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Vinte Anos Depois 1º Volume / Alexandre Dumas
Vinte Anos Depois 1º Volume / Alexandre Dumas

 

 

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Vinte Anos Depois

1º Volume

 

O FANTASMA DE RICHELIEU

 

Numa sala do Palais-Cardinal, que já conhecemos, a uma mesa com cantos de prata, cheia de livros e papéis, sentara-se um homem com a cabeça apoiada nas mãos. Atrás dele, em enorme e rubra lareira, as brasas flamejantes desabavam sobre os cães dourados da chaminé. O revérbero do lume aclarava por trás as vestes magníficas do sonhador, que a luz de um candelabro carregado de velas iluminava pela frente.

Quem lhe visse a loba vermelha e as rendas riquíssimas, a fronte pálida e curvada ao peso da meditação, a solidão do gabinete, o silêncio das antecâmaras, o passo cadenciado dos guardas no patamar da escada, diria que a sombra do Cardeal de Richelieu pairava ainda em seu quarto.

Infelizmente, porém, era apenas a sombra do grande homem. A França enfraquecida, a autoridade real desprezada, os grandes novamente fortes e turbulentos, o inimigo dentro das fronteiras, tudo demonstrava que Richelieu já não existia.'

Mas o que, melhor do que tudo, indicava que a samarra escarlate não pertencia ao velho cardeal era o isolamento, que mais parecia, como já dissemos, o de um fantasma que o de um vivo; os corredores sem fidalgos e os pátios pejados de guardas; o clamor escarninho que subia das ruas e penetrava pelas vidraças da sala que sacudia o sopro de toda a cidade unida contra o ministro; eram, enfim, o som distante e repetido dos tiros, felizmente desfechados sem pontaria e sem resultado, apenas para mostrar aos guardas, aos suíços, aos mosqueteiros e aos soldados que cercavam o Palais-Royal, pois o próprio Palais-Cardinal mudara de nome, que o povo também tinha armas.

Esse fantasma de Richelieu era Mazarino.

Ora, Mazarino estava só e sentia-se fraco.

— Estrangeiro! — murmurava — italiano! Eis a palavra que me atiram em rosto! Com ela, assassinaram, enforcaram e devoraram Concini, e, se eu o permitisse, me assassinariam, enforcariam e devorariam também, embora eu não lhes tenha feito outro mal que o de aumentar um pouquinho os impostos. Idiotas! Não percebem que o inimigo não é este italiano que fala mal o francês, mas os que sabem dizer coisas lindas com um sotaque parisiense tão puro e tão bom.

"Sim, sim — continuava o Ministro com o sorriso malicioso, que, naquele momento, parecia estranho em seus lábios pálidos — sim, os vossos rumores me dizem que a sorte dos favoritos é precária; mas, se o sabeis, deveis saber também que eu não sou um favorito comum! O Conde de Essex tinha um anel esplêndido, cravejado de brilhantes, que lhe dera a real amante; eu tenho apenas um anel com um monograma e uma data (1), mas abençoado na capela do Palais-Royal; por isso mesmo, não me derrubarão como pretendem. Não percebem que com o eterno grito de "Morra o Mazarino!" ora os faço gritar "Viva o Sr. de Beaufort!" ora "Viva o Sr. Príncipe!" ora "Viva o Parlamento!" Pois o Sr. de Beaufort está em Vincennes (2). Mais dia menos dia, o Sr. Príncipe irá fazer-lhe companhia. E quanto ao Parlamento...

(1) Sabe-se que, não tendo recebido nenhuma das ordens que impedem o casamento, Mazarino desposara Ana d'Áustria. (N. do A.)

(2) Fundado por Luís VII e restaurado por Filipe Augusto em 1185, foi o Castelo de Vincennes, em várias ocasiões, residência favorita dos reis de França. Depois de Luís XI, porém, serviu inúmeras vezes de prisão política e nele estiveram sucessivamente presos Henrique de Navarra, o Duque de Beaufort, os Príncipes de Condé e de Conti, o Duque de Longueville, o Cardeal de Retz, Diderot e Mirabeau. (N. do T.)

 

A essa altura o sorriso do Cardeal assumiu uma expressão de ódio, de que parecia incapaz o seu rosto suave.

— O Parlamento... ainda veremos o que se fará com ele; temos Orléans e Montargis. Oh! há tempo para tudo; mas os que começaram a gritar "Morra o Mazarino" ainda acabarão gritando "Morra!" a toda essa gente, cada qual por sua vez. Richelieu, que odiavam quando vivo, e no qual não se cansam de falar depois de morto, Richelieu desceu mais do que eu; pois foi demitido várias vezes e escapou de sê-lo outras tantas. A Rainha nunca me demitirá e, se eu for obrigado a ceder ao povo, cederá comigo; se eu fugir, fugirá também, e quero ver o que farão os rebeldes sem Rainha e sem Rei. Oh! se eu, pelo menos, não fosse estrangeiro, se fosse francês, se fosse fidalgo!

E recaiu em seus devaneios.

A situação, com efeito, era difícil, e o dia que se passara complicara-a ainda mais. Espicaçado pela sua sórdida avareza,Mazarino esmagava o povo com impostos, e esse povo, que tinha de seu apenas a alma, como dizia o procurador Talon, porque não se lhe podia vender a alma em leilão, o povo, que o governo buscava aquietar com a notícia de vitórias conquistadas, e para o qual os lauréis não eram carne de que pudesse alimentar-se (3), começara, havia muito, a resmungar.

(3) Sra. de Motteville. (N. do A.)

 

Mas não era só isso; pois quando somente o povo resmunga, a Corte, de que o separam a burguesia e os fidalgos, não lhe ouve o clamor; Mazarino, porém, cometera a imprudência de atacar os magistrados! Vendera doze diplomas de referendários, e como os magistrados pagassem caro pelos cargos e a adição dos doze novos confrades viesse abater-lhes o preço, os antigos se haviam reunido e jurado sobre os Evangelhos que não tolerariam o aumento e resistiriam a todas as perseguições da Corte, comprometendo-se, no caso de um deles perder o ofício em virtude da rebelião, a cotizarem-se para restituir-lhe a importância paga.

Ora, eis o que acontecera:

No dia 7 de janeiro, setecentos ou oitocentos comerciantes de Paris se tinham reunido e revoltado em conseqüência de nova taxa que ameaçava recair sobre os proprietários de casas, nomeando dez deputados para conferenciarem com o Duque de Orléans que, segundo o seu velho hábito, andava à cata de popularidade. O Duque de Orléans recebera-os, e eles se declararam decididos a não pagar a nova taxa, ainda que precisassem defender-se à mão armada contra os funcionários do Rei que fossem cobrá-la. O Duque de Orléans ouvira-os com suma complacência, prometera-lhes moderação e assegurara-lhes que falaria, a esse respeito, com a Rainha. Em seguida, dispensara-os com a fórmula comum dos príncipes:

— Veremos.

De sua parte, no dia 9, os referendários haviam procurado o Cardeal e um deles, que falava em nome de todos, expusera com tanta firmeza e ardimento as suas razões, que o Cardeal, pasmado, dispensara-os como o fizera o Duque de Orléans, dizendo:

— Veremos.

E então, para ver, reunira-se o Conselho e mandara-se buscar o Superintendente das finanças d'Émery.

Esse d'Émery era detestado pelo povo, primeiro por ser superintendente das finanças e porque todo Superintendentedas finanças deve ser detestado; depois, cumpre dizê-lo, por merecer um pouco que o detestassem.

Filho de um banqueiro de Lião, chamado Particelli, trocara de nome depois de uma falência e passara a chamar-se d'Émery (4). Reconhecendo-lhe os grandes méritos financeiros, o Cardeal de Richelieu apresentara-o ao Rei Luís XIII com o nome de Sr. d'Émery e, querendo nomeá-lo Intendente das finanças, fizera dele generosa apologia.

(4) Dizia o Cardeal de Retz que esse d'Emery era "o espírito mais corrupto do século". E ajuntava: "Condenado cm Lião, na mocidade, a ser enforcado, esse homem governava o Cardeal Mazarino em tudo o que dizia respeito aos negócios internos do reino." Enriqueceu de maneira tão escandalosa quanto rápida e, um ano depois de ter sido nomeado Intendente das Finanças, comprou o Castelo de Chevrette, perto de Montmorency, magnífica propriedade que lhe custou a bagatela de trezentas e setenta e três mil libras, uns doze milhões de cruzeiros atuais. Não é, portanto, muito de pasmar que fosse uma das primeiras vítimas da cólera do povo no tempo da Fronda, se bem cumpra reconhecer que se revelou, em muitas ocasiões, hábil financista. (N. do T.)

 

— Ótimo! — respondera o Rei — Estimo que me faleis no Sr. d'Émery para esse lugar, que requer um homem honesto. Disseram-me que protegíeis o patife do Particelli e receei que me obrigásseis a nomeá-lo.

— Sire! — tornara o Cardeal — tranqüilize-se Vossa Majestade. Esse Particelli foi enforcado.

— Ótimo! Ótimo! — exclamara o Rei. — Não é à toa, portanto, que me cognominaram Luís, o Justo.

E assinara a nomeação do Sr. d'Émery.

Pouco depois, convertia-se d'Émery em Superintendente das finanças.

Tinham ido buscá-lo da parte do ministro, e ele chegara muito pálido e assustadíssimo, dizendo que o filho escapara de ser assassinado naquele dia na praça do Parlamento: o populacho encontrara-o e lhe pedira contas do luxo da mulher, que tinha um apartamento forrado de veludo vermelho com franjas de ouro. Era a filha de Nicolau Le Camus, Secretário em 1617, que chegara a Paris com vinte libras e que, reservando para si quarenta milhões, distribuíra recentemente nove milhões entre os filhos.

O filho de d'Émery por pouco não fora esganado, porque um dos amotinados sugerira que o apertassem até obrigá-lo a devolver o ouro que devorava. Nesse dia, o Conselho não decidira coisa alguma, pois o Superintendente, impressionadíssimo com o caso, vira-se impossibilitado de pensar.

No dia seguinte, o Primeiro Presidente Mateus Mole, cuja coragem nessa ocasião, diz o Cardeal de Retz, igualou a do

Sr. Duque de Beaufort e a do Sr. Príncipe de Conde, isto é, dos dois homens tidos como os mais corajosos de França; no dia seguinte, como dizíamos, o Primeiro Presidente fora atacado também; o povo ameaçara fazê-lo pagar os males que lhe queriam infligir; mas o Primeiro Presidente respondera com a calma habitual, sem se comover e sem se espantar, que, se os desordeiros não obedecessem à vontade do Rei, mandaria erguer patíbulos nas praças para enforcar, imediatamente, os mais rebeldes. E estes haviam respondido que não queriam coisa melhor, pois os patíbulos serviriam de enforcar os maus juizes, que compravam os favores da Corte com a miséria do povo.

Nem era tudo; indo a Notre-Dame para assistir à missa, como o fazia regularmente todos os sábados, a Rainha fora seguida por mais de duzentas mulheres que gritavam e pediam justiça. Elas, aliás, não tinham nenhuma intenção má e tencionavam apenas ajoelhar-se diante da soberana para movê-la à piedade; mas os guardas impediram-nas, e a Rainha passara, orgulhosa e altiva, sem lhes ouvir os clamores.

À tarde, reunira-se de novo o Conselho e nele se decidira manter a autoridade do Rei: em resultado disso, o Parlamento fora convocado para o dia seguinte, 12.

Nesse dia, em cuja noite principia a nossa história, o Rei, que completara dez anos de idade e convalescia de um ataque de varíola, a pretexto de ir a Notre-Dame render graças pelo seu restabelecimento, mandara formar os guardas, os suíços e os mosqueteiros e escalonara-os à volta do Palais-Royal, nos cais e no Pont-Neuf, e, ouvida a missa, passara ao Parlamento, onde não só ratificara os editos anteriores como promulgara cinco ou seis novos, cada qual, diz o Cardeal de Retz, mais ruinoso do que o outro. De tal sorte que o Primeiro Presidente, partidário da Corte, como vimos, nos dias precedentes, protestara ousadamente contra essa maneira de levar o Rei ao Parlamento para surpreender e coagir a liberdade de voto.

Mas os que sobretudo se ergueram contra os novos impostos foram o Presidente Blancmesnil e o Conselheiro Broussel.

Promulgados os editos, voltou o Rei ao Palais-Royal. Grande multidão se postara no trajeto; mas como todos soubessem que ele vinha do Parlamento e ignorassem se lá fora para fazer justiça ao povo ou para oprimi-lo de novo, nenhum grito de alegria se ouviu à sua passagem felicitando-o pelo restabelecimento. Todos os rostos, pelo contrário, se mostravam tristes e inquietos e alguns até ameaçadores.

Apesar do regresso do soberano, as tropas não saíram do lugar: temia-se que estourasse um motim quando o povo conhecesse o resultado da sessão do Parlamento; e, com efeito, mal se divulgou pela cidade o rumor de que o Rei, em vez de diminuir os impostos, só os aumentara, grupos se formaram e por toda a parte ecoaram grandes gritos de "Morra o Mazarino!" "Viva Broussel!" "Viva Blancmesnil!" Pois o povo soubera que Blancmesnil e Broussel haviam falado em seu favor, e se bem a sua eloqüência tivesse sido inútil, nem por isso deixava de agradecer-lhes.

Quiseram as autoridades dispersar os grupos e silenciar os gritos, mas, como acontece nesses casos, os grupos aumentaram e os gritos redobraram. E fora dada ordens aos guardas do Rei e aos guardas suíços para resistirem e patrulharem as ruas de Saint-Denis e de Saint-Martin, onde esses grupos pareciam mais numerosos e animados, quando se anunciou no Palais-Royal o Preboste dos mercadores.

Imediatamente recebido, declarou que, a não cessarem imediatamente as manifestações de hostilidade, duas horas depois Paris inteira estaria em armas.

Deliberava a Corte sobre o que lhe cumpria fazer, quando Comminges (4-A), tenente dos guardas, apareceu com as vestes rasgadas e o rosto em sangue. Vendo-o a Rainha soltou um grito de surpresa e perguntou-lhe o que acontecera.

(4-A) Sobrinho do Marquês Luís de Guitaut, o Conde de Comminges era um belo rapaz, inteligente, corajoso, tipo de herói de romance. Enciumado, sem dúvida, pelo interesse que lhe demonstrava a Rainha, a quem o Conde servia com extrema dedicação, não quis Mazarino deixá-lo ao lado dela e mandou-o para a Itália, onde morreu. (N. do T.)

 

Acontecera que, à vista dos guardas, como previra o Preboste dos mercadores, os ânimos se haviam exaltado. O povo senhoreara os campanários e tocara a rebate. Comminges resistira, prendera um homem que parecia ser um dos cabeças do motim, e, para exemplar os agitadores, mandara enforcá-lo na Cruz do Trahoir. Os soldados levavam-no para executar a ordem, quando, no Mercado, haviam sido atacados a pedradas e chuçadas; o rebelde aproveitara o ensejo para safar-se, chegara à rue des Lombards e entrara numa casa cujas portas imediatamente se arrombaram.

Violência inútil, pois não se encontrou o culpado. Comminges deixara a rua guardada e, com o resto do destacamento, voltara ao Palais-Royal para inteirar a Rainha do que estava acontecendo. Mas durante todo o percurso fora perseguido por gritos e ameaças, vários de seus homens tinhamsido feridos com chuços e alabardas e ele mesmo fora atingido por uma pedrada que lhe rasgara a sobrancelha.

O relato de Comminges corroborava o alvitre do Preboste dos mercadores e como o Governo não tivesse meios para resistir a uma revolta séria, o Cardeal ordenou que se propalasse entre o povo a notícia de que os guardas só tinham sido escalonados no cais e no Pont-Neuf em razão da cerimônia e que iam retirar-se. De fato, cerca das quatro horas da tarde, concentraram-se todos nas imediações do Palais-Royal; colocou-se um destacamento na barreira dos Sargentos, outro no Hospício dos Cegos e outro no morro de Saint-Roch. Encheram-se os pátios e pavimentos térreos de suíços e mosqueteiros e aguardaram-se os acontecimentos.

Eis, por conseguinte, o pé em que estavam as coisas quando introduzimos o leitor no gabinete de Mazarino, que fora, outrora, o do Cardeal de Richelieu. Vimos em que estado de espírito ouvia ele o resmungar do povo que chegava até à sala e o eco dos tiros, que a abalavam.

De súbito, ergueu a cabeça com sobrecenho, como se tivesse tomado uma decisão, fitou os olhos no enorme relógio que ia dar dez horas e, pegando num apito de prata que jazia sobre a mesa, ao alcance de sua mão, chamou duas vezes.

Abriu-se uma porta oculta na tapeçaria e um homem vestido de preto se adiantou silenciosamente, postando-se atrás da poltrona.

— Bernouin — disse o Cardeal, sem se voltar, pois, tendo apitado duas vezes, não podia ser outro senão o seu escudeiro — quais são os mosqueteiros que estão de guarda no palácio?

— Os mosqueteiros negros, Monsenhor.

— De que companhia?

— Da companhia Tréville.

— Há algum oficial dessa companhia na antecâmara?

— O Tenente d'Artagnan.

— Bom?

— Bom, Monsenhor.

— Dá-me uma farda de mosqueteiro e ajuda-me a vesti-la. Pôs-se então o Cardeal, silencioso e pensativo, a despir os trajos de cerimônia que envergara para assistir à reunião do Parlamento e a substituí-los pela casaca militar, que usava com certo garbo, graças às suas antigas campanhas da Itália; e, quando se viu completamente vestido:

— Vai-me buscar o Sr. d'Artagnan.

O criado saiu, dessa feita, pela porta do meio, mas sempre silencioso e mudo. Dir-se-ia uma sombra.

Ficando só, o Cardeal mirou-se com certa satisfação a um espelho; ainda era jovem, pois tinha apenas quarenta e seis anos, o porte elegante e a estatura pouco abaixo da mediana, a tez viva e bela, o olhar cheio de fogo, o nariz grande, mas bem proporcionado, a fronte larga e majestosa, os cabelos castanhos encaracolados, a barba mais escura do que os cabelos e sempre bem frisada, o aspecto donairoso. Pôs o boldrié, considerou, satisfeito, as mãos, belas e muito bem tratadas; e, logo, descartando-se das grossas luvas de gamo, em que já havia pegado e que eram as do uniforme, calçou umas luvas simples de seda (5).

(5) Nascido no dia 14 de julho de 1602, filho de um siciliano que servia a casa dos Colonnas como administrador, Júlio Mazarino era um guapo cavaleiro, bem apessoado e extremamente inteligente. Alto, trigueiro, de olhar vivo e fisionomia doce, jovial e sorridente, muito insinuante, destro em todos os exercícios, possuía "encantos inevitáveis para ser amado por aqueles que desejava agradar". Impermeável aos sentimentos de ódio ou amizade, sabia dosar-lhes as manifestações de acordo com as suas conveniências. Aluno modelo do colégio dos Jesuítas em Roma, bacharel pela Universidade espanhola de Alcala, doutor in utroque jure, capitão de infantaria, diplomata, agente papal, chamou a atenção de Richelieu no decurso das negociações em que se empenhou, e o grande Cardeal, reconhecendo-lhe os méritos extraordinários, chamou-o para o serviço de França. Richelieu obteve para ele o chapéu de Cardeal em 1641 e, antes de morrer, designou-o Luís XIII para membro do conselho de regência, a que deveria submeter-se Ana d'Áustria. Daí a transformar-se em favorito da Regente e Primeiro Ministro pouco lhe custou. Segundo nos conta Tallemant des Réaux, quando Richelieu apresentou Mazarino à Rainha pela primeira vez, disse-lhe: "Vossa Majestade gostará muito dele, porque é parecido com Buckingham." O fato é que Ana d'Áustria não tardou em afeiçoar-se ao elegantíssimo ministro, que, além de todas as qualidades intelectuais, possuía uma bonita estampa e vestia-se com extraordinário apuro. (N. do T.)

 

Nesse momento abriu-se a porta.

— O Sr. d'Artagnan — anunciou o escudeiro.

Um oficial entrou.

Era um homem de trinta e nove a quarenta anos, de estatura pequena mas bem proporcionada, magro, olhos vivos e espertos, barba preta e cabelos agrisalhados, como sucede sempre às pessoas que levaram uma vida muito boa ou muito má e sobretudo quando são muito morenas.

D'Artagnan deu quatro passos no gabinete, que reconheceu por haver estado lá no tempo do Cardeal de Richelieu, e vendo que não havia ninguém na sala a não ser um mosqueteiro da sua companhia, parou os olhos no mosqueteiro, no qual reconheceu, incontinenti, o Cardeal.

 

Ficou em pé, em atitude respeitosa mas digna, como convém a um homem de qualidade, que teve, na vida, muitas ocasiões de avistar-se com pessoas importantes.

O Cardeal fixou nele um olhar mais sagaz que profundo, examinou-o com atenção e perguntou, após alguns segundos de silêncio:

— Sois vós o Sr. d'Artagnan?

— Eu mesmo, Monsenhor — replicou o oficial.

O Cardeal tornou a olhar para a cabeça inteligente e para o rosto, cuja excessiva mobilidade fora encadeada pelos anos e pela experiência; mas d'Artagnan sustentou o exame como homem que havia sido examinado outrora por olhos bem mais penetrantes do que aqueles.

— Senhor — anunciou o Cardeal — ireis comigo, ou melhor, eu irei convosco.

— Às ordens de Vossa Eminência — respondeu d'Artagnan.

— Eu quisera visitar pessoalmente os postos que cercam o Palais-Royal; acreditais que haja algum perigo?

— Perigo, Monsenhor! — volveu d'Artagnan com expressão de surpresa. — Qual?

— Dizem que o povo está muito revoltado.

— O uniforme dos mosqueteiros do Rei é bastante respeitado, Monsenhor, e ainda que o não fosse, eu e mais quatro homens poríamos em fuga uma centena desses biltres.

— Mas não vistes o que sucedeu a Comminges?

— O Sr. Comminges pertence aos guardas e não aos mosqueteiros — tornou d'Artagnan.

— O que quer dizer — retrucou, sorrindo, o Cardeal — que os mosqueteiros são melhores soldados do que os guardas?

— Cada qual tem o amor-próprio do seu uniforme, Monsenhor.

— Exceto eu, senhor — replicou Mazarino, com um sorriso — pois, como vedes, despi o meu para vestir o vosso.

— Cáspite, Monsenhor! — acudiu d'Artagnan — isso já é modéstia. Quanto a mim, declaro que, se tivesse o uniforme de Vossa Eminência, contentava-me com ele e não o trocava por outro.

— Sim, mas para sair esta noite talvez não seja o mais seguro. Bernouin, meu chapéu.

Tornou a entrar o escudeiro, trazendo um chapéu de abas largas. O Cardeal colocou-o elegantemente sobre a cabeça e, voltando-se para d'Artagnan:

— Tendes cavalos arreados nas cocheiras?

— Tenho, Monsenhor.

— Pois então, partamos.

— Quantos homens deseja Vossa Eminência?

— Dissestes que vos bastariam quatro para pôr em fuga cem biltres; como poderemos encontrar duzentos, levai oito.

— Quando quiser Vossa Eminência.

— Eu vos sigo; ou melhor — volveu o Cardeal — por aqui, não. Ilumina o caminho, Bernouin.

O escudeiro pegou numa vela, o Cardeal pegou numa chavinha que estava sobre a secretária e, tendo aberto a porta de uma escada secreta, viu-se, ao cabo de um instante, no pátio do Palais-Royal.


 UMA RONDA NOTURNA

 

Dez minutos depois, saía a tropazinha pela rue des Bons-Enfants, atrás da sala de espetáculos construída pelo Cardeal de Richelieu para que nela se representasse Mirame, e na qual o Cardeal Mazarino, mais amante de música que de literatura, acabara de montar as primeiras óperas que se representaram em França.

Ostentava a cidade todas as características de uma grande agitação; grupos numerosos percorriam as ruas e, apesar do que dissera d'Artagnan, paravam para assistir à passagem dos militares com ar de mofa e ameaça, a indicar que os burgueses haviam momentaneamente substituído a mansidão cotidiana por intenções mais belicosas. De tempos a tempos chegavam ruídos das bandas do Mercado. Tiros de espingarda crepitavam dos lados da rue Saint-Denis, e por vezes, de repente, sem que ninguém soubesse por que, algum sino se punha a repicar, sacudido pelo capricho popular.

D’Artagnan caminhava com a indiferença de um homem sobre o qual essas e outras ninharias não exercem influência alguma. Quando um grupo ocupava o meio da rua, atirava sobre ele o cavalo sem dizer: água vai! e como se os seus componentes, rebeldes ou não, soubessem com quem tratavam, abriam caminho e deixavam passar a patrulha. O Cardeal invejava-lhe a calma, que atribuía ao hábito do perigo; mas nem por isso deixava de sentir pelo oficial, sob cujas ordens se colocara, a espécie de consideração que a mesma prudência concede à coragem displicente.

Quando se aproximaram da guarda postada na barreira dos Sargentos, a sentinela gritou: "Quem vem lá?" D’Artagnan respondeu e, tendo pedido a senha ao Cardeal, continuou. A senha era Luís e Rocroy.

Trocados os sinais de reconhecimento, d’Artagnan perguntou se não era o Sr. de Comminges que comandava a guarda.

A sentinela mostrou-lhe um oficial que conversava, em pé, com a mão apoiada no pescoço do cavalo do interlocutor. Era o homem pelo qual d'Artagnan perguntara.

— Aí está o Sr. de Comminges — disse d'Artagnan voltando para junto do Cardeal.

Mazarino aproximou-se deles, ao passo que d'Artagnan, discreto, recuava; entretanto, pelo modo por que o oficial a pé e o oficial montado se desbarretaram, percebeu que' haviam reconhecido Sua Eminência.

— Bravo, Guitaut — disse o Cardeal ao cavaleiro — vejo que, apesar dos teus sessenta e quatro anos, és sempre o mesmo, atento e dedicado. Que dizias a esse jovem?

— Monsenhor — retrucou Guitaut (6) — eu dizia-lhe que vivemos numa época singular e que o dia de hoje lembrava muitíssimo os da Liga (7), de que tanto ouvi falar quando menino. Saiba Vossa Eminência que, nas ruas Saint-Denis e Saint-Martin, os rebeldes já pensavam em armar barricadas.

(6) Marquês Luís de Guitaut, capitão dos guardas da Rainha. No seu caderninho de apontamentos, em que tinha o hábito de anotar quanto lhe parecesse de alguma importância, observa Mazarino que o velho capitão se apaixonara pela Rainha e tinha ciúmes de todo o mundo; e escreve: "Ghitto: gelosia, non mi guarda; é bestiale et io non lo soffriro" ou seja: ""Guitaut: ciúme, não olha para mim; é estúpido, e não o permitirei." (N. do T.)

(7) Também chamada Santa União, foi a Liga uma confederação do partido católico em França, que se formou após a conclusão de um tratado que concedia grandes vantagens aos huguenotes, em 1576. Partido ao mesmo tempo democrático e católico, tinha como chefe Henrique de Guise, e chegou a exigir o estabelecimento da Inquisição em França. O Rei Henrique III, entretanto, opôs-se às pretensões dos partidários da Liga e mandou assassinar-lhes o chefe, o Duque de Guise, sendo, pouco depois, assassinado pelo dominicano Jacques Clément. Após uma série de lutas, em que os adeptos da Santa União se celebrizaram tristemente pelos excessos que cometeram, foram definitivamente vencidos pelo Rei Henrique IV. (N. do T.)

 

— E que te dizia Comminges, meu caro Guitaut?

— Monsenhor — acudiu Comminges — eu dizia-lhe que, para fazer uma Liga, só lhes faltava o indispensável: um Duque de Guise; aliás, ninguém faz duas vezes a mesma coisa.

— Não, mas farão uma Fronda, como dizem — volveu Guitaut.

— E que vem a ser uma Fronda? — perguntou Mazarino.

— É o nome, Monsenhor, que dão os rebeldes ao seu partido.

— E de onde vem esse nome?

— Parece que, alguns dias atrás, o Conselheiro Bachaumont disse, no Parlamento, que todos os organizadores de motins semelham os estudantes que atiram pedras com bodoques (8) nos fossos de Paris e se dispersam quando avistam o guarda, para de novo se reunirem depois que ele passa. Os rebeldes apanharam a frase no ar, como fizeram os gueux de Bruxelas, e apelidaram-se frondistas. Hoje e ontem tudo se fez à maneira da Fronda: pães, chapéus, luvas, regalos, leques. Ouça, ouça, Eminência.

(8) Fronder significa, em francês, atirar pedras com funda, bodoque, estilingue, atiradeira, beca, etc. E releva acentuar que a denominação de Fronde aplicada à revolta que estalou em França contra a autoridade de Ana d'Áustria e, sobretudo, de Mazarino, durante a menoridade de Luís XIV, e que durou de 1648 a 1653, nasceu, efetivamente, da comparação feita pelo Conselheiro Bachaumont (Retz, Memórias, II, 493). (N. do T.)

 

Nesse momento, de fato, abriu-se uma janela; surgiu um homem e principiou a cantar:

Um vento da Fronda

Ergueu-se mofino;

Eu creio que ruge

Contra o Mazarino.

Um vento da Fronda

Ergueu-se mofino!

 

— Insolente! — murmurou Guitaut.

— Monsenhor — acudiu Comminges, mal-humorado por causa do ferimento que recebera e cujo maior desejo era tomar uma desforra — quer Vossa Eminência que eu dê um tiro naquele salafrário para ensiná-lo a cantar melhor?

E levou a mão nos coldres do cavalo do tio.

— Não, não! — exclamou Mazarino. — Diavolo! Meu caro amigo, estragaríeis tudo; as coisas, pelo contrário, vão que é uma beleza! Conheço os franceses como se eu os tivesse feito, do primeiro ao último: se cantam, pagarão. Durante a Liga, de que há pouco falava Guitaut, só se cantavam missas e tudo ia malissimamente. Vem, Guitaut, vem, e vamos ver se fazem tão boa guarda no Hospício dos Cegos como na barreira dos Sargentos.

E, cumprimentando Comminges com a mão, reuniu-se a d'Artagnan, que reassumiu o comando do destacamentozinho, imediatamente seguido de Guitaut e do Cardeal, seguidos, por seu turno, dos demais mosqueteiros.

— Está certo — murmurou Comminges, vendo-o afastar-se — eu me esquecia de que, em pagando o povo, ele está satisfeito.

A cavalgata desandou a rue Saint-Honoré, dispersando os grupos, que não falavam senão nos editos do dia e lastimavam o Reizinho, que arruinava assim o povo sem o saber; toda a culpa era atribuída a Mazarino e falava-se em procurar o Duque de Orléans e o Sr. Príncipe (9), ao mesmo passo que exaltavam Blancmesnil e Broussel.

(9) Assim como chamavam ao Cardeal Mazarino o Sr. Cardeal, e ao Duque de Orléans "Monsieur", isto é, "Senhor", assim se chamava Sr. Príncipe de Conde, primeiro príncipe de sangue. Essa maneira de designar as pessoas que desfrutavam de uma posição privilegiada era corrente e significava que a pessoa mencionada era "o Príncipe" ou "o Cardeal" por excelência. (N. do T.)

 

D'Artagnan passava pelo meio dos grupos, displicente, como se ele e o seu cavalo fossem de ferro; Mazarino e Guitaut conversavam em voz baixa; os mosqueteiros, que tinham reconhecido o Cardeal, cavalgavam em silêncio.

Chegados à rue Saint-Thomas-du-Louvre, onde se postara a guarda do Hospício de Cegos, Guitaut chamou um oficial subalterno, que se aproximou.

— E então? — perguntou Guitaut.

— Ah! meu Capitão — disse o oficial — vai tudo bem por estas bandas; mas parece que se passa alguma coisa naquele palácio.

'E indicava, com a mão, um magnífico palácio edificado exatamente no sítio onde depois se ergueu o Vaudeville.<

— Naquele palácio! — tornou Guitaut. — Mas se é o palácio de Rambouillet!

— Não sei se é o palácio de Rambouillet — retrucou o oficial — mas sei que vi entrar lá muita gente mal encarada.

— Ora! — acudiu Guitaut, soltando uma gargalhada — são poetas.

— Por favor, Guitaut! — sobreveio Mazarino — não me fales com tanta irreverência desses cavalheiros! Não sabes que também fui poeta na mocidade e que eu fazia versos no gênero dos que faz o Sr. de Benserade?

— Vossa Eminência?

— Eu, sim. Queres que te recite alguns?

— Não adianta, Monsenhor. Não entendo italiano.

— Mas entendes francês, não é verdade, meu bom e bravo Guitaut? — volveu Mazarino, pousando-lhe amistosamente a mão sobre o ombro. — E seja qual for a ordem que te derem nessa língua, saberás executá-la?

— Sem dúvida, Monsenhor, como já o tenho feito, contanto que seja da Rainha.

— Ah, sim! — exclamou Mazarino, mordendo os lábios.— sei que lhe és inteiramente dedicado.

— Sou Capitão de seus guardas há mais de vinte anos.

— A caminho, Sr. d'Artagnan — tornou o Cardeal — vai tudo bem deste lado.

D'Artagnan recolocou-se à frente da coluna sem dizer uma palavra e com a obediência passiva que caracteriza o velho soldado.

Dirigiu-se para o alto de Saint-Roch, onde estava a terceira guarda, passando pelas ruas de Richelieu e Villedo. Era o posto mais isolado, porque se estendia quase até aos muros da cidade, pouco habitada nessa região.

— Quem comanda este posto? — perguntou o Cardeal.

— Villequier — respondeu Guitaut.

— Diabo! — exclamou Mazarino — fala tu com ele, pois sabes que estamos de mal desde que foste encarregado de prender o Sr. Duque de Beaufort; ele entendia que, como Capitão dos Guardas do Rei, a honra lhe era devida.

— Eu sei, e já lhe disse mil vezes que não tem razão, pois o Rei não poderia dar-lhe essa ordem, visto que, naquela ocasião, tinha apenas quatro anos de idade.

— Sim, mas eu podia dar-lha, Guitaut, e preferi que fosses tu.

Guitaut, sem responder, esporeou o cavalo e, dando-se a conhecer à sentinela, mandou chamar o Sr. de Villequier. Este apareceu.

— Ah! sois vós, Guitaut! — bradou com o mau humor que lhe era habitual — que diabo viestes fazer aqui?

— Venho perguntar-vos se há alguma novidade por este lado.

— Que novidade quereis que haja? Toda a gente grita: "Vida o Rei!" e "Morra o Mazarino!" Isso não é novidade; já faz algum tempo que nos habituamos a esses gritos.

— E fazeis coro com eles? — tornou, rindo, Guitaut.

— Palavra que sinto, às vezes, muita vontade de fazê-lo. O povo têm razão, Guitaut; eu daria de bom grado cinco anos de soldo, que não me pagam, para que El-Rei tivesse cinco anos mais.

— Sim? E que aconteceria se El-Rei tivesse cinco anos mais?

— Aconteceria que, sendo maior, El-Rei daria pessoalmente as suas ordens, e seria muito mais agradável obedecer ao neto de Henrique IV do que ao filho de Pietro Mazarini. Pelo Rei, eu me deixaria matar com prazer; mas se fosse morto por causa do Mazarino, como o vosso sobrinho escapou de sê-lo hoje à tarde, nem o mais deleitoso dos paraísos seria capaz de consolar-me.

— Muito bem, Sr. de Villequier — disse Mazarino. — Tranqüilizai-vos, que o Rei saberá da vossa dedicação.

E, logo, voltando-se para a escolta:

— Vamos, senhores — continuou — tudo vai bem, regressemos.

— Ué! — exclamou Villequier — o Mazarino estava aqui! Melhor; havia muito tempo que eu desejava dizer-lhe pessoalmente o que pensava dele; vós me fornecestes a ocasião, Guitaut; e se bem as vossas intenções para comigo talvez não fossem das melhores, eu vos agradeço.

E, girando sobre os calcanhares, tornou a entrar no corpo da guarda assobiando um estribilho da Fronda.

Mazarino, porém, regressou pensativo; o que sucessivamente ouvira de Comminges, Guitaut e Villequier confirmava-lhe a idéia de que, ocorressem sucessos graves, não teria ninguém por si senão a Rainha, e a Rainha tantas vezes abandonara os amigos que o seu apoio afigurava-se ao Ministro, apesar das precauções que tomara, incerto e precário.

Durante todo o tempo que durara a ronda noturna, isto é, cerca de uma hora, embora estudasse Comminges, Guitaut e Villequier, cada qual por sua vez, o Cardeal examinara um homem. Esse homem, que se mostrara impassível diante da ameaça popular e cujo rosto não sofrerá a menor alteração ante os gracejos feitos por Mazarino ou contra ele, esse homem lhe parecia um ser à parte, talhado para os acontecimentos que então se sucediam e, sobretudo para os que iam suceder-se.

De mais a mais, o nome de d'Artagnan não lhe era de todo desconhecido, e se bem Mazarino só tivesse chegado à França entre 1634 e 1635, isto é, sete ou oito anos após os sucessos que referimos numa história precedente, cria o Cardeal tê-lo ouvido pronunciar como o de um homem que, em circunstância de que já não se recordava, se notabilizara pela coragem, habilidade e dedicação.

De tal sorte lhe senhoreou o espírito essa idéia, que decidiu esclarecê-la sem demora; mas as informações que desejava obter sobre d'Artagnan, não poderia pedi-las ao próprio d'Artagnan. Pelas poucas palavras que pronunciara o Tenente de mosqueteiros, o Cardeal reconhecera-lhe a origem gascã; e os italianos e gascões se conhecem e parecem tanto que não se fiam do que possam dizer a seu próprio respeito. Por isso mesmo, chegado ao muro que rodeia o jardim do Palais-Royal, bateu a uma portazinha situada mais ou menos onde hoje se ergue o Café de Foy, e, depois de haver agradecido a d'Artagnan e de lhe ter dito que esperasse no pátio do Palais-Royal, fez sinal a Guitaut que o seguisse. Apearam os dois, entregaram as rédeas dos animais ao lacaio que lhes abrira a porta e desapareceram no jardim.

— Meu caro Guitaut — disse o Cardeal, apoiando-se ao braço do velho Capitão dos guardas — tu me dizias, há pouco, que estás há mais de vinte anos ao serviço da Rainha.

— É verdade — respondeu Guitaut.

— Sim, meu caro Guitaut — continuou o Cardeal — observei que, além da coragem, que não admite contestação, e da fidelidade, a toda prova, tens uma extraordinária memória.

— Vossa Eminência observou-o? — tornou o Capitão dos guardas; — diabo! pior para mim.

— Por quê?

— Porque uma das primeiras qualidades do cortesão é, sem dúvida, saber esquecer.

— Mas tu não és cortesão, Guitaut, és um bravo soldado, um desses capitães do tempo do Rei Henrique IV, como ainda os há, mas como, desgraçadamente, já não haverá daqui a pouco.

— Cáspite, Monsenhor! Vossa Eminência ordenou-me que o seguisse para tirar-me o horóscopo?

— Não — redargüiu Mazarino, dando uma risada; — eu te pedi que viesses para perguntar-te se observaste o nosso Tenente de mosqueteiros.

— O Sr. d'Artagnan?

— Sim.

— Não precisei observá-lo, Monsenhor, faz muito tempo que o conheço.

— Que espécie de homem é ele?

— Ué! — replicou Guitaut, surpreso — é um gascão!

— Eu sei, eu sei; mas queria saber se é homem de que a gente pode confiar-se.

— O Sr. de Tréville vota-lhe grande estima, e como Vossa Eminência não ignora, o Sr. de Tréville é um dos grandes amigos da Rainha.

— Eu queria saber se é um homem experimentado.

— Se Vossa Eminência se refere à experiência militar, posso responder-lhe que é um bravo soldado. No cerco da Rochela, em Susa e em Perpinhão, ouvi dizer que fez mais do que o dever.

— Mas tu sabes, Guitaut, tu sabes que nós, pobres ministros, muitas vezes não precisamos apenas de homens corajosos. Precisamos de homens hábeis. O Sr. d'Artagnan não andou metido, no tempo do Cardeal, numa intriga qualquer em que, segundo voz corrente, se houve com muita habilidade?

— Quanto a isso, Monsenhor — tornou Guitaut, percebendo que o Cardeal queria fazê-lo falar — sou obrigado a dizer-lhe que sei apenas o que a voz corrente terá informado a Vossa Eminência. Nunca me envolvi em intrigas por minha conta, e se tenho, às vezes, recebido confidencias sobre intrigas alheias, como o segredo não me pertence, Vossa Eminência me permitirá conservá-lo para quem mo confiou.

Mazarino meneou a cabeça.

— Ah! — disse ele — palavra que há ministros bem felizes, que sabem tudo o que querem saber.

— Mas esses, Monsenhor — ripostou Guitaut — não pesam todos os homens na mesma balança e procuram os de guerra para saberem de guerras e os intrigantes para saberem de intrigas. Procure Vossa Eminência algum intrigante desse tempo e ficará sabendo o que quiser; pagando, bem entendido.

— Com a breca! — exclamou Mazarino, fazendo uma careta que sempre lhe escapava quando lhe falavam em dinheiro no sentido em que o fizera Guitaut... — pagar-se-á... se não houver outro meio.

— Vossa Eminência me pede seriamente que lhe indique um homem que andou envolvido em todas as cabalas daquele tempo?

— Per Bacco! — tornou Mazarino, que principiava a impacientar-se — faz uma hora que não te peço outra coisa, cabeçudo!

— Há um pelo qual responde nesse sentido, se ele quiser falar.

— Isso é comigo.

— Ah! Monsenhor! nem sempre é fácil obrigar os outros a dizerem o que não querem dizer.

— Ora! Com um pouco de paciência... Esse homem é...

— É o Conde de Rochefort.

— O Conde de Rochefort!

— Mas há uns quatro ou cinco anos que, infelizmente, desapareceu e não sei o que foi feito dele.

— Eu sei, Guitaut — acudiu Mazarino.

— Então por que se queixava há pouco Vossa Eminência de que não sabe nada?

— E tu crês — disse Mazarino — que Rochefort...

— Era a alma danada do Cardeal, Monsenhor; mas previno a Vossa Eminência que isso lhe custará caro; o Cardeal era pródigo com os seus.

— Sim, sim, Guitaut — volveu Mazarino — era um grande homem, mas tinha esse defeito. Obrigado, Guitaut, aproveitarei o teu conselho hoje mesmo.

E como, nesse momento, os dois interlocutores houvessem chegado ao pátio do Palais-Royal, o Cardeal cumprimentou Guitaut com a mão e, vendo um oficial que andava de um lado para outro, aproximou-se dele.

Era d'Artagnan, que esperava o regresso do Cardeal, como este lhe ordenara que fizesse.

— Vinde, Sr. d'Artagnan — chamou Mazarino com a sua voz mais adocicada — tenho uma ordem para dar-vos.

D'Artagnan inclinou-se, seguiu o Cardeal pela escada secreta e, um instante depois, viu-se no gabinete de onde saíra. Sentou-se o Cardeal diante da secretária e pegou numa folha de papel em que escreveu algumas linhas.

Em pé, impassível, d'Artagnan esperou sem impaciência e sem curiosidade: convertera-se num autômato militar, que agia, ou melhor, obedecia por meio de molas.

O Cardeal dobrou a carta e imprimiu-lhe o sinete.

— Sr. D'Artagnan — disse ele — levareis este ofício à Bastilha e trareis a pessoa a que ele se refere; providenciai um carro, uma escolta e guardai cuidadosamente o prisioneiro.

D'Artagnan tomou a carta, levou a mão ao chapéu, girou sobre os calcanhares, como o teria feito o mais hábil dos sargentos instrutores, saiu, e, volvido um instante, ouviram-no ordenar, com voz breve e monótona:

— Quatro homens de escolta, um carro e o meu cavalo. Cinco minutos depois retiniam sobre as lajes do pátio as rodas do veículo e as ferraduras dos cavalos.

 

     DOIS ANTIGOS INIMIGOS

 

D'Artagnan chegou à Bastilha quando soavam oito horas e meia. Fez-se anunciar ao Governador, que, sabendo que ele vinha da parte do Ministro e trazia uma ordem sua, foi recebê-lo à entrada.

O Governador da Bastilha era, então, o Sr. du Tremblay, irmão do famoso capuchinho José, o terrível favorito de Richelieu, a quem chamavam a Eminência parda.

Quando o Marechal de Bassompierre estava na Bastilha, onde ficou doze anos bem contados, e os companheiros, em seus sonhos de liberdade, diziam uns aos outros: "Sairei em tal época" e "Eu, em tal tempo", Bassompierre respondia: "E eu, senhores, sairei quando sair o Sr. du Tremblay". O que significava que, morrendo o Cardeal, o Sr. du Tremblay não poderia menos de perder o lugar na Bastilha e Bassompierre de retomar o seu na Corte.

A predição, com efeito, quase se realizou, mas de maneira diversa da que pensara Bassompierre, pois, morto o Cardeal, contra todas as expectativas, as coisas continuaram como estavam: o Sr. de Tremblay não saiu e por pouco não saiu também o Marechal.

Por conseguinte, era ainda Governador da Bastilha o Sr. de Tremblay quando d'Artagnan se apresentou para cumprir a ordem do Ministro; ele recebeu-o com suma polidez e, como fosse sentar-se à mesa naquele instante, convidou d'Artagnan para jantar.

— Eu teria o máximo prazer — respondeu d'Artagnan; — mas, se não me engano, no invólucro da carta está escrito urgentíssimo.

— É verdade — concordou o Sr. du Tremblay. — Olá, major! faça-se descer o número 256.

Quem entrasse na Bastilha, deixava de ser homem para converter-se em número.

D'Artagnan sentiu um calafrio ao ruído das chaves; por isso mesmo continuou montado, sem querer apear, examinando as grades, as janelas reforçadas, os muros enormes, que só vira do outro lado dos fossos e que tanto medo lhe haviam provocado uns vinte anos antes.

Um sino repicou.

— Com licença — disse-lhe o Sr. du Tremblay — estão me chamando para assinar a ordem de saída do prisioneiro. Até à vista, Sr. d'Artagnan.

— Raios me partam se correspondo ao teu cumprimento! — murmurou d'Artagnan, acompanhando a imprecação com o mais gracioso dos sorrisos; — só de ficar cinco minutos aqui no pátio já me sinto mal. Estou vendo que prefiro mil vezes morrer na miséria, o que provavelmente me acontecerá, a juntar dez mil libras de renda como Governador da Bastilha.

Apenas terminara o monólogo, surgiu o preso. Vendo-o, d'Artagnan fez um gesto de surpresa, que logo reprimiu. O prisioneiro entrou no carro sem haver, aparentemente, reconhecido o gascão.

— Senhores — disse d'Artagnan aos quatro mosqueteiros — recomendaram-me que vigiasse com o máximo cuidado o prisioneiro; ora, como o carro não tem fechaduras nas portinholas, irei ao seu lado. Sr. de Lillebonne, tende a bondade de puxar o meu cavalo.

— Perfeitamente, meu tenente! — respondeu o interpelado.

D'Artagnan apeou, entregou as rédeas do animal ao mosqueteiro, subiu no carro, colocou-se ao lado do preso e, com uma voz em que seria impossível distinguir a menor emoção:

— Para o Palais-Royal, a trote — disse ele.

O carro partiu incontinenti e d'Artagnan, aproveitando-se da escuridão reinante sob a abóbada que atravessavam, atirou-se aos braços do preso.

— Rochefort! — exclamou. — Vós! Sois vós! Não me enganei!

— D'Artagnan! — exclamou, por sua vez, Rochefort, espantadíssimo.

— Ah! meu pobre amigo! — continuou d'Artagnan — como não vos visse há quatro ou cinco anos, pensei que tivésseis morrido.

— A minha fé — tornou Rochefort — não há muita diferença, creio eu, entre um morto e um enterrado; e eu, se não estou enterrado, pouco falta.

— E por que crime estais na Bastilha;

— Quer eis que vos diga a verdade?

— Quero.

— Não sei.

— Desconfiais de mim, Rochefort?

— Não, palavra de gentil-homem! É impossível que me tenham prendido pelo motivo que alegam.

— Que motivo?

— Furto.

— Furto? Vós? Gracejais, Rochefort?

— Compreendo. O caso exige uma explicação, não exige?

— Confesso que sim.

— Pois bem, eis o que aconteceu: certa noite, depois de uma orgia em casa de Reinard, nas Tulherias, com o Duque d'Harcourt, Fontrailles, de Rieux e outros, propôs o Duque d'Harcourt que fôssemos roubar capotes no Pont-Neuf; como sabeis, é um divertimento a que deu muita voga o Sr. Duque d'Orléans.

— Estáveis louco, Rochefort! Na vossa idade?

— Não, eu estava bêbedo; e no entanto, como o divertimento me parecesse medíocre, propus ao Cavaleiro de Rieux assistirmos ao espetáculo em vez de participarmos dele, e, para poder fazê-lo melhor, subirmos ao cavalo de bronze. Dito e feito. Graças às esporas, que nos serviram de estribos, num instante conseguimos empoleirar-nos na garupa; estávamos muito bem e víamos tudo. Quatro ou cinco capotes já tinham sido arrancados com insuperável destreza e sem que as vítimas ousassem reclamar, quando não sei que imbecil, menos cordato que os outros, cismou de gritar: "Aqui del-rei!" e chamou a atenção de uma patrulha de arqueiros. O Duque d'Harcourt, Fontrailles e os outros abriram no pé; de Rieux quis fazer o mesmo. Segurei-o dizendo-lhe que ninguém nos descobriria onde estávamos. Ele não me ouviu, apoiou o pé na espora para descer, a espora partiu-se, ele caiu, quebrou uma perna e, em vez de ficar quieto, começou a gritar como um condenado. Eu quis saltar também, mas já era muito tarde: caí nos braços dos arqueiros, que me conduziram ao Châtelet, onde dormi como um justo, certo de que seria libertado na manhã seguinte. Passou-se o dia seguinte, passou-se mais um, oito dias se passaram; escrevi ao Cardeal. Nesse dia foram buscar-me e conduziram-me à Bastilha; e já faz cinco anos que lá estou. Acreditais que tenha sido pelo sacrilégio de haver montado na garupa de Henrique IV?

— Não, tendes razão, meu caro Rochefort, não deve ser por isso; mas, provavelmente, sabereis agora por que foi.

— Ah! sim, porque eu me esquecia de perguntar-vos: aonde me levais?

— Ao Cardeal.

— Que me quer ele?

— Não sei, pois eu nem sabia quem era a pessoa que me mandaram buscar.

— Impossível! Vós, um favorito!

— Um favorito! Eu? — exclamou d’Artagnan. — Ah! meu pobre Conde, sou hoje mais caçula da Gasconha do que no dia em que vos encontrei em Meung, há vinte e tantos anos!

E um profundo suspiro rematou-lhe a frase.

— Mas fostes encarregado de um serviço.

— Porque estava, por acaso, na antecâmara, e o Cardeal me chamou como teria chamado outro qualquer; continuo sendo tenente de mosqueteiros, e isso, se não me falha a memória, há quase vinte e um anos.

— O fato é que não vos sucedeu nenhuma desgraça. Já não é pouco.

— E que desgraça queríeis que me sucedesse? Como diz não sei que verso latino que esqueci, ou melhor, que eu nunca soube direito: "O raio não fulmina os vales"; e eu sou um vale, meu caro Rochefort, e dos mais rasos.

— O Mazarino, então, continua Mazarino?

— Mais do que nunca, meu caro; dizem-no casado com a Rainha.

— Casado!

— Se não é marido será amante, com certeza.

— Resistir a um Buckingham e ceder a um Mazarino!

— Assim são as mulheres! — redargüiu, filosófico, d’Artagnan.

— As mulheres, sim, mas as rainhas!

— Ora! nesse sentido, as rainhas são duplamente mulheres.

— E o Sr. de Beaufort, continua preso?

— Continua; por quê?

— Porque, sendo meu amigo, poderia ajudar-me.

— Estais, provavelmente, mais próximo da liberdade do que ele. E, assim sendo, vós é que podereis ajudá-lo.

— Então, a guerra...

— É inevitável.

— Com o espanhol?

— Não, com Paris.

— Como?

— Não ouvis esses tiros?

— Ouço. Que é que têm?

— São os burgueses que treinam antes do jogo.

— Acreditais que se possa fazer alguma coisa dos burgueses?

— Creio que sim. Eles prometem, e se tiverem um chefe que reúna todos os grupos...

— É uma desgraça não estar livre.

— Por Deus, não vos desespereis! Se Mazarino manda buscar-vos, é que precisa de vós; e se precisa de vós, felicito-vos. Faz muitos anos já que ninguém precisa de mim; por isso mesmo, vede onde estou.

— E tendes coragem de queixar-vos!

— Escutai, Rochefort. Um pacto...

— Que pacto?

— Somos bons amigos.

— Se somos! Ainda conservo as marcas da nossa amizade: três estocadas!...

— Pois bem, se cairdes novamente em graça, não vos esqueçais de mim.

— Palavra de Rochefort; mas com a condição de que façais o mesmo.

— Feito: aqui está minha mão.

— Portanto, na primeira ocasião em que puderdes falar de mim...

— Falarei. E vós?

— Eu também.

— A propósito, e os vossos amigos? Será preciso falar deles também?

— Que amigos?

— Athos, Porthos e Aramis. Já os esquecestes?

— Quase.

— Que foi feito deles?

— Não sei.

— Verdade?

— Verdade. Ah! meu Deus, nós nos separamos como sabeis: ainda vivem, e é tudo o que posso dizer-vos; chegam-me, de longe em longe, notícias indiretas. Mas o diabo me carregasse se sei em que lugar do mundo se encontram neste momento. Não, palavra de honra, o único amigo que me resta sois vós, Rochefort.

— E o ilustre... como se chama o rapaz que nomeei sargento do regimento de Piemonte?

— Planchet?

— Ele mesmo. E o ilustre Planchet, que é feito dele?

— Casou com uma confeiteira de rue Les Lombards. O rapaz sempre se lambeu por doces. De sorte que hoje é burguês de Paris e, muito provavelmente, anda amotinado a estas horas. Vereis que o patife ainda será vereador antes que me façam capitão.

— Vamos, meu caro d'Artagnan, um pouco de coragem! Quando estamos no ponto mais baixo da roda é que a roda vira e nos eleva. Esta noite talvez mude a vossa sorte.

— Amém! — disse d'Artagnan, mandando parar o carro. — Que fazeis? — perguntou Rochefort.

— Chegamos e não quero que me vejam sair do carro; não nos conhecemos.

— Tendes razão. Adeus.

— Até à vista; lembrai-vos da promessa.

E d'Artagnan, tornando a cavalgar, pôs-se à frente da escolta.

Cinco minutos depois, entravam no pátio do Palais-Royal.

D'Artagnan conduziu o prisioneiro pela escada principal e fê-lo atravessar a antecâmara e o corredor. Chegado à porta do gabinete de Mazarino, já se dispunha a mandar-se anunciar, quando Rochefort lhe pôs a mão no ombro.

— D'Artagnan — disse Rochefort, a sorrir — quereis que eu vos confesse uma coisa em que pensei durante todo o trajeto, vendo os grupos de burgueses que atravessávamos e que vos olhavam, a vós e aos vossos quatro homens, com olhos fuzilantes?

— Dizei — respondeu d'Artagnan.

— Bastava-me gritar por socorro para que vós e a vossa escolta fósseis estraçalhados e eu me visse em liberdade.

— E por que não o fizestes? — perguntou d'Artagnan.

— Ora! — tornou Rochefort. — E a amizade que juramos? Ah! Se outro me escoltasse, não digo que não...

D'Artagnan inclinou a cabeça.

— Teria Rochefort ficado melhor do que eu? — disse entre si.

E fez-se anunciar ao Ministro.

— Fazei entrar o Sr. de Rochefort — disse a voz impaciente de Mazarino, assim que ouviu pronunciados os dois nomes — e pedi ao Sr. d'Artagnan que espere: ainda preciso falar com ele.

Essas palavras encheram de júbilo o gascão. Como dissera, fazia muito tempo que ninguém precisava dele e a insistência de Mazarino a seu respeito lhe parecia um feliz presságio.

Quanto a Rochefort, não produziu sobre ele outro efeito que o de pô-lo de sobreaviso. Entrou no gabinete e encontrou Mazarino sentado à mesa com os trajos de sempre, isto é, o hábito de monsignor, que era, pouco mais ou menos, a vestimenta dos padres do tempo, tirante as meias e o manto roxo que usava.

Fecharam-se de novo as portas. Rochefort considerou Mazarino de soslaio e surpreendeu o olhar do Ministro, que cruzava com o seu.

O Ministro era sempre o mesmo: bem penteado, bem frisado, bem perfumado e, graças à sua casquilhice, não aparentava a idade que tinha. Quanto a Rochefort, o caso era outro: os cinco anos que passara na prisão tinham envelhecido bastante o digno amigo do Sr. de Richelieu; os cabelos pretos haviam embranquecido completamente e o bronzeado da tez fora substituído por uma palidez que se diria provocada pelo esgotamento. Vendo-o, Mazarino sacudiu imperceptivelmente a cabeça, como quem dissesse:

— Eis aí um homem que já não me parece prestar para nada.

Depois de um silêncio realmente longo, mas que se afigurou um século a Rochefort, Mazarino tirou de um maço de papéis uma carta aberta e, mostrando-a ao fidalgo:

— Encontrei aqui uma carta em que reclamáveis a vossa liberdade, Sr. de Rochefort. Estáveis preso?

Rochefort estremeceu ouvindo a pergunta.

— Eu tinha a impressão de que Vossa Eminência sabia disso melhor do que ninguém — disse ele.

— Eu? Absolutamente. Há ainda na Bastilha uma quantidade de prisioneiros que lá se encontram desde o tempo do Sr. de Richelieu, e cujos nomes até ignoro.

— Sim, mas comigo a coisa é diferente, Monsenhor! E Vossa Eminência não ignora o meu, pois foi por ordem sua que me transferiram do Châtelet à Bastilha.

— Parece-vos isso?

— Tenho certeza.

— Sim, creio que agora me lembro; não havíeis, nessa ocasião, recusado fazer para a Rainha uma viagem a Bruxelas?

— Ah! ah! — exclamou Rochefort — é essa, então, a verdadeira causa? Faz cinco anos que a procuro. Foi tolice minha não a ter encontrado.

— Mas eu não estou dizendo que tenha sido essa a causa da vossa prisão; entendamo-nos, é uma pergunta que vos faço, e mais nada: não vos recusastes a ir a Bruxelas a serviço da Rainha, ao passo que concordastes em fazê-lo a serviço do finado Cardeal?

— Era exatamente por ter ido a serviço do finado Cardeal que eu não podia voltar a serviço da Rainha. Eu estivera em Bruxelas numa circunstância terrível, durante a conspiração de Chalais (10). Levara a incumbência de surpreender a correspondência de Chalais com o Arquiduque e, já nessa época, quando fui reconhecido, quase me espedaçaram. Como queria Vossa Eminência que eu voltasse? Em vez de servir a Rainha, só vingaria perdê-la.

(10) Henrique de Talleyrand, Conde de Chalais. Favorito de Luís XIII, notabilizou-se por atos de bravura nos cercos de Montpellier e de Montauban, mas teve a infelicidade de meter-se com a Duquesa de Chevreuse, sua amante, numa conspiração contra a vida de Richelieu : este o acusou de haver conspirado contra o próprio Rei, e Luís XIII, apesar da amizade que lhe votava, mandou-o prender em Nantes, julgar e decapitar. Chalais tinha, então, vinte e seis anos. (N. do T.)

 

— Pois aí tendes como são mal interpretadas as melhores intenções, meu caro Sr. de Rochefort. A Rainha não viu na vossa recusa senão uma recusa pura e simples; Sua Majestade tivera sobejas razões de queixa contra vós no tempo do finado Cardeal.

Rochefort sorriu, desdenhoso.

— Justamente porque servi bem o Sr. Cardeal de Richelieu contra a Rainha, é que, depois da sua morte, devia compreender Vossa Eminência que eu o serviria bem contra toda a gente.

— Eu, Sr. de Rochefort — disse Mazarino — eu não sou como o Sr. de Richelieu, que aspirava à onipotência; sou um simples ministro, que não precisa de servidores porque sou um mero servidor da Rainha. Ora, Sua Majestade é muito suscetível; sabedora da vossa recusa, tê-la-á interpretado como uma declaração de guerra e, sabendo que sois um homem superior e, portanto, perigoso, meu caro Sr. de Rochefort, ter-me-á ordenado que vos vigiasse. Eis por que vos encontrais na Bastilha.

— Pois bem, Monsenhor, parece-me — disse Rochefort — que se é por engano que me encontro na Bastilha...

— Sim, sim — voltou Mazarino — tudo isso, sem dúvida, pode arrumar-se; sois capaz de compreender certos negócios e, tendo-os compreendido, levá-los a bom termo.

— Era a opinião do Sr. Cardeal de Richelieu, e a minha admiração por esse grande homem torna-se ainda maior quando Vossa Eminência se digna dizer-me que dela comparte.

— Com efeito — tornou Mazarino — o Sr. Cardeal era muito político, e daí a sua grande superioridade sobre mim, que sou um homem extremamente simples e sem rodeios; o que me prejudica é a minha franqueza verdadeiramente francesa.

Rochefort mordeu os lábios para não sorrir.

— Chego, portanto, ao meu fim. Preciso de bons amigos, de servidores fiéis; quando digo preciso, quero dizer: a Rainha precisa. Não faço nada senão por ordem da Rainha, compreendeis? Não sou como o Sr. Cardeal de Richelieu, que seguia em tudo o seu capricho. Por isso, nunca serei um grande homem como ele; mas, em compensação, sou um homem bom, Sr. de Rochefort, e espero poder prová-lo.

Rochefort conhecia-lhe a voz sedosa, em que se intercalava de quando em quando um silvo, lembrando o de uma víbora.

— Estou pronto para acreditar em Vossa Eminência — disse ele — se bem, de minha parte, eu tenha tido poucas provas dessa bondade, de que me fala. Não se esqueça Vossa Eminência — prosseguiu Rochefort, observando o movimento que o Ministro tentava reprimir — não se esqueça de que estou há cinco anos na Bastilha, e nada deturpa tanto as idéias quanto ver as coisas através das grades de uma prisão.

— Ah! Sr. de Rochefort, eu já vos disse que não tenho nada com a vossa prisão. A Rainha... (cólera de mulher e de princesa, que se há de fazer! Mas isso passa como vem e se esquece como passa)...

— Imagino, Monsenhor, que ela o tenha esquecido, pois passou cinco anos no Palais-Royal, entre festas e cortesãos; mas eu, que os passei na Bastilha...

— Por Deus, meu caro Sr. de Rochefort, acreditais, acaso, que o Palais-Royal seja um sítio muito alegre? Nada disso. Nós também tivemos aqui muitíssimas contrariedades. Mas não falemos mais nisso. Eu, como sempre, ponho as cartas na mesa. Vejamos: sois dos nossos, Sr. de Rochefort?

— Vossa Eminência há de compreender que não desejo outra coisa, mas o caso é que já não estou a par de mais nada. Na Bastilha, só falamos em política com soldados e carcereiros e Vossa Eminência não faz idéia da ignorância dessa gente sobre as coisas que acontecem. Por mim, ainda estou no Sr. de Bassompierre... Ele continua sendo um dos dezessete magnatas?

— Morreu, senhor, e foi uma grande perda. Era um homem dedicado à Rainha, e os homens dedicados são raros.

— Não duvido! — acudiu Rochefort. — Quando Vossa Eminência os encontra, manda-os para a Bastilha.

— Mas, afinal — tornou Mazarino — qual é a prova da dedicação?

— A ação — respondeu Rochefort.

— Ah! sim, a ação! — repetiu o ministro, em tom reflexivo; — e onde encontrar os homens de ação?

Rochefort meneou a cabeça.

— É o que nunca falta, Monsenhor; mas Vossa Eminência procura mal.

— Procuro mal? Que quereis dizer, meu caro Sr. de Rochefort? Vamos, esclarecei-me. Deveis ter aprendido muito na intimidade do finado Sr. Cardeal. Era tão grande homem!

— Vossa Eminência não se zangará se eu lhe pregar um pouco de moral?

— Eu? Nunca! Sabeis muito bem que me podem dizer tudo. Busco fazer-me querer e não fazer-me temer.

— Pois bem, Monsenhor, há no meu calabouço um provérbio escrito na parede com a ponta de um prego.

— E que provérbio é esse?

— Ei-lo, Monsenhor: Tal amo...

— Já sei: tal criado.

— Não: tal servidor. É uma modificaçãozinha que as pessoas dedicadas de que há pouco falei nele introduziram para sua satisfação particular.

— E então? Que significa o provérbio?

— Significa que o Sr. de Richelieu soube encontrar servidores dedicados, às dúzias.

— Ele, o alvo de todos os punhais! ele, que passou a vida aparando os golpes que lhe endereçavam!

— Mas o caso é que os aparou, e olhe que eram bem vigorosos os tais golpes. Pois se tinha bons inimigos, tinha também bons amigos.

— Exatamente o que desejo!

— Conheci pessoas — continuou Rochefort, julgando azado o momento para cumprir a promessa que fizera a d'Artagnan — conheci pessoas que, pela habilidade, puseram cem vezes em cheque a penetração do Cardeal; pela bravura, venceram-lhe os guardas e espiões; sem dinheiro, sem apoio, sem crédito, conservaram a coroa numa cabeça coroada e obrigaram o Cardeal a pedir tréguas.

— Mas essas pessoas de que falais — disse Mazarino, sorrindo intimamente ao perceber que Rochefort chegava aonde ele próprio queria conduzi-lo — essas pessoas não eram dedicadas ao Cardeal, visto que lutavam contra ele.

— Não. Se o fossem, teriam sido melhor recompensadas; mas tinham a desgraça de serem dedicadas a essa mesma Rainha para a qual, há pouco, Vossa Eminência pedia servidores.

— E como podeis saber todas essas coisas?

— Sei-as porque, nessa ocasião, essas pessoas eram minhas inimigas, porque lutavam contra mim, porque eu lhes fiz todo o mal que pude, porque elas me pagaram com a mesma moeda, porque uma delas, com quem me precisei haver mais especialmente, deu-me uma estocada, há cerca de sete anos; era a terceira que eu recebia da mesma mão... saldo de uma conta muito antiga.

— Ah! — exclamou Mazarino com admirável bonomia — se eu conhecesse pessoas assim!

— Ora! Vossa Eminência tem uma à sua porta há mais de seis anos e há mais de seis anos que a julga imprestável.

— Quem é?

— O Sr. d'Artagnan.

— Esse gascão! — bradou Mazarino, com surpresa muito bem fingida.

— Esse gascão salvou uma rainha e forçou o Sr. de Richelieu a confessar que, em matéria de habilidade, astúcia e política, não passava de um aprendiz.

— Deveras?

— É como tenho a honra de dizer a Vossa Excelência.

— Contai-me como foi isso, meu caro Sr. de Rochefort.

— É bem difícil, Monsenhor — respondeu, sorrindo, o gentil-homem.

— Ele mesmo, então, mo contará.

— Duvido, Monsenhor.

— Por quê?

— Porque o segredo não lhe pertence; porque, como eu já disse a Vossa Eminência, o segredo pertence a uma grande Rainha.

— E ele executou sozinho tamanha empresa?

— Não, Monsenhor. Tinha três amigos, três bravos que o secundavam, bravos com os que, há pouco, Vossa Eminência procurava.

— E eram unidos esses quatro homens?

— Como se fossem apenas um, como se os quatro corações batessem num peito só. E quanta coisa fizeram!

— Meu caro Sr. de Rochefort, a verdade é que me despertais a curiosidade a um ponto extraordinário. Não pode-ríeis narrar-me a história?

— Não, mas posso contar-lhe um conto, um verdadeiro conto de fadas, Monsenhor.

— Oh! contai-me então, Sr. de Rochefort; gosto muito de contos.

— Vossa Eminência quer mesmo ouvi-lo? — tornou Rochefort, procurando vislumbrar uma intenção no rosto sutil e astuto.

— Quero.

— Pois, então, ouça! Era uma vez uma rainha... uma rainha poderosa, rainha de um dos maiores reinos do mundo, a que um ministro queria muito mal por lhe haver querido, outrora, muito bem. Não procure saber quem é, Monsenhor! Vossa Eminência não lograria adivinhá-lo. Tudo isso se passava muito tempo antes de Vossa Eminência chegar ao reino em que reinava essa rainha. Ora, surgiu na corte um embaixador, tão corajoso, tão rico e tão elegante que todas as mulheres se apaixonaram por ele, e a própria rainha, de certo como lembrança do modo por que ele tratara os assuntos de Estado, teve a imprudência de dar-lhe certa jóia tão notável que não poderia ser substituída. E como fosse a jóia um presente do rei, o ministro fez que o soberano exigisse da rainha que a ostentasse no baile seguinte. Não é preciso dizer a Vossa Eminência que o ministro sabia, de ciência certa, que a jóia seguira o embaixador e que o embaixador estava muito longe, do outro lado dos mares. A grande rainha viu-se perdida! perdida como a última de suas súditas, pois caía do alto de toda a sua grandeza.

— Sim, senhor! — atalhou Mazarino.

— Pois bem, Monsenhor! quatro homens decidiram salvá-la. Não eram príncipes, não eram duques, não eram poderosos, não eram sequer ricos: eram quatro soldados de grande coração, braço vigoroso e espada franca. Partiram. O ministro soube da partida e colocou os seus sequazes no caminho para impedí-los de chegarem ao seu destino. Três foram postos fora de combate pelos numerosos assaltantes; mas um chegou ao porto, matou ou feriu os que se atreveram a detê-lo, cruzou o mar e devolveu a jóia à grande rainha, que pôde galhardeá-la no dia marcado, para desespero do ministro. Que diz Vossa Eminência dessa façanha?

— Magnífica! — respondeu Mazarino, reflexivo.

— Pois eu sei de uma dúzia delas. Mazarino já não falava, meditava.

Cinco ou seis minutos se passaram.

— Vossa Eminência não tem mais nada para perguntar--me? — indagou Rochefort.

— Tenho. Dizeis que o Sr. d'Artagnan era um desses quatro homens?

— Foi ele quem levou a bom termo a empresa.

— E os outros, quem eram?

— Permita Vossa Eminência que eu deixa ao Sr. d'Artagnan o cuidado de nomeá-los. Eram amigos dele e não meus; só ele poderia influir-lhes no espírito e eu nem sequer lhes conheço os verdadeiros nomes.

— Desconfiai de mim, Sr. de Rochefort. Pois bem, quero ser franco até ao fim: preciso de vós, dele, de todos!

— Comecemos por mim, Monsenhor, já que Vossa Eminência me mandou buscar e eu estou aqui. Depois falaremos dos outros. Vossa Eminência não se admirará da minha curiosidade: depois de passar cinco anos numa prisão, qualquer pessoa gostaria de saber aonde pretendem mandá-la.

— Vós, meu caro Sr. de Rochefort, tereis o posto de confiança, ireis a Vincennes onde está preso o Sr. de Beaufort e guardá-lo-eis à vista. Mas, afinal, que tendes?

— Tenho que a proposta de Vossa Eminência é impraticável — tornou Rochefort, sacudindo a cabeça com ar decepcionado.

— Impraticável? Como? E por que seria impraticável?

— Porque o Sr. de Beaufort é meu amigo, ou melhor, eu sou amigo dele; já se esqueceu Vossa Eminência de que foi ele quem se responsabilizou por mim perante a Rainha?

—Mas, de então para cá, o Sr. de Beaufort passou a ser inimigo do Estado.

— Pode ser, Monsenhor; mas como não sou rei, nem rainha, nem ministro, ele não é meu inimigo e eu não posso aceitar a oferta de Vossa Eminência.

— E é a isso que chamais dedicação? Meus parabéns! A vossa dedicação não vos obriga a muito, Sr. de Rochefort.

— De mais a mais, Monsenhor — tornou Rochefort — Vossa Eminência há de compreender que sair da Bastilha para entrar em Vincennes é apenas mudar de prisão.

— Dizei logo que sois do partido do Sr. de Beaufort. Será mais franco de vossa parte.

— Monsenhor, estive encarcerado tanto tempo que hoje só tenho um partido: o partido do ar livre. Empregue-me Vossa Eminência em qualquer outra coisa, encarregue-me de uma missão qualquer, ocupe-me ativamente, mas em plena liberdade, se for possível.

— Meu caro Sr. de Rochefort — disse Mazarino com o seu ar chocarreiro — o zelo vos exalta; cuidais que ainda sois moço, porque tendes um coração jovem; mas não teríeis forças suficientes. Acreditai-me: neste momento estais precisando de repouso. Olá, venha alguém!

— Vossa Eminência, então, não decide nada a meu respeito?

— Pelo contrário, já decidi.

— Bernouin entrou.

— Chama um guarda — ordenou — e fica ao meu lado — a juntou em voz baixa.

Entrou o guarda. Mazarino escreveu algumas palavras, que entregou ao recém-chegado, e cumprimentou com a cabeça.

— Adeus, Sr. de Rochefort! Rochefort inclinou-se respeitosamente.

— Vejo, Monsenhor — disse ele — que me reconduzem à Bastilha.

— Sois inteligente.

— Volto, Monsenhor; mas repito-lhe que Vossa Eminência faz mal em não querer aproveitar-me.

— Vós, o amigo de meus inimigos!

— Que quer? Vossa Eminência deveria fazer-me inimigo de seus inimigos.

— Imaginais, Sr. de Rochefort, que sois o único. Crede--me, encontrarei outros que vos valham.

— Assim o desejo.

— Muito bem. Ide, ide! E, a propósito, é inútil que tornei a escrever-me, Sr. de Rochefort; as vossas cartas seriam perdidas.

— Tirei as castanhas do fogo — murmurou Rochefort, afastando-se; — e se d’Artagnan não ficar satisfeito comigo quando eu lhe contar, daqui a pouco, o elogio que lhe fiz, será difícil de contentar. Mas aonde diabo me levam?

Rochefort, com efeito, estava sendo conduzido pela escada secreta, em vez de passar pela antecâmara, onde esperava d'Artagnan. No pátio, encontrou o carro e os quatro homens da escolta que o haviam trazido; mas procurou em vão o amigo.

— Ah! ah! — disse consigo mesmo o Conde — o caso muda inteiramente de figura! E se ainda houver muita gente pelas ruas, como há pouco, tentaremos provar ao Mazarino que ainda prestamos para outra coisa, louvado seja Deus! que não guardar um prisioneiro.

E saltou para o carro com a ligeireza de um rapaz de vinte e cinco anos.


 ANA D'ÁUSTRIA AOS QUARENTA E CINCO ANOS

 

Ficando só com Bernouin, Mazarino quedou pensativo um instante; já sabia muita coisa, mas ainda não sabia tudo. Mazarino trapaceava no jogo, segundo nos revela Brienne, e chamava a isso tomar vantagens. Decidiu não iniciar a partida com d'Artagnan enquanto não conhecesse todas as cartas do adversário.

— Vossa Eminência não manda nada? — perguntou Bernouin.

— Mando — retrucou Mazarino; — alumia-me o caminho, que eu vou ter com a Rainha.

Bernouin pegou num castiçal e pôs-se a andar na frente.

Havia uma passagem secreta que ligava os aposentos e o gabinete do Ministro aos aposentos da Rainha; por esse corredor passava o Cardeal para comunicar-se com Ana d'Áustria (11).

Chegado à alcova em que desembocava o corredor, Bernouin encontrou a Sra. Beauvais. A Sra. Beauvais e Bernouin eram os íntimos confidentes desses amores caducos; e a Sra. Beauvais encarregou-se de anunciar o Cardeal a Ana d'Áustria, que se encontrava no oratório com o jovem Luís XIV (11-A).

(11) O caminho que seguia o Cardeal para avistar-se com a Rainha mãe ainda pode ver-se no Palais-Royal. (Memórias da Princesa palatina, 331) (N. do A.)

(11-A) "Primeira camareira da Rainha mãe, a velha Beauvais conhecia o segredo do seu casamento com Mazarino; o que obrigava a Rainha a passar por tudo o que quisesse essa mulher" (Correspondência da Sra. Duquesa de Orléans). "Era uma mulher que os maiores dentre os grandes tiveram de poupar durante muito tempo, e que, velhíssima, horrenda, caolha, continuava, de quando em quando, a apresentar-se em trajos de gala, como grande dama, na Corte, onde foi tratada com distinção até à sua morte." (Dangeau). (N. do T.)

 

Sentada numa grande poltrona, o cotovelo apoiado numa mesa e a cabeça apoiada na mão, Ana d'Áustria contemplava o real menino, que, deitado no tapete, folheava um grandelivro de batalhas. Ana d'Áustria era a Rainha que melhor sabia entediar-se com majestade; e, a revezes, ficava horas e horas recolhida assim no quarto ou no oratório, sem ler nem rezar.

Quanto ao livro com que brincava o Rei, era um Quinto Cúrcio enriquecido de gravuras, representando os altos feitos de Alexandre.

A Sra. Beauvais assomou à porta do oratório e anunciou o Cardeal de Mazarino.

O menino se ergueu sobre um dos joelhos, o cenho cerrado, e, encarando com a mãe:

— Por que — perguntou — entra ele sem pedir audiência?

Ana corou levemente.

— É preciso — explicou — que um Primeiro Ministro, na época em que estamos, possa vir informar a Rainha, a qualquer momento, de tudo o que se passa, sem despertar a curiosidade ou os comentários de toda a Corte.

— Mas parece-me que o Sr. de Richelieu não entrava assim — tornou menino, implacável.

— Como te lembras do que fazia o Sr. de Richelieu? Não podes sabê-lo, pois eras muito pequeno.

— Eu não me lembro. Perguntei e disseram-me.

— E quem te disse isso? — tornou Ana d'Áustria, mal disfarçando um gesto de enfado.

— Não devo nomear as pessoas que respondem às minhas perguntas — retrucou a criança — pois, do contrário, não me dirão mais nada.

Nesse momento entrou Mazarino. O Rei levantou-se, tomou do livro, fechou-o e foi colocá-lo sobre a mesa, diante da qual permaneceu em pé, para obrigar Mazarino a ficar em pé também.

Mazarino observava com o olhar inteligente toda a cena, à qual parecia pedir a explicação da cena anterior.

Inclinou-se, respeitoso, diante da Rainha e fez profunda reverência ao Rei, que lhe respondeu com sobranceiro aceno de cabeça; mas um olhar da mãe reprochou-lhe essa manifestação dos sentimentos hostis que Luís XIV, desde criança, votara ao Cardeal, e ele recebeu com um sorriso nos lábios o cumprimento do Ministro.

Ana d'Áustria procurava decifrar no rosto de Mazarino a causa da visita imprevista, pois o Cardeal, de ordinário, só a procurava quando toda a gente se achava recolhida.

O Ministro fez um sinal imperceptível com a cabeça e a Rainha, dirigindo-se à Sra. Beauvais:

— O Rei precisa deitar-se — disse ela — chama Laporte. A Rainha já dissera duas ou três vezes ao jovem Luís que se fosse deitar, mas o menino, em todas elas, insistira ternamente em ficar; dessa vez, porém, não fez nenhuma observação, mas mordeu os lábios e empalideceu.

Instantes depois, entrava Laporte.

A criança encaminhou-se diretamente para ele, sem beijar a mãe.

— E então, Luís — perguntou Ana — por que não me beijas?

— Supus que estivésseis zangada comigo, senhora. Vós me expulsais.

— Não te expulso: mas como ainda há pouco tiveste bexigas e não saraste de todo, receio que a vigília te fadigue.

Mas não receastes a mesma coisa quando me mandastes hoje ao Parlamento para promulgar os editos horrorosos que tanto fizeram murmurar o povo.

— Sire — acudiu Laporte, querendo mudar de assunto

— a quem deseja Vossa Majestade que eu entregue o castiçal?

— A quem quiseres, Laporte — respondeu a criança — contanto — ajuntou em voz alta — que não seja a Mancini.

O Sr. Mancini era um sobrinho que Mazarino colocara ao pé do Rei como moço fidalgo e para o qual transferia Luís XIV parte do ódio que consagrava ao Ministro.

E o Rei saiu sem beijar a mãe e sem cumprimentar o Cardeal.

— Ainda bem! — observou Mazarino; — praz-me ver que Sua Majestade está sendo educado no horror à dissimulação.

— Por quê? — perguntou a Rainha, quase tímida.

— Parece-me que a saída do Rei prescinde de comentários; Sua Majestade, aliás, não se dá ao trabalho de ocultar a pouca afeição que me dedica; o que, de resto, não me impede de ser inteiramente devotado ao seu serviço como o sou ao de Vossa Majestade.

— Peço-vos perdão por ele, Cardeal — acudiu a Rainha

— é uma criança que ainda não pode conhecer as obrigações que vos deve.

O Cardeal sorriu.

— Vossa Eminência, entretanto, deve ter vindo, sem dúvida, por algum assunto importante. Que há?

Mazarino sentou-se, ou melhor, deixou-se cair numa poltrona e disse, com expressão melancólica:

— Há que, segundo todas as probabilidades, seremos obrigados a separar-nos dentro em pouco, a menos que a vossa dedicação por mim vos leve a acompanhar-me à Itália.

— Por quê? — perguntou a Rainha.

— Porque, como diz a ópera de Thisbé:

 

O mundo inteiro conspira para dividir nossas paixões.

 

— Gracejais, Senhor! — tornou a Rainha, tentando reassumir a antiga dignidade.

— Infelizmente, não, senhora! — redargüiu Mazarino — infelizmente não gracejo; eu quisera antes chorar, crede-me; e teria razões para isso, pois reparai no que eu disse:

 

O mundo inteiro conspira para dividir nossas paixões.

 

Ora, como fazeis parte do mundo inteiro, quero dizer que também me desamparais.

— Cardeal!

— Oh! meu Deus! Pois então não vos vi sorrir, outro dia, muito agradàvelmente ao Sr. Duque de Orléans, ou melhor, ao que ele dizia!

— E que me dizia ele?

— Dizia-vos, Senhora: "O vosso Mazarino é a pedra de escândalo; se ele partir, tudo irá bem."

— E que queríeis que eu fizesse?

— Oh! senhora, sois a Rainha, segundo me parece!

— Bela realeza, à mercê do primeiro escrevinhador do Palais-Royal ou do primeiro fidalgote do reino!

— Entretanto, tendes força bastante para arredar de vós as pessoas que vos desagradam.

— Isto é, que vos desagradam a vós! — retrucou a Rainha.

— A mim!

— De certo. Quem mandou embora a Sra. de Chevreuse, que, durante doze anos, fora perseguida no outro reinado?

— Uma intrigante, que pretendia continuar contra mim as cabalas iniciadas contra o Sr. de Richelieu!

— Quem afastou a Sra. de Hautefort, amiga tão perfeita que chegou a recusar as boas graças do Rei para conservar as minhas?

— Uma beata que vos dizia todas as noites, ao despir--vos, que perdíeis a alma se amasseis um padre, como se alguém é padre por ser cardeal!

— Quem mandou prender o Sr. de Beaufort?

— Um sedicioso, que falava em assassinar-me!

— Como vedes, Cardeal, os vossos inimigos são os meus.

— Mas isso não basta, senhora, era preciso que os vossos amigos fossem também os meus.

— Os meus amigos, senhor!... — a Rainha meneou a cabeça: — Infelizmente já não os tenho.

— Por que não tendes amigos na ventura quando os tínheis, tão bons, na adversidade?

— Porque, na ventura, esqueci esses amigos; porque fiz como a Rainha Maria de Médicis, que, de volta do primeiro exílio, desprezou todos os que haviam sofrido por ela e, exilada segunda vez, morreu em Colônia desamparada do mundo inteiro e do próprio filho, pois toda a gente, por sua vez, a desprezava.

— E então? — acudiu Mazarino — não seria tempo de reparar o mal? Procurai entre os vossos amigos mais antigos.

— Que quereis dizer?

— Apenas o que disse: procurai.

— Ai! por mais que olhe à minha volta, não vejo ninguém sobre quem eu exerça alguma influência. Monsieur, como sempre, é dirigido pelo seu favorito: ontem era Choisy, hoje é La Rivière, amanhã será outro qualquer. O Sr. Príncipe é dirigido pelo Coadjutor, que, por sua vez, é dirigido pela Sra. de Guéménée.

— Por isso mesmo, senhora, eu não vos disse que procurásseis entre os amigos de hoje, mas entre os de outrora.

— Entre os meus amigos de outrora? — repetiu a Rainha.

— Sim, entre os amigos de outrora, que vos ajudaram a lutar contra o Sr. Duque de Richelieu e até a vencê-lo.

— Onde quererá ele chegar — murmurou a Rainha considerando, inquieto, o Cardeal.

— Em dado momento — continuou este último — com o espírito vigoroso e sutil que vos caracteriza, pudestes, graças ao concurso de vossos amigos, repelir-lhe os ataques.

— Eu — disse a Rainha — sofri, e mais nada.

— Como sofrem as mulheres — tornou Mazarino: — vingando-se. Mas vamos ao que importa! Conheceis o Sr. de Rochefort?

— O Sr. de Rochefort não era dos meus amigos — volveu a Rainha — mas, pelo contrário, um dos meus inimigos mais encarniçados, um dos sequazes do Sr. Cardeal. Eu supunha que soubésseis disso.

— Sei-o tão bem — respondeu Mazarino — que mandamos prendê-lo na Bastilha.

— E ele saiu? — perguntou a Rainha.

— Não tranqüilizai-vos, ainda está lá. E se vos falei nele foi para chegar a outro. Conheceis o Sr. d'Artagnan? — continuou Mazarino, encarando com a Rainha.

Ana d'Áustria recebeu o golpe em pleno coração. "Terá sido indiscreto o gascão?" murmurou. E logo, em voz alta:

— D'Artagnan! esperai um pouco... Sim, sim, o nome me é familiar. D'Artagnan, um mosqueteiro, que amava uma de minhas aias, uma pobrezinha que morreu envenenada por minha causa.

— Só isso? — tornou Mazarino.

A Rainha considerou o Cardeal com espanto.

— Mas parece-me — disse ela — que me submeteis a um interrogatório!

— Ao qual, em todo o caso — atalhou Mazarino com o eterno sorriso e a voz sempre suave — respondeis apenas segundo a vossa fantasia.

— Exponde claramente o que desejais saber, senhor, e eu responderei da mesma forma — recalcitrou a Rainha, que principiava a impacientar-se.

— Pois bem, senhora! — voltou Mazarino, inclinando-se — eu quisera que me désseis os vossos amigos, como eu vos dei a pouca indústria e o pequeno talento que o céu me concedeu. As circunstâncias são graves e teremos de agir energicamente.

Ainda! — exclamou a Rainha — imaginei que tivéssemos sossego após a prisão do Sr. de Beaufort.

— Sim, vistes apenas a torrente que tudo arrasa, mas não reparastes na água que dorme. Entretanto, há em França um provérbio sobre a água que dorme.

— Terminai — disse Ana.

— Pois bem! — continuou Mazarino — sofro todos os dias os insultos que me dirigem os vossos príncipes e os vossos lacaios afidalgados, autômatos que não percebem que lhes manejo os fios, e que, sob a minha paciente gravidade, não adivinharam o riso do homem irritado, que um dia jurou intimamente dominá-los a todos. Mandamos prender o Sr. de Beaufort, é verdade; mas era o menos perigoso de todos, há ainda o Sr. Príncipe...

— O vencedor de Rocroy! Já pensastes nisso?

— Já, senhora, e muito a miúdo; mas pacienza, como dizemos, nós os italianos. Em seguida, além do sr. de Conde há o Sr. Duque de Orléans.

— Que dizeis! O primeiro príncipe de sangue, tio do Rei!

— Não o primeiro príncipe de sangue, nem o tio do Rei, mas o conspirador covarde, que, no outro reinado, levadopela sua índole caprichosa e fantástica, afligido por tédios miseráveis, devorado de uma chata ambição, invejoso de tudo o que o excedesse em coragem e lealdade, irritado por não ser nada, mercê da sua nulidade, converteu-se no eco de todos os maus rumores, fez-se alma de todas as cabalas, mandou para a frente todos os bravos que tiveram a estupidez de acreditar na palavra de um homem de sangue real e que os renegou quando subiram ao cadafalso! Não o primeiro príncipe de sangue, nem o tio do Rei, torno a repeti-lo, mas o assassino de Chalais, de Montmorency e de Cinq-Mars, que hoje procura repetir a façanha, e imagina poder vencer por ter trocado de adversário e porque, em vez de ter diante de si um homem que ameaça, tem um homem que sorri. Mas ele se engana, pois perdeu ao perder o Sr. de Richelieu, e não tenho interesse nenhum em deixar ao pé da Rainha esse fermento de discórdia com que o finado Sr. Cardeal ferveu durante vinte anos a bile do Rei.

Ana corou e escondeu o rosto entre as mãos.

— Não desejo humilhar Vossa Majestade — tornou Mazarino, reassumindo um tom mais calmo, porém de estranha firmeza. — Quero que respeitem a Rainha e que lhe respeitem o Ministro, visto que aos olhos de todos não sou mais do que isso. Mas Vossa Majestade sabe que eu não sou, como diz muita gente, um bonifrate chegado da Itália; se é preciso que o saibam todos como Vossa Majestade.

— E que devo fazer? — perguntou Ana d'Áustria, curvada sob a voz dominadora.

— Deveis procurar na memória o nome desses homens fiéis e devotados que atravessaram o mar a despeito do Sr. de Richelieu, deixando marcas de sangue pelo caminho, para trazer-vos certa jóia que havíeis dado ao Sr. de Buckingham.

Ana se ergueu, majestosa e irritada, como se uma mola de aço a impelisse, e, considerando o Cardeal com a altivez e a dignidade que a haviam tornado tão poderosa ao tempo da sua juventude.

— Vós me insultais, senhor! — disse ela.

— Quero, enfim — continuou Mazarino, concluindo o pensamento interrompido pelo gesto da Rainha — quero que façais hoje por vosso marido o que outrora fizestes por vosso amante.

— Sempre essa calúnia! — exclamou a Rainha. — No entanto, eu a supunha morta e extinta, porque ma havíeis poupado até agora. Mas também ma lançais em rosto. Melhor! Porque agora a discutiremos entre nós, e tudo se acabará, compreendestes?

— Senhora — sobreveio Mazarino, espantado ante aquela manifestação de força — não estou pedindo que me conteis tudo.

— Pois eu quero contar-vos tudo — respondeu Ana d'Áustria. — Ouvi. Quero dizer que havia, efetivamente, nessa época quatro corações dedicados, quatro almas leais, quatro espadas fiéis, que me salvaram mais do que a vida, senhor, que me salvaram a honra.

— Ah! confessais — fez Mazarino.

— Cuidais, então, que só os culpados têm a honra comprometida, e que não será possível desonrar alguém, sobretudo uma mulher, com simples aparências? Sim, as aparências estavam contra mim e eu seria difamada. E, no entanto, juro que não era culpada. Juro...

A Rainha procurou alguma coisa santa sobre a qual pudesse jurar; e, tirando de um armário escondido na tapeçaria um cofrezinho de pau rosa incrustado de prata e colocando-o sobre o altar:

— Juro — tornou ela — sobre essas relíquias sagradas, que amei o Sr. de Buckingham, mas que o Sr. de Buckingham não foi meu amante!

— E que relíquias são essas sobre as quais fazeis o juramento, senhora? — perguntou, sorrindo, Mazarino; — pois eu vos previno que, como bom romano, sou incrédulo: há relíquias e relíquias.

A Rainha desprendeu do pescoço uma chavinha de ouro e apresentou-a ao Cardeal.

— Abri, senhor — disse ela — e vede com os vossos olhos...

Surpreso, Mazarino tomou a chave e abriu o cofrezinho, no qual só encontrou uma faca roída pela ferrugem e duas cartas, uma das quais manchada de sangue.

— Que é isso? — perguntou.

— Que é isso, senhor? — repetiu Ana d'Áustria com gesto de rainha e estendendo sobre o cofrezinho aberto um braço que continuara perfeitamente belo apesar dos anos — vou dizer-vos. Essas duas cartas são as duas únicas cartas que escrevi a ele em toda a minha vida. A faca é a mesma com que Felton o matou. Lede as cartas, senhor, e sabereis se menti.

Apesar da permissão que lhe era concedida, Mazarino, por um sentimento natural, em vez de ler as cartas, pegou a faca que Buckingham, morrendo, arrancara da ferida e, por intermédio de Laporte, enviara à Rainha; a lâmina estava toda roída, porque o sangue se convertera em ferrugem; em seguida, após rápido exame, durante o qual a Rainha se tornou tão branca quanto a toalha do altar sobre o qual se apoiara, recolocou-a no cofre, com um estremecimento involuntário.

— Está bem, senhora — disse ele — fio-me do vosso juramento.

— Não, não! lede — insistiu Ana d'Áustria, franzindo o cenho; — lede, eu o quero, eu o ordeno, a fim de que tudo se acabe desta vez e não tornemos a este assunto, como já decidi. Imaginais — ajuntou com um sorriso terrível — que eu esteja disposta a reabrir esse cofre a cada uma de vossas acusações futuras?

Dominado por essa energia, Mazarino obedeceu quase maquinalmente e leu as duas cartas. Uma era aquela em que a Rainha pedia a Buckingham que lhe devolvesse as agulhetas; a mesma que fora levada por d'Artagnan e que chegara a tempo. A outra era a que Laporte entregara ao Duque, em que a Rainha o prevenia de que seria assassinado, mas que chegara demasiado tarde.

— Está bem, senhora — disse Mazarino — não há o que responder a isto.

— Há, senhor — disse a Rainha, fechando novamente o cofrezinho e colocando a mão sobre ele; — há qualquer coisa que responder: fui ingrata a esses homens que me salvaram e que tudo fizeram para salvá-lo, a ele; não dei nada ao bravo d’Artagnan, de que há pouco me faláveis, senão a mão a beijar e este brilhante.

A Rainha estendeu a mão formosa ao Cardeal e mostrou-lhe uma pedra admirável que lhe cintilava no dedo.

— Ele vendeu-o, segundo parece — acrescentou ela — num momento de dificuldade; vendeu-o para salvar-me pela segunda vez, para enviar a mensagem ao Duque e preveni-lo do que seria assassinado.

— D’Artagnan sabia disso?

— Sabia de tudo. Como? Não sei. Mas vendeu-o ao Sr. des Essarts, em cujo dedo o vi e do qual tornei a comprá-lo; este brilhante, porém, lhe pertence: devolvei-lho, de minha parte e, já que tendes a ventura de ter ao pé de vós um homem assim, buscai aproveitá-lo.

— Obrigado, senhora! — disse Mazarino — seguirei o conselho.

— E agora — volveu a Rainha, como que alquebrada pela emoção — tendes mais alguma coisa para perguntar-me?

— Nada, senhora — respondeu o Cardeal com a voz mais acariciante — senão suplicar-vos que me perdoeis as injustas suspeitas; mas eu vos amo tanto que não é muito de pasmar que sinta ciúmes, até do passado.

Um sorriso de expressão indefinível perpassou pelos lábios de Ana d'Áustria.

— Pois bem — disse ela — se não tendes mais nada para perguntar-me, deixai-me; deveis compreender que, depois de uma cena como esta, preciso ficar só.

Mazarino inclinou-se.

— Retiro-me, senhora; permitir eis que eu volte?

— Sim, amanhã; o intervalo não será demasiado longo para que eu me recomponha.

O Cardeal tomou a mão da Rainha, beijou-a, galante, e retirou-se.

Tão depressa saiu, Ana se encaminhou para os aposentos do filho e perguntou a Laporte se o Rei se deitara. Laporte mostrou-lhe com a mão o menino, que dormia.

Ana d'Áustria subiu os degraus do leito, aproximou os lábios da fronte engelhada do filho e nela depôs, ternamente, um beijo; em seguida, retirou-se em silêncio como entrara, contentando-se em dizer ao aio:

— Procura, meu caro Laporte, que o Rei faça melhor cara ao Sr. Cardeal, a quem ele e eu devemos tão grandes obrigações.


 GASCÃO E ITALIANO

 

Durante esse tempo voltara o Cardeal ao gabinete, a cuja porta velava Bernouin perguntando-lhe se acontecera alguma coisa e se não tinham chegado novidades de fora. Como a resposta fosse negativa, fez-lhe sinal para retirar-se.

Ficando só, abriu a porta do corredor, depois a da antecâmara; cansado, d'Artagnan dormia sobre um banco. — Sr. d'Artagnan! — chamou ele com voz suave. D'Artagnan não se mexeu.

— Sr. d'Artagnan! — disse em voz mais alta. D'Artagnan continuou dormindo.

O Cardeal aproximou-se e tocou-lhe o ombro com a ponta do dedo.

Dessa feita o gascão estremeceu, despertou e, despertando, achou-se em pé, como um soldado sob as armas.

— Pronto — disse ele; — quem me chama?

— Eu — retrucou Mazarino com a sua expressão mais sorridente.

— Peço perdão a Vossa Eminência — desculpou-se d’Artagnan — mas eu estava tão cansado...

— Não me peçais perdão, senhor — tornou Mazarino — pois o vosso cansaço veio do meu serviço.

D'Artagnan admirou os modos graciosos do Ministro.

— Ué! — cuidou consigo só — será verdadeiro o provérbio segundo o qual o bem nos procura quando estamos dormindo?

— Segui-me, senhor — ordenou Mazarino.

— Bem, bem — murmurou d'Artagnan — Rochefort cumpriu a palavra; mas por onde diabo terá passado?

E, embora escabichasse com os olhos os menores recantos do gabinete, não o encontrou.

— Sr. d'Artagnan — disse Mazarino, acomodando-se na poltrona — sempre me parecestes um homem probo e corajoso.

"É possível," pensou d'Artagnan, "mas ele demorou para dizer-mo."

O que não o impediu de inclinar-se até ao chão, agradecendo o cumprimento.

— Pois bem — continuou o Cardeal — chegou o momento de aproveitarmos os vossos talentos e o vosso valor!

Nos olhos do oficial refulgiu um relâmpago de alegria, que logo se apagou, pois não sabia aonde Mazarino pretendia chegar.

— Ordene, Monsenhor — disse ele — estou pronto a obedecer a Vossa Eminência.

— Sr. D’Artagnan — continuou Mazarino — praticastes, no último reinado, certas proezas....

— É muita bondade de Vossa Eminência lembrar-se disso... De fato, fui bem sucedido na guerra.

— Não me refiro às façanhas de guerra — prosseguiu Mazarino — pois se bem tenham sido notórias, as outras sobrepassaram-nas.

D’Artagnan simulou espanto.

— E então? — insistiu Mazarino. — Não me respondeis?

— Espero — volveu d'Artagnan — que Vossa Eminência me diga a que façanhas se refere.

— Refiro-me à aventura... Ora, sabeis muito bem o que quero dizer.

— Infelizmente, não, Monsenhor — tornou d'Artagnan, realmente espantado.

— Sois discreto, tanto melhor. Refiro-me à aventura da Rainha, das agulhetas, da viagem que fizestes com os vossos três amigos.

— Ei, ei! — pensou o gascão — deve ser uma cilada, fiquemos de sobreaviso.

E imprimiu ao rosto uma expressão de pasmo que lhe teriam invejado Mondori ou Bellerose, os dois melhores comediantes do tempo.

— Muito bem! — acudiu Mazarino, rindo-se; — bravo! Disseram-me que éreis o homem de que preciso. Vejamos, que serieis capaz de fazer por mim?

— Tudo o que Vossa Eminência me ordenar que eu faça — respondeu d'Artagnan.

— Faríeis por mim o que fizestes outrora por uma rainha?

— Decididamente — murmurou d’Artagnan com os seus botões — querem fazer-me falar; mas vejamos o que ele Pretende. Não há de ser mais fino que o Richelieu, que diabo!... — E, em voz alta: — Por uma rainha, Monsenhor? Não entendo.

— Não compreendeis que preciso de vós e dos vossos três amigos?

— De que amigos, Monsenhor?

— Dos vossos amigos de outrora.

— Outrora, Monsenhor — replicou d'Artagnan — eu não tinha três amigos, tinha cinqüenta. Aos vinte anos todo o mundo é nosso amigo.

— Bem, bem, Sr. oficial! — atalhou Mazarino — a discrição é uma bela coisa; mas hoje poderíeis arrepender-vos de ter sido discreto demais.

— Monsenhor, Pitágoras obrigava os discípulos a ficar cinco anos em silêncio para ensiná-los a calar.

— E vós ficastes vinte, senhor. Quinze anos mais do que um pitagorista, o que me parece assaz razoável. Falai, portanto, hoje, visto que a própria Rainha vos desobriga do juramento.

— A Rainha! — repetiu d'Artagnan com assombra, desta feita não simulado.

— A Rainha, sim! E para provar-vos que falo em seu nome, ela me disse que vos mostrasses este brilhante, que conheceis, e que ela comprou do Sr. des Essarts.

E Mazarino estendeu a mão para o oficial, que suspirou, reconhecendo o anel que Ana d'Áustria lhe dera na noite do baile no Paço Municipal.

— É verdade! — concordou d'Artagnan — reconheço o brilhante, que pertenceu à Rainha.

— Portanto, como vedes, falo em seu nome. Respondei--me e não continueis a representar. Eu já vos disse e torno a repeti-lo: disso depende a vossa fortuna.

— Palavra, Monsenhor, que preciso muito fazê-la. Vossa Eminência me esqueceu durante tanto tempo!

— Bastam oito dias para reparar tudo isso. Vejamos, estais aqui, mas onde estão os vossos amigos?

— Não sei, Monsenhor.

— Como! Não sabeis?

— Não; faz muito tempo que nos separamos, pois os três deixaram o serviço.

— E onde tomareis a encontrá-los?

— Onde estiverem. Isso é comigo.

— Vossas condições?

— Dinheiro, Monsenhor, todo o dinheiro de que necessitarem as nossas empresas. Lembro-me perfeitamente das vezes em que nos vimos tolhidos por falta de dinheiro, e sem esse brilhante, que fui obrigado a vender, teríamos ficado no meio do caminho.

— Diabo! Dinheiro, e muito! — volveu Mazarino; — é fácil dizer, Sr. oficial! Sabeis que não há dinheiro nos cofres de El-Rei?

— Faça, então, Vossa Eminência como eu: venda os brilhantes da coroa; creia-me, Monsenhor, não regateie, não se fazem grandes coisas cem pequenos meios.

— Está bem — disse Mazarino — buscaremos satisfazer-vos.

— Richelieu — pensou d'Artagnan — já me teria dado quinhentas pistolas por conta.

— Sereis meu, então?

— Sim, se os meus amigos o quiserem.

— Mas se eles recusarem, poderei contar convosco?

— Sozinho, nunca fiz coisa que prestasse — disse d’Artagnan, sacudindo a cabeça.

— Ide procurá-los.

— Que lhes direi para persuadi-los a servirem Vossa Eminência?

— Vós os conheceis melhor do que eu. Prometei-lhes segundo os seus caracteres.

— Que poderei prometer-lhes?

— Que, se me servirem como serviram a Rainha, o meu reconhecimento ultrapassará as suas expectativas.

— Que faremos?

— Tudo, pois parece que sabeis fazer tudo.

— Monsenhor, quando temos confiança nas pessoas e queremos que elas tenham confiança em nós, esclarecemo-las melhor do que o faz Vossa Eminência.

— Quando chegar o momento de agir sabereis o que pretendo.

— E até lá?

— Esperai e procurai os vossos amigos.

— Monsenhor, eles talvez não estejam em Paris e é bem provável que eu precise viajar. Sou um pobríssimo tenente de mosqueteiros e viagens custam caro.

— A minha intenção — disse Mazarino — não é que vos apresenteis com grande pompa, pois os meus projetos exigem mistério e seriam prejudicados por uma equipagem muito grande.

— De qualquer maneira, Monsenhor, não posso viajar com o meu soldo, cujo pagamento anda três meses atrasado;nem posso viajar com as minhas economias, visto que, nos vinte e dois anos em que estou no serviço, só pude poupar dívidas.

Mazarino quedou pensativo alguns instantes, como se um grande combate se lhe travasse no íntimo; em seguida, dirigindo-se a um armário fechado com fechadura tripla, dele retirou um saco, que pesou na mão duas ou três vezes antes de entregá-lo a d'Artagnan:

— Levai-o para a viagem — disse, com um suspiro.

— Se forem dobrões espanhóis ou mesmo escudos de ouro — pensou d'Artagnan — ainda poderemos fazer negócio.

— Cumprimentou o Cardeal e enfiou o saco na algibeira.

— Bem, está dito — volveu o Cardeal. — Partireis...

— Sim, Monsenhor.

— Escrevei-me diariamente, informando-me das vossas negociações.

— Tranqüilize-se Vossa Eminência.

— A propósito, qual é o nome dos vossos amigos?

— O nome dos meus amigos? — repetiu d’Artagnan com uns restos de inquietação.

— Sim, enquanto procurardes de um lado, eu procurarei de outro e talvez descubra alguma coisa.

— O Sr. Conde de La Fere, também chamado Athos; o Sr. Du Vallon, também chamado Porthos e o Sr. Cavaleiro d'Herblay, hoje Padre d’Herblay, também chamado Aramis.

O Cardeal sorriu.

— Caçulas — disse ele — que se alistaram entre os mosqueteiros com nomes falsos para não comprometerem os nomes de família. Espadas compridas e bolsas leves. Conheço isso.

— Se Deus quiser que essas espadas passem para o serviço de Vossa Eminência — acudiu d’Artagnan — ouso formular um desejo: que a bolsa de Vossa Eminência se torne mais leve e a deles mais pesada; pois com esses três homens e eu, Vossa Eminência agitará toda a França e até a Europa, se lhe convier.

— Esses gascões — observou Mazarino, desatando a rir — não ficam muito a dever aos italianos em questões de bravatas.

— Em todo o caso — rematou d'Artagnan com um sorriso semelhante ao do Cardeal — ficam a dever menos ainda em matéria de estocadas.

E saiu depois de pedir uma licença, que de pronto lhe foi concedida e assinada pelo próprio Mazarino.

Mal se viu no pátio, aproximou-se de um lampião e examinou o saco.

— Escudos de prata! — murmurou, com desdém; — eu já desconfiava. Ah! Mazarino, Mazarino! não tens confiança em mim! Pior para ti! Isso te dará azar!

Durante esse tempo, o Cardeal esfregava as mãos.

— Cem pistolas — fazia consigo mesmo — cem pistolas! Por cem pistolas obtive um segredo pelo qual o Sr. de Richelieu teria pago vinte mil escudos. Sem contar o brilhante — ajuntou, parando com amor os olhos no anel, que guardara, em vez de dar a d'Artagnan; — sem contar o brilhante, que vale, pelo menos, dez mil libras.

E recolheu satisfeitíssimo ao quarto, felicitando-se pela noite que tivera e na qual conseguira tão pingue lucro. Colocou o anel num escrínio cheio de brilhante de toda casta, pois gostava de pedras, e chamou Bernouin para despi-lo, sem se preocupar com os rumores, que continuavam a bater nas vidraças das janelas, nem com os tiros que ainda se ouviam em Paris, se bem fossem mais de onze horas da noite.

Entrementes, d'Artagnan se dirigia para a rue Tiquetonne, hospedaria da Chevrette, onde morava.

Digamos, em poucas palavras, como escolhera ele essa casa para morar.


 D'ARTAGNAN AOS QUARENTA ANOS

 

Desde o momento em que, em nosso romance dos Três Mosqueteiros, deixamos d'Artagnan na rue des Fossoyerus, 12, muitas coisas se haviam passado e, sobretudo, muitos anos.

D'Artagnan não havia fugido às ocasiões, mas estas, sim, lhe haviam fugido. Enquanto se vira rodeado dos amigos, conservara a mocidade e a poesia; era uma dessas naturezas sutis e engenhosas, que assimilam facilmente as qualidades dos outros. Dava-lhe Athos um pouco da sua grandeza, Porthos de seu estro, Aramis de sua elegância. Se d'Artagnan tivesse continuado a privar com eles, ter-se-ia tornado um homem superior. Athos foi o primeiro a deixá-lo, para recolher-se à propriedadezinha que herdara perto de Blois; Porthos o segundo, para casar com a sua procuradora; e, afinal, Aramis, o terceiro, para ordenar-se definitivamente e fazer-se padre. A partir desse momento, d'Artagnan, que parecia haver confundido o seu futuro com o dos três amigos, vira-se fraco e só, sem coragem para prosseguir numa carreira em que não poderia triunfar se cada um dos amigos não lhe cedesse, por assim dizer, parte do fluído elétrico que recebera do céu.

Por isso mesmo, embora tenente de mosqueteiros, vira-se mais isolado ainda; não era de origem tão elevada, como Athos, que os palácios lhe abrissem as suas portas; nem tão vaidoso, como Porthos, que simulasse freqüentar a alta sociedade; nem tão fidalgo, como Aramis, que pudesse conservar a sua elegância natural, tirando-a de si mesmo. Durante algum tempo, a encantadora lembrança da Sra. Bonacieux imprimira ao espírito do jovem tenente certa poesia; mas como a de todas as coisas deste mundo, essa lembrança perecedora se apagara a pouco e pouco; a vida nos quartéis é fatal, até para as organizações aristocráticas. Das duas naturezas opostas que compunham a individualidade de d’Artagnan, a material sobrelevara gradativamente a outra, e d'Artagnan, mansamente, sem que ele mesmo desse tento daprópria transformação, sempre no quartel, sempre no acampamento, sempre a cavalo, tornara-se (não sei como se chamava isso naquele tempo) o que hoje denominamos um tarimbeiro.

Não perdera, entretanto, a sutileza primitiva. Esta, pelo contrário, ainda aumentara ou, pelo menos, parecera duplamente notável sob o invólucro um tanto grosseiro; mas ele aplicara-a às pequenas e não às grandes coisas da vida; ao bem-estar material, ao bem-estar como o entendem os soldados, isto é, a boa cama, a boa mesa e a boa hospedeira.

E fazia seis anos que d'Artagnan encontrara tudo isso na rue Tiquetonne, hospedaria da Chevrette.

Nos primeiros tempos, a dona da casa, bela e fresca flamenga de vinte e cinco a vinte e seis anos se enrabichara singularmente por ele; e depois de alguns amores, assaz atrapalhados por um marido incômodo, que d'Artagnan ameaçara dez vezes de traspassar com a espada, o marido desaparecera um belo dia, desertando definitivamente o lar conjugai, depois de haver vendido às furtadelas um pouco do vinho e carregado consigo o dinheiro e as jóias. Julgaram-no morto; a mulher, sobretudo, que se lisonjeava com a deliciosa idéia de ter enviuvado, afirmava vigorosamente que ele morrera. Afinal, três anos depois de uma ligação que d'Artagnan se empenhara em não romper, achando cada ano que passava mais agradáveis do que nunca a dona e a casa, porque uma acrescentava o crédito da outra, teve a dona a exorbitante pretensão de casar outra vez e propôs a d'Artagnan que a desposasse.

— Ora essa! — refutou d'Artagnan. — Isso é bigamia, meu bem. Não sabes o que dizes.

— Mas eu tenho certeza de que ele está morto.

— Era um sujeito muito contrariante, capaz de voltar só para mandar-nos enforcar.

— Pois se ele voltar, tu o matarás; és tão corajoso e tão destro!

— Cáspite! minha amiga! Outra maneira de ser enforcado.

— Recusas o meu pedido?

— Naturalmente! Com a máxima energia!

A bela estalajadeira sentiu-se desolada. Teria feito, de bom grado, do Sr. d'Artagnan não somente um marido, mas também um deus: era tão bonito homem e tinha um bigode tão guapo!

_ Cerca do quarto ano dessa ligação, realizou-se a expedição ao Franco-Condado. Designado para acompanhá-la, preparou-se d'Artagnan para partir. Grandes desgostos, lágrimas sem fim, solenes promessas de fidelidade, tudo da parte da hospedeira, bem entendido. D'Artagnan era fidalgo demais para prometer o que quer que fosse; por isso mesmo prometeu apenas fazer o possível para acrescentar a glória do seu nome.

Nesse sentido, conhece-se a coragem do gascão. Fez proezas admiráveis e, carregando à frente da sua companhia, recebeu no peito uma bala que o prostrou a fio comprido no campo de batalha. Viram-no cair do cavalo, não o viram erguer-se, creram-no morto, e todos os que esperavam suceder-lhe no posto, entraram a boquejar que ele morrera. Acreditamos facilmente no que desejamos; ora, no exército, desde os generais de divisão, que desejam a morte do general chefe, até os soldados, que desejam a morte dos caporais, cada qual deseja a morte de alguém.

Mas d'Artagnan não era homem que se deixasse matar desse jeito. Depois de jazer, durante o calor do dia, sem sentidos no campo de batalha, o frescor da noite fê-lo voltar em si; dirigiu-se a uma aldeia, bateu à porta da casa mais bonita e foi recebido como o são sempre e em toda parte os franceses, ainda que feridos; mimado, tratado, curado, e mais são do que nunca, retomou um belo dia o caminho da França; chegado à França, o caminho de Paris; e, chegado a Paris, a direção da rue Tiquetonne.

Mas encontrou o quarto ocupado por um cabide em que viu pendurado um fato completo de homem, exceto a espada.

— Ele voltou, com certeza — disse entre si; — tanto pior e tanto melhor!

É escusado dizer que d'Artagnan pensava no marido. Procurou informar-se: o criado era novo, a criada também; a dona da casa saíra a passeio.

— Sozinha? — perguntou d'Artagnan.

— Com o patrão.

— O patrão voltou?

— Claro — respondeu ingenuamente a criada.

— Se eu tivesse dinheiro — disse d'Artagnan consigo só — iria embora; mas não tenho, preciso ficar e seguir os conselhos da minha hospedeira, contrariando os projetos conjugais dessa importuna assombração.

Concluía esse monólogo, prova de que nas grandes circunstâncias não há nada mais natural do que o monólogo, quando a criada, que espreitava à porta, bradou de repente:

— Pronto! A patroa vem vindo agorinha mesmo com o patrão...

D'Artagnan atirou os olhos para a rua e viu, com efeito, na esquina da rue Montmartre, a estalajadeira que se aproximava, pendurada ao braço de um suíço enorme, que se pavoneava ao caminhar com modos que recordavam agradavelmente Porthos ao seu antigo amigo.

— É aquele o patrão? — disse entre si d'Artagnan. — Oh! oh! o homenzinho cresceu!

E sentou-se na sala, em lugar bem visível.

A estalajadeira, ao entrar, viu d'Artagnan e soltou um gritinho.

— Ouvindo o gritinho e julgando-se reconhecido, d'Artagnan levantou-se, correu para ela e beijou-a ternamente.

Estupefato, o suíço olhava para a mulher, que empalidecera horrivelmente.

— Ah! sois vós, senhor! Que me quereis? — perguntou ela, perturbadíssima.

— Este senhor é vosso primo? É vosso irmão? — prosseguiu d'Artagnan, representando, imperturbável, o papel que escolhera.

E, sem esperar que ela respondesse, atirou-se nos braços do helvético, que se deixou abraçar com suma frieza.

— Quem é este homem? — perguntou o suíço.

A hospedeira só pôde responder por meio de soluços.

— Quem é esse suíço? — perguntou d'Artagnan.

— Este senhor vai casar comigo — respondeu a estalajadeira entre dois espasmos.

— Então morreu, afinal, o vosso marido?

— Que tendes com isso? — acudiu o suíço.

— Muita coisa — tornou d'Artagnan — visto que não podeis casar com esta senhora sem o meu consentimento e que...

— E quê?... — repetiu o suíço.

— E que... não quero dá-lo — rematou o mosqueteiro. O suíço ficou vermelho como um pimentão; envergava o seu belo uniforme dourado e d'Artagnan se envolvera numa espécie de capote cinzento; o suíço tinha seis pés de altura e d'Artagnan não teria mais do que cinco; o suíço julgava-se em casa e d'Artagnan lhe parecia um intruso.

— Fazei-me o favor de sair daqui! — exigiu o suíço, batendo violentamente o pé, como um homem que começa a enfezar de verdade.

— Eu? Nunca! — replicou d'Artagnan.

— É só chamar por socorro — sobreveio um criado, incapaz de compreender que o homenzinho disputasse o lugar com o homenzarrão.

— Tu — volveu d'Artagnan, que principiava a encolerizar-se, agarrando o criado pelas orelhas — ficarás onde estás e não te mexerás daqui, pois, do contrário, eu te arrancarei as orelhas. Quanto a vós, ilustre descendente de Guilherme Tell, fareis um pacotinho das roupas que estão no meu quarto e que me incomodam e partireis imediatamente à procura de outra albergaria.

O suíço desatou a rir com estrépito.

— Eu, sair? — disse ele. — E por quê?

— Ah! muito bem! — tornou d'Artagnan — vejo que compreendeis o francês. Pois então vamos dar uma voltinha e eu vos explicarei o resto.

A estalajadeira, que sabia ser d'Artagnan temível espadachim, pegou a chorar e a arrancar os cabelos. Voltou-se o gascão para a bela desconsolada.

— Então, rua com ele, senhora.

— Ora, bolas! — replicou o suíço, que precisara de algum tempo para compreender a proposta de d'Artagnan; — ora, bolas! Em primeiro lugar, estais louco se quereis que eu dê uma voltinha convosco!

— Sou tenente dos mosqueteiros de Sua Majestade — acudiu d'Artagnan — e, por conseguinte, vosso superior em tudo; mas, como aqui não se trata de postos, mas de hospedagem, conheceis o costume. Vinde buscar a vossa ordem; o primeiro que voltar tomará conta do quarto.

D'Artagnan levou consigo o suíço, a despeito das lamentações da hospedeira, que, intimamente, sentia inclinar-se-lhe o coração para o antigo amor, mas não desgostaria de dar uma lição ao orgulhoso mosqueteiro, que lhe fizera a afronta de recusar-lhe a mão.

Os dois adversários tocaram-se diretamente para os fossos de Montmartre. Já era noite quando ali chegaram; d’Artagnan pediu cortesmente ao suíço que lhe cedesse o quarto e não voltasse mais; o interpelado recusou, com um gesto negativo, e puxou da espada.

— Nesse caso, dormireis aqui — disse d'Artagnan; — a pousada é péssima, mas a culpa não é minha; vós o quisestes.

E, dizendo essas palavras, puxou também da espada e cruzou-a com o adversário.

Este era um pulso rijo, mas a agilidade do mosqueteiro superava-lhe a força. A farrusca do alemão não encontrava nunca a do mosqueteiro. O suíço recebeu duas estocadas antes que desse pela coisa, por causa do frio; súbito, porém, a perda de sangue e a conseqüente fraqueza obrigaram-no a sentar-se.

— Pronto! — acudiu d'Artagnan — eu não disse? Estais bem aviado, cabeçudo! Felizmente em quinze dias estareis curado. Descansai, que vou mandar-vos as roupas pelo criado. Até à vista. A propósito, hospedai-vos na rue Montorgueil, no Chat qui pelote. A comida é boa, se a dona da casa ainda for a mesma. Adeus.

E voltou muito contente para o albergue. Mandou, com efeito, as roupas do suíço pelo criado, que o encontrou sentado no mesmo lugar em que o deixara d'Artagnan e ainda consternadíssimo com o desempenho do adversário.

O criado, a estalajadeira e toda a casa tiveram por d’Artagnan as considerações que teriam por Hércules, se este voltasse à terra para reencetar os doze trabalhos.

Mas quando ele ficou só com a hospedeira:

— Agora, formosa Madalena — declarou — sabeis a distância que vai de um suíço a um gentil-homem; quanto a vós, procedestes como uma taberneira. Pior para vós, que assim perdestes a minha estima e a minha freqüência. Expulsei o suíço para humilhar-vos; mas não ficarei aqui; não me hospedo numa casa que desprezo. Olá, garção, leva a minha mala para o Muid d'Amour, rue des Bourdonnais. Adeus, senhora.

Parece que d'Artagnan, ao pronunciar essas palavras, se mostrou majestoso e comovente. A dona da casa atirou-se-lhe aos pés, pediu-lhe perdão e reteve-o com doce violência. Que mais se poderá dizer? O espeto girava, a lareira crepitava, a formosa Madalena chorava; d'Artagnan sentiu que a fome, o frio e o amor lhe voltavam ao mesmo tempo: perdoou; e, tendo perdoado, ficou.

Eis por que d'Artagnan morava na rue Tiquetonne, hospedaria da Chevrette.

 

D'ARTAGNAN VÊ-SE ATRAPALHADO, MAS UM DE NOSSOS ANTIGOS CONHECIDOS LHE ACODE

 

D'Artagnan voltava, portanto, muito pensativo, sentindo grande prazer em carregar o saquinho do Cardeal Mazarino e pensando no formoso brilhante que lhe pertencera e, por um instante, vira brilhar no dedo do Primeiro Ministro.

— Se esse brilhante voltasse a cair em minhas mãos — dizia consigo só — eu o reduziria imediatamente a dinheiro, compraria algumas propriedades ao lado do castelo de meu pai, que é uma linda morada, mas cujas dependências se resumem num jardim do tamanho do cemitério dos Inocentes, e lá, esperaria, majestoso, que alguma rica herdeira, seduzida pelos meus encantos, viesse casar comigo; depois, teria três filhos: do primeiro faria um grão-senhor, como Athos; do segundo, um belo soldado, como Porthos; e do terceiro, um padre gentil como Aramis. Ã minha fé! isso seria muito melhor do que a vida que levo; infelizmente, porém, o Sr. Mazarino é um sovina, incapaz de desfazer-se do brilhante em meu favor.

Que diria d'Artagnan se soubesse que o brilhante fora entregue pela Rainha a Mazarino para que este lho devolvesse?

Entrando na rue Tiquetonne, nela percebeu enorme reboliço; uma porção de gente se reunira ao pé da sua hospedaria.

— Oh! oh! — murmurou — dar-se-á que pegou fogo a hospedaria da Chevrette, ou terá regressado de verdade o marido da bela Madalena?

Nem uma coisa nem outra: aproximando-se, percebeu que não era diante da sua casa, mas diante da casa vizinha que se fizera o ajuntamento. Soltavam-se grandes gritos, archotes corriam de um lado para outro e, à luz dos archotes, d'Artagnan observou alguns uniformes.

Perguntou o que acontecera.

Responderam-lhe que um burguês atacara, com uma vintena de amigos, um carro escoltado pelos guardas do Sr.

Cardeal, mas que, chegando reforços, os burgueses tinham sido dispersados. O chefe dos amotinados refugiara-se na casa vizinha da hospedaria, que estava sendo vasculhada.

Em sua mocidade, d'Artagnan teria corrido para onde visse uniformes e teria ajudado os soldados contra os burgueses, mas todas essas exaltações se haviam desvanecido; de mais a mais, trazia consigo as cem pistolas do Cardeal e não queria aventurar-se no meio do populacho.

Entrou no albergue sem mais perguntas.

Antigamente, d'Artagnan queria sempre saber tudo, mas agora achava sempre que sabia o suficiente.

A formosa Madalena não o esperava, cuidando, como lhe dissera d'Artagnan, que ele passaria a noite no Louvre; festejou-lhe, portanto, com muita alegria, o regresso inesperado, tanto mais providencial quanto sentia muito medo do que se passava na rua, e não tinha suíço nenhum para protegê-la.

Quis, portanto, entabular conversação com ele e contar--lhe o que acontecera; mas d'Artagnan lhe disse que mandasse servir o jantar em seu quarto e lhe acrescentasse uma garrafa de velho Borgonha.

A bela estalajadeira aprendera a obedecer militarmente, isto é, por sinais. E como, dessa vez, d'Artagnan se dignara falar, foi obedecido com dobrada presteza.

O mosqueteiro pegou na chave e no candeeiro e subiu para o quarto. Contentara-se, para não prejudicar a locadora, com um cômodo no quarto andar. O respeito que votamos à verdade obrigando até a dizer que o quarto ficava logo abaixo da calha e do telhado.

Era lá a sua tenda de Aquiles, em que d'Artagnan costumava encerrar-se quando queria, pela ausência, castigar a bela Madalena.

O seu primeiro cuidado foi fechar, numa velha secretária de fechadura nova, o saquinho, sem se dar sequer ao trabalho de verificar a soma que continha; depois, como logo a seguir lhe servissem o jantar, acompanhado da garrafa de vinho, despediu o criado, fechou a porta e pôs-se à mesa.

Não o fez para refletir, como se poderia imaginar, pois era de opinião que só se fazem bem as coisas quando se faz cada uma por sua vez. Tinha fome, jantou; tendo jantado, deitou-se. Também não pertencia à classe de pessoas que entendem que a noite é boa conselheira; de noite, dormia. Mas de manhã, pelo contrário, retemperado e esperto, encontrava as melhores inspirações. Havia muito tempo que não tivera ocasião de pensar de manhã, mas sempre dormira de noite.

Amanhecia quando saltou do leito com militar presteza e pôs-se a andar à roda do quarto, refletindo.

— Em 43 — monologava — uns seis meses antes da morte do finado Cardeal, recebi uma carta de Athos. Onde foi mesmo? Vejamos... Ah! sim, foi no cerco de Besanção, agora me lembro... eu estava na trincheira. Que me dizia ele? Que morava numa propriedadezinha, sim, numa propriedadezinha; mas onde? Eu chegara a esse ponto quando um pé de vento me carregou a carta. Antigamente eu a teria ido procurar, ainda que o vento a levasse para um lugar muito exposto. Mas a mocidade é um grande defeito... quando já não somos moços. Deixei que a carta se fosse, levando o endereço de Athos aos espanhóis, que não precisavam dele e bem podiam devolver-mo. Por conseguinte, não se pensa mais em Athos. Vejamos... Porthos.

"Recebi uma carta dele, convidando-me para uma grande caçada em suas terras, em setembro de 1646. Infelizmente, como eu estava nessa época no Béarn, por causa da morte de meu pai, a carta seguiu-me; mas eu já partira quando chegou. Ela continuou a seguir-me, e alcançou Montmédy alguns dias depois de haver eu deixado a cidade. Afinal, chegou-me às mãos em abril; mas como só a li em abril de 1647 e o convite era para setembro de 1646, não pude aceitá-lo. Procuremos a carta, que há de estar entre os meus papéis.

Abriu uma caixa velha, atirada a um canto do quarto, cheia de documentos relativos à propriedade de d'Artagnan, que, havia duzentos anos, deixara de pertencer completamente à sua família, e soltou um grito de alegria: acabava de reconhecer a letrona de Porthos e, embaixo, uns garranchos, garatujados pela mão seca de sua digna esposa.

Não perdeu tempo em reler a carta, pois sabia o que continha, e passou ao endereço.

O endereço rezava assim: castelo du Vallon.

Esquecera-se Porthos de fornecer quaisquer outras indicações. No seu orgulho, acreditava que todo o mundo conhecesse o castelo a que ele dera o seu nome.

— O diabo carregue o vaidoso! — murmurou d'Artagnan — sempre o mesmo! Entretanto, seria bom se eu pudesse começar por ele, pois, tendo herdado as oitocentas mil libras do Sr. Coquenard, não deve precisar de dinheiro. Pronto, já me falta o melhor. Athos, provavelmente, ficou idiota de tanto beber. Quanto a Aramis, há de estar mergulhado em práticas devotas.

Passou novamente pelos olhos a carta de Porthos. Havia nela um pós-escrito, que continha esta frase:

"Escrevo, pelo mesmo correio, ao nosso digno amigo Aramis em seu convento."

— Em seu convento! pois sim, mas que convento? Há duzentos em Paris e três mil em França. E também pode ser que, ao entrar para o convento, ele tenha mudado de nome pela terceira vez. Ah! se eu entendesse de teologia e pudesse lembrar-me pelo menos do assunto das teses que ele tão bem discutia em Crevecoeur com o cura de Mondidier e o superior dos jesuítas, saberia a doutrina que mais lhe agrada e descobriria o santo a que se consagrou... E se eu procurasse o Cardeal e lhe pedisse um salvo-conduto para entrar em todos os conventos possíveis, até nos das religiosas? Seria uma idéia e eu talvez o encontrasse lá com Aquiles... Sim, mas seria também confessar, desde o princípio, a minha impotência e perder-me definitivamente no conceito do Cardeal. Os grandes só se mostram reconhecidos quando, por eles, fazemos o impossível. "Se fosse possível," dizem, "eu mesmo o teria feito." E têm razão. Mas esperemos um pouco e vejamos. Também recebi uma carta desse caro amigo, e por sinal que me pedia um favorzinho, que lhe fiz. Ah! sim; mas onde terei enfiado o raio da carta?

D'Artagnan refletiu por um instante e adiantou-se para o cabide em que estavam penduradas as roupas velhas; procurou o gibão do ano de 1648, e, como fosse um rapaz metódico, encontrou-o no respectivo lugar. Vasculhou o bolso e dele tirou uma folha de papel: era precisamente a carta de Aramis.

"Senhor d'Artagnan," dizia a carta, "sabereis que tive uma questão com certo cavalheiro, que me desafiou para um duelo esta noite, na Place Royal; como sou homem de igreja e o caso poderia prejudicar-me se eu o revelasse a quem não fosse amigo tão certo como vós, escrevo para pedir-vos que sejais meu padrinho.

 

"Entrarei pela rue Neuve-Sainte-Catherine; debaixo do segundo lampião encontrareis o vosso adversário. Estarei com o meu debaixo do terceiro.

"Sempre vosso,

"Aramis."

 

Nessa carta, nem despedida havia. D'Artagnan buscou reunir as lembranças; fora ao encontro marcado, encontrara o adversário indicado, cujo nome nunca soubera, dera-lhe uma bonita espadeirada no braço e aproximara-se de Aramis, que se dirigia para ele, depois de ter dado cabo do seu.

— Está acabado — dissera Aramis. — Creio que matei o insolente. Mas, caro amigo, se precisardes de mim, sabeis que estou sempre às vossas ordens.

Em seguida, apertara-lhe a mão e sumira sob as arcadas.

Por conseguinte, d'Artagnan conhecia tão bem o paradeiro de Aramis quanto o de Athos e o de Porthos, e a coisa principiava a tornar-se embaraçosa quando julgou ouvir o ruído de uma vidraça que se quebrava no quarto. Pensou imediatamente no saco fechado na secretária e saiu do gabinete. Não se enganara: no momento em que entrava pela porta, um homem entrava pela janela.

— Ah! miserável! — bradou d'Artagnan, imaginando que o homem fosse um ladrão e empunhando a espada.

— Senhor — exclamou o homem — pelo amor de Deus, ponde a espada na bainha e não me mateis sem me ouvir! Não sou nenhum ladrão, absolutamente! Sou um honesto burguês, um estabelecido, proprietário. Chamo-me... Eh! mas, se não me engano, sois o Sr. d'Artagnan!

— E tu, Planchet! — bradou d'Artagnan.

— Para servir-vos, senhor — disse Planchet, no auge do assombro — se ainda puder.

— Talvez — disse d'Artagnan; — mas que diabo fazes tu, correndo sobre telhados às sete horas da manhã em pleno mês de janeiro?

— Senhor — respondeu Planchet — precisas saber... Mas, pensando bem, talvez seja melhor que o ignoreis.

— O quê? — tornou d’Artagnan. — Mas, primeiro, põe um guardanapo diante da vidraça e corre as cortinas.

Planchet obedeceu e, quando terminou:

— E então? — insistiu d'Artagnan.

— Senhor, em primeiro lugar — principiou o prudente Planchet — quais são as vossas relações com o Sr. de Rochefort?

— Magníficas. Que pergunta! Sabes que Rochefort é, hoje, um de meus maiores amigos?

— Ah! tanto melhor.

— Mas que relação existe entre Rochefort e essa maneira de entrares no meu quarto?

— Exatamente, Senhor! Devo dizer-vos primeiro que o Sr. de Rochefort está. ,.

Planchet hesitou.

— Com a breca! — atalhou d'Artagnan. — Sei perfeitamente. Ele está na Bastilha.

— Estava — corrigiu Planchet.

— Estava, como? — exclamou d'Artagnan. — Terá tido a felicidade de fugir?

— Ah! senhor — exclamou por sua vez Planchet — se a isso chamais felicidade, vai tudo bem; devo dizer-vos, portanto, que ontem, segundo parece, mandaram buscar o Sr. de Rochefort na Bastilha.

— Hom'essa! Sei disso perfeitamente, pois eu fui buscá-lo!

— Mas não o levastes de volta, felizmente para ele; pois se eu vos tivesse reconhecido no meio da escolta, crede, senhor, que continuo a dedicar-vos muito respeito...

— Acaba de uma vez, animal! E então? Que aconteceu?

— Pois bem! Aconteceu que, no meio da rue de la Ferronnerie, quando o carro do Sr. de Rochefort atravessava um magote de gente e os soldados da escolta atropelavam os burgueses, ergueram-se murmúrios; julgando boa a ocasião, o preso disse o seu nome e gritou por socorro. Eu estava lá, reconheci o nome do Conde de Rochefort; lembrei-me de que foi ele quem me fez sargento no regimento de Piemonte; gritei imediatamente que era um prisioneiro, amigo do Sr. Duque de Beaufort. O povo se amotinou, segurou os cavalos, derrubou a escolta. Nesse em meio, abri a portinhola do carro, o Sr. de Rochefort saltou em terra e perdeu-se entre a multidão. Mas, infelizmente, passava uma patrulha, que se reuniu aos guardas e investiu conosco. Bati em retirada para os lados da rue Tiquetonne e, como me seguissem de perto, refugiei-me na casa que fica ao lado desta; a casa foi cercada, esquadrinhada, mas em vão; encontrei no quinto andar uma pessoa compassiva que me escondeu entre dois colchões. Fiquei no esconderijo, ou coisa que o valha, até o raiar do dia, e, imaginando que à tarde recomeçasse as buscas, aventurei-me pelas calhas, procurando primeiro uma entrada e depois uma saída em qualquer casa que não estivesse guardada. Eis a minha história, e dou-vos a minha palavra de honra, senhor, que ficaria desesperado se ela vos desagradasse.

— Pelo contrário — retorquiu d'Artagnan — e folgo muito em saber que Rochefort está em liberdade; mas sabes de uma coisa? Se caíres nas mãos de gente do Rei, serás enforcado sem misericórdia.

— Está visto que sei! — tornou Planchet; — é o que me atormenta agora e daí a minha alegria por haver-vos encontrado; pois, se quiserdes esconder-me, ninguém poderáfazê-lo melhor.

— Sim — disse d'Artagnan — não quero outra coisa, embora perca o meu posto se alguém souber que açoitei um rebelde.

— Ah! senhor, sabeis muito bem que, por vós, eu perderia a vida.

— Poderias ajuntar que já a arriscaste, Planchet. Só esqueço as coisas que devo esquecer, e essa, quero recordá-la. Mas senta-te aí e come em paz, pois vejo que examinas os restos do meu jantar com um olhar dos mais expressivos.

— Sim, senhor, que a dispensa da vizinha estava muito< mal sortida de coisas suculentas, e desde ontem ao meio-dia não comi outra coisa senão uma fatia de pão com geléia. Embora eu não desdenhe os doces quando vêm na hora e no lugar apropriados, achei o jantar muito levezinho.

— Pobre! — observou d'Artagnan. — Vamos, restaura-te!

— Ah! senhor, vós me salvais duas vezes a vida.

E Planchet sentou-se à mesa, onde começou a empanturrar-se como nos belos dias da rue des Fossoyeurs.

D'Artagnan continuava a passear de um lado para outro; procurava descobrir o proveito que poderia tirar de Planchet nas circunstâncias em que este se encontrava. Enquanto isso, Planchet trabalhava de recuperar as horas perdidas.

Afinal despediu o suspiro de satisfação do homem faminto, que, depois de haver comido um bom pedaço, prepara-se para um rápido intervalo.

— Vejamos — disse d'Artagnan, que julgou chegado o momento de iniciar o interrogatório — vamos por partes: sabes onde está Athos?

— Não, senhor — respondeu Planchet.

— Diabo! Sabes onde está Porthos?

— Também, não.

— Diabo, diabo!

— E Aramis?

— Tampouco.

— Diabo, diabo, diabo !

— Mas — acudiu Planchet, com o seu ar velhaco — sei onde está Bazin.

— Como! Sabes onde está Bazin?

— Sim, senhor.

— Onde é que ele está?

— Em Notre-Dame.

— E que faz em Notre-Dame?

— É sacristão.

— Bazin, sacristão de Notre-Dame! Tens certeza?

— Absoluta. Estive com ele.

— Deve saber onde está o amo.

— Sem dúvida nenhuma.

D'Artagnan refletiu, apanhou o capote e a espada e fez menção de sair.

— Senhor — acudiu Planchet, lastimoso — abandonai-me assim? Sois a minha única esperança!

— Ninguém virá procurar-te aqui — disse d'Artagnan.

— Mas se vierem — tornou o prudente Planchet — para as pessoas da casa, que não me viram entrar, sou um ladrão.

— É verdade — concordou d'Artagnan; — vejamos, falas um dialeto qualquer?

— Mais do que isso, falo uma língua; falo flamengo.

— E onde a aprendeste?

— Em Artois, onde combati durante dois anos. Ouvi: Goeden morgen, mynheer! itk ben begeeray te weeten the ge sond hects omstand.

— Que quer dizer isso?

— Bom-dia, senhor! Apresso-me a informar-me do estado de vossa saúde.

— E ele chama a isso uma língua! Mas não faz mal — disse d'Artagnan — vem a calhar.

D'Artagnan encaminhou-se para a porta, chamou um criado e ordenou-lhe que dissesse à bela Madalena para subir.

— Que fazeis, senhor! — atalhou Planchet. — Confia-reis o nosso segredo a uma mulher?

— Tranqüiliza-te, que essa não dirá uma palavra. Nesse momento entrou a hospedeira. Vinha com ar risonho, esperando encontrar d'Artagnan sozinho; mas, vendo Planchet, recuou espantada.

— Minha querida patroa — disse d'Artagnan — apresento-vos o senhor vosso irmão, que chegou de Flandres e ficará alguns dias a meu serviço.

— Meu irmão! — exclamou a estalajadeira, cada vez mais espantada.

— Desejai bons-dias a vossa irmã, master Peter.

— Vilkim, zuster! — disse Planchet.

— Goeden day, broer! — respondeu, de queixo caído, a dona da casa.

— O negócio é o seguinte — explicou d'Artagnan: — este senhor é vosso irmão, que talvez não conheceis, mas que eu conheço; chegou de Amsterdã; dar-lhe-eis o que vestir durante a minha ausência; quando eu voltar, isto é, daqui a uma hora, vós mo apresentareis, e, pela vossa recomendação, embora ele não saiba uma palavra de francês, como não posso recusar-vos coisa alguma, tomá-lo-ei a meu serviço. Está entendido?

— Adivinho o que quereis, e isso me basta — disse Madalena.

— Sois uma mulher preciosa, minha bela hospedeira, e eu me fio de vós.

E, tendo feito um sinal a Planchet, d'Artagnan saiu para dirigir-se a Notre-Dame.


 DAS INFLUÊNCIAS DIFERENTES QUE PODE EXERCER MEIA PISTOLA NUM SACRISTÃO E NUM MENINO DE CORO

 

D'Artagnan tomou pelo Pont-Neuf, felicitando-se por haver encontrado Planchet; pois, se bem parecesse prestar um serviço ao digno rapaz, era, em realidade, ele quem se servia de Planchet. Nada, com efeito, lhe poderia ser mais agradável nesse momento do que um lacaio corajoso e inteligente. É verdade que Planchet, segundo todas as probabilidades, não ficaria muito tempo a seu serviço; mas, ao reassumir a sua posição social na rue des Lombards, Planchet ficaria devendo uma obrigação a d'Artagnan, que, escondendo-o em sua casa, lhe salvara a vida ou quase, e o gascão não desgostava de ter amizades com burgueses quando estes se preparavam para combater a Corte. Era uma fonte de informações no campo inimigo, e, para um homem sagaz como d’Artagnan, as menores coisas poderiam conduzir às grandes.

Foi, portanto, com essa disposição de espírito, satisfeito com o acaso e consigo mesmo, que chegou a Notre-Dame. Subiu a escadaria, entrou na igreja, e, dirigindo-se a um homem que varria uma capela, perguntou-lhe se conhecia o Sr. Bazin.

— O Sr. Bazin, o sacristão?

— Ele mesmo.

— Ei-lo ajudando missa lá embaixo, na capela da Virgem.

D'Artagnan teve um estremecimento de alegria, pois receara, apesar do que dissera Planchet, jamais encontrar Bazin; mas agora que conseguira agarrar uma ponta do fio, tinha a certeza de chegar à outra ponta.

Foi ajoelhar-se diante da capela para não perder o homem de vista. Tratava-se felizmente de uma missa rezada, Que acabaria depressa. D'Artagnan, que esquecera as orações e não trouxera livro, aproveitou o tempo para examinar Bazin.

Pode dizer-se que Bazin ostentava os seus trajos com tanta majestade quanta beatitude. Compreendia-se que chegara, ou quase, ao apogeu de suas ambições, e que o hissope encastoado de prata que empunhava lhe parecia tão honroso quanto o bastão de comando que Conde jogou ou não jogou nas linhas inimigas na batalha de Friburgo. O seu físico experimentara uma alteração, por assim dizer, perfeitamente análoga à dos trajos. Todo o corpo se arredondara, fradescamente. Quanto ao rosto, as partes salientes pareciam ter desaparecido. Ainda possuía nariz, mas as bochechas, inflando-se, tinham-no absorvido um pouquinho cada uma; o queixo fugia debaixo da garganta, em resultado não da gordura mas do inchaço, que lhe fechara os olhos; quanto à testa, os cabelos cortados quadrada e santamente, cobriam-no até uma distância de três linhas das sobrancelhas. Apressemo-nos em dizer que a testa de Bazin nunca tivera, nem no tempo em que andara exposta, mais de polegada e meia de altura.

O celebrante acabou a missa ao mesmo tempo que d’Artagnan concluiu o exame; pronunciou as palavras sacramentais e retirou-se, para grande espanto do mosqueteiro, dando a sua bênção, que cada qual recebia de joelhos. Mas o espanto de d'Artagnan cessou quando, no celebrante, reconheceu o próprio Coadjutor, isto é, o famoso João Francisco Paulo de Gondy (12), que, nessa época, pressentindo o papel que ia desempenhar, já principiava a popularizar-se à força de esmolas. E era no propósito de aumentar a popularidade que dizia, de tempos a tempos, uma dessas missas matinais a que só o povo costuma assistir.

(12) Temerário, aventuroso, violento, amante apenas de mulheres e estocadas, embora fosse um sujeitinho pequeno, escuro, mal feito, sumamente míope e extraordinariamente desastrado, Paulo de Gondy, Coadjutor do Arcebispo de Paris, depois Arcebispo de Paris e, finalmente, Cardeal de Retz, empenhara-se, durante a mocidade, em duelos furiosos e num sem número de aventuras galantes. De uma intrepidez só igualada pela do Sr. Príncipe, o homem mais corajoso do reino, e de uma ambição desmesurada, era, de todos os homens, o menos talhado para o sacerdócio. Entretanto, a necessidade de conservar em sua casa o Arcebispado de Paris o obrigou, como Richelieu, a entrar para a Igreja, o que só fez depois de muito relutar. Ordenado, empregou todas as energias na consecução de um propósito: obter o chapéu cardinalício e o cargo de primeiro ministro, do qual pretendia desalojar Mazarino, seu grande inimigo. Para isso lutou, durante toda a Fronda, com habilidade, energia e falta de escrúpulos impressionantes, demonstrando todas as qualidades de chefe de partido: eloqüência, coragem, habilidade, conhecimento dos homens, discernimento das ocasiões... As circunstâncias, porem, lhe foram desfavoráveis, e só depois da morte de Mazarino, já nos últimos anos de sua vida, Luís XIV utilizou-lhe os serviços, ocasião em que Retz se apresentou como conselheiro habilíssimo do Rei para as_ negociações mais espinhosas e difíceis. Foi nesse período de sua existência isto e, em 1671, oito anos antes de morrer, já pendendo dos sessenta, que principiou a escrever as famosas Memórias. (N. do T.)

 

D'Artagnan ajoelhou-se como os outros, recebeu o quinhão de bênção que lhe cabia, fez o sinal da cruz; mas no momento em que Bazin passou por ele, com os olhos erguidos para o céu e humildemente colocado em último lugar, segurou-o pela batina. Bazin abateu os olhos e deu um salto para trás como se tivesse visto uma serpente.

— Sr. d'Artagnan! — exclamou; — vade retro, Satanás!...

— Então, meu caro Bazin — tornou, rindo, o oficial — é assim que recebes um velho amigo?

— Senhor — respondeu Bazin — os verdadeiros amigos do cristão são aqueles que o ajudam a salvar a alma, e não os que o impedem de fazê-lo.

— Não te compreendo, Bazin — prosseguiu d'Artagnan — e não vejo de que maneira eu possa impedir a salvação de tua alma.

— Vós vos esqueceis, senhor — replicou Bazin — que quase destruístes a do meu pobre amo, e que, por vós, ele se teria perdido continuando mosqueteiro, quando a vocação o arrastava tão ardentemente para a Igreja.

— Meu caro Bazin — continuou d'Artagnan — deves ver, pelo sítio em que me encontras, que estou muito mudado em tudo: os anos trazem juízo; e, como não duvido de que o teu amo esteja empenhado na salvação de sua alma, quero que me informes do seu paradeiro, a fim de que ele me ajude, com o exemplo, conselhos, a salvar a minha.

— Dizei antes que pretendeis arrastá-lo convosco para o mundo. Felizmente — ajuntou Bazin — não sei onde ele mora; e como estamos em lugar sagrado, eu não me atreveria a mentir.

— Como! — exclamou d'Artagnan, desapontadíssimo — não sabes onde mora Aramis?

— Em primeiro lugar — acudiu Bazin — Aramis era o seu nome de perdição, pois em Aramis se encontra Simara, que é um apelido do demo; felizmente, deixou-o para sempre.

— Por isso mesmo — volveu d'Artagnan, decidido a pacientar até ao fim — não era Aramis que eu procurava, mas o Padre d'Herblay. Vamos, meu caro Bazin, dize-me onde está.

— Não me ouvistes responder, Sr. d’Artagnan, que eu não sabia?

— Ouvi; mas a isso respondo eu que não é possível.

— É a verdade, senhor, a verdade pura, a verdade de Deus.

D'Artagnan percebeu que não arrancaria nada de Bazin; este, evidentemente, mentia, mas mentia com tanto ardor e tanta firmeza que, sem dúvida nenhuma, não se desdiria.

— Está bem, Bazin — declarou d'Artagnan; — já que não sabes onde mora o teu amo, não se fala mais nisso; separemo-nos como bons amigos e toma lá esta meia pistola para beber à minha saúde.

— Não bebo, senhor — retrucou Bazin, afastando com majestade a mão do oficial — isso é bom para leigos.

— Incorruptível! — murmurou d'Artagnan. — Com efeito, estou de azar.

E como, distraído por essas reflexões, largasse d'Artagnan a batina de Bazin, este aproveitou o ensejo para retirar-se precipitadamente na direção da sacristia, onde só se julgou seguro depois de fechar a porta.

D'Artagnan permanecia imóvel, pensativo, com os olhos fitos na porta que pusera uma barreira entre ele e Bazin, quando sentiu que lhe tocavam levemente o ombro.

Voltou-se e ia soltar uma exclamação de surpresa, quando o personagem que o tocara com a ponta do dedo levou-o aos lábios em sinal de silêncio.

— Vós aqui, meu caro Rochefort! — disse ele a meia voz.

— Pssiu! — tornou Rochefort. — Sabíeis que eu estava solto?

— Em primeira mão.

— Por quem?

— Por Planchet.

— Por Planchet, como?

— Naturalmente. Foi ele quem vos salvou.

— Planchet!... Com efeito, cuidei reconhecê-lo. O que prova, meu caro, que uma boa ação nunca é perdida.

— E que viestes fazer aqui?

— Venho agradecer a Deus a minha feliz libertação. — E mais o quê? Não há de ser só isso.

— E receber as ordens do Coadjutor, para ver se podemos pregar alguma peça a Mazarino.

— Cabeçudo! Ainda fareis que vos metam de novo na Bastilha.

— Oh! quanto a isso, tomarei cuidado, eu vos garanto! É tão bom o ar livre! Aliás — acrescentou Rochefort res-

pirando a plenos pulmões — vou dar um passeio pelo campo, uma volta pela província.

— Curioso! — acudiu d'Artagnan — eu também!

— E, sem indiscrição, pode saber-se aonde ides?

— À procura dos meus amigos.

— Que amigos?

— Os mesmos cujas notícias me pedíeis ontem.

— Athos, Porthos e Aramis? Estais à procura deles?

— Estou.

— Palavra de honra?

— Que é que há nisso de espantoso?

— Nada. É engraçado. E da parte de quem os procurais?

— Adivinhai.

— Já adivinhei.

— Infelizmente, não sei onde estão. — E não tendes meio de obter notícias? Esperai oito dias, que eu vo-las darei.

— Oito dias é muito; preciso encontrá-los em menos de três.

— Três dias é pouco, e a França é grande.

— Não importa, conhecei a expressão é preciso; com ela se fazem muitas coisas.

— E quando começareis a procurá-los?

— Já comecei.

— Felicidades!

— Boa viagem!

— Talvez nos encontremos no caminho.

— Não é provável.

— Quem sabe? O acaso tem caprichos.

— Adeus.

— Até à vista. A propósito, se Mazarino vos falar de mim, dizei-lhe que saberá, dentro em pouco, se já estou, como ele diz, velho demais para fazer alguma coisa.

E Rochefort afastou-se com um desses sorrisos diabólicos que, outrora, tantas vezes tinham feito estremecer d’Artagnan; mas d'Artagnan considerou-o, dessa feita, sem angústia^ e sorrindo, por seu turno, com uma expressão de melancolia que só essa lembrança, talvez, pudesse dar-lhe ao rosto:

— Vai, demônio — disse ele — e faze o que quiseres. Pouco me importa: não há duas Constanças no mundo!

Voltando-se, viu Bazin, que, depois de haver despido os trajos eclesiásticos, conversava com o homem a que ele, d'Artagnan, se dirigira ao entrar na igreja. Bazin parecia animadíssimo e fazia com os bracinhos curtos e grossos uma infinidade de gestos. D'Artagnan compreendeu que, muito provavelmente, recomendava o máximo sigilo a seu respeito.

Aproveitando a preocupação dos dois homens de igreja para deixar, sem ser visto, a catedral, foi emboscar-se na esquina da rue des Canettes. Bazin não poderia sair sem ser visto por d'Artagnan do ponto em que este se postara.

Cinco minutos depois, estando d’Artagnan em seu posto, Bazin despontou na rua; olhou para todos os lados, a fim de certificar-se de que não era observado; mas não poderia ter visto o oficial, de quem só se adivinhava a cabeça na esquina de uma casa, a cinqüenta passos de distância. Tranqüilizado pelas aparências, enveredou pela rue Notre-Dame. D'Artagnan saiu, ligeiro, do esconderijo e chegou a tempo de vê-lo virar pela rue de la Juiverie e entrar, na rue de la Calandre, numa casa de aspecto respeitável. Não duvidou de que fosse aquela a residência do digno sacristão.

Mas não perdeu tempo indo pedir informações na casa; o porteiro, se houvesse algum, já estaria prevenido; e se não houvesse, a quem as pediria?

Entrou numa tabernazinha na esquina da rue Saint-Elói com a rue de la Calandre e pediu uma dose de hipocraz. A infusão requeria uma boa meia hora de preparação; d'Artagnan teria muito tempo para vigiar Bazin sem despertar suspeitas.

Viu no estabelecimento um molecote de seus doze ou quinze anos, de ar esperto, que imaginou reconhecer por tê-lo visto, vinte minutos antes, com as roupas de menino de coro. Interrogou-o, e como o aprendiz de subdiácono não tivesse interesse nenhum em dissimular, ficou sabendo que ele exercia, de seis a nove horas, a profissão de menino de coro e, de nove à meia-noite, a de moço de taberna.

Enquanto conversava com o menino, surgiu um cavalo à porta da casa de Bazin. O animal estava completamente arreado. Instantes depois, descia Bazin.

— Ué! — disse o menino — o nosso sacristão vai viajar.

— E aonde vai desse jeito? — perguntou d'Artagnan.

— Não sei.

— Terás meia pistola se souberes.

— Para mim! — exclamou o rapazinho, cujos olhos fuzilaram de alegria — se eu puder saber aonde vai Bazin? Não é difícil. Não estais caçoando?

— Não, palavra de oficial; eis a meia pistola. E mostrou-lhe a moeda corruptora.

— Eu vou perguntar a ele.

— É precisamente o modo de não ficar sabendo nada

— volveu d'Artagnan; — espera que parta e, depois, pergunta, interroga, informa-te. Isso é contigo, a meia pistola está aqui.

E tornou a enfiá-lo no bolso.

— Compreendo — acudiu o menino com um sorriso astuto, que só tem o moleque de Paris. — Espera-se.

Não foi preciso esperar muito tempo. Cinco minutos depois, partia Bazin, num trote miúdo, espicaçando a montaria com o guarda-chuva.

Sempre tivera o costume de levar um guarda-chuva em lugar de chicote.

Mal virará a esquina da rue de la Juiverie, o garoto precipitou-se, como um galgo, no seu encalço.

D'Artagnan voltou à mesa a que se assentara ao entrar, certo de que, em menos de dez minutos, saberia o que queria saber.

Com efeito, antes de escoar-se esse tempo, regressava o moleque.

— E então? — perguntou d'Artagnan.

— Então — respondeu o rapazinho — já sei tudo.

— Aonde vai ele?

— A meia pistola é minha?

— Naturalmente! Responde.

— Quero vê-la. Emprestai-ma para verificar. Se não é falsa.

— Está aqui.

— Ó patrão — exclamou o menino — este senhor quer trocar a moeda.

 O patrão, que estava na caixa, deu-lhe o troco e ficou com a moeda.

O garoto pôs o dinheiro no bolso.

— E agora, aonde foi ele? — perguntou d'Artagnan, que lhe assistira, rindo, às manobras.

— A Noisy.

— Como sabes?

— Hom'essa! Não foi preciso ser muito esperto. Reconheci o cavalo do açougueiro, que o aluga, de vez em quando, ao Sr. Bazin. Ora, logo imaginei que o açougueiro não iria alugar o cavalo assim, sem saber aonde o levavam, embora eu não creia que o Sr. Bazin seja capaz de estafar um cavalo.

— E ele te respondeu que o Sr. Bazin...

— Ia a Noisy. Aliás, parece que é um hábito. Vai lá duas ou três vezes por semana.

— E conheces Noisy?

— Naturalmente! É lá que mora a minha ama de leite.

— Há algum convento em Noisy?

— Um bem bonito até, o dos jesuítas.

— Muito bem — exclamou d'Artagnan — já não há dúvida.

— Ficastes satisfeito?

— Fiquei. Como te chamas?

— Friquet.

D'Artagnan tirou a carteira e escreveu nela o nome do menino e o endereço da taberna.

— Dizei, Sr. Oficial — perguntou o menino — poderei vir a ganhar outras meias pistolas?

— Talvez — respondeu d'Artagnan.

E como já soubesse o que queria saber, pagou a dose de hipocraz, que não bebera, e tomou rapidamente o caminho da rue Tiquetonne.


 DE COMO D'ARTAGNAN, PROCURANDO BEM LONGE ARAMIS, NOTOU QUE ELE ESTAVA NA GARUPA, ATRÁS DE PLANCHET

 

Ao voltar, d'Artagnan viu um homem sentado ao pé do lume; era Planchet, mas tão bem metamorfoseado com as roupas velhas que o marido deixara ao fugir, que ele mesmo custou a reconhecê-lo. Madalena apresentou-lho à vista de todos os criados. Planchet dirigiu ao oficial uma bonita frase flamenga, o oficial respondeu-lhe com algumas palavras que não pertenciam a língua nenhuma, e o trato se concluiu. O irmão de Madalena entrou para o serviço de d'Artagnan.

O plano do mosqueteiro estava perfeitamente traçado: não queria chegar de dia a Noisy, com receio de que o reconhecessem. Tinha, portanto, muito tempo ainda, pois Noisy distava umas três ou quatro léguas de Paris, na estrada de Meaux.

Começou por almoçar substancialmente, o que pode ser um mau princípio quando é preciso agir com a cabeça, mas excelente precaução quando é o corpo que trabalha; em seguida, mudou de roupa, receoso de que a casaca de tenente de mosqueteiros inspirasse desconfianças; depois, escolheu a mais forte e a mais sólida de suas três espadas, que só usava nos grandes dias; finalmente, cerca das duas horas, mandou selar os dois cavalos e, seguido de Planchet, saiu pela barreira da Villette. Na casa contígua à hospedaria da Chevrette continuavam ativamente as buscas para encontrar Planchet.

A légua e meia de Paris, vendo que, na sua impaciência, ainda partira cedo demais, deteve-se para dar folga aos cavalos; a estalagem estava cheia de gente mal encarada, que parecia a pique de tentar alguma expedição noturna. Um homem embrulhado num capote assomou à porta; mas, vendo um estranho, fez sinal com a mão e dois bebedores saíram para conversar com ele.

Quanto a d'Artagnan, aproximou-se, displicente, da dona da casa, gabou-lhe o vinho, uma zurrapa medonha de Montreuil, fez-lhe algumas perguntas sobre Noisy, e ficou sabendo que havia na aldeia apenas duas casas de boa aparência: uma, que pertencia ao Sr. Arcebispo de Paris, e na qual se achava, naquele momento, uma sobrinha sua, a Sra. Duquesa de Longueville; a outra, um convento de jesuítas e que, segundo o hábito, pertencia a esses dignos padres; não havia engano possível.

Às quatro horas, d'Artagnan pôs-se de novo a caminho, a passo, pois só queria chegar depois de noite fechada. Ora, quando a gente viaja a cavalo, a passo, numa tarde de inverno, com um tempo cinzento, por uma paisagem monótona, não pode fazer outra coisa senão o que faz, como diz La Fontaine, a lebre na toca: meditar; d'Artagnan, portanto, meditava, e Planchet também. Mas, como veremos, as suas meditações eram diferentes.

Uma palavra da estalajadeira imprimira uma direção particular aos pensamentos de d'Artagnan; essa palavra fora o nome da Sra. de Longueville (13).

(13) Bela, indolente, parecendo um anjo, tez branca e rósea, cabelo de um loiro prateado e olhos dulcíssimos, cor de turquesa, Ana Genoveva de Bourbon-Condé, irmã do Sr. Príncipe, casada com o Duque de Longueville, sempre sonhava viver uma vida perigosa. A sua languidez tinha "luminosos e surpreendentes despertares." Romântica e corneliana, ambicionava a glória, aspirava igualar-se às heroínas de suas leituras e costumava dizer: "Não gosto dos prazeres inocentes." A sua paixão, entre as muitas que teve, pelo Príncipe de Marcillac foi célebre. (N. do T.)

 

De feito, a Sra. de Longueville possuía quanto era preciso para fazer meditar: sendo uma das principais damas do reino e uma das mais belas mulheres da Corte, casada sem amor com o velho Duque de Longueville, passara a princípio por amante de Coligny, que por ela se deixara matar pelo Duque de Guise, num duelo na Place Royale; depois, falara-se em certa amizade excessivamente terna que dedicara ao Príncipe de Conde, seu irmão, e que teria escandalizado as almas timoratas da Corte; finalmente, dizia-se ainda, um ódio verdadeiro e profundo substituíra a amizade, e a Duquesa de Longueville, naquele momento, mantinha ligações políticas com o Príncipe da Marcillac (14), primogênito do velho Duque de La Rochefoucauld, e procurava inimizá-lo com o Sr. Duque de Conde, seu irmão.

(14) Francisco de La Rochefoucauld, a princípio conhecido pelo nome de Príncipe de Marcillac, entrou-se nas armas aos 16 anos, na Itália, e assinalou-se depois na campanha de Flandres; na Corte, tornou-se sobretudo notório pela ambição irrequieta e pelo espírito de intriga. Pertenceu, a princípio, ao partido de Ana d'Áustria contra Richelieu e, durante a regência, participou da "cabala dos Importantes", chefiada pelo Duque de Beaufort. Enamorado da famosa Duquesa de Longueville, entrou, para agradar-lhe, no partido dos frondistas. Mais tarde, amadurecido, tendo feito as pazes com a Corte, passou a levar uma existência sossegada, durante a qual escreveu o imortal livro de Máximas, que o celebrizou, não só pela perfeição do estilo como também pela ousadia das idéias. (N. do T.)

 

D'Artagnan pensava em todas essas coisas. Pensava no Louvre, onde vira passar muitas vezes diante dele, radiosa e deslumbrante, a bela Sra. de Longueville. Pensava em Ara-mis, que, sem ser mais do que ele, havia sido, outrora, amante da Sra. de Chevreuse, que representara, na Corte anterior, o que nesta representava a Sra. de Longueville. E perguntava a si mesmo por que haverá no mundo pessoas que conseguem tudo o que desejam, estas no terreno da ambição, aquelas no do amor, ao passo que outras, seja por acaso, seja pela adversidade, seja por um impedimento natural que lhes impôs a natureza, ficam a meio caminho de todas as esperanças.

E já se sentia obrigado a confessar que, a despeito de todo o seu espírito, apesar de toda a sua habilidade, era e continuaria sendo uma das últimas, quando Planchet se aproximou e disse-lhe:

— Aposto, senhor, que pensais no mesmo que eu.

— Duvido, Planchet — tornou, sorrindo, d'Artagnan; — mas em que estás pensando?

— Naquela gente mal encarada que bebia na estalagem onde paramos.

— Sempre prudente, Planchet.

— É o instinto, senhor.

— Pois, então, vejamos: que te diz o instinto nesta circunstância ?

— Dize-me o instinto que essa gente se reuniu na estalagem com más intenções; eu refletia nisso no canto mais escuro da cocheira, quando um homem embrulhado num capote entrou na mesma cocheira seguido de dois outros.

— Ah! ah! — exclamou d'Artagnan, notando que a história de Planchet correspondia às suas observações precedentes. — E daí?

— Um deles dizia:

"— Ele, sem dúvida, está em Noisy ou estará lá hoje à noite, pois reconheci o criado.

"— Tens certeza? — perguntou o homem do capote. "— Tenho, meu Príncipe."

"— Meu Príncipe — interrompeu d'Artagnan.

— Sim, meu Príncipe. Mas ouvi:

"— Se estiver, que se há de fazer? — perguntou o outro bebedor.

"— O que se há de fazer? — repetiu o Príncipe.

"— Sim. Não é homem que se deixe agarrar. Puxará da espada.

"— Fareis o mesmo. Entretanto, procurai apanhá-lo vivo. Trouxestes cordas para amarrá-lo e mordaça para pôr--lhe na boca?

"— Trouxemos.

"— Não vos esqueçais de que, muito provavelmente, estará disfarçado de cavaleiro.

"— Oh! sim, sim, meu Príncipe, fique descansado.

"— Aliás, estarei lá e eu mesmo vos dirigirei.

"— Vossa Alteza responde pela justiça... ?

"— Respondo por tudo.

"— Está bem, faremos o que pudermos.

"E, com essas palavras, saíram da cocheira."

— E então? — perguntou d'Artagnan. — Que temos nós com isso? Será uma dessas empresas com as que se realizam todos os dias.

— Tendes certeza de que não é dirigida contra nós?

— Contra nós? Por quê?

— Ué! Reparai nas palavras: "Reconheci o criado," disse um, e poderia muito bem referir-se a mim.

— E depois?

"— Ele está em Noisy ou estará lá hoje à noite," disse o outro, e isso poderia muito bem referir-se a vós.

— E depois?

— Depois disse o Príncipe: "Não vos esqueçais de que, muito provavelmente, estará disfarçado de cavaleiro," o que não parece deixar dúvida alguma, pois estais vestido de cavaleiro e não de oficial de mosqueteiros. E então? Que me dizeis a tudo isso?

— Ai de mim! meu caro Planchet! — exclamou d’Artagnan despedindo um suspiro — digo-te que já se foi, infelizmente, o tempo em que os príncipes queriam mandar-me assassinar. Ah! bom tempo aquele! Tranqüiliza-te, que essa gente não quer meter-se conosco.

— Tendes certeza?

— Absoluta.

— Está bem; sendo assim, não se fala mais nisso.

E Planchet voltou ao seu lugar, atrás de d'Artagnan, com a sublime confiança que sempre tivera no amo e que urna separação de quinze anos não vingara alterar.

Nesse andar percorreram cerca de uma légua.

Ao cabo dessa légua, Planchet tornou a aproximar-se de d'Artagnan.

— Senhor — disse ele.

— Que foi?

— Olhai para aquele lado; não vos parece, no meio da escuridão, ver sombras que passam? Tenho a impressão de escutar passos de cavalos.

— Impossível — tornou d'Artagnan — a terra está encharcada pelas chuvas; mas, como dizes, creio distinguir alguma coisa.

E parou, com olhos e ouvidos fitos.

— Se não se ouvem os passos dos cavalos, ouvem-se, pelo menos, os relinchos. Prestai atenção.

E, com efeito, cruzando o espaço e a obscuridade, um relinchar alcançou os ouvidos de d'Artagnan.

— São os nossos homens que se puseram a campo — disse ele; — mas como não temos nada com isso, continuemos.

E continuaram.

Meia hora depois chegavam às primeiras casas de Noisy. Seriam umas oito e meia ou nove horas da noite.

Segundo os hábitos de aldeia, toda a gente estava dormindo e não se via luz em parte alguma.

D'Artagnan e Planchet prosseguiram.

À direita e à esquerda do caminho que seguiam recortavam-se, no cinzento sombrio do céu, os dentilhões ainda mais sombrios dos telhados das casas; de quando em quando, um cachorro, acordado, latia atrás de uma porta, ou um gato assustado saía precipitadamente do meio da rua para refugiar-se num monte de lenha, onde se viam brilhar, como carbúnculos, os seus olhos assombrados. Eram os únicos seres vivos que pareciam habitar a aldeia.

Mais ou menos no meio do povoado, dominando a praça principal, erguia-se um vulto sombrio, isolado entre duas vielas, e sobre cuja fachada tílias enormes estendiam os braços descarnados. D'Artagnan examinou com atenção o edifício.

— Este — disse ele a Planchet — deve ser o castelo do Arcebispo, onde mora a formosa Sra. de Longueville. Mas onde estará o convento?

— O convento — retrucou Planchet — fica no extremo da aldeia. Eu o conheço.

— Pois bem — ordenou d'Artagnan — dá um pulo até lá, Planchet, enquanto aperto a barrigueira do meu cavalo e volta para dizer-me se há alguma janela iluminada na casa dos jesuítas.

Planchet obedeceu e afastou-se na sombra, ao passo que d'Artagnan, apeando, apertou, como dissera, a barrigueira do animal.

Ao cabo de cinco minutos voltou Planchet.

— Senhor — disse ele — há apenas uma janela iluminada na face que dá para os campos.

— Hum! — observou d'Artagnan; — se eu fosse frondista, bateria a esta porta e teria certeza de encontrar bom gasalhado; se fosse frade, bateria àquela e teria certeza de encontrar bom jantar; mas é muito possível que entre o castelo e o convento, tenhamos de deitar-nos na terra dura, morrendo de fome e de sede.

— Sim — concordou Planchet — como o famoso asno de Buridan. Quereis que eu bata à porta?

— Pssiu! — ordenou d'Artagnan; — apagou-se a luz da única janela que estava iluminada.

— Estais ouvindo? — perguntou Planchet. — De fato, que barulho será esse?

Dir-se-ia o ruído de um furacão que se aproximasse; no mesmo instante, dois grupos de cavaleiros, cada qual composto de uma dezena de homens, surgiram pelas duas vielas que rodeavam a casa e, fechando todas as saídas, envolveram d'Artagnan e Planchet.

— Ué! — exclamou d'Artagnan puxando da espada e abrigando-se atrás do cavalo, ao passo que Planchet executava idêntica manobra — será possível que tenhas razão e que o negócio seja mesmo conosco?

— Ei-lo, apanhamo-lo! — gritaram os cavaleiros correndo sobre d'Artagnan com as espadas na mão.

— Não o deixeis escapar.

— Não tem perigo, Alteza.

D'Artagnan julgou chegado o momento de meter-se também na conversa.

— Olá, senhores! — interpelou-os com o sotaque gascão — que quereis, que procurais?

— Vai sabê-lo — urraram, em coro, os cavaleiros.

— Parai, parai! — gritou o que fora chamado Alteza; — parai, que não é a voz dele.

— Ora esta, senhores — acudiu d'Artagnan — dar-se-á que esteja danada a gente de Noisy? Mas, cuidado! Prometo estripar o primeiro que chegar ao alcance da minha espada, que é bem compridinha.

O chefe aproximou-se.

— Que fazeis aqui? — perguntou com voz altiva e como que habituada a comandar.

— E vós? Que fazeis? — tornou d'Artagnan.

— Sede cortês, ou sereis convenientemente desancado; pois embora eu não deseje declinar o meu nome, quero ser respeitado consoante a minha hierarquia.

— Não desejais declinar o nome porque dirigis uma cilada — voltou d'Artagnan; — mas eu, que viajo tranqüilamente com o meu lacaio, não tenho as mesmas razões para esconder o meu.

— Basta, basta! Como vos chamais?

— Digo-vos o meu nome para saberdes onde podereis encontrar-me, senhor, Alteza, ou meu Príncipe, como quiserdes ser chamado — retrucou o nosso herói, que não queria dar a impressão de ceder ante uma ameaça — conheceis o Sr. d'Artagnan?

— Tenente dos mosqueteiros do Rei?

— Exatamente.

— Conheço.

— Pois bem! — continuou o gascão — deveis ter ouvido dizer que é um pulso firme e uma esplêndida espada.

— Sois o Sr. d'Artagnan?

— Sou.

— Viestes, então, para defendê-lo?

— Quem?... Defender quem?

— O mesmo que procuramos.

— Parece — continuou d'Artagnan — que, imaginando vir a Noisy, vim dar, sem saber, no reino dos enigmas.

— Vamos respondei! — insistiu a mesma voz altiva; — estais à sua espera debaixo destas janelas? Viestes a Noisy para defendê-lo?

— Não estou esperando ninguém — replicou d’Artagnan, que principiara a impacientar-se — e não pretendo defender ninguém, senão a minha pele; mas essa, defenderei vigorosamente, eu vos garanto.

— Está bem — disse a voz — retirai-vos daqui e deixai-nos o campo livre.

— Retirar-me! — retrucou d'Artagnan, contrariado em seus projetos por essa ordem — não é fácil, visto que estou caindo de cansaço e meu cavalo também; a não ser que estejais disposto a oferecer-me o que comer e onde dormir nos arredores.

— Velhaco!

— Alto lá, senhor! — recalcitrou d'Artagnan — medi as palavras, por favor, pois se me disserdes mais uma como esta, ainda que sejais marquês, duque, príncipe ou rei, torno a enfiarvo-la na barriga, entendestes?

— Vamos, vamos — disse o chefe — não há engano possível, é um gascão que fala e, por conseguinte, não é a pessoa que procuramos. O golpe falhou esta noite. Tornaremos a encontrar-nos, mestre d'Artagnan — ajuntou o chefe, elevando a voz.

— Sim, mas nunca mais com as mesmas vantagens — chasqueou o gascão, — pois, quando tornardes a encontrar--me talvez estejais só e seja dia claro.

— Bem, bem! — disse a voz; — a caminho, senhores! E, murmurando e resmungando, a cavalgata desapareceu nas trevas, na direção de Paris.

D'Artagnan e Planchet ainda se quedaram algum tempo na defensiva; mas como o ruído continuasse a afastar-se, tornaram a embainhar as espadas.

— Como vês, imbecil — disse tranqüilamente d'Artagnan a Planchet — a coisa não era conosco.

— Mas com quem seria, então? — perguntou Planchet.

— Palavra que não sei e que não me importo. O que me interessa agora é entrar no convento dos jesuítas. Portanto, a. cavalo e vamos bater-lhe à porta. Haja o que houver, que diabo, não nos comerão!

E d'Artagnan voltou a cavalgar.

Planchet acabava de fazer o mesmo, quando um peso inesperado lhe caiu na garupa do cavalo, que quase despencou.

— Eh! senhor — bradou Planchet — tenho um homem na garupa!

D'Artagnan voltou-se e viu, efetivamente, duas formas humanas sobre a montaria de Planchet.

— Mas é o diabo mesmo que nos persegue! — exclamou, sacando da espada e preparando-se para acometer o recém--chegado.

— Não, meu caro d'Artagnan — sobreveio este último; — não é o diabo: sou eu, Aramis. A galope, Planchet, e até o fim da aldeia, à esquerda.

E, levando Aramis na garupa, partiu Planchet a galope seguido de d'Artagnan, que principiava a crer que sonhava um sonho fantástico e incoerente.


 O PADRE D'HERBLAY

 

Chegado ao extremo da aldeia, Planchet tomou para a esquerda, como lhe ordenara Aramis e parou debaixo da janela iluminada. Aramis desmontou e bateu palmas três vezes. A janela imediatamente se abriu e desceu uma escada de corda.

— Meu caro — disse Aramis — se quiseres subir, terei imenso prazer em receber-te.

— Muito bem! — exclamou d'Artagnan — é então assim que se entra em tua casa?

— Depois das nove da noite, não há outro jeito, com os diabos! — respondeu Aramis. — As ordens no convento são severíssimas.

— Perdão, meu caro amigo — tornou d'Artagnan — mas pareceu-me ouvir-te dizer "com os diabos!"

— É possível — disse Aramis, desatando a rir — é possível. Não imaginas, meu caro, como a gente adquire hábitos maus nestes malditos conventos e que modos detestáveis tem toda essa gente de igreja com quem sou obrigado a viver! Mas não sobes?

— Sobe primeiro, que eu te sigo.

— Como dizia o finado Cardeal ao Rei: "Para mostrar-lhe o caminho, Sire."

E Aramis subiu lestamente a escada, chegando, num ápice, à janela.

D'Artagnan subiu atrás dele, porém, mais devagar; percebia-se que esse gênero de subidas lhe era menos familiar do que ao amigo.

— Perdão — disse Aramis, notando-lhe a falta de jeito: — se eu soubesse que teria a honra da tua visita, mandaria trazer a escada do jardineiro; mas para mim, esta é mais do que suficiente.

— Senhor — acudiu Planchet, quando viu d'Artagnan a pique de terminar a escalada — isso é bom para o Sr. Aramis, é bom para vós e, a rigor, seria bom até para mim, mas o caso é que os dois cavalos não sobem escada.

— Leva-os para aquele alpendre, meu amigo — disse Aramis, mostrando a Planchet uma espécie de construção que se erguia mais adiante; — lá encontrarás palha e aveia para eles.

— E para mim? — perguntou Planchet.

— Voltarás aqui debaixo da janela, baterás palmas três vezes e nós te passaremos os mantimentos. Sossega, que diabo! Aqui ninguém morre de fome!

E, retirando a escada, Aramis fechou a janela.

D'Artagnan examinou o quarto.

Nunca vira aposento ao mesmo passo tão marcial e elegante. Em cada canto fulgiam troféus de armas, que ofereciam à vista e à mão espadas de todo naipe, e quatro grandes quadros representavam, em trajos de batalha, o Cardeal de Lorena, o Cardeal de Richelieu, o Cardeal de Lavalette e o Arcebispo de Bordéus. É verdade que, no resto, nada indicava a residência de um padre, pois os reposteiros eram de damasco, os tapetes de Alençon, e a cama lembrava muito mais o leito de uma dama galante com a sua guarnição de rendas e a sua colcha para os pés, que a de um homem que fizera voto de conquistar o céu pela abstinência e pela maceração.

— Examinas o meu tugúrio — disse Aramis. — Ah! meu caro, desculpa-me. Que queres? Estou instalado como um cartuxo. Mas que procuras?

— A pessoa que te jogou a escada; não vejo ninguém e, no entanto, a escada não pode ter descido sozinha.

— Foi Bazin.

— Ah! ah! — fez d'Artagnan.

— Mas — continuou Aramis — o meu Bazin é um rapaz de boas maneiras, que, vendo-me acompanhado, deve ter-se retirado por discrição. Senta-te, meu caro, e conversemos.

E Aramis chegou a d'Artagnan enorme poltrona, em que este se refestelou.

— Primeiro, cearás comigo, não é verdade? — perguntou Aramis.

— Naturalmente, se assim o quiseres — retrucou d’Artagnan — e até com muito prazer; o passeio deu-me um apetite dos diabos.

— Ah! meu pobre amigo! — disse Aramis — a ceia será parca. Não te esperávamos.

— Estarei, acaso, ameaçado de comer a fritada de Grèvecoeur e os tais teobromos? Não era assim que chamavas outrora aos espinafres?

— Oh! devemos esperar — volveu Aramis — que, com a ajuda de Deus e de Bazin encontremos coisa melhor no guarda-comida dos dignos padres jesuítas. — E, mudando de tom: — Bazin, meu amigo Bazin, vem cá.

Abriu-se a porta e Bazin apareceu; mas, vendo d’Artagnan, soltou uma exclamação que parecia um grito de desespero.

— Meu caro Bazin — disse d'Artagnan — folgo muito em ver o admirável desassombro com que mentes, até numa igreja.

— Senhor — respondeu Bazin — aprendi com os dignos padres jesuítas que é permitido mentir quando a mentira é bem intencionada.

— Está bem, está bem, Bazin — acudiu Aramis — d’Artagnan está morto de fome e eu também; portanto, serve-nos a ceia o melhor que puderes e, sobretudo, traze vinho bom lá de baixo.

Bazin inclinou-se em sinal de obediência, despediu um suspiro profundo e saiu.

— Agora que estamos sós, meu caro Aramis — disse d'Artagnan alternando os olhos entre o quarto e o proprietário e acabando pelos trajos o exame iniciado pelos móveis — dize-me, de onde vinhas, quando caíste na garupa de Planchet?

— Hom'essa! — exclamou Aramis. — Como vieste, eu vinha do céu.

— Do céu! — repetiu d'Artagnan sacudindo a cabeça — tens tanto jeito de vir de lá como de ir para lá.

— Meu caro — tornou Aramis com uma expressão fátua que nunca lhe vira d'Artagnan no tempo em que era mosqueteiro — se eu não vinha do céu, pelo menos saía do paraíso: é quase a mesma coisa.

— Acabaram-se, então, as indecisões dos sábios — tornou d'Artagnan. — Até agora não haviam chegado a um acordo sobre a verdadeira localização do paraíso: alguns o colocavam sobre o monte Ararate; outros, entre o Tigre e o Eufrates; mas parece que andavam a procurá-lo demasiado longe, estando ele tão perto. O paraíso fica em Noisy-le-Sec, no ponto em que se ergue o castelo do Sr. Arcebispo de Paris. Ninguém sai dele pela porta, mas pela janela, e não desce pelos degraus de mármore de um peristilo, mas pelos ramos de uma tília, e o anjo de espada flamejante que lhe monta a guarda parece-me haver trocado o nome celeste de Gabriel pelo muito mais terrestre de Príncipe de Marcillac.

Aramis soltou uma gargalhada.

— És sempre o mesmo companheiro jovial, meu caro — disse ele — e ainda não perdeste o humor faceto de gascão. Sim, há de fato um pouco de verdade em tudo o que disseste; mas não imagines agora, pelo menos, que seja a Sra. de Longueville o objeto de meus amores.

— Está visto que não! — replicou d'Artagnan. — Depois de haveres amado por tanto tempo a Sra. de Chevreuse, não poderias consagrar o coração à sua pior inimiga.

— Sim, é verdade — concordou Aramis, displicente — sim, amei de fato, e muito, a pobre Duquesa, e manda ajustiça se diga que ela nos foi utilíssima; mas, que queres? Precisou sair de França. Era um terrível adversário, o diabo do Cardeal! — continuou Aramis, atirando a vista ao retrato do antigo ministro: — dera ordem para que a prendessem e conduzissem ao castelo de Loches; e ter-lhe-ia mandado cortar a cabeça, como fez com Chalais, Montmerency e Cinq-Mars; ela fugiu disfarçada em homem, com a aia, a pobre Ketty; e parece até que lhe aconteceu, segundo ouvi dizer, uma estranha aventura em não sei que aldeia, com não sei que padre a quem pedira hospitalidade, e que, só tendo um quarto e julgando tratar-se de um cavaleiro, ofereceu-se para dividi-lo com ela. Vestia-se admiràvelmente de homem, a querida Maria! Só conheço uma mulher que se veste de homem com a mesma perfeição; por isso mesmo lhe fizeram essa copia:

Dize, Laboissière...

Já a conheces?

— Não; canta-a, meu caro.

E Aramis cantou, com o maior desembaraço:

 

Dize, Laboissière,

Vestida de homem vou bem?

— Permita-me lhe assevere

Que monta como ninguém.

Entre as alabardas,

No regimento de guardas,

É um verdadeiro cadete.

 

— Bravo! — aplaudiu d'Artagnan; — continuas cantando maravilhosamente, meu caro Aramis, e vejo que a missa não te estragou a voz.

— Meu caro — tornou Aramis — hás de compreender... quando eu era mosqueteiro, fazia o menor número de rondas que podia; hoje eu sou padre, digo o menor número de missas que posso. Mas voltemos à pobre Duquesa.

— A qual delas? À Duquesa de Chevreuse ou à Duquesa de Longueville?

— Meu caro, eu já te disse que não há nada entre mim e a Duquesa de Longueville: uns galanteios, talvez, mas só. Não, eu referia-me à Duquesa de Chevreuse. Já a viste, depois que voltou de Bruxelas, após a morte do Rei?

— Vi, e achei-a belíssima ainda.

— Também a vi algumas vezes nessa ocasião; dei-lhe conselhos excelentes, que ela nunca aproveitou; cansei-me de dizer-lhe que Mazarino era amante da Rainha; ela não quis acreditar-me, afirmando que conhecia Ana d'Áustria e que esta era muito orgulhosa para amar um estafermo daqueles. Depois, enquanto esperava, meteu-se na cabala do Duque de Beaufort, e o estafermo mandou prender o Sr. Duque de Beaufort e exilou a Sra. de Chevreuse (15).

(15) A "cabala dos Importantes", assim chamados porque os seus participantes ostentavam sempre uns semblantes muito graves, carregados de segredos. "Esse partido era composto apenas de quatro ou cinco melancólicos... que conferenciavam sem propósito, marcavam encontros sem motivo e até nas caçadas pareciam misteriosos" (Retz). Chefiada pelo Duque de Beaufort, violento e pueril, e pelo capelão da Rainha, o Bispo de Beauvais, "mais idiota que todos os idiotas", "besta mitrada", segundo as lisonjeiras expressões do Cardeal de Retz, era a cabala dos Importantes inspirada pela Sra. de Chevreuse, a eterna conspiradora, e sua sogra, a Duquesa de Rohan-Montbazon. Às tantas, projetaram os conspiradores o assassínio de Mazarino. A intentona, porém, fracassou. Beaufort foi para o castelo de Vincennes, o Bispo de Beauvais retornou à sua diocese, a Sra. de Chevreuse não pôde mais freqüentar a Corte e a Sra. de Montbazon conheceu as agruras do exílio. (N. do T.)

 

— Sabes — acudiu d'Artagnan — que ela obteve licença para voltar?

— Sei, e sei também que voltou... Ainda fará alguma asneira.

— Oh! mas, dessa vez, talvez siga os teus conselhos.

— Dessa vez não a tornei a ver; ela mudou muito.

— Não é como tu, meu caro Aramis, sempre o mesmo; tens mesmo o formoso cabelo preto, o mesmo corpo elegante, as mesmas mãos de mulher, que se converteram em mãos admiráveis de prelado.

— Sim — concordou Aramis — é verdade, eu me trato muito. Sabes, meu caro, que estou envelhecendo? Vou completar trinta e sete anos.

— Já que tornamos a encontrar-nos — atalhou d’Artagnan, com um sorriso — façamos uma coisa: cheguemos a um acordo sobre a idade que teremos de futuro.

— Como assim?

— Antigamente, eu era dois ou três anos mais moço do que tu, e, se não me falha a memória, tenho quarenta bem contados.

— Deveras? — replicou Aramis. — Nesse caso é meu o engano, pois sempre foste, meu caro, um matemático admirável. Tenho, portanto, pelas tuas contas, quarenta e três anos! Diabo, diabo! Far-me-ás o favor de não o repetir no Palácio de Rambouillet, pois isso me prejudicaria.

— Tranqüiliza-te — redargüiu d'Artagnan. — Não freqüento o Palácio.

— Mas que estará fazendo o animal do Bazin? Bazin! avia-te, salafrário! Estamos morrendo de fome e de sede!

Bazin, que entrava nesse momento, ergueu ao céu as mãos, em cada uma das quais havia uma garrafa.

— Como é? — perguntou Aramis — estamos ou não estamos prontos?

— Sim, senhor, num instante — respondeu Bazin; — mas levei um tempão para trazer todas as...

— Porque imaginas ter sempre nos ombros a samarra de sacristão — atalhou Aramis — e passas o tempo lendo o breviário. Mas eu te garanto que se, à força de pulires todos os trastes que há nas capelas, tu te esqueceres de limpar-me a espada, faço uma fogueira das tuas imagens e bentinhos e asso-te nela.

Escandalizado, persignou-se Bazin com a garrafa que trazia. Quanto a d'Artagnan, cada vez mais admirado do tom e dos modos do Padre d'Herblay, que tanto contrastavam com os do mosqueteiro Aramis, permanecia desqueixelado diante do amigo.

Bazin cobriu rapidamente a mesa com uma toalha adamascada e, sobre ela, arrumou tanta coisa dourada, perfumada e apetitosa, que d'Artagnan se quedou pasmado.

— Esperavas alguém? — perguntou o oficial.

— Tenho sempre um talher a mais, por precaução. Além disso, eu sabia que estavas à minha procura.

— Por intermédio de quem?

— De mestre Bazin, que te tomou pelo diabo, meu caro, e veio correndo avisar-me do perigo que ameaçava a minha alma se eu tornasse a ver tão má companhia como um oficial de mosqueteiros.

— Oh! Senhor!... — suplicou Bazin, juntando as mãos.

— Vamos, chega de hipocrisias! Sabes que não as tolero. Seria melhor que abrisses a janela e descesses um pão, um frango e uma garrafa de vinho ao teu amigo Planchet, que está se matando, há mais de uma hora, de tanto bater palmas.

Com efeito, depois de haver dado palha e aveia aos cavalos, Planchet fora postar-se debaixo da janela e repetira duas ou três vezes o sinal indicado.

Bazin obedeceu, amarrou na ponta de uma corda os três objetos designados e desceu-os a Planchet, que, não querendo outra coisa, retirou-se imediatamente para o alpendre.

— Agora, vamos â ceia — propôs Aramis.

Os dois amigos puseram-se ã mesa, e Aramis começou a trinchar frangos, perdizes e presuntos com gastronômica habilidade.

— Safa — disse d’Artagnan — como se trata o meu amigo!

— Sim, menos mal. Tenho, para os dias de jejum, dispensas de Roma que obteve para mim o Sr. Coadjutor, por causa de minha saúde; além disso, tomei por cozinheiro o ex-cozinheiro de Lafollone, conheces? O antigo amigo do Cardeal, o famoso comilão, que dizia, como única oração depois do jantar: "Meu Deus, concedei-me a graça de bem digerir o que tão bem comi."

— O que não o impediu de morrer de indigestão — observou, rindo, d’Artagnan.

— Que queres — tornou Aramis com ar resignado — ninguém foge ao seu destino!

— Mas perdoa-me, meu caro, a pergunta que vou fazer--te — volveu d’Artagnan.

— Faze-a, faze-a, sabes muito bem que entre nós não pode haver indiscrição.

— Com que, então, enriqueceste?

— Oh! meu Deus, não! Tenho umas doze mil libras por ano, sem contar uma rendazinha de mil escudos que o Sr. Príncipe me arranjou.

— E como consegues as doze mil libras? — perguntou d’Artagnan; — com os teus poemas?

— Não, renunciei à poesia, a não ser para compor, de vez em quando, um ditirambozinho, algum soneto galante ou uns epigramas inocentes. Escrevo sermões, meu caro.

— Sermões? Como?

— Sermões prodigiosos, meu amigo! Pelo menos, é o que parece.

— Que pregas?

— Não, que vendo.

— A quem?

— Aos meus confrades que pretendem ser grandes oradores!

— Ah! sim? E não te tentou a glória pessoal?

— Tentou, tentou, mas a natureza venceu-me. Quando estou no púlpito e, por acaso, uma mulher bonita olha para mim, eu olho para ela; se ela sorri, sorrio também. E perco o fio da meada. Em vez de falar nos tormentos do inferno, descrevo as alegrias do paraíso. Por sinal que me aconteceu um caso, um dia, na igreja de São Luís, no Marais... Um sujeito riu-se de mim e eu, interrompendo o sermão, chamei-o de asno. O povo saiu para juntar pedras; mas, durante esse tempo, consegui torcer de tal maneira o espírito dos ouvintes, que o apedrejado foi ele. É verdade que, no dia seguinte, o sujeito se apresentou em minha casa, julgando haver-se com um padre como todos os padres.

— E qual foi o resultado da visita? — perguntou d’Artagnan, estalando de riso.

— Combinamos um encontro, para a noite do dia seguinte, na Place Royale. Aliás, estás a par do caso.

— Terá sido, porventura, contra esse impertinente que te servi de padrinho?

— Foi. E viste como o arranjei.

— Morreu?

— Não sei. Mas, em todo o caso, dei-lhe a absolvição in articulo mortis. Quem mata o corpo não precisa matar a alma.

Bazin fez um sinal de desespero, querendo significar, talvez, que aprovava a moral mas desaprovava o tom em que era feita.

— Bazin, meu amigo, não sabes que te vejo nesse espelho e que, de uma vez por todas, já te proibi todo e qualquer sinal de aprovação ou desaprovação. Far-me-ás, portanto, o favor de nos servir o vinho de Espanha e recolher a teu quarto. Aliás, o meu amigo d'Artagnan quer falar comigo em particular. Não é verdade, d'Artagnan?

D'Artagnan fez com a cabeça um sinal afirmativo e Bazin retirou-se, depois de haver colocado sobre a mesa o vinho de Espanha.

Ficando sós, os dois amigos permaneceram em silêncio, por alguns instantes, defronte um do outro. Aramis parecia esperar uma doce digestão. D'Artagnan preparava o seu exórdio. Cada qual, quando não era observado, arriscava um olhar de soslaio.

Aramis foi o primeiro que quebrou o silêncio.


 OS DOIS GASPARES

 

Em que pensas, d'Artagnan — perguntou — e que pensamento te faz sorrir?

— Penso, meu caro, em que, quando eras mosqueteiro parecias padre e hoje, que és padre, pareces mosqueteiro.

— É verdade — disse, rindo, Aramis. — Sabes que o homem, meu caro d'Artagnan, é um estranho animal, todo feito de contrastes. Depois que virei padre, só penso em batalhas.

— É o que se depreende do teu quarto: tens aqui chanfanas de todas as formas e para todos os gostos. Ainda esgrimes?

— Tão bem como esgrimia outrora, talvez até melhor. Não faço outra coisa o dia inteiro.

— E com quem?

— Com um excelente mestre de esgrima que temos aqui.

— Aqui?

— Sim, aqui, nesse convento. Há de tudo num convento de jesuítas.

— Teria, então, matado o Sr. de Marcillac se ele tivesse vindo atacar-te só, em lugar de vir à frente de vinte homens?

— Perfeitamente — respondeu Aramis — e até à frente dos seus vinte homens, se eu pudesse tirar da espada sem ser reconhecido.

— Deus me perdoe — disse, baixinho, d'Artagnan — creio que ele ficou mais gascão do que eu. — E, logo, em voz alta: — Pois bem! meu caro Aramis, perguntas por que vim procurar-te?

— Não, não te perguntei — replicou Aramis com a costumada finura — mas esperava que mo dissesses.

— Pois bem, eu te procurava para oferecer-te apenas um meio de matares o Sr. de Marcillac, quando te aprouvesse, por mais príncipe que ele seja.

— Muito bem, muito bem! — disse Aramis — é uma idéia.

— Que não deves desprezar, meu caro. Vejamos! Com o teu benefício de mil escudos e as doze mil libras que ganhas vendendo sermões, enriqueceste? Responde francamente.

— Eu! Sou pobre como Jó, e se me vasculhares bolsos e cofres, não encontrarás talvez cem pistolas aqui.

— Benza-o Deus! Cem pistolas! — disse entre si d’Artagnan — ele chama a isso ser pobre como Jó! Se eu as tivesse sempre diante de mim, julgar-me-ia rico como Creso.

E, em voz alta:

— És ambicioso?

— Como Encéfalo (16).

(16) O mais poderoso dos gigantes que quiseram escalar o céu,filho de Tártaro e da Terra. Para aquietá-lo, Júpiter colocou em cima dele o monte Etna. (N. do T.)

 

— Pois bem, meu amigo, trago-te com que seres rico, poderoso e livre para fazeres o que te der na telha.

A sombra de uma nuvem passou pela fronte de Aramis, rápida como a que paira, em agosto, sobre os trigais; mas, apesar disso, não escapou a d'Artagnan.

— Fala — disse Aramis.

— Mais uma pergunta. Interessa-te a política?

Um relâmpago passou pelos olhos de Aramis, rápido como a sombra que lhe passara sobre a fronte, mas não tão rápida que a não visse d'Artagnan.

— Não — respondeu Aramis.

— Nesse caso, quaisquer propostas podem ser aceitas, visto que, presentemente, Deus é o teu único amo — tornou, rindo, o gascão.

— É possível.

— Pensaste algumas vezes, meu caro Aramis, nos formosos dias da nossa mocidade, que passávamos rindo, bebendo, com a espada na mão?

— Está visto que sim, e mais de uma vez senti saudades deles. Era um tempo feliz, delectábile tempus!

— Pois bem, meu caro, os formosos dias podem ressuscitar, podem voltar os tempos felizes! Fui incumbido de procurar os meus companheiros, e decidi começar por ti, que eras a alma da nossa associação.

Aramis inclinou-se, mais polida que afetuosamente.

— Meter-me outra vez em política? — disse ele com voz desfalecida e estirando-se na poltrona. — Ah! meu caro d’Artagnan, vê como vivo com método e fartura. Já experimentamos a ingratidão dos grandes, bem o sabes.

— É verdade — volveu d'Artagnan: — mas pode ser que os grandes se tenham arrependido de ser ingratos.

— Nesse caso — volveu Aramis — seria outra coisa. Vejamos! Não há culpa sem perdão. Aliás, creio que tens razão num ponto: se nos desse na veneta metermo-nos em política, não poderia haver ocasião mais propícia.

— Como podeis sabê-lo, se não te ocupas de política?

— Ora, senhor! Embora não me interesse pessoalmente, vivo numa sociedade que se interessa por ela. Enquanto cultivo a poesia e me dedico ao amor, liguei-me ao Sr. Sarazin, adepto de Sr. de Conti; ao Sr. Voiture, adepto do Coadjutor, e ao Sr. de Bois-Robert, que, depois que deixou de ser adepto do Sr. Cardeal de Richelieu, não é adepto de ninguém ou é adepto de todos, como quiseres; de sorte que estou mais ou menos a par do movimento político.

— Eu já desconfiava.

— De resto, meu caro, interpreta tudo o que vou dizer-te como palavras de um cenobita, de um homem que fala como um eco, repetindo pura e simplesmente o que ouviu dizer — continuou Aramis. — Ouvi dizer que, neste momento, o Cardeal Mazarino anda muito inquieto com o atual estado das coisas. Parece que as suas ordens não são acatadas com o mesmo respeito com que se acatavam as do nosso antigo espantalho, o finado Cardeal, cujo retrato aqui vês; pois, digam o que disserem, cumpre reconhecer que foi um grande homem.

— Não te contradirei nesse ponto, meu caro Aramis, pois foi ele quem me fez tenente.

— A minha primeira impressão foi inteiramente favorável ao atual Cardeal: eu dizia entre mim que um ministro nunca é amado, mas, com o gênio que lhe atribuem, ele acabaria triunfando dos inimigos e fazendo-se temer, o que, a meu ver, é talvez melhor do que fazer-se amar.

D'Artagnan fez um sinal com a cabeça indicando que aprovava inteiramente a duvidosa máxima.

— Eis aí, portanto — continuou Aramis — qual foi a minha primeira impressão; mas como sou muito ignorante dessas coisas e a humildade que professo me impede de satisfazer-me com o meu só parecer, procurei informar-me. Pois bem, meu caro amigo...

— Pois bem o quê? — atalhou d'Artagnan.

— Pois bem — repetiu Aramis — preciso mortificar o meu orgulho e confessar que me havia enganado.

— Sim?

— Sim, eu me informei, como já te disse, e eis o que me responderam várias pessoas, todas de gostos e ambições diferentes: o Sr. Mazarino não é homem de gênio, como eu supunha.

— Ora! — atalhou d'Artagnan.

— Não. É um homem de nada, que foi criado do Cardeal Bentivoglio, que se elevou à custa de intrigas; um aventureiro sem nome, que não fará em França mais que o papel de um sequaz. Amontoará muitos escudos, dilapidará quanto puder as rendas do Rei, pagará a si mesmo todas as pensões que o finado Cardeal de Richelieu pagava aos outros, mas não governará jamais pela lei do mais forte, do mais ilustre ou do mais honrado. Além de tudo, parece que não é fidalgo de maneiras nem de coragem,, o tal ministro, mas uma espécie de bufão, de Pulcinello, de Gantalon. Já o conheces? Ainda não tive esse prazer.

— Bem... — acudiu d'Artagnan — há alguma verdade no que dizes.

— Pois tu me enches de orgulho, meu caro, visto que pude, mercê de certa penetração vulgar de que sou dotado, coincidir contigo, que vives na Corte.

— Mas tu me falaste dele pessoalmente e não do seu partido e dos recursos de que dispõe.

— É verdade. Ele tem por si a Rainha.

— E parece-me que já é alguma coisa.

— Mas não tem o Rei.

— Uma criança!

— Uma criança que será maior daqui a quatro anos.

— É o presente.

— Pois sim, mas não é o futuro; além disso, no presente, ele não tem por si nem o Parlamento nem o povo, ou seja, o dinheiro; não tem por si nem a nobreza nem os príncipes, ou seja, a espada.

D'Artagnan cocou a orelha; via-se obrigado a confessar intimamente que o argumento era vigoroso e justo.

— Dize-me, caro amigo, se ainda possuo a minha perspicácia de sempre. Eu talvez tenha feito mal de falar-te assim abertamente porque me pareces inclinado em favor do Mazarino.

— Eu! — exclamou d'Artagnan; — eu! De maneirei nenhuma!

— Falaste em missão.

— Falei em missão? Então, fiz mal. Não, eu disse entre mim o que acabaste de dizer: os negócios começam a embrulhar-se; atiremos a pluma ao vento, vamos para onde o vento a levar e voltemos à vida de aventuras. Éramos quatro valentes cavaleiros, quatro corações ternamente unidos; unamos outra vez, não os corações que nunca estiveram separados, mas as nossas fortunas e coragens. A ocasião é boa para obter algo melhor do que um brilhante.

— Tens razão, d'Artagnan, tens sempre razão — continuou Aramis —e a prova é que tive a mesma idéia que tu, com a diferença de que possuo a tua imaginação, nervosa e fecunda, e a idéia foi-me sugerida; toda a gente tem hoje precisão de auxiliares; fizeram-me propostas, soube-se alguma coisa de nossas famosas proezas de outrora e eu te confessarei francamente que o Coadjutor me obrigou a falar.

— O Sr. de Gondy! O inimigo do Cardeal! — exclamou d'Artagnan.

— Não, o amigo do Rei — disse Aramis — o amigo do Rei, compreendeste? Pois bem! Tratar-se-ia de servir o Rei, dever de todo cavaleiro.

— Mas o Rei está com o Sr. de Mazarino, meu caro!

— De fato, mas não de vontade; de aparência, mas não de coração, e nisso reside precisamente a cilada que os inimigos do Rei armam à pobre criança.

— Ah! Mas é pura e simplesmente a guerra civil que me propõe, meu caro Aramis.

— A guerra pelo Rei.

— Mas o Rei estará à frente do exército em que estiver Mazarino.

— Mas estará de coração no exército que for comandado pelo Sr. de Beaufort.

— O Sr. de Beaufort? Está em Vincennes.

— Falei no Sr. de Beaufort? — tornou Aramis; — O Sr. de Beaufort ou outro qualquer; o Sr. de Beaufort ou o Sr. Príncipe.

— O Sr. Príncipe vai partir para o exército; pertence inteiramente ao Cardeal.

— Não sei, não! — acudiu Aramis — surgiram entre eles, precisamente agora, algumas discussões. Aliás, se não for o Sr. Príncipe, será o Sr. de Gondy...

— Mas o Sr. de Gondy será cardeal. Andam pedindo o chapéu para ele.

— E não existem cardeais belicosíssimos? — perguntou Aramis. — Vê: tens aqui, ao redor de ti, quatro cardeais que, à frente de um exército, valiam tanto quanto o Sr. de Guébriant e o Sr. de Gassion.

— Um general corcunda!

— Debaixo da couraça não lhe verão a giba. De mais disso, não se deve esquecer que Alexandre capengava e Aníbal era zarolho.

— Vês grandes vantagens nesse partido? — perguntou d’Artagnan.

— Vejo nele a proteção de príncipes poderosos.

— E a proscrição do governo.

— Anulada pelos parlamentos e pelos motins.

Tudo isso poderia ser como dizes se fosse possível separar o Rei de sua mãe.

— Talvez se consiga.

— Nunca! — bradou d'Artagnan, dessa vez com convicção. — Apelo para ti, Aramis, para ti que conheces Ana d'Áustria tão bem quanto eu. Cuidas que ela possa, um dia, esquecer que o filho é a sua segurança, o seu paládio, o penhor de sua consideração, de sua fortuna e de sua vida? Seria preciso que se bandeasse com ele para o partido dos príncipes abandonando Mazarino; mas sabes melhor do que ninguém das razões poderosas para que ela não o desampare nunca.

— Talvez tenhas razão — disse Aramis pensativo; — por isso mesmo não embarco.

— Com eles — disse d'Artagnan. — E comigo?

— Com ninguém. Sou padre; que me faz a política? Não leio breviário algum; tenho uma clientelazinha de padres sacripantas e divertidos e mulheres encantadoras; quanto mais se embrulharem os negócios públicos, tanto menos ruído farão as minhas aventuras; tudo, portanto, vai às mil maravilhas sem que eu me meta em complicações; e positivamente, meu amigo, não me meterei.

— Pois meu caro — atalhou d'Artagnan — palavra que a tua filosofia me convenceu; não sei que diabo de mosca da ambição me havia picado; tenho uma espécie de cargo que me sustenta; posso, quando morrer o pobre Sr. de Tréville, que está ficando velho, virar capitão; é um belíssimo bastão de marechal para um caçula da Gasconha, e sinto-me novamente ligado aos encantos do pão modesto, mas cotidiano: em vez de andar à cata de aventuras, aceitarei os convites de Porthos e irei caçar em suas terras; sabes que Porthos tem terras?

— Claro que sim. Dez léguas de bosques, brejos e prados; é senhor de montes e vales e demanda com o Bispo de Noyon por causa de direitos feudais.

— Bem — disse entre si d’Artagnan — era o que eu queria saber; Porthos está na Picardia.

Logo, em voz alta:

— E retomou o antigo nome de du Vallon?

— Ao qual ajuntou o de Bravieux, terra que já foi baronia.

— De modo que o veremos barão.

— Não duvido. Mas a baronesa Porthos é que é notável. Os dois amigos desataram a rir.

— Então — volveu d'Artagnan — não queres mesmo passar para o partido de Mazarino?

— Nem tu para o dos príncipes?

— Não, não passemos para o partido de ninguém e continuemos amigos; não sejamos cardinalistas nem frondistas.

— Sim — anuiu Aramis — sejamos mosqueteiros.

— Com volta e tudo?

— Sobretudo com volta! — exclamou Aramis. — Nisso é que está o encanto.

— Então, adeus — despediu-se d'Artagnan.

— Não te seguro, meu caro — disse Aramis — porque não saberia onde fazer-te dormir, e não me seria decente oferecer-te a metade do telheiro de Planchet.

— Aliás, estou apenas a três léguas de Paris; os cavalos descansaram e em menos de uma hora estarei lá.

E d'Artagnan encheu o derradeiro copo de vinho.

— Aos nossos velhos tempos! — brindou.

— Sim — tornou Aramis — infelizmente são tempos passados... fugit irreparabile tempus...

— Ora! — disse d’Artagnan — talvez ainda voltem. Em todo o caso, se precisares de mim, estou na rue Tiquetonne, hospedaria da Chevrette.

— E eu no convento dos jesuítas: das seis da manhã às oito da noite, pela porta; das oito da noite às seis da manhã, pela janela.

— Adeus, meu caro.

— Oh! não te deixo sair assim; permite que eu te acompanhe.

E tomou da capa e da espada.

— Ele quer certificar-se de que vou embora — disse consigo d’Artagnan.

Aramis assobiou, chamando Bazin, mas Bazin dormia na antecâmara sobre os restos do jantar e Aramis viu-se obrigado a sacudi-lo pelas orelhas para despertá-lo.

Bazin estendeu os braços, esfregou os olhos e tentou dormir outra vez.

— Vamos, vamos, mestre dorminhoco: a escada, depressa!.

— A escada ficou na janela — tartamudeou Bazin, bocejando como se fosse desmontar as mandíbulas.

— A outra, a do jardineiro: não viste que d'Artagnan custou a subir e custará muito mais a descer?

D'Artagnan ia dizer a Aramis que desceria muito bem quando uma idéia lhe acudiu e fê-lo calar-se.

Bazin expediu profundíssimo suspiro e saiu em busca da escada. Instantes depois, era colocada contra a janela uma boa e sólida escada de madeira.

— Muito bem — disse d'Artagnan — eis o que se chama um meio de comunicação: uma mulher subiria perfeitamente uma escada assim.

O olhar penetrante de Aramis pareceu querer buscar o pensamento do amigo até no fundo de seu coração, mas d'Artagnan sustentou o olhar com admirável expressão de ingenuidade.

Aliás, nesse momento, punha o pé no primeiro degrau e principiava a descer.

Num átimo, viu-se em terra. Bazin ficou à janela.

— Fica aí — ordenou Aramis. — Volto já. Encaminharam-se os dois para o telheiro: aproximavam-se quando surgiu Planchet, puxando dois cavalos pela rédea.

— Ainda bem — observou Aramis — eis o que se chama um servidor ativo e vigilante; não é como o preguiçoso do Bazin, que já não presta para nada depois que pertence à igreja. Segue-nos, Planchet; vamos conversando até ao fim da aldeia.

Efetivamente os dois amigos atravessaram toda a povoação falando de coisas indiferentes; depois, ao passarem pelas últimas casas:

— Vai, pois, caro amigo — disse Aramis — segue a tua carreira, a fortuna te sorri, não a deixes fugir; não te esqueças de que é uma cortesã e trata-a como tal; quanto a mim, continuo na minha humildade e na minha preguiça; adeus.

— Então, está decidido — volveu d'Artagnan: — o que te ofereço não te agrada?

— Muito me agradaria, pelo contrário — replicou Aramis — se eu fosse um homem como um outro qualquer; mas, torno a repeti-lo, sou um homem composto de contrastes: o que hoje aborreço adorarei amanhã, et vice versa. Como vês, não posso comprometer-me como tu, que tens idéias assentadas.

— Mentes, sonso — disse entre si d'Artagnan" — és o único, pelo contrário, que sabes escolher um fim e para ele caminhas na surdina.

— Adeus, portanto, meu caro — continuou Aramis — obrigado pelas tuas excelentes intenções e sobretudo pelas boas lembranças que a tua presença me despertou.

Abraçaram-se. Planchet estava a cavalo. D'Artagnan montou por seu turno e os dois amigos tornaram a apertar as mãos. Os cavaleiros esporearam as montarias e afastaram-se na direção de Paris.

Aramis ficou em pé e imóvel no meio da calçada até que os perdeu de vista.

Mas ao cabo de duzentos passos, d'Artagnan estacou de repente, saltou em terra, atirou as rédeas do animal nos braços de Planchet e, tirando as pistolas dos coldres, pô-las na cinta.

— Que tendes, senhor? — perguntou Planchet, assustadíssimo.

— Tenho que, por ladino que ele seja — respondeu d’Artagnan — não se dirá que me logrou. Fica aqui e não te mexas; mas sai da estrada e espera por mim.

Dizendo essas palavras, pulou para o outro bordo do fosso que beirava a estrada e enveredou pelo campo fora de modo que desse a volta da aldeia. Observava entre a casa em que morava a Sra. de Longueville e o convento dos jesuítas um terreno baldio fechado apenas por uma sebe.

Uma hora antes talvez lhe fosse difícil encontrar novamente a sebe, mas a lua acabava de erguer-se e se bem, a trechos, fosse coberta pelas nuvens, via o suficiente para achar o caminho.

D'Artagnan atingiu, portanto, a sebe e escondeu-se atrás dela. Ao passar diante da casa em que ocorrera a cena que referimos, observara que a mesma janela se iluminara de novo e convenceu-se de que Aramis ainda não voltara para casa e, quando voltasse, não o faria sozinho.

Com efeito, ao cabo de um instante ouviu passos que se aproximavam e um rumor de conversa, em voz baixa.

No princípio da sebe os passos pararam.

D'Artagnan pôs um joelho em terra, procurando a maior espessura da folhagem para esconder-se.

Nesse momento surgiram dois homens, para grande espanto de d'Artagnan. O seu espanto, porém, logo cessou, pois ouviu vibrar uma voz doce e harmoniosa: um dos homens era uma mulher em trajos de cavaleiro.

— Tranqüilizai-vos, meu caro René — dizia a voz doce; — isso não se repetirá; descobri uma espécie de subterrâneo que passa por baixo da rua e teremos apenas de levantar uma das lajes que estão diante da porta para poderdes sair.

— Oh! — disse outra voz, em que d'Artagnan reconheceu a de Aramis — juro-vos, princesa, que se a nossa reputação não dependesse de todas essas precauções, e eu não arriscasse mais do que a vida...

— Sim, sim, sei que sois bravo e aventuroso como os que mais o sejam; mas não pertenceis apenas a mim, pertenceis a todo o nosso partido. Portanto, sede prudente, sede discreto.

— Obedeço sempre, minha senhora, quando sabem ordenar-me com voz tão meiga.

E beijou-lhe ternamente a mão.

— Ah! — exclamou o cavaleiro de voz doce.

— Que foi? — perguntou Aramis.

— Não vês que o vento me levou o chapéu?

E Aramis se atirou atrás do feltro fugitivo. D'Artagnan aproveitou-se da circunstância para procurar um lugar da sebe menos denso, que lhe permitisse examinar livremente o problemático cavaleiro. Nesse momento, a lua, curiosa talvez como o próprio oficial, safou-se de uma nuvem e, à sua claridade indiscreta, d’Artagnan reconheceu os grandes olhos azuis, os cabelos de ouro e a nobre cabeça da Duquesa de Longueville.

Aramis voltou a rir com um chapéu na cabeça e outro na mão, e os dois continuaram a caminhar na direção do convento dos jesuítas.

— Bem! — disse d'Artagnan erguendo-se e limpando o joelho — agora te peguei: és frondista e amante da Sra. de Longueville.


 O SR. PORTHOS DU VALLON DE BRACIEUX DE PIERREFONDS

 

Graças às informações que arrancara de Aramis, e já sabendo que Porthos, pelo nome de família, se chamava du Vallon, soubera também d'Artagnan que, pelo nome da propriedade, se chamava de Bracieux, e por causa dessa propriedade de Bracieux andava em demanda com o Bispo de Noyon.

Era, portanto, nos arredores de Noyon que lhe cumpria buscar as terras, isto é, na fronteira da Ilha de França e da Picardia.

Traçou imediatamente o itinerário: iria até Dammartin, onde se cruzam duas estradas, a que vai para Soissons e a que demanda Compiègne; lá se informaria da propriedade de Bracieux e, conforme a resposta, seguiria para diante ou tomaria à esquerda.

Ainda não muito tranqüilo no tocante à sua fuga, declarava Planchet que o seguiria até ao fim do mundo, tomasse ele à direita ou à esquerda. Suplicou apenas ao antigo amo que partisse à noite, pois a escuridão apresentava maiores garantias. Sugeriu-lhe d'Artagnan que prevenisse a esposa, a fim de sossegá-la pelo menos respeito ao seu destino; mas Planchet respondeu com muita sagacidade que tinha a certeza de que a mulher não morreria de inquietação por não saber onde ele estava, ao passo que, conhecendo a incontinência verbal de que ela sofria, ele, Planchet, morreria de inquietude se ela o soubesse.

Tão boas pareceram a d'Artagnan essas razões, que não insistiu e, cerca das oito horas da noite, quando a neblina principiava a adensar-se nas ruas, partiu da hospedaria da Chevrette, e, seguido de Planchet, deixou a capital pela porta de Saint-Denis.

À meia-noite, chegavam os dois viajantes a Dammartin.

Era muito tarde para pedirem informações. O estalajadeiro, do Cisne da Cruz estava dormindo. D'Artagnan, portanto, deixou a coisa para o dia seguinte.

De manhã, mandou chamar o hospedeiro. Era um desses normandos astutos que não dizem nem não e imaginam sempre comprometer-se quando respondem diretamente à pergunta que lhes fazem; mas, cuidando ter compreendido que devia seguir em frente, pôs-se d'Artagnan novamente a caminho, estribado nessa equívoca informação. Às nove da manhã, estava em Nanteuil; lá parou para almoçar.

Dessa feita, o locandeiro era um bom e franco picardo, que, reconhecendo em Planchet um compatriota, prontificou-se a dar-lhe as informações solicitadas. A propriedade de Bracieux ficava a algumas léguas de Villers-Cotterets.

D'Artagnan conhecia Villers-Cotterets por tê-la visitado duas ou três vezes com a Corte, pois era, nessa ocasião, residência real. Tocou-se, portanto, para a cidade e parou no costumeiro albergue, isto é, no Delfim de Ouro.

Na estalagem obteve as mais satisfatórias informações. Soube que a propriedade de Bracieux distava quatro léguas dali, mas que lá não encontraria Porthos. Este se empenhara, efetivamente, em demanda com o Bispo de Noyon à cerca da propriedade de Pierrefonds, que tocava a sua, mas, aborrecido com as complicações judiciárias, de que não entendia patavina, acabara, para liquidá-las, comprando Pierrefonds, de sorte que acrescentara o novo nome aos nomes antigos. Chamava-se agora du Vallon de Bracieux de Pierrefonds, e habitava as novas terras. À falta de outro título, Porthos aspirava, evidentemente, ao do Marquês de Carabas.

Cumpria ainda esperar o dia seguinte, pois os cavalos tinham andado dez léguas e estavam cansados. É verdade que os viajantes poderiam arranjar outros, mas o caminho passava pelo meio de enorme floresta, e Planchet, como sabemos, não gostava de florestas durante a noite.

Havia outra coisa ainda de que Planchet não gostava, a saber, viajar em jejum; por isso mesmo, ao despertar, d’Artagnan encontrou o almoço pronto. Não encontrando razões para queixar-se de semelhante atenção, pôs-se à mesa; reassumindo as antigas funções, Planchet, naturalmente, reassumira a antiga humildade e não se envergonhava de comer os restos de d'Artagnan assim como a Sra. de Motteville e a Sra. de Fargis não se envergonhavam de comer os de Ana d'Áustria.

Por conseguinte, só puderam partir às oito horas. Não havia engano possível: bastava seguir a estrada que liga Villers-Cotterets a Compiègne, e, ao sair da floresta, tomar à direita.

Era uma bela manhã de primavera, os pássaros cantavam nas árvores frondosas, os raios do sol atravessavam as clareiras e pareciam cortinas de gaze dourada.

Em outros sítios, mal se coava a luz pela abóbada espessa das folhas, e os pés dos velhos carvalhos, nos quais se precipitavam, à vista dos viajantes, os ágeis esquilos, mergulhavam na sombra. Desprendia-se de toda a natureza matinal um perfume de ervas, de flores e de folhas que alegrava o coração. Cansado do cheiro fétido de Paris d'Artagnan dizia consigo mesmo que, tendo três nomes de propriedades encadeados uns nos outros, uma pessoa devia sentir-se bem feliz em semelhante paraíso; e ajuntava, sacudindo a cabeça: "Se eu fosse Porthos e d'Artagnan me fizesse a proposta que vou fazer a ele, sei muito bem o que eu responderia a d'Artagnan."

Planchet, de seu lado, não pensava: digeria.

Na orla do bosque, d'Artagnan avistou o caminho indicado e, no extremo do caminho, as torres de imenso castelo feudal.

— Oh! oh! — murmurou — eu tinha a impressão de que esse castelo pertencia ao antigo ramo de Orléans; tê-lo-ia comprado Porthos do Duque de Longueville?

— À minha fé, senhor — sobreveio Planchet — eis o que são terras bem tratadas; e se pertencem ao Sr. Porthos, quero dar-lhe os parabéns.

— Peste — atalhou d’Artagnan — não lhe chames Porthos nem mesmo du Vallon; chama-lhe de Bracieux ou de Pierrefonds. Do contrário me estragas a embaixada.

À proporção que se aproximava do castelo que lhe atraíra a atenção, d'Artagnan compreendeu que não era lá que devia morar o amigo: embora sólidas e parecendo construídas na véspera, as torres estavam abertas e como estripadas. Dir-se-ia que algum gigante as houvesse aberto a machadadas.

No extremo do caminho, viu-se a cavaleiro de um vale magnífico, no fundo do qual parecia dormir um lagozinho encantador ao pés de umas casas esparsas aqui e ali, humildes e cobertas umas de telhas e outros de colmo, que davam a impressão de reconhecer por suserano e senhor um lindo castelo construído nos primórdios do reinado de Henrique IV, encimado de cata-ventos senhoriais.

Dessa vez não duvidou de que estivesse diante da residência de Porthos.

O caminho ia direito ao lindo castelo que era para o avô, o castelo da montanha, o que seria um casquilho da roda do Sr. Duque de Enghien para um cavaleiro carregado de ferro do tempo de Carlos VII; d'Artagnan pôs o cavalo a trote e seguiu, ao passo que Planchet regulou o andar da sua montaria pelo do ginete do amo.

Dez minutos depois, viu-se d'Artagnan na extremidade de formosa alameda, que terminava numa grade de ferro, cujas lanças e varões transversais eram dourados. No meio da avenida via-se uma espécie de senhor vestido de verde e dourado como a grade, cavalgando avantajado rocim. De cada lado, se achavam dois criados com galões de ouro em todas as costuras, ao passo que grande número de labregos lhe prestavam respeitosíssimas homenagens.

— Ah! — disse d'Artagnan com os seus botões; — será este o senhor du Vallon de Bracieux de Pierrefonds? Santo Deus! Como se encarquilhou depois que deixou de chamar-se Porthos!

— Não pode ser ele — disse Planchet, respondendo ao que d'Artagnan perguntara a si mesmo. — O Sr. Porthos tinha quase seis pés de altura, e esse aí não tem nem cinco.

— Todavia — atalhou d'Artagnan — é bem cortejado.

A essas palavras, d'Artagnan atirou o cavalo na direção do rocim, do homem importante e dos lacaios. À medida que se aproximava, pareceu-lhe reconhecer os traços do personagem.

— Santo Deus! — exclamou Planchet, que também supôs reconhecê-lo — será possível que seja ele?

Ouvindo a exclamação, o homem a cavalo se voltou lentamente e com ar muito nobre, e os dois viajantes puderam ver brilhar em todo o seu esplendor os olhos grandes, a carantonha vermelha e o sorriso eloqüente de Mousqueton.

Era, com efeito, Mousqueton, Mousqueton entoicinhado, rescendendo a saúde, inchado de bem-estar, que, reconhecendo d'Artagnan, muito ao contrário do hipócrita Bazin, apeou e aproximou-se com o chapéu na mão; de sorte que um quarto das homenagens da assembléia se dirigiu para o novo sol, que eclipsava o antigo.

— Sr. d'Artagnan, Sr. d'Artagnan — repetia com as enormes bochechas Mousqueton, suando de alegria — Sr. d'Artagnan! Oh! que satisfação para o meu amo e senhor du Vallon de Bracieux de Pierrefonds!

— Meu bom Mousqueton! Está aqui, então, o teu amo?

— Pisais os seus domínios.

— Mas como estás belo, como estás gordo, como estás florido! — continuou d'Artagnan, que não se cansava de esmiuçar as mudanças que a fortuna operara no antigo esfaimado.

— Sim, sim! Graças a Deus! — voltou Mousqueton — estou passando muito bem.

— Não dizes nada ao teu amigo Planchet?

— Ao meu amigo Planchet! Planchet, serás tu, por acaso? — bradou Mousqueton com os braços abertos e os olhos marejados de lágrimas.

— Eu mesmo — respondeu Planchet, sempre prudente — mas queria saber primeiro se não tinhas ficado orgulhoso.

— Orgulhoso com um velho amigo! Nunca, Planchet. Não podes ter pensado uma coisa dessas, ou não conheces Mousqueton.

— Ainda bem! — disse Planchet, apeando do cavalo e estendendo, por sua vez, os braços a Mousqueton; — não és como o canalha do Bazin, que me deixou duas horas debaixo de um telheiro sem dar ares sequer de me ter reconhecido.

E Planchet e Mousqueton se abraçaram com uma efusão que comoveu profundamente os circunstantes e fê-los acreditar que Planchet era algum fidalgo disfarçado, tão grande valor emprestavam à posição de Mousqueton.

— E agora, senhor — disse Mousqueton quando se viu livre dos abraços de Planchet, que tentara inutilmente juntar as mãos nas costas do amigo; — e agora, senhor, permiti que eu vos deixe, pois não quero que meu amo saiba de vossa chegada por outra pessoa; ele não me perdoaria se alguém me precedesse.

— Esse querido amigo — disse d'Artagnan, evitando dar a Porthos não só o antigo mas também o novo nome — não me esqueceu!

— Esquecer! Ele! — exclamou Mousqueton; — pois não se passa um dia que não esperemos a notícia de que fostes nomeado Marechal, em lugar do Sr. de Gassion ou em lugar do Sr. de Bassompierre.

D'Artagnan deixou que lhe assomasse aos lábios um desses raros sorrisos melancólicos que lhe tinham sobrevivido, no mais profundo do coração, ao desencantamento dos verdes anos.

— E vós, — salóios — continuou Mousqueton — continuai ao pé do Sr. Conde d'Artagnan e prestai-lhe todas as honras devidas, enquanto previno Monsenhor (17) de sua chegada.

(17) Título honorífico dado apenas aos príncipes de uma família real, aos cardeais, arcebispos, bispos e prelados. (N. do T.)

 

E tornando a montar, com o auxílio de duas almas caridosas, o robusto cavalo, ao passo que Planchet, mais lesto, montava sozinho o seu, Mousqueton partiu sobre a relva daavenida a meio galope, que mais demonstrava robustez dos rins que das pernas do quadrúpede.

— Tudo isto se anuncia muito bem! — disse d'Artagnan; — aqui não há mistérios, não há hipocrisias, não há políticas; todos riem à tripa forra, todos choram de alegria, e só vejo caras gordas e sadias; em realidade, até me parece que a natureza está em festa e que as árvores, em vez de folhas e de flores, estão cobertas de fitinhas verdes e cor-de-rosa.

— E eu — disse Planchet — cuido sentir daqui o mais deleitoso cheiro de assado e já vejo os cozinheiros abrindo alas à nossa passagem. Ah, senhor! Que belo cozinheiro deve ter o Sr. de Pierrefonds, ele que já gostava tanto de comer bem quando ainda se chamava Sr. Porthos.

— Pára! — disse d'Artagnan — que me deixas com medo. Se a realidade corresponde às aparências, estou perdido. Um homem tão feliz não deixará jamais a sua felicidade, eu falharei com ele como falhei com Aramis.


 DE COMO D'ARTAGNAN PERCEBEU, AO ENCONTRAR PORTHOS, QUE O DINHEIRO NÃO DÁ FELICIDADE

 

D'Artagnan cruzou o portão e achou-se diante do castelo; já punha o pé em terra quando uma espécie de gigante surgiu no patamar. Façamos justiça a d'Artagnan: à parte qualquer sentimento de egoísmo, o coração bateu-lhe de alegria diante do homenzarrão de porte marcial que lhe recordava um homem corajoso e bom.

Correu para Porthos e precipitou-se-lhe nos braços; toda a criadagem, reunida em círculo a respeitosa distância, olhava com humilde curiosidade. Mousqueton, na primeira fila, enxugou os olhos; o pobre rapaz ainda não parará de chorar de alegria depois que reconhecera d'Artagnan e Planchet. Porthos segurou o amigo pelo braço.

— Ah! quanta alegria sinto ao rever-te, meu querido d'Artagnan — bradou com uma voz, que, de barítono, se tornara de baixo profundo; — com que, então, não me esqueceste?

— Esqueceste! Ah! caro du Vallon, poderemos, acaso, esquecer os mais belos dias de nossa juventude, os amigos dedicados e os perigos que juntos afrontamos? Revendo-te agora não há um dia da nossa antiga amizade que não se me apresente ao pensamento.

— Sim, sim — disse Porthos, tentando dar novamente ao bigode o jeito casquilho que perdera na solidão — sim, fizemo-las boas em nosso tempo e demos muita dor de cabeça àquele pobre Cardeal.

E soltou um suspiro. D'Artagnan considerou-o.

— Em todo caso — continuou Porthos em tom melancólico — sê bem-vindo, querido amigo, que me ajudarás a encontrar de novo a alegria; amanhã caçaremos lebres na minha campina, que é magnífica, ou cabritos nos meus bosques, que são muito bonitos: tenho quatro galgos, tidos como

os mais rápidos da província, e uma matilha que não tem igual num círculo de vinte léguas. E despediu segundo suspiro.

— Oh! oh! — murmurou baixinho d'Artagnan — dar-se-á, acaso, que o meu jovial amigo seja menos feliz do que parece?

E, logo, em voz alta:

— Mas antes de tudo — disse ele — far-me-ás o favor de apresentar-me à Sra. du Vallon, pois lembro-me de certa carta gentil que me escreveste, em baixo da qual se dignou ela ajuntar algumas linhas.

Terceiro suspiro de Porthos.

— Faz dois anos que perdi a Sra. du Vallon — disse ele — e ainda me sinto acabrunhado. Foi por isso que deixei o meu castelo du Vallon perto de Corbeil, para habitar a minha propriedade de Bracieux, mudança que me levou a comprar esta aqui. Pobre Sra. du Vallon — continuou Porthos, fazendo uma careta de tristeza; — não era uma mulher de temperamento muito igual, mas, afinal, se acabara acostumando às minhas maneiras e aceitando os meus caprichos.

— És, então, rico e livre? — perguntou d'Artagnan.

— Ai de mim! — retrucou Porthos — estou viúvo e tenho quarenta mil libras de renda. Vamos almoçar?

— Se vamos! — acudiu d’Artagnan; — o ar da manhã me deu fome.

— De fato — volveu Porthos — o meu ar é excelente. Entraram no castelo; eram douraduras de alto a baixo: cornijas douradas, molduras douradas, poltronas douradas. Uma mesa servida esperava.

— Vê — disse Porthos — é o meu passadio de sempre.

— Peste — respondeu d'Artagnan — estás de parabéns: El-Rei não tem mesa igual.

— Ouvi mesmo dizer que ele era muito mal alimentado pelo Sr. de Mazarino. Prova esta costeleta, meu caro d’Artagnan, é dos meus carneiros.

— Tens tenríssimos carneiros, e eu te felicito.

— Alimentam-se nos meus prados, que são admiráveis.

— Dá-me outra.

— Não; prova antes desta lebre, que matei ontem numa das minhas coelheiras.

— Peste! Que sabor! — exclamou d'Artagnan. — Ah! Só comem serpão as tuas lebres?

— E que achas do meu vinho? — perguntou Porthos; — é agradável, não é?

— Delicioso.

— É vinho daqui.

— Não!

— É, de um vinhalzinho ao sul, numa vertente da minha montanha, que me fornece vinte almudes.

— Mas isso é uma verdadeira vindima!

Porthos suspirou pela quinta vez. D'Artagnan contara--lhe os suspiros.

— Ué! — disse ele, curioso de aprofundar o problema — dir-se-ia, meu caro amigo, que alguma coisa te entristece. Estareis doente, por acaso?... Será que essa saúde...

— Esplêndida, meu caro, melhor do que nunca; eu seria capaz de matar um boi com um murro.

— Desgostos de família, então... ?

— De família! Felizmente sou sozinho no mundo.

— Mas, então, que te faz suspirar?

— Meu amigo — disse Porthos — serei franco contigo: não sou feliz.

— Não és feliz, Porthos! Tu, que tens um castelo, prados, montanhas, bosques; que tens quarenta mil libras de renda, enfim, não és feliz?

— Tenho tudo isso, é verdade, mas no meio de tudo isso vivo só.

— Ah! compreendo: vives cercado de pobretões, que não podes freqüentar sem desdouro.

Porthos empalideceu levemente, e emborcou um copo enorme do seu vinhozinho da vertente.

— Não — replicou — pelo contrário; imagina que são fidalgotes que possuem todos um título qualquer e se picam de descender de Faramundo, de Carlos Magno ou, pelo menos, de Hugo Capeto. No princípio, como eu fosse chegado de novo, tive de procurá-los; procurei-os; mas, como sabes, a Sra. du Vallon...

Dizendo essas palavras, Porthos parecia engolir com dificuldade a própria saliva.

— A Sra. du Vallon — continuou — era de nobreza duvidosa e consorciara-se, em primeiras núpcias (creio, d’Artagnan, que não te conto nada de novo), com um procurador. Os meus vizinhos acharam isso nauseabundo. Nauseabundo, disseram eles. Como hás de compreender, é uma palavra para fazer matar trinta mil homens. Matei dois: isso fez calarem os outros, mas não os fez meus amigos. De sorte que já não tenho sociedade: vivo só, entedio-me e vivo a roer-me por dentro.

D'Artagnan sorriu; percebera o defeito da couraça e preparava o bote.

— Mas, afinal — disse — tens a tua nobreza e a tua esposa não poderia desdourá-la.

— Sim, mas, compreende, não sendo eu de nobreza histórica como os Coucys, que se contentavam de ser sires, e os Rohans, que não queriam ser duques, toda essa gente, e são todos condes ou viscondes, têm primazia sobre mim na igreja, nas cerimônias, em toda parte, e eu não posso dizer nada. Ah! Se eu fosse pelo menos...

— Barão, não é verdade? — atalhou d'Artagnan, concluindo a frase do amigo.

— Ah! — exclamou Porthos, cujos traços se desanuviaram — ah! se eu fosse barão!

— Bem — pensou d'Artagnan — desta vez não falharei. E, em voz alta:

— Pois bem, meu caro amigo, é o título que desejas que venho trazer-te hoje.

Porthos deu um pinote que sacudiu a sala toda; duas ou três garrafas perderam o equilíbrio e caíram no chão, onde se quebraram. Mousqueton acorreu ouvindo o barulho e, mais ao longe, viu-se Planchet com a boca cheia e um guardanapo na mão.

— Monsenhor me chama? — perguntou Mousqueton. Porthos, com a mão, fez sinal a Mousqueton para que

retirasse os cacos das garrafas.

— Vejo com prazer — disse d'Artagnan — que ainda conservas este esplêndido rapaz.

— É o meu intendente — explicou Porthos. Depois, elevando a voz:

— Ele bem que se defende, o safardana; mas — continuou em voz mais baixa — gosta de mim e não me deixaria por nada deste mundo.

— E chama-lhe Monsenhor — pensou d'Artagnan.

— Retira-te, Mouston — ordenou Porthos.

— Mouston? Ah, sim, por abreviação: Mousqueton é muito comprido.

— Sim; e, além disso, Mousqueton cheira a caserna a cem léguas de distância. Mas falávamos de negócios quando entrou o marau.

— De fato; entretanto, deixemos a conversa para mais tarde, que o teu pessoal poderia desconfiar de alguma coisa; talvez haja espiões por aqui. Como terás imaginado, Porthos, trata-se de coisas sérias.

— Peste! — exclamou Porthos. — Pois bem! para fazer a digestão, vamos passear no meu parque.

— Com muito prazer.

E como os dois houvessem almoçado que parte, começaram a percorrer magnífico jardim; alamedas de castanheiros e tílias encerravam um espaço de umas trinta geiras pelo menos; no fim de cada quincôncio, bem fechado de árvores e arbustos, viam-se correr coelhos, que desapareciam entre as bolotas caídas e brincavam entre as relvas crescidas.

— Palavra — disse d'Artagnan — que o parque está de acordo com todo o resto; e se há tantos peixes nas tuas lagoas quantos coelhos nas tuas coelheiras, és um homem feliz, meu caro Porthos, por pouco que tenhas conservado o gosto da caça e adquirido o da pesca.

— Meu amigo — respondeu Porthos — deixo a pesca a Mousqueton, pois é uma distração plebéia; mas caço de vez em quando; isto é, quando me aborreço, sento-me num destes bancos de mármore, mando trazer a espingarda, mando buscar Gredinet, o meu cachorro favorito, e atiro aos coelhos.

— Mas é divertidíssimo! — exclamou d'Artagnan.

— É — respondeu Porthos com um suspiro — é divertidíssimo.

D'Artagnan já não os contava.

— Depois — continuou Porthos — o próprio Gredinet vai buscá-los e leva-os ao cozinheiro; foi treinado assim.

— Que bichinho encantador! — exclamou d'Artagnan.

— Mas deixemos Gredinet, que te darei, se quiseres, pois já começo a enfastiar-me dele, e voltemos ao negócio.

— Com muito prazer — disse d'Artagnan; — previno-te, porém, meu caro amigo, para não dizeres depois que te enganei, que precisarás mudar de vida.

— Como assim?

— Retomar os arneses, cingir a espada, correr à cata de aventuras, deixar, como antes, um pouco de carne pelos caminhos; enfim, a vida que levávamos outrora.

— Ah! diabo! — fez Porthos.

— Sim, compreendo, estás mal-acostumado; deixaste crescer a barriga e o pulso já não tem a elasticidade de que tantas provas tiveram os guardas do Sr. Cardeal.

— Pois eu juro que o pulso ainda está bom — afirmou Porthos, estendendo uma mão que mais parecia um quarto de carneiro.

— Tanto melhor.

— Teremos, portanto, de voltar à ativa?

— É o que parece.

— Contra quem?

— Tens acompanhado a política?

— Eu? Absolutamente.

— És pelo Mazarino eu pelos príncipes?

— Não sou por ninguém.

— Quer dizer que és por nós. Antes assim, Porthos, é a melhor política para quem deseja progredir. Pois bem, meu caro, eu te direi que venho da parte do Cardeal.

A palavra produziu em Porthos o efeito que teria produzido em 1640 se se tratasse do verdadeiro cardeal.

— Oh! oh! — disse ele — que me quer Sua Eminência?

— Sua Eminência quer contratar-te os serviços.

— E quem lhe falou de mim?

— Rochefort. Não te lembras dele?

— Como não! Foi ele quem nos deu tanta dor de cabeça naquele tempo e nos fez correr tantas estradas; o mesmo a quem pespegaste três cutiladas, aliás bem empregadas.

— Mas sabes que ficou nosso amigo?

— Não, não sabia. Então não é homem rancoroso.

— Enganas-te, Porthos — acudiu d'Artagnan: — quem não é rancoroso sou eu.

Porthos não compreendeu muito bem; mas cumpre lembrar que a compreensão não era o seu forte.

— Dizes, então — continuou ele — que foi o Conde de Rochefort quem falou de mim ao Cardeal?

— Foi; e, depois de Rochefort, a Rainha.

— A Rainha, como?

— Para inspirar-nos confiança, ela até entregou ao Cardeal o célebre anel de brilhante que eu tinha vendido ao Sr. des Essarts, e que, não sei como, lhe voltou às mãos.

— Mas parece-me — acudiu Porthos com o seu charro bom senso — que ela teria feito melhor se to devolvesse a ti.

— É também a minha opinião — conveio d'Artagnan; — mas que queres? Os reis e as rainhas têm, às vezes, caprichos singulares. Entretanto, como são eles que detêm as riquezas e as honras, que distribuem o dinheiro e os títulos, devemos servi-los.

— Sim, devemos servi-los! — repetiu Porthos. — Serves, então, neste momento?...

— O Rei, a Rainha e o Cardeal; e respondi também pelos teus serviços.

— E não impuseste condições a meu respeito?

— Magníficas, meu caro, magníficas! Em primeiro lugar, tens dinheiro, não é verdade? Quarenta mil libras de renda, pelo que me disseste.

Porthos caiu na defensiva.

— Ora, meu caro — disse ele — o dinheiro nunca é suficiente. A Sra. du Vallon deixou uma herança embrulhada; não sou muito entendido nessas coisas, de sorte que levo uma vida meio apertada.

— Ele está com medo de que eu lhe peça dinheiro emprestado — pensou d'Artagnan. — Ah! meu amigo — ajuntou em voz alta — tanto melhor se andas apertado.

— Tanto melhor, como?

— Sim, pois Sua Eminência dará tudo o que quisermos, terras, dinheiro e títulos.

— Ah! ah! ah! — exclamou Porthos, arregalando os olhos à última palavra.

— No tempo do outro Cardeal — continuou d’Artagnan — não soubemos aproveitar a sorte; e a ocasião era propícia; não digo isso por ti, que tens quarenta mil libras de renda, e me pareces o homem mais feliz da terra.

Porthos suspirou.

— Todavia — continuou d’Artagnan — apesar das tuas quarenta mil libras de renda, e talvez até por causa delas, creio que uma coroazinha não te ficaria mal no carro, hein?

— De fato — concordou Porthos.

— Pois bem, meu caro, conquista-a. Ela está na ponta de tua espada. Não nos prejudicaremos um ao outro. A tua finalidade é um título; a minha, é o dinheiro. Se eu ganhar o suficiente para mandar reconstruir d’Artagnan, que os meus antepassados empobrecidos pelas cruzadas deixaram cair em ruínas, e para comprar umas trinta geiras de terra em der-redor, terei o suficiente; para lá me retiro e lá morro sossegado.

— E eu — disse Porthos — quero ser Barão.

— Sê-lo-ás.

— E não pensaste também nos nossos outros amigos?

— Pensei. Já estive com Aramis.

— E ele, que deseja? Ser bispo?

— Aramis — disse d’Artagnan, que não queria desiludir Porthos; — Aramis, meu caro, figura-te que se fez monge e jesuíta e vive como um urso; renuncia a tudo e só pensa na própria salvação. Os meus oferecimentos não lograram convencê-lo.

— Tanto pior! — observou Porthos. — Ele tinha talento, E Athos?

— Ainda não o vi, mas irei vê-lo ao sair daqui. Sabes onde poderei encontrá-lo?

— Perto de Blois, numa propriedadezinha que herdou, não sei de que parente.

— E que se chama?...

— Bragelonne. Pensa, meu caro: Athos, que já era nobre como o imperador, herda uma propriedade que lhe dá direito a mais um título de conde; que fará ele de tantos condados? Condado de la Fere, condado de Bragelonne?

— E ainda por cima não tem filhos — disse d'Artagnan.

— Não sei... — retrucou Porthos; — ouvi dizer que adotou um rapazinho muito parecido com ele.

— Athos, o nosso Athos, virtuoso como Cipião? Tornaste a vê-lo?

— Não.

— Pois bem, irei amanhã levar-lhe notícias tuas. Mas, entre nós, tenho medo de que a sua queda para o vinho o tenha envelhecido e degradado muito.

— É verdade; bebia como gente grande.

— E era o mais velho de todos.

— Uns anos apenas; o aspecto grave é que o envelhecia tanto.

— De fato. Portanto, se tivermos Athos, tanto melhor: mas, se não o tivermos, paciência, passaremos sem ele. Nós dois valemos por doze.

— Tens razão — anuiu Porthos, sorrindo à lembrança das antigas façanhas; — mas se fôssemos quatro valeríamos por trinta e seis; tanto mais que o negócio será duro, pelo que dizes.

— Duro para recrutas; para nós, não.

— Levará muito tempo?

— Não sei... Poderá levar uns três ou quatro anos.

— Bater-nos-emos bastante?

— Assim o espero.

— Antes isso, antes isso! — bradou Porthos: — não fazes idéia, meu caro, do quanto me estalam os ossos depois que estou aqui. Às vezes, no domingo, ao sair da missa, corro a cavalo pelos campos e pelas terras dos vizinhos à procura de alguma brigazinha, pois sinto que preciso dela; mas nada, meu caro! Ou porque me respeitam, ou porque me temem, o que é mais provável, o caso é que me deixam pisar a meiga dos prados com os meus cachorros, passar por cima da barriga de toda a gente, e volto, mais enfarado ainda, para casa. Pelo menos, dize-me, já são mais fáceis os duelos em Paris?

— Quanto a isso, meu caro, a coisa não podia ser melhor; já não existem éditos, nem guardas do Cardeal, nem Jussacs, nem coisa que os valha. Debaixo de uma lanterna, dentro de uma estalagem, em toda a parte; és frondista? Puxa-se da espada e está tudo dito. O Sr. de Guise matou o Sr. de Coligny em plena Place Royale, e ninguém disse nada.

— Ah! assim está bom!

— Além do mais, dentro em pouco — prosseguiu d’Artagnan — teremos batalhas em ordem, com canhões, incêndios, etc. Tudo muito variado.

— Então, estou decidido.

— Tenho a tua palavra?

— Sim. Bater-me-ei de todas as maneiras por Mazarino. Mas...

— Mas?

— Ele me fará barão.

— Naturalmente! — confirmou d'Artagnan — já está combinado; eu disse e repito-o: respondo pela tua baronia.

Com essa promessa, Porthos, que nunca duvidara da palavra do amigo, dirigiu-se para casa.


 EM QUE SE DEMONSTRA QUE, SE PORTHOS NÃO ESTAVA CONTENTE COM A SUA SITUAÇÃO, MOUSQUETON ESTAVA CONTENTÍSSIMO COM A DELE

 

Enquanto voltavam para o castelo e Porthos nadava em seus sonhos de baronia, d'Artagnan refletia na miséria da pobreza humana, sempre insatisfeita com o que tem, sempre desejosa do que não possui. No lugar de Porthos, ter-se-ia julgado o homem mais feliz da terra, e para que Porthos fosse feliz, que lhe faltava? Cinco letrinhas diante de todos os seus nomes e uma coroazinha pintada na portinhola do carro.

— Passarei, portanto, a vida inteira — disse entre si d'Artagnan — olhando para a direita e para a esquerda, sem jamais encontrar o rosto de um homem completamente feliz.

Sobrepensava assim, filosòficamente, quando a Providência pareceu desmenti-lo. No momento em que Porthos acabava de deixá-lo para dar instruções ao cozinheiro, viu aproximar-se Mousqueton. A fisionomia do bravo rapaz, não fora uma leve perturbação que, como nuvem estivai, lhe sombreava mais do que velava o rosto, parecia a de um homem perfeitamente feliz.

— Eis o que eu procurava — disse consigo d'Artagnan — mas, coitado. O pobre rapaz não sabe por que vim.

Mousqueton mantinha-se à distância. D'Artagnan sentou-se num banco e fez-lhe sinal para aproximar-se.

— Senhor — disse Mousqueton, aproveitando-se da permissão — tenho um favor para pedir-vos.

— Fala, meu amigo — disse d'Artagnan.

— É que não me atrevo, pois tenho medo de que imaginais que a prosperidade me tenha perdido.

— És feliz, então, meu amigo? — perguntou d'Artagnan.

— Tão feliz quanto possível; entretanto, podeis tornar--me ainda mais feliz.

— Pois, então, fala! E se a coisa depender de mim, está feita.

— Oh! Senhor, só depende de vós.

— Fala.

— O favor que desejo pedir-vos é não me chamardes mais de Mousqueton, mas de Mouston. Depois que tive a honra de ser nomeado intendente de Monsenhor, adotei o último nome, que é mais digno e serve de fazer-me respeitado pelos inferiores. Sabeis, senhor, como é necessária a subordinação à criadagem.

D'Artagnan sorriu; Porthos encompridava os seus nomes, Mousqueton encurtava o seu.

— E então, senhor? — perguntou, a tremer, Mousqueton.

— Pois está certo, meu caro Mouston — respondeu d’Artagnan; — fica tranqüilo, não me esquecerei do teu pedido, e se isso te der prazer, nem sequer te tratarei por tu.

— Oh! — exclamou Mousqueton, vermelho de alegria — se me fizésseis semelhante honra, eu vos ficaria reconhecido a vida inteira; mas talvez já fosse pedir demasiado?

— Ai — disse d'Artagnan com os seus botões — isso não é nada em troca das atribulações inesperadas que trago a este pobre diabo, que tão bem me recebeu.

— E ficareis muito tempo conosco? — perguntou Mousqueton, cujo rosto, voltando à primitiva serenidade, desabrochava como uma rosa.

— Parto amanhã, meu amigo — disse d’Artagnan.

— Ah, senhor! — disse Mousqueton — foi então apenas para deixar-nos saudades que viestes?

— É o que receio — disse d'Artagnan, mas tão baixo que Mousqueton, que se retirava, cumprimentando-o, não pôde ouvi-lo.

Um remorso atravessava o espírito de d’Artagnan, embora tivesse o coração perfeitamente encorreado.

Não tinha pena de lançar Porthos numa aventura que lhe poderia comprometer a vida e os haveres, pois o ex-mosqueteiro arriscaria de bom grado tudo isso pelo título de barão, que, havia quinze anos, ambicionava; mas Mousqueton, que não desejava outra coisa senão ser chamado de Mouston, não seria uma crueldade arrancá-lo à vida deliciosa do seu celeiro de abundância? Essa idéia o preocupava quando Porthos reapareceu.

— Vamos para a mesa.

— Para a mesa, como? — respondeu d'Artagnan. — Que horas são?

— Uma e tanto.

— A tua residência é um paraíso, meu caro Porthos e a gente, nela, se esquece do tempo. Acompanho-te, mas não tenho fome.

— Vem, pois se não podemos comer sempre, sempre podemos beber; é uma das máximas do pobre Athos, cuja solidez comprovei depois que conheci o tédio.

D’Artagnan, que o seu natural gascão sempre fizera sóbrio, não parecia tão convencido da verdade do axioma de Athos; sem embargo, fez o que pôde para manter-se à altura do hospedeiro.

Contudo, enquanto observava Porthos, que comia, e bebia o que lhe era possível beber, a idéia de Mousqueton voltou-lhe ao espírito, com tanto mais vigor quanto Mousqueton, sem servir a mesa, para não descer da nova posição, assomava à porta de onde em onde e traía a sua gratidão a d'Artagnan na idade e na qualidade dos vinhos que mandava servir.

Por isso, quando, à sobremesa, Porthos dispensou os lacaios a um sinal de d'Artagnan e os dois amigos ficaram sós:

— Porthos — perguntou d'Artagnan — quem te acompanhará em tuas campanhas?

— Ué — respondeu naturalmente o interpelado — Mouston.

Aquilo foi um golpe para d’Artagnan, que já via mudar-se em careta de dor o benévolo sorriso do intendente.

— Entretanto — replicou d'Artagnan — Mouston já não é criança, meu caro; além disso engordou muito e talvez tenha perdido o hábito do serviço ativo.

— Eu sei — volveu Porthos. — Mas estou acostumado com ele; demais a mais, ele não consentiria em deixar-me: gosta muito de mim.

— Oh! cego amor-próprio! — pensou d'Artagnan.

— Aliás, tu também — acudiu Porthos — não tens sempre a teu serviço o mesmo lacaio: o bom, o bravo, o inteligente... como se chama?

— Planchet. De fato, tornei a encontrá-lo, mas ele já não é lacaio.

— Que é, então?

— Com as suas seiscentas libras, como sabes, as seiscentas libras que ganhou no cerco da Rochela levando a carta a Lorde de Winter, estabeleceu-se numa lojinha de confeiteiro, na rue des Lombards.

— Ah! é confeiteiro na rues des Lombards! Mas, então, como te serve?

— Fez das suas, e receia ser incomodado.

E o mosqueteiro referiu ao amigo como reencontrara Planchet.

— Se te houvessem dito, meu caro — atalhou Porthos que um dia esconderias Planchet por haver salvo Rochefort?

— Eu não o teria acreditado. Mas, que queres? Os acontecimentos mudam os homens.

— Nada mais verdadeiro; mas o que não muda, eu muda apenas para melhor, é o vinho. Prova deste aqui; é um vinho de Espanha muitíssimo apreciado pelo nosso amigo Athos: xerez.

Nesse momento, o intendente veio consultar o amo sobre o cardápio do dia seguinte e sobre o projetada caçada.

— Dize-me, Mouston — interpelou-o Porthos — as minhas armas estão em bom estado?

D'Artagnan pôs-se a tamborilar com os dedos sobre a mesa para esconder o seu enleio.

— Vossas armas, Monsenhor! — perguntou Mouston. — Que armas?

— Hom'essa! Os meus arneses.

— Que arneses?

— Os meus arneses de guerra.

— Estão, Monsenhor. Pelo menos, acho que sim.

— Quero que te certifiques disso amanhã e que mandes limpá-los se for preciso. Qual é o meu melhor cavalo de corrida?

— Vulcano.

— E de resistência?

— Bayard.

— Que cavalo preferes?

— Rustaud, Monsenhor; é um bom animal, com o qual me entendo perfeitamente.

— Vigoroso?

— Normando cruzado com Meclemburgo. Anda dia e noite.

— Está dito. Mandarás tratar dos três cavalos, limparás ou mandarás limpar as minhas armas; e, depois, tirarás pistolas para ti e uma faca de mato.

— Vamos, então, viajar, Monsenhor? — perguntou Mousqueton com ar inquieto.

D'Artagnan, que até então só batera com os dedos umas notas vagas, principiou a bater uma marcha.

— Melhor do que isso, Mouston! — respondeu Porthos.

— Faremos uma expedição, senhor? — insistiu o intendente, cujas rosas principiavam a trocar-se em lírios.

— Voltaremos à ativa, Mouston! — respondeu Porthos, tentando sempre restituir ao bigode o jeito marcial que perdera.

Mal haviam sido pronunciadas essas palavras e Mousqueton foi sacudido por um tremor que lhe agitou as vastas bochechas pálidas; olhou para d'Artagnan com um ar indizível de terna censura, que o oficial não pôde suportar sem se sentir enternecido; depois cambaleou e, com voz sufocada:

— À ativa! À ativa nos exércitos do Rei? — perguntou.

— Sim e não. Vamos reentrar em campanha, procurar toda a sorte de aventuras, voltar, enfim, à vida de outrora.

A última palavra caiu sobre Mousqueton como um raio. Era esse outrora tão terrível que fazia tão doce o agora.

— Oh! meu Deus! Que ouço? — exclamou Mousqueton com um olhar mais suplicante ainda que o primeiro, dirigido a d'Artagnan.

— Que quereis, meu pobre Mouston? — acudiu d’Artagnan — a fatalidade...

Apesar da precaução tomada por d'Artagnan de o não tratar por tu e dar-lhe ao nome o tamanho desejado, nem por isso Mousqueton sentiu menos o golpe, e tão terrível foi este que o pobre homem saiu aparvalhado, esquecendo-se até de fechar a porta.

— Esse bom Mousqueton não cabe em si de tanta alegria; — disse Porthos com o mesmo tom que teria empregado Dom Quixote animando Sancho a selar o ruço para a última campanha.

Ficando sós, puseram-se os dois amigos a falar do futuro e a erguer mil castelos em Espanha. O bom vinho de Mousqueton fazia-os ver, d'Artagnan, uma reluzente perspectiva de dobrões e pistolas, e Porthos, a fita azul (18) e o manto ducal. O fato é que dormiam sobre a mesa quando foram convidados a transferir-se para as suas camas.

(18) A fita que traziam os cavaleiros da ordem do Espírito-Santo, ordem de cavalaria instituída por Henrique III, Rei de França. O número dos cavaleiros era de cem e a ordem só se conferia a fidalgos. Posteriormente foi suprimida. (N. do T.)

 

Já no dia seguinte, porém, sentiu-se Mousqueton o seu tanto reconfortado quando d'Artagnan lhe anunciou que, muito provavelmente, a guerra se faria sempre no coração de Paris e nos arredores do castelo du Vallon, que ficava pertode Corbeil; nas proximidades de Bracieux, que ficava perto de Melun; e nas vizinhanças de Pierrefonds, que ficava entre Compiègne e Villers-Cotterets.

— Mas parece-me que antigamente... — arriscou, tímido, Mousqueton.

— Oh! — replicou d'Artagnan — já não se guerreia hoje como antigamente. Os negócios agora são todos diplomáticos; perguntai a Planchet.

Mousqueton foi pedir informações ao antigo amigo, que confirmou, em tudo, o que dissera d'Artagnan; só se nesta guerra, ajuntou ele, os prisioneiros correm o risco de ser enforcados.

— Peste — exclamou Mousqueton — creio que ainda prefiro o cerco da Rochela.

Quanto a Porthos, depois de haver matado um cabrito para o hóspede, depois de havê-la conduzido dos seus bosques à sua montanha, de sua montanha às suas lagoas, depois de mostrar-lhe os seus galgos, a sua matilha, Gredinet, e tudo, enfim, que possuía, e depois de oferecer mais três suntuosíssimos repastos, pediu instruções definitivas a d'Artagnan, que precisava deixá-lo para continuar o seu caminho.

— O caso é o seguinte, meu caro amigo — disse-lhe o mensageiro: — preciso de quatro dias para ir a Blois, um dia para ficar lá, três ou quatro para voltar a Paris. Parte, portanto, com as tuas equipagens daqui a uma semana; apeia na rue Tiquetonne, à porta da hospedaria da Chevrette e espera lá o meu regresso.

— Está combinado — disse Porthos.

— Vou procurar, sem esperanças, onosso amigo Athos — continuo d'Artagnan; — pois emboraeu imagine que ele se tenha tornado perfeitamente incapaz,não devemos fugir à etiqueta em relação aos amigos.

— Se eu fosse contigo — disse Porthos — talvez me distraísse.

— É possível — volveu d'Artagnan — e eu também; mas não terias tempo de fazer os preparativos.

— É verdade — concordou Porthos. — Vai, portanto, e coragem; eu, por mim, estou animadíssimo.

— Ótimo! — exclamou d'Artagnan.

E despediram-se nas divisas da propriedade de Pierrefonds, ainda Porthos fez questão de acompanhar o amigo.

— Pelo menos — dizia d'Artagnan, tomando a estrada de Villers-Cotterets — pelo menos não serei sozinho. Esse diabo de Porthos ainda está vigoroso. Se Athos topar, ótimo! seremos três a zombar de Aramis, o padreco frascário.

Em Villers-Cotterets escreveu ao Cardeal:

"Monsenhor, já tenho um para oferecer a Vossa Eminência, que vale por vinte. Parto para Blois, pois o Conde de La Fere mora no castelo de Bragelonne, perto dessa cidade."

E seguiu a estrada de Blois, conversando com Planchet, que era para ele grande distração na comprida jornada.    
 

DUAS CABEÇAS DE ANJO

 

Longa era a caminhada; mas isso não preocupava d’Artagnan: sabia que os seus cavalos se haviam refugiado nas abundantes manjedouras do senhor de Bracieux. Encetou, portanto, confiante, os quatro ou cinco dias de marcha que tinha pela frente, seguido do fiel Planchet.

Como já dissemos, os dois homens, para espantar o tédio da viagem cavalgavam lado a lado e não paravam de conversar. D'Artagnan se desfizera, a pouco e pouco, dos ares de amo e Planchet largara de todo em todo a lebréia do criado. Era um grande marau que, depois do improvisado aburguesamento, sentira freqüentes saudades dos rega-bofes à beira da estrada e da prática dos fidalgos, e, sentindo possuir algum valor pessoal, sofria ao ver-se desvalorizar ao contacto perpétuo de pessoas de idéias curtas.

Logo, portanto, se elevou ao posto de confidente daquele a quem ainda chamava de amo. Fazia muitos anos que d’Artagnan não abria o coração. Ora, aconteceu que, tornando a encontrar-se, os dois se entenderam admiràvelmente.

Aliás, Planchet não era um vulgar companheiro de aventuras; homem de bom conselho, se não procurava o perigo também não fugia dos golpes, como d'Artagnan tivera várias vezes ocasião de observar; enfim, tinha sido soldado, e as armas anobreciam; e, sobretudo, se Planchet necessitava dele, também não lhe era totalmente inútil. Foi, portanto, quase como dois bons amigos que d'Artagnan e Planchet chegaram ao Blaisois.

Durante o caminho, sacudindo a cabeça e voltando à idéia que não deixava de obcecá-lo, dizia d'Artagnan:

— Sei, perfeitamente, que a minha visita a Athos é inútil e absurda, mas devo essa atenção ao meu antigo amigo, que tinha em si o estofo do mais nobre e do mais generoso dos homens.

— Oh! o Sr. Athos era um guapo fidalgo! — observou Planchet.

— Não é? — acudiu d'Artagnan.

— Espalhava dinheiro como o céu espalha granizo — continuou Planchet — e empunhava a espada com ademanes de rei. Não vos lembrais, senhor, do duelo com os ingleses na tapada dos Carmelitas? Ah! como foi belo e magnífico o Sr. Athos nesse dia ao dizer ao adversário: "Exigistes que eu me desse a conhecer; pior para vós, pois sou obrigado a matar-vos!" Eu estava perto dele e pude ouvi-lo. São textualmente as suas palavras. E o golpe de vista, quando atingiu o adversário como prometera, e o adversário caiu, sem dar um pio. Ah! senhor, torno a repeti-lo, era um guapo fidalgo!

— Sim — disse d'Artagnan — tudo isso é verdadeiro como o Evangelho, mas ele deve ter perdido todas as qualidades com um defeito só.

— Eu me lembro — disse Planchet — ele gostava de beber, ou melhor, bebia. Mas não bebia como os outros. Os seus olhos não diziam nada quando levava o copo aos lábios. Em verdade, nunca um silêncio foi tão eloqüente. Quanto a mim, parecia-me ouvi-lo murmurar: "Entra bebida, e espanta as minhas penas." E como sabia quebrar o pé de um copo ou o gargalo de uma garrafa! Para isso não havia outro.

— Pois bem, hoje — continuou d'Artagnan — eis o triste espetáculo que nos espera. O nobre fidalgo de olhar tão sobranceiro, o belo cavaleiro tão brilhante sob as armas que a gente estranhava sempre que, em lugar de uma espada, não empunhasse um bastão de comando, deve ter-se transformado num velho decrépito, de nariz vermelho e olhos lacrimosos. Vamos encontrá-lo deitado nalguma grama, de onde nos contemplará com o olhar vidrado e talvez nem nos reconheça. Deus é testemunha, Planchet — continuou d'Artagnan — de que eu fugiria desse triste espetáculo se não timbrasse em demonstrar o meu respeito à sombra ilustre do glorioso Conde de La Fere, que tanto amamos.

Planchet meneou a cabeça mas não disse uma palavra: via-se facilmente que compartia dos receios do amo.

— Além disso, a decrepitude — continuou d'Artagnan — pois Athos agora deve estar velho; a miséria, pois terá malbaratado o pouco que possuía; e o sujo Grimaud, mais mudo que nunca, e mais borracho que o amo... olha, Planchet, tudo isso me corta o coração.

— Já me parece estar lá, vendo-o balbuciar e cambalear — acudiu Planchet em tom pesaroso.

— Confesso que o meu único receio é que Athos aceite as minhas propostas num momento de belicosa embriaguez — tornou d'Artagnan. — Seria para Porthos e para mim uma grande desgraça e, sobretudo, um verdadeiro estorvo; mas, durante a sua primeira orgia, nós o deixaremos, e pronto. Quando tornar em si, compreenderá.

— Em todo o caso, senhor — disse Planchet — não tardaremos em sabê-lo, pois creio que esses muros tão altos, avermelhados pelo poente, são os muros de Blois.

— É provável — respondeu d'Artagnan — e aqueles campanários esguios e esculpidos que vemos lá embaixo, à esquerda do bosque, lembram o que já ouvi dizer de Chambord.

— Entraremos na cidade?

— Naturalmente, para informar-nos.

— Pois eu vos aconselho, se entrarmos, a provar uns potezinhos de creme de que me falaram muito, mas que, infelizmente, não podem ser mandados a Paris e precisam ser comidos no lugar.

— Pois haveremos de comê-los, fica tranqüilo! — prometeu d'Artagnan.

Nesse momento, um desses carros pesados, tirados por bois, que transportam a lenha cortada nas belas florestas da região até aos portos do Loire, saiu de um atalho batido e surgiu na estrada que seguiam os dois cavaleiros. Um homem o guiava, armado de comprido aguilhão, rematado por um prego, com o qual espicaçava os lentos animais.

— Olá, amigo! — gritou Planchet para o carreiro.

— Em que posso servir-vos, senhores? — perguntou o camponês com a pureza de linguagem peculiar aos habitantes da região e que envergonharia os citadinos puristas da praça da Sorbonne e da rue de l'Université.

— Procuramos a casa do Sr. Conde de La Fere — disse d'Artagnan; — conhecei, acaso, esse nome entre os dos senhores da redondeza?

O camponês tirou o chapéu ao ouvi-lo e respondeu:

— Senhores, essa lenha que carreio é dele; cortei-a na sua mata e vou levá-la ao castelo.

D'Artagnan não quis interrogar o homem, pois repugnava-lhe ouvir da boca de outro o que ele mesmo dissera a Planchet.

— O castelo! — disse entre si — o castelo! Ah! compreendo! Athos é intolerante; terá obrigado, como Porthos, os camponeses a chamar-lhe Monsenhor e castelo ao seu cochicholo; tinha a mão pesada o querido Athos, sobretudo depois de beber.

Os bois caminhavam lentamente. D'Artagnan e Planchet cavalgavam atrás do carro. A demora impacientou-os.

— O caminho, então, é este — perguntou ao carreiro — e podemos segui-lo sem medo de errar?

— Sim, senhor — retorquiu o homem — e podeis tomá-lo em vez de vos entediardes escoltando animais tão vagarosos. A meia légua daqui avistareis um castelo à direita; não se pode vê-lo deste lugar por causa do renque de choupos quel o esconde. Esse castelo não é Bragelonne, é La Vallière: passareis por ele; mas a uns três tiros de mosquete mais adiante, uma grande casa branca, coberta de ardósias, construída sobre uma colina revestida de sicômoros enormes, é o castelo do Sr. Conde de La Fere.

— E não é muito comprida essa meia légua? — perguntou d'Artagnan; — pois há léguas e léguas em nossa bela, terra de França (19).

(19) Cumpre lembrar que o cumprimento de uma légua, em França, é de quatro quilômetros. (N. do T.)

 

— Dez minutos de trote, senhor, para as pernas finas do vosso cavalo.

D'Artagnan agradeceu ao carreiro e esporeou imediatamente a montaria; depois, perturbado, mau grado seu, pela idéia de rever o homem singular que tanto o amara, que tanto contribuíra com conselhos e com o exemplo para a sua educação de gentil-homem, diminuiu gradativamente o passo do cavalo e continuou cabisbaixo, como um homem que sonha.

Planchet também achara no encontro e na atitude do camponês matéria para graves reflexões. Nunca, nem na Normandia, nem no Franco-Condado, nem no Artois, nem na Picardia, regiões que habitara, encontrara nos campônios tanto desembaraço de maneiras, tanta polidez, tamanho apuro de linguagem. Sentia-se tentado a acreditar que topara com algum fidalgo, frondista como ele, que, por motivos políticos, se vira forçado, como ele, a disfarçar-se.

Logo após, na volta do caminho, o castelo de La Vallière, como anunciara o carreiro, surgiu aos olhos dos viajantes; um quarto de hora depois, mais ou menos, a casa branca emoldurada pelos sicômoros se desenhou sobre o fundo de um maciço de árvores espessas que a primavera polvilhava de flores.

À sua vista, d'Artagnan, que de ordinário pouco se comovia, sentiu estranha perturbação penetrar-lhe o coração, tão poderosas são em todo o curso da existência as lembranças da mocidade. Planchet, que não tinha os mesmos motivosde impressão, espantou-se ao ver o amo tão agitado e pôs-se a olhar alternativamente para d'Artagnan e para a casa.

O mosqueteiro deu ainda algum passos e viu-se defronte de uma grade trabalhada com o gosto que distingue as obras de fundição dessa época.

Viam-se através da grade uma horta bem tratada, um pátio espaçoso, em que pateavam montarias seguras por lacaios com diferentes librés e uma carruagem puxada por dois cavalos do lugar.

— Nós nos enganamos ou aquele homem nos enganou — disse d'Artagnan — pois esta não pode ser a residência de Athos. Meus Deus! Teria ele morrido e pertencerá, acaso, a propriedade a algum herdeiro seu? Apeia, Planchet, e informa-te. Confesso que não tenho coragem.

Planchet apeou.

— Ajuntarás — disse d'Artagnan — que um fidalgo, de passagem, deseja ter a honra de cumprimentar o Sr. Conde de La Fere e, se as informações forem satisfatórias, declina o meu nome.

Puxando o cavalo pela rédea, Planchet abeirou-se da porta, fez soar a sineta e, imediatamente, um criado, de cabelos brancos e porte erecto apesar da idade, apresentou-se.

— É aqui que mora o Sr. Conde de La Fere? — perguntou Planchet.

— Sim, senhor, é aqui — respondeu o criado, que não trazia libré.

— Um senhor que se retirou do serviço ativo?

— Exatamente.

— E que tinha um lacaio chamado Grimaud — tornou Planchet, que, com a prudência costumeira, nunca achava demasiadas as informações.

— O Sr. Grimaud está ausente no momento — disse o servidor, que principiou a examinar Planchet dos pés à cabeça, pois não estava habituado a suportar interrogatórios semelhantes.

— Então — exclamou Planchet, radiante — vejo que é o mesmo Conde de La Fere que procuramos. Tende a bondade de abrir-me o portão, pois eu desejava anunciar ao Sr. Conde que meu amo, um fidalgo amigo seu, está aqui e quer cumprimentá-lo.

— Por que não o dissestes antes? — tornou o criado, abrindo o portão. — Mas o vosso amo, onde está?

— Vem vindo atrás de mim.

O criado abriu o portão e precedeu Planchet, que fez sinal a d'Artagnan; este, com o coração mais palpitante do que nunca, entrou no pátio a cavalo.

Chegado ao patamar da escada, Planchet ouviu uma voz que saía de uma sala do andar térreo e dizia:

— Então? Onde está o fidalgo? E por que não entra?

Essa voz, que chegou a d'Artagnan, despertou-lhe no coração mil sentimentos, mil lembranças esquecidas. Saltou precipitadamente do cavalo, ao passo que Planchet, com um sorriso nos lábios, se adiantava para o dono da casa.

— Mas eu conheço esse rapaz — disse Athos, surgindo no limiar da porta.

— Oh, sim, Sr. Conde, vós me conheceis, e também vos conheço muito bem. Sou Planchet, Sr. Conde, Planchet...

Mas o honrado servidor não pôde completar a frase, tão impressionado ficara com o aspecto inesperado do fidalgo.

— Como! Planchet! — bradou Athos. — O Sr. d'Artagnan estará aqui também?

— Estou, estou, meu caro Athos — balbuciou d'Artagnan, quase cambaleando.

A essas palavras, visível emoção pintou-se no belo rosto e nos traços calmos de Athos. Deu dois passos rápidos para d'Artagnan, sem desviar os olhos dele e apertou-o ternamente nos braços. Tornando em si do enleio, d'Artagnan abraçou-o por seu turno com uma cordialidade que lhe transluzia em lágrimas nos olhos...

Athos tomou-o pela mão, que apertava nas suas, e conduziu-o ao salão, onde várias pessoas se achavam reunidas. Todos se ergueram.

— Apresento-vos — disse Athos — o Sr. Cavaleiro d'Artagnan, tenente dos mosqueteiros de Sua Majestade, amigo dedicadíssimo e um dos mais corajosos e amáveis fidalgos que já conheci.

Segundo o costume, recebeu d'Artagnan os cumprimentos dos presentes, retribuiu-os da melhor maneira possível, tomou o seu lugar no círculo, e, ao passo que a conversação, momentaneamente interrompida, voltava a generalizar-se, entrou a examinar o dono da casa.

Coisa estranha! Athos mal envelhecera. Os seus belos olhos, sem o círculo de bistre desenhado pelas vigílias e pela orgia, pareciam maiores e de um brilho mais puro do que nunca; o rosto, um pouco alongado, ganhara em majestade o que perdera de agitação febril; a mão, sempre admiravelmente bela e nervosa, apesar da flexibilidade das carnes, resplendia sob um punho de rendas como certas mãos de Ticiano e de Van Dick; mais esbelto do que antes, as espáduas, pouco salientes e largas, indicavam extraordinário vigor; os longos cabelos pretos, aqui e ali entremeados de fios grisalhos, caíam--lhe com elegância sobre os ombros e como naturalmente ondulados; a voz ainda era fresca, como se ele tivesse apenas vinte e cinco anos, e os dentes magníficos, brancos e intactos, davam-lhe inexprimível encanto ao sorriso.

Percebendo, porém, pela frieza imperceptível da conversação, que os dois amigos morriam por se verem sós, os hóspedes do Conde principiaram a preparar, com a arte e a polidez de outrora, as suas despedidas, grave problema para as pessoas da alta sociedade, quando ainda havia pessoas da alta sociedade; mas nesse momento, ouviu-se no pátio, um ladrido de cães, e várias pessoas disseram ao mesmo tempo:

— Ah! é Raul que volta.

Ao nome de Raul, Athos olhou para d’Artagnan e pareceu espiar-lhe no rosto a curiosidade que esse nome pudesse despertar. Mas d'Artagnan ainda não compreendia coisa alguma, pois mal tornara em si do deslumbramento que sentira. Foi, portanto, quase màquinalmente que se voltou, quando um belo rapaz de quinze anos, vestido simplesmente, porém com perfeito bom gosto, entrou no salão tirando graciosamente o feltro ornado de longas plumas vermelhas.

Mas o novo personagem, de. todo inesperado, impressionou-o. Um mundo de idéias novas apresentou-se-lhe ao espírito, explicando-lhe cabalmente a mudança de Athos até então inexplicável para ele. Uma singular semelhança entre o fidalgo e o meninote esclareceu-lhe o mistério dessa vida regenerada. Esperou, olhos e ouvidos fitos.

— Já voltaste, Raul? — perguntou o Conde.

— Sim, senhor — respondeu com respeito o rapaz — e fiz o que me mandastes fazer.

— Mas que tens, Raul? — tornou Athos, solícito; — estás pálido e pareces agitado.

— É que acaba de suceder, senhor — replicou o rapaz — um desastre à nossa pequena vizinha.

— À Srta. de La Vallière? — acudiu vivamente Athos.

— Que foi? — perguntaram algumas vozes.

— Ela passeava com Marcelina, a aia, na tapada onde os lenhadores esquadriam as árvores, quando, ao passar a cavalo, dei com ela e parei. Ela também me viu e, querendo saltar do alto de uma pilha de lenha em que subira, torceu o pé e não pôde erguer-se. Parece-me que machucou o tornozelo.

— Oh! meu Deus! — disse Athos; — e a Sra. de Saint-Remy, sua mãe, já foi avisada?

— Não, senhor, a Sra. de Saint-Remy está em Blois, com a Sra. Duquesa de Orléans. Receei que os primeiros socorros fossem mal aplicados e vim correndo para cá, a fim de pedir-vos conselho.

— Manda depressa alguém a Blois, Raul, ou melhor, toma o meu cavalo e vai.

Raul inclinou-se.

— Mas onde está Luísa? — continuou o Conde.

— Eu trouxe-a para cá, senhor, e deixei-a em casa da mulher de Charlot, que, enquanto espera, lhe pôs o pé na água gelada.

Depois dessa explicação, que lhes fornecera pretexto para se levantarem, os hóspedes de Athos despediram-se; só o velho Duque de Barbe, que procedia com familiaridade em razão de uma amizade de vinte anos com a casa de La Vallière, foi ver a pequena Luísa, que chorava, e que, avistando Raul, enxugou os lindos olhos e imediatamente sorriu.

Propôs o Duque levar Luísa a Blois em sua carruagem.

— Tendes razão, senhor — disse Athos — ela, assim, chegará mais depressa ao pé da mãe; quanto a ti, Raul, estou certo de que procedeste estabanadamente e também tens culpa.

— Oh! não, não, senhor, juro! — exclamou a menina, ao passo que o rapaz empalidecera ao pensar que pudera ter sido a causa do acidente...

— Eu vos asseguro... — murmurou Raul.

— Nem por isso deixarás de ir a Blois — continuou o Conde com bondade — e apresentarás as tuas e as minhas desculpas à Sra. de Saint-Remy. Depois voltarás.

Volveram as cores ao rosto do rapaz; depois de haver consultado com os olhos o Conde, retomou nos braços já vigorosos a menina, cuja linda cabecinha, dolorida e sorridente ao mesmo tempo, repousava em seu ombro, e instalou-a docemente na carruagem; em seguida, montando com a elegância e a agilidade de consumado cavaleiro, cumprimentou Athos e d'Artagnan, e afastou-se, rápido, cavalgando junto da portinhola do carro, em cujo interior permaneceram constantemente cravados os seus olhos (20).

(20) A Sra. de Saint-Remy fora casada, em primeiras núpcias, com Laurent de La Baume Le Blanc de La Vallière, Barão de La Maisonfort, e desse primeiro casamento tivera dois filhos e uma filha, Luísa Francisca, que mais tarde seria amante de Luís XIV. Na ocasião em que se desenrola esta história, Laurent de La Baume já falecera e a viúva convolara segundas núpcias com João de Courtavel, Marquês do Saint-Remy, mordomo-mor de Monsieur. Os juvenis amores de Bragelonne e Luísa de La Vallière são históricos. (N. do T.)


 O CASTELO DE BRAGELONNE

 

D'Artagnan permanecera, durante toda a cena, com os olhos arregalados, boquiaberto; encontrara as coisas tão em desacordo com as suas previsões que o espanto parecia estupeficá-lo.

Athos segurou-lhe o braço e levou-o ao jardim.

— Enquanto nos preparam o jantar — disse, sorrindo — gostarias, não é verdade meu amigo, de esclarecer um pouco todo esse mistério que te faz pensar?

— É verdade, Sr. Conde — respondeu d'Artagnan, sentindo, a pouco e pouco, que Athos retomava sobre ele, como fidalgo, a imensa superioridade que sempre tivera.

Athos considerou-o com o seu sorriso meigo.

— E primeiro que tudo, meu caro d'Artagnan, não existe aqui nenhum Sr. Conde. Se te chamei Cavaleiro foi para apresentar-te aos meus hóspedes, a fim de que soubessem quem és; mas, para ti, d'Artagnan, espero continuar sendo sempre Athos, teu companheiro, teu amigo. Preferes, acaso, o cerimonial porque já gostas menos de mim?

— Oh! Deus me livre! — replicou o gascão, com um desses ímpetos joviais da mocidade que tão raro encontramos na idade madura.

— Voltemos, então, aos nossos hábitos e, para começar, sejamos francos. Tudo aqui te espanta?

— Profundamente.

— Mas o que mais do que tudo te espanta — continuou Athos, sorrindo — sou eu. Confessa-o.

— Confesso que sim.

— Ainda estou moço, não é verdade, apesar dos meus quarenta e nove anos; ainda estou reconhecível?

— Pelo contrário — disse d'Artagnan, pronto para ultrapassar a recomendação de franqueza que lhe fizera o amigo — reconhecível é que já não és.

— Ah! compreendo — disse Athos, ruborizando-se levemente — tudo tem um fim, d'Artagnan, a loucura como o resto.

— Além disso, parece que se operou grande mudança em tua fortuna. Estás admiràvelmente instalado; esta casa é tua, não é?

— Sim; foi essa propriedade, meu amigo que herdei, como te disse ao deixar o serviço.

— Tens parque, cavalos, equipagens.

Athos sorriu.

— O parque tem vinte geiras, meu amigo — disse ele; — vinte geiras nas quais se incluem as hortas e onde vive a minha gente. Os meus cavalos são em número de dois; está visto que não conto o rabão do meu criado. As minhas equipagens reduzem-se a quatro cães de caça, dois galgos e um cão de guarda. E, além disso, todo esse luxo de matilha não é para mim — ajuntou Athos, sorrindo.

— Sim, compreendo — volveu d'Artagnan — é para o rapaz, para Raul.

E d'Artagnan olhou para o Conde com um sorriso involuntário.

— Adivinhaste, meu amigo! — disse Athos.

— E esse rapaz é teu comensal, teu afilhado, teu parente, talvez? Ah! como estás mudado, meu caro!

— Esse rapaz — respondeu, calmo, Athos — esse rapaz, d'Artagnan, é um órfão que a mãe deixara em casa de um pobre cura de aldeia; eu o alimentei e eduquei.

— E ele te quer bem?

— Creio que me quer como se eu fosse seu pai.

— E é muito grato, naturalmente?

— Oh! quanto à gratidão — retrucou o fidalgo — essa é recíproca, pois eu lhe devo tanto quanto ele me deve; e não o digo a ele, mas a ti, d'Artagnan: sou eu ainda quem lhe fica a dever.

— Como assim? — perguntou o mosqueteiro, espantado.

— Oh, meu Deus, pois se foi ele a causa da mudança que vês! Eu ia-me acabando como uma pobre árvore solitária, que não tem o que a segure à terra, e só um afeto profundo poderia fazer-me deitar de novo raízes na vida. Uma amante? Já me sentia demasiado velho. Amigos? Já não estavas aqui. Pois bem, esse menino fez-me reencontrar tudo o que eu havia perdido; eu que já não tinha coragem para viver por mim, vivi por ele. As lições valem muito para uma criança, mas o exemplo vale mais. Dei-lhe o exemplo, d'Artagnan. Os vícios que tinha, corrigi-os; as virtudes que não tinha, fingi tê-las. Por isso, sem receio de enganar-me, posso afirmar que Raul se destina a ser um fidalgo tão completo quanto é possível havê-los nestes desgraçados tempos que correm.

D'Artagnan considerava Athos com admiração crescente. Passeavam debaixo de uma alameda umbrosa e fresca, através da qual se coavam obliquamente alguns raios do sol poente. Um desses raios dourados iluminava o rosto do Conde, e os seus olhos pareciam refletir o brilho quente e calmo da tarde.

A imagem de Milady apresentou-se ao espírito de d’Artagnan.

— És feliz? — perguntou ao amigo.

O olhar vigilante de Athos penetrou até aos mais íntimos recessos do coração de d'Artagnan e pareceu ler-lhe o pensamento.

— Tão feliz quanto pode ser na terra uma criatura de Deus. Mas termina o teu pensamento, d'Artagnan, pois não mo disseste todo.

— És terrível, Athos, e não se pode esconder-te coisa alguma, disse d'Artagnan. — Pois bem, é verdade, eu queria perguntar-te se não tens, às vezes, movimentos inesperados de terror que parecem...

— Remorsos? — continuou Athos. — Termino a tua frase, meu amigo. Sim e não; não tenho remorsos porque entendo que aquela mulher merecia a pena que sofreu; não tenho remorsos porque, se a tivéssemos deixado viver, ela teria, sem dúvida, continuado a sua obra de destruição; mas isso não quer dizer, meu amigo, que eu esteja convencido de que tínhamos o direito de fazer o que fizemos. Pode ser que todo sangue derramado exija uma expiação. Ela teve a sua; é possível que, por nosso turno, ainda nos reste cumprir a nossa.

— Tenho, às vezes, pensado a mesma coisa, Athos — disse d'Artagnan.

— Não tinha um filho essa mulher?

— Tinha.

— Ouviste falar nele alguma vez?

— Nunca.

— Deve ter vinte e três anos — murmurou o Conde; — penso freqüentemente nesse rapaz, d'Artagnan.

— É estranho! E eu que o havia esquecido! Athos sorriu melancòlicamente.

— E Lorde de Winter? Sabes o que é feito dele?

— Sei que era muito querido do rei Carlos I.

— Terá tido a sorte do soberano, que é má neste momento. Aí está, d'Artagnan — continuou Athos — isso confirma o que eu te disse há pouco. Ele deixou correr o sangue de Straffort; sangue chama sangue. E a rainha?

— Que rainha?

— A Sra. Henriqueta de Inglaterra, filha de Henrique IV. — Está no Louvre, como sabes.

— Onde tudo lhe falta, não é verdade? Durante a época de frio mais rigoroso neste inverno, a filha, doente, foi obrigada, segundo me disseram, por falta de lenha, a ficar na cama. Compreendes uma coisa dessas? — ajuntou Athos, dando de ombros. — A filha de Henrique IV tremendo de frio à míngua de um cavaco! Por que não terá vindo pedir hospitalidade ao primeiro dentre nós que encontrasse, em vez de pedi-la ao Mazarino? Não lhe teria faltado nada.

— Então a conheces?

— Não, mas minha mãe conheceu-a quando criança. Eu nunca te disse que minha mãe foi dama de honra de Maria de Médicis?

— Nunca. Tu não dizes essas coisas, Athos.

— Digo, sim, como não! — tornou o fidalgo; — mas é preciso que se apresente a ocasião.

— Porthos não a esperaria com tanta paciência — observou d'Artagnan com um sorriso.

— Cada qual tem a sua natureza, meu caro d'Artagnan. Porthos, apesar de um pouco de vaidade, possui qualidades excelentes. Tornaste a vê-lo?

— Faz cinco dias que o deixei — respondeu d'Artagnan. E referiu, com a veia do seu humor gascão, todas as magnificências de Porthos em seu castelo de Pierrefonds; e enquanto ironizava o amigo, não deixou de lançar umas duas ou três flechas endereçadas ao excelente Sr. Mouston.

— Admira-me — replicou Athos sorrindo dessa alegria que lhe recordava os bons tempos — admira-me que tenhamos formado outrora, ao acaso, uma sociedade de homens ainda tão bem ligados entre si, apesar de vinte anos de separação. A amizade deita raízes bem profundas nos corações honrados, d'Artagnan; acredite, só os maus negam a amizade, porque não a compreendem. E Aramis?

— Também o vi — disse d'Artagnan — mas pareceu-me frio.

— Ah! viste Aramis — tornou Athos considerando d’Artagnan com o olhar investigador. — Mas, então, é uma verdadeira peregrinação que fazes, meu amigo, ao templo da Amizade, como diriam os poetas.

— De fato — concordou d'Artagnan, embaraçado.

— Sabes que Aramis — continuou Athos — é naturalmente frio; além disso, vive metido em intrigas de mulheres.

— Pois acho que anda envolvido agora numa complicadíssima.

Athos não respondeu.

— Ele não é curioso — pensou d’Artagnan.

Não somente Athos não respondeu, como também mudou de assunto.

— Como vês — declarou, mostrando a d’Artagnan que estavam de novo perto do castelo — numa hora de passeio quase demos a volta dos meus domínios.

— Tudo aqui é encantador e, principalmente, tudo res-cende a fidalguia — respondeu d’Artagnan.

Nesse momento se ouviu o estrupido de um cavalo.

— É Raul que volta — acudiu Athos. — Vamos saber notícias da pobrezinha.

Com efeito, o rapaz transpôs o portão e entrou no pátio, coberto de poeira; e, depois de saltar do cavalo, que entregou nas mãos de uma espécie de palafreneiro, foi cumprimentar o Conde e d’Artagnan.

— Este senhor — disse Athos, pondo a mão no ombro de d’Artagnan — este senhor é o Cavaleiro d’Artagnan, de que tantas vezes te falei, Raul.

— Senhor — exclamou o rapaz, cumprimentando de novo e mais profundamente — o Sr. Conde tem pronunciado o vosso nome diante de mim como exemplo todas as vezes que precisa citar um fidalgo intrépido e generoso.

O cumprimentozinho não deixou de comover d’Artagnan, que sentiu o coração docemente perturbado. Estendeu a mão a Raul, dizendo:

— Meu jovem amigo, todos os elogios que se fizeram de mim devem recair no Sr. Conde, que aqui está: pois a ele devo em tudo a minha educação, e não é culpa sua se o aluno aproveitou tão mal as lições. Mas vós o compensareis, tenho a certeza. Gosto dos vossos modos, Raul, e a vossa cortesia me tocou.

Athos ficou mais contente do que seria possível dizer: olhou para d’Artagnan com reconhecimento e dirigiu a Raul um desses sorrisos estranhos de que se ufanam as crianças quando os surpreendem.

— E agora — cuidou consigo só d’Artagnan, ao qual não escapara o jogo mudo de fisionomias — tenho a certeza.

— E então? — volveu Athos. — Espero que o acidente não tenha tido conseqüências.

— Ainda não se sabe, senhor, e o médico não pôde dizer nada por causa da inflamação; receia, contudo, que haja algum nervo atingido.

Nesse momento um rapazinho, meio camponês, meio lacaio, veio avisar que o jantar estava na mesa.

Athos conduziu o hóspede a uma sala de jantar muito simples, mas cujas janelas se abriam, de um lado, para o jardim e, do outro, para uma estufa, onde vicejavam lindíssimas flores.

D'Artagnan examinou o serviço: a baixela era magnífica; via-se que eram pratas de família. Num aparador havia um jarro soberbo de prata; d’Artagnan parou para considerá-lo.

— Que trabalho primoroso!

— Sim — acudiu Athos — é uma obra-prima de um grande artista florentino chamado Benvenuto Cellini.

— E que batalha representa?

— A de Marignan. É o momento em que um dos meus antepassados entrega a espada a Francisco I, que acaba de quebrar a sua. Nessa ocasião, Enguerrand de La Fere, meu avô, foi feito cavaleiro de São Miguel. Além disso, o Rei, quinze anos depois, lembrando-se de haver combatido três horas ainda com a espada de seu amigo Enguerrand sem quebrá-la, fez-lhe presente desse jarro e de uma espada que viste talvez antigamente em meu quarto, e que também é um primor de ourivesaria. Era o tempo dos gigantes — acrescentou o Conde. — Somos anões ao lado desses homens. Sentemo-nos, d'Artagnan, e jantemos. A propósito — ordenou ao lacaiozinho que acabava de servir a sopa — chama Charlot.

Saiu o menino e, volvido um instante, o servidor a que se haviam dirigido os dois viajantes entrou.

— Meu caro Charlot — disse-lhe Athos — recomendo-te particularmente, durante todo o tempo que ficar aqui, Planchet, o lacaio do Sr. d'Artagnan. Ele aprecia o bom vinho; tens a chave da adega. Ele dormiu muito tempo no chão duro e deve gostar de uma boa cama; peço-te que cuides disso também.

Charlot inclinou-se e saiu.

— Charlot é bom homem — observou o Conde. — Faz dezoito anos que me serve.

— Pensas em tudo — disse d'Artagnan — eu te agradeço por Planchet, meu caro Athos.

O rapaz escancarou os olhos ao ouvir esse nome, e olhou admirado para saber se era realmente ao Conde que d’Artagnan se dirigia.

— Esse nome parece-te esquisito, não é verdade, Raul? — perguntou Athos, sorrindo. — Era o meu nome de guerra, quando o Sr. d'Artagnan, dois amigos corajosos e eu fazíamos proezas no cerco da Rochela, sob as ordens do finado Cardeal e do Sr. de Bassompierre, que também já morreu. Este senhor digna-se tratar-se ainda por essa alcunha amiga e, cada vez que a ouço, alegra-se o meu coração.

— Esse nome era célebre — acudiu d'Artagnan — e teve, um dia, as honras do triunfo.

— Que quereis dizer, senhor? — perguntou Raul com a sua curiosidade juvenil.

— Palavra que não sei — declarou o Conde.

— Tu te esqueceste do bastião de Saint-Gervais, Athos, e do tal guardanapo, convertido em bandeira por três balas. Tenho melhor memória do que tu; lembro-me de tudo e vou contar-vos a história, rapaz.

E referiu a Raul o episódio do bastião, como Athos lhe contara o do seu avô.

Ouvindo o relato, teve o rapaz a impressão de ver desenrolar-se um desses feitos de arma narrados pelo Tasso ou pelo Ariosto, e que pertencem aos prestigiosos tempos da cavalaria.

— Mas o que d'Artagnan não te diz, Raul — tornou por sua vez Athos — é que ele era uma das melhores espadas de seu tempo: tornozelos de ferro, pulso de aço, golpe de vista seguro e olhar ardente, eis o que oferecia ao adversário: tinha dezoito anos, três mais do que tu, Raul, quando o vi às voltas, pela primeira vez, com homens experimentados.

— E o Sr. d’Artagnan venceu? — perguntou o rapaz, cujos olhos brilhavam durante a conversação e pareciam implorar pormenores.t

— Creio que matei um! — disse d’Artagnan, interrogando Athos com o olhar. — Quanto ao outro, desarmei-o ou feri-o, já não me lembra.

— Sim, tu o feriste. Eras um formidável atleta!

— Pois ainda não perdi muita coisa — tornou d'Artagnan com o seu risinho gascão satisfeito consigo mesmo — e ainda ultimamente...

Um olhar de Athos fechou-lhe a boca.

— Quero que saibas, Raul — acudiu o Conde — tu, que te imaginas uma boa espada e cuja vaidade poderia sofrer um dia cruel decepção; quero que saibas quanto é perigoso o homem que une o sangue frio à agilidade, pois nunca poderei oferecer-te exemplo mais frisante: pede amanhã ao sr.d'Artagnan, se ele não estiver muito cansado, que te dê uma lição.

— Ora, meu caro Athos, és, contudo, um bom mestre, principalmente no que toca às qualidades que gabaste em mim. Ainda hoje Planchet me falava do famoso duelo da tapada dos Carmelitas, com Lorde de Winter e seus companheiros. Ah! jovem — continuou d'Artagnan — deve de estar por aí, num lugar qualquer, a espada a que muitas vezes chamei a primeira do reino.

— Creio que estraguei a mão com esse menino — volveu o Conde de La Fere.

— Há mãos que nunca se estragam, meu caro Athos — disse d'Artagnan — mas que estragam muitíssimo os outros.

O rapaz teria desejado prolongar a conversação pela noite a dentro; mas Athos ponderou-lhe que o hóspede devia estar cansado e precisava de repouso. D'Artagnan, polido, negou-o, mas o Conde insistiu em que ele tomasse posse de seu quarto. Raul conduziu-o até lá; e, receando que se demorasse muito tempo com d'Artagnan para fazê-lo contar todas as façanhas de sua mocidade, foi Athos procurá-lo pessoalmente pouco depois, e encerrou a bela noitada com um aperto de mão amigável e votos de boas-noites ao mosqueteiro.


 A DIPLOMACIA DE ATHOS

 

D'Artagnan deitara-se menos para dormir do que para ficar só e pensar em tudo o que vira e ouvira aquela noite.

Como possuísse um bom natural e tivesse tido, a princípio, por Athos uma inclinação instintiva, que se acabara convertendo em sincera amizade, encantou-se ao achar um homem brilhante de inteligência e de vigor em lugar do bêbado embrutecido que esperara encontrar cozinhando a bebedeira num monturo; aceitou, sem muito recalcitrar, a superioridade constante do Conde e, em vez de sentir a inveja e a decepção que teriam contristado uma natureza menos generosa, sentiu apenas uma alegria sincera que o levou a conceber as mais favoráveis esperanças para a sua negociação.

Parecia-lhe, porém, que não encontrara Athos franco e claro em todos os pontos. Quem era aquele rapaz, que dizia ter adotado e que tinha com ele tão grande parecença? Que eram esse regresso à vida social e a exagerada sobriedade que observara à mesa? Até uma coisa aparentemente insignificante, a ausência de Grimaud, de que Athos outrora não podia separar-se e cujo nome nem sequer fora pronunciado a despeito das oportunidades que ele provocara, o inquietava. Por conseguinte, ou já não possuía a confiança do amigo, ou Athos estava ligado a alguma cadeia invisível e antecipadamente prevenido contra a sua visita.

Não pôde menos de pensar em Rochefort e no que este lhe dissera na igreja de Notre-Dame. Teria Rochefort precedido d'Artagnan em casa do Conde de La Fere?

D'Artagnan não tinha muito tempo para perder em longas lucubrações e, por isso mesmo, decidiu forçar uma explicação já na manhã seguinte. A exiguidade dos bens de Athos, tão habilmente disfarçada, indicava o desejo de aparecer e traía uns restos de ambição fácil de ser despertada. O vigor de espírito e a clareza de idéias do Conde faziam dele um homem mais facilmente impressionável do que outro qualquer. Ele se integraria nos planos do Ministro com tanto mais ardor quanto a sua atividade natural seria acentuada pela necessidade.

Esses pensamentos conservavam d'Artagnan acordado apesar do cansaço; engenhava planos de ataque e, embora soubesse que Athos era um tremendo adversário, decidiu encetá-lo no dia seguinte depois do almoço.

Mas refletiu também que, em terreno tão novo, lhe seria preciso mover-se com prudência, estudar durante vários dias as relações de Athos, seguir-lhe os hábitos recentes e anotá-los, tentar arrancar ao ingênuo rapaz, ou esgrimindo com ele, ou correndo com ele alguma caça, as informações intermediárias que lhe faltavam para unir o Athos de outrora ao Athos de hoje; e isso devia ser fácil pois o preceptor, com certeza, se identificara com o coração e o espírito do aluno. Mas o próprio d'Artagnan, dotado de grande finura, compreendeu imediatamente as oportunidades que oferecia contra si caso uma indiscrição ou uma inabilidade deixassem a descoberto as suas manobras ao olhar treinado do Conde.

Além disso, cumpre dizê-lo, embora não escrupuleasse de empregar a astúcia contra a finura de Aramis ou a vaidade de Porthos, corria-se de fingir diante de Athos, o homem franco, o coração leal. Parecia-lhe que, se o reconhecessem como seu mestre em diplomacia, Aramis e Porthos o estimariam ainda mais, ao passo que Athos o estimaria muito menos.

— Ah! por que Grimaud, o silencioso Grimaud, não está aqui? — perguntava d'Artagnan aos seus botões; — há muitas coisas em seu silêncio que eu teria compreendido! Grimaud tinha um silêncio tão eloqüente!

Entretanto, todos os rumores se haviam dissipado sucessivamente na casa; d'Artagnan ouvira fecharem-se as portas e as janelas; em seguida, depois de se haverem respondido uns aos outros nos arredores, os cães também tinham emudecido; por fim, um rouxinol, perdido em algum maciço de árvores, emitira durante algum tempo no meio da noite as suas gamas harmoniosas e adormecera; só se ouvia em todo o castelo um ruído de passos igual e monótono, debaixo do seu quarto; imaginou que fosse o quarto de Athos.

— Ele passeia e reflete — pensou d'Artagnan — mas em quê? Impossível saber. Pode-se adivinhar tudo, menos isso.

Finalmente o Conde, com certeza, se deitou, pois esse último ruído silenciou também.

Unidos, o silêncio e a fadiga venceram d'Artagnan; ele, por sua vez, fechou os olhos e quase imediatamente adormeceu.

D'Artagnan não era dorminhoco. Assim que a aurora lhe coloriu as cortinas, pulou da cama e abriu as janelas. Pareceu-lhe ver então, através da gelosia, alguém que rondava pelo pátio procurando não fazer barulho. Segundo o seu hábito de não deixar passar nada sem verificar ao certo o que era, pôs-se a espreitar, atento, sem o menor ruído, e reconheceu o gibão encarnado e os cabelos castanhos de Raul.

O rapaz, pois era ele mesmo, abriu a porta da cocheira, tirou o cavalo baio que já montara na véspera, arreou-o com a rapidez e a destreza com que o teria feito o mais hábil escudeiro, fez sair o animal pela alameda direita da horta, abriu uma portinhola lateral que dava para um atalho, puxou o cavalo para fora, e logo, por cima da crista do muro, d’Artagnan viu-o passar como uma flecha, curvado sob os galhos pendentes e floridos dos choupos e acácias.

D'Artagnan observara na véspera que o atalho devia levar a Blois.

— Eh, eh! — disse o gascão — eis aí um maroto que já faz das suas e não me parece compartir do ódio de Athos contra o belo sexo: não vai caçar, pois não leva armas nem cães; não vai a recados, porque se esconde. De quem se esconderá?... de mim ou do pai?... pois tenho a certeza de que o Conde é pai dele... Por Deus que hei de sabê-lo, pois falarei francamente a Athos sobre isso.

O dia já raiara; todos os ruídos que d'Artagnan ouvira dissiparem-se sucessivamente na véspera principiavam a despertar, um depois do outro: o pássaro nos ramos, o cachorro na cocheira, os carneiros nos campos; os próprios barcos surtos no Loire pareciam animar-se, apartando-se da margem e vogando ao sabor da correnteza. D'Artagnan assim ficou à janela para não acordar ninguém e, quando ouviu que se abriam as portas e janelas do castelo, deu o último arranjo ao cabelo, torceu pela derradeira vez o bigode, escovou, como de ordinário, as abas do chapéu com a manga do gibão, e desceu. Mal transpusera o último degrau da escada quando viu Athos inclinado sobre a terra na posição de um homem procurando um escudo na areia.

— Bom-dia, caro hospedeiro — disse d'Artagnan.

— Bom-dia, caro amigo. Que tal a noite?

— Excelente, Athos, como a tua cama, como o teu jantar de ontem que devia levar-me ao sono, como a tua acolhida quando tornaste a ver-me. Mas que examinas assim com tamanha atenção? Viraste, acaso, amador de tulipas?

— Meu querido amigo, não devias, por isso, caçoar de mim. No campo, os gostos mudam muito e a gente acaba

querendo bem, sem o perceber, a todas essas belas coisas que o olhar de Deus faz sair do fundo da terra e que tanto se desprezam nas cidades. Eu estava examinando apenas uns lírios que tinha plantado perto deste tanque e que foram machucados hoje cedo. Esses jardineiros são as criaturas mais desastradas do mundo. Ao puxarem o cavalo depois de trazê-lo aqui para beber, tê-lo-ão deixado pisar no canteiro. D'Artagnan principiou a sorrir.

— Ah! — disse ele — acreditas nisso?

E conduziu o amigo ao longo da alameda, onde se viam impressos muitos vestígios de passos iguais àquele que esmagara os lírios.

— Parece-me que são idênticos; vê, Athos — disse com indiferença.

— É mesmo! Passos recentes!

— Bem recentes — repetiu d'Artagnan.

— Mas quem saiu por aqui hoje cedo? — perguntou Athos, inquieto. — Terá fugido algum cavalo da cocheira?

— Não é provável — respondeu d'Artagnan — pois os passos são muito iguais e bem marcados.

— Onde está Raul? — bradou o Conde — e por que não o vi ainda?

— Caluda! — disse d'Artagnan, levando, com um sorriso, um dedo aos lábios.

— Mas que há?

D'Artagnan contou o que vira, espreitando a fisionomia do hospedeiro.

— Ah! agora adivinho tudo — volveu Athos com um leve movimento de ombros: — o pobre rapaz foi a Blois.

— Fazer o quê?

— Oh, senhor! saber notícias da menina de La Vallière. Aquela que ontem torceu o pé.

— Será? — perguntou d'Artagnan, incrédulo.

— Com toda certeza — replicou Athos. — Não notaste, então, que Raul está apaixonado?

— Ora! E por quem? Por aquela menina de sete anos?

— Meu caro, na idade de Raul temos o coração tão cheio que é preciso derramá-lo sobre alguma coisa, sonho ou realidade. Pois bem! o amor dele é metade uma coisa, metade outra.

— Isso é brincadeira! Uma menininha!

— Mas, então, não observaste? É a mais linda criaturinha que existe no mundo: cabelos de um louro de prata e olhos azuis já maliciosos e lânguidos a um tempo.

— E que dizes tu desse amor?

— No digo nada; rio-me e caçôo de Raul; mas as primeiras necessidades do coração são tão imperiosas, as efusões da melancolia amorosa nos jovens tão doces e amargas ao mesmo tempo, que se revestem muita vez de todos os caracteres da paixão. Eu, por exemplo, lembro-me de que na idade de Raul me apaixonei por uma estátua grega que o bom Rei Henrique IV dera a meu pai, e imaginei enlouquecer de dor quando me disseram que a história de Pigmalião era apenas uma fábula.

— É a ociosidade. Não lhe dás suficiente ocupação e Raul, por seu lado, procura o que fazer.

— Exatamente. Já pensei em afastá-lo daqui.

— E farás bem.

— Sem dúvida; mas isso será partir-lhe o coração, e ele sofrerá tanto como se se tratasse de um amor verdadeiro. Faz três ou quatro anos, e nessa ocasião ele próprio era uma criança, que se habituou a enfeitar e admirar o idolozinho, que acabará um dia adorando se continuar aqui. Essas crianças sonham juntas o dia inteiro e falam de mil coisas sérias como verdadeiros namorados de vinte anos. Em suma, o caso foi objeto de riso, por muito tempo, para os pais da pequena de La Vallière, mas creio que já começaram a franzir o cenho.

— Criancices! O certo, porém, é que Raul precisa distrair-se; afasta-o depressa daqui; do contrário, nunca farás dele um homem.

— Creio — disse Athos — que vou mandá-lo para Paris.

— Ah! — exclamou d'Artagnan.

E cuidou que era chegado o momento das hostilidades.

— Se quiseres — disse ele — poderemos talhar a fortuna do rapaz.

— Ah! — exclamou, por sua vez, Athos.

— Quero até consultar-te sobre uma idéia que me ocorreu.

— Fala.

— Não julgas chegado o tempo de voltarmos ao serviço?

— Mas não estás sempre em serviço, d'Artagnan?

— Quero dizer: ao serviço ativo. A vida de outrora já não tem nada que te seduza e, se te esperassem vantagens reais, não gostarias de repetir em minha companhia e na do nosso amigo Porthos as façanhas da mocidade?

— Mas, então, é uma proposta que me fazes!

— Clara e franca.

— Para entrar de novo em campanha?

— Sim.

— Por quem e contra quem? — perguntou Athos, de repente, fitando no gascão os olhos claros e amigos.

— Diabo! És impaciente!

— E sobretudo preciso. Presta atenção, d'Artagnan. Só há uma pessoa, ou melhor, uma causa a que um homem como eu pode ser útil: a do Rei.

— Exatamente — acudiu o mosqueteiro.

— Sim, mas expliquemo-nos — tornou, sério, Athos: — se pela causa do Rei entendes a do Sr. de Mazarino, já deixamos de compreender-nos.

— Não digo precisamente isso — respondeu o gascão, encabulado.

— Vejamos, d'Artagnan — disse Athos — deixemo-nos de astúcias: a tua hesitação, os teus rodeios, dizem-me de que parte vens. Essa causa, de fato, ninguém se atreve a confessar em voz alta; e quando alguém se põe a aliciar adeptos para ela, fá-lo de orelha baixa e voz embaraçada.

— Ah! meu caro Athos! — exclamou d'Artagnan.

— E sabes muito bem — tornou Athos — que não falo por ti, que és a pérola dos homens corajosos e intrépidos, falo desse italiano mesquinho e intrigante, desse lacaio que tenta enfiar na cabeça uma coroa roubada debaixo de um travesseiro, desse salafrário que chama ao seu partido o partido do Rei e tem o desplante de pôr na cadeia príncipes reais, pois não se atreve a matá-los, como o fazia o nosso Cardeal, o grande Cardeal; um avarento que pesa os escudos de ouro e guarda os falsos, com medo de perdê-los no dia seguinte, embora furte no jogo; um patife que maltrata a Rainha, segundo dizem; e que, daqui a três meses, nos meterá numa guerra civil para conservar as suas pensões. É esse o amo que me propões, d'Artagnan? Muito obrigado.

— Estás mais inflamado do que antes, credo! — exclamou d'Artagnan — e os anos te esquentaram o sangue em vez de esfriá-lo. Quem te diz que é esse o meu amo e que pretendo impor-to?

— "Safa!" pensara o gascão, "não revelemos os nossos segredos a um homem tão mal disposto."

— Mas, então, meu caro amigo — volveu Athos — que propostas são essas?

— Ora, meu Deus! nada mais simples: vives em tuas propriedades e pareces feliz na tua áurea mediocridade. Porthos possui cinqüenta ou sessenta mil libras de renda; Aramis tem sempre quinze duquesas que entre si disputam o padre como outrora disputavam o mosqueteiro; é ainda um mimalho da sorte: mas eu, que faço eu neste mundo? Há vinte anos que carrego a couraça e o gibão, agarrado a uma patente mesquinha, sem progredir, sem recuar, sem viver. Numa palavra, estou morto! Pois bem, quando se trata para mim de ressuscitar um pouco, todos vós me dizeis: É um lacaio! é um salafrário! é um patife! um mau amo! Com os diabos! Estou perfeitamente de acordo, mas encontrai-me outro melhor ou dai-me, então, algumas rendas!

Athos refletiu três segundos e, durante esses três segundos, compreendeu a astúcia de d'Artagnan, que, tendo avançado muito, agora recuava, para esconder o jogo. Viu claramente que as propostas que lhe acabavam de ser feitas eram reais e teriam sido explanadas com todos os pormenores por pouco que lhes tivesse prestado ouvidos.

— Bem! — disse entre si — d'Artagnan está com Mazarino.

A partir desse momento vigiou-se com extrema prudência.

De seu lado, d'Artagnan principiou a jogar com cautela cada vez maior.

— Mas, afinal, tens alguma idéia? — inquiriu Athos.

— Naturalmente. Eu queria pedir conselho a todos vós e descobrir um meio de fazer alguma coisa, pois uns sem os outros seremos sempre incompletos.

— É verdade. Tu me falaste em Porthos; com que, então, o persuadiste a tentar fortuna? Mas se ele já a possui!

— Está visto que a possui; mas o homem é assim: sempre deseja alguma coisa.

— E que deseja Porthos?

— Ser barão.

— Ah! é verdade, eu tinha me esquecido — disse, rindo, o Conde.

— É verdade? — pensou d'Artagnan. — E onde terá ele ouvido isso? Manterá correspondência com Aramis? Ah! se eu o soubesse, saberia tudo.

A conversação terminou nesse ponto, pois Raul chegava. Athos quis repreendê-lo sem azedume; mas viu o rapaz tão triste, que não teve coragem e interrompeu-se para perguntar-lhe o que tinha.

— Estará pior a nossa vizinha? — perguntou d'Artagnan.

— Ah! senhor — tornou Raul quase sufocado pela dor — a queda foi grave e, se bem não haja deformidade aparente, o médico receia que ela manque a vida toda.

— Seria medonho! — acudiu Athos.

D'Artagnan tinha um gracejo engatilhado; vendo, porém, a parte tomada pelo Conde no caso, conteve-se.

— Ah! senhor, o que sobretudo me desespera — volveu Raul — é ter sido eu a causa do desastre.

— Tu, como, Raul? — perguntou Athos.

— Naturalmente! Não foi para vir ao meu encontro que ela pulou da pilha de lenha?

— Só te resta um recurso, meu caro Raul — sobreveio d'Artagnan: — casar com ela como expiação.

— Ah! senhor — disse Raul — gracejais com uma dor sincera: isso não se faz.

E o rapaz tinha necessidade de ficar só para chorar à vontade, recolheu ao quarto, de onde só saiu à hora do almoço.

O bom entendimento entre os dois amigos não fora, de maneira alguma, alterado pela escaramuça da manhã; por isso mesmo almoçaram com o melhor dos apetites, considerando, a trechos, o pobre Raul, que, com os olhos úmidos e o coração opresso, mal tocava na comida.

No fim do almoço chegaram duas cartas, que Athos leu com suma atenção, estremecendo várias vezes. D'Artagnan, que o via ler da extremidade oposta da mesa, e cuja vista era penetrante, jurou reconhecer, sem sombra de dúvida, a letrinha miúda de Aramis. Quanto à outra, era letra de mulher, longa e confusa.

— Vamos — disse d'Artagnan a Raul, vendo que Athos desejava ficar só, quer para responder às cartas, quer para pensar nelas; — vamos dar uma volta pela sala de armas, isso poderá distrair-te.

O rapaz olhou para Athos, que respondeu com um sinal de assentimento.

Passaram os dois a uma sala baixa, em que se viam pendurados floretes, máscaras, luvas, plastrões, e todos os acessórios de esgrima.

— E então? — perguntou o Conde chegando um quarto de hora depois.

— Já é a tua mão, meu caro Athos — disse d'Artagnan — e se ele tivesse o teu sangue frio eu só poderia fazer-lhe cumprimentos...

Quanto ao rapaz, sentia-se um tanto corrido. Por uma ou duas vezes que atingira d'Artagnan, no braço ou na coxa, este o tocara vinte vezes em pleno corpo.

Nesse momento entrou Charlot com uma carta urgentíssima para d'Artagnan, que um mensageiro acabara de trazer.

Foi a vez de Athos observar com o rabo dos olhos.

D'Artagnan leu a carta sem nenhuma comoção aparente e, depois de lê-la, com um leve meneio de cabeça:

— Vê, meu caro amigo — disse ele — o que é o serviço, e palavra que tens razão de não querer voltar a ele: o Sr. de Tréville está doente e a companhia não pode passar sem mim; de sorte que lá se vai a minha licença.

— Regressas a Paris? — perguntou Athos com viva-cidade.

— Regresso — respondeu d'Artagnan; — e tu, não vais também?

Athos corou um pouco e retrucou:

— Se eu for, terei muito prazer em ver-te.

— Olá, Planchet! — exclamou d'Artagnan da porta — partimos em dez minutos: dá aveia aos cavalos.

E, logo, voltando-se para o Conde:

— Tenho a impressão de que me falta aqui alguma coisa e sinto realmente deixar-te sem ter visto o bom Grimaud.

— Grimaud! — replicou Athos. — É verdade. Eu também me admirei de que não pedisses notícias dele. Emprestei-o a um amigo.

— Que lhe compreenderá os sinais? — perguntou d'Artagnan.

— Espero que sim — respondeu Athos. Abraçaram-se cordialmente. D'Artagnan apertou a mão de Raul, exigiu de Athos a promessa de visitá-los se fosse a Paris e de escrever-lhe se não fosse, e montou a cavalo. Planchet, sempre exato, já estava montado.

— Não queres vir comigo? — perguntou ele, rindo, a Raul. — Tenho de passar por Blois.

Raul voltou-se para Athos, que o reteve com um sinal imperceptível.

— Não, senhor — respondeu o rapaz. — Fico com o Sr. Conde.

— Nesse caso, adeus para os dois, meus bons amigos — disse d'Artagnan apertando-lhes a mão pela derradeira vez — e Deus vos guarde! como dizíamos cada vez que nos separávamos ao tempo do finado Cardeal.

Athos fez-lhe um sinal com a mão, Raul uma reverência, e d'Artagnan e Planchet partiram.

O Conde seguiu-os com os olhos, a mão apoiada no ombro do rapaz, quase tão alto quanto ele; mas, assim que desapareceram atrás do muro:

— Raul — disse o Conde — partiremos esta noite para Paris.

— Como! — tornou o rapaz, empalidecendo.

— Podes levar as minhas e as tuas despedidas à Sra. de Saint-Remy. Espero-te aqui às sete horas.

Inclinou-se o rapaz com uma expressão em que se mesclavam o pesar e o reconhecimento, e retirou-se para ir selar o cavalo.

Em quanto a d'Artagnan, assim que se viu longe das vistas dos amigos, tirou a carta do bolso e tornou a lê-la:

"Voltai imediatamente a Paris.

J. M."

— A carta é seca — murmurou — e se não tivesse pós-escrito eu talvez não a compreenderia; mas felizmente tem pós-escrito.

E leu o célebre pós-escrito, que o levara a perdoar a secura da carta:

P. S. — Passai pelo tesoureiro do Rei, em Blois: dizei-lhe o vosso nome e mostrai-lhe esta carta: recebereis duzentas pistolas."

— Decididamente — murmurou d'Artagnan — gosto desta prosa, e o Cardeal escreve melhor do que eu imaginava. Vamos, Planchet, vamos fazer uma visita ao Sr. Tesoureiro do Rei e depois partamos.

— Para Paris, senhor?

— Para Paris.

E seguiram a trote largo.


 O SR. DE BEAUFORT (21)

 

(21) Francisco de Vendôme, Duque de Beaufort, era filho de César, Duque de Vendôme, filho, por sua vez, de Henrique IV e Gabriela d'Estrées. Era um príncipe bem parecido, valente, enérgico e ambicioso. A essas qualidades, porém, opunham-se alguns defeitos assaz comprometedores: inteligência muito abaixo da mediana (Retz), ignorância surpreendente, jactância, presunção, puerilidade e violência. Daí as suas estranhas atitudes e, por vezes, os seus atos, que se diriam de um perigoso lunático. (N. do T.)

 

Eis o que acontecera e eis os sucessos que exigiam o regresso de d'Artagnan a Paris.

Uma noite em que Mazarino, como de costume, ia ter com a Rainha à hora em que todos se haviam recolhido, ao passar pela sala dos guardas, uma de cujas portas se abria para as suas antecâmaras, ouvir falar em voz alta na sala e, querendo saber o assunto que entretinha os soldados, aproximara-se pé ante pé, consoante os seus hábitos, empurrara a porta e, pela abertura, introduzira a cabeça. Discutiam os guardas.

— E eu te respondo — dizia um deles — que, se Coysel predisse isso, a coisa é tão certa como se já tivesse acontecido. Não o conheço, mas ouvi dizer que não é apenas astrólogo, mas é mágico também.

— Se é teu amigo, meu caro, cuidado! Assim lhe prestas um péssimo serviço.

— Por quê?

— Porque poderiam processá-lo.

— Ora! Já não se queimam feiticeiros hoje em dia.

— Não! Mas não me parece que faz muito tempo que o finado Cardeal mandou queimar Urbano Grandier. Sei do caso porque eu era guarda da fogueira e o vi passar.

— Meu caro, Urbano Grandier não era feiticeiro, era um sábio, o que é muito diferente. Urbano Grandier não previa o futuro. Conhecia o passado, o que, às vezes, é muito pior.

Mazarino abanou a cabeça em sinal de assentimento; mas, desejando conhecer a predição sobre a qual discutiam, não arredou pé do lugar.

Eu não te digo — volveu o guarda — que Coysel não seja feiticeiro, mas digo-te que, se divulgar antecipadamente a predição, fará que ela nunca se realize.

— Por quê?

— Naturalmente. Se nos batermos um contra o outro e eu te disser: "Vou dar-te um golpe direto ou um golpe de segunda," apararas muito naturalmente. Pois bem! Se Coysel disser em voz alta, para ser ouvido do Cardeal: "Antes de tal dia tal prisioneiro fugirá," é evidente que o Cardeal tomará tantas precauções que o prisioneiro não poderá fugir.

— Oh! senhor — sobreveio um terceiro, que parecia dormir, deitado num banco, mas que, apesar do sono aparente, não perdia uma palavra da conversa — acreditas que os homens possam escapar ao seu destino? Se estiver escrito lá em cima que o Duque de Beaufort há de fugir, o Sr. Duque de Beaufort fugirá, e serão inúteis todas as precauções do Cardeal.

Mazarino estremeceu. Era italiano, isto é, supersticioso; adiantou-se rapidamente para o meio dos guardas, que se calaram.

— Que dizíeis, então, senhores? — perguntou com os seus modos carinhosos. — Que o Sr. de Beaufort se evadiu? Foi isso?

— Não, Monsenhor — tornou o soldado, incrédulo; — por enquanto ainda não. Dizem apenas que deverá evadir-se.

— E quem diz isso?

— Vamos, repete a tua história, Saint-Laurent — exclamou o guarda, voltando-se para o narrador.

— Monsenhor — declarou o interpelado — eu contava pura e simplesmente a estes senhores que ouvi falar na predição de um sujeito chamado Coysel, segundo a qual, por melhor guardado que esteja, o Sr. de Beaufort fugirá antes do Pentecoste.

— E esse Coysel é um visionário, um louco? — tornou o Cardeal, sempre sorrindo.

— Não é — retrucou o guarda, tenaz na credulidade — ele predisse muitas coisas que aconteceram, como, por exemplo, que a Rainha daria à luz um filho, que o Sr. de Coligny seria morto no duelo com o Duque de Guise, enfim, que o Coadjutor seria nomeado cardeal. Pois bem! a Rainha deu à luz não somente o primeiro filho, mas também, dois anos depois, o segundo, e o Sr. Coligny foi morto.

— Sim — disse Mazarino; — mas o Coadjutor ainda não é cardeal.

— Não, Monsenhor — tornou o guarda — mas será. Mazarino fez uma careta, que queria dizer: "Ainda não tem o chapéu." E ajuntou:

— A vossa opinião, portanto, meu amigo, é de que o Sr. Beaufort se evadirá?

— E tanto é minha opinião, Monsenhor — retorquiu o soldado — que se Vossa Eminência me oferecesse agora o lugar do Sr. de Chavigny, isto é, de governador do castelo de Vincennes, eu não o aceitaria. Oh! bem entendido, no dia seguinte ao Pentecoste já seria outra coisa.

Não há nada mais convincente do que uma grande convicção, pois influi até sobre os incrédulos; e, longe de ser incrédulo, já o dissemos, Mazarino era supersticioso. Retirou-se, portanto, pensativo.

— Safado! — disse o guarda que ficara encostado na parede — finge não acreditar no teu mágico, Saint-Laurent, para não te dar coisa alguma; mas assim que se vir no gabinete tirará proveito da predição.

Com efeito, em lugar de continuar na direção do quarto da Rainha, Mazarino tornou ao gabinete, e, chamando Bernouin, ordenou que no dia seguinte, ao romper da aurora, fossem buscar o guarda que ele colocara ao pé do Sr. de Beaufort, e o acordassem assim que este chegasse.

Sem querer, o guarda tocara com o dedo a ferida mais doída do Cardeal. Nos cinco anos que durava a reclusão do Sr. de Beaufort, não se passara um dia em que Mazarino não temera, num momento ou outro, a fuga do Duque. Não se poderia manter prisioneiro a vida toda um neto de Henrique IV, sobretudo quando esse neto de Henrique IV tinha apenas trinta anos. Mas fosse qual fosse a maneira por que saísse, quanto ódio não teria acumulado, no cativeiro, contra o homem que lho impusera; que o prendera rico, bravo, glorioso, querido das mulheres, temido dos homens, para tirar--lhe da vida os anos mais belos, pois não é vida a vida que se passa numa prisão! Enquanto esperava, Mazarino redobrava de vigilância contra o Sr. de Beaufort. Mas, como o avarento da fábula, não podia dormir perto do seu tesouro. Muitas vezes, à noite, acordava, sobressaltado, sonhando que lhe haviam roubado o Sr. de Beaufort. Pedia, então, informações a seu respeito e, a cada informação que lhe davam, tinha o desgosto de saber que o prisioneiro jogava, bebia, cantava e passava admiravelmente; mas que, enquanto jogava, bebia e cantava, interrompia-se a miúdo para jurar que Mazarino lhe pagaria caro todos os prazeres que lhe impunha em Vincennes.

Esse pensamento preocupava muitíssimo o Ministro durante o sono; por isso, quando, às sete da manhã, Bernouin lhe entrou no quarto para despertá-lo, a sua primeira pergunta foi:

— Eh! que aconteceu? O Sr. de Beaufort evadiu-se de Vincennes?

— Não creio, Monsenhor — retrucou Bernouin, cuja calma oficial nunca se desmentia; — mas, em todo o caso, Vossa Eminência terá notícias dele, pois o guarda La Ramée, que mandaram buscar hoje cedo em Vincennes, está aí, à espera de ordens.

— Abre e faze-o entrar aqui — ordenou Mazarino, arrumando os travesseiros de jeito que pudesse recebê-lo sentado na cama.

O oficial entrou. Era um homenzarrão, de semblante agradável. Tinha um ar tranqüilo que inquietou Mazarino.

— Esse sujeito me parece cretino — murmurou.

O oficial mantinha-se em pé e em silêncio no limiar da porta.

— Aproximai-vos, senhor — ordenou Mazarino. O esbirro obedeceu.

— Sabeis o que corre por aqui? — continuou o Cardeal.

— Não, Eminência.

— Pois bem! corre que o Sr. de Beaufort vai fugir de Vincennes, se é que já não fugiu.

O rosto do oficial exprimia a mais profunda estupefação. Abriu ao mesmo tempo os olhinhos e a bocarra, para saborear melhor o gracejo que Sua Eminência havia por bem dirigir-lhe; em seguida, não podendo conter-se por mais tempo ante a suposição, desfechou tamanha gargalhada, mas tamanha, que os seus membros enormes eram sacudidos pela hilaridade como por febre violenta.

Mazarino ficou encantado com essa pouca respeitosa expansão, mas nem por isso deixou de lado a seriedade.

Depois que La Ramée se fartou de rir e enxugou os olhos, achou que era tempo de falar e pedir desculpas pela inconveniência de sua alegria.

— Fugir, Monsenhor! — disse ele — fugir! Mas não sabe, então, Vossa Eminência onde está o Sr. de Beaufort?

— Sei, sim, senhor, sei que está no castelo de Vincennes.

— Sim, Monsenhor, num quarto cujas paredes têm sete pés de espessura, com janelas de grades cruzadas, cada uma das quais tem a grossura de um braço.

— Senhor — disse Mazarino — com paciência furam-se todas as paredes e com uma mola de relógio serra-se uma grade.

— Mas ignora Vossa Eminência que ele tem a vigiá-lo oito guardas, quatro na antecâmara e quatro na câmara, e que esses guardas não o deixam nunca?

— Mas ele sai do quarto, joga a malha e joga a pela.

— Monsenhor, são distrações permitidas aos prisioneiros. Entretanto, se o quiser Vossa Eminência, podemos proibi-las.

— Não, não — tornou Mazarino, receoso de que, tirando-lhe aquelas distrações, o prisioneiro, se um dia saísse de Vincennes, saísse anda mais exasperado contra ele. — Só quero saber com quem joga.

— Com o oficial de guarda, comigo, ou então com os outros prisioneiros.

— Mas, ao jogar, não se aproxima dos muros?

— Vossa Eminência não conhece os muros? Têm sessenta pés de altura e duvido muito que o Sr. de Beaufort esteja tão cansado da vida que se arrisque a quebrar o pescoço, atirando-se de tão alto.

— Hum! — fez o Cardeal, que principiava a tranqüilizar-se. — Dizeis, então, meu caro Sr. de La Ramée?...

— Que a menos de converter-se ele

— Tende cuidado! Isso é assegurar demais — tornou Mazarino. — O Sr. de Beaufort disse aos guardas que o conduziam a Vincennes que pensara muito no caso de ser feito prisioneiro, e que, para esse caso, encontrara quarenta meios de evasão.

— Se entre os quarenta meios houvesse algum bom, Monsenhor, respondeu La Ramée — há muito que teria escapado.

— Esse sujeito não é tão burro quanto eu o supunha — murmurou Mazarino.

— Aliás, Vossa Eminência se esquece de que o Sr. de Chavigny é governador de Vincennes — continuou La Ramée — e que o Sr. de Chavigny não é amigo do Sr. de Beaufort (22).

 (22) Leão Le Bouthilier, Conde de Chavigny, amigo de Richelieu, fez parte do "Conselho soberano de regência", ao lado de Mazarino, que ele protegeu, quando este chegou à França. Mas quando Mazarino subiu, Chavigny, que nunca deixara de aspirar-lhe ao lugar, tornou-se inimigo do Cardeal, e buscou prejudicá-lo sempre que pôde, embora dissimuladamente. (N. do T.)

 

— Sim, mas o Sr. de Chavigny costuma ausentar-se.

— Quando ele se ausenta fico eu.

— E quando vós vos ausentais?

— Oh! quando eu me ausento, Monsenhor, fica em meu lugar um rapaz que ambiciona ser esbirro de Sua Majestade, e que, posso afiançá-lo, faz muito boa guarda. Há três semanas que o tomei a meu serviço e só tenho uma censura que lhe fazer: o extremo rigor com que trata o preso.

— E quem é esse cérbero? — perguntou o Cardeal.

— Um tal Sr. Grimaud, Monsenhor.

— Que fazia ele antes de ir para Vincennes?

— Morava na província, segundo me disse quem mo recomendou; lá andou fazendo não sei que trapalhada por causa da violência do seu temperamento e, se não me engano, gostaria de achar a impunidade sob o uniforme do Rei.

— E quem vos recomendou o homem?

— O intendente do Sr. Duque de Grammont..

— Cuidais, portanto, que se pode ter confiança nele?

— Como em mim mesmo, Monsenhor.

— Não será um fanfarrão?

— Pelo amor de Deus, Monsenhor! Julguei, pelo contrário, durante muito tempo, que fosse mudo, pois só fala e responde por meio de sinais; parece que o antigo amo habituou-o a isso.

— Pois bem! Dizei-lhe, meu caro Sr. de La Ramée — volveu o Cardeal — que se ele nos fizer fiel e boa guarda, fecharemos os olhos sobre as proezas de província, e lhe poremos nas costas um uniforme que o fará respeitado, e nos bolsos do uniforme algumas pistolas para que beba à saúde do Rei.

Mazarino era pródigo em promessas, bem ao contrário do bom Sr. Grimaud, gabado por La Ramée, que falava pouco e agia muito.

O Cardeal fez ainda a La Ramé uma série de perguntas sobre o prisioneiro, sobre o modo por que era alimentado, instalado e deitado, às quais este último respondeu de maneira tão satisfatória que Sua Eminência o despediu quase tranqüilo.

Depois, como fossem nove horas da manhã, levantou-se, perfumou-se, vestiu-se e dirigiu-se aos aposentos da Rainha para comunicar-lhe os motivos que o haviam retido em seu quarto. A Rainha, que não temia menos o Sr. de Beaufortdo que o próprio Cardeal, e era quase tão supersticiosa quanto ele, fê-lo repetir, palavra por palavra, todas as promessas de La Ramée e todos os elogios que este fizera ao seu imediato; e, quando o Cardeal terminou:

— Ai, senhor — lastimou-se em voz baixa — por que não teríamos um Grimaud ao lado de cada príncipe?

— Paciência — disse Mazarino com o seu sorriso italiano — isso virá talvez um dia; mas, enquanto esperamos...

— Enquanto esperamos?...

— Vou tomar as minhas precauções. E, logo depois, escrevia a d'Artagnan que apressasse o regresso.


 EM QUE SE ENTRETINHA O SR. DUQUE DE BEAUFORT NO CASTELO DE VINCENNES

 

O prisioneiro que tanto medo inspirava ao Sr. Cardeal, e cujos processos de evasão perturbavam o repouso de toda a Corte, nem desconfiava do sobressalto em que mantinha os moradores do Palais-Royal.

Via-se tão admiràvelmente guardado que reconhecera a inutilidade de quaisquer tentativas; toda a sua vingança resumia-se em lançar uma porção de imprecações e injúrias contra Mazarino. Chegara a tentar fazer uns versos, mas logo desistira. Com efeito, não só não recebera do céu o Sr. de Beaufort o dom de versejar como também se exprimia mal em prosa. Daí que Blot, o cançonetista da época, dissesse dele:

 

Nos combates, brilha, campa,

É temido com razão.

Mas, ao ouvi-lo discorrer,

Dir-se-ia um toleirão.

 

Gastão, nas armas tão frouxo,

Em discursos é portento.

Falta a Gastão valentia,

A Beaufort falta talento.

 

Diante disso, compreende-se que o prisioneiro se limitasse às injúrias e imprecações.

O Duque de Beaufort era neto de Henrique IV e de Gabriela d'Estrées, tão bom, tão bravo, tão altivo e, sobretudo, tão gascão quanto o avô, mas muito menos letrado. Depois de ter sido algum tempo, morto o Rei Luís XIII, o favorito, o homem de confiança, o primeiro da Corte, vira-se obrigado a ceder o passo a Mazarino e fora relegado ao segundo lugar; e, no dia seguinte, como tivesse tido a impertinência de zangar-se com essa transposição e a imprudência de confessá-lo, a Rainha mandara-o prender e conduzir a Vincennes por esse mesmo Guitaut que vimos aparecer no princípio de nossa história e que ainda teremos ocasião de encontrar. Quem diza Rainha, diz, naturalmente, Mazarino. Não só se haviam os adversários livrado de sua pessoa e abatido as suas pretensões, como ninguém fazia caso dele, embora fosse um príncipe popular, e houvesse cinco anos que habitava uma cela muito pouco real no castelo de Vincennes.

Esse espaço de tempo, que teria amadurecido as idéias de qualquer outro que não fosse o Sr. de Beaufort, lhe passara pela cabeça sem operar nela a menor alteração. Outro qualquer, de fato, teria refletido que, se não tivesse desafiado o Cardeal, se não tivesse menos prezado os príncipes e se não tivesse querido marchar sozinho sem outros acólitos, como diz o Cardeal de Retz, senão uns poucos melancólicos com cara de visionários, teria obtido, nesses cinco anos, ou a liberdade ou defensores. Essas considerações, provavelmente, nem se apresentaram ao espírito do Duque, que a longa reclusão, pelo contrário, só conseguira firmar ainda na obstinação, e diariamente o Cardeal recebia notícias cada qual mais desagradável para si.

Depois de haver fracassado na poesia, o Sr. de Beaufort tentara a pintura. Desenhava com carvão os traços do Cardeal, e, como os seus talentos assaz medíocres nessa arte não lhe permitissem conseguir grande semelhança, para não deixar dúvidas sobre o original do retrato, escrevia em baixo: "Ritratto dell’illustrisimo facchino Mazarini." Avisado disso, o Sr. de Chavigny fez uma visita ao Duque e pediu-lhe que se entregasse a outro passatempo ou, pelo menos, fizesse retratos sem legenda. No dia seguinte, o quarto estava cheio de legendas e de retratos. Como todos os prisioneiros, aliás, o Sr. de Beaufort se parecia com as crianças, que só teimam em fazer as coisas proibidas.

O Sr. de Chavigny foi inteirado do acréscimo de perfis. O Sr. de Beaufort, que ainda não tinha muita confiança em seus dotes artísticos para arriscar-se a fazer retratos de frente, transformara o quarto em verdadeira sala de exposição. Dessa feita, o governador não disse nada; mas um dia em que o Sr. de Beaufort jogava a pela, mandou passar uma esponja em todos os desenhos e passar uma mão de tempera nas paredes.

O Sr. de Beaufort agradeceu ao Sr. de Chavigny o favor que lhe fizera de fornecer-lhe novas telas; e, dessa feita, dividiu o quarto em compartimentos, e consagrou cada um dos compartimentos a uma passagem da vida de Mazarino.

O primeiro devia representar o ilustríssimo faquino Mazarino recebendo uma surra de pau do Cardeal Bentivoglio, do qual fora criado.

O segundo, o ilustríssimo faquino Mazarino representando o papel de Inácio de Loiola, na tragédia desse nome.

O terceiro, o ilustríssimo faquino Mazarino roubando a pasta de Primeiro Ministro ao Sr. de Chavigny, que já cuidava tê-la em mãos.

Enfim, o quarto, o ilustríssimo faquino Mazarino recusando roupas de cama a Laporte, aio de Luís XIV, e dizendo que bastava, a um Rei de França, mudar de roupa cada trimestre.

Grandes composições, que, por certo, sobrepassavam a medida do talento do prisioneiro; por isso mesmo contentou-se ele em traçar os quadros e escrever as legendas.

Mas quadros e legendas bastaram a despertar a suscetibilidades do Sr. de Chavigny, o qual mandou aviso ao Sr. de Beaufort de que, se não renunciasse aos quadros projetados, tirar-lhe-ia todo e qualquer meio de execução. O Sr. de Beaufort respondeu que, já não tendo oportunidade de celebrizar-se nas armas, desejava celebrizar-se na pintura, e, não podendo ser um Bayard nem um Trivulce, queria ser um Miguel Ângelo ou um Rafael.

Um dia em que o Sr. de Beaufort passeava no pátio da prisão, tiraram-lhe o lume, com o lume os carvões, com o carvão as cinzas, de sorte que, ao voltar, não encontrou o menor objeto de que pudesse fazer um lápis.

O Sr. de Beaufort xingou, praguejou, berrou, disse que queriam fazê-lo morrer de frio e de umidade, como tinham morrido Puylaurens, o Marechal Ornano e o Grão-prior de Vendôme; a tudo isso respondeu o Sr. de Chavigny que, se ele desse a palavra de que renunciaria ao desenho ou prometer que não faria quadros históricos, ser-lhe-ia restituída a lenha e tudo o que era preciso para queimá-la. O Sr. de Beaufort não quis dá-la e ficou sem fogo durante o resto do inverno.

De mais disso, numa das saídas do prisioneiro, rasparam-se as inscrições, e as paredes ficaram brancas e nuas, sem o menor vestígio de desenho.

O Sr. de Beaufort comprou então de um dos guardas um cachorro chamado Pistache; e como nada se opusesse a que os prisioneiros tivessem um cachorro, o Sr. de Chavigny autorizou o quadrúpede a mudar de dono. O Sr. de Beaufort ficava, às vezes, horas inteiras fechado com o cão. Toda a gente supunha, naturalmente, que o prisioneiro se ocupasse, durante essas horas, da educação de Pistache, mas ninguém sabia em que sentido era dirigida. Um dia estando já Pistache bem educado, o Sr. de Beaufort convidou o Sr. de Chavigny e os oficiais de Vincennes para um grande espetáculo em seu quarto. Chegaram os convidados; o quarto estava iluminado pela maior quantidade de velas que pudera obter o Sr. de Beaufort. Os exercícios começaram.

Com um bocado de caliça arrancado da parede, traçara o prisioneiro no meio do quarto uma longa linha branca que representava uma corda. À primeira ordem do amo, Pistache se colocou sobre a linha, ergueu-se nas patas traseiras e, segurando com as mãos uma varinha de bater roupa, começou a seguir a linha com todas as contorções que faz um dançarino de corda; e depois de haver percorrido, duas ou três vezes, para diante e para trás, toda a extensão da linha, devolveu a varinha ao Sr. de Beaufort e recomeçou sem maromba as mesmas evoluções.

O inteligente animal foi crivado de aplausos.

Dividira-se o espetáculo em três partes; concluída a primeira, teve início a segunda.

Tratava-se primeiro de dizer que horas eram.

O Sr. de Chavigny mostrou o relógio a Pistache. Eram seis e meia.

Pistache ergueu e abaixou a pata seis vezes e, na sétima, ficou com a pata no ar. Fora impossível maior clareza; um relógio de sol não teria respondido melhor: como todos sabem, o relógio de sol tem a desvantagem de só dizer as horas quando o sol está brilhando.

Em seguida, era preciso reconhecer, diante de todos os presentes, qual o melhor carcereiro de todas as prisões de França.

O cachorro deu três vezes a volta da assembléia e foi-se deitar da maneira mais respeitosa do mundo aos pés do Sr. de Chavigny.

O Sr. de Chavigny fingiu achar deliciosa a piada e sorriu levemente. Quando acabou de sorrir, mordeu os lábios e começou a franzir o cenho.

Afinal o Sr. de Beaufort fez a Pistache esta pergunta, dificílima de resolver-se: Qual era o maior ladrão que se conhecia no mundo inteiro?

Pistache, dessa vez, deu a volta do quarto, mas não parou diante de ninguém, e, dirigindo à porta, pôs-se a arranhá-la e a gemer.

— Vede, senhores — disse o Príncipe — não encontrando aqui o que lhe perguntei, esse interessante animal vai procurá-lo lá fora. Mas, tranqüilizai-vos, nem por isso deixareis de ter a resposta. Pistache, meu amigo — continuou o Duque — venha cá. — O cão obedeceu. — O maior ladrão que se conhece no mundo inteiro — continuou o Príncipe — será, por acaso, o Sr. Secretário do Rei, Le Camus, que chegou a Paris com vinte libras e hoje possui dez milhões? O cachorro sacudiu a cabeça negativamente.

— Será — prosseguiu o Príncipe — o Sr. Superintendente d'Émery, que deu ao Sr. Thoré, seu filho, ao casá-lo, trezentas mil libras de rendas e um palácio perto do que as Tulherias são um pardieiro e o Louvre um cochicholo?

O cachorro tornou a sacudir negativamente a cabeça.

— Não é esse ainda — volveu o Príncipe. — Vamos, procuremos bem. Será, por acaso, o ilustríssimo faquino Mazarini di Piscina?

O cão fez desesperados sinais afirmativos, erguendo e abaixando a cabeça oito ou dez vezes seguidas.

— Como vedes, senhores — disse o Sr. de Beaufort aos assistentes, que, dessa vez, não se atreveram sequer a sorrir — o ilustríssimo faquino Mazarini di Piscina é o maior ladrão que se conhece no mundo inteiro; pelo menos, é Pistache quem o afirma.

Passemos a outro exercício.

— Senhores — continuou o Duque de Beaufort, aproveitando-se do grande silêncio que imperava para apresentar a terceira parte do sarau — estareis de certo lembrados de que o Sr. Duque de Guise tinha ensinado todos os cachorros de Paris a saltarem pela Srta. de Pons, que ele proclamara a belas das belas! Ora, senhores, isso não é nada, pois esses animais obedeciam maquinalmente, não sabendo fazer dissidência (o Sr. de Beaufort queria dizer diferença) entre aqueles pelos quais deviam saltar e aqueles pelos quais não deviam. Pistache vai mostrar-vos, a vós e ao Sr. Governador, que é superior aos seus confrades. Sr. de Chavigny, tende a. bondade de emprestar-me a bengala.

O Sr. de Chavigny emprestou a bengala ao Sr. de Beaufort.

O Sr. de Beaufort colocou-a horizontalmente, ã altura de um pé.

— Pistache, meu amigo — disse ele — faça-me o favor de saltar pela Sra. de Montbazon (23).

 (23) Madrasta da Sra. de Chevreuse, se bem fosse dez anos mais moça do que a enteada, a Duquesa de Rohan-Montbazon era uma mulher extraordinariamente formosa, mas ainda mais extraordinariamente alta. Loret chamava-lhe "o belo colosso da Corte". "Uma das criaturas mais lindas que se podiam ver, foi grande ornamento da Corte, onde ofuscava as outras damas" (Tallemant dos Réaux). Em compensação, "só amava o seu prazer e, acima do seu prazer, os seus interesses. Nunca vi ninguém que conservasse no vício tão pouco respeito à virtude" (Retz). (N. do T.)

 

Todo o mundo disparou a rir; sabia-se que, no momentoem que fora preso, o Sr. de Beaufort era o amante declarado da Sra. de Montbazon.

Pistache não opôs nenhuma dificuldade e saltou alegremente por cima da bengala.

— Mas — acudiu o Sr. de Chavigny — parece-me que Pistache faz precisamente o que faziam os seus confrades quando saltavam pela Srta. de Pons.

— Esperai — disse o Príncipe. — Pistache, meu amigo — ajuntou ele — salte pela Rainha.

E ergueu a bengala umas seis polegadas.

O cachorro saltou respeitosamente por cima da bengala.

— Pistache, meu amigo — continuou o Duque levantando a bengala mais seis polegadas — salte pelo Rei.

O cão tomou impulso e, apesar da altura, saltou com ligeireza.

— E, agora, atenção — tornou o Duque, abaixando a bengala quase ao nível da terra — Pistache, meu amigo, salte pelo ilustríssimo faquino Mazarini di Piscina.

O cachorro virou o traseiro para a bengala.

— Hom'essa! Que é isso? — exclamou o Sr. de Beaufort descrevendo um semicírculo da cauda à cabeça do animal e apresentando-lhe de novo a bengala — faça o favor de saltar, Sr. Pistache.

Mas Pistache, como da primeira vez, fez meia volta sobre si mesmo e virou o traseiro para a bengala.

O Sr. de Beaufort repetiu a evolução e a frase, mas, dessa vez, a paciência de Pistache se esgotara; atirou-se, furioso, à bengala, arrancou-a das mãos do Príncipe e quebrou-a com os dentes.

O Sr. de Beaufort tirou-lhe os dois pedaços da boca e, muito sério, devolveu-os ao Sr. de Chavigny, apresentando-lhe muitas desculpas e dizendo-lhe que a sarau terminara; mas se, dentro em três meses, quisesse assistir a novo espetáculo, Pistache aprenderia novas sortes.

Três dias depois, Pistache morria envenenado.

Procurou-se o culpado; todavia, como se há de compreender, o culpado permaneceu incógnito. O Sr. de Beaufort mandou erguer-lhe um túmulo com este epitáfio:

"Aqui jaz Pistache, um dos cachorros mais inteligentes que já existiram."

Não se podia dizer coisa alguma desse elogio. O Sr. de Chavigny não pôde proibi-lo.

A partir de então, principiou a proclamar aos quatro ventos que haviam experimentado no cachorro a droga que pretendiam servir-lhe, e um dia, depois, do almoço, meteu-se na cama gritando que tinha eólicas e que Mazarino o mandara envenenar.

A nova travessura chegou aos ouvidos do Cardeal e encheu-o de medo. O castelo de Vincennes passava por ser muito insalubre: a Sra. de Rambouillet dissera que o quarto em que tinham morrido Puylaurens, o marechal Ornano e o Grão-Prior de Vendôme valia o seu peso em arsênico, e a frase divulgara-se. Ordenou, portanto, que o prisioneiro não comesse mais nada sem que primeiro fossem provados o vinho e as carnes. Nessa ocasião é que foi colocado ao lado dele, como degustador, o guarda La Remée.

Entretanto, o Sr. de Chavigny não perdoara ao Duque as impertinências que já expiara o inocente Pistache. Criatura do falecido Cardeal, dizia-se até que o Sr. de Chavigny era seu filho; devia, portanto, ser entendido em tiranias: principiou a vingar-se do Sr. de Beaufort; tirou-lhe o que até então lhe haviam deixado, isto é, facas de ferro e garfos de prata, e mandou que lhe dessem facas de prata e garfos de madeira. Queixou-se o Duque de Beaufort; o Sr. de Chavigny respondeu-lhe que soubera haver dito o Cardeal à Sra. de Vendôme que o filho ficaria no castelo de Vincennes o resto da vida e temia que, sabendo disso, o prisioneiro, desesperado, tentasse contra a existência. Quinze dias depois, o Sr. de Beaufort encontrou duas fileiras de árvores da grossura de um dedinho plantadas no caminho que conduzia ao jogo da pela; perguntou o que era aquilo e respondeu-lhe que aquelas mudas, um dia, lhe dariam sombra. Afinal, certa manhã, o jardineiro foi procurá-lo e, sob color de agradar-lhe, anunciou que iam fazer para ele plantações de aspargos. Ora, como sabe toda a gente, os aspargos, que levam hoje quatro anos para crescer, levavam cinco naquele tempo em que a horticultura não era tão aperfeiçoada. Essa gentileza enfureceu o Sr. de Beaufort.

Entendeu, então, o Sr. de Beaufort que já era tempo de recorrer a um dos seus quarenta processos, e experimentou primeiro o mais simples, a saber, o de corromper La Ramée; mas La Ramée, que comprara o cargo de esbirro por mil

e quinhentos escudos, tinha muito amor a ele. Daí que, em vez de se deixar peitar, foi correndo avisar o Sr. de Chavigny; o Sr. de Chavigny colocou imediatamente oito homens no quarto do Príncipe, dobrou as sentinelas e triplicou os postos. A partir desse momento, o Príncipe só caminhava como caminham os reis de teatro, com quatro homens na frente e quatro atrás, sem contar os que iam em cerra-fila.

A principio, riu-se muito o Sr. de Beaufort da severidade, que para ele se tornava numa distração. Repetiu quanto pôde: "Isso me distrai, isso me diversifica" (O Sr. de Beaufort queria dizer: Isso me diverte; mas como se sabe, nem sempre dizia o que queria). E ajuntava: "Aliás, quando eu quiser subtrair-me às honras que me prestais, ainda tenho trinta e nove meios."

Mas a distração acabou-se convertendo em aborrecimento. Por fanfarronice, o Sr. de Beaufort agüentou seis meses; ao cabo de seis meses, porém, vendo sempre oito homens que se assentavam quando ele se assentava, que se levantavam quando ele se levantava, que paravam quando ele parava, começou carregar o sobrolho e a contar os dias.

A nova perseguição redundou numa recrudescência de ódio contra Mazarino. O Príncipe xingava-o da manhã à noite e só falava em guisados de orelhas mazarínicas. Era de estarrecer; o Cardeal, que sabia tudo o que se passava em Vincennes, enterrava, mau grado seu, a carapuça até ao pescoço.

Um dia, o Sr. de Beaufort reuniu os guardas e, a despeito da sua dificuldade de elocução, que se tornara proverbial, dirigiu-lhes este discurso, adrede preparado:

— Senhores — disse-lhes — sereis capaz de admitir que um neto do bom Rei Henrique IV seja coberto de ultrajes e ignobílias (ele queria dizer ignomínias); com seiscentos diabos! como dizia meu avô, já quase reinei em Paris, ficai sabendo, já tive em minha guarda, um dia inteiro, o Rei e Monsieur. A Rainha então me fazia festas e chamava-me o homem mais honrado do reino. Senhores burgueses, deixai-me sair agora: irei ao Louvre, torcerei o pescoço de Mazarino, sereis os meus guardas particulares, sereis todos oficiais e tereis boas pensões. Com seiscentos diabos! para a frente, marche!

Mas, por patética que fosse, a eloqüência do neto de Henrique IV não comoveu aqueles corações de pedra: ninguém se mexeu: diante disso, o Sr. de Beaufort disse que eram todos uns velhacos e fez deles inimigos crudelíssimos.

Às vezes, quando o Sr. de Chavigny ia visitá-lo, o que nunca deixava de fazer duas ou três vezes por semana, o Duque aproveitava a ocasião para ameaçá-lo.

— Que faríeis, senhor — dizia-lhe — se, um belo dia, vísseis aparecer um exército de parisienses carregados de armas e eriçados de mosquetes para libertar-me?

— Monsenhor — respondia o Sr. de Chavigny com profunda reverência — tenho nas muralhas vinte peças de artilharia e das minhas casamatas trinta mil tiros; eu os bombardearia da melhor maneira possível.

— Sim, mas quando acabassem os trinta mil tiros, eles tomariam o castelo e, tomado o castelo, eu seria obrigado a deixar que vos enforcassem, o que muito me penalizaria, sem dúvida.

E, por seu turno, o Príncipe saudava o Sr. de Chavigny com a mais rasgada vênia.

— Mas eu, Monsenhor — tornava o Sr. de Chavigny — quando cruzasse o limiar de minhas portas o primeiro desses farroupilhas, eu seria obrigado, muito a contragosto, a matar Vossa Alteza com as minhas própria mãos, visto que Vossa Alteza me foi confiado muito particularmente e preciso entregá-lo vivo ou morto.

E tornava a cumprimentar Sua Alteza.

— Sim — continuava o Duque; — mas como essa gente, com certeza, só viria aqui depois de haver enforcado um pouco o Sr. Giulio Mazarini, não levantaríeis a mão para mim e me deixaríeis viver, com medo de serdes amarrado a quatro cavalos pelos parisienses, o que ainda é muito mais desagradável do que ser enforcado.

Esses gracejos agridoces continuavam por dez minutos, um quarto de hora ou vinte minutos, no máximo; mas acabavam sempre assim:

O Sr. de Chavigny voltava-se para a porta e gritava:

— La Remée!

La Remée entrava.

— La Remée — continuava o Sr. de Chavigny — recomendo-vos muito particularmente o Sr. de Beaufort: tratai-o com todas as atenções devidas ao seu nome e à sua posição e, por isso mesmo, não o percais um segundo de vista.

E retirava-se cumprimentando o Sr. de Beaufort com uma irônica polidez que deixava alucinado o prisioneiro.

La Remée convertera-se, portanto, em comensal obrigatório do Príncipe, seu perpétuo guardião, a sombra de seu corpo; mas, cumpre dizê-lo, a companhia de La Ramée, conviva alegre, bebedor inveterado, grande jogador da pela, bom sujeito no íntimo, e só tendo para o Sr. de Beaufort um defeito, o de ser incorruptível, tornara-se para o Príncipe mais distração que fadiga.

Desgraçadamente, porém, já não sucedia o mesmo a mestre La Ramée, e embora soubesse dar o devido valor à honra de viver encarcerado com tão importante prisioneiro, o prazer de viver na intimidade do neto de Henrique IV não compensava o que teria tido se fizesse, de tempos a tempos, uma visita à família.

Um homem pode ser excelente esbirro do Rei e, ao mesmo tempo, bom pai e bom marido. Ora, mestre La Ramée adorava a mulher e os filhos, que agora só podia lobrigar do alto do muro, quando, para dar-lhe essa consolação paternal e conjugai, os seus vinham passear do outro lado dos fossos; isso, decididamente, era muito pouco para ele, e La Ramée sentia que o seu bom humor, que sempre considerara como a causa de sua boa saúde, sem imaginar que, pelo contrário, devia ser-lhe apenas o efeito, não agüentaria por muito tempo semelhante regime. E essa convicção ainda se lhe tornou mais acentuada no espírito quando, pouco a pouco, agravando-se cada vez mais as relações entre o Sr. de Beaufort e o Sr. de Chavigny, ambos deixaram inteiramente de ver-se. La Ramée sentiu que lhe pesava com mais força a responsabilidade sobre a cabeça e como, precisamente, pelas razões que acabamos de expor, buscasse um alívio, recebeu com grande entusiasmo a proposta que lhe fez um amigo, o intendente do Marechal de Grammont, de dar-lhe um acólito: falara incontinenti nisso ao Sr. de Chavigny, o qual respondera que não se opunha de forma alguma, contanto que o sujeito lhe agradasse.

Achamos perfeitamente inútil fazer aos leitores o retrato físico e moral de Grimaud: se, como o esperamos, não esqueceram de todo a primeira parte desta obra, devem ter conservado uma lembrança bem nítida do estimável personagem, em que a única modificação operada fora o acrescentamento de vinte anos: acrescentamento que só valera a torná-lo mais silencioso e mais taciturno, muito embora, desde a mudança verificada em Athos, este lhe tivesse dado plena liberdade de falar.

Mas, nessa época, já fazia uns doze ou quinze anos que Grimaud se calava, e um hábito de doze ou quinze anos equivale a uma segunda natureza.


 GRIMAUD ENTRA EM FUNÇÕES

 

Grimaud apresentou-se, portanto, com a sua favorável aparência, no castelo de Vincennes. O Sr. de Chavigny picava-se de ter um olhar infalível; o que poderia confirmar a versão de que era realmente filho do Cardeal de Richelieu, que se picava da mesma coisa. Examinou, portanto, com atenção o pretendente, e conjeturou que as sobrancelhas unidas, os lábios fines, o nariz adunco e os pômulos salientes de Grimaud eram índices perfeitos. Dirigiu-lhes apenas dozes palavras; Grimaud respondeu quatro.

— Sois um rapaz distinto e tal vos julguei — disse o Sr. de Chavigny. — Procurai obter a aprovação do Sr. La Ramée e dizei-lhe que me convindes em todos os sentidos.

Grimaud girou nos calcanhares e foi submeter-se à inspeção, muito mais rigorosa, de La Ramée. O que o tornava mais exigente era saber o Sr. de Chavigny que podia fiar-se dele e ele querer fiar-se de Grimaud.

Grimaud possuía todas as qualidades capazes de seduzir um esbirro que precise de um sub-esbirro; por isso, depois de mil perguntas, que só obtiveram, cada qual, um quarto de resposta, fascinado por tamanha sobriedade de palavras, La Ramée esfregou as mãos e aceitou os serviços de Grimaud.

— As ordens? — perguntou Grimaud.

— São as seguintes: nunca deixar sozinho o prisioneiro, tirar-lhe todo e qualquer instrumento perfurante ou cortante, impedi-lo de fazer sinais às pessoas de fora ou de conversar muito tempo com os guardas.

— Só? — perguntou Grimaud.

— Por enquanto, só — replicou La Ramée. — Se surgirem novas circunstâncias, surgirão novas ordens.

— Bem — respondeu Grimaud.

E entrou no quarto do Sr. Duque de Beaufort. Este se ocupava em pentear a barba que deixara crescer, assim como os cabelos, para mortificar Mazarino exibindo a sua miséria e ostentando o seu mau aspecto. Mas como, alguns dias antes, cuidara reconhecer, do alto do castelo, no fundo de uma carruagem, a bela Sra. de Montbazon, de grata lembrança, não quisera ser para ela o que era para Mazarino; pedira, por conseguinte, na esperança de revê-la, um pente de chumbo, que lhe fora concedido.

O Sr. de Beaufort pedira um pente de chumbo porque, como todos os homens louros, tinha a barba um tanto vermelha e, ao penteá-la, buscava tingi-la.

Ao entrar, viu Grimaud o pente que o Príncipe acabava de colocar sobre a mesa: tirou-o, fazendo uma reverência.

O Duque considerou com espanto a singularíssima figura.

A figura enfiou o pente no bolso.

— Alto lá! que é isso? — bradou o Duque — e quem é este cretino?

Grimaud não respondeu, mas fez outra reverência.

— És mudo? — gritou o Duque. Grimaud fez um sinal negativo.

— Que és, então? Responde, ordeno-te — volveu o Duque.

— Guarda — retrucou Grimaud.

— Guarda! — exclamou o Duque. — Magnífico! Só faltava essa cara patibular na minha coleção. La Ramée!

La Ramée veio correndo; desgraçadamente para o Príncipe, o esbirro pretendia, confiado em Grimaud, ir a Paris. Já estava no pátio e voltou de má vontade.

— Que foi, meu Príncipe? — perguntou.

— Quem é este sacripanta que me tira o pente e o mete no bolso? — perguntou o Sr. de Beaufort.

— É um dos guardas de Vossa Alteza, rapaz de grande merecimento, e do qual Vossa Alteza gostará como gosta do Sr. de Chavigny e de mim, tenho certeza.

— Por que me tomou o pente?

— Com efeito — acudiu La Ramée — por que tomastes o pente de Monsenhor?

Grimaud tirou o pente da algibeira, passou o dedo sobre ele e, mostrando, sem lhe tirar os olhos, o dente maior, limitou-se a pronunciar uma única palavra:

— Perfurante.

— É verdade — concordou La Ramée.

— Que diz esse animal? — perguntou o Duque.

— Que o Rei proibiu Vossa Alteza de ter consigo todo e qualquer instrumento perfurante.

— Hom'essa! — bradou o Duque. — Enlouquecestes, La Ramée? Vós mesmo me destes o pente!

— E fiz muito mal, Monsenhor; pois, ao dá-lo, contrariei as minhas próprias ordens.

O Duque olhou, furioso, para Grimaud, que devolveu o pente a La Ramée.

— Prevejo que esse borra-botas me desagradará supina-mente — murmurou o Príncipe.

De fato, na prisão não há sentimentos intermediários. Como tudo, homens e coisas, é amigo ou inimigo, a gente ama ou odeia às vezes com razão, mas muito mais amiúde por instinto. Ora, pelo motivo infinitamente simples de haver Grimaud, à primeira vista, agradado ao Sr. de Chavigny e a La Ramée, sendo as suas qualidades aos olhos do governador e do esbirro outros tantos defeitos aos olhos do prisioneiro, devia automaticamente desagradar ao Sr. de Beaufort.

Grimaud, entretanto, não quis, desde o primeiro dia, provocar diretamente o prisioneiro; precisava, não de uma repugnância improvisada, mas de um belo ódio, bem tenaz.

Retirou-se, portanto, para dar lugar a quatro guardas, que acabando de almoçar, podiam retomar as suas funções ao pé de Sua Alteza.

O Príncipe, de seu lado, tencionava preparar uma nova brincadeira com a qual contava muito: pedira caranguejos para o almoço do dia seguinte e pretendia passar o dia erguendo um patibulozinho para enforcar o mais bonito de todos no meio do quarto. A cor vermelha que daria o cozimento não deixaria dúvida alguma sobre a alusão, e assim teria o prazer de enforcar o Cardeal em efígie antes de vê-lo enforcado em realidade, sem que ninguém pudesse reprochar-lhe outra coisa senão o enforcamento de um simples caranguejo.

Passou-se o dia em preparativos para a execução. Os presos convertem-se facilmente em crianças e o temperamento do Sr. de Beaufort era de molde a torná-lo ainda mais infantil do que outro qualquer. Foi passear como de costume, quebrou uns ou três galhos destinados a desempenhar um papel em seu espetáculo, e, depois de muito procurar, encontrou um pedaço de vidro quebrado, que pareceu proporcionar-lhe enorme satisfação. Recolhendo ao quarto, desfiou o lenço.

Nenhum dos pormenores escapou à vista investigadora de Grimaud.

Na manhã seguinte o patíbulo estava pronto e, a fim de poder firmá-lo no meio do quarto, o Sr. de Beaufort aparou-lhe uma das pontas com o caco de vidro.

La Ramée observava-o com a curiosidade de um pai que imagina descobrir talvez um brinquedo novo para os filhos, e os quatro guardas assistiam a tudo com o ar de ociosidade que caracterizava naquela época, como hoje, a fisionomia do soldado.

Grimaud entrou quando o Príncipe acabava de pôr de lado o caco de vidro, embora não tivesse acabado de aparar o pé da forca; mas interrompera-se para amarrar a linha na extremidade oposta.

Dirigiu a Grimaud um olhar em que brilhavam ainda uns restos do mau humor da véspera; mas como se sentisse de antemão satisfeitíssimo com o resultado que não poderia deixar de ter a sua nova idéia, não lhe prestou maior atenção.

Quando, porém, acabou de dar um nó de marinheiro numa das pontas da linha e um nó corredio na outra, quando olhou para o prato de caranguejos e escolheu com a vista o mais majestoso, voltou-se para pegar o caso de vidro. O caco de vidro sumira.

— Quem tirou o meu saco de vidro? — perguntou o Príncipe, com sobrecenho.

Grimaud fez sinal de que fora ele.

— Como! Outra vez! E por que mo tiraste?

— Sim — sobreveio La Ramée — por que tirastes o caco de vidro de Sua Alteza?

Grimaud, que tinha na mão o fragmento de vidro, passou o dedo sobre o fio e disse:

— Cortante.

— É verdade, Monsenhor — disse La Ramée. — Ah, diabo! adquirimos aqui um guarda precioso!

— Sr. Grimaud — disse o Príncipe — em vosso interesse, eu vos peço que nunca vos encontreis ao alcance de minhas mãos.

Grimaud fez uma reverência e afastou-se para o fundo do quarto.

— Pssiu, pssiu, Monsenhor — sobreveio La Ramée; — dê-me Vossa Alteza a sua forquinha para que eu a apare com a faca.

— Vós? — tornou, rindo-se, o Duque.

— Eu, sim; não era isso o que queria Vossa Alteza?

— Era. Aliás — acrescentou o Duque — ficará até mais engraçado. Ei-la, meu caro La Ramée.

La Ramée, que não entendera coisa alguma da exclamação do Príncipe, afilou o pé do patíbulo com extrema precisão.

— Muito bem — disse o Duque; — fazei-me agora um buraquinho no chão enquanto vou buscar o paciente.

La Ramée pôs um joelho em terra e furou o chão.

Durante esse tempo, o Príncipe amarrou o caranguejo na linha.

Em seguida, plantou a forca no meio do quarto, estourando de rir.

La Ramée riu-se também, com vontade, sem saber do que, e os guardas fizeram coro.

Só Grimaud não ria.

Acercou-se de La Ramée e, mostrando-lhe o caranguejo que balouçava na ponta da linha:

— Cardeal! — disse ele.

— Enforcado por Sua Alteza o Duque de Beaufort — emendou o Príncipe, rindo-se cada vez mais — e por mestre Tiago Crisóstomo da Ramée, esbirro do Rei.

La Ramée soltou um grito de terror e precipitou-se para a forca; arrancou-a do chão, fê-la pedaços incontinenti e atirou-lhe os destroços pela janela. Ia fazer o mesmo com o caranguejo, tão desvairado ficara, quando Grimaud lho arrebatou.

— Bom para comer — disse ele; e enfiou-o no bolso. Desta feita, o Duque se divertira tanto com a cena, que quase perdoou a Grimaud o seu papel. Como, porém, no decurso do dia, refletisse na intenção que animara o guarda, e essa intenção lhe parecesse má, sentiu o ódio contra ele aumentar sensivelmente.

Mas nem por isso deixou de ter a história do caranguejo, para imenso desespero de La Ramée, enorme repercussão no interior do castelo e até fora dele. O Sr. de Chavigny, que, intimamente, detestava o Cardeal, teve o cuidado de contar a anedota a dois ou três amigos bem intencionados, que a espalharam incontinenti.

O caso proporcionou dois ou três dias alegres ao Sr. de Beaufort.

Entretanto, o Duque observara entre os guardas um homem de boa presença e tanto mais simpatizava com ele quanto mais, a cada momento que passava, aborrecia Grimaud. Ora, certa manhã em que chamara esse homem à parte e conseguira falar-lhe particularmente durante algum tempo, Grimaud entrou, viu o que se passava, e, aproximando-se, respeitoso, do guarda e do Príncipe, pegou o primeiro pelo braço.

— Que me quereis? — acudiu, desabrido, o Duque. Grimaud afastou-se com o guarda uns quatro passos e, mostrando-lhe a porta, disse:

— Ide.

O guarda obedeceu.

— Oh! — bradou o Príncipe — sois insuportável! Hei de castigar-vos!

Grimaud cumprimentou respeitosamente.

— Senhor espião, hei de quebrar-vos os ossos! — exclamou o Príncipe exasperado.

Grimaud tornou a cumprimentar, mas recuou.

— Senhor espião — continuou o Duque — hei de esganar-vos com minhas próprias mãos.

Grimaud cumprimentou pela terceira vez, recuando sempre.

— E isso — tornou o Príncipe, fazendo menção de executar a ameaça — há de ser já.

E estendeu as mãos crispadas para Grimaud, que se contentou em empurrar o guarda para fora e fechar a porta.

Ao mesmo tempo sentiu que as mãos do Príncipe se abatiam sobre os seus ombros como duas tenazes de ferro; mas, em lugar de gritar por socorro ou de defender-se, limitou-se a levar lentamente o dedo indicador à altura dos lábios e a pronunciar baixinho, colorido o rosto com o mais encantador dos sorrisos, a palavra:

— Pssiu!

Eram coisas tão raras da parte de Grimaud um gesto, um sorriso e uma palavra, que Sua Alteza sobresteve, no auge da estupefação..

Grimaud aproveitou-se desse momento para retirar do forro do casaco uma encantadora cartinha com sinete aristocrático, cujo perfume ainda não se perdera de todo a despeito da longa estada entre as roupas de Grimaud e estendeu-a ao Duque sem pronunciar uma palavra.

Cada vez mais assombrado, o Duque largou Grimaud, pegou na cartinha e, reconhecendo a letra, exclamou:

— Da Sra. de Montbazon?

Grimaud abanou afirmativamente a cabeça. O Duque rasgou, à pressa, o invólucro, passou a mão pelos olhos, tão grande era o seu pasmo, e leu:

 

"Meu caro Duque,

"Podeis confiar-vos inteiramente ao bravo rapaz que vos entregará este bilhete, pois é criado de um fidalgo dos nossos, que no-lo assegurou experimentado por vinte anos de fidelidade. Concordou em entrar para o serviço do vosso esbirro e encerrar-se convosco em Vincennes, a fim de preparar e auxiliar vossa fuga, da qual nos estamos ocupando.

“Aproxima-se o momento da libertação; tende paciência e coragem pensando em que, apesar do tempo e da ausência, os vossos amigos conservam por vós os sentimentos que sempre vos dedicaram”.

"Vossa afeiçoada,

"Maria de Montbazon."

"P. S. — Assino o meu nome por extenso pois seria muita vaidade minha pensar que, após cinco anos de ausência, ainda pudésseis reconhecer as minhas iniciais."

 

O Duque permaneceu aturdido algum tempo. O que procurava, havia cinco anos sem poder encontrar, isto é, um servidor, um auxiliar, um amigo, caía-lhe de chofre do céu, no momento em que menos o esperava. Olhou para Grimaud com espanto e releu a carta do princípio ao fim.

— Oh! querida Maria — murmurou, concluída a segunda leitura — foi, então, ela mesma que enxerguei no interior do carro! E ainda pensa em mim depois de cinco anos de separação! Cáspite! Isso é constância como a que só se vê na Astréia (24).

(24) A Astréia, de Honorato d'Urfé é um alentado romance pastoral, em cinco volumes, que, pelas intrigas galantes e romanesca fabulação, à imitação da Diana, de Montemayor, obteve enorme sucesso; as suas edições multiplicaram-se e pulularam as imitações; os enamorados copiavam-lhe as cartas de amor para enviá-las às suas belas. Muito se criticou a sensaboria e a inverossimilhança da obra de Urfé, mas a verdade é que o romance, que nos transporta a um mundo ideal, em que o amor e a galanteria inocente constituem a principal ocupação dos personagens, emprestou novo valor a esses sentimentos numa época em que, após mais de vinte anos de guerras civis, a vida de sociedade praticamente não existia e os cortesãos, uns ignorantões, corrompidos pela caserna, aviltados pela libertinagem, levavam à Corte de França os costumes grosseiros dos acampamentos. (N. do T.)

 

E, voltando-se para Grimaud:

— E tu, meu rapaz — ajuntou — estas disposto a ajudar-nos?

Grimaud fez um sinal afirmativo.

— E para isso vieste? Grimaud repetiu o sinal.

— E eu queria esganar-te! — exclamou o Duque. Grimaud começou a sorrir. — Espera — disse o Duque.

E vasculhou a algibeira.

— Espera — continuou, repetindo a experiência até então infrutífera — ninguém dirá que tamanha dedicação a um neto de Henrique IV ficará sem prêmio.

O movimento do Duque de Beaufort denunciava a melhor intenção do mundo. Mas uma das precauções que se tomavam em Vincennes era a de não deixar dinheiro com os presos.

Vendo o desapontamento do Duque, Grimaud tirou da algibeira uma bolsa cheia de ouro e apresentou-lha.

— Eis o que Vossa Alteza procura — disse ele.

O Duque abriu a bolsa e quis despejar-lhe o conteúdo entre as mãos de Grimaud, mas Grimaud sacudiu a cabeça.

— Obrigado, Monsenhor — replicou, recuando — já estou pago.

O Sr. de Beaufort caía de surpresa em surpresa.

O Duque estendeu-lhe a mão; Grimaud aproximou-se e beijou-lha respeitosamente. Os modos fidalgos de Athos se haviam transmitido a Grimaud.

— E agora — perguntou o Duque — que vamos fazer?

— São onze da manhã — respondeu Grimaud. — Âs duas, convide Vossa Alteza La Ramée para uma partida de pela e atire duas ou três bolas por cima dos muros.

— Muito bem, e depois?

— Depois... aproxime-se dos muros e peça a um homem que trabalha nos fossos que as devolva.

— Compreendo.

O rosto de Grimaud pareceu exprimir viva alegria: o pouco uso que, de hábito, fazia da palavra tornava-lhe difícil a conversação.

Fez menção de retirar.

— Mas, então — acudiu o Duque — não aceitas nada?

— Eu quisera que Vossa Alteza me fizesse uma promessa.

— Qual? Dize.

— É que, ao fugirmos, eu ande sempre na frente; pois se for novamente preso, o maior risco que corre Vossa Alteza é o de voltar à prisão, ao passo que eu, se for preso, o menos que pode acontecer-me é ser enforcado.

— Muito justo — assentiu o Duque — e, palavra de gentil-homem, será como pedes.

— Agora — disse Grimaud — só me resta uma coisa para pedir-lhe: continuai Vossa Alteza a dar-me a honra de detestar-me como antes.

— Farei o possível — prometeu o Sr. de Beaufort. Bateram à porta.

O Duque enfiou a carta e a bolsa na algibeira e se atirou sobre a cama, recurso de que sempre se utilizou nos seus grandes momentos de tédio. Grimaud foi abrir: era La Ramée, que chegava da entrevista com o Cardeal, onde se passara a cena que referimos.

La Ramée atirou um olhar investigador à sua volta e, notando os mesmos sintomas de antipatia entre o prisioneiro e o guarda, sorriu com íntima satisfação.

Depois, voltando-se para Grimaud:

— Meu amigo — disse ele — falou-se de vós em bom lugar, e espero que logo tenhais notícias que não vos serão desagradáveis.

Grimaud cumprimentou com um ar que procurou tornar gracioso e retirou-se, como costumava fazer à entrada do superior.

— E então, Monsenhor? — perguntou La Ramée, dando risada — ainda está zangado com o pobre rapaz?

— Ah! és tu, La Ramée — retrucou o Duque; — palavra que fizeste bem em voltar. Eu me havia atirado na cama e virado o nariz para o muro a fim de não ceder à tentação de cumprir a minha promessa esganando o celerado do Grimaud.

— Entretanto, duvido — acudiu La Ramée, fazendo uma alusão espirituosa ao mutismo do subordinado — que ele tenha dito alguma coisa desagradável a Vossa Alteza.

— Está visto que não! Pois se é um mudo oriental! Juro que chegaste a tempo, La Ramée, e que eu ansiava por tornar a ver-te.

— Vossa Alteza é muito bom — disse La Ramée, lisonjeado com o cumprimento.

— Sim — continuou o Duque; — hoje me sinto, em realidade, com uma inaptidão que gostarás de ver.

— Jogaremos, então, uma partida de pela? — perguntou maquinalmente o guarda.

— Se o quiseres.

— Estou às ordens de Vossa Alteza.

— Meu caro La Ramée, és um homem encantador e eu quisera ficar eternamente em Vincennes para ter o prazer de passar a minha vida contigo.

— Monsenhor — volveu La Ramée — creio que, por gosto do Cardeal, os desejos de Vossa Alteza, seriam realizados.

— Como assim? Estiveste recentemente com ele?

— Mandou-me chamar hoje cedo.

— Deveras! Para falar-te de mim?

— De que quer me fale? Em realidade, Monsenhor, Vossa Alteza é o seu pesadelo.

O Duque sorriu amargamente.

— Ah! — exclamou — se aceitasses os meus oferecimentos, La Ramée!

— Ora, Monsenhor! Já começa a falar nisso outra vez; Vossa Alteza não é razoável.

— La Ramée, eu te disse e repito que ainda farei a tua fortuna.

— Com quê? Assim que Vossa Alteza deixar a prisão, ser-lhe-ãos confiscados todos os bens.

— Assim que eu deixar a prisão, tornar-me-ei senhor de Paris.

— Basta, basta! Então!... um homem como eu pode ouvir coisas como essas? Isso é conversa que se trave com um oficial do Rei? Estou vendo, Monsenhor, que terei de procurar um segundo Grimaud.

— Pronto, não se toca mais no assunto. Com que, então, falaste de mim com o Cardeal? Devias, La Ramée, um dia em que ele te mandasse buscar, deixar-me vestir as tuas roupas; eu iria em teu lugar, darei cabo dele e, palavra de gentil-homem, se o preço fosse esse, voltaria à prisão.

— Vejo, Monsenhor, que me será preciso chamar Grimaud.

— Está bem. E que te disse o sinistro?

— Aceito a expressão, Monsenhor — retrucou La Ramée com ar sutil — porque rima com ministro. O que ele me disse? Disse-me que o vigiasse.

— Vigiar-me? Por quê? — perguntou o Duque, inquieto.

— Porque um astrólogo predisse que Vossa Alteza fugiria.

— Ah! um astrólogo predisse isso? — tornou o Duque, estremecendo mau grado seu.

— Oh! meu Deus! palavra de honra que já não sabem o que inventar para atormentar a gente de bem esses mágicos idiotas.

— E que respondeste à ilustríssima Eminência?

— Que se esse astrólogo escrevesse almanaques eu não o aconselharia a comprá-los.

— Por quê?

— Porque, para fugir, precisaria Vossa Alteza converter-se em tentilhão ou carriça.

— E tens razão, infelizmente. Vamos jogar uma partida de pela, La Ramée.

— Monsenhor, peço-lhe perdão, mas é preciso que Vossa Alteza me conceda meia hora.

— Por quê?

— Porque o Sr. Cardeal Mazarino é mais soberbo do que Vossa Alteza, embora não seja tão bem nascido e esqueceu-se de convidar-me para almoçar.

— Não queres que eu mande trazer-te o almoço aqui?

— Não, Monsenhor. Devo dizer-lhe que o pasteleiro que morava defronte do castelo e a quem chamavam tio Marteau...

— Que é que tem?

— Há uns oito dias vendeu o estabelecimento a um pasteleiro de Paris, a quem os médicos, segundo parece, recomendaram os ares do campo.

— E daí? Que é que eu tenho com isso?

— Espere, Monsenhor; de sorte que o danado do pasteleiro expôs na loja uma porção de coisas que nos dão água na boca.

— Guloso.

— Oh! Monsenhor — tornou La Ramée — ninguém é guloso por gostar de comer. É da natureza do homem buscar a perfeição assim nos pastéis como nas outras coisas. Ora, esse diabo de pasteleiro, Monsenhor, quando me viu parar diante da loja, aproximou-se de mim com a língua enfarinhada e disse-me: "Sr. La Ramée, precisais obter-me a freguesia dos presos do castelo. Comprei o estabelecimento do meu predecessor porque ele me garantiu que fornecia para o castelo: no entanto, palavra de honra, Sr. La Ramée, há oito dias que estou estabelecido e o Sr. de Chavigny não me mandou comprar nem sequer um pastel.

"— Mas — disse-lhe eu então — isso acontece provavelmente porque o Sr. de Chavigny receia que a vossa pastelaria não seja boa.

"— A minha pastelaria não é boa! Pois bem, Sr. La Ramée, quero fazer-vos juiz da causa, e agora mesmo.

"— Não posso — respondi-lhe — preciso voltar urgentemente ao castelo.

"— Neste caso, fazei o que tendes de fazer, pois me pareceis apressado, e voltai daqui a meia hora.

"— Daqui a meia hora?

"— Sim. Já almoçastes?

"— Não.

"— Pois, então, aqui está um pastel que ficará à vossa espera com uma garrafa de velho Borgonha...

E, Monsenhor, estando em jejum, eu quisera, com a permissão de Vossa Alteza...

E La Ramée se inclinou.

— Vai, animal — disse o Duque; — mas presta atenção, que só te dou meia hora.

— Posso prometer a freguesia de Vossa Alteza ao sucessor do tio Marteau, Monsenhor?

— Podes, contanto que ele não ponha cogumelos nos pastéis; sabes — ajuntou o Príncipe — que os cogumelos do bosque de Vincennes são mortais para a minha família.

La Ramée saiu sem se dar por achado e, cinco minutos depois, o oficial de serviço entrou, a pretexto de fazer companhia a Sua Alteza, mas, em realidade, para cumprir as ordens do Cardeal, que ordenara não se perdesse vista do preso.

Mas durante os cinco minutos em que ficara só, o Duque tivera tempo de reler o bilhete da Sra. de Montbazon demonstrando ao prisioneiro que os amigos não o haviam esquecido e trabalhavam por libertá-lo. De que maneira? Ainda não sabia, mas jurava intimamente que, a despeito do seu mutismo, obrigaria Grimaud a falar, pois já depositava nele uma confiança tanto maior quanto agora compreendia o seu procedimento e percebia que o rapaz somente inventara as perseguiçõezinhas com que o atormentava para não dar aos guardas a idéia de que pudesse entender-se com ele.

Essa astúcia levou o Duque a fazer grande estimação do engenho de Grimaud, no qual decidiu confiar-se inteiramente.


 O QUE CONTINHA OS PASTÉIS DO SUCESSOR DO TIO MARTEAU

 

Meia hora depois voltava La Ramée alegre e satisfeito, como um homem que comeu bem e bebeu ainda melhor. Achara os pastéis excelentes e o vinho delicioso.

O tempo estava bom e permitia a partida projetada. O jogo da pela em Vincennes era a longa distância, isto é, ao ar livre; nada, portanto, seria mais fácil para o Duque do que fazer o que lhe recomendara Grimaud: atirar as bolas nos fossos.

Mas enquanto não soaram duas horas, o Duque não se mostrou muito desastrado, pois duas horas eram o momento combinado. Não deixou, todavia, de perder as partidas disputadas até então, o que lhe permitiu encolerizar-se e fazer o que se faz nessas ocasiões, isto é, cometer erros sobre erros.

Assim, às duas horas, as bolas começaram a tomar o caminho dos fossos, para grande satisfação de La Ramée, que marcava quinze pontos para si a cada bola mal jogada pelo Príncipe.

E tantas foram elas, que logo principiaram a rarear, La Ramée propôs mandar alguém buscá-las no fosso. Mas o Duque observou, muito judiciosamente, que isso seria perder tempo e, aproximando-se do muro, que, nesse sítio, como dissera o esbirro, tinha pelo menos cinqüenta pés de altura, avistou um homem trabalhando num dos mil jardinzinhos que cultivam os campônios do lado oposto do fosso.

— Olá amigo! — gritou o Duque.

O homem ergueu a cabeça e o Duque quase soltou um grito de surpresa. O homem, o campônio, o jardineiro, era Rochefort, que o Príncipe julgava na Bastilha.

— Que é que há aí em cima? — perguntou o homem.

— Tenha a bondade de devolver-nos as bolas — pediu o Duque.

O jardineiro fez um sinal com a cabeça e pôs-se a atirar as bolas, que La Ramée e os guardas apanharam. Uma delas caiu aos pés do Duque e, como lhe fosse visivelmente destinada, Sua Alteza enfiou-a no bolso.

Depois, tendo feito ao jardineiro um sinal de agradecimento, voltou ao jogo.

Mas, decididamente, estava num dia ruim e as bolas continuaram a extraviar-se: em lugar de se manterem nos limites do jogo, duas ou três voltaram ao fosso; como, porém, o jardineiro já não estivesse lá para devolvê-las, perderam-se, pois o Duque declarou que se envergonhava de ser tão desastrado e não quis continuar.

La Ramée ficou contentíssimo por haver derrotado tão completamente um príncipe de sangue.

Voltou ao quarto o Sr. de Beaufort e deitou-se; era o que fazia constantemente depois que lhe haviam tirado os livros.

La Ramée levou as roupas do Príncipe, a pretexto de que estavam cobertas de pó e precisavam de uma escova, mas, em realidade, para ter a certeza de que Sua Alteza não sairia do lugar. Era um homem precavido o Sr. La Ramée.

Felizmente o Príncipe tivera tempo de esconder a bola debaixo do travesseiro.

Assim que se fechou a porta, rasgou o invólucro da bola com os dentes, pois não tinha à mão nenhum instrumento cortante; comia com facas de folha de prata flexível, que não cortavam.

Debaixo do invólucro achou uma carta, que rezava assim:

 

"Monsenhor, velam os amigos de Vossa Alteza e aproxima-se a hora da libertação: peça para comer depois de amanhã um pastel feito pelo novo pasteleiro que comprou o estabelecimento do antigo, e que outro não é senão Noirmont, mordomo de Vossa Alteza; mas tenha o cuidado de só abrir o pastel quando estiver só; espero que Vossa Alteza fique contente com o conteúdo.

"Servidor sempre dedicado de Vossa Alteza, na Bastilha ou onde quer que seja,

"Conde de Rochefort."

"P. S. — Fie-se Vossa Alteza de Grimaud em todos os sentidos; é um rapaz inteligente e inteiramente devotado à nossa causa."

 

O Duque de Beaufort, a quem haviam restituído o lume depois que renunciara à pintura, queimou a carta, como queimara, com pesar ainda maior, a da Sra. de Montbazon, e ia fazer o mesmo com a bola quando lhe ocorreu que ela lhe poderia ser útil para enviar uma resposta a Rochefort.

Estava tão bem guardado que lhe bastou fazer esse movimento para que entrasse La Ramée.

— Vossa Alteza precisa de alguma coisa?

— Eu sentia frio — respondeu o Duque — e atiçava o fogo para ter mais calor. Sabes, meu caro, que os cômodos do castelo de Vincennes são afamados pela frescura? Neles se poderia conservar o gelo e colher o salitre. Aqueles em que morreram Puylaurens, o Marechal de Ornano e o Grão--Prior, valiam, a esse respeito, como dizia a Sra. de Rambouillet, o seu peso em arsênico.

E o Duque tornou a deitar-se enfiando a bola debaixo do travesseiro. La Ramée sorriu constrangido. Era, afinal de contas, um bom sujeito, que se afeiçoara extremamente ao ilustre prisioneiro e ficaria desesperado se lhe sucedesse alguma desgraça. Ora, as desgraças sucessivas de que tinham sido vítimas os três personagens nomeados pelo Duque eram incontestáveis.

— Monsenhor — disse ele — Vossa Alteza não deve entregar-se a tais pensamentos. São esses pensamentos que matam, e não o salitre.

— Oh, meu caro — disse o Duque — és encantador; se eu pudesse, como tu, ir comer pastéis e beber vinho de Borgonha na pastelaria do sucessor do tio Marteau, não me entediaria tanto.

— O fato, Monsenhor — acudiu La Ramée — é que os seus pastéis são magníficos e o seu vinho, esplêndido.

— Em todo o caso — volveu o Duque — a sua adega e a sua cozinha não precisam ser muito boas para serem melhores que as do Sr. de Chavigny.

— Pois, então, Monsenhor! — replicou La Ramée, caindo no laço — que é o que impede Vossa Alteza de verificá-lo? Aliás, já prometi a ele a freguesia de Vossa Alteza.

— Tens razão — disse o Duque — se devo ficar aqui perpetuamente, como seu Mazarino teve a bondade de dar-me a entender, preciso criar uma distração para a velhice, preciso cultivar a gula.

— Monsenhor — atalhou La Ramée — ouça Vossa Alteza um conselho; não espere envelhecer para isso.

— Bem — disse à parte o Duque de Beaufort — todo homem deve ter, para perder o coração e a alma, recebido da magnificência celeste um ou dois dos sete pecados capitais; parece que o mestre La Ramée é a gula. Seja, sabere-mos aproveitá-lo.

E, logo, em voz alta:

— Pois bem! meu caro La Ramée — ajuntou — depois de amanhã não é dia santo?

— É, sim, Monsenhor, é o Pentecoste.

— Não queres dar-me uma aula depois de amanhã?

— Aula de quê?

— De gulodice.

— Com muito prazer, Monsenhor.

— Uma aula particular. Mandaremos os guardas comer da cantina do Sr. de Chavigny e faremos aqui um jantar cuja direção ficará a teu cargo.

— Hum! — exclamou La Ramée.

Era sedutor o convite; mas La Ramée, apesar da idéia desfavorável que dele fizera o Cardeal, era um veterano, conhecedor de todas as artimanhas que pode empregar um prisioneiro. O Sr. de Beaufort, dizia ele, prepara quarenta meios de fugir da prisão. Não esconderia o jantar algum ardil?

Refletiu por um instante; mas o resultado de suas reflexões foi a decisão de encomendar pessoalmente a comida e os vinhos; por conseqüência, nenhum pó seria ministrado à comida e nenhum narcótico aos vinhos.

Quanto a emborrachá-lo, o Duque nem poderia pensar em tal, e a lembrança o fez rir; mas depois lhe ocorreu uma idéia que conciliava tudo.

O Duque seguira o monólogo interior de La Ramée com um olhar inquieto, à proporção que lhe era traduzido pela própria fisionomia; mas, afinal, o rosto do esbirro se aclarou.

— E então? — perguntou o Duque — aceitas ou não?

— Aceito, Monsenhor, mas com uma condição.

— Qual?

— Grimaud nos servirá à mesa.

Nada poderia ser mais conforme com os desejos do Príncipe.

Teve, contudo, poder de imprimir ao rosto uma expressão acentuada de mau humor.

— Diabos carreguem o teu Grimaud! — bradou. — Vai--me estragar a festa.

— Eu lhe ordenarei que fique atrás de Vossa Alteza, e como ele não diz uma palavra, Vossa Alteza não o verá nem o ouvirá, e, com um pouco de boa vontade, poderá imaginá-lo a cem léguas de distância.

— Meu caro — disse o Duque — sabes o que vejo claramente em tudo isso? É que desconfias de mim.

— Monsenhor, depois de amanhã é Pentecoste.

— Ué! E que é que eu tenho com o Pentecoste? Tens medo, acaso, de que desça o Espírito-Santo em forma de língua de fogo para abrir-me as portas da prisão?

— Não, Monsenhor; mas já contei a Vossa Alteza o que predisse o diabo do mágico.

— E que predisse ele?

— Que o dia de Pentecoste não se passaria sem que Vossa Alteza fugisse de Vincennes.

— E acreditas em mágicos? Imbecil!

— Eu — disse La Ramée — não lhes faço o mínimo caso. Mas é Monsenhor Giulio quem faz; como bom italiano, é supersticioso.

O Duque deu de ombros.

— Pois bem, seja — anuiu, com bonomia perfeitamente representada — aceito Grimaud, já que sem isso a coisa não vai. Mas não quero saber de mais ninguém. Tu te encarregarás de tudo. Encomendarás o jantar como quiseres, e o único petisco que desejo é um desses pastéis de que me falaste. Pedi-lo-ás para mim, a fim de que o sucessor do tio Marteau se esmere, e prometer-lhe-ás a minha freguesia, não só pelo tempo que eu ficar na prisão, mas também para depois que sair.

— Sempre acredita Vossa Alteza que há de sair? — perguntou La Ramée.

— Naturalmente! — replicou o Príncipe — nem que seja depois da morte de Mazarino: tenho quinze anos menos do que ele. É verdade — acrescentou sorrindo — que em Vincennes vivemos mais depressa.

— Monsenhor! — atalhou La Ramée — Monsenhor!

— Ou morremos mais cedo — ajuntou o Duque de Beaufort — o que dá no mesmo.

— Monsenhor — disse La Ramée — vou encomendar o jantar.

— E acreditas poder fazer alguma coisa do aluno?

— Espero que sim, Monsenhor — respondeu La Ramée.

— Se te derem tempo — murmurou o Duque.

— Que diz Vossa Alteza?

— A Minha Alteza diz que não deves poupar a bolsa do Sr. Cardeal, que teve a gentileza de encarregar-se de nossa pensão.

La Ramée se deteve à soleira da porta.

— Quem deseja Vossa Alteza que eu lhe mande?

— Quem quiseres, exceto Grimaud. — O oficial dos guardas?

— Com o jogo de xadrez.

— Muito bem.

E La Ramée saiu.

Cinco minutos depois, entrava o oficial dos guardas e o Duque de Beaufort pareceu mergulhar profundamente nas sublimes combinações do xeque-mate.

Singularíssima coisa é o pensamento e singulares são as revoluções que um sinal, uma palavra, uma esperança operam nele. O Duque estava preso havia cinco anos, e um olhar dirigido para trás fazia que esses cinco anos lhe parecessem, embora se tivessem escoado bem lentamente, menos longos do que os dois dias, as quarenta e oito horas que o separavam ainda do momento fixado para a evasão.

De mais a mais, havia uma coisa que o preocupava horrivelmente: era o modo pelo qual se efetuaria a fuga. Faziam-no esperar o resultado; mas tinham-lhe escondido o que devia conter o misterioso pastel. Que amigos o esperavam? Ainda teria amigos depois de cinco anos de prisão? Nesse caso era um Príncipe assaz privilegiado.

Esquecia-se de que, entre os amigos, coisa muito mais extraordinária, uma mulher se lembrara dele; é verdade que o esquecera, o que já não é pouco.

Havia nisso matéria mais do que suficiente para preocupar o Duque; por isso mesmo aconteceu na partida de xadrez o que aconteceria na partida de pela: o Sr. de Beaufort cometeu erros sobre erros, e o oficial venceu-o, por sua vez, à noite como o vencera à tarde La Ramée.

Mas essas derrotas sucessivas tiveram uma vantagem: a de entreter o Príncipe até às oito; eram sempre oito horas ganhas; depois viria a noite e, com a noite, o sono.

Pelo menos assim pensava o Duque: mas o sono é divindade muito caprichosa, e precisamente quando a invocamos mais se faz esperar. O Duque esperou-o até meia-noite, virando-se e revirando-se no colchão como São Lourenço na grelha. Afinal, adormeceu.

Mas despertou com o dia: sonhara sonhos fantásticos; tinham-lhe nascido asas; quisera então, e muito naturalmente, alçar vôo e, a princípio, as asas o haviam sustentado perfeitamente; mas, chegado a certa altura, faltara-lhe de repente o estranho apoio, as asas tinham-se quebrado, e parecera-lhe rolar em abismos sem fundo; acordou com a testa banhada de suor e moído como se tivesse sofrido, realmente, uma queda aérea.

Tornou a adormecer e de novo se perdeu num dédalo de sonhos, cada qual mais insensato; assim que se lhe fecharam os olhos, o espírito, que tendia para um só fim, a evasão, tornava a tentá-la. Sucedia, então, outra coisa: fora encontrada uma passagem subterrânea que o levaria para fora de Vincennes e ele enveredou por essa passagem, precedido de Grimaud, que levava uma lanterna na mão; mas, a pouco e pouco a passagem se estreitava, embora o Duque não parasse; o subterrâneo, afinal, ficou tão estreito que o fugitivo tentou embalde ir mais longe: as paredes fechavam-se cada vez mais e apertavam-no; ele fazia esforços desesperados para continuar, mas não podia; e, no entanto, via ao longe Grimaud, com a lanterna, que continuava andando; queria chamá-lo para que o ajudasse a safar-se do túnel sufocante, mas não consegui pronunciar uma palavra. E então, na outra extremidade, pela qual entrara, ouviu os passos dos perseguidores; os passos aproximavam-se, ele era descoberto, já não tinha esperanças de fugir. As paredes pareciam conluiadas com os seus inimigos e apertavam-no tanto mais quanto maior era a necessidade de escapar; por fim, ouvia a voz de La Ramée, avistava-o. La Ramée estendia a mão e colocava-a sobre o seu ombro, desatando a rir; tornavam a agarrá-lo e conduziam-no ao quarto baixo e abobadado em que tinham morrido o Marechal de Ornano, Puylaurens e seu tio; os três túmulos lá estavam, formando bossas no chão, e uma quarta cova se abrira, à espera apenas de um cadáver.

Por isso mesmo, quando despertou, fez os mesmos esforços para manter-se acordado que fizera para adormecer; e, ao entrar, La Ramée achou-o tão pálido e cansado que lhe perguntou se não estava doente.

— De fato — disse um dos guardas que passara a noite no quarto e não pudera dormir por causa de uma dor de dentes provocada pela umidade — Monsenhor passou uma noite agitadíssima e duas ou três vezes, em sonhos, gritou por socorro.

— Mas que tem Vossa Alteza? — perguntou La Ramée.

— Foste tu mesmo, imbecil, que, com as tuas patranhas de evasão, me encheste a cabeça e me fizeste sonhar que estava fugindo e que, ao fugir, quebrei o pescoço.

La Ramée soltou uma gargalhada.

— Veja Vossa Alteza — disse ele — é um aviso do céu; por isso mesmo espero que Vossa Alteza não cometa nunca semelhantes imprudências senão em sonhos.

— E tens razão, meu caro La Ramée — disse o Duque, enxugando o suor que ainda lhe escorria da testa, embora estivesse acordado — só quero sonhar agora que estou comendo e bebendo.

— Pssiu! — fez La Ramée.

E afastou os guardas, um por um, sob um pretexto qualquer.

— E então? — perguntou o Duque ao ficarem sós.

— E então — repetiu La Ramée — o jantar de Vossa Alteza já foi encomendado.

— Ah! — exclamou o Príncipe — e de que se comporá?j Dize, Sr. meu mordomo.

— Vossa Alteza prometeu louvar-se em mim.

— E haverá um pastel?

— Como não! Do tamanho de uma torre.

— Feito pelo sucessor do tio Marteau?

— Já foi encomendado.

— E tu lhe disseste que era para mim?

— Disse.

— E ele?

— Respondeu que faria o possível para contentar Vossa Alteza.

— Ainda bem! — volveu o Duque, esfregando as mãos.

— Diabo! Monsenhor — acudiu La Ramé — como Vossa Alteza aderiu depressa à gulodice! Faz cinco anos que não lhe vejo o rosto tão contente como agora!

Beaufort percebeu que não estava suficientemente senhor de si; mas, nesse momento, como se tivesse escutado à porta e compreendesse que era urgente distrair as idéias de La Ramée, Grimaud entrou e fez sinal ao esbirro de que precisava falar-lhe.

La Ramée aproximou-se de Grimaud, que lhe falou em voz baixa.

Nesse em meio o Duque se reportou.]

— Já proibi a esse homem — disse ele — apresentar-se aqui sem minha permissão.

— Monsenhor — acudiu La Ramée — é preciso perdoar-lhe, pois fui eu quem o mandou chamar.

— E por que mandaste chamá-lo sabendo que me desa-' grada?

— Lembre-se Vossa Alteza do que ficou combinado — respondeu La Ramée; — o Sr. Grimaud deverá servir-nos o famoso jantar. Vossa Alteza esqueceu o jantar,

— Não, mas eu tinha esquecido o Sr. Grimaud.

— Vossa Alteza sabe que não haverá jantar sem ele.

— Vamos, vamos, faze o que quiseres.

— Aproximai-vos, meu rapaz — disse La Ramée — e escutai o que vou dizer-vos.

Aproximou-se Grimaud com a sua expressão mais taciturna.

La Ramée continuou:

— Sua Alteza me fez a honra de convidar-me para jantar amanhã em sua companhia.

Grimaud fez um sinal indicando que não via em que pudesse a coisa interessá-lo.

— Como não, como não — sobreveio La Ramé —a coisa vos interessa, pelo contrário, pois tereis a honra de servir--nos, sem contar que, por melhor que seja o nosso apetite e por maior que seja a nossa sede, sempre ficará alguma coisa no fundo dos pratos e no fundo das garrafas, e essa alguma coisa vos será destinada.

Grimaud inclinou-se, agradecendo.

— E, agora, Monsenhor — disse La Ramée — peço licença a Vossa Alteza; parece que o Sr. de Chavigny pretende ausentar-se por alguns dias e me comunicou que, antes de partir, tem ordens para dar-me.

O Duque tentou trocar um olhar com Grimaud, mas os olhos de Grimaud não tinham olhar nenhum.

— Vai — disse o Duque a La Ramée — e volta o mais cedo possível.

— Quer, então, Vossa Alteza desforrar-se da partida de pela de ontem?

Grimaud fez um imperceptível sinal afirmativo com a cabeça.

— Quero — disse o Duque; — mas toma cuidado, meu caro La Ramée, porque os dias se sucedem e não se parecem, de sorte que hoje estou decidido a surrar-te.

La Ramée saiu: Grimaud seguiu-o com os olhos, sem que o resto do corpo se desviasse uma linha; depois, quando viu a porta fechada, tirou rapidamente do bolso um lápis e um pedaço de papel.

— Escreva, Monsenhor — disse ele.

— O quê?

Grimaud fez um sinal com o dedo e ditou:

 

"Tudo está preparado para amanhã à noite; conservai-vos de atalaia das sete às nove, com dois cavalos aparelhados; desceremos pela primeira janela da galeria."

 

— E agora? — perguntou o Duque.

— Agora, Alteza? — tornou Grimaud, espantado. — Agora, assine.

— Só?

— Que deseja ainda Vossa Alteza? — volveu Grimaud, adepto da mais ferrenha concisão.

O Duque assinou.

— Vossa Alteza — continuou Grimaud — perdeu, acaso, a bola?

— Que bola?

— A que veio com a carta.

— Não. Pensei que ela nos pudesse ser útil. Está aqui. O Duque tirou a bola de sob o travesseiro e apresentou-a a Grimaud.

Grimaud sorriu o mais agradàvelmente que lhe foi possível.

— E então? — perguntou o Duque.

— Então, Monsenhor — respondeu Grimaud — torno a costurar o papel na bola e, ao jogar a pela, Vossa Alteza atirará a bola no fosso.

— E não se perderá?

— Tranqüilize-se Vossa Alteza; haverá alguém para apanhá-la.

— Um jardineiro? — perguntou o Duque. Grimaud fez sinal que sim.

— O mesmo de ontem?

Grimaud repetiu o sinal.

— O Conde de Rochefort? Grimaud fez três sinais afirmativos.

— Mas, vamos — disse o Duque — dá-me pelo menos alguns pormenores sobre o meio que empregaremos para fugir.

— Não posso — tornou Grimaud — enquanto não chegar o momento da execução.

— Quais são as pessoas que estarão à minha espera do outro lado do fosso?

— Não sei, Alteza.

— Mas, pelo menos, dize-me o que conterá esse famoso pastel se não quiseres que eu enlouqueça.

— Monsenhor — disse Grimaud — o pastel conterá dois punhais, uma corda de nós e uma pêra amarga (25).

(25) A pêra amarga, poire d'angoisse, era um instrumento de ferro, com molas, que servia de mordaça; enfiava-se na boca, onde se dilatava com o auxílio de molas, distendendo ao máximo as mandíbulas. (N. do T.)

 

— Compreendo.

— Como vê Vossa Alteza, haverá um bocado para todos.

— Ficaremos com os punhais e a corda — disse o Duque.

— E faremos La Ramée comer a pêra — completou Grimaud.

— Meu caro Grimaud — disse o Duque — não falas muito mas, quando falas, dizes coisas de ouro.


 UMA AVENTURA DE MARIA MICHON

 

Mais ou menos na ocasião em que esses projetos de fuga eram tramados pelo Duque de Beaufort e Grimaud, dois homens a cavalo, seguidos de perto por um lacaio, entravam em Paris pela rua do arrabalde de Saint-Marcel. Esses dois homens eram o Conde de La Fere e o Visconde de Bragelonne.

Pela primeira vez ia o rapaz a Paris, e Athos não se empenhara em apresentar-lhe a capital, sua velha amiga, sob o aspecto mais favorável entrando por esse bairro. Com efeito, a última das aldeias da Turena era muito mais agradável à vista do que Paris observada pela entrada de Blois. Por isso mesmo cumpre dizer, para vergonha da tão decantada cidade, que produziu medíocre impressão no jovem provinciano.

Athos conservava o seu ar displicente e sereno.

Chegado a Saint-Médard, o Conde, que servia no grande labirinto de guia para o companheiro, tomou pela rue des Postes, depois pela rue de 'Estrapade, em seguida pela rue des Fossés-Saint-Michel, por fim pela rue de Vaugirard. Atingindo a rue Férou, por ela se meteram os viajantes. No meio dessa rue, Athos levantou os olhos sorrindo e, mostrando uma casa de aparência burguesa, disse ao rapaz:

— Vê, Raul, eis a casa em que passei sete dos anos mais agradáveis e cruéis de minha vida.

Sorriu também o rapaz e saudou a casa. A estima de Raul pelo benfeitor manifestava-se em todos os atos de sua vida.

No que concerne a Athos, como dissemos, Raul era não somente para ele o centro, mas também, à parte as antigas lembranças do regimento, o único objeto de suas afeições, e compreende-se com quão profunda ternura amaria agora o coração do Conde de La Fere.

Os dois viajantes pararam na rue da Vieux-Colombier, na estalagem da Raposa Verde. Athos conhecia o albergue de longa data, por lá ter estado cem vezes com os amigos; mas nos últimos vinte anos se haviam operado muitíssimas transformações no estabelecimento, a começar pelos proprietários.

Os viajantes entregaram os cavalos aos criados e, como tossem animais de nobre raça, recomendaram-lhes que os tratassem com o máximo cuidado, só lhes dessem palha e cevada e lhes lavassem o peito e as pernas com vinho morno. Tinham andado naquele dia vinte léguas. E, depois de se terem ocupado das montarias, como devem fazer os verdadeiros cavaleiros, pediram dois quartos para si.

— Vai preparar-te, Raul — disse Athos — que desejo apresentar-te a alguém.

— Hoje, senhor? — perguntou o rapaz.

— Daqui a meia hora. O jovem cumprimentou.

Talvez, menos infatigável do que Athos, que parecia de ferro, tivesse preferido um banho no Sena, rio de que tanto ouvira falar, e que pretendia achar inferior ao Loire e, depois, cama; mas o Conde de La Fere falara e ele não pensou senão em obedecer.

— A propósito, Raul — disse Athos — esmera-te. Quero que te achem bonito.

— Espero, senhor — volveu o rapaz a sorrir — que não se trate de casamento. Conheceis os meus compromissos com Luísa.

Athos sorriu também.

— Não, tranqüiliza-te — respondeu — embora seja também a uma mulher que desejo apresentar-te.

— Uma mulher? — tornou Raul.

— Sim, e quero mesmo que a ames.

O rapaz considerou o Conde com certa inquietude; mas, vendo-lhe o sorriso, logo se tranqüilizou.

— Que idade tem ela? — perguntou o Visconde de Bragelonne.

— Meu caro Raul, aprende de uma vez por todas — disse Athos: — eis aí uma pergunta que nunca se faz. Quando puderes ler a idade no rosto de uma mulher, será inútil perguntá-la; quando não puderes, será indiscreto.

— É bonita?

— Há dezesseis anos era tida não só pela mais linda mas também pela mais graciosa dentre as mulheres de França.

Essa resposta acabou de tranqüilizar o Visconde. Athos não poderia alimentar nenhum projeto de aliança entre elee uma mulher considerada a mais linda e a mais graciosa de França um ano antes do seu nascimento.

Recolheu, portanto, ao quarto e, com a casquilhice que tão bem condiz com a mocidade, aplicou-se a seguir as instruções de Athos, isto é, a fazer-se o mais bonito que podia. Ora, não seria tarefa muito difícil depois de tudo o que a natureza já lhe dera.

Quando reapareceu, o Conde recebeu-o com o sorriso paternal com que outrora acolhia d'Artagnan, acentuado, porém, por uma ternura ainda maior.

Athos examinou-lhe os pés, as mãos e os cabelos, os três índices de raça. Elegantemente repartidos, como então se usavam, os anéis de cabelos pretos lhe molduravam o rosto de tez mate; as luvas de pelica cinzenta, em harmonia com o chapéu de feltro, desenhavam duas mãos finas e elegantes, ao passo que as botas, da mesma cor das luvas e do chapéu, encobriam um pé que parecia pertencer a uma criança de dez anos.

— Se ela não se orgulhar dele há de ser muito exigente — murmurou o Conde.

Eram três horas da tarde, isto é, a hora das visitas. Os dois viajantes caminharam pela rue de Grenelle, tomaram pela rue des Rosiers, entraram na rue Saint-Dominique e pararam diante de magnífico palácio defronte dos Jacobinos, exornado com as armas dos Luynes.

— É aqui — disse Athos.

Entrou no palácio com o passo firme e seguro que indica ao porteiro que quem entra tem o direito de fazê-lo. Subiu a escada e, dirigindo-se a um lacaio que esperava, trajando libré de gala, perguntou se a Sra. Duquesa de Chevreuse estava visível e podia receber o Sr. Conde de La Fere (26).

(26) Maria de Rohan fora casada, no princípio do reinado de Luís XIII, com o primeiro favorito do Rei, o Condestável de Luynes, o homem mais poderoso do reino nessa ocasião. Após a morte do marido, recebera-se, em segundas núpcias, com um príncipe da casa de Lorena, o Duque de Chevreuse, inteligente, belo, pródigo, mas que ela não amava. Fora belíssima: olhos azuis, abundante cabeleira ruiva, sensual, viva, alegre, espirituoso, se bem possuísse uma inteligência muito superficial, intrépida, permanentemente impulsionada pela necessidade de agir e de se fazer notada, estava sempre disposta a mover céus e terras pelo homem que amava ou pelos amigos, arrostando os maiores perigos mas atraindo também, sobre os outros, as maiores desgraças. Trabalhara contra Richelieu em 1637, e as conspirações que urdira graças à cumplicidade de seus adoradores acabaram arrastando este últimos ao cadafalso ou à prisão. Fugindo à cólera do Cardeal, percorrera 400 léguas vestida de homem e transpusera, a cavalo, a distância de Tours à fronteira espanhola. Em seu leito de morte, Luís XIII proibira-a terminantemente de residir na Corte; e, sublinhando com o dedo descarnado o seu nome no decreto de exílio, exclamara: "Essa, é o diabo!" Morto o Rei, voltou à Corte a Sra. de Chevreuse e a Rainha, sua amiga, lhe dispensou bom acolhimento. Mas o demônio da intriga, que a não deixava, levou-a a conspirar contra Mazarino; e tantas fez, que este escreveu um dia: "A França só conhecia a calma quando ela não estava lá." (N. do T.)

 

Um instante depois voltou o lacaio e disse que, embora não tivesse a honra de conhecer o Sr. Conde de La Fere, pedia-lhe a Sra. Duquesa de Chevreuse fizesse o obséquio de entrar.

Athos seguiu o lacaio, que o fez atravessar longa série de aposentos e se deteve, por fim, diante de uma porta fechada. Tinham chegado a um salão. Athos fez sinal ao Visconde de Bragelonne que ficasse onde estava.

O lacaio abriu e anunciou o Sr. Conde de La Fere.

A Sra. de Chevreuse de que tantas vezes falamos em nossa história dos Três Mosqueteiros sem ter tido ocasião de apresentá-la em cena, era ainda considerada formosíssima mulher. Com efeito, embora já pendesse, nessa época, dos quarenta e quatro ou quarenta e cinco anos, ninguém lhe daria mais de trinta e oito ou trinta e nove; tinha ainda os lindos cabelos loiros, os grandes olhos vivos e inteligentes que a intriga tantas vezes abrira e o amor fechara tantas vezes, e o talhe de ninfa, que dava a quem a visse de costas a impressão de que era ainda a rapariga que saltava com Ana d'Áus-tria o fosso das Tulherias, que privou a Coroa de França de um herdeiro em 1683.

De resto, era sempre a mesma criatura extravagante que emprestava aos seus amores tamanho cunho de originalidade que eles se convertiam quase em honra para a família.

Encontrava-se num gabinetezinho cuja janela abria para um jardim. Esse gabinete, segundo a moda lançada pela Sra. de Rambouillet ao construir o seu palácio, era forrado de uma espécie de damasco azul com flores cor-de-rosa e folhagem de ouro. Só muito casquilha poderia uma mulher com a idade da Sra. de Chevreuse demorar-se num gabinete assim e sobretudo na posição em que se achava, isto é, deitada numa poltrona preguiçosa com a cabeça recostada na tapeçaria.

Tinha na mão um livro entreaberto e uma almofada para sustentar o braço que segurava o livro.

À apresentação do criado, ergueu-se um pouco e estendeu, curiosa, a cabeça para a frente.

Athos apareceu.

Vestia trajo de veludo roxo, com guarnições da mesma cor; as agulhetas eram de prata brunida, o capote sem bordado nenhum, e uma simples pluma roxa lhe realçava o chapéu preto.

Calçava botas de couro preto e, pendente do cinto envernizado, trazia a espada de punho magnífico que Porthos tantas vezes admirara na rue Férou, mas que Athos nunca lhe quisera emprestar. Rendas lindíssimas formavam a gola da camisa e recaiam também sobre o canhão das botas.

Havia em toda a figura do homem que acabavam de anunciar sob um nome inteiramente desconhecido para a Sra. de Chevreuse, um ar tão acentuado de grandeza fidalga, que ela, soerguendo-se, fez-lhe graciosamente sinal que se assentasse.

Athos cumprimentou e obedeceu. O lacaio ia retirar-se, quando o Conde fez um gesto, que o reteve.

— Senhora — disse ele à Duquesa — tive a audácia de apresentar-me em vossa casa sem que me conhecêsseis; fui bem sucedido, porque me recebestes. Mas tenho agora a ousadia de pedir-vos meia hora de atenção.

— Concedida, senhor — respondeu a Sra. de Chevreuse com o mais gracioso sorriso.

— Mas ainda não é tudo. Sei que sou um grande ambicioso! A entrevista que vos peço é particular, e eu desejaria ardentemente não ser interrompido.

— Não estou para ninguém — disse a Duquesa de Chevreuse ao lacaio. — Vai.

O lacaio saiu.

Seguiu-se um instante de silêncio, em que os dois personagens, que à primeira vista reconheceram no interlocutor a nobreza da estirpe, se examinaram sem nenhum constrangimento.

Foi a Duquesa de Chevreuse quem primeiro rompeu o silêncio.

— Então, senhor! — exclamou, sorrindo — não vedes que espero com impaciência?

— E eu, senhora — respondeu Athos — contemplo com admiração.

— Senhor — insistiu a Sra. de Chevreuse — deveis perdoar-me, mas tenho pressa de saber com quem falo. Sois cortesão, é incontestável, e, no entanto, nunca vos vi na Corte. Saístes, porventura, da Bastilha?

— Não, senhora — respondeu Athos, com um sorriso — mas talvez esteja a caminho.

— Ah! nesse caso, dizei-me depressa quem sois e ide-vos embora — respondeu a Duquesa com um muxoxo encantador — pois já estou sem isso bastante comprometida e não quero comprometer-me ainda mais.

— Quem sou, senhora? Já vos disseram o meu nome: Conde de La Fere. Esse nome, jamais o conhecestes. Mas outrora usei outro, que talvez tenhais conhecido e sem dúvida esquecestes.

— Dizei sempre.

— Outrora — disse o Conde de La Fere — eu me chamava Athos.

A Sra. de Chevreuse abriu os olhos espantados. Era evidente que o nome, como dissera o Conde, não se lhe apagara de todo da memória, embora estivesse nela confundido com antigas recordações.

— Athos? — repetiu a Duquesa — esperai...

E levou as mãos à testa como se quisesse obrigar as mil idéias fugitivas, que nela se continham, a fixarem-se por um momento, a fim de que pudesse vê-las com clareza no meio do seu brilhante e jaspeado turbilhão.

— Quereis que vos ajude, senhora? — tornou, sorrindo, Athos.

— Naturalmente — respondeu a Duquesa, já cansada de procurar — seria um favor.

— Esse Athos andava ligado com três jovens mosqueteiros que se chamavam d'Artagnan, Porthos e...

O Conde interrompeu-se.

— E Aramis — exclamou, com vivacidade, a Duquesa.

— E Aramis, isso mesmo — tornou Athos; — então não esquecestes completamente o nome?

— Não — disse ela — não; pobre Aramis! era um gentil-homem encantador, elegante, discreto, e fazia lindos versos; creio que desandou — ajuntou ela.

— Desandar é pouco; fez-se padre.

— Ah! que horror! — tornou a Sra. de Chevreuse, brincando, negligente, com o leque. — Em realidade, eu vos agradeço.

— O que, senhora?

— O haver-me ressuscitado essa lembrança, que é uma das amáveis recordações de minha mocidade.

— Permitir-me-eis, então, ressuscitar-vos outra?

— Que se liga a esta?

— Sim e não.

— À minha fé — disse a Sra. de Chevreuse; — com um homem como vós, arrisco tudo.

Athos cumprimentou.

— Aramis — continuou ele — mantinha relações com uma jovem costureira de Tours.

— Uma jovem costureira de Tours? — repetiu a Sra. de Chevreuse.

— Sim, uma prima dele, chamada Maria Michon.

— Ah! conheço-a — exclamou a Sra. de Chevreuse — é a moça a quem ele escrevia do cerco da Rochela para avisá-la de uma conjuração que se tramava contra o pobre Buckingham.

— Exatamente — confirmou Athos; — permitireis que eu vos fale dela?

A Sra. de Chevreuse encarou com ele.

— Sim — consentiu — contanto que não faleis muito mal.

— Eu seria um ingrato — disse Athos — e considero a ingratidão, não como um defeito ou como um crime, mas como um vício, que é pior.

— Vós, ingrato para com Maria Michon? — acudiu a Sra. de Chevreuse, tentando ler nos olhos de Athos. — Mas, como? Nunca a conhecestes pessoalmente.

— Quem sabe? — tornou Athos. — Há um provérbio popular segundo o qual só as montanhas não se encontram, e os provérbios populares são, às vezes, de extraordinária justeza.

— Oh! continuai, senhor, continuai! — atalhou, com vivacidade, a Sra. de Chevreuse; — pois não podeis imaginar o quanto me diverte a nossa conversação.

— Vós me animais; continuarei. Essa prima de Aramis, essa Maria Michon, essa jovem costureira, enfim, a despeito de sua condição vulgar, mantinha relações com as mais altas personagens; tratava como amigas as maiores damas da Corte, e a Rainha, apesar de duplamente soberba, como austríaca e como espanhola, chamava-lhe sua irmã.

— Ai de mim! — acudiu a Sra. de Chevreuse com um leve suspiro e um pequeno movimento de sobrancelhas, que só ela sabia fazer — as coisas mudaram muito desse tempo para cá.

— E a Rainha tinha razão — continuou Athos — pois Maria Michon lhe era extremamente dedicada, a ponto de servir-lhe de intermediária entre ela e o irmão, o Rei de Espanha.

— O que hoje — atalhou a Duquesa — lhe é imputado como enorme crime.

— De tal sorte — prosseguiu Athos — que o Cardeal, o verdadeiro Cardeal, o outro, decidiu um belo dia mandar prender a pobre Maria Michon e conduzi-la ao castelo de Loches.

"Mas a coisa, felizmente, não pôde fazer-se muito em secreto e acabou transpirando; o caso fora previsto; se Maria Michon fosse ameaçada de algum perigo, a Rainha deveria mandar-lhe um livro de horas encadernado de veludo verde.

— Precisamente, senhor! Estais bem informado.

— Uma bela manhã chegou o livro verde trazido pelo Príncipe de Marcillac. Não havia tempo a perder. Por felicidade, Maria Michon e uma criadinha sua, de nome Ketty, vestiam-se admiràvelmente de homens. O Príncipe arrumou para Maria Michon um trajo de cavaleiro e para Ketty um fato de lacaio, deu-lhes dois cavalos excelentes e as duas fugitivas saíram rapidamente de Tours, dirigindo-se para a Espanha, tremendo ao menor ruído, seguindo pelos atalhos, porque não se atreviam a seguir pelas estradas, e pedindo hospitalidade quando não encontravam estalagens.

— Mas, de fato, é isso mesmo! — exclamou a Sra. de Chevreuse batendo palmas. — Seria realmente curioso...

Interrompeu-se.

— Que eu seguisse as fugitivas até ao fim da viagem? — emendou Athos. — Não, senhora, não abusarei assim do vosso tempo e só as acompanharemos até uma aldeiazinha do Limousin, situada entre Tulle e Angoulême, chamada Roche-1'Abeille.

A Sra. de Chevreuse soltou um grito de surpresa e olhou para Athos com uma expressão de assombro que fez sorrir o antigo mosqueteiro.

— Esperai, senhora — prosseguiu Athos — pois o que ainda me resta para dizer-vos é bem mais estranho do que o que já vos disse.

— Senhor — acudiu a Sra. de Chevreuse — sois para mim um feiticeiro, e eu estou por tudo; mas, em realidade... não importa, continuai.

— Dessa vez a jornada fora comprida e cansativa; fazia frio; era o dia 11 de outubro; a aldeia não tinha estalagem nem castelo, e as casas dos camponeses eram pobres e sujas. Criatura muito aristocrática, como a Rainha, sua irmã, habituara-se Maria Michon aos bons perfumes e aos lençóis finos; resolveu, portanto, pedir pousada no presbitério.

Athos fez uma pausa.

— Oh! continuai — pediu a Duquesa — já vos avisei de que estou por tudo.

— As duas viajantes bateram à porta; era tarde; o padre, que estava deitado, gritou-lhes que entrassem; entraram, porque a porta nunca se fechava. A confiança é grande nas aldeias. Uma lâmpada ardia no quarto em que estava o padre. Maria Michon, o cavaleiro mais encantador do mundo, empurrou a porta, enfiou a cabeça pela fresta e pediu hospitalidade.

"— Com muito prazer, meu jovem cavaleiro — disse o padre — se vos contentardes com os restos do meu jantar e a metade do meu quarto.

"As duas viajantes consultaram-se um instante; o padre ouviu-lhes as gargalhadas, e depois o amo, ou melhor, a ama, respondeu:

"— Obrigado, Sr. Cura, aceito.

"— Então, jantai e fazei o menor barulho possível — respondeu o padre — porque também corri o dia inteiro e gostaria de dormir esta noite.

A Sra. de Chevreuse passava, manifestamente, da surpresa ao espanto e do espanto à estupefação; o rosto, que olhava para Athos, assumira uma expressão impossível de descrever-se; via-se que ela teria querido falar mas se calava, com receio de perder uma palavra que fosse do interlocutor.

— E depois? — perguntou.

— Depois? — repetiu Athos. — Ah! aí é que está precisamente o mais difícil.

— Falai, falai, falai! A mim tudo se pode dizer. Aliás, não tenho nada com o caso; são negócios da Srta. Maria Michon.

— É verdade — concordou Athos. — Pois bem, Maria Michon jantou com a criada e, depois de ter jantado, segundo a permissão que lhe fora concedida, tornou a entrar no quarto em que dormia o hospedeiro, enquanto Ketty se acomodava numa poltrona na sala contígua, isto é, naquela em que tinham jantado.

— Na verdade, senhor — disse a Sra. de Chevreuse — a menos de serdes o diabo em pessoa, não sei como podeis conhecer todos esses pormenores.

— Era uma criatura encantadora Maria Michon — continuou Athos — uma dessas criaturas extravagantes por cuja cabeça passam, sem cessar, as idéias mais estranhas, um desses seres que nasceram para nos perderem a todos. Ora, lembrando-se de que o hospedeiro era padre, ocorreu ao espírito da doidivanas que seria uma alegre recordação para a velhice, no meio de tantas outras recordações alegres que já entesourara, a de ter perdido um pároco.

— Conde — atalhou a Duquesa — palavra de honra, vós me aterrais!

— Ai! — tornou Athos — o coitado do pároco não tinha nada de Santo Ambrósio e, torno a repeti-lo, Maria Michon era adorável.

— Senhor — bradou o Duquesa agarrando as mãos de Athos — dizei-me logo como conheceis todas essas minúcias pois, do contrário, mandarei vir um frade do convento dos Vieux-Augustins para exorcismar-vos.

Athos desandou a rir.

— Nada mais fácil, senhora. Um cavaleiro, também encarregado de importante missão, fora pedir, uma hora antes de vós, pousada no presbitério, no momento em que o cura, chamado para ao pé de um moribundo, saía não só da casa mas também da aldeia para passar a noite fora. E o homem de Deus, cheio de confiança no hóspede, que era, aliás, um gentil-homem, deixou-lhe casa, jantar e quarto. Foi, portanto, ao hóspede do padre, e não ao padre, que Maria Michon pediu hospitalidade.

— E esse cavaleiro, esse hóspede, esse gentil-homem que chegara antes dela?

— Era eu, o Conde de La Fere — disse Athos, erguendo-se e cumprimentando respeitosamente a Duquesa de Chevreuse.

A Duquesa quedou estupefata por um momento; mas, logo, estourando de rir:

— Ah! palavra — exclamou — que é engraçadíssimo, e a louca Maria Michon achou coisa melhor do que esperava. Sentai-vos, meu caro Conde, e continuai a narrativa.

— Agora, preciso acusar-me, senhora. Como já vos disse, eu também viajava incumbido de missão urgente; assim que raiou a aurora, saí do quarto, sem ruído, deixando dormir o meu delicioso companheiro de leito. Na sala contígua dormia também, com a cabeça caída no braço da poltrona, a criada, digna em tudo da ama. O seu lindo rosto impressionou-me; aproximei-me e reconheci a pequena Ketty, que o nosso amigo Aramis colocara a seu serviço. Foi assim que eu soube que a encantadora viajante era...

— Maria Michon! — emendou, rápida, a Sra. de Chevreuse.

— Maria Michon — repetiu Athos. — Saí da casa, fui à cocheira, encontrei o cavalo selado e o lacaio pronto; partimos.

— E nunca tornastes a passar pela aldeia? — perguntou, com certa ansiedade, a Sra. de Chevreuse.

— Um ano depois.

— E então?

— Então, quis rever o bom do cura. Encontrei-o preocupadíssimo com um acontecimento de que não entendia patavina. Recebera, oito dias antes, num berço, um lindo menino de três meses com uma bolsa cheia de ouro e um bilhete que continha apenas estas palavras: "11 de outubro de 1633."

— Era a data da estranha aventura — tornou a Sra. de Chevreuse.

— Sim, mas ele não compreendia coisa alguma, a não ser que passara essa noite ao pé de um moribundo, pois Maria Michon também deixara o presbitério antes do seu regresso.

— Sabeis, senhor, que Maria Michon, voltando à França em 1643, mandou imediatamente procurar notícias da criança? Fugitiva, não podia tê-la consigo; mas, de volta a Paris, queria mandá-la educar junto de si.

— E que lhe disse o padre? — perguntou Athos.

— Que um senhor desconhecido se oferecera para ficar com ele, respondera pelo seu futuro e levara-o consigo.

— Exatamente.

— Ah! agora compreendo! Esse senhor, éreis vós, era o pai!

— Pssiu! Falai mais baixo, senhora! Ele está aí.

— Ele está aqui! — exclamou a Sra. de Chevreuse, levantando-se precipitadamente; — ele está aqui! Meu filho, o filho de Maria Michon está aqui! Quero vê-lo imediatamente!

— Tende cuidado, senhora, pois ele não conhece o pai nem a mãe — recomendou Athos.

Guardastes o segredo e mo trazeis assim, buscando fazer-me feliz. Oh! obrigada, obrigada, senhor! — exclamou a Sra. de Chevreuse agarrando-lhe a mão, que tentou levar aos lábios; — obrigada. Tendes um nobre coração.

— Eu vo-lo trago — disse Athos retirando a mão — para que também façais por ele alguma coisa. Até agora cuidei de sua educação e creio tê-lo feito um perfeito gentil--homem; mas vejo-me de novo obrigado a retomar a vida errante e perigosa do homem de partido. De amanhã em diante entrarei numa aventura em que posso morrer; ele, então, não terá ninguém para ajudá-lo a ocupar o posto que lhe pertence na sociedade, senão vós.

— Oh! ficai tranqüilo! — replicou a Duquesa. — Neste momento, infelizmente, o meu crédito não é grande, mas o que ainda existe lhe pertence; quanto à fortuna e ao título...

Não vos preocupeis com isso; substabeleci-lhe a terra de Bragelonne, que herdei, e que lhe dá o título de Visconde e dez mil libras de renda.

— Pela minha alma, senhor — disse a Duquesa — sois um verdadeiro gentil-homem! Mas morro por ver o nosso jovem Visconde. Onde está ele?

— Lá, no salão; vou mandá-lo entrar, se o quiserdes. Athos fez um movimento na direção da porta. A Sra.

de Chevreuse o deteve.

— É bonito? — perguntou.

O Conde sorriu:

— Parece-se com a mãe.

Ao mesmo tempo abriu a porta e fez sinal ao rapaz que entrasse.

A Sra. de Chevreuse não pôde menos de dar um grito de alegria ao ver tão guapo cavaleiro, que ultrapassava todas as esperanças do seu orgulho.

— Visconde, aproxima-te — disse Athos — a Sra. Duquesa de Chevreuse permite que lhe beijes a mão.

Adiantou-se o rapaz com o seu sorriso encantador, descobriu-se, pôs um joelho em terra e beijou a mão da Sra. de Chevreuse.

— Sr. Conde — disse ele, voltando-se para Athos — não foi para poupar a minha timidez que me dissestes que esta senhora é a Duquesa de Chevreuse e não a Rainha?

— Não, Visconde — acudiu a Sra. de Chevreuse pegando-lhe na mão por seu turno, fazendo-o sentar-se ao lado dela e contemplando-o com olhos brilhantes de prazer. — Não, infelizmente não sou a Rainha, pois se o fosse, faria neste instante por vós quanto mereceis; mas, tal como sou — ajuntou, contendo-se a custo para não apoiar os lábios naquela fronte tão pura — vejamos, que carreira desejaríeis seguir?

Athos, em pé, considerava os dois com expressão de indizível felicidade.

— Mas, senhora — tornou o rapaz com a voz doce e sonora a um tempo — parece-me que só há uma carreira para um gentil-homem, a das armas. O Sr. Conde educou-me com a intenção, creio eu, de fazer de mim um soldado, e deu-me esperanças de que me apresentaria em Paris a alguém que pudesse recomendar-me ao Sr. Príncipe.

— Sim, compreendo, convém a um jovem soldado como vós servir sob as ordens de um general como ele; mas, esperai... pessoalmente não estou em boas relações com ele por causa das brigas da Sra. de Montbazon, minha madrasta, com a Sra. de Longueville; mas, pelo Príncipe de Marcillac...

É isso mesmo, Conde, aí está! O Sr. Príncipe de Marcillac é um velho amigo meu; recomendará o nosso jovem amigo à Sra. de Longueville esta lhe dará uma carta para o Sr. Príncipe, seu irmão, que gosta tanto dela que fará, imediatamente, o que ela pedir.

— Muito bem, vai tudo às mil maravilhas — disse o Conde. — Mas posso atrever-me a recomendar-vos a máxima urgência? Tenho motivos para desejar que o Visconde, amanhã, já não esteja em Paris.

— Desejais que se saiba que vos interessais por ele, Sr. Conde?

— Fora melhor talvez para o seu futuro que nunca se soubesse que ele, um dia, me conheceu.

— Oh! senhor! — exclamou o rapaz.

— Sabes, Bragelonne — disse o Conde — que nunca faço nada sem razão.

— Sim, senhor — respondeu o jovem — sei que em vós reside a suprema prudência e obedecer-vos-ei como sempre.

— Pois bem, Conde, deixai-o comigo — sobreveio a Duquesa; — vou mandar chamar o Príncipe de Marcillac, que, felizmente, se encontra em Paris neste momento, e não o deixarei enquanto não estiver terminado o caso.

— Está bem, Sra. Duquesa, fico-vos mil vezes obrigado. Eu mesmo tenho hoje várias coisas que fazer e, quando regressar, lá pelas seis horas, esperarei o Visconde na estalagem.

— Que fareis esta noite?

— Vamos à casa do Abade Scarron, para o qual tenho uma carta, e onde devo encontrar um amigo.

— Está bem — disse a Duquesa de Chevreuse — passarei também por lá. Portanto, não deixeis o salão enquanto eu não tiver chegado.

Athos cumprimentou a Sra. de Chevreuse e fez menção de sair.

— Então, Sr. Conde — exclamou, rindo, a Duquesa — é assim tão seriamente que se separam velhos amigos?

— Ah! — murmurou Athos, beijando-lhe a mão — se eu tivesse sabido antes que Maria Michon era uma criatura tão encantadora!...

E retirou-se suspirando.


 O ABADE SCARRON

 

Havia, à rue des Tournelles, uma casa que conheciam todos os liteireiros lacaios de Paris. No entanto, essa casa não pertencia a um grande fidalgo nem a um financista. Nela não se comia, nunca se jogava nem se dançava.

Sem embargo, era o ponto de convergência da alta sociedade e Paris inteira lá se reunia.

A casa pertencia ao pequeno Scarron.

Ria-se tanto em casa do espirituoso abade! Sabiam-se ali tantas notícias! Essas notícias eram tão depressa comentadas, esmiuçadas e transformadas, ora em contos, ora em epigramas, que todos desejavam passar uma hora com Scarron para ouvir o que ele dizia e repeti-lo mais adiante. Muitos morriam por encaixar lá o seu dito; e quando o dito tinha chiste, eram bem recebidos.

O pequeno Abade Scarron, que, aliás, só era abade porque possuía uma abadia, e não porque tivesse tomado ordens, fora outrora um dos mais casquilhos prebendados da cidade de Mans, onde morava. Mas, num dia de carnaval, quis proporcionar a essa boa cidade, cuja alma era ele, um divertimento fora do comum; fez, portanto, que o criado o besuntasse de mel; depois, tendo aberto um colchão de penas, entrou a rebolar-se nele, tornando-se, em pouco tempo, o mais grotesco volátil que se possa imaginar. Nesse trajo singular começou a visitar os amigos e amigas; o povo, a princípio, o seguiu com assombro, depois com apupos, depois com insultos, depois as crianças começaram a apedrejá-lo e ele, para fugir aos projéteis, viu-se obrigado a fugir. Quando se pôs a fugir, a cidade inteira desandou a persegui-lo; acossado, acuado, encalçado, Scarron não encontrou outro meio de escapar ao populacho senão atirando-se no rio. Nadava como um peixe, mas a água estava gelada. Scarron, que suava, resfriou-se e, quando chegou à margem oposta, sentiu-se para-lítico.

Tentou-se, por todos os meios conhecidos, devolver-lhe o uso dos membros; e tanto o martirizaram que o tratamento, que despediu todos os médicos, declarando que preferia mil vezes a doença; em seguida, voltou a Paris, onde já se firmara a sua reputação de homem de talento. Na capital mandara fabricar uma cadeira de sua invenção; e como, um dia, nessa cadeira, fizesse uma visita à Rainha Ana d'Áustria, esta, encantada com o seu espírito, lhe perguntava se ele não desejava algum título.

— Sim, Majestade, há um que muito ambiciono — respondera Scarron.

— Qual? — perguntara Ana d'Áustria.

— O de doente de Vossa Majestade — respondera o abade.

E Scarron fora nomeado doente da Rainha com uma pensão de mil e quinhentas libras.

A partir desse momento, sem preocupações pelo futuro, principiara a levar uma existência alegre, comendo capital e rendas.

Um dia, entretanto, um emissário do Cardeal, dera-lhe a entender que fazia mal em receber o Sr. Coadjutor.

— E por quê? — perguntara Scarron. — Não é um homem de alta linhagem?

— Está visto que é.

— Amável?

— Sem dúvida nenhuma.

— Talentoso?

— Demais, infelizmente.

— E então? — respondera Scarron. — Por que quereis que eu deixe de ver um homem assim?

— Porque pensa mal.

— Deveras? E de quem?

— Do Cardeal.

— Hom'essa! — exclamara Scarron — pois se continuo a ver o Sr. Gilles Despréaux, que pensa mal de mim, quereis que eu deixe de ver o Sr. Coadjutor porque pensa mal de outro? Impossível!

Ficara nisso a história — e Scarron, por espírito de contradição, fora visto ainda mais a miúdo com o Sr. de Gondy.

Ora, na manhã do dia em que nos achamos, e no qual se vencia o seu trimestre, Scarron, como de hábito, mandara o lacaio com o recibo a fim de cobrá-lo na caixa das pensões; mas fora-lhe respondido:

"Que o Estado não tinha mais dinheiro para o Sr. Abade Scarron."

Quando o lacaio trouxe a resposta, achava-se ao lado de Scarron o Sr. Duque de Longueville, que se ofereceu para dar-lhe o dobro da pensão que Mazarino lhe suprimia; mas o astuto paralítico não quis aceitar. E tantas fez que, às quatro horas da tarde, a cidade inteira sabia da recusa do Cardeal. Era precisamente numa quinta-feira, dia de recepção em casa do Abade; toda a gente correu para lá e toda a cidade conspirou furiosamente.

Athos encontrou na rue Saint-Honoré dois fidalgos que não conhecia, a cavalo como ele, seguidos como ele de um lacaio e que iam pelo mesmo caminho. Um dos dois desbarretou-se e disse:

— Sabeis, senhor, que o traste do Mazarino suprimiu a pensão do pobre Scarron?

— Isso é um absurdo — respondeu Athos, cumprimentando por seu turno os dois cavaleiros.

— Vê-se que sois homem honesto, senhor — respondeu o mesmo fidalgo que já lhe dirigira a palavra — e esse Mazarino é um verdadeiro flagelo.

— Ai de mim — respondeu Athos — a quem o dizeis! E separaram-se com muitas cortesias.

— Ainda bem que temos de ir lá esta noite — disse Athos ao Visconde: — faremos os nossos cumprimentos ao pobre homem.

— Mas quem é, afinal, esse Sr. Scarron, que assim alvorota Paris inteira? — perguntou Raul; — algum ministro desvalido?

— Oh! meu Deus, nada disso, Visconde — respondeu Athos — é apenas um fidalgote extraordinariamente talentoso que provavelmente caiu no desagrado do Cardeal por ter feito alguns versos contra ele.

— Fidalgos fazem versos? — perguntou ingenuamente Raul. — Eu supunha que isso fosse um desdouro.

— Sim, meu caro Visconde — respondeu Athos, a rir — quando os versos são maus; mas quando são bons, honram ainda mais. Vê o Sr. de Rotrou. Entretanto — continuou Athos, no tom de quem dá um conselho salutar — creio que o melhor é não os fazer.

— Mas então — volveu Raul — o Sr. Scarron é poeta?

— Sim, e agora te previno, Visconde; porta-te bem nessa casa; fala apenas por gestos, ou melhor, limita-te a ouvir.

— Sim, senhor — respondeu Raul.

— Tu me verás conversando muito com um fidalgo amigo meu: o Pe. d'Herblay, de quem muitas vezes me ou viste falar.

— Lembro-me dele.

— Aproxima-te às vezes de nós como se quisesses falar--nos; mas não fales, nem escute o que dissermos. Servirá o jogo para que os importunos não nos aborreçam.

— Muito bem, senhor; obedecer-vos-ei em tudo.

Athos fez mais duas visitas em Paris. Depois, às sete horas, dirigiram-se os dois, para a rue des Tournelles, que encontraram obstruída por liteireiros, cavalos e lacaios. Athos abriu caminho e entrou seguido do rapaz. A primeira pessoa que viu ao entrar foi Aramis, junto de uma poltrona de rodas, muito ampla, recoberta de um docel de tapeçaria, sob o qual se agitava, envolto num manto de brocado, uma figurinha ainda moça, muito risonha, às vezes pálida, embora os olhos não deixassem nunca de exprimir um sentimento vivo, espirituoso ou gracioso. Era o Abade Scarron, sempre a rir, sempre a chasquear, cumprimentando, sofrendo e coçando-se com uma varinha (27).

(27) Um reumatismo progressivo transformara o antigo almofadinha num farrapo humano, que ele próprio descreveu nestes termos: "Tenho a cabeça um pouco grande em relação ao corpo... A vista é boa, mas os olhos vivem empapuçados; são azuis; um é mais fundo do que o outro do lado em que inclino a cabeça. O nariz é de bom tamanho. Os dentes, outrora pérolas quadradas, são hoje cor de madeira e logo serão cor de ardósia... As pernas e as coxas faziam, a princípio, um ângulo obtuso, depois um ângulo reto e fazem agora um ângulo agudo. As coxas e o corpo fazem outro, e como tenho a cabeça inclinada sobre o estômago, pareço um Z. Os braços se entanguiram, as pernas também, e os dedos imitaram os braços. Enfim, sou um compêndio das misérias humanas." Poeta famélico, arrimado às muletas, vivia de chapéu na mão, procurando angariar protetores na alta sociedade em troca de súplicas rimadas e solicitações humorísticas. Como escritor foi notável no gênero burlesco e obteve, durante muito tempo, extraordinário sucesso. A sua obra prima é o Romance cômico, editado em 1651. (N. do T.)

 

À volta dessa espécie de tenda rodante, comprimia-se grande número de cavaleiros e senhoras. A sala, muito asseada e convenientemente trastejada. Grandes cortinas de seda bordadas de flores, que tinham tido em outro tempo cores vivas, mas já um tanto desbotadas, caíam de amplas janelas; a tapeçaria, modesta mas de bom gosto. Dois lacaios polidos e atentos faziam o serviço com distinção.

Avistando Athos, Aramis aproximou-se dele, tomou-o pela mão e apresentou-o a Scarron, que demonstrou tanto agrado quanto respeito pelo novo hóspede e fez um cumprimento espirituoso ao Visconde. Raul ficou atarantado, pois não se achava preparado para a majestade do talento. Não obstante, cumprimentou com muita graça. Athos recebeu, em seguida, os cumprimentos de dois ou três senhores, apresentados pelo Pe. D’Herblay; depois o tumulto de sua entrada serenou e a conversação generalizou-se.

Ao cabo de quatro ou cinco minutos, que Raul empregou em reassumir o domínio de si mesmo e em tomar um conhecimento topográfico da assembléia, a porta de novo se abriu e um lacaio anunciou a Srta. Paulet.

Athos pôs a mão no ombro do Visconde.

— Olha para essa mulher, Raul — disse ele — pois é uma personagem histórica; à casa dela se dirigia o Rei Henrique IV quando foi assassinado (28).

(28) Cognominada "a bela leoa" pela ardente cabeleira loira, a Srta. Paulet conhecera, na mocidade, inúmeras aventuras galantes: Bellegarde, Montmorency, Termes e muitos outros a acharam de seu gosto e não se limitaram, diante dela, ao papel de galãs platônicos; dizia-se até que o seu iniciador havia sido o Rei Henrique IV, e a versão de que este ia procurá-la quando encontrou, na rue de Ia Ferronnerie, o punhal de Ravaillac, é sustentada por vários cronistas contemporâneos. Amiga da Sra. de Rambouillet, que lhe admirava a beleza opulenta e a voz maravilhosa, capaz de enciumar os rouxinóis, renunciara às passadas galantorias e tornara-se freqüentadora assídua do palácio de Rambouillet. (N. do T.)

 

Raul estremeceu; a cada instante, de alguns dias àquela parte, se erguia para ele uma cortina que lhe desvendava um episódio heróico: a mulher que entrava, ainda jovem e bela, conhecera Henrique IV e falara com ele.

Todos se aproximaram da recém-chegada, que ainda estava na moda. Era uma mulher alta, de talhe fino e onduloso, com uma floresta de cabelos dourados, como Rafael os queria e como Ticiano pintou em todas as suas Madalenas. Essa cor fulva, ou talvez o império que ela conquistara sobre as outras mulheres, tinham-lhe valido o apelido de Leoa.

Saberão, portanto, as damas francesas de hoje, que aspiram a esse título elegante, que ele lhes vem, não da Inglaterra, como talvez o imaginem, mas de sua bela e talentosa compatriota, a Srta. Paulet.

A Srta. Paulet encaminhou-se diretamente para Scarron, entre os murmúrios que, de todos os lados, se ergueram à sua passagem.

— E então, meu caro Abade? — perguntou ela com voz sossegada — empobrecestes? Soubemos disso hoje à tarde, em casa da Sra. de Rambouillet; foi o Sr. de Grasse quem nos contou (29).

 (29) Depois de ter freqüentado, na mocidade, a Corte de Henrique IV, Catarina de Vivonne-Savella, Marquesa de Rombouillet, passou a levar uma existência familiar, sem galanterias, ao lado dos filhos, no famoso palácio da rue Saint-Thomas-du-Louvre, onde todos os formosos espíritos da época foram tomar lições de civilidade e polidez. Ela mesma traçou os planos do palácio e presidiu à decoração da célebre Sala Azul, onde recebia os amigos. Assim pela beleza, que admiraram e cantaram todos os contemporâneos, como pela delicadeza e afabilidade, soube conquistar a estima e a afeição dos convivas. Dai que, desde o princípio de suas reuniões, ao lado de grandes fidalgos e belas damas como Bassompierre e o Marechal de Schomberg, a Princesa de Conde, as Duquesas de Rohan e de Chevreuse, recebeu a divina Arthenice (anagrama feito por Malherbe de seu prenome, Catherine), em seu salão, Malherbe, Racan, Gombaul, Voiture, Benserade, Ménage, Chapelain, os Scuderys, Corneille e muitos outros. Toda a sociedade polida e letrada do reinado de Luís XIII freqüentou a Sala Azul, cujas reuniões exerceram poderosa influência no sentido de aprimorar os costumes e a língua daquele tempo. E, cumpre dizê-lo, a divina Arthenice impôs o bom tom a Paris durante mais de vinte anos consecutivos o a sua obra deixou vestígios profundos na sociedade francesa: as rainhas brilhantes dos salões do século XVIII são suas herdeiras espirituais o suas verdadeiras continuadoras. (N. do T.)

 

— Sim, mas o Estado agora enriqueceu — tornou Scarron; — devemos saber sacrificar-nos pelo país.

— O Sr. Cardeal comprará para si mais mil e quinhentas libras de pomadas e perfumes por ano — disse um frondista, em que Athos reconheceu o fidalgo que encontrara na rue Saint-Honoré.

— Mas a Musa, que dirá ela? — acudiu Aramis, com a sua voz melíflua; — a Musa que precisa da área mediocridade? Porque, afinal de contas:

 

Si Virgilio puer aut tolerabile desit

Hospitium, caderent omnes a crinibus hydri.

 

— Ora! — volveu Scarron, estendendo a mão à Srta. Paulet; — se já não tenho a minha hidra, resta-me pelo menos a minha leoa.

Todos os ditos de Scarron pareciam deliciosos naquela noite. Era o privilégio da perseguição. O Sr. Ménage dava pulos de entusiasmo (30).

(30) Gil Ménage foi um dos familiares do palácio de Rambouillet. Ligou-se a Balzac, Benserade, Pélisson, Scudéry; protegido de Mazarino, honrado com a amizade da Rainha Cristina, da Suécia, exerceu, durante algum tempo, uma espécie de império entre os literatos. Cáustico, pedante e vaidoso, conquistou muitos inimigos. Molière ridicularizou-o na figura de Vadius na peça Les Femmes Savantes. (N. do T.)

 

A Srta. Paulet instalou-se ao lugar de sempre; mas, antes de sentar-se, relanceou do alto de sua grandeza um olhar de rainha por toda a assembléia, e os olhos fitaram-se-lhe em Raul.

 Athos sorriu.

— Foste notado pela Srta. Paulet, Visconde; vai cumprimentá-la. Mostra-te o que realmente és, um provinciano sincero; mas, cuidado! não lhe fales de Henrique IV.

O Visconde aproximou-se, corando, da Leoa e logo o confundiram com os outros senhores que lhe cercavam a cadeira.

Com isso se formavam dois grupos distintos: o que rodeava o Sr. Ménage e o que cercava a Srta. Paulet; Scarron ia de um a outro, manobrando a poltrona de rodas no meio de toda aquela gente com a habilidade de um piloto experimentado dirigindo um barco num mar cheio de escolhos.

— Quando conversaremos? — perguntou Athos a Aramis.

— Daqui a pouco — respondeu o interpelado; — ainda não há bastante gente e seríamos observados.

Nesse momento a porta se abriu, e o lacaio anunciou o Sr. Coadjutor.

A esse nome todos se voltaram, pois era um nome que já principiava a celebrizar-se.

Athos fez como os outros. Só conhecia de nome o Padre de Gondy.

Viu entrar um homenzinho escuro, mal feito, míope, com mãos desastradas para tudo, exceto para manejar a espada e a pistola, que logo esbarrou contra uma mesa, derrubando-a quase; mas que tinha, apesar de tudo, uma expressão de grandeza e de altivez no rosto.

Scarron voltou-se também e foi ao seu encontro; a Srta. Paulet cumprimentou-o de onde estava, com um aceno de mão.

— Então! — exclamou o Coadjutor ao ver Scarron, o que só aconteceu quando tropeçou no dono da casa — caístes em desgraça, Abade?

Era a frase sacramentai; fora dita cem vezes naquela noite e Scarron estava na centésima piada sobre o assunto: por isso mesmo quase embatucou; mas um esforço desesperado salvou-o.

— O Sr. Cardeal Mazarino teve a bondade de pensar em mim — disse ele.

— Prodigioso! — bradou Ménage.

— Mas como fareis para continuar a receber-nos? — continuou o Coadjutor. — Se as vossas rendas diminuírem, serei obrigado a fazer que vos nomeiem cônego de Notre-Dame.

— Oh! não — atalhou Scarron — eu vos comprometeria demasiado.

— Tendes, acaso, recursos que não conhecemos?

— Pedirei dinheiro emprestado à Rainha.

— Mas Sua Majestade não tem nada de seu — disse Aramis; — não vive ela sob o regime da comunhão de bens?

Voltou-se o Coadjutor e sorriu para Aramis, fazendo-lhe com a ponta do dedo um sinal amistoso.

— Perdão, meu caro — disse ele — estais atrasado e preciso dar-vos um presente.

— Que presente? — perguntou Aramis.

— Um cordão de chapéu.

Todos se voltaram para o Coadjutor, que tirou do bolso um cordão de seda de forma singular.

— Ah! — sobreveio Scarron — mas isso é um bodoque!

— Precisamente! — concordou o Coadjutor — agora se faz tudo em estilo do bodoque. Srta. Paulet, tenho para vós um leque em forma de bodoque. Dar-vos-ei o endereço do meu luveiro, d'Herblay, que faz luvas em forma de bodoque; e para vós, Scarron, o do meu padeiro, com um crédito ilimitado: faz pães excelentes em forma de bodoque.

Aramis pegou no cordão e amarrou-o em torno do chapéu.

Nesse momento a porta se abriu e o lacaio anunciou, em voz alta:

— A Sra. Duquesa de Chevreuse!

Ao nome da Sra. de Chevreuse, todos se levantaram.

Scarron dirigiu rapidamente a poltrona na direção da porta. Raul purpureou-se. Athos fez sinal a Aramis, que foi esconder-se no vão de uma janela.

No meio dos cumprimentos respeitosos que a colheram à entrada, a Duquesa procurava manifestamente alguém ou alguma coisa. Afinal, avistou Raul e os seus olhos cintilaram: avistou Athos e tornou-se pensativa; viu Aramis no vão da janela e fez um movimento imperceptível de surpresa por trás do leque.

— A propósito — disse ela, como se quisesse afugentar as idéias que, mau grado seu, a assaltavam — como vai o pobre Voiture? Sabeis, Scarron? (31)

(31) O mais espirituoso, o mais delicado e o mais elegante dos poetas travessos, Vicente Voiture foi o corifeu do palácio de Rambouillet, el rey chiquieto, como lhe chamavam. Árbitro das elegâncias, ditador da moda, embora de modestíssima origem (o pai era negociante de vinhos), conquistou direitos de cidade na sociedade polida pela gentileza e pelo espírito, que fizeram esquecer a sua condição plebéia e lhe permitiram tornar-se o verdadeiro professor da galanteria da Sala Azul. Mereceu a confiança de Richelieu, de Luís XIII e de Mazarino, obtendo diversas pensões e uma rica sinecura. Membro da Academia Francesa desde a fundação, em 1635, poucos autores foram mais incensados do que ele enquanto vivos. Todo o século XVII o admirou, mas a posteridade esqueceu-o. Nota-se-lhe nas poesias, representadas sobretudo por sonetos, rondós e madrigais, graça e leveza, mas o poeta sacrifica tudo à procura do "fecho de ouro". (N. do T.)

 

— Como! O Sr. Voiture está doente? — perguntou o senhor que falara com Athos na rue Saint-Honoré. — Que é que ele tem?

— Jogou sem ter tido a precaução de mandar buscar mudas de camisas — disse o Coadjutor; — resfriou-se e está morrendo.

— Onde isso?

— Ora essa, em minha casa! Imaginai que o pobre Voiture faz voto solene de nunca mais jogar. Ao cabo de três dias, desesperado, dirige-se ao Arcebispado a fim de que eu o desobrigue do voto. Desgraçadamente, nesse momento, eu tratava de assuntos seríssimos com o bom Conselheiro Broussel, no mais recôndito dos meus aposentos. Voiture avista o Marquês de Luynes à mesa, esperando um parceiro. O Marquês chama-o, convida-o para sentar-se. Voiture responde que não pode jogar enquanto eu não o tiver desobrigado do voto. Luynes compromete-se em meu nome, toma sobre si a responsabilidade do pecado; Voiture põe-se à mesa, perde quatrocentos escudos, resfria-se ao sair e deita-se para não mais se levantar.

— Pois estará tão mal assim o querido Voiture? — perguntou Aramis, meio escondido atrás da cortina da janela.

— Malíssimo, infelizmente — respondeu o Sr. Ménage — e o grande homem vai talvez deixar-nos, deseret orbem.

— Pois sim! — acudiu, com azedume, a Srta. Paulet — ele, morrer? Não tem perigo! Vive rodeado de sultanas como um turco. A Sra. de Saintot acudiu-lhe e dá-lhes caldos. A Renaudot lhe esquenta os lençóis e até a nossa amiga, a Marquesa de Rambouillet, lhe manda chás.

— Não o apreciais, minha querida Partênia! — disse, rindo, Scarron.

— Oh! que injustiça, meu caro doente! Odeio-o tão pouco que mandaria dizer, prazenteira, algumas missas pelo repouso de sua alma.

— Não é à toa que vos chamam Leoa, minha cara — atalhou a Sra. de Chevreuse do seu lugar — pois mordeis de verdade.

— Parece-me que tratais muito mal um grande poeta, senhora — arriscou Raul.

— Um grande poeta, ele?... Ora, vê-se bem, Visconde, que chegais da província, como há pouco me dissestes, e que nunca o vistes. Ele! Grande poeta! Mas se não tem sequer cinco pés de altura!

— Bravo! bravo — estrondejou um homenzarrão seco e escuro, que ostentava um bigode orgulhoso e um enorme chanfalho. — Bravo, bela Paulet! Afinal de contas já é tempo de recolocar esse pequeno Voiture no lugar que lhe compete. Declaro alto e bom som que me julgo entendido em poesia e sempre achei detestável a dele.

— Quem é esse patarata, senhor? — perguntou Raul a Athos.

— O Sr. de Scudéry (32).

— O autor de Clélia e do Grande Ciro?

— Que compôs de parceria com a irmã, que está conversando agora com aquela linda criatura lá embaixo, perto do Sr. Scarron (33).

(32) Poeta e romancista, célebre pela fecundidade da pena e pelo ridículo dos escritos, tremendamente fanfarrão, Jorge de Scudéry ajuntava aos defeitos literários uma presunção que ultrapassava todos os limites. Foi uma espécie de avô dos cabotinos de hoje. Boileau fez-lhe justiça com estes versos:

Bem-aventurado Sudéry, cuja pena tão fértil,

Sem dor, é capaz, todo mês, de parir um volume. (N. do T.)

(33) Madalena de Scudéry foi, de certo modo, a continuadora imediata da Marquesa de Rambouillet, cujo palácio freqüentou, com os célebres sábados do Marais, quando reunia, além de fidalgos e literatos, as suas amigas, burguesas como ela. "É, ao mesmo tempo, uma das mais espirituosas e judiciosas raparigas que existem em França; conhece perfeitamente o castelhano e o italiano. Muito polida, a sua conversação é deliciosa. E seria uma criatura perfeita se não fosse um pouco muito feia" (Chapelain). Escreveu diversos romances, longos e prolixos, entre os quais Clélia e O Grande Ciro, publicados sob o nome do irmão. (N. do T.)

 

Raul voltou-se e viu, efetivamente, duas figuras novas que acabavam de entrar: uma encantadora, toda frágil, toda triste, emoldurada por lindos cabelos pretos, com olhos aveludados como as belas flores roxas do pensamento debaixo das quais cintila um cálice de ouro; a outra, que parecia ter a primeira sob a sua tutela, fria, seca e amarela, verdadeiro rosto de aia ou beata.

Raul prometeu a si mesmo não deixar o salão sem ter falado com a jovem de olhos aveludados, que, por estranho jogo de pensamento, embora não apresentasse nenhuma semelhança com ela, acabava de trazer-lhe à memória a imagem da sua pobre Luisinha, que deixara gemendo no castelo de

La Vallière e que, no meio de toda aquela gente, esquecera momentaneamente.

Durante esse tempo, Aramis se aproximara do Coadjutor; este, com o semblante risonho, lhe dissera algumas palavras ao ouvido, e apesar do seu domínio sobre si mesmo, Aramis não pôde menos de fazer um ligeiro movimento.

— Ride, ride — pediu-lhe o Sr. de Retz; — estão-nos observando.

E deixou-o para ir conversar com a Sra. de Chevreuse, à cuja volta se reunira um grande círculo.

Aramis fingiu rir para despistar a atenção de alguns ouvintes curiosos e, percebendo que Athos, por sua vez, tinha ido colocar-se no vão da janela onde ficara algum tempo, depois de haver distribuído alguns ditos à direita e à esquerda, foi juntar-se a ele, sem afetação.

Assim que se viram juntos, entabularam uma conversação acompanhada de muitos gestos.

Raul aproximou-se, como lhe recomendara Athos.

— É um ronde do Sr. Voiture que me está recitando o Sr. Padre — disse Athos em voz alta — e que me parece admirável.

Raul quedou junto deles alguns instantes e foi depois confundir-se com o grupo da Sra. de Chevreuse, do qual se haviam aproximado a; Srta. Paulet de um lado e a Sra. de Scudéry de outro.

— Pois bem! — disse o Coadjutor — peço permissão para discordar da opinião do Sr. de Scudéry; acho, pelo contrário, que o Sr. de Voiture é poeta, mas apenas poeta. Faltam-lhe completamente idéias políticas.

— E então? — perguntou Athos.

— Amanhã — retorquiu precipitadamente Aramis.

— A que horas?

— Às seis.

— Onde?

— Em Saint-Mandé.

— Quem vos disse?

— O Conde de Rochefort.

Aproximava-se alguém.

— E as idéias filosóficas? Estas, sim, faltavam ao pobre Voiture. Concordo com o Sr. Coadjutor: ele é apenas poeta.

— De fato, em poesia era prodigioso — concordou Ménageé — mas a posteridade, embora o admire, lhe censurará uma coisa, o haver abusado do obsceno na composição dos versos; ele matou a poesia sem o saber.

— Matou, matou — confirmou Scudéry.

— Mas que obra-prima são as suas cartas! — observou a Sra. de Chevreuse.

— Oh! nesse sentido — acudiu a Srta. de Scudéry — era perfeito.

— De fato — sobreveio a Srta. Paulet — mas só enquanto graceja, pois no gênero epistolar sério é lamentável, e, quando não diz as coisas com muita crueza, di-las muito mal.

— No gracejo, contudo, é inimitável.

— Com efeito — assentiu Scudéry, cofiando o bigode; — acho apenas que a sua comicidade é forçada e os seus gracejos excessivamente familiares. Vede a Carta da carpa ao lúcio.

— Sem contar — volveu Ménage — que as melhores inspirações lhe vinham do Palácio de Rambouillet. Vede Zélida e Alcidaléia.

— Quanto a mim — disse Aramis, aproximando-se do círculo e cumprimentando respeitosamente a Sra. de Chevreuse, que lhe respondeu com um gracioso sorriso; — quanto a mim, eu o acusaria também de ter tomado excessivas liberdades com os grandes. Faltou, muitas vezes, ao respeito à Princesa, ao Sr. Marechal d'Albert, ao Sr. de Shomberg e à própria Rainha.

— Como, à Rainha? — perguntou Scudéry, esticando a perna direita para pôr-se em guarda. — Cáspite! Dessa eu não sabia. E como faltou ele ao respeito a Sua Majestade?

— Não lhe conheceis a poesia: Eu pensava?

— Não — disse a Sra. de Chevreuse.

— Não — disse a Srta. de Scudéry.

— Não — disse a Srta. Paulet.

— De fato, creio que a Rainha a mostrou a pouquíssimas pessoas; mas recebi-a de fonte limpa.

— E sabei-la de cor?

— Talvez seja capaz de lembrar-me.

— Vejamos! vejamos! — disseram todas as vozes.

— Eis como se deu a coisa — disse Aramis. — O Sr. de Voiture estava na carruagem da Rainha, que passeava com ele na floresta de Fontainebleau; fingiu estar pensando para que a Rainha lhe perguntasse em que pensava, e o estratagema deu certo.

"— Em que pensais, Sr. de Voiture? — perguntou Sua Majestade.

"Voiture sorriu, simulou refletir cinco segundos para imaginarem que improvisava, e respondeu:

 

"Eu pensava que o destino,

Depois de tantas desgraças

Vos coroou com justiça

De glórias, honras e graças;

Mas que fósseis mais feliz

Quando mostráveis outrora Amor...

Dizê-lo eu não quis!

Querem-no as rimas embora."

 

Scudéry, Ménage e a Srta. Paulet deram de ombros.

— Esperai, esperai — disse Aramis — há três estrofes.

— Oh! dizei antes três copias — acudiu a Srta. de Scudéry — que isso, quando muito, será uma canção.

 

"Eu pensava que o Amor,

Que as armas sempre vos deu,

De vossa Corte exilado,

Chorasse tudo o que é seu.

Pensar eu perto de vós

Que me pode aproveitar,

Se quem tão bem vos serviu

Assim podeis maltratar?"

 

— Oh! quanto à última frase — disse a Sra. de Chevreuse — não sei se está conforme com as regras poéticas, mas peço que lha releveis porque está conforme com a verdade, e a Sra. de Hautefort e a Sra. de Sennecey concordarão comigo, se for preciso, sem contar o Sr. de Beaufort.

— Continuai, continuai — atalhou Scarron — que já não tenho nada com isso: desde hoje cedo deixei de ser seu doente.

— E a última copia? — pediu a Srta. de Scudéry. — Vamos a ela!

— Ei-la — respondeu Aramis; — esta, pelo menos, tem a vantagem de citar nomes próprios, de sorte que não dá lugar a dúvidas.

"Eu pensava — nós, os bardos Tantas loucuras pensamos — No que farteis se os dardos De Amor, tão doces agora, Vos entregassem, rendido, O Duque de Buckingham. Quem cairia vencido: O Duque ou o Capelão?" (33-A).

(33-A) Voiture referia-se ao Pe. Vicente, confessor da Rainha. (N. do T.)

 

À última estrofe, um grito unânime se ouviu, verberando a impertinência de Voiture.

— Mas — sobreveio a meia voz a jovem de olhos aveludados — eu tenho a desgraça de achar encantadores esses versos.

Era também a opinião de Raul, que se aproximou de Scarron e disse-lhe, corando:

— Sr. Scarron, fazei-me a honra, eu vos suplico, de dizer-me quem é aquela jovem dama que tem a coragem de sustentar uma opinião contrária à de toda esta ilustre assembléia.

— Ah! ah! meu jovem Visconde — tornou Scarron — pelo que vejo desejais propor-lhe uma aliança ofensiva e defensiva?

Raul corou de novo.

— Confesso — disse ele — que acho os versos muito bonitos.

— E são-no, de fato — concordou Scarron; — mas, caluda, entre poetas não se dizem essas coisas.

— Mas eu — tornou Raul — não tenho a honra de ser poeta, e vos perguntava...

— Quem é a jovem dama, não é verdade? É a formosa indiana.

— Escusai-me, senhor — volveu, purpureando-se, Raul — mas continuo na mesma. Como sabeis, não passo de um provinciano...

— O que quer dizer que não conheceis patavina da preciosa algaravia que jorra aqui de todas as bocas. Tanto melhor, rapaz, tanto melhor! Não procureis compreendê-la, que perdereis o tempo; e quando a compreenderdes, é de se esperar que tenha saído da moda.

— Com que, então, estou perdoado — perguntou Raul — e vós me direis quem é a pessoa a que chamais a formosa indiana?

— Como não! É uma das criaturas mais encantadoras que existem, a Srta. Francisca d'Aubigné (34).

(34) Neta do glorioso Agripa d'Aubigné, filha de um moedeiro falso, renegado e assassino, que acompanhada à América, depois órfã desse pai e desamparada pela mãe, recolhida por um tio-avô, que a convertera ao protestantismo, entregue, em seguida, a uma parenta, que a fizera guardar perus e a encerrara num convento para reconvertê-la ao catolicismo, não se pode dizer que Francisca d'Aubigné tivesse tido uma infância feliz. Conduzida à casa do poeta por um amigo comum, extraordinariamente bela, quase indigente, judiciosa apesar da pouca idade, a sua beleza e a sua miséria seduziram e comoveram Scarron, que já então só conseguia mover os olhos, a língua e a mão. Condoído, o paralítico propôs-lhe casamento, que ela aceitou. Após a morte do poeta, foi a viúva encarregada por Luís XIV de educar secretamente os filhos da Sra. de Montespan, favorita do Rei; e tão bem se houve que acabou substituindo a favorita no coração do monarca. Luís XIV deu-lhe as terras de Maintenon e o título de marquesa e, morta a Rainha, casou com ela secretamente. (N. do T.)

 

— Pertence, então, à família do famoso Agripa, o amigo do Rei Henrique IV?

— É neta dele. E porque está chegando da Martinica, chamo-lhe a formosa indiana.

Raul escancarou os olhos; e os seus olhos encontraram os da jovem, que sorriu.

Ainda se falava de Voiture.

— Senhor — acudiu a Srta. d'Aubigné, dirigindo-se por seu turno a Scarron, como para entrar na conversação que este mantinha com o jovem Visconde — não admirais os amigos do pobre Voiture? Vede como o escorcham enquanto o louvam! Um lhe nega bom-senso, outro poesia, outro originalidade, outro graça, outro independência, outro... Santo Deus! Que lhe deixarão, afinal, à perfeição, como disse a Srta. de Scudéry?

Scarron pôs-se a rir e Raul também. Espantada com o efeito que produzira, a formosa indiana abaixou os olhos e reassumiu o ar ingênuo.

— Ela tem espírito — observou Raul.

Sem sair do vão da janela, Athos pairava sobre toda a cena com um desdenhoso sorriso nos lábios.

— Chamai o Sr. Conde de La Fere — pediu a Sra. de Chevreuse ao Coadjutor — preciso falar-lhe.

— E eu — volveu o Coadjutor — preciso que pensem que não lhe falo. Gosto dele e admira-o, pois conheço algumas de suas antigas aventuras; mas só espero cumprimentá-lo depois de amanhã cedo.

— E por que depois de amanhã cedo? — perguntou a Sra. de Chevreuse.

— Havereis de sabê-lo amanhã à noite — respondeu, rindo o Coadjutor.

— Em verdade, meu caro Gondy — volveu a Duquesa — falais como o Apocalipse. Sr. d'Herblay — acrescentou, voltando-se para Aramis — quereis ser ainda esta noite meu servidor?

— Como não, Duquesa! — tornou Aramis; — esta noite, amanhã e sempre, ordenai.

— Pois bem, ide procurar-me o Conde de La Fere; quero falar-lhe.

Aramis aproximou-se de Athos e voltou com ele.

— Sr. Conde — disse a Duquesa entregando uma carta a Athos — eis o que vos prometi. O nosso protegido será muito bem recebido.

— Senhora — respondeu Athos — é uma grande felicidade para ele dever-vos alguma coisa.

— Mas não tendes nada que lhe invejar a esse respeito; pois eu vos devo o prazer de conhecê-lo — replicou a maliciosa criatura com um sorriso que lembrou Maria Michon a Aramis e a Athos.

E, pronunciando essas palavras, levantou-se e pediu o carro. A Srta. Paulet já saíra, a Srta. Scudéry estava saindo.

— Visconde — disse Athos a Raul — acompanha a Sra. Duquesa de Chevreuse; pede-lhe o favor de aceitar a tua mão para descer e, ao descer, agradece-lhe.

A formosa indiana aproximou-se de Scarron para despedir-se.

— Já vos retirais? — perguntou o poeta.

— Como vedes, sou uma das últimas que se retiram. Se tiverdes notícias do Sr. de Voiture e, sobretudo, se forem boas, fazei-me o favor de mandar-mas amanhã.

— Oh! agora — disse Scarron — ele já pode morrer.

— Como assim? — perguntou a jovem de olhos de veludo.

— Claro! O seu panegírico está feito.

E despediram-se a rir, a moça voltando-se para considerar o pobre paralítico com interesse, o pobre paralítico seguindo-a com olhos amorosos.

A pouco e pouco rareavam os grupos. Scarron simulou não ter visto que alguns de seus hóspedes tinham travado diálogos misteriosos, que haviam chegado cartas para diversos, e que o seu sarau parecera ter tido um fim misterioso, estranho à literatura, de que, todavia, tão ruidosamente se falara. Mas que fazia tudo isso a Scarron? Podia-se agora conspirar à vontade em sua casa: a partir da manhã daquele dia, como ele mesmo dissera, deixara de ser o doente da Rainha.

Enquanto a Raul, acompanhara realmente a Duquesa até ao carro, onde ela se instalara dando-lhe a mão a beijar; depois, por um desses caprichos que a tornavam tão adorável e, sobretudo, tão perigosa, ela lhe segurara de repente a cabeça e dera-lhe um beijo na testa, dizendo.

— Visconde, que os meus votos e este beijo vos tragam felicidade!

Em seguida, afastara-o de si e ordenara ao cocheiro que se dirigisse ao palácio de Luynes. O carro partira; a Sra. de Chevreuse fizera ao rapaz um último aceno da portinhola e Raul, perplexo, tornara a subir a escada.

Athos compreendeu o que se passara e sorriu.

— Vem, Visconde — disse ele; — é hora de te retirares; partir ás amanhã para o exército do Príncipe; deves dormir bem a tua última noite como paisano.

— Então, serei soldado? — exclamou o rapaz. — Oh! senhor, agradeço-vos de todo o coração!

— Adeus, Conde — acudiu o Padre d'Herblay; — volto para o convento.

— Adeus, Padre — disse o Coadjutor; — tenho de pregar amanhã e ainda preciso consultar vinte textos esta noite.

— Adeus, senhores — sobreveio o Conde; — pretendo dormir vinte e quatro horas em seguida; estou morrendo de cansaço.

Os três homens cumprimentaram-se depois de haverem trocado um último olhar.

Scarron seguia-os com o canto dos olhos pelas portas do salão.

— Nenhum deles fará o que diz — murmurou com o seu sorrisozinho de símio — mas vão, bravos fidalgos! Quem sabe se não trabalham para me devolver a pensão!... Podem mexer os braços, e já é muito; eu, infelizmente, só tenho a língua, mas tentarei provar que é alguma coisa. Olá, Champenois, são onze horas em ponto. Vem rodar-me para a cama... Na verdade, a Srta. d'Aubigné é encantadora!

Dizendo isso, o pobre paralítico desapareceu no quarto de dormir, cuja poeta se fechou sobre ele, e, uma depois da outra, as luzes se apagaram no salão da rue des Tournelles.


 SÃO DINIZ

 

Alvorecia quando Athos se levantou e chamou o criado para vesti-lo; via-se facilmente, pela palidez, maior que de costume, e pelos vestígios que a insônia lhe deixara no rosto, que devera ter passado quase toda a noite em claro. Contra o hábito desse homem tão firme e tão decidido, notava-se-lhe em toda a pessoa algo de lento e irresoluto.

Ocupando-se dos preparativos da partida de Raul, procurava ganhar tempo. Primeiro, bruniu uma espada que tirou do estojo de couro perfumado, examinou-lhe os copos e verificou se a lâmina estava sòlidamente presa ao punho.

Depois atirou no fundo da maleta destinada ao rapaz um saquinho cheio de luíses, chamou Olivain, o lacaio que viera com ele de Blois, fê-lo arrumar as malas em sua presença, zelando por que não faltasse nenhuma das coisas necessárias a um mancebo que vai para a guerra.

Por fim, depois de haver empregado cerca de uma hora nesses cuidados, abriu a porta que dava para o quarto do Visconde e entrou, pé ante pé.

Já radioso, penetrava o sol no quarto pela janela de largos caixilhos, que Raul, recolhendo-se tarde, se esquecera de fechar. Dormia ainda, com a cabeça graciosamente apoiada no braço. Os longos cabelos longos negros lhe cobriam em parte a fronte encantadora e úmida ainda do vapor que corre, em pérolas, ao longo das faces da infância fatigada.

Athos aproximou-se e, com o corpo inclinado em atitude cheia de terna melancolia, considerou por muito tempo o mancebo de boca sorridente, pálpebras semi-cerradas, cujos sonhos deviam ser doces e cujo sono havia de ser leve, tanta afeição e tamanha solicitude lhe punha na guarda silenciosa o seu anjo protetor. A pouco e pouco, deixou-se Athos levar pelos encantos do devaneio diante daquela mocidade tão rica e tão pura. Recordou a própria juventude, com todas as suas lembranças delicadas, que são mais perfume que pensamento.

Entre o passado e o presente havia um abismo. Mas a imaginação tem o vôo do anjo e do raio; cruza os mares onde escapamos de naufragar, as trevas em que se perderam as nossas ilusões, o precipício em que a nossa felicidade se abismou. Refletiu que toda a primeira parte de sua vida fora quebrada por uma mulher; e pensou com terror na influência que poderia ter o amor sobre aquela organização, tão delicada e vigorosa ao mesmo tempo.

Relembrando o que sofrerá, previu tudo o que Raul poderia sofrer a expressão da terna e profunda piedade que passou em seu coração transluziu-lhe no úmido olhar fito no rapaz.

Nesse momento Raul despertou, com o despertar sem nuvens, sem trevas e sem fadigas, que caracteriza certas organizações delicadas como a do pássaro. Pararam os seus olhos nos de Athos, e ele compreendeu sem dúvida tudo o que se passava no coração daquele homem que esperava o seu acordar como um amante espera o acordar de sua amante, pois lhe acudiu ao rosto, por seu turno, a expressão de um infinito amor.

— Estáveis aí, senhor? — perguntou com respeito.

— Sim, Raul, eu estava aqui — disse o Conde.

— E não me acordastes?

— Eu queria deixar-te ainda alguns momentos desse sono bom, meu amigo; deves estar cansado depois de um dia como o de ontem, que se prolongou pela noite fora.

— Oh! senhor, como sois bom! Athos sorriu.

— Como te sentes agora?

— Perfeitamente bem, disposto e pronto para outra.

— É que ainda estás crescendo — continuou Athos com o interesse paternal e encantador do homem maduro pelo rapaz — e as fadigas são duplicadas na tua idade.

— Oh! senhor, perdão — disse Raul, corrido de tantas atenções — mas visto-me num instante.

Athos chamou Olivain, e, ao cabo de dez minutos, com a pontualidade que o Conde de La Fere, afeito ao serviço militar, transmitira ao pupilo, o rapaz se aprontou.

— Agora — disse ele ao lacaio — trata das minhas bagagens.

— As tuas bagagens te esperam, Raul — disse Athos. — Mandei que se fizesse a mala em minha presença e nada te faltará. E assim como a mala do criado, o teu equipamento já deve estar no lombo dos cavalos, se é que ele cumpriu as ordens que lhe dei.

— Tudo se fez segundo os desejos do Sr. Conde — disse Olivain — e os cavalos estão esperando.

— E eu dormia — exclamou Raul — enquanto tínheis a bondade de ocupar-vos de todas essas minúcias! Oh! senhor, vós me cumulais de gentilezas!

— Então, gostas um pouco de mim? Espero que sim, pelo menos — replicou Athos em tom quase enternecido.

— Deus é testemunha — bradou Raul, que, para não manifestar a comoção por um repente de ternura, tanto a reprimia que quase sufocava — Deus é testemunha de que vos amo e venero.

— Vê se não te esqueceste de nada — disse Athos, fingindo procurar qualquer coisa à sua volta para esconder a emoção.

— Não, senhor — tornou Raul.

Aproximou-se de Athos o lacaio com certa hesitação e disse-lhe baixinho:

— O Sr. Visconde não tem espada, pois o Sr. Conde me fez tirar-lhe ontem à noite a que ele trazia.

— Está certo — respondeu Athos — isso é comigo. Raul não pareceu dar tento do colóquio. Desceu, sem

tirar os olhos do Conde, à espera do momento das despedidas; mas Athos nem pestanejava.

Chegando à escada, Raul viu três cavalos.

— Ireis comigo? — perguntou, radiante.

— Um pouco — respondeu o Conde.

A alegria brilhou nos olhos de Raul, que saltou, ligeiro, sobre o animal.

Athos montou devagar no seu, depois de haver dito qualquer coisa em voz muito baixa ao lacaio, e este, em vez de seguir para a frente, voltou à estalagem. Encantado por ver-se em companhia do Conde, Raul não percebeu ou fingiu não ter percebido nada.

Os dois fidalgos tomaram pelo Pont-Neuf, seguiram o cais, ou melhor, o que então se chamava o bebedouro de Pepino, e contornaram os muros do Grand-Châtelet. Já entravam na rue Saint-Denis quando o criado os alcançou.

Fez-se a jornada em silêncio. Raul percebia que se aproximava o momento da separação; o Conde, na véspera, dera várias ordens, durante o correr do dia, sobre coisas que lhe diziam respeito. Aliás, os seus olhares redobravam de afeto, e as poucas palavras que pronunciava eram repassadas de ternura. De tempos a tempos, escapava-lhe uma reflexão ou um conselho, cheio de solicitude.

Depois de haver passado pela porta de São Dinis e quando os deis cavaleiros chegavam à altura dos Recoletos, Athos volveu os olhos para a montaria do Visconde.

— Cuidado, Raul — observou-lhe — eu já te disse muitas vezes; não devias esquecê-lo, pois é um grande defeito num escudeiro. Repara! o teu cavalo já está cansado; escuma, ao passo que o meu parece sair da cocheira. Tu lhe endureces a boca apertando o freio; assim não poderás manobrá-lo com a necessária rapidez. A salvação de um cavaleiro reside, às vezes, na pronta obediência do cavalo. Pensa em que, dentro de oito dias, já não estarás num picadeiro, mas num campo de batalha.

Depois de repente, para não dar à observação uma importância demasiado triste:

— Olha, Raul — continuou — que belo campo para caçar perdizes!

O rapaz aproveitava a lição, e admirava sobretudo a terna delicadeza com que era dada.

— Também observei outro dia uma coisa — dizia Athos; — é que, ao atirares com a pistola, tinhas o braço muito esticado. Essa tensão diminui a precisão do tiro. Por isso mesmo, em doze tiros erraste três vezes o alvo.

— Que vós, senhor, acertastes doze vezes — respondeu, sorrindo, Raul.

— Porque eu dobrava o braço e assim descansava a mão sobre o cotovelo. Compreendes o que quero dizer-te, Raul?

— Sim, senhor; atirei sozinho depois, seguindo esse conselho e não perdi um tiro.

— Outra coisa — disse Athos: — quando esgrimes, atacas demais o adversário. Sei muito bem que é um defeito da tua idade; mas o movimento do corpo ao atacar tira sempre a espada da linha; e se terçares armas com um homem de sangue frio, ele te deteria ao primeiro passo que fizesses com uma simples esquiva ou até com um golpe direto.

— Como vós mesmo o fizestes muitas vezes. Mas nem todos têm a vossa destreza e a vossa coragem.

— Está soprando um ventinho fresco! — tornou o Conde — é uma lembrança do inverno. A propósito, se entrares em combate, e entrarás, pois vais recomendado a um jovem general que gosta muito de pólvora, lembra-te bem de que numa luta individual, como as que nós cavaleiros freqüentemente travamos, nunca se deve atirar primeiro: quem atira primeiro raro atinge o inimigo, pois atira com medo de ficardesarmado diante de um adversário armado; além disso, quando atirares, empina o cavalo: essa manobra salvou-me duas ou três vezes a vida.

— Hei de empregá-la, nem que seja por gratidão.

— Oh! — disse Athos — não são caçadores clandestinos que estão prendendo lá embaixo? São, sim... Ah! outra coisa importante, Raul: se fores ferido numa carga, se caíres do cavalo e ainda te restarem forças, afasta-te da direção seguida pelo teu regimento; pois ele pode ser rechaçado e serias esmagado pelas patas dos cavalos ao voltarem. Como quer que seja, se fores ferido, escreve-me imediatamente, ou manda que me escrevam; entendo bastante de feridas — acrescentou, sorrindo.

— Obrigado, senhor — respondeu, comovidíssimo, o rapaz.

— Ah! eis-nos em São Dinis! — murmurou Athos. Chegavam, de fato, nesse momento à porta da cidade, guardada por duas sentinelas. Uma disse à outra:

— Mais um jovem fidalgo que, segundo parece, vai para o exército.

Athos voltou-se; tudo o que se referia, mesmo indiretamente, a Raul, logo assumia importância a seus olhos.

— Por que vos parece isso?

— Pelo aspecto, senhor — respondeu a sentinela. — Aliás, está na idade. É o segundo hoje.

— Já passou hoje cedo um rapaz como eu? — perguntou Raul.

— Passou, muito garboso e bem montado. Deu-me a impressão de ser filho de família importante.

— Será para mim um companheiro de jornada — tornou Raul, continuando o caminho; — mas, ai de mim! não me fará esquecer o que perco.

— Não creio que consigas alcançá-lo, Raul, pois preciso falar-te aqui e o que vou dizer-te durará talvez o tempo suficiente para que esse fidalgo se adiante bastante.

— Como quiseres, senhor.

Conversando, atravessaram as ruas apinhadas de gente por causa da solenidade da festa e chegaram diante da velha basílica, na qual se rezava a primeira missa.

— Apeemos, Raul — disse Athos. — Tu, Olivain, segura os cavalos e dá-me a espada.

Athos pegou na espada que lhe estendia o lacaio e os dois fidalgos entraram na igreja.

O Conde ofereceu água benta a Raul. Há em certos corações de pai um pouco desse amor previdente que vota um apaixonado à dona de seu coração.

O rapaz tocou na mão de Athos, agradeceu e persignou-se. Athos disse uma palavra a um dos guardas, que se inclinou e caminhou na direção dos túmulos.

— Vem, Raul; sigamos este homem.

O guarda abriu a grade dos túmulos reais e ficou no primeiro degrau, ao passo que Athos e Raul desciam. O fundo da escada sepulcral era alumbrado por uma lâmpada de prata que brilhava sobre o último degrau, e logo abaixo dessa lâmpada repousava, envolto em largo manto de veludo roxo semeado de flores-de-lis, de ouro, uma eça sustentada por ca valetes de carvalho.

Preparado para o espetáculo pelo estado de seu coração cheio de tristeza, pela majestade da igreja que atravessara, o rapaz descera com passo lento e solene e permanecia em pé, com a cabeça descoberta, diante dos despojos mortais do último Rei, que só se juntaria aos antepassados quando a ele viesse juntar-se o sucessor, e parecia lá estar para dizer ao orgulho humano, tão fácil às vezes de exaltar-se no trono:

— Poeira terrestre, eu te espero! Seguiu-se um instante de silêncio.

Depois Athos levantou a mão e, designando o esquife com o dedo:

— Esta sepultura incerta — disse ele — é a de um homem fraco e sem grandeza, mas que teve um reinado cheio de imensos acontecimentos, porque acima desse rei reinava o espírito de outro homem, como paira esta lâmpada sobre o féretro e ilumina-o. Este, sim, era o verdadeiro rei, Raul; o outro não passava de um fantasma em que ele punha a sua alma. E, no entanto, tão poderosa é a majestade monárquica entre nós que esse homem não tem sequer a honra de um túmulo aos pés daquele a cuja glória dedicou a sua vida, pois esse homem, Raul, lembra-te disso, se fèz pequeno o rei, fez imensa a realeza, e há duas coisas encerradas no palácio do Louvre: o rei, que morre, e a realeza, que não morre. O seu reinado passou, Raul; o ministro tão temido, tão odiado pelo amo, desceu ao túmulo arrastando consigo o rei que ele não queria deixar sozinho, receando, sem dúvida, que lhe destruísse a obra, pois um rei só edifica quando tem ao pé de si Deus ou o espírito de Deus. Naquela ocasião, entretanto, toda a gente considerou a morte do Cardeal como uma libertação, e eu mesmo, tão cego são os contemporâneos, me opus algumas vezes aos desígnios do grande homem que tinha a França nas mãos, e que, conforme as apertava ou alargava, sufocava-a ou dava-lhe ar a seu talante. Se ele não me esmagou, a mim e aos meus amigos, em sua cólera terrível, foi sem dúvida para que eu pudesse dizer-te hoje: aprende, Raul, a estremar o rei da realeza; o rei é apenas um homem, a realeza é o espírito de Deus; quando tiveres dúvida sobre qual deves servir, deixa a aparência material pelo princípio invisível, pois o princípio invisível é tudo. Mas Deus quis torná-lo palpável encarnando-o num homem. Parece-me ver, Raul, o teu futuro como através de uma nuvem. Creio que será melhor do que o nosso. Ao contrário de nós, que tivemos um ministro sem rei, terás um rei sem ministro. Poderás, portanto, servir, amar e respeitar o rei. Se esse rei for um tirano, pois o poder supremo tem a sua vertigem que o arrasta à tirania, serve, ama e respeita a realeza, a coisa infalível, o espírito de Deus sobre a terra, a faísca celeste que torna tão grande e tão santo o pó, que, por maior que seja a nossa linhagem de fidalgos, somos tão pouca coisa diante desse corpo estendido no último degrau da escada quanto esse mesmo corpo diante do trono do Senhor.

— Adorarei a Deus, senhor — disse Raul — respeitarei a realeza; servirei o Rei, e buscarei, se morrer, morrer pelo Rei, pela realeza ou por Deus. Ter-vos-ei compreendido bem?

Athos sorriu.

— Tens uma nobre alma. Eis aqui a tua espada. Raul pôs um joelho em terra.

— Ela foi usada por meu pai, um fidalgo leal. Usei-a depois dele e algumas vezes a honrei, quando o punho estava em minha mão e a bainha me pendia do cinto. Se a tua mão ainda é fraca para manejá-la, Raul, tanto melhor, terás mais tempo para aprender que só deves desembainhá-la no momento oportuno.

— Senhor — disse Raul, recebendo a espada das mãos do Conde — eu vos devo tudo; mas esta espada é o dom mais precioso que já me fizestes. Juro-vos que a usarei como homem reconhecido.

E aproximou os lábios do punho, que beijou com respeito.

— Está bem — disse Athos. — Levanta-te, Visconde, e abracemo-nos.

Raul levantou-se e atirou-se com efusão nos braços de Athos.

— Adeus — murmurou o Conde, que sentia fundir-se-lhe o coração. — Adeus, e pensa em mim.

— Oh! eternamente! eternamente! — bradou o rapaz. — Juro-o, senhor, e se alguma desgraça me suceder, o vosso nome será o último que pronunciarei, a vossa lembrança será o meu derradeiro pensamento.

Athos subiu precipitadamente a escada para ocultar a comoção, deu uma moeda de prata ao guarda dos túmulos, inclinou-se diante do altar e, com passos largos, chegou à porta da igreja, embaixo da qual Olivain esperava com os dois outros cavalos.

— Olivain — disse ele, mostrando o boldrié de Raul — aperta o cinto daquela espada, que descai muito. Bem. Agora, acompanharás o Sr. Visconde até que Grimaud vos alcance; quando ele chegar, deixarás o Visconde. Entendes, Raul? Grimaud é um velho servidor cheio de coragem e de prudência, Grimaud te seguirá.

— Sim, senhor — disse Raul.

— Vamos, monta; quero ver-te partir. Raul obedeceu.

— Adeus, Raul — disse o Conde — adeus, meu querido filho.

— Adeus, senhor — bradou Raul — adeus, meu adorado protetor!

Athos fez um sinal com a mão, pois não se atrevia a falar, e Raul afastou-se, com a cabeça descoberta.

O Conde quedou imóvel, vendo-o afastar-se, até o momento em que ele desapareceu na esquina da rua.

Atirou, então, as rédeas do cavalo a um camponês, tornou a subir lentamente a escada, entrou de novo na igreja., foi ajoelhar-se no canto mais escuro e pôs-se a rezar.


 UM DOS QUARENTA MEIOS DE EVASÃO DO SR. DE BEAUFORT

 

Entrementes, corria o tempo para o prisioneiro como para aqueles que se ocupavam de sua fuga: corria, porém, com menos rapidez. Ao contrário dos outros homens que tomam com ardor uma resolução perigosa e vão arrefecendo à proporção que se aproxima o momento de executá-la, o Duque de Beaufort, cuja ardente coragem se tornara proverbial, acorrentado por cinco anos de inação, parecia empurrar o tempo diante de si e chamava com todas as forças a hora de agir. Havia já em sua evasão, à parte os projetos que alimentava para o futuro, projetos, releva confessá-lo, ainda muito vagos e muito incertos, um princípio de vingança que lhe dilatava o coração. Em primeiro lugar, a sua fuga era mau negócio para o Sr. de Chavigny, que ele detestava por causa das perseguiçõezinhas a que o submetera; depois, mau negócio também para Mazarino, que ele execrava em conseqüência dos grandes motivos de queixa que tinha contra o Ministro. Como se vê, guardavam perfeita proporção os sentimentos que o Sr. de Beaufort votava ao Governador e ao Ministro, ao subordinado e ao amo.

Em seguida, o Sr. de Beaufort, que tão bem conhecia o interior do Palais-Royal, que não ignorava as relações entre a Rainha e o Cardeal, punha em cena, da prisão, todo o movimento dramático que ia operar-se, quando a notícia passasse do gabinete do Ministro ao quarto de Ana d'Áustria: O Sr. de Beaufort evadiu-se! Repetindo a frase aos seus botões, sorria prazeiroso o Príncipe e já se julgava libertado, respirando o ar das campinas e das florestas, apertando um cavalo vigoroso entre as pernas e gritando em voz alta: "Estou livre!"

É verdade que, tornando em si, via-se entre quatro paredes, via a dez passos La Ramée, que fazia girar os polegares um à roda do outro, e, na antecâmara, os guardas, que riam ou bebiam.

A única coisa que o repousava desse quadro odioso, tamanha é a instabilidade do espírito humano, era a carranca de Grimaud, que primeiro odiara, mas em que depois reunira todas as suas esperanças. Grimaud parecia-lhe um Antínoo.

É escusado dizer que tudo isso não passava de produto da imaginação febril do prisioneiro. Grimaud era sempre o mesmo. Daí que conservasse a inteira confiança de seu superior La Ramée, que a essa altura já seria capaz de fiar-se dele mais que de si mesmo: pois, como dissemos, La Ramée tinha no íntimo um fraco pelo Sr. de Beaufort.

Por isso o bom La Ramée antegozava como uma festa o jantarzinho em companhia do prisioneiro. La Ramée só tinha um defeito: era guloso; achara bons os pastéis e o vinho, excelente. Ora, o sucessor do tio Marteau prometera-lhe um pastel de faisão em vez de um pastel de galinha, e vinho de Chambertin em lugar do vinho de Mâcon. Tudo isso, realçando pela presença do magnífico príncipe, intimamente tão bom, que pregava umas peças tão engraçadas no Sr. de Chavigny e remoqueava com tanto chiste o Mazarino, convertia para La Ramée o belo Pentecoste iminente numa das quatro grandes festas do ano.

La Ramée esperava, portanto, as seis horas da tarde com tanta impaciência quanto o Duque.

Desde manhã cedo se ocupara de todos os pormenores e, não confiando em ninguém, fizera pessoalmente uma visita ao sucessor do tio Marteau. Este se esmerara: mostrou-lhe um pastel monstruoso, ornado na tampa com as armas do Sr. de Beaufort: o pastel ainda estava vazio, mas perto dele se viam um faisão e duas perdizes, picados em pedacinhos tão pequenos, que cada ave semelhava uma almofada de alfinetes. La Ramée ficara com água na boca, e entrara no quarto do Duque esfregando as mãos.

Para cúmulo de sorte, como já dissemos, confiado em La Ramée, o Sr. de Chavigny fizera nesse dia uma viagenzinha e partira de manhã cedo, convertendo La Ramée em sub--governador do castelo.

Quanto a Grimaud, parecia mais taciturno do que nunca.

Durante a manhã, o Sr. de Beaufort jogara com La Ramée uma partida de pela; um sinal de Grimaud dera-lhe a entender que devia prestar atenção em tudo.

Caminhando na frente, Grimaud traçava o caminho que deveriam seguir à noite. O jogo de pela realizava-se no sítio conhecido como a tapada do pátio pequeno do castelo, lugar deserto, em que só se punham sentinelas no momento em que jogava o Sr. de Beaufort; aliás, em vista da altura dos muros, essa mesma precaução parecia supérflua.

Era preciso abrir três portas para chegar à tapada. Cada qual com uma chave diferente.

Na tapada, Grimaud foi sentar-se maquinalmente perto de uma seteira, com as pernas pendentes para fora do muro. Era aquele, sem dúvida, o lugar em que se prenderia a escada de corda.

Todas essas manobras, compreensíveis para o Duque de Beaufort, passavam, naturalmente, despercebidas a La Ramée.

A partida começou. Dessa feita, o Sr. de Beaufort estava de veia, e dir-se-ia que colocava com as mãos as bolas onde queria colocá-las. La Ramée foi completamente vencido.

Quatro guardas do Sr. de Beaufort tinham-no seguido e apanhavam as bolas: terminado o jogo, enquanto chasqueava da imperícia de La Ramée, o Sr. de Beaufort ofereceu-lhes dois luíses para irem beber à sua saúde em companhia dos camaradas.

Os guardas pediram a autorização de La Ramée, que a concedeu, mas só para a noite. Até então estaria ocupadíssimo com pormenores importantes; e, como tivesse o que fazer, não queria que se perdesse de vista o prisioneiro.

Se o próprio Sr. de Beaufort houvesse arrumado as coisas, não as teria, muito provavelmente, arranjado de maneira tão favorável para si quanto o fizera o carcereiro.

Soaram, afinal, seis horas; e embora os comensais só devessem por-se à mesa às sete, o jantar já estava pronto e servido. Sobre um aparador colocara-se o gigantesco pastel com as armas do Duque, que parecia estar no ponto, a julgar pela cor dourada que assumira a crosta.

O resto do jantar não lhe ficava atrás.

Todos se sentiam impacientes, os guardas por beber, La Ramée por sentar-se à mesa e o Sr. de Beaufort por fugir.

Só Grimaud permanecia impassível. Dir-se-ia que Athos o tivesse educado na previsão desse momentoso acontecimento.

Ocasiões havia em que, olhando para ele, o Duque de Beaufort perguntava aos seus botões se não estaria sonhando e se aquela figura de mármore se achava, de fato, a seu serviço e seria capaz de animar-se no momento azado.

La Ramée retornou aos guardas, recomendando-lhes que bebessem à saúde do Príncipe; depois, quando partiram, fechou as portas, enfiou as chaves no bolso, e mostrou a mesa. ao Sr. de Beaufort com um ar que significava:

— Quando quiser Vossa Alteza.

O Príncipe olhou para Grimaud, Grimaud olhou para o relógio; eram apenas seis horas e um quarto e a evasão fora marcada para as sete; cumpria, portanto, esperar quarenta e cinco minutos.

Para ganhar um quarto de hora, pretextou o Príncipe uma leitura que lhe interessava e pediu licença para acabar o capítulo. La Ramée se acercou, olhou por cima do ombro do Duque a fim de conhecer o livro cuja influência sobre Sua Alteza o impedia de pôr-se à mesa depois de servido o jantar.

Eram os Comentários de César, que ele mesmo, contra as ordens do Sr. de Chavigny, lhe levara três dias antes.

Lá Ramé jurou consigo mesmo que nunca mais transgrediria o regulamento do castelo.

Enquanto esperava, abriu as garrafas e foi cheirar o pastel.

Às seis horas e meia, o Duque levantou-se e afirmou, com gravidade:

— Decididamente, foi César o maior homem da antigüidade.

— Vossa Alteza acha? — perguntou La Ramée.

— Acho.

— Pois eu —tornou La Ramée — prefiro Aníbal.

— E por que, mestre La Ramée? — perguntou o Duque. — Porque não deixou Comentários — respondeu La Ramée, sorrindo.

O Duque compreendeu a alusão e pôs-se à mesa fazendo sinal a La Ramée que se colocasse diante dele.

O esbirro não se fez de rogado.

Não há rosto mais expressivo que o de um gastrônomo diante de uma boa mesa; ao receber, portanto, um prato de sopa das mãos de Grimaud estampou-se-lhe no semblante uma expressão de perfeita beatitude.

O Duque considerou-o com um sorriso.

— Com seiscentos diabos! Lá Ramée — bradou ele — se me dissessem que existe neste momento em França um homem mais feliz do que tu, eu não acreditaria!

— E Vossa Alteza teria razão — confessou La Ramée. — Quanto a mim declaro que, tendo fome, não conheço vista mais agradável que a de uma mesa bem servida, e se Vossa Alteza acrescentar — continuou La Ramée — que as honras dessa mesa são feitas pelo neto do Grande Henrique, compreenderá que a honra recebida duplica o prazer saboreado.

O Príncipe inclinou-se, por seu turno, e um sorriso imperceptível aflorou aos lábios de Grimaud, que se colocara atrás de La Ramée.

— Meu caro La Ramée — disse o Duque — não conheço ninguém que saiba, como tudo, formular um cumprimento.

— Não, Monsenhor — retrucou, efusivo, La Ramée; — em realidade só digo o que penso, e não há cumprimento no que eu disse a Vossa Alteza.

— Então, gostas de mim? — perguntou o Príncipe.

— Quero dizer — tornou La Ramée — que eu não me consolaria nunca se Vossa Alteza saísse de Vincennes.

— Curiosa maneira de mostrar a tua aflição. (O Príncipe queria dizer afeição).

— É claro, Monsenhor! — volveu La Ramée. — Que faria lá fora Vossa Alteza? Alguma loucura que o indispusesse com a Corte e que o levaria à Bastilha em vez de estar em Vincennes. Convenho em que o Sr. de Chavigny não é amável — continuou La Ramée saboreando um copo de vinho da Madeira — mas o Sr. du Tremblay é bem pior.