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VOLTAREMOS A ENCONTRAR-NOS / Mary Higgins Clark
VOLTAREMOS A ENCONTRAR-NOS / Mary Higgins Clark

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

VOLTAREMOS A ENCONTRAR-NOS

 

O Estado do Connecticut provará que Molly Carpenter Lasch, com a intenção de provocar a morte do marido, o Dr. Gary Lasch, lhe causou, de facto, a morte; que quando ele estava sentado à sua secretária, de costas para ela, ela esmagou-lhe o crânio com uma pesada escultura de bronze; que o deixou depois a sangrar até à morte enquanto subia para o quarto e ia dormir...

 

Os jornalistas, sentados atrás da arguida, escrevinhavam furiosamente, esboçando os artigos que teriam de terminar em apenas duas horas, se queriam ir a tempo da próxima edição. Acolunista veterana da Women’s News Weekly começou a escrever na sua habitual prosa exuberante: ”O julgamento de Molly Carpenter Lasch, acusada do homicídio do marido, Gary, começou esta manhã na aveludada dignidade da sala de audiências da histórica Stamford, Connecticut.”

 

O julgamento contava com a cobertura de jornalistas de todo o país. O repórter do New York Post registava rapidamente uma descrição da aparência de Molly, referindo em particular como ela se tinha vestido para o primeiro dia de julgamento. ”Que brasa!”, pensou. ”Uma mistura espantosa de superioridade e beleza.” Não era uma combinação que ele visse muitas vezes especialmente na mesa da defesa. Reparou na forma como ela se sentava, alta, quase aristocrática. Sem dúvida, alguns diriam ”desafiadora”. Sabia que ela tinha vinte e seis anos. Podia ver como era elegante. Tinha um pescoço alto e cabelos louro-escuros. Esticou o pescoço até ver que ela continuava a usar aliança. Anotou esse pormenor.

 

Enquanto ele observava, Molly Lasch voltou-se e olhou em volta da sala de audiências como se estivesse à procura de rostos conhecidos. Os olhos de ambos encontraram-se por momentos e ele reparou que os dela eram azuis; e as pestanas compridas e escuras.

 

O repórter do Observer estava a escrever as suas impressões da arguida e a relatar a evolução do julgamento. Como o seu jornal era semanal, tinha mais tempo para compor o artigo. ”Molly Carpenter

 


Lasch estaria mais à vontade num clube de campo do que numa sala de audiências”, escreveu. Olhou de relance para a coxia, para a família de Gary Lasch.

 

A sogra de Molly, a viúva do lendário Dr. Jonathan Lasch, estava sentada com a irmã e o irmão. Uma mulher magra, por volta dos sessenta anos, exibia uma expressão gelada e implacável. ”Claramente, se lhe dessem hipótese, ela mergulharia de boa vontade a agulha com a dose letal em Molly”, pensou o repórter do Observer.

 

Virou-se e olhou em volta. Os pais de Molly, um bonito casal no final da casa dos cinquenta, pareciam tensos, ansiosos e desolados. Registou essas palavras no seu bloco de apontamentos.

 

Às 10.30, a defesa deu início à sua declaração de abertura.

 

”O delegado do Ministério Público acabou de vos dizer que provará a culpa de Molly Lasch para além da dúvida razoável. Minhas senhoras e meus senhores, eu afirmo-vos que as provas mostrarão que Molly Lasch não é uma assassina. De facto, ela é tão vítima desta terrível tragédia como foi o marido.

 

”Depois de terem ouvido todas as provas deste caso, concluirão que Molly Carpenter Lasch voltou ao princípio da noite de domingo, 8 de Abril último, pouco depois das vinte horas, depois de passar uma semana na sua casa de Cape Cod; que encontrou o marido, Gary, deitado sobre a secretária; que pousou a boca na dele para tentar ressuscitá-lo, ouviu os seus estertores finais e depois, apercebendo-se de que ele estava morto, subiu para o andar de cima e, completamente traumatizada, caiu inconsciente na cama.”

 

Calma e atenta, Molly estava sentada à mesa da defesa. ”São apenas palavras”, pensou, ”não podem magoar-me.” Tinha consciência dos olhos postos nela, curiosos e acusadores. Algumas das pessoas que conhecera melhor e há mais tempo tinham-se aproximado dela no corredor, beijando-lhe a face, apertando-lhe a mão. Jenna Whitehall, a sua melhor amiga desde os tempos do liceu na Academia Cranden, fora uma delas. Agora, Jenna era advogada, especialista em Direito das sociedades. O marido, Cal, era presidente do Conselho de Administração do Hospital Lasch e da Organização de Cuidados de Saúde que Gary fundara com o Dr. Peter Black.

 

”Têm sido ambos maravilhosos”, pensou Molly. Com necessidade de se afastar de tudo, tinha ficado algumas vezes com Jen em Nova Iorque ao longo dos últimos meses, e isso ajudara tremendamente. Jenna e Cal continuavam a viver em Greenwich, mas, durante a semana, Jenna dormia frequentemente num apartamento que possuíam em Manhattan, perto da U. N. Plaza.

 

Molly também tinha visto Peter Black no corredor. O Dr. Peter Black tinha sido sempre muito agradável com ela, mas, tal como a mãe


de Gary, agora ignorava-a. A amizade entre ele e Gary remontava aos dias da Faculdade de Medicina. Molly perguntou a si mesma se Peter poderia ocupar o lugar de Gary como presidente do hospital e da OCS. Pouco depois da morte de Gary, ele tinha sido eleito pelo Conselho de Administração para assumir o cargo de director executivo, com Cal Whitehall como presidente.

 

Ficou sentada, entorpecida, enquanto o julgamento começava. O delegado do Ministério Público começou a chamar testemunhas. À medida que chegavam e partiam, pareciam a Molly ser apenas rostos e vozes confusos. Depois, Edna Barry, a mulher gorducha de sessenta anos que tinha sido sua empregada em part-time, sentou-se no banco das testemunhas.

 

Entrei às oito horas da manhã de segunda-feira, como sempre declarou ela.

 

Segunda-feira, dia 9 de Abril?

- Sim.

 

Há quanto tempo é que trabalhava para Gary e Molly Lasch?

 

Há quatro anos. Mas já trabalhava para a mãe de Molly quando ela era uma menina. Ela foi sempre muito gentil.

 

Molly captou o olhar solidário que a Sr.a Barry lançou na sua direcção. ”Ela não quer magoar-me”, pensou, ”mas vai dizer como me encontrou, e sabe como isso vai soar.”

 

Fiquei surpreendida, porque as luzes estavam acesas no interior da casa estava a dizer a Sr.a Barry. A mala de viagem da Molly estava no átrio, por isso fiquei a saber que ela tinha voltado do Cape.

 

Sr.a Barry, por favor, descreva a planta do rés-do-chão da casa.

 

O átrio é grande... na realidade, é mais uma zona de recepção. Quando davam grandes festas, as bebidas eram servidas ali antes do jantar. A sala de estar fica imediatamente a seguir ao átrio e de frente para a porta da entrada. A sala de jantar situa-se à esquerda, ao fundo de um largo corredor e a seguir a um bar de serviço. Acozinha e a saleta íntima situam-se igualmente nessa área, ao passo que a biblioteca e o escritório do Dr. Lasch ficam na ala à direita da entrada.

 

”Cheguei cedo a casa”, pensou Molly. ”Não havia muito trânsito na 1-95 e cheguei mais cedo do que esperava. Só trazia uma mala. Levei-a para dentro e pousei-a no chão. Depois, tranquei a porta e chamei Gary. Fui directamente para o escritório à procura dele.”

 

Entrei na cozinha disse a Sr.a Barry ao delegado do Ministério Público. Havia copos de vinho e uma travessa com restos de queijo e bolachas de água e sal no aparador.

 

E havia algo de invulgar nisso?

 

Sim. Sempre que tinham visitas, Molly limpava tudo.

 


E o Dr. Lasch? perguntou o delegado do Ministério Público. Edna Barry sorriu indulgentemente.

 

Bem, o senhor sabe como são os homens. Ele não tinha o hábito de arrumar o que desarrumava. Fez uma pausa e franziu o sobrolho. Mas foi então que compreendi que algo estava errado. Pensei que Molly devia ter chegado e ido embora.

 

Por que teria ela feito uma coisa dessas?

 

Molly viu a hesitação no rosto da Sr.a Barry quando a fitou uma vez mais. ”A mãe ficava sempre um pouco aborrecida por a Sr.a Barry me chamar Molly e eu lhe chamar Sr.a Barry. Mas eu não me importava”, pensou ela. ”Ela conhece-me desde que eu era criança.

Molly não estava em casa quando eu fui trabalhar na sexta-feira. Na segunda-feira anterior, enquanto eu lá estava, ela tinha partido para o Cape. Parecia terrivelmente transtornada.

 

Transtornada, como?

 

A pergunta veio rapidamente e de forma abrupta. Molly estava consciente da hostilidade que o delegado do Ministério Público sentia em relação a si, mas, por algum motivo, isso não a preocupou.

 

Ela estava a chorar enquanto fazia a mala e percebi que estava muito zangada. Molly é uma pessoa fácil de levar. É preciso muito para agitá-la. Durante todos os anos que trabalhei lá, nunca a tinha visto tão perturbada. Ela não parava de dizer: ”Como é que ele foi capaz? Como é que foi capaz?” Perguntei-lhe se podia fazer alguma coisa.

 

Que é que ela disse?

 

Disse: ”Pode matar o meu marido.”

 

”Pode matar o meu marido.”

 

Eu sabia que ela não estava a falar a sério. Só pensei que deviam ter tido uma discussão e achei que ela ia para o Cape para acalmar.

 

Ela ia-se embora muitas vezes dessa forma? Fazia as malas e partia?

 

Bem, Molly gosta do Cape; diz que lá consegue aclarar as ideias. Mas aquilo foi diferente... Eu nunca a tinha visto sair assim, tão perturbada. Olhou para Molly e o seu olhar estava cheio de piedade.

 

Muito bem, Sr.a Barry, voltemos àquela segunda-feira de manhã, dia 9 de Abril. Que é que fez depois de constatar o estado em que se encontrava a cozinha?

 

Fui ver se o Dr. Lasch estava no escritório. A porta estava fechada. Bati e ninguém respondeu. Rodei a maçaneta e reparei que estava peganhenta. Depois abri a porta e vi-o. A voz de Edna Barry tremeu. Estava caído sobre a cadeira, junto à secretária. Tinha a cabeça cheia de sangue seco. Havia sangue por cima dele, na cadeira e na carpete. Percebi de imediato que ele estava morto.

 

Ao escutar o testemunho da governanta, Molly voltou a pensar naquela noite de domingo. ”Cheguei a casa, entrei, tranquei a porta da frente e fui para o escritório. Tinha a certeza de que Gary estaria lá. A porta estava fechada. Abri-a... Não me recordo do que aconteceu depois disso.”

 

Que fez então, Sr.a Barry? perguntou o delegado do Ministério Público.

 

Marquei imediatamente o 112. Depois pensei em Molly, que talvez ela estivesse ferida. Subi as escadas a correr para o quarto dela. Quando a vi lá, deitada na cama, pensei que também estava morta.

 

Por que é que pensou uma coisa dessas?

 

Porque ela tinha uma crosta de sangue no rosto. Mas depois ela abriu os olhos, sorriu e disse: ”Olá, Sr.a Barry, acho que dormi de mais.”

 

”Olhei para cima”, pensou Molly, sentada à mesa da defesa, ”e depois percebi que ainda tinha as roupas vestidas. Por instantes, pensei que tinha estado envolvida num acidente. As minhas roupas estavam sujas e tinha as mãos muito peganhentas. Sentia-me tonta e desorientada e pensei que estava num hospital, não no meu quarto. Recordo-me de pensar se o Gary também tinha sido ferido. Depois bateram à porta do rés-do-chão e a Polícia entrou.”

 

À sua volta, as pessoas falavam, mas as vozes das testemunhas começaram de novo a esbater-se. Molly estava vagamente consciente dos dias do julgamento a passarem, de entrar e sair da sala de audiências, de observar as pessoas a sentarem-se e a saírem do banco das testemunhas.

 

Ouviu Cal e Peter Black e depois Jenna a testemunharem. Cal e Peter contaram como, no domingo à tarde, tinham telefonado a Gary, e dito que iam lá a casa, que tinham percebido que se passava algo de errado.

 

Declararam que tinham encontrado Gary terrivelmente perturbado porque Molly tinha descoberto que ele estava a ter um caso amoroso com Annamarie Scalli.

 

Cal disse que Gary lhe tinha contado que Molly estivera na casa de Cape Cod toda a semana e que se recusava a falar quando ele telefonava, que desligava o telefone quando ouvia a sua voz.

 

O delegado do Ministério Público perguntou:

 

Qual foi a vossa reacção quando o Dr. Lasch confessou ter este caso amoroso?

 

Cal disse que tinham ficado profundamente preocupados, tanto pelo casamento dos amigos como pelo potencial prejuízo que um escândalo envolvendo o Dr. Lasch e uma jovem enfermeira representava para o hospital. Gary tinha-lhes garantido que não haveria qualquer escândalo. Annamarie ia sair da cidade. Estava a planear dar o bebé para adopção. O advogado dele tinha negociado um acordo de setenta e cinco mil dólares e uma declaração de confidencialidade que ela já tinha assinado.

 

”Annamarie Scalli”, pensou Molly, ”aquela jovem enfermeira bonita, de cabelos escuros e um aspecto sensual.” Lembrou-se de tê-la conhecido no hospital. Gary estava apaixonado por ela ou seria apenas um caso sem importância que se tinha descontrolado quando Annamarie ficara grávida? Agora nunca saberia. Havia muitas perguntas sem respostas. ”Gary amava-me realmente?”, perguntou a si mesma. ”Ou toda a nossa vida era uma farsa?” Abanou a cabeça. Não. Aqueles pensamentos eram demasiado dolorosos.

 

Em seguida, Jenna sentara-se no banco das testemunhas. ”Sei que lhe custa testemunhar”, pensou Molly. Mas o delegado do Ministério Público tinha-a intimado e ela não tinha tido escolha.

 

Sim declarou Jenna, em voz baixa e hesitante, eu telefonei a Molly, para o Cape, no dia em que Gary morreu. Ela contou-me que o marido tinha estado envolvido com Annamarie e que ela estava grávida. Molly estava totalmente destroçada.

 

Ouviu vagamente o que estavam a dizer. O delegado do Ministério Público a perguntar se Molly estava zangada. Jenna a dizer que a amiga estava magoada. E Jenna a admitir finalmente que Molly estava muito zangada com Gary.

 

Molly, levante-se. O juiz está a sair.

 

Philip Matthews, o seu advogado, estava a segurar-lhe o cotovelo, forçando-a a levantar-se. Manteve a mão por baixo do braço dela, apoiando-a, enquanto saíam da sala de audiências. Lá fora, os clarões dos flashes explodiram-lhe no rosto. Ele fê-la apressar-se pelo meio da multidão, empurrando-a para um carro que os esperava.

 

Encontramo-nos com a sua mãe e o seu pai em casa disse, enquanto o carro se afastava.

 

Os pais tinham vindo da Florida para estar com ela. Queriam que ela se mudasse, que saísse da casa onde Gary tinha morrido, mas ela não podia fazer isso. Tinha sido um presente da avó e ela adorava-a. Por insistência do pai, tinha acedido a, pelo menos, redecorar o escritório. Toda a mobília fora oferecida e o aposento tinha sido remodelado do chão ao tecto. Os pesados painéis de mogno tinham sido arrancados e a colecção de mobília dos primórdios da América e os objectos de arte de que Gary tanto gostava haviam sido retirados. Os quadros, esculturas, tapetes, candeeiros a petróleo e a secretária da Wells Fargo, juntamente com o sofá e as cadeiras de couro, tinham sido substituídos por um sofá de tons claros em chintz, uma cadeira namoradeira a condizer e mesas de carvalho branqueadas. Mesmo assim, a porta do escritório estava sempre fechada.

 

Uma das peças mais valiosas da sua colecção, uma escultura com setenta centímetros de um cavalo e cavaleiro, um bronze Remington original, continuava sob a custódia do gabinete do delegado do Ministério Público. Era o que diziam que ela utilizara para esmagar a nuca de Gary.

 

Às vezes, quando tinha a certeza de que os pais estavam a dormir, Molly descia as escadas em silêncio e parava à porta do escritório, a tentar recordar-se de todos os pormenores do momento em que encontrara Gary.

 

O momento em que encontrara Gary. Por muito que tentasse, quando pensava naquela noite, não havia um único momento em que se lembrasse de falar com ele ou de se aproximar dele quando ele estava sentado à secretária. Não se recordava de ter pegado naquela escultura, de agarrar nas patas dianteiras do cavalo e o brandir com força suficiente para o enterrar no crânio do marido. Mas era o que diziam que ela tinha feito.

 

Em casa, agora, após outro dia no tribunal, percebeu a preocupação crescente nos rostos dos pais e sentiu a protecção redobrada com que a abraçaram. Ficou rígida dentro dos seus braços e depois recuou e olhou-os calmamente.

 

Sim, formavam um bonito casal toda a gente dizia isso. Molly sabia que se parecia com Ann, a mãe. Walter Carpenter, o pai, era muito mais alto do que elas. Agora, os seus cabelos estavam prateados. Antigamente era louro. Dizia que era a sua costela de viquingue. A avó dele era dinamarquesa.

 

Tenho a certeza de que todos gostaríamos de uma bebida disse o pai, enquanto se dirigia para o bar.

 

Molly e a mãe optaram por um copo de vinho, Philip pediu um martini. O pai de Molly entregou-lhe a bebida e perguntou:

 

Philip, até que ponto foi negativo o testemunho que o Black deu hoje?

 

Molly percebeu o tom de optimismo forçado na resposta de Philip Matthews:

 

Creio que poderemos neutralizá-lo quando eu tiver a oportunidade de fazer o contra-interrogatório.

 

Philip Matthews, um poderoso advogado de defesa de trinta e oito anos, tinha-se tornado uma espécie de estrela da imprensa. O pai de Molly tinha jurado que arranjaria a Molly o melhor que o dinheiro pudesse comprar, e, por muito novo que fosse, Matthews era o melhor. ”Não tinha conseguido a absolvição daquele executivo da televisão, cuja mulher tinha sido assassinada? ”Sim”, pensou Molly, ”mas não o encontraram coberto com o sangue dela.”

 

Sentiu a obscuridade que lhe toldava a cabeça desanuviar-se um pouco, embora soubesse que voltaria. Voltava sempre. Mas naquele momento compreendia o aspecto que tudo aquilo devia ter para as pessoas na sala do tribunal, especialmente para os jurados.

 

Quanto tempo mais vai demorar o julgamento? perguntou.

 

Aproximadamente mais três semanas disse-lhe Matthews.

 

E depois vou ser considerada culpada disse ela com objectividade. Acha que eu sou culpada? Eu sei que toda a gente pensa que eu o matei por estar tão zangada com ele. Suspirou pesadamente. Noventa por cento das pessoas pensam que eu estou a mentir quando digo que não me recordo de nada, os outros dez por cento pensam que não consigo lembrar-me daquela noite porque sou doida.

 

Consciente de que eles iam atrás dela, percorreu o corredor para o escritório e abriu a porta. A sensação de irrealidade começava a aumentar outra vez.

 

Talvez o tenha feito disse ela, a voz inexpressiva. Aquela semana no Cape. Recordo-me de passear na praia e de pensar como tudo era injusto. Como, depois de cinco anos de casamento, de perder o primeiro filho e de querer tanto ter outro, fiquei por fim grávida de novo e abortei aos quatro meses. Lembram-se? Vocês vieram da Florida, mãe e pai, porque estavam preocupados por eu estar tão infeliz. E, então, apenas um mês depois de ter perdido o meu bebé, peguei no telefone, ouvi a Annamarie Scalli a falar com Gary e percebi que ela estava grávida de um filho dele. Fiquei tão zangada e tão magoada. Lembro-me de pensar que Deus tinha castigado a pessoa errada quando tirara o meu bebé.

 

Ann Carpenter abraçou a filha. Desta vez, Molly não resistiu ao abraço.

 

Estou tão assustada sussurrou. Estou tão assustada. Philip Matthews deu o braço a Walter Carpenter.

 

Vamos para a biblioteca disse ele. Acho que é melhor encararmos a realidade. Creio que vamos ter de começar a pensar num acordo.

 

Molly estava de pé diante do juiz e tentou concentrar-se enquanto o delegado do Ministério Público falava. Philip Matthews tinha-lhe dito que o delegado do Ministério Público concordara relutantemente em deixá-la declarar-se culpada de homicídio involuntário, o que implicava uma sentença de dez anos de prisão, porque a única fraqueza do caso era Annamarie Scalli, a amante grávida de Gary Lasch, que ainda não tinha testemunhado. Annamarie tinha dito aos investigadores que estava sozinha em casa naquele domingo à noite.

 

O delegado do Ministério Público sabe que eu vou tentar lançar suspeitas sobre Annamarie explicara-lhe Matthews. Ela também estava amargurada e zangada com Gary. Podíamos fazer o júri não optar pela pena capital, mas, se fosse condenada, teria de cumprir prisão perpétua. Desta forma, estará cá fora daqui em apenas cinco anos.

 

Era a sua vez de proferir as palavras que esperavam que dissesse.

 

Sr. Dr. Juiz, embora não consiga recordar-me daquela noite horrível, reconheço que as provas do Estado são fortes e apontam para mim. Aceito que as provas demonstram que matei o meu marido. ”É um pesadelo”, pensou Molly. ”Mas daqui a pouco vou acordar e estarei em segurança em casa.”

 

Passados quinze minutos, depois de o juiz ter decretado uma pena de prisão de dez anos, foi levada da sala, algemada, para a carrinha que a transportaria para a Prisão Niantic, o Centro Feminino de Detenção do Estado.

 

                       Cinco anos e meio depois

 

Gus Brandt, produtor executivo da NAF Cable Network, ergueu os olhos da secretária, no número 30 da Rockefeller Plaza em Manhattan. Fran Simmons, a quem contratara recentemente como jornalista de investigação para o noticiário das seis horas e para trabalhos regulares no seu novo e famoso programa Crime Verdadeiro, acabava de entrar no seu gabinete.

 

Já se sabe disse ele, excitado. Molly Carpenter Lasch vai sair da prisão em liberdade condicional. Vai ser libertada na próxima semana.

 

Ela conseguiu a liberdade condicional! exclamou Fran. Fico muito contente.

 

Não tinha a certeza se te lembrarias do caso. Há seis anos vivias na Califórnia. Sabes muito sobre o assunto?

 

Na verdade, sei tudo. Não te esqueças de que andei na Academia Cranden, em Greenwich, com a Molly. Durante o julgamento recebi os jornais locais.

 

Andaste na escola com ela? Isso é bestial. Quero agendar uma história completa da vida dela para a série o mais depressa possível.

 

Claro. Mas não penses que sou íntima da Molly, Gus avisou Fran. Não lhe ponho a vista em cima desde o Verão em que terminámos o liceu, e isso já foi há catorze anos. Na altura em que comecei a estudar na Universidade da Califórnia, a minha mãe mudou-se para Santa Barbara e perdi o contacto com praticamente todas as pessoas de Greenwich.

 

Na verdade, tinham existido muitos motivos para ela e a mãe se terem mudado para a Califórnia, deixando Connecticut tão para trás quanto a memória permitia. No dia em que Fran terminara o liceu na Academia, o pai tinha-a levado a ela e à mãe para um jantar de comemoração. No final da refeição tinha brindado ao futuro de Fran na sua universidade, beijara-as a ambas e depois, dizendo que tinha deixado a carteira no carro, fora ao parque de estacionamento e dera um tiro na cabeça. Nos dias seguintes, o motivo do suicídio tornou-se aparente. Uma investigação determinou rapidamente que ele tinha desviado quatrocentos mil dólares do Fundo para o Edifício da Biblioteca de Greenwich, o qual se tinha oferecido para presidir. Gus Brandt já conhecia aquela história, evidentemente. Tinha falado no assunto quando fora a Los Angeles oferecer-lhe o emprego na NAF-TV.

 

Escuta, isso faz parte do passado. Não precisas de te esconder aqui na Califórnia, e, para além disso, vir trabalhar connosco é o passo certo para ti em termos de carreira dissera ele. Toda a gente que vence nesta profissão tem de andar de um lado para o outro. O nosso noticiário das seis horas está a suplantar as estações locais, e o programa Crime Verdadeiro está nos Dez Mais do Top de audiências. Para além disso, admite: sentiste a falta de Nova Iorque.

 

Fran quase esperara que ele citasse a velha máxima de que fora de Nova Iorque tudo é Bridgeport, mas ele não tinha ido tão longe. Com cabelos grisalhos e ombros curvados, Gus aparentava cada segundo dos seus cinquenta e cinco anos, e o seu semblante tinha permanentemente a expressão de alguém que tinha acabado de perder o último autocarro numa noite de nevão.

 

Porém, esse ar era enganador e Fran sabía-o. De facto, ele tinha uma mente afiada como uma navalha, um currículo provado na criação de novos programas e um faro competitivo inigualável na indústria do audiovisual. Praticamente sem pensar, tinha aceitado o emprego. Trabalhar para Gus significava andar na via rápida.

 

Nunca tiveste notícias nem contactos com Molly depois de terminarem o liceu? perguntou ele.

 

Não. Escrevi-lhe na altura do julgamento a oferecer a minha solidariedade e apoio, e recebi uma carta do advogado dela a dizer que, embora apreciasse a minha preocupação, ela não se corresponderia com ninguém. Isso foi há mais de cinco anos e meio.

 

Como era ela? Quando era jovem, quero eu dizer.

 

Fran colocou uma madeixa de cabelos castanho-claros atrás da orelha num gesto inconsciente que indicava que estava a concentrar-se. Uma imagem passou-lhe pela mente, e por um instante viu Molly como ela era aos dezasseis anos, na Academia Cranden.

 

Molly foi sempre especial disse alguns instantes depois. Já viste fotografias dela. Foi sempre uma beldade. Mesmo quando todas nós não passávamos de adolescentes desajeitadas ela já voltava cabeças. Tinha uns olhos azuis incríveis, quase iridescentes, a somar a uma compleição pela qual as modelos matariam e cabelos loiros e brilhantes. Mas o que mais me impressionava é que estava sempre muito composta. Recordo-me de pensar que se ela conhecesse o papa e a rainha de Inglaterra na mesma festa, saberia como dirigir-se a cada um deles e por que ordem. E, no entanto, a parte engraçada é que suspeitei sempre de que, no íntimo, ela era tímida. Apesar da compostura notável havia algo hesitante nela. Como se fosse um pássaro muito belo poisado na ponta de um ramo, equilibrado mas pronto para levantar voo a todo o momento.

 

”Deslizava pela sala”, pensou Fran, recordando-se de a ver uma vez num elegante vestido de cerimónia. Parecia ainda mais alta do que o seu metro e oitenta, por ter um porte tão fantástico.

 

Até que ponto é que vocês eram amigas? inquiriu Gus.

 

Oh, na verdade, eu não estava na órbita dela. Molly fazia parte do grupo do clube de campo dos endinheirados. Eu era uma boa atleta e concentrava-me mais no desporto do que nas actividades sociais. Posso garantir-te que o meu telefone nunca estava desligado à sexta-feira à noite.

 

Como a minha mãe diria, cresceste bem disse Gus, secamente.

 

”Eu nunca me senti à-vontade na academia”, pensou Fran. ”Existem muitas famílias de classe média em Greenwich, mas a classe média não era suficientemente boa para o pai. Ele estava sempre a tentar relacionar-se com as pessoas ricas. Queria que eu fosse amiga das raparigas de famílias ricas ou influentes.”

 

Para além da aparência, como era a Molly?

 

Era um amor disse Fran. Quando o meu pai morreu e se soube o que ele tinha feito, o desfalque, o suicídio e tudo, eu comecei a evitar toda a gente. Molly sabia que eu corria todos os dias e uma manhã cedo estava à minha espera. Disse que só queria fazer-me companhia durante algum tempo. Como o pai dela era uma das pessoas que mais contribuía para o fundo da biblioteca, podes imaginar o que a demonstração de amizade dela significou para mim.

 

Não tinhas motivo para te envergonhares por causa do que o teu pai fez atirou Gus.

 

O tom de Fran tornou-se crispado.

 

Eu não tinha vergonha dele. Só sentia imensa pena... E também estava zangada, acho eu. Por que é que ele pensava que a minha mãe e eu precisávamos de coisas? Depois de ele morrer, apercebemo-nos de como devia ter estado agitado nos dias anteriores, porque se preparavam para fazer uma auditoria aos livros de contabilidade dos fundos da biblioteca e sabia que seria desmascarado. Fez uma pausa e depois acrescentou suavemente: Ele estava errado quando fez tudo aquilo, é claro. Errado ao ter tirado o dinheiro e errado ao pensar que precisávamos dele. Ele também era fraco. Percebo agora até que ponto era terrivelmente inseguro. Mas, ao mesmo tempo, era um homem extremamente agradável.

 

O Dr. Lasch também. E também era um bom administrador.

 

O Hospital Lasch tem uma reputação de primeira classe e a Remington Health Management não é como tantas OCS incríveis que vão à falência e deixam pacientes e médicos de mãos a abanar. Gus sorriu fugazmente. Tu conhecias Molly e andaste na escola com ela, e isso dá-te alguma visão das coisas. Achas que ela o matou?

 

Não está em dúvida se matou disse Fran sem hesitar. As provas contra ela eram avassaladoras e já fiz a cobertura de julgamentos de homicídio suficientes para compreender que é muito improvável as pessoas arruinarem as suas vidas perdendo o controlo naquela fracção de segundo. No entanto, a menos que a Molly tenha mudado drasticamente depois da época em que me relacionei com ela, seria a última pessoa no mundo que eu teria considerado capaz de matar alguém. Mas, precisamente por essa razão, posso compreender por que é que teria bloqueado tudo da memória.

 

É por isso que este caso é bestial para o programa disse Gus. Começa a trabalhar nele. Quando Molly Lasch sair da Prisão Niantic na próxima semana, quero que faças parte do comité de recepção que lhe dará as boas-vindas.

 

Uma semana mais tarde, num agreste dia de Março, com o colarinho da gabardina voltado para cima para tapar o pescoço, de mãos enfiadas nos bolsos e os cabelos cobertos pelo seu chapéu de esqui preferido, Fran esperou no meio do grupo de jornalistas amontoados junto ao portão da prisão. O seu operador de câmara, Ed Ahearn, estava ao seu lado.

 

Como sempre, havia resmungos; hoje era por causa da hora matinal e do tempo saraiva cortante, impelida por rajadas de vento gelado. Previsivelmente, havia também um reavivar do caso que há cinco anos e meio enchera as páginas dos jornais de todo o país.

 

Fran já tinha gravado diversas reportagens com a prisão em segundo plano.

 

Mais cedo, naquela manhã, tinha feito uma reportagem em directo, e enquanto a estação transmitia imagens de arquivo como suporte à sua voz, anunciou:

 

Estamos à espera junto ao portão da Prisão Niantic, no Estado do Connecticut, a apenas alguns quilómetros da fronteira com Rhode Island. Molly Carpenter Lasch sairá dentro de alguns momentos, após ter passado cinco anos e meio atrás das grades por se declarar culpada do homicídio involuntário do marido, Gary Lasch.

 

Agora, à espera de que Molly aparecesse, escutava as opiniões das outras pessoas que se encontravam junto de si. O consenso era de que Molly era culpada como o diabo e que tinha tido muita sorte por ter saído apenas ao fim de cinco anos e meio; e quem pensava ela enganar ao dizer que não conseguia recordar-se de ter esmagado o crânio do pobre homem?

 

Fran alertou a sala de controlo quando viu um carro azul-escuro emergir nas traseiras do edifício principal da prisão.

 

O carro de Philip Matthews está a começar a afastar-se disse ela. O advogado de Molly tinha chegado cerca de meia hora antes para a levar.

 

Ahearn ligou a câmara.

 

Os outros também tinham visto.

 

Aposto que estamos a perder o nosso tempo comentou o repórter do Post. Dez para um em como no momento em que aquele portão se abrir eles vão sair a toda a velocidade. Eia, esperem um minuto!

 

Fran falou calmamente para o seu microfone.

 

O carro que leva Molly Carpenter Lasch para a liberdade acaba de iniciar a sua viagem. Depois, ficou assombrada ao avistar a elegante figura que caminhava ao lado do carro azul-escuro. Charley disse para o apresentador do noticiário da manhã, Molly Lasch não está no carro, mas a caminhar ao lado dele. Aposto que vai fazer uma declaração.

 

Holofotes fortes acenderam-se, fita rolou, microfones e câmaras de filmar foram empurrados uns contra os outros enquanto Molly Carpenter Lasch chegava ao portão, parava e ficava à espera de que este fosse aberto. ”Tem a expressão de uma criança que vê um brinquedo mecânico a funcionar pela primeira vez”, pensou Fran.

 

É como se Molly não conseguisse acreditar no que está a ver declarou ela. Molly saiu para a rua e foi imediatamente rodeada. Os jornalistas empurraram-na enquanto lhe gritavam perguntas. ”Qual é a sensação? Alguma vez pensou que este dia chegaría? Vai visitar a família do Gary?Acha que alguma vez recordará o que aconteceu naquela noite?”

 

Como os outros, Fran ergueu o microfone, mas manteve-se deliberadamente de lado. Tinha a certeza de que qualquer hipótese que pudesse ter de uma entrevista no futuro ficaria arruinada se Molly a visse agora como o inimigo.

 

Molly levantou a mão num sinal de protesto.

 

Por favor, deixem-me falar disse, rapidamente.

 

”Está tão pálida e magra”, pensou Fran. ”Parece que esteve doente. Está diferente, e não é apenas por estar mais velha.” Fran estudou a aparência dela à procura de pistas. Os cabelos em tempos dourados estavam agora tão escuros como as sobrancelhas e as pestanas. Mais compridos do que Molly usava na escola, estavam apanhados num gancho na nuca. A compleição clara era naquela manhã da tonalidade do alabastro. Os lábios de sorriso fácil de que Fran se lembrava estavam agora direitos e sombrios, como se não sorrissem há muito tempo.

 

As perguntas que lhe estavam a ser gritadas foram parando gradualmente até, por fim, se fazer silêncio.

 

Philip Matthews tinha saído do carro e estava ao lado dela.

 

Não faças isso, Molly. A comissão de liberdade condicional não vai gostar... disse ele, mas ela ignorou-o.

 

Fran observou o advogado com interesse. ”Esta geração é F. Lee Bailey”, pensou. ”Como será ele?” Matthews era um homem de estatura mediana, cabelos cor de areia, rosto magro, intenso. Passou-lhe pela mente a imagem de um tigre a proteger a sua cria. Apercebeu-se de que não teria ficado surpreendida se ele tivesse arrastado fisicamente Molly para o carro.

 

Molly cortou-lhe a palavra.

 

Não tenho alternativa, Philip.

 

Olhou directamente para as câmaras e falou com clareza para os microfones.

 

Estou satisfeita por voltar para casa. Para garantir a liberdade condicional, tive de admitir que era a única responsável pela morte do meu marido. Admiti que as provas eram avassaladoras. E embora tenha declarado isso, digo-vos agora que, apesar das provas, no fundo da minha alma sinto que sou incapaz de tirar a vida a outro ser humano. Sei que a minha inocência talvez nunca seja provada, mas espero que, quando estiver em casa e houver alguma calma na minha vida, talvez então a recordação completa daquela noite terrível possa voltar. Até que isso aconteça, nunca terei paz nem poderei começar a reconstruir a minha vida.

 

Fez uma pausa. Quando falou de novo, a sua voz tinha-se tornado mais firme.

 

Quando, por fim, comecei a lembrar-me daquela noite, mesmo que apenas parcialmente, o que recordei foi ter encontrado Gary a morrer no escritório. Há pouco tempo, ocorreu-me outra impressão distinta daquela noite. Acredito que havia mais alguém naquela casa quando eu cheguei, e acredito que essa pessoa matou o meu marido. Não acredito que essa pessoa seja uma invenção da minha imaginação. Essa pessoa é de carne e osso e vou descobri-la e obrigá-la a pagar por ter tirado a vida a Gary e ter destruído a minha.

 

Ignorando as perguntas gritadas na sequência da sua declaração, Molly voltou-se e entrou no carro. Matthews fechou a porta, deu rapidamente a volta e entrou para o banco do condutor. Molly encostou a cabeça para trás e fechou os olhos enquanto Matthews, com a mão pousada na buzina, conduziu lentamente o carro pelo meio da multidão de jornalistas e fotógrafos.

 

Aí tens, Charley disse Fran para o microfone. A declaração de Molly, um protesto de inocência.

 

Uma declaração surpreendente, Fran replicou o apresentador. Vamos seguir este caso de perto para ver o que acontece. Obrigado.

 

Muito bem, Fran, terminaste disseram-lhe da sala de controlo.

 

Que é que te pareceu aquele discurso, Fran? perguntou Joe Hutnik, um repórter de crime veterano do Greenwich Time.

 

Antes de Fran poder responder, Paul Reilly, do Observer, troçou:

 

Aquela senhora não é nada parva. Provavelmente, está a pensar no contrato para o livro. Ninguém quer que uma assassina lucre com um crime, mesmo de uma forma legal, e os corações partidos vão adorar acreditar que outra pessoa matou Gary Lasch e que Molly também é uma vítima.

 

Joe Hutnik ergueu uma sobrancelha.

 

Talvez sim, talvez não, mas, na minha opinião, o próximo tipo que casar com Molly Lasch deve ter cuidado para não lhe voltar as costas quando ela se aborrecer com ele. Que é que me dizes, Fran?

 

Os olhos de Fran estreitaram-se em sinal de irritação ao olhar para os dois homens.

 

Sem comentários retorquiu, rispidamente.

 

Enquanto se afastavam da prisão, Molly observou os sinais da estrada. Por fim, deixaram a Merritt Parkway na saída de Lake Avenue. ”É tudo conhecido, claro, mas não me lembro bem da viagem para a prisão”, pensou. ”Só me lembro do peso das correntes e de que as algemas se enterravam nos meus pulsos.” Agora, sentada no carro, olhou em frente e sentiu, mais do que viu, os olhares de soslaio que Philip Matthews lhe lançava.

 

Respondeu à pergunta que ele não fez.

 

Sinto-me esquisita disse, lentamente. Não, ”vazia” é uma palavra melhor.

 

Já te disse isto antes: foi um erro teres mantido a casa e um erro ainda maior voltares para lá disse ele. E também é um erro não deixares os teus pais virem ter contigo agora.

 

Molly continuou a olhar em frente. A saraiva estava a começar a cobrir o vidro da frente mais depressa do que os limpa-pára-brisas conseguiam retirá-la.

 

Tudo o que eu disse àqueles repórteres foi a sério. Sinto que, agora que tudo isto terminou, se eu passar a viver lá em casa novamente posso recuperar a memória de todos os pormenores daquela noite. Eu não matei Gary, Philip... não o posso ter feito. Sei que os psiquiatras pensam que estou a negar o que aconteceu, mas tenho a certeza de que estão enganados. No entanto, mesmo que se prove que eles têm razão, encontrarei uma forma de viver com isso. Não saber é o pior.

 

Supõe que a tua memória está certa, Molly, que encontraste Gary ferido e a sangrar. Que ficaste em estado de choque e que a tua memória daquela noite acabará por voltar, mais cedo ou mais tarde. Tens noção de que, se estiveres certa e te lembrares, então, tornas-te uma ameaça para a pessoa que o matou? E que o assassino pode estar neste preciso momento a considerar-te uma ameaça muito real, uma vez que anunciaste que pensas que em casa poderás recordar mais acerca de outra pessoa ter lá estado naquela noite?

 

Ela manteve-se em silêncio durante alguns momentos. ”Por que é que pensas que disse aos meus pais para ficarem na Florida?”, pensou Molly. ”Se estiver enganada, ninguém me incomodará. Se estiver certa, então, vou deixar a porta bem aberta para o verdadeiro assassino vir atrás de mim.”

 

Olhou de soslaio para Matthews.

 

Quando eu era pequena, o meu pai levou-me para caçar patos, Philip disse ela. Eu não gostei nem um pouco. Era cedo e estava frio e a chover, e eu não parava de pensar que preferia estar em casa, na cama. Mas, nessa manhã, aprendi uma coisa. Um isco dá resultado. Sabes, tu, como todas as pessoas no mundo, acreditam que eu matei Gary num momento de loucura. E não negues que é isso que pensas. Ouvi-te a conversar com o meu pai sobre o facto de quase não teres esperança de conseguir uma absolvição, sugerindo que a Annamarie Scalli tinha cometido o crime. Disseste que eu tinha uma boa hipótese de obter a condenação por homicídio involuntário por paixão/provocação porque, provavelmente, o júri acreditaria que eu tinha matado Gary num acesso de raiva. Mas também disseste que não havia garantias de que não seria uma condenação por homicídio premeditado, e que, se o delegado do Ministério Público aceitasse, o melhor era fazer um acordo de homicídio involuntário. Falaram sobre isso, não falaram?

 

- Sim - admitiu Matthews.

 

- Então, se eu matei Gary, tenho muita sorte em ter-me safado tão facilmente. E se tu e toda a gente no mundo, incluindo os meus pais, estiverem certos, eu estou absolutamente a salvo quando digo que posso ter sentido outra presença na casa na noite em que Gary morreu. Como vocês não acreditam que estava lá outra pessoa, não pensam que alguém possa vir atrás de mim. Está correcto, não está?

 

Está, sim disse ele, relutantemente.

 

Então, ninguém tem de se preocupar comigo. Se, por outro lado, eu estiver certa e assustar alguém o suficiente, isso pode custar-me a vida. E, quer acredites quer não, eugostava que isso acontecesse. Porque, se eu aparecer assassinada, talvez alguém inicie uma investigação que não presuma automaticamente que eu matei o meu marido.

 

Philip Matthews não respondeu.

 

É verdade, não é, Philip? perguntou Molly, num tom quase alegre. Se eu morrer, então, talvez alguém analise bem o homicídio de Gary e encontre o verdadeiro assassino.

 

”É bom estar de volta a Nova Iorque”, pensou Fran, enquanto olhava do seu gabinete para o Centro Rockefeller. A manhã gelada e fustigada pela saraiva dera lugar a uma tarde fria e cinzenta, mas, mesmo assim, adorou o que estava a ver, adorou contemplar os patinadores vestidos de cores claras, alguns muito elegantes, outros quase incapazes de se manterem direitos. ”A mistura peculiar dos dotados e dos esforçados”, pensou. Depois, olhando para lá do ringue de patinadores até o Saks, constatou como as montras das lojas da Quinta Avenida iluminavam a tristeza de Março.

 

As multidões que às cinco horas saíam dos edifícios de escritórios eram uma garantia de que, ao fim do dia, os nova-iorquinos, como as pessoas em todo o mundo, se apressavam a ir para casa.

 

”Também estou pronta para ir para casa”, decidiu ela, e pegou no casaco. ”Foi um dia comprido e ainda não terminou.” Tinha sido convocada para estar no ar às 18.40, para fazer uma reportagem actualizada sobre a libertação de Molly Lasch da prisão. Depois disso, podia ir para casa. Já amava o seu apartamento na esquina da Segunda Avenida com a Rua Cinquenta e Seis, com uma bela panorâmica sobre os arranha-céus do centro da cidade e o East River. Mas voltar para as caixas e cestos ainda por abrir era desanimador, pois sabia que mais cedo ou mais tarde teria de arrumar tudo.

 

”Pelo menos, o seu gabinete estava em ordem”, pensou com algum consolo. Os livros estavam desempacotados e arrumados nas prateleiras atrás da secretária. As suas plantas quebravam a monotonia da mobília vulgar do gabinete que lhe tinha sido atribuído. As insípidas paredes beges tinham sido avivadas com reproduções coloridas de quadros impressionistas.

 

Depois de ela e Ed Ahearn terem chegado ao escritório naquela manhã, ela fora ver Gus Brandt.

 

Vou deixar passar uma ou duas semanas, e depois tento marcar uma entrevista com Molly explicara, depois de ter discutido com ele a inesperada declaração de Molly Lasch à imprensa.

 

Gus mastigava vigorosamente a pastilha de nicotina que não lhe dava alívio absolutamente nenhum na campanha pessoal antifumo.

 

Quais são as probabilidades de ela se abrir contigo? perguntara.

 

Não sei. Mantive-me afastada quando Molly fez a declaração, mas tenho quase a certeza de que ela me viu. Se me reconheceu ou não é uma coisa completamente diferente. Seria bestial se conseguisse a colaboração dela na história. Se não, teremos de trabalhar sem a sua autorização.

 

Que é que pensaste daquela declaração?

 

Pessoalmente, diria que Molly foi muito convincente quando sugeriu que estava mais alguém na casa naquela noite, mas penso que está a dar um tiro no escuro disse Fran. Claro que algumas pessoas vão acreditar nela, e talvez a sua verdadeira necessidade seja criar esse sentimento de dúvida. Ela vai falar comigo? Não sei, simplesmente.

 

”Mas posso esperar que sim”, pensou Fran, relembrando aquela conversa enquanto percorria apressadamente o corredor para a sala de maquilhagem.

 

Cara, a maquilhadora, colocou-lhe uma capa à volta do pescoço. Betts, a cabeleireira, rolou os olhos.

 

Francamente, Fran. Esta noite dormiste com o teu gorro de esqui?

 

Fran sorriu.

 

Não. Só o usei esta manhã. Façam um milagre, vocês as duas. Enquanto Cara aplicava uma base e Betts ligava o ferro de

 

encaracolar, Fran fechou os olhos e pensou na frase de abertura: ”Esta manhã, às 7.30, as portas da Prisão Niantic abriram-se e Molly Carpenter Lasch desceu a rua para fazer uma curta mas surpreendente declaração à imprensa.”

 

Cara e Betts trabalharam à velocidade da luz e alguns minutos depois Fran estava pronta para enfrentar as câmaras.

 

Uma nova eu confirmou ela, enquanto se estudava ao espelho. Conseguiram novamente.

 

Tu tens tudo, Fran. A única coisa que acontece é que a tua cor é monocromática disse-lhe Cara, pacientemente. Precisa de acentuação.

 

”Acentuação”, pensou Fran. ”Isso é a última coisa que eu sempre quis. Eu fui sempre acentuada. A miúda mais baixa do jardim infantil. A miúda mais baixa do oitavo ano. O piolho.” Por fim, tinha crescido de repente, durante o primeiro ano em Cranden, e conseguira chegar a um respeitável metro e sessenta e cinco.

 

Cara estava a tirar a capa.

 

Estás linda! anunciou. Arrasa-os.

 

Tom Ryan, um apresentador maduro, e Lee Manners, uma rapariga extremamente atraente que tinha começado por apresentar a meteorologia, eram os pivots do noticiário das seis horas. No fim do programa, depois de terem tirado os microfones e de se terem levantado, Ryan comentou:

 

Boa peça sobre a Molly Lasch, Fran.

 

Telefonema para ti, Fran. Atende na quatro disse uma voz da sala de controlo.

 

Para surpresa de Fran, era Molly Lasch.

 

Fran, bem me parecia que te tinha reconhecido na prisão, esta manhã. Ainda bem que eras tu. Obrigada pela reportagem que acabaste de fazer. Pelo menos, pareces não ter ideias preconcebidas em relação à morte de Gary.

 

Bem, certamente eu quero acreditar em ti, Molly. Fran apercebeu-se de que tinha os dedos cruzados.

 

A voz de Molly Lasch ficou hesitante.

 

Será que estarias interessada em investigar a morte de Gary? Em troca, eu estaria disposta a deixar-te usar-me num dos programas informativos da tua estação. O meu advogado disse-me que praticamente todas as estações ligaram, mas eu preferia ser entrevistada por uma pessoa que conheço e em quem sinto poder confiar.

 

Podes apostar que estou interessada, Molly disse Fran. Na verdade, estava a pensar telefonar-te exactamente para isso.

 

Combinaram encontrar-se na manhã seguinte, na casa de Molly, em Greenwich. Quando Fran pousou o auscultador, ergueu as sobrancelhas para Tom Ryan.

 

Reunião de turma amanhã disse. Isto deve ser interessante.

 

A sede da Remington Health Management Organization situava-se no recinto do Lasch Hospital, em Greenwich. O director executivo, o Dr. Peter Black, chegava sempre ao seu gabinete às sete horas da manhã em ponto. Dizia que as duas horas de trabalho antes de os funcionários chegarem eram as mais produtivas do dia.

 

Incaracteristicamente, naquela manhã de terça-feira, Black tinha ligado a televisão na NAF.

 

A sua secretária, que já estava com ele há anos, dissera-lhe que Fran Simmons tinha começado a trabalhar para a estação e recordara-lhe de quem se tratava. Mesmo assim, tinha sido uma surpresa ver que ela era a jornalista que estava a cobrir a libertação de Molly da prisão. O suicídio do pai de Fran tinha ocorrido apenas semanas depois de Black ter aceite a oferta de Gary Lasch para trabalhar no hospital, e durante muitos meses o escândalo tinha sido a grande história da cidade. Duvidava de que alguém que tivesse vivido em Greenwich na época se tivesse esquecido.

 

Naquela manhã, Peter Black estava a assistir ao noticiário porque queria ver a viúva do antigo sócio.

 

Olhares frequentes para o ecrã, para se certificar de que não perdia o segmento que esperava, tinham-no finalmente forçado a pousar a caneta e a tirar os óculos para ler. Black tinha uma profusa cabeleira de cabelos castanho-escuros, prematuramente grisalha nas têmporas, grandes olhos cinzentos, e transmitia uma imagem amistosa que os membros recém-contratados do seu pessoal achavam tranquilizadora até cometerem o sério erro de se atravessarem no seu caminho.

 

Às 7.32, teve início o acontecimento de que estava à espera. Com um olhar sombrio, observou Molly a caminhar ao lado do carro do advogado para o portão da prisão. Quando ela falou para os microfones, puxou a cadeira para mais perto do aparelho e inclinou-se para a frente, para perceber todos os cambiantes da sua voz e expressão.

 

Logo que ela começou a falar, aumentou o volume do televisor, embora conseguisse ouvir perfeitamente as palavras. Depois de ela terminar, recostou-se na cadeira e cruzou as mãos. Passados alguns momentos, pegou no telefone e marcou um número.

 

- Residência Whitehall.

 

O leve sotaque inglês da criada irritava sempre Black.

 

- Passe-me o Dr. Whitehall, Rita. Não disse o seu nome deliberadamente, mas não havia necessidade de o fazer, ela conhecia a voz. Ouviu o auscultador a ser levantado.

 

Calvin Whitehall não perdeu tempo com cumprimentos.

 

Eu vi. Pelo menos, ela é consistente quando nega que matou

 

Gary.

 

Não é isso que me preocupa.

 

Eu sei. Também não me agrada ver a Simmons na história. Se for necessário, tratamos do assunto disse Whitehall, e depois fez uma pausa. Encontramo-nos às dez horas.

 

Peter Black desligou sem se despedir. A perspectiva de algo correr mal perseguiu-o durante o resto do dia, enquanto participava numa série de reuniões de alto nível sobre a possível aquisição de quatro outras OCS pela Remington, um negócio que transformaria a empresa num dos maiores jogadores no ramo notavelmente lucrativo dos cuidados de saúde.

 

Philip Matthews levou Molly a casa depois de esta sair da prisão. Queria entrar, mas ela não o permitira.

 

Por favor, Philip, deixa a minha mala à porta pedira ela. Depois, acrescentara secamente: Conheces aquela velha deixa da Greta Garbo: ”Quero ficar sozinha”? Bom, é isso mesmo que quero.

 

Parecia magra e frágil, parada no alpendre da bonita casa que partilhara com Gary Lasch. Nos dois anos que se tinham seguido à inevitável separação da mulher, que já voltara até a casar, Philip Matthews tinha começado a perceber que as suas visitas à Prisão Niantic se haviam tornado talvez mais frequentes do que era profissionalmente necessário.

 

Pediste a alguém que te fizesse as compras, Molly? perguntara ele. Quero dizer, tens alguma comida em casa?

 

A Sr.a Barry ficou de tratar disso.

 

A Sr.a Barry! Percebeu que a sua voz tinha subido dois decibéis. Que é que ela tem a ver com isto?

 

Vai começar a trabalhar para mim novamente dissera-lhe Molly. O casal que esteve a tomar conta da casa já se foi embora.

 

Logo que souberam que ia sair, os meus pais entraram em contacto com a Sr.a Barry e ela veio, tratou da limpeza da casa e abasteceu a cozinha. Vai começar a vir cá novamente três vezes por semana.

 

Aquela mulher ajudou a pôr-te na prisão!

 

Não, ela disse a verdade.

 

Durante o resto do dia, mesmo quando estava em conferências com o delegado do Ministério Público por causa do seu mais novo cliente, um importante agente imobiliário acusado de atropelamento mortal, Philip não conseguiu afastar a sensação de apreensão crescente por saber que Molly estava sozinha naquela casa.

 

Às sete horas da tarde, enquanto se preparava para sair e pensava se devia ou não ligar a Molly, o telefone tocou. A sua secretária já tinha saído. Deixou-o tocar diversas vezes antes de a curiosidade suplantar a inclinação inicial para deixar a chamada passar para o atendedor.

 

Era Molly.

 

Boas notícias, Philip. Lembras-te de eu te dizer que a Fran Simmons, que esteve na prisão esta manhã, andou na escola comigo?

 

Lembro, sim. Estás bem, Molly? Precisas de alguma coisa?

 

Estou óptima. Fran Simmons vem cá a casa amanhã, Philip. Está disposta a fazer uma investigação da morte de Gary para um programa em que trabalha chamado Crime Verdadeiro. Não seria maravilhoso se, por milagre, ela pudesse ajudar a provar que estava outra pessoa cá em casa naquela noite?

 

Esquece isso, Molly. Por favor.

 

Seguiu-se um momento de silêncio. Quando Molly falou de novo, o seu tom de voz tinha mudado.

 

Sei que não devia ter esperado que compreendesses. Mas não faz mal. Adeus.

 

Philip Matthews sentiu o clique no seu ouvido. Enquanto pousava o auscultador, lembrou-se de como, anos antes, um comandante tinha colaborado com um escritor que achava que poderia provar que ele era inocente do homicídio da mulher e dos filhos, apenas para ver mais tarde esse escritor aparecer como o seu principal acusador.

 

Dirigiu-se para a janela. O seu escritório situava-se no Battery Park, na baixa de Manhattan, e abria-se sobre a Upper Bay de Nova Iorque e a estátua da Liberdade.

 

”Se eu estivesse a acusar-te, Molly, ter-te-ia condenado por homicídio premeditado”, disse para si mesmo. ”Se essa jornalista começar a esgravatar, este programa vai destruir-te; o que ela vai descobrir é que te safaste com muita facilidade.

 

Oh, Céus”, pensou, ”por que é que ela não pode simplesmente admitir que estava sob uma tensão terrível e que perdeu o controlo naquela noite?”

 

Molly quase não conseguia acreditar que finalmente estava em casa e foi ainda mais difícil convencer-se de que tinha estado fora mais de cinco anos e meio. Depois de chegar, tinha esperado até o carro de Philip desaparecer na estrada antes de abrir a bolsa, tirar a chave e abrir a porta de casa.

 

A porta principal era de um bonito mogno escuro com um painel lateral de vitral. Uma vez no interior, deixou cair a mala, fechou a porta e, num gesto reflexo, carregou no ferrolho com o calcanhar. Depois percorreu lentamente todos os aposentos da casa, passando a mão pelas costas do sofá da sala de estar, tocando no serviço de chá de prata ornamentada que a avó lhe deixara e que se encontrava na sala de jantar, enquanto se forçava a não pensar no refeitório da prisão, nos pratos toscos, nas refeições que eram como cinzas na sua boca. Tudo parecia familiar; e, no entanto, não conseguia deixar de se ver como uma intrusa.

 

Parou à porta do escritório, a olhar lá para dentro, ainda surpreendida por não estar exactamente como Gary o tinha conhecido, com os seus painéis de mogno e mobiliário grande de mais, e os artefactos que ele tinha adquirido tão meticulosamente. O sofá de chintz e a cadeira namoradeira pareciam deslocados, intrusos, demasiado femininos.

 

Depois fez aquilo que sonhava fazer há cinco anos e meio. Subiu as escadas para o quarto principal, despiu-se, foi buscar ao roupeiro o roupão de lã que adorava, entrou na casa de banho e abriu as torneiras da banheira de hidromassagem.

 

Deixou-se ficar na água quente e perfumada enquanto esta se enchia de espuma e rodopiava à sua volta, lavando-lhe a pele até se sentir novamente limpa. Suspirou de alívio quando a tensão começou a libertar-se dos seus ossos e músculos. Depois tirou uma toalha do toalheiro aquecido e enrolou-se nela, deliciada com o seu calor.

 

Em seguida, correu as cortinas e foi para a cama. Deitada, fechou os olhos, ficando a ouvir o bater insistente da saraiva nas janelas; adormeceu gradualmente, recordando-se de todas as noites em que prometera a si mesma que aquele momento chegaria, o momento em que estaria uma vez mais na privacidade do seu quarto, sob o quente edredão, com a cabeça afundada na almofada macia.

 

Quando acordou, a tarde estava a chegar ao fim. Vestiu imediatamente o roupão, calçou os chinelos e desceu para a cozinha. ”Agora, chá e torradas”, pensou. ”Assim, vou ficar sem fome até ao jantar.”

 

De caneca fumegante na mão, fez o telefonema prometido para os pais.

 

Estou bem disse com firmeza. Sim, é bom estar em casa. Não, sinceramente preciso de ficar algum tempo sozinha. Não demasiado tempo, mas algum. Depois escutou as mensagens no atendedor de chamadas. Jenna Whitehall, a sua melhor amiga, a única pessoa para além dos pais e de Philip a quem tinha dado autorização para a visitar na prisão, tinha deixado uma mensagem. Disse que queria passar lá por casa nessa noite, apenas para lhe dar as boas-vindas. Pedia a Molly que lhe telefonasse para dizer se podia ser.

 

”Não”, pensou Molly. ”Esta noite, não. Não quero ver ninguém, nem sequer Jenna.”

 

Assistiu ao noticiário das seis horas na N AF, na esperança de ver Fran Simmons.

 

Quando o programa terminou, telefonou para o escritório e falou com ela, pedindo-lhe que a usasse como tema para uma investigação especial.

 

Em seguida, telefonou para Philip. A sua desaprovação óbvia era exactamente o que ela sabia que devia esperar, e tentou não deixar que isso a aborrecesse.

 

Depois de conversar com ele, foi para o andar de cima, vestiu uma camisola e umas calças largas, e enfiou os pés nos chinelos velhos. Ficou sentada ao toucador durante alguns minutos, a observar o seu reflexo no espelho. Tinha os cabelos demasiado compridos; precisavam de um corte. ”Deveria aclará-los um pouco?”, interrogou-se. Antigamente eram louros, mas nos últimos anos tinham escurecido. Gary costumava dizer, em tom de brincadeira, que os seus cabelos louros eram tão dourados que metade das mulheres na cidade tinham a certeza de que ela lhes dava uma ajuda para se manterem com essa cor.

 

Empurrou o banco para trás e entrou no quarto de vestir. Durante a hora seguinte examinou sistematicamente tudo o que lá havia, colocando de lado as roupas que sabia que nunca mais voltaria a vestir. Alguns fatos fizeram-na sorrir inconscientemente, como o vestido e casaco dourados que usara na passagem de Ano no clube de campo naquele último ano, e o fato de veludo preto que Gary tinha visto na montra do Bergdorf s e insistira que ela experimentasse.

 

Quando soubera que ia ser libertada da prisão, tinha mandado uma lista de compras à Sr.a Barry. Às oito horas, desceu novamente e começou a preparar o jantar que tinha planeado e já desejava há semanas: uma salada verde com molho de vinagre balsâmico; pão italiano tostado, aquecido no forno; um molho de tomate leve que ela fez rapidamente, servido sobre linguine cozinhado al dente; um copo de Chianti Riservo.

 

Com o jantar pronto, sentou-se à mesa do pequeno-almoço, num recanto aconchegante voltado para o pátio das traseiras. Comeu lentamente, saboreando a massa condimentada, o pão tostado e a salada perfumada, apreciando o calor aveludado do vinho enquanto contemplava o pátio escuro, apreciando a antecipação da Primavera a apenas algumas semanas de distância.

 

«As flores vão atrasar-se», pensou, «mas em breve tudo estará de novo a florescer.» Essa era outra das promessas que tinha feito a si própria - voltar a cavar o jardim, a sentir a terra, quente e húmida, a observar as tulipas enquanto elas cresciam na sua amálgama de cor; voltar a plantar petúnias ao longo das bordas do carreiro de lajes.

 

Comeu lentamente, apreciando o silêncio, tão diferente do ruído constante e entorpecedor da prisão. Depois de arrumar a cozinha, foi para o escritório. Ficou ali sentada na penumbra, com as mãos a abraçar os joelhos. Ao sentar-se, tentou ouvir o ruído que lhe tinha sugerido que havia mais alguém lá em casa na noite em que Gary tinha morrido, o som, conhecido e ao mesmo tempo desconhecido, que entrava e saía dos seus pesadelos há quase seis longos anos. Lá fora não havia nada a não ser o vento, e, ali perto, o tiquetaque de um relógio.

 

Depois de sair do escritório, Fran caminhou pela cidade até ao apartamento de quatro assoalhadas que tinha arrendado na Segunda Avenida com a Rua Cinquenta e Seis. Fora uma grande aventura vender o seu apartamento em Los Angeles, mas agora que ali estava percebeu que, como Gus tinha adivinhado, Nova Iorque estava-lhe realmente no sangue.

 

«Afinal de contas, vivi em Manhattan até aos treze anos», pensou, enquanto subia a Madison Avenue e passava pelo Lê Cirque 2000, lançando um olhar de admiração para o pátio iluminado que conduzia à entrada. «Depois, o pai fez um bom negócio na Bolsa de Valores e decidiu ser um cavalheiro rural.»

 

Fora então que se tinham mudado para Greenwich e comprado uma casa a pouca distância do local onde Molly vivia agora. A casa situava-se numa zona exclusiva de Lake Avenue. É claro que, afinal de contas, não podiam pagá-la, e a casa fora seguida por um carro que não podiam pagar e roupas que não podiam pagar. ”Talvez tivesse sido por ter entrado em pânico que o pai não conseguiu ganhar mais dinheiro na Bolsa”, pensou Fran.

 

Ele adorava ser activo nos assuntos da cidade e conhecer pessoas. Acreditava que os voluntários faziam amigos, e era um voluntário de sonho. Pelo menos, até ”pedir emprestados” os donativos para o fundo da biblioteca.

 

Andava apavorada com a ideia de abrir os caixotes que tinha trazido para o leste, mas a saraiva tinha parado e o frio era de cortar. Quando pôs a chave na fechadura do apartamento, o 21 E, tinha mudado de ideias.

 

Pelo menos, a sala de estar estava bastante decente, disse para si mesma ao acender a luz e observar a alegre sala com o sofá e as cadeiras de veludo verde-musgo e a carpete persa encarnada, marfim e verde.

 

A visão das estantes quase vazias galvanizou-a para a acção. Vestiu uma camisola velha e calças largas e começou a trabalhar. Uma música enérgica na aparelhagem ajudou-a a aliviar a monotonia de esvaziar caixas e escolher livros e cassetes. A caixa com o equipamento da cozinha foi a mais fácil de arrumar. ”Não tenho muitas coisas lá dentro”, pensou amargamente. ”Mostra o género de cozinheira que sou.”

 

Às nove e um quarto suspirou um fervoroso ”Ámen” e arrastou as últimas caixas vazias para o armário de arrumações. ”É preciso muito amor para transformar uma casa num lar”, pensou com satisfação, enquanto andava pelo apartamento, que por fim parecia o seu lar.

 

Fotografias emolduradas da mãe, do padrasto e dos meios-irmãos e das suas famílias fizeram-nos parecer mais próximos. ”Vou sentir saudades de todos vocês”, pensou ela. Vir a Nova Iorque para uma visita curta tinha sido uma coisa, mas mudar-se e saber que não veria nenhum deles regularmente era muito mais difícil. Â mãe tinha esquecido Greenwich. Nunca mencionava que tinha vivido lá, e quando voltara a casar tinha pressionado Fran a adoptar o apelido do padrasto.

 

”Nem pensar”, pensou Fran.

 

Satisfeita com tudo o que tinha alcançado, hesitou em sair para jantar, mas depois contentou-se com uma sanduíche de queijo derretido. Comeu sentada à minúscula mesa de ferro fundido diante da janela da cozinha que proporcionava uma vista muito bela do East

 

”Moll está a passar a primeira noite em casa depois de cinco anos e meio na prisão”, pensou. ”Quando avir, tenho de lhe pedir uma lista das pessoas com quem posso falar, pessoas que estejam dispostas a falar comigo sobre ela. Mas tenho algumas outras perguntas para as quais tentarei obter respostas ao longo da investigação, e nem todas são acerca de Molly.”

 

Algumas delas eram perguntas que a perturbavam há muito tempo. Nunca tinha aparecido um registo dos quatrocentos mil dólares que o pai tinha desviado do fundo da biblioteca. Tendo em conta a sua história de apostar em acções de risco, presumia-se que tinha perdido o dinheiro dessa forma, mas após a sua morte não tinha aparecido um único pedaço de papel que mostrasse onde é que ele tinha feito um investimento tão avultado.

 

”Eu tinha dezoito anos quando saímos de Greenwich”, pensou Fran. ”Foi há catorze anos. Mas agora estou de volta e vou ver imensas pessoas que conhecia, vou falar com muitas pessoas em Greenwich acerca de Molly e de Gary Lasch.”

 

Levantou-se e pegou na cafeteira. Enquanto se servia, pensou no pai e no que a tentação provocada por uma ”dica infalível” suscitaria. Lembrou-se de como ele tinha estado ansioso por ser convidado a fazer parte do clube de campo, por fazer parte da multidão de homens que percorriam regularmente juntos o campo de golfe.

 

A suspeita começara a surgir inesperadamente. Uma vez que não se tinha conseguido encontrar um registo da soma de dinheiro que o pai tinha desviado, ela não podia deixar de ter dúvidas. Seria possível que alguém em Greenwich, alguém que o pai estava a tentar impressionar, lhe tivesse dado aquela ”dica” e depois tivesse ficado com os quatrocentos mil dólares que o pai tão disparatadamente ”pedira emprestados” ao fundo da biblioteca mas nunca investira?

 

E se telefonasses a Molly?

 

Jenna Whitehall olhou para o marido, que estava do outro lado da mesa. Vestida com uma confortável blusa larga de seda e calças pretas do mesmo tecido, tinha uma aparência dramaticamente atraente, uma impressão que era realçada pelos cabelos castanho-carvão e por olhos cor de avelã. Tinha chegado a casa às seis horas e verificara as mensagens. Molly não tinha telefonado.

 

Tentando não transmitir a irritação que sentia, disse calmamente:

 

Tu sabes que eu deixei uma mensagem no atendedor de chamadas da Molly, Cal. Se ela quisesse companhia, tinha-me telefonado. É claro que esta noite não quer companhia.

 

Continuo sem perceber por que é que ela quis voltar para aquela casa comentou ele. Quero dizer, como é que ela pode entrar naquele escritório sem se recordar daquela noite, sem pensar que pegou naquela escultura e esmagou a cabeça do pobre Gary com ela? A mim, provocar-me-ia arrepios.

 

Já te pedi antes, Cal, por favor, não fales nisso. Molly é a minha melhor amiga e eu gosto muito dela. Ela não se lembra de nada sobre a morte de Gary.

 

Essa é a história que ela conta.

 

E eu acredito. Agora que ela está em casa, pretendo estar com ela sempre que ela me quiser. E, quando não me quiser, vou dar-lhe espaço. Está bem?

 

Tu és muito atraente quando ficas zangada e tentas não o mostrar, Jen. Desabafa. Vais sentir-te melhor.

 

Calvin Whitehall empurrou a cadeira da mesa da sala de jantar e aproximou-se da mulher. Era um homem de quarenta e poucos anos, com um aspecto formidável, de ombros largos, peito largo e forte e cabelos ruivos que começavam a rarear. As sobrancelhas espessas sob olhos azuis-gelo realçavam a aura de autoridade que emanava dele mesmo em casa.

 

Não havia nada na presença ou no comportamento de Cal que sugerisse as suas origens humildes. Tinha colocado uma distância enorme entre si próprio e a casa bifamiliar de madeira em Elmira, Nova Iorque, onde tinha crescido.

 

A bolsa de estudo em Yale e a capacidade para imitar rapidamente os modos e comportamento dos colegas de estudo mais bem nascidos tinham levado a uma ascensão espectacular no mundo dos negócios. A sua piada privada era que a única coisa útil que os pais lhe tinham dado era um nome que, pelo menos, parecia ter classe.

 

Agora, confortavelmente instalado em Greenwich numa mansão de doze quartos mobilada com um gosto sofisticadíssimo, Cal vivia a vida com que sonhara há muitos anos no quarto minúsculo e espartano que fora o seu refúgio dos pais, que passavam a noite a beber vinho barato e a discutir. Quando as discussões ficavam demasiado ruidosas ou se tornavam violentas, os vizinhos chamavam a Polícia. Cal aprendeu a temer o som da sirene dos carros da Polícia, o desprezo nos olhares dos vizinhos, as risadas dos colegas de escola, os comentários na cidade sobre os seus pais rascas.

 

Ele era muito inteligente, o suficiente para saber que o único caminho da salvação era a educação, e na verdade os seus professores na escola depressa se aperceberam de que ele tinha sido abençoado com uma inteligência quase de génio. No seu quarto com o chão solto, a tinta das paredes a descascar e uma única luz fraca no tecto, estudava e lia vorazmente, concentrando-se especialmente em aprender tudo o que podia sobre as possibilidades e o futuro da informática.

 

Aos vinte e quatro anos, depois de um mestrado, fora trabalhar para uma dinâmica empresa de computadores. Aos trinta, pouco depois de se mudar para Greenwich, arrancara o controlo da empresa ao espantado proprietário. Era a sua primeira oportunidade para brincar ao gato e ao rato, para brincar com a sua presa, sabendo de antemão que era um jogo que venceria. A satisfação da caça acalmava em si a ira sempre presente por causa da opressão do pai e da necessidade subsequente de saltar de emprego em emprego.

 

Alguns anos mais tarde, vendeu a empresa por uma fortuna, e agora passava o tempo a gerir a sua miríade de negócios.

 

O casamento não tinha produzido filhos, e ele estava grato por Jenna, ao invés de ter ficado obcecada com essa falta como acontecera com Molly Lasch, ter dedicado as suas energias ao escritório de advocacia em Manhattan. Também ela tinha feito parte do seu plano. A mudança para Greenwich. A escolha de Jenna uma jovem mulher arrebatadoramente bela e inteligente, de boas famílias mas com bens limitados. Estava plenamente consciente de que a vida que podia proporcionar a Jenna era uma grande atracção para ela. Tal como ele, ela gostava de poder.

 

Também gostava de brincar com ela. Agora, sorria-lhe candidamente e passava-lhe a mão pelos cabelos.

 

Desculpa disse, arrependido. É que eu penso que Molly teria gostado de receber a tua visita mesmo não tendo telefonado. É uma grande mudança voltar para aquela casa vazia, e ela deve estar a sentir-se bastante sozinha. Tinha bastante companhia na prisão, mesmo que se tratasse de companhia que ela não apreciava.

 

Jenna tirou a mão do marido da cabeça.

 

Pára com isso. Sabes que fico irritada quando me mexem no cabelo. E anunciou abruptamente: Tenho de ir estudar uns apontamentos para uma reunião de amanhã.

 

Estar sempre preparada. Isso é que é ser uma boa advogada. Não perguntaste sobre as nossas reuniões de hoje.

 

Cal era presidente do Conselho de Administração do Hospital Lasch e da Remington Health Management. Com um sorriso satisfeito, acrescentou:

 

Ainda está um pouco perigoso. A American National Insurance quer essas OCS tanto como nós, mas nós vamos consegui-las. E quando isso acontecer, seremos a maior OCS do leste.

 

Jenna olhou para o marido com uma admiração rancorosa.

 

Consegues sempre aquilo que queres, não é? Ele acenou afirmativamente.

 

Consegui-te a ti, não consegui?

 

Jenna premiu o botão por baixo da mesa para a criada vir levantá-la.

 

Sim respondeu, calmamente, parece que sim.

 

”O tráfego da 1-95 está a chegar à altura da auto-estrada da Califórnia”, pensou Fran enquanto esticava o pescoço, à espera de uma oportunidade para mudar de faixa. Lamentou quase imediatamente não ter optado pela Merritt Parkway. O semi-reboque à sua frente fazia tanto barulho que parecia que estavam a ser atacados por bombas, mas viajava quinze quilómetros abaixo do limite de velocidade, tornando a experiência de estar presa atrás dele duplamente irritante.

 

Durante a noite, os céus tinham ficado limpos, e como o reservado meteorologista da CBS tinha dito: ”Hoje o céu estará parcialmente limpo, parcialmente nublado, com hipótese de chuva.”

 

”Isso abarca praticamente todas as situações possíveis”, decidiu Fran, e depois apercebeu-se de que estava a concentrar-se no tempo e nas condições do tráfego porque estava nervosa.

 

Como cada rotação dos pneus a deixava mais perto de Greenwich e do encontro com Molly Carpenter Lasch, sentiu que os seus pensamentos voltavam insistentemente para a noite em que o pai se suicidara. Sabia porquê. A caminho da casa de Molly passaria por Barley Arms, o restaurante a que ele as tinha levado para o que acabou por ser o último jantar de família.

 

Pormenores de que já não se recordava há anos voltaram-lhe à ideia, pequenos factos estranhos que, por alguma razão, lhe tinham ficado na memória. Pensou na gravata que o pai tinha usado fundo azul com um pequeno padrão axadrezado. Lembrava-se de que fora muito cara quando viera a conta, a mãe tinha comentado: ”Foi cosida com fio de ouro, Frank? É um preço de doidos para pagar por uma tira de pano minúscula.”

 

”Usou aquela gravata pela primeira vez naquele último dia”, pensou Fran. ”Ao jantar, a mãe tinha brincado com ele a dizer que estava a guardá-la para a minha graduação. Teria havido algo simbólico no facto de ele usar uma coisa tão extravagantemente dispendiosa quando sabia que ia suicidar-se devido a problemas financeiros?”

 

A saída para Greenwich aproximava-se. Fran saiu da 1-95, recordando uma vez mais a si própria que a Merritt era um caminho mais directo; depois começou a procurar as ruas que dois quilómetros depois a levariam ao bairro onde passara quatro anos da sua vida. Deu por si a tremer, apesar do calor que estava no carro.

 

”Quatro anos formativos”, disse para si mesma. E sem dúvida que tinham sido.

 

Ao passar pelo Barley Arms, manteve resolutamente os olhos na estrada, sem se permitir sequer um olhar de relance para o parque de estacionamento parcialmente escondido onde o pai se tinha sentado no banco de trás do carro da família e disparara um tiro fatal sobre si próprio.

 

Evitou também deliberadamente a rua onde vivera durante esses quatro anos. ”Haverá outro momento para isso”, pensou. Alguns minutos depois estava a estacionar junto à casa de Molly, uma casa de estuque cor de marfim com dois andares e portadas castanho-escuras.

 

Uma mulher forte com sessenta e tal anos, de cabelos grisalhos e olhos claros semelhantes aos de um pássaro, abriu a porta praticamente antes de o dedo de Fran soltar a campainha. Fran reconheceu o rosto dos recortes de jornais acerca do julgamento. Era Edna Barry, a governanta que tinha apresentado um testemunho tão arrasador para Molly. ”Por que é que Molly voltara a contratá-la?”, interrogou-se Fran, admirada.

 

Enquanto despia o casaco, soaram passos na escadaria. Um momento depois, Molly apareceu e atravessou rapidamente o átrio para a cumprimentar.

 

Por instantes, observaram-se mutuamente. Molly usava calças de ganga e uma blusa azul com as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Tinha o cabelo enrolado e apanhado descontraidamente no alto da cabeça, e algumas madeixas caíam-lhe pelo rosto. Como Fran tinha reparado na prisão, Molly parecia demasiado magra, e à volta dos olhos começavam a aparecer algumas rugas.

 

Fran tinha vestido o conjunto de dia de que mais gostava, umas calças e um casaco de bom corte com riscas finas, e de repente sentiu-se bem vestida de mais. Depois recordou bruscamente a si própria que, se queria fazer um bom trabalho, neste caso, tinha de separar a mulher do presente da adolescente insegura que fora há muitos anos em Cranden. Molly foi a primeira a falar:

 

Estava com receio de que mudasses de ideias, Fran. Fiquei tão surpreendida quando te vi ontem na prisão, e tão impressionada quando te vi no noticiário a noite passada! Foi então que tive esta ideia louca de que talvez pudesses ajudar-me.

 

Por que é que teria mudado de ideias, Molly? perguntou Fran.

 

Eu vejo o programa Crime Verdadeiro. Na prisão era muito popular entre todas nós, e percebi que eles não faziam muitos casos onde não existiam dúvidas. Mas, obviamente, os meus receios eram infundados... tu vieste. Vamos começar. A Sr.a Barry fez café. Queres?

 

Adorava.

 

Respeitosamente, Fran seguiu Molly pelo corredor da direita. Conseguiu ver bastante bem a sala de estar e reparou no mobiliário discreto, de bom gosto e obviamente caro.

 

À porta do escritório, Molly parou.

 

Este era o escritório de Gary, Fran. Onde ele foi encontrado. Acabou de me ocorrer que, antes de nos sentarmos, gostava que visses uma coisa.

 

Entrou no escritório e parou ao lado do sofá.

 

A secretária de Gary estava aqui explicou. Estava voltada para as janelas da frente, o que quer dizer que ele estava de costas para a porta. Eles dizem que eu entrei, agarrei numa escultura que se encontrava na mesa lateral que estava aqui apontou de novo e esmaguei a cabeça de Gary com ela.

 

E aceitaste um acordo, porque tu e o teu advogado sentiram que um júri te condenaria por teres praticado o crime disse Fran, calmamente.

 

Fran, fica aqui onde estava a secretária. Eu vou para o átrio. Vou abrir e fechar a porta principal. Vou chamar-te. Depois vou voltar para aqui. Por favor, tem paciência comigo.

 

Fran acenou afirmativamente e entrou no aposento, parando no local que Molly tinha indicado.

 

O corredor não estava atapetado. Ouviu os passos de Molly e, instantes depois, ouviu-a chamá-la.

 

”O que ela está a dizer é que se Gary estivesse vivo devia tê-la ouvido”, pensou Fran.

 

Molly voltou.

 

Ouviste-me chamar, não ouviste, Fran?

 

-Sim.

 

Gary telefonou-me para o Cape. Implorou-me que o perdoasse. No entanto, na altura, eu não falei com ele. Disse-lhe que o veria no domingo, aproximadamente às oito horas da noite. Cheguei um pouco mais cedo, mas mesmo assim ele devia estar à minha espera. Não te parece que, se pudesse, ter-se-ia levantado ou, pelo menos, voltado a cabeça quando me ouviu? Não faz sentido que me tivesse ignorado. O chão não estava forrado a alcatifa como está agora. Mesmo que não me tivesse ouvido chamá-lo, não tenho qualquer dúvida de que me teria ouvido quando entrei no escritório. E ter-se-ia voltado. Quero dizer, quem não se voltaria?

 

Qual foi a reacção do teu advogado quando lhe disseste isso? perguntou Fran.

 

Disse que Gary podia simplesmente estar a dormitar sentado à secretária. Philip até sugeriu que a história podia voltar-se contra mim, que podia parecer que eu voltei para casa e fiquei enraivecida por ele não estar ansiosamente à minha espera.

 

Molly encolheu os ombros.

 

Muito bem, eu fiz a minha parte. Agora, vou deixar-te fazer as perguntas. Vamos sentar-nos aqui, ou ficarias mais à vontade noutro aposento?

 

Creio que a decisão é tua, Molly disse Fran.

 

Então, vamos ficar aqui. No local do crime. Falou com espírito prático, sem um sorriso.

 

Sentaram-se juntas no sofá. Fran pegou no gravador e pousou-o sobre a mesa.

 

Espero que não te importes, mas tenho de gravar isto.

 

Já estava à espera.

 

Por favor, não te esqueças disto, Molly: a única maneira de eu te magoar quando fizermos este programa é concluindo com uma declaração como: ”As provas esmagadoras sugerem que, embora Molly Lasch afirme que não se recorda de ter causado a morte do marido, parece não haver outra explicação possível.”Por instantes, os olhos de Molly iluminaram-se com lágrimas.

 

Isso não chocaria ninguém disse, desanimada. É aquilo em que toda a gente acredita agora.

 

Mas se houver outra resposta, Molly, só poderei ajudar-te a descobri-la se fores absolutamente honesta comigo em todos os passos que dermos. Por favor, não desconfies de mim nem me escondas nada, Por muito pouco à-vontade que possas sentir-te em relação a uma questão.

 

Molly acenou afirmativamente.

 

Após cinco anos e meio na prisão, aprendi o que é a total falta de privacidade. Se consegui sobreviver a isso, posso aguentar as tuas perguntas.

 

A Sr.a Barry trouxe café. Fran viu pela expressão da boca que a mulher desaprovava a presença delas naquele aposento. Ficou com a impressão de que a governanta era protectora em relação a Molly; mas no julgamento apresentara provas que lhe tinham sido muito prejudiciais. ”A Sr.a Barry está definitivamente na lista de pessoas que quero entrevistar”, pensou.

 

Nas duas horas seguintes, Molly Lasch respondeu às perguntas de Fran aparentemente sem hesitação. Pelas respostas de Molly, Fran ficou a saber que a rapariga que tinha conhecido basicamente à distância se transformara numa mulher que, pouco depois de terminar o liceu, se tinha apaixonado e casado com um atraente médico dez anos mais velho do que ela.

 

Eu estava a trabalhar na Vogue como estagiária disse Molly. Adorava o meu trabalho e comecei a subir muito depressa. Mas, depois, quando fiquei grávida, tive um aborto. Pensei que talvez os horários muito ocupados e as viagens tivessem alguma coisa a ver com isso, por isso abandonei o emprego.

 

Fez uma pausa.

 

Eu queria tanto um bebé continuou, num tom de voz suave. Tentei ficar grávida durante mais quatro anos e, quando finalmente consegui, também perdi esse bebé.

 

Como era o teu relacionamento com o teu marido, Molly?

 

Em tempos, teria dito que era perfeito. Gary apoiou-me muito depois do segundo aborto. Estava sempre a dizer que eu era preciosa para ele, que não teria conseguido criar a Remington Health Management sem a minha ajuda.

 

Que é que ele queria dizer com isso?

 

Devia estar a referir-se aos meus conhecimentos, creio eu. Os conhecimentos do meu pai. Jenna Whitehall foi uma grande ajuda. Era a Jenna Graham... provavelmente, recordas-te dela do liceu.

 

Recordo-me de Jenna. ”Outro membro do grupo importante”, pensou Fran. Foi a nossa directora de turma no último ano.

 

Isso mesmo. Fomos sempre a melhor amiga uma da outra. Jenna apresentou-me Gary e Cal numa recepção no clube de campo. Mais tarde, Cal tornou-se sócio de Gary e de Peter Black. Cal é um génio das finanças e conseguiu convencer algumas empresas importantes a aderirem à Remington. Sorriu. O meu pai também deu uma grande ajuda.

 

Vou querer falar com os dois Whitehalls declarou Fran. Ajudas-me a conseguir isso?

 

Sim, quero que fales com eles.

 

Fran hesitou.

 

Molly, vamos conversar sobre Annamarie Scalli. Onde está ela agora?

 

Não faço ideia. Sei que o bebé nasceu no Verão, depois da morte de Gary, e que foi dado para adopção.

 

Suspeitavas que Gary estava envolvido com outra mulher?

 

Nunca. Confiava plenamente nele. No dia em que descobri, estava no andar de cima e peguei no telefone para fazer uma ligação. Gary estava a falar e eu ia desligar, mas depois ouvi-o dizer: ”Annamarie, estás a ser histérica. Vou cuidar de ti e, se resolveres ficar com o bebé, eu apoio-te.”

 

Como é que ele parecia?

 

Zangado e nervoso. Quase em pânico.

 

Como é que Annamarie reagiu?

 

Disse uma coisa do género: ”Como é que posso ter sido tão estúpida?”, e desligou.

 

Que é que fizeste, Molly?

 

Fiquei chocada, assombrada. Desci as escadas a correr. Gary estava aqui, ao pé da secretária, preparado para sair para o emprego. Eu tinha conhecido a Annamarie no hospital. Confrontei-o com o que tinha escutado. Ele admitiu prontamente que se tinha envolvido com ela, mas disse que tinha sido uma coisa louca e disparatada e que lamentava profundamente. Estava quase em lágrimas e implorou-me que o perdoasse. Eu estava furiosa. Depois, ele teve de sair para o hospital. A última vez que o vi vivo foi quando lhe atirei com a porta depois de ele sair. Uma recordação bestial para o resto da vida, não é?

 

Amava-lo, não é verdade? perguntou Fran.

 

Amava-o, confiava nele e acreditava nele, ou, pelo menos, convenci-me disso. Agora não tenho tanta certeza; por vezes, duvido. Suspirou e abanou a cabeça. De qualquer maneira, tenho a certeza de que na noite em que voltei do Cape estava muito mais magoada e triste do que zangada. Enquanto Fran olhava, uma expressão de tristeza profunda e completa encheu os olhos de Molly. Ela apertou os braços em volta do peito e soluçou: Não percebes por que é que preciso de provar que não o matei?

 

Fran saiu alguns minutos depois. Todos os instintos lhe diziam que a explosão de Molly era a chave para a sua busca de exoneração. ”Isto é uma forma de protecção”, pensou. ”Ela amava o marido e fará qualquer coisa para arranjar alguém que lhe diga que existe uma possibilidade de não o ter matado. Acredito que na verdade ela não se lembra, mas continuo a pensar que o matou. É uma perda de tempo e dinheiro para a NAF-TV tentar levantar sequer uma dúvida consistente em relação à sua culpa.

 

”Vou dizer isso a Gus”, pensou, ”mas, antes de o fazer, vou descobrir tudo o que puder sobre Gary Lasch.”

 

Impulsivamente, desviou a caminho da Merritt Parkway para passar pelo Hospital Lasch, que tinha substituído a clínica particular fundada por Jonathan Lasch, o pai de Gary. Era para onde o seu pai tinha sido levado depois de ter dado um tiro em si próprio e onde morrera sete horas depois.

 

Ficou surpreendida ao ver que o hospital tinha agora o dobro do tamanho de que ela se recordava. Havia um semáforo do lado de fora da entrada principal e ela abrandou o carro o bastante para perder o sinal verde. Enquanto esperava frente ao sinal vermelho, observou as instalações, reparando nas alas que tinham sido acrescentadas à estrutura principal, no novo edifício do lado direito da propriedade, no parque coberto de estacionamento.

 

Com uma pontada de dor, procurou a janela da sala de espera no terceiro andar onde se lembrava de ter permanecido enquanto esperava notícias do pai, sabendo, instintivamente, que não havia ajuda que pudesse valer-lhe.

 

”Será um bom sítio para vir falar com as pessoas”, pensou Fran. O sinal mudou e cinco minutos depois encontrava-se no acesso para a Merritt Parkway. Enquanto conduzia para sul, pelo meio do tráfego fluido, pensou no facto de Gary Lasch se ter envolvido com Annamarie Scalli, uma jovem enfermeira do hospital, e de essa indiscrição irreflectida lhe ter custado a vida.

 

”Mas teria sido essa a sua única indiscrição?”, perguntou inesperadamente a si mesma.

 

O mais certo seria descobrir que provavelmente ele tinha cometido um erro colossal, como o seu pai, mas por outro lado era o cidadão ilustre, o médico competente e o fornecedor dedicado de cuidados de saúde que as pessoas conheciam e recordavam.

 

”E daí, talvez não”, pensou Fran, enquanto passava a linha estadual entre o Connecticut e Nova Iorque. ”Já ando nesta vida há tempo suficiente para esperar o inesperado.

 

Depois de ter acompanhado Fran Simmons à porta, Molly voltou para o escritório. Edna Bary foi ter com ela à uma e meia.

 

Molly, a menos que queira que faça alguma coisa, vou-me embora.

 

Não quero mais nada, obrigada, Sr.a Barry. Edna Barry parou à porta, indecisa.

 

Gostaria que me deixasse fazer-lhe o almoço antes de me ir embora.

 

Não tenho fome, a sério.

 

A voz de Molly estava rouca. Edna percebeu que ela tinha estado a chorar. A culpa e o medo que tinham assombrado Edna Barry, a toda a hora, naqueles quase seis anos, aprofundavam-se. ”Oh, Deus”, implorou ela. ”Por favor, compreende. Eu não podia fazer mais nada.”

 

Na cozinha, vestiu aparka e enrolou um lenço ao pescoço. Tirou o porta-chaves da bancada, contemplou-o durante alguns momentos e, com um gesto convulsivo, fechou a mão à volta dele.

 

Menos de vinte minutos depois estava na sua modesta casa ao estilo de Cape Cod, em Glenville. Wally, o filho de trinta anos, estava a ver televisão na sala de estar. Não tirou os olhos do aparelho quando ela entrou, mas, pelo menos, parecia calmo. ”Alguns dias, mesmo quando está sob o efeito de medicação, pode estar tão agitado”, pensou.

 

Como naquele domingo terrível em que o Dr. Lasch tinha morrido. Naquele dia, Wally estava muito zangado porque o Dr. Lasch lhe tinha ralhado, naquela semana, quando ele tinha ido lá a casa, entrado no escritório e pegado na escultura Remington.

 

Edna Barry tinha omitido um pormenor no relato do que acontecera naquele domingo de manhã. Não tinha dito à Polícia que a chave da casa dos Lasch não estava no chaveiro onde devia estar, que tinha entrado com a chave que Molly mantinha escondida no jardim e que mais tarde encontrara a chave perdida no bolso de Wally.

 

Quando o confrontara, ele tinha começado a chorar e correra para o quarto, atirando com a porta.

 

”Não fale sobre isso, mamã”, soluçara.

 

”Nunca, nunca devemos falar nisto a ninguém”, tinha-lhe dito ela com firmeza, e fizera-o prometer que não falaria. E ele nunca tinha falado, pelo menos até hoje.

 

Ela tinha tentado convencer-se desde sempre que provavelmente não passara de uma coincidência. Afinal de contas, tinha encontrado Molly cheia de sangue. As impressões digitais de Molly estavam na escultura.

 

Mas... e se Molly começasse mesmo a recordar-se de pormenores daquela noite?

 

E se na verdade ela tivesse visto alguém lá em casa?

 

”Wally teria estado lá? Como é que alguma vez poderei ter a certeza?”, perguntou a Sr.a Barry a si própria.

 

Peter Black conduziu pelas ruas escurecidas para a sua casa em Old Church Road. Em tempos tinha sido a cocheira de uma grande propriedade. Comprara-a durante o segundo casamento, que, como o primeiro, tinha terminado passados alguns anos. Porém, a segunda mulher, ao contrário da primeira, tinha um gosto refinado e, depois de o ter deixado, ele não fizera o menor esforço para mudar a decoração. A única alteração fora acrescentar um bar e fornecê-lo em abundância. A segunda mulher era abstémia.

 

Peter conhecera o falecido sócio, Gary Lasch, na Faculdade de Medicina, onde se tinham tornado amigos. Fora depois da morte do pai, o Dr. Jonathan Lasch, que Gary tinha feito uma proposta a Peter.

 

”A gestão dos cuidados de saúde é a nova onda da medicina”, dissera ele. ”A clínica sem fins lucrativos que o meu pai abriu não pode continuar assim. Vamos expandi-la, torná-la lucrativa, iniciar a nossa própria OCS.”

 

Gary, abençoado com um apelido distinto na medicina, tinha ocupado o lugar do pai como director da clínica, que mais tarde se transformou no Hospital Lasch. O terceiro sócio, Cal Whitehall, entrara para a empresa quando tinham fundado juntos a Remington Health Management Organization.

 

Agora, o Estado preparava-se para aprovar a aquisição pela Remington de uma série de OCS mais pequenas. Estava tudo a correr bem, mas o negócio ainda não tinha sido concluído. Tinham chegado ao último degrau da escada de corda. O único problema com que podiam deparar-se consistia no facto de que a American National Insurance também estava a lutar para adquirir essas empresas.

 

Porém, as coisas ainda podiam correr mal, pensou Peter enquanto estacionava diante da porta principal. Sabia que não pretendia voltar a sair nessa noite, mas estava frio e queria uma bebida. Pedro, o seu cozinheiro e mordomo de há muitos anos, arrumaria o carro mais tarde.

 

Peter entrou e foi directamente para a biblioteca. O aposento era sempre acolhedor, com a lareira acesa e a televisão sintonizada no canal de notícias. Pedro apareceu imediatamente e fez a pergunta de todas as noites:

 

O costume, senhor?

 

O costume era uísque escocês com gelo, excepto quando Peter resolvia mudar e pedia uísque americano ou vodca.

 

O primeiro uísque, bebericado lentamente e com deleite, começou a acalmar os nervos de Peter. Um pequeno prato de salmão fumado também apaziguou a leve sensação de fome. Só gostava de jantar no mínimo uma hora depois de chegar a casa.

 

Levou o segundo uísque consigo enquanto tomava duche. Levou o resto da bebida para o quarto, vestiu calças largas e uma camisa de caxemira de mangas compridas. Por fim, quase descontraído e já atenuada a sensação perturbadora de que algo estava a correr mal, desceu para o rés-do-chão.

 

Peter Black andava frequentemente com amigas. No seu renovado estado de solteiro era bombardeado com convites de mulheres atraentes e socialmente desejáveis. Nas noites em que estava sozinho em casa, normalmente, trazia um livro ou uma revista para a mesa. Aquela noite, no entanto, foi uma excepção. Enquanto comia espadarte assado com espargos ao vapor e bebericava um copo de Saint Emilion, ficou sentado em silenciosa reflexão, a pensar nas reuniões que ainda teria de fazer relacionadas com as fusões.

 

O toque do telefone na biblioteca não interrompeu o processo de pensamento. Pedro sabia o suficiente para dizer a quem quer que estivesse a ligar que ele retribuiria o telefonema mais tarde. Foi por isso que, quando Pedro entrou na sala de jantar com o telefone portátil na mão, Peter Black ergueu as sobrancelhas, aborrecido.

 

Pedro tapou o bocal e sussurrou:

 

Desculpe, Sr. Doutor, mas pensei que podia querer atender este telefonema. É a Sr.a Lasch. A Sr.a Molly Lasch.

 

Peter Black fez uma pausa e depois despejou um copo de vinho de um só gole sem dar a si mesmo o tempo do costume para saborear o gosto delicado e pegou no telefone. Tinha a mão a tremer.

 

Molly tinha dado a Fran uma lista de pessoas que ela poderia querer começar a entrevistar. O primeiro da lista era o sócio de Gary, o Dr. Peter Black. ”Ele nunca me disse uma palavra depois da morte de Gary”, contara-lhe ela.

 

Depois, Jenna Whitehall: ”Deves recordar-te dela de Cranden, Fran.”

 

O marido de Jenna, Cal: ”Quando eles precisaram de uma reserva de dinheiro para fundar a Remington, Cal arranjou o financiamento”, explicara ela.

 

O advogado de Molly, Philip Matthews: ”Toda a gente pensa que ele foi maravilhoso porque conseguiu uma pena leve e depois lutou por uma liberdade condicional rápida. Eu gostaria mais dele se pensasse que ele tinha ao menos uma ponta de dúvida em relação à minha culpa”, dissera.

 

Edna Barry: ”Tudo estava em perfeita ordem quando voltei para casa ontem. Foi quase como se os últimos cinco anos e meio nunca tivessem acontecido.”

 

Fran tinha pedido a Molly para falar com cada uma dessas pessoas e avisá-las que ela iria telefonar. Mas quando Edna Barry foi vê-la antes de sair, Molly não sentiu vontade de lhe mencionar o assunto.

 

Molly acabou por ir para a cozinha e espreitou para o frigorífico. Viu que a Sr.a Barry tinha parado na charcutaria antes de chegar. O pão de centeio com sementes de alcaravia, o presunto da Virgínia e o queijo suíço que ela tinha pedido estavam lá. Tirou-os, fez uma sanduíche com um prazer cuidado e depois abriu o frigorífico uma vez mais e encontrou a mostarda picante de que gostava.

 

”E umpickle”, pensou. ”Há anos que me apetece comer umpickle.” A sorrir inconscientemente, levou o prato para a mesa, fez uma chávena de chá e depois olhou em volta à procura do jornal local que não se tinha dado ao trabalho de abrir antes.

 

Estremeceu quando viu uma fotografia sua na primeira página. O título dizia: ”Molly Carpenter Lasch libertada após cinco anos e meio na prisão.” O relato relembrava os pormenores da morte de Gary, o acordo e a sua declaração de inocência junto aos portões da prisão.

 

De leitura mais penosa foi a reportagem sobre o passado da família. O artigo incluía um perfil dos avós, há muito pilares da sociedade de Greenwich e de Palm Beach, listando o que tinham conseguido e as suas obras de caridade. Também referia a sólida carreira de negócios do pai, a história distinta do pai de Gary na medicina e o modelo de organização de cuidados de saúde que Gary tinha fundado juntamente com o Dr. Peter Black.

 

”Todos boas pessoas, que conseguiram coisas impressionantes, e tudo é transformado em sumarenta coscuvilhice por minha causa”, pensou Molly. Já sem fome, empurrou a sanduíche para longe. Como acontecera antes naquele dia, a sensação de fadiga e sonolência estava a arrasá-la. O psiquiatra da prisão tinha-a medicado por causa de uma depressão e aconselhara-a a consultar o médico que a tratara enquanto aguardava julgamento.

 

Disse-me que gostava do Dr. Daniels, Molly. Disse que se sentia à vontade com ele, porque ele acreditava quando lhe dizia que não se recordava da morte de Gary. Não se esqueça, a fadiga extrema pode ser um sinal de depressão.

 

Enquanto esfregava a testa num esforço para afastar um princípio de dor de cabeça, lembrou-se de que gostava muito do Dr. Daniels e que devia ter incluído o nome dele na lista que dera a Fran. Talvez tentasse marcar uma consulta com ele. Mais importante, telefonar-lhe-ia para lhe dizer que, se Fran Simmons telefonasse, ele estava autorizado a falar livremente sobre ela.

 

Molly levantou-se da mesa, deitou o resto da sanduíche no triturador de lixo e começou a subir as escadas com a chávena de chá na mão. A campainha do telefone estava desligada, mas decidiu ir ouvir as mensagens que tinha no gravador.

 

Agora tinha um número de telefone confidencial, por isso, só algumas pessoas o conheciam. Isso incluía os pais, Philip Morris e Jenna. Jenna tinha telefonado duas vezes. ”Não me interessa o que dizes, Moll, vou aí esta noite”, dizia a mensagem. ”Levo o jantar às oito.”

 

”Quando ela cá estiver, vou ficar contente por vê-la”, reconheceu Molly, quando recomeçou a subir as escadas. No quarto, terminou o chá, descalçou os sapatos com uma sacudidela, deitou-se em cima da colcha e puxou-a para cima do corpo. Adormeceu imediatamente.

 

Teve sonhos fragmentados. Neles, estava em casa. Estava a tentar falar com Gary, mas ele não conseguia ouvi-la. Depois ouviu um som o que era? Se ao menos conseguisse reconhecê-lo, então, tudo ficaria claro. Aquele som. Aquele som. O que era?

 

Acordou às seis e meia e sentiu lágrimas a escorrerem-lhe pelas faces. ”Talvez seja um bom sinal”, pensou. Naquela manhã, quando falara com Fran, chorara pela primeira vez desde a semana que passara em Cape Cod há quase seis anos, onde não fizera nada a não ser chorar. Quando soubera que Gary estava morto fora como se algo tivesse secado dentro de si, tornando-se permanentemente árido. Daquele dia até ao dia de hoje não tinha tido lágrimas.

 

Levantou-se com relutância, lavou o rosto, penteou os cabelos e trocou as calças de ganga e a blusa de algodão por uma camisola e umas calças beges. Depois, resolveu pôr brincos e uma maquilhagem leve. Quando Jenna a visitara na prisão insistira para que ela usasse maquilhagem na sala de visitas. ”O melhor pé à frente, Moll; não te esqueças do nosso lema.”

 

De novo no andar de baixo, Molly acendeu o aquecimento a gás na saleta familiar ao lado da cozinha. ”Saleta familiar para uma família de uma pessoa”, pensou ela. Nas noites que estavam em casa, Gary e ela adoravam ver filmes antigos juntos. A colecção de filmes clássicos dele ainda enchia as prateleiras.

 

Pensou nas pessoas a quem tinha de telefonar para pedir que colaborassem com Fran Simmons. Estava insegura em relação a uma delas. Não queria telefonar a Peter Black para o escritório, mas queria que ele aceitasse falar com Fran, por isso decidiu telefonar-lhe para casa. E, ao invés de adiar, resolveu tratar do assunto nessa noite. Não, faria isso nesse mesmo momento.

 

Quase não pensara em Peter ao longo daqueles anos, mas quando ouviu a voz dele foi inundada pelas recordações dos jantares que Peter costumava dar. Muitas vezes incluíam apenas os seis Jenna e Cal, Peter e a mulher ou namorada da altura, ela própria e Gary.

 

Não culpava Peter por não querer ter nada a ver com ela. Sabia que, provavelmente, sentiria o mesmo se alguém magoasse Jenna. Velha amiga, melhor amiga. Era a litania que costumavam cantar uma para a outra.

 

Quase esperava ouvir dizer que Peter não podia atender e ficou surpreendida quando ouviu a sua voz. Hesitante, e depois rapidamente, Molly disse o que precisava de dizer:

 

Amanhã a Fran Simmons da NAF-TV vai telefonar para marcar um encontro contigo. Vai fazer uma reportagem para o programa Crime Verdadeiro sobre a morte de Gary. Não me importa o que dizes sobre mim, Peter, mas,porfavor, recebe-a. É bom avisar-te que a Fran disse que seria muito melhor se tivesse a tua colaboração, mas se isso não acontecer, ela arranjará maneira de contornar a situação.

 

Esperou. Após uma longa pausa, Peter Black disse calmamente:

 

Pensei que terias a decência de desaparecer muito discretamente, Molly. A sua voz estava tensa, embora as palavras fossem apenas levemente mal articuladas. Não achas que a reputação de Gary merece mais do que ter a história da Annamarie Scalli revivida? Pagaste um preço pequeno pelo que fizeste. Estou a avisar-te, tu vais ser a maior perdedora, se um reles programa de televisão reeditar o teu crime para a televisão nacional...

 

O clique do auscultador quando ele desligou foi praticamente afogado pelo toque da campainha da porta principal.

 

Nas duas horas seguintes, Molly sentiu que a sua vida estava quase normal de novo. Jenna tinha trazido não só o jantar como uma garrafa do melhor Montrachet de Cal. Bebericaram vinho na saleta íntima e depois comeram a refeição na mesma sala, à mesa do café. Jenna dominou a conversa, pois desvendou os planos que tinha feito para a amiga. Molly tinha de ir para Nova Iorque passar alguns dias no seu apartamento, ir às compras e ao novo salão de cabeleireiro fantástico que ela tinha descoberto, onde podia tratar de tudo na mesma altura.

 

Cabelos, rosto, unhas, corpo, tudo disse Jenna, triunfante. Eu já tinha pensado tirar algum tempo para estar contigo. Sorriu para Molly. Diz a verdade. Estou bastante bem, não achas?

 

Tu és um anúncio ambulante para o regime que estás a fazer, seja ele qual for concordou Molly. Qualquer dia faço o mesmo. Mas por agora, não.

 

Pousou o copo de pé alto.

 

Jen, a Fran Simmons esteve aqui hoje. Provavelmente, lembras-te dela. Ela andou em Cranden connosco.

 

O pai suicidou-se, certo? Foi o tipo que desviou todo aquele dinheiro da biblioteca.

 

Isso mesmo. Agora, ela é jornalista de investigação para a NAF-TV. Vai fazer um programa sobre a morte do Gary para o Crime Verdadeiro, um programa da estação.

 

Jenna Whitehall não tentou esconder o assombro.

 

Molly, não!

 

Molly encolheu os ombros.

 

Eu já esperava que nem sequer tu compreendesses, por isso, também não vais compreender o que te vou dizer a seguir. Jenna, eu preciso de ver Annamarie Scalli. Sabes onde ela está?

 

Tu és doida, Molly! Em nome de Deus, por que é que queres ver essa mulher? Quando pensas... A voz de Jenna apagou-se.

 

Quando penso que se ela não tivesse andado com o meu marido ele talvez estivesse vivo hoje? É isso que queres dizer... certo? Concordo, mas preciso de a ver. Ela continua a viver na cidade?

 

Não faço a menor ideia de onde ela está. Segundo sei, aceitou aquele dinheiro do Gary, saiu da cidade e nunca mais ninguém ouviu falar dela. Teria sido chamada para testemunhar no julgamento, mas depois do acordo não foi necessário.

 

Jen, quero que peças ao Cal para pôr os seus homens à procura dela. Todos sabemos que Cal pode fazer qualquer coisa, ou, pelo menos, mandar alguém fazer por ele.

 

A atitude ”posso fazer” de Cal era uma espécie de piada entre elas há já muitos anos. Porém, Jenna não se riu.

 

É melhor não disse ela, com a voz de súbito tensa. Molly pensou que compreendia o motivo da relutância de Jenna.

 

Jenna, tens de compreender uma coisa. Eu paguei o preço pela morte do Gary, quer tenha sido responsável por ela quer não. Acredito que neste ponto ganhei o direito de saber o que aconteceu exactamente naquela noite e porquê. Preciso de tentar compreender as minhas próprias acções e reacções. Talvez depois disso consiga continuar a viver. Tenho de tentar construir para mim uma coisa que se assemelhe a uma vida normal.

 

Molly levantou-se, foi para a cozinha e voltou com o jornal da manhã.

 

Talvez tenhas visto isto. É o género de coisa que me seguirá até ao fim da vida.

 

Eu vi. Jenna afastou o jornal e pegou nas mãos de Molly. Molly, um hospital, como uma pessoa, pode perder a sua reputação devido a um escândalo. Todas as histórias acerca da morte do Gary, incluindo a revelação do caso amoroso com uma jovem enfermeira, seguido pelo teu julgamento, foi muito prejudicial para o Hospital Lasch. O hospital está a fazer um bom trabalho na comunidade e a Remington Health Management está a prosperar numa época em que muitas outras OCS estão com grandes problemas. Por favor, para teu bem, para bem do hospital, desmarca tudo com Fran Simmons e esquece a ideia de encontrar Annamarie Scalli.

 

Molly abanou a cabeça.

 

Pensa bem no assunto, Molly insistiu Jenna. Escuta, sabes que vou apoiar-te faças o que fizeres, mas, por favor, pelo menos pensa no Plano A.

 

Vamos à cidade e eu mudo de visual. Certo? Jenna sorriu.

 

Isso mesmo. Levantou-se. Muito bem, é melhor ir andando. Cal está à minha espera.

 

De braço dado, dirigiram-se para a porta principal. Com a mão no puxador, Jenna hesitou e depois disse:

 

Às vezes gostaria que estivéssemos novamente em Cranden e começássemos tudo de novo, Moll. Nessa altura a vida era muito mais fácil. Cal é diferente de nós. Não se rege pelas mesmas normas. Qualquer coisa ou qualquer pessoa que o fizer perder dinheiro torna-se o inimigo.

 

Incluindo eu? perguntou Molly.

 

Receio que sim. Jenna abriu a porta. Adoro-te, Molly. Não te esqueças de fechar tudo e de ligar o alarme.

 

 

Tim Mason, o apresentador desportivo de trinta e seis anos da NAF-TV, estava de férias quando Fran começou a trabalhar na estação. Criado em Greenwich, tinha vivido lá durante algum tempo depois da universidade, quando trabalhara durante um ano como repórter no Greenwich Time. Fora nessa altura que compreendera que queria fazer jornalismo desportivo, por isso mudara para um jornal no Estado de Nova Iorque.

 

Um ano depois, começara a trabalhar na estação de televisão local e, ao longo dos doze anos seguintes, uma progressão de vários empregos levara-o à sua grande oportunidade, a secção desportiva na NAF. Ali, o programa noticioso nocturno de uma hora já estava a subir de forma impressionante nos tops de audiências das três estações principais, e Tim Mason depressa ficou conhecido como o melhor dos comentadores desportivos da nova geração.

 

Alto e com feições irregulares que lhe conferiam uma aparência de rapaz, afável e descontraído por natureza, Tim transformava-se numa personalidade de classe A quando observava ou debatia um acontecimento desportivo, e essa imagem criava um laço com os ardentes fãs de desportos por todo o lado.

 

Quando passou pelo gabinete de Gus Brandt na tarde em que voltou de férias, encontrou Fran Simmons pela primeira vez. Ela ainda tinha o casaco vestido e estava a relatar a Gus a visita que fizera nessa manhã a Molly Lasch.

 

”Eu conheço-a”, pensou Tim, ”mas de onde?”

 

O seu prodigioso banco de memória forneceu-lhe instantaneamente os factos que procurava. Tinha começado a trabalhar no Time em Greenwich no mesmo Verão em que o pai de Fran Simmons, Frank, confrontado com a descoberta de que tinha desviado fundos da biblioteca, se suicidara. A coscuvilhice em Greenwich dizia que ele era um alpinista social que usara o dinheiro para tentar fazer um bom negócio na Bolsa de Valores. Porém, o escândalo morrera rapidamente depois de a mulher e a filha de Simmons terem saído de Greenwich quase imediatamente a seguir à tragédia.

 

Ao olhar para a mulher atraente em que ela se tinha tornado, Tim teve a certeza de que Fran não o devia reconhecer, mas ficou curioso por saber em que género de pessoa se teria transformado. Trabalhar como jornalista de investigação no caso de Molly Lasch em Greenwich não seria uma coisa que ele tivesse escolhido fazer, se estivesse no lugar dela. Mas claro que não estava, e não fazia ideia de como Fran Simmons se sentia em relação ao suicídio do pai.

 

”Aquele pulha deixou a mulher e a filha adolescente entregues aos lobos”, pensou Tim. ”Simmons escolheu o caminho da cobardia.” Tim tinha a certeza de que era uma coisa que não teria feito. Naquela situação, teria tirado a mulher e a filha da cidade, e depois enfrentado as consequências do seu acto.

 

Ele tinha feito a reportagem do funeral para o Time, e recordava-se de ver Fran e a mãe a saírem da igreja depois da missa. Na época, ela era uma miúda, com olhos abatidos e cabelos compridos que lhe cobriam o rosto. Agora, Fran Simmons era extremamente atraente, e ele descobriu que tinha um aperto de mão firme, um sorriso caloroso e uma forma especial de olhar directamente para os seus olhos. Sabia que ela não podia ler os seus pensamentos, não podia saber que ele tinha estado a reviver mentalmente o escândalo do pai dela, mas no breve instante do aperto de mão, Tim sentiu-se culpado e pouco à vontade.

 

Pediu desculpa por tê-los interrompido.

 

Normalmente, a esta hora, Gus está sozinho, a tentar decidir o que vai correr mal com o noticiário. Virou-se para sair, mas Fran impediu-o.

 

Gus disse-me que a sua família viveu em Greenwich e que você cresceu lá disse ela. Conheceu os Lasches?

 

”Por outras palavras”, pensou Tim, ”ela está a dizer: eu sei que tu sabes quem eu sou e que sabes tudo sobre o meu pai, por isso, vamos esquecer isso.”

 

O Dr. Lasch, quero dizer, o pai de Gary, era o nosso médico de família disse. Um homem simpático e um bom médico.

 

E quanto a Gary? perguntou Fran, rapidamente. Os olhos de Tim endureceram.

 

Um médico dedicado disse, terminantemente. Cuidou maravilhosamente bem da minha avó antes de ela falecer no Hospital Lasch. Isso aconteceu poucas semanas antes da sua própria morte.

 

Tim não acrescentou que, quando a avó estivera doente, a enfermeira de serviço que cuidava dela com frequência era Annamarie Scalli.

 

Lembrava-se de que Annamarie, uma jovem bonita, era uma enfermeira óptima e uma miúda simpática, apesar de pouco sofisticada. A avó gostava imenso dela. De facto, Annamarie estava no quarto com a avó quando esta falecera. ”Quando lá cheguei”, pensou Tim, ”a avó tinha morrido e a Annamarie estava sentada junto à cama dela a chorar. Quantas enfermeiras reagiriam assim?”, perguntou a si mesmo.

 

Tenho de ir ver o que se passa na minha secção anunciou. Falo contigo mais tarde, Gus. Prazer em conhecê-la, Fran.

 

Com um aceno, saiu do gabinete e percorreu o corredor. Não achava justo dizer a Fran como a sua opinião sobre Gary Lasch mudara totalmente depois de saber do envolvimento dele com Annamarie Scalli.

 

”Ela não passava de uma criança”, pensou Tim, zangado, ”e de certa forma não era diferente de Fran Simmons, vítima do egoísmo de outra pessoa. Tinha sido obrigada a abandonar o emprego e a sair da cidade. O julgamento de homicídio atraíra a atenção do país inteiro, e durante algum tempo ela estivera em todas as colunas de mexericos.”

 

Perguntou a si mesmo onde estaria Annamarie agora e preocupou-se fugazmente com a possibilidade de a investigação de Fran Simmons poder prejudicar a vida nova que talvez tivesse construído para si própria.

 

Annamarie Scalli desceu rapidamente o quarteirão para a casa modesta em Yonkers, onde começava a ronda diária de cuidados domiciliares a pessoas idosas. Depois de mais de cinco anos a trabalhar para o serviço de enfermagem ao domicílio tinha feito as pazes com a sua vida, pelo menos até certo ponto. Já não sentia a falta da enfermagem de hospital que em tempos adorara. Já não olhava todos os dias para a fotografia do filho que tinha dado à luz. Após cinco anos, tinha chegado à conclusão de que os pais adoptivos já não tinham de lhe mandar uma fotografia anual. Havia meses que recebera a última fotografia do rapazinho que estava a crescer para ser a imagem do pai, Gary Lasch.

 

Agora usava o nome de solteira da mãe, Sangelo. O seu corpo estava mais forte e, como a mãe e a irmã, vestia agora tamanho 42. Os cabelos escuros que costumavam dar-lhe pelos ombros estavam agora cortados curtos à volta do rosto em forma de coração. Aos vinte e nove anos, parecia ser o que era na realidade competente, prática, bondosa. Nada na sua aparência fazia lembrar a curvilínea ”outra mulher” do caso de homicídio do Dr. Gary Lasch.

 

Annamarie tinha visto no noticiário da noite a reportagem de Molly Lasch a fazer a sua declaração à imprensa. A visão da Prisão Niantic ao fundo tinha-a deixado quase fisicamente doente. Desde então era assombrada pela recordação daquele dia, há três anos, em que uma necessidade desesperada a fizera passar pela prisão. Tinha tentado visualizar-se igualmente lá dentro.

 

É onde eu devia estar sussurrou ferozmente para si própria enquanto subia os degraus de cimento estalados para a casa do Sr. Olsen. Mas ao passar de carro pela prisão naquele dia tinha perdido a coragem e fora directamente para casa, para o seu pequeno apartamento em Yonkers. Fora a única vez que estivera perto de telefonar para aquele advogado paternal que tinha sido seu paciente no Hospital Lasch e pedir-lhe que a ajudasse a entregar-se ao delegado do Ministério Público.

 

Enquanto tocava a campainha do Sr. Olsen e depois entrava com a sua chave e dizia um caloroso ”bom dia”, Annamarie teve a sensação terrível de que o interesse renovado no homicídio Lasch traria inevitavelmente consigo um interesse renovado em encontrá-la. E não queria que isso acontecesse.

 

Tinha medo de que isso acontecesse.

 

Calvin Whitehall passou pela secretária de Peter Black, ignorando-a, e abriu a porta do imponente gabinete de Peter. Black levantou os olhos dos relatórios que estava a ler.

 

Chegaste cedo.

 

Não cheguei nada atirou Whitehall. Jenna esteve com Molly a noite passada.

 

Molly teve a lata de me telefonar para avisar que era bom que eu estivesse disponível para Fran Simmons, aquela jornalista daNAF. Jenna falou-te no programa do Crime Verdadeiro que a Simmons está a fazer sobre Gary?

 

Calvin Whitehall acenou afirmativamente. Os dois homens olharam um para o outro de lados opostos da secretária.

 

Há pior disse Whitehall, rispidamente. Molly parece estar determinada a localizar a Annamarie Scalli.

 

Black empalideceu.

 

Então, sugiro que encontres uma maneira de a fazer ir à caça de gambuzinos disse ele, calmamente. Neste caso, a bola está no teu campo. E é melhor tratares do assunto com cuidado. Não preciso de te recordar o que isto pode significar para os dois.

 

Zangado, espalhou os processos que tinha estado a analisar pela secretária.

 

Todos estes são processos novos de potencial negligência médica.

 

Arrasa-os!

 

É o que pretendo fazer.

 

Cal Whitehall observou o sócio, reparando no ligeiro tremor da mão de Peter Black, nos capilares rebentados nas faces e no queixo. Com um frio desagrado patente no tom de voz, disse:

 

Temos de deter aquela jornalista e de manter Molly longe da Annamarie. Entretanto, é melhor tomares uma bebida.

 

No instante em que conheceu Tim Mason, Fran soube que ele estava a par do seu passado. ”O melhor é habituar-me a isso”, pensou. ”Vou ver essa reacção vezes sem conta nas pessoas de Greenwich. Tudo o que têm de fazer é somar dois mais dois. Fran Simmons? Espere um pouco. Simmons. O olhar especulativo. Porque é que esse nome me parece conhecido? Oh, é claro. O pai dela foi aquele que...”

 

Não dormiu bem naquela noite e estava a sentir-se um lixo quando chegou ao escritório na manhã seguinte. Um lembrete imediato dos seus sonhos perturbados estava à sua espera em cima da secretária uma mensagem de Molly Lasch, dando o nome do psiquiatra que a tinha tratado durante o julgamento: ”Telefonei ao Sr. Daniels. Agora, ele está semi-reformado, mas não se importa de te receber. O consultório dele fica na Greenwich Avenue”, dizia a mensagem.

 

Dr. Daniels; o advogado de Molly, Philip Matthews; o Dr. Peter Black; Calvin e Jenna Whitehall; Edna Barry, a governanta que Molly tinha voltado a contratar estas eram as pessoas que Molly sugerira que ela contactasse como ponto de partida para a investigação, mas Fran também tinha outras pessoas em mente. Annamarie Scalli, por exemplo.

 

Pegou na mensagem de Molly e observou-a. ”Vou começar pelo

 

Dr. Daniels”, decidiu.

 

John Daniels tinha sido contactado por Molly Lasch e estava à espera do telefonema de Fran. Sugeriu prontamente que se ela quisesse aparecer nessa tarde ele poderia recebê-la. Embora já tivesse feito setenta e cinco anos e estivesse semi-reformado, não tinha conseguido abandonar por completo a profissão, apesar da insistência da mulher. Havia demasiadas pessoas que ainda dependiam dele e que ele podia ajudar.

 

Uma das poucas que sentia que não conseguira ajudar fora Molly Carpenter Lasch. Conhecia-a desde que ela era criança e por vezes ia jantar ao clube com os pais dela. Ela tinha sido uma menina linda, impecavelmente delicada e com uma compostura demasiado grande para a idade. Nada no seu comportamento ou na bateria de testes que lhe tinha feito depois da detenção sugeriam que talvez fosse capaz do acesso de violência que resultara na morte de Gary Lasch.

 

A recepcionista, Ruthie Roitenberg, estava com ele há vinte e cinco anos e, com o privilégio da longevidade no emprego, tinha o direito de declarar as suas opiniões francas e de contar todos os mexericos. Foi ela que, depois de ser informada de que Fran Simmons era esperada às duas horas, disse:

 

Doutor, sabe de quem é que ela é filha?

 

É suposto eu saber? perguntou Daniels, brandamente.

 

Lembra-se daquele homem que roubou o dinheiro todo do fundo da biblioteca e depois se suicidou? Fran Simmons é filha dele. Andou na Academia Cranden com a Molly Carpenter.

 

John Daniels não a deixou perceber o quanto estava espantado com a notícia. Recordava-se bem de mais de Frank Simmons. Ele próprio tinha doado dez mil dólares para o fundo da biblioteca. Afinal de contas, tinha sido dinheiro deitado ao lixo, graças a Frank Simmons.

 

Molly não disse nada. Deve ter achado que não era importante. A sua suave reprovação passou despercebida.

 

Se eu estivesse no lugar dela, tinha mudado de nome disse Ruthie. A propósito, acho que Molly seria esperta se mudasse de nome, saísse daqui e começasse de novo. Sabe, doutor, toda a gente pensa que seria muito melhor se, ao invés de complicar novamente a vida de toda a gente, ela tivesse saído e dito o quanto lamentava ter assassinado o pobre homem.

 

E se existir outra explicação para a morte dele?

 

Doutor, qualquer pessoa que acredite nisso ainda procura debaixo da almofada para ver se a fada dos dentes deixou uma moeda.

 

Fran não estava destacada para aparecer nos noticiários até à noite, por isso pôde passar a manhã no escritório a preparar entrevistas. Depois de terminar, comprou uma sanduíche e uma gasosa para comer no carro e partiu para Greenwich quando passavam quinze minutos do meio-dia. Saiu cedo, para ter tempo para dar uma volta de carro pela cidade e rever os lugares que conhecera quando lá vivia antes do encontro com o Dr. Daniels.

 

Em menos de uma hora chegou aos arredores de Greenwich. Durante a noite tinha caído uma leve camada de neve, e as árvores, os arbustos e os relvados brilhavam sob o último sol de Inverno.

 

”É um lugar encantador”, pensou Fran. ”Não posso culpar o pai por querer fazer parte dele.” Bridgeport, onde o pai tinha crescido, ficava apenas a uma hora para norte, mas havia um mundo de diferença nos estilos de vida dos dois lugares.

 

A Academia Cranden situava-se em Round Hill Road. Passou lentamente pelo campus, admirando os edifícios de pedra húmida, recordando os anos que passara ali, pensando nas raparigas que tinha conhecido melhor e nas que conhecera apenas de longe. Uma delas era Jenna Graham, que era agora Jenna Whitehall. ”Ela e a Molly estavam sempre juntas”, pensou Fran, ”embora fossem muito diferentes. Jenna era muito mais decidida e extrovertida, ao passo que Molly era bastante reservada.”

 

Com um carinho súbito pensou em Bobbitt Williams, que jogara com ela na equipa de basquetebol. ”Será possível que ainda viva cá?”, perguntou Fran a si própria. ”Também era uma boa executante musical”, recordou, ”tentou obrigar-me a ter aulas de piano com ela, mas eu disse-lhe que era uma nulidade. O Senhor deixou o talento musical fora dos meus genes.”

 

Quando virou o carro para a Greenwich Avenue, Fran apercebeu-se com um sobressalto de que queria genuinamente procurar algumas das velhas amigas de escola, pelo menos aquelas de que se recordava com carinho, como Bobbitt. ”A mãe e eu nunca falámos naqueles quatro anos que vivemos aqui, mas eles existiram, e talvez tenha chegado a altura de eu reconhecer isso”, pensou. ”Havia muitas pessoas aqui de quem gostei realmente; talvez ver algumas delas seja terapêutico para mim.

 

”Quem sabe?”, pensou, enquanto olhava de relance para o bloco de apontamentos para verificar a morada do Dr. Daniels, ”Talvez um dia consiga vir a esta cidade sem reviver a raiva e embaraço terríveis que senti desde que me apercebi de que o meu pai foi um patife.”

 

O Dr. John Daniels escoltou Fran para o seu gabinete privado, sempre seguidos pelo olhar observador de Ruthie. Gostou imediatamente do que viu em Fran Simmons uma jovem mulher calma e com voz suave, bem vestida, num estilo descontraído.

 

Por baixo da gabardina, Fran usava um casaco de tweed castanho e calças beges. Os cabelos castanho-claros com uma ondulação natural tocavam a gola do casaco. O Dr. Daniels observou-a atentamente quando ela se instalou na cadeira defronte dele. Ela era realmente muito atraente. Eram os seus olhos, no entanto, que o intrigavam verdadeiramente tinham um tom muito invulgar de azul-acinzentado. ”Ficam mais azuis quando está feliz, ficam cinzentos quando está tensa”, pensou. Percebeu inesperadamente que estava a ficar um pouco sonhador de mais e abanou a cabeça. Não conseguia deixar de admitir para si mesmo que estava a observar Fran Simmons tão atentamente por causa do que Ruthie tinha revelado sobre o pai dela. Esperava que ela não tivesse reparado.

 

Doutor, sabe que estou a planear fazer um programa sobre Molly Lasch e a morte do marido disse Fran, quase imediatamente, indo direita ao assunto. Sei que a Molly lhe deu autorização para falar abertamente comigo.

 

Isso mesmo.

 

Ela era sua paciente antes da morte do marido?

 

Não, não era. Eu conhecia os pais dela, principalmente do clube de campo. Via a Molly lá desde que ela era uma criança.

 

Alguma vez, em algum momento, observou um comportamento agressivo nela?

 

Nunca.

 

Acredita nela quando ela diz que é incapaz de se recordar dos pormenores da morte do marido? Deixe-me refazer a pergunta, por favor. Acredita que ela não consegue lembrar-se dos pormenores da morte do marido ou de o ter encontrado quando ele estava moribundo ou morto?

 

Acredito que a Molly está a dizer a verdade como ela a conhece.

 

Que quer dizer...?

 

O que quer dizer que o que quer que tenha acontecido naquela noite é tão doloroso que ela o empurrou para o fundo do subconsciente. Alguma vez vai recordar? Não sei.

 

Se ela recuperar mesmo alguma recordação do que aconteceu naquela noite... por exemplo, sobre a sua sensação de que podia estar mais alguém lá em casa quando ela voltou... será uma lembrança exacta?

 

John Daniels tirou os óculos e limpou-os. Voltou a pô-los, apercebendo-se, ao fazê-lo, de que, por muito ridículo que pudesse parecer, se tinha tornado tão dependente deles que não os usar o fazia sentir-se vulnerável.

 

Molly Lasch sofre de amnésia dissociativa. Isso envolve falhas de memória que estão relacionadas com acontecimentos extremamente tensos e traumáticos. Obviamente, a morte do marido, independentemente da forma como tiver acontecido, encaixa nessa categoria.

 

” Algumas pessoas que sofrem deste problema reagem bem à hipnose e conseguem recuperar a memória do acontecimento de uma forma significativa e muitas vezes fiel. Molly concordou de bom-grado submeter-se à hipnose antes do julgamento, mas simplesmente não resultou. Pense nisso. Ela estava emocionalmente devastada pela morte do marido e aterrorizada pela iminência do julgamento, ou seja, demasiado angustiada e frágil para poder ser hipnotizada com sucesso.

 

Existe alguma hipótese de ela recuperar gradualmente a memória exacta das coisas, doutor?

 

Gostaria de poder dizer que ela tem boa hipótese de recuperar a memória e de limpar o seu nome. Para ser honesto, penso que o que quer que ela possa vir a recordar não será necessariamente digno de confiança. Se Molly parecer recuperar alguma noção do que aconteceu naquela noite, é muito possível que esteja a preencher a memória com o que deseja que tenha acontecido. Ela pode acreditar honestamente que está mesmo a recordar o que aconteceu, mas isso não significará necessariamente que aconteceu mesmo dessa maneira. É chamada ”falsificação retrospectiva da memória”.

 

De volta ao seu carro depois de sair do consultório do Dr. Daniels, Fran sentou-se durante vários minutos a tentar decidir o próximo passo. Eram três e um quarto. Os escritórios do Greenwich Time ficavam apenas a alguns quarteirões de distância. De repente, pensou em Joe Hutnik. Ele trabalhava lá; tinha feito a cobertura da libertação de Molly da prisão. Tinha sido inflexível ao declarar que acreditava que ela era culpada. ”Também terá feito a cobertura do julgamento dela?”, perguntou a si mesma.

 

”Parece um tipo recto”, pensou Fran, ”e sem dúvida já anda nisto há muito tempo.

 

”Talvez demasiado tempo. Talvez ele também tenha feito a cobertura da história do teu pai. Queres realmente lidar com isso?”

 

Lá fora, o último sol de Inverno começava a desaparecer à medida que as nuvens densas e cinzentas se amontoavam. ”Março, o mês imprevisível”, pensou Fran, enquanto continuava a hesitar sobre o que fazer a seguir. ”Por que não arriscar?”, decidiu por fim, pegando no telemóvel.

 

Quinze minutos depois estava a apertar a mão a Joe Hutnik. Ele estava no seu gabinete junto à sala de redacção cheia de computadores do Greenwich Time. Com cerca de cinquenta anos, sobrancelhas largas e escuras e olhos alerta e inteligentes, indicou-lhe um banco de tamanho minúsculo, metade do qual albergava uma pilha de livros.

 

Que é que a traz ao ”Portal para a Nova Inglaterra”, como a nossa bela cidade é conhecida, Fran? Não esperou por uma resposta. Não, deixe-me adivinhar. Molly Lasch. Diz-se que está a fazer um programa sobre ela para o Crime Verdadeiro.

 

As novidades correm depressa de mais para o meu gosto disse-lhe Fran. Podemos ser francos um com o outro, Joe?

 

Claro que sim. Desde que não me custe uma primeira página. Fran ergueu as sobrancelhas.

 

Você é cá dos meus. Pergunta: fez a cobertura do julgamento de Molly?

 

Quem não fez? Foi numa época com poucas notícias, e ela preencheu-a para todos nós.

 

Joe, eu posso tirar todas as informações de que preciso da Internet, mas, por muitos testemunhos que leia, é muito mais fácil avaliar a verdade quando conseguimos ver o comportamento das testemunhas, especialmente no contra-interrogatório. Obviamente, você pensou que a Molly Lasch matou o marido.

 

Absolutamente.

 

Pergunta seguinte. Que é que pensava do Dr. Gary Lasch? Joe Hutnik recostou-se na cadeira da secretária, a girar de um lado para o outro enquanto pensava na resposta. Depois, disse lentamente:

 

Fran, eu vivi em Greenwich a vida inteira. A minha mãe tem setenta e seis anos. Ela conta a história de quando a minha irmã teve pneumonia há quarenta anos. Tinha três meses de idade. Naqueles tempos, os médicos iam a casa das pessoas. Era a visita ao domicílio. Não se dizia às pessoas que embrulhassem os miúdos e os levassem às Urgências, certo?

 

Hutnik parou de girar a cadeira e dobrou as mãos na secretária.

 

Vivíamos no cimo de uma ladeira íngreme. O Dr. Lasch, Jonathan Lasch, quero dizer, o pai de Gary, não conseguiu levar o carro pela ladeira. As rodas não paravam de patinar. Ele deixou o carro e subiu com neve pelos joelhos até à nossa casa. Isso aconteceu às onze horas da noite. Lembro-me de o ver debruçado sobre a minha irmã. Tinha-a sob uma luz forte, deitada em cobertores em cima da mesa da cozinha. Deu-lhe uma injecção dupla de penicilina e certificou-se de que estava a respirar sem dificuldade e de que a febre tinha baixado antes de ir para casa. De manhã voltou novamente para ver como estava.

 

Gary Lasch era esse género de médico? perguntou Fran. Hutnik pensou um momento antes de responder.

 

Ainda existem bastantes médicos dedicados em Greenwich, e em todo o lado, presumo. Gary Lasch era um deles? Honestamente, não sei a resposta para essa pergunta, Fran, mas, pelo que ouvi, ele e o sócio, o Dr. Peter Black, estavam mais voltados para a vertente financeira da medicina e talvez um pouco menos para a prestação de cuidados propriamente dita.

 

Parece que foram muito bem sucedidos. O Hospital Lasch duplicou de tamanho desde que o vi pela última vez comentou Fran. Esperava que a sua voz se mantivesse firme.

 

Desde que o seu pai morreu lá disse Hutnik, rapidamente. Escute, Fran, eu ando por aqui há muito tempo. Conheci o seu pai. Ele era um homem bom. É escusado dizer que, tal como muitos outros residentes, não fiquei encantado ao ver todos os donativos desaparecerem da forma que desapareceram. Aquele dinheiro ia construir uma biblioteca numa das zonas menos ricas da nossa cidade, para os miúdos poderem frequentá-la facilmente.

 

Fran estremeceu e desviou o olhar.

 

Desculpe disse Hutnik. Eu não devia ter falado no assunto. Vamos cingir-nos ao Gary Lasch. Depois de o pai morrer, ele trouxe o amigo médico para junto dele, o Dr. Peter Lasch, de Chicago. Transformaram a Clínica Jonathan Lasch no Hospital Lasch. Deram início à Remington Health Management Organization, que é uma OCS realmente bem sucedida.

 

Qual é a sua opinião sobre as organizações de prestação de cuidados de saúde em geral? perguntou Fran.

 

Concordo com o que a maioria das pessoas pensam. São um nojo. Mesmo as melhores... e penso que a Remington se pode enquadrar nessa categoria. Estão a pôr os médicos entre a espada e a parede. A maior parte dos médicos têm de pertencer a um ou mais planos de prestação de cuidados de saúde, o que significa, é claro, que os seus diagnósticos estão sujeitos a revisão e que se pensam que um paciente precisa de ser visto por um especialista o seu julgamento pode ser anulado. Para além disso, os médicos são obrigados a esperar pelo seu dinheiro, quero dizer, até ao ponto de muitos deles ficarem numa posição financeira difícil. Os pacientes estão a ser mandados para instalações longínquas apenas para os desencorajarem a fazer demasiadas visitas. E na época em que existem medicamentos e tratamentos para facilitar as vidas das pessoas, os tipos que decidem se a pessoa tem direito a tratamento são os que ganham dinheiro se a pessoa não os fizer. Grande progresso, não lhe parece?

 

Joe abanou a cabeça, indignado.

 

Neste momento, a Remington Health Management, nas pessoas do director executivo, o Dr. Peter Black, e do presidente do Conselho de Administração, Cal Whitehall, o nosso magnata residente, estão a negociar com o Estado para obterem autorização para comprar quatro OCS mais pequenas. Se isso acontecer, as acções da empresa vão subir como uma flecha. Há algum problema com isso? Na verdade, não. Excepto que a American National Insurance também gostaria de ficar com as OCS mais pequenas, e fala-se que também podem tentar uma compra hostil da Remington.

 

É provável que isso aconteça?

 

Quem sabe? Provavelmente, não. A Remington Health Management e o Hospital Lasch têm uma boa reputação. Recuperaram do escândalo que envolveu o assassinato do Dr. Gary Lasch e da revelação que ele tinha um caso amoroso com uma jovem enfermeira, mas tenho a certeza de que Peter Black e Cal Whitehall gostariam de ver o novo negócio concretizado antes de a Molly Lasch voltar para a cidade com a sugestão de que a história do assassinato do doutor é mais complicada do que o que se soube inicialmente.

 

Que género de ”história mais complicada” é que poderia afectar uma fusão? perguntou Fran.

 

Joe encolheu os ombros.

 

Querida, por estranho que pareça, a escumalha está a ser afastada, pelo menos temporariamente. A American National é dirigida por um antigo bastonário da Ordem dos Médicos que jura que vai reformar as organizações de prestação de cuidados de saúde. A Remington continua a ter mais força na aquisição, mas vivemos num mundo louco, qualquer ventania fria pode gelar a colheita. E a menor possibilidade de escândalo pode desfazer o negócio.

 

”Não posso contar com ninguém”, foi o primeiro pensamento de Molly ao acordar. Olhou de relance para o relógio. Seis e dez. ”Nada mau”, decidiu. Tinha ido para a cama pouco depois de Jenna sair e isso significava que dormira sete horas.

 

Na prisão havia muitas noites em que não dormia nada, em que o sono era como uma pedra de gelo a fazer pressão entre os olhos enquanto ela desejava que derretesse e escorresse pelo seu corpo.

 

Espreguiçou-se e deixou o braço esquerdo tocar a almofada vazia ao seu lado. Nunca tinha vizualizado Gary ao seu lado na estreita cama da prisão, mas agora estava constantemente consciente da sua ausência, mesmo após todos aqueles anos. Era como se todo aquele tempo não tivesse passado de uma sequência de sonho. Sonho? Não, pesadelo!

 

Tinha-se sentido tão completamente unida com ele. ”Fomos unidos pela anca”, era a sua expressão preferida nessa época. Teria andado a iludir-se?

 

”Naquele tempo, eu parecia presunçosa e convencida”, pensou Molly, ”e talvez fosse. Obviamente, também fui estúpida.” Sentou-se na cama, completamente acordada. ”Tenho de saber”, pensou. ”Quanto tempo é que durou aquele caso amoroso com a enfermeira? Durante quanto tempo é que a minha vida com Gary foi uma mentira?”

 

Annamarie Scalli era a única pessoa que podia dar-lhe as respostas de que ela precisava.

 

Às nove horas telefonou para o escritório de Fran Simmons e deixou o nome do Dr. Daniels. Às dez telefonou para Philip Matthews. Só tinha estado no escritório dele algumas vezes, mas conseguia visualizá-lo com clareza. Do seu gabinete do World Trade Center via-se a estátua da Liberdade. Quando lá estivera a ouvi-lo planear a sua defesa, aquilo tinha-lhe parecido incongruente clientes em risco de ir para a prisão a observar o símbolo da liberdade.

 

Molly recordou-se de comentar isso com Philip, e ele dissera que considerava que ver a estátua podia funcionar como um prenúncio: quando aceitava um cliente, o seu objectivo era a liberdade para ele.

 

Molly achou que Philip podia muito bem ter a última morada de Annamarie Scalli, porque ela tinha sido intimada para testemunhar no julgamento. Pelo menos, seria um lugar por onde começar.

 

Philip Matthews tinha estado indeciso quanto a telefonar ou não a Molly, por isso, quando a secretária anunciou o telefonema ele pegou rapidamente no auscultador. Desde o momento que saíra da prisão que ela lhe consumia os pensamentos. O facto de duas noites antes ter estado num jantar em que o entretenimento era saber o futuro não tinha ajudado em nada. Como era um convidado, não havia maneira de evitar participar nos jogos, embora colocasse todas as adivinhações do futuro leitura da palma da mão, astrologia, cartas de tarot, tabuleiros Ouija na mesma categoria: charlatanice.

 

Mas a verdade é que a vidente o tinha deixado apreensivo. Tinha estudado as cartas que ele escolhera, franzira o sobrolho, voltara a baralhar e mandara-o tirar outras, e depois dissera em voz baixa:

 

Alguém próximo de si, uma mulher, creio, corre grande perigo. Sabe quem poderá ser?

 

Philip tentou dizer a si mesmo que a mulher a quem ela se referia era uma cliente que tinha sido acusada de homicídio veicular e cumpriria sem dúvida uma pena de prisão, mas todos os seus instintos lhe diziam que a vidente estava a falar de Molly.

 

Agora, Molly confirmava os seus receios de que não tinha a intenção de deixar os pais virem para Greenwich para ficarem com ela.

 

Ainda não disse ela com firmeza. Philip, eu quero encontrar a Annamarie Scalli. Tens a última morada dela?

 

Esquece tudo isso, Molly. Por favor. Acabou. Tu precisas de continuar com a tua vida.

 

É o que estou a tentar fazer. E é por isso que preciso de falar com ela.

 

Philip suspirou.

 

O último endereço conhecido dela foi o apartamento onde vivia na altura da morte de Gary. Não faço a menor ideia onde estará agora.

 

Ele percebeu que ela se preparava para desligar e estava ansioso por mantê-la em linha.

 

Molly, vou a tua casa. Se não quiseres ir jantar comigo, fico lá a bater à porta até os vizinhos se aborrecerem.

 

De certa forma, Molly imaginava-o a fazer isso mesmo. A voz dele tinha a mesma intensidade que ela vira no julgamento quando estava a contra-interrogar testemunhas. Ele era, sem dúvida, um homem determinado, acostumado a conseguir aquilo que queria. No entanto, ainda não queria vê-lo.

 

Philip, preciso de mais algum tempo só para mim. Escuta, hoje é quinta-feira. E se viesses cá jantar no sábado? Eu não quero sair. Cozinho alguma coisa.

 

Momentos depois, ele aceitou o convite, resolvendo, por enquanto, satisfazer-se com isso.

 

 

Edna Barry estava a assar um frango. Era um dos jantares preferidos de Wally, especialmente quando ela fazia o seu próprio recheio. A verdade é que ela usava uma mistura de recheio já preparada, mas o segredo era acrescentar cebolas salteadas e aipo e mais concentrado de galinha.

 

A fragrância convidativa encheu a casa, e o acto de cozinhar acalmou Edna. Recordou-lhe os anos em que o marido, Martin, estava vivo e Wally era um rapazinho inteligente e normal. Os médicos diziam que não fora a morte de Martin que desencadeara a mudança no filho. Disseram que a esquizofrenia era uma doença mental que aparecia frequentemente na adolescência ou no princípio da idade adulta.

 

Edna não acreditava que fosse essa a resposta. ”Wally teve sempre saudades do pai”, dizia às pessoas.

 

Por vezes, Wally falava em casar-se e ter uma família, mas ela sabia que agora provavelmente isso não ia acontecer. As pessoas não queriam estar ao pé dele. Ele era demasiado susceptível, perdia a cabeça com demasiada facilidade.

 

O que aconteceria a Wally depois de ela falecer era uma preocupação constante para Edna. Mas pelo menos enquanto estava viva podia cuidar dele, deste seu filho que tinha sido tão maltratado pela vida. Conseguia obrigá-lo a tomar os medicamentos, embora soubesse que por vezes ele os cuspia.

 

Wally tinha reagido muito bem ao Dr. Morrow. Se ao menos ele ainda estivesse vivo...

 

Ao fechar a porta do forno, Edna pensou em Jack Morrow, o jovem médico dinâmico que tinha sido tão bom para pessoas como Wally. Ele era clínico geral e tinha o consultório no rés-do-chão da sua modesta casa, a apenas três quarteirões dali. Tinha sido encontrado morto com um tiro apenas duas semanas antes de o Dr. Lasch morrer.

 

É claro que as circunstâncias tinham sido completamente diferentes. O armário de medicamentos do Dr. Morrow tinha sido arrombado e esvaziado. A Polícia tinha a certeza de que se tratara de um crime relacionado com drogas. Tinham interrogado todos os seus pacientes. Edna disse sempre a si mesma que era engraçado estar grata por o seu filho ter partido um tornozelo pouco antes disso. Ela tinha-o obrigado a pôr o gesso pouco antes de os polícias irem falar com ele.

 

Ao fim de apenas um dia soube que nunca devia ter voltado a trabalhar para Molly Lasch. Era demasiado perigoso. Havia sempre a possibilidade de Wally conseguir encontrar o caminho para a casa de Molly, como tinha acontecido poucos dias antes de o Dr. Lasch morrer. Ela dissera-lhe para esperar na cozinha, mas depois ele tinha entrado no escritório do Dr. Lasch e agarrara na escultura Remington.

 

”Haveria algum fim para as preocupações?”, pensou Edna. ”Nunca”, disse para si mesma. Suspirou e começou a pôr a mesa.

 

Mamã, a Molly está em casa, não está?

 

Edna levantou os olhos. Wally estava à porta, de mãos nos bolsos, os cabelos escuros caídos para a frente na testa.

 

Porque é que queressaber, Wally? perguntou ela, bruscamente.

 

Porque quero vê-la.

 

Não podes ir a casa dela, nunca!

 

Eu gosto dela, mamã. Os olhos de Wally estreitaram-se como se ele estivesse a tentar recordar alguma coisa. Enquanto olhava por cima do ombro de Edna, disse: Ela não gritaria comigo como o Dr. Lasch fez, pois não?

 

Edna sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Wally não aludia àquele incidente há anos, não desde que ela o proibira de falar no Dr. Lasch e na chave que encontrara no bolso dele um dia depois do homicídio.

 

Molly é muito bondosa para toda a gente disse ela com firmeza. Mas nunca mais vamos falar sobre o Dr. Lasch, pois não?

 

Está bem, mamã. No entanto, estou contente por o Dr. Lasch estar morto. Ele não vai voltar a gritar comigo. A sua voz estava completamente desprovida de emoção.

 

O telefone tocou. Nervosa, Edna atendeu. O seu ”estou” foi proferido num tom de voz que tremia de ansiedade.

 

Sr.a Barry,espero não estar a incomodá-la. Fala a Fran Simmons. Encontrámo-nos ontem em casa de Molly Lasch.

 

Sim. Lembro-me. De repente, Edna Barry apercebeu-se de que estava a falar de uma forma muito abrupta. É claro que me lembro disse, numa voz mais calorosa.

 

Gostaria de saber se poderei ir a sua casa e passar algum tempo com a senhora no sábado.

 

Sábado? Edna Barry procurou freneticamente uma razão para se recusar a ver Fran.

 

Sim. A menos que domingo ou segunda-feira fosse mais conveniente.

 

”Porquê incomodar-me a adiar?”, decidiu. Era evidente que não conseguiria afastar a mulher.

 

Pode ser no sábado disse Edna, tensa.

 

Onze horas é cedo de mais?

 

Não.

 

Muito bem, deixe-me confirmar se tenho a morada certa.

 

Quando desligou o telefone, Fran pensou, ”Aquela mulher está com os nervos destroçados. Ouvi a tensão na sua voz. Ontem também estava enervadíssima, quando fui a casa da Molly. Por que é que estará tão enervada?”, perguntou a si mesma.

 

Edna Barry era a pessoa que tinha encontrado o corpo de Gary Lasch. Seria possível que a decisão de Molly de voltar a contratá-la estivesse relacionada com alguma intuição vaga que ela tinha sobre a versão dos acontecimentos dada pela governanta?

 

”Perspectiva interessante”, pensou Fran quando, depois de verificar o frigorífico, vestiu de novo o casaco com a ideia de descer o quarteirão para ir buscar um hambúrguer ao P. J. Clarke’s.

 

Percorreu rapidamente a Rua Cinquenta e Seis e pensou na possibilidade interessante de que talvez Molly pudesse não ser a única pessoa a sofrer de falsificação retrospectiva da memória.

 

Sei que és uma mulher inteligente, Jenna. Por isso, sou levado a pensar que podes compreender o que quero dizer quando afirmo que Annamarie Scalli, para todos os desígnios e objectivos, desapareceu do cimo da terra. E mesmo que conseguisse localizá-la, e não consigo, garanto-te que não daria informações do seu paradeiro a Molly Lasch, nem pensar!

 

As manchas encarnadas nas maçãs do rosto de Calvin Whitehall foram um aviso para a mulher de que ele estava impaciente, mas Jenna resolveu ignorá-las.

 

Que objecção é que podes ter a que Molly tente entrar em contacto com essa mulher, Cal? Talvez possa ajudá-la, talvez possa proporcionar-lhe uma espécie de conclusão.

 

Estavam a tomar café e sumo na sala de estar ao lado do quarto. Jenna estava pronta para sair para o emprego e tinha o casaco e a bolsa numa cadeira próxima, Calvin pousou a chávena de café com força.

 

Não quero saber de Molly. O que precisa de ser concluído são as negociações em que ando a trabalhar há três anos para benefício de ambos. Respirou fundo. Agora é melhor ires apanhar o teu comboio. Nem sequer o Lou conseguirá levar-te à estação a tempo se esperares muito mais.

 

Jenna levantou-se.

 

Acho que esta noite vou ficar no apartamento.

 

Como queiras.

 

Olharam um para o outro por instantes e depois a expressão de Calvin Whitehall mudou e ele sorriu.

 

Minha querida menina, gostava que pudesses ver a tua expressão. Aposto que se tivesses na mão aquela escultura do cavalo com o vaqueiro me farias o mesmo que a Molly fez ao Gary. Não há dúvida de que as raparigas da Academia Cranden têm sentimentos fortes.

 

Jenna empalideceu.

 

Tu estás realmente preocupado com as tuas negociações, não estás, Cal? Normalmente, não és tão cruel.

 

Normalmente, também não estou em risco de ver um negócio de muitos biliões de dólares escorregar-me por entre os dedos. Tu és a única pessoa que parece ter influência sobre Molly, Jen. Logo que seja possível, convence-a a ir para Nova Iorque contigo. Mete-lhe juízo na cabeça. Recorda-lhe que, ao tentar convencer-se a si própria e ao mundo de que não matou Gary, está apenas a manchar ainda mais a memória dele e, provavelmente, a magoar-se ainda mais durante o processo.

 

Sem responder, Jenna vestiu o casaco e pegou na bolsa. Enquanto se dirigia para a escadaria, o marido disse:

 

Um negócio de muitos biliões de dólares, Jen. Admite. Tu também não queres estragar isso.

 

Lou Knox, há muito tempo motorista e ajudante-de-campo de Cal, saiu rapidamente do carro quando viu Jenna sair de casa. Manteve a porta do veículo aberta, fechou-a depois de ela entrar e, passados alguns segundos, já estava atrás do volante.

 

Bom dia, Dr.a Whitehall. Parece que hoje estamos em cima da hora. Bom, posso ir levá-la, se perdermos o comboio.

 

Não, Cal quer o carro e eu não quero o trânsito disse Jenna, rispidamente. Por vezes, as observações alegres de Lou irritavam-na, mas ele fazia parte da mobília. Tinha sido colega de turma de Cal no liceu que tinham frequentado, esquecido por Deus, e Cal trouxera-o consigo quando chegara a Greenwich, há quinze anos.

 

Jenna era a única que sabia a história da amizade dos dois homens. ”Escusado será dizer que Lou compreende que não precisa de ser do conhecimento geral o facto de que cantámos canções escolares juntos”, era a maneira como Cal punha a coisa.

 

Mas havia coisas que ela apreciava em Lou. Ele reagia aos seus estados de espírito. Pressentiu imediatamente que ela não queria falar e ligou sem demora o rádio na estação de música clássica que ela preferia, mantendo o volume baixo. Era uma exigência dela, a não ser que, por algum motivo, quisesse ouvir a estação de notícias.

 

Lou tinha a idade de Cal, quarenta e seis anos, e, embora estivesse em boa forma física, Jenna tinha sentido sempre que havia nele alguma coisa pouco saudável. Era um pouco subserviente de mais para o seu gosto, um pouco ansioso de mais para agradar. Não confiava nele. Mesmo agora, durante a curta viagem para a estação, teve a sensação de que os olhos dele estavam a estudá-la pelo espelho retrovisor, a avaliar a sua disposição.

 

”Fiz todos os possíveis”, disse para si mesma, a pensar na discussão que tivera com o marido. ”Não há hipótese de Cal ajudar Molly a localizar a Annamarie Scalli.” Porém, ao invés de sentir raiva, sabia que, apesar do ressentimento pelo tom que ele tinha usado, a relutante admiração pelo marido era mais forte.

 

Cal era um homem poderoso e tinha o carisma que acompanhava esse poder. Subira a pulso desde aquela primeira empresa informática que ele referia como a operação loja-de-doces-da-mamã-e-do-papá, até se transformar num homem cujo nome impunha respeito. Ao contrário dos empresários exibicionistas que faziam parangonas quando ganhavam e perdiam fortunas, Cal preferia manter-se essencialmente na sombra, embora fosse conhecido e respeitado como uma figura de peso no mundo financeiro, e temido por quem quer que se atravessasse no seu caminho.

 

Poder fora também o que atraíra Jenna para ele em primeiro lugar. E era também o que continuava a encantá-la. Gostava do seu trabalho como sócia numa prestigiada firma de advogados. Era algo que conseguira por mérito próprio. Se Cal nunca tivesse aparecido, ela poderia ter tido uma carreira de sucesso, e esse conhecimento dava-lhe uma sensação de possuir o seu território privado. ”O pequeno hectare da Jenna”, chamava-lhe Cal, mas sabia que ele a respeitava por isso.

 

Mas ao mesmo tempo adorava ser a Sr.a Calvin Whitehall, com todo o prestígio que continuava a acumular-se à volta daquele nome. Ao contrário de Molly, ela nunca tinha desejado ansiosamente ter filhos nem a elitista vida suburbana que a sua mãe e a mãe de Molly tinham vivido sempre.

 

Estavam a aproximar-se da estação. O apito do comboio soou.

 

Mesmo a tempo disse Lou, satisfeito. Parou, saiu de um salto e abriu-lhe a porta. Quer que venha buscá-la esta noite, Dr.a Whitehall?

 

Jenna hesitou e depois disse:

 

Sim, chego à hora do costume. Podes dizer ao meu marido que me espere.

 

Bom dia, doutor.

 

Peter Black levantou os olhos. A incerteza no rosto da secretária avisou-o de que o que ela se preparava para lhe dizer não seria bem recebido. Como pessoa, Louise Unger era tímida, mas como secretária era extremamente eficiente. A sua timidez aborrecia-o; mas valorizava a sua eficiência. Os seus olhos voltaram-se para o relógio de parede. Eram apenas oito e meia. Ela tinha chegado cedo ao emprego, como acontecia com frequência.

 

Murmurou um cumprimento e esperou.

 

O Dr. Whitehall telefonou, Sr. Doutor. Teve de atender outro telefonema, mas pede-lhe que fique disponível. Louise Unger hesitou. Pareceu-me que ele estava muito perturbado.

 

Peter Black já tinha aprendido há muito a controlar os músculos faciais para que as emoções não se reflectissem na sua expressão. Com um fraco sorriso, disse:

 

Obrigado pelo aviso, Louise. O Dr. Whitehall está muitas vezes perturbado. Nós sabemos isso, não sabemos?

 

A mulher assentiu ansiosamente, os olhos de passarinho a brilhar enquanto acenava com a cabeça.

 

Só queria avisá-lo antecipadamente, Sr. Doutor.

 

Para ela, esta era uma declaração arrojada. Peter Black resolveu ignorá-la.

 

Obrigado, Louise disse, suavemente.

 

O telefone na sua secretária tocou. Ele acenou, indicando que ela devia atender.

 

Ela começou a dizer ”consultório do Dr. Black”, mas não foi mais longe do que ”Doutor...”

 

É o Dr. Whitehall, Sr. Doutor disse, pondo o telefone em espera. Sabia o suficiente para sair rapidamente e fechar a porta.

 

Peter Black tinha plena consciência de que mostrar fraqueza a Calvin Whitehall era estar condenado. Tinha ensinado a si mesmo a ignorar as referências de Cal ao que ele bebia e estava convencido de que o único motivo que levava Cal a restringir-se a um copo de vinho era provar a sua força de vontade superior.

 

Pegou no telefone e falou imediatamente.

 

Como é que vai o império, Cal? Peter Black gostava de fazer aquela pergunta. Sabia que irritava Cal.

 

Iria muito melhor se Molly Lasch não andasse por aí a fazer ondas. Peter teve a sensação de que o tom ressonante da voz de Calvin

 

Whitehall estava a fazer o auscultador vibrar. Segurou-o com a mão esquerda e esticou deliberadamente os dedos da mão direita, um truque que tinha engendrado para aliviar a tensão.

 

Pensei que já tínhamos estabelecido que ela andava a fazer ondas respondeu.

 

Sim, depois de Jenna ater visto anteontem à noite. Molly quer que eu descubra Annamarie Scalli. Insiste que tem de a ver, e é óbvio que não pretende esquecer o assunto. Jenna esteve a chatear-me com esse assunto hoje de manhã. Eu disse-lhe que não fazia a menor ideia aonde Annamarie se encontrava.

 

Eu também não. Black sabia que o seu tom era calmo, as palavras precisas. Recordou o pânico na voz de Gary Lasch: ”Annamarie, é para o bem do hospital. Tens de ajudar.”

 

”Na época, não sabia que ela estava envolvida com o Gary”, pensou Peter Black. ”E se Molly conseguisse encontrá-la agora?”, perguntou a si mesmo. ”E se Annamarie decidisse contar o que sabe? Que é que aconteceria nesse caso?”

 

Percebeu que Cal ainda estava a falar. Que é que estava a perguntar?

 

... existe alguém no hospital que se possa ter mantido em contacto com ela?

 

Não faço ideia.

 

Um minuto depois, o Dr. Peter Black desligou e falou para o intercomunicador.

 

Não me passe nenhum telefonema, Louise.

 

Pousou os cotovelos em cima da secretária e pressionou a testa com as palmas das mãos.

 

A corda estava a esgaçar. Como poderia impedi-la de partir e de o atirar ruidosamente para o chão?

 

Ela não te quis preocupar, Billy.

 

Billy Gálio olhou para o pai, do outro lado da cama onde a mãe se encontrava, enquanto permaneciam na unidade de Cuidados Intensivos no Hospital Lasch. Os olhos de Tony Gálio estavam cheios de lágrimas. Tinha os poucos cabelos grisalhos despenteados e a mão que acariciava o braço da mulher estava a tremer.

 

O parentesco entre os dois homens era inegável. Tinham feições marcadamente semelhantes olhos castanho-escuros, lábios cheios, maxilares quadrados.

 

Tony Gálio, funcionário de segurança de uma empresa, já reformado, com sessenta e seis anos, era agora guarda da passagem de peões de uma escola na cidade de Cos Cob, uma figura severa e de confiança no cruzamento da Willow com a Pine. O filho, Billy, de trinta e cinco anos, tocava trombone na orquestra da companhia itinerante de um musical da Broadway, e tinha vindo de avião de Detroit.

 

Não foi a mãe que não me quis preocupar disse Billy, num tom zangado. O pai é que não a deixou telefonar, não foi?

 

Billy, tu estiveste desempregado durante seis meses. Não queríamos que perdesses este emprego.

 

Que se lixe o emprego! Deviam ter-me chamado... Eu tê-los-ia enfrentado. Quando lhe recusaram autorização para ir a um especialista, eu não os teria deixado levarem a sua avante.

 

Billy, tu não compreendes; o Dr. Kirkwood lutou para conseguir que ela fosse vista por um especialista. Agora autorizaram a cirurgia. Ela vai ficar boa.

 

Mesmo assim, ele não a mandou a um especialista a tempo.

 

Josephine Gálio mexeu-se. Ouvia o marido e o filho a discutirem e tinha a vaga consciência de que era por sua causa. Sentia-se ensonada e sem peso. De certa forma, era uma sensação agradável, estar ali deitada e quase a flutuar, sem ter de fazer parte da discussão entre os dois. Estava cansada de implorar a Tony que ajudasse Billy quando ele estava desempregado. Billy era um bom músico e não estava talhado para um emprego das nove às cinco. Tony não conseguia compreender isso.

 

Não parava de ouvir as suas vozes zangadas. Não queria que discutissem mais. Josephine recordou a dor que a tinha arrancado ao sono nessa manhã; era a mesma dor de que tinha falado ao Dr. Kirkwood, o seu médico de clínica geral.

 

Eles ainda estavam a discutir; as suas vozes pareciam estar a ficar mais alteradas, e ela queria pedir-lhes que fizessem o favor de se calar. Depois, algures à distância, ouviu sinos a tocar. Ouviu passos a correr. E uma dor como a que a tinha acordado voltou em força. Uma onda gigante de dor. Tentou comunicar com eles:

 

- Tony... Billy...

 

Enquanto soltava o último suspiro, ouviu as suas vozes, em simultâneo, ansiosas, cheias de medo, inundadas de desgosto: ”Mããããeeeeeeee”, ”Josiieeeeeeee.” Depois não ouviu nada.

 

Ao meio-dia e um quarto, Fran entrou no átrio do Hospital Lasch. Afastando as recordações daquele mesmo lugar anos antes, recordações de andar a cambalear e dos braços da mãe à sua volta, obrigou-se a parar e a observar o espaço.

 

O balcão de recepção/informações situava-se na parede mais afastada, do lado oposto à entrada. ”Isso é bom”, pensou. Não queria uma voluntária solícita ou um guarda a oferecerem-se para ajudar a orientá-la até um paciente. Se isso acontecesse, ela tinha uma história preparada: vinha buscar uma amiga que tinha vindo visitar um paciente.

 

”Qualquer paciente”, pensou.

 

Analisou a área. O mobiliário sofás e cadeiras individuais estava revestido com uma imitação de pele verde e tinha braços e pernas de plástico num acabamento final de carvalho. Menos de metade dos assentos estavam ocupados. Um corredor à esquerda do balcão da recepção tinha uma seta e um letreiro onde se lia ELEVADORES. Depois, Fran encontrou o que procurava o letreiro do outro lado do átrio dizia CAFETARIA. Enquanto se dirigia para lá, passou pela máquina de jornais. O jornal semanal da comunidade estava em exposição e na primeira página vinha uma fotografia de Molly à porta da prisão. Fran procurou moedas no bolso.

 

Tinha chegado propositadamente antes do início da confusão da hora do almoço, e ficou à porta da cafetaria durante alguns momentos a olhar em volta, tentando escolher o lugar mais vantajoso possível. O restaurante tinha cerca de vinte mesas e um balcão com uma dúzia de bancos altos. As duas mulheres atrás do balcão, com aventais às riscas, eram voluntárias do hospital.

 

Havia quatro pessoas sentadas ao balcão; aproximadamente outras dez estavam espalhadas pelas mesas. Três homens com batas brancas, obviamente médicos, estavam embrenhados na conversa junto à janela. Havia uma pequena mesa vazia ao lado da deles. Por momentos, Fran hesitou entre pedir ou não aquela mesa, quando a recepcionista, também de avental às riscas, se aproximou dela.

 

Vou para o balcão disse Fran, rapidamente. Quando estivesse a tomar o café talvez conseguisse meter conversa com uma das voluntárias que trabalhavam ali. As duas mulheres pareciam ter sessenta e poucos anos. Talvez uma ou as duas já fossem voluntárias ali há seis anos, quando Gary Lasch administrava o hospital.

 

A mulher que lhe serviu o café e uma baguete usava um dístico com um rosto sorridente onde se lia: ”OLÁ, sou A SUSAN BRANAGAN.” Uma mulher de rosto agradável, com cabelos brancos e modos apressados que sentia claramente que parte do seu trabalho era fazer as pessoas falarem.

 

Dá para acreditar que a Primavera está a menos de duas semanas de distância? perguntou ela.

 

Aquilo deu a Fran a oportunidade que procurava.

 

Tenho vivido na Califórnia, por isso é difícil voltar a acostumar-me ao clima da Costa Este.

 

Veio visitar alguém ao hospital?

 

Estou apenas à espera de uma amiga que veio fazer uma visita. Já é voluntária há muito tempo?

 

Susan Branagan rejubilou^

 

Acabei de receber o meu crachá de dez anos.

 

Acho que é maravilhoso oferecer-se para ajudar aqui disse Fran com sinceridade.

 

Eu ficaria perdida se não viesse ao hospital três vezes por semana. Sou viúva e os meus filhos são casados e estão ocupados com as suas próprias vidas. Que é que faria com a minha vida, não me diz?

 

Claramente, era uma pergunta retórica.

 

Acho que deve ser muito enriquecedor disse Fran. Tentando parecer casual, pousou o jornal comunitário em cima do balcão, colocando-o de forma a que Susan Branagan não pudesse deixar de ver a fotografia de Molly e o título por cima: VIÚVA DO DR LASCH AFIRMA A SUA INOCÊNCIA.

 

A Sr.a Branagan abanou a cabeça.

 

Pode não se ter apercebido, uma vez que é da Califórnia, mas o Dr. Lasch era o director deste hospital. Foi um escândalo terrível quando ele morreu. Só tinha trinta e seis anos e era um homem muito atraente.

 

Que é que aconteceu? perguntou Fran.

 

Oh, ele envolveu-se com uma enfermeira jovem que trabalhava aqui, e a mulher dele... bom, acho que a pobre senhora deve ter tido um ataque de loucura temporária, ou uma coisa desse género. Disse que não se lembrava de o ter morto, embora ninguém acredite verdadeiramente nisso, é claro. Foi uma perda e uma tragédia enorme. E o mais triste é que a enfermeira, a Annamarie, era a rapariga mais doce do mundo. Se quer que lhe diga, era a última pessoa no mundo que eu pensaria que andava com um homem casado.

 

Está sempre a acontecer comentou Fran.

 

É verdade, não é? Mas, mesmo assim, foi uma surpresa completa, pois havia um jovem médico, que era o homem mais simpático do mundo, que gostava realmente dela. Todos pensávamos que esse romance iria florescer, mas acho que o Dr. Lasch lhe deu a volta à cabeça. De qualquer maneira, o pobre Dr. Morrow, que descanse em paz, foi abandonado.

 

Dr. Morrow. Descanse em paz.

 

Não se está a referir ao Dr. Jack Morrow, está?

 

Oh, conhecia-o?

 

Vi-o uma vez, há anos, quando estive cá durante algum tempo. Fran pensou no rosto bondoso do médico que tinha tentado consolá-la naquela noite terrível, há catorze anos, quando ela e a mãe tinham seguido o pai moribundo para o hospital.

 

Ele foi morto no seu consultório apenas duas semanas antes de o Dr. Lasch ser assassinado. O seu armário de medicamentos tinha sido arrombado. Susan Branagan suspirou, a recordar aquela época. Dois médicos jovens, ambos a morrerem tão violentamente. Sei que as mortes não estiveram relacionadas, mas pareceu-me uma coincidência terrível.

 

”Coincidência?”, pensou Fran, e ambos envolvidos com Annamarie Scalli. Quando se tratava de homicídio havia uma coisa chamada coincidência?

 

”Três noites em casa”, pensou Molly. ”Três manhãs a acordar na minha cama, no meu quarto.”

 

Naquela manhã acordou alguns minutos antes das sete, desceu até à cozinha, fez café, encheu a sua caneca preferida e voltou para cima, com o café fragrante e a fumegar. Endireitou as almofadas, deitou-se novamente e bebericou o café sem pressa. Olhou em volta do quarto, completamente consciente de um espaço que durante os cinco anos do seu casamento ela tinha tido como certo.

 

Durante as noites sem dormir na prisão tinha pensado no seu quarto, pensado nos seus pés a tocarem o pêlo marfim da alcatifa, pensado no toque da camisa-de-dormir de seda na pele, na cabeça a afundar-se nas almofadas grandes e fofas, nas persianas levantadas para poder olhar para o céu nocturno, uma coisa que fazia muitas vezes com o marido a dormir calmamente a seu lado.

 

Enquanto bebericava o café, Molly reflectiu sobre os meses e anos de noites longas na prisão. Quando a sua mente clareara lentamente, tinha começado a formular as perguntas que agora quase a obcecavam. Perguntas como: se Gary tinha sido capaz de a enganar tão completamente sobre a relação íntima de ambos, seria possível que tivesse sido também desonesto em outras áreas da sua vida?

 

Preparava-se para ir tomar um duche quando parou para olhar pela janela. Era uma coisa muito simples, e no entanto era algo que lhe tinha sido negado durante cinco anos e meio, e a liberdade daquele gesto ainda a surpreendia. Estava outro dia nublado e viu pedaços de gelo no passeio; mesmo assim, impulsivamente, decidiu vestir um fato de treino e ir correr.

 

”Correr livremente”, pensou, enquanto começava a vestir rapidamente as roupas de corrida. ”E estou livre... para sair sem pedir autorização e sem esperar que as portas sejam destrancadas.” Sentiu uma felicidade inesperada. Dez minutos depois andava a correr pelas ruas antigas e conhecidas que, de repente, lhe pareciam desconhecidas.

 

”Por favor, que ninguém me reconheça”, rezou. ”Que eu não seja reconhecida por alguém que vá a passar de carro.” Passou pela casa de Kathryn Busch, uma casa colonial antiga e encantadora na esquina da Lake Avenue. Lembrou-se de que Kathryn fazia parte do Conselho de Administração da Sociedade Filarmónica e estivera muito envolvida na tentativa de criar um grupo de câmara.

 

”Tal como Bobbitt Williams”, pensou Molly, imaginando o rosto da antiga colega de escola que quase tinha desaparecido da sua memória. ”Bobbitt andava em Cranden, na mesma turma que Jenna,Fran e eu, mas nunca foi muito sociável, e depois mudou-se para Darien.”

 

Enquanto corria, a cabeça pareceu desanuviar e as pessoas e as casas e as ruas ficaram nítidas. Os Browns tinham acrescentado uma ala. Os Cateses tinham pintado a casa. De súbito, apercebeu-se de que era a primeira vez que estava na rua, assim sozinha, desde aquele dia, há cinco anos e meio, em que tinha sido algemada, acorrentada e fechada na carrinha para a viagem até à Prisão Niantic.

 

Esta manhã o vento estava gelado, mas revigorante ar fresco e limpo que lhe varreu os cabelos e lhe encheu os pulmões e o corpo, fazendo Molly sentir que, milímetro a milímetro, os seus sentidos começavam a voltar à vida.

 

Estava a respirar pesadamente e já com dores quando, após uma corrida de três quilómetros em círculo, voltou a subir o seu caminho de acesso. Dirigia-se para a porta da cozinha quando um impulso súbito a levou a cortar caminho pelo relvado gelado e a percorrer quase todo o comprimento da casa até ficar diante da janela do aposento que tinha sido o escritório de Gary. Parou, aproximou-se da janela, afastou os arbustos e espreitou lá para dentro.

 

Por um breve instante, esperou ver a bonita secretária Wells Fargo de Gary ainda ali, as paredes forradas com painéis de mogno, estantes repletas de compêndios de Medicina, as esculturas e os quadros que Gary coleccionara com tanto entusiasmo. Ao invés disso, viu um aposento que não passava de mais uma sala numa casa demasiado grande para uma pessoa. A mobília impessoal forrada a chintz e as mesas de carvalho esbranquiçadas pareceram-lhe de súbito muito pouco atraentes.

 

Eu estava à porta, a olhar para a rua.

 

Foi um pensamento fortuito que lhe ocorreu de repente e desapareceu com igual rapidez.

 

De súbito semiconsciente da possibilidade de ser observada a espreitar pela janela da sua própria casa, Molly recomeçou a subir os degraus e entrou pela porta da cozinha. Enquanto descalçava os ténis, percebeu que tinha tempo para tomar outra chávena de café e comer um queque antes de a Sr.a Barry chegar.

 

Sr.a Barry.


Watty.

 

”Estranho, porque é que, sem mais nem menos, teria pensado nele?”, reflectiu Molly enquanto voltava para cima, desta vez para tomar finalmente o seu duche.

 

Fran telefonou-lhe ao fim da tarde do escritório onde se encontrava a preparar-se para a emissão do noticiário da noite.

 

Molly, uma pergunta rápida disse ela. Conhecias o Dr. Jack Morrow?

 

A mente de Molly foi arrastada para uma distância de anos esquecidos, para aquela manhã em que um telefonema lhes tinha interrompido o pequeno-almoço. Tinha sabido imediatamente que eram más notícias. O rosto de Gary ficara doentiamente cinzento enquanto escutava em silêncio. E depois de desligar proferira, quase num sussurro: ”Jack Morrow foi encontrado morto no seu consultório, alvejado com um tiro. Aconteceu a noite passada, não se sabe a que horas.”

 

Conhecia-o mal disse-lhe Molly. Ele fazia parte da equipa do hospital e eu tinha-o encontrado em algumas festas de Natal, nesse género de acontecimentos. Ele e Gary foram mortos com duas semanas de intervalo.

 

Subitamente consciente das suas próprias palavras, imaginou como aquela declaração devia soar a Fran. ”Foram mortos.” Uma coisa que tinha acontecido a dois homens, mas não tinha nada a ver com qualquer acto que ela tivesse praticado. ”Pelo menos, ninguém pode dizer que estive envolvida na morte de Jack Morrow. Nessa noite, Gary e eu estivemos num jantar.” Disse isso a Fran.

 

Molly, tens de saber que eu não estava a sugerir que tiveste alguma coisa a ver com a morte do Dr. Morrow declarou Fran. Só o mencionei porque descobri uma coisa interessante. Sabias que ele estava apaixonado pela Annamarie Scalli?

 

Não, não sabia.

 

Está a tornar-se óbvio que tenho de falar com a Annamarie. Conheces alguém que possa saber onde ela está?

 

Já falei com a Jenna para pedir aos homens do Cal que a encontrem, mas Jen diz que Cal não se quer envolver.

 

Seguiu-se um momento de silêncio antes de Fran reagir.

 

Não me disseste que andavas a tentar localizar a Annamarie Scalli.

 

Molly percebeu o tom espantado na voz de Fran.

 

Fran explicou, o meu desejo de falar pessoalmente com Annamarie não tem nada a ver com a tua investigação. Os cinco anos e meio que passei na prisão estiveram directamente relacionados com o facto de o meu marido estar a ter um caso amoroso com ela. Parece muito estranho que uma pessoa que eu nem sequer conhecia possa ter tido um impacto tão grande na minha vida. Vamos fazer um acordo: se eu a localizar, ou se tiver uma pista, digo-te. Do mesmo modo, se tu a descobrires, dizes-me, está bem?

 

Vou ter de pensar no assunto respondeu Fran. Acho que vou telefonar ao teu advogado para lhe perguntar se sabe dela. A Annamarie estava na lista de testemunhas intimadas para o teu julgamento, e ele deve ter a última morada dela no arquivo.

 

Eu já falei com Philip sobre isso e ele jura que não tem.

 

De qualquer maneira, vou falar com ele, nunca se sabe. Tenho de me despachar. Fran fez uma pausa. Tem cuidado, Molly.

 

Curioso. Jenna disse-me o mesmo na outra noite.

 

Molly pousou o auscultador e pensou no que tinha dito a Philip Matthews que, se alguma coisa lhe acontecesse, pelo menos isso serviria para provar que alguém tinha motivos para temer a investigação de Fran sobre a morte de Gary.

 

O telefone tocou de novo. Instintivamente, soube que eram a mãe e o pai a telefonar da Florida. Falaram das coisas inconsequentes do costume antes de abordarem o tema de como ela estava a reagir ao ”sozinha naquela casa”. Depois de os tranquilizar de que estava bem, perguntou:

 

Que aconteceu a tudo o que estava na secretária de Gary depois de ele morrer?

 

O gabinete do Ministério Público levou praticamente tudo, com excepção da mobília do escritório do Gary disse a mãe. Depois do julgamento, guardei tudo o que devolveram em caixas no sótão.

 

A resposta deixou Molly ansiosa por terminar a conversa e levou-a ao sótão logo que desligou. Ali, encontrou as caixas muito bem arrumadas, tal como a mãe lhe dissera, nas prateleiras de arrumação. Afastou as que continham livros e esculturas, fotografias e revistas, e procurou as duas que tinham a etiqueta SECRETÁRIA. Sabia o que procurava: a agenda com que Gary andava sempre e a que tinha na gaveta de cima da secretária.

 

”Talvez haja algum género de anotações que me dê pelo menos uma ideia do que mais acontecia na vida do Gary”, pensou.

 

Abriu a primeira caixa com uma sensação de pavor, com medo do que poderia encontrar, e, no entanto, determinada a descobrir tudo o que pudesse.

 

”Há sete anos as nossas vidas eram tão diferentes”, pensou Barbara Colbert, enquanto observava a paisagem conhecida. Como fazia todas as semanas, o seu motorista, Dan, estava a levá-la do apartamento na Quinta Avenida para a Residência de Cuidados a Longo Prazo Natasha Colbert, no recinto do Hospital Lasch, em Greenwich. Quando chegaram à frente da residência, ficou sentada durante vários minutos, sabendo que na próxima hora o seu coração ia apertar-se e partir-se enquanto pegava na mão de Tasha e lhe dizia palavras que provavelmente ela não ouviria e que não tinha dúvida de estarem para além de qualquer compreensão.

 

Barbara Colbert era uma mulher de cabelos brancos, com setenta e poucos anos, e sabia que nos anos que se tinham seguido ao acidente parecia ter envelhecido vinte. ”A Bíblia refere-se a acontecimentos cíclicos em termos de sete anos de abundância, sete anos de fome”, pensou, enquanto apertava o botão de cima do casaco de pele de marta. Os acontecimentos cíclicos implicavam que alguma coisa podia mudar, mas sabia que não havia mudança possível para Tasha, que se encontrava no sétimo ano de vida inconsciente.

 

”Tasha, que nos deu tanta alegria”, agonizou Barbara Colbert. ”O nosso presente belo e inesperado.” Barbara tinha quarenta e cinco anos e o marido, Charles, cinquenta, quando ela se apercebera de que estava grávida. Com os filhos na universidade, tinham presumido que já tinham passado a fase de criar uma família.

 

De cada vez que chegava a este ponto, enquanto se esforçava por sair do carro, tinha sempre a mesma lembrança. Na época viviam em Greenwich. Tasha, que estava de férias da Faculdade de Direito, tinha aparecido na sala de jantar. Tinha o fato de treino vestido, os cabelos ruivos apanhados num rabo-de-cavalo, os olhos azul-escuros calorosos, vivos e inteligentes. Faltava apenas uma semana para o seu vigésimo quarto aniversário. ”Até já”, dissera, e depois saíra.

 

Aquelas tinham sido as últimas palavras que eles a tinham ouvido proferir.

 

Uma hora depois tinham recebido o telefonema que os levara a correr para o Hospital Lasch. Houvera um acidente, tinham-nos informado, e Tasha tinha sido levada para lá. Barbara lembrava-se da curta viagem para o hospital e do terror que sentira. Lembrava-se da oração incoerente que proferira vezes sem conta: ”Por favor, bom Deus, por favor.”

 

Jonathan Lasch tinha sido o médico de família de Barbara quando as crianças eram pequenas, por isso sentiu algum consolo no facto de Gary Lasch, o filho de Jonathan, ir cuidar de Tasha. Porém, logo que o viu na sala de emergências, percebeu pela sua expressão que algo estava terrivelmente errado.

 

Ele contou-lhe que, enquanto estava a correr, Tasha tinha caído e batido com a cabeça no passeio. A ferida em si não tinha sido grave, mas antes de chegar ao hospital tinha feito uma arritmia cardíaca. ”Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance”, prometera ele, mas em breve se tornou evidente que na realidade não podiam fazer nada. Um ataque tinha cortado o fornecimento de oxigénio para o cérebro de Tasha, destruindo-o. Exceptuando a capacidade de respirar sozinha, para todos os desígnios e objectivos, Tasha tinha morrido.

 

”Todo o dinheiro do mundo, a família de magnatas de jornais mais poderosa do país e, mesmo assim, não conseguimos ajudar a nossa única filha”, pensou Barbara, enquanto acenava para Dan indicando que estava pronta para sair do carro.

 

Reparando que ela se movia com dificuldade, ele pôs-lhe a mão debaixo do braço.

 

Pode haver um bocado de gelo, Sr.a Colbert disse. Deixe-me ajudá-la até à porta.

 

Depois de ela e o marido se terem por fim resignado com o facto de não haver esperança de Tasha vir a recuperar, Gary Lasch tinha-lhes pedido que considerassem a hipótese de a colocarem, eventualmente, na unidade de cuidados de enfermagem de longo prazo que estava a ser construída ao lado do hospital.

 

Tinha-lhes mostrado os planos da modesta estrutura, e revelara-se uma distracção abençoada para eles chamarem o arquitecto e fazerem o donativo que mudara totalmente e expandira a residência, de tal forma que todos os quartos eram claros e arejados, com uma casa de banho privada e mobiliário confortável, como se de uma casa se tratasse, e equipamento médico do mais moderno e sofisticado que havia. Agora todos os residentes que, como Tasha, tinham visto as suas vidas inesperada e inexplicavelmente abaladas recebiam o conforto que o dinheiro e os cuidados podiam proporcionar.

 

Tinha sido criado um apartamento especial com três quartos para Tasha, uma réplica exacta da sua suite em casa. Uma enfermeira e uma auxiliar estavam permanentemente com ela. A música clássica que Tasha amava tocava suavemente dia e noite. Ela era mudada todos os dias do quarto para a sala, que estava voltada para um jardim particular.

 

Exercícios passivos, limpezas faciais, massagens, pedicures e manicures mantinham-lhe o corpo belo e macio. Os cabelos, ainda ruivos-flamejantes, eram lavados e penteados diariamente e usados soltos à altura dos ombros. Vestia pijamas e roupões de seda. As enfermeiras tinham instruções para conversar com ela como se ela pudesse entender cada palavra.

 

Barbara pensou nos meses em que ela e Charles tinham vindo ver Tasha quase todos os dias. Mas os meses depressa se transformaram em anos. Esgotados por um cansaço emocional e físico, acabaram por reduzir o número de visitas para duas vezes por semana. Quando Charles falecera, ela tinha, com grande relutância, seguido o conselho dos filhos e desistido da casa em Greenwich, estabelecendo residência permanente no apartamento de Nova Iorque. Agora só fazia a viagem uma vez por semana.

 

Nesse dia, como sempre, Barbara atravessou a área de recepção e percorreu o corredor para a zona da suite da filha. As enfermeiras tinham sentado Tasha no sofá da sala de estar. Barbara sabia que, por debaixo das mantas, havia correias de segurança que a mantinham rigidamente no lugar e a impediam de escorregar, uma precaução contra ferimentos causados por contracções involuntárias que os músculos de Tasha tinham de vez em quando.

 

Com uma dor familiar, Barbara observou a expressão calmamente serena no rosto de Tasha. Por vezes pensava detectar movimento nos olhos, ou talvez ouvir um suspiro, e tinha o pensamento impossível e louco de que, afinal de contas, talvez Tasha não estivesse para além de toda a esperança.

 

Sentou-se no sofá ao lado da filha e pegou-lhe na mão. Na hora seguinte falou-se sobre a família.

 

Amy está a começar a faculdade, Tasha, não te parece incrível? Só tinha dez anos quando tu tiveste o acidente. É muito parecida contigo. Quase podia ser tua filha e não apenas tua sobrinha. George Júnior tem algumas saudades de casa, mas gosta muito do colégio.

 

Passada uma hora, esgotada mas em paz, Barbara beijou Tasha na testa e fez sinal à enfermeira para voltar para a sala.

 

Quando chegou à recepção, viu que o Dr. Peter Black estava à sua espera. Quando Gary Lasch fora assassinado, os Colberts tinham considerado a hipótese de mudar Tasha para outra instituição, mas o Dr. Black convencera-os a deixarem-na ali.

 

Como é que achou a Tasha hoje, Sr.a Colbert?

 

Na mesma, doutor. Não posso esperar melhor, não é verdade? Barbara Colbert sabia que os sentimentos ambíguos que nutria por Peter Black não eram razoáveis. Gary Lasch tinha-o escolhido para seu sócio e ela não tinha motivo algum para sentir que os cuidados administrados a Tasha falhavam de algum modo. Mesmo assim, não conseguia gostar dele. Talvez essa antipatia se devesse à sua associação íntima com Calvin Whitehall, a quem Charles chamava com desprezo ”o candidato a barão do roubo”. Nas

ocasiões em que voltava a Greenwich e jantava no clube com os amigos, via lá muitas vezes Black e Whitehall juntos.

 

Barbara desejou boa noite a Peter Black e encaminhou-se para a porta, sem se aperceber de que o médico estava a observá-la intensamente, nem que estava a lembrar-se do momento terrível em que a filha dela sofrera danos catastróficos, e que estava a lembrar-se também das palavras que uma traumatizada Annamarie Scalli tinha gritado para Gary: ”Aquela rapariga chegou cá com nada mais grave do que uma pequena concussão. Agora, vocês os dois destruíram-na!”

 

Durante praticamente seis anos, Philip Matthews tinha acreditado que fizera todos os possíveis como advogado criminal para conseguir uma pena leve para Molly Lasch. Cinco anos e meio pelo homicídio de um médico com uma expectativa de vida de trinta e cinco anos não era praticamente nada.

 

Tinha dito muitas vezes a Molly nas visitas que fizera à prisão: ”Quando saíres, pões tudo isto para trás das costas.”

 

Mas agora Molly tinha saído da prisão e estava a fazer precisamente o oposto. Era evidente que não pensava ter-se livrado facilmente.

 

Philip sabia que, acima de tudo, queria proteger Molly das pessoas que, inevitavelmente, quereriam explorá-la.

 

Pessoas como aquela Fran Simmons.

 

No fim da tarde de sexta-feira, quando se preparava para ir passar o fim-de-semana fora, a secretária anunciou um telefonema de Fran Simmons.

 

Philip pensou não atender, mas depois decidiu que podia muito bem falar com ela. Porém, o seu cumprimento foi frio.

 

Fran foi directa ao assunto:

 

Dr. Matthews, o senhor deve ter uma transcrição do julgamento da Molly Lasch. Gostaria de ter uma cópia o mais depressa possível.

 

Sr.a Simmons, sei que andou no liceu com Molly. Assim, na qualidade de velha amiga, queria que considerasse a ideia de desistir deste programa. Ambos sabemos que só pode magoar a Molly.

 

Seria possível ter uma cópia da transcrição na segunda-feira, Dr. Matthews? perguntou Fran, rispidamente, e depois acrescentou: O senhor deve saber que eu estou a elaborar este programa com a colaboração incondicional de Molly. Na verdade, foi até por um pedido dela que resolvi fazê-lo.

 

Philip resolveu tentar uma abordagem diferente.

 

Posso fazer mais do que segunda-feira. Vou mandar fazer uma cópia e amanhã ser-lhe-á entregue, mas quero pedir-lhe que reflicta sobre uma coisa. Estou convencido de que a Molly está muito mais fragilizada do que todos nós pensamos. Se no decurso da sua investigação ficar convencida da culpa dela, então, peço-lhe que a poupe e cancele este programa. Molly não vai obter a vingança pública que quer. Não a destrua com um veredicto de culpada só para conseguir audiências mais altas graças aos abutres que querem ver as pessoas evisceradas.

 

Deixe-me dar-lhe a minha morada para o seu mensageiro disse Fran, a martelar as palavras, desejando soar tão furiosa como se sentia.

 

Vou passar à minha secretária. Adeus, Sr.a Simmons. Depois de desligar, Fran levantou-se e aproximou-se da janela.

 

Já devia estar na maquilhagem, mas agora sabia que primeiro precisava de um momento para se acalmar. Sem o conhecer, já antipatizava profundamente com Philip Matthews, embora não pudesse deixar de pensar que ele era ardentemente sincero no seu desejo de proteger Molly.

 

Deu por si a pensar se alguém jamais pensara procurar outra explicação para a morte de Gary Lasch. Os pais e amigos de Molly Lasch, Philip Matthews, a Polícia de Greenwich, e o delegado do Ministério Público que a tinha acusado todos tinham começado com a presunção da culpa dela.

 

”Que é exactamente o que eu também tenho estado a fazer”, pensou Fran. ”Talvez tenha chegado o momento de começar a abordar o assunto de um ponto de vista diferente.

 

”Molly Carpenter Lasch não matou o marido, Gary Lasch”, disse para si mesma, avaliando como soava e perguntando a si mesma onde é que a levaria.

 

Na sexta-feira à tarde, Annamarie Scalli foi directamente para casa, depois de tratar o último paciente. O fim-de-semana estendia-se assustadoramente à sua frente e ela já sabia que ia ser difícil. Desde terça-feira de manhã, quando a libertação de Molly Lasch da prisão tinha recebido tanta cobertura jornalística, metade dos pacientes de Annamarie tinham-lhe falado no caso.

 

Ela compreendia que não passava de coincidência, que não faziam a mínima ideia da sua ligação ao caso. Os seus pacientes estavam confinados a casa e passavam a vida a ver os mesmos programas repetitivos, principalmente telenovelas. Ter um crime mais ou menos local como aquele era simplesmente algo novo e diferente para comentar uma jovem privilegiada a afirmar que não acreditava ter assassinado o marido, embora tivesse aceitado um acordo para uma pena mais leve e cumprido uma pena de prisão por causa disso.

 

Os comentários variavam desde a mal-humorada velha Sr.a O’Brien, a dizer que ele tinha recebido o que qualquer marido traidor merecia, até ao comentário do Sr. Kunzman, de que se Molly Lasch fosse negra e pobre estaria a cumprir uma pena de vinte anos.

 

A sua cozinha era tão minúscula que ela dizia sempre que fazia a copa de um avião parecer espaçosa. Mas tinha-a melhorado, pintando o tecto de azul-céu e desenhando uma cercadura de flores nas paredes; em resultado disso, o pequeno espaço transformara-se no seu jardim interior.

 

Todavia, naquela noite, não conseguia animar-se. Ter de revisitar as antigas recordações dolorosas deixara-a deprimida e solitária, e sabia que tinha de se afastar. Havia um sítio para onde podia ir e que a ajudaria. A irmã mais velha, Lucy, vivia em Buffalo, na mesma casa em que tinham crescido. Annamarie não lhe fazia visitas regulares desde o falecimento da mãe, mas este fim-de-semana faria a viagem. Depois de arrumar as últimas mercearias, pegou no telefone.

 

Quarenta e cinco minutos depois, atirou para o porta-bagagens um saco de lona que enchera apressadamente com roupas e, muito mais alegre, rodou a chave na ignição. Era uma viagem longa, mas não se importava. Conduzir, dar-lhe-ia uma oportunidade para pensar. A maior parte do tempo era passado a lamentar. A lamentar não ter dado ouvidos à mãe. A lamentar ter sido tão parva. A desprezar-se profundamente por aquele caso amoroso com Gary Lasch. Se ao menos tivesse conseguido ter força de vontade para amar verdadeiramente Jack Morrow. Se ao menos tivesse compreendido o quanto tinha começado a gostar dele.

 

Recordou com vergonha renovada a confiança e amor que tinha visto nos olhos dele. Tinha enganado Jack Morrow como enganara toda a gente, e ele não sabia nem suspeitava que ela estava envolvida com Gary Lasch.

 

Embora já passasse da meia-noite quando chegou, a irmã, Lucy, tinha ouvido o carro a chegar e estava a abrir a porta. Com um acesso de alegria renovada, Annamarie tirou o saco do porta-bagagens. Um momento depois estava a abraçar a irmã, contente por estar onde, pelo menos durante o fim-de-semana, conseguiria afastar os pensamentos perturbadores de como podia ter sido.

 

No sábado de manhã, Edna Barry acordou com um sobressalto nervoso. Aquela jornalista vinha vê-la e ela tinha de se certificar de que Wally não estava por perto quando Fran Simmons chegasse. Ele andava mal-humorado há diversos dias e desde que vira Molly na televisão não parava de dizer que queria vê-la. Na noite anterior, tinha anunciado que não ia ao clube, onde normalmente passava as manhãs de sábado. O clube, criado pelo Condado de Fairdield para pacientes externos como Wally, era normalmente um dos lugares onde ele preferia ir.

 

”Vou pedir à Marta para ficar com ele em casa dela”, pensou Edna. Marta Gustafson Jones era sua vizinha há trinta anos. Tinham-se apoiado ao longo de doenças e da viuvez, e Marta adorava Wally. Era uma das poucas pessoas que conseguia lidar com ele e acalmá-lo quando ele ficava perturbado.

 

Quando Fran tocou à campainha às onze horas, Wally estava em segurança e fora do caminho, e ela conseguiu cumprimentá-la de uma forma razoavelmente agradável e até lhe ofereceu café, que Fran aceitou.

 

E se nos sentássemos na cozinha? sugeriu ela, enquanto desabotoava o casaco.

 

Se quiser. Edna sentia-se justificadamente orgulhosa da sua cozinha imaculada, com a mesa de carvalho nova em folha que tinha comprado num saldo.

 

À mesa, Fran tirou o gravador da mochila. Pousou-o casualmente no tampo da mesa.

 

Sabe, Sr.a Barry, estou aqui porque quero ajudar Molly, e tenho a certeza de que a senhora também quer. É por isso que, com a sua autorização, preciso de gravar a conversa. Talvez surja alguma coisa que contribua para ajudar Molly. Tenho a certeza de que ela está cada vez mais convencida de que não foi a responsável pela morte do marido. Na verdade, está a começar a lembrar-se de coisas que aconteceram naquela noite, e uma delas é que havia mais alguém lá em casa quando ela chegou do Cape. Se isso for provado, talvez signifique que a condenação poderá ser anulada ou, pelo menos, que a investigação poderá ser reaberta. Não seria maravilhoso? Edna Barry estava a deitar água na máquina de café.

 

Sim, claro, seria maravilhoso! disse. E depois. Oh, céus. Os olhos de Fran semicerraram-se quando ela viu que a Sr.a Barry tinha entornado água na bancada. ”A mão dela está a tremer”, pensou Fran. ”Alguma coisa em tudo isto está a perturbá-la. Percebi que estava nervosa no outro dia quando a vi em casa de Molly, e sem dúvida que estava tensa quando falei com ela pelo telefone para lhe pedir para vir aqui hoje.”

 

Quando o aroma do café começou a encher o aposento, Fran dedicou-se a tentar fazer Edna Barry descontrair-se e a deixar cair a guarda.

 

Eu andei no liceu com a Molly, em Cranden disse ela. Ela disse-lhe isso?

 

Sim, disse. Edna tirou chávenas e pires do armário e pousou-os em cima da mesa. Espreitou para Fran por cima dos óculos durante alguns instantes antes de se sentar.

 

”Ela está a pensar no escândalo do fundo da biblioteca”, pensou Fran, e depois afastou a preocupação e continuou a entrevista.

 

Mas parece que a conhece ainda há mais tempo do que eu...

 

Oh, sim. Trabalhei para os pais dela desde que ela era pequena. Mas eles mudaram-se para a Florida pouco depois de ela casar, e foi quando comecei a trabalhar para ela.

 

Então, também conhecia o Dr. Lasch muito bem? Edna Barry pensou na pergunta.

 

Acho que a resposta para essa pergunta tem de ser sim e não. Ia lá três manhãs por semana. O doutor já tinha saído para o trabalho quando eu chegava às nove horas e raramente estava em casa à uma, quando eu saía. Mas se Molly oferecia um jantar... o que acontecia com bastante frequência... nesse caso, eu vinha servir e limpar. Na verdade, era a única altura em que os via juntos. Quando eu o via ele era sempre muito agradável.

 

Fran reparou que os lábios de Edna Barry se tinham apertado numa linha estreita, como se aquilo em que estava a pensar enquanto falava não fosse muito agradável.

 

Quando o via com a Molly tinha a impressão de que eles eram felizes? perguntou ela.

 

Até àquele dia em que cheguei e a Molly estava tão perturbada a fazer as malas para ir para o Cape, nunca percebi sequer vestígios de uma discussão. Acho que antes daquele dia eu tinha sentido que o tempo pesava muito sobre ela. Fazia muito trabalho voluntário na cidade, e sei que é muito boajogadora de golfe, mas por vezes dizia-me que sentia a falta de ter um emprego. E, é claro, também tinha alguns problemas difíceis. Estava tão ansiosa por iniciar uma família, e depois, quando teve aquele último aborto, pareceu diferente, muito calma, muito circunspecta.

 

”Nada do que Edna Barry está a dizer ajuda realmente a Molly”, pensou Fran, quando meia hora mais tarde terminou a segunda chávena de café. Só tinha mais algumas perguntas para fazer e até agora a mulher não tinha colaborado muito.

 

Sr.a Barry, o sistema de alarme não estava ligado quando foi trabalhar naquela segunda-feira, pois não?

 

Não, não estava.

 

Verificou se havia alguma porta aberta que um intruso pudesse ter usado?

 

Não havia nenhuma porta aberta. A voz de Edna Barry tornou-se inesperadamente antagónica e as pupilas dos seus olhos dilataram-se.

 

”Toquei num ponto sensível”, pensou Fran, e há mais alguma coisa que ela não me está a dizer.

 

Quantas portas tem a casa?

 

Quatro respondeu ela sem parar para pensar. A porta principal. A porta da cozinha. Tinham a mesma chave. Uma porta da sala íntima para o pátio. Essa só abria do interior. Uma porta na cave que estava sempre fechada à chave e com ferrolhos.

 

Verificou-as todas pessoalmente?

 

Não, mas a Polícia verificou, Menina Simmons. Por que é que não fala com eles?

 

Não estou a questionar o que me disse, Sr.a Barry disse Fran, num tom conciliatório.

 

Aparentemente apaziguada, Edna Barry disse:

 

Naquela sexta-feira à tarde, quando saí, verifiquei todas as portas para ter a certeza de que estavam trancadas. O Dr. Lasch entrava sempre pela porta principal. O ferrolho do chão não estava corrido naquela segunda-feira de manhã, o que quer dizer que, durante o fim-de-semana, alguém usou aquela porta.

 

O ferrolho do chão?

 

À noite, Molly corre-o sempre. A porta da cozinha estava fechada à chave quando eu entrei. Tenho a certeza disso.

 

As faces de Edna Barry estavam ruborizadas. Fran percebeu que a mulher estava à beira das lágrimas.

 

”Tem medo porque pensa que pode ter sido descuidada e deixado a casa aberta?”, pensou.

 

Obrigada pela sua ajuda e pela hospitalidade, Sr.a Barry disse Fran. Já lhe ocupei demasiado tempo por agora, mas talvez queira fazer-lhe mais algumas perguntas depois e, possivelmente, vamos convidá-la para participar no nosso programa.

 

Eu não quero ser convidada para o programa.

 

Claro. Como queira. Fran desligou o gravador e levantou-se para sair. À porta, fez uma última pergunta:

 

Sr.a Barry, vamos considerar a possibilidade de estar mais alguém na casa na noite em que o Dr. Lasch morreu. Sabe se as fechaduras de alguma das portas foram mudadas?

 

Que eu saiba. não.

 

Vou sugerir à Molly que devem ser mudadas. Caso contrário, ela pode correr perigo de um estranho se introduzir na casa. Não concorda?

 

Foi então que a cor desapareceu do rosto de Edna Barry.

 

Menina Simmons disse ela, se tivesse visto o que eu vi no primeiro andar... Molly deitada naquela cama, coberta de sangue seco... saberia que naquela noite não entrou nenhum intruso lá em casa. Pare de tentar arranjar problemas a pessoas inocentes.

 

A que pessoas inocentes é que estou a tentar arranjar problemas, Sr.a Barry? perguntou Fran. Pensei que estava a tentar ajudar uma jovem, uma pessoa que a senhora conhece há muitos anos e de quem diz gostar, a conseguir talvez provar que é inocente deste crime!

 

A Sr.a Barry não disse nada e os seus lábios eram uma linha sombria e fina quando abriu a porta para Fran sair.

 

Voltaremos a falar, Sr.a Barry disse Fran, sem sorrir. Tenho a sensação de que ainda terei muitas perguntas para si que precisam de respostas.

 

Como Molly suspeitou, quando o telefone tocou no sábado à tarde, tratava-se de Jenna.

 

Estive agora mesmo a falar com Philip Matthews disse Jenna. Já sei que vais cozinhar o jantar para ele. Aprovo.

 

Santo Deus, nem sequer penses nesses termos protestou Molly. Ia ter de o aguentar a bater à porta se não o deixasse vir cá, e como não estou preparada para ir a um restaurante, pareceu-me a atitude mais lógica.

 

Bem, nós decidimos que, convidados ou não, vamos aí tomar uma bebida. Cal está ansioso por te ver.

 

Não estão convidados disse Molly, mas venham por volta das sete horas.

 

Moll... disse Jenna, e depois hesitou.

 

Podes dizer. Tudo bem.

 

Oh, não é nada dramático, minha amiga. É só que pareces tu própria outra vez... e eu adoro!

 

”Quem é esta eu própria?”, pensou Molly.

 

Nada como janelas sem grades e um lençol de cetim na cama comentou. Fazem maravilhas à alma.

 

Espera até estares em Manhattan para fazeres o tratamento completo. Que estás a pensar fazer hoje?

 

Molly hesitou e depois decidiu que não estava preparada para partilhar, nem mesmo com Jenna, o facto de estar a verificar as agendas de Gary, a analisar dia a dia, na tentativa de encontrar pistas. Em vez disso, contentou-se com uma meia verdade.

 

Como vou ser anfitriã, por muito indesejado que seja esse papel, vou começar a preparar algumas coisas na cozinha. Há muito tempo que não faço nada desse género.

 

Era verdade. O resto da verdade era que as agendas de Gary remontavam a muitos anos antes da sua morte e estavam empilhadas na mesa da cozinha. A trabalhar de frente para trás, começando pela data da morte dele, analisou-as página a página.

 

Molly recordava-se de que o horário de Gary sempre tinha sido intenso e que ele estava sempre a escrever notas para não se esquecer de nada. Ela já tinha encontrado diversas anotações, coisas do género: ”17 horas. Telefonar a Molly para o clube.”

 

Angustiada, lembrou-se que havia alturas em que ele lhe telefonava e perguntava: ”Por que é que tenho na agenda que é suposto telefonar-te agora?”

 

Às cinco e meia, pouco antes de pôr a mesa para o jantar daquela noite, Molly encontrou a anotação que queria. Era um número de telefone que aparecia diversas vezes no último diário de Gary. Ligou para as informações e soube que o indicativo era em Buffalo.

 

Marcou o número e, quando uma mulher atendeu, Molly perguntou se Annamarie estava.

 

É a própria disse Annamarie Scalli, calmamente.

 

Depois de sair da casa de Edna Barry, Fran embarcou numa peregrinação por Greenwich, mais uma viagem pela alameda da memória. Desta vez foi até ao Stationhouse Pub com a ideia de ali almoçar. ”Costumávamos vir aqui para um jantar rápido antes do cinema”, recordou, nostalgicamente.

 

Fran pediu peru em pão de centeio. Era o preferido da mãe. Observou a sala de refeições. Era improvável que a mãe voltasse a pôr os pés em Greenwich. As recordações eram demasiado dolorosas para ela. A piada naquele último Verão tinha sido que, ao invés de uma nova biblioteca, a cidade tinha ficado com uma nova instituição de empréstimos: o Fundo Simmons. ”Que gracinha”, pensou amargamente.

 

Considerara a possibilidade de passar pela casa onde tinham vivido ao longo daqueles quatro anos, mas apercebeu-se de que ainda não estava preparada para dar esse passo. ”Não hoje”, pensou Fran enquanto fazia sinal para pedir a conta.

 

Quando voltou para a cidade e para o prédio onde tinha o seu apartamento, Fran viu que Philip Matthews tinha cumprido a sua palavra. Um pacote volumoso estava à sua espera na secretária do átrio. Abriu-o e constatou que se tratava da transcrição integral do julgamento de Molly Lasch.

 

Olhou ansiosamente para o documento, cheia de vontade de começar, mas sabia que teria de esperar. Primeiro tinha algumas coisas para fazer, lembrou a si mesma. Não podia deixar de comprar alguma comida, depois precisava de ir à lavandaria e ao Bloomingdale’s, para comprar collants e cosméticos.

 

Eram quatro e meia quando, por fim, conseguiu pôr tudo de lado, fazer uma chávena de chá e depois instalar-se na funda poltrona, instalar os pés sobre a otomana e abrir a transcrição.

 

O texto não constituiu uma leitura bonita. O advogado de acusação apresentara um argumento forte e arrepiante: Há evidência de uma luta? Não. [...] ferimento aberto na cabeça do Dr. Gary Lasch [...] crânio esmagado. [...] Ele foi atacado quando estava sentado à secretária, de costas para o atacante [...] completamente indefeso. [...] As provas vão mostrar que as impressões digitais de Molly Lasch, nítidas e ensanguentadas, estavam naquela escultura, que o sangue de Gary Lasch estava no seu rosto, mãos e roupas [...] que não havia sinais de arrombamento. [...]

 

”Não havia sinais de arrombamento”, pensou Fran. ”Obviamente, a Polícia verificou mesmo as portas. No entanto, não dizem nada sobre estarem fechadas à chave ou não. Philip Matthews seguiu essa pista?”, perguntou a si mesma. Sublinhou aquela parte do testemunho com um marcador amarelo.

 

”Molly Lasch não assassinou o marido, Gary Lasch. Estou a começar a acreditar que isso pode ser verdade”, pensou Fran. ”Agora vamos avançar mais um passo. Vamos presumir que outra pessoa assassinou Gary Lasch, e teve a sorte de a Molly ter entrado, ter descoberto o marido e ter ficado tão traumatizada que, inadvertidamente, fez tudo o que estava ao seu alcance para se incriminar. Pegou na arma que o matara, tocou-lhe no rosto e na cabeça, salpicou-se toda com o sangue dele.

 

”Salpicou-se toda com o sangue dele”, pensou Fran. ”Se Gary Lasch ainda estava vivo quando Molly o encontrou, será possível que tenha conseguido dizer-lhe alguma coisa? Se havia alguém na casa, então, Molly podia ter chegado momentos depois de Gary ter sido atacado.

 

”Teria Molly chegado a casa, ido para o escritório, encontrado o marido mortalmente ferido mas ainda vivo?”, perguntou Fran a si mesma. Isso explicaria a razão por que lhe tinha tocado, por que tinha a boca e o rosto cobertos de sangue. Teria tentado ressuscitá-lo quando o encontrara?

 

Ou só teria tentado ressuscitá-lo depois de se aperceber do que lhe havia feito?

 

”Se partirmos da ideia de que ela é inocente, então, neste momento, alguém está terrivelmente, terrivelmente nervoso”, apercebeu-se Fran.

 

A certeza de que Molly Lasch corria um grande perigo invadiu-a. ”Se Gary Lasch estava sozinho numa casa, uma casa que, segundo as provas, estava fechada, e aparentemente não tinha ouvido o atacante entrar no escritório, então, a mesma coisa podia acontecer a Molly”, pensou Fran.

 

Pegou no telefone. ”Ela vai pensar que estou doida, mas vou telefonar-lhe.”

 

O cumprimento de Molly pareceu-lhe apressado.

 

Fran. Parece hora de reunião explicou. Philip Matthews vem cá jantar e a Jenna e o Cal insistiram em passar por aqui para tomar uma bebida. E acabei de receber um telefonema de Peter Black. Ele não ficou contente quando eu lhe disse que tu querias falar com ele, mas agora parecia bastante civilizado. Também vem cá a casa.

 

Então, não vou ocupar-te mais tempo disse Fran, mas lembrei-me de uma coisa. A Sr.a Barry disse-me que as portas têm as mesmas fechaduras que tinham quando compraste a casa.

 

Isso mesmo.

 

Escuta, acho que seria boa ideia mudá-las.

 

Não tinha pensado no assunto.

 

Quantas pessoas é que têm um conjunto de chaves?

 

Não é um conjunto. Na verdade, é apenas uma chave. A porta principal e a da cozinha têm a mesma chave. As portas do pátio e da cave estão sempre trancadas do interior. Havia apenas quatro chaves. A do Gary. A minha. A da Sr.a Barry. E a que temos escondida no jardim.

 

Quem é que sabe da que está no jardim?

 

Creio que ninguém sabe. Era unicamente para emergências e nunca era usada. Gary nunca se esquecia das chaves e eu também não. A Sr.a Barry nunca se esquece de nada. Vais ter de me desculpar, Fran, mas tenho de desligar.

 

Molly, chama uma pessoa para te mudar as fechaduras na segunda-feira. Por favor.

 

Fran, eu não estou em perigo, a menos...

 

A menos que tenhas tido o azar de chegar ao local de um crime e ficado traumatizada, e agora alguém andar com medo de que te lembres.

 

Fran ouviu Molly a arfar. Depois, com a voz embargada, Molly disse:

 

É a primeira vez em seis anos que oiço alguém sugerir que eu posso estar inocente.

 

Então, percebes por que é que quero que mudes as tuas fechaduras? Vamos combinar encontrarmo-nos na segunda-feira.

 

Sim, isso mesmo. Posso ter uma novidade muito interessante para ti disse Molly.

 

”Que é que ela quis dizer com aquilo?”, perguntou Fran a si mesma ao pousar o auscultador.

 

Tim Mason tinha planeado fazer um último fim-de-semana de esqui em Stowe, Vermont, mas um telefonema do primo Michael, que continuava a viver em Greenwich, fê-lo mudar de planos. A mãe de Billy Gálio, um velho companheiro de escola dos dois homens, tinha morrido de ataque cardíaco, e Michael pensara que Tim gostaria de ir ao velório.

 

Foi por isso que no sábado à noite Tim estava na Merritt Parkway, a conduzir para o sul do Connecticut e a pensar nos anos do liceu em que ele e Billy Gálio tinham tocado juntos no grupo. Já nessa época Billy era um verdadeiro músico, reflectiu Tim. Lembrava-se de como tinham tentado criar a sua própria banda no último ano e de como ensaiavam sempre em casa de Billy.

 

A Sr.a Gálio, uma mulher calorosa e hospitaleira, estava sempre a convidá-los para ficarem para o jantar, e nunca era necessário usar de muita persuasão. A cozinha dela encantava-os, com aromas de pão acabado de fazer, alho e perfumado molho de tomate. Tim recordava-se de como o Sr. Gálio vinha para casa do emprego e ia directamente para a cozinha, como se tivesse receio de que a mulher não estivesse lá. No minuto em que a avistava, o seu rosto abria-se num grande sorriso e ele dizia: ”Josie, estás novamente a abrir latas.”

 

Com alguma pena, Tim pensou nos pais e nos anos que tinham antecedido o divórcio, quando ele ficava contente por escapar à frieza cada vez maior entre eles.

 

”O Sr. Gálio nunca deixava de dizer aquela frase pirosa”, pensou ele. ”E a Sr.a Gálio ria-se sempre como se fosse a primeira vez que a ouvia. Eram claramente doidos um pelo outro.” No entanto, o Sr. Gálio nunca fora muito próximo de Billy. Pensava que Billy estava a perder tempo ao tentar ser músico.

 

Enquanto conduzia e pensava naqueles dias do passado, Tim recordou outro funeral a que tinha assistido em Greenwich. Na altura, já tinha terminado os estudos e trabalhava como jornalista.

 

Pensou em Fran Simmons, no desgosto profundo que ela tinha sentido. Na igreja, os seus soluços abafados tinham sido audíveis ao longo de toda a missa. Depois, quando o caixão estava a ser erguido para a carreta, ele tinha-se sentido como um voyeur, a tomar notas para a sua história enquanto o operador de câmara captava imagens fugazes.

 

Catorze anos tinham mudado Fran Simmons. Não era apenas por ter crescido. Tinha um profissionalismo frio, como se fosse uma armadura; sentira isso quando se tinham encontrado no gabinete de Gus. Tim ficou embaraçado ao perceber que, quando tinham sido apresentados, ele estava a pensar no pai dela e que tinha sido um patife. Por que é que tinha a sensação desconfortável de que lhe devia um pedido de desculpas por isso?

 

Estava tão embrenhado nos seus pensamentos que chegou à saída de North Street antes de se aperceber, e por pouco não via o desvio. Três minutos depois estava na casa funerária.

 

O lugar estava cheio de amigos da família Gálio. Tim viu um grupo de rostos conhecidos, pessoas com quem tinha perdido o contacto, e diversas vieram ter com ele enquanto aguardava na fila para falar com o Sr. Gálio e com Billy. A maior parte fez comentários lisonjeiros sobre as suas reportagens, mas logo a seguir a esses comentários vieram referências a Fran Simmons, porque agora ela estava no programa com ele.

 

Aquela é a Fran Simmons cujo pai desfalcou o fundo da biblioteca, não é? perguntou a irmã da Sr.a Gálio.

 

A minha tia acha que a viu na cafetaria no Hospital Lasch comentou outra pessoa qualquer. Que diabo estaria ela a fazer lá?

 

Aquela pergunta foi feita a Tim no momento em que ele ficou frente a frente com Billy Gálio, que, obviamente, tinha ouvido. Com os olhos inchados de chorar, ele apertou a mão a Tim.

 

Se a Fran Simmons está a investigar alguma coisa no hospital, diz-lhe que descubra por que é que estão a deixar os pacientes morrer quando isso não tem de acontecer disse ele, amargamente.

 

Tony Gálio tocou na manga do filho.

 

Billy, Billy, foi a vontade de Deus.

 

Não, pai, não foi. Muitas pessoas com problemas cardíacos podem ser salvas. A voz de Billy, agitada e tensa, aumentou o volume. Ele apontou para o caixão da mãe. A mãe não devia estar ali dentro, não antes de outros vinte anos. Os médicos no Lasch não se importaram... limitaram-se a deixá-la morrer. Agora estava praticamente a soluçar. Tim, tu e a Fran Simmons e todos os jornalistas do teu programa de televisão deviam investigar isto. Têm de descobrir por que é que esperaram tanto tempo, por que é que ela não foi mandada a um especialista a tempo.

 

Com um gemido estrangulado, Billy Gálio tapou o rosto com as mãos e rendeu-se uma vez mais às lágrimas contra as quais tinha estado a lutar. Tim apertou-lhe os dois braços com mãos firmes, segurando-o até que os soluços de Billy acalmaram e, num tom de voz calmo e triste, ele conseguiu perguntar finalmente:

 

Tim, diz-me a verdade. Alguma vez provaste um molho para o esparguete melhor do que o que a minha mãe fazia?

 

”Não sei como é que deixei isto acontecer”, pensou Molly, enquanto pousava uma travessa de queijo e bolachas na mesa da sala íntima.

 

Ver Cal e Peter Black ali, juntos, perturbou-a de forma que ela não tinha previsto. A serenidade, o conforto que sentira ao ver-se na sua casa tinham desaparecido inesperadamente. Era como se a sua privacidade tivesse sido violada. Ver aqueles dois homens ali trouxe de volta as muitas vezes em que se encontravam com Gary no seu escritório. Os três passavam horas ali em conferência os outros elementos do Conselho de Administração da Remington Health Management eram apenas acessórios.

 

Naqueles últimos dias, tinha sentido a casa de uma forma diferente de como se lembrava. Era como se os cinco anos e meio que passara na prisão tivessem mudado a sua percepção da vida como a conhecera.

 

”Antes de Gary morrer, eu acreditava que era feliz”, pensou Molly. ”Acreditava que a inquietação horrível que sentia se devia à minha frustração por não ter um bebé.

Agora sentia a opressão antiga e conhecida fechar-se à sua volta. Percebeu que Jenna tinha notado a sua mudança de humor e estava preocupada. Jenna tinha-a seguido para a cozinha, insistira em cortar o queijo em cubos, colocara as bolachas na travessa, dobrara cuidadosamente os guardanapos.

 

Depois de ter sido tão antipático ao telefone, nesta noite, Peter Black estava a esforçar-se ao máximo para ser agradável. Ao entrar, beijara-a na face e apertara-lhe a mão. A mensagem era clara: aquela tragédia terrível já acabou.

 

”Já?”, pensou ela. ”Será que podemos fazer coisas como estas... o homicídio, os anos de prisão... desaparecerem simplesmente, como se nunca tivessem acontecido? Não me parece”, decidiu, enquanto olhava para aqueles velhos amigos, ou o que quer que eles eram, reunidos naquela sala.

 

Olhou para Peter Black ele parecia extremamente desconfortável. Por que teria insistido em ir ali?

 

Philip Matthews parecia ser o único descontraído. Tinha sido o primeiro a chegar, apresentando-se pontualmente às sete horas da noite, com uma amarílis na curva do braço.

 

Sei que andas com vontade de jardinar dissera. Talvez encontres um lugar para uma amarílis.

 

Os enormes rebentos de um encarnado-pálido eram uma beleza.

 

Tem cuidado avisou-o ela. A amarilis também se chama beladona-bastarda, e a beladona é um veneno.

 

A descontracção que sentira naquela altura tinha desaparecido. Agora, Molly sentia que até o ar estava envenenado. Cal Whitehall e Peter Black não estavam ali como uma comissão de boas-vindas isso ficara claro desde o começo. Eles tinham uma agenda diferente.

 

Isso também explicaria o nervosismo de Jenna, decidiu. Fora ela quem forçara a reunião.

 

Molly queria dizer a Jenna que não havia problema. Compreendia que Cal era um cilindro compressor, que se tivesse decidido ir, Jenna não teria conseguido impedi-lo.

 

O motivo por detrás da visita deles depressa se tornou evidente. Foi Cal o primeiro a abordar o assunto.

 

Molly, ontem aquela repórter de televisão, Fran Simmons, esteve na cafetaria do hospital a fazer perguntas. Foste tu que sugeriste a ida dela lá?

 

Não, eu não sabia que Fran lá ia respondeu ela com um encolher de ombros. Mas por mim não há problema.

 

Oh, Molly, por favor murmurou Jenna. Não compreendes o que estás a fazer a ti própria?

 

Sim, compreendo, Jen disse Molly em voz baixa mas com firmeza.

 

Cal pousou o copo na mesa com força desnecessária, provocando o derrame de alguns pingos.

 

Molly resistiu à necessidade de limpar imediatamente o líquido, parte do seu impulso para fazer alguma coisa que a fizesse escapar daquele pesadelo. Ao invés disso, olhou para os dois homens que tinham sido os sócios do marido.

 

Cal não ia ignorar o líquido que tinha entornado. Deu um salto e balbuciou:

 

Vou buscar papel absorvente.

 

Na cozinha, olhou em volta e encontrou o suporte do papel. Quando se preparava para sair, os seus olhos pousaram na única anotação no calendário de parede. Estudou-a cuidadosamente.

 

As faces de Peter Black estavam ruborizadas; era evidente que não era a sua primeira bebida da noite.

 

Moly, sabes que estamos em negociações para a aquisição de diversas outras organizações de prestação de cuidados de saúde. Se continuares a insistir em permitir, e em encorajar, a continuação deste programa, podes pelo menos pedir a Fran Simmons que adie as investigações até a fusão estar concluída?

 

”Então, o problema é este”, pensou Molly. ”Eles têm medo de que, se eu abrir feridas antigas, a infecção se espalhe para eles.”

 

É claro que não há nada para esconder acrescentou ele, enfaticamente. Mas conversas, coscuvilhices e rumores já arruinaram muitas negociações importantes.

 

Ele estava a beber uísque escocês e Molly observou-o enquanto ele esvaziava o copo. Recordou que há alguns anos ele bebia como uma esponja. Obviamente, não tinha mudado.

 

E, Molly, por favor, desiste da ideia de tentar localizar a Annamarie Scalli implorou Jen. Se ela soubesse da possibilidade de um programa de televisão, podia vender a sua história a uma dessas revistas de escândalos.

 

Molly continuou sentada, calada, a olhar para aquelas três pessoas, sentindo os velhos medos e dúvidas a ferver por debaixo da superfície calma que tinha conseguido ostentar até então.

 

Penso que o caso foi apresentado disse Philip Matthews, bruscamente, quebrando o silêncio incómodo. E se mudássemos de assunto?

 

Peter Black, Jenna e Cal saíram pouco depois. Philip Matthews esperou até a porta se fechar atrás deles e depois perguntou:

 

Molly, preferes esquecer o jantar e que eu desapareça da tua frente?

 

À beira das lágrimas, ela acenou afirmativamente e depois conseguiu dizer:

 

Como o jogo foi adiado por causa da chuva, se quiseres, podes receber um bilhete grátis para o próximo.

 

Claro que quero.

 

Molly tinha preparado coq au vin e arroz selvagem. Depois de Philip sair, tapou os pratos e guardou-os no frigorífico, e em seguida foi verificar se as portas estavam bem fechadas e encaminhou-se para o escritório. Naquela noite, talvez por Cal e Peter Black terem estado ali, tinha a forte sensação de que algo espreitava nos limites da sua mente consciente, tentando sair.

 

”Que seria?”, perguntou a si mesma. Recordações antigas, velhos medos que a arrastariam mais profundamente para a depressão que sentia? Ou providenciariam respostas, talvez até a ajudassem a escapar das trevas que ameaçavam envolvê-la? Teria de esperar para ver. Não acendeu nenhuma luz e enroscou-se no sofá, envolvendo as pernas com os braços.

 

Perguntou a si mesma o que pensariam Cal, Peter e Philip Matthews se suspeitassem de que no dia seguinte, às oito horas da noite, num restaurante de beira de estrada em Rowayton, ela ia encontrar-se com Annamarie Scalli?

 

Ao abrir a porta do apartamento às sete e meia e descobrir o Times de domingo, volumoso e convidativo, à sua espera, Fran decidiu que não havia nada como as manhãs de domingo em Manhattan. Preparou sumo, café e um queque, instalou-se na sua grande poltrona, pousou os pés na otomana e pegou no primeiro caderno do jornal. Alguns minutos depois pousou-o, apercebendo-se de que tinha absorvido muito pouco do que lera.

 

Estou preocupada disse em voz alta, e depois recordou a si mesma que era mau hábito falar sozinha.

 

Não tinha dormido bem na noite anterior e tinha a certeza de que aquela inquietação tinha alguma coisa a ver com a misteriosa declaração de Molly, de que podia ter uma novidade muito interessante para ela.

 

”Que tipo de novidade poderia ser muito interessante?”, perguntou a si mesma.

 

”Se Molly está a fazer alguma investigação privada, pode arranjar problemas”, pensou Fran. Desviou o jornal, levantou-se, serviu-se de uma segunda chávena de café e voltou para a poltrona, desta vez para ler a transcrição do julgamento.

 

Na hora seguinte estudou os testemunhos, linha a linha. Havia testemunhos dos primeiros polícias a chegar ao local do crime, bem como do médico que examinara o cadáver. Seguiam-se os testemunhos de Peter Black e dos Whitehalls, que descreviam o último encontro com Gary Lasch, algumas horas antes de ele morrer.

 

”Claramente, foi quase como arrancar dentes obrigar Jenna a dizer alguma coisa negativa”, pensou Fran, enquanto estudava cuidadosamente o testemunho dela.

 

ACUSAÇÃO: Falou com a arguida na semana anterior à morte do marido, enquanto ela estava na casa de Cape Cod?

 

JENNA: Falei.

 

ACUSAÇÃO: Como é que caracterizaria o lado emocional dela?

 

JENNA: Estava muito triste.

 

ACUSAÇÃO: Estava zangada com o marido, Dr.a Whitehall?

 

JENNA: Estava perturbada.

 

ACUSAÇÃO: Não respondeu à minha pergunta. Molly Carpenter Lasch estava zangada com o marido?

 

JENNA: Sim, acho que se pode dizer que sim.

 

ACUSAÇÃO: Ela expressou grande raiva pelo marido?

 

JENNA:Não se importa de repetir a pergunta?

 

ACUSAÇÃO: Claro que não, e o meretíssimo juiz não se importa de dizer à testemunha para responder sem equívocos?

 

Juiz: A testemunha tem de responder à pergunta.

 

ACUSAÇÃO: Dr.a Whitehall, durante as suas conversas telefónicas com Molly Carpenter Lasch, na semana que antecedeu a morte do marido dela, ela expressou grande raiva por ele?

 

JENNA: Sim.

 

ACUSAÇÃO: Sabia o motivo por que Molly Carpenter Lasch estava com raiva do marido?

 

JENNA: Não, inicialmente não sabia. Perguntei-lhe, mas ela não me queria contar. Só me disse naquele domingo à tarde.

 

Quando leu o testemunho de Calvin Whitehall, Fran decidiu que, intencionalmente ou não, ele tinha sido uma testemunha extremamente prejudicial. ”O delegado do Ministério Público deve tê-lo adorado”, pensou ela.

 

ACUSAÇÃO: Dr. Whitehall, o senhor e o Dr. Peter Black visitaram o Dr. Gary Lasch no domingo, dia 8 de Abril, à tarde. Correcto?

 

CALVIN WHITEHALL: Correcto.

 

ACUSAÇÃO: Qual foi o objectivo da vossa visita?

 

CALVIN WHITEHALL: O Dr. Black disse-me que estava muito preocupado com Gary. Disse que tinha sido óbvio durante toda a semana que Gary estava profundamente preocupado, por isso, resolvemos ir visitá-lo.

 

ACUSAÇÃO: Ao dizer ”nós”, está a referir-se...?

 

CALVIN WHITEHALL: Ao Dr. Peter Black e eu próprio.

 

ACUSAÇÃO: Que aconteceu quando lá chegaram?

 

CALVIN WHITEHALL: Eram aproximadamente cinco horas da tarde. Gary levou-nos para a saleta íntima. Tinha preparado um prato com queijo e bolachas e abrira uma garrafa de vinho. Serviu um copo para cada um de nós e disse: ”Lamento dizer isto, mas chegou o momento das verdadeiras confissões.” Depois admitiu que tinha um caso amoroso com uma enfermeira do hospital chamada Annamarie Scalli e que ela estava grávida.

 

ACUSAÇÃO: O Dr. Lasch estava preocupado com a vossa possível reacção?

 

CALVIN WHITEHALL: Claro. Aquela enfermeira tinha pouco mais de vinte anos. Tínhamos medo das ramificações... um processo por assédio sexual, por exemplo. Não podemos esquecer-nos de que Gary era o director do hospital. O nome Lasch, graças ao legado do pai, é um símbolo de integridade que, evidentemente, se estendia ao hospital e depois para a Remington Health Management. Ficámos extremamente preocupados com a perspectiva de essa imagem mudar devido a um escândalo.

 

Fran continuou a ler a transcrição do julgamento durante mais uma hora. Quando pousou o documento fez pressão na testa, esperando prevenir o início de uma dor de cabeça que sentia aproximar-se.

 

”Gary Lasch e Annamarie Scalli parecem, sem dúvida, ter conseguido manter o caso secreto”, pensou. ”O que salta à vista nestas páginas é o choque absoluto de Molly, de Peter Black e dos Whitehalls, as pessoas mais próximas dele, quando souberam.”

 

Lembrou os olhos muito abertos de Susan Branagan, a voluntária da cafetaria do hospital, numa expressão de espanto. Ela tinha dito que toda a gente presumira que Annamarie Scalli estava a apaixonar-se por aquele simpático Dr. Morrow.

 

”O Dr. Jack Morrow, que foi assassinado pouco tempo antes do Gary”, recordou Fran a si própria.

 

Eram dez horas. Pensou ir correr, mas depois chegou à conclusão de que não lhe apetecia. ”Talvez veja o que está a passar no cinema”, pensou. ”Vou ver uma fita, como o pai diria.”

 

O telefone tocou no momento em que ela pegava no suplemento de entretenimento do jornal para começar a procurar o filme certo, no cinema certo, na altura certa.

 

Era Tim Mason.

 

Surpresa disse ele. Espero que não te importes. Telefonei ao Gus e ele deu-me o teu número de telefone.

 

Não me importo nada. Se é uma sondagem desportiva, embora tenha vivido na Califórnia durante catorze anos, os Yankees são a minha equipa. Também quero que o Ebbets Field seja reconstruído. E tenho de dizer que entre os Giants e os Jets a diferença é pouca, mas se tivesse de escolher no altar, escolheria os Giants.

 

Mason riu-se.

 

É disso que eu gosto... uma mulher que sabe tomar decisões. Na verdade, telefonei para saber se por acaso não terias nada melhor para fazer e, consequentemente, considerarias a hipótese de te encontrares comigo para um brunch no Neary’s.

 

O Restaurante Neary’s ficava virtualmente ao virar da esquina do apartamento de Fran, na Rua Cinquenta e Sete.

 

Fran percebeu que estava não apenas surpreendida mas contente com o convite. Quando se tinham conhecido, não gostara da forma como os olhos de Mason tinham reflectido a consciência de quem ela era e de quem o pai tinha sido, mas depois dissera a si mesma que tinha de esperar essa reacção. Ele não tinha a culpa de saber que o pai dela era um ladrão.

 

Obrigada. Gostava muito disse ela com sinceridade.

 

Ao meio-dia?

 

Óptimo.

 

Por favor, não te produzas muito.

 

Não estava a pensar produzir-me. Dia de descanso e tudo. Depois de desligar, Fran falou sozinha em voz alta pela segunda vez naquela manhã:

 

Afinal de contas, o que é isto? perguntou. De certeza que não é o velho ”rapaz-conhece-rapariga”.

 

Fran chegou ao Neray’s e encontrou Tim Mason a conversar animadamente com o empregado de mesa. Usava uma camisa desportiva com o colarinho desapertado, casaco de bombazina verde e calças castanhas. Tinha os cabelos despenteados e o casaco estava frio quando lhe tocou no braço.

 

Não sei porquê, mas parece-me que não apanhaste um táxi disse ela quando ele se voltou.

 

Não gosto de todos aqueles cartazes acerca da utilização do cinto de segurança disse ele. Por isso vim a pé. É bom ver-te, Fran. Sorriu-lhe.

 

Fran tinha calçado botins de saltos baixos e percebeu que se sentia como se sentira no primeiro ano do liceu baixa.

 

Um sorridente Jimmy Neary deu-lhes uma das quatro mesas de canto, o que indicou imediatamente a Fran que Tim Mason devia ser um cliente regular e favorito. Desde que se tinha mudado para Nova Iorque, há algumas semanas, tinha ido ali uma vez com um casal do seu prédio. Também lhes tinha sido atribuída uma mesa de canto, e eles tinham-lhe explicado o significado.

 

Enquanto bebiam Bloody Marys, Tim falou de si próprio.

 

Os meus pais saíram de Greenwich depois de se divorciarem contou-lhe. Foi no ano a seguir a eu ter acabado a faculdade, e estava a trabalhar para o Greenwich Time. O editor dizia que eu era um repórter estagiário, mas na verdade eu era essencialmente um moço de recados. Foi a última vez que vivi lá.

 

Há quantos anos foi isso? perguntou Fran.

 

Catorze.

 

Ela fez um rápido cálculo mental.

 

Foi por isso que tu reconheceste o meu nome. Sabias o que tinha acontecido ao meu pai.

 

Ele encolheu os ombros.

 

Sim. O seu sorriso foi apologético.

 

A empregada de mesa entregou-lhes as ementas, mas ambos pediram Ovos Benedict sem sequer olharem para as opções. Depois de a empregada se afastar, Tim bebeu um golo do seu Bloody Mary e disse:

 

Tu não perguntaste, mas vou contar-te a história da minha vida, que penso que considerarás especialmente arrebatadora, já que, obviamente, sabes o que queres.

 

”Na verdade, não somos muito diferentes”, pensou Fran, enquanto escutava Tim a falar sobre o seu primeiro trabalho, a comentar os jogos do liceu numa pequena cidade de que ela nunca tinha ouvido falar, na parte superior do Estado de Nova Iorque. Depois, ela contou-lhe que tinha estagiado num pequeno canal por cabo local, numa cidade localizada próximo de San Diego, onde o acontecimento mais empolgante era a reunião do Conselho da cidade.

 

No começo, uma pessoa aceita o emprego que consegue encontrar disse ela, enquanto ele acenava em sinal de concordância.

 

Também ele era filho único, mas ao contrário dela não tinha meios-irmãos.

 

Depois do divórcio, a minha mãe mudou-se para Bronxville explicou ele. Ela e o meu pai cresceram lá. Comprou uma moradia. E adivinha o que aconteceu? O meu pai comprou uma no mesmo complexo. Nunca se deram bem enquanto estiveram casados, mas agora saem juntos e nas festas vamos tomar bebidas a casa dele e jantar a casa dela. No princípio, fiquei confuso, mas parece funcionar bem com eles.

 

Bem, felizmente a minha mãe é muito feliz e tem bons motivos para isso disse Fran. Voltou a casar há oito anos. Calculou que eu acabaria por voltar para Nova Iorque e sugeriu que adoptasse o apelido do meu padrasto. Tu sabes seguramente a enorme publicidade que houve em torno do meu pai.

 

Ele acenou afirmativamente.

 

Pois houve. Sentiste-te tentada a fazer isso? Fran dobrou e desdobrou o guardanapo.

 

Não, nunca!

 

Tens a certeza de que é sensato seres tu a investigar um caso passado em Greenwich?

 

Provavelmente, não é sensato, mas por que é que perguntas?

 

Fran, a noite passada estive num velório em Greenwich, de uma senhora que conheci quando era miúdo. Ela morreu de ataque cardíaco no Hospital Lasch. O filho dela é meu amigo e está terrivelmente zangado. Parece achar que se podia ter feito mais por ela e acha que, já que estás com a mão na massa, devias investigar o tratamento que dão aos doentes no hospital.

 

Podia ter sido feito mais pela mãe dele?

 

Não sei. Ele podia estar apenas enlouquecido pelo desgosto, embora eu não ficasse surpreendido se ele te contactasse. Chama-se Billy Gálio.

 

Por que é que ele me telefonaria?

 

Porque ouviu dizer que foste vista na cafetaria do Hospital Lasch na sexta-feira. Aposto que neste momento toda a gente da cidade sabe que estiveste lá.

 

Fran abanou a cabeça, incrédula.

 

Não pensei que estivesse no ar há tempo suficiente para as pessoas me reconhecerem com essa facilidade. É pena disse com um encolher de ombros. No entanto, consegui informações interessantes numa simples conversa com uma voluntária na cafetaria. Provavelmente, ela não se teria aberto se soubesse que sou jornalista.

 

Esta visita está relacionada com o programa que estás a fazer sobre Molly Lasch? perguntou ele.

 

Sim, embora seja essencialmente para me enquadrar disse ela, sem vontade nenhuma de falar sobre a investigação de Molly Lasch. Tim, conheces Joe Hutnik do Greenwich Time?

 

Sim. Joe já fazia parte dos quadros quando eu trabalhei lá. Um bom tipo. Por que é que perguntas?

 

Joe não tem a generalidade das OCS em grande conta, mas parece pensar que a Remington Health Management não é pior do que as outras.

 

Bem, Billy Gálio não é da mesma opinião. Viu uma expressão de preocupação no rosto dela. Mas não te preocupes. Ele é um tipo verdadeiramente simpático... Só está a passar por um momento de grande perturbação.

 

Quando a mesa foi levantada e o café servido, Fran olhou à sua volta. Agora, quase todas as mesas estavam ocupadas e o aconchegante pub estava alegremente movimentado. ”Tim Mason é realmente um bom tipo”, pensou ela. ”Talvez o amigo dele me telefone e talvez não. A verdadeira mensagem do Tim é que eu estou a dar nas vistas em Greenwich e que as velhas histórias, e anedotas, sobre a morte do meu pai estão a ser revividas.”

 

Enquanto observava a sala, não viu o olhar de compaixão de Tim Mason, nem se apercebeu de que a expressão dos seus olhos lhe trouxe nitidamente a imagem da adolescente a chorar o pai.

 

Annamarie Scalli tinha concordado em encontrar-se com Molly às oito da noite num restaurante em Rowayton, uma cidade quinze quilómetros para nordeste de Greenwich.

 

O local e a hora tinham sido sugeridos por Annamarie.

 

”Não está na moda e aos domingos é calmo, especialmente a uma hora tão tardia”, dissera. ”E tenho a certeza de que nenhuma de nós quer tropeçar em alguém conhecido.”

 

Às seis horas demasiado cedo, sabia, Molly estava pronta para sair. Tinha mudado de roupa duas vezes, sentindo-se demasiado bem vestida no fato preto que vestira primeiro e depois demasiado casual de calças de ganga. Por fim, resolveu-se por calças de lã azuis e uma camisola branca de gola alta. Torceu o cabelo num chinó e prendeu-o, lembrando-se de como Gary gostava que o usasse assim, como gostava especialmente das madeixas que escapavam e caíam soltas no pescoço e orelhas. Dizia que a fazia parecer real.

 

”Pareces sempre tão perfeita, Molly”, dizia-lhe ele. ”Perfeita, elegante e bem educada. Consegues fazer com que umas calças de ganga e uma camisola de algodão pareçam um traje formal.”

 

Na altura pensara que ele estava a brincar com ela. Agora, não tinha a certeza. Era o que precisava de descobrir. ”Os maridos falam sobre as esposas com as amantes”, pensou. ”Preciso de saber o que Gary contou à Annamarie acerca de mim. E, enquanto estou a fazer perguntas, quero falar-lhe sobre outra coisa: que é que ela estava a fazer na noite em que Gary morreu. Afinal de contas, ela também tinha um bom motivo para estar muito, muito zangada com ele. Percebi pelo tom com que falou com ele ao telefone.”

 

Às sete horas, Molly decidiu que finalmente era razoável partir para Rowayton. Tirou a Burberry do armário do rés-do-chão e dirigia-se para a porta quando, com um pensamento de último momento, voltou ao quarto, tirou um lenço azul da gaveta e procurou até encontrar uns óculos escuros Cartier enormes, um estilo que tinha estado na moda há seis anos mas, provavelmente, agora estava ultrapassado. ”Bom, pelo menos, vão dar-me a sensação de estar disfarçada”, decidiu.

 

Em tempos, a garagem para três carros tinha albergado o seu BMW descapotável, o Mercedes de Gary e a carrinha preta que ele tinha comprado dois anos antes de morrer. Molly lembrava-se de como ficara surpreendida quando Gary aparecera com ela um dia. ”Não pescas, não caças, só morto é que te apanhavam num acampamento. Tens um porta-bagagens grande no Mercedes, onde cabem facilmente os tacos de golfe. Afinal de contas, para que é a carrinha?”

 

Na altura não lhe ocorrera que, por motivos pessoais, Gary podia querer um veículo que se assemelhasse exactamente a dúzias de outras carrinhas da zona.

 

Após a morte de Gary, o primo tinha ido buscar os carros dele. Quando Molly fora presa, tinha pedido aos pais que vendessem o seu. Logo que conseguiu a liberdade condicional, eles tinham celebrado, comprando-lhe um carro novo, um carro azul-escuro que ela escolhera nos catálogos que eles lhe tinham mandado.

 

Fora ver o carro no dia em que voltara para casa, mas agora entrava nele pela primeira vez, e apreciou o cheiro da pele nova. Há quase seis anos que não conduzia e, de repente, achou que a sensação da chave da ignição na sua mão era muito libertadora.

 

A última vez que tinha estado atrás do volante de um carro fora naquele domingo em que voltara de Cape Cod. Com as mãos no volante agora, Molly visualizou aquela viagem. ”Eu estava a apertar o volante com tanta força que as mãos doíam”, recordou enquanto saía da garagem de marcha-atrás e depois usava o comando à distância para fechar a porta. Conduziu lentamente pelo acesso comprido até à rua. ”Normalmente, teria guardado o carro na garagem, mas lembro-me que naquela noite parei à frente da porta e deixei-o ali mesmo. Por que é que fiz isso?”, perguntou a si mesma, forçando-se a lembrar. ”Seria por causa da mala, para não ter de a carregar de mais longe?

 

”Não, foi porque estava doida para falar com Gary frente a frente. Ia fazer-lhe as mesmas perguntas que vou fazer agora a Annamarie Scalli. Precisava de saber o que ele sentia por mim, por que é que se ausentava tanto, por que é que, se não estava feliz com o nosso casamento, não tinha sido honesto e conversado comigo ao invés de me deixar perder tanto tempo e tanto esforço a tentar ser uma boa esposa para ele.”

 

Molly sentiu os lábios apertarem-se, sentiu a velha ira e ressentimento invadirem-lhe o corpo. ”Pára com isso!”, admoestou-se. ”Pára com isso já, ou volta para trás e vai para casa!”

 

Annamarie Scalli chegou ao restaurante Sea Lamp às sete e vinte. Sabia que estava ridiculamente adiantada para o encontro com Molly Lasch, mas queria muito ser a primeira a chegar. O choque de falar com Molly, de ela a ter conseguido descobrir, não tinha abrandado até ter concordado com o encontro.

 

A irmã, Lucy, tinha-se manifestado profundamente contra o facto de ela ir àquele encontro.

 

”Annamarie, aquela mulher estava tão perturbada por tua causa que esmagou o crânio do marido”, dissera ela. ”Que é que te leva a pensar que não vai atacar-te? O próprio facto de ela poder estar a dizer a verdade quando diz que não se lembra de o ter matado indica que é um caso mental. E tu tiveste sempre medo porque sabes demasiado sobre o que estava a acontecer no hospital. Não te encontres com ela!”

 

As irmãs tinham discutido todo o serão, mas Annamarie estava determinada a ir até ao fim. Tinha concluído que, uma vez que Molly Lasch tinha conseguido encontrá-la, seria preferível encontrar-se frente a frente com ela no restaurante do que arriscar-se a que ela aparecesse na sua casa em Yonkers ou talvez até a empatasse enquanto tentava cuidar dos seus clientes.

 

No interior do restaurante, Annamarie tinha-se dirigido para um lugar no canto mais afastado da sala comprida e estreita. Havia algumas pessoas sentadas ao balcão com expressões sombrias. Igualmente descontente ficou a empregada de mesa, não gostou nem um pouco quando Annamarie recusou a mesa da frente em que ela tentou sentá-la.

 

A penumbra do restaurante só contribuiu para aumentar a sensação de ameaça e desânimo que se tinha apoderado de Annamarie durante a longa viagem de Buffalo. Sentia a fadiga entranhar-se nos ossos. ”Tenho a certeza de que é por isso que me sinto tão triste e deprimida”, disse para si mesma sem convicção, enquanto bebericava o café tépido que a empregada de mesa tinha atirado para a sua frente.

 

Sabia que grande parte do problema se centrava na discussão que ela tinha tido com a irmã. Embora a amasse profundamente, Lucy não tinha o menor pejo de atingir Annamarie onde lhe doía mais, e a sua litania do ”se ao menos” acabara por afectá-la.

 

”Annamarie, se ao menos tivesses casado com Jack Morrow. Como a mãe costumava dizer, ele era um dos melhores homens a caminhar por esta terra. Ele era louco por ti. E era médico, e um bom médico! Lembras-te de que a Sr.a Monahan veio cá a casa fazer uma visita naquele fim-de-semana em que o trouxeste cá? Jack disse que não gostava da cor com que ela estava. Se não a tivesse convencido a fazer aqueles exames e o tumor não tivesse sido descoberto, ela não estaria viva hoje.”

 

Annamarie tinha continuado a dar a mesma resposta que dera a Lucile nos últimos seis anos.

 

”Escuta, Lucy, esquece o assunto. Jack sabia que eu não estava apaixonada por ele. Talvez noutras circunstâncias eu pudesse tê-lo amado. Talvez tivesse resultado se as coisas tivessem sido diferentes, mas não foram. O facto é que aos vinte e poucos anos já estava a trabalhar no meu primeiro emprego. Estava apenas a começar a viver. Não estava preparada para o casamento. Jack compreendeu isso.”

 

Annamarie lembrou-se de que na semana em que Jack fora assassinado ele tinha discutido com Gary. Ela ia a caminho do consultório de Gary mas fora detida na zona da recepção pelo som de vozes zangadas. A secretária tinha sussurrado:

 

”O Dr. Morrow está lá dentro com o Dr. Lasch. Está terrivelmente perturbado. Não consegui perceber do que se trata, mas suponho que é o costume... um tratamento que queria que um doente fizesse e que foi cancelado.”

 

”Lembro-me de que na altura fiquei apavorada ao pensar que podiam estar a discutir por minha causa”, pensou Annamarie. ”Fugi, para não correr o risco de Jack me confrontar ali; tinha a certeza de que ele tinha descoberto.”

 

Mas mais tarde, quando Jack a interpelara no corredor, não tinha evidenciado o menor sinal de estar zangado com ela. Pelo contrário, tinha perguntado se ela ia visitar a mãe brevemente. Quando Annamarie lhe dissera que ia lá daí a dois fins-de-semana, ele dissera que ia copiar um ficheiro muito importante que tinha compilado e perguntara se ela não se importava de guardar essa cópia no sótão da mãe. Mais tarde, pedir-lho-ia de volta.

 

”Fiquei tão aliviada por ele não ter descoberto o que se passava entre mim e Gary e tão torturada pelo que sabia sobre o hospital que nem sequer senti curiosidade para saber o que continha o ficheiro”, pensou Annamarie. ”Ele disse que mo daria em breve e obrigou-me a prometer que não contaria a ninguém. Mas nunca chegou a dar-mo, e uma semana depois estava morto.”

 

Annamarie?

 

Espantada, Annamarie levantou os olhos. Tinha estado tão imersa nos seus pensamentos que não vira Molly Lasch entrar. Um olhar para a outra mulher e de repente sentiu-se pesada e feia. Os óculos demasiado grandes não conseguiam esconder as feições maravilhosas de Molly. As mãos que desapertaram o cinto do casaco eram compridas e esguias. Quando tirou o lenço da cabeça, os cabelos eram mais escuros do que Annamarie se lembrava, mas continuavam finos e sedosos.

 

Molly observou Annamarie enquanto se sentava no banco à frente dela. ”Não é o que eu esperava”, pensou Molly. Tinha visto Annamarie Scalli no hospital algumas vezes e recordava-se dela como sendo muito bela, com uma figura provocante e uma massa de cabelos escuros.

 

Aquela mulher vestida com simplicidade que se encontrava à sua frente não tinha nada de provocante. Agora tinha os cabelos curtos e, embora o rosto continuasse bonito, estava um pouco inchado. Era mais pesada do que Molly se lembrava. Mas os olhos eram encantadores, castanho-escuros e com pestanas negras, embora a expressão que Molly viu neles fosse de infelicidade e medo.

 

”Ela tem medo de mim”, pensou Molly, surpreendida por exercer aquele efeito numa pessoa.

 

A empregada de mesa reapareceu, agora mais amável. Annamarie percebeu que ela estava impressionada com Molly.

 

Chá com limão, por favor disse Molly.

 

E mais café para mim, se não der muita maçada acrescentou Annamarie quando a empregada se virou.

 

Molly esperou até estarem sozinhas antes de dizer:

 

Estou grata por ter concordado em encontrar-se comigo. Sei que provavelmente é tão estranho para si como é para mim, e prometo que não vou ocupá-la durante muito tempo, mas pode ajudar-me se for sincera comigo.

 

Annamarie acenou afirmativamente.

 

Quando é que o seu relacionamento com Gary começou?

 

Um ano antes de ele morrer. Um dia, o meu carro não pegou e ele deu-me boleia para casa. Entrou para tomar um café. Annamarie olhou firmemente para Molly. Eu sabia que ele se preparava para se atirar a mim. Uma mulher sabe sempre, não é verdade? Fez uma pequena pausa, com os olhos pousados nas mãos. A verdade é que eu estava apaixonadíssima por ele, por isso facilitei as coisas.

 

”Ele estava preparado para se atirar a ela”, pensou Molly. ”Seria a primeira? Provavelmente, não. A décima?”, perguntou a si mesma. Nunca saberia.

 

Ele estava envolvido com outras enfermeiras?

 

Que eu saiba, nenhuma, mas afinal de contas eu só trabalhava no hospital há alguns meses quando me envolvi com ele. E ele deixou bem clara a necessidade de discrição absoluta, o que era óptimo para mim. Eu pertenço a uma família italiana profundamente católica, e a minha mãe teria ficado destroçada se soubesse que eu andava com um homem casado.

 

”Sr.a Lasch, quero que saiba... Annamarie calou-se quando a empregada de mesa voltou com o chá e mais café. Annamarie reparou que ela não atirou a chávena para a frente de Molly Lasch. Quando a empregada já não podia ouvi-las, ela continuou:

 

Sr.a Lasch, quero que saiba que lamento absolutamente, profundamente, o que aconteceu. Sei que isso destruiu a sua vida. Acabou com a vida do Dr. Lasch. Eu desisti do meu bebé porque queria que ele tivesse um começo limpo, com pessoas que lhe dessem um lar feliz, com pai e mãe. Talvez um dia, quando for adulto, queira ver-me. Se assim for, espero que consiga compreender e até perdoar-me. A senhora pode ter tirado a vida ao pai dele, mas os meus actos é que desencadearam toda a tragédia.

 

Os seus actos?

 

Se eu não me tivesse envolvido com o Dr. Lasch, nada disto teria jamais acontecido. Se não lhe tivesse telefonado para casa, provavelmente, nunca teria sabido.

 

Por que é que lhe telefonou para casa?

 

Bem, em primeiro lugar, ele disse-me que a senhora e ele andavam a falar em divórcio, mas que não queria que soubesse que havia outra mulher no caso. Disse que complicaria o processo de divórcio e a senhora ficaria ciumenta e vingativa.

 

”Então, era isso que o meu marido andava a dizer à namorada sobre mim?”, pensou Molly. ”Ele disse que andávamos a falar em divórcio e que eu era ciumenta e vingativa? Foi esse o homem que me levou à prisão, acusada de o ter matado?”

 

Ele disse que tinha sido melhor que tivesse perdido o bebé; disse que um bebé só teria complicado o rompimento.

 

Molly ficou sentada num silêncio assombrado. ”Santo Deus, Gary teria conseguido realmente dizer aquilo?”, pensou ela. ”Ele disse que tinha sido melhor que eu tivesse perdido o bebé.

Mas, quando eu lhe disse que estava grávida, ele entrou em pânico. Disse-me para me livrar do bebé. Deixou de me visitar e até me ignorava no hospital. O advogado dele telefonou-me e ofereceu-me uma indemnização na condição de eu assinar uma declaração onde me comprometia a não revelar os factos. Telefonei para a sua casa porque tinha de falar com ele e ele recusava-se a falar comigo no hospital. Eu estava desesperada; queria saber se ele queria ou não assumir o filho. Na altura, não tinha a menor intenção de o dar para adopção.

 

E eu levantei o telefone e ouvi a conversa.

- Sim.

 

O meu marido alguma vez lhe falou sobre mim, Annamarie? Quero dizer, para além de dizer que estávamos a falar em divórcio?

 

-Sim.

 

Por favor, conte-me o que ele disse. Eu tenho de saber.

 

Eu compreendo agora que tudo o que ele me disse sobre a senhora naquela altura era o que pensava que eu queria ouvir.

 

Mesmo assim, gostaria de saber exactamente o que foi. Annamarie calou-se, indecisa, e depois olhou directamente para a mulher que se encontrava à sua frente, uma mulher que primeiro tinha desdenhado, depois odiado, e por quem agora, finalmente, começava a sentir alguma compaixão.

 

Ele dizia que a senhora era a tradicional e enfadonha esposa. ”A tradicional e enfadonha esposa”, pensou Molly. Por um momento, pareceu-lhe que estava uma vez mais na prisão, a comer comida sem gosto, a ouvir o clique de fechaduras, a permanecer acordada noite de insónia atrás de noite de insónia.

 

Como marido... e como médico... ele não merecia o preço que a senhora pagou por tê-lo matado, Sr.a Lasch disse Annamarie, calmamente.

 

Annamarie, você deixou bem claro que acredita que eu matei o meu marido, mas devo dizer-lhe eu não estou assim tão segura disso. Genuinamente, não sei o que aconteceu. Não estou convencida de que não recuperarei a memória do que aconteceu naquela noite. Pelo menos, é o que estou a tentar fazer. Diga-me, onde é que esteve naquele domingo à noite?

 

No meu apartamento, a fazer as malas.

 

Estava alguém consigo na altura? Os olhos de Annamarie abriram-se.

 

Sr.a Lasch, está a perder o seu tempo se veio aqui com o objectivo de sugerir que eu tive alguma coisa a ver com a morte do seu marido.

 

Conhece alguém que pudesse ter um motivo para matá-lo? Molly viu o olhar espantado nos olhos da outra mulher. Annamarie, você tem medo de alguma coisa. O que é?

 

Não tenho medo de nada. Não sei mais nada. Escute, agora tenho de ir. Annamarie pousou a mão em cima da mesa, preparando-se para se levantar.

 

Molly estendeu a mão e agarrou-lhe o pulso.

 

Annamarie, você tinha pouco mais de vinte anos naquela altura. Gary era um homem sofisticado. Enganou-nos a ambas, e ambas tínhamos motivo para estar zangadas. Mas não pense que o matei. Se tem algum motivo para pensar que havia mais alguém que podia ter alguma coisa contra ele, por favor, por favor, diga-me quem é. Pelo menos, dar-me-ia um ponto de partida. Ele discutiu com alguém?

 

Que eu saiba, ouve uma discussão. Com o Dr. Jack Morrow.

 

Com o Dr. Morrow? Mas ele morreu antes de Gary.

 

Sim, e, antes de morrer, o Dr. Morrow andava a comportar-se de forma estranha e pediu-me para lhe guardar uma cópia de um ficheiro. Mas foi assassinado antes de ma dar. Annamarie afastou a mão de Molly. Sr.a Lasch, não sei se matou ou não o seu marido, mas se não matou é melhor ter muito cuidado com a maneira como anda por aí a fazer perguntas.

 

Annamarie quase chocou com a empregada de mesa, que estava a voltar para saber se elas queriam mais alguma coisa. Molly recusou, pediu a conta e pagou rapidamente, detestando a curiosidade descarada estampada nos olhos da mulher. Depois pegou à pressa no casaco, ansiosa por apanhar Annamarie. ”Tradicional e enfadonha esposa”, pensou com amargura enquanto saía rapidamente do restaurante.

 

Ao voltar para Greenwich, Molly relembrou mentalmente a curta conversa com Annamarie Scalli. ”Ela sabe alguma coisa que não me quer dizer”, pensou Molly. ”É quase como se tivesse medo. Mas de quê...? Nessa noite, Molly olhou, chocada, para a notícia de abertura do noticiário das onze horas da CBS, que relatava o recém-descoberto cadáver de uma mulher não identificada que tinha sido esfaqueada até à morte no seu carro, no parque de estacionamento do restaurante Sea Lamp, em Rowayton.

 

O assistente de delegado do Ministério Público, Tom Serrazzano, não fora o acusador de Molly Carpenter Lasch, mas sempre tinha desejado ter tido essa sorte. Era óbvio para ele que ela era culpada de homicídio e que por causa de ser quem era tinha conseguido o melhor acordo possível apenas cinco anos e meio de prisão por ter ceifado a vida do marido.

 

Tom já estava no gabinete quando Molly fora julgada pelo crime da morte de Gary Lash. Tinha ficado estarrecido quando o acusador no julgamento tinha concordado com uma acusação de homicídio involuntário. Acreditava que qualquer delegado do Ministério Público digno dessa função teria continuado o julgamento e conseguido uma condenação por homicídio.

 

Incomodava-o especialmente quando os perpetradores tinham dinheiro e conhecimentos, como Molly Carpenter Lasch.

 

No final da casa dos quarenta, toda a carreira judiciária de Tom tinha sido dedicada ao cumprimento da lei. Depois de ser assistente de umjuiz, tinha entrado para o gabinete do Ministério Público e, durante um período de tempo, tinha ganho a reputação de acusador duro.

 

Na segunda-feira de manhã, o esfaqueamento de uma mulher jovem, primeiro identificada como Annamarie Sangelo, de Yonkers, ganhou um novo significado quando a investigação revelou que o seu nome verdadeiro era Annamarie Scalli, a ”outra mulher” no caso de homicídio do Dr. Gary Lasch.

 

O depoimento dado pela empregada de mesa do restaurante Sea Lamp, descrevendo a mulher com quem Scalli se tinha encontrado lá, resolveu o caso para Serrazzano. Já o via como um caso encerrado.

 

que desta vez ela não vai conseguir um acordo disse ele sombriamente para os detectives que estavam a trabalhar no caso.

 

”É muito importante que eu seja absolutamente precisa quando lhes contar”, disse Molly para si mesma vezes sem conta durante a noite.

 

”Annamarie saiu do restaurante antes de mim. Eu paguei a conta. Enquanto me dirigia para a porta senti que a minha cabeça estava a andar à roda. Só conseguia ouvir a voz da Annamarie a dizer que Gary ficara aliviado por eu ter perdido o meu bebé, que pensava que eu era uma esposa tradicional e enfadonha. De repente, senti que estava a sufocar.

 

”Estavam apenas alguns carros no parque de estacionamento quando cheguei ao restaurante. Um deles era um jipe. Reparei que continuava lá quando eu saí. Um carro estava a arrancar quando saí. Pensei que era Annamarie e chamei. Lembro-me de que queria perguntar-lhe alguma coisa. Mas o quê? Que é que podia querer perguntar-lhe?

 

”A empregada de mesa vai descrever-me. Eles saberão quem eu sou. Vão fazer perguntas. Tenho de telefonar a Philip e explicar-lhe o que aconteceu.

 

”Philip pensa que eu matei Gary.

 

”E matei?

 

”Santo Deus, eu sei que não fiz mal a Annamarie Scalli”, pensou Molly. ”Eles vão pensar que sim? Não! Outra vez não! Não consigo passar por tudo de novo.

 

”Fran. Fran vai ajudar-me. Ela está a começar a acreditar que não matei Gary. Sei que vai ajudar-me.”

 

O noticiário das sete horas da manhã identificava a vítima do esfaqueamento em Rowayton como Annamarie Sangelo, uma funcionária do Serviço de Enfermagem ao Domicílio, de Yonkers. ”Ainda não sabem quem ela é”, pensou Molly. ”Mas vão descobrir em breve.”

 

Obrigou-se a esperar até às oito horas para telefonar a Fran, e depois arrepiou-se com a perturbação e descrença na voz de Fran quando ela disse:

 

Molly, estás a dizer-me que viste a Annamarie Scalli a noite passada e que ela foi assassinada?

 

- Sim.

 

Telefonaste a Philip Matthews?

 

Ainda não. Meu Deus, ele disse-me para não a procurar! Rapidamente, Fran reviu mentalmente a transcrição do julgamento que tinha lido, incluindo o testemunho devastador que Calvin Whitehall tinha dado.

 

Molly, vou telefonar imediatamente ao Matthews. Fez uma pausa e depois continuou com um tom de urgência na voz. Escuta. Não atendas o telefone. Não abras a porta. Não fales com ninguém, nem sequer com Jenna, até Philip Matthews estar contigo. Jura que não o farás.

 

Fran, achas que matei Annamarie?

 

Não, Molly, não acho, mas outras pessoas vão pensar que mataste. Agora, senta-te quieta. Eu vou para aí o mais depressa possível.

 

Uma hora depois, Fran estava a virar para o caminho de acesso à casa de Molly. Molly já estava à espera e abriu a porta antes de ela tocar.

 

”Parece estar em estado de choque”, pensou Fran. ”Santo Deus, é possível que ela seja realmente culpada de dois homicídios?” A compleição de Molly estava pálida, tão branca como o roupão de chenille que parecia grande de mais para o seu corpo magro.

 

Não vou conseguir passar por tudo outra vez, Fran. Prefiro suicidar-me sussurrou ela.

 

Nem te atrevas a pensar nisso disse Fran, pegando-lhe nas mãos. Sentiu como estavam trémulas e geladas. Philip Matthews estava no escritório quando eu liguei. Vem a caminho. Molly, vai para cima, toma um duche e veste-te. Ouvi na rádio que Annamarie foi identificada. Não tenho a menor dúvida de que a Polícia vai passar por cá para falar contigo. Não quero que te encontrem neste estado.

 

Molly acenou afirmativamente e, como uma criança obediente, virou-se e começou a subir as escadas.

 

Fran despiu o casaco e espreitou apreensivamente pela janela. Estava consciente de que, logo que se soubesse que Molly se tinha encontrado com Annamarie Scalli no restaurante, os órgãos de informação apareceriam como uma alcateia de lobos.

 

”Aqui vem o primeiro”, pensou Fran quando um pequeno carro encarnado entrou na rua. Ficou aliviada ao ver Edna Barry atrás do volante. Apressou-se a entrar na cozinha para a receber e reparou que não havia sinais de Molly ter sequer feito café. Ignorando a hostilidade instantânea que se estampou no rosto da Sr.a Barry ao entrar, Fran disse:

 

Sr.a Barry, não se importa de fazer café imediatamente e preparar o que a Molly come normalmente ao pequeno-almoço?

 

Há algum problema com...?

 

A campainha da porta principal cortou a resposta.

 

Eu vou abrir disse Fran. ”Por favor, Deus, faz com que seja Philip Matthews”, rezou.

 

Ficou aliviada ao descobrir que era Philip, embora a expressão preocupada que este ostentava lhe dissesse ainda mais violentamente do que ela já sentia que ali poderia haver facilmente uma precipitação de julgamento.

 

Ele não mediu as palavras:

 

Menina Simmons, aprecio o facto de me ter telefonado e aprecio que tenha avisado a Molly para não falar com ninguém antes de eu chegar. Mas esta situação deve ser um verdadeiro sonho para si e para o seu programa. Devo avisá-la de que não tolerarei que interrogue a Molly e nem sequer que esteja por perto quando eu conversar com ela.

 

”Ele está com a mesma expressão que ostentava quando tentou impedir Molly de falar para a imprensa à porta da prisão, a semana passada”, pensou Fran. ”Até pode acreditar que ela assassinou Gary Lasch, mas continuo a pensar que é o género de advogado de que a Molly precisa. Se tiver de o fazer, matará dragões por ela.”

 

Foi um pensamento tranquilizador. ”Mantém a calma, Fran”, pensou ela.

 

Dr. Matthews disse, eu estou suficientemente familiarizada com a lei para saber que as suas conversas com Molly são confidenciais e as minhas não. Penso que o senhor ainda está convencido de que a Molly assassinou o Dr. Lasch. Eu comecei por acreditar nisso, mas nestes últimos dias fiquei com sérias dúvidas a esse respeito. No mínimo dos mínimos, tenho muitas perguntas para as quais quero respostas.

 

Philip Matthews continuou a olhá-la com frieza.

 

Suponho que pensa que se trata de um truque de jornalista atirou Fran. Não é. Na qualidade de alguém que gosta muito de Molly, quer ajudá-la e quer saber a verdade, por muito dolorosa que esta possa ser, sugiro que tenha um espírito aberto em relação à Molly; se não, devia desaparecer da vida dela.

 

Voltou-lhe as costas. ”Preciso tanto de uma chávena de café como a Molly”, decidiu.

 

Matthews seguiu-a para a cozinha.

 

Escute, Fran... É Fran, não é? perguntou. Quero dizer, é o que os amigos lhe chamam?

 

-Sim.

 

Acho que é melhor começarmos a tratarmo-nos pelo primeiro nome. Obviamente, quando eu falar com Molly não poderá estar presente, mas seria útil se me contasse alguma coisa que saiba e que possa ajudá-la.

 

O antagonismo tinha desaparecido do rosto dele. A forma protectora como disse o nome de Molly comoveu Fran. ”Ela significa muito mais para ele do que uma simples cliente”, pensou. Era um pensamento extremamente tranquilizador.

 

Na verdade, gostaria de analisar uma série de coisas consigo disse ela.

 

A Sr.a Barry tinha acabado de preparar uma bandeja para Molly.

 

Café, sumo e uma torrada ou um queque é o pequeno-almoço que toma sempre explicou.

 

Fran e Matthews serviram-se de café. Fran esperou até a Sr.a Barry ter saído antes de perguntar:

 

Sabia que todos os funcionários do hospital ficaram surpreendidos quando souberam do caso de Annamarie com Gary Lasch, porque pensavam que ela estava envolvida romanticamente com o Dr. Jack Morrow, que também pertencia aos quadros do hospital? E que por acaso o Dr. Jack Morrow foi encontrado assassinado no seu consultório duas semanas antes da morte do Dr. Lasch? Sabia disso?

 

Não, não sabia.

 

Chegou a conhecer Annamarie Scalli?

 

Não, o caso foi resolvido antes de ela ser convocada para testemunhar.

 

Lembra-se se alguma vez foi mencionada uma chave de casa que estava sempre escondida no jardim?

 

Matthews franziu o sobrolho.

 

Pode ter sido mencionada, mas não levou a lado nenhum. Para falar com franqueza, a minha sensação é que, devido às circunstâncias do homicídio e à forma como Molly estava coberta com sangue do Dr. Lasch, a investigação da morte começou e acabou com ela.

 

”Fran, vá lá acima e diga à Molly que preciso de falar com ela imediatamente disse Matthews. Lembro-me que ela tem uma sala de estar na suite. Posso conversar com ela aí antes de deixar a Polícia aproximar-se. Vou mandar a Sr.a Barry fazê-los esperar algures cá em baixo.

 

Nesse momento, uma perturbada Sr.a Barry entrou espavorida na cozinha.

 

Eu fui agora mesmo lá acima com o pequeno-almoço da Molly e ela estava na cama, completamente vestida e com os olhos fechados. Fez uma pausa. Santo Deus, é exactamente como da última vez!

 

O Dr. Peter Black iniciava invariavelmente o dia com uma verificação rápida dos mercados financeiros internacionais num dos canais de finanças por cabo. Depois, tomava um pequeno-almoço espartano durante o qual insistia em ter silêncio absoluto e mais tarde ouvia música clássica no rádio do carro enquanto se dirigia para o emprego.

 

Ocasionalmente, quando chegava ao recinto do hospital, dava um passeio rápido antes de se sentar à secretária.

 

Na segunda-feira de manhã o sol brilhava. De um dia para o outro a temperatura tinha subido imenso, e Black decidiu que um passeio de dez minutos lhe aclararia as ideias.

 

Tinha sido uma semana conturbada. A visita a Molly Lasch no sábado à noite tinha sido outro fracasso, a noção estúpida e mal concebida que Cal Whitehall tinha de como conseguir a colaboração de uma mulher.

 

Peter Black franziu o sobrolho ao ver um invólucro de pastilha elástica no chão do parque de estacionamento e tomou uma nota mental para mandar a secretária chamar o responsável pelo Departamento de Manutenção e dar-lhe uma reprimenda pelo desleixo.

 

A insistência teimosa de Molly em persistir naquela ideia da sua inocência na morte de Gary enfurecia-o. ”Não fui eu. O assassino safou-se.” Quem pensava ela que estava a enganar? No entanto, sabia o que ela estava a fazer. Pensava nisso como a estratégia de Molly: dizer uma mentira em voz bastante alta, com bastante convicção, muitas vezes, e eventualmente algumas pessoas acreditarão.

 

”Vai ficar tudo bem”, tranquilizou-se. ”As fusões vão concretizar-se.” Afinal de contas, eles tinham a estrutura interna para absorver as outras OCS, e o processo já estava encaminhado. ”É nisto que sentimos a falta de Gary”, pensou Black. ”Eu não tenho paciência nenhuma para as festas intermináveis, nem para ser simpático para manter os executivos das empresas-chave do nosso lado. Cal pode recorrer à influência financeira para manter alguns deles na linha”, disse para si mesmo, ”mas as suas agressivas demonstrações de poder não funcionam com toda a gente. Se não formos cuidadosos, alguns podem passar-se para outros planos de saúde.

De sobrolho franzido, com as mãos nos bolsos, Peter Black continuou o seu passeio à volta da nova ala do hospital, pensando nos primeiros dias que passara ali e recordando com sombria admiração a forma como Gary Lasch costumava ser perfeito em todos os eventos sociais. Conseguia pôr o seu encanto a funcionar e também, quando necessário, o comportamento solícito, aquele ar de interesse que tinha aperfeiçoado.

 

”Gary também sabia o que estava a fazer quando casou com a Molly”, reflectiu Black. Molly era a anfitriã perfeita, com o seu aspecto, dinheiro e conhecimentos de família. Na verdade, as pessoas importantes ficavam lisonjeadas ao serem convidadas para os jantares dela.

 

”Estava a correr tudo tão bem, exactamente como um relógio”, reflectiu Black, ”até Gary ser imprudente a ponto de se envolver com aquela Annamarie Scalli. De todas as jovens com um aspecto sensual no mundo, ele tinha de engatar uma enfermeira que por acaso também era inteligente.”

 

Demasiado inteligente.

 

Tinha chegado à entrada do edifício de tijolo de estilo colonial que albergava os escritórios da Remington Health Management Organization. Pensou brevemente em continuar o passeio, mas depois decidiu entrar. Tinha um dia inteiro à sua frente e teria de o enfrentar mais cedo ou mais tarde.

 

Às dez horas recebeu um telefonema de uma quase histérica Jenna.

 

Peter, ouviste a notícia? Uma mulher que foi assassinada a noite passada no parque de estacionamento de um restaurante em Rowayton foi identificada como sendo Annamarie Scalli, e a Polícia está a interrogar Molly. Na rádio só faltou dizerem que ela é suspeita.

 

Annamarie Scalli está morta?! Molly é suspeita?! Peter Black disparou perguntas rapidamente, pressionando Jenna para lhe fornecer pormenores.

 

Parece que Molly se encontrou com a Annamarie no restaurante disse-lhe Jenna. Deves lembrar-te de que no sábado ela disse que queria vê-la. A empregada de mesa disse que Annamarie saiu primeiro do restaurante, mas que Molly a seguiu menos de um minuto depois. Quando o restaurante fechou, um pouco mais tarde, alguém reparou que um carro estava no parque de estacionamento há algum tempo e foi verificar porque têm estado a ter problemas com adolescentes que estacionam ali para beber. Mas o que encontraram foi a Annamarie, esfaqueada até à morte.

 

Depois de desligar, Peter Black recostou-se na cadeira com uma expressão contemplativa no rosto. Momentos depois, sorriu e soltou um suspiro profundo, como se lhe tivessem tirado um grande peso dos ombros. Abriu uma das gavetas laterais da secretária e tirou uma garrafa pequena. Serviu-se de uma pequena dose de uísque e ergueu o copo num brinde.

 

Obrigado, Molly disse em voz alta, e depois bebeu.

 

Na segunda-feira à tarde, quando Edna Barry chegou a casa depois do dia de trabalho em casa de Molly, Marta, a vizinha e amiga íntima, chegou a correr antes mesmo de ela sair do carro.

 

Está a dar em todos os noticiários disse Marta sem fôlego. Dizem que Molly Lasch está a ser interrogada pela Polícia e que é suspeita da morte daquela enfermeira.

 

Entra e bebe uma chávena de chá comigo disse Edna. Não vais acreditar no dia que tive!

 

À mesa da cozinha, a tomar chá e o seu bolo de café feito em casa, Edna descreveu o choque que sentira ao ver Molly deitada, completamente vestida, sob a colcha da cama,

 

Pensei que o meu coração ia parar. Ela estava profundamente adormecida, como daquela última vez. E, quando abriu os olhos, parecia completamente confundida e depois sorriu. Não imaginas o arrepio que senti. Foi exactamente como há seis anos... quase esperei ver sangue nela.

 

Explicou como tinha corrido para o andar de baixo para ir chamar aquela jornalista, Fran Simmons, que tinha aparecido de manhã cedo, e o advogado de Molly. Eles tinham feito Molly sentar-se, depois tinham andado com ela pela sala de estar, obrigando-a a beber diversas chávenas de café.

 

Passado algum tempo, Molly começou a ficar com alguma cor nas faces, embora os olhos ainda tivessem aquela expressão apática. E depois disse Edna Barry, aproximando-se mais de Marta, Molly disse: ”Philip, eu não matei Annamarie Scalli, pois não?”

 

Não! exclamou Marta, embasbacada, a boca um círculo de surpresa, os olhos muito abertos atrás dos óculos de arlequim.

 

Bem, não fazes ideia, no momento em que ela disse aquilo, Fran Simmons pegou no meu braço e puxou-me pelas escadas tão depressa que até fiquei tonta. Não queria que eu contasse à Polícia alguma coisa que ouvisse.

 

Edna Barry não tinha acrescentado que a pergunta de Molly lhe tirara um grande peso de cima. Era evidente que Molly estava mentalmente instável. Ninguém que não estivesse doente mataria duas pessoas e depois nem sequer saberia se o tinha feito. Toda a sua preocupação secreta com Wally tinha sido em vão.

 

Agora, na segurança da sua cozinha, com as preocupações com Wally esquecidas, Edna contou livremente os acontecimentos da manhã à sua confidente.

 

Logo que chegámos ao andar de baixo, um par de detectives tocou à porta. Eram do gabinete do delegado do Ministério Público. Fran Simmons levou-os para a sala íntima. Disse-lhes que Molly estava a falar com o advogado, mas eu soube que, no fundo, ele estava apenas a tentar que ela falasse com algum nexo. Não a podiam ter levado para baixo no estado em que ela estava.

 

Com um trejeito fino de desaprovação na boca, Edna esticou o braço para o outro lado da mesa, para o bolo de café, e serviu-se de uma segunda fatia.

 

Só meia hora depois é que o advogado de Molly veio para baixo. É o mesmo que a defendeu no julgamento.

 

E que é que aconteceu depois? perguntou Marta, ansiosamente.

 

O Dr. Matthews, o advogado, disse que ia fazer uma declaração em nome da cliente. Disse que Molly se tinha encontrado com a Annamarie Scalli, no restaurante, a noite passada, porque queria encerrar a tragédia terrível que foi a morte do marido. Estiveram juntas quinze ou vinte minutos. Annamarie Scalli saiu do restaurante enquanto Molly pagava a conta. Molly foi directamente para o carro e veio para casa. Soube da morte da Sr.a Scalli no noticiário e sente muito pela família. Para além disso, não tem conhecimento do que pode ter acontecido.

 

Edna, viste a Molly depois disso?

 

Ela desceu no momento em que a Polícia saiu. Devia ter estado à escuta no átrio do primeiro andar.

 

Como é que se comportou?

 

Pela primeira vez nesta troca de palavras, Edna demonstrou um laivo de simpatia pela patroa.

 

Bem, Molly está sempre calma, mas esta manhã foi diferente. Era quase como se não estivesse consciente do que estava a acontecer. Quero dizer, foi mais ou menos como aconteceu depois de o Dr. Lasch morrer, andava às voltas como se não soubesse ao certo onde estava nem o que tinha acontecido.

 

”A primeira coisa que ela disse ao Dr. Matthews foi: ”Eles acreditam que a matei, não acreditam?” Depois, aquela Fran Simmons disse que gostaria de conversar comigo na cozinha, mas era apenas uma maneira de não me deixar ouvir o que eles estavam a planear.”

 

Então, não sabes de que é que conversaram? perguntou Marta.

 

Não, mas posso adivinhar. A Polícia quer saber se Molly assassinou aquela enfermeira.

 

Mãe, alguém está a ser mau para a Molly? Espantadas, Edna e Marta levantaram os olhos para ver Wally de pé à porta.

 

Não, Wally, de maneira nenhuma disse Edna, suavemente. Não te preocupes. Estão apenas a fazer-lhe algumas perguntas.

 

Eu quero vê-la. Ela foi sempre boa para mim. O Dr. Lasch foi mau para mim.

 

Ora, Wally, não vamos falar sobre isso disse Edna, nervosa, esperando que Marta não desse importância ao tom de ira na voz de Wally nem reparasse no esgar terrível que lhe distorcia as feições.

 

Wally dirigiu-se para a bancada e voltou-lhes as costas.

 

Ele foi lá a casa ontem para me ver sussurrou Marta. Disse-me que gostava de visitar a Molly Lasch. Talvez devesses levá-lo para a cumprimentar. Talvez ele fique satisfeito com isso.

 

Edna já não estava a ouvir. Toda a sua atenção estava concentrada no filho. Percebeu que Wally estava a mexer na sua carteira.

 

E que é que estás a fazer, Wally? perguntou rispidamente, a voz fina e alta.

 

Ele voltou-se para ela e ergueu um porta-chaves. Só vou tirar a chave da Molly, mãe. Prometo que desta vez devolvo-a.

 

Na segunda-feira à tarde, a empregada de mesa Gladys Fluegel acompanhou de boa vontade o detective Ed Green ao tribunal em Stamford, onde relatou o que tinha observado do encontro entre Annamarie Scalli e Molly Carpenter Lasch.

 

Tentando esconder o prazer que sentia perante o tratamento deferente de que estava a ser alvo, Gladys deixou que o detective Green a conduzisse para o interior do tribunal. Ali foram recebidos por um homem mais jovem que se apresentou como Victor Packwell, assistente do delegado do Ministério Público. Levou-os para uma sala com uma mesa de conferências e perguntou a Gladys se ela queria café, cola ou água.

 

Por favor, não fique nervosa, Menina Fluegel. Pode ajudar-nos muito garantiu-lhe.

 

É para isso que estou aqui respondeu Gladys com um sorriso. Cola. Diet.

 

Com cinquenta e oito anos, Gladys tinha um rosto sulcado de rugas, o resultado de quarenta anos de muitos cigarros. Os seus cabelos ruivos revelavam raízes grisalhas. Graças à sua devoção pelas compras on-line, estava sempre com dívidas. Nunca tinha casado, nunca tivera um namorado sério e vivia com os truculentos pais idosos.

 

Quando os trintas tinham passado para os quarentas e depois estes se tinham fundido quase imperceptivelmente nos cinquentas, Gladys Fluegel tornara-se uma mulher amarga. Já não tinha a certeza de que um dia alguma coisa maravilhosa lhe aconteceria. Esperara pacientemente que a aventura entrasse na sua vida, mas isso nunca tinha acontecido. Até agora.

 

Gostava genuinamente de servir às mesas, mas ao longo dos anos tinha-se tornado impaciente e abrupta com os clientes, pelo menos de vez em quando. Magoava-a ver casais de mãos dadas por cima das mesas ou observar pais numa festiva saída nocturna com os filhos, sabendo que ela tinha perdido aquele tipo de vida.

 

À medida que a sua atitude de ressentimento se aprofundara, tinha perdido uma série de empregos, até por fim se ter fixado no Sea Lamp, onde a comida era má e os benefícios escassos. O lugar parecia adequar-se à sua personalidade.

 

No domingo à noite tinha-se sentido especialmente irritada, devido ao facto de a outra empregada de mesa regular ter telefonado a dizer que estava doente e Gladys ter sido forçada a substituí-la.

 

Uma mulher entrou aproximadamente às sete e meia da tarde explicou aos detectives, apreciando a sensação de importância que lhe dava o facto de ter estes polícias a prestarem tanta atenção, já para não falar do escrivão, que estava a anotar todas as suas palavras.

 

Descreva-a, por favor, Sr.a Fluegel. Ed Green, o jovem detective que a tinha trazido até Stamford, estava a ser muito delicado.

 

”Será que os pais dele são divorciados?”, pensou Gladys. ”Se forem, não me importava nada de conhecer o pai.”

 

Por que é que não me chamam apenas Gladys? É o que toda a gente faz.

 

Se é o que prefere, Gladys.

 

Gladys sorriu e depois levou a mão à boca como se estivesse a pensar, a tentar lembrar-se.

 

A mulher que entrou primeiro... Vejamos... Gladysapertou os lábios. Não ia dizer-lhes que tinha ficado irritada com a mulher por ela ter insistido num privado ao fundo da sala.

 

Parecia ter trinta e tal anos, tinha cabelos curtos, escuros, vestia talvez tamanho 40. Era difícil dizer ao certo. Usava calças largas e umaparka.

 

Apercebeu-se de que certamente eles sabiam como era a mulher e que se chamava Annamarie Scalli, mas compreendia que, passo a passo, precisavam de conferir os factos. Para além do mais, estava a adorar toda aquela atenção.

 

Disse-lhes que a Menina Scalli tinha pedido apenas café, nem sequer um pão ou uma fatia de bolo, o que, evidentemente, significava que a gorjeta não chegaria sequer para comprar uma pastilha elástica.

 

Eles sorriram quando ela disse aquilo, mas os seus sorrisos eram benignos e ela tomou-os por um encorajamento.

 

Depois, entrou aquela senhora com verdadeira classe, e viu-se imediatamente que as duas não morriam de amores uma pela outra.

 

O detective Green mostrou uma fotografia.

 

É esta a mulher que se encontrou com Annamarie Scalli?

 

Precisamente!

 

Qual foi exactamente a atitude delas uma para com a outra, Gladys? Pense com cuidado... Isto pode ser importante.

 

Estavam as duas nervosas disse ela, enfaticamente. Quando eu trouxe o chá para a segunda senhora, ouvi a outra chamar-lhe Sr.a Lasch. Não consegui ouvir o que disseram, excepto uns pequenos fragmentos quando levei o chá e quando limpava uma mesa perto delas.

 

Gladys percebeu que aquela informação tinha desapontado os detectives, por isso apressou-se a acrescentar:

 

Mas o negócio estava praticamente parado, e como eu andava apenas a limpar umas mesas e alguma coisa naquelas mulheres excitou a minha curiosidade, sentei-me num banco do bar a observá-las. Claro que mais tarde apercebi-me de que tinha visto a fotografia de Molly Lasch no jornal a semana passada.

 

Que é que viu acontecer entre Molly Lasch e Annamarie Scalli?

 

Bem, a mulher de cabelos escuros, quero dizer a que se chamava Annamarie Scalli, começou a parecer mais e mais nervosa. Juro por Deus, era quase como se estivesse com medo de Molly Lasch.

 

Com medo, Gladys?

 

Sim, estou a falar a sério. Não a olhava nos olhos e, na verdade, não a culpo. A loura, quero dizer, a Sr.a Lasch... bem, acreditem no que vos digo, deviam ter visto a expressão do rosto da Sr.a Lasch enquanto a Annamarie Scalli falava. Fria como um icebergue. Não tenho dúvida de que não gostou do que estava a ouvir.

 

”Depois, vi a Menina Scalli começar a levantar-se. Percebia-se que gostaria de estar a um milhão de quilómetros longe dali. Por isso aproximei-me para ver se elas queriam mais alguma coisa... sabe, mais chá e café.

 

Ela disse alguma coisa? perguntaram o detective Green e o assistente do delegado do Ministério Público, Victor Packwell, em uníssono.

 

Deixem-me explicar disse Gladys. Annamarie Scalli levantou-se. A Sr.a Lasch agarrou-lhe o pulso de maneira a ela não conseguir sair. Depois, a Menina Scalli soltou-se e afastou-se rapidamente. Estava com tanta pressa que quase me atirou ao chão.

 

Que é que a Sr.a Lasch fez? inquiriu Packwell.

 

Também mal podia esperar para se apanhar na rua disse Gladys, firmemente. Eu dei-lhe a conta. Era um dólar e trinta. Ela atirou-me com uma nota de cinco dólares e saiu a correr atrás da Menina Scalli.

 

Pareceu-lhe perturbada? perguntou Packwell.

 

Gladys semicerrou os olhos num esforço dramático para se lembrar e para descrever Molly Lasch como ela tinha parecido naquele momento.

 

Eu diria que ela tinha uma expressão esquisita no rosto, como se tivesse levado um murro no estômago.

 

Viu a Sr.a Lasch entrar no carro? Gladys abanou a cabeça enfaticamente.

 

Não, não vi. Quando ela abriu a porta que dava para o parque de estacionamento parecia estar a falar sozinha, e depois ouvi-a chamar, ”Annamarie”, e pensei que ela ainda tinha alguma coisa para dizer à outra mulher.

 

Sabe se Annamarie Scalli a ouviu?

 

Gladys pressentiu que os detectives ficariam terrivelmente desapontados se ela dissesse que não tinha a certeza. Hesitou.

 

Bem, estou bastante certa de que ela deve ter captado a atenção dela, porque a Sr.a Lasch chamou uma vez mais o nome dela e depois disse: ”Espere.”

 

Ela pediu à Annamarie para esperar!

 

”Foi mesmo assim, não foi?”, perguntou Gladys a si mesma. ”De certa maneira, eu estava à espera de que a Sr.a Lasch voltasse para receber o troco, mas depois percebi que a única coisa que lhe interessava era alcançar a outra mulher.”

 

Espere,

 

”Foi a Molly Lasch que disse aquilo, ou aquele casal que tinha acabado de se sentar a uma mesa e chamou a empregada?”

 

Gladys viu a excitação estampada no rosto dos detectives. Não queria que aquele momento terminasse. Era parte do que ela tinha esperado. Toda a sua vida. Por fim, tinha chegado a sua vez. Olhou de novo para os rostos ansiosos.

 

O que eu quero dizer é que ela chamou duas vezes o nome de Annamarie, e depois quando disse ”Espere”, eu fiquei com a impressão de que ela tinha conseguido chamar a atenção da outra. Recordo-me de pensar que provavelmente Annamarie Scalli tinha esperado no parque de estacionamento para falar com a Sr.a Lasch.

 

”Foi mais ou menos assim que as coisas se passaram”, disse Gladys para si mesma, enquanto os dois homens sorriam abertamente.

 

Gladys, a senhora é muito importante para nós disse Victor Packwell, agradecido. Tenho de lhe dizer que daqui a algum tempo terá de testemunhar novamente.

 

Estou contente por poder ajudar garantiu-lhe Gladys. Passada uma hora, depois de ter lido e assinado o seu depoimento,

 

Gladys estava a caminho de Rowayton no carro do detective Green.

 

1 Com a tradução, perde-se a semelhança de sons entre as palavras wait (espere) e waitress (empregada). (N. da T).


A única coisa que toldava a sua felicidade era a resposta de Green à sua interrogação sobre o estado civil do pai.

 

Os pais dele tinham acabado de comemorar o quadragésimo aniversário de casamento.

 

Ao mesmo tempo, no tribunal de Stamford, o assistente de delegado do Ministério Público Tom Serrazzano apresentava-se perante um juiz para pedir um mandado de busca, autorizando-o a fazer uma busca à casa e ao automóvel de Molly Carpenter Lasch.

 

MeretíssimoJuiz disse Serrazzano, temos causa provável para acreditar que Molly Lasch assassinou Annamarie Scalli. Estamos convictos de que as provas relevantes para este crime podem ser encontradas nestes dois locais. Se existirem manchas de sangue, ou cabelos, ou fibras nas roupas dela ou uma arma no carro, queremos apanhá-las antes de ela os limpar ou se livrar deles por outros meios.

 

Enquanto seguia de Greenwich para Nova Iorque, Fran reviu sistematicamente os acontecimentos da manhã.

 

Os órgãos de informação tinham chegado a casa de Molly a tempo de apanhar os detectives do gabinete do Ministério Público quando estes iam a sair. Gus Brandt tinha passado uma reportagem de arquivo sobre a libertação de Molly da prisão, enquanto se ouvia a voz de Fran ao telefone directamente da casa desta.

 

Quando a Merritt deu lugar à Hutchinson River Parkway, Fran voltou a passar a reportagem na sua mente: ”Num desenvolvimento surpreendente, foi confirmado que a mulher encontrada esfaqueada até à morte a noite passada no parque de estacionamento do restaurante Sea Lamp em Rowayton, Connecticut, foi identificada como sendo Annamarie Scalli. A Menina Scalli era a chamada ”outra mulher” no caso de homicídio do Dr. Gary Lasch, que foi notícia há seis anos e novamente a semana passada, quando Molly Carpenter Lasch, a esposa do Dr. Lasch, foi libertada da prisão onde cumpriu pena pelo homicídio do marido.

 

”Embora neste momento os pormenores ainda sejam escassos, a Polícia indicou que a Sr.a Lasch foi vista a noite passada no restaurante de Rowayton, a falar presumivelmente com a vítima de homicídio.


”Num depoimento preparado, o advogado da Sr.a Lasch, Philip Matthews, explicou que Molly Lasch teria pedido um encontro com a Menina Scalli para encerrar um capítulo doloroso da sua vida, e que ela e Scalli tiveram uma conversa honesta e franca. Annamarie Scalli saiu do restaurante primeiro e Molly Lasch não voltou a vê-la. A Sr.a Lasch apresenta as suas condolências à família Scalli.”

 

Depois de terminar a transmissão televisiva, Fran tinha entrado no carro com o objectivo de ir imediatamente para a cidade, mas a Sr.a Barry saíra de casa a correr para a chamar. Uma vez no interior, um Philip Matthews sombrio e desaprovador pedira-lhe para entrar no escritório. Lá dentro, estava Molly sentada no sofá, com as mãos apertadas uma contra a outra, os ombros caídos. Fran tivera a impressão imediata de que as calças de ganga e a camisola de tricot azul que Molly usava tinham, de repente, aumentado em tamanho, ela parecia pequena de mais dentro delas.

 

Molly garantiu-me que logo que eu sair te vai contar tudo o que me contou a mim dissera Matthews. Como advogado dela, só posso aconselhá-la. Infelizmente, não posso obrigá-la a aceitar o meu conselho. Percebo que Molly a considere uma amiga, Fran, e acredito que goste dela, mas o facto é que se for intimada poderá ser forçada a responder a perguntas que talvez não queiramos ver respondidas. Foi por essa razão que a aconselhei a não lhe contar o que aconteceu na noite passada. Mas, mais uma vez, só posso aconselhá-la.

 

Fran tinha avisado Molly de que o que Philip dissera era absolutamente verdade, mas Molly insistira que, de qualquer maneira, queria que Fran soubesse o que tinha acontecido.

 

A noite passada encontrei-me com Annamarie. Conversámos durante quinze ou vinte minutos dissera Molly. Ela saiu antes de mim e eu vim para casa. Não a vi no parque de estacionamento. Um carro estava a arrancar quando eu saí do restaurante, e eu chamei, pensando que podia ser ela. Porém, quem quer que estava no carro não me ouviu ou não quis ouvir.

 

Fran tinha perguntado se seria possível que Annamarie estivesse mesmo naquele carro e depois tivesse voltado para o parque de estacionamento mais tarde, mas Philip referira que Annamarie fora encontrada no seu jipe; Molly tinha a certeza de que o veículo que vira a arrancar não era um jipe.

 

Depois de ouvir isto, Fran perguntara a Molly de que é que ela e Annamarie tinham conversado. Nesse aspecto do encontro, Fran sentira que Molly tinha sido menos comunicativa. ”Será que ela não quer que eu saiba alguma coisa?”, pensou. Mas porquê, por que é que Molly estava a ser tão misteriosa? Estaria ela a tentar usá-la de alguma forma?

 

Enquanto virava o carro para a Cross County Parkway, que a levaria à West Side Highway em Manhattan, analisou algumas das suas perguntas sem respostas em relação a Molly Lasch, entre as quais: por que é que Molly, nessa manhã, tinha voltado para a cama depois de ter tomado duche e de se ter vestido?

 

Um arrepio de dúvida percorreu a espinha de Fran. ”Será que eu estava certa no começo?”, perguntou a si mesma. ”Molly matou mesmo o marido?”

 

E talvez a pergunta mais importante de todas: ”Quem é a Molly e que género de pessoa é ela?”

 

Foi precisamente a pergunta que Gus Brandt atirou a Fran quando esta voltou para o seu gabinete.

 

Parece que isto se vai transformar noutro caso O. J. Simpson, Fran, e tu és íntima da Molly Lasch. Se ela continuar a apagar pessoas, quando fizeres um programa sobre ela na série, vamos precisar de dois episódios para contar a história toda.

 

Estás convencido de que Molly esfaqueou a Annamarie Scalli? perguntou ela.

 

Nós temos estado a ver as gravações do local do crime. A janela do condutor do jipe estava aberta. Adivinha porquê. A Scalli ouviu a Lasch chamá-la e baixou o vidro.

 

Isso teria de significar que Molly foi àquele restaurante com tudo planeado e que até levou uma faca replicou Fran.

 

Talvez não tivesse conseguido encontrar uma escultura que coubesse na mala disse ele com um encolher de ombros.

 

Fran voltou para o seu gabinete com as mãos enfiadas nos bolsos das calças. De repente, lembrou-se de como os irmãos costumavam troçar dela por causa daquele hábito. ”Quando as mãos da Franny estão quietas, o cérebro está a fazer horas extraordinárias”, diziam.

 

”Vai acontecer tudo como da outra vez”, pensou. ”Mesmo que não consigam encontrar uma única prova concreta que ligue Molly à morte de Annamarie, isso não vai importar... Ela já foi considerada culpada de um segundo homicídio. Ontem mesmo, estive a pensar que há seis anos ninguém se deu ao trabalho de procurar outra explicação para a morte de Gary Lasch. E agora está a acontecer precisamente a mesma coisa.”

 

Edna Barry disse em voz alta ao entrar no gabinete.

 

Edna Barry? Que é que ela tem?

 

Espantada, Fran voltou-se. Tim Mason estava mesmo atrás dela.

 

Tim, acabo de me lembrar de uma coisa. Esta manhã, a empregada de Molly Lasch, Edna Barry, desceu as escadas a correr para dizer ao Philip Matthews e a mim que Molly tinha voltado para a cama. Disse: ”Santo Deus, é exactamente como da última vez”.

 

Que queres dizer com isso, Fran?

 

Há uma coisa que me tem andado a incomodar. Mais do que aquilo que a Edna Barry disse, foi a maneira como o disse, Tim, como se estivesse contente por ter encontrado Molly assim. Santo Deus, por que é que aquela mulher ficaria feliz ao vê-la duplicar a reacção à morte de Gary Lasch?

 

Ah!

 

Molly não atende o telefone. Leva-me directamente a casa dela, Lou.

 

Irritada e impaciente por não ter podido sair do escritório devido a uma reunião demorada que tinha sido marcada para a hora do almoço, Jenna apanhara o comboio das duas e dez para Greenwich e dera instruções a Lou Knox para esperá-la na estação.

 

Lou semicerrou os olhos ao olhar pelo espelho retrovisor. Tendo reparado que Jenna estava de mau humor, sabia que não era o momento ideal para irritá-la, mas não tinha outra opção.

 

Dr.a Whitehall, o seu marido quer que vá directamente para casa.

 

Bem, é uma pena, Lou. O meu marido pode esperar. Leva-me para a casa de Molly e espera por mim. Se ele precisar do carro, podes vir buscar-me mais tarde ou eu apanho um táxi.

 

Estavam no cruzamento. Se virassem à direita iriam para a casa de Molly. Lou ligou o pisca da esquerda e obteve a reacção que esperava.

 

Estás surdo, Lou?

 

Dr.a Whitehall disse Lou, esperando soar suficientemente obsequioso, a senhora sabe que não posso contrariar o Dr. Whitehall. ”Só a senhora é que pode”, pensou ele depois.

 

Quando entrou em casa, Jenna atirou com a porta principal com tanta força que o som reverberou por toda a estrutura. Encontrou o marido sentado à secretária no seu escritório do primeiro andar. Com lágrimas de ultraje nos olhos e a voz a tremer de emoção por ser tratada com tanta falta de consideração, Jenna aproximou-se da secretária e apoiou-se nela com as duas mãos. Olhou o marido directamente nos olhos e perguntou:

 

Desde quando é que tens a noção absurda de que aquele teu lacaio bajulador me pode dizer onde é que eu posso ou não posso ir?

 

Calvin Whitehall olhou para a mulher com uma expressão gelada nos olhos.

 

Aquele ”lacaio bajulador”, como chamas a Lou Rnox, não teve outra alternativa a não ser cumprir as minhas ordens. Por isso, a tua zanga é comigo, minha querida, não com ele. Só gostava de poder inspirar em ti a mesma devoção para me ajudares.

 

Jenna pressentiu que tinha ido longe de mais e recuou.

 

Desculpa, Cal. O problema é que a minha amiga mais querida está sozinha. A mãe de Molly telefonou-me esta manhã. Ouviu o que aconteceu com a Annamarie Scalli e implorou-me que fosse para junto de Molly. Ela não quer que a filha saiba, mas o pai teve uma ligeira trombose a semana passada e os médicos não o deixam viajar. Se não fosse esse problema viriam para cá, para a acompanharem em tudo isto.

 

A ira abandonou o rosto de Calvin Whitehall quando ele se levantou e rodeou a secretária. Abraçou a mulher e falou-lhe baixinho ao ouvido.

 

Nós parecemos estar em campos opostos, não parecemos, Jen? Eu não quis que fosses agora para casa de Molly porque há uma hora recebi uma informação. O gabinete do Ministério Público conseguiu um mandado de busca para a casa e também para o carro dela. Por isso, como vês, não a ajudaria em nada e podia ser um desastre para a fusão da Remington se alguém tão proeminente como a Sr.a Calvin Whitehall fosse publicamente relacionada com Molly enquanto o mandado estiver a ser executado. Mais tarde, quero que estejas com ela, evidentemente. Está bem?

 

Um mandado de busca! Porquê um mandado de busca, Cal? Jenna afastou-se do abraço do marido e voltou-se para olhar para ele.

 

Pela razão muito válida de que as provas circunstanciais contra Molly na morte daquela enfermeira estão a chegar a um ponto que se está a tornar avassalador. A minha fonte diz que vão aparecer mais factos. Parece que a empregada de mesa do restaurante em Rowayton esteve a falar com os investigadores do Ministério Público e apontou o dedo a Molly. Foi por causa dela que conseguiram um mandado tão depressa. Mas a minha fonte também tem outra informação. Por exemplo, a carteira da Annamarie Scalli estava claramente visível ao lado dela. Tinha diversas centenas de dólares. Se o motivo tivesse sido o roubo, certamente, tinham-na levado. Puxou a mulher para si e abraçou-a de novo. Jen, a tua amiga continua a ser a menina com quem andaste na escola, a irmã que nunca tiveste. Amar aquela pessoa, sim; mas compreende igualmente que existem forças a trabalhar dentro dela que a levaram a tornar-se uma assassina.

 

O telefone tocou.

 

Provavelmente, é o telefonema de que estava à espera disse Cal enquanto soltava Jenna com uma última pancadinha no ombro.

 

Jenna sabia que, quando Cal estava à espera de um telefonema, aquele era o sinal para o deixar sozinho e para fechar a porta depois de sair.

 

”Isto não está a acontecer!”, disse Molly para si mesma. ”É um sonho mau. Não, não é um sonho mau. É um pesadelo mau! Existe tal coisa”, perguntou a si mesma, ”ou dizer pesadelo mau é como dizer reiterar novamente?”

 

Desde aquela manhã a sua mente era uma confusão de pensamentos em conflito e de momentos semi-recordados. Tentar concentrar-se na questão da redundância gramatical parecia um exercício tão prático como qualquer outro que podia imaginar. Enquanto considerava a questão do ”pesadelo mau”, sentou-se no sofá do escritório com as costas apoiadas no braço, os joelhos levantados, as mãos a abraçá-los e o queixo pousado nas mãos.

 

”Uma posição quase fetal”, pensou. ”Aqui estou eu, encurralada na minha própria casa enquanto perfeitos desconhecidos a esventram e examinam tudo o que ela contém.” A sua mente recordou como ela e Jen costumavam brincar e dizer ”assumir a posição fetal” sempre que alguma coisa era demasiado avassaladora.

 

Mas isso fora há muito tempo, quando uma unha partida ou uma derrota num jogo de ténis eram um verdadeiro drama. De repente, ”avassalador” tinha assumido um significado totalmente novo.

 

”Disseram-me para esperar aqui”, pensou. ”Pensei que depois de sair da prisão nunca mais teria de acatar ordens sobre onde podia ou não podia estar, nunca mais. Há uma semana ainda estava presa. Mas agora estou em casa. E, embora esta seja a minha casa, não posso obrigar estas pessoas horríveis a irem-se embora.

 

”Seguramente, vou acordar e estará tudo acabado”, disse para si mesma, fechando os olhos. Mas é claro que isso não ajudou nada.

 

Abriu-os e olhou à sua volta. Os polícias tinham acabado de revistar aquele aposento. Tinham tirado as almofadas do sofá e aberto todas as gavetas das mesas de apoio, tinham passado as mãos pelos reposteiros das janelas para o caso de haver alguma coisa escondida nas pregas.

 

Percebeu que estavam a demorar muito tempo na cozinha, sem dúvida a pesquisar todas as gavetas, todos os armários. Ela tinha ouvido alguém dizer que deviam levar todas as facas de cozinha que encontrassem.

 

Ouviu o investigador mais velho dizer ao agente mais jovem para ir buscar a roupa e sapatos que a empregada de mesa descrevera como sendo os que ela usava na altura.

 

Agora só podia esperar. Esperar que a Polícia saísse e esperar que a sua vida voltasse ao normal o que quer que isso fosse.

 

”Mas não posso limitar-me a ficar aqui sentada”, pensou Molly. ”Tenho de sair daqui. Será que existe algum sítio onde as pessoas não me apontem o dedo, não sussurrem sobre mim, e onde os jornalistas me deixem em paz?

 

”Dr. Daniels. Preciso de falar com ele”, decidiu Molly. ”Ele vai ajudar-me.”

 

Eram cinco horas da tarde. ”Ele ainda estará no consultório?”, perguntou a si mesma. ”Engraçado, ainda me recordo do número”, pensou. ”Embora já se tenham passado praticamente seis anos.”

 

Quando o telefone tocou, Ruthie Roitenberg estava a fechar a sua secretária à chave e o Dr. Daniels tirava o casaco do armário. Olharam um para o outro.

 

Quer que a chamada seja atendida pelo gravador? perguntou Ruthie. A partir de agora é o Dr. MacLean quem está de prevenção.

 

John Daniels estava cansado. Tivera uma sessão difícil com um dos seus pacientes mais perturbados e sentia cada dia dos seus setenta e cinco anos. Estava desejoso de ir para casa, e agradecia aos céus por o jantar a que ele e a mulher tinham planeado ir ter sido cancelado.

 

Porém, um instinto qualquer disse-lhe que devia atender o telefonema.

 

Pelo menos vê quem é, Ruthie disse ele.

 

Viu o choque no olhar de Ruthie quando ela ergueu os olhos para ele e esboçou com os lábios as palavras ”Molly Lasch”. Por momentos, pareceu inseguro em relação ao que fazer e ficou parado, com o casaco ainda na mão, enquanto Ruthie dizia:

 

Infelizmente, o doutor já deve ter saído. Acabou de se dirigir para o elevador. Vou ver se consigo apanhá-lo.

 

Molly Lasch.

 

Daniels fez uma curta pausa e depois caminhou para a secretária e pegou no auscultador que Ruthie segurava.

 

Ouvi o que aconteceu com Annamarie Scalli. Como é que posso ajudá-la, Molly?

 

Ficou a ouvir, e trinta minutos mais tarde Molly estava no consultório.

 

Desculpe por ter demorado tanto tempo a chegar aqui, doutor. Eu queria trazer o meu carro, mas a Polícia não me deixou usá-lo. Tive de chamar um táxi.

 

O tom de Molly era de espanto, como se ela própria não acreditasse naquilo que estava a dizer. Os seus olhos fizeram Daniels pensar no cliché do veado apanhado pelos faróis, embora ela estivesse claramente mais do que apenas espantada. Não, parecia quase assombrada. Percebeu de imediato que ela estava em risco de mergulhar no mesmo estado de letargia que a invadira após a morte de Gary Lasch.

 

Que tal descansar no sofá enquanto conversamos, Molly? sugeriu. Ela estava sentada na cadeira à frente da secretária. Quando ela não respondeu, ele aproximou-se e segurou-lhe o cotovelo. Sentiu a rigidez do corpo. Vá lá, Molly incitou, enquanto a obrigava a sentar-se.

 

Ela deixou-se ser guiada por ele.

 

Eu sei que é tardíssimo. O senhor é muito bondoso em receber-me agora, doutor.

 

Daniels lembrou-se da fantasticamente bem educada menina que tinha observado no clube. ”Uma criança de ouro”, pensou ele. ”O produto perfeito da educação e da riqueza discreta. Quem teria sonhado que este momento a espreitava no futuro, suspeita de um crime, um segundo crime... a Polícia a revistar-lhe a casa à procura de provas contra ela.” Abanou a cabeça pesarosamente.

 

Ao longo da hora seguinte, ela tentou explicar em voz alta tanto para si mesma como para o médico exactamente, por que é que tinha sentido necessidade de falar com Annamarie.

 

Que é, Molly? Diga-me em que está a pensar.

 

É que apercebo-me agora de que, quando fugi naquela semana para Cape Cod, foi porque estava zangada. Mas não estava zangada por ter descoberto o que acontecera com a Annamarie. Na verdade, doutor, não estava nada zangada por Gary estar envolvido com outra mulher. Estava zangada porque eu tinha perdido o meu bebé e ela ainda estava grávida. Eu devia ter tido aquele bebé.

 

Com o coração apertado, John Daniels esperou que Molly continuasse.

 

Doutor, eu quis ver Annamarie porque pensei que se não matei o Gary, então, talvez tivesse sido ela. Ninguém conseguiu provar onde ela esteve naquela noite. E percebi que ela estava zangada com ele; era óbvio no seu tom de voz quando a ouvi a falar com ele ao telefone.

 

Perguntou-lhe isso quando se encontrou com ela a noite passada?

 

Sim. E acreditei nela quando disse que não o matou. Mas ela disse-me que Gary estava contente por eu ter perdido o bebé, que ia pedir o divórcio e um bebé teria complicado tudo.

 

Muitas vezes, os homens dizem à outra mulher que estão a planear divorciar-se. Na maior parte dos casos, não é verdade.

 

Eu sei disso e talvez ele estivesse a mentir-lhe. Mas não estava a mentir quando lhe disse que estava contente por eu ter perdido o meu bebé.

 

Annamarie disse-lhe isso? -Sim.

 

Como é que isso a fez sentir-se?

 

É isso que me assusta tanto, doutor. Acho que naquele momento a odiei com todas as gotas de sangue do meu corpo apenas por ter dito aquelas palavras.

 

”Com cada gota de sangue do meu corpo”, pensou Daniels. De repente, Molly começou a falar muito rapidamente.

 

Sabe o que me passou pela cabeça, doutor? Aquela frase da Bíblia: ”Raquel chorando os seus filhos perdidos e não querendo ser consolada.” Pensei em como eu tinha chorado o meu bebé. Naquele momento, tornei-me Raquel, e a ira desvaneceu-se e eu estava de luto.

 

Molly suspirou e quando continuou toda a emoção se tinha escoado da sua voz.

 

Doutor, Annamarie saiu à minha frente. Já tinha desaparecido quando eu cheguei ao parque de estacionamento. Recordo-me muito claramente de que vim para casa e fui para a cama cedo.

 

”Recorda-se muito claramente”, Molly?

 

Doutor, os polícias estão a revistar a minha casa. Os detectives tentaram falar comigo esta manhã. Philip ordenou-me que não contasse a ninguém, nem sequer à Jen, o que Annamarie Scalli me disse.

 

A sua voz ficou novamente agitada.

 

Doutor, é como da última vez? Eu fiz uma coisa terrível e apaguei-a de novo? Se isso aconteceu e eles o puderem provar, eu não vou novamente para a prisão. Preferia morrer.

 

”Novamente”, pensou Daniels.

 

Molly, desde que voltou para casa, teve mais alguma vez a sensação de que havia alguém lá em casa naquela noite em que Gary morreu?

 

Observou a tensão a abandonar-lhe o corpo e alguma esperança brilhar nos seus olhos.

 

Havia alguém na casa naquela noite disse ela. Estou a começar a ter a certeza disso.

 

”E eu estou a começar a ter igual certeza de que não estava lá ninguém”, pensou Daniels, tristemente.

 

Alguns minutos depois, levou Molly para casa. A casa estava às escuras. Ela comentou que não havia carros estacionados no exterior, nenhum sinal da Polícia. Daniels não se afastou até Molly estar em segurança em casa e acender as luzes do átrio.

 

Esta noite não se esqueça de tomar o comprimido que eu lhe dei avisou ele. Falaremos amanhã.

 

O Dr. Daniels esperou até ouvir o clique da porta principal antes de voltar lentamente para o carro.

 

Não acreditava que ela já tivesse chegado ao ponto de fazer mal a si própria. Mas, se fossem encontradas provas que justificassem uma acusação contra ela na morte de Annamarie Scalli, sabia que Molly Lasch poderia escolher outra forma de escapar à realidade. Desta vez, não seria amnésia dissociativa mas a morte.

 

Conduziu até casa lentamente, cheio de tristeza, para o seu jantar muito tardio.

 

Quando Fran chegou ao escritório, na terça-feira de manhã, encontrou uma mensagem de Billy Gálio assinalada como ”urgente”. Dizia simplesmente que era amigo de Tim Mason e que gostaria que ela lhe telefonasse por causa de uns assuntos muito importantes.

 

Quando lhe telefonou, Gálio atendeu ao primeiro toque e foi directamente ao assunto.

 

Menina Simmons, a minha mãe foi enterrada ontem. Morreu de um ataque cardíaco fulminante que podia e devia ter sido evitado. Sei que está a fazer uma história sobre o homicídio do Dr. Gary Lasch, e queria pedir-lhe que a alargasse para incluir uma investigação ao suposto seguro médico que ele criou.

 

Tim falou-me sobre a sua mãe, e lamento verdadeiramente a sua perda disse Fran, mas tenho a certeza de que existe um lugar onde poderá registar uma queixa se sentir que ela não foi tratada da melhor maneira possível.

 

Oh, mas a senhora sabe as voltas que é preciso dar quando se tenta registar queixas, Menina Simmons disse Billy Gálio. Escute, eu sou músico e não posso dar-me ao luxo de perder o emprego, que infelizmente é num espectáculo em Detroit. Tenho de voltar para lá rapidamente. Falei com Roy Kirkwood, o médico de clínica geral da minha mãe, e ele contou-me que tinha apresentado uma recomendação urgente para serem feitos mais testes. Mas adivinhe o que aconteceu? O pedido foi recusado. Ele acreditava fortemente que podia ter sido feito mais por ela, mas eles nem sequer o deixaram tentar. Por favor, fale com ele, Menina Simmons. Eu entrei no consultório dele com vontade de lhe esmagar a cabeça, mas saí de lá com pena. O Dr. Kirkwood tem pouco mais de sessenta anos, mas disse-me que vai fechar o consultório e reformar-se antes do tempo, tão grande é o desapontamento com a Remington Health Management.

 

”Esmagar-lhe a cabeça”, pensou Fran. Passou-lhe pela cabeça o pensamento louco de que podia haver uma hipótese num milhão de um paciente ter sentido o mesmo em relação a Gary.

 

Dê-me o número de telefone e a morada do Dr. Kirkwood disse ela. Eu falo com ele.

 

Às onze horas dessa mesma manhã, Fran estava uma vez mais a sair da Merritt Parkway para entrar em Greenwich.

 

Molly tinha concordado em almoçar com ela à uma hora, mas apesar dos rogos de Fran, recusara-se a sair de casa.

 

Não consigo disse com simplicidade. Sinto-me demasiado exposta. As pessoas iam ficar todas a olhar para mim. Ia ser horrível. Não posso fazê-lo.

 

Aceitou a oferta de Fran para ir comprar uma quiche na padaria da cidade e comerem-na lá em casa.

 

A Sr.a Barry não vem à terça-feira explicou e a Polícia levou o meu carro, por isso não posso sair para fazer compras.

 

”A única notícia boa até agora”, pensou Fran, ”é que a Sr.a Barry não vai estar lá em casa quando a Molly e eu estivermos a almoçar.” Por uma vez, seria bom conversar com Molly sem aquela mulher a entrar e a sair da sala de dois em dois minutos.

 

Mas queria ver Edna Barry, e a sua primeira paragem depois de chegar a Greenwich foi uma visita-surpresa à casa dela.

 

”Vou ser directa com ela”, decidiu Fran, enquanto consultava as indicações para a casa. ”Por alguma razão desconhecida, a Edna Barry é hostil para com Molly e tem medo de mim. Talvez eu consiga descobrir qual é o problema dela.”

 

Parada no último degrau estreito da casa de Edna Barry, tocou à campainha. Não obteve resposta, e o Subaru encarnado da Sr.a Barry não estava no caminho de acesso.

 

Desapontada, Fran pensou se devia enfiar ou não uma mensagem por debaixo da porta a dizer que precisavam de ter uma conversa importante. Sabia que uma mensagem dessas perturbaria a Sr.a Barry, e isso era óptimo. Era sua intenção encurralar a mulher.

 

Mas, pensando melhor, um bilhete não serviria apenas para avisá-la e deixá-la ainda mais de sobreaviso?, perguntou a si mesma. ”Não restam dúvidas nenhumas de que ela está a esconder alguma coisa, e pode ser terrivelmente importante. Não quero correr o risco de a assustar.”

 

Enquanto reflectia sobre o que fazer, alguém a chamou:

 

hoo-hoooo.

 

Voltou-se e viu uma mulher de cinquenta e tal anos com um penteado ao alto e óculos de arlequim a atravessar apressadamente o relvado, vinda da casa ao lado.

 

Edna deve estar a chegar explicou a mulher, sem fôlego, ao chegar junto de Fran. Wally, o filho dela, estava muito perturbado hoje, por isso a Edna levou-o ao médico. Quando Wally não toma os medicamentos, é um verdadeiro problema. Não quer esperar por ela na minha casa? Eu sou Marta Jones, a vizinha de Edna.

 

É muito simpática disse Fran com sinceridade. A Sr.a Barry não estava à minha espera, mas eu gostava muito de esperar por ela. ”E adorava falar consigo”, acrescentou para si própria. Eu sou a Fran Simmons.

 

Marta Jones sugeriu que esperassem na salinha da televisão, que, obviamente, fizera em tempos parte do alpendre.

 

É muito agradável e alegre e poderemos ver Edna quando ela chegar disse, quando trouxe chávenas fumegantes de café acabado de fazer.

 

Eu gosto mais de café quando é feito na antiquada cafeteira explicou. O sabor não é igual ao daquelas máquinas modernas. Recostou-se na poltrona diante de Fran. É uma pena Edna ter sido obrigada a levar Wally ao médico hoje. Pelo menos, não teve de faltar ao trabalho. Ela trabalha para Molly Lasch três vezes por semana... segunda, quarta e sexta-feira.

 

Fran acenou afirmativamente, feliz por armazenar aquela informação no cérebro.

 

Talvez tenha ouvido falar na Molly Lasch disse Marta Jones. É a mulher que acabou de sair da prisão depois de cumprir pena pela morte do marido, e agora corre o rumor de que vai ser presa por matar a namorada do marido. Ouviu falar nela, menina... Desculpe, não ouvi o seu apelido.

 

É Simmons, Fran Simmons.

 

Viu a expressão dos olhos de Marta Jones e soube o que lhe estava a passar pela cabeça. Fran Simmons. É aquela jornalista de televisão e a filha do homem que roubou o dinheiro do fundo para a biblioteca e se suicidou. Fran controlou-se, mas a expressão de Marta Jones transformou-se em simpatia.

 

Não vou fingir que não sei o que aconteceu com o seu pai disse ela, calmamente. Na época, tive imensa pena de si e da sua mãe.

 

Obrigada.

 

E agora está na televisão e está a fazer um programa sobre Molly. Por isso, é claro que sabe tudo sobre ela.

 

É verdade.

 

Bom, talvez Edna a escute. Posso chamar-lhe Fran?

 

Claro que sim.

 

A noite passada não consegui dormir, a pensar se não será perigoso a Edna trabalhar para Molly Lash. Quero dizer, uma coisa foi ela matar o marido. Foi insanidade temporária, de certeza. Quero dizer, ele andava a enganá-la e tudo isso. Mas se, menos de uma semana depois de sair, mata a amante do marido à facada, acho que ela está fora de controlo.

 

Fran pensou no que Gus Brandt tinha dito sobre Molly. ”A ideia de que ela é uma assassina tresloucada e fora de controlo vai atingir proporções epidémicas”, percebeu.

 

Vou dizer-lhe uma coisa continuou Marta. Eu não quereria estar horas e horas sozinha numa casa com aquele género de pessoa. Esta manhã, quando falei com Edna, antes de ela sair para ir ao médico com Wally, disse-lhe: ”Edna, que é que aconteceria ao Wally se Molly Lasch ficar maluca e te der uma pancada na cabeça ou te matar à facada? Quem é que cuidaria dele?

 

Wally precisa de muitos cuidados?

 

Desde que tome a medicação, está bastante bem. Mas quando não toma e fica teimoso, bem, Wally fica uma pessoa diferente, por vezes um pouco descontrolado. Ontem mesmo, tirou a chave da casa de Molly Lasch do porta-chaves da Edna. Queria ir visitá-la. É claro que Edna o obrigou a devolvê-la imediatamente.

 

Ele tirou a chave da casa de Molly Lasch? Fran tentou manter a voz controlada. Alguma vez tinha feito isso antes?

 

Oh, acho que não. Edna não o deixa ir lá. O Dr. Lasch era tão cioso da sua colecção de arte. Parece que algumas peças eram bastante valiosas. Mas sei que uma vez, Wally foi lá e pegou numa coisa em que não devia ter mexido, e Edna estava uma pilha de nervos. Ele não partiu nada, mas era uma peça valiosa e, aparentemente, o Dr. Lasch parecia louco por causa disso, a gritar e a mandá-lo sair lá de casa. Wally não gostou nada disso... Oh, veja, lá vem a Edna.

 

Apanharam Edna Barry quando ela estava a abrir a porta principal. O olhar aflito no rosto da Sr.a Barry quando viu Fran com Marta Jones foi mais uma confirmação de que a mulher tinha alguma coisa para esconder.

 

Vai para dentro, Wally disse bruscamente para o filho. Fran mal conseguiu vislumbrar o homem alto e atraente, com trinta e poucos anos, antes de Edna o enfiar em casa e fechar a porta. Quando se voltou para encarar Fran, a ira ruborizou-lhe as faces e fez a sua voz tremer.

 

Menina Simmons disse, não sei por que é que está aqui, mas tive uma manhã muito difícil e não posso falar consigo agora.

 

Oh, Edna perguntou Marta Jones, Wally não está mais calmo?

 

Wally está óptimo disse Edna Barry, rispidamente, com um misto de medo e ira na voz. Marta, espero que não tenhas estado a encher os ouvidos da Menina Simmons com coscuvilhices disparatadas acerca dele.

 

Edna, como podes dizer isso? Ninguém é mais amiga do Wally do que eu.

 

Os olhos de Edna Barry encheram-se de lágrimas.

 

Eu sei. Mas é tão difícil... Tens de me desculpar. Depois telefono-te, Marta.

 

Por um momento, Fran e Marta Jones ficaram nos degraus a olhar para a porta que Edna Barry acabara de fechar nas suas caras.

 

Edna não é uma pessoa rude disse Marta, calmamente. O problema é que tem uma vida dura. Primeiro o pai do Wally morreu, depois o Dr. Morrow. E logo depois o Dr. Lasch foi assassinado e...

 

O Dr. Morrow? inquiriu Fran, interrompendo Marta Jones. Que é que ele tinha a ver com a Edna Barry?

 

Oh, ele era médico assistente do Wally e era verdadeiramente fantástico com ele. Também era uma óptima pessoa. Se Wally começava a recusar-se a tomar a medicação ou armava alguma confusão, Edna só tinha de telefonar para o Dr. Morrow.

 

Dr. Morrow disse Fran. Está a referir-se ao Dr. Jack Morrow?

 

Sim. Conheceu-o?

 

Conheci. Fran pensou uma vez mais no jovem bondoso que, há catorze anos, a tinha abraçado quando lhe dera a notícia da morte do pai.

 

Deve lembrar-se de que ele foi assassinado num roubo apenas duas semanas antes de o Dr. Lasch morrer disse Marta, tristemente.

 

Suponho que isso perturbou Wally?

 

Nem fale nisso. Foi horrível. E acho que foi logo depois disso que o Dr. Lasch lhe gritou. Pobre Wally. As pessoas não compreendem. Ele não tem culpa de ser como é.

 

”Não”, pensou Fran enquanto agradecia a hospitalidade a Marta Jones e entrava no carro. ”Mas as pessoas não só não compreendem, podem nem sequer saber a gravidade dos problemas do Wally.” Poderia Edna Barry estar a esconder alguma coisa? Seria possível que ela tivesse deixado Molly ser condenada por um crime que na realidade fora cometido pelo filho?

 

O comprimido para dormir que o Dr. Daniels tinha dado a Molly fora altamente eficaz. Tinha-o tomado às dez horas da noite anterior e dormiu até às oito horas da manhã. Tinha sido um sono longo e profundo, do qual emergiu de certa forma zonza mas retemperada.

 

Vestiu um roupão e decidiu ir fazer café e sumo e levá-lo para o andar de cima, para a cama; depois de instalada, tentaria pensar em tudo. Mas, mesmo antes de entrar na cozinha, apercebeu-se de que primeiro tinha de cuidar da desordem que proliferava à sua volta em toda a casa.

 

Embora tivessem feito um esforço para arrumar bem as coisas, os polícias tinham mudado toda a atmosfera da casa. Eram subtis, mas Molly reconheceu todas as mudanças. Tudo aquilo em que eles tinham tocado ou movido estava torto, fora do lugar, não estava certo.

 

A harmonia do seu lar, cuja recordação fora o seu sustentáculo naqueles dias e noites na prisão, tinha desaparecido e precisava de ser restaurada.

 

Depois de um duche rápido, vestiu calças de ganga, sapatos de ténis e uma camisola velha e ficou pronta para trabalhar. A tentação de telefonar para a Sr.a Barry e pedir-lhe que viesse ajudá-la veio e desapareceu rapidamente. ”É a minha casa”, disse Molly para si mesma. ”Vou eu própria pô-la novamente bem.

 

”A minha vida pode estar descontrolada”, desesperou, enquanto enchia o lava-loiça com água quente e despejava detergente líquido, ”mas ainda me consigo recompor o suficiente para reclamar a minha casa.

 

”Não que haja nódoas terríveis em algum lado, apenas umas dedadas e manchas”, pensou, enquanto arrumava os pratos em que eles tinham mexido e endireitava as panelas e as frigideiras para ficarem alinhadas como sempre.

 

”Ter a Polícia a vasculhar-me a casa foi como uma inspecção de surpresa à cela”, pensou. Recordou o som estridente de passos a marchar pelo corredor do bloco de celas, a ordem para se encostar à parede, ser obrigada a ver a sua cama a ser desmantelada enquanto procuravam drogas.

 

Não se apercebeu de que tinha começado a chorar até esfregar a face com as costas da mão e uma bolha de sabão lhe entrar no olho.

 

”Existe outro motivo para eu estar contente por a Sr.a Barry estar de folga hoje”, pensou ela. ”Não tenho de enterrar as minhas emoções. Posso libertá-las. O Dr. Daniels dar-me-ia um Muito Bom Mais.

 

Tinha estado a polir a mesa do átrio com cera quando Fran Simmons telefonou, às nove e meia.

 

”Por que é que concordei em almoçar com ela?”, perguntou Molly a si mesma ao pousar o auscultador.

 

Mas sabia porquê. Apesar do que Philip tinha aconselhado, queria dizer a Fran que, por algum motivo, Annamarie Scalli parecia estar com medo.

 

”E não de mim”, pensou Molly. ”Ela não estava com medo de mim, embora estivesse convencida de que eu matei Gary.

 

”Oh, Deus, oh, Deus, por que é que estás a deixar que isto me aconteça?”, perguntou em silêncio enquanto se deixava cair no fundo das escadas.

 

E, então, ouviu os seus próprios soluços. ”Estou tão sozinha”, pensou, ”tão sozinha.” Lembrou-se da mãe ao telefone no dia anterior: ”Querida, tu estás bem, é melhor não irmos para aí por enquanto.”

 

”Eu queria que a mãe dissesse que vinham para junto de mim”, pensou Molly. ”Preciso deles aqui, agora. Preciso de alguém que me ajude.”

 

Às dez e meia, a campainha da porta tocou. Dirigiu-se em bicos de pés para a porta, encostou-se a ela e esperou. ”Não vou abrir”, pensou. ”Quem quer que esteja ali tem de pensar que eu não estou em casa.”

 

E depois ouviu uma voz.

 

Abre, Molly. Sou eu.

 

Com um soluço de alívio, Molly destrancou a porta e um momento depois começou a chorar descontroladamente enquanto era abraçada por Jenna.

 

Boa amiga, melhor amiga disse Jenna, com lágrimas de pena nos olhos. Que é que posso fazer para ajudar?

 

Ainda a soluçar, Molly conseguiu no entanto soltar uma gargalhada.

 

Anda com o relógio doze anos para trás disse e não me apresentes a Gary Lasch. Se não conseguires isso, pelo menos, não te afastes de mim.

 

Philip ainda não chegou?

 

Ele disse que seguramente viria cá durante o dia. Tinha de ir ao tribunal.

 

Tens de lhe telefonar, Molly. O Cal recebeu uma informação. Eles encontraram vestígios do sangue da Annamarie Scalli nos botins que usaste no domingo à noite e também no teu carro. Lamento. Cal ouviu dizer que o delegado do Ministério Público vai pedir a tua prisão.

 

Depois de receber um telefonema a avisá-lo de que tinham sido encontrados vestígios do sangue de Annamarie Scalli no sapato e no carro de Molly Lasch, Calvin Whitehall dirigiu-se imediatamente para o consultório do Dr. Peter Black.

 

Temos um circo de três arenas completamente novo em formação anunciou a Black, e depois fez uma pausa enquanto o observava com atenção. Não me pareces muito preocupado com isso.

 

Estar preocupado porque a Annamarie Scalli, um problema potencial, já não está entre nós? Não, não estou disse Peter, com uma expressão de presunçosa satisfação no rosto.

 

Tu disseste-me que não existia a menor prova de coisa nenhuma, e que se ela tivesse falado se teria incriminado no processo.

 

Sim, eu disse isso, e continuo a afirmá-lo. No entanto, de repente, dou por mim muito agradecido a Molly. Por muito sórdida que toda esta publicidade se possa tornar, não tem nada a ver com nenhum de nós, nem com o hospital, nem com a Remington Health Management.

 

Whitehall reflectiu nas palavras do sócio.

 

Peter Black sempre se tinha sentido intrigado com a capacidade de Cal para se sentar muito quieto e muito calmo quando estava concentrado. Era como se o seu corpo poderoso se transformasse em pedra naquela imobilidade.

 

Por fim, Cal Whitehall acenou afirmativamente em sinal de concordância.

 

Tens toda a razão, Peter.

 

Como é que Jenna está a encarar tudo isto?

 

Jenna está neste momento com Molly.

 

Isso é sensato?

 

Jenna compreende que neste momento eu não tolerarei fotografias dela de braço dado com Molly estampadas nos jornais. Depois de a fusão estar concretizada, ela pode ajudar Molly como quiser. Até lá, tem de manter uma certa distância.

 

Que ajuda é que ela pode dar, Cal? Se Molly for a julgamento novamente, nem sequer aquele advogado famoso conseguirá desencantar-lhe o tipo de acordo que arrancou ao delegado do Ministério Público da última vez.

 

Estou consciente disso. Mas tens de compreender que Jenna e Molly são como irmãs. Admiro a lealdade da Jenna, embora neste momento tenha de a manter controlada.

 

Black olhou para o relógio com impaciência.

 

Quando é que ele disse que ia telefonar?

 

Deve estar a ligar a qualquer momento.

 

Acho bem que sim. Roy Kirkwood vem cá. Ele perdeu uma paciente no outro dia e está a culpar o sistema. O filho da paciente está tresloucado.

 

Kirkwood é imune a um processo penal. Ele queria exames complementares. Nós podemos resolver o assunto com o filho da paciente.

 

Não é uma questão de dinheiro.

 

Tudo é uma questão de dinheiro, Peter.

 

O telefone privado de Peter Black tocou. Ele pegou no auscultador, escutou um momento e depois tocou no botão de conferência e baixou o volume.

 

Cal está aqui e estamos prontos, doutor disse, num tom respeitoso.

 

Bom dia, doutor. A voz de comando de Cal não tinha o menor vestígio da habitual arrogância.

 

Parabéns, cavalheiros. Acredito que conseguimos outra vitória disse a voz na outra extremidade da linha E se eu estiver certo, todas as outras façanhas não terão sido nada, em comparação.

 

Quando Fran chegou a casa de Molly à uma hora, percebeu imediatamente que esta tinha estado a chorar. Os seus olhos estavam inchados e, embora usasse uma maquilhagem ligeira, havia vestígios de manchas nas faces.

 

Entra, Fran. Philip chegou há pouco. Está na cozinha, a ver-me fazer uma salada.

 

”Então, Philip está cá”, pensou Fran. ”Que será que o trouxe aqui com tanta pressa? Seja o que for, aposto que não vai ficar satisfeito por me ver aqui.”

 

Enquanto percorriam o corredor para a cozinha, Molly disse:

 

Jenna esteve aqui esta manhã. Teve de sair há alguns minutos para ir almoçar com Cal, mas sabes o que ela fez, Fran? Apareceu cá e ajudou-me a limpar a casa. Talvez os polícias devessem fazer um curso para aprenderem a executar um mandado de busca sem deixar tudo na maior confusão.

 

A voz de Molly estava fragilizada. ”Parece estar à beira da histeria ou de uma depressão”, pensou Fran.

 

Era óbvio que Philip Matthews tinha chegado à mesma conclusão. Os seus olhos seguiam Molly constantemente enquanto ela andava pelo aposento a tirar a quiche da caixa e a colocá-la no forno. Durante todo esse tempo, ela continuou a conversar no mesmo tom de voz rápido e enervado.

 

Aparentemente, encontraram vestígios do sangue da Annamarie nas botas que eu calcei no domingo à noite, Fran. E também no meu carro.

 

Fran trocou um olhar angustiado com Philip Matthews, certa de que a expressão de preocupação dele era um espelho da sua.

 

Quem sabe? Talvez esta seja a minha última refeição nesta casa durante algum tempo... Não é verdade, Philip? perguntou Molly.

 

Não, não é verdade replicou ele, tenso.

 

O que queres dizer é que depois de eu ser presa, saio novamente sob fiança. Bem, é uma das coisas boas de ter dinheiro, não é? As pessoas com sorte como eu podem dar-se ao luxo de passar um cheque.

 

Pára com isso, Molly atirou Fran. Aproximou-se da amiga e agarrou-lhe nos ombros. Eu comecei a minha investigação partindo do princípio de que tinhas assassinado o teu marido disse ela. Depois, comecei a ter dúvidas. Senti que a Polícia devia ter investigado melhor a morte de Gary, talvez considerado algumas outras possibilidades. Mas admito que fiquei perturbada quando te vi tão determinada a encontrar a Annamarie Scalli. E depois encontraste-a, e agora ela está morta. Por isso, embora ainda não tenha a certeza se és uma assassina patológica, continuo a ter dúvidas muito reais. Penso que existe uma grande teia de intrigas por aqui e que tu foste apanhada nela como uma pessoa presa num labirinto. Claro que posso estar enganada. Tu podes ser o que noventa e nove por cento das pessoas parecem pensar que és, mas juro-te que eu estou na zona do um por cento. Vou até às últimas consequências para provar que estás inocente das mortes de Gary Lasch e de Annamarie Scalli.

 

E se estiveres enganada? perguntou Molly.

 

Se estiver enganada, Molly, farei todos os possíveis para que sejas colocada numa prisão onde possas ficar confortável, segura e ser bem tratada.

 

Os olhos de Molly iluminaram-se com lágrimas não derramadas.

 

Não vou voltar a ser choramingona disse ela. Fran, tu és a primeira e a única pessoa a revelar vontade de investigar a possibilidade de eu estar inocente. Olhou de relance para Philip. Incluindo tu, meu caro Philip, que sei que enfrentarias tigres por mim. E incluindo Jenna, que poria a mão no fogo por mim, e incluindo os meus pais, que se pensassem que eu era inocente estariam aqui, neste momento, a revirar o inferno. Creio... e espero... estar inocente destas duas mortes. Se não estiver, prometo que não estarei por cá para incomodar as pessoas por muito mais tempo.

 

Fran e Philip Matthews trocaram olhares. Num acordo sem palavras, não comentaram o que para os dois era uma ameaça de suicídio implícita.

 

”Elegância sob pressão”, pensou Fran, enquanto Molly servia a quiche numa travessa Limoges lindíssima com um rebordo fino e base dourada. Os individuais com um delicado padrão floral sobre a mesa do pequeno-almoço condiziam com o tom da sala.

 

A parede voltada para o jardim tinha uma grande janela saliente. Alguns rebentos verdes visíveis no exterior indicavam que o Inverno se aproximava do fim. No fundo desnivelado da grande propriedade, Fran avistou o jardim rochoso e lembrou-se de uma coisa que queria conversar com Moly.

 

No outro dia, eu fiz-te uma pergunta sobre as chaves da casa, Molly. Tu disseste alguma coisa sobre uma chave de reserva?

 

Escondemos sempre uma ali. Molly apontou na direcção do jardim rochoso. Uma daquelas rochas é falsa. Inteligente, não te parece? Pelo menos, é melhor do que ter um Coelho Pedro de cerâmica com uma orelha removível, empoleirado no alpendre, a tomar conta da chave ”para o caso de”.

 

”Para o caso de...”? inquiriu Philip.

 

Para o caso de alguém se esquecer da chave.

 

Alguma vez te esqueceste da chave, Molly? perguntou Fran, casualmente.

 

Tu sabes que eu sou uma boa menina, Fran replicou Molly com um sorriso simultaneamente trocista e sério. Faço sempre tudo bem. Pelo menos, é o que toda a gente diz. Deves lembrar-te disso desde os tempos de escola.

 

Sim, e todos diziam isso porque era verdade replicou Fran.

 

Eu costumava perguntar a mim mesma como seria se o caminho não me tivesse sido tão facilitado. É que eu tinha consciência de que tinha o caminho aberto. Sabia que as coisas eram fáceis para mim, que eu era uma privilegiada. Admirava-te muito quando andávamos na escola porque tu trabalhavas para as coisas que querias. Recordo-me de que quando começaste a jogar basquetebol ainda eras muito baixa, mas eras tão rápida e determinada que fazias a equipa.

 

”Molly Carpenter admirava-me”, pensou Fran. ”E eu que pensava que ela nem sequer sabia que eu existia.”

 

E depois, quando o teu pai morreu, tive imensa pena. Sabia que as pessoas eram sempre deferentes com o meu pai, e é normal... ele atrai naturalmente respeito e merece-o; foi e é um pai maravilhoso. Mas o teu pai conseguiu mostrar o enorme orgulho que sentia por ti. Ele era uma pessoa capaz de fazer isso, e tu deste-lhe a oportunidade... o que nunca foi o meu caso. Deus, lembro-me perfeitamente da expressão no rosto do teu pai quando marcaste o cesto da vitória naquele último jogo do nosso último ano. Foi o máximo!

 

”Não, Molly”, quis Fran implorar. ”Por favor, não continues.”

 

Tenho imensa pena de que tantas coisas tenham corrido mal para ele, Fran. Talvez lhe tivesse acontecido o que me está a acontecer a mim. Uma cadeia de acontecimentos que não podemos controlar. Molly pousou o garfo. A quiche é maravilhosa, Fran, mas eu não estou com fome.

 

Gary alguma vez se esqueceu da chave, Molly? perguntou Fran. Sem olhar para Philip Matthews, sentiu o seu olhar, a sua ordem não falada para que não massacrasse Molly com perguntas.

 

Gary? Esquecer-se? Céus, não. Gary era perfeito. Costumava dizer-me que uma das coisas que adorava em mim era o facto de eu ser tão previsível. Ao contrário da maioria das mulheres, eu nunca me atrasava, nunca deixava as chaves dentro do carro, nunca me esquecia das chaves. Tive um Muito Bom Mais por isso. Calou-se, e depois sorriu levemente como se estivesse a lembrar-se de alguma coisa. Engraçado, já repararam como hoje estou a pensar em termos escolares? Níveis. Notas. Mais ou menos.

 

Molly afastou a cadeira e começou a tremer. Alarmada, Fran correu para junto dela. E, nesse momento, o telefone tocou.

 

Tem de ser a mãe e o pai, ou a Jenna. Molly falou tão baixinho que quase não se percebeu.

 

Philip Matthews levantou o auscultador.

 

É o Dr. Daniels, Molly. Quer saber como estás. Fran respondeu por Molly.

 

Ela precisa de ajuda. Pergunta-lhe se ele pode vir cá conversar com ela.

 

Após alguns momentos de uma troca de palavras sussurrada, Matthews desligou o telefone e virou-se para as duas mulheres.

 

Ele vem já prometeu. Molly, não queres deitar-te até ele chegar? Pareces bastante trémula.

 

Eu sinto-me bastante trémula.

 

Vamos. Philip Matthews abraçou Molly e puxou-a contra si enquanto a levava para fora da sala do pequeno-almoço.

 

”O melhor é arrumar tudo”, pensou Fran enquanto olhava para a refeição quase intacta. ”Tenho a certeza de que ninguém vai querer comer alguma coisa agora.”

 

Quando Matthews voltou, ela perguntou:

 

Que é que vai acontecer?

 

Se os testes de laboratório a relacionarem de alguma forma com a morte de Annamarie, vai ser presa. Devemos saber dentro de muito pouco tempo.

 

Oh, santo Deus!

 

Fran, eu convenci Molly a esconder a maior parte da conversa que teve com a Annamarie Scalli. Algumas coisas foram terrivelmente dolorosas e poderiam parecer um motivo para ela odiar Annamarie. Agora vou arriscar e contar-lhe tudo o que ela me disse, na esperança de que possa ajudá-la. Acredito em si quando diz que está determinada em provar a inocência dela.

 

Da qual o próprio Philip não está convencido, certo? disse Fran suavemente.

 

Estou convencido de que ela não é responsável por nenhuma das mortes.

 

Não é a mesma coisa.

 

Em primeiro lugar, Fran, a Annamarie contou à Molly que o Gary lhe disse que estava aliviado por ela ter perdido o bebé; disse que só teria complicado as coisas. Depois, disse que tinha escutado Gary Lasch e o Dr. Jack Morrow numa discussão feia apenas alguns dias antes de Morrow ter sido assassinado. Depois dessa discussão, o Dr. Morrow pediu a Annamarie que lhe guardasse um ficheiro muito importante, para se precaver, mas morreu antes de lho dar. Molly disse-me que ficou com a impressão nítida de que a Annamarie sabia alguma coisa que não queria dizer, e que estava com muito medo.

 

Temia pela sua própria segurança?

 

É a impressão de Molly.

 

Bem, é uma pista. E quero investigar mais uma coisa. O filho da Sr.a Barry, Wally, um jovem com problemas emocionais e mentais profundos, ficou desesperadamente perturbado com a morte do Dr. Morrow, e por algum motivo que ainda não deslindei também estava muito zangado com Gary Lasch. Para além do mais, parece ter um interesse especial pela Molly. Ontem mesmo, tirou a chave desta casa do porta-chaves da mãe.

 

A campainha da porta tocou.

 

Eu abro disse Fran. Provavelmente, é o Dr. Daniels. Abriu a porta e encontrou dois homens com os distintivos e cartões de identidade na mão para ela poder ler. O mais velho disse:

 

Temos um mandado para a prisão de Molly Carpenter Lasch. Leva-nos até ela, por favor?

 

Quinze minutos depois, os primeiros operadores de câmara estavam no local para gravar Molly Lasch, com as mãos algemadas atrás das costas, o casaco sobre os ombros, a cabeça baixa, os cabelos caídos sobre o rosto, a ser levada de casa para um carro do gabinete do Ministério Público. Dali, foi levada para o tribunal de Stamford, onde, numa reposição dos acontecimentos de há quase seis anos, foi acusada de homicídio.

 

Sentindo cada dia dos seus sessenta e cinco anos, Edna Barry esperou pelo início do noticiário da noite enquanto bebericava uma chávena de chá a terceira na última hora. Wally tinha ido dormir uma sesta para o quarto e ela rezou para que, quando acordasse, o medicamento já tivesse feito efeito e ele se sentisse melhor. Tinha sido um dia mau, com as vozes que só ele ouvia a atormentarem-no.

 

A caminho de casa, depois de vir do médico, tinha batido no rádio do carro com o punho porque pensara que o repórter estava a falar sobre ele.

 

Pelo menos de manhã, tinha conseguido obrigá-lo a entrar em casa antes de Fran Simmons poder ver até que ponto ele estava perturbado. Mas que é que Marta teria contado acerca de Wally?

 

Edna sabia que Marta nunca faria nada para magoar Wally intencionalmente, mas Fran Simmons era uma rapariga esperta e já tinha começado a fazer perguntas sobre a chave de reserva da casa de Molly.

 

No dia anterior, Marta tinha visto Wally a tirar a chave da casa de Molly da sua carteira e ouvira-o dizer que desta vez a colocaria no lugar. ”Por favor, Deus, que a Marta não tenha contado isso à Fran Simmons”, rezou Edna.

 

A sua mente voltou àquela manhã terrível em que encontrara o corpo do Dr. Lasch, ao medo que sentira desde esse momento de cada vez que se mencionava uma chave. ”Quando a Polícia me perguntou sobre as chaves da casa, eu dei-lhes a chave que tinha tirado do esconderijo no jardim”, recordou Edna. ”Não tinha conseguido encontrar a minha chave da casa naquela manhã, e estava com imenso medo de que Wally a tivesse tirado, um medo que mais tarde se revelou justificado. Tinha ficado aterrorizada com a perspectiva de a Polícia querer fazer mais perguntas sobre a chave, mas ninguém tinha perguntado mais nada.”

 

Edna concentrou-se no ecrã da televisão quando o noticiário começou. Chocada, ouviu a notícia de que Molly tinha sido detida sob a acusação de homicídio, acusada em juízo, e há alguns minutos libertada sob uma fiança de um milhão de dólares, com a condição de permanecer em prisão domiciliária. A câmara passou para Fran Simmons, ao vivo no parque de estacionamento do restaurante Sea Lamp, em Rowayton. O parque ainda estava vedado com aquela fita amarela dos locais de crime.

 

”Foi neste lugar que Annamarie foi esfaqueada até à morte”, estava Fran a dizer, ”um crime pelo qual Molly Lasch foi detida esta tarde. Soube-se que foram descobertos vestígios de sangue num dos sapatos de Molly Lasch e também no seu carro.”

 

Molly está outra vez toda ensanguentada, mãe?

 

Edna voltou-se e viu Wally atrás de si, com os cabelos desalinhados, os olhos brilhantes de fúria.

 

Não digas essas coisas, Wally! ordenou ela, nervosa.

 

A estátua do cavalo e do vaqueiro em que eu peguei daquela vez, lembra-se?

 

Wally, não fales sobre isso, por favor, não fales.

 

Só quero falar-lhe sobre ela, nada mais disse ele, petulantemente.

 

Wally, nós não vamos falar sobre esse assunto.

 

Mas toda a gente está a falar no assunto, mãe. Agora mesmo, no meu quarto, estavam a gritar na minha cabeça... todos eles. Estavam a falar sobre a estátua. Não era muito pesada para mim porque eu sou forte, mas era pesada de mais para Molly a levantar.

 

Consternada, Edna pensou que as vozes que o atormentavam estavam de volta. O medicamento não estava a fazer efeito.

 

Levantou-se, aproximou-se do filho e encostou as mãos nas têmporas dele.

 

Chiu disse, suavemente. Basta de conversas sobre Molly ou a estátua. Tu sabes bem como as vozes te confundem, querido. Promete-me que não vais dizer mais nenhuma palavra sobre a estátua, nem sobre o Dr. Lasch, nem sobre a Molly. Está bem? Agora, vamos buscar mais um comprimido para tomares.

 

Fran terminou o seu segmento na transmissão e desligou o microfone. Nessa noite, Pat Lyons, um jovem operador de câmara, tinha vindo de Nova Iorque para filmá-la no restaurante Sea Lamp.

 

Gosto desta cidade disse ele. Aqui, perto da água, parece uma aldeia de pescadores.

 

É uma cidade agradável concordou Fran, lembrando-se de que, quando era mais nova, ocasionalmente, visitava uma amiga em Rowayton. ”Embora seja verdade que o Sea Lamp não é um lugar onde a elite se encontre para comer”, pensou, enquanto olhava para o restaurante com um aspecto um pouco gasto. No entanto, pretendia ir lá jantar. Apesar dos acontecimentos dos últimos dias, da presença da fita amarela no local do crime e de marcas de giz amarelo para indicar a localização do carro de Annamarie Scalli, o local estava a funcionar.

 

Fran já se tinha certificado de que Gladys Fluegel, a empregada de mesa que servira Molly e Annamarie Scalli, estava de serviço naquela noite. Tinha de ter o cuidado de ficar numa das mesas dela.

 

Ficou surpreendida ao constatar que o restaurante estava semicheio, mas depois compreendeu que isso se devia provavelmente à curiosidade gerada pelo homicídio e a toda a publicidade subsequente. Ficou por alguns instantes à entrada, a pensar que teria mais hipóteses de falar com Fluegel se ficasse sentada ao balcão. Porém, o problema foi resolvido pela própria empregada, que se aproximou rapidamente.

 

É Fran Simmons. Estivemos a vê-la gravar. Eu sou Gladys Fluegel. Fui eu que atendi Molly Lasch e Annamarie Scalli naquela noite. Elas sentaram-se precisamente ali. Apontou para um reservado vazio ao fundo do restaurante.

 

Tornou-se óbvio para Fran que Gladys estava mais do que ansiosa por contar a sua história.

 

Na realidade, gostava de trocar algumas palavras consigo disse Fran. Se eu me sentar na mesma mesa, talvez possa fazer-me companhia. Tem um intervalo dentro de pouco tempo?

 

Dê-me dez minutos disse Fluegel. Vou resolver uma pequena coisa. Acenou para um casal idoso sentado a uma mesa junto à janela. Ela está doida porque ele quer parmigiana de vitela, e ela diz que lhe provoca gases. Vou dizer-lhes para se decidirem; depois de entregar o pedido na cozinha, vou sentar-me consigo.

 

Fran mediu a distância enquanto caminhava para o reservado do fundo. ”A cerca de doze metros da entrada”, decidiu. Enquanto esperava que Gladys ficasse disponível, estudou o interior do restaurante. Para começar, estava mal iluminado e a mesa estava na penumbra, o que fazia dela uma escolha natural para alguém que não queria dar nas vistas. Molly tinha dito que Annamarie parecia assustada quando tinham falado, mas não com medo dela. ”De que é que teria medo?”, perguntou Fran a si mesma.

 

E por que é que Annamarie mudara de nome? Seria apenas por pensar que a notoriedade que rodeara o caso do homicídio de Gary Lasch a perseguiria? Ou teria outro motivo para tentar desaparecer?

 

Segundo Molly, Annamarie tinha saído primeiro do restaurante e depois ela pagara a conta e seguira-a. Quanto tempo teria demorado? Não podia ter sido muito tempo, porque nesse caso seria lógico Molly acreditar que Annamarie já se tinha ido embora. Mas teria de ser o suficiente para Annamarie atravessar o parque de estacionamento até ao jipe.

 

”Molly diz que a chamou da porta”, pensou Fran. ”Será que conseguiu apanhá-la?”

 

Adivinhe o que vão comer os dois? perguntou Gladys, a apontar com o polegar por cima do ombro na direcção do casal idoso. Solha grelhada e espinafres. Ela pediu pelos dois. Ele está a ter um ataque, pobre tipo.

 

Pousou a ementa diante de Fran.

 

Os pratos do dia são frango de fricassé e goulash à húngara. ”Como um hambúrguer no P. J. Clarke’s, quando voltar para Nova Iorque”, decidiu Fran, e depois murmurou algo sobre ter um jantar tardio e pediu café e uma sanduíche.

 

Quando Gladys voltou com o pedido, sentou-se.

 

Tenho mais ou menos dois minutos disse ela. Foi aqui que Molly Lasch se sentou. Aquela Annamarie Scalli estava no seu lugar. Como disse aos detectives ontem, a Scalli estava nervosa... Juro que estava com medo da Lasch. Depois, quando a Scalli se levantou para sair, Molly Lasch agarrou-lhe no pulso. A Scalli teve de se afastar do aperto dela e depois saiu daqui praticamente a voar, como se estivesse com receio de que a Molly Lasch a perseguisse, o que obviamente aconteceu. Quero dizer, quantas mulheres é que dão uma nota de cinco dólares para pagar uma chávena de chá e um café que custam apenas um dólar e trinta cêntimos? Se quer saber, tenho pesadelos ao pensar que apenas segundos depois de ter deixado a minha mesa aquela mulher, Scalli, estava morta. Suspirou. Acho que vou ter de me sujeitar a ser testemunha no julgamento.

 

”Estás a morrer por testemunhar”, pensou Fran.

 

Havia mais empregadas de mesa no domingo à noite? perguntou.

 

Querida, ao domingo à noite nesta espelunca não são necessárias duas empregadas de mesa. Na verdade, normalmente, o domingo é o meu dia de folga, mas a rapariga que costuma fazê-los telefonou a dizer que estava doente, e adivinhe quem é que se lixou? Por outro lado, foi muito interessante estar aqui com tantas coisas a acontecer.

 

E um cozinheiro ou alguém no balcão? Deve haver esse tipo de ajuda aqui.

 

Oh, claro, o cozinheiro estava por aí, embora deva dizer-lhe que chamar ”cozinheiro” àquele cretino é esticar muito o significado da palavra. Mas ele não estava cá dentro... Está sempre nas traseiras. Não vê nada, não ouve nada. Se é que me entende.

 

Quem é que estava atrás do balcão?

 

Bobby Burke, um miúdo que anda na universidade. Trabalha aos fins-de-semana.

 

Gostaria de falar com ele.

 

Ele vive em Yarmouth Street, em Belle Island. É do outro lado da pequena ponte, a dois quarteirões daqui. Chama-se Robert Burke Júnior. O número deles vem na lista. Queria entrevistar-me para a televisão ou coisa do género?

 

Quando estiver a gravar o programa sobre Molly Lasch, gostaria de conversar consigo disse Fran.

 

Será um prazer.

 

”Aposto que sim”, pensou Fran.

 

Fran telefonou para a residência Burke do telefone do carro. No começo, o pai de Bobby Burke recusou-se terminantemente a autorizar que ela falasse com o filho.

 

Bobby fez uma declaração à Polícia com tudo o que ele tinha para dizer. Mal reparou na mulher a entrar e a sair. E não conseguia ver o parque de estacionamento do balcão.

 

Sr. Burke implorou Fran. Vou ser completamente honesta com o senhor. Estou apenas a cinco minutos daí. Acabei de falar com Gladys Fluegel e estou preocupada porque acho que a interpretação que ela fez do encontro entre Molly Lasch e Annamarie Scalli pode estar um pouco retorcida. Eu sou jornalista, mas também sou amiga de Molly Lasch. Andámos juntas na escola. Em nome da justiça, faço-lhe um apelo. Ela precisa de ajuda.

 

Espere um momento. Quando voltou à linha, ele disse:

 

Muito bem, Menina Simmons, pode vir cá falar com Bobby, mas insisto em permanecer na sala convosco. Deixe-me dar-lhe indicações para cá chegar.

 

”É o tipo de miúdo de que quaisquer pais se orgulhariam”, pensou Fran, sentada na sala de estar da casa modesta. Era um rapaz muito magro de dezoito anos, com cabelos castanho-claros e inteligentes olhos castanhos. Os seus modos eram tímidos e ocasionalmente olhava para o pai à procura de orientação, mas havia um toque de humor no seu olhar quando respondeu a algumas das perguntas de Fran, e especialmente quando falou em Gladys.

 

O restaurante não estava movimentado, por isso vi as duas senhoras que entraram disse ele. Quero dizer, elas entraram separadas, com apenas alguns minutos de diferença. Teve alguma piada. A Gladys tenta sempre sentar as pessoas a uma mesa perto do balcão para não ter de se mexer muito, mas a primeira senhora não lhe fez a vontade. Apontou para o reservado do fundo.

 

Pareceu-lhe que estava nervosa?

 

Na verdade, não percebi.

 

Disse que não estava ocupado?

 

É verdade. Havia apenas algumas pessoas ao balcão. Embora, mesmo antes de as senhoras saírem, tenha entrado um casal que ocupou uma mesa. A Gladys estava junto das senhoras quando esse casal chegou.

 

Ainda estava a atendê-las?


A fazer a conta. Mas levou o seu tempo. Ela é naturalmente metediça e gosta de saber tudo o que se passa. Lembro-me de que o casal novo começou a ficar aborrecido e chamaram-na. Isso aconteceu quando a segunda senhora ia a sair.

 

Bobby, achou que a primeira mulher a sair, a que depois foi assassinada no parque de estacionamento, saiu a correr como se estivesse nervosa ou com medo?

 

Ela estava a andar bastante depressa, mas não ia realmente a correr.

 

E quanto à segunda mulher? Deve saber que ela se chama Molly Lasch?

 

Sim, sei isso.

 

Viu-a sair? -Sim.

 

Ela ia a correr?

 

Também ia muito depressa. Mas fiquei com a impressão de que era porque estava a começar a chorar, e calculei que não queria que ninguém a visse. Tive pena dela.

 

”Estava a começar a chorar”, pensou Fran. ”Isso não me parece típico de uma mulher numa fúria homicida.”

 

Bobby, ouviu-a chamar um nome ao sair?

 

Pareceu-me que tinha chamado alguém, mas não percebi o nome.

 

Ela chamou uma segunda vez? Ela gritou ”Annamarie, espere”?

 

Não a ouvi chamar uma última vez. Mas nessa altura estava a servir café, por isso é possível que não tenha reparado.

 

Eu acabei de sair do restaurante, Bobby. O balcão fica perto da porta. Não lhe parece que se a Molly Lasch tivesse chamado suficientemente alto para alguém num carro do outro lado do parque de estacionamento a ouvir, também a teria ouvido?

 

Ele pensou durante alguns momentos.

 

Acho que sim.

 

A Polícia fez-lhe perguntas sobre isso?

 

Não muitas. Perguntaram se eu tinha ouvido a Sr.a Lasch chamar a outra senhora à porta, e eu disse que achava que sim.

 

Quem é que estava ao balcão nessa altura, Bobby?

 

Nessa altura estavam apenas dois fulanos que vão lá de vez em quando. Tinham estado a jogar bowling. Mas estavam a conversar um com o outro e não prestaram atenção a mais ninguém.

 

Bobby, quem eram as pessoas que entraram, ocuparam uma mesa e chamaram a Gladys?

 

Não sei os nomes deles. Têm aproximadamente a idade da minha mãe e do meu pai; vejo-os lá de vez em quando. Devem ir ao cinema e depois jantam a caminho de casa.

 

Bobby, se eles voltarem, não se importa de lhes pedir os nomes e o número de telefone para mim, ou, se eles não lhe derem essa informação, dá-lhes o meu cartão e pede-lhes que me telefonem?

 

Claro que sim, Menina Simmons disse Bobby com um sorriso. Eu gosto das suas reportagens no noticiário, e vejo sempre o Crime Verdadeiro. É bestial!

 

Eu só comecei agora a trabalhar no Crime Verdadeiro, mas agradeço-lhe disse Fran. O caso Lasch será o tema do meu primeiro programa. Levantou-se e voltou-se para Robert Burke, Sénior. O senhor foi muito bondoso ao permitir que eu falasse com Bobby disse.

 

Bom, a verdade é que eu também vi alguns noticiários disse ele. E tenho a impressão de que neste caso existe uma grande precipitação no julgamento; obviamente, a senhora sente o mesmo. Sorriu. É claro que eu posso estar a ser preconceituoso. Sou defensor público.

 

Acompanhou Fran até à porta e abriu-a.

 

Menina Simmons, se é amiga de Molly Lasch, devia saber mais uma coisa. Hoje, quando a Polícia interrogou Bobby, fiquei com a sensação de que a única coisa que queriam ouvir era uma confirmação do que a Gladys Fluegel lhes tinha dito, e posso garantir-lhe que aquela mulher está ávida de atenção. Eu vou ficar surpreendido se ela não começar a lembrar-se de todos os tipos de coisas. Conheço bem o género dela. Vai dizer à Polícia tudo o que eles quiserem ouvir, e pode apostar que nada do que ela disser vai ajudar Molly Lasch.

 

Tinha sido acusada. Tinham-lhe tirado as impressões digitais. Tinha sido fotografada. Ouvira Philip Matthews dizer: ”A minha cliente declara-se inocente, Meretíssimo”. O acusador a alegar que ela podia desaparecer e a pedir prisão domiciliária. O juiz a pedir uma fiança de um milhão de dólares e a confiná-la a casa.

 

Ficar a tremer na sala de detenção. A fiança paga. Como uma criança obediente, Molly, apática e desligada, fez o que lhe mandaram, até, por fim, estar no carro com Philip, que a levava para casa.

 

Com o braço à volta dela, quase a levou ao colo para casa e para a saleta íntima. Obrigou-a a deitar-se no sofá, colocou-lhe uma das almofadas decorativas debaixo da cabeça e depois foi procurar um cobertor e tapou-a cuidadosamente.

 

Estás a tremer. Onde é que está o acendedor da lareira? perguntou.

 

Em cima da pedra. Não teve consciência de estar a responder até ouvir a sua própria voz.

 

Um instante depois, o lume acendeu-se, quente e reconfortante.

 

Vou ficar cá disse Philip. Tenho a minha pasta; posso trabalhar na mesa da cozinha. Tu vais fechar os olhos.

 

Quando os abriu, com um sobressalto, eram sete horas e o Dr. Daniels estava sentado ao seu lado.

 

Sente-se bem, Molly?

 

Annamarie arquejou ela. Eu estava a sonhar com ela.

 

Quer contar-me o sonho?

 

Annamarie sabia que algo terrível ia acontecer-lhe. Foi por isso que saiu do restaurante com tanta pressa. Queria escapar ao seu destino. Ao invés disso, correu para ele.

 

Acha que Annamarie sabia que ia morrer, Molly?

 

Acho, sim.

 

Por que é que pensa que Annamarie sabia uma coisa dessas?

 

Doutor, isso foi parte do sonho. Conhece a fábula do homem a quem disseram para se encontrar com a morte nessa noite em Damasco, por isso ele fugiu para Samara para se esconder? E um estranho aproximou-se dele numa rua em Samara e disse: ”Sou a Morte. O nosso encontro não era em Damasco?” Apertou a mão do Dr. Daniels. Foi tão real.

 

Quer dizer que não havia maneira de a Annamarie se salvar?

 

Maneira nenhuma. E eu também não me posso salvar.

 

Fale-me sobre isso, Molly.

 

No fundo, não sei sussurrou ela. Hoje, quando estava na cela de detenção e trancaram aquela porta, eu não parava de ouvir outra porta a ser fechada ou aberta. Não é estranho?

 

Era uma porta de prisão?

 

Não. Mas ainda não sei que porta era. O som é parte do que aconteceu naquela noite em que Gary morreu. Suspirou e, afastando o cobertor, sentou-se. Oh, Deus, por que é que não consigo lembrar-me? Se conseguisse, talvez tivesse uma hipótese.

 

O facto de estar a recuperar a memória de incidentes ou sons específicos é um bom sinal, Molly.

 

É? inquiriu Molly num tom triste.

 

O médico observou-a cuidadosamente. Percebeu os efeitos ao stress recente no rosto: letárgica, deprimida, esgotada; certa de que o seu destino estava traçado. Era claro que não queria falar mais.

 

Molly, gostaria de me encontrar todos os dias consigo durante algum tempo. Não se importa?

 

Tinha esperado protestos, mas ela limitou-se a acenar com indiferença.

 

Vou dizer a Philip que me vou embora.

 

Ele também devia ir para casa. Estou muito grata aos dois. Agora já não há tantas pessoas por aqui. O meu pai e a minha mãe, por exemplo. Têm estado notoriamente ausentes.

 

A campainha da porta tocou. O Dr. Daniels viu o pânico nos olhos de Molly. ”Espero que não seja a Polícia”, pensou, consternado.

 

Eu vou abrir disse Philip.

 

O Dr. Daniels observou o alívio que inundou Molly quando o ruído de saltos e uma voz de mulher precedeu a chegada de Jenna Whitehall. O marido dela e Philip seguiram-na para a sala.

 

O Dr. Daniels observou aprovadoramente enquanto Jenna dava um rápido abraço a Molly e dizia:

 

O seu serviço de cozinheiro-expresso chegou, minha senhora. E não há empregada, mas o poderoso Calvin Whitehall em pessoa vai servir e arrumar a cozinha, com o auxílio do advogado Philip Matthews.

 

Eu vou andando disse o médico com um sorriso fugaz, contente por os amigos de Molly terem vindo apoiá-la e ansioso por ir para casa. Sentia uma antipatia instintiva por Calvin Whitehall, com quem tinha estado apenas algumas vezes. O seu instinto dizia-lhe que o homem era um tirano nato, que usaria sem a menor hesitação o seu imenso poder, não apenas para alcançar os seus objectivos mas para manipular as pessoas unicamente para ter o prazer de as ver sofrer.

 

Ficou surpreendido e nada satisfeito quando Whitehall o seguiu até à porta.

 

Doutor disse Whitehall, em voz baixa, como se tivesse medo de que alguém o ouvisse, ainda bem que o vejo aqui com a Molly. Ela é terrivelmente importante para todos nós. Acha que há alguma possibilidade de ela ser declarada incapaz de ser julgada, ou, se isso não for possível, ser julgada como inocente deste segundo crime por motivo de insanidade?

 

A sua pergunta não deixa qualquer dúvida de que considera Molly culpada da morte de Anna marie Scalli declarou o Dr. Daniels, friamente.

 

Foi notório que Whitehall ficou surpreendido e ofendido com a censura implícita.

 

Penso que a minha pergunta reflecte a medida do afecto que a minha mulher e eu temos por Molly, e a nossa certeza de que, para ela, uma pena de prisão longa será o mesmo que uma condenação à morte.

 

”Deus ajude a pessoa que se meter consigo”, pensou Daniels, reparando no rubor de indignação nas maçãs do rosto de Whitehall e no brilho gélido do seu olhar.

 

Aprecio a sua preocupação, Dr. Whitehall. Estou a pensar ver ou falar com Molly todos os dias, e temos simplesmente de lidar com um dia de cada vez, em tudo isto. Ele acenou afirmativamente e voltou-se para a porta.

 

Enquanto conduzia para casa, o Dr. Daniels pensou que Jenna Whitehall podia ser a melhor amiga de Molly, mas era casada com um homem que não tolerava interferências e que não deixava ninguém atravessar-se no seu caminho. Ocorreu-lhe que este interesse renovado no escândalo que rodeava a morte de Gary Lasch, o fundador da Remington Health Management, não era seguramente uma reviravolta nos acontecimentos bem-vinda para o presidente do Conselho de Administração da Remington.

 

”Whitehall está em casa de Molly como marido da melhor amiga dela ou por que está a tentar engendrar o melhor plano para o controlo de danos?”, pensou Daniels.

 

Jenna tinha trazido espargos gratinados, sela de borrego, batatas novas minúsculas, bróculos e biscoitos todos os pratos preparados e prontos para serem servidos. Com uma pressa deliberada, pôs a mesa na cozinha enquanto Cal abria uma garrafa de vinho depois de dizer a Molly que era um bordéus Chateau Lafite Rothschild, ”um dos melhores da minha adega particular”.

 

Molly ergueu os olhos a tempo de captar a expressão estupidificada de Philip e a ligeira careta de Jenna com o tom de gabarolice e pretensão de Cal.

 

”Eles são bem intencionados”, pensou ela, cansada, ”mas eu preferia que não tivessem vindo. Estão a tentar tão desesperadamente que pareça um serão normal em Greenwich, e aqui estamos nós, a juntarmo-nos para um jantar informal na cozinha.” Recordou como, há alguns anos, quando Gary ainda estava vivo e ela pensava que era feliz, Jenna e Cal apareciam ocasionalmente sem serem esperados e ficavam sempre para jantar.

 

”Felicidade doméstica essa era a minha vida. Eu adorava cozinhar e não me custava nada improvisar um jantar em alguns minutos. Gostava de mostrar que não precisava nem queria uma cozinheira ou uma empregada interna. Gary parecia tão orgulhoso de mim: Ela é não apenas lindíssima e inteligente, como também sabe cozinhar. Como é que tive tanta sorte? perguntava, a rir-se para mim à frente dos convidados.

 

”E tudo não passava de uma charada”, pensou ela. Doía-lhe imenso a cabeça. Fez pressão nas têmporas com as pontas dos dedos, a massajar suavemente, a tentar afastar a dor.

 

Molly, preferes que esqueçamos tudo isto? perguntou Philip, calmamente. Estava sentado à frente dela na mesa, onde Jenna os tinha mandado sentar.

 

Enquanto marido e médico, ele não valia o preço que pagou por tê-lo matado, Sr.aLash.

 

Molly levantou os olhos e viu Philip a fitá-la.

 

Que queres dizer com isso, Molly? perguntou ele. Confusa, Molly olhou para além dele. Jenna e Cal também estavam a observá-la.

 

Desculpem disse ela, hesitante. Acho que estou num ponto em que não percebo a diferença entre aquilo em que estou a pensar e o que estou a dizer. Só me lembrei do que a Annamarie Scalli me disse quando me encontrei com ela no restaurante, no domingo à noite. O que me surpreendeu na altura foi ela estar tão convencida de que eu matei Gary, quando eu tinha ido encontrar-me com ela com a esperança de descobrir que ela estava suficientemente zangada para o ter matado.

 

Não penses nisso agora, Molly pediu Jenna. Bebe o teu vinho. Tenta descontrair.

 

Escuta, Jenna disse Molly,numtomardente. AAnnamarie disse que, como médico, Gary não valia o preço que eu paguei por tê-lo matado. Que é que a levou a dizer isso? Ele era um médico maravilhoso. Não era?

 

Fez-se silêncio enquanto Jenna continuava os preparativos. Cal limitou-se a observá-la.

 

Percebem onde estou a querer chegar? perguntou Molly, quase a implorar. Talvez houvesse alguma coisa na vida profissional de Gary que nós desconhecemos.

 

É um caminho possível disse Philip, calmamente. E se falássemos com a Fran sobre o assunto? Voltou-se para Cal e Jenna. Inicialmente, opus-me a que a Molly colaborasse fosse de que maneira fosse com a Fran Simmons disse ele, mas, depois de conviver com ela e de a ver em acção, acredito honestamente que ela está do lado de Molly.

 

Voltou-se para Molly.

 

A propósito, ela telefonou enquanto estavas a dormir. Falou com o rapaz que estava a trabalhar no balcão do restaurante no domingo à noite. Ele diz que não te ouviu chamar a Annamarie pela segunda vez, que é o que a empregada de mesa diz. É uma coisa pequena, mas podemos usá-la para desacreditar o testemunho da empregada.

 

Que bom... Eu sabia que não me lembrava disso disse Molly. No entanto, por vezes, questiono-me em relação ao que é real e ao que imaginei. Acabei de dizer ao Dr. Daniels que há uma coisa que não pára de me ocorrer e desvanecer-se acerca da noite em que Gary morreu... Alguma coisa acerca de uma porta. Ele diz que é bom sinal, eu estar a ter recordações específicas. Talvez haja outras respostas para estas mortes. Espero que sim. O que sei é que nunca mais posso voltar para a prisão. Fez uma pausa e depois sussurrou mais para si própria do que para os outros. Isso não vai acontecer.

 

Fez-se um longo silêncio que Jenna quebrou com alegre determinação.

 

Eia, não podemos deixar este jantar magnífico arrefecer disse ela, sentando-se à mesa.

 

Uma hora depois, no carro, a caminho de casa, sentados no banco de trás enquanto Lou Knox os conduzia, Jenna e Cal permaneceram em silêncio até esta dizer:

 

Cal, achas que é possível a Fran Simmons descobrir alguma coisa que possa ajudar Molly? Ela é uma jornalista de investigação, e se calhar é boa.

 

Mas primeiro é preciso haver alguma coisa para investigar disse Cal Whitehall, bruscamente. E ela não tem. Quanto mais a Fran Simmons cavar, mais encontrará a mesma resposta, que é a óbvia.

 

Que é que pensas que a Annamarie Scalli quis dizer quando criticou Gary enquanto médico?

 

O que eu acho, minha querida, é que os pequenos surtos de memória são altamente duvidosos. Eu não lhes daria importância, e tenho a certeza de que nenhum júri dará. Tu ouviste. Ela está a ameaçar suicídio.

 

É errado as pessoas darem uma esperança excessiva à Molly. Gostava que a Fran Simmons se mantivesse afastada de tudo isto!

 

Sim, Fran Simmons é um aborrecimento terrível concordou Cal.

 

Não precisou de olhar para o espelho retrovisor para saber que Lou Knox estava a observá-lo enquanto conduzia. Com um aceno quase imperceptível, respondeu à pergunta não falada que ele lhe fez.

 

”Detectei uma mudança na Tasha quando estive lá na semana passada, ou estou apenas a imaginar tudo agora?”, perguntou Barbara Colbert a si mesma enquanto olhava para a escuridão, a caminho de Greenwich. Nervosa, apertou as mãos uma na outra e soltou-as.

 

O Dr. Black telefonara quando ela se estava a preparar para ir para o Met, onde tinha um bilhete para a série de apresentações de ópera de terça-feira à noite.

 

Sr.a Colbert dissera o médico, num tom sério, infelizmente, houve uma alteração no estado da Tasha. Acreditamos que os seus sistemas possam estar a desligar.

 

”Por favor, que eu chegue lá a tempo”, rezou Barbara. ”Quero estar com ela quando ela se for. Disseram-me sempre que provavelmente ela não ouve nem compreende nada do que lhe dizemos, mas eu nunca tive a certeza. Quando chegar o momento, quero que ela saiba que estou lá. Quero os meus braços à volta dela quando soltar o último suspiro.”

 

Recostou-se para trás e sobressaltou-se. A ideia de perder a sua menina tinha o impacto físico de um punhal no coração. ”Tasha... Tasha...”, pensou. ”Como é que isto pôde acontecer?”

 

Barbara Colbert chegou e encontrou Peter Black à cabeceira da cama de Tasha. O semblante do médico transmitia uma espécie de tristeza treinada.

 

Só podemos observar e esperar disse, num tom de voz solícito. Barbara ignorou-o. Uma das enfermeiras puxou uma cadeira para junto da cama, para ela poder sentar-se com o braço à volta dos ombros de Tasha. Olhou para o rosto encantador da filha, tão sereno, como se ela estivesse simplesmente a dormir e pudesse abrir os olhos a qualquer momento e dizer olá.

 

Barbara ficou ao lado da filha durante aquela longa noite, não consciente das enfermeiras que estavam por perto e de Peter Black a ajustar a solução que pingava para as veias de Tasha.

 

Às seis horas, Black tocou-lhe no braço.

 

Sr.a Colbert, parece que a Tasha estabilizou, pelo menos até certo ponto. Não quer tomar uma chávena de café e deixar as enfermeiras tratarem dela? Depois, pode voltar.

 

Ela levantou os olhos.

 

Sim, e preciso de falar com o meu motorista. Tem a certeza... Ele sabia o que ela queria dizer e acenou afirmativamente.

 

Ninguém pode ter a certeza, mas não me parece que Tasha esteja preparada para nos deixar já, pelo menos não por enquanto.

 

A Sr.a Colbert saiu para a zona da recepção. Como esperava, Dan estava a dormir numa das poltronas. Uma mão no ombro foi o suficiente para o despertar completamente.

 

Dan já estava com a família antes de Tasha nascer, e ao longo dos anos tinham ficado muito íntimos. Barbara respondeu à pergunta que ele não chegou a fazer:

 

Ainda não. Dizem que por enquanto estabilizou. Mas pode acontecer a qualquer momento.

 

Tinham ensaiado aquele momento.

 

Vou chamar os meninos, Sr.a Colbert.

 

”Cinquenta e quarenta e oito anos, e ele ainda lhes chama rapazes”, pensou Barbara, vagamente consolada com a percepção de que Dan estava a sofrer com ela.

 

Pede a um deles que vá buscar-me uma mala ao apartamento. Telefona e diz à Netty para a ter preparada.

 

Obrigou-se a ir para a pequena cafetaria. A noite sem dormir ainda não a tinha afectado, mas sabia que seria inevitável.

 

A empregada da cafetaria conhecia, sem dúvida, o estado de Tasha.

 

Estamos a rezar disse, e depois suspirou. Tem sido uma semana triste. O Sr. Magim morreu no princípio da manhã de domingo, sabia?

 

Não, não sabia. Lamento.

 

Não que não fosse esperado, mas estávamos todos com esperança de que ele passasse o octogésimo aniversário com vida. No entanto, sabe o que foi agradável? Os olhos dele abriram-se mesmo antes de morrer e a Sr.a Magim jura que se focaram nela com expressividade.

 

”Se ao menos a Tasha pudesse despedir-se de mim”, pensou Barbara. ”Éramos uma família muito feliz, mas nunca fomos muito expansivos. Agora lamento isso. Tantos pais terminam as conversas com os seus filhos dizendo adoro-te. Eu pensei sempre que era exagerado, até disparatado. Agora, gostava de nunca ter deixado a Tasha sair de junto de mim sem lhe dizer isso mesmo.”

 

Quando Barbara voltou para a suite, o estado de Tasha parecia inalterado. O Dr. Black encontrava-se de pé, junto à janela da sala de estar, de costas para ela. Estava a falar ao telemóvel. Antes de Barbara poder indicar a sua presença, ouviu-o dizer:

 

Não aprovo, mas se insiste, então não tenho escolha, pois não? Tinha a voz tensa de raiva... ou seria medo?

 

”Quem será que lhe dá ordens?”, pensou ela.

 

Na quarta-feira de manhã, Fran tinha uma hora marcada em Greenwich com o Dr. Roy Kirkwood, que fora o clínico geral de Josephine Gálio, a mãe do amigo de Tim Mason, cuja morte tinham pedido a Fran que investigasse. Ficou surpreendida ao constatar que a sala de espera do médico estava vazia. Nnão é uma situação normal para um médico, nos dias de hoje”, pensou ela.

 

A recepcionista fez deslizar o vidro que separava a sua secretária da sala de espera.

 

Menina Simmons disse ela sem perguntar o nome de Fran, o Sr. Doutor está à sua espera.

 

Roy Kirkwood parecia ter pouco mais de sessenta anos. Cabelo grisalho e ralo, sobrancelhas grisalhas, óculos com aros metálicos, testa enrugada e olhos bondosos e inteligentes que levaram Fran a pensar imediatamente que aquele homem parecia um médico. ”Se estivesse aqui por estar doente, teria confiança nele”, decidiu ela.

 

Por outro lado. quando ele a convidou educadamente para se sentar, ocorreu-lhe que ela estava ali porque uma das suas pacientes tinha morrido.

 

É muito simpático da sua parte receber-me, doutor começou ela.

 

Não, eu diria que eu precisava de a ver, Menina Simmons interrompeu ele. Deve ter reparado que a minha sala de espera está vazia. Para além dos pacientes antigos, dos quais cuidarei até poder transferir as suas fichas clínicas para outros médicos, estou reformado.

 

Tem alguma coisa a ver com a morte da mãe de Billy Gálio?

 

Tem tudo a ver com ela, Menina Simmons. No entanto, devo frisar que a Sr.a Gálio podia muito bem ter tido um ataque cardíaco fatal em quaisquer circunstâncias. Mas com um bypass quádruplo também teria grandes probabilidades de viver. O cardiograma estava dentro dos parâmetros normais, mas um cardiograma não é a única coisa que pode revelar que um paciente está com problemas. Suspeitei que ela podia estar a sofrer de artérias bloqueadas e quis fazer-lhe exames mais específicos. No entanto, o meu pedido foi vetado.

 

Por quem?

 

Pela direcção... Pela Remington Health Management, para ser específico.

 

Protestou o veto?

 

Menina Simmons, protestei e continuei a protestar até ser tarde de mais. Protestei aquele veto da mesma forma que protestei muitos outros em casos em que as minhas recomendações para que os meus pacientes fossem consultados por especialistas eram negados.

 

Então, BiltyGallo estava certo... A mãe dele podia ter tido uma vida mais longa. É isso que está a dizer?

 

Roy Kirkwood parecia derrotado e triste.

 

Menina Simmons, depois de a Sr.a Gálio ter tido a oclusão coronária, fui ter com Peter Black e exigi que fosse feita a cirurgia de bypass que era necessária.

 

E que é que o Dr. Black disse?

 

Concordou, com relutância, mas depois a Sr.a Gálio morreu. Talvez pudéssemos tê-la salvo se aquela cirurgia tivesse sido autorizada mais cedo. Claro que para a OCS foi apenas uma estatística, e a morte dela é um sinal mais para a coluna de lucro da Remington, por isso, é inevitável que nos interroguemos sobre se eles se importam verdadeiramente.

 

O senhor deu o seu melhor, doutor disse Fran, calmamente.

 

O melhor? Estou no fim da minha carreira e posso reformar-me confortavelmente. Mas que Deus tenha piedade dos médicos novos. A maior parte deles começam a carreira profundamente endividados e têm de pagar os empréstimos que pediram para tirar o curso. Acredite ou não, devem uma média de cem mil dólares. Depois, têm de pedir empréstimo para equipar um consultório e iniciar a actividade. Da maneira como as coisas estão agora, ou trabalham directamente para uma organização de prestação de cuidados de saúde, ou noventa por cento dos seus pacientes fazem parte delas.

 

”Hoje em dia, é dito ao médico quantos pacientes tem de ver. Alguns planos vão mesmo ao ponto de atribuir ao médico quinze minutos para atender o paciente e exige-se que ele cumpra um horário. Não é invulgar os médicos trabalharem cinquenta e cinco horas por semana, por menos dinheiro do que ganhavam antes de as OCS se apossarem da medicina.

 

Qual é a solução? perguntou Fran.

 

OCS sem fins lucrativos dirigidas por médicos, creio eu. E também que os médicos criem os seus próprios sindicatos. A medicina está a dar passos notáveis. Há muitos medicamentos e tratamentos novos à disposição dos médicos, alguns dos quais permitem prolongar vidas e dar melhor qualidade de vida. A incongruência é que esses novos tratamentos e serviços estão a ser arbitrariamente negados, como aconteceu no caso da Sr.a Gálio.

 

Como é que a Remington se compara com as outras OCS, doutor? Afinal de contas, foi fundada por dois médicos.

 

Por dois médicos que herdaram o valioso legado de um grande médico, Jonathan Lasch. Gary Lasch não pertencia à mesma classe do pai... nem como médico nem como ser humano. Quanto à Remington, é o pior possível. Por exemplo, têm andado a acabar sistematicamente com serviços e a despedir funcionários como parte da campanha de redução de custos que está em curso. Só gostava que as OCS que eles estão a absorver fossem tomadas pelo plano dirigido pelo antigo bastonário da Ordem dos Médicos. É o tipo de homem de que o sistema de saúde precisa.

 

Roy Kirkwood levantou-se.

 

Peço desculpa, Menina Simmons. Tenho consciência de que estou apenas a atirar-lhe fumo. Mas tenho um motivo. Acho que estaria a prestar um grande serviço se usasse o poder do seu programa para alertar o público para esta situação cada vez mais escandalosa e alarmante. Demasiadas pessoas estão alheadas do facto de que os lunáticos se apoderaram do manicómio.

 

Fran também se levantou.

 

Dr. Kirkwood, conhecia o Dr. Jack Morrow? Kirkwood sorriu levemente.

 

Jack Morrow era o melhor. Não havia médico melhor, excelente a diagnosticar, gostava dos pacientes. A sua morte foi uma tragédia.

 

Parece estranho que este homicídio nunca tenha sido resolvido.

 

Se pensa que eu estou aborrecido com a Remington Health Management, devia ter ouvido Jack Morrow. Admito que ele é capaz de ter ido longe de mais nas suas queixas.

 

”Longe de mais”? perguntou Fran, rapidamente.

 

Jack fervia em pouca água. Sei que se referia a Peter Black e a Gary Lasch como ”um par de assassinos”. Isso é ir longe de mais, embora deva confessar que sinto o mesmo em relação ao Black e ao sistema em que a Josephine Gálio morreu. Mas eu não disse isso.

 

Quem é que ouviu o Dr. Morrow fazer essa declaração, Dr. Kirkwood?

 

Bem, a Sr.a Russo, a minha recepcionista, para começar. Ela trabalhava para Jack. Se outras pessoas ouviram, não tenho conhecimento disso.

 

É a senhora que está lá fora? -É.

 

Obrigada pelo seu tempo, doutor.

 

Fran saiu para a sala de espera e parou junto à secretária da recepção.

 

Sei que trabalhou para o Dr. Morrow, Sr.a Russo disse ela para a mulher baixa, de cabelos grisalhos. Ele foi tão bom para mim quando o meu pai morreu.

 

Ele era bom para toda a gente.

 

A senhora sabia o meu nome quando eu entrei, Sr.a Russo. Sabe que estou a investigar a morte do Dr. Gary Lasch para o programa de televisão Crime Verdadeiro?

 

Sei, sim.

 

O Dr. Kirkwood acabou de me contar que a senhora ouviu o Dr. Morrow referir-se ao Dr. Lasch e ao Dr. Black como ”um par de assassinos”. É uma linguagem bastante forte.

 

Ele tinha acabado de chegar do hospital e estava terrivelmente perturbado. Tenho a certeza de que tinha sido a discussão do costume por causa de um paciente a quem tinha sido negado um tratamento. E, depois, o pobre homem foi assassinado passados alguns dias.

 

Se me recordo correctamente, a Polícia decidiu que um toxicodependente tinha assaltado o consultório e o surpreendera a trabalhar até tarde.

 

É verdade. Todas as gavetas da secretária estavam espalhadas pelo chão e o armário de medicamentos estava vazio. Sei que os toxicodependentes podem estar desesperados, mas por que é que tinham de o matar? Por que não levarem simplesmente o que queriam e amarrá-lo, ou coisa do género? Nos olhos da mulher brilharam lágrimas.

 

”A menos que quem quer que fosse tivesse receio de ser reconhecido”, pensou Fran. ”Normalmente, é por isso que um roubo se transforma em homicídio.” Começou a despedir-se, mas depois lembrou-se da outra pergunta que queria fazer.

 

Sr.a Russo, estava alguém por perto quando o Dr. Morrow chamou aos Drs. Lasch e Black um par de assassinos?

 

Apenas duas pessoas, graças a Deus, Menina Simmons. Wally Barry, que era paciente do Sr. Doutor há muito tempo, e a mãe, a Edna.

 

Lou Knox vivia num apartamento por cima da garagem, ao lado da residência dos Whitehalls. O apartamento de três assoalhadas era óptimo para ele. Um dos poucos passatempos que tinha era trabalhar a madeira, e Calvin Whitehall permitira-lhe utilizar uma das arrecadações da enorme garagem para ter as ferramentas e a mesa de trabalho. Também deixara Knox arranjar o apartamento ao seu gosto.

 

Agora, a sala de estar e o quarto estavam revestidos com painéis de carvalho branco-pálido. Estantes alinhavam-se nas paredes, embora não se pudesse dizer que eram estantes de livros, uma vez que Lou Knox não era adepto da leitura. Ao invés disso, a sua televisão, a aparelhagem sofisticadíssima e as colecções de CD e vídeos enchiam as prateleiras.

 

Eram igualmente excelentes esconderijos para a grande e sempre crescente colecção de provas incriminatórias que tinha acumulado para possível uso contra Calvin Whitehall.

 

Estava bastante certo de que nunca precisaria de nenhuma delas, uma vez que há muito tempo que ele e Cal Whitehall tinham chegado a acordo sobre quais eram as suas funções. Para além do mais, Lou sabia que utilizar aquelas provas seria incriminar-se também. Portanto, aquele era um trunfo a que Lou não tinha qualquer intenção de recorrer a não ser como último recurso. Fazer isso seria prejudicar-se a si mesmo para se vingar de alguém, como costumava dizer a avó, que o criara, quando ele se queixava do talhante para quem trabalhara como moço de entregas.

 

”Ele paga-te com regularidade?”, perguntava-lhe a avó.

 

”Sim, mas pede aos clientes para porem a gorjeta na conta”, costumava protestar Lou. ”E depois contabiliza-a como parte do meu salário.”Passados tantos anos, Lou ainda ficava satisfeito ao recordar-se de como se vingara do talhante. Quando ia entregar uma encomenda, abria o pacote e tirava parte dela um pedaço de frango, ou uma fatia da carne do lombo, ou carne picada em quantidade suficiente para um hambúrguer.

 

A avó, que trabalhava no turno das quatro à meia-noite como telefonista de um motel a quinze quilómetros de distância, deixava-lhe uma refeição de esparguete e almôndegas em lata, ou outra coisa que ele achava igualmente horrível. Por isso, nos dias em que conseguia surripiar alguma da carne dos clientes, chegava a casa depois do trabalho e fazia um banquete de frango ou carne de vaca. Depois, deitava o que a avó lhe tinha deixado para o lixo e ninguém percebia nada.

 

A única pessoa que descobriu o que Lou andava a fazer foi Cal. Uma noite, Cal chegara no momento em que ele estava a fritar um bife que tirara da encomenda enviada pelo talhante a um dos seus melhores clientes.

 

”És um imbecil!” dissera Cal. ”Os bifes grelham-se, não se fritam.”

 

Aquela noite forjou uma aliança entre os dois jovens: Cal, o filho dos bêbados da cidade, e Lou, o neto de Bebe Clauss, cuja única filha fugira de casa com Lenny Knox e voltara à cidade dois anos depois apenas o tempo suficiente para deixar o seu filho com a mãe. Sem esse fardo na sua vida, tinha desaparecido novamente.

 

Apesar das suas origens, Cal tinha ido para a faculdade, ajudado pela sua inteligência e por uma queda para o sucesso. Lou saltitou de emprego em emprego, e pelo meio cumpriu trinta dias de prisão na cadeia da cidade por furto em lojas e três anos na penitenciária estadual por assalto à mão armada. Depois, há quase dezasseis anos, tinha recebido um telefonema de Cal, agora conhecido por Dr. Calvin Whitehall, de Greenwich, Connecticut.

 

”Tenho de ir beijar os pés ao meu velho amigo”, foi a maneira como Lou caracterizou a chamada a Greenwich. Cal tinha deixado perfeitamente claro que aquele encontro se baseava unicamente no valor potencial de Lou como faz-tudo.

 

Lou mudou-se para Greenwich nesse mesmo dia, para um quarto vago na casa que Cal tinha comprado. A casa era muito mais pequena do que aquela em que viviam agora, mas não restavam dúvidas de que ficava no sítio certo.

 

A corte que Cal fez a Jenna Graham serviu para Lou abrir os olhos. Ali estava uma beldade cheia de classe e de cair para o lado a ser perseguida por um tipo que parecia um ex-pugilista profissional. Que diabo podia ela esperar ver nele?

 

No instante em que fez a pergunta a si mesmo, Lou descobriu a resposta. Poder. Poder em bruto, puro. Jenna adorava o facto de Cal ser poderoso e fascinava-a a forma como usava esse poder. Ele podia não ter a linhagem dela e podia não ter vindo do mesmo mundo, mas sabia comportar-se em qualquer situação; em breve, o mundo dela era a casa dele. E independentemente do que algumas pessoas da velha guarda pudessem pensar de Cal Whitehall, eram inteligentes de mais para o trair.

 

Os pais de Cal nunca foram convidados para visitar o filho. Quando morreram, com pouco tempo de diferença um do outro, foi Lou quem tratou de tudo e os despachou para o crematório o mais depressa possível. Cal não era sentimentalista.

 

Ao longo dos anos, o valor que Lou tinha para Cal aumentou significativamente e ele tinha consciência disso. No entanto, não tinha a menor dúvida de que, se em determinada altura isso se tornasse conveniente para Calvin Whitehall, ele, Lou Knox, seria atirado aos lobos. Por isso, foi com algum divertimento sombrio que se lembrou de como os trabalhos que fizera para Cal eram planeados de tal forma que Cal podia lavar as mãos de qualquer envolvimento. Assim, se alguém ficava para trás a segurar o saco, adivinhe-se quem era?

 

”Bem, esse jogo pode ser jogado por dois”, pensou, com um sorriso matreiro.

 

Agora competia-lhe a ele ver se Fran Simmons ia ser apenas um aborrecimento ou se estava a tornar-se perigosa. Achou que ia ser interessante. Tal pai, tal filha?

 

Lou sorriu ao lembrar-se do pai de Fran, aquele imbecil ansioso por agradar, cuja mãe nunca lhe ensinara a não confiar nos Calvin Whitehalls deste mundo. Por isso, quando por fim aprendera a lição, era um pouco tarde de mais.

 

O Dr. Peter Black raramente fazia a viagem para West Redding durante o dia. Era uma viagem de cerca de quarenta minutos desde Greenwich, mesmo quando não havia muito trânsito, mas o problema é que fazia a viagem com uma regularidade suficiente para correr o risco de se tornar um rosto demasiado conhecido nas redondezas. O seu destino era uma remota casa de quinta, equipada com um laboratório moderníssimo no primeiro andar.

 

Nos registos prediais do distrito, a estrutura estava listada como uma casa particular possuída e ocupada pelo Dr. Adrian Logue, um oftalmologista reformado. De facto, a propriedade e o laboratório pertenciam à Remington Health Management, e quando era preciso fazer compras, estas viajavam no porta-bagagens do carro de Peter Black.

 

Quando parou à frente da casa da quinta, as palmas das mãos de Black estavam a transpirar. Temia a inevitável discussão que o esperava; mais, era uma discussão que sabia que não ganharia.

 

Quando de lá saiu, menos de meia hora depois, levava um embrulho cujo peso não justificava a tensão que sentiu ao colocá-lo no porta-bagagens do carro e começar a viagem de volta para casa.

 

Edna Barry percebeu imediatamente que Molly tinha tido companhia na noite anterior. Embora a cozinha estivesse arrumada e o botão LAVADA estivesse aceso na máquina de lavar-loiça, as diferenças subtis estavam à vista. O saleiro e o pimenteiro tinham ficado no aparador e não na bancada, a fruteira estava na bancada de cortar e não em cima da mesa, a cafeteira estava fora do armário, destapada, sobre a bancada ao lado do fogão.

 

A perspectiva de restaurar a ordem do costume na cozinha era agradável para Edna. ”Eu gosto do meu trabalho”, pensou, enquanto pendurava o casaco no armário perto da porta. ”Vou detestar ter de o deixar outra vez.”

 

Porém, era inevitável. Quando soubera que estava prestes a ser libertada da prisão, Molly pedira aos pais que contratassem Edna para ir limpar a casa e abastecer a cozinha. Agora que recomeçara a vir regularmente a casa de Molly, o filho começara a ser um problema. Quase nunca mencionara Molly enquanto ela estava na prisão, mas o seu regresso tinha-lhe feito qualquer coisa, desencadeara qualquer coisa nele. Agora, não parava de falar nela e no Dr. Lasch. E, de cada vez que falava neles, zangava-se.

 

”Se eu não vier cá três vezes por semana, ele não se vai lembrar tanto”, raciocinou Edna enquanto amarrava um avental por cima das calças e blusa de polyester a condizer. O avental tinha sido escolhido por si. A mãe de Molly sempre lhe tinha dado um uniforme, mas Molly dissera: ”Oh, Edna, isso não é necessário.”Esta manhã também não havia sinais de Molly ter feito café, aliás, nem sequer havia sinais de que já estivesse acordada. ”Vou lá acima ver como ela está”, decidiu Edna. ”Depois de tudo o que passou, talvez tenha dormido até mais tarde. E ela passou por muito. Ora, desde que aqui estive na segunda-feira, Molly foi já presa novamente por homicídio e depois saiu sob fiança. É exactamente como há seis anos. Por muito que deteste pensar nisso, talvez fique melhor se estiver presa.

 

”A Marta pensa que eu devia deixar de trabalhar aqui porque a Molly é perigosa”, pensou Edna enquanto subia as escadas, sentindo uma vez mais a artrite nos joelhos.

 

”Estás contente por ela pensar assim”, sussurrou uma voz dentro da sua cabeça. ”A Polícia que se concentre na Molly e não pense em Wally.”

 

”Mas Molly foi sempre tão boa para ti”, sugeriu outra voz. ”Podias ajudá-la, mas não o farás. Wally esteve aqui naquela noite... tu sabes isso. Talvez ele pudesse ajudá-la a recordar-se do que aconteceu. Mas tu não podes correr esse risco. Não podes prever o que ele vai dizer.”

 

Edna chegou ao primeiro andar quando Molly estava a sair do duche, e quando entrou no quarto com o grosso roupão turco e os cabelos enrolados numa toalha, Edna lembrou-se da menina que Molly fora em tempos, sempre tão delicada, que dizia: ”Bom dia, Sr.a Barry”, na sua voz suave e baixa.

 

- Bom dia, Sr.a Barry.

 

Com um sobressalto, Edna percebeu que não era um eco da memória; era Molly, uma mulher crescida, a falar para ela agora.

 

Oh, Molly, apenas por um momento, juro que estava a vê-la como uma menina de dez anos! Parece que estou a perder o juízo, não parece?

 

A senhora não disse Molly. Eu talvez, mas seguramente a senhora não. Lamento que tenha sido obrigada a vir à minha procura. No entanto, não sou tão preguiçosa como pareço. Fui para a cama bastante cedo, mas só adormeci praticamente ao amanhecer.

 

Isso não é bom, Molly. Não pode pedir ao médico que lhe dê alguma coisa para dormir?

 

Há duas noites pedi e foi uma grande ajuda. Vou ver se ele pode dar-me mais comprimidos daqueles. O problema é que, no fundo, o Dr. Daniels não é adepto de medicação.

 

Eu tenho alguns comprimidos para dormir que o médico receitou para dar ao Wally se ele ficar inquieto. Não são muito fortes. Quer alguns para ter à mão?

 

Molly sentou-se ao toucador e pegou no secador de cabelo. Depois, virou-se e olhou directamente para Edna Barry.

 

Gostaria muito, Sr.a Barry disse, lentamente. Tem um frasco a mais que eu possa dar-lhe depois?

 

Oh, a menina não precisa de um frasco cheio. O frasco que tenho no armário da casa de banho deve ter cerca de quarenta.

 

Então, divida-os comigo, está bem? Da maneira que as coisas estão a correr, posso precisar de um por noite nas próximas semanas.

 

Edna não sabia se devia ou não dizer-lhe que sabia que ela tinha sido detida novamente.

 

Lamento muito tudo o que aconteceu, Molly. A menina sabe.

 

Sim, eu sei. Obrigada, Sr.a Barry. E agora não se importa de me trazer uma chávena de café? Pegou no secador e ligou-o.

 

Quando teve a certeza de que Edna Barry ia para o andar de baixo, Molly desligou o secador e deixou os cabelos molhados caírem-lhe no pescoço. O calor do duche tinha desaparecido e as madeixas de cabelo deixaram-lhe a pele fria e molhada.

 

”Não estás a pensar a sério em tomar uma dose fatal de comprimidos, pois não?”, perguntou a si mesma. Olhou para o seu rosto no espelho... parecia-lhe uma pessoa que ela mal reconhecia. ”Não é quase como estar num sítio desconhecido à procura da saída, só para o caso de ser preciso sair rapidamente?” Inclinou-se mais para o espelho e olhou para os olhos que via ali. Depois de ter feito as perguntas, não tinha a certeza das respostas.

 

Uma hora depois, Molly estava no seu escritório a analisar o conteúdo de uma das caixas que tinha trazido do sótão. ”Os acusadores viram estes papéis duas vezes”, pensou. ”Confiscaram-nos depois de Gary morrer, devolveram-nos após o julgamento e voltaram a examiná-los ontem. Acho que já desistiram de encontrar alguma coisa interessante neles.

 

”Mas de que é que eu ando à procura?”, perguntou a si mesma. ”Ando à procura de alguma coisa que me faça compreender o que a Annamarie queria dizer quando afirmou que, como médico, Gary não valia o preço que paguei por tê-lo matado. Já nem sequer me preocupo com a infidelidade dele.”

 

Havia algumas fotografias emolduradas dentro do caixote. Tirou uma delas e observou-a com atenção. Era uma fotografia dela e Gary tirada no Baile de Caridade para a Associação do Coração, no ano em que se tinham casado. Observou-a friamente. Lembrou-se de como a avó costumava dizer que Gary lhe fazia lembrar Tyrone Power, a estrela de cinema por quem ela tivera uma paixoneta sessenta anos antes.

 

”Acho que nunca vi para além do aspecto e do encanto”, pensou ela. ”Sem dúvida que em determinado ponto a Annamarie viu. Mas como é que descobriu? E o que é que descobriu?”

 

Às onze e meia, Fran telefonou.

 

Molly, gostava de ir a tua casa alguns minutos. A Sr.a Barry está aí?

 

Está, sim.

 

Óptimo. Estou aí dentro de dez minutos.

 

Quando chegou, Fran aproximou-se directamente de Molly e abraçou-a.

 

Calculo que ontem deves ter tido uma tarde encantadora.

 

Nunca tinha tido uma tão boa. Conseguiu sorrir.

 

Onde é que está a Sr.a Barry, Molly?

 

Na cozinha, acho eu. Ela decidiu preparar-me o almoço, embora eu lhe tenha dito que não estou com fome.

 

Vem comigo. Tenho de falar com ela.

 

O coração de Edna apertou-se quando ouviu a voz de Fran Simmons. ”Por favor, ajuda-me, bom Deus”, rezou. ”Faz com que ela não me faça perguntas sobre Wally. Ele não tem a culpa de ser como é.”

 

Fran foi directa ao assunto.

 

Sr.a Barry, o Dr. Morrow era médico do seu filho, não era?

 

Sim, é verdade. O Dr. Morrow também era psiquiatra, mas era clínico geral do Wally respondeu Edna, a esforçar-se ao máximo para que a inquietação crescente não se revelasse no seu rosto.

 

No outro dia, a sua vizinha, a Sr.a Jones, disse-me que Wally ficou muito perturbado quando o Dr. Morrow morreu.

 

Sim, é verdade.

 

Penso que na época, Wally tinha gesso no pé? perguntou Fran.

 

Edna Barry ficou tensa e depois assentiu rigidamente.

 

Desde os dedos do pé até ao joelho confirmou. Ainda o usou durante uma semana depois de terem encontrado o pobre Dr. Morrow.

 

”Não devia ter dito aquilo”, pensou. ”Ela não acusou Wally de nada.”

 

O que eu ia perguntar, Sr.a Barry, é se a senhora ou o Wally alguma vez ouviram o Dr. Morrow a falar do Dr. Gary Lasch ou do Dr. Peter Black, ou talvez referir-se a ambos como um par de assassinos?

 

Molly engasgou-se.

 

Não me recordo de nenhum comentário desse género disse Edna Barry, suavemente, a tensão aparente na forma como não parava de limpar as mãos ao avental. Por que é que me está a perguntar isso?

 

Não me parece que se tivesse ouvido uma declaração destas a esquecesse facilmente, Sr.a Barry. Tenho a certeza de que em mim teria uma impressão duradoura. Enquanto vinha para cá, telefonei para o Dr. Matthews, o advogado da Molly, e perguntei-lhe sobre a chave de reserva desta casa, que é guardada no jardim. De acordo com os apontamentos dele, a senhora entregou-a à Polícia na manhã em que o Dr. Lasch foi encontrado assassinado no escritório e disse-lhes que estava na gaveta da cozinha há muito tempo. Disse que a Molly se tinha esquecido da chave de casa um dia, tirara a chave de reserva do esconderijo e ela nunca tinha sido recolocada no lugar.

 

Mas isso não é verdade protestou Molly. Eu nunca me esqueci da chave de casa e sei que a chave de reserva estava no esconderijo do jardim uma semana antes de Gary morrer. Eu estava nas traseiras e fui verificar se ela se encontrava no sítio. Por que é que a senhora diria que estava cá em casa há muito tempo por minha causa, Sr.a Barry? Não compreendo.

 

No noticiário da noite, Fran concluiu a reportagem sobre os últimos desenvolvimentos da investigação do homicídio de Annamarie Scalli com um apelo: ”Segundo Bobby Burke, o empregado de balcão que estava de serviço no restaurante Sea Lamp na noite do homicídio, um casal entrou e sentou-se a uma mesa perto da porta momentos antes de Annamarie Scalli sair apressadamente. O advogado de Molly Lasch, Philip Matthews, apela para que esse casal se apresente e dê o seu testemunho sobre o que possam ter observado no parque de estacionamento antes de terem entrado ou que possam ter ouvido no próprio restaurante. O número do telefone do Dr. Matthews é o

212-555-2800, ou podem telefonar para mim, nesta estação de televisão, para o número 212-555-6850.”

 

A câmara que estava focada em Fran ficou às escuras. ”Obrigado pela reportagem, Fran”, disse Bert Davis, o pivot do noticiário. ”A seguir: desporto com Tim Mason, seguido pela previsão do tempo com Scott Roberts. Mas em primeiro lugar, a publicidade.”

 

Fran soltou o microfone do casaco e tirou o auricular. Antes de sair do escritório, passou pela secretária de Tim Mason.

 

Posso oferecer-te um hamburguer quando terminares? perguntou.

 

Tim ergueu as sobrancelhas.

 

Estava com vontade de comer um bife, mas se é um hambúrguer que queres, então, aceito com prazer.

 

Não. Um bife está óptimo. Estarei no meu gabinete. Enquanto esperava por Tim, Fran reviu os acontecimentos do dia.

 

Primeiro tivera o encontro com o Dr. Roy Kirkwood, em seguida o telefonema para Philip Matthews e para finalizar a reacção agitada de Edna Barry durante a discussão sobre a chave de reserva. A Sr.a Barry afirmara que tinha quase a certeza de que a chave de reserva estava na gaveta há meses, e quando Molly negara ela tinha dito: ”Molly deve estar enganada; mas não admira, ela estava tão confusa naquela altura.”

 

Enquanto voltava para a cidade, Fran telefonou de novo a Philip e disse-lhe que estava cada vez mais convencida de que Edna Barry tinha alguma coisa para esconder, e que devia estar relacionada com aquela chave de reserva. Porém, não restavam dúvidas de que não tinha gostado que Fran a interrogasse sobre o assunto, por isso sugeriu que Philip talvez tivesse de a convencer a dizer a verdade.

 

Philip tinha prometido estudar todas as palavras das declarações de Edna Barry à Polícia e do seu testemunho no julgamento, e depois perguntara qual fora a reacção de Molly à afirmação da Sr.a Barry.

 

Fran contou-lhe que ela tinha ficado claramente surpreendida, talvez até perturbada. Depois de a Sr.a Barry ir para casa, Molly tinha dito algo do género: ”Se calhar, eu já não estava bem antes mesmo do choque de descobrir o que se passava com a Annamarie. Juraria que aquela chave estava no jardim alguns dias antes de ter escutado o telefonema dela para Gary.”

 

”E aposto que tens razão, Molly”, disse Fran para si mesma, zangada. Tim bateu e depois espreitou para dentro do gabinete. Ela acenou-lhe.

 

Vamos embora disse ele. Reservei mesa no Cibos, na Segunda Avenida.

 

Boa escolha. Adoro!

 

Enquanto desciam a Quinta Avenida para a Rua Quarenta e Um, Fran ergueu os braços numa saudação aos edifícios e à azáfama em volta deles.

 

A minha cidade disse com um suspiro. Adoro-a. É tão bom estar de volta.

 

Eu também a adoro concordou Tim e também estou contente por tu estares de volta.

 

No restaurante, escolheram um dos compartimentos privados. Depois de o empregado de mesa lhes ter servido o vinho e se afastar para transmitir os pedidos deles, ela disse:

 

Tim, se não me engano, disseste que a tua avó morreu no Hospital Lasch. Quando é que isso aconteceu?

 

Deixa-me pensar. Foi há pouco mais de seis anos, creio... Por que é que perguntas?

 

Porque quando te conheci, na semana passada, falámos sobre Gary Lasch. Não me disseste que ele cuidou da tua avó de uma forma excelente antes de ela morrer?

 

Pois disse. Porquê?

 

Porque estou a começar a ouvir de alguns quadrantes que o Dr. Lasch tinha um outro lado enquanto médico. Falei com o médico que tratou a mãe de Billy Gálio... um Dr. Kirkwood. Ele disse-me que lutou para que ela fosse consultada por um especialista, mas não conseguiu obter aprovação da OCS para mais tratamentos; depois, ela teve um ataque cardíaco grave e morreu antes que se pudesse fazer alguma coisa. É claro que Gary Lasch já morreu há muito tempo e, directamente, não teve nada a ver com isto, mas o Dr. Kirkwood diz que a abordagem de pulso firme à prestação de cuidados de saúde já vem de há algum tempo. Ele tem apenas sessenta e poucos anos e diz que se vai reformar, que não pretende dedicar-se mais à medicina. Tem estado ligado ao Hospital Lasch durante a maior parte da sua carreira, e foi muito peremptório ao dizer que Gary Lasch não foi nada como o pai. Disse que os problemas que teve com a Sr.a Gálio não foram nada de novo, que pôr o bem-estar dos doentes em primeiro lugar já há muito tempo não é uma prioridade para as pessoas que dirigem o Hospital Lasch e a Remington. Fran inclinou-se mais e baixou a voz. Ele até me disse que o Dr. Morrow, o jovem médico que morreu num assalto duas semanas antes de Gary Lasch ser assassinado, se referiu uma vez a Lasch e ao sócio dele, o Dr. Black, como um par de assassinos.

 

É uma linguagem bastante forte disse Tim, partindo um pedaço de pão. No entanto, tenho de dizer que a minha experiência pessoal foi muito mais positiva. Como eu disse, gostava de Gary Lasch e fiquei com a impressão de que a minha avó foi muitíssimo bem assistida. Mas pensei numa coincidência que talvez não te tenha referido. Eu disse-te que a Annamarie Scalli foi uma das enfermeiras que cuidou dela?

 

Os olhos de Fran abriram-se muito.

 

Não, não me disseste isso.

 

Não me pareceu importante. Todas as enfermeiras foram excelentes. Lembro-me da Annamarie como uma pessoa dedicada e muito carinhosa. Quando recebemos o telefonema a informar-nos que a minha avó tinha falecido, fomos imediatamente para o hospital, é claro. Annamarie estava sentada junto à cama dela a soluçar. Quantas enfermeiras reagem assim, especialmente quando se trata de um paciente que conhecem há muito pouco tempo?

 

Não muitas concordou Fran. Não se manteriam muito tempo na profissão se se envolvessem emocionalmente com todos os seus pacientes.

 

Anna marie era uma rapariga muito bonita, mas também me pareceu bastante ingénua recordou Tim. Valha-me Deus, tinha pouco mais de vinte anos. Mais tarde, quando descobri que Gary Lasch tinha um caso com ela, fiquei enojado com ele enquanto homem, mas enquanto médico não me lembro de uma única coisa nele que possa criticar.

 

”Nós costumávamos dizer a brincar que a minha avó estava apaixonada pelo Gary contou Tim. Ele era um tipo verdadeiramente bonito e encantador, mas também nos transmitia a ideia de que se importava profundamente com os doentes. O tipo inspirava confiança. Recordo-me de que por vezes a minha avó dizia que ele até vinha vê-la às onze horas da noite. Quantos médicos é que fazem isso?

 

Molly Lasch disse que a Annamarie Scalli declarou que, como médico e como marido, Gary Lasch não valia o preço que ela tinha pago por tê-lo matado observou Fran. Disse que Annamarie foi bastante peremptória em relação a isso.

 

Mas, Fran, esse não é o tipo de conversa que seria lógico ouvir de uma mulher na posição de Annamarie?

 

Talvez como mulher ela dissesse isso, sim. Mas parece-me que ela estava também a falar do ponto de vista da enfermeira. Fran fez uma pausa e abanou a cabeça. Não sei, talvez esteja a tirar conclusões precipitadas, mas acrescentando isto ao comentário do Dr. Morrow, em que se referia a Gary Lasch e a Jack Morrow como assassinos, não consigo deixar de pensar que tudo isto tem algum significado. Sinto que estou no bom caminho, e suspeito que uma parte imensa desta história nunca se soube.

 

Tu és uma jornalista de investigação, Fran. Aposto em ti para descobrires a verdade. Mal conheci Annamarie Scalli, mas fiquei grato pelo carinho que ela dispensou à minha avó. Gostava de ver o assassino atrás das grades, e é uma tragédia se Molly Lasch foi acusada injustamente.

 

O empregado de mesa estava a colocar as saladas à frente deles.

 

Acusada injustamente pela segunda vez disse Fran, sem rodeios.

 

Pode muito bem ser esse o caso, mas qual vai ser o teu próximo passo?

 

Consegui marcar um encontro para amanhã com o Dr. Peter Lasch. Deve ser interessante. Ainda estou a tentar marcar um encontro com a minha antiga colega de escola na Academia Cranden, Jenna Whitehall, e o marido, o poderoso Calvin Whitehall.

 

Pessoas muito importantes. Fran acenou afirmativamente.

 

Eu sei, mas são cruciais para a história, e estou determinada a chegar até eles. Suspirou. E se esquecêssemos o assunto durante algum tempo? Então, que é que achas? Este ano os meus Yankees vão ganhar o World Series novamente?

 

Tim sorriu.

 

É claro que sim.

 

Desta vez vim sozinha anunciou Jenna, quando telefonou para Molly do carro. Deixa-me entrar apenas por alguns minutos.

 

És um amor, Jen, mas acabei de implorar ao Dr. Daniels que se fosse embora... e deu trabalho. Sei que são apenas nove horas, mas os meus olhos estão a fechar-se. A verdade é que a única coisa que quero é ir para a cama.

 

Quinze minutos... não te peço mais nada.

 

Oh, Jen disse Molly com um suspiro. Venceste. Entra. Mas tem cuidado. Esta tarde havia alguns jornalistas por aqui e aposto que Cal não vai ficar nada satisfeito se vir a mulher e a famosa Molly Lasch, na mesma fotografia, na primeira página dos jornais sensacionalistas.

 

Abriu a porta cautelosamente e Jenna esgueirou-se para o interior da casa.

 

Oh, Molly disse Jenna enquanto a abraçava. Lamento muito que estejas a passar por isto.

 

Tu és a minha única amiga disse Molly, e depois acrescentou rapidamente: Não, isso não é verdade. Fran Simmons está do meu lado.

 

Fran telefonou para marcar um encontro, mas ainda não combinámos a data. Cal prometeu-me que falava com ela, e soube que ela já marcou com Peter para se encontrar com ele amanhã.

 

Eu sei que ela disse que queria conversar com todos vocês. Quero que se sintam à vontade para lhe dizerem o que quiserem. Acredito que ela me não vai fazer mal.

 

Foram para a saleta íntima, onde Molly tinha a lareira acesa.

 

Já decidi uma coisa disse ela. Nesta casa tão grande, vivo em três aposentos: a cozinha, o meu quarto e esta sala. Quando... se... tudo isto terminar, vou comprar uma casa mais pequena.

 

Acho que é uma boa ideia disse Jenna, acenando em sinal de concordância.

 

Claro que, como sabes, o Estado do Connecticut tem outros planos para mim, e se conseguirem o que querem, eu vou ficar numa cela muito pequena.

 

Molly! protestou Jenna.

 

Desculpa. Molly recostou-se para trás e observou a amiga. Estás com um aspecto fantástico. Fato preto básico... Escada, não é? Saltos altos. Jóias discretas mas fabulosas. Onde é que estiveste ou onde é que vais?

 

Um almoço de negócios. Assuntos da empresa. Apanhei um comboio tardio para casa. De manhã deixei o carro na estação e esta noite vim directamente para cá. Tenho-me sentido muito mal o dia inteiro. Estou terrivelmente preocupada contigo, Molly.

 

Moly tentou esboçar um sorriso.

 

Eu também estou terrivelmente preocupada comigo. Estavam sentadas lado a lado no sofá, separadas pela largura de uma almofada.

 

Jen, o teu marido está convencido de que eu assassinei o Gary, não está?

 

Sim disse Jenna, calmamente.

 

E também está convencido de que esfaqueei a Annamarie até à morte.

 

Jenna não respondeu.

 

Eu sei que está continuou Molly. Tu sabes o que significas para mim, mas, Jen, faz-me um favor... nunca mais tragas Cal cá a casa. O único lugar a que posso chamar santuário é esta casa. Não preciso de inimigos nela.

 

Molly olhou de lado para a amiga.

 

Oh, Jen, não comeces a chorar ao pé de mim. Não tem nada a ver connosco. Nós ainda somos as meninas da Academia Cranden, não somos?

 

Podes apostar que somos disse Jenna, enquanto limpava impacientemente os olhos com as costas da mão. Mas, Molly, Cal não é o inimigo. Ele quer arranjar outros advogados, os melhores peritos em direito criminal, para trabalharem com Philip na preparação da tua defesa por insanidade.

 

Defesa por insanidade?

 

Molly exclamou Jenna, não percebes que uma condenação por homicídio poderia significar prisão perpétua para ti? Especialmente, porque já tens uma condenação anterior? Não podemos deixar que isso aconteça.

 

Não, não podemos disse Molly, e levantou-se. Vem ao escritório de Gary comigo, Jen.

 

A luz do escritório estava apagada. Molly acendeu-a e depois voltou a apagá-la deliberadamente.

 

A noite passada, depois de todos vocês se terem ido embora, eu fui para cima, para a cama, mas não conseguia adormecer. Aproximadamente à meia-noite, vim aqui... E sabes uma coisa? Quando acendi a luz, exactamente como fiz agora, lembrei-me de ter feito a mesma coisa quando voltei do Cape naquela noite de domingo. Agora, tenho a certeza de que a luz estava apagada quando eu cheguei aqui, Jenna. Podia jurar isso!

 

Que é que isso quer dizer, Molly?

 

Pensa nisso. Gary estava sentado à secretária. Havia papéis em cima dela, por isso, ele devia estar a trabalhar. Era de noite. Ele tinha de ter a luz acesa. Se tenho razão ao lembrar-me de que vim para casa, abri esta porta e acendi a luz, isso significa que quem quer que matou Gary a apagou. Não percebes?

 

Molly murmurou Jenna, num tom de voz calmo mas de protesto.

 

Ontem eu disse ao Dr. Daniels que me lembrava de algo naquela noite sobre uma fechadura e uma tranca.

 

Molly voltou-se para a amiga e viu a descrença estampada nos olhos dela. Os seus ombros caíram.

 

Hoje, a Sr.a Barry disse que a chave de reserva que escondíamos no jardim estava em casa há várias semanas. Disse que estava cá dentro porque um dia me esqueci da chave. Mas eu também não me recordo disso.

 

Molly, deixa o Cal arranjar advogados para ajudarem Philip a preparar a tua defesa implorou Jenna. Hoje ele falou com dois dos melhores. São ambos muito experientes na apresentação de defesas psiquiátricas, e pensamos realmente que poderiam ajudar-te. Viu a expressão de perturbação no rosto da amiga. Pelo menos, pensa no assunto.

 

Talvez seja por isso que estava a sonhar com uma porta e uma tranca disse Moly, sombriamente, ignorando a sugestão de Jenna. Talvez eu tenha uma escolha: uma cela de prisão trancada ou um quarto trancado num manicómio.

 

Vá lá, Molly disse Jenna, levantando-se. Eu vou beber uma chávena de chá contigo e depois faço-te companhia até te deitares. Dizes que não tens dormido muito. O Dr. Daniels não te deu alguma coisa para te ajudar a dormir?

 

Deu-me um comprimido, no outro dia, e esta tarde a Sr.a Barry trouxe uns comprimidos que o médico receitou a Wally.

 

Tu não devias tomar medicamentos que foram receitados para outra pessoa!

 

Tinham o rótulo. Sei que não faz mal. Não te esqueças de que fui mulher de um médico, e fui aprendendo algumas coisas.

 

Quando Jenna saiu alguns minutos depois, Molly trancou a porta principal e pisou o ferrolho do chão. O som do ferrolho algo entre um clique e um estalo fê-la parar.

 

Repetiu deliberadamente a abertura e o fecho do ferrolho, escutando cuidadosamente de cada vez, com vontade de que o seu subconsciente lhe desse o motivo porque aquele som da casa era de repente tão arrepiante.

 

Na terça-feira de manhã, o Dr. Peter Black começou o dia indo visitar Tasha. ”De acordo com todos os padrões médicos, nesta altura, já devia estar morta”, pensou ansiosamente enquanto descia o corredor para a suite.

 

”Talvez tivesse sido um erro utilizá-la para a experiência”, pensou.

 

Normalmente, esta experiência produziria resultados clínicos úteis e ocasionalmente fascinantes, mas estava a ser difícil de concretizar, principalmente devido à mãe de Tasha. Barbara Colbert estava demasiado atenta e era muito bem relacionada. Havia bastantes pacientes na residência que eram candidatos mais prováveis para aquela investigação extraordinária, pacientes cujos familiares nunca suspeitariam de nada fora do comum e que receberiam o mais leve sinal de consciência no leito de morte como um presente do céu.

 

”Eu nunca devia ter mencionado ao Dr. Logue que o Harvey Magim pareceu reconhecer a mulher no fim”, pensou Black, penitenciando-se. Mas agora era tarde de mais para parar. Tinha de dar o passo seguinte. Isso ficara bastante claro. Aquele último passo estava contido no embrulho que trouxera do laboratório em West Redding, e estava agora bem guardado no bolso do seu colete. Ao entrar no quarto, encontrou a enfermeira de serviço ao lado da cabeceira de Tasha. ”Isto é bom”, pensou. Uma enfermeira ensonada, era precisamente daquilo que precisava. Deu-lhe uma desculpa para a afastar do quarto.

 

Sugiro que vá beber uma chávena de café disse ele, severamente, acordando-a com brusquidão. Traga-o para aqui. Eu espero. Onde é que está a Sr.a Colbert?

 

Está a dormir no sofá sussurrou a enfermeira. Pobre senhora, acabou por adormecer. Os filhos foram-se embora. Voltam novamente esta noite.

 

Black acenou afirmativamente e voltou-se para a paciente enquanto a enfermeira saía. O estado de Tasha mantinha-se estacionário desde a noite anterior. Sabia que tinha estacionado graças à injecção que ele lhe dera quando ela começara a apagar-se.

 

Tirou o pequeno embrulho do bolso. Parecia invulgarmente pesado para o tamanho. A injecção da noite anterior tivera os resultados esperados, mas a que se preparava para administrar era completamente imprevisível.

 

”Logue está fora de controlo”, pensou Black.

 

Pegou no braço flácido de Tasha e beliscou-o para encontrar uma veia adequada. Espetou a seringa e empurrou lentamente o êmbolo enquanto observava o líquido a desaparecer no corpo dela.

 

Olhou para o relógio. Eram oito horas. Dentro de aproximadamente doze horas estaria tudo terminado, de uma maneira ou de outra. Entretanto, tinha diante de si a perspectiva nada agradável do encontro com aquela jornalista bisbilhoteira, Fran Simmons.

 

Após uma noite inquieta, Fran foi para o escritório na quinta-feira de manhã cedo para fazer algum trabalho de preparação para a entrevista do meio-dia com o Dr. Peter Black. Tinha pedido ao Departamento de Pesquisa que deixassem em cima da sua secretária todas as informações biográficas que conseguissem encontrar, e ficou satisfeita ao ver que já lá estavam.

 

Leu-as rapidamente e constatou que eram escassas e nem remotamente impressionantes. Nascera em Denver, de pais da classe operária; frequentara escolas locais; tivera notas medíocres a más na Faculdade de Medicina; fizera o estágio em Chicago, num hospital insignificante, e depois integrara os quadros desse mesmo hospital. ”Não tem um grande currículo”, pensou.

 

”E isso leva uma pessoa a interrogar-se sobre a razão por que Gary Lasch o procurou”, pensou Fran.

 

Ao meio-dia em ponto foi levada para o escritório do Dr. Black. Ficou imediatamente impressionada com a forma como o aposento estava mobilado. Achou que tinha uma grandiosidade mais adequada para o executivo de uma grande empresa do que para um médico, mesmo que esse médico fosse director geral de um hospital e de uma organização de cuidados de saúde.

 

Não sabia o que tinha esperado de Peter Black. ”Talvez tivesse antecipado algo mais parecido com a descrição que me fizeram do Gary Lasch”, pensou, enquanto lhe apertava a mão e o seguia para uma zona de estar diante de uma grande janela panorâmica. Um bonito sofá de couro, duas poltronas a condizer e uma mesa de café criavam uma confortável atmosfera de sala de estar.

 

De acordo com todos os relatos, Gary Lasch tinha sido um homem bonito e com uma personalidade arrebatadora. A compleição de Peter Black era pálida, e Fran ficou surpreendida ao constatar que ele parecia nervosíssimo. Gotas de transpiração brilhavam-lhe na testa e no lábio superior. Havia alguma rigidez nele, especialmente na forma como se sentava na ponta da cadeira. Era como se estivesse de guarda contra um possível ataque de surpresa. Embora estivesse a esforçar-se por ser cortês, a tensão na sua voz era inegável.

 

Ofereceu café. Quando Fran recusou, ele disse:

 

Menina Simmons, hoje tenho um dia particularmente cheio e presumo que a senhora também, por isso, sugiro que vamos directos ao assunto. Acedi a recebê-la porque queria realçar nos termos mais veementes que considero um ultraje que, na sua busca de audiências, esteja a explorar Molly Lasch, uma mulher que, sem dúvida, está mentalmente doente.

 

Fran fitou-o sem um piscar de olhos.

 

Pensei que estava a ajudar Molly não a explorá-la, doutor. Posso perguntar se o seu diagnóstico de doença mental se baseia numa avaliação médica concreta ou se é meramente a precipitação de julgamento que parece ser a reacção típica de todos os amigos dela?

 

Menina Simmons, é claro que não temos nada a dizer um ao outro. Peter Black levantou-se. Se me dá licença...

 

Fran permaneceu sentada.

 

Não, infelizmente não dou. Dr. Black, o senhor sabe que eu vim até aqui desde Manhattan porque tenho algumas perguntas para lhe fazer. O facto de ter permitido que eu viesse foi, na minha opinião, uma aceitação tácita desse entendimento. Acho que me deve pelo menos dez minutos do seu tempo.

 

A resmungar, Peter Black voltou a afundar-se na sua poltrona. Dez minutos, Menina Simmons. Nem mais um segundo.

 

Obrigada. Molly contou-me que a visitou no sábado à noite com os Whitehalls para lhe pedirem que adiasse a minha investigação devido à fusão iminente com outras organizações de prestação de cuidados de saúde. É verdade? Isso é verdade. Eu também estava a pensar no bem-estar de Molly. Expliquei-lhe isso. Dr. Black, o senhor conhecia o Dr. Jack Morrow, não conhecia? ”

 

Certamente. Era um dos nossos médicos.

 

Vocês eram amigos?

 

Conhecidos. Diria que éramos conhecidos. Respeitávamo-nos mutuamente. Mas se nos relacionávamos a nível social? Não.

 

Discutiu com ele pouco antes de ele morrer? Não, não discuti. Sei que trocou algumas palavras com o meu colega, o Dr. Lasch. Creio que foi por causa da recusa de pagamento de um procedimento que o Dr. Morrow tinha recomendado para um dos seus pacientes.

 

Sabia que ele se referiu a si e ao Dr. Lasch como ”um par de assassinos”?

 

Claro que não sabia, mas não me surpreende. Jack era um homem impetuoso e excitava-se com facilidade.

 

”Ele está assustado!”, pensou Fran, enquanto observava Peter Black. ”Está assustado e está a mentir.”

 

Doutor, na época sabia que Gary Lasch estava a ter um caso com a Annamarie Scalli?

 

Não sabia. Fiquei chocado quando Gary nos contou.

 

Isso aconteceu apenas umas horas antes de ele morrer disse Fran. Não é verdade?

 

Sim, é verdade. Tinha sido óbvio durante a semana inteira que Gary andava perturbado, e, naquele domingo, Cal Whitehall e eu fomos visitá-lo. Foi quando soubemos. Peter Black olhou para o relógio e inclinou-se quase imperceptivelmente para a frente.

 

”Está pronto para me pôr na rua”, pensou Fran. ”Mas antes eu tenho de conseguir fazer-lhe mais algumas perguntas.”

 

Doutor, Gary Lasch era seu amigo íntimo, não era?

 

Muito íntimo. Conhecemo-nos na Faculdade de Medicina.

 

Encontraram-se regularmente depois de terminarem a faculdade?

 

Nem por isso. Eu fiquei a trabalhar em Chicago depois de terminar o curso. Gary veio para cá logo que concluiu o estágio e ficou a trabalhar com o pai. Levantou-se. Menina Simmons, tenho mesmo de insistir em voltar ao trabalho. Virou-se e dirigiu-se para a sua secretária.

 

Fran seguiu-o.

 

Uma última pergunta, doutor. Pediu ao Dr. Lasch que o trouxesse para cá?

 

Gary mandou-me chamar depois de o pai falecer.

 

Doutor, com o devido respeito, ele convidou-o para vir para cá como sócio igualitário da instituição que o pai dele fundara. Havia uma série de médicos excelentes aqui na área de Greenwich que poderiam seguramente ter sido convidados para o projecto, mas ele escolheu-o a si, embora o senhor apenas tivesse exercido as funções de clínico residente de um hospital bastante insignificante de Chicago. Que é que o tornava tão especial?

 

Peter Black girou sobre os calcanhares para olhar para Fran.

 

Ponha-se na rua, Menina Simmons! rosnou. Tem uma lata extraordinária para chegar aqui e fazer insinuações difamatórias, quando metade das pessoas desta cidade foram vítimas da gatunagem do seu pai.

 

Fran pestanejou.

 

Touché! disse ela. No entanto, Dr. Black, não pretendo deixar de procurar respostas para as minhas interrogações. E o senhor não está a dar-me nenhuma, pois não?

 

Na quinta-feira de manhã, em Buffalo, Nova Iorque, após uma missa fúnebre privada, os restos mortais de Annamarie Scalli foram discretamente a enterrar na sepultura da família. Os pormenores da cerimónia não foram tornados públicos. Não tinha havido velório. A irmã, Lucille Scalli Bonaventure, acompanhada pelo marido e por dois filhos crescidos, foram as únicas pessoas presentes na missa e no enterro privados.

 

A falta de publicidade tinha sido uma decisão tomada e decretada por uma sombriamente decidida Lucy. Dezasseis anos mais velha do que Annamarie, sempre se referira à irmã mais nova como a sua primeira filha. Com um rosto agradável mas sem grande encanto, Lucy tinha adorado aquela linda pequenina que crescia para ser tão inteligente como ela era simpática.

 

À medida que Annamarie crescia, Lucy e a mãe falavam frequentemente sobre as escolhas dela em termos de namorados e as suas possíveis escolhas de carreira. Aprovaram de todo o coração quando ela escolheu enfermagem. Era uma carreira completamente meritória e ela teria muitas hipóteses de vir a casar com um médico. Quem não quereria casar com uma rapariga como Annamarie?, decidiram.

 

Quando aceitou o emprego no Hospital Lasch, no Connecticut, elas tinham ficado desapontadas, no começo, por ela ir para tão longe de casa, mas quando levou o Dr. Jack Morrow, duas vezes a Buffalo, para uma visita de fim-de-semana à mãe, parecera que todos os sonhos dela para Annamarie se estavam a tornar realidade.

 

Sentada na primeira fila de bancos da capela durante a curta cerimónia, recordou aqueles tempos felizes. Recordou como Jack Morrow brincava com a mãe, dizendo-lhe que mesmo que Annamarie não soubesse cozinhar como ela, não se importava de a aturar. Recordou especialmente a noite em que ele se tinha queixado: ”Mamã, como é que vou fazer aquela sua filha apaixonar-se por mim?”

 

”Ela estava apaixonada por ele”, pensou Lucy enquanto lágrimas escaldantes lhe queimavam as faces, ”até aquele odioso Gary Lasch decidir ir atrás dela. Ela não devia estar deitada naquele caixão”, pensou Lucy, zangada. ”Devia ter casado com o Dr. Jack nestes últimos sete anos. Podia ter sido mãe e enfermeira... Ele não teria querido que ela desistisse da sua profissão. A enfermagem estava-lhe tão enraizada na alma como ser médico estava na dele.”

 

Lucy voltou-se e olhou angustiada para o caixão coberto com o pano branco que simbolizava o baptismo de Annamarie. ”Sofreste tanto por causa disso... aquele maldito Gary Lasch”, pensou. ”Depois de te ter dado a volta à cabeça, tentaste dizer-me que não estavas preparada para casar com Jack. Mas não era verdade. Estavas pronta. Só tinhas saído do teu caminho. Annamarie. Eras uma criança. Ele sabia o que estava a fazer.”

 

Que a alma dela e as almas de todos os fiéis que partiram...

 

Lucy quase não ouviu a voz do monsenhor quando ele benzeu o caixão da irmã. O seu desgosto e a sua ira eram demasiado grandes. ”Annamarie, vê o que os homens te fizeram”, pensou Lucy. ”Ele arruinou a tua vida de todas as maneiras. Até desististe da enfermagem de hospital que em tempos era a única coisa que querias fazer. Não falavas no assunto, mas eu sabia que nunca te perdoaste por alguma coisa que aconteceu naquele hospital. O que foi?”

 

”E o Dr. Jack. Que dizer dele? A pobre mãe estava tão doida com ele, tão impressionada. Nunca lhe chamou Jack. Sempre Dr. Jack. Tu admitiste que nunca acreditaste que ele foi morto por um toxicodependente.”

 

”Annamarie, por que é que tiveste tanto medo durante todos estes anos? Mesmo quando Molly Lasch estava na prisão tu tiveste medo?”

 

Irmãzinha... irmãzinha.

 

Lucy apercebeu-se de soluços fortes e sentidos que enchiam a capela e soube que vinham de si mesma. O marido acariciou-lhe a mão, mas ela afastou-o. Naquele momento, a única pessoa no universo a quem se sentia ligada era a Annamarie. O único consolo que teve enquanto o caixão era levado pela nave da capela foi que talvez num mundo diferente a irmã e Jack Morrow tivessem uma segunda oportunidade para serem felizes.

 

Após o enterro, o filho e a filha de Lucy escapuliram-se para os seus empregos e o marido voltou para o supermercado onde era gerente.

 

Lucy foi para casa e começou a mexer na cómoda que pertencera a Annamarie quando ela estava a crescer. Estava guardada no quarto onde ela ficava sempre que vinha a Buffalo fazer uma visita.

 

As três gavetas de cima continham roupa interior, meias e camisolas, que ficavam ali para que Annamarie pudesse vesti-las quando vinha passar um fim-de-semana.

 

A gaveta de baixo estava cheia de fotografias com e sem moldura, álbuns de família, envelopes cheios de instantâneos, algumas cartas e postais.

 

Foi quando estava a ver aquelas fotografias, com lágrimas a embotarem-lhe a visão e a queimarem-lhe os olhos, que Lucy recebeu um telefonema de Fran Simmons.

 

Eu sei quem a senhora é atirou Lucy, a voz carregada de uma emoção zangada. É a jornalista que quer revolver aquele assunto sujo outra vez. Bem, deixe-me em paz e deixe a minha irmã descansar em paz.

 

A falar de Manhattan, Fran disse:

 

Lamento muito a sua perda, mas, tenho de a avisar... a Annamarie não vai descansar em paz se o caso de Molly Lasch for a julgamento. O advogado de Molly não terá outra hipótese a não ser retratar a Annamarie nos piores termos possíveis.

 

Isso não é justo! gemeu Lucy. Ela não era nenhuma destruidora de lares. Não passava de uma menina quando conheceu Gary Lasch.

 

Molly também disse Fran. Quanto mais oiço, mais pena tenho das duas. Sr.a Bonaventure, eu vou de avião para Buffalo amanhã de manhã, e gostaria de me encontrar com a senhora. Por favor, confie em mim. Eu estou apenas a tentar saber a verdade sobre o que aconteceu, não apenas na noite em que a Annamarie morreu, mas há seis ou mais anos no hospital onde ela trabalhava. Também quero saber por que é que a Annamarie estava tão assustada. Como deve saber, ela estava assustada.

 

Sim, eu sei. Aconteceu alguma coisa no hospital não muito antes de o Gary Lasch morrer disse Lucy, tristemente. Eu vou para Yonkers amanhã, para esvaziar o apartamento da Annamarie. Não precisa de vir. Eu encontro-me consigo lá, Menina Simmons.

 

Na quinta-feira à noite, Edna Barry telefonou a Molly e pediu se podia passar por lá para vê-la durante apenas alguns minutos.

 

Certamente, Sr.a Barry disse Molly, com um tom intencionalmente descontraído. Edna Barry tinha sido taxativa em relação à chave de reserva, e não apenas isso, tinha chegado a ser hostil na sua insistência de que Molly não se lembrava do que tinha acontecido. ”Será que quer pedir desculpas?”, interrogou-se Molly, enquanto recomeçava a estudar as pilhas de material que tinha estendido no chão do escritório.

 

Gary era meticulosamente organizado e preciso em tudo o que fazia. Agora, graças à Polícia, os ficheiros pessoais e materiais de referência médica estavam espalhados e misturados, pois tinham sido separados e arrumados ao acaso. ”Que é que isso importa?”, pensou ela. ”O que eu tenho mais é tempo.”

 

Já tinha começado a pôr de lado uma pilha de fotografias que planeava mandar para a mãe dele. ”Nenhuma onde eu apareço, é claro”, pensou amargamente, ”apenas as do Gary com diversos VIP.”

 

”Eu nunca fui muito íntima da Sr.a Lasch”, pensou, ”e não a culpo por me odiar. Tenho a certeza de que odiaria a mulher que acreditasse ter matado o meu único filho. Ouvir falar na morte de Annamarie deve ter trazido de volta todas as recordações, e há grandes probabilidades de os jornalistas andarem também a tentar falar com ela.”

 

Os seus pensamentos passaram momentaneamente para Annamarie e para a conversa que tinham tido. ”Quem terá adoptado o filho de Gary?”, perguntou a si mesma. ”Eu fiquei tão desesperadamente magoada quando descobri que a Annamarie estava grávida. Odiei-a e senti inveja dela. Mas, mesmo sabendo o que sei sobre a forma como Gary me enganou, lamento o bebé que perdi.”

 

”Talvez um dia tenha outra oportunidade”, disse a si mesma.

 

Molly estava sentada de pernas cruzadas no chão quando registou aquele último pensamento. Fez uma pausa, quase chocada com a ideia de que talvez um dia uma vida diferente se abrisse para ela. ”Que piada”, disse para si mesma, a abanar a cabeça. ”Até a Jenna, a minha melhor amiga, deixou claro que pensa que as minhas únicas opções são uma cela de prisão ou um manicómio. Como é que eu posso sequer imaginar que este pesadelo vai acabar?”

 

Mas, mesmo assim, tinha aquela esperança e sabia porquê. Era porque estava a começar a desbloquear fragmentos de memória; momentos do passado, que estavam profundamente enterrados no seu subconsciente, começavam a vir à superfície. ”A noite passada, quando estava a fechar a porta, aconteceu alguma coisa”, pensou ela, recordando a sensação estranha que a tinha invadido. ”Não sei o que foi, mas aconteceu.”

 

Começou a separar as revistas e jornais médicos e científicos que se lembrava que Gary mantinha em cuidadosa ordem cronológica nas estantes. As publicações eram variadas, mas, obviamente, Gary tinha tido um motivo para as guardar. Uma olhadela para o interior de algumas mostrou que em virtualmente quase todas elas ele tinha procurado apenas um artigo no índice. ”Provavelmente, podem ser todas deitadas fora”,decidiuMolly,”mas,porcuriosidade, vou dar-lhes pelo menos uma espreitadela depois de as organizar. Vai ser interessante ver o que Gary achou suficientemente interessante para guardar e referenciar.”

 

A campainha da porta da cozinha tocou e depois ouviu a Sr.a Barry chamar.

 

Molly, sou eu.

 

Estou no escritório disse ela, enquanto continuava a arrumar as revistas; e depois ficou a escutar os passos que percorriam o corredor. Ao ouvi-los, lembrou-se de quantas vezes tinha pensado que a Sr.a Barry tinha um andar pesado. Nunca usava outra coisa a não ser calçado ortopédico de solas de borracha, que sempre fazia um som firme no chão ao mesmo tempo que chiava.

 

Desculpe, Molly. Edna Barry mal tinha entrado no aposento quando começou a falar.

 

Molly ergueu os olhos e percebeu imediatamente que a Sr.a Barry não estava ali para pedir desculpa. A expressão dela era determinada, a boca estava presa numa linha firme. Estava a baloiçar a chave de casa na mão.

 

Sei que não é uma coisa bonita ao fim de todos estes anos, mas não posso trabalhar mais para si. E preciso de parar imediatamente.

 

Assombrada, Molly tomou balanço e levantou-se.

 

Sr.a Barry, a senhora não precisa de se demitir por causa daquela chave. Ambas pensamos que estamos certas em relação a eu a ter trazido ou não do jardim, mas tenho a certeza de que existe uma razão plausível, e estou confiante de que a Fran Simmons vai descobri-la. Tem de compreender por que é que este ponto é tão importante para mim. Se mais alguém usou aquela chave para entrar em casa, então, foi essa pessoa e não eu que a deixou na gaveta. Suponha que alguém que conhecia o esconderijo da chave no jardim das traseiras veio cá naquele domingo à noite?

 

Acho que ninguém veio cá naquela noite disse Edna Barry, num tom de voz gélido. E não vou desistir por causa da chave. Lamento dizer isto, Molly, mas tenho medo de trabalhar para si.

 

Medo! Assombrada, Molly olhou para a empregada. Medo de quê?

 

Edna Barry desviou o olhar.

 

Não tem... medo... de mim!?... Oh, santo Deus. Chocada, Molly estendeu a mão. Eu fico com a chave, Sr.a Barry. Por favor, saia. Agora!

 

Tem de compreender, Molly. A culpa não é sua, mas você matou aquelas duas pessoas.

 

- Saia, Sr.a Barry!

 

Arranje ajuda, Molly. Por favor, arranje ajuda.

 

Com algo entre um gemido e um soluço, Edna Barry voltou-se e saiu rapidamente. Molly esperou até ver o carro da mulher sair do caminho de acesso e entrar na estrada antes de cair de joelhos e enterrar o rosto nas mãos.

 

Enquanto se embalava para trás e para a frente, sons baixos de choro escaparam de dentro de si.

 

”Ela conhece-me desde que eu era bebé, e ela acredita que eu sou uma assassina. Que hipótese é que eu tenho?”, perguntou a si mesma. ”Que hipótese é que eu tenho?”

 

A algumas ruas de distância, enquanto esperava que o sinal mudasse, uma perturbada Edna Barry lembrou-se vezes sem conta de que não tinha escolha a não ser dar essa razão a Molly para se despedir. Fortalecia a sua história sobre a chave de reserva e impedia Fran Simmons de ficar demasiado curiosa em relação a Wally. ”Desculpe, Molly”, pensou Edna, recordando a dor que vira nos olhos dela, ”mas tem de compreender, o sangue é mais espesso do que a água.”

 

Entre garfadas do almoço que a empregada lhe tinha servido numa bandeja no escritório, Calvin Whitehall rosnou ordens para Lou Knox. Tinha estado de mau humor toda a manhã e Lou suspeitava que, em parte, isso se devia ao facto de a situação de Fran Simmons começar a perturbá-lo. Lou sabia que ela não parava de telefonar insistentemente para marcar uma entrevista e que se recusava a deixar-se enganar pelas vagas promessas de Cal de tentar combinar alguma coisa. Pela conversa que tinha escutado entre Jenna e Cal, Lou também sabia que Simmons combinara um encontro com Peter Black ao meio-dia.

 

Quando o telefone privado tocou ao meio-dia e meia hora, Lou teve o pressentimento de que seria Black a ligar para relatar o encontro. Os seus instintos estavam correctos, e o que quer que Black tinha para dizer deixou Cal enraivecido.

 

Que é que lhe disseste quando ela perguntou por que é que Gary te tinha convidado? Se ela farejar isso... Afinal de contas, por que é que aceitaste falar com ela? Sabes que não podes fazer nada a não ser magoar-te. Não é preciso ter cérebro para perceber isso.

 

Quando Cal atirou com o telefone, parecia à beira de uma apoplexia. O aparelho tocou quase imediatamente, e o seu tom ríspido suavizou-se de súbito quando percebeu quem é que estava a ligar.

 

Sim, doutor, por acaso falei com o Peter há alguns momentos... Não, ele não me disse nada de especial. Devia ter dito?

 

Lou sabia que a pessoa que estava ao telefone tinha de ser Adrian Logue, o oftalmologista, ou o que quer que afirmava ser, que vivia na quinta em West Redding. Por um motivo que Lou não compreendia, tanto Whitehall como Black e antes disso Gary Lasch tinham sempre tratado Logue com luvas de pelica. Ao longo dos anos, Lou levara Cal algumas vezes até à casa da quinta. No entanto, ele nunca se demorava muito, e Lou tinha esperado sempre no carro.

 

Só vira Logue de perto uma ou duas vezes um fulano magricela, de olhar suave e cabelos grisalhos, que já devia ter mais de setenta anos. A observar o patrão, Lou percebeu facilmente que o que quer que o doutor estava a dizer a Cal estava a deixá-lo descontrolado.

 

Era sempre mau sinal quando Cal ficava frio ao invés de explodir. Enquanto Lou observava, o rosto de Cal transformou-se numa máscara tensa e gelada, e os seus olhos assumiram a expressão velada e semicerrada que fez Lou pensar num tigre preparado para saltar.

 

Quando falou, a voz de Cal soou controlada mas temível na sua confiança e autoridade. Doutor, tenho todo o respeito por si, mas o senhor não tinha direito absolutamente nenhum de insistir que Peter Black continuasse este procedimento, e ele não tinha o direito de satisfazer o seu desejo. Não consigo lembrar-me de nada mais desnecessariamente arriscado, especialmente nesta altura. Em circunstância alguma poderá estar presente quando a reacção se desencadear. Como sempre, terá de se contentar com a gravação de vídeo.

 

Lou não conseguiu ouvir o que o Dr. Logue estava a dizer, mas percebeu que o tom de voz dele estava a aumentar. Cal interrompeu-o.

 

Doutor, garanto que terá a gravação esta noite. Desligou o telefone abruptamente e olhou para Lou de uma forma que o fez perceber que estava metido num grande sarilho.

 

Acredito que te dei a entender que a Fran Simmons era um problema disse ele. Chegou o momento de resolveres esse problema.

 

Logo que Fran deixou o gabinete de Peter Black, fez um telefonema para Philip Matthews. Ele estava no escritório e, pelo seu tom de voz, ela percebeu que estava profundamente preocupado com alguma coisa.

 

Onde é que está, Fran? perguntou ele.

 

Em Greenwich. Daqui a pouco vou para Nova Iorque.

 

Há alguma hipótese de vir ao meu escritório esta tarde, por volta das três horas? Infelizmente, as coisas estão a piorar para Molly.

 

Estarei lá disse Fran, e depois premiu o botão de desligar no telefone do carro. Estava a aproximar-se de um cruzamento e travou quando o semáforo mudou. ”Esquerda ou direita?”, perguntou a si mesma. Queria parar no Greenwich Time e tentar apanhar Joe Hutnik.

 

Mas agora um desejo poderoso estava a pressioná-la para passar pela casa onde ela e os pais tinham vivido durante aqueles quatro anos. A referência trocista que Peter Black fizera ao seu pai magoara-a profundamente. Todavia, percebeu que a dor não era por si mesma mas pelo pai. Queria voltar a ver a casa. Era o último lugar onde passara tempo com ele.

 

”Vamos a isso”, decidiu. Três quarteirões mais à frente virou o carro para uma rua ladeada de árvores que lhe pareceu imediatamente muito familiar. Tinham vivido a meio do quarteirão, numa casa estilo Tudor, em tijolo e estuque. Tinha planeado simplesmente passar por lá de carro, mas em vez disso estacionou no passeio do outro lado da rua e ficou a contemplá-la com os olhos rasos de lágrimas.

 

Era uma casa encantadora, com janelas de vitrais que brilhavam ao sol. ”Parece praticamente na mesma”, pensou, enquanto visualizava a comprida sala de estar de tectos altos com uma bonita lareira de mármore irlandês. Lembrou-se de que a biblioteca era pequena. O pai costumava dizer a brincar que tinha sido construída para albergar dez livros, mas ela achava que era um esconderijo fantástico.

 

Ficou surpreendida ao constatar a quantidade de boas recordações que lhe vinham à ideia. ”Se ao menos o pai tivesse aguentado as consequências”, pensou. ”Mesmo que tivesse ido para a prisão, já teria sido libertado há anos e poderia recomeçar noutro lugar qualquer.”

 

Não tinha de ter acontecido era isso que sempre a atormentara e à mãe. Tinham percebido alguma coisa nele naquele último dia? Teriam podido evitar a tragédia?

 

”Se ao menos ele tivesse falado connosco”, pensou Fran. ”Se ao menos ele tivesse dito alguma coisa!”

 

”E para onde é que foi o dinheiro?”, perguntou a si mesma. ”Por que é que não houve vestígios dele ou, pelo menos, um sinal de um investimento que não resultara? Um dia vou descobrir a resposta”, jurou, enquanto ligava o carro.

 

Olhou para o relógio. Era uma e vinte. O mais certo era que Joe Hutnik estivesse a almoçar, mas decidiu passar pelo Time, pois podia haver uma hipótese de ele estar lá.

 

De facto, Joe estava sentado à sua secretária e garantiu veementemente que Fran não estava a interromper nada; para além do mais, queria conversar com ela.

 

Muita água correu por debaixo da ponte desde a semana passada disse ele bruscamente enquanto lhe apontava uma cadeira e fechava a porta.

 

Eu diria o mesmo concordou Fran.

 

A matéria-prima para o seu programa está a expandir-se.

 

Joe, Molly é inocente dos dois crimes. Eu sei. Sinto. As sobrancelhas de Joe uniram-se.

 

Raciocine comigo, Fran. Está a brincar, certo? Porque, se não estiver, então, está a enganar-se a si mesma.

 

Nem uma coisa nem outra, Joe. Estou convencida de que ela não matou nem o marido nem a Scalli. Você tem o dedo no pulso da cidade. Que é que ouve?

 

Muito simples. As pessoas estão chocadas, tristes, mas não surpreendidas. Toda a gente pensa que Molly enlouqueceu.

 

Eu estava com receio disso.

 

Então, é melhor ter receio de outra coisa. Tom Serrazzano, o promotor, está a pressionar a comissão para a liberdade condicional dela ser revogada. Sabe que não pode fazer nada em relação à fiança da nova acusação, mas argumenta que a declaração que ela fez à saída da prisão foi inconsistente com a audiência para a liberdade condicional em que ela afirmou que tinha aceitado a responsabilidade pela morte do marido. Como está a negar isso agora, ele alega que ela perpetrou uma fraude na comissão de liberdade condicional e que deve ser obrigada a cumprir o resto da pena. E é capaz de conseguir os seus intentos.

 

Isso significa que Molly pode voltar imediatamente para a prisão.

 

O meu palpite é que é isso mesmo que vai acontecer, Molly.

 

Não pode acontecer murmurou Fran, tanto para si própria como para Hutnik. Encontrei-me com o Dr. Peter Black esta manhã, Joe. Tenho andado a fazer algumas investigações sobre o hospital e a OCS Remington. Passa-se alguma coisa lá; o que é, ainda não descobri. Mas sei que Black ficou nervoso quando falei com ele. Quase teve um ataque de histeria quando perguntei por que é que achava que Gary Lasch o tinha ido desencantar num emprego insignificante para ser seu sócio na administração do Hospital Lasch e da Remington Health Management, quando o seu currículo não tinha nada de impressionante e existiam candidatos muito melhor qualificados já na zona.

 

Isso é estranho disse Joe. Se bem me lembro, a impressão que nos foi transmitida é que tinha sido difícil persuadi-lo a vir trabalhar para o hospital.

 

Acredite que não foi. Ela levantou-se. Tenho de ir andando. Joe, queria arranjar cópias de tudo o que o Time escreveu acerca do desfalque no fundo para abiblioteca em que o meu pai esteve envolvido, e de tudo o que foi escrito sobre o meu pai e o dinheiro desaparecido depois da morte dele.

 

Eu trato disso prometeu ele.

 

Fran ficou agradecida por Joe não fazer perguntas, mas, mesmo assim, achou que lhe devia uma explicação.

 

Esta manhã, quando estava a tentar desmascarar o Dr. Peter Black, ele teve uma defesa arrasadora. Que direito tinha eu de o interrogar?, perguntou-me. Eu sou filha de um ladrão que roubou os donativos de metade das pessoas da cidade.

 

Isso foi um golpe baixo disse Hutnik. Mas parece-me que é bastante fácil perceber o motivo. Neste momento, ele só pode estar sob demasiada pressão e não quer ouvir falar de nada que possa ameaçar a aquisição das OCS mais pequenas pela Remington. A verdade, pelo menos segundo as minhas fontes, é que o negócio está com problemas, Fran, muitos problemas. A American National está a ganhar terreno. E pelo que ouvi, neste momento, as coisas estão um pouco tremidas na Remington. Estas novas OCS, por muito pequenas que sejam, trariam dinheiro extra e permitiriam à Remington comprar tempo.

 

Joe abriu-lhe a porta.

 

Como lhe disse no outro dia, o director da American National é um dos médicos mais respeitados do país e também um dos maiores críticos da forma como as OCS são dirigidas. Ele pensa que um sistema nacional é a única resposta, mas, até esse dia chegar, a American National, sob a sua liderança, está a conseguir os maiores contratos de prestação de cuidados de saúde.

 

Então, pensa que a Remington pode estar prestes a perder o negócio?

 

Parece que sim. As OCS mais pequenas, que supostamente deveriam estar eufóricas por se fundirem com a Remington, agora estão a querer juntar-se à American National. Parece incrível, mas pode acontecer que o Whitehall e o Black, apesar de todas as acções que possuem na Remington, não consigam evitar uma aquisição hostil num futuro não muito longínquo.

 

”Pode ser mesquinho da minha parte”, pensou Fran, enquanto conduzia para Nova Iorque, ”mas após aquele golpe baixo com o pai, nada me daria mais prazer do que ver Peter Black fracassar.”

 

Parou no escritório, verificou o correio e depois apanhou um táxi para o escritório de Philip Matthews, no World Trade Center, para a reunião das três horas.

 

Encontrou-o sentado à secretária, que estava repleta de papéis; a sua expressão era sombria.

 

Acabei de falar com Molly disse ele. Ela está bastante abalada. Edna Barry despediu-se esta manhã, e sabe qual foi o motivo que deu? Oiça bem: tem medo de Molly, medo de estar perto de uma mulher que assassinou duas pessoas.

 

Ela não se atreveu a dizer isso! Fran olhou para ele, incrédula. Philip, vou dizer-lhe outra vez, aquela mulher está a esconder alguma coisa!

 

Fran, eu estive a reler o depoimento que Edna fez à Polícia depois de ter descoberto o corpo de Gary. É absolutamente consistente com o que ela lhe disse a si e à Molly ontem.

 

Refere-se à parte em que ela diz que Molly foi a única pessoa que usou a chave de reserva e que não voltou a guardá-la no esconderijo do jardim? Molly nega peremptoriamente que isso tenha acontecido. Philip, depois de a Sr.a Barry ter descoberto o corpo, quando a Polícia estava a interrogar as pessoas, não fizeram também perguntas à Molly sobre a chave?

 

Quando Molly acordou cheia de sangue naquela segunda-feira de manhã e soube o que tinha acontecido, ficou praticamente catatónica, e esse estado manteve-se durante vários dias. Não tenho nenhum registo de ela ter sido interrogada a esse respeito. Não se esqueça de que não havia o menor sinal de arrombamento e que as impressões digitais da Molly estavam por toda a arma do crime.

 

O que significa que vão acreditar na história de Edna Barry, por muito que Molly tenha a certeza de que ela está a mentir. Fran andou de um lado para o outro no escritório, irritada. Meu Deus, Philip, Molly não tem hipótese nenhuma.

 

Fran, esta manhã recebi um telefonema do poderoso Calvin Whitehall. Ele quer contratar alguns pesos-pesados para ajudarem na defesa de Molly. Já falou com eles e eles estão disponíveis. Foram-lhes dados pormenores do caso e, segundo Whitehall, todos concordam que ela deve declarar-se ”inocente por motivo de insanidade”.

 

Não deixe que isso aconteça, Philip.

 

Eu não quero que isso aconteça, mas há outro problema. O delegado do Ministério Público está a mover céus e terra para conseguir que a liberdade condicional de Molly seja revogada.

 

Joe Hutnik, do Greenwich Time, avisou-me de que isso poderia acontecer. Então, as coisas estão neste ponto: a empregada de Molly diz que tem medo dela e os amigos estão a tentar comprometê-la. Uma defesa de insanidade levaria a isso mesmo, não é verdade? Ela teria de passar muito tempo numa instituição de algum género, certo?

 

Nenhum júri a deixaria em liberdade depois de um segundo homicídio, por isso, sim, ela ficaria presa acontecesse o que acontecesse. Seguramente, nunca conseguiremos outro acordo, e não estou nada convencido de que a defesa de insanidade resulte.

 

Fran viu a tristeza que estava estampada no rosto de Philip.

 

Isto está a tornar-se pessoal para si, não está? perguntou. Ele acenou afirmativamente.

 

Já é pessoal há muito tempo. No entanto, juro-lhe que se pensasse que os meus sentimentos pela Molly interfeririam no meu discernimento ao defendê-la, entregaria o caso ao melhor advogado criminalista que conhecesse.

 

Fran olhou para Philip Matthews com compaixão, lembrando-se de que a primeira impressão que tivera dele à porta da prisão fora de uma protecção feroz em relação a Molly.

 

Acredito disse ela suavemente.

 

Vai ser um milagre impedir Molly de voltar para a prisão, Fran.

 

Vou encontrar-me com a irmã de Annamarie amanhã disse Fran. Hoje, assim que voltar para o escritório, vou pedir ao Departamento de Pesquisa que descubra tudo o que for possível sobre a Remington Health Management e toda a gente relacionada com ela. Quanto mais oiço, mas acredito que aqueles homicídios têm menos a ver com Gary Lasch ser mulherengo do que com problemas no Hospital Lasch e na Remington Health Management.

 

Pegou na mochila e, antes de sair, parou à janela.

 

Tem uma vista espectacular da Senhora Liberdade comentou. É para encorajar os seus clientes?

 

Philip Matthews sorriu.

 

É engraçado disse. Foi precisamente o que Molly me perguntou da primeira vez que aqui esteve, há seis anos.

 

Bem, para bem de Molly, esperemos que a Senhora Liberdade seja também Senhora Sorte. Tenho um palpite sobre uma coisa, e, se estiver certa, pode ser a saída de que temos andado à procura. Deseje-me sorte, Philip. Até logo.

 

A mudança dramática em Tasha começou aproximadamente às cinco horas. Barbara Colbert viu-a acontecer.

 

Nos últimos dois dias as enfermeiras não tinham colocado a maquilhagem leve que dava um pouco de cor à sua compleição macilenta, mas agora estava a tornar-se evidente um brilho rosado.

 

A rigidez dos membros, que tinha sido mitigada por massagens constantes, pareceu relaxar espontaneamente. Barbara não precisou de ver a enfermeira afastar-se em bicos de pés da cabeceira da cama nem ouvir o murmúrio ao telefone da sala de estar para saber que ela estava a chamar o médico.

 

”É melhor assim para a Tasha”, tentou dizer a si mesma. ”Por favor, Deus, dá-me força. E, por favor, deixa-a viver até os irmãos chegarem. Eles querem estar com ela no fim.”

 

Barbara levantou-se da cadeira e sentou-se na cama, tendo cuidado para não tocar no emaranhado de fios intravenosos e equipamento de oxigénio. Tomou as duas mãos de Tasha nas suas.

 

Tasha, Tasha murmurou. O meu único consolo é que vais para junto do papá, e ele amava-te tanto quanto eu.

 

A enfermeira estava à porta. Barbara levantou os olhos.

 

Quero ficar sozinha com a minha filha disse. Os olhos da enfermeira estavam cheios de lágrimas. Eu compreendo. Lamento muito.

 

Barbara acenou e virou-se. Por um instante, pareceu-lhe ver Tasha mexer-se, pareceu-lhe sentir pressão nas mãos.

 

A respiração de Tasha tornou-se mais rápida. Barbara sentiu o coração apertar-se enquanto esperava pelo último suspiro.

 

- Tasha, Tasha.

 

Teve a consciência vaga de uma presença à porta. O médico. ”Vá-se embora”, pensou, mas não se deu ao trabalho de se desviar deste último momento da vida da filha.

 

De repente, Tasha abriu os olhos. Os lábios curvaram-se num sorriso familiar.

 

Dr. Lasch, foi uma estupidez murmurou. Tropecei no atacador e estatelei-me no chão.

 

Barbara olhou-a, embasbacada. Tasha! Tasha virou a cabeça.

 

Olá, mãe...

 

Os seus olhos fecharam-se e voltaram a abrir-se lentamente.

 

Mãe, ajude-me... por favor. A sua última respiração foi um leve suspiro.

 

Tasha! guinchou Barbara. Tasha! Olhou para trás. Peter Black estava em pé, à porta, imóvel. Doutor, o senhor ouviu-a! Ela falou comigo. Não a deixe morrer! Faça alguma coisa!

 

Oh, minha querida disse o Dr. Black suavemente, quando a enfermeira entrou a correr. Deixe a nossa querida menina ir. Acabou.

 

Ela falou comigo! gritou Barbara Colbert. Tasha, não morras. Tu estás a ficar melhor!

 

Braços fortes estavam a abraçá-la, a obrigá-la gentilmente a soltar a filha.

 

Mãe, estamos aqui.

 

Barbara ergueu os olhos para os filhos.

 

Ela falou comigo soluçou. Deus é minha testemunha. Antes de morrer, ela falou comigo!

 

Lou Knox estava a ver televisão quando recebeu a chamada de que estava à espera. Cal avisara-o de que iria levar um pacote a West Redding, mas ele não sabia a que horas tinha de partir.

 

Quando chegou a casa, encontrou Cal e o Dr. Peter Black na biblioteca. Percebeu instantaneamente que tinham acabado de ter uma discussão feia. A boca de Cal era uma linha estreita e má, e tinha as faces ruborizadas. O Dr. Black segurava um copo grande do que parecia ser uísque puro e, pelo olhar vidrado, era óbvio que não se tratava da primeira bebida da noite.

 

A televisão estava ligada, mas o ecrã mostrava o azul-profundo do canal de vídeo. O que quer que tivessem estado a ver, já não estava no ar. Quando Cal viu que Lou tinha entrado, berrou para Black:

 

Dá-lha, seu estúpido!

 

Cal, estou a dizer-te... protestou o Dr. Black, num tom de voz monocórdico.

 

Dá-lha e pronto!

 

Black pegou numa pequena caixa levemente embrulhada em papel castanho que se encontrava na mesa a seu lado. Sem falar, entregou-a a Knox.

 

É este embrulho que devo entregar em West Redding, senhor? perguntou Lou.

 

Sabes perfeitamente bem que é, Lou. Agora despacha-te! Lou lembrou-se do telefonema que Cal tinha feito naquela manhã.

 

Tinha de ser a gravação de que ele estivera a falar com o oftalmologista, o Dr. Logue. Cal e Black deviam ter estado a vê-la, porque era evidente que o embrulho tinha sido aberto e depois fechado novamente.

 

Imediatamente, senhor disse ele, rapidamente. ”Mas não antes de ver o que tem esta fita”, pensou ao sair.

 

Voltou sem demora para o seu apartamento e fechou a porta à chave. Não foi difícil voltar a abrir o embrulho sem rasgar o papel.

 

Como esperava, havia uma cassete de vídeo no interior. Enfiou-a rapidamente no vídeo e premiu o botão PLAY.

 

”Que é isto?”, pensou, enquanto observava o ecrã. Viu um quarto de hospital um quarto muito bonito com uma jovem adormecida ou inconsciente na cama e uma senhora idosa cheia de classe sentada ao lado dela.

 

”Calma”, pensou Lou, ”eu sei quem é aquela mulher. É a Barbara Colbert, e a outra é a filha dela, a que está em coma há anos. A família deu imenso dinheiro para a construção de uma unidade de cuidados prolongados no Lash e deram-lhe o nome da rapariga.

 

A hora a que a gravação tinha sido feita aparecia no canto inferior direito do ecrã: 8.30 daquela manhã. ”Será que gravaram o dia inteiro?”, interrogou-se Lou. ”Seguramente, não havia doze horas naquela cassete.”

 

Passou rapidamente até ao fim da fita e depois rebobinou um pouco e voltou a premir o PLAY. Agora, a imagem mostrava a senhora de idade a soluçar enquanto dois homens a seguravam. O Dr. Black estava inclinado sobre a cama. ”Arapariga deve ter morrido”, pensou Lou. Verificou novamente a hora no fundo do ecrã: 17.40.

 

”Apenas há algumas horas”, pensou Lou. ”Mas isto não pode ser apenas a rapariga a morrer”, reflectiu. ”Ela esteve inconsciente durante anos, por isso sabiam que ela ia acabar por falecer.”

 

Lou sabia que a qualquer momento Cal podia subir as escadas, querendo saber o que o estava a demorar tanto. Com os sentidos alerta para detectar a aproximação de Cal, rebobinou de novo a fita, desta vez recuando mais.

 

O que viu fê-lo tremer. Era difícil acreditar, mas ali estava: a rapariga que passara tantos anos em coma a acordar e virar a cabeça e falar claramente, falar sobre o Dr. Lasch. Depois fechou os olhos e morreu. E depois ali estava Black, a dizer à mãe que não tinha ouvido a rapariga dizer fosse o que fosse.

 

Era arrepiante. E embora não compreendesse o significado de tudo aquilo, sabia que era importante. E também teve consciência do risco que estava a correr quando perdeu tempo a duplicar os últimos quinze minutos da fita e a escondê-la no compartimento por detrás das prateleiras no seu apartamento.

 

Estava a entrar no carro quando Cal saiu.

 

Que se passou? Que andaste a tramar, Lou? Lou percebeu que o medo puro que sentia se estampou no seu rosto, mas obrigou-se a controlá-lo. Sabia o que tinha naquela gravação e o poder que isso lhe dava. Muitos anos a fazer do fingimento uma forma de arte revelavam-se agora úteis.

 

Estive na casa de banho. O meu estômago não anda muito bem.

 

Sem esperar uma resposta, fechou a porta do carro e ligou o motor. Uma hora depois estava na casa da quinta em West Redding a entregar o embrulho ao homem que conhecia como Dr. Adrian Logue.

 

Quase febril de excitação, Logue tirou o embrulho da mão de Lou e bateu-lhe com a porta na cara.

 

Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz em toda a minha vida explicou Edna Barry pelo telefone a Marta Jones. Tinha acabado de arrumar a cozinha depois do jantar e parecera-lhe uma boa altura para beber uma última chávena de chá e contar a história à amiga.

 

Sim, deve ter sido pavoroso para ti concordou Marta. Edna não tinha dúvidas de que Fran Simmons voltaria ali para bisbilhotar, para fazer mais perguntas, e podia muito bem ir visitar Marta. Bem, se isso acontecesse, Edna queria certificar-se de que a vizinha sabia a história certa. ”Desta vez”, jurou Edna, ”Marta irá transmitir informações que não prejudiquem Wally.” Bebeu mais um gole de chá e mudou o telefone para a outra orelha.

 

Marta continuou ela, foste tu que me convenceste de que a Molly podia ser perigosa, lembras-te? Eu tentei não pensar no assunto, mas ela está a comportar-se de uma forma estranha. Está muito calma. Senta-se durante horas sozinha. Não quer ninguém por perto. Hoje estava sentada no chão a ver o que havia dentro de umas caixas. Tinha pilhas de fotografias do doutor à sua volta.

 

Não! exclamou Marta. Eu pensava que ela se tinha livrado delas há muito tempo. Por que razão as guardaria? Tu quererias olhar para a fotografia de um homem que tivesses assassinado?

 

É a isso que me refiro quando digo que ela age de uma forma estranha disse Edna. Então, ontem, quando ela disse que nunca tirou a chave do esconderijo no jardim... bem, Marta, apercebi-me de que aquela história de esquecer tudo começou antes de o doutor morrer. Creio que tudo começou quando ela teve o aborto. Nessa altura, a depressão deve ter-se instalado e a Molly nunca mais foi a mesma.

 

Pobre mulher disse Marta com um suspiro. Seria muito melhor para ela se a pusessem num lugar onde possa receber ajuda a sério, mas estou satisfeita por ficares longe dela, Edna. Não te esqueças de que Wally precisa de ti e que tem de ser a tua primeira prioridade.

 

É o que eu sinto. É bom poder falar com uma amiga como tu, Marta. Tenho andado tão preocupada. E tinha de desabafar.

 

Podes contar sempre comigo, Edna. Vai cedo para a cama e vê se tens uma boa noite de sono.

 

Satisfeita por ter cumprido o seu objectivo, Edna levantou-se, apagou a luz da cozinha e foi para a sala de estar. Wally estava a ver o canal de notícias. O coração de Edna caiu ao chão quando viu uma gravação de Molly à porta da prisão. O jornalista estava a dizer: ”Molly Carpenter Lasch foi libertada da Prisão Niantic há apenas dez dias, depois de ter cumprido uma pena de cinco anos e meio pelo homicídio do marido, o Dr. Gary Lasch. Desde então, foi presa pelo homicídio da amante do marido, Annamarie Scalli, e o delegado do Ministério Público, Tom Serrazzano, está a fazer pressão para que a sua liberdade condicional seja revogada.”

 

Por que é que não mudas de canal, Wally? sugeriu Edna.

 

Eles vão voltar a prender a Molly, mãe?

 

Não sei, querido.

 

Ela parecia tão assustada quando o encontrou. Eu tive pena dela.

 

Não digas isso, Wally. Tu não sabes o que estás a dizer.

 

Sei, sim, mãe. Eu estava lá, lembra-se?

 

Em pânico, Edna agarrou no rosto do filho com as duas mãos e obrigou-o a olhar para ela.

 

Lembras-te de como a Polícia te assustou quando o Dr. Morrow foi assassinado? Como não paravam de te fazer perguntas sobre onde estavas na noite em que ele morreu? Lembras-te de que antes de eles chegarem eu te obriguei a pôr o molde de gesso e a usar as canadianas para eles te deixarem em paz?

 

Assustado, ele tentou fugir ao aperto da mãe.

 

Solte-me, mãe.

 

Edna manteve o contacto visual com o filho.

 

Wally, tu nunca deves falar sobre a Molly nem sobre aquela noite. Nunca mais, compreendes isso?

 

Não volto a falar.

 

Wally, eu não vou trabalhar mais para a Molly. Na verdade, tu e eu vamos fazer uma viagem. Vamos para muito longe, talvez para as montanhas, ou talvez até para a Califórnia. Gostavas?

 

Ele pareceu duvidoso.

 

Acho que sim.

 

Então, jura que nunca mais voltas a falar sobre Molly.

 

Houve uma longa pausa antes de ele dizer em voz baixa: Juro, mãe.

 

Embora Molly tivesse tentado, o Dr. Daniels não deixou que ela o dispensasse pela segunda vez. Disse-lhe que ia lá a casa às seis horas, e às seis horas em ponto tocou à campainha.

 

Tem muita coragem para estar a sós comigo murmurou ela ao fechar a porta. Mas, se eu fosse o senhor, teria cuidado. Não me vire as costas. Eu posso ser perigosa.

 

O médico estava a despir o casaco quando ela disse aquilo. Parou, com um braço ainda na manga, e observou-a cuidadosamente.

 

Que é que isso quer dizer, Molly?

 

Entre. Eu conto-lhe tudo. Levou-o para o escritório. Mostro-lhe e conto-lhe disse ela, indicando as pilhas de ficheiros e revistas no chão, as fotografias e os albums no sofá. Como pode ver, não tenho estado apenas sentada a pensar.

 

Eu diria que tem andado a fazer limpezas observou o Dr. Daniels.

 

De certa forma a fazer limpezas, sim, mas, na verdade, é um pouco mais do que isso, doutor. Chama-se ”começar de novo”, ou talvez ”um capítulo novo”, ou ”enterrar o passado”. Escolha.

 

Daniels dirigiu-se para o sofá.

 

Posso? perguntou, a apontar para as fotografias.

 

Olhe para as fotografias que quiser, doutor. As da esquerda são para mandar para a mãe de Gary. As da direita vão para o arquivo circular.

 

Vai deitá-las fora?

 

Penso que é saudável, doutor, o senhor não é da mesma opinião? Ele estava a vê-las.

 

Aparentemente, há bastantes com os Whitehalls.

 

Jenna é a minha melhor amiga. Como sabe, Cal, Gary e Peter Black dirigiam a Remington juntos. Existem bastantes fotografias de Peter com as duas ex-mulheres por aí algures.

 

Sei que gosta muito de Jenna, Molly. E de Cal? Também gosta muito dele?

 

Ergueu os olhos e vislumbrou a sombra de um sorriso nos lábios dela.

 

Doutor, Cal não é uma pessoa de quem se goste replicou ela. Duvido que alguém goste verdadeiramente dele, incluindo o colega de escola-motorista-faz-tudo-Lou Knox. As pessoas sentem mais fascínio pelo Cal do que gostam dele. Ele pode ser maravilhosamente divertido. E é muito inteligente. Lembro-me de uma vez que fomos a um jantar em sua honra, onde estiveram cerca de seiscentas pessoas extremamente importantes. Sabe o que Jenna me sussurrou? ”Noventa por cento destas pessoas estão aqui por medo.”

 

Acha que isso incomodou Jenna?

 

Céus, não. Jenna adora o poder de Cal. Embora, evidentemente, ela própria seja forte. Nada se atravessa no caminho dela. É por isso que já é sócia de uma prestigiada firma de advocacia. E conseguiu isso por mérito próprio. Molly fez uma pausa. Por outro lado, eu sou muito mole. Sempre fui. Jenna tem sido bestial. Por outro lado, Cal gostaria de me ver desaparecer da face da terra.

 

”Concordo com isso”, pensou o Dr. Daniels.

 

Jenna vem cá esta noite? perguntou.

 

Não. Tinha um jantar em Nova Iorque, mas telefonou esta tarde. Ainda bem que o fez. Depois de a Sr.a Barry sair, eu estava a precisar de ânimo.

 

Daniels esperou. Enquanto a observava, o olhar de Molly mudou. Uma expressão de tristeza misturada com descrença inundou-lhe o rosto. A sua voz estava calma, até monocórdica, enquanto lhe contou o que acontecera com Edna Barry e as suas palavras de despedida.

 

Esta tarde telefonei à minha mãe disse Molly. Perguntei-lhe se ela e o meu pai também tinham medo de estar comigo; perguntei se era por isso que estavam longe quando eu precisava deles. Sabe, a semana passada não quis ninguém perto de mim. Quando cheguei a casa, senti-me como uma vítima de queimaduras se deve sentir: ”Não me toquem! Deixem-me em paz!” Mas depois de o corpo de Annamarie ter sido encontrado, eu queria que estivessem comigo. Precisava deles.

 

Que é que eles disseram?

 

Disseram que não podem vir. O meu pai vai ficar bem, mas teve uma pequena trombose. É por isso que não estão cá. Telefonaram à Jenna, contaram-lhe e pediram-lhe para ficar perto de mim. E claro que ela tem estado. O senhor viu.

 

Molly olhou para um ponto distante.

 

Era importante falar com eles. Precisava de saber se me apoiavam. Eles sofreram tanto com tudo isto. Hoje, depois de a Sr.a Barry sair, se eu pensasse que eles também me tinham abandonado, teria... A voz embargou-se.

 

Teria o quê, Molly?

 

Não sei.

 

”É claro que sabe”, pensou Daniels. ”A rejeição dos seus pais tê-la-ia empurrado para o abismo.”

 

Como é que se sente agora, Molly? perguntou suavemente.

 

Sem saída, doutor. Se a minha liberdade condicional for revogada e me mandarem novamente para a prisão, acho que não vou conseguir suportar. Preciso de mais tempo, porque, juro-lhe: vou recordar-me exactamente do que aconteceu depois de eu ter voltado do Cape para casa naquela noite.

 

Podíamos tentar a hipnose, Molly. Não resultou antes, mas isso não significa que não resulte agora. Pode ser que o bloqueio de memória seja como um icebergue e esteja a partir-se. Ahipnose podia ajudá-la.

 

Ela abanou a cabeça.

 

Não, tenho de o fazer sozinha. Há... Molly calou-se. Era demasiado cedo para dizer ao Dr. Daniels que durante toda a tarde um nome não parava de lhe vir à cabeça: Wally.

 

Mas porquê?

 

Barbara Colbert abriu os olhos. ”Onde estou?”, pensou, ensonada. ”Que aconteceu? Tasha. Tasha!” Lembrou-se de que Tasha tinha falado com ela antes de morrer.

 

Mãe. Walter e Bob, os filhos, estavam debruçados sobre ela, compreensivos, fortes.

 

Que aconteceu? sussurrou ela.

 

Mãe, sabe que a Tasha se foi? -Sim.

 

A mãe desmaiou. Choque. Exaustão. O Dr. Black deu-lhe um sedativo. Agora está no hospital. Ele quer que fique cá um dia ou dois. Para observação. Os seus batimentos cardíacos não estavam muito bons.

 

Walter, a Tasha saiu do coma. Falou comigo. O Dr. Black deve tê-la ouvido. A enfermeira também; pergunta-lhe.

 

A mãe tinha mandado a enfermeira para o outro aposento. A mãe falou com a Tasha, mãe. Ela não falou consigo.

 

Barbara lutou contra a sonolência.

 

Eu posso estar velha, mas não sou louca! disse. A minha filha saiu do coma. Eu sei que sim. Falou comigo. Lembro-me claramente do que ela disse. Walter, escuta-me. Tasha disse: ”Dr. Lasch, foi uma estupidez, tropecei no atacador e estatelei-me no chão.” Depois reconheceu-me e disse: ”Olá, mãe.” E depois implorou-me que a ajudasse. O Dr. Black ouviu-a pedir ajuda. Eu sei que ouviu. Por que é que não fez alguma coisa? Limitou-se a ficar ali parado.

 

Mãe, mãe, ele fez tudo o que pôde pela Tasha. No fundo, é melhor assim.

 

Barbara tentou sentar-se.

 

Repito... eu não sou louca! Não imaginei que a Tasha saiu do coma disse ela, e a ira conferiu à sua voz o habitual tom de autoridade. Por algum motivo terrível, Peter Black está a mentir-nos.

 

Walter e Rob Colbert seguraram as mãos da mãe quando o Dr. Black, que se tinha mantido fora do seu campo de visão, deu um passo em frente e lhe espetou uma agulha no braço.

 

Barbara Colbert sentiu-se mergulhar numa escuridão quente e envolvente. Lutou momentaneamente contra ela e depois sucumbiu.

 

O mais importante é que ela descanse garantiu o Dr. Black aos filhos. Por muito preparados que pensemos estar para perder um ente querido, quando chega o momento de dizer adeus o choque pode ser avassalador. Eu virei vê-la mais tarde.

 

Quando chegou ao seu gabinete depois de fazer as rondas, Black tinha uma mensagem de Cal Whitehall à sua espera. Devia telefonar-lhe imediatamente.

 

Convenceste Barbara Colbert de que ela esteve a alucinar a noite passada? perguntou Cal.

 

Peter Black sabia que a situação era desesperada e que não adiantaria nada mentir a Cal.

 

Tive de lhe dar outro sedativo. Ela não vai convencer-se facilmente.

 

Por um longo minuto, Calvin Whitehall não reagiu. Depois, disse calmamente:

 

Suponho que te apercebes do que nos fizeste a todos. Black não respondeu.

 

Como se a Sr.a Colbert não fosse um problema suficientemente grande, acabo de receber notícias de West Redding. Depois de ver a gravação inúmeras vezes, o doutor exige que o projecto seja revelado aos órgãos de informação.

 

Ele não sabe o que isso vai significar? perguntou Black, perplexo.

 

Não se importa. Está doido. Eu insisti que esperássemos até segunda-feira, para podermos fazer uma apresentação digna do feito. Nessa altura, já terei tratado dele. Entretanto, sugiro que tu te responsabilizes pela Sr.a Colbert.

 

Cal desligou o telefone com toda a força, não deixando na mente de Peter Black a menor dúvida de que esperava ser obedecido.

 

Lucy Bonaventure apanhou um avião de manhã bem cedo em Buffalo para o Aeroporto de La Guardia, em Nova Iorque, e às dez horas estava a entrar no apartamento de Annamarie, em Yonkers. Nos quase seis anos que Annamarie vivera ali, Lucy nunca tinha visto a casa. Annamarie dissera-lhe que o apartamento era pequeno tinha apenas um quarto e, para além do mais, era sempre mais conveniente a Annamarie ir de carro para Buffalo para os visitar.

 

Lucy sabia que a Polícia tinha revistado o apartamento depois de Annamarie morrer, e compreendeu por que é que a casa tinha um aspecto desmazelado. O bric-a-brac da mesa do café estava todo misturado; livros estavam amontoados ao acaso nas estantes, como se tivessem sido tirados e recolocados sem cuidado. No quarto, era óbvio que o conteúdo das gavetas tinha sido examinado e depois enfiado precipitadamente por mãos pouco cuidadosas.

 

Tinha pedido ao gerente do condomínio para se encarregar da venda do apartamento. A única coisa que Lucy tinha de fazer era tirar as coisas. Gostaria de fazer tudo num dia, mas, realisticamente, sabia que precisaria de dois, pelo menos. Era-lhe doloroso estar ali, ver o perfume preferido de Annamarie no toucador, ver o livro que ela andava a ler ainda na mesa-de-cabeceira, abrir o roupeiro e ver os fatos, vestidos e uniformes de Annamarie, e saber que ela nunca mais os usaria.

 

Todas as roupas, assim como a mobília, seriam recolhidas por instituições de caridade. ”Pelo menos”, pensou Lucy, ”algumas pessoas necessitadas serão ajudadas.” Não passava de um pequeno consolo, mas era alguma coisa.

 

Fran Simmons, a jornalista, devia chegar às onze e meia. Enquanto esperava por ela, Lucy começou a despejar a cómoda de Annamarie, dobrando cuidadosamente o conteúdo e colocando depois todas as coisas nas caixas de cartão que o zelador lhe tinha dado.

 

Chorou ao ver as fotografias que encontrou na gaveta de baixo, que mostravam Annamarie com o filho recém-nascido ao colo, fotografias obviamente tiradas minutos depois de ele ter nascido. Ela parecia tão jovem nas fotografias, e estava a olhar para o bebé com tanta ternura. Havia outras fotografias dele, cada uma marcada nas costas, ”primeiro aniversário”, ”segundo aniversário”, até ao último, o quinto. Era uma criança muito bonita, com brilhantes olhos azuis, cabelos castanho-escuros e um sorriso feliz e caloroso. ”Annamarie ficou destroçada por ter de o dar para adopção”, pensou Lucy. Reflectiu sobre se devia mostrar as fotografias a Fran Simmons e depois decidiu que sim. Podiam ajudá-la a compreender Annamarie e o preço terrível que tinha pago pelos seus erros.

 

Às onze e meia, Fran tocou pontualmente à campainha e Lucy Bonaventure convidou-a para entrar. Por um momento, as duas mulheres avaliaram-se reciprocamente. Fran viu uma mulher roliça com quarenta e tal anos, olhos inchados, feições correctas e pele que parecia enrugada do choro.

 

Lucy viu uma mulher esbelta, com trinta e poucos anos, com cabelos castanho-claros pelos ombros e olhos azul-acinzentados. Como explicou à filha no dia seguinte: ”Ela não estava muito formal, tinha um fato de calças castanho-escuro e um lenço castanho e amarelo e branco ao pescoço, e brincos de ouro simples, mas parecia tão nova-iorquina. É simpática, e quando me disse que sentia muito o que acontecera à Annamarie, eu percebi que não era apenas conversa. Eu tinha feito café e ela disse que gostaria de beber uma chávena, por isso, sentámo-nos à pequena mesa de refeições da Annamarie.”

 

Fran percebeu que seria sensato ir directa ao assunto.

 

Sr.a Bonaventure, comecei a investigar a morte do Dr. Gary Lasch porque a Molly Lasch, que eu conhecia dos tempos de escola, me pediu para fazer um programa sobre o caso para o Crime Verdadeiro, uma série em que eu trabalho. Ela quer descobrir a verdade acerca destes homicídios tanto quanto a senhora. Passou cinco anos e meio na prisão por um crime de que não se recorda e que eu comecei a acreditar que ela não cometeu. Existem demasiadas perguntas por responder sobre a morte do Dr. Lasch. Na época, ninguém investigou verdadeiramente, e eu estou a tentar fazê-lo agora.

 

Sim, bem, o advogado dela tentou fazer parecer que a Annamarie tinha assassinado o Dr. Lasch disse Lucy com raiva recordada.

 

O advogado dela fez o que qualquer bom advogado faria. Realçou que Annamarie tinha dito que estava sozinha no seu apartamento em Cos Cob na noite do crime, mas que não tinha ninguém que corroborasse as suas afirmações.

 

Se aquele julgamento não tivesse ido até ao fim, ele ia contra-interrogar a Annamarie e tentar fazê-la parecer uma assassina. Sei que era esse o plano. Ele ainda é o advogado da Molly Lasch?

 

Sim, é. E é muito bom. Sr.a Bonaventure, Molly não assassinou o Dr. Lasch. Não assassinou a Annamarie. E certamente não assassinou o Dr. Jack Morrow, que mal conhecia. Três pessoas estão mortas e eu acredito que há um só responsável pelos homicídios de todas elas. A pessoa que pôs fim às suas vidas deve ser castigada, mas não foi a Molly. Essa pessoa é o motivo por que a Molly foi para a prisão. Essa pessoa é o motivo por que ela foi presa pelo homicídio da Annamarie. Quer que Molly vá para a prisão por um crime que não cometeu ou quer encontrar o assassino da sua irmã?

 

Por que é que a Molly Lasch procurou a Annamarie e lhe pediu para se encontrar com ela?

 

Molly acreditava que tinha um casamento feliz. Obviamente, não era verdade, se não Annamarie não teria aparecido no meio. Molly estava a tentar encontrar a resposta para o homicídio do marido e para o fracasso do seu casamento. Que melhor forma de começar do que com a mulher que tinha sido amante do marido? É aqui que a senhora pode ajudar. Annamarie estava com medo de alguém ou de alguma coisa. Molly percebeu isso quando se encontraram naquela noite, mas a senhora deve ter percebido muito antes. Por que é que ela mudou de nome e adoptou o nome de solteira da vossa mãe? Por que é que desistiu da enfermagem hospitalar? Por tudo o que ouvi, ela era uma enfermeira hospitalar maravilhosa e adorava o seu trabalho.

 

Pois era disse Lucy Bonaventure, tristemente. Estava a castigar-se quando desistiu.

 

”Mas o que eu preciso de saber agora é por que é que ela desistiu”, pensou Fran.

 

Sr.a Bonaventure, a senhora disse que tinha acontecido uma coisa no hospital... uma coisa horrivelmente perturbadora para a Annamarie. Faz alguma ideia do que foi ou quando aconteceu?

 

Lucy Bonaventure ficou sentada em silêncio durante alguns momentos, obviamente alutar contra o desejo de proteger Annamarie versus a necessidade ardente de castigar o assassino.

 

Sei que não foi muito tempo antes de o Dr. Lasch ter sido assassinado disse ela, a falar lentamente. E foi durante um fim-de-semana. Houve um problema qualquer com uma paciente. O Dr. Lasch e o sócio, o Dr. Black, estiveram envolvidos. Annamarie pensou que o Dr. Black tinha cometido um erro terrível, mas não o comunicou porque o Dr. Lasch lhe implorou que se mantivesse calada, dizendo que se a notícia do erro se espalhasse o hospital ficaria destruído.

 

Lucy ergueu a cafeteira e fitou Fran, com uma interrogação no olhar. Fran abanou a cabeça e Lucy deitou mais café na sua chávena. Recolocou a cafeteira no suporte de aquecimento e sentou-se a olhar para o café durante alguns momentos antes de voltar a falar. Fran percebeu que ela estava a tentar escolher as palavras cuidadosamente.

 

Nos hospitais acontecem erros honestos, Menina Simmons. Todos sabemos isso. Segundo o que Annamarie me contou, a jovem tinha estado a correr quando ficou ferida, e estava desidratada quando a trouxeram para o hospital. O Dr. Black deu-lhe uma droga experimental qualquer em vez da solução salina normal, e ela mergulhou num estado vegetativo.

 

Que horror!

 

Annamarie tinha o dever de comunicar e não o fez, a pedido do Dr. Lasch. Mas alguns dias depois, ouviu o Dr. Black dizer ao Dr. Lasch: ”Desta vez dei-o à pessoa certa. Fez logo efeito.”

 

Quer dizer que eles andavam deliberadamente a fazer experiências com os pacientes? perguntou Fran, chocada com aquela revelação.

 

Só lhe posso dizer o que concluí a partir do pouco que a Annamarie me contou. Ela não gostava muito de falar no assunto e normalmente só o fazia se já tinha bebido dois copos de vinho e precisava de desabafar. Lucy fez uma pausa e ficou uma vez mais a olhar para a chávena.

 

Havia mais alguma coisa? perguntou Fran, suavemente, ansiosa por fazer a mulher falar, mas sem querer pressioná-la de mais.

 

Sim. Annamarie contou-me que uma noite depois de ter sido administrado à jovem o medicamento errado, uma senhora de idade que tinha tido alguns ataques cardíacos e estava no hospital há algum tempo morreu. Annamarie disse-me que não podia ter a certeza, mas suspeitava que tinham dado o medicamento experimental a essa senhora e, aparentemente, era ela ”a pessoa certa” a que ouvira o Dr. Black referir-se, porque fora a única que falecera no hospital naquela semana e porque o Dr. Black andava sempre a entrar e a sair do quarto e não registava nada na ficha clínica.

 

Annamarie não se sentiu sequer tentada a comunicar aquela morte?

 

Ela não tinha prova absolutamente nenhuma de que alguma coisa estava errada no segundo incidente, e quando foram feitos exames à segunda mulher os resultados não indicaram o menor vestígio de uma substância suspeita. A Annamarie falou com o Dr. Black e perguntou-lhe por que é que não tinha registado nada na ficha da senhora de idade quando a tratara. Ele disse-lhe que ela não sabia do que estava a falar e avisou-a de que se começasse a espalhar rumores infundados seria processada por difamação. Quando o interrogou sobre a jovem que estava em coma, ele replicou que ela tinha feito uma paragem cardíaca na ambulância.

 

Lucy fez uma pausa e encheu uma vez mais a chávena de café.

 

Tente compreender. Originalmente, Annamarie acreditava que o primeiro incidente tinha sido honesto. Estava apaixonada por Gary Lasch e naquela altura já sabia que estava grávida dele, embora ainda não lhe tivesse dito. Não queria acreditar que ele tinha alguma coisa a ver com o sofrimento de alguém e não queria levantar problemas nem para ele nem para o hospital. Mas depois, enquanto se torturava em relação ao que devia fazer, Jack Morrow foi assassinado, e de repente ela ficou assustada. Estava convencida de que ele começara a suspeitar de que se estava a passar alguma coisa estranha no hospital, mas era apenas uma suspeita. Aparentemente, ele tinha querido dar-lhe alguma coisa para ela guardar, um ficheiro ou papéis ou alguma coisa, mas nunca teve a oportunidade de o fazer. Foi assassinado antes disso. Depois, passadas duas semanas, Gary Lasch foi assassinado. Nessa altura, Annamarie estava aterrorizada.

 

Annamarie alguma vez deixou de gostar de Gary Lasch? perguntou Fran.

 

No fim. Ele andava a evitá-la e ela tinha começado a receá-lo. Quando lhe disse que estava grávida, ele mandou-a fazer um aborto. Se não existissem os testes de ADN, ele teria jurado que o filho não era dele.

 

”A morte de Jack Morrow foi um rude golpe para Annamarie. Embora tivesse um caso com o Dr. Lasch, estou convencida de que ela sempre amou Jack. Mais tarde, mostrou-me a fotografia do Dr. Lasch e disse: ”Eu estava obcecada por ele. Ele exerce esse efeito sobre as mulheres. Ele usa as pessoas.”

 

Annamarie pensou que as coisas no hospital continuavam a correr mal, mesmo depois de Gary Lasch ter sido assassinado?

 

Não me parece que ela tivesse alguma forma de saber. E, para além do mais, as suas energias depressa se centraram no bem-estar da criança que trazia dentro de si. Menina Simmons, nós implorámos à Annamarie para ficar com o bebé. Tê-la-íamos ajudado a criá-lo. Ela deu-o para adopção porque achou que não o merecia. Disse-me: ”Que é que digo ao meu filho... que tive um caso com o pai dele, que depois ele foi assassinado por causa da nossa relação? Quando ele me pedir para lhe contar como era o pai, eu digo-lhe que era um perigo para os seus pacientes e que traiu as pessoas que confiavam nele?”

 

Annamarie disse a Molly que tanto como marido como como médico, Gary Lasch não valia o preço que ela pagou por ter ido para a prisão por causa dele contou Fran.

 

Lucy Bonaventure sorriu.

 

É típico de Annamarie disse ela.

 

Não calcula o quanto lhe estou agradecida, Sr.a Bonaventure disse Fran. E sei como isto é difícil para si.

 

Pois é. Mas deixe-me mostrar-lhe uma coisa antes de se ir embora. Lucy Bonaventure entrou no quarto e pegou nas fotografias que tinha pousado em cima do toucador. Mostrou-as a Fran.

 

Esta é Annamarie com o seu bebé. Pode ver como ela era jovem. A família adoptiva enviou-lhe uma fotografia de aniversário durante os primeiros cinco anos. Este é o rapazinho de quem ela desistiu. Pagou um preço terrível pelos seus erros. Espero que se Molly Lasch estiver inocente consiga provar a verdade. Mas diga-lhe que, de certa forma, Annamarie também esteve na prisão, talvez uma prisão auto-imposta, mas, mesmo assim, uma prisão cheia de dor e privações. E se quer saber de quem ela tinha medo, tem razão, não acredito que fosse de Molly Lasch. Eu acho que a pessoa que ela receava verdadeiramente era o Dr. Peter Black.

 

Que é que se passa contigo, Cal? Não fizeste outra coisa a não ser refilar comigo, quando a pior coisa que pareço ter feito foi sugerir que te afastes daqui durante alguns dias e que se calhar te faria bem jogar um pouco de golfe.

 

Jenna, achei que o simples facto de leres os jornais diários com toda a cobertura sobre a morte daquela enfermeira e a prisão da Molly podia ajudar-te a compreender por que é que estou enervado. Deves aperceber-te, minha querida, de que uma fortuna vai escapar-nos por entre os dedos se a American National conseguir aquelas OCS e depois avançar para uma aquisição hostil da Remington. Ambos sabemos que te casaste comigo por causa do que eu te podia dar. E estás disposta a descer o nível de vida?

 

Estou disposta a admitir que lamento muito ter tirado o dia de folga atirou Jenna. Tinha seguido Cal para o seu gabinete, alarmada com a tensão óbvia que ele tinha evidenciado à mesa do pequeno-almoço.

 

E se fosses visitar a tua amiga Molly? sugeriu ele. Tenho a certeza de que ela vai ficar encantada por ser consolada por ti.

 

A situação está realmente grave, não está, Cal? Perguntou Jenna, calmamente. Mas vou dizer-te o seguinte, não como esposa mas como outra lutadora: eu conheço-te; por muito más que as coisas estejam, tu vais arranjar uma maneira de sair a lucrar.

 

A gargalhada de Calvin Whitehall foi um resmungo curto e triste.

 

Obrigado, Jenna, eu estava mesmo a precisar de ouvir isso. Porém, acredito que tens razão.

 

Eu vou visitar Molly. Fiquei mesmo preocupada quando a vi na quarta-feira à noite. Estava terrivelmente deprimida. E quando falei com ela ontem, depois de a Sr.a Barry se ter demitido, ela estava bastante afectada com o golpe.

 

Tu contaste-me.

 

Eu sei. E sei que concordas com a Sr.a Barry. Tu também não gostarias de estar a sós com Molly, pois não?

 

Precisamente.

 

Cal, a Sr.a Barry levou a Molly cerca de vinte comprimidos para dormir que pertenciam a um frasco que o médico receitou ao filho dela. Estou muito preocupada com isso. Receio que como está tão deprimida se possa sentir tentada a...

 

A suicidar-se? Que ideia tão perfeitamente maravilhosa. Seria exactamente o que o médico receitou. Cal olhou para além de Jenna. Não faz mal, Rita, pode entrar com a correspondência.

 

Quando a empregada entrou, Jenna rodeou a secretária e beijou a testa do marido.

 

Cal, não brinques, por favor. Honestamente, não penso que Molly esteja a pensar em suicidar-se. Tu ouviste-a na outra noite.

 

A minha opinião mantém-se. Ela estaria a fazer um favor a si mesma se optasse por essa saída. E também estaria a fazer um favor a muitas outras pessoas.

 

Marta Jones sabia que apenas Wally tocaria à sua campainha com tanta persistência. Quando os toques começaram, ela estava no andar de cima a arrumar o armário das roupas de cama; com um suspiro paciente, desceu apressadamente as escadas, com os joelhos artríticos a protestar a cada passo.

 

Wally tinha as mãos enfiadas nos bolsos e a cabeça baixa.

 

Posso entrar? perguntou, a voz pesarosa.

 

Sabes que podes entrar sempre que quiseres, querido.

 

Ele entrou.

 

Não quero ir.

 

Onde é que não queres ir, querido?

 

Para a Califórnia. A mãe está a fazer as malas. Partimos amanhã de manhã. Eu não gosto de estar muito tempo no carro. Não quero ir. Vim despedir-me.

 

”Califórnia?”, pensou Marta. ”Que se passa?”

 

Tens a certeza de que a tua mãe disse Califórnia, Wally?

 

Sim, Califórnia. Tenho a certeza. Agitou-se e depois fez uma careta. Também me quero despedir de Molly. Não vou incomodá-la, mas não me quero ir embora sem lhe dizer adeus. Acha que não faz mal eu ir dizer adeus a Molly?

 

Não vejo que mal poderia ter.

 

Vou vê-la esta noite murmurou Wally.

 

Que disseste, querido?

 

Tenho de ir. A mãe quer que eu vá à minha reunião.

 

É boa ideia. Tu sabes que gostas sempre dessas reuniões, Wally. Escuta, não é a tua mãe a chamar-te?

 

Marta abriu a porta. Edna estava nos degraus da casa dela, com o casaco vestido, a chamar o filho.

 

Wally está aqui gritouMarta. Anda, Wally. Acuriosidade fê-la correr pelo relvado sem se preocupar sequer em ir buscar um casaco. Edna, é verdade que vais de carro para a Califórnia?

 

Wally, entra no carro implorou Edna Barry. Sabes que estás atrasado. Ele obedeceu com relutância, atirando com a porta do passageiro depois de entrar.

 

Edna voltou-se para a vizinha e sussurrou:

 

Marta, não sei se vou acabar na Califórnia ou em Tombuctu, mas sei que tenho de sair daqui. De cada vez que ligo para as notícias parece que oiço alguma coisa má sobre Molly. A última é que vai haver uma reunião especial da comissão de liberdade condicional na segunda-feira. O delegado do Ministério Público quer que a sua liberdade condicional seja revogada. Se isso acontecer, vai ter de cumprir o resto da sentença original pelo homicídio do Dr. Lasch.

 

Marta estremeceu.

 

Oh, Edna, eu sei. Ouvi isso nas notícias esta manhã e acho que é simplesmente terrível. Aquela pobre rapariga devia estar numa instituição, não numa prisão. Mas não deves preocupar-te ao ponto de fugires daqui.

 

Eu sei. Agora tenho de ir. Falo contigo mais tarde. Quando voltou para sua casa, Marta estava gelada e decidiu que precisava de uma chávena de chá. Depois de o preparar, sentou-se à mesa a bebericá-lo lentamente. ”Pobre Edna”, pensou. ”Está a sentir-se culpada por deixar o trabalho com a Molly, mas é claro que não tinha outra alternativa. Wally tem de ser a sua preocupação principal.”

 

”Pensando nisso”, recordou a si mesma com um suspiro, ”só serve para provar que o dinheiro não compra a felicidade. Todo aquele dinheiro da família Carpenter não serviu de nada para Molly se manter longe de uma cela de prisão.”Marta pensou na outra família rica e poderosa de Greenwich que estivera nas notícias nessa manhã. Tinha lido sobre Natasha Colbert, que estivera em coma durante seis anos. Por fim, ela tinha morrido, e a pobre mãe, prostrada de desgosto, sofrera um ataque cardíaco e, aparentemente, não conseguiria sobreviver. ”Talvez Deus lhe esteja a fazer um favor se a levar, pobre mulher”, reflectiu Marta, a abanar a cabeça. ”Todo aquele desgosto...”Empurrou a cadeira para trás e voltou para o primeiro andar, para acabar de arrumar o armário das roupas de casa. Enquanto trabalhava, uma sensação persistente de preocupação não parava de a incomodar. Por fim, percebeu o que a estava a causar. ”Edna teria um ataque se soubesse que eu disse ao Wally que não faria mal ele ir despedir-se de Molly Lasch”, pensou Marta. ”Oh, bem”, decidiu ela, ”provavelmente, ele estava apenas a dizer disparates, como faz a maior parte do tempo. De qualquer maneira, amanhã vai estar longe daqui. Não vale a pena perturbar Edna, mencionando-lhe a conversa. Ela já tem preocupações de sobra.”

 

Depois de deixar a irmã de Annamarie, Fran Simmons ficou sentada no carro durante alguns minutos, a reflectir sobre qual seria o melhor caminho a seguir. Uma coisa era se os médicos Gary Lasch e Peter Black tinham dado a medicação errada a uma paciente, uma droga que a tinha mergulhado num coma irreversível, e depois tinham escondido o seu erro. Por muito terrível que isso fosse, não se comparava com a deliberação de usarem uma droga experimental para acabar com a vida de um paciente. Mas, aparentemente, era isso que Annamarie Scalli pensava que tinha acontecido.

 

”E se ela estava lá na altura e sabia que não tinha maneira de provar as suas suspeitas, como posso eu ter esperança de provar alguma coisa agora?”, pensou Fran.

 

Segundo Lucy Bonaventure, Annamarie tinha dito que Peter Black fora a pessoa que não só cometera o erro como possivelmente matara também uma paciente mais idosa. Isso daria a Black um motivo suficiente para assassinar Gary Lasch? A morte de Lasch eliminara, efectivamente, uma testemunha credível do seu crime.

 

”Seria possível”, decidiu ela. ”Se se acreditasse que um médico poderia matar a sangue-frio. Mas porquê?”

 

O carro estava frio. Fran ligou o motor, puxou imediatamente o botão da temperatura até ao máximo e acendeu o aquecimento. ”Não foi apenas o ar que me gelou”, pensou, ”também estou gelada por dentro. Qualquer que fosse o demónio em acção naquele hospital, seguramente causara bastante dor a muitas pessoas. Mas porquê? Porquê? Molly foi castigada por um crime que estou agora certa de que não cometeu. Annamarie desistiu do seu bebé e do trabalho que adorava apenas para se castigar. Uma jovem foi deixada num estado vegetativo por causa de uma droga experimental. Uma senhora de idade pode ter morrido prematuramente como parte da experiência.

 

”E esses são apenas os casos que eu conheço”, pensou. ”Quantos mais poderá haver? Ora, isto pode ter ainda continuação”, pensou Fran com um sobressalto.

 

”Mas aposto que a chave está no relacionamento, ou no laço, ou no que quer que existiu entre Gary Lasch e Peter Black. Tem de existir um motivo para Lasch ter trazido Black para Greenwich e lhe ter, literalmente, oferecido sociedade no hospital que pertencia à sua família.”Uma mulher que andava a passear o cão passou pelo carro e olhou para Fran, curiosa. ”É melhor ir-me embora”, pensou Fran.

 

Sabia onde tinha de ir a seguir falar com Molly e ver se conseguia alguma luz sobre o que estava por detrás da ligação entre Gary Lasch e Peter Black. Se conseguisse determinar o que os tinha unido, então, talvez pudesse começar finalmente a compreender o que se passava no hospital.

 

Acaminho de Greenwich, telefonou para o escritório para confirmar se tinha alguma mensagem e soube que Gus Brandt queria falar com ela e dissera que era urgente.

 

Antes de passares a chamada, por favor, vai ver se o material do Departamento de Pesquisa sobre Gary Lasch e Calvin Whitehall já chegou pediu à sua assistente.

 

Está na sua secretária, Fran foi informada. Com aquela pilha para ler, não pedirá material de leitura durante uma semana, especialmente com todas as coisas que tem sobre Calvin Whitehall.

 

Mal posso esperar para me atirar a isso. Agora, passa-me a Gus, por favor.

 

O patrão preparava-se para sair para o almoço.

 

Ainda bem que me apanhaste, Fran disse ele. Parece que na segunda-feira à tarde vais visitar a tua amiga à prisão. O delegado do Ministério Público disse, e passo a citar, que não tem dúvidas de que a liberdade dela será revogada. E no momento em que souber a notícia oficial, ela estará a caminho da Prisão Niantic.

 

Eles não podem fazer isso a Molly! protestou Fran.

 

Ai isso é que podem. E eu acho que vão fazer. Ela safou-se bem da primeira vez porque reconheceu que tinha matado o marido, e no momento em que foi posta em liberdade começou a afirmar que não tinha cometido o crime. Isso, por si só, é violação da liberdade condicional, miúda. Com uma nova acusação de homicídio às costas, como é que votarias se estivesses a decidir se ela deve estar ou não atrás das grades? De qualquer maneira, faz uma peça sobre isso esta noite.

 

Está bem, Gus. Vemo-nos mais tarde disse Fran com o coração apertado.

 

Tinha planeado telefonar a Molly a seguir e dizer-lhe que precisava de falar com ela, mas o facto de Gus mencionar que ia almoçar dera-lhe uma ideia. ”Susan Branagan, a voluntária que trabalha na cafetaria do Hospital Lasch, mencionou que tinha recebido o pin de dez anos de serviço naquela unidade, o que significa que estava por lá quando uma jovem entrou em coma irreversível há mais de seis anos”, pensou Fran. ”Não é o género de coisa que aconteça todos os dias.” Ela devia lembrar-se de quem era a jovem e do que lhe tinha acontecido.

 

”Falar com a família dessa jovem e tentar obter os pormenores do acidente poderia ser uma boa maneira de começar a verificar a história que Annamarie contou à irmã”, pensou Fran. ”Mas espero não encontrar o Dr. Peter Black”, pensou Fran. ”Ele teria um ataque se soubesse que ando a fazer mais perguntas acerca do hospital.”

 

Era uma e meia quando chegou à cafetaria do hospital. A hora do almoço estava no auge, e as voluntárias trabalhavam arduamente. Estavam duas mulheres atarefadas atrás do balcão dos almoços, mas, para seu grande desapontamento, Fran viu que Susan Branagan não era nenhuma delas.

 

Há um lugar ao balcão, ou se quiser esperar um pouco está a ser levantada uma mesa, neste momento disse-lhe a hospedeira.

 

Suponho que a Sr.a Branagan não está de serviço hoje disse Fran.

 

Oh, sim. Está cá. Hoje anda a servir às mesas. Ali vem ela agora, a sair da cozinha.

 

Será que posso esperar por uma das mesas dela?

 

Está com sorte. A que está a ser levantada pertence à área dela. Parece estar quase pronta.

 

A empregada conduziu-a pela sala, indicou-lhe uma pequena mesa e entregou-lhe a ementa. Instantes depois, uma voz alegre dirigiu-se a ela.

 

Ora boa tarde. Já decidiu o que quer ou precisa de mais algum tempo?

 

Fran ergueu os olhos e percebeu imediatamente que Susan Branagan não só se lembrava dela como agora sabia quem ela era. Mantendo os dedos cruzados para não ser mal recebida, disse:

 

É bom voltar a vê-la, Sr.a Branagan. Susan Branagan resplandeceu de prazer.

 

Não sabia que estava a falar com uma pessoa famosa quando a senhora e eu estivemos a conversar no outro dia, Menina Simmons. Logo que descobri, comecei a vê-la no noticiário da noite. Adoro as suas reportagens sobre o caso da Molly Lasch.

 

Vejo que neste momento está ocupada, mas gostava de falar consigo durante alguns minutos, se estiver disposta a isso. Foi-me muito útil no outro dia.

 

E, desde que falámos, aquela pobre rapariga sobre quem me fez perguntas, aquela enfermeira, Annamarie Scalli, foi assassinada. Mal consigo acreditar. Acha que foi mesmo Molly Lasch quem cometeu o crime?

 

Não, não acho, Sr.a Branagan. Vai sair do serviço daqui a pouco tempo?

 

Às duas horas. Nessa altura, isto está praticamente vazio. Por falar nisso, é melhor fazer o seu pedido.

 

Fran olhou de relance para a ementa.

 

Quero uma sanduíche mista e um café, por favor.

 

Vou fazer já o pedido e, se não se importar de esperar, vou gostar muito de voltar a conversar consigo mais tarde.

 

Meia hora depois, Fran observou a cafetaria. ”Está exactamente como ela disse”, pensou. ”Era como se tivesse havido um exercício de prevenção de incêndios.

 

De repente, a sala estava quase vazia. Tanto o barulho dos pratos como o murmúrio das conversas tinham diminuído drasticamente. Susan Branagan tinha levantado a mesa e prometeu que voltaria daí a pouco.

 

Quando voltou, já não usava o avental de voluntária e trazia uma chávena de café em cada mão.

 

Muito melhor disse, com um suspiro, ao pousar o café e sentando-se na cadeira à frente de Fran. Como lhe disse, adoro este trabalho. O problema é que os meus pés não gostam tanto como o resto de mim. Mas não veio aqui para falar sobre os meus pés, e acabo de me lembrar que tenho marcação no cabeleireiro daqui a meia hora, por isso, em que é que posso ajudá-la hoje?

 

”Gosto muito desta senhora”, pensou Fran. ”Ela não se importa de ir directamente ao assunto.”

 

Sr.a Branagan, no outro dia disse-me que já tem o seu pin de dez anos de serviço...

 

Isso mesmo. E, se Deus quiser, um dia vou receber o dos vinte.

 

Tenho a certeza de que receberá. Gostava de lhe fazer umas perguntas sobre uma coisa que aconteceu no hospital há bastante tempo. Na verdade, foi pouco tempo antes de o Dr. Morrow e de o Dr. Lasch serem assassinados.

 

Oh, Menina Simmons, acontecem tantas coisas aqui protestou a Sr.a Branagan. Não sei se poderei ajudá-la.

 

Mas talvez se lembre deste incidente. Parece que uma mulher foi trazida para cá após ter sofrido um acidente quando andava a correr e ficou num estado de coma irreversível. Pensei que talvez soubesse alguma coisa sobre ela.

 

Se eu sei alguma coisa! exclamou Susan Branagan. Está a falar de Natasha Colbert. Ela esteve na nossa residência de cuidados prolongados durante anos. Por acaso, morreu a noite passada.

 

Morreu a noite passada!

 

Sim. É muito triste. Ela só tinha vinte e três anos quando teve o acidente, sabia? Caiu quando andava a correr e fez uma paragem cardíaca na ambulância. A senhora tem de conhecer a família Colbert; são aqueles que têm a grande cadeia de jornais, por isso são muito ricos. Depois de a rapariga ter tido o acidente, a mãe e o pai doaram dinheiro para a residência de cuidados prolongados, que ficou com o nome dela. Olhe para o outro lado do relvado... é aquele edifício encantador de dois andares que está ali.

 

”Paragem cardíaca quando estava na ambulância”, pensou Fran. ”Quem era o motorista da ambulância? Quem eram os paramédicos?” Precisaria de falar com eles. Mas não deveria ser muito difícil descobri-los.

 

A noite passada, a mãe teve um colapso quando Tasha morreu. Está aqui neste momento, e disseram-me que também teve um ataque cardíaco. SusanBranaganbaixouavoz. Está a ver aquele senhor bem-parecido ali ao fundo? É um dos filhos da Sr.a Colbert. São dois. Um deles está permanentemente com ela. O outro desceu para almoçar há cerca de uma hora.

 

”Se a Sr.a Colbert morrer por causa da tensão da morte da filha, então, é mais uma vítima do que está a acontecer aqui, seja o que for”, pensou Fran.

 

É tão doloroso para os filhos disse Susan Branagan. Claro que, objectivamente, perderam a irmã há seis anos, mas, mesmo assim, é duro quando o fim chega realmente.

 

Baixou a voz.

 

Ouvi dizer que a Sr.a Colbert ficou um pouco louca após a morte de Tasha. A enfermeira disse que ela se pôs a gritar que a filha tinha acordado do coma e falado com ela... o que, como é óbvio, era completamente impossível. Ela afirmou que a Tasha tinha dito alguma coisa do género: ”Dr. Lasch, tropecei no atacador e estatelei-me no chão”, e depois: ”Olá, mãe.”

 

Fran sentiu a garganta fechar-se. Quase não conseguiu proferir as palavras.

 

Na altura, a enfermeira estava com a Sr.a Colbert no quarto?

 

Tasha tinha uma suite, e a Sr.a Colbert tinha mandado a enfermeira para a sala de estar. Queria estar sozinha com a filha. Mas quando Tasha faleceu a Sr.a Colbert não estava sozinha. No último minuto, o médico chegou lá. Ele diz que não ouviu nada e que a Sr.a Colbert estava a ter uma alucinação.

 

Quem era o médico? perguntou Fran, embora tivesse a certeza de que já sabia.

 

O director do hospital, o Dr. Peter Black.

 

”Se as suspeitas de Annamarie eram válidas há mais de seis anos e se a Sr.a Colbert tem razão em relação ao que aconteceu a noite passada, parece que, depois de destruir Tasha, Black continuou a fazer experiências nela”, pensou Fran.

 

Impotente, olhou para o outro lado do aposento onde se encontrava o homem que Susan Branagan lhe tinha indicado. Queria correr para ele, avisá-lo de que a mãe estava em perigo por causa do Dr. Peter Black, e que ele devia tirá-la do hospital antes que fosse tarde de mais.

 

Oh, ali está o Dr. Black agora disse Susan Branagan. Está a aproximar-se do Sr. Colbert. Espero que não sejam más notícias.

 

Enquanto observavam, Peter Black falou calmamente com o homem, que acenou, ergueu o olhar e começou a segui-lo para fora da cafetaria.

 

Valha-me Deus! disse a Sr.a Branagan. Eu sei que são más notícias.

 

Fran não reagiu. Quando ia a sair, Peter Black avistou-a e os seus olhares cruzaram-se. O dele foi frio, zangado, ameaçador certamente, não os olhos de uma pessoa cuja missão era curar.

 

”Vou apanhar-te”, pensou Fran. ”Nem que seja a última coisa que faça, vou apanhar-te!”

 

Sempre que uma situação problemática chegava ao nível de crise, Calvin Whitehall tinha a capacidade invejável de eliminar todos os vestígios de frustração e ira da sua mente. Essa capacidade foi colocada à prova com o telefonema que recebeu de Peter Black, às quatro e meia daquela tarde.