um olhar para a noiva desacordada.

— Espero que desperte logo e sem dor de cabeça. Estou ansioso para esclarecer tudo isso e ter minha noite de núpcias— resmungou.

 

Avery abriu os olhos e olhou em torno. Sem dúvida não estava em seu quarto em Donncoill. Sua expressão tornou-se de surpresa ao dar com uma cadeira muito conhecida. Então a memória começou a voltar. Virou-se para fitar o homem em pé ao lado da cama. Cameron parecia pouco à vontade. Enquanto mais lembranças dançavam em sua mente, uma fúria enorme a possuiu.

— Você me embebedou — disse com voz fria, sentando-se no leito de maneira abrupta.

— Bêbada? Não. Drogada. Anne deu-lhe uma poção analgésica — replicou ele, oferecendo-lhe um copo com vinho. — Precisávamos que estivesse… dócil.

Avery agarrou-lhe o copo da mão e cheirou seu conteúdo com ar desconfiado.

— Não tenho certeza se devo aceitar o que me oferecer para beber de hoje em diante.

— Fique tranqüila. Quero-a consciente para conversarmos. Ela tomou um gole com cautela, e percebeu que não passava de pura cidra. Bebeu tudo e sentiu que os últimos resquícios de tontura desapareciam. Quando devolveu o copo vazio para Cameron, lembrava-se de tudo muito bem.

— Chegamos a nos ajoelhar na frente de um padre? — perguntou com voz incerta.

Cameron acenou que sim, sem perdê-la de vista. Por certo Avery despertara completamente e raciocinava com clareza… além de estar furiosa. Quando soubesse que dormira durante toda a festa de seu próprio casamento ficaria ainda mais zangada, refletiu. Rezava para que não se desse conta desse detalhe até terem conversado.

— E por que nos ajoelhamos diante do padre? — insistiu ela.

— Estamos casados — respondeu Cameron com simplicidade. Era o que Avery suspeitava. A estupefação a dominou. Por um breve instante sentiu-se inundada de alegria, e então percebeu que Cameron não a pedira em casamento. Jamais lhe dedicara uma palavra de amor como desejava ouvir, e ainda havia a possibilidade de tê-la desposado apenas pela honra. Assim que percebera seu erro em relação a Payton, começara a se sentir culpado por serem amantes, e resolvera fazer a coisa certa e digna.

— A expressão em seu rosto me diz que está tendo pensamentos vingativos, querida.

— Vingança? Quer gentilezas de minha parte quando me preparou uma armadilha, me drogou para que ficasse sem vontade própria, e me desposou sem me comunicar? Foi uma jogada infame! — Avery tomou fôlego. — E Payton fez parte da história, não? Lembro-me de tê-lo visto sorrindo na porta da capela.

Cameron sentou-se ao seu lado na cama e tentou não demonstrar mágoa ao vê-la recuar.

— Não me queria como marido? Serei muito bom para você. Assim dizendo, deslizou a mão por baixo do vestido leve, e sentiu-a estremecer ao toque. Isso lhe deu mais segurança.

Avery sentiu que deveria se afastar, mas não conseguiu e, em vez disso, cobriu a mão forte com a sua. O calor dos dedos longos a fazia sentir um desejo intenso e há muito sufocado. Estava louca para cair em seus braços, mas era errado, refletiu.

Um casamento devia ser baseado em algo mais que honra e paixão, e embora soubesse que o amava, Cameron precisava sentir o mesmo ou as chances de sofrer desilusões seriam grandes.

— Casou-se comigo por uma questão de honra — Avery disse, por fim.

— Não!

Ela ignorou a negativa, e prosseguiu:

— Sabia que não aceitaria um casamento baseado apenas na reparação de algo com que se sente culpado. Então resolveu me preparar uma armadilha.

Em resposta, ele a fez se deitar de novo, e postou-se sobre seu corpo, impedindo-lhe os movimentos.

— Não. Casei-me com você porque assim quis.

— Payton foi quem planejou tudo?

— Sim.

— Porque achava que deveria se casar com a sua irmã ultrajada.

— Menina, o fato de termos sido amantes em nada influiu nesse casamento.— Com cuidado, Cameron começou a desmanchar-lhe os laços do vestido. -— Não foi por isso que a desposei. É claro que a desejo de volta em meu leito… Jamais quis que o deixasse.

Já que falava com franqueza, Avery permitiu que continuasse a despi-la. Admitiu para si mesma que o desejo que sentia era enorme, e nem se importaria se ele a possuísse com as roupas sobre o corpo. Mas seria ajuizado interrompê-lo no momento. Tinha medo que falasse com a voz profunda e rouca que tanto a excitava.

— Então, queria voltar a se satisfazer comigo — murmurou com voz trêmula, enquanto ele abria o corpete do vestido.

— Não sentiu falta também?

Com gesto lento, inclinou-se sobre um dos seios brancos ainda recoberto pelo tecido, e beijou-o.

— Bem, senti um pouco — gemeu Avery.

— Juro que não me casei com você apenas por um sentimento de dever. — Cameron pressionou o rosto sobre seu peito, e deslizou a mão para a coxa macia que tanto desejava apalpar. — Precisamos conversar. Quero contar-lhe por que fiz certas coisas e tentar explicar meus sentimentos por você. Meu Deus! Mas também quero possuí-la outra vez.

— Neste instante?

— Senti muito a sua falta desde que partiu de Cairnmoor.

— E depois conversaremos?

— Sim.

— Então me possua, Cameron, por favor!

Ajudou-o a remover, com gestos ardentes, o resto de suas roupas. Quando seus corpos se encontraram, quase chorou de emoção. Seus lábios e mãos se buscavam mutuamente em um frenesi e ansiedade febris. O desejo que sentiam um pelo outro era indescritível.

Avery deixou escapar um gemido de prazer e vitória quando o sentiu penetrá-la, mas fitou-o, confusa, ao perceber que não se mexia.

— Cameron?

Circundou-lhe a cintura com as pernas, e o fez penetrá-la ainda mais. Cameron estremeceu.

— Só queria saborear a sensação de tornar a possuí-la. Parece que fazia um século! — Roçou-lhe a boca com a sua, e murmurou: — É como voltar para casa.

Havia tanto sentimento por trás dessas palavras ditas com simplicidade, que Avery perdeu o resto do autocontrole, e deixou-se levar. O ato de amor foi rápido, guloso, intenso e um tanto bruto, mas ela não se importou, e acompanhou cada movimento com alegria. Chegaram ao clímax ao mesmo tempo e, enquanto tentava voltar à realidade, ele a abraçou.

— Minha gata selvagem e bela — sussurrou-lhe, encostado ao seu pescoço. — Ama-me um pouco?

Avery suspirou e passou os dedos pelos cabelos negros do marido. Não havia como voltar atrás. Estavam casados, e precisava ser honesta. Sentia-se muito feliz. Sem dúvida Cameron não lhe dedicara declarações de amor, mas havia carinho no relacionamento. Podia sentir isso no toque das mãos fortes, e por trás das palavras que lhe murmurava.

Talvez, refletiu, se fosse franca com ele, Cameron retribuísse da mesma maneira. Podia ainda não amá-la, mas era importante que soubesse ser muito amado.

— Sim — respondeu por fim em um murmúrio. — Não só um pouco, mas muito. Mais do que merece.

Cameron estremeceu, e antes que Avery pudesse decifrar essa reação, voltou a beijá-la com fúria, fazendo o desejo voltar. Então, antes que tivesse tempo de fitá-lo, Cameron tornou a enterrar o rosto em seu pescoço, como se estivesse envergonhado.

— Quando soube que me amava?— perguntou, recobrindo-lhe a pele macia com rápidos beijos.

— Um pouco antes de permitir que me seduzisse.

— Se bem me lembro daquela noite… e na verdade recordo cada pequeno detalhe… creio que foi você quem me seduziu, menina.

— Então isso deixa claro como sou louca por você, e uma com­pleta idiota.

— Não, querida. — Cameron acariciou-lhe um mamilo rosado com a ponta do dedo, e depois com a boca. — Não se considere idiota por me amar. — Fez uma breve pausa, e prosseguiu: — Sei que fiz coisas que a magoaram…

— Sim, porém nunca me pediu amor. Não foi sua culpa se passei a amá-lo.

— Talvez não, entretanto logo de início percebi que não era como as outras mulheres com quem havia me relacionado no passado. Desejava a paixão e o prazer que me proporcionava, mas não queria sentir sua falta depois. Compreende o que quero dizer? Menti para mim mesmo muitas vezes a esse respeito. — Com gesto lento, começou a acariciar-lhe o outro mamilo. — Só queria uma breve relação, e depois a enviaria de volta a sua família, e esqueceria o episódio.

— De fato me mandou embora.

— Sim, e me arrependi no instante em que atravessou os portões de Cairnmoor. É claro que tentei me enganar, dizendo a mim mesmo que estava apenas lamentando o fim de um caso prazeroso, porque ainda a desejava. Tentei me iludir pensando que era natural sentir a falta de seu corpo. — Beijou-a nos lábios, e prosseguiu: — De seus seios, coxas… Qual homem não sentiria? Dos gemidos de prazer e do modo como se entregava…

Deslizou os lábios para o ventre macio de Avery, fazendo-a estremecer outra vez, e iniciou uma série de carícias que a levaram de novo ao clímax sensual, mas no último instante ela ouviu-o murmurar três palavras.

Após alguns instantes, recobrou o fôlego, e fitou-o nos olhos. Não queria admitir o que ouvira. Podia ser apenas uma impressão, mas precisava esclarecer.

— Ouvi bem? Acabou de dizer que me ama? — perguntou, sem deixar de fitá-lo.

— Sim — respondeu Cameron, acariciando-lhe os cabelos. Avery sentiu-se dividida entre a vontade de rir de alegria e permanecer séria.

— Não acredito que revelou isso!

— Desde que descobri meu amor por você sonhei em dizer essas palavras no meu lugar preferido. O leito.

Avery enrubesceu e soltou uma risada.

— É um homem terrível, Cameron MacAlpin! Segurando-lhe o rosto entre as mãos, o marido a beijou nos lábios.

— Mas você me ama, querida.

— Sim. De modo desesperado, louco e voraz.

— Do mesmo jeito que a amo.

— Quando? — ronronou Avery, acariciando-lhe as costas.

— Quando o quê?

Cameron rolou para o lado, deitou-se de costas e deixou que ela o beijasse com suavidade.

— Quando soube que me amava?

— Ao descobrir a verdade sobre Katherine. Fiquei sentado ali no jardim, ouvindo Payton arrancar palavras horríveis de minha irmã, e a única coisa em que conseguia pensar era que perdera a mulher que amava. O pior é que naquele momento parecia que jamais consertaria meu erro. — Cameron fechou os olhos, deliciando-se com as carícias que Avery lhe oferecia. — Quero você ao meu lado sempre, querida — murmurou com voz rouca, antes de penetrar de novo em um mundo de delírio sensual.

Com a intuição de uma mulher apaixonada, ela o fez sentir muito prazer, até que Cameron rolou de novo o corpo sobre o seu, e a possuiu, mantendo os olhos fixos no belo rosto afogueado e na boca intumescida, que murmurava palavras desconexas.

— Sim, Cameron… Sim…

— Juro que acordava banhado em suor durante as noites em que esteve longe, pensando em revê-la assim, seu coração batendo junto ao meu, e depois chorava porque tudo não passara de um sonho. — Acariciou-a com fúria e paixão. — Amo você, Avery.

— Eu também o amo, meu cavaleiro negro. Quero ser sua.

Cameron abriu os olhos e viu a esposa ainda deitada ao seu lado. Acariciou-a e sorriu, refletindo que seria uma longa noite que o deixaria exaurido.

— Quero fazer tantas coisas boas por você, Avery…

— Já faz, Cameron. Coisas maravilhosas.

— Obrigado, mas não me referia a sexo.

Ela se apoiou nos cotovelos e fitou-o com um sorriso.

— Isso já basta para me deixar contente.

Com gesto carinhoso, ele afastou-lhe uma mecha de cabelos para trás da orelha.

— Pretendo sempre fazê-la feliz para que nunca se arrependa de ter casado com seu demônio negro. Irei presenteá-la com trajes lindos e dar-lhe tudo que uma mulher deseja.

Avery colocou um dedo sobre seus lábios.

— Pare — murmurou. — Quero apenas quatro coisas de você, Cameron MacAlpin.

— E quais são?

— Que me ame como o amo.

— Sim, meu amor. Sou o ser mais feliz do mundo por isso.

— E quero que precise de mim como preciso de você.

— Necessito seu amor como as plantas precisam de sol e água. — Passou os dedos pelos quadris da esposa. — Preciso vê-la a cada manhã para continuar vivo, e tê-la ao meu lado à noite, para conseguir adormecer em paz.

— Sinto o mesmo. Quero que confie em mim como confio em você, e que deposite em minhas mãos seu coração, alma e vida.

Cameron pressentiu, pela tensão no corpo da amada, que sua resposta era muito importante, e era fácil entender por quê. Sempre deixara bem claro que desconfiava das mulheres em geral, e não tivera cuidados em revelar-lhe isso, magoando-a mais de uma vez com sua bmsquidão. Porém, na verdade passara a confiar em Avery muito antes de amá-la, só que nunca lhe revelara isso.

— Confio em você, meu amor. Há muito tempo.

Avery sentiu vontade de chorar, tamanha a alegria, mas pensou que Cameron não entenderia suas lágrimas, então apenas sorriu.

— E, por fim, quero que me dê filhos — disse.

— Creio que já comecei a me empenhar nesse seu pedido — replicou ele com malícia.

— Sim, e de muito boa vontade, pelo que percebi. Quero me­ninos de cabelos e olhos negros.

— E eu desejo uma ou duas meninas lindas como a mãe. — Fitou-a rezando para nunca magoá-la e sempre corresponder ao seu amor. — Terminaram suas exigências?

— Bem… — murmurou Avery, espreguiçando-se com gestos felinos. — Até que um pote de geléia não seria mau agora…

— Geléia de amora — sugeriu Cameron, abraçando-a.

 

Cameron! O grito o surpreendeu, pois a tênue voz de Avery partira do quarto, chegando até ele no grande salão. Saiu correndo e postou-se ao pé da escadaria para onde, no mesmo instante, acorreram os primos Leargan e Iain, também com expressão espantada. Cameron relanceou um olhar para trás e viu Cormac sorrindo do alto das escadas.

— Jamais pensei que nossa Avery pudesse gritar assim — comentou Cormac. — Gillyanne sim, mas não Avery.

— Talvez deva subir e ir ficar ao seu lado — sugeriu Cameron.

— Não creio que seja uma boa idéia — disse Leargan.

— Por que não? Minha esposa está tendo um bebê!

— Minha amada Gisele estava em trabalho de parto quando me perseguiu com um pedaço de pau na mão.

Cameron voltou-se e viu que os pais de Avery tinham chegado. Sem se preocupar com saudações, perguntou:

— Por que sua esposa fez isso?

— Disse que queria me bater no ventre para que soubesse o quanto doía ter um filho. Cometi o erro de tentar consolá-la com palavras idiotas. Tia Maldie a carregou para a cama, e saí correndo do quarto.

— Precisa contar essa história a todo mundo? — resmungou lady Gisele, entregando o manto a Rob, nervoso como nunca. — Pensarão que sou um dragão. Bonjour, Cameron. Já que está me dando um neto para estragar de mimos, acho que vou perdoá-lo por tudo que fez a minha Avery.

— É muito bondosa, milady — murmurou Cameron, beijando-lhe a mão. — Ela está…

— Minha mãe já chegou? — berrou Avery do andar de cima.

— Como grita — comentou Gisele, respondendo no mesmo tom. — Estou aqui, minha querida. E já vou subir.

— Ótimo, mamãe. E antes de subir, pode me fazer o favor de bater em Cameron?

— Ora, Avery… — resmungou o marido, logo soltando um grito. — Ai! — Esfregou o queixo e fitou a mãe da esposa, que sorria com doçura, e depois o beijou no rosto. — Não acredito que a senhora me bateu!

— Deve-se fazer de tudo para manter feliz a parturiente, concorda? — Assim dizendo, Gisele começou a subir as escadas, gritando: — Estou chegando, Avery! — Parou à porta do quarto onde a filha estava, abriu, e exclamou: — Querida! Ma petite! Está linda!

— Gorda e suada— resmungou Avery, em meio às contrações.

— Bem, o suor ilumina seu rosto. Precisa de alguma coisa?

— Sim, uma faca enorme para matar Cameron. Quando tudo isso terminar, vou cortá-lo de cima a baixo, e…

No salão, Cameron suspirou, aliviado, quando a porta que se fechava impediu que ouvisse o resto do desabafo da esposa. Ordenou a Rob que providenciasse comida e bebida, e acomodou os homens na grande mesa. Desejava estar com Avery naquele momento, dando-lhe todo o apoio que podia, enquanto a esposa lutava para trazer ao mundo seu filho, mas tudo levava a crer que, para a harmonia do casamento, deveria permanecer afastado. Avery estava com Anne, Gillyanne, Elspeth e a mãe para ajudá-la. Podia ficar tranqüilo pois lhe davam todo o apoio necessário.

— Não fique aflito, rapaz — disse sir Nigel, servindo-se de vinho. — A maioria das jovens de nosso clã prefere ficar com as mulheres nessa hora. E é melhor que os homens permaneçam longe.

— Avery está zangada com você, papai? — perguntou Alan, ficando ao lado da cadeira de lorde MacAlpin.

— Um pouco — respondeu Cameron, acariciando os cabelos negros do menino. — Mas vai passar. Ter um filho dói, e ela precisa esbravejar, é só isso.

— Sim, aconteceu o mesmo com mamãe Elspeth — disse a criança, muito à vontade.

Cameron observou o menino se aproximar do pequeno Chris-topher, filho de Elspeth e Cormac, de um gato horroroso chamado Muddy, e da ama, e todos se aglomeraram junto à lareira.

Estava casado com Avery há nove meses, e Alan já os visitara três vezes, sempre com Christopher e a ama. O menino parecia ter um sexto sentido apurado, e ia se afastando aos poucos da família que conhecia, para se juntar a Cameron. Mas sem dúvida desejava pertencer às duas partes, e Cameron duvidava que Alan conseguis­se viver sem o grande amigo Christopher. Havia um forte vínculo entre os dois meninos.

Entretanto, o simples fato de a criança tê-lo aceitado como pai deixava Cameron muito feliz, embora essa honra fosse dividida com Cormac. Desde que Elspeth e o marido tinham salvo a vida da criança, e a educado e amado como se fosse seu filho, Cameron jamais lhes negaria um lugar na vida e no coração de Alan. Esse carinho deveria ser preservado para sempre. Mas as visitas que o menino lhe fazia eram importantes. Dessa vez ficaria em Cairnmoor por vários meses, e o relacionamento entre pai e filho teria tempo de florescer.

O pensamento dos filhos e família o fez relancear os olhos para a escadaria.

Apesar de confiar nas Murray que ajudavam Avery, não conseguia conter o medo. A esposa podia ter uma forte personalidade, mas seu físico era delicado. Cameron tentou encontrar conforto pensando que Elspeth e Gisele também eram de constituição delicada, e haviam sobrevivido aos partos. Consolou-se pensando que se Avery precisasse dele mandaria chamá-lo. Entretanto, como sentia receio de vê-la sofrendo ou de aumentar seu desconforto, era melhor mesmo que não o mandassem chamar.

— Creio que devo me desculpar com Cameron a respeito de todos os berros que dei e ameaças que fiz — disse Avery, tomando o filho nos braços, entre os lençóis limpos.

— Não faça isso — aconselhou a mãe, beijando as faces da filha e do neto.

— Bem, creio que fui um tanto… precipitada.

— É um preço pequeno que nossos maridos pagam pelo sacrifício que fazemos — resmungou Gisele. — Os homens plantam suas sementes com prazer, e depois esquecem, até a pobre mulher começar a sentir as dores do parto. — Sorriu para as outras mulheres presentes, e acariciou a cabeça do recém-nascido. — Para­béns, querida. Nós, as esposas Murray, parimos bem. Apenas lembre-se que…

— Já sei, mãe. Não conceber com muita freqüência. Acho que quero ver Cameron agora. Depois dormirei — disse a jovem mãe com um sorriso cansado.

Logo depois que as mulheres saíram, Cameron entrou no quarto, quase correndo. Estacou, fitando a esposa por um longo tempo. Depois fechou a porta, encostou-se à parede, e respirou fundo, antes de se aproximar da cama. Avery fez um gesto silencioso pedindo que o marido se sentasse ao seu lado. Cameron obedeceu com tanto cuidado que a fez sorrir.

— Fique tranqüilo que não estou com uma faca — disse em tom de brincadeira. — Olhe para seu filho. — Assim dizendo, afastou a manta que cobria o recém-nascido. — Não é a criança mais linda que já viu?

Cameron olhou para o menino, desejando concordar. Entretanto, ante seus olhos, a criança parecia a miniatura de um ancião enrugado. Um velhinho moreno, com cabelos negros e espetados, e uma minúscula marca em forma de estrela no ventre macio. Observou que tinha todos os dedos dos pés e das mãos, e orgulhou-se da evidência de sua masculinidade, ali exposta, ainda sem as roupas bordadas que a mãe lhe preparara.

Ergueu o olhar e viu que Avery ria.

— Em breve ficará bonito e gordo— disse ela. Beijou Cameron no rosto, e voltou a embrulhar o filho na manta. — O nascimento é tão difícil para a criança quanto para a mãe. Já vi muitos recém-nascidos, e sei que o nosso é perfeito.

— E, é claro, o orgulho materno nada tem a ver com isso — provocou o marido com ironia, deitando-se ao seu lado.

— Claro que não. — Enquanto segurava a criança, Avery aconchegou-se ao peito do marido. — Tem cabelos negros como você, e estou impaciente para saber qual a cor de seus olhos.

— São azuis — disse Cameron.

— Todos os recém-nascidos têm olhos azuis. Com o tempo mudarão de cor. — Avery fitou-o com atenção. — Já resolveu que nome lhe daremos?

— Tormand, como meu pai, se não se importa, querida.

— Não, é um belo nome — Avery ergueu a cabeça e beijou Cameron nos lábios. — Obrigada por me dar um filho tão lindo, querido esposo.

Cameron cingiu-lhe o ombro e a apertou de encontro ao peito.

— Sou eu quem agradece. Afinal, fiquei apenas com a parte agradável da concepção. Foi você quem sofreu. Tem certeza de que está bem?

— Sim, apenas cansada. — Avery bocejou, mas continuou a admirar o filho. — Será parecido com você e Alan.

— Pobre menino — brincou Cameron.

— Ora, meu marido! As moças adoram homens de olhos e cabelos negros.

— O amor a cegou, querida, mas agradeço a Deus todos os dias. — Beijou-a com paixão. — Amo-a, Avery, minha gata selvagem.

— E eu o amo, Cameron, meu cavaleiro negro. Ele enterrou o rosto em seus cabelos.

— Sabe o que gostaria de fazer? — murmurou.

— Sei, mas só dentro de um mês.

Vendo-a bocejar de novo, ele a embalou nos braços.

— Um mês?

— Sim — repetiu Avery, cerrando os olhos. — Quatro longas semanas.

— Bem, empregarei o tempo para aumentar o estoque de geléia de amoras.

Avery riu, sonolenta.

Quando por fim adormeceu, Cameron levantou-se devagar, e tomou-lhe a criança dos braços, com muito cuidado. A esposa estava certa, refletiu, levando o filho para o berço. Era provável que Tormand se parecesse com ele e, ante tal pensamento, um grande orgulho o dominou.

O amor de Avery o redimira, e sentia-se belo e poderoso sempre que ela o fitava.

— Vou-lhe contar um pequeno segredo, menino — murmurou, colocando a criança no berço e cobrindo-a com a manta. — O segredo da felicidade. Será muito parecido comigo, e alguns idiotas dirão que uma pessoa tão morena é filha do mal. Ignore esses comentários cretinos, e procure muito, até encontrar a mulher de sua vida. Não se contente com menos, meu querido. Encontre a moça que o ame quando fizer papel de bobo, e a abrace durante as noites. Descobrirá que é um cavaleiro negro, forte e poderoso. — Fitou Avery no leito, enquanto acariciava os cabelos escuros do filho. — Na verdade, acabará sentindo pena dos homens que não são morenos como você, porque eles não conhecem o paraíso.

 

 

                                                                                                    Hannah Howell

 

 

 

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