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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VOZES NA CASA / Pearl S. Buck
VOZES NA CASA / Pearl S. Buck

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

VOZES NA CASA

 

A CASA GRANDE estava situada no chapadão de um mor­ro baixo, fora dos limites da cidade de Manchester, no estado de Vermont. Era uma casa antiga, edificada quase cem anos antes da morte da última Mrs. Winsten e antes que William Asher casasse com a filha desta, Elinor, mu­dando o nome da propriedade para Asher House. Não fora universal a mudança; os velhos vermonteses continuavam chamando-lhe Winsten House e sempre fariam assim. Wil­liam não se melindrava, pois gostava da casa como sempre fora. Não temia perder a própria identidade, nem lhe ocor­reu que isso pudesse acontecer. Tinha um caráter bas­tante forte para ser ele mesmo em quaisquer circunstân­cias, e, assim, desfrutar a herança de Elinor e fazê-la sua também. Em Long Island havia uma Asher House; se qui­sesse, poderia tê-la conservado para seu uso, como filho único. Mas aprendera, na infância, durante os suaves e ver­des estios de Vermont, a amar a cidade de Manchester e as graciosas montanhas que a contornavam; e vendeu a propriedade de Long Island sem pesar, quando perdeu os pais.

A Winsten House fora construída com tanta amplitude e solidez que as gerações seguintes da família não lhe ha­viam acrescido sequer uma ala. Antes de morrer, nos pri­meiros anos do século XIX, o seu fundador, Adam Winsten, precisara de uma casa grande, pois tivera uma prole de doze filhos, nove dos quais se criaram. Contudo, os netos, na maioria, tinham emigrado para o Oeste. A casa, ape­sar de imensa, não podia contê-los todos, e no Oeste, enri­quecendo na mineração do ouro e na indústria do transpor­te ferroviário, quase se haviam esquecido de que tinham vindo de Vermont. Entretanto, mais para os começos do século, sempre houvera um Winsten morando na casa, e o velho Mr. Winsten, o último deles, pai de Elinor, tão ma­gro e desolado como um olmo que envelhece, também se chamara Adam. Mas nenhum de seus filhos quis uma casa tão grande que novos criados não se disporiam a fi­car depois de verem o sem-fim dos telhados; e nenhum de­les, nem suas mulheres, quiseram levar a velha Bertha, a cozinheira que vivera na casa tanto tempo quanto cada um podia lembrar-se.

Todos os filhos acabaram indo embora, exceto Elinor, a caçula, e esta continuou na companhia da mãe e da velha prima Emma, que sempre morara na casa grande. Foi du­rante esses anos, nas temporadas de verão, que William se enamorou de Elinor. Casaram logo e muito discretamen­te depois da morte de Mrs. Winsten, vítima de um ataque de paralisia, num dia de primavera, quando trabalhara dema­siado nos seus canteiros de roseiras. A prima Emma anun­ciou, depois do casamento, que sempre desejara morar em Nova York, e assim o faria agora, pois Jessica, que era a finada Mrs. Winsten, lhe havia legado dinheiro suficiente.

Isto deixava a casa para Elinor e portanto para William, que gostou da idéia de morar ali. Os Ashers sempre tinham sido apenas uma família de veranistas, com relação ao es­tado de Vermont, e William gostava de Vermont e detes­tava aquela transitoriedade. Recém-formado pela Escola de Direito de Harvard, abrira a sua primeira e pequena banca de advocacia em Manchester, onde ainda a conservava por motivos sentimentais, pois agora, anos depois, como ad­vogado próspero, fora compelido a montar seu escritório principal em Nova York. Entre Nova York e Boston fora difícil a escolha, mas os Ashers eram uma família de Nova York e transferir para esta cidade a sua vida de negócios constituía para William um agradável equilíbrio entre o passado e o presente.

A casa grande continuava exatamente como sempre fora. Por fora, branca, de tábuas imbricadas, e venezianas verdes; mas, por baixo da madeira, as paredes eram de ti­jolo, pelo que as janelas tinham largos peitoris. A casa di­latava-se mas sem completa simetria — duas alas de um lado e três do outro, todas recuadas alguns pés da facha­da do corpo central, que tinha dois andares e era de uma simplicidade severa, exceto quanto à porta da frente, en­talhada, esta. Uma comprida alameda de olmos, agora tão anosos que William, com regularidade, mandava inspecio­ná-los e reforçá-los todos os outonos, antes que os ventos do inverno descessem das montanhas, levava ao prado, que se estendia em frente da casa. O primeiro Adam plantara os olmos deixando um largo vão entre os dois renques, de sorte que a via de acesso, espaçosa, conjugava a sua ampli­tude com a da casa. Quando a porta da frente se abria, re­velava internamente o mesmo instinto do espaço. O saguão varava o interior da casa até uma porta de vidro nos fun­dos, que abria para um jardim fechado. Uma escada dupla se unia por cima da porta, e para a direita e esquerda havia o que sempre fora chamado, desde a época do primeiro Adam, as salas de leste e de oeste.

O mobiliário ainda estava bom; era uma miscelânea agradável feita por uma velha família que comprava, em cada geração, aquilo de que gostava, agrupando-o sem preocupação de períodos. Elinor achou que havia excesso de móveis, quando se tornou a dona da casa, e convidara seus irmãos e irmãs, espalhados por estados distantes, a levarem certas peças para suas próprias casas, como recor­dação da infância comum. As cadeiras e os sofás de mog­no, forrados de veludo, e as peças especiais que sempre tinham estado na casa, como os longos espelhos ovais co­locados entre as janelas da frente, nas duas salas, natural­mente que ninguém pensou em levá-los, como não teria pensado em arrancar pelas raízes os velhos lilases e silindras, ou, menos ainda, os enormes olmos. Certas coisas per­tenciam à casa grande e os Winstens tinham delas o res­peito devido.

A casa não parecera estranha a William Asher quando para lá se mudou como recém-casado, naquele dia de fim de primavera, vinte e cinco anos atrás. Freqüentara-a du­rante cada verão de sua juventude. Os filhos do último Adam Winsten tinham sido seus amigos e neste sentido se tornara adulto junto com Elinor, só gradativamente toman­do conhecimento, à medida que os veraneios iam passando, de que estava se apaixonando por elo. Assim, também, acostumara-se com Bertha e seu marido, Heinrich, o mor­domo, e não estranhou tê-los como seus criados depois do casamento. Entretanto, não fora tão fácil habituar-se com Jessica, a filha de Bertha e Heinrich, nascida no ano que se seguira ao seu casamento com Elinor. Para o casal de criados corpulentos e idosos, ter um filho inesperado era um despropósito, segundo julgavam; e sentiam-se embara­çados e confusos. Elinor rira muito, mas concedera-lhes permissão, quando pediram, para darem à criança o nome de Jessica, que fora o de sua mãe, a extinta Mrs. Winsten. E assim a estranha e pequenina Jessica crescera na cozi­nha, às margens da casa grande, embora William mal lhe percebesse a existência, exceto para a si mesmo perguntar, às vezes, quando a entrevia, qual viria a ser o seu futuro. Filha de uma criada, era, contudo, difícil pensar nela como tal. Saindo da primeira infância, tornou-se uma menina delicada, de talhe fino, olhos azul-elétrico, cabelos de seda, em cachos, de um amarelo de ouro convencional.

Uma vez, anos atrás, quando William voltava para casa, ao abrir a porta, fechada só no trinco, encontrara Jessica na sala de leste; era então uma menina de sete anos, mas tinha um espanador na mão, pois Bertha já a estava' ini­ciando no serviço. Contudo, não manejava o espanador. Sentada numa das cadeiras de veludo rosa, o olhar absorto e brilhante, os lábios curvados para cima num sorriso vago e suave, gesticulava com a mão que empunhava o espana­dor, frágil mão de criança, branca e tenra, sem nada ab­solutamente da mão de uma arrumadeira.

Diante do olhar espantado de William, ela se recompôs, num sobressalto.

— Oh, Mr. Asher, não vi que ia chegando — murmura­ra. Saltando da cadeira, correra para a cozinha, enquanto ele gritava-lhe que não fizesse caso. Não era mais que uma criança e, embora ele tivesse receado crianças antes de seus filhos nascerem, não lhe agradava assustar uma criaturinha tão bonita e delicada. Mas ela não voltara. Na semana se­guinte, Bertha mandara-a para um colégio de freiras no Canadá, um internato inglês, cujas irmãs, havia ela dito a Elinor, seriam mais severas do que as freiras francesas.

— Jessica é tão pequena para sair de casa — dissera Elinor quase com remorso, ao contar o fato a William.

— Demasiado criança — concordara ele.

Contudo, nada pudera alterar o propósito de Bertha, e deixaram Jessica partir. Eles mesmos eram muito moços, naqueles dias, e estavam profundamente absorvidos por sua vida e seus amores. Jessica às vezes voltava nas férias de verão, mas nunca se demorava. Bertha achava-a um in­cômodo e quando Heinrich morreu, no ano em que Jessica fizera dez anos, Bertha passou a deixá-la no internato mesmo durante as férias, até completar o tempo em que devia sair definitivamente e passar a trabalhar como criada na casa grande. Todos agora estavam acostumados com ela, como criada, embora, segundo dizia Elinor, Jessica nunca viesse a ser tão segura como Bertha e provavelmen­te precisasse casar. Entretanto, conforme Elinor tornara a dizer ainda esta manhã, quem mais havia para casar com Jessica a não ser Herbert, chofer e criado da casa, para cujo serviço entrara havia uns sete anos, depois de uma su­cessão de insatisfatórios substitutos de Heinrich? Herbert logo se apaixonara por Jessica, à sua maneira tenaz e in­sossa; e por amor deixara-se ficar na casa grande, apesar das recusas persistentes, meio trocistas, meio irritadas, de Jessica.

A crônica da copa, como William chamava ao tópico, servia de benigno divertimento e exercício para a narrativa jocosa e viva de Elinor, quando ele voltava cansado do tra­balho na banca. William escutava com atenção apenas par­cial, como uma forma de distração, enquanto ela deitava as crianças. Agora, naturalmente, as crianças estavam grandes, Winsten casado, Edwin e Susan internados no co­légio. E ele havia novamente ficado só com Elinor na casa grande.

 

O trem, coleando entre os morros de Vermont, estacou na estação com uma sacudidela. William juntou seus pa­péis, enfiou-os na pasta de couro preto e preparou-se para desembarcar imediatamente. Elinor dera-lhe a pasta no último Natal; era de cor castanha, então. A diferença en­tre o castanho e o preto, numa pasta de advogado, é sutil mas profunda; e William, contemplando o presente, traíra sua própria dúvida.

Elinor rira. — Dê cá a pasta — exclamara, com um lam­pejo de frio divertimento nos olhos azuis. — Dê cá a pas­ta, William, que a trocarei por uma preta. Você sempre as usou pretas desde que o conheço e eu queria saber que efeito a mudança lhe causaria.

— A questão não é o efeito em mim — respondera ele. — Estou preocupado com o efeito nos outros. Os clientes esperam certa sobriedade.

A isto Elinor respondera apenas com o seu sorriso, um amável sorriso sob os olhos brilhantes. Ele sentiu uma sen­sação de alívio, contudo, quando, alguns dias mais tarde, encontrara a bela pasta preta, com suas iniciais impressas em ouro pálido.

Herbert pedira um dia de folga, o que explicava a volta de trem. Mas era agradável olhar pela janela do vagão e ver Elinor a esperá-lo na plataforma. Viera ao seu encon­tro, dirigindo o carro, e, depois de vinte e cinco anos de casamento, ainda era uma grata visão para ele. Trouxera o seu próprio auto, um pequeno conversível verde-escuro, cuja tolda, contudo, jamais arriava. Hoje, no fim do verão, baixara as vidraças, mas a capota permanecia levantada. Elinor sentou-se no banco da frente, fumando um cigarro com um requinte espontâneo, congênito. Era uma mu­lher um tanto alta, delgada, e jamais cortara os cabelos louros. Macios, quase lisos, estes agora começavam a em­branquecer, embora ela tivesse apenas quarenta e cinco anos; e como fossem bem louros,, e enrodilhados compac­tamente sobre a nuca como sempre os trazia, William mal o notara. Não fosse ela tão refinada, de corpo tão fino, ossatura tão delicada, poderia, como ele às vezes pensava, parecer negligente. Mas diante do seu feitio, a leve desor­dem, sempre evidente em sua pessoa, dir-se-ia acidental. Ele aprendera a não avisar que o botão do alto de sua blu­sa de seda branca ficara fora da botoeira, entremostrando um seio surpreendentemente jovem. Sabia que chamar-lhe a atenção era arriscar-se a provocar um sorriso, um dar de ombros, continuando o botão, certamente, fora da casa. Um pregador, dos muitos broches que lhe dera, teria ocu­pado o lugar de um ou dois pontos de costura necessários para apertar a botoeira. Provavelmente ela nunca daria o ponto, sabia-o ele agora.

— Herbert ainda não voltou? — perguntou William ao entrar no carro, desviando o olhar. Ela escorregou para o outro lado, cedendo-lhe o volante. Estava estabelecido en­tre ambos que ele guiava melhor porque era mais calmo e o tráfego do fim da tarde não o incomodava. No estio, Manchester era uma cidade de veranistas, distintíssimos, naturalmente, mas ainda assim veranistas. O Equinox Ho­tel ficava repleto de gente da maior posição, mas outros procuravam hospedagem menos dispendiosa e as excursões| da agência Cook, em ônibus, enchiam as ruas de algazarra.

— Vim sozinha porque queria contar uma coisa a você: Jessica resolveu casar com Herbert — disse Elinor.

— Não é possível!

— Sim, ela afinal se decidiu. Passaram fora o dia todo, juntos.

Numa curva suave, William tomou pela rua da direita e, algumas quadras além, dobrou uma esquina en­trando numa estrada que, após duas milhas de silêncio e paisagem verde, ia ter à via particular de acesso à casa grande.

— Depois de Sete anos — murmurou, com espanto.

— Sempre achei que Herbert acabaria obtendo o con­sentimento dela — disse Elinor.

— Eu queria era saber se Jessica realmente deseja ca­sar com Herbert — disse William, pensativo, mas não preocupado. Era sempre uma delícia renovada levar o carro em direção da casa maciça, no morro que ficava à sua frente, e ele diminuiu a marcha.

— Não me fale de Herbert como marido — disse Eli­nor, com uma ponta de aspereza.

William sorriu. Elinor era demasiado exigente, não gos­tava de Herbert, e menos ainda porque de fato não conse­guia encontrar faltas nele. Era um caráter exemplar, leal, honesto, reservado, laborioso, e ardendo de secreta ener­gia. Elinor não tardara a descobrir que esta energia se apli­cava numa incansável caçada de Jessica.

William recordava-se. — No verão de seis anos atrás, creio que foi isso, você me contou que Herbert estava apai­xonado por Jessica e que ela o odiava.

— Você disse — lembrou Elinor — que era uma pena que ele desperdiçasse os seus esforços e eu respondi que, se persistisse, venceria.

William voltou a cabeça para um relance ao perfil de sua mulher e viu-lhe a expressão enigmática, a severidade nos lábios delicados, a dúvida no olhar, as sobrancelhas erguidas. O vento atirava para trás leves negalhos dos ca­belos dela, deixando-lhe a fronte nua. Tinha a testa alta, não protuberante, mas inteligente e bela. Aquela expres­são significava que Elinor preferia não falar mais no as­sunto. William caiu em silêncio, sabendo que, se ela se dispusesse, falaria, explicando-se inteiramente sem ser constrangida.

Devagar, enfiou o carro pela alameda de olmos, deteve-o exatamente no ponto adequado, abriu a porta para Elinor e desceu pelo outro lado. Nesse momento, Herbert saiu da casa pela porta da copa, a fim de recolher o carro. Vestia ainda sua fatiota azul, com paletó de trespasse, a melhor que possuía.

— Boa tarde, Mr. Asher — disse.

— Boa tarde, Herbert — respondeu William, parando com o pé no primeiro degrau do pórtico. Este fora acres­centado à casa apenas cinqüenta anos atrás, pelo avô de Elinor. —Soube que está de parabéns — prosseguiu.

No rosto de Herbert o tom vermelho-tijolo não se acen­tuou. — Jessica deu o consentimento hoje — disse ele. Tinha uma boca sem lábios, mas os seus olhos pequenos e acinzentados não demonstravam dureza.

— Muito bem — disse William. — Você tem sido um homem fiel.

— Nunca olhei para outra mulher — disse Herbert. Sua voz, monótona e firme, ia bem com seu corpo atarracado. Nalgum ponto de sua linha de ascendentes, pensou Wil­liam, antepassados holandeses tinham-lhe dado a complei­ção reforçada, as mãos grossas.

William sorriu e subiu a escada. Herbert levou o carro para a garagem. Elinor já estava no interior da casa; com a leveza e rapidez de sempre subira os degraus de mármo­re enquanto eles conversavam. William não a localizou, contudo. Já estaria na cozinha, ou num dos andares supe­riores, ou no jardim; e penetrou na casa silenciosa. Não lhe importava a ausência dos filhos, consciente de que atra­vessavam a idade inatingível, perdidos num túnel tempo­ral de onde sairiam quando se tornassem completamente adultos, como já estava acontecendo com Winsten. Podia falar com o filho mais velho como a um homem, mas Ed­win ainda era impossivelmente jovem e opiniático. Susan, como mulher, ele tinha consciência de não a conhecer; e a criança de antes desaparecera de todo. Aceitava a afir­mação de Elinor de que Susan era tudo quanto ele havia esperado; e ia-se contentando em sabê-la certamente mui­to bonita, embora lamentavelmente não tivesse herdado o talhe sempre delgado da mãe. Susan saía ao lado paterno da família. Morena e propensa a engordar, teria de cuidar de seu regime alimentar, o que já aprendera a fazer. Uma vez, quando na casa dos trinta anos, ele havia engordado, mas só se acautelara na mesa sob a pressão do alarma que a repulsa de Elinor lhe causara. Enquanto vivesse, ha­via de lembrar-se daquela cena de meia-noite.

— Você não gosta mais de mim como antes, Elinor. — Dissera-o porquê ela voltara a cabeça para um lado.

— Ora... — murmurara ela.

O desejo, subindo em busca da plenitude, subitamente refluíra. William agarrou-lhe o queixo.

— Escute, diga-me a verdade!

Ela ficara com vergonha de contar-lhe mas o fizera por­que ele a havia constrangido, e naquela noite, pela primei­ra vez, William começou a compreender a diferença entre si e Elinor, a diferença que, na verdade, distingue o homem da mulher. Nela, a paixão era uma secreta e límpida fon­te que lhe impregnava todo o ser, nervos e sentimentos, enquanto nele era um rio, autônomo e poderoso. O rio flu­ía independentemente de tudo o mais, com seu curso im­perioso e próprio, mas a fonte, nalguma parte, podia ser estancada pela repulsa, pelo mau humor, por pensamen­tos escondidos.

Os filhos varões pareciam-se com os Winstens; em razão de algum capricho da hereditariedade, eram altos, louros e belíssimos, mesmo desnecessariamente, sobretudo Ed­win. Mas Susan tinha os cabelos escuros e encaracolados. Ele gostava muito de Susan, tinha-lhe uma ternura especiale secreta que justificava com o pretexto de que se tra­tava de sua única filha.

No patamar do primeiro andar encontrou Jessica, com sua pressa habitual. Uma frágil criaturinha, deslizando pe­lo corredor amplo e longo, o uniforme verde pálido esvoa­çando, o avental branco a ondular e o laço nas costas todo pontas e fitas. Tinha apenas vinte e quatro anos e parecia muito mais moça.

— Não se apresse tanto, Jessica — advertiu ele. — Um dia leva um tombo escada abaixo.

— Ora, eu não me importo com o que me acontece, Mr. Asher — respondeu ela. Tinha as mãos cheias de toalhas limpas, estava guardando roupa lavada, e o cheiro de li­nho passado a ferro a seguia como um aroma. Seu próprio aspecto era de extremo asseio. Trazia as tranças louras tensamente enroladas em torno da cabeça e pequenos anéis de cabelo, úmidos de suor, lhe circundavam o rosto.

— Sempre correndo — murmurou ele. — Só de ver você fico cansado. Então vai casar com Herbert, depois de to­dos estes anos!

De súbito ela deu uma risada. — Ah, esse homem! Te­nho de me livrar dele, de algum jeito. Coisas de minha mãe. Diz ela que é tempo. Para mim poderia ser ele ou outro qualquer.

Era uma criatura tão infantil, embora mulher adulta, que instintivamente, só de vê-la, sentia-se bom humor. Seus uniformes, azuis, ou cor-de-rosa, ou verdes, sempre em tom claro, suas pequeninas toucas e aventais brancos, de pregas, tornavam-na tão irreal como uma criada de palco.

— Não sei se poderá livrar-se de um homem casando com ele — disse William, um pouco mais sério do que se sentia.

— Ora, pelo menos ele não continuará pedindo a minha mão — retrucou Jessica. Falava corretamente, com uma pronúncia clara e pura, resultado dos anos que passara no internato. Bertha marcava a sua meia língua com o to­que da guturalidade e da dureza germânicas e Heinrich jamais conseguira dominar a língua da pátria adotiva. Mas esta filha de ambos falava com uma doce voz argentina e suas palavras tinham uma beleza de coisa esculpida. Certa vez, William dissera a Elinor que Jessica voltara do inter­nato falando inglês como um anjo e ela perguntara: — Os anjos falam inglês?

— Falam línguas — respondera ele — das quais o in­glês é sem dúvida a mais bela. — Gostava do inglês casti­ço, era um tanto requintado em matéria de literatura, e freqüentemente achava que, se houvesse disposto de tem­po, talvez fosse escritor.

— Bem, suponho que você sabe o que está dizendo — murmurou agora para Jessica, que ficara parada, os bra­ços cheios de linho cheiroso. — Aliás, todos os jovens pa­recem julgar que o sabem.

Foi para o quarto, onde tudo estava disposto, como de costume, para o banho e troca de roupa. Jessica encarre­gava-se destes preparativos para ele e para Elinor, e iam sentir falta dela, a menos que, naturalmente, continuasse no serviço da casa, o que William não esperava. Herbert Morris não haveria de querer que sua esposa permaneces­se empregada, embora provavelmente pedisse um aumento de salário em razão do casamento.

Desviou o pensamento da idéia de Herbert Morris casa­do com Jessica. Havia algo de repugnante na cena que se intrometeu na sua consciência, como a apresentação de um filme proibido: aquele corpo maciço e animalesco pre­so à límpida delicadeza de Jessica. William escandalizou-se de sua própria imaginação. Por mais civilizado que ele próprio se acreditasse, eram aflitivas as caretas do cérebro humano. Não desejava, realmente, imaginar Herbert Mor­ris de qualquer maneira, e não experimentava mais que extrema repulsa pelo homem, exceto como lhe aparecia diariamente, respeitável e decente na sua libré de moto­rista, ou com o paletó de criado. Pelo que lhe dizia respei­to, era este o único Herbert Morris que existia. Também não tinha o menor interesse na límpida delicadeza da arrumadeira Jessica. Segundo acreditava, era um homem de coração limpo, e isto por escolha e gosto; no entanto, cá estava o seu pensamento caricato, e se este podia assim exibir a sua anarquia íntima, a besta secreta, considerou ele, reconhecendo-o com relutância, que não seria de ou­tras mentes menos vigiadas que a sua?

Isso não comportava reflexão. Abandonou o assunto, voltando-se firmemente para os aspectos claros e incorpó­reos da lei. Na ocasião, tinha a seu cargo uma curiosa de­manda de dois inventores que infelizmente haviam criado melhoramentos quase idênticos no processo mecânico de secagem dos tecidos de lã. Independentemente um do ou­tro e com recíproco desconhecimento, os dois cérebros ti­nham seguido caminhos estranhamente semelhantes. Qual deles se antecipara no trabalho de criação? E que inexo­rável tudo isso, que um deles conseguira, pela sua pres­teza, alcançar em primeiro lugar a meta do registro da pa­tente! Nessa fria meditação, terminou de mudar roupa e desceu para jantar, com uma serena e prazenteira dispo­sição de ânimo. Jessica e Herbert tornavam a ser apenas dois criados.

Imediatamente recebeu um choque. Enquanto descia a escada, pisando sem ruído a passadeira, viu Jessica. Apro­veitando, supôs ele, o espaço de tempo que faltava para o jantar, enquanto esperava que os donos da casa apareces­sem, fora para a sala de leste e sentara-se na cadeira de veludo rosa. Não era só isto. Desfizera-se do avental e da touquinha, e deslocara a cadeira de modo que pudesse ver­se no longo espelho oval entre as janelas. Chegara mesmo a alterar o penteado; os cabelos cercavam-lhe o rosto numa vaporosa nuvem amarela, e ela falava em tom de coló­quio, em voz baixa, musical, e com grande clareza. Wil­liam parou na escada, recordando com alguma indignação a mesma cena ocorrida anos antes, e que, supunha, levara Bertha a decidir-se pelo internato. Mas o pior era isto. Jessica, na realidade, dirigia palavras de amor a uma pessoa invisível.

— Mas meu querido — dizia — não vês que te amo? Tudo o que faço é por ti. Esta casa, o jardim, eu própria, será que me importaria com tudo isso como me importo, se não fosses tu? Ficaria aqui quando poderia estar na Ingla­terra, ou na França, ou na Itália, se não fosses tu?

Riu docemente para alguém, sacudiu os cabelos para trás e estendeu os braços.

Era monstruoso, pensou ele estupefato. Ficou satisfeito porque Elinor não vira aquilo. Avançou com firmeza e Jessica, ouvindo-lhe o passo, voltou-se com um vivo gesto de terror.

— Oh, é o senhor... — disse, num sopro.

Seu rosto se pôs absolutamente branco, de um branco azulado; agarrou nervosamente avental e touca, repondo-os com mãos rápidas e trêmulas.

— Estava se imaginando numa peça de teatro? — per­guntou William, sem aspereza.

Jessica olhou-o como se não compreendesse. — Por fa­vor, por favor, não conte a ninguém! — sussurrou.

— Então acha que estava fazendo o que não devia? — perguntou William.

— Por favor! — suplicou ela.

— És muito tola — disse ele com severidade.

Jessica tornou a encará-lo com aquele olhar espantado, de incompreensão, e escapou na direção da cozinha. Por um momento, William ficou imóvel, com uma expressão de desagrado, franzindo a boca firme, depois resolveu dei­xar o caso para trás. O que Jessica dizia diante do espelho era tão absurdo que não valia a pena contá-lo, nem mes­mo a Elinor.

 

Na cozinha, Herbert e Bertha olharam para Jessica quando irrompeu na peça, a touquinha oblíqua, o avental torto.

— Estás com um jeito como se alguém estivesse te per­seguindo — disse Herbert, num afetuoso esforço para di­verti-la.

— Desci a escada correndo — disse ela, procurando dominar a respiração acelerada.

— Ela sempre anda correndo — queixou-se Bertha. — Pra quê? Nom atianta nada.

Mas a atmosfera era benigna. Não iam repreendê-la, pelo menos hoje, concluiu Jessica; e dando-lhes as costas, pôs-se a colocar as taças de caldo na bandeja de prata. Sua vida era diferente e separada do resto da casa, uma vida dentro de outra, e os dois mundos, que se encontravam somente nas questões de serviço, espiritualmente nada tinham a ver um com o outro. Bertha, de uniforme de algo­dão cinzento, o rosto firme, corpulenta, cheia de senso, es­tava sentada na mesa de serviço, cortando o assado em fa­tias, para Herbert. Jessica continuava de pé. Em todas as outras mesas, as travessas se achavam em desordem, mas a mesa oblonga, do centro, estava posta, com os descansos de palha para as travessas, e as facas e garfos da baixela da cozinha, de cabos vermelhos. Herbert sentara-se na pon­ta que pertencera a Heinrich, em vida. No dia em que Ber­tha o mandara ocupar aquele lugar, fazia seis anos, Her­bert compreendeu que ela estava de seu lado. Levara seis longos anos para convencer Jessica de que ia casar com ela, acossando-a durante sete anos, mas agora, olhando para trás, tinha a impressão de que, se Heinrich não tivesse mor­rido, ainda a estaria acossando e ela ainda não teria cedi­do. O pai de Jessica estava sempre do lado dela, não lhe importava o que a filha quisesse.

— Senta, menina — ordenou Herbert.

Jessica sentou-se e começou a comer delicadamente do prato que sua mãe enchera alto. Sua mãe jamais conseguia aprender que a vista de tanta comida lhe repugnava e, havia muito tempo, deixara de queixar-se.

— Miss Elinor me disse que troussesse uma garrafa de champanha pro prrinde — disse Bertha, agora.

Levantou-se, pesadamente, e gingando foi à geladeira buscar a garrafa.

— Hã — fez Herbert, limpando a boca com as costas da mão. — Foi uma delicadeza da patroa. Depois da cer­veja, não sei de nada que se possa arranjar tão bom como champanha. Um copo de cerveja gelada é sempre o que eu prefiro, mas isso não quer dizer que seja contra o cham­panha, uma vez que outra.

— Jessica, "liebchen", come — ordenou Bertha. — Hoxe é um grande dia pra "die alte mutter".

Jessica ergueu os olhos, trêmula, frágil, cônscia de que os dois rostos convergiam para ela, cada um com sua terrí­fica paixão particular, como se, pensou, ela fosse um rato e eles dois gatarrões afetuosos. Sorriu um sorriso brilhante e pronto, sua armadura defensiva.

— Ora, estou comendo, mãe — disse alto, com sua voz clara e doce, e continuou sorrindo enquanto sua mãe ser­via o vinho espumoso nas taças classificadas logo após as melhores da casa.

Ergueram-nas alto, à moda alemã, Herbert acanhado constrangido, incapaz de participar da expansibilidade sen­timental de Bertha.

— À saúde de vocês, meus filhos — disse Bertha. — Sexam felizes, meus querridos, e me dêem netos. Herbert, sexa pom pra minha "liebchen", e tu, Jessica, sexa poa esposa, como te ensinei.

Beberam, Bertha solene e lenta, Herbert aos grandes go­les, Jessica em rápidos sorvos.

— Ah — fez Bertha, descansando na mesa a taça va­zia. — Eu penso no teu "Heber fater". Como nom estarria contente hoxe, Jessica!

— Não fale nele — disse Jessica, ríspida.

— "Ja, ja" — concordou Bertha. — Nada trriste hoxe. Isso mesmo. Agora come, "liebchen".

Retomou a faca e o garfo, cortou em grandes pedaços quadrados o assado que tinha no prato e atacou decidida­mente o seu jantar.

Herbert não falava, enquanto comia. Fora criado numa granja onde não se devia pensar em conversa durante a re­feição. Agarrava o garfo verticalmente com a mão esquer­da, enquanto serrava a carne com a faca, segura na direi­ta. Jessica afastou o olhar. Quando estivessem casados, havia de lhe dizer que o garfo não se empunhava daquele jeito. Sim, por que ele não tivera, como ela, a oportunidade de aprender estas coisas. Ela servia à mesa e via como as pessoas pegavam o garfo, pessoas que sabiam.

Mr. Asher manejava o garfo e a faca com tanta distin­ção, e comia de um modo que nunca era repulsivo. Sempre gostara de Mr. Asher, mesmo quando não passava de uma menina. O casamento dele com Miss Elinor era um verda­deiro romance, como nos contos de fadas, o belo moço mo­reno, de maneiras distintas, voz agradável e nada de repul­sivo em sua pessoa. Agora fitava os olhos no prato enquan­to comia, servindo-se dos menores bocados, cuidando de não olhar nem para Herbert nem para sua mãe, que eram repulsivos enquanto comiam. Mas já estava com vinte e quatro anos, e ninguém mais a pedira em casamento, por­que jamais o permitira, pois quem mais havia ali senão empregados de açougue, caixeiros de mercearia e lojistas? A Herbert também tentara impedi-lo desde o princípio, seis anos antes, mas ele não era homem que se impedisse. Andava sempre perto e simplesmente mantinha-se dizendo e redizendo a mesma coisa, e a mãe a falar que ela devia casar com alguém e nesse caso por que não Herbert, que era firme e bom? Podiam ir morar na casa do aviário e Her­bert repararia pelas coisas, à tardinha. Seria um lar para todos eles, mesmo para sua mãe, quando ficasse muito ve­lha para continuar trabalhando.

— Nom belisca, Jessie — neste momento lhe disse Ber­tha, com aspereza. — Come tirreito, como eu te digo.

Imediatamente perdeu todo o apetite. Quando era peque­na, uma menina pálida, sempre magrinha, sua mãe lhe metia o alimento boca adentro, tapando esta fortemente com a manápula espalmada para impedi-la de rejeitá-lo. Uma vez, mordera-lhe a palma da mão e ela cobrira-lhe a boca de tapas até fazê-la sangrar, e depois seus dentes, durante algum tempo, haviam ficado frouxos. No entanto, sabia que sua mãe lhe queria bem. Sua mãe amava-a muito, muito, e eis por que era tão feio não corresponder à sua afeição.

Herbert parou no ar o garfo cheio: — Tu precisas botar um pouco de carne nos ossos. Te sentirias muito melhor.

— Ora, eu me sinto bem assim — disse ela, rindo. Soou a campainha da sala de jantar e Jessica, pulando da cadeira, correu para a porta. — Ah, eles terminaram — gritou.

— Ela toma xuízo quando casar — disse Bertha.

— Há de tomar — disse Herbert.

— O pai dela era meio tonto — continuou Bertha — ti­nha fenetas, era tesinquieto, também. Eu sentei o xuízo dele quando casei com ele, "ja", xustamente como suxeito Jessie também, quando ela está comigo. Ela me ouve, e há de ouvir você, vai ver.

— De qualquer forma — disse Herbert — hei de ser bom pra ela.

— Naturral — disse Bertha — eu também sou pom. Por que nom ia ser? Ela é tudo o que eu tem.

 

O outono era a estação preferida de William. A prima­vera nunca o entusiasmara, embora nela tivesse visto o seu amor nascer. Como fosse primavera, desconfiara da violen­ta atração experimentada no momento em que vira Elinor, naquela temporada de veraneio, quando ela estava com vinte e dois anos. Desconfiara sobretudo porque anterior­mente a vira durante anos, no verão, sem pensar em amor. No veraneio anterior, andara mesmo de namoro com uma moça bem diferente. Marian Heyworth era uma vizinha — bonita, pensava ainda, quando de vez em quando a recor­dava, não com qualquer interesse, mas com uma plácida admiração pela mudança que se operara na vida dele. Os Heyworths possuíam uma casa de veraneio perto da dos Ashers, em Manchester, e Marian fora correta com Elinor, depois do primeiro choque. Na verdade, fora a acusação de Marian que lhe revelara toda a profundidade de sua nova paixão. Ele era de uma natureza realista, contudo, e, quando Marian o enfrentara com a verdade, reconhecera-a.

— Acho que tem razão, Marian — dissera. — Lamento muito, mas é isso mesmo.

Nunca o lamentara, naturalmente. Elinor não era apenas, sua mulher, era ainda sua amada, uma combinação raríssi­ma, acreditava ele, depois de tantos anos. Mas não se de­cidira a declarar-se senão quando o verão já ia avançado. Fizera-o num período de mormaço, num dia especialmente desagradável, quando ambos tinham descido a remo o tre­cho superior do riacho próximo da casa. Fora prontamente aceito. Elinor não parecera surpreendida. Quando ele per­guntara por que, dissera com voz prosaica: — Eu estava esperando, William. Marian me disse que você tinha lhe falado.

Ficara espantado diante desta franqueza entre as duas jovens a quem conhecia mais de perto; contudo, não fizera nenhum comentário. Dois homens nunca teriam falado nes­se assunto sagrado, mas ele agora sabia que para as mu­lheres nada era sagrado. Encolheu-se ao pensar nisso, mas sabia que era verdade. As reuniões de bridge de Elinor con­firmavam esta convicção. Inteiramente contra sua vontade, surpreendera algumas vezes os comentários daquelas sete mulheres, de Manchester ou cercanias, as melhores ami­gas de Elinor, e cujos maridos eram também os melhores amigos dele, no "country club"; e sempre ficara escanda­lizado. Não acreditava que Elinor fosse tão maliciosamen­te franca como as sete esposas imprudentes, mas não ou­sava perguntar-lhe. Limitava-se a continuar acreditando que não o era, porque a considerava singular entre todas as mulheres e muito próxima da perfeição. A graciosa cabeça dela, equilibrada no pescoço delgado e talvez demasiado longo, os macios cabelos de ouro e prata no coque sobre a nuca, até hoje lhe encrespavam o sangue de prazer. Não po­dia furtar-se de tocá-la quando passava por ela, ora apertando-lhe os cabelos no contorno da cabeça, ora apalpando-lhe os seios pequenos e firmes.

A sua estação predileta era, pois, o outono, os primór­dios do outono, que em Vermont começa em fins de agosto e termina com a primeira nevada. À sua maneira, gostava da vida ao ar livre. Sem queda para nenhum gênero de caça encantava-se, porém, na visão das curvas suaves dos montes, na mudança de cor nas árvores. Esta manhã, quando descia a escada, viu uma peninha cinzenta sobre o tapetecastanho-ferrugem da sala de estar, abaixou-se e apanhou-a. Era a pena de algum passarinho silvestre, o ven­to soprara-a para o interior da casa quando a porta fora aberta, talvez por Jessica quando varria. Mas que delícia morar numa casa grande onde ainda se podia topar com uma pena de pássaro em cima do tapete! Guardou-a entre as folhas do livro que estava sobre sua própria mesa de lei­tura, o livro do momento, que agora lia enquanto esperava que Elinor descesse para o primeiro almoço. Casualmente tratava-se de Proust e afligia-o compreender quão remota era a história, quão distante da França de hoje, ou, na ver­dade, da vida em qualquer parte do mundo. Sentia a per­manente e oculta nostalgia que todos os homens de sua idade experimentavam, supunha ele, pela época que conhe­ceram como moços, os anos seguros, sólidos e felizes que misteriosa, simplesmente, se haviam interrompido. A seu modo, fora um jovem radical, alarmara os pais como hoje era alarmado por Winsten e Edwin, não porque fossem ra­dicais, longe disso, mas por serem tão conservadores, tão cautos, tão perigosamente precavidos contra qualquer ali­ança com a mais leve possibilidade de revolta. Nunca te­riam existido dois jovens mais moderados que seus filhos, e ele, como liberal, escondia-lhes suas próprias dúvidas e interrogações. Continuava classificando-se como liberal, um liberal conservador naturalmente, mas com certeza um liberal, ponto de vista que desagradava a seus filhos. Susan, até agora, não demonstrara interesse nem pela políti­ca, nem pelo mundo, nem por qualquer coisa que não fosse ela própria e suas oportunidades matrimoniais. Às vezes, afligia-o a permanente preocupação com que ela buscava um companheiro. Certamente Elinor não fora tão evidente nem tão determinada. Acima de tudo, Susan desprezava, era esta a sua palavra, as mulheres que no passado haviam dedicado a vida ao feminismo, ou, conforme ela preferia designá-lo, à igualdade dos sexos. A própria avó dele fora amiga e colaboradora de Elizabeth Cady Stanton, mas Su­san pedia-lhe que não falasse nisso. Entre as fotografias da família havia um retrato das duas juntas, de saias-balão e bucles, e Susan, topando certa vez com a imagem da an­tepassada, dera vazão a um escárnio feroz.

— Mulheres como essa nos prejudicaram de tal maneira diante dos homens que já não podemos corrigir o mal!

— Explique-se — reclamara ele.

— Então não vê, papai? — gritara Susan. — Elas fize­ram os homens odiar-nos!

— Tolice — dissera ele. — Eu não odeio mulher algu­ma.

— Você não gostaria que eu fosse advogada, hem? — perguntara ela com astúcia.

— Não creio que fosse uma boa advogada — dissera ele. — Você não tem uma inteligência lógica.

— Aí está o que eu digo! — replicara ela. — Se não fossem essa Stanton e sua casta você não teria pensado na minha inteligência e eu teria sido o que me agradasse.

— Deseja ser advogada? — perguntara-lhe, depois de um momento de reflexão.

— Não, cloro que não — dissera ela, com uma calma afrontosa. — Só queria apanhar você.

William se resignara. Nada alcançaria com esta gera­ção. Impossível conversar a sério com eles. Sacrificavam a própria alma por uma piada, forma de expressão que abo­minava como destruidora não só da comunicação sensata como da própria civilização.

Elinor desceu, nesse momento. William pôs o livro de lado e mostrou-lhe a minúscula pena cinzenta.

— Olhe o que encontrei no chão, que o vento do outono soprou cá para dentro.

Elinor olhou para a pluminha e sorriu, distraída. — Acho que é simplesmente uma pena de pardal. Provavelmente dois pardais andaram brigando: estão sempre brigando nas calhas do beiral.

William a repôs entre as folhas do livro, sem responder. Vezes havia em que Elinor lhe percebia perfeitamente o es­tado de espírito, respondendo com tão delicada proprieda­de que ele não podia furtar-se de abraçá-la. Noutras oca­siões, como agora, destoava. Ele compreendia exatamente o que isto significava. Esta manhã sua mulher estava alhea­da, tinha de ser deixada só, não devia beijá-la com sofre­guidão, andava perdida no futuro, continuando sua vida sem ele, que talvez de nada ficasse sabendo. Levara muito tempo, pelo menos dez anos, para compreender que o ca­samento consiste em grande parte no mútuo respeito do hu­mor de cada um, egoisticamente talvez, a fim de que o cír­culo não se rompa. Haviam-se chocado bastante nos pri­meiros anos de casados, porque ele tivera por estabelecido que, se não se esperava da esposa que obedecesse ao mari­do, esperava-se pelo menos que o considerasse a ele antes de se considerar a si mesma. Sabia agora que Elinor, com toda a sua delicadeza, era de uma fibra mais resistente que a sua. Mais do que ele, sua mulher se bastava; e podia, com uma impassibilidade cruel, deixá-lo totalmente à mercê de tal circunstância.

O que era verdade com relação a Elinor, suspeitava Wil­liam, era verdade com relação a todas as mulheres. Sabiam dispor de sua própria vida e assim faziam, ou aberta e ho­nestamente como Elinor, ou então secretamente. No entanto, sentia-se completamente feliz com ela, de um mo­do que às vezes até o surpreendia. E continuava apaixona­do, embora houvesse ocasiões em que Elinor o deixasse ir­ritadíssimo.

Sentaram-se à mesa do almoço matinal, um rito de que gostava tanto, que sentia pena dos amigos cujas mulheres não saíam da cama a tempo de participar desta hora. Eli­nor também o prezava e não lhe ficou insensível esta ma­nhã, pois, a despeito de seu alheamento, levantou-se para lhe beijar o alto da cabeça, quando se tornou evidente que ele não ia beijá-la. William aprendera a deixá-la entregue a si mesma quando estava absorta; e esta era a sua recom­pensa: como agora, viria num alvoroço até ele, ainda que somente para uma coisa tão leve, tão pouco perceptível, quase desdenhável, e contudo tão apreciada, como um beijo no alto de seus cabelos. Conteve-se para não retê-la en­quanto a tinha perto de si e foi novamente recompensado com um olhar luminoso, quando ela tornou a sentar-se.

— Gosto desse traje cinzento com a gravata castanho-avermelhada — disse ela com animação.

— Obrigado — respondeu ele, calmo. — Também gosto.

O almoço seguiu então o curso habitual. Tinham-se en­carado, haviam tomado a temperatura um do outro, ti­nham renovado sua mútua aprovação e entendimento. Saiu de casa para o escritório de Manchester, alguns minutos depois, e apesar de Elinor, à despedida, o haver beijado um tanto calorosamente, pôde concentrar toda a atenção no trabalho. Seu casamento era totalmente feliz e, por conse­guinte, era uma coisa segura.

 

A placidez em que deixara a casa, pela manhã, estava turvada quando voltou à noite. Elinor veio ao seu encontro na porta, com um dedo nos lábios e um olhar de advertên­cia na direção da cozinha.

— Agora que é? — perguntou ele, num tom um pouco mais baixo do que o habitual.

— Bertha está novamente zangada com Jessica — sus­pirou Elinor. — Nenhuma delas quer explicar o que há. Jessica trancou-se lá em cima e Bertha anda carrancuda em roda do fogão.

William não era tão paciente com os criados como Eli­nor, embora reconhecesse que essa paciência, herdada dos Winstens, era premiada pela adesiva lealdade de Bertha. Quarenta anos haviam incrustado fundamente Bertha na família, como uma pérola na ostra, tão valiosa em geral e, no entanto, tão irritante, pensava ele por vezes, como sem dúvida deve sê-lo a pérola.

— Herbert não me falou nada — disse, absorto. Durante todo o trajeto para casa, Herbert fora apenas uma figura de dorso maciço, no seu lugar de motorista.

— Talvez não saiba — disse Elinor.

— Escute — observou William, passando o braço em torno dela. — Você não deve permitir que os criados a in­comodem. — Estava satisfeito por não lhe ter contado a cena de Jessica diante do espelho.

— Não penso assim com relação a Bertha e Jessica — respondeu ela.

— Quem permite que os criados se tornem seres huma­nos — replicou ele — vai ao encontro de incômodos. Há outras cozinheiras tão boas como Bertha.

— Pobre Bertha — disse Elinor, mas abandonou-se com prazer ao braço de William enquanto andavam em direção à sala de estar. A bandeja do coquetel estava posta, tarefa que competia a Jessica mas que Elinor executava natural­mente, quando Jessica se fechava a chave.

— Misture bem, querida — disse William. Elinor apa­nhara a coqueteleira gelada, que a umidade embaciava. — Enquanto isso, vou me arrumar um pouco. Desculpe o meu atraso.

Quando se aprontou e desceu, Herbert esperava de pale­tó branco, e a casa, segundo todas as aparências, se apre­sentava como de costume numa bela noite de outono. As portas de comunicação com a sala de jantar estavam aber­tas, havia dois talheres à mesa. Pensara que, quando os filhos tivessem deixado a casa para ir estudar, ambos sen­tiriam a solidão, na casa tão grande, anteriormente sempre cheia de crianças e agora tão silenciosa, tão vazia na apa­rência. Descobrira, depois de muito poucos dias, que as suas apreensões eram vãs. A casa mantinha-se numa deli­ciosa quietude, ele não sentia falta das vozes juvenis e agudas, do martelar de passos na escada, dos berros do alto das janelas superiores. Era agradável vagar pelas salas, afi­nal postas em ordem, achar um livro onde o deixara, e nada de montes de revistas humorísticas. Somente de noite, às vezes, quando rondava insone, via os pequenos fantasmas das crianças que os filhos tinham sido, Winsten aos dez anos, um franzino garoto louro, sempre saltando, correndo, arremetendo pelos corredores; Edwin, o moreno, afundado numa cadeira da biblioteca, sempre a mesma, com a cabe­ça inclinada para um livro, as feições escorçadas. Muitas vezes, quando ele mesmo se sentara na cadeira, esta ainda estava quente do corpo do filho. E o fantasma de Susan, carne de sua carne, e no entanto eternamente feminina e estranha a ele, voltava na noite com os outros, eram de no­vo as crianças de antigamente, e ele sentia saudade e o assomar da velhice porque se haviam ido. Pois, embora vol­tassem para o Natal e durante o verão, isto já não era um regresso à casa. Para os filhos, a casa era agora apenas um breve ponto de escala no caminho do destino final. Não estavam perdidos para ele, pois haviam sido seus, recém-nascidos e inermes, depois garotinhos aprendendo a andar e a falar, depois escolares impulsivos, e turbulentos na ado­lescência. Eram estes os filhos que guardava na memória; e não sentia falta dos compridos e desajeitados adultos que voltavam com tanta brevidade para usar sua casa como um i lugar onde tomar banho e trocar de roupa antes dos bailes e jantares, um lugar onde dormiam e comiam gratuitamen­te. Às vezes desejara saber, quando já estavam crescidos, o que pensavam dele e da mãe, e se chegavam a sentir fal­ta da primitiva intimidade. Observando-os, concluíra que não sentiam falta de nada, e que não pensavam. Trilha­vam o seu caminho para lugares desconhecidos, tocados pe­los ventos de seus próprios desejos.

Contudo, isto era apenas um estado noturno de seu es­pírito. De manhã, acordava, sentia o repouso do silêncio; e, depois de tomar banho e vestir-se, o seu reflexo no es­pelho não era o de um homem de idade. Muito ao contrá­rio, tinha o aspecto do que era, um homem no vigor dos anos, sem qualquer sinal de calvície, levemente grisalho exceto nas fontes, mais encanecidas. Mas herdara os cabelos duros, uma autêntica escova enquanto não encontrara um barbeiro na cidade que soubera subjugá-los com um corte habilidoso... Sim, não sentia falta dos filhos. Fican­do só com Elinor, o seu ardor renovava-se.

— Está pensando nas crianças? — perguntou Elinor, pe­netrante.

— Como soube? — disse ele. Estava acostumado com este sexto sentido, intuição, telepatia ou o que fosse que ela possuía, mas já não o temia nem se melindrava, como acontecera uma vez, quando eram jovens. Anos atrás, en­tregara-se ao seu casamento e agora nada havia nele a es­conder, nem sequer a vontade, dantes tão obstinada, de conservar pelo menos a própria individualidade.

— Conheço o seu olhar paterno. — A voz dela era terna, daquela ternura particular de que já fora tão ciumento, porque lhe parecera, nos anos da juventude, quando nunca se satisfazia com o que recebia dela, que Elinor amava mais as crianças do que a ele.

— Estava perguntando a mim mesmo se os nossos filhos sentem alguma falta de nós — disse.

— Claro que não — respondeu ela. — Se sentissem, sig­nificaria simplesmente que estavam em retirada.

William prosseguiu para confessar sua culpa. — Então suponho que não seja um mal não sentir falta deles. Acho agradável estar só com você na casa, como era quando não tinham nascido.

A casa, então, parecera-lhe excessivamente grande e sentira-se ansioso por vê-la cheia de crianças. Agora, já não lhe causava aquela impressão, talvez por causa dos lépidos fantasminhas que podia convocar para a memória de um momento. A vida animara a casa e continuava animando-a. Contudo, Elinor e ele eram muito diferentes das duas jovens criaturas que tinham vindo aqui, recém-casadas. E torna­vam a enfrentar a vida; mas que vida? Não tivera certeza absoluta, quando os filhos se ausentaram, sobre quais ajus­tamentos devem fazer os amantes que envelhecem, e se, para Elinor, seria aceitável o seu renovado ardor amoroso. Mas tinha fé em Elinor. Era este o seu conforto. Conhecia homens que temiam envelhecer com as esposas. Que fe­liz era ele por ainda achar em Elinor a melhor de todas as companhias, não simplesmente porque a' amava, senão porque o gênio dela quadrava com o seu. Não era uma mu­lher culta, não simulava nenhum interesse pela advocacia, e por isto era-lhe grato; mas os juízos dela eram originais, seu ponto de vista sobre as criaturas humanas era próprio e direto; e nunca lhe mentia.

— Você não sente falta das crianças? — perguntou ele, com certa cautela. Até agora, evitara a pergunta.

Durante alguns segundos, Elinor fitou os olhos no copo que sustinha no ar, examinando com prazer o ambarino-claro da bebida. Uma criatura instintiva, pensou ele, a qual encontrava uma absorvente delícia na forma e na cor, e nunca se envergonhava do prazer físico, ainda que se tra­tasse da alimentação. Sua autenticidade, seu impudor na­tural, talvez fosse o que a conservava mais jovem do que sua idade. Nada seca tanto o sangue como a falsa respeita­bilidade, uma tendência para o decoro aparente, contra o que ele próprio lutava, por temer a possibilidade de pare­cer ridículo. Jamais poderia, por exemplo, ter pertencido a uma dessas organizações que compelem os seus membros a cobrir-se de vestes pseudo-orientais. E quando, como acontecera na semana anterior em Nova York, uma dessas sociedades realizava a sua assembléia anual na cidade, da­va longas voltas a fim de evitá-los e não ser forçado a ver o lado caricato de homens maduros, de canelas finas e bar­rigas grossas, em trajes espaventosos, um ou outro sempre igualmente tolo.

— Eu sinto falta das crianças — disse Elinor — mas não tanto como devia. Por que será?

— Temos passado muito tempo sem vê-las, nestes últi­mos anos — disse William. — Eles se governam cedo, atualmente.

— Creio — disse ela, pensativa — que a separação de fato começou quando compramos o televisor e eles passa­ram a fazer os seus serões na sala de televisão, sem nossa companhia.

— Um dia destes — disse William fora do assunto, mas a propósito, porque vira os homens da televisão fotografan­do os grupos neo-orientais na rua — houve uma espécie de congresso em Nova York e, não sei por que, fiquei com ver­gonha de levar Michael Cotman no carro, pela Avenida.

— Uma das ordens "zoológicas"? — perguntou ela, er­guendo uma sobrancelha.

— Algo parecido — respondeu ele. Cotman, um advoga­do inglês, representava sua própria banca de Londres; era um homem de meia-idade, complacente, que não fazia perguntas sobre nada que visse nos Estados Unidos nem da­va opiniões. Sua presuntiva aceitação de tudo o que via eia alarmante para qualquer norte-americano conservador, tal como William Asher se considerava. Podia significar qual­quer coisa.

Herbert veio até a porta, imenso no seu paletó de brim branco.

— O jantar está pronto — anunciou.

Elinor ergueu-se, estendendo a mão para o braço de Wil­liam.

— Vamos, meu bem — disse. Entraram na sala de jan­tar com um formalismo brincalhão, escudados pelas costas de Herbert.

— Sempre me sinto tão agradecida — disse Elinor, enquanto William gentilmente lhe chegava a cadeira — ao pensar que você é exatamente o que é.

William sentou-se, sorriu-lhe por cima do caldo que Her­bert colocara à sua frente e, ao encontrar os olhos dela, viu que o amor luzia neles como branda e firme chama. Um homem de muita sorte, pensou, sentir-se tão bem na idade madura, como era o seu caso, e ainda ver aquela luz, que havia de durar, esperava-o, até o fim. Inclinou a cabeça e então, no silêncio persistente, distinguiu claramente o som de soluços, longe.

Pousou a colher.

— Será Jessica? — perguntou. Herbert saíra da sala.

— É — disse Elinor, e em seguida acrescentou com de­susada severidade: — Devia ter vergonha de chorar tão alto.

— Mas, minha querida... — desaprovou ele.

— É isto mesmo, William — interrompeu ela. — Quan­do uma mulher chora alto não consigo ter pena. É indecoroso. Como seria se todas chorássemos desse jeito? O mundo passaria a ser um hospital de alienados.

Levantou-se e, fechando a janela, eliminou o som. Ele não respondeu. Que quereria dizer: se todas chorássemos desse jeito? Nunca a vira derramar uma lágrima. Supunha que fosse demasiado feliz. Ainda não conseguia entendê-la completamente, mesmo depois de vinte e cinco anos de convívio íntimo. Era apenas uma dessas coisas que ela di­zia despreocupadamente, insignificativas, mas nas quais ele farejava uma alusão quando as pesava. Terminou de tomar o caldo no silêncio artificial e Herbert voltou para retirar as tigelas.

 

Os dias luminosos do outono se prolongavam. Era um tempo demasiadamente seco e os resistentes crisântemos, que ele sempre apreciava, estavam pequenos e foscos, uma decepção, mas impossível de evitar. William andava muito* ocupado; havia estourado um escândalo na administração de Nova York e ele se defrontava com o problema de deci­dir se defenderia ou não os acusados; até agora sempre lhe fora difícil concluir se devia fazê-lo quando evidente, como julgava agora, que eram culpados. Os delinqüentes tinham direitos, não obstante, e era um ponto delicado de definir, onde seus direitos terminavam e onde sua culpa de­via permanecer de pé.

Numa manhã de fins de setembro, em Nova York, esta­va frente a frente com os homens, aos quais se abstinha cuidadosamente de chamar culpados, pois ainda não fica­ra provado que o eram. Precisava ouvi-los a fim de conhecer o que eles chamavam de seu lado da história; e este era, sim­plesmente, que muita gente fizera o mesmo e não se compli­cara, e, assim, sem parcialismo, por que razão as coisas haviam de passar-se ao contrário com eles?

William contemplava as três caras, que anos de bom vi­ver e beber haviam deixado lisas e lustrosas, e procurava não conhecer suas origens raciais, todas diferentes e, no entanto, todas simbólicas das raízes do mal do sistema po­lítico da maior cidade do mundo. Bem sabia que a origem, racial ou nacional, nenhuma relação tinha com isso, mas sim, e muito, o meio que a sociedade impusera às origens. Os bairros de cortiços, as lutas entre quadrilhas, os precon­ceitos, a adversidade e finalmente o crime haviam criado os três homens que tinha diante de si, fossem quais fossem as suas origens raciais. Um vermontês grisalho, o olhar in­flexivelmente atento naquelas três faces, por cima da ban­ca, William Asher sentia-se limpo, tinha consciência da dis­tância que o separava deles.

— Tudo depende — disse — do que pretendem de mim. Se o que desejam é que me bata pelo direito que lhes assis­te de se defenderem, de serem ouvidos, de apresentarem todas as circunstâncias atenuantes, isso eu posso fazer e o farei. Mas se esperam de mim que prove a inocência dos senhores, terão antes de me convencer de que são inocen­tes.

As três caras gordas pareciam perturbadas. O granda­lhão tossiu e falou: — Nós sabemos que os advogados como o senhor custam dinheiro e podemos pagar. — Tinha uma prosódia surpreendentemente boa, não era um homem ignorante, concluiu William, fitando nele seu olhar habi­tual, frio e superior.

— Certamente espero ser pago pelo que faço — concor­dou — mas repito a pergunta: que pretendem de mim?

O homem que estava entre os outros dois, pequeno e ro­liço, inclinou-se para diante, propiciatoriamente:—Tenha coração — disse espichando o lábio inferior, com a voz rouca e súplice, voz e boca de criança mimada. William mais uma vez sentiu-se satisfeito porque Elinor fora bas­tante inteligente para evitar o papel de mãe complacente Às vezes a julgava dura, mas ela amara as crianças puramente, e sem fraquezas. Sua honestidade permanecera ine­xorável.

— Os senhores não me convencem — disse friamente, por fim.

Haviam entrado em acordo quanto à defesa, depois que William passara a manhã explicando aos três homens algo até então incompreensível para eles, que a inocência era uma qualidade inteiramente independente de seus direitos de cidadãos. Poderiam ser culpados, e não desejava saber se o eram ou não, pois isto competia ao juiz e aos jurados decidir„ mas tinham os seus direitos.

O mais gordo dos três, um homem moreno, viscoso e ca­lado, soltara um longo suspiro. — Acho que é o melhor que se pode fazer.

Custava-lhes acreditar que William não pudesse ser com­prado, aliciado, persuadido ou de qualquer modo abalado em sua inexpugnável posição. Aceitavam o que dizia por­que confiavam nele e o sabiam capaz; mas não podiam compreendê-lo. Que não recusasse defender os seus direi­tos, que recusasse defender os seus atos, eis a confusão. William percebia-o nos seus rostos enxundiosos. Levanta­ram-se ao mesmo tempo, perdidos entre a humildade e a jactância, e saíram, deixando William a tachar-se de tolo. A sua frente, estendiam-se agora meses de joeiramento de provas e testemunhos, meses de busca miúda, de proteção, em certo sentido, de homens a quem desprezava; e, no en­tanto, era este o ponto de honra da lei, diante da qual nin­guém é criminoso enquanto o crime não for provado. De­fendera assassinos até o instante da cadeira elétrica, e lá os deixara, cônscio do dever cumprido.

Voltou para casa no fim da semana, sabendo que se sen­tiria exausto se não fosse a inflexibilidade do encargo que tinha diante de si. Agora, durante os meses vindouros, não poderia condescender com o cansaço na dissecção do mun­do subterrâneo desta vasta cidade, que ia ser a sua mis­são. Graças a Deus, pensou, por seu lar afastado e plácido, por sua mulher tranqüila, pela certeza de afeição.

Quando chegou, abriu-lhe a porta Jessica, bonita no seu uniforme lavado, de pano azul, com avental branco guar­necido de pregas. À vista dele, seu rosto se fez todo covi­nhas. Os soluços haviam estancado lá em cima e o casa­mento, percebeu William, se realizaria em breve. Jessica recebeu-lhe o chapéu e o sobretudo. Como tentado a um agrado diante de uma criança, William perguntou:

— Quando é o grande dia, Jessica?

A animação não se alterou. — No segundo sábado de­pois deste. É o dia do aniversário de Herbert.

— Uma comemoração muito especial, hem? — Wil­liam descansava o pé no primeiro degrau da escada. Ou­viu Elinor cantando enquanto trabalhava nalgum ponto do alto da casa.

— É o que ele diz — concordou Jessica, do armário em­butido onde estava guardando o sobretudo.

William subiu e no patamar, onde a escada, quase na metade de sua extensão, mudava bruscamente de direção, olhou casualmente por cima da balaustrada. Com espanto, viu Jessica outra vez na sala de leste, antes de voltar para a cozinha. Era a terceira vez — a primeira, Jessica não pas­sava de uma menina, mas agora, moça feita, voltava a sen­tar-se na cadeira de veludo rosa, diante do longo espelho oval, onde William viu o reflexo do rosto dela, sorridente; não era, na verdade, o luminoso sorriso infantil que ele co­nhecia tanto, mas um trejeito afetado, como se Jessica con­templasse no espelho algum estranho. Com a mão direita erguia os cabelos louros, mantendo-os no alto da cabe­ça, num novo penteado, enquanto a mão esquerda on­dulava, como se segurasse um leque. Articulava palavras mudas, torcendo a boca bem-feita, e os grandes olhos azuis fitava-os na sua própria pessoa, num estranho encanta­mento. Que vêzo, este!

William agora estava realmente surpreendido e por um momento ficou a observá-la com atenção. Depois, resolvido a não revelar que a vira assim, desta vez nem mesmo a Jessica, avançou na ponta dos pés para o seu quarto, dei­xando-a lá em baixo com este outro eu, um eu imaginário, desconhecido dele, certamente. Seria desta maneira que Jessica sempre se comportava ao julgar-se a coberto de observação? Quando ele saía com Elinor, e a casa ficava vazia, tomaria essas liberdades na sala que escolhesse, ima­ginando o que lhe aprouvesse, esquecida de seu lugar como criada? A possibilidade melindrou-o e, fechando a porta do quarto, pôs-se a considerar se era de seu dever falar imediatamente a Elinor. Continuava ouvindo o som distan­te de sua voz, um bom contralto, que freqüentemente ele achava pudesse ter sido educado, alcançando um tom rico. Novamente, decidiu-se contra qualquer menção do assunto. Elinor poderia levá-lo demasiado a sério, e Jessica devia deixar tão breve a casa para sempre. Bertha tomara essa resolução. Jessica devia ir morar na casa do aviário, para lá se transformar numa esposa como convinha; e Bertha teria um lugar onde passar as férias, um lugar onde viver quando ficasse muito velha para trabalhar. Era inútil cau­sar uma desinteligência, nestes últimos dias.

Vestiu, como de hábito, calças escuras e paletó de velu­do cor de vinho, e em seguida foi em busca de Elinor, pro­curando não parecer perturbado. O canto cessara, mas des­cobriu-a no quartinho de guardar roupa; ela procurava, se­gundo explicou, um guardanapo de renda que precisava para a pequena arca de mogno de seu quarto de dormir. William ficou à espera, apreciando-lhe o aspecto, e agora contente por não lhe haver alterado a tranqüilidade. Fosse o que fosse que Elinor tivesse feito durante o dia, devia ter-lhe sido agradável, pois o seu rosto, expressivo, móvel, es­tava lindo e juvenil. Trazia um vestido cinzento-prateado, de que ele gostava; no peito levava uma rosa de veludo, de tom pérola. Abraçaram-se e William, excepcionalmente, desejou que sua casa não ficasse tão longe de Nova York. A esperança de que Elinor se dispusesse a acompanhá-lo quando ele tivesse de ir ao escritório de Nova York, agora que as crianças haviam crescido, não se realizara. Ela de­testava a cidade grande, e ele continuou com sua economia de tempo, sua vida ordenada, de modo que podia deixar o necessário estudo dos processos para fazer no escritório de Manchester ou aqui em casa; eram dias tranqüilos que ti­nham como fruto, supunha ele, o acerto com que depois de­fendia os interesses dos clientes.

— Foi uma alegria ouvir você cantando quando entrei — disse.

— Essa melodia não me saiu da cabeça o dia todo — res­pondeu ela. — O fim do estribilho daquela canção que ouvimos no teatro, um mês atrás. Mas por que não me saía da cabeça?

Não esperava resposta nem ele a deu. Descobriu o guar­danapo, colocou-o onde o queria e ambos desceram juntos. A sala de estar estava vazia, a cadeira de veludo rosa no lugar e o espelho refletia apenas as suas duas pessoas, de braço dado.

Na manhã seguinte, Jessica esperou-o de surpresa na porta da biblioteca. William trouxera na pasta de couro preto um maço de documentos, cartas, recortes de jornais, material que seus sócios interessados haviam colecionado para ele na semana anterior, e agora tocava-lhe assimilá-lo até que tudo lhe fosse tão familiar como a história de sua própria vida. Tinha-se levantado cedo, fora oprimido du­rante o sono pelas faces dos três homens cujos direitos se decidira a defender.

— Faça o favor — disse Jessica.

William se deteve e olhou-a com severidade, lembrando-se da véspera. — Que é?

Jessica torcia o avental com uma das mãos, enquanto com a outra cobria a face corada. — Por favor, Mr. Asher, não vá pensar que tem de ir ao meu casamento. Sei que Mrs. Asher achará necessário, por causa de minha mãe, mas eu não me importo nada... sim, prefiro mesmo que o senhor não vá.

William impacientou-se. — Sim? Está bem, vou falar com Mrs. Asher a esse respeito. Na verdade, estarei muito ocupado na ocasião.

— E não poderia — suplicou ela, pois isto, embora bas­tante estranho, não era tudo, como ele estava vendo — não poderia fazer mais uma coisa? O senhor é a pessoa mais bondosa da casa... sim, não quero dizer que Mrs. Asher não o seja, mas ela apoia minha mãe, não sei se compre­ende o que quero dizer, e não posso ser contra ela por isso, pois minha mãe está aqui há tanto tempo, e tudo, desde muito antes de eu nascer, naturalmente... Mas poderia eu voltar para cá e fazer o meu serviço exatamente como se não tivesse casado?

Isto era inteiramente fora da província dele. Nunca in­tervinha na administração da casa, especialmente porque os criados eram de fato gente dos Winstens, pois Herbert entrara no serviço por intermédio de Bertha, e Jessica per­tencia a Bertha. Além disso, não era preciso levar em con­ta o que acontecera ontem? Esta espécie de coisa não podia passar sem exame.

Jessica registrou-lhe a surpresa, a dúvida. Seus olhos cor de violeta imploravam — fascinantemente, registrou ele com relutância, reparando na longa pala de cílios cor de âmbar, mais escuros do que os cabelos. Pobre criança, tan­ta beleza sem sentido, pensou William.

Jessica continuou, apressadamente. — Se não for presunção de minha parte, Mr. Asher, aqui é de fato a minha casa. — Os olhos cor de violeta passearam pelos antigos e belos salões. — Lembro-me de que, quando era muito pe­quena... de fato não teria mais que três ou quatro anos... costumava abrir aquela porta, empurrando-a apontou para a entrada da copa — e ficava parada ali, fa­zendo de conta que tudo era meu. Uma travessura, eu sei, mas era o que eu fazia. E quando fiquei maiorzinho, mais ousada, creio, costumava entrar quando a família estava ausente, meu pai no jardim, a mãe na cozinha, e sentava-me naquela cadeira ali — era a cadeira de veludo rosa — arrastando-a até o espelho para me ver no meio da bela sa­la, e tornava a fazer de conta. Oh, eu era mesmo arteira e foi por isso que a mãe me mandou para o internato com sete anos apenas, pois me pilhou fazendo isso e disse que eu estava saindo do meu lugar. Mas era só porque eu gostava tanto da casa, e da família, e ainda gosto e sempre hei de gostar, porque aqui tem sido a minha casa, também.

William ficou pasmado diante de tudo isto, sentiu-se mesmo contrafeito. Fazendo de conta que tudo era dela! Esquecia-se de que ele próprio a vira em tal situação? — Bem, Jessica, posso falar com Mrs. Asher...

— Oh, por favor, mas não para dizer a ela o que contei. Pois foi um atrevimento, eu sei, e Mrs. Asher poderia não compreender, sendo uma pessoa da família, mas o se­nhor...

William sentia-se muito pouco propenso a admitir um entendimento de que Elinor não participasse, especialmente com esta moça tão deslocada na função de criada, pois a imaginava presa de toda a sorte de finuras e caprichos que de modo algum a ajudavam, dada a sua condição so­cial. Não é que visse nesta qualquer tipo de permanência, mas era preciso uma energia de que a duvidava capaz para sair da classe onde nascera.

— Bem, Jessica — disse, com propositada frieza — fa­rei o possível. Mas se Mrs. Asher achar que Bertha ficaria demasiado sentida se não fôssemos ao casamento, você de­ve desculpar-nos se aparecermos lá. Quanto ao mais, é me­lhor que espere um pouco, depois do casamento. A solução viria com toda a naturalidade durante as férias; digamos, quando as crianças estiverem todas em casa, pois aumen­tando o serviço você seria chamada.

O rosto de Jessica se iluminou muito mais do que o per­mitia a vaga promessa —Oh, obrigada, Mr. Asher — Jun­tou impetuosamente as mãos finas.

— Olhe, não é uma promessa — advertiu ele.

— Oh, eu compreenderei — murmurou ela.

William dirigiu-se para a biblioteca e esqueceu-se dela nas imensidades da corrupção metropolitana. No fim do dia, quando tornou a lembrar-se, o incidente pareceu-lhe de somenos importância, não valendo a pena repeti-lo a Eli­nor. Havia muito tempo, aprendera que a paz doméstica é conservada tanto por esquecimentos como por lembranças, e Elinor poderia aborrecer-se por ter Jessica feito um pedido tão estranho como esse, de voltar a trabalhar em vez de ficar em casa, situação talhada para contrariar a muito mais importante Bertha. Não obstante, o esquecimento não foi tão acabado a ponto de, dias depois, quando Elinor lhe recordou o casamento, responder que não podia ir. Isto era verdade. Ainda que Jessica não lhe tivesse falado, ser-lhe-ia dificílimo estar presente, e certamente impossível às duas horas.

— Minha querida — disse — não posso sair de Nova York na semana que vem. Terei de ir cedo para lá segunda de manhã e você não tornará a me ver antes de sexta-feira  ou mesmo sábado. Vamos preparar as súmulas da defesa, os outros colegas absolutamente não podem fazê-lo sem mim e eu dificilmente poderia comparecer ao casamento, ainda que fosse o de Susan.

— Bertha ficará sentida — observou Elinor — principal­mente porque as crianças não estão aqui e o resto da fa­mília anda tão espalhado. Meus irmãos e minhas irmãs são nômades... não sei por quê. Tomara que as crianças não fiquem assim. Acho que a prima Emma virá.

— Lamento que você tenha um marido nômade, tam­bém — disse ele, delicadamente. Teria sido fácil falar ago­ra no pedido de Jessica, mas parecia não valer a pena im­portar-se com o gênio de uma criadinha, o qual, num mo­mento de participação, só lhe causara mal-estar. Estava sa­tisfeito com a saída de Jessica e não a ajudaria a voltar. Não lhe agradava a idéia de que ela considerasse como seu lar, ainda que um lar espiritual, por assim dizer, esta casa que agora era dele, também,

O casamento realizou-se, pois, sem a sua presença; e quando voltou para casa tarde, no sábado seguinte, cansa­do e tenso em virtude da crescente energia que sempre sen­tia quando um grande processo marchava para o seu clí­max, esquecera-se de que Jessica deixara o serviço. Só quando Bertha serviu o jantar sozinha foi que se recordou. Sentiu-se obrigado a mostrar-se amável.

— Pois é, Bertha, não se perde uma filha, ganha-se um filho, não? Sinto que não tenha podido vir ao casamento.

— Herbert vai voltar na semana que vem, Mr. Asher — respondeu ela. — Eu tisse a ele que uma semana chega. Com Heinrich e eu, foi só tois dias. Mas Herbert diz que o calinheirro precisa de telhado novo e ele vai fazer no lua de mel.

— Ótimo — disse William com animação, mas com um pressentimento de que aí nada havia de ótimo.

— O casamento — disse Elinor, quando Bertha saíra da sala — estava realmente deplorável. Não havia ninguém a não ser os irmãos e irmãs de Herbert, e a prima Emma. Veio sozinha com o chofer, de Nova York. Foi uma gentile­za dela; mas logo se pôs a dizer, e numa voz tão alta, que não ia com a cara de Herbert.

— A prima Emma voltou em seguida? — perguntou Wil­liam, para entreter a conversa.

— Não, passou a noite aqui, e tive de convencê-la de que Herbert era justamente a espécie de pessoa de que Jessica precisa. Jessica é meio aérea, William. Você não re­para porque fica muito tempo fora de casa, mas às vezes ela cansa a gente. Criado bem ensinado nunca dá mostras de seu humor, sempre dizia minha mãe. Heinrich e Bertha nunca se portaram assim. Heinrich talvez tivesse descam­bado, ele puxava para o tipo germânico sentimentalão, mas Bertha tinha mão firme. Sei que era só meu pai olhar com severidade para Heinrich quando ele denotava distração, e Bertha logo tomava conta do serviço.

— Como vai a prima Emma? — perguntou William, ainda absorto. Na verdade, devia ter passado o domingo em Nova York. A única testemunha da qual muita coisa.de­pendia estava sob proteção, mas podia-se lá confiar em Nova York?

— Definhando — disse Elinor com brandura e depois continuou: — Freqüentemente pergunto comigo mesma que foi que a prima Emma aproveitou da vida. Conversou muito a respeito de Jessica, quando ela era criança. Acho que a observava muito, quando nos visitava. Gosta de mo­rar em Nova York, "a cidade das mulheres solitárias", co­mo diz ela; lá pode ouvir boa música, assistir a conferên­cias, freqüentar galerias de arte. Está ficando esquisita, eu acho, embora tão cheia de ternura.

— Esquisita? — repetiu ele.

Bertha servia um delicioso bacalhau assado.

— Ela se inclinou para mim, como costuma fazer — continuou Elinor. — Bateu levemente no meu pulso. "Te­nho um belo quadro de Turner", cochichou. Mas onde po­dia obter um Turner, William? Custam milhares. Então eu disse: "é mesmo, prima Emma?" E ela deu uma risada sem emitir o menor som, e continuou. "Sim, na galeria Frick. Sento-me todos os dias durante horas e gozo o quadro. Ninguém sabe que é meu, mas é. Sou dona dele... aqui dentro..." e bateu no peito murcho, reentrante.

O pai de Elinor nomeara William um dos administrado­res da pequena herança da prima Emma. — Tenho de exa­minar isso — disse ele, apreensivo. — É possível que esteja ficando incapaz. Ela mora sozinha, não é?

— Naquele hotel velho — disse Elinor. — Eu devia vi­sitá-la com mais freqüência, mas naquela distância...

William olhou-a, meio jocosamente. — Uma distância que eu percorro semanalmente a fim de morar com você.

— Oh, eu sei! — disse ela, reconhecida. — Eu devia aceitar a casa que você queria, na cidade, agora que não tenho as crianças como desculpa. Mas continuo detestando Nova York!

William se conformara, anos atrás, quando ela havia declarado que não poderia morar em nenhuma outra região além de Vermont. — Não se preocupe, querida — disse ele. — As estradas são uma maravilha, as macadamizadas vêm quase até a nossa porta e para mim ó muito mais fácil do que quando as crianças eram pequenas. Depois, re­conheço, também, que nesta nossa atmosfera natal as mi­nhas células cerebrais funcionam bem.

Alguns dias depois, num intervalo de calma durante a busca de novos elementos de defesa, subtraiu uma hora ao escritório para fazer uma visita, previamente acertada por § sua secretária, à prima Emma.

Encontrou-a num apartamento pequeno e atravancado, uma anciã magra e inquieta, sua figura alta envolta em "chiffon" azul pálido, cor dos olhos dela; estava acompa­nhada por uma criada do hotel, já madura, que abriu a porta e posteriormente introduziu a pesada bandeja de pra­ta com o chá.

— É muita gentileza da sua parte vir ver-me, William — disse a prima Emma. — Espero que não haja nenhuma dificuldade nos meus negócios.

— Absolutamente nenhuma — respondeu William, sen­tando-se no lado oposto ao da cadeira de cetim amarelo, bordado. Na lareira, o gás ardia irregularmente nos tubos perfurados, empestando levemente o ambiente. Tinha de falar com o gerente. Qualquer noite, esta velha dócil po­deria morrer sufocada, afeita como estava à atmosfera, conforme ele notava, e com todas as janelas fechadas. Os velhos tubos de gás, imitando achas de lenha, pareciam a ponto de desintegrar-se. William continuou:

— Elinor me contou que você tinha ido ao casamento de Jessica e ocorreu-me que havia passado muito tempo depois da última vez em que vim visitá-la: tempo demais. Afinal, como você sabe, a prima é, por assim dizer, minha pupila.

Ela sorriu-lhe um sorriso murcho, terno. — Estou muito bem, William. Para mim foi uma maçada viajar até Man­chester para o casamento, mas Bertha tinha me escrito e achei que alguém da família devia ir. E como se viu, só Elinor e eu estávamos lá. Lembro-me tão bem de Jessica antes de ela ir para o internato: uma coisinha tão mimosa, tão prendada. Realmente, William, é uma lástima. Anos atrás, dei com ela um dia, naquela comprida sala de leste. Estava sentada ao piano, cantando baixinho, batendo nas teclas com toda a harmonia, e a sua vozinha era divina­mente clara. Eu devia tê-la tirado imediatamente de lá,.fazendo-a estudar música. E... — a prima Emma, no seu entusiasmo, inclinou-se para diante — ela pinta igualmen­te bem, ou poderia pintar, se tivesse estudado. Lembro-me de uma vez quando ela estava lá, pelo Natal, de que me deu uma aquarela que pintara para me presentear. Costumava me fazer presentinhos porque sabia que eu gostava dela; e os dava secretamente. Achei a aquarela enrolada e atada com um pequeno ramo de azevinho, na gaveta da minha escrivaninha. Ainda a tenho, por aí...

Seu olhar se fez vago; pensava onde poderia estar a aquarela.

— E aquele homem... — disse, de repente. — Ele é tão grosso.

William sabia que ela se referia a Herbert. — Mas, por isso mesmo, é um homem firme — lembrou.

— Sei lá — disse a prima Emma, subitamente pertur­bada. Contraiu as mãos finas e longas. — Aceita mais um pouco de chá, William?

— Mais uma taça — disse ele, para lhe agradar. — É delicioso este chá.

Ela ficou encantada. — Então gostou? É um chá espe­cial, mas muito poucas pessoas conhecem. Compro-o numa loja chinesa, uma casa tão agradável. Você sabe, William, eu imagino que ando viajando em redor do mundo, enquan­to estou vivendo aqui mesmo em Nova York. Um dia destes, dei com uma verdadeira festa italiana, em duas ruas iso­ladas do tráfego, lá para a banda do centro. Centenas de lâmpadas se estendiam de lado a lado, formando grinaldas, e as tendas vendiam os objetos mais exóticos. Eu tinha saí­do para comprar este chá que estamos tomando, quando sua secretária me telefonou dizendo que você vinha me vi­sitar. Muitas vezes sinto não ter trazido Jessica para cá co­migo, William. Creio que ela ficaria contente se tivesse vin­do. Você sabe, Bertha foi demasiado rigorosa com aquela criança. Eu costumava vê-la dando puxões no braço dela. Não fazia mal que a menina andasse escondida por aqueles salões vazios. Ninguém sabia disso, a não ser eu, realmente. Os outros todos andavam tão ocupados.

— Contudo, Bertha quer muito bem a Jessica — lem­brou William, sem lhe dizer o que pensava do comporta­mento de Jessica.

A prima Emma fez uma careta de desgosto. — Ora, não me fale em querer bem, por favor, William. Serve de des­culpa para tanta coisa. Era essa a maneira como a minha própria irmã Jessica costumava começar. "Tu sabes que te quero bem, Emma, mas..."

Riu com estridência. A mãe de Elinor era uma mulher doce e benquista, acreditava William, exceto para a prima Emma.

Entretanto, não pôde registrar sinais de desequilíbrio mental na anciã. Ela sempre fora voluntariosa, difícil, e, supunha ele, frustrada, porque não casara, embora houves­se tido boas oportunidades, segundo lhe haviam dito. Igno­rava por que não aproveitara nenhuma delas. Pelo que sa­bia, nunca houvera uma tragédia na vida da prima Emma. Levantou-se, depois de uma terceira chávena de chá, ali­viado porque não devia, justamente agora, enfrentar ne­nhum problema novo.

— Você vai ficar bem rica este ano, prima Emma — dis­se para alegrar a despedida. — Suas ações estão subin­do. Inevitavelmente darão dividendos.

Mas ela não se alegrou. — Ora, não me fale disso — ex­clamou. — Agora é só essa horrível conversa de uma no­va guerra. Preferia ir para o asilo de indigentes a enrique­cer desse jeito. — Remexeu na bolsa de veludo negro, que lhe pendia do pulso, em busca de um pedaço de jornal amarrotado e pôs o "pince-nez". — Fazendo bombas atômi­cas! — Retirou as lunetas e pousou nele um olhar de cen­sura. — E você a falar em dividendos!

— Perdoe-me — disse ele, contrito. — Tinha-me esque­cido de como acompanha o noticiário.

— Se não fosse tão velha — disse ela, dramaticamente — doava o meu sangue. Mas eles não o querem. É velho demais. Por que não querem? O sangue muda? — Estendeu o braço direito, de carnes murchas; a manga de renda es­corregou para trás.

— Acho que muda — disse William. — Suponho que os médicos sabem.

Ela deixou o braço cair sobre o joelho. — Fico muito con­tente por nunca ter casado. Agradeço a Deus não ter tido um filho. Agora não poderia suportar o sofrimento. — Incli­nou-se para diante. -- Como está se havendo com seus filhos?

— Eles terão de fazer o que os outros jovens fazem — res­pondeu William.

— Está vendo! — exclamou ela. — Estão condenados a uma porção de sofrimentos, e você também. É isso o que o casamento acarreta. Desejaria ter dito a Jessica que vies­se para cá. Não pensei nisso a não ser quando a vi parada junto daquele sujeito grosso. Bertha também é grossa. Não sei por que não mandei Jessica vir morar comigo. Ela podia freqüentar as galerias comigo. Tenho um maravilhoso Tur­ner lá... só meu, embora ninguém saiba.

Seria isto um laivo de loucura? Não, ele nada via senão a velha indocilidade. A prima Emma estava inteiramente lúcida, apenas era caprichosa em sua imaginação, como sempre fora, amiga de causar espanto.

— Isso é uma satisfação — disse ele. — Agora tenho de ir andando, prima Emma. O chá estava uma delícia; vou falar a Elinor.

Apertou-lhe a velha mão ossuda e longa, e saiu. Nada por aqui, a não ser a irresponsabilidade dos anos, pensou, a determinação de não ser o que as pessoas, ele ou qual­quer outro, esperavam. Teria sido péssimo para Jessica vi­ver sozinha na companhia dela; muito melhor, na verdade, trilhar o caminho comum das mulheres, casar, ter um lar próprio, e filhos quando chegasse a vez. Esse caminho era o da saúde física e mental, e do companheirismo. Pois ha­via companheirismo, ele tinha certeza, na simples partici­pação numa vida comum, debaixo de um mesmo teto. O amor era o apogeu do casamento, a taça transbordante, mas o casamento em si era a necessidade. Encarava com cepticismo o entusiasmo da prima Emma, duvidava dos ta­lentos que ela enxergava em Jessica, nada havia que garan­tisse tais prendas na tosca herança de Bertha e Heinrich. As freiras talvez lhe tivessem dado gosto, mas este poderia apagar-se, se ainda existisse, no andar de sua vida normal. Afastou Jessica do pensamento, meio impaciente porque, inteiramente fora de sua vontade ou interesse, aparecia com tanta freqüência e tão inoportunamente em sua vida.

 

PELO NATAL, Susan trouxe um cachorro. William fizera a viagem de volta entregue a uma sonolência causada pela fadiga, os olhos fechados por trás do dorso parado de Her­bert. Ao abri-los, viu a filha, no crepúsculo gelado. Espera­va-o no portão, entre as fileiras de olmos. William obser­vou-lhe a figura forte e de pequena estatura, o torso envol­to numa peliça bronca, e depois viu um enorme cão preto, de uma raça que desconhecia, dando selvagens puxões nu­ma trela que ela enrolara na mão direita. Mandou parar o carro e abriu a janela.

— Que bicho é esse? — gritou.

— Não é um bicho, é um cachorro — gritou ela em res­posta. — O nome dele é Pirata!

— Não posso descer do carro — queixou-se William. — Não posso dizer a você que entre. Ele parece que quer co­mer alguém vivo.

— Ele é apenas novo — replicou Susan, lutando contra os arrancos do animal, que agora ladrava furioso contra o automóvel, contra a noite, contra tudo, pensou William, e sobretudo contra ele.

— Mas que foi que deu em você para trazê-lo para casa? — Era obrigado a gritar porque o cão tinha um latido gra­ve, profundo, que repercutia no arvoredo.

— Ele é formidável — gritou Susan. — Come duas li­bras de carne de uma vez!

— Duas libras! Ele dá a impressão de que não deixaria por menos de cinqüenta! — retrucou William.

Não podia aproximar-se dela e disse melancolicamente, em' voz alta, através do lusco-fusco: — Depois eu vejo você, quando estiver em segurança dentro de casa. Supo­nho que não o levará para dentro.

— Ele insiste quanto a isso — gritou Susan e agarrou-se numa árvore.

— Horrível — murmurou William, fechando a janela do carro. — Continue, Herbert. O ar da noite está frio.

A tudo isto Herbert não fizera nenhum comentário. Ra­ramente falava, a não ser quando interpelado; e isto, pen­sou William, era sua maior virtude. Secretamente, notara com surpresa certas mudanças em Herbert*durante as úl­timas semanas, depois do casamento. Habituado a dirigir o carro sempre com cautela e mesmo lentidão, Herbert co­meçara furtivamente a aumentar a velocidade. Esta noite, saíra de Nova York prudentemente, a uma velocidade só­bria, e quando entrara nas auto-estradas arborizadas au­mentara convenientemente a velocidade. Não obstante, após uns instantes, William despertara de um cochilo sen­tindo um leve atordoamento. Espiando o compartimento da frente, vira o velocímetro beirando as oitenta milhas.

— Que é isso, Herbert! — gritara com aspereza. Herbert sobressaltara-se e o carro se desviara perigosa­mente em direção à outra mão.

— Conserve os olhos na estrada — gritara William. Es­ta era outra loucura que o homem adquirira. Quando adver­tido, voltava a cabeça deixando o automóvel avançar sem governo. — Você vai ser preso!

Herbert diminuiu tão repentinamente a velocidade para cinqüenta milhas que o carro pareceu estacar, num repelão. — Desculpe, Mr. Asher. Meu pensamento estava noutro lu­gar.

— Nunca ponha o pensamento noutro lugar quando esti­ver na estrada — disse William, com severidade, e não tor­nou a dormitar durante uma hora.

Agora, ao entrar em casa beijou Elinor à porta e come­çou a queixar-se. — Herbert quase provocou um acidente durante a viagem. Estava correndo a oitenta milhas por hora.

Elinor respondeu com um interesse correspondente. — Por essa não esperava.

— Pois foi — insistiu William. — Falei-lhe e ele disse que estava com o pensamento noutro lugar.

A porta da copa se abriu e com espanto viu Jessica en­trar, de uniforme de algodão azul e avental branco, com guarnição de pregas. As covinhas apareceram diante da surpresa de William, que lhe entregou o sobretudo e o cha­péu. — Ê só enquanto duram as férias, Mr. Asher, mas para mim servirá para variar um pouco.

Lembrou-se agora de que dissera qualquer coisa sobre isto, e sua consciência escrupulosa se pôs alerta. — Olhe, eu não tive nenhuma interferência nisso. Na verdade, tinha-me esquecido de tudo. Você terá de agradecer a Mrs. Asher.

Elinor estava esperando; parecia, pensou ele, um pouco alheada.

— Foi tão bom ter voltado, Mrs. Asher — disse Jessica, com estranha ênfase propiciatória. — Fico-lhe muito obri­gada.

— Você nos ajudará bastante aqui enquanto as crian­ças estiverem em casa — disse Elinor. Sua voz era calma e bondosa.

William voltou-se para a escada e sentiu-lhe a mão sob o braço. Subiram juntos e em silêncio. Quando chegaram à sala de estar de cima, contígua aos dois quartos de dor­mir, e da qual ambos se serviam, Elinor sentou-se. Era uma peça agradável, mobiliada no estilo opulento mas desata­viado de que ele gostava e que parecia inato nos Winstens. Não havia curiosidades artísticas. Não havia folhos nem relevos onde o pó se escondesse. As cortinas eram de cetim azul claro, muito pesadas e o velho tapete persa fixava o mesmo tom no seu desenho de variações uniformes. O azul se adaptava à sua mulher, combinava com o azul sem mes­cla de seus olhos, sob os cabelos louro-prateados. William sentou-se para encher o cachimbo antes de passar ao ba­nho e à troca de roupa. A casa estava quieta, mas de fora vinha o ladrido surdo e desagradável do cão.

— A família de Winsten ainda não veio? — perguntou.

— Madge telefonou dizendo que não podem vir antes de amanhã — respondeu Elinor. — Edwin veio, mas saiu em seguida, para visitar Vera. Susan chegou de acordo com a previsão; trouxe um moço e um cachorro.

— Vi o cachorro — respondeu ele. — Um animal abo­minável.

— Você não pode dizer isso em público — advertiu ela. — O moço deu-o a Susan.

— Onde está ele?

— Dormindo, acho. Comeu uma grande quantidade de bolo e uma pratada de sanduíches, recusou o chá, bebeu dois "highaballs" e depois disse que estava com sono.

— Você nunca o tinha visto? — perguntou William.

— Não, querido — respondeu Elinor. — Para mim é totalmente estranho.

— Que jeito tem ele?

Elinor refletiu. — É bastante parecido com o cachorro-grande, tosco; gente simples, penso... Ih, muito simples... mas Susan me disse que as moças o acham maravilhoso.

Isto o fez pensar numa coisa. — Por que será que esta geração de moças gosta dos homens em bruto? Se é que estou lembrado, você fazia questão que eu me mantivesse correto. Agora, quanto mais os rapazes falem pelo canto da boca, praguejem, quanto menos modos tenham e, em geral, quanto mais se comportem como bandidos, tanto mais as moças gostam deles.

Elinor meditou um momento. Estava sentada com gra­ciosa compostura, uma pessoa tão aristocrática como tal­vez se pudesse exigir numa democracia nova como os Es­tados Unidos. Seus pés delgados, calçando sandálias pra­teadas, estavam cruzados por baixo da saia comprida de fina renda preta, sobreposta a um tecido cereja, cetim, su­pôs ele, visto que não farfalhava. Ela detestava vestidos farfalhantes.

— Não sei — disse Elinor, pensativa. — Sei que antipa­tizo com os rapazes que Susan escolhe. Só rogo a Deus para que não case com nenhum dos que temos visto.

— Vera, por outro lado... — disse ele, pensando em Edwin.

— Oh, Vera naturalmente, seria uma maravilha — acudiu Elinor. Depois, hesitando, relutante, prosseguiu: — Tenho uma espécie de pensamento louco que não devia ex­primir em palavras.

— Diga o que é — instou ele. — Entre nós, temos dito uma porção de coisas loucas.

— Será que Jessica tem alguma ridícula pretensão sobre Edwin?

William se mostrou deveras surpreso. — Mas isso é mesmo louco — disse. — Jessica, ensinada por Bertha, di­ficilmente se esqueceria de quem é! Além disso, Edwin é apenas um garoto... Que idade tem Jessica?

— Vinte e quatro...

— Então, temos vinte e um por vinte e quatro.

— Edwin é muito bonito e eu me sentiria mais satisfeita — continuou Elinor — se Jessica não fosse tão linda... tão...ora, isso que costumam chamar de requintada, você sabe... delicada, talvez, e certamente com demasiada sen­sibilidade para uma criada.

— Que foi que você viu? — perguntou ele, perturbando-­se mau grado seu.

— Jessica dando risadas, as mãos nos ombros de Edwin, e ele olhando para o chão, corado...

William sentiu-se tão contrariado por isto que se achou no dever de contar-lhe algo que até agora não tomara uma feição bastante definida para traduzir-se em palavras; não se tratava das atitudes diante do espelho, mas de uma coisa que não exprimira nem mesmo a si próprio.

— Escute aqui, Elinor — disse, relutante e contrafeito — Jessica assume uma curiosa atitude diante de qualquer homem.

Ela encarou-o com um olhar subitamente incisivo: — Co­mo assim, William?

Ele não sabia que responder. Posta em palavras, a coisa parecia ficar muito além da verdade. Riu, mas com emba­raço. — Aí está; não sei o que quero dizer. Quando tento explicar, a coisa me foge. Talvez seja um jeito insinuante, ou cúpido. Sempre me causou mal-estar e trato de escapar. Tenho certeza de que ela é bastante inocente para igno­rá-lo.

— Nenhuma mulher é tão inocente assim — disse Eli­nor, inteiramente sem rancor, concluiu ele, depois de enca­rá-la.

— Nascemos espertas — continuou agora, um pouco pro­vocante, pensou William. — É nossa única via de acesso para a liberdade. Quanto mais escravizadas, tanto mais es­pertas nos tornamos.

— Você não está escravizada — declarou ele.

— Então não sou esperta? — perguntou ela.

Elinor deslizara para as distâncias onde às vezes vivia dias a fio, de cada vez. William conhecia muito bem este estado de espírito e, havia muito tempo, aprendera simples­mente a sorrir, a aceitar, e se possível a amá-la mais ain­da enquanto esperava. Respondeu: — Embora seja um ad­vogado considerado famoso num meio condescendente, não me deixarei envolver num debate com você. Vou purificar-me de Nova York, vestir uma roupa cômoda. Quanto a Jessica e Edwin, não, eu não acredito nisso, mas andarei de olho vivo.

— Fico descansada — disse Elinor — por saber que mes­mo você nota que Jessica tem um modo especial de se apre­sentar. Contanto que ela o faça com todos os homens, meu caro...

— Pois é, não dê maior importância a isso — respondeu ele tranqüilamente. Sentia-se muito cansado para levar o caso a sério.

Em Nova York, o processo não andava bem. Aquela tes­temunha vedeta, aquele tesouro de maus conhecimentos, tivera sua vigilância afrouxada o suficiente para ser cor­rompida sabia-se lá por quê; e, recusando revelar o que pro­metera, estava agora por detrás das grades da prisão, em total segurança e total inutilidade. A justiça teria de arcar com uma longa e renovada busca de fatos escondidos den­tro daquela sólida cabeça, para a qual não se conhecia ne­nhuma combinação que pudesse forçar a fechadura e le­vantar a tampa.

William esqueceu-se da família enquanto tomava banho e tornava a barbear-se, pois sua barba parecia crescer com a fuligem e a poeira da cidade, de modo que precisava fazê-la tanto de manhã como de noite se quisesse apresentar a pele bastante macia, à hora de se recolher, para tentar os lábios de Elinor. De repente ouviu uma porta abrir-se e fe­char-se com estrondo e um matraquear escada abaixo como nenhum de seus dois filhos jamais fizera, mesmo em sua infância mais vivaz. Era, compreendeu-o imediatamente, o companheiro de Susan, o Pirata, pensou ele, o autor do pre­sente daquele cachorro tão parecido com o doador que até Elinor, a tolerante, a indulgente, a mais do que bondosa Elinor, vira a semelhança.

Esta se fez bastante evidente, para ele também, quando mais tarde entrou na sala de leste. O cachorro estava dei­tado no tapete, diante da lareira, onde jamais cachorro al­gum se deitara, pois William não os apreciava e quando os filhos, na infância, haviam reclamado tais animais, permiti­ra a presença de "cocker spaniels", mas somente fora da casa. Era sensível ao cheiro dos cães, de que a peça agora estava impregnada.

— Susan — começou impetuosamente, em sua repug­nância, vendo vagamente a filha num vestido amarelo, tu­fado abaixo da cintura fina e dos ombros morenos.

— Eu sei, pai — atalhou ela — mas Pete diz que o Pi­rata simplesmente tem de ficar dentro de casa, senão ui­vará a noite inteira.

Um rapagão ergueu-se da cadeira de couro privativa de­le, William. Era um varonil feixe de carne e ossos, os olhos indiscutivelmente pretos, encovados, sob espessas sobran­celhas negras. Os cabelos, pretos também, e duros, certa­mente nunca os escovava nem penteava; e precisavam ser cortados. O indivíduo trajava roupa escura, apresentável, mas o paletó estava negligentemente desabotoado, deixan­do à mostra a camisa azul, amarrotada, com que indubita­velmente dormira. Tinha as maçãs do rosto salientes e ver­melhas; e vermelhas e demasiado grandes eram as suas orelhas. A mão, que agora estendeu bruscamente, era enor­me e peluda.

— Mr. Asher? — berrou.

—... eu presumo — disse Susan, com petulância.— Não sabe a maneira exata de dirigir a palavra, Pete? Pai, aqui é Peter Dobbs.

Mas Pete jamais ouvira falar de Livingstone na África e o leve gracejo lhe escapou.

— Prazer em conhecê-lo — disse, com o indolente sota­que sulino. — Tenho ouvido falar muito no senhor. Tenho lido os jornais, desde que vim a conhecer Susan. Acho for­midável o modo como o senhor está fechando o cerco em roda dos "gangsters". Foi o diabo deixarem escapar Bergman, se é que se pode falar assim, agora que ele está tran­cafiado.

O, cachorro pôs-se bruscamente em pé, retesando as pa­tas dianteiras. Os densos pêlos negros do lombo eriçaram-se-lhe, à vista de William. Rosnava feito um bombo.

— Quieto, Pirata — disse Pete, com despreocupação. — Deita, cachorro. Ele ainda não se acostumou com o senhor.

— Duvido que algum dia eu me acostume com ele — dis­se William, com azedume.

— Acho que se acostuma — disse Pete, tranqüilo. Tor­nou a dobrar-se na cadeira de couro.

— Pete, saia daí — disse Susan, imperiosa. — Essa é a cadeira de meu pai.

— Não se incomode — disse William, com ácida poli­dez.

— Saía daí, estou lhe dizendo — repetiu Susan.

Pete levantou-se, condescendente, para ocupar outra ca­deira. — Não me importo onde sento, dês que a cadeira seja bem grande. Não gosto de nada apertado.

— Sente-se, pai — ordenou Susan. — Ele não se impor­ta mesmo. É de boa índole mas a gente tem de lhe falar claramente. De outra maneira, não compreende. Isso faci­lita muitíssimo viver em harmonia com ele.

Dizia estas palavras afrontosas com seu plácido contral­to, uma voz bonita, uma melodia que docemente ressoava sob uma tentativa de secura. William sentou-se, sentindo-se inerme. O canzarrão tornou a atirar-se sobre o tapete e ele se surpreendeu de olhar fito nos olhos raivosos do ani­mal. Estes, avermelhados pela luz refletida do fogo, esta­vam atentos nele, sob as sobrancelhas torvas.

— Esse cachorro parece ter maus bofes — disse William, com uma ponta de acrimônia. Intimamente, tomou a deci­são de falar a Susan em particular no primeiro momento e mandar-lhe que retirasse o selvagem animal de junto de sua lareira.

— Ele não tem maus bofes — disse Pete. — É o jeito dele; não pode evitar.

— Como você — disse Susan, sem sorrir.

Pete deu uma gargalhada de admiração. — Olha que tu tens uma lingüinha ordinária! Qualquer dia quando botares ela pra mim eu vou sacar do meu canivete, bem assim... — retirou do bolso um canivetão de mola e fez a lâmina saltar, com um estalo —... e vou te cortar bem rente essa lingüinha e dar pro Pirata.

William ouvia isto horrorizado. Sentia-se incapaz de ba­ter-se neste terreno. "Gangsters" numa sala de tribunal de uma vasta cidade corrupta era uma coisa aceitável, mas em sua própria casa não esperava encontrar-se com. um monstro.

— Onde está sua mãe? — perguntou a Susan. — Vá di­zer-lhe que desejo jantar.

— Estamos esperando Edwin — respondeu Susan, sem se mover. — A mãe disse que ele telefonou à última hora avisando que traria Vera para o jantar.

Um alvoroço no vestíbulo significava a chegada de Edwin e, um momento depois, ambos entravam, seu filho mais novo, um rapaz alto, louro como todos os Winstens; e com ele, igualmente alta, a moça vermontense, filha do banquei­ro local, Vera Bates, um vidoeiro de prata, de beleza severa, e cujos lábios, embora finos e talhados em linha reta, de­notavam ternura.

William ergueu-se, galantemente. Era esta a sua espécie de moça, uma criatura juvenil e tranqüilizadora, que seria um encanto acolher na casa e na família. O cão tornou a levantar-se para rosnar, mas Vera curvou-se e afagou-lhe a nuca eriçada; o resmungar cessou. O animal bufou e tor­nou a afundar no tapete.

— O seu inestimável feitiço, Vera — disse William e es­tendendo a mão sentiu-lhe a palma fria contra a sua.

— Boa noite, Mr. Asher — disse ela com toda a correção.

— Boa noite, minha querida — respondeu ele. — E você, Edwin, está com ótimo aspecto, meu filho.

Tornou a sentir-se contente. Havia também estes jovens, e a solidez de um grande país era que, por mais desagra­dáveis que fossem algumas partes dele, e por mais toscos que fossem certos setores, como indubitavelmente o eram, a gente podia encontrar, noutros pontos, seres de sua própria espécie, aqueles de quem era possível orgulhar-se.

Experimentou um leve sentimento de pena de Pete, o se­tor desagradável e tosco, e quando estavam todos sentados inclinou-se para ele.

— Que raça de cão...

Neste momento Elinor entrou; vinha talvez da copa, pois se interessava pela sua mesa, sendo exigente quanto ao ser­viço. Apertou a mão de Vera com ternura e sentou-se na ca­deira deixada vaga para ela, a de veludo rosa. William er­gueu-se e chegou-lhe o pequeno escabelo com forro bor­dado.

— Obrigada, querido — disse ela.

William sentou-se então e com afetuoso cuidado passeou um olhar crítico pela família, achando bem a todos; e tor­nando a sentir pena de Pete, a quem nunca poderia contar entre eles, uma vez mais se inclinou para o rústico jovem que permanecera derramado em sua cadeira, num silêncio benévolo.

— De que raça é o Pirata? — perguntou, sem saber que espécie de assunto arrastaria para a conversa este par tão desproporcionado.

— Ele não é de raça nenhuma — respondeu Pete sem embaraço. — É mestiço. Tem um magote de cachorros as­sim lá na casa do velho. Eu agarrei afeição pelo Pirata por­que é grandalhão. É um animal inteligente, também. Apren­de as coisas. Ele faz tudo o que eu digo. Eh, Pirata...

Pete castanholou os dedos e o cachorro se ergueu, eri­çado, alerta, os olhos cintilantes, fitando as orelhas pontu­das.

— Se eu mandasse, ele saltava em qualquer um nesta sala — disse Pete com orgulho.

— Oh...

A exclamação, meio estrangulada, veio da porta e todos voltaram a cabeça, simultaneamente, para ver quem dera aquele grito estranho e contido. Era Jessica. Viera anunciar o jantar e agora, topando com o cachorro, encarava-o ater­rorizada, as mãos unidas sobre a garganta. O cão se manti­nha firmemente sobre as quatro patas, de olhar fixo nela.

— Deita, Pirata — ordenou Pete.

— Jessica! —disse Elinor, advertindo-a.

— Desculpe, Mrs. Asher. —As mãos desceram. — O... o jantar está servido.

Jessica desapareceu. Todos se ergueram e o cachorro per­maneceu imóvel.

— Vamos, Pirata — ordenou Pete.

O cachorro seguiu-o até a sala de jantar.

— Deita ali — ordenou Pete, apontando para um ponto ao lado das portas envidraçadas, que estavam fechadas.

O cachorro hesitava.

— Deita, já! — berrou Pete.

O cachorro atirou-se pesadamente no chão e Pete sen­tou-se, sorrindo largo para todos. — É como eu digo; ele faz tudo o que eu mando.

Jessica não voltou. Herbert serviu o jantar, um pouco melhor do que habitualmente, observou William, e sem dar atenção ao cachorro, que rosnava cada vez que ele entrava até que Pete o conteve com um grito. Era verdade, o cachor­ro obedecia.

— Você tem de me ensinar essa mágica — disse Susan a Pete. Estavam sentados um ao lado do outro, o cachorro atrás de ambos, deitado no tapete.

— Não é nenhuma mágica — respondeu o jovem. Tras­fegava comodamente o alimento para a boca com uma es­tranha combinação de garfo e faca operando conjuntamen­te à guisa de esteira móvel. — Ele ouve uma pessoa de ca­da vez, é só isso. Seja qual for o dono, só ouve a ele.

— Como irá saber que sou eu a sua dona? — perguntou Susan. — Quando eu for embora, ele vai procurar você.

William ouviu isto alarmado. — Não vai deixar o ca­chorro aqui!

Pete ergueu a manápula do prato. — O presente de Natal de Susan — explicou.

— Mas não pode ser — exclamou Elinor.

Edwin ergueu suas belas sobrancelhas para Vera, que respondeu com um leve declinar das pálpebras. Nenhum falou.

Susan voltou-se arrebatadamente para sua mãe. — Ele não vai incomodar vocês, eu vou levá-lo comigo para o co­légio. A arrumadeira diz que pode ficar com ele se não me permitirem tê-lo no dormitório.

Elinor não respondeu. Havia muito, combinara com Wil­liam que à mesa não discutiriam com os filhos; e certamen­te não o havia de fazer, declarava sua expressão firme, diante deste estranho chamado Pete.

Seus olhos encontraram-se com os de William, de uma ponta à outra da mesa, e ele imediatamente correspondeu. — O serviço de meteorologia prevê neve para o Natal — dis­se com adequada satisfação. — Espero que assim seja, pois os filhos de Winsten vão gostar muito.

— Vou desentocar os velhos trenós — lembrou Edwin. Em caso de necessidade, Edwin sempre entrava, lealmente, na conversa.

— Isso mesmo — disse Elinor, heroicamente. — Há tan­to tempo que não os usamos. Será uma novidade para as crianças um Natal com neve. Eram muito pequenos, há dois anos, para agora se lembrarem. Creio que nem mesmo o pequeno Billy tenha guardado uma lembrança daquele Na­tal, não acha, William?

— Certamente que não se lembra — respondeu ele. E por trás da solidária conversa, imaginava que amanhã o in­qualificável Pete se teria ido embora. Como era o nome de família do rapaz? Esquecera-se; mas que importância ti­nha! E logo que tivesse partido, mandaria Susan por o ca­chorro do lado de fora, onde era o seu lugar.

 

Pete partiu de manhã cedo, com o cabelo em desalinho, jogando-se no assento de um carro tão velho que nada de semelhante poderia ser visto, William disto tinha certeza, fora da região dos montes Ozark. Suspeitava que, por bai­xo do sobretudo leve e do mesmo traje da véspera, Pete ainda estivesse com o pijama. Observou tudo isto da janela do seu quarto, despertado pelo barulho, mas evitando pru­dentemente aparecer enquanto esta voz em sua casa não se tivesse apagado. Viu agora Susan sair correndo porta fo­ra, quando Pete pôs o motor em funcionamento por entre uma mistura de fumaça e um convulsivo resfolegar. Vestia simplesmente seu chambre de lã vermelho, uma figura es­carlate, os cabelos escuros escorrendo-lhe pelo dorso, sur­preendentemente longos depois da primavera passada, quando resolvera deixá-los crescer. William fechou os olhos temendo ver sua querida filha beijar aquele rapaz de barba por fazer e totalmente repulsivo, que estava no lugar do motorista; mas logo abriu-os rapidamente na esperança de ver por si mesmo que isto não ia acontecer. Não aconteceu.

Pete estendeu para fora um braço comprido, sobressaindo então, distintamente, de dentro do sobretudo, uma manga de pijama, e apertou Susan com bastante vigor para que os ombros dela desaparecessem; mas não houve beijo.

— Graças a Deus — soprou William e voltou para a ca­ma a fim de dormir mais uma hora.

Era impossível, descobriu-o logo. Ordenara a Herbert, na véspera, quando se recolhera, que logo após a partida de Pete pusesse o cachorro para fora, e Herbert agora cum­pria a ordem. O animal estava adormecido sobre o tapete da lareira e Herbert aproximou-se decididamente e agar­rou-o pela coleira. Era um homem animalescamente forte e o cachorro se deixou erguer, meio sufocado. Arreganhava os dentes mas não podia emitir nenhum som. O homem colo­cara-o entre as pernas e, avançando, arrastava-o. Um mo­mento depois, o cachorro sentiu-se arremessado à friagem exterior, enquanto a porta se fechava. Atirou-se contra esta, ladrando, e era esse o barulho que William agora ouvia, o clamor, o ulular de um animal selvagem, e logo o seu aflitivo arranhar na porta de carvalho da frente, o orgulho da casa, a porta tão antiga que a tradição referia provir de um maciço carvalho abatido na ilharga da montanha, já com centenas de anos quando a família dos Winstens se estabelecera em Vermont. William saltou da cama, enfiou apressadamente o chambre de lã e, na escada, encontrou-se com Elinor e Susan, enquanto Herbert e Jessica convergiam da copa, e Bertha, arquejando atrás deles, acudia da cozi­nha. William abriu a porta, rápido, e o cachorro irrompeu no interior da casa.

— Isto absolutamente não pode ser! — gritou William. Voltou-se para Susan com tal expressão de raiva nos olhos claros que, pela primeira vez na vida de sua filha, perce­beu que a assustava. Aproveitou-se de seu medo espantado. — Não quero esse cachorro dentro de casa. — Gritou de um modo que surpreendeu a ele mesmo. — Ponha o ca­chorro para fora e deixe-o lá.

Susan correu para a sala de leste. O cachorro estava no­vamente diante da lareira, o corpanzil colado ao tapete, numa imobilidade cheia de determinação, a cabeça sobre as grandes patas, aparentemente dócil, mas com uma ex­pressão malfazeja no olhar que dirigia a todos eles.

— Pirata. — Susan ajoelhou-se ao seu lado. — Pirata, meu cachorro.

O cão ergueu a cabeça e mostrou os dentes.

— Susan, saia daí — gritou Elinor. — É perigoso. Oh, que vamos fazer, e com as crianças aqui em menos de uma hora?

Era verdade. O trem que trazia Winsten chegaria antes das nove horas e era perto de oito e meia.

— Vou mandar levá-lo embora daqui — disse William, com firmeza.

Susan disse excitadamente: — Não quero que o matem! Ele só está estranhando. Ele sabe que Pete o deixou aqui para mim. Está com medo de mim porque também está me estranhando, agora que Pete não está aqui. Sempre nos viu juntos.

— O cachorro não pode continuar aqui — disse William, inflexível; mas seu coração, para seu próprio desgosto, co­meçava a degelar. Havia realmente lágrimas nos olhos cas­tanhos da filha.

— Ora, minha querida, minha querida — murmurou Elinor.

Foi Jessica quem agora surpreendeu a todos, Jessica sem­pre tão tímida. Deu um passo à frente da fileira de criados onde estivera, entre Herbert e Bertha, e disse com toda o clareza: — Eu fico com o cachorro, Miss Susan. Levo-o pa­ra casa. Mudei de idéia, desculpem, quanto a permanecer aqui. A mãe pode arranjar-se sozinha. — Olhou de um pa­ra outro rosto, todos tomados de surpresa, e voltou-se deci­didamente para William. — Por favor, Mr. Asher, é que de repente comecei a não me sentir muito bem. Herbert até nem queria que eu viesse: dizia que isso iria me atrapa­lhar e, não sei como, é assim mesmo. Mas nós nos arran­jaríamos com um cão de guarda. A casa é tão deserta. Freqüentemente, fico com muito medo. Acho provável que ele se acostume comigo quando ficarmos sozinhos lá.

Não era uma solução, com a hora de chegada do trem tão próxima? Entreolharam-se, indecisos. Herbert mantinha-se calado.

Elinor voltou-se para Bertha. — Você pode mesmo ar­ranjar-se sozinha? — Percebia que Jessica pretendia dei­xar o serviço imediatamente; apenas não sabia por que, visto que se empenhara com tanta veemência...

— Herbert me axuda — disse Bertha.

— Naturalmente que todos vocês podem ir para casa de­pois de servido o jantar, amanhã — disse Elinor.

— "Ja, gewiss" — concordou Bertha.

Estava, pois, resolvido. Uma vez mais, Herbert atacou o cachorro. Passou uma perna por cima do lombo do animal e agarrou-lhe o pescoço com tal pressão que ele não con­seguia voltar a cabeça, mal podendo tomar um fôlego su­focado, que se reduzia a um simples e difícil roncar. Herbert arrastou-o para fora, entre os joelhos apertados.

William abriu a porta da frente e todos ficaram parados, olhando o homem que sujeitava firmemente o cachorro, dominando-o com uma força tão brutal como a do próprio cão, até alcançar o velho táxi Packard que era a condução particular de Herbert. Este ergueu uma das mãos para abrir a porta e o cachorro, vendo-se meio livre, rosnou e vol­tou a cabeça o suficiente para lhe abocanhar o braço. Her­bert deu um pontapé no ventre do cachorro e, irritado, er­gueu-o com as mãos e um joelho, arremessando-o para dentro do carro, cuja portinhola bateu.

— Não vou entrar — gritou. — O meu braço está pingan­do sangue.

— Você deve ir ao médico — gritou-lhe Elinor, em res­posta.

— Como é que Jessica vai guiar com esse animal aí? — gritou William, por seu turno.

— Ela fica em segurança na parte da frente; tem um vi­dro grosso de permeio. E não preciso ir ao médico. O cachor­ro não está louco; só brabo.

Voltaram para dentro e, pela janela, William via o ca­chorro atirando-se contra as portas do carro e o vidro, la­drando frenético, depois lançando longos uivos de fúria. Dentro de alguns minutos, Jessica saiu pela porta dos fun­dos, singelamente elegante no casaco comprido de pano azul, apropriado à sua figura delgada, um chapeuzinho azul bem ajustado na cabeça, lembrando tão pouco, como habitualmente, aquilo que ela era, uma criada. Sem um simples relance de olhos para o cachorro, tomou o isolado assento dianteiro e pôs o carro em marcha.

Tudo passara, a casa estava reposta na sua dignidade e na paz do Natal. William subiu, tomou banho, vestiu-se e tornou a descer, barbeado, posto em ordem para o dia. Eli­nor e Susan já estavam na sala de jantar, esperando-o.

— Onde está Edwin? — perguntou. Chegou a cadeira para Elinor, um hábito tão enraizado que já não notava o que estava fazendo.

— Você acreditaria que ainda está dormindo? — res­pondeu Elinor.

— Que bom! Tomara que eu também estivesse — quei­xou-se William. — Que maneira de começar uma véspera de Natal!

Notou, satisfeito, que Susan estava inteiramente subme­tida. Vestia uma espécie de "négligé", de lã cor-de-rosa. Ele detestava chambres no primeiro almoço, mas abste­ve de dizê-lo, pois naturalmente ela o sabia. Susan tomava lentamente o seu copo de suco de laranja, como se fosse difícil engolir, e estava pálida.

Herbert entrou com o café. Bertha fizera-lhe um esme­rado curativo no pulso, com gaze.

— Não vejo como Jessica possa arranjar-se sozinha com aquele cachorro, quando chegar à casa — disse William.

— Eu disse a ela que não se importasse com o cachorro — informou Herbert. — Disse que deixasse ele na parte de trás do carro até que sinta fome e fique quieto. Quando estiver bastante enfraquecido, eu manobro ele. Ensino-lhe quem é o dono.

Susan ergueu a cabeça para protestar, mas William no mesmo momento a encarou com severidade. Seus olhares se chocaram, ele não cedeu e Susan baixou as pálpebras.

— Ótima idéia, Herbert — disse William.

— Obrigado, Mr. Asher — respondeu Herbert e encheu-lhe a taça de café.

 

MUITA COISA se passava no mundo à margem de sua fa­mília, dizia consigo William Asher, com algum azedume, no começo de uma noite de abril, enquanto dava o nó na gravata, diante do espelho do seu quarto de vestir; mas, continuou, havia algo que se estendia até sua própria fa­mília. Estava com a mesma sensação de ressentimento que se lembrava de haver experimentado quando era um rapa­zola — um moço, de fato — e brigava com o próprio pai de um modo subterrâneo, porque pretendia que a família deixasse de vir a Manchester apenas como veranista, e lá passasse a residir efetivamente, a fim de que ele pudesse encontrar-se diariamente com Elinor. Então, estudava piano, fazia já alguns anos, e tocava-o bastante bem para acom­panhar Elinor, quando ela cantava, a menos que escolhesse algum trecho difícil de ópera alemã, que já então ele não achava apropriado para a voz dela. Com o tempo, Elinor compreendera melhor e ele gostara, mais ainda de lhe fa­zer o acompanhamento, embora naturalmente, depois de casados e com filhos, aquilo tivesse de ser posto de lado. Um dos prazeres de ver finalmente os filhos fora de casa era que ambos tinham voltado à música e ele descobrira, encantado, que seus dedos conservavam a habilidade, e Elinor sua voz agradável, embora de registro bem mais bai­xo do que fora quando moça. E tornou a lembrar-se de que, no verão anterior ao seu casamento, sofrera uma estranha infecção na palma da mão, uma tumefação que vinha de dentro, sem qualquer sinal na pele; era apenas, a princí­pio, um ponto dolorido, mas em poucos dias crescia até se transformar num tormento de fundas raízes, centralizado na mão, porém penetrando-lhe todo o ser. A calamidade era que devia apresentar-se com Elinor no concerto do verão, o ponto alto da temporada, e ele não podia desempenhar o seu papel. Afora agüentar a dor e o latejar da mão, tinha devê-la, no tablado da Prefeitura, com outro acompanhante, um homem mais velho do que ele quatro ou cinco anos, e posteriormente, anos a fio, a personificação de seus profundos ciúmes, mesmo quando já casara com Elinor. Por que não dizer o que era verdade, olhando o seu próprio rosto aqui no espelho, que ainda sentia ciúmes, de um modo inex­plicável e tolo, de Lorenzo Marquis? Marquis continuara a veranear lá e todos os anos William tinha de suportar o desvanecimento do homem com seu próprio sucesso. Mar­quis era, atualmente, muitas vezes milionário; e fora ex­tremamente afrontoso na última vez que viera jantar, ele com sua decorativa terceira esposa.

— Hum, a casa parece exatamente como era — disse e Elinor respondera, um tanto àcidamente: — É por isso que gostamos dela — o que estaria bem se Marquis não retru­casse: — Você me agrada... você também não mudou. William deve ser um homem de convivência fácil — e logo, com um grosseiro olhar de admiração à jovem loura que desposara recentemente: — Parece que eu esgoto vocês de­pressa, hem, Tootles? — Tootles se limitara a sorrir. Era uma beleza indolente, que não precisava falar.

No começo daquele verão, William ainda ficara mais in­dignado porque a inchação viera de dentro da carne. Não era um ferimento, não cortara a mão numa queda', não se machucara com nenhum instrumento, com uma faca que escapa. Viera simplesmente de dentro de seu próprio cor­po, de alguma parte dele, esta absurda e dolorosa infecção que lhe roubara uma alegria junto de Elinor.

Agora, em abril, anos depois, lembrou-se de sua mão porque estava planejando passar as férias da Páscoa, com Elinor, em Atlantic City, onde se dizia haver sol nessa tem­porada, e ele sentia, como acontecera havia tanto tempo, que algo não andava bem nele mesmo. O sol recusava-se a aparecer em Vermont. O cinzento tenaz do céu, por cima da casa, deixara-o nervoso. Ansiava por ver o firme azul claro do mar ainda frio, um céu azul pálido manchado de nuvens, um vento puro e ríspido, gente em roupas vivas de primavera caminhando nos passeios de tábuas, uma multi­dão de Páscoa.

Precisava da mudança, depois de um duro inverno em que semanas houvera quando absolutamente lhe fora im­possível voltar para casa. E enquanto o escândalo em Nova York agora se aprofundava até que ele se via forçado a son­dar os próprios esgotos da humanidade, onde a vida era hor­rível em fertilidade, proliferação e vigor, um cancro agar­rado à estrutura social, consumindo a vida sadia dos ino­centes — enquanto tudo isto ia crescendo até lhe causar uma náusea profunda, algo da mesma espécie ocorria bem longe, no que sempre gostara de julgar fosse a província ino­cente e singularmente pura de Vermont, no sagrado lugar que pertencia a ele e a Elinor, em sua própria casa.

O transtorno centralizava-se ridiculamente em torno do cachorro preto, o enorme animal que Jessica levara para casa na véspera do Natal. Não tornara a pensar no cachor­ro, os feriados tinham sido uma delícia, caíra neve e, pela primeira vez — recordou-se — gozara os prazeres de ser avô. Até agora sentira-se envergonhado da contrariedade que, em sua idade cheia de vigor, lhe causava o fato de uma terceira geração já estar crescendo à sua volta. Casara ce­do, e como ele, Winsten. Madge inclinara-se a logo ter fi­lhos, à maneira impudica que as mulheres jovens assumiam atualmente. Quando ele casara com Elinor, o pronto apa­recimento de Winsten, apenas doze meses depois do enla­ce, fora uma fonte de embaraço para a família inteira, im­plicando, de todo injustamente, que ele, William Asher, um moço tão correto como jamais houvera, não passava de um bruto de paixões sem freio. Winsten e Madge, pelo con­trário, haviam se orgulhado de casar cedo e mais ainda quando lhes nascera um menino, menos de um ano depois. Pelo Natal, Madge declarou-se novamente grávida e, desne­cessariamente, comunicava-o a quem quer que viesse à casa.

— Pois é — gritara, todo riso o rosto redondo, rosa e branco. — Não é uma maravilha? Em julho, dia doze... — Eis aí, indicava o dia exato, sugerindo um cálculo cho­cante, que convidava os lascivos a imaginar a própria noi­te... Ou, no caso, o dia, pois uma vez, aqui, nesta casa, notara um indício revelador de que Winsten não esperava recatadamente a noite, mas, se sentia um impulso, sim­plesmente...

Afastou-se do espelho diante do qual ficara parado. Fos­se como fosse, as crianças tinham ficado um encanto sobre a neve do Natal, o menino de casaco vermelho e perneiras, e a pequenina, um nenê ainda, cambaleante em suas ten­tativas de marcha, de roupinha azul vivo, com sua estolinha branca de peles, de que tanto se ufanava, os olhos azuis como pedacinhos do céu quando se punha de pé num monte de neve, enquadrada pelo próprio céu. Compreende­ra então algo da maravilha da continuidade da vida huma­na, de sua beleza em saúde e bondade aqui em sua casa, num bendito contraste com os frutos da corrupção da cidade grande. Havia de conservar pelo menos os seus em saúde e bondade, e se cada homem fizesse o mesmo, a sordidez morreria.

Contudo, a corrupção surgira aqui em sua própria casa, uma infecção que vinha de dentro, com a qual ele parecia não ter nenhuma relação, e que, no entanto, poderia acar­retar, e acarretava, desassossego para o conjunto.

Enrugou as sobrancelhas, enfiou o paletó e desceu para jantar. Um fagueiro sopro de primavera impregnava as pe­ças da casa, embora fizesse muito frio para se abrirem as janelas e houvesse, como habitualmente, fogo na lareira. Mas Elinor pusera sobre a mesa bojudas jarras com os pri­meiros narcisos do prado, e trajava um vestido de tafetá de um verde primaveril, que não era novo, registrou ele, mas demasiado fresco para o inverno: portanto, era pri­mavera. Elinor sentou-se, ele chegou-lhe a cadeira, e ocu­pou o seu próprio lugar. Havia narcisos do prado entre am­bos, numa jarra baixa de prata, de modo que podia ver-lhe o rosto. Lá estava ela com sua expressão remota, aquela distância tristonha, as faces um pouco pálidas, a boca ver­melha apenas porque assim a fizera. Alguma coisa andava mal, mas a enfrentaria depois. Primeiro, o jantar. Projeta­ra contar-lhe os desesperos de sua própria semana, pois não pudera voltar senão às sextas-feiras de noite, como hoje, e devia retornar a Nova York terça de manhã.

— Quando esta sórdida questão estiver para trás — dis­se com certa aspereza, enquanto Herbert servia as tigelas de sopa — hei de ficar um mês sem me aproximar de Nova York. Vai ser ótimo passarmos alguns dias da semana que vem, no mar.

A combinação era que Elinor iria ao seu encontro em Nova York e sairiam ambos juntos da cidade, de sorte que de fato decorreriam duas semanas, é talvez mais, antes que tornassem a reunir-se em casa. Sentiria falta dela, mas es­tes eram os últimos anos laboriosos antes de sua aposen­tadoria. Já decidira que aquele seria o último ano. Depois se limitaria a atender, como consultor, os casos difíceis, não mais se ocupando com o ataque frontal que fazia agora. Homens mais moços, talvez Edwin, que subitamente resol­vera fazer-se advogado, tomariam o seu lugar. Mas não le­varia Edwin para a sua banca enquanto não se experimen­tasse noutra. Nada de nepotismo: estremecia a família, era cioso de todos eles, não devia debilitar os filhos impedindo que cada um alcançasse o cume sozinho. Marquis arruina­ra o próprio filho, já um homem de vinte e cinco anos, que ainda vivia da absurda mesada do pai, cinco mil dólares mensais, alegando estar a escrever uma peça, um livro, qualquer coisa. Marquis inscrevera-o com um salário,.anos a fio, em sua própria estação de rádio, sem que o rapaz o soubesse. Isto tivera de terminar quando os empregados se haviam rebelado.

— Não sei se devo viajar justamente agora — disse Eli­nor.

— Por que não? — perguntou ele.

— Não gosto do modo como Susan está se portando — ex­plicou ela.

As sobrancelhas de Elinor se ergueram. Herbert estava na sala. Seu peso aumentara absurdamente durante aque­les últimos meses e o casaco de serviço ficara-lhe tão aper­tado que ele respirava por fôlegos curtos, audíveis.

William notou-o e sorriu de leve. — Parece que você se deu bem com o casamento, Herbert — disse, servindo-se de assado de cordeiro.

Se não lhe dirigissem a palavra, Herbert podia manter-se em silêncio dias a fio, mas um comentário amigável con­seguia abrir suas comportas interiores. Recuou, colocou a travessa de carne no tabuleiro de prata que estava sobre o aparador e falou, compondo antes a garganta por detrás da grossa destra.

— Jessica não anda muito bem — disse com sua voz al­go fina.

— Não? — disse William. Fora um erro dar atenção a Herbert.

— Eu estava me lembrando — disse este, abaixando a voz — de que desejava ter uma conversa com o senhor e Mrs. Asher esta noite, se tivessem tempo.

Com uma expressão de desespero íntimo, William inter­rogou Elinor em silêncio, erguendo as sobrancelhas.

— Oh, certamente — disse ela — logo que terminarmos de jantar, Herbert, enquanto estivermos tomando o café. Então você não deve tardar tanto em ir para casa. Jessica deve ficar nervosa, sozinha lá, de noite, antes de você che­gar.

— Ela tem o cachorro — disse Herbert.

Nada mais foi dito, terminaram o jantar e retiraram-se para a sala de estar. Ali, comodamente instalado, William suspirou. — Preferia não ter de passar por isto. Você faz alguma idéia...

Elinor interrompeu-o. — Eu sei que as coisas não têm an­dado bem desde o Natal. Bertha chorou muito na cozinha, mas me acovardei e não perguntei por quê. Cheguei mesmo a simular que não tinha notado nada. Mas naturalmente sabia que isso teria de estourar.

William compôs a garganta e acendeu o cachimbo. As conversas acerca de criados eram sempre desagradáveis. A gente pagava para ter sossego em casa.

— Que há com Susan? — perguntou. Pusera isto de lado também, até o fim do jantar, mas agora convinha enfrentar tudo, ao mesmo tempo.

— É Pete — disse Elinor. — Nunca a perdoou por ter deixado Jessica ficar com o cachorro. Andam brigando todo o tempo e isso afasta a atenção dela do estudo. Não me agrada o seu aspecto. Está emagrecendo visivelmente.

— Gostaria que ela se esquecesse desse tipo.

— Acho que ela também gostaria, mas não pode. Há qualquer coisa...

Herbert entrou com o café e Elinor se interrompeu. Her­bert colocou as xícaras cuidadosamente diante dela, sobre uma mesinha, com as mãos levemente trêmulas, o que mes­mo William notou.

— Muito bem, Herbert — disse Elinor.

O homem parou então entre ambos, recuando um pouco de modo que lhe vissem o rosto, aquele rosto gordo, fláci­do, tolo, o nariz escasso, a boca miúda e sem lábios, os olhinhos cinzentos, as pálpebras sem pestanas, o cabelo preto e duro, que nenhuma escova ou loção seria capaz de aca­mar. Um tipo vulgar, pensou William, uma figura de bar­ro grosseiro, escondendo sabia-se lá que baixas paixões...

Então veio aquele horror. Herbert não falou. Em vez dis­so, desatou a chorar em silêncio e isto apenas com a míni­ma alteração das feições rechonchudas. A boca esticada se torceu, dos olhos pequenos rolaram lágrimas pelas bochechas pastosas caindo-lhe no paletó de serviço, de pano branco engomado, e ali formando manchas cinzentas e viscosas.

— Ora, Herbert, por favor — murmurou Elinor. Herbert fungou e procurou o lenço, às apalpadelas; não o encontrando, enxugou o nariz com as costas da mão. Wil­liam afastou o olhar, lutando com o pensamento de que devia oferecer a Herbert seu próprio lenço limpo. Não pôde fazê-lo. Em vez disso, fitou os olhos no fogo enquanto Her­bert continuava fungando até conseguir falar, por entre so­luços curtos.

— Eu dou tudo...pra ela, Mrs. Asher!

— Tenho certeza disso — consolou-o Elinor, enquanto William permanecia imóvel em sua cadeira, de olhar fixo no fogo.

— Dois aspiradores de pó, um no andar de cima, Mrs. Asher, levando em conta que ela não é forte e a máquina era pesada demais pra andar com ela pra cima e pra baixo...

— Muita bondade sua — disse Elinor, com firmeza.

— Ela não gosta do tapete da sala, quer um que cubra todo o soalho como este aqui... duzentos dólares, Mrs. Asher.

— Espero que ela saiba apreciar isso tudo — disse Eli­nor.

O choramingar recomeçou. William olhou-o de relance e viu a cara maciça tremelicando numa geléia de dor.

— Ela não quer que eu chegue perto dela...

Ah, aí estava: a eterna acusação entre marido e mulher!

— As noites vão e vem... estou perdendo a saúde...

Elinor adiantou-se, resolutamente. — É muito estranho. Ela apresenta alguma razão?

— Nenhuma razão, Mrs. Asher. Só diz que... não po­de.

— Simplesmente não sei que conselho dar-lhe, Herbert — disse Elinor.

— Sim, Mrs. Asher, eu não esperava isso; nem de Mr. Asher, também. Eu mesmo resolvia o caso, antes. Ela não tem força nenhuma.

— Antes de quê? — perguntou William, voltando de re­pente a cabeça.

— Antes que ela levasse o cachorro — soluçou Herbert.

— É aquele animal, Mr. Asher; ele fica entre nós, no chão; ela exigiu camas separadas, antes de nos casarmos. Ele fica deitado ali de permeio, pronto pra saltar contra mim... é só ela dar um grito...

— Que coisa medonha! — sussurrou Elinor.

Herbert continuava de pé, a pesada cabeça inclinada, num choramingar esporádico, tremendo todo ele.

— Por que não se desfaz do cachorro? — perguntou Wil­liam. Eis uma coisa chocante para se decidir depois do jan­tar, em sua própria casa! Sua imaginação rápida, indomá­vel, perdição de seu espírito, criou a cena de alcova, o ho­mem ardendo de desejo carnal, a mulher aterrorizada, aquele animal de olhos vermelhos entre ambos, a cabeça em pé.

— Ela diz que se eu fizer isso... ela me deixa. — A voz de Herbert ergueu-se num guincho de tormento final.

— Isso é ridículo — disse Elinor, num tom de sadio sen­so comum. — Provavelmente ela o respeitará por isso.

— Não tenho coragem... de correr o risco. Ela tem umas esquisitices que a senhora nem imagina.

Elinor empertigou-se na cadeira. — Herbert, pare de cho­rar, faça o favor. Não podemos discutir isso de um modo sensato, enquanto você ficar aí desse jeito. Se chorar dian­te de Jessica, vai levá-la de fato a desprezá-lo. Nenhuma mulher o suportaria.

Falava impiedosamente, com voz dura e clara, mas era um alívio ouvi-la, como a uma faca de aço traspassando a espessura da atmosfera pegajosa de Herbert.

Contudo, isso não aproveitou a Herbert. — Meu lenço _ murmurou ele com voz embargada e saiu precipitada­mente da sala.

Nenhum deles falou durante alguns minutos. Depois, Elinor serviu o café. — Açúcar? — perguntou. As vezes, William recusava o açúcar.

— Não — disse e pegou na xícara. Elinor quebrara a estupefação em que Herbert os deixara e ele devia dizer qualquer coisa.

— Uma revelação terrível — comentou, secamente. — Revoltante, repulsiva, nunca deveria ter sido feita. Não po­demos fazer nada quanto a isso.

Elinor não respondeu logo. Depois disse: — Tenho muita pena de Jessica.

William surpreendeu-se. Até agora, julgara Elinor um pouco impaciente com Jessica. Um sentimento inconfessado de ciúmes, poderia ter dito exclusivamente consigo mes­mo. Jessica era bonita e Elinor vira esta mulher jovem e bo­nita por as mãos nos ombros de Edwin, com uma atitude à qual nenhum homem era insensível, engodos a que ela pró­pria nunca recorrera e nunca poderia ter recorrido simples­mente por causa de sua alma reta, e não porque não sou­besse, como naturalmente sabia, que sua própria e grande beleza estava, mesmo agora, muito além de tudo quanto Jessica possuía.

— Mas você sabe...— objetou ele.

— Não há "mas", aí — atalhou vivamente Elinor. — Eu sei exatamente o que você ia dizer e estou surpreendida, William, porque você bem raramente diz o que qualquer homem diria.

— Que é que eu ia dizer? — perguntou ele com proposi­tada brandura.

— Ia dizer que afinal de contas Herbert é o marido de­la, que é direito e natural de sua parte pretender relações sexuais, e para que é que um homem casa?

Ele era muito honesto para contrapor que pensara outra coisa. Era exato que estivera a ponto de dizer isso, embora certamente não com palavras tão ousadas.

— Você apresenta a questão com muita rudeza — disse, com dignidade.

— Apresento-a como ela é — disse Elinor. — É uma questão rude.

— Mas o cachorro... — protestou ele.

— Fico satisfeita por Jessica ter o cachorro — disse Eli­nor, quase com rispidez.

William estava espantado. Pousou a xícara na mesa e encarou-a. Esta face de Elinor ele nunca a vira e não lhe agradava. Onde poderia um homem encontrar certeza se­não com sua mulher, depois de vinte e cinco anos de ca­samento? Uma mulher não devia revelar novas faces, de­pois disso. Não era leal, perturbava, abalava a própria cida­dela do lar.

— Minha querida — disse — você parece amargurada.

— Eu me sinto amarga — disse Elinor com veemência. Encheu a xícara de café, enquanto a William lhe ocorria que durante todo este tempo ela não levantara a cabeça para olhá-lo.

— Por quê? — perguntou, com os olhos presos na sua cabeça baixa.

— Esse Herbert — exclamou ela — tão macio, 'tão gor­do, tão exigente! Sei exatamente como Jessica se sente. Qualquer mulher o sabe.

Era assustador. Ela dava ao caso um cunho pessoal, ar­rastava-o para aqui, entre ambos, era obsceno, a espécie de coisa que um homem digno nunca enfrenta, pelo menos em si próprio.

— Não vamos falar sobre isso — disse ele. E ficaram em silêncio, tomando café.

 

Tudo isto desviou de Susan o pensamento de William; e só quando Elinor tornou a falar na filha, uma semana de­pois, em Atlantic City, foi que ele se lembrou de que tam­bém existia Peter Dobbs. Estavam sentados num tépido re­canto da praia arenosa, protegidos de um impertinente oes­te pelo passeio de tábuas. Fazia muito frio para pensarem em entrar na água, que, não obstante, se mostrava tentado­ramente clara e mansa, com uma rebentação fraca e sem perigo. Ele não era forte nadador e não gostava da contun­dente rebentação do verão; uma das menores crueldades da natureza, pensou, era que no inverno, com a água dema­siado fria para a constituição humana, o mar estivesse fre­qüentemente calmo, as ondas submissas, pelo menos quan­do o céu, como hoje, estava sem nuvens, ao passo que no verão algum aspecto tempestuoso da lua forçava as marés ao desassossego. Eva, feita de uma costela de Adão, era apenas a legenda da lua caprichosa e feminina arrancada do flanco do globo recém-criado, havia bilhões de anos, e o ferimento hiante da bacia do Pacífico, basalto bruto no fundo, mal se restabelecera, como o próprio homem. E aqui estava a lua conforme a vira a noite passada, rodopiando acima da terra anelante, uma lua remota e inatingível, para sempre fora de nova união, e no entanto atraindo as águas dos mares da terra apenas para, vezes sem fim, rejeitá-las no incessante fluxo e refluxo do ritmo da infatigável criação.

Deitado de costas, os olhos fechados para o sol, sentindo esse ritmo no seu próprio ser, estendeu o braço em procura da mão de Elinor. Ela entregou-a docilmente e William apertou-a contra o rosto, um milagre hoje como fora anos atrás; não o mesmo, porque a mão se transformara, fizera-se talvez mais dura, pelo menos mais firme; mas era ainda a mão de sua Elinor.

— Susan quer descer — disse Elinor.

— Ela telefonou? — perguntou William.

— Telefonou esta manhã, enquanto você ainda dormia. Quer descer amanhã. Diz que tem de conversar conosco.

Ele suspirou e apertou-lhe a mão, deixando-a cair na areia. — Então acho que deve descer.

— É o que penso.

Era extraordinário como os filhos continuavam a intro­meter-se. Não se esperava outra coisa quando eram crian­ças. Mas Susan teria sido a primeira a afirmar sua idade adulta se ainda a chamasse de criança. Para ele, a manhã despreocupada findara, embora faltassem duas horas para voltarem ao hotel a fim de almoçar. Não mais podia sentir-se a sós com Elinor enquanto Susan não viesse e não se fos­se, enquanto não desse a conhecer o seu novo problema, fosse qual fosse, pois a vida dos jovens era, segundo pare­cia, crivada de problemas inexplicáveis e insolúveis. Toda a teia de seu exercício profissional, carregada dos crimes subjacentes na vida da maior cidade do mundo, não era tão perturbadora como as agressivas exigências dos problemas de seus três filhos já adultos, Winsten, o jovem pai, Edwin, o namorado, e Susan, o eterno feminino. Ou talvez fosse apenas que ele podia deixar a banca de trabalho, fechar a porta do escritório e ir embora, enquanto estes três, que eram seus filhos, iniludivelmente seu próprio ser, continua­vam nele e estavam para sempre em sua casa, seus fantas­mas infantis persistindo no próprio sangue dele. Não podia escapar-lhes mais do que poderia escapar de si mesmo.

Não obstante, apesar de um dia e uma noite de cogita­ção, não conseguira atinar com a natureza do atual pro­blema de Susan. Ela apareceu no dia seguinte, já manhã alta, conduzindo impetuosamente o seu carro pela viela de acesso ao hotel, como ele podia ver da janela aonde fora a fim de examinar a segunda de suas melhores gravatas, de listas azul-escuras e cinzentas, da qual gostava muito, mas que supusera puída. Não era um homem frívolo, mas Su­san considerava-o com olho crítico, como a uma coisa sua Lá, à entrada do hotel, via o pequeno conversível vermelho escuro que obtivera dele, com muita insistência, como pre­sente antecipado de formatura, e com indizível horror viu Peter Dobbs saltar por cima da portinhola, passando uma longa perna e logo a outra, para depois abrir a porta do la­do de Susan.

— Elinor! — gritou através da sala de banho interposta aos dois quartos. — Ela trouxe aquele sujeito dos montes Ozark!

— Não é possível! — gritou Elinor em resposta e logo apareceu, muito bonita em sua combinação de seda cor-de-rosa, o que o levou a perguntar-se por que devia desbotar em primeiro lugar o rosto de uma mulher esguia. Sob os ou­tros aspectos, com aquela peça de roupa, ainda era uma jovem.

Elinor parou atrás da cortina, puxando-a sobre si à manei­ra de anteparo. Os olhos dele pousaram-lhe sobre a nuca, os pequeninos caracóis prateados, riscados de fios louros. Lem­brou-se de que, quando recém-casados, aqueles anéis de ouro pálido eram irresistíveis e subitamente se inclinou, beijando-os mais uma vez.

Elinor voltou-se e sorriu-lhe animadamente. — Agora, William, temos de nos vestir rapidamente. Ela é capaz de subir correndo até aqui...

— Claro! — resmungou ele. Pensou em explicar-lhe que o beijo que lhe dera não era um começo, neste momento, mas uma lembrança de sua primeira manhã nupcial. De outra vez poderia ter explicado, mas o temor de que Susan trouxesse cá em cima aquele latagão de cabeleira preta im­possibilitava a explicação. Além disso, Elinor devia ter com­preendido. Mas ela ainda assim pressentia nele, como todas as mulheres, supunha William, pressentiam em todos os ho­mens, o poderoso e instantâneo assomo que ele não soubera governar nos primeiros dias, mas que agora, por infelici­dade ou talvez por felicidade, se afizera a temperar, conter ou consentir, de acordo com os vagos sinais que ela deixava escapar. Nada havia realmente estereotipado nos amores de ambos. Freqüentemente, Elinor conseguia surpreendê-lo. Mas era a história do gato e do rato, e às vezes, mais amiúde do que o sabia, ele sentia-se o rato.

Neste ponto, Susan já se encontrava à porta, mas Elinor se vestira e apresentava um ar tranqüilo. Contudo, o botão superior de sua blusa estava fora da casa, como de costu­me, e ele se ressentiu à idéia de que aquele animal escuro dos montes pudesse notar semelhante detalhe. Para Susan, isso não teria importado, mas ele conservava os zelos de sua geração, e no entanto ainda não podia mencioná-lo a Eli­nor, embora estivesse tão calma que a supôs sabedora e in­diferente ao seu escrúpulo.

Demais, não havia tempo. A porta abriu-se inopinada­mente e ali estavam eles, duas criaturas jovens e sadias, en­tregues à alegria de suas novidades, evidentes para quem quer que os olhasse. Amavam-se, era pelo menos alguma espécie de amor, e William sentiu um arrepio no couro ca­beludo. Elinor contemplava-os curiosamente, com uma ex­pressão tensa nos olhos azuis.

— Mamãe e papai! — gritou Susan, dramaticamente. — Pete e eu estamos noivos. Achamos que era melhor con­tar-lhes.

— Entrem — disse William. — Eu imaginei. Quando foi?

Susan pôs-se a rir. Depois, disse: — Oh, pai, é como se fosse agora mesmo!

Entraram e ele notou que Elinor nada dizia. Ela sentou-se numa das duas cadeiras estofadas, e os dois jovens no estreito sofá. Despejadamente, Pete passou o longo braço direito em torno de Susan e esta apertou-lhe a mão direita em baixo do braço esquerdo, mantendo-a contra a cintura.

— Sinto-me tão aliviada agora que está decidido — ex­clamou no mesmo tom alvoroçado. — Eu, de fato, não sabia o que queria antes que ele finalmente me propusesse casa­mento, anteontem. Sabia e não sabia. Quando achava que nunca ia se declarar, achava que não sabia. O resto do tem­po, sabia.

William a escutava e pela primeira vez, desde que vira a filha nascer, muito vermelha em razão de seus recentes esforços e aparentemente rebelde até contra o nascimen­to, achou-a repulsiva. Que oculto aspecto de Elinor assu­mira esta forma moderna na filha de ambos? Elinor, pelo menos, tinha pudor.

— Por que nenhum de vocês diz alguma coisa? '— per­guntou Susan.

William se absteve de dar resposta, mas Elinor mostrou-se heróica.

— Ótimo — balbuciou de lábios pálidos.

Susan e Pete romperam num ruidoso dueto de risadas.

— Oh, mãe — suspirou Susan, tonta de tanto rir. — Não a acha deliciosa, Pete? Não é uma maravilha? Ótimo! Eu não falava a você?

— Falava — resmungou Pete. Seus olhos pretos cintila­vam; pela primeira vez, William via-o desperto.

Sentiu uma raiva imensa. — Eu desejaria saber se vocês os dois têm alguma imaginação — disse, desabridamente.

— Se são capazes de imaginar como a gente se sente, de­pois de esperar quase um quarto de século, quando uma fi­lha que consumiu tempo e dinheiro, para não falar em amor, aparece de repente com um perfeito estranho de quem se anuncia noiva. Não lhe ocorre — continuou autori­tariamente, olhando para Susan — que talvez pudéssemos pedir, como compensação de benefícios recebidos, a con­cessão de uma oportunidade para conhecer o estranho, an­tes de sermos compelidos a aceitá-lo como nosso genro?

O som de sua voz era impressionante, até para os seus próprios ouvidos. Nunca a ouvira em tom mais patético que esse, quando patrocinava suas causas diante de juízes em­pedernidos.

Susan parecia tomada de confusão. Arregalou os olhos escuros, gesto que levou William a remontar à infância da filha, quando, forçado a repreendê-la, nas ocasiões necessá­rias, encarava-o com estes mesmos olhos arredondados. Su­san inclinou-se para diante, no círculo do braço de Pete.

— Está falando sério, pai? — perguntou, tomada de au­têntica dúvida, conforme ele percebia.

William ia afirmar sua seriedade quando Elinor interveio.

— Naturalmente que não está. É um choque e não sabe o que dizer. Isso não é da nossa conta. Se escolheu Pete, seja bem-vindo, Pete.

Sorriu o seu sorriso mais caloroso e encantador, e Wil­liam encarou-a, irritado com aquela absurda deserção. Pois não a estivera protegendo? Que lhe importava a ele quem os filhos escolhessem? Estava acostumado, agora, a passar sem eles. Esta Susan não era a menininha morena e mimo­sa, tão roliça e cheirosa, que costumava enroscar-se nos seus braços antes de ele se deitar. Ela abandonara a casa, em espírito, havia muito tempo. Seu coração não estava ali. Ele soubera, através de leituras, de países onde a filha nun­ca era considerada membro permanente da família, porque quando casava pertencia pelo coração à família de um ho­mem estranho. Portanto, por que educá-la e por que desper­diçar com ela os tesouros do amor dos pais? Com um som­brio sentimento de culpa, reconheceu neste pensamento so­lidário uma secreta manifestação de ciúme, que lhe desa­gradou. Em qual idade, perguntou consigo mesmo, a besta humana afinal se rendia incondicionalmente?

— Em que está pensando, pai? — perguntou Susan, curiosa.

— Nada que você compreendesse — respondeu ele se­camente. Com um esforço, conseguiu dominar-se.

— Ele tem recursos? — perguntou, sem olhar para Pete.

— Posto de gasolina — disse Pete, amavelmente.

— Ele é o dono — disse Susan, com orgulho.

Era o segundo golpe. Um posto de gasolina? Fora para isto que educara carinhosamente a filha, fizera-a mesmo estudar violino, suportando sem exprimir uma queixa os anos elementares de irritantes dissonâncias, até finalmen­te vê-la tocar mesmo muito bem? — Suponho que o senhor sabe — dissera-lhe o professor de música, apenas alguns meses atrás — que sua filha pode fazer com a música qua­se tudo o que quiser. Ela anda muito perto do nível pro­fissional.

Com desesperada contenção, fez a pergunta seguinte com brandura. — Onde fica esse posto de gasolina?

— Na estrada grande que passa perto lá de casa — dis­se Pete. — Agora vão muitos excursionistas aos montes Ozark.

Elinor interveio, os lábios pálidos. — Você quererá ir para tão longe, Susan?

— Quero — disse Susan com vigor. — Vou adorar.

Não havia muita coisa a acrescentar, depois disso. Eli­nor, que invejara aos pais da mulher de Winsten o longo prazer dos preparativos para o casamento da filha, ficou em silêncio. Provavelmente, imaginou William, tinha o mes­mo pensamento dele: para que um casamento dispendioso, magnífico, se a escala seguinte era um posto de gasolina?

— Não devíamos ir almoçar? — perguntou Elinor. Olhou para a pulseirinha de diamantes que, em seu pulso, susten­tava o relógio oferecido por William no vigésimo quinto aniversário de seu casamento. — O salão de jantar ficará cheio, se esperarmos.

— Estamos loucos de fome — concordou Susan. — Pelo menos eu estou, e Pete anda sempre com apetite.

— Sempre ando com fome — concordou Pete, desdobrando-se do sofá.

Desceram. William sentia-se contente por não estar na companhia de estranhos. Susan não passava de uma es­tranha, também, acabara de perdê-la esta manhã, e tudo o que dela restava era o fantasma da criança que fora — isso e mais nada. Sentou-se à mesinha redonda em torno da qual todos ficaram apertados e examinou atentamente a lista. Rejeitando a coleção de pratos de origem marinha e os bi­fes, pediu feijão e comeu-o com pão de centeio, depois de uma longa espera, em completo silêncio, escutando não ao fluir e refluir da tagarelice em redor mas ao crescente atroar da rebentação, lá fora. A maré começava a subir.

No momento em que chegou à casa, na sexta-feira, como se Susan já não o tivesse incomodado bastante, Herbert abordou-o no saguão.

— Eu desejava uma ou duas palavras com o senhor, se não fosse incômodo.

Era incômodo. Estava cansado, a semana no escritório fora particularmente exaustiva depois de sua ausência, e, a caminho de casa, chegara mesmo a perguntar consigo se não estaria ficando velho demais para aquela rotina. Du­rante toda a viagem, Herbert se mantivera mudo no lugar do motorista. Agora, libertado pelo paletó branco do servi­ço doméstico, queria uma parcela do tempo do amo. O tem­po, pensou William com rebeldia, eis o único tesouro que lhe restava. O dinheiro era de escassa valia, a metade do que ganhava destinava-se a sustentar um governo ao qual não podia aprovar, e seus filhos o haviam abandonado. O tempo, e especialmente tempo para a companhia de Elinor, ele não podia desperdiçá-lo. Mas era impossível recusar o pedido dos subalternos, como teria recusado secamente o pedido de qualquer homem de seu próprio nível. Contrata­va secretários para nada mais que protegê-lo contra os que o faziam perder tempo; mas, em casa, estava sem defesa.

— Muito bem, Herbert — disse, com uma paciência som­bria. — É melhor irmos até a biblioteca imediatamente. Dispomos de uns quinze ou vinte minutos, antes do jantar.

Herbert seguiu-o de passo macio e solene, e quando Wil­liam se havia sentado, fechou a porta e ficou parado junto dela. E, ali, começou um choro mudo como fizera anterior­mente, o rosto grande e gordo a tremer e a sacudir-se, uma contorção nos lábios apertados. Isto só poderia significar Jessica, outra vez!

— Vamos, vamos — disse William, tornando a sentir re­pulsa e procurando não se impacientar.

Herbert fungou discretamente, procurou o lenço com o mesmo ar furtivo, achou-o e enxugou as lágrimas.

— O senhor se lembra do cachorro preto?

— Sim, lembro-me do animal — respondeu William.

— Pois aquele cachorro, Mr. Asher, parece que ela se importa mais com ele do que com qualquer ente da terra, mais do que com a mãe dela ou mesmo comigo, legítimo marido dela.

— Sente-se — disse William.

Herbert voltou-se e passou a chave na porta. Em segui­da, deu três passos para a frente, na ponta dos pés, e sen­tou-se na beira de uma das cadeiras de carvalho. Suas bo­chechas flácidas tornaram a tremer e William desviou o olhar.

— Aquele cachorro preto — disse Herbert, compondo a garganta — mordeu uma guriazinha, a semana passada. Ela é filha de um chacareiro nosso lindeiro. Vai lá buscar ovos. Eles compram ovos lá uma vez por semana. Ela tem uns sete ou oito anos. O cachorro mordeu ela na coxa. E não era a primeira vez. Já tinha mordido uma vez antes, na mão.

— Espero que o cachorro não esteja louco — disse Wil­liam, gravemente.

Herbert não fez caso do aparte. Num cochichar desagra­dável, prosseguiu: — Eu disse a ela... isto é, a Jessica... que a gente não devia ter um cachorro que morde criança. Quando tivermos um filho nosso... eu contei ao senhor que ela está esperando nenê?

— Não — disse William.

— Pois está — disse Herbert. — Espera pra junho. Eu disse a ela que a gente devia se desfazer daquele cachorro quando ele mordeu a menina a primeira vez. Ela não deu ouvidos e deixei passar. Estava grávida e eu pensei que fos­se mania. Agora o cachorro tornou a morder a menina e o pai dela diz que vai me processar. Foi uma mordida bem funda. A menina está no hospital pra cauterizar a ferida. Ele pode me processar?

— Depende — disse William, cauteloso.

— De quê?

— Deixe-me estudar isso durante alguns dias — disse William.

— Parece que pode pedir uma indenização de mil dóla­res — disse Herbert.

— Informarei você — disse William. Era absurdo que tivesse de ocupar o seu inestimável tempo com a mordida de um cachorro. Sentiu um assomo de raiva contra Pete, que trouxera o animal selvagem para sua casa e do qual agora não conseguia livrar-se.

Herbert formou uma bola com o lenço e assim o ia apli­cando num e noutro olho. — O senhor provavelmente es­tranha que eu chore. — Sua voz descaiu num guincho his­térico. — Mas não é só o cachorro, Mr. Asher. É ela. Eu não sei o que fazer com Jessica.

— Que é que há agora com Jessica? — perguntou Wil­liam, sem desejar sabê-lo. Olhou de relance para a porta fechada a chave. Um momento mais, levantar-se-ia para dar volta à chave.

— Ela está se voltando contra a mãe, também — disse Herbert, a voz descambando para um sussurro. — Não conseguimos compreender por que aquele rancor. Ela é a menina dos olhos da mãe, pode-se dizer assim, se o senhor compreende esse dito, Mr. Asher. A velha passa o tempo de folga com a gente, naturalmente, e nós arranjamos um quarto pra ela, no andar de cima, um quarto de canto, mui­to bom, o que não é mais do que a obrigação, pois a casa é dela até ela morrer; depois disso, pelo testamento tocará a Jessica e a mim, naturalmente, mas eu tinha o plano de levar a velha pra lá quando ela ficasse com muita idade pro serviço, o que me parece não vai demorar muito, e de­pois calculei que talvez Jessica e eu pudéssemos trabalhar aqui enquanto a velha cuidava das crianças que a gente tiver até lá. Não quero uma porção de filhos, dois chegam, e aí eu achava que Jessica podia se operar, coisa que ela queria fazer logo no começo.

— Operar-se? — inquiriu William.

— Ligar as trompas — explicou Herbert — para não fi­car mais grávida. Pode-se convencer o médico a fazer isso, uma vez que ela é nervosa. Ela é nervosa, essa é a verdade. 0 doutor diz isso, ele mesmo.

— Hum — fez William, uma vez mais profundamente revoltado.

— Eu nem queria ouvir falar em fazer isso imediatamen­te — prosseguiu Herbert. Voz e rosto estavam solenes, e as lágrimas, secando-lhe nas faces, tinham deixado uma esteira reluzente de lesma.

— Claro, claro — disse William, constrangido. — A si­tuação de Bertha me penaliza — acrescentou. — Alguém tem de falar com Jessica. Talvez Mrs. Asher o faça.

— Ela quererá? — perguntou Herbert, ansiosamente. — Eu desejava mesmo saber se podia pedir isso a ela. Pode­ria chamar Jessica à razão. Ela gosta tanto da família de Mrs. Asher.

— Muito bem — disse William. Levantou-se decidido a abrir a porta, mas Herbert se adiantou. Deu volta à chave, abriu-a, e ficou segurando-a insinuantemente, enquanto seu amo passava, concedendo-lhe um leve gesto de agradeci­mento.

William subiu e encontrou Elinor entremeando alfazema seca, da colheita do ano anterior, na roupa guardada na cômoda.

Beijaram-se e ele sentiu no ar o perfume puro. Quantas mulheres, perguntou consigo, punham atualmente alfaze­ma na roupa, em vez de um saquinho de cheiro importado da França? Detestava todos os perfumes franceses, embora já os tivesse achado deliciosos. Vermont causara a mudan­ça. Os perfumes franceses eram adventícios, aqui.

— Bertha se queixou para você do procedimento de Jessica? — perguntou.

— Ela tem andado mal-humorada — disse Elinor — mas não se referiu a Jessica.

— Herbert acaba de me dizer que Jessica se voltou in­teiramente contra Bertha. Levou-me até a biblioteca, fe­chou a porta a chave e me segredou uma mistura de lamen­tações. Não vou esmiuçar todas elas, mas eu lhe dei a es­perança de que você falaria com Jessica.

— Ora, querido — disse Elinor.

— Desculpe-me — disse William. — Não sei como foi isso. Suponho que queria livrar-me dele.

— Bom, convém que eu primeiramente ouça a versão de Jessica, — suspirou Elinor. — Bertha aparece contrariada, depois mete-se na cama. Este fim de semana não poderei deixá-la fazer isso. Edwin vem amanhã.

— Para quê? — Então nunca poderiam ficar sozinhos?

— Você esqueceu-se das férias dele, na primavera?

Esquecera-se. Agora que Winsten estava totalmente es­tabilizado em Boston, numa pequena casa própria, com mu­lher e filhos, agora que Susan fora alegremente aos montes Ozark visitar a família de Pete, pois era lá que ela estava (uma liberdade inconcebível, mas Susan rira quando ele lembrara uma espécie de dama de companhia), pensara desfrutar um pouco de tranqüilidade junto de Elinor, nas próximas semanas. Imaginara, até, convencê-la a acompa­nhá-lo a Nova York, a fim de assistirem a algum dos últi­mos espetáculos teatrais da temporada.

— Acho que Vera, esta semana, resolverá se vai casar com Edwin — dizia Elinor.

— É mais que tempo — disse William. Aspirava a vê-los acomodados, a todos os filhos.

— Não seria uma beleza — disse agora Elinor — se ti­véssemos "robots" na casa em vez de criados?

Ele afundou numa cadeira. — "Robots"? Acabavam for­mando um diabólico temperamento próprio. Que são Her­bert ou Jessica senão um punhado de substâncias químicas misturadas com uma porção de água? É a proporção. Quan­do cada coisa atinge inteiramente um malfadado grau de relação com tudo o mais, nasce algo novo, uma criatura, uma personalidade. Dá-se a fissão. Até o átomo não explo­dirá enquanto a combinação não estiver bem certa...

Elinor escutava, os braços pendentes. — Você está de­primido, não?

— Sossego — disse William, — ê só de sossego que pre­ciso.

 

Uma coisa estranha, sutil, pensou William, a maneira como os seres humanos destruíam a própria tranqüilidade enquanto ardentemente, e sobretudo, ansiavam por ela; destruíam-na por meio de processos subterrâneos, secretos, apegando-se obstinadamente aos seus caprichos, como fa­zia Jessica, que assim levava a convulsão daquela casinha de granja, que ele nunca vira, até sua aparatosa residência. E por que nem ele nem Elinor tinham a coragem de repu­diar estas criaturas que os perturbavam tão injustificavelmente? Observando Elinor a mover-se pelo quarto, compre­endeu-a, como compreendia a si mesmo: nenhum deles ti­nha a coragem de se mostrar implacável. Em razão de algo que não era fraqueza, acreditava, não podiam suprimir um ser humano que vivia indefeso à margem de ambos, como certamente era o caso de Jessica. Ela era uma criança, ino­cente e delicada, entre dois monólitos, Bertha e Herbert. Devia ser redimida, podia sê-lo.

— A prima Emma me afirmou que desejaria ter levado Jessica para Nova York, antes desse casamento — disse William, subitamente.

Elinor sentou-se para refletir. — Talvez tivesse sido uma boa coisa, mas agora é tarde demais. Jessica está casada.

— Acho que devíamos ir juntos, hoje, ver exatamente qual é a situação de Jessica — disse ele. — Quero formar uma opinião segura sobre o assunto. É muito difícil a gente entender-se com Herbert quando se põe a lamentar-se.

— É repelente — disse Elinor com ênfase. — Um homem chorando me embrulha o estômago.

William cedeu a um impulso de defesa. — Suponho que há ocasiões em que um homem também deve chorar.

— Chorar é uma coisa que devia ser feita às escondidas — disse Elinor.

Ocorreu a William, mais uma vez, que, de fato, a vira chorar raramente; e havia anos que tal não acontecia. Com grande insegurança e depois de um longo momento, per­guntou-lhe: — Você chora escondido, minha querida?

Ela mostrou-se evasiva, como sempre que William sonda­va as obscuridades que a separavam dele — o cunho de Vermont, supunha, ou talvez apenas o cunho dos Winstens enraizados em Vermont. — Há muito que aprendi a não chorar por nada — disse ela.

— E antes chorava? — insistiu ele.

— Quem sabe... — disse Elinor, quase com indiferen­ça. — Quando era mais moça, antes de compreender a vida...

William não foi além, impedido por um medo ou uma re­serva natural, ou talvez apenas pela relutância das pessoas maduras em exumar o próprio passado, tão enterrado, tão irrecuperável como os séculos que precederam o nascimen­to delas.

Levantou-se com ímpeto, como para se libertar deste curso de pensamento, dizendo: — De qualquer forma, va­mos ver Jessica.

— Acha que devo informar Bertha? — perguntou Elinor.

Entreolharam-se com incerteza e ele riu. — Somos ab­surdos, a questão não tem importância, essas brigas de cria­dos, e portamo-nos como se estivéssemos discutindo negó­cios internacionais. Informe-a, sim. Que tem, se se meter na cama? Havemos de arranjar-nos.

Esta firmeza decidiu-a. — Venha comigo porque ela teme pelo menos a você, ao passo que não faz caso de mim, pois me viu no dia em que nasci.

Desceram juntos a escada e entraram na cozinha, encon­trando Bertha diante do fogão, as grossas pernas abertas, bem plantadas no chão, sustentando a montanha do corpo. Não voltou a cabeça quando entraram, e a coragem de am­bos se reduziu. Mas William registrou em primeiro lugar a intimidação de Elinor e apelou para o seu remoto senso de humor. Então duas pessoas educadas, cultas e cheias de re­cursos haviam de acovardar-se diante da compacta singe­leza de uma Bertha?

— Bertha — disse, decisivamente — Mrs. Asher e eu es­tivemos conversando a respeito de Jessica. Queremos visi­tá-la hoje, para ver por que parece tão descontente com Herbert.

Bertha começou a chorar, sem virar a cabeça e conti­nuando a mexer molho numa caçarola. O corpanzil estre­meceu-lhe, ancas, ombros, o pescoço maciço. — Eu perdi minha casa — gemeu. Esfregava os olhos com a manápula vermelha. — Ela se virou contra mim, minha própria filha! Ela nom quer que eu vá pra casa nem no tomingo, e ela diz que nom quer que eu vá pra casa nos anifersários e nem no Natal. Disse pro Herbert que eu batia nela muito quando ela foi criança.

Voltou-se lentamente, no rosto grande uma devastação de mágoa, e perguntou a Elinor: — Eu pati nela alguma vez, Miss Elinor, me diga, a nom ser quando ela se metia pela casa, nas salas, e finxia ser da família? "Ja", eu via, e tinha de bater nela. A casa nom é dela, eu disse a ela, tu fica na cozinha que é o teu lugar, nom na casa. Só aí é que eu batia nela, por causa que ela nom me ouvia. Ela continua e continua sentando nas cadeirras de veludo, to­cando piano, se olhando nos espelhos, e entom eu patia nela.

Escutando, William entreviu uma ponta de motivo, teve uma súbita revelação. Era esta, pois, a explicação das ati­tudes de Jessica diante dos espelhos. Já em criança come­çara a viver o sonho de si mesma na casa grande, o sonho de que não era vinculada à cozinha nem, portanto — oh, jamais! — a Bertha, a cozinheira, e quase nada a Heinrich, o mordomo. Era uma outra pessoa, uma adorável jovem, uma criaturinha que talvez mesmo pertencesse à família que realmente morava na casa grande, casa própria, algo que sem dúvida ela não podia ter exceto em sonho. A inte­ligência sensível de William, sua imaginação rápida, as qualidades que sustentavam o seu trabalho de advogado e o levavam a compreender por que se cometiam crimes, ilu­minavam-no agora, e ele sentiu uma terna piedade da me­nina surrada por causa de seus sonhos, incuráveis sonhos que continuava tecendo. Sentiu-se satisfeito por não haver contado a Elinor as cenas do espelho.

Bertha falava por entre soluços abafados. — Ia deixar ela sair da cozinha e me arriscar que Mrs. Winsten despe­disse a mim e a Heinrich? Só desse xeito eu bati nela, tal­vez ein, drei, vier vezes, nom todos os dias como tiz agorra. Ela tiz a Herbert e ele está tom cego por ela que acrredita. Ele também nom me quer na minha própria casa.

— Herbert? — repetiu Elinor, aturdida.

— "Ja", ele — disse Bertha, e apanhando o grande avental tapou o rosto em pranto, a colher de mexer o mo­lho erguida, como um sinal, acima da cabeça inclinada.

— Nós vamos ver pessoalmente — disse William com decisão.

— Não chore, Bertha — disse Elinor. Bateu no grosso ombro de Bertha. — Vamos, não chore! Sempre terá um lar aqui, Bertha.

William olhou para Elinor, estupefato. Ela os compro­metera! Prometia um lar eterno à velha Bertha, a cabeçu­da, geniosa, gasta e sensível Bertha, escrava e tirana, a um tempo. Consternados, esgueiraram-se da cozinha. Na sala de estar, entreolharam-se.

— Mas nós não podemos jogar Bertha na rua, William — disse Elinor.

— Não — concordou ele. Este era o mal da vida. Os ve­lhos e os pobres, os ignorantes, os desamparados, os jovens, mesmo um animal não podia simplesmente ser jogado na rua quando se transformava num incômodo. Tinham de fi­car asilados, ainda que debaixo do nosso próprio teto.

Neste momento, foram distraídos, se não consolados, com a chegada antecipada de Edwin, garboso e jovial como sem­pre. Lembrou a William reconhecer agora o valor deste se­gundo filho, a serenidade de seu rosto juvenil, a proprieda­de de suas atitudes, um domínio próprio tão incomum em pessoa tão moça.

— Vamos levar Edwin e Vera conosco, quando formes ver Jessica — propôs, voltando-se para Elinor.

 Explicou-se brevemente e Edwin concordou, acenando com a cabeça. — É curioso, eu estou com vontade de ir. Sempre estimei Jessica. Ela nunca me pareceu bem uma criada. Se deseja deixar Herbert, poderia ir para nossa casa, quando Vera e eu casarmos.

Elinor trançou as mãos, cheia de alegria. — Vera se re­solveu mesmo? Oh, Edwin!

Ele confirmou com um gesto. — De fato. Resolveu-se ontem de noite. Disse que desejava decidi-lo antes de vir aqui, hoje.

— Oh, meu querido — disse Elinor, com ternura. Rara­mente beijava os filhos adultos, mas agora se aproximou deste filho tão digno de confiança e beijou-lhe o rosto. — Estou tão contente. Quero muito bem a Vera.

Edwin corou, os olhos azuis brilhando, e abraçou-a calo­rosamente. — Ela adora vocês os dois — disse, uma leve dissonância na voz juvenil. — Vou de fato lhes trazer uma nova filha.

O caso de Jessica se desvaneceu na névoa daquela satis­fação imediata e deixaram-no sair novamente, quase em seguida, a fim de ir buscar Vera.

— Agora temos de esperar até amanhã para irmos ver Jessica —disse Elinor, contente. — Onde irá ser o casa­mento de Edwin? Suponho que hão de querer que seja ce­lebrado em Manchester, na igreja episcopal.

— Exato. O pai de Vera não o há de querer lá no banco — disse William bem-humorado. Bom augúrio para toda a família, um enlace feliz, e em plena juventude; feliz como havia sido o seu próprio casamento, e continuara sendo, mesmo quando a mocidade passara. Uma insólita efusão dilatou-lhe o peito e ele seguiu o impulso de abraçar Elinor e beijá-la em plena boca.

— Que é isso, William! — gritou ela.

— De repente me lembrei de mim mesmo quando jovem — explicou ele. Elinor furtou o corpo apenas por um mo­mento, depois entregou-se graciosamente aos seus braços, devolvendo-lhe o beijo, sem ardor mas com inteiro consen­timento.

 

Assim, na manhã seguinte, depois de um serão para cujo encanto Edwin contribuíra com sua ternura e tato, levando os pais a crer que não tinha pressa em vê-los recolher-se, saíram da mesa do pequeno almoço e se prepararam para a visita a Jessica. Vera gostava de se levantar cedo, nunca se demorava na cama como Susan, e já antes do café dera um passeio com Edwin. Fresca como uma rosa unipétala, os cabelos louros brilhando, lisos e macios, a pele clara com um suave rosado nas maçãs do rosto, formava uma imagem quase tão perfeita da nora conveniente, segundo William o imaginava. Imaginava também, exatamente, a espécie de esposa que seria para Edwin, uma mulher leal, fiel, resolu­ta, bastante bonita para causar boa impressão, mas não tanto que se tornasse perigosa em quaisquer circunstân­cias.

Seu traje azul, bem talhado, era de uma elegância dis­creta, e caro, naturalmente, mas valia, e havia de durar. Tudo em Vera tinha de durar. Nela não havia nada de le­viano. Posto que se houvesse comprometido com Edwin apenas na antevéspera, menos de trinta e seis horas antes, já apresentava o jeito solidário da esposa. William sentiu-se contente porque Edwin a merecia. Ela era de um quilate muito alto para ser entregue em mãos menos dignas que as de Edwin. Ali tudo se ajustava e talvez este fosse um louvor suficiente.

Saíram no velho carro cinzento, o auto rural, como o cha­mavam, Edwin na direção; e, cerca de meia hora depois, deixaram a rodovia macadamizada e tomaram por uma es­trada de terra solta e sulcada, que, depois de algumas mi­lhas através de um morro baixo, os levou a um largo vale. Herbert e Bertha haviam assistido à partida, Bertha na imi­nência de um novo surto de lágrimas, Herbert dando sole­nes instruções quanto a Clayton Corners, onde qualquer um, exceto ele próprio, tomaria a direção errada: eram cinco es­tradas confluindo, o centro de uma estrela.

— O senhor pende para a estrada pior delas. Tenho in­sistido pra que mandem consertar aquela estrada mas o distrito está sem recursos... sempre está.

A pior estrada era inteiramente evidente e Edwin, sem hesitar, enfiou por ela o carro para percorrer mais cinco mi­lhas, antes de parar diante da casa que reconheceram pela descrição de Herbert.

— Precisamos ter cuidado com aquele infame vira-lata — exclamou William, espiando pela janela do carro.

O cachorro, contudo, estava acorrentado. Viram-no logo. O enorme vulto negro saiu agachado do interior do grande canil, lançou-se por toda a extensão da grossa cadeia de ferro, ladrando com tamanha fúria que seus urros ecoavam nos montes.

Quase em seguida, Jessica abriu a porta da frente e veio ao encontro dos visitantes. Vestia com beleza, apesar da gravidez evidente; o fofo tecido de lã do traje, a saia ampla e um airoso casaquinho, que lhe caía sobre a cintura, es­condiam a desarmonia de suas formas. Conservava os tra­ços finos, eram etéreos os olhos azuis e etéreo o sorriso, quando lhes estendeu as mãos.

— Mas que visita agradável! — exclamou com sua voz bonita. — Tenho a impressão de que é a minha própria família que finalmente vem me ver!

Avançou ao encontro do grupo. Elinor beijou-a, num sú­bito impulso, e William viu-se apertando-lhe as duas mãos. Vera e Edwin ficaram a um lado, esperando, e Jessica vol­tou-se para eles.

— Mr. Edwin — disse, indecisa.

— Lembra-se de Vera? — perguntou Edwin.

— Oh, lembro-me — disse Jessica. — Se me lembro! Foi muita gentileza terem vindo.

— Vamos casar-nos — disse Edwin, um tanto precipita­do.

Jessica, por um momento, pareceu atordoada, quase fe­rida.

— Casar? Então já...— hesitou e riu suavemente. — Na­turalmente que sim, esquecia-me de que é um homem feito. Sempre me parece um menino.

Os doces olhos azuis fitaram-se atentamente no rosto se­reno de Vera. — E quantos anos tem?

— Um menos que Edwin — disse Vera, tranqüilamente.

— Oh, isso é tão sensato — exclamou Jessica, lentamen­te. — Sempre é sensato ser mais moça... não muito, mas apenas um ano, mais ou menos. Entrem, entrem...

Não sabiam o que pensar de seu jeito, ela dava a tudo o que dizia e fazia um toque de artificiosa fascinação, suas mãos finas moviam-se daqui para ali, ora na garganta, ora nos cabelos, e sorria sem cessar, um vivo e móvel cintilar pelo rosto, um lampejo nos olhos azuis, grandes. Dir-se-ia uma estrangeira, vinda de um país que desconheciam, cujos costumes não eram os deles, cujos pensamentos eles não po­diam penetrar nem sequer através da língua comum.

— Entrem... entrem... — repetiu, como suspensa num êxtase, e precedeu-os entrando na casa, uma casa de granja, mas estranhamente diferente do que William ima­ginara. A porta da frente dava acesso a um estreito vestí­bulo, do qual uma escada reta ia ter ao primeiro andar. As peças habituais, sala de visitas à esquerda, sala de jantar à direita, comunicavam com o vestíbulo. Entraram na sala de visitas e William, lançando o olhar em redor, notou uma decoração vagamente conhecida. De repente, compreendeu a surpresa que a peça lhe causara. A seu modo, esta pasmosa Jessica tentara imitar a própria casa dele! Entre as ja­nelas, no lado oposto ao da porta, o espelho e as duas aran­delas; em baixo, uma imitação realmente boa de sua secre­tária de nogueira; e de cada lado da sala, os altos armários de livros, naturalmente não tão grandes como os dele, nem antigos, era evidente. Em cima da lareira, estatuetas de por­celana, embora não de Dresde. Seu olhar encontrou-se com o de Elinor e ambos exprimiam espanto e piedade.

— Que sala bonita — disse Vera.

— Não gosto do tapete — disse vivamente Jessica. — É um artigo barato. O que eu quero custa duzentos dólares. Diz Herbert que não temos recursos para comprá-lo. — Riu e seus olhos subitamente se tornaram de uma dureza de diamante. — Mas hei de adquiri-lo! Não me preocupo mais com tais detalhes. Não querem subir para ver as outras pe­ças? A casa é pequeníssima, naturalmente, mas estamos projetando construir uma nova e então esta ficará apenas para os criados. Já escolhi o lugar, lá no alto do morro.

Abriu as cortinas de filó, ladeadas de reposteiros de belbutina azul.

— Venho ver você e não a casa — disse Elinor, com sú­bita firmeza. — Sente-se, Jessica.

— Vera e eu vamos dar um passeio, lá fora — disse Ed­win. Não se haviam sentado.

— Não, isso não — exclamou Jessica no seu tom mais alto e melodioso. — Deve sentar-se, Edwin. Não há nada a esconder de você. Nunca tive segredos para você, não é verdade? Jamais!

Estupefato, Edwin sentou-se. Todos o acompanharam, as­sombrados pela irrealidade.

— Para quando espera o nenê? — perguntou Elinor, se­rena.

— Oh, não sei — disse Jessica. Seu rosto estranhamente inocente voltou-se para eles, radioso. — Eu não penso nis­so, Mrs. Asher. Parece-me tão inútil, ter filhos, simplesmen­te. Filhos têm filhos que têm filhos que têm filhos... isso tudo não é simplesmente inútil? Sempre, sempre, sempre. E que há aqui para as crianças? Não há ruas onde andar, não há vitrinas, nem cinema, nem confeitarias, nada para diverti-los. Portanto simplesmente não penso nisso.

Elinor interrompeu-a. — Sua mãe me disse que você an­da se indispondo com ela.

Jessica ergueu as mãos. Eram alvas e finas, as unhas pin­tadas em tom nacarado. Quem, perguntou consigo William, lavava a louça e esfregava o chão? Talvez Herbert, tolo co­mo era, ou Bertha, nos raros dias em que ia lá. Apenas ago­ra não estaria sendo tolerada.

— Exatamente, eu não ando me indispondo com ela — declarou Jessica. — Simplesmente disse que nunca mais a verei, enquanto viver, eis tudo.

— Você está morando na casa dela — acudiu William.

— Só até construirmos a nossa no morro — retrucou ela. — Depois esta casa ficará apenas para serventia dos cria­dos.

— Entre eles, sua mãe? — disse William, implacável.

— Oh, não — disse Jessica. — Nunca tornarei a vê-la. Inclinou-se para a frente, as faces subitamente escarlates.

— Creio que o senhor nunca ficou sabendo, Mr. Asher, mas minha mãe costumava bater-me ferozmente. É uma mulher crudelíssima. — Jessica, eu não acredito no que está dizendo — afir­mou Elinor. — Durante todos os anos em que Bertha este­ve lá em casa, nunca ouvi ninguém mais dizer isso.

— É porque a senhora é da família — disse Jessica e, em seguida, as palavras brotaram da torrente represada no seu íntimo, enquanto ela arregalava os olhos, pestane­jando, fitando-os num e noutro rosto. Era toda um arremes­so, os vocábulos limpidamente articulados vibravam como cristais caindo. — Ela costumava bater-me e tapar minha boca com aquele punho grande, impedindo-me de gritar! Batia-me até que eu tinha a impressão de estar com os pró­prios ossos partidos. E o pobre de meu pai nada podia fazer. Ficava ali torcendo as mãos, caía de joelhos, mudo, porque não queria que a família ouvisse, e logo no outro lado da porta da copa, os senhores todos estavam sentados no meio da riqueza e da segurança, ao passo que eu estava sendo espancada, e tudo isso naquele silêncio...

O terrível drama desfilava diante deles na alarmante in­tensidade da pessoa de Jessica. Ela ardia, palpitava, seus olhos eram selvagens e grandes, sua voz tão cortante como a corda mi de um violino.

— Não posso acreditar nisso — insistiu Elinor.

— Ora, a senhora nunca poderia acreditar — exclamou Jessica. — Ninguém da família jamais acreditou em mim, a não ser Edwin... Edwin, meu querido!

Voltou-se e pousou o olhar em Edwin, súplice, enterneci­da, um abandono em todo o corpo. — Você sabia, não é, Edwin? Eu lhe contava tudo.

Edwin a encarava com assombro. — Eu não sei de que está falando — disse com voz clara.

— Oh sim, você sabe, meu querido — disse Jessica, ali­ciante. As mãos alvas flutuaram na direção dele, entrela­çaram-se. — Não tenha medo, você terá de contar à sua noiva, e agora eu posso contar a Herbert. Até aqui, fiz de tudo um belo segredo. Mas Herbert, finalmente, deverá sabê-lo.

— Jessica! — disse William com rispidez, ao reparar no rosto do filho.

Ela não lhe deu atenção, as palavras fluíam doce, livre­mente, arrastadas pelo seu amor aparente. — Não se lem­bra, Edwin? Pode esquecer? Não se lembra do longo e de­licioso dia que passamos juntos no hotel, em Nova York? Fui ao seu encontro lá, não se recorda? O único dia, o único dia perfeito de toda a minha vida! Ah, não tenha receio de recordar!

Edwin ergueu-se de supetão.—Voltou-se para Vera, o rosto branco, mesmo os lábios secos e brancos. — Vera, ga­ranto-lhe que não sei de que é que ela está falando.

Vera também se levantou. — Eu acredito que você não sabe. — Pousou a mão no braço dele. — Vamos sair e es­perar lá fora. — Mas, de repente, ficara polidíssima.

Saíram sob o olhar de Elinor. Aturdido, pasmado, William olhou a esposa de relance, depois encarou Jessica. Esta sor­ria suavemente, olhos postos no chão, sem nada ver.

— Pobre Edwin — murmurou — não tem coragem de dizer que se lembra. Mas eu nunca me esquecerei, jamais! Fui eu que finalmente o recusei, Mrs. Asher. Eu sabia que a família nunca me aceitaria. E como poderia viver lá na casa, com minha mãe na cozinha? Naturalmente que pode­ria dispensá-la.' Isso poderia ser feito. Mas eu repudiei o amor. Agora sei quanto isso foi errado. O amor nunca deve ser repudiado, haja o que houver. Tudo perdi, menos aquele único e delicioso dia... junto dele. E nunca mais tornarei a ver minha mãe.

— Jessica, você está mentindo — disse William. — Você sabe que esse dia nunca houve. — Alteara a voz para rom­per o encanto.

— Houve, sim; de fato, de fato — afirmou Jessica, bran­da, peremptoriamente. Colocou as mãos entrelaçadas so­bre o peito. — Está aqui para sempre.

— William, vamos para casa — disse Elinor. Ergueu-se e não estendeu a mão. — Jessica, eu também não creio numa palavra do que você diz. E você nunca mais deve tornar a dizer essas mentiras. Eu mesma direi a Herbert que julgo você ou muito doente ou muito perversa. Fico penali­zada por causa dele e de sua mãe.

Saiu da sala e William acompanhou-a. Antes de atraves­sar a porta, ele voltou a cabeça. Jessica continuava senta­da com as mãos trançadas sobre o peito, sorrindo, como se não os visse partir. Ali, alguma coisa andava muito mal.

Fora, os quatro tomaram o carro e seguiram em silêncio. Que havia a dizer? Que estaria Vera pensando e que se passaria no espírito de Edwin, seu filho? Elinor duvidaria do filho, apesar de o negar, como as mulheres sempre duvida­vam dos homens? Ah, que tremendo dissabor, pensou Wil­liam; nunca poderia haver paz num mundo onde existia gente que criava dificuldades, como Jessica, uma mulher sem nenhum préstimo, podia-se dizer, e no entanto fonte de confusão e angústia para todos eles.

Uma milha além da granja, Edwin deteve o carro e deu um puxão na trava. Voltou o corpo de lado e encarou-os. — Fiquei tão atordoado que ainda não sei o que dizer. Tu­do aquilo é pura fantasia. Não sei de que é que ela estava falando.

Elinor atalhou-o: — Quando ela estava com as mãos nos ombros de você, aquele dia lá no saguão, que é que estava dizendo?

— Que dia? — perguntou Edwin, embaraçado. — Ela ti­nha o costume de por as mãos nos meus ombros desde que éramos crianças. Eu sempre procurei furtar-me.

— Por que não a mandava parar com isso? — perguntou Elinor, secamente.

— Não queria melindrá-la... conforme você mesma sempre nos aconselhou... — retrucou Edwin.

Vera mantinha-se em silêncio, a cabeça baixa.

— Percebia algum indício — perguntou William, lenta­mente — de que ela o amava?

— Nunca pensei em semelhante coisa — disse Edwin, com rudeza. — É revoltante — acrescentou, arrebatado.

Olhou-os demoradamente, tomado de súbito desespero. — Como é que vou provar que ela estava mentindo? Se vo­cês não acreditam em mim, quem há de acreditar?

Vera voltou sua graciosa cabeça e disse com clareza: — Eu acredito em você.

— Oh, Vera... — fez ele e sua voz se tolheu.

— Todos nós acreditamos em você — disse William em tom objetivo. — Eu penso que Jessica está sofrendo de um desequilíbrio mental. Está inventando. Talvez julgue real aquilo com que sonha. O melhor que temos a fazer é des­prezar toda essa coisa.

— Sem dúvida — disse Elinor. Voltara ao seu natural enquanto William falava, e inclinou-se para afagar o om­bro do filho. — Isso não tem nenhuma relação com você, Edwin. Acho simplesmente que a pobre Jessica precisa de cuidados médicos. Vou falar com Herbert e Bertha. Agora vamos tocar para casa.

A viagem prosseguiu em silêncio. Quem sabia, pensava William, o que se estaria passando no espírito daquele mo­ço e daquela moça que iam sentados à sua frente? Contudo, havia muito, aprendera que o método mais seguro de tratar o inexplicável era desprezá-lo até que se fizesse explicável. A mente subconsciente operava debaixo da rotina do coti­diano, as benditas necessidades de comer e beber, de respi­rar o ar puro e dormir, e sobretudo, de trabalhar. Quanta loucura, realmente, haveria entre os seres humanos não fos­se a exigência do trabalho por fazer, do corpo por alimen­tar e abrigar! Quando chegaram à casa, lembrou-lhe expli­car Jessica desta maneira a Elinor.

— Não acha que seja simplesmente a ociosidade o que está prejudicando Jessica? Ela dispõe de tempo em dema­sia; talvez sempre tenha sido assim.

— Ela não disporia de tempo em demasia se cuidasse de­vidamente da casa — disse Elinor com aspereza. — Her­bert me contou que ela não quer mais lavar a roupa. Ele tem de pagar uma mulher da vizinhança para fazer isso. E você há de se lembrar que ele comprou dois aspiradores de pó: é mais do que você fez por mim, William. Olhou-o, subitamente pestanejando.

— Herbert é um tolo — disse William.

Não obstante, sua toleima podia assumir vastas propor­ções. Herbert, dizia Elinor, acreditava em tudo o que Jessica lhe falava. À noite ouvia de sua linda voz medonhas re­velações e, de manhã, punha em Bertha um olhar que lhe causava medo.

— Herbert me olha de um xeito... — revelara Bertha a Elinor, ainda na noite anterior. — Nom gosto daquele olhar.

— Jessica é demasiado astuta para Herbert — disse Eli­nor, agora. — Acredita em tudo o que ela diz porque se ex­prime corretamente e ele não passou do curso primário. Às vezes, penso, o melhor que teríamos a fazer era despachar a turma toda, não importa quanto tempo hajam estado a nosso serviço.

— Devemos esperar até que Jessica tenha a, criança — respondeu William. — E — acrescentou, depois de refle­tir por um instante — eles estão trabalhando tão bem como sempre. Na verdade, não me lembro de Bertha já haver co­zinhado melhor do que agora, e Herbert está se esforçando, sem dúvida. Um dia destes, chegou a me perguntar se que­ria que escovasse os meus sapatos.

Esperariam, pois, o nascimento do filho de Jessica.

A visita de Vera durou uma semana e nada mais disse­ram a respeito de Jessica. No seu estilo calmo, Vera plane­jou o casamento, antecipando a data para o princípio de julho, em vez de setembro, como projetara antes.

— Edwin precisa de mim — limitou-se a dizer, com uma expressão de serenidade nos olhos azuis.

E William, adivinhando que a incerteza rondava Edwin, propôs algo que acabava de lhe ocorrer — que Edwin en­trasse para o seu escritório de advocacia depois da lua de mel e fizesse o seu aprendizado na prática, matriculando-­se na Escola de Direito depois de um ano, talvez dois.

— Não fará mal a você saber alguma coisa antes de vol­tar para a escola — disse ao filho. Intimamente, achava que aproveitaria a Edwin ganhar a subsistência durante um ano, mais ou menos, depois de casado. Assim, uniam-se co­mo família para reparar a brecha que Jessica fizera.

 

— PARA QUANDO Jessica espera o nenê? — perguntou Elinor a Bertha.

Bertha sacudiu a volumosa cabeça. — Nom sei de na­da... — disse com ênfase. — Eles nom me tiz nada... "nichts, nichts"! — Ela e Herbert raro se falavam. A cozi­nha, que fora um ponto de camaradagem, transformara-se num lugar de solidão e hostilidade. Herbert fazia suas re­feições na copa, servindo-se pessoalmente.

Quando Elinor interrogou Herbert, também ele sacudiu a cabeça. — O doutor parece que não pode dizer — respon­deu, evasivo. — Qualquer dia do mês, eu acho.

As semanas se passavam e a criança não nascia. Uma manhã, contudo, Herbert não apareceu para o café. Já tar­de, um telefonema deu a razão.

— Jessica teve a criança — berrou Herbert sobre o fo­ne. — Eu estou no hospital. Ela passou mal; pensei que ia se finar. É uma menina. O doutor diz que não pode mais ter filhos. Já está ligando as trompas.

— Oh, Herbert, isso é muito ruim — exclamou Elinor.

— Não faz mal — disse Herbert. Elinor quase chegava a ouvi-lo enxugando o suor fácil do rosto e do pescoço. Her­bert transpirava prontamente, verão ou inverno, um humor emocional que não tinha nenhuma relação com o calor ou frio. — Acho que não vou trabalhar uns dois dias — acres­centou.

— Não se preocupe — disse ela. De fato, seria um alí­vio. Pendurou o fone e foi à cozinha. Abaixada, apoiando-se nas mãos e nos joelhos, Bertha esfregava o forno.

— Bertha — disse Elinor com ternura — Herbert acaba.de telefonar. Você tem uma netinha. — Estou tão contente.

Bertha, subitamente, soltou um suspiro entrecortado. — Isso nom me atianta nada.

— Adianta, sim — disse Elinor, penalizada. — Logo que ela estiver mais crescidinha, Herbert poderá trazê-la aqui para mim, e então você também a verá.

— Herbert nom deixa — murmurou Bertha, os olhos ve­lados por grossas lágrimas. Introduziu a cabeça no forno, em busca dos cantos mais afastados e sua voz saiu caver­nosa. — Herbert, agorra, ele também me oteia.

— Ora, Bertha — disse Elinor, impaciente. Saiu da cozi­nha e não tornou a falar com ela durante todo o dia, espe­rando a volta de William.

— Eles parecem decididos a odiar-se mutuamente, o ban­do todo — declarou. — Lamento essa pobre criancinha.

— Uma menina, outra vez — disse William, pensativo.

Reanimou-se, porém, com o casamento de Edwin. Bertha e Herbert deixaram-se tocar pelo acontecimento na família, entrando em trégua em função do fato. Winsten e Madge vieram com os filhos, Susan voltara do colégio, e Ozark Pete, conforme William começava a chamá-lo privadamen­te, chegou na véspera, por ordem de Susan.

A casa grande estava cheia, não havia tempo senão para os interesses da família e William descansou, um benefício que merecia, pois conduzira a um desfecho bem sucedido a defesa dos criminosos de Nova York. Os três acusados a quem defendera, não porque o merecessem, mas por seus direitos civis, haviam, apesar de sua maldade, desempenha­do um papel apenas secundário, segundo ficou apurado, em relação com o verdadeiro assassino, preso graças às con­fissões de um dos três homens, o da cara enxundiosa. Se­guramente encarcerado o principal criminoso, e aguardan­do a cadeira elétrica, os três participantes menores foram soltos mediante fiança, severamente advertidos por William, que condicionou a bom comportamento a continuação da defesa. Agora estava propenso a esquecer malfeitores e comprazer-se nas gratas virtudes de sua família. Era junho, a casa abria suas portas e janelas, os netinhos brincavam, felizes, ao ar livre. Agradava-lhe a profunda afeição que ligava Winsten e Madge, e não o contrariou demasiadamen­te o ar triunfal de Madge por comparecer ao casamento às vésperas do nascimento do terceiro filho.

— Pode nascer em qualquer parte — disse ela com atrevimento, desatando a rir. — Seria engraçado que nas­cesse justamente aqui, na casa do avô.

William limitou-se a sorrir, fazendo votos, intimamente, para que tal não ocorresse. Enquanto isso, á tempo alcan­çava a perfeição. Edwin voltara do colégio com notas distin­tas em número suficiente para satisfazer aos pais. Pelo que William podia registrar, não havia nuvens entre ele e Vera, e quando chegou a hora, a família partiu para Manchester, onde devia realizar-se a cerimônia nupcial, às duas horas da tarde. f

Sim, não havia nuvem alguma entre ambos. Serenamen­te, Edwin entrou na nave da igreja, com Winsten, seu pa­drinho — dois rapazes tão belos como os que sobressaíam atualmente, pensou William. O ministro aproximou-se pela porta oposta, em paramentos de gala, e o órgão, passando dos anelantes acordes de "Oh Promise Me" para a solene e álacre marcha nupcial, deu o sinal para que ele, com todos os outros, se pusesse de pé. Só a prima Emma, em razão da artrite, permaneceu sentada no banco da frente, com a mãe de Vera.

Assim William contemplava novamente o incessante des­file da vida, o tocante e poderoso cortejo, seus dois netinhos espalhando pétalas de rosa diante de Susan vestida de gaze dourada, como dama de honor, seguida pelas aias, de ver­melho pálido e pérola, e finalmente a figura alta da noiva, toda de branco, tão juvenil, a mão pousada no braço do pai. William acabara cansando-se no casamento de Winsten, mas desta vez, por alguma razão, se comovera mais fundo. Vera recusara admitir malícia no filho dele, mantivera-se com firmeza ao seu lado, diante de sua palavra. Era uma nobre jovem, prestes a tornar-se uma nobre esposa.

A seu pesar, contudo, ficara um pouco preocupado com a frieza estatuária do rosto de Vera. Branca como mármo­re, marchava lentamente e não erguia o olhar para encon­trar os ardentes olhos de Edwin. Observando agora o sem­blante do filho, a si mesmo perguntou se, nos seus olhos ávidos, fitos, não havia algo lembrando angústia. Seria pos­sível que Jessica tivesse mesmo destruído algo entre ambos, não havendo, embora, uma gota de verdade no que dissera? Houvesse um traço de verdade em tudo isso, ele não pode­ria ter censurado o seu filho. Um rapaz, que sempre se de­senvolve com desproporcionada rapidez, não deve ser cen­surado por tal.

Neste momento, lembrou-se a contragosto de um inci­dente de sua própria juventude. Ele, William Asher, enamo­rado da jovem Elinor, sentira-se compelido a confessar-lhe, na deliciosa e aflitiva semana anterior ao casamento, que uma vez, no último ano de seu curso em Harvard, fora tão estulto que se deixara levar, por um grupo de colegas, a uma casa abominável, num arrabalde de Cambridge, longe da Universidade. O que não pudera confessar é que ela mes­ma fora parcialmente culpada, pelo longo noivado que exi­gira, pelas suas ternuras sempre delicadas mas em crescen­do, pela demorada e penosa espera do dia nupcial, e, quan­to a ele, pelo temor de não se conter e magoá-la no próprio desabrochar do amor conjugal. Como poderia explicar à virgem Elinor tais obscuridades? Aquela experiência fora bastante desagradável para que ele escapasse do lugar ce­do e sozinho; não obstante, restava algo a relatar, e Elinor escutara, tão pálida como Vera estava agora, e como ela tão desesperadoramente pura. Lembrou-se ainda' do seu perdão, o momento em que ele se sentira mais fundamente humilhado, cuja memória durante tantos anos reprimira até que agora de repente voltava inteira, aumentando o seu res­sentimento porque, a despeito do tempo, nunca fizera Eli­nor sabedora de que devia participar da culpa.

Sentiu agora uma profunda aflição por causa do filho e perguntou consigo mesmo se, nalguma ocasião, não seria possível sugerir a Edwin que, mesmo sendo totalmente exa­ta a história contada por Jessica, nunca pedisse perdão a Vera, a fim de não levá-la a duvidar dele, com tal pedido.

Aqui, num sobressalto, interrompeu este curso de idéias. Os dois faziam suas promessas enquanto ele se portava tão deslealmente para com Edwin a ponto de conduzir seus pen­samentos como se Jessica tivesse dito a verdade, em vez de simplesmente, como ele de fato acreditava, a pior das fal­sidades, numa atitude só admissível em razão da espécie de inexplicável loucura que às vezes atinge a mulher.

Winsten tirou o anel do bolso do colete, passando-o para a mão entreaberta de Edwin e este o colocou no dedo de Vera, pronunciando as eternas e belas palavras, e agora, ambos ajoelhados para receber a bênção, ouviam a oração pela sua perpétua fidelidade. William tinha perfeita con­fiança no caráter do filho, nascido para ser fiel tanto ao de­ver como ao amor. Mas acaso Vera não lhe faria imposições insuportáveis para um homem? Jessica lançara uma nuvem sobre ambos, uma nuvem, pensou melancolicamente, que também o encobria porque nunca saberia o que Vera po­deria fazer àquele admirável Edwin. Talvez tivesse de es­perar anos a fio antes de o saber, e ainda assim apenas ob­servando se Edwin levantava a cabeça, confiante, como um homem só podia fazer na certeza quer da aprovação da es­posa quer de seu amor. Porque se visse que a altiva cabe­ça de Edwin começava a curvar-se, se notasse aquele afliti­vo olhar abatido do homem atraiçoado pelo casamento e mortificado pela pureza superior da mulher, então saberia.

A marcha nupcial rompeu simultaneamente com o repi­car dos sinos e o casal adiantou-se para a porta aberta, Ed­win de cabeça levantada. O rosto de Vera, porém, continua­va branco e frio.

 

Elinor estava acordada. William, despertando do que lo­go percebeu ter sido apenas um dormitar, viu que, embora ela tivesse fechado a porta, esta, contraída pelos anos ten­do em baixo uma fresta de meia polegada, folgadamente, deixava escapar pela generosa abertura uma réstia da luz, filtrada pela pantalha amarela da lâmpada de cabeceira de Elinor. Deitado na mesma posição em que acordara, de cos­tas, a cabeça atirada para trás, prestou atenção e ouviu os passos dela andando de um lado para outro, de chinelas de veludo. Voltou-se o suficiente para o mostrador luminoso do relógio do criado-mudo. Eram três horas, esse momento te­mível do tempo em que as preocupações ocultas do dia sa­em para sua ronda, como bestas noturnas, rosnando e es­palhando venenosos agouros. Suspirou e, erguendo-se, en­fiou as chinelas e o chambre. O cordão do cinto ficara en­redado, remexeu-o com impaciência, depois deixou como estava. Bateu à porta de Elinor. Havia ocasiões em que ela não desejava abri-la e ele prontamente o aprendera.

Elinor agora não lhe respondeu dizendo que entrasse.

Em vez disso, William ouviu-lhe a voz interrogativa, um pouco alta: — Que é?

— Você está sem sono? — gritou ele.

— Entre — disse ela, depois de uma pausa brevíssima.

Entrou. Ela agora estava deitada no divã, enrolada num macio acolchoado de seda.

— Não pode pegar no sono? — insistiu ele, contemplando-a. Os longos cabelos dela tinham o aspecto louro-prateado da juventude e formavam duas tranças, que lhe ca­íam pelos ombros. Entre estas, o rosto, sem pintura, estava branco; parecia, pensou William, extenuada.

— Estava pensando em Vera — disse Elinor, inespera­damente.

— Por que em Vera? — disse ele, meio entorpecido.

— Ela acreditará ou não na história de Jessica? — per­guntou Elinor, não a ele, mas como que falando a sós.

William sentou-se na ponta do divã. — Podemos fazer alguma coisa a esse respeito, minha querida?

— Seja como for, eu me preocupo.

Ele gostaria de ir deitar-se, ao pensar no trabalho empi­lhado em sua mesa para o dia seguinte, mas conhecia o es­pírito obstinado de Elinor. Quanto a si, aprendera a libertar o pensamento, podia diferir um motivo de meditação para quando se sentisse disposto a enfrentá-lo, mas ela ia sem pausa no encalço da conclusão, embora quando a alcanças­se, refletiu ele, nunca mais tornasse a ocupar a atenção naquele mesmo objetivo. Uma vez alcançada, a resposta era final.

— Receio o que Vera esteja pensando — disse a meia voz.

As palavras, tão frias, tão absolutas em sua brandura, causaram um violento choque em William.

— Você nunca vai esquecer-se? — perguntou ele. — To­dos esses anos nada significaram para você? Então eu não demonstrei minha fidelidade?

— Naturalmente que sim... naturalmente que você de­monstrou — respondeu ela, com uma carícia na voz, nos olhos. — Mas Vera compreenderá?

William percebeu, com tristeza, o que ela queria dizer. Vera estava no ponto em que ele próprio e Elinor haviam estado, vinte e cinco anos atrás, ou mais. Ah, era a noite nupcial de Edwin!

— Eu pensava que tudo estivesse morto e enterrado, há dezenas de anos — queixou-se.

— E está — insistiu ela. — Mas você não percebe que para Edwin e Vera isso apenas começou esta noite?

— Temos algo que ver com isso? — perguntou ele.

— São nossos filhos e queremos que sejam felizes.

— Nós temos sido felizes... Não podemos confiar que eles encontrem sua própria felicidade, como nós fizemos? — disse William com ênfase.

Ela não respondeu. Ficou pensativa. Elinor fazia uma res­trição, ele o sentia, via-o no silêncio dela, no retraimento expresso em sua fisionomia.

— Acho que só eu compreendo como Vera poderia sen­tir-se — falou ela, finalmente.

— Escute — disse ele, com impaciência — então depois de todos estes anos ainda há alguma coisa em que você não me falou?

Entreolharam-se e os anos se dissolveram na irrealidade. O real era a noite nupcial, quando mesmo por entre seu ardor, sua fome de Elinor, vira lágrimas nos olhos dela. Era tão linda, tão delicadamente forte, aquela moça de uma gracilidade fascinante que finalmente se fazia dele. Na­quela noite, seus cabelos ouro pálido se espalhavam no tra­vesseiro, como um largo halo, e ele os estendera, encanta­do com seu comprimento, sua fragilidade, a impressão de vida que causavam em suas mãos. Na noite nupcial tudo eram revelações. Nunca a vira de cabelos desfeitos, desco­nhecia-lhe o contorno dos seios, a forma da cintura, o ar­redondado das ancas, a esbeltez das pernas, o pé grácil. Nem sequer lhe vira os tornozelos nus. Embebido e trêmu­lo, no enlevo da paixão e do deslumbramento, quase duvi­dando de que tudo agora lhe pertencesse, só notara as lá­grimas quando a luz da lâmpada caíra sobre o rosto de Eli­nor e elas haviam brilhado no azul dos seus olhos.

Recuara. — Mas que é? — inquirira.

— Nada — balbuciara ela.

— Mas alguma coisa... — insistira ele e detendo-se, refreado todo o seu arremesso amoroso, sondara e interrogara, arrancando-lhe a verdade: ela não podia esquecer-se de que, para ele, esta não era a primeira vez, pois houvera aquela outra mulher.

Por que lhe contara? Se não tivesse sido tão apegado à verdade, teria ocultado todo aquele malfadado e insignifi­cante episódio, extravagância de estudante, à qual cedera por causa da intolerável demora imposta por ela, e que, subitamente, se lhe tornara repulsiva, até no instante em que praticava o ato, de recordação tão desagradável que de fato havia tomado a decisão de esquecê-lo. Tornara a explicar-lhe tudo isto, em sua noite nupcial. Ela parecera compreender. Agora, porém, tantos e tantos anos depois, percebia que não compreendera! E talvez jamais compreen­desse. Fora um sacrilégio haver levado até a hora mágica do primeiro amor, sagrada hora, sim, a tolice que se senti­ra infantilmente compelido a confessar-lhe.

— Meu Deus — explodiu agora — como me arrependo de ter falado naquilo!

— Você se arrepende? — perguntou ela. — Arrepende-se mesmo de ter me contado?

— Você nunca se esqueceu — acusou William.

— Eu não me esqueço de nada que tenha acontecido en­tre você e mim — respondeu ela.

— E não contente com isso — continuou ele em voz al­ta, acusadoramente — transpõe a lembrança para seu pró­prio filho e sua jovem mulher! — Ergueu-se e pôs-se a ca­minhar pelo quarto. O cordão, que não pudera atar, era agora um estorvo, o roupão não se fechava, teve de parar sob a luz a fim de desfazer a maranha.

Elinor ergueu-se maquinalmente, então, e desenredou o cordão, os dedos finos movendo-se com agilidade e des­treza onde os dele se embaraçavam. Deu uma laçada firme no cinto e tornou a deitar-se, puxando o acolchoado até o pescoço. Ele aceitou o serviço sem prestar atenção.

— Vera se fez adulta numa época mais razoável do que a nossa — continuou. — A guerra pelo menos tornou as mulheres mais sensatas.

— Que quer dizer exatamente com a palavra sensata? — perguntou ela.

William relutou em interpretar, mas o fez, a contragosto. — Quero dizer que o homem e a mulher não podem ser julgados pelos mesmos padrões. Isso é tão antigo como Adão, mas a verdade permanece sempre nova.

— Então acha que Edwin é culpado? — disse ela, muito calma.

— Culpado? — repetiu ele. — Não sei o que você pre­tende dizer. Se se refere à história de Jessica, trata-se de uma mentira, pelo menos é o que penso.

— É o que você pensa... — repetiu Elinor.

— Como se há de saber ao certo? — respondeu ele, ir­ritado. De um modo absurdo, ilógico e tentacular, Jessica entretecera até aquela frustrada loucura de seu tempo de estudante na teia cuja trama agora alcançava seu filho. Não houvesse ele ido à pensão de Rose Schwenk, Elinor não teria crido em Jessica, nem teria sido crível que o filho de ambos tivesse descido até uma criadinha, embora esta fos­se Jessica. Mas agora!

E tudo isso passava-se neste ano corrente, ano modernís­simo, com os jornais cheios de divórcios e escândalos, e on­de o sexo era considerado apenas um apetite, que dificil­mente se podia confundir com amor. Aqui na sua casa, em Vermont, num vale cercado de verdes montanhas, Elinor e ele viviam numa época que o mundo esquecera. Assim era o poder do amor.

Voltou-se para sua mulher, o rosto imóvel, a região ma­xilar branca, os dentes cerrados, e estendeu os braços.

— Por você eu morro, Elinor — murmurou. — Preciso tanto de sua confiança como do seu amor. Você não vai me faltar com sua confiança. Pois se não confiar em mim, en­tão tudo o mais é pó sobre a minha cabeça, cinza na mi­nha boca.

Arrastada pela amargura expressa nos olhos de William, vencida pelo desespero dele, Elinor no mesmo instante dei­xou o divã e atirou-se nos braços do marido. William estrei­tou-a, pousando o rosto no alto da cabeça dela, sobre a fo­fa espessura de sua cabeleira. Nenhuma palavra, nenhuma; apenas isto, e bastava, pelo menos por esta noite, e pelo menos para eles em sua geração. Os moços tinham de aprender à sua própria maneira, ninguém podia ensiná-los. O amor tinha de ser redescoberto por todo coração humano, originalmente e sem ajuda.

 

— Quero ir ver Jessica e a filhinha dela.

A frase era de Madge, durante o café da manhã, cerca­da pela prole, uma ufana madona, o marido à direita. Eli­nor dormia ainda, circunstância muito incomum que agra­dava a William quando entrava na sala de jantar, diligen­temente, às oito e meia. Não ousara abrir a porta do quarto dela, mas, escutando do lado de fora, não ouvira nenhum ruído.

O sol brilhava, passada a chuva leve que caíra logo an­tes do amanhecer, precedida de uma curta trovoada anun­ciando a súbita formação de nuvens. Herbert servia zelosa­mente torradas com manteiga para as crianças e Madge lhe anunciava a sua intenção, quando William entrou na sala.

— Bom dia — disse este. Sentou-se e recebeu os beijos pegajosos dos netos, aos quais a mãe ensinara, ele tinha a certeza, a beijar sem falta os avós de manhã, de noite e, esporadicamente, entre esses momentos. Madge era uma esposa e mãe demonstrativa, crente de que beijos e mos­tras de afeto constituíam o cimento da vida familiar.

Era impossível deixar de apreciar o quadro que sua nora formava como jovem mãe em flor, mas desviou os olhes quando Winsten levantou a mãozinha carnuda de Madge e apertou-a contra o rosto. Winsten girava em torno da mulher, o que era desagradável; mas ele sentia-se contente por ver o filho feliz. Tanto a mãe como o pai adoravam o espetáculo dos filhos beijando o avô.

— Muito bem, meus queridos — arrulhou Madge. — Vo­cês devem querer sempre bem ao avô.

— Como não, como não — apoiou William com bastan­te sinceridade, mas cônscio da sua frieza de palavras e tom, em contraste com o opulento entusiasmo de Madge.

Herbert não respondeu ao aviso de Madge. Saiu da sala murmurando sobre mais torradas quentes, e Madge, à von­tade, continuou, dirigindo-se agora a William: — Senti que devia mostrar algum interesse. Afinal de contas, Jessica se criou nesta casa e é o primeiro filho dela. Além disso, talvez eu possa ajudar. É muito triste que ela não deixe Bertha nem mesmo ver a criança. Talvez eu possa dizer alguma coisa.

— Ficarei muito satisfeito se você conseguir levantar o ânimo de Bertha — disse William. — Poderá fazer bem a Jessica ver uma pessoa tão totalmente normal como você, Madge. Confesso que não consigo compreender Jessica.

Refletiu se devia contar-lhes, ou não, a singular cena de Jessica diante de Edwin e logo concluiu que não. Posto que se tratasse de um caso na família, nunca se sabia como Madge o receberia. Não havia ciúmes entre os dois irmãos, acreditava, mas Edwin agora tinha mulher, e, admitindo-se que Vera fosse totalmente diferente de Madge, William não tinha certeza de que isto a isentasse da possibilidade de ciúmes, quer de senti-los, quer de causá-los. Ainda não se habituara com duas noras, nem Madge com uma cunhada — bela e jovem, e cuja figura até agora se mantinha intata. Imaginou que Vera nunca deixaria seu corpo desfigu­rar-se, por mais filhos que tivesse, e isto, por si só, poderia constituir, um dia, uma fonte de ciúmes. Modelo de mãe crente de que devia amamentar seus nenês, Madge julga­ria imoral que uma mulher considerasse o contorno dos seios mais importante que o seu uso na maternidade, ou que os resguardasse para qualquer outro fim, fosse qual fosse. Winsten, pensou William, lançando um rápido e penetran­te olhar ao filho, parecia um toleirão. Um rapaz delgado, ardente, votado à paternidade. Que espécie de marido se­ria? Ora, Madge fizera dele o que quer que ele fosse. Mad­ge era inexoravelmente maternal, seu vasto e indulgente amor absorvia tudo quanto a cercava. Era só graças à maior firmeza que ele próprio recusava deixar-se absorver. Gostava dos netos, por mais pegajentos que ficassem com a geléia do café da manhã, mas negava-se a considerá-los mais que uma linha acessória de sua vida. Estava decidido a ser algo mais que um mero avô, não importava como Mad­ge encarasse isto. Ocorreu-lhe que talvez o único meio pe­lo qual Winsten pudesse tornar-se o amante de sua jovem esposa fosse abraçá-la em primeiro lugar como à mãe de seus filhos. Uma desagradável possibilidade, pensou Wil­liam, desviando o pensamento da cena. Concluiu apressadamente a refeição, limitando-se a fazer algumas observações comuns e a grunhir de quando em quando diante das per­guntas que as crianças lhe faziam. Depois, ergueu-se.

— Não vou acordar sua mãe — disse a Winsten, da por­ta. — Peça-lhe que me telefone quando se levantar.

Deixou-os com um sorriso propiciatório, atirou um beijo às crianças, tocando o bigode, e sentiu-se satisfeito quando se viu fora dali. Herbert mudara rapidamente de roupa e era outra vez o motorista, imóvel e silencioso atrás do volante. William, esta manhã, ia apenas a Manchester, pois o es­critório de Nova York mergulhara na habitual languidez do verão. Era estranho, mas exato, que a criminalidade tam­bém tirava umas férias razoáveis no verão, voltando a encrespar-se na aspereza do ar do outono.

Os morros verdes eram agradáveis, o sol despejava-se pelos vales e ele cogitou em falar com Herbert por simples bom humor, mas decidiu-se contrariamente. Havia algo de ameaçador esta manhã, na boca miúda e apertada de Her­bert. Continuou, pois, em silêncio e em paz, expulsando do pensamento as dificuldades das relações humanas, b refle­tindo nas amenidades da lei, onde tudo estava de acordo com normas e precedentes, e sabia-se exatamente o que era direito. Pena que tais normas não pudessem reger tanto o espírito como as ações dos homens e das mulheres! Gozou a entrada na cidade, e observou a investida de um grupo de excursionistas, professores em sueto, que lotavam um ôni­bus. O carro diminuiu a marcha, Herbert tomou por uma rua transversal e parou-o diante da velha mansão de tijolos vermelhos onde, anos atrás, William instalara seu pri­meiro escritório de advocacia e donde agora não teria saído por motivo algum, embora quase já não tivesse nenhuma clientela local. Quanto mais envelhecia, menos mudanças desejava na sua vida. Isto, por si só, transformava Jessica numa ameaça. Embora fosse uma criatura desprezível, e por mais distante que estivesse, a irracionalidade de seu es­pírito não educado gerava uma força capaz de destruir um mundo racional e inocente, pequeno, sim, mas ainda assim um mundo, tal como o dele. Tornou a pensar em despedir Bertha e Herbert, dar uma vassourada radical, afastando seu lar da funesta órbita para a qual, inteiramente por acaso, estava sendo arrastado. Pois não acreditava, sequer por um momento, fosse aquela a última vez que se envolviam com Jessica. Entretanto, por temperamento, desconfiava de vassouradas radicais.

A manhã decorreu tranqüilamente na sua banca de tra­balho e ele só experimentou inquietação ao meio-dia, quan­do se resolveu a tomar pleno conhecimento daquilo que sen­tira durante todo o tempo, isto é, a falta do telefonema de Elinor. Mandou vir o almoço do hotel vizinho e decidiu não lhe telefonar. O fato de ela não o ter feito significava ou que continuava dormindo, e nisto ele não acreditava, ou que não desejava telefonar, circunstância em que era pre­ferível não contrariá-la. Aprendera, havia muito, que de na­da lhe servia tentar, compelido pela impaciência, desco­brir-lhe as razões, antes que ela própria se dispusesse a fa­zê-lo.

Deixou que o dia se escoasse, mas não permitiu nenhum retardamento, depois das cinco horas. Com estranheza, quando saiu para tomar o carro viu que o motorista não era Herbert, mas Winsten.

— É uma surpresa, eu sei — disse Winsten, estendendo o braço para abrir a portinhola. — Entre... foi um dia fo­ra do comum. Herbert teve de ir para casa. Madge achou que era conveniente.

William entrou. — Qual é a dificuldade, agora?

— Madge me disse que lhe falasse em particular, duran­te a viagem — anunciou Winsten.

Guiava cuidadosamente por entre grupos de excursionis­tas cansados, que esperavam os ônibus para a volta. — Mad­ge está com muita pena de Jessica. Acha que devíamos fazer alguma coisa por ela imediatamente.

— Está bem — disse William — vamos ao caso.

O episódio, reconstruído segundo a cautelosa narrativa de Winsten, estimulada por algumas perguntas esporádicas e secas de William, era bem claro. De manhã, Winsten e Madge, com as crianças, haviam ido até a granja. Lá, ti­nham achado tudo mal. Ninguém respondera aos gritos nem às batidas de ambos, e finalmente, pondo-se a escutar, ouviram o nenê chorando no alto da casa. Madge não pudera sofrer-se mais. Experimentara a porta da frente; esta­va fechada só com o trinco.

— Winsten, você fica aqui com as crianças enquanto eu subo — ordenara.

— E o cachorro? — interrompeu William.

— Não víamos o cachorro — respondeu Winsten.

Madge subira sem parar, embora com dificuldade, por causa da inclinação insuficiente da escada. Dirigira-se à porta de onde vinha o choro da criança e, então, ouvira Jessica soluçando mansa e lamentosamente.

Tentara abrir a porta, mas estava fechada a chave. Sa­cudira a maçaneta. — Jessica! — chamara. — Deixe-me entrar. É Madge Asher. Vimos-lhe fazer uma visita.

Então ouviu o rosnar do cão, um rugido surdo. — Jessica! — tornara a gritar.

— Não posso deixá-la entrar — gritara Jessica em res­posta, a voz entrecortada pelos soluços. — Não posso con­ter o cachorro.

O cachorro parecera a Madge bastante feroz, levando-a a desistir de seu intento. Tornara a descer a difícil escada, saindo para a frente da casa, onde Winsten esperava com as crianças. Relatara-lhe o que Jessica havia alegado.

— Você entra para o carro com as crianças. Eu vou su­bir — dissera ele.

Madge obedecera, pois agora estava realmente assusta­da. Era demasiado sinistro, aquilo tudo. Por que Jessica se trancara com a criancinha e o cachorro naquele quarto do andar superior? Ou não teria sido ela?... Talvez Herbert a tivesse encerrado lá. Madge entrara no carro com as crianças e Winsten, procurando em torno, achara um ca­cete.

— Tenha cuidado — recomendara ela, aflita, pela ja­nela do carro.

— Não tenho medo de cachorro — retrucara ele. Tendo subido a escada, sacudira a maçaneta da porta.

— Jessica! — gritara. — Sou eu, Winsten Asher. Que é que se passa aí dentro?

Jessica deixara de soluçar e Winsten deduzira que havia tomada a criança ao colo, talvez a estivesse amamen­tando, pois o choro desta cessara também, abruptamente. Só o cachorro continuava seu horrendo e cavo rosnar.

—Abra a porta — ordenara ele.

 — Um minuto, Mr. Winsten — dissera ela com sua doce voz habitual. — Tenho de prender o cachorro.

Que vinha a ser isto, perguntara Winsten consigo. Não podia ter amarrado o cachorro antes? Agora, ela conversava com o animal, à sua maneira delicada,.aliciante...— Fica quietinho, Pirata, é um amigo. Não precisas as­sanhar-te. É Winsten. Não te lembras de Winsten? Ele sem­pre foi meu amigo.

Um momento depois, abrira a porta e ele vira uma cena.inacreditável. Jessica de pé, serena, a criança no peito. Atrás dela, o cão amarrado a um enorme canil colocado en­tre ambas as camas.

— Queira entrar, Mr. Winsten — dissera ela com doçu­ra. — Ainda não estou bem refeita para descer a escada e mantenho o Pirata comigo, aqui, enquanto Herbert está au­sente. Há tantos vagabundos, principalmente no verão, e todos parecem saber que fico sozinha em casa.

Sua voz meiga, sua linguagem límpida, apaziguaram o assombro de Winsten, e mesmo o seu temor, pois o cão in­fundia medo, as carnudas maxilas molhadas de escuma, os olhos vermelhos movendo-se inquietos. No entanto, ele per­cebia apreensão em Jessica.

— Não quer que chame Mrs. Asher? — sugerira.

— Chame, faça o favor — dissera Jessica, quase alegre. — Estou tão contente por ela ter vindo, é muita bondade da família.

Assim, atordoado, descera a escada em busca de Madge, a quem comunicara seu pasmo, tudo relatando. Deixaram as crianças por um momento, fechadas no carro, e subiram juntos a escada. Jessica sentara-se numa cadeira de balan­ço e o cachorro deixara de lutar contra a correia que o pren­dia ao canil, embora ainda estivesse babando, e seu olhar mau continuasse denotando irritação.

— Entre, Mrs. Winsten — dissera Jessica, calorosamen­te. — Eu estava sentada aí chorando, sozinha, deprimidís­sima. Não reconheci a sua voz. Não pude ouvi-la claramen­te, senão logo teria aberto a porta. Sempre tenho de dizer aos estranhos, antes de os mandar entrar, que não me ar­risco a deixar o cachorro solto.

Tudo era bastante razoável, mas parecia absurdo e ir­real.

— A porta da frente estava aberta — dissera Winsten.

Jessica parecera irritar-se. — Negligência de Herbert! Peço-lhe que feche a porta a chave quando sai de manhã, mas acha que é pura tolice minha. Não tem imaginação. Não pode conceber como fico durante todo o dia, aqui, so­zinha, e agora esta criança...

Descera os olhos para a criança, que lhe sugava o peito; a expressão de Jessica era quase hostil e Winsten tivera sua primeira e rápida desconfiança dela. Contemplando o rosto inocente do nenê, agora de olhos fechados, os lábios em re­pouso, Jessica perguntara, com inesperado e absorto espan­to: — Como foi nascer esta criança? Nunca hei de compre­ender.

Madge comoveu-se. — Oh, minha querida — protestara. — Não deve falar assim. Quando um homem e uma mulher se amam, sempre nascem crianças.

Jessica erguera os olhos para Madge, de pé diante dela, como uma generosa deusa da fecundidade.

— Ah, mas eu não amo Herbert — dissera distintamen­te, com frieza.

Madge voltara-se para Winsten. — Querido, vá lá em baixo ver as crianças. Não se preocupe comigo. Preciso ter uma conversa com a pobre Jessica.

A contragosto, Winsten descera, deixando Madge. De­pois, durante a viagem de volta, ela repetira-lhe fielmente o que ambas haviam dito.

— Não é direito você não querer bem ao seu próprio ma­rido, Jessica — advertira Madge.

— Ora, eu sei — suspirara Jessica. — Eu me esforço, me esforço.

— Nunca amou Herbert? — perguntara Madge. Apro­ximara de Jessica uma cadeira pequena, e sentara-se, agar­rando a criança. Coitadinha, pensara, era parecida com Herbert e muito feia.

Jessica cobrira o seio e recostara-se na cadeira, fechando os olhos. — Tudo isso é tão... asqueroso!_sussurrara.

— O quê? — perguntara Madge.

— Ter de ficar sozinha com Herbert aqui neste quarto, uma noite atrás da outra...quando não gosto dele.

Madge estava escandalizada. — Por que casou com ele?

— Mr. William Asher disse que eu devia casar.

— O meu sogro?

Jessica sacudira a cabeça afirmativamente e grossas lá­grimas rolaram-lhe por entre as pestanas douradas, desli­zando por suas faces pálidas.

— Mas por quê? — perguntara Madge.

— Não posso contar-lhe — gritara Jessica. — Oh, nun­ca, nunca deverei dizê-lo!

Não contava, não queria contar, limitava-se a chorar his­tericamente, numa convulsão de mágoa. Agarrara-se em Madge com ambas as mãos. — Oh, jamais me pergunte is­so, prometa — gritava. — Nunca deve falar nisso nem mes­mo para Winsten. Só Edwin sabe. Edwin sabe de tudo. Mas Mr. Asher ignora que Edwin sabe. Edwin era como meu ir­mão. Oh, ele é meu irmão: nunca mudaremos um para com o outro.

Cenas alarmantes desenhavam-se diante de Madge. Jessica era lindíssima, sempre o fora e os homens velhuscos podiam portar-se estranhamente.

— Mas ele... — começara.

— Oh, sim, sim, sim — gritara Jessica, precipitada­mente.

— Diga-me uma coisa — continuara Madge com severi­dade. — Quanto tempo durou isso?

— Oh, anos — respondera Jessica com desespero. — Quando voltei do internato, tinha apenas dezessete anos. Não podia deixar de ceder, então, não acha? E foi conti­nuando, continuando.

O cachorro subitamente se pusera a rosnar, sobressaltan­do Madge.

— Ele não lhe fará mal — dissera Jessica. — Só aos ho­mens é que odeia. Eu o ensinei assim.

O nenê dormia placidamente nos braços de Madge, que sentira vontade de chorar. Pobrezinho, que destino era o seu, aqui nesta casa? Que complicação podia ser a vida!

— Não chore, Jessica — dissera com doçura. Sua pró­pria vida fora tão feliz que ela não tinha nenhuma idéia do que fazer agora. Sentia que o mundo firme, o quente mundinho que era o seu, começava a esboroar-se à sua volta. Se o próprio pai de Winsten...

Levantara-se, deitara a criança na cama, cobrindo-a com a extremidade da colcha. — Tenho de pensar no que fazer, Jessica — dissera. — Quero ajudar você, mas agora não sei como. Tenho de pensar primeiro na família.

— Sim, sim — concordara Jessica, com humildade. — Sempre temos de pensar primeiro na família. Compreendo isso perfeitamente.

Erguera-se e ficara esperando, numa atitude tão serena, tão triste, que Madge, no meio de seu atordoamento, senti­ra-se tomada de piedade. — Pobre Jessica — dissera com simplicidade. — Deve ter sido terrível para você, morar lá.

As lágrimas voltaram aos olhos de Jessica. — Não pos­so esquecer-me — murmurara.

Madge fizera um aceno de concordância e, sentindo a voz tolhida, descera para o andar térreo, fechara a porta da frente e metera-se no carro...

— Achei conveniente contar-lhe exatamente o que acon­teceu, pai — disse Winsten. Escolhera o percurso mais lon­go de volta para casa, para que ambos dispusessem de tem­po. Agora, com os olhos na estrada, que o sol poente doura­va, não voltou a cabeça nem sequer para espreitar o per­fil do pai.

No decurso da narrativa, William limitara-se a exprimir o seu desprezo através de interjeições. Agora, no entanto, mergulhara na calma das grandes cóleras.

— É demais — declarou de dentes cerrados. — Jessica está desequilibrada. Não há dúvida quanto a isso. A idéia, a própria idéia...

Engoliu em seco, tossiu, afogou-se. Winsten diminuiu a velocidade do carro e bateu-lhe nas costas. — Não dê im­portância a isso, pai.

— Eu sei que você não acreditaria numa ridícula aluci­nação dessas — disse William com voz rouca, ainda com di­ficuldade. — Não tenho a mesma certeza quanto a Madge. As mulheres são infernalmente propensas a crer no pior a respeito dos homens, quando se trata de sexo. Até sua mãe... — Teve um novo acesso de tosse, que ameaçou su­focá-lo.

— Mas que é isso! —disse Winsten, encostando o carro à beira da estrada e detendo-o.

— Engasgado... com minha própria saliva... — disse William, arquejando, o rosto violáceo.

Winsten pôs-se a bater-lhe moderada e ritmicamente nas costas, até ele recuperar o domínio da respiração.

— Puxa — disse William, enxugando os olhos — que esta foi bonita! Não me lembro de já ter me acontecido uma coisa assim. Também nunca fiquei com tanta raiva. Será que Madge pensa?...

— Não sei o que Madge pensa, bem no seu íntimo — atalhou Winsten, cansado. — É uma instintiva, como são todas as boas mães. Quando grávida, tudo fica exagerado, para ela.

— Você quer dizer que ela realmente acredita que eu me rebaixaria a uma criadinha? — gritou William, arreba­tadamente.

— Ela não acredita em nada exatamente — respondeu Winsten, com obstinação. — Apenas simpatiza um pouco com Jessica.

William apertou os lábios, cruzou os braços, ficou teso, calado. — Vamos para casa — murmurou, depois de um momento. — Vou falar com Herbert.

A contaminação de seu lar por Jessica poderia tornar-se aflitiva, irrefreável mesmo, se Madge tivesse oportunidade de dar vazão às suas impressões. Era preciso fazer alguma coisa. Ele não tinha medo de mulher alguma, muito menos de sua própria nora, e ia simplesmente por cobro ao mal na fonte, que era Jessica. Não se podia deixar Jessica conti­nuar assim e ele o diria a Herbert. Este pelo menos era um homem, e marido de Jessica.

Saiu do carro diante da porta da casa e no pórtico viu Susan e Pete; estavam ambos entregues a um brinquedo in­fantil qualquer, bolas de borracha presas a compridos fios também de borracha e bastões de madeira. Cada um tinha um bastão e ambos davam sonoras risadas. Não o viram e passou de largo. Era estranho que Pete não voltasse para o seu negócio, a oficina nos montes Ozark ou fosse o que fos­se. Sentir-se-ia satisfeito quando o casamento de Susan tam­bém estivesse realizado. Que todos casassem, fossem em­bora e o deixassem em paz, a ele e a Elinor.

À porta, Herbert recebeu-lhe o chapéu e a bengala.

— Entre na biblioteca, Herbert — disse William com ris­pidez.

— O jantar está pronto, Mr. Asher — lembrou Herbert.

— Não tem importância — disse William sem mudar de tom.

É melhor avisar Bertha — disse Herbert.

William adiantou-se, empertigado, para a biblioteca e fechou a porta. Sentou-se na cadeira de carvalho de alto espaldar, à ponta da mesa comprida, de carvalho inglês, e ficou à espera. Dentro de um momento, Herbert entrou pi­sando macio, fechou a porta e parou junto dela. Seu rosto grande empalidecera.

— Às suas ordens, Mr. Asher.

Como poderia começar, perguntou William consigo mes­mo, como poderia repetir a Herbert a soez e tola fantasia que Jessica urdira? Mas era preciso começar e fê-lo com firmeza.

— Herbert, o meu filho mais velho e sua mulher foram visitar Jessica hoje por pura bondade.

— Obrigado, Mr. Asher... — murmurou Herbert, em tom lamuriento. — Durante a visita — continuou William com severidade — Jessica levantou diante de minha nora uma completa falsidade com relação a fatos que declarou terem ocorrido quando estava na minha casa.

Herbert baixou a cabeça, seu rosto gordo começou a tre­mer.

— Eu poderia tomar medidas legais por difamação — continuou William — e o faria se não acreditasse que Jessica está com um desequilíbrio mental. Quero que você man­de um médico examiná-la imediatamente.

O rosto de Herbert desintegrou-se, os olhos encheram-se de lágrimas, sua escassa boca tremeu entre as bochechas grandes, o queixo sacudiu-se como um prato de geléia.

— É aquele cachorro preto, Mr. Asher — soluçou.

— O cachorro?

— Sim, senhor. Ela não deixa que me aproxime... tem sido assim por semanas e meses. O cachorro fica entre ela e mim dia e noite.

— Quer dizer que ela mantém o cachorro lá durante to­da a noite, quando você está em casa? — perguntou Wil­liam, estupefato.

— Mantém o cachorro lá por minha causa, Mr. Asher — gaguejou Herbert. — Não tem medo de nenhum outro homem... só de mim.

— Que é que você lhe faz? — perguntou William. Herbert puxou do bolso um grande lenço limpo e passou-o no rosto. — Nada, Mr. Asher, a não ser exigir os meus direitos.

Dobrou o lenço com esmero e o repôs no bolso. Em segui­da olhou humildemente para William, o rosto luzindo por efeito de súbita transpiração.

— Sente-se — mandou William.

Herbert sentou-se num canto de uma das pesadas cadei­ras e continuou fitando no amo os olhos lastimosos, mas obstinados.

— Explique-se — ordenou-lhe William.

Herbert compôs a garganta e inclinou-se levemente para diante. — Aqui, entre homens, Mr. Asher... — começou.

E neste ponto, William, olhos fixos no rosto pálido e re­luzente de Herbert, ouviu a narrativa de uma cena tão an­tiga como o homem e a mulher.

O homem, que só por acaso era Herbert, avançava de noite sobre a mulher a quem fizera sua com o consentimen­to dela, dado por motivos que não se podiam imaginar, e todas as noites o drama se repetia. A delicadeza de Jessica, sua imaginação fantástica, seus anseios baldados, sua he­rança melancólica moldada em eras remotas na Floresta Negra da Alemanha, concentravam-se agora numa única e cega determinação. Não entregar-se a este homem, ela, a mulher. Oh, entregara-se a princípio, meio rindo, debatendo-se: — Deixa-me, animal sujo!

Então, algumas vezes, ele se abstivera, tentando astuta­mente despertar o desejo nela por meios que conhecia, me­ios que antes experimentara noutras mulheres, meios de que ouvira outros homens falarem...

— Não me toques, "schweinhund"! —gritara ela. — Eu não sou como tu pensas.

Fora cauteloso, paciente, sabendo que as mulheres de virtude não se entregavam logo. Mas que faz o homem quando a mulher nunca cede? Que faz o homem quando a mulher o morde e arranha de tal sorte que ele tem de lhe sujeitar as mãos e botar o braço em cima da garganta dela, a fim de que não possa levantar a cabeça, e depois montá-la firmemente, de modo a evitar que ela, esperneando e dando pontapés, o machuque nas partes mais sensíveis?

— Eu pergunto ao senhor — disse Herbert, as lágrimas voltando a escorrer-lhe pelas faces — que hei de fazer?

— Não posso admitir que você pretenda... forçar sua mulher — disse William, enojadíssimo.

— Mas pra que é que o homem casa? — perguntou Her­bert, perplexo. — O homem paga, não é? Dá cama e mesa à mulher, por assim dizer, e tudo o mais, além disso. Eu dei a Jessica tudo o que ela pediu...

Tornou a enumerar, contando pelos dedos grossos e cur­tos, o que lhe dera, os colchões "Beautyrest", a máquina de lavar, os dois aspiradores de pó, a mobília meio antiga, o espelho de moldura dourada, os cobertores novos, a gela­deira, o fogão elétrico, finalmente o tapete, sim senhor, e até passadeira para as escadas.

— Que peço em troca? Só os meus direitos — disse Her­bert. De repente, a humildade o abandonou. William viu um homem com o pensamento fixo em sua mulher, a quem estava determinado a possuir.

— E o que é mais, hei de ter os meus direitos — disse Herbert, com ênfase.

— Como pretende fazê-lo? — perguntou William, com dureza.

Era inútil explicar a este varão que não havia tomar sem dar. As sutilezas do sexo ficavam além da sua compreen­são. As delicadas lições que ele, William, levara tanto tem­po aprendendo, Herbert nunca poderia entendê-las, nem sequer alcançar a sua necessidade. Talvez para Herbert não fossem necessárias. Tomar, talvez bastasse para esta alma molecular, cercada tão compactamente por um corpo. Mas ah, Jessica era de outro tecido. De repente, a piedade trans­bordou no coração de William, e sentiu pena de Jessica. Teve um obscuro vislumbre daquilo que significava ser mu­lher.

— Usarei de meus direitos — dizia Herbert. Sua boca pequena franziu-se num nó apertado. — Em primeiro lugar, vou me livrar daquele cachorro.

William suspirou. — Por que não conduz a questão com um pouco de jeito, de modo que ela não suspeite? Peça a Pete que leve o cachorro. Diga que está ficando brabo de­mais para ficar com a criança e que seria um favor se o afastasse de lá. Nesse caso, Jessica não o censurará tanto.

Herbert encarou-o. — É uma boa idéia, Mr. Asher. É pre­ciso um advogado, eu acho, pra pensar como fazer as coi­sas. — Vacilou. — Eu queria era poder fazer isso agora, esta noite.

— Por que não? — respondeu William. — Pode pedir a Pete imediatamente. Ele vai embora amanhã, talvez.

Herbert se levantou. — Obrigado, Mr. Asher... Acho que Bertha lava a louça.

— Vá agora — ordenou William. Não queria Herbert em torno da mesa de jantar, esta noite. — Madge disse que Jessica estava muito abatida hoje de manhã. Vá para junto dela. Eu falo com Susan. Eles podem ir com você, amarrar o cachorro no carro e jantar por aí, na volta.

— Obrigado, Mr. Asher.

Esperou que Herbert deixasse a biblioteca e em seguida saiu para o pórtico, onde encontrou Elinor com Susan e Pete.

O jogo terminara, Susan batia um coquetel e Pete estava recostado na cadeira mais cômoda.

— Levante-se, malandrão — disse Susan, alegremente, ao seu noivo. — Não está vendo meu pai?

Pete levantou-se, sorrindo. — Não sabia que esta era a sua cadeira...

— Não é, precisamente — disse William. Parou para beijar o rosto de Elinor e sentou-se noutra cadeira.

— Ouvi — disse ela — você falando com Herbert na biblioteca e não entrei.

— Jessica não está passando muito bem — respondeu William. —Herbert acha que deve ir já para casa. Susan, ele tem um estranho pedido a fazer, mas eu concordo por motivos que explicarei mais tarde. Ele deseja que Pete leve embora o cachorro preto.

— Agora? — Os olhos escuros de Susan se agrandaram.

— Imediatamente — disse William, com firmeza. Voltou os olhos para Elinor em busca de qualquer alteração fisionômica que pudesse trair o conhecimento do caso por parte dela. Nada notou. A meia luz do crepúsculo caía-lhe sobre os cabelos e os olhos tranqüilos. Madge po­deria, afinal de contas, ter bastante nobreza para nada di­zer a não ser para Winsten; em seu próprio filho ele podia confiar. Logo que possível, contaria pessoalmente a Elinor toda a miserável fantasia, depois que houvessem levado o cachorro, depois que Herbert tivesse uma oportunidade de afirmar sua vontade. Sentia-se obscuramente culpado, pois que, por assim dizer, estava entregando Jessica ao macho; mas talvez fosse disso que ela precisava. Durante toda a vida, fora estragada com mimos, lisonjeada, tratada com indulgência, ninguém jamais a forçara a fazer alguma coi­sa, a começar pelo dócil Heinrich, e mesmo Bertha com seus assomos e palmadas esporádicas; e, certamente, também a prima Emma. Todos haviam tido em demasiada conta uma criança que, embora casualmente fosse linda e tivesse va­gos dotes de inteligência, estava, finalmente, condenada, ou antes destinada, a não ser nada mais que uma criada. Sur­rasse-a Herbert de uma vez para sempre, se fosse necessá­rio. Ele não queria falar a Elinor antes que isso houvesse terminado. Elinor não concordaria com tal processo.

Herbert trouxe o carro cinzento para diante do pórtico, alguns minutos depois, e ficou imóvel no seu lugar.

— Como é, Pete? — disse Susan.

— Vamos — disse ele, condescendente, e ambos toma­ram o carro. Nesse momento Winsten desceu, impedindo assim que William ficasse a sós com Elinor.

— Onde está Madge? — perguntou Elinor. — Estou com vergonha de ter dormido todo o dia. Mas fiquei cansada, depois do casamento.

— Madge não está se sentindo muito bem — respondeu Winsten. — Disse-lhe que fosse deitar-se.

— É mesmo? — disse Elinor — Você acha que é...

— Não sei — atalhou Winsten. — É possível. Logo há de se ver.

Havia preocupação na expressão do seu rosto fino, juve­nil, o perpétuo pai, pensou William, com algum alívio dian­te da circunstância de que Madge não podia aparecer.

— A viagem desta manhã foi um excesso para ela — dis­se Elinor.

— E as crianças incomodaram muito, hoje de tarde I— acrescentou Winsten. Serviu-se de coquetel. — Onde fo­ram Susan e Pete?

— Herbert quer que retirem de lá o cachorro preto, esta noite — disse William, significativamente. — Falei com ele a respeito da impressão de Madge sobre Jessica, hoje de manhã. Ele acha que o cachorro tem uma influência nociva sobre Jessica... Há muito tempo que assim pensa.

— Que estranho — comentou Elinor, surpresa. — Não suspeitaria que Herbert fosse capaz de tanta sutileza.

 — Talvez seja apenas uma impressão — disse William, Imperturbável.

Winsten se manteve calado. Mexeu sua bebida lentamen­te, os olhos baixos.

— Não se preocupe por causa de Madge — disse-lhe sua mãe. — Seria bonito que a criança nascesse aqui, como vo­cês todos.

— Só estou pensando no meu emprego — explicou Wins­ten. — A primeira coisa que tenho de fazer de manhã é te­lefonar.

— Bem, isso é amanhã — tranqüilizou-o Elinor. — Va­mos jantar.

 

Aproximava-se a meia-noite quando William ouviu o ruído do carro chegando diante do pórtico. Não fora deitar-se, ficara instruindo processos, trabalhando sozinho na bi­blioteca depois que Elinor o deixara.

— Vou dormir com um olho aberto — dissera ela. — Não está me agradando o estado de Madge. Acho que va­mos ter coisa antes do amanhecer. Winsten telefonou para o médico. Mandou reservar acomodação no hospital. — Isto fora depois que subira para ver Madge.

— Assim é melhor — dissera William, distraído. — Abor­reço enfermeiras em casa... sempre aborreci.

Elinor rira baixo e beijara-o. — Oh, advogado velho e res­sequido— dissera. — Um bebê nada significa para você, isso é que é.

— Gosto deles quando estão lavados, vestidos devidamen­te e com aspecto de seres humanos.

— Você portou-se toda a vida como se nada tivesse que ver com os nossos — acusara ela.

— O meu papel foi um tanto vago — admitira ele. Elinor sacudira-o levemente. —Que conversa — ralhara, mas com ternura.

Ele erguera a cabeça sorrindo-lhe, e, quando ela se cur­vara para tornar a beijá-lo, prendera-a pela nuca, manten­do-a por um momento abaixada.

— Você foi inteiramente feliz comigo?

— De um modo geral, sim — dissera ela sem reservas.

— Nunca forcei você... contra a sua vontade? Julgara perceber nela um levíssimo palpitar das pestanas douradas. — Bem, realmente, não...

— Por favor, Elinor — reclamara ele.

— Ora, não vamos falar nessas coisas depois de tanto tempo...

— Vamos falar, sim — dissera ele, subitamente irritado. — Sente-se. Agora diga-me se alguma vez a forcei?

Ela sentara-se, abrindo muito os olhos azuis e começara a soltar os cabelos, retirando os grampos um a um, depois entrançando-os diante de seus olhos. No minuto em que começara a despentear-se, tornara-se mais juvenil.

— Está bem, seu estúpido, se a esta altura você ainda não sabe. Naturalmente que me forçou, não no sentido de violentar ou qualquer bobagem parecida. Ainda assim, mui­tas vezes uma mulher não quer... mas se entrega de qual­quer modo, senão o homem fica ofendido, irascível, no dia seguinte zanga-se com os filhos, e não vale a pena...

William olhava-a fixamente, sentindo que algo desmoro­nava no seu íntimo.

— Elinor — gaguejara. — Elinor, você não...

Ela encarou-o com rebeldia. — Sim, é isso mesmo, e você me obrigou a dizer uma coisa que não desejava dizer, nem desejo, e agora que o disse vai ficar danado comigo. Como os homens são pouco razoáveis, ilógicos, emotivos, ridícu­los! Querem romance a toda a hora, tudo tem de ser idílio e sexo, mas segundo a música de vocês e quando querem, mesmo que a mulher não esteja disposta todo o tempo, a qualquer hora, e lembre-se do touro e das vacas, se me per­mite, o touro sempre pronto, o diabo o leve, mas obrigado a esperar que a vaca se disponha, como todo agricultor sa­be, e só a fêmea humana é que tem de negar sua própria natureza, fingir, fingir, e depois vocês não podem acreditar na verdade. Oh, vocês os homens precisam que a própria natureza se apresente como a desejariam, vocês não podem nem querem enfrentar a verdade...

— Elinor — gritara ele — você perdeu a cabeça?

Ela jogara a trança por cima do ombro e olhara-o com um delicioso sorriso de surpresa. — Não — murmurou — e me sinto ótima! Creio que passei anos desejando dizer isso. Agora já disse. — Pôs as mãos entrelaçadas sobre o peito.

— Obrigada, William, por ter me dado a oportunidade.

Respirara fundo, não era um suspiro, mas o hausto da liberdade. Ele a encarava, estupefato. — Por que não o dis­se anos atrás, se o desejava? — reclamara ele.

— Não tinha coragem — confessara ela com discrição.

— Receava o efeito que causaria em você.

— E agora não receia mais? — dissera ele, com certa melancolia

Ela sacudira a cabeça e as ondas do seu cabelo sedoso dividiram-se para ambos os lados caindo-lhe sobre as ore­lhas. — Não, porque, suponho, as crianças ficaram gran­des. Não me ocorre nenhuma outra razão.

— Não compreendo você — confessara ele. — Apesar de gostar de você e só de você, durante todos estes anos, não a compreendo.

Ela erguera-se e, aproximando-se, abraçara-o, apertando contra o seu peito cheiroso a cabeça dele.

— Freqüentemente tudo estava bem e era maravilhoso — murmurara. — E o mais maravilhoso é que ainda é as­sim. E até melhor, porque agora é só para você e para mim. É tão bom que Deus tenha disposto que as mulheres mais novas se encarreguem do incômodo de ter os nenês.

Ele escondera o rosto entre os seios dela. — Oh, Elinor

— murmurara, perdoando-lhe tudo — o tempo nunca é bastante, junto de você.

— Mas você tem o tempo que quiser — dissera ela, ale­gremente. Inclinara-se para lhe beijar a boca, um beijo rá­pido mas firme. — Boa noite, não fique acordado muito tempo.

Desprendendo-se, Elinor surpreendera uma expressão in­dagadora que ele deixara transparecer no olhar; e rira-se.

— Não, não — dissera com vivacidade — esta noite não, com a casa cheia de crianças, Madge ameaçada de ser le­vada para o hospital a qualquer momento, e a volta daquele cachorro medonho...

Estremecera e fora saindo rapidamente, apenas se deten­do à porta para uma última palavra: — Obrigada, Wil­liam...

— Não me agradeça — murmurara ele, voltando aos seus papéis, e forçando o pensamento a desviar-se de sua mulher. Todo aquele desabafo dela não era possível fixar em que extensão fora verdadeiro e em que extensão fora imaginado debaixo do aguilhão do momento. Havia qual­quer coisa de Jessica em todas as mulheres.

William sentia-se inteiramente sem sono e, ouvindo o ruído do carro, logo antes da meia-noite, dirigiu-se, na pon­ta dos pés, até a porta da frente, que ficara aberta. Madge não fora transferida para o hospital, mas não havia luz no andar superior, salvo a lâmpada que ficava acesa no cor­redor, durante a noite.

— Não façam barulho, vocês os dois — disse em voz bai­xa, quando o carro parou.

— Que é que há? — perguntou Susan, com leve altera­ção de sua voz habitual.

— Madge não está se sentindo bem — respondeu ele. — Que é isso?

Entre ambos, arrastavam um imenso corpo escuro, reti­rando-o da parte traseira do carro.

— É o cachorro — disse Susan. — Pete teve de matá-lo.

— Que dia fora do comum! — queixou-se William, a meia voz. — Que vão fazer com isso?

— Ponha-o aqui atrás dos lilases até amanhã, Pete — disse Susan. — O carro vai ficar com cheiro.

Pete não respondeu. Arrastou o enorme corpo pelas pa­tas dianteiras, jogou-o atrás dos lilases e depois subiu a es­cada, com ar deprimido. — Nunca pensei que tinha de ma­tar um cachorro.

— Entre na biblioteca — ordenou William, em voz bai­xa. — Mas que foi que aconteceu?

Seguiram-no de mansinho e ele fechou a porta.

— Quero beber qualquer coisa — disse Pete. Tinha uma expressão sombria no rosto moreno e Susan olhava-o com preocupação.

William dirigiu-se a um armarinho, na parede apainelada, e retirou uma garrafa de uísque e três copos. Serviu uma pequena quantidade a cada um. Beberam lentamente.

— Então? — perguntou.

— Conta, Susan — disse Peter.

Estava sentado de pernas abertas, e falara de cabeça bai­xa, todo o lábio inferior projetado para fora.

— Jessica estava dormindo quando chegamos lá — dis­se Susan. — Primeiro, Herbert subiu sozinho, naturalmen­te. Espiou e logo tornou a descer a escada. "Ela está com o cachorro solto, lá dentro", foi o que ele disse: "Não me animo a entrar", disse ele. Então, naturalmente, Pete disse que ia subir. Subimos todos, Herbert atrás.

Contava minuciosamente, lutando, conforme era visível ara William, com seu próprio horror. Haviam subido para andar superior sem fazer qualquer barulho, julgando, dis­se ela, que poderiam retirar o cachorro sem acordar Jessica nem o nenê.

— Ela sempre deixa o cachorro solto quando você vem tarde? — perguntara a Herbert.

— Ela mantém ele atado com uma corda comprida, regularmente — respondera Herbert.

Jessica, porém, acordara imediatamente. — É você, Herbert? — gritara.

— Responda — ordenara Susan a Herbert.

— Sou eu, sim — dissera este em tom suave, propiciatório. Segurara a porta. — Já tentei entrar, Jessica, mas senti que o cachorro estava solto.

— Você não pode entrar, Herbert — gritara Jessica, em resposta. — Deixei o cachorro solto propositadamente

Herbert voltara o rosto grande, pálido, para eles Do teto, uma lâmpada elétrica nua derramava sua luz sobre ogrupo.

— Agora que faço? — suplicara ele.

— Diga-lhe que estamos aqui para levar o cachorro — soprara Susan.

O cachorro rosnava assustadoramente junto da porta, do lado de dentro. Chegavam a ouvir-lhe a respiração áspera, depois de cada rosnadela.

— Miss Susan está aqui com Mr. Peter — dissera Her­bert, apaziguador. — Vieram buscar o cachorro, Jessica. Mr. Peter quer ficar com ele de novo.

Jessica não respondera. Ficaram escutando e nada mais ouviram além do rosnar do cão.

— Deixe-me abrir a porta — dissera Peter. — O cachor­ro me conhece. — Abrira a porta de repente mas o cachor­ro saltara sobre ele. Empinado sobre as paras traseiras al­cançava os ombros de Pete, que se atracara com o animal, fechando-lhe os maxilares com a mão.

Herbert cerrara os olhos e se encostara à parede, lamentando-se, mas Susan, lançando-se para diante, puxara as patas traseiras do cachorro, levando-o, assim, a cair no chão.

— Oh, moça guapa — dissera Pete, anelante. — Conti­nue segurando as pernas, enquanto eu afogo este maldito.

— E foi o que ele fez — disse Susan, na biblioteca, olhan­do com firmeza para o pai. — Eu agarrei as pernas trasei­ras do cachorro e Pete o sufocou até matá-lo. Aí ouvi Jessica. Dizia sem parar: "Mata-os, Pirata, mata-os todos!" Fiquei com tanta raiva quando ouvi isso que lhe gritei: "Ca­la a boca, Jessica!" Foi o que eu gritei. Parecia um quarto cheio de doidos, Herbert chorando alto, Jessica repetindo aquilo e eu a gritar-lhe. Ela estava na cama, sentada, me­tida numa bela camisola de seda e num casaquinho fanta­sia, lençóis cor-de-rosa, sim senhor. Só o nenê continuava dormindo.

— Que fizeram quando o cachorro morreu? — pergun­tou William. Sentia a boca seca como couro e tornou a be­bericar o uísque.

— Pete puxou o corpo escada abaixo, nós os dois o me­temos no carro e voltamos para casa — disse Susan.

— Pois é — disse Pete, com sua voz indolente — nunca pensei que ia matar um cachorro. Sempre gostei daquele cachorro. Eu nunca devia ter trazido ele pra cá. Devia era ter deixado o animal lá em casa, que era o lugar dele. A moça tinha aquele cachorro prontinho pra matar alguém. Credo, do jeito que aquele cachorro estava esta noite, era capaz de comer Herbert vivo. Sorte dele a gente ter ido lá.

— Acho que você salvou a vida dele — disse Susan — se é que isso valia a pena. Duvido. Desprezo homem que chora. Eu mesma nunca chorei.

— Vamos para a cama — disse William. — Estou esgo­tado.

 

 

Despertou tarde, na manhã seguinte, ao contato da mão fria de Elinor na sua testa.

— Acorde, avô — anunciou ela, alegremente.

Ele arrastou o corpo para cima, escapando do sono. — Não me diga que Madge...

— Uma menininha chamada Elinor — disse ela com grande vivacidade.

— Outra menina — exclamou ele, já bem desperto.

— É muito? — perguntou Elinor.

— Depende — disse ele, bocejando. Levantou-se e, atrapalhando-se, enfiou as chinelas.

Elinor, saindo, parou à porta e soprou-lhe um beijo. — Você parece cansado. Não quer ficar na cama esta manhã? Herbert não veio.

— Oh, não, vou me levantar — murmurou ele. — Her­bert não veio? Susan contou a você a respeito do cachorro?

— Veio ao meu quarto esta noite e me acordou para con­tar — disse Elinor. — Apavorante, não foi? Que bom que está morto. Jessica ficará melhor, tenho certeza.

 — Não sei — resmungou ele, da sala de banho.

Ela não ouviu. Já estava a caminho da escada, animadís­sima por causa da nova criança. Uma menina, eis o que Elinor desejava, ele bem o via. Quanto a si, estranhamente era desânimo o que sentia. Este não seria um dia bom. Não tinham visto o final de Jessica; longe disso.

Passara apenas a metade da manhã, contudo, e ele igno­rava o pior. Depois do café, não tendo visto nenhuma das crianças, retirou-se novamente para a biblioteca, abstendo-se de olhar pela janela para ver se o cão jazia atrás dos lilases. Susan dormia ainda e Pete provavelmente fazia o mesmo. Os moços, atualmente, pareciam ter a capacidade de dormir todo o dia, uma espécie de evasão, parecia-lhe, dos insolúveis problemas da época. Ninguém sabia como de­ter a guerra, a corrupção no governo era monstruosa, as mu­lheres ficavam desequilibradas e os cães, loucos; por isso, os jovens dormiam.

Às onze horas, depois que Elinor acabava de sair para o hospital a fim de visitar Madge e ver o recém-nascido, tendo ele recusado comparecer antes que o bebê completasse vin­te e quatro horas de idade, libertando-se de sua crueza ori­ginal, ouviu um grito na cozinha. A janela dos fundos da biblioteca dava para a horta e, como estivesse quente a manhã, abrira-a para formar uma corrente de ar. Pôde assim ouvir Bertha gritar outra e mais outra vez. Largou a caneta, mas antes que pudesse levantar-se ela entrou cor­rendo na peça, trazendo nos pés apenas as meias, como sempre fazia na cozinha, especialmente no verão, quando inchavam.

— Mr. Asher, oh, Mr. Asher... Soluçava, o rosto violáceo.

— Que há? — disse ele, áspero.

— Herbert, meu senhor, está telefonando... Jessica... ela está uma coisa horrível...

William levantou o fone do aparelho que havia na sua mesa e ouviu um estranho ruído.

— Herbert! — gritou.

— Oh, Mr. Asher, por favor — disse Herbert, aflito — pode vir aqui em seguida?

— Não posso — disse William, com firmeza. — Primei­ro preciso saber o que é que está mal.

— É Jessica, Mr. Asher... Não está ouvindo ela?

— Estou ouvindo um cachorro latindo — disse William.

— Pois é ela! — gritou Herbert. — Está de quatro pés e anda à roda do quarto, sem parar. Está feito cachorro, está ficando doida varrida. Não sei o que vou fazer. E a criança está com fome. Não posso obrigar Jessica a dar de mamar pra criança. Ela quer morder a criança. Não posso impedir que ande à roda, latindo...

— Santo Deus! — exclamou William.—Vou chamar uma ambulância. Mas é incrível. Herbert, fique vigiando-a...

Depois de telefonar para o médico e expor-lhe o caso, pareceu-lhe, quando veio a ambulância, que não havia na­da melhor a fazer que ir junto, pois as estradas rurais eram inexplicáveis, sendo mais expedito simplesmente saltar pa­ra o lado do motorista. Uma enfermeira e um interno, mu­nido de uma camisa-de-força, iam na parte de trás, junto da maca.

William mantinha-se em silêncio. Do alto, a bela manhã estival iluminava placidamente a terra atormentada.

— Lá atrás daqueles lilases tinha um cachorro morto — disse o motorista.

— Vai ser enterrado esta manhã — disse William com voz distante. Seria impossível explicar tudo o que acontece­ra, e sentia uma grande fadiga interior que o impossibilita­va de fazer uma tentativa. Tratava-se simplesmente de uma coisa que não era para ser entendida.

— É o inconveniente de morar perto duma estrada gran­de e ter cachorro — comentou o motorista, amável.

— É isso — concordou William, muito cansado para uma explicação.

— Mas deve ter sido um caminhão, pra matar aquele ca­chorro — sugeriu o motorista.

— Acho que foi — disse William vagamente e já pouco à vontade.

O motorista desistiu e manteve-se calado até fazer alto na chácara.

William saiu do carro, seguido pelo interno e pela enfer­meira.— O motorista abriu a porta da casa. Ao pé da es­cada, William parou. — Herbert! — chamou. A porta do quarto abriu-se e ouviram um rosnar baixo, estranho, vindo de cima. Herbert saiu com o nenê ao colo.

— Ela está mais calma — disse a meia voz. — Está dei­tada em baixo da cama.

William voltou-se para a enfermeira. — Convém que a senhora suba comigo. Ela me conhece e poderia ficar exci­tada.

Sentia-se muito inquieto. E se Jessica o reconhecesse e renovasse as suas acusações? Sentou-se na saleta, agora descuidada e coberta de pó. Herbert transformara-a em lu­gar de mudar roupa; e em torno, espalhados, viam-se peças de baixo e sapatos; uma sala deplorável, pensou William percorrendo com o olhar os tocantes efeitos que Jessica ten­tara obter, um mundinho para ela mesma, onde no entan­to enlouquecera.

Agora traziam-na pela escada, com uma espécie de ca­misola branca, cujas mangas haviam sido atadas em redor do seu corpo. Teve dela uma visão rápida e chocante, quando passava pela porta, a cabeça abandonada, escorren­do baba pelo queixo. Emitia um som gutural, um rosnar ás­pero, e ao passarem pela porta não ergueu a cabeça. William levantou-se e ficou de pé, junto da janela aberta. Quando a puseram dentro da ambulância, ela de repente tentou dar uma dentada no pulso do interno e este respondeu-lhe com um tapa.

— Tu mordes, hem? — disse ele sem dureza. Amarrou-a na cama fixa e a enfermeira ocupou seu lugar. O motorista subiu para a cabina e em seguida gritou:

— Não vai voltar?

William abanou a cabeça. — Vou ficar para ver como estão as coisas por aqui; depois o meu empregado me leva no carro.

O motorista fez um sinal de aquiescência com a cabeça e a ambulância partiu ruidosamente. A casa ficou em silên­cio. Não se ouvia nem mesmo o som de Herbert chorando. William subiu a escada, depois de um momento, e o encon­trou na cadeira de balanço, acalentando a criança, que dor­mia nos seus braços. Era assustador o aspecto do quarto. Ocorrera ali uma espécie de batalha humana. As roupas da cama estavam atiradas pelo chão, os quadros tinham caído das paredes, havia cacos de vidro, as cortinas tinham sido arrancadas das janelas. No meio dos destroços, Herbert sen­tado, balouçando-se, o nenê ao colo dormindo placidamente.

— Como a alimentou? — perguntou William, pasmado.

— Misturei um pouco de leite com água e açúcar e dei com uma colher, Mr. Asher — respondeu Herbert. Parecia calmo, mas esgotado. — Quer que vá levar o senhor no car­ro? — perguntou.

— E a criança? — tornou William.

— Agora que ela está com o estômago cheio, bem pode ir dormindo no banco de trás — disse Herbert.

E sem outras palavras desceram a escada, Herbert enro­lou a criança num cobertor, e acomodou-a sobre o assento posterior do seu velho carro, que pôs em marcha, afastando-se lentamente da casa.

— O senhor há de compreender que não posso trabalhar por um dia, mais ou menos — disse Herbert. — Tenho de arranjar nalgum lugar uma casa pra deixar a criança.

— Certamente — disse William. — Mas não seria esta uma boa ocasião para Bertha se aposentar e vir para aqui cuidar da criança?

O rosto enorme e branco de Herbert assumiu uma expres­são de pétrea inflexibilidade. — Nunca admitirei ela lá na casa, patrão, enquanto eu viver.

— Mas Bertha não fez nada — protestou William.

— Eu não sei o que ela fez nem o que não fez — disse Herbert soturno, os olhos pequenos e tristes atentos à es­trada cheia de sulcos. — Tudo o que sei é que Jessica não podia aturar ela e o mesmo acontece comigo. Alguma coisa ela fez à minha Jessica e não há de botar os pés na minha casa.

— Isso quer dizer que você deseja deixar o emprego? — perguntou William.

— Não, só quer dizer que não quero ela lá na minha casa — repetiu Herbert.

 — A casa não é de Bertha? — lembrou William.

— Vai ser de Jessica e minha, logo que a velha morrer — declarou Herbert.

William ficou calado, não quis sondar a amargura de Herbert. Ficaria contente quando chegasse à sua casa.

— Ou então — disse Herbert, meia milha além — po­diam ser aquelas freiras. Jessica nunca consentiu em se en­tregar a ela mesma. Tinha uma coisa da natureza da gente que ela achava suja e isso é coisa de freira. No entanto, foi Bertha que mandou ela pro internato, contra a vontade do pai dela. Ela gostava do pai, Jessica. Ele era bom pra ela.

William recordava-se perfeitamente de Heinrich, um ho­mem bondoso, desorganizado, que sem Bertha a dirigi-lo te­ria certamente acabado esmolando ou bêbado. Mas talvez fosse esta a tragédia das mulheres como Bertha, as geren­tes para quem os fracos se voltam, às quais aderem e a quem infalivelmente odeiam; e isto, também, não podia ser explicado a Herbert.

— Bem — disse, vagamente — a gente nunca sabe. Su­ponho que a primeira coisa a fazer é restabelecer Jessica, se for possível.

Então Herbert disse a coisa incompreensível. — Ela não está doente, Mr. Asher, só está procurando livrar-se.

— Livrar-se de quê? — perguntou William.

— Do que houve a noite passada.

William sentiu vontade de gritar pedindo que não lhe contasse o que se passara, mas viu que, para Herbert, isso era necessário. Mais cedo ou mais tarde, Herbert insistiria em contar-lhe o que acontecera naquele quarto, depois que o cão de guarda fora morto, depois que Susan e Pete se ha­viam retirado e nada mais restara para se interpor entre o homem e a mulher. Era evidente, aquilo que Herbert ia nar­rar. Ainda tão próximo do parto, a infindável guerra dos séculos entre macho e fêmea explodira numa batalha, na­quele quarto solitário, tão distante de qualquer outra habi­tação humana que o pranto e os gritos de Jessica ninguém os podia ouvir. E Herbert tampouco seria ouvido, seu lerdo temperamento erguia-se finalmente a um extremo crí­tico ao vê-la indefesa, ao saber que ninguém registraria o mugido do touro finalmente a sós com a fêmea mais fra­ca. Jessica não cedera. Saltara da cama para o chão, agar­rara-se às cortinas, lutando para se atirar pelas janelas, mas ele as trancara bem. As cortinas se abatiam em torno dela e Jessica as usara como escudo até que ele as arreba­tara. Agarrava-se à mesa, às camas, mas ele a obrigava a soltá-las, batendo com os punhos nas juntas dos dedos dela. Finalmente a espancara com a travessa de uma cadeira que­brada até ela cair no chão, contorcendo-se, guinchando de dor, e ainda assim tão resistente, a despeito de sua fragili­dade, como se fosse feita de cabos de arame. Aprisionara-a debaixo do seu vasto corpo, ali sobre o soalho, e a mantivera subjugada, segurando-lhe tenazmente os pulsos, prensando-lhe um lado do rosto com a boca tensa, ilhargas contra ilhar­gas.

— E durante todo o tempo — disse ele agora, pesaroso, guiando o carro com cuidado para que a criança adormeci­da não fosse arremessada para fora do assento: — durante todo o tempo eu só estava tomando aquilo que era o meu direito.

William escutava repassado de solene horror. Simples­mente não havia um meio de explicar a Herbert que era pior que homicídio aquilo que fizera.

— Quando tudo estava terminado — dizia Herbert — levantei Jessica do chão e deitei ela na cama. Pensei que tivesse desmaiado e fiquei com medo. Fui ao quarto de ba­nho buscar o frasco de sais. Ela sempre tinha sais de chei­rar, como Miss Emma. Quando voltei... — seu queixo co­meçou a tremer e ele compôs a garganta. — Quando voltei pro quarto, ela estava de quatro pés no chão, balançando a cabeça abaixada, e quando eu falei, ela... pegou a la­tir, feito cachorro.

William suspirou fundo. Mais cinco milhas e estariam em casa.

— Tudo isso é incompreensível — disse, afinal — total­mente, totalmente incompreensível.

Sentia, porém, um medo aflitivo de que, se de fato ten­tasse, compreenderia, e isto, naquele momento, era dema­siado para ele.

 

Quando chegou à casa, olhou involuntariamente em bus­ca do cadáver do cachorro. Desaparecera. Susan e Peter ti­nham-no enterrado, então! Agora talvez houvesse paz. Ru­mou escada acima a fim de lavar as mãos e trocar de rou­pa, por nenhum motivo particular a não ser que desejava assumir outra aparência, sentir-se diferente, uma mudança para melhor, certamente. Na escada, topou com Susan, no­tando seu olhar ao mesmo tempo perdido e luminoso. Não fez referência ao cachorro.

— Onde está sua mãe? — perguntou em tom macio.

— Na horta das ervas — respondeu Susan, seguindo o seu caminho.

Depois de se meter num traje velho, cômodo e lavado de pouco, saiu em busca de Elinor. Conforme Susan informara, estava junto dos canteiros de ervas de condimento, uma área de uns dez metros quadrados, no meio da horta pro­priamente dita, atrás da casa. Ajoelhada, escolhia espéci­mes com cuidado e vagar, formando um molho, destinado, conjeturou ele, a aprimorar o paladar das iguarias que pro­jetara para o jantar. Rumou para ela, acendendo um cigar­ro e simulando um amável ócio.

Elinor ergueu os olhos. — E então?

— Então, Jessica foi levada para o hospital... de camisa-de-força. — Falou devagar, em tom bastante baixo para que Bertha não pudesse ouvir. Elinor teria de contar-lhe.

— De camisa-de-força! — exclamou Elinor, com grande interesse. i

William descreveu a tremenda manhã, enquanto ela es­cutava alarmada e no entanto incrédula, conforme ele pe­dia ver. Continuava ajoelhada, um protesto no olhar, en­quanto ele relatava o que havia feito.

— Alguém tinha de fazer alguma coisa — disse Wil­liam, num assomo final de irritação. — Até Herbert concor­da nisso. Os médicos concluirão se Jessica é ou não é louca. Espero que seja. A loucura é a única justificativa possível para tudo o que ela tem feito. Se não estiver desequilibra­da, deve ser um demônio de maldade.

Isto causou impressão, notou-o com agrado. O protesto deixou de faiscar nos olhos de Elinor.

— Oh, querido — disse ela, suspirando. Aspirou o molho de ervas e levantou-se. — Eu quisera saber se isso foi acertado.

— No momento, foi — disse William com firmeza. Ele próprio sentia um singular desafogo à lembrança de que Jessica estava fechada a sete chaves.

— Suponho que sim — disse Elinor. — Naturalmente que agora dispõem de toda a sorte de recursos para curar as pessoas... mesmo que ela esteja louca.

— Sim — concordou ele e em seguida, cauteloso, per­guntou: — Como está Madge?

— Perfeitamente normal — respondeu Elinor. — Isto é, está muito bem, fisicamente. Tive a impressão de que pare­cia um pouco esquisita comigo. Suponho que esteja apenas cansada.

Ele sentiu uma onda de calor nas faces. — Eu também estou cansado. Fiquei saturado de mulheres esquisitas — disse com ênfase fora do comum. — Se Madge está ficando esquisita, prefiro não saber de que se trata. Que tal o nenê?

— Por que não vai descansar um pouco? — disser Eli­nor. E logo acrescentou: — Mas o nenê é simplesmente adorável, é a mais linda de todas as crianças.

— Então fico satisfeito por terem posto nela o seu nome — galanteou ele.

Elinor lançou-lhe um de seus olhares de inteira aprecia­ção, mas um tanto jocosos, marcando assim o extemporâneo desta espécie de conversa. Ele arqueou as sobrancelhas, no­tando que a pele de sua mulher ainda suportava notavel­mente bem a luz do sol. Não tinha rugas, nem sequer um suave rendilhado na superfície de marfim. Agradava-lhe registrar que pudera, pelo menos até agora, manter na vida dela uma serenidade propícia à beleza.

 

— ABOMINO HOMENS que choram — disse Susan, com indizível repugnância. — Graças a Deus que Pete é um ho­mem de verdade. Juro que eu também, se fosse Jessica, odiaria Herbert.

Era noite e William esperava o jantar. Elinor estava na cozinha, Bertha se retirara para seu quarto, no sótão, de­pois de saber das notícias de Jessica, e Susan punha a mesa.

— Hã — fez William para animar Susan, mas não como um sinal de aquiescência. Ela teria sua razão, mas podia haver excesso tanto num como noutro caso. — Peter não vem jantar?

— Não — disse Susan. — Resolveu voltar para casa hoje de tarde.

— Algo mal?

— Não, se você e mamãe se portarem direito — disse Susan, com firmeza.

William se fez surdo à deixa. Sabia muito bem que ela queria alguma coisa e portanto fora ela que mandara Peter para casa. Queria-o fora do caminho, enquanto ficava com os pais à sua disposição. Como reconhecia bem os sinais! Le­vantou-se e andou em direção à porta.

— Convém você ajudar sua mãe na lavagem da louça, depois do jantar. Bertha está muito abatida.

— Aí está outra vez — respondeu Susan. — Muito aba­tida! As pessoas são tão frágeis.

E se alguém parecia frágil, pensou William, contemplando-a, era esta doce criatura que era sua filha, esta moça de aparência delicada, olhos castanhos e graúdos orlados de cílios pretos, inutilmente longos e espessos, o corpo curvi­líneo e esbelto sugerindo redondezas semelhantes às da mãe, a voz tão grave e suave como uma música indolente. Mas era essa a atitude das moças de hoje e tudo isto nada significava. Ele não tinha a menor idéia da verdadeira Su­san depois que Pete, à sua maneira singularmente lânguida e vaga, se apegara à família. Contudo, pelo que parecia, devia ser uma coisa permanente.

Cedeu ao ousado apelo de um instante: — Vai mesmo insistir nesse casamento absurdo?

Susan dobrou, em forma caprichosa, três guardanapos en­gomados, de linho. — É sobre isso que eu quero falar agora de noite. É bom que Bertha esteja abatida. Ficaremos em perfeita intimidade.

— Espere para depois do jantar — pediu ele, parando diante da porta. — A minha digestão já não é o que era. Sossego, por favor, durante o jantar.

Deixou-a e, um tanto pesadamente, saiu para fora da casa e pôs-se a passear pelo pórtico, joeirando o pensamen­to. Havia muito que dominava esse processo, uma defesa contra os criminosos que se infiltravam na sua vida interior. Fora forçado a aprender a enxotá-los para o ambiente exte­rior, onde suas caras malignas se desvaneciam como Gatos Careteiros, podendo ele então voltar ileso para casa e brin­car com as crianças, examinar os defeitos de uma caldeira de calefação relutante, ler um livro que pusera de lado a noite anterior, ou finalmente, e sobretudo, fazer a corte à sua Elinor. Agora, no longo crepúsculo de verão, recorreu ao seu hábito e sentiu-se penetrado por uma reconfortante quietude interior. À meia luz, o jardim era uma delícia, asprimeiras flores do verão brilhavam contra o muro de pe­dra. O tempo favorecia as rosas, a única flor de cujo nome infalivelmente se lembrava. Não importava o que aconte­cesse no interior da casa de um homem, as paredes perma­neciam de pé, as árvores cresciam, desabrochavam as flo­res.

Mas os alicerces podiam ser abalados. A noite era longa e Susan implacável. O jantar estava agradável, delicioso no tocante aos pratos, ele fez veladas referências experimen­tais às canseiras do seu dia, percebendo, porém, que Susan não tinha intenção de poupá-lo. Os jovens eram unilaterais, pensavam em si mesmos. Ocasionalmente olhando de re­lance para a filha, entre momentos de fruição de "um cor­deiro temperado com caril, realmente excelente, murmura­va de si para si que bem podia gozar o jantar, pois o que se seguiria era inevitável. Conhecia, o jeito de inexorável determinação da boca bonita de Susan, vira-o pela primei­ra vez quando ela estava com menos de um ano de idade, então como agora em conflito com ela. Fora isso, lembrou-se, no dia em que insistira com ela para que comesse espi­nafre. Não comera. Em vez disso, jogará o espinafre no chão com um rápido movimenta da mão direita, gorda mão­zinha, naquele tempo. A mão agora era muito bonita, fina e bem tratada, as unhas vermelho-coral; e no dedo médio viu então, pela primeira vez, umanel com diamante, um grande solitário. Quando ela percebeu que o pai olhava pa­ra sua mão, fez o diamante faiscar como uma lanternadian­te dos olhos dele.

— Gosta?

— Tenho visto outros — disse, secamente.

— É lindíssimo — disse Elinor, apressando-se generosamente a dar satisfação por William.

— Onde Ozark Pete arranjou dinheiro para isso? resmungou ele. Era inútil ser delicado com Susan. Atualmente, as moças não sabiam o que era delicadeza. Jessica modela­ra-se pelas jovens senhoras de outra época.

— Você ficaria surpreso diante da quantidade de dinhei­ro que se pode ganhar numa oficina de automóveis — disse Susan, complacente. — Além disso, nós o compramos em prestações.

— Oh, Susan! — exclamou sua mãe.

— Que foi? — perguntou Susan.

— Mas o anel de noivado! A crédito!

— Eu não queria um de tamanho pequeno — disse Su­san.

— Cada um tem o que merece — disse William.

— "Okay", pai...

— Até o seu inglês é corrupto — murmurou ele. — Su­ponho que uma educação secundária não pode subsistir jun­to de um posto de gasolina.

Percebeu que, por ora, avançara demasiado. Os olhos es­curos de sua filha fulguravam de raiva sobre o rosto dele. William deu ligeiramente de ombros. — Não vou, brigar à mesa. Nem mais tarde.

— Claro — prometeu Susan.

William ergueu-se e, inconscientemente, deixou os arran­jos da mesa e da louça às duas mulheres, indo-se para a sala de leste, cachimbar tranqüilamente. Naquele canto plácido, na ausência de criados e crianças, pôs-se a refletir nos estranhos fenômenos humanos dos tempos modernos, no homem forte Peter e em milhões de outros semelhantes, incivilizados e ignorantes, corpo magnífico destituído de cé­rebro, ou, se este existia, estava tão bem escondido sob a falta de civilidade e uma linguagem grosseira que bem po­dia ser considerado inexistente. Lamentava seus próprios filhos, Winsten, o jovem pai, moldado segundo um padrão ultrapassada, Edwin, o intelectual, que certamente não po­deria sobreviver, a menos que a lei prevalecesse. Se a lei chegasse a sucumbir sob os assaltos da revolução, inevita­velmente o revolucionário seria Peter e jamais Edwin, nem certamente Winsten; e Edwin seria liquidado. Assim se di­zia modernamente, em vez de assassinar. Winsten talvez tivesse permissão para viver, se se conformasse, e havia de conformar-se, apreensivo pela sorte da mulher e dos filhos. Edwin jamais se conformaria e portanto seria assassinado.! William saboreou a velha e cruel palavra. Assassinar era a' termo verdadeiro, e liquidar, a mentira. Peter talvez detes­tasse matar um cachorro, que era seu escravo, mas não de­testaria matar um homem mais inteligente que ele, mais educado, e o qual, nalgum dia perfeitamente possível do fu­turo, poderia tentar preservar as tábuas da lei, quando Ozark Pete as quisesse quebrar. Susan não poderia acaso perceber esta possibilidade? E, naquele dia futuro, perma­neceria ao lado do bruto ou escolheria o sangue com que nascera? Ele não sabia. Não se podia confiar numa mulher quando o amor entrava em conta.

Pensamentos sombrios para uma noite de verão!

— Mas por que, diga-me, está sentado no escuro? — re­clamou Susan com sua voz de veludo, tão macia e grave e, no entanto, implacável.

— Pensando — respondeu ele.

Ela não perguntou em quê. Em vez disso, andou à volta acendendo lâmpada após lâmpada, até que a sala grande e tranqüila ficou resplandecendo. Provavelmente não se im­portava com o que ele pensava.

— Não gosto de magoar você — disse ela, docemente, banhada de luz. Sentou-se no divã, apoiou um cotovelo na mão e enrodilhou as pernas debaixo de si mesma. Ali, no seu vestido verde-maçã, de mangas curtas e decote redondo, a ondulante saia tufada, parecia uma criança, uma criança terrível, pensou William; uma menina demasiado amada, tratada com demasiada indulgência, excessivamente vivaz, fascinante.

Sabendo, pela experiência de anos de convívio, que ela gostava de despertar interesse, evitou aquele ataque direto.

— A propósito, eu queria perguntar onde enterrou o ca­chorro? — Reconheceu intimamente a morbidez da pergun­ta, do desejo de saber, de uma vez por todas, que o despre­zível animal chegara a um fim definido.

— Pete levou-o para o campo — disse Susan. — Jogou-o na velha marmoreira.

A antiga jazida de mármore estava cheia de uma massa de água deprofundidade desconhecida. Havia muitos anos, numa geração passada, fora utilizada como tanque de na­tação pelos filhos dos agricultores até que um menino se afogara, indo o seu corpo tão ao fundo que se malograram todas as tentativas para trazê-lo à tona. Os banhos na marmoreira tinham então sido proibidos.

— Foi bom não terem enterrado o animal por aí, dentro da propriedade — disse William.

— Aquele cachorro era muito grande para ser enterrado — observou Susan, com indiferença. — Pete disse que le­varia meio dia cavando uma cova para ele. Mas ficou irri­tado por terem posto a perder um cachorro bom.

— Um animal selvagem — disse William, resolutamente. Caiu um silêncio tenso e instável, que era preciso inter­romper rapidamente.

— Que é que está planejando, que vai nos magoar? — perguntou Elinor. — Entrara quando Susan acendia as lâm­padas e ocupara sua cadeira habitual. Agora, contrariamen­te ao seu costume, fumava um cigarro enquanto sorvia o café.

— Talvez não fiquemos magoados — disse William.

— Ficarão, sim — declarou Susan — mas não é possível evitar. Sei que estão decepcionados comigo, mas acho que percebem que não terminarei o curso secundário.

Ele temera isto. Susan o insinuara na praia e, quando ela voltou para casa, ele notara algo de definitivo no seu com­portamento; era um retorno permanente, já completado em desígnio. Nem ele nem Elinor falaram. Susan atirou para trás, com um gesto, os cabelos curtos que lhe caíam sobre o rosto e pôs-se a brincar com o anel.

— Vou casar com Pete imediatamente — disse.

— Mas não — começou Elinor, porém Susan levantou as mãos.

— Mãe, eu não quero casamento de cerimônia.

— Oh, Susan! — exclamou Elinor.

— Pete ficaria ridículo, eu sei. Não, não digam nada, nenhum dos dois. Eu sei todas as palavras que diriam. Sei o que pensam de Pete. Posso ver Pete com os olhos de vocês cada vez que se voltam para ele. Foi por isso que o mandei embora hoje. Quero lutar com vocês sozinha. Sei que efeito ele causa em vocês, garanto.

As sobrancelhas escuras se ergueram acima dos olhos cas­tanhos, numa impetuosa mímica de desagrado.

— E você não se importa? — perguntou Elinor.

— Importo-me — disse Susan. — Mas não permitirei que isso me altere com relação a Pete. Vou casar com ele.

— Quando? — perguntou William, os lábios secos.

— Qualquer dia, o primeiro dia que pudermos — disse Susan.

Tornou a se fazer silêncio; e isto, pensou William, era o fim de seus filhos! Para isto a gente construía uma casa e a transformava num lar; para isto trabalhava e renuncia­va aos prazeres, interrompia o sono: lembrou-se de que Su­san, em criança, sempre sentia sede nas primeiras horas de­pois da meia-noite, quando ele dormia o seu primeiro sono profundo. Noite após noite, saíra da cama grunhindo, estre­munhado, para buscar a xícara de água, assumindo assim uma parcela de responsabilidade para que Elinor fosse pou­pada; e, no entanto, não se tratava de uma simples parcela, pois ele era do tipo excitável, e uma vez desperto não podia readormecer com facilidade; assim, o breve serviço custava-lhe uma hora ou mais de repouso. Anos a fio, a situação continuou: uma taça de água posta à cabeceira da menina não deu resultado. Ela precisava ter certeza da solicitude e da presença do pai. Era mais que uma taça de água.

— Diga-me por que gosta de Peter? — pediu, em tom apaziguador. — Se eu puder entender isso, talvez ache mais fácil a sua separação de nós. Porque você estará se separan­do de nós num sentido realmente total, quando casar com ele.

Ao dizer estas palavras, surpreendeu nos olhos de Susan um lampejo de terror infantil, obsessivo.

— Isso não! — acudiu Elinor. — Ela sempre poderá vol­tar. Atualmente, um casamento não precisa ser perma­nente. Os casais se divorciam.

William ouviu com espanto esta declaração. Elinor, du­rante toda a vida, mostrara-se inexorável com o divórcio, sempre causado, dizia ela, por culpa da mulher. Recusava acreditar na ocorrência de casos em que a esposa, empenhando-se, não pudesse prender o marido, conforme ale­gavam as mulheres.

— Nunca me divorciarei de Pete — disse Susan. — Faça ele o que fizer, é permanente.

— Diga-me por que gosta dele — repetiu William.

A pergunta confundiu Susan estranhamente e não res­pondeu. Mordeu o rubro lábio inferior, examinou as unhas.

— Ele absolutamente não é a espécie de moço que você escolheria, segundo imaginávamos — continuou William. — Não me importo muito por você abandonar o colégio sem concluir o curso. Compreendo que o tempo se reduz para os jovens de hoje. Diante da ameaça de outra guerra, isso tal­vez até seja muito natural. Mas Peter é um adventício para nós e, portanto, em certa medida, deve sê-lo para você tam­bém, pelo menos é o que imaginamos.

Falara com voz calma, na sua atitude forense, isentando-se tanto quanto possível de prevenção.

— Afinal de contas, conhecemos você melhor do que pen­sa — prosseguiu, para lhe dar tempo. — Não acredito no costume oriental de escolher as pessoas com quem nossos filhos devem casar, e no entanto a gente tem de conhecer um filho.

Susan disse com voz fraca, estrangulada: — Vocês têm de me conhecer num sentido... talvez. Sabem que não gos­to de fígado nem de cebola, sabem que a minha cor predi­leta é o verde, que gosto de jogar tênis e não gosto de ma­temática... e coisas assim. Mas não sabem o que penso... e sinto.

A voz tolheu-se-lhe e ela engoliu em seco, com lágrimas nos olhos.

— Há coisas que não podemos saber a não ser que nos diga — concordou ele, gravemente. Desejava estender-lhe a mão, puxá-la para junto dos seus joelhos como fazia quan­do ela era criança, secar-lhe as lágrimas. Mas, agora, era uma mulher. Outro homem poderia fazer aquilo, ele não,

Elinor se conservava em silêncio, acendendo um cigarro no outro. Então ela não compreendia, não tinha de compre­ender? Lançou-lhe um olhar de recriminação que Elinor per­cebeu e rejeitou. Conduza isso à sua maneira, diziam os olhos dela. Bem, ele assim faria. Susan não poderia achar-se inteiramente dissociada da criança a quem conhecera e amara. Não fora demasiado complexa. Fora uma criança franca, de temperamento vivo, emoções prontas, nem dei perto tão complicada, no tocante a isso, como Edwin. Nun­ca tivera os enigmáticos silêncios deste. Só mudara depois do aparecimento de Pete.

— Onde conheceu Peter? — perguntou e ficou surpreso ao registrar que ainda não fizera esta pergunta.

— Num baile, um encontro anônimo...

Isso, refletiu William, enquanto ela prosseguia com sua história, podia acontecer em tempos como este, quando toa­das as classes entravam em promiscuidade por efeito da guerra. Pete voltava do Pacífico e antes de ir para casa detivera-se para visitar um amigo, um camarada, em Poughkeepsie. Tratava-se de um rapaz da cidade, que Susan conhecera por intermédio de sua companheira de quarto; um jovem distinto, que ia para Yale. Pete combatera ao seu lado, numa ilha distante, e uma vez seu amigo lhe salvara a vida.

Susan riu-se agora, no meio da história. — Devia ter sido ao contrário. Pete é grandalhão e Eliot tão miudinho e... oh, justamente isso! Seu pai é ministro episcopal mas ele não se parece em nada com o filho de um ministro, embo­ra, nesse ponto, eu ache que se tornará pregador. Seja como for, Pete avançava cautelosamente por um daqueles morros de Okinawa, prontinho para se transformar num herói, en­quanto Eliot, que estava morto de medo, ele mesmo diz isso, seguia sorrateiramente mais atrás, usando, de fato, Pete como escudo, o fuzil pronto para atirar em qualquer coisa que aparecesse, e, naturalmente, viu o inimigo primeiro e alvejou-o.

 Sua voz voltara subitamente à normalidade e os olhos haviam secado. — Pete nunca se esquecerá disso. A cabeça de Eliot fica a meio caminho do ombro de Pete e Pete pode suspendê-lo do chão com um só braço. Susan agora se divertia.

— Mas você não se interessa por Eliot — disse Elinor, pacatamente.

Susan levou os cabelos para trás, com as duas mãos, im­paciente. — Ora, quem se interessaria? É um nanico. Pete é possante... Se tivessem visto o jeito como agarrou aque­le cachorro! Parecia que estava atracado com um urso. Apertou a mão em redor dos maxilares e deitou a cabeça do cachorro para trás até que eu ouvi os ossos estalando.

— Susan! — gritou Elinor, num calafrio.

Susan voltou para a mãe um olhar curioso. — Isso a afli­ge, mãe? Pois eu não sinto nada. Essa é a diferença entre a sua geração e a minha. É o que me faz gostar de alguém como Pete. Com ele eu não me contenho, não tenho de me preocupar com o modo de falar ou de me comportar. O que vocês os dois parecem não poder entender é que tudo mu­dou. O mundo não é o que vocês pensavam que fosse... ou o que me disseram que era. É um mundo diferente e nada pode impedir que seja assim, e sou eu que tenho de viver no mundo. Pete sabe o que penso. Diz que agora só a forço é que vale, e a capacidade de cada um lutar por si mesmo. Ele tem razão. Toda a moleza antiga passou.

— No entanto, Eliot... — sugeriu William.

— Isso não passou de um acidente — acudiu Susan. — Não altera nada. O próprio Eliot diz que não tinha a inten­ção, que estava morto de medo. Diz agora que não sabe como fez aquilo, e que nem estava pensando em Pete.

Ergueu-se, de repente, e caminhou pela sala, balançando a ampla saia verde. — Para mim é um descanso a compa­nhia de Pete. Ele não se importa com nada: nem boas ma­neiras nem conversas bonitas ou frívolas.

— Não se importa nem de andar limpo — observou Eli­nor, cáustica.

Susan voltou-se para ela. — Não, não se importa. Para ele isso não é importante. Ele gosta da sujeira. Eu também ser o que ele pensa. Quando a gente toma banho todos os dias da vida e fricciona a cabeça e se escova e tem de lim­par o calçado ao entrar e por galochas ao sair, a sujeira é maravilhosa! Na casa dele eu entrava porta adentro com tanto barro nos sapatos quanto queria. Se desejava tomar banho, tomava e se não desejava ninguém fazia caso. Po­dia comer do jeito que me agradasse, onde me agradasse, tudo o que me agradasse, podia conversar ou ficar muda, praguejar se quisesse... é o costume de Pete e eu gosto assim.

— Você de fato nunca nos contou como é a casa de Pe­te — disse Elinor.

Susan olhou para um, depois para outro, em dúvida, co­mo William percebia, sobre se poderia confiar neles.

— Conte-nos — insistiu ele, mas com brandura.

Susan avançou contra a dúvida e eles se puseram aten­tos. — É uma verdadeira choça, vocês haviam de dizer — começou — mas tem um grande número de peças, foram construindo-as à medida que os filhos nasciam.

Uma casa de madeira perdida no mato, a duas milhas da rodovia e da oficina de Pete, uma granja na áspera en­costa de um morro, uma produção agrícola arrancada ao so­lo por meio de uma maquinaria antiquada, de sorte que as crianças não dispunham do suficiente para comer; e, no en­tanto, de algum modo o ar salubre e a água pura tinham-nos feito altos e vigorosos, embora sem uma libra de carne a mais, a estes seis homens e duas mulheres. Mas Peter era o mais moço de todos, e assim a casa arruinada, quando Susan a visitara, achava-se vazia, exceção feita do pai dele, da mãe, e de uma das irmãs, cujo marido fora mor­to nalgum ponto da Birmânia (que eles tomavam por uma cidade), mais três filhos da irmã, todos varões.

A casa era térrea, um colar de quartos, o principal ao meio, funcionando simultaneamente como sala de estar, de jantar e cozinha, uma peça comprida e periclitante, cheia de móveis avariados que já haviam assumido a feição da­queles corpos enormes, enxutos de carnes, as cadeiras de assentos cavados, comodamente amaciados por acolchoados e almofadas de paina. Não havia pátio, a pequena horta colava-se à casa de um lado, e do outro avançava o campo; as galinhas e vários gansos bravos cruzavam o soalho em­penado da varanda.

A princípio, Susan achara a casa imunda, mas à medida que se demorava descobria que era limpa, lá à sua maneira, sem pintura, os colchões de palha nova de milho, e de penas o do quarto de hóspedes, por ela ocupado. Não havia livros, salvo a Bíblia de família e algumas revistas humo­rísticas de histórias de quadrinhos; ninguém pensava em ler, não havia música exceto a que Pete extraía de seu vio­lão quando tinha vontade; e, quanto a banho, devia ser to­mado no córrego, distante um quarto de milha, ou numa ti­na, no alpendre da lenha. O velho Mr. Dobbs falava em eletricidade, mas ninguém da família acreditava na firmeza de sua intenção nem se importava com isso. Mrs. Dobbs cozinhava num fogão velho, de ferro, e lavava a roupa co ar livre, com água aquecida num panelão de ferro sobre um fogo de grandes achas de lenha.

E no entanto, dizia Susan, gostara disto. Lá havia sos­sego, as árvores eram altas e silenciosas, límpida a água do monte e não era preciso falar a não ser que a gente estives­se disposto. A irmã de Pete, Maryanne, era triste, mas con­tinuava vivendo, cuidando dos filhos com diligência e as­seio. Queria-lhes calorosamente e, com o mesmo calor, zan­gava-se com eles. Não havia barreiras entre os membros da família. A gente sempre sabia em que situação estava dian­te de qualquer um deles, e todos eram fortes, magros e sa­dios. Não precisavam estudar, a vida era simples e fácil. Admiravam-na quando colhia flores silvestres e as colocava num jarro, posto que nenhum deles pensasse em fazer o mesmo. Quando anoitecia, sentavam-se juntos, na varanda, calados, ou, se o desejavam, conversando. Ninguém se preo­cupava com isso.

E o que ela não podia contar aos pais, aqui na sala de leste, era que, naquele cenário agreste, o próprio amor cria­va raízes porque não havia mais nada. Amar ou odiar, des­pertar ou dormir, viver ou morrer, tais eram as simples al­ternativas e cada um fazia a sua escolha. As complicações da civilização eram como se nunca tivessem existido.

— A minha geração está cansada de civilização — disse finalmente Susan, com uma voz singularmente velha. — Não podemos compreender por que a gente deva fazer to­das as coisas que nos mandam fazer, incluindo-se morrer por algo que está além de nossa compreensão. Estamos can­sados de servir de fantoche. E lá nas montanhas eu não ser­virei de fantoche. Viverei, apenas; e na companhia de Pete.

Ouviram-na em extremo silêncio, atônitos, magoados, confusos. Elinor soltou o cigarro, a mão trêmula.

— Não é nem sequer voltar para a sarjeta — disse, com a voz afogada. — É escolher a sarjeta que você jamais co­nheceu. É rejeitar uma civilização. Você não é nem mesmo bastante moderna para compreender. Mas por que isso, por quê...

Não fazia uma pergunta, proclamava o mistério que não podia entender.

William foi para o seu lado e tomou-lhe a mão trêmula. — Não se aflija, minha querida.

Susan adiantou-se impulsivamente, os olhos em chama..— Ora, vocês os dois, que é que sabem? Apenas alguma coisa que está morta, que passou. Eu estarei em segurança junto de Pete, entendem? Aconteça o que acontecer, ele me dará segurança. Ele é duro, é forte, não tem medo de nin­guém. Tem punhos e está pronto para lutar.

— Meu Deus! — murmurou William — a vida será tão simples assim?

Voltou-se e, incapaz de resistir ao desejo de fuga, diri­giu-se para a biblioteca e fechou a porta. Lá, sentou-se, d cabeça entre as mãos. As palavras da filha tinham aberto o túmulo de tudo em que acreditara. Ter punhos, estar pron­to para lutar, arremessar-se costa acima contra um inimi­go, qualquer inimigo — a tolice de semelhante simplicida­de esmagava-lhe o coração. Então para onde se fora a inte­ligência, e quem matara nesta geração a ousadia da ima­ginação, a coragem do espírito? Algum dia, haveria a res­surreição da verdade humana? Em que ponto ele falhara co­mo homem e Elinor como mulher para que a filha dos «íbis, o tesouro de ambos, pudesse desta forma preferir um escon­derijo animalesco? Susan era tão tola como Jessica, seus sonhos igualmente vãos, sua fé igualmente fadada a per­der-se.

Levantou-se e iniciou, na sala, o demorado passeio que marcava o processo intelectual dos seus casos profissionais mais intrincados. A razão de sua filha ainda estava intata. Confundida em suas emoções, enleada nos temores sub­conscientes desta geração diante da infindável perspectiva de outras guerras, temores que agora envolviam tanto à mu­lher como ao homem — à mulher que devia alicerçar-se in­teiramente no amor e no lar — Susan tinha ainda o espírito.São. Se pudesse afastá-la de Pete algum tempo, embora cur­to, se todos fossem passar umas férias nalgum lugar distan­te, Susan, Elinor e ele, talvez na Inglaterra, onde lhe ha­viam dito que os jovens eram mais bem equilibrados, mais adultos em função da idade do país do que o eram aqui, então ela ainda poderia ser salva. Susan era muito infantil para escolher agora o curso de suas ações. Rapidamente, William tomou uma resolução. Tinha negócios sempre à es­pera na Inglaterra, falaria imperativamente, insistindo na necessidade de partirem sem demora, imediatamente, ama­nhã se possível. E se ela recusasse acompanhá-los, havia de forçá-la. 0 rosto moreno e longo de William apresentava as linhas severas, aquele aspecto que os criminosos tinham aprendido a temer, e ele abriu a porta abruptamente e afrontou a amada inimiga.

— Vamos à Inglaterra — anunciou. Ficou parado, de pé, balançando as lunetas com a mão direita. — Vou telefonar mandando reservar acomodações no Queen Mary. A viagem pelo mar servirá para nos clarear o espírito, dando-nos tem­po, também. Vamos à Inglaterra ver se lá os moços e as moças estão pensando em função de punhos e de murros.

Olhou de um rosto para outro; havia surpresa neles. — Não peço concordância. Exijo obediência. Precisamos de perspectiva, todos nós. Eu preciso de perspectiva sobre você, Susan, pois agora me parece uma tola. O mundo não é tão desesperador como o julga. Não sei como você foi topar num baixio, mas há outras profundidades. Nem todos os moços são Ozark Petes, graças a Deus. Seus irmãos são uma prova.

Susan levantou o canto da boca de lábios cheios, numa expressão de escárnio. — Esses dois? — murmurou. — Você chama Winsten de homem? Ele é um papai, só um papai...

— Psiu! — fez Elinor, vivamente. — Aí vem ele. — Era de fato Winsten, de volta do hospital. Parou no vão da por­ta, estava um pouco desfigurado, sorriu-lhes com os lábios pálidos.

— As crianças não incomodaram? — perguntou. Pusera-as na cama cedo, antes de sair.

— Não ouvi nenhum barulhinho — respondeu Elinor. — Você já jantou?

— Jantei em Manchester — disse Winsten. Entrou, sen­tou-se e acendeu um cigarro.

— Como vai Madge? — perguntou Elinor. Alguém tinha de fazer as perguntas necessárias. William permanecia on­de parara e Susan esticava o lábio inferior, amuada.

— Muito bem. O médico declarou que podemos voltar para casa no fim da semana — disse Winsten com satisfa­ção. — Amanhã vão pô-la de pé. Parece estranho, mas hoje tudo é estranho. Todos andamos fazendo coisas que dantes achávamos impróprias.

Tornou a sorrir o seu pálido sorriso, surpreendeu uma ex­pressão de triunfo no rosto de Susan, voltou-se para Wil­liam.

— Estou interrompendo?

Susan levantou-se com decisão. — Nada! Vou me deitar. É só. Só isso e mais nada, meus amigos!

Apanhou a saia rodada e num bamboleio, pisando ma­cio, deixou a sala. Observando-a, William compreendeu per­feitamente que não tinha intenção de obedecer. Entesou o corpo, ficando de costas retas, e sentiu o perigoso assomo do sangue nas veias. Era esta a espécie de coisa que levava a pressão sanguínea ao ponto crítico, a técnica dos jovens para apressar a morte dos velhos. Procurou relaxar o corpo, respirando a fundo, desviando a atenção da conversa entre Winsten e sua mãe.

— Não se sente bem, William? — perguntou Elinor, de­pois de um instante.

— Sim, sim — respondeu ele, com impaciência. —^-Não se preocupe. Que é que estava dizendo, Winsten?

— Que foi uma sorte que eu tivesse nascido justamente quando nasci — disse Winsten, gravemente. — Escapei da última guerra e estarei demasiado velho para a próxima.

William se levantou. — Foi um dia exaustivo, acho que estou mesmo cansado. — Hesitou, ocorrendo-lhe de repente que agora deixaria Winsten sozinho com Elinor, e que Wins­ten, com o seu habitual sentimento de dever, poderia julgar necessário, se sua mãe insistisse, repetir a absurda história que Jessica contara a Madge a seu respeito. Sentiu, então, uma onda de lassidão estender-se sobre ele, como um pano mortuário.

— Boa noite — disse bruscamente, inclinou-se, e beijou a face de Elinor, sentindo que ela o tocava no rosto com a mão. Quando bastava, bastava, pensou, subindo a escada, e o dia de hoje fora além da medida. Era de admirar que ti­vesse força para ganhar a subsistência deles.

Em certo ponto da noite, numa hora morta em que afun­dara tanto no sono que a mão de Elinor, afagando-lhe o ros­to, parecia apenas o prolongamento, no sonho, do momento em que precipitadamente se haviam separado, sentiu um impulso para despertar. Ouviu a voz dela chamando-o de longe.

— William, acorde, querido... William... William...

— Que é... — resmungou, cambaleando para fora do abismo.

Elinor estava sentada na cama dele, as tranças prateadas caídas sobre os ombros nus. — William, você está acor­dado?

— Estou, estou...

— Não, não está, coitado. Oh, William, acorde!

Pouco a pouco arrastou da treva a consciência, abriu os olhos e os pousou nela, penosamente.

— Que é?

— Quase que não acordei você — murmurou ela. — De­pois, achei que era preciso. Não posso assumir a responsa­bilidade sozinha.

— Mas que é? — repetiu ele.

— Não faça barulho — cochichou ela. — Venha até a janela. Mas não faça barulho, ouviu?...

Ele saiu da cama, ela pegou-lhe na mão e ambos se diri­giram furtivamente à janela, cuja cortina Elinor abriu.

— Olhe! — sussurrou.

Como pálida névoa, o luar clareava o relvado. Na ala­meda, ele divisou um auto, o carro de Pete. Ao seu lado, esperando, imóvel, Pete.

— Há luz no quarto de Susan — disse Elinor. — Ouvi os passes dela durante a última meia hora. Ouvi quando su­biu e sabia exatamente o que estava acontecendo. Sabia que o carro de Pete ia estacionar na alameda bem assim como está. São quatro horas.

William se lançou impetuosamente para a porta, mas ela agarrou-se nele. — Espere, espere! Era uma idéia tão bo­nita ir à Inglaterra. Mas inútil, não está vendo? A Inglaterra não pode fazer nada por ela, William, nem por Pete. Pa­ra nós, talvez; sim, seria ótimo, mas ninguém pode fazer coisa alguma por eles, William, não está vendo?

— Vai deixar que ela arruíne a sua vida! — murmurou ele, rouco.

Elinor enlaçou-o pelo pescoço. — Devemos deixá-la ir em­bora, William. Devemos simplesmente deixar que vá e en­tão algum dia talvez volte. Se tentarmos impedi-la, prefe­rirá morrer a voltar.

Estava muito aturdido para refutar o que Elinor dizia. E se ela tivesse mesmo razão?

Elinor puxou-o suavemente para u janela aberta e ali fi­caram, esperando, de mãos dadas, o coração batendo sob a dor que só quem envelhecia podia conhecer, assistindo ao desenrolar-se da eterna peça, como acontecia por milhares de anos. A porta da frente se abriu de mansinho e Susan saiu, puxando duas malas. Pete apanhou-as, colocando-as na traseira do carro. Moviam-se juntos, em silêncio, duas figuras espectrais ao pálido luar. Abraçaram-se e ficaram colados por um longo instante, depois subiram para o car­ro, que avançou devagar pelo saibro do caminho e, passan­do o portão, sumiu-se na noite.

William notou, então, o tremor do corpo de Elinor. Ela chorava! Abraçou-a, apertando-a contra si. Quando chorara pela última vez? Haveria muitos anos! William assustou-se, teve ódio de Susan. Pois fosse embora... fossem todos em­bora, desde que ele retivesse a amada, que, só ela, era sua.

— Não sei por que um dia tivemos filhos — murmurou com ferocidade, um aperto na garganta.

Sentiu que ela reprimia as lágrimas, afogava os soluços, lutava contra o desalento. — Oh, chore — suplicou-lhe. — Por causa de mim não deixe de chorar, meu bem!

Ela sacudiu a cabeça e afastou-se ligeiramente dele. — Eu não quero... chorar. É demasiado desolador... ago­ra... na minha idade.

— Bobagem!

— Não, eu. sei. — Enxugou os olhos na manga rufada e engoliu uma ou duas vezes. — Eu queria... —disse, um momento depois.

— O quê? — perguntou ele, todo ternura.

Ela tornou a sacudir a cabeça, mordeu os lábios e conti­nuou.

— Queria saber se algum dia seremos capazes de contar a eles que assistimos aos seus movimentos... e os deixa­mos partir!

Ele sorriu com amargura. — Isso os deixaria consterna­dos. Não opor-nos? Estragaria todo o teatralismo.

Ela deu uma risada trêmula, dolorida. — Suponho que você tem razão. Nunca diremos nada. — E de repente, voltando-se para William, lançou-se nos seus braços, escondeu o rosto contra o pescoço dele e chorou desesperadamente.

 

TORNAVA-SE EVIDENTE, disse William consigo mesmo, que Herbert já não era o mesmo. Em geral, William sentia pra­zer no longo percurso até Nova York, especialmente na pri­mavera, quando os cornisos espalhavam nos matos uma es­puma branca. Agora, contudo, a viagem, na maior parte das vezes era uma tortura. Herbert, antes um motorista tão calmo e fleumático, estava se tornando extravagante e im­prudente. William, queixando-se na véspera a Elinor, cul­para as grandes rodovias.

— Logo que Herbert entra no macadame — dissera, aborrecido — parece julgar que pode ultrapassar todos os carros que vão à sua frente. Cinqüenta milhas não lhe sa­tisfaz. Sua velocidade é de sessenta, e, se acha que estou dormindo, chega até oitenta. Fomos interceptados umas do­ze vezes, no ano passado.

— Não se trata da rodovia — dissera Elinor. — Trata-se de Jessica. A semana passada, ele me pediu que telefonasse para o médico, no asilo, e perguntasse se Jessica não estava bastante bem para ter alta definitiva, a fim de levarem a criança para casa antes que fique demasiado crescida. Ago­ra está com quase três anos e não se lembra de nenhuma casa a não ser do orfanato. Eu acho mesmo que é uma lás­tima.

William relutava em conversar a respeito de Jessica, em­bora naturalmente o tivesse feito, durante os anos de seu afastamento. Considerava-a perigosa, recordando-se do que dissera a Madge, posto não tivesse tornado a ouvir referências a tal história, e Winsten e Madge nada denotassem de estranho quando vinham para rápidas visitas, agora não mais pelo Natal, desde que lhes nascera o quarto filho, um menino. No entanto, encontravam-se uma ou duas vezes por ano, e William continuava a sentir um invencível retrai­mento tanto diante de Winsten como de Madge, mesmo quando nada se dizia sobre Jessica. Se esta era mencionada, Madge demonstrava apenas leve interesse; os filhos absor­viam-lhe toda a atenção e continuavam a ser o único tema de sua conversa. William notava que Madge já não se mos­trava tão insistente com as crianças para que lhe dessem beijos de respeitosa afeição.

— Que disse o médico a respeito de Jessica? — interro­gara William.

— Diz que Jessica pode ficar experimentalmente em casa durante algum tempo, se o desejar.

— Ela deseja? — perguntara ele.

— É o que não sabemos — respondera Elinor.

O carro desviou-se perigosamente numa curva e ele gri­tou: — Herbert, diminua a velocidade!

Herbert desacelerou passando para um exasperante rastejar, mas William não tornou a falar. O rastejar duraria apenas alguns minutos. Deixou-se absorver por seus papéis e a velocidade começou a aumentar. Quando soou uma agu­da sirena, William exultou com a perspectiva do apareci­mento de um guarda de trânsito. Que o policial tratasse Her­bert como lhe aprouvesse! Recostou-se, cruzou os braços e assumiu sua atitude forense. Herbert manteve teimosamen­te a velocidade durante alguns segundos, depois encostou o carro na estrada e parou. O motociclo, roncando, estacou junto da janela do auto.

— Que é que você pensa que é? — berrou o guarda para Herbert, que apresentava apenas o seu perfil. — Não sabe ler? Não vê o que dizem as tabuletas? A setenta milhas por hora!

Herbert obstinava-se em não responder. O guarda fez si­nal para que William baixasse a vidraça. — O senhor, aí, por que não manda que ele reduza a velocidade?

— Tenho feito isso repetidamente — disse William, em tom calmo.

— Por que não o despacha? — perguntou o guarda.

— Ele está a meu serviço uma porção de anos — disse William.

O policial bufou. — Pois ele vai ter a licença cassada uma porção de anos se isto continuar!

William sorriu. — Infelizmente ele o merece. O guarda se abrandou levemente. — Aonde vão?

— Devo comparecer à Prefeitura às três horas — disse William. — Sou advogado na ação proposta pela Justiça de Nova York contra Marty Malone.

O guarda vacilou. — Eu não devia deixar o carro passar, depois disto.

— Talvez eu possa arranjar condução com alguém, dei­xando o carro e o meu chofer com o senhor — sugeriu Wil­liam.

O guarda continuou vacilando. — Não — disse, final­mente. — Desta vez, deixo o carro passar. — Inclinou-se para a janela da frente a fim de reatacar Herbert. — Mas você, seu cara de bolacha, se torno a te pegar com excesso de velocidade nesta zona, e te pego se isso acontecer, você vai perder na certa o emprego. Não terá nova licença por um bom período de tempo. Eu não falei com você antes?

— Talvez — disse Herbert, rígido. Sua boca miúda de­saparecia entre as bochechas.

— Talvez... — zombou o guarda. — Quer dizer que já, eu tenho certeza! Bom, é a última vez. Agora, acalme-se.

Fez um sinal para que prosseguissem. William nada dis­se. Era possível que Herbert se assustasse.

Já tarde, no escritório, dirigiu-se apressado para sua car­teira, lá encontrando nota de um chamado telefônico da prima Emma. la, impaciente, deixá-lo de lado, quando, lembrando-se da fraqueza e avançada idade da anciã, e de sua própria responsabilidade, mandou fazer a ligação. Através do fio a voz insegura e gasta alcançou, estridula, o seu ou­vido.

É você, William?

— Sim, prima Emma, em que posso servi-la? — Olhou o relógio. Pelo menos ela não se estenderia demasiado. Atual­mente, a prima Emma não podia trazer no pensamento mais que uma coisa.

— William, recebi uma carta de Jessica.

— Que quer ela? — perguntou ele com impaciência. No momento, Jessica estava destituída de importância.

— Quer voltar para casa, William. Diz que não pode su­portar aquele lugar horrível. Quer ver a filhinha. Diz que a criança devia voltar para casa. Acha que não estão cui­dando direito da criança. A criança nem sabe quem é a mãe.

— Eu me oporia — disse William, secamente. — Ela nunca se importou com a criança.

— Bem, mas agora se imporia — disse a prima Emma, estridentemente. — Eu acho que você devia tirá-la daquele asilo horrível.

— Creio que Elinor telefonou para o médico — respon­deu ele.

— Como disse, William?

— Está escutando com o ouvido bom? — inquiriu ele.

— Agora não está melhor que o outro — disse a prima Emma.

— Eu disse — repetiu William em voz clara, mas sem al­teá-la — que Elinor falou com o médico.

— Ótimo; e ela volta para casa?

— Se quiser — disse William.

— Pois ela quer — disse a prima Emma.

— Então suponho que vai para casa — disse William.

— É bom, vou escrever a ela informando.

— Convém esperar — advertiu William, categórico.

— Você não disse que ela podia ir para casa, se quises­se? — tornou a prima Emma. — Pois se quer ir, acho que pode ir, não é?

— Sim — disse William, desesperado — sim, sim, está bem, prima Emma. Escreva.

O despropósito irritara-o e ele pendurou o fone com violência, mergulhando nos papéis que tinha sobre a mesa. Contudo, sua irritação tinha uma boa dose de alarma e,quando chegou à casa, dois dias depois, lembrou-se da con­versa e repetiu-a para Elinor.

— Jessica vai voltar para casa — anunciou Elinor. —Herbert não contou a você?

— Herbert parece que não quer falar comigo — disse William. — Foi interceptado por um guarda de trânsito, quando íamos para Nova York, e eu propriamente não o de­fendi.

— Hã! — fez Elinor. E, confortadora: — Espero que quando Jessica voltar, e a criança também, eles possam retomar um rumo de vida normal.

Não estavam preparados, porém, para a visita de Jessica, de Herbert e da criança, no domingo seguinte, pela ma­nhã, depois que Bertha saíra para a igreja. Ultimamente, Bertha se voltara para a religião e, todas as manhãs de do­mingo, uma vizinha a levava à igreja de uma seita cujo no­me nunca podia recordar, mas onde encontrava bastante consolação para poder atravessar a semana sem ter de re­contar, entre lágrimas, que Jessica era má para com sua velha mãe e que, no orfanato, ninguém realmente se im­portava com a criança. Bertha e Herbert não se falavam, mas, a outros respeitos, suas relações se processavam como de costume. Ela fazia enternecedoras tentativas para gran­jear a simpatia dele, esbarrando, porém, na tenaz determi­nação de Herbert de não fazer nenhum caso dela.

William, passeando com Elinor pelo relvado, depois do pe­queno almoço, viu o novo carro de Herbert, um conversível amarelo adquirido em segunda-mão, chispando pela estra­da, e logo investindo em curva para entrar na alameda. Vol­tou a cabeça para um lado, esperando ouvir o estrondo de uma colisão nos pesados pilares de pedra da entrada. Her­bert escapou, porém, fazendo o carro estacar num torveli­nho de saibro. Jessica, pela mostra, não temia velocidade. Saiu do carro trazendo pela mão uma requintada menina de vestidinho pregueado, de organdi rosa, e Herbert desceu sorridente e ufano. Jessica estava realmente bonita, regis­trou William com profunda relutância. Experimentou um desagradável calafrio de medo. E se ela renovasse imedia­tamente suas falsidades a propósito de intimidades inexis­tentes? Avançava graciosamente, com sua atitude modesta habitual.

— Bom dia, Mr. Asher. Bom dia, Mrs. Asher. Estou tão contente por tornar a vê-los. É tão bom voltar para casa, fi­nalmente. Eu disse a Herbert, esta manhã, que a primeira coisa que devíamos fazer era vir agradecer-lhes por tudo. Sei que não me teriam permitido voltar para casa sem que o senhor e a senhora intercedessem.

A linda voz estava mais doce do que nunca; e uma ponta de tristeza tornara-a mais grave. O rosto de Jessica, tam­bém, fizera-se mais delicado, tinha uma expressão mais absorta, e seus grandes olhos azuis um jeito distante e dó­cil.

— Bom dia — disse William, com frieza. Mas Elinor via apenas a criança.

— Que menina linda! — disse e ajoelhando-se sobre a grama, pegou-lhe na mãozinha roliça. — Como é o teu no­me, querida?

— Monica — respondeu a criança.

— Monica? — repetiu Elinor.

— Sempre gostei desse nome, Mrs. Asher — disse Jessica — embora nunca tenha conhecido ninguém que se cha­masse assim. Vi-o num livro. Uma novela inglesa, lembro-me.

— Venha sentar-se no pórtico — disse Elinor, com bon­dade. — Vou buscar um "cookie" para Monica.

Assim, num momento, estavam sentados nas cadeiras do pórtico, Herbert risonho e terno, a cara grande e clara bri­lhando ao sol. Elinor desapareceu e voltou com um prato de bolinhos.

— Tire um "cookie" — disse Jessica para Monica, bei­rando a rispidez.

A criança estendeu a mão, cuidadosamente apanhou um deles pela borda e ficou segurando-o entre o polegar e in­dicador.

William permanecia calado, ansioso por uma possibilida­de de escapar. Não lhe ocorriam trivialidades para a ocasião. Era impossível esquecer as cenas repulsivas do passado; e, no entanto, era incrível que não tivessem deixado marca em Jessica, a não ser aquele traço de melancolia, que só lhe aumentava a graça.

— Faço votos para que volte para ficar — disse Elinor, com sinceridade.

— Oh, sim — disse Jessica, com sofreguidão. — A casa está com uma aparência tão boa. Herbert procurou manter a limpeza. Preciso mandar forrar a parte térrea, acho que com um papel acetinado, de listas, assim como a senhora tem nas salas, Mrs. Asher. E penso em mandar revestir de veludo os sofás, um verde pálido, talvez... que lhe pa­rece?

— Parece-me bem — disse Elinor, com discrição.

— Naturalmente que, se não tivesse adoecido, agora já estaríamos com a casa nova pronta — prosseguiu Jessica, falando um pouco mais depressa do que costumava, ate­nuando as consoantes surdas. E seus olhos, certamente não se fixavam; inquietos, faiscavam para aqui e para ali. De repente, ela se ergueu.

— Não se incomoda se eu der uma olhada à velha casa, Mrs. Asher? Gosto tanto daqui.

— Claro que não — disse Elinor.

A criança adiantou-se para acompanhá-la, mas ela disse com rispidez: — Não, não, Monica, você não deve vir...

— Ela pode ir, se quiser — disse Elinor.

— Não — gritou Jessica, quase colérica.

— Vem cá, Monica, fica com o papai — disse Herbert. A criança, uma criaturinha obediente, com educação de orfanato, foi sentar-se sobre as pernas do pai, mas não pro­vou o doce, que continuava segurando pacientemente com a mão direita, evitando macular o vestidinho.

Os olhos de Herbert encheram-se de lágrimas. — Não sei como dizer o que tenho pra dizer, Mr. e Mrs. Asher — começou. As lágrimas transbordaram, rolando pelas faces.

— Ainda há alguma complicação? — perguntou Elinor, para ajudá-lo.

— É o meu emprego — disse Herbert. — Eu tenho de fi­car em casa. Não devo andar por aí, muito longe, assim na estrada pra Nova York, deixando ela sozinha de noite. Acho que foi isso que desequilibrou ela antes, ficar sozinha de noite, eu sempre chegava tarde, e algumas noites nem volta­va pra casa. A vida do chofer não pertence a ele, por assim dizer.

— É uma pena que Jessica não tenha Bertha em sua com­panhia — observou Elinor.

Herbert enxugou todo o rosto com um lenço limpo e sua voz endureceu. — Eu sei justamente qual é o sentimento dela com a velha. Jessica é refinada e Bertha é tão comum como foi feita. Uma velha camponesa alemã, é como Jessica chama ela.

— Sabe o que é uma camponesa, Herbert? — perguntou William.

Herbert hesitou.

— Deixe — disse William. — Mas, em geral, não são rancorosas.

— O que Jessica sente pela velha agora não pode ser cor­rigido — disse Herbert, com obstinação. — Ela não pode esquecer.

— Sabe de uma coisa, Herbert — disse Elinor, subita­mente — eu não acredito que Bertha, algum dia, haja feito qualquer mal a Jessica. Bertha está conosco há uns quaren­ta anos e nunca magoou ninguém. Conheci-a durante to­da a minha vida e costumávamos bulir com ela terrivel­mente, quando éramos crianças, e ela nunca se zangou, nem sequer uma vez. Limitava-se a rir. Ela ria muito naque­le tempo. Pobre vivente, quase nem ri agora, se é que o faz.

— Ela maltratava Jessica — disse Herbert, teimosa­mente.

Não discutiram. Elinor dirigiu-se à criança, convencen­do-a a provar o bolinho e William continuou em silêncio, fu­mando. Jessica, absorta, voltou depois de alguns minutos. — Está tudo igual — disse, em voz baixa — exatamente como na minha lembrança.

Olhou com estranheza para Herbert. — Quero que você fique um pouco na cozinha. Desejo conversar em particular com Mr. e Mrs. Asher.

Herbert levantou-se, embaraçado, deixando a criança es­corregar de suas pernas. — Que tem a dizer que seja par­ticular?

— Ande, ande — gritou ela, subitamente arrebatada, e bateu o pé.

Ele, então, saiu com humildade — pateticamente, pen­sou William. Bem, Herbert tentara dominá-la, batendo-lhe, agora ia tentá-lo recorrendo ao amor. Era perfeitamente in­tuitivo, mas, William o temia, igualmente sem esperança. Jessica estaria mesmo restabelecida? Observou-lhe o rosto bonito, carregado de emoção. Sentara-se e agora aproxima­va de Elinor a sua cadeira.

— Querida Mrs. Asher, eu sei que ambos compreendem, mas talvez a senhora compreenda melhor. Há algum meio pelo qual eu possa escapar?

— Escapar? — repetiu Elinor.

— Sim, sim, daqui — disse Jessica, com leve impaciên­cia. — É terrível morar num lugar tão deserto como a gran­ja. Para que serve, Mrs. Asher? O serviço tem de ser feito de novo diariamente. Não posso ir a um teatro, nem mesmo a um cinema. Se residíssemos numa cidade, pelo menos po­deria andar pelas ruas e olhar as vitrinas. Mas onde mora­mos não há o que ver.

— Por que não pede a Herbert que a leve para uma ci­dade? — perguntou William. Era positivamente ridícula a idéia de terem de passar uma manhã de domingo ocupando-se com Jessica!

— Diz ele que um apartamento do tipo que desejo custa muito. Diz que eu me desgostaria, que não poderíamos levar todos os nossos móveis.

— A casa é de sua mãe, penso eu? — disse William. — Significa que não pagam aluguel.

Jessica dirigiu-lhe um olhar frio, estranho, como se não tivesse entendido.

— Jessica — disse Elinor, com bondade — se você pu­desse fazer exatamente o que preferisse, que faria?

O lindo rosto, impregnado de uma tristeza tão suave, co­loriu-se de rosa claro. Jessica entrelaçou os dedos. — Oh, aprenderia a pintar; ser uma artista sempre foi o que de­sejei. — Elinor ficou pensativa. Voltou-se para William. — Creio que nunca disse a você que Jessica pinta aquarelas bem bonitas. Ela costumava pintar os seus próprios cartões de Natal.

— E isso não me serviu de nada — disse Jessica, com tris­teza.

William percebia que Elinor estava compadecida, mas ele não podia absolutamente acreditar em Jessica. — Se você de fato deseja aprender pintura — disse com aspereza — alguns dos melhores artistas do país vêm a Manchester, no verão. Arranjarei facilmente quem lhe dê lições; e tal­vez de graça. Que acha?

Pestanejando, Jessica desviou do rosto dele os olhos azuis. — É tão desanimador morar onde moramos.

William, de repente, se irritou. — Escute, Jessica, deixe de dizer isso. Você mora numa região rural onde muita gen­te rica paga para morar. Não culpe o lugar.

Por um momento, receou ter avançado muito. O rosto de Jessica iluminou-se de cólera, ela estremeceu, mas apenas um instante, em seguida tudo passara. Dominou o impulso que acaso sentisse, e deixou pender a cabeça. — Obrigada, Mr. Asher. Penso que devemos ir-nos. Vou só chamar Her­bert.

Saiu pela porta envidraçada, que se conservava aberta. Tinha tanta leveza o seu corpo delgado que, saindo, ela não fez o mínimo ruído. William e Elinor ficaram à espera. Monica, a encantadora menina, olhava-os pensativamente, sem medo, mas também sem benevolência, como uma crian­ça que vivera sempre entre estranhos.

Os minutos se passavam. — Que estarão fazendo? — per­guntou Elinor. Mas não foi ver e, depois de uns cinco ou seis minutos, Herbert e Jessica voltaram.

— Adeus, Mr. Asher e Mrs. Asher — disse Jessica, for­malmente. — Foi um prazer tornar a vê-los. Venham visi­tar-nos quando puderem.

— Obrigada — respondeu Elinor, embaraçada.

— Venha, Monica — ordenou Jessica.

Herbert hesitou, como se tivesse algo a dizer. Olhou de relance para Jessica, que se dirigia para o carro. Inclinou-se, então, para William. — Ela diz que o senhor não pense que pode mandar ela tomar lições. Não sei o que ela quer dizer mas é isso o que ela diz.

William sentiu-se inesperadamente ofendido. — Meu Deus, foi idéia dela, não minha!

Herbert parecia incrédulo. — Ela disse isso, Mr. Asher: não pense que pode mandar ela estudar, foi só.

Saiu teso, subiu para o carro, que arrancou velozmente.

— Você já ouviu uma impudência dessas? — perguntou William, olhando para a nuvem de poeira.

Elinor abanou a cabeça. — Vamos esquecê-los. Os dois são incompreensíveis. Que bom que Herbert tenha, deixado o serviço. Tomara que não nos apareçam nunca mais. Coita­dinha da menina!

Estendeu-se numa cadeira de repouso e, de face para o sol, fechou os olhos. William, observando-lhe o rosto, que gradualmente ia perdendo a tensão, sentiu o impulso de imitá-la. Ela resumira as próprias conclusões dele quanto à raça humana, onde quer que se encontrasse um de seus exemplares característicos. Eram incompreensíveis, pelo menos nesta época. Só a história fazia-os parecer simples, com suas classes próprias e ordenadas. Pois louvado fosse o sol brilhando sobre ele e sobre Elinor, que aceitavam aquilo que não podiam compreender.

 

BERTHA AVANÇAVA lerdamente pelo leito de saibro da alameda. William e Elinor ouviram seus passos e abriram os olhos. Estava vermelha de calor e por sob o chapeu­zinho enfeitado de violetas machucadas, que usava nos do­mingos, logo perceberam que algo acontecera. Parou diante da escada.

— Jessica e Herbert estivérom aqui? — perguntou.

— Estiveram, Bertha — disse Elinor, amável. — Trouxe­ram a pequenina.

— Foi o que eu pensei — murmurou Bertha. — Eu... eu... e ela nem fala comigo! Fê a xente passar e nem nada.

Contornou a casa e eles tornaram a deitar-se e a fechar os olhos para o sol, decididos a esquecer-se.

— É de pasmar — disse William, sem abrir os olhos. — Por que conservá-los? Pagamos para fazerem o serviço e eles nos atormentam.

— Nós nos atormentamos com muita facilidade — disse Elinor, olhos fechados. — Devíamos ser desumanos.

Não podiam sê-lo e aí estava o mal, pensou William. Per­maneciam humanos, e sobre os seus compassivos sentimen­tos humanos, que não aceitavam como intencionalmente cruel ou injusta a nenhuma criatura, estes ineptos tripudia­vam, sem saber que os feriam nem se importando com isso. Em miniatura aqui estava o mundo, entre as paredes da sua própria casa. Desejavam levar uma vida amena, tratando com bondade os que sofriam, mas sem se enredarem neles. Já não era possível. William sentiu uma raiva grande, de afronta, repassar-lhe a alma, correr-lhe o corpo queiman­do-o como fogo. Ergueu-se com súbita e intensa energia. Elinor abriu os olhos.

— E agora que é?

— Vou despedir Bertha — disse ele, com a calma da de­cisão.

— Mas não — exclamou Elinor — isso não... Depois de quarenta anos?

— Já devia ter sido feito há muito tempo — declarou. William. — Eles se agarraram à família como sanguessugas, aniquilando o nosso espírito, alimentando-se de nossa com­paixão, justificando-se com o seu descaramento. Eu faço a comida.

— Não seja tolo — disse Elinor.

— Prefiro ser tolo a continuar deste jeito.

Elinor observava-o, tomada de assombro e horror. Ela a entendia, era uma Winsten, criara-se sob as vistas de Ber­tha. Bertha tinha as grandes mãos vermelhas em todas as partes da casa, só Bertha sabia o total dos lençóis de linho, quantas colheres de prata havia, quais os bens moveis her­dados, quais os presentes de casamento. Bertha, tida ape­nas como a cozinheira, era efetivamente a gerente, a tira­na, a usurpadora, e além disso lhes sugava o espírito e a alma, ocupava-lhes o tempo precioso com suas atribulações, toldava-lhes a felicidade e lhes destruía a paz; mas não ti­nham tido a coragem de despedi-la porque haviam sido ensinados a sentir bondade pelos mais fracos do que eles mes­mos. Pois isso tudo ia ter fim. Naturalmente que era absur­do dizer que ele ia- cozinhar, mas devia haver outras cozi­nheiras, e havia de despachá-las instantaneamente, uma atrás da outra, se pusessem o pé para fora da cozinha.

Entrou na cozinha, com ar decidido, e encontrou Bertha prendendo um grande avental branco em torno da cintila grossa. Lágrimas escorriam-lhe pelas bochechas e seus lábios espessos e arroxeados tremiam. Enxugou o rosto com a borda do avental.

— O senhor quer alguma coisa, Mr. Asher?

— Sim, Bertha, quero que vá para casa. — Falou sem altear a voz, o que ela tomou por bondade, entendendo se tratasse de um dia de folga.

— Eu nom tem casa — lamuriou ela. Seu rosto se fran­ziu, sugerindo um bebê velho, e as lágrimas tornaram a brotar.

— Então procure um asilo para mulheres idosas e vá pa­ra lá — disse William, no mesmo tom resoluto e desagra­dável.

Bertha parou subitamente de chorar, boquiaberta. — O senhor nom quer dizer que está me tespachando, Mr. Asher!

— Quero — disse ele. — é exatamente isso.

No mesmo instante, as lágrimas borbulharam. Agarrou arrebatadamente os cordões do avental.

— Pois eu vou, eu vou xá! — gritou, estridente.

— Não — disse William. — Eu a levo para Manchester.

— Nom senhor, nom e nom. Pensa que vou andar no seu carro? Eu nom. Chamo um táxi, eu nom ando no seu "verdammt" carro! — Subitamente se pôs fora de si. Cerrou os punhos e sacudiu-os junto do rosto de William. Ele esperara uma mudança, mas isto era monstruoso. Não obstante, manteve-se calmo, observando-a com curiosidade. Eis o que Bertha era, de fato. Talvez tivesse batido em Jessica. Ago­ra, ele podia acreditar nisso.

— Vocês — guinchou ela — nunca tevia pensar que som uma família! Vocês nom som nada tisso, som é... é... — Cus­piu no chão que esfregara milhares de vezes. — "Gentlemans"! Ah, ah, ah! Vou tizer a todo mundo quem vocês som. Todo o mundo vai ficar sapendo que som tiferrente.

— Ninguém acreditará em você — disse William, infle­xível. — Junte suas coisas, Bertha.

— Depois de quarrenta anos mandar a xente emborra — gemeu, abatendo-se na cadeira de assento de madeira. — Heinrich sempre me disse, me disse e me disse: Eles te mândom emborra, Bertha, dez, vinte, trinta, quarrenta anos, qualquer dia eles te mândom emborra. — Castanholou os dedos.

— Ou você vai embora ou vamos nós — disse William, gravemente. — Uma vez que a casa é a nossa, suponho que nós ficaremos. Você terá um pagamento adequado.

— Pagamento — gritou Bertha. — Quem vai me pagar os anos que eu esfreguei e lavei a cozinha? E me deitando cansada toda noite?

— Nós temos pago — disse William. — Você tem sido paga em dinheiro e pontualmente. Teve um lar aqui, e três e mais refeições diariamente. Você ganhou o sustento fa­cilmente, entre gente bondosa.

Ela escutava sem compreender. — Eu vou emborra — dis­se, soluçando. — Eu vou xá.

Subiu para o quarto e ele ficou escutando os seus movi­mentos, lá no alto. O coração batia-lhe de remorso e pieda­de, mágoa e bons impulsos. Mas conservá-la em casa, isso não faria. A casa devia ser limpa de todos eles. Nada mais de Jessica, de Herbert, de Bertha, e mesmo da pobre Monica. Não agüentava mais. Precisava levantar-se de manhã sabendo que não veria caras aborrecidas, não ouviria vozes mal-humoradas. Comprariam máquinas, muitas máquinas mais, e quando as máquinas tivessem feito o serviço seriam guardadas no armário, cuja porta seria fechada; e viveriam na casa limpa e sossegada, onde não haveria outros seres humanos além deles próprios. A vida parasítica e funesta dos criados estaria removida, e eles livres para sempre de vozes na casa. Chamou um táxi pelo telefone e em seguida sentou-se no mocho alto da cozinha, e ficou esperando, en­quanto Bertha andava ruidosamente acima de sua cabeça, soluçando sonoramente, apelando para Deus no céu. Velhos criados de família! Aqui, eles não faziam parte da civiliza­ção. O veneno ou a salubridade da democracia, consideras­se-a cada qual como lhe aprouvesse, fora-os penetrando, e eles se rebelavam contra si mesmos enquanto serviam a ou­tros mais inteligentes do que eles próprios. Não eram capa­zes de reconhecer a verdade de que estavam condenados, por sua própria estupidez, e só por isso, a nunca se ergue­rem acima da condição em que haviam nascido. William sentiu que estava a ponto de descobrir coisas importantes, embora talvez não fosse nada mais que o direito dos indi­víduos, como ele, de também serem livres. A tirania dos es­túpidos e dos fracos podia tornar-se tão intolerável como qualquer outra, e não devia esta, como toda tirania, ser derrubada?

Antes que houvesse podido elucidar esta descoberta, Ber­tha desceu ruidosamente a escada com duas malas de mão e uma enorme trouxa feita com um lençol.

William ergueu-se. — O táxi não demora a chegar.— disse, com a mesma e inexorável afabilidade. — Vou emitir um cheque que lhe bastará por uns dois meses. Den­tro desse período, calcularei com cuidado e exatidão o que você deve receber como aposentadoria. O dinheiro lhe será enviado todos os dias primeiro e quinze de cada mês, assim que você me mandar o seu endereço. Dará para mantê-la folgadamente e com conforto em qualquer asilo para velhos de condição mediana.

Ela não deu resposta, fungou as lágrimas e William no­vamente teve de lutar contra um impulso de ternura. Não; não recuaria. Fazê-lo significaria tornar impossível a liber­dade. Saiu da cozinha com dignidade, dirigiu-se à bibliote­ca e lá preencheu um cheque de quinhentos dólares, secando-o cuidadosamente com o mata-borrão. Depois, ,voltou à cozinha e colocou-o em cima da mesa. — Dentro de pouco o táxi estará aqui. Se você quiser, vá falar com Mrs. Asher. Ela lamenta muito isto, mas nós agüentamos tanto quanto nos foi possível.

— Agüentaram? — repetiu Bertha, num súbito berro. — Eu sim... eu... — bateu no peito e voltou a soluçar rai­vosamente.

— Desculpe-me — disse ele, com brandura. — Não es­pero que algum dia venha a compreender.

Retirou-se em seguida e em silêncio, e voltou ao pórtico. Elinor não estava lá. Entrou, chamou-a, mas não obteve res­posta. Subiu até o quarto dela e experimentou a porta. Es­tava fechada a chave.

— Elinor! — gritou.

Ela abriu a porta imediatamente e encarou-o com estra­nha humilhação. — Eu de repente senti medo de Bertha. Não é absurdo? Mas, quando você me deixou sozinha, com­preendi no mesmo instante que sempre tive medo dela.

— Ela nunca maltratou você — protestou ele.

— Nunca; não ousava. Mas, embora eu a tenha defen­dido diante de Jessica, ainda assim lembro-me de que tinha a impressão, quando era bem pequena, de que ela muitas vezes gostaria de me dar umas palmadas. Será que não ba­teu nos maiorezinhos? Nunca ouvi falar nisso. Minha mãe era muito rigorosa com os criados, e depois, naturalmente, quando casamos, Bertha tinha medo de você.

— Teria mesmo? — murmurou ele. Estava parado junto da janela, observando se o táxi chegava.

— Tinha, sim — afirmou Elinor, pondo-se à escuta. Tor­nara a fechar a porta a chave. — Uma vez, ela me disse que você era "gente que enxerga".

— Que queria dar a entender?

— Que você via mais do que falava, suponho. De qual­quer maneira, tem medo de advogados.

— Aí está o táxi — disse William.

Elinor veio para junto dele e ambos ficaram olhando. Ber­tha estava à espera. Contornou a casa, arrastando as malas, e mandou o motorista buscar a trouxa. Viram-na entrar no auto, que rapidamente mudou de direção e atravessou o portão.

— Não olhou nenhuma vez para trás — disse Elinor, com uma ponta de melancolia. — Acho que os quarenta anos nada significam para ela. Ou talvez signifiquem demasia­do. Oh, William, como é que você teve coragem? — Afun­daram no divã, lado a lado.

— Não sei. É preciso coragem para vencer a inclinação para a bondade. Mas eu tinha alcançado justamente o pon­to crítico da irritação. Se se pode aproveitar o momento em que a raiva indignada sobrepuja o- hábito da bondade cons­ciente, momento de duração sempre limitada a alguns se­gundos em gente como nós, tem-se coragem bastante para tudo. Se tivesse esperado cinco minutos, a bondade me anu­laria e simplesmente não poderia tê-la despedido, medida que eu sabia necessária.

— Pobre Bertha — disse Elinor.

Ele se recusou a vê-la triste. — Qual pobre Bertha, qual nada! Teve um bom emprego e um lar confortável durante décadas, e terá uma aposentadoria para o resto da vida. Ditosa Bertha!

Elinor abanou a cabeça, não em desacordo, contudo, o que ele podia ver pela doçura e mesmo admiração com que o fitava.

— Meu bem — disse ele, muito comovido, pois quanto tempo havia que ela não o olhava assim? — Hoje é um grande dia. Ponha o chapéu e vamos jantar fora. Uma co­memoração, minha querida, eis o programa.

Encantou-o a dócil obediência dela. Elinor, com um ges­to, pediu-lhe que esperasse, dando a entender que um cha­péu estava longe de bastar, que precisava mudar de vestido e apresentar-se o melhor possível. Quanto a ele, entrou no seu próprio quarto, examinou-se diante do espelho e tam­bém se decidiu por uma troca de roupa. Tirou do cabide seu melhor fato cinza, vestiu-o, escolheu uma gravata de "foulard" azul. Com discreto orgulho, notou que sua figura me­lhorava com o decorrer dos anos, pois os cabelos grisalhos, sem traço de calvície, iam bem com sua pele morena. A ca­beleira de seu pai ficara de uma alvura de neve e ele usara barba. O gosto de Elinor, porém, em questão de barba, não ia além de um bigode aparado quase rente. Se o seu lábio superior fosse um nada mais curto, declarara uma vez Eli­nor, ela teria exigido que o raspasse.

Apresentou-se à porta do quarto dela e admirou a ele­gância do seu vestido azul. — Um belo casal, não? — co­mentou.

Elinor sorriu, juvenil e sedutora; um sorriso, pensou Wil­liam, indicativo de sua íntima alegria. Ah, haviam de ser mais felizes! Já muitos anos antes devia ter libertado a casa. Se assim tivesse procedido, não teria mudado todo o. curso da vida? A nuvem talvez não se houvesse interposto a Edwin e Vera; Winsten, seu filho mais velho, não o teria encarado com a dúvida oculta que agora com tanta freqüência trans­parecia nos seus olhos e era mantida acesa, William disto estava certo, pelo silêncio formal de Madge. E Susan, ah, Susan talvez nunca tivesse casado com Peter! Ele se con­vencera, depois de muito cogitar, durante a clarividência das horas mortas de muitas noites, que Susan não tomara uma resolução rápida, fora preciso o choque do momento brutal e aterrorizador em que o cão preto saltara sobre Pete para levá-la a decidir-se por ele, numa perversa admiração atávica para a qual as moças modernas tendiam cada vez mais, à medida em que caíam as coberturas tradicionais. Mas era inútil pensar nisso, pelo menos agora. Durante a noite, quando a escuridão o escondesse, haveria de voltar à questão, muitas vezes, e considerar o monstruoso dano que tinha sido causado à sua família. Então, refletiria também sobre a possibilidade de ser ele reparado; e como poderiam recompor-se, dentro de suas vidas mudadas.

— Onde vamos jantar? — perguntava Elinor.

— Vamos rodar até achar um lugar que ainda desconhe­cemos — disse ele. — Renovemo-nos, em honra da bela liberdade.

De braço dado, rumaram para a escada e lestamente a desceram.

 

SEIS SEMANAS depois, no tribunal, durante uma manhã chuvosa, um funcionário interrompeu a William quando ele fazia a apresentação da testemunha Arturo Romano, "bookmaker".

— Permita-me — murmurou o funcionário. — Há um telefonema urgente para o senhor.

William fez-lhe um sinal negativo com a luneta, presa por uma fita preta: — Não posso ser interrompido.

— Desculpe-me, mas morreu uma pessoa... um mem­bro de sua família, Mr. Asher — disse o funcionário.

Um membro de sua família? William solicitou ao juiz uma breve suspensão dos trabalhos, repetindo simplesmente o que o homem lhe disse, pois que mais havia a dizer? Atravessando a passos largos a assistência espantada e curiosa, dirigiu-se a um telefone da sala contígua.

— É Mr. Asher?

Não pôde reconhecer a voz rouca, nem sequer se era de mulher ou de homem.

— Sim, ele mesmo — respondeu.

— Sou eu... Pertha.

— Onde está você? — perguntou ele. — Que aconteceu?

— Mr. Asher... Miss Emma...morreu!

— Vou lá em seguida.

A prima Emma! Deixou precipitadamente a sala, demorando-se apenas para pedir ao funcionário informasse que voltaria quando fosse possível. Tomou um táxi e deu ao mo­torista o endereço do apartamento.

A prima Emma tinha um coração débil. Muito velha, bei­rava talvez os noventa. Entretanto, nada justificava que ele tivesse passado tantas semanas sem procurá-la. Elinor, sim, visitara-a ultimamente e Edwin falara em vir vê-la, mas pro­vavelmente não o fizera. Talvez Vera fosse a única que a tivesse visitado com maior assiduidade, visto que ela e Ed­win tinham vindo morar em Nova York, para evitar as via­gens por estrada de ferro, entre a casa e o escritório. Edwin continuava na banca, adiando o curso de Direito, na in­certeza, parecia, quanto ao que desejava fazer.

Mas por que fora Bertha quem lhe telefonara, perguntou William consigo mesmo, a não ser que a prima Emma, por sua inesgotável bondade, a tivesse acolhido? Pagou e des­pediu o táxi, e entrou no edifício. Ninguém sabia do caso, aparentemente; o porteiro estava calmo; o ascensorista, in­diferente. Receava a entrada, mas avançou resolutamente para a porta. Abriu-a. Lá estava Bertha, uma figura maciça de vestido preto, enxovalhado, o chapéu torto, os cabelos grisalhos e lisos caindo-lhe em negalhos pelo rosto pálido.

— Eu vim aqui — arquejou. — Eu vim aqui faz pouco e ela... morta...

William deixou-a para trás, avançando pelo largo corre­dor em direção ao quarto de dormir. As portas da sala de estar e da sala de jantar estavam abertas e, numa janela, um canário trinava sua fascinante ária.

— Onde é que ela está?

— Na cama — sussurrou Bertha. — Ela ainda nom ti­nha se lefantado. Está deitada...

William abriu a única porta que estava fechada e viu a prima Emma. 0 ambiente do quarto estava alarmantemen­te confinado, as persianas arriadas e sobre estas as cortinas, pesadas e longas. Um agradável perfume, possivelmente en­tornado, impregnava o ar. Tudo estava em desordem, em ab­surda desordem, em desacordo com a prima Emma, sempre tão esmerada no arranjo doméstico. Tinha a cabeça recosta­da no alto de dois grandes travesseiros, num trejeito de ago­nia, os joelhos erguidos, os braços magros nus e contorcidos, as mangas de renda repuxadas. Agora, a luz incidia sobre os olhos dela, que estavam abertos. William viu dois vivos pon­tos metálicos cintilarem subitamente no próprio centro das pupilas negras. Soltou um involuntário gemido e, acenden­do a lâmpada de cabeceira, curvou-se e examinou os olhos inertes. Os pontos brilhantes eram realmente de metal, as extremidades de algo como pregos sem cabeça, ou, céus! agulhas de tricô! A prima Emma estava sempre tricotando. Alguém lhe enfiara profundamente, em cada olho, uma agulha de tricô, fina e aguçada. Sangue e humor tinham es­corrido pelas faces abaixo, formando duas fitas glutinosas que mal começavam a secar.

A angústia e o horror dominavam William. Sentia a lín­gua áspera na boca seca, quase não podia conter o impulso de retirar as agulhas, introduzidas tão fundo que, no mes­mo instante, presumiu tivessem penetrado até o cérebro.

— Estava assim quando você entrou?

— "Ja", assim mesmo — murmurou Bertha. Levou à boca as luvas de algodão preto.

— Quando chegou aqui? — perguntou ele.

— Logo antes de lhe telefonar, Mr. Asher. Fui tirreito ao telefone. A moça do escritório tisse que o senhor estava no tripunal e quis saber o que erra, mas eu nom disse. Eu disse que eu mesmo tinha de falar. Mas no tripunal um homem disse que tinha de saber antes de chamar o senhor. Aí eu só tisse a ele que uma senhorra da família tinha morrido.

Inútil verificar se o coração pulsava no velho corpo fe­rido, cujos membros se haviam imobilizado naquela espan­tosa contorção. Agora a vida, antes já tão precária, fugira dali. Contudo, voltando-se para o telefone, falou com o mé­dico da prima Emma. Depois, hesitando, entrou em contato com Edwin, no escritório.

— Edwin?

— Sim, pai.

— Venha imediatamente ao apartamento da prima Em­ma. Ela faleceu subitamente.

Edwin estava bastante traquejado para não fazer qualquer pergunta. — Estarei em seguida.

William fechou a porta e chamou Bertha para a sala de estar.

— Bertha, ouça com atenção e responda. Por que motivo está aqui? Pensei que estivesse em Mount Kisco, naquele asilo.

— Pois eu estava — disse Bertha.

— Sente-se — ordenou William. O canário, estimulado pelas vozes, recomeçou a gorjear sua música de prata. — Por que veio cá, Bertha? — perguntou William.

Bertha sacudiu a cabeça. Suas mãos grossas, vermelhas, vibravam apertando as luvas pretas.

— Tem de me responder — disse William. — Senão se­rá acusada de homicídio.

Os lábios violáceos tremeram. — Mr. Asher, "bitte," me axude...

— Só posso ajudar se você me disser a verdade toda — disse William, severamente.

— Jessica, Mr. Asher — cochichou Bertha, com um sus­piro entrecortado — ela estava aqui.

— Jessica?

— "Ja", estava...

— Como você soube?

— Ela me telefonou tizendo de novo que nom pode agüentar Herbert e falou o mesmo pra Miss Emma e Miss Emma tiz que ela venha aqui e aí ela vem e tiz pra Miss Emma me chamar aqui hoxe que ela quer falar comigo. E eu pensei que Miss Emma quis falar comigo e com Jessica pra ser amigos de novo e eu fico muito contente e venho de­pressa.

— Jessica estava aqui quando você chegou?

— "Ja" — gemeu Bertha. — Estava.

— E como aconteceu isto? — William indicou com um olhar a porta fechada do quarto.

— "Ja"... Quando eu vi tinha acontecido — disse Ber­tha, lastimosamente. — Nós prigamos, Mr. Asher. Jessica prigou comigo. Ela abre a porta e eu entro e ela arregala os olhos, assim...

Bertha abriu assustadoramente os olhos, parando-os.

— E depois?

— E depois ela me tiz critando que tem ódio de mim e

que vai me matar. Eu nom me importo, ela sempre falou as­sim se nom tinha mais ninguém com a xente, mas eu digo a ela: "Fica quieta, tu faz tanto barrulho pra Miss Emma." Aí Miss Emma nos ouve e sai da cama e abre a porta e diz pra Jessica: "Nom fale com tanto rancor com a pobre da velha."

Mentira ou verdade? Mentira ou verdade?

— E Jessica de repente fala tom ponito — prosseguiu Bertha, alternando a narrativa com suspiros entrecortados. — Ela tiz: "Miss Emma, querrida, volte pra cama, seus pés estom frios", e aí as duas entram e eu fico esperrando e esperrando, tanto tempo. E Jessica sai do quarto e eu estou fazendo um pouco de café e ela tiz: "Agorra eu vou ao 'drugstore' comprar umas pílulas que Miss Emma está pre­cisando. Fique esperrando, faça o favor." Falou tom ponito! Aí eu esperro e esperro, e ela nom volta e Miss Emma está tom quieta e aí eu apro a porta e fico sapendo!

Foi nesta altura que William telefonou para o posto de polícia mais próximo.

Mentira ou verdade? Examinando o rosto gordo, arro­xeado, William não sabia dizê-lo. Quarenta anos haviam construído uma máscara de carne. A campainha da porta soou e Bertha levantou-se, em função do hábito, e abriu-a. Era Edwin.

William ergueu-se. — Entre, meu filho. Vamos passar para o quarto. — Hesitou. Se deixassem Bertha sozinha, tentaria ela escapar, como Jessica fizera? Mas Bertha, pe­sada, meio embrutecida, tornara a sentar-se, derramando suas carnes para fora da cadeira de encosto vertical e assen­to de madeira.

— Voltamos daqui a uns minutos, Bertha — disse ele.

— Está muito pem, Mr. Asher, eu fico esperrando — disse ela, de boa vontade. Cruzou as mãos, sempre agarrando as luvas de algodão preto.

William dirigiu-se para o quarto fechado, precedendo a Edwin e escudando-o, apreensivo pelo efeito que podia cau­sar no filho a súbita visão do corpo contorcido, sobre a ca­ma. A morte era um quadro pavoroso para os olhos dos jo­vens e, no entanto, todos tinham de contemplá-lo, mais ce­do ou mais tarde. Foi direito à cabeceira da cama e tornou a acender a lâmpada do criado-mudo.

— Reparou nos olhos dela? — Fez a pergunta com na­turalidade.

Edwin inclinou-se para observar e empalideceu. — Pai, que coisa horrível!

— Jessica esteve aqui. Mas que motivo poderia ter? É o que precisamos descobrir.

— É preciso um motivo, se ela está louca?

William não respondeu a isto. — Por outro lado — pros­seguiu — só sabemos que Jessica esteve aqui pela palavra de Bertha.

— Não posso crer que Bertha tivesse coragem para isto — respondeu Edwin. Afastou-se da cama, fugindo à vista do velho rosto crispado.

— Não sabemos o que Bertha é — disse William. — Nunca cantei a você como ficou violenta quando a despedi. E Jessica, você sabe, sempre sustentou que a mãe dela era cruel.

— Jessica mente e você sabe disso — exclamou Edwin.

Ah, pensou William, então a ferida permanecia aberta!

— Acredita no que Jessica diz, hem, pai? — inquiriu Ed­win.

— Naturalmente que não — disse William. Calcou para o fundo da mente o conhecimento de que tudo podia ser verdade, absolutamente tudo. Vira cenas estranhas, em sua vida de advogado, e ouvira mentiras mais estranhas do que aquelas propaladas por Jessica, mesmo contra ele próprio. Mas Edwin, o mais intuitivo de todos os seus filhos, sentiu a restrição.

— Você não admitirá como certo que Jessica seja uma mentirosa — disse com amargura; e, em seguida, revelou a presença da nuvem. — Vera tampouco. Ela diz que está convencida de que Jessica mentiu, mas não dirá que acre­dita sinceramente que ela mentiu. Tenho de viver com isso.

— É muito injusto da parte de Vera — disse William. — Se eu hesito é simplesmente a minha experiência de advo­gado que me leva à dúvida permanente, mesmo a meu res­peito. — De repente, resolveu consolar Edwin da melhor maneira que podia, a mais abnegada e a mais profunda. Sentiu que o sangue lhe afluía ao rosto, avermelhando-o, gradualmente. — Na verdade, Winsten me disse que Jessica tinha feito afirmações igualmente absurdas a meu res­peito.

No mesmo instante percebeu que Winsten, ou Madge, in­formara Edwin. O rosto deste, tão jovem ainda, não sabia ocultar o conhecimento; suas pálpebras estremeceram leve­mente, seu olhar sugeria reserva, a própria forma do rosto se alterou sutilmente, denotando que ele sabia.

William procurou falar com leveza. — Suponho que vo­cês, rapazes, conversaram sobre tudo isso, rindo-se da en­talada do velho.

— Sim, falamos nisso, pai — admitiu Edwin, resoluta­mente. — Madge contou a Vera e a mim, uma noite, quan­do passamos o fim da semana lá. Eu disse a ela que se ou­tra vez tornasse a mencionar... o assunto, eu não falaria mais com ela, enquanto vivesse. Afirmei-lhe que tinha cer­teza de que tudo era mentira.

— Mas você acredita que seja possível? — perguntou William, com expressão sardônica.

A campainha da porta soou com insistência ,;e estridor, antes que Edwin pudesse responder, e ambos saíram do quarto, deixando William a porta fechada. De repente, este se sentiu exausto, meio tonto. Bertha abria a porta e, à en­trada do corredor, viam-se o médico e com ele a polícia. — Escute — disse William, apressado, a Edwin — vou pas­sar inteiramente a você esta horrível questão. Vou para ca­sa informar sua mãe e entrar em contato com Herbert para localizar Jessica.

— Muito bem, pai — disse Edwin, aparentando calma. Agora não havia tempo para responder se acreditava na pos­sibilidade de Jessica estar falando a verdade.

William apanhou o chapéu e a bengala, e seguiu pelo corredor. Apertou a mão do médico e inclinou levemente a cabeça para os dois policiais, que erravam mais atrás.

— Agora que estão aqui, vou deixar o caso a cargo de meu filho — declarou, gravemente. — A extinta é prima em segundo grau de minha mulher, a criada é uma velha cozinheira de nossa família, recentemente aposentada. Ela dirá pessoalmente como se explica a sua presença aqui. Se precisarem de mim, o meu filho poderá comunicar-se comi­go. Tenho de ir para casa acompanhar minha mulher. Meu filho trabalha na minha própria banca de advocacia e é pessoa capacitada para assistir aos senhores.

Inclinou-se diante do assentimento dos três homens, saiu rapidamente e, do "drugstore" contíguo, telefonou man­dando vir o seu carro.

A viagem para casa causou-lhe satisfação; precisava de tempo para pensar no que devia ser feito. O novo motoris­ta, filho de um agricultor de Vermont e apaixonado pela ci­dade, guiava em silêncio e com um toque de volúpia pelo ofício. Ainda não casara; bastava-lhe ter-se libertado da granja. Seu entusiasmo de moço enchia-o de zelo e do de­sejo de agradar. Também isto, como tudo o mais, se desgas­taria, mas era agradável para William enquanto durava; e, hoje, era uma bênção.

No vácuo do tempo, em movimento através do espaço, o pensamento jurídico de William trabalhava rápido e bem. Traçou para si mesmo uma clara linha de ação, passo a pos­so, a qual pretendia dar por escrito a Edwin, para lhe facili­tar a missão. Bertha, ou Jessica, tinham de ser defendidas, mas o caso não devia ficar com a sua banca. Percorreu men­talmente a lista de escritórios de advocacia de Nova York e escolheu uma encabeçada por um velho colega de estudos e amigo, Barnes, Holt, Mackintosh & Lane.

Quando as longas horas tocaram o seu termo e viu, escu­recidas pelo começo do crepúsculo, as linhas do telhado de sua casa, percebendo através do arvoredo o fluxo das jane­las iluminadas, tornou a sentir-se forte. Sempre era assim quando sabia o que fazer.

Elinor veio recebê-lo à porta. Era tarde, mas sua mulher tinha um aspecto tão fresco e atraente que ele ficou apre­ensivo por ter de lhe destruir a boa disposição. Mas era pre­ciso fazê-lo. Beijaram-se e ele a cingiu com o braço.

— Minha querida, você tem de preparar-se para ouvir uma notícia muito aflitiva.

O pensamento de Elinor voltou-se imediatamente para as crianças, os netos tão frágeis, os mais pequeninos, como se a morte sempre os andasse espreitando de menor distância. — Alguma das crianças...

— Não; as crianças não. A pessoa mais velha da família, a prima Emma. Minha querida, ela morreu inesperadamen­te esta manhã.

— Oh, William... sozinha?

— Vamos para a biblioteca, Elinor.

Lá, depois que ela se sentara, contou-lhe singelamente o que havia encontrado no apartamento e exatamente como soubera do fato.

Elinor estava aterrada, incapaz de entender toda a per­versidade do que acontecera. Não era a morte que a pertur­bava, William percebia-o, pois se tratava de uma anciã, mas sim a maneira como ocorrera e o monstruoso contraste com a inesgotável bondade da prima Emma.

— Ela era tão boa — estas palavras Elinor as dizia e re­petia. — Não posso imaginar por que... se era tão boa, especialmente para Jessica, sempre para Jessica. Lembrava constantemente que devíamos ser bondosos com Jessica porque era filha da cozinheira e do mordomo. Aconselhava-nos a não deixar Jessica sentir qualquer diferença de trata­mento. Nunca entenderei isso... acontecer logo„.tom a pri­ma Emma... Você lembra-se da opinião dela, de que Jessica não devia casar com Herbert?

— Não devemos ter como certo que foi Jessica — adver­tiu ele. Levantou-se, dirigiu-se ao telefone e pediu ligação com o número de Herbert. O centro rural era lento e ele fi­cou com o fone ao ouvido, para evitar que uma das criadas se interpusesse com algum telefonema de serviço. Final­mente, ouviu a voz arrastada de Herbert.

— Pronto!

— Herbert, aqui é Mr. Asher.

— Ah! Às suas ordens, Mr. Asher.

— Estou telefonando de casa, Herbert, para perguntar como vai Jessica.

Esperou um ou dois longos segundos. Então, disse Her­bert: — Jessica vai muito bem, Mr. Asher.

— Ela continua em casa?

— Sim, está aqui. — Herbert virou a cabeça e sua voz se tornou mais distante, mas permaneceu clara. — Que­res falar com Mr. Asher? — Com toda a clareza, ouviu tam­bém a resposta mal-humorada de Jessica. — Para que ha­via de querer falar com essa raposa velha?

A voz de Herbert voltou ao fone. — Ela está ocupada em qualquer coisa... tricô, eu acho.

— Então não chegaram a mudar-se para a cidade?

— Não, não vamos nos mudar.

William hesitou. Como fazer a pergunta para a qual pre­cisava de uma resposta? — Alguém me disse que Jessica esteve em Nova York e eu queria saber se era exato.

A voz descansada de Herbert repetiu as palavras: — Em Nova York? Ela não esteve em Nova York. Como havia de ir? Não levei ela.

Herbert tornou a voltar a cabeça. — Ele diz que tu esti­veste em Nova York, Jessica, ah, ah, ah!

— Velho sujo — disse Jessica, com voz aguda. — Man­de esse animal imundo meter-se com a sua vida.

A voz de Herbert retornou. — Jessica manda dizer que não esteve lá. Acho que ela havia de gostar do passeio, mas eu agora não tenho tempo, cuidando de todas estas gali­nhas.

— É a voz da menina que estou ouvindo? — perguntou William, prazenteiro. Ouvira choro e uma palmada.

— É. Acho que fez alguma arte.

— Bem, não tomo mais o seu tempo — disse William e desligou. Isto era desnorteador. Estaria Jessica mentindo, estaria Herbert acobertando-a? — Diz Herbert que ela não esteve em Nova York.

— Ora, não se importe — disse Elinor, muito abatida. — A prima Emma, coitada, uma verdadeira senhora, se é que isso ainda significa alguma coisa, sei lá! O fato é que foi uma injustiça acabar assim... esse terror no último instan­te... nem posso imaginar. — Levou as mãos ao rosto, es­condendo os olhos.

— Não pense nisso — disse William. — Lembre-se ape­nas de quanta felicidade encontrou em ser boa e bondosa. A prima Emma não podia ter sido qualquer outra coisa, fos­se qual fosse o fim. Ela satisfazia a sua própria natureza.

— E agora Jessica satisfez a dela — exclamou Elinor. Deixou as mãos caírem no regaço.

— Espere — lembrou-lhe William. — Precisamos desco­brir a verdade.

 

 

Foi um dia, o do enterro da prima Emma, como ela mes­ma poderia ter escolhido. Seu corpo anoso, desfigurado pela autópsia, foi recomposto e restituído à dignidade. Lavaram-no, vestiram-no, suas cãs foram habilmente encaracoladas para encobrir todas as cicatrizes. As pálpebras eram como véus descidos sobre a tragédia. Repousava num irrepreen­sível ataúde de mogno, com alças prateadas. Os mortos da família eram sepultados no cemitério de Manchester e este encheu-se de estranhos. Das amigas da prima Emma, pou­cas haviam sobrevivido para lhe acompanhar o enterro, mas a hedionda história de sua morte, circulando através da im­prensa, levara dezenas de carros a acudirem de todos os ru­mos.

A família, de pé junto do túmulo aberto, não tomou co­nhecimento da multidão de curiosos, exceto Elinor, que olhando em redor disse, em voz baixa e dolorida: — Como ela teria detestado isto!

Pois em verdade a prima Emma não gostava de turbas. Escrupulosa e delicada no trato de todo ser humano, retra­ía-se do número, passando a maior parte da vida, devia ser dito, como uma reclusa, com o que aumentava o valor e a significação das poucas pessoas que conhecia. Mas este era o seu fim público, com os jornais apregoando detalhes, com Bertha e Jessica na prisão.

Isto não pudera ser evitado. Herbert fora suplicar a Wil­liam: — O senhor é um grande advogado, Mr. Asher, o se­nhor consegue revisão de processo pra gatunos reconheci­dos. E agora Jessica está na cadeia quando eu posso jurar que ela não saiu de casa. Tive de levar a criança novamente pro orfanato. Bertha deve ficar na cadeia, ela estava mesmo no apartamento, mas Jessica não. Posso jurar...

— A questão está inteiramente fora das minhas mãos — dissera William, com firmeza. — Não meé possível patrocinar o caso.

O ministro fragmentava os torrões e a terra solta ia cain­do. —...és pó, e em pó... — dizia com voz salmodiada. Acima de sua cabeça, num olmo, um pássaro rompeu a cantar. Que teria sido feito, perguntou-se William, distraí­do, do canário da prima Emma? Tinham-se esquecido dele. A garotinha de Winsten, o terceiro rebento, subitamente desatou a chorar. Não devia ter vindo, ele não aprovava a presença de crianças em enterros; Madge, porém, insistira em que se tratava de um fato da família, a morte tanto co­mo o nascimento, e que as crianças deviam saber. Estavam todas ali, exceto o caçulinha, quarto da série, um nenê ainda.

Finalmente, o enterro terminou e a polícia local fez a as­sistência abrir alas para a família passar até os seus car­ros. A família dirigiu-se para casa, desacompanhada, e lá se fechou, enquanto a multidão se retirava discutindo a cul­pabilidade da cozinheira ou da criadinha, apostando numa ou noutra. A cova, reposta a terra deslocada, foi recoberta de flores. Não foram muitas as pessoas que as espalharam sobre a prima Emma. William e Elinor mandaram depositar uma camada de rosas brancas e avencas, o que causou grande impressão. Os lírios cor-de-rosa de Edwin e Vera fo­ram colocados aos pés do túmulo; e à cabeceira, as rosas amarelas de Winsten e Madge. Algumas pessoas da multi­dão haviam jogado flores silvestres, uma rosa cultivada em vaso, um ramalhete de delfínios, um punhado de marga­ridas.

A prima Emma não tinha importância, refletiu William; era apenas uma mulher boa e compassiva, que vivera um pouco retirada. Mas o fato de ter morrido violentamente, de que pudesse ter sido assassinada, era realmente digno de nota, e com tal morte tornava-se importante.

 

EM CERTA MANHÃ de primavera, anos depois, quando a contextura da vida se tornara bastante agradável para que William quase tivesse esquecido Jessica, e já floresciam os heléboros do inverno que Elinor plantara no túmulo da pri­ma Emma, ele recebeu um telefonema. Era um sábado de manhã, e ficara em casa, depois de um café tardio. — Quem fala? — perguntou.

— Sou eu, Mr. Asher.

— Não reconheço a voz.

— É Herbert Morris, Mr. Asher.

Uma violenta reação desfez a boa disposição de William. Por que tinha de ouvir novamente esta voz?

— Bom dia, Herbert — disse, com fingida calma.

— Como tem passado, Mr. Asher? — perguntou Herbert.

— Muito bem, obrigado — respondeu William, sem se iludir. Esperava a próxima pergunta.

— Mr. Asher, eu queria saber se o senhor podia me pres­tar um favor? — Herbert estava realmente humilde.

— Não sei, vamos ver — respondeu William.

— O senhor e Mrs. Asher não poderiam fazer uma visita a Jessica e me dizer se não acham que ela está bastante bem agora pra voltar pra casa?

William ficou tomado de espanto diante do absurdo pe­dido. Iria Jessica reerguer-se de seu túmulo em vida? Iria a sua voz fazer-se ouvir novamente na casa dele? — Não vejo como ela possa tirar qualquer benefício disso, Herbert — respondeu com firmeza.

— É o seguinte, Mr. Asher — disse Herbert, com toda a sua antiga e humilde obstinação. — Ela está com ótimo as­pecto, justamente como dantes. Conversa normalmente, também. Ela gostaria de vir pra casa. Diz que devemos tor­nar a nos unir. A criança está ficando grande na ausência da mãe, Mr. Asher.

— No caso de Jessica, não é tão simples voltar para casa, Herbert — observou William, com seu tom mais solene. — Você esquece o que aconteceu.

— Eu nunca acreditarei que foi Jessica... que matou Miss Emma, Mr. Asher — disse Herbert, com convicção. — Se não foi Bertha foi algum estranho que se meteu lá sem ser visto. Jessica não podia fazer uma coisa assim. Ela pode perder a calma e morder como faz uma criança, ou coisa assim, mas não seria capaz de matar ninguém. Pois se eu sempre tive de matar as galinhas pro jantar dos domingos! Ela saía correndo e ia se fechar no quarto e lá tapava os ouvidos com as mãos, depois cobria os olhos pra não ver pela janela a galinha se sacudindo.

— Isso não altera o veredicto do júri — disse William.

— Bom, Mr. Asher, o senhor é advogado. Talvez pudes­se conseguir do governador um indulto... uma espécie de nova oportunidade pra ela. Talvez se pudesse mesmo arran­jar uma revisão do processo.

William hesitava. Seu espírito profissional fora atingido. Conhecera réus injustamente acusados e que haviam cum­prido pena anos a fio. A absolvição de Bertha e a condena­ção de Jessica estavam bem fundadas, mas havia obscuri­dades que ninguém pudera esclarecer. Embora se houvesse mantido estritamente na posição de espectador, exceto quando convocado como testemunha, lembrava-se clara­mente dos pontos fracos do julgamento.

— E Jessica tem uma terrível quizila daquele hospício — insistia Herbert, súplice. — Ela diz que lhe revolta o estô­mago ver toda aquela gente velha e louca, quando ela mes­ma não está louca. E outra coisa, Mr. Asher, eles sobrecar­regam ela de trabalho. Logo que descobriram que sabia fa­zer serviço de copa botaram ela no refeitório onde comem os médicos e ela serve a mesa sem ganhar nada. Claro que eles não querem deixar que ela saia. É natural que não quei­ram. Mas é justo? ,

Os jornais, nos últimos meses, tinham tratado das insti­tuições de doentes mentais, apresentando reportagens bas­tante aflitivas para que agora viessem à tona da memória de William. Era possível que, no grande estabelecimento on­de Jessica estava asilada, houvesse tais iniqüidades; mas por que, suspirou William, tinha de se envolver com isso, ou, no caso, com Jessica, de quem sempre se ocupara a contra­gosto?

— Vou falar com Mrs. Asher — respondeu, evasivo.

— Obrigado, Mr. Asher — disse Herbert com o pronto contentamento de uma percepção falha. — Eu fico muito reconhecido por isso. O senhor é assim como um chefão por aqui, com certeza que sabe disso, e eles haviam de ouvir-lhe, ao passo que a mim não dão nenhuma atenção.

A manhã estava estragada, pensou William, sombrio. Não tinha nenhuma intenção de ajudar Jessica a recuperar a liberdade e, no entanto, a malfadada sensibilidade de sua consciência tornava a manifestar-se e ele sabia, de longo tempo, que não descansaria enquanto não a satisfizesse.

Pendurou o fone e voltou ò biblioteca, onde estivera traba­lhando. Mas não se dirigiu para a sua escrivaninha. Em vez disso, sentou-se no poial baixo da janela meridional, agora inundada de sol, e viu Elinor no jardim. Desejaria que não fosse preciso lhe falar sobre o telefonema de Herbert. Com seu vestido velho, de sarja verde, estava tranqüila e con­tente, lá no canteiro das peônias. Ah, quanto incômodo po­dia surgir num lar feliz! Lembrou-se, com o máximo desa­grado, do aspecto de Bertha durante o julgamento, exata­mente numa manhã ensolarada como esta, com uma dife­rença, que o sol se coava através das grandes vidraças sujas da sala do tribunal.

Fora chamada ao apartamento de Miss Emma, dissera Berta no seu depoimento, por Jessica, sua filha. A superin­tendente do asilo de velhas, arrolada como testemunha, confirmara a declaração. Bertha, na manha do crime, des­cera vestida para ir à cidade. Dissera que ia visitar uma pa­renta do seu antigo patrão. Tomara então o ônibus, em frente do asilo. A superintendente, uma mulher pálida e cansada, de idade mediana, e denotando uma distinção em desgaste, dera a informação adicional de que o ônibus não costumava parar tão a jeito, mas que ela assim arranjara a fim de que suas velhas hóspedas não tivessem de andar na chuva ou ficar no ponto sujeitas ao frio. — Podem sair da porta quando vêem o ônibus aproximando-se e tomá-lo co­mo se fosse uma condução própria — dissera, com um sua­ve orgulho iluminando a sua languidez.

De outro lado, Jessica se apresentara tão completamente dona de si que William ainda considerava com embaraço, neste momento, certos pontos obscuros no seu foro íntimo. Quando chamada, naquele dia do julgamento, erguera-se com um ar quase jovial e, com a graciosa leveza que ele tanto conhecia, dirigira-se ao estrado das testemunhas. Evi­dentemente, conforme ainda se lembrava, ela causara uma impressão agradável. No seu traje azul, a blusa com rufos de renda, chapeuzinho cinza, de feltro, sobre os cabelos louros, tinha todo o aprumo de uma senhora, uma senhora ainda jovem. Enquanto ele vivesse, pensou William, Jessica lhe pareceria jovem. Na mão direita, levava as imaculadas luvas brancas, de pelica, e na lapela uma rosa pequena. Erguendo a cabeça, lançara um olhar pela sala, com um tênue sorriso, e o seu rosto, habitualmente pálido, subitamente se cobrira de um delicado rubor.

— Havia alguma razão — perguntara com brandura o promotor — que a tivesse levado a não gostar de Miss Winsten?

Jessica tomara fôlego e dissera: — Não, senhor! Pelo contrário, ela era a pessoa mais bondosa da família... pe­lo menos para mim.

— Havia muitos anos que a conhecia?

— Durante toda a minha vida.

— Quando a viu pela última vez?

— Fui visitá-la depois que saí do... um dia depois que voltei para casa. Eu adoecera e havia sido retirada de casa. Miss Emma ajudou-me a voltar, quando estava completa­mente restabelecida, e então fui visitá-la.

— Como chegou lá?

— Fui a pé até o ônibus. O ponto de parada dista apenas uma meia milha de casa. Vai diretamente a Manchester, on­de sempre há um trem passando. 1

Herbert soerguera-se na cadeira, levantando a mão, como um menino na escola, mas ninguém o notara. Reacomodara-se, as bochechas pingando suor.

— Usualmente, toma o ônibus? — perguntara o promo­tor.

— Sim — dissera Jessica, vivamente. — Sempre tomo o ônibus, Herbert nunca me leva a parte alguma. Tem tanto que fazer.

— Excelência! — gritara Herbert neste ponto, pondo-se de pé.

— Sente-se! — ordenara o juiz, elevando a voz.

— Tomou o trem na manhã em que, segundo sua mãe declara, esteve no apartamento de Miss Winsten? — per­guntou o promotor a Jessica.

Com altivez, ela erguera a cabeça. — Tenho a certeza de que não.

— Contudo, sabe que, se ficar provada a exatidão do que declara, sua mãe será acusada de homicídio?

— Estou dizendo o que é verdade — dissera Jessica, com indisfarçada serenidade. E logo acrescentara com um sor­riso triste. — Minha mãe e eu não nos falamos há anos.

William tossira, mexendo-se na cadeira. Agora vinha a história da criança batida, vítima de crueldades, todas as feias acusações que poderiam ser verdadeiras ou não...

— Minha mãe — dissera Jessica, comovedoramente — foi muito cruel comigo, quando eu era criança. Fechava-me na adega e, se eu chorasse, batia-me. Eu poderia mostrar... ainda tenho, pelo corpo, marcas de suas pancadas. Quando eu tinha sete anos apenas, mandou-me para um internato no Canadá, e então eu não via meu pai a não ser uma vez por ano, no verão. Eu gostava dele e ele de mim. Depois ele morreu. Minha mãe era cruel para com ele, também. Miss Emma nunca pôde acreditar nisso, por mais que eu lho afir­masse.

Agora, sentado no banco da janela da biblioteca, anos depois, William subitamente compreendeu esta última de­claração. Lembrou-se de como o rosto de Jessica se altera­ra, tornando-se duro, enquanto pronunciava aquelas pala­vras. Estivera abrindo e fechando, nervosamente, o fecho de sua bolsinha, e, de repente, apertara-o violentamente, com um estalido perceptível, de modo que ele o ouvira mesmo do lugar onde estava sentado, a um lado da sala. Sim, sim, fora por isso que Jessica matara a prima Emma! A pobre anciã, na sua generosidade, mandara chamá-la a fim de fa­zer, em benefício de Bertha, mais uma tentativa de recon­ciliação. A prima Emma nunca o perdoara por ter despedido Bertha. Ele se lembrava muito bem do que Elinor contara. Sua mulher fora ver a prima Emma numa de suas visitas habituais, e dissera-lhe onde Bertha estava, e por quê. A prima Emma ficara indignada. Exclamara, várias vezes: — Mas Elinor, minha querida, a gente tem uma dívida de gra­tidão com um velho criado!

— Bertha está instalada com muito conforto, prima Emma — assegurara Elinor.

— Ora, mas é o coração que precisa de conforto — res­pondera a prima Emma. — Vou chamar Jessica, tenho de conversar com ela.

Fizera isso, William sabia-o, mais de uma vez, e apesar de ele próprio lhe haver dito que era inútil. Mas a prima Emma tinha um coração incorrigivelmente sensível, traço que se acentuava à medida que envelhecia, por isso não ten­tara dissuadi-la. Supunha que tivesse tido vários, talvez mui­tos encontros com Jessica. E indubitavelmente, naquela ma­nhã final, teria instado em demasia, talvez até houvesse acusado Jessica de mentir; diante disso, o juízo de Jessica teria rompido a cadeia em que ela tentava trazê-lo preso.

Naquele dia do julgamento, quando Jessica afirmara a crueldade da mãe, a assistência se voltara curiosamente pa­ra Bertha, mas esta se mantivera imóvel, olhando fixamen­te, através da sala, para as janelas altas. Os jurados tinham-se inclinado para diante a fim de ouvir Jessica, sempre com indulgência, e o interrogatório continuara até extenuá-la. Então, sentara-se, levando aos lábios o lencinho de renda branca.

Bertha não se movera. Chamada, sobressaltara-se, olhan­do em torno, com espanto, como se duvidasse que se tratava dela.

— Vamos — dissera o promotor — dirija-se ao banco das testemunhas.

Erguera-se, espessa, confusa. Encaminhara-se para o 'es­trado das testemunhas e fizera o juramento em voz tão baixa que não fora ouvida. Depois, agarrando-se ao para­peito de madeira, ficara esperando, a olhar humildemente para o juiz.

—Ouviu as acusações de sua filha? — dissera o pro­motor.

Bertha soltara um imenso suspiro. — "Ja", Jessica diz isso...

— É verdade?

— Eu nunca bati na minha filhinha — dissera Bertha, com melancolia. — Às vezes eu dava umas palmadas nela quando ela se metia na casa grande, "ja". Lá nom erra o lugar dela. Eu tinha de ensinar ela, o pai dela nom ensina­va. Espancar, nom, nunca!

Calou-se, como se não houvesse mais nada a dizer. O interrogatório prosseguira incansavelmente. — Como explica a sua presença no apartamento de Miss Winsten?

— Jessica me chamou lá. Diz que Miss Emma quer que eu vá lá. Miss Emma me disse uma vez, antes disso, que quando Jessica foltasse pra casa, a xente revia ser amigo de novo e eu diz: "Ja, gewiss," por que nom? Eu querria, mas Jessica nom querria. Pode ser que sexa porque ela está doente da cabeça que nom quer, eu nom sei.

— Doente da cabeça?

— "Ja", eles tizem isso. Eu nom sei. Levaram ela e bo­taram o nenê no orfanato. Herbert, ele pode contar. Eu nom sei.

Herbert fora chamado e inquirido. Com relutância conta­ra a torpe história de sua vida com Jessica, a resistência de­la em conceder-lhe o que era um direito seu, a luta final; e, tentando esconder tudo, ele tudo revelara.

William não pôde suportar a evocação. Levantou-se e foi para o jardim encontrar-se com Elinor. Ela se ajoelhara jun­to do canteiro das peônias para ver melhor os novos reben­tos, que iam apontando cheios de viço.

— Afinal, venceram o inverno — disse, contente, quando o viu. Interessava-se muito pelas peônias, sempre sensíveis aos severos invernos de Vermont, e que só tinham vingado com o auxílio de abrigo e adubo. William parou ao lado de­la, contemplando os rebentos grossos, cor-de-rosa.

Então, compondo a garganta depois de cada pausa, disse-lhe: — Não vejo por que, quando as coisas marcham tran­qüilamente, Bertha numa cômoda senilidade em Mount Kisco e Jessica trancada com segurança, a gente novamen­te tenha de revolver tudo de novo.

Ela sorriu, melancolicamente: — Mas você sabe que o fa­remos, e, quanto mais isso nos aborrecer, tanto mais sentire­mos que é de nosso dever fazê-lo. Não podemos largar o fardo. Temos de ir ver pessoalmente como vai Jessica. Pen­se na criança! Pobre Monica...

Ficaram em silêncio durante alguns minutos, Elinor ajoe­lhada, removendo com mão leve, cuidadosamente, as cros­tas de terra que o inverno deixara em torno dos rebentos, enquanto William observava. Observava sem ver, pois, mau grado seu, voltava-lhe a lembrança da última vez que vira Jessica. Fora declarada demente e Bertha isenta de culpa, à vista de sua versão segura, inabalável. William inclinou-se e tocou no ombro de Elinor. — Então acha que o melhor é irmos ver Jessica?

Elinor sentou-se nos calcanhares e ergueu os olhos para ele. William viu, surpreendido, à luz impiedosa do sol da manhã, que agora havia claramente sulcos finos em torno dos olhos e dos lábios dela.

— Uma vez mais — disse Elinor, com brandura. — De­pois, talvez a sua consciência descanse.

William inclinou a cabeça, concordando. Ah, ela o com­preendia!

Em conseqüência, na manhã seguinte, domingo, resolve­ram fazer a visita a Jessica em vez de irem à igreja, "uma boa ação em lugar de uma afirmação de fé", disse William, contrariado.

O novo motorista, como ainda o designavam, já acostu­mado com os patrões, levou-os, a uma velocidade prudente e calma de trinta milhas, ao grande conjunto hospitalar onde o Dr. Bergstein os esperava. William telefonara na vés­pera, à noite, e o médico, cordialmente, concordara em es­tar presente, quando chegassem. Estava no seu gabinete, uma saleta mal mobiliada, com as paredes forradas de fi­chários e tratados. Era um homem baixo, de aspecto bon­doso, William lembrava-se, mas de uma bondade sempre fria e prática.

— Entre, Mr. Asher, bom dia, Mrs. Asher. Queiram sen­tar-se.

Sentaram-se, o médico foi para seu lugar atrás da escri­vaninha, e pôs os óculos de aro de ouro. — Eu estava mes­mo reavivando a memória no tocante ao caso de Jessica Morris. — Folheou uns papéis que estavam em cima da mesa. — Não há realmente nada a informar. Estava pertur­badíssima quando foi intentada aqui, há três anos, por de­terminação da justiça, como sabe. Não reagiu bem ao tra­tamento de choques, mas aplicamos-lhe hidroterapia com bons resultados. A princípio recusou-se a trabalhar, mas, nestes dois últimos anos, tem trabalhado bastante e com eficiência no refeitório do pessoal, estando mesmo encarre­gada das encomendas de gêneros alimentícios. Passa as ho­ras de folga, segundo observei, na sala de terapêutica ocu­pacional, onde pinta umas aquarelas bem boas e desenha modelos de estamparia têxtil para as pacientes. As infor­mações do chefe do serviço de terapêutica ocupacional são de que é inteligente e cooperadora.

William perdeu a boa disposição. — Quer dizer que está restabelecida?

O médico encolheu os ombros fortes e abriu as mãos. — Restabelecida? Depende. Aqui, ela se comporta como um indivíduo são. Mais, não sabemos.

William trocou um olhar com Elinor.

— Podemos ver Jessica, pessoalmente? — perguntou Elinor.

— Certamente — disse o médico. — De fato, é quase hora do almoço. Não querem ir para a minha mesa almo­çar conosco? Assim, verão Jessica no serviço.

— Uma admirável idéia — disse William.

Alguns minutos depois, acompanhavam o Dr. Bergstein, por corredores intermináveis e nus, até um refeitório retan­gular cheio de mesinhas. Era um salão alegre, como convi­nha, pensou William. Havia flores nas mesas, arranjadas com bom-gosto.

— As flores também são obra de Jessica — disse o Dr. Bergstein. — Ela tem muita sensibilidade e bom-gosto. Aliás, evidentemente, a sua formação se processou entre pessoas educadas. É dada à leitura, fala com correção. Queiram sentar-se. Vamos ver se os reconhece.

Esfregou as mãos, tomado de súbito prazer, com a curio­sidade profissional despertada pela novidade da situação.

— Aí vem ela — exclamou Elinor.

Jessica parou junto da parede, entre as outras copeiras, das quais se destacava facilmente. Usavam uniformes de algodão azul claro, com pequeninas toucas e aventais bran­cos. O azul ficava bem em Jessica, que cortara os cabelos louros, libertando os anéis, dantes presos nas tran­ças enrodilhadas à velha maneira alemã. Perdera a extrema delgadeza, seu talhe delicadamente se arredondara, man­tendo-se esbelto. Tinha o rosto animado, os lábios verme­lhos, e vivacidade nos olhos de um azul intenso.

— Nunca a vi com tão bom aspecto — admitiu William.

— Ela está bem porque é feliz — disse o Dr. Bergstein. — Sim, aqui ela é feliz. Mantém-se ocupada, diz a algumas das outras o que devem fazer, arranja as flores, serve-se da biblioteca. Gostam muita dela, aqui. Às vezes, um homem gosta demais e então ela vem depressa me contar e eu te­nho de falar com ele. — Riu. — Jessica é muito moral, muito virtuosa. Está sempre lembrando a todos que é uma senhora casada.

— Ela deseja que o marido a visite regularmente? — perguntou Elinor, com naturalidade.

O Dr. Bergstein franziu os lábios carnudos. — Não; não posso dizer que sim. A princípio, absolutamente não o que­ria ver. Depois, como tem auto e a leva a passeio com li­cença especial, começou a ceder. Às vezes, passa meses sem recebê-lo. Mas — tornou a rir — continua sendo uma senhora casada. É uma proteção. Sempre precisará de pro­teção para fazer o que quer. Ah, isso é normal.

Jessica olhava-o e ele acenou-lhe. De repente, reconheceu-os. Um sorriso lhe acendeu a fisionomia e ela avançou com a mesma graça e agilidade de sempre, a mesma leveza de andar.

— Oh, Mrs. Asher, querida! — gritou, com meiguice. Tomou a mão de Elinor e conservou-a entre as suas. — Veio ver-me, finalmente, e Mr. Asher também. Oh, ainda na se­mana passada eu disse a Herbert que gostaria tanto de tor­nar a ver o rosto da senhora e de Mr. Asher. Não se esque­ceram de mim?

— Certamente que não — disse William. — Como vai, Jessica?

— Oh, maravilhosamente, obrigada, Mr. Asher; só que estou ardendo por voltar à minha casinha, ver a minha fi­lha querida, agora já tão crescida, e com falta da mãe, eu sei. Como está Mr. Edwin?... e Mr. Winsten, e Miss Susan?

— Todos bem, obrigada, Jessica — respondeu Elinor. Estavam atordoados, ela esquecera-se de tudo. Ter-se-ia, de fato, esquecido? Era a mesma Jessica, juvenil e tema, o mesmo rosado no rosto claro, liso, bonito, os mesmos olhos límpidos.

— Convém trazer o que comer, Jessica — disse o Dr. Bergstein, de bom humor. — Estamos com fome.

— Ah, sim — disse ela, com sua voz baixa, nervosa. — Que vergonha! Estou esquecendo o meu dever. — Recebeu os pedidos atentamente e afastou-se.

— Ora, vejam só! — exclamou William.

O Dr. Bergstein tornou a dar de ombros. — Pois é! Quem havia de imaginar!

— É desconcertante — disse Elinor, perturbada. — Se recuperou o equilíbrio não deve ficar aqui.

William não sabia que dizer. A perspectiva do futuro de Jessica era-lhe insuportável, se realmente estivesse boa.

Ela não demorou em voltar e, com requintada competên­cia, colocou diante de cada um os pratos que haviam esco­lhido.

— Lembro-me de quanto o senhor gostava de costeletas de cordeiro, Mr. Asher — disse, jovialmente. — Mandei vi­rar estas mais uma vez para o senhor, pois sei que as pre­fere bem passadas.

— Obrigado — disse ele.

A comida era simples, mas bem preparada e boa, e Wil­liam honrou-a, embora sem apetite, enquanto respondia, aqui e ali, a algumas das observações do Dr. Bergstein. Eli­nor sustentava a conversa, ao passo que William só lhe apa­nhava fragmentos.

— Jessica parece totalmente diferente dos outros — di­zia ela.

O Dr. Bergstein concordou. — É diferente... um caso muito complexo. Interessantíssimo!

Finalmente, o almoço terminou. — Gostariam de estar uns momentos a sós com Jessica? — perguntou o médico.

William ia recusar, mas Elinor se antecipou: — Eu acho que gostaria.

— Então queiram passar a uma sala de visitas. Temos uma no andar superior que é totalmente reservada. Vou mandar dizer a Jessica que se apresente lá.

Precedeu-os, indicando o caminho, e William murmurou a Elinor, atrás do médico: — Eu só queria saber por que te­mos de nos encontrar com ela a sós? Eu já estou satis­feito.

— Psiu — fez Elinor.

Na sala, decorada com tapeçaria e cortinas verde-páli­das, sentaram-se e ficaram esperando, em silêncio. Havia tanta coisa a dizerem um ao outro, sentiam-no ambos, mas não era a ocasião própria. A visita não chegara ao fim, não se podiam tirar conclusões. A peça recendia a pó e tinha uma esquisita exalação acre, a qual William não conseguia diagnosticar. Levantou-se, ergueu a vidraça do janelão da saleta, não sem dificuldade. Havia muito que permanecia fechada.

Em dez minutos, aproximadamente, bateram à porta. — Entre — disse Elinor, em voz alta.

Era Jessica, que trocara o uniforme por um vestido azul marinho, de um tecido ralo de lã, com rufos brancos no peito e na gola. Estava lindíssima, notou William a contragosto. Ficou de pé diante deles, hesitante, sempre com seu imutá­vel sorriso.

— Sente-se, Jessica — disse Elinor.

Sentou-se, então, numa cadeira de encosto vertical e as­sento de madeira, e cruzou os pés finos, de sapatos pretos, de verniz. Nem estes escaparam à atenção de William, que raro notava a indumentária feminina. Era de espantar que Jessica pudesse ter-se conservado assim, aqui.

— Muito bem — disse William — Herbert pediu-nos que viéssemos vê-la e aqui estamos. Vamos informá-lo de que você está com ótima aparência.

O rosto de Jessica se fez em graciosas covinhas. — Ora, Herbert — exclamou, rindo. — Ele devia ter vergonha de incomodá-los! Foi o que lhe fiz ver. Mas ele sabia que eu ansiava pela presença de alguém da família. — E, de re­pente, nostálgica: — Suponho que Mr. Edwin é muito feliz?

— Sim — disse Elinor, com ênfase. — Foi um casamento acertadíssimo.

A leve nuvem que ensombrara o rosto de Jessica se des­vaneceu, como tocada por mão invisível. — E os queridos garotinhos, os filhinhos de Mr. Winsten, vão bem? Devem estar grandes, agora, imagino. Que bom, se pudesse vê-los.

— Agora são cinco — disse Elinor. — Creio que Madge quer seis.

Jessica estremeceu. — Mas não, Mrs. Asher, como é que ela pode? É horrível.

William encarou-a. — Que quer dizer com isso?

Jessica tornou a rir e levantou a mão para compor os ca­belos. — Oh, não sei, Mr. Asher. Acho que não devia falar assim. Sempre estou dizendo coisas. A casa está do mesmo jeito, Mrs. Asher?

— Igualzinha — disse Elinor. — Temos duas boas em pregadas, moças.

— Desejaria que fosse eu quem estivesse no serviço da casa, Mrs. Asher — disse Jessica, voltando-lhe o tom nos­tálgico. — Gostaria tanto.

— Não se dá bem aqui? — perguntou William. Jessica teve um calafrio e depois, subitamente, cobriu o rosto com as mãos. — Não! — exclamou com voz afogada, soluçante. — Odeio isto aqui... não passo duma prisionei­ra! Fazem-me trabalhar... muito... dia é noite. Não ga­nho um vintém. Não sou mais que... uma escrava.

William deu um grande suspiro. Recostou-se na cadeira e olhou para Elinor, desconsoladamente. Elinor ergueu as so­brancelhas. E agora que se há de fazer, perguntavam as so­brancelhas.

Jessica soluçava baixinho. — Sinto tanta falta do meu nenê! Quase que nem estive com ele... apenas algumas semanas. Uma criança precisa da mãe. Sinto que ela pre­cisa de mim. Mas estou desamparada.

William não pôde conter-se mais. — Escute, Jessica — disse, subitamente autoritário. — Se você verdadeiramente tem este sentimento, se acha que pode portar-se correta­mente sem torturar ninguém até a morte por motivos que não posso conceber, pois todos nós sempre fomos bons para você...

— Mas sim, Mr. Asher — sussurrou Jessica. Ergueu o rosto, que o choro avermelhara. — O senhor não precisa dizer isso... eu nunca me esqueço de nada!

— Bem — continuou William — se então quer tentar novamente ser uma mulher razoável e digna, verei o que posso fazer para lhe obter livramento condicional, pelo me­nos isso. Se conseguirmos provar que está restabelecida, se você puder portar-se bem em casa, é possível que algum dia possa obter perdão.

— Perdão de quê, Mr. Asher? — perguntou Jessica, co­mo uma criança.

— Você me disse agora mesmo que não se esquece de nada — respondeu William, asperamente.

— Se se refere a Miss Emma, eu não fiz aquilo — protes­tou Jessica com sua voz sussurrada, nervosa. — Precisa­mente naquele dia fiquei em casa com Herbert, todo o dia ou quase todo. Foi na véspera que fui visitar Miss Emma, mas aquele outro dia foi quando Herbert se portou tão abominavelmente. Ele tentou... parecia um irracional... ele... mas não posso dizer! Não posso exprimir em pala­vras! É'... é indecoroso. E na frente da criança! Eu sempre dormia no quarto do nenê e ele entrou de qualquer formo, embora tivesse prometido...

William esperou, retendo a respiração. A imaginação sen­sível e apreensiva de Jessica percebeu algo de perigoso no silêncio e, entesando as costas num esforço, ela disse em seu tom habitual: — Essas coisas eu procuro esquecer, mas a bondade não esqueço. Miss Emma era a pessoa mais bon­dosa de todas... para mim, bem entendido, e eu lhe queria muito. Não poderia fazer-lhe mal. Mas ela jamais quis acre­ditar no que eu contava a respeito de minha mãe. Era verdade, era verdade, mas Miss Emma não queria acreditar em mim. Pois até naquele último dia...

— Que último dia? — perguntou William.

O rosado das faces de Jessica se desvaneceu instantanea­mente: — O último dia em que a vi, na véspera da morte dela...

William passou à prova final. — Muito bem, fico satis­feito por sabê-la desejosa de voltar para casa, para junto de seu marido e da filha. Você parece completamente restabe­lecida. Não vejo razão por que não deva voltar, mediante livramento condicional. Empenharei minha própria palavra de que está bastante bem e posso, creio eu, convencer o mé­dico a dar-lhe alta, uma vez concedido o livramento condi­cional. — Fazia uma promessa impossível de cumprir, as normas legais não podiam ser postas de lado com tanta fa­cilidade, mas era uma prova que, dizia-lhe o instinto, pode­ria arriscar. Fitou-a nos olhos, que Jessica concentrava nos dele, e, dando-lhe um momento para ela compreender aquilo que acabara de lhe prometer, fez a pergunta: — Você gostaria de voltar para casa hoje, imediatamente, conosco? Herbert ficaria agradavelmente surpreendido.

— William! — disse Elinor. Sua voz era uma advertência implícita. "Você está andando com demasiada pressa", sig­nificava; "está submetendo-a a um choque. Além disso, suponha que ela aceite, como você se arranjaria?"

— Agora? — ecoou Jessica, em voz alta e tensa. Er­gueu-se, de supetão, todo o seu corpo se inteiriçou, mesmo os seus cabelos elètricamente se arrepiaram, os olhos dila­taram-se, faiscantes, parados. Deu um grito agudo. O se­nhor não pode me obrigar! — E agitando os braços abertos como se fosse voar, lançou-se em direção à janela.

— William! — gritou Elinor.

Ele saltou da cadeira e agarrou Jessica pela cintura. A porta se abriu e o Dr. Bergstein entrou, atravessou a saleta a passos largos e segurou os braços abatidos de Jessica. — Desculpem-me, fiquei esperando do lado de fora. Receava qualquer coisa. Então, Jessica, desta vez quer atirar-se Da janela. — Abaixou a vidraça, com um baque. — Nunca abrimos as vidraças, Mr. Asher. Vamos, Jessica, acalme-se. — Uma enfermeira, de uniforme branco, entrou no mesmo instante em que ele apertou o botão de uma campainha, na parede. Jessica pôs-se a chorar, aos gritos, logo que a viu.

— Jessica — disse o médico — é inútil. Outra vez, de­pois de dois anos, mas ainda não arranjou nada. Leve-a pa­ra a sala de hidroterapia, Miss Baker.

— Pois não, doutor — respondeu a enfermeira.

Do corredor, vinha o selvagem e aflito soluçar, os gritos apavorantes, cada vez mais recuados.

— Ela está sendo maltratada? — inquiriu Elinor, angus­tiada.

— Não, Mrs. Asher — respondeu o médico. — Não se preocupe. Ela não está sendo maltratada. Acha que deve gritar. Estamos vendo a outra Jessica.

Sentaram-se, abalados, e por um momento se mantive­ram calados. Depois, William disse, entre solene e triste. — Doutor, tenho mais uma pergunta a fazer-lhe.

— Há muitas perguntas a que não sei responder — observou-lhe o médico. — Vamos ver esta. — Ficou à espera, sentindo que a tarde de sol se perdia.

— Poderia ter sido feito algo para impedir isto? — per­guntou William. — Cometeu-se algum erro quando ela era criança?

— Ele quer saber — interpelou Elinor — se nós, lá na casa grande, poderíamos ter tratado Jessica de algum modo diferente, quando pequena? Jessica era a filha da cozinhei­ra da nossa família.

O Dr. Bergstein abriu as mãos e repetiu seu pesado enco­lher de ombros. — Quem sabe? É uma pergunta. Mas Jessica nasceu filha da cozinheira, não é? Não desejava con­tinuar filha da cozinheira e então odeia a cozinheira, que, no entanto, é sua mãe. Deseja ser uma filha da casa gran­de, como a senhora, Mrs. Asher, mas não é, e assim odeia a senhora. Não ousa fazer-lhe algum mal, porque aqui está Mr. Asher para protegê-la, então faz mal a uma anciã in­fortunada e indefesa, que também pertence à família. Crê-se enamorada de um Asher, um moço que pode levá-la pa­ra o mundo a que deseja pertencer, entretanto, infelizmen­te, o moço não a ama. Mas Jessica realmente não gosta de ninguém, sabem disso. É a tragédia dela. E assim, todos os atos de bondade do senhor e da senhora, pois vejo que são pessoas de bom coração, Mr. e Mrs. Asher, são inúteis para Jessica, só a levam a desejar que ela também fosse igual­mente boa. Jessica sabe que não o é, mas ignora a razão, pensa que seja por não pertencer de fato à família, corpo e alma. Quer nascer de novo, Mr. e Mrs. Asher, mas lamenta­velmente só podemos nascer uma vez. Ela sabe que é uma estranha na casa.

Ambos escutavam o robusto médico judeu, que falava do fundo de sua própria vida desconhecida e de sua experiên­cia oculta, e cujas palavras caíam sobre eles com o temível choque da verdade.

— Nunca poderemos libertar-nos da carga de Jessica — disse finalmente William, com ar sombrio.

— Exato — concordou o médico. — Sendo o que são, pessoas boas, não podem libertar-se das cargas. Recebem-nas e as levam... Mas, meu caro senhor — inclinou-se pa­ra diante e pôs a mão sobre o joelho de William — esta é a esperança da humanidade! Se as pessoas boas puderem es­quecer, então na verdade Deus não existe.

Levantaram-se e o médico consultou o relógio. — Hum, são quase quatro horas. Prometi a minha mulher e às crian­ças... sim, queiram desculpar-me. E agora estão bem con­vencidos de que Jessica deve continuar aqui?

William hesitou e compôs a garganta. — Apenas uma pergunta mais: crê que Jessica é de fato demente, Dr. Bergstein? Na acepção técnica?

O médico deu de ombros e tornou a abrir as mãos. — Técnica? Que é isso? Para mim, é uma palavra sem sentido. Jessica nem sempre é uma demente; não o é quando está gostando da vida. — Sorriu e olhou em redor. — Aqui tam­bém é uma casa grande, não? Uma casa muito grande, uma família grandíssima. Jessica é mais bonita que a maior par­te de sua família, mais talentosa, é aqui uma espécie de princesa, logo, quando tem essas coisas no pensamento, não é uma demente, absolutamente. Mas desviem-na daí, po­nham-na onde não deseje estar, uma casa grande onde não possa entrar senão como filha da cozinheira, então sim, di­rei que é uma demente. — Fez uma pausa e se levantou, com seu ar bondoso e sólido, pousando neles o olhar sagaz, crítico, jocoso e cheio de calor. — Podemos dizer, meus amigos, que Jessica está sofrendo dos efeitos da democra­cia. E como ela, se me permitem, o senhor e a senhora.

Inclinou-se, sorriu e saiu com agilidade surpreendente num homem tão corpulento.

William ficou quieto cerca de meio minuto, pensando nas últimas palavras do médico. Percebia a sua profundidade e não desejava fazer comentários. — Vamos, minha querida — disse, voltando-se para Elinor. — Vamos para casa. Não há mais nada que possamos tentar por Jessica.

Fizeram o trajeto de volta em silêncio quase completo, e quando tornaram a apear-se do auto, diante do pórtico, su­biram a escada lado a lado, revelando algum abatimento. A casa estava bastante tranqüila, quando atravessaram a porta. Mas alguém havia jogado um casaco sobre a cadeira colocada junto da comprida mesa de carvalho, um fofo ca­saco de "tweed" e um chapeuzinho redondo de feltro ver­melho, com um pompom preto de penas preso a um lado.

— Susan! — exclamou Elinor, atravessando o saguão. — Que significa isto? Susan! — gritou para o alto da escada.

No andar superior, uma porta se abriu e Susan parou no alto da balaustrada, olhando para eles. Seus cabelos negros, curtos, caíam-lhe sobre o rosto, e seus olhos escuros, gran­des, davam-lhe uma aparência de palidez.

— De onde veio? — perguntou William.

— Eu vim para casa — disse ela.

— Sem Peter?

— Sem Peter — confirmou Susan.

William e Elinor, ao mesmo tempo, sentiram o corarão esmorecer. Ele percebia a depressão no peito dela tão clara­mente como a sentia no seu.

— Vamos subir — disse Elinor, em voz alta, a cabeça atirada para trás a fim de ver, num olhar ansioso, o rosto pálido que se voltava para eles.

— Eu desço — disse Susan.

Muito sérios, penduraram seus abrigos, aceitando em mútuo silêncio qualquer coisa que tivesse de ser. Depois, voltaram-se para a filha e, parados lado a lado, encararam-na.

Não estavam preparados para a súbita torrente do amor e da piedade filial de Susan. Parara diante deles, na apa­rência totalmente dona de si, olhando-os, ora um rosto, ora o outro. Depois, repentinamente, abriu os braços e enlaçou a ambos.

— Oh, por favor não fiquem assim — suplicou. — Dei­xam-me com vergonha. Sei que estão se preparando para um choque. Não é preciso, meus queridos, não aconteceu nada de terrível. Apenas... sim, eu preciso de tempo para pensar e achei que só podia fazê-lo em casa, bem isolada. Onde foram?

Comprimiu-se entre pai e mãe e, de braços dados com ambos, encaminhou-se, em trindade, para a sala de leste; e em trindade sentaram-se no amplo sofá.

— Fomos ver Jessica — disse Elinor.

— Mas por que... — começou Susan.

— Herbert achou que ela estava restabelecida — ata­lhou William. — Estou satisfeito por termos ido ver pessoal­mente. Ela nunca ficará boa, o médico esclareceu bem isso. Só pode manter o equilíbrio se permanecer onde está, pro­tegida, realizada, pode-se dizer, lá à sua maneira. Não pode enfrentar a vida tal como esta se apresenta para ela. Não dispõe nem de força nem de bom-senso para fazê-lo, mas ignora isso.

— Que coisa extraordinária! — exclamou Susan. Seus olhos, absortos, não se despregavam do rosto de William. Era toda reflexão.

— Estou começando a perceber uma coisa estranha... é uma curiosa espécie de clarão indireto — disse ela, deva­gar — que, não sei como, veio de Jessica, aqui na nossa casa, e ilumina da maneira mais esquisita a Peter... e a mim.

Inclinou-se para diante, entre ambos, e escondeu o rosto nas mãos; não estava, porém, chorando. Num instante, ati­rou a cabeça para trás e ergueu-se, apanhou um cigarro na mesinha ao lado, acendeu-o e deixou-se cair numa cadeira, perto do fogo, ficando de frente para eles.

— Nunca viram Jessica aqui nesta sala, diante do espe­lho? — perguntou.

— Nunca — disse Elinor, surpresa.

— Eu vi — respondeu William.

— Pois ela vinha freqüentemente para aqui — declarou Susan — e sozinha. Costumávamos espiá-la quando éramos crianças, Edwin e eu. Não sei se Winsten alguma vez notou também. Mas Edwin e eu nos escondíamos em baixo da es­cada e a observávamos, sem que ela soubesse. Às vezes, tí­nhamos um acesso de riso e saíamos correndo, e então ela chorava. Éramos uns animaizinhos; todas as crianças o são. Uma vez, quando ela veio passar as férias, eu entrei no meu quarto e apanhei-a com o meu melhor vestido de festa. Lem­bram-se daquele vestido de "tulle" rosa? Depois disso, dei-lhe o vestido mas ela estava assustada e não quis aceitá-lo de jeito nenhum. Disse que nunca teria ocasião de usá-lo, a não ser assim, aqui em casa.

— Coitada — disse Elinor. — Mas, de qualquer forma, era um abuso.

Falou com severidade, pois estava saturada de Jessica. Não lhe saía do pensamento o que o Dr. Bergstein dis­sera:... "se as pessoas boas puderem esquecer..."

— Olhe — prosseguiu subitamente, voltando-se para William, como tomada de um acesso de cólera — eu dese­jaria que não tivéssemos este casarão, nem dinheiro algum, nem mesmo qualquer educação. Desejaria realmente que fôssemos uma espécie de selvagens. São os ignorantes e os incivilizados, acredito piamente, os donos, de fato, do mun­do de hoje, e conseguem isso simplesmente tornando-se uma carga para o resto de nós.

— Não, não o são. — Era Susan, falando com a maior serenidade. — Absolutamente, mãe! Você está redonda­mente enganada. — Riu baixo, com amargura, contida­mente. — Lembram-se, meus caros — perguntou — de que me casei com Peter em busca de proteção? Lembram-se de que o julgava forte porque matou o cachorro preto? — E acrescentou, zombeteira: — À unha, meus caros?

Uma mulher, esta filha sua, compreendeu-o de repente William, com um aperto no coração. A criança passara; e passara também a moça. Era uma mulher enfrentando a vi­da e vendo-a inteiramente diferente do que a julgara.

— E que acham — perguntava-lhes agora — que acham que o meu Peter é? Não é uma rocha, se querem saber, não é uma proteção, mas uma criança turbulenta e confusa, um menino tão grande que tem de se barbear de dia, mas que de noite receia o escuro. Não quero dizer propriamente a escuridão, não é uma coisa tão simples, mas sim que teme saber o que ele é, ignorante, tosco e vazio por dentro de si mesmo. — Sorria, não com hilaridade mas com um terrível sentimento da desesperada comédia da vida humana. — Sim, porque agora eu também descobri isso. E, se me per­mitem, ele procura proteção em mim. Quer deixar a oficina. Odeia a casa onde se tornou adulto, quer vir para cá, meus queridos, onde vocês jamais poderiam conformar-se em abrigá-lo. Acha que levamos uma vida folgada. É o que ele diz. Imagina que sabemos de segredos que ele ignora... tolo, não é? Pensa que, se soubesse tudo o que sabemos, se­ria poderoso, como nos julga, e estaria garantido, como tem certeza de que estamos e como ele não está. Insiste em que tem tanto direito como nós de saber o suficiente para ven­cer na vida, como ele diz.

Com assombro e cautela, William escutava este desaba­fo. Que traduzia, de fato, senão essa odiosíssima palavra, revolução? Sua lúcida inteligência, de repente, num lampe­jo, viu a Peter não mais sozinho, porém como parte de uma vasta e lamentável companhia, que se esforçava em subir, por quaisquer meios ao seu alcance, em busca dos espaços mais amplos de um mundo que imaginavam acima deles. Assim Jessica tentara fazer, cega e estupidamente, vendo a esse mundo apenas na forma da própria casa dele, donde, Deus o perdoasse, todos a haviam excluído, e tinham de ex­cluí-la. No entanto, poderiam ter compreendido aqueles so­nhos tão pueris e absurdos, visto que Jessica vivia deles e agora estava quase morta. Para lá do trágico vulto de Jessica, viu as caras torvas de criminosos a quem defendera e cuja condenação ouvira, todos maquinando, esforçando-se, competindo para alcançar aquela atmosfera superior.

Sonhos! Eram o sopro vital de toda alma humana e, quan­do morriam, morria com eles a alma. E se os sonhos dele jamais se houvessem transformado em vida? E se não ti­vesse havido esta casa e todo o amor que contivera, ou se os seus sonhos houvessem excedido o poder do seu cérebro de realizá-los? E se ele, conforme Peter dizia, nunca tivesse tido a sua oportunidade, o seu direito de saber o suficiente para vencer?

O passado era o passado e nele Jessica estava enterrada. Mas que o passado fizesse a sua obra, pelo menos em be­nefício de Peter. Como poderia explicá-lo a estas duas mu­lheres a quem amava, e que esperavam dele uma palavra de orientação? Resolveu dirigir-se a Susan.

— Você deve orgulhar-se, minha filha. Fez uma coisa maravilhosa por Peter, amando-o e casando com ele. Peter despertou. Naturalmente que ele pertence à família. Nós todos estamos com você; e com ele.

Virou-se para Elinor. — Temos de voltar atrás com esse rapaz, minha querida. Toda essa história de Jessica não de­ve repetir-se, pelo menos aqui em casa!

Pela expressão do rosto dela, não tinha certeza se com­preendera; talvez houvesse compreendido, mas não total­mente, ainda não...

Mas Susan, que nunca chorava, repentinamente começou a soluçar. — Eu sei o que você quer dizer! — Enrolou o lencinho, formando uma bola e dando com ela pancadinhas nos olhos. — Pensei que você não fosse capaz disso. Oh, pai, muito obrigada!

Aflito diante das lágrimas de Susan, William não sabia que fazer; e escondeu-se atrás de sua dignidade habitual. — Não chore, Susan. O fato é que vou gostar de conhecer Peter melhor, não tenha dúvida.

Com isto, Susan secou os olhos, olhou-o com uma ternu­ra que ele não conhecia, e em seguida, inexplicavelmente, riu-se em silêncio, com desafogo.

— Eu só queria saber se você compreende — disse, fora de propósito — que formidável que é!

 

Não podia haver algo como um final feliz para uma por­ção de dissabores. Naturalmente, ele era muito velho e ex­perimentado para esperá-lo. Mas o caminho estava desim­pedido e, horas depois, completou a obra numa conversa de meia-noite com Elinor. Depois de se recolher, ela viera para a sua cama, dir-se-ia tocada pela solidão, e de repen­te expandiu-se, como se estivesse remoendo a questão.

— Eu gosto muito de você, William, mas não consigo compreender como poderemos tomar Peter a nosso cargo! Ele agora não pode mudar. É tarde demais. As diferenças são demasiado profundas.

William deslizou o braço direito por baixo do dorso de Elinor, com a facilidade do hábito, e, puxando-a, arrimou a cabeça dela no seu peito.

— Não me parece que se deva tentar mudar Peter — respondeu. — Seria um erro e, como você diz, impossível. Proponho simplesmente que, como uma família, abramos a casa para ele.

— Não faço idéia como Madge...

O nome de Madge lembrou a William um propósito lentamente formado.

— Querida — disse por cima da cabeça de Elinor — esta é uma boa ocasião para lhe contar que, nestes últimos anos, tenho me sentido contrafeito na presença de Madge, por­que deu certo crédito a umas coisas disparatadas que Jessica disse a meu respeito.

— A respeito de você? — Elinor levantou a cabeça e o encarou, à meia luz.

— Uma vez, Jessica disse a Madge e a Winsten que eu tinha sido amante dela. — Achou a maior dificuldade em converter em palavras este absurdo, não porque temesse a reação de Elinor, pois na verdade esta noite não temia abso­lutamente nada, mas porque o seu gosto, cultivado por ge­rações e gerações antes dele, acusava náusea. Por isso pro­feriu as palavras nua e rapidamente, negando-se o conhecido luxo da omissão.

— Que bobagem — disse Elinor. — E por que não me contou há mais tempo? Isso explica... Madge às vezes tem se mostrado tão estranha, quase como se tivesse pena de mim. — Sentou-se na cama. — Agora fiquei danada!

— Comigo? — perguntou ele, tranqüilo.

— Não, claro que não! Em que está pensando?

— Você me disse certas coisas, você sabe...— lembrou ele. Elinor escorregou para o lado dele, novamente. — Eu sei... Não posso compreender por quê. Alguma coisa an­dava mal na casa.

— Vozes — confirmou William e tornou a passar o bra­ço em torno de Elinor. Sim, houvera vozes estranhas, pertur­badoras, corrosivas, que destruíam a contextura humana da vida comum da família. Contudo, a própria Jessica fora ape­nas uma espécie de instrumento, possessa, diriam outrora, de um demônio; mas não havia demônio em Jessica, nem talvez em parte alguma, exceto na energia inversa de sonhos irrealizados.

— De qualquer forma, você agora me compreende — concluiu ele. — Pode ajudar a trazer Madge de volta para a família, e Winsten voltará com ela.

Elinor abriu os olhos. — Winsten não acreditou que você...

— Totalmente, não — concordou William. — Mas, no fundo, sempre acreditou um pouco, assim como Vera deu crédito a Jessica no tocante a Edwin, embora sempre achas­se que não.

— Mas William, Vera não acreditou...

— Inteiramente, não, mas o suficiente para levar Edwin a sentir que talvez acreditasse.

William sentiu uma umidade no peito descoberto. Lágri­mas de Elinor! Suavemente, afagou-lhe a face com a palma da mão esquerda.

— Ora, que é isso — consolou-a.

— Tomara que possa me abster de odiar Jessica — mur­murou ela.

— Você não pode odiá-la — respondeu William. — Não adianta nada. É por isso que desejo reunir a família aqui, debaixo de um só teto, a fim de que todos possamos com­preender as coisas em conjunto.

— Jessica foi um fardo terrível — insistiu sua mulher Ele ficou pensativo, lembrando-se do momento em que hoje, na sala de leste, de repente sentira aquele lampeja interior. Um lampejo não durava, naturalmente. Mas pode­ria recordá-lo, viver à luz compreensiva da memória.

— Pois sim — concordou. — Jessica foi um fardo. Mos, naquela fase, teimávamos em tentar levá-la como a um fardo. Foi esse o erro. Deixamos simplesmente de recebê-la na casa.

— Mas como havíamos de recebê-la? — protestou Elinor. — Era uma criada...

William recuou vivamente a cabeça e interrompeu-a: — Caluda, meu bem! Não diga essa palavra. Jessica nasceu, por casualidade, de Bertha. Em todo caso, agora é em Peter que temos de pensar. Ainda está em tempo, quanto a Peter.

E revestiu-se de coragem para tudo quanto isso pudesse implicar.

 

                                                                                            Pearl S. Buck  

 

                      

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