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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VITÓRIA SOMBRIA / Brenda Joyce
VITÓRIA SOMBRIA / Brenda Joyce

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

Um Highlander impulsionado pela vingança…

Black MacLeod, um moreno e desumano highlander, rejeitou seu destino. Sua vida se fundamenta em obter vingança pelo massacre que aniquilou sua família. Os insultos de seus inimigos, que o tacham de ser um homem de pedra, tão só o divertem. Mas o destino é impaciente, e quando uma mulher de outra época se atreve a invocá-lo, não pode resistir a seus poderes… nem a ela…

 

A mulher que o salvará…

Professora de colégio de dia, Tabitha Rose utiliza sua magia para proteger a outros de noite. Quando a visão de um moreno highlander, ensanguentado e queimado, aparece à Tabby, sabe que tem o dever de ajudá-lo, sem importar quão aterrador este possa ser. Mas o que Tabby não esperava era ser transportada contra sua vontade à turbulenta época desse homem. E quando o mal começa a persegui-la, dá-se conta que não só deve lutar por seu destino… deve lutar por seu amor…

 

 

 

 

O futuro

19 de junho de 1550

Perto do Melvaig, Escócia

Não soube o que o tinha despertado.

Guy Macleod se levantou bruscamente da cama, rodeado pela ira de sua esposa. Começou a sentir horror. Tabitha raramente se zangava; agora, pelo contrário, sua raiva não conhecia limites. Guy ficou completamente quieto para que seus extraordinários sentidos pudessem localizá-la, supunha-se que estava em Edimburgo, hospedada na casa de sua irmã, mas Guy soube em seguida que não estava ali... e que se achava em grave perigo.

Morreria por ela sem pestanejar. Apesar de que jamais sentia pânico, teve que fazer um esforço por conservar a calma enquanto a buscava.

Foi então quando sentiu por fim aquela maldade que tão familiar lhe parecia.

Negra e imensa, cheia de ódio e de malevolência, passava duzentos e cinquenta anos convivendo com aquela maldade. Criosaidh possuía potentes poderes de magia negra. A magia branca de Tabitha era igualmente poderosa. Mas Criosaidh perseguia sua esposa cada vez com maior ímpeto, como se estivesse impaciente, e com renovada ousadia há algum tempo. Tabitha desdenhou da preocupação de Guy. Agora, possivelmente muito tarde, ele compreendia que estava certo.

Saltou da cama e, enquanto vestia o espartilho sobre o corpo musculoso e cheio de cicatrizes, olhou para a janela do aposento. No céu, negro azulado e em calma, brilhavam um milhão de estrelas. O olhar de Guy se fez mais intenso. Seus sentidos se afiaram. Por um instante, apesar de que a fortaleza de Criosaidh em Melvaig estava quase a uma jornada de viagem a cavalo, pareceu-lhe que ali o céu estava em chamas. Brilhava tanto pelo sul... Mas isso era impossível.

Ou não?

O poder de Tabitha sobre o fogo não deixava de assombrá-lo. Já não ficava nenhuma dúvida: Tabitha estava em Melvaig. E também estava ali Criosaidh.

Seu alarme se desvaneceu; seu medo se extinguiu. Ao calçar as botas, saltou no tempo.

Tinha aperfeiçoado a arte do salto através do tempo e o espaço há séculos, e aterrissou erguido, aturdido, mas preparado para a batalha, no enorme pátio central de Melvaig. Lá em cima, o céu estava em chamas.

Incrédulo, viu cair imensas bolas de fogo no pátio de armas. Homens, mulheres e crianças corriam para as portas, gritando de espanto, tentando escapar daquele inferno. Perguntou-se por um momento se o sol teria se desfeito e estava caindo ao chão feito pedaços, mas sabia que não era assim. Moveu o olhar. A torre central de Melvaig se elevava sobre a fortaleza... e era um inferno.

Embora a pedra não podia arder, de suas paredes se desprendiam partes de ardósia cinza envoltas em chamas que crepitavam ao cair e que, ao chocar-se contra o pátio, abriam buracos no chão.

Tabitha gritou.

Criosaidh rugiu, furiosa.

A torre cambaleou em meio da feroz noite e dela saíram novos blocos de pedra incandescentes que iam se chocar contra a terra.

Estavam em guerra.

Guy não possuía o dom da visão, mas de repente teve aquela estranha sensação a que sua mulher se referia frequentemente: a sensação de ter já vivido aquele momento. Pareceu-lhe que revivia aquele terrível instante, embora sabia que não podia ser.

Essa noite, só sobreviveria uma bruxa.

—Tabitha! —rugiu, e se precipitou para a porta da torre. Correu para o piso mais alto e, ao chegar ao patamar, o calor do fogo do interior do aposento queimou seu rosto, o peito e as mãos. Viu que o fogo abrasava um muro maciço do outro lado da sala. Sua esposa estava presa contra a parede do fundo; as chamas quase tocavam suas saias de veludo.

O terror paralisou um instante Guy.

Criosaidh estava em pé do outro lado da cortina de fogo, na parte do aposento que as chamas tinham deixado intacta.

—Chega tarde, Macleod. Esta noite vai morrer... por fim.

Guy nunca caiu em uma batalha, nenhuma só vez em quatrocentos anos. O calor tinha feito que se escondesse; ergueu-se e lançou todo seu poder a Criosaidh, furioso como nunca antes.

—Morra você! — bramou, mas ela se envolveu em um feitiço protetor, e o poder de Guy se desviou sem lhe fazer mal.

Macleod olhou a sua bela esposa, que nunca se assustava em uma crise. Quando seus olhares se encontraram, ouviu-a com toda claridade.

Sabia que este dia chegaria... e você também.

Acreditava que Criosaidh ia derrotá-la?

—Não! —gritou Guy, e lançou outra descarga. Sua vida foi um ciclo infinito de sangue e morte, seu coração era de pedra até que Tabitha foi a ele dois séculos e meio atrás, levando consigo felicidade e alegria. Tabitha salvou sua vida.

Criosaidh sorriu quando o feitiço de proteção voltou a desviar seu poder.

—Domina o fogo! — gritou Macleod a Tabitha.

—Tento isso! —respondeu ela. —Mas tem novos poderes! Tabitha fechou os olhos, esforçando-se visivelmente. E de repente a cortina de fogo se moveu e começou a retroceder para Criosaidh.

Esta gritou, contrariada. Macleod ficou muito quieto. Seu poder não podia alterar o fogo, mas tinha aprendido fazia tempo como servir-se de sua mente para ajudar Tabitha a projetar a magia. Introduziu-se dentro dela com a mente. A união sempre os fazia mais fortes: o mal nunca os derrotou quando se fundiam mentalmente. Agora tampouco devia derrotá-los.

—Fogo ansioso, fogo faminto, atrás da cadela de Macleod — disse Criosaidh com aspereza.

Enquanto Criosaidh falava, Guy viu correrem as lágrimas pelo rosto de Tabitha.

—Não! — rugiu, e lançou uma nova descarga contra a bruxa negra. Dessa vez a pegou despreparada e Criosaidh gemeu de dor e foi jogada para trás, contra a parede.

Tabitha ficou imóvel, com os olhos muito abertos, enquanto as chamas a rodeavam.

Guy agarrou Criosaidh e a sacudiu.

—Pare o fogo ou te mato!

Ela o olhou com um sorriso zombador e desapareceu.

Tabitha gritou.

Guy se voltou, horrorizado... e viu em chamas seu vestido de veludo de cor lavanda. Um instante depois, as chamas envolveram por completo a sua esposa. Só uma parte de seu rosto assustado era visível ainda.

Eu te amo...

Guy a conhecia muito bem... Fazia duzentos e cinquenta e dois anos que a seduziu em seu pequeno loft de Nova Iorque e a levou ao Blayde contra sua vontade. Era sua esposa, sua amante, sua melhor amiga e sua maior aliada na guerra contra o mal. Era sua companheira em todas as tarefas, grandes e pequenas, e era a mãe de seus filhos, a avó de seus netos. Tinha-lhe ensinado o que era o amor, a compaixão, a humanidade. Ele nunca tinha acreditado no amor até que ela entrou em sua vida. Até conhecer Tabitha, tinha sido cruel e implacável.

Sabia que ela queria dizer algo mais.

Mas sabia também que aquelas eram suas últimas palavras antes de morrer.

Tabitha não acabou de falar. As chamas se encresparam de repente, alcançando o teto da torre, e a consumiram por completo.

—Tabitha! —gritou.

Depois o fogo desapareceu e só ficaram as ruínas abrasadas da habitação da torre.

Guy não podia respirar. Não podia mover-se. Ficou com o olhar fixo, cheio de horror.

Ao outro lado da torre, no chão, viu o colar de ouro que sua esposa usou durante dois séculos e meio: o amuleto que lhe tinha oferecido. Aquele talismã era a palma de uma mão aberta, em cujo centro brilhava uma pálida pedra de lua.

Tinha sobrevivido ao fogo, intacto. Sua esposa, pelo contrário, tinha morrido.

—Não!

Guy saltou no tempo.

 

O presente

Nova Iorque

7 de dezembro de 2011

Foi um fim de semana realmente tranquilo. Tabby não sabia muito bem o que pensar a respeito enquanto sua irmã e ela faziam fila para passar pelo controle de segurança do Museu Metropolitano. Na noite anterior, inclusive, sua irmã Sam saiu tão cedo do trabalho que conseguiram jantar fora. Tabby não recordava a última vez que saíram juntas para jantar e tomar um drink. Aquilo a inquietava. Estava esperando que caísse o machado.

Algo terrível iria acontecer.

Tabby era uma Rose, e embora não tinha a visão, como sua prima Brie, sentia aquela premonição nos ossos.

—É estranho — comentou Sam enquanto avançavam para o guarda de segurança. —Ontem só houve quatro crimes de prazer. E não é que me queixe, mas era sábado de noite.

Embora irmãs, eram tão diferentes como a noite e o dia. Enquanto Sam tinha um estilo duro e moderno, o de Tabby era suave e clássico. Dois anos mais novas que Tabby, Sam tinha o cabelo curto, loira platinado e arrepiado, um corpo como o da Angelina Jolie e um rosto combinando com ele. Tabby estava acostumada aos olhares que sua irmã recebia. Todos os homens que passavam, jovens ou velhos, paravam para olhá-la. Tabby não se importava. Sabia que ela era recatada e moldada a antiga. Embora fosse domingo, usava uma saia de lã, um pulôver de caxemira com o decote em V e um colar de pérolas. Nem sequer tinha um par de calças jeans.

        Um homem alto e jovem olhou boquiaberto Sam e logo se voltou para olhá-la. Tabby também estava acostumada a isso. Era uma mulher atrativa; o que acontecia era, simplesmente, que sua irmã a eclipsava.

—Não houve nem um só ato de fé em nenhum dos cinco distritos — disse Sam. —É meio-dia e não me chamaram para um só caso.

Tabby sabia que sua irmã, que trabalhava como agente na UCH, estava aborrecida. Sam dava o melhor de si mesma quando perseguia criminosos pelas ruas da cidade. Mas os atos de fé eram crimes horrendos. Vítimas inocentes eram queimadas ao estilo medieval, na fogueira. Embora aquela estranha diminuição da violência resultasse inquietante, Sam não deveria queixar-se.

—Porque está tão zangada? Vi com quem tinha ficado no Trenza — lhe disse Kit com um sorriso. —E era muito jovem e bonito.

—Muito jovem, muito bonito e muito potente — Sam sorriu.

—Porque será que nunca tem amigos? — lamentou-se Kit, mas piscou um olho a Tabby.

        Kit era magra, de pele clara e cabelo escuro. Tabby nunca a viu maquiada: não precisava. Seu rosto de sereia e seu corpo sensual ocultavam uma intensidade e uma determinação deslumbrantes. Como no caso de Sam, sua paixão era a luta contra o mal. Era uma das mulheres mais sérias e decididas que Tabby conheceu, mas não era estranho: sua irmã gêmea morreu em Jerusalém, em seus braços, vítima da violência demoníaca. Às vezes Tabby tinha a sensação de que Kit continuava chorando Kelly. Ela também trabalhava na UCH: assim conheceu Sam.

—Tinha um amigo — respondeu Sam. —Mas se foi antes que chegasse.

Kit encolheu de ombros tranquilamente.

—Tive que ir ao ginásio, me cuidar um pouco.

Sam soltou um suspiro.

Tabby não sabia se Kit era tão antiquada quanto ela, ou se simplesmente estava tão obcecada com o trabalho que não tinha tempo para ter companheiro. Conhecia Kit há quase um ano e suspeitava que era tão casta quanto ela. Mas não importava: as duas viviam vicariamente através de Sam. Alguém poderia escandalizar-se por como Sam utilizava aos homens, mas Tabby estava orgulhosa dela. Era uma mulher muito bela e poderosa; era ela quem dizia sim ou não, quem sempre deixava plantados aos homens. Sam jamais quebraria o coração. Isso a pouparia.

        Tabby se sentiu aliviada ao comprovar que a leve dor que sentia no peito não atravessava de repente seu coração e sua alma. O divórcio já não lhe doía. Já não lhe doíam as traições. Havia passado quase dois anos desde que tinha descoberto o alcance das mentiras e os enganos de seu ex-marido. Deu-lhe todo seu amor e cumpriu fielmente seus votos nupciais. Ele, pelo contrário, mentiu do principio ao fim.

Tabby tinha intenção de aprender com seus erros. Randall não tinha sido o amor de sua vida, ao final das contas. Era um investidor de Wall Street, um especulador de altos voos. Tinha-a enganado desde o começo e, para que o tópico fosse perfeito, ela foi a última a saber. Não voltaria a aproximar-se de um machão carismático como aquele.

Às vezes, entretanto, sobretudo ultimamente, lamentava não ser um pouco mais como sua irmã no referente aos homens. Não queria pensar que se sentia sozinha, ou que necessitava o tipo de intimidade que talvez não voltaria a ter, mas as noites se faziam cada vez mais duras de confrontar. Tinha começado a sair com homens outra vez, com cuidado de escolher sempre a intelectuais e artistas, mas tinha a impressão de fazer tudo mecanicamente. E possivelmente fosse verdade. No referente ao sexo e aos homens, sua irmã e ela eram polos opostos. Se não estava apaixonada, não sentia nenhum interesse. E tampouco se excitava facilmente. Talvez o amor e a paixão não fossem para ela. Tinha já vinte e nove anos e começava a pensar que possivelmente devia concentrar-se em seu Destino como mulher da família Rose.

—Oxalá me deixasse te promover um encontro com esse cara novo do CAD — disse Sam.

Tabby lhe sorriu com certa amargura. Viu MacGregor uma vez, ao sair com Sam do Centro de Atividade Demoníaca.

—Nem sonhe — disse. Aquele agente levava a palavra “macho” escrita por toda parte.

        —Deixa-a explorar o lado Beta da vida — disse Kit com o olhar cheio de candura. —Quem sabe? Talvez assim encontre seu parceiro ideal.

Tabby sentiu uma pontada, mas sorriu radiante e disse:

—Disso se trata.

Kit ficou séria e lhe tocou o braço.

        —Perdão. Não conheci Randall e não deveria brincar porque tenha decidido sair com homens completamente opostos a ele.

—Não tem importância. — disse Tabby. Sorriu com firmeza. —O que tiver que ser, será. Talvez o amor de minha vida seja um poeta com o título de doutor.

Sam se engasgou.

—Isso, por cima de meu cadáver — logo olhou mais atentamente a sua irmã. —Encontra-se bem?

Sempre sabia quando algo ia mal.

—Ainda é doloroso.

—Sim, sei — disse Sam, e ambas sabiam que se referiam a sua prima Brie. Kit provavelmente também sabia, mas fingiu não as ouvir e avançou ao andar a fila.

As mulheres Rose eram especiais. Cada uma tinha seu destino vinculado à guerra contra o mal. Durante gerações, tinham usado seus extraordinários poderes para fazer o bem e ajudar a outros. Fazia só três meses que Brie partiu com intenção de resgatar o Lobo de Awe. No ano anterior, sua melhor amiga, Allie, também tinha desaparecido. Embora Allie não fosse família dela, eram amigas desde meninas. Aquilo também era coisa do Destino: tinha resultado que Allie era uma poderosa Curadora. Cada uma delas tinha ido ao passado abraçar seu Destino, porque tinha chegado o momento de fazê-lo. Assim era como funcionava o universo. Esse era um dos ensinos fundamentais do Livro das Rose, que passou de geração em geração entre as mulheres da família Rose.

Tabby sentia falta das duas, terrivelmente às vezes, mas também se alegrava por elas, porque Allie e Brie não estavam sozinhas na Idade Média. Seu Destino incluía companheiros virtualmente imortais: highlanders que combatiam a seu lado, tão comprometidos quanto ela na luta contra o mal. Sua ausência, entretanto, tinha deixado um enorme vazio em suas vidas. Sam tentou enchê-lo entrando para trabalhar na UCH, a Unidade do Crimes Históricos do CAD, uma agência governamental secreta dedicada a lutar contra o mal que impulsionava a sociedade. Nick Forrester, seu chefe, dirigia a UCH com mão de ferro, mas sempre estava ali para respaldá-las. E o mesmo podia dizer-se de Kit. Mas, sem Allie e sem Brie, já nada era igual.

Não podia desafiar a destino. E o Destino de Tabby era a magia. Em cada geração da família Rose havia uma Matadora, uma Curadora e uma Bruxa. Ela praticava a magia desde os quatorze anos, o ano em que morreu sua mãe, vítima de um crime demoníaco de prazer. Mas havia um enorme problema. As Rose estavam acostumados a dominar muito rapidamente seus poderes, uma vez se fazia evidente seu Destino. Aparentemente, Tabby era a exceção a essa regra. Embora praticava a magia desde a adolescência, seus poderes seguiam sendo erráticos, e às vezes eram tão fracos que não serviam de nada. Simplesmente, aquilo não tinha sentido.

Mas, como dizia o Livro das Rose, para tudo havia um motivo.

—Depois do ginásio, voltei para a UCH — disse Kit. —Estive analisando uns relatórios antigos. Preocupava-me esse último ato de fé. Só foram três no bando.

—Tinham tomado uma droga que não tínhamos visto ainda — disse Sam em voz baixa.

A jurisdição da UCH era o passado: qualquer atividade demoníaca passada, embora tivesse séculos de antiguidade. Como muitos dos demônios atuais procediam de séculos anteriores, os agentes da UCH trabalhavam lado a lado com os do CAD. Raramente resolviam um crime moderno sem recorrer aos peritos da UCH. Tabby já tinha ouvido falar do ato de fé da semana anterior. Um casal foi queimado na fogueira em um dos bairros mais elegantes de Manhattan. Aqueles horrendos assassinatos costumavam cometer-se entre a meia-noite e a alvorada, e neles costumavam participar um grupo inteiro. Aquele, pelo contrário, tinha acontecido às oito da noite, e nele só tinham participado três indivíduos: dois homens e uma mulher, estavam-se tornando mais ousados? Tinha sido um autêntico ato de fé?

A imprensa pontuava os assassinatos de “queima de bruxas”, um rótulo que desagradava a Tabby especialmente, porque as vítimas eram homens, mulheres e crianças comuns, de todas as idades, raças, tamanhos e formas. Claro que o mal raramente discriminava; exceto quando se tratava de crimes de prazer, é óbvio. Para isso escolhia aos mais belos e inocentes. As queimas de bruxas tinham suscitado tal medo entre o público em geral, que já a ninguém parecia importar que setenta por cento dos assassinatos seguisse sendo crimes de prazer. O realmente espantoso era o cruéis e ferozes que se tornaram os bandos de adolescentes possessos.

Antigamente eram meliantes de bairros da periferia ou garotos normais desaparecidos de suas casas. O mal se alimentava deles, seduzia-os, oferecia-lhes poder em troca de sua alma e os impulsionava a semear a anarquia e a cometer atos de uma horrenda brutalidade. Os bandos possessos estavam fora de controle, dominavam as ruas da cidade mediante o poder e o medo. As guerras de bandos já não estavam na moda. Agora, os bandos colaboravam frequentemente para assassinar inocentes da maneira mais sádica e cruel. Ficavam já muito poucos bandos “normais” no país.

—Há algo nesses atos de fé que me inquieta — comentou Kit. —Tenho a impressão de ter passado por cima de uma pista decisiva.

—Voltarei para a UCH com você — disse Sam — e analisaremos juntas esses casos.

Tinham chegado ao controle de segurança. Tabby sorriu ao guarda enquanto Sam lhe mostrava seu crachá de agente governamental. Sam carregava a mochila cheia de armas, uma adaga escondida na manga e uma Beretta na pistoleira do ombro. Era impossível que passasse o controle. Kit mostrou ao guarda um crachá similar. Embora trabalhassem para o governo, nem Kit nem Sam eram federais, como asseguravam suas identificações. Mas o CAD era um organismo tão secreto que só os níveis máximos da CIA, o FBI e o Serviço Secreto trabalhavam com seus agentes.

Quando passaram o controle, Sam e Kit pareciam tão pensativas que Tabby teve a sensação de que estavam dispostas a abandonar seus planos para essa tarde. Teria que percorrer sozinha a exposição e voltar sozinha ao loft que compartilhava com Sam. Gravitaria pelo loft envolta na mesma solidão de cada noite, exceto quando saía com algum homem encantador pelo qual não sentia nenhum interesse. Sentia-se sozinha em casa, Sam quase nunca estava ali, mas o confrontaria como fazia sempre. Organizaria o programa do dia seguinte e praticaria seus feitiços.

—Bom, pela aonde se vai à Sabedoria dos Celtas? —perguntou Sam.

Tabby sorriu, aliviada. Sam sabia que necessitava companhia.

—Por essas escadas — disse.

O enorme vestíbulo estava abarrotado de gente. Qualquer nova-iorquino sabia que visitar o museu em fim de semana era uma péssima ideia. Começaram a cruzar o vestíbulo, diminuídas pelas colunas e os arcos, e subiram pela ampla escada que levava a primeiro piso da exposição.

Não havia fila.

Olharam-se ao aproximar-se das vitrines. Tabby disse:

—Que estranho. Deveríamos ter esperado meia hora, no mínimo.

Kit murmurou:

—É uma exposição sobre a Irlanda medieval. Se quiserem que dê minha opinião, Escócia e Irlanda são virtualmente o mesmo.

Allie e Brie estavam na Escócia medieval, com highlanders que pertenciam a uma sociedade secreta dedicada a proteger a Inocência.

—Insinua que estávamos destinadas a vir aqui? Que a exposição está relacionada com a Irmandade?

—Os primeiros escoceses procediam da Dalriada, ou seja, da Irlanda.

Tabby mal as ouvia, deu-se conta de que seu coração pulsava com força quando as deixou falando a respeito de quão estranho era que não houvesse fila e se aproximou de uma grande vitrine. Dentro havia numerosos artefatos. Viu vagamente uma grande espada com o punho lavrado, um par de adagas, um broche e uma taça. Mas foi o colar o que atraiu imediatamente sua atenção.

Uma terrível tensão se apoderou dela enquanto olhava a corrente de ouro e o medalhão que pendurava dela. Era um talismã com forma de uma palma aberta, em cujo centro brilhava uma pedra de cor clara. O pulso lhe saltava vertiginosamente na garganta. Quando tocou a curva de sua clavícula, onde usava as pérolas e uma chavezinha em uma corrente, sentiu a pele quente, sentia-se um pouco atordoada, quase desfalecida.

—Está bem? —perguntou Sam.

—Sinto-me estranha — disse Tabby, dando-se conta de que estava suando. Inclinou-se para ler sobre o amuleto.

Datava de princípios do século XIII, mas tinha sido achado em 1932, entre as ruínas do castelo de Melvaig, ao nordeste das Terras Altas de Escócia. Tinha sobrevivido de algum modo à legendária batalha de An Tùir-Tara, “a Torre Ardente”. Em 19 de junho de 1550, um pavoroso incêndio destruiu a torre central do castelo de Melvaig. Os historiadores não entravam de acordo em relação às causas do fogo, porque não se encontraram armas nem nenhum outro sinal de batalha. A hipótese mais aceita era que o incêndio tinha sido resultado de uma traição, das que se viam frequentemente na guerra de clãs entre os MacDougall de Skye e seus inimigos habituais, os Macleod do lago Gairloch. Aquele sanguinário conflito entre clãs parecia datar de 1201, quando um incêndio provocado pelos MacDougall arrasou até os alicerces a fortaleza dos Macleod em Blayde, causando a morte do chefe do clã, Guilherme, o Leão. Houve muito poucos sobreviventes, mas entre eles se encontrava o filho de Macleod, um menino de quatorze anos.

A Tabby dava voltas a cabeça. As palavras se rabiscavam diante de seus olhos. Não podia respirar. Começou a sufocar por falta de ar.

Os Macleod do lago Gairloch...

Seu filho de quatorze anos...

Respirou por fim, tragando ar. Eram importantes os Macleod por alguma razão? Conhecia aquele clã? Faziam parte da história das Rose? Porque lhe parecia tão importante aquele rapaz? Tinha a impressão de que o nome do clã soou familiar, de que tinha que estender os braços para aquele menino. E entretanto, não conhecia ninguém chamado Macleod. Sua família procedia do Narne, ao oeste das Terras Altas.

Seguia tremendo. Quase podia ver um garoto de quatorze anos coberto de sangue e abatido pela tristeza e os remorsos, de repente, sentiu-se consumida por uma emoção tão intensa que de novo não pôde respirar.

Ficou quieta.

Via o incêndio.

O céu estava negro como boca de lobo, e um castelo inteiro estava em chamas. Havia medo, fúria.

As imagens mudaram. O céu se tornou de um azul brilhante. Agora só ardia uma alta torre...

Aquelas terríveis emoções se intensificaram. Tabby gemeu, sacudida pela raiva e a angústia, pelo medo e o espanto, e também pelo amor.

E pela maldade.

—O que ocorre? — perguntou Sam, preocupada. —Tem que sentar!

        Tabby mal ouvia sua irmã. Não tinha poder para intuir o mal, mas o mal parecia chamá-la de repente. Desejava-a, esforçou-se por ver, horrorizada e fascinada ao mesmo tempo. E do incêndio, naquele ensolarado dia de verão, saiu uma névoa escura que se deslizou pela torre em chamas, envolvendo-a por completo. Lentamente, aquela bruma turva começou a ganhar forma de mulher: uma mulher sem rosto, envolta em negrume.

—Maldita seja, Tabby!

Aquela mulher malvada a chamava. Tabby não podia ver seu rosto, mas sabia que lhe sorria com a careta fria e luxuriosa da pura maldade. Então se deu conta de que tinha medo.

Piscou. Aquela mulher rodeada de escuridão se tornou mais nítida. Seu cabelo, negro como a noite, caía sobre seu manto e emoldurava um rosto pálido e belo. Tabby a conhecia de algum modo: era uma bruxa negra ou um demônio. Tinha vivido já aquele momento. E entretanto nunca se viram.

A mulher começou a desaparecer. Tabby abriu os olhos, ou os tinha já abertos e começou a ver o que havia diante dela. Agarrou-se aos fortes braços de Sam. Sua irmã a olhava alarmada.

—O mal... —murmurou com voz seca.

Sentiu a incredulidade de Sam.

—Mas você não percebe o mal. Eu sim, e aqui não há, Tabby.

Havia tanta maldade...

—Está aqui. Estou sentindo. É uma mulher.

—Está branca como um lençol, vai desmaiar. Tem que se sentar e pôr os pés no alto — disse Kit rapidamente.

Tabby a viu ao lado de Sam, e viu também a vitrine e o amuleto atrás delas. Cravou o olhar na palma de ouro brilhante.

—Estou bem — disse com aspereza.

—Eu não senti nenhum mal — disse Sam em voz baixa. —Procedia do talismã?

Tabby umedeceu os lábios. Já não estava tonta, mas seguia sentindo-se um pouco fraca. O que aconteceu? Acabava de sentir uma força imensa e ameaçadora. Uma força que a desejava.

Olhou a pedra branca que reluzia no centro da palma.

—Tem luz branca. Não é um amuleto maléfico. Tem uma magia muito poderosa.

—Deve tê-la, se sobreviveu a um incêndio. O ouro se funde — disse Kit.

Tabby tremeu.

—Acredito que tive uma visão — e quanto a sua reação ao pensar naquele rapaz de quatorze anos que tinha sobrevivido à destruição do Blayde no século XIII?

Tabby ficou tensa. Quase lhe parecia ver o menino. Ao ler aquelas palavras, havia sentido sua tristeza e seus remorsos.

Os olhos azuis escuros de Sam se aumentaram.

—Você tampouco tem a Visão!

—Tive a impressão de ter vivido já esse momento — voltou a umedecer os lábios. —Havia uma bruxa, ou um demônio. Conheço-a. Conhecia-a — particularizou. —E talvez o sobrevivente do primeiro incêndio também a conhecesse.

—Que primeiro incêndio? — perguntou Sam.

Tabby compreendeu que precisava sentar-se.

—Os clãs começaram a lutar depois de 1201, diz a placa, Sam — procurou um banco a seu redor. Havia um ao outro lado da sala, mas não queria afastar-se da vitrine.

Seguiu um breve silêncio enquanto as três refletiam sobre o que acabava de ocorrer. Kit disse:

—Capto boas vibrações desse pingente. Talvez possa encontrar algo na UCH sobre ele, e sobre esses dois clãs.

—Meu instinto me diz que deveríamos ver o que podemos encontrar sobre o An Tùir-Tara — Sam observava atentamente a Tabby. —Lembra algo mais?

Tabby olhou a sua irmã. O que aconteceu no An Tùir-Tara foi espantoso. No que estava pensando Sam? Estava muito séria, como se soubesse mais do que deixava transparecer.

—Quer que investigue também sobre a destruição de Blayde? —perguntou Sam em voz baixa.

Tabby ficou gelada, de repente se sentia ainda mais atordoada. A dor daquele rapaz parecia fazer parte dela. Ela esteve ali?

Pensou na reencarnação. O Livro das Rose mencionava as vidas passadas em um adágio que leu uma e outra vez. Tabby não acreditava nas vidas passadas nem deixava de acreditar nelas.

—Crê que estive ali? Em Blayde, ou no An Tùir-Tara, em 1550?

—Não sei — respondeu Sam. Tinha uma estranha cara de pôquer. O que lhe passava?

—Talves mamãe estivesse ali, ou que estivesse a avó Sarah, ou alguma outra antepassada nossa — disse Sam. —Talvez foi você em uma vida diferente, embora não acredito muito na reencarnação. Ou talvez esteja começando a ter o poder de pressentir o mal, de senti-lo através do tempo, como fazia Brie — encolheu os ombros. —Não perdemos nada investigando. Está claro que esse amuleto tem algo a ver com você, de um modo ou outro.

Tabby ficou calada. O Livro das Rose era muito claro com respeito ao destino e a inexistência das coincidências.

—Não quero ser azarada, mas passei todo o dia esperando que ocorra algo mau. Algo realmente terrível. Como se estivéssemos vendo um episódio de Buffy e começassem a sair vampiros da televisão e a invadir nossa sala de estar — disse Kit com os olhos como pratos.

Tabby não podia sorrir.

—O que nos faltava: vampiros. Não dê ideias aos demônios — disse Sam, divertida. Logo, Kit e ela trocaram um olhar cúmplice.

Kit era mais guerreira que Matadora, e muito menos impaciente que Sam. Não lhe importava passar dias inteiros mergulhando na base de dados da UCH. Sam, pelo contrário, não podia estar quieta muito tempo.

—O que estão planejando? —perguntou Tabby com certo nervosismo.

Sam a rodeou com o braço.

—Está muito pálida. Acredito que deveríamos te levar para casa e começar a investigar este assunto. De todos os modos, amanhã será melhor momento para ver a exposição.

Tabby sabia que Sam estava preocupada com ela. Olhou o pingente. A pedrinha branca brilhava.

—Estou bem.

—O que quer dizer com isso? Não podemos te deixar aqui, estive a ponto de desmaiar — disse Sam. —Parecia que tinha voltado no tempo, embora continuasse aqui, conosco. Isto eu não gosto nem um pouco.

Sam nunca ficava tão protetora com ela. Eram uma equipe de iguais, e respaldavam uma à outra em momentos de crise. Lutavam juntas contra os demônios quase cada noite. Tabby se ergueu e respirou fundo; tinha decidido não preocupar-se de momento pelo estranho comportamento de sua irmã. Tinha que pensar no rapaz e na bruxa-demônio.

—Eu fico. Tenho que ficar — ao ver que Sam a olhava com assombro, acrescentou com firmeza: —Estou bem. Não vou me quebrar como se fosse de porcelana, vou beber um pouco de água e depois me sentarei aqui, junto ao amuleto, a pensar... e a sentir.

Sam disse por fim:

—Não gosto disto.

Tabby a olhou atentamente.

—O que está me ocultando?

Sam pôs uma cara inexpressiva.

—Entre nós não há segredos, Tab.

Kit disse:

—Deveríamos ficar, Sam. Hoje estávamos destinadas a vir aqui. É a primeira vez que Tabby percebeu o mal... e o percebeu através do tempo. Estamos em uma exposição sobre os celtas da Idade Média. E Melvaig está nas Terras Altas.

Kit acreditava que a exposição estava relacionada com os highlanders que lideravam aquela guerra com elas... mas desde tempos medievais, pensou Tabby, surpreendida. Não acreditava, tratava-se de um rapaz que sofria e de uma mulher com bastante poder negro. E daquele amuleto.

Mas por que lhe parecia tudo tão familiar?

Sam estava muito séria.

—Fala como uma Rose — disse a Kit.

—Passo tanto tempo com vocês que às vezes me sinto como uma Rose — respondeu ela com um brilho no olhar.

—Já sabem que sei me defender, quando é necessário — disse Tabby, e era certo.

—Está bem — disse Sam encolhendo os ombros. —Já é grandinha, e está claro que isto faz parte do grande plano. Não sei que mosca me picou.

Tabby as acompanhou até o bebedouro mais próximo, depois de beber e de que Sam e Kit partiram, voltou a toda pressa para a exposição.

Quanto mais se aproximava da vitrine do amuleto, mais estranha se sentia. Estava aturdida, nervosa, expectante, atemorizada... e zangada.

Deteve-se diante da palma de ouro, inquieta e tensa. Esteve esperando uma grande crise, e ali estava, pensou ansiosamente. A pedra branca brilhava alegremente. Tabby pensava no garoto e na mulher, em todas as emoções que associava de algum modo com o amuleto, ou com o An Tùir-Tara, ou com Blayde e os clãs rivais. Justo no momento em que começava a pensar que o amuleto a estava impedindo de aproximar-se muito das emoções que podiam ser perigosas para ela, ou a uma vida que podia ser perigosa para ela, sentiu-se assaltada por uma tristeza tão intensa que deixou escapar um gemido.

Caiu de joelhos.

Nunca havia sentido uma dor semelhante. Naquela angústia ressoavam ecos de ira e de poder masculino. De joelhos, Tabby conseguiu de algum modo levantar o olhar.

Um highlander se erguia sobre ela. Era um homem enorme e musculoso, moreno de pele e de cabelo, e sua cara era uma máscara de fúria. Tinha o rosto queimado, coberto de bolhas e ensanguentado. Tabby retrocedeu assustada. Ele segurava uma longa espada, tinha os nódulos das mãos esfolados e manchados de sangue, e vestia um manto de tartán vermelho e negro preso ao ombro. Debaixo ia vestido com um espartilho de manga curta, coberto de cinzas, que chegava na metade da coxa. Tabby respirou fundo. Aquele homem tinha também queimados e ensanguentados os braços e as pernas.

Seus olhos, cheios de ira e de angústia, cravaram-se nos dela.

Parecia preparado para cometer um assassinato.

Sem saber se era real ou não, Tabby se levantou e lhe estendeu a mão. Seus dedos roçaram os do highlander.

Deu-lhe um tombo no coração quando se tocaram durante uma fração de segundo.

Depois, ele desapareceu.

Tabby caminhou para trás até recostar-se na vitrine. Seus dedos ardiam pelo calor das mãos daquele homem e seu coração palpitava com força explosiva. Viu que um guarda de segurança do museu se aproximava apressadamente a ela, mas não podia afastar-se da vitrine, sentia-se comovida profundamente. Os olhos azuis daquele homem se gravaram em seu cérebro. Por fim sussurrou:

—Volta, me deixe te ajudar.

O guarda de segurança a agarrou pelo braço.

—Não pode apoiar-se na vitrine, senhorita, encontra-se bem?

Tabby mal o ouviu, afastou-se e correu ao banco mais próximo, onde se deixou cair. Respirou fundo. Sua mente funcionava vertiginosamente. Tinha que fazer um feitiço para fazer voltar para aquele homem enquanto ainda estivesse perto, antes que se desvanecesse no tempo. Tinha que ajudá-lo.

Fechou os olhos. Enquanto começava a suar, concentrou-se como nunca antes e murmurou:

        —Venha a mim, highlander, venha a mim. Venha a meu poder de cura. Volta, highlander.

Sabia que tinha que ajudá-lo. Aquele era, de algum jeito, o momento mais importante de sua vida.

E esperou.

 

        O passado

        Blayde, Escócia 1298

         —Não tem coração!

        —Sim — Macleod, o Negro, olhava friamente a seu inimigo mortal.

        Apoiado sobre as mãos e os joelhos, o homem tremia como uma folha, pálido como um fantasma, visivelmente aterrorizado. O pânico se notava em seus olhos. Macleod, pelo contrário, não sentia nada.

Alasdair ia morrer esse dia. Era simples assim. Podia suplicar clemência, mas não a obteria. Macleod perseguia os MacDougall desde os quatorze anos. Tinha perdido a conta da quantos homens do clã feriu, mutilou ou matou. Nem sequer lhe importava seu número. Talvez, como afirmavam seus inimigos, era certo que tinha o coração de pedra.

—A Uilleam — disse em voz baixa.

As imagens do passado se apresentaram como chamas. Tentou defender-se delas: não queria voltar a vê-las. Seu pai sendo apunhalado uma e outra vez enquanto ele via tudo sem poder fazer nada... Seu pai, um cadáver imóvel, enviado a sua sepultura no mar... Blayde em ruínas, um montão de pedras queimadas, o sol vermelho sangue elevando-se em um amanhecer cheio de fumaça... e uma imagem difusa do menino desesperado e abatido pela tristeza que tinha sido no passado.

—Suplico-lhe, Macleod, minha esposa está grávida — gritou o MacDougall de Melvaig. —O que aconteceu em Blayde foi há muito tempo. Eu nem sequer tinha nascido! Seu pai tentou fazer as pazes, Macleod, façamos nós o que não conseguiram fazer nossos pais!

Seu pai, Guilherme, tinha tentado chegar a um acordo de paz... e o clã inteiro foi assassinado em um sangrento massacre a meia-noite. Nesse dia, a vingança se converteu em sua vida. E seguia sendo-o.

—A Elasaid — disse com aspereza. Sentiu que a ira se agitava em seu interior. Na guerra, jamais dava rédea solta. —A Blayde.

Sabia que não devia servir-se dos poderes que lhe outorgaram os deuses para matar àquele homem. Sua espada cortou o grito de Alasdair ao atravessar pele e carne, tendões e ossos, até separar a cabeça do corpo.

Macleod ficou ali um momento, observando friamente como se desabava o decapitado. Sentia o menino um pouco mais perto. Seus soluços afogados se converteram em simples soluços. Macleod olhou os olhos dilatados da cabeça cortada, consciente de que o menino era quão único importava. Alasdair o olhava com olhos cegos.

Às vezes desejava que o menino também tivesse morrido esse dia.

Mas seu coração pulsava lento e firme, lhe recordando que, em efeito, tinha um coração, ao contrário do que acreditava o povo. Sem trocar de expressão, com a boca tensa e dura, baixou o braço, agarrou a cabeça de Alasdair pelos cabelos dourados e a lançou ao longe, para a ravina e o rio que corria lá embaixo.

—Una-se a seus ancestrais no inferno.

Sob seus pés, a terra se estremeceu ameaçadoramente. O céu era da cor das flores silvestres, mas um relâmpago refulgiu justo em cima dele, e um trovão partiu o céu em dois. Os deuses estavam furiosos com ele.

Outra vez.

Não lhe importava. Levantou os olhos e riu deles, desdenhava de seus desejos, de suas ordens.

Podiam amaldiçoá-lo e ameaçá-lo, e até aniquilar seus poderes, mas Macleod era neto deles e não temia a ninguém... nem sequer a um deus furioso.

—Façam o que quiserem — disse, e pela primeira vez, nesse dia sentiu curiosidade.

A resposta dos deuses foi imediata. Um raio partiu uma árvore próxima, que se derrubou a seus pés.

Macleod sorriu, divertido. Acreditavam que isso ia assustá-lo?

Fixou então sua atenção no medo e na fúria que se agitavam lá embaixo.

Sem sorrir, voltou-se para olhar o rio, onde o filho de dezesseis anos de Alasdair deslocou-se para se esconder. Ele esperou não muito longe de Melvaig com a esperança de encontrar-se com Alasdair, ou com um de seus irmãos ou seus primos, mas Alasdair tinha saído a cavalo com seu filho mais velho. Tinha-os seguido e lhes feito uma emboscada.

Era um homem muito alto, frequentemente tirava uma cabeça a todos outros, e tinha o corpo robusto e condicionado por anos de montar a cavalo, de correr por penhascos e colinas e de lutar como mais gostava: mano a mano e espada com espada. Podia ter poderes extraordinários, mas não podia depender deles: frequentemente falhavam. Pouco importava. Era mais forte que todos os homens que conhecia, e também mais rápido e mais inteligente. Nunca tinha perdido uma batalha, nem pensava fazê-lo.

Era um bonito dia de junho, mais quente que o normal ali, tão ao norte, e ele usava um simples espartilho de manga curta que chegava na metade da coxa. Tinha-o prendido com um cinturão à cintura, e o manto vermelho e negro dos Macleod pendurava de seu ombro esquerdo preso com um broche de ouro e citrino em cuja gema tinha gravado um leão. O broche pertenceu a seu pai, o grande Guilherme, o Leão. Levava espada larga e curta. As botas, providas de esporas, chegavam aos joelhos. Sua pele, diferente de outros highlanders, era surpreendentemente morena, e seu cabelo era quase tão negro como a meia-noite. Seus olhos, pelo contrário, eram de um azul deslumbrante. Sua mãe contou que seu avô era filho de uma deusa persa: daí a estranha cor de sua pele.

Macleod viu movimento lá embaixo, junto às ribeiras do rio.

O desespero do filho de Alasdair o invadiu de repente, e um instante depois o outro menino, o rapaz de quatorze anos que deveria ter morrido, retornou a seu lado. Quase recordava um momento de desespero muito parecido, noventa e sete anos antes. Decidiu não pensar nisso.

Começou a descer pela ladeira sem pressa, consciente do medo de sua presa... e de sua coragem. Viu um brilho azul. Ouviu quebrar um ramo. Escorregou e caiu pela terra úmida enquanto escutava atentamente cada pensamento de Coinneach MacDougall.

Me matará sem pensar duas vezes, como fez com meu pai. É muito rápido, muito forte, para lutar abertamente com ele. Tenho que me esconder... para poder voltar e matá-lo outro dia.

Macleod deu uns passos mais e alcançou a borda pedregosa do rio. Um par de pombas levantaram voo quando se deteve. Seguia escutando com atenção os pensamentos de sua vítima.

Não pode ser imortal, como dizem. Alguém o matará algum dia. E serei eu!.

Como se intuindo a matança, um grande corvo negro pousou no ramo mais alto de um abeto. Seus olhos negros brilhavam, cheios de interesse. Macleod sabia que Coinneach estava escondido detrás daquela árvore.

Desembainhou sua espada. Ensanguentada e bem lubrificada, sibilou ruidosamente em meio da aprazível manhã das Terras Altas.

Perto dali se ouviu a canção de um sabre.

O rapaz tinha tirado sua espada. Seus pensamentos tinham calado. Coinneach morreria lutando, como um verdadeiro highlander. Sua linhagem estaria orgulhoso dele... e logo tentaria vingar ao pai e ao filho.

A Macleod não importava. Assim era aquele mundo. A morte trazia vingança e mais morte. O ciclo era infinito, e questioná-lo seria tão inútil como questionar por que saía e se punha o sol todos os dias. Pôs-se a andar para a fileira de abetos.

Um relâmpago chispou no céu azul.

Macleod ignorou a advertência. Quando se dispunha a meter-se na água, sentiu que um imenso poder emergia atrás dele, quase tão sagrado como o dos deuses. Era tão enorme que o envolveu por completo. Macleod reconheceu imediatamente sua fonte, ficou tenso.

Ouviu-se estalar um trovão.

—Deixa-o viver. É um inocente.

Macleod se encolerizou por fim, voltou-se para olhar cara a cara a MacNeil, o abade de Iona, o homem que se converteu em seu protetor e seu guardião no dia seguinte ao massacre, o homem ao que tinha chegado a considerar um parente e um amigo. MacNeil não tinha por costume visitar Blayde, exceto quando tinha intenção de persegui-lo.

—Não interfira — advertiu Macleod.

MacNeil era um highlander alto e loiro, com mais poder e sabedoria que qualquer outro homem, mortal ou imortal.

—Claro que vou interferir. Se eu não te proteger de si mesmo, quem o fará?

—Não necessito proteção, nem sua nem de ninguém — respondeu Macleod, perdendo a paciência. Jamais se permitia uma emoção durante uma batalha, mas era consciente de que Coinneach tinha escapado através do bosque, para Melvaig. A caçada terminou. Assim, o garoto sobreviveria... só para morrer outro dia.

O sorriso de MacNeil se dissipou.

—Alguma vez te falhei naquele dia, moço? —perguntou com suavidade.

A tensão de Macleod aumentou. Era o aniversário dos assassinatos... e dos enterros.

—Não precisa que venha todos os anos. Nunca penso no passado. Deixei de pensar no passado e nesse dia faz anos — em realidade não era mentira, disse a si mesmo. —Não serve de nada. A aflição a deixo às mulheres — bufou.

—Sempre virei no aniversário de suas mortes — disse MacNeil com calma. —Além disso, os deuses estão impacientes. Eu estou impaciente.

Macleod voltou a sentir que pisava em terreno firme. Sorriu sem vontade.

—Isso diz ano após ano. Aborrece-me, MacNeil, como me aborrecem as mulheres quando não estão em minha cama.

—É tão teimoso como o era esse garoto — disse MacNeil, imperturbável. —Mas Coinneach é ardiloso. Você é um tolo. Sobreviveu ao massacre por um bom motivo. E acaba de ouvir os deuses. Estão furiosos porque persegue um inocente.

—A mim ninguém dá ordens, MacNeil. Nem sequer seus deuses.

—Agora nega também a fé de sua mãe?

Estava furioso, tanto que os ramos dos abetos próximos começaram a agitar-se violentamente.

—Não ouse me falar de Elasaid!

        —Sobreviveu àquele dia terrível para poder se converter em um grande Mestre. Para tomar seus votos, para proteger a inocência e defender a Fé. A maioria dos Mestres fazem seus votos a tenra idade, mas você já tem mais de cem anos. Não pode adiá-lo muito mais. E falarei de sua mãe se desejar. Deve estar muito desiludida, moço.

Macleod foi às nuvens.

—Volte a mencioná-la e sofrerá as consequências.

—Não me dá nenhum medo. E jamais lutarei contigo, nem agora, nem nunca.

Seu dever era para com seu pai, o grande Guilherme, antes de mais nada e sempre. Elasaid o entenderia. Não tinha intenção de tomar os votos e unir-se à Irmandade. Não lhe importava combater contra o mal: o fazia com a mesma naturalidade com que levava uma mulher à cama. Fazia ambas as coisas todos os dias. Seu coração podia ser de pedra, mas sua palavra também estava escrita em pedra. Se tomava os votos dos que falava MacNeil, esses votos governariam sua vida. E então teria que abandonar seu dever para com seus parentes mortos e com Blayde. E não pensava fazê-lo.

—É a hora. Venha a Iona e faça seus votos — MacNeil pôs de novo a mão sobre seu ombro. —Antes que lhe arrebatem seu Destino.

—Deixa que me arrebatem meu maldito Destino — replicou Macleod. —Me agradaria enormemente.

—Comporta-se como se tivesse quatorze anos — exclamou MacNeil. —Os dois sabemos que pode controlar essa sua raiva. Faz quando luta e quando caça. Também pode fazê-lo agora.

—A nenhum outro homem permito me pressionar como me pressiona você, MacNeil. Consinto-lhe isso porque ainda estou em dívida contigo. Chegou aquele dia a Blayde com seus soldados para me ajudar a repelir o inimigo. Teria perdido Blayde se não tivesse aparecido. Ajudou-me a enterrar aos mortos. Ajudou-me a reconstruir o castelo. Mas vi dois franceses apunhalar a meu pai pelas costas. Tinham-me prendido e não pude ir em seu auxílio, defendê-lo. Minha mãe morreu no incêndio, esse dia, levando em seu ventre ao que teria sido meu irmão ou minha irmã. Meus dois irmãos mais velhos morreram nesse dia, lutando contra toda esperança — o plácido rio corria agora enfurecido. —Quando todos os MacDougall estiverem mortos, irei a sua ilha e jurarei ante seus livros sagrados servir aos Antigos e proteger a Inocência. Mas enquanto fique um só MacDougall vivo, meu dever é para com Blayde.

—Não está cansado de sua guerra infinita? Nunca pensou em levar uma vida diferente... uma vida agradável?

—Agora o tolo é você — se voltou e chamou a seu cavalo com um assobio, consciente de que estava a curta distância dali, pastando em um terreno baixo próximo, desceu de um salto dele para perseguir Alasdair a pé.

MacNeil suspirou.

—Já se vingou. Vingou-se durante mais de noventa anos. Ninguém te reprovará nada, Guy, cumpriu teu dever para com seus pais.

—Meu dever nunca estará completo — enquanto falava, voltou a ver aquele garoto, e sua presença o enfureceu. —Se deixar de me importunar, será bem-vindo a Blayde e terei o prazer de te oferecer vinho, uma mulher e uma cama.

Ouviram-se cascos de cavalo. O enorme corcel negro se aproximou galopando à borda do rio. Seus olhos brilhavam de interesse. Macleod agarrou a brida e acariciou o pescoço do animal.

—Encantou o seu cavalo. Seus poderes são para usá-los contra os deamhanain e seus seguidores, não com os mortais, nem com as criaturas desta terra.

        Macleod encolheu de ombros. Pouco antes do massacre, como se os deuses tivessem sabido que ia perder sua família, descobriu que podia ouvir os pensamentos de outros e dobrar a vontade de homens e animais com uma só ideia direta. Era um poder muito útil. E justo depois do massacre descobriu aqueles outros poderes concedidos pelos deuses, poderes que podiam destruir a um homem ou a um deamhan com uma só descarga.

MacNeil não mostrava sinais de querer retornar a Blayde.

—Perguntou-se alguma vez por que em ocasiões seus poderes desafiam sua vontade?

Todo mundo sabia que frequentemente não podia controlar seus poderes, sobretudo quando estava zangado. Inclusive seus mais próximos temiam aqueles poderes erráticos e seu terrível temperamento.

—Não me importa que de vez em quando se derrube um muro quando respiro fundo — mas sentia curiosidade.

—Quando tomar seus votos dominará seus poderes, Macleod, mas até então lhe escaparão quando mais os necessitar. Os deuses brincam com você: um castigo por se negar a obedecê-los.

Tinha visto MacNeil usar seus poderes e nunca falhavam, de repente, aquela explicação lhe parecia muito mais lógica que sua suposição de que, simplesmente, tinha menos habilidade ou menos poder que outros.

—Tenho suficiente poder, mais que qualquer outro mortal — disse lentamente. —Deveria recordar aos deuses que nunca uso tais poderes para matar a meus inimigos. Sempre utilizo minha adaga, minha espada ou minhas mãos nuas.

—Sabemos — disse MacNeil. —Mas não basta isso, moço.

Ele odiava que MacNeil o olhasse como se visse seu coração e sua alma, como se observasse segredos que nem ele mesmo conhecia. MacNeil tinha uma grande Visão. Podia ver o futuro e o passado. Se alguém podia introduzir-se nos pensamentos mais íntimos de um homem, era ele.

—Gostaria de um pouco de vinho — disse ao montar seu cavalo. —Não tem montaria, sem dúvida saltou a Melvaig.

MacNeil podia saltar a Blayde para encontrar-se com ele ali.

MacNeil agarrou a brida.

—Naquele dia se salvou porque os deuses tinham escrito seu Destino. É hora de que tome os votos e os sirva. Ou sofra sua cólera.

Aquilo soava a ameaça.

—Sim, os malditos deuses escreveram meu destino, me disse isso centenas de vezes. Mas o massacre de escoceses foi uma loucura. Os deuses não se incomodaram em salvar a minha família, e agora sou um highlander louco.

—Nenhum deus pode salvar a todos os homens, mulheres e crianças — respondeu MacNeil. —É impossível.

—Solta meu cavalo.

—Temo por você.

—Não se incomode. E MacNeil..., o garoto morrerá outro dia — baixou o braço e puxou as rédeas.

—É melhor que pense o que faz — lhe advertiu MacNeil com um olhar feroz. —Porque, se não tomar logo seus votos, os deuses se voltarão contra você.

Macleod ficou paralisado. Os deuses não podiam voltar-se contra ele. Sua mãe tinha sido uma mulher Santa. Embora ninguém podia render culto abertamente aos deuses antigos, pois constituía uma heresia, ela tinha sido sua sacerdotisa, e ele foi educado nessas crenças antigas. Ainda reverenciava aos Antigos em segredo, embora na aparência pertencesse à igreja católica. Durante noventa e sete anos haviam dito que os deuses salvaram sua vida para que se convertesse em um santo guerreiro e pudesse lhes servir.

Como iam se voltar contra ele? Era um deles.

—Vim te avisar, Guy. Continue desobedecendo aos deuses, e o deserdarão. Terá uma vida longa e sombria, sem amigos, sem família, sem uma esposa nem filhos, perseguindo sempre a seus inimigos mortais, cada dia o mesmo. Um homem de pedra, sem coração, sem um só motivo para viver — os olhos de MacNeil brilharam, e se desvaneceu.

Macleod ficou olhando o rio repleto de rochas, cujas águas espumavam agora. Sem um só motivo para viver? Ele tinha um motivo para viver. Vivia todos os dias por uma só razão: a vingança. Essa era sua vida. Era seu dever e sua causa. Não necessitava amigos, nem família, nenhuma esposa, nem filhos. As ameaças de MacNeil não significavam nada para um homem como ele.

Seu cavalo conhecia o terreno tão bem quanto ele e estava ansioso por chegar aos estábulos de Blayde. Era mais fácil cavalgar pela costa que seguir caminhos de cervos pelo interior, embora às vezes houvesse muitas rochas. Quando Blayde apareceu diante dele, sobre os escarpados, Macleod deteve bruscamente sua montaria. Estava escurecendo e começava a sair a lua. Respirava agitadamente e suava tanto quanto seu cavalo.

Não teve intenção de cruzar aquela praia, a mesma praia em que entregou a sua família ao mar para lhes dar sepultura. Não tinha voltado para a pequena baía desde aquele dia, nenhuma só vez. De repente, entretanto, ali estava. Podia cheirar a fumaça..., podia cheirar o sangue, a morte.

Desceu do cavalo e disse em silêncio que voltasse para casa. O corcel soltou um bufo e lhe lançou um olhar quase humano antes de afastar-se a trote.

Macleod se voltou lentamente.

As ondas brancas rompiam na borda e nas rochas. O fluxo sempre era mais forte de noite. Mas, enquanto olhava, as ondas se aquietaram e começaram a lamber brandamente a praia. A areia escura brilhou, tornando-se da cor das pérolas... exceto onde estava manchada de sangue. O céu se fez mais claro ao começar a alvorada, e o sol vermelho tentou levantar-se no meio do céu cinza, cheio de fumaça. Parado na praia, um menino jurava vingança, cheio de remorsos e de desespero, enquanto tentava não chorar.

Não queria recordar. Outro homem podia abrigar a esperança de retroceder no tempo, mas ele não. Haviam-lhe dito que não se podia mudar o passado, e acreditava.

Pôs-se a andar por volta do mar fragoroso. O menino se ajoelhou na areia e viu afastar-se mar adentro as piras funerárias.

Embora observasse ao garoto com perfeito desapego, Macleod notava uma tensão profunda e escura. Deteve-se e olhou para o oceano, mas não para a lua. Ainda via o lúgubre amanhecer no horizonte. As balsas se balançavam sobre as ondas, suas velas frouxas e flácidas, dezoito em total.

Tinha perdido a todo mundo esse dia.

Mas encontrou o amuleto de sua mãe na mão de um soldado inimigo morto. Elasaid usava um pequeno talismã que não tirava nunca: uma pequena mão de ouro, com uma pedra branca e brilhante no centro. Um pingente com grandes poderes mágicos. Macleod não teve coragem para entregá-lo ao mar. Tinha-o guardado em um baú, em seu aposento.

Não foi capaz de defender a seu pai, a seus irmãos e a sua mãe, nem a ninguém mais. Tinha falhado a todos. E, entretanto tinha sobrevivido.

Observou o garoto, agora de joelhos, que começou a vomitar. Macleod quase sentia lástima por ele.

Esse ano era pior, disse a si mesmo. O menino estava mais perto que nunca, apesar de que esperava esquecer-se de sua existência. Fechou os olhos. Por que estava tão perto, depois de noventa e sete anos?

Jamais poderia compensar seu fracasso, pensou amargamente. Podia matar a uma centena de MacDougall, mas Guilherme seguiria em sua tumba, no mar, e os ossos de Elasaid continuariam sendo pó.

Macleod ficou tenso de repente.

Não estava sozinho.

Deixe-me te ajudar.

Ficou rígido pela surpresa. Ela havia retornado.

Começou a respirar trabalhosamente, temendo mover-se, recordar. O menino estava ajoelhado na praia, vendo afastarem-se as balsas funerárias, quando sentiu a presença cálida e suave da mulher. Ouviu-a às suas costas. Ela disse:

—Me deixe te ajudar.

Ao dar a volta, pareceu vislumbrar a uma mulher loira, mas ali não havia ninguém.

Naquela primeira década, depois do massacre, a mulher lhe tinha aparecido em sonhos para lhe oferecer consolo, sempre murmurando “me deixe te ajudar”. Em seus sonhos era muito bela e se vestia estranhamente; tinha o cabelo comprido e loiro e era doze anos mais velha que ele. Parecia tão viva, tão real, que quando estendia os braços em sonhos podia tocá-la. Embora sua audácia o enfurecia, tinha-a desejado imediatamente, com urgência assombrosa. Mas cada vez que tentava estreitá-la em seus braços, levá-la a sua cama, ela desvanecia.

Tinha deixado de sonhar com o massacre e com os funerais há anos. Mas quando estava muito cansado, depois de uma terrível batalha, ela voltava a aparecer de repente. Sentia primeiro sua presença forte e reconfortante. Logo a ouvia: “me deixe te ajudar”. E quando se voltava, via sua aparição difusa e brilhante. Não tinha demorado muito em se dar conta de que era um fantasma... ou uma deusa.

Aquela mulher passava quase um século aparecendo a ele.        

Macleod sabia que estava ali de novo.

“Deixe-me te ajudar”.

Girou-se lentamente.

Por um instante, viu um rosto acalorado, uns olhos grandes e preocupados, uma juba dourada. Depois, só viu a praia e os escarpados que se elevavam sobre ela.

Voltava a escurecer. Não havia fumaça, e duas estrelas tinham aparecido na escuridão crescente, junto com a lua.

Olhou cansativamente a seu redor, esforçando-se por ver a luz do crepúsculo, mas já não sentia sua presença. Sabia que voltaria. O que não sabia era por quê. Não gostava que lhe aparecesse. Preferia uma mulher de carne e osso a um fantasma esquivo, ou a uma deusa. Mas algum dia conseguiria retê-la. Algum dia descobriria o que pretendia dele.

Pôs-se a andar para os escarpados, onde um atalho levava a Blayde. Ao menos o garoto também se foi.

 

Não podia dormir.

Tinha o massacre metido na cabeça. Se tentasse, podia reviver esse dia. Se dormia, podia sonhar com ele. Mas desceu da cama, vestido só com seu espartilho, e deixou a mulher ali adormecida. Sem pensar, calçou as botas e recolheu seu cinturão e seu manto. Enquanto se aproximava da lareira, pôs o cinturão e prendeu o manto sobre o ombro para se defender do frio. Além da janela do aposento, o céu de ébano estava cheio de estrelas e minguava a lua. Ouvia-se um lobo a uivar.

A mulher com a que se deitou despertou de repente. Macleod soube sem necessidade de olhá-la: sentiu seu medo e seu nervosismo. Todas o temiam, embora em realidade não sabia porque. Nunca espancava a seus cães, e muito menos a uma mulher. Ignorava seu nome: era nova na casa. Sem olhá-la, disse:

—Traga vinho e acenda o fogo.

Ela saltou da cama, nua, agarrou suas roupas e fugiu.

Parecia lhe palpitar a cabeça, quase lhe fazia mal. Ficou olhando o fogo e desejou não ter decidido sair à caça de seus inimigos esse dia.

“Deixe-me te ajudar”.

Ela havia retornado. Macleod estava incrédulo. Com os olhos totalmente abertos, deitou uma rápida olhada a seu redor, esperando vê-la em seu aposento. Estava muito perto, sabia, e se aproximava por momentos. Macleod queria pôr fim àquela tortura, estava decidido a acabar de uma vez por todas com ela e a descobrir o que queria aquela mulher.

Mas ela não se manifestava.

Ficou olhando as sombras do aposento, esperando que se mostrasse. Mas não o fez.

—O que quer? — perguntou dirigindo-se ao quarto vazio.

Não houve resposta.

Sorriu sem vontade. Nunca era engraçado, nem sequer aquela primeira vez.

Pensou por um momento que estava a ponto de aparecer. Mas enquanto esperava que aquela sensação se intensificasse, desvaneceu-se.

Estava brincando com ele. E não gostava disso. De repente olhou para o baú fechado aos pés de sua cama.

Pensou no amuleto de Elasaid. Sem saber por que, de repente sentia o impulso de olhá-lo. Pegou a chave que tinha pendurada no cinturão e abriu o baú. Tirou o talismã de ouro e o olhou pensativamente. O pingente sempre teve muita magia para sua mãe, sentia-se quase espectador, ou inseguro... e ele nunca hesitava.

A gema do centro da palma de ouro brilhou intensamente, como se piscasse um olho.

O quarto pareceu mover-se.

Sabia que não tinha imaginado o leve movimento do chão e da cama. A sensação de espera se fez mais intensa. Era como se estivesse a ponto de estalar um vendaval, mas não se aproximava nenhuma tormenta. O colar lhe queimava a palma da mão.

A criada entrou no aposento e, evitando olhá-lo, deixou a bandeja com o vinho sobre a única mesa. Macleod esperou enquanto a moça acendia o fogo antes de partir.

Voltou a deixar o pingente no baú e o estava fechando quando sentiu que sua presença enchia o quarto.

Dessa vez, não se equivocava.

Dessa vez, sentiu o poder sagrado que a acompanhava.

Sobressaltado e receoso, quase seguro de que era uma deusa e não um fantasma, esquadrinhou cada canto em sombras. Sentia seu poder, forte, branco e deslumbrante, embora ainda não podia vê-la.

—Se mostre — ordenou. —Estou cansado desta perseguição. O que quer?

Sentiu que todo o quarto se movia.

“Venha a mim”.

Sua suave voz o alagou por completo, sentia-se cada vez mais incrédulo. A mensagem da mulher tinha mudado.

Estava-o invocando.

—Se mostre — repetiu. Podia encantar a uma deusa com seus poderes de persuasão? —Me diga o que quer, porque me incomoda tanto hoje?

“Venha a mim”.

Seu sangue se agitou. Não só a tinha ouvido falar: sua voz era cada vez mais clara, embora seu inglês seguisse soando estranho. Parecia estar mais perto. Talvez por fim pudesse descobrir o que queria dele.

“Venha a mim”.

Macleod olhou de novo a seu redor e sentiu mais intensamente sua presença. Aquela mulher era muito poderosa, e se preparou para batalhar com ela.

O ar se agitou junto ao fogo, como se nele dançasse um polvilho de ouro.

        Macleod ficou olhando, convencido de que eram as chamas as que faziam brilhar o ar. Mas aquele resplendor se intensificou. O pó de ouro começou a solidificar-se. Acelerou-lhe o coração quando o pó de ouro começou a formar uma silhueta, tão transparente que através dela se viam o fogo e a chaminé.

“Venha a mim”.

Ficou completamente quieto. A voz da mulher se ouvia ainda mais forte. Macleod esperou enquanto o pó formava finalmente a figura alta e voluptuosa de uma mulher de rosto muito belo. Respirou fundo. Nesse momento, queria que aquela mulher fosse real porque a desejava intensamente.

Se fosse uma mulher de carne e osso, ele teria posto fim àquilo seduzindo-a imediatamente. Mas via através dela. Não era mortal. Macleod se sentiu decepcionado, mas não se acovardou. Embora fosse uma deusa, pensava impor-se a ela.

A mulher ficou ante ele, balançando-se como que empurrada pela brisa. Seus olhos eram dourados e hipnóticos. Macleod não podia afastar o olhar. Seus olhos se encontraram.

—O que quer? —perguntou com cautela. Não queria que ela se desvanecesse.

—Venha a mim.

Antes que Macleod pudesse lhe perguntar onde queria que fosse, o ar chispou visivelmente entre eles. Macleod ficou tenso e sentiu que, a seu redor, o espaço se agitava, desequilibrando-o. O quarto pareceu suspirar... ou era a brisa do mar? Depois se fez um silêncio tão profundo que compreendeu que aquela era a calma que precedia à tormenta, o interlúdio prévio ao cataclismo.

O instinto o impulsionou a empunhar a espada.

Ela desapareceu.

E ele se viu jogado para o telhado de pedra de seu aposento.

Nesse instante pensou que estava a ponto de morrer, esmagado contra o teto.

Mas o telhado se desvaneceu e Macleod se elevou para o céu de ébano da noite, cheio de estrelas, de sóis e luas junto ao quais passou a velocidade vertiginosa. Deixou-se levar pela dor e gritou.

 

—Senhorita, já estamos aqui — disse o taxista.

Tabby estava tão alterada pelo que tinha ocorrido no museu que perdeu por completo o trajeto em táxi pelo centro. Agora via a fachada de tijolo do edifício onde compartilhava um loft com Sam. Enquanto rebuscava em sua bolsa para pagar ao taxista, a sombria imagem do highlander seguia gravada em sua memória. Seu pulso se acelerou. Aquele homem estava sofrendo e necessitava ajuda.

Pagou o taxista, dando-lhe uma boa gorjeta, e saiu do táxi. O highlander esteve no incêndio de Melvaig. Era a única conclusão que conseguia tirar. Tabby deduziu que o amuleto o atraiu ao museu. Se não tivesse tocado sua mão, poderia ter pensado que era um fantasma. Mas não o era: ela havia sentido uma mão forte sob seus dedos, e não era imaginação dela.

Tremeu. Estava claro que aquele homem viajou através do tempo do mundo medieval. Era um Mestre, como Aidan e Royce? E por que tinha sido ela a escolhida para vê-lo? O que queria dela o Destino?

Respirou fundo, trêmula ainda. Embora pertencesse à Irmandade, estava ferido. Ela não era uma Curadora, mas isso não importava. Nenhuma Rose dava as costas a uma pessoa em apuros. Começava a pensar que estava fadada a ajudá-lo. Não lhe ocorria outra razão para explicar o que acabava de ocorrer.

O highlander tinha que ter escapado do incêndio. Parecia tão feroz e selvagem como um guerreiro que acabasse de sair de um campo de batalha medieval depois de uma sangrenta batalha. Era tão enorme e musculoso, tão poderoso, que inclusive ferido e angustiado resultava imponente.

Ela, naturalmente, nem sequer sabia se seu feitiço tinha funcionado.

Não estava iludida. Saia-se bastante bem com os feitiços simples, os que serviam para dormir, por exemplo, mas inventar um encantamento poderoso para atrair a alguém através do tempo era algo muito diferente. Possivelmente não voltasse a ver o highlander cara a cara. Quase seria um alívio. Embora, por outro lado, seu breve encontro não foi o de dois estranhos que se cruzam pela rua. Não, sendo ela uma Rose e ele um Mestre.

A porta do edifício tinha fechaduras de segurança. Depois de olhar para trás para assegurar-se de que ninguém a seguia, abriu a porta e entrou no vestíbulo. Ali havia outra porta que também abriu. O vestíbulo era espaçoso e moderno, com plantas verdes que transbordavam dos suportes de vasos elegantemente embutidos no chão de mármore. Ao chegar ao elevador, apoiou a cabeça na porta de metal enquanto esperava.

Passou-lhe pela cabeça que o highlander a tinha olhado como se a conhecesse.

Separou-se do elevador quando abriu a porta. Tinha que ser coisa de sua imaginação. Mas aquele homem lhe parecia familiar... ou era porque estava obcecada com ele? No museu, entretanto, teve a impressão de ter vivido já aquele momento.

O edifício tinha doze andares; seu loft estava no décimo primeiro, porque o onze era um número mestre. As Rose tinham em conta a numerologia em tudo o que faziam, e procuravam escolher adequadamente. Era um costume e uma superstição, mais que nada.

Assim que abriu a fechadura tripla de sua porta, antes inclusive de cruzar a soleira, compreendeu que algo estava errado. Não sabia se de repente tinha um sexto sentido que a advertia do perigo, ou se era simples instinto humano.

Ficou paralisada, olhando com os olhos muito abertos o espaçoso interior do loft. Por um instante, nada lhe pareceu fora do lugar. A sua direita havia uma cozinha impecavelmente branca e, de frente, uma sala ampla, com uma área de estar e duas mesas, tudo decorado em tons de bege e chocolate. A parede do fundo era de tijolo pintado de branco, igual os dois pilares centrais. Sam e ela escolheram juntas os móveis, e tudo era moderno e elegante, clássico e atemporal, inclusive a mesinha de café e o sofá de couro claro.

Fixou o olhar na mesa de ferro e vidro que havia diante do sofá e conteve a respiração. Em seu centro havia um enorme buquê de rosas vermelhas. Não estavam ali essa manhã, quando partiu ao museu. Sam tinha saído ao amanhecer para ir trabalhar umas horas na UCH, e sabia que Tabby não havia voltado após. Ninguém tinha acesso a seu loft, exceto Kit. E Tabby sabia que ela tampouco passou por ali... e menos ainda com um ramo de rosas vermelhas.

Disse com firmeza:

—Quem está aí?

Respondeu-lhe o silêncio.

Odiava as armas em geral e só carregava spray de pimenta, exceto de noite, quando Sam insistia em que carregasse uma pistola de calibre 38. Passava anos usando um feitiço de proteção. Era um dos poucos que podia evocar imediatamente. Não lhe oferecia uma proteção total: os loucos e os demônios podiam quebrá-los, se empenhados, mas a maioria dos humanos não.

—O bem sobre mim, o bem a meu redor, o bem em qualquer parte dissipa a escuridão. Que este círculo me proteja — murmurou rapidamente. Logo se meteu dentro do círculo e aguçou o ouvido, consciente de que se introduziu em um suave casulo. Tinha deixado a porta aberta se por acaso tivesse que fugir. —Quem está aí? —repetiu em voz mais alta.

O loft estava em silêncio e parecia vazio. Nada parecia fora do lugar, nem se notava a presença do mal. Tabby se aproximou da gaveta da cozinha, tirou sua arma e se aproximou da porta do primeiro quarto. Estava totalmente aberto e olhou dentro. A luz cinza do anoitecer enchia por completo o cômodo. O quarto de Sam tinha uma parede escura, quase negra, mas o resto era bege. Tabby viu que estava vazio.

Revistou o armário e o banheiro do corredor. Também estavam vazios.

Negando-se a baixar a guarda, jogou uma olhada em seu dormitório, decorado em azul e branco. Estava deserto.

Um pouco mais aliviada, deixou a pistola e fechou com chave a porta do loft. Alguém tinha deixado ali as rosas. Aproximou-se do sofá e se sentou, procurando um cartão. Não havia.

Tirou as botas marrons de meio cano e olhou muito séria as rosas, perguntando-se que tipo de ameaça representavam. Se fosse um gesto romântico, teriam entregue em mãos. As rosas eram um sinal... e não precisamente bom. No dia seguinte chamaria um chaveiro para que trocasse as fechaduras.

A imagem do highlander moreno assaltou de novo sua mente. Vacilou e logo se aproximou do baú fechado que havia ao fundo do loft, apoiado contra a parede de tijolo. Abriu-o com a chave que carregava na corrente, sob as pérolas, e tirou o Livro das Rose.

Estava segura de que o feitiço que inventou no museu não funcionaria. O Livro das Rose continha virtualmente todos os feitiços inventados, mas tinha quase duas mil páginas. Algumas passagens requeriam tradução: estavam em uma forma de gaélico muito antiga e incomum. Embora passasse dezessete anos estudando o Livro, Tabby não o conhecia muito bem. Só uma Rose muito anciã o conhecia bem. Sua avó Sara tinha estudado o Livro durante toda sua vida, e era capaz de encontrar os feitiços em um abrir e fechar de olhos, quando não sabia de cor. Mas a avó Sara foi uma bruxa assombrosamente poderosa e sábia. Tinha morrido de velhice enquanto dormia, fazia uns anos, e Tabby ainda sentia falta dela: sempre sentiria falta dela. Frequentemente, entretanto, tinha a impressão de que a avó continuava com ela, e de que lhe sorria com aprovação ou lhe dando ânimos. Naquele momento necessitava imperiosamente seu conselho.

Porque encontrar o feitiço adequado podia ser todo um desafio. De vez em quando, Tabby podia encontrar um feitiço em um par de horas, mas normalmente demorava dias ou inclusive semanas para encontrar o encantamento que necessitava. Estava quase segura de que não dispunha de dias, nem de semanas para encontrar o highlander.

Rezou pedindo ajuda sobrenatural e começou a folhear o livro, detendo-se a ler fragmentos, versos e palavras chaves. Enquanto o fazia, a poderosa imagem do highlander seguia firmemente gravada em sua memória.

As palavras começaram a rabiscar-se. Tabby as olhava fixamente; sabia que estava esgotada pelo que aconteceu nesse dia, mas não pensava abandonar.

—Quem é? — murmurou enquanto olhava a página que tinha diante.

Não houve resposta, claro. Suspirou, dobrou as pernas e disse que não ia dormir. Tinha que encontrar ao highlander. Mas podia fechar os olhos só um minuto, pensou.

Suas pálpebras se fecharam. Apertou o Livro contra seu peito. Resistia a ficar adormecida e reviveu seu breve encontro no museu com a esperança de achar uma pista sobre sua identidade. Mas em sua lembrança nada mudava, e estava tão cansada...

De repente ele estava olhando-a... e as queimaduras e as bolhas de seu corpo e seu rosto tinham desaparecido. Era muito bonito, impressionantemente atrativo. Tabby se levantou, completamente acordada.

A desilusão se apoderou dela. O highlander não estava ali, em seu loft. Esteve sonhando.

Agarrou com mais força o livro. Seu coração pulsava com violência. No museu, não pôde distinguir completamente seus traços. Certamente inventou aquela beleza viril. Os homens reais não pareciam garotos de pôster de uma versão romântica de Braveheart.

Alguém bateu na porta.

Tabby ficou tensa. Era impossível que uma visita entrasse no vestíbulo e subisse até sua porta sem avisar primeiro da portaria. Mas alguém estava esmurrando a porta com insistência. Tabby se alarmou e, olhando as rosas vermelhas, deixou de pensar no highlander.

—Tabby, está aí? — perguntou seu ex-marido.

Tabby se levantou de um salto. Randall estava esmurrando sua porta? Não o tinha visto desde o divórcio, fazia vinte e um meses, exceto por acaso, uma noite que ele tinha saído pelo centro com uma modelo russa de dezenove anos, uma das muitas com as que a enganou.

Tabby olhou as rosas. Não, era impossível. Randall não tentaria voltar com ela.

—Um momento — gritou, acalorada e insegura. Embora não tivesse desejo de voltar a vê-lo, angustiou-se um momento. Amou aquele homem. Foram um casal. Marido e mulher. Entregou-lhe dois anos de sua vida... e tinha acreditado que seria para sempre.

Mas seu matrimônio foi uma mentira: uma enorme mentira. Randall era ambicioso e tinha êxito, ia disparado para a cúpula, ganhava milhões de dólares para seus clientes e para si mesmo. Era educado, encantador, viril e carismático, e ela acreditou seriamente que a amava loucamente, com todo seu coração. Ele, enquanto isso, saía por aí com as mulheres mais belas da cidade, mulheres das quais podia alardear com seus amigões.

Enquanto se aproximava da porta, Tabby não conseguia imaginar o que podia querer.

—Olá, Randall. Isto sim que é uma surpresa.

Ele a percorreu com o olhar da cabeça aos pés, de um modo muito familiar. Sorriu e meneou a cabeça.

—Até descalça está tão elegante como sempre.

Tabby se sobressaltou, mas refreou seu arrebatamento de ira. Não queria nenhum elogio de Randall.

Ele baixou a voz:

—Poderia sair de uma sauna coberta com uma toalha, Tabby, sem levar um só cabelo fora do lugar.

—Duvido muito.

—Venha, vamos. Poderia ser primeira dama, outra Jackie Onassis.

—Não tenho essas ambições — tremeu. —O que está fazendo aqui, Randall?

Ele cravou nela um cálido olhar.

—Sentia sua falta e decidi fazer algo a respeito.

Tabby tinha deixado de confiar nele fazia muito tempo.

—Faz quase dois anos que não nos vemos. Como entrou?

—Você gostou das rosas?

Ela respirou fundo, muito surpreendida, de repente estava zangada.

—O que pretende, Randall?

—Queria que soubesse que estive pensando em você. Alegro-me de que você goste — olhou as rosas. —São lindas. Custaram-me uma fortuna. Quando as pedi, disse a florista que queria o melhor do melhor.

—Não combinam aqui, Randall.

Ele sorriu.

—Eu não acredito. São perfeitas para você: lindas e, ao mesmo tempo, clássicas.

Tabby custava respirar. Randall sempre tinha admirado seu estilo, seu senso da moda e de elegância. Estava muito orgulhoso de quão elegante era. Desde o divórcio, Tabby odiava essa palavra. Recordava vivamente uma festa em The Hamptons, um dia chuvoso. Ao estacionar frente à casa, Randall voltou a lhe dizer quão elegante era, de repente aquilo a incomodou. Havia desejado que ele a agarrasse e fizesse amor como um louco. E ela não costumava pensar em sexo.

Tabby ficou olhando-o, desalentada.

—O que aconteceu com sua namorada, a russa?

Ele não vacilou.

—Amadureci.

Tabby começava a fazer uma ideia do que estava fazendo ali.

—Vejo o ceticismo em sua cara. Com quantas modelos tolas pode sair antes de cansar-se, Tabby?

—Não tenho nem ideia — respondeu ela sinceramente.

—Continua zangada comigo. Não lhe reprovo isso. Mas tenho grandes notícias e quero compartilhar contigo.

—Seja o que for, me alegro por... —começou a dizer, mas ele a interrompeu.

—O que disse é sério, Tabby, amadureci. A verdade é que não deveríamos ter casado faz três anos. Eu não estava preparado. Mas as coisas mudaram — seus olhos brilhavam de excitação. —Me ofereceram um cargo importante em Odyssey, Tab. Importante de verdade, vou cobrar o dobro. Com os clientes que vou ter, poderia ganhar oito ou nove milhões ao ano. E não só isso, dentro de dois anos estarei em situação de ser conselheiro delegado, se não dessa companhia, de outra também importante. É o que sempre quisemos!

Tabby nunca duvidou que Randall chegaria ao mais alto do mundo financeiro nova-iorquino, de modo que a notícia não a surpreendeu. Mas os conselheiros delegados de empresas como Odyssey Group necessitavam uma esposa apropriada, uma esposa que soubesse deslumbrar a elite da cidade e aos clientes de seu marido, uma esposa que soubesse organizar festas beneficentes e jantares de gala, uma mulher ornamental que fosse atrativa, sofisticada, encantadora e elegante. Sentiu-se doente ao dar-se conta do que Randall pretendia.

—Me alegro muito por você. Mas é tarde.

Randall se aproximou. Seus olhos brilhavam, cheios de excitação, e lhe agarrou a mão.

—Podemos chegar juntos ao topo, Tabby. Sei que podemos!

Ela tentou afastar-se, mas ele não o permitiu.

—Não posso voltar a fazer isto.

—Não voltarei a te enganar — disse ele, muito sério.

Randall nunca aceitou um não como resposta, pensou Tabby, desanimada.

—Além de suas impecáveis maneiras, continua sendo a mulher mais bondosa que conheço. Todo mundo comete erros, inclusive você. Não vai me dar outra oportunidade? Porque estou sendo sincero, Tab.

Ela sabia que não devia lhe dar outra oportunidade, e falou sério ao dizer que terminaram. Mas a verdade era que, em efeito, todo mundo cometia erros e merecia uma segunda oportunidade.

O highlander apareceu em sua mente como no museu, queimado e cheio de sangue.

Randall a soltou de repente. Estava sorrindo.

—Pense nisso. Também é a pessoa mais justa que conheço. Tome seu tempo. Ligarei.

Tabby o acompanhou até a porta, mas não permitiu que a beijasse na bochecha. Quando ele partiu, serviu-se de uma grande taça de vinho tinto e a levou ao sofá. Bebeu, absolutamente incrédula, com as têmporas doloridas.

Estava zangada. E odiava estar: a ira lhe fazia bem. A fazia sentir-se incômoda. No que dizia respeito a ela, não fazia bem a ninguém. A boa educação e a tolerância eram sempre o melhor caminho.

Mas por civilizada e justa que desejasse ser, a volta de Randall era inaceitável.

Além disso, havia outro homem em sua vida, não? Era uma má piada, mas Tabby sorriu de todos os modos.

Soou o telefone.

Titubeou, segura de que era Randall, e logo viu aparecer o número de Sam na tela. Levantou o aparelho.

—Sam, temos que falar.

Sam vacilou.

—Sim, temos que falar.

Tabby ficou quieta.

—O que averiguou sobre o An Tùir-Tara?

—Entrei em contato com a principal autoridade na matéria, um historiador de Oxford, Inglaterra.

O medo começou a apoderar-se de Tabby.

—O que ocorreu?

—Bom, é o único historiador que afirma que a guerra de clãs entre os Macleod e os MacDougall não foi a verdadeira causa do incêndio de 1550. Não existe nenhuma evidência escrita que apoie sua teoria, mas há uma lenda transmitida por tradição oral.

Tabby teve um mau pressentimento.

—Segundo o folclore, o incêndio foi resultado de uma guerra de bruxas.

Tabby deixou escapar um grito.

 

O que tinha ocorrido? Onde estava?

Acabava de atravessar o universo?

Macleod ficou muito quieto. Temia tentar mover-se. Tinha aterrissado em uma pedra e sentia dor, embora fosse consciente de que a dor ia diminuindo ali deitado. Havia muito ruído, grande parte dele de origem desconhecida. Tinha ouvido gritos, embora agora estavam cessando. Reprimiu um gemido e se deu conta de que podia mover os dedos das mãos e dos pés. Tinha sido atirado através do céu, além do sol e estrelas. Era aquela viagem de que falavam MacNeil e os membros da Irmandade?

A dor ia dissipando-se rapidamente, e Macleod ganhou consciência de que as pessoas que se amontoavam a seu redor falavam da mesma forma que aquela mulher loira. Abriu os olhos. Algumas mulheres usavam roupa muito parecida com a da deusa: as saias chegavam ao joelho. Seus pensamentos se aguçaram. Ela o tinha invocado, mas agora Macleod se perguntava se aquela mulher era mortal, como as pessoas que o rodeavam. Ou possivelmente fosse quase imortal, como ele. Certamente, parecia proceder daquela época.

Estava ali? Macleod queria falar com ela imediatamente.

“Que alguém chame a emergência... Isso é uma fantasia?”.

Não entendia completamente suas palavras, mas ouvia com claridade e entendia seus pensamentos. Olhou lentamente mais à frente da nervosa multidão.

“Está morto? Caiu do telhado?”.

Fechou seus pensamentos, aturdido.

O céu da noite estava estranhamente desprovido de estrelas, mas mesmo assim era claro e leitoso, como não o tinha visto jamais. Centenas de muitas altas torres enchiam o céu. Nunca viu torres tão altas como aquelas. Estava em uma cidade enorme. Onde se achava? E em que época? Esqueceu-se da mulher e de suas invocações. Agarrou sua espada e começou a levantar-se lentamente, compreendendo que, ao final de contas, não tinha nenhum osso quebrado. As pessoas que se amontoaram a seu redor deixou escapar um grito e se afastaram correndo. Macleod notou que ninguém carregava armas, mas não baixou a guarda. Agora via que a mulher loira não estava entre a multidão, perguntou-se o que significava aquilo e se era uma espécie de truque. Mas não importava. Cedo ou tarde a encontraria. Disso ele se encarregaria.

Afugentou a todos e voltou a fixar a vista na surpreendente paisagem que o rodeava. Que tipo de gente podia construir edifícios tão altos, e tão perto uns dos outros? Eram inexpugnáveis? E as janelas do interior das torres estavam estranhamente iluminadas. As velas e os troncos que se queimavam nas chaminés não davam uma luz tão brilhante.

Levantou-se e olhou a sua redor com desconfiança. Os homens usavam meias estranhas e túnicas muito curtas. Seus olhos se aumentaram. Pela rua de pedra negra passavam veículos sem cavalos.

Ficou completamente imóvel, alagado pela adrenalina. Nenhum mortal podia fabricar uma arma ou uma carruagem sem a energia de um escravo ou uma besta.

—Está vivo!

Macleod fez caso omisso daquele homem. Mas um som que não procedia nem de um animal, nem de um humano, o fez virar-se.

Um daqueles veículos sem cavalo se dirigia a toda velocidade para a multidão, adiantando a outras carruagens. Sobre seu teto piscavam luzes vermelhas, azuis e brancas. O veículo se deteve chiando e seu lamento cessou. Vários homens de roupa escura saíram do veículo e fecharam as portas com violência. Pelo modo em que começaram a aproximar-se, Macleod deduziu que eram soldados.

Ficou tenso. Estava em um mundo estranho e não sabia que tipo de poderes tinham aqueles soldados. Nunca tinha fugido de uma batalha, mas agora estava seguro de que tinha saltado no tempo. Devia ter entrado muito no futuro. Devia tentar aprender os segredos daquele mundo antes de começar a lutar. E tinha que encontrar aquela mulher. Não gostava que o lançassem através do tempo sem seu consentimento. Queria saber por que ela o enfeitiçou... e, sobretudo, por que passava tantos anos atormentando-o.

Mas não era um covarde. Ficou quieto, com a mão direita no punho da espada. Confiava que não lhe falhassem seus poderes, se tinha que lutar. E confiava, certamente, em que aqueles soldados vestidos de negro não tivessem também poderes imortais.

—O que está acontecendo? —perguntou com firmeza um deles, com o olhar cravado em Macleod. Por sua forma de olhá-lo, Macleod compreendeu que esperava que apresentasse batalha.

A mulher do vestido à altura do joelho correu para ele e começou a lhe dizer que Macleod caiu do céu. Enquanto gesticulava, Macleod sentiu que os gélidos dedos do mal gelavam sua nuca.

Naquele tempo e naquele lugar também havia deamhanain.

Ele não havia feito seus votos, mas era capaz de sentir a presença do mal desde que era um pirralho, quando mal começara a andar. Detestava ardentemente a maldade desde que tinha uso de razão, e lutou contra ela do momento em que foi capaz de empunhar uma adaga, sendo ainda um menino. Agarrou o punho de sua espada e se voltou lentamente para enfrentar ao deamhan. Um homem alto e loiro o olhava fixamente, com um sorriso sedento de sangue. Seus olhos se tornaram vermelhos pouco a pouco.

Macleod não se incomodou em lhe devolver o sorriso.

—Ei, você, amigo.

Macleod sabia que um dos soldados vestidos de negro estava falando com ele. Mas não fez caso.

O deamhan sorriu e lhe lançou uma fulgurante descarrega de poder negro.

Macleod a bloqueou com sua espada servindo-se de seus outros poderes, e se alegrou ao ver que golpeavam a força demoníaca com um brilho prateado. Ao mesmo tempo lançou seu poder ao deamhan e este caiu ao chão. A seu redor, as pessoas gritavam e fugia.

—Largue a arma! — gritou-lhe o soldado.

Macleod ignorou a ordem e avançou rapidamente com a espada levantada. O deamhan se levantou de um salto e lhe lançou mais energia, mas estava debilitado e Macleod não se deteve, equilibrou-se sobre ele tão velozmente e com tanta força que sua espada atravessou o poder do deamhan, perfurou seu peito e saiu pelo outro lado.

—Baixa a arma!

Macleod retirou a espada. O deamhan se desabou. Em pé sobre ele, Macleod respirava agitadamente, voltou-se devagar para olhar aos soldados. Ambos tinham colocado um joelho em terra e lhe apontavam com estranhas armas negras de pequeno tamanho.

Macleod olhou rapidamente a seu redor. Estava em um cruzamento com luzes que trocavam de vermelhas a verdes nas quatro esquinas. Olhou o céu leitoso da noite: não havia lua e a Estrela do Norte não se via.

—Não desejo lutar, me digam, que lugar é este? Onde estou?

—Mãos para cima, filho da puta! Baixa a arma! —gritou um dos soldados enquanto detrás dele a multidão murmurava, surpreendida.

Ninguém tinha insultado a sua mãe dessa maneira, jamais. Era uma ofensa inimaginável. Macleod ficou pasmado um momento. Depois, a ira se apoderou dele e desejou matar ao soldado pelo que havia dito. O fato de que estivesse fora de seu tempo não importava. Mas conseguiu dominar-se. Respirou fundo e disse:

—Onde estou, soldado?

Mas antes que acabasse de falar, seu poder explodiu.

Viu-se uma chama prateada e sua luz cegadora lançou a ambos os homens para trás.

As pessoas que gritaram fugiram gritando. Macleod viu que outros dois veículos negros e brancos, com luzes vermelhas, brancas e azuis, aproximavam-se a grande velocidade emitindo um som agudo. “Temos um agente ferido... Código negro... Armado e perigoso... Reforços...”.

Ouvia uma centena de pensamentos frenéticos, uma dúzia de ordens, e sentia o medo, o ódio e a fúria. Apesar da desordem que reinava em sua cabeça, sabia que iriam chegar mais soldados... e que o perseguiriam pelo que fez a um dos seus.

Pôs-se a correr.

Detrás dele se ouviu um estrondo. Quando passava junto a um edifício com uma grande janela, esta se fez pedacinhos. Tinha visto vidro chumbado uma vez, na grande catedral de Moray. Quando os fragmentos se cravaram em seus braços, compreendeu assombrado que a janela estava coberta com um vidro transparente, quase invisível. Justo quando dobrava a esquina, sentiu uma dor ardente no ombro.

Sufocou um grito, mas aquela dor, embora intensa, não podia comparar-se com o de uma estocada, de repente viu centenas de veículos indo atrás dele, na rua. Ao longe, detrás deles, havia um que transportava soldados, com suas luzes piscantes sobre o teto.

Deteve-se e olhou para trás. Outros soldados tinham dobrado a esquina e o perseguiam a pé, empunhando suas armas negras.

Uma mulher estava saindo de um edifício, detrás dela, o interior estava profusamente iluminado. Quase todos os edifícios estavam iluminados, mas havia vários em sombras. Nessa noite, a escuridão seria sua amiga.

Correu rua acima, seguido pelo ruído seco e repentino das explosões. A dor de seu ombro piorava, mas decidiu ignorá-la e agarrou a porta de um edifício que não estava iluminado. Estava fechada, mas conseguiu forçá-la com facilidade. Entrou na escuridão de seu interior e trancou a porta forçando de novo a fechadura. Só reteria os soldados um momento, mas não necessitava mais tempo.

Jogou rapidamente uma olhada às três primeiras portas. A quarta era o que estava procurando. Correu escada acima enquanto ouvia como entravam os soldados no pequeno portal de baixo.

“Como diabos quebrou a fechadura?”.

“Esqueça isso, dirige-se ao telhado, o grande imbecil”.

Sorriu para si mesmo enquanto corria pela escada. Contou quinze lances. Por fim saiu a um terraço grande e quadrado, correu para um extremo, olhou para baixo, e logo correu ao outro lado. Não vacilou. Escolheu o lado sul, saltou a um telhado contiguo, uns dois pisos mais abaixo, e o cruzou em direção leste. Corria por puro instinto. O seguinte telhado era mais alto, mas saltou a ele, e logo ao seguinte, e ao outro, até deixar muito atrás os soldados.

Começava a familiarizar-se com os estranhos sons noturnos da cidade. Começava a compreender seu buliçoso ritmo noturno. Diminuiu o passo. Já não havia razão para correr. De momento estava a salvo.

Deteve-se e escutou a noite. Sentiu-a.

Abriu uma janela e se deslizou no interior de um edifício vazio e em penumbra. Seu pulso tinha assumido um novo ritmo. Consciente de que estava sozinho, começou a explorar o edifício enquanto seus olhos se acostumavam à escuridão. Instantes depois se deu conta de que se achava em um edifício destinado a albergar a crianças. As mesas e as cadeiras eram diminutas, e havia brinquedos infantis e desenhos nas paredes.

Começou a sorrir.

A presença da mulher se deixava sentir em todas as partes.

Macleod se sentou para esperar.

 

Havia um highlander sagrado na cidade, e acabava de encarregar-se de um demônio.

Nick Forrester chegou à conclusão de que aquela podia ser uma noite muito interessante.

Era um homem alto e bem constituído, bonito, embora de feições toscas, com os olhos de um azul brilhante e um atrativo que nenhuma mulher podia resistir. Tinha consagrado sua vida a seus agentes, à guerra contra o mal e a UCH, nessa ordem. Sentado em seu escritório, ao telefone com um de seus contatos em New York Time, sentiu a presença de Sam Rose antes de vê-la. Voltou-se para lhe indicar que entrasse enquanto Paul Anderson dizia:

—Estão dando a notícia neste preciso momento.

—Que bagunça — respondeu Nick, e desligou o telefone com violência. Sentiu que se preparava para a batalha. Não havia nada que gostasse mais que uma boa batalha. Nem sequer o sexo.

Sam o olhava com interesse, apesar de que um momento antes parecia o advertir com o olhar que não lesse seu pensamento. Enquanto falava com Anderson, Nick soube imediatamente que Sam lhe ocultava algo. Não gostava que suas crianças tivessem segredos com ele, a menos que fossem privados. Claro que tampouco gostava que seus agentes tivessem vida privada.

Ou estava naquela guerra, ou era um olheiro, era simples assim. E se estava dentro, o amor, o romantismo, a família e todo esse papo furado ficavam fora.

Foi todo um acerto contratar Sam fazia três meses. Era uma guerreira em todos os sentidos: tinha um espírito marcial e batalhador.

—Maldição — disse, olhando-a. —Houve um avistamento.

Observou-a enquanto levantava o telefone azul, uma linha direta com seus agentes ativos.

—Há um loiro na Treze com a Broadway — disse. Os demônios de nível mais alto eram muito belos, loiros, de olhos azuis e aparência quase angelical.

—O que ocorre? — perguntou Sam.

—Custa acreditar, mas apareceu um highlander na cidade. Deixou fora de combate um policial. Falei a Angus que o leve a Cinco.

—De acordo — Sam lhe deu as costas e se aproximando de uma cadeira, sentou-se. Embora quase sempre vestisse minissaia e ele tinha visto suas belas e fortes pernas centenas de vezes, Nick ficou olhando enquanto pensava na noite que os esperava.

Mover-se na clandestinidade equivalia a manter um perfil oculto. A imprensa seguia pensando que sua guerra era contra o crime, não contra o mal. O CAD tinha seu próprio centro médico. Os agentes feridos, mutilados e mortos eram levados ali. Em Cinco havia também um depósito de cadáveres, e alguns laboratórios com todo tipo de meios. Quase todos estavam cheios de demônios derrotados, se conseguiam levá-los antes que começassem a desintegrar-se, mas também havia algum ou outro sub-demônio sobrevivente.

Sam se voltou.

—Conhecemos este?

—Acredito que não — respondeu Nick.

Trocaram um longo olhar, e ele soube que estava pensando na viagem que fizeram ao passado.

Virou e se aproximou das janelas que davam à rua Hudson. Fora estava escuro e nas ruas reluziam montículos de neve. A maioria das pessoas detestavam o inverno na cidade, mas ele gostava. Seu sangue seguia circulando vertiginosamente.

Não gostava de perder seus agentes na vasta imensidão do tempo. Cada agente da UCH foi escolhido por ele para um trabalho concreto. Considerava-os responsabilidade dele e, quando desapareciam no tempo, ficava frenético.

E ele também retornava ao passado.

Os Mestres do Tempo rramente apareciam naquela cidade. Pareciam preferir o período medieval. O CAD tinha avistamentos consignados de Mestres que se remontavam ao século XI, mas quanto mais moderno era um período, mais escasseavam os avistamentos.

Os highlanders não eram a única fraternidade guerreira que havia por aí. O CAD tinha provas da existência de outras duas seitas secretas dedicadas à luta contra o mal, uma antiga e uma moderna. De vez em quando se encontrava com homens que tinham poderes extraordinários, igual a ele. Aqueles homens procuravam passar despercebidos; só se manifestavam para derrotar ao inimigo e logo desapareciam como fantasmas na noite. Igual a ele.

Os Mestres eram um grupo interessante. Amavam e guerreavam como qualquer outro escocês medieval, mas em segredo rendiam culto aos deuses pagãos, a maioria cujos nomes não tinham contado nunca os cronistas. Defendiam três livros sagrados e, se fosse necessário, abandonavam a Idade Média para proteger aos Inocentes e derrotar aos demônios. Depois desapareciam entre a multidão e retornavam a seu tempo. Só um agente com experiência podia distinguir um Mestre de um highlander comum, seja sobre o papel, na imensa base de dados da UCH, ou enquanto se achava desempenhando uma missão.

Pedeu a conta fazia muito tempo, mas no transcurso das duas décadas que estava na UCH, certamente viajou no tempo uma dúzia de vezes, normalmente em perseguição de algum grande demônio. Em todo esse tempo teve exatamente três encontros com Mestres. Possivelmente não fora tão estranho: perseguiu a demônios por todo mundo, remontando-se até o século I, quando os romanos estavam a ponto de dominar o mundo. O último setembro, ali, na cidade, esteve mais perto que nunca de um highlander. O highlander se voltou contra a Irmandade e tomou como refém Brie Rose, uma agente de Nick com a que se desvaneceu no tempo. Nick foi procurá-la porque não havia nada pior que perder a um agente no tempo.

Encontrou Brie, a prima de Sam, e havia retornado com ela ao presente antes que lhe desse tempo de manter um bate-papo com seus sagrados amigos... e, de todos os modos, ela havia retornado depois para o highlander. No relatório de Brie podia pôr “desaparecida em serviço”, mas Nick sabia que em realidade não se perdeu no tempo. Estava bem.

        Teve oportunidade de conversar com ela longa e calmamente, e agora sabia mais sobre a Irmandade que qualquer outro membro do CAD. Naturalmente, os encontros entre agentes do CAD e Mestres, e entre civis e Mestres, eram tão antigos quanto a própria agência, ou tão antigos como o tempo, no caso destes últimos. Mas os Mestres seguiam sendo um mistério, negavam-se a falar do que faziam; simplesmente, lutavam contra os demônios quando tinham que fazê-lo, e viviam consagrados à guerra contra o mal na Escócia.

Mas, fazia umas horas, um Mestre acabava de liquidar um demônio a uns quarteirões da UCH.

Estariam saindo do armário medieval? E se assim era, o que significava?

Nick não queria preocupar-se, mas os analistas da agência prediziam o fim do mundo... literalmente. A esse extremo tinha chegado a guerra contra o mal. Os demônios se infiltraram nos principais organismos governamentais do mundo livre e, se as coisas não mudassem, uma década mais tarde os controlariam.

Nick levou Sam com ele para procurar sua prima. Aquela era a prova mais forte a que podia submeter a um agente, novo ou não. E Sam a havia superado com capacidade.

Assim, por que parecia tão tensa? O que a preocupava?

Nick se introduziu em sua mente e sua preocupação se dissipou. Não lhe interessavam as guerras de bruxas, embora soubesse que a irmã de Sam era bruxa.

—Porque crê que talvez conheçamos esse highlander?

Ela deu de ombros.

—Por nada.

O que estava ocultando?

—O que acontece com você? Não paquerou ontem à noite?

Lançou-lhe um olhar.

—Nada disso. Talvez o highlander tenha seguido a esse demônio até aqui.

Nick gostava de sua arrogância... muito. Mas seu comentário lhe deu o que pensar.

Decidiu fazia mais de um ano que as queimas de bruxas não eram tão casuais como acreditavam as autoridades policiais. Tampouco estava de acordo com os antropólogos sociais e os psiquiatras da agência, que asseguravam que eram simplesmente uma nova moda entre as gangues de ruas, e que era mais legal queimar a pessoa na fogueira que matar uns aos outros, como estavam acostumados a fazer antes. Sabia com cada fibra de seu ser que aquelas queimas tinham uma razão de ser. Estava absolutamente seguro de que havia um grande poder negro por trás de todos os bandos do país, ou inclusive do mundo, e de que seu líder era um demônio medieval.

E converteu em sua cruzada pessoal eliminar aquele filho de uma cadela.

Assim, se o highlander seguiu um demônio medieval até Nova Iorque e aquele incidente estava ligado de algum modo às queimas de bruxas, daria saltos de alegria.

—Não sabemos nada sobre nosso amigo, embora penso mudar isso.

—Este fim de semana foi muito tranquilo, até agora — comentou Sam depois de ficar pensando um momento.

—Sim, foram como umas férias — Nick odiava as férias. —Mas não especulemos. Temos uma prioridade. Devemos encontrar a nosso aliado medieval antes que outros o encontrem.

—Por quê?

Antes que Nick pudesse responder, a garota gritou.

Nick conhecia aquele horrível som. Fazia parte de sua alma e tinha acreditado não voltar a ouvi-lo nunca.

A moça gritou de novo, e ele ouviu o estrondo do carro ao estalar em chamas. Respirou fundo, dando um salto. Nesse momento não tinha tempo para recordar. Mas viu o incêndio na estrada às escuras e ouviu de novo aquela risada profunda e sinistra.

—Nick? Está bem?

Ouvia Sam, mas vagamente, como se falasse de muito longe. Respirava agitadamente e se sentia tonto. Acabava de retrair-se em sua memória!

Demorou um momento afugentar aquela imagem. Quando o conseguiu, estava junto à janela do escritório, olhando os carros que passavam velozmente pelas ruas úmidas da cidade.

Merda. Tinha conseguido sobrepor-se àqueles episódios fazia uma década. Não entendia por que voltavam a aparecer de repente.

Fingiria que não tinha acontecido. Tinha a melhor secretária que podia pagar com dinheiro... e o dinheiro não podia comprar Jan; só seus demônios pessoais podiam. Jan estava classificada como Nível Cinco na UCH, e esteve a seu lado nos melhores e nos piores momentos. Antigamente foi seu melhor agente em atividade. Se soubesse que estava sofrendo aqueles episódios outra vez, o atormentaria, que acabaria por ter que ir ao psiquiatra. Mas, naturalmente, antes que isso acontecesse, se congelaria o inferno.

Recompôs-se e olhou Sam.

—Esse highlander atacou Brad com a espada diante de um montão de policiais e civis — disse.

Sam o olhou com os olhos como pratos.

—A imprensa soube e está seguindo seu rastro. Não posso jogar terra sobre o assunto. Já o chamam “o assassino da espada”. Original, verdade?

—Merda — disse Sam. Estava um pouco pálida.

—Além disso, um policial lhe deu um tiro, ao menos — acrescentou Nick. —A bala não lhe fez muito dano, claro — levantou o telefone branco e fez só uma chamada. Assim impediria que a polícia continuasse perseguindo seu highlander. Isso podia fazê-lo.

Sorriu alegremente ao desligar.

        —A polícia deixará este assunto dentro de pouco. Mas a história está saindo nas notícias da noite neste preciso instante.

—Desatará a histeria — disse Sam enquanto se dirigia para a porta. —Temos que encontrá-lo antes que o faça algum grupo de vigilantes.

Normalmente, Nick não se preocupava com as dúzias de grupos de vigilantes que havia na cidade. Não podiam vencer aos demônios, mas contribuíam ao esforço de guerra, embora suas atividades fossem ilegais. A CDA, a polícia e os federais faziam a vista grossa.

Entretanto, neste caso, não podia olhar para outro lado.

O highlander se encontrava ferido e, aparentemente, estava fugindo. Necessitava sua proteção.

—Vamos encontrar esse guerreiro sagrado — disse. —Vamos ver se podemos lhe dar uma mão.

 

Tabby entrou no colégio no qual dava aulas de primeiro grau com o jornal debaixo do braço: estava acostumada a dar uma olhada nas manchetes na sala dos professores, quando seus alunos estavam na aula de música. Saudou alguns professores enquanto se dirigia para sua sala de aula, tentando ainda concentrar-se no dia que a esperava. Adorava as crianças e adorava ser professora, sobretudo em um colégio público, onde havia tantos garotos necessitados de orientação e conselho. Mas essa noite tinha dormido muito mal. Teve sonhos carregados de angústia e ansiedade, todo eles sobre o highlander moreno.

Despertou com a certeza de que aquele homem estava em apuros e de que a necessitava.

Uma estranha visita ao museu e sua vida havia mudado vertiginosamente, pensou.

Além disso, estava acontecendo algo estranho. Sam não voltou para casa essa manhã. Trabalhava de noite: o mal se desatava de noite e se escondia durante o dia. Sam costumava estar em casa ao amanhecer. Tabby sabia que não devia alarmar-se, mas seu instinto lhe dizia o contrário. Estava acontecendo algo, e a inquietava não saber o que era.

Ao entrar em sua sala de aula, sua ansiedade se desvaneceu em parte. As paredes da sala estavam cobertas com os alegres desenhos das crianças, com seus últimos exercícios de caligrafia e diversos terrenos da cidade e mapas do estado e do país. Também tinha colado nas paredes alguns artigos de revistas e jornais que debateram em aulas.

Sempre percebia boas vibrações quando entrava na sala de aula, e isso não mudou. Na primeira hora falariam de notícias da atualidade, e Tabby deixou seu exemplar do USA Today sobre a mesa e, a seu lado, o artigo do The New York Times que recortou para as crianças.

Jogou uma olhada a um titulo do jornal e deixou escapar um gemido.

“O assassino da espada ameaça a cidade”. Deixou-se cair em sua cadeira enquanto olhava o artigo, apesar de que sabia o que ia encontrar. Um indivíduo vestido com traje de highlander medieval matou a um homem em Tribeca a noite anterior. Tinha escapado da polícia, mas estava ferido, ia armado e era perigoso.

Tabby começou a tremer. Ele estava na cidade e ferido.

Fechou os olhos e sussurrou:

—Eu posso te ajudar.

“Venha para mim”, pensou, fazendo um esforço por comunicar-se com ele. “Venha a mim”.

—Olá — disse alguém alegremente.

Tabby estava tão concentrada que ouviu a voz da mulher, mas por um momento não pôde mover-se nem abrir os olhos. Então a mulher voltou a falar e ela retornou ao presente.

Levantou-se, ensopada de suor, e ficou cara a cara com uma mulher que nunca viu antes. Tinha a pele e os cabelos muito claros, e o traje bege que usava lhe dava um aspecto estranhamente suave.

—Encontra-se bem? — perguntou.

—Sim, estou bem. Só estava... pensando — respondeu Tabby.

—Sou a substituta da Marlene. Só queria me apresentar — disse a mulher com um sorriso. —Sou Kristin Lafarge.

Marlene era a subdiretora e estava de licença maternidade. Tabby sorriu e foi lhe apertar a mão.

—Eu sou Tabby Rose, embora certamente já sabe.

—Sim — respondeu ela amavelmente. —E ouvi falar muito bem deste colégio. Gosto muitíssimo de estar aqui.

—A equipe docente é fantástica, e as crianças são geniais, em sua maioria — disse Tabby.

Kristin olhou sua mesa.

—Justo o que nos faltava: um louco solto pela cidade, atravessando as pessoas com uma espada.

Tabby sorriu com amargura.

—Aposto que o deterão — “por favor, que esteja a salvo”, acrescentou para si mesma.

—Isso espero. Embora não diz no jornal, corre o rumor de que a vítima morreu a oito quadras daqui.

Que perto esteve... Tabby vivia a cinco ruas do colégio. Respirava agitadamente quando partiu Kristin, depois de lhe dizer que conversariam mais tarde, na sala de professores. A subdiretora mal saiu pela porta quando Tabby correu à sua mesa. Agarrou o jornal. O assassinato ocorreu às onze da noite anterior: quando ela estava adormecida, sonhando com ele.

Tinha ido a seu bairro graças a seu encantamento?

Respirou fundo, estremecida. Era possível que seu feitiço fosse tão poderoso? Tinha que chamar a Sam. A UCH podia ajudar ao highlander. Ou Sam já estaria trabalhando no caso? A isso dedicou essa noite? Seus primeiros alunos estavam chegando e não podia entreter-se falando por telefone. Mandou a Sam uma mensagem de texto.

“Encontrou o highlander?”.

Logo começou a dar as boas vindas a seus alunos. Se não se concentrasse, o dia se tornaria interminável, e isso era injusto para as crianças. Além disso, um guerreiro medieval que podia viajar no tempo podia arrumar-se sozinho com alguns policiais, embora estivesse ferido. De todos os modos, aquilo não a tranquilizava. Enquanto recebia seus alunos, quase esperava que ele entrasse pela porta da sala de aula. Mas cada vez que olhava, aparecia um pai ou uma criança.

Uma menina loira e muito bonita, chamada Willa, que casualmente era uma de suas alunas mais brilhantes, entrou na sala de aula.

—Como está, Willa? — perguntou Tabby. Willa já sabia ler e escrever, e sempre estava fazendo perguntas extremamente incisivas para uma menina de seis anos.

—Podemos fazer um concurso de ortografia?

Tabby riu, e rir lhe fez bem.

—Um concurso de ortografia! Deve ter visto esse programa da televisão no fim de semana. Pensarei nisso — era lógico supor que, se faziam um concurso de ortografia, Willa ganharia.

Entraram mais crianças que a saudaram com sorriso alegre e ficaram a conversar animadamente. Era uma turma maravilhosa. Mas Tabby não podia relaxar, nem deixar de preocupar-se... nem de olhar para a porta. Quando alguns pais e responsáveis expressaram sua preocupação pelo assassino da espada, ela os assegurou que no colégio estavam completamente a salvo. Mas estaria perto o highlander?

Se tivesse um momento para concentrar-se, poderia meditar e tentar perceber sua presença.

Por fim chegou o último aluno. Tabby fechou a porta e pediu a todos que se sentassem para poder falar sobre o presidente substituto.

—Alguém se lembra do que significa isso? —perguntou. Quando lhes mostrou uma fotografia do presidente em questão, os meninos começaram a gritar e a brincar. Tabby os deixou fazer enquanto seu olhar se deslizava para o artigo do jornal.

        —Senhorita Rose! Senhorita Rose!

        Tabby se sobressaltou ao dar-se conta de que as crianças se acalmaram e a olhavam com expectativa. Ouviu abrir porta da sala de aula, mas não se virou. Caso fosse um membro do pessoal do colégio, disse:

—Quem quer nos explicar o que é um presidente substituto?

Só Willa levantou a mão. Tabby notou que as crianças estavam distraídas pela pessoa que entrou na sala de aula, mas disse:

—Willa?

—Porque estão fechando a porta com chave?

Tabby se voltou e ouviu o estalo da fechadura. Junto à porta havia dois adolescentes vestidos de negro da cabeça aos pés, com a pele muito pálida.

Seu coração começou a pulsar incontrolavelmente. Aqueles garotos se pareciam com os sub-demônios que andam por aí em grupos, queimando civis. Rezou para que fossem góticos, não humanos possessos. Os grupos de sub-demônios sempre atacavam a Inocentes em grandes grupos... até o ato de fé da semana anterior. Quanto a seu novo sexto sentido, quão único percebia era que aqueles garotos procuravam problemas.

Conseguiu simular uma calma que não sentia enquanto deixava de lado o jornal e se levantava.

—Olá — não devia alarmar as crianças. —Posso ajudá-los?

O menino que tinha o cabelo negro com mechas laranja se limitou a sorrir.

—Claro que sim, profe.

Tabby não sabia se por fim tinha o poder de perceber o mal, mas sabia que aqueles garotos eram malignos. Ignorava o que queriam, mas sabia que suas intenções não eram boas. Como ia proteger as crianças?

Virou-se e sorriu a seus alunos.

—Tenho uma ideia maravilhosa. Sentem-se todos no chão, em um círculo pequeno, com o jornal, e procurem todas as notícias que tenha relacionadas com o presidente.

Um dos adolescentes sorriu, zombador.

—Vamos — disse Tabby. Queria que as crianças se apinhassem quanto antes. Quando se sentaram todos no chão, tão longe da porta e dos garotos quanto era possível, deu o artigo a Willa.

—Willa, quero que seja a líder do grupo e que faça uma lista.

Willa a olhou fixamente, com seus grandes e inteligentes olhos azuis. Tabby sorriu ainda mais. Willa sabia que algo estava errado.

—Vão ficar nos olhando? —perguntou.

—Talvez. — Tabby continuava sorrindo quando ouviu o ruído de uma furadeira.

Girou-se e viu que o garoto loiro estava fazendo buracos na porta.

—O que faz?

—A você o que parece? — perguntou o de cabelo negro. Tirou de sua mochila um objeto metálico longo.

O loiro estava fazendo uma série de buracos na parede, e Tabby compreendeu que iriam instalar um ferrolho para prendê-los, as crianças e a ela dentro da sala de aula. Baixou a voz, consciente de que começava a dominá-la o medo. De algum modo conseguiu respirar e baixar o tom.

—Seja o que for a que se propõem, façam comigo. Mas deixem as crianças partirem.

—OH, não se preocupe, bonita, vamos fazer isso com você. —riu um dos garotos.

Tabby umedeceu os lábios, consciente de que devia manter o medo afastado pelo bem das crianças. Mandou em silêncio uma mensagem a Sam: sempre se comunicavam por telepatia.

—Como se chama?

O menino mostrou os dentes e disse:

—Angel. Você gosta... Tabitha?

Sabiam seu nome. Tabby compreendeu de repente: seu nome estava na porta.

—Querem a mim, não às crianças. Por favor, não resistirei, seja o que for que queiram. Mas têm que deixar sair as crianças em seguida.

—Temos planos para os pequeninos — disse Angel.

—Senhorita Rose? —disse Willa.

Tabby se sobressaltou. Puxou a sua mão.

—Willa, volta com os outros.

Willa olhou atentamente a Tabby, a Angel e ao loiro, que estava atarraxando o novo ferrolho à porta.

—Estão nos prendendo?

Antes que Tabby conseguisse dar uma desculpa para explicar o que estava acontecendo, Angel disse:

—Claro que sim, bonita — se afastou e jogou no chão o conteúdo de sua enorme mochila.

Tabby deu um salto ao ver a lenha.

O menino verteu gasolina em cima e sorriu.

—O que foi, profe? Tem medo do fogo?

Tabby respirou.

—Volta com os outros, Willa — mas viu que todas as crianças tinham os olhos fixos no drama que estava se desenvolvendo ante eles.

Angel agarrou de repente a Willa, que gritou.

        —Talvez comecemos por ela, bruxa — disse a Tabby.

Tabby lançou a Willa um olhar tranquilizador, e Willa procurou conter as lágrimas e deixou de lutar.

—Soltem a minha aluna — disse Tabby, e não era uma petição.

Angel a ignorou e inclinou a cabeça olhando a seu loiro amigo. Este tirou fósforos e começou a acender um.

O coração de Tabby deu um tombo. Sua mente funcionava a toda velocidade, iriam queimar a Willa, e possivelmente também as outras crianças. E a ela. Necessitava um encantamento.

Santo Deus, tinha que funcionar.

A pilha de lenha e lascas pôs-se a arder. As crianças gritaram, exceto Willa, que estava mortalmente pálida. Tabby fechou os olhos e murmurou:

—O fogo teme à água, o fogo requer chuva. O fogo teme à água, nos dê chuva. Chuva, rega o fogo. Chuva, vem.

—Está fazendo um feitiço — disse o loiro, um pouco alarmado.

Tabby abriu os olhos. Não aconteceu nada. Nada tinha mudado. Os meninos se agruparam junto a sua mesa. Alguns choravam, e todos olhavam fixamente a fogueira que rugia na sala de aula. O garoto loiro estava nervoso, mas Angel só parecia zangado. Tabby esperava que ligasse o alarme contra incêndios, mas não ligou. O teriam desligado essa noite, ou essa manhã, antes que começassem as aulas?

Olhou o teto e, ao ver um cabo pendurando do alarme mais próximo, sua alma caiu aos pés. Tinham desligado os alarmes contra incêndios. Então viu que uma mancha amarela se estendia pelo teto.

—Vamos, bonita. Primeiro as meninas — disse Angel, sorrindo.

Willa gritou quando Angel começou a arrastá-la para o fogo.

Tabby se deu conta de que no teto havia uma marca de água que ia aumentando. Enquanto corria para Willa, começaram a cair gotas sobre sua cabeça: primeiro uma, e logo outra, e outra. Mas umas poucas gotas de água não apagariam o fogo. Alcançou Willa e Angel, mas o loiro a segurou.

—Não se preocupe, já chegará sua vez.

—Solte-a! —disse Tabby, furiosa, enquanto tentava soltar-se do loiro. Usava saltos de cinco centímetros e o pisou com todas suas forças.

Ele proferiu um alarido e a soltou. Tabby agarrou a lata de querosene e a jogou em Angel. Este começou a amaldiçoar, soltou Willa e limpou o querosene que lhe tinha caído sobre o rosto. O fogo se avivou de repente, convertendo-se em incêndio. Tabby agarrou Willa e a empurrou para as outras crianças.

—Corre!

—Nem sonhe — bufou Angel. Seus olhos eram como fogo negro.

         Um instante depois, Tabby estava em seus braços e ele tinha apoiado a lâmina de uma faca contra sua garganta, ficou paralisada.

—Há muitas formas de matar a uma bruxa — disse Angel em voz baixa.

Tabby não se moveu. Temia que lhe cortasse a artéria carótida.

—Mate-a e vamos embora daqui — disse o loiro — antes que faça outro feitiço.

—Boa ideia —Angel sorriu malevolamente.

“Não se mova”.

Tabby ouviu com toda claridade aquela ordem, dita com forte sotaque escocês. Seu medo se desvaneceu. Assombrada, olhou para o outro lado da sala, mais à frente do fogo.

O highlander moreno estava fora. Estava-a olhando através de uma das janelas. Seus olhares se encontraram. O seu era duro e implacável, igual a seu rosto.

Tabby começou a tremer.

E os vidros ficaram em pedacinhos. Houve uma explosão de energia, o calor se intensificou. As crianças gritaram, o garoto loiro também, que saiu voando contra a porta fechada. Angel gritou quando o highlander se equilibrou contra eles com a espada em mão. Atemorizada, Tabby tentou desprender-se de seus braços, mas ele não a soltou.

O highlander se abateu sobre eles e sorriu, ameaçador.

—Solta-a ou morre.

Tabby olhou seus olhos frios como o gelo e compreendeu que falava a sério. Quis protestar, mas não lhe saiu a voz. O poder do highlander era tão intenso que se respirava. Envolvia-a por completo, viril, denso e atrativo.

Angel compreendeu que falava a sério. Deixou cair a faca, mas não soltou Tabby: rodeou-a com os braços.

—Soltarei quando sair daqui.

Tabby deixou de respirar. Angel queria utilizá-la como escudo humano para escapar.

—Uma má escolha — disse o highlander suavemente.

Ela o ouviu de novo, embora ele não falou.

“Não se mova”.

Tabby olhou seus olhos azuis escuros e soube que ia libertá-la. Sairia vencedor: aquele homem jamais perdia. Sua vida dependia dele, mas confiava no highlander. Obedeceu e não se moveu.

A folha prateada brilhou.

Tabby quis gritar quando a dirigiu para ela. Ver descer aquela espada foi o momento mais aterrador de sua existência. Cometeu um engano, ia morrer. Mas foi Angel quem gritou quando a espada se introduziu entre eles.

Seguiu apertando-a um momento. Logo sua cabeça se separou de seus ombros, e foi um homem sem cabeça quem a segurava. Desabou e Tabby ficou livre. Os alunos começaram a gritar. Tabby se afastou, aturdida.

O highlander tinha decapitado Angel enquanto este a segurava. Poderia ter cortado a cabeça dela também!

Pasmada, olhou-o nos olhos. Então viu que o sub-demônio loiro apontava detrás dele com uma grande pistola negra.

Sufocou um gemido quando disparou.

O highlander se virou e de suas mãos brotou uma chama de energia. O loiro saiu voando para trás e, dessa vez, quando chocou contra a parede e caiu ao chão, Tabby compreendeu que estava morto.

Logo Tabby correu para as crianças, os apressando a reunir-se a seu redor.

—Não olhem! —nunca viram um homem decapitado. Como iriam vê-lo? Estavam em Nova Iorque, em 2011, não na Escócia em 1550. Tentou conter o medo e a bílis. Quase todas as crianças choravam. Bobby Wilson queria ir para casa. Enquanto se apinhavam a seu redor, Tabby tentou sobrepor-se ao medo e ao horror. Aquele homem salvou sua vida. Fazia o que sabia fazer. Era o fruto de um tempo violento e bárbaro.

E tinha decapitado Angel enquanto este a segurava.

—O fogo está se estendendo — disse ele, e Tabby o sentiu às suas costas. —Tem que levar as crianças daqui.

Tabby se virou para olhá-lo, incapaz de dizer uma palavra. Encontrou-se com seus olhos azuis e intensos, os mesmos olhos que tinha visto no museu... e em sonhos.

—Não queria que matasse a esses garotos? —Seu olhar azul se gelou. —Iam matá-la, e não ia ser uma morte agradável.

Nesse momento, Tabby se deu conta de que não era o mesmo highlander. Não exatamente. Era o mesmo homem que viu fugazmente e tocado no museu, disso não lhe cabia nenhuma dúvida. Mas não estava queimado, nem tinha bolhas na pele. Seu rosto duro e decidido estava arranhado pelos vidros, e tinha uma cicatriz em uma das maçãs do rosto, mas não tinha queimaduras, nem sangue, nem bolhas. De fato, estava muito bonito. Tinha a túnica manchada de sangue e alguns cortes nos braços, nas pernas e no rosto por ter saltado através do vidro, mas não estava queimado. Aquele homem não esteve em An Tùir-Tara.

—Não vem de Melvaig, nem de 1550, verdade? —Conseguiu dizer.

O rosto do highlander ficou tenso com evidente repugnância.

—Não.

Ela respirou com esforço, insegura. Estava zangado? E se era assim, por quê? Queria esclarecer aquilo, mas tinha que pôr a salvo as crianças.

—Pode nos abrir a porta? —Enquanto falava, os alarmes do colégio soaram por fim.

O highlander fixou nela um olhar abrasador. Depois se aproximou da porta da sala de aula e a arrancou de suas dobradiças. Tabby conseguiu sorrir para tranquilizar aos meninos e começou a levá-los para lá. Detrás dela se ouviu uma explosão.

As crianças gritaram, mas Tabby disse:

—Caminhem, não corram. Não acontece nada.

O highlander se aproximou de Paul Singh, o primeiro garoto, e o puxou pela mão para que não se pusesse a correr. Sabia, estava claro, que deviam proceder sem se deixarem levar pelo pânico. Ela olhou para trás e viu que tinham caído ao chão pedaços de gesso e de tubulação.

No corredor, os professores tentavam evacuar aos alunos de forma ordenada, como se estivessem em uma simulação de incêndio. Holz Vanderkirk, o diretor, e Kristin se aproximaram correndo para eles.

—Estão bem? —perguntou Kristin, agarrando-a pelo braço enquanto olhava pasmada ao highlander. Ouviam-se sirenes de polícia.

Saltava à vista que Kristin e Holz pensavam que era o assassino da espada e que representava uma ameaça para todos eles. Tabby queria lhes explicar que aqueles garotos tinham tentado levar a cabo um ato de fé e que o highlander salvou aos alunos e a ela. Mas se voltou para olhá-lo.

—Não tem importância — disse, apesar de que sabia que não era verdade.

Cravou-lhe seus olhos azuis. Era o olhar de um soldado profissional, isento de sentimentos e de temor. Logo se virou e voltou a entrar apressadamente na sala de aula em chamas.

Tabby gritou assustada:

—Volte!

Ele entrou na sala de aula enquanto o teto começava a derrubar-se. O gesso e a tubulação o golpearam, mas ele não deu mostras de estar ferido. Tabby ficou paralisada de horror ao ver que bordeava o incêndio e se dirigia para a janela quebrada. De repente, o fogo explodiu de novo e um muro de fogo se interpôs entre eles.

O estômago de Tabby se encolheu.

Ele se deteve do outro lado do muro de fogo, junto à janela, e a olhou.

As horrendas emoções que embargaram Tabby no dia anterior, no museu, voltaram a alagá-la, deixando-a paralisada. Tinha uma intensa sensação de ter vivido já aquele instante. Sentia fúria, indignação, horror e angústia. E também amor: um tipo de amor que não havia sentido nunca antes, mas com o que sonhou.

Amava àquele homem.

Uma expressão de perplexidade cruzou o rosto moreno do highlander.

O muro de fogo se inflamou entre eles.

Embora quisesse, ele não poderia cruzá-lo.

Deu meia volta e saltou pela janela.

Tabby sentiu que as pernas fraquejavam.

 

Encurvada sobre sua mesa, na UCH, Kit Mares olhava fixamente a tela do computador. Estava vendo a fita do ato de fé da semana anterior pela enésima vez.

Sabia que havia algo que estava passando por cima, e que não poderia comer nem dormir até que descobrisse o que era. Queria apanhar aqueles pequenos canalhas que estavam aterrorizando a cidade. Não descansaria até ter apagado todos os demônios da face da terra.

Devia a Kelly, sua irmã gêmea.

Kelly, como sempre, estava atrás dela, apoiando-a. Ou isso parecia para Kit.

Nick a recrutou no ano anterior, quando trabalhava na brigada antidrogas. Havia a seguido durante semanas. Aparecia nas cenas dos crimes ou nos locais cercados pela polícia. Ela pensou a princípio que era um federal que estava trabalhando em um caso. Depois se deu conta que a observava. Mas saltava à vista que era um agente secreto. Finalmente, Nick a abordou em um bar, ao final de um dia espantoso. Depois de convidá-la a uns drinques, perguntou se queria passar a vida perseguindo traficantes de drogas e pornografia, ou se preferia entrar de verdade em ação.

Ela se deu conta em seguida a que se referia.

E aceitou sua oferta sem pensar duas vezes.

Desde o dia em que entrou para trabalhar na UCH, todas as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar. Ela já tinha pressentido a existência do mal. Tinha arrebatado sua irmã, e o combatia todos os dias na rua. Assim, quando soube que o mal constituía uma raça e que estava se liberando uma guerra um milhão de vezes mais importante que a guerra contra o terror, não se surpreendeu. Quase foi um alívio.

A guerra contra o mal era sua vida.

Kit seguia olhando fixamente a tela do computador. Havia câmaras quase em sessenta por cento da cidade, ocultas em semáforos, restaurantes, hotéis, áreas comerciais, lojas de alimentação, em todos os aeroportos importantes, em cada ponte e em cada túnel. Só um punhado de legisladores do Comitê de Defesa Interior, um organismo ultrassecreto, meia dúzia de generais do Pentágono e o presidente conheciam sua existência. A União para as Liberdades Civis faria barulho se soubessem.

Aquele sistema de vigilância era a menina mimada do CAD.

         Kit se esticou e se inclinou para diante. Observava a tela com absoluta distância clínica, enquanto dois garotos e uma garota começavam a acender o fogo sob os pés da vítima. Aqueles adolescentes estavam possessos; a fita o demonstrava. Em filme, os verdadeiros demônios só apareciam como formas escuras e fantasmagóricas, e era impossível identificá-los individualmente. Aos sub-humanos, ou subs, como os chamavam no CAD, podia filmá-los como a qualquer homem ou mulher de carne e osso. Projetavam também, entretanto, uma sombra muito escura, inclusive de noite. Em fita, era simplesmente impossível não identificá-los.

Cinco transeuntes se detiveram para olhar, boquiabertos, e fugiram. Todos eles eram cem por cento humanos. Kit apertou o botão de pausa e voltou o vídeo. Um civil estava fugindo. Kit ativou o zoom.

Via-se algo estranho justo atrás do ombro daquele indivíduo quando fugia da cena do crime: algo cinza e oblongo.

Kit deteve a imagem, voltou e enfocou de novo ao civil. Congelou a imagem e enfocou seu ombro direito.

O objeto já não era oblongo. Era algo disforme, cada vez mais nítido à medida que procurava seu centro. Retrocedeu até a parte mais escura daquela sombra. Uma cara começou a emergir da luz cinzenta.

—Que demônios...? —disse Kit.

Via agora dois olhos e uma boca. Teria jurado que era isso.

Assim, houve alguém ali, olhando a queima.

Não, alguém não. Algo.

 

Sentada em uma cadeira de criança, exausta, Tabby se abraçava. Os agentes do CAD levavam horas no lugar dos fatos. Nick e os membros de sua equipe a interrogaram cinco vezes. As crianças foram recolhidas pouco depois da crise. Agora Nick estava sentado com Kristin e o diretor, tomando café. Tabby sabia que estava os interrogando, mas ele se comportava com tanta naturalidade como se estivesse em um Starbucks com um par de amigos.

Os últimos instantes dessa manhã seguiam se repetindo uma e outra vez, implacavelmente, dentro de sua cabeça. Via o olhar do highlander justo antes que sua espada brilhasse e decapitasse Angel. Via seus olhos quando voltou a entrar na sala de aula para fugir da polícia, seu olhar frio, duro e desprovido de emoção, de todo temor. Estremeceu-se. Chamar de selvagem àquele homem era calcular baixo; Tabby não conseguia encontrar a palavra adequada para descrevê-lo. Tinha sido testemunha de atos de violência durante quase toda sua vida. O mal era bárbaro e cruel, e estava em todas as partes. O highlander não era malvado e, entretanto, tinha decapitado Angel sem nenhum escrúpulo. Eles poderiam ter tentado recuperar a alma do rapaz, mas ele não hesitou. Era evidente que semelhante brutalidade era como sua segunda pele. Era um bárbaro. A seu lado, Randall parecia um santo.

Tabby tremeu. O que de verdade a inquietava era que ele ficou do outro lado do muro de fogo e como se sentiu ela ao vê-lo ali, com as chamas ardendo entre os dois.

Por um momento, o rosto do highlander tinha mudado, enchendo-se de surpresa. Tabby ignorava o que pensou nesse momento, mas de repente parecia contrariado em deixá-la ali. Ela estava desesperada e aterrorizada: temia que aquele fosse o final de sua relação.

Mas não havia nenhuma relação entre eles.

E, entretanto, enquanto estava ali, com o fogo entre os dois, havia sentido que o amava.

Isso era impossível, certamente. Aquele homem era um perfeito desconhecido, e medieval a não poder mais. Ela, pelo contrário, era uma mulher moderna e civilizada, uma alma sensível. Entre eles não poderia haver nenhuma relação, exceto a ajuda que ela pudesse lhe prestar. Agora, entretanto, pensar que ela pudesse ajudar àquele bárbaro parecia risível. Tinha que ser uma brincadeira. Sua sensação de ter passado já por aquela experiência era simplesmente inexplicável.

Doíam-lhe as têmporas e as esfregou. O highlander necessitava atenção médica, e logo teria que voltar para o lugar de onde veio. Ela se sentiria melhor, mais segura, quando ele retornasse a seu mundo primitivo. Possivelmente tivesse partido já. Que alívio seria! Ela voltaria para o Museu Metropolitano e tentaria averiguar por que o amuleto a fez sentir o mal e tantas outras coisas. Logo decidiria o que devia fazer a respeito desse assunto... e a respeito dele.

Sam lhe pôs uma mão sobre o ombro, com expressão séria.

—Nick disse que podemos partir.

Tabby se levantou, aliviada por poder ir para casa. Pelo menos a polícia tinha deixado o caso. Assim disse Sam. O highlander estava fugindo deles sem necessidade, embora possivelmente fosse o melhor. Se não, talvez teria ficado por ali.

—Sam, se não voltou no tempo, precisa de um médico.

Sam fez uma careta.

—Me disse isso uma dúzia de vezes. Se continuar aqui, Nick o encontrará e fará que o atendam.

Tabby a olhou nos olhos ocultando cuidadosamente seus pensamentos, mas não de sua irmã. Sam disse que estava segura de que Nick podia ler a mente. A Tabby parecia provável. Tinha-o visto em ação uma ou duas vezes e não era um mortal comum.

Não contou a Nick o que aconteceu no museu no dia anterior. Não estava segura de por que sentia a necessidade de mantê-lo em segredo. Ela não trabalhava na UCH, mas Nick era um obcecado pelo controle e sempre perseguia suas próprias metas. Ficaria do lado do highlander, mas Tabby temia que se envolvesse. Era um engano envolvê-lo naquele assunto antes de saber o que estava acontecendo em realidade.

Como sua roupa estava coberta do sangue de Angel, Tabby pediu emprestado um agasalho a uma aluna veterana do colégio. Recolheu sua jaqueta branca de lã, a vestiu, e tomou sua bolsa e sua mochila. Sam lhe fez um gesto e se dirigiram para a porta. Nick ficou em pé e se aproximou.

—Quando quiser me contar o que aconteceu de verdade, tem meu número direto — disse.

Tabby lutou por dominar seus pensamentos e suas emoções.

        —Contei tudo — odiava mentir, mas o fazia com altivez, ou isso acreditava ela.

Nick parecia divertido.

        —Está mentindo, Tabby — ficou sério. —Eu também quero protegê-lo.

        Tabby cruzou os braços. Nick o protegeria. Deveria lhe dizer a verdade.

—Não disse que queira protegê-lo, mas não quero que sofra — vacilou e logo acrescentou: — Deve ter voltado para o lugar de onde veio, Nick. Não acredito que deva estar aqui.

        —E isso por quê?

Tabby tentou não pensar em seu encontro com ele no museu, ou no feitiço que tinha feito.

—Não é evidente? Um homem medieval perambulando pela cidade poderia suscitar todo tipo de perguntas — era consciente de que a segunda prioridade do CAD, depois da guerra contra o mal, era permanecer na clandestinidade. A agência tinha um departamento completo dedicado às relações públicas, a converter os crimes demoníacos em delitos socialmente aceitáveis. O público não era capaz de assimilar a verdade, e se desataria a histeria, e seguidamente o caos e a anarquia. E isso era o que queria o mal.

—Se um só jornalista descobrir o que está acontecendo, acabou-se.

Saltava à vista que Nick a observava com ceticismo, inclinou-se para ela.

—Olhe, Tabitha, a imprensa não se informou de tudo o que ocorreu ontem à noite.

Tabby ficou tensa. Não gostava de como soava aquilo.

—O que quer dizer?

—Esse homem feriu um policial no princípio do confronto — Nick ficou olhando-a fixamente, esperando que assimilasse a notícia.

Tabby demorou um momento em compreender.

—Por favor, me diga que o policial está bem.

Nick fez uma careta.

—Acabo de receber uma chamada. Morreu faz uma hora.

Tabby respirou fundo para acalmar-se, consciente de que Nick a estava observando, e Sam a rodeou com o braço.

—Agora mesmo há um montão de policiais furiosos nas ruas da cidade — disse Nick, cravando o olhar em Tabby. —Falei que quero protegê-lo, e falava a sério. Necessita proteção porque, com ordens ou sem elas, a polícia anda procurando-o.

Tabby sabia quão teimosa era a polícia. Aqueles homens eram heróis, defendiam cotidianamente aos Inocentes, mas eram implacáveis quando caía um dos seus.

—Hoje nos salvou, Nick. É um Mestre e jamais faria mal a um policial de propósito. Teve que ser em defesa própria.

—Não me diga — disse ele. Deu-lhe torpemente uns tapinhas no ombro. —Tem uma expressão cansada. Vá para casa e descansa. Deixa que nos ocupemos do highlander. Certamente terá partido faz tempo, Tabby.

Ela não pôde lhe devolver o sorriso. O highlander se achava em apuros, e estava claro que sabia. Tinha fugido ao ouvir as sirenes. Parecia, por outro lado, capaz de sobreviver a um Apocalipse. Mas a polícia podia disparar primeiro e perguntar depois. E os Mestres não eram imortais. Embora fosse provável que tivesse partido, continuava terrivelmente preocupada.

—Não pode utilizar sua influência no Departamento de Polícia? Não pode insistir em que o apanhem vivo e ileso?

—Já pus em jogo toda minha influência — respondeu Nick. —Sabe? Está tão preocupada que começo a pensar que possivelmente a tenha enfeitiçado. Lembra de sua prima Brie? Demorou uns dois segundos em apaixonar-se por Aidan de Awe, e Aidan se converteu.

Tabby ficou atônita.

—Sou um ser humano — exclamou. —Talvez esteja obcecada, mas não estou apaixonada.

Ele aumentou os olhos e seu sorriso se desvaneceu. Sam também a observava atentamente. Tabby se ruborizou.

—Se voltar a vê-lo, me chame em seguida. E não estou pedindo, querida. Assim, embora esteja apaixonada, espero essa chamada — retornou com Kristin e Vanderkirk.

Tabby nunca achou simpático Nick Forrester. Era um herói, claro, e estava de seu lado, mas não gostava dos homens como ele, sobretudo depois de conhecer Randall. Era arrogante, poderoso, viril e controlador, igual a seu ex-marido.

Quando saíram na noite gelada, olhou a Sam. O highlander fazia que Nick parecesse suave e dócil, pensou.

—O que me está ocultando? — perguntou Sam.

Fazia muito frio para deter-se, assim apertaram o passo.

—Vi-o ontem no museu — respondeu Tabby rapidamente. —Estava queimado e cheio de sangue, Sam. Sei que veio para mim de o An Tùir-Tara.

—E me diz isso agora? — perguntou Sam, alterada.

Tabby a olhou. Sua irmã nunca se alterava.

—Está claro que estamos destinados a nos encontrar. Nossos caminhos se cruzaram já duas vezes, no museu e no colégio. — seu estômago encolheu. —Mas esta manhã não tinha queimaduras, nem sangue. Não vinha do incêndio de Melvaig. O que quer dizer isso?

Sam a olhava com intensidade.

—Quando me deixaram no museu, tentei lançar um feitiço para que viesse para mim. Funcionou? Trouxe-o para cá, desde outra época?

Os olhos de Sam se aumentaram.

—Nunca fez um feitiço tão poderoso, Tabby.

—Sam, se funcionou, o tiro saiu pela culatra — os dentes batiam, mas falava lentamente e escolhia suas palavras com cuidado. —Porque sinto o desejo de ajudá-Acha que tenho que fazê-lo? Esse highlander não precisa de mim, nem de ninguém. É um soldado versado e perigoso. Não tinha ideia, Sam — se estremeceu, mas não de frio.

—É um homem medieval, Tabby. Naquela época, era matar ou morrer.

—Sei — tentou não pensar em Angel.

Sam ficou calada. Quando Tabby a olhou disse:

—Está muito preocupada com ele.

Tabby titubeou.

—Sim, estou, e é absurdo. O homem que nos resgatou hoje não precisa de mim. E me dá medo —acrescentou.

—Está segura?

Tabby se deteve.

—As coincidências não existem. Se seu feitiço saiu mal é porque assim estava escrito. Se veio aqui é porque estava destinado a te ajudar — Sam encolheu os ombros. —Talvez você também esteja destinada a ajudá-lo. Vai ter que resolver este assunto, Tabby.

Tabby notou que lhe encolhia o coração. Sam tinha razão.

—E se não estiver preparada? —perguntou lentamente.

—Claro que está — respondeu Sam com firmeza.

Tabby se sentiu comovida. Sam tinha mais fé nela que ela mesma.

—O que vamos fazer com o Nick? — perguntou enquanto cruzavam um semáforo vermelho. Não havia tráfego na rua.

—Nick não lhe causará problemas. É um dos mocinhos, recorda? —disse Sam. —Estou segura de que gostaria de interrogar ao highlander, mas quer protegê-lo. Enquanto estiver na cidade, a polícia e os vigilantes serão um perigo para ele.

Tabby a olhou enquanto caminhavam a toda pressa pela rua que conduzia a seu edifício de apartamentos.

—Gosta de Nick — não era uma pergunta.

—Sua coragem e sua ambição compensam seu mau caráter. Estaria disposto a morrer por qualquer de seus agentes, Tabby. Morreria por qualquer Inocente. E acredito que tem seus próprios demônios.

Fazia muito tempo que Tabby queria saber uma coisa.

—Sei que não é da minha conta, mas espero que não esteja transando com Forrester.

Sam nem sequer esboçou um sorriso.

—Pensei nisso. E ele também. Mas eu gosto de meu trabalho e já sabe como são essas coisas. Não é boa ideia atirar-se ao chefe. Mas gosto de Nick, sim — acrescentou. —E esse é o melhor motivo para não transar com ele.

Tabby sabia que nunca entenderia de todo a sua irmã, que jamais se fazia amiga de seus amantes, nem parecia desejá-lo.

—É um alívio — Tabby correu para a portaria de seu edifício e tirou as luvas para procurar as chaves. Sua irmã ficou detrás dela. —Me chame assim que souber de algo — disse.

—Sim. Ligarei tão logo tiver notícias de seu highlander.

Tabby vacilou, consciente de como Sam usou a palavra “seu”. Parecia quase entristecida. Algo ia mal, e pela primeira vez na vida, sua irmã não era capaz de enfrentar isso. Tabby a abraçou.

—Obrigada.

—De nada — disse Sam, e se afastou depois de Tabby entrar.

Tabby entrou apressadamente no elevador, estremecida. Um momento depois estava a salvo em seu loft.

Estava gelada até os ossos e, antes de tirar a jaqueta, pôs água para ferver. Logo começou a tremer, em parte pelo cansaço, em parte pelo frio e em parte porque estava preocupada com o highlander. Seu coração se negava a escutar a sua cabeça. Como de costume.

Todas aquelas emoções relacionadas com o An Tùir-Tara as tinha provocado o incêndio no colégio. E isso a inquietava. Nunca reagiu assim ante o fogo. Revolvia-lhe o estômago ao pensá-lo. Estava captando as emoções do highlander? Duvidava-o. Estava segura de que aquele homem não era capaz de sentir o amor que ela percebeu.

O bule começou a assobiar e nesse mesmo momento alguém chamou à janela da sala de estar.

Tabby gritou, assustada. Ele estava na escada de incêndios!

Ficou paralisada. Seus olhares se encontraram na escuridão, através do vidro da janela.

O highlander chamou de novo. Tabby voltou a si. Ele vestia um fino espartilho de linho e um manto de lã. Estava com as pernas nuas, exceto pelas botas. Tabby cruzou correndo o cômodo e abriu a janela. Ele entrou, acompanhado de um sopro de ar gelado. Tabby fechou a janela e se virou, atônita.

—Seguiu-me até aqui? —perguntou quase sem fôlego.

Ele se abatia sobre ela. Tinha um semblante duro e tenso e seus olhos, de um azul surpreendentemente intenso, cravavam-se nela.

—Você me chamou. Por quê?

Estava zangado... e exsudava poder viril. Estavam a sós em seu loft. Estava sozinha com um guerreiro medieval capaz de decapitar um homem em um segundo. E o que era pior ainda: de repente era consciente da proximidade de seu corpo enorme e musculoso. Daquilo não gostava.

—O que? Do que está falando? —retrocedeu. Olhou seu braço manchado de sangue. —Está ferido?

Ele deu um passo adiante e se aproximou dela.

—Eu não recebo ordens de ninguém, Tabitha.

Ela se assustou.

—Continuo sem saber do que está falando.

—Seu poder — replicou ele. —Me trouxe até você. Por quê?

Tabby ficou quieta, aturdida por sua poderosa presença, enquanto tentava entender o que lhe estava dizendo.

—Meu feitiço funcionou?

—Sim. Sei que é uma bruxa. Senti seus poderes na escola, e aqui. Porque me fez vir? —insistiu ele.

Tabby começou a sacudir a cabeça. Custava-lhe falar.

—Para te ajudar — conseguiu dizer por fim com um sussurro áspero. —Queria te ajudar!

Ele soltou uma maldição e se afastou.

Tabby sentiu que lhe afrouxavam os joelhos. Aquele homem a fazia pensar em todas as más novelas românticas que leu sobre vikings e outros conquistadores. Imaginava-o puxando as mulheres de suas camas e as arrastando pelos cabelos.

Logo ficou imóvel. Seu feitiço tinha funcionado?

Ele virou com as mãos apoiados nos quadris.

—Sim, sua magia me trouxe aqui.

Tabby estava assombrada e emocionada. O highlander estava frente a ela, ao outro lado do loft e, face ao imponente que era, a distância lhe permitiu fixar-se de verdade em suas altas maçãs do rosto, em sua mandíbula quadrada e naqueles assombrosos olhos azuis escuros.

Acelerou-lhe o pulso. Aquele homem era pura virilidade.

Sua expressão dura se suavizou um pouco. Tabby teve a inquietante sensação de que era consciente do interesse que sentia por ele. Embora não estava interessada. Mas como não ia olhar aquele rosto e aquele corpo? Estava meio nu! O espartilho se colava ao corpo, e os dois cinturões que usava contribuíam para delinear sua anatomia. O manto de tartán que usava preso ao ombro realçava seus largos ombros e seu peito igualmente largo e musculoso. As mangas curtas do espartilho e sua postura deixavam descobertos seus enormes bíceps. Era lógico que era tão forte: todos os dias empunhava enormes espadas. E o que era pior: Tabby estava segura de que debaixo daquela estranha saia curta, havia muitíssimos mais músculos.

Decidiu não olhar suas pernas. Não precisava. Era impossível não notar sua musculatura, entre as botas e a saia. Aquele corpo não era produto dos esteroides. Corria pelas colinas e montava a cavalo.

O que estava lhe acontecendo? Porque não podia respirar? Porque ele estava zangado? Deu um passo atrás.

—Agora me teme? —Parecia quase divertido. —É lógico que me tema. Eu não aceito ordens de ninguém.

Ela pensou em Angel.

—Entendido. Não mais ordens — logo se engasgou. Aquele não era momento para ficar incoerente. —Não era minha intenção te ordenar que viesse. Acreditava que estava ferido. Queria te encontrar para te ajudar.

Mudou-lhe o rosto. Seus olhos brilharam, mas com interesse, não com fúria, aproximou-se rapidamente dela. Tabby deixou escapar um grito, retrocedeu e se chocou com o sofá.

—O que faz? —perguntou com voz afogada.

—Não vou arrastá-la pelo cabelo — disse ele. Quando se deteve, a tinha prendido contra o sofá.

Podia ler o pensamento, compreendeu Tabby. Genial!

—Não posso respirar se te aproxima tanto.

Levantou bruscamente o queixo.

Tabby ficou quieta. Seu coração pulsava com violência. Um repentino palpitar de desejo se apoderou de seu corpo.

Por um instante, o olhar azul do highlander mudou e Tabby teve a clara sensação de que sabia o que ela estava pensando e o satisfazia. Logo ele disse com aspereza:

—Leva um século me atormentando. Por quê? Meus inimigos a enviaram?

Tabby sufocou um grito de surpresa.

—Do que está falando agora?

—Já me ouviu. Vi você pela primeira vez quando era um menino. Queria me ajudar. Logo começou a aparecer em meus sonhos. Às vezes inclusive me importunava depois de uma batalha. E ontem te vi na praia onde enterrei a minha família.

Tabby começou a tremer. Estava perplexa.

—Por favor, não me toque — disse.

Ele aumentou os olhos. Baixou a mão.

Tabby não tinha escolha. Para afastar-se dele, tinha que passar a seu lado. Seria absurdo subir ao sofá para esquivá-lo. Assim passou roçando-o e escapou à área de estar. Ao fazê-lo, notou algo.

Ele estava excitado. Tabby sentiu que lhe ardiam as bochechas e voltou a notar aquele estranho batimento de coração, antes de voltar-se para olhá-lo. Abraçou-se. Como ia enfrentar aquilo?

—Me diga por que continua me atormentando.

Ela se refez lentamente e se voltou para ele, consciente de que seguia ruborizada.

—Não sei nada disso. Em primeiro lugar, acredito que para aparecer para alguém terá que ser um fantasma. E está claro que eu não estou morta.

Ele deixou escapar um som áspero, mas a escutava atentamente. Tabby se abraçou com mais força. Decidiu não pensar que estavam a sós em sua casa.

—Está seguro de que era eu?

Ele riu sem vontade. Até sua risada era temível. Não, perturbadora.

—Sim, mulher, foi você.

Estava seguro. Acreditava que a tinha visto ao longo dos anos, desde que era um menino. Tabby havia sentido que o conhecia quando o viu no museu... e ao ver o menino, enquanto lia aquela placa, também teve a sensação de conhecê-lo.

—Não posso explicar, mas te vi ontem, em um museu. Havia uma exposição relacionada com Melvaig, Escócia. E quando te vi, pareceu-me familiar e desejei te ajudar.

Ele a olhava com assombro, mas com dureza.

—Melvaig é a fortaleza de meus inimigos.

—Sei — Tabby sabia que não devia explicar-se. Aquele homem não tinha passado por um incêndio, o que significava que An Tùir-Tara ainda fazia parte de seu futuro. Não necessitava a sabedoria do Livro das Rose para saber que não devia lhe revelar seu futuro. Estava estritamente proibido. —No museu se mencionava um massacre acontecido em 1201. Só sobreviveu um menino de quatorze anos. Era você?

A expressão do highlander se tornou tão dura que Tabby se alarmou. Seu semblante parecia a ponto de rachar-se... ou de estalar? Demorou um momento em falar.

—Sim. Escreveram sobre minha família em sua época? Sobre mim?

Tabby assentiu com a cabeça. Aquele rapaz parecia destroçado pela perda de sua família. Quase sentiu o desejo de aproximar-se dele e tocar sua mão, o qual era absurdo. Ele já não era aquele menino aflito. Não. Era sua antítese.

Ele lançou uma maldição e de repente os abajures que havia ao lado do sofá se romperam e o vaso de rosas caiu da mesa.

Tabby ficou paralisada. Estava claro que não era boa ideia zangá-lo.

—Porque escrevem sobre mim? —perguntou ele.

—Os historiadores escrevem sobre a história. Sobre a história de qualquer um — disse ela fracamente.

Ele olhou os abajures em volta. Só se salvou as telas.

Aquilo não ia funcionar, pensou Tabby. Aquele homem tinha muito mau gênio e estava zangado com ela. Tinha que voltar para o lugar de onde procedia imediatamente. Estava claro que não podia ajudá-lo. Não estava à altura da tarefa.

Disse com cautela:

—De que ano procede exatamente?

—Não sabe? —ao ver que ela sacudia a cabeça, respondeu: —Sua magia me tirou de Blayde em plena noite, em 10 de junho de 1298.

Tabby tentou dissimular sua perplexidade. Aquele homem procedia de finais do século XIII! Não era estranho que fosse tão bárbaro.

Ele estreitou os olhos.

—Tabitha, eu não gosto que me julguem. Sou um Macleod, e quem me julga raramente vive para contá-lo.

Tabby estremeceu. Acabava de ameaçá-la?

—Te salvei. Não vou machucá-la. Mas não ligou para minhas advertências.

Tabby conseguiu assentir de algum modo.

—Não me interprete mal. Estou muito agradecida pelo que fez hoje, mas não sei por que está aqui. A polícia quer te matar. Tem que voltar para Blayde, a 1298.

Um leve sorriso transformou sua expressão.

Tabby ficou tensa. O que significava aquele olhar?

—Mas você quer me ajudar.

Ela compreendeu imediatamente que tinham entrado em um terreno extremamente perigoso.

—Está claro que agora mesmo não necessita minha ajuda.

Ele baixou a voz e disse com um murmúrio:

—Mas está agradecida comigo, não?

Tabby ficou quieta.

—Qu-o que?

—Está agradecida. Está em dívida comigo.

Tabby ficou branca de susto. Logo começou a compreender e seu pulso acelerou. Ele pretendia seduzi-la! Estava escandalizada... mas seu corpo continuava palpitando.

—Você me deseja. E eu te desejo. Está em dívida comigo. Aceitarei de bom grado passar uma noite em sua cama.

Ela se engasgou.

Ele se limitou a olhá-la. Seus olhos pareciam arder lentamente.

Tabby se girou e se dirigiu à cozinha a tropeções. Estava agradecida, sim, mas ele esperava que o pagasse com seu corpo. E ela jamais faria tal coisa! Além disso, o que acontecia com seu bendito corpo? Por que estava sem fôlego, por que se sentia tão acalorada, tão... excitada?

Como ia conseguir que partisse?

Deteve-se ante a bancada da cozinha e se agarrou a ela. Logo o sentiu aproximar-se.

—Não deve me ter medo.

Ela deixou escapar um som incoerente.

—Decapitou Angel enquanto me agarrava! —voltou-se para olhá-lo. E foi um engano.

Estava quase em seus braços, e ele parecia divertido.

—Sou um Mestre com a espada.

—Poderia ter cortado minha cabeça — acusou ela.

Ele levantou uma mecha de seu cabelo.

—Nada disso.

Tabby ficou quieta. Seus olhares se encontraram.

—Tem que voltar para sua época, Macleod. Logo!

Ele sorriu. Seu sorriso era sedutor e sexy, mas, sobretudo, revelava o bonito que era. E o fazia parecer quase humano.

—Porque te dá tanto medo deitar comigo?

—Não nos conhecemos!

—Em minha época — disse ele com suavidade — quando uma mulher está tão quente como você, faz o que deseja e o desfruta.

Tabby estava sem fala, sentia-se aturdida e seu corpo fazia todo tipo de coisas absurdas e inapropriadas.

Fechou os olhos para evitar seu olhar abrasador. Ele ia aproximando-se e ela não podia controlar a reação de nenhum dos dois. Tudo ia mal!

—Vai — disse com voz rouca, abrindo os olhos. —Volta para Blayde, volta para sua época, porque isto nunca funcionará.

Seu olhar se tornou intenso e escrutinador. Era como se tentasse adivinhar seus pensamentos. Tabby compreendeu que estava lendo sua mente.

—Cometi um engano — acrescentou, desesperada. —Pensava que vinha de 1550, não de 1298!

—Não posso voltar — respondeu ele por fim. —Não tenho poder para saltar. Terá que me mandar de volta — sorria, tranquilo e crédulo. —Quando estiver preparado para partir.

 

Tabby estava segura de ter entendido mal.

—O que disse?

—Que não posso retornar.

Era uma brincadeira, verdade?

—Tem a mesma cara de quando decapitei Angel.

—Claro que pode voltar!

A expressão de Macleod se endureceu.

—Não tenho poder para saltar.

Tabby estava estupefata.

—É um Mestre do Tempo... não?

Ele cruzou os braços.

—Não tomei meus votos.

Ela começou a assustar-se.

—Por quê?

Macleod não se incomodou em responder.

E então ela o entendeu. Macleod não era um mortal comum, mas tampouco era um Mestre: não tinha feito seus votos. Seu feitiço invocou a um highlander medieval muito violento, poderoso e implacável, um guerreiro que podia matar com uma espada ou com uma descarga de poder sobrenatural. Um homem que não tinha muito respeito pela vida, nem, possivelmente, muita consciência.

Ali, em seu loft, havia um bárbaro com super poderes!

E não podia retornar a sua época. Teria que se encarregar dele.

Estudou seus olhos azuis, terrivelmente belos, e seu rosto igualmente bonito, mas também duro e ameaçador. Baixou o olhar. Seu traje de highlander não conseguia ocultar seu corpo duro e muito belo. Mas aquele corpo representava uma ameaça, porque a turvava imensamente.

Levantou o queixo.

—Quer que parta porque teme se deitar comigo.

—Me solte — disse, inquieta. Não queria provocá-lo, e tampouco queria seguir falando daquele assunto. Não desejava que a arrastasse à cama, e essa era sem dúvida sua intenção. —Como é possível que esteja acontecendo isto?

Ele não a soltou.

—Se quisesse te arrastar à cama pelo cabelo, já o teria feito.

Tabby o agarrou pelo pulso para protestar. Ao fazê-lo, ele a agarrou pela cintura com uma mão e a sensação de que a abraçava, de achar-se entre seus braços, foi perturbadora.

Por um instante, Tabby compreendeu que a tinha agarrado assim anteriormente. Nesse momento se viu de costas, agarrando-se a seus braços enquanto ele se movia sobre ela e a penetrava com um sorriso triunfal. Ela estava alcançando o clímax e ele a dominava... e gozava de seu êxtase.

Não, pensou, perplexa. Conseguiu soltar-se dele de algum modo. Estava imaginando que eram amantes. Aquilo não tinha acontecido em realidade. Ela jamais se deitaria com aquele homem medieval! Macleod era o oposto do seu tipo, era pior que Randall, mais poderoso, mais autoritário, mais macho. Não haveria amor, porque não podia havê-lo. Ela era muito intelectual para se prender a ele, o qual significava que não haveria sexo.

Mas entre eles ardia tanta paixão que Tabby via sua corrente vermelha e ardente flutuar no ar.

Ele sacudiu lentamente a cabeça.

—Acredito que quer que a arrastem à cama... e acredito que quer que seja eu quem o faça.

Tabby retrocedeu, tremendo.

—Engana-se, eu gosto dos homens ternos.

Ele começou a sorrir.

—Eu não acredito. Embora talvez você sim.

Enganava-se, mas Tabby não queria contrariá-lo. Passou um momento. A tensão fluía por seu corpo. Aquilo era insuportável. Mas ao mesmo tempo voltou a vê-lo como o tinha visto no museu, queimado e cheio de sangue, furioso e angustiado.

Ele cruzou os braços e a observou tranquilamente.

O que ela ia fazer? Macleod insinuou que não queria voltar. Tabby rezava por que não fosse porque primeiro queria seus favores. Seu encantamento saiu mal: o fez vir de um ano incorreto. Se tentava mandá-lo de retorno a seu lar, teria êxito?

De repente o imaginou aparecendo em meio de um baile da Regência, e os convidados fugindo entre gritos. Depois o viu lutando com braço quebrado com um leão no Coliseu romano. Estremeceu. Subitamente se achava no limite de suas emoções.

O homem que tinha passado por aquele incêndio era muito diferente ao homem que se achava ante ela. Vários séculos os separavam. O primeiro possivelmente a necessitaria algum dia, embora já não estava segura de estar à altura da tarefa. O homem que tinha frente a ela não a necessitava absolutamente. Mas estava ali por causa de seu feitiço.

E esteve vendo-a durante um século.

Tabby não queria tentar esclarecer aquilo. Dava-lhe muito medo.

—Por que quer ficar aqui? —perguntou com a boca seca.

—Desejo compreender seu mundo. E também ir a esse museu.

Tabby ficou pasmada.

—Você me levará ali — acrescentou ele taxativamente.

Tabby sabia que era uma ideia péssima. A polícia estava buscando-o e, embora se trocasse de roupa, estava segura de que seria impossível que passasse despercebido.

—Eu te salvei — acrescentou ele. —Salvei as crianças. Deve-me isso.

—Maldição — resmungou Tabby. —A polícia o quer morto!

—Não me dão medo seus soldados negros — lançou um olhar desdenhoso e se afastou dela.

Tabby se sentiu desfalecer, sentou-se em um tamborete, junto à bancada, e respirou fundo. Tinha-a salvado. Salvou as crianças. Estava em dívida com ele. Um cavalheiro não esperaria nada em troca, mas Macleod, naturalmente, não era um cavalheiro.

E era seu feitiço o que os tinha conduzido àquele beco sem saída. Era possível que ele estivesse preso em sua época muito mais tempo do que ambos desejavam. Tabby temia enviá-lo de volta, o qual significava que teria que ficar com ela algum tempo. E essa era a essência da questão, ia ter que acostumar-se à ideia.

—Necessitamos uma trégua — disse, ficando em pé.

Ele suspirou.

—Tem uns panos e água quente, por acaso?

Tabby olhou seu braço direito. A manga curta de seu espartilho e o braço, por cima do bíceps, estavam manchados de sangue.

—Não confio em você, mas não tenho poder suficiente para te mandar de volta a sua época, e até que descubramos como fazê-lo, devemos chegar a um acordo.

Ele sorriu sem vontade, mas não disse nada.

—Quero que me dê sua palavra de que vai me deixar em paz, de que não tentará me seduzir nem se colocar em minha cama enquanto eu estiver dormindo.

Macleod riu.

—Tabitha, antes que acabe esta noite estará gozando em meus braços.

Ela topou com um muro de tijolo.

—Minha resposta é não.

—Mas eu não te perguntei nada.

Tabby se perguntou se seria capaz de violá-la. Tinha decapitado Angel, talvez também costumasse forçar às mulheres. Mas assim que o pensou compreendeu que ele jamais usaria a força. Ignorava como sabia, mas assim era.

Ele disse com calma:

—Talvez seja um bárbaro, mas nunca forcei a uma mulher e não vou forçá-la. Não preciso usar a força. As mulheres me rogam compartilhar minha cama... todas elas, constantemente.

Sua presunção fez Tabby torcer o rosto. Não duvidava, entretanto, de que as mulheres medievais fizessem fila diante da porta de seu dormitório. De repente teve a certeza de que as fazia gozar. Não seriam tão coibidas quanto ela. Ela era a exceção, mas decidiu não dizer-lhe. Só confiava em que fosse um homem de palavra e, curiosamente, tinha a impressão de que era.

—Está bem — deixou escapar um suspiro audível. —Já me sinto melhor — era um exagero: certamente teria os nervos à flor de pele até que ele voltasse para Blayde.

—Me ajude com a ferida.

—Disse que não estava ferido — Tabby se alegrou da distração.

—Disse que não ia morrer. Uma bala de nada não pode me matar — flexionou o braço direito e fez uma careta.

Tabby não pôde evitar preocupar-se. Teria que esforçar-se por conservar a compostura. Macleod lhe tinha prometido comportar-se e, embora fosse quase imortal, tinha uma bala no braço.

Sente-se no sofá, vou limpar a ferida — entrou na cozinha e acrescentou: —Certamente tem fome. Logo te prepararei algo para comer — cozinhar sempre a relaxava, embora estava segura de que dessa vez não a relaxaria.

        Começou a reunir as coisas que necessitava para curá-lo, tentando não pensar. Não era fácil, porque era muito consciente de sua presença e do fato de que não podia retornar por si mesmo ao século XIII. Seu feitiço saiu muito mal. Possivelmente algum dia Sam e ela pudessem rir daquela situação, mas nesses momentos não tinha nem um pingo de graça. O que ia fazer com ele?

E onde ia dormir?

Talvez devesse mandá-lo a um hotel.

Retornou à sala de estar levando uma bandeja com ataduras, sabão, água e antisséptico.

—Sinto muito — forçou um sorriso. —Começamos com o pé esquerdo e é minha culpa, esqueci minhas boas maneiras, mas as circunstâncias eram muito difíceis.

Macleod a olhou com ceticismo.

Tabby se sentou no sofá, a certa distância dele. Desejava poder confiar e deixar de estar tão nervosa.

—Costumo ser muito educada. Até zombam de mim por isso. Nunca perco a compostura, nem os nervos — lhe lançou outro sorriso radiante.

Ele a observava com atenção.

Tabby voltou a sorrir, mas não o olhou. Inundou um pano em água quente, recordou-se que faria aquilo por qualquer ser humano. Mas o certo era que não gostava de estar tão perto dele. Seu corpo era muito grande, parecia muito dominante. E aquela visão de seus corpos entrelaçados na cama, como amantes, ficou gravada a fogo ao fundo de sua mente.

—Às vezes me canso das pessoas dizerem quão amável sou. Sempre me dizem que sou muito educada, muito doce, muito boa... e tão elegante! —o pano estava ensopado. Levantou-o e a água gotejou por todo o sofá. Por fim se atreveu a olhá-lo.

Mostrou-lhe o braço manchado de sangue.

—As damas francesas são muito elegantes — disse. —Usam joias e vestidos de veludo. Que roupas você usa?

Tabby se deu conta de que estava vestida com as calças de moletom e a camiseta suja e suada de uma menina de treze anos. Sentiu que ruborizava. Parecia um desastre.

        —Uma menina me emprestou essa roupa — disse lentamente. —Está suja — acrescentou desnecessariamente.

Tocou-lhe o cabelo. O prendera em um rabo de cavalo, mas tinha mechas soltas por toda parte.

—Sim. Cheira.

Tabby baixou o pano, envergonhada. Era verdade: sua roupa cheirava a escaninho de colégio. Estava claro que Macleod não a considerava muito elegante, e isso a turvava e a confundia.

Ensopou sua manga tentando não fixar-se em seu braço, consciente de seu olhar. Quando pôde, começou a afastar o tecido de sua pele com todo cuidado. Não queria machucá-lo... e tampouco queria tocá-lo.

Ao afastar o tecido, roçou sua pele com as pontas dos dedos e se deu conta de que ele tinha razão. Macleod a perturbava como nenhum outro homem. Ela temia seu próprio desejo... e era lógico que o temesse. Desejar a um desconhecido, a um homem medieval, era uma loucura.

Seu coração derrapava como um carro sobre gelo negro. Porque a excitava como nenhum outro homem? O que significava aquilo?

—Não vai me machucar, Tabitha — disse Macleod.

Tabby levantou os olhos.

—Seu braço deve estar doendo.

—Doía ontem à noite, antes que tirasse a bala. Mas agora quase não dói.

Tabby ficou quieta. Tirou a bala ele mesmo?

A boca de Macleod se curvou.

        —É fácil te impressionar.

Tabby olhou seus olhos fixos. Macleod tinha despertado sua compaixão. Não podia evitá-lo. Ele certamente não sentiu dor ao extrair a bala, mas ela odiava a ideia de que estivesse sozinho, fugindo, e tivesse tido que tirar uma bala do braço.

—Não tenho muita experiência com os homens. Embora estive casada, não saí com muitos.

Ele a olhou com surpresa.

—Esteve casada?

Tabby assentiu com a cabeça.

—Comporta-se como uma virgem.

Tabby baixou o pano, ofendida.

—Estou moldada à antiga. Sou muito conservadora. Às vezes eu gostaria de não ser, mas sou — recolheu o pano e começou a limpar o sangue e a sujeira da ferida de bala com certa brutalidade.

Sujeitou-lhe a mão.

—Não era minha intenção te insultar, Tabitha. Explique-me o que quer dizer com que está moldada à antiga. E isso de que é muito conservadora — disse em tom exigente.

Ela se afastou. Seu contato a queimava. Tomou cuidado de não olhá-lo.

—Não me deito com desconhecidos — disse. —Embora muitas mulheres de hoje em dia o façam.

Ele ficou calado.

Tabby seguiu limpando a ferida enquanto tentava concentrar-se. Falar já não lhe parecia boa ideia.

A pele que começava a aparecer parecia sã e rosada. Seus poderes de recuperação também eram sobrenaturais, claro. Ao ver que não dizia nada, Tabby levantou o olhar.

—Assim teme se deitar com qualquer homem — disse ele tranquilamente.

—Claro que não! —exclamou ela.

—Gozar é natural.

Tabby ficou olhando-o.

—Porque estamos falando outra vez deste assunto?

—Nunca conheci a uma mulher como você. Me teme, mas grita comigo, contraria-me e diz o que pensa. Outras mulheres me temem, mas não falam. Fogem de mim quando acabamos.

Tabby deixou o pano bruscamente e se levantou.

—Está-me dizendo que nenhuma vez teve uma conversa com uma mulher? Que todas as mulheres o temem?

—Sim, todas me temem e não me importa.

Tabby não acreditou, de repente pensou que estava terrivelmente sozinho. Ninguém podia sobreviver uma vida inteira sem a intimidade de um amante e do sexo oposto.

Ele se levantou e lhe estendeu os braços com expressão indolente e sensual.

—Tabitha, em minha cama não há necessidade de conversa.

Sua mão lhe queimava o pulso. Tabby tentou afastar-se e ele a soltou.

—Teremos que ficar juntos até que descubra o que podemos fazer. Mas tem que deixar de tentar me provocar — começava a zangar-se por fim. —E de me olhar como me olha — acrescentou energicamente. —Não nos está ajudando. Há tanta tensão aqui que não se pode respirar.

Ele pareceu surpreso por seu aborrecimento.

—Mas não tem por que estar tensa, Tabitha. É você quem escolhe estar.

Ela se negou a lhe fazer caso.

—Estou em dívida contigo e quero te ajudar, se posso — disse apressadamente. —Mas não como você quer. Não vou me deitar com você, nem agora nem nunca.

—Porque teme o sexo com todos os homens... ou só comigo?

Ela ruborizou. Macleod era um desconhecido. Não lhe devia nenhuma explicação, nem tinha por que lhe contar sua vida. Embora, por outro lado, se dizia que era a rainha dos orgasmos fingidos, possivelmente a deixasse em paz.

—Tabitha? Permita-me um conselho: jamais diga “jamais” a um homem.

Agora pretendia desafiá-la?

—Fizemos uma trégua.

Ele sacudiu a cabeça e disse:

—Preciso me banhar.

        Tabby ficou muito quieta, confiando em ter ouvido mal. De repente, imaginava-o vividamente na ducha.

—Cheiro a morte e a sangue.

Queria banhar-se, naturalmente: não era um cavernícola. Tabby pensou que nada estava saindo como desejava, mas ele era um macho alfa, assim pensava conseguir o que queria, é obvio.

—Suponho que não posso te negar um banho. É uma petição justa — manteve um tom leve, como se não lhe importasse, e evitou olhá-lo.

Macleod se banharia e ela, enquanto isso, prepararia comida suficiente para alimentar a todo um batalhão. Isso a ajudaria a relaxar. E logo teria que decidir onde ele ia passar a noite. Não podia ficar ali com ela. Isso estava claro.

Ligaria para Sam enquanto ele estivesse na ducha. Era hora de povoar o loft, e Sam podia lhe levar roupa. Sua irmã guardaria o segredo. Talvez o ajudasse a chegar a um hotel. Ou talvez chamasse Nick e deixasse que se ocupasse dele. Nick podia resolver seu dilema, pensou. Mas seu coração pareceu encolher-se ao pensá-lo.

—Não vou partir.

—Deixa de ler minha mente! —gritou ela. —Não me referia a te mandar a 1298. Referia-me a que saia daqui e passe a noite em outra parte... sozinho.

Ele cruzou os enormes braços.

Tabby encolheu outra vez o coração, mas essa vez de alarme.

—Não vai passar a noite aqui.

—Não confia em Nick.

Tabby sentiu desejos de amaldiçoar.

—Está claro que não está lendo bem o pensamento. Nick é um guerreiro e está de nosso lado. Luta contra os demônios e sempre vence.

—Crê que interferirá no Destino que compartilhamos.

—Nós não compartilhamos nenhum Destino!

—Crê que está destinada a me ajudar. Por isso apareceu ante meus olhos durante noventa e sete anos, me oferecendo auxílio.

Possivelmente ele tivesse razão, maldição.

—Não vou chamar Nick. Pode ficar em um hotel..., em uma estalagem.

—E quanto aos soldados negros? — falava com desdém, como se estivesse seguro de poder vencê-los.

Nesse momento, Tabby compreendeu que tinha ganhado.

—Quer saber por que não vou deixá-la sozinha?

Tabby o olhou com desalento.

—Não, a verdade.

Ele não fez conta.

—Necessita minha proteção.

Ela ficou pasmada.

—Eu não necessito proteção — logo se deu conta de que ele não entendia. —Macleod, este loft está fortificado com os feitiços de minha avó. Era uma bruxa muito poderosa. O mal nunca conseguiu entrar aqui. É chão sagrado. O que aconteceu esta manhã não se repetirá.

Ele sacudiu a cabeça.

—O mal te persegue.

Tabby sentiu um calafrio.

—O mal persegue a todo mundo. Destrói tudo o que pode.

—Não. Persegue a você, Tabitha Rose.

Tabby o olhou nos olhos e sustentou o olhar. Estava tão sério que ela começou a assustar-se.

—Porque diz isso? —perguntou lentamente. Mas começava a sentir-se insegura. —Era uma queima de bruxas. Acontece constantemente nesta cidade e nas grandes cidades de todo o país e de todo o mundo.

—Aqueles garotos te procuravam. Ouvi-os.

O estômago de Tabby gelou. Não podia ser verdade, porque o mal iria persegui-la?

Aqueles garotos conheciam seu nome, mas estava na porta da sala de aula. Entretanto, sua agressão tinha sido premeditada, porque desligaram os alarmes contra incêndios. Os atos de fé eram costumeiramente atos espontâneos, acontecidos ao azar. Normalmente, os sub-demônios atuavam em grandes grupos, exceto no crime da semana anterior, no qual se envolveram só três deles. Talvez a tentativa de queima em seu colégio fizesse parte de uma nova tendência... ou talvez não.

Mas por que o mal iria persegui-la?

Macleod se equivocava, conseguiu pensar. Ela não se converteu em alvo do mal. E, maldito fosse, agora ele pretendia ficar e passar a noite.

—Mostra-me onde está o banheiro.

Podiam passar toda a noite discutindo sobre as intenções daqueles sub-demônios sem chegar a nenhuma conclusão, pensou Tabby. Estava claro que ele pensava ficar ali para protegê-la.

—Está bem. Você ganhou. Embora suponha que sempre ganha, não?

A expressão de Macleod não mudou.

Tabby apertou os punhos.

—Pode ficar, mas só esta noite, e dormirá aqui, no sofá — assinalou com mão tremente. —Sozinho.

Ele murmurou:

—Então deixa de pensar em mim nu.

Não ocorreu uma resposta adequada. Aproximou-se com passo enérgico do armário de roupa branca, retornou e lhe pôs um montão de toalhas nos braços. Sua mente oscilava constantemente entre a teoria de Macleod de que se converteu em alvo do mal, e a ducha que ele estava a ponto de tomar. E na noite que os esperava. Prometia ser interminável.

—O banheiro está ao final do corredor.

Macleod se afastou. Tabby sentiu que seu corpo estalava inexplicavelmente, orgulhava-se de seu intelecto. Um doutor em filosofia a excitava muito mais que um montão de músculos. Suas amigas fantasiavam por atores como Brad Pitt e Colin Farrell; ela, pelo contrário, adorava Tony Blair ou Mark Steyn. Preferia passar a tarde em uma exposição que na cama com um namorado, fingindo ser o que não era.

Aquele homem, entretanto, a deixava nervosa e a alterava. E o que era pior, fazia que seu corpo ganhasse vida como nunca antes, de um modo que nem sequer queria reconhecer. Mas Macleod era uma reinvidicação de sexo andante. Talvez todas as mulheres ficassem loucas por ele. Disso se tratava, provavelmente.

Abriu a geladeira e voltou a fechá-la. O que estaria fazendo Macleod ali dentro? Sabia abrir o registro ou ajustar a temperatura da água? Tabby grunhiu e resmungou uma maldição. Ficou olhando a cebola picada, esperando que seus olhos lacrimejassem. Teria tirado a roupa?

Notou que suas pernas tremiam. Todos aqueles pontos onde de repente notava palpitar seu pulso pareciam arder. Não devia entrar no banheiro para ajudá-lo!

Prestou atenção, mas não ouviu o barulho da ducha.

Seu coração pulsava com tanta força que pensou que ia sair do peito. De repente se deu conta de que já estava a meio caminho do banheiro, deu-se por vencida. Aparentemente, era incapaz de dominar-se. Mas só ia ajudá-lo, repetia a si mesma.

A porta do banheiro estava aberta.

Tabby se deteve. Ele estava dentro, completamente vestido... e ela levou uma tremenda desilusão. De costas a ela, Macleod olhava no espelho de cima do lavabo. Seus olhos se encontraram no espelho.

Os dele tinham um olhar preguiçoso e indolente, apaixonado e sensual, que prometia todo tipo de deleites terrestres.

Tabby conseguiu dizer:

—Vim abrir os registros... nada mais.

Pela extremidade do olho viu que suas mãos se moviam, estava tirando o manto que usava. Sorria, sagaz.

Tabby sabia que devia partir. Não, que devia fugir a toda pressa. Nenhuma mulher decente ficaria ali enquanto Macleod se despia. Mas não se moveu.

O manto caiu de seus largos ombros e ele o dobrou e o deixou junto às espadas que tinha colocado sobre a penteadeira antes que ela chegasse. Suas mãos se moveram para o grosso cinturão de couro que usava em cima do espartilho. Tabby não podia levantar o olhar. Tinha os olhos cravados no reflexo de suas mãos fortes e cobertas de cicatrizes. Ardiam-lhe a rosto e o corpo. Sob as mãos de Macleod, a saia estava tensa. Tabby não podia respirar.

Ele deixou escapar um som suave e o cinturão foi parar junto ao manto e as espadas, sobre a penteadeira.

Ela olhou aquelas coisas e logo o olhou, fez-se um denso silêncio. Tabby sabia que era hora de partir.

—Eu nunca arrasto às mulheres a minha cama. Vêm por própria vontade.

Naturalmente.

Seus olhos de cor azul escura estavam tão turvados pelo desejo que eram da cor do céu das Terras Altas de noite: negros e púrpuras. Virou-se lentamente para olhá-la.

Tabby respirava agitadamente, consciente de que uma quente destilação escorregava pela face interna de suas coxas. A tensão se tornou insuportável. Mal podia pensar.

Como iria? Como ia ficar?

Porque tinha que excitá-la tanto aquele homem?

—Agrado aos homens porque sou elegante — disse com voz áspera. —Mas agora pareço um desastre. Não o entendo.

O olhar de Macleod se fez mais intenso.

—Em minha cama, não tem que ser quem não é.

Ela respirou fundo.

—Não. Em realidade, não me atrai o sexo.

Ele sorriu como se soubesse algo que ela ignorava.

—Sou muito difícil de agradar.

—Eu não acredito — respondeu ele brandamente.

Aproximou as mãos ao decote em V de seu espartilho. Tabby olhou as mãos e seu coração se deteve. O espartilho caiu ao chão.

Seu corpo estalou. Olhou seu peito escultural, seus abdominais... e o que havia debaixo.

Ficou quieta. Seu membro era enorme e duro.

—Ainda desejas partir? — murmurou ele.

Medieval ou não, era o homem mais sexy sobre a face da terra.

Possivelmente Macleod tivesse razão. Possivelmente não tivesse que fingir ser a mulher que não era na cama. Possivelmente não tivesse que fingir para agradar seu companheiro. Possivelmente seus hormônios tomassem o controle e conseguisse o que queria.

Por fim levantou o olhar. Queria olhá-lo nos olhos, mas seu corpo se refletia em todos os espelhos do banheiro. Seu belo rosto e seu corpo robusto estavam por toda parte.

Ela o desejava. Nunca havia se sentido assim. Seu corpo era um molho de carne inchada e palpitante. Mas não o amava nem o amaria nunca. Era uma mulher liberada. Dando-se por vencida nesse momento, seria o ato mais sórdido de sua vida... e se odiaria pela manhã.

—Eu não acredito — murmurou ele. —Pela manhã estará muito satisfeita.

Ele continuava lendo sua mente.

—Não — murmurou Tabby, mas tinha a horrível sensação de que talvez Macleod tivesse razão.

Ele estirou o braço bruscamente, puxou-a pela mão e a atraiu para si.

 

Tabby deixou escapar um grito ao achar-se entre seus braços. Macleod estava nu e ela vestida, e sentia cada centímetro de seu enorme e duro corpo apertado contra o seu. Seu poder, sua virilidade, seu ardor a faziam sentir-se fraca e aturdida. Apoiou as mãos sobre seu peito instintivamente e, ao fazê-lo, ficou quieta e cedeu por fim.

As mãos de Macleod se fecharam sobre sua cintura e a apertaram contra seu corpo.

—Não se arrependerá — disse asperamente.

Seu membro se apertava contra ela. Tabby sentiu que se esfregava contra ele. Sufocou um grito e olhou seus olhos abrasadores. Como podia estar fazendo aquilo? Mas agora tremia incontrolavelmente. Cada fibra de seu corpo exigia uma descarga de prazer. Em lugar de protestar, deslizou as mãos sobre seu peito, até seus ombros, e cravou as unhas em sua carne. Ele esboçou um sorriso triunfal.

—Maldição — disse ela, respirando agitadamente, agarrou-se a seus ombros e o abraçou com ferocidade ao mesmo tempo em que deslizava a coxa sobre a de Macleod.

Ele riu. Foi uma risada arrogante e triunfal. Não lhe importou. Agarrada a ele, tentou subir por seu corpo sem dar-se conta do que fazia. Quando por fim o compreendeu, ficou horrorizada. Seu corpo, entretanto, estava decidido a cavalgar Macleod.

Rodeou com a perna seu quadril e lhe afundou as unhas. Ao fazê-lo, os olhos de ambos se encontraram.

Ele a agarrou pelo cabelo, usando-o como uma correia, e lhe jogou a cabeça para trás. Logo a fez virar-se até que suas costas se chocaram com a porta. Introduziu sua enorme coxa entre as dela e Tabby gemeu, palpitando grosseiramente sobre seu corpo. Sem soltar seu cabelo, Macleod a segurou para que não se movesse, apertando-a com a perna, e se apoderou de sua boca.

Seus lábios eram duros e agressivos, possessivos. Obrigou-a a abrir a boca, devorou-a e introduziu logo a língua até o fundo. Tabby sentiu que todos aqueles pontos onde sentia palpitar seu pulso estalavam, e se rendeu. Deixou que a beijasse tão forte que certamente estava lhe fazendo sangrar. Mas não se importou, achava-se em meio de um torvelinho e girava para aquele abismo que normalmente lhe escapava enquanto tremia em seus braços e o sangue rugia em suas veias, em seu cérebro. Cada palmo de seu corpo estava em chamas. Agarrada a ele, suplicou-lhe:

—Deus, apresse-se.

Baixou-lhe as calças de moletom e lhe arrancou as calcinhas. Levantou sua perna com uma mão e introduziu dentro dela seu enorme membro palpitante. Logo se deteve.

Tabby gemia. A grande onda do êxtase tinha começado. Ele se esticava dentro dela, enchendo-a por completo, quase dolorosamente, tanto que Tabby não podia mover-se. Era muito. Ele era muito. Não se movia, mas Tabby o sentia palpitar dentro de si, sentia cada gota de sangue quente rugir em seu pênis, dentro dela. Era vagamente consciente de que Macleod a olhava, mas não lhe importava. Estava a ponto de se fazer em pedaços e queria chegar àquele ponto. Nunca desejou nada tanto assim.

Ele começou a mover-se devagar, sensualmente, uma, duas, três vezes.

Tabby estalou, fez-se pedacinhos, segurando-se a ele, enquanto Macleod a penetrava com força, brutalmente, e ela o arranhava exigindo mais. Soluçava, presa de um prazer que acreditava impossível. Suas costas se chocaram com o duro chão. Ele ficou quieto de repente, fundo nela.

Tabby seguia girando em um torvelinho. Seu orgasmo parecia interminável. Depois, ele se afastou.

—Tabitha...

Tabby demorou um momento em dar-se conta de que algo ia mal. Abriu os olhos, recuperou ligeiramente a coerência e olhou Macleod, nu e muito belo, sobre ela. “O que está fazendo?”, perguntou-se.

—O que faz? —gemeu fracamente. —Volta aqui! — ao agarrá-lo pelo braço, deu-se conta de que estava tocando a campainha.

O olhar de Macleod se tornou frio.

—Seu marido.

Sua voz soou como água gelada. A loucura se dissipou de repente. Randall havia retornado? Tabby ficou olhando-o, atônita.

—Tem chaves — murmurou Macleod, que de repente parecia extremamente satisfeito.

E Tabby ouviu girar a fechadura.

 

—Fecha a porta — disse Nick.

Sam a fechou.

—Como está sua irmã? —perguntou ele.

—Alterada. Mas como não estará?

—Teve muita sorte — comentou Nick. —Imagine: que apareça um highlander bem a tempo.

Sam o olhou com o cenho franzido. Nick sabia que estava zangada.

—Chegou a alguma conclusão?

—O que você acredita?

Nick ficou olhando-a. Em setembro, ao saltar no tempo com Sam, encontraram Tabby e seu marido. Tabitha estava vivendo no passado há mais de duzentos anos. Era seu Destino voltar, e era muito fácil chegar à conclusão de que o homem com o que devia partir ao passado chegou por fim à cidade para procurá-la. Isso explicaria sua súbita aparição, tanto na Grande Maçã[1] como no colégio.

—Se esse highlander for seu marido, não haverá forma de pará-los.

—Sei.

—Dá impressão de que vai perder sua melhor amiga.

O rosto de Sam ficou tão tenso que Nick teve a impressão de que ia rachar sua pele.

—Se for Macleod, vou perder a minha melhor amiga — logo deu de ombros e forçou um sorriso. —Luto melhor sozinha. Não terei que me preocupar com Tabby, nem de que seus feitiços saiam mal.

—Tolices. Além disso, não está sozinha, pequena.

Ela o olhou aos olhos.

—Não se incomode em se compadecer de mim. Eu gosto de estar sozinha.

Nick gostou de vê-la assim; era melhor que vê-la entristecida por sua irmã, que cedo ou tarde retrocederia no tempo.

—Porque não? Você se compadece de si mesma e dos animais.

—Que se lixem, Forrester — replicou Sam. E, dando meia volta, agarrou o trinco da porta.

—O que acha de Kristin Lafarge? —perguntou ele às suas costas.

Ela abriu a porta, fechou-a e o olhou de frente.

—É má. Mas também é a metade da cidade, e essa mulher não é demoníaca.

—Seriamente? Não estou seguro de que seja humana.

—Ou é ou não é.

—Sim? Estou há muito tempo na UCH, Sam, e vi um montão de entidades estranhas e loucas. De entidades... e de coisas.

Sam ficou pensando.

—O que quer fazer? Hoje era o primeiro dia de Lafarge no colégio. Os alarmes contra incêndios estavam desconectados antes que esses garotos prendessem Tabby e as crianças. Sabiam seu nome. Estava tudo planejado. E as queimas nunca são planejadas.

Nick já tinha chegado à mesma conclusão.

—Porque crê que esses sub-demônios atacaram a sua irmã?

—Não sei. Crê que a estão perseguindo?

—Macleod a protegerá... se for Macleod. E acredito que é muito possível que a estejam perseguindo, mas não simples sub-demônios sem cérebro.

Sam ficou olhando-o.

—Já sabe, pelo que sabemos de minha irmã, que poderia estar perseguindo-a quase qualquer coisa e de qualquer época.

—Sim. Agora mesmo é um alvo fácil. Porque não tem nem ideia de que sua vida ensinando a crianças pequenas em Manhattan está a ponto de mudar drasticamente.

—Porque não faço vir Lafarge? —disse Sam, furiosa. Enquanto falava, alguém bateu na porta de Nick. —Não me importaria lhe apertar um pouco as porcas.

Nick sentiu Kit do lado de fora e lhe disse que entrasse. Enquanto ela entrava, disse a Sam:

—Vamos esperar um pouco, a ver se podemos utilizá-la. Mas com cuidado. A seguiremos vinte e quatro horas ao dia — disse. —A deixaremos tranquila, para ver aonde nos leva.

—Está bem — disse Sam, e sorriu com acritude. —Você manda.

Nick gostou que o reconhecesse, porque quando estava cumprindo alguma missão, Sam costumava ignorar suas ordens explícitas. Mas tinha muito instinto e, de momento, tinha conseguido evitar sua ira.

Nick olhou Kit, que estava vestida com calças negras, pulôver de pescoço alto negro e botas da mesma cor. Usava, como sempre, o cabelo escuro preso em um rabo de cavalo. Era muito branca, e inclusive sem maquiagem estava muito bonita. Trazia debaixo do braço umas fotografias ampliadas.

—Chefe, encontrei algo muito estranho.

Ele esboçou um sorriso.

—A vida é muito estranha.

—Não, a sério, isto é muito estranho, estive revisando os vídeos do ato de fé da semana passada, o da Oitenta e um com a Madison — disse ela.

Nick sabia a qual se referia.

—E?

—Encontrei alguém... ou algo. Havia algo ali, durante a queima. Aparece como uma sombra pequena e cinza. Ampliei-o e a sombra se aumenta. É do tamanho de uma pessoa. Quando ampliei seu centro, vi dois olhos e uma boca. Uns olhos e uma boca humanos — seus olhos verdes se dilataram.

Sam se aproximou.

        —Os demônios não aparecem em nenhum tipo de gravação, exceto como sombras negras, que nós saibamos. Se distinguiu seus traços, não era um demônio.

Nick sentiu um calafrio.

—E essas fotos?

—Introduzi-as no Big Mama para ver se nos dava um retrato robô — Kit fez uma careta. —Mas ficou criativa e me deu um milhão de rostos possíveis.

Big Mama era o supercomputador da agência.

Sam disse:

—Com o filme que estamos utilizando, os fantasmas aparecem muito nitidamente. Se for um fantasma, verá toda a cara e o corpo, embora transparentes — isso se devia a que os fantasmas eram a energia de seres humanos mortos, e tentavam voltar a deslizar-se em suas formas e vidas humanas.

—Sei — disse Kit. —Vi fantasmas de vez em quando, e não só em fotografia. São geniais.

Nick sabia que se referia a sua irmã morta. Tinha-a surpreendido falando com Kelly algumas vezes. Ainda estremecido, disse:

—Vejamos essas fotos — mas sabia já o que ia encontrar.

Kit lhe mostrou a primeira fotografia e Sam se inclinou para olhá-la.

—E bem? Não é humano, nem um fantasma. Mas tampouco é um demônio. Nem um sub-demônio. Os sub-demônios projetam sombras sem sol. Que diabos é isso?

Nick olhava aqueles olhos malévolos que lhe devolviam o olhar. Inclusive em papel pareciam cheios de ódio e energia.

—Sim, é um fantasma — disse. —Mas não um fantasma humano. Justo o que nos faltava: um demônio que se esqueceu de dizer adeus.

 

        Tabby se incorporou bruscamente, desalentada. Nesse preciso momento se deu conta de que estava meio nua no chão do banheiro e de que acabava de manter relações sexuais com um estranho. Não, com um bárbaro medieval. A impressão a deixou paralisada.

Macleod se levantou e estava prendendo tranquilamente o manto ao redor da cintura. Parecia muito satisfeito de si mesmo.

O que tinha feito?, perguntava-se Tabby.

—Tabby?

Randall tinha entrado. Estava na sala de estar. Tabby se arrepiou, levantou-se de um salto e vestiu as calças de moletom em tempo recorde.

—Não saia do banheiro — sussurrou, furiosa.

—Não vou me esconder de seu marido.

Tabby se ergueu, incrédula. Macleod parecia muito tranquilo, mas seus olhos tinham um brilho perigoso. Tabby respirou fundo. Não sairia nada bom de um encontro entre Randall e Macleod.

—Espera aqui — lhe disse.

—Por quê? — perguntou ele. —Não quer que seu marido te veja com um homem meio nu? —seus olhos pareciam muito escuros. —Acreditava que era viúva, Tabitha. Não sabia que seu marido continuava vivo.

Tabby se alarmou ainda mais.

—Em minha época, as mulheres podem divorciar-se de seus maridos e vice-versa. Tenho que sair e quero que espere aqui.

Ele sorriu, zombador.

—O ama, Tabitha? —perguntou brandamente. —Nunca transou com alguém a quem não ama, até agora. Devia amá-lo. Se não, teria evitado sua cama.

Sabia tudo sobre ela? Tabby estava perplexa.

—Ainda o ama?

Macleod não estava falando em voz baixa.

—Se cale — resmungou ela.

—Por quê? O que te importa que a veja com seu amante?

Ela tremeu, furiosa e angustiada.

—Fique aqui, maldição! Estou te pedindo que não saia!

—Tabby?

Ela ouviu que Randall se dirigia para o banheiro. Saiu correndo dele e fechou de repente a porta no momento em que Randall dobrava a esquina da sala de estar, deteve-se ao vê-la e seus olhos se aumentaram.

Tabby sentiu que ficava corada. Manteve relações sexuais no chão do banheiro, notava-se que acabava de ter um orgasmo imenso, quase infinito? Notou que se ruborizava ainda mais.

—Está bem? Acabo de ver as notícias da noite — Randall se aproximou dela apressadamente.

Tabby seguia sentindo a presença de Macleod no banheiro.

—Surpreende-me que se importe — começou a dizer, de repente se deu conta de que seu ex-marido tinha entrado em sua casa usando suas chaves, pela segunda vez.

Randall se aproximou dela e a estreitou em seus braços. Ela tentou afastar-se.

—Tem uma expressão ruim — disse ele. —E claro que me importa — mas as palavras mal tinham saído de sua boca quando ficou rígido... no preciso momento em que Tabby ouvia abrir a porta do banheiro.

Ficou tensa enquanto Randall a soltava, havia ficado pálido pela impressão.

—Que demônios...?

—Hallo, a Rhandaill.

Tabby se girou, sufocando um grunhido. Macleod estava ali, sorridente, com o manto envolto ao redor da cintura. Randall abriu os olhos de par em par.

—Meu deus — disse. —Não posso acreditar.

Tabby não tinha por que lhe dar explicações, mas se ruborizou de vergonha.

—Não é exatamente o que pensa — balbuciou. Mas era exatamente o que estava pensando. O que aconteceu com Tabby Rose conservadora e moldada à antiga?

Randall a olhava com incredulidade.

—É isso que anda fazendo? Transar com um bombado analfabeto?

Tabby cobriu o rosto com as mãos. Não tinha nenhuma explicação razoável.

—Minha vida privada não é da sua conta. Acabamos faz quase dois anos. Posso me deitar com quem quiser — ele abriu ainda mais os olhos. Tabby tremeu, assombrada de sua própria dureza. —Não pode entrar aqui à sua vontade, Randall. E não pode insultar Macleod — curiosamente, aquilo era o que mais a incomodava.

—O que acaba de me chamar? —perguntou Macleod muito suavemente, sem afastar o olhar de seu ex-marido.

Randall se voltou e se fixou em seu corpo quase nu.

—Te chamei de pedaço de analfabeto.

—Não ligue, Macleod! —exclamou Tabby.

Mas Macleod agarrou Randall e o lançou ao outro lado da sala.

—Por menos que isso matei a muitos.

—Macleod! —gritou Tabby, angustiada.

Randall caiu ao chão e Macleod se abateu sobre ele.

—Sua mulher já não quer mais nada com você, me dê as chaves.

Randall se levantou precipitadamente.

—Entende o que digo? —perguntou Macleod brandamente.

Randall ficou avermelhado e lhe lançou o jogo de chaves de Tabby. Logo começou a retroceder.

—Não posso acreditar — olhou a Tabby. —Eu quero voltar a me casar com você e você está se atirando a este caipira? — olhou Macleod. —Vou te denunciar por agressão, amigo!

Macleod torceu a boca e agarrou Randall pelo ombro.

—Tabitha não cometerá a idiotice de voltar a casar-se contigo. Quer que parta. E eu também. Vá antes que te corte o pescoço e atire seu cadáver aos cães.

—Randall, será melhor que vá — gemeu Tabby.

—Minha mãe — disse Randall. —É um psicopata! Diz a sério!

Tabby assentiu, desesperada.

—Sim, acredito que o diz a sério.

—Então você também está louca — gritou Randall. —É uma louca e uma puta mentirosa!

Macleod avermelhou. Tabby demorou um momento em dar-se conta de que estava furioso, e então já tinham começado a estalar as lâmpadas, as panelas e as frigideiras tilintavam e as cortinas se agitavam sobre as janelas. Macleod empurrou Randall para a porta tão violentamente que voltou a cair ao chão de bruços. Tabby gritou:

—Basta, Macleod!

—Importa-me muito pouco que este afeminado me insulte — respondeu Macleod. —Mas não acredito que você mereça suas calúnias, Tabitha.

—Não me incomodam — disse ela, mentindo.

—Está louco — disse Randall enquanto se levantava, muito pálido. Saía-lhe sangue do nariz quando correu para a porta. —Os esteroides o tornaram louco!

—O que quer dizer com isso? —perguntou Macleod.

Aquilo ia de mal em pior, pensou Tabby, cheia de pânico. Agarrou Macleod pelo braço e o sujeitou com todas suas forças.

—Não importa! Ele vai embora, Macleod. Deixa que parta.

—Quero dizer que essa merda que toma para inchar seus músculos está derretendo o seu cérebro — lhe espetou Randall. —Talvez Tabby goste de se deitar com você, mas o que de verdade a excita é a inteligência. Sabe ler sequer?

—Não, por favor — soluçou Tabby.

Macleod se separou dela e começou a cruzar a sala lentamente, como um grande felino espreitando a sua presa.

—Só em latim — respondeu. —E Randall..., comigo não precisa fingir.

Randall demorou um momento em compreender.

—O que? — disse, voltando-se para olhá-la com incredulidade.

Tabby sentiu que lhe ardiam as bochechas e não respondeu.

Randall se engasgou ao compreender que não tinha sido sincera com ele na cama.

Macleod quase tinha chegado à porta. Randall a abriu e saiu correndo. Nem sequer esperou o elevador: correu desesperado para as escadas e desapareceu por elas.

Macleod se pôs a rir.

—Pequeno afeminado! Que covarde!

Tabby retrocedeu e se deixou cair em uma cadeira junto ao sofá. Cobriu o rosto com as mãos. Sentia lástima por Randall. Mas ele a chamou de “puta mentirosa”.

Ouviu fechar a porta. Sentiu que Macleod se aproximava, embora não o ouviu: caminhava sem fazer ruído. Por entre os dedos, viu-o lhe entregar as chaves.

—Vai — sussurrou. Tinha a mente em branco e queria que seguisse assim. Estava segura de que ao cabo de um momento começaria a pensar em tudo o que aconteceu nos últimos quinze minutos.

Ele não se moveu.

—Queria que partisse.

De repente lhe doía horrivelmente a cabeça. “Não pense”, suplicou a si mesma. “Vai dormir e pensa nisto manhã”.

—Despreza-o. Tratou você muito mal quando foi sua esposa. Queria que se fosse — disse Macleod bruscamente.

Tabby levantou o olhar.

—Está bem. Queria que se fosse. Mas não assim.

—Como, então?

—Ia pedir educadamente! —gritou Tabby.

        Os olhos do Macleod se aumentaram.

        Tabby cobriu a boca com as mãos. O que tinha ocorrido naquele banheiro?

        Macleod a tocou e ela se tornou louca. Uma só carícia, o tato de suas mãos, e se pôs frenética, de repente teve um orgasmo violento. Sempre lhe custava horas alcançar o clímax, normalmente durante um encontro sexual suave e considerado, enfeitado com uma fantasia muito íntima.

O que ia fazer?

Macleod disse:

—Não te respeita e não teria partido, se o tivesse pedido educadamente.

Tabby se levantou e sentiu que as pernas não a sustentavam. Macleod estendeu os braços e a segurou. Ela o separou com um tapa, tão forte que machucou o pulso. Macleod afastou as mãos e a olhou com assombro.

—Tratou-o mal. Colocou-se grosseiro e violento. Comportou-se como um valentão!

Ele ficou calado, mas seus olhos brilhavam, cheios de desagrado. Logo disse:

—Não me agradou muito. Chamou você de “puta”.

Tabby estava perto do pranto. A lembrança de seu muito breve encontro no banheiro desfilava uma e outra vez por sua cabeça. Tinha tentado subir por seu corpo! Cravou as unhas nos seus ombros! Devia ter pele sob as unhas. E não havia suplicado? O que lhe estava passando?

—Do que me tenha chamado não importa. É um bruto..., um selvagem!

Macleod cruzou os braços com o rosto crispado.

—Há um momento você gostava.

Tabby lhe deu uma bofetada com todas suas forças.

Ele não se alterou. Seus olhos aumentaram e logo se entreabriram.

Tabby mal podia acreditar que o tivesse esbofeteado. Nunca bateu em ninguém. Mas não recuou.

—A violência faz parte de sua vida. Entendo-o. Mas aqui, em minha época, em minha casa, não maltratamos a nossos convidados.

Ele soltou um bufo de desdém.

—Assim pensa tratá-lo como um convidado, embora te insulte?

—Isso! —gritou ela. Tinha o estômago revolto, por que não o entendia? A resgatou, não podiam ser amigos, nem muito menos amantes. Seus valores eram muito distintos. Ele vivia a golpe de espada, e ela utilizava a magia para ajudar aos outros. Mas acabava de transar com ele no chão do banheiro. E não conseguia esquecê-lo. Jamais o esqueceria! E não por vergonha ou má consciência, mas sim por assombro, mostrou-se desinibida e apaixonada. Tinha tomado, em lugar de dar. Quanto mais o recordava, mais se desanimava... e mais se agitava seu corpo. Custava-lhe respirar!

—Se fosse um homem, a mataria por isso.

Tabby se abraçou, olhando-o.

—Então tenho sorte, não? Parte. Preciso estar sozinha.

—Randall não te importa. Já nem sequer gosta dele.

—Vai. Vai longe daqui! —gritou ela.

—Não te respeita. Quer te utilizar para seus próprios fins.

Nisso tinha razão.

—E você me respeita? —perguntou. —Porque acredito que faz uns minutos me usou.

Ouviu-o exalar com força.

—Utilizamos um ao outro — disse ele. —Você me desejava e eu a desejava. É natural. Eu a fiz gozar — acrescentou. —E desfrutei de seu prazer.

Tabby sentia desejos de esbofeteá-lo outra vez. Mas Macleod tinha razão: foi mútuo. Olhou-o furiosa, e lhe sustentou o olhar sem alterar-se. A lembrança de seu encontro fazia difícil pensar. Mas de uma coisa estava segura:

—Isto não funcionará.

Ele levantou as sobrancelhas. Logo sua expressão mudou: de repente voltou a ficar fria e especulativa.

—Não funcionará! —repetiu ela, assinalando-o com o dedo.

Ele fechou os punhos e disse:

—Disse que em sua época muitas mulheres gozam quando o desejam. Agora é como a maioria.

        —Eu não sou como outras mulheres. Sou uma dissimulada e, se não tem ideia a que me refiro, só tem que me olhar.

ma expressão de desconcerto cruzou o rosto de Macleod, mas a Tabby não importou. Voltou a assinalá-lo.

—Sinto tê-lo trazido aqui com meu feitiço. Saiu errado, supunha-se que tinha que vir desde An Tùir-Tara, cheio de sangue e de queimaduras, para que pudesse te ajudar. E, em lugar disso, apresenta-se aqui como um guerreiro sem alma, nem consciência — não podia controlar seu tom. Certamente estava histérica, mas não se importava. —Não sei por que tive que vê-lo no museu, maldição. Não sei por que acredita que me viu durante cem anos. E tampouco me importa — se deteve, ofegante.

—Sim que se importa.

—Não, não me importa! De fato, amanhã penso te mandar a Blayde, assim é melhor que rezemos os dois para que volte para lugar de onde veio.

Ele cruzou os braços e a olhou com frieza.

—Uma ova!

Tabby ficou calada por fim. Seus olhares se encontraram.

—Alguém tem que te proteger.

—Você, não. Disso pode encarregar-se minha irmã.

Macleod a olhou com desdém.

—Uma mulher? Não acredito.

—Sam é uma guerreira. Não pode ficar aqui. Este não é lugar para você. Isso é evidente.

—Ficarei até que vença ao mal que se esconde detrás desses garotos.

—Merda! —gritou Tabby. Macleod não ia dar o braço a torcer. Ela nem sequer sabia se poderia mandá-lo ao passado. Suspeitava que, se ele se negasse a partir, poderia resistir a qualquer encantamento que lançasse. —Não fez os votos sagrados, e agora, de repente, é um protetor?

—É a mulher que compartilha minha cama.

Ela inalou tão bruscamente que lhe doeram as costelas. Viu seu rosto tenso quando se abateu sobre ela e, pousando as mãos sobre seu cabelo, a segurou para beijá-la como jamais a beijaram.

Pensava continuar com aquilo.

O que ela iria fazer?

Recordou uma imagem atrás de outra, brutalmente eróticas. Seu corpo enorme afundando-se no dela. Ela apoiada contra a porta e logo sobre o duro chão. E, depois, um êxtase incrível...

Ardia-lhe tanto o sangue que acreditou que sua pele começaria a fumegar. Engoliu saliva.

—Pertencemos a mundos diferentes — disse lentamente. —O seu é violento e selvagem. Muito violento e selvagem para mim. Estar juntos não tem sentido. Não o vê?

—Eu vivo a golpe de espada... e sou um homem de palavra, Tabitha. Se não destruir a meus inimigos, eles me destruirão — seu olhar era duro, mas também inquisitivo.

—Sei. E disso se trata precisamente: nossos mundos são muito diferentes — virou bruscamente, dando-lhe as costas, e estendeu a mão para a porta do quarto. Seus olhos começaram a encher de lágrimas. Não sabia por que estava tão triste. Não sabia por que tinha vontade de aconchegar-se e chorar. Rezava para que Macleod não a seguisse. Temia o que poderia ocorrer se o fazia.

        —Nossos mundos não são tão diferentes como quer acreditar.

Seu tom era íntimo e sedutor. Tabby entrou precipitadamente em seu dormitório e fechou a porta de repente. Estava tremendo. Macleod se enganava. Ela tinha razão! Logo cobriu o rosto com as mãos e se deixou levar pelo cansaço e o desespero. Sentia a cabeça a ponto de estourar.

Macleod e ela não compartilhavam nenhum Destino. Era um engano, uma espécie de brincadeira celestial. Tinha que sê-lo.

Quanto antes ele retornasse a 1298, melhor.

Não tinham nada em comum, exceto a guerra contra o mal.

Mas e o desejo que se agitava entre eles?

Talvez, só talvez, fosse uma anomalia surpreendente, um fato único em sua vida que não voltaria a repetir-se, um acontecimento isolado do terrível trauma que sofreu essa manhã.

Tabby sentiu que suas lágrimas começavam a cair. Queria ser aquela mulher apaixonada, mas não com um homem medieval que decapitava a seus inimigos à vontade. Aproximou-se da cama cambaleando e se deixou cair sobre o edredom. Estava tão cansada que não podia mover-se, nem sequer para entrar sob os lençóis, embora soubesse que não poderia dormir.

Porque agora, em lugar de vê-lo golpeando Randall ou decapitando Angel, via-o no banheiro, nu, impudico e perfeito.

Sentiu desejo de gemer. A atração que sentia por ele não mudou, e não sabia o que fazer a respeito. De repente se perguntou se poderia experimentar de novo aquele êxtase apenas pensando nele e no que lhe fez. Ruborizou-se.

A porta de seu dormitório abriu bruscamente.

Macleod estava escutando-a. Tabby ficou muito quieta. Seu corpo de repente em chamas. Ele ia abordá-la de novo, e ela certamente permitiria.

Mas Macleod se ajoelhou junto à cama e lhe tapou a boca.

Tabby ficou tensa, alarmada.

—Não se mova — sussurrou Macleod. —O mal — disse.

 

Tabby o olhou, assustada.

Macleod afastou a mão e inclinou sobre ela.

—O mal está perto e tenta entrar.

Seu fôlego acariciou Tabby. Ela se sentou, impressionada.

—Aqui? —era impossível. O loft estava fortificado com os poderosos encantamentos de sua avó. O mal nunca tinha entrado ali. Tabby olhou lentamente para a sala de estar.

Ele deixou as luzes acesas. Tabby só via parcialmente a cozinha. Desenvolveu-se um sexto sentido para perceber a maldade, não estava se manifestando nesse momento, porque tudo parecia normal.

Olhou Macleod.

—Está seguro?

Ele estava agachado junto à cama, com a mão sobre o colchão, junto a seu quadril. Assentiu com a cabeça. Seus braços se tocaram, pele com pele. O corpo de Tabby começou a vibrar. Justo quando ia perguntar como sabia que o mal estava perto, alguém tocou na janela da sala de estar.

O loft estava no décimo primeiro andar, mas fora havia uma escada de incêndios.

Tabby começou a sentir uma nova tensão. Olhou para Macleod e ele assentiu com a cabeça. Entendeu perfeitamente, desceu da cama e se aproximou da porta do dormitório. Macleod ia atrás dela, com a mão sobre sua cintura.

Fora, o céu da noite brilhava, iluminado. Aquele ruído continuava ouvindo-se na mesma janela que Tabby abriu um momento antes para deixar entrar Macleod. Não havia ninguém na escada de incêndios.

O ruído cessou.

Tabby olhou Macleod. Começava a se sentir tonta.

        —O que é isso?

Ele seguia olhando fixamente a janela.

—Um fantasma, acredito.

—Os fantasmas se veem, embora seja parcialmente, aparecem em sua forma humana — respondeu Tabby. Aquelas palavras mal saíram de sua boca quando o que havia fora começou a tocar em outra janela da sala de estar, desta vez com mais insistência.

Tabby sentiu um calafrio quando o ruído ficou mais intenso, como se aquela coisa estivesse zangada. Viu tremer o vidro da janela.

Tabby ficou tensa. Macleod tinha razão. Um ente de algum tipo tentava entrar em sua casa. Mas sem dúvida não poderia transpassar os encantamentos de sua avó.

O vidro explodiu de repente.

Tabby gritou e Macleod a empurrou atrás dele. A outra janela também arrebentou, e Macleod lançou uma descarga de energia àquela coisa. De sua mão brotou uma chama de poder, mas muito fraca comparada com o que ela viu no colégio. Os vidros pareceram ficar suspensos no ar. Macleod lançou outra descarga ao redor da sala. Dessa vez, uma luz prateada dançou entre seus dedos, mas não aconteceu nada e os vidros caíram por fim ao chão.

Macleod soltou uma maldição. Falou em gaélico, mas Tabby o entendeu sem necessidade de conhecer seu idioma.

—O que aconteceu ao seu poder? —disse quando a última janela começou a vibrar.

—Os deuses — disse ele sem inflexão. Lançou outra descarga à janela. Essa vez, de seus dedos não saiu nenhuma luz.

Por alguma razão, ficou sem poder. Um véu de calma desceu sobre ela ao mesmo tempo que aquela coisa começava a golpear furiosamente a única janela que ficava. Fechou os olhos e concentrou todo seu poder no mal que tentava penetrar em sua casa.

—Que se vá o mal, que fique fora. Que se fortaleçam os feitiços da avó, que se afaste a maldade.

O suor banhava seu corpo. Tentou sentir aquela coisa. Mas Macleod estava diante dela e, como um escudo, interferia em seus sentidos. Sentia a preocupação e a presença da avó Sara com tanta força que notava seu aroma de água de rosas. Mas sua avó também era uma distração. Tabby se concentrou tudo o que pôde, mais que nunca. O ódio daquele ser maligno era feroz, pensou. Sua malícia começava a apanhá-la, como se uma rede invisível fosse envolvendo-a pouco a pouco. Sua intensidade começou a assustá-la, esforçou-se por perceber aquele ente, por sentir sua ânsia perversa. Começava a sentir-se perdida em um torvelinho de ódio, mas não deixou de repetir seu feitiço uma e outra vez. Não se atrevia a parar.

De repente só estavam ela e o desejo feroz daquele ente por destruí-la.

A intensidade de seu ódio a tirou do transe.

Quando abriu os olhos, viu a última janela se fazer em pedacinhos. Macleod se voltou para abraçá-la e a deitou no chão, protegendo-a com seu corpo dos projéteis de vidro.

Não podia perder o foco agora. Tentou voltar a perceber o mal. Sentiu que aquela rede de tentáculos pegajosos a alcançava. Sentiu que a puxava. Agora só estavam ela e aquela coisa. E aquela coisa queria destruí-la. A ela, ou a ambos.

—Que se vá o mal, que fique fora — cantou enquanto aquele ente a puxava, machucando-a. E de repente se sentiu atirada contra a parede por um vento imenso, apesar de que Macleod a segurava. —Que se vá o mal, que fique fora. Que se fortaleçam os feitiços da avó, que se afaste a maldade. As Rose triunfarão!

Os abajures caíram ao chão, as cadeiras se derrubaram, as panelas saíram voando da cozinha e os pratos da pia, e os papéis de sua mesa e da de Sam voaram por toda parte. Tabby seguiu entoando seu encantamento enquanto o ódio daquela coisa a apanhava. Depois, o ódio começou a desvanecer e de repente aquela rede que parecia uma prisão desapareceu.

Uma quietude absoluta caiu sobre o loft.

Tabby sentiu que seu corpo se derrubava e se deixou cair, esgotada, nos braços de Macleod. Em seguida tomou consciência que estava entre seus fortes braços. Recordou como a tinha abraçado e tentado protegê-la durante o ataque. Começou a tremer. Macleod se negou a fazer votos, mas aquela era a segunda vez que a protegia com ferocidade, sem pensar em si mesmo.

E estavam no chão. Seu corpo era enorme e imensamente viril. Ela já tinha o pulso acelerado. Não podia afastar-se. Não queria afastar-se. O corpo de Macleod se converteu em um porto incrivelmente seguro, apesar do que passou entre eles. Surpreendentemente, sentia-se bem entre seus braços.

Levantou o rosto devagar. Passado o perigo, os olhos azuis de Macleod brilhavam, cheios de ardor. Tabby tentou ignorar o efeito que sortia nela aquele olhar. Sentia um desejo doloroso. Olhou além de seu ombro, para o loft destroçado. Parecia que havia passado um furacão.

Macleod a agarrou pelo braço.

—Foi-se, Tabitha.

Ela estremeceu, consciente do frio que entrava no loft. Aquele frio a atravessava. Cravou os olhos no olhar firme e tranquilizador de Macleod.

Não ia tentar lhe ocultar que nesse instante se alegrava imensamente que estivesse com ela. Macleod tinha coragem suficiente por todo um exército, pensou.

Ficou em pé, trêmula ainda. Ele a soltou e também se levantou. Ela o olhou, muito séria.

—O que aconteceu?

        Ele não respondeu, mas Tabby não esperava que o fizesse, afastou-se dele e se aproximou de seu computador portátil, que estava no chão, a uns cinco metros da mesa baixa onde o deixou. Tomou o computador e o apertou contra seu peito. Macleod tocou seu ombro.

Tabby não o ouviu aproximar-se.

—Está quebrado?

—Não sei — o que havia tentado entrar em sua casa? estremeceu-se. —Se está, tenho um de mesa ali — assinalou a mesa do outro lado do loft, onde estava seu MAC, e ficou tensa. O computador estava derrubado e o monitor tinha caído ao chão. —Posso comprar um portátil novo manhã na primeira hora, se for necessário. Tenho cópias de segurança de todos meus arquivos.

—É valente.

Tabby ficou calada. Nesse instante compreendeu quão importante era a coragem para ele e teve a sensação de que não fazia elogios levianamente. Sorriu com amargura. Não era valente, em realidade, mas não ia demonstrar quão assustada estava. Era uma Rose, e faria o que tivesse que fazer. Pensou no imperturbável que se mostrou ele, inclusive sem seus poderes. Não podia evitar admirar sua coragem. Estava claro que Macleod não se deixaria levar pelo pânico, nem sequer em plena batalha.

Pôs o portátil sobre a mesa baixa. Ligou-o e logo foi à cozinha a procurar uma bolsa de lixo.

—Minha irmã é uma guerreira. Não há o que goste mais que matar demônios. Ela sim que é valente. Certamente a conhecerá pela manhã — não ia pensar no resto da noite, disse a se mesma.

Macleod tomou a bolsa de lixo e as mãos de ambos roçaram. Pareceu saltar faíscas entre eles. Tabby se atreveu a olhá-lo aos olhos. Esperava-os uma noite muito longa. O mal tentou entrar em sua casa, e Tabby se alegrava que Macleod estivesse com ela.

—Seus criados terão que limpar isto — disse ele.

Um assunto nada arriscado, pensou ela.

—Nossa criada vem uma vez por semana. Se visse o loft assim, morreria. E se demitiria.

—Eu me encarregarei de que limpe.

Tabby ficou olhando-o.

—Não é uma criada, Macleod, nenhuma servente. A pago com moeda por seus serviços e pode demitir-se quando quiser — Tabby se deu conta que estava balbuciando e que começava a perder a compostura. Não queria pensar no ataque, depois do que aconteceu no banheiro; era muito para ela. De repente se sentou no sofá.

O que era aquela coisa?

Alguma vez enfrentou tanto ódio?

Ia dirigido contra ela?

—Está cansada, investiu muito poder em afugentar ao fantasma. Pode descansar?

—Estava cansada antes que aparecesse o fantasma — disse Tabby com cautela. Macleod não estava preocupado por ela realmente, verdade? O único que lhe interessava era deitar-se com ela.

Mas continuava a salvar sua vida. Ou o tentava.

        Os olhos de Macleod mudaram: voltaram a adquirir aquele olhar indolente e sensual que a deixava sem respiração e a aturdia.

        —Procurarei madeira para tapar as janelas enquanto você dorme.

Tabby sentiu o estômago encolher. Pelo frio que fizesse dentro da casa, se o deixava dormir com ela, não passariam nenhum frio. Incapaz de mover-se, ficou olhando-o enquanto sua mente traiçoeira pensava em como seria ter aquele corpo enorme a seu lado, na cama. Sabia, sobretudo, o que aconteceria se dormiam juntos.

Gritaria e choraria de prazer enquanto ele a penetrava.

Tabby Rose desapareceria e em seu lugar ficaria aquela desconhecida apaixonada.

E se aquele fantasma voltasse, preferia estar na cama com Macleod que a sós.

Tinha que refrear seus sentimentos. Macleod era um guerreiro poderoso, mas ela devia recordar suas diferenças e não deixar-se seduzir por sua coragem, seu heroísmo ou seu poder. Macleod era selvagem e implacável, e ela devia tê-lo presente. Se decidia voltar a se deitar com ele, convinha não perder a cabeça. Só seria um caso de uma noite.

Tabby esteve a ponto de engasgar-se ao se dar conta o que estava pensando. No prazo de vinte e quatro horas começou a pensar como uma desconhecida. Não, como sua irmã.

—É um companheiro genial em uma crise demoníaca — disse com cuidado.

Os olhos de Macleod brilharam.

—Sua magia é muito forte. É uma guerreira, igual a sua irmã.

Ela não estava segura de que sua magia serviu de algo.

—O que aconteceu a seus poderes, Macleod?

—Os deuses estão zangados comigo porque me neguei a fazer voto de os servir. Castigam-me sempre que podem — esboçou um frio sorriso.

—Por favor, me diga que não está em guerra com as divindades — tão arrogante era?

Ele parecia divertido.

—Não temo esse desafio, Tabitha. Sou um deles.

—Seria uma estupidez rebelar-se contra os deuses. Embora esteja aparentado com eles.

Macleod se limitou a sorrir e Tabby compreendeu que isso era precisamente o que estava fazendo.

Mas aquilo não era da conta dela, recordou-se. Se ele queria ofender e desafiar aos Antigos, acabaria pagando por isso. Tabby se perguntou se teria pagado o preço de sua arrogância em An Tùir-Tara.

—Porque não quer fazer os votos? Nasceu para defender ao mundo da maldade, não é verdade?

—Meu dever é para com Blayde.

O que significava aquilo, realmente?

—Pode servir a seu povo e cuidar de suas terras enquanto serve aos deuses, não?

—Luto contra o mal todos os dias — respondeu ele taxativamente. —Mas minha palavra é sagrada. Se fazer os votos, esses votos terão que estar sempre em primeiro lugar. E não posso dar as costas a Blayde.

Tabby não conseguia o entender, foi um herói há um momento, e, entretanto, sua mentalidade parecia incrivelmente estreita e medieval. Teria algo a ver o fato de ter perdido toda sua família no massacre? Talvez por isso houvesse resolvido apegar-se ao único que ficava: Blayde. Possivelmente nem sequer estivesse destinado a fazer parte da Irmandade. Que ela soubesse, em todos os séculos havia homens com super poderes, homens como a chefe de Sam, Nick. Talvez esse tipo de poderes fosse uma falha genética. Claro que os deuses iriam zangar-se com ele até o ponto de pôr obstáculos em seu caminho? Os deuses antigos já não se preocupavam com a humanidade. Ao menos, no século XXI. Certamente era diferente em 1298.

        —Onde posso encontrar madeira? Não quero quebrar seus móveis para tapar as janelas.

Tabby se levantou.

—Não, não vamos despedaçar os móveis. Usaremos bolsas de lixo de plástico — cruzou a sala e de repente pensou em sua idade. Macleod tinha quatorze anos em 1201, e procedia de noventa e sete anos depois. Parecia uns anos mais jovem que ela (como se tivesse vinte e cinco), mas tinha mais de cem. Viveu uma vida inteira. Era um homem com muita experiência e muito mundano para sua época. Esteve em centenas de batalhas, deitou-se com centenas de mulheres, no mínimo.

A Tabby só devia importar o fato que, podendo ter tomado os votos ao chegar à idade adulta, negou-se a fazê-lo durante décadas.

Era uma lástima.

—Porque lhe importam esses votos? Porque te importa a idade que tenho ou com quantas mulheres me deitei?

Ela tirou uma caixa de sacos de lixo de debaixo da pia.

—As Rose levam gerações ajudando aos Inocentes a sobreviver ao mal. É nosso Destino, conhecemos alguns Mestres e damos graças aos deuses por sua existência. Certamente seria um Mestre maravilhoso.

Ele soltou um bufo de desdém.

—Se preocupa com quantas mulheres me deitei.

Tabby sabia que ficou corada.

—Odeio esta invasão unilateral de minha intimidade.

Ele observou seu rosto.

—Se preocupa muito, acontece com todas as mulheres.

Tabby podia acrescentar o machismo a sua lista de traços de caráter. Começou a tirar bolsas de plástico da caixa.

—Já que está lendo minha mente, espero que tenha prestado atenção a tudo o que penso.

—Não precisa me explicar o que é o machismo, Tabitha. Noto a que se refere.

Ela deixou bruscamente as bolsas na bancada.

—Muito bem. Um fantasma acaba de entrar aqui. Um fantasma odioso e maligno. Temos muitas coisas das que nos preocupar. Mas se você é tão orgulhoso que não pode preocupar-se por isso, esquece, que eu me preocupo pelos dois.

Macleod lhe levantou o queixo de repente com seus dedos fortes e mágicos.

—É valente, inclusive quando está assustada.

Tabby sentiu que assentia com a cabeça. Claro que estava assustada.

—Estou preocupado — disse ele.

Tabby ficou quieta, assombrada. Seria tão agradável deixar que se preocupasse com ela... deixar que ele se encarregasse de tudo... Mas ela não faria tal coisa, certamente. Era uma mulher liberada, forte e independente, e cedo ou tarde voltaria a estar sozinha. De fato, aquela coisa maligna podia continuar à espreita depois de que ele retornasse a sua época.

—Preocupo-me, Tabitha e me encarregarei de fazer planos. Você pode descansar tranquila.

Ela retrocedeu lentamente para que não tocasse seu rosto.

—E isso por quê?

Ele deu um meio sorriso.

—Em minha época, os homens guerreiam e se preocupam. As mulheres fazem pão e criam aos filhos.

Seu machismo era um imenso alívio.

—Entendido — não queria que se preocupasse com ela, nem que a cuidasse.

—Tabitha, não vou voltar enquanto esse fantasma e esses garotos andarem detrás de você.

Tabby quase havia esquecido de sua teoria sobre o incidente dessa manhã no colégio. Umedeceu os lábios.

—Reconheci o mal, Macleod. Procedia de An Tùir-Tara.

 

        Sam chamou à campainha do apartamento de Kristin quase às onze e quinze da noite. Kristin olhou pela olho mágico antes de abrir a porta. Parecia surpresa.

—Sinto muito incomodá-la a estas horas, mas antes de ir dormir tenho que te fazer algumad perguntas sobre o que aconteceu hoje no colégio — Sam seguia sorrindo brandamente enquanto mentia.

Tinha um potente sexto sentido para perceber o mal, o que salvou sua pele muitas vezes, e queria observar de perto Kristin. Chegou à conclusão de que não era demoníaca; pertencia, simplesmente, à forma de maldade mais baixa que havia. Era uma pessoa cheia de emoções e ambições rasteiras: avareza, ciúmes e inveja, o desejo de ver fracassar e cair a outros e a capacidade de desfrutar disso. Nick, pelo contrário, não estava seguro que fosse cem por cento humana. Tinha-lhe explicado que os humanos com uma sub percentagem de DNA demoníaco podiam adquirir taços demoníacos, mas não ser detectados como demônios. Sam estava intrigada. Só estava há três meses na UCH e desconhecia a existência de uma hierarquia de sub-humanos. Até então, seu mundo se dividiu em demônios, humanos possessos ou sub-demônios e humanos. Somar uma raça mestiça de humanos parcialmente demoníacos explicaria muitas coisas, como a existência de pessoas com poderes extraordinários.

—É tarde e a estas horas já costumo estar dormindo, mas a verdade é que, depois do que aconteceu hoje, temo ter pesadelos — Kristin esboçou um sorriso crispado. —Entre. Vamos à cozinha. Minha companheira de apartamento está dormindo.

Sam a seguiu para dentro. Kristin seguia parecendo ao mesmo tempo humana e malvada. Seu sorriso ocultava um sem-fim de ódio e de pecados. Sam estava emocionada. E se Kristin tinha uma gota ou duas de DNA demoníaco? Se preparou uma armadilha a Tabby, acabaria morta.

Kristin lhe ofereceu água e Sam a rejeitou.

—Poderia me contar outra vez como se deu conta de que havia um incêndio? —Sam sorriu afavelmente.

Enquanto Kristin respondia, Sam a observava sem escutá-la. Com seu cabelo loiro platinado, sua pele branca, seus olhos azuis e suas feições regulares, Kristin parecia à simples vista uma mulher atrativa entre vinte e cinco e trinta e cinco anos. Mas, enquanto a olhava atentamente, Sam chegou à conclusão de que não era atrativa; nem sequer era bonita. Era estranhamente insossa. Quase uma versão genérica de uma loira de olhos azuis. Mas que melhor forma de ocultar sua natureza maligna que aquela fachada tão discreta?

Sam se fixou nas finas veias azuis de suas mãos. As mulheres jovens não tinham veias visíveis, nem sequer quando eram tão brancas como Kristin.

Sam olhou seu pescoço.

Tinha rugas.

Não tinha as mãos nem o pescoço de uma mulher de vinte ou trinta anos. Mas muitas mulheres passavam pela sala de cirurgia. Talvez tivesse operado o rosto. Sam voltou a observá-la e notou que tinha rugas muito finas ao redor dos olhos e da boca, tão sutis que uma pessoa comum não as veria. Kristin Lafarge tinha uma aparência estranhamente atemporal: não parecia nenhuma mulher amadurecida que esticou um pouco o rosto aqui e ali, nem tinha o aspecto belo e juvenil de um demônio.

Os demônios viviam séculos, mas seu DNA procedia de Satanás. Visto ao microscópio, a diferença entre o DNA humano e o demoníaco era evidente.

—Isso é tudo, agente Rose?

Tinha aquela mulher DNA completamente humano? Isso acreditou Sam, mas por mais que lhe chateasse admiti-lo, Nick costumava ter razão. Ali havia algo estranho.

—Sim, isso é tudo. Sinto muito havê-la incomodado, mas sempre me deixo guiar por meu instinto.

—Não tem importância — Kristin se levantou. Seu sorriso era educado, quase amistoso. Não havia rastro de alívio em seus olhos, como se não lhe importasse que sua breve entrevista tivesse acabado.

Se estava ocultando algo, o fazia muito bem.

—Posso usar o banheiro? —perguntou Sam, pensando que o apartamento só tinha um dormitório. O sofá já estava desdobrado, o que significava que Kristin dormia nele. Era um edifício antigo e o único banheiro completo estaria dentro do dormitório de sua companheira. Kristin certamente usava o lavabo, mais que o banheiro.

Um momento depois entrou no lavabo e soube que tinha razão. Porque ali encontrou a maquiagem, o pente e a escova de dente de Kristin.

Perfeito, pensou.

 

Sob a água quente, Tabby tentava não pensar em Macleod. Não estava desfrutando da ducha tanto quanto esperava. As gotas pareciam excitar seus seios e seus mamilos, e sentia o ventre crispado e trêmulo pela tensão.

Fechou os olhos e procurou refrear aquele desejo ao que parecia incapaz de escapar, o desejo por um homem que mal conhecia, um homem terrivelmente inadequado para ela, um homem com o que já se deitou.

Recordou Macleod quando entrou no banheiro, tirando o manto e sorrindo, sedutor.

Tragou saliva e lhe pareceu ouvir a porta, mas quando olhou viu que continuava fechada.

Tinha que acabar de tomar banho; precisava pensar em outra coisa.

Jogou o cabelo para trás, fechou os olhos e deixou que a água banhasse seu rosto, decidida a ignorar o peso de seu corpo. Era quase impossível, porque sentia Macleod dentro de si, enchendo-a completamente.

Não queria pensar no que a perseguia, a ela ou a ambos, desde An Tùir-Tara. Queria pensar nele, em sua valentia, em sua fortaleza e em como a protegeu. Não desejava lembrar-se de sua selvageria, de sua brutalidade e seu machismo. Se continuasse assim, sairia da ducha, abriria a porta do banheiro e o chamaria.

“Venha a mim, highlander”.

Seria tão simples...

De fato, se passava a noite com ele e se mostrava tão desinibida e apaixonada como em seu primeiro encontro, talvez chegasse a acreditar ser uma mulher diferente. Abriu os olhos, desalentada. O certo era que uma parte dela temia não voltar a experimentar aquela paixão. Seguir sendo a Tabby de sempre, antiquada e reprimida.

Entretanto, seu encontro com Macleod foi apaixonado e animalesco, um desses encontros sexuais que só podiam acontecer entre dois estranhos enlouquecidos.

Pensou em como lhe dizia todo mundo quão elegante era, educada e amável, a dama perfeita, e começou a rir com certo histerismo.

Teria desaparecido para sempre essa mulher? Ou voltaria a aparecer quando Macleod retornasse à Idade Média?

Se ele se aproximasse nesse momento, que mulher iria com ele à cama?

Tabby queria recuperar parte daquela dama perfeita. Desejava sua graça, seu bom humor, sua confiança em si mesma, sua compostura imperturbável. Inclusive gostava de ser formal. Mas, em realidade, o que mais desejava era poder seguir desfrutando com um homem na cama. Se tivesse que ficar com uma coisa só, escolheria aquela paixão recém descoberta.

Não queria voltar a fingir.

Virou-se lentamente.

Macleod estava na porta do banheiro. Tabby não a fechou. Queria que ele entrasse. Sem voltar-se nem afastar os olhos dela, Macleod fechou a porta e tirou o manto. Jogou-o em um lado.

—Tome cuidado com o que deseja.

Ela respirou fundo.

Macleod começou a aproximar-se, completamente excitado.

—Não tem que dar prazer a si mesma, Tabitha, estando eu aqui para fazê-lo.

Ela baixou as mãos, consciente de que sua resistência se desvanecia, e murmurou:

—Macleod... estou assustada.

Ele a puxou pelas mãos e fechou seus compridos e fortes dedos sobre os dela. Olhou-a nos olhos um instante e Tabby acreditou ver neles um afã possessivo.

—Talvez não possa fazê-lo outra vez.

Ele começou a sorrir.

—Pode, Tabitha, me acredite.

—Até te conhecer, era frígida, Macleod. Sabe o que significa isso? —perguntou ela, desesperada.

—Sim, sei — pôs as mãos sobre seus ombros. —Quer dizer que fingia cada vez.

—Tive uns dois orgasmos com um homem em toda minha vida. Estava morta por dentro!

—Mas agora está comigo —levantou seu queixo antes de deslizar um dedo por seu corpo, desde sua clavícula até a ponta de seu seio, e depois até o umbigo e a parte mais inchada e palpitante de seu púbis.

Ela sufocou um gemido e em seus olhos começaram a amontoar lágrimas, porque ansiava que a tocasse de novo. Agarrou-o pelos ombros. Ele moveu o dedo para baixo, exercendo pressão, e logo o levantou, e ela se esticou por completo e jogou a cabeça para trás, embargada por uma grande onda de prazer.

—Não posso suportar sua dor — disse Macleod com voz rouca, agarrando-a pela cintura. Ela tentou protestar. Os olhos de Macleod reluziam, tinha uma expressão dura e decidida. Atraiu-a bruscamente para si. Ela gemeu ao sentir seu membro comprido e rígido entre os dois.

De repente, o banheiro dava voltas.

Deixou escapar um gemido. Não podia suportá-lo.

—Me faça gozar, Macleod.

Ele a agarrou pelo cabelo e atraiu seu rosto. Tabby não podia respirar. Seus olhares se encontraram. O prazer se misturou com a dor enquanto Macleod esfregava seu membro ardente e duro contra ela. Tabby não podia suportá-lo. Pela segunda vez em sua vida não necessitava preliminares, nem as desejava.

—Você ganha, eu perco. Rápido, Macleod — disse com aspereza.

        Ele a olhou um instante com expressão decidida e um brilho de desejo no olhar. Seu enorme membro se apertava contra o ventre de Tabby. Logo sorriu e se afastou.

Levantou-lhe bruscamente uma perna e fez que o rodeasse com ela o quadril. Tabby subiu por ele e Macleod a ajudou lhe levantando a outra perna. Ela cruzou os tornozelos à altura de seus rins, cravou-lhe as unhas e desceu sobre seu pênis. Mas então compreendeu que não poderia se fazer penetrar até que ele o permitisse e começou a soluçar contra seus largos ombros.

Com ela apoiada de costas na parede de azulejos, Macleod lhe puxou com força o cabelo.

—Me olhe, Tabitha.

Ela o olhou, furiosa.

—Maldito seja... maldito seja.

Segurando seus quadris, Macleod empurrou para cima. Tabby conteve a respiração quando introduziu seu enorme pênis dentro dela. Assombrava-a sentir tanto prazer. Começou a perder o domínio de si mesma e, entretanto, ansiava mais. Cravou-lhe as unhas. O êxtase a cegava. Caiu ao abismo em meio de um milhão de estrelas e se fez pedacinhos, presa de um prazer imenso.

—Mais forte — soluçou. —Mais.

Pareceu alcançar de novo o orgasmo enquanto Macleod devorava sua boca. Cada clímax era mais intenso que o anterior. Sentia tanto êxtase que não podia suportar e gritava de prazer uma e outra vez. A pele de Macleod rasgou sob suas unhas.

Ganhou consciência de seus gemidos, sentiu arder seu sêmen dentro dela, deu-se conta de que estava no lavabo do banheiro, mas seguia na mesma posição, rodeando seus quadris com as pernas. Piscou e notou que se agarrava a seus ombros com todas suas forças e que Macleod continuava profundo nela. Tê-lo dentro era uma delícia. Tabby não sabia quanto tempo passavam assim, nem importava.

Macleod se deteve e ela começou a recuperar os sentidos. Viu seu sorriso leve e satisfeito. A água seguia saindo da ducha.

—Não pare.

Mas lhe pôs o cabelo molhado detrás da orelha, inclinou-se e esfregou o nariz contra o lóbulo de sua orelha.

—Comigo sempre será assim — sussurrou.

Tabby não queria analisar aquela afirmação. Não queria pensar que estava sentada sobre o lavabo do banheiro, suarenta e ofegante, rodeando-o ainda com as pernas enquanto seu membro pulsava dentro dela.

—Não quero falar, Macleod.

Os olhos de Macleod aumentaram e apareceram suas covinhas.

—Sei — se separou dela e começou a acariciá-la deliberadamente com seu pênis. Tabby se agarrou a seus ombros e saltou sobre ele.

Macleod riu.

Dessa vez, o prazer foi diferente.

Estava cheio de euforia.

Ela o perseguiu durante décadas, mas ele era o vencedor, assim se sentia Macleod. Quase parecia que agora era seu em corpo e alma, e, de algum modo, aquilo proporcionava ainda mais prazer. Mas não se tratava só disso. Não parecia se cansar de seu poder radiante. Seu êxtase parecia enchê-lo de uma assombrosa luz branca. O fazia insaciável.

 

Então ouviu o intruso. Desceu de um salto da cama e procurou instintivamente sua espada.

Estava no outro cômodo.

Um instante depois sentiu o poder branco do intruso, introduziu-se em sua mente e, ao dar-se conta de que era a irmã de Tabitha, desdenhou-a por irrelevante. Não lhe interessava sua irmã, a guerreira.

Voltou-se lentamente para olhar Tabitha. Ela ofegava incontrolavelmente, agarrada aos lençóis. Tinha muita paixão, para ele e só para ele. Macleod estava muito satisfeito. Não recordava haver se sentido nunca tão satisfeito. Seu sorriso se apagou. Tabitha era diferente das demais.

O olhar de Tabitha se tornou lúcido.

—É minha irmã.

—Sim — ele cruzou os braços e ficou pensando. Havia ficado furioso por que ela o trouxe a sua época sem permissão, como se fosse um refém ou um prisioneiro de guerra, mas já não estava zangado. Entretanto, era um highlander, e os highlanders raramente perdoavam. Os rancores costumavam durar até a morte.

Resolveu que podia perdoá-la por fazê-lo saltar no tempo, porque ela necessitava urgentemente que a protegesse. Talvez, de outro modo, jamais a teria conhecido em carne e osso. Nem teria podido deitar-se com ela. Não, não lhe importava perdoá-la.

Mas ela o esbofeteou. Era incrível. Tão incrível quanto não lhe houvesse devolvido a bofetada.

Ele não batia nas mulheres, nem aos cães, nem a nenhum outro animal. Mas não conhecia nenhum homem que pudesse deixar passar aquela bofetada sem tomar a revanche, e ele não sentiu o mais leve desejo de golpeá-la. De fato, desagradava-o só a idéia de machucá-la.

Havia poucos assuntos sobre os que parou para refletir, e normalmente estavam relacionados com a guerra ou com os MacDougall, mas desde que se conheciam pensava nela quase constantemente. Perguntou se o teria enfeitiçado e começou a inquietar-se.

Tabitha se sentou, abraçando-se, e o olhou com fixamente.

        —Não foi uma alucinação, a primeira vez — disse com voz rouca.

Ele compreendeu. Tabitha temeu que a paixão que ele havia agitado durante seu primeiro encontro não voltasse a repetir-se.

—Em minha cama sempre chorará de prazer.

Ela fez uma careta.

—Parece muito satisfeito de si mesmo.

—Sim? Você também parece muito satisfeita.

Ela se ruborizou.

—Não é que queira falar de semântica, mas me incomoda que diga “sempre”.

Ele suspirou. Deus, quanto pensava aquela mulher! Estava perguntando-se o que ocorreria entre eles, se voltariam a transar. Sentiu vontade de rir. Claro que voltaria a compartilhar sua cama, porque não ia ser assim?

—Sua irmã quer falar com você. Não quer que esteja comigo — disse bruscamente, quando recebeu pela primeira vez os pensamentos de sua irmã.

Envolveu a cintura com o manto e decidiu ignorá-los. Tabitha apareceu a ele durante quase um século e ela nem sequer sabia. Ele se introduziu em sua mente e sabia que dizia a verdade. Queria saber o que significava aquilo.

Ela tentou trazê-lo desde Melvaig em 1550, depois de um grande incêndio. O mal que os atacou essa noite procedia daquele incêndio, ou isso pensava ela. Macleod estava preocupado. Seus inimigos estavam em Melvaig agora, e sem dúvida seguiriam ali bem avançado o século XVI. Mas ele também havia sentido o mal, e seu ódio não se dirigia contra ele. Como aqueles garotos possessos, queria destruir Tabitha.

Ela não estava segura nessa época, pensou. E isso significava que, quando partisse, teria que levá-la com ele. Era uma perspectiva bastante agradável. Sem dúvida ela poria objeções. E ele as deteria assim que caísse a noite.

Olhou-a. Tabitha se levantou da cama, arrastando a colcha consigo como se ele não conhecesse já cada palmo de seu corpo.

—Necessito roupa — disse Macleod.

Ela pareceu surpreendida.

—Posso lavar seu espartilho, mas tem razão. Não sabemos quanto tempo vai ficar aqui, e convém que se vista com roupa que não chame a atenção —abriu a porta de um armário e começou a tirar roupa dos cabides.

Seguia nervosa e alterada. Não sabia o que fazer com ele, nem o que pensar a respeito. Preocupava-a o tipo de mulher que se tornou.

Não o incomodava que o chamasse selvagem, implacável e violento, porque todo guerreiro tinha que ser essas coisas. Mas começava a lhe desagradar a palavra “medieval” e estava se cansando de que o chamasse bárbaro.

—Quando vai me trazer roupa?

Ela o olhou de frente.

—Por que a pressa?

Tabitha sabia o que queria... e ele sempre conseguia o que se propunha. Ele disse na noite anterior, e ela era muito esperta, assim Macleod sabia que não esqueceu.

—Irei ao museu, Tabitha, ver essa exposição em que pensa constantemente. An Tùir-Tara.

Tabitha empalideceu.

 

Macleod estaria em An Tùir-Tara duzentos e cinquenta anos depois. Levá-lo a exposição e lhe mostrar um fragmento de seu futuro era uma ocorrência perigosa. E mais perigoso ainda era se encontrassem com a polícia. Tabby não se atrevia a fazer nada que pudesse afetar seu futuro.

Não sabia o que fazer, nem o que dizer.

Cobriu-se com o lençol até o peito e procurou aparentar calma.

—Macleod, ir à exposição é má ideia. Está claro que continua invadindo meus pensamentos, assim já saberá que acredito que esteve ali... ou ao contrário, que estará — por que a olhava fixamente? —Ninguém deve vislumbrar seu futuro, embora seja somente uma parte. Poderia trocar seu Destino.

—Vou. Ou me ensina o caminho ou o encontrarei por minha conta — disse ele bruscamente.

Tabby respirou fundo, estava dando cabeçadas contra uma parede medieval... outra vez. Entretanto, depois do que aconteceu essa noite, sentia-se sem forças.

—Não vou deixar que vá sozinho — enquanto falava, ouviu que Sam chamava à sua porta.

Se Macleod pensava ir, não poderia detê-lo. Mas podia tentar mantê-lo a salvo da polícia... e de si mesmo.

Ele assentiu com a cabeça. Estava claro que esperava essa resposta.

—Bem. Iremos juntos.

Sam disse energicamente:

—Imagino que está bem... e que não está sozinha.

—Em seguida saímos — respondeu Tabby. Pareceu que sua voz soava rouca, certamente de tanto gritar. —Estou bem.

Tentando aparentar naturalidade, apesar da pudica que era, vestiu suas calças de veludo e uma camiseta o mais rapidamente que pôde. Estava segura que Macleod estava a observando. Olhou-o e disse:

—Se importaria não sair do quarto vestido assim?

Ele baixou as pálpebras.

—Seria tão amável de me trazer meu espartilho?

Tabby assentiu com a cabeça, saiu do dormitório a toda pressa e fechou a porta como se não quisesse que sua irmã visse Macleod meio nu. Mas isso, é obvio, era absurdo. Sam estava na cozinha, fazendo café, por estranho que parecesse. Sam nunca preparava café, nem sequer quando era instantâneo.

—Pelo visto perdi a festa — disse, virando-se. Tinha uma expressão muito séria.

—Foi uma noite alucinante — disse Tabby enquanto entrava no banheiro, onde ele tinha deixado sua roupa. Retornou ao dormitório e a deu pela fresta da porta.

Macleod tomou e a vestiu.

—Sua irmã não quer que esteja comigo.

Tabby o cobriu com seu corpo para que Sam não o visse, e se perguntou se estaria ficando louca.

—É simplesmente que não entende o que passou, porque sabe que não me deito com desconhecidos.

Macleod se limitou a olhá-la.

Tabby se deu conta de que lhe estava cortando o caminho, separou-se da porta e se voltou para sua irmã, que os olhava atentamente. Tentou sorrir, mas Sam enrugou o cenho.

Tabby estremeceu ao aproximar-se, enquanto Macleod saía do dormitório e saudava Sam com uma inclinação de cabeça algo desdenhosa. Sam pareceu dar um sobressalto. Tabby não conseguia entendê-lo. Davam a impressão de sentir uma mútua antipatia, apesar de que não se conheciam.

Fazia muito frio no resto do loft. Macleod havia fechado as janelas com bolsas de lixo, mas não parecia ter servido de grande coisa. Sam começou a tirar xícaras de um armário alto.

Maldita fosse, pensou Tabby. Sam certamente pensava que Macleod a seduziu, e não era assim.

—Eu faço isso — disse, aproximando-se dela com um sorriso.

Sam não lhe devolveu o sorriso e ignorou Macleod.

—Bom, o que aconteceu? O que entrou aqui ontem à noite? —Sam seguia negando-se a olhar Macleod, mas lançou a Tabby um olhar preocupado.

Tabby ruborizou, sentia-se culpada. Sam tinha todo o direito de perguntar o que estava acontecendo, porque eram irmãs, mas estava claro que procurava evitar o assunto.

—Havia um intruso. Uma força maligna. Macleod me ajudou a vencê-la. Estou bem — disse severamente. —Decidi viver a vida, uma vez.

—Sério? Porque não parece muito feliz. Parece preocupada e desgostosa. Não, parece assustada.

Tabby notou que seu sorriso se apagava.

—Não sei o que me aconteceu.

Sam deixou escapar um som, virou-se e por fim olhou para Macleod... com desdém. Tabby notou que ele ficava tenso, como se preparasse para a batalha. Alarmou-se ao ouvir sua irmã dizer:

        —Eu sim sei o que aconteceu com você. Apaixonou-se loucamente.

Tabby ficou tão surpresa que começou a balbuciar:

—Na-nada disso!

—Você não se deita com qualquer um, Tabby — disse Sam. —Assim, se não está apaixonada, estará muito em breve. Mas como, querida minha, tem que ser o Destino — tirou bruscamente a jarra da cafeteira elétrica, mas o café estava filtrando ainda e derramou por toda a bancada.

—Deixe — disse Tabby, assombrada por que Sam estivesse tão desgostosa. —Não estou ferida — sussurrou. —Estou bem. Eu... eu gostei — notou que se ruborizava de novo.

—Bom, isso demonstra que tenho razão.

Tabby se voltou para Macleod.

—Posso falar a sós com minha irmã um momento?

—Não lhe agrado e não quer que eu goste de você — ele se aproximou de uma das janelas quebradas e baixou um lado do saco de lixo para olhar para fora.

Tabby se sobressaltou. Conhecia sua irmã, e Sam não era assim. De fato, deveria alegrar-se, se ela era feliz. Baixou a voz, e logo se deu conta de que era absurdo: Macleod tinha poderes telepáticos.

—O que há com você?

—Nada — disse Sam. Depois acrescentou: —Você merece algo melhor.

—Foi só uma noite — respondeu Tabby. Sam lhe lançou um olhar que parecia dizer que aquilo era simplesmente impossível. —Não estou apaixonada — acrescentou. —É um homem da Idade Média, Sam. Vi-o em ação. É muito violento e já sabe que não posso suportar isso. Mas estou em dívida com ele e deixei que ficasse para passar a noite. E me deitei com ele. Que importância tem?

—Assim o pagou com seu corpo? — Sam parecia incrédula.

—Eu nunca faria isso!

—Ah, não me diga.

—Porque está tão zangada? Não é próprio de mim e não posso explicá-lo, mas o necessitava... Estou um pouco confusa.

—Está apaixonada por Macleod. Se não, não teria transado com ele, nem teria gostado.

Porque Sam insistia que estava apaixonada, quando a ela nem sequer lhe passava pela cabeça?

—É um milhão de vezes pior que Randall — insistiu Tabby teimosamente. Ao ver que sua irmã não dizia nada, acrescentou: —O vi decapitar a um garoto! Mas isso já sabe — se deteve. —Como sabe seu nome?

—Trabalho na UCH, recorda? — respondeu Sam, afastando-se dela.

Tabby compreendeu que sua irmã estava mentindo e ficou atônita: nunca mentiam uma à outra.

—Não é uma ameaça para nós, Sam.

Sua irmã soltou um bufo.

Sam era uma matadora. Possuía ao mesmo tempo o instinto do caçador e da presa, e costumava ter razão.

—Não é uma ameaça — repetiu Tabby. De repente se voltou. Macleod estava observando-as, sem incomodar-se em fingir que não as ouvia. Ela olhou para Sam. —O que está me ocultando? Porque você não gosta dele? Salvou minha vida — podia representar Macleod um perigo para elas? Não, negava-se a acreditar.

—Conheço você melhor que ninguém. É incrivelmente romântica. Certamente seguirá Macleod até a Idade Média, como fizeram Allie com Royce e Brie com Aidan.

Tabby estava horrorizada.

—Está de brincadeira, não? Sou uma mulher moderna. Não poderia viver na Idade Média nem um minuto, e menos ainda com um homem que decapita a seus inimigos sem pestanejar — Sam temia que a deixasse e retrocedesse no tempo com Macleod. —Somos as únicas Rose que ficam. Jamais te deixaria aqui, combatendo sozinha o mal.

Sam sorriu com amargura.

—Claro que não.

Não acreditava.

—Sam... —Tabby a abraçou com força um momento. —Não vou a 1298. Acredite em mim.

Sam suspirou.

—Não posso me opor ao destino, Tabby. O que tiver de ser, será. Bom, o que aconteceu aqui ontem à noite?

Tabby olhou o loft destroçado.

—A mesma maldade que percebi no museu tentou entrar aqui ontem à noite. Mas não vimos nada. Era uma energia cheia de ódio e de malícia, como um fantasma malévolo. Tinha poder suficiente para quebrar as janelas.

Sam ficou calada.

—Recorda o ato de fé da semana passada, esse no qual Kit não deixa de pensar? Havia um espírito demoníaco ali. Aparece no vídeo e Nick o identificou.

—O que quer dizer com um espírito demoníaco?

—Refiro-me a um demônio que foi derrotado, mas não foi ao inferno — respondeu Sam asperamente.

Tabby começou a sentir um calafrio.

—Macleod também disse que era um fantasma demoníaco. Mas os demônios não têm fantasmas.

Sam tinha uma expressão amarga.

—Segundo Forrester, de vez em quando sim.

 

Macleod não parecia um homem moderno... nem um pouquinho.

Tabby foi à loja mais próxima e lhe comprou uns jeans, uma camiseta negra de manga comprida e uma jaqueta de couro forrada de pele falsa. Inclusive vestido com roupa atual parecia perigoso e temível, como um veterano de Operações Especiais ou, pior ainda, como um mercenário sem piedade. A roupa não podia ocultar sua natureza selvagem.

Mas, no restante, estava muito bonito.

De fato, todas as mulheres com as que cruzaram essa manhã, de caminho ao centro, olharam-no pelo menos duas vezes, as da idade de Tabby sorriam e tentavam paquerar com ele. Ele parecia indiferente a todas, o qual era um ponto a seu favor.

Estavam a três ou quatro pessoas do guarda de segurança e o detector de metais do Museu Metropolitano. Tabby retorcia as mãos. Estar com ele não era tarefa fácil, depois dessa noite. Ela tinha muito presente sua virilidade e seu poder, e sentia vivamente as reações de seu próprio corpo. Simplesmente, não podia reconciliar à mulher em que se converteu com a mulher que foi toda vida.

O que significava o que ocorreu essa noite? Foi um encontro de uma noite só? Ela não era capaz de embarcar em uma aventura carente de sentido, verdade? Mas, até Macleod aparecer, tampouco experimentou um sexo tão carnal e animal.

Para cúmulo, agora tinha o sexo na cabeça, como uma garota de dezesseis anos depois de sua primeira vez.

Mas, de fato, foi sua primeira vez. Essa noite, à idade de vinte e nove anos, descobriu a paixão.

A polícia estava procurando Macleod, assim sua ida ao museu era perigosa. Tabby sabia, mas estava mais nervosa pela masculinidade de Macleod que pelo fato que a polícia pudesse reconhecê-lo e decidisse disparar. Cada vez que os olhos de ambos se encontravam, sofria um sobressalto... e ansiava cair em seus braços. Custava-lhe manter os olhos separados dele. Aqueles jeans caíam como uma luva.

—O que é isso? —perguntou Macleod.

Ela respondeu em voz baixa:

—Temos que passar por um detector de metais, e todas as bolsas passam por raios X. É proibido entrar com armas ao museu.

Seus olhos brilharam. Sua boca se curvou ligeiramente.

Tabby começou a se alarmar. Estava armado?

—Macleod?

—Sim, trago uma pequena adaga na bota.

A temperatura de Tabby subiu. Usava uma saia, um pulôver de gola alta de caxemira e botas, mas teria gostado de usar um fino vestidinho de tricô. Tinha o casaco no braço e afastou o pescoço do pulôver da pele. Mas não serviu de nada. Certamente os deteriam assim que chegassem ao detector de metais.

—Temos que ir, nos desfazer da adaga e logo voltar — sussurrou.

—Se preocupa muito — respondeu ele com calma. —Quando vai confiar em mim?

Tabby se surpreendeu quando cravou seus olhos azuis nela, e se deu conta de que não queria confiar nele. Nunca. Confiar nele podia complicar as coisas. Embora sua relação não pudesse ser mais complicada.

Tabby sentiu que se enrijecia.

Alarmada de novo, seguiu seu olhar, além da barreira de segurança. Dentro do museu, havia um civil com um copo de café fumegante na mão. Estava com uma mulher, certamente sua namorada, e, embora falasse com ela, não lhe prestava atenção. Seus olhos escuros percorriam tranquilamente o enorme vestíbulo. Macleod o tinha em seu ponto de mira.

Para distraí-lo, Tabby o puxou pela manga. Aquele homem parecia um policial ou algum outro tipo de agente do governo.

O homem pareceu notar que o observavam e os olhou. Tabby baixou os olhos em seguida, mas se deu conta de que Macleod seguia olhando-o com uma frieza que parecia um desafio e que possivelmente augurava um novo estalo de violência. Puxou-lhe o braço. Só ficava uma pessoa na frente deles.

—Quem é esse? — perguntou.

—Um soldado.

Tabby ficou quieta.

—Por favor, não me diga que é policial.

—Sim, agora não está de serviço, mas está pensando no trabalho desta noite. Está pensando em mim.

Tabby respirou fundo e disse desnecessariamente:

—Está seguro?

—Ouço muito bem seus pensamentos malignos.

Ela ficou tensa.

—É malvado?

Macleod lhe lançou um olhar.

—Talvez seja um soldado, mas é malvado.

Havia policiam bons e policias maus. E era má sorte que estivessem a dez metros de um policial mau que estava pensando no assassino da espada.

—Ei, vocês, pombinhos, se movam. Estão atrasando a fila.

Embora a expressão de Macleod não mudou, ela o agarrou pela mão. Certamente não permitia que ninguém falasse com ela assim. Tabby o olhou e lhe lançou um olhar indolente. Ela se deu conta de que controlava por completo a situação. Nem sequer parecia preocupado. Talvez para ele aquilo fosse como dar um passeio pelo parque. Avançou, aliviada, e então se deu conta de que continuava segurando sua mão. Soltou-a como se queimasse e entregou sua bolsa ao guarda.

Macleod não notou. Estava muito ocupado olhando ao guarda. Tabby demorou um momento em dar-se conta de que estava empregando com ele seus poderes sobrenaturais de persuasão.

O guarda abriu sua bolsa, mas logo levantou o olhar. Em vez de inspecioná-la, ficou olhando Macleod, perplexo e encantado.

Mas encantar ao guarda não impediria que disparasse o alarme do detector. E o policial mau continuava por ali, embora parecia atento a todo mundo.

O guarda lhe devolveu a bolsa, apesar de não a ter olhado.

—Adiante — disse, lhes indicando que passassem pelo detector.

Tabby passou primeiro, com o coração acelerado. Quando esteve do outro lado, o detector tremeu de repente, como se o tivesse sacudido uma força imensa. Tabby viu brilhar o poder de Macleod.

Fez uma careta, assustada.

As pessoas da fila sufocaram um grito e se separaram da máquina, que tinha começado a brilhar. Macleod ficou tranquilamente do outro lado, esperando que chegasse sua vez para passar.

O detector de metais ficou quieto.

Angustiada, Tabby olhou a todos os presentes. Sim, algumas pessoas sussurravam e olhavam Macleod com perplexidade. Como se atrevia a usar seus poderes tão abertamente? Era muito perigoso!

Macleod estava quieto como uma estátua. Inclusive seu semblante impassível parecia lavrado em pedra.

—Que demônios...? — exclamou o guarda de segurança.

O policial se aproximou correndo, junto com outros dois guardas do museu, mas pareciam concentrados na máquina, não em Macleod. Um dos guardas começou a acalmar às pessoas. Tabby olhou a Macleod enquanto os guardas tentavam averiguar se a máquina funcionava ainda ou não. Alguém sugeriu que tinha sofrido um curto-circuito. O policial mostrou sua pistola e passou pelo arco. O detector não apitou. Macleod olhou Tabby com satisfação. Tabby se deu por vencida. Não deveria ter duvidado de sua habilidade para passar por um simples detector de metais. Macleod sabia o que fazia. Ela não podia evitar admirá-lo. Em momentos de crise, ficava tão fresco como uma alface.

Tabby odiava reconhecê-lo, mas seria um magnífico companheiro para qualquer um na guerra contra o mal. Era uma lástima que não tivesse feito seus votos. Sendo tão valente, deveria estar nas ruas, defendendo aos Inocentes todos os dias.

—Genial. Agora temos que revistar a todo mundo — disse o guarda de segurança. Virou-se. —Chama o Mel e lhe diga o que aconteceu — fez um gesto para Macleod. —Aproxime-se, amigo. Terá que fazê-lo à moda antiga.

Tabby conteve o fôlego, segura de que Macleod manteria enfeitiçado ao guarda. E tinha razão. O guarda lhe revistou o peito e as coxas e disse:

—Adiante.

Macleod lhe dedicou um sorriso amável e entrou no vestíbulo do museu.

Tabby respirou por fim. Logo se voltou e viu que o policial de folga a olhava atentamente. Não, estava observando Macleod, e tinha a suspeita gravada na cara.

Deu um tombo no coração de Tabby.

—Suspeita de nós — disse a Macleod em voz baixa.

—Sim, suspeita de mim, mas posso destruí-lo com toda facilidade — respondeu ele.

—E se falharem seus poderes?

Macleod a olhou.

—Poderia asfixiá-lo com minhas próprias mãos.

Ela olhou seus olhos frios. Macleod falava a sério. Se precisasse, quebraria o pescoço daquele policial com a mesma eficiência com que decapitou Angel.

        Tabby passou quase toda a manhã pensando em se deitar com ele. O que estava fazendo? Macleod era um homem medieval. Essa noite, ela o teria esquecido. Não iriam jantar em restaurantes de moda, nem tomariam uma taça de vinho em um bar. Não iriam ao cinema, nem patinariam sobre gelo. Não passariam os fins de semana em uma acolhedora casinha em The Hamptons. Tabby quase se pôs a rir ao imaginar Macleod fazendo essas coisas. A única relação que podiam ter era sexual... ou marcial.

De repente se sentiu deprimida.

—Vamos. A exposição é lá em cima.

Macleod a escrutinou com o olhar enquanto começavam a cruzar o vestíbulo.

—Deveria deixar de pensar tanto.

—Oxalá pudesse.

Era muito cedo para que houvesse fila, e era terça-feira, assim que o museu estava muito tranqüilo. Macleod a deixou atrás e se dirigiu rapidamente para a vitrine. Tabby correu atrás dele. Não se surpreendeu ao vê-lo olhando fixamente o amuleto de ouro. Seu rosto refletia pasmo e incredulidade.

—O que ocorre? Reconhece o talismã, verdade?

Macleod começou a tremer. Tabby ficou surpresa ao ver sua agitação... e a tristeza que brilhava em seus olhos. Começou a lhe doer a cabeça. Viu o menino de quatorze anos coberto de sangue e atendido pela dor, em pé, não muito longe de um incêndio.

—Sinto muito que acontecesse — disse em voz baixa, pensando em quão terrível tinha que ter sido para ele perder a toda sua família e ser o único sobrevivente.

Macleod se virou para olhá-la. Por um instante, Tabby viu nele aquele menino furioso e golpeado pela dor. Depois voltou a ver Macleod. A ira parecia ter ocupado o lugar da dor. Atrás deles, a vitrine tremeu.

—Esse amuleto é meu.

Tabby ficou quieta. Depois, começou a alarmar-se.

—Não, Macleod! O pingente foi encontrado nas ruínas de Melvaig recentemente. Pelo visto sofreu o incêndio de 1550. Pertence ao estado britânico.

Sua expressão era implacável.

—Era de minha mãe. Pertence-me.

Ela se agarrou à sua mão.

—Não se precipite. Por favor, vamos. Logo poderemos falar com calma disto.

O sorriso do Macleod era congelante.

—Não há nada do que falar, Tabitha.

Aquilo não ia bem, pensou Tabby. Logo, pela extremidade do olho, viu o policial de folga e a sua namorada do outro lado da sala, passeando pela exposição contigua. Sua inquietação aumentou. Tinham-nos seguido?

—Vamos, Macleod, vamos tomar um café e falar sobre Melvaig, sobre seus inimigos, sobre o incêndio, e tentar esclarecer tudo isto — nem sequer tinha acabado de falar quando um guarda de segurança dobrou a esquina.

Macleod se virou. A vitrine se quebrou. Começaram a soar os alarmes.

—Maldição! — exclamou Tabby.

Macleod introduziu a mão através do vidro quebrado e agarrou o pingente.

—Ei, você! Alto! Mãos para cima! — gritou o guarda de segurança, apontando com sua pistola.

—Vamos — disse Macleod com calma para Tabby.

—Mãos para cima! — gritou de novo o guarda.

Tabby fechou os olhos e pensou: “Que o bem cubra ao Macleod, que o envolva por completo. Que corte por toda parte as más intenções. Que forme um círculo para protegê-lo”.

Macleod a agarrou pelo braço.

—Agora não há tempo para feitiços! —disse, puxando-a para a escada.

Atrás deles, o guarda começou a falar pelo rádio.

—Detenha-se ou explodo sua cabeça!

Tabby compreendeu, horrorizada, que era o policial mau. Tentou deter-se. Macleod a agarrou com mais força e disse:

—Vamos! — pôs-se a correr, puxando-a.

—O matarão! — gritou Tabby.

Estava segura de que não podia sobreviver se uma bala se incrustava em sua nuca.

—Que se danem! — bufou o policial atrás deles.

Macleod lançou um rugido e esticou bruscamente o braço ao ouvir o disparo, mas de seu braço não saiu nenhum poder. Tabby gritou quando a bala se incrustou no peito, mas ele só deu um salto.

Os olhos do policial aumentaram, cheios de assombro.

—É um deles — disse, a ponto de disparar outra vez.

Macleod se moveu vertiginosamente. A adaga que tinha escondida na bota afundou-se no coração do policial no instante em que a pistola disparava de novo. A bala bateu na parede e o policial desabou.

—Matou Frankie! — gritou o guarda, e correu para eles, pistola na mão.

Macleod avançou com expressão selvagem. Tabby pensou que pretendia matar ao guarda com suas próprias mãos.

—É um Inocente! — gritou. —Não o faça!

Mas Macleod extraiu a adaga do peito do policial, levantou-se e olhou fixamente ao guarda. Este vacilou, muito pálido, enquanto apontava com a pistola.

Tabby tinha que salvá-lo.

E de repente a manhã ficou imóvel e silenciosa, de repente, Tabby se sentiu cheia de serenidade.

—Que o bem cubra Macleod, que o envolva por completo. Que corte por toda parte as más intenções. Que forme um círculo para protegê-lo — cantou. O ar vibrou em torno de Macleod. Ela ouviu vagamente a sirene na rua e passos retumbando nas escadas de pedra.

Concentrou todo seu ser no feitiço enquanto o guarda apertava o gatilho. Mas só soou um “clique”.

O guarda empalideceu.

Tinha funcionado seu feitiço?

—Macleod, temos que fugir — disse ela, tentando sair de seu transe.

Macleod levantou o braço, e dessa vez lançou uma descarga de energia que fez sair voando o guarda para trás. Quando Macleod se aproximou dela, um torvelinho de pó apareceu entre eles e se converteu em um enorme highlander loiro. A sala se encheu de poder sobrenatural.

—Tomou isso com calma — disse Macleod.

—Sim, me perguntava como confrontaria esta crise — disse tranquilamente o highlander loiro. Saudou Tabby com uma inclinação de cabeça, como se a conhecesse.

—Não vou voltar sem Tabitha — advertiu Macleod.

Tabby se tencionou. Só tinha duas coisas claras: que Macleod ia partir, e que ela não podia acompanhá-lo.

—Não, espera. Não vou a Blayde com você.

Ele ia partir. Tabby tentou afugentar o desânimo. Não podia retroceder no tempo com ele!

Macleod a agarrou pela mão e a atraiu com força para si. Seus olhares se encontraram.

—Se agarre bem forte.

O pânico se apoderou dela.

—Não, Macleod!

Mas ele fez um gesto com a cabeça ao highlander loiro e, de repente, Tabby se chocou contra seu peito e ambos saíram voando para o teto. Ela gritou.

 

Blayde, Escócia

10 de junho de 1298

Tabby estava convencida de que sucumbiria à dor. Tinha atravessado o universo, provavelmente à velocidade da luz. Talvez não sobrevivesse; possivelmente estivesse morrendo, apesar de que jazia sobre a terra úmida, nos braços de Macleod. Todos os ossos de seu corpo se quebraram em mil pedaços, ou isso parecia. Se a dor não cessava, explodiria e morreria.

Ele lhe falou no ouvido:

—Logo passará, Tabitha.

Tabby chorou sobre a grama molhada, agradecida de que a rodeasse com seus braços.

—Sobreviverá? —perguntou Macleod, preocupado, sem soltá-la.

—Sim. Se me deixar tocá-la, se curará rapidamente.

O highlander loiro podia curá-la. Tabby gemeu.

Sentiu umas mãos fortes, mas suaves, sobre seu corpo e um imenso calor começou a alagá-la. Seguia chorando, mas começou a se dar conta que a dor se tornava suportável. Deixou de chorar. Tentou respirar e pareceu um milagre poder encher os pulmões de ar.

Uma luz poderosa a embargava.

—Tome seu tempo, moça — disse suavemente o highlander loiro.

—Já pode afastar as mãos dela. — respondeu Macleod.

A dor se dissipou. Tabby abriu os olhos e viu a flor mais azul e brilhante que tinha visto a uns centímetros de seu nariz. Respirou fundo e um fresquíssimo aroma de terra, grama, flores e pinheiro encheu suas fossas nasais. Logo identificou o aroma do mar. Sua mente acelerou. Estava na Escócia.

Não, estava na Escócia medieval... porque Macleod a levou com ele.

Sentou-se lentamente. Macleod a segurou, mas ela não o olhou. O highlander loiro estava em pé atrás deles, e Tabby olhou além dele. Estava na Escócia medieval. Oh, meu Deus.

Negro como o azeviche, Blayde se abatia por cima deles, sobre uma colina. Suas muralhas e suas torres se elevavam contra o céu e o mar.

E lhe parecia familiar. Conhecia Blayde.

Começou a doer a cabeça. A fortaleza mudou, saíram chamas dos parapeitos, das torres, das muralhas. Homens, mulheres e meninos gritavam, chorando, pediam auxílio. Viu Macleod quando era um menino de quatorze anos, descenod a tropeções pela colina, afastando-se do incêndio.

Tabby tomou ar e piscou. Blayde se converteu de novo em uma sombra negra no alto da colina, recortada contra o céu das Terras Altas. Nada daquilo deveria parecer familiar: nem Blayde como era então, nem como era em 1201, quando queimou até os alicerces. E, entretanto, assim era.

Respirou de novo, assombrada pela fragrância da tarde de verão. Cheirava cada fibra de grama, cada pétala de carqueja, cada agulha e cada pinha dos pinheiros, cada flor silvestre. Claro que em 1298 não havia poluição.

E a tarde estava cheia do canto dos pássaros. Ouvia-se o gorjeio de dúzias de pássaros diferentes, e também o zumbido dos insetos.

Um som áspero a fez virar a cabeça, e viu um magnífico cervo jovem esfregando suas hastes imaturas contra uma árvore. Ali tampouco havia contaminação acústica, pensou. Estar na Escócia histórica seria incrível... em outras circunstâncias.

Voltou-se, tremendo, e encontrou o olhar de Macleod.

—Assim que me trouxeste para 1298.

—Sim — respondeu ele, sustentando seu olhar. Com ajuda de MacNeil.

Tabby recordou de repente cada momento que passou no museu. Tremendo de ira, levantando-se. Havia-lhe dito que não. Havia-lhe dito que não queria voltar com ele no tempo. Mas não lhe deu atenção. Claro que não.

Olhou seu peito. Vestido com sua jaqueta e seu jeans, em pé diante de um castelo do século XIII, Macleod parecia absolutamente fora do lugar. O sangue de sua camiseta já seco, possivelmente pela velocidade da viagem no tempo.

—Está ferido? —perguntou ela, embora acreditava conhecer a resposta.

Ele negou com a cabeça.

—MacNeil também me curou.

—Bem — uma vez esclarecido aquilo, Tabby foi às nuvens. Não queria estar ali! Não lhe prestou a menor atenção. Deu-lhe uma bofetada com todas suas forças.

Ele abriu muito os olhos quando a bofetada ressoou como uma chicotada no meio da tarde.

—Como se atreve! — gritou Tabby, tremendo de fúria. —Deixei isso muito claro. Adverti que não queria voltar no tempo com você.

        Ele esfregou a mandíbula.

—É a segunda vez que me esbofeteia.

—E o que? — estava tão furiosa que não lhe importava... apesar que a terra pareceu tremer um pouco sob seus pés. —Ah, espera. É uma besta, assim agora suponho que vai me bater. Porque isso é o que fazem com as mulheres os machões medievais, não?

A terra se moveu violentamente sob deles.

—Em sua época corria perigo.

—E aqui não? —gritou ela.

—Não queria te deixar ali para que enfrentasse sozinha ao fantasma desse deamhan — replicou ele.

—E isso o converte em meu herói? Eu acredito que não! — Macleod enrugou o cenho. O vento se levantou. —Eu não sou uma mala que possa levar daqui para lá a sua vontade! Sou uma mulher moderna, e as mulheres modernas escolhem o que querem fazer com sua vida e com seu destino. Maldito seja, Macleod, não quero estar aqui. Este não é meu lugar, me devolva à minha época!

Ele cruzou os braços sobre o enorme peito e a olhou com aborrecimento.

—Não.

Aquela única palavra, pronunciada com brusquidão, foi como um jarro de água fria. Tabby não disse nada, ficou olhando-o, sem fôlego. Macleod a sequestrou e não a iria mandar de volta. Tabby via em seus olhos e em seu semblante. Era inaceitável.

Mas talvez merecesse, por se deitar com ele. Sabia desde o começo que era um engano, que era como abrir a caixa de Pandora.

Voltou-se para o highlander loiro e disse bruscamente:

—Em minha época se prende às pessoas pelo que fez. É um delito e se chama sequestro.

O highlander loiro parecia tão arrependido como um menino de doze anos ao que surpreenderam fazendo malandrices com a filha linda do vizinho.

—Sinto muito, moça — disse brandamente — mas Macleod a necessita por um tempo. E ninguém decide seu próprio destino.

Tabby o olhou com atenção. Seguia muito zangada, mas notou que MacNeil era muito bonito e incrivelmente musculoso. Igual a Macleod, tinha o corpo de um cavalheiro guerreiro. Mas não lhe importava.

—Quem é você? O dispensador de sabedoria? Um oráculo, um vidente, um adivinho cigano?

—Sei que está muito zangada. E não a reprovo por isso, moça. — quando lhe lançou um dos sorrisos mais sedutores e aplacadores que jamais viu, Tabby acalmou um pouco. Sua boca se curvou, cheia de bom humor. —Às vezes, quando os deuses o permitem, vejo muitíssimas coisas.

Ela ficou calada. MacNeil falava a sério: possuía uma sabedoria que procedia dos deuses. Macleod não podia saltar no tempo, mas aquele homem sim.

—É um Mestre?

—Sim — encolheu de ombros tranquilamente. —Fico feliz em te conhecer, Tabitha Rose. Antigamente conheci sua avó.

Tabby sufocou um gemido de surpresa.

—Está de brincadeira?

Seu belo sorriso se desvaneceu.

—Sara era uma mulher poderosa, e você me recorda muito a ela. Não brinco.

Tabby tomou ar. Sua avó tinha viajado no tempo. Era alucinante.

—Sabe por que estou aqui? Sabe por que funcionou meu feitiço para levar Macleod a Nova Iorque?

—Você conhece a resposta, lady Tabitha. Macleod precisa de você e você precisa dele.

Tabby se sobressaltou e olhou para Macleod, que tinha uma expressão séria. Resgatou-a no colégio e esteve ao seu lado durante o ataque do fantasma, mas ela se negava a reconhecer que necessitasse sua proteção. Voltou a pensar, entretanto, naquele moço e no homem que tinha sofrido o incêndio de An Tùir-Tara.

—Não acredito que vá precisar de mim até 1550 — disse. —O qual levanta outra questão. Estou na época adequada?

MacNeil sorriu.

—Não pretendo saber tudo, moça, só algumas coisas.

Tabby olhou a Macleod, que a observava atentamente. Sentiu seu agudo interesse, ia ter que esquecer que ele a necessitaria duzentos e cinquenta anos depois. Ia ficar ali, em 1298, com um protetor super macho e super medieval com o que estava zangada. Além disso, ele não a necessitava no momento... a não ser pelo sexo.

Os dois homens a olharam.

Tabby teve a horrível sensação de que estavam lendo seu pensamento e ruborizou.

—Não se atrevam a invadir meus pensamentos agora! E me refiro aos dois!

Notou por sua expressão que Macleod entrou em sua mente. O delatou o leve brilho de seus olhos.

—Se não o fizer, não entendo uma palavra do que diz.

—Genial! — exclamou ela. —É perfeito: nem sequer falamos o mesmo idioma.

Ele deixou escapar um bufo de chateação.

—Compartilhamos muitos idiomas — replicou. —Esta noite te mostrarei quantos.

—Não me fale de ontem à noite — advertiu ela. —Esta noite dormiremos em quartos separados.

Ele pareceu assombrado um instante, e logo lhe lançou um olhar incrédulo.

Pretendia prolongar sua aventura. Tabby sentiu um intenso desejo em seu ventre.

—Sequestrou-me! — gritou.

—Só tive um momento para decidir o que fazer — respondeu ele. —Quantas vezes tenho que dizer que quero te proteger?

Ela tremeu. Logo olhou ao MacNeil, que parecia divertido. Olhou mais à frente, para o esplêndido castelo que se elevava sobre eles. Por que lhe parecia familiar? Para tudo havia uma razão, embora naquele momento odiasse admitir. Estava em Blayde, em 1298. Se aquilo estava escrito, então seu feitiço para levar Macleod a sua época não saiu errado absolutamente. Mas por que tinha começado tudo no museu? Que papel desempenhava An Tùir-Tara em tudo aquilo?

—Se te desprender de sua ira, talvez a agrade estar aqui — disse MacNeil brandamente.

Tabby separou seu olhar do castelo. Primeiro Allie, logo Brie e agora ela.

—O que estou fazendo aqui? — perguntou.

—Já lhe disse isso. Você o necessita e ele necessita de você.

Ela cruzou os braços.

—Estive aqui antes?

—Não, nunca — respondeu MacNeil.

Tabby estava atônita. Esperava que MacNeil dissesse que sim, que esteve em uma vida passada em Blayde, no século XIII.

—Está seguro? Porque tudo me parece familiar.

—Estou completamente seguro — respondeu MacNeil. —A alma é uma entidade estranha, move-se e sente de maneira misteriosa. Eu não poria em dúvida seus sentimentos, lady Tabitha.

Tabby ficou perplexa.

—Se não tive uma vida passada aqui, então minha alma não sabe nada, maldição — estava sugerindo MacNeil que sua alma conhecia aquele lugar? Que conhecia Macleod?

MacNeil respondeu com suavidade:

—Deve seguir adiante, Tabitha. Não teria te trazido aqui se não o julgasse sensato.

Tabby olhou severamente para MacNeil e logo a Macleod, que parecia cheio de tensão. Recordou muito tarde que prometeu a sua irmã não abandoná-la. Não só a abandonou, mas também nem sequer disse adeus. Seu coração encolheu.

—MacNeil, há alguma forma de te convencer que me devolva a Nova Iorque?

Macleod se zangou. O vento fez que os abetos se agitassem e que tremesse a terra.

—Não vai fazer tal coisa.

Tabby não fez caso.

—Macleod não é tão sombrio, nem tão perigoso como crê, moça, e fará bem em recordá-lo — respondeu MacNeil com simplicidade.

Tabby compreendeu que estava a ponto de desvanecer-se no tempo.

—Não, espera! — gritou, frenética.

Mas MacNeil desapareceu para a luz dourada do sol.

—São uns delinquentes! — gritou ela, cheia de frustração.

—Quando cessarão seus insultos?

Tabby começou a compreender. Estavam sozinhos. E não só isso: insultou Macleod... e o esbofeteou pela segunda vez. Estava na Escócia, no século XIII. Na Idade Média, todas as mulheres necessitavam a um homem para sobreviver. Isso sabia.

Estava presa.

—Sinto muito.

Ele levantou as sobrancelhas.

—Não sente absolutamente.

—Quero voltar e você não pode me levar, e seu comparsa tampouco quer. Estou prisioneira.

—É minha convidada — respondeu com aspereza. —Vamos ao Blayde.

De repente, os olhos de Tabby se encheram de lágrimas. As enxugou. Não ia compadecer-se de si mesma nesse momento, nem converter-se em uma mulher fraca e covarde. Era uma Rose. Se Allie e Brie sobreviveram a um salto no tempo, ela também sairia daquele apuro.

Além disso, se seu Destino era ajudar Macleod, não poderia opor-se a ele.

—Você ganha.

        Antes que ele pudesse responder a seu sarcasmo, Tabby sentiu mover-se terra sob seus pés.

Sobressaltou-se, porque não sabia como acalmar o mau gênio de Macleod, mas ele tinha aguçado o ouvido. A terra seguia vibrando. Macleod a agarrou pelo braço.

—Cavaleiros.

Tabby se alarmou, alguns cavaleiros não poderiam fazer tremer a terra. Havia ao menos quinze minutos de ascensão até as muralhas de pedra de Blayde.

Um trovão encheu o dia. Os sinos de Blayde começaram a bater.

Uma massa disforme apareceu no alto da serra mais próxima. Tabby entreabriu os olhos e viu que aquela sombra se movia e começava a descender como uma pálida avalanche.

        —Maldição — disse. —Isso é um exército, verdade? Um exército medieval?

        Macleod assentiu com a cabeça.

 

O exército se deteve. Tabby distinguia os cavalos e seus cavaleiros, assim como três estandartes cujas vivas cores se agitavam contra o céu luminoso. Respirou fundo. Parecia que algumas centenas de guerreiros medievais os olhavam de frente. Seu coração se encheu de medo. Tinha aterrissado em meio de uma guerra?

Um homem a cavalo abandonou o exército e cavalgou para eles.

Tabby se aproximou de Macleod, consciente de que era a única mulher presente entre tantos guerreiros selvagens. Naquele mundo nem sequer existia a noção de direitos humanos.

—E agora o que?

—Pode ficar tranquila, Tabitha. É Ruari Dubh, um amigo.

Tabby sentiu só um leve alívio. Na Escócia medieval, a traição era muito comum.

—Está seguro de que é um amigo?

—Sim — Macleod apoiou as mãos nos quadris e esperou.

Aquela postura não era muito tranquilizadora. Tabby teria que começar a confiar nele. Aquele era seu mundo, e estava claro que era um sobrevivente. Ela também pretendia sê-lo. Tinha que voltar para casa, com sua irmã, e retomar sua vida.

Mas um estranho calafrio percorreu seu corpo. Não sabia porque: não era um calafrio de alarme, nem de inquietação, e não conseguia identificá-lo.

Um highlander tão musculoso como Macleod deteve seu corcel cinza diante deles. Os olhos de Tabby aumentaram. Tinha uma cabeleira leonina, o rosto duro, e usava uma cota de malha sobre o espartilho e um bracelete de ouro sobre o enorme bíceps de um de seus braços. Era absurdamente bonito, mas tinha a mesma expressão implacável e temível que Tabby viu no rosto de Macleod.

Tabby estava confusa. Tinha a impressão que se conheciam, mas isso era impossível. Verdade?

Seu poder, entretanto, resultava-lhe tão familiar... Também sentia aos deuses mais perto.

—Quem é? —sussurrou. Enquanto falava, passou pela sua cabeça que aquele homem não era somente um Mestre, mas também um soldado dos deuses.

—Royce, o Negro — respondeu Macleod.

Inclusive o nome soava familiar, e seu coração encolheu, cheio de surpresa.

—O que ocorre, Ruari? —perguntou Macleod com brutalidade, adiantando-se.

Ruari respondeu em gaélico, sem que seu pétreo semblante mudasse. Lançou a Tabby um olhar breve e desdenhoso. Estava claro que não o surpreendia sua roupa moderna, nem os jeans e a jaqueta de Macleod. Enquanto falava, Tabby o olhava com crescente emoção.

Sua melhor amiga, Allie, estava em Carrick, em Morvern, mas no século XV. Sua alma gêmea era um Mestre chamado Royce. Pouco antes que Allie desaparecesse, Tabby leu-lhe as cartas de tarô. Royce era um guerreiro loiro e poderoso, um soldado dos deuses... igual àquele homem.

Eles deixaram de falar.

—É de Carrick? — perguntou ela a Macleod.

Lançou-lhe um olhar penetrante.

—Sim.

Era a alma gêmea de Allie, tinha que ser. Sem dúvida ela o reconheceu por aquela leitura do tarô. Mas ele nem sequer conhecia Allie ainda: demoraria mais de um século em conhecê-la.

Royce a olhava fixamente. Tabby compreendeu que certamente podia ler seu pensamento. Confiava que não o tivesse feito. Logo lhe dedicou um olhar que a despojou de toda sua roupa, como se valorizasse seu corpo para futuro uso, e, dando meia volta, afastou-se a galope para seu exército.

—O matarei, se voltar a te olhar assim — disse Macleod com aspereza.

A emoção de Tabby se desvaneceu. Não gostou daquele olhar. Era o olhar de um homem que só desejava se servir do corpo de uma mulher. Não havia nada de admirativo nela. Conseguiria Allie domar àquele homem?

—Quem é Allie? —perguntou Macleod.

—É minha amiga. Uma Curadora. E está no castelo de Carrick, em 1436.

Ele pareceu incrédulo.

—Com o Ruari? Não acredito.

Tabby decidiu não contrariá-lo.

—O que queria?

—Não desejo te importunar com a política das Terras Altas.

—Macleod... —disse ela, zangada. —Estou aqui contra minha vontade e agora me diz que não quer me importunar com os costumes do país? Nem sonhe! Quer que nos demos bem ou não? Preciso saber o que está acontecendo. Não queria me jogar nos braços de seus inimigos por equívoco.

Ele cruzou os braços sobre o peito.

—Não o fará, se não sair dos muros de Blayde.

—Assim estou prisioneira.

—Argumenta como um homem!

Tabby se sobressaltou.

—Isso é um elogio.

—Que te diga que é como um homem? — ele sacudiu a cabeça e suspirou. —Não quero que continue zangada comigo, Tabitha. Já sabe que Melvaig pertence a meus inimigos. O senhor de Melvaig foi surpreendido roubando meu gado. Mas agora está em minha torre.

—Disso se trata? —perguntou ela, incrédula. Logo disse brandamente. —O que queria Royce?

—A senhora de Melvaig procura vingar-se de mim, prometeu fazê-lo. Ruari veio me advertir.

—Muito amável de sua parte — respondeu Tabby. Mas não gostava de como a olhava Macleod. Um leve tremor percorreu por suas costas. —Está bem, o que ocorre? É que me cresceram de repente verrugas e outra orelha?

—Tabitha — disse ele com calma — é uma bruxa negra.

O tremor se converteu em calafrio.

Macleod não deveria permitir que Tabitha enfrentasse à bruxa de Melvaig.

 

Entrou em seu grande salão com Tabitha a seu lado. Ela também estava muito séria, mas por outros motivos.

Não tinha gostado dos ossos humanos que viu no fosso seco, ossos deixados de propósito para servir de advertência a seus inimigos. Passou a toda pressa sobre os alçapões do chão da barbacã[2], como se temesse que se abrissem, e Macleod sabia que era consciente que debaixo, nos porões, havia objetos letais, objetos nos que ficaria empalada se caísse. Não gostou que os homens estivessem armados até os dentes, nem o guarda nas muralhas, nem os soldados que entravam e saíam da barbacã. Conhecia bastante bem sua época: aparentemente, leu muitos livros sobre a Escócia. Ele entendia seu interesse. Seus ancestrais procediam do Narne.

Ao menos, seu aborrecimento dissipou. Agora estava ansiosa e pensava sobre tudo na bruxa negra e na guerra de bruxas que teria lugar duzentos e cinquenta anos depois, em An Tùir-Tara, mas também se perguntava, preocupada, até que ponto podia ser violenta aquela época. Nunca o averiguaria. Era a mulher mais amável que Macleod jamais conheceu, apesar de seu mau gênio e de sua tendência a esbofeteá-lo, e ele a manteria a salvo de todo mal.

Rob, seu soldado de maior confiança, saiu a seu encontro quando estavam ainda no meio do pátio de armas. Macleod lhe lançou um olhar indicando que esperasse. Voltou-se para Tabitha.

—Crê que poderá descansar um momento?

Não prestava atenção nele: estava olhando o salão. De repente o olhou.

—Duvido-o.

—Dentro dos muros de Blayde está a salvo, Tabitha — disse ele. —Meus inimigos não tentarão nada aqui dentro.

—Mas a bruxa de Melvaig jurou vingança e sua ameaça é tão séria que Royce pensou que devia te advertir.

Que esperta era.

—A vingança é nosso pão de cada dia — respondeu ele sem inflexão.

—É uma bruxa. E ou está ainda viva em 1550, ou está sua descendência. Em qualquer caso, Macleod, se for a bruxa sobre a qual lemos no museu, isso significa que vai derrotá-lo.

Ele ficou tenso.

—Se decidir lançar sobre mim sua magia negra, irei a Melvaig e a vencerei.

—Possivelmente conviria que fizesse seus votos para que possa contar com seus poderes.

Macleod estava zangado. Ela começava a insistir tanto quanto MacNeil na questão de seus votos.

—Posso estrangulá-la com minhas mãos... e lhe cortar a cabeça com minha espada.

Tabitha empalideceu.

Macleod fez um gesto a uma criada e se afastou dela. Rob correu a alcançá-lo.

Tabitha disse atrás dele:

—O que vai fazer? Interrogar ao ladrão de gado?

Ele não olhou para trás.

—Meu prisioneiro não é de sua conta.

—Esta noite vamos discutir a Convenção de Genebra — respondeu ela.

Essa noite, Macleod a faria gozar como nunca antes, e não haveria tempo para falar. Sorriu ligeiramente ao pensar nisso.

“Deixe-me te ajudar”.

Macleod se tencionou e se virou bruscamente, mas Tabitha se afastou dele e não havia dito nada. Porque tinha recordado sua voz suave, a voz que ouviu naquele dia, fazia tanto tempo, ao entregar a sua família ao mar, a voz que tinha ouvido tantas vezes em sonhos ou depois de uma longa e árdua batalha? Era estranho. Tabitha não o conhecia, e ele nem sequer estava seguro de que estivesse viva quando ele tinha quatorze anos, e, entretanto se comunicou com ele e tinha tentado reconfortá-lo.

Recordou-se que devia lhe dizer que não necessitava consolo, nem dela nem de ninguém. Nunca o necessitou, nem o necessitaria no futuro. Também lhe diria que deixasse de compadecer-se daquele garoto. De fato, devia deixar de pensar nele por completo.

—Do que está vestido, Guy?

Macleod olhou para Rob. Muito poucas pessoas o chamavam por seu nome de batismo. Tinham-lhe posto o nome do principal aliado francês de seu pai em uma época de guerra, mas Rob sim o fazia, e não o importava. Estavam muito unidos, lutaram ombro a ombro muitas vezes. Mais de uma vez, Macleod se negou a deixá-lo morrer em uma batalha sangrenta e invocou MacNeil para que o curasse. Nunca falaram do Destino ou da linhagem de Macleod, mas Macleod sabia que Rob adivinhava o que era em realidade.

Muitos em Blayde o temiam porque não sabiam toda a verdade, mas ouviram falar ou viram seus poderes. Ele era consciente de que corriam muitos rumores a respeito de sua pessoa. Alguns inclusive suspeitavam que pertencia à Irmandade, mas a existência daqueles guerreiros sagrados também era um rumor. Ninguém tinha a certeza absoluta de que existissem, exceto ele e outros como ele. Rob, entretanto, suspeitava a verdade.

—É o traje de um país muito longínquo — respondeu. Não podia dizer a Rob que visitou o futuro.

—Essas roupagens parecem muito incômodas, mas a mulher é muito bonita — Rob lhe lançou um olhar curioso. —Fala com você com insolência.

Sim, certamente.

—É muito valente.

—De que país é?

—De uma cidade chamada Nova Iorque. Está ao outro lado do mar. Suas mulheres são diferentes, Rob. Tentam viver como homens.

Rob se pôs a rir.

—Nenhuma mulher pode viver como um homem.

Macleod estava de acordo.

—Mas é muito esperta, e é uma bruxa.

Rob se sobressaltou.

—Então é um golpe de sorte que esteja aqui. Assim poderá utilizá-la em sua guerra contra Melvaig.

Macleod sacudiu a cabeça.

—Não lutará conosco. Não o permitirei. Vi Ruari na colina. Disse-me que se encontrou com Coinneach quando tentava roubar três vacas. —Começaram a subir pela estreita escada. —Os dois sabemos que Coinneach não veio a Blayde para roubar gado. Veio me matar.

—Não acredito que vá admitir — disse Rob. —Mas os guardas o ouviram jurar vingança para Alasdair.

Macleod subia energicamente os degraus.

—Que o tente — se concentrou por inteiro e a serenidade se apoderou de todo seu ser, como era lógico antes de enfrentar ao inimigo.

—É valente — comentou Rob atrás dele.

Rob jamais se atreveria a lhe sugerir que tivesse piedade dele, embora pensasse.

—Servirá de castigo a todos os que pensem em invadir minhas terras com más intenções — chegou ao patamar de cima.

Rob se reuniu com ele. Seus olhos azuis o olhavam com curiosidade.

—Fará o que deve — disse por fim.

—Sim — o garoto tinha cometido uma estupidez ao ir a Blayde sozinho, procurando vingança, mas Macleod haveria feito o mesmo.

Um de seus homens montava guarda diante da porta fechada da torre. O guarda se afastou e Macleod entrou no aposento quadrado e olhou ao garoto com dureza.

Coinneach MacDougall estava encadeado à parede por um tornozelo. Seus olhos ardiam, cheios de ódio. Cuspiu nas botas de Macleod.

Macleod se deteve com as mãos apoiadas nos quadris, alheio àquele estúpido ato de desafio.

—Crê que seus cuspis me incomodam?

—Demonstram o que penso de você: que é um ser rasteiro e desprezível.

—Acha sensato me provocar?

—Assassino! —os olhos azuis do menino destacavam-se, brilhantes, em seu rosto pálido. —Porco assassino!

Macleod viu o menino que tinha sido antigamente, ajoelhado na praia, vendo afastar as balsas mortuárias. Era uma lembrança intensa e penetrante. O que lhe estava ocorrendo? Porque não só recordava aquele instante com todo detalhe, mas também de repente sentiu uma chama de ódio, de raiva, de dor.

“Deixe-me te ajudar”.

Girou-se, mas Tabitha não estava na porta.

—Encontra-se mal? — perguntou Rob.

Ele sacudiu a cabeça e se voltou para Coinneach com expressão séria. O menino se converteu em um homem da noite para o dia. Tinha dezesseis anos, e era o chefe do clã MacDougall.

“Deixe-me te ajudar”. 

Perseguia-o ela agora em sua própria casa? Macleod se refez rapidamente.

—Sim, matei a seu pai, ao seu avô, e ao seu bisavô antes dele. E, Coinneach, você será o próximo.

Coinneach se revolveu contra os grilhões como um animal selvagem, cheio de fúria e de desespero.

—Adiante, me mate também! Lady Criosaidh te destruirá com sua magia, e meus tios arrasarão Blayde. Ela o jurou.

Sem dúvida Criosaidh tinha desatado já seus feitiços, ansiosa por vingar a morte de seu marido. Ao longo dos anos, Macleod evitou quase todos seus encantamentos com a ajuda de MacNeil e de algum ou outro deus ou deusa. Era uma bruxa poderosa, mas seus feitiços não podiam alcançá-lo em Blayde.

—Que Criosaidh faça o que quiser — respondeu com frieza. —Deixemos que seus tios tentem destruir Blayde. Quanto a você, foi uma estupidez vir a Blayde e roubar meu gado.

—Queria afundar uma adaga em seu negro coração — gritou Coinneach — mas não estava aqui.

Macleod queria uma confissão e já a tinha. Mas não sentiu satisfação alguma. Sentia, pelo contrário, um estranho desconcerto.

—Caso estivesse aqui, já estaria morto e apodrecendo no fosso, com uma adaga no pescoço.

—Caso estivesse aqui — respondeu Coinneach — teria transpassado seu negro coração e sua cabeça estaria trespassada em uma lança, em Melvaig.

—Pensa o que quiser, se isso o fizer que se sinta melhor — respondeu Macleod.

Coinneach voltou a cuspir.

Macleod estava farto. Não tinha vontade de continuar aquela conversação. O garoto morreria assim que ele o ordenasse. Criosaidh lançaria seus feitiços e seus tios atacariam Blayde com seus exércitos. Não havia nada novo. Nada mudava.

“Deixe-me te ajudar”.

Macleod olhou de novo para a porta, mas Tabitha tampouco estava ali. Tentava interpor-se entre seu prisioneiro e ele?

—Logo chegará sua hora — gritou Coinneach, retorcendo-se contra os grilhões. —Se eu não matá-lo, o matará outro.

—Seu pai deveria ter te ensinado tato e diplomacia. Mas você não é um covarde, como era ele, isso o reconheço.

Coinneach soltou um grito e tentou lançar-se sobre Macleod como se acreditasse que podia arrancar a corrente da parede.

Macleod sentiu de repente uma pontada de arrependimento. Não pelo que devia fazer, mas sim por provocar assim ao moço. Mas era a verdade: o pai de Coinneach era um covarde e o menino sabia: tinha-o visto. Macleod compreendeu de repente que tinha algo em comum com Coinneach. Ele também viu como assassinavam a seu pai sem poder fazer nada por impedi-lo.

Sentia-se incômodo, e não gostava disso.

—Vai quebrar a perna — disse tranquilamente.

Coinneach se acalmou, ofegando, e caiu de joelhos.

—O matarei — soluçou. —Juro que encontrarei o modo de te matar!

Macleod se negava a comparar-se de novo com Coinneach.

—Coloque-o na armadilha do pátio de armas para que todo mundo veja a sorte que assumem os ladrões e quem se propõe me assassinar. Não lhe deem comida, nem água. Já veremos quanto tempo sobrevive.

 

        Tabby se virou e viu Macleod desaparecer por uma escada escura. Decidiu que já tinha suficientes coisas das que se preocupar sem intrometer-se nos assuntos de Blayde. Sem dúvida Macleod fazia muitos prisioneiros ao longo de sua vida, e aquele só tinha roubado gado. A senhora de Melvaig era uma bruxa. Tabby mal conseguia assimilar aquela ideia lúgubre e surpreendente. Se An Tùir-Tara era o resultado de uma guerra de bruxas, significava isso que lady MacDougall seria a bruxa que tomaria parte naquela batalha duzentos anos depois? Havia feitiços para alongar a vida, embora Tabby nunca encontrou nenhum, nem conheceu ninguém que os usasse. Mas acaso não havia dito MacNeil que conheceu sua avó Sara? Sua avó era muito anciã quando morreu. Sam e ela acreditavam que tinha uns cem anos, mas agora Tabby não estava tão segura.

Doía-lhe a cabeça outra vez. Para sobreviver, necessitava de Macleod. Se não se equivocava, estava seguindo o rumo que lhe tinha marcado o Destino. Fez uma careta. Não queria decifrar o comentário de MacNeil sobre a alma.

A criada puxou sua manga e Tabby se virou.

—Um momento — disse, sorrindo-lhe.

Macleod partiu, mas Tabby sentia sua presença por toda parte. Agora que se resignou a estar no passado, não podia acreditar que gritou com ele, e muito menos que o tivesse esbofeteado. Ficara furiosa com ele, disso não havia dúvida. Tinha sorte, pensou, de que não lhe tivesse respondido da mesma forma.

Passou-lhe pela cabeça que possivelmente não fosse tão brutal como ela acreditava. Ou, ao menos, não o tinha sido com ela ainda.

E Tabby queria que seguisse assim, acabaram-se as rabugices, tão impróprias dela.

Percorreu com o olhar o grande salão e inclinou a cabeça olhando à criada.

—Vamos.

Cruzaram o salão. Tinha uma enorme chaminé, estava escassamente mobiliada e era exatamente como cabia imaginar um salão medieval. Os tetos eram muito altos e estavam cruzados por vigas de madeira. Havia juncos dispersos pelo chão.

Os livros de história se equivocavam, pensou Tabby ao sair. O salão estava limpo. Não havia cães. Os juncos estavam limpos e cheiravam muito bem.

Deteve-se antes de começar a subir a escada. O enorme castelo deveria lhe parecer frio e inóspito, mas quase parecia acolhedora. Não lhe importava absolutamente que fosse tão austera. Francamente, parecia o mais adequado para Macleod. De repente viu a si mesma aconchegada em uma das duas poltronas que havia diante da lareira, com o Livro das Rose.

Deixou escapar um gemido.

O que significava aquela fantasia? Nunca ia sentar-se diante do fogo para trabalhar seus feitiços. Isso só faria em sua casa. E de todos os modos, o livro não estava ali.

Começou a desanimar. O livro sempre esteve em poder de uma Rose. Era responsabilidade dela, e estava em casa, com Sam. Se necessitasse um novo feitiço, estava perdida. Mas com um pouco de sorte estaria em casa antes que isso acontecesse.

Seguiu a criada escada acima, intranquila, pensando na bruxa de Melvaig.

Um momento depois estava no terceiro piso, o mais alto do castelo de Blayde. Em frente a ela se abria uma sala diáfana. Viu umas escadas que subiam para as ameias, onde estava o guarda. A criada se aproximou da única porta que havia no patamar e lhe indicou que entrasse num espaçoso aposento.

Era o de Macleod. Sua presença e seu poder enchiam o cômodo. Sua marca era tão forte ali que Tabby se sentiu desfalecer. Seu corpo se agitou deliciosamente. Olhou um momento a chaminé, diante da qual se ajoelhou a criada. Logo olhou a cama. Era de madeira quase negra, profusamente lavrada. Junto a cabeceira de ébano se amontoava uma dúzia de almofadas bordadas, e aos pés havia mantas de lã vermelhas e azuis, uma pele e um manto de tartán vermelho e negro. Ralph Lauren ficaria encantado com aquela cama, pensou Tabby.

Agora que tinha acabado sua discussão com Macleod, seu corpo começava a lhe fazer exigências. Não perdoou Macleod por tratá-la como a uma mala... nem pensava fazê-lo. Assim teria que refrear aquela súbita e intensa grande onda de desejo.

Olhou além de uma mesa rústica e duas cadeiras lavradas, colocadas junto à parede, sob um par de frestas com portinhas. Fazia um lindo dia de verão e as portinhas abertas deixavam ver uma ampla extensão de mar de cor safira. Tabby se aproximou da estreita janela. O mar era tão imenso que supôs que estava vendo uma parte do oceano Atlântico. Era uma vista que ninguém poderia se cansar.

Recordou que não devia ficar muito cômoda ali. Seu novo plano consistia em ficar em Blayde uns dias e reunir informação sobre Melvaig e sua bruxa.

Olhou a cama. Quando Macleod se desculpasse com ela e lhe deixasse claro que compreendia que cometeu um engano, se reuniria com ele naquela cama. Enquanto isso, não deixaria que a tocasse. Seus princípios estavam em jogo.

A criada estava demorando para acender o fogo. Tabby disse que devia concentrar-se. O primeiro era proteger o aposento com um feitiço. Se não, não poderia dormir ali, havendo uma bruxa a poucos quilômetros de distância, em Melvaig. Mas dentro do quarto fazia muito frio. Fechou os olhos e se concentrou na madeira.

“Fogo, me obedeça, acenda-se, fogo, me obedeça, fogo, esquente o aposento”.

Passou uns minutos lançando o feitiço e logo abriu os olhos. A criada se virou e lhe dirigiu um olhar impotente. Logo disse algo e partiu.

Não brilhava nenhuma só brasa, e Tabby suspirou. Tinha obtido que a pistola daquele guarda não funcionasse, mas não podia acender um fogo. Tendo por hábito, entretanto, de fazer feitiços de proteção, aproximou-se da cama, sentou-se nela e fechou os olhos.

“Que o bem desça sobre este aposento, que o rodeie por inteiro. Que afugente em qualquer parte as más intenções. Que forme um círculo e nos proteja”.

Concentrou-se mais ainda. Intensificou seu desejo até que sentiu fazer cócegas sua carne e seus ossos e voltou a entoar uma e outra vez o encantamento. Começou a suar. Quando pareceu conseguir, deitou-se na cama, esgotada.

Então se sobressaltou.

Um pequeno fogo ardia na chaminé.

Ela o acendeu? Murmurou:

—Fogo, me obedeça, acenda-se, fogo, me obedeça, fogo, esquente o aposento.

O fogo dançou alegremente, mas não se avivou.

De repente, uma das portinhas abertos golpeou a parede.

Tabby se sentou, sobressaltada. Fazia um aprazível dia de verão. Como era possível que uma súbita rajada de vento movesse tão violentamente a portinha?

A portinha voltou a se chocar contra a parede.

Aquilo não era natural. Enquanto Tabby começava a compreender, outra portinha golpeou também a parede. E logo outra e outra, como se alguém fosse caminhando de uma a outra, separando-as da parede e batendo-as contra ela.

O ódio e a malevolência palpitavam ali perto: o mesmo ódio e a mesma malevolência que Tabby sentiu em seu loft. Aquela coisa havia retornado.

Então, o medo e o assombro se desvaneceram. A calma se apoderou dela. Sem afastar os olhos das janelas, onde sentia espreitar o mal, murmurou:

—Parte, mal, sai daqui. Que meus feitiços o mantenham longe daqui.

As portinhas começaram a chocar em uníssono contra a parede, em um arrebatamento de fúria e ódio.

Tabby sabia que a porta do aposento estava aberta. Sentiu a tentação de partir, mas começou a repetir o feitiço com os olhos fixos na porta. Esta se fechou de repente.

—Parte, mal, sai daqui. Que meus feitiços o mantenham longe daqui.

Aproximou-se da porta e agarrou o trinco, mas a porta não se moveu. O medo voltou a agitar-se dentro dela. Afugentou-o.

—Parte, mal, sai daqui. Que meus feitiços o mantenham longe daqui — Puxou a porta com todas suas forças.

Abriu-se de repente.

Tabby saiu correndo do quarto sem deixar de entoar seu feitiço. Uma rajada de ar gélido a golpeou por trás com violência. Mas não procedia do aposento, mas sim da torre ou da janela do fundo do corredor. Cambaleou-se, assombrada.

Aquele ar gelado voltou a golpeá-la pelas costas.

—Tabitha!

Tabby caiu bruscamente ao chão. Ouviu os passos enérgicos de Macleod subindo pela escada e tentou levantar-se, mas o ar a empurrava para baixo. Levantou o olhar e viu Macleod, ainda em jeans, com o rosto convertido em uma máscara de raiva. Uma energia prateada brotava de suas mãos.

—A Thabitha! —rugiu.

Tabby ouviu que as pedras do teto rachavam e notou que a pressão sobre ela aumentava. Tentou libertar-se.

—Parte, mal, sai daqui — repetiu.

Pareceu-lhe ouvir uma risada.

Macleod soltou uma maldição. Tabby o olhou e viu brilhar seu poder ao mesmo tempo que outra pedra se desprendia das paredes da torre. Macleod tentava lançar uma descarga contra a energia que entrava pela janela, mas estava claro que seu poder era feito para uma entidade muito mais física. Se Tabby não conseguisse se libertar do mal, quebraria as costas.

—Parte, mal... sai daqui.

Aquele ódio feroz a empurrou com tanta força que Tabby pensou que finalmente seus ossos quebrariam. Contra-atacou com sua magia. De repente, aquela espantosa pressão cessou. Tabby deixou escapar um gemido, ofegou, aliviada, e ficou de joelhos.

Macleod se ajoelhou a seu lado e a estreitou entre seus braços.

—Está ferida?

Tabby se levantou lentamente e se apoiou contra ele, olhando seus grandes olhos azuis. Olhou para a escada que levava às ameias, ao fundo do corredor, onde havia uma janela aberta. Começou a tremer.

—Macleod, nos seguiu até aqui de Nova Iorque.

Nova Iorque

9 de dezembro de 2011

A despertou sua busca.

Sam tinha o sono leve, levantou-se bruscamente, olhou o telefone e discou o número de Nick. Enquanto tocava o celular, deu-se conta que dormiu menos de duas horas e resmungou uma maldição. Porque demônios a incomodava Nick em pleno dia?

—Onde está sua irmã? —perguntou seu chefe.

—Olá, bom dia para você também — Sam se inquietou imediatamente. —Suponho que tenha saído e está por aí.

—Está a ajudando a ocultar algo, Rose? —Nick parecia zangado.

Sam não tinha poderes telepáticos, mas não precisava deles. Nick sabia de Macleod. Estava segura disso.

—O que ocorre? Porque preciso dormir e me ponho de muito mau humor quando não posso fazê-lo.

—Um cara enorme que talvez seja mago porque ao que parece suas mãos soltavam raios, atacou o Museu Metropolitano.

Sam ficou quieta.

—Merda.

—Ah, e morreu outro policial. E desapareceu um colar de valor incalculável. Assim que… onde dizia que está sua irmã?

Que cagada, pensou Sam.

—Te ligo em seguida.

—Rose! — gritou Nick, mas Sam desligou.

Vestiu uns jeans e saiu descalça de seu quarto enquanto enfiava uma camiseta de gola alta. Nem sequer se incomodou em chamar a sua irmã: sabia que Macleod e ela partiram. O loft estava vazio.

Sam respirava agitadamente. Era impossível que Tabby tivesse voltado no tempo sem lhe dizer adeus. Sua irmã não faria isso. Dava a impressão de que Macleod perpetrou um roubo no museu. Se era assim, certamente se apresentariam ali a qualquer momento.

Sam tremeu. E ela nunca tremia. Tinha nervos de aço. Olhou os sacos de lixo que tampavam as janelas da sala de estar. Soou seu telefone celular.

Levava-o no bolso de atrás e respondeu em seguida.

—Não sei onde está Tabby. Mas algo tentou entrar aqui ontem à noite, Nick. Tabby estava convencida de que era energia demoníaca.

Nick ficou calado.

—Primeiro uns meninos possídos e logo um fantasma diabólico?

Sam umedeceu os lábios.

—Um fantasma diabólico pode mandar sub-demônios?

—Como quer que eu saiba?

—Não sei. Você parece saber tudo — respondeu Sam, furiosa de repente.

—Viu Macleod, maldição?

—Sim — respondeu Sam a contra gosto. —E menti para você. Tabby me pediu que mantivesse em segredo, e fiz isso, me demita. Importa-me uma merda — se deu conta de que tinha um nó na garganta, como se estivesse a ponto de chorar.

Nick suavizou o tom.

—Talvez a penalize, mas não vou despedi-la. Venha à UCH para que tentemos esclarecer isto. E não se preocupe: terá notícias dela.

Nick estava sendo amável. Sam se enfureceu.

—Não partiu, vai voltar! — esteve a ponto de lançar o telefone contra a parede, mas no último momento voltou a guardá-lo no bolso.

Soou a campainha.

Sam ficou em guarda imediatamente. Ninguém podia subir ali sem ligar primeiro do vestíbulo exterior. Aproximou-se da porta. Quando estava a meio caminho, sentiu o mal... e o reconheceu. Sua surpresa se dissipou quando abriu a porta e cravou o olhar em Kristin Lafarge.

Kristin sorriu. Trazia na mão uma bolsa de uma padaria próxima. Olhou os sacos de lixo nas janelas e logo a Sam.

—Olá. Espero não havê-la incomodado. Ontem a noite não pude dormir pelo que ocorreu. Esta manhã tentei ligar para sua irmã, mas não respondia. Comecei a ficar preocupada e me ocorreu passar por aqui no caminho do colégio.

—É meio-dia.

—Vanderkirk me disse que podia tomar a metade do dia livre. A princípio me neguei, mas esta manhã mudei de ideia. Tabby está aqui?

—Entre — disse Sam com um sorriso. Mas dentro fazia muito frio. Aquela vagabunda ia falar antes de partir, e Sam não pensava tratá-la com delicadeza. —Algum vizinho abriu a porta?

—Sim, a senhora que vive no segundo. É um encanto — Kristin deixou a bolsinha de papel sobre a bancada da cozinha. —Tabby não está? Encontra-se bem?

A senhora Morris jamais permitiria alguém a quem não conhecesse entrar. Kristin tinha que havê-la hipnotizado.

—Como verá, ontem à noite tivemos uma pequena briga. Dessas que vemos nos filmes de terror.

Kristin suspirou.

—Sam, poderíamos ir ao ponto?

—OH, sim — respondeu Sam, umedecendo os lábios. —Porque está atrás da minha irmã?

—A vingança é uma cadela — respondeu Kristin brandamente. Seus olhos brilharam e seu corpo emitiu uma grande onda negra. —Morre, cadela, com dor.

Sam sentiu uma aguda pontada, parecida com uma navalhada, no estômago. Sufocou um gemido.

—Devia imaginar. Uma bruxa do inferno lhe lançou seu poder.

Kristin saiu voando e se chocou contra a bancada da cozinha.

Embora ainda seu estômago doesse, Sam sorriu.

—Nunca procure problemas com uma Rose — voltou a lhe lançar uma descarga e Kristin gritou e caiu de joelhos. Sam avançou para ela. —O que Tabby fez com você? — perguntou com aspereza. —Porque a persegue?

        Kristin fechou os olhos e começou a cantarolar em voz baixa. Sam ficou tensa, consciente de que tentava lançar um feitiço sobre ela. Preparou-se para resisti-lo.

—Responde, vagabunda!

Kristin abriu os olhos, que brilharam estranhamente, como opalas incandescentes.

—Onde está sua irmã, Sam?

—Está em Blayde, na Escócia — Sam ficou horrorizada. Acabava de lhe dizer onde estava sua irmã!

E, o que era pior, estava confusa, de repente não sabia o que queria de Kristin, nem por que sentia aquela ansiedade. E assim que ganhou consciência de seu atordoamento, compreendeu que a tinha hipnotizado.

Tinha que resistir a seu feitiço. Não havia dito a Kristin o ano no qual poderia encontrar a Tabby.

—Está ali agora, no presente? Ou se foi ao passado? —perguntou Kristin, aproximando-se.

Sam tentou fugir ao olhar hipnótico da bruxa. Sabia que não deveria responder, mas disse fracamente:

—Está no passado.

—Em que ano, exatamente?

—Em 1298 — “merda”, pensou Sam enquanto falava. Kristin possuía poder escuro e ia atrás de Tabby, e ela acabava de lhe dizer onde encontrá-la. Mas de algum modo conseguiria desprender-se de seu feitiço e retroceder no tempo. Protegeria a sua irmã, e ao diabo com Macleod.

Kristin sorriu e disse:

—Não se mova, querida, ainda não — se voltou e entrou na cozinha.

Sam se sentiu presa por uma garra invisível. Sabia que tinha que fazer algo, devia destruir Kristin, mas sua vontade não obedecia a sua mente.

Kristin voltou segurando uma faca de açougueiro.

—Toma a faca, Sam.

Sam sabia o que se propunha. “Sou uma Rose”, pensou, furiosa, e de repente levantou a mão e viu aliviada que lançava uma descarga de poder. A faca voou da mão de Kristin.

—A vingança é uma cadela. Morre, cadela, com dor — gritou Kristin.

Uma faca invisível a atravessou, mas Sam conseguiu resistir a dor e avançou. Kristin empalideceu e correu para a porta. Sam recolheu a faca, ofegando de dor. Kristin murmurou em uma língua estranha que Sam tinha ouvido antes. Surpreendida, levou a mão ao abdômen.

A bruxa estava cantando na antiga língua dos demônios.

Kristin aproveitou aquele momento para fugir do loft.

Respirando trabalhosamente, Sam se deslizou pela parede, até o chão. Finalmente, a dor remeteu. Como conhecia aquela bruxa uma língua que só usavam os demônios mais antigos?

 

—Está ferida? — repetiu Macleod com olhar penetrante.

Tabby tomou fôlego e começou a levantar-se. Ele a rodeou com o braço para ajudá-la.

—Estou bem — ainda estava trêmula, alegrava-se de que Macleod estivesse a seu lado durante outra crise.

Mas agora era difícil seguir zangada com ele. Sorriu fracamente.

—Chegou no momento certo.

—Senti o mal ao sair da torre, Tabitha — ele também parecia apaziguado. —Não nos seguiu.

Tabby sentiu que lhe encolhiam as vísceras.

—Possivelmente tenha razão. Mas só possivelmente.

—Tenho razão. Deseja se sentar?

Seu rosto tinha agora aquela expressão de guerreiro experiente, e Tabby notava sua impaciência. Macleod queria enfrentar aquele espírito maligno.

—Estou bem. Sinto-me um pouco maltratada e talvez esteja um pouco machucada, mas sobreviverei.

O rosto de Macleod se tencionou até um ponto inconcebível.

—O mal ousou irromper em minha casa! — bramou, e as paredes tremeram. Pequenos fragmentos de pedra e chapisco caíram do teto. Tabby agachou a cabeça e Macleod a atraiu para si.

Ela levantou o olhar. Sentia intensamente sua presença. Macleod era valente, poderoso, sensual e incrivelmente viril.

—Acredito que deveria controlar sua ira, para que não se derrube toda esta ala do castelo.

Ele a soltou.

—Sim.

—Macleod, estou segura de que essa energia maligna procedia de Nova Iorque. Era a mesma que senti no museu. É o mal associado com An Tùir-Tara. Mas há a possibilidade de que me equivoque? Poderia ser a bruxa de Melvaig, nos mandando um presentinho?

—Criosaidh é uma bruxa, Tabitha, mas humana em sua maior parte. Corre o rumor de que seu avô era um deamhan, mas não sei se é certo. Em todo caso, vive e respira como nós. Não pode se dissolver no ar, como o mal — sua expressão mudou. —Ou isso acredito.

Tabby se abraçou. Agora que o ataque tinha passado, começava a compreender suas implicações.

—Eu te protegerei.

Ela olhou seus olhos firmes.

—Por quê? Porque vamos compartilhar a cama?

—Sim... e porque é uma Inocente.

—Mas se negou a fazer seus votos.

Os olhos azuis de Macleod brilharam.

—MacNeil passa quase cem anos tentando me convencer. Não comece agora você também, Tabitha. É uma Inocente e tem poder. Desejo te proteger e o farei.

—Tenho uma notícia para te dar — Tabby fez uma careta. —Seu poder foi feito para deter inimigos de carne e osso. Aparentemente, não pode deter um espírito.

—Mas você pode.

—Talvez, mas meus poderes são muito instáveis — respondeu Tabby, preocupada. —Algum dia serão fortes, acredito, mas agora não posso confiar neles. Se só contarmos comigo, Macleod, estamos metidos em uma boa confusão.

—Sua magia é mais forte do que crê — entrou no aposento e Tabby o seguiu.

—Ainda não sabemos por que me persegue um demônio derrotado — disse por fim.

—Tem inimigos — respondeu ele com calma, olhando o baú fechado que havia ao pé da cama. Sua expressão se tornou pensativa.

—Que eu saiba, meus inimigos estão mortos. Cada vez que lutamos contra o mal, o derrotamos. Se não, já estaríamos mortas.

—Mas o mal retornou de entre os vencidos, não é certo? — Olhou-a por cima do ombro e se ajoelhou ao mesmo tempo em que pegava as chaves que tinha penduradas do cinto.

Tabby recordou de repente algo que havia lhe dito: que se não matava a seus inimigos, seus inimigos o matariam. Talvez seus mundos não fossem tão diferentes quanto ela acreditava.

        —Macleod, não acredito que tenha entrado aqui. Estava nas frestas, e parecia furioso por não poder entrar. Mas fechou a porta lançando sua energia da janela — ficou séria. Havia-lhe custado um grande esforço abrir a porta. E teve medo de que aquele espírito quebrasse suas costas.

Macleod adotou uma expressão sombria.

—Estava no corredor contigo, Tabitha, justo aí, ao outro lado da porta do aposento. Notei-o perfeitamente.

—Fiz um feitiço para proteger o quarto, mas não o corredor — Tabby estremeceu. —Ela me odeia... ou nos odeia.

Ele se voltou para olhá-la.

—Ela?

—Lembra do museu? — ao ver que Macleod assentia, acrescentou: —Em minha primeira visita, vi o colar de sua mãe e em seguida senti a maldade de uma mulher. Esse espírito é uma mulher.

Ele ficou olhando-a.

—Os fantasmas não aparecem no passado, aparecem no futuro.

Tinha razão. Cabia a possibilidade de que um fantasma aparecesse em 2011, procedente de 1550. Mas aquele fantasma tinha voltado no tempo. Disse lentamente:

—Bom, se nós podemos viajar no tempo, suponho que esse espírito também pode — logo acrescentou. —O que está fazendo?

—Segura isto — respondeu Macleod enquanto metia a mão no bolso dos jeans.

Tabby se sobressaltou quando lhe deu o amuleto que tinha roubado no museu. Sentiu-o frio como o gelo na mão.

—O esqueci por completo.

Lançou-lhe um olhar e abriu o baú.

Tabby sentiu crescer sua tensão ao dar-se conta do que estava fazendo. Macleod disse que deixou o pingente em um baú, em Blayde. Mas ela tinha o mesmo pingente na mão, e não sabia o que podia esperar. Não poderia haver dois, não?

Umedeceu os lábios. A viagem no tempo mudava tudo. Se retornasse ao futuro, mas uns dias antes de conhecer Macleod, o que encontraria? Uma versão ligeiramente mais jovem de si mesma? Encontrar-se-ia cara a cara consigo mesma? Era possível?

—Necessito o Livro — disse de repente. —Toda a sabedoria que possa imaginar está nele. Nunca me afastei dele, em toda minha vida — começou a inquietar-se. —Sempre o guarda uma bruxa poderosa da família Rose. Minha avó o deixou para mim. Não sei se posso me arrumar sem ele.

Ele a olhou com fixamente.

—Os Mestres seguem muitas regras, Tabitha. Com os anos, aprendi algumas de suas leis. Está proibido que um Mestre se encontre consigo mesmo em outra época. É uma das cláusulas mais sagradas do Código.

—Por quê? — perguntou Tabby com certo temor.

—Não sei, mas as consequências são imprevisíveis... ou isso ouvi.

Tabby olhou o pingente que tinha na mão. A pedra da lua parecia inerte.

—Isto perdeu seu poder. Tinha magia, Macleod, mas já não a tem.

Ele a ouviu, mas não respondeu. Colocou a mão no baú aberto e, para assombro de Tabby, tirou um pingente idêntico. Ela sentiu em seguida seu calor e seu poder, sua magia protetora. Tabby o olhou mais de perto; a pedra de lua brilhava como uma estrela.

De repente gritou e deixou cair o pingente que tinha na mão, esfriou tanto que queimou sua mão. Incrédula, olhou a marca que tinha na palma. Logo viu que o pingente do chão se convertia em pó branco e dourado... e desaparecia.

Macleod a agarrou pela mão.

—Passará. Se envolver a mão em um pano molhado com água do lago tirará o frio.

—Foi pura física. Um objeto não pode estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.

—Toma o amuleto de minha mãe, Tabitha — disse ele. —Quero que você o tenha.

Tabby ficou quieta.

—O que?

—Elasaid era sacerdotisa e Curadora. Tinha um imenso poder branco... igual a você. Não fazia encantamentos, mas seu poder e sua fé fortaleciam a fé dos Inocentes. Meu pai costumava lhe dizer que estaria perdida sem seu amuleto. E ela não o negava — de repente seu semblante endureceu, e afastou o olhar dela.

Tabby sentiu brotar dele uma grandet onda de tristeza, mas aquela sensação passou em um instante. Tocou seu braço nu. Macleod seguia sofrendo noventa e sete anos depois do assassinato de sua família, e devia enfrentar a aquela angústia e liberar-se dela, de repente desejou ajudá-lo, reconfortá-lo, tão apaixonadamente como a primeira vez que o tinha vislumbrado no museu. Parecia a coisa mais importante de toda sua vida.

Aquela violenta sensação a deixou atônita.

—O que ocorreu a Elasaid, Macleod? perguntou brandamente.

—Não sabe? —perguntou ele. —Tenho o amuleto. Ela... perdeu-se.

Tabby se sobressaltou. Macleod se afastou. Falava desapaixonadamente, como o guia de um museu ante seus ouvintes.

—Morreu em um incêndio, aqui, em Blayde, e seu corpo nunca apareceu.

—Sinto-o muitíssimo — sussurrou Tabby. De repente se perguntou se foi injusta com ele no primeiro momento. Não tinha deixado de julgá-lo e condená-lo. Macleod era fruto de sua época, mas era um bom homem e sofreu terrivelmente.

—Quero que fique com o pingente.

Seus olhares se encontraram. O que significava aquele gesto? Tabby não conseguia entender por que queria lhe dar de presente àquela herança familiar, sobretudo tendo em conta que era mágica. Não se enganava pensando que pudesse ter algo a ver com sua relação pessoal.

—Porque, Macleod? Porque me dá isso?

—Porque te protegerá. Tem poder, Tabitha. E com ele nunca se perderá.

Tabby sacudiu a cabeça.

—Não posso aceitá-lo, Macleod. É a única coisa que ficou dela.

O rosto de Macleod escureceu.

—Tabitha, acredito que não sabe quão grave foi esse ataque.

Não gostou de como soava aquilo.

—Sim, sei, esteve a ponto de quebrar minhas costas.

—Não esperou que anoitecesse — disse ele em voz baixa.

 

O grande salão estava cheio de homens de Macleod e de suas mulheres. O jantar estava acabando, ouviam-se risadas, vozes, canções, conversações... Tinham deixado entrar aos cães, mas eram galgos grandes e belos, que contribuíam à extraordinária calidez daquela cena medieval. Tabby estava sentada só junto à cabeceira da mesa, onde esteve sentado Macleod enquanto comiam. Estava morta de fome, mas comeu rapidamente e quase sem dar-se conta, muito preocupada para saborear o salmão de rio.

Estava exausta. Preocupava-a Sam, e o que ia acontecer essa noite... e não estava pensando no sexo, a não ser no mal. Ao menos não podia entrar no dormitório, embora pudesse sacudir os portinhas da janela e fechar uma porta.

Os demônios só saíam de noite para violar e assassinar. Entretanto, aquele espírito demoníaco vencido a atacou em plena luz do dia.

Tabby se sentia doente. Sim, estava assustada. Aquela coisa podia aparecer a qualquer momento. Teria que estar em guarda constantemente. Não haveria pausa.

Estava bebendo vinho e olhando Macleod. Não podia evitar. Ele se converteu em seu apoio, de certo modo. Se tinha que ficar ali, no passado, alegrava-se de estar com ele. Seria melhor que estar sozinha quando voltasse aquela coisa.

Macleod estava em pé frente à chaminé, com vários de seus homens, e a luz do fogo realçava seus traços esculpidos e seu corpo musculoso. Trocou de roupa e usava seu espartilho e seu manto de tartán vermelho e negro. Tinha ido jantar completamente armado, mas sorria e parecia relaxado. Segurava uma jarra de cerveja e parecia estar divertindo-se com seus amigos. Era como se aquele fantasma maligno não a tivesse atacado dentro de sua casa... nem os tivesse atacado na noite anterior, em seu apartamento de Nova Iorque.

Podia alterá-lo alguma batalha? Tabby acreditava que não.

Sabia que ele era consciente de que o estava olhando. Não a olhou desde que se levantou, mas Tabby sabia. Pareciam estar contando anedotas. Falavam em gaélico, assim Tabby só entendia alguma palavra de vez em quando. Os homens reunidos em torno dele disputavam sua atenção. Apreciavam Macleod, inclusive o admiravam, e saltava à vista que sentiam um imenso respeito por ele, pensou Tabby.

Não gostava muito de sua atitude arrogante, mas não poderia negar que de vez em quando ela também o admirava, e que certamente o respeitava.

Tentava conservar a calma e contemplar com objetividade as circunstâncias em que se encontrava, assim como ao próprio Macleod, mas sua elevada pressão arterial lhe indicava que nada era normal. Não queria estar na Idade Média, mas ali estava. Não queria ser a amante ocasional de Macleod, mas o era... e estava segura de que não poderia rejeitá-lo essa noite, embora ele a considerasse um objeto. Não queria retornar para casa e encontrar sua vida desprovida de paixão, voltar para sua existência anterior sendo a Tabby perfeita e educada de sempre. Tinha, entretanto, o terrível pressentimento de que esse seria o resultado final de sua incursão na Escócia histórica.

Se sobrevivesse ao fantasma daquela mulher odiosa.

Era uma lástima que Macleod fosse tão bonito. E era ainda pior que ela conhecesse cada palmo de seu corpo poderoso. Pensar nisso a fez acalorar-se.

Ele se aproximou de repente, com olhar direto e penetrante. Tabby conteve o fôlego. Sabia o que queria. Era hora de manter-se firme.

Seus princípios estavam em jogo. Macleod tinha que entender que não era seu dono, nem seu chefe. Não tinha autoridade sobre ela. Tabby se levantou. Seu sangue trovejava. Como ia resistir a ele? Não queria fazê-lo. Só uma idiota dormiria sozinha, podendo passar a noite com Macleod.

—Maldito seja — disse quando ele se aproximou. —Isto continua sendo um erro. É uma loucura.

Ele esboçou um sorriso divertido.

—O prazer é natural, Tabitha, e não posso deixar de pensar em te fazer gozar.

Tabby estremeceu violentamente.

—Faz de propósito — o reprovou em voz baixa, e apoiou a mão sobre seu peito para retê-lo. Tocá-lo fez que se sentisse aturdida.

—Sim, assim é — tinha um olhar indolente que prometia todo tipo de deleites sexuais. Era endiabradamente sexy.

Tabby se deu conta de que estava dando água na boca.

—Estou preocupada com minha irmã — disse com certo desespero.

Ele pareceu surpreso.

—Macleod, estou aqui há oito ou nove horas. Mas também passaram oito ou nove horas em Nova Iorque em 2011? Ou passaram dias, semanas ou meses? Como funcionam as viagens no tempo? Está Sam angustiada porque passei fora todo o dia, ou porque passaram-se anos sem ter notícias minhas? Tenho que voltar. Não posso desaparecer sem mais de sua vida.

Sabia que sua irmã não deixaria de procurá-la. Sam encontraria um modo de seguir seu rastro... ou morreria no intento.

—Tabitha, não tenho as respostas que busca, mas te juro que me assegurarei de que volte a ver sua irmã.

Suas palavras atravessaram a terrível tensão sexual que ardia entre eles. Acreditava Macleod que ia ficar para sempre na Escócia medieval? Porque não era nem sequer uma possibilidade remota.

—Quer dizer que voltarei a ver Sam porque dentro de uns dias estarei em casa.

Ele colocou uma mão nas suas costas e a empurrou para diante.

—Disse o que queria dizer.

Tabby conteve o fôlego. Seu contato fez que enrijecesse.

—Não sou um objeto — disse enquanto punha-se a andar para as escadas. Ele não afastou a mão, e ela tampouco queria que o fizesse.

—Não, não é um objeto. É minha convidada — murmurou Macleod.

Seu tom sensual embargou Tabby. Como era possível que fizesse arder seu corpo tão facilmente?

—Os convidados partem quando querem.

—É perigoso que parta, assim para que discutir? —pôs a outra mão em sua cintura enquanto subiam pela estreita escada em caracol.

Tabby sentiu que sua mente começava a ficar de fora. Macleod tinha pousado as duas mãos sobre seus quadris. Ela sabia quão forte era e sentia que não ia deixá-la partir.

—Acabaremos esta conversa amanhã — disse com voz pastosa. Falar, agora que lhe custava pensar com claridade, era ridículo.

Ele a fez parar de repente e beijou seu pescoço. Atraiu-a para si, de costas, e Tabby ficou quieta ao sentir o calor de seu membro ereto sobre as nádegas, através da saia. Estavam no meio da escada, iluminada brandamente pelas tochas.

—O que faz? —perguntou, ofegante: pergunta mais idiota de sua vida.

Ele a estreitou entre seus braços por atrás. Seu pênis palpitava contra ela.

—Não quero esperar.

Estavam em uma escada. Ela quis protestar... ou não?

Macleod grunhiu e a rodeou fortemente com os braços, segurando-a um momento para que não se movesse. Tabby sentiu então que seu membro escapava do espartilho e pulsava contra suas nádegas, em cima da saia. Sentiu o coração acelerado de Macleod, sua selvagem excitação. Não podia suportá-lo.

        Subiu-lhe a saia e apertou o membro contra suas coxas nuas. Arrancou-lhe as calcinhas e deslizou os dedos sobre seu sexo úmido e palpitante. Tabby gemeu, apertando o rosto contra a parede de pedra. Sentiu que seu pênis se aproximava, enorme e escorregadio, e a penetrava.

Vibrando de prazer, sufocou um grito. Macleod deslizava a boca sobre seu pescoço uma e outra vez, depositando sobre ele beijos breves e duros enquanto a penetrava com força, energicamente. Ela alcançou o clímax, e o prazer se converteu em êxtase. Ele riu e logo grunhiu em voz alta e a seguiu. Deslizou as mãos mais abaixo. Reteve-a ali enquanto seguia lhe falando em sussurros. Sua excitação pareceu fundir-se com a dela, fazendo-se insuportável. Tabby soluçou seu nome.

 

Levantou friamente a espada enquanto Alasdair, acovardado, de quatro, suplicava-lhe por sua vida. Mas não o ouvia. Olhava ao rio, lá em baixo. Coinneach estava ali, corria com todas as forças para eles gritando:

—Não!

Sobressaltava-se ao ver o rapaz subir correndo pela colina, cheio de fúria, ansioso por salvar seu pai. Mas não podia deter-se. Devia fazê-lo. Lançou-lhe uma descarga de poder e Coinneach caiu ao chão.

Ele levantava a espada e olhava Alasdair, que tremia a seus pés.

—Não! — gritava Coinneach enquanto lutava por levantar-se. Macleod lhe lançou outra descarga. Dessa vez estava zangado.

O filho de MacDougall se desabou, retorcendo-se freneticamente. Macleod quase sentia lástima por ele. Logo ficava paralisado, incrédulo, porque o menino alto e loiro que se retorcia no chão se transformava. De repente tinha o cabelo escuro e se retorcia, impotente, tentando livrar-se dos braços de um deamhan. Lutava com fúria, desesperadamente, enquanto nos salões de Blayde ressoavam os gritos e as espadas, e as vigas de madeira se desprendiam do teto e caíam ao chão em chamas.

—Não! Pai!

Macleod desejava retroceder, fugir. Onde estava Alasdair?

Mas não podia mover-se, só podia ver a si mesmo convertido em um moço furioso. Seu pai levantou o olhar enquanto aqueles dois franceses começavam a sová-lo repetidamente pelas costas. O menino gritava e gritava.

 

        Macleod despertou bruscamente. Estava ofegando e por um instante pareceu sentir o cheiro das chamas que consumiam o grande salão de Blayde. Estava perplexo. Sonhou com Coinneach, seu prisioneiro... e o menino se transformou nele.

Coinneach não pôde impedir o assassinato de seu pai, Alasdair.

Ele tampouco pôde impedir a morte de Guilherme, seu pai.

A ira o apanhou de surpresa, apoderou-se dele, e o quarto pareceu tremer. Ia acompanhada de um ódio muito intenso, não por seus inimigos, mas sim por aquele maldito rapaz de quatorze anos.

Aquele moço tinha falhado a todo mundo!

Uma mão cobriu seu punho fechado.

Sobressaltou-se, consciente pela primeira vez da presença de Tabitha, que jazia a seu lado. Seus olhos dourados o olhavam com preocupação.

“Me deixe te ajudar”.

Macleod sabia que estava recordando uma voz do passado. Separou-se dela e desceu da cama.

—Está bem? perguntou ela.

—Sim — mentiu, e então percebeu que estava tremendo e cheio de suor. Maldito fosse aquele estúpido moço. Tinha falhado...

Tabitha se levantou, segurando as mantas contra o peito.

—Foi um pesadelo.

O quarto continuava tremendo. Macleod respirou fundo.

—Não sei. Não me lembro.

—Quer que falemos disso? —perguntou ela com suavidade.

Macleod se aproximou do fogo. “Deixe-me te ajudar”. Virou-se bruscamente.

—Está utilizando sua magia comigo, Tabitha?

Ela se esticou, alarmada.

—Não.

Possivelmente suas almas se conheciam. Havia muitas coisas estranhas no mundo, e Macleod não descartava essa ideia.

—Não necessito ajuda.

Ela o olhou com surpresa.

—Está bem — disse com cautela. —Mas parece aborrecido. Está seguro de que não recorda o que sonhou?

—As mulheres sonham — replicou ele. —Os homens não se incomodam em sonhar.

—Isso é uma tolice — respondeu ela com calma.

Macleod tomou o manto que tinha deixado sobre uma cadeira e rodeou a cintura com ele. Coinneach o estava importunando, pensou. Talvez devesse enforcá-lo essa mesma noite, para pôr fim àquela loucura.

—Porque está zangado?

Ele estremeceu. As portinhas tremeram.

—Disse que não necessito sua ajuda.

Tabitha ficou calada um momento, e ele se sentiu aliviado. Serviu duas taças de vinho. Ao lhe dar a sua, os olhos dourados de Tabby se deslizaram por seu rosto, detendo-se nos dele.

—Imagino que sonhou com guerra e morte — disse. —Estes tempos são tão violentos... Certamente passou pelo inferno muitas, muitas vezes.

Ele derramou o vinho sobre os lençóis ao afastar-se bruscamente.

—A guerra não me incomoda.

—Não acredito. A guerra é horrível. A ninguém agrada.

Macleod a olhou de frente.

—As Terras Altas estariam melhor sem ela.

Tabitha lhe sorriu um pouco.

—Mas a guerra não te assusta, verdade?

Ele esteve a ponto de sorrir, divertido por fim.

—A todo mundo assusta um pouco.

Tomou o vinho e se sentiu melhor. Aquele sonho perturbador começava a dissipar-se.

—Eu temo às mulheres que falam muito.

Lançou-lhe um olhar.

—Te assusta me falar de seu pesadelo.

Macleod se tencionou, desalentado. O sonho retornou com toda sua intensidade. E também a dor, a desesperança, a raiva... e agora também a culpa.

        —Não se trata de medo.

        —Seriamente? —Tabitha sorriu, cética. —Eu acredito que não pode controlar seus sonhos, e que isso deve ser um pouco aterrador para um cara tão duro como você.

Ele lutava e se retorcia e o deamhan ria e lhe insistia a ver morrer seu pai. E ele gritava, impotente...

—Tem que parar — gritou a Tabitha.

Ela se ergueu.

Macleod lutou por recuperar a compostura. Não o conseguiu.

—Sim, tive um sonho... um pesadelo, como você diz. Mas já passou.

Ela umedeceu os lábios.

—Sigo vendo esse menino de quatorze anos. Estava sonhando com ele.

Macleod parecia incrédulo.

—Esse menino já não existe, Tabitha, e lamento que continue pensando nele. Talvez ele necessitasse sua ajuda esse dia. Mas você não estava lá... exceto em espírito, ou como uma aparição. Ele afugentou aos intrusos. Enterrou aos mortos. Fez o que tinha que fazer — falava tão rapidamente e com tanta aspereza que mal podia respirar.

—Acredito que esse menino perdeu algo mais que sua família nesse dia — disse ela com voz suave e um olhar triste. —Acredito que perdeu sua infância. Que, da noite para o dia, converteu-se em um homem.

—Deixa o menino em paz! —rugiu ele.

E voltou a pensar em Coinneach.

Pensou em seu pai, aquele covarde que morreu suplicando por sua vida. Pensou no medo e na valentia de Coinneach. De repente imaginou a cabeça do menino cravada em uma lança, e o rosto do menino mudou, e Macleod viu sua própria cabeça ali trespassada.

Tabitha se levantou, cobrindo-se com uma manta.

—Talvez você seja muito duro e muito homem para que o ajude, mas quero ajudar a esse menino.

Macleod se girou, cheio de ira.

—Então teria que usar sua magia para retornar a 1201, não?

Ela sacudiu a cabeça e empalideceu.

Macleod começou a desconfiar como nunca antes.

—Tabitha...

—Acredito que esse menino está aqui, agora, diante de mim.

Macleod demorou um momento em compreendê-la. E quando por fim a entendeu foi às nuvens e as vigas de madeira do teto começaram a rachar. Caíram fragmentos de pedra do teto, mas Tabitha ficou quieta como uma estátua. Ele tampouco se moveu.

—Esse menino não está aqui, Tabitha. Está morto!

Ela deixou escapar um soluço.

—Deixa-o enterrado, sepultado no mar como todos outros. Maldita seja! — Macleod saiu do quarto furioso.

 

Tabby abriu os olhos. Demorou um instante em compreender por que o teto era de pedra escura e vigas de madeira e não de gesso branco.

Levantou-se lentamente na cama. O poder de Macleod enchia o cômodo e emanava dos lençóis.

Tabby ficou tensa, abraçando os joelhos contra o peito. Foi quase impossível dormir depois que ele partiu enfurecido. Sua cólera era, evidentemente, um disfarce que ocultava uma dor muito profunda. Tabby jamais o esqueceria gritando que aquele menino estava morto. Estremeceu. Que coisa tão terrível e tão trágica.

Macleod seguia sendo um homem medieval, complicado e desconhecido, mas era impossível manter-se indiferente a ele. Fazia algumas coisas que jamais o perdoaria, mas a tinha protegido várias vezes e fez amor com ela como se fosse acabar o mundo. Agora entendia que nunca esqueceu o massacre que arrebatou sua família em 1201.

Como não sentiria compaixão por ele? Por mais que pensasse em Angel, o rapaz decapitado, ou em que a arrastou ao passado contra sua vontade, não podia evitar sentir o desejo de reconfortá-lo e ajudá-lo. Qualquer menino normal ficaria traumatizado se era testemunha do assassinato de sua família. E, por extraordinário que fosse, estava claro que Macleod não era uma exceção.

Ela nunca sofreu tanto quanto ele. Embora sua mãe tenha sido assassinada por demônios em um crime de prazer, ela estava na aula de balé quando morreu. Foi Sam quem presenciou seu violento assassinato. E, como Macleod, sua irmã se negava a falar disso.

Era por isso pelo que estava com ele em 1298? Supunha-se que devia ajudá-lo a assimilar a tragédia? Possivelmente não importasse, porque de todos os modos, ela não poderia manter-se à margem. Sabia que era uma péssima ideia que mantivessem uma relação íntima, e sua compaixão era uma forma de intimidade, como era o sexo. Mas estava ali e pensava ajudá-lo, por mais que ele gritasse e se enfurecesse. Por mais que aquilo os unisse, sentia-se impelida a fazê-lo.

Ao partir do aposento, Macleod estava furioso com ela. Confiando que se acalmou após, Tabby decidiu ser um pouco mais subtil a próxima vez que tentasse indagar sobre seu passado. Porque haveria uma próxima vez. Agora, entretanto, seria difícil conseguir que ele se abrisse. Os homens do século XIII não tinham por costume falar de seus sentimentos. Possivelmente o fez sentir-se muito incômodo.

Ouviu um ligeiro toque na porta. Tabby disse à criada que entrasse. Apareceu uma ruiva muito jovem e bonita, que exclamou, surpresa, ao ver quão fria estava o quarto. Em seguida se ajoelhou frente a lareira e tentou acender o fogo.

Tabby olhou pela janela mais próxima. As portinhas estavam abertas e fazia uma manhã cinza, carregada de nuvens que auguravam chuva. Já fazia frio no dormitório quando partiu Macleod, essa madrugada.

A criada reacendeu o fogo, mas as chamas pareciam dispostas a apagar-se. Tabby olhou a chaminé, concentrou-se e murmurou:

—Fogo, me obedeça, volta, fogo. Fogo, me obedeça, esquenta o quarto.

A moça a olhou com os olhos dilatados pela surpresa. Depois dela, o fogo se avivou, e a criada se levantou de um salto.

Tabby se cobriu com as mantas até o queixo.

—Bom dia — não houve resposta. —Fala inglês?

—Sim, minha senhora... um pouco.

Tabby sorriu.

—Obrigada por acender o fogo. Faz muito frio aqui.

A moça a olhou fixamente.

—Você é uma bruxa?

Tabby conhecia muito bem a história das bruxas e a bruxaria. A grande caça de bruxas não começaria na Europa até meados do século XVI. Naquela época não se queimava nem se enforcava ninguém por praticar a bruxaria.

—Um pouco de magia pode ser muito útil — respondeu.

A moça sorriu.

—Pode me ajudar com sua magia?

Tabby riu.

—Necessita um feitiço amoroso?

—Sim. Meu nome é Peigi — acrescentou. Logo levantou as sobrancelhas. —Você está ainda na cama de Macleod, assim não necessita um feitiço amoroso... ou talvez tenha feito um.

Tabby tentou decifrar aquele comentário.

—Nunca tentei fazer um feitiço amoroso. Por que não estaria em sua cama esta manhã? — desceu da cama e tomou o manto de tartán vermelho e negro que havia a seus pés.

—Nenhuma mulher jamais ficou toda a noite com Macleod — respondeu Peigi.

Tabby acreditou ter ouvido mal. Afinal de contas, Macleod tinha mais de cem anos e esteve com uma multidão de mulheres. Era uma ideia perturbadora, assim Tabby se apressou a acrescentar:

—O que disse?

Peigi repetiu suas palavras.

Tabby a olhou com surpresa.

—Isso é absurdo — balbuciou. Embora, no fundo, sentia-se ridiculamente satisfeita.

—As mulheres com as que se deita lhe têm tanto medo que não ficam para passar a noite. Por isso nunca se casou, acredito. Teria que levá-las arrastadas ao altar, gritando e esperneando.

Tabby se sentou bruscamente. Macleod nunca se casou. E isso era muito incomum em sua época.

—Isso é terrível — disse em voz baixa. —As mulheres o utilizam e logo partem?

—Sim, a toda pressa e o mais longe que podem.

—Eu não acredito que seja tão mau. É que bate nelas?

Peigi sobressaltou.

—Ele não bateria nem em um cão, senhora, assim como vai bater em uma mulher? — Peigi deixou algumas roupas coloridas sobre uma cadeira. —Me disse que lhe trouxesse roupa — sacudiu um vestido de veludo azul.

Tabby piscou ao ver o belo vestido de veludo. Procurar roupa para ela era uma necessidade, disse a si mesma. Mas lhe mandar um vestido parecia algo terrivelmente íntimo, como se de verdade fossem amantes.

—Era de sua mãe — Peigi a olhou com malícia. —É a primeira mulher que fica em sua cama até o amanhecer, e agora lhe dá um presente tão caro. Já que não lhe fez um feitiço amoroso, deve o ter agradado muito.

Tabby estava incrédula.

—Não acredito que seja um presente.

—Não quererá que o devolva. Conheço bem ao senhor. Está muito satisfeito com você, mas jamais o dirá.

Tabby engoliu saliva. Não queria que Macleod estivesse satisfeito com ela. Que começasse a sentir por ela algum tipo de afeto. Ou sim? Se começasse a gostar dela, talvez não a deixaria retornar para casa. Mas ele não era capaz de manter esse tipo de relação, verdade?

E ela tampouco queria afeiçoar-se com ele, de maneira nenhuma. Só queria ajudá-lo. Se estavam juntos, era pelo destino e pelas circunstâncias, não por uma decisão racional. Ela teria escolhido como amante a um intelectual do século XXI.

Tocou o vestido, convencida de que não era um presente. Mas era um objeto muito caro para a Idade Média; não parecia com a roupa que usadas pelas mulheres que viu até esse momento. As mangas eram longas, em forma de sino e chegavam até o chão, um sinal de grande riqueza, e os punhos, a barra e a gola estavam bordados com fio de ouro. Era um vestido realmente belo, e incrivelmente refinado para a época.

Tabby tentou resistir a sua debilidade por roupa elegante e bem feita. Não queria gostar do vestido.

—Isto está ficando muito complicado — resmungou.

—Disse algo?

Primeiro desejo, logo compaixão e agora um vestido precioso.

—Não, nada. O vestido é muito bonito.

Peigi sorriu.

—Talvez ele lhe tenha feito um feitiço amoroso, senhora.

Tabby sentiu que suas bochechas esquentavam.

—Não estou apaixonada, Peigi. Eu não gosto de brutos que carregam espada quando vão jantar... e nem sequer são espadas ornamentais! Entretanto, estou em dívida com Macleod por ter me protegido, e um pouco preocupada com ele. Sabe algo do massacre em que morreu sua família?

Peigi sentou a seu lado.

—Claro que sim. Todo mundo sabe. Seu pai era um grande homem que fez a paz com os MacDougall depois de cem anos de guerra. Os festejos duraram um dia e uma noite. Mas quando o clã Macleod estava dormindo, os MacDougall abriram as portas de Blayde aos mercenários. Mataram a sua família diante de seus próprios olhos. Cinquenta e oito de seus parentes morreram nesse dia. Dizem que ele se defendeu com fúria, mas o que podia fazer um só moço? Só tinha quatorze anos quando se converteu em senhor dos Macleod.

Tabby fechou os olhos e, ao fazê-lo, viu o menino brandindo uma enorme espada contra os soldados, lançando estocadas a suas pernas e seus quadris enquanto o sangue e as lágrimas se mesclavam em seu rosto. Gritava incoerentemente, com uma mistura de raiva e dor. E o ouvia! Ouvia os gritos e o atrito das espadas.

Estremeceu. Acabava de aparecer à janela do tempo? Tinha visto o Macleod quando garoto, em meio ao massacre?

As outras vezes não ouviu nem um só som. Mas cada vez que o via quando menino, a imagem era mais nítida, e suas emoções mais fortes e tangíveis. E agora tinha ouvido o horrível ruído da batalha.

—Está doente, senhora? Está branca como um lençol.

Tabby tremeu, tonta de repente, possivelmente pela trisreza e o desespero de Macleod. Mas possivelmente fosse pela violência e a brutalidade que acabava de presenciar. O sangue corria pelo chão como a maré alta, sentia-se cheia de angústia por aquele moço. Tinha sido pior do que ele deixava entrever... ou do que ela imaginou.

—Só estou um pouco aturdida — disse.

Que menino de quatorze anos podia sobreviver àquele massacre e levar uma vida normal? Macleod se converteu em senhor de sua linhagem esse dia.

—Peigi, seriamente se converteu em chefe de seu clã depois da massacre, ou se encarregou outra pessoa de dirigir as coisas? Era senhor só de nome? -- notou o tremor de sua voz.

Peigi se surpreendeu.

—Era senhor em todos os sentidos, senhora. Os Macleod foram à guerra contra os MacDougall essa mesma primavera. Ele conduziu a seus exércitos apesar de ser um garoto... e os levou a vitória —falava com orgulho. —Nossos bardos ainda cantam sua vingança.

Não era de estranhar que fosse tão frio e implacável. Tabby olhou a Peigi, a que não parecia estranho que seu senhor parecesse ter vinte e cinco anos e não mais de cem.

—Sinto muita lástima por ele.

Peigi se levantou, surpreendida.

—Por quê? É um homem poderoso, com terras e títulos, e não é o primeiro que perde a sua família aqui, nas Terras Altas — encolheu os ombros. —Foi há muito tempo. Nas Terras Altas, nunca terá que confiar em um amigo... nem em um inimigo. Quer que a ajude a se vestir?

Tabby declinou seu oferecimento, pensativa. Macleod viveu um inferno. Ela sempre desprezaria uma vida tão brutal e violenta, e esse modo de viver sempre a assustaria e repugnaria. Mas Macleod pertencia à Idade Média; fazia parte de sua cultura, de sua época. Era hora de deixar de julgá-lo conforme a critérios modernos. Isso era simplesmente injusto.

Mas estava claro que ele necessitava ajuda. Tabby já sabia por que estava em Blayde.

Assim que desceu as escadas, compreendeu que Macleod continuava zangado com ela. Estava sentado à mesa de cavalete, com dez homens que discutiam acaloradamente. Ele, pelo contrário, guardava silêncio. A mesa estava coberta de mapas. Quase pareciam estar planejado uma campanha bélica. Macleod a olhou fixamente enquanto seus homens discutiam. Não sorriu.

Tabby suspirou e cruzou o aposento. Por que Macleod não esquecia? Ela estava disposta a fazer as pazes. Mas, naturalmente, ela tinha seus próprios planos. Toda sua vida se sentiu impelida a ajudar a outros, e compreender que estava ali para ajudar Macleod fazia que se sentisse novamente ela mesma.

Macleod se aproximou dela e percorreu lentamente com o olhar o vestido de veludo azul.

—Te dei um vestido que pertencia a minha mãe.

Ela tinha razão: não era um presente.

—Bom dia.

—Desfrutou do seu bate-papo com Peigi?

Tabby se sentiu desalentada.

—Esteve nos espiando?

—Não. Sei por que posso te ouvir daqui embaixo, através de dois aposentos.

Genial, pensou ela, zangada.

—Não me permite fazer perguntas?

—Essas coisas pertencem ao passado, Tabitha, mas você decidiu que necessito ajuda e não está disposta a deixar passar.

Ela cruzou os braços.

—Necessita ajuda, Macleod. Está furioso, e é compreensível. Mas ninguém deveria viver com tanta ira, nem, o que é pior, com tanta dor reprimida e tão má consciência — de repente lhe passou pela cabeça que por isso não tinha feito seus votos: estava muito ferido para fazê-los.

—Não sei do que está falando. Enterrei a todos e deixei de chorá-los esse mesmo dia. O menino que fui também morreu nesse dia.

Tabby esticou o braço para tocar sua bochecha e ele se afastou, zangado. Ela disse:

—Lutou com todas suas forças — Macleod se sobressaltou. —Não morreu. Cresceu para converter-se no homem que tenho ante mim, em um guerreiro decidido e valente.

—Morreu nesse dia — espetou. —Nesse dia me converti no chefe do clã dos Macleod... mas isso Peigi já disse. Não sei por que se empenha em falar disso. E não pense sequer em me pressionar com o assunto de meus votos.

Caramba, pensou Tabby. Detrás dele, o fogo rugiu na chaminé. Nenhum de seus homens pareceu se importar. Ela se surpreendeu um pouco, mas não se assustou. Macleod jamais a machucaria, por mais furioso que estivesse. Disso não lhe cabia nenhuma dúvida.

—Julguei-o muito injustamente.

—Sente lástima por mim!

—Sim, assim é — o fogo voltou a avivar-se. Tabby não se importou, como tampouco fez caso das cadeiras que se sacudiram. —Não vou perdoá-lo pelas coisas que fez, como me trazer aqui contra minha vontade, mas não voltarei a te julgar como fiz até agora, Macleod. Pertencemos a mundos diferentes. Entendo por que vive assim.

Ele a olhou nos olhos. Por fim disse:

—Suas acusações me zangaram. Eu não gosto que me julguem, nem você, nem ninguém. Mas... — deteve-se para enfatizar suas palavras — Te perdoei todo o tempo porque eu gosto de tê-la em minha cama.

Ela ruborizou.

—Tinha que arruinar nossa conversa com esse comentário grosseiro e sexista?

—É a verdade. E nenhuma mulher gosta de homens zangados — falava com expressão zombadora. Seu semblante seguia escurecido.

Não ia voltar atrás. Queria ofendê-la.

—Lamento lhe dizer isso, mas não me dá medo, nem pode me ofender com comentários sexuais — ele ficou olhando-a. —Sinto muito, Macleod. Podemos começar de novo? Há uma estranha tensão entre nós, mas talvez possamos ser amigos. A verdade é que não me importa passar aqui uma temporada, e temos um inimigo comum ao que devemos vencer.

Os olhos dele aumentaram.

—Somos amantes. É minha concubina.

Ela se conteve para não responder.

—Em minha época — particularizou lentamente — há muito poucas mulheres que gostam que as chamem assim. É muito ofensivo.

—Sim, porque as mulheres de sua época não gostam dos homens fortes, que saibam cuidar delas.

Tabby se dispunha a replicar quando percebeu que Macleod tinha razão. As mulheres de seu tempo gostavam dos metrossexuais, não dos machos, e estavam empenhadas em ser independentes. O qual era positivo, não?

Ele começou a sorrir.

—É a mulher mais independente que conheci. Mas vou cuidar de você. Não necessito uma amiga, mas sim uma concubina.

Ela nunca o admitiria, mas quase parecia tentador que um homem forte cuidasse dela. Quase...

—Me considere sua concubina, se quiser. Mas necessita uma amiga, disso não há dúvida. E acredito que eu cumpro os requisitos. Ao final das contas, sou a primeira mulher que passa a noite com você e que o desafia, não é certo? Sou a primeira que resiste a sua ira e às suas ordens autoritárias.

Ele cruzou seus braços fortes.

—Desafia-me constantemente. E me exaspera, Tabitha — a advertiu.

Sorriu-lhe sinceramente.

—Bom, suponho que isso só te deixa uma opção: me cortar a cabeça — começou a passar a seu lado. —Pensei em sair e explorar o castelo.

Ele tinha o rosto vermelho.

—É minha convidada. Pode se mover livremente por Blayde — deu meia volta e logo se voltou bruscamente. —Parece francesa.

Tabby demorou um momento em compreender a que se referia. Enquanto ele ia se reunir com seus homens, recordou com surpresa que disse que as francesas eram muito elegantes, não como ela. Mas então estava vestida com um moletom sujo. Macleod gostava de seu vestido de veludo azul. Considerava-a elegante. Tabby acreditava estar farta dessa palavra, de repente, entretanto, o elogio a encheu de emoção.

Sorriu enquanto saía do grande salão.

Era elegante e apaixonada. O melhor de Tabby Rose havia retornado; o mau, pelo contrário, parecia haver desvanecido. Sentia um doce calorzinho dentro do peito. Quase se sentia feliz. Disse que devia refrear-se. Se não tomava cuidado, podia começar a afeiçoar-se a Macleod. E isso estava proibido. Apaixonar-se seria um engano. Não devia acontecer. Só podia se permitir sentir algum afeto e amizade por ele, além de desejo; nada mais.

Fora tinha começado a garoar, mas Peigi lhe deu um manto ao sair. Utilizando-o como um xale, Tabby parou para respirar o aroma da fresca amanhã. Era fantástico. Logo dissimulou um sorriso e se dirigiu às escadas que levavam às muralhas. A vista seria incrível dali.

Subiu devagar pelas pedras escorregadias e úmidas enquanto começava a pensar em sua irmã. Sam e ela sempre tiveram uma telepatia assombrosa. Desde muito pequenas, sempre sabia o que estava pensando Sam e o que queria, e vice-versa. Podia escutar seus pensamentos sempre que queria. Não era estranho que as mulheres da família Rose estivessem tão em sintonia.

Se si concentrava, possivelmente pudesse dizer a Sam que estava ali e que se encontrava bem. Certamente era impossível, tendo em conta os muitos séculos que as separavam, mas pensava tentá-lo.

Teria que averiguar como se solicitava informação em tempos medievais. Queria informar-se sobre Melvaig e sua bruxa. Peigi parecia estar a par de tudo, começaria por ela.

Chegou às muralhas. Um highlander grandalhão, jovem e bonito lhe dedicou um sorriso, mas saltava à vista que só pretendia ser amável. Tabby estava segura de que ninguém em Blayde se atreveria a paquerar com ela, tendo em conta o poder e o mau gênio de Macleod. Aproximou-se da beirada e, ao olhar por cima das muralhas e ver o mar de cor aço e o céu cinza ficou sem fôlego. Era uma paisagem crua e desolada, mas majestosa. Aquele lado da fortaleza se levantava à beira dos escarpados, por cima do mar. Blayde estava situado em um lugar estranho, frente às ilhas Ocidentais, em um braço de terra que o oceano Atlântico batia do norte. Melvaig ficava ao sul dali.

Tabby olhou nessa direção e o temor começou a agitar-se dentro dela. Pelo sul, o céu estava enegrecido por nuvens de tormenta. Vacilou e quase pareceu sentir como o dedo da maldade fazia gestos para que se aproximasse. Estremeceu.

Começou a chover.

O highlander lhe indicou com um gesto que devia voltar para salão. Tabby lhe sorriu.

—Tem razão — se virou e levantou o manto para segurá-lo por cima de sua cabeça como um capuz. Então viu o prisioneiro lá embaixo.

Ficou olhando-o um momento. Aquilo era um homem na armadilha?

A chuva começou a aumentar.

Sua preocupação foi instantânea. O prisioneiro estava ao fundo do pátio de armas, quase atrás do grande salão. Custava vê-lo com claridade daquela distância, mas parecia estar engatinhando, preso com armadilhas. Aquilo era desumano: violava a Convenção de Genebra e seu próprio código ético. Começou a indignar-se.

Levantou as saias e se dirigiu rapidamente para as escadas. O highlander a agarrou pelo braço e sacudiu a cabeça, e por um momento Tabby pensou que estava lhe advertindo que não se aproximasse do prisioneiro.

—A'coiseachd.

Tabby demorou um momento em dar-se conta de que estava advertindo que não corresse. Tentou sorrir ao compreender que tinha razão. Se corresse, não cabia dúvida de que cairia. Desceu devagar pelas escadas, que escorregavam perigosamente. Quando chegou embaixo, levantou as saias e pôs-se a correr.

Tinha razão: era um homem na armadilha. Estava engatinhando, com o pescoço preso entre dois madeiros que o impediam de mover-se. Tinha grilhões nos pulsos e nos tornozelos. Olhou-a, e seus olhos brilharam, cheios de ira.

Tabby sufocou um gemido, horrorizada. Não era um homem. Era um menino.

Não podia ter mais de quinze ou dezesseis anos. Tabby correu para ele e se ajoelhou.

—Está bem?

Ele a olhou com surpresa.

—É inglesa?

Tabby titubeou.

—Não — o percorreu com o olhar. Estava ensopado e tinha o rosto machucado, mas no restante parecia ferido. —Quem te fez isto?

O moço riu dela. Sua risada soou muito áspera para um homem tão jovem.

—O senhor de Blayde me pôs aqui, senhora. Pode me ajudar? Pretende me deixar aqui até que morra.

Tabby se negou a acreditá-lo por um instante. Macleod não podia ter feito aquilo. Tinha que ter sido um de seus homens. Olhou ao menino.

—Claro que vou ajudá-lo. Como se chama?

—Coinneach MacDougall — respondeu ele.

A mente de Tabby acelerou de repente. O senhor dos MacDougall tentou roubar gado..., mas não podia ser aquele moço. Ninguém poria a um menino na armadilha e o deixaria ali para que morresse! Quando falou, entretanto, Tabby já sabia a resposta a sua pergunta:

—É o senhor de sua linhagem?

—Sim — respondeu ele com expressão de raiva. —Me converti em senhor o dia em que ele assassinou a meu pai.

Tabby não podia respirar.

—Assassinou a seu pai?

—Ante meus próprios olhos, e Deus é minha testemunha — começou a retorcer-se contra a armadilha. —Meu pai estava no chão, pedindo clemência, mas lhe cortou a cabeça e lançou ao rio.

Tabby sentiu uma violenta onda de náuseas.

—Basta, vai se machucar, vou ajudá-lo.

—Me ajude e será a seguinte a morrer, por mais bonita que seja.

Tabby ficou sem respiração enquanto olhava os olhos azuis de Coinneach. O menino lhe sustentou o olhar. Macleod fazia aquilo. Era violento e implacável. Cruel, inclusive. Tabby acabava de sentir-se feliz, acabava de prometer que não voltaria a julgá-lo. Entendia-o e queria ajudá-lo, mas aquilo era desumano. Era espantoso. Era inaceitável.

Tinha que dar um jeito.

—Me ajude — disse o menino, mas não em tom suplicante. Parecia decidido. —Parece amável e esperta, ajude-me a escapar e a pagarei generosamente... se viver para recolher a recompensa.

Ela tentou conservar a compostura. O único que estava segura era que Macleod não a mataria, nem a poria na armadilha.

—Claro que vou ajuda-lo. O libertarei ou morrerei tentando — nunca falou tão a sério. Era uma Rose, e aquilo era o que faziam as Rose: entregar-se a outros sem egoísmo.

Tabby se levantou.

—Em seguida volto — disse.

No salão fazia calor, o fogo estava aceso e o ambiente quente contrastava obscenamente com o úmido frio de fora. Os homens seguiam ali, discutindo sobre os mapas que havia na mesa. Macleod a olhou sem sorrir, receoso.

Sabia. Tinha lido seus pensamentos, como sempre.

Tabby se deteve e levantou a cabeça.

Ele se aproximou com expressão séria.

—Disse que não voltaria a me julgar.

Ela umedeceu os lábios.

—Há um menino na armadilha, um de seus homens deve tê-lo colocado ali. Tem que liberá-lo antes que pegue uma pneumonia e morra — rezava para que ele parecesse surpreso.

Macleod demorou um momento em responder.

—Fui eu quem o pôs ali.

—É um pirralho!

—É meu inimigo.

Ela tremeu, cheia de estupor.

—O que te fez? E não me diga que assim é como castigam aos ladrões de gado!

Macleod titubeou. Seus olhos brilhavam. O salão tinha ficado em perfeito silêncio.

—Vive... Respira...

Tabby sufocou um gemido. Aquilo lhe resultava insuportável.

—Matou a seu pai diante dele? Cortou sua cabeça e jogou no rio?

O semblante de Macleod se escureceu.

Ela conteve a respiração, sentindo-se doente. Tinha passado a noite nos braços daquele homem. Tinha decidido ajudá-lo a recuperar-se, salvá-lo de si mesmo, mas era a outros a quem teria que salvar... dele.

Acaso não sabia que seus mundos eram diferentes? Não sabia que era um bárbaro sem piedade... e que não devia deitar-se com ele? Sua vida consistia em entregar-se a outros. A dele, em matar. Era egoísta. Não tinha interesse em servir aos deuses, nem aos Inocentes. Só servia a Blayde. E assim era como o fazia: sentenciado implacavelmente um garoto à morte.

—Deixa de me julgar — a advertiu.

Tabby fechou os olhos um segundo, prometeu não julgá-lo. Mas nunca havia sentido tanta indignação. Ia romper essa promessa.

—É um pirralho, supõe-se que deve servir aos deuses e salvar aos Inocentes. E em vez disso, matou a seu pai em nome de uma estúpida guerra de clãs? E não me importa que se chame MacDougall!

—Mas a mim sim, Tabitha. É meu inimigo — disse Macleod com aspereza. —É meu dever destruí-lo.

—Não, é um Inocente. Seu dever é protegê-lo!

—Não se atreva a interferir — respondeu Macleod em tom de advertência. E se afastou bruscamente.

Tabby compreendeu que devia ter muito cuidado, porque Macleod não tinha ido às nuvens ainda: não se moveu, nem se cansou. Tinha a impressão de que isso significava algo, mas mesmo assim não pôde refrear-se. Correu para ele e o agarrou pelo braço, obrigando-o a olhá-la.

—Se sentir algo por mim, se seriamente for neto de um deus, se sua mãe era realmente uma sacerdotisa e uma Curadora, deixará partir a esse menino. Suplico-te que o deixe partir.

Ele ficou tenso, incrédulo.

—Não ouse mencionar Elasaid!

Ela conteve o fôlego.

—Ela te diria o mesmo que eu!

Macleod tremeu visivelmente. O chão pareceu vibrar. Logo voltou a fazer um silêncio total.

—Nenhuma concubina diz a um senhor o que tem que fazer — e, dito isso, afastou-se dela.

Sua condescendência machucou Tabby. Começou a tremer incontrolavelmente, enganou-se ao pensar que sua relação não era unicamente sexual. Que ele a necessitava além de seu quarto. Macleod não sentia nada por ela.

—É um Inocente — Macleod não a olhou. —Nenhum Inocente deve morrer, e menos ainda por sua mão.

Tabby tomou consciência do silêncio que reinava no salão. Todos a olhavam atentamente, exceto Macleod, que se reuniu com seus homens junto à mesa e lhe dava as costas. Resultava-lhe difícil pensar. Não só estava atônita e horrorizada; também estava magoada.

—Não o conheço absolutamente.

Macleod assinalou um mapa e Rob disse algo. Macleod respondeu sacudindo brevemente a cabeça.

A concubina foi desdenhada. Macleod ia deixar morrer ao menino. Estava claro que não tinha coração. Tabby tinha que impedi-lo, custasse o que custasse.

—Macleod! — gritou energicamente.

Ele nem sequer a olhou. Disse algo a Rob em gaélico.

—Se não libertar a esse menino, acabamos — disse ela em voz alta. Enquanto falava, ouviu o fragor de seu pulso nos ouvidos. Era ensurdecedor.

Macleod se voltou lentamente e esboçou um sorriso gélido.

—Está me ameaçando?

O coração de Tabitha começou a romper e, muito tarde, perguntou se já se apaixonara por ele.

—Não — mal lhe saía a voz. —Apenas informando.

Ele a olhou com surpresa e os homens da mesa começaram a remexerem-se, inquietos.

—Serei eu a ditar quando acabamos, Tabitha.

Um calafrio de temor percorreu Tabby.

—Não posso permitir que faça isto — se ouviu dizer. Deu meia volta e se dirigiu para a porta.

—Mantenha-se afastada dele — ordenou Macleod.

Tabby ergueu as costas e saiu à chuva.

 

Nick soube o que queria Jan antes inclusive que soasse o intercomunicador. Sentia Sam fora do escritório, ofuscada pela ira e a impaciência.

—Nick? Pode receber Sam? Parece um pouco... alterada — disse Jan com ironia.

Nick fez uma careta. Sam não estava alterada: jogava faíscas.

—Diga que entre. E Jan... comporte-se ben com ela, de acordo?

Jan emitiu um som que parecia dizer “nem em sonhos”.

Nick estava acostumado a sua mútua e profunda antipatia, mas ninguém podia esperar que duas das mulheres mais sexys que havia sobre a face da terra se dessem bem, sobretudo quando pareciam empenhadas em ser rivais, embora só Deus soubesse por que. Podiam parecer tão diferentes como a noite e o dia, mas tinham muitas coisas em comum. Sam parecia muito dura, enquanto Jan parecia uma gatinha sensual, ao estilo da Marilyn Monroe. Sam era muito promíscua; Jan decidiu chorar a morte de seu companheiro até o fim de sua vida. Tinha sido um de seus melhores agentes ativo, fazia muito tempo, e Sam o era nesses momentos. Se alguma vez deixassem de lado sua antipatia, Nick adoraria as ver trabalhar juntas.

Mas isso só era uma fantasia.

Nick esfregou as têmporas. Sam entrou, acalorada. Ele a olhou com surpresa ao sentir sua dor.

—Foi embora?

Sam respirou fundo e se deixou cair em uma cadeira, diante dele.

—Não só se foi ao passado sem me dizer uma só palavra... Lafarge me fez uma visita — tocou a barriga. —É uma bruxa, Nick. Uma bruxa muito poderosa.

—O que ocorreu?

—Enfeitiçou-me e lhe disse onde encontrar Tabby. Ah, me esquecia. Anda detrás de minha irmã... e se trata de uma vingança.

Nick nunca a viu tão nervosa.

—Se acalme, pequena.

—Estou muito preocupada!

“Não me diga”, pensou ele. Jan mostrou seu belo rosto. Trazia uma pasta nas mãos.

—Tenho algo para você, Nick.

Sam se voltou na cadeira. Seus olhos lançavam adagas.

—Nick está ocupado.

—Ele irá querer ver isso. — repôs Jan com frieza.

—As duas podem guardar as guarras? —Nick fez gestos para Jan que entrasse.

Sam não deu atenção.

—E se Lafarge pode viajar no tempo? — perguntou.

Nick tomou a pasta que lhe oferecia Jan.

—É sobre Lafarge?

Jan sorriu.

—Claro. Por desgraça, é muito genérico.

Nick abriu a pasta e disse a Sam:

—As bruxas comuns não podem viajar no tempo — levantou o olhar. —Esta tarde teremos os resultados das análise de DNA — tinha pedido que analisassem o DNA de Kristin Lafarge, além das análise normais. Se havia nele algo de desumano, embora fosse infinitesimal, queria saber.

—Não é uma bruxa comum. E também acredito que é muito, muito velha — disse Sam. Levantou-se e pôs os as mãos na cintura. —Tenho que te perguntar algo. Podemos falar a sós um momento?

Ele já sabia o que queria. Disse com calma:

—Se crê que vou deixar que viaje ao passado, a resposta é não.

—Porque não? — gritou ela.

Nesse preciso momento, Kit apareceu no escritório.

—Posso interrompê-los um momento? Encontrei algo muito interessante sobre o An Tùir-Tara.

Nick lhe indicou que entrasse.

—Uma-se à festa.

Kit entrou e olhou Sam com preocupação.

—Isto vai interessá-la. Encontrei uma entrevista na primeira edição de um livro publicado em 1922 pela Oxford University Press. Só faz uma menção ao An Tùir-Tara, mas vou tentar encontrar algo mais — tinha memorizado a frase. —“A grande rivalidade entre as senhoras de Melvaig e Blayde acabou esse dia, com o incêndio”.

Sam empalideceu.

—Sabia. Sabia que estava ali — olhou para Nick. —Tabby é muito sensível. Horroriza-se com a violência, vai custar muito acostumar-se à vida na Idade Média. Tenho que voltar e ajudá-la a passar por isso... e tenho que a proteger de Lafarge. Nem sequer sabe que essa mulher está empenhada em destruí-la.

Estava muito envolvida no caso.

—Não vai viajar no tempo. E é minha última palavra.

—Isto, Nick, é muito importante para mim.

Nick fechou a pasta. Olhou a Sam.

—Rose, os dois sabemos que não vai acontecer nada a sua irmã. Sabemos que tem que voltar cedo ou tarde. Você não vai... mas eu sim.

Sam deu um salto.

—Sem mim?

Ele suspirou e se virou para olhar Jan. Esta se sobressaltou. Compreendeu imediatamente, e seus olhos se aumentaram.

—Não vou com você — disse bruscamente. —Nem pensar!

—Vai levá-la? — exclamou Sam. —Está de brincadeira?

—Não se preocupe — respondeu Jan. —Não sou uma agente em atividade — saiu do escritório.

Nick lamentava que estivesse zangada, mas teria que superá-lo, porque a decisão estava tomada.

—Vou por Lafarge — disse. —Mas, já que estou, verei como está sua irmã.

—Não posso acreditar — Sam também saiu.

Kit titubeou.

—Eu iria encantada.

Ele a olhou com ironia.

—Você é uma novata, ainda não acabou seu treinamento. Adeus.

Kit manteve uma expressão impassível, mas Nick viu desilusão em seus olhos. Ela saiu do escritório.

Nick se aproximou da porta. Jan estava ao telefone e não lhe dava atenção. Ele sentiu sua inquietação.

Decidiu recordá-la que não iriam voltar para os tempos do Império Romano, e que na Idade Média a tortura não incluía a crucificação.

Ela levantou seus olhos verdes.

—Não vou. Foi um milagre que Sam e você voltassem inteiros da outra vez, e sabe, se esqueça de Lafarge.

—Você sabe que Lafarge me importa um nada — respondeu ele tranquilamente. —Mas tenho a impressão de que está abrindo caminho aos que de verdade devem nos preocupar. Já pode começar a fazer as malas.

Ela o olhou furiosa.

—Pelo menos não precisará de batom — disse ele.

—Vai para o inferno!

Nick pensou nas súbitas visões do passado que teve, mas não se incomodou em dizer que talvez já estivesse nele.

 

A chuva se converteu em neblina tão bruscamente como começou.

Tabby não notou. Saiu cambaleando; o chão do pátio de armas estava enlameado, e segurou o manto de tartán sobre a cabeça como um capuz. Um par de cães correram para ela movendo a cauda, mas não lhes deu atenção. Uma dor aguda como uma faca transpassava seu peito. Tinha a impressão que seu coração se rompia. Mas isso era impossível. Macleod ia executar aquele menino... a menos que ela conseguisse detê-lo.

Era horrível, cruel, implacável e terrivelmente violento... e ela o tinha justificado e racionalizado tudo para poder ter uma tórrida aventura sem se envergonhar de si mesma depois. De repente, entretanto, sentia vergonha.

Tinha que salvar Coinneach, era sua prioridade absoluta. Aquela aguda sensação de desamparo era absurda. Ela não sofria; era Coinneach quem estava sofrendo.

Deteve-se, incapaz ainda de respirar com normalidade. Tinha a sensação de ter perdido muitas coisas: a seu amante e, possivelmente, àquela nova Tabby Rose, apaixonada e desinibida.

Não queria pensar que Macleod salvou a ela e as crianças, nem em que a tinha defendido do fantasma. Não queria pensar em seus estranhos sorrisos, nem em como a olhava de vez em quando, quando faziam amor, quando seus olhos mudavam e quase se enterneciam. Recordou-se, pelo contrário, que devia pensar em suas discussões. O certo era que perdeu um amante e a um companheiro de armas, mas não a um amigo. Não tinha direito a sentir lástima de si mesma. Devia concentrar toda sua atenção em Coinneach.

Mas Macleod também sofria.

Tabby se tencionou. Não queria pensar em como tinha lutado com todas suas forças para salvar a sua família durante o massacre. Não queria recordar como tinha chorado, cheio de raiva e de dor, ao sepultá-los no mar. Como aquele moço se converteu de repente em um homem.

Deixou-se cair em um banquinho de madeira. Começou a tremer, presa da desesperança. Era tão impossível deixar de sentir compaixão por ele como retornar por seus próprios meios a Nova Iorque. Odiava que Macleod tivesse passado por tudo aquilo, e que tivesse reprimido aquela dor dentro de si. Mas e o que? Ia assassinar Coinneach, se ela não fazia algo.

Talvez, depois de tudo, não estivesse em Blayde em 1298 para ajudar ao Macleod a se curar. Talvez estivesse ali para salvar a um Inocente. Ou possivelmente, só possivelmente, estivesse destinada a fazer ambas as coisas.

Sentiu que a manhã se aquietava.

Como era possível que o homem que fazia amor com ela tão apaixonadamente, que a olhava com tanta preocupação, que parecia decidido a arriscar sua vida por ela, fosse o mesmo com o que acabava de discutir no salão?

Como podia empenhar-se em protegê-la e, ao mesmo tempo, ter a intenção de executar Coinneach do mesmo modo que tinha decapitado Angel: sem pestanejar, sem um só pingo de consciência?

A resposta era muito simples: aquele lado cruel e violento de sua natureza era resultado direto do fato de ter sobrevivido ao massacre.

Tabby se ergueu do assento. Macleod era produto da violência mais extrema, da injustiça mais arbitrária. E isso exatamente o que gerava, por sua vez.

“Não posso odiá-lo”, disse a si mesma com amargura. “Terei que salvar Coinneach, mas também a Macleod.”

Enquanto estava ali sentada, entre a bruma, um suave calor alagou seu corpo. Sobressaltou-se e olhou a seu redor.

—Avó?

A presença poderosa e tranquilizadora de sua avó era tão forte que esperava vê-la materializar-se ante seus olhos. Mas não apareceu. Tabby, entretanto, sabia que estava sorrindo.

E isso significava que ela tinha alcançado a conclusão correta.

—Obrigada — sussurrou. —Se importaria ficar por aqui um momento? Sinto-me um pouco perdida e sozinha.

Não houve resposta, claro.

—Senhora, entre, que vai se molhar. — disse Peigi brandamente.

Tabby se voltou e compreendeu que a moça a tinha ouvido falar com o espírito de sua avó. Tinha uma expressão de piedade. Custava acreditar que, apenas uma hora antes, Peigi e ela tivessem brincado sobre feitiços amorosos. Parecia irreal. As coisas tinham mudado drasticamente.

Compreendeu que não estava preparada para enfrentar de novo a Macleod. De fato, o melhor era evitá-lo, tendo em conta que se dispunha a desafiá-lo frontalmente. Afinal de contas, ele podia ler seus pensamentos.

—Vai apanhar um resfriado mortal — advertiu Peigi.

Ela olhou para o outro lado do pátio.

—Não, mas esse menino sim.

—Sim, vai morrer, mas tem que castigar aos ladrões. Não temos suficiente gado para alimentar a todo em Blayde, senhora — explicou Peigi. —O senhor não pode permitir que os ladrões fiquem livres. Deve dar um castigo.

Tabby a olhou fixamente. Peigi não considerava estranho, nem excessivo aquele castigo. Foi como uma bofetada em plena cara. Ela era uma mulher moderna e estava aplicando seus critérios a um mundo muito distinto. Compreendeu então que certamente ela era a única no Blayde que se compadecia de Coinneach.

De repente desejou poder convencer Macleod de que seus valores eram os adequados, mas sabia que não poderia transformá-lo em um homem com sensibilidade moderna.

—Não pode contrariar Macleod, senhora. Além disso, você sabe que esse moço veio aqui para matá-lo.

—Oh, claro que posso o contrariar, e penso continuar fazendo-o — Tabby se levantou. Compreendeu que tinha voltado para sua posição de partida. —Esse menino vai morrer porque seus antepassados traíram ao pai do Macleod. Seriamente crê que isso é justo, Peigi?

—São nossos costumes. Tome, seu manto está ensopado — Peigi lhe deu outro manto de lã. —Por favor, entre.

—Acredito que é melhor que evite Macleod. Está zangado e eu estou decidida a impedi-lo de executar Coinneach.

Peigi empalideceu.

—Eu jamais enfrentaria Macleod, senhora. E você tampouco deve fazê-lo.

Tabby se limitou a olhá-la.

—Nunca s perdoará, se se opuser — advertiu Peigi.

Nesse instante, Tabby compreendeu que tinha razão. Macleod jamais perdoava uma traição. E, para ele, sua deserção seria uma traição pura e dura.

Peigi partiu.

Mas isso estava bem, porque não eram amigos: ela era sua ex-amante. Tabby sentiu que uma nova tensão se apoderava dela. Confiava que Macleod estivesse tão zangado com ela que nem sequer lhe ocorresse tentar atrai-la à sua cama. Não estava preparada para essa batalha. E não queria recordar como se sentia quando estava em seus braços. Era uma ideia perigosa.

Estremecida ainda pela magnitude do que havia em jogo, Tabby cruzou o pátio de armas a toda pressa. Coinneach seguia na armadilha, ensopado. Cravou o olhar nela enquanto Tabby se aproximava. Ela tirou o manto seco e envolveu com ele seu corpo.

—Tem que se manter quente.

—Disse a você que não me libertaria — falava com amargura.

Era tão jovem para odiar...

—Isto não acabou ainda — respondeu ela. —Eu te ajudarei. Não deixarei que morra.

Coinneach pareceu satisfeito.

—Então terá que ser muito ardilosa. Se não, Macleod a descobrirá e a colocará em outra armadilha, a meu lado.

Tabby pensou em seguida que Macleod não faria tal coisa. Mas como ia saber o que era capaz de fazer? Pelo que a ela respeitava, sua aventura tinha acabado. Possivelmente Macleod se mostrasse implacável com ela.

—Quem tem a chave da armadilha? — perguntou por fim.

—Macleod.

Teria que roubá-la de algum modo.

—Leva-a em seu cinturão, com as outras chaves?

Coinneach assentiu com a cabeça.

—Antes que seus homens vejam, pode me trazer água?

Tabby se sobressaltou, desalentada.

Quando foi a última vez que bebeu ou comeu?

—Faz um dia inteiro, senhora. O poço está ali.

Naturalmente, não lhe tinham dado comida, nem água, pensou ela. Macleod pretendia que sofresse antes de morrer.

Aproximou-se do poço, conseguiu baixar um balde e, quando esteve cheio, voltou a içá-lo.

Enquanto o moço bebia, ela olhou para o salão. A bruma se tornou tão fina que o ar estava úmido. Blayde se destacava com um lúgubre fulgor contra o céu pesado e cinza. Macleod levava as chaves em seu cinturão, e só tirava o cinturão quando se despia antes de ir dormir... ou, melhor dizendo, antes de fazer amor com ela. Estava segura de que, se não, dormia com a roupa. Sua amante podia lhe tirar facilmente as chaves quando estivesse satisfeito, depois de fazer amor, e ficasse adormecido. Mas isso estava descartado. Tabby ignorava como ia tirar-lhe as chaves, mas o faria.

—Vou libertá-lo— afirmou.

—Como conseguirá as chaves?

—Não sei. Tenho que pensar.

Tentou imaginar-se entrando no aposento de Macleod enquanto este dormia e lhe tirando as chaves do cinturão. Conhecia um feitiço para dormir muito eficaz. Tinha-o utilizado frequentemente com Randall, antes de seu divórcio, para mantê-lo afastado dela. Mas Macleod era muito poderoso e ela não sabia até que ponto seria suscetível a seus feitiços. Embora, por outro lado, tinha jogado um feitiço sobre ele através dos séculos, e tinha funcionado. Teria que arriscar-se e tentá-lo. Não ficava outro remédio.

Também teria que encontrar um modo de impedir que se introduzisse em sua mente. Se não, seus esforços para libertar Coinneach seriam em vão: Macleod conheceria todos seus movimentos.

Sentia-se resignada. Seu horror ao descobrir o menino na armadilha se dissipou. Em seu lugar, elevou-se a determinação. Mas não gostava de enfrentar a um oponente tão poderoso. E Macleod era.

De repente tomou plena consciência de sua situação. Estava sozinha no século XIII, e o homem que a tinha levado ali era seu adversário.

Tabitha disse que não voltaria a julgá-lo. Agora, entretanto, estava julgando-o.

E pretendia libertar Coinneach.

Macleod estava furioso e cheio de incredulidade.

Não conhecia nenhum highlander que permitisse que uma mulher o traísse. Até uma concubina desleal devia sofrer as consequências de seus atos. Seria severamente castigada e condenada ao exílio... ou algo pior. Não podia permitir que a traição ficasse impune.

 

Enquanto escutava Tabitha maquinar contra ele, Macleod passeava pelo grande salão, do qual tinha ordenado partir todos seus homens. Seguia estando atônito.

Não queria enfrentá-la em uma guerra. Tinha-a levado até ali para protegê-la... e para que compartilhasse sua cama, claro.

O que devia fazer?

Deteve-se diante da chaminé e contemplou as chamas sem as ver. Não podia acreditar que fizesse a si mesmo aquela pergunta. Era um homem resolvido, e só tinha duas alternativas. Detê-la ou castigá-la.

Recordou que ela o esbofeteou não uma, mas sim duas vezes. E ele não tinha respondido. Nem sequer lhe passou pela cabeça fazê-lo. Não queria exercer sobre ela nenhum ato de violência. Não sentia nenhum desejo de machucá-la.

Mas, se Tabitha o desafiava daquela forma, não ficaria mais remédio que castigá-la. Importava pouco que não fosse uma amante qualquer. Procedia de um tempo futuro, de uma época tão diferente à sua que ele apenas alcançava compreendê-la. E não estava pensando nos automóveis sem cavalos, nem nos túneis e os caminhos subterrâneos. Nem nos museus cheios de história. Estava pensando nas mulheres que viviam sozinhas, sem homens que as protegessem. Mulheres modernas que ganhavam a vida sozinhas, que tinham suas próprias ideias e se orgulhavam de não obedecer a ninguém, exceto a seu governo.

Tabitha era uma dessas mulheres. Era terna e amável, boa e carinhosa, mais que qualquer outra mulher que ele conheceu. Mas esses eram os traços que cabia esperar em uma mulher, gostava daquele lado feminino de seu caráter. Mas também gostava de sua coragem, sua decisão e sua independência. De fato, admirava-a enormemente.

Mesmo assim detestava seus julgamentos, suas acusações e recriminações.

Começava a lhe doer a cabeça, uma sensação a que não estava acostumado. Sua mente dava voltas incansavelmente, sem objetivo. Se ela se convertia em sua inimizade, teria que tratá-la como a todos seus inimigos: implacavelmente, sem piedade. Mas como ia fazer isso à mulher a que desejava?

Já sabia que lhe importava seu Destino. Se não fosse assim, a teria deixado em Nova Iorque, presa fácil do mal que a perseguia. Agora começava a se perguntar se a queria. Nunca antes se preocupou por uma mulher daquele modo. Por sua cama tinha desfilado uma multidão de mulheres anônimas. Mas Tabitha tinha nome, tinha ideias e sentimentos, e se preocupava profundamente por ele e por outros. Macleod não sabia como confrontar aquele descobrimento: a possibilidade de que talvez se afeiçoou a ela.

Ela, entretanto, não lhe tinha carinho. As mulheres não traíam aos homens que queriam.

Seriamente podia traí-lo?

Quase lhe doía pensar que fosse capaz.

Alguém tocou seu ombro. Estava tão absorto que não tinha ouvido aproximar-se alguém. Deu um salto e se encontrou com o olhar intenso de Rob.

—Permitiu que falasse contra você.

Ele ficou rígido.

—Assim é ela.

—Os homens andam murmurando que te enfeitiçou.

A tensão de Macleod se intensificou.

—Eles não sabem a verdade.

—Sabem que a deseja tanto que permite que grite e que o trate sem respeito nem disciplina.

Rob tinha razão.

—Também vai permitir que o traia?

—Claro que não — respondeu. Mas não estava seguro... e ele nunca duvidava.

—Uma mulher tem que fazer forte a seu homem, não debilitá-lo — Rob se afastou.

Macleod estava de novo desconcertado. Rob o acreditava débil? Mas, se permitia que Tabitha maquinasse contra ele, se não a castigava, demonstraria ser muito débil, em efeito. E Blayde acabaria caindo nas mãos de seus inimigos.

Tinha que pôr fim àquilo antes que ela fizesse o impensável.

        Tomando uma decisão, aproximou-se das portas e as abriu. Tabitha seguia tentando que sua magia sortisse efeito sobre ele. Confiava em o impedir de ouvir seus pensamentos. Mas cada vez que sentia a pressão de sua magia tentando arrastá-lo a seu torvelinho, afugentava-a. Pensava ser o vencedor daquela luta.

Viu-a nas muralhas, recortada contra o céu quase limpo. Se lhe tivesse algum afeto, embora fosse só um pouco, não estaria comportando-se assim.

Macleod olhou a seu prisioneiro. MacDougall estava envolto em um manto com as cores de seu clã. Macleod se engasgou. Logo se voltou e gritou:

—Rob, tire meu manto do menino!

—Eu não gostaria de estar na pele dessa mulher agora mesmo — resmungou Rob ao passar a seu lado.

Macleod cruzou o pátio de armas. Começou a subir rapidamente as escadas. Ao chegar as muralhas, viu que ela tinha caído em um transe profundo: tinha os olhos fechados e o rosto levantado para o sol. O suor fazia quase translúcida sua pele. Tinha os braços estendidos e as palmas para cima, estranhamente inertes. Não percebeu sua presença.

Macleod ficou olhando-a um momento, consciente de sua beleza, de seu poder e sua graça. Nesse momento pensou em como tinha querido lhe oferecer consolo, ao que ele se negou. Seu desejo de fazê-lo sarar e apagar o passado lhe tinha causado uma perigosa exasperação. Agora, o teria encantado que voltasse a empenhar-se nisso. Olhou então para o pátio. Rob tinha despojado o menino do manto.

Macleod se fixou no balde. Tabitha o tinha levado água. Sua irritação aumentou. E também sua resolução.

—Tabitha...

Ela não o ouviu.

—Tabitha.

Sobressaltou-se e, ao abrir os olhos e recuperar a lucidez, empalideceu.

—Vai entrar e jantar? — perguntou ele sem inflexão.

Tabitha respirava trabalhosamente, tremente, e o fino vestido que lhe tinha dado se colava às suas exuberantes curvas. Apesar do zangado que estava, Macleod sentiu agitar seu corpo. Ela não respondeu, mas começou a levantar-se. Ele estendeu o braço para ajudá-la, mas ela deu um salto ao notar seu contato e se afastou.

—Não.

Ele tentou refrear sua ira.

—Esta manhã me suplicava que te tocasse.

Tabitha se ruborizou.

—Sim, assim foi.

Ele não esperava aquela resposta.

—Posso fazer que volte a me suplicar, aqui, agora mesmo — não seria sua inimiga quando soluçasse de prazer em seus braços.

—Não, não pode — respondeu ela.

Macleod se sentiu tentado a lhe demonstrar que a atração que se agitava entre eles, aquele desejo que o voltava insaciável, seguia existindo.

Ela respirou fundo e disse como se tivesse lido seu pensamento:

—Não, Macleod. Nem o pense, acabou-se.

—Não, Tabitha. Só acabará quando eu o disser — falava sério.

—Não posso permitir que maltrate a Coinneach, e não permitirei que o execute.

Acaso não sabia quão desafiantes eram suas palavras?

—Sua coragem me assombra. Mas não é você quem manda aqui.

—O que está fazendo está mal — repôs ela. —Em minha época, há normas que regem o tratamento que se dá aos prisioneiros. Quer ouvi-las?

Macleod estava interessado, mas sacudiu a cabeça.

—Não quero batalhar contigo, e não permitirei que me enfrente.

—Se essas normas existem, não é para proteger aos soldados do inimigo, mas sim mais para proteger aos próprios. Mas em minha época valorizamos a vida humana, claro.

Macleod ficou olhando-a. A mãe de Coinneach era uma bruxa, mas estava seguro de que o moço não era diabólico, nem desumano.

—Te ocorreu pensar que, se mostra clemência para um MacDougall, eles farão o mesmo com os Macleod?

—Naturalmente — respondeu ele, zangado de repente. —Mas em 1201 não a demonstraram. Não fui eu quem começou esta guerra.

Ela respirou fundo.

—Sei. Foi horrível. Sinto-o muitíssimo!

Ele estava atônito. Tabitha ainda queria ajudá-lo! Pensava libertar Coinneach e ajudá-lo a assumir sua dor. Ele suavizou o tom.

—Vamos, desce para jantar antes que fique doente. Podemos conversar sobre suas normas... e sobre o massacre.

Tabitha o olhou com surpresa. Demorou um momento em responder:

—Tenta me distrair? Porque não vai servir de nada.

—Então se nega a vir ao salão comigo?

Ela vacilou. Depois assentiu com expressão séria.

—Não posso deixá-lo em liberdade! — gritou Macleod, que tinha perdido a paciência. —Voltará, e a próxima vez possivelmente me apunhale com uma adaga nas costas enquanto durmo. Acaso deseja minha morte?

—Claro que não. Mas alguém tem que dar o primeiro passo e deter esta guerra absurda.

A tensão de Macleod aumentou de novo.

—Esta guerra continuará eternamente — era, em realidade, uma ideia desalentadora. —Lutarei até que morra. O devo a meu pai, por que não pode compreender meu mundo?

—Compreendo seu mundo. É um mundo de violência, no qual unicamente sobrevivem os mais fortes. É uma selva em que a vida humana não tem valor. O que falta para pôr fim a esta guerra sangrenta? Quantos homens e crianças têm que morrer primeiro? Não é suficiente que o mal ceife tantas vidas inocentes?

—Meu pai fez a paz com os MacDougall, e foi um grande engano. Enquanto dormia, enquanto todos dormíamos, entraram em Blayde e mataram a todos, exceto a mim. Esse dia morreram crianças em suas camas, Tabitha. Crianças dos Macleod.

—Sofreu horrivelmente. Oxalá não tivesse acontecido. Seu pai foi um grande homem por tentar chegar a um acordo de paz. Seja o que for o que crê lhe dever, já o pagou com acréscimo. Não tenho nenhuma dúvida de que ele quereria que fosse feliz.

Macleod se sobressaltou.

—Feliz? Que tipo de palavra é essa?

—Quereria que estivesse em paz.

—Meu dever é a vingança.

Ela sacudiu a cabeça, acalorada.

—O que aconteceu aqui em 1201 foi fruto do mal. Morreram muitos homens, mulheres e crianças inocentes. Mas você não é malvado, e Coinneach é um inocente.

—Vai voltar a insistir nisso?

Ela assentiu com expressão crispada.

—Nego-me a acreditar que não esteja destinado a ser um Mestre. Nasceu para proteger a Inocência, não para destruí-la. Sei que o massacre o tornou duro e vingativo. Sei que acredita ser seu dever lutar contra seus inimigos mortais. Mas tem uma vocação muito mais elevada nesta vida, por que não o pensa?

—Fala igual a MacNeil! — exclamou ele.

Tabitha tocou de repente seu braço e ele sentiu a compaixão que emanava dela.

—Alguma vez pensou em perdoar aos MacDougall e começar de novo?

Ele estava perplexo.

—Não sabe nada deste mundo!

—Se isto não terminar, outros sofrerão como sofreu você, de um e outro lado. Quer que seu filho passe toda sua vida decapitando aos MacDougalls para te vingar?

Ele tremeu, cheio de ira. As muralhas tremeram a seu redor.

—Basta! Não vou ter nenhum filho!

Tabitha o olhou com assombro.

—Não, claro que não. É muito inteligente. Não deseja esta vida para um filho.

Macleod não podia permitir que seguisse assim. Agarrou-a pelos ombros. Ignorando sua resistência, atraiu-a para si. Ela sufocou um gemido quando seu membro a roçou.

—Se esqueça de MacDougall — espetou ele. Tabitha ficou muito quieta em seus braços enquanto ele se apertava por completo contra ela. —Venha comigo a meu quarto. Quero que acabe esta guerra... e quero vencer.

Ela o empurrou, apesar de estar ofegante.

—Não, para. Não vou deixar que me seduza. Isto é muito importante!

Macleod a rodeou com seus braços.

—Isto é muito melhor, Tabitha, não crê?

Ela estremeceu violentamente, presa de um arrebatamento de desejo. Macleod experimentou um momento de pura euforia, baixou os olhos e seus olhares se encontraram,

O dela estava coberto pelas lágrimas, o orgulho, a paixão e uma feroz determinação.

—Embora te entregue meu corpo, voltarei aqui para libertar Coinneach — caiu uma lágrima. —Então, embora me bata, embora me prive de comida e me maltrate, ficarei para te ajudar a encontrar um modo de superar o massacre.

Ele a soltou.

—É uma bruxa exasperante, inclusive quando me desafia!

Ela se abraçou e se balançou sobre seus calcanhares. Outra lágrima rodou por sua bochecha. Mas não recuou, nem tentou fugir.

—Entre nós há algo forte e poderoso — sussurrou. —Te vi através do tempo e você me sentiu e me viu. Não só uma vez, mas também todo um século. E quanto ao desejo... Enfim, é óbvio que está aí — enxugou a lágrima. —Sou uma Rose. E me orgulho disso. As Rose se dedicam a lutar para proteger, para defender e ajudar a outros. E vou lutar por Coinneach, e por você.

Macleod esteve a ponto de lhe dizer que ele sabia se valer sozinho. Mas ficou calado. Nunca antes enfrentou a tanta convicção.

—Macleod, por favor, deixa partir ao menino. O causador da morte de sua família foi seu bisavô. Ele é um Inocente.

Ele ficou tenso, quase tentado a render-se. Mas assim que se precaveu disso, compreendeu que se debilitou perigosamente. Tinha-o debilitado aquela mulher. Tinha que resistir a seu poderoso atrativo.

—Vai descer para jantar? — perguntou desapaixonadamente.

—Seriamente pode vê-lo morrer, dia a dia? Pode?

Não só podia, mas também o faria.

—Desce para jantar — repetiu. —Este assunto está resolvido — e se ela insistia de novo quando estivessem a sós, trocaria de assunto e utilizaria seus poderes de persuasão sexual, se fosse necessário.

Tabitha sacudiu a cabeça.

—Logo não estaremos sozinhos, Macleod. Acreditava ter deixado claro.

A Macleod, seu corpo lhe dizia outra coisa. Cruzou os braços e a olhou fixamente. Nunca passava a noite só e não tinha intenção de começar esse dia.

—Não posso passar por cima do que está fazendo. Ajudarei você, mas não posso voltar a compartilhar sua cama, e não há mais o que falar — Tabitha tremeu.

Ele estava quase divertido.

—Nunca durmo sozinho. Se me rejeitar, mandarei procurar a outra — estava simplesmente afirmando um fato.

Ela deixou escapar um gemido.

Macleod se surpreendeu que lhe doesse tanto que se servisse de outra mulher, mas não se deteve a pensar nisso. Importava pouco.

—Sugiro — disse — que pense atentamente se preferir ao menino antes de mim.

Virou-se para partir, mas ela o deteve. Disse muito brandamente:

—Caso se deite com outra, não voltará a me ter.

Macleod titubeou, incrédulo. Ao olhá-la, compreendeu que falava a sério. Sua resposta foi uma advertência.

—Tabitha, deve ignorar minhas aventuras amorosas.

—Não posso — respondeu ela com simplicidade.

        Deu-lhe um tombo o coração.

—Então estamos em um beco sem saída.

—Sim, assim é.

 

Kristin Lafarge percebeu que sua companheira de apartamento tinha saído para abrir a porta e entrar em seu pequeno apartamento. Alegrou-se disso, porque aquela mulher começava a lhe crispar os nervos.

Sua mãe tampouco estava.

Kristin se alarmou. Fazia quase vinte e quatro horas que não via sua mãe. Onde estava?

—Mãe? Ouve-me? Preciso falar contigo.

Kristin tirou o casaco e cruzou a sala de estar, escassamente mobiliada. Não tinha fechado com chave: não temia ao mal, porque ia temê-lo? Ao ouvir abrir a porta se virou, pensando que seria sua mãe. Então sentiu Liz, sua companheira de apartamento.

Liz lhe sorriu, logo agachou a cabeça e entrou apressadamente na cozinha. Kristin sorriu. Sua companheira de apartamento a temia. Começava a fazer-se perguntas... e possivelmente muito em breve encontrasse a resposta.

Kristin riu. Aquilo não a preocupava o mais mínimo.

—Mãe, por favor, pode voltar?

Não houve resposta, e Kristin se deixou cair no sofá e tirou seu pequeno computador portátil de sua maleta.

Liz apareceu a cabeça pela porta da cozinha.

—Dizia-me algo?

—Não, não — Kristin sorriu com doçura. Liz empalideceu e retornou à cozinha. Kristin se conectou a Internet. —Boa, se está me escutando ,se foi a Blayde, a 1298 — prosseguiu. —E sabe o que? Vou conseguir o poder que necessito para segui-la até ali. Não se preocupe. Isto acabará muito em breve.

Liz saiu da cozinha e a olhou alarmada.

—Me olhar assim não é boa ideia.

Liz se ruborizou.

        —Olhe, Kristin, isto não está funcionando. Acredito que deveria buscar outro lugar — se remexeu, inquieta.

Kristin suspirou. Se aquela idiota não se colocou onde não a chamavam... ficou olhando-a enquanto formava com seu poder negro o nó de uma forca. Deslizou o nó ao redor da garganta de Liz. Liz tocou o pescoço. Estava claro que tinha notado algo. Kristin sorriu e começou a sentir prazer. Sua mãe disse que um de seus antepassados, séculos antes, foi neto de Satanás. Isso explicava por que encontrava tanto prazer na tortura e na dor.

—Aperta, nó — murmurou.

Liz sufocou um gemido e levou as mãos ao pescoço enquanto a forca invisível começava a estrangulá-la.

—Aperta, nó — repetiu Kristin, ofegante.

Liz cambaleou, tentando afastar o nó de seu pescoço. Cruzou a sala ofegando. Seus olhos, dilatados pela angústia e o terror, pareciam suplicar a Kristin que parasse. Kristin molhou os lábios.

—Aperta, nó — gritou.

Liz caiu ao chão. Seu rosto estava azul.

Kristin se levantou, ofegando ainda.

—Aperta!

Ouviu romper o pescoço de Liz.

Fechou os olhos e, gemendo brandamente, deixou-se embargar pelo prazer. Logo imaginou que era a cadela da Tabitha Rose quem jazia no chão, morta. E seu prazer se renovou.

Demorou um momento em acalmar-se. Logo se sentou frente ao computador e reservou a suíte presidencial do hotel Carlisle.

 

O sol estava se pondo. Os habitantes do castelo tinham acabado de jantar fazia um momento. Tabby pôde escutar sua conversação de seu novo quarto. Macleod se zangou quando insistiu em que dormissem separados, mas não tentou obrigá-la a compartilhar sua cama. Ela decidiu não descer para jantar, não porque não tivesse apetite, mas sim porque não queria sentar com Macleod: havia muita tensão entre eles. Uma moça lhe levou o jantar, embora ela não pediu. Por desgraça, sabia que era Macleod quem enviava.

Tabby teria desejado que não o fizesse. Não queria pensar nele como em um homem atento e considerado, mas isso era precisamente aquele gesto. Naturalmente, levaram-lhe uma refeição completa... enquanto Coinneach morria de fome na armadilha.

Tabby abraçou os joelhos contra o peito. Estava sentada sobre a cama na qual dormiria. O aposento que encontrou estava na torre sul de Blayde, justo do outro lado do corredor da torre norte, onde dormia Macleod. Era do tamanho de uma cela, mas tinha uma janela, o qual lhe parecia um estímulo. Não havia móveis, só um pequeno tamborete e a cama.

Abaixo se fez silêncio: todo mundo se foi dormir.

Deus, que triste se sentia agora. Sentia lástima por Coinneach, que sofria fisicamente, e também por Macleod, que estava detento de seu sentimento do dever, de sua ira e sua dor e, aparentemente, também de sua má consciência. Tabby começava a compreender por que queria que aquele moço morresse. Suspeitava que ele desejou morrer também no massacre. Mas tinha sobrevivido, e agora vivia para a vingança.

Isso a fez sentir-se ainda mais triste. Macleod era tão valente e poderoso... Caso se libertasse daquela vingança e fizesse seus votos, seria um herói. Querer ajudar a ambos a fazia sentir-se como se caminhasse por uma corda muito fina, sem rede debaixo que parasse sua queda.

Era muito consciente que não deixaria de pensar em Macleod. Quase tinha graça, obcecou-se com ele desde a primeira vez que o viu no Museu Metropolitano, quando estava ferido e queimado pelo incêndio de An Tùir-Tara. Quando era evidente que a necessitava. Mas ao vê-lo no colégio, duvidou de que aquele guerreiro misterioso e ameaçador necessitasse a alguém, incluindo ela. Equivocou-se por completo. O verdadeiramente irônico era que, do momento em que se conheceram, quis evitar aproximar-se dele e, entretanto, cada um de seus encontros tinha aprofundado sua intimidade. Seu conflito moral os mantinha separados, mas também a fazia ver e compreender ao Macleod como nunca antes.

“Por que não entende meu mundo?”.

“Deseja ver-me morto?”.

“Disse que não me julgaria”.

Tabby apoiou a cabeça sobre os joelhos. Tinha que o libertar de seu passado. Estava segura de que seria um homem novo se obtinha essa façanha. Se abandonasse sua sede de vingança, talvez inclusive fizesse os votos.

“Pensa atentamente se prefere ao menino, antes de mim”.

Prometeu para Coinneach libertá-lo essa noite. Para fazê-lo, teria que utilizar sua magia contra Macleod. Só poderia apoderar-se das chaves se o fazia dormir mediante um encantamento... e se o encantamento funcionasse.

Estava se perguntando se seu feitiço para impedir que Macleod lesse seus pensamentos teria funcionado. Não lhe havia dito nada, mas ela fez o feitiço com todo cuidado. Com um pouco de sorte, seria impossível que ouvisse seus pensamentos a respeito de Coinneach.

Tabby olhou para a única janela do aposento. Estava escurecendo e o céu tinha adquirido um tom violeta escuro. Umas poucas estrelas começavam a aparecer no firmamento. Se não se achassem naquela espantosa situação, ela estaria naquele momento em sua cama, entre seus braços. Não queria pensar nisso, mas se sentiu incrivelmente à vontade abraçada por ele.

Ruborizou. Tinha posto fim a sua relação física, mas uma parte dela sabia que não tinha acabado. Como ia acabar, quando estava tão decidida a libertá-lo de sua escravidão? Quando se sentia tão atraída por ele? Quando Macleod era o único homem que a excitou por completo?

Olhou o céu escurecido, cheia de temor. Estaria ele sozinho?

Agora que sabia quão viril era, não podia imaginar que se contivesse. Mas se levou outra à cama, ela nunca o perdoaria, nem que retornasse à casa e voltassem a encontrar-se duzentos e cinquenta anos depois, em An Tùir-Tara.

Doía-lhe o coração, mas se negava a admitir. Tinha que deixar de pensar nele. Devia fechar-se mentalmente e esquecer o que estaria fazendo Macleod e com quem. Coinneach estava fora, no pátio de armas, encadeado à armadilha. Era muito cedo para tentar roubar as chaves de Macleod, assim tinha que esperar.

Levantou-se resolutamente e vestiu um dos mantos vermelhos e negros de Macleod sobre os ombros. Tinha comido exatamente um terço de seu jantar, reservando o resto para Coinneach. Recolheu a bandeja.

Desceu as escadas. A maioria dos homens estava dormindo em seus leitos, mas ainda havia alguns sentados à mesa, jogando cartas. Voltaram-se para olhá-la com evidente suspeita. Macleod não estava presente, retirou-se.

“Não pense nisso”.

Endireitou-se e, fazendo caso omisso deles, os desafiou mentalmente a tentar detê-la. Nenhum o fez. Cruzou o salão. Mas ao chegar à porta ouviu alguém atrás dela. Ao virar-se, viu Rob.

Ele sacudiu a cabeça.

—Desta batalha não sairá nada bom, senhora. Não pode ganhar. Convém que não contrarie Macleod.

—Se eu ganhar, Rob, também ganha ele — Tabby empurrou a porta e saiu.

Fazia uma noite púrpura, nebulosa ainda, iluminada somente por algumas estrelas. Cruzou rapidamente o pátio com cuidado de não derramar a cerveja. Coinneach dormia em uma postura estranha, e Tabby compreendeu que devia estar exausto. Sentiu lástima por ele. Ao ajoelhar-se, ele a ouviu e despertou. Levantou o olhar e seus olhos se encheram de alívio. Logo se sobressaltou.

Tabby sentiu pairar sobre eles, às suas costas, a poderosa presença de Macleod. Acelerou-lhe o coração e olhou para trás.

Ele esticou o braço e a fez levantar-se. A cerveja se derramou. Sem soltá-la, Macleod lhe tirou a bandeja das mãos e a jogou no chão.

Ela o acreditou entretido com outra mulher. E a surpreendeu em fragrante, tentando socorrer seu prisioneiro.

—Está faminto.

Ele tinha um olhar abrasador.

—Sim, assim é.

Tabby não se incomodou em tentar afastar-se. Tremeu.

—Precisa comer. Necessita água.

—Tornou a me desafiar.

Tabby tencionou, por que tinha que ser tão substancialmente absorvente seu poder?

—E te surpreende? Já sabe o que penso. Não posso renunciar a meus valores, nem as minhas convicções.

Ele esboçou um sorriso desinteressado.

—Eu tampouco.

Estavam em um beco sem saída.

—Vamos — disse Macleod.

Antes que pudesse responder, a puxou para o salão. Tabby teve que apertar o passo para alcançá-lo.

—Aonde vamos? — gritou, alarmada.

Ele não respondeu.

Quando se dirigiu para a torre norte, Tabby compreendeu aonde iam. Cravou os calcanhares no chão. Macleod não se deteve. A puxou novamente.

—Não vou a seu quarto!

Ele não a olhou, mas a agarrou com mais força.

—Estou farto desta luta. É uma loucura.

—Não posso ficar olhando enquanto tortura e executa a esse menino. Não posso compartilhar sua cama. Não posso, Macleod — gritou enquanto ele a arrastava escada acima.

Macleod seguia sem responder.

—Macleod! — gritou ela quando ele abriu de um empurrão a porta de seu dormitório. —É que pensa me forçar?

Ele a soltou por fim. Tabby se voltou para fugir, mas ele fechou a porta na sua cara, agarrou-a pelo braço e a fez girar, aproximando-a da cama. Tabby se deteve no centro do quarto, estupefata.

Ele cruzou os braços.

—Não vou utilizar a força.

Pensava seduzi-la. Suas palavras fizeram que o corpo de Tabby se tencionasse e vibrasse. Seu pulso se acelerou.

Ele sorriu lentamente.

Tabby sacudiu a cabeça. Tinha a boca seca e seu coração pulsava estrondosamente.

—Não o faça. Amanhã estarei furiosa.

Ele tirou o espartilho e o jogou de lado, deixando descoberto seu corpo excitado, duro e cheio de cicatrizes.

Tabby não queria olhá-lo, mas seus olhos pareciam ter vontade própria.

—Não vou perdoá-lo— advertiu. Seu tom era inflexível.

—Claro que me perdoará. Se insistir em brigar, brigaremos de dia. Mas não de noite.

Ela estava atônita, mas não pôde evitar que seu corpo traiçoeiro respondesse à ideia daquela trégua noturna. Sua pele ardia, tensa.

—Ou prefere que procure consolo em outra parte? —murmurou ele, divertido.

Tabby baixou o olhar. Tentou respirar e não pôde. Macleod se aproximou devagar e ela levantou os olhos.

—Odeio imaginá-lo com outra.

—Então me ofereça consolo, Tabitha.

Podiam discutir no dia seguinte. Ela esticou a mão e tocou seu quadril duro como a rocha. Macleod ficou quieto. Tabby deslizou os dedos mais abaixo.

Quando tocou seu membro, o desejo era intenso e cegante.

Ele riu e a tombou na cama.

Tabby deixou escapar um gemido e, agarrando-a pelo cabelo, aproximou seu rosto ao dela. Enquanto o beijava, Macleod a penetrou.

 

O soluço de um menino a acordou.

Tabby se levantou, sobressaltada. O sol brilhava no alto e entrava pelas portinhas fechadas das janelas. Ficou parada um momento, recordando cada detalhe dessa noite.

Essa noite, não só se rendeu fisicamente a Macleod. Ruborizou. A insaciável tinha sido ela. E o prazer foi mais intenso que nunca, possivelmente por suas diferenças, por sua luta. Ele se mostrou triunfante e a fez saber uma e outra vez quem mandava ali e quem ganhou. Mas não lhe importou. OH, não.

De fato, mostrou-se tão insaciável que se esqueceu de roubar as chaves quando por fim se acalmaram. Dormiu sem sequer pensar em Coinneach.

Perdeu a oportunidade perfeita para roubar as chaves, e não sabia como se sentia a respeito. Tampouco sabia o que sentia a respeito ao feito de haver-se entregue a ele essa noite. Estava já bem avançada a manhã de um novo dia. Certamente não deveria ter sucumbido a ele, mas o fez. Sua trégua só tinha durado essa noite? Não lhe importaria manter com ele uma conversa racional a plena luz do dia. Talvez ter feito amor fosse uma oportunidade para esclarecer suas diferenças.

Levantou-se devagar e abriu as portinhas. Lá fora fazia um dia magnífico, o céu estava azul e limpo. As montanhas do sudeste, cheias de bosques, brilhavam como esmeraldas ao sol. E agora o que?, perguntou-se. Essa noite, Macleod quis sexo e teve. O problema era que ela não se arrependia. Lamentava, pelo contrário, que ele tivesse ignorado seus desejos rápidos e se negou a falar do destino de Coinneach.

Então ouviu de novo o leve pranto de um menino.

Alarmada, aproximou-se da porta e a abriu de par, esperando encontrar ali a uma criança pequena. Mas o corredor estava vazio.

Tabby vacilou. Estava sua mente lhe pregando uma peça? Primeiro sonhou com um menino que chorava e agora o ouvia. Mas não havia nenhum menino perto.

Ou estava sentindo a um menino que estava em outra parte, como havia sentido Macleod quando era um moço, naquela praia? De repente voltou a ouvir aquele soluço.

Preocupada, levantou as saias e pôs-se a andar pelo corredor. O som pareceu aumentar ligeiramente em volume, como se houvesse um menino pequeno chorando na escada. Mas quando chegou à estreita escada, esta estava vazia.

Ficou tensa. Essa noite, o espírito não tinha feito ato de presença. Tabby não sabia o que significava aquilo, mas estava segura de que era a calma que precede à tempestade.

Sua mente a estava enganando. E estava segura de que alguém, ou algo, escondia-se atrás daquelas alucinações. Era Criosaidh, a mãe de Coinneach? E aquele espírito procedente do An Tùir-Tara… tinha algo a ver?

Tabby começou a descer. Peigi estava limpando o salão junto com outras duas mulheres.

—Ouviu uma criança chorar?

Peigi encolheu os ombros.

—Talvez foi o pequeno Seonaidh. Estava aqui faz um momento.

Tabby não sabia quem era Seonaidh, e se aproximou das portas do grande salão e as abriu. Havia vários meninos pequenos brincando no pátio de armas, mas nenhum deles estava chorando, e estavam muito longe para que os ouvisse. Enquanto os via lançar pedras a uma estaca, ouviu de novo aquele pranto.

Soava mais perto.

Saiu e percorreu o pátio de armas com o olhar. Os soluços se ouviam cada vez com mais claridade. Viu dois bebês com suas mães, mas não distinguiu a nenhum menino chorando. “Estão-me enfeitiçando”, pensou, intranquila.

O som mudou, e sua preocupação se intensificou. Olhando para as muralhas, pôs-se a andar para a escada que levava a elas. Então se deu conta de que o menino estava na porta de arco que conduzia à ponte levadiça. A ponte estava baixada, mas isso não parecia estranho a àquela hora do dia. Correu para a entrada gradeada da fortaleza.

Deteve-se dentro do passadiço frio e escuro e esquadrinhou as sombras. Não havia nenhuma criança, mas o pranto se ouvia ainda mais forte. De repente pensou, angustiada, que possivelmente estivesse nos porões de baixo.

—Senhora?

Voltou-se. Era o bonito highlander que estava de guarda no dia anterior.

—Ouviu isso?

—Não sei... Não falo... inglês — disse, vacilante.

O pranto tinha cessado. Tabby aguçou o ouvido. Então o menino começou a chorar de novo, mas estava cada vez mais claro que o pranto procedia de fora da fortaleza. Mais à frente do fosso, viu o caminho coberto de sulcos por onde subiu com Macleod ao chegar. Mais à frente do caminho, os bosques pareciam densos e impenetráveis. Entre as árvores e o lugar onde se achava não se via nenhuma criança.

        O jovem highlander lhe falou com certa brutalidade. Tabby não precisava entender gaélico para saber que estava dizendo que não deixasse a fortaleza. Ela não fez caso. Era vagamente consciente de que a tinham enfeitiçado e de que aquilo era uma armadilha, mas estava tão preocupada com aquele pequeno que não conseguia pensar com claridade. Tinha que encontrar a criança. Não tinha alternativa.

Cruzou correndo a passadiça e a ponte. O pranto se fez mais intenso. O menino parecia aterrorizado.

O jovem gritou.

Tabby levantou as saias e correu para o caminho. O som do pranto pareceu mudar. Tabby se separou do caminho. O menino gritava como se o estivessem assassinando. Tabby correu ainda mais depressa. Os ramos arranhavam seu rosto, seus seios. Depois, fez-se um silêncio assustador.

Deteve-se, confusa, ofegando com força, elevou-se a névoa e ela ficou imóvel.

Acabavam de fazê-la sair de Blayde mediante um feitiço muito poderoso. Não havia nenhuma criança!

Tinha recuperado o uso de seus sentidos com a mesma acuidade de sempre.

—Moço! — gritou, voltando-se. Mas não sabia onde estava. Rodeavam-na enormes pinheiros. Estava em meio de um bosque sombrio. Pouco se via do céu por entre os ramos que se elevavam sobre ela. E não via Blayde.

Por fim o entendeu. Estava perdida.

Ouviu-se um ranger de ramos.

Então entendeu algo mais. Não estava sozinha.

Tentou refrear seu medo repentino. Chegou a calma que sempre precedia ao mal. Ficando quieta, rodeou-se de um feitiço protetor e finalmente se voltou para aquele som.

Cinco figuras envoltas em mantos saíram de entre as árvores. Sua aparência era surpreendente. Eram garotos adolescentes, todos eles de tez branca, com os olhos negros e vazios. Estava claro que eram garotos medievais. Enquanto a rodeavam, Tabby ficou atônita ao compreender por fim.

Também em 1298 havia bandos de sub-demônios que queimavam bruxas.

Os meninos começaram a sorrir com expressão malévola enquanto se aproximavam.

Tabby se virou para começar a correr.

Seu coração deu um tombo quando agarraram seus braços por trás. Lutou para soltar-se, mas foi inútil e a arrastaram para trás. Ouviu que alguém mais se aproximava, mas a empurraram com força contra o chão. Gritou ao cair engatinhando sobre a terra dura. Queriam lhe fazer mal.

Até onde chegariam?

Os possessos sempre tinham força sobrenatural, e ela não tinha poder para escapar deles, pensou, enquanto se levantava com cautela. Suplicar não serviria de nada. O mal não conhecia o significado da clemência.

—A amarrem e preparem o fogo.

        Tabby gritou ao ouvir a voz de Kristin Lafarge. Obrigaram-na a ficar em pé e girou, incrédula. Kristin acabava de penetrar na pequena clareira e lhe sorria com malícia e olhar brilhante. Vestia roupagens medievais.

Puxaram as suas mãos para trás e as ataram com uma corda áspera. Seu medo se dissipou e a serenidade se apoderou dela.

—Enfeitiçou-me.

—Sim, de fato. Olá, Tabitha — Kristin se aproximou, desfrutando visivelmente daquele momento.

Tabby se ergueu, apesar da dor que lhe causava a corda.

—É desta época ou da minha?

Kristin lhe tocou ligeiramente a bochecha com as unhas.

—Não sou uma mulher medieval. Pareço?

Não tinha o menor sotaque escocês, pensou Tabby.

—Poderia passar por escocesa, com essas roupas.

—Tenho família em Melvaig.

—É uma MacDougall? — perguntou Tabby precipitadamente. Tudo estava unido ao An Tùir-Tara.

—Faz muitas perguntas. E como está sua família, querida?

Tabby ficou quieta.

—O que?

Kristin sorriu.

—Perguntava-me como está essa cadela da sua irmã.

A calma se desvaneceu. Retornou um medo gélido.

—Se a machucou, matarei você.

Kristin pôs-se a rir.

—E como? Eleve-se, fogo — disse brandamente.

Tabby ouviu o chiado das chamas e se girou. Os garotos tinham reunido um enorme montão de lenha e ramos e o fogo acendeu imediatamente no centro da clareira. O medo começou a apoderar-se dela.

—O que fez a Sam?

—Sam sobreviveu a minha magia, embora certamente ainda seu estômago doi.

Sam estava bem, pensou Tabby, aliviada. Tentou recuperar a calma e o conseguiu rapidamente.

—O que quer? Por que me seguiu ao passado? — então se perguntou por aquela coincidência: duas entidades malignas a tinham seguido ao passado desde Nova Iorque. —Espera um momento. Era você a do museu? Tentou entrar em minha casa? Atacou-me a outra noite no aposento de Macleod?

—Oxalá tivesse esse tipo de poder. Mas, por desgraça, tenho que estar presente para utilizar minha magia contigo.

Tabby começou a tremer. Acreditava nela. Não pelo que dizia, mas sim porque aquela mulher não tinha a mesma estampagem maléfica que a mulher de An Tùir-Tara. Kristin era, em certa forma, uma versão diluída.

—Que relação tem com o An Tùir-Tara? — perguntou.

—Não é evidente? — a amabilidade de Kristin desvaneceu. —Estive ali.

Tabby a olhou com surpresa.

—Eu também vou estar, não é certo? — ignorava como sabia. Ou possivelmente não: todas essas emoções eram muito intensas para não lhe pertencer.

Kristin sorriu.

—Mmm, o que posso responder? Não, estará ali... Não, espera! Sim, esteve ali.

Tabby se sentiu doente. E de repente compreendeu que, se olhasse o fogo, sentiria de novo todo o mal e o ódio, toda a raiva, a indignação e a desesperança, o amor e o desamparo que associava com An Tùir-Tara. Manteve os olhos fixos em Kristin.

—O que ocorreu?

Kristin a olhou com desdém.

—Isso não importa. O que importa é que vou destruí-la, Tabitha. E estou desejando sentir sua dor — umedeceu os lábios.

Tabby conteve o fôlego. Kristin era demoníaca. Não de todo, mas em algum lugar de seus genes estava poluída pelo sangue de Satã.

Tabby rezou para ter coragem e forças. Logo se esqueceu de Kristin e se atreveu a olhar o fogo. Olhou fixamente as chamas, sentindo-se doente, e começou a experimentar o ódio, o mal, a ira... e o amor. Aquela visão cegou seus olhos. O suor escorregava por sua testa. Não podia permitir que as emoções a paralisassem.

—Me obedeça, fogo, apague-se.

O fogo vacilou e logo começou a minguar.

—Me obedeça, fogo, se apague! — gritou Tabby.

Enquanto o fogo ia ficando menor, Kristin gritou:

—Se eleve, fogo — e as chamas se avivaram.

Tabby compreendeu que Kristin tinha grandes poderes... mais que ela. Respirou fundo e tentou refrear o atordoamento que lhe causavam aqueles terríveis sentimentos.

—Me obedeça, fogo, se apague — disse.

        O fogo minguou até ficar reduzido a umas poucas e débeis chamas, e logo a brasas. Tabby se sentiu surpreendida e aliviada, mas Kristin a agarrou pelo cabelo e gritou:

—Fogo, se levante!

O fogo voltou a avivar-se e Kristin empurrou seu rosto para as chamas.

—Quem é mais forte, cadela? E onde está agora seu protetor? Não quer saber?

Tabby tencionou, alarmada. Recordou-se que Macleod podia valer-se sozinho.

—Saiu com seus homens esta manhã. Não só está longe, ao leste, mas também está sobre um de meus feitiços.

—Não acredito — gemeu Tabby. —É muito poderoso para uma maga insignificante como você.

—Fogo, se levante — gritou Kristin.

As chamas rugiram, convertendo-se em uma fogueira do tamanho de uma casa. Tabby começou a lutar. Kristin riu e os cinco garotos agarraram Tabby e começaram a puxá-la para a fogueira. Tabby os arranhava. O calor a envolveu. Estava tão perto das chamas que pensou que seu cabelo e seu vestido se queimariam.

—Me obedeça, fogo — disse ofegando — Se apague!

O fogo oscilou. Parecia duvidar.

Os gatotos a empurraram para a fogueira.

Então se ouviu um trovão.

Confusa, Tabby olhou para cima, mas a parte do céu que divisava entre as árvores era de um azul radiante. Depois, a terra começou a mover sob seus pés.

Os trovões cessaram.

Soltaram-na bruscamente e caiu ao chão, a pouca distância das chamas. Levantou-se. Ao outro lado da fogueira viu uma mulher a cavalo.

Ficou quieta. Atrás dela, ouviu que os garotos fugiam ao interior do bosque. Olhou para trás. Kristin estava lívida e imóvel como uma estátua.

Tabby olhou de novo à mulher. Estava vestida como um highlander medieval, com um espartilho curto, preso com cinturão, e um manto de tartán azul escuro e negro, e segurava sem esforço uma grande espada com uma mão. Fez avançar lentamente a seu corcel cinza. Atrás dela, centenas de cavaleiros enchiam o bosque.

Os ramos rangeram.

Tabby se sobressaltou. Kristin se foi.

Tabby olhou a fogueira.

—Fogo, me obedeça, apague-se, fogo.

O fogo ficou do tamanho de um homem robusto.

Tabby repetiu a ordem e a fogueira ficou reduzida a umas poucas chamas e brasas. Tabby olhou a mulher.

Sustentou-lhe o olhar. Tinha o cabelo comprido e encaracolado, de cor loira avermelhada, um rosto muito belo e olhos abrasadores. Dava a impressão de levantar pesos e correr triatlos. Seu poder procedia do outro lado: era branco e brilhante, parecia-se muito ao de Sam. Mas Tabby não teve que senti-lo para dar-se conta de que era uma guerreira highlander.

—Macleod está aqui — disse em um inglês com forte sotaque. Fez virar seu cavalo e entrou a galope no bosque. Seu vasto exército a seguiu.

Enquanto o estrondo se apagava, Tabby começou a tremer e se deixou cair contra uma árvore.

Kristin a seguiu através do tempo. Queria matá-la. E estaria em An Tùir-Tara.

Ouviu-se um ruído de galope. Tabby levantou a vista ao sentir o poder de Macleod. O alívio a fez desfalecer. Ele apareceu a cavalo entre as árvores, seguido por um punhado de cavaleiros. Desceu de um salto do corcel negro e chegou a seu lado com um só passo. Agarrou-a e a atraiu para si. Tabby se deixou abraçar.

—Kristin me seguiu de Nova Iorque.

—O deamhan fantasma? — perguntou ele.

—Não, é uma bruxa negra. E muito poderosa.

Ele esquadrinhou seu rosto.

—Senti-a, Tabitha, e senti seu medo, segui o rastro desse medo até te encontrar. O que faz tão longe de Blayde?

Tabby respirou fundo.

—Atraiu-me até aqui com um feitiço. Macleod, uma guerreira com grandes poderes brancos apareceu no momento justo. Kristin se assustou, e também os sub-demônios. Os fez fugir. Quem era?

—A senhora de An Roinn-Mor — respondeu ele com brutalidade. —Alguns dizem que é uma deusa. Eu não sei, mas pode levantar um exército de dois mil mortais dispostos a entregar sua vida por ela.

Tabby tentou assimilar aquela informação.

—Está-me dizendo que Kristin é mais poderosa que você? — perguntou Macleod. Deslizou as mãos até seu rosto.

Tabby não titubeou.

—Muito mais poderosa — seus olhos se escureceram. —Macleod, parece estar aliada com Melvaig… e quer me matar.

Os olhos de Macleod brilharam de raiva.

—Então terei que matá-la.

—Isso não é tudo — agarrou seus braços com força. —Você não é o único que estará em An Tùir-Tara. Eu também estarei lá.

 

Tabby suspirou, flexionou os dedos dos pés e suspirou outra vez, sorrindo. Era tarde. Lá fora, o céu brilhava como azeviche, cravado por um milhão de estrelas. Olhou a Macleod e seu sorriso se fez mais amplo. Estava nu, de joelhos frente à chaminé, acendendo o fogo.

Tabby se apoiou em um cotovelo para poder admirar seu corpo. A luz das estrelas realçava sua poderosa musculatura.

—Me obedeça, fogo, se acenda, me obedeça, fogo, venha aqui — disse.

Macleod se virou e lhe lançou um sorriso lento e sensual, carregado de satisfação. Detrás dele acendeu o fogo e algumas chamas começaram a chispar. Macleod o olhou e se levantou.

Tabby sentiu que ruborizava.

—Mais?

—Sim, se pode seguir meu ritmo.

—Um desafio ao que não posso me negar — umedeceu os lábios, tentando não olhá-lo, mas finalmente decidiu dar-se por vencida. Por que não o olharia, sendo tão esplêndido? Lançou uma olhada ao fogo. —Fogo, me obedeça. Eleve-se, fogo — o fogo se avivou e suas chamas encheram a lareira.

Macleod se sentou a seu lado.

—Um feitiço muito útil. Tabitha, quero falar com você.

Seu tom era sombrio e ela ficou tensa. Macleod não era muito dado a conversar. Estiveram fazendo amor desde que ele a encontrou no bosque. Tabby se levantou. Tinham, certamente, muitas coisas que debater.

—Esta guerra entre nós terminou — afirmou Macleod.

Tabby começou a sentir-se desalentada. Esquadrinhou seu olhar e pareceu que se suavizava imperceptivelmente. Não pensava aceitar como tratava Coinneach, nem a seus demais prisioneiros, mas não queria que voltassem a brigar. Ocorreram tantas coisas em tão pouco tempo que tinha a sensação de que passavam juntos uma eternidade e não apenas uns dias. E o que era mais importante: Macleod parecia muito preocupado ao encontrá-la no bosque, como se lhe tivesse afeto e não a interessasse unicamente como objeto sexual.

Seu coração se abriu. Começava lentamente a compreender. Ela também começava a querê-lo. Não podia evitar admirar sua coragem, sua decisão, sua fortaleza. Era medieval em muitos sentidos, claro. Mas isso era de esperar, e ficava compensado por seu heroísmo. E agora eram algo mais que amantes. Eram companheiros naquela luta de vida ou morte contra o mal. Ela o necessitava e Macleod a necessitava, tal e como havia dito MacNeil. Seus Destinos estavam claramente entrelaçados.

E os dois estariam em An Tùir-Tara.

Era uma ideia assustadora. Tabby abraçou os joelhos, consciente de que ele a observava atentamente. Tudo o que lhes aconteceu, inclusive seu conflito por causa de Coinneach, fazia mais profunda sua intimidade. Sua relação parecia ir crescendo a saltos. Já não o temia. Não lhe parecia tão ameaçador e temível como ao princípio. Talvez inclusive estivessem tornando-se amigos, porque os amigos velavam uns pelos outros: os amigos se gostavam.

Tudo aquilo parecia imenso, eterno, irrevogável.

E assim tinha que ser. Se não, ela não o teria visto, nem o teria sentido através dos séculos, como ele a viu e ouviu. Tabby se perguntava se seria sua alma gêmea.

Isso explicaria tudo. Mas como podia ser, sendo seus mundos tão diferentes? Quando vencessem Kristin e aquele espírito maléfico procedente de An Tùir-Tara, quando Coinneach fosse posto em liberdade, ela retornaria para casa... não?

De repente não queria pensar no futuro. Era muito inquietante.

        —Sinto-me tão bem com você... — disse com suavidade. —E sei que você sente o mesmo.

—Deve se submeter a mim — respondeu ele. —Tenho que cumprir com meu dever, Tabitha. Deve confiar que minha decisão é a correta.

Referia-se a Coinneach, pensou ela, sentindo uma pontada muito mais fraca que antes. Não lhe cabia nenhuma dúvida que Macleod se equivocava. Acreditava, agora, que talvez houvesse esperanças de que mudasse de opinião e visse a luz.

—Confio em você. E sei que está fazendo o que crê correto. Mas não vou te dar minha aprovação. E, por certo, seus antepassados, os deuses, tampouco o deem.

Macleod deu um salto e se levantou.

Falar dos deuses era um assunto delicado, pensou Tabby.

Seu rosto se crispou.

—Então vai me desobedecer, inclusive agora? — parecia incrédulo.

Opor-se a ele, agir às suas costas, de repente parecia intolerável. Tabby sabia que não tinha escolha, mas não queria pensar nisso. Falou devagar, com cautela:

—Não te parece banal sua rixa com Coinneach depois do que aconteceu hoje com Kristin? Não deveria ter prioridade a guerra contra o mal sobre os assuntos mundanos?

—O assassinato de minha família não foi banal. Não vou permitir que me debilite, Tabitha.

Ela conteve o fôlego.

—Sinto muito. Não é essa minha intenção. E acredito que, se fizesse seus votos, seria mais forte que nunca — desceu da cama.

Mostrou-se terrivelmente pudica até esse instante, e Macleod a olhou com surpresa. Tabby se colocou entre suas pernas e tomou suas mãos. Os olhos dele se turvaram imediatamente.

—Sua vingança o degrada, mas não façamos lenha da árvore caída.

Ele afastou as mãos das suas e acariciou seus seios.

—Agora vai usar seu corpo para tentar me convencer?

Passou pela cabeça dela que, se pudesse, o faria.

—Sei que pode ler meus pensamentos, assim já sabe que começo a sentir algo por você. Quero o melhor para você, Macleod, não para mim — ele se sobressaltou. —Seguimos em um beco sem saída — tocou seu rosto com ternura. —Mas ao menos estamos falando disso. É um passo na direção adequada. É o mais civilizado.

—E isso te satisfaz, verdade? — perguntou ele suavemente enquanto a agarrava pela cintura, a puxava e apoiava o rosto em seus seios.

Ela respirou fundo.

—Satisfaz-me quase tanto quanto você.

Macleod levantou o rosto e lhe sorriu com olhar ardente.

Foi então quando Tabby viu uma mulher em pé, entre as chamas.

 

        A mulher parecia estar dentro da lareira, do outro lado do fogo. Tabby a via claramente, apesar de ser transparente. Tinha o cabelo escuro e vestia ricas roupagens medievais. Seu ódio e sua maldade enchiam o quarto.

Tabby gritou, afastando-se.

Seu feitiço protetor quebrou.

O fogo se converteu em um muro que rugia entre eles, sentia-se horrorizada, furiosa, consumida pelo temor e a fúria. Aquelas emoções em conflito a aturdiam. Tinha que vencer aquela mulher.

Ela sorriu e, de repente, Macleod apareceu ao outro lado do fogo, detrás da mulher, com os olhos muito abertos, e Tabby teve a sensação de já ter vivido aquele momento. Compreendeu então quanto amava Macleod... e sentiu terror.

Mas ele também sentia.

E então viu a si mesma.

Ficou imóvel enquanto seu coração se encolhia, cheio de temor. A mulher e Macleod estavam a um lado da parede de fogo e ela estava do outro. O fogo rugia aproximando-se dela, rodeando-a por completo.

E as chamas a consumiam.

—Tabitha!

Tabby demorou um momento em se dar conta que Macleod estava sacudindo-a. Tomou consciência então que estava olhando um simples fogo na lareira e que a mulher tinha desaparecido. Macleod a olhava preocupado. Tabby sentiu que o mal remetia como uma onda afastando-se da praia e dissolvendo-se no oceano.

O fogo se elevava com fúria e as portinhas abertas se sacudiam.

Mas ela se foi.

—Sente-se — disse ele, rodeando-a com o braço.

Tabby estendeu os braços.

—Era o mal da outra noite — começou a dizer. —A bruxa de An Tùir-Tara. Tenta manifestar-se. — deu-se conta de que tremia incontrolavelmente entre seus braços.

—Eu também a vi, Tabitha.

Tabby se sobressaltou.

—Era Criosaidh.

Ela se surpreendeu... ou não?

—Tabitha?

Limitou-se a olhá-lo, impressionada ainda pelo que tinha visto, e deixou que lesse sua mente.

Macleod sufocou um grito de surpresa.

 

—Nossa encantada amiga não está em casa — comentou Nick.

Sam estava junto a ele de frente ao apartamento que Kristin Lafarge compartilhava com Elizabeth Adler. Nenhum dos dois se incomodou em tirar a pistola, porque ambos sentiam a ausência do mal. As balas serviriam contra a bruxa, a menos que pudesse fazer um feitiço que as rejeitasse. Não teria surpreendido Sam. O poder de Kristin era perigoso. Teria-lhe encantado ver o que podia fazer uma bala ou qualquer outra arma àquela bruxa. Sam acreditava no rancor e na vingança.

Não se surpreendeu que Kristin se foi.

—EEB — disse com amargura. “Está em Blayde”. Não se incomodou em traduzir, porque sabia perfeitamente que Nick podia ler sua mente.

Por isso procurava controlar o que pensava. Ele levaria aquela idiota da Jan ao passado, estando Tabby em perigo. Os planos que ela tivesse não lhe concerniam.

—Vamos ver se leram o Código de Segurança Doméstica do prefeito — Nick agarrou a maçaneta da porta e girou.

Viram Elizabeth Adler ao mesmo tempo. Jazia no chão, não muito longe da porta, com os olhos muito abertos, sem vida. Sam se aproximou dela apressadamente, apesar de que já sabia que tinha o pescoço quebrado. Nick foi direto ao computador portátil que viu sobre a mesinha e se sentou de frente a ele. Sam se ajoelhou. Procurou não sentir nada pela vítima. Os sentimentos eram um estorvo para a guerra. Sentir compaixão era má ideia.

Fixou-se que a garganta de Adler parecia imaculada. Fechou-lhe os olhos, consciente que Adler era mais ou menos de sua idade: muito jovem para morrer. Sempre eram, pensou sem emoção. Logo olhou seus braços, seus pulsos, suas mãos e suas unhas.

—Não tem nem um só arranhão, nem um hematoma. Parece que não houve luta.

Era lógico. Kristin a tinha assassinado mediante magia negra.

Sam se levantou e se aproximou de Nick.

—Acreditava que a estas alturas já teria ido a Blayde — procurou ocultar seus pensamentos, mas deixou que sua ira se manifestasse. Nunca perdoaria Nick por aquilo.

—O computador é de Lafarge — disse ele alegremente, sentado no sofá. Seus olhos azuis brilhavam quando levantou a vista. —O calendário escolar. Parece que hoje não foi trabalhar.

—O que encontrou? — perguntou Sam, interessada. No que a ela concernia, Kristin era sua presa, não a de Nick... e menos ainda a de Jan.

—Olhe sua tela de proteção — disse ele.

Sam se aproximou e, ao ver uma paisagem com ruínas, compreendeu em seguida que se tratava da Escócia.

—É Melvaig — disse Nick, satisfeito.

—E você como sabe? — mas sentia um formigamento na nuca. Não podia evitar sentir-se excitada. Se Nick tinha razão, e provavelmente a tinha, Kristin também estava vinculada ao An Tùir-Tara. O qual expunha a pergunta: quantos anos tinha?

Tinham recebido os resultados das provas de DNA e Nick estava certo: o sangue de Kristin estava poluído. Só era humano em noventa e dois por cento.

—Está em nosso novo arquivo sobre Macleod. Lutou contra o clã MacDougall durante seus primeiros cem anos de vida — a olhou. —Me pergunto se sua irmã o domesticou um pouco. Em 1325, foi à guerra como aliado dos MacDougall — apertou algumas teclas e abriu o histórico. Seus olhos se aumentaram. —Ora, ora.

Sam se inclinou.

—Lafarge reservou uma suíte no Carlisle. Para ontem a noite.

Ele fechou o computador e o recolheu ao levantar-se.

—Porque fez isso? Minha irmã está em Blayde.

—Talvez tenha se encontrado com alguém antes de sair de viagem — disse Nick. Seu olhar era penetrante. —Seja o que for que planeja, não o faça. Eu procurarei Tabitha. Enquanto isso, você se ocupe disto. Averigue a quem viu e o que queria.

—De acordo — mentiu Sam tranquilamente. Sabia mentir. Tinha que fazê-lo constantemente nas ruas, quando atuava como policial secreta.

—Falo a sério. Está muito envolvida neste assunto. Jan e eu nos encarregaremos de Kristin. E sua irmã está bem.

—Não está bem. Está metida em uma boa confusão. Estará bem dentro de um par de séculos, quando for superpoderosa... caso consiga sair do incêndio de Melvaig. E você sabe perfeitamente — Sam estava furiosa. —Nick, posso lhe dizer que é o cara com menos coração que conheci alguma vez?

—Nos vemos na UCH — lhe deu o computador e saiu enquanto marcava em seu celular o número do CAD.

Sam respirou fundo. Não pensava aceitar ordens de Nick, sabendo o que tinha que fazer. Sabia como voltar ao passado. Ou, melhor dizendo, conhecia alguém que podia levá-la... se conseguia persuadi-lo que a ajudasse.

Era um canalha e tinha ainda menos coração que seu chefe, mas ela sabia muito bem como convencê-lo.

Já tinha reservado seu voo a Glasgow usando um nome falso. E sabia que Ian Maclean estava instalado em sua bela casa no lago Awe.

 

Tabby se deixou cair na cama. Ainda se sentia atordoada por aquela onda de ódio e fúria. Tinha sido ainda mais intensa que a que sentiu no museu, ou no colégio. Mas, sobretudo, estava aturdida porque sabia que havia tornado a aparecer à janela do tempo... e que acabava de presenciar sua própria morte.

Morreria em An Tùir-Tara.

Kristin disse que estaria ali. Mas isso já sabia, não? A sensação de ter vivido aquele instante era muito intensa. Em alguma curva de sua mente, no fundo de sua alma, sabia desde o começo que aquelas emoções eram dela.

Mas deu por certo que era a mulher malvada a que morria, não ela.

        Macleod se sentou a seu lado e tomou sua mão. Tinha uma expressão dura e seus olhos ardiam.

—Pensa muito! Imaginou isso! Não viu sua morte.

Tabby sentia palpitar as têmporas. Tinha vontade de vomitar.

—Não tem importância — mentiu, tremendo. —Para isso faltam duzentos e cinquenta anos.

—Não pode morrer no incêndio! — estalou ele. —É ela quem morre!

Tabby o olhou fixamente.

—Está seguro de que era Criosaidh? Estava imprecisa...

        —Era Criosaidh — a interrompeu ele.

Tabby olhou suas mãos unidas. Ele pareceu dar-se conta que estava lhe apertando a mão e a soltou, levantando-se. Começou a passear de um lado a outro como um tigre enjaulado, cheio de ira contida. Tabby lamentou não poder ler seu pensamento.

Talvez fosse melhor não pensar em sua morte. Faltava muito tempo. E, de todos os modos, se era seu Destino, não podia mudar.

Mas as viagens no tempo abriam um número infinito de possibilidades. Não queria pensar nisso, mas o fazia. Podia ver-se transportada ao incêndio de An Tùir-Tara a qualquer momento. Podia morrer ali no dia seguinte ou no outro, ou no outro.

Olhou a Macleod. Ele a necessitava. Não podia morrer até que o ajudasse a desprender-se de seu passado, até que fizesse seus votos e se convertesse no homem que podia chegar a ser.

—Agora pensa em mim? — parecia incrédulo.

Tabby assentiu, mas nesse instante voltou a ter aquela horrível visão. Jamais esqueceria que viu a si mesma envolta em chamas. Fechou seus pensamentos, disse a se mesma que não vomitaria. Podia enfrentar aquilo. Era uma Rose! E, se tinha sorte, Macleod teria razão: tudo aquilo seria produto de sua imaginação.

Mas tinha cheirado a fumaça e escutado seus próprios gritos.

Macleod se voltou para olhá-la com o rosto crispado pelo medo e a repulsão.

“Importa-se comigo”, pensou ela. Levantou-se, muito tensa para sentir alegria.

—Macleod, vamos nos concentrar no que sabemos. Essa mulher é o mal que procedia de An Tùir-Tara e nos seguiu aqui de Nova Iorque. Até agora, atacou-me duas vezes. Como pode ser Criosaidh? Vive e está em Melvaig.

Macleod disse lentamente:

—Criosaidh está viva, sim, e se encontra em Melvaig, Tabitha. Acredito que, se seu fantasma veio até aqui do século XVI, pode ser muito perigoso para ela.

Tabby tentou não pensar que Criosaidh estava viva, ao sul dali, e que seu futuro espírito voltou no tempo para persegui-los. O pingente que Macleod trouxe do século XXI se converteu em pó ao entrar em contato consigo mesmo no século XIII. O que ocorreria se aquele espectro se encontrasse consigo mesmo antes de sua morte?

A tensão de Tabby aumentou.

—No Livro, há um preceito que todas as Rose aprendem desde crianças. Está em gaélico, mas traduzido diz: “Procura nas areias do tempo e encontrará nelas a luz da eternidade”.

—Isso pode significar algo.

—É uma passagem longa e complicada, difícil de entender, mas minha avó dizia que significa que todos os instantes do tempo acontecem continuamente. Que são eternos. Até que minha amiga Allie voltou no tempo, não o entendia de todo, mas agora sim o entendo. Ou isso acredito. O tempo é um contínuo — disse lentamente. —Todos os momentos existem, para todo mundo, em cada ponto possível do tempo, como uma regra esquiva. Desliza-se no tempo e ali estamos: em Melvaig, na Torre Ardente, em 1550. Desliza-se para trás, e estamos aqui. Desliza-se adiante... e estamos mortos. Volta para trás... e não nascemos.

Ele a olhava com intensidade.

—Mas isso só é para quem pode saltar. Se pode saltar, pode se encontrar com qualquer um em qualquer época.

—Pergunto-me se esse espírito tem permissão de voltar atrás — disse Tabby, pensativa.

—Satã tem que estar muito satisfeito — deu de ombros e Tabby pensou que o mal desejava o caos e a anarquia. O mal não seguia normas.

—Disse-me que aos Mestres é proibido saltar no tempo e encontrar-se com seu próprio eu. Acredito que nós dois intuímos a que se deve essa norma.

Ele a olhou de frente, com as mãos apoiadas nnos quadris, lendo seu pensamento.

—Não.

—Ainda não acabei que conceber meu plano — exclamou Tabby. —Mas possivelmente possamos atrair ao fantasma a Melvaig para que entre em contato com Criosaidh.

—Utilizando a você como isca? Nunca!

Tabby ficou olhando-o. Se fosse a Melvaig com intenção aparente de fazer as pazes com Criosaidh, talvez o fantasma a seguisse até ali.

—Não perdemos nada por tentá-lo.

Ele parecia aborrecido.

—Te matará no ato. Não haverá conversa. Morrerá pelas mãos dessa bruxa!

—Porque deseja vingar a seu marido e a seu filho?

O semblante de Macleod se endureceu.

—Agora me culpa? Talvez tenha razão. Talvez minha guerra tenha desencadeado tudo isto.

Tabby se aproximou dele. Tocou seu rosto.

—Não te culpo. Jamais o culparia. E fazer recriminações nestes momentos é absurdo.

Ele respirou fundo. Tabby compreendeu que ele se culpava.

—Não é sua culpa. Mas talvez seja uma boa ideia libertar Coinneach. E devolvê-lo a Melvaig seria a desculpa perfeita para ir lá.

—Não vai servir de isca.

Tabby se sentiu aliviada, em certo modo, porque não era tão valente.

—E Coinneach? Mantê-lo prisioneiro não pode ser de ajuda.

O rosto de Macleod se endureceu.

—Criosaidh sentirá que venceu, se lhe devolvermos o menino. Verá como um sinal de debilidade. E seguirá tentando vingar-se de mim.

Certamente tinha razão, pensou Tabby. Mas de repente se sentiu perto daquele moço de quatorze anos.

—Deixá-lo em liberdade não pode nos fazer nenhum dano. Talvez a apazigue, embora só seja momentaneamente.

A tensão de Macleod pareceu aumentar.

—Pensarei.

Tabby piscou, surpresa.

—Talvez também apazigue o fantasma — sussurrou, assombrada porque Macleod estivesse disposto a entrar em razão, ao final das contas.

Ele respondeu com aspereza:

—Tem que ser ela a morrer nesse incêndio, Tabitha. Será ali quando se converter em fantasma. Você não morrerá em An Tùir-Tara. Ela morrerá.

Estava preocupado e não se incomodava em dissimulá-lo.

—Está vinculada com esse incêndio, é o único que sabemos. Se o fogo foi resultado de uma luta de bruxas, talvez fôssemos Kristin e eu — Tabby não acreditava. —Pode ser que ela morra depois — o qual significava que ela morreria primeiro. Macleod deixou escapar um som áspero. Tabby tentou aparentar naturalidade. —Pode ser que me odeie tanto que seu fantasma retome nossa guerra onde a deixamos — era uma ideia desanimadora.

Ele a olhou. Tabby sentiu que sua mente se acelerava.

—Odeio não poder ler seu pensamento! —exclamou.

—Isto tem que acabar já. Vou a Melvaig.

Ela conteve a respiração.

—Para matá-la?

Macleod sorriu com frieza.

—Merece há muito tempo.

—Tem poder suficiente? — a preocupação de Tabby se descontrolou. —E o que vai conseguir com isso? Que seu fantasma nasça no século XIII, em vez de em An Tùir-Tara? —era consciente que causaria a morte de Criosaidh: trocaria um acontecimento histórico futuro, se morria nesse momento. Não estaria em An Tùir-Tara em 1550. —Não é boa ideia. Não podemos alterar a história e sabe.

Ele ficou pensativo.

—Macleod... até que ponto é poderosa?

—Não sei.

Não era essa a resposta que queria Tabby.

—Se você for, vou contigo! E se fracassar? E se não pude destruí-la? —Tabby achava provável.

—Preciso poder para saltar — disse ele suavemente, mais para si mesmo que para ela.

        Tabby compreendeu a que se referia.

        —Para que? Para saltar a Melvaig e ir atrás dela? E se isso não funciona, para ir a An Tùir-Tara e me proteger? Para se assegurar de que morra, de uma forma ou outra?

—Malditos sejam os deuses — resmungou ele com olhar ardente.

—Isso não vai servir de nada! E trocar o futuro é tão má ideia como trocar a história.

—Não permitirei que morra! Conseguirei poder, embora tenha que suplicar por ele ou roubá-lo.

Os deuses já estavam zangados com Macleod. Ficariam furiosos se fosse a Melvaig e interferisse em sua obra... ou se ia a 1550 e intervinha no que aconteceu em An Tùir-Tara.

—Está proibido mudar o Destino!

—Crê que me importa? — rugiu ele.

—Se estou destinada a morrer ali, é irremediável, Macleod.

—Não deixarei que morra. Nem agora, nem em An Tùir-Tara — afirmou ele. —E se os deuses não gostam, ao diabo com eles!

 

Macleod estava em baixo, no salão, bebendo vinho enquanto refletia. Tabby confiava que não estivesse tentando chegar a um trato com os deuses para conseguir o poder de saltar no tempo.

Ela tampouco podia dormir. Acabavam de fazer amor outra vez, freneticamente, como se esgotasse seu tempo. Jazia na cama, olhando o teto escuro. Ia ter que reconhecer. Estava assustada.

Temia morrer naquele incêndio e temia também por Macleod.

Era muito fácil preocupar-se com ele. Era tão temerário, tão arrogante... Tão desafiante! Queria mudar o Destino e ela devia impedi-lo. Não conseguia imaginar o que ocorreria se ousasse matar Criosaidh, fosse em Melvaig ou em An Tùir-Tara.

Sombras inofensivas deslizavam pelo teto. Lá fora uivavam os lobos e a lua cheia brilhava no alto do céu. Tabby dava voltas na cama, inquieta. Tinha a impressão que se encontrava em um apuro no qual não havia saída. Mas Macleod parecia disposto a ouvir a razão. Estava considerando a possibilidade de libertar Coinneach para aliviar tensões. Talvez ela pudesse convencê-lo para tentar atrair o fantasma a Melvaig. O único problema era que aquele plano lhe dava muito medo. Mas a ideia de Macleod de ir em busca de Criosaidh era ainda pior.

As portinhas arranharam a parede. Tabby ficou tensa, mas não era Criosaidh, era o vento. Ambos os planos valeriam a pena se conseguiam vencer ao fantasma. Embora destruir ao fantasma da bruxa não trocaria necessariamente o que aconteceu em An Tùir-Tara. Caso se livravssem daquele espectro, ganharia algum tempo... possivelmente. O plano de Macleod de matar Criosaidh e impedir que estivesse em An Tùir-Tara podia salvar sua vida, se ela era a bruxa que Tabby teria que enfrentar ali. E Tabby estava segura que era, embora desejasse duvidá-lo.

Fechou os olhos e sentiu o calor das lágrimas. Era consciente que queria passar mais tempo com Macleod. Desejar dois séculos e meio era absurdo, não acreditava que pudesse viver tanto, mas ansiava ter tempo para chegar a conhecê-lo, para falar com ele e fazer todas as coisas insignificantes, como patinar sobre gelo, lanchar no campo ou comer pizza enquanto viam um filme de John Wayne.

Sentia vontade de chorar. Macleod não ia patinar no Rockefeller Plaza, mas possivelmente gostasse dos filmes do John Wayne, e adoraria as pizzas. Seu lugar, entretanto, era em Blayde, e o dela não. Seu coração pulsava estrondosamente, como se tentasse ser ouvido.

—Agora não — murmurou.

Estavam metidos em uma boa confusão... ou ela estava, e algumas coisas estavam claras. Livrar-se daquele fantasma era uma ideia maravilhosa e deixar em liberdade Coinneach tampouco era má. Entretanto, tinha que impedir que Macleod fosse a Melvaig ou a An Tùir-Tara. Impedir que interferisse na história era sua prioridade absoluta. Embora significasse que ela morreria.

“Não pode ser logo”, pensou, desesperada. De apenas pensá-lo, sentia-se egoísta. Mas estava pensando em Macleod. Tinha tantas coisas que fazer... Ele a necessitava tanto...

O Destino podia ser muito cruel, e constantemente ocorriam coisas más a pessoas que não as mereciam.

A porta do aposento se abriu de repente.

Tabby se levantou bruscamente ao sentir que o mal e o ódio alagavam o quarto.

Criosaidh voltou.

Enquanto tomava consciência que o fantasma da bruxa estava ali, o mal se fechou sobre ela como areias movediças. Tabby se levantou lentamente, alheia a tudo, exceto a sua adversária. Até que ponto era poderoso aquele fantasma? Sua maldade enchia o quarto.

Tabby sentiu que deslizava em um mar de calma. Concentrada como jamais esteve, disse:

—Se mostre, Criosaidh.

Nada aconteceu. Tabby sentiu crescer o ódio.

Fechou os olhos quando várias portinhas começaram a golpear contra a parede e fez uma feitiço para deixar descoberto o espírito. A raiva e o ódio do fantasma se intensificaram. Quando abriu os olhos, o espectro de uma mulher morena e exuberante tremia no quarto, tão transparente que Tabby via através dela. Então, a mulher sorriu.

Tabby se tencionou contra a parede, preparada para um ataque espantoso. Começou a fazer um feitiço para proteger-se. Mas Criosaidh se desvaneceu.

Rígida pela tensão, Tabby olhou a seu redor; as portinhas se abriram de repente e uma violenta rajada de ar gelado entrou no aposento.

Era tão forte que Tabby saiu voando ao outro extremo do quarto e se chocou com a parede. Gritou ao estatelar-se contra a pedra e, depois, aquela onda de energia se dissipou.

Tabby se levantou lentamente, com os olhos muito abertos e os pelos do corpo arrepiado. Embora o quarto estivesse absolutamente calmo, sentia o espírito do mal e o ódio a seu redor. Criosaidh continuava presente, embora não a visse.

—Mal, parte. Sai daqui, mal. Que meu poder branco te afugente — murmurou Tabby.

A energia retornou com força fulgurante, esmagando Tabby contra a parede. Ela gemeu, mas se concentrou no feitiço. A força seguiu atacando-a como um louco armado com um pau.

—Mal, parte. Vá embora, mal. Que meu poder branco te afugente — mas inclusive enquanto cantava compreendeu que o fantasma de Criosaidh não era inofensivo, ao final das contas.

A energia pareceu mudar.

Tabby caiu ao chão.

—Parte, mal. Vai embora daqui — soluçou.

E de repente Criosaidh ganhou forma de novo e apareceu em meio do quarto, furiosa. Olharam-se uma à outra.

—Parte, mal! Sai daqui! — gritou Tabby.

O fantasma desvaneceu e um vendaval entrou no quarto, batendo os portinhas das janelas e chocando o leito contra a parede. Tabby se preparou para resistir, mas saiu voando para trás e a energia de Criosaidh a chocou brutalmente contra a parede.

Nesse momento pensou em Macleod e compreendeu que, se ele não a salvasse, morreria nesse momento.

 

Não permitiria que Tabitha morresse no incêndio de An Tùir-Tara. Faria o que tivesse que fazer para mudar sua morte. E que os deuses fossem ao diabo, porque a certeza que Tabitha morreria queimada resultava tão familiar como se soubesse desde o começo que esse era seu destino. Se Kristin disse a verdade, ambos estariam ali.

Ele não podia deixar.

Era uma ideia desalentadora.

Começava a amá-la?

Debilitava-o aquilo?

Estava pesando a possibilidade de libertar a seu prisioneiro, mas isso não significava que fosse esquecer da sua vingança. Tabitha podia ter razão: possivelmente Criosaidh se apaziguasse momentaneamente. Ele poderia protegê-la e, ao mesmo tempo, cumprir seu dever para com os mortos. Coinneach viveria algum tempo mais, mas não muito. E devolver ao prisioneiro lhe dava a desculpa perfeita para entrar em Melvaig... e poder assassinar Criosaidh e pôr fim aquilo de uma vez por todas.

Onde estava Ruari? Não o ouviu? Precisava poder para saltar a An Tùir-Tara, no caso de ser incapaz de destruir Criosaidh agora.

Macleod suspirou. Doía-lhe a cabeça... e o coração. Faltava dois séculos e meio para o incêndio de An Tùir-Tara. Mas o fantasma daquele deamhan estava ali, no presente, com eles. Não devia ficar muito tempo abaixo. O fantasma de Criosaidh tinha quebrado o feitiço protetor de Tabitha, embora não tivesse tentado usar de sua magia negra. Horrorizava-o pensar que o feitiço falhou. Tinha o instinto de um caçador, mas agora quase se sentia caçado.

Ouviu um soluço atrás dele... ou isso acreditou. Virou-se.

Um moço magro de quatorze anos o olhava de frente. Estava em pé junto à chaminé e chorava de raiva e desespero. Queria saber por quê. Por quê?

Macleod não podia respirar. Não podia afastar o olhar. Mal podia acreditar que o moço deixasse sentir sua presença em um momento tão perigoso. Queria que aquele maldito menino partisse.

Saltava à vista que estava aterrorizado, mas não pelo mal, nem por seus inimigos. O que temia era estar sozinho.

Macleod tinha esquecido aquilo.

O menino caiu de joelhos, soluçando. Misturado com o medo havia raiva. Aquele moço estava furioso com o mundo, mas em lugar de montar em cólera, chorava. Quando por fim parasse de chorar, teria que sepultar sua dor no mar, junto a seus seres queridos, para poder converter-se em um homem e cumprir seu dever: uma vida consagrada à vingança.

Também esqueceu isso.

O menino o olhou com desconcerto. Por quê?

Por quê? Todo homem tinha um dever a cumprir, umas cargas, umas responsabilidades. Macleod se aproximou do menino com intenção de matá-lo com suas próprias mãos, porque não queria recordar nada daquilo. Mas o menino desapareceu, assim Macleod agarrou uma cadeira e a jogou contra a parede com todas suas forças. Golpeou a pedra por cima da lareira e a quebrou em mil pedaços.

Aquele menino parecia patético. Macleod lhe tinha lástima. Odiava-o. Como se atrevia a questionar sua vida, uma vida consagrada a vingar a sua família!

Então ouviu Tabitha chamando-o.

Muito tarde, sentiu o mal e sua dor.

 

—Está bem? — perguntou Nick.

Não se incomodou em baixar a voz, pois estavam em meio de um denso bosque, completamente sozinhos. Olhou para cima para situar o sol. Embora visse fragmentos de céu azul, deu-se por vencido e procurou em seu bolso seu GPS, um aparelho do tamanho da palma de sua mão que lhe diria imediatamente onde se encontravam... mas não se chegaram ao ano correto.

Jan também estava vestida com roupa de camuflagem e carregava uma mochila com seu equipamento. Levantou-se e sacudiu a poeira e as agulhas de pinheiro das coxas e do traseiro. Resistiu a ir com ele até o último momento, argumentando que era necessária na UCH para vigiar o forte.

—Estou bem — disse sem rancor. —Onde estamos?

Nick sorriu. O melhor de Jan, além de que ele a considerava como da família, era que, quando precisava, comportava-se com todo profissionalismo. Olhou a tela do dispositivo eletrônico. Seu sorriso se desvaneceu.

—Foda. Estamos ao norte do lago Gairloch.

Jan nem sequer pestanejou.

—Já sabe quão difícil é aterrissar no lugar exato. A que distância estamos de Blayde?

Ele tocou a tela e apareceu uma estimativa.

—A uns trinta quilômetros. E há alguns atoleiros de bom tamanho até chegar ali. Não sei você, mas eu não trago uma lancha inflável na mochila.

Jan cruzou os braços, visivelmente zangada.

—Agora que penso, tendo em conta a alta porcentagem de água que há nas Terras Altas, por que não trouxemos uma?

—A última vez tomei um voo da Scottish Air e aterrissei onde deveria — Nick tocou a tela. —Estamos muito perto de Melvaig.

—Tabby está em Blayde. Ou é o mais provável. Aposto qualquer que Kristin está onde estiver Tabby Rose.

—O que faria eu sem você? — Nick sorriu. Gostava de voltar no tempo, sobretudo à Escócia medieval, embora aquele fosse só sua terceira viagem ao passado. O ar era tão revitalizante... E adorava não poder predizer o que iriam encontrar. Agora teriam que roubar um barco em Melvaig.

Jan disse:

—Deve-me contar dessas visões do passado.

Ele deu de ombros, como se não lhe importasse, apesar de seu estômago ter encolhido. Foram quatro, e eram cada vez mais intensas.

—Necessita uma avaliação psicológica. Não deveria estar aqui, maldição — disse Jan com um brilho em seus belos olhos verdes.

Estavam discutindo sobre a missão quando lhe escapou aquela informação. Ela continuava dizendo que levasse Sam, ou MacGregor e aquele novo agente russo. Tinha aquele olhar raivoso que parecia afirmar que não pensava voltar a retroceder no tempo por ninguém, nem sequer por ele. Foi então quando lhe disse que estava tendo visões do passado.

Esteve a ponto de matá-lo uma vez.

Mas tinham matado a outro agente.

Não podia fazer aquilo só e não poderia dizer a ninguém. Voltariam a mandá-lo ao psiquiatra. E tinha que dirigir a UCH.

—Ninguém pôde determinar quanto tempo leva um salto no tempo. Que saibamos, pode levar anos.

—Não deveria estar nesta missão! Não pode se permitir ter uma visão em meio de um combate mano a mano com um demônio medieval de dois metros de altura. Os dois sabemos que fica paralisado quando tem uma visão.

—Para isso está aqui, querida — ele voltou a olhar seu GPS. —Sei que cuidará de seu chefe.

—Não se atreva a me chamar “querida”. Não suporto tudo isto.

Nick começou a preocupar-se. A tela estava cheia de interferências. Que demônios...? Levantou a vista.

—Passou por um inferno, Jan, mas o conseguiu, e essa última viagem foi há muito tempo. É hora de virar a página — olhou a tela. —Merda. Olhe isto.

Jan se situou atrás dele e aumentou os olhos.

—Eu diria que há uma fonte de energia perto.

Nick guardou o GPS imprestável no bolso de seu colete.

        —Sim, mas é amiga ou inimiga? olhou para cima. Não havia modo de saber onde estava o sol. Sabia que deviam seguir pelo limite do bosque, para Melvaig e Blayde, que ficava mais ao norte, mas sem o GLD nem pontos de referência naturais, certamente se perderiam.

Jan assinalou o alto pinheiro que havia atrás dele. Nick entendeu. Decidiram-se por uma massa escura que havia ao longe e puseram-se a andar em silêncio ladeira abaixo, usando ambos os pontos de referência para manter-se em linha reta. De repente, as sombras cobriram o bosque. O céu se cobriu de nuvens e aquela massa escura desapareceu de sua vista.

Nick verificou de novo o GPS. Nada.

—Vamos nos perder — disse Jan.

—Não, se eu puder evitar — respondeu Nick com determinação.

Seguiram caminhando em silêncio pela ladeira, afastando ramos no seu caminho. Por cima deles ululou um mocho. Cantavam os pássaros. Fazia um dia muito agradável, se não fosse por não estarem sozinhos. Nick olhava seu GPS a cada poucos minutos, mas seguia havendo interferências. Havia uma fonte de energia muito perto... e tinha muito poder. Mas Nick não percebia maldade. Nem tampouco Jan. Do contrário, o haveria dito.

Quando voltou a olhar a tela, viu nela uma confusão de atividade elétrica.

—Temos companhia — disse no instante em que se ouvia um trovão. Mas não procedia do céu, mas sim do alto do penhasco, detrás deles. A terra se moveu sob seus pés.

Havia poder a cântaros, mas era do bem.

Jan, que raramente se assustava, tocou-lhe o braço, cheia de curiosidade. Voltaram-se para a ladeira que se erguia sobre eles. Nick também sentia curiosidade. O bosque se escureceu e parecia imóvel, em silêncio. A brancura da tela do GPS seguia dançando freneticamente.

As árvores se agitaram e alguns ramos se partiram. Nick viu que uma figura a cavalo saía de entre as sombras e seus olhos se aumentaram.

Era uma mulher montada sobre um corcel branco. O cabelo loiro avermelhado lhe caía pelas costas; tinha braços musculosos e segurava na mão uma enorme espada. Nick jogou uma olhada a seu rosto e seu coração deu um tombo. Era assombrosamente bela. Olhou rapidamente suas coxas musculosas e nuas, sem poder evitar. Estava vestida como os homens das Terras Altas, o que significava que mostrava grande parte de suas pernas, e eram umas pernas magníficas.

—Reaga — sussurrou Jan.

Nick tentou repor-se da impressão. Aquela mulher era uma guerreira e tinha poder... um montão de poder. Deteve o cavalo a uns metros deles, sem sorrir. Nick viu que tinha os olhos verdes e que não pestanejava. Sua atitude não podia considerar-se amistosa. De fato, era fria e desconfiada.

Ele sorriu para desarmá-la e disse em gaélico:

—Perdemo-nos. Pode nos ajudar? — ela sabia que também tinham poderes, assim não tinha sentido afirmar o óbvio: que pertenciam todos ao mesmo grupo.

Não lhe devolveu o sorriso.

—Sim. Querem ir a Blayde — respondeu energicamente em gaélico. Seu cavalo se moveu, inquieto, mas ela não pareceu se importar.

—Sim, assim é — Nick começava a ficar um pouco nervoso. Aquela mulher o turvava intensamente, mas parecia tão fria quanto o gelo. E ele estava acostumado a que as mulheres ficassem pasmadas ao vê-lo. Tentou introduzir-se em sua mente e ficou perplexo ao ver que não podia. Voltou a olhá-la.

Sustentou-lhe o olhar, e a Nick pareceu que esboçava um sorriso triunfal.

Assim, pensava impedir de acessar seus pensamentos. Ele poderia fazer o mesmo. A imaginou nua naquele corcel, adorou aquela imagem e depois bloqueou seus pensamentos.

Teria jurado que ela ruborizava ligeiramente, mas era difícil sabê-lo, porque seus olhos se tornaram de gelo.

—Vão para o leste, estrangeiro. Têm que se dirigir para o norte. Há um caminho que os levará a Melvaig e logo ao Blayde — seu poder pareceu inchar — a bruxa está em Melvaig — acrescentou.

Uma nova excitação começou a apoderar-se de Nick.

—A bruxa de minha época? Kristin Lafarge?

Lançou-lhe um olhar de puro desdém.

—Não conheço seu nome. E não me interessa seu tempo futuro. É perversa... e uma grande maldade a acompanha.

—Necessito um guia. Estou seguro de que posso te oferecer algo em troca — não queria pensar na cama, mas não pôde evitá-lo.

Jan lhe cravou o cotovelo nas costelas.

—Corta o lixo — resmungou.

—Não tem nada que oferecer, estrangeiro — esticou as rédeas e ruborizou. —Domnhal!

Um highlander enorme e de aspecto ameaçador saiu a cavalo do bosque.

Ela sorriu por fim, friamente.

—Domnhal os levará até Melvaig para que derrotem a bruxa e possam voltar para seu tempo. Os estrangeiros não são bem-vindos aqui.

Sustentaram-se o olhar. Nick sorriu lentamente. Não devolveu o sorriso. Ele recordou que não devia zangá-la, ia ajudá-los.

—A agradeço — disse por fim com suavidade. —Mas tem que saber que seria bem recebida em meu tempo.

Embora seus olhos fossem de gelo, sua tez pareceu colorir-se. Nick, entretanto, não estava tendo unicamente pensamentos obscenos. Queria saber quem era aquela mulher e do que era capaz, e que papel desempenhava naquela guerra... e se estava ligada de algum modo aos Mestres. Ela, entretanto, virou seus arreios e entrou a galope no bosque antes que Nick pudesse tentar conversar. Voltaram a ouvir trovões quando se reuniu com seu exército.

Nick ficou pensativo. Aquela mulher era uma guerreira e parecia não temer nada, mas deu a estranha impressão que talvez tivesse medo dele.

—Pode-se saber o que há com você? — perguntou Jan. —Tem que flertar com tudo o que usa saias?

—Aquilo não era uma saia — respondeu ele refletivamente. Seu sangue seguia palpitando. —Tem muito poder. Pergunto-me do que será capaz exatamente. É uma das nossas. Mas deveria animar-se um pouco — não pôde evitar pensar de novo em uma cama.

—E para isso bastariam um par de horas em sua cama?

Ele teve que sorrir.

—Provavelmente — olhou a Domnhal. —Quem era?

—A senhora de An Roinn-Mor… uma filha dos deuses.

 

Macleod chegou à soleira do aposento. Horrorizado, viu Tabitha colada à parede.

Uma imensa força demoníaca a mantinha ali aprisionada. Seus pés nem sequer tocavam o chão. Aquela força deixou o aposento de pernas para o ar. As portinhas das janelas estavam arrancadas e despedaçadas; o baú, a mesa e as cadeiras estavam também quebradas e seus fragmentos incrustados nas paredes. Até sua cama estava derrubada e quebrada, colada a uma parede. E Tabitha agonizava.

Macleod compreendeu imediatamente que era como se uma terrível garra a mantesse presa. Tinha o rosto mortalmente branco e crispado e os olhos arregalados, e a força que a segurava contra a parede fazia que a roupa lhe colasse à pele. Sua dor golpeou Macleod, atravessando-o.

Rugiu, furioso, e tentou enfrentar à energia de Criosaidh, mas esta era tão forte que formava um muro invisível e não pôde entrar no quarto.

Os olhos aterrorizados de Tabitha o olharam. “Amo você”.

Macleod teve a sensação de já ter vivido aquela cena: tinha ouvido antes aquelas palavras, as últimas que pronunciaria antes de morrer.

—Não! — bramou, lançando uma descarga de poder para o interior do quarto. As paredes tremeram, mas o ciclone se intensificou e Tabitha gritou de dor.

Seu poder não podia fazer nada. Macleod empurrou o muro de vento, decidido a entrar. Tabitha seguia gritando enquanto ele lutava para entrar no aposento. Conseguiu de algum modo cruzar a soleira com tremendo esforço, enquanto suas lágrimas começavam a cair. Grunhiu, negando-se a dar-se por vencido, e abriu caminho através da força demoníaca. Os gritos de Tabitha cessaram de repente.

Macleod não se atreveu a olhá-la. Seguiu opondo-se ao poder de Criosaidh, passo a passo, penosamente. E de repente as portinhas que se incrustaram no teto começaram a cair a seu redor, despedaçadas. A cama caiu da parede ao solo. O vento se dissipou. Criosaidh se foi.

Macleod levantou o olhar enquanto Tabitha deslizava até o chão com os olhos fechados, inerte como um cadáver.

Correu para ela e se ajoelhou, aterrorizado.

—Tabitha!

Estava tão machucada, ferida gravemente, com o pescoço torcido em um ângulo tão estranho, que temeu tocá-la e tomá-la em seus braços. Sua magia e seu poder, sua vida, pareciam de repente frágeis e débeis. Macleod estendeu lentamente a mão para tomar seu pulso.

Ela jazia imóvel, como morta.

—Não vai morrer — disse ele com ferocidade. —Não o permitirei!

Parecia-lhe que suas pestanas se moviam.

Tentou manter a calma para lhe encontrar o pulso. E então, por fim, sentiu o leve batimento de seu coração e viu que, sob os seios, onde o vestido de veludo se colava a seu torso, tinha as costelas quebradas.

—Tabitha... — nunca teve tanto medo, até que ponto estava ferida gravemente? Estava muito pálida, e a pele em torno de seus olhos começava a ficar negra e azulada. Não podia morrer. —MacNeil pode te curar. Necessito MacNeil — estava frenético, atreveu-se a segurar sua mão. —MacNeil! rugiu.

Ela deixou escapar um gemido.

Macleod se sobressaltou.

—Ficará bem, Tabitha. MacNeil virá te curar e eu matarei Criosaidh.

Ela seguia inerte, tão bela e frágil, enquanto seu poder ia se apagando.

        —Luta por viver — lhe suplicou ele. Levantou a cabeça. —MacNeil!

E então, de repente, notou que ela apertava fracamente sua mão e sentiu as brutais onda de sua dor. Começava a voltar a si. MacNeil devia estar em Iona. Macleod precisava poder para saltar até ele porque não poderia ficar ali e vê-la morrer. Ignorava se MacNeil o tinha ouvido. Passou-lhe pela cabeça que MacNeil viajava frequentemente e que talvez estivesse no passado ou no futuro. Macleod não sabia se estava sequer naquele tempo, se poderia ouvi-lo e ajudá-lo. Mas MacNeil era o único Curador que conhecia.

Recordou então algo que Tabitha havia dito. Sua melhor amiga era Curadora, e estava no castelo de Carrick, com Ruari... mas no século XV.